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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 02:13:52 -0700 |
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Diogo, Rita Farinha and the Online +Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net + + + + + + + *Nota de editor:* Devido à quantidade de erros tipográficos + existentes neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à + versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com + o original. No final deste livro encontrará a lista de erros + corrigidos. + + Rita Farinha (Fev. 2008) + + + + +SÁ D'ALBERGARIA + + +OS FILHOS DO PADRE ANSELMO + +ROMANCE + + +PORTO +LIVRARIA CHARDRON +DE +*Lello & Irmão, Editores* + +1904 + + + + +Typ. a vapor da Empreza Litteraria e Typographica + +178, rua de D. Pedro, 184 + + + + +OS FILHOS DO PADRE ANSELMO + + + + +I + +Os irmãos da mão negra + + +O relogio dos Clerigos tinha acabado de fazer soar pausadamente as doze +badaladas da meia noite. + +O tempo estava brusco e o vento, soprando da barra em frias e cortantes +rajadas, punha arrepios nos transeuntes que, levantadas as golas dos +casacos e as mãos mettidas nos bolsos, seguiam a passo apressado, +recolhendo a casa, sob a ameaça de um temporal desfeito. + +Era em fins do outono. + +As arvores do jardim da Cordoaria, varejadas pela ventania asperrima, +despiam-se das suas ultimas folhas amarellecidas, n'um agitado e +sussurrante protesto de espoliadas. + +Quem a essa hora passasse pelo Campo dos Martyres da Patria, veria, +encostado a uma das arvores que orlam o jardim, defrontando com a praça +do Peixe, um vulto immovel e indifferente ao tempestuoso rugir d'aquella +noite agreste e frigidissima. + +Parecia esperar alguem, porque, ao ouvir bater a meia noite no relogio +da torre, levou a mão ao bolso e, aproximando-se de um dos candieiros da +illuminação publica, consultou o seu relogio. + +--Aquelle anda adiantado cinco minutos--murmurou. + +E deu alguns passos distrahidamente como para illudir a sua impaciencia. + +Agora, que o podemos vêr ao reverbero do lampeão, notaremos que é um +rapaz de 18 annos, decentemente vestido e de gentil presença, não +obstante as feições finas e delicadas quasi lhe desapparecerem +encobertas pela aba larga do seu chapéo á Mazzantini. + +Tinha apenas dado um curto passeio no prolongamento do jardim, quando do +lado da rua do Calvario avançou a trote rasgado um trem, que parou em +frente d'elle. + +--És tu, Paulo?--disse de dentro uma voz. + +--Sou. + +--Entra depressa, que a noite está agreste! + +E a pessoa que fallava de dentro abriu a portinhola, facilitando-lhe a +entrada. + +O mancebo saltou de um pulo para dentro do carro, a portinhola +fechou-se, e os cavallos seguiram no seu trote largo, dobrando a rua da +Restauração e subindo a da Liberdade até ganharem a rua do Rosario. + +Sigamos aquelle trem e ouçamos o dialogo que se trava dentro d'elle. + +Apenas o mancebo entrou, a pessoa que o chamara e que era um homem de 28 +a 30 annos, desceu rapidamente as cortinas do carro e disse para o seu +joven companheiro: + +--Meu amigo, como já te expliquei, isto são negocios em que se requer a +maior circumspecção e escrupulo na observancia das praxes. Has-de +consentir que te vende os olhos. + +--Acaso desconfias da minha lealdade, Jorge? + +--De modo algum. Mas é uma obrigação que o regulamento me impõe, e eu +não posso faltar a ella sem trahir o meu dever. + +--Pois bem, seja! + +O sujeito que ouvimos chamar Jorge tirou então do bolso um lenço e +vendou com elle os olhos do companheiro. + +--Has-de dar-me a tua palavra de honra que não tentarás arrancar a venda +sem que para isso recebas ordem... + +--Dou. Mas se o fizesse? + +--Poderia isso custar-te a vida, meu caro. + +--Apre!--fez o outro, sorrindo--vocês são intransigentes! + +--Está n'isso a nossa força. Não violentamos ninguem a seguir-nos, damos +ampla liberdade a cada um de rejeitar a nossa associação, mas defendemos +a nossa existencia e mantemos o nosso segredo. + +--É justo. + +--Assim, tu podes, até á hora de prestares o teu juramento, reconsiderar +e exigir que te restituam a liberdade. Nenhum mal te acontecerá por +isso, a tua vontade será respeitada, a tua independencia mantida. Mas +não saberás dizer onde estiveste nem as pessoas com quem fallaste. + +--Poderei dizer que fallei comtigo...--gracejou o outro. + +--Que importa? Eu não sou uma associação. Comigo póde fallar toda a +gente... + +--Fallemos sério!--tornou o moço que dava pelo nome de +Paulo.--Asseveras-me que os intuitos d'essa associação em que vou entrar +são em tudo dignos das justas aspirações de um homem de bem? + +--Assevero-te que os irmãos da _Mão-negra_ comprehendem e cumprem á +risca o nobre dever de se auxiliarem e defenderem mutuamente contra as +prepotencias sociaes da nossa epoca. No nosso gremio desapparecem as +differenças de gerarchia e de dinheiro. Não ha pobres, porque todos +somos ricos da riqueza e da importancia dos nossos irmãos. + +--Poderei então contar com o auxilio da Associação na conquista da +mulher que amo? + +--Decerto--volveu o outro.--Tanto como amanhã qualquer de nossos irmãos +poderá contar com o teu auxilio para a realisação dos seus desejos. Isto +é apenas uma associação de soccorros mutuos, meu caro Paulo. A mulher +que amas será tua desde que te filies no nosso gremio. Comprehendes que +toda a acção da _Mão-negra_ se resume em tornar felizes e ricos os seus +irmãos, porque d'essa riqueza e d'essa felicidade lhe advem a ella a +força, o poderio, a importancia. + +O trem ia correndo veloz pela estrada do Carvalhido, sem que Paulo, +entretido na conversa, parecesse ter notado o tempo gasto na corrida. + +--No emtanto--accrescentou ainda Jorge--os fins e intuitos da Associação +vão sêr-te ainda expostos e confirmados por pessoa idonea e mais +competente de que eu. Se te restar alguma duvida, o minimo escrupulo, +poderás renunciar ao teu intento, com a unica condição de não tirares a +venda nem tentares deslealmente devassar os segredos do nosso gremio... + +--Conheces-me, e sabes que isso são processos indignos do meu +caracter!--protestou o mancebo. + +O trem parou em frente de um portão largo, que dava accesso a uma vasta +quinta murada. + +Jorge apeou-se e deu a mão ao seu companheiro. + +--Chegámos!--disse elle. + +Paulo apeou-se e, guiado sempre pelo seu amigo, transpoz o portão, que +se abriu mysteriosamente, tornando a fechar-se sem ruido. + +--E o cocheiro?--perguntou o mancebo.--Não receias a sua indiscreção? + +--É um dos nossos irmãos--respondeu simplesmente o outro. + +--Apre!--tornou o mancebo alegremente.--Eis aqui o que se chama um +serviço bem montado! + +Jorge não lhe respondeu. Conduziu-o por uma extensa e sombria vereda de +ramadas até o fazer entrar n'um corredor ao rez do chão, pelo qual foram +seguindo em silencio. + +--Já estamos em casa!--disse Paulo. + +--Porque?--perguntou o outro. + +--Sinto-o pela differença de temperatura. + +--Ainda não... Vamos entrar agora... + +E levando aos labios um pequeno apito, tirou d'elle um silvo agudo e +prolongado. + +Ouviu-se uma porta girando sobre os gonzos, e os dois entraram n'um +pequeno recinto em que os passos se amorteciam, abafados no tapete. + +--Pódes tirar a venda--disse Jorge. + +O mancebo levou a mão aos olhos, e com grande assombro seu, achou-se +sósinho n'uma sala forrada de crepes, tendo ao centro uma mesa coberta +de velludo preto e em que pousava uma caveira, allumiada por duas velas. + +Um momento impressionado pelo sinistro aspecto da sala e pelo funebre +quadro que se lhe offerecia á vista, o mancebo empallideceu e recuou um +passo, aterrado. Porém, reflectindo e com uma coragem superior á que +seria de esperar na sua edade, breve retomou o sangue frio e lançou um +olhar de glacial indifferença para a caveira. + +--É singular!--pensou comsigo.--Entro na vida pela visão da morte! + +Como respondendo a este pensamento, ouviu-se uma voz soturna e cavernosa +resoar na sala: + +--Medita!--disse aquella voz. + +O mancebo estremeceu e voltou-se rapidamente, a vêr quem lhe fallava. + +Não viu pessoa alguma. + +Passeou então os olhos curiosos pelas paredes forradas de crepes e não +descobriu a porta por onde tinha entrado. + +Se quizesse abandonar aquelle mysterioso e lugubre recinto, não o +poderia fazer, por não encontrar sahida. + +Embora surprehendido, nem por isso se apavorou. + +--Medita!--tornou a voz a repetir. + +Como resposta muda áquella intimativa, o mancebo cruzou os braços sobre +o peito e ficou encarando fito a caveira. + +N'aquella attitude altiva e firme, esteve assim por muito tempo. + +Dissera-lhe o seu amigo que, para ser admittido na associação secreta da +_Mão negra_, era preciso dar provas de energia, coragem e inquebrantavel +força de vontade. Accrescentara que as provas a que os neophytos tinham +de sujeitar-se eram rudes e de molde a fazerem tremer o mais ousado. +Elle, não obstante, insistira. Sentia-se capaz de affrontar os maiores +perigos com animo sereno e tranquillo. + +--Principiou a prova!--pensou--julgam-me uma creança assustadiça, capaz +de me apavorar com este apparato funebre. Mostrar-lhes-hei que a creança +é um homem, que póde disputar primasias de coragem aos mais fortes. + +E n'esta resolução avançou para mesa, estendeu o braço e ia a tocar no +funebre despojo, quando a voz mysteriosa recuou de novo, gritando: + +--Detem-te! O que ias fazer? + +--Tocar n'esta caveira--respondeu o mancebo com voz tranquilla. + +--Com que fim? + +--Com o fim de provar que a ideia da morte me não apavora. + +--Que pensamento te suggere a vista d'esse triste despojo humano? + +--Primeiramente, a ideia de que todos caminhamos para a mesma miseria... + +--E depois? + +--Depois, que a Morte é a niveladora implacavel do genero humano. + +--Assim, crês que na Morte se confundem bons e maus, virtuosos e +impuros? + +--Creio que, materialmente, tudo se confunde na mesma podridão. + +--Materialmente, disseste? + +--Disse. + +--Crês então que vicio e virtude são coisas indifferentes, visto que +tudo se apaga ao mesmo gelido sopro e tudo resvala com o homem ao abysmo +do Nada? + +--Não. + +--Explica-te. + +--Do homem subsistem as ideias, os pensamentos, os actos bons ou maus de +toda a sua vida. Esses não tem a Morte o poder de os anniquillar. + +--Pois bem; visto que assim é, dize-me: De quem é esse craneo? + +--De um meu irmão. + +--É vaga a resposta. Dize-me: Será d'um sabio? Será de um ignorante? +Será de um homem honesto? Será d'um criminoso? Será d'um nobre? Será +d'um plebeu? + +--Ignoro. + +--Confessas, pois, que na Morte tudo se confunde? + +--Não! Confesso apenas que na Morte todos teem egual direito ao respeito +dos vivos. + +--Porém, essa theoria é contradictoria. Se todos devem confundir-se no +mesmo respeito, como queres que se distingam os bons dos maus? + +--Pelo que d'elles fica no mundo e não morre. Dize-me o nome d'aquelle a +quem pertenceu este craneo, e se elle foi um sabio, um artista, um +litterato, um poeta, um d'esses homens que deixam a sua passagem +assignalada no mundo por obras de grandeza e de virtude, eu te +recordarei as suas conquistas scientificas, os seus quadros, os seus +livros, os seus versos, as nobres acções e exemplos com que se perpetuou +na humanidade emfim. + +--Tens religião? + +--Tenho. + +--Qual? + +--A do Bem. + +--A que vieste? + +--Dar e receber auxilio na lucta do Bem contra o Mal. + +--Sabes o sacrificio a que isso obriga? + +--A todos os sacrificios me sujeito. + +--Repara bem. A abnegação, o desinteresse, a obediencia cega e passiva +ás ordens dos que dirigem o nosso gremio constituem a principal condição +para seres admittido entre nós. + +--Acceito-a. + +--Terás que resistir ás tuas proprias paixões, terás que dominar os mais +irresistiveis impulsos do teu coração, para só obedeceres á lei da nossa +Sociedade; terás, emfim, que sacrificar vida, fortuna, mulher, filhos, +familia--tudo, ao bem de teus irmãos, quando isso te fôr reclamado. + +--Obedecerei. + +--É preciso que o braço execute o que a cabeça ordena. Tu serás o braço. +O chefe invisivel da nossa Associação é a cabeça. Se fôr preciso +derramar sangue, ainda o d'aquelle que no mundo te fôr mais caro, uma +vez que a cabeça t'o ordena, obedecerás? + +--Sem a menor hesitação. + +--Attende que vaes ligar-te a nós por um juramento que não póde ser +quebrado nem illudido. Em toda a parte onde te encontres, seja qual fôr +a posição social a que ascendas, na rua, em casa, no povoado ou n'um +logar deserto, o olhar invisivel da nossa Associação seguir-te-ha por +toda a parte. A _Mão-negra_, cujo auxilio buscas, mysterisa e potente, +vingadora e terrivel, como a propria mão da Providencia, impedirá teus +passos e guiará o teu destino. Não mais te pertencerás a ti; pertencerás +aos teus irmãos. Senhor liberrimo das tuas acções até agora, vaes +reduzir-te por um juramento ás condições d'um escravo, mais que d'um +escravo--d'um simples automato. O teu cerebro não mais pensará para ti; +o teu coração não mais sentirá por ti. Cerebro e coração teem de +emmudecer perante as exigencias fataes, crueis e terriveis muitas vezes, +da nossa Associação. Terás força para tanto? + +--Terei--respondeu firmemente o mancebo. + +--Pareces corajoso--observou a voz mysteriosa--pareces ter em pequena +conta a propria vida. + +--Estou prompto a sacrificál-a para um fim justo. + +--A ideia da justiça é relativa. O que para uns é justiça para outros é +iniquidade. Os irmãos da _Mão-negra_ não teem o direito de discutir e +apreciar as ordens que dimanam do seu chefe invisivel: teem só o dever +de as cumprir. Assim, se te exigirem que craves um punhal no teu +coração, não terás o direito de discutir a justiça do sacrificio; apenas +terás que obedecer. + +--Experimentem. + +--Lembra-te, porém, que, se o sacrificio da propria vida te é fácil, +outros sacrificios te pódem ser mais penosos. Estás em tempo: se não te +sentes com animo e coragem para te prenderes a nós por toda a +vida,--vae, estás livre, mandar-te-hemos conduzir ao sitio d'onde +vieste. + +--Não!--respondeu o mancebo com energia--Eu não sou dos que recuam. +Quero ser dos vossos. + +--Estende a mão sobre essa caveira e jura que queres ser submettido á +_prova_!--ordenou a voz. + +Paulo estendeu a mão sobre a caveira: + +--Juro--disse elle--que desejo ser um dos irmãos da _Mão-negra_ e estou +prompto a submetter-me á prova que me for imposta! + +Quando acabou de proferir este juramento, sentiu que lhe tocavam no +hombro. Voltou-se e viu diante de si um vulto athletico, sinistramente +vestido de preto e com o rosto coberto por um capuz como o dos antigos +aguazis do Santo Officio. + +Sem dar palavra, o mysterioso vulto vendou-lhe de novo os olhos. Em +seguida disse: + +--_Á prova!_ + +Pegou-lhe na mão e conduziu-o por um extenso corredor até parar em +frente de uma porta, a que bateu de maneira mysteriosa e symbolica. + +--Quem sois?--perguntou de dentro uma voz, sem abrir. + +--Irmão--respondeu o mysterioso guia de Paulo. + +--D'onde vindes? + +--Da Ala negra. + +--Que trazeis? + +--Um novo braço. + +--Que busca elle? + +--A mão. + +--Quem vos guia? + +--S. Miguel. + +A porta abriu-se. + +--Passae!--disse um homem, igualmente envolto n'um habito preto e o +rosto coberto pelo capuz. + +Os dois seguiram ávante e entraram n'uma sala ampla, abobadada, de +paredes escuras e illuminada apenas por um globo enorme de vidro, seguro +por uma phantastica _mão negra_, que pendia do tecto. + +Á roda d'esta sala, viam-se de pé, hirtos e impassiveis, n'uma +immobilidade de estatuas, muitos vultos negros, com o rosto inteiramente +occulto sob o capuz do habito. + +Em cada uma das paredes avultava uma grande mão negra, sustentando +punhaes e espadas, em panoplia. + +Ao centro, justamente debaixo do globo, erguia-se uma especie de throno, +assente sobre quatro formidaveis dragões e todo coberto de crepes. +Occupando esse logar, sem duvida destinado ao chefe da seita, estava uma +figura mysteriosa como as suas companheiras e como ellas silenciosa e +immovel. + +O _irmão_ introductor de Paulo avançou, silenciosamente, com o mancebo +pela mão, até curta distancia do throno, parou, levou a dextra ao peito, +movendo o pollegar rapidamente, de modo a descrever com elle uma cruz, e +ficou de cabeça curvada, em attitude respeitosa. + +--Que quereis, irmão?--interrogou o vulto que se sentava no throno e que +era sem duvida o chefe da seita. + +--Que escuteis e recebaes sob vossa protecção este meu companheiro, que +pretende entrar na _ala_ como combatente. + +--Fiaes d'elle? + +--D'elle fio, senhor! + +--S. Miguel vos proteja! + +--O apresentante de Paulo afastou-se e foi tomar o seu logar junto á +parede, em fila com os seus companheiros. + +Paulo ficou só, junto ao throno, com os olhos vendados. + +--Que pretendeis, mancebo?--interrogou o chefe. + +--Combater. + +--Que armas trazeis? + +--A submissão, a energia e a lealdade--disse Paulo. + +--Boas armas são essas quando temperadas ao fogo vivo do sentimento do +Bem e da Justiça. Que vos falta? + +--A força da _Mão-negra_. + +--A _Mão-negra_ só dispensa a sua força e o seu amparo aos que tudo lhe +sacrificam com coragem, valor, e brio. N'este gremio não se admittem nem +os timidos nem os cobardes. + +--Não o sou. + +--Dizer é facil; provar é difficil. Quereis sujeitar-vos á prova? + +--Estou prompto! + +--Reparae que podeis perder a vida na jornada aspera que ides +emprehender. + +--A vida de nada me serve, se não posso dar-lhe applicação util. + +--É facto. No emtanto, é meu dever prevenir-vos de que, sem perderdes a +vida, podeis perder a esperança da felicidade, que é a vida do coração, +o objectivo da existencia. + +--Tudo sacrificarei aos meus irmãos. + +--É melhor recuar, mancebo. Na longa estrada que tendes a percorrer +antes de chegardes á _Mão-negra_, encontrareis mil perigos e mil +precipicios terriveis, que sereis obrigado a transpôr ou a morrer. +Avançado o primeiro passo n'esse caminho mysterioso e fatal, recuar é +impossivel; a menor hesitação é a morte. Só uma coragem admiravel e uma +força de vontade rara pódem conduzir-vos a salvo ao ponto desejado. + +--Irei e hei-de chegar. + +--Pois bem, vinde! + +Levantou-se, desceu do throno, deu-lhe a mão, abriu uma porta ao lado da +parede e, empurrando-o para dentro d'ella, disse: + +--Podeis tirar a venda. Segui esse longo e escuro subterraneo até ao +fim. Tereis que luctar com o fogo, com a agua, com os homens e com as +feras, antes que chegueis á porta santa do asylo que buscaes. Ide e que +S. Miguel--que venceu o dragão--vos dê força e coragem. + +O mancebo levou as mãos aos olhos, arrancou a venda e embrenhou-se n'uma +escura e estreita galeria subterranea, que foi seguindo com estranha +ousadia. + +A treva cercava-o sem lhe deixar perceber onde punha os pés. + +Algumas duzias de passos andados, um subito clarão illuminou o +subterraneo. Paulo, deslumbrado, levou as mãos aos olhos. Na sua frente, +erguiam-se as chammas pavorosas de um incendio, que avançava para elle +em linguas de fogo, ameaçando devoral-o. Dir-se-hia que uma enorme +represa de alcool ou de petroleo se havia aberto e que, incendiado, ia +inundar o subterraneo, transformando-o n'um immenso forno crematorio. + +O mancebo, n'um momento surpreso, sentindo na face o calôr das chammas, +nem por isso se deteve. Caminhou audaz e resoluto para o perigo, +disposto a deixar-se queimar vivo antes que retroceder. + +Ao aproximar-se das chammas, porém, estas apagaram-se subitamente, +tornando mais densa a treva do corredor. + +Seguiu ávante, e pouco depois sentiu o ruido clamoroso e sinistro de uma +enorme queda d'agua, que se despenhava em catadupas de uma rocha que +obstruia a passagem e que parecia o remate d'aquelle medonho e tenebroso +subterraneo transformado n'um lago. + +A agua despenhava-se de tal altura e com tal fragor que, batendo nas +pedras, resaltava, esparrinhando com tanta violencia, que algumas gottas +vinham açoitar o rosto de Paulo. + +Á primeira vista, parecia impossivel transpôr aquelle enorme pégo sem +perecer afogado. Uma dubia luz, coada por uma pequena abertura na +abobada do subterraneo, esclarecia o medonho passo. + +Paulo, tomado da raiva febril de transpôr todas as barreiras ou morrer, +avançou corajoso, fechou os olhos e atirou-se á agua. Com grande +assombro seu, achou-se em terreno enxuto. A agua tinha desapparecido e +com ella o ruido pavoroso da corrente. + +A treva tornara-se mais densa. Não obstante, elle caminhava afoito, +quando, de repente, se sentiu agarrado e preso por duas fortes e +vigorosas mãos que o levantaram ao ar deixando-o cahir. + +Procurava firmar-se nas pernas, quando notou que o terreno lhe faltava +debaixo dos pés e se precipitava n'um abysmo. + +Não soltou um grito. Esperava morrer como um homem, e assim chegou a um +segundo subterraneo, onde se encontrou de pé, illeso e sem que soffresse +a menor contusão. + +Continuou o seu caminho corajosamente, embora sob o peso das commoções +soffridas. Foi andando na treva por alguns minutos, quando um rugido +terrivel lhe despertou a attenção. + +Olhou e viu na sua frente uma porta de ferro, defendida, por dois +enormes leões, que punham n'elle os olhos de fogo, escancarando n'uma +ameaça a guella hiante. + +Fixou a vista aterrado nos monstros, que soltaram novo rugido atroador. + +Pallido, os cabellos eriçados, as faces contrahidas de susto, o mancebo +pensou em retroceder, mas envergonhado d'esta cobardia, exclamou, +avançando para as féras: + +--Antes morrer que recuar! + +Rapidamente, os leões sumiram-se na parede e Paulo pôde bater á porta, +levantando e deixando cair o pesado batente em forma de mão negra. + +A porta abriu-se. + +--Entrae!--disse o mesmo chefe que o havia introduzido no subterraneo, +recebendo-o de novo na sala d'onde havia partido. + +Paulo entrou. + +--Ides dar-nos a ultima prova--propoz o chefe.--Aqui tendes este punhal. +N'aquelle gabinete está, sob a acção de um narcotico, uma mulher, que é +preciso _eliminar_... Ide! Cravae-lhe este punhal no coração. + +Paulo pegou no punhal, abriu a porta e ia avançar, quando recuou +espantado, soltando um grito terrivel: + +--Ella!--bradou o pobre rapaz afflictivamente. + +É que diante dos seus olhos admirados apparecera uma bella e gentil +figura de mulher, estendida sobre um pôtro de torturas, os pés e as mãos +amarradas, a face pallida, os olhos cerrados, como que esvaecida ou +morta, e essa mulher, essa visão inesperada, era nem mais nem menos do +que a sua amada, a aspiração querida da sua alma, a mulher por quem o +pobre moço ia filiar-se na mysteriosa e terrivel seita da _Mão negra_! + +--Hesitas?--perguntou o chefe com um accento de desprezo e sarcasmo na +voz.--Não prestaste ainda juramento, mancebo; não estás preso a nós por +nenhuns laços. Se o teu coração se entibia, se o teu braço treme e se +recusa a obedecer, vae, deixa-nos! Profere apenas uma palavra e serás +restituido á liberdade. + +No rosto do mancebo desenhava-se uma angustia profunda. Os cabellos em +desalinho, a face pallida, a fronte banhada de um suor frio, não +desfitava os olhos d'aquelle meigo e adorado vulto de mulher, a que +tinha presa toda a sua existencia, todas as esperanças da sua juventude, +todas as nobres aspirações da sua alma e que alli via, sem saber como +nem porque, semi-morta, amarrada áquelle pôtro fatal, e prestes a cahir +aos golpes de uma justiça occulta, que a mandava apunhalar! + +E havia de ser elle o algoz, havia de ser elle o executor da fatal +sentença, elle, que por ella sacrificaria a vida, a honra, a familia, +tudo o que um homem póde sacrificar á mulher amada! + +Era horrivel! + +--Decide-te, mancebo!--tornou o chefe--Ou cumpres corajosamente os +mysteriosos designios da _Mão-negra_, ou recusas e vaes em paz com a tua +cobardia! + +Como se lhe tivessem vergastado o rosto, á palavra _cobardia_, o mancebo +apertou na mão o punhal e, voltando-se para o seu mysterioso +interlocutor, disse, rangendo os dentes: + +--Cobarde não o sou, não o serei jámais! Que posso eu fazer para +resgatar a vida d'aquella mulher? + +--Nada! + +--Offereço-vos a minha vida, senhores! Pegae em mim, amarrae-me áquelle +pôtro onde a tendes manietada, sujeitae-me á tortura mais cruel, mais +horrenda,--não soltarei uma queixa, não me ouvireis um gemido! Mas +libertae-a a ella, restitui-lhe a liberdade, concedei-lhe a vida, e eu +bem direi a vossa generosidade, a vossa grandeza d'alma, e o meu ultimo +alento será ainda um protesto, de gratidão para comvosco! + +--Nada podemos fazer-te. Essa mulher está condemnada, e nada poderá +libertal-a da nossa justiça. Queres executar a sentença ou preferes +retirar-te em paz com a tua fraqueza... com a tua cobardia, repito? + +--Cobarde nunca!--bradou o moço, luzindo-lhe nos olhos uma colera +terrivel--Bem vêdes que não é o meu braço que treme--é o meu coração que +lucta! + +--Vence-o! + +--Vencel o-hei. Mas antes, dizei-me: não tem preço aquella vida? Quantas +vidas quereis que vos entregue em resgate d'aquella? Apontae-m'as, e eu +vos juro que vol-as entregarei todas, sem faltar uma, ainda que para +isso eu tenha de descer tão baixo, que me confunda com os mais infimos +sicarios, ou haja de subir tão alto, que chegue a transpôr os degraus de +um throno! Reparae que esta é a mulher que amo! É o mundo que vós me +mandaes anniquilar com aquella existencia! + +--Está condemnada. Decide-te!--tornou a voz--Partes ou ficas? + +--Pois bem, fico!... para partir com ella! + +Avançou desvairadamente para a sua amada, que, immovel, amarrada ao +pôtro, parecia cahida em profundo lethargo. + +--Beatriz, perdoa-me!--murmurou elle.--Não é a ti que eu apunhál-o, é a +mim proprio... Seguir-te-hei no teu resgaste! + +Dizendo isto, cravou-lhe fundo o punhal no coração. O sangue espadanou +do peito da victima, que não soltou um gemido. + +O mancebo, com as mãos tintas de sangue, veio á sala e disse +serenamente, encarando os seus lugubres e mysteriosos companheiros que +se conservavam mudos e immoveis: + +--Pedistes-me uma vida. Dar-vos-hei duas, ensinando-vos ao mesmo tempo +como se mata e como se morre! + +E n'um movimento rapido, sem dar tempo a que o detivessem, alçou o braço +e cravou o punhal no coração. + +A lamina, porém, não penetrou a carne e o mancebo, admirado de que o +ferro lhe não tivesse produzido a menor dôr, examinou espantado a arma +homicida. + +Era um d'estes punhaes simulados, cuja lamina de latão, se embebe e +desapparece no cabo quando se descarrega a punhalada, voltando a +apparecer impellida por occulta mola desde que deixa de ser premida de +encontro ao corpo. + +--Mas o que é isto?--disse elle indignado, quasi sem +comprehender.--Estamos nós representando uma farça? + +--Não, meu amigo!--respondeu amavelmente o chefe--estiveste dando-nos a +prova da tua rara coragem, do valor e lealdade do teu caracter, e nós +todos, bemdizendo a hora que traz ao nosso gremio um _irmão_ de tanto +valor! + +Depois, voltando-se para o gabinete onde ainda jazia inanime a _amada_ +de Paulo, continuou: + +--Como já deves ter comprehendido, alli não está a tua amada, porém a +sua imagem tão perfeita e semelhante, que a tomaste por ella propria. + +O mancebo, aturdido, punha no manequim os olhos, recusando-se a +acreditar o que ouvia. + +--Foi, pois, uma simulação de morte--proseguiu o chefe--O valor moral da +acção fica em pé, visto que a tua intenção era obedecer aos preceitos da +_Mão-negra_... + +--E matar-me em seguida!--accrescentou o mancebo. + +--É a unica porta que resta aberta aos nossos _irmãos_ para se separarem +de nós. A sahida por esse lado, posto seja uma fraqueza, não é nunca um +crime. De resto, é tambem por ella que fazemos sahir os que se tornam +indignos de pertencerem á nossa Associação. + +--Espero que não tereis o incommodo de me ensinar o caminho, se algum +dia me arrepender de haver buscado a vossa camaradagem--disse Paulo. + +--Felicito-te, mancebo, pela tua rara energia, lealdade e valor do teu +caracter, de que déste prova. Serás um bom _irmão da Mão-negra_ e +auguro-te uma brilhante carreira dentro do nosso gremio, se perseverares +em conservar puras e immaculadas as apreciaveis qualidades a que deves a +tua admissão. Queres prestar juramento? + +--Sim! + +--Irmão Golias!--ordenou o chefe--vendae os olhos ao neophyto! + +Destacou-se da parede o _irmão_ que já havia sido o apresentante do +mancebo, e cumpriu as ordens do chefe. + +--Vendam-se-vos ainda os olhos--disse este--não porque esteja no nosso +animo guardar para comvosco novos mysterios ou admittir-vos com fins +reservados, mas tão sómente porque a venda que se vos põe agora +representa a confiança cega, illimitada, que deveis ter nos vossos +irmãos e nos nobres e justos fins para que todos trabalhamos, unidos +como um só homem, guiados pela mesma potente e mysteriosa _Mão-negra_. + +Findo este pequeno discurso, o chefe fez um signal. Os vultos que, de pé +e immoveis rodeavam a sala, encostados á parede, avançaram +silenciosamente e formaram um circulo á roda de Paulo. + +--Irmão Golias!--disse o chefe. + +--Eis-me, senhor! + +--Fiastes o neophyto. Persistes fiando-o? + +--Do fundo da minha alma. + +--Sois o seu padrinho. Tomae o vosso logar. + +O vulto que dava pelo nome de Golias postou-se ao lado do mancebo, tendo +na mão uma salva de prata coberta por um crepe. + +O chefe subiu então ao throno e passou-se n'aquelle recinto uma scena +deveras surprehendente. + +De pé sobre o throno, o chefe pegou em um escrinio de pau santo com +embutidos de prata e marfim representando uma caveira com dois fémures +em cruz, carregou em um pequeno botão, e o escrinio abriu-se, +transformado-se rapidamente em uma almofada de veludo carmezim em que +assentava um craneo alvissimo, seguro por dois punhaes em tropheu. + +Estendeu para a assembleia o braço sustentando esta estranha _reliquia_, +e immediatamente os vultos, levando as mãos á cinta, desembainharam +luzentes floretes que traziam occultos debaixo dos habitos e que +apontaram ao neophito, formando-lhe com elles um circulo de ferro. + +Ao mesmo tempo uma voz resoou: + +--Está aberto o templo! + +Tres portas abriram-se e por ellas começou entrando uma verdadeira +multidão de capuzes negros, trazendo na mão esquerda uma tocha accesa e +na dextra um punhal. + +Os das tochas formaram em cruz, ao comprido e ao través do _templo_, +abrindo em alas, voltados todos para o centro, onde se agrupavam, como +já dissemos, os primeiros vultos, rodeando Paulo, com os floretes +desembainhados. + +Tudo isto se fez no meio do maior silencio e quasi sem deixar perceber o +ruido dos passos. + +Então o chefe, erguendo a voz, disse: + +--Mancebo, juras obediencia, lealdade e amor a todos os irmãos da _Mão +negra_? Juras não revelar a alguem os segredos da nossa agremiação? +Juras sacrificar por ella todos os dias da tua vida, todas as horas da +tua existencia, o vigor do teu braço, os pensamentos do teu cerebro, os +sentimentos do teu coração? + +Paulo estendeu a mão e disse solemnemente: + +--Juro! + +Immediatamente, o irmão Golias, entregando a outro a salva que tinha na +mão, voltou-se para o neophyto, dizendo: + +--Irmão _David_, pois que sou teu padrinho, vou impor-te o habito de +_Mão-negra_! + +Enfiou-lhe então pelos hombros um habito igual ao que os outros vestiam, +deixando-lhe apenas a cabeça a descoberto, sem lhe deitar o capuz. + +--Tirae a venda, irmão--ordenou o chefe--para que toda a luz se faça aos +vossos olhos! + +O mancebo arrancou a venda e ficou maravilhado e surprehendido ante o +estranho quadro que se apresentava á sua vista. + +Os irmãos haviam atirado os capuzes para as costas e descoberto os +rostos, conservando-se, porém, na mesma attitude severa e hostil, com os +florêtes apontados ao novo irmão. + +Passando uma vista curiosa por todos elles, o mancebo ficou +surprehendido de vêr muitos rôstos conhecidos á volta de si. + +O irmão Golias, pegou-lhe na mão e fêl-o subir os degraus do throno. + +O chefe veio recebel-o a meio, apertou-o nos braços e osculou-o na +testa. + +--Bem vindo sejas, irmão, a augmentar a nossa ala!--disse elle. + +A estas palavras, todos os florêtes se abaixaram, entrando na bainha. + +Em seguida tomou-lhe a mão e acompanhou-o até ao degrau inferior do +throno, dizendo: + +--Recebe o abraço de teus irmãos e faze por te conservares sempre digno +d'elles. + +Os irmãos que o haviam rodeado com os florêtes vieram todos um a um +abraçál-o e beijál-o na testa. + +--Irmãos!--disse o chefe do alto do throno--vae reunir o sublime +capitulo. Está encerrado o _templo_. + +As luzes apagaram-se, e os vultos começaram a sahir pelas differentes +portas do recinto, sumindo-se mysteriosamente sem que alguem pudesse +dizer que caminho levavam. + + + + +II + +Amôr e esperança + + +Deixemos os mysteriosos irmãos da _Mão-negra_ seguir o caminho que os +havia de reconduzir ao mundo do qual por algum tempo semelhavam ter-se +apartado, e sigamos o arrojado e corajoso adolescente que acaba de +iniciar-se nos mysterios da terrivel seita. + +Paulo, tendo sahido da quinta do Carvalhido em companhia do seu amigo +Jorge, agora convertido em seu _irmão_, regressou á cidade no mesmo trem +que o conduzira, apeando-se e despedindo-se do companheiro em uma rua +proxima da de Cedofeita. + +Eram tres horas da manhã e o vento continuava soprando rijo da barra, +pondo negrumes de tempestade n'aquella noite desabrida. + +O mancebo seguiu pela rua deserta até parar junto de uma casa de luxuosa +apparencia, e que denunciava pelo exterior severo e pelo amplo jardim +gradeado que lhe ficava contiguo, a opulencia dos seus habitantes. + +Inflou as bochechas e, batendo-lhe com as mãos, imitou o canto da +perdiz. + +Era evidentemente um signal, porque algum tempo depois, uma das janellas +do rez do chão, vedada por grades de ferro, abriu-se manso, e uma voz +feminina disse, tremula e quasi sumida: + +--Como vens tarde, meu amigo! + +--Beatriz, perdôa, mas um assumpto do mais alto interesse e de que +depende a nossa felicidade futura impediu-me de vir á hora costumada. +Hesitei em vir despertar-te a esta hora; mas a ideia de que havia de +estar sem te fallar e talvez sem te ver até amanhã á noute, obrigou-me a +procurar-te, Beatriz. + +--Eu esperava-te... Esperava-te, porque tinha tambem que te dizer... Oh! +se soubesses como estou afflicta! + +--Tu! Mas o que te succedeu, anjo da minh'alma?... + +--Paulo...--gemeu a meiga voz que fallava do lado de dentro da +grade--não sei como t'o hei de dizer... meu Deus! + +--Falla, Beatriz, falla, pelo nosso amor t'o peço!--supplicou o +moço--Não me tenhas por mais tempo n'esta cruel espectativa... Tu +choras, tu pareces afflicta... Meu Deus! o que é que motiva a tua dôr? + +Beatriz, cujo vulto mal podemos distinguir na penumbra do aposento, +occultava o rosto entre as mãos buscando afogar os soluços. + +--Paulo,--disse ella--meu pae... quer casar-me! + +O mancebo recuou um passo como se lhe tivessem descarregado uma violenta +pancada no peito. + +--Quer casar-te!--exclamou.--E com quem? + +--Com um rapaz que eu mal conheço... um rapaz que tem vindo duas ou tres +vezes de visita a nossa casa, onde foi apresentado por um dos mais +intimos amigos de meu pae... + +--Dize-me o nome d'esse rapaz!--intimou desvairadamente o moço. + +--Eugenio de Mello--soluçou Beatriz. + +--Eugenio de Mello!--repetiu o mancebo.--Esse nome é completamente +estranho para mim. Nunca t'o ouvi pronunciar. + +--Se te digo que apenas veio duas ou tres vezes de visita a nossa casa, +apresentado por um amigo de meu pae... + +--Mas, emfim, como é que surge agora essa ideia de te casarem com elle? +Acaso esse rapaz alguma vez te manifestou sentimentos de sympathia ou de +amor? Falla-me com franqueza, Beatriz. Comprehendo que por uma bem +entendida delicadeza da tua parte para comigo, julgasses dever +occultar-me os galanteios d'esse rapaz, se porventura elles te eram +indifferentes... Mas não comprehendo como teu pae pudesse ter a ideia +subita de te casar com elle, sem mesmo tentar indagar se o teu coração +não repelliria um semelhante enlace. + +--Não! juro-te que nunca dos labios d'esse rapaz ouvi uma palavra que +pudesse dar-me a perceber o mais tenue sentimento de amor por mim. Fóra +dos cumprimentos e ceremoniosas attenções que as pessoas de boa +sociedade usam ter para com uma senhora, não se trocaram entre nós +quaesquer amabilidades que justificassem o pensamento d'este enlace que +me surprehende! + +--É extraordinario! E como é que teu pae pretende impor-te um casamento +em que tu nem sequer tinhas pensado? + +--Sabes que meu pae--volveu Beatriz--habituou-se a contar com a minha +obediencia cega e passiva em todos os seus desejos, que para mim são +ordens. Muito austero, educou-me sob um regimen de ferro em que a sua +vontade é a unica que predomina... + +--Isso, porém, não é rasão para que elle se julgue no direito de +sacrificar o teu futuro de mulher aos seus caprichos de... pae. + +--Meu pae ignora que eu te amo, Paulo! Julga o meu coração desprendido +de qualquer affecto e crê que não me repugna a ideia de unir o meu +destino ao de um homem que elle julga digno de mim. + +--E se de facto te não repugna... obedece-lhe!--bradou o mancebo n'uma +voz estridente em que ia todo o fel do seu desespero. + +--Paulo! És injusto para comigo! Sabes que te amo, que não posso amar +outro homem que não sejas tu; e quando me vês afflicta, atormentada ao +peso da cruel exigencia de meu pae, em vez de suavisares a minha dôr, de +me animares com o teu conselho a resistir á fatal imposição que me é +feita, ainda me torturas mais com esse tom acrimonioso e hostil das tuas +palavras! Não te mereço isso... + +As lagrimas da joven interlocutora de Paulo que, se realmente possue um +rosto tão meigo como as suas palavras, de linhas tão suaves e puras como +é doce o accento da sua voz, deve de ser uma creatura encantadora, +pareceu abrandar um pouco o irritado animo do mancebo. + +--Mas o que queres tu que te diga, minha querida, se eu noto que era vez +de pensares em repellir a despotica imposição de teu pae, ainda tentas +desculpal-o? + +--Não o desculpo... digo apenas o que elle pensa. + +--Mas que tenho eu que saber o que pensa teu pae? O que desejo saber é o +que pensas tu, minha querida! O que é que tencionas fazer? Que +respondeste a teu pae? Qual é a tua intenção? + +Beatriz pareceu hesitar na resposta. + +--Desejava ouvir-te, primeiro, Paulo... desejava que me dissesses o que +devo fazer... + +--Eu?! Pois é a mim que compete dirigir os teus actos? É a mim que +compete dictar a tua resposta? Consulta o teu coração, Beatriz... Elle +que te responda e te diga a resolução que deves tomar... + +--Paulo! O meu coração diz-me que só a ti pertenço, que só a ti eu +desejo ter por marido... Mas, bem vês, quando eu disser a meu pae que te +amo, e que por ti estou decidida a recusar outro qualquer enlace, por +mais vantajoso que se apresente, meu pae ha de perguntar-me quem és... + +--E tu dize-lhe que sou aquelle que julgas que eu seja. Ou vae tão longe +a tua piedade por mim e o teu despreso por ti que, tendo-me na conta de +indigno do teu amor, assim mesmo m'o concedes? + +--Oh! não, não, Paulo! + +--N'esse caso, o que receias? + +--É que eu julgo-te com o coração; meu pae, porém, ha-de julgar-te com a +cabeça; e entre o coração da filha e o cerebro do pae existe uma +distancia tão grande, que eu receio bem que não possamos transpôl-a... + +--Se essa é a tua convicção e te faltam forças para resistir e luctar, +submette-te e... adeus! Adeus para sempre, Beatriz!... + +Paulo ia a retirar-se. O animo orgulhoso e altivo d'este adolescente de +18 annos, que tinha já a energia e a vontade de ferro de um homem feito, +não podia supportar sem protesto os timidos receios e as hesitações +offensivas da mulher que adorava. + +--Paulo!--tornou a chamar a joven.--Escuta-me! Que singular prazer tens +em me atormentar, quando eu tanto preciso da tua compaixão e da tua +piedade! + +--Fallas-me em tormentos, Beatriz, quando desde que aqui cheguei outra +coisa não tens feito senão revolver-me n'um perfeito inferno de +torturas! Acabemos com isto, e vamos direitos ao fim sem tergiversações +nem rodeios. Teu pae impôz-te o casamento com esse... rapaz, que deve +ser por força rico, distincto... amavel, emfim. E tu acceitaste? + +--Eu... + +--Hesitas na resposta e a tua propria hesitação me responde: acceitaste +e vens dizer-me que está tudo terminado entre nós... + +--Oh, não!--accudiu a joven, com impeto.--Eu não acceitei nem respondi +como desejava. Pedi que me deixassem reflectir, porque o meu primeiro +pensamento foi ganhar tempo, para poder combinar comtigo o que devo +fazer... + +--O que deves fazer não seja eu quem t'o diga. Teu pae é rico, Beatriz; +tu mesma és já herdeira de uma avultada fortuna, e eu sou pobre. +Separa-nos, portanto, actualmente um abysmo... Cuidei que poderia contar +comtigo solteira e livre até ao dia, que não viria longe, em que eu +pudesse apresentar-me a teu pae, a solicitar a tua mão, sem que o pedido +revestisse o caracter humilhante para mim de uma tentativa de penetrar +no sanctuario da riqueza pela porta do coração de uma mulher. Vejo, +porém, que o destino quer o contrário; que outro pretendente se +apresenta com menos escrupulos ou mais dinheiro do que eu, e que da +firmeza e constancia do teu amor nada tenho a esperar, se eu não me +resolver a prestar-te o amparo incompativel com a minha dignidade de +homem e com o programma que me tracei de só a mim dever o meu triumpho. +Paciencia! + +--Paulo, tu não me conheces! ou, se me conheces, estás sendo para mim de +uma injustiça que mais tarde te ha-de fazer remorsos... Escuta-me, meu +amigo, escuta-me com serenidade e repara bem nas minhas palavras. + +E Beatriz, com voz tremula de commoção, principiou dizendo: + +--Não conheces o caracter de meu pae e não admira por isso que julgues +sêr-me coisa facil o contrariar-lhe os propositos... Eu, porém, que o +conheço, que por elle fui educada e com elle tenho vivido sob o jugo do +seu genio rispido e severo, avalio bem que crueis amarguras e horriveis +tormentos a sua colera me prepara na lucta que vou ser obrigada a +sustentar, recusando-me a acceitar por esposo o homem que elle me +escolheu. Não me intimida, porém, a perspectiva do soffrimento. Morrerei +de bom grado na defesa dos sagrados affectos do meu coração e +conservar-me-hei fiel ao juramento tantas vezes repetido do meu amôr. O +que quero é ter a certeza de que a tua confiança me não abandona, Paulo; +que quaesquer que sejam as mudanças que se operem no nosso modo de viver +e de nos relacionarmos--mudanças que eu não posso prevêr por emquanto +quaes sejam, mas que certamente hão de sêr as mais dolorosas para o +nosso coração--eu terei no teu espirito e na tua lembrança o logar a que +o meu amôr me dá direito... + +--Beatriz!--exclamou o mancebo--quando se ama como eu te amo; quando se +sente no peito a chamma ardentissima de um vivo e intenso amor que de +todo nos senhoreia o espirito e nos absorve a existencia, lucta-se, +soffre-se, morre-se, mas não se esquece jámais o nome d'aquella que nos +inspirou tão fervoroso culto! + +--Pois bem, meu Paulo! É possivel que o destino nos reserve dias bem +sombrios de uma ausencia crudelissima, que ha-de retalhar-nos o coração +e quasi volver-nos loucos de desespero. Sejam quaes forem as +circumstancias em que nos encontremos, sejam quaes forem as apparencias +que me condemnem, não duvidarás nunca da lealdade do meu affecto como eu +não duvidarei, jámais da sinceridade da tua alma, não é verdade? + +--Fazes-me estremecer de receio, Beatriz! Decerto exaggeras o pavoroso +quadro dos nossos infortunios...--disse o mancebo, pallido de commoção. + +--É que tu não conheces meu pae! + +--Que poderá elle fazer, se tu recusares tenazmente esse enlace como uma +violencia imposta ao teu coração? Antes de tudo, tu és sua filha; e um +pae, por muito severo e rispido que pareça, não se transforma por +simples capricho no algoz d'aquella a quem deu o sêr. + +--Não sei... não posso dizer-te nada por emquanto, senão que tudo espero +d'este funesto designio manifestado por meu pae... Mas seja como fôr, +jura-me que não duvidarás nunca da mim, que has-de sempre confiar na tua +Beatriz como n'aquella que mais te ama no mundo. + +--Juro-te, meu amor, que serás minha e que não te has-de encontrar só na +lucta e no soffrimento. Tenho amigos--continuou Paulo--amigos poderosos, +contra os quaes não é facil nem prudente luctar... Com elles conto como +_irmãos_ e n'elles espero encontrar o auxilio de que ambos carecemos. +Não te assustes nem te deixes dominar pelo terror. Hontem, ainda +desprotegido, poderia talvez apavorar-me a ideia da minha fraqueza +contra inimigos tão poderosos como é teu pae; hoje, conscio de que os +brados intimos do meu coração ameaçado de morte encontrarão ecco +n'outros corações que me são dedicados, levanto-me orgulhoso e altivo do +teu amor, e digo-te: «Não succumbas, anjo da minha alma! Tem confiança +em mim, que havemos de vencer». + +O tom de absoluta segurança com que Paulo proferiu estas palavras +pareceu transmittir novo alento á joven. + +--Luctarei--disse ella--e agora com mais energia, desde que nas tuas +palavras tenho o penhor de que não será perdido o meu sacrificio. Nada +mais te pedia e nada mais te peço do que essa confiança inabalavel na +constancia do meu amor. Ama-me como eu te amo, Paulo! e d'este +sentimento, que é a vida, hauriremos forças para resistir aos embates de +uma sorte cruel e adversa! + +Trocaram-se ainda novas juras e protestos de constancia e amor sem fim, +despedindo-se, e promettendo tornar a ver-se na noite seguinte. + +O leitor, eivado do realismo da epoca, certamente está sorrindo do córte +romanticamente amoroso e piegas d'este dialogo dos dois namorados. + +Effectivamente, a menina tem a phrase um tanto brunida e lustrosa das +heroinas dos romances d'outras eras, o que dá um tom de inverosimilhança +ao lance ingenuamente sentimental. + +Mas o romancista, se copía do natural como nós o estamos fazendo, não +tem remedio senão acingir-se á verdade e reproduzir os seus personagens +com os aleijões que a natureza, as condições do meio ou os acasos do +nascimento e da educação lhes imprimiram no corpo ou no caracter. + +Esta menina, assim romanticamente apaixonada, exprimindo-se em termos de +um antiquado sabor litterario, não nos está revelando uma assidua e +ingenua leitora das novellas de Camillo? + +Claro está que ella reproduz incorrectamente o que de peor podia haurir +na leitura do genial escriptor--a emphase, o arredondado do periodo, a +declamação cantante, sem os esmêros da dicção, sem a impeccavel belleza +e elegancia de fórma do grande Mestre. Mas o facto é que ella, em +assumptos de coração, não podia exprimir-se de outra maneira, visto que, +como mais tarde teremos occasião de averiguar, foi nas paginas +soluçantes do «Amor de Perdição» que aprendeu a traduzir as primeiras +balbuciações do seu amoroso coração de creança. + +Paulo tambem, pela sua parte, influenciado pelas mesmas leituras, +correspondia-lhe no tom e no gosto do seu arrasoado. Se, porém, esta +linguagem póde ser capitulada de falsa, o mais espantoso é que ella +exprimia um sentimento profundamente verdadeiro. + +Os dois amavam-se com entranhado ardôr, e isso é o que mais importa +saber ao leitor inimigo de divagações. + +Ponhamos, pois, de parte a preoccupação de responder a reparos que a +grande maioria certamente não fará e digamos em poucas palavras o que +foi feito de Paulo, desde que, cerrada a janella da sua amada, teve que +retirar-se a passos apressados para que a chuva, que começava a cair em +grossas gôtas, o não surprehendesse na rua tristemente deserta. + +O mancebo era estudante. Tinha completado o curso do Lyceu e +matriculara-se no primeiro anno da Academia. + +O padre Filippe, seu protector e amigo, era quem se dizia encarregado de +lhe fornecer os meios de subsistencia e de estudo. + +Não o tinha, porém, na sua companhia. Incumbira-o aos cuidados de uma +familia honesta, onde era tratado como filho, e limitara-se apenas a +exigir que o _seu estudante_ o fosse visitar duas vezes por semana, nas +quintas e nos domingos, á casa que elle habitava, na rua Chã. + +Paulo não conhecera outra familia, além d'aquella em casa de quem o +hospedaram aos doze annos. Até ahi, que se lembrasse, fôra alumno +interno d'um instituto religioso, onde umas irmãs piedosas o trataram +com o carinho de mães, ficando-lhe d'esse internato uma recordação tão +saudosa que, ainda agora, ia a meudo visitar a abbadessa, madre Paula, +que tinha no seu coração o primeiro logar. + +Recolhendo a casa na manhã d'aquella noite accidentadissima, o mancebo +não pôde dormir. + +Agitadissimo, recordando o seu passado, em que parecia haver um ponto +escuro que o mortificava, Paulo resolveu erguer uma ponta do veu +mysterioso que encobria o seu nascimento. + +No dia seguinte, pelas 10 horas, dirigiu-se a casa do seu protector, e +sem mais preambulos, disparou-lhe esta pergunta á queima roupa: + +--Diga-me, padre: quem é meu pae? + +O padre Filippe, surprehendido pelo imprevisto da pergunta, pôz no +mancebo os olhos espantados e ficou-se a consideral-o em silencio por +alguns momentos. + +--Porque me fazes essa pergunta, Paulo?--disse por fim. + +--Porque sou um homem, porque tenho já dezoito annos, e desejo saber +d'onde venho, para poder destinar para onde vou, ou para onde devo ir... +respondeu o mancebo com firmeza. + +O padre Filippe sorriu bondoso a esta replica do moço e continuou a +olhal-o fixamente. + +--Paulo--disse elle afinal--se dizes que és um homem, como póde influir +no teu destino o saberes ou deixares de saber o nome d'aquelles a quem +deves a existencia? És um homem; e todos os homens devem ser guiados +pelo mesmo sentimento do bem, todos devem caminhar para o mesmo fim: +serem uteis a si e á humanidade. Creio que o facto de cada um saber ou +ignorar o nome de seus paes nada influe ou nada deve influir no destino +que lhe está traçado. + +--Perdão, meu bom amigo!--objectou Paulo--Todo o homem tem o direito, +creio eu, de conhecer a sua origem, de saber o nome dos seus +progenitores, não só para os respeitar e bemdizer pelo beneficio da vida +que lhe concederam, mas ainda para nortear os seus actos pelas tradições +da sua familia. Por isso insisto na pergunta: quem é ou quem foi meu +pae? + +--Teu pae--tornou o padre placidamente e agora de todo reposto do +sobresalto que lhe causára a pergunta--teu pae é ou foi um homem. D'isso +não te deve restar duvida, pois que homem te dizes já e como homem te +apresentas. + +--Mas não tinha nome esse homem? + +--Se o tinha, não chegou nunca ao meu conhecimento. + +--Nem o nome de minha mãe? + +--Nem o nome de tua mãe. + +--Como é, pois, que eu me chamo Paulo de Noronha? + +--Naturalmente porque aquelles que te deram o sêr assim quizeram que te +chamasses. + +--Assim quizeram! A quem manifestaram elles essa vontade? São ainda +vivos? Se o são, porque se occultam e me não apparecem? Se morreram, +porque motivo deixaram envolto no mysterio o meu nascimento? + +--A nenhum filho é licito discutir e muito menos censurar os actos de +seus paes. + +--Mas eu não censuro, nem sequer discuto!--obtemperou Paulo--eu apenas +pergunto. + +--Ha perguntas que envolvem censura, se não para aquelles a quem se +fazem, pelo menos para aquelles de quem se fazem... Mas dize-me, Paulo, +que estranha curiosidade é essa que assim te move a querer saber o que +por emquanto deves ignorar? + +O mancebo hesitou por alguns instantes e por fim disse: + +--Padre Filippe, permitta-me que lhe falle com franqueza e lhe exponha +as duvidas que ha tempo a esta parte me obcecam o espirito e me fazem +reflectir na minha estranha situação... + +--Falla, meu amigo, falla!--animou o padre bondosamente--e crê que, a +não sêr madre Paula, ninguem no mundo merece tanto como eu a tua +confiança. + +--Pois bem!--tornou Paulo--ha muito tempo que eu dirijo a mim mesmo +estas perguntas: Quem sou eu? De que familia descendo? Como se chamam ou +se chamavam meus paes? Todos os meus condiscipulos dizem de quem são +filhos, todos repetem com orgulho o nome dos paes ou relembram com +saudosa ternura o nome das mães. Todos dizem: «a minha casa, a minha +familia», só eu não posso dizer--_meu pae_, _minha mãe_, porque são +entes que não conheço, de que nunca ouvi fallar, de quem não tenho a +menor noticia. Dar-se-ha caso que eu não tivesse pae, que não tivesse +mãe? Mas então a quem devo eu a minha existencia, o amparo e protecção +que até agora tenho recebido? Sou um orphão? Sou um engeitado? Vivo e +alimento-me do que por direito de nascimento me pertence, ou recebo a +esmola de nobres almas compassivas? No primeiro caso, se tenho direitos, +reclamo-os, porque esses direitos impõem-me deveres que eu quero +respeitar e cumprir. No segundo, como sou já um homem e tenho o braço +bastante robusto para ganhar o pão da existencia, não devo por mais +tempo acceitar criminosamente a caridade que me trouxe até aqui e que +póde fazer falta a outro desgraçado como eu! + +--Paulo!--disse o padre Filippe, fundamente commovido--és ainda muito +novo para te preoccupares com assumptos que, por emquanto, devem +permanecer envoltos no véo do mysterio que os encobre aos teus e aos +meus olhos. Eu nada te posso dizer, filho. + +--É então á caridade de vossa reverendissima e de madre Paula que eu +devo o pão que até agora me tem alimentado, não é assim?--perguntou o +mancebo, extraordinariamente commovido e pallido. + +--Não! Não!--atalhou padre Filippe.--Eu recebi de um meu superior, a +quem assisti nos ultimos instantes, o encargo de velar por ti e de +applicar ás despezas da tua sustentação e educação a quantia que +mensalmente me é enviada por pessoa que desconheço e que já antes a +enviava ao santo sacerdote que me legou este encargo. A mim nada me +deves, meu filho, senão a grande estima que tenho por ti e o grande +desejo que sinto de te vêr conquistar uma posição digna e honrosa na +sociedade. + +Paulo calou-se. As palavras do padre Filippe, repassadas de suavidade e +doçura, impressionaram-n'o profundamente. + +--Estou então condemnado--disse elle, passados instantes--a ignorar toda +a vida o nome de meus paes? + +--E de que te valeria o sabel-o? + +--De que me valeria! Valer-me-hia de não ter que córar diante de quem me +interrogar a esse respeito! Valer-me-hia de não ter que recuar +envergonhado e confundido diante de uma familia honesta que, antes de me +admittir como filho em seu seio, terá que perguntar-me o nome de meus +paes! Valer-me-hia, emfim, de não me encontrar n'esta horrorosa situação +de não saber quem sou, se o portador legal de um nome honrado, se o vil +e abjecto fructo de uma acção indigna, de um amor bestial e criminoso! + +Ouvindo esta retumbante tirada do moço, o padre Filippe sorriu ainda +amoravel e observou-lhe: + +--Os tempos mudaram e com elles a orientação da sociedade moderna, meu +Paulo. Já nenhum homem se impõe hoje pela familia, pelas tradições dos +seus antepassados, pelas chimericas e phantasticas illusões de uma +arvore geneologica, bracejando vergonteas e rebentões inuteis pelos +seculos fóra. Nenhum homem vale hoje pelo que valeram seus paes e seus +avós... Hoje, cada um vale por si, pelos seus merecimentos proprios, +pelas nobres qualidades do seu caracter, pelas brilhantes manifestações +da sua intelligencia. A tendencia democratica dos nossos tempos de ha +muito que pôz de parte as falsas convenções de uma sociedade que se +desmoronou... + +--Mas não pôz de parte, creio eu, os dictames da honra!--retorquiu o +mancebo. + +--Decerto. E alguem te impede de te affirmares sempre um homem honrado, +Paulo? A honra está nos nossos actos, está no uso que fazemos das +faculdades com que a natureza nos dotou, está na firmeza e altivez com +que, através de todas as vicissitudes, cumprimos intemeratamente o nosso +dever; não está nos acasos do nascimento, nos brios de passados +avoengos, nos appellidos pomposos dos que nos deram o sêr. Faze, pois, +por merecer a estima e o respeito dos teus concidadãos, Paulo, e não te +preoccupe a ideia de não saberes de quem vens. Basta que apenas conheças +para onde vaes e sigas sem tergiversar a linha do dever. + +O mancebo guardou silencio por alguns instantes. + +--É, pois, um mysterio impenetravel o meu nascimento? Mas com que +direito se me occulta o nome de meus paes? Com que direito me condemnam +a esta lucta permanente comigo mesmo, sem saber se o que me dão o devo +receber como meu, se o devo considerar como uma esmola? + +--Paulo! Por duas vezes já, desde que aqui entraste, proferiste a +palavra _esmola_. As esmolas dão-se aos desgraçados, aos invalidos, aos +que se encontram impossibilitados de, por esforço proprio, provêrem aos +meios de subsistencia. Tu não estás n'esse caso. Quando muito, o que +recebes de mão ignota que não precisas conhecer, é um adiantamento, uma +divida que contrahes e que te será facil solvêr, correspondendo +dignamente ás esperanças que em ti depositaram os que quizeram fazer-te +um bom cidadão, um homem util a ti e aos teus semelhantes. E sobre isto, +meu amigo, creio que temos fallado bastante. Dize-me--continuou o padre +Filippe--tens ido visitar madre Paula? + +--Ha mais de quinze dias que a não vejo. + +--És ingrato, Paulo! A pobre senhora deve ter estranhado a falta da tua +visita... Como é que pódes esquecer assim por tanto tempo quem tantas +provas de carinhoso affecto te tem dado? + +--Padre--disse Paulo, ruborisado--eu não esqueço, nem poderei esquecer +nunca quanto devo a essa bondosa e santa senhora, que tem tido para mim +desvelos e ternuras de... de mãe. Na minha vida, porém, começam a surgir +tão imprevistas luctas, incidentes de tal modo inquietadores, que não +sei se deva perturbar com a minha presença o suave remanso d'aquella +existencia para mim tão cara! + +--Luctas imprevistas, incidentes inquietadores...--O que é isso, Paulo? +Falla-me com franqueza, dize-me tudo, rapaz! O que é que te acontece de +estranho e de ameaçador? Não te esqueças de que deves considerar-me o +teu primeiro e mais sincero amigo, meu filho! Creio que tenho direito á +tua confiança... Ou não? + +--Respeito-o muito, meu padre, para vir importunal-o com assumptos que +lhe parecerão talvez pueris... + +--Bem sei!... Negocios do coração... Temos amores no caso... São os +primeiros rebates da virilidade no coração de um adolescente. Vamos! +quem é a tua Virginia, meu Paulo?--perguntou jovialmente o sacerdote. + +--A minha Virginia--disse o mancebo, com enthusiasmo--chama-se Beatriz, +e não é menos formosa nem menos adoravel do que a immortal inspiradora +do Dante. + +--Bravo!--exclamou rindo o padre Filippe.--Temos, pois, em perspectiva +uma _comedia divina_, para fazer confronto com a _Divina Comedia_... + +--Se não tivermos antes um drama extraordinario, até agora inédito na +historia dos soffrimentos humanos... + +O padre encarou-o gravemente. + +--Fallas serio, Paulo? + +--Tão serio que me atrevi a vir interrogal-o, padre Filippe, sobre a +historia do meu nascimento. + +--Ah! era por isso que vinhas assim n'essa ancia, pedir-me a chave do +enygma da tua existencia? Eu devia tel-o adivinhado... Só as mulheres +são curiosas por indole... + +--Não, não!--atalhou Paulo.--A mulher que eu amo ainda não me fez a +menor pergunta que me difficultasse a resposta. Eu, porém, é que desejo +saber quem sou para saber o que posso offerecer-lhe. + +--Pois não é sufficiente o coração do homem que ama para a mulher amada? + +--Padre, a mulher que eu amo não é livre; tem pae, que se julga com +direito a intervir no seu destino e a impedir que sua filha busque a +alliança de um homem de origem... desconhecida. + +--Foi essa menina quem t'o disse? + +--Disse-m'o a minha propria razão. + +--Queres um conselho, Paulo?--perguntou inopinadamente o padre Filippe. + +--Os conselhos de vossa reverendissima são para mim leis sabias e +justas, que eu não posso deixar de acatar com o respeito e gratidão que +lhe devo. + +--Pois bem; refreia os impetos da tua paixão por essa menina e busca +antes de tudo fazer-te digno do seu amor. + +--Já o sou. + +--Pelos dotes do coração, concordo, mas não pela posição social +alcançada. O primeiro que o pae d'essa menina ha-de perguntar-te, quando +souber que lhe pretendes a mão da filha, é com que recursos contas para +proporcionares a tua mulher a felicidade e o bem estar a que ella tem +direito. Quererá saber que posição é a tua, que profissão exerces ou de +que meios de fortuna dispões para poderes dignamente apresental-a na +sociedade ao respeito e á consideração das pessoas de bem. E +comprehendes, meu Paulo, que a taes perguntas não se responde com uma +certidão de baptismo que nos dá avós illustres de quem não herdámos um +palmo de terra onde cahir mortos, nem com a reedição apaixonada dos mil +juramentos de amor constante que enviamos á filha em perfumadas +cartinhas que lá estão, em maço, amarradas com fita de seda... + +O mancebo não pôde deixar de sorrir a estas palavras do padre Filippe, +que denunciavam um profundo conhecedor da arte do galanteio. + +--Os paes não se contentam com tão pouco, exigem mais alguma +coisa--continuou o sacerdote--Ora esse _mais alguma coisa_ é que está na +tua mão offerecer-lh'o, Paulo. Conquista pelo estudo e pelo trabalho +honesto uma posição que te nobilite aos olhos do mundo; engrandece-te a +ti proprio, torna-te homem; e quando a tua consciencia te disser que não +és inferior á mulher que amas, vae pedil-a e não receies que o pae te +não encontre bastante nobilitado para entrares na sua familia. + +--Mas o pae de Beatriz quer casal-a com outro!--exclamou o mancebo, +dando largas ao desespero que lhe ia na alma. + +--O pae d'essa menina sabe que ella te ama? + +--Não sabe. + +--É, pois, natural que, julgando o coração da filha desligado de +qualquer affeição, pense em lhe proporcionar um enlace que lhe parece +vantajoso. Todos os paes pensam no futuro de suas filhas e esse não o +seria, se desdissesse da regra geral. Mas d'ahi a violentar-lhe o +coração e a impor-lhe á força um casamento que ella rejeita, vae uma +distancia enorme. Se essa menina te ama sinceramente, como dizes, +recusará o consorcio que o pae lhe proporciona, allegando motivo que +para todos os paes deve ser sagrado--a ausencia absoluta de sympathia +pelo noivo proposto. Se, pelo contrario, o sentimento que diz nutrir por +ti não é tão vivo e intenso que lhe permitta a recusa, casar-se-ha, e +com o facto só tu tens a lucrar, pois que assim te livras do escolho de +vires a possuir por companheira uma creatura incapaz de corresponder ás +nobres aspirações da tua alma. Não creio, pois, que isso seja +contrariedade de maior, que te dê motivos para os sobresaltos e +inquietações que revelas. Vae visitar madre Paula, meu rapaz... +Conta-lhe os segredos da tua alma, nada lhe occultes, e verás como nas +suas palavras e conselhos has-de encontrar o socego e quietação que +precisas... Isto não é desviar de mim o encargo de te guiar e dirigir no +accidentado caminho a que o coração te propelle--accrescentou o +padre--Mas é que as mulheres, em questões do coração, teem mais +auctoridade, são mais profundamente conhecedoras da mysteriosa sciencia +do sentimento alheio, e teem sobretudo um poder de persuasão que a nós +outros os homens nos fallece. Procura madre Paula, conta-lhe tudo, +escuta as suas palavras e verás que has-de sentir-te bem, meu filho. + +--Procural-a-hei--disse Paulo--mas creio bem que não poderá +aconselhar-me melhor do que vossa reverendissima acaba de o fazer; nem +as palavras da santa e virtuosa senhora poderão trazer mais funda ao meu +espirito a convicção que vossa reverendissima me deu de que preciso +engrandecer-me, fazer-me _homem_ para conquistar a posse da mulher que +amo! + +--Folgo de ver que comprehendeste bem o intuito das minhas palavras, +Paulo. Crê que ninguem mais do que eu deseja a tua felicidade e o teu +bem estar. Se fosses meu filho, não te aconselharia de modo differente +nem desejaria com mais ardor ver-te ascender a uma posição culminante. +D'isso pódes estar certo. + +--Trabalharei e empregarei todos os esforços para realisar os desejos de +vossa reverendissima--que são tambem os meus. + +--E conseguil-o-has, porque és intelligente, és energico, e revelas +nobreza de caracter. Com taes predicados, só não alcança uma posição +distincta na sociedade quem não quer. + +Agora, reanimado pela esperança que as palavras do padre Filippe lhe +incutiram, o mancebo despediu-se do seu protector, mais que nunca +resolvido a encetar a lucta pela vida e pelo triumpho completo das +nobres aspirações do seu amoroso coração de rapaz. + + + + +III + +Pae e filha + + +Emquanto o pupillo do padre Filippe e de madre Paula busca a maneira de +realisar os dourados sonhos da sua imaginação juvenil, queira o leitor +acompanhar-nos a casa do pae de Beatriz e travar conhecimento com o +sombrio progenitor da encantadora menina. + +Não tendo nós os mesmos motivos de Paulo para occultar do pae as +relações com a filha, justo é que busquemos o conhecimento de ambos e +entremos na intimidade dos dois para melhor podermos avaliar o caracter +de cada um e apreciar os acontecimentos que vão desenrolar-se aos nossos +olhos. + +Á hora a que entramos, está o sr. Custodio de Jesus sentado á secretária +do seu gabinete, fazendo contas e archivando documentos que parece lhe +são muito uteis, pela attenção e minuciosidade com que os examina e pelo +cuidado com que em seguida os guarda emmaçados e rodeados de uma larga +cinta de papel branco, em que se lê n'uma excellente letra garrafal, a +palavra--Hypothecas. + +--Estas bem estão--murmura elle coçando distrahidamente com a mão +direita a vasta suissa grisalha, talhada em fórma de foucinha e +franzindo o labio superior completamente rapado á navalha, talvez para +facilitar a passagem do meio grosso destillado e liquifeito em repetidas +pitadas nas profundezas insondaveis de um nariz que exteriormente +apresenta a configuração e o aspecto de um capacete de alambique--Estas +bem estão... O peor são as outras... + +Passou a examinar segundo maço, mostrando no rosto evidentes signaes de +mau humor. + +--Aqui está!--disse elle, batendo com a mão espalmada sobre os +papeis--Mais de cincoenta contos em hypothecas que não pagam ha um anno +um real de juro! Ladrões! E agora são capazes de ainda vir fazer questão +para juizo e arranjar-me a tramoia de modo que eu não fique com as +propriedades pelo preço da louvação... + +Como correspondendo a estas reflexões, que accusavam no sr. Custodio de +Jesus um agiota costumado a perseguir as suas victimas até as espoliar +em leilão, nos tribunaes, abriu-se a porta do escriptorio e entrou por +ella um homem alto, espadaudo, porém excessivamente magro, usando uma +comprida barba que quasi lhe chegava á cintura e que lhe dava á +physionomia um aspecto carregado, ameaçador, capaz de apavorar o mais +remisso devedor, o mais teimoso dos litigantes. + +Este homem entrou como pessoa intima na casa, cerrou a porta sobre si, +dirigiu-se a uma cadeira que estava devoluta junto da secretária, e +sentou-se sem mesmo se dar ao incommodo de tirar o chapéo que lhe +ensombrava o barbudo rosto. + +Ao vêl-o, o sr. Custodio de Jesus teve um sorriso de intimo +contentamento e exclamou: + +--Estava agora mesmo a pensar em você, amigo Belchior! + +--Aqui me tem. Os amigos lembram sempre na occasião... Não vim mais cedo +porque tive de ir ao tribunal requerer um arresto... E amanhã tenho +outro... Isto é um nunca acabar de caloteiros, que só gostam de comer e +não pagar! Mas aquelle que me cahe nas unhas e tem por onde pagar, +amola-se! Deixo-o expremido que nem um limão. + +--É o que eu preciso que se faça a estes tratantes que aqui estão com o +juro por pagar!--exclamou o sr. Custodio de Jesus, apontando para as +escripturas que tinha diante de si. + +--Não se afflija, que isso é negocio de pouca demora... Qualquer dia +tratamos d'isso. Sabe ao que eu cá venho? + +--Você o dirá, amigo Belchior. + +--O rapaz, pelas informações que tenho d'elle, e um partidão! + +--Sim? + +--Não imagina! É mesmo mais rico do que eu supunha... O melhor que temos +a fazer é não perder tempo e tratarmos de aferventar isto quanto antes. + +--Você bem sabe que o caso não é para pressas, amigo Belchior... Eu +mesmo tenho receio do rapaz... Diz você que elle tem uma grande fortuna, +e eu mesmo não duvido que assim seja, mas quem é que me assegura que +elle não tem a maior parte dos haveres compromettidos, ou que não possa +vir a compromettel-os? + +--Quanto á primeira hypothese, posso affirmar-lhe que o rapaz tem sido +estroina, tem gasto em passeios, em ceias com as actrizes, tem +finalmente pago o seu tributo á mocidade... Mas todas essas rapaziadas +não teem desfalcado o rendimento, que é grande... Quanto á segunda +hypothese, é provavel que elle, depois de casar com sua filha, mude de +feitio e comece a portar-se como homem sério... Mas se o não fôr, tanto +melhor... + +--Tanto melhor, como?--interrogou o sr. Custodio de Jesus, +indignado.--Então é melhor que minha filha case com um valdevinos, um +dissipador, um extravagante? Bonita moral a sua, seu Belchior! Pois eu, +meu amigo, desde já lhe declaro que o que tenho me custou muito a +ganhar, e não é para o vêr dissipado em patuscadas e ceias ás actrizes! + +--O meu amigo Custodio de Jesus saberá muito bem como é que se ganha +dinheiro, como se descontam letras e se empresta a juro sobre hypotheca; +mas o que não sabe é nada de jurisprudencia--disse o Belchior com +emphase.--É preciso que o meu amigo se lembre de que sou solicitador ha +mais de vinte e cinco annos, e que, durante todo este tempo, tenho +adquirido conhecimentos que me habilitam a segurar o que é meu e o que é +dos meus constituintes... + +--Não digo que não, mas essa theoria, com franqueza, não me agrada... Lá +que o rapaz tenha tido estroinices, emfim, não é bom precedente, mas +desde que elle ainda possue uma casa grande, de vasto rendimento, tudo +se lhe póde perdoar e esquecer com a condição de mudar de vida e de +costumes dissipadores, logo que ligue o seu destino ao de minha filha. +Mas agora achar melhor que elle continue nas suas dissipações e +loucuras, do que se emende e seja um bom marido, isso é que me não entra +cá! + +--É o que eu digo!--volveu o procurador com desdem--não sabem nada da +lei e mettem-se a discutir com quem conhece a letra dos codigos! + +--Os codigos, amigo Belchior, pódem dizer o que quizerem, mas o que +elles não pódem é metter-me em cabeça que um marido estroina é muito +melhor do que um marido economico, morigerado e amante de sua mulher. + +--É porque o amigo e sr. Custodio de Jesus--respondeu o procurador, +formalisado--não sabe que a lei faculta uma acção de interdicção contra +o marido prodigo, e confere a administração do casal a uma ou mais +pessoas de familia. + +O Custodio de Jesus arregalou os olhos, espantado. + +--O quê? O que é isso? Explique lá, homem, que eu não percebi bem. + +--Não tem que explicar. Não se fazem escripturas, de modo que a noiva +tem a meação nos haveres de seu marido, como o marido a tem nos haveres +da mulher. Ora a administração do casal pertence de facto e por lei ao +marido; mas se este, em vez de administrar parcimoniosamente, se entrega +a dissipações e patuscadas escandalosas, á mulher assiste o direito de +requerer a interdicção do marido e pôr-lhe uma tutela que, n'este caso, +poderia muito bem ser exercida pelo meu amigo o sr. Custodio de Jesus... +Ora percebe agora a razão por que eu digo que mais valerá que elle +continue a affirmar-se um estroina, um dissipador de marca? + +--Realmente você, amigo Belchior, é uma cabecinha privilegiada! exclamou +enthusiasmado o pae de Beatriz.--Porque não estudou você para doutor? + +O procurador sorriu com bonhomia e encolheu os hombros com despreso: + +--Não me faz falta--disse.--Conheço tão bem a lei como aquelles que +fôram a Coimbra. Por isso lhe digo, não deixe perder esta bella occasião +de apanhar uma fortuna, que decerto lhe não voltará tão cedo a bater á +porta outra igual... Case a pequena quanto antes com o doidivanas que se +lhe offerece, e deixe o caso por minha conta. + +--Eu já disse á minha Beatriz que fazia muito gosto em que ella +acceitasse por marido este rapaz... + +--E ella, o que respondeu? + +--Como o meu amigo póde bem avaliar, minha filha, que até agora não tem +pensado em casamento, caiu das nuvens quando lhe fallei em casar. + +--Mas manifestou repugnancia em acceitar o marido que se lhe propõe? + +--Ella pediu-me que a deixasse pensar na resposta... Emfim... deseja +consultar o seu coração, e isso não se lhe póde levar a mal... + +--Bem! Mas supponha que ella recusa...? + +--Que motivo terá para recusar quando sabe que a minha vontade é que +este casamento se faça e quando o noivo é realmente uma bella figura, +capaz de captar as sympathias da menina mais exigente? + +--Mas supponhamos que recusa!--Insistiu ainda o procurador. + +--Não posso suppôr tal cousa, porque não estou habituado a que, em minha +casa, alguem tenha vontade differente da minha. + +--Nas pequenas questões da vida domestica, d'accordo... eu creio que o +meu amigo tenha sido e continuará a ser completamente obedecido... Mas +n'este caso talvez não encontre a mesma cega obediencia que suppõe... + +--Por que? + +--Porque as mulheres, quando encarreiram as suas affeições para um lado, +não ha diabo que as faça voltar para outro, amigo e sr. Custodio... + +--O que quer dizer com isso, amigo Belchior? + +--Quero dizer que se a Beatrizita já tem por ahi namoro que lhe faça +andar a cabeça á roda, ao meu amigo não lhe será tão facil como julga o +fazer que ella obedeça á sua vontade... + +--Namoro! A minha Beatriz é uma creança de dezeseis annos e não pensa +n'essas tolices!--protestou o sr. Custodio de Jesus encrespando o +sobr'olho.--Isso é bom para aquellas raparigas que são educadas á redea +solta e que não teem paes que lhes saibam dar educação... Namoro! Eu +admittia lá que uma filha minha tivesse namoro! + +--As filhas nunca pedem licença aos paes para essas coisas...--commentou +o outro. + +--As filhas que não respeitam os paes ou que não teem paes que se façam +respeitar, d'accordo. Mas em minha casa não se dá isso... + +--E se se desse? + +--Se se desse! Você sabe alguma coisa, Belchior? + +--Se se desse, é o que eu pergunto?--retorquiu o procurador com um +sorriso mysterioso. + +--Se se desse, ia ahi tudo com seiscentos diabos! Fechava a rapariga +n'um quarto, que não tornava a vêr sol nem lua, emquanto não fosse á +egreja casar com quem eu dissesse!--bramiu o sr. Custodio de Jesus, +assentando furioso murro sobre as escripturas das hypothecas em +divida.--Mas você sabe alguma coisa? Homem, seja franco! + +--Pois então fique o amigo Custodio sabendo que temos moiro na costa e +que a pequena... mas você não vá agora fazer asneira... estas coisas +levam-se com prudencia... + +--Diga, diga, homem!--insistiu o capitalista afflicto.--Sabe que a minha +filha... + +--Tem um namoro. E então? É a coisa mais natural d'este mundo. + +--Você falla serio? + +--Não costumo brincar com coisas d'estas. Quando eu lhe digo que sua +filha se corresponde com um rapaz a quem vae fallar da janella para a +rua todas as noites, é porque tenho d'isso a certeza. + +Custodio de Jesus levantou-se de um salto como mordido da tarantula. + +--Você não me repita isso nem a brincar!--bramiu elle--porque eu vou-me +áquella desavergonhada e racho-a! + +--Mau! assim não fazemos nada!--reprehendeu o procurador--Aqui o que +convem é saber o que se passa e tratar de encaminhar as coisas de modo +que o projectado casamento com o nosso rapaz se realise o mais breve +possivel... + +--Mas quem é, quem é esse outro que ella namora? + +--É um estudantito... um rapaselho. + +--Rico?--interrogou o Custodio arregalando os olhos. + +O procurador soltou uma gargalhada. + +--Você, amigo Custodio, cuida que os rapazes ricos andam por ahi aos +pontapés! Isto hoje é tudo uma pelintrice, você bem o sabe... Quando +apparece um como o Eugenio, é um milagre! Porisso é que eu digo: vamos a +deitar a unha a este, porque se o deixamos escapar não apparece outro +tão cedo... + +O Custodio de Jesus passeava agitado pelo aposento, quasi sem prestar +attenção ás palavras do procurador. + +--Mulheres! Raça maldita! Nasceram só para enganar!--blasphemava +elle--Até esta, de 16 annos, creada com todo o recato, longe das +sociedades, retirada das más companhias, até esta, que parecia uma +innocente, me sae á ultima hora a corresponder-se com um namoro, sem que +eu, que sou pae e ando sempre com mil cuidados e cautelas a vigiar-lhe +os menores movimentos, tenha dado por isso! + +--Amigo Custodio--obtemperou o procurador--não vale a pena affligir... +Não é caso de morte de homem ou casa queimada... Que diabo! eu disse +isto porque entendo que a você, como pae, convem saber o que se passa +para saber como ha de proceder... + +--Como hei de proceder sei eu!--rugiu colerico o pae de Beatriz--Ponho-a +de pé descalço a fazer o serviço da casa, a varrer, a lavar a louça, a +cosinhar, para lhe tirar o vicio! Se tem sentimentos de criada de +servir, que seja criada de servir em tudo! + +--Homem, eu desconheço-o!--reprehendeu severo o Belchior--Tinha-o na +conta de um homem de juizo, um homem prudente que sabe o que lhe convem +e que respeita os seus interesses, e você sae-me a querer fazer tolices +e disparates que não lembram a ninguem! + +--É que você não sabe o odio que eu tenho ás mulheres!--explicou o +Custodio--Esta filha veio para meu castigo! + +--Não veio para seu castigo nada! Apparece-lhe um casamento bom para +ella, um casamento de primeira ordem? Aproveite-o, trate de a casar por +bem ou por mal... isso sim, senhor! Mas agora romper no excesso de a pôr +a fazer de servilheta, isso é dar murros em si proprio, amigo Custodio. +Ora imagine que você faz isso, e a pequena desesperada lhe foge... E +depois? Você desherdal-a não póde, porque ella é sua filha. Além d'isso; +já não tem mãe e mais tarde ou mais cedo tem que entrar na posse da +herança materna... Homem, prudencia!... levemos as coisas por bem, que é +melhor... + +--Tem razão!--concordou por fim o Custodio--Mas olhe que é para um homem +arreliar! Não ha ninguem mais infeliz com as mulheres do que +eu!--desabafou com o desespero de quem tocou a méta do soffrimento--Eu +fui casado duas vezes... A primeira mulher, a Carlota, sahiu-me uma +bebeda, uma desavergonhada que toda a vida me atraiçoou com um padre em +quem eu tinha toda a confiança e que até por ultimo me roubou, +levando-me tudo, deixando-me a pedir uma esmola!... Veja lá você! Eu era +um bolas que não sabia nada do mundo, via Deus no céo e a mulher na +terra, tudo o que ella dizia era o que se fazia, e afinal o pago que me +deu foi aquelle! Tambem a levou o diabo, que lá se envenenou em Lisboa, +e tão infame que até á hora da morte deixou um bilhete a dizer que se +matava por minha causa! Isso foi uma coisa muito fallada, até andou nas +gazetas... + +--Espere lá!... D. Carlota? Tenho ideia de lêr isso... + +--Foi ha dezoito annos... + +--Sim... ha de haver esse tempo, ha de... + +--Pois, meu amigo, o ladrão do padre arranjou-me uma tramoia de umas +letras que eu acceitei a um outro maroto como elle, um tal João +Ignacio... + +--Bem sei! Conheço perfeitamente. Esse homem tambem parece que deu com +tudo á costa. Até esteve doido, e a sua mania é que tinha sido roubado +por um padre... + +--Era o mesmo... o padre Anselmo! Um ladrão, um malandro com capa de +santo, que foi a minha desgraça! Se não fosse elle metter-se-me com a +mulher e roubar-me tudo, eu tinha a estas horas mais de quatrocentos +contos! + +--Vamos lá!--observou sorrindo o procurador--Parece que ainda lhe não +levou tudo, porque você, amigo Custodio, está possuidor de capitaes +muito avultados. + +--Á custa de muito trabalho e depois do segundo casamento para +cá--explicou o Custodio. + +--Não sei como você, depois de ser tão infeliz com a primeira mulher, +ainda caiu em casar segunda vez. + +--Que remedio tive eu! Não foi por minha vontade, não... Mas eu fiquei, +como o outro que diz, sem eira nem beira nem ramo do figueira. +Appareceu-me uma mulher que tinha ido em nova para o Brazil e que por lá +arranjou uns contos de reis e esta filha com que voltou a Braga... + +--Ah! então Beatriz... + +--Não é minha filha, mas eu perfilhei-a no acto de casar com a mãe, e +ahi é que eu quero chegar... A bebeda, a grande desavergonhada +enganou-me! + +--Enganou-o... quem? + +--A minha segunda mulher. Disse-me que trazia para cima de cincoenta +contos, e afinal vae-se a vêr, entre joias, dinheiro e papeis, pouco +passava de vinte! + +--Está feito! + +--Está feito, diz você! Mas eu perfilhei-lhe a filha, tenho trabalhado +como um burro, aturei-a a ella até á hora da morte--que ella vinha +arruinada da saude, escangalhada, um caco velho em summa--tive de sahir +de Braga, porque lá toda a gente lhe sabia a vida e era uma vergonha, e +agora, depois de tudo isto, ainda não sou senhor de deixar o que é meu a +quem eu quizer, porque para todos os effeitos esta rapariga é que é a +minha herdeira. + +--Por esse lado, tem o meu amigo razão--concordou o procurador--mas +tambem, se não tem parentes ou outra pessoa que melhor lh'o mereça, +pouco desarranjo lhe póde fazer... O amigo para a cova não o póde +levar... + +--Mas podia deixal-o ás Ordens ou a quem eu muito bem +quizesse!--recalcitrou o Custodio, indignado. + +--As Ordens não lh'o agradeciam melhor do que esta +pequena...--philosophou scepticamente o Belchior, com um sorriso +desdenhoso.--Não havia Ordem nenhuma que fosse capaz de lhe metter em +casa uma fortuna como a que ella lhe traz pela porta dentro, se casar +com o Eugenio de Mello... + +--Fortuna... para ella! + +--E você não é pae? E sendo pae, não fica sendo sogro do rapaz? E sendo +sogro do rapaz, desde o momento em que elle não dê carreira direita não +lhe vem a administração do casal parar ás unhas? + +--Isso ainda está em _vêl-o-hemos_... Se o rapaz ganhar juizo... + +--Se ganhar juizo, faz-se-lhe perder... A questão é que você queira... + +--Mas faz-se-lhe perder como? Como é que eu hei-de querer?--perguntou o +Custodio de Jesus, arregalando os olhos, sem comprehender. + +--Homem! o rapaz é estroina, a doidice está-lhe na massa do sangue... E +os estroinas são como os alcoolicos, a quem os medicos dizem que morrem +se continuarem a beber... Emendam-se, fazem um grande esforço para se +habituarem á agua, mas se um dia entram n'uma patuscada e vêem uma +garrafa que lhes desperta o appetite, perdem o mêdo atiram-se a ella, +bebem e morrem victimas do vicio que o instincto da conservação não foi +sufficiente para debelar. Ora o rapaz está n'este caso. Ha-de querer +portar-se bem, emendar-se, ser um homem exemplar, mas, se lhe apparecer +um amigo que o leve a uma ceia e lhe mostre uma actrizita com um palmo +de cara regular, não tenha você mêdo que elle ahi irá de vento em pôpa +pelo caminho da dissipação e da prodigalidade, e então é que é dar-lhe o +golpe de misericordia... Percebe-me agora? + +O Custodio, maravilhado, contemplava aquelle patife que tinha sobre elle +a enorme vantagem de conhecer os _escaninhos da lei_, segundo a phrase +pittorêsca do procurador. + +--Você--disse elle por fim, encarando sorridente o Belchior--é dos de +estrella e bêta e pé calçado! + +--Meu amigo, um homem tem obrigação de não ser tôlo, de não andar no +mundo por vêr andar os mais... As patifarias da vida é que põem um homem +fino... + +--Você havia de me ter apparecido em Braga, aqui ha vinte annos antes... +Não era comsigo que o ladrão do padre Anselmo mettia dente... E você não +me tinha deixado roubar! + +--Estava bem arranjado o padreca! Que viesse para cá... Comigo nem elle +nem o mais pintado fazia farinha!--blasonou basofiento o +procurador.--Tenho dado com elles d'aqui... detrás da orelha; mas eu +atiro-lhes para a caveira com as baldas certas e elles veem buscar lã +mas vão tosquiados! + +O Custodio suspirou: + +--Aquelle ladrão!--exclamou n'um surdo rancôr--roubou-me por eu o não +conhecer a você! + +--Meu amigo, com aguas passadas não móem moinhos... O que não tem +remedio remediado está... Agora vamos a vêr mas é se se trata de +arranjar outro... Disponha as coisas de modo que o casamento se faça +quanto antes, porque a fatia é boa e não se póde perder... + +--A rapariga casa. Por bem ou por mal, que remedio tem ella senão +obedecer-me e fazer o que eu disser! + +--Se ella estiver deveras encarriçada com o tal franganote, ha de +custar-lhe a resolvêl-a... + +--Por isso não seja a duvida... A questão é saber se o negocio convem... + +O procurador assobiou, acompanhando o assobio com repetidos estalos +produzidos pelos dedos maioral e pollegar. + +--Se convem!--disse elle--É uma pechincha! É um negocio de costa acima! +Queira elle noventa contos pela casa, que eu pago-lhe as dividas todas e +ainda metto para cima de cincoenta no bolso. É um casão! + +--Bom! pois então fique descançado, que a rapariga eu cá me encarrego de +a domesticar... + +--Mas veja lá; você não lhe falle no namoro, que é peor...--aconselhou o +procurador. + +--Nem palavra! Para lhe fallar n'elle, tinha de lhe partir os ossos... +Nada! eu resolvi ir cá por outro caminho... + +--E se fôr preciso que o rapaz appareça para lhe fazer o seu pé de +alferes... + +--Por ora não... Deixe estar, deixe vêr como as coisas se preparam... + +--Arranje lá... E adeus, que devo ter lá em casa os constituintes á +espera. + +Despediu-se, estendendo dois dêdos protectores ao Custodio. + +--Mas você apparece por cá?--disse o pae de Beatriz, apertando e retendo +na mão os dedos do Belchior. + +--Sim, amanhã... + +E dirigiu-se para a porta. + +--Olhe lá: você vá dando esperanças ao rapaz, hein? + +--Não tem duvida... Disponha você a pequena. + +Mal que o procurador sahiu, o Custodio subiu ao andar superior e chamou +a filha. + +Beatriz era uma d'estas creaturas franzinas, delicadas, doceis e +submissas por indole e por temperamento, na apparencia faceis de +dominar, mas que, depois de terem tomado uma resolução, primeiro se +deixarão matar do que render-se. Alta, elegante, cabellos e olhos +castanhos, tez clara, faces rosadas, o seu gracioso vulto, de uma +distincção rara, captivava pela belleza e impunha respeito pelo suave +perfume de innocencia e bondade que respirava. + +Quando o pae a chamou, a pobre menina appareceu tremula, como se o +coração lhe presagiasse a tortura que a esperava. + +--Aqui estou, meu pae--disse ella. + +O sr. Custodio ameigou a voz, contra o seu costume, e, contrafazendo o +semblante n'um risinho agradavel, chamou a filha para o pe de si, fel-a +sentar ao seu lado, e perguntou-lhe: + +--Então, já pensaste no casamento em que te fallei, minha filha? + +--Já, meu pae... já pensei...--tartamudeou a pobre pequena, commovida. + +--E decidiste acceitar o partido que se te offerece, não é assim? + +--Não, meu pae... + +--Não?!--exclamou o sr. Custodio, fingindo-se surprehendido e mudando +rapidamente d'aspecto.--E porque? + +--Porque não me sinto ainda com disposição para casar... + +--Não te sentes com disposição! Essa é bôa! Mas para casar ninguem está +á espera de disposição... Aproveita-se o noivo quando apparece, e a +disposição vem depois... + +--Eu não poderia unir-me a um homem por quem o meu coração não sentisse +a menor sympathia... + +--Sympathia!--bramiu o sr. Custodio furioso, dando largas ao seu +desespero.--Que vem a ser cá isso? Temos frioleiras de romance? Com as +sympathias não é que os casados fazem sopa e compram os chapéos e os +vestidos ás modistas. O noivo é rico? É o essencial. Ora este tem uma +grande fortuna, é novo, é uma bôa figura, não é cego, não é aleijado--e +ainda que o fosse, não se perdia nada--porque é que elle não te hade ser +sympathico? + +--Será para outras, mulheres, não para mim...--atreveu-se a dizer +Beatriz. + +Isto foi o mesmo que fazer explodir o immenso paiol em que o sr. +Custodio tinha accumulado toda a polvora dos seus rancores de ha muitos +annos contra as mulheres. + +--Que pouca vergonha é essa?!--berrou elle, levantando-se e encarando a +filha, rubro de colera--Quem é aqui o pae: sou eu ou é vocemecê? + +A ira dementava-o a ponto de não o deixar reparar no burlesco e +incongruente disparate da pergunta, que faria rir a pobre menina, se o +horror da situação em que se encontrava não a tivesse afogado em pranto. + +--Meu pae! Meu pae!--bradou ella supplicante, caindo de joelhos com as +mãos postas--pelo amor de Deus, perdoe-me! mas eu não posso... não +posso! + +--Deixemo-nos de comedias!--rugiu o Custodio n'um recrudescimento de +ira--Ou casa ou metto-a nas irmãs da caridade! + +Beatriz, de joelhos, continuava a implorar: + +--Meu pae, por alma de minha mãe lhe peço que não me force a este +casamento que o meu coração não póde acceitar! + +--Sua mãe! Não me falle em quem já morreu! Quem lá vae, lá vae, não é +aqui chamado! + +A esta brutal e grosseira reprehensão, Beatriz ergueu-se. No rosto +pallido as lagrimas seccaram-se-lhe como por encanto, e nos olhos, +fulgurantes de indignação, lia-se-lhe agora uma resolução inabalavel. + +--Minha mãe--disse ella em voz calma e firme--não me responderia assim, +se eu, de joelhos, lhe invocasse a memoria de meu pae morto. + +Esta resposta acabou de exasperar o sr. Custodio. + +--Cale-se!--não me falte ao respeito! + +--Não sabia que a lembrança de minha mãe era para meu pae uma offensa. + +Beatriz, perfilhada pelo sr. Custodio aos dois annos d'edade, fôra +educada na crença de que este homem era seu pae e ignorava por completo +a historia do seu nascimento. + +Notava que o homem a quem chamava pae a tratára sempre com grande +severidade e rispidez, e lamentava-se intimamente de não achar no +coração do auctor de seus dias a ternura e carinho a que tem direito uma +filha obediente e submissa, como ella era. + +Esta severidade recrudescera, quasi degenerando em tyrannia, depois que +a mãe se lhe finara. + +A pobre pequena habituara-se áquelle tratamento, e, crescendo na edade, +sentira mudar-se-lhe o terror infantil n'uma repugnancia instinctiva, +porém soffredora e paciente, que mais e mais a afastava do pae. + +Evitava a sua presença o mais que podia; e nos curtos instantes em que +era obrigada a aproximar-se d'elle e a ouvir-lhe as reprehensões +grosseiras e injustas, era sempre com os olhos no chão que o escutava. + +Havia, pois, uma antipathia profunda entre estes dois sêres, que o +destino cruel pussera em face um do outro, ligados pelos laços de um +parentesco ficticio, mas nem por isso menos respeitavel aos olhos do +mundo e da propria victima. + +A attitude do senhor Custodio, que sempre fôra mau para com a filha, +tornara-se desde este momento odiosa. + +Ferira a pobre creança no que ella tinha de mais santo e mais sagrado no +fundo do coração e que fazia objecto do seu culto:--o respeito pela +memoria de sua mãe e o seu amor por Paulo. + +O despreso amargo com que seu pae acolhera a supplica que ella lhe +dirigira humildemente, de joelhos, em nome da mãe, revoltou-a, e onde a +revolta começa o respeito acaba. + +Aquella phrase altiva, serena e sêcca com que respondeu ao pae, que a +mandava calar, era o prenuncio da lucta que ia travar-se, era como que o +grito de revolta chamando em seu auxilio todas as energias da sua alma +de mulher para resistir á violencia com que queriam esmagar-lhe o +coração. + +--Já disse!--volveu o descaroado pae.--Quem manda aqui sou eu. Este +casamento ha de fazer-se por vontade ou por força. + +--Viva não me levarão á egreja!--respondeu firmemente a pequena. + +--Atreve-se a fallar-me assim, a faltar-me ao respeito? Esquece que sou +seu pae? + +--Não esqueço. Mas lembro-me tambem de que não devo ser tratada como +escrava. + +--Quem é que a quer escravisar? Chama escravisarem-n'a ao quererem +fazer-lhe um casamento rico, com um rapaz de bôa familia, educado e que +póde dar-lhe respeito na sociedade? + +--O meu coração não se vende a pezo de dinheiro, meu pae! Se esse homem +quer comprar affectos, que os busque onde elles se vendem. + +--Está muito adeantada! Quem é que lhe ensinou tanto? + +--A minha razão e a consciencia dos meus deveres de mulher digna. + +O senhor Custodio enviesou-lhe um olhar furibundo. A sua vontade seria +estrangulal-a. Mas conteve-se. + +--Isso são frioleiras de romances!--gritou elle--. A menina não sabe o +que diz. A culpa tenho-a tido eu em consentir que certas leituras lhe +ponham a cabeça á razão de juros. Mas não tem duvida... Eu a mandarei +para onde lhe ensinem os seus deveres de filha. + +--Mande-me o pae para onde quizer. Obedecer-lhe-hei como filha que não +necessita que lhe ensinem os seus deveres. Mas não exija que acceite por +marido um homem que o meu coração não estime, porque a isso +recusar-me-hei. + +--Veremos! + +O sr. Custodio sahiu bufando como um touro e foi direito ao escriptorio. + +-- Que tal está a _bisca_?!--rosnova elle, no auge da furia.--Bem se vê +que não é minha filha! + +Passeou com as mãos ora mettidas nos bolsos, ora coçando nervoso a +suissa, o que n'elle denunciava sempre ou uma profunda meditação ou um +violento desespero. + +--E ainda o Belchior a dizer-me que leve as coisas com +prudencia!--regougou por fim.--A prudencia era dar-lhe com um cacête até +o diabo dizer _basta_! Amanhã estava ahi macia como um velludo e ia +casar com quem eu quizesse... + +De repente parou como ferido por ideia subita. + +--E talvez... quem sabe? Esta ideia não é má e póde dar resultado... +Vamos lá a experimentar se, levando as coisas por bem, conseguimos o +nosso fim. + +Tornou a subir ao andar superior e chamou a filha. + +A pequena, muito pallida, veio ter com o pae e perguntou: + +--O pae deseja alguma coisa? + +--Desejo, minha filha. Anda cá... senta-te aqui. Quero que me escutes +com attenção e que vejas que não sou tão mau como pareço... + +O sr. Custodio, vendo que Beatriz, sempre com os olhos baixos, não +respondia, pegou-lhe na mão e puxou-a docemente para junto de si, +fazendo-a sentar ao seu lado, e principiou dizendo: + +--Ora anda cá, minha filha! É preciso que saibas que ninguem é mais teu +amigo n'este mundo do que teu pae... Eu estou velho... estou com os pés +na cova, e, com estes desgostos que me estás dando, não posso ir muito +longe. + +--Mas em que é que eu o desgostei, meu pae? + +--Desgostaste-me com o teu procedimento de ha pouco... + +--Perdão! eu fui humilde e submissa, eu implorei de joelhos e mãos +postas que não me forçasse ao casamento com um homem que o meu coração +não póde acceitar... É isto desobediencia? + +--Filha! mas tu matas-me com essa recusa!--exclamou o sr. Custodio, +afflicto, simulando uma enorme contrariedade. + +--Mato-o porque não me quero casar, porque prefiro viver ao lado de meu +pae?! + +--Matas-me porque o teu futuro e o meu está dependente d'esse casamento, +filha! Matas-me porque recusando a mão d'este rapaz lavras uma sentença +de morte contra mim! + +Beatriz empallideceu. + +--Não o comprehendo, meu pae--balbuciou ella. + +--Eu te explico, minha filha... + +E aqui o sr. Custodio interrompeu-se, como para tomar alento, passou o +lenço pelos olhos para enxugar uma lagrima ausente, suspirou fundo e +proseguiu: + +--Eu ha pouco fallei-te desabridamente, fui severo, fui rispido, fui +mesmo, injusto para comtigo; mas tudo isto era não só o resultado do +muito amor que sinto por ti, porque todo o meu desejo é vêr-te feliz, +mas tambem e principalmente era motivado pelo desespero da minha +horrorosa situação... + +Suspendeu-se a olhar para a filha, a vêr o effeito que n'ella produziam +estas palavras. A pequena permanecia com os olhos baixos, immovel, na +attitude de quem escuta pacientemente uma historia que não lhe +interessa. + +--Ouves, Beatriz? + +--Ouço, meu pae. + +--Da minha horrorosa situação!--tornou o sr. Custodio a dizer, com um +suspiro ainda mais fundo. E abraçando-se na pequena, a soluçar, +exclamou: --Ah! filha! filha! teu pae está perdido! Se tu o não salvas, +ficas orphã... orphã e pobre, porque eu a esta dôr não resisto! + +Beatriz, surprehendida, porém de modo algum commovida com esta dôr +ficticia, perguntou, como se apenas cumprisse um dever: + +--Mas o que foi que lhe succedeu, meu pae? Porque é que assim se +afflige? + +--Filha!--tornou o senhor Custodio, com a voz entrecortada pelos soluços +e sem desprender dos braços o corpo franzino de Beatriz--estou pobre... +estou arruinado e só tu me pódes salvar! + +--Eu, meu pae! O que posso eu fazer em seu auxilio? + +--Tudo, minha filha! Mas deixa-me explicar-te primeiro... Os meus +negocios teem corrido mal... Nos ultimos tempos tenho soffrido prejuizos +importantes que me teem reduzido á miseria... Este procurador, este +Belchior que aqui vem e que, coitado, é meu amigo...--não o posso negar, +é meu amigo!...--tem-me valido com a sua amizade, abonando-me +importantes quantias que me teem sido precisas para solvêr compromissos +creados... Mas agora nem já elle tem, nem eu... Este rapaz é rico, +possue uma importante fortuna e ama-te apaixonadamente, minha filha... +Elle promette pagar todas as minhas dividas no momento em que tu +consintas em ser sua esposa... Portanto, vê lá: ou ficamos reduzidos á +miseria, sem um bocado de pão, e sem abrigo, porque tudo quanto está +n'esta casa é dos credores, ou tu acceitas este casamento e voltam para +o nosso lar os dias felizes, a paz e a abundancia, como até aqui. + +E como Beatriz permanecesse calada, com os olhos no chão, sem responder, +o sr. Custodio fitou-a anciosamente e perguntou n'um tom supplicante: + +--Então, Beatriz, o que dizes? + +A joven guardou ainda silencio por alguns instantes e depois murmurou: + +--Digo que é uma grande desgraça, meu pae... + +--Sim, é uma grande desgraça, não ha duvida... Mas, graças a Deus, temos +o remedio para ella, se tu quizeres, minha filha. + +--Todas as desgraças teem remedio, meu pae, e esta tambem o terá, sem +nos ser preciso buscar uma desgraça ainda maior... + +--Não te comprehendo, Beatriz!--exclamou o sr. Custodio--O que queres +dizer? + +--Quero dizer que se a perda de todos os seus haveres, meu pae, é uma +grande desgraça, o meu casamento com esse rapaz ainda a aggravaria +mais... + +--Porque, minha filha? + +--Porque eu não o amo. + +--Deixa-te de creancices, Beatriz! O amor vem com a convivencia... Tendo +tu o que necessitas para continuar a viver na abundancia, e tendo um +marido que te estime e que satisfaça todos os teus desejos, ainda os +mais insignificantes, verás que breve te affeiçoas a elle. + +--Mas eu não necessito de coisa alguma!--protestou vivamente Beatriz. + +--Não necessitas! Pois estando eu pobre, arruinado... + +--Eu trabalharei e viveremos do meu trabalho--acudiu corajosamente a +nobre menina.--Darei lições pelos collegios e pelas casas particulares, +e se não pudermos viver com ostentação, o que não dá a felicidade, +viveremos remediados e livres de maiores privações... + +--Tu estás doida!--berrou o sr. Custodio, desmanchando-se no seu papel +de carpidor de desgraças, para assumir a attitude grosseiramente +petulante da sua indole má, irritada pola teimosia da filha.--Bem se vê +que tens instinctos baixos e que não te repugna fazer má figura! + +--O que me repugna, meu pae, é illudir e enganar alguem, seja por que +preço fôr... + +--Mas a quem é que tu enganavas, casando com o Eugenio? Anda, dize lá! + +--Enganava principalmente esse homem, que julgaria encontrar em mim um +affecto que eu não posso sentir por elle! + +--Historias! Affecto não é coisa que se coma! + +E recahindo nas lamentações primitivas: + +--Que infeliz eu sou! Velho, com os pés na cova, reduzido á ultima +miseria, e não achar na minha propria filha amparo nem compaixão para a +minha desgraça! + +Beatriz ouvia quasi indifferente as lamurias do pae. + +Toda aquella dôr, manifestada assim em lamentações tão improprias de um +homem que sempre se mostrara altivo, sêcco e intractavel, +afigurava-se-lhe ignobil. Sentia uma revolta interior, um nojo intimo +d'aquella vilissima creatura, de quem se suppunha filha, e tinha como +que um secreto remorso de não poder amar o auctor de seus dias. + +O sr. Custodio percebia esta indifferença da filha, e emquanto se +lamuriava, dizia comsigo: + +--Grande desavergonhada! Bem se vê que não és minha filha! + +Por fim, Beatriz aventurou esta pergunta: + +--E se esse rapaz não tivesse apparecido a querer casar comigo, o pae +não teria outro meio de remediar os desastres soffridos no seu negocio? + +--Como havia de eu remediál-os? O remedio era entregar tudo aos credores +e ficarmos sem nada! + +--Mas haviamos de viver... + +--Viver como?--interrogou o sr. Custodio impaciente. + +--Como vivem tantos pobres, resignados com a sua miseria... + +D'esta vez o sr. Custodio conteve-se e não descambou no repellão +habitual. + +--Sabes lá o que dizes, filha! Os que vivem conformados com a sua +pobresa são os que nunca souberam o que era viver melhor. Nasceram +miseraveis, na miseria se crearam e assim vivem e morrem sem soffrimento +nem pesar. Mas quem está na nossa situação, filha, quem experimentou a +abundancia e depois se vê reduzido á penuria póde lá conformar-se com +isso?! Eu por mim, declaro, dou cabo da vida, e ha-de ficar-te o remorso +de teres causado a morte de teu pae! + +Esta ultima phrase fez estremecer a pobre menina. Tudo quereria menos a +pungir-lhe na consciencia o crime de haver morto seu pae. Embora não +sentisse por elle os extremos de affecto que o genio irascivel, rispido +e severo d'aquelle homem não soubera inspirar-lhe, a sua razão dizia-lhe +que tinha deveres de filha a cumprir, e a esses não queria ella faltar. + +--Mato-me!--continuava o sr. Custodio, abrindo a valvula ao desespero +que lhe ia na alma--mato-me, porque não tenho animo para soffrer os +horrores da miseria que me estão reservados, e antes quero dar cabo de +mim do que vêr a minha filha exposta a todas as desgraças que a pobresa +traz comsigo! + +--Por mim, não se mate, meu pae! Eu tenho força e coragem para resistir +aos golpes da adversidade. + +--Tu terás forças, minha filha, mas eu é que já não as tenho! Dize-me +terminantemente que não casas com esse rapaz, que não salvas teu velho +pae da miseria, e tu verás o que eu faço... Não tenho animo para vêr os +credores entrar por aqui dentro e pôrem-me lá fóra a mim e mais a ti! +Não! quando elles entrarem, hão-de vir já encontrar-me cadaver! + +Disse, e levantando-se como quem tinha tomado uma resolução inabalavel, +perguntou: + +--O que resolves, Beatriz? Nas tuas mãos está a minha vida, a vida de +teu pae!... + +A joven, assim instada, sentiu-se vacillar. Vencida pelo tom humilde e +supplicante em que o pae se lhe dirigia, não tinha forças para recusar +abertamente. + +--Meu pae--balbuciou por fim--deixe-me ainda reflectir até amanhã. + +O usurario percebeu que levava o inimigo de vencida e não quiz abandonar +a victoria. + +--Amanhã será tarde--disse elle--A resposta tem de ser dada hoje ao +Belchior impreterivelmente, sob pena de amanhã os credores entrarem por +aqui dentro e levarem tudo. Resolve, pois. Eu não te quero forçar a um +casamento que te repugna. Bem reconheço mesmo que não tenho direito ao +teu sacrificio, porque eu não sou d'esses paes que andam sempre a +acarinhar as filhas, sem terem por ellas metade do amor que eu sinto por +ti... Tenho este genio assim... pareço severo, pareço um homem que não +sabe o que é amor de pae, mas o que o meu coração sente só eu é que o +sei!... + +Interrompeu-se para abafar os soluços e enxugar as lagrimas, que não +chorava, ao lenço tabaqueiro e proseguiu: + +--Paciencia! Tinha de ser assim... seja! + +E como a filha se conservasse silenciosa, pegou-lhe na mão, exclamando: + +--Adeus, Beatriz! Despede-te do teu pae, que o não tornas a vêr vivo! + +--Meu pae!--disse a pobre menina com a voz embargada na garganta pela +commoção--Pelo amor de Deus, não tome qualquer resolução desesperada sem +que eu falle primeiro com esse rapaz! + +--Com quem?--interrogou o sr. Custodio, fixando a filha. + +--Com esse... sr. Eugenio. + +--Queres fallar com elle para lhe dizeres que não? Dize-m'o antes a mim, +filha! + +--Não, meu pae. Desejo fallar com elle para ouvir de seus labios a +declaração de que me quer por mulher. + +--E casarás? + +--Casarei, se não houver outro remedio. + +O sr. Custodio, radiante, estreitou-a nos braços com frenesi. + +--Deus te abençôe, minha filha! Pódes dizer que salvaste teu pobre pae! +Vou mandar avisar o Belchior. + +E, beijando a filha na testa, sahiu quasi doido de contentamento. + + + + +IV + +Dois patifes + + +O procurador Belchior está no seu escriptorio, sentado á carteira, +conversando animadamente com um rapaz alto, pallido, elegantemente +vestido, de maneiras distinctas, e bastante desenvoltas, que +frequentemente o interrompe com uma gargalhada de intima satisfação. No +rosto d'este rapaz, que poderá contar, quando muito, vinte e quatro ou +vinte e cinco annos, ha os traços indeleveis do bohemio que passa a +mocidade entregue a toda a sorte de vicios e prazeres e para quem a vida +tem apenas uma difficuldade séria: arranjar dinheiro para gastar. + +Os olhos pretos, vivissimos e o sorriso zombeteiro que lhe baila +constantemente nos labios, meio disfarçado pelo bigode fino, lustroso e +petulantemente encaracolado nas guias, dão-lhe á physionomia uma +expressão velhaca que poria de sobreaviso um observador experimentado, +mas que ao sr. Belchior não parece inspirar a minima desconfiança. + +Este rapaz é Eugenio de Mello, o pretendente á mão de Beatriz. + +Ouçamos a conversa travada entre os dois, a vêr se por ella podemos +conhecer melhor o personagem com quem vamos travar conhecimento. + +--O velhote está enthusiasmado--diz o procurador--e o meu amigo apanha, +além de uma linda mulher, uma bôa maquia--uma maquia de se lhe tirar o +chapéo! + +--Pois é o que se quer--responde o outro--o que se quer é _massa_. +Quanto calcula você, amigo Belchior, que viremos a apanhar? + +--Homem, já lhe disse, ao certo não sei, porque o Custodio é manhoso... +Depois que foi roubado por um padre, não descobre a sua vida a ninguem. +Mas, pelos documentos que me teem passado pela mão, aquella besta deve +ter para mais de setenta contos. + +--Menos mau!--considerou o bohemio, piscando o olho.--Mas isso está +ainda tudo nas unhas do velho, que póde ter a má lembrança de não morrer +estes dez annnos mais chegados... + +--E os vinte contos que couberam á rapariga, no inventario por morte da +mãe?--accudiu o procurador.--Esses é que lhe passam já para as unhas +assim que o casamento se fizer... + +--Vinte contos... que diabo!--tirando-lhe as commissões, o que é que me +fica?--considerou o outro, encolhendo os hombros com desprezo. + +--Sim, que você agora tem mais!--contraveio o procurador +sarcasticamente.--Que diabo! vocês são todos assim! Quanto mais teem +mais querem! + +--Não é isso, amigo Belchior. É que eu penso e vejo as coisas como ellas +são... Afinal de contas, este negocio vem a ser bom mas é para você... + +--É bom para ambos! Ou você queria que eu trabalhasse de graça para lhe +encher os bolsos de dinheiro e ficasse a fazer cruzes na bocca? + +--Não, não queria... Mas vamos a saber: a pequena tem vinte contos?... + +--Para já. Mas a bolada maior ha-de-vir por morte do velho. + +--Não esperemos por sapatos de defuncto, e façamos calculos positivos. +Por agora e para já, realisado o casamento, podemos contar com vinte +contos, não é isso? + +--Perfeitamente. + +--Você quanto leva de commissão? + +--Trinta por cento, por sermos amigos. + +--Obrigado!--respondeu o bohemio zombeteiramente--trinta por cento sobre +vinte contos, são seis contos de réis... + +--Muito justos. + +--E venho eu a ficar só com quatorze!... + +--E acha pouco? Para quem não tem presentemente quatorze vintens, +parece-me que quatorze contos de mão beijada e uma mulher bôa, é +dinheiro... + +--Não ha duvida, é dinheiro... Mas tome você conta da mulher, dos +encargos de a sustentar, de a vestir, de lhe dar criadas, de a aturar e +de pagar aos meus crédores antigos, tudo por quatorze contos, e dê-me +para mim os seis que você recebe limpinhos e sêccos... Quer? + +O procurador fez uma carêta. + +--Você está a fazer-se de manto de sêda!--disse elle descontente.--Se +acha que é mau o partido, não o acceite, que não faltará quem lhe pegue. + +--O partido não é mau, mas não é tão bom como você me quer fazer +acreditar... + +--Com os diabos!--gritou o procurador arreliado.--E os setenta contos do +velho não é nada? Você acho que cuida que eu nasci hontem! Eu mettia-me +lá n'este negocio por seis contos de réis, se não fosse a certeza de vir +a apanhar mais, logo que o velho _estique o pernil_? Não que o meu tempo +é dinheiro e eu não ando a trabalhar para o bispo! + +--Bem sei--tornou o Mello--mas eu é que tambem não estou para perder a +minha liberdade e ficar toda a vida com o trambolho da mulher preso á +perna, a troco de quatorze contos que os crédores me hão-de vir buscar, +logo que saibam que tenho por onde pague... + +--Mas você póde arranjar uma coisa. + +--O que é? + +--Faça uma concordata com elles antes de casar... + +--Mas eu não sou commerciante, não posso lançar mão desses meios que são +privilegio do commercio honrado...--considerou epigrammaticamente o +estroina. + +--Agora não póde! Cace-lhes você o recibo em como estão pagos, e veremos +depois se elles lhe pedem alguma coisa. + +O Mello pareceu meditar. + +--Effectivamente, você tem razão... Se áquelles a quem devo seis pagasse +com dois, a coisa ainda não iria muito longe... + +--Menos a mim!--protestou o procurador--a mim é que você me ha-de pagar +tudo por inteiro. + +--Isso, comnosco, é outra coisa... Mas vamos a saber: como é que eu +hei-de propôr esse negocio aos meus crédores, se não tenho dinheiro para +liquidar de prompto antes de casar?. + +--Não lhe dê cuidado. Traga-me a lista dos crédores, que eu cá +arranjarei isso da melhor maneira... + +--Abona você o dinheiro? + +--Certamente. Você acceita-me letras na importancia do que eu pagar e +depois nós cá nos entenderemos. + +--Pois bem, arranje lá isso. + +--Ora agora--tornou o procurador--temos ainda uma questão a decidir... + +--Diga lá. + +--O velho está persuadido de que você é um homem riquissimo... Metti-lhe +essa _caraminhola_ em cabeça, porque, de outra forma, elle não lhe dava +a filha... + +--Bom! Que duvida ha? Dir-lhe-hei que sou rico... + +--A questão não é dizer-lh'o, a questão é provar-lh'o. Você não me disse +que ha um Eugenio de Mello no Alemtejo, possuidor de uma riqueza +immensa? + +--Disse e ha. + +--Bom. Pois então é pedir ao escrivão de fazenda respectivo uma certidão +das decimas e contribuições pagas por esse sujeito ao estado... + +--Para que? + +--Para que! É boa! Para podermos provar ao Custodio que você é um +importante proprietario do Alemtejo e que póde dar-lhe a filha, porque +não hão de faltar-lhe porcos nem cortiças para os netos. + +O bohemio soltou uma gargalhada. + +--Você é o diabo, Belchior!--disse elle. + +--E se for preciso provar que você tem quarenta ou cincoenta contos de +reis representados em letras, tambem se arranjam com _acceites_ valiosos +e de muito credito... + +--Como? + +--Tenho constituintes ricos que lhe acceitarão letras na importancia que +se quizer, acceitando-lhes você outras de igual importancia. +Comprehende? + +--Não comprehendo muito bem... + +--Expliquemos: eu acceito-lhe a você letras no valor de oitenta contos e +você, na mesma data, acceita-me letras d'igual importância. Você quer +_provar_ que possue oitenta contos e mostra essas letras acceites por +mim... Mas ellas realmente não valem nada, porque se você vier +recebel-as, eu apresento os seus _acceites_, que você tem igualmente de +me pagar, e portanto estamos quites... Percebe agora? + +--Agora, percebo! + +--Bem. Pois este é também um expediente de que podemos lançar mão quando +nos fôr preciso. Mas obra mais limpa é certamente essa da confusão dos +nomes, que nos permitte fazer a prova com um documento official... Em +que terra do Alemtejo existe esse tal Eugenio de Mello? + +--Em Borba. + +--Está muito bem! E então eu que conheço o escrivão de fazenda que lá +está agora. Vou já escrever-lhe, e na volta do correio temos cá a +certidão. + +--Olhe lá, não será conveniente eu amiudar as minhas visitas ao +Custodio? + +--Já lhe fallei n'isso a elle. Mas elle diz que por ora não... que o +deixemos primeiro resolver a filha a acceitar o casamento, e depois +fallaremos... + +--E essa delambidita porque é que me hade recusar Eu não valerei mais do +que o franganito que lhe anda a arrastar a aza?--disse o bohemio. + +--Mulheres, meu amigo! As mulheres são caprichosas... + +--E escolhem sempre o peor... + +--É a unica probabilidade que você tem a seu favor!--exclamou o +procurador rindo--Porque peor do que você, com franqueza, não conheço! + +--Obrigado, amigo Belchior! Você é muito modesto! + +Os dois patifes encararam-se e desataram a rir. + +--Ora agora--disse por fim o Mello--não se esqueça de que estou a +precisar de dinheiro. + +--Já? + +--Pudera! Este Porto é o diabo! Com os seus ares pacatos de terriola de +provincia, tem sorvedouros terriveis! + +--Mas ainda não ha oito dias que lhe dei duzentos mil reis. + +--E o que vem a ser isso para um homem relacionado como eu? Duzentos mil +réis gastam-se n'uma ceia com tres amigos e outras tantas mulheres... + +--Mas você, que diabo! está hospedado no _Francfort_, um hotel de +primeira, onde o tratamento é magnifico, não tem necessidade de comer +fóra... + +--Amigo Belchior, você sabe muito bem como o dinheiro se arranja, mas +não sabe como elle se gasta. Não falle, portanto, d'aquillo que não +sabe, e chegue-me cá mais duzentos mil reis, que é o essencial. + +--Assim, por esse andar, quando chegar o dia do casamento, já os haveres +da noiva estão espatifados... + +--Não diz você que temos ainda a reserva dos setenta contos do velho? + +--Sim, mas isso, como você considerou ha pouco, são sapatos de +defuncto... + +--Homem, haja os sapatos, que o defuncto arranja-se quando nos +convier... + +--Você seria capaz d'isso?--interrogou o procurador com um sorriso +indescriptivel de cynismo. + +--Nós somos capazes de muito mais--respondeu o Mello, frisando +intencionalmente a palavra _nós_. + +--Você é o diabo! Mas olhe lá, não se alargue muito, que eu agora estou +sem dinheiro... + +--Pois sem _massas_ não se faz nada! Você bem sabe, que sendo eu um rico +proprietario do Alemtejo, que faço quinze contos de cortiça de tres em +tres annos, afóra os porcos, não devo deixar de gastar em harmonia com +os meus rendimentos. As mulheres, aqui no Porto, não são de grande luxo, +mas comem como freiras e aquelle Palacio de Crystal e aquelle _Suisso_ +teem uma lista reduzida, mas cortante como uma navalha de barba! Além +d'isso, ha sempre uns amigos _depennados_, que se _encostam_ e que não +ficam baratos... + +--Mande-os trabalhar! Sucia de vadios!--aconselhou o Belchior, +indignado. + +--Bem digo eu! Você não sabe o que diz! Estes amigos são os comparsas da +grande comedia que eu preciso de representar. São elles os que fingem de +_povo_ e apregoam aos quatro ventos, pelas tubas da fama e das notas de +cinco mil réis que lhes empresto, a minha grandeza e opulencia de rico +proprietario. Que eu lhes negue o regabofe de uma ceia e a _pastilha_ +que me pedem emprestada no fim, porque a carteira lhes esqueceu em casa, +e ámanhã eu serei o pelintra, o intrujão que realmente sou, e toda a +gente saberá, até o Custodio, que eu não tenho nem cortiça, nem porcos, +nem sequer bolota para comer como elles... + +--Você tem razão!--disse o procurador--Mas, com os diabos, gaste menos. + +--Que gaste menos! Eu tenho até gasto mais, e decerto não chegaria o que +você me dá, se não tivesse tido umas noites de sorte á batota. Meu +amigo, todo o negocio requer capital para poder dar lucros... Este +negocio do casamento é bom, mas é preciso empatar capital... Eu sou o +socio d'industria; você é o socio capitalista: chegue-me cá as _massas_, +porque eu preciso de mostrar quem sou. + +--Deus nos livre! se mostra quem é, está o caldo entornado!--clamou o +procurador, levando as mãos á cabeça n'um gesto tragico. + +O Mello riu com vontade. + +--Você nasceu para mim, e eu nasci para você!--disse +elle.--Difficilmente se encontram e se juntam dois como nós. Ande, vá +buscar o dinheiro. + +O procurador levantou-se, foi ao cofre de ferro, ao canto do +escriptorio, contou duzentos mil réis em notas, e voltou com ellas e com +um livro na mão. + +--Ande! ponha aqui por sua mão que recebeu este dinheiro--disse. + +--Quanto? + +--Eu dou-lhe duzentos mil réis. Não foi isso o que você pediu? + +--Mas aqui no livro estão duzentos e cincoenta! + +--É isso. Os cincoenta mil réis são de juros. + +--Ladrão! Roubar ao inferno!--clamou o Mello em tom de amigavel censura. + +--E o risco? Você não tem onde cahir morto. Se este casamento se não +fizer, ou se a você o levar o diabo d'hoje para ámanhã, quem perde sou +eu! + +--Não leva, que eu sou cá preciso para animar as artes e as +industrias!--retorquiu risonho e senhor de si o bohemio. + +--O que me anima é que o gado ruim não tem perigo--disse Belchior +gracejando. + +O Mello assignou no livro a quantia indicada pelo procurador, metteu o +dinheiro ao bolso e preparou-se para sahir. + +--Você ande-me com o velho!--disse elle.--Não o deixe resfolegar, e elle +que obrigue a filha por geito ou por força a casar comigo. + +--Coitada da creatura! Ha-de ser feliz com um tal marido! + +--Eu lhe digo... póde ser que me apaixone por ella... Ás vezes o diabo, +quando lhe parece, faz das suas... + +--Quem! Você apaixonar-se? Se ella fosse uma dama de copas... talvez! + +--Eu supponho-a uma dama d'oiros... Já vê que a differença do naipe não +é tamanha como parece... + +Dizendo isto, o Mello saiu trauteando uma modinha, emquanto o Belchior, +rindo, arrumava o livro das suas contas com o bohemio. + +--Isto é que é um mariola!--murmurava o procurador satisfeito.--Não ha +dinheiro que lhe chegue... O jogo e as mulheres levam-lhe tudo... Ha-de +acabar mal este patife! + + + + +V + +Madre Paula + + +Na casa conventual das Sereias, vamos encontrar madre Paula, aquella +espirituosa e gentil abbadessa que os leitores da _Irmã Dorothêa_ +certamente não terão esquecido e com quem aquelles que porventura a não +conheçam d'ahi, acharão prazer em travar conhecimento. + +Formosa ainda, posto que um ou outro fio de prata ponha um signal de +velhice nos seus lindos cabellos pretos, a amiga de Helena de Noronha +não tem já aquella vivacidade traquina dos tempos em que a conhecemos. + +A sua conversa, porém, é ainda adoravel d'encanto pelas scintillações do +seu espirito gracioso e fino, que ás vezes se desata em torrentes de bom +humor que muito alegram o padre Filippe, de ha muitos annos seu unico e +constante director espiritual. + +Á hora a que vamos encontrál-a, está ella sentada em fofa poltrona, +escutando o padre Filippe, que acaba de chegar e que, ao que parece, +traz novidades importantes a communicar-lhe. + +A conversação intima entre os dois conserva ainda aquelle caracter +familiarmente carinhoso de duas almas que se comprehendem, de dois +corações que se amam e que se acham ligados pelos laços indestructiveis +da mais solida confiança. + +--Sabes, minha querida amiga?--disse-lhe o padre Filippe depois de a +beijar carinhosamente nas faces--tive hoje a visita do nosso Paulo, do +filho da irmã Dorothêa... + +--Sim? Esse ingrato ha muito tempo que aqui me não apparece! Senta-te e +conta-me: como está elle? + +--Physicamente, pareceu-me bom. Agora, quanto _á bóla_, o rapaz tem-n'a +um pouco transtornada... + +--O que! que dizes tu?--perguntou madre Paula com visivel +interesse--Notaste n'elle qualquer alteração? + +--Imagina tu, minha amiga, que me entra em casa com ares melodramáticos +e dispara-me esta pergunta com que eu não contava: «Diga-me, padre, quem +é meu pae?!» + +--Elle fez-te essa pergunta? + +--E queria por força que eu lhe dissesse de quem era filho e por que +razão se lhe occultava o segredo do seu nascimento. + +--Mas isso é extraordinario! Como se atreveu a perguntar-te semelhante +coisa? + +--Como se atreveu! A mocidade de hoje atreve-se a tudo. A educação livre +que lhe demos havia de produzir n'elle os naturaes resultados. Não nos +suppõe seus protectores, nem sequer lhe passa pela imaginação que tudo +quanto é o deve a nós. Julga-nos intermediarios, apenas, entre elle e os +paes, para o acto material de lhe entregarmos as mezadas e mais ou menos +inquirirmos do seu aproveitamento. N'estas circumstancias, comprehendes +que acanhamento algum podia ter em se me dirigir da maneira por que o +fez. + +--E o que lhe respondeste? Como satisfizeste á curiosidade d'essa +creança? + +--Comprehendes, minha amiga, que eu não podia senão tomar o partido de +me fingir tão ignorante como elle ácerca dos mysterios do seu +nascimento; e foi isso o que fiz. + +--Mas que motivo o levou a querer saber quem são os paes? + +--Achas estranho? Tambem eu estranhei uma tal pergunta, e por isso não o +quiz deixar partir sem indagar o que se passava de extraordinario +n'aquella alma juvenil... + +--E indagaste? + +--Indaguei e soube. + +--O que é, pois? + +--O nosso Paulo ama! + +--Ah! mau prenuncio! Cêdo começa esse pobre pequeno! + +--Que queres tu, minha Paula? Hoje as creanças passam cêdo a +considerar-se homens feitos, e a não guardarem para os trinta annos os +prazeres do coração, que lh'os reclama aos dezoito... + +--Isso é uma doença muito séria, a meu vêr, e que póde causar graves +prejuizos de futuro ao nosso protegido... + +--Ha doenças que em vez de matarem, salvam. Talvez esta seja uma +d'ellas... + +--Sempre optimista, sempre!--disse madre Paula com um sorriso de leve +censura.--Não creio que o nosso Paulo possa lucrar grande coisa com uma +affeição que certamente lhe ha-de preoccupar o espirito e desviar-lhe as +attenções do estudo para o objecto dos seus amores. A prova de que essa +paixão nascente, e de todo o ponto intempestiva, começa a produzir +perniciosos effeitos, é que já despertou n'elle o desejo de penetrar o +segredo do seu nascimento... + +--Isso tinha de succeder mais hoje ou mais amanhã--replicou o padre +Filippe--Não era natural que um espirito vivo e irrequieto como o de +Paulo se conservasse por muito tempo indifferente ao desejo de saber +quem são ou quem fôram seus paes... + +Madre Paula conservou-se silenciosa e meditativa por alguns instantes. + +--Creio que fizemos mal--disse ella--em dar a esse rapaz a educação +livre que os modernos philosophos preconisam... Uma creança entregue aos +imprudentes impulsos do seu coração juvenil, sem uma voz amiga que a +aconselhe, sem a presença de preceptor austero cuja voz auctorisada lhe +indique o caminho do dever, ha de necessariamente cahir no deploravel +desvario de Paulo. + +--Os homens formam-se na adversidade; o coração retempera-se nas +amarguras para as grandes luctas da vida--retorquiu o padre Filippe.--A +educação moralisadora de um preceptor austero corta os vôos ao espirito, +e perniciosamente contribue para deformar a indole e perverter o +caracter do um adolescente. A violencia imposta pelos preconceitos de +uma conducta regrada, sujeita a methodos e convenções oppostas ao sentir +individual, dá em resultado a falsificação de um caracter. O individuo +assim creado não é nunca um producto apreciavel da natureza, é o +producto artificial de uma odiosa tyrannia exercida sobre o seu +espirito. Não é mais um homem são--bom ou mau--é um hypocrita; isto é, +um aleijado que se arrasta miseravelmente deformado pela vida fóra, +tanto mais perigoso aos outros homens quanto aprendeu a occultar e a +disfarçar as suas intenções e os seus instinctos. Deixemos a este rapaz +ampla liberdade de manifestar a sua indole. Se é bôa, avigorada pela +liberdade da educação, ella bracejará frondescente como arvore de bons +fructos; se é má, não haveria destra mão de habil podador capaz de +extirpar a seiva ruim que a natureza lhe pôz na raiz. + +--Elle é filho do padre Anselmo!--disse madre Paula--e se herdou a +indole cruel, hypocrita e verdadeiramente sanguinaria do pae, com +certeza ha de ser um monstro temivel, de que a sociedade terá que +arrecear-se. + +--É tambem filho da irmã Dorothêa--atalhou o padre Filippe--e é possível +que haja herdado da mãe os sentimentos de singela bondade que a fizeram +cahir nas rêdes infernaes d'esse homem extraordinario que nunca mais +tornámos a vêr! + +--É um caso que ainda hoje não sei explicar, o desapparecimento subito +d'essas tres creaturas!--exclamou madre Paula.--Parece incrivel que até +hoje não tenhamos tido mais noticias do padre Anselmo nem da irmã +Dorothêa, nem ainda do padre Hilario! + +--Como sabes, minha amiga--ponderou o padre Filippe--nas congregações +jesuiticas, muda-se frequentamente de nome, e é esse até o processo +adoptado por muitos dos nossos irmãos e irmãs, para apagar os rastos +compremettedores da sua passagem por este ou por aquelle ponto. É, pois, +de presumir que o padre Anselmo, ascendendo aos logares superiores da +Companhia, julgasse conveniente adoptar outro nome, e, levando comsigo a +irmã Dorothêa e o padre Hilario, lhes impuzesse a mesma mudança, afim de +que ninguem mais pudesse seguir-lhes o rasto no amplo caminho das suas +grandezas... + +--Assim será. No emtanto, Helena é ingrata! Sabendo quanto eu a +estimava, sabendo que lhe salvei a vida e lhe dediquei sempre uma +amizade sincera de irmã, é imperdoavel o esquecimento a que me votou! + +--Minha querida amiga, a distancia enfraquece os affectos. Não ha peor +inigma da amizade do que é a ausencia. Depois, quem sabe? Talvez que o +padre Anselmo, hoje Provincial ou Assistente com outro nome, lhe +impozesse silencio como condição indispensavel de seus beneficios... + +--Oh! não! Custa-me a crêr que a irmã Dorothêa tranzigisse com esse +homem, que tão profundamente detestava agora! + +--Mas não dizes tu, minha querida, que ella amava o padre Hilario, o +joven filho do padre Anselmo, que desempenhava o cargo de capellão no +convento da Covilhã, de que ella era abbadessa? + +--Ella propria m'o confessou. + +--Nesse caso, o amor pelo filho venceu a natural repugnancia pelo pae, e +a esta hora temol-os juntos, n'algum convento do estrangeiro, felizes e +resignados como nós o estamos, cavando com verdadeiro enthusiasmo na +santa vinha do Senhor. + +--Se tudo se passou como suppões--ponderou madre Paula--se realmente o +padre Anselmo ascendeu aos mais altos cargos da Companhia e levou +comsigo o filho e a amante d'elle e do filho, é impossivel que a estas +horas Helena ignore quanto temos feito por esta creança que ella +cruelmente engeitou... + +--Decerto. Ella póde ter noticias nossas. Nós é que não as temos nem +podemos obtel-as d'ella... + +--Mas é ingrata!--repetiu ainda madre Paula.--Por quanto procederia eu +de igual modo para com ella, eu que tu accusavas de leviana, superficial +e inconstante nos meus affectos? + +--Minha querida amiga--volveu risonho o padre Filippe--eu sempre fiz +justiça ao teu coração; e se me queixava da tua cabeça, é porque era +ella a que vinha receber-me na ante-camara dos affectos sem me deixar +penetrar no sanctuario intimo do teu peito. E, para cumulo de desgraça, +succedia que eu nunca me encontrava alli sosinho; havia sempre na sala +commum das affeições triviaes dois ou tres frequentadores impertinentes +com quem me acotovelava e cuja presença me indispunha e fazia soffrer... + +--Sabes que foste sempre o preferido do meu coração! + +--Suspeitava-o. Não tinha, porém, a certeza. E essa duvida torturava-me. + +--E agora? + +--Agora, minha bôa e querida Paula, tambem eu me não queixo. Devo-te os +mais bellos momentos de toda a minha vida; devo-te os mais ardentes +prazeres da minha mocidade e as mais suaves consolações da minha +velhice. Bemdita sejas! + +E enlaçou-a nos braços, beijando-a com um ardor ainda não de todo +extincto n'aqueile organismo gasto pela edade. + +Madre Paula deixou-se enlaçar n'um suave e doce abandono, murmurando com +os olhos brilhantes e as faces purpureadas de prazer: + +--Agora, e de ha muito tempo, és tu o unico senhor absoluto de todo o +meu ser. Reinas e governas nos meus sentidos como no meu coração. Se me +faltasses, morria! + +--Se o amôr é a vida--tornou-lhe o padre Filippe--se é a grande lei +universal que rege todos os sêres; se o amôr é a suprema aspiração dos +novos, e ainda a unica força que ampara os velhos, como poderemos nós, +minha querida, impedir ou sequer estranhar que Paulo ame com todo o fôgo +do seu juvenil coração a mulher que o destino pôz no seu caminho? + +--Não é precisamente esse o meu desejo, mas tão sómente guiar e dirigir +esse pobre rapaz para que o desvairamento da paixão o não precipite nos +abysmos da desgraça irremediavel. + +--O coração apaixonado raro escuta os dictames da prudencia. Todavia, +talvez tu possas, minha amiga, com essa tua dôce voz persuasiva, influir +no espirito d'esse rapaz a deixar-se guiar pelos conselhos da +experiencia. Prometteu-me que viria procurar-te, e creio bem que virá. A +ti incumbe, pois, a difficil missão de dirigir os seus passos e vigiar +pelo seu futuro. Elle ama-te como filho e se não escutar a tua voz, +ninguem n'este mundo poderá fazer-se obedecer por elle. + +--Pois bem; se até amanhã aqui não apparecer, mandal-o-hei chamar e +ouvirei o que me diz. No emtanto, convém saber quem é a mulher que elle +ama, a que familia pertence, e no caso que a união dos dois não seja uma +d'estas inconsequencias absurdas que a razão repelle e as conveniencias +sociaes condemnam, espero que não duvidarás unir os teus esforços aos +meus para aplanarmos o caminho da felicidade a esse pobre rapaz. + +O padre Filippe sorriu. + +--Queres arvorar-me em casamenteiro á ultima hora!--acquiesceu +elle--Seja! Interroga-me esse rapaz, inquire e desvenda todos os +segredos da sua alma; e se te convenceres de que se trata de uma paixão +séria e não d'uma d'essas velleidades tão frequentes e tão perigosas na +adolescencia, faremos todo o possivel por lhe aplanar as difficuldades e +conduzil-o triumphante á realisação dos seus desejos. + +--Eu devo-lhe protecção e carinhos de mãe--disse ainda madre Paula--Não +posso esquecer-me de que fui cumplice, embora forçada, na grande +desgraça do seu nascimento. Essa creança é o fructo das milagrosas +apparições do Christo á desvairada Helena de Noronha. Se não fosse eu, +talvez que o padre Anselmo não realisasse a infame burla por esse +processo tão suave... A minha consciencia accusa-me, se bem que a +intenção com que procedi fosse mais humanitaria que criminosa. Eu quiz +poupar a essa desgraçada os horrores de uma desillusão brutal, de uma +violencia monstruosa como aquella de que foi victima a pequena Candida, +immolada no Sardão aos instinctos bestiaes do padre Anselmo. + +--Não recordemos, minha querida, esses horrores que a miseria da nossa +situação subalterna nos tem obrigado a presenciar e até a proteger com o +coração confrangido de dôr, com a alma revoltada de nojo. Vinguemo-nos +da crueldade da sorte praticando o bem espontaneamente, em desconto dos +males que temos sido forçados a fazer. Paulo é para todos os effeitos +nosso filho. Façamos por elle todos os sacrificios compativeis com a +nossa consciencia e com a nossa posição, e que Deus nos leve em conta o +bom desejo que temos de proceder sempre bem e de harmonia com os +dictames do nosso coração, que não é mau, mas que a fatalidade +acorrentou a uma vida de torpezas e de immoralidades. + +Despediu-se de madre Paula promettendo voltar no dia seguinte. + +A abbadessa, ao vêl-o partir, ficou immersa n'uma profunda tristeza. + +--É o unico que a alma negra da seita não perverteu de todo!--murmurou +ella.--Que adoravel esposo e que exemplar cidadão se não perdeu n'este +homem, que assim vae atravessando a vida amortalhado na sotaina da +hypocrisia que elle proprio odeia! Pobre amigo! morrerás como eu na dôr +e na saudade cruciante da liberdade que te roubaram! + + + + +VI + +Á hora da morte + + +Tres dias depois d'esta visita do padre Filippe a madre Paula, bateram +violentamente á porta do sacerdote, era uma hora da noite. + +O padre Filippe não se tinha ainda deitado. + +Muito dado á leitura de velhos classicos, o amante de madre Paula +passava grande parte da noute a folhear poeirentas chronicas e a fazer +annotações curiosas, no intuito de esclarecer varios pontos obscuros da +nossa historia que, como se sabe, ainda hoje offerecem duvidas aos mais +persistentes e lucidos investigadores. Ouvindo bater á porta com a +violencia propria de quem deseja ser ouvido o mais rapidamente possivel, +o padre Filippe levantou-se, marcou com um papel em branco a pagina em +que interrompia a leitura e veio á janella indagar quem batia. Á porta +estava uma mulher do povo, com um chaile pela cabeça para se resguardar +do frio cortante da noite. + +--É aqui que móra um senhor que é padre e que vae dizer todos os dias +missa aos Grillos?--perguntou ella. + +--É aqui. O que deseja? + +--É que está alli uma velhinha, que é minha visinha, a morrer, e a pobre +de Christo não faz senão pedir que lhe chamem um padre, porque se quer +confessar; e eu venho cá vêr se v. s.^a faz a esmola de a ouvir de +confissão... + +--Onde móra essa mulher? + +--Na rua da Senhora d'Agosto, meu senhor! É pertinho... é d'aqui a dois +passos, e se v. s.^a fizesse a esmola de vir comigo, chegava lá n'um +instante!... + +--Espere ahi, que eu desço já. + +Embrulhou-se n'um capote á hespanhola, pôz na cabeça o seu chapéo alto, +pegou da bengala, e pouco depois estava na rua. + +--Vamos lá!--disse elle. + +Encaminharam-se para a rua da Senhora d'Agosto, que fica a curta +distancia, nas proximidades do paço episcopal. A mulher que viera chamar +o padre Filippe caminhava apressada adiante d'elle, na ancia de chegar a +tempo com o soccorro espiritual que a moribunda reclamava. + +--Seja pelas almas!--lamuriava ella.--Está a pobresinha a appellidar por +um confessor desde o resto da tarde, que parece que nem póde morrer sem +se confessar, e não havia uma alma de Christo que se _arresolvesse_ a +vir chamar v. s.^a ou oitro qualquer que lhe deitasse a _assolvição_! + +--Não tem familia essa mulhersinha?--inquiriu o sacerdote. + +--Ella não tem ninguem, meu senhor! É velhinha como as serpes, e não tem +filhos nem parentes. Vive lá n'um quartinho, que uma visinha lhe alugou +por cinco tostões por mez, e dês que caiu emprégadinha, o que vale é a +gente ir olhando por ella, por caridade, senão morria p'rá alli, sem ter +quem lhe chegasse uma sêde _d'auga_! + +--Coitada!--lamentou o padre Filippe. + +--Mas que!--tornou a mulher--a gente _támem sêmos probes_... _támem_ +temos de olhar pela nossa vida, que, se a gente o não ganhar, ninguem +nol-o vem trazer... De sorte que a _probesinha_ tem passado muita +necessidade... + +--Logo que ella assim adoeceu, porque a não mandaram para o hospital? + +--No _isprital_, meu senhor, não na acceitaram, porque lá diz que não +curam a velhice... Nem ella queria... Eu ás vezes inda lhe _dezia_: «Ó +sr.^a Maria do Carmo, e se vocemecê pedisse a alguem p'ra vêr se a +_arrecolhiam_ no _Azylio_ das velhas?» Mas ella: «que não, e que não», +nem queria que lhe fallassem n'isso! + +Chegaram a um predio velho e sujo, de miseravel aspecto, com a porta da +rua escancarada. + +A mulher guiou o padre pelas profundezas escuras do portal, e chegando +ao fundo de uma estreita e perigosa escada, que dava accesso aos andares +superiores, gritou: + +--Ó sr.^a Izabelinha, _alumeie_, que vae aqui o sr. padre! + +No alto do terceiro andar, rangeu uma porta, sentiram-se uns chinellos a +arrastar, e na balaustrada do corrimão luziu a mortiça e fumarenta luz +d'uma candeia de petroleo. + +--É vocemecê, sr.^a _Barbora_?--perguntou uma voz lá do alto. + +--Sou eu, sou, alminha do Senhor! _Alumeie_, que não vá este senhor +cahir... + +A sr.^a Barbara investiu com a escada como quem de ha muito estava +familiarisada com os perigos d'aquelles desconjuntados degraus. + +E voltando-se para o padre Filippe: + +--É melhor v. s.^a agarrar-se ao corrimão, que não vá por ahi cahir e +partir alguma perna... Isto, quem não está costumado, nada mais _facel_ +do que aleijar-se... + +O padre Filippe já havia, por instincto, adoptado o expediente que a sua +cuidadosa guia lhe aconselhava. + +Segurando-se com a mão esquerda ao sujo e gordurento corrimão da escada, +e tacteando os degraus com os pés e com a bengala, revestira-se de +coragem e paciencia evangelica para realisar a difficil e arriscadissima +ascenção. + +Quando chegou ao alto do terceiro andar, onde uma velha esguedelhada, de +cabeça estopenta e candeia na mão o aguardava, o amante de madre Paula +parou offegante e cançado. + +--É cá muito em cima!--disse elle. + +--E as escadas são ruins _d'assobir_, meu senhor!--accrescentou a +velha.--Eu _támem_, quando venho de lá de baixo e chego cá arriba, fico +que, se me puzessem uma mão na bocca, arrebentava! + +--Onde está a doente?--interrogou por fim o padre Filippe. + +--Está aqui dentro, meu senhor... Ella está mesmo a _espedir_, +coitadinha! Já desde _honte_ que não lhe foi nada á bocca, e não faz +senão pedir _auga_... Parece que está mesmo abrasadinha lá por dentro! O +que aquella creatura me tem consummido p'ra lhe eu mandar chamar o +confessor! + +--E vocemecê porque não lhe satisfez a vontade? + +--Eu já mandei recado ao sr. padre Luiz, que v. s.^a ha de conhecer, mas +como a gente _semos probes_, fez á de conta que não era pressa e inda +_inté_ agora cá não appareceu... + +--É que vocemecês não lhe mandaram talvez dizer que se tratava de uma +pessoa em artigos de morte...--desculpou o padre Filippe.--Ora vamos +lá... vamos lá ouvir essa creatura de Deus... + +A velha, com a candeia lançando de si um enorme pennacho de fumo negro e +suffocante, allumiou o padre Filippe até ao escuro e fétido cubiculo +encravado no interior do misero pardieiro, que era um genuino +representante da miseria suja do Porto, a mais repellente e odiosa de +todas as miserias. + +Ha n'esta bella cidade trabalhadora virtudes excepcionaes de +honestidade, de honra, de civismo e de labôr persistente, que fariam o +orgulho de todos os povos do mundo. Os seus habitantes são generosos, +hospitaleiros, leaes, podendo servir de lição e exemplo a quantos se +presam de possuir em elevado grau estas raras e nobilissimas qualidades. +Mas a par d'isto, quantos defeitos de educação, deprimentes da dignidade +de um povo que podia e devia ser o primeiro a marchar na vanguarda da +civilisação do seu paiz! + +Nas ruas, as classes trabalhadoras apresentam-se, na sua grande maioria, +sujas, andrajosas, repellentes de immundicie, mãos e cara accusando uma +ignorancia absoluta do uso da agua, como se o trabalho persistente e +honesto precisasse d'estes ascorosos attestados da porcaria para se +fazer respeitar! + +Mulheres novas, bonitas como em nenhuma outra terra de Portugal, +percorrem as ruas, descalças, esmadrigadas, as repas soltas, estrelladas +de lendeas, e os pés e pernas nuas, batidas dos trapos sujos das +fraldas, escodeadas de lama! Uma miseria! Um horror! + +E todavia era tão facil mudar os gordurosos e sujos andrajos nas limpas +e asseiadas vestes da gente pobre que se lava! Uma pouca d'agua--e o rio +Souza, e os poços dos quintaes e os ribeiros dos arrabaldes offerecem +tanta!--e dez reis de sabão bastavam! + +É talvez esta, a diffusão das ideias de limpeza nas classes proletarias, +uma das mais sympathicas e civilisadoras missões que estão reservadas á +imprensa periodica dos nossos dias. + +Os jornaes populares, os jornaes baratos, que levam tantas doutrinas +salutares e tantas noticias perniciosas ás classes humildes, que por +elles se guiam e norteiam,--quando se não desnorteiam--não poderiam, com +um bocadinho de boa vontade e persistencia, encetar efficazmente a +propaganda da limpeza publica e particular dos cidadãos como base +primaria de toda a hygiene social e moral? + +Valha-me Deus! Pois não ia eu agora descambando da facil e comesinha +acção do romance para as considerações sabias e profundas de um sabio e +profundo auctor de originaes opusculos? + +Desculpe-me o leitor a divagação e acompanhemos, visto que não ha outro +remedio, o padre Filippe através dos corredores defumados e mal +cheirosos, resumando das paredes e do soalho podridão e esterco, até ao +humilde grabato em que arqueja agonisante uma octogenaria, quasi uma +mumia, enterrada sob um montão de farrapos. + +É a sr.^a Maria do Carmo. + +Ao vêr entrar o padre Filippe, a moribunda voltou para elle os olhos, em +que perpassou um lampejo de alegria, e disse com voz debil e quasi +extincta: + +--Graças a Deus! Não morrerei sem que v. s.^a me ouça de confissão! + +O padre Filippe aproximou-se do leito e contemplou, á luz de uma candeia +de azeite, espetada na parede, do lado da cabeceira, o rosto enrugado e +magro da pobre creatura. + +--Então deseja reconciliar-se com Deus, não é verdade, minha irmã? + +--Sim... sim, meu padre!.. Quero confessar-me... A morte avisinha-se e +eu quero... preciso de alliviar a minha consciencia do peso de... +peccados que não sei se Deus m'os perdorá!--balbuciou a enferma, com voz +entrecortada e de cada vez mais debil. + +--Deus é infinitamente bom, infinitamente misericordioso--aquietou o +padre Filippe--e está sempre prompto a perdoar á creatura que, humilde e +contrita, sente na alma o arrependimento da culpa e para ella implora o +divino perdão! + +Puxou uma cadeira de pau de pinho, sentou-se á cabeceira do leito e, +fazendo signal ás duas mulheres que o conduziram para que o deixassem a +sós com a enferma, continuou: + +--Aqui estou, pois, minha irmã, para ouvir em nome de Deus, cujo humilde +ministro sou, as vozes do seu arrependimento e absolvel-a... De que se +accusa? + +A velha relanceou para elle os olhos afflictos, em que se lia o pavor do +inferno, e principiou com voz lenta e abafada a seguinte narrativa: + +--Eu sempre fui muito religiosa e devota... Ia todos os dias ouvir missa +e confessar-me, e Deus ajudava-me sempre com a sua divina graça, porque +desde que comecei a andar pelas casas do Senhor, nunca me faltou nada, e +havia muitas almas bôas que me soccorriam, compadecidas da minha +pobreza... + +--Ahi tem, pois, uma prova de que Deus não recusa nunca o seu divino +amparo áquelles que na sua infinita misericordia depositam inteira fé e +confiança... + +--Os srs. padres dos Grillos e os srs. padres de S. Bento da Victoria +conheciam-me todos... e faziam o favor e esmola... de serem muito meus +amigos... + +--É porque reconheciam em vocemecê verdadeira devoção e temor de Deus... + +--Lá isso... eu na egreja... portei-me sempre com muito respeito... E +até quando via certas beatas fingidas--Deus me perdôe!--a fazerem da +casa do Senhor logar de recreio e de pouca vergonha... sentia um peso na +consciencia e ia-me logo confessar d'isso, como se fosse eu que tivesse +commettido o peccado... E aonde não chegava mandava... que era para +ellas terem vergonha! + +O padre Filippe sorriu indulgente: + +--E é talvez d'esse excesso de zelo, em verdade pouco edificante aos +olhos do Altissimo, que se arrepende agora e quer pedir perdão a Deus? +Tem razão, minha irmã! A moral do evangelho, a religião santa do +Crucificado manda que perdoemos as faltas e fraquezas do proximo e não +façamos d'ellas objecto de escandalo e de aggravo, com perda e offensa +da reputação d'aquelles que peccaram... + +--Não é d'isso que eu me accuso, meu padre!--accudiu a velha reanimada +um pouco pelo prazer da confissão--Isso até os meus santos padres +confessores me diziam que fazia muito bem... e pediam-me que os avisasse +de tudo o que visse e ouvisse, que era para elles não andarem a ser +enganados... e saberem quem tinha religião e quem não tinha... + +O padre Filippe dissimulou um gesto de repulsão e de enfado, e +perguntou: + +--De que é então que se accusa, minha irmã? + +--Eu... de mim... não me accuso de nada, meu santo padre! Eu... o que +fiz... foi sempre com os olhos em Deus... e tudo para bem da santa +religião... + +--Pois se não tem de se accusar de faltas proprias, as dos seus +semelhantes tambem não são as que hão-de fazer-lhe carga aos olhos do +Altissimo, se para ellas não concorreu nem estava na sua mão +impedil-as... Portanto, como onde não ha culpa não ha perdão, eu nada +tenho de que absolvêl-a... Feliz de quem póde como vocemecê apparecer no +tribunal divino com a alma limpa de macula. + +Dizendo isto, o padre Filippe, entediado, ia a levantar-se para sahir, +quando a velha, estendendo para elle as mãos convulsas, bradou com +indizivel accento de pavôr: + +--Pelo amor de Deus! Pelas cinco chagas de Christo, meu padre, ouça-me! +Ouça-me que eu quero... confessar-me!... + +--Pois o que tem vocemecê estado a fazer, senão a confessar-se, creatura +de Deus? + +--Como v. s.^a ainda me não perguntou nada... + +--Nada tenho que perguntar-lhe, minha irmã... Vocemecê consulta a sua +consciencia, e se n'ella encontra escrupulo ou duvida de falta +commettida, confessa-a sinceramente e d'ella pede perdão a Deus, em nome +de quem eu a estou escutando... + +A velha revolveu-se arquejante nos trapos e disse em voz sumida: + +--É que eu... criei como se fosse meu filho uma creança... que era +filha... de um padre e d'uma mulher casada... + +--E vocemecê concorreu d'algum modo para que esse padre e essa mulher +casada incorressem na falta que originou o nascimento d'essa creança? + +--Não, meu senhor! Eu conhecia o sr. padre Anselmo de me confessar a +elle, na egreja de S. Bento, no tempo do sr. padre Couto, que era um +santo... + +--Só Deus sabe quem é santo!--murmurou o padre Filippe, surprehendido ao +ouvir fallar no padre Anselmo. + +--E vae depois, um dia, o sr. padre Anselmo chamou-me a Braga para eu +tomar conta d'aquella creança debaixo de todo o segredo... Eu, como lhe +devia muitas obrigações, trouxe-a e tratei a creança como minha... E o +sr. padre Anselmo é que pagava as despezas... + +--Que nome tinha essa creança?--perguntou o padre Filippe, agora +interessado na estranha narrativa da velha. + +--Chamava-se Hilario, meu senhor... + +--Esse rapaz ordenou-se e é ecclesiastico--disse o padre Filippe. + +--V. s.^a conhece-o? Sabe d'elle? Onde está?--perguntou a velha. + +--Conheci-o, em tempo, capellão da casa conventual das irmãs Dorothêas, +na Covilhã... + +--É esse mesmo! É esse mesmo!--bradou a velha--E onde está agora? + +--Ha muitos annos que o não vejo nem ouço fallar n'elle... Supponho que +talvez haja partido para as missões ultramarinas ou viva em alguma casa +religiosa do estrangeiro... + +--Oh! não... não! Mataram-n'o... mataram-n'o! + +--Quem? Quem suppõe vocemecê que pudesse ter interesse na morte d'esse +obscuro sacerdote?... + +--O mesmo que lhe matou a mãe... a D. Carlota... + +E a velha juntou as mãos n'uma visivel angustia, murmurando: + +--Meu Deus! meu Deus! e eu que o podia ter salvo... o meu pobre Hilario, +coitadinho! + +E pelas faces resequidas rolavam-lhe lagrimas em fio. + +--Socegue, minha irmã, que o padre Hilario não foi victima de nenhum +attentado como suppõe--disse o padre Filippe--A morte de um sacerdote +não é coisa que passe despercebida na sociedade, mormente se essa morte +é resultante de um crime. Ora eu não me recordo de ter lido a noticia do +fallecimento do padre Hilario nos jornaes portuguezes e estrangeiros que +leio todos os dias. + +--Deus Nosso Senhor permitia que elle viva ainda!--murmurou +afflictivamente Maria do Carmo. + +--Vive decerto--affirmou o padre Filippe, no intuito de serenar a +doente. + +--Mas então porque não me escreve elle ha tantos annos? Eu que o criei +com tanto amor... eu a quem elle chamava mãe... + +--Julgará que vocemecê já não é viva... + +--Não... não!--tornou a velha--Mataram-n'o para o roubar!... + +O padre Filippe, suspeitando um tenebroso mysterio nas palavras da velha +beata, perguntou: + +--Como póde vocemecê ter semelhante suspeita? Pareceu-me ouvir-lhe ha +pouco que a mãe d'esse rapaz foi assassinada... + +--Foi... foi... + +--Matou-a o marido, sabedor de que ella o atraiçoava? + +--Não... o marido não... Foi o outro... o proprio amante... + +--Quem? + +--O padre Anselmo! + +--O padre Anselmo!--disse o padre Filippe com espanto. + +--Foi em Lisboa...--continuou a velha enferma--D. Carlota, a mãe do meu +Hilario... separada do marido, um tal Custodio, de Braga, tinha feito +testamento, deixando-me todos os haveres, para eu fazer entrega d'elles +ao filho... + +--E entregou-os? + +A velha revolveu-se afflicta nos farrapos do leito. + +--Não... porque o sr. padre Anselmo fez-me assignar um papel de divida a +um homem... um tal João Ignacio, da rua de S. Sebastião, que me levou +tudo, tudo! + +O padre Filippe esforçava-se por comprehender a confusa narrativa da +velha. + +--Mas como diz vocemecê que o padre Anselmo matou a mãe do proprio filho +d'elle? + +--Foi em Lisboa... Elle levou-a para lá a ella e mais a mim, promettendo +a ambas que o nosso Hilario iria lá ter comnosco, para vivermos todos +juntos... Depois, elle... uma noite... foi tomar o chá no quarto da D. +Carlota e... envenenou-a! + +Aqui a velha esbracejou mais afflicta, evidentemente torturada pela +recordação d'aquelle crime. + +--Como o soube?--interrogou o padre Filippe. + +--Eu vi n'essa noite a D. Carlota levar para o quarto d'ella o bule do +chá com duas chávenas... Desconfiei e fui espreitar á porta do quarto... +Presenceei tudo... Ella a queixar-se do veneno e elle... a dizer-lhe que +a matava por ella lhe faltar á obediencia... Depois, no outro dia, veio +a justiça e achou um bilhete que, não sei como foi, o sr. padre Anselmo +tinha arranjado em nome d'ella, a dizer que se matou por causa do +marido... + +--E vocemecê calou-se com o conhecimento d'esse crime? + +--Eu.. tive mêdo que elle me fizesse o mesmo a mim, e calei-me... + +--Nem mesmo contou ao padre Hilario o que presenceou? + +--Eu nunca mais o tornei a vêr... O sr. padre Anselmo disse-me que ia +ter com elle á Covilhã e nunca mais vi um nem o outro... Por isso eu +digo que elle o foi matar!... + +A velha suspirou afflictivamente. Depois, continuou: + +--Quando eu voltei para o Porto, o João Ignacio veio cá com os da +justiça e tomou conta de tudo o que era da sr.^a D. Carlota... Acho eu +que tomou conta, porque a mim não me chegou nada ás mãos... + +--E quem era esse João Ignacio? + +--Era o maior amigo do sr. padre Anselmo... + +--Sabe se elle ainda vive? + +--Ouvi dizer que endoideceu e que o metteram no hospital dos doidos... +Foi bem feito! Foi o castigo de Deus!... + +--Como conheceu vocemecê a D. Carlota? Foi em Braga, quando tomou conta +da creança? + +--Nada! Ella nunca viu o filho... e eu só a conheci quando o sr. padre +Anselmo a _trouve_ p'rás Sereias e depois a levou p'ra Lisboa +enganada... E como ella sabia que fui eu a que creou o Hilario... era +muito minha amiga... e fez-me o testamento p'ra eu deixar tudo ao +pequeno... Até me deu uma carta muito grande p'ra eu lhe entregar só +depois d'ella morrer... Porque ella não queria que o Hilario soubesse +que era filho d'ella... + +--E o que fez a essa carta? Entregou-a ao padre Anselmo? + +--Essa carta...--fez a velha--tenho-a aqui... guardada... como ella m'a +deu... Nunca mais tornei a vêr o meu Hilario... nunca lh'a pude +entregar... + +Nos olhos do padre Filippe luziu um raio de curiosidade. + +--É por isso...--proseguiu a velha--que eu me queria confessar a quem +contasse isto... e confiasse esta carta... para a entregar ao meu +Hilario... se elle algum dia apparecer vivo... + +Dizendo isto, a velha introduziu a mão descarnada e tremula debaixo do +travesseiro e tirou de lá uma sacca de chita, surrada do attrito das +mãos e dos farrapos, e apresentando-a ao padre Filippe, disse com a voz +estrangulada pelo esforço: + +--Aqui está a carta e mais um dinheirinho que eu fui ajuntando das +esmolas dos bemfeitores para lhe dar a elle... se um dia apparecesse... +Tome v. s.^a conta de tudo, e se elle fôr vivo... entregue-lh'o... Se +elle tiver morrido... diga-o de missas por minha alma... + +--Não tem filhos, vocemecê?--perguntou o padre Filippe, acceitando com +repugnancia o thesouro da velha e sem mesmo verificar a quanto montava. + +--Tenho... Mas esses... estão arrumados... Nunca quizeram saber de +mim... Mil contos que eu tivesse... haviam de ser todos para o meu +Hilario... coitadinho! + +--Não seria melhor distribuir pelos seus filhos este dinheiro, de que o +padre Hilario talvez não precise? + +--Não! Não! exclamou a velha anciadamente, arregalando os olhos, onde a +vida começava a extinguir-se. Se elle não apparecer... missas pela minha +alma!... Esse dinheiro... deu-m'o a religião... para a religião torna! +São tres centos de libras... Tres centos! + +--Está bem! Socegue. A sua vontade será cumprida--aquietou o padre +Filippe. + +--Graças a Deus! Morro descançada... E agora, meu padre... deite-me a +sua absolvição... para que Deus me perdôe! + +O padre murmurou em latim as palavras da absolvição. + +--E elle... se fôr vivo... que se acautele do padre Anselmo... que não +lhe mostre esse dinheiro... O padre Anselmo é pae d'elle... mas +envenenou-lhe a mãe... para o roubar!...--murmurou ainda a velha, +deixando descair a cabeça no travesseiro e entrando logo na agonia +ultima. + +O padre Filippe, impressionadissimo com as revelações que ouvira dos +labios da moribunda, guardou no bolso o legado da velha e sahiu do +lobrego cubiculo em que aquella vida se extinguia. + +Chegado ao patamar, respirou com força e disse para a outra velha que o +aguardava com a fumarenta candeia de petroleo na mão. + +--Essa pobre mulhersinha está agonisante. Logo que ella expire dê-me +parte, porque o enterro fica por minha conta. + +--Sim, meu senhor!--disse a velha--Não seria bom dar-lhe ao menos a +Santa Uncção, já que não póde tomar o Senhor? + +--É tarde--respondeu o padre Filippe--Quando cá chegasse esse ultimo +soccorro espiritual, encontraria um cadaver. + +--Seja pelas almas!--lamuriou a velha--Não _sêmos_ nada n'este mundo! + +--Somos realmente bem pouco, quando presumimos ser tanto!--concordou +philosophicamente o sacerdote--Vocemecê faria uma obra de caridade, indo +assistir aos ultimos momentos d'aquella desgraçada... + +--Sim, meu senhor... eu vou--concedeu a velha. + +Padre Filippe, voltando-se para a mulher que o fôra chamar e que tambem +viera ao patamar n'uma curiosidade agradecida, pediu: + +--E vocemecê, santinha, não poderia fazer-me o favor de me alumiar até +ao fundo da escada, que é tão cheia de precipicios para a minha idade? + +--Eu vou, meu senhor... Então não hei-de ir? + +E tirando da mão da outra a candeia: + +--Vá vocemecê pró par da creaturinha de Deus, emquanto eu _alumeio_ ó +sr. padre... + +A velha cedeu a luz e retirou para o interior, resmungando: + +--Estes _carólas_ do inferno, em não sentindo dinheiro a uma creatura, +põem-se logo a _avoar_ e dizem aos oitros que se _aguantem_ co'as +massadas... Se lhe cheirasse a que lhe untavam as unhas no fim, punha-se +ahi a alanzoar os officios da agonia e não arredava d'aqui pé emquanto +ella não fechasse o olho... Assim, vae a correr metter-se no _quente_ e +tanto se lhe dá que a _probesinha_ de Christo vá p'ró céo como que vá +p'ró inferno! + +O padre Filippe, alumiado pela outra visinha, chegara ao fundo da +terrivel escada com as costellas direitas. + +--V. s.^a quer que o vá acompanhar _inté_ casa?--offereceu a mulher. + +--Não, não é preciso... D'aqui até lá é perto e não ha escadas a subir +nem a descer. Amanhã procure-me para se comprar um caixão á pobre +creatura. Boa noute! + +--Vá v. s.^a na graça de Deus, meu senhor! + + + + +VII + +Tres miseraveis + + +Depois da scena que representou com a filha, o Custodio de Jesus correu +a procurar o seu amigo Belchior. + +O agiota ia radiante de satisfação. + +--Beatriz--disse elle ao procurador--está no caminho! + +--No caminho de quê? + +--No caminho de acceitar o casamento com o Eugenio de Mello. + +--Sério? + +--Homem, digo-lh'o eu! A principio recusou, fez cara feia, e ia-me +fazendo sahir fóra dos eixos, porque eu não sou para graças... Mas +depois... + +--Conseguiu intimidal-a? + +--Isso sim! Aquella sonsinha que você alli vê tem figados! Ameacei-a com +as irmãs da caridade para toda a vida, e ella teve a pouca vergonha de +me dizer que podia matal-a, mas que não podia fazer com que ella fosse á +egreja dizer o _sim_!... + +--É o que eu digo! O outro rapaselho deu-lhe volta ao juizo, e as +mulheres são assim... são peores que cabras... Em encarreirando para um +lado, não ha diabo que as faça voltar para trás! + +--Mas consegui eu que ella voltasse... + +--Como? + +--Com bons modos... Você, afinal, foi quem me ensinou o segredo... Mas +eu tambem discorri alguma coisa... Comecei a amacial-a, a dizer-lhe que +se desejava que ella acceitasse o casamento era para interesse d'ella, +porque eu estava pobre, estava desgraçado, tudo quanto tinha já não +chegava para pagar aos credores, e portanto que só havia a escolher: ou +casar ella com Eugenio de Mello ou dar eu um tiro nos miolos e arrumar +com isto por uma vez. Chorei, que se você visse até se admirava! + +--E afinal? + +--Afinal, ella, que estava de pedra e cal, a dizer que não e que não, +poz-se a considerar um bocado e por fim disse-me que queria fallar com o +noivo... + +--Com o Eugenio de Mello? + +--Pois então com quem? Quem é o noivo? + +--O noivo é aquelle com quem ella estiver para se casar... + +--Bem! pois esse é o Eugenio de Mello. Não se trata de outro. + +--Que diabo lhe quererá ella?--commentou o procurador. + +--Ora o que ha de querer? Quer que elle lhe diga que lhe tem muito amor, +que está a morrer de paixão por ella, que não sonha com outra coisa +senão com o momento ditoso, _et coetera_... coisas que todas as +raparigas gostam de ouvir aos namorados. + +O Belchior pôz-se a rir. + +--Vá lá a gente fiar-se em mulheres!--disse elle.--Muito amor ao outro, +capaz de se deixar matar antes que trahir a fé jurada; mas assim que lhe +cheirou a que o negocio era de _cobres_ e que sem elles não teria mais +vestidos, nem mais luxo nem mais commodidades,--venha de lá o _homem da +massa_ e atire-se com o querido do coração ás ortigas! Ah! mulheres, +mulheres! quem não as conhecer que se fie n'ellas!... + +--Pois por eu saber isso--retorquiu o Custodio--por ter a experiencia de +que não ha amor que resista á perspectiva da miseria, é que eu me +lembrei de inventar esta historia, que ha de dar bom resultado... Agora +elle que lhe _cante_ umas cantiguinhas bem cantadas... que lhe falle +d'amor, de paixão e de todas essas frioleiras que as raparigas apreciam, +e d'aqui a dois dias, diabos me levem se ella pensa mais no outro! + +--Quando entende você que deve ir fallar-lhe o Eugenio? + +--O mais depressa possivel. N'estas coisas nunca ha tempo a perder... + +--Está bem. N'esse caso, vou lá hoje á noite com elle tomar o chá... + +--Sim senhor! E passaremos uma noite bem passada... A pequena toca +piano, você gaba-lhe a habilidade para a musica, o rapaz rende-lhe +finezas, e ás duas por tres a rapariga está ensarilhada, e não terá +remedio senão dizer que sim. + +--Vou então mandar prevenir o rapaz. Foi o diabo você não vir mais cêdo, +porque elle ainda ha bocado sahiu d'aqui... Veio cá para eu lhe adiantar +um dinheiro sobre o arrendamento de uma quinta que de dois em dois annos +rende seis contos de réis, só em cortiça! É um doidivanas... Não sabe o +que tem de seu e anda sempre a _pillar_ por dinheiro! + +--Afinal--considerou o Custodio de Jesus--este casamento até é uma +providencia para elle... Porque se nós não lhe puzessemos uma tutella, +por esse andar ainda vinha a dar n'um pobre de pedir... + +O Belchior disfarçou um sorriso velhaco. + +--Quem duvida que é uma obra de caridade casal-o e tomar-lhe conta dos +haveres? Mas é preciso que você saiba, amigo Custodio, que eu é que fico +em peores lençoes... + +--Porque? + +--Porque este diabo é maluco, e depois, quando você e sua filha lhe +moverem um processo de interdicção, quem paga as favas sou eu... Contra +mim é que elle se ha-de voltar, a dizer que lhe armei esta ratoeira de +proposito para lhe apanharem a fortuna... + +--E a você que se lhe dá? A sua consciencia diz-lhe que praticou uma +acção bôa... que importa lá que elle grite? + +--Pois sim, mas a minha consciencia tambem me diz que eu escuso de me +metter em _alhadas_ sem interesse, e que se elle, por fim, como é +maluco, me quebrar a cabeça, é bem feito... Portanto, logo que este +casamento esteja combinado, nós temos um pequeno negociosinho a fazer... + +--Que negocio?--interrogou o Custodio franzindo o sobr'olho. + +--Que diabo! É justo que eu leve rasca na assudura... Eu pratico uma +acção bôa... bôa para si e bôa para elle... Parece que tambem não será +fóra de razão que a pratique bôa para mim... + +--Mas o que é então que você quer dizer com isso?--tornou o Custodio +desconfiado. + +--Quero dizer que o negocio é negocio, e que se eu lhe metto a você para +cima de noventa contos de reis no bolso, é de justiça que leve n'isso +uma pequena commissão... + +--Uma commissão! Mas que commissão quer você? + +O Belchior sorriu: + +--Socegue! eu não sou d'aquelles que comem a sardinha e deixam para os +outros só a espinha... Ahi uns _dezitos_ por cento sobre a fortuna do +rapaz, não é coisa que empobreça ninguem... + +--Dez por cento! Você está doido!--exclamou o Custodio de Jesus, fazendo +uma careta terrivel--Dez por cento sobre noventa contos, atirava lá para +nove contos. Isso era melhor do que fazer meia! + +--É... é melhor do que fazer meia... E oitenta contos por uma filha que +está em vesperas de casar com um rapaz que não tem de seu oitenta reis, +o que é? É barro! + +--Não que eu não a deixo casar senão á minha vontade!--barafustou o +Custodio. + +O Belchior teve um sorriso desdenhoso. + +--Você não a deixa casar senão com quem muito bem entender, e ella não +casará senão com quem muito bem quizer--replicou por fim.--Mas o nosso +caso é muito outro, amigo Custodio... Se você arranjar o casamento da +pequena com outro rapaz, sem ser por minha intervenção, ainda que o +noivo tenha mil contos de reis, descance, que eu não vou lá metter-me no +negocio nem reclamar para mim a mais insignificante parte nos lucros... +Ora agora, fazendo-se o casamento com o Eugenio de Mello, e sendo eu o +principal agente d'este negocio que lhe mette a você para cima de +noventa contos no bolso, tenha paciencia, mas a minha commissão é justo +que se pague... + +--Com os diabos! eu ainda lhe não disse a você que queria o seu trabalho +de graça!--prorompeu o Custodio.--Mas é preciso ter consciencia... é +preciso que você não queira a melhor parte para si... + +--A melhor parte! Então nove contos de reis é a melhor parte de noventa? + +--Limpinhos e sêccos, sem mais incommodos, sem ter que aturar a noiva a +choramigar e sem ter que andar ás testilhas com o noivo para o fazer +entrar na ordem, acha você que não é nada! + +--E a minha responsabilidade? E ter depois de me haver com o rapaz, que +é um touro de força, e que, se lhe der na cabeça, é muito capaz de me +lançar as culpas de tudo e quebrar-me as costellas? Isso não representa +nada, não?! + +--Se elle fizer isso, você arma-lhe um processo... Tem a justiça de +casa, fica-lhe barato... + +--Mas o corpo é meu, e depois de eu as cá ter, do lombo é que ninguem +m'as tira!--berrou o procurador.--Homem, é preciso que você veja que +isto é negocio muito arriscado para mim... E eu metter-me em folias, sem +ao menos ter garantidos os pontos que depois hei-de levar nas feridas... +não me serve! + +E n'um repellão: + +--Então acabemos com isto, não se falla mais em tal e você case lá a +pequena com quem quizer. + +O Custodio amaciou um pouco. + +--Ora venha cá...--disse elle.--Você sempre tem um demonio d'um genio! + +--Mas pela razão!... pela razão é que eu tenho genio!--contestou o +Belchior.--Você, se fosse outro, dava o valôr ás coisas e não estava a +fazer questão de uma miseria... Demais a mais, sabendo que eu entro +n'isto por ser seu amigo... + +--Bem sei, Belchior, bem sei que você é meu amigo; e por isso mesmo é +que eu esperava que você fosse mais rasoavel... + +O procurador descarregou violento murro sobre a escrivaninha. + +--Mais rasoavel!--exclamou elle.--Póde-se ser mais rasoavel do que isto? +Você, que empresta dinheiro a vinte e a trinta por cento, acha caro +noventa contos de reis comprados a troco de nove?! + +--Pois sim, mas isso não é dá cá, toma lá... O dinheiro é do rapaz e +elle é que continua sendo senhor d'elle... + +--Não me venha com cantigas! Eu já lhe disse a você como é que as coisas +se arranjam... Mas se acha que é prejudicado ou que o negocio não vale a +pena, eu lavo d'ahi as minhas mãos e arranje você casamento melhor para +a pequena. + +Era a segunda vez que o Belchior ameaçava desmanchar o negocio. O +Custodio de Jesus tremeu com a ideia de que o procurador tivesse já +posto a mira n'outra noiva para o seu cliente. + +--Homem!--disse elle--a gente não está aqui a jogar facadas. Nem você +quer o meu prejuizo nem eu o seu... Você faz um abatimentosinho... fica +a coisa reduzida a seis por cento... + +--Sete tenho eu quem me dê!--volveu o procurador.--E é porque eu não +quiz entrar em transacção, senão a coisa chegava aos oito. Mas a mim +aborrece-me regatear... Isto não é negocio de cebolas. Disse que hão de +ser dez, e hão de ser dez, ou o rapaz não casa no Porto. Então dou um +passeio com elle até Lisboa, e você verá como até apanho lá uma +viscondessa para elle. Aquillo é que é terra! Aquillo sim! Ali dá-se +valôr ao dinheiro e ao trabalho de cada um... + +--Bom! Você é teimoso... tambem não quero que diga que, sendo eu seu +amigo, estou a fazer questão por pouca coisa... Está tratado. + +--Ora até que, emfim, chegou-se á razão!--disse o procurador, como quem +se alliviava d'um grande peso--Eu bem sabia que você não deixava fugir o +bôlo, ainda que tivesse de partir um bocado maior para mim... Mas eu não +gosto d'abusar com os amigos... + +--Vamos lá!--suspirou o Custodio.--Para amigos, você carregou um +bocadito na mão... Mas acabou-se! Está tratado, está tratado. Não volto +com a palavra atrás. + +--Sim, senhor!--tornou o Belchior.--Ora agora temos a regular a forma do +contracto... Eu recebo os nove contos no dia do casamento, antes dos +noivos irem para a egreja... + +--O que! Então você põe-me assim as facas ao peito?!--exclamou o +Custodio de Jesus muito admirado. + +--Homem, negocio é negocio. Eu comprometto-me a levar o noivo até sua +casa no dia do casamento, sem escripturas, para a noiva poder entrar na +meação dos bens que elle possa possuir. Feito isto, o dinheiro que eu +ganhei é meu, você passa-m'o para a mão e estamos quites. Pois como +queria você? + +--Isso não podia ser depois do casamento realisado? + +--Póde, acceitando-me você letras... + +--Você sabe-a toda!--fez o Cutodio sorrindo, como quem acaba de +effectuar um bello negocio.--Vá lá! No dia do casamento entrego-lhe o +dinheiro e está a conta arrumada. + +--Antes dos noivos partirem para a egreja... + +--Sim, homem, sim! Antes dos noivos partirem para a egreja. + +--Pois então esta noite lá estamos. Vou mandar prevenir o rapaz para não +faltar. + +O Custodio despediu-se e o Belchior correu ao _Francfort_ a prevenir +Eugenio. + +N'essa mesma noite, a sala de visitas do Custodio de Jesus era theatro +da odiosa farça que os tres miseraveis se dispunham a representar á roda +do coração de Beatriz, illudindo-se uns aos outros, como quasi sempre +acontece quando tres patifes de grande marca se encontram unidos pelo +mesmo pensamento de interesse commum. + +O Custodio, sahindo de casa do Belchior, passára pela casa de D. +Barbara, viuva d'um general reformado e mãe de tres filhas feiissimas +que o Monte-pio militar sustentava, e pediu-lhes para irem á noite tomar +o chá e fazer um bocado de companhia á Beatriz, que já tinha fallado +n'ellas e estranhado que estivessem tanto tempo sem lhe irem fazer uma +visita. + +O Belchior, pela sua parte, fizera-se acompanhar da mulher, a D. +Rosalia, e da cunhada, a D. Adelia, ambas vermelhuscas e adiposas,--a D. +Rosalia queixando-se sempre do seu figado e a D. Adelia dos seus flatos. + +Eram estas as relações mais intimas do Custodio que, usurario e forrêta, +detestava reuniões e convivencias que o forçassem a incommodos e +despesas. + +Tolerava a viuva do general, cujo conhecimento proviera de serem as +filhas companheiras de Beatriz no collegio, porque lhe rebatia as +pensões com extraordinaria usura; e quanto á familia do Belchior, está +bem patente o interesse que lhe advinha das suas relações. + +Beatriz, prevenida por seu pae de que n'essa noite viriam visitas, +preparou-se para as receber. + +A candida menina preferiria antes a solidão do seu quarto á enfadonha +conversação de tão estolidas creaturas; mas como era a ella que cumpria +desempenhar os deveres de dona da casa, não teve remedio, sacrificou-se +ás leis da boa educação e foi com risonho, embora contrafeito, semblante +que veio á sala. + +Eugenio de Mello, acompanhando o Belchior, apresentou-se gentil e muito +correcto no seu trajo elegante de rapaz rico, affectando uns ares +superiores, de bom tom, sem comtudo deixar de se mostrar amavel e +attencioso em extremo para com as damas. + +Conversaram estas de modas, do tempo, dos theatros, dos mil nadas que +preoccupam o espirito das senhoras finas, ou que de taes se presumem; +emquanto Custodio, Belchior e Eugenio commentavam os ultimos +acontecimentos politicos e prophetisavam mil horrores ao futuro de +Portugal. + +Veio o chá. Servido elle, o Belchior perguntou: + +--Então não temos um bocadinho de musica? Vá, sr.^a D. Rufininha, dê-nos +um bocadinho de piano. + +Rufininha era a filha mais velha do general. + +--É verdade! apoiou Custodio--e a sr.^a D. Therezinha canta aquella +canção + + _Murmura, rio, murmura!_ + +que é tão bonita. + +A Rufina dirigiu-se logo ao piano e a Therezinha, morta por cantar, +começou a fazer caretas e a desculpar-se, que estava sem voz, que não se +sentia bôa da garganta, que hoje não, para outra vez cantaria. + +Mas o Belchior e o Custodio insistiram,--que cantasse, que eram +desculpas de mau pagador, que quem tinha uma voz tão bonita não devia +ser tão avara do seu thesouro. + +E agarrando-lhe cada um por seu braço, arrastaram-n'a até junto do +piano, onde já a irmã pingava notas preparando-se para o acompanhamento. + +Assim instada, a Therezinha começou esganiçando-se terrivelmente, a +pedir ao rio que murmurasse, em meio do silencio e da forçada attenção +dos circumstantes. + +Aproveitando-se d'este momento, Eugenio, aproximou-se da filha do +Custodio e, sentando-se n'uma cadeira proxima, encetou com ella este +dialogo: + +--Dá-me licença, sr.^a D. Beatriz, que lhe faça uma pergunta? + +--Queira v. ex.^a dizer, sr. Eugenio de Mello--respondeu Beatriz, sem +poder reprimir um movimento de terror instinctivo. + +--Parece-me vêl-a triste, como que sob o peso de um desgosto intimo... +Acaso devo eu attribuir á minha presença a melacholica expressão do seu +rosto? + +--Porque me faz essa pergunta, sr. Eugenio de Mello? + +--Perdão, se fui indiscreto!--tornou o mancebo.--Mas, em primeiro logar, +interessam-me as dôres e as alegrias do seu coração mais do que talvez +póde imaginar... Depois... creio que lhe não deve ser estranho o desejo +ardente que me anima de lhe dedicar toda a minha existencia e de viver +feliz da sua felicidade... + +Beatriz baixou os olhos. + +--Creio que quer referir-se--disse ella--a um projecto de casamento de +que já ouvi fallar meu pae... + +--Não me atrevi a patentear a v. ex.^a o sentir intimo do meu coração, e +dizer-lhe a chamma abrasadora que o seu dulcissimo olhar me accendeu no +peito... E como a vi filha meiga e carinhosa, filha submissa e +obediente, não hesitei em pedir a seu pae e meu bom amigo, que fosse +interprete fiel e auctorisado dos meus sentimentos junto de v. ex.^a. +Fiz mal? + +--No logar de v. ex.^a, eu não teria procedido assim... + +--Porque? Quem melhor póde ser fiador dos puros e santos affectos da +minha alma, das delicadas e nobres intenções que me animam, do que o +proprio pae da mulher que amo? Porventura, se o meu amor por v. ex.^a +não fosse uma d'aquellas paixões abrasadoras, violentas, em que fazemos +consistir toda a nossa felicidade, iria eu pedir para elle o consenso do +auctor dos seus dias? + +--V. ex.^a esqueceu ou não contou para nada com o meu coração. Era no +emtanto a elle que v. ex.^a devia dirigir-se primeiro, creio eu... + +--Supponho-a tão bôa, tão pura, tão santa, que não duvidei um momento da +bondade angelica com que acolheria as supplicas de um infeliz, sabendo +que eu, infeliz, morro por v. ex.^a. + +--Por muito bondosa que eu lhe parecesse, nunca deveria suppôr-me tanto +que me julgasse capaz de sacrificar o meu coração á sua felicidade, sr. +Eugenio de Mello. + +--Quer dizer com isso que me despreza, que recusa o meu amor, que devo +julgar para sempre perdida a felicidade, esmagado para sempre o meu +coração? + +--Quero dizer-lhe, senhor, que preciso fallar-lhe com a lealdade e +franqueza que devo a v. ex.^a e á minha dignidade de mulher. Se depois +de me escutar, ainda persistir no seu proposito... + +--Consentirá em ser minha esposa? + +--É possivel. + +--Pois bem; falle! Diga-me v. ex.^a o que tem a dizer, porque eu anceio +pelo momento de lhe poder dar uma prova cabal, irrecusavel, sublime, do +meu amôr! + +--O que tenho a dizer-lhe, sr. Eugenio de Mello,--respondeu friamente +Beatriz--é por tal modo grave e serio, requer tanto socego e reflexão +que, aqui, n'esta sala, n'um curto momento de conversa, entre pessoas +que fallam, tocam e cantam, mais poderia v. ex.^a dar-lhe peso e eu +exprimir-me como desejo. Se lhe não fôr demasiado o sacrificio, rogo-lhe +que venha ámanhã de dia, e então fallaremos. Já expressei a meu pae a +necessidade que tinha de me entender com v. ex.^a sobre o assumpto em +questão, e portanto a sua vinda a esta casa está perfeitamente +auctorisada por elle. + +--Virei então ámanhã--disse Eugenio.--Mas, por Deus, não me roube a +esperança de vir a chamar-lhe minha esposa, de vir a ser o seu escravo +sendo ao mesmo tempo o mais feliz dos homens. + +Beatriz levantou-se, despedindo-o com um gesto. + +--Amanhã!--disse ella. + +Esta conversa passara-se por entre os olhares obliquos de Belchior e +Custodio, que ambos, fingindo prestar grande attenção ás filhas da D. +Thereza, não perdiam de vista Eugenio e Beatriz. + +Por volta das 11 horas, a viuva e as filhas do general deram o signal da +retirada. + +A mulher e a cunhada do procurador despediram-se tambem. + +Já na rua, o Belchior, voltando-se para o Eugenio, perguntou: + +--E então? + +--Então... nada! + +--Pois você não lhe fallou em amor, não lhe disse que morria de paixão +por ella? + +--Disse-lhe tudo isso, porque, verdade, verdade, eu não vim cá para +outra coisa. Mas achei-a muito fria, muito reservada... Teima que me +quer fallar amanhã, porque tem coisas muito sérias e muito graves a +dizer-me... + +--Já sei. O que ella quer é namoro. Quer que você lhe cante a sós as +lindas cantigas da sua paixão por ella e lhe jure mil vezes que a ha de +amar até á morte... + +--Isso não são as coisas sérias e graves que ella tem para me dizer... +Se me chama, não é para que eu lhe falle, é para ella me fallar a mim... +Que quererá dizer-me? + +--Naturalmente que tem um namoro que a ama apaixonadamente e que, assim +que souber que ella está para casar com outro, é capaz de se ir deitar +da ponte abaixo--disse rindo o procurador. + +--Emfim, seja o que fôr. Amanhã virei fallar-lhe e saberemos o que ella +quer... + +--Que diabo hade querer? Quer casar, quer-lhe apanhar a cortiça toda da +sua quinta--porque julga que o pae está pobre e que não póde continuar a +dar-lhe vestidos de seda... As mulheres são todas assim, meu amigo! + +--Não parece que seja isso--volveu Eugenio--Pelo contrario, supponho +outra coisa... + +--O que? + +--Que a pequena cahiu em alguma falta grave e quer francamente +confessar-m'a antes de casar... + +--Pois você suppõe?... + +--Não sei... Mulheres são mulheres... + +--Mas você, ainda que isso seja, não faz caso!...--preveniu o +procurador, receioso d'escrupulos por parte do seu cumplice. + +--Bem me importa cá a mim! Perdôo... faço de generoso... O que se quer +cá são os vinte contos... + +--E que o Custodio morra breve para vir a _maquia_ +completa!--accrescentou o Belchior. + +--Nem mais nem menos! + +Assim entendidos, ao outro dia, Eugenio apresentou-se em casa do +Custodio. + +O usurario, informado do que se passava, simulou uma sahida a tratar de +negocios, afim de facilitar a entrevista dos dois. + +Beatriz, pallida de commoção, saiu á sala de visitas a receber o +mancebo. + +--Queira sentar-se, sr. Eugenio de Mello--disse ella gravemente, +indicando-lhe uma cadeira--Pedi-lhe a fineza de me escutar a sós por +alguns instantes, pois o que tenho a dizer-lhe não deve ser conhecido de +mais pessoa alguma; e confio na sua honra de cavalheiro que saberá +guardar absoluto sigilo sobre o que me ouvir... + +--Oh, minha senhora!--exclamou o mancebo--Amo-a tanto que, mesmo sem +essa prevenção, guardaria avidamente no fundo da minha alma todas as +suas palavras como um inestimavel thesouro! + +--E devem realmente valer para v. ex.^a um thesouro pela franqueza e +lealdade que revestem. V. ex.^a, segundo creio, manifestou a meu pae o +desejo de me tomar para sua esposa... + +--De novo peço perdão, se assim procedi, mas julguei que ninguem melhor +do que elle podia ser interprete dos meus sentimentos junto de v. +ex.^a... Nos tempos que vão correndo é tão frequente vêr-se um seductor +abusar da hospitalidade de um homem de bem para lhe ludibriar uma filha, +que eu julguei um dever de honra, antes de tudo, patentear a quem tão +generosamente me acolhia as nobres e puras intenções do meu coração +apaixonado! Se errei, v. ex.^a saberá perdoar-me o inconsiderando passo +com que pude contrarial-a, em attenção aos honestos sentimentos que me +moveram. + +--É v. ex.^a um homem de bem e por isso mesmo ha-de saber comprehender e +avaliar os justos melindres que me forçaram a uma explicação clara, +franca e leal da minha situação... + +--Dos labios de v. ex.^a está dependente a minha sorte, o meu futuro, a +minha vida. Peço-lhe que falle como á pessoa que mais a ama e que mais +ardentemente deseja merecer-lhe inteira confiança! + +--Pois bem; em primeiro logar, o meu coração já não está livre--disse +Beatriz--Amo e sou amada com o sincero e vehemente amôr de duas almas +irmãs que desejam unir-se no mesmo destino... + +Eugenio levantou-se de golpe, simulando uma muito bem fingida commoção. + +--Beatriz!--disse elle arrebatadamente tentando apoderar-se das mãos da +joven--não posso crêr que haja no mundo quem a ame, quem a adore com o +santo e fervoroso culto que o meu coração lhe tributa! É possivel que +haja, e creio bem que haverá, quem renda o merecido preito á sua +belleza, ás suas virtudes, á nobre e graciosa distincção de sua gentil +figura. Mas amor puro, santo, sincero e vehemente como este que me agita +o peito, que me rouba o socego e a tranquillidade e me faz sonhar +constantemente na ventura de a possuir, de a ter por esposa, de lhe +dedicar todas as horas da minha vida, todas as alegrias da minha +existencia... oh, não! não é possivel! Diz-me que o seu coração não é +livre... Creio bem que o seu coração a engana e toma como sincera +expressão de verdadeiro amor um sentimento de mera sympathia, fugaz, +passageiro, como são em geral todas as affeições que nascem de um olhar, +de um sorriso, de um entretenimento de cartas amorosas, de uma troca de +simples palavras murmuradas a mêdo no redomoinhar de uma walsa ou na +mysteriosa entrevista de uma janella para a rua! + +--Engana-se, sr. Eugenio de Mello!--retorquiu Beatriz--Este amor que me +prende o coração a outro coração, não é um d'esses caprichosos +sentimentos de futil galanteio, que nascem n'um dia para morrerem no +outro; é, pelo contrario, uma paixão verdadeira, profunda, sinceramente +sentida e a que está indissoluvelmente presa para sempre a nossa +existencia, o nosso destino... + +--Todavia--observou Eugenio com um sorriso levemente desdenhoso--essa +declaração de v. ex.^a harmonisa-se bem pouco com as esperanças que me +pareceu traduzir na resposta dada por v. ex.^a a seu pae e que elle me +transmittiu ácerca do nosso enlace... + +--É justamente por isso que desejei fallar-lhe--volveu Beatriz, com +altiva dignidade.--Quando meu pae me fez sciente das honrosas pretensões +de v. ex.^a á minha mão, recusei terminantemente, dispensando-me de +declarar os poderosos motivos que determinavam a recusa. Meu pae +insistiu e eu reagi, pois não reconheço á auctoridade paterna o direito +de dispôr do coração dos filhos para os obrigar a um enlace que só uma +sentida affeição determina. Ameaçou-me com rigores, com violencias, com +a sahida immediata de casa para um convento. Nada d'isso me intimidou +nem me demoveu do meu proposito. A final, meu pae declarou-me com +franqueza que o motivo da sua insistencia para que esta união se realise +é o estado de ruina financeira em que se encontra e que de um momento +para o outro ameaça deixar-nos sem tecto e sem pão. Chorou, lamentando a +sua e a minha miseria, e declarou-me que, tendo posto toda a esperança +de salvação n'este casamento, desde que eu o recusava, faria saltar os +miolos com um tiro na cabeça e que a mim me ficaria o remorso de lhe ter +causado a morte. Foi então que, para o socegar, prometti annuir aos seus +desejos com a condição de que préviamente me seria permittido fallar com +v. ex.^a. Eis tudo o que se passou e eis o que tenho a dizer-lhe: +Quererá v. ex.^a acceitar por esposa uma mulher cujo coração pertence a +outro e que unicamente,--unicamente, tome v. ex.^a nota--por salvar a +vida de seu velho pae, faz o sacrificio da sua vida e do seu amor, +acceitando o enlace que v. ex.^a lhe propõe? + +Eugenio ficou um momento indeciso ante a rude crueza d'esta inesperada +pergunta que punha em cheque os seus brios d'homem, a tão apregoada +dignidade dos seus sentimentos. + +--E v. ex.^a no meu logar o que faria?--disse elle por fim, respondendo +com esta pergunta á pergunta que lhe fôra feita. + +--Pois que lhe fallo d'esta maneira, é porque não julgo acceitavel uma +união em taes circumstancias. + +--N'esse caso, o que é que v. ex.^a exige de mim? + +--Tudo o que póde exigir-se d'um homem digno. Que v. ex.^a, guardando +absoluto silencio sobre os motivos que acabo de expôr-lhe, simule +reconsiderar e dê como irrealisavel a união que projectou. + +--Oh! isso nunca!--protestou vivamente o bohemio--Com que pretexto diria +eu a seu pae que lhe rejeitava a mão da filha? Isso envolveria não só +uma violencia cruel ao meu coração, como uma affronta gravissima á honra +de v. ex.^a. E eu que a amo, eu que faço consistir toda a minha ventura +na dita immensa de a ter por esposa, havia de ser o primeiro a lançar na +reputação de v. ex.^a o stygma affrontoso de um repudio aviltante?! +Repare v. ex.^a que isso é exigir-me mais que a propria vida! + +--Pois bem; não diga v. ex.^a que desiste inteiramente das suas +pretensões a esta união impossivel; mas busque, pelo menos, um pretexto +para o addiamento indefinido... Ser-lhe-ha facil pretextar embaraços +emprevistos, uma viagem longa, demorada... + +--Quer v. ex.^a dizer que me afaste, que deixe de a ver, de lhe fallar, +de viver na mesma terra em que v. ex.^a vive, de frequentar os mesmos +logares que v. ex.^a frequenta, de respirar o mesmo ar que v. ex.^a +respira!--exclamou o bohemio n'um fingido rapto de desesperada +eloquencia--E emquanto eu, distante, na solidão e no abandono da minha +retirada terra de provincia, curto as dôres e as amarguras de um amor +sem esperança, fica um _outro_, um _outro_ a quem v. ex.^a ama, na posse +feliz do seu coração, gosando tranquillo as suaves delicias do amor +correspondido! É por demais cruel, minha senhora! E eu, francamente, não +lhe mereço o atroz supplicio a que quer condemnar-me! + +Estas palavras foram proferidas com um mixto de indignação e amargura +tal, que Beatriz não pôde deixar de córar, pensando que tinha sido +demasiado impiedosa no seu egoismo de mulher apaixonada. + +--Peço perdão--balbuciou ella--mas propondo isto, eu parto do principio +de que v. ex.^a, como homem digno, não póde pensar mais em que eu seja +sua esposa e de que o meu nome deve, por esse motivo, ser para sempre +banido da sua lembrança... + +--Oh, minha senhora! Como conhece mal o coração do homem que ama com o +ardor e enthusiasmo com que eu amo a v. ex.^a!--exclamou cynicamente o +bohemio.--Se antes de a ouvir eu tinha motivos para a desejar, para +querer ser o possuidor unico de esse precioso thesouro d'encantos e +perfeições que fazem de v. ex.^a a creatura mais adoravel do Universo, +agora, depois de a ouvir, esses motivos redobram e impellem o meu +coração a amal-a doidamente! V. ex.^a está pobre. Eu sou rico. Do meu +casamento com v. ex.^a depende não só o seu futuro tranquillo e feliz, +mas ainda a vida do seu proprio pae, esse amigo inestimavel a quem me +prendem tantos laços de sincera affeição. Já não fallo de mim, do meu +coração para sempre morto aos golpes crueis de uma desillusão sem +esperança... Mas poderia eu, sem ser um miseravel cobarde, abandonar á +pobreza e aos horrores do desespêro a mulher que amo e a vida do amigo +que tanto préso? E tudo isto para quê? Para que um desconhecido, um +homem que eu nunca vi, que não estimo, que não sei quem é, não seja +perturbado nos seus caprichosos sonhos de uma felicidade que não tem nem +póde dar! + +A estas palavras, Beatriz levantou-se pallida, e tremula, agitada por +uma commoção indescriptivel. + +--Sr. Eugenio de Mello--disse ella com os olhos brilhantes de +indignação--o homem de quem falla não pediu nada a v. ex.^a, nem eu quiz +com as minhas palavras collocal-o sob a alçada dos seus juizos +temerarios. Não se trata d'elle: trata-se de mim, trata-se de nós. V. +ex.^a persiste na ideia d'este casamento, não obstante saber que amo +outro homem e que só por salvar a vida de meu pae é que eu poderia +consentir em conceder-lhe a mão de esposa? + +--Se eu a amo tanto! Se eu a adoro e espero que á força de dedicação e +de sacrificios hei-de fazer-me tambem amar por v. ex.^a! + +--Nunca! Nunca!--protestou Beatriz--Mulheres como eu, amam uma só vez na +vida e só podem pertencer d'alma e coração ao homem a quem se dedicaram. + +Nos labios de Eugenio volitou um sorriso ironico. + +--V. ex.^a é livre, minha senhora--replicou elle--Póde impunemente matar +seu pobre pae e matar-me tambem a mim com a sua recusa... O que não +conseguirá é fazer-me cumplice n'esse parricidio e tampouco que eu +acceite voluntariamente a morte a que me condemna, em premio de tanto +amor que lhe consagro. + +Beatriz encarou-o fixamente. No seu olhar havia um desprezo mortal, uma +d'estas condemnações terriveis que cavam um eterno abysmo de odio entre +dois sêres. + +--Tenho entendido, senhor--disse ella em tom breve e secco--Preciso de +meditar nas suas palavras antes de dar uma resposta definitiva. Meu pae +o informará da minha resolução. + +Inclinou a cabeça ligeiramente, n'um movimento de despedida, e sahiu da +sala com altiva serenidade. + +--Tens cabellinho na venta--disse comsigo o bohemio, descendo as escadas +que conduziam ao escriptorio do Custodio--mas, se me caes nas mãos, eu +te porei macia que nem velludo!... + +No escriptorio estavam já o Custodio e o Belchior, anciosos por saberem +o que se estaria passando entre Beatriz e Eugenio. + +Quando o mancebo appareceu á porta, os olhares dos dois patifes +cravaram-se perscrutadores no rosto do bohemio. + +--Então?--perguntaram ao mesmo tempo. + +--Quartel-general em Abrantes. Tudo como d'antes. + +--Mas o que disse ella?--insistiu o Custodio. + +--Contou-me toda a scena da pobreza que o meu amigo lhe metteu em +cabeça; disse-me que amava outro homem, e que só pelo receio de que o +meu amigo se matasse é que condescendeu em dar esperanças d'acceitar o +casamento. Queria que eu desse o dito por não dito, que desistisse de a +querer para esposa... + +--Mas você nem _nentes_!--atalhou o Belchior ancioso por se inteirar de +tudo. + +--Está visto! Recusei, porque a amo, porque a adoro sinceramente, e você +amigo Belchior bem sabe se isto é verdade... + +--E ella?--interrogou o Custodio. + +--Despediu-me dizendo, que, visto isso, ia pensar e depois daria +resposta definitiva... + +--Amigo Custodio!--disse o Belchior, batendo familiarmente no hombro do +usurario--o caso agora é comsigo... Aperte-me a pequena... torne a +representar a scena da pobreza até ella dizer que sim... Tenha pena +d'este pobre diabo, que anda aqui pelo queixo!... + +--Não tem duvida!--aquietou o Custodio--Ella ha de ir... O que eu quiz +foi apanhar-lhe o _fraco_... Se fôr preciso, até dou um tiro para o ar, +a fingir que me mato... E ella ha de ir!... + + + + +VIII + +Entre irmãos + + +Paulo de Noronha, depois que se filiara na _Mão-Negra_, não obstante +saber que um rival lhe disputava a posse de Beatriz, alimentava a +esperança bem fagueira de conquistar em breve uma posição que lhe +permittisse apresentar-se a Custodio a pedir-lhe a mão da filha. + +Preoccupava-o, porém, a ideia de que sobre o seu nascimento pesava um +mysterio que elle não sabia explicar e que o havia de collocar em +terriveis embaraços, quando o pae da Beatriz muito naturalmente lhe +perguntasse o nome de seus paes. + +O pobre rapaz não conhecia o usurario. Suppunha-o um homem honesto, +buscando para a filha uma alliança _limpa_, e o sigillo que o padre +Filippe e madre Paula se obstinaram em guardar ácerca d'aquelles a quem +devia a existencia, fazia-o tremer pelos resultados da pergunta a que +não podia responder. + +Elle ignorava que Beatriz tambem não tivera nascimento legitimo e que, +se podia apresentar-se como filha de um homem que a perfilhara, esse +homem não era seu pae. + +O padre Filippe aconselhara-o a que revelasse a madre Paula os segredos +do seu coração e ouvisse os conselhos que ella maternalmente entendesse +dever dar-lhe. + +Mas se o padre Filippe se retrahia e teimava em não o elucidar ácerca do +seu mysterioso nascimento, o mancebo julgou, e com razão, que madre +Paula tambem nada mais adiantaria a esse respeito. + +Não procurou, pois, madre Paula e preferiu procurar o seu amigo Jorge, o +mesmo que o iniciára nos mysterios da _Mão-Negra_. + +--Posso fallar-te com franqueza, não é verdade, Jorge?--perguntou-lhe +elle. + +--Como se fallasses a um irmão--replicou o outro--Desde hontem que nos +achamos ligados indissoluvelmente pelos laços de uma associação secreta +em que é condição essencial que os filiados se considerem e se amem como +verdadeiros irmãos. + +--Pois muito bem. Vou fallar-te como a um irmão e espero que como tal +prestarás attenção ao que vou dizer-te. + +--Falla. + +--Como te expliquei, amo uma mulher que é todo o meu pensamento, todo o +meu sonho, toda a grande aspiração da minha vida! + +--Já m'o disseste. + +--Essa mulher corresponde com lealdade e com ardor ao sentimento +affectuoso que me inspirou. Mas tem pae, um homem rico, um argentario +que busca para a filha uma alliança vantajosa, alliança de dinheiro, e +que ha de necessariamente repellir-me com desdem, quando souber que eu, +simples academico, apenas rico d'esperanças no futuro, lhe pretendo a +mão da filha... + +--Mas--objectou Jorge--que necessidade tens de que elle o saiba antes de +haveres conquistado a posição que te ha de permittir constituir familia? + +--A necessidade está bem patente desde que elle pensa em casar Beatriz +com um rapaz rico, que se apresenta como pretendente á sua mão. + +--Ah! ah!--fez Jorge--E a pequena? + +--Tenciona oppôr a mais tenaz recusa. Mas o pae é rispido, severo, chega +mesmo a ser brutal... É capaz de querer impôr pela violencia este enlace +e, comquanto eu não receie pela firmeza e constancia de Beatriz, receio +comtudo pelos maus tratos e soffrimentos que o pae é capaz de lhe +inffligir... + +--Não estamos em terra de selvagens--replicou Jorge sorrindo.--Como se +chama esse _amavel_ progenitor? + +--Custodio de Jesus.... + +--Mora? + +--Na rua do Principe. + +--E o outro? + +--Qual outro? + +--O teu pretendido rival? + +--Não o conheço. Sei apenas que se chama Eugenio de Mello. + +--Eugenio de de Mello... É do Porto? + +--Não; supponho que é um rico proprietario na provincia. + +--Já _entrado_ na edade, não? + +--Pelo contrario. É novo ainda. Bem vês que lhe chamei um rapaz. + +--Os homens ricos são sempre _rapazes_ em questão de casamento... A +mocidade tem para elles a duração do seu dinheiro... + +--Mas este, mesmo pobre que fôsse, seria ainda rapaz. + +Jorge tomou apontamento d'estes nomes n'uma carteira. + +--Muito bem!--disse elle--Urge, antes de tudo, conhecer os adversarios +com quem temos que medir-nos... Eu vou obter informações e veremos +depois o que convem fazer... + +--Mas poderei ao menos alimentar esperanças?... + +--Dou-te a certeza de que esse casamento não se fará e de que Beatriz +não será maltratada pelo pae... + +--Obrigado, meu amigo, meu irmão!--exclamou Paulo, cahindo-lhe nos +braços.--Escuta ainda,--continuou. --Preciso de te dizer tudo. Entre nós +não deve haver segredos... + +--Falla, meu irmão! + +Paulo hesitou um instante. A face roborisara-se-lhe de vergonha. + +--Chamas-me _irmão_--e comtudo eu creio que não posso ser irmão de +ninguem. + +--Porque? + +--Porque não tenho pae nem mãe, porque eu mesmo, sabendo o que sou, +ignoro quem sou! + +Contou-lhe então o desespero em que se debatia por não conhecer o +segredo do seu nascimento. Conhecia apenas o padre Filippe e madre Paula +como seus protectores, ignorando comtudo porque serie de circumstancias +se encontrava sob a tutella d'aquelles dois religiosos, recebendo toda a +protecção e amparo. + +--Vê tu, pois, meu amigo, as terriveis circumstancias em que me +encontro!--concluiu elle desalentado.--Ainda que me encontrasse de um +momento para o outro em circumstancias de pedir Beatriz, como poderia eu +fazel-o não sabendo o nome de meus paes? + +--Os irmãos da _Mão-Negra_--disse Jorge gravemente--são todos filhos do +mesmo pae--o Pensamento Altruista que os reuniu e congregou, e da mesma +mãe--a Associação Invencivel que os protege e lhes dá força. Com +semelhante parentesco qualquer de nós póde considerar-se +sufficientemente nobilitado para aspirar á mão da mais nobre e rica +princeza do mundo, quanto mais á de uma simples burguesinha, filha de um +rico burguez chamado Custodio de Jesus! + +--Não duvido da grandeza e poder da nossa Associação, meu amigo; mas, +pelo caracter secreto que a reveste, o facto de pertencer-lhe não +constitue titulo, que possamos apresentar publicamente, em abono da +origem honesta do nosso nascimento... + +--O homem--volveu Jorge--creatura de Deus, não póde ser jamais +responsavel por actos que não praticou nem estava na sua mão impedir. +Tanta culpa teve elle em nascer filho do mais infimo ladrão, como gloria +em descender do mais poderoso monarcha da terra. Filho d'um criminoso ou +filho de um rei, elle é sempre um homem _igual aos outros_ e d'elles só +póde distanciar-se pelos seus talentos e virtudes proprias, ou ser-lhes +inferior pelas suas abjecções e pelos seus crimes. + +--Ah! meu amigo! que bella e sã doutrina seria essa, se todos os homens +a comprehendessem assim! + +--Para isso trabalhamos e nem outro é o pensamento que nos une. Temos de +luctar, bem sei, contra o preconceito, contra o prejuizo de muitos +seculos, contra a _rotina_--que é a famosa trincheira erguida a impedir +a marcha do aperfeiçoamento moral da humanidade. Mas se não houvesse +lucta, não seria tão glorioso o triumpho nem teria tanto valor a +conquista. + +Dizendo isto, Jorge apertou a mão a Paulo e despediu-se, deixando o +mancebo mais tranquillo e confiado no futuro. + +Sigamos Jorge e vejamol-o bater á porta de uma casa de modesta +apparencia, na rua de S. Bento da Victoria... + +É um predio de dois andares, que nada tem de notavel e que quasi se +confunde na linha de casas modestas, senão pobres, que se erguem do lado +nascente d'aquella rua, em frente á Relação, desde a esquina dos +Martyres da Patria até á travessa de S. Bento da Victoria. + +Posto fosse de dia, a porta principal d'esse predio permanecia fechada. +Mas logo que Jorge bateu abriu-se, franqueando-lhe a passagem. + +Todavia, no portal não appareceu pessoa alguma, e assim que o amigo de +Paulo transpoz a entrada, tornou a fechar-se sem que alguem a +impellisse. + +Jorge, que parecia familiarisado com estes estranhos habitos da casa, +penetrou no corredor escuro do portal e subiu o primeiro lanço das +escadas até ao primeiro andar. + +Chegando ahi, parou em frente da porta de uma sala que ficava para o +lado das trazeiras do predio e pronunciou em latim: + +--_Licet?_ + +--Entrae!--disse de dentro uma voz. + +Jorge empurrou a porta e entrou n'uma sala, ao centro da qual se via uma +ampla mesa de carvalho, coberta de livros e papeis e a que estava +sentado um homem, de roupas escuras e oculos verdes. A longa barba +grisalha que lhe descia até ao peito dava-lhe um aspecto de patriarca +biblico, que infundia respeito e terror a quem pela primeira vez se +encontrava na sua presença. + +Rodeado de livros que se viam espalhados pelo chão, em cima das cadeiras +e collocados em desordem nas estantes que cobriam as paredes, desde o +soalho até ao tecto, não era preciso grande esforço de intelligencia +para desde logo comprehender que se estava em presença de um homem de +estudo, sabedor e profundo. + +Jorge foi passando peio estreito carreiro que se abria entre rumas de +livros, da porta até á mesa, fazendo prodigios de equilibrio para não +pôr os pés sobre os volumes que lhe obstruiam a passagem. + +--É preciso estar na graça de Deus e ter azas como os cherubins--disse +elle rindo--para entrar no vosso sanctuario, sem pisar aos pés a +sciencia, Mestre! + +O homem dos oculos verdes ergueu a cabeça, fitou-o por trás dos oculos e +respondeu grave e pausado: + +--Só a sciencia vã cahe por terra e desapparece esmagada pelo pé +inclemente do homem, na sua marcha para o Bem, para a Verdade e para a +Justiça. A verdadeira sciencia, porém, não sente mais o pezo de um pé +que se lhe põe em cima do que a torre dos Clerigos o pezo de uma môsca +que vá pouzar-lhe no pára-raios. + +Indicou uma cadeira desoccupada que se achava junto da sua, e disse ao +recem-chegado: + +--Sentae-vos, meu amigo. Já cá vos esperava e estava estranhando a vossa +demora... + +--Mestre--respondeu o outro--teria vindo mais cêdo, se um caso novo, de +que urge tratar, me não tivesse tomado o tempo. + +--Um caso novo! O que temos, pois? + +--Uma injustiça grave, uma monstruosidade revoltante de que se pretende +fazer victima um dos irmãos da _Mão-Negra_. + +--A _Mão Negra_ tem já força e poder bastante para desviar de sobre a +cabeça de seus _irmãos_ a iniquidade e a injustiça dos homens, por muito +alto que elles estejam collocados. De que se trata? + +--Do ultimo iniciado no nosso gremio, de Paulo de Noronha... + +--Ah! O que lhe succede? + +--Este rapaz ama uma mulher, que corresponde ardentemente ao seu amor. O +pae d'ella, porém, rico capitalista, pretende violental-a a casar com um +herdeiro rico, que ella não deseja nem estima. + +--E sabe elle dos amores da filha com Paulo? + +--Não o deve saber, pois que este nosso _irmão_, movido de honestos e +nobres intuitos, não se julga auctorisado a tornar ostensivos os +sentimentos amorosos do seu coração, emquanto não houver conquistado uma +posição social que lhe permitta pedir a mão da mulher que ama. + +--O que deseja elle então? Que lhe conquistemos a posição de que +precisa? + +--De modo nenhum. Paulo tudo espera do seu esforço proprio. Simplesmente +o que desejaria era que a mulher que ama e em que faz consistir toda a +sua ventura não fosse compellida a unir-se a um outro. + +--Está na mão d'ella. Que recuse. + +--Mas a recusa, Mestre, importa o supplicio da pobre menina, e é isso o +que Paulo pretende evitar. + +--Pois bem. A _Mão-Negra_ cumprirá o seu dever. Como se chama o pae +d'essa menina? + +--Custodio de Jesus? + +--E o pretendido noivo? + +--Eugenio de Mello. + +--Cumpre, antes de tudo, averiguar quem sejam esses dois homens; +conhecer-lhes a biographia, saber porque serie de circumstancias vieram +a encontrar-se e a alliar-se para uma violencia d'essa ordem. + +--Assim entendo que deve ser; e se vós, Mestre, não ordenaes o +contrario, eu mesmo me encarregarei do todos esses trabalhos. + +--Pois que assim o quereis, nada impede que procedaes. Conheceis todos +os _irmãos_ que podem prestar-nos auxilio. Recorrei a elles, e colhidas +as informações, procederemos como fôr de justiça. + +Jorge inclinou-se. + +--Temos ainda mais--disse elle. + +--O quê? + +--Paulo não conheceu seus paes, e ignora por completo o segredo do seu +nascimento... + +--Que póde isso importar-lhe? Se os que lhe deram o sêr o repudiaram, +que tem o filho que vêr com os paes que o não quizeram ser? + +--Perdão, Mestre! É essa a grande duvida e portanto o grande tormento do +pobre rapaz... Paulo não pode dizer-se um _abandonado_... A sua infancia +correu sob a protecção carinhosa de dois religiosos, um padre e uma +freira, e ainda agora são elles os que occorrem, como sempre, a todas as +despezas da sua educação scientifica. + +--Conhece elle esses protectores? + +--Conhece-os e dedica-lhes verdadeira affeição filial! + +--N'esse caso, porque não pensa esse rapaz que pódem ser elles os seus +proprios paes? + +--Não são, porque madre Paula foi sua madrinha e o padre Filippe não usa +o appellido Noronha... + +--Madre Paula e padre Filippe, dizeis?--interrogou o homem dos oculos +verdes com um leve tremôr na voz. + +--Sim. São estes religiosos os protectores de Paulo de Noronha. + +O homem a quem Jorge dava o respeitoso tratamento de _Mestre_, cruzou os +braços, inclinou a cabeça sobre o peito e ficou por algum tempo immerso +em profunda reflexão. + +Dir-se-hia que os nomes de madre Paula e padre Filippe lhe tinham +despertado tristes recordações, porque, ao levantar a cabeça e +reprimindo a custo um fundo suspiro, disse, mal disfarçado ainda o +tremor da voz: + +--Pensaremos n'isso, veremos se será conveniente indagar a verdadeira +origem d'esse rapaz. + +Depois accrescentou: + +--Ha mysterios de tal modo tenebrosos na vida do homem, que ás vezes +mais vale não querer desvendal-os nunca... Ide, e deixae-me só, meu +amigo. + +Jorge levantou-se. + +--Amanhã--disse elle--deve reunir o capitulo e lá nos encontraremos á +hora do costume. É possivel mesmo que d'aqui até lá eu tenha podido +obter os esclarecimentos que desejamos ácerca de Custodio de Jesus e de +Eugenio de Mello. + +--Se assim acontecer--replicou o homem dos oculos verdes--poderemos +deliberar em capitulo o que convirá fazer. + +Jorge inclinou-se e sahiu com as mesmas precauções com que havia entrado +para não calcar com os pés os livros dispersos pelo sobrado. + +Ao vel-o sahir, o homem dos oculos fincou os cotovellos sobre a mesa, +encostou a fronte ás mãos e ficou assim por largo tempo, engolfado em +profundo scismar. + +--Madre Paula e padre Filippe!--disse elle por fim.--Porque +extraordinario acaso se encontram estes dois nomes ligados á existencia +d'esse adolescente que usa o mesmo appellido da _Irmã Dorothêa_? + +Pegou de uma penna e traçou algumas palavras em um papel que dobrou por +fim cuidadosamente, lacrando-o em seguida. + +Depois, abriu a gaveta da mesa e tirou d'ella um grosso volume +encadernado a preto, que abriu e começou folheando. + +As paginas d'este livro estavam todas em branco. No emtanto, o +mysterioso personagem ia volvendo-as com um sorriso amargo a vincar-lhe +os labios, como se do fundo branco d'aquellas folhas resaltasse um +pensamento negro. + +Chegando ao ponto em que uma fita preta, intercalada nas folhas, punha +uma especie de signal, o novo personagem, fez saltar a mola de um +tinteiro em fórma de caixa, pegou de uma penna de pato, que molhou +n'esse tinteiro, e começou escrevendo vertiginosamente. Ao passo, porém, +que a penna ia traçando as palavras, estas iam-se apagando rapidamente; +retomando o papel a sua brancura immaculada. + +É que o homem dos oculos verdes escrevia com tinta sympathica. + +Que mysteriosos pensamentos lançaria elle n'aquelle papel que os +guardava discreto, como um vasto mar guarda no fundo os coraes e as +perolas, as algas e os peixes que o povoam, sem que a esmeraldina +superficie das suas aguas denuncie a existencia dos thesouros que elle +occulta no seio? + + + + +IX + +Amores faceis + + +Eugenio de Mello, deixando o procurador e a familia, seguiu pela rua de +Cedofeita, subiu á rua dos Bragas, desandou á rua da Sovella e, passando +o Campo da Regeneração, entrou na rua da Rainha. + +O relogio da Lapa fazia soar uma hora da madrugada quando o bohemio +parou em frente de uma casa de um unico andar, construcção moderna, em +que se notava decencia e bom gosto. + +Eugenio tirou uma chave do bolso, introduziu-a na fechadura, abriu a +porta e entrou. Subiu os quatro degraus de pedra que davam accesso ao +corredor, sem que o ruido dos passos abafados no tapete parecesse dever +chamar a attenção do dono ou dona da casa. + +Mas o bohemio era sem duvida esperado, porque a meio do corredor +abriu-se uma porta e appareceu no limiar uma gentil figura de mulher, +trazendo na mão um castiçal de prata em que ardia uma vela. + +--És tu, Eugenio? + +--Sou eu, minha querida! + +O bohemio aproximou-se da formosa dama que assim lhe fallava, +acariciou-lhe amorosamente os longos cabellos louros, esparsos sobre o +fino roupão de velludo granada que lhe cingia o corpo airoso, e beijou-a +longamente nos labios. + +--Demorei-me, não é verdade?--perguntou elle, lançando-lhe um braço á +roda da cintura e conduzindo-a para o interior da saleta d'onde ella +havia surgido. + +--Principiava a desesperar-me... Imaginei que já não virias e pensava na +maneira de te castigar bem castigado pelo teu abandono! + +--Louquinha! Pois tu pensavas em fazer mal ao teu Eugenio, que tanto te +quer, que tanto te adora?! + +--Que queres! O ciume começava a atormentar-me! Lembrava-me que estavas +talvez nos braços de outra, esquecido da tua Leonor, que só é feliz +quando te vê, quando te tem a seu lado! + +A formosa creatura que Eugenio chamára Leonor, pousou o castiçal sobre +um velador de pau ébano que ficava ao lado do marmore do fogão, e +lançando os braços ao redor do pescoço do mancebo, sorveu-lhe nos +labios, com verdadeiro frenesi, um segundo beijo, mais lento e +voluptuoso que o primeiro. + +--Mas tu não estiveste com outra, não?--disse n'um gemido em que havia +receio e esperança, supplica e perdão. + +--Que ideia! Estive com uns amigos, de quem não pude ver-me livre... + +--É que eu amo-te tanto que, quando não te vejo, penso sempre que te +perco, que não voltas mais ao pé de mim, que me esqueces, que foges com +outra para nunca mais! + +Eugenio ria. + +--Descança, meu amor... Quem é que me ha de querer? Não vês que eu sou +tão infeliz, tão desgraçado, que não tenho ninguem no mundo que devéras +me estime senão tu? + +--E tambem de ninguem mais precisas!--disse com vehemencia a dama +loura.--Não estou eu aqui para te rodear de carinhos, de ternura, de +affectos que só eu sei tributar-te? Não preencho eu todas as +necessidades do teu coração, todas as ambições da tua existencia? Não +faço eu por adivinhar os teus pensamentos, por satisfazer os teus +desejos, as tuas mais caprichosas phantasias? De quem mais precisas para +ser feliz, meu amado, meu querido e doce sonho d'amor?! + +--Decerto, decerto, minha querida amiga!--fez Eugenio, suspirando.--Eu +seria feliz, muito feliz comtigo, seria o mais ditoso dos homens se... + +E interrompeu-se suspirando. + +--Se quê? Anda, acaba! + +--Se fosses minha sómente... se eu fosse rico bastante para não +consentir que outro partilhasse os teus affectos... + +--Mas eu não o amo!--protestou a dama loura.--Bem sabes que o não amo, +Eugenio! Recebo-o com desdem, supporto-o com sacrificio, porque d'elle +me vem o teu e o meu bem estar... E cada prova que elle me dá do seu +amor, cada manifestação da sua ternura, mais accrescenta o meu tedio e o +meu despreso por elle! + +--Ah! se eu fôsse rico--tornou a suspirar o bohemio--com que prazer eu o +correria a pontapés d'esta casa para fóra, e com que deliciosa furia eu +quebraria todos estes crystaes, rasgaria estes tapetes, reduzindo tudo a +cacos, tudo a farrapos, para só salvar de todo este montão de ruinas, +puro e intacto, o adorado coração da minha pobre Leonor! + +Levantou-se agitado, passando frenetico as mãos pelos cabellos, n'uma +attitude de heroe de melodrama. + +Leonor correu a elle, apoiou-lhe nos hombros as mãos alvas e pequeninas, +em cujos dedos lusiam brilhantes, supplicando: + +--Então! Vá! Não sejas louco!... Isto ha de acabar um dia... Bem sabes +que elle é velho... não póde durar muito... E como promette +contemplar-me no testamento, ainda nos esperam dias muitos felizes... + +--Dias muito felizes!--repetiu o bohemio com desanimo, deixando-se cahir +de novo sobre o estofo do sofá.--Antes d'isso hei-de eu morrer de +desespero! + +--Morrer!--exclamou a loura, cobrindo-o de cariciosos beijos.--Não me +falles em morrer, se és meu amigo, Eugenio! És novo, forte e vigoroso e +receias que um velho dure mais que tu?! + +--Não! eu não temo que a morte me colha antes do tempo... Mas tenho um +vago presentimento de que serei eu que hei-de ir ao encontro da morte... +Ás vezes, para certos desgraçados como eu, a unica felicidade possivel +n'este mundo só existe na paz da sepultura! + +--Jesus! que funebre vens hoje! Não tens dinheiro, aposto! + +--O não ter dinheiro é o menos... Desde que rompi com a minha familia, +que quiz por força tolher o meu destino, anniquilar o meu futuro, +habituei-me ás privações inevitaveis que resultam de uma mezada, que +minha mãe me manda ás escondidas de meu pae... Mas o peor não é isso... +o peor são as decepções, os desenganos que todos os dias um homem nas +minhas circumstancias está recebendo de amigos que o conhecem e que +nunca deviam ser os primeiros a humilhál-o. + +--Mas o que foi? Conta-m'o, filho!--supplicou Leonor com interesse. + +--Para que hei-de eu affligir-te com coisas que não pódes remediar? +Fallêmos antes de ti, do nosso amor, tão puro e tão ardente que, se não +fôra elle, já ha muito eu teria acabado com este negro fadario! + +--Não, não! quero saber... Anda, falla!--insistiu ella amorosamente. + +Eugenio passou a mão pelos cabellos, sacudiu a cabeça com um fundo +suspiro e principiou contando, em tom de confidencia: + +--Quando eu vivia ainda em casa de meus paes e dispunha de todo o +dinheiro que me era preciso para satisfazer todos os meus caprichos, +todas as minhas loucas phantasias, tinha amigos que todos os dias e +todas as horas me protestavam uma eterna dedicação, uma amizade sem +limites... Oh! como eu os tenho conhecido agora, na adversidade, esses +falsos e indignos amigos, esses canalhas, esses biltres, esses +miseraveis! + +O bohemio interrompeu-se para verberar indignado com estas apostrophes +violentas uns amigos que nunca teve. + +--Vamos! Não te afflijas!--aquietou em voz dôce a carinhosa e ingenua +Leonor. + +--Um d'estes, um dia, a meu pedido, consentiu em valer a um pobre rapaz, +nosso novo companheiro de rapaziadas, emprestando-lhe trezentos mil +reis, que o infeliz tinha desviado da casa commercial em que servia como +empregado, achando-se na dura contingencia de entrar para a cadeia, se +não apresentasse esta quantia. O pobre moço apaixonara-se por uma actriz +e, arrastado pelo amor, alcançara-se n'aquella importancia. Veio ter +commigo afflicto, contando-me a sua desgraça e pedindo-me que lhe +valesse. N'essa occasião, infelizmente, eu não podia dispôr do dinheiro, +porque tinha perdido em uma só noite perto de um conto de réis. Mas como +a todo o custo queria salvar a reputação e o futuro do pobre rapaz, +lembrei-me de escrever ao tal amigo de quem fallo, pedindo-lhe que +abonasse elle aquelle dinheiro sob minha responsabilidade. + +--Generoso coração!--exclamou a loura, envolvendo-o n'um olhar +ternissimo, em que havia um mixto de sensualidade e de respeitosa +veneração. + +O bohemio continuou: + +--Valeu-se ao rapaz, que continuou desempenhando o seu logar, sem que +nunca ninguem, suspeitasse a sua falta, até que um dia, poucos mezes +depois, foi colhido pela febre typhoide e morreu... Tive muita pena +d'elle! + +--Coitado! Esse rapaz era infeliz,--commentou ingenuamente a loura, mais +por comprazer ao amante do que por se sentir movida á compaixão. + +--Era! Era muito infeliz!--suspirou o bohemio.--Como elle morreu, é +claro que não pode pagar... + +--Não deixou nada? + +--Deixou dividas o infeliz! Poucos mezes depois, meu pae queria +obrigar-me ao casamento com uma minha prima de que te fallei e que eu +detestava e detesto! Eu recusei-me, elle irritou-se e mandou-me sahir de +casa. Sahi. E calculas que eu, que até alli era o _menino bonito_ da +familia, fiquei de repente reduzido a uma magra mezada que minha pobre +mãe me manda ás escondidas de meu pae, porque elle, de cada vez mais +enfurecido contra mim, teima em não me dar um real... + +--Cruel pae! + +--Retirei então para o Porto, para esta terra onde ninguem sabe quem +sou, para não dar ás pessoas que me conheciam o desagradavel e triste +espectaculo da minha decadencia, da minha, triste e apertada situação... + +--Era o destino que te chamava e te impellia para mim, meu amor! + +--Pois sim... era! Mas por essa ventura que a sorte me deparou, quantas +amarguras, quantos dissabores, quantos crueis desenganos! Este amigo de +quem te fallo, este indigno, que é rico, que está altamente collocado, e +que sabe a difficil situação em que me encontro, tem-me escripto mais +que uma vez a pedir-me o reembolso dos trezentos mil reis, que elle sabe +que eu não utilisei, que não foram para mim e que não posso pagar n'esta +occasião! Escrevi-lhe a expôr-lhe a minha má situação e a pedir-lhe que +não me apertasse por uma divida que, por emquanto, me é impossivel +solver. Pois este miseravel, este infame ameaça-me com os jornaes, se eu +não lhe mandar na volta do correio os trezentos mil reis! O biltre! o +canalha! E é capaz de o fazer, desacreditando-me, cobrindo-me de +opprobrio e de vergonha aos olhos de todo o mundo, sem ter em +consideração que eu um dia hei de ser rico e que basta que de hoje para +amanhã morra minha tia Quiteria, que é doida por mim, e que me deixa +tudo por sua morte, para eu poder atafulhar-lhe de contos de reis a +guela ignobil! + +Dito isto com o calor e a convicção que põem nas mentirosas phantasias +todos os intrujões que fazem officio de o ser, o bohemio tornou a +levantar-se de repellão, passeando agitadamente pela sala. + +--E é que, se elle cumpre a ameaça, eu sou um homem perdido! Sou um +homem perdido, porque vou ter com elle, metto-lhe uma bala na cabeça e +depois acabo com a vida, dou um tiro n'um ouvido! + +--Eugenio! meu Eugenio!--exclamou afflicta a loura Leonor--não penses em +fazer tolices... + +--Como queres tu, meu anjo, que eu continue a viver depois de ter +soffrido este horroroso ultraje? Homem honrado, antes morto do que +injuriado! E eu não posso... não posso com esta ideia de me vêr +offendido por um homem que se dizia meu amigo! Ah! eu só queria ter os +trezentos mil reis para lhe atirar com elles á cara e dizer-lhe: «Ahi +tens, miseravel! Eugenio de Mello é mais nobre na sua pobreza, do que +tu, infame, em todo o teu fastigio de homem rico!» + +--E assim lhe dirás, meu amigo!--exclamou fremente de indignação a +apaixonada loura.--Não será por trezentos mil reis que esse canalha, +quem quer que elle é, ha-de desacreditar o meu Eugenio... Os trezentos +mil reis tel-os-has amanhã. + +--Oh! mas eu não posso acceitar...--recusou o bohemio, em cujos olhos +fulgiu um raio de alegria.--Tens feito tantos sacrificios por mim... +Devo-te já tantas provas de ternura e carinhosa dedicação, que não devo +consentir em que te sacrifiques mais... + +--Cala-te, não sejas creança!--interrompeu Leonor, pondo-lhe a pequenina +mão na bocca para o impedir de continuar.--O meu maior prazer, a minha +maior felicidade n'este mundo seria dar a vida para te ver contente e +feliz! + +--Como és boa e como eu te adoro!--exclamou Eugenio, cingindo-a +ardentemente nos braços com amoroso impulso. + +Não devemos nem é justo deixar mais tempo o leitor sem a explicação que +esta scena extraordinaria requer. + +Em poucas linhas se resume a vulgar e triste historia d'estes abjectos e +sujos amores. + +Leonor era uma creatura plebeia, divinamente esculptural, que um velho +commendador--o sr. commendador Garcia--encontrára um bello dia á sahida +da loja da modista onde a pobresinha picava os dedos afilados e bonitos, +a preço de tres tostões por dia. + +O commendador Garcia, picado tambem pela belleza provocante da rapariga, +começou a sentir-se apaixonado por ella, e a tal ponto, que offereceu +envolvel-a em sêdas e velludos, recamal-a de perolas e brilhantes, se +ella lhe cedesse a elle, commendador, os graciosos encantos da sua +mocidade e da sua gentileza em vez de os desperdiçar no provavel +matrimonio com algum pobre operario faminto e honrado. + +Leonor ouviu os conselhos auctorisados de uma comadre experimentada em +varios lances d'esta natureza e ao cabo de poucos dias, sentindo-se +abalada nos seus escrupulos de mulher honesta, acceitou o dinheiro do +generoso commendador. + +Deslumbrou então o Porto e a sociedade elegante do Palacio de Crystal +com o rico esplendor dos seus vestidos caros e com a phenomenal belleza +da sua figura gentilissima. + +O commendador deu-lhe mestra de francez e professora de piano, que +passaram um tenue verniz de educação por sobre aquella rudeza nativa do +berço humilde da linda Leonor; e então era vêl-a, esquecida da sua pobre +origem, affectar modos de duqueza, desdenhosa e altiva, quando passava +nas ruas, fazendo gala do seu impudôr. + +Entre o rapaziada fina do Porto foi por muito tempo Leonor o appetecido +pomo, tanto mais cubiçado quanto era difficil colhel-o, tal era a altura +em que o commendador bizarro e dadivoso a collocára. + +Por esse tempo appareceu Eugenio no Porto, bafejado por uma sorte rara á +roleta, que em tres dias successivos o favorecera com quatro contos de +reis em uma das nossas praias mais concorridas. + +O bohemio, de origem pobre e plebeia, porém, naturalmente fino e +intelligente, educara-se na convivencia dos rapazes estroinas da capital +e d'elles copiára as maneiras elegantes, a linguagem culta e até--oh +supremo instincto de imitação!--o apparente despreso pelo dinheiro que +os outros desperdiçavam ás mãos cheias, porque eram ricos e que elle +raras vezes possuia, porque era pobre. + +Com taes predicados e n'uma sociedade para a qual as apparencias são +tudo, e que abre sem escrupulos os braços e as portas ao primeiro +adventicio que lhe mostra uma mão-cheia de libras, sem dizer de que +maneira as adquiriu, Eugenio foi, como não podia deixar de ser, logo +recebido como uma das primaciaes figuras da elegancia portuense. + +Viu Leonor. Atrevido e audacioso com as mulheres, habituado, além +d'isso, a explorar o vicio dourado da capital, comprehendeu desde logo +que estava alli uma fonte de receita apreciavel, pois que podia +facultar-lhe vida larga por muito tempo, e tentou a conquista. Ora como +as mulheres do mau sempre escolhem o peor, Leonor, que rejeitara +desdenhosa as homenagens de tantos que podiam augmentar-lhe os +rendimentos, afinal decidiu-se por aquelle que não podia senão +diminuir-lh'os. + +Começou então entre os dois um doce idylio, em que para Leonor havia +apenas o travo do commendador Garcia a empecer-lhe as noites até ás dez +horas e a impedir-lhe a expansão franca do seu coração amoroso. + +Eugenio, é claro, apresentou-se como um rico herdeiro do Alemtejo, +futuro senhor de porcos e cortiça que chegariam para pagar a divida +externa, mas, por desgraça, victima imbelle dos rigores de um pae +protervo e sem coração, que o condemnara á pobreza por elle não querer +sacrificar o seu coração de rapaz brioso á cortiça e aos porcos de uma +prima com quem pretendiam casal-o. + +Assim, Leonor, orgulhosa de ter conquistado o coração rebelde de um moço +que tão impavidamente resistia ao despotismo paterno e á cortiça de uma +prima detestada, puzera á disposição do amante numero dois, o seu +coração virgem de affectos e todo o dinheiro que lhe sobrava das +despezas a que occorria o amante numero um. + +Dera-lhe uma gazua da porta e marcara-lhe a hora da entrada: á noite, +depois das dez. De dia, a toda a hora. + +Eugenio, porém, hospedara-se no _Hotel Francfort_ como convinha e era +prudente, para que estas relações, que deviam conservar-se clandestinas, +não chegassem a escandalisar o commendador Garcia. + +Logo que Leonor lhe deu a certeza de que no dia seguinte lhe facultaria +os tresentos mil reis para atirar com elles á face estanhada do amigo +indigno, o bohemio mudou de aspecto e entregou-se sem restricções e sem +sombra de melancholia á mais carinhosa e enthusiaetica adoração que um +coração de mulher louca e linda jamais recebeu do seu amante. + +--Sabes?--disse-lhe elle.--De ti recebo estas provas de affecto e +orgulho-me dos sacrificios que fazes por minha causa, porque te amo, +porque o meu coração todo te pertence e, assim, vejo que entre nós não +ha meu nem teu, tudo é commum, tudo é igualmente compartilhado pelos +dois. E de minha prima... vê tu lá!--ainda que viesse de rastos +lançar-se a meus pés, pedir-me que recebesse d'ella a salvação da minha +vida, a salvação da minha alma, eu repellil-a-hia, morreria, iria para o +inferno, mas não acceitava d'ella um real que fosse! + +--É porque não a amas... + +--É porque te amo, Leonor! É porque só tu n'este mundo tiveste poder +para quebrantar o meu orgulho de homem e fazer que eu recebesse de ti um +dinheiro que, vindo d'outra parte, me escaldaria as mãos! + +--Como és bom! e como eu gosto de ti, meu amigo! Só queria ser bem rica +para te fazer o mais rico dos homens! Nenhum havia de fazer melhor +figura que tu, nenhum havia de poder collocar-se ao pé de ti! + +--Quando eu fôr senhor d'aquillo que é meu, então, Leonor, o que tu hoje +desejas fazer-me, é justamente o que eu te hei de fazer a ti! Hei de +pegar n'essas joias todas e atiral-as pela janella fóra! Hei de +trazer-te como uma princeza, viveremos em Lisboa, que é outra terra, e +então verás o que é vida, o que é gosar! Havemos de ir a Paris, á +Italia, a Londres, ver esse mundo todo, unidinhos como dois noivos que +se amam, que se adoram e que fazem a inveja do mundo inteiro! Queres? + +--Se quero! Como eu seria feliz, se pudesse viver contigo sósinha, sem +estorvos, sem impecilhos, ainda que fosse num canto bem retirado do +mundo, numa casinha bem pobre, onde só eu e tu coubessemos! + +--Amor e uma cabana!--disse rindo maliciosamente o velhaco, beijando-a +com enthusiasmo.--Graças a Deus, havemos de ter melhor do que isso... + +E suspirando com tristeza: + +--Para isso bastava só que morresse meu pae! + +--Deixa-o lá, coitado! - intercedeu piedosa a ingenua loura. + +--Deixo, deixo... Eu não lhe desejo a morte... Mas acredita que, ás +vezes, Leonor, até chego a pensar que não tenho pae! + +O velhaco tinha razão. + +Ele não só já o não tinha, como nunca fizera caso d'elle, desde que pôde +abandonar o pequeno cubiculo em que o desgraçado vendia, como adelo, +botas e livros velhos, numa das alfurjas do Bairro Alto, alli pelas +immediações da travessa dos Fieis de Deus. + +Mãe, uma esfregadeira que a miseria tinha levado na sua onda negra para +o hospital de S. José, onde falleceu, nunca elle a conhecera. + +Portanto, esta exclamação: «ás vezes até chego a pensar que não tenho +pae», ficaria verdadeira, horrivelmente verdadeira, se dissesse que +desde criança se habituára a pensar que o não tivera. + +No dia seguinte, Leonor mandou pedir ao commendador Garcia os tresentos +mil reis que o bohemio devia levar, não para o phantasiado amigo, mas +para o jogo do monte, que era o sorvedouro horrivel onde o miseravel não +só afundava o dinheiro que podia obter á custa de tranquibernias e +abjecções, mas ainda a sua propria saude e robustez de homem válido. + +O commendador, capitalista opulento, mandou o dinheiro pedido, não sem +notar de si para comsigo a frequencia com que taes exigencias se +repetiam. + +No emtanto, como a sua paixão por Leonor era violenta como um incendio +n'uma casa velha, ainda d'esta vez não se atreveu a fazer a menor +objecção. + +Foi com extremo contentamento que Leonor passou para as mãos do seu +_anjo mau_ o dinheiro extorquido á imbecilidade senil do commendador. + +--Aqui tens--disse ella--paga a esse canalha, a esse falso amigo, e +lembra-te que no mundo ninguem te ama tanto como a tua amiguinha! + +--Juro-te, meu amor, minha alma, minha vida, que ninguem no mundo adora +tão ardentemente os teus encantos como eu!--replicou o bohemio, radiante +de contentamento, guardando na algibeira a generosa dadiva da amante. + +Almoçou e sahiu, pretextando que ia enviar aquella quantia ao seu +destino. + +Eram onze horas da manhã quando entrou no escriptorio do Belchior. + +--Olhe lá--disse elle--esta noite posso dispôr de mim, ou teremos nova +estopada? + +--Não sei... Deixe vêr o que diz o Custodio. Elle lá ficou encarregado +de tecer os pausinhos... + +--O diabo da sirigaita é dura da bocca... Mas não tem duvida que, se me +entra para a _loja_, eu saberei applicar-lhe a espora e obrigal-a a +tomar andadura regular. + +--Isso, depois, é lá comsigo e com ella--respondeu rindo o +procurador.--Mas eu sempre lhe darei de conselho que a leve por bem, +emquanto o Custodio não esticar o pernil... + +--Isso é dos livros! Mas sabe você que já me vae enfadando tanta +difficuldade? + +--Meu amigo, não se agarram trutas a bragas enxutas... N'estas coisas, é +preciso muita paciencia, porque de outro modo não se faz nada. + +--Mas vamos a saber: poderei hoje ao menos convidar alguns amigos para +uma ceia? + +--Póde... Se tem dinheiro, póde. Quem é que o ha de impedir? + +--Quem me impediu hontem. Você é sempre o meu _desmancha prazeres_, +amigo Belchior! + +--Para seu bem. + +--E para seu... + +--Claro! Para o bem de nós ambos. Mas muito mais para você do que para +mim. + +O bohemio ia a retrucar, quando a porta se abriu e appareceu o Custodio +de Jesus. + +--E então?--interrogaram os dois. + +--Então, sabem o que ella me disse? + +--O que foi? + +--Adivinhem! + +--Não somos bruxos!--replicou o procurador--Falle para ahi, com +seiscentos diabos! Sim ou não? + +--Pois bem--não! + +--Hein?!--fizeram os dois espantados. + +--É verdade! Disse-me agora muito terminantemente que não. + +--E você não voltou á historia do tiro na cabeça?--observou o +procurador. + +--Espere ahi, que o mais bonito está por dizer. A pequena não só me +declarou abertamente que não queria casar com o sr. Eugenio, mas fez +mais. Pediu-me que visse eu quanto me era preciso para solver as minhas +dividas e que lhe apresentasse uma nota dos credores, porque ella se +encarregaria de resolver a questão de modo satisfatorio e que nos +puzesse a coberto da miseria que eu tanto temia... + +--E você o que respondeu a isso?--perguntou o Belchior. + +--O que havia de eu responder? Fiquei entalado com esta sahida... Sim, +porque você bem vê que, depois d'uma resposta d'estas, eu já não podia +dizer que ia dar um tiro na cabeça... + +--Mas o que pensa então fazer?--interrogou Eugenio. + +--Esperar, a ver o que sae d'aqui... + +--D'ahi o que sae é ella perceber que você não está arruinado como diz, +e não só recusar-se a casar aqui com o meu amigo e sr. Eugenio, mas +ainda pôr-se a _chuchar_ comsigo!--exclamou o Belchior +furioso.--Segue-se que você representou mal a scena e não é por esse +modo que nós conseguiremos nada. + +--Espere, homem, espere!--interrompeu o Custodio.--Eu tenho uma ideia. + +--Que ideia é? + +--Ella hontem, depois que vocês sahiram, foi ainda á janella fallar ao +tal rapaselho que a namora... + +--Você viu? + +--Vi, porque eu, como já estou prevenido, ando desconfiado, e quando eu +desconfio ninguem me faz o ninho atrás da orelha... Não ouvi o que +disseram, mas calculo... A rapariga disse ao rapaz o que se passava, e +elle, naturalmente, prometteu-lhe salvar-me das difficuldades +financeiras em que me encontro, para evitar que o casamento se faça... + +--Isso é lá possivel! O rapaz é pobre, e se prometteu isso, com certesa +temos intrujice no caso, porque elle não póde arranjar cem mil reis, +quanto mais uns poucos de contos. + +--Bem! Mas a mim lembra-me uma coisa: é apresentar-lhe a nota dos meus +crédores e deixar que elle confesse que não póde fazer nada. Então eu +torno a ameaçar que me mato e ella não terá remedio senão ceder. + +--Mas isso então quer-se para breve!--objectou o procurador--Aqui o sr. +Eugenio de Mello tambem não póde estar na contingencia da pequena querer +ou não querer... Porque é pessoa respeitavel e tomaram-n'o muitas +meninas em tão boas ou melhores condições de fortuna do que sua filha... + +--Eu é porque devéras a amo!--explicou o bohemio--Sinto-me loucamente +apaixonado pela senhora D. Beatriz e estou disposto a todos os +sacrificios para conquistar a ventura immensa de a possuir como esposa. +Mas permitta-me que eu lhe pergunte: se esse rapaz conseguir offertar +generosamente a quantia que o meu amigo disser carecer para reconstituir +a sua fortuna... o que fará o sr. Custodio de Jesus? + +--O que farei? Essa é boa! Faço o que deve fazer todo o homem de juizo: +pego no dinheiro com as mãos ambas, e depois não dou o consentimento +para a pequena casar. + +--Ande-me assim, seu Custodio!--bradou o procurador.--Essa é de +mestre... Mas n'esse bolo havemos de ir feitos... + +--Está dito! Reparte-se pelos tres... Mas acho que não havemos de ter +questões por causa da partilha... + +Os tres desataram a rir. + +--Vamos a ver o que sae d'aqui!--disse por fim o Belchior.--Tinha graça +se o rapazote nos sahia á ultima hora a fazer chover dinheiro ao toque +d'uma varinha magica, tal qual como nas peças de theatro! + +--Amigo Belchior--expôz o Custodio--parece-me que andei bem em não +apertar o fiado... O melhor que temos a fazer agora é preparar uma +relação dos crédores e apresental-a á rapariga... + +--Qual relação de crédores!--protestou o procurador.--Você não tem senão +um credor... Esse credor sou eu. Você deve-me cincoenta contos, e elle +que venha entender-se comigo... + +--Justamente!--apoiou Eugenio.--E assim ficaremos sabendo os recursos de +que o tal menino dispõe... + +--Está dito!--decidiu o Custodio.--É claro que cincoenta contos não se +arranjam como se fossem cincoenta reis; e logo que o tal badaméco ouça +fallar em tanto dinheiro, põe-se a andar e não torna a apparecer. Então +ficaremos com o campo livre para continuar a representar a scena do tiro +na cabeça, se a pequena teimar em não querer este casamento. + +--Se se dér o caso do rapaz, assustado com tamanha quantia, passar o pé, +a propria pequena, por despeito e por vingança, será a primeira a dizer +que pensou melhor e que acceita o noivo que se lhe propõe--opinou o +procurador. + +--Fiquemos então n'isto. Você é meu credor, com letras acceites por mim, +e impõe que ou este casamento se faça, ou eu pague no dia do vencimento, +que está para breve--concluiu o Custodio, voltando-se para o Belchior. + +--Exactamente--respondeu este.--E mandemos para cá, que eu me +encarregarei de resolver a questão. + +O procurador piscou o olho a Eugenio e fez-lhe um signal para que +sahisse. + +O bohemio comprehendeu-o e despediu-se, affirmando que estava +irresistivelmente apaixonado por Beatriz e appellando para a amizade dos +dois, afim do que envidassem os seus esforços em defesa da sua causa. + +Logo que o Belchior se viu a sós com o Custodio, abriu a gavêta da +escrivaninha e, tirando de dentro uma certidão do escrivão de fazenda de +Borba; apresentou-lh'a, dizendo: + +--Veja você, amigo Custodio, a pechincha a que a sua filha torce o +nariz! + +O Custodio pegou na certidão das contribuições pagas por Eugenio de +Mello á Fazenda Nacional. + +--Com os diabos!--disse elle--para pagar tudo isto, perto de dois contos +de reis, é preciso que tenha uma fortuna enorme! + +--Este diabo nem sabe o que tem de seu! E ainda você está com pannos +quentes com a rapariga! Onde vae ella encontrar um partido como este? + +--Pois, amigo Belchior--affirmou o Custodio com resolução--ainda que +saiba de a levar pelos cabellos á egreja, esta fortuna é que eu não +deixo perder. + +--Mas é preciso que isto não demore muito tempo a decidir. + +--Isto por esta semana rebenta! Deixe-me cá manobrar á vontade e você +verá como a coisa se arranja... + +Tendo affirmado isto, o Custodio deixou o procurador e partiu a arranjar +a conta do seu debito para apresentar á filha. + + + + +X + +Para os grandes males... + + +Custodio de Jesus não se enganara quando dissera aos seus dois cumplices +em patifaria que suppunha ter sido Paulo quem inspirara a Beatriz o +pedido da relação das dividas do pae, para pensar na melhor maneira de +as solver. + +Effectivamente, Paulo de Noronha, animado pelos conselhos de madre +Paula, a quem fizera a confidencia dos seus amores, e pelas palavras de +esperança que ouvira da bôcca do seu amigo Jorge, fôra n'essa mesma +noite fallar com Beatriz. + +A pobre menina, aterrada, contara-lhe tudo, a sua recusa formal, as +instancias do pae, o arrebatamento de colera com que elle, a principio, +pretendera impôr-se-lhe, e afinal a dolorida confissão em que cahira das +suas desgraças financeiras e do funesto designio em que estava de +recorrer ao suicidio, se o casamento que propunha como unico recurso +salvador fosse de todo em todo repudiado pela filha. + +Mais contou a apaixonada creança o expediente de que lançara mão para +retardar o desenlace da tragedia com que o pae a ameaçava, pedindo uma +entrevista com Eugenio de Mello, afim de expôr a este, com lealdade e +franqueza, as circumstancias difficeis da casa de seu pae e os laços de +inquebrantavel affeição que já tinha contrahido com Paulo de Noronha. + +--E o que respondeu esse homem?--interrogou Paulo. + +--Ao contrario de que eu suppunha, mostrou-se de cada vez mais +apaixonado e declarou não desistir da sua pretensão, com o fundamento de +que, em face da minha lealdade, agora mais que nunca, o seu coração lhe +impunha o dever de salvar meu pae da ruina e a mim da pobreza. + +--E tu?... + +--Despedi-o sem responder, disposta a recusar, mas tambem a pensar no +meio de evitar que meu pae pratique o acto de verdadeiro desespero com +que me ameaçou. + +--E se não encontrares esse meio? + +--Succederá o que Deus quizer, mas eu não serei jamais mulher de outro +homem que não sejas tu, meu Paulo!--exclamou Beatriz com firmeza. + +O mancebo sentiu na alma um transporte de sincera alegria ao ouvir estas +palavras. + +--Ouve, Beatriz--disse elle.--É possivel que sejamos victimas de uma +d'essas astuciosas ciladas que os paes ambiciosos ás vezes preparam á +ingenua affeição de suas filhas para as compellirem a acceitar um enlace +de que se lhes affigura depender a felicidade d'ellas e d'elles... Mas o +nosso dever é tomar como verdadeiras as palavras de teu pae e tratarmos +de remediar do melhor modo os males de que se diz victima. Eu sou pobre, +não tenho fortuna, porque, se a tivera, desde este momento ella +pertenceria inteira a teu pae, sem um documento, sem uma promessa sequer +de que mais tarde me solveria essa divida. Por mim nada posso. Mas tenho +amigos valiosos com quem conto e em quem espero encontrar auxilio para +remover as difficuldades que affligem teu pae, sem ser preciso +sacrificar o meu e o teu coração, prendendo-te a um homem que não +estimas e que não duvido affirmar indigno de ti. Pede, pois, a teu pae +uma nota das suas dividas, e eu verei se me é possivel libertal-o da +responsabilidade d'ellas. + +--Mas, meu Paulo, o que pensas fazer?--interrogou Beatriz commovida, +quasi adivinhando a nobre intenção de mancebo. + +--Penso pedir aos meus amigos que me constituam seu devedor por essa +quantia, que pagarei quando haja concluido a minha carreira e +conquistado a posição a que tenho direito na sociedade. Tu és filha +unica. e, portanto, a universal herdeira de teu pae. É o teu dote que +asseguro por esta forma. Se eu morrer antes de solver toda a divida, tu, +um dia, quando te encontrares senhora da herança paterna, restituirás +aos meus crédores o que faltar para seu integral reembolso. Assim, não +prejudicaremos ninguem e teremos salvado a vida de teu pae. + +--Ah! meu Paulo, como tu és um grande e nobre coração! Como tu és digno +do santo amor que te dedico!--exclamou a donzella. + +Foi assim que no dia seguinte Beatriz fez a seu pae o estranho pedido de +uma nota dos credôres, declarando ao mesmo tempo que recusava +terminantemente o enlace com Eugenio de Mello. + +O antigo marido de D. Carlota podia perguntar, com a sua auctoridade de +pae tyranno, como é que uma menina de dezenove annos ousava pensar em +remediar desastres financeiros que elle, velho agiota, encanecido na +usura, não podia sanar; e dando-se por offendido e desrespeitado nos +seus brios de progenitor, por um momento esteve para exigir que a filha, +em vez de pedir contas, lh'as desse alli, claras e cathegoricas de todos +os seus actos. + +Mas o mariola, que na convivencia do padre Anselmo ganhára em manha o +que perdera em dinheiro e não em honra--porque essa nunca elle a +tivera--achou prudente e de bom aviso levar a farça até ao fim, +apparentando uma inteira e absoluta submissão á vontade da filha. + +O secreto plano que formára, já nós lh'o ouvimos no escriptorio do +procurador em conversa com este e com Eugenio de Mello: apanhar o +dinheiro, se Paulo o arranjasse, e negar o consentimento para o +casamento dos dois jovens; ou esperar que o mancebo, assustado com a +grandeza do sacrificio que era preciso para obter a mão de Beatriz, +desapparecesse sem dar novas suas, o que resolveria a teimosa menina a +acceitar a mão de Eugenio sem repugnancia. + +Firme n'este proposito, entrou no escriptorio e phantasiou uma conta +corrente com o procurador Belchior, em que este apparecia com um saldo a +favor de cincoenta contos, representado por letras acceites em poder do +crédor e com vencimento em curto praso. + +Eram estas letras que o Custodio declarava não poder pagar, se o +casamento com Eugenio não se realisasse, devendo seguir-se o protesto e +a execução em poucos dias, pois que o procurador, amigo de Eugenio e +deveras interessado no seu enlace com Beatriz, recusaria a reforma, +exigindo immediato embolso. + +Organisada a conta corrente, o Custodio subiu ao quarto de Beatriz e, +apresentando-lhe o papel, disse: + +--Aqui tens, minha filha... aqui tens o documento da nossa desgraça! Por +elle verás que estamos perdidos sem remedio, visto que tu recusas o meio +unico da nossa salvação! + +--Não fallemos n'isso, meu pae!--retorquiu mansamente Beatriz--Vamos a +vêr se por outro meio mais em harmonia com a dignidade de ambos, +conseguimos fazer face á adversidade que nos persegue. + +--Mais em harmonia com a nossa dignidade, dizes--observou o snr. +Custodio--Supponho que não póde haver nada mais digno do que o casamento +com esse rapaz, que é rico, que é de bôa familia e que te ama +loucamente... + +--Mas não o amo eu, e é n'isso que estaria a indignidade, se eu +consentisse em me vender a elle por dinheiro... + +--Vender! Tu não ias como escrava, ias como mulher recebida á face da +egreja e ficarias senhora de metade do que é d'elle. + +--Ainda que ficasse senhora de tudo quanto lhe pertence, reputaria uma +venda ignobil o acto de me unir a elle, desde que o meu coração o +repudia... + +--O coração!--fez o sr. Custodio com um desdenhoso encolher de +hombros--O coração, minha filha, está sempre bem, desde que o estomago +não está mal... + +--Essas theorias não se comprehendem na minha idade, meu pae... + +--Comprehende-as toda a gente, em todas as idades, Beatriz... Só não as +comprehendes tu, porque até agora, graças a Deus, não tens sentido falta +de nada e foste sempre considerada como pessoa rica. Mas quando a +miseria chegar e tu vires fugir de ti todos quantos agora te fazem muita +festa, então comprehenderás que teu pae tem rasão no que diz. + +O usurario, com refalsada velhacaria e crente em que Paulo sentiria +gelarem-se-lhe os ardentes impulsos do seu coração amoroso ante a +horrivel perspectiva d'aquella medonha conta-corrente, ia predispondo o +espirito da filha para acceitar no fim o casamento com Eugenio, como +unico recurso que se lhe offerecia. + +Beatriz não respondeu. Pegou no papel e dobrou-o, depois de lhe +relancear a vista. + +--Eu verei isto--disse ella--e póde ser que Deus me inspire alguma ideia +salvadora que nos livre de apuros, sem ser necessario recorrer ao sr. +Eugenio de Mello. + +--Deus te ouça, minha filha, mas duvido bem... + +E depois de um curto instante de silencio: + +--Emfim, pensa e repara que não é brincadeira... São cincoenta contos. +Ha muito que isto teria dado um estoiro, se não fosse o Belchior, +coitado, que, ainda assim, tem sido meu amigo... Agora é que está lá +embirrado com a historia do casamento e já me disse que, se tu não +acceitares, escuso eu de contar com elle para mais nada... Aquellas +malditas letras de ouro do Banco de Credito Real do Brazil +arrazaram-me!--suspirou por fim. + +--E foi só o pae que teve prejuizos com ellas?--perguntou Beatriz. + +--Não. Ficaram muitas familias redusidas á miseria... Mas cada qual +sente o seu mal... + +--E Deus o de todos. + +--Pois é verdade, Deus sente o de todos... Mas quando Elle offerece o +remedio á creatura e ella o não acceita, tambem se offende e não sente +nada... + +--Será o que Deus quizer. + +O Custodio notou que a filha começava a impacientar-se e fazia visiveis +esforços para respeitosamente disfarçar o seu enfado. + +Resolvido a representar o seu papel de pobre humilde e dependente da +vontade de Beatriz, retirou-se, dizendo: + +--Só te peço, minha filha, que não me sujeites á vergonha de me pôrem +fóra d'esta casa por justiça. Eu, já agora, estou velho, pouco se me dá +da vida... O que quero é ter tempo de dar cabo de mim, antes de soffrer +um tal desgosto... + +--Não se affija, meu pae, que Deus tudo ha-de fazer pelo melhor... + +N'essa noite, o usurario, fingindo recolher-se cêdo aos seus aposentos, +conservou-se á espreita, para vêr se a filha fallava da janella com +Paulo. + +Teve um sorriso de velhaco satisfeito quando, ahi pela meia noite, deu +conta de que Beatriz descia ao rez-do-chão para ir fallar através da +janella gradeada com o mancebo. + +--Vaes entregar-lhe o passaporte que o ha-de levar para longe de +ti!...--resmoneou escarninho o velho, esfregando as mãos de +contente.--Cincoenta contos era o bastante para fazer fugir o homem mais +rico do Porto, quanto mais um pobre diabo que não tem cincoenta vintens. + +E certo do seu triumpho sobre a reluctancia da filha, enfiou-se na cama. + +D'ahi a pouco, ressonava. + + +Dias depois, Jorge entrava em casa de Paulo e dizia-lhe: + +--Ora, meu amigo, dou-te os sentimentos pela má escolha que fizeste do +homem que ha-de ser teu sogro. + +--Então?--interrogou o mancebo. + +--Segundo as informações que acabo de obter, o pae da tua Beatriz é um +usurario, um agiota insaciavel, com instinctos de chacal, incapaz de +deixar sahir com pelle o desgraçado que lhe cáiha nas garras +implacaveis. + +Paulo encarou o amigo: + +--Tens bem a certeza d'isso?--perguntou. + +--Se tenho a certeza! Não me resta a menor duvida. Esse homem empresta a +vinte e a trinta por cento sobre hypothecas bem garantidas. Não larga +das unhas um real sem lh'o caucionarem pelo menos com dois, e é assim +que tem conseguido amontoar uma fortuna que se calcula superior a cem +contos de reis. + +--Como é então que elle diz dever cincoenta contos ao procurador +Belchior e que está perdido porque não lh'os póde pagar? + +--Esse procurador Belchior--disse Jorge--é tambem um refinado patife. +Não trata senão de causas escuras e ha em toda a sua vida uma longa +série de revoltantes ladroeiras. Não seria para admirar que o Custodio +de Jesus lhe devesse cincoenta contos, se esse Custodio fosse homem para +se deixar roubar por alguem. Mas não. O Belchior e o Custodio +entendem-se. Pactuaram sobre a melhor maneira de esfolar a pobre +humanidade, e não se mordem um ao outro. Vê-se, pois, que os dois estão +combinados para roubarem um terceiro, que é esse tal Eugenio de Mello, a +quem pretendem casar com a tua namorada. + +--E elle quem é? + +--Quem? O Eugenio do Mello? Faltam-me ainda esclarecimentos exactos +sobre esse figurão, mas hei-de obtel-os breve. Por emquanto, o que se +sabe é que é um rapaz estroina que tem dado que fallar no Porto pelas +suas liberalidades e extravagancias. Suppõem-n'o rico e é de crêr que o +seja pelo interesse que o Custodio tem em querer casar com elle a filha. + +--De maneira que--observou Paulo--essa divida dos cincoenta contos... + +--Não é mais que uma phantasia para justificar a insistencia em que o +casamento se faça e compellir Beatriz a acceitar o noivo que se lhe +offerece. + +--Eu já tinha suspeitado isso mesmo!--redarguiu Paulo indignado--Mas o +que precisamos agora é provas d'essa infamia. + +--Descança que hão-de apparecer. Por agora, o que quiz foi dar-te a +certeza de que o pae da tua amada não se matará por falta do dinheiro +d'elle--que esse está bem garantido. O que póde é matar-se por não poder +apanhar todo o dinheiro dos outros. Previne, pois, a pequena de que póde +recusar a mão do tal sr. Eugenio e dormir tranquilla, que o pae não +pensa em deixar este mundo, que é muito do seu gosto emquanto n'elle +houver quem tome dinheiro a trinta por cento, com hypotheca... + +--Mas, se Beatriz recusa, certamente o pae não transige com a decisão da +filha. Tendo-lhe falhado o plano que imaginou, ha-de buscar outro... + +--E nós cá estamos! + +--Pois sim, estamos... Mas não impediremos que elle empregue a +violencia, visto que os meios suasorios lhe não deram resultado... + +Jorge poz-se a rir. + +--Desde que a _Mão-Negra_ protege Beatriz, o pae, o pretendido noivo e o +procurador não teem senão que tremer pelas consequencias do seu +procedimento, se não fôr correcto. + +Paulo, n'essa mesma noite, transmittiu a Beatriz todas as informações +obtidas por Jorge ácerca das verdadeiras condições de fortuna em que se +encontrava o sr. Custodio de Jesus. + +--Teu pae não deve coisa algum ao procurador Belchior--disse-lhe o +mancebo--Essa divida, com que elle finge affligir-se tanto, não passa de +um pretexto para te mover a acceitar a mão d'esse rapaz... + +--Tens tu a certeza d'isso, meu Paulo?--perguntou Beatriz admirada. + +--Affirmo-te que teu pae possue uma fortuna superior a cem contos de +reis, solidamente garantidos por boas hypothecas. Não tenhas, pois, +receio de que se mate apavorado com a ideia da miseria. + +--Mas se isso é assim, como é então que o procurador Belchior exerce +sobre meu pae um tal ascendente? + +--São alliados. Quem apresentou em vossa casa Eugenio de Mello? + +--Foi o Belchior. + +--Pois bem; logo, o Belchior é que planeou este casamento. Conhecia +Eugenio de Mello, viu n'elle um bom partido para ti, apresentou-o a teu +pae e os dois, d'accôrdo, procederam de modo que levaram esse rapaz a +pedir a tua mão. Como o negocio se lhe afigura vantajoso, teu pae +emprega todos os meios para te resolver a casar. A violencia n'estes +casos é quasi sempre inutil, quando não é contraproducente... Portanto, +qual o melhor meio de vencer a tua resistencia? Era levar-te pelo lado +da compaixão e da ternura filial, pois que, pelo sentimento do interesse +material e grosseiro, teu pae deve conhecer-te bem para te julgar +invulneravel. D'ahi, as suas queixas, as suas lagrimas e as suas ameaças +de pôr termo á existencia. Mas com o que elle não contava era comigo. +Teu pae que queira fazer uma cedencia de todos os seus haveres actuaes +por cem contos de reis, e avisa-me, porque eu promptamente lhe +apresentarei quem realise a transacção. Propõe-lhe isto, minha amiga, e +ouve o que elle te diz. + +--É extraordinario!--disse Beatriz--Suppunha meu pae um homem de genio +rispido, despotico, intractavel mesmo, mas nunca o julguei capaz de +descer a representar comigo uma comedia tão aviltante da dignidade +paternal! + +--Minha querida amiga, bem sabes que te amo por ti, sómente por ti, e +não por tua familia, e ainda menos pelos teus haveres, que nunca tratei +de indagar quaes fossem; e se agora sei isto, foi porque as +circumstancias me obrigaram a fixar a minha attenção sobre tal assumpto, +e Deus sabe com que boas e generosas intenções. Mas, visto que tanto te +admiras, permitte-me que te pergunte: sabes que genero de negocio é o de +teu pae?... + +--Não sei. Meu pae nunca fallou diante de mim sobre assumptos +commerciaes. Elle foi sempre homem de poucas palavras e de nenhuns +carinhos para mim. Eu, desde que vim do collegio, tenho vivido n'esta +casa quasi como uma estranha... A primeira vez que lhe ouvi fallar de +negocios foi agora, depois que este rapaz se apresentou a pedir a minha +mão e eu recusei... + +--Então saberás, minha bôa amiga, que teu pae empresta dinheiro ao juro +de vinte por cento, o minimo, sobre hypothecas que ordinariamente +representam o dôbro do valôr emprestado. Vê tu se, em taes condições, +teu pae, que tem dinheiro para emprestar, póde dever cincoenta contos ao +procurador Belchior e encontrar-se na situação desesperada que diz. + +--O que entendes que devo então fazer? Que resposta deverei dar-lhe? Eu +não queria vexal-o e desafiar talvez a sua colera dizendo-lhe +abertamente que estou conhecedora da sua odiosa mentira... + +Paulo reflectiu por alguns instantes. + +--Tu, por emquanto, nada dizes a teu pae, senão que estás pensando no +que melhor convirá fazer em face da grave situação em que ambos vos +achaes... + +--No emtanto, elle não deixará de insistir por uma decisão rapida... + +--Muito bem; e tu dizes-lhe que não tens duvida em acceitar o marido que +se te propõe, desde que esse casamento seja a unica solução que se te +apresente para salvar teu pae. Antes d'isso; porém, não te dispensas de +estudar o assumpto com o cuidado e a reflexão que elle requer. + +--Mas esta situação é insustentavel por muito tempo, meu Paulo... + +--Não te dê cuidado o resto. Antes de seres obrigada a dar uma resposta +definitiva, tenho esperança que os acontecimentos hao-de obrigar teu pae +a mudar de resolução. + +--Oxalá que assim seja! + +O sr. Custodio de Jesus, que não perdia o menor movimento da filha, +ancioso como estava de saber que solução daria ella ao intrincado +problema dos cincoenta contos que se lhe propunha, sentiu que Beatriz +viera mais uma vez á janella do escriptorio conferenciar com Paulo; e no +dia seguinte, depois de almoço, pondo os olhos enternecidos na pobre +menina, perguntou-lhe com fingido carinho: + +--Então, minha querida filha, já pensaste na nossa terrivel situação? + +--Já, meu pae--respondeu Beatriz baixando os olhos. + +--E o que resolves? + +--Por emquanto, nada. + +--Nada!--exclamou o snr. Custodio affectando grande espanto.--Pois é +possivel que, tendo-me tu promettido uma resposta decisiva sobre esta +questão de vida ou de morte para mim, te mostres assim indifferente ao +que póde succeder? Para que me pediste então essa conta que te +apresentei? + +Beatriz fitou um olhar persistente no pae e respondeu placidamente: + +--Pedi-lh'a, meu pae, para ter bem a certeza do que cumpre fazer. + +--O que! Pois não sabes o que cumpre fazer? Quando se devem cincoenta +contos de reis e o crédor os exige, o que cumpre é pagar. + +--Pagar ou casar...--replicou Beatriz com amarga ironia. + +--Ninguem te obriga a isso. Eu mesmo, que sou teu pae e que podia impôr +a minha auctoridade paterna, prefiro deixar-te ampla liberdade na +escolha do homem que ha-de ser teu esposo, embora eu tenha de sacrificar +a vida... + +--Não lhe será preciso sacrifical-a, meu pae. + +--Isso tudo são palavras, Beatriz... Mas as dividas não se pagam com +palavras... Prometteste-me resolver a questão, e afinal já lá vão uns +poucos de dias e tão adiantados estamos hoje como hontem. + +--Alguma coisa temos já adiantado... + +--O que? + +--A resolução em que estou de salvar meu pae... + +--Sério, Beatriz!? Tu acceitas o casamento que se te propõe, minha +filha? + +--Se outro recurso não houver, acceital-o-hei. + +--Pois olha que não tens outro recurso, crê! + +--Veremos. + +--Pensas ainda em conjurar o mal que nos ameaça por outra forma? + +--Talvez. + +--Ah! minha filha, minha filha! se confias no auxilio de qualquer das +pessoas nossas amigas, desde já te digo que nada conseguirás... Os +amigos fogem da desgraça como as andorinhas fogem do inverno. Se lhes +fallamos em dinheiro,--emigram! + +Beatriz meneou a cabeça e respondeu com voz submissa, porém firme e +serena: + +--Quando se é leal e sincero para com todos; quando se não abrigam no +peito sentimentos de egoismo e de torpe má fé, a Providencia, que vela +pelos bons, envia-nos sempre alguem que nos comprehende e nos vale nos +lances mais desesperados da nossa vida... + +--Pois sim!--tornou o sr. Custodio n'um tom de mal disfarçado motejo--é +bom a gente confiar na Providencia, mas é muito melhor conhecer o mundo +e tratar cada qual de se livrar de apuros pelos meios que puder... A +Providencia já não faz pouco em nos enviar esse rapaz que te quer para +esposa... + +--Pois se ella se não manifestar por outra forma, acceitarei o casamento +que se me offerece... Mas, antes d'isso, meu pae, rogo-lhe que me deixe +pensar reflectidamente sobre o caso... + +--Pensa o que quizeres, minha filha, e resolve o que te parecer melhor, +comtanto que não pareça, pela demora em dar uma resposta decisiva, que +estamos a caçoar com esse rapaz e com o Belchior que o apresentou e que +é, como sabes, nosso crêdor... + +--Ninguem póde tomar como caçoada o facto de eu querer reflectir +maduramente antes de dar um passo de que vae depender o meu destino... + +--Sim, isso é justo...--tornou o Custodio com brandura--Mas quantas no +teu logar, minha filha, se o Eugenio lhes pedisse a mão, lhe estenderiam +logo as duas sem mais ceremonias, antes que elle se arrependesse! + +--Não vejo vantagem nenhuma n'isso. Se tiver de se arrepender, mais vale +que seja antes do que seja depois. Justamente para que o arrependimento +me não sobrevenha, é que eu desejo pensar bem no que vou fazer, antes de +me decidir... + +--Faze lá como entenderes. Para mim, como já pouco posso durar, a +questão está resolvida: é mais mez, menos mez, mais dia, menos dia... +Quando se chega á minha idade, a vida já pouco prende... Preferiria +morrer socegado na minha cama, da morte que Deus me desse, e não ter eu +que pôr termo á vida para me livrar de vergonhas... Mas se Deus tiver +determinado o contrario, cumprirei resignado a sua divina vontade... +Acredita que, se me afflijo, não é tanto por mim como por ti, a quem eu +não queria deixar no mundo sosinha, pobre e desamparada! + +--Sim, meu pae...--respondeu Beatriz levemente ironica--Eu conheço +quanto lhe devo pelas provas de carinho que sempre me tem dado... Mas +não se afflija por mim como eu não me afflijo por meu pae, pois que Deus +ha de valer-nos... + +--Tens essa fé, Beatriz? + +--Tenho a certeza, meu pae. Pois não lhe disse já que, se outro remedio +não houver, casarei com o sr. Eugenio de Mello? + +--Deus te abençôe, minha filha, pela grande consolação que me dás! E +has-de ser feliz, crê, porque o Eugenio é bom rapaz e está perdidamente +apaixonado por ti. + +--É pena que eu não possa apaixonar-me por elle... + +--Minha filha, depois, a convivencia faz tudo... Pensa, pensa e has-de +vêr que não encontras outra solução melhor do que esta para nos tirar de +difficuldades: casar e deixar de tolices... + +Disse, e retirou intimamente satisfeito, por lhe parecer que tinha com o +seu discurso adiantado um grande passo no caminho do ambicionado +casamento que sonhava para a filha. + +--Naturalmente--ia dizendo comsigo--lá o tal franganito mostrou-se +desanimado e ella vae perdendo a esperança que tinha n'elle... É questão +de mais dois dias ou tres, e ella ahi está a dizer que sim, que se +resolve a querer o Eugenio... Se todos os paes fizessem como eu... se +quando as filhas se inclinam para um bigorrilha sem cinco reis, lhes +dessem logo com as precisas, fazendo-as pensar na pobresa e na miseria +que as espera, não se via tanto casamento desgraçado como se vê! + +E esfregava as mãos, satisfeito de haver conseguido illudir a filha. + +Mal sabia o velhaco que n'este caso, o verdadeiro illudido era elle! + + + + +XI + +João Lazaro + + +Jorge tinha o habito de ir todos os dias ao _Suisso_ tomar café, depois +de jantar. + +Alli passava uma hora em palestra amena com os amigos, se os encontrava, +ou a lêr os jornaes estrangeiros que o criado lhe punha diante--para +matar tempo. + +N'estas rapidas leituras encontrava coisas que pareciam interessantes, +porque ás vezes puxava do seu livro de lembranças e tomava notas a lapis +nas folhas em branco. + +Foi n'uma occasião d'estas que sentiu bateram-lhe amigavelmente no +hombro e ao mesmo tempo uma voz dizer-lhe: + +--Estás a copiar alguma receita para te lembrares dos amigos? + +Jorge levantou a cabeça e encarou o recem-chegado. + +--És tu, João!--exclamou levantando-se com impeto e estendendo os braços +para elle.--Como estava longe de te ver agora aqui! + +Os dois abraçaram-se effusivamente e sentaram-se em seguida. + +--Ora o meu João Lazaro!--tornou Jorge com alegria--Com que, voltaste ao +Porto! + +--É verdade!--disse o outro recostando-se na cadeira com importancia e +tomando uma attitude de principe que regressa do exilio--O bom filho á +casa torna... + +--E o bonito é que encontras a casa como a deixaste... + +--Infelizmente. Isso, porém, não me admira nem espanta. Não era de +esperar outra cousa desde que eu faltava cá para a reformar. + +--Quando chegaste? + +--Hoje de manhã. + +--Que tempo te demoras? + +--Não sei. Venho conferenciar com uns amigos sobre assumpto importante, +e não posso calcular o tempo que isso me levará... + +--Não tencionas fixar residencia no Porto? + +--Não. Isto é pequeno demais para mim... + +--Bravo, seu João! Você está crescido!--disse Jorge galhofeiramente. + +--Pois tu comprehendes um vulto politico de certa importancia a viver no +Porto? Já Lisboa é uma deprimente miseria, meu caro! Mas, emfim, como +não ha outra terra maior, não ha remedio senão resignarmo-nos com +ella... + +Lançou em volta de si um olhar superior, de desdem, mordeu a ponta do +charuto caro, com affectação, e exclamou: + +--Que mal servido está este café! Não ha aqui um criado que venha +receber as ordens?... + +Jorge bateu as palmas, chamando o criado. + +--O que tomas?--perguntou ao amigo. + +--Vou tomar cerveja. + +--Cerveja a este senhor--disse Jorge ao criado que se aproximara. + +Este relanceou um olhar curioso para o freguez que dava pelo nome de +João Lazaro, e perguntou: + +--Ingleza? + +--Ingleza, sim!--respondeu o João Lazaro. + +E voltando-se para Jorge, emquanto o criado se afastava a cumprir a +ordem: + +--Unica coisa em que transijo com esses bebedos inglezes! + +--Pagas-lhes assim a affeição que manifestam pelo nosso vinho... + +--Pelo nosso vinho e pela nossa Africa!--disse o João Lazaro com olhar +torvo. + +--Pela _nossa_! Pois o Brazil tambem tem Africa?--interrogou motejador o +amigo de Paulo--Porque tu, meu caro Lazaro, se bem me recordo, és +brazileiro... + +--Mas portuguez pelo coração!--respondeu o outro com emphase. + +E accrescentou: + +--Ah! se não fosse o coração, cuidas tu que eu teria posto a minha +mocidade, a minha energia, o meu talento, ao serviço de um paiz tão +pequeno como este?... + +--Effectivamente, meu rapaz, tu és grande de mais para uma terra tão +pequena como esta... E ella assim o comprehendeu expulsando-te do seu +seio por duas vezes... Porque não vaes tu servir o Brazil, que é a tua +patria, com a grande vantagem de encontrares lá já realisado o teu ideal +politico? + +--Já te disse: sou portuguez pelo coração... + +--E ninguem é propheta na sua terra. Ah! velhaco! sabe-te melhor o pão +_negro_ das terras brancas, do que a farinha branca das terras negras... + +A conversação foi interrompida n'este ponto pela aproximação de Eugenio +de Mello que, tendo avistado João Lazaro, dirigiu-se a elle +familiarmente: + +--Ó João--preveniu o bohemio--não te compromettas para amanhã á noite, +porque temos ceia de rapazes em tua honra... + +--Oh, diabo!--replicou o Lazaro, sempre com ares de grande senhor--Para +amanhã não será possivel, porque tenho negocios importantes a resolver e +não sei se de dia ficarão concluidos... + +--Não sei; arranja-te como puderes, porque a rapaziada resolveu isto e é +uma semsaboria se tu não appareces... Demais a mais, o elemento +feminino, o elemento galante, faz-se representar, e tu não pódes deixar +de ser gentil para com as damas. + +--Está bem: irei. + +E voltando-so para Jorge: + +--Não se conhecem? + +--Não tenho essa honra--disse Jorge. + +João Lazaro então apresentou: + +--O meu amigo Eugenio do Mello... + +E para este: + +--O meu amigo Jorge de Gusmão. + +Os dois cortejaram-se. + +--Estimo conhecer v. ex.^a--disse um. + +--Igualmente--disse o outro. + +E apertaram-se as mãos. + +--Como se trata de uma festa intima, de amigos pessoaes do João--disse +Eugenio de Mello, dirigindo-se a Jorge--V. ex.^a, que é tambem amigo +d'elle, dar-nos-ha muito prazer, comparecendo. É no Palacio, ás 10 da +noite. + +--Agradeço, mas é-me absolutamente impossivel, o que muito sinto, +associar-me a essa homenagem de estima ao nosso amigo, porque amanhã de +tarde devo partir para Braga, aonde me chamam negocios urgentes e +inaddiaveis--respondeu Jorge. + +--Creia v. ex.^a--tornou Eugenio amavelmente--que teria immenso prazer +em o vêr lá... + +Jorge agradeceu com uma inclinação de cabeça. + +O bohemio, que não se sentara á mesa, despediu-se, dizendo ao Lazaro: + +--Vê lá! Se não nos virmos antes, ás 10, lá te esperamos. Fui +encarregado de te dirigir o convite e agora não queiras collocar-me mal +perante a rapaziada. + +Quando Eugenio se afastou, Jorge que, pelo nome, reconhecera n'elle o +rival de Paulo, perguntou: + +--Quem é este rapaz? + +O outro sorriu desdenhosamente. + +--Um aventureiro!--respondeu. + +--A classificação é pouco lisonjeira para ti e menos ainda para elle... + +--De accordo. Mas é verdadeira. De resto, sabes que um homem politico +tem por vezes a dolorosa e imprescindivel necessidade de se relacionar +com a gente da mais baixa especie. + +--Mas este rapaz é...? + +--É um typo como ha muitos. Apresenta-se bem encadernado, insinua-se na +confiança da gente fina e é util para muita coisa que nós outros não +podemos fazer. + +--E vive d'isso? + +--Vive de tudo. A sua existencia é uma série de expedientes engenhosos. + +--Suppunha-o rico. Tenho-o visto frequentando a melhor roda de rapazes e +passa entre elles por ser possuidor de grande fortuna... + +--Essa é a sua grande habilidade. Explora o jogo e o amor com tanta arte +que, em vez de explorador, parece elle o explorado. Agora, por exemplo, +gasta sommas enormes que lhe dão uma apparencia de rapaz rico, á custa +de uma loura, que é a _sanguesuga_ deliciosa do commendador Garcia... +Conheces? + +--Conheço o commendador Garcia perfeitamente. + +--E a loura? + +--Poderei tel-a visto, mas não estou certo. + +--Não sabes nada!--volveu o João Lazaro desdenhoso. + +--Mas como é que tu, chegando hontem ao Porto, já pudeste saber tudo +isso? + +--Disse-m'o elle, porque o conheço de Lisboa, e comigo não tem reservas. +Conta-me tudo. + +--Então, devia contar-te tambem que tem o casamento ajustado com uma +rica herdeira... + +--Elle!? + +--Elle, sim! + +--Oh, diabo! Não me disse nada a esse respeito. Fallas sério? + +--Absolutamente sério. E o mais interessante é que o pae da noiva +suppõe-n'o um rapaz riquissimo... + +--É boa! E não me disse nada! Que grande patife! + +--Pois é verdade. + +--Tens bem a certeza? + +--Conheço a noiva... + +--Ella quem é? + +--É filha de um capitalista, chamado Custodio de Jesus... + +--Não conheço. + +--Anda n'isso mettido um procurador chamado Belchior... Esse deves +conhecer... + +--De nome apenas... Tenho d'esse homem as peores referencias, já do +tempo em que vivi no Porto. + +--Pois mantem ainda hoje a boa reputação que já gosava no tempo em que +ouviste fallar d'elle. O que ou não sabia era que especie de relações +podiam ligar o procurador Belchior a este rapaz. Mas, visto dizeres-me +que elle é um cavalheiro d'industria, está explicado o caso. Os dois +combinaram-se para roubar o capitalista, apanhando-lhe a filha... + +--É bonita essa pequena? + +--Creio que sim. + +--Crês? + +--Nunca a vi, e por isso não a conheço pessoalmente. Mas tenho d'ella +informações que a dão como uma belleza indiscutivel. + +--É pena, porque, se é formosa, merece outro marido que não um +_escroc_... Mas que imbecil progenitor é esse, e demais a mais +capitalista, que entrega assim a filha a um typo como é o Eugenio de +Mello? + +--Não sei. Naturalmente suppõe-n'o rico, como toda a gente. + +--Pois, meu amigo, se te interessas por essa pequena, avisa o pae da +cilada em que o querem fazer cahir. + +--Eu!--replicou Jorge--Não tenho nada com isso... Deixemos lá o rapaz. +Póde ser que a fortuna o regenere. + +--A quem? Àquelle? É impossivel! Jogador, bebedo, extravagante, só está +bem quando gasta ouro ás mãos cheias. Em Lisboa explorava o amôr de +varias Messallinas da alta roda... Aqui, no Porto, segue o mesmo +caminho, e com bastante felicidade pelo que vejo, pois que o encontro +levando vida do principe e bellamente relacionado... + +--E melhor estará d'aqui por alguns dias, porque o casamento, segundo se +diz, está para breve... + +--Os jornaes já deram noticia? + +--Não. Este negocio trata-se no maior segredo. E é natural, porque elle +não deve desejar que a formosa lourinha o saiba e lhe transtorne os +planos... + +--É curioso!--tornou o João Lazaro--Como as mulheres são estupidas nos +seus amôres! Essa loura a que te referes teve a audacia de me resistir. +Assediei-a durante muitos mezes, nos primeiros tempos da sua ligação com +o commendador Garcia. Eu era incapaz de a explorar pecuniariamente... +Contentava-me em que não me fizesse exigencias de dinheiro, porque para +isso lá estava _o outro_. Escrevi-lhe cartas apaixonadas no meu +estylo... tu sabes! todo litterario, que até era mal empregado n'aquella +couçoeira de fórmas divinas, incapaz de me comprehender... Pois, meu +caro, entrincheirou-se na sua fidelidade ao commendador e não houve de +quê! Por fim, apparece este idiota, sem instrucção, sem elegancia, sem +espirito, sem nada que o recommende, e conquista-a! + +--É sempre assim, meu amigo. As mulheres teem uma tendencia especial +para escolherem o peor. + +--Não são só as mulheres. Toda a humanidade é assim. Segues uma estrada +que se bifurca em dois caminhos, um dos quaes te conduz e outro te +afasta do sitio a que te diriges. Escolhes ao acaso. Pois tem a certeza +de que o que escolheste é sempre o peor. Mas o que me irrita é a fortuna +estupida d'esse imbecil. Não vale a pena um homem ter talento, ser +distincto, ser finamente superior a essas vulgaridades ignobeis que para +ahi enxameiam, porque as mulheres, meu caro, hão-do ser sempre pela +materia contra o espirito! + +O João Lazaro atirou fóra o charuto com affectado desdem e levou o copo +da cerveja aos labios com a solemnidade de quem estivesse dando exemplos +de suprema elegancia n'um salão aristocratico. + +Jorge Gusmão disfarçou um sorriso de motejo e disse: + +--Quem te ouvir ha de julgar que tens sido infeliz com as damas... + +--Não; não tenho sido. Muito pelo contrario, tenho sido alvo do +carinhoso interesse de mulheres finas, elegantes, da primeira roda. Mas +essas, impede-me a minha posição politica de lhes corresponder, porque +se tal fizesse, as mediocridades do meu partido tratariam logo de lançar +sobre mim a suspeição, accusando-me de me deixar subornar pela +aristocracia. + +--Sacrificas o amor á politica... + +--Ao meu ideal sacrifico tudo!... E só assim, crê, é que um homem póde +affirmar-se capaz de salvar um paiz á beira do abysmo... + +--Mas, ó João, tu seriamente pensas em salvar os outros ou em te salvar +a ti? Porque afinal, sejamos francos, tu que diabo tens sacrificado ou o +que é que pódes sacrificar ainda? Tu és pobre, tu nunca possuiste dez +reis, tu não passavas de um anonymo perdido na massa dos anonymos, dos +obscuros, dos humildes. Chegou uma occasião em que julgaste poder +especular com o sentimento patriotico do paiz e especulaste, sem +criterio, sem fé, sem consciencia, armando á popularidade, muito +disposto a sacrificar os que te escutavam ao teu interesse pessoal... +Erraste no calculo, porque, na hora em que julgavas ter triumphado, +cahiste. Depois, por coherencia com os teus planos de ambição, e tambem +porque te era impossivel retrogradar, visto que não tinhas adquirido +valôr que te desse direito a uma cotação rasoavel no campo adverso, +seguiste ávante, simulando convicção onde só havia má fé. + +--Não é tanto assim, meu caro--protestou o João Lazaro frouxamente. + +--Que diabo! sabes que te conheço e porisso de nada te vale o fingimento +para comigo... Tu és um especulador politico, como o teu amigo Eugenio +de Mello é um especulador amorôso... Vives dos _kalenderes do ideal_ +como elle vive das infelizes sonhadoras do amôr. As tuas fontes de +receita são tão occultas e tão inconfessaveis como as d'elle. + +--Jorge, tu has-de ser sempre brutal com os amigos! + +--Sincero, sincero e leal é que eu sou. Não admitto que os amigos, +porque o são, vão julgando que me illudem e que não os conheço +cabalmente. + +--Eu não quiz nem quero illudir-te... Confio demasiado na tua amizade +para não ser sincero comtigo. Mas que demonio queres tu que eu faça +n'estas circumstancias? Eu bem sei que foi um mau passo o que dei +misturando-me com esta canalha... Mas agora que remedio tenho senão +proseguir no caminho mau em que me lancei? + +--Tambem não é tão mau como dizes. Que poderias tu esperar dentro das +velhas normas? A manga d'alpaca e desoito a vinte mil reis por mez com +papel dos officios para as intermittencias jornalisticas. Mais nada, +porque as repartições estão atulhadas de ociosos e mais um importa já um +verdadeiro attentado orçamental. Assim, dás-te ares de martyr, de +principe desthronado, diante dos papalvos que vêem uma aureola de gloria +a circumdar-te a fronte, e pedes-lhes dinheiro emprestado para poderes +sustentar o prestigio da causa... + +--Oh! mas estão já desmoralisados... São uns verdadeiros biltres! +Imagina tu que, para vir ao Porto onde preciso de me mostrar, porque +quem não apparece esquece, foram-me precisos seis idiotas dos mais +fanaticos para, espremidos e quotisados, poderem dar-me duzentos mil +reis! + +--Pois sim, meu bom Lazaro... Concordo que nem tudo sejam rosas no teu +caminho. Mas tu em certo modo tens tido a culpa. + +--Eu? + +--De certo. Tens habitos de grandeza, jantas como um principe, o que não +custa a fazer quando se tem ás ordens a bolsa dos parvos. Mas os parvos +tambem ás vezes ganham juizo... + +--Que queres tu que eu faça? Nas circumstancias em que me encontro, se +deixo de honrar a minha posição, apresentando-me em harmonia com o meu +nome, sou um homem perdido, sou um homem morto pelo ridiculo!... + +--E o que vens tu fazer ao Porto? + +--Venho arranjar dinheiro... + +--Para quem? + +--Para mim. + +--E suppões que t'o dêem? + +--Ainda aqui ha gente de muito bôa fé... + +--Mas da outra vez não deixaste a vinha vindimada? + +--Isso já esqueceu. Agora o processo é outro... + +--Bem; anda lá! + +João Lazaro levantou-se. + +--E tu, sempre o mesmo? + +--O mesmo sempre. + +--És um homem singular! + +--Divirto-me com isto... Gosto de observar a humanidade, que é realmente +o livro mais curioso e mais difficil de lêr. + +--Um homem com o teu espirito, com a tua intelligencia e com a tua +fortuna podia ir longe, se quizesse, n'este paiz onde só os audaciosos +vencem. + +--Não sou ambicioso e confio muito pouco nos homens. Conheço-os tão bem! + +João Lazaro consultou o relogio. + +--Ainda posso tornar a vêr-te antes de partir? + +--Pódes. Sabes a minha casa. Encontras-me lá todos os dias até á uma +hora da tarde. + +--Irei dizer-te adeus. + +--Pois sim. + +Apertaram-se as mãos e despediram-se. + +João Lazaro sahiu com ar altivo e magestoso, relanceando um olhar de +despreso pelos frequentadores abancados ás mesas. + +Já na rua, ia murmurando: + +--Ora o patife do Eugenio de Mello, que vae abotoar-se com a filha de um +capitalista! + +Os labios grossos, de mulato, vincaram-se-lhe n'um sorriso mau. É que ao +cerebro accudira-lhe um pensamento terrivel. + +--Bôa occasiao de lhe empalmar a loura e de me vingar d'elle pelo +cuidado com que occultou de mim o seu projecto de casamento!--rosnou por +entre dentes--Decididamente, eu sou um homem de genio e não devo +consentir que este idiota me passe adiante e se me avantage em amôr, em +fortuna e em posição social. + +João Lazaro, vaidoso, vingativo e perverso, raça de preto e branco, +minado de inveja, roido d'ambições, irritava-se e agitava-o um rancor +profundo quando algum dos seus amigos ou companheiros de mocidade, por +esforço proprio, por acaso, ou por capricho da fortuna, melhorava de +posição e subia mais um furo na escala das considerações sociaes. + +A perspectiva de vêr Eugenio de Mello casado com a filha de um +capitalista, pompeando grandezas e vivendo a vida feliz que o dinheiro +dá, acendera-lhe um inferno de invejas na alma parda como um ceu de +maio, prenhe de trovões, e como a propria _parda_ brazileira de quem era +filho e cujas feições retratava na côr bronzeada, nos labios grossos, +nos dentes brancos, no nariz de ventas largas e acachapadas e no +cabello, onde havia ainda uns longes de carapinha. + +De resto, alto, entroncado, de andar desenvolto e um tanto gingado, de +preto _capoeira_, tinha o quer que era de elegante e distincto, e +chegaria mesmo a ser attrahente e sympathico, se não fôra a pretensão +ridicula que se lhe trahia nos gestos e attitudes de grande senhor. + +Tal era physica e moralmente João Lazaro, que o leitor terá occasião de +apreciar melhor em capitulos subsequentes. + +Por agora, deixemol-o ruminar o seu infame plano de anniquilar o amigo +que o convidava para uma ceia em sua honra, e vamos nós travar relações +com outros personagens importantes d'esta complicada mas veridica +historia. + + + + +XII + +Velhos conhecimentos + + +Em S. Martinho de Campo, concelho da Povoa de Lanhoso e não longe da +casa de Norberto de Noronha, que os leitores da _Irmã Dorothea_ já +conhecem, havia uma outra casa de bôa apparencia,--_casa nobre_, como lá +se diz,--mas de severo e melancholico aspecto. + +Permanecia a maior parte do anno fechada, e apenas na quadra estival as +suas janellas se abriam e as salas se illuminavam n'um rumor de alegria +e de festa. + +É que a proprietaria d'essa casa, D. Aurelia de Magalhães, tendo casado +e perdido marido e filho no curto espaço de quinze dias, ao cabo de +cinco annos do seu consorcio, envolvera-se nos crepes da viuvez e +encerrara-se n'uma tristeza calma e resignada que a solidão do seu viver +tornava ainda mais profunda. + +Occupando um aposento interior do edificio, servida apenas por uma velha +criada que fôra sua ama de leite, raras vezes sahia do seu quarto; mas +quando sahia, n'um curto passeio, nunca transpunha os limites da vasta +propriedade murada e inaccessivel ás vistas exteriores. + +Os caseiros encarregados do amanho e semeadura das terras passavam mezes +que a não viam, nem mesmo ao domingo á hora da missa, na capella da +casa; porque a pobre viuva, occulta nas sombras do côro que communicava +com o interior da vivenda, podia assistir sem ser vista á celebração do +santo sacrificio. + +O irmão d'esta senhora, Gustavo de Magalhães, o sensato academico que na +_Irmã Dorothea_ vimos desempenhar um curto mas sympathico papel como +amigo de Julio de Montarroyo e do infeliz Norberto de Noronha, +doutorara-se em direito e, impulsionado pelo talento, fôra abrir banca +de advogado em Lisboa, onde conquistou rapidamente uma reputação +brilhantissima de orador e jurisconsulto notavel. + +Quando soube que a irmã enviuvára, quiz leval-a a viver comsigo na +capital; mas a magoada viuva recusou, preferindo gemer as saudades do +esposo e do filho mortos na solidão de S. Martinho do Campo, a abafal-as +no ruidoso e atordoante bulicio da grande cidade. + +Gustavo de Magalhães, respeitando a dôr da irmã, não insistiu, e como +tambem na vida agitada da capital as saudades da sua aldeia o pungiam, +reservava os mezes do estio para ir em piedosa romagem ao berço natal, e +alli se demorava de junho a setembro. + +Era então, quando elle chegava com a mulher e os filhos--e já contava +nada menos de tres--que a vida entrava na casa, e ao silencio e á +tristeza succediam o ruido e a alegria. + +Os amigos vinham de Braga e Guimarães visital-o, demoravam-se dias, +havia passeios, jantares na Senhora do Porto, os pequenos chilreavam na +casa logo de madrugada e arrastavam a titi a longas caminhadas pelo +campo. + +E D. Aurelia, sempre triste e resignada na sua dôr e no seu luto, +acariciava os pequenos e mostrava-se contente com a alegria dos outros. + +--Aurelia--dizia-lhe o irmão--se vivesses um anno em Lisboa, verias como +isso te fazia bem. + +--Não, Gustavo, não--replicava a dolorida viuva.--Aqui nasci, aqui vivi +feliz na companhia de meu marido e de meu filho, e aqui desejo morrer na +saudade dos que me fôram queridos. + +--Mas este ruido, esta alegria de que nós te cercamos contraria-te, não +é verdade? + +--Não, meu irmão! De modo nenhum. A vossa alegria é a minha alegria, a +unica que póde ser-me suave alem da que sinto na recordação dos entes +que perdi. + +No emtanto, D. Aurelia, quando o irmão se retirava para a capital, +sentia como que uma especie de allivio intimo, por poder regressar ao +silencio e á solidão dos seus habitos, silencio e solidão que eram um +linitivo ás amarguras do seu espirito. + +Ora é justamente n'uma d'estas visitas de Gustavo á sua aldeia que nós +vamos encontrar a casa de D. Aurelia de Magalhães em festa. + +Gustavo chegara havia oito dias e os velhos amigos e condiscipulos, ao +saberem da sua chegada, apressaram-se a visital-o. + +Vamos encontral-os reunidos no vasto salão, á noite, com as janellas e +sacadas abertas, rindo e conversando, emquanto que D. Albertina, a +gentil esposa de Gustavo, sentada ao piano, executa algumas das modernas +composições mais em voga. + +A noite estava bella, de luar--d'esse luar sereno e calmo das noites +claras do estio. + +Em volta do velho palacete, reinava a dôce paz silenciosa das aldeias, +apenas quebrada pelo rumôr dos mil insectos que, n'um admiravel +concerto, faziam ouvir essa magica symphonia dos campos adormecidos, +symphonia cujo maravilhoso segredo de orchestração nenhum grande maestro +pôde ainda devassar. + +Na sala, o piano calara-se e os hospedes de Gustavo de Magalhães, +attrahidos pela belleza da noite, vieram debruçar-se nas sacadas +continuando as conversações em que estavam entretidos. + +--É verdade, sabes, Gustavo?--disse D. Aurelia--vende-se outra vez o +palacete que foi de Norberto de Noronha. + +--Vende?--respondeu o advogado--Então o Pinho, o brazileiro para onde +vae? + +--Volta para o Brazil, segundo contou hoje a mulher do caseiro á +Mathilde, á minha criada de quarto. + +--É singular! Mas o Pinho, segundo se dizia, veio senhor de uma grande +fortuna e não tencionava tornar para o Brazil. + +--O Pinho--esclareceu o medico de partido, o dr. Gomes, que fôra +substituir o Negrão, fallecido ha annos--tem soffrido, ao que me consta, +prejuizos importantes no Brazil... Depois, elle não é um homem +economico... tem dispendido. + +--Pois parece que não deveria ser assim--objectou Gustavo--Um homem, com +uma fortuna superior e que vem enterrar-se n'uma aldeia, não tem rasões +para dissipar as fabulosas sommas que o doutor diz... Em que? Se vivesse +no Porto ou em Lisboa, comprehendo. Mas aqui, em S. Martinho de Campo! + +--Pois é verdade!--tornou o doutor--Aqui mesmo, em S. Martinho de Campo, +o Pinho tem tido a habilidade de dar cabo de mais de cincoenta contos em +dez annos. + +Houve um murmurio de incredulidade no pequeno auditorio. + +--Não póde ser!--insistiu Gustavo--Elle comprou a casa que foi de +Norberto de Noronha, por um preço inferior; gastou alguma coisa em a +reformar, mas não foi muito, porque não lhe alterou a planta e apenas se +limitou a uma simples questão de limpesa... Não me consta que tenha dado +bailes, que reuna em sua casa grandes companhias ou que se haja cercado +de uma opulencia tal que justifique as loucas despezas que o doutor lhe +attribue. + +--Pois ahi é que está a desgraça!--retorquiu o medico--Soube ganhal-o e +não o soube gastar... O Pinho desfez-se em dadivas a todo o mundo desde +que chegou... + +--A todo o mundo!? + +--É um modo de dizer. Deu um manto bordado a ouro a Nossa Senhora do +Porto; offertou um pallio novo á junta de parochia; mandou fazer um +painel á irmandade das almas; mandou construir á sua custa a torre que +faltava na egreja, pôz-lhe dois sinos, um relogio, e tem sido elle o que +tem feito á sua custa a festa a Santo Emilião... Tudo isto parece que +não é nada, mas bocado hoje, bocado amanhã, no fim vae-se a vêr e somma +contos de reis... + +--Isso é verdade!--concordaram alguns do grupo. + +--Mas cincoenta contos, doutor, olhe que é muito dinheiro!--contestou +ainda Gustavo. + +--Mas não se teem limitado só a isso as despezas do Pinho... Tem +protegido muita gente... tem dotado muita rapariga pobre cá dos sitios, +tem sido padrinho de todos os afilhados, tem emprestado dinheiro a toda +a gente e d'onde se tira e não se põe... + +--Bem sei! Em todo o caso... + +--Em todo o caso--concluiu o doutor--se não fossem os ultimos revezes +soffridos lá no Brazil, o Pinho, com um bocado de juizo, podia ainda +aguentar-se. Mas, ao que me consta, as perdas foram importantes e elle +não tem remedio senão ir acudir ao resto, para não ficar litteralmente +sem nada. + +--Pobre homem! Tenho pena. + +--O Pinho é um bello coração. Um bocadinho vaidoso, gostando de se impôr +pelo seu dinheiro, mas, no fundo, um pobre diabo. Os de cá +conheceram-lhe o fraco; começaram a lisonjeal-o, tudo era o sr. Pinho +isto, o sr. Pinho aquillo... Se até o metteram em folias de eleições! A +ultima não lhe ficou por menos de dez contos... + +--E nem sequer o fizeram visconde? Pois admira! + +--A esse respeito, houve umas historias muito compridas... O titulo +estava-lhe arranjado, mas quem lh'o arranjava, á ultima hora, precisou +de uma somma importante... O Pinho soube-o e não se lembrou de a +offerecer. N'isto, o Pires de Briteiros, que andava com o cheiro em ser +titular, apresentou-se a fazer o offerecimento, e apanhou o titulo para +elle... + +--Que miseria!--disse Gustavo enojado. + +--E até foi bom para o Pinho--tornou o doutor.--Porque, se lhe tivessem +dado o titulo, agora a sua situação era muito mais difficil. Imaginem: +um homem sem dinheiro e com um titulo ás costas... + +--Deve ser horrivel! + +--Pois foi do que elle se livrou! Ha males que veem por bem... + +--E quanto quer elle agora pela casa? + +--Não sei... Deve vendel-a barata. Como sabe, elle não ficou com todas +as propriedades do velho Noberto. Apenas comprou os campos que circumdam +o predio e que pódem valer, com os melhoramentos que elle lhes tem +feito, os seus nove a dez contos de reis. Mas estou persuadido que se +apparecer quem lhe dê oito, o homem não diz que não... + +N'este momento ouviu-se o rodar de uma carruagem que parou ao portão da +casa de Gustavo. + +--Quem nos honra?--disse o doutor, ao ver apear um sujeito de sobretudo +claro e franquear o portão de entrada, depois de fallar ao criado. + +--Querem vocês vêr que é o Sampaio que se aborreceu nas Taypas e veio +até cá para se distrahir um pouco? + +Disse e ia a encaminhar-se para a porta, afim de o receber, quando +Sebastião, o criado da casa, appareceu no limiar, dizendo: + +--Senhor doutor, saberá v. ex.^a que está lá em baixo um senhor que diz +que deseja fallar ao sr. doutor.... + +--A qual de nós?--disse rindo Gustavo.--Aqui ha uns poucos de +doutores... Solicita o soccorro da medicina ou as luzes da +jurisprudencia, esse estranho recemchegado? + +--Elle diz que é ao sr. doutor Gustavo. + +--Ah! então é comigo... Não disse o seu nome? + +--Não quiz _dezer_... É um senhor de barbas... + +--Bem! Vamos lá ver as barbas d'esse senhor. + +E voltando-se para os hospedes: + +--Meus amigos, deem-me licença... Isto é por força gracejo de algum +amigo de nós todos... A esta hora, não é natural que um desconhecido me +procure... Eu volto já. + +Gustavo de Magalhães passou á sala onde o aguardava o desconhecido +visitante. + +Era este um homem que figurava ter quarenta a quarenta e cinco annos, +estatura regular, barba loura em que se entremeavam já muitos fios +brancos, accusando, com as rugas profundas que lhe cavavam as faces, uma +vida de longo soffrimento moral. Vestia correctamente um sobretudo +escuro apesar da estação calmosa ser mais propria ao uso das côres +claras. + +Ao vêr entrar Gustavo, caminhou para elle de braços abertos, n'uma +expansão de velha amizade, dizendo: + +--Já me não conheces, não é assim, Gustavo? + +--Julio! Pois és tu? + +--Sou eu, meu amigo! + +E Julio de Montarroyo, pois que era elle, estreitou effusivamente nos +braços o seu amigo e companheiro de infancia. + +--Mas o que é feito de ti?--perguntou Gustavo--Ha quantos annos não +tenho tido noticias tuas! + +--Tenho viajado. Ha perto de dezoito annos que deixei o paiz... + +--Singularissima ausencia! + +--Que queres? Precisava de movimento, precisava das estranhas commoções +do imprevisto, porque precisava de esquecer... + +--E esqueceste, afinal? Ainda bem! + +--Não, não esqueci nem esquecerei jamais... E a prova é que, ainda +agora, velho, doente, alquebrado, eu venho ao sitio onde ella viveu e +d'onde partiu para não mais voltar, dar á minha alma o supremo lenitivo +de contemplar os logares que a viram creança, pura, innocente, feliz, e +onde tudo me hade ainda fallar d'ella! + +Gustavo encarou surprehendido o seu amigo. Atravessára-lhe o cerebro a +suspeita de que as faculdades mentaes d'aquelle homem estavam +desgraçadamente transtornadas. + +Julio percebeu esta suspeita no olhar do amigo e disse, sorrindo: + +--Julgas-me doido, não é verdade? + +--Não, não julgo...--replicou o irmão de Aurelia de +Magalhães--Surprehende-me apenas que, volvidos tantos annos, as viagens +e o tempo não pudessem ainda desvanecer-te do peito essa fatal paixão. + +--Nada a desvaneceu nem desvanecerá, meu amigo. Ama-se uma vez na vida, +uma unica; e aquelle que póde esquecer a mulher que uma vez disse amar, +é porque sinceramente não a amou. + +--Mas não tiveste mais noticias de Helena de Noronha? + +--Nunca mais. Recebi d'ella uma carta, participando-me que ia para +Pariz, transferida para uma casa de _irmãs Dorotheias_ e pedindo-me que +a fosse esperar n'aquella grande cidade, onde me daria noticias suas. +Fui. Esperei muitos mezes inutilmente uma carta, um recado, uma palavra +que me tirasse da infernal situação em que me encontrava e me désse uma +esperança, ainda que longinqua, de a tornar a vêr... + +--E como pudeste esperar tanto tempo? + +--Esperaria até ao fim do mundo se, pelas indagações a que procedi, +pudesse capacitar-me de que ella estava em Paris. Relacionei-me com os +jesuitas, apparentei uma crença profunda, fiz-me beato, frequentei as +egrejas, as casas religiosas, percorri todos os institutos, todos os +collegios jesuiticos e não a encontrei. Então tive a suspeita de que +talvez houvessem descoberto a intenção em que aquella infeliz estava de +se unir a mim e a tivessem enviado a outra parte. Passei á Hespanha, +percorri todas as cidades e usei de todos os meios que podiam +permittir-me o encontral-a. Tudo inutil. Tomado da febre da +investigação, segui para a Belgica, passei á Italia, familiarisei-me com +toda a ala negra, occultando sempre o meu pensamento secreto. D'alli fui +á Africa Oriental, percorri as missões onde me seria facil encontral-a, +e sempre baldadamente. Nem pelo nome, nem pela figura, nem ainda pela +familia, me foi possivel obter noticias d'ella. Afinal, desalentado, +velho, gasto, alquebrado e doente, resolvi regressar a Portugal, +convencido de que Helena de Noronha, na ala negra conhecida pela _irmã +Dorotheia_, já não existe! + +--Meu pobre amigo!--disse Gustavo envolvendo-o n'um olhar de funda +compaixão--que grande fatalidade foi para ti essa mulher na tua +existencia! + +--Bem pensado, não foi--volveu Julio--Devo-lhe soffrimentos acerbos, mas +tambem lhe devo alegrias intensas, esperanças dulcissimas que outra +mulher jámais poderia alentar-me! Quando em meio dos meus desalentos me +sorria uma probabilidade de a encontrar, que felicidade meu amigo! que +doida alegria a minha! Agora, regressando a Braga, leio n'um jornal que +se vende o palacete de Norberto de Noronha, e venho compral-o. + +--Comprar a casa de Norberto de Noronha! + +--Sim. + +--Com que fim? O que pretendes fazer? + +--Viver n'ella os ultimos dias da minha vida, que não será longa... + +--Mas vens só, não tens familia? + +--Minha mãe morreu ha mais de dez annos. Minhas irmãs casaram, +constituiram familia, e eu encontro-me só... só com as minhas +recordações! + +--Muito bem, meu Julio. Aqui me tens como amigo e como irmão, hoje como +sempre. És meu hospede, e espero que me darás o prazer da tua companhia +emquanto me demorar por estes sitios. + +--Já sabia que estavas aqui, e por isso te procurei. Desejo a tua +interferencia n'este negocio. + +--Estou ao teu dispôr, meu caro. Mas deixa-me apresentar-te aos meus +amigos que tiveram a santa caridade de vir alegrar-me as horas d'esta +triste solidão. Tambem quero apresentar-te minha mulher e meus filhos, +que já te conhecem de me ouvirem fallar muitas vezes de ti... Minha +irmã, essa já t'a apresentei n'outros tempos, e has-de gostar de a vêr, +porque, como amiga de infancia de Helena de Noronha, fallar-te-ha d'ella +com aquelle entranhado affecto que sempre lhe tributou, apesar da sua +ingratidão... Vem! + +Deu-lhe o braço e conduziu-o até á sala onde já todos os esperavam com +grande curiosidade. + +A entrada de Julio de Montarroyo produziu geral impressão nos +circumstantes. + +Alguns d'elles, antigos companheiros, mal reconheciam n'aquelle velho o +elegante moço bracarense de ha 18 annos, notavel nas duas cidades--Braga +e Guimarães--pelo apurado esmêro no trajar e pelos distinctos primôres +da educação. + +Feitas as apresentações, todos quizeram ouvir da bôca do recemchegado a +relação das suas viagens, que elle narrou n'uma linguagem viva, +scintillante, pittoresca, cheia de encantos, occultando, no emtanto, o +secreto motivo de tão longa e demorada permanencia em paizes estranhos. + +--De modo que--disse por fim o commendador Seabra, um dos mais velhos +condiscipulos de Julio--eis-te de novo entre nós, qual filho prodigo que +regressa á casa de seus paes! + +--É verdade, meu amigo! Verdadeiramente um filho prodigo, que +desperdiçou vida, mocidade e dinheiro entre os estranhos e que regressa +velho, cançado e cheio de achaques, a pedir á terra em que nasceu um +canto onde possa morrer descançado. + +--Morrer! Quem falla aqui em morrer?--atalhou Gustavo alegremente--Tens +ainda vida para muito tempo, meu amigo! Vens robusto, vigoroso, cheio de +saude, e fallas em morrer! O que direi eu, gasto e cançado por uma vida +inteira de trabalho, pae de tres filhos, tres enormes traquinas, que +reclamam constantemente os meus cuidados e que todos os dias me recordam +a necessidade impreterivel que tenho de viver para elles, até os fazer +homens e acompanhar a sua entrada no mundo com os conselhos da minha +experiencia e do meu amôr de pae? E, no emtanto, não penso em morrer sem +ter cumprido a minha missão... + +--É justo--respondeu Julio--Ha um objectivo na tua existencia, que te +faz amar a vida e te dá força e coragem para a não perderes: são os +filhos, é a esposa, é a familia, é toda essa inquebrantavel cadeia de +affectos que prende o homem ao mundo e o faz triumphar dos desalentos, +das dôres physicas e moraes, conduzindo-o, confiado e alegre, através a +velhice como o viajeiro através os areaes do deserto, com os olhos fitos +no oasis que, de longe, lhe promette repouso e frescura. Mas eu, +abandonado e só, sem familia, sem o estimulo dos grandes affectos que +tornam o homem superior a si mesmo, que outra coisa posso desejar senão +a morte redemptora dos grandes desgraçados? + +--Casa-te, meu amigo, casa-te!--aconselhou o commendador Seabra n'um tom +de convicta auctoridade.--Olha que não ha como o casamento para fazer um +homem perder certas ideias... Eu tambem fui rapaz, tambem tive as minhas +estroinices, as minhas excentricidades... Não andei lá por fóra, porém, +cá dentro mesmo, no meu paiz, e até sem sahir de Guimarães, fiz o que +pude... Mas quando cheguei a certa altura e senti que começava a +aborrecer-me da vida, disse commigo: «Nada! isto não está bem... Preciso +ter alguem a quem me dedique de alma e coração... alguem a quem eu +estime e que me estime tambem, porque um barco só não faz carreira...» +Tive a fortuna de encontrar o que desejava, uma esposa que é um anjo, um +genio em tudo igual ao meu, e foi dito e feito! Casei e temo-nos dado +muito bem... Não é assim, Gracianinha?--rematou, pondo os olhos na +esposa, a D. Graciana, uma senhora adiposa, de enorme carão vermelhusco, +toda cheia de requebros e denguices, mais do que é permittido a uma +mulher que passa dos quarenta. + +--É assim, meu amigo!--suspirou a D. Graciana, revirando para o marido +os olhos ternos e abanando-se com o leque, na pudibunda attitude de uma +paixão confessada. + +--Não temos tido filhos--tornou o commendador, muito roliço, muito +gordo, envolvendo a mulher n'um olhar carinhoso--mas não é por falta de +amôr... É que ella não é de qualidade de os ter... Mas vê tu que eu era +um espeto... lembras-te que eu era um espeto? Pois estou isto que vês! +Gordo e forte, que nem pareço o mesmo!... E tudo isto foi depois que +casei... Não ha nada como o casamento para dar saude a um homem! + +E empertigava-se vaidoso, com os pollegares mettidos na cava do collete, +e tamborilando com os dedos restantes no peito, n'uma exhibição grotêsca +das fartas enxundias que lhe repuxavam a pelle e lhe avolumavam o +rotundo abdomen. + +Os circumstantes riam d'esta apologia do matrimonio feita pelo +commendador que, segundo resavam as más linguas, soffria uma cruz em +casa com os destemperos da D. Graciana, ciumenta e desconfiada. + +--Ora agora o que é preciso--propôz o juiz de direito, um velhote de +oculos, bigodes brancos, com uma voz aflautada e cheia de impetuosidades +nervosas--é não deixar passar despercebido este feliz acontecimento do +regresso de um querido e distincto filho do Minho aos encantos da sua +provincia e aos braços dos velhos amigos, que todos gemiam saudades pela +sua prolongada ausencia! + +E, n'uma voz de cada vez mais aflautada e repassada de sentimento: + +--Isto é mais do que um regresso, isto é uma resurreição! Propunho, +pois, uma Paschoa _inter amicus_, uma festa alleluitica, em que se +celebre condignamente o _resurrexit_ d'este illustre cavalheiro, que eu +não tinha a honra de conhecer pessoalmente, mas a quem já estimava e de +quem era sinceramente amigo, pelo conhecimento de seus primores e +gentilezas, que a tradição oral tinha trazido até mim! + +Este alvitre do festeiro magistrado obteve calorosa approvação e logo +alli se decidiu promover uma festa ruidosa em honra de intrepido +viajante, que dezoito annos gastara em percorrer as _sete partidas_ do +mundo, como o _infante D. Pedro_. + +O juiz foi o encarregado de elaborar o programma e nomear a commissão +que havia de proceder aos festejos. + +Era uma alegria louca entre os hospedes de Gustavo pela perspectiva de +mais um dia de grossa pandega. + +--Livra-me d'esta gente, meu amigo!--segredou Julio a Gustavo.--Tu, que +conheces o estado do meu espirito, bem deves avaliar quanto esta alegria +me mortifica! + +--Nem eu, nem poder algum da terra poderá livrar-te d'estas honras, que +só aos _eleitos_ da amizade se concedem, meu caro; salvo se tiveres a má +lembrança de emigrar outra vez; e, ainda assim, ha-de ser +clandestinamente, porque, se constar que andas a tirar passaporte, +agarram-te e não te deixam partir sem gramares a festa! + +--Meu Deus! Em que má hora eu vim a tua casa!--murmurou Julio.--Venho a +fugir do bulicio, do ruido, da curiosidade dos amigos e conhecidos, e +eis-me o alvo de alegrias, quando mais devêra ser um objecto de +tristezas! + +--Tem paciencia, meu amigo! A tua larga ausencia do paiz fez-te +esquecer, pelo que vejo, os habitos festivos da nossa provincia, que +ainda não mudaram. O portuguez, especialmente o minhoto, não perde +occasião, e tudo lhe serve de pretexto, para se evadir ás melancholias +do temperamento. Um casamento, um baptisado, um dia d'annos, um amigo +que chega, um amigo que parte, tudo isso constitue motivo de festa. Fóra +d'ahi, é sisudo, sorumbatico, macambuzio, incapaz de, por coisa alguma +d'este mundo, se arredar da linha inquebrantavel de uma inquebrantavel +bisonhice. Deixa-os, pois, deixa-os divertir-se, que a alegria d'elles +não é d'aquellas que magoam o coração dos que soffrem... + +No dia seguinte, Julio levantou-se cêdo e, n'um curto passeio, +dirigiu-se sósinho para os lados da velha casa de Norberto de Noronha. + +O brazileiro Pinho, que conservava os habitos madrugadores, adquiridos +no Brazil, todo vestido de linho crú e na cabeça um bonnet de gorgorão +preto, debruçava-se no caramanchão erguido em um dos angulos do jardim. + +Respirava a longos haustos o ar fresco da manhã, tendo cravado no +horisonte um vago olhar de tristeza. + +Pensava talvez nas fundas saudades que já curtira longe da patria, e +n'aquellas que ainda o haviam de consummir, agora que, depois de velho e +quando esperava morrer tranquillo n'aquelle adorado canto da sua aldeia, +era outra vez obrigado a expatriar-se. + +Julio, ao vêl-o, parou na estrada e cortejou: + +--Bons dias! + +O Pinho levou a mão ao bonnet e correspondeu, saudando: + +--Muito bons dias! + +--É o proprietario d'esta casa? + +--Um seu criado! + +--Li que ella se vende. Posso vêl-a?. + +--Pois não! Eu lhe vou mandar abrir a porta... + +E chamando pelo criado: + +--Ó Manéca, vae na porta abrir ao cavalheiro, hein!--ordenou. + +O _Manéca_, um labrego de jaqueta, chapéo braguez e suissa talhada em +fórma de foicinha, foi abrir, com grandes zumbaias, levando no labio +escanhoado o sorriso humilde e servil de quem nasceu para sêr mandado e +obedecer. + +Julio entrou e d'ahi a pouco travava com o brazileiro Pinho este +dialogo: + +--V. s.^a vende esta propriedade, não é assim? + +--Me résólvi á vender ella, porque estou preparando minhas coisas p'ra +tornar no Brazil... + +--Esta casa--disse Julio--era de um antigo fidalgo que aqui morou e aqui +morreu, o sr. Norberto de Noronha... + +--Não conheci elle, mas tenho ouvido fállár... Bôa péssôa, pelas +informações que dão-me d'elle, hein! + +--Não foi, portanto, ao velho fidalgo que v.^a s.^a comprou a casa? + +--Nada. Quando vim do Brazil e cheguei em Portugal, a primeira coisa que +lembrou-me foi comprar casa bôa, que tivesse commodos ella... Mas eu a +queria já feita, hein! Me aborrecia estar esperando que fizesse-se ella, +já viu? Depois meu compadre Damião me escreveu um dia para o Porto, +dizendo que tinham botado annuncio n'uma gazeta de Braga p'ra vender +este palacete... Vim vêr ella, me agradou por ficar nos meus sitios e a +comprei... É uma rica peça, que tenho muita pena de deixar ella!... Mas +como vou no Brazil outra vez e não sei o tempo que demorarei-me por +lá... + +--Norberto de Noronha--tornou Julio--tinha uma filha... Foi a essa +senhora que comprou esta casa? + +--O négocio foi tratado com um procurador d'essa minina, qui estava +ella, dizem, nas irmãs da caridade e tinha passado procuração a esse tal +João Ignacio para vender elle todos os bens, já viu? Mas eu lhe fiquei +só com a casa e com estes campos de ao pé da porta... As outras +propriedades si venderam a differentes... Vossa excélléncia conheceu a +familia de Norberto, já vejo... + +--Conheci. A casa soffreu modificações? + +--Não altérei-lhe a planta, a ella, não... Lhe mandei botar papel e +pinturas novas, hein! mas lhe deixei ficar as divisões todas... O mesmo +jardim ainda é do risco que estava elle no tempo do fidalgo... + +O Pinho, muito amável, convidou Julio a vêr a casa para certificar-se de +que era uma vivenda _muito bôa ella_ e que se conservava quasi no mesmo +estado em que o fidalgo a deixára. + +Julio, ao entrar na sala onde fallára pela primeira e ultima vez a +Norberto de Noronha, já paralytico, cerrou um momento os olhos, +commovido, e a sua memoria evocou a figura d'aquelle pobre morto-vivo, +que alli jazêra por tanto tempo ainda, na esperança de tornar a vêr a +filha, criminosamente ingrata ou assombrosamente desgraçada, por quem +morria. + +Esse compartimento da casa, por uma d'estas casualidades difficeis de +explicar, não merecêra as attenções do brazileiro para o mandar reparar. +Conservava-se no mesmo estado e na mesma disposição em que Julio o vira +a primeira vez quando alli entrou. Apenas alguns dos velhos moveis de +Norberto, inclusivè a cadeira de rodas em que tão longamente agonisara, +achavam-se alli accumulados, em monte, a um canto. + +--Isto áqui me tem sérvido para arrumações--explicou o brazileiro.--Aqui +encontrei esta cangalhada quando vim na casa e, de dia em dia, p'ra pôr +ella fóra, nunca résolvi-me, hein! e ahi ficou, já viu? + +--Quanto pretende v. s.^a pela casa?--perguntou Julio. + +--Com mobilia ou sem ella? + +--Tal como está, excepto os objectos de seu uso pessoal... + +--Me custou a mim dez contos... Com mais de dois que gastei em mobilia e +concertos, anda isso por doze, hein! Más se v. ex.^a me quizer comprar +ella por dez, eu lhe deixo ficar tudo, já viu? + +--Não, senhor!--acudiu Julio.--Se por doze contos lhe ficou, doze contos +lhe darei por ella. + +O Pinho teve um olhar de espanto para o comprador. Julgára que elle iria +regatear o preço, achar caro, desfazer no valor da propriedade e +reservava-se para, em ultimo caso, fazer uma reducção de um ou dois +contos de reis. E via com surpresa que este generoso desconhecido queria +embolsal-o integralmente de tudo quanto havia dispendido, elevando a +somma, de dez, a doze contos, que era o que calculava ter gasto. + +--Quer assim?--interrogou Julio. + +--Mas...--objectou honradamente o brazileiro consciencioso--eu tenho +vivido na casa, os moveis me custaram dinheiro que já não valem elle +ágora... + +--Pequenas coisas! Não compro isto para negocio, e por isso não penso em +o adquirir por menos do seu justo valor. + +--Mas então a casa é de v. ex.^a!--decidiu o brazileiro com uma profunda +cortezia. + +--V. s.^a não me conhece--disse Julio--mas eu dou como fiador á validade +d'este contrato o meu amigo dr. Gustavo de Magalhães, aqui seu vizinho. +Quando quizer, faremos a escriptura! + +--O sr. doutor Gustavo! Pois não! Conheço elle muito bem. V. ex.^a é +hospede d'elle, já vejo... + +--Sou. V. s.^a dirá agora quando quer legalisar o contrato e quanto devo +dar-lhe de signal. + +--Signal!--protestou o brazileiro--não é priciso elle... Os homens se +conhecem pelas palavras, já viu? + +--Como queira. + +--Me dê v. ex.^a oito dias para tratar de minha mudança, e iremos no +tabellião fazer a escriptura, hein! + +--Não lhe dou oito, dou-lhe vinte, dou-lhe um mez. Não tenho pressa de +vir para esta casa, mas tenho-a de lhe chamar minha. + +--Lhe póde chamar desde já. Minha palavra vale uma escriptura! Mas não +ha pricisão de mais demora, não... Homens de bem se entendem sempre +elles... Quando v. ex.^a quizer, vamos no tabellião... + +Julio offereceu-lhe a mão e despediu-se, voltando a casa de Gustavo. + +--Já comprei a casa de Noberto de Noronha--disse elle ao amigo, logo que +chegou. + +--O que!--exclamou Gustavo.--Pois logo de manhã, tão cedo, foste tratar +um negocio d'essa ordem? + +--Se eu tinha resolvido compral-a, não vejo motivo para protelar a +compra. Agora conto comtigo, como advogado, para que o contrato tenha +uma realisação legal. + +--Por quanto a compraste? + +--Por doze contos, tal como está. + +--Podias tel-a adquirido por oito ou nove! + +Alguns dias depois, legalisava-se o contrato e Julio era o proprietario +da casa que pertencera a Noberto de Noronha. + +O brazileiro Pinho, tendo recebido o preço da venda, apressava agora a +sua partida, no intuito sómente de não occupar por muito tempo a casa +alheia. + +Os convidados de Gustavo, em assembleia magna, tendo sabido que Julio +comprára a casa de Noberto e se constituira, por este facto, um dos +proprietarios da localidade, resolveram addiar a celebração dos festejos +para o dia em que elle tomasse posse e fixasse residencia na sua nova +propriedade. + +Esta deliberação fôra tomada em segredo e mantinha-se discretamente +guardada entre todos, sem chegar ao conhecimento do melancholico amigo +de Gustavo de Magalhães. + +--Havemos de fazer d'elle um companheiro alegre, sociavel, sem os +absurdos preconceitos de um homem que, tendo percorrido o mundo e visto +tudo, chega a capacitar-se de que nada mais ha no mundo capaz de o +emocionar e lhe causar alegria--dizia o magistrado de voz aflautada, +presumindo de habil conhecedor das diversas fraquezas e aberrações do +espirito humano. + +--Fatalmente--commentava o medico--alli ha desiquilibrio de +faculdades... Aquella melancolia profunda, aquelle afastamento +systematico de todo o ruido e de toda a convivencia, accusa uma grave +enfermidade mental, propria d'um homem que passou a vida em viagens, sob +a impressão dos variados aspectos da natureza e sob a influencia de +diversos e oppostos costumes... + +--Quem sabe? Talvez alli haja mysterio do coração... amôres mal +succedidos...--aventou um dos menos theoricos e mais praticos. + +--Não, alli o que ha é tedio, cansaço, o _spleen_ dos inglezes--opinou o +juiz.--O homem correu tudo, viu tudo, gozou tudo--menos a amizade dos +amigos e o amôr inconsutil da mulher que toda se dedica ao homem amado. +Nas viagens--accrescentou com grande auctoridade e emphase de +sabedor--perde-se a sensibilidade pela frequente e repetida excitação +dos sentidos. O espirito habitua-se á contemplação dos espectaculos +grandiosos e desdenha, como insignificantes e mesquinhos, os suaves e +dulcissimos prazeres da convivencia remansosa e placida de almas irmãs, +prazeres que são a vida do coração... Amôres mal succedidos, como diz +aqui o nosso amigo Gilberto, não creio... Mais me inclino a crêr que +seja o desdem pelos demasiados amôres bem succedidos, pelos amôres +faceis que não faltam nunca aos viajantes ricos e que são, por via de +regra, os unicos que elles conhecem... E quem me diz a mim que o que +este homem sente é justamente a falta de um amôr sério, verdadeiro, como +é o de uma esposa por seu marido?... + +--Pelo menos, quando não seja isso--disse o commendador--o casar devia +fazer-lhe bem... Se a mulher fosse d'estas que ás vezes apparecem na +vida de um homem como um flagello, que com tudo embirram e com coisa +alguma se satisfazem quando estão a sós com os maridos, elle buscaria a +convivencia da sociedade como um refugio contra as impertinencias da +esposa! + +Todos se riram a esta indiscreta confirmação dos rumôres que corriam +acerca da vida torturada que o commendador passava, de portas a dentro, +com a D. Graciana. + +--Que eu por mim--emendou logo com solicita dissimulação--com bem o +diga, não sei praticamente o que isso é... Mas tenho ouvido varios +maridos queixarem-se do inferno que passam em casa com as mulheres, e +faço ideia do petisco que ha-de ser... + +--Nós tambem fazemos ideia...--atalhou o juiz sarcasticamente, na sua +voz de assobio. + +--Meus amigos--interrompeu Gustavo, que ouvira esta conversação sem +tomar parte n'ella--não se cancem em conjecturas sobre os motivos que +pódem ter feito do Julio de Montarroyo o mysanthropo que hoje é. A vida +d'este homem é um mysterio que não seria facil decifrar nem mesmo aos +que na mocidade o conheceram intimamente, quanto mais áquelles que só +agora o encontram, depois de velho. De resto, pouco deve preoccupar-nos +a sua tristeza, se não está na nossa mão o dissipar-lh'a. Querer á força +fazer de um homem triste um homem alegre, parece-me coisa tão insensata +e absurda como querer mudar as tardes melancholicas do outono nas +risonhas manhãs da primavera. Cada qual é como é; e nem me parece que a +nós nos seja licito avaliar da tristeza ou da alegria intima de um +homem, pelo simples aspecto da sua physionomia ou pela estranha +soturnidade dos seus habitos. O que para nós é tedio póde ser para elle +distracção; o que para nós é dôr póde muito bem ser para elle um grande +prazer. Quantas pessoas ha que, por temperamento, por indole, ou por +caracter, se comprazem, desde a infancia, na solidão mais absoluta, +achando insupportavel a convivencia em que outras pessoas encontram uma +verdadeira felicidade, um incomparavel prazer? + +--Isso é verdade!--accudiu o commendador--eu já tive uma epocha na minha +vida em que todo o meu prazer era agarrar môscas para as dar a comêr a +um pisco que tinha mettido n'uma gaiola... Passava n'isso horas e horas, +sem dar palavra, e se alguem me interrompia n'aquella tarefa em que +sentia um prazer enorme, ia tudo com seiscentos diabos! E em todo o +caso, aposto que nenhum dos senhores acharia distracção n'uma coisa tão +simples... + +--Não tanto!--replicou o juiz--Quem não tem que fazer caça môscas, diz o +vulgo. Ora se o meu amigo não tinha mais que fazer, acho acertado que se +distrahisse por esse modo... e não estranho que ainda agora se entregue +ao divertimento... + +--Agora não!--tornou o commendador. + +--Por falta de pisco?--perguntou o medico. + +--Por falta de pisco e por falta de paciencia... Mudei completamente... +Agora não me entretem nada d'essas coisas. Minha mulher embirra com +passaros em casa. + +A conversação proseguiu animada de ditos picarescos a proposito d'esta +ingenua confissão do commendador que, sem o querer, veio desviar as +attenções do grupo disposto a escalpellar a vida de Julio de Montarroyo. + +A esta mesma hora, Julio encontrava no jardim a D. Aurelia de Magalhães +e travava-se entre os dois este dialogo: + +--Então, já sei que vou tel-o por vizinho, não é verdade, sr. Julio de +Montarroyo? Disse-me o Gustavo que v. ex.^a já comprou a casa de +Norberto de Noronha. + +--A casa de Helena, minha senhora... É verdade, comprei-a. + +--Na intenção de a habitar? + +--Sim, minha senhora. Faço tenção de passar n'ella os ultimos dias da +minha vida. + +--É muito triste este sitio a que n'este momento empresta uma apparencia +de alegria a permanencia dos nossos hospedes... Mas, quando meu irmão +retirar para Lisboa e todos regressarem a suas casas, tudo isto recahe +n'um silencio e n'uma tristeza que só póde agradar ás almas tristes... + +--É justamente esse silencio e essa tristeza que a minha alma anceia... + +--A solidão e a tristeza são um lenitivo para a alma quando nos prendem +recordações saudosas aos sitios em que habitamos e em que outr'ora fomos +felizes. Estou eu n'esse caso, porque aqui nasci, aqui me criei, aqui +passei dias felizes na companhia dos que me eram caros, e aqui os vi +desapparecer para sempre e para nunca mais. Mas v. ex.^a, snr. Julio de +Montarroyo, que aqui veio apenas uma vez, que me lembre, e em dias bem +luctuosos e bem tristes para o pobre Norberto de Noronha... + +--E para o meu coração, minha senhora! Quando se é verdadeiramente +desgraçado, quando nunca se teve uma hora de felicidade, sente-se um +prazer amargo, um prazer cruel, em permanecer nos sitios em que mais +soffremos, em que o nosso coração sentiu mais profundos e mais +lancinantes os golpes da desventura. Foi justamente n'esse predio que +hoje comprei que eu presenciei um dos mais dolorosos e lancinantes +espectaculos de toda a minha vida. Ao entrar n'aquella casa, dezoito +annos volvidos, pareceu-me vêr ainda, ao canto da mesma sala, sentado na +mesma poltrona de rodas, aquelle pobre velho semi-morto, com os olhos +fitos em mim, ouvindo com a alma anciada a espelhar-se-lhe na pupilla +dilatada e immovel, as palavras de animadora esperança que então +proferi, e que deviam ser-lhe um balsamo consolador no meio d'aquelle +infernal martyrio! E esta evocação terrivel, bem longe de augmentar o +meu soffrimento, suavisa-o. Comparando o que soffro e o que tenho +soffrido com o que soffreu aquelle pobre pae, encontro motivo para me +julgar feliz. Depois, foi alli que ella viveu, que ella passou os unicos +dias venturosos da sua infancia cheia de sonhos vãos e de anhelos de +felicidade, até que a negra mão da desventura a veio empolgar... + +--Pobre Helena!--murmurou D. Aurelia--se v. ex.^a a conhecesse n'esse +tempo, se pudesse avaliar os finos quilates d'aquelle espirito, a suave +candura d'aquelle nobre coração! Eu, que fui sua amiga, sua companheira +de infancia, eu que tão de perto privei com ella e conheci todos os +primôres d'aquella alma nobilissina, ainda hoje me espanto, e não sei +como explicar aquelle rapido e insolito reviramento, senão pela loucura. +Para mim, Helena de Noronha soffreu grande abalo nas faculdades mentaes, +antes de abandonar o pae, por quem era extremosa, e esquecer os sagrados +deveres de filha, que ella se esmerava em cumprir sempre com uma +religiosa pontualidade! + +--V. ex.^a nunca mais teve noticias d'ella? + +--Nunca mais. E isso mesmo me faz pensar que a minha pobre amiga perdeu +a rasão antes do fatal passo que havia de custar-lhe não só a propria +ventura, mas tambem a vida do pae e do primo. + +--Alvaro, segundo me disseram, morreu assassinado em casa de um +taberneiro da Serra do Carvalho... + +--É certo. Foi um tal Perneta quem, attrahindo-o alli sob pretexto de +que encontraria Helena, lá conseguiu matal-o e roubal-o. A principio, +suppôz-se que a morte fôra obra de malfeitores que o tivessem assaltado +em viagem, porque o cadaver appareceu na estrada. Mas uma denuncia +anonyma, enviada ás auctoridades e confirmada mais tarde por um +sapateiro de Braga, por alcunha o _Tomba_, que foi testemunha no +processo, pôz a justiça na pista do criminoso, e o Perneta foi julgado e +condemnado a galés por toda a vida. + +--O _Tomba_!--disse Julio--Conheci muito bem esse sapateiro e procurei-o +agora no meu regresso a Braga, esperançado em obter d'elle +esclarecimentos que talvez me explicassem o destino de Helena. Mas ha +muitos annos que desappareceu, e ignora-se o rumo que levou, podendo ser +até que já tenha morrido... + +--Não sei, não conheci o _Tomba_. Ouvi fallar muito n'esse homem por +aquella occasião e sei que veio depôr como testemunha no tribunal de +Lanhoso, mas ignoro completamente o que fosse feito d'elle. + +--Se o _Tomba_ esclareceu a justiça e depôz como testemunha, então o +assassinato do pobre Alvaro obedeceu a um plano de vingança a que não +foi estranho o raptor de Helena... + +--O padre Anselmo? + +--Justamente. Como conhece v. ex.^a esse nome? + +--Pois não sabe v. ex.^a que elle andou por aqui missionando e que foi +com as suas perniciosas praticas ao canto do confissionario que +conseguiu desvairar a minha pobre amiga ao ponto de a fazer abandonar a +casa paterna? + +--E v. ex.^a era sabedora das intenções de Helena? + +--Eu! Se ella me tivesse dito alguma coisa, eu trataria de impedil-a +d'um semelhante passo. Guardou-se de mim como de toda a gente. O que eu +lhe notava era uma tristeza profunda, um recolhimento mystico de que +cheguei por vezes a reprehendel-a. Mas, como ella insistia, não me +preoccupei muito com isso, por suppôr que, retirando os missionarios, +breve retomaria a sua habitual despreoccupação de espirito. Enganei-me! +O mal tinha lavrado fundo, e o que eu suppunha não passar de um +momentaneo devaneio mystico, era afinal a monomania religiosa, com todos +os symptomas da loucura incuravel! Pobre Helena! nem chego sequer a +accusal-a de ingratidão pelo seu procedimento para comigo, porque, +apesar de quanto se possa dizer e de quanto tenho ouvido a meu irmão +Gustavo, julgo-a irresponsavel. + +--É esse o juizo que v. ex.^a forma de Helena de Noronha? + +--É. E formo-o assim, porque a conheci desde a infancia, e posso +assegurar a v. ex.^a que não havia mais nobre alma, coração mais terno e +cheio de affectos. Extremamente sensivel e impressionavel, de uma boa fé +e candura de anjo, foi talvez tudo isso que a perdeu. + +--O pae, segundo creio, projectava casal-a com o primo, com o Alvaro... + +--Sim, essas eram as supremas aspirações de Norberto. + +--E Helena amava o primo? + +--Não o amava. Mas tambem não tinha preferencia por outro homem. Muitas +vezes fallámos n'isso e lhe ouvi dizer que, posto o primo lhe fosse +indifferente, casaria com elle por obediencia ao pae. Recordo-me até +que, de uma das ultimas vezes em que nós fallámos a tal respeito, ella +me affirmou: «Meu primo é para mim um homem como os outros. Caso com +elle como casaria com outro que meu pae indicasse. O mesmo não +succederia, se eu tivesse, como muitas meninas da minha edade, algum +rapaz a quem quizesse mais...» + +--Não foi, portanto, a repugnancia invencivel pelo primo que a levou a +abraçar a vida religiosa.... + +--Decerto não foi. Mesmo porque Norberto de Noronha amava muito a filha +para a constranger a casar com um homem que ella abertamente recusasse. +Em Helena, o que houve foi a imaginação excitada pelas perigosas e +seductoras pinturas que o padre Anselmo lhe fez da vida religiosa, +fanatisando-a e enlouquecendo-a com infernal habilidade. + +Os dois calaram-se por instantes. + +--Sabe v. ex.^a--disse Julio de Montarroyo por fim--que me tem sido +immensamente grata ao espirito esta conversação a respeito de Helena? + +--É natural. Dei-lhe talvez esclarecimentos que v. ex.^a ignorava... + +--Por isso, e porque não ha para mim felicidade igual áquella que +experimento em poder fallar de Helena com pessoa que a tivesse +conhecido. Com effeito, v. ex.^a acaba de me contar pormenores que me +eram de todo o ponto desconhecidos... Mas ainda isso não é tudo: é que +sinto verdadeiramente um grande lenitivo em ouvir fallar de Helena de +Noronha e de coisas que de longe ou de perto se relacionem com ella. Foi +esse, e não outro, o motivo porque vim comprar a casa onde ella nasceu, +onde se creou, onde se passou a sua infancia. Parece-me que alli tudo me +hade fallar d'ella. Cada um d'aquelles logares me dará como que uma +recordação d'aquella creatura, que o destino pôz no meu caminho para +logo a fazer desapparecer com a rapidez com que foge e desapparece um +meteoro no espaço, em noite calmosa de estio! + +--V. ex.^a, sr. Julio de Montarroyo, amou Helena de Noronha com uma +paixão que tornaria feliz a minha pobre amiga, se ella tivesse podido +apreciar como eu toda a vehemencia do seu affecto! + +--Helena, minha senhora, sabia bem quanto eu a amava... + +--Sabia e não lhe correspondeu a esse amôr que preencheria as mais +ardentes aspirações de um coração sedento de affectos? + +--Correspondeu! Helena correspondeu tanto quanto a sua nobre alma lh'o +permittia, a esta paixão que me inspirou. E se não abandonou o convento +para vir salvar o pae moribundo e tornar feliz o homem que ella amava, é +porque foi victima de alguma infame cilada que para sempre a perdeu. + +Então Julio de Montarroyo contou a D. Aurelia que tivera repetidas +entrevistas com Helena no convento do Sardão; que ahi combinára com ella +a fuga, quando uma inesperada e repentina enfermidade veio transtornar +todo o plano concertado entre os dois; e que, sendo compellida a seguir +para Paris, lhe escrevera uma carta convidando-o a ir esperar noticias +d'ella na grande capital do mundo civilisado. E tendo ahi passado muitos +mezes, aguardando as promettidas noticias, nunca mais lhe fôra possivel +ouvir sequer fallar d'ella. + +--Conclue portanto que Helena... + +--Foi infamemente illudida mais uma vez pelos seus crueis algozes!... + +--Se Helena tinha alguma vez pensado sériamente em abandonar a vida +religiosa, creio bem que não seria facil impedil-a de realisar o seu +pensamento. Helena de Noronha era por demais altiva e dotada de energia +de caracter sufficiente para não se deixar prender e illaquear por outra +vontade que não fosse a sua. + +--Eu creio que Helena de Noronha já não vive... Procurei-a por toda a +parte, percorri o mundo em sua procura, e em parte alguma pude jamais +achar quem de longe sequer houvesse tido conhecimento d'ella. Isto me +leva a crêr que a supprimiram antes que ella pudesse effectuar a sua +evasão. + +--Seria possivel? + +--Nos antros jesuiticos tudo é possivel, minha senhora. + +--Mas não sabe v. ex.^a que o padre Anselmo foi quem resolveu Helena a +professar? + +--Sei muito bem. + +--Pois esse padre não poderia dar noticias de Helena, se lh'as +exigissem? + +--O padre Anselmo! Esse decerto poderia informar-me com verdade do +destino de Helena, se me fosse facil encontral-o. Mas é homem de quem +tambem ninguem me deu noticias... A unica pessoa que poderia talvez +dizer-me o que foi feito d'elle morreu ha muitos annos em Lisboa... Era +uma tal D. Carlota que, tendo auxiliado Alvaro e a mim proprio em todos +os esforços que empregámos para libertar Helena do convento, á ultima +hora nos trahiu, reatando as suas relações com o padre Anselmo... +Regressando a Braga, alimentava ainda esperanças de a encontrar; mas a +morte incumbiu-se de tornar ainda mais negro o mysterio que envolve +tanto a existencia de Helena como a do jesuita que a arrebatou para +sempre á familia e á sociedade. + +--Pobre Helena!--suspirou D. Aurelia--que negro destino foi o seu! + +--Infelicitou-se e infelicitou quantas pessoas se lhe aproximaram. Ha +creaturas assim dotadas d'este fatal condão de trazerem o soffrimento e +a desgraça comsigo. + +--E no emtanto as suas intenções eram sempre nobres e puras. Ninguem +conviveu mais de perto com ella e tambem por isso ninguem melhor do que +eu póde avaliar o thesouro de bondade que se abrigava n'aquelle coração! + +--V. ex.^a que vae ter-me por vizinho, hade ter paciencia, sr.^a D. +Aurelia, e permittir-me que alguma vez peça ás suas recordações o dôce +lenitivo de me fallar de Helena... + +--A minha vida é tambem uma interminavel cadeia de amargas tristezas +n'este solitario canto do mundo, onde nasci e me criei, onde gosei e +soffri todas as alegrias e todas as dôres da existencia... Posso dizer +que hoje vivo, como v. ex.^a, só de tristes recordações...--replicou D. +Aurelia com um fundo suspiro. + +A conversação foi interrompida n'este ponto pela chegada do juiz e do +commendador que desciam ao jardim discutindo entre si o programma das +festas em honra de Julio. + +Ao vêrem-n'o a distancia, em conversa animada com a D. Aurelia, os dois +entreolharam-se e, com um sorriso significativo, disse o magistrado: + +--Quer vêr que andamos, sem o pensar, preparando uma festa de nupcias? + +--Póde ser...--replicou o commendador--A D. Aurelia está ainda muito +fresca e, se o Julio tiver juizo, o que deve fazer é casar com ella para +se distrahir. + +Assim dizendo, fôram aproximando-se sem darem a perceber nos gestos ou +nas palavras a impressão. que aquelle encontro lhes causára. + +Mais tarde veremos se o juiz tinha razão. + + + + +XIII + +Denuncia + + +João Lazaro fôra pontual em comparecer á hora marcada para a ceia que os +amigos offereciam em sua honra, no Palacio de Crystal. + +O aventuareiro sentia-se intimamente lisonjeado e envaidecido por esta +demonstração de affecto e estima que Eugenio de Mello e os seus amigos +lhe davam. Mas apparentava grande desdem e indifferença por tudo quanto +o cercava, assumindo a attitude altiva e soberana de quem dispensa uma +honra quando recebe um favôr. Chegou mesmo a dizer a um de seus intimos, +no tom cançado e aborrecido de quem se vê obrigado a aturar importunos: + +--Estes idiotas massam-me, não me largam e offerecem-me banquetes para +terem a honra de se sentarem ao meu lado! + +--Não será bem isso--replicou o outro delicadamente, para não o +ferir--Devemos conceder que a amizade, a justa admiração pelos teus +talentos e, acima de tudo uma certa communhão de ideias, mais que a +vaidade pessoal, são as determinantes d'estas manifestações de que és +alvo... + +--Communhão de ideias!--tornou o João Lazaro desdenhoso--Que communhão +de ideias pódem elles ter comigo, se são uns idiotas, uns cretinos +incapazes de terem no cerebro impenetravel outra coisa que não seja +arroz cosido em vez de miolos? + +--Talvez tenhas razão, talvez... + +--Com toda a certeza que a tenho! Se eu não fosse um homem notavel, se +não tivesse conquistado uma popularidade que me torna a primeira figura +do meu paiz, cuidas tu que estes imbecis, estes biltres, teriam a +generosidade de me pagar um café, quanto mais uma ceia? Eu conheço-os. +Querem explorar-me, querem illuminar-se da radiosa aureola de +immortalidade que me circumda a fronte. Com os olhos postos no futuro, +querem, a troco de uma ceia, que os seus nomes brilhem a par do meu, +quando se fizer a minha historia e quando os seculos repetirem com +admiração o meu nome e o de todos aquelies a quem dei a honra de se +aproximarem de mim. + +O intimo, que era um homem sensato, porem delicado, não pôde conter-se +que não dissesse: + +--Agora, depois de te ouvir, convenço-me de que realmente os idiotas são +elles, se pensam como tu dizes... Pois queres que te falle com +franqueza? + +--Dize lá. + +--Creio que outro qualquer que te ouvisse, sem ser eu, juraria que o +idiota és tu! + +João Lazaro mordeu os grossos labios e, percebendo que irritara o amigo +com a sua estupida filaucia, mudou de tom e disse brandamente: + +--Confesso que fui talvez demasiado violento e um poucochinho injusto na +apreciação d'esses sujeitos, que pódem ser muito bôas pessoas, e +animados das melhores intenções, mas que me irritam profundamente, +vindo, com esta futilidade d'uma ceia, roubar-me o tempo que necessito +para tratar assumptos mais serios e de que depende a salvação de todos. +Porque é preciso que tu o saibas, eu não vim ao Porto unicamente para os +amigos me darem de cear... + +--Para que então? + +--Para ver se querem collaborar comigo na grande obra da salvação +publica... + +--Já lhes expuzeste o teu plano? + +--O meu plano é tão vasto que não póde ser resumido n'um discurso para +se repetir a cada um em particular; e é de tal modo melindroso, que +tambem não póde ser publicamente revelado a uma assembleia. Aqui, de +duas uma: ou ha confiança em mim, ou não ha. Se ha, faça-se o que eu +digo, facultem-se-me os meios de que careço e mais tarde se verá a obra +grandiosa que projecto e para cuja realisação todos devem concorrer. A +gloria, porisso, será de todos. Eu não a quero só para mim... Se não ha, +é inutil perguntar-me o que penso e o que desejo fazer. Se eu submetto o +plano á discussão, admittindo emendas e correcções, então o plano deixa +de ser meu para ser de todos, e eu deixo de ser a cabeça pensante para +me converter n'um simples instrumento como os outros. Ora a isso não me +sujeito. Sinto aqui dentro--e batia na testa com impeto--alguma coisa de +grande e de superior, para que consinta em me nivelar com essas +vulgaridades que nada teem feito e nada podem fazer, pela simples razão +de que não nasceram para dirigir, nasceram só para serem dirigidas. Ora +ahi tens a razão porque eu sou ás vezes injusto com aquelles mesmos para +quem o não devo ser... É que queria vêr mais ardor, mais enthusiasmo e, +sobretudo, mais desprendimento e menos egoismo n'aquelles que me +rodeiam!... + +--Bom! Mas, a final, o que queres tu? + +--Dinheiro! + +--Oh, diabo! isso é o mais difficil de obter, porque é isso precisamente +o que todos querem... + +--Pois se o querem, que m'o ponham ás ordens, que o semeiem, que eu lhes +volverei cem por um!--exclamou o João Lazaro, convicto.--Não me falta +mais nada. O meu plano está completo. Para o realisar, apenas careço de +dinheiro. Dêem-me dinheiro e, dentro em tres mezes, eu terei mudado a +face do paiz. + +--Mas bem vês, meu caro, que isso depende de circumstancias... + +--Quaes circumstancias? + +--Se o dinheiro que tu pedes para a realisação do teu plano fôr uma +somma tão importante que não esteja nas forças dos nossos amigos... + +--Nas forças dos nossos amigos deve estar sempre tudo aquillo de que +depende a salvação da patria. Quando se trata de um caso d'estes, +ninguem está a medir e a calcular o que póde fazer. As forças medem-se +pela grandeza da obra e da vontade de cada um para a realisar. + +--Não é tanto assim. Convencido estás tu da excellencia e efficacia do +teu plano, e tambem mais que ninguem deves sentir o desejo ardente de o +realisar. E, no emtanto, tropeças na difficuldade suprema de o pôr em +acção e pedes o concurso dos correligionarios para que o teu pensamento +não fique na cathegoria das coisas irrealisaveis... + +--Certamente. E creio que todos teem obrigação de me ajudar. O bem não é +só para mim, o bem é para todos. + +--Perfeitamente d'accordo. Isso não se discute. O que se discute é se as +sommas que a realisação do teu plano exige estão nas forças dos nossos +amigos. Bem sabes aquelle aphorismo: Onde não ha... + +--Pois sim, mas aqui não é o rei que perde, é o povo. + +--E o rei ganha, bem sei. Mas se a fatalidade das circumstancias assim o +impõe, o que havemos de fazer? + +--Assim o impõe, dizes tu! N'esse caso, já sabes que não ha +dinheiro!--exclamou João Lazaro n'um tom de amargo despeito. + +--Eu não sei nada!--volveu-lhe o interlocutor.--Isto são apenas +considerações que eu faço sobre o que póde succeder. Ainda não me +revelaste o teu plano, ainda não me disseste de quanto carecias... Como +queres tu que eu saiba se é realisavel ou não a somma que desejas? +Simplesmente, o que me parece é que, se essa somma fôr avultada, haverá +difficuldade em a conseguir. + +--Onde está então o amôr d'esses patriotas á ideia? + +--Está no coração. Mas tu bem sabes que o coração sem dinheiro é uma +força tão fraca que, hoje, nem sequer remove as difficuldades de um +casamento, quanto mais as difficuldades da salvação de um povo. + +João Lazaro fez um gesto de supremo desprezo. + +--E é por um partido d'estes que eu penso, trabalho e me sacrifico! Vale +bem a pena, realmente, expôr-se um homem a todas as violencias, a todos +os odios e todas as perseguições, para melhorar a sorte de um povo que +não está ainda educado para as grandes reformas sociaes! Cuida a gente +que encontra ao seu lado crenças profundas, dedicações sinceras, homens +capazes de sacrificarem tudo ao seu ideal, e dá mas é com um bando de +egoistas, agarrados ao dinheiro como a ostra á casca, incapazes de +soltarem um vintem sem se consummirem em calculos sobre o livro do +_Deve_ e _Haver_! Raça ignobil de bacalhoeiros ignaros, que estão a +pedir João Branco e Pita Beserra! + +Depois d'esta violenta explosão de colera, por não achar abertos os +cofres dos homens a quem d'antes chamava filhos e netos de heroes e aos +quaes agora malsinava de _bacalhoeiros ignaros_, visto que não lhe davam +o dinheiro que elle queria para sustentar a ociosidade infame, o João +Lazaro despediu o amigo com um gesto altivo. + +--Bem!--disse elle--tenho entendido. Não se arranja nada. O peor mal é +d'elles. Hão-de arrepender-se, mas ha de ser tarde... + +E consultando o relogio: + +--São horas. Vou ao Palacio, á tal ceia, mas recolherei cedo, porque não +estou para os aturar. Amanhã, se quizeres, apparece. Mas vem de dia, +porque á noite talvez retire para Lisboa. + +--O que! Retiras sem conferenciar com os nossos amigos? + +--Se me dizes que elles não estão dispostos a sacrificar-se... + +--Entendamo-nos! Eu digo apenas o que penso... Mas isto não é nem póde +ser tomado como uma resposta decisiva ao teu pedido... + +--Não, que eu não peço!--exclamou Lazaro com enfatuada altivez--Eu +proponho. Era o que me faltava! Servil-os com as minhas ideias, com o +meu talento, com o meu nome e vir ainda implorar-lhes que mo acceitem o +favor de os salvar! Se querem ser homens, se querem ser livres, aqui +estou eu, prompto a resgatal-os com o meu plano: dêem o dinheiro preciso +para o pôr em execução. Se, pelo contrario, preferem ser escravos +abjectos, vis instrumentos de especuladores sem dignidade nem +consciencia, fiquem-se com o seu dinheiro e a sua escravidão, que eu por +mim não darei mais um passo em beneficio de semelhante canalha! + +Disse e caminhou para a porta, magestoso e solemne como um deus sagrado. + +--Vaes para a ceia dos teus amigos, não é isso?--perguntou o outro +despedindo-se. + +--Vou fazer ainda esse ultimo sacrificio á popularidade de um partido +que me não merece. + +--Pois bem; vae, que eu vou tocar a capitulo, a vêr o que se póde +arranjar... Tu, porém, tens de ser ouvido... + +--Não terei duvida em fallar e expôr as coisas com as reservas precisas, +se porventura elles estiverem dispostos a entrar n'isto a sério. Se, +porém, vires que se retrahem e que apenas desejam ouvir-me por simples +devaneio, peço-te que não me incommodes, obrigando-me a descer até esses +bilhostres. + +Estendeu-lhe com superioridade dois dedos que o outro apertou, e desceu +a metter-se na carruagem de praça, que o esperava á porta do hotel. + +--Para o Palacio!--ordenou ao cocheiro. + +Pelo caminho, ia monologando: + +--Este idiota ficou aterrado com a minha attitude, e estou certo de que +vae mover os outros estupidos a largarem o dinheiro... Se não fôr assim, +á valentona, por boas palavras não se se faz nada... Preciso de lhes +apanhar dinheiro para ir até Hespanha. + +E com um sorriso lubrico a bailar-lhe nos labios sensuaes, n'uma atavica +reminiscencia da tanga: + +--Oh! as hespanholas... as hespanholas são um encanto! + +Quando entrou no Palacio, passava já da hora marcada. Os amigos, com +Eugenio á frente, vieram recebel-o n'uma doida expansão de alegria. + +--Cuidei que não vinhas!--disse-lhe Eugenio.--Seria um grande desgosto +para nós todos, que te estimamos, mas muito principalments para estas +damas, que nos honraram com a sua presença e que estavam anciosas por te +conhecer. + +O aventureiro saudou gravemente, com um forçado sorriso de polidez e, +respondeu n'um tom de pedantesca superioridade: + +--Foi em verdade um sacrificio grande para mim o ter de comparecer a +esta hora, e tanto que me vi forçado a transferir para amanhã uma +reunião importantissima que devia effectuar-se hoje. Amigos politicos, +que desejam ouvir-me sobre negocios da mais alta transcendencia, +insistiam comigo para que vos enviasse um bilhete de desculpa e não +protelasse a reunião que se havia marcado; mas eu recusei-me a acceder +aos seus desejos, pois não quero que se diga que sou menos amavel com os +velhos amigos da mocidade e com as bellas e gentis damas que os +acompanham. + +Seguiram-se as apresentações: + +--Senhorita Lola... + +--Senhorita Dolores... + +--Senhorita Consuelo... + +O João Lazaro, com os ademanes de um principe, sorria benevolamente a +cada um d'estes nomes, inclinando-se amavel, com modos de grande senhor. + +Abancaram á mesa e principiou o festim. + +A esta mesma hora, a loura Leonor, despedido o commendador Garcia, que +havia entrado ás sete, vinha debruçar-se á janella, na anciosa +espectativa de sentir ao longe os passos de Eugenio, quando um moço de +recados parou á porta da rua, espreitando para o numero, e bateu, depois +de se certificar de que era realmente aquella a casa que procurava. + +A criada desceu a vêr quem batia o pouco depois voltou com uma carta. + +--Um moço de fretes com esta carta para a menina... + +A criada, velha onzeneira e confidente das perfidias ao commendador, +usava d'este tratamento meio familiar, meio respeitoso, sempre que se +achava a sós com Leonor. + +--Dê cá!--disse a loura, pegando na carta e examinando o +sobrescripto.--Queres vêr que é algum massador a seringar-me com uma +declaração? + +--O portador não esperou _reposta_. + +--Bem sei que não esperou. Eu estava á janella e vi-o partir logo que +entregou a carta. + +E rasgou com um sorriso de curiosidade o sobrescripto. + +--É singular! O papel não vem perfumado--disse ella, mostrando o papel +vulgar em que a missiva vinha escripta. + +--É de homem de dinheiro!--commentou a velha, muito pratica em negocios +d'amôr.--Os _cheiros_ são para os pelintras que só querem agradar com +bugigangas e a respeito de _louça_... nem um pires!... Homem sério, +homem de _massas_, não está lá com essas coisas... Confia no seu +dinheiro e é bastante... + +Leonor, sem prestar attenção ao palanfrorio da criada, ia lendo n'uma +agitação crescente. Quando chegou ao fim, exclamou horrivelmente +pallida, amarfanhando o papel entre as mãos: + +--Oh! mas isto é impossivel! Isto é uma infamia! + +--O que é, menina?--perguntou a velha serviçal, n'um movimento de +curiosidade. + +--Dizem-me aqui--tornou Leonor com voz rouca de commoção--que Eugenio +vae casar. + +--Casar-se o sr. Eugenio! Credo, menina! Olhe que isso hão-de ser ditos +de gente que lhe quer mal... Que isto é, eu direi... nos homens não ha +que fiar... Elles prégam-n'a na menina do olho e, quando uma pessoa mal +cuida, parece que estão muito seguros e põem-se a _avoar_! + +Leonor, agitadissima, relia o papel para se certificar de que não tinha +comprehendido mal o que n'elle se lhe dizia e que era o seguinte: + +«Uma pessoa amiga, que muito a estima e que daria a vida para lhe ser +agradavel, julga dever avisal-a de que Eugenio de Mello acaba de pedir +em casamento uma menina de rara belleza, filha unica de um capitalista +muito conhecido n'esta cidade, e que o enlace se prepara para muito +breve. + +«Na roda dos rapazes finos, onde este acontecimento é muito commentado, +discute-se de maneira bastante humilhante para a gentilissima Leonor o +procedimento de Eugenio. + +«Uns affirmam que elle, cançado da amante, aborrecido de uns amôres que +já não lhe offerecem encanto nem prazer, busca pelo casamento com uma +menina rica, prendada, e muito formosa, a quem ama apaixonadamente, +libertar-se de umas relações que considera despreziveis e improprias da +sua dignidade. Outros sustentam que, pelo contrario, Leonor e Eugenio, +receiando que o commendador Garcia, de um momento para outro, +escandalisado com o mau uso que ambos fazem do seu dinheiro, _suspenda +pagamentos_, combinaram que o melhor era garantirem-se contra a miseria +provavel, casando Eugenio com uma mulher de dinheiro e ficando Leonor a +receber d'elle o preço dos seus amores como agora o recebe do +commendador Garcia. + +«Quem estas linhas escreve tem a certeza de que Leonor é vilmente +atraiçoada por Eugenio, e por isso caridosamente a previne d'este facto, +afim de evitar que a sua reputação, continue a ser infamemente +enxovalhada pelos mais intimos amigos do perfido e ingrato amante. + +«Se fôr discreta e prudente e quizer informar-se em segredo da +veracidade d'este aviso, a pessoa que lhe escreve esta carta estará +amanhã ás 11 horas em sitio d'onde aviste a sua casa. Se a janella do +meio estiver aberta, a sála illuminada e no piano se ouvir a valsa +_Leonor_, é signal de que deseja recebel-a e então essa pessoa +apresentar-se-ha para lhe dar todos os esclarecimentos que desejar. + +«Até lá, silencio e discreção é a unica coisa que se recommenda.» + +Relida esta carta em voz alta, Leonor encarou desvairada a velha +confidente, exclamando: + +--Se é verdade isto que aqui se diz, mato-o! + +--Crédo, menina!--bradou a velha benzendo-se--Isso são tentações do +demonio! Deixe lá, não faça isso, que não vale a pena uma pessoa ir +pagar c'os ossos na cadeia um burro ruim por um _bô_! Homens ha muitos, +tão _bôs_ e melhores do que aquelle... Olha agora, se a menina, com uma +carinha d'essas, que parece mesmo uma _image_, não achava homem que lhe +désse o merecimento senão aquelle! Crédo! andam ahi rapazes como uns +soes, babadinhos pela menina que tomaram elles quem lhes désse +attenção... Era só a menina abrir a bôcca e veria!... Eu é que não quero +dizer nada, mas tenho _osservado_ muita coisa... Só eu é que sei! + +--Que e o que você tem observado, Joanna?--interrogou Leonor roida da +curiosidade de saber alguma coisa que lhe esclarecesse a perfidia de +Eugenio. + +--Tenho-os visto por ahi a offerecer-me prendas se eu fizer com que a +menina lhes dê attenção... Mas eu cá... como a via virada p'ró sr. +Eugenio... mal haja elle, se é certo o que diz a carta! + +--E você nunca ouviu dizer nada, Joanna? Nunca ouviu que Eugenio tivesse +outro namoro? + +--Não, lá isso, na minha salvação se eu ouvi boquejar nem tanto como +isto! + +E mostrava a ponta da unha suja, para indicar o têrmo da comparação. + +--Mas será verdade?--tornava a loura passeando agitadamente na +sala--Elle terá animo para me fazer uma affronta d'estas, sabendo quanto +o amo, quanto me tenho sacrificado por elle? + +--O amor dos homens é como a fôlha do olmo... ora vira para um lado, ora +p'ró oitro, menina... + +--Oh! mas isto é impossivel! Eu não lhe mereço um tamanho despreso, uma +tamanha perfidia! É preciso que um homem seja muito infame para abusar +assim do amôr d'uma pobre mulher, para andar assim nas trevas preparando +um golpe de morte ao meu coração! + +E irritada, anhelante de desespêro torcia as mãos, com frenesi. + +A velha apaziguava: + +--Ás vezes _támem_ se diz mais do que é,.. + +--Mas diz-se, e nada se diz sem motivo... Alem d'isso, esta carta não +póde ser uma impostura, porque a pessoa que a escreve presta-se a dar-me +esclarecimentos... E ninguem ousaria vir comprometter-se affirmando uma +coisa que mais tarde se saberia ser mentira... Oh, meu Deus! meu Deus! +que mal te fiz eu para me fazeres tão desgraçada?!--exclamou por fim, +rompendo em soluços. + +--Desgraçado é o diabo!--consolou a velha Joanna--Quem conta um conto +sempre lhe accrescenta um ponto... Isso ás vezes póde ser que não seja +tanto assim... Mas se fôr, o que a menina deve fazer é botar o coração +ao largo... Mal por mal, antes isso do que o sr. commandador _Gracía_ +dar por ella e não tornar cá... _Antão_ sim, _antão_ é que a menina se +devia affligir, porque o amôr é muito bonito, mas sem dinheiro não se +arranja nada... + +--Cale-se, Joanna, cale-se!--bradou Leonor n'um impeto de +desespero--Você pensa como elle, que tambem vae atrás do dinheiro, sem +se lembrar que eu, para o amar, não estive a fazer calculos nem a +perguntar-lhe quanto possuia! Oh! mas eu lhe juro que não chegara a +gosar esse maldito ouro pelo qual me troca! Miseravel! neguei-lhe eu +alguma vez todo o dinheiro que me pedia? Sendo uma pobre mulher, vivendo +unicamente da protecção de um homem, eu nunca hesitei em sacrificar +todos os meus recursos, o meu dinheiro, as minhas joias, a minha +posição--o proprio amor do homem que me sustenta--ás suas necessidades, +aos seus caprichos, aos seus prazeres! E anda em segredo tratando +casamento com outra, vendendo ao dinheiro d'ella o meu coração, o meu +socego, a minha tranquillidade! E expõe-me aos ditos e ás chufas dos +seus amigos, arrasta o meu nome pelas mesas dos botequins onde me julgam +capaz de me associar a elle na infame exploração de uma mulher! Oh! a +ser verdade, mil vidas que elle tivesse não chegariam para pagar esta +affronta! + +No intimo de Leonor tumultuavam todas as paixões que pódem agitar um +peito de mulher: o amôr despresado, o amôr proprio offendido, a vaidade +irritada, o odio, o ciume, emfim. + +A velha encarava-a receosa, sem já se atrever a proferir palavras de +prudencia ou de banal consolação. + +De pé, a um canto, com as mãos cruzadas sobre a barriga, limitava-se a +suspirar, murmurando em voz lamurienta: + +--Seja pelas almas! Ninguem diga que está bem... Nossa Senhora do +Allivio nos accuda pela sua infinita misericordia! + +Decorreram assim algumas horas. Por fim, Leonor, mais tranquilla, +pareceu tomar uma resolução. + +--Joanna--disse ella--de tudo isto que aqui se passou, você não dá uma +palavra ao sr. Eugenio. + +--Ó menina! Crédo!--protestou a velha--a minha bôcca não se abre para +nada! Não diga a menina coisa nenhuma, que eu _tàmem_ faço de conta que +nada _assucedeu_... Mas a menina é capaz de não ter mão em si e +começar-lhe por ahi com _climas_, que elle logo desconfia... + +--Eu nada digo. Preciso inteirar-me da verdade, e para isso não convem +que Eugenio suspeite que alguem me disse qualquer coisa... + +--Por mim, não é que elle ha de desconfiar nada! E olhe que se a menina +fizer isso, anda ás horas!... Ao menos, assim, não dá logar a que elle +se encubra. E depois de se _infirmar_ da verdade, já fica sabendo quem +tem... + +--É justamente isso o que eu quero. + +--Porque ás vezes--commentou a velha--_támem_ são _malquerencias_... +Pobre do rapaz! póde ser que ás vezes nem lhe passe pela cabeça nenhuma +coisa d'essas e lhe estejam a alevantar esse falso testemunho, só p'ra +amôr da menina se dar mal co'elle... Olhe que no mundo _támem_ hão +muitas _invejidades_!... + +--Pois é por isso...--tornou Leonor dominando-se--Eu vou-me deitar... +Não desejo que elle me encontre a pé quando vier... E como isto é contra +o meu costume, vocemecê, amanhã, quando eu a chamar ao meu quarto, a +primeira coisa que tem a fazer é perguntar-me se estou melhor... + +--Bem sei; a menina quer-se _infingir_ doente esta noite p'ra elle não +desconfiar... + +--É isso mesmo. Vocemecê não esquece isto que lhe digo? + +--Ora essa! A'gora esqueço!... + +--Bem! Bôa noite! Pode-se ir deitar... + +--Então, com bem passe a noite, menina!... Se fôr preciso alguma coisa, +não tem senão chamar... + +Quando Eugenio recolheu a casa, era madrugada. A ceia prolongara-se e a +alegre companhia das hespanholas tivera o singular condão de fazer voar +as horas com a rapidez de minutos. + +Não foi sem um intimo constrangimento que o bohemio penetrou, ás quatro +horas da manhã, no quarto da amante. + +Comquanto a tivesse prevenido de que recolheria tarde, por motivo da +ceia offerecida a João Lazaro, esperava uma scena de ciumes, +recriminações e queixas, como succedia sempre que a fazia esperar. + +Foi, pois, com grande surpreza que a encontrou deitada e, ao parecer, +tranquilla. + +--Deitaste-te?--disse elle--Fizeste bem, minha querida. A ceia +prolongou-se mais do que eu esperava, e depois, conversa d'aqui, +anecdota d'acolá, quando demos conta de nós eram estas horas que vês! + +Leonor affectava uma grande serenidade e respondeu com ternura: + +--Estava anciosa que viesses, porque me senti muito incommodada... +Deitei-me por não poder estar de pé, mas não tenho dormido... + +--Estás doente, meu amor! O que foi isso? O que sentes? + +--Nem eu sei o que isto foi! Comecei a sentir muito frio e grandes dôres +de cabeça... E creio que tive uma ponta de febre... + +--Foi constipação, com toda a certeza! És uma descuidada, não te +agasalhas... Quando Deus quer, puzeste-te por ahi á janella, a vêr +quando eu chegava, e deu-te esse resultado! + +--Não! Como sabia para onde tinhas ido, não te esperava senão mais +tarde... Não sei, não posso calcular do que isto fôsse... + +--Mas estás melhor, não é verdade? + +--Sim... agora sinto-me um pouco melhor... Depois que tomei uma chavena +de chá bem quente, as dôres abrandaram-me um pouco... + +--Para que deixaste deitar a Joanna? Ella podia ter ido chamar-me... Tu +sabias onde eu estava, e se mandasses dizer-me o teu estado, viria +immediatamente. + +--Não valia a penna ir incommodar-te por uma coisa tão ligeira... Isto +passa. + +A conversação proseguiu assim serena, e amigavel, podendo Leonor +occultar aos olhos do amante o terrivel inferno que lhe ia n'alma. + +O bohemio, confiado e desprevenido, acreditou na simulada doença da +formosa loura e attribuiu a isso a pallidez mortal que no dia seguinte +lhe notou nas feições. + +Ella, pela sua parte, ameigava a voz, mostrava-se dôce e carinhosa, mais +ainda do que de costume, e quando chegou ao fim da tarde e o bohemio +teve de sahir para dar logar ao commendador Garcia, foi com um +transporte de ternura infinita que lhe disse: + +--Peço-te que não venhas tarde, mas tambem não desejo que sacrifiques a +companhia dos teus amigos á ideia de que estou mal, porque, felizmente, +sinto-me melhor... + +--Não, eu venho cêdo... + +--A que hora? + +--Depois da meia noite. Mas tu deita-te, não me esperes a pé, +filhinha... + +--Sim... se me sentir doente, deito-me, e a Joanna, quando tu vieres, +servir-te-ha a ceia, se ainda não tiveres ceiado... + +--N'esse caso, combinemos assim: eu ceio hoje fóra para não dar trabalho +á criada quando recolher. E tu não me esperas a pé... Valeu? + +--Pois sim. + +Beijaram-se e o bohemio partiu a encontrar-se com os amigos no botequim. + +Pelas onze horas da noite, e tendo já sahido o commendador Garcia, +Leonor, com a janella do centro aberta e a sala illuminada, sentou-se ao +piano e começou executando a walsa _Leonor_, conforme o seu anonymo +correspondente lhe havia indicado. + +Quando mais não fosse senão a natural curiosidade de conhecer quem lhe +escrevia denunciando-lhe a atroz perfidia de Eugenio, já era motivo mais +que bastante para que Leonor acceitasse o offerecimento que se lhe fazia +e désse o signal convencionado. Mas, muito mais que isso, imperava no +espirito da ardente rapariga o sentimento do ciume e o irresistivel +desejo de conhecer toda a verdade. + +Ainda a walsa não tinha chegado aos ultimos compassos e já á porta da +rua carregava no botão da campainha electrica um homem, embuçado n'uma +ampla capa á hespanhola e tendo occulto o rosto pelas abas largas de um +chapéo de feltro. + +A velha Joanna desceu a escada e, abrindo a porta, franqueou a entrada +ao desconhecido, indo em seguida postar-se de vigia n'outra janella, +para avisar da chegada de Eugenio, se acaso o presentisse na rua. + +Leonor, tendo descido a vidraça e corrido o store, esperava o +denunciante, de pé, na sala, com o coração palpitante de anciosa +curiosidade. + +O desconhecido entrou desembaraçadamente, fechou a porta sobre si e, +parando em frente de Leonor estupefacta, desembuçou-se, tirou o chapéo e +disse, inclinando-se em garboso cumprimento: + +--Não esperava que fosse eu, não é verdade? + +--O senhor!--disse Leonor com pasmo, reconhecendo no embuçado as feições +de João Lazaro. + +--Eu mesmo, é verdade!--replicou João Lazaro n'um tom meio grave, meio +galanteador;--julgava-me bem longe do Porto e completamente esquecido +d'esse rosto lindo... Bem vê que se enganou e que o interesse que uma +vez despertou na minha alma não desappareceu, antes mais se fortaleceu e +acrisolou com a ausencia. + +--Mas, perdão!--tornou Leonor, franzindo o sobr'olho n'um gesto de +impaciencia--creio que não foi para insistir nos seus protestos de +estima que aqui veio... + +--Bem sei! Está impaciente por conhecer toda a negra perfidia de +Eugenio... Vamos de vagar, minha querida, e deixe-me primeiro expôr-lhe +quaes os motivos que me impelliram a dirigir-lhe a carta que hontem +recebeu... + +--Mas não estão elles expostos n'essa mesma carta? Se, como creio, os +factos n'ella relatados são verdadeiros, basta a existencia d'esses +factos para explicar o seu procedimento... + +--Perdão, minha adoravel e gentil senhora! Tenho visto commetter muitas +perfidias, tenho sido testemunha de villanias e infamias bem +censuraveis, e nem por isso me tenho julgado no dever de intervir em +favor das victimas. E isto por duas razoes bem simples: a primeira, +porque, hoje em dia, no mundo a velhacaria, a traição, é moeda corrente; +e a segunda, porque as pessoas a quem tenho visto ludibriar e escarnecer +são em geral creaturas pelas quaes o meu coração não se interessa. Ora +com a gentil Leonor não estamos no mesmo caso. Creio que já em tempo lhe +declarei, e bem sinceramente, quanta sympathia, quanto interesse e +quanta dedicação a sua estonteante formosura despertava na minha alma... +Não me quiz attender, ou melhor, não tive a fortuna de lhe merecer a +mais ligeira estima. Outro mais feliz, porém immensamente menos digno e +mais ingrato do que eu, teve a dôce ventura de tocar o seu coração. Fui +preterido. Paciencia! O que n'essa preterição houve de injusto e cruel +para mim o de immerecido para elle vae agora a adoravel e encantadora +Leonor sabêl-o... + +--Por Deus, sr. Lazaro! conte-me tudo, não me occulte nada! + +--É então certo que o ama muito?--perguntou o aventureiro com um sorriso +ironico. + +Leonor franziu ainda o sobr'olho e respondeu n'um impeto de irreprimivel +desespêro: + +--Não sei se o amo, se o aborreço; sei que desejo saber quem é, como se +chama e onde mora a mulher com quem vae casar. Sei que o sr. accusa +Eugenio de me haver illudido, de me haver trocado por outra, e de me +haver ultrajado, fazendo suppôr que eu e elle entramos de sociedade e de +intimo accordo n'um casamento de exploração infame. Estas accusações são +gravissimas, quer para o caracter de Eugenio, quer ainda para o meu +coração de mulher. É preciso que o senhor justifique perante mim, sem +subterfugios e sem rodeios, tudo quanto hontem me escreveu, aliás... + +--Aliás?--interrogou João Lazaro, sorrindo. + +--Aliás terei o desgosto de lhe metter uma bala na cabeça. + +E, n'um arrebatamento de justa indignação, os olhos faiscantes, os +labios descorados e tremulos, Leonor tirou do bolso do vestido um +pequeno revolver, com coronha de marfim, e apontou-o a João Lazaro. + +--É justo!--disse elle tranquillamente, sem perder a linha do amavel +galanteador.--O castigo deve sempre igualar o delicto, e eu não +mereceria outra punição se calumniasse de maneira tão infame o homem que +a senhora ama e que, além d'isso, é meu amigo... Mas, vejamos: se a +mentira merece ser punida, a verdade não tem direito a ser premiada? + +--O que quer dizer? + +--Uma coisa muito simples e ao mesmo tempo muito justa. Se eu minto, +mata-me... Se eu fallo verdade, não é justo que me dê vida? Porque é +preciso que o saiba, Leonor: a morrer de amôr por esse esquivo e ingrato +coração, que a outro se abandonou, ando eu ha muito tempo! + +Leonor encarou-o com altiva dignidade: + +--É o meu coração o que me pede ou... a minha belleza? + +--Tudo, Leonor! Desejo tudo quanto póde dar-me a vida, a felicidade, que +sem o seu amor não existe para mim, e que outro ingrato indignamente me +tem usurpado! Prometta-me que não me recusará a esmola que lhe imploro +do seu affecto, e terá de mim a prova evidente, clara, irrecusavel, da +negra perfidia de Eugenio! + +Leonor ficou um momento perplexa, fitando o João Lazaro attentamente, +como se quizesse lêr-lhe no rosto os pensamentos mais intimos. Por fim, +respondeu: + +--O meu coração, por emquanto, não está livre. + +--Mas se aquelle que n'este momento o occupa fôr d'elle expulso, como +merece, poderei ao menos contar com um infimo logar no mais afastado +recanto do seu peito, Leonor? + +--Não costumo ser ingrata para os que uma vez me provaram dedicação e +estima sincera. + +--Não o será então para mim, porque, desilludindo-a, dou-lhe a prova +mais completa de quanto lhe quero, de quanto a amo! + +A loura indicou uma poltrona a João Lazaro e recostou-se no sofá que lhe +ficava proximo. + +--Assim entendidos--disse ella--queira dar-me as explicações que me +prometteu. + +--Perdão, minha querida!--tornou o aventureiro, sorrindo +amavelmente--Por emquanto ainda não passamos de promessas vagas, que a +nada obrigam... + +--O que deseja então? + +--Que me prometta, que me jure duas coisas... + +--Dirá. + +--A primeira que será discreta, que obedecerá em tudo e por tudo ás +minhas indicações, para chegar a obter a certesa absoluta da +infidelidade de Eugenio. + +--Prometto. + +--A segunda é que, confirmada a minha accusação e adquirida a certeza +completa dos factos que lhe aponto, conceder-me-ha uma hora de +felicidade, ao menos, consentindo que eu occupe durante ella, o logar +que, n'esta casa, occupava Eugenio... + +A loura hesitou, tomada de invencivel repugnancia por este homem que +mercadejava infamemente com a paixão terrivel que abrasava o seu coração +de mulher ciumenta. + +--E se eu recusar essa ultima condição?--perguntou. + +--Calar-me-hei, deixando-lhe o direito salvo de indagar por si o que +póde ficar sabendo desde já. + +--Pois bem, prometto. Falle e diga tudo o que sabe! + +--Vê que confio na sua promessa e que não lhe peço como penhor a mais +leve liberdade, nem sequer o adiantamento de um beijo... + +--É de mais!--bradou Leonor, colerica e impaciente.--Se veio aqui, para +se divertir á minha custa, fez muito mal, porque póde sahir-lhe cara a +brincadeira! + +--Ora vamos, minha querida... socegue!--volveu o Lazaro com um sorriso +cynico.--Bem vê que eu sou incapaz de abusar da sua credulidade, +submettendo o seu coração a um rude soffrimento por mero gracejo. Mas +estes casos, porisso mesmo que são graves e sérios, querem-se meditados +e reflectidos. Temos obrigação de os encarar com serenidade e sangue +frio, para procedermos com acerto e prudencia. + +--Pois bem; eu estou tranquilla e, se alguma impaciencia me nota, é +apenas a de ouvir as revelações que me interessam e que certamente me +vae fazer. + +--Ora muito bem!--principiou o João Lazaro.--Disse-lhe na minha carta +que Eugenio pediu em casamento uma menina formosa e rica. E disse a +verdade. + +--Como se chama essa menina? + +--Beatriz. + +--Onde mora? + +--Na rua do Breyner e é filha do capitalista Custodio de Jesus. + +--Diz então que o casamento está projectado para breve? + +--Digo. + +--N'esse caso, essa menina ama-o? + +--Tanto não sei, mas é de suppôr que sim, visto que está disposta a +recebel-o por marido. O que, porém, não offerece duvida é que Eugenio a +ama, pois que pediu a sua mão. + +--Foi Eugenio quem lhe disse que ia casar? + +--Eugenio nada me disse. Não atraiçôo, portanto, o amigo, descobrindo o +seu segredo... + +--Como o soube então? + +--Se é publico e notorio! Se nos cafés não se falla de outra coisa! + +--Não será isso uma invenção de rapazes levianos, que gostam de se +divertir á custa alheia? + +--Citam-se nomes e fazem-se commentarios. Além d'isso, a pessoa que mais +particularmente me elucidou d'este caso não conhecia Eugenio e veio +pedir-me informações a seu respeito. + +--O que lhe disse? + +--O que não podia deixar de dizer de um homem de quem sou amigo: que +Eugenio é muito bom rapaz, um cavalheiro a toda a prova. + +--Mas é forçoso impedir esse casamento! + +--Talvez não seja impossivel. + +--Conhece o pae d'essa menina, esse tal Custodio de Jesus? + +--De vista apenas. Não tenho com elle relações pessoaes; mas conheço +amigos intimos seus. O que deseja d'elle? + +--Informal-o de que Eugenio mantém relações comigo e fazer comprehender +que não deve dar a filha a um homem que tem uma amante... + +--Está doida! E o commendador Garcia? + +--Que me importa a mim o commendador Garcia, comtanto que Eugenio não +case!--bradou Leonor, erguendo-se arrebatadamente do sofá em que se +achava sentada e dando alguns passos pela sala, n'uma agitação +indescriptivel. + +--Venha cá, socegue!--disse João Lazaro, tomando-lhe a +mão.--Prometteu-me obedecer a todas as minhas indicações, e é forçoso +que cumpra o que prometteu. + +--Pois sim... Diga então o que devo fazer... + +--Em primeiro logar, certificar-se de que é verdade o Eugenio trahil-a. + +--Como? + +--Pela sua criada, que deve merecer-lhe toda a confiança... + +--Merece... + +--Pois a sua criada procurará travar relações com alguma das criadas de +Custodio de Jesus, e por esse modo saberá o que ha de verdade ácerca do +que se diz. Os criados sabem tudo e são os melhores informadores d'este +mundo. + +--E obtida a certeza? + +--Obtida a certeza, nada diz a Eugenio até ao momento que eu lhe marcar. +Faz isto? + +--Faço. + +--Que Eugenio não suspeite que lhe está no rasto da perfidia. + +--Não suspeitará. + +--E eu voltarei a informál-a. + +--Quando? + +--Quando tiver obtido todos os informes que precisamos. + +--E até lá nada devo dizer nem fazer? + +--Nada, senão isto: pôr a sua criada em relações com as criadas do +Custodio de Jesus. + +--Mas sabe que me condemna a uma tortura horrivel? Como quer que eu, com +o inferno no coração, guarde silencio e me sujeite ás dilações de uma +informação tão morosa? Eu preciso de resolver e actuar immediatamente! +Não está no meu genio occultar por muito tempo o que me vae n'alma... + +--As circumstancias impõem-lhe dissimulação e prudencia. + +--As circumstancias! Qual é a mulher que no meu caso attende ás +circumstancias? + +--Todas. No seu caso, todas--replicou João Lazaro com reflexiva +gravidade. + +E amaciando a voz, n'um tom de convicção profunda: + +--Ora venha cá!--disse elle--Deixe-me pensar pela senhora e defender os +seus interesses, o seu futuro, a sua posição, uma vez que essa cabecinha +transtornada não se mostra em estado de pensar coisa alguma com acerto. +E, creia, foi principalmente por isso que não quiz logo dizer-lhe tudo +na minha carta... Calculei que faria escandalo se não tivesse ao seu +lado alguem que a dirigisse, e procedi de fórma a obrigal-a a ouvir-me e +a attender-me... + +--Pois sim... já o ouvi e já o attendi... Mas o que não posso, o que os +meus nervos não consentem é, obtida a prova da perfidia de Eugenio, +remetter-me a uma passividade absoluta, deixando que o infame realise os +seus torpes intentos! + +--Não seja creança e vamos a vêr se consigo convencel-a de que um +escandalo ruidoso nada impede e a mais ninguem prejudica senão á +senhora... + +--Só a mim, diz? + +--Sim, só á senhora. Ora ouça, Leonor: Imagina que se se apresentar em +casa de Custodio de Jesus e disser: «eu sou amante ostensiva do +commendador Garcia, e o Eugenio de Mello é o meu amante clandestino», +essa declaração pesará no espirito do abastado capitalista o bastante +para impedir o casamento? + +Leonor baixou os olhos e não respondeu. João Lazaro continuou: + +--O mais que com isso poderá fazer, é provocar explicações da parte de +Eugenio que, bem longe de negar, confessará essas relações, que nada +affectam a reputação de um rapaz livre e em pleno goso da sua mocidade; +pois, infelizmente, toda a gente considera perdoaveis uns amôres que +sempre se calculam do duração ephemera e que, por isso mesmo, ninguem +toma a sério. + +A loura ergue-se como impellida por occulta mola. Os olhos faiscaram-lhe +de colera, n'uma indignação suprema. + +--Ninguem toma a sério o amor de uma mulher como eu!--exclamou ella--E +porque? Acaso o meu coração vale menos do que o d'outra mulher? Acaso +sou eu uma creatura differente de todas as outras, e porisso condemnada +a não sentir no meu coração os dôces affectos que são a vida e a +felicidade ainda dos seres mais despresiveis e obscuros? Não terei eu o +direito de amar e de exigir que o homem que despertou na minha alma o +terno sentimento a que jurou corresponder cumpra lealmente os seus +juramentos? + +João Lazaro ouviu impassivel esta rajada de indignação, sem perder um só +instante o sorriso meio amavel, meio ironico, que desde o principio lhe +brincava nos labios. + +--Tem razão--disse elle por fim--Mas que quer, minha querida? A +sociedade é quasi sempre cruel e iniquia nas suas decisões; e ahi está +precisamente um caso em que ninguem, da boa fé, poderá attribuir-lhe +rectidão e justiça. No emtanto, como a sociedade é que dicta a lei pela +qual cada um se rege, segue-se que Eugenio, na sua perfidia, tem a seu +favor a lei, que todos acatam, ao passo que a senhora tem apenas a +razão, que ninguem attende. + +--Ha de pelo menos attendel-a elle! + +João Lazaro teve uma gargalhada de zombaria. + +--Não o creia, minha querida! Se Eugenio prestasse ouvidos á razão, se +ao menos tivesse uma sombra de respeito por esse coração que elle +esmaga, por esse amor que calca aos pés, não teria pensado em casar-se. +Mas, digo-lh'o eu, e a senhora vae em breve ter a confirmação do que lhe +assevero, o Eugenio pensa, em se _fazer homem sério_ por meio de uma +alliança vantajosa e respeitavel, e está disposto a romper os laços de +uma affeição que nunca reputou duradoura nem digna d'elle. + +--Esbofeteal-o-hei publicamente como a um verdadeiro canalha que +é!--bradou Leonor completamente dementada. + +--Eis o perigo! Eis o gravissimo desatino que eu me julgo no dever de +impedir, porque a amo, porque a estremeço, Leonor, e porque nunca +poderia absolver-me de ter sido eu a causa indirecta d'essa grande +loucura! O que lucraria com isso? Fazer um escandalo cujo ridiculo +cahiria inteiro sobre a senhora? Obrigar a que a discutissem nos cafés e +a ultrajassem nas conversações particulares, como a uma mulher +despresada, uma mulher publicamente repellida? A sociedade é assim, +minha querida amiga! Não perdôa aos vencidos. E depois, o ruido d'este +escandalo chegaria aos ouvidos do commendador Garcia, seu protector. Por +muito que elle lhe queira, por muito que transija com os despoticos +impetos do seu temperamento e do seu coração de mulher galante, bem vê, +Leonor, que seria crear-lhe uma situação que nenhum homem, nem mesmo o +commendador Garcia, poderia acceitar... O rompimento, portanto, com este +seria inevitavel, e d'ahi um accrescimo de desgraça e mais um motivo de +prazer para todos aquelles a quem o seu desdem tem magoado. Repare bem +n'isto, Leonor, olhe que é um amigo sincero e verdadeiro que lhe está +fallando. + +--Mas o que devo então fazer, santo Deus!--clamou a formosa Laura, +estorcendo as mãos em desespero. + +--Ter prudencia e esperar. + +--Ter prudencia! Esperar... o que e como? + +--Nunca ouviu dizer, Leonor, que a vingança é o prazer dos deuses? Pois +tenha prudencia e vingue-se, Leonor... + +--Vingar-me? Sim! quero e hei-de vingar-me... Porém, como? Como é que eu +hei-de levar a cabo essa vingança tremenda que o meu coração anhela? + +--Primeiro, convença-se serenamente do delicto. Depois, julgue com +provas á vista, e fulmine a condemnação que o seu coração lhe ditar. +Para a auxiliar na execução da sentença, cá estou eu. Façamos uma +alliança, um pacto intimo, para nos auxiliarmos um ao outro. Eu +ajudal-a-hei a vingar-se do homem que a trahiu; a senhora ajudar-me-ha +a... + +--A que? + +--A realisar grandes emprezas que premedito... + +Leonor fitou-o com uma viva curiosidade. + +--E que emprezas são essas? + +--Mais tarde lh'o direi... Por emquanto, basta só que saiba que podemos +auxiliar-nos reciprocamente com grande vantagem e interesse para ambos. +Posso contar com a senhora? + +A loura hesitou. Por fim respondeu: + +--Póde. Mas ha-de de ajudar-me a impedir o casamento de Eugenio, ou, +pelo menos, a vingar-me d'elle. + +--Isso mesmo é o que eu lhe estou propondo. + +--Está bem!--disse a loura estendendo-lhe a mão--póde contar comigo. + +João Lazaro embuçou-se no capote, carregou o chapéo sobre os olhos e +dispoz-se a sahir. + +--Ámanhã voltarei á mesma hora--disse elle á sahida.--E o signal +convencionado para eu saber que me recebe, póde ser o mesmo de hoje. + +--Espere!--reflectiu a loura--Se ás vezes, por qualquer motivo, não me +fôr possivel recebel-o... + +--Claro está que não dá o signal. + +--Mas se me fôr preciso prevenil-o de que póde vir mais tarde... + +--Toque então a marcha da _Cadiz_. + +--Está bem. + +--Ainda mais--tornou o Lazaro--se quizer prevenir-me de que não venha no +dia seguinte, substitua. a marcha da _Cadiz_ pela _Cavallaria +Rusticana_. Ouvindo-a, já fico sabendo que só poderei vir dois dias +depois. + +--Não se dará esse caso, mas sempre é bom prevenir... + +--Comprehendeu-me perfeitamente. Até amanhã. + +--Até amanhã. + +O aventureiro tomou a mão de Leonor, depositou n'ella galantemente um +beijo, e sahiu. + + + + +XIV + +Miseravel! + + +João Lazaro recolheu ao hotel e no dia seguinte batia á porta de Jorge. +Era uma casa modesta, de homem só, em que se notava o natural desarranjo +de quem não tem os cuidados intelligentes de uma mulher a dirigir o +serviço domestico. + +--Venho fazer-te a promettida visita--disse João Lazaro ao amigo que +estava já sentado á banca no seu gabinete de trabalho. + +--Bem vindo sejas, meu caro!--volveu-lhe Jorge, interrompendo a escripta +e indicando-lhe uma cadeira. + +--Sempre a trabalhar!--disse João Lazaro com um sorriso de +curiosidade.--Em que diabo te occupas agora? + +--Tomo apontamentos para um bosquejo historico... Bem vês, a historia é +a minha paixão... + +--Bonito entretenimento para quem não tem que fazer... + +--Que queres? Em alguma coisa se hade matar o tempo... + +--Olha lá, porque não collaboras tu no jornal que eu dirijo em Lisboa? + +--Eu! + +--Sim, que duvida? O teu auxilio podia ser-me de immensissima utilidade. +Ha tão pouco quem escreva bem, e tu estás ahi a desperdiçar talento n'um +trabalho obscuro que ninguem lerá, que a ninguem importa, quando podias +brilhar entre os primeiros, tornares-te lido, popular... Queres? + +--Eu não! Detesto os jornaes politicos, bem o sabes, e principalmente os +da tua côr. + +--Mas, homem, eu não te peço a collaboração politica, posto que ella me +fosse extremamente agradavel e vantajosa... Mas, ao menos, a +collaboração litteraria. A litteratura pertence a todos os campos e não +impõe solidariedade de principios, nem sequer afinidade de ideias +politicas. O meu jornal está a precisar de sangue novo... Eu esforço-me +por fazer d'elle um jornal moderno, mas sou só e todo o meu esforço se +perde por não ter uma penna vigorosa, uma penna brilhante que me +secunde. Além d'isso, o publico não está educado, o publico não +comprehende o que é bom nem o que é mau, e d'ahi resulta preferir o mau +a que está habituado, deixando no olvido e na indifferença o que é bom! + +--Por esse lado, tenho eu a certesa de que não me havia de escassear +publico...--disse Jorge rindo.--Mas não, meu caro, eu não estou +resolvido a collaborar em jornaes... + +--Fazes mal! O jornal é ainda hoje uma arma formidavel, a unica que a +sociedade respeita, porque é a unica que a faz tremer. + +--Mas eu não pretendo amedrontar ninguem--tornou Jorge impassivel.--Não +tenho ambições, não alimento a vaidade de querer tornar-me celebre por +nenhum titulo, e portanto prefiro o socego, a tranquillidade do meu +gabinete e a suave alegria de um estudo que me não cança á lucta +violenta do jornalismo diario, famulento Minotauro, que consome vida, +actividade, talento que a todos aproveita, menos a quem lh'o sacrifica. +Deixemos isso, meu João, e dize-me: sempre partes hoje para Lisboa? + +--Não. Demoro-me ainda por cá uns dias, não sei quantos... + +--Bem! Folgo com a tua permanencia entre nós... É signal de que tiveste +bom acolhimento por parte dos teus amigos... + +João Lazaro fez uma carêta de despeito. + +--Uns pulhas, os taes meus amigos! + +--O que! Acaso não estás contente com elles? + +--Queres que te falle com franqueza? A ti posso dizer tudo, porque és +meu amigo... + +--Bem sabes que não tenho o menor interesse em revelar as confidencias +que me fazes. + +--Pois bem; declaro-te que estou arrependido de me haver sacrificado por +um partido de verdadeiros bilhostres! + +--Ai, já?! + +--Já! E, com franqueza, agora não me fica bem recuar... seria um +escandalo compromettedor da minha popularidade, do meu nome... Mas, +acredita, que se fosse coisa que eu pudesse fazer sem dar nas vistas, +fazia-o sem a mais leve hesitação. + +--Não pódes... isso com certeza não pódes--tornou Jorge. + +--Pois esse é todo o meu desespero! Tenho de permanecer atrelado a estes +imbecis que n'uma hora de irreflexão surprehenderam a minha camaradagem, +e não posso tirar d'elles a vingança que merecem! + +--Mas de que te queixas? Qual é o motivo do teu desgosto? + +--São uns miseraveis! Não ha quem lhes apanhe dinheiro para nada... +Estou compromettido, cheio de dividas, porque tenho gasto sommas +enormes, tudo para honrar o partido e sustentar o brilho do meu nome, +unica coisa que ainda dá importancia a esse agrupamento de idiotas... + +--És modesto, João!--interrompeu Jorge rindo. + +--Que diabo! entre amigos não ha necessidade de estarmos com cerimonias. +A verdade é esta... + +--Tens razão. _Inter amicus non est gerigonça_, dizia-se no meu tempo. +Continua. + +--Pois imagina que eu tinha phantasiado um projecto que não passava de +um plano bem combinado para arranjar uma somma de que preciso para me +livrar de apuros. Bato á porta dos correligionarios mais endinheirados +de Lisboa e digo-lhes que preciso de vir ao norte combinar com os nossos +amigos um golpe decisivo, mas que não posso vir sem dinheiro, porque +elle é, ainda hoje como sempre, a grande arma, a suprema força. Claro +está, eu não pedia para mim, pedia para o serviço do partido, para o +triumpho da causa... Calcula lá as difficuldades que tive de vencer para +lhes arrancar os magros cobres com que fiz a viagem? + +--Calculo, calculo... o dinheiro é sangue!...--disse Jorge com sarcasmo. + +--É sangue... mas não teem elles obrigação de dar o _sangue_ pela +patria? + +--É que elles não estão talvez bem convencidos de que a patria és tu... + +--Eu synthetiso a patria! sou a sua verdadeira imagem, pelintra e cheio +de necessidades como ella! Dar-me dinheiro a mim é dal-o á patria, +porque ella tem por dever sustentar-me, como eu tenho por nobre missão o +salval-a! Pois os grandes burros não se capacitam d'isto! + +--Mas, afinal, de que tens tu vivido? + +--D'elles. Hoje um, amanhã outro, todos teem ido largando os cobres, +persuadidos uns de que a coisa estava para já, outros pela simples +vaidade de se aproximarem de mim e de partilharem da minha gloria... Mas +agora começam a retrahir-se, e sei que alguns até já teem dito que lhes +sou pesado em demasia! Vê tu lá, acham pesado o mais brilhante ornamento +do seu partido! + +--O mundo está cheio de ingratos, meu caro! + +--Agora chego ao Porto, appello para o seu esforço, reclamo dinheiro á +ordem para a realisação do meu plano, e contra a minha espectativa, em +vez de pôrem á minha disposição os seus cofres, torcem o nariz e +perguntam-me quanto é preciso, como se isto fosse uma sacca de arroz ou +um costado de bacalhau que convém regatear! É inaudito, não achas? + +--Acho... acho que vieste sem dinheiro e que voltas sem elle... Meu caro +João, sejamos francos, tens levado uma vida de expedientes, uma vida de +exploração politica que não podia durar sempre... Tu devias pensar que +não ha minas inexgotaveis e que o mais vigoroso organismo não resiste a +sangrias repetidas... + +--É certo, mas eu não vim ao mundo para viver de ar e de esperanças... +Tenho trabalhado, tenho sacrificado a minha mocidade, a minha vida, é +justo que me auxiliem aquelles que eu auxilio... + +--Mas, que diabo! o teu auxilio é perfeitamente inutil, improficuo, e os +factos demonstram que, em vez de prestares auxilio, o verdadeiro +auxiliado és tu... + +--Estás muito enganado! Eu tenho segredos que valem dinheiro... Se eu +quizesse fallar, se eu quizesse reduzir a dinheiro tudo o que sei, não +teria difficuldades... + +Jorge sorriu. + +--Isso tambem eu creio--disse elle. + +--E afinal é o que eu venho a fazer, se vir que elles não correspondem á +sinceridade e dedicação com que eu os tenho servido... + +--Queres dizer, se não continuarem a corresponder... + +--Pois está claro! Eu não tenho obrigação de respeitar mais os +interesses d'elles do que os meus... + +Houve um silencio de alguns minutos. + +--É verdade, ainda te dás com o Avioso?--perguntou o Lazaro. + +--Continuamos a ser amigos como sempre fomos. + +--Esse homem é meu adversario politico, dos mais ferrenhos e +intransigentes, mas eu pessoalmente sympathiso com elle. + +--É um bello e generoso caracter. O peor defeito que lhe conheço é o de +ser politico. + +--Talvez me convenha aproximar-me d'elle... + +--Quando quizeres, estou ao teu dispôr. + +--Por emquanto não. Deixa ver no que isto pára... Mas, se me fôr +preciso, conto comtigo, com a tua discreção, com a tua amizade... + +--Já sabes que estou sempre ao teu dispôr... + +--Bem; havemos de fallar. + +N'estas meias palavras Jorge traduziu o pensamento intimo do +aventureiro, e disse comsigo: + +--Temos o chefe mudado em espião... + +João Lazaro accendeu um charuto e passado um instante, expellindo uma +fumaça: + +--A vida está para os vadios, para os valdevinos, para os impostores... +Olha aquelle rapaz por quem na dias me perguntaste no _Suisso_, o +Eugenio de Mello, como vae casar-se com uma herdeira rica, hein! + +--É verdade... Elle deu-te parte do seu projecto de casamento? + +--Qual! muito meu amigo, muito intimo, mas a respeito d'esse negocio, +nem pio! Os amigos, em geral, são assim... guardam o melhor para elles. + +--É que não estará ainda definitivamente resolvido o enlace... + +--Mas tu disseste-me que sim... + +--Foi o que constou. Mas tu sabes o que são os homens de dinheiro. +Primeiro que se resolvam a consentir no casamento de uma filha, tratam +de indagar se o noivo tem bens que correspondam á fortuna que vae +adquirir... E como tu dizes que elle não tem nada de seu... + +--Não tem onde cáia morto, essa te posso eu jurar! + +--Então ahi está! talvez que não sejas tu o unico a saber essa +particularidade com respeito ao teu amigo, e d'ahi sobreviessem +difficuldades... Apesar de que o procurador Belchior affirma, segundo +ouvi, que elle possue importantes propriedades no Alemtejo. + +--O procurador Belchior? Que sabe o procurador Belchior ácerca do +Eugenio? + +--Não sei... talvez indagasse. + +--Pois se indagou e diz que elle é rico, mente! Ahi ha de haver por +força grande embrulhada. + +--Talvez. No emtanto, o Belchior é muito amigo d'esse tal Eugenio, que, +não obstante, gasta dinheiro a rodos e sustenta bisarramente a fama de +rapaz rico... + +--Á custa do commendador Garcia... + +--Será, não contesto. Mas para ser dinheiro fornecido por uma mulher +n'essas condições, parece-me demasiado... Salvo se ella tambem é rica... + +--Não é, mas o commendador dispende muito com ella. + +--Ainda assim! Esse rapaz deve ter outra fonte de receita para tamanha +dissipação... + +--Elle tambem joga, e ás vezes a sorte favorece-o. + +--O jogo constitue uma ruinosa verba de despeza e nunca uma fonte de +receita, tu bem o sabes... + +--Pois é verdade; mas como tem cambiantes, permitte a illusão... + +--Nada! Com tão pobres elementos, ser-lhe-ia impossivel viver como vive, +dispender como dispende, e, sobretudo, conquistar a amizade do +procurador Belchior... Alli deve haver mais alguma coisa... + +--A não ser que o procurador vá feito com elle para embarrilar o +capitalista...--aventurou João Lazaro. + +--Tambem póde ser. Julgo o Belchior muito capaz d'isso. + +--Hei de averiguar!--tornou o João Lazaro. + +--Que interesse tens tu em o saber? + +--O interesse que tem todo o homem em conhecer as patifarias do seu +semelhante... Imagina tu que este Eugenio de Mello ámanhã me apparece +rico, senhor de grandes capitaes, personagem importante na politica e +que, por uma d'estas reviravoltas tão frequentes no homem que muda de +posição para melhor, acaba por se esquecer de mim, a quem hoje chama +amigo e offerece ceias?... + +--E se tal acontecer, que te importas tu com isso? É mais um biltre que +ficas conhecendo... + +--Pois sim, mas é um biltre que me offenderá impunemente, se eu não +tiver o cuidado de ir archivando as notas das suas patifarias d'hoje, +para lhe dar com ellas na cara ámanhã, quando elle se fizer fino... + +--Eu, no teu logar, e realisada semelhante hypothese, nem mais me +lembrava d'elle... O meu despreso seria castigo sufficiente á sua +canalhice... + +--Nada, nada, menino!--protestou João Lazaro--Quem o inimigo poupa nas +mãos lhe morre... + +--Elle, porém, não é teu inimigo... + +--Mas póde ainda vir a sel-o... E a experiencia tem demonstrado que o +homem previdente está sempre a coberto dos maiores perigos... + +--Tu és extraordinario, João! Se procedes assim com os amigos, como +procederás com aquelles a quem odeias?... + +--Queres ver? Olha! + +João Lazaro metteu a mão no bolso e tirou d'elle uma carteira que abriu. + +--Tenho aqui--disse elle--uma relação dos meus inimigos--a quem hei-de +um dia dar lembranças minhas... É uma espécie de lista da loteria em que +só estão os nomes dos individuos _premiados_... Vê! + +Apresentou a Jorge uma longa relação de nomes conhecidos. + +--Para que é isto?--perguntou Jorge. + +--Para que? São _crédores_ meus a quem tenciono _pagar_ um dia... Ha-de +ser uma _liquidação_ completa! + +E fez um gesto de quem aperta um laço. + +--Serias capaz d'isso, João?--disse Jorge n'um tom sombrio. + +--Oh! os candieiros não se fizeram para outra coisa! Has-de vêr... +Hei-de dar-te o espectaculo duma _illuminação_ como nunca viste. + +--Não darás... + +--Porque? + +--Porque se a _festa_ se preparar, eu já sei que, para evitar o +espectaculo de uma semelhante _illuminação_, tenho de te procurar e +metter-te uma bala na cabeça antes de mais nada. + +--Tu! + +--Eu. + +--Mas o caso não é comtigo. Tu não és meu inimigo. + +--Mas posso vir a parecêl-o, e com um homem como tu, é preciso estar +sempre prevenido... + +João Lazaro estremeceu. Cobarde até ao extremo, teve mêdo de Jorge. + +--Tu bem sabes que sou muito teu amigo e que não posso nunca duvidar da +tua amizade. Alem d'isso, eu estava gracejando... + +--E a gracejar confeccionaste esta lista... + +--Para apavorar simplesmente. É uma fórma inoffensiva de +vingança--aterrar os que são meus inimigos, os que me fizeram mal!... + +Jorge sorriu com despreso: + +--Mau processo é esse de apavorar os inimigos com ameaças que não +tencionas realisar...--disse elle. + +--Ao menos sobresalto-lhes as noites...--replicou o João Lazaro. + +--Sobresaltas-lhes as noites sem reparares que compromettes os teus +dias... Queres um conselho, João? + +--Dize lá?... + +--Rasga essa relação de nomes, que é o mais infame documento que pódes +dar do teu caracter... e se a mais alguem, sem ser eu, tiveste a +leviandade de a mostrar, pede-lhe que esqueça tamanha indignidade. + +--Jorge, vejo que levas muito mais longe do que eu suppunha um caso de +mera brincadeira da minha parte!--disse João Lazaro, verdadeiramente +compromettido. + +--É que a mim revoltam-me os actos de cobardia, mesmo quando não passam +d'uma invenção absurda e idiota. + +Fez-se um silencio constrangido entre os dois. + +--A prova de que nem sequer houve ou ha da minha parte a intenção de +realisar a vingança quo te disse contra os individuos cujos nomes +figuram n'esta relação, está em que t'a mostro justamente no momento em +que mais afastado vou ficar do campo que lhes é hostil.. + +Jorge encarou-o. + +--Vaes então mudar de campo de acção politica?--perguntou. + +--Não vou mudar, mas vou conservar-me inactivo, indifferente. Não me +entendo com semelhante canalha! + +--Entendamo-nos. Se conseguires que elles te deem dinheiro para a +realisação do teu decantado plano, o que farás? + +--Ao dinheiro? Gasto-o. + +--E ao plano? + +--O plano vou realisal-o para Hespanha; e é possivel que eu por lá fique +e mais elle... + +Jorge riu-se. + +--É então ainda uma mystificação que projectas? + +--Mystificação, propriamente dita, não é... Estreitarei relações com os +principaes vultos da peninsula, darei importancia ao meu partido, farei +que se falle n'elle e se julgue uma força muito mais consideravel do que +é... Isto creio que é serviço de algum valor e que bem vale o dinheiro +que me derem... + +--E se não conseguires que te dêem coisa alguma? + +--Terei que pedir emprestado aos adversarios--que, mais avisados, não me +recusarão o que os meus correligionarios me negam... + +--Sejamos francos: foi para isso que me perguntaste se eu estou ainda em +boas relações com o Avioso? + +--Foi. + +--Mas tu sabes que o Avioso não confiará em ti, se eu não te apresentar. + +--E tu apresentar-me-has. Tens duvida n'isso? + +--Conforme. Se te comprometteres comigo a não abusar da boa fé do +Avioso, estou ao teu dispôr. Do contrario, não. + +--Até faço mais... Isto para tu veres a minha lealdade... + +--Dize lá! + +--Eu não me aproximo do Avioso, para não dar nas vistas nem despertar +suspeitas... Faço-te as communicações a ti para tu lh'as transmittires. +Já vês que assim assumo a responsabilidade inteira para comtigo. +Acceitas? + +--Está combinado. Acceito. + +--Mas... tu comprehendes... a minha situação financeira é difficil... + +--Já sei. Quanto? + +--Por uma vez só? + +--Não. Por mez. + +--Diabo! Eu não sou um espião vulgar... + +--O que é bom paga-se bem. Quanto? + +--Duzentos mil reis será muito? + +--Não sou eu que hei-de dizel-o... + +--Pois quem? + +--Tu e mais ninguem. Não se compra o homem, compra-se o serviço... + +--Pois bem; que me assegurem duzentos mil reis por mez e eu prestarei +serviço que valerá muito mais. + +--Têl-os-has. + +--Mas--observou João Lazaro com uma certa hesitação--ha ainda uma +coisa... + +--Dize. + +--Eu estou crivado de dividas... tenho compromissos serios que não posso +protelar por mais tempo. + +--Bem sei, precisas de um adiantamento... + +--É isso. + +--Quanto calculas que te seja preciso? + +--N'esta data, seiscentos mil reis não era tudo, mas era um grande +auxilio. + +--Não ha duvida. Eu creio que o Avioso fará o adiantamento. Mas, tu bem +sabes, elle é curioso, excessivamente curioso mesmo... + +--Comprehendo. + +--Então, se comprehendes, não perderei tempo a explicar-te qual a +maneira de obteres do Avioso a somma que desejas. + +--Olha lá: uma relação completa dos que mais se salientaram nas ultimas +reuniões secretas e das resoluções n'ellas tomadas bastará por emquanto? + +--Basta. + +--Nesse caso, ámanhã, se, como eu supponho, as minhas difficuldades não +forem removidas por outra fórma, trarei tudo isso. + +--Está bem. + +--Visto isso, falas ainda esta noite com o Avioso? + +--Fallo. + +--Mas recommenda-lhe o maior segredo e discrecção. Que isto não +transpire por modo algum. + +--A quem mais interessa guardar segredo é a elle. Bem vês que, +inutilisado o agente, de nada serviria gastar dinheiro com elle. + +--É precisamente isso. + +--Não ha, pois, que recommendar-lhe um segredo que a elle proprio convem +guardar. + +João Lazaro accendeu outro charuto. + +--Só a tua grande amizade e dedicação me poderia levar a isto! + +Jorge sorriu. + +--A minha amizade e a sovinice sordida dos teus amigos... + +--É claro. Mas se não confiasse tanto como confio em ti, eu não +acceitaria uma aproximação de semelhante natureza com o Avioso. + +--E eu, se não fosse tão teu amigo como sou e não sentisse um grande +desejo de te auxiliar na situação difficil em que te encontras, tambem +não tomaria sobre mim o encargo de resolver o Avioso a dar-te dinheiro. +A proposito: sempre partes breve para Lisboa? + +--Já, já, não. Demoro-me aqui ainda alguns dias. Mas quando partir para +Lisboa, de lá mesmo nos entenderemos. + +--Perfeitamente. Outra coisa: sempre tencionas indagar a especie de +relações que existem entre Eugenio de Mello e o procurador Belchior? + +--Estou resolvido a tratar d'isso. + +--Não me disseste que esse Eugenio tem uns amores inconfessaveis, +occulta fonte de receita que equilibra o largo orçamento em que estão +representados todos os vicios com as respectivas verbas de despeza? + +--Digo e sustento. E a ti, como amigo, direi mais: essa loura, ciumenta +como um demonio e apaixonada como uma gata, já sabe que Eugenio projecta +casar-se. + +--Sabe? Quem lh'o disse? + +--Eu. Tu não me pediste segredo. + +--Nem me interessa que ella o não saiba. + +--Pois bem; essa loura repudiou-me quando eu me propuz, e tomou amores +com Eugenio de Mello. A hora da minha vingança havia de chegar, e +chegou. Accendi-lhe um inferno de ciumes no coração, e a esta hora está +ella esperando impaciente que eu lhe leve as minhas informações e as +minhas ordens. + +--Eu já sabia isso. + +João Lazaro encarou o amigo com espanto. + +--Já?!--perguntou. + +--Já. + +--Como o soubeste? + +--Eu sei tudo. + +--Não suppuz que te interessassem os meus actos a ponto de me mandares +espionar. + +--Não fui eu. Bem sabes que alguem mais do que eu se interessa em saber +a tua conducta. + +--Ah! sim...--fez João Lazaro reflectindo.--Mas esta visita que eu fiz +não tinha caracter politico--e não acho correcto que me espionem e me +sigam n'uma aventura galante com o mesmo encarniçamento com que me +perseguem quando eu conspiro... + +--Vamos a saber--disse Jorge.--Tens interesse em que Eugenio de Mello +não realise o casamento com a filha do capitalista? + +João Lazaro fez uma carêta. + +--Não me importo absolutamente nada com isso. O meu empenho é só +castigál-o pela sua falta de franqueza e lealdade para comigo. Devia +ter-me dito que ia casar, visto que se affirma meu amigo... Isto pelo +que lhe diz respeito a elle. Agora pelo que respeita a Leonor, vingo-me +e preparo o terreno para occupar a praça, que vae ficar abandonada. + +--Se Eugenio casar... + +--Quer case, quer não, Leonor não lhe perdoará. Convencida do que o +amante quiz trahil-a casando com outra, cortará immediatamente as suas +relações com elle, e, para se vingar, tratará de o substituir pelo maior +amigo do perfido. Ora ella sabe que o maior amigo de Eugenio sou eu... + +--E portanto, és tu o que reune as maiores probabilidades de vir a ser +admittido ao logar vago... + +--Justo! + +--É curiosa essa aventura! + +--É curiosa, mas muito vulgar entre amigos. + +--Será, mas entendo que deves proceder com cautela... + +--Porque? + +--Porque não te fica bem que se torne publico o teu papel nada invejavel +n'essa intriga. Queres fazer uma coisa? + +--Dize. + +--Não envolvas essa endiabrada lourinha em qualquer aventura sem me +consultares primeiro. Valeu? + +--Está dito. Mas não te esqueças de fallar ao Avioso. Estou immensamente +precisado de dinheiro... + +--Não me esqueço. + +O aventureiro estendeu a mão a Jorge, despedindo-se. + +--Adeus--disse elle--Amanhã procuro-te. + +--Pois sim. Adeus. + +Quando João Lazaro sahiu, Jorge, que o acompanhou com a vista até elle +transpôr a porta da sala, murmurou: + +--Sempre o mesmo biltre! Sempre o mesmo miseravel! + + + + +XV + +Conluio infame + + +No escriptorio de Custodio de Jesus, discutiam animadamente o dono da +casa e o seu amigo e confidente, o procurador Belchior. + +--A coisa é esta:--dizia o procurador--com pannos quentes não se faz +nada. + +--Ai, já? Você já é da minha opinião?--replicou o Custodio, +triumphante.--Pois, meu amigo, se eu, contra o meu genio, tenho usado de +pannos quentes, a culpa foi toda sua... Quando eu queria usar da minha +auctoridade de pae e levar a rapariga á força á igreja, você não +deixou... Segui o seu parecer, tentei levar as coisas pela brandura, e +agora é tarde para tomar outro caminho... + +--Qual outro caminho? + +--O caminho d'onde eu nunca devêra ter sahido... o caminho da +auctoridade e do rigor paterno... Mas agora, depois de eu ter descido +até ao ponto de chorar diante da rapariga e de a deixar levantar a +crista, a julgar que estou dependente da sua protecção, como é que eu +hei-de chegar ao pé d'ella e dar-lhe dois safanões e quatro berros que a +façam entrar na ordem? + +--Mas não é preciso nada d'isso, homem! + +--Não é preciso? Pois você diz que com pannos quentes não se arranja +nada e acha que não é preciso empregar a força? + +--Acho que se póde empregar a força, sem que você passe por ser um pae +cruel... + +--Pois está claro que eu tambem não vou empregar a violencia diante de +gente. O que se passa em minha casa escusa de se saber no meio da rua. +Mas não posso... a rapariga perdeu-me o respeito, agora... boas noites! + +--Homem, deixe-se de tolices... Ha uma força que nós podemos empregar +muito bem e a que a pequena não terá remedio senão obedecer... + +--Mas que força é essa então? + +--É a força das circumstancias, homem! Quem é que não se dobra á força +das circumstancias? + +--Ó demonio, mas essa força já eu empreguei; já disse á pequena que as +nossas circumstancias não podiam ser mais desgraçadas e nem assim +consegui convencêl-a. + +--Pois bem; mudemos de systema--disse o Belchior, piscando um olho. + +--Mudemos do systema como?--perguntou o Custodio, sem comprehender. + +--Se ella não quer largar o tal namorico, obriga-se o namorico a +largal-a a ella... + +--Quer você dizer que lhe mande eu dar uma carga de pau, qualquer noite +quando elle cá vier á porta... Mas isso o que faz? A rapariga é capaz de +tomar o freio nos dentes e então é que não haverá forças humanas que a +obriguem a acceitar este casamento... + +--Ninguem falla em empregar esses meios violentos... + +--Não? + +--Pois com certeza. Isso seria uma tolice sem resultado pratico. Aqui o +caso é outro... + +--Mas então diga lá. + +O Belchior fitou demoradamente o Custodio e disse: + +--A questão é você querer... + +--Pois eu quero! Tomára eu... Diga lá, homem! + +--O processo é um bocado exquisito, mas dá resultado... + +--Se dá resultado, vamos a elle!--concordou o Custodio--Então como é +isso? + +--É d'uma maneira muito simples; rapta-se a pequena... + +--Hein! O que? Rapta-se? + +--É claro! Prepara-se um rapto, faz-se escandalo e conduzem-se as coisas +de modo que a rapariga não tenha remedio senão casar com o Eugenio... + +--Mas...--obtemperou o Custodio indeciso--torne a dizer, que eu não +percebi bem?... + +--Isto não tem que perceber: combina-se um passeio ao campo... Vae você +com a pequena, vou eu com a minha mulher e minha cunhada... Andamos por +lá, petiscamos, e a paginas tantas minha cunhada afasta-se para mais +longe com a Beatriz, a admirar a paisagem... + +--Sim... E depois? + +--Depois, o Eugenio, que está emboscado com dois amigos, salta de lá, +agarra na Beatriz, mette-se n'uma carruagem e parte com ella a todo o +galope. Minha cunhada grita, tem um desmaio, nós acudimos, mas já é +tarde--não lhe podemos valer... O resto segue-se depois naturalmente... + +--O resto... Mas qual resto? + +--Ora qual resto! O casamento. Pois que quer você que se siga senão o +casamento depois d'isto? Beatriz, depois de raptada, não terá remedio +senão acceitar por marido o homem que a raptou... + +--Não sei... Ella é muito capaz de ainda assim recusar... + +--Qual recusa! Quando ella reconhecer a impossibilidade de casar com +esse pintalegrete que lhe endoideceu a cabeça ou com outro qualquer que +não seja o Eugenio, não terá remedio senão resolver-se... + +--E você sabe lá se o rapaz, ainda mesmo assim desiste? + +--Pois desiste, porque a gente faz escandalo... E depois d'ella +desacreditada, só se elle não tiver vergonha. + +--Desacreditada! Então a rapariga ha de ficar desacreditada? Isso não... +isso é que eu não consinto! Não é por mais nada... Mas emfim... ella usa +o meu nome, passa por minha filha, e eu não estou para me sujeitar e +andar fallado nas bôccas do mundo!--recusou honestamente o marido de D. +Carlota. + +--Que diabo! Você não sabe que tudo isto é uma _planta-fórma_ para +obrigar a pequena a casar? Que diabo tem que a rapariga seja raptada, +uma vez que o raptor a receba por mulher? + +O Custodio ficou silencioso e meditativo por alguns instantes como que +ruminando o plano do seu amigo Belchior. + +--A coisa--disse elle por fim--talvez desse bom resultado... Mas isso +era um escandalo de seiscentos diabos! + +--Pois era... era um escandalo bastante grande, e isso mesmo era o que +convinha... + +--O que! Convinha o escandalo--interrogou o Custodio +escandalisado--Então você quer que eu, como pae--porque afinal ella não +tem outro--goste e ver uma filha minha ou que passa por isso mettida em +escandalos? + +--Você não comprehende, Custodio, você não comprehende... Isto era +escandalo e não era escandalo... E como naturalmente fazia barulho, a +cidade alvorotava-se com a noticia do rapto e isso era justamente o que +convinha... + +--Mas convinha porque?--insistiu o Custodio. + +--Convinha por todos os motivos. Em primeiro logar, Beatriz, depois +d'este escandalo, comprehenderia que não podia casar com outro homem, +senão com o Eugenio... Em segundo logar, ainda quando ella teimasse em +alimentar no coração essa paixoneta pelo tal estudantelho que a namora, +não teria remedio senão curar-se, porque o rapaz, depois d'ella +desacreditada, não a queria e não lhe tornava a apparecer... Depois da +_praça_ abandonada, que remedio terá a pequena senão render-se? + +--Sim... e demos o caso que esse tal Eugenio, emfim... como é rapaz e +estroina, depois de a ter raptado, não se resolve a tomal-a por mulher, +senão debaixo de certas condições? + +--Quaes condições? + +--Por exemplo... exigir que eu augmente o dote á rapariga e querer que +se façam escripturas, de modo que o que é d'elle fique perfeitamente a +coberto... + +--O Eugenio não é capaz d'isso!--protestou o Belchior. + +--Eu sei lá! A gente vê caras e não vê corações... Depois da rapariga +perdida, eu não terei remedio senão sujeitar-me ás condições que elle +impuzer... Nada, isso não é bom plano. + +--Pois então, meu amigo, o melhor é desistirmos do negocio, porque não +vejo outro meio... + +--Desistir tambem não... Talvez que, se eu a mettesse n'um convento com +ordem de a tratarem com rigor e de não a deixarem fallar nem escrever ao +namoro, isso desse bom resultado. + +--Não dá resultado nenhum. Que diabo! Você é um homem desconfiado com +quem se não póde tratar nada a sério... + +--O mal dos meus burricos é que me tem feito alveitar--volveu o Custodio +coçando a suissa--Por eu ter confiado demais nos amigos é que aquelle +ladrão do padre Anselmo me roubou a fortuna e a mulher... Depois é que +eu vim a saber tudo... Mas era tarde, já lhe não podia dar remedio... + +--Pois sim, mas agora não se trata de lidar com gente de sotaina... Você +conhece-me ha muito tempo e sabe que tenho sempre zelado os seus +interesses como se fossem meus... + +--Bem sei isso, mas o caso não é propriamente com você, Belchior. Se +fosse você que tivesse de casar, eu acceitava o plano com os olhos +fechados, porque bem sei que você não era homem capaz de faltar ao que +promettesse... Mas com esse rapaz o caso é outro... + +--Não é outro nada...--replicou o Belchior.--Se elle se comprometter +comigo a casar com a pequena nas mesma condições em que está tratado, +cumpre com toda a certeza. + +--E se não cumprir? + +--Isso não póde ser... Mas se elle cahisse na asneira de faltar ao +contracto, eu cahia-lhe em cima com uma querella, que elle havia de ir +por uma barra fóra e nem tudo quanto tem lhe havia de chegar para a +justiça... + +--E o que lucrava eu com isso?--perguntou o Custodio com um sorriso +velhaco. + +--O que lucrava? + +--Sim, o que lucrava eu, se a justiça lhe apanhasse todos os haveres +pela maroteira feita a mim? + +--Homem, ninguem quer metter-se em assados... Logo que elle visse que o +caso era sério, chegava-se á razão... Você não comprehende? + +--Comprehendo... isso comprehendo eu...--mascou o Custodio indeciso. + +--Então, se comprehende, que mais quer? + +--E você compromette-se a fazel-o cumprir? + +--Está claro que comprometto! Eu fallo com elle, percebe? Fallo com elle +e proponho-lhe o expediente do rapto como coisa minha... Não lhe digo +que você está feito comnosco, porque, emfim, você é pae e é preciso +salvar as apparencias... + +--Sim, isso é bom... Mesmo para elle me não perder o respeito. + +--Justissimo! É isso mesmo!--apoiou o procurador.--Offereço-me a +proporcionar-lhe ensejo para a obra, mas imponho-lhe a condição de que +ha de casar sem mais preambulos e sem mais contratos, logo que seja +encontrado com ella. + +--Justo!--disse o Custodio. + +--Porque, se assim não fizer, compromette-me e então será comigo que +elle terá de se haver... Está bem assim? + +--Está optimo!--apoiou o Custodio radiante. + +--E o dito dito--tornou o Belchior--eu levo a percentagem combinada... + +--Isso está sabido. Arranje você as coisas de modo que o casamento se +faça nas condições combinadas e o dinheiro passa-lhe logo para as unhas. + + + + +XVI + +O rapto + + +Dois dias depois da conferencia entre o procurador e Custodio, Beatriz, +que fôra convidada pela mulher e a cunhada do Belchior para as +acompanhar n'um passeio ao campo, levantou-se de manhã muito contrariada +por não poder furtar-se ao convite que lhe não proporcionava o minimo +prazer. + +O Custodio fingia-se tambem contrariado, e tendo-se levantado muito +cêdo, resmungava de modo que a filha o ouvisse, maldizendo a lembrança +de o convidarem para um passeio que alterava os seus habitos e talvez +lhe puzesse a saude em risco. + +--Ora a minha desgraça!--clamava elle--Não basta ter tanta coisa que me +afflija, senão ainda agora obrigarem-me a andar um dia inteiro pelo +campo, a apanhar sol e a aturar senhoras! + +--Mas se o papá não quer--propoz Beatriz--manda-se dizer que está doente +e não vamos... + +--Isso não! Não póde ser. O Belchior ficaria desgostoso... + +--Mas se é um caso de força maior... + +--Não, já agora, estou a pé, sempre vou... Não quero que o homem +supponha que não tenho desejo de lhe acompanhar a familia. Mas isto +custa-me muito, porque a minha idade já não permitte estas folias... + +A este tempo parava um trem á porta e o Belchior e a familia subiam +açodadamente, gritando: + +--Então vamos? + +--Vamos lá... estou prompto!--disse o Custodio ao Belchior--A pequena +tambem já está preparada, acho eu... + +A mulher e a cunhada do procurador dirigiram-se aos aposentos de Beatriz +n'uma grande alegria: + +--Vamos, avie-se, sua preguiçosa! Então ainda n'esse estado? + +--Estou prompta. É só levar para o carro um pequeno cesto com umas +coisas que mandei preparar... + +--O quê! Mandou fazer de comer? Que tolice! Nós levamos alli comida que +chega para um regimento!... + +--Por demais não perde...--apoiou o procurador--Vamos embora que são +horas... O bonito é sahir cedo para andarmos por lá todo o dia... + +Entraram no carro, um _char-á-bancs_ enorme, e seguiram as duas familias +aos solavancos em direcção á quinta da Lavandeira. + +A mulher e a cunhada do procurador não faziam senão soltar exclamações +de admiração e alegria, encantadas com a paisagem. + +A tudo achavam graça, tudo achavam muito bonito. + +Obtida a permissão de entrarem na quinta, n'essa epocha ao cuidado dos +caseiros, seguiram os passeiantes por baixo do copado arvoredo, +dividindo-se em dois grupos: um formado pelas tres senhoras, e o outro +pelos dois homens. + +O procurador, allegando que para baixo todos os santos ajudam, despediu +o cocheiro, dizendo-lhe que não voltasse, porque regressariam a pé para +a cidade. + +--Vamos indo devagar por ahi fóra e até é mais pittoresco... não acha, +amigo Custodio? + +--A distancia, realmente, não é grande... + +--Em chegando á Bandeira, estamos em casa... A rua do General Torres +desce-se bem... + +--Eu cuidei que o passeio era para mais longe--disse a mulher de +Belchior. + +--Mais longe para que? Aqui estamos muito bem... A quinta é bonita e é +muito grande, dá bem logar para passearmos... E quando nos sentirmos +cançados, abancamos e toca a palestrar... Aqui o que faz bem é o ar... + +Passou-se o dia como não podia deixar de ser n'uma horrivel monotonia +para Beatriz, que de modo algum podia achar-se bem n'uma companhia que +não lhe offerecia o menor sentimento de agrado. + +O Custodio conversava com o Belchior sobre negocios, repisando o +assumpto. As duas senhoras que constituiam a familia do procurador, +esgotado o reportorio da má lingua contra a vizinhança e varias outras +familias conhecidas, calaram-se e, sentadas á sombra de uma arvore +frondosissima, começaram a cabecear com somno. + +Haviam-se levantado cêdo e resentiam-se do longo passeio. + +Beatriz, portanto, ficou uma grande parte do dia entregue a um +aborrecimento cruel, que a punha de muito mau humor. + +Pensava por vezes em Paulo, lembrando-se de que talvez não lhe fosse +possivel vel-o, fallar-lhe na noite que ia seguir-se a um dia tão +horroroso. + +Não pudera prevenil-o d'aquelle passeio, porque o mancebo havia duas +noites que não apparecia a fallar-lhe. + +Dissera-lhe que negocios importantes de que dependia o futuro dos dois o +deviam ter afastado do Porto por alguns dias, mas não se affligisse +ella, porque elle voltaria com boas novas. + +--Mas o que vaes fazer?--perguntara-lhe interessada em tudo o que o +mancebo intentava. + +--Permitte-me que por ora t'o não diga, meu amor. Breve saberás tudo e +tenho bem fundadas esperanças de que has-de applaudir o meu +procedimento. + +Esta persistencia em guardar absoluto segredo sobre os seus designios, +quando Paulo não tinha tido até alli um unico pensamento que lhe não +communicasse, impressionou-a. + +E era ainda sob a influencia d'este estranho procedimento do seu bem +amado que a pobre Beatriz se encontrava n'aquelle dia, um dos mais +aborrecidos e tristes de toda a sua vida, porque, além das mágoas +intimas que a torturavam, tinha ainda a constrangel-a e a aggravar-lhe o +soffrimento a presença de pessoas que, se não lhe eram odiosas, eram-lhe +pelo menos antipathicas. + +Ao cahir da tarde Custodio e o procurador fingiram enthusiasmar-se n'uma +grande polemica a proposito de uma questão commercial palpitante; e com +grande profusão de gestos e de berros, interrompiam-se frequentemente um +ao outro, sem chegarem a accôrdo. De modo que, esquecidos da distancia +que os separava do Porto, foram deixando-se ficar até ao cahir da tarde. + +A noite estava de luar, serena e calma, convidativa de longo passeio +pela fresca. + +--São horas de nos irmos chegando a casa...--advirtiu a mulher de +Belchior, quando notou que a conversa se ia demorando. + +--É verdade, vamos indo...--disse o procurador, travando de braço de +Custodio para continuar na discussão acalorada em que estava +interessado. + +E voltando-se para as senhoras: + +--Andem lá adiante... + +Sahiram para a estrada, a essa hora silenciosa e deserta. + +As damas, levando Beatriz cada uma por seu braço, tomaram a dianteira, e +muito alegres, muito lepidas, iam cantarolando por entre dentes alguns +numeros mais populares de uma revista em voga. + +--Ah! que dia tão bem passado!--exclamava a cunhada do procurador--Não +ha nada para abrir o appetite e dar saude á gente como é um passeio ao +campo! + +--E a noite está linda!--accudiu a mulher do Belchior--dá mesmo gosto +passeiar por uma noite assim! Não gosta do campo, Beatrisinha? + +--Não desgosto...--volveu a namorada de Paulo com o coração oppresso de +ignoto receio. + +O procurador e Custodio, de cada vez mais encarniçados na controversia, +paravam de vez emquando, falando muito, gesticulando, adduzindo +argumentos sem tom nem som. + +Era uma esperteza dos dois velhacos para justificarem a distancia a que +queriam encontrar-se no momento do assalto. + +--Deixe-as ir... deixe-as ir...--murmurava o Belchior--Quanto mais longe +estivermos d'ellas, mais facilmente o Eugenio e os amigos deitam a luva +á pequena. + +Assim foram caminhando, até que, n'uma volta da estrada, as damas deram +de frente com um trem parado, quasi obstruindo a passagem. + +Detiveram-se esperando, que o carro seguisse na direcção que ellas +levavam, para poderem continuar o seu caminho. Mas rapidamente dois +homens mascarados saltaram á estrada e, sem darem tempo á mais leve +resistencia, apoderaram-se de Beatriz e atiraram-n'a para dentro do +carro, que partiu em carreira desabrida. + +--A mulher e a cunhada do procurador, industriadas pelo marido e +perfeitamente conhecedoras do que havia de succeder, quando viram partir +o carro, desataram a gritar por soccorro, simulando uma grande +afflicção. + +Os dois patifes ao ouvir gritar as damas, correram para ellas muito +açodados, perguntando: + +--O que é? O que aconteceu? + +--Dois homens, sahindo-nos ao caminho, agarraram a Beatrizinha e fugiram +com ella dentro d'aquelle trem! + +E apontavam a carruagem que desapparecia n'uma curva da estrada. + +--E ella não gritou?--disse o procurador. + +--Ella soltou um grito, mas elles abafaram-lhe a voz, de modo que a +pobresinha não se tornou a ouvir! + +--Talvez a amordaçassem...--aventurou o Belchior. + +--Ou talvez perdesse os sentidos...--concluiu a mulher. + +O Custodio julgou conveniente fingir grande desespero, e levando as mãos +á cabeça, não fazia senão gritar: + +--Oh! minha filha! minha filha! desgraçado de mim, que me roubaram a +minha filha! + +--Um rapto!--gritava o procurador--O crime foi praticado de noite, e de +noite bastam os indicios... Vamos já ter com a auctoridade da freguezia +e apresentemos-lhe a queixa... + +--E quem diremos que foi o raptor?--perguntou o Custodio. + +--Ora essa! Foi o Eugenio de Mello... Pois quem havia de ser? + +-- Sim... foi elle... + +--Está visto que foi--tornou o procurador--Elle queria, ella não +queria... raptou-a! + +E em tom mais baixo: + +--Convem affirmar desde já que o vimos e o reconhecemos perfeitamente, +que é para o entalarmos logo desde o principio, de modo que não haja +outro remedio senão fazer-se o casamento sem escripturas. + +--Vamos a isso! Foi elle, o grande maroto!... Eu bem o reconheci... Isto +não é coisa que se faça a um pae! + +--Mas que coisa! que coisa!--dizia a mulher do procurador, simulando a +maior consternação.--Ainda não estou em mim! + +--Ai, meu Deus!--accrescentava a cunhada--Em que perigo nós nos +mettemos! Olhem se aquelles malditos se lembravam de me raptar tambem a +mim! + +--Á senhora?!--disse inconvenientemente o Custodio, com um sorriso +escarninho. + +--E então?--retorquiu a cunhada do Belchior, offendida--Eu sou solteira, +e elles eram dois... + +--Ahi está a prova!--affirmou o procurador--Vinham dois e raptaram só +uma... Logo, provará que o reu premeditou o crime, porque escolheu a que +lhe fazia conta. Foi o Eugenio de Mello, não ha que ver... Vamos ter com +o regedor para perseguir os fugitivos! + +Tudo isto era dito a andar esbofadamente pelo caminho que conduzia ao +largo da Bandeira, em Villa Nova de Gaya, onde afinal chegaram depois +das nove horas da noite. + +Tendo indagado onde morava o regedor, apresentaram-se-lhe, e +contaram-lhe o succedido. + +--E para onde fôram elles?--perguntou o funccionario. + +--Nós ainda os seguimos um bocado gritando; mas ninguem nos accudiu, e +afinal perdemol-os de vista... + +--Os senhores reconheceram os raptores ou suspeitam quem fossem? + +--Elles levavam a cara coberta, mas um d'elles descobriu-se sem querer, +deixando vêr o rosto, e todos nós reconhecemos um rapaz que vive no +Porto e que se chama Eugenio de Mello. + +--Bem!--concluiu o regedor--Eu vou mandar os meus cabos indagar, a vêr +se descobrem os criminosos... E amanhã dou parte para a administração. +Mas sempre será bom os senhores apparecerem lá para formularem a queixa. + +E preparando-se para tomar nota n'um papel: + +--Os seus nomes, fazem favor? + +O Belchior declinou os nomes de todos, figurando elle, a mulher e +cunhada como testemunhas e o Custodio de Jesus como queixoso. + +--Vou já mandar proceder a rigorosas pesquizas na minha freguezia--disse +o regedor--a vêr se se encontram os delinquentes. Mas, amanhã, o sr. +administrador terá conhecimento do facto e tomará as providencias +precisas... + +--Veja v. s.^a, sr. regedor, a situação em que me encontro com uma filha +roubada nas minhas barbas!...--lamuriou o Custodio. + +--E demais a mais, menor!--declamou o procurador--É crime de casamento +ou penitenciaria! + +--Tudo vem a dar na mesma... Pobre de quem as tem!--Concluiu o regedor. + +--E agora--disse o Belchior muito solicito--em chegando á cidade, vamos +direitos ao commissario de policia, apresentar a queixa... + +--Está visto...--apoiou o regedor--Ninguem sabe o caminho que os +fugitivos tomaram, e a policia, telegraphando para todos os concelhos, +póde muito bem fazel-os capturar... + +--O que vale é que nós conhecemos o raptor... + +--Sim, isso é meio caminho andado--disse o regedor--e se tivessem +photographias, ainda melhor... + +--A verdadeira photographia é o nome--accudiu o procurador--Elle é +conhecido. + +--Bem, bem! Eu vou tratar de ver se elles estão na minha freguesia, mas +não me parece... Amanhã, amanhã na administração do concelho, o snr. +administrador dará as ordens. + +Despediram se do pacifico funccionario que, interrompido no trabalho de +empacotar prégos para a Africa, voltou á sua tarefa, logo que os viu +sahir. + +--E d'aqui para a policia!--bradou o Belchior já na rua. + +Metteram pela rua do General Torres abaixo, em direcção á cidade. + +--Tudo correu bem!--segredava o procurador ao Custodio--Agora, na +policia, é que a coisa vae dar echo... Talvez amanhã saia nos jornaes... + +--Ó diabo! mas isso é uma vergonha... fica-me a rapariga perdida! + +--E você a dar-lhe! Ella fica mas é achada, porque não terá outro +remedio senão casar com o Eugenio... + +--Sim... isso é verdade. + +--Pois ahi está! Quanto maior fôr o escandalo, melhor. Deixe fallar os +jornaes... Tomaramos nós que elles berrassem bastante... Até nos +convinha... + +--Mas os jornaes só depois d'amanhã é que se occuparão do caso, porque +já hoje não vão á policia... + +--Pois sim; mas vou eu aos jornaes... Isto é preciso não deixar +arrefecer... Precisamos de lhe tapar todas as sahidas... Ella ha-de +casar, quer queira, quer não! + +Deixemo-los seguir caminho da policia e dos jornaes, e vejamos o que foi +feito de Beatriz, a essa hora seguindo caminho desconhecido na companhia +dos dois mascarados que a raptaram. + +Surprehendida pelo assalto inesperado d'aquelles dois homens, Beatriz +quiz resistir e gritar, mas vendo-se cingida por uns braços possantes e +atirada para dentro do carro com uma rapidez assombrosa, foi tal a +commoção que soffreu, que perdeu os sentidos. + +Quando o trem se poz em fuga n'uma corrida vertiginosa, um dos +mascarados quiz naturalmente serenal-a, porque disse n'uma voz repassada +de ternura, pegando-lhe na mão: + +--Beatriz! + +Mas a pobre pequena reclinada sobre um dos lados do trem, não se mexeu. + +--Beatriz!--tornou a dizer a voz, sacudindo-lhe levemente a mão fina e +delicada. + +O mesmo silencio e a mesma immobilidade. + +Estão o desconhecido que a chamava, inclinou-se-lhe sobre o rosto, +poz-lhe a mão na fronte, que estava banhada de suor frio, e notou que a +filha do Custodio não respirava. + +--Perdeu os sentidos!--disse elle visivelmente commovido. + +--É natural--replicou o companheiro.--Compleição franzina e delicada, +assustou-se e desmaiou. + +--E agora?--perguntou o que primeiro fallara. + +--Agora é caminhar... caminhar sempre até chegarmos a casa... O trem vae +em boa carreira e não devemos demorar muito a chegar lá. + +E vendo que o companheiro se mostrava de cada vez mais inquieto e +afflicto: + +--Não te assustes--tranquillisou.--Isso passa. É um ligeiro deliquio, +que até nos favorece o bom exito da empreza. + +--Parece-me que não somos seguidos.--tornou o outro, inquieto. + +--Quem querias tu que nos seguisse, se tudo estava tão bem combinado e +tudo correu tão de molde ao nosso desejo que os que podiam impedir-nos +foram os proprios que nos auxiliaram?... + +--É verdade. Elles conservavam-se a distancia, mandando as senhoras +adiante... + +--Já esperavam o lance, os patifes! + +--Pois é claro. O que eu queria era vêr a cara d'elles quando souberem +que a raptada seguiu caminho differente d'aquelle que lhe haviam +assignalado... + +--Era para Villar do Paraiso, pois não era? + +--Era. + +O trem havia descido a rua do General Torres e parara á entrada do +taboleiro inferior da ponte D. Luiz para pagar a portagem. + +--Estamos na ponte--disse o primeiro dos dois desconhecidos. + +--Estamos. Agora falta-nos atravessar a cidade. É questão de meia hora. + +Paga a portagem pelo cocheiro, o trem continuou o seu caminho, sem que +alguem reparasse na veloz corrida que levava. Andou assim meia hora, até +que a final entrou na estrada do Carvalhido, parando em frente de um +largo portão de ferro. + +--Eis-nos, emfim!--disse um dos dois raptores. + +E levando um apito aos labios, tirou d'elle um silvo agudo e prolongado. + +Immediatamente o portão se abriu e a carruagem entrou n'um largo pateo, +seguindo por uma extensa alea de frondosos castanheiros, até junto de +uma casa de severo aspecto, que alli se erguia, dominando os vastos +campos que a circumdavam. + +Os dois desconhecidos saltaram do trem, conduzindo nos braços Beatriz, +ainda em deliquio, para uma sala interior ricamente mobilada. + +Depositaram a pobre creança sobre um sofá, e rapidamente, correndo-se um +reposteiro, appareceu na sala uma dama alta, de nobre aspecto, que fez +aspirar a Beatriz um frasco de saes. + +Dos dois mascarados, um murmurou algumas palavras ao ouvido da dama e +retirou-se; o outro, tirando a mascara, ficou com os olhos pregados em +Beatriz, sem preferir palavra. + +Momentos depois, a filha de Custodio, suspirou, abriu os olhos e +circumvagando um olhar pela sala, soltou um grito d'alegria. + +--Paulo! És tu?--disse ella. + +--Sou eu, Beatriz, sou eu! E Paulo aproximou-se da namorada, pegou-lhe +na mão e beijou-lh'a com transporte. + +--Paulo!--tornou a filha de Custodio, visivelmente intrigada--o que é +isto? Como me encontro eu aqui? + +--Encontras-te aqui, minha querida, porque eu te salvei de um grande, de +um enorme perigo... + +--Ah! bem sei... aquelles homens que nos assaltaram na estrada... Meu +Deus!--disse ella, recordando-se da scena estranha que se déra.--Mas +como pudeste tu saber? + +--Pude saber que te queriam raptar, d'accôrdo com teu pae e com o +procurador Belchior--esclareceu Paulo:--Era uma cilada infame que te +estava armada e em que te queriam fazer cahir... + +--Com o consentimento de meu pae?!--gritou Beatriz horrorisada. + +--Com o consentimento de teu pae, sim. E eu que fui advertido da +desgraça a que semelhante infamia ia condemnar-te, resolvi substituir os +raptores e, em vez d'elles, apresentar-me eu a raptar-te. + +--Ah! então os dois homens que me assaltaram no caminho e me lançaram +dentro do carro... + +--Era eu e um meu amigo. Teu pae e o Belchior ficaram persuadidos de que +foi Eugenio de Mello quem effectuou o rapto, porque tinha de se +realisar, estava combinado entre elles, e nem por sombras suspeitam a +esta hora que, em vez de cahires nas mãos do noivo que te queriam impôr, +estás ao lado do escolhido do teu coração!... + +Beatriz relanceou um olhar curioso para a dama desconhecida que, junto +d'ella, o estava fitando com expressão de ternura maternal. + +--E esta senhora--disse ella--quem é? + +Antes que Paulo respondesse, madre Paula, pois que era ella, respondeu á +pergunta: + +--É uma amiga que muito a estima e que só deseja a sua felicidade, minha +filha. + +--É minha mãe!--accrescentou Paulo, beijando carinhosamente a mão á +religiosa, mais elegante e sympathica nos seus trajes seculares. + +Madre Paula sorriu amavel e dirigindo-se a Beatriz: + +--Este louco--disse ella--teima em querer impôr-me um titulo que me não +pertence e a que de forma alguma tenho direito... + +--Não diga isso, minha mãe!--protestou Paulo--Pois quem me acalentou na +infancia, quem protegeu e amparou os meus primeiros passos, quem tem +tido sempre para mim todos os disvellos, todas as ternuras e carinhos de +uma mãe por seu filho? Conheci eu outra mãe? Ouvi alguma vez palpitar +junto do meu berço outro coração que não fosse o seu, grande e generoso? + +--Mas, meu filho...--ia a dizer madre Paula commovida. + +--Meu filho! vês?--interrompeu o mancebo voltando-se para Beatriz--Diz +que não é minha mãe e chama-me seu filho! + +Madre Paula replicou n'um tom cheio de bondade e doçura: + +--«Meu filho», é a formula terna, cariciosa do meu tratamento para +comtigo... Mas se me deves affeições e cuidados que outra qualquer no +meu logar te dispensaria, é todavia bem certo que outra tem direito á +funda veneração e aos ternissimos affectos do teu coração de filho... + +--Outra!--exclamou Paulo indignado--Quem quer que ella seja não a +conheço, nunca a vi nem desejo vel-a! Se tive outra mãe, aquella de quem +a natureza ou a fatalidade se serviu para me lançar a este mundo, é tão +pouco o que lhe devo em affeição e tanto o que d'ella me veio em dôres e +soffrimentos, que já faço muito não a odiando, para sómente sentir por +ella indifferença. + +--Paulo, não digas isso!--reprehendeu madre Paula--Sabes que me +mortificas fallando assim. Não te aconselhei e não busquei sempre +incutir no teu coração o sentimento do amor e respeito que se deve aos +paes? + +--Perdôe-me, minha boa mãe! Os seus conselhos não foram esquecidos nem +os seus esforços baldados. E a prova é que a amo e a respeito com todas +as véras da minha alma, com todas as forças do meu coração. Mas como +quer que eu tenha os mesmos affectos, os mesmos ternos sentimentos de +respeitosa veneração por uma outra que não conheço, que nunca vi, que me +abandonou e me deixou entregue á generosa caridade de seu nobre coração, +minha boa e santa mãe? A ella devo os soffrimentos, as angustias da vida +que eu lhe não pedi e que de bom grado dispensava. A madre Paula devo +tudo o que um filho deve a sua mãe: devo-lhe o amparo, o carinho, a +protecção o amor que uma boa mãe tem sempre por seu filho. Quem é, pois, +minha mãe? A quem devo eu todo o respeito, toda a obediencia, toda a +estima e gratidão que constituem a obrigação de um filho para com seus +paes: aos que me crearam e protegeram, ou aos que me deram o sêr e me +abandonaram? + +E voltando-se para Beatriz, que assistia silenciosa e commovida a esta +scena: + +--Responde tu, minha amiga! Tu, que tens sido tambem victima da +crueldade e dureza de um pae descaroado e egoista, que a todo o momento +te torturava, consulta o teu coração e dize-me se sentes por elle o +mesmo enternecido affecto que sentias por tua mãe, de quem me tens +fallado com tão viva saudade? + +Beatriz corou e disse: + +--Se é um crime não amar os paes, que, depois de nos terem lançado ao +mundo, se julgaram dispensados de ter por nós disvellos e amoravel +compaixão para com a nossa infancia desvalida, confesso que sou tambem +uma grande criminosa... Por meu pae não senti nunca o suave e dôce +affecto que me inspirava minha pobre mãe. Ella era meiga, terna e +bondosa para mim. Elle, rispido, austero, sêcco, intratavel. Nunca me +dispensou um affago, nunca teve para mim um sorriso, a não ser agora, +nos ultimos tempos, quando, representando commigo uma comedia... +inclassificavel, queria sacrificar o meu coração ao dinheiro de um homem +que eu não podia amar. Até ahi, porém, só teve para mim arremessos, +gestos bruscos, despotismos de senhor que se vê compellido a tolerar um +escravo de que deseja desfazer-se. Depois da morte de minha mãe, esse +mau tratamento accentuou-se de cada vez com mais rigor. Cheguei a pensar +que, se eu morresse, a minha morte seria motivo de grande alegria para +meu pae. Não ia vêr-me ao collegio, não me escrevia uma carta, não +buscava saber de mim, nem mesmo quando uma ligeira doença me prostrava +no leito. Contentava-se em pagar todas as despezas mas ternura paternal, +este dôce sentimento que liga, n'uma cadeia interminavel, a humanidade +de um ao outro extremo dos seculos, eu conhecia bem que não existia +n'elle... Chorei muito a minha orphandade, cheguei mesmo a pedir a Deus +a morte. E quando via o alegre alvoroço das minhas companheiras ao +receberem noticias dos paes que adoravam, perguntava a mim mesma porque +é que a lembrança de meu pae não despertava em mim o mesmo sentimento, e +o meu coração ficava frio e indifferente. + +Madre Paula escutava Beatriz, visivelmente commovida com o tom de +sinceridade e candura que ella punha n'estes dizeres. + +--Minha filha--disse-lhe a abbadessa--eu creio bem que, apesar de não +sentir por seu pae os extremos de ternura que seriam para desejar, não +sentiu nunca por elle indifferença e muito menos odio... + +--Oh, não, minha senhora! Meu pae inspirava-me receio e temor pelo seu +genio desabrido, pela rispidez e quasi rancor com que me tratava. Mas eu +não pensei jamais em faltar aos meus deveres de filha obediente... E +ainda mesmo quando elle falsamente allegava que dependia de mim a sua +velhice socegada e tranquilla, estava resolvida a sacrificar-me por +elle, tanto quanto fosse compativel com a minha honestidade e com os +sentimentos do meu coração. + +E cortou a phrase para envolver Paulo n'um olhar caricioso e apaixonado. + +--E todavia--observou Paulo--esse homem não tem o minimo direito á +obediencia e ao affecto de Beatriz! Um pae que desce á ignominia de +consentir no rapto violento de sua filha para a obrigar a casar com o +homem que ella detesta, é um miseravel, um monstro despresivel, não é um +pae! + +--Paulo! Paulo... então!--supplicou Beatriz. + +Madre Paula interveio: + +--O procedimento do pae d'esta menina foi incorrecto, não ha duvida; mas +a Providencia encarregou-se de o punir, fazendo voltar contra elle as +proprias armas da perfidia que queria empregar contra a filha. + +E dirigindo-se a Beatriz: + +--Minha menina--accrescentou--agradeça ao céo o havel-a protegido e +amparado contra a odiosa cilada em que queriam fazel-a cahir. Sem +praticar nenhum acto de desobediencia para com seu pae, encontra-se +liberta do homem a quem queriam entregal-a com manifesta repugnancia do +seu coração e grave offensa da sua reputação e da sua honestidade. Aqui +se conservará em minha companhia, se assim o deseja, em quanto não puder +livremente dispôr do seu destino, unindo-se pelos laços conjugaes ao +escolhido do seu coração. Servir-lhe-hei de mãe e serei uma garantia +segura da rectidão e honestidade de seu comportamento. Quer assim? + +--Oh, minha senhora! quanto lhe devo e quanto a minha alma se sente +agradecida por tanta bondade e tão valiosa protecção! + +--Paulo virá vêl-a--continuou Madre Paula--mas fallar-lhe-ha sempre na +minha presença, para que a todo o tempo eu possa testemunhar a nobreza e +correcção com que ambos procuram unir os seus destinos. Espero, pois, +que d'este modo concorrerei para a realisação dos seus mais vivos e +ardentes desejos, sem que uma leve sombra de suspeita possa macular a +honra e a reputação dos meus queridos filhos. + +Beatriz e Paulo ajoelharam, beijando enternecidamente a mão da gentil +abbadessa. + +Esta, sorrindo com um carinho e uma doçura verdadeiramente maternal, +disse para Beatriz, levantando-a nos braços: + +--Deve estar fatigada, minha filha... Vou mandar servir-lhe uma leve +refeição e acompanhal-a em seguida ao seu quarto. + +E dirigindo-se a Paulo: + +--Vae, meu filho. Despede-te da tua noiva e faze por merecer sempre a +estima e o affecto que tens encontrado no meu coração. + + + + +XVII + +Quem semeia ventos... + + +O Belchior e o Custodio, mal chegaram ao Porto, dirigiram-se ao +commissariado de policia e ahi formularam a sua queixa contra Eugenio de +Mello, accusando-o do rapto de Beatriz. + +O procurador e a familia apresentaram-se como testemunhas, e todos +declararam haver reconhecido o bohemio n'um dos dois raptores. + +A policia pôz-se em campo para descobrir os fugitivos, e o Custodio, +esfregando as mãos de contente, recolheu a casa á espera dos +acontecimentos. + +--Agora, amigo Custodio--disse-lhe o Belchior--como tudo correu á medida +dos nossos desejos, vá descançado, que o casamento não leva oito dias a +fazer-se... + +--Como o rapaz não tenha ainda gasto toda a cortiça da +quinta...--respondeu o Custodio com um sorriso velhaco--o casamento vem +em bôa occasião. + +--Deixe lá, que por falta de cortiça não é que o negocio ha-de ir ao +fundo... + +Despediram-se, promettendo voltar a vêr-se no dia seguinte. + +Ao chegar a casa, porém, o Belchior ficou surprehendido ao encontrar um +bilhete de Eugenio de Mello, em que este lhe declarava que, tendo-o +procurado sem o encontrar, voltaria no dia seguinte de manhã, para, +saber que novidade tinha havido. + +--É bôa!--disse o procurador á mulher--Este maluco rapta a rapariga e +quer que eu lhe diga a novidade que houve! + +--Mas--observou a esposa--quando te deixou elle esse bilhete? + +--Não sei... Encontrei-o na caixa das cartas... Naturalmente, mandou-m'o +por algum portador de confiança, depois do rapto. + +--Mas elle diz que veio procurar-te e que não te encontrou... + +--É verdade! Confesso que não percebo isto... Elle não iria com ella +para Villar do Paraiso como haviamos combinado? + +--Não sei... não estaria o dono da casa prevenido para os receber?... + +--Qual! estava tudo prevenido. É uma casa isolada no fundo de uma quinta +e de que um meu constituinte tem a chave... E elle estava prevenido... +Nada, aqui houve tolice do rapaz... + +Intrigado com o bilhete de Eugenio, que não sabia como explicar, o +Belchior metteu-se na cama e dormiu regaladamente, na ideia de que +levava o negocio do casamento a bom caminho. + +No dia seguinte, pelas dez horas, descia ao escriptorio quando Eugenio +entrou: + +--Então?--disse-lhe o procurador.--Você já aqui, em vez de estar a +convencer a pequena! + +--Qual pequena?--interrogou Eugenio, sem comprehender. + +--Qual pequena? É boa! Então você não sabe o que fez? + +--O que fiz? Eu não fiz nada, e não sei de quem me falla... + +--Essa agora! Pois você quer-me metter em cabeça que não raptou a +Beatriz? + +--Eu?! + +--Homem, sim! Pois quem diabo havia de ser? Fui eu talvez?! + +--Mas se lhe digo que não pratiquei rapto nenhum... + +--Mau!--disse o Belchior, abespinhado com a ideia de que Eugenio estava +gracejando.--Isto são negocios muito serios e eu não gosto d'essas +brincadeiras! + +--Que diabo! mas se lhe estou dizendo que não brinco... Você mandou-me +um recado, prevenindo-me de que não fosse, que o rapto não podia +effectuar-se como se havia combinado... Como queria que eu, depois +d'isto, fosse raptar a pequena? + +--Com os diabos!--berrou o procurador, desesperado.--Mas eu vi! Você, +quer-me negar uma coisa que eu presenciei?! + +E n'uma furia crescente, persuadido de que Eugenio premeditava maroteira +grossa: + +--Olhe que isso não é digno, ouviu? Eu bem sei aonde você quer chegar... +Mas comigo é preciso vêr como se fazem, porque eu não sou menino que se +deixe enganar! + +O bohemio encarou-o fito, franziu o sobr'olho e replicou n'um tom meio +zombeteiro, meio ameaçador: + +--Você está doido, amigo Belchior? + +--Não estou doido nem você é capaz de me tirar o juizo, percebeu? É +preciso notar que eu cumpri tudo aquillo a que me obriguei, e você ha de +cumprir tambem, ou então temos muito que vêr! + +--O que quer você dizer com isso, Belchior? + +--Quero dizer que escusa você de vir negar o rapto que eu presenciei, +com a ideia de se furtar a entregar-me a commissão que tinhamos +combinado... Eu sei qual é a sua ideia... A sua ideia é fazer-se com o +Custodio para arranjarem o casamento a occultas e deixarem-me a mim a +chuchar no dedo... Mas lembre-se que eu tenho-os a ambos na mão... De +você, descubro tudo, digo quem é e quem não é, faço vêr que não tem onde +cahir morto, e depois sempre quero saber se o Custodio não prefere +mandal-o por uma barra fóra, a dar-lhe a filha. E a elle, se se fizer +fino e me quizer ser falso, tenho cá uns certos segredos que o +compromettem e veremos quem n'este jogo leva a melhor! Comigo é preciso +muito cuidado, ouviu? Eu não me deixo ir assim na rêde, ainda que a você +lhe pareça o contrario!... + +O procurador punha tal indignação nas suas palavras, que Eugenio +comprehendeu que havia alli um equivoco a desfazer. + +--Homem, não se zangue e fallemos sério--disse elle, procurando serenar +o Belchior.--Eu não percebo uma palavra do que você está para ahi a +dizer... + +--Não percebe? Ah! você agora não percebe, mas eu sou muito capaz de o +fazer preceber...--tornou o Belchior, sempre persistente na ideia de que +o aventureiro o queria enganar.--É preciso que se lembre de que eu +estava lá, vi-o chegar, apear-se do carro com o outro, deitar as mãos á +pequena, atirar com ella para dentro do carro e abalar... Isto a mim não +se me nega e bem póde você vir com um santo Christo dizer-me o +contrario, que eu não o acredito. + +--Pois não fui, amigo Belchior, creia que não fui!--protestou Eugenio, +verdadeiramente espantado das affirmações do procurador. + +--Não foi! Então quem foi? + +--Não sei. Eu é que posso dar-lhe a minha palavra d'honra de que não +entrei n'isso, nem pensei mais em tal, desde que você me mandou recado a +dizer que o rapto ficava transferido para outro dia... + +--Que recado? Eu mandei-lhe algum recado? + +--Certamente. Eu estava no _Suisso_, eram quatro horas da tarde, +conversando com o amigo que devia acompanhar-me, quando entrou um homem, +que me chamou de parte e me disse: «O sr. Belchior manda dizer que tenha +a bondade de não ir ao sitio onde sabe, porque houve transtorno e o +passeio da menina ficou addiado para outro dia. Elle depois lhe +explicará os motivos.» Ouvindo isto, perguntei-lhe:--«Onde está o sr. +Belchior?»--«Em casa do sr. Custodio de Jesus com a familia e não +regressa a casa d'elle senão á noite.» Ora, depois d'isto, como queria +você que eu fosse raptar a pequena? + +O procurador ficou-se a olhar espantado o aventureiro. + +Elle queria convencer-se de que Eugenio fallava verdade, mas os factos +de que tinha sido testemunha, contradiziam totalmente a narrativa do +bohemio. + +--Sim... tudo isso está muito bem--disse elle.-- Mas o peor é que a +rapariga foi raptada; eu vi, o pae viu, minha mulher e minha cunhada +viram, e ninguem podia ter sido senão você... + +--Mas você não está gracejando, amigo Belchior?--interrogou por sua vez +o bohemio.--Realmente Beatriz foi raptada? + +--Essa agora! Então não sabe que o foi? + +--Ah! sim... então foi raptada por outro!... Não tem duvida.. Você +indemnisa-me dos prejuizos e está o negocio arrumado... + +--Dos prejuizos... Que prejuizos? + +O bohemio, sem perder a gravidade, replicou n'um tom cheio de convicção: + +--Obrigou-me a despezas excessivas, na ideia d'este casamento. Depois, +entretendo-me com as suas promessas e os seus palanfrorios de me +arranjar esta noiva que me convinha, fez com que eu perdesse outra união +mais vantajosa. Tudo isto são prejuizos que eu não estou disposto a +soffrer; e você, antes de me roer a corda, devia pensar n'isso... + +--Com seiscentos diabos!--gritou o procurador desvairado--Então já o +ladrão é o roubado, hein! Então a você não lhe basta raptar a rapariga e +negar, para se safar com ella e casarem-se occultamente em sitio que eu +não saiba, para me não darem nada, senão ainda por cima quer que eu lhe +dê dinheiro, a titulo de indemnisação? Diz que gastou mundos e fundos! E +de quem era esse dinheiro, não faz favor de me dizer? A conta está alli, +e o preto no branco falla como gente! + +E apontou para o cofre onde guardava os documentos da divida de Eugenio. + +--É verdade!--replicou o rapaz com soberano despreso--E esse preto no +branco, que você alli tem, diz de uma maneira bem clara e bem evidente +que você é o maior ladrão que a roda do sol cobre! + +--Veja como falla... Olhe que eu estou em minha casa!--berrou o +procurador n'um gesto de ameaça. + +--Esta casa não é sua, é dos desgraçados que você tem esfollado, seu +malandro! A sua casa é a penitenciaria, e lá é que você devia estar. + +--Pulha!--regougou o Belchior, rouco de colera--Ponha-se lá fóra! +ponha-se lá fóra! + +O bohemio avançou para elle com o punho estendido. O procurador, livido +de medo, foi recuando até á parede. + +Então ahi, sereno e imperturbavel, Eugenio, pondo-lhe a mão vigorosa +sobre o hombro, disse: + +--Amigo Belchior, você escolheu mau parceiro para a sua bisca, porque eu +não tenho que perder, e só posso ganhar... Tome bem conta no que lhe +digo: eu não sou homem de quem se escarneça impunemente. Você fez raptar +a rapariga por outro... Por ella, pouco me importa, porque eu não tinha +empenho na mulher. Mas pelo dote, faz-me differença e eu não posso +perder. Tenho, pois, direito a uma indemnisação e ou você m'a dá ou lhe +mando a vida para o inferno. É um ladrão que fica de menos no mundo e os +tribunaes, se não me absolvêrem, tambem não hão-de dar-me grande pena. +Estou novo, posso bem com alguns annos de penitenciaria, mesmo porque +não tenho nada que fazer cá fóra... Pense n'isto e não seja tôlo. Eu não +sou exigente. Receberei mesmo em prestações. Adeus! + +O Belchior, desorientado, sahiu tambem pouco depois, dirigindo-se +apressado a casa de Custodio. + +Não podia crêr no que ouvira da bôcca do bohemio, e parecia-lhe, em face +de tamanha audacia, que havia já combinação feita entre Eugenio e o pae +de Beatriz para o roubarem a elle, despojando-o da commissão que ambos +haviam combinado dar-lhe. + +--É incrivel--murmurava elle--a desfaçatez com que aquelle maroto nega +uma coisa que eu vi e ainda por cima me pede uma indemnisação! Agora o +que falta é que o patife do Custodio tambem queira que eu o indemnise... +Ah! mas não tem duvida! Eu arranjo-os... Comigo não brincam elles! + +Atravessou a cidade a passo accelerado e entrou em casa do Custodio no +momento mesmo em que este se preparava para sahir. + +--Ia agora mesmo a sua casa--disse-lhe o agiota. + +--Sim? Então o que ha de novo?--perguntou-lhe o Belchior, que tivera +tempo de serenar e recobrar o sangue frio. + +--Que eu saiba, não ha nada... O que eu queria saber era se sempre temos +de ir á administração de Villa Nova de Gaya ratificar as declarações que +fizemos hontem ao regedor e á policia... + +--Pois está claro que sim!--tornou o procurador--Agora é carregar-lhe +com a polvora toda, declararmos que o vimos, que o reconhecemos, de modo +que elle não possa negar ainda que queira... + +--Você julga-o capaz d'isso?--perguntou o Custodio em sobresalto. + +--Não... eu não o julgo capaz d'isso... Mas supponhamos que lhe dá o +diabo na cabeça para se arrepender e dizer que não foi elle? É preciso +que a gente tenha força nas declarações para o obrigar. + +--Mau! Mas você não fallava assim antes do rapto...--observou o Custodio +desconfiado. + +--Eu sempre fallei como fallo agora, amigo Custodio. Eu não sou homem de +duas caras nem digo uma coisa por outra... O que eu disse é que ficava +por minha conta obrigal-o a casar com a pequena depois d'elle a raptar. +Mas para isso é preciso que você me ajude e puxe certo... + +--Eu estou prompto!--volveu o Custodio--Diga você como quer que puxe... + +O Belchior adquiriu n'esta resposta a certeza de que o Custodio ainda +nada sabia da negativa de Eugenio e que, portanto, não estava combinado +com elle para o espoliarem da parte que lhe cabia n'aquelle infame +negocio. + +--Trabalha por conta propria--pensou--e quer vêr se faz jus a mais +dinheiro por parte do velho e a dar-me menos dinheiro a mim... Mas está +enganado. É mais facil eu arranjar-lhe a cama na penitenciaria e perder +tudo, do que deixar-me comer por aquelle patife! + +E voltando-se para o Custodio de Jesus: + +--É teimar sempre que foi elle e que foi elle! Eu juro que o reconheci, +porque deixou vêr a cara na occasião em que raptava a pequena... Minha +mulher e minha cunhada juram a mesma coisa... e você, já se sabe, tem de +dizer comnosco... não nos póde contradizer... + +--Ágora contradigo! N'essa não caio eu... + +--E assim, com esta prova, ainda que elle negue e diga que não foi, ou +casa ou vae para a Penitenciaria que nem Santo Antonio o livra de lá... + +--Mas a você palpita-lhe que elle seja capaz de negar?--insistiu o +Custodio de cada vez mais apprehensivo. + +--A mim não me palpita nada... Mas você nunca ouviu dizer que o seguro +morreu de velho? É preciso a gente prevenir sempre o peor... + +--Bem; pois então vamos lá para o administrador de Gaya. + +Chegaram á praça de Carlos Alberto, tomaram um trem á hora e partiram +para Villa Nova. + + + + +XVIII + +Revelação + + +O padre Filippe, quando chegou a casa, depois de ter assistido aos +ultimos momentos de Maria do Carmo, tirou da sotaina a sacca das libras +e o manuscripto que a moribunda lhe confiara, atirando tudo para dentro +da gaveta da sua secretária, sem se dar pressa em observar de perto o +estranho legado. + +Vinha fatigadissimo e como a idade já lhe não permittia prolongadas +vigilias, recolheu-se ao leito, reservando para o dia seguinte o exame +do mysterioso manuscripto. + +A confissão da velha, porém, impressionara-o. + +Elle conhecera o padre Hilario e sabia muito bem, pelo que lhe dissera +madre Paula, que o novel capelão da Covilhã era filho do padre Anselmo. +O que de todo o ponto ignorava eram as particularidades que a velha lhe +revelára nos ultimos momentos. + +Nunca tivera grande curiosidade de saber a origem d'aquelle filho que o +padre Anselmo parecia querer encobrir, não obstante a grande protecção +que sempre lhe dispensára e que era o que afinal trahira o seu segrêdo. +Mas, comparando os relativos cuidados havidos para o padre Hilario com o +abandono a que Paulo fôra votado, o padre Filippe não sabia explicar a +differença, senão pelo grau de affecto que separava aquellas duas mães +no coração do padre Anselmo. + +Todavia, madre Paula suppunha a _Irmã Dorothêa_ vivendo em paiz +estrangeiro, protegida pelo seu seductor, a essas horas talvez elevado +ao cargo de Provincial ou Assistente, com outro nome diverso do que a +principio tivera. E n'este caso, como é que os dois esqueceram Paulo, +deixando-o entregue aos cuidados de duas pessoas amigas, de quem mais +não quizeram saber? + +Emaranhado n'esta ordem de considerações, o padre Filippe adormeceu, +reservando para o dia seguinte a leitura do manuscripto, que talvez +viesse fazer luz em tão escuro labyrinto. + +Se essa leitura alguma coisa o esclareceu, poderemos nós avaliar pela +conversação que, na tarde d'esse mesmo dia, se travou entre elle e madre +Paula, na casa das Sereias. + +--Sabes, minha amiga--disse o padre Filippe, entrando na cella da +abbadessa--que tive noticias do padre Anselmo? + +--Sim?--perguntou madre Paula com curiosidade. + +--É verdade. Noticias bastante retardadas, mas em todo o caso novas para +mim e creio que tambem para ti... + +--Decerto. Ha muitos annos que não tenho noticias do padre Anselmo. É +ainda vivo? + +--Não sei. A pessoa que d'elle me fallou é já morta, e, ao expirar, não +soube dizer-me se elle ainda vivia. + +--Alguem, ao morrer, fallou-te do padre Anselmo? + +--Uma tal Maria do Carmo, que foi creatura muito d'elle... + +--Tenho ideia d'essa mulher. Persuado-me que a vi duas ou tres vezes +procurar o padre Anselmo, quando elle se demorava n'esta casa. + +--Eu não a conhecia, mas fui chamado hontem á noute para a ouvir de +confissão, porque a pobre creatura não queria morrer sem fazer +revelações importantes. + +Contou então toda a conversação que tivera com a moribunda e o legado de +que ella o fizera depositario. + +--E o manuscripto o que diz? + +--O manuscripto--replicou o padre--é uma sentida e commovente narrativa +feita pela mãe do padre Hilario ao filho, revelando-lhe o segredo do seu +nascimento e dando conta dos funestos amôres que, desde muito nova +ainda, a ligaram ao padre Anselmo... + +--É singular! + +--Pelo que d'esse manuscripto se deprehende, essa mulher não vira mais o +filho desde o momento em que o déra á luz. O padre Anselmo +arrebatara-lh'o da vista, dera-o a crear e encarregara-se da sua +educação, conservando no mais rigoroso mysterio as circumstancias do +nascimento d'aquella creança. Chamava-se Carlota a mãe, e por suggestões +do padre Anselmo, casara em Braga com um agiota chamado Custodio de +Jesus... + +--Custodio de Jesus!--repetiu madre Paula, sobresaltada. + +--Sim, Custodio de Jesus--tornou o padre Filippe--Porque te sobresalta +esse nome? + +--É porque Custodio de Jesus se chama tambem o pae de Beatriz, a +namorada de Paulo; e creio ter ouvido dizer que esse homem residira +primitivamente em Braga. + +--É extraordinario!--exclamou o padre Pilippe--Dar-se-ha caso que +Beatriz seja filha da amante do padre Anselmo? + +--Não sei. É possivel, como é possível que a propria Beatriz seja... +irmã de Paulo. + +--Convem esclarecer esse mysterio, mas de modo que não transpire a menor +suspeita do que se trata. + +Madre Paula ficou por alguns instantes pensativa. + +--Chamava-se D. Carlota--disse--a mãe do padre Hilario? + +--Chamava. + +--É ella mesma quem se declara casada com Custodio de Jesus, no +manuscripto que te veio ás mãos? + +--É. E posto não diga claramente que as suas relações intimas com o +padre Anselmo continuaram, bem o deixa perceber nas differentes +passagens em que se refere ás supplicas que frequentemente lhe fazia +para que a deixasse vêr e beijar o filho, seu unico amor, sua unica +aspiração. + +--De modo que--tornou ainda madre Paula--se Beatriz é filha de D. +Carlota... + +--Não haverá remedio senão impedir por todos os modos o casamento +d'essas duas creanças, ainda mesmo que não tenhamos a certeza moral do +impedimento dirimente. + +--E teremos então que revelar a Paulo o segredo do seu nascimento? + +--Não me parece que o devamos fazer emquanto não tivermos esgotado todos +os outros meios ao nosso alcance. + +--Paulo ama loucamente essa menina e é correspondido com igual +vehemencia por parte d'ella... Creio bem que será empreza difficilima +arrancar ao coração dos dois um sentimento que alli tem creado tão +fundas raizes. + +--Buscaremos convenientemente empregar os nossos esforços no sentido de +suavisar o melhor que pudermos o golpe que talvez sejamos obrigados a +vibrar-lhes... E se queres que te diga, minha querida, acho +extemporaneas quaesquer considerações a esse respeito... Primeiramente, +devemos informar-nos acerca da identidade d'esse Custodio de Jesus. Póde +muito bem acontecer que, em vez de se tratar da pessoa que suspeitamos, +se trate apenas de um homonymo do marido de D. Carlota. + +--Tratarei de averiguar por alguma das serventuarias do convento. + +--O que não convem--recommendou o padre Filipe--é que Paulo tenha +conhecimento d'estas nossas indagações que não devem perder o caracter +do mais intimo segredo... + +--Descança, meu amigo. Paulo nada saberá. + +N'essa mesma tarde, madre Paula chamou á sua cella uma das serventuarias +do convento e incumbiu-a de averiguar e saber de certeza certa quem era +Custodio de Jesus, que pessoas compunham a sua familia, qual o seu +estado, e como se chamava a mãe de Beatriz. + +--Quero saber isto com a maxima exactidão e a mais breve possivel--disse +madre Paula. + +--Isso é uma coisa que eu vou já tratar de saber... Alli perto tenho uma +alminha do senhor, muito devota e que sabe a vida de toda a gente da +vizinhança... Ella diz-me tudo assim que eu lá fôr... + +--Veja lá, olhe que tenho o maximo interesse em saber tudo... + +--Ó minha senhora! Fique vossa maternidade descançada que lhe trago aqui +tudo sabidinho, sem faltar nada... Eu parece-me que essa familia não é +lá de grande religião, porque não tenho ideia de a vêr muito pelas +igrejas... + +--Saiba se esse Custodio de Jesus é de Braga e se vive cá no Porto ha +muito tempo. + +--Sim, minha senhora. + +--Saiba tambem se a mãe da menina que é filha d'elle, e que se chama +Beatriz, tem o nome de D. Carlota... + +--Sim minha senhora! Eu vou saber tudo isso... + +Sahiu a serventuaria e duas horas depois regressava com tudo sabido. + +--Já aqui estou de volta com tudo na ponta da lingua!--disse lépida a +cuscuvilheira. + +--Então, o que soube? + +--O homem é de Braga, chama-se Custodio de Jesus e já cá está no Porto +ha muitos annos. Empresta dinheiro sobre _hybotécas_ e pelos modos leva +coiro e cabello... Tem má fama, mas é home de dinheiro... + +--E a familia? + +--A familia é só elle e mais a filha e mais a creada--uma _focinho de +cão_ que primeiro que se lhe _arrinque_ uma palavra do bucho é um dia de +juizo! + +--E a mulher? Elle não é casado? + +--Já é viuvo duas vezes. A primeira mulher morreu-lhe ainda elle estava +em Braga... Chamava-se D. Carlota e d'essa não teve filhos. A segunda +chamava-se D. Anna, tinha vindo do Brazil com fama de trazer mundos e +fundos, mas acho que eram mais as vozes do que as nozes... + +--E o que foi feito d'essa mulher? Morreu tambem? + +--Pois já se sabe! Morreu e elle fez-lhe um enterro muito rico... + +--Então esta menina Beatriz é filha da segunda mulher, da tal snr.^a D. +Anna?... + +--É como diz, minha senhora! Ella é um palminho de cara muito bonito... +E parece que não ha de ter mau interior; mas o pae, que é má farda, não +a deixa pôr pé em ramo verde... Veja lá como aquella alminha ha de estar +carregada de peccados! + +--Tem vocemecê bem a certeza de que essa menina Beatriz é filha da +segunda mulher do Custodio de Jesus? + +--Então não tenho, minha senhora?! Aquillo foi chegar a casa d'aquella +santa Maria do Rosario e ella contar-me tudo p-a-pá Santa Justa, nem que +estivesse a lêr n'um livro aberto! E olhe que ella não me engana, porque +quem lhe disse tudo, como era e como não era, foi a criada do seu +_préscurador_ chamado o _snr. Mélchior_, que é lá todo da casa do +Custodio de Jesus e mais as senhoras d'elle, que são as que contam estas +coisas todas diante da criada... Inda ella honte lá esteve, porque +agora, pelos modos, vae lá um inferno em casa p'ra amôr do +namorico--Credo! Santo nome de Jesus!--que a pequena traz com um +estudante que se chama Paulo... E o pae quer mas é que ella case com +oitro, que diz que é pôdre de rico. + +--Está bem!--disse madre Paula. + +--Veja lá a senhora as _desgracias_ que vão por esse mundo, tudo causado +pela falta de religião e temor de Deus!... + +--Está bem!--repetiu madre-Paula, despedindo a devota onzeneira.--Vá na +graça de Deus e escusa de dizer a alguem que eu a incumbi d'este +serviço... + +Quando o padre Filippe voltou ao outro dia, madre Paula disse jubilosa: + +--Já sei tudo. O pae de Beatriz é o mesmo Custodio de Jesus, marido da +D. Carlota do padre Anselmo... porém, esta pequena é filha do segundo +matrimonio... A mãe era uma tal D. Anna, que tambem já morreu, pois que +o Custodio de Jesus é viuvo duas vezes... + +O padre Filippe, encarou, sorrindo, madre Paula: + +--As tuas informações condizem perfeitamente com aquellas que eu pude +obter... + +--Ah! tambem indagaste? + +--Tambem. Ha, porém, um ponto escuro que eu ainda não pude aclarar... + +--Qual é? + +--É que D. Carlota morreu ha dezoito annos, envenenada em Lisboa pelo +padre Anselmo, e esta pequena Beatriz, se não tem mais, deve ter pelo +menos uma idade que regula por esse tempo... + +--D. Carlota morreu envenenada pelo padre Anselmo, dizes? + +--Morreu. + +--Como o sabes? + +--Revelou-m'o a velha Maria do Carmo na hora extrema. + +--De modo que essa desgraçada não chegou a vêr o filho? + +--Não. + +--E o padre Hilario, pela sua parte, se ainda é vivo, deve ignorar quem +foi sua mãe? + +--Decerto. + +--Aquelle padre Anselmo era um sicario da peor especie!--disse ainda +horrorisada a bella abbadessa. + +--O padre Anselmo, que nós conhecemos, era um facinora como tantos +outros que se acobertam com a religião santa do Crucificado... Ambicioso +e profundamente perverso, tudo era capaz de sacrificar sem escrupulo á +sua desmedida ambição... + +--Envenenaria tambem a pobre Helena de Noronha? Quem sabe? + +--Para isso, bastaria só que ella lhe fosse um leve estorvo na sua +carreira de crimes... + +--Não terias meio de indagar se ella ainda vive? + +--Como? Se é hoje Provincial ou Assistente e usa de outro nome, como +poderei descobrir-lhe o rasto? Mas nem isso agora nos serviria de nada. +Paulo é para todos os effeitos nosso filho adoptivo. Desde qua tomamos +sob a nossa protecção essa creança devemos proceder para com ella como +se foramos seus unicos e verdadeiros paes... De que serviria sabermos +que o padre Anselmo e a irmã Dorothea são ainda vivos? A mãe renegou-o +ao nascer, e o pae nem talvez tivesse noticia do seu nascimento. Dizer +ao filho o nome dos que lhe deram o sêr era ensinar a Paulo o nome dos +que devia amaldiçoar... Não, minha amiga... Sejamos caridosos para com a +pobre creança. Uma vez que não tem fundamento o nosso receio de que +Beatriz seja irmã de Paulo, deixemol-os amarem-se e unirem-se +livremente. Concorramos na medida das nossas forças para a sua união e +que sejam felizes amando-se como nós nos temos amado sempre. + +O padre Filippe, sempre de uma galanteria correcta a despeito da idade, +sellou estas ultimas palavras com um delicado beijo na face de madre +Paula, que, a sorrir, o estreitou com frenesi ao seio palpitante de +alegria. + +--Sempre o mesmo gentilissimo espirito! sempre o mesmo generoso e nobre +coração!--disse ella commovida. + +--Esse Custodio de Jesus--continuou o padre Filippe retomando a sua +attitude grave--é, ao que me consta, um sordido usurario que sonha um +casamento rico para a filha... Ha de ser difficil demovel-o d'este +proposito, que seria desculpavel se elle não tivesse a certesa de que +vae assim sacrificar o coração de duas pobres creanças. + +--Talvez que tu, procurando-o, o pudesses convencer a dar o seu +consentimento... + +--Já me lembrou isso. Mas se elle alguma vez veio a ter conhecimento dos +amores da sua primeira mulher com o padre Anselmo, a presença de um +homem de sotaina não deve ser-lhe muito sympathica... E talvez mesmo +que, em vez de o demover a favor de Paulo, isso o irrite e de cada vez +mais o mantenha no proposito de contrariar o casamento... + +Como respondendo a esta pergunta, ouviu-se fóra da porta da cella a voz +de Paulo: + +--Dá licença, minha mãe? + +--Ah! és tu? Entra, entra, meu filho!--exclamou a abbadessa correndo ao +seu encontro. + +O mancebo beijou-lhe a mão com respeito filial, e vendo o padre Filippe +dirigiu-se a elle, de braços abertos, dizendo com sincera alegria: + +--Que felicidade! encontro-os a ambos reunidos quando tanto precisava de +os consultar e pedir o seu conselho e o seu auxilio! + +--Tu dirás, meu amigo, o que desejas--disse, bondoso, o padre Filippe--e +se fôr, como creio, coisa compativel com as nossas forças, pódes dispôr +de nós... + +Paulo principiou dizendo: + +--O que venho pedir-lhes é realmente um sacrificio... Mas sacrificio de +que está dependente a minha vida, mais que a minha vida, toda a minha +felicidade futura, e porisso espero bem que o não recusarão ao seu +filho, a este filho que não conheceu nunca outros paes nem tem no +coração logar para outro affecto igual... + +--Falla, falla, meu Paulo!--animou com doçura a bondosa abbadessa. + +--O caso é este--continuou o mancebo--Beatriz, de quem lhes tenho +fallado, está em risco de ser victima de uma monstruosa infamia com a +cumplicidade de seu proprio pae! + +--O que! O que dizes tu, meu filho?--interrogou madre Paula. + +--A verdade, minha mãe! + +O padre Filippe silencioso, encarando fito o mancebo, parecia observal-o +com attenção. + +--Repara, meu amigo, que essas palavras envolvem uma accusação terrivel +para o pae da tua amada, o que é sempre uma coisa grave e digna da maior +censura, quando se não tem a certeza do que se affirma... + +--Mas eu tenho a certeza!--protestou Paulo--E porque a tenho é que venho +pedir-lhe o auxilio no sentido de obstar a que tal infamia se realise. + +--Falla!--disse o padre Filippe. + +O mancebo prosegniu: + +--Custodio de Jesus, o pae de Beatriz, depois de ter inutilmente +envidado todos os esforços para coagir a filha a casar com um tal +Eugenio de Mello, que se diz um rico proprietario do Alemtejo, resolveu, +de combinação com o pretendente e com o procurador Belchior, que tem +sido o agente d'esta ignobil negociata, proteger o rapto da propria +filha, com o fim de, por este meio, a violentar a acceitar o noivo que +se lhe impõe e que ficará sendo o unico que em taes condições não duvide +recebel-a por esposa. + +--Isso é impossivel, Paulo!--bradou madre Paula, indignada--Não ha um +pae que pense em realisar uma tal monstruosidade! Tu és por força +victima de um engano, talvez de um cruel gracejo de alguem que deseja +vêr até que ponto vae a tua cegueira por essa menina, que não te recusas +a acceitar invenções de tal ordem! + +--Não, minha mãe!--volveu Paulo--O que lhe digo é absolutamente certo e +vae realisar-se, se eu o não impedir como me cumpre. Um amigo intimo de +Eugenio de Mello e que com este deve tomar parte na miseravel aventura +foi quem o declarou diante de mim. + +--É o que eu digo! gracejo de rapazes. + +--Não é gracejo como suppõe, minha mãe. Quem isto revelou fel-o em taes +circumstancias que não podia nem lhe era permittido gracejar. O rapto +está combinado e deve effectuar-se amanhã, durante um passeio ao campo +que as duas familias--a do Belchior e a de Beatriz--teem preparado. + +--E Beatriz sabe a infame cilada que lhe querem armar? + +--Beatriz nada sabe, nem eu tenciono prevenil-a. + +--O que tencionas então fazer?--perguntou o padre Filippe. + +--Castigar o miseravel pae que assim malbarata a honra da propria filha +n'um trafico infame, aproveitando-me das circumstancias por elle +preparadas, para lh'a raptar eu. + +--Tu?! + +--E porque não? Se ella me ama e eu a adoro e a quero para minha mulher, +heide deixar que m'a roubem e levantem entre mim e ella uma barreira +impossivel de transpor--a barreira da deshonra? Tenho tudo prevenido e +tudo preparado para arredar sem escandalo, e até sem suspeita do que vae +passar-se, os raptores de Beatriz, e tomar eu e um outro meu amigo o seu +logar. Falta-me apenas uma coisa. + +--O que é?--interrogou madre Paula. + +--A salvaguarda de uma mulher honesta para garantir a reputação de +Beatriz que eu não quero vêr maculada, com a sombra de uma suspeita, +antes de a receber por esposa perante o altar do Deus Vivo. + +O padre Filippe e madre Paula trocaram um rapido olhar. + +Se o mancebo pudesse conhecer o segredo da sua origem e saber a quem +devia a vida, teria traduzido n'esse olhar esta phrase que estava no +pensamento dos dois: + +--«Não parece filho do padre Anselmo!» + +--Desejas então...?--interrogou madre Paula dirigindo-se ao mancebo. + +--Que minha bôa mãe, de cuja virtude ninguem ousará suspeitar, se digne +receber a minha noiva em sua companhia durante todo o tempo que ella +seja forçada a conservar-se occulta... + +--Queres trazel-a para aqui, Paulo? Isso, meu filho, é um passo muito +grave, que póde pôr em risco a bôa ordem e segurança d'esta santa +casa... Imagina que as auctoridades são obrigadas a intervir, e por +qualquer circumstancia descobrem aqui essa menina, que, de mais a mais, +não consultaste ainda sobre se consente em acolher-se á nossa protecção? + +--É tal a confiança que tenho no amôr de Beatriz, minha mãe, que não +duvido asseverar que ella dará por bem feito tudo quanto eu haja +deliberado, logo que conheça os motivos que me obrigaram a raptal-a... + +O padre Filippe, que durante esta conversação guardára absoluto +silencio, resolveu-se afinal a intervir. + +--Parece-me que tudo se póde conciliar muito bem--disse elle. Paulo +deseja salvaguardar a reputação da sua noiva, o que é de todo ponto +justo e nobre. Para isso, pois, pede o concurso de sua mãe adoptiva, +porque sob a égide da virtude da madre Paula, ninguem se atreverá a +julgar menos licitos os intuitos d'este rapto. Portanto, madre Paula +deve intervir com a sua presença, porque é um acto de verdadeira +caridade evangelica o que se lhe pede. Mas surge uma difficuldade, que é +o poder comprometter por esta fórma os interesses d'esta santa casa, se +a trouxer para aqui... + +--É justamente esse o inconveniente que já apontei--interrompeu a +abbadessa. + +O padre Filippe fez um gesto e proseguiu: + +--Ha, porem, um meio, que me parece rasoavel, de obviar a esse +inconveniente... + +--Qual? + +--Paulo buscará uma casa profana para onde conduzirá a sua noiva; e ahi, +madre Paula, vestindo trajos seculares, receberá a pobre menina e +conserval-a-ha em sua companhia durante os primeiros dias. Se depois de +Beatriz conhecer do que se trata, manifestar desejos de acompanhar madre +Paula para esta santa casa, poderemos então, com as devidas cautelas e +resguardos, internal-a aqui até que as circumstancias lhe permittam +legalisar a sua união com Paulo. Não acha acceitavel este alvitre, minha +amiga?--concluiu interrogando a abbadessa. + +--As opiniões do padre Filippe teem para mim o valor de leis +indiscutiveis. Far-se-ha como diz, concordou madre Paula. + +Paulo abraçou n'uma expansão de reconhecimento o padre Filippe. + +--Sempre generoso e bom para mim! disse o mancebo com as lagrimas nos +olhos. + +--Vamos, vamos!--replicou o padre Filippe commovido, procurando +furtar-se ás demonstrações de reconhecimento do pobre rapaz--Trata de +procurar uma casa em condições de abrigar por alguns dias tua mãe +adoptiva e a tua noiva. Os meus recursos são minguados--concluiu--Sou um +pobre sacerdote que fez eterno voto de pobreza... de pouco posso +dispôr... Mas até onde as minhas magras economias o permittam, tudo está +á tua disposição, porque tudo é teu, meu Paulo. + +--Oh, meu pae! + +--Essa menina deve ser tratada com a decencia e conforto a que +certamente esta habituada... + +--Eu tenho amigos, meu pae!--affirmou Jorge. + +--Os teus primeiros amigos somo nós, eu e madre Paula. Não tens, pois, o +direito de recorrer ao auxilio monetario dos segundos emquanto existirem +os primeiros. A minha casa irás buscar todo o dinheiro de que careceres. +Vê bem a casa que escolhes para receberes n'ella a tua familia. + +--Tenho um amigo, quasi um irmão, que não só me acompanha e auxilia na +aventura do rapto, como põe á minha disposição a sua casa, onde não tem +mais familia e onde nada falta. + +--Muito bem. Se entendes que ahi pódem acolher-se sem perigo, deves +acceitar. + +--Já acceitei, meu pae! + +O leitor já conhece como o rapto se effectuou e como madre Paula recebeu +com os extremos e carinhos de mãe a gentil Beatriz, salva das garras do +aventureiro Eugenio de Mello e da sua alma negra, o procurador Belchior, +por maneira tão original como inesperada. + +Agora, emquanto a pobre menina, livre de perigo, encontra na doce +convivencia da abbadessa os affectos maternaes que a morte lhe roubára e +os tres sujos heroes d'esta repellentissima, porém veridica, historia se +empenham n'uma lucta de desconfianças e malquerenças, que são o seu +verdadeiro castigo, voltemos a S. Martinho do Campo, onde novos e +interessantes episodios se estão dando. + + + + +XIX + +Um velho amigo + + +Julio de Montarroyo, logo que o brazileiro lhe deu por desoccupada a +casa que pertencera a Norberto de Noronha, tomou posse da sua nova +propriedade e installou-se n'ella immediatamente, sem mesmo esperar que +se fizessem os convenientes e indispensaveis reparos. + +Este acontecimento foi celebrado pelos convivas e amigos de Gustavo de +Magalhães com um jantar lauto, em que houve discursos, brindes e +poesias, como estava combinado muito tempo antes. + +O amigo de Gustavo, que tinha adquirido fóros de excentrico, supportou +como pôde toda a ruidosa alegria d'aquelles amigos e passada a +_glorificação_, como elles lhe chamavam, encerrou-se na sua habitual +tristeza, sem comtudo se mostrar intratavel e esquivo a convivencias +affectuosas. + +No emtanto, furtou-se obstinadamente a toda e qualquer recepção festiva +em sua casa, dando como desculpa a falta de pessoal habilitado para bem +servir n'um banquete de cerimonia. + +O caso, porém, não era esse. + +Julio de Montarroyo considerava um sacrilegio infame fazer resoar os +risos da alegria n'aquellas salas onde morreram abafados os gemidos de +tamanha desgraça, de tão profunda e inconfortavel dôr. + +Elle adquirira aquella casa para recolher n'ella a sua grande tristeza, +o lucto eterno do seu coração. + +Não podia por isso, ainda que o desejasse, converter aquelle tumulo, em +que queria encerrar-se vivo com as suas recordações e os seus +desalentos, n'um logar de festivas alegrias, de expansivos affectos. + +Os amigos de Gustavo, que o eram tambem seus, comprehenderam-n'o e não +se offenderam. + +--É um excentrico--dizia o juiz--Não ha que vêr, é um excentrico... + +--É um paranoico com a tendencia romantica!--affirmava o +medico.--Aquillo desanda n'um volume de lyricas mais hoje, mais amanhã. +E talvez esteja ahi a sua salvação. + +--Não é nada d'isso, meus amigos--contrariava Gustavo--Este homem é um +de tantos incomprehendidos que teem atravessado a vida como o viageiro +atravéssa os areaes do deserto, sem jámais encontrar o appetecido oasis. +O maior beneficio que lhe podemos fazer é deixal-o entregue á sua grande +tristeza, á sua enorme e insanavel dôr. + +Julio de Montarroyo começou, pois, a ser uma figura estranha ás alegrias +ruidosas d'aquella vida campesina, passada em convivencia intima de +amigos. + +Os dias do melancholico amante de Helena de Noronha decorriam-lhe n'uma +taciturnidade de espirito aterradora. + +Encerrava-se horas e horas na sala onde pela primeira e ultima vez +fallára a Norberto de Noronha e parecia experimentar um cruel prazer em +recordar, em todas as suas tristes minudencias, essa estranha e dolorosa +entrevista. + +Mandára collocar todos os moveis que serviram a Norberto na sua +disposição primitiva. Lá estava a cadeira de rodas, onde o desgraçado +agonisou por tanto tempo. E em frente d'ella, passava horas esquecidas a +monologar as suas recordações e os seus desgostos. + +Um dia, viera ao jardim e sentára-se no caramanchão que olhava sobre a +estrada. + +Devia ser alli, suppozera elle e confirmara-lh'o depois a irmã de +Gustavo, que Helena de Noronha vinha sentar-se muitas vezes, nos tempos +felizes da sua infancia, e era por isso mesmo o logar por elle preferido +para as suas meditações ao ar livre. + +De repente ao portão chegou alguem que fez vibrar a sineta. Julio de +Montarroyo debruçou-se na grade do caramanchão e olhou. + +Viu um pobre mendigo, um _ermitão_, de longas barbas brancas, vestindo +um garnacho remendado e encostando-se a um bordão. Trazia ao peito, +pendente de uma correia, um nicho de folha de Flandres, em que se via a +imagem de um Santo Antonio, cercada de flôres artificiaes. + +--O que deseja?--interrogou Julio. + +--Esmola para Santo Antonio, meu rico senhor!--supplicou de baixo o +pobre, tirando o chapéo e indicando o santo. + +Julio de Montarroyo não reconheceu aquella figura, mas ficou +estranhamente impressionado com o metal de voz do pedinte. + +Parecia-lhe que já a tinha ouvido em qualquer parte, e como toda a sua +vida, n'aquelle ermo, se compunha de recordações, aventurou uma +pergunta. + +--Você é d'estes sitios? + +--Não, meu senhor... Eu sou de Braga. + +--De Braga?! + +--Sim, meu senhor, mas já lá não vou ha muitos annos... + +--Vem então de muito longe? + +--Venho, meu senhor! + +--Espere ahi. + +Julio desceu ao portão e franqueou a entrada ao pedinte. + +--Entre!--disse elle. + +O pobre entrou. + +--Você é de Braga?--tornou a perguntar Julio. + +--Nascido e baptisado, meu senhor!--confirmou o pobre. + +--Ha que tempo sahiu da sua terra? + +--Ha muitos annos, meu senhor... + +--Olhe lá; você conheceu lá um sapateiro chamado _Tomba_? + +--Conheci, meu senhor, conheci! Era um bom _home_, amigo do seu amigo... +E eu _támem_ era muito amigo d'elle! + +--Ah! você então era amigo do _Tomba_? + +--Oh, senhor! pois se nós eramos da mesma creação... Eu e mais elle +eramos como a unha e a carne... + +--E o que foi feito d'elle? Não sabe? + +--Se não morreu... ha-de estar vivo por força, meu senhor... + +Julio reconheceu n'esta resposta o espirito velhaco do antigo sapateiro. + +--Diga-me: o que é feito de D. Carlota e do padre Anselmo?--interrogou +Julio a meia voz. + +O pedinte, surprehendido, encarou o seu interlocutor e de repente, como +se a memoria se lhe tivesse avivado, exclamou: + +--Ora espera! Vossa _incellencia_ é o sr. Julinho de Montarroyo, pois +não é? + +--Sou. + +--Cá me queria a mim parecer! + +E batendo na testa desesperado: + +--Ah! grande cabeça de burro, que nem já conheces quem te deu tanto pão +a comer!... Ah, sr. Julinho, vossa _incellencia_ perdoará, mas eu estava +agora bem longe de o _topar_ aqui! Antão _cumpassou_?--perguntou o +_Tomba_, lisonjeiro e carinhoso.--Vossa _incellencia_ está féro! Está +que é uma bisarria! + +--Estou velho, amigo _Tomba_, estou velho! + +--Qual velho! Velhos são os farrapos! Mais velho estou eu e olhe que, +graças a Deus e a Santo Antonio, que está aqui e que bem me ouve, ainda +as pernas me levam p'r'a onde eu quero. + +Julio de Montarroyo, alegre por ter encontrado este homem, que podia +talvez elucidal-o ácerca de factos que elle tinha interesse em conhecer +minuciosamente, conduziu o _Tomba_ através do jardim, até ao interior da +habitação. + +--Venha cá, _Tomba_, venha cá, homem, que temos que fallar... + +--Ora o sr. Julinho! Como eu havia de vir aqui topal-o! Isto foi milagre +de Santo Antonio, que eu trago aqui comigo... Foi elle que me _trouve +inté_ aqui, por sua infinita _mesericordia_! + +Chegados ao gabinete de Julio, este voltou-se para o sapateiro e +disse-lhe: + +--Arrume o santo, mestre _Tomba_, e diga-me se tem vontade de comer... + +--Oh, meu senhor! Vontadinha, graças a Deus, ha sempre... + +--Bom! Vou mandar que lhe dêem alguma coisa. + +Julio ordenou que dessem de almoçar ao _Tomba_ que, fiel ao seu costume, +honrou a cosinha do seu generoso amphytrião. + +Depois, mais animado, e dando parabens á sua fortuna por ter encontrado +aquelle grande e rico amigo, passou á sala onde o aguardava o dono da +casa. + +--Já matei quem me matava!--disse elle satisfeito.--Ora agora aqui tem +vossa _incellencia_ um _home_ p'ra tudo que fôr preciso! + +--Conte-me cá, mestre _Tomba_, o que é feito de você? O que foi feito de +D. Carlota, do padre Anselmo e d'aquelle doidivanas do Alvaro de +Noronha? + +--Pois vossa _incellencia_ não sabe?--disse o sapateiro admirado. + +--Nada! Não sei nada. + +--Pois já tudo isso lá vae! + +--Tudo? + +--Tudo ou _acaijo_ tudo... _Inté_ é de _inorar_ o sr. Julinho não saber +as _desgracias_ todas que se déram logo assim que o sr. Julinho +_arretirou_ p'ra Braga. + +--Não! Eu fui obrigado a partir para Paris pouco depois de sahir do +Porto e por lá andei muitos annos sem ter mais noticias de Portugal. + +--Pois é! O sr. Julinho é que fez bem... Foi-se inté Paris de França e +não deu mais cavaco ás tropas... Pois a sr.^a D. Carlota, coitada! lá +deu ao penagal em Lisboa... O padre _Inxelmo_--_rais_ o parta!--lá teceu +taes indrominas com o _Custoido_ a dezer-lhe que ella que lhe tinha sido +falsa com o sr. Julinho... + +--Comigo!--exclamou Julio admirado. + +--Pois _antão_ não sabia? + +--Eu não sabia de nada... + +--Bem digo eu! _Antão_ já vejo que não sabe nem da missa a metade!... +Pois o maroto do padre _Inxelmo_, emquanto nós estavamos no Porto a ver +se lhe deitavamos a luva, _vêo_ a Braga dizer ó _Custoido_ que a sr.^a +D. Carlota andava lá pelo Porto mettida c'o sr. Julinho de Montarroyo... +E vai elle, o malandro, que nunca se importou emquanto ella lhe +desfeiteou as barbas c'o padre, começou a dar por paus e por pedras, +_assubiu-lhe_ a honra á cabeça, e quando ella vinha p'ra tornar p'ra +casa, pôl-a fóra e pouco faltou p'ra lhe bater... + +--Isso é extraordinario!--disse Julio. + +--E lá em Braga toda a gente se _acuarditou_, porque demais a mais, como +o sr. Julinho se prantou na _planta-giria_, todos _dixeram_ que foi +verdade, porque quem se _cia alhos come_... + +--Mestre _Tomba_, é impossivel que você não esteja doido! Isso que você +está a dizer é tudo quanto ha de mais absurdo! + +--Valha-me Deus, sr. Julinho! Eu o que digo é o que por lá se constou +n'aquelle tempo... + +--E você não podia desmentir esses boatos, não podia desmascarar os +calumniadores? + +--Eu a esse tempo, estava, mas era engaiolado no Sardão, mais morto que +vivo, _estrelicadinho_ com fome, porque aquellas carochas de seiscentos +diabos tinham-me a jejum de pão e _auga_, que eu cuidei que não tornava +mais a ver sol nem lua, e que, a respeito de petiscos, não se fariam +mais para os queixos do _Tomba_! + +E contou a maneira ardilosa como o padre Anselmo o encerrara no convento +do Sardão e aquella outra mais ardilosa ainda como elle conseguira +escapar-se da prisão, depois de ter pregado uma sova mestra na freira +que o guardava quasi á vista. + +--Eu só queria que vossa _incellencia_ visse, sr. Julinho... Aquillo foi +uma trépa co'as correias, que _inté_ o _sengue_ lhe esguichou pelo sitio +da tripeça, salvo seja! Depois puz-me a andar e marchei p'ra Braga a +saber novidades... A sr.^a D. Carlota tinha morrido em Lisboa, o sr. +Alvarinho--Deus lhe perdôe!--lá tinha o _Perneta_ dado cabo d'elle... +Raios o parta! Se quer ó menos, inda fui testemunha escontra elle, que o +enterrei! + +--Ah! você foi testemunha no processo contra o _Perneta_, mestre? + +--Pois atão não havia de ser? Eu tinha a veridica certeza de que o sr. +Alvaro tinha ido p'ra casa do _Perneta_, porque arrecebeu uma carta da +sr.^a D. Carlota--Deus a chame lá p'ra bem, que eu não a chamo cá p'ra +nada!--a dezer-lhe que a prima d'elle, a sr.^a D. Helena de _Laronha_ +estava lá mettida com vossa _incellencia_... + +--Comigo?!--tornou a exclamar Julio de Montarroyo, de cada vez mais +espantado. + +--Tal e qual como eu lhe estou a _dezer_, sr. Julinho! Pode-se +_acuarditar_ em mim, porque eu ouvi lêr a carta e _escorda-me_ como se +fosse hoje tudo quanto ella dezia... + +--E elle acreditou! Pois Alvaro de Noronha, conhecendo-me e tendo +convivido comigo por algum tempo, pôde acreditar em semelhante carta, +pôde julgar-me capaz de uma semelhante infamia?! + +--Eu bem lhe dizia que não se fiasse, que aquillo era tramoia que lhe +queriam armar... Mas elle, que tinha aquelle genio de espirra-canivetes, +começou logo a atirar co'aparelho ao ar, a dezer que ia matar sete e +esfolar quatorze e nem á mão direita de Deus Padre fui capaz de ter mão +n'elle! Lá foi e se eu bem lh'o disse, melhor lhe aconteceu... Chegou lá +e aquelle ladrão do _Perneta_ e mais dois que elle lá arranjou deram-lhe +tamanha carga de paulada que o deixaram _cadable_ no meio da estrada! +Eu, já se sabe, n'essa maré estava preso no Sardão e nem tal coisa me +passava pelo sentido... Mas quando sahi e cheguei a Braga, _atão_ é que +eu soube tudo... E disse comigo: «Ai o alma do diabo do _Perneta_ que +deu cabo do _probe_ rapaz! Pois deixa que eu te vou fazer a cama!...» +Fui-me á Povoa, fallei com o sr. _amenistrador_, contei-lhe as coisas +como foram e como não foram, e o _Perneta_, que inda estava preso, mas +não confessava nada, assim que o _acarinharam_ comigo, não teve mão em +si, começou a _entoar_ e _dixe_ tudo! Lá foi por uma barra fóra, que o +levou seicentos diabos! + +Julio ouvia espantado estas revelações do _Tomba_. + +--Mas como é--disse elle--que D. Carlota pôde escrever uma carta d'essas +a Alvaro de Noronha na mesma occasião em que eu recebia uma carta de +Helena, dizendo-me que partia para França? Se D. Carlota vivia com o +padre Anselmo, como podia ella ignorar que Helena seguia para Paris? + +--Vossa _incellencia_ quer que eu lhe diga uma coisa, sr. Julinho? + +--Diga lá, mestre. + +--A mim ninguem me tira da _pinha_ que a sr.^a D. Carlota não escreveu +carta nenhuma... Aquillo foi o maroto do padre _Inxelmo_ que mandou +escrever a carta em nome d'ella para arranjar a trempe ó probe rapaz! +Vossa _incellencia_ não se _escorda_ do sr. Alvaro dizer muitas vezes +que o patife do padre _Inxelmo inté_ uma vez escreveu uma carta muito +bem _escrevida_, co'a letra da sr.^a D. Helena, a dizer ó pae d'ella que +estava em Coimbra com um sujeito com quem se queria casar, e no fim de +contas vae-se a vêr e estava mas era _agachada_ em casa do _Perneta_! + +Julio de Montarroyo deu um salto na cadeira. Só ao ouvir estas palavras +do _Tomba_ é que pensou na possibilidade de ter sido victima de uma +infame mystificação. + +--Eu tambem recebi uma carta de Helena convidando-me a seguil-a, pois +que ia partir para uma casa religiosa de Paris. Seria essa carta +escripta por Helena, ou seria ainda uma tôrpe cilada do padre Anselmo? + +--Olhe, sr. Julinho; o cesteiro que faz um cesto faz um cento, se tiver +verga e tempo... O padre já tinha feito uma e porisso _támem_ era capaz +de fazer a outra... + +Julio de Montarroyo ficou por algum tempo silencioso e pensativo. Estava +recordando o singular e extraordinario mutismo de Helena, a qual tendo-o +solicitado a esperar noticias suas em Paris, nunca mais lhe mandára +aviso nem recado. Porque não teria D. Carlota revelado ao padre Anselmo +o interesse que elle tomava pela libertação da filha de Norberto e +suggerido por esta forma ao jesuita a ideia de se livrar dos dois ao +mesmo tempo, matando um e expatriando o outro? + +Mas, n'esse caso, Helena não teria sahido do paiz, e ao passo que elle a +procurava pelo mundo, morria ella ignorada no mesmo convento onde a +deixara. + +--Mestre _Tomba_--disse elle--sabe o que foi feito do padre Anselmo? +Tornou a ter noticias d'elle? + +--O padre _Inxelmo_, depois que roubou o _Custoido_ nunca mais tornou a +pôr os pés em Braga, ó menos que eu o enxergasse... Aquillo sumiu-se +como o fumo, que nunca mais vi raça d'elle! + +--Diz você que o padre Anselmo roubou o Custodio? + +--Pois roubou! O _Custoido_, p'ra não dar nada á mulher, assignou letras +a fingir ao João Ignacio, que era p'ra ella lhe não poder pegar em +nada... E quem metteu o probe do _home_, coitado! n'essas fofas foi o +patife do padre... Vae _óspois_ a D. Carlota _esticou_ o _pernil_ em +Lisboa... diz que se matou... Tanto sei eu se ella se matou como se foi +o padre que lhe deu cabo da casta... E vae n'isto, assim que se constou +a morte d'ella, o João Ignacio salta em riba do _Custoido_ co'as letras +e leva-lhe tudo, que o deixou sem um fio! O _Custoido_ barregava +_escontra_ o padre a _dezer_ que foi elle que o metteu co'aquelle +ladrão, que era uma coisa por demais! Mas o padre _esguipou-se_ que +ninguem soube mais d'elle! + +Julio de Montarroyo relacionava mentalmente todos estes factos e +procurava o fio mysterioso que devia explical-os. + +--É singular!--disse elle--E o Custodio? Morreu? + +--Qual morreu! Casou-se oitra vez e fez um _bô casorio_... Foi co'uma +brazileira... co'a Anninhas das Travessas, que tinha ido p'ró Brazil ha +um _rôr_ de annos e que _vêo_ de lá rica que não sabia o que tinha de +seu... O _home_, como em Braga todos o conheciam, pegou e foi co'ella +p'ró Porto, e acho que lá estão na santa paz de Deus... _Porfilhou-lhe_ +a filha que ella _trouve_ e inda apanhou uma riquesinha bem bôa! + +--De modo que--tornou Julio--você, mestre, não voltou mais a saber de +Helena de Noronha? + +--Eu, como a sr.^a D. Carlota e o sr. Alvaro tinham morrido... e o sr. +Julinho _támem_ não dava rumor de si... tratei mas foi de governar a +minha vida... Os freguezes, como eu andei por lá todo aquelle tempo, sem +dar nova nem recado, foram ó aprendiz buscar os sapatos e levaram-n'os a +oitro... O senhorio, como eu não paguei o aluguer, tomou-me conta da +_farramenta_ do officio e poz-me o rapaz na rua! Veja lá o alma do +diabo, que _inté_ co'a tripeça me ficou! Vi-me _desauriado_! P'ra me +tornar a estabelecer, eu já não tinha _farramenta_ nem freguezia... +estava _desacuarditado_! Peguei e fui-me _inté_ Villaverde, á tia do sr. +Julinho, contei-lhe a minha _desgracia_ e ella teve dôr de mim e deu-me +uma libra d'esmola! + +--E você contou a minha tia tudo o que se tinha passado com respeito a +Helena de Noronha? + +--Eu não disse nada! N'estas coisas, antes carta de menos do que carta +de mais... Peguei na libra que ella me deu, mandei arranjar este Santo +Antonio e botei-me a pedir por essas terras de Christo fóra, tal e qual +como o meu compadre _Longuinhos_ que _támem_ se arranjou muito bem +co'este modo de vida... Tenho corrido todas essas _Europias_ de +Portugal, e louvado seja o meu rico padre Santo Antonio, sempre tenho +tirado mais do que quando trabalhava pelo officio!... + +--Diga-me uma coisa, mestre: você seria capaz de dar conta de uma +incumbencia que eu desejo fazer-lhe? + +--Ó sr. Julinho! que me pedirá vossa _incellencia_ que lhe eu não faça?! + +--Bem! Desejava eu que você fosse ao Porto e indagasse nas _Sereias_ ou +no _Sardão_, se ainda lá está como abbadessa uma senhora chamada madre +Paula... + +--Madre Paula... disse o sapateiro procurando reter na memoria este +nome.--Eu vou lá e trago-lhe isso sabido, que é um regalo... O diabo é o +_Sardão_ que se lá me conhecem fazem-me pagar os açoites que preguei na +freira velha... Mas da raça do diabo será ella se não estiver já a fazer +tijolo! + +--Não tenha receio, que lá ninguem o conhece... Eu mesmo, que tão de +perto lidei comsigo, já quasi o não reconhecia, como hão-de conhecel-o +pessoas que nunca lhe fallaram?... + +--Bem! eu vou--decidiu o sapateiro--mas não levo o santo, porque se a +policia do Porto me apanha lá com elle, é capaz de ferrar comigo no +_Asylio da Mendecidade_, que, aquillo, pelo que me tem zoado cá pelos +ouvidos, é peor do que estar nas profundas do inferno a arder!... + +--Pois não leve o santo... + +--Eu deixo-o cá ao sr. Julinho, mas faça favor de ter cautela, que m'o +não estraguem, que é o meu ganha-pão... + +--Vá descançado, mestre _Tomba_. O santo fica a meu cuidado... Ninguem +cá lhe bulirá n'elle... + +--_Atão_ quando quer o sr. Julinho que eu vá? + +--O mais depressa que possa... + +--Eu vou já hoje, se fôr preciso... É verdade: e se ella lá estiver, o +que quer que lhe diga? + +--Nada. Saiba só se ella está em qualquer d'essas duas casas. + +--E se lá não estiver? + +--Saiba se é viva e em que casa religiosa da provincia se encontra. + +--Está bem! Vamos a vêr se ainda tenho geito para estas coisas--disse o +_Tomba_ radiante. + +E n'esse mesmo dia partiu para o Porto. + + + + +XX + +Alma negra + + +Voltemos a casa da loura Leonor, da doida amante do commendador Garcia, +apaixonada por Eugenio de Mello e instrumento de torpes vinganças nas +mãos de João Lazaro. + +O commendador Garcia retirára á hora habitual, dez da noite, muito +desconsolado, porque o _seu peccado_--que era assim que elle chamava á +endiabrada creatura que o tinha preso nos laços de uma affeição +insensata--havia tempos que o recebia desabridamente, com repellões de +histerica, irritando-se sem motivo, chorando sem saber porquê, n'uns +accessos de nevrosismo que faziam a sua tortura e a tortura do +encarquilhado protector. + +Solicito e amoroso, o bom do homem fallou em chamar o medico, +consultal-o, podia ser que aquillo ás vezes fosse _sangue alvoroçado_, +que podia subir-lhe á cabeça, e então o melhor era tratar-se com tempo, +porque todas as molestias em principio teem cura e depois de tomarem +posse do corpo é que custam mais a debellar. + +Mas a loura indignou-se, teve um ataque de furia e quasi lhe bateu. Ella +não tinha sangue na cabeça; o que lá tinha era a ideia de se vêr só por +algum tempo, sem aquelle _caustico_ do commendador a importunal-a, a +fazer-lhe arrelia com as suas mimalhices de velho babão. E dizia-lh'o +com crueza, n'uns arremessos de doida. Fallava em se matar, em acabar +com aquella vida que não podia continuar assim. + +--Mas o que queres tu?--perguntava-lhe lacrimoso o commendador--Falta-te +alguma coisa? Queres vestidos, joias, dinheiro? Anda, falla, minha +filha! Eu estou prompto a satisfazer todos os teus desejos, todos os +teus caprichos, comtanto que não falles em me deixar! Bem sabes que eu +sem ti não podia viver... + +E era sincero o pobre homem quando assim se expressava. Effectivamente, +a loura era a sua incuravel mania. Tambem, não tivera outra em toda a +sua vida, senão a de ser commendador. + +A principio alugára os affectos da loura como quem adquire um animal de +luxo, um cavallo de preço. Tinha vaidade em que se dissesse que elle era +o possuidor d'aquella bella mulher, que fazia a cubiça de todos e a +inveja de muitos. O seu amor proprio sentia-se singularmente lisonjeado +quando os intimos, nas assembleias dos bancos de que era accionista, lhe +batiam amigavelmente no hombro e lhe diziam n'um sorriso discreto: + +--Ah! maganão, você é que a sabe toda!... _Aquella pessoa_ está de cada +vez mais bonita... Sim, senhor! mulher de gosto! Se algum dia se quizer +desfazer, endosse-me a letra... + +Depois, o commendador, á força de habito, foi affeiçoando-se. Em cada +dia descobria novos attractivos n'aquella creatura singular que sabia +prendel-o com os encantos de uma linguagem por vezes apaixonada e que +mais refinava em caricias quanto mais commodamente o atraiçoava com +outro. + +Julgando-se sinceramente amado e não ignorando que o coração d'aquella +mulher lhe era disputado por outros que offereciam inutilmente mais +dinheiro, o commendador passou insensivelmente da simples affeição ao +amor profundo e d'este á paixão louca. A loura era o seu idolo. Mais +depressa renunciaria á commenda do que á posse d'aquella bella e +extraordinaria mulher. + +E era feliz, depositando uma confiança illimitada na fidelidade e +constancia de Leonor--que para elle tinha sempre carinhos e meiguices +que nenhuma outra saberia fazer-lhe. + +Desde, porém, que João Lazaro lhe apparecera pondo-lhe em evidencia a +negra traição de Eugenio, a loura, obrigada a dissimular com o perfido +amante, descarregava agora todas as suas iras sobre a cabeça innocente +do infeliz commendador. + +E isto trazia-o afflicto, apprehensivo ácerca da saude do _seu peccado_! + +Temia desgotal-a ou exacerbar-lhe mais o padecimento, contrariando-a. +Por isso pensava na melhor maneira de a submetter ao tratamento do +medico que, no seu entender, devia pôl-a boa. + +N'essa noite apresentara-se com bons modos, procurando convencel-a +suavemente a que se deixasse observar por quem sabia, porque ella estava +doente, e ás vezes as doenças vão com qualquer coisa. + +A loura explodiu n'uma descompostura tremenda e ameaçou de lhe fugir, +deixando-lhe o _ninho_, se elle tornasse a ter o atrevimento de lhe +fallar em medicos. + +Teve o pobre homem um trabalhão para a serenar, e retirou depois de lhe +prometter que não mais se pensaria em remedios de botica. + +Ausente o commendador, a loura passeou febrilmente pela sala, abriu com +impeto a janella e perscrutou com ancia o prolongamento da rua deserta. + +Depois sentou-se n'uma ottomana e batendo impaciente o pésinho breve no +tapete, pôz se a mordiscar as unhas. + +--O João Lazaro--murmurava ella--prometteu de vir hoje fazer-me +revelações importantes, e ainda não veio... O que terá elle que me +dizer? + +Que provas terá elle para apresentar-me da falsidade e perfidia de +Eugenio? + +N'isto, ouviram-se passos no corredor, o reposteiro da sala abriu-se e +appareceu a figura de João Lazaro. + +Tirou logo o chapéo e lançou sobre uma cadeira o capote á hespanhola em +que vinha embuçado. + +--Tardei, não é verdade?--disse elle. + +--Esperava-o com anciedade--respondeu a loura febrilmente, levantando-se +para o receber--Diga-me: que noticias traz de Eugenio? + +--Eugenio, como sabe, desappareceu ha dias, accusado de ser elle o +auctor do rapto da filha do Custodio de Jesus... + +--Pois sim, bem sei--disse a loura impaciente--Mas Eugenio jurou-me que +era victima de uma odiosa calumnia dos seus inimigos, que elle não +tivera a menor cumplicidade n'esse rapto. + +João Lazaro sorriu. + +--No emtanto--disse elle--a policia procura-o, porque sobre elle recahem +todas as provas, as mais completas. O procurador Belchior, a mulher e a +cunhada são unanimes em declarar que o reconheceram na occasião em que +arrebatava Beatriz para dentro do carro. O proprio pae da victima é +concorde com estas declarações, affirmando que tambem o reconheceu. +N'estas circumstancias, creio bem que Eugenio de Mello viu que não +poderia defender-se de tão grave accusação e tomou o expediente de se +homisiar... + +--Até que a luz se faça e os factos provem a sua innocencia. Foi isso o +que elle me disse no bilhete que me escreveu no proprio dia em que +partiu... + +--Sem lhe dizer para onde...--tornou o Lazaro com um sorriso de mófa. + +--Não m'o podia dizer porque elle mesmo não sabia ainda para onde ia... + +--E se o sabia, não lhe convinha dizer-lh'o... + +--O senhor é terrivel! faz gosto em me torturar!--exclamou a loura +irritada. + +--Não, minha querida, faço apenas diligencia para que veja as coisas +como ellas são. Eugenio de Mello disse-lhe que estava innocente no crime +de rapto de que o accusam e a senhora acreditou-o, não obstante saber +que elle diligenciava casar-se com Beatriz... + +--A propria accusação destroe a suspeita de uma tal intenção por parte +de Eugenio... + +--Porque? + +--Porque se Eugenio quizesse realmente casar com Beatriz, e a esse +enlace não se oppunha senão a noiva, é claro que o rapto só seria um +pretexto para a forçar a acceitar o noivo; e então não teria Eugenio a +necessidade de negar e de fugir, nem o pae da rapariga andaria tão +açodado em perseguição do raptor da filha. + +João Lazaro tornou a sorrir com um ar de cruel zombaria. + +--É bem deduzido--disse elle--Ahi ha logica. É pena que o raciocinio +esteja muito longe da verdade... + +--Pois bem; se o senhor sabe a verdade, diga-a!--exclamou Leonor com +impeto--tire-me d'este supplicio em que me debato ha dias sem saber o +que hei-de pensar! + +--Prometti trazer-lhe revelações importantes, e é isso justamente o que +venho fazer. + +Avançou alguns passos na sala com ar sombrio, deixou-se cahir com +abandono em um sofá, indicou uma cadeira a Leonor como se fôra elle o +dono da casa, puxou de um charuto, que mordeu distrahido, e, emquanto o +accendia, disse para Leonor, agora anciosa e humilde com os olhos fitos +n'elle: + +--Sente-se e escute-me. Eu disse-lhe que Eugenio de Mello tinha o +casamento projectado com a filha do capitalista Custodio de Jesus; e +isto era verdade. A senhora mesmo, pelas indagações a que procedeu, veio +a conhecer que eu a informára da verdade. + +--Mas soube tambem que Beatriz repudiara esse casamento--objectou +Leonor. + +--Devagar! Peço-lhe que não me interrompa para me recordar minucias, +porque eu ainda não me esqueci... + +E atirando uma baforada do charuto, proseguiu: + +--Beatriz recusava-se a acceitar a união com Eugenio de Mello porque +tinha o coração preso a um outro amor. Custodio de Jesus, porém, +influenciado pelo procurador Belchior, seu intimo e collaborador de +agiotagens sordidas, empregava todos os esforços para convencer a filha +a realisar o enlace que se lhe propunha... É isto ou não o que lhe +disseram as suas informações? + +--É. + +--Muito bem! prosigamos agora analysando os factos: Como Beatriz se +recusasse a annuir aos desejos do pae, concertaram os tres entre si +jogar um lance decisivo que entregaria a pobre pequena sem resistencia +nos braços do apaixonado noivo, obrigando-a por fim a acceitar o +recusado enlace como a unica solução redemptora da sua honra. Esse lance +era o rapto por Eugenio de Mello, n'um passeio combinado ao campo, rapto +que se effectuou como se havia projectado... + +--Por Eugenio? + +--Pois por quem? Por mim é que não foi nem podia ser, pois que nada se +combinou comigo. + +--Mas é isso o que Eugenio nega... + +--Deixe-o negar. A verdade é só uma e isso está averiguado de modo que +não admitte duvidas. + +--Mas então, se é assim, que interesse tem Eugenio em negar, quando o +que mais lhe convinha era apresentar-se como culpado, porque mais +depressa realisaria o casamento? + +--É esse o ponto escuro da questão, que eu já consegui esclarecer... A +rapariga tem apenas um dote de vinte contos. Custodio de Jesus possue +mais de noventa. O dote da noiva, portanto, mal chegaria para solver as +dividas de Eugenio, a quem o procurador Belchior tem já adiantado sommas +enormes á conta d'este casamento... + +--Mas como póde ser isso, se eu mesma tenho dado muito dinheiro a +Eugenio?... + +--Vejo que não conhece o seu amante, minha querida. Eugenio tem habitos +de dissipação e de luxo. Passa ahi no Porto por ser um rico proprietario +do Alemtejo, quando elle não possue em parte alguma do paiz um palmo de +terra a que possa chamar seu. Todo o dinheiro que a senhora tem +dispendido com elle não lhe chegaria sequer para o café e para os +charutos... + +--Que exaggero!--disse Leonor com desgosto. + +--Minha querida amiga--tornou João Lazaro com modo affavel--não é isto +desmerecer a importancia das sommas que o seu louco capricho por Eugenio +lhe tem custado: é que esse rapaz tem gasto em jogo, em ceias, em mil +desperdicios de vaidosa ostentação, mais talvez de dez contos de reis +nos ultimos quatro mezes. A senhora certamente não lhe tem abonado todo +esse dinheiro... + +--Tanto, não... + +--Pois ahi tem! Raptada a rapariga, Eugenio, por sua parte, entendeu que +devia fazer outro jogo... Em vez de a conduzir para a casa que se havia +combinado entre os tres, levou-a para outra parte até agora desconhecida +e negou aos proprios cumplices que tivesse sido elle o auctor do +rapto... + +--Mas para quê! meu Deus! para quê?--exclamou a loura de cada vez mais +aturdida. + +--Para quê! Pois ainda não comprehendeu? Para forçar o pae de Beatriz a +augmentar o dote da filha... + +--Mas isso é uma infamia! + +--Infamia é tudo o que Eugenio de Mello tem praticado, mesmo com a +senhora. O certo é que o mariola evadiu-se e lá está com a sua gentil +raptada, sabe Deus onde, até que o Custodio se resolva a accrescentar o +dote da pequena. O casamento, no emtanto, far-se-ha. É questão de mais +mez, menos mez, até o Custodio chegar ao preço... + +--Mas o senhor tem bem a certeza de que isso é assim?--interrogou Leonor +com os olhos chammejantes de colera. + +--Se tenho a certesa! Tudo isto que lhe estou contando foi-me revelado +em confidencia pelo proprio Belchior. + +--Mas o Belchior é então complice de Eugenio n'essa projectada extorsão +ao velho! Se elle conhece o que Eugenio premedita, não deve ignorar onde +elle se encontra... + +--Não! O Belchior não sabe nada do paradeiro de Eugenio e de Beatriz, e +está por isso furioso. O que elle imagina é que Eugenio pretende +ludibrial-o a elle e conjunctamente ao velho, para se furtar ao +pagamento do dinheiro que lhe pediu emprestado com promessa de o +reembolsar logo depois do casamento. + +--Que sucia de miseraveis!--bradou a loura enojada. + +--Verdade, verdade--observou João Lazaro, rindo--a partida foi bem +pregada. Vê-se que Eugenio conta com os recursos da sua seductora figura +e com os artificios da sua linguagem para apaixonar a ingenua raptada, +emquanto esta questão se não dirime em casa do tabellião e vae ter o seu +natural desenlance na egreja da freguezia. + +--Nunca! Nunca!--protestou Leonor levantando-se enfurecida.--Antes +d'isso, hei-de eu encontral-o e tirar-lhe contas rigorosas da sua infame +perfidia! + +--O que quer fazer?--perguntou João Lazaro fleugmaticamente. + +--O que quero fazer? Procural-o até o encontrar. + +--E depois? + +--Depois dar-lhe a escolher: ou eu ou ella. + +João Lazaro soltou uma gargalhada. + +--A escolha está feita, minha amiga!--disse elle.--Pois ainda tem +duvidas? + +Leonor franziu o sobr'olho e encarou fito João Lazaro. + +--Está feita! Como é que o senhor sabe que está feita?--perguntou. + +--Foi á senhora que elle raptou? Era com a senhora que elle pensava em +casar? + +--Ás vezes rapta-se uma mulher por capricho... + +--E casa-se com ella por amor. + +--Se elle a amasse, não prolongaria uma situação que lhe retarda o +casamento... + +--Mas que não lhe impede a posse do objecto amado, visto que é elle hoje +o unico senhor de Beatriz... Além d'isso, a demora no cumprimento da +formalidade... social só representa para elle interesse e não prejuizo, +pois que o velho acabará por se submetter a todas as condições que elle +impuzer. + +Leonor bateu o pé furiosa. + +--O senhor tem um modo de vêr as coisas que irrita os nervos á +gente!--disse ella. + +--Oh, minha querida amiga, a culpa não é minha em as vêr assim: a culpa +é das proprias coisas que se apresentam com tal aspecto. Bem sabe, eu +conheço Eugenio, sei do que elle é capaz, e a paixão não me cega a ponto +de não me deixar vêr o que é mais claro do que o sol. + +Houve uns momentos de silencio. + +--Não será possivel saber onde se occulta Eugenio com... essa +rapariga?--perguntou por fim. + +--A policia procura-os, mas duvido que os encontre. Eugenio é fertil em +expedientes para se esquivar á perseguição da policia... + +--Mas o senhor... o senhor não será capaz de lhe achar o rasto? + +--Que juizo fórma de mim?--perguntou João Lazaro encarando-a com +desdem--Pois amando-a eu como a amo, querendo-a para mim como a quero, +julga-me tão imbecil que vá buscar-lhe o amante que lhe fugiu? + +--Mas não foi isso o que o senhor me prometteu!--bradou Leonor +indignada.--O senhor disse-me que me informaria de tudo... + +--E creio que assim tenho feito. Por quem sabe a senhora o que se passa, +senão por mim? Eu disse-lhe que lhe apresentaria provas da infidelidade +de Eugenio, e creio que essas provas estão bem patentes... + +--Mas disse-me tambem que elle não casaria sem que eu fosse previamente +prevenida... + +--Elle ainda não casou... + +--Mas vive com ella, tem-n'a a seu lado, está a esta hora fazendo-lhe +mil protestos, mil juras de amor! + +--Tudo isso, porém, não é casar--tornou João Lazaro com placidez. + +--Mas é amar outra, é esquecer-me, é ultrajar-me!--gritou Leonor n'um +despedaçamento do coração. + +--Bem! E o que quer a senhora? + +Leonor encarou-o com os olhos scintillantes e os labios tremulos de +colera: + +--Pois ainda não comprehendeu?--rouquejou ella--Quero vingar-me! + +--Para isso não precisa procural-o nem saber onde elle está... Pena de +Tallião, minha amiga... Tem-me aqui, doido de amor, a implorar-lhe um +momento de compaixão, e a sua generosidade para com elle é tanta que +ainda não pensou em que eu podia ser-lhe um optimo instrumento de +vingança... Creio bem que Eugenio, sabendo-o, morder-se-hia de +desespero, por ver que a formosa Leonor não tinha perdido na troca... + +--Cale-se!--intimou ella, repellindo com desespero e asco o João Lazaro, +que tentava tomar-lhe as mãos para lh'as beijar--Essa não é a vingança +que me satisfaz, a vingança que eu sonho! + +João Lazaro encarou-a com um ar de desdenhosa superioridade e disse: + +--Pois que outra vingança póde tirar uma mulher nas suas circumstancias? + +A loura empallideceu e depois fez-se rubra como se tivesse levado em +cheio uma bofetada na face. + +--Quem lhe deu ao senhor o direito de me insultar?--disse ella tremula +de colera. + +--Perdão, minha querida Leonor, mas não supponho ter-lhe feito um +insulto lembrando-lhe que, nas circumstancias melindrosas em que se +encontra, não lhe conviria sacrificar as relações do commendador Garcia +á vingança ruidosa contra Eugenio... + +--Cuidei que não se referia sómente á situação, mas tambem á _qualidade_ +da mulher... Julguei que não me suppunha moralmente em condições de +tirar uma desforra digna do miseravel que me atraiçoou! + +--Oh! por Deus, Leonor! Toda a mulher tem direito a ser respeitada nos +seus affectos, e a senhora mais que nenhuma outra, porque tem sido de +uma grande e excepcional dedicação para Eugenio. O sentido das minhas +palavras era muito outro. A senhora não é a amante declarada de Eugenio +de Mello. A sua ligação com elle tem um caracter clandestino... Como +poderia a senhora tirar rasoavelmente um desforço publico, impedir o +casamento d'esse homem, se toda a gente a considera a amante do +commendador Garcia? + +--E que me importa a mim o commendador Garcia, quando se trata de punir +quem ousou ludibriar-me e esmagar o meu coração? + +--Punir, disse? + +--Punir, sim! Pois o que julga o senhor? Cuida talvez que eu seria +mulher para deixar nos braços de outra o homem que amei e que me pagou +com a perfidia mais infame, com o despreso mais cruel? Teria que vêr se +Eugenio havia de ficar contente e feliz, gozando o amor e o dote de +outra mulher a quem chamaria sua esposa, a quem apresentaria no mundo +cercada dos respeitos e das considerações de todos, emquanto que eu, +ultrajada e esquecida, ficasse tragando em silencio todas as amarguras +da minha humilhação, todos os desesperos do meu amor escarnecido! Não! +Eugenio de Mello não casará, juro-lh'o eu, porque eu saberei procural-o +por toda a parte e encontral-o onde elle estiver. E se fôr tão habil que +se case antes de eu dar com elle, a mulher, se o amar, terá o desgosto +de ficar viuva... + +João Lazaro ouvia attentamente as palavras de Leonor, pesando-as e +calculando até que ponto ellas podiam ser tomadas como a expressão de +uma ameaça realisavel. + +--Minha querida--disse elle--socegue e veja bem que n'esse estado de +excitação nada podemos fazer... + +--Mas se eu já não quero fazer nada!--bradou Leonor.--O que eu quero +unicamente é saber onde posso encontrar Eugenio... + +--Venha cá, Leonor!--exclamou João Lazaro pegando-lhe na mão e +obrigando-a a sentar-se ao seu lado. Sejamos, antes de tudo, rasoaveis e +conversemos como bons amigos... Sabe que a amo desde muito e que por +coisa alguma eu consentiria n'um desvario que pudesse trazer-lhe +desgraça irremediavel. Quer vingar-se de Eugenio, não é assim? + +--Oh! sim! sim! quero!--respondeu anciosamente Leonor, n'um +estremecimento nervoso. + +--Diga-me: que genero de vingança desejaria tirar? + +--A unica que elle merece e a unica que me póde satisfazer: matal-o! + +--Bem sabe que não se mata um homem sem se assumirem graves +responsabilidades perante a justiça--ponderou João Lazaro. + +--E que me importa a mim a justiça? Á justiça direi: «Matei-o porque me +ludibriou, porque me trahiu!» + +--A justiça não se contentará com essa explicação e punil-a-ha com todo +o rigor da lei... + +--Embora! Mas eu ficarei vingada. + +--Não! Ficará perdida. Calcula, minha boa amiga, qual vae ser a sua +sorte, atirada para o fundo de uma prisão, de parceria com outras +criminosas, exposta aos desprezos e aos sarcasmos de toda uma multidão +avida de escandalos e de crueldades que assistirá ao seu julgamento e +aplaudirá com uivos de alegria a sua condemnação? Calcula o atroz +supplicio que a espera desde a hora do seu crime até á hora da sua +partida para o degredo, no porão de um navio, empilhada com outros +condemnados, tratada como um animal feroz, como um ser abjecto e +ascoroso que a sociedade repelle de si com nojo? E diga-me: vale tanto o +miseravel que a trahiu e tão infamemente a explorou no seu dinheiro e +nos affectos do seu coração? + +--Mas eu hei-de deixal-o viver feliz e ditoso nos braços de outra, a +rir-se de mim com desprezo, hei-de encontral-o na rua dando o braço á +mulher por quem me trocou e hei-de fugir envergonhada, hei-de desviar-me +humildemente do seu caminho para o deixar passar? Oh! não! não! Antes a +prisão, antes o degredo, antes uma eternidade de supplicios n'este mundo +e no outro, do que deixal-o escarnecer impunemente de mim! + +--Mas, minha amiga--tornou João Lazaro com a voz mais doce e +persuasiva--não é isso tambem o que lhe estou dizendo... + +--O que é que me diz então? Explique-se, por Deus! que não tenho cabeça +em estado de perceber coisas que não sejam ditas bem claramente! + +--Ouça, Leonor; toda a vingança se póde tirar de duas formas: uma +publica, ruidosa, impulsionada cegamente pela ira. Essa, quando ella tem +por consequencia a morte de um homem, chama-se _crime_ e é punida +rigorosamente pela lei. A outra é premeditada, occulta, sem ruido e sem +provas; e quando tem como consequencia igualmente a morte de um homem, +chama-se _desastre_, _doença_, _fatalidade_, e a justiça não tem alçada +para a punir. + +--Não entendo!--disse Leonor. + +--Vae entender. Se lhe fosse possivel vingar-se de Eugenio, matando-o de +modo que só elle soubesse quem o matou, a senhora preferiria +assassinal-o publicamente, diante de todos, e ir depois prestar contas á +justiça? + +--De certo não. O que eu queria era vingar-me e que elle soubesse que no +peito de uma mulher como eu, se existe _o amor que salva_, tambem ha o +_amor que mata_. + +--Pois bem; que recompensa me daria se eu lhe proporcionasse a vingança +que deseja? + +--Como poderia eu recompensal-o? + +--Amar-me-hia? + +--O amôr é um sentimento que nasce do coração, não é um objecto material +cuja posse se transfira de um para outro individuo. O senhor que diz +amar-me comprehende assim o amôr? + +--Pois bem; não tomemos a palavra na rigorosa significação que lhe está +dando... Mas, diga-me: depois da sua vingança realisada, +pertencer-me-hia? + +--Em espirito, não. Materialmente, sim. + +--É quanto me basta. Materia e espirito andam pelo commum tão ligados +que é difficil, ao cabo de um certo tempo, que a alma não acompanhe o +corpo... + +--Imponho uma condição, porém--objectou Leonor. + +--Diga. + +--Seja que o espirito acompanhe a materia, seja que um e outro +permaneçam desligados n'este contrato, o senhor não tolherá nunca a +minha liberdade. Recebel-o-hei quando me parecer, á hora que eu bem +quizer, sem que o senhor tenha mais direito do que o commendador Garcia +ás minhas complacentes attenções... + +--Tambem não exijo mais, tal é a certeza que eu tenho de que ha-de +chegar a comprehender-me e a estimar-me, Leonor. + +--É possivel. No emtanto não me julgo obrigada a isso... Vejamos: sabe o +senhor onde está Eugenio? + +--Talvez... + +--Talvez não é certo, e eu não gosto de incertezas quando se trata de um +assumpto que tanto me interessa e de que depende o meu socego, a minha +tranquillidade... + +--Diga antes--de que depende a satisfação do seu orgulho ferido... + +--Seja! Onde está Eugenio? + +--N'este momento não poderia dizer-lh'o, ainda que quizesse. Mas espero +bem que amanhã poderei dar-lhe indicações seguras... + +--Amanhã! E quem lhe assevera ao senhor que amanhã não será já tarde? + +--Nunca é tarde para a vingança. + +--Mas eu não desejo vingar-me do marido de Beatriz: desejo tirar +vingança do amante de Leonor trahida e ludibriada! + +--Tiral-a-ha amanhã, porque amanhã Eugenio de Mello estará aqui a +pedir-lhe dinheiro para se passar com Beatriz para Hespanha. + +--Como o sabe? + +--Disse-m'o elle. + +--Ah! o miseravel! Pois se vier não sahirá vivo d'esta casa... + + + + +XXI + +Tal vida, tal fim + + +Leonor, prevenida na vespera por João Lazaro, ficou sabendo que Eugenio +iria procural-a n'essa noite, e d'accordo com aquelle, mandára mudar a +fechadura da porta para impedir que elle entrasse sem bater. + +No emtanto, não se deitára. Espreitando pela janella, vira-o +aproximar-se, vira o espanto que lhe causára a mudança da chave, +traduzido na attitude hesitante do bohemio, indo ao meio da rua a espiar +as janellas como que a certificar-se de que era aquella a mesma casa e +de que tudo lá dentro estava em silencio. + +Viu-o depois dar alguns passos na rua, como que a tomar uma resolução, +encostar-se á parede fronteira com os olhos cravados nas janellas, +voltar á porta tentando vêr se a chave seria a mesma, e por ultimo +afastar-se a passo vagaroso como homem que não sabe bem o que pensar +d'uma contrariedade que lhe succede. Viu tudo, e por dentro dos vidros, +na escuridão da sala, com os dentes cerrados pela colera, ia murmurando +com rancôr profundo: + +--Miseravel! vinhas ainda, pela calada da noite, saltear a tua victima, +roubar-lhe o dinheiro que precisas para sustentar a mulher por quem a +trocaste! Vae! vae e não voltes... Porque se voltas, saberás então +quanto custa ludibriar uma mulher como eu! + +E nervosa, tremula, a face horrivelmente pallida, os louros cabellos em +desalinho, cahiu sobre um sofá e desatou n'um choro convulso e abafado. + +Esteve assim por muito tempo, sem dormir, sem pensar. A febre +escaldava-lhe a fronte, e as lagrimas, em vez de lhe acalmarem a enorme +excitação, mais lh'a exacerbavam. De manhã, aos primeiros fulgores da +aurora, viu-se a um espelho e achou-se horrivel, com as feições +transtornadas pela vigilia. Teve então um accesso de furor invencivel. +Era elle, o perfido, o miseravel, que depois de lhe ter extorquido os +affetos e o dinheiro, depois de lhe haver roubado o socego e a +tranquillidade, ainda por cima lhe roubava a belleza! Oh! a vingança +seria terrivel! + +Desde essa hora, Eugenio de Mello estava condemnado. + +Logo que a velha criada abriu a porta da rua á hora habitual para fazer +as primeiras compras do dia, Eugenio de Mello, que já espiava os +arredores da casa, entrou no portal e subiu ao andar superior. + +Como pessoa familiarisada com os costumes da casa, dirigiu-se ao quarto +de Leonor e encontrou a porta fechada por dentro. + +Ia bater, quando a criada, apparecendo, preveniu: + +--Faça o favor de não bater, que a senhora passou mal a noite e +recommendou que a não acordassem. + +--Essa ordem não pode entender-se comigo--volveu Eugenio, admirado do +modo como lhe coarctavam a liberdade que até alli usara. + +--Não se entende com o senhor, porque ella não o esperava. Mas deu-me +esta ordem e a minha obrigação é cumpril-a. + +Eugenio encarou a criada por alguns momentos espantado de tamanho +atrevimento, a que não estava habituado. + +--Marianna--disse elle, contendo-se e tomando um tom affavel--o que se +tem passado n'esta casa, que encontro tudo tão mudado? + +--O que se tem passado, diz o senhor? Não se tem passado nada. Está tudo +na mesma. + +--Tudo na mesma, não. A chave da porta da rua foi mudada. Agora é outra. +Leonor, que d'antes dormia com a porta do quarto aberta, agora tem a +precaução de se fechar por dentro. Porque é isto? + +--Porque ha de ser?--respondeu a criada fazendo uma careta +inexpressiva.--O senhor bem sabe que, em casa onde não ha homem, não +póde uma senhora estar a dormir com a porta aberta. O sr. Eugenio foi-se +embora, a menina não o esperava... Eu ando cá na minha vida, e assim +como o sr. Eugenio entrou, podia entrar outra qualquer pessoa por ahi +dentro e ir dar com a senhora na cama. Por isso ella fecha-se, e faz +muito bem... E então agora que andam por ahi tantos ladrões! + +--Foi então por causa dos ladrões que a sua ama mudou a chave da porta +da rua e se fechou no quarto, por dentro? + +--Olhe, senhor, eu não sei!--rematou a velha.--Ella não me dá contas nem +_estifações_ do que manda fazer... Ella é que dá as _ordes_, é a +senhora, e eu cá d'essas coisas não sei. + +O bohemio tirou o chapéo e a capa, arrumou tudo sobre uma cadeira e +aproximando-se da criada, disse-lhe a meia voz: + +--Marianna, quem está alli n'aquelle quarto? + +--Quem ha de estar? Está a senhora... + +--Só? + +--Quem queria o senhor que estivesse lá com ella? O sr. _encommendador_, +não fica cá, o sr. Eugenio está ahi... Parece-me que aqui não vem mais +ninguem.... + +--Parece-lhe? Não tem a certeza... + +--Assim Deus Nosso Senhor me ajude e os anjos acompanhem a minha alma á +hora da morte se já cá veio mais alguem depois que o senhor se foi +embora, tirante de ser o sr. _encommendador_... Então ella, coitadinha, +que não se tem fartado de chorar de noite e de dia, depois que andam +aqui estas rodilhices... + +--Rodilhices de quem? + +--Eu sei lá de quem! O sr. Eugenio bem sabe o que anda nas gazetas a seu +respeito. A senhora lê a folha todos os dias e afflige-se... Pudera! +Outra qualquer faria o mesmo. + +Effectivamente o escandalo do rapto attribuido a Eugenio de Mello fôra +noticiado com grande pompa de phrase e de minudencias nos jornaes +diarios. Eugenio sabia-o e não estranhou por isso que a leitura do caso +tivesse impressionado a amante, como a criada affirmava. + +--Leonor tem-se então affligido muito?--perguntou elle. + +--Oh, Senhor! Não faz outra vida senão chorar e affligir-se... E anda +ruim que não ha quem a ature... O pobre do _encommendador_ anda parvinho +de todo, que ella dá-lhe cada sarabanda por dá cá aquella palha, que é +uma coisa por demais! + +O bohemio teve um sorriso de vaidade satisfeita. O seu amor proprio +comprazia-se na ideia de que Leonor o amava a ponto de tratar mal toda a +gente, até o homem que a protegia, tudo por sua causa. + +--É doida a Leonor em dar importancia ao que dizem os jornaes--disse +elle--principalmente quando sabe que tudo isso não passa de uma sucia de +pêtas. + +--São pêtas, são pêtas--retorquiu a velha com um sorriso de +incredulidade--mas o sr. Eugenio anda a fugir da policia que lhe não vá +ella deitar a mão... + +E depois n'um tom de reprehensão amigavel: + +--O senhor tambem me sahiu levadinho da breca! Pois tendo aqui a +senhora, que tem uma cara como um sol, precisava de se importar co'as +outras lambisgoias para nada? Credo! Os homens são a coisa peor que ha! +Quem se fia n'elles está perdida. + +--Pois você tambem acredita, Marianna? + +--Cale-se, cale-se! Eu não digo nada... mas estes olhos teem visto muito +e estes ouvidos teem _ouvisto_ inda mais--disse ella, levando +alternativamente os dedos aos olhos e aos ouvidos. + +--O que é que você tem visto e ouvido, Marianna? + +--Muita coisa! Deus me livre que a senhora soubesse da missa ametade... +O sr. Eugenio cuida que se não sabem as coisas... mas eu já ha muito que +ouvia fallar que o senhor que se queria casar co' essa tal menina p'ra +amor de quem agora andam estas _questães_... + +E muito persuasiva, como quem dá conselhos bons de sensatez e de +prudencia: + +--P'ra que diacho a quer? Ella poderá ter mais dinheiro, mas nunca é +capaz de lhe ter a amizade que esta lhe tem... O dinheiro, quem tiver +mais que se enforque co'elle!... Demais, casar por casar, então antes +co' esta, que se quer ao menos já sabe quem tem... É só dezermos não é +uma menina capaz, mas em bom panno cáem as nodoas... E olhe que ella não +lhe dizia que não... que o que ella lhe quer de bem só eu é que o sei... +E dinheiro _támem_ não lhe havia de faltar, que se não fosse o +_encommendadôr_, não faltaria quem lh'o desse... O ponto era ella +querer. + +--Está bem, Marianna, acabe com o sermão!--ordenou o bohemio, de mau +humor.--Visto que Leonor está dormindo, esperarei que ella acorde. + +E estirou-se ao comprido sobre um canapé, resolvido a esperar. + +Á hora habitual, a porta da alcova de Leonor abriu-se e a loura +appareceu na sala, fingindo-se surprehendida de encontrar alli o amante. + +Eugenio, ao vêl-a, correu para ella com os braços estendidos, n'um +amplexo carinhoso. + +A loura contrafez no rosto pallido um sorriso e perguntou: + +--Tu por cá! Que novidade é essa? + +--Venho pedir-te que me salves mais uma vez, Leonor!--exclamou o bohemio +com artificial commoção. + +Leonor não respondeu. Encaminhou-se para um sofá e sentou-se, indicando +a Eugenio que a imitasse. + +--O que é então que desejas?--perguntou. + +--A policia persegue-me de cada vez mais encarniçadamente--principiou +dizendo o bohemio--de modo que não só me é impossivel continuar a viver +no Porto como permanecer por mais tempo em Portugal... + +--E d'ahi? + +--D'ahi, comprehendes quanto deve ser doloroso para o meu coração o +pensamento de te deixar... + +A loura esboçou nos labios um sorriso de cruel desdem. + +--Faço ideia!--disse ella friamente. + +O bohemio, um tanto desconcertado com a attitude glacial da amante, +proseguiu: + +--Sou victima da fatalidade, mais ainda do que dos meus inimigos! Estes +não perdem occasião de me perseguir e de instar com a auctoridade para +que me prenda, afim de me fazerem condemnar por culpas que não commetti! +Mas o que mais me afflige e perturba é o ver accumularem-se contra mim +provas de culpabilidade, quando eu juro que estou innocente! Dir-se-hia +que um genio infernal tomou a peito a minha desgraça e quer a todo o +custo perder-me sem me deixar possibilidade de salvação! + +--Foi talvez feitiçaria que te fizeram!--disse a amante com um +aggressivo sorriso de sarcasmo. + +O bohemio encarou-a espantado. + +--Tambem tu, Leonor, tambem tu escarneces da minha desgraça?--lamuriou +elle, buscando enternecel-a com os seus queixumes. + +--Eu? Que lembrança!--casquinou nervosamente a loura.--Eu posso lá +escarnecer de um amante feliz, de um seductor audacioso e arrojado, que +affronta impavido os perigos e os rigores da justiça para possuir por +força a mulher que por bem não quiz amal-o?! + +Laura fallava nervosamente, com os olhos scintillantes de indignação e +de odio mal reprimido. + +Eugenio imaginou-a dominada por um dos seus accessos de indomavel ciume, +e respondeu, sorrindo com a fatuidade do amante que ainda se reconhece +querido: + +--Mau! ahi estás tu com as tuas loucuras do costume! Sabes que tens sido +sempre injusta para comigo, sendo a primeira a accusar-me de faltas que +não commetti. Mas agora peço-te, Leonor, que te moderes e repares bem na +injustiça que me fazes... + +--Injustiça?! + +--Sim! É uma injustiça que te não mereço o suppôres-me, como toda a +gente, auctor do rapto d'essa rapariga, que mal conheço, que não amo, +que nunca amei e que a esta hora se está rindo nos braços de outro da +partida que o seu raptor me pregou, envolvendo-me na aventura +escandalosa dos seus amores, a que sou--juro-o!--completamente estranho! + +Leonor abanou a cabeça em silencio, sem responder. Eugenio, de cada vez +mais possuido do vivo desejo de mover a loura a emprestar-lhe dinheiro, +continuou: + +--Juro-te, Leonor, que estou innocente! Este rapto não foi obra minha. +Eu podia pensar em tudo, menos em raptar essa rapariga, que é filha de +um homem rico e incapaz de transigir com tal violencia offensiva da sua +honra e do seu bom nome... + +--Como é então que o acusam ao senhor?--disse Leonor, cravando n'elle um +olhar que o gelou. + +--Tudo obra dos meus inimigos!--balbuciou o bohemio, +desconcertado--Sabes que tenho concitado contra mim os odios e as +invejas d'essa canalha endinheirada que não póde perdoar-me a maneira +como a affronto com a minha distincção e a minha maneira de viver... E +eu sei lá se n'esta perseguição surda que agora se me move entra tambem +o ciume d'aquelles que tu rejeitaste e talvez o do commendador Garcia, a +esta hora sabedor das nossas relações? + +--Basta!--bramiu Leonor, livida de colera, levantando-se de +salto--basta! Que o senhor abusasse da fraqueza do meu coração para me +illudir, ainda lh'o poderia tolerar; mas que leve a infamia ao ponto de +calumniar o homem que confia em mim e a quem tenho feito soffrer por sua +causa, não lh'o consinto! + +--Bravo!--tornou o bohemio sarcasticamente--Vejo que o commendador tem +feito progressos no teu coração durante a minha ausencia! + +E encolhendo os hombros com desprezo. + +--Afinal, é de justiça... Ha tanto tempo desapossado do thesouro que de +direito lhe pertencia, é obra de caridade restituir-lhe o que se lhe +tirou. + +Levantou-se e encaminhou-se para a cadeira onde tinha posto o chapéo e o +capote. + +Com esta retirada falsa, expediente que tantas vezes lhe havia sortido o +effeito desejado, esperava elle abrandar a irritação da amante. + +--Adeus!--disse, já da porta da sala, como quem se preparava para sahir. + +Leonor avançou para elle: + +--Foi para isso que o senhor cá veio?--rugiu indignada--Foi unicamente +para fazer uma accusação tão insensata como absurda a um homem que nem +sabe que o senhor existe? Visto isso, ainda a perseguição que a justiça +lhe move não é tamanha como diz, pois que lhe deixa ociosidade e tempo +para essas distracções... + +O bohemio retrocedeu. + +--Não foi para isso precisamente que eu cá vim. Mas ainda quando não +viesse senão para isto, não dava por mal empregado o meu tempo, que é +sempre curioso e interessante vêr como as mulheres amam os que atraiçôam +e atraiçôam os que dizem que amam... + +--O que! O que é que o senhor diz? Explique-se sem trocadilhos, faça +favor! + +--Digo--volveu o bohemio--que eu devia esperar isto mesmo... Seria caso +unico na historia da humanidade que a desgraça me perseguisse e o +coração da amante me restasse firme... Peço-lhe perdão se vim +importunal-a. Eu devia desde logo pensar que as mulheres só amam o +prazer, as alegrias da vida facil e que não podemos contar com ellas +para as horas negras da desgraça. + +Leonor, tremula e excitadissima, lançou-lhe a mão ao braço e arrastou-o +para junto do sofá. O bohemio deixou-se conduzir. + +--Venha cá!--disse ella.--A accusação que o senhor acaba de fazer é mais +uma infamia sobre tantas! A que é que o senhor veio aqui? + +--Vinha despedir-me da mulher que amava e... + +--E...? + +--E pedir-lhe que me salvasse da vergonha e da miseria da prisão. Mas +isso terminou. Sei que nada posso esperar. Seguirei o meu destino... + +--Se a sua consciencia lhe dizia que nada podia esperar, para que veio +cá? Vamos! explique-se! O que desejava? + +O bohemio conhecia a loura. Sabia por experiencia que todos os +conflictos por ciumes acabavam por ternissimas demonstrações de affecto, +sempre que elle proferia palavras de resentimento, desilludido. + +--Para que hei-de dizer-lhe nada, se tudo entre nós acabou? + +--Talvez se engane... talvez ainda não acabasse _tudo_ como o senhor +suppõe... + +Illudido por estas palavras, o bohemio ajoelhou aos pés de Leonor, +tomou-lhe as mãos e cobriu-lh'as de ardentes beijos. + +--Se é certo que conservas ainda no teu coração um terno sentimento de +affecto por mim, para que me torturas na minha desgraça, para que me +lanças no desespero quando venho pedir-te consolação e amparo?--bradou +elle. + +--O que desejas de mim? Dize! + +--Desejo que me salves! A minha vida, a minha liberdade, o meu futuro, +está tudo na tua mão! + +--Como? O que posso eu fazer? + +--Vaes ouvir. Não posso continuar a viver em Portugal sem entrar na +cadeia. É, pois, indispensavel que eu fuja quanto antes para a Hespanha +e por lá me demore até se apurar a minha innocencia. Presentemente não +posso contar com o auxilio de parentes nem amigos. Só tu me pódes valer, +emprestando-me a quantia necessaria para eu por lá não morrer de fome... +Vinha, pois, pedir ao teu amor a salvação que todos os outros me +recusam... + +Era isto justamente o que Leonor esperava para acabar de se convencer da +perfidia do amante. + +João Lazaro havia-lhe dito que Eugenio viria, n'uma ultima exploração, +arrancar á sua boa-fé o dinheiro para fugir com Beatriz para a Hespanha. + +Confirmada a denuncia de João Lazaro pelas palavras do bohemio, a loura +sentiu dentro em si o demonio do ciume a espicaçar-lhe o desejo da +vingança. + +--Quinhentos mil reis...--disse com voz tremula.--Não é isso o que +precisas? + +--Sim, é isso mesmo!--exclamou o bohemio sem reparar no tom de pungente +sarcasmo em que a pergunta lhe fôra feita--Quinhentos mil reis é quanto +eu tenho calculado que me serão precisos para os primeiros tempos... + +Leonor sorriu e disse: + +--E se eu fosse comtigo? + +O bohemio fez um movimento de surpreza a estas palavras. + +--O que!--exclamou--querias ir comigo para Madrid? + +--E porque não?--tornou Leonor sem desfitar os olhos do amante. + +Eugenio ficou um momento calado. Pensava. A companhia da loura +ser-lhe-hia de alta conveniencia, se ella tivesse dinheiro em abundancia +para gastar com elle. Mas o bohemio sabia que ella apenas poderia dispôr +das suas joias e pouco mais. + +Para o acompanhar, seria inevitavel o rompimento com o commendador +Garcia, e, desapparecida esta fonte de receita, que poderia ainda +ser-lhe um auxilio valioso mesmo distante, a loura ser-lhe-hia um +encargo pesado, senão odioso, em meio da sua desgraça. + +Além d'isso, elle não podia contar com os encantos de Leonor n'um paiz +onde as mulheres são as mais graciosas e tentadoras do mundo e onde o +genero abunda em tal maneira, que d'elle faz annualmente grande +exportação para as principaes capitaes da Europa e até para o Brazil. + +Assim, depois de rapidamente ter ponderado a inconveniencia de um tal +passo, respondeu: + +--Comprehendes, minha querida, quanto me seria agradavel a tua companhia +n'uma terra estranha, longe da patria... Mas eu devo antepôr ao meu +egoismo a tua felicidade... Para me acompanhares, serias forçada a +romper com o commendador, a perder a sua protecção... E esgotados os +primeiros recursos, o que havia de ser de nós, dois ou tres mezes depois +de havermos d'aqui partido? Não, eu não posso consentir que faças por +mim esse sacrificio, porque é verdadeiramente o sacrificio do teu futuro +e do teu bem estar o que um tal passo importa! + +O bohemio era, senão sincero, pelo menos sensato e pratico. Mas Leonor é +que não traduziu assim o seu pensamento e, attribuindo a recusa ao +desejo que o amante teria de partir com Beatriz, como João Lazaro lhe +fizera crêr, irrompeu n'uma explosão de ciume e de colera mal contida. + +--Eu já esperava a resposta, miseravel!--bradou ella enfurecida--Eu bem +sabia que o teu maior martyrio seria que eu te acompanhasse, porque, +indo comtigo, não poderias levar na tua companhia a mulher por quem me +trocaste, vil! + +--Leonor! + +--Não tentes negar! Sei tudo, canalha! + +--Leonor! Juro-te... + +--Não jures, biltre, que as tuas juras são mentidas, são a hedionda +expressão do teu caracter baixo, cobarde e infame, vil explorador de +mulheres!... + +E, rapidamente, tirando do bolso o rewolver, sem que Eugenio, ajoelhado +a seus pés, tivesse notado este movimento, apoiou-lhe o cano da arma á +fronte direita e disparou. + +O desgraçado cahiu exanime no pavimento, sem soltar um gemido. + +Então Leonor, pondo-lhe o revolver ao lado, levantou-se e, desgrenhada, +a face livida pela commoção do momento, levantou-se e começou clamando +por soccorro em brados afflictivos. + +A primeira que acudiu foi a velha Marianna. + +--Meu Deus! o que foi, senhora? + +--Matou-se! Matou-se! Ai, quem acode! Vá chamar um medico... ande, vá +depressa! + +E com as mãos enclavinhadas, estorcendo-se n'uma dôr angustiosa, a loura +debruçou-se sobre o cadaver do amante e rompeu n'um chôro +lancinantissimo. + +O estampido do tiro e os gritos de Marianna, que alternavam com os da +sua joven ama, attrahiram as attenções da visinhança e das pessoas que +iam passando. + +Em breve a casa encheu-se de gente, e, por entre a turba, appareceu +tambem o guarda civil de giro, que recebeu as primeiras declarações, +participando o caso para o commissariado. + + + + +XXII + +Mysterio + + +Emquanto o sapateiro andava pelo Porto farejando o rasto de madre Paula, +passavam-se em S. Martinho do Campo acontecimentos extraordinarios e +verdadeiramente inesperados, tanto para o leitor como para os +personagens d'esta singela narrativa. + +Julio de Montarroyo e Aurelia de Magalhães, propellidos ao natural +desafogo de suas mágoas intimas, encontravam-se a miudo, quer em curtos +passeios, quer em reciprocas visitas, que semanalmente se faziam, sem +ultrapassarem jamais os limites de uma estricta e rigorosa observancia +das leis do decoro e do respeito devido á posição de cada um. + +D. Aurelia, se alguma vez visitava o amigo de seu irmão, quando um +ligeiro incommodo o retinha no leito, ia sempre acompanhada da sua +criada de quarto e era recebida na presença da velha governante de +Julio; e este, pela sua parte, quando visitava a amiga de Helena, tinha +sempre todo o cuidado em escolher os dias em que D. Aurelia recebia +algumas pobres viuvas que caridosamente soccorria com o excesso do +rendimento de sua casa. + +Ainda assim, e apesar do cuidado e escrupulo que ambos punham em não dar +pasto á maledicencia da aldeia, sem duvida mais acerada e mais venenosa +do que a das grandes cidades, não faltava quem esperasse, como coisa +mais ou menos natural e proxima, a noticia de um enlace matrimonial +contrahido entre os dois. + +Ora convem dizer-se que entre D. Aurelia de Magalhães e Julio de +Montarroyo se estabelecera esse mutuo e invisivel laço de sympathia que +une e impelle irresistivelmente uns para os outros todos os grandes +desgraçados, fazendo-os compartilhar, n'um sentimento de inquebrantavel +fraternidade, as dôres intimas que os dilaceram. + +Assim, Julio de Montarroyo sentia grande lenitivo á sua magoa quando +podia referir á irmã de Gustavo toda a grande chaga incuravel que Helena +de Noronha lhe abrira no peito; e a amiga de Helena tambem não se sentia +menos feliz quando podia recordar, na presença de quem bem a +comprehendia, todo o enorme thesouro de venturas que perdêra com o +marido e com o filho, prematuramente mortos. + +Julio de Montarroyo não occultara de D. Aurelia o encontro com o _Tomba_ +e a missão de que o encarregara na esperança de poder descobrir, com a +existencia de madre Paula, qualquer indicio do destino que tomara a +_irmã Dorotheia_. + +--Uma coisa que extraordinariamente me preoccupa e mortifica,--dizia +elle--não é tanto a ingratidão de Helena como é este mysterio que pesa +sobre a sua existencia! Que ella sahiu de Portugal não resta duvida, +pois que nem minha prima Lucilia nem nenhuma das educandas e noviças que +com ella estiveram no Sardão ouviram mais noticias suas. Mas, sendo +assim, como é que nem em Pariz nem em nenhuma das casas religiosas do +estrangeiro, que todas percorri e visitei, eu pude descobrir indicios da +sua passagem? + +--As congregações religiosas--observou sensatamente Aurelia de +Magalhães--ao que me consta, parece que teem o costume de mudar +frequentemente o nome das _irmãs_; de modo que a que aqui se chama irmã +Dorotheia, alem chama-se irmã Ephigenia, n'outra parte irmã Sophia, e +assim por deante, tornando por esta fórma impossivel estabelecer a +identidade de cada uma d'ellas. Quem nos diz a nós que, com Helena, não +terá succedido o mesmo? + +--Sim; e creio bem que succederia. Porém, ainda quando assim fosse, +Helena não teria deixado de me reconhecer, se se encontrasse em qualquer +das casas que percorri. Porque não me limitei a simples informações. +Apparentando decidido amor pelas instituições jesuiticas, consegui, á +custa de donativos, captar a confiança e a estima de todos os superiores +e superioras, sendo em toda a parte recebido como um verdadeiro amigo e +auxiliar valioso; isto é, como um jesuita de casaca. + +D. Aurelia sorriu tristemente. + +--E quem lhe assevera que, sob essa apparencia de estima e confiança, o +senhor não era rigorosamente vigiado e a sua verdadeira individualidade +absolutamente conhecida? + +--Impossivel! Quem poderia denunciar-me, se ninguem estava na posse do +meu segredo? + +--Isto é apenas uma supposição que eu faço--apressou-se a dizer D. +Aurelia.--Tenho ouvido attribuir aos jesuitas tanta sagacidade e astucia +na defesa dos seus intimos interesses, que não seria para estranhar que +elles pudessem illudir e annullar todos os esforços empregados pelo sr. +Julio para encontrar Helena... + +--Não, não! Helena morreu. Do contrario, eu teria tido noticias +d'ella... Se o _Tomba_ encontrar madre Paula, ella confirmará, estou +certo, esta minha funesta previsão... + +--E se, pelo contrario, Helena viver ainda? + +Julio pareceu agitado por uma pilha galvanica. + +--Oh! se fôr viva, tornarei a vel-a, ainda que para isso tenha de +sacrificar os ultimos dias da minha vida! + +Este dialogo passava-se em casa de D. Aurelia, ao cahir da tarde. A irmã +de Gustavo, no intuito de proporcionar a Julio, seu vizinho e amigo de +seu irmão, uma distracção que lhe aligeirasse as horas tristes das +pesadas e longas noites de inverno, costumava tambem receber o parocho +da freguezia, que não era já aquelle saudoso padre Luiz dos tempos de +Norberto de Noronha. + +Era todavia um homem amavel, bondoso e illustrado, de trato simples e +affectuoso, tendo sempre um sorriso para todas as tristezas, uma palavra +de consolação para todas as amarguras. + +Repartia-se o bom do cura entre estes dois desgraçados, ora visitando +Julio, ora visitando D. Aurelia, succedendo que raras vezes deixavam os +tres de encontrar-se juntos e de, em commum, trocarem impressões sobre +os acontecimentos que se succediam, quer na localidade, quer mesmo +n'outros pontos do paiz, e cuja noticia lhes chegava pelos jornaes. + +D'esta vez, o padre Manoel faltára á hora habitual da visita e entrava +na sala, já tarde, com o ar de quem trazia um acontecimento grave a +noticiar. + +--Hão-de ter a bondade de me desculpar a demora--disse elle com o seu +eterno sorriso bondoso--mas não foi culpa minha... + +--Já cá estavamos sentindo a sua ausencia, sr. padre Manoel...--disse +amavelmente D. Aurelia. + +--Que quer v. ex.^a, minha senhora? Esteve em minha casa o Joaquimsinho +de Thayde contando-me um caso extraordinario... + +--Sim? + +--É verdade. Imagine v. ex.^a que ha oito dias que se vê todas as noites +na Senhora do Porto uma mulher desconhecida, prostrada com a face no +chão, resando em frente á porta principal do templo e passando assim as +longas horas da noite n'uma oração muda. De manhã, aos primeiros alvôres +do dia, some-se e ninguem mais a vê! + +--Isso, naturalmente, ha-de ser alguma das muitas phantasias dos +invencioneiros das nossas aldeias--disse D. Aurelia sorrindo--É lá +crivel que uma mulher possa passar assim oito dias prostrada á porta +d'um templo e sumir-se como um demonio de magica, sem que se saiba o +caminho que toma e o destino que leva? + +--O Joaquimsinho de Thayde assevera que a viu de longe; mas não se +atreveu a aproximar-se, apavorado pelo mysterio que cerca a desconhecida +e que já vae formando lenda. + +--Então ninguem se atreve a aproximar-se d'ella e a interrogal-a?--disse +Julio. + +--Ninguem. Como v. ex.^a sabe, esta nossa gente do Minho é temivel com +um cacête nas unhas, fazendo frente ao adversario que se lhe apresenta +de cara levantada, n'uma arremettida franca. Porém, desde que a sombra +de um mysterio extraordinario lhe excita a phantasia, torna-se +supersticiosa, fraca, timida, e foge do rugir de uma folha sêcca com a +precipitação de quem foge do diabo. Por isso, não admira que, oito dias +volvidos, sobre a extraordinaria apparição que a todos apavora, ainda +até agora ninguem se haja atrevido a devassar aquelle estranho mysterio. + +--Mas o que julgam elles que seja? + +--As versões variam. Uns querem que seja a alma penada da D. Rita de +Briteiros que anda pela Senhora do Porto a espiar os seus peccados, que +eram muitos... Outros pensam que, embora aquelle mysterioso vulto +apresente fórmas humanas, é comtudo um enviado do espirito das trevas +para attrahir alli algum dos incautos habitantes de Thayde e leval-o em +corpo e alma para o inferno... + +--E vossa reverendissima o que diz?--interrompeu Julio. + +--Eu digo que, se não é a sombra de alguma arvore, transformada pelos +olhos medrosos dos aldeãos de Thayde n'um vulto de mulher sobrenatural, +então é alguma desgraçada a quem o remorso afflige e que busca na +solidão da noite e no balsamo da oração o allivio e perdão de suas +culpas. + +Julio ouvia a estranha noticia, trazida pelo padre, com grande +curiosidade e interesse. Dir-se-hia que uma voz secreta o avisava de que +aquelle facto extraordinario, apparentemente absurdo e inacreditavel, +como tantos que a phantasia da gente das aldeias borda a capricho nas +noites interminaveis do inverno, ao fogo da lareira, tinha relação +intima com a sua triste historia, feita de amarguras e de esperanças +perdidas. + +--E acredita, padre Manoel--disse elle por fim--que a oração, por tal +modo, constitua balsamo efficaz para as tribulações de uma alma +alanceada de remorsos? + +--Creio que a oração é sempre um balsamo consolador de +afflictos--respondeu o padre.--Quando nas angustias do soffrimento +volvêmos os olhos á roda de nós e não encontramos em nada do que os +cerca um lenitivo á nossa dôr, então volvemos os olhos ao céo e, pondo +em Deus toda a esperança, achamos o conforto e o allivio que nenhuma +força humana póde dar-nos. + +--Mas n'essa mulher, que os aldeãos de Thayde phantasiaram ou realmente +viram na Senhora do Porto, não ha apenas uma alma crente, buscando na +oração o balsamo suavissimo da esperança, que as coisas terrenas já não +pódem dar-lhe: ha uma expiação, ha um rigor de penitencia, que revela a +existencia de faltas, erros e talvez crimes, cuja lembrança aterra e +apavora a propria creatura que os commetteu... + +--Por isso eu disse a v. ex.^a--volveu o padre, com bondoso sorrir--que, +a ser verdade o que se diz, não ha duvida que se trata de uma +desgraçada, atormentada pelo remorso, pedindo o allivio e o perdão de +suas culpas... + +--Se a expiação corresponde ás faltas commettidas, devem estas ter sido +muito grandes para que a propria culpada busque expial-as por semelhante +modo. + +--Só Deus lê no coração da creatura e só Elle póde julgar com justiça +dos erros de cada um... Em todo o caso, o que é evidente é que estamos +em frente de uma creatura desgraçada e como tal merecedora da nossa +compaixão... + +Julio calou-se por alguns instantes, parecendo meditar nas palavras do +sacerdote. + +--Ás vezes--concluiu por fim--a imaginação exagera em nós a gravidade de +erros commettidos, avultando-os até os fazer tomar as proporções de +crimes horrorosos que nos apavoram e mortificam... Póde ser que essa +pobre creatura seja uma d'estas allucinadas que, por um excesso de +sensibilidade doentia, se julgam culpadas de crimes que não +commetteram... + +--Tudo póde ser--tornou o sacerdote--Na minha opinião, toda a penitencia +significa arrependimento e todo o arrependimento affirma a existencia de +uma alma bôa, embora um momento transviada do recto caminho pelo +diabolico poder das paixões... Alma feita para o mal e endurecida no +crime não experimenta arrependimento. Póde simulal-o, é certo, por mêdo +ao castigo, mas, em tal caso, não busca as sombras da noite nem a +solidão dos logares desertos para exercitar o seu fingimento... Pelo +contrario, ostenta-se publicamente á luz do dia, prostra-se nos templos, +em face dos altares, aos olhos de todos aquelles a quem quer illudir... +derrama lagrimas fingidas, bate murros no peito, grita que tudo, espera +de Deus e tem o diabo a rir no coração. Não é d'esta natureza a +mysteriosa penitente que traz sobresaltados os habitantes de Thayde, +creio eu, porque desapparece e esconde-se, aos primeiros clarões da +aurora, nas covas do monte, sem que ninguem conheça onde se occulta. + +--O que é estranho--ponderou Julio--é que ninguem até agora se lembrasse +de verificar se realmente se trata de uma creatura humana, ou se tudo +isso não passa de uma absurda ficção de espiritos broncos... Porque não +irá o proprio regedor com os seus cabos proceder a uma diligencia n'esse +sentido? + +--Disse-me o Joaquimsinho de Thayde que o regedor é o primeiro a +recolher a casa ao cahir da noite, tomado de um terror supersticioso... +Para aquella gente, é ponto de fé que se trata da D. Rita de Briteiros, +morta ha dois mezes, com fama de ter envenenado o irmão e a cunhada para +lhes herdar os bens. E o regedor de Thayde não quer nada com almas do +outro mundo.. + +--O que me parece--opinou D. Aurelia--é que tudo isso não passa de uma +grosseira invenção d'algum malevolo inimigo da D. Rita, que nem mesmo +depois de morta quer deixar-lhe o descanço da sepultura... O sr. padre +Manoel não ignora quanto é má e ás vezes profundamente perversa esta +gente da aldeia, perseguindo com os seus odios, ainda além da campa, +aquelles que em vida lhe não mereceram sympathias... + +--Sim, é certo--concordou o padre Manoel--e creio bem que a sr.^a D. +Aurelia tem razão em pensar assim, tanto mais que a D. Rita--Deus lhe +perdôe!--era geralmente odiada, e supponho que com algum motivo... + +--Devemos perdoar aos mortos--tornou D. Aurelia n'um tom de suave +recriminação--pois não é justo que vamos revolver-lhes o pó da sepultura +para desenterrar crimes de que a justiça humana lhes não tirou contas e +que, affectos ao tribunal da justiça divina, só a Deus pertence +julgar... + +--Eu tambem concordo, minha senhora--replicou o padre Manoel--que +devemos perdoar aos mortos e deixal-os repousar na eterna paz do +sepulchro. Todavia, não deixo de reconhecer que esta deshumana e talvez +impiedosa crueldade do povo para os que se finaram e que em vida não +seguiram as normas do bem e da virtude, tem um alto fim moralisador, +qual é o de dizer aos que ficam que os seus crimes nem mesmo depois da +morte obteem o perdão e o esquecimento do mundo... + +--Mas quantas abusões, quantos erros, quantos absurdos e quantas +injustiças lançadas sobre a memoria de pessoas erroneamente julgadas +pela opinião, sempre fallivel, do vulgo ignaro?--interrompeu Julio--O +sr. padre Manoel não ignora decerto que, por via de regra, não são os +peores aquelles que o povo aponta como maus... + +--_Vox populi, vox Dei_... A voz do povo é a voz de Deus--argumentou o +padre Manoel, repetindo o proloquio latino. + +--Mas tambem _vox populi, vox diaboli_...--retrucou Julio--E mais vezes +é a voz do povo a voz do diabo, do que a voz de Deus. Depois, vossa +reverendissima bem sabe, argumentar com superstições absurdas, com +apparições sobrenaturaes de almas penadas, é uma cobardia tão abjecta e +repugnante, que só tem desculpa na estupidez do vulgo semelhante fórma +de castigo infligido aos mortos! + +O padre Manoel não insistiu, limitando-se a responder: + +--Isto já vem assim do principio do mundo... + +--E porque vem assim, devemos nós consentir que assim continue? Não me +parece justo. Illustremos o povo, desfaçamos-lhe erros e abusões em que +vive. Procuremos conduzil-o ao caminho do bem pela consciencia do dever +e não por principios erroneos de superstição absurda. E, pois, que em +Thayde não ha alguem sufficientemente sensato e honesto para dar um +exemplo de dignidade humana, eu irei esta noite mesmo á Senhora do Porto +investigar o que ha de verdade na mysteriosa apparição. + +--Pois quer aventurar-se, por uma noite d'estas, a ir d'aqui á Senhora +do Porto!--observou D. Aurelia, espantada. + +--E porque não?--respondeu Julio--Conheço o caminho e o meu cavallo é +seguro. Dentro de uma hora, estarei lá. + +--É uma imprudencia!--reprovou o padre Manoel--V. ex.^a sabe que as +nossas estradas são mal frequentadas de noite... + +--Estou habituado a toda a especie de encontros. Na minha mocidade fiz +muitas vezes o caminho, de noite, de Braga para Lanhoso, e era no tempo +do Papa Assucar... + +--A mysteriosa apparição--tornou o padre Manoel--póde mesmo não ser mais +do que o pretexto para uma cilada. + +--Uma cilada, a mim!--exclamou Julio--Não ha nada menos provavel... Quem +poderia esperar que eu, vivendo em S. Martinho do Campo, me importasse +com o que se passa de noite na Senhora do Porto? + +--Não digo que seja uma cilada propositadamente armada para v. ex.^a. +Mas é sempre um perigo ir a gente metter-se nas ratoeiras armadas para +outros--aconselhou prudentemente o padre. + +Julio sorriu desdenhoso. + +--Seja como fôr--decidiu elle--irei certificar-me do que se trata. Se é +um conluio de malfeitores que pretendem por esta fórma espalhar o terror +no sitio e apavorar os credulos habitantes de Thayde, para mais á +vontade effectuarem o assalto e o roubo, a auctoridade ficará sabendo +com quem tem de se haver. Se, pelo contrario, é uma creatura infeliz, +uma existencia desgraçada que busca na penitencia e na oração o remedio +para as dôres da alma, é uma obra de caridade levar-lhe o balsamo da +piedade e da compaixão como lenitivo a tanto soffrer. + +E consultando o relogio d'algibeira: + +--São 10 horas--disse elle--Vou partir. Se antes da meia noite não +estiver de volta, amanhã de manhã poderá vossa reverendissima ouvir em +minha casa a narração fiel do que tiver acontecido. + +--Repare, meu amigo--tentou impedir D. Aurelia--que a noite está +tempestuosa e que vae pôr em perigo a sua saude, bastante abalada. + +--A minha existencia--replicou Julio com amargura--ha muito que decorre +batida pelos vendavaes do infortunio. Que importa uma noite de chuva a +quem traz a alma obscurecida n'uma perpetua noite de tempestuosas +desgraças? Até amanhã! Nada receiem por mim, que eu vou preparado para +tudo. + +E sahiu, na resolução inabalavel de cumprir o que dizia. + + + + +XXIII + +Allucinação + + +No dia seguinte de manhã, D. Aurelia e o padre Manoel, movidos da +extraordinaria curiosidade de saberem o resultado da audaciosa aventura +de Julio de Montarroyo, correram a casa d'este com o fim de o +interrogarem. + +O excentrico apaixonado de Helena de Noronha estava no leito ardendo em +febre. + +Ao vêr entrar D. Aurelia e o padre Manoel, estendeu os braços para +elles, exclamando: + +--É horrivel, meus amigos, é horrivel! + +--Como assim! Viu alguma coisa?--interrogou o padre com espanto. + +--Vi... vi!... + +--E então? + +--Então... oh! não posso dizer-lhes o que vi... + +--Malfeitores por certo...--aventurou D. Aurelia--teve de bater-se com +elles... + +--Não... não!--contradisse o doente com vehemencia--Não se trata de +malfeitores... Ha effectivamente alli uma creatura extraordinariamente +desgraçada, um ser mysterioso que tem alguma coisa de sobrenatural e +phantastico, impossivel de reconhecer... + +Padre Manoel e D. Aurelia trocaram um rapido olhar como se quizessem +significar um ao outro que havia talvez motivo para duvidar da +integridade mental do seu interlocutor. + +Julio, com os olhos brilhantes e a face afogueada pela febre, n'uma +grande agitação, proseguiu: + +--Fui. A noite estava realmente tempestuosa e horrivel. Atravessei +Quintella sob uma chuva violenta e, quando cheguei a Thayde, o temporal +desencadeou-se n'um vendaval desfeito. Ainda assim, não parei. O meu +fito era ganhar a Senhora do Porto e surprehender o mysterioso vulto no +extasis da oração. Chegando ao sopé do sanctuario, apeei-me, prendi o +cavallo a uma arvore e, envolto na minha capa, com o revolver +engatilhado, fui subindo lentamente o escadorio, até á crista do monte +onde se ergue o templo da Senhora... A treva era profunda e eu mal +poderia divisar quem quer que fosse, por muito perto que estivesse de +mim, se a luz dos relampagos, fendendo a miudo o espaço, me não +illuminasse o caminho. No alto, tudo estava em silencio e tudo +deserto... + +--Não viu, portanto, pessoa alguma?--interrogou o padre Manoel. + +--Quando cheguei, não vi. Mas, pensando que talvez a tempestade tivesse +retardado a vinda á penitente, resolvi-me a esperar alli, até de manhã, +para poder testemunhar com verdade até que ponto os terrores da gente de +Thayde tinham fundamento, ou então que todas essas atoardas de uma +phantastica apparição não passavam de grosseira patranha de torpes +invencioneiros. Passei assim mais de uma hora, encostado á porta +principal do templo, sem fazer um movimento, quasi sem respirar. + +--Que estranha imprudencia a sua, sr. Julio de Montarroyo!--não pôde +deixar de exclamar a irmã de Gustavo.--Se não estava ninguem no local, +como pôde permanecer tanto tempo encostado ao templo, debaixo d'um +temporal desabrido, provocando um arrefecimento que podia prejudicar-lhe +a saude? + +--Morrer hoje ou morrer amanhã, que importa, minha senhora, quando não +sentimos o menor apêgo á vida? Eu tinha ido alli para desvendar um +mysterio ou desfazer uma illusão de espiritos ingenuos e credulos. O meu +dever era ficar e fiquei... Ainda bem que fiquei, porque, uma hora +passada, os meus olhos, habituados á escuridão, viram mover-se na treva +da noite um vulto que se aproximava lentamente do portico a que eu me +encostava. + +--Então sempre era certo!--exclamou o abbade triumphante. + +--Certissimo. O vulto, que não suspeitava a minha presença alli, a +semelhante hora, chegou junto do primeiro degrau do templo, ajoelhou e +n'um grito lancinantissimo, implorou a morte á Senhora do Porto! + +--A morte!--exclamaram a um tempo D. Aurelia e o padre Manoel. + +--A morte, sim!--confirmou Julio--Era uma voz de mulher, lamentosa e +dôce, e de tal modo parecida com... com outra voz que eu já tinha +ouvido, que todo me senti estremecer e fiquei como que pregado á porta +do templo! Essa voz repetia por entre gemidos, com a face collada no +degrau da egreja:--«Senhora do Porto! Mãe Misericordiosa! ouve a minha +supplica, dá por terminado o martyrio da minha existencia, leva para ti +esta miseravel creatura!»-- + +Depois soluços e gemidos abafados seguiram-se a estas palavras... + +--É singular!--disse D. Aurelia. + +--E extraordinario!--accrescentou o padre Manoel. + +--Não posso dizer-lhes, meus amigos, o que se passou em mim... Tomado do +sagrado respeito que inspiram os grandes desgraçados que só ao céo +dirigem as suas supplicas, permaneci por alguns minutos mudo e immovel +como uma estatua. Todavia, cada um d'aquelles gemidos penetrava no meu +coração como uma lamina de aço. Identifiquei-me de tal modo com aquella +dôr, que cheguei a pensar que conhecia de ha muito tempo a infeliz +creatura que alli jazia prostrada e que a minha presença devia ser-lhe +como que o apparecimento de um irmão querido. Então, sem pensar no que +fazia, recordei um nome, o nome de uma mulher que eu conhecia e que +devia ser aquella mesma: «Helena!»--bradei-lhe--«Helena!»--e +desloquei-me da porta do templo descendo um degrau. Ao ouvir este nome, +a mysteriosa creatura soltou um grito de terror, levantou-se espavorida +e fugiu... Corri em seu seguimento, mas a escuridão da noite e a +incerteza do caminho não me permittiram alcançal-a... Sumiu-se. +Procurei-a toda a noite chamando-a em altos brados, dizendo-lhe o meu +nome, porém tudo foi baldado! + +--Não pôde então conhecer quem fôsse a estranha penitente?--aventurou-se +a dizer D. Aurelia. + +--Os meus olhos não puderam distinguir-lhe as feições, mas o meu coração +reconheceu-a. Era Helena, era a filha de Norberto de Noronha, a antiga +herdeira d'esta casa, a penitente que eu surprehendi esta noite em Nossa +Senhora do Porto! + +--Talvez se enganasse, meu amigo... Se fosse ella, para que fugiria +ouvindo que a chamavam pelo seu verdadeiro nome e que quem assim a +tratava era por força uma pessoa amiga?--retorquiu D. Aurelia. + +--De noite todos os gatos são pardos--philosophou plebeiamente o padre +Manoel--Já uma noite, vindo eu das Caldas, vi debruçado sobre o muro da +estrada um homem com uma fouce roçadoura na mão, como quem se preparava +para me abrir a cabeça de meio a meio quando eu fosse a passar. +Suspeitando que fosse algum ladrão, sustei a egua e disse ao meliante +que sahisse d'alli porque queria passar. O vulto não respondeu e agitou +com mais força a fouce roçadoura n'uma silenciosa ameaça. Eu então era +rapaz. Desesperado por aquella insistente audacia, puxei de um revolver +e intimei tres vezes o meu aggressor a retirar-se d'alli sob pena de lhe +mandar uma bala. Não obedeceu e eu então dei ao gatilho--pum! pum! +pum!--e mal vi que elle deixara cahir a foice com que me ameaçava, metti +esporas á egua e cheguei n'um galope a casa. Ao outro dia fiquei muito +admirado de não ouvir fallar do caso de apparecer algum homem morto na +estrada e, depois do meio dia, montei a cavallo e lá fui eu muito +disfarçadamente estudar o sitio onde tinha tido o terrivel encontro... +Não lhes minto se lhes disser que fiquei envergonhado ao reconhecer que +o malfeitor contra quem eu tinha disparado era um carvalho inoffensivo +que bracejava para fóra do muro uma das suas vergonteas, a tal que eu +tomára por uma foice roçadoura e que lá estáva cahida na estrada, +cortada pela bala do meu revolver... De noite, a gente vê coisas +extraordinarias, que não passam de ordinarissimas coisas, observadas de +dia, á luz do sol... + +--Sr. padre Manoel--protestou Julio, agitado pela febre e deveras +irritado pela incredulidade insultuosa do padre--faça-me a fineza de +acreditar que eu nem vinha das Caldas nem sentia a pesar-me no espirito +o mêdo deprimente de uma foice roçadoura, quando vi aproximar-se de mim +a penitente de que se trata. Estava tranquillo como v. s.^a o está agora +e tinha o entendimento tão claro como v. s.^a o póde ter--logo de manhã, +em jejum, quando vae para o altar dizer missa. + +O padre Manoel, que não era tolo, inclinou a cabeça n'um sorriso bondoso +e apressou-se a dizer: + +--Não foi meu proposito pôr em duvida a veracidade da sua narrativa, sr. +Julio de Montarroyo... Creio que v. ex.^a visse e ouvisse tudo o que +diz, mas podia muito bem acontecer que, por uma illusão que a noite +favorecia, tomasse como sendo a filha de Norberto de Noronha uma outra +pessoa bem differente... Era simplesmente n'este ponto que a confusão +podia dar-se... + +Julio aquietou-se um pouco com esta explicação do padre. + +--Tambem não affirmo que fosse ella--disse--mas tenho a convicção +intima, profunda, de que não é outra. + +--E agora o que tenciona fazer, sr. Julio?--perguntou D. Aurelia. + +--Voltar lá. Procurei-a durante a noite até de manhã. Bati o monte em +todas as direcções, observei-o em todos os recantos, e não pude atinar +com o sitio em que ella se occultou. Todavia, é certo que ella se +escondeu alli, porque nem teria forças para me fugir n'uma longa +caminhada a pé, nem a vereda que seguiu lhe permittiria poder andar +muito tempo a descoberto, sem que eu a encontrasse. + +--Mas--observou D. Aurelia--se a mysteriosa penitente, surprehendida por +v. ex.^a, fugiu, é que não quer ser vista; e sabendo que é conhecida a +sua frequencia n'aquelle sitio, áquella hora, certamente não voltará lá +com receio de ser novamente surprehendida... Mórmente se v. ex.^a +acertou chamando-lhe pelo nome verdadeiro... + +--Sim, é certo..--concordou Julio--mas eu tenho de cumprir o meu dever +que me manda procurar vêl-a outra vez, fallar-lhe e concorrer quanto +possivel para pôr termo áquelle soffrimento. + +--Tenciona, pois, voltar lá esta noite? + +--Tenciono. + +--Afigura-se-me trabalho inutil, sacrificio baldado. + +--Porque? + +--Pelas razões que já lhe disse. Se é realmente Helena de Noronha e não +quer tornar conhecida a sua presença, esta noite evitará apparecer junto +do templo onde sabe que é esperada pela pessoa que a reconheceu e lhe +chamou pelo nome... + +--O que devo fazer então? + +--Esperar que ella, perdido o receio, volte a apparecer regularmente, e +tomar todas as medidas para a seguir de longe até lhe descobrir o +paradeiro. + +--É o que se me afigura mais prudente e mais acertado--approvou o padre +Manoel.--Demais, o sr. Julio de Montarroyo está n'um estado tal de +excitação febril, que uma segunda noite passada como a primeira póde +alterar-lhe profundamente a saude. Eu me encarrego, se v. ex.^a quer, de +mandar vigiar o local, e saber se a penitente continua a apparecer lá... + +--Com a condição, porém, de que não hão de perturbal-a na sua oração nem +afugental-a d'aquelle sitio. + +--A recommendação é inutil. Descance v. ex.^a que tambem eu e a sr.^a D. +Aurelia estamos com verdadeiro interesse em saber quem é a mysteriosa +creatura de que se trata. Prometta-me que não sahirá esta noite a expôr +a saude a um verdadeiro perigo, e amanhã ficará sabendo com certeza se a +penitente voltou ao templo. + +Combinadas as coisas d'este modo, despediram-se os dois do doente, +recommendando-lhe socego e promettendo voltar no dia seguinte a +informal-o do que tivesse occorrido. + +Já cá fóra, disse o padre Manoel á D. Aurelia: + +--E que lhe parece a v. ex.^a este caso extraordinario que acabamos de +ouvir? + +--Parece-me--respondeu a irmã de Gustavo--que o nosso pobre amigo tem +razão para estar bastante sobreexcitado com o que lhe succedeu. + +--E v. ex.^a acredita que elle visse lá alguem? + +--Acredito... Porque não hei de acreditar, se o que elle conta é a +confirmação dos boatos de que v. s.^a se fez echo? + +--Oh, minha senhora! mas repare v. ex.^a que: eu apenas contei como +extravagante phantasia dos habitantes de Thayde o rumôr que corria entre +elles de que apparecia na Senhora do Porto uma alma do outro mundo.. a +alma da D. Rita de Briteiros. + +--Mas v. s.^a não crê nas almas do outro mundo; e certamente não +recusará acreditar que a estranha apparição tenha realmente um fundo de +verdade, e que, em vez de ser uma alma penada, seja uma creatura em +corpo e alma, como tantas que, batidas pela desgraça irremediavel, fogem +dos povoados para habitarem os logares desertos, entregando-se á oração +e á penitencia!... + +--Custa-me muito menos a crêr que o nosso amigo, allucinado pela febre e +pela estranha situação em que se encontrava, áquella hora e em +semelhante local por uma noite tão tormentosa, foi victima de uma +allucinação e julgou vêr o que não viu nem podia, vêr... Não reparou v. +ex.^a que elle tinha as faces afogueadas e os olhos brilhantes da febre? +Quem nos diz a nós que tudo aquillo não será o delirio da doença? O mais +acertado parecia-me chamar o medico... + +--Conhece Julio de Montarroyo e sabe a organisação nervosa e irritavel +que elle é... Se lhe mandamos o doutor sem elle o reclamar, é muito +capaz de não o receber e de se offender comnosco... + +--Para tudo ha meio, minha senhora... Contamos ao doutor o que se passou +e elle simulará um motivo qualquer para lhe ir fallar, sem ser o da +doença... Por exemplo: pedir-lhe o seu concurso para qualquer obra de +beneficencia... ou pedir-lhe informações sobre qualquer instituto medico +das grandes cidades que elle percorreu... Qualquer pretexto serve. O que +não devemos é deixal-o abandonado dos soccorros medicos, porque o pobre +homem, se já tinha _falha_ antes d'este caso, agora, com a mania de que +viu a filha de Norberto de Noronha, é muito capaz de ensandecer de +todo... + +D. Aurelia intimamente revoltada contra esta apreciação do padre, teve +bastante força em si para responder apenas: + +--Durante o tempo que tenho tratado com o sr. Julio de Montarroyo, ainda +não pude colher elementos que me auctorisassem a duvidar da sua lucidez +de espirito e da perfeita regularidade das suas faculdades mentaes... Se +agora me pareceu n'um estado de excitação febril, acho natural que assim +succeda depois da noite tempestuosa que passou e do violento abalo que +devia ter-lhe causado a apparição falsa ou verdadeira da estranha +penitente que elle diz ter visto... Como quer que seja, sr. padre +Manoel, a doença de que presentemente soffre o sr. Julio de Montarroyo +não é d'aquellas que se curam com synapismos e xaropes receitados pelo +medico. + +--O que quer então v. ex.^a que se faça? + +--Que v. s.^a cumpra o que prometteu... Que encarregue alguem de sua +confiança para vigiar o templo da Senhora do Porto e vêr se realmente +Julio de Montarroyo tem razão e os habitantes de Thayde tambem... + +O padre Manoel encolheu os hombros: + +--Pois v. ex.^a julga...? + +--Julgo que ha de haver um motivo para que tal boato se espalhasse, como +creio que o sr. Julio de Montarroyo era incapaz de vir affirmar coisas +que não tivessem succedido, ou que pelo menos se lhe não tivessem +affigurado... O nosso dever, pois, é tirarmo-nos de duvidas e esclarecer +quanto possivel este mysterio. + +--Está bem! Se v. ex.^a assim o deseja, mandarei o João Mil-homens, que +é arrojado e valente, e não crê em almas do outro mundo, rondar a +Senhora do Porto, esta noite e todas as outras que se lhe seguirem, até +não restar duvida de que não apparece lá viva alma... + +--Porém, que isso se faça em segredo, com a maxima prudencia e cautella, +para não causar alarme na povoação nem dar logar a que a mysteriosa +penitente se afaste d'estes sitios. + +--Fique v. ex.^a descançada, que o Mil-homens é fino como uma raposa e +tem o faro de um cão de caça para descobrir o esconderijo da tal +creaturinha, onde quer que ella se occulte. Vou já d'aqui prevenil-o e +estou bem certo que não ha nada, ou, se ha alguma coisa, não levará +muito tempo que não saibamos tudo. + +O aldeão encarregado pelo padre Manoel de vigiar durante muitas noites +seguidas o templo e immediações da Senhora do Porto nada pôde observar +que confirmasse a narrativa de Julio de Montarroyo, nem sequer os boatos +que corriam entre os aldeãos de Thayde. + +O padre Manoel sorria vaidosamente sceptico ao relatar á D. Aurelia os +baldados esforços empregados pelo Mil-homens para descobrir a penitente +e dizia: + +--São tudo imaginações, minha senhora, são tudo imaginações... Eu já sei +o que isto é: um vê uma sombra e diz que é um homem; outro olha e vê um +gigante. Vem um terceiro e affirma logo que é um gigantarrão e jura até +que o ouviu fallar! Sabidas as contas, vae-se a vêr e não é nada... Eu +sempre disse que este sr. Julio de Montarroyo era boa pessoa, mas tinha +qualquer propensão para visionario... + +D. Aurelia defendia o apaixonado de Helena. + +--É certo--dizia ella--que o sr. Julio de Montarroyo é dominado por uma +paixão violenta que quasi constitue n'elle uma doença incuravel. Mas não +creio que esse estado d'alma o excite e lhe altere por tal modo as +faculdades, que o faça imaginar coisas que não vê nem ouve... Isso seria +a loucura, e o seu entendimento é por demais lucido para o suppôrmos um +allucinado... + +--Valha-me Deus! não digo que elle esteja doido varrido... Elle conhece +as pessoas e sabe o que diz... Mas n'este caso, minha senhora, tenha v. +ex.^a paciencia, eu julgo que elle viu tanto a tal penitente como eu vi +os milagres de Santo Antonio... + +--Mas acredita n'elles!... + +--Acredito, que é o meu dever... + +--Pois então acredite tambem o sr. padre Manoel nos factos narrados pelo +sr. Julio de Montarroyo, por muito inverosimeis que elles lhe pareçam... +Note v. s.^a que elle não diz que prégou aos peixinhos e que elles o +ouviram devotamente com muita attenção, nem affirma que fez levantar +Norberto de Noronha da sepultura para dizer quem o matou... Conta +simplesmente que viu uma pobre mulher prostrada nos degraus de um +templo, invocando a Senhora do Porto para que lhe désse a morte... Isto +não é tão inverosimil, acho eu, que repugne acreditar-se... + +--Minha senhora--volveu o padre Manoel fungando uma pitada--o sr. Julio +de Montarroyo não é santo Antonio nem tem como aquelle santo +reconhecidas auctoridades theologicas a abonar-lhe a veracidade dos +casos que lhe succedem ou que diz haverem-lhe succedido. Demais, minha +senhora, S. Thomé tambem precisou de vêr para crêr... Ora eu já me +contentava, para crêr, com o testemunho do João Mil-homens, que não é +nenhum doutor da egreja, mas que é homem capaz de averiguar se uma coisa +que vê é pau ou é pedra. Mas o João Mil-homens diz que não viu nada na +Senhora do Porto... Ora se elle não viu nada, como é que os outros podem +ter visto? + +--É possivel e até provavel que a estranha creatura cuja existencia real +o sr. padre Manoel põe em duvida, ao vêr-se surprehendida na sua oração +pelo sr. Julio de Montarroyo, tivesse receio de ser novamente encontrada +e reconhecida e resolvêsse mudar de sitio e fugir para bem longe... + +--Póde ser--acquiesceu o padre Manoel, incredulo. + +--No emtanto, e seja como fôr, v. s.^a faz-me o obsequio de continuar a +mandar vigiar o local. Eu me encarrego de gratificar o Mil-homens pelo +trabalho que lhe está incumbido. + +--Para lá vae todas as noites. Mas creia v. ex.^a que tanto faz ir como +estar na cama... O homem, não pôde vêr lá pessoa alguma, pela simples +razão de nunca lá ter estado de noite essa tal penitente imaginaria que +se diz... Os tempos de fé acabaram, minha senhora, e quem reza gosta de +o fazer com ostentação, á luz do dia, diante de toda a gente... não se +vae pôr de noite, como os mochos e as corujas que chupam o azeite das +lampadas, a piar miserias á porta dos templos desertos... + + + + +XXIV + +Estranho encontro + + +D. Aurelia, despedindo-se do padre Manoel, recolheu a casa, scismando +nas palavras do sacerdote. + +--Será realmente Helena de Noronha?--dizia comsigo--Julio de Montarroyo +affirma que sim; mas o seu estado febril justifica em certo modo uma +allucinação, que o fizesse tomar pela mulher que ama, uma sombra, talvez +uma phantastica visão dos seus sentidos excitados... Emfim, o Manoel +Mil-homens, que é arrojado e valente, encarregar-se-ha de verificar até +que ponto são verdadeiras as affirmativas de Julio. + +Ia deitar-se, quando no portão da casa soaram violentas pancadas. + +Estranhou que assim batessem áquella hora, e calculou que não podia ser +senão um estranho desconhecedor de que o portão tinha uma sineta que +facilitava a chamada. + +--Batem ao portão--disse ella para a criada.--Diga ao Francisco que vá +vêr quem é... + +D'ahi a pouco, voltava a criada, annunciando: + +--Está lá em baixo um homem que pede para fallar á senhora com toda a +urgencia. + +--Que qualidade de homem é? + +--Parece una homem do povo, minha senhora; mas não é d'estes sitios. + +--Não disse como se chama, nem de mando de quem vem? + +--O nome não disse. Diz que já foi a casa do sr. Julio de Montarroyo, +mas que não o deixaram fallar com elle por estar doente, e por isso que +deseja dar só uma palavrinha á senhora. + +--Mande-o entrar, e o Francisco que fique de vigia, que não vá ser algum +mal intencionado. + +--Não me parece... Só se fôr algum desgraçado que use d'este meio para +pedir abrigo por esta noite... + +--Bem; vejamos o que elle quer. + +Pouco depois, apparecia á porta da sala o mestre _Tomba_. + +D. Aurelia tinha-o visto em casa de Julio de Montarroyo e reconheceu-o +logo. + +--Ah! é vocemecê, mestre _Tomba_? + +--Sou eu, minha... Vossa _incelencia_ perdoará eu vir _trupar_ á porta a +esta hora, mas ha um _causo_ que não póde deixar de ser... + +--Diga, mestre, diga!--exclamou D. Aurelia assustada com as attitudes e +gestos solemnes do velho sapateiro--Occorreu alguma desgraça? + +--Uma grande _desgracia_, minha senhora! E se vossa _incellencia_ não +acode e manda alguem comigo, a _probe_ de Christo está aqui, está a dar +o ultimo suspiro!... Já fui a casa do sr. Julinho p'ra lhe contar o +_assucedido_.., Mas lá _dixeram-me_ que elle _támem_ estava de +_catrambias e atão_ eu lembrei-me de vir ter co' a senhora p'ra esta +obra de caridade... + +--Mas de que se trata, mestre? Falle. + +--Trata-se de uma _probe_ creatura, uma triste mulhersinha que eu topei +alli adiante, cahida na estrada sem dar por burro nem por albarda! + +--Uma mulher!? + +--Sim minha senhora... Eu vinha p'ra cá e dava ó canello com toda a +força, porque se me tinha feito escuro mais cedo do que eu pensava, e +estava morto por chegar a casa do sr. Julinho, porque _támen_ já trazia +uma lazeira que nem via nada.. Vae n'isto, não sei como reparo e vejo +estirado ao canto da estrada um _burto_ preto que me parecia coisa +viva... Cheguei-me, sempre com cuidado, que não fosse ser algum alma de +cantaro que estivesse a _infingir-se_ morto, p'ra me deitar as unhas e +alimpar-me o que eu _trouvesse_, e vi que o dito _burto_ não mexia com +pé nem com mão... Accendi um _phrophe_, cheguei-lh'o á cara, e era uma +mulher, coitadinha! Chamei por ella, abanei-a, mas, qual quê! a _probe_ +de Christo mal resfolegava... estava sem sentidos! Inda me lembrou de +pegar n'ella ás costas e trazel-a comigo; mas a caminhada era mui bem +grande e eu _támem_ já vinha estafado, sem poder comigo... de modos que +deitei a correr p'ra vir ó sr. Julinho contar-lhe o caso e pedir-lhe que +mandasse alguem que me ajudasse a trazel-a... Mas elle támem está +doente... + +D. Aurelia, verdadeiramente commovida com esta narrativa, não deixou que +o sapateiro terminasse. + +Chamou os criados e mandou que fossem com o sapateiro buscar a infeliz. + +--Levem um lampeão para se alumiarem... Deitem roupa bastante na padiola +e tragam n'ella a pobresita com cuidado. De caminho, um que venha por +casa do medico pedir-lhe para chegar aqui n'um instante. Vá, não se +demorem... lembrem-se que é uma vida que vão salvar! + +Estas ordens puzeram em movimento toda a gente da casa, e poucos minutos +decorridos, seguia o _Tomba_, pela estrada, á frente do grupo, em +soccorro da infeliz creatura. + +Uma hora depois regressavam o _Tomba_ e os criados de D. Aurelia, +conduzindo na padiola o corpo quasi inanimado da desconhecida que o +sapateiro encontrára abandonada no caminho. + +A irmã de Gustavo, ao sentir o ruido dos homens que entravam o portão, +acudiu á sala de entrada, e sem attentar na pessoa que elles conduziam, +deu ordem para transportarem a enferma para um quarto onde já havia uma +cama preparada. + +A esta hora chegava tambem o medico que acudia solicito ao chamamento, +julgando que se tratava de algum familiar da casa ou talvez mesmo da +propria D. Aurelia. + +--Então, quem temos por cá doente?--disse elle ao encarar D. Aurelia--Já +vejo que não é v. ex.^a. E antes assim. + +--Felizmente, doutor, não sou eu a que preciso dos seus soccorros. +Trata-se de uma pobre creatura que foi encontrada cahida, sem accordo, +na estrada, e que eu mandei buscar e recolher pelos meus criados. + +--Onde está ella? + +--Lá dentro, no quarto onde mandei arranjar-lhe uma cama. + +--Vamos vêl-a. + +E encaminhou-se para o interior da casa, guiado por D. Aurelia. + +A infeliz estava já mettida no leito, mas ainda sem dar accordo de si. + +Informou a criada que a despira, que a desgraçada trazia os vestidos +rotos e sujos da terra da estrada. + +Vinha andrajosa. Notava-se-lhe, porém, desusado asseio nas roupas +brancas, humildes e pobres, mas em que havia o cuidado proprio de pessoa +que está habituada á limpeza--que é o primeiro indicio de uma boa +educação. + +O medico e D. Aurelia abeiraram-se do leito e examinaram a desconhecida. + +Trazia os cabellos em desalinho e na face macerada e pallida havia os +vestigios profundos de mil soffrimentos e privações. + +Com os olhos cerrados e a respiração quasi imperceptivel, a desditosa +similhava um cadaver. + +Não era ainda idosa, mas as rugas de uma velhice precoce sulcavam-lhe o +rosto triste. + +D. Aurelia fitou-a com uma compassiva curiosidade e não se recordou de +ter visto entre os innumeros mendigos, que todos os dias lhe batiam á +porta implorando a esmola da sua caridade, uma figura que se lhe +assimilhasse. + +--Esta pobre mulher--disse ella--não deve ser d'estes sitios. + +--Tambem me parece--affirmou o doutor--Pelo menos, não é d'estas aldeias +proximas onde exerço a clinica e onde conheço quasi toda a gente. + +--O que tem ella, doutor?--perguntou D. Aurelia ao medico, que acabava +de auscultar a doente. + +--Frio e fome, talvez...--respondeu o homem de sciencia, fazendo uma +careta--Esta mulher tem sido mal alimentada, a fadiga prostrou-a e seria +esta com certeza a sua ultima noite, se a caridade de v. ex.^a a não +amparasse. Vamos tratar de a restituir á vida, e encetaremos depois o +tratamento que julgarmos conveniente... Creio, porém, que não teremos +grande necessidade de recorrer á botica... Afigura-se-me que bastará +apenas recorrer á cosinha... + +--Vou mandar-lhe já matar uma gallinha!--acudiu D. Aurelia. + +--Sim--approvou o doutor.--E tenha v. ex.a a bondade de mandar-me cá a +criada, a Brigida, para me ajudar no tratamento a que vou sujeitar a +doente. + +--Eu estou aqui, doutor... Diga-me o que é preciso fazer... + +--Não, não! A Brigida que traga um pouco de vinagre, para lhe dar uma +fomentação nos pulsos e nas fontes, a vêr se assim conseguimos +restituir-lhe os sentidos. + +D. Aurelia sahiu a chamar a criada e a dar ordem para que tratassem a +infeliz com todo o desvelo, seguindo as indicações do medico. + +Pouco depois, a criada vinha annunciar á D. Aurelia que a pobresinha +voltára a si, olhara espantada á roda do leito sem reconhecer pessoa +alguma e sem soltar uma palavra; que o doutor lhe receitára um cordeal e +que, tomado elle, cahira n'um somno profundo e reparador. + +O medico, passados instantes, confirmava estes dizeres, promettendo a D. +Aurelia voltar no dia seguinte. + +--Deixem-n'a socegar--aconselhou elle--e amanhã veremos o tratamento a +que temos de submettel-a. + +--Parece-lhe, doutor, que o seu estado é de inspirar cuidados? + +--De certo, minha senhora. Convem não lhe fallar nem obrigal-a a grande +esforço de memoria. A pessoa que lhe servir de enfermeira deve apenas +limitar-se a ministrar-lhe o que fôr necessario, sem a obrigar a fallar +mais que o indispensavel. Mas por esta noite não acordará nem +necessitará de outra coisa mais que o descanço. Amanhã voltarei. Boa +noite. + +--Boa noite, doutor, e peço-lhe que tome a seu cuidado esta infeliz que +não conheço. Seria para mim um grande desgosto que ella viesse morrer a +minha casa... + +--Não morrerá, minha senhora, a não ser que outra doença mais grave +sobrevenha. Por emquanto, o mal é este: frio e fome. + +--Coitadita!--murmurou compungidamente a irmã de Gustavo--E pensarmos +que ha gente que morre pelas estradas abandonada de toda a caridade! + +--Minha senhora--volveu o medico philosophicamente, encolhendo os +hombros--o mundo compõe-se de tudo... Ha gente que morre de fome e ha +gente que morre de fartura... Os extremos tocam-se. + +E sahiu, embrulhado no seu capote á cavallaria, e com um _cache-nez_ +enrodilhado desde o pescoço até á ponta do nariz. + +--Que _barbeiro_!--disse elle, ao sentir no rosto a aragem cortante da +noite, para o homem que á porta o esperava com o lampeão acceso afim de +o acompanhar no trajecto até casa--Este _barbeirinho_ é o tal das +pneumonias! + +No dia seguinte voltou. A doente recuperára os sentidos, mas +apresentava-se n'um estado de abatimento e de fraqueza extraordinaria. + +A febre consummia-a. Delirava. + +Phrases entrecortadas e sem nexo escapavam-se-lhe dos labios, n'uma +confusão que não deixava perceber-lhes o sentido. + +O medico observou-a longo tempo e por fim receitou um calmante, +prohibindo que dessem de comer á enferma. + +--Então, doutor?--interrogou D. Aurelia. + +--Enganei-me, minha senhora--disse o medico--julguei que um caldo de +gallinha e algum socego reconfortaria a nossa doente, mas vejo agora que +o remedio não está só na cosinha, está tambem na botica. + +--É então grave o estado d'essa infeliz? + +--Gravissimo. A febre é muito violenta e desconfio bem que tenhamos de +nos vêr a contas com uma pneumonia... + +--Pobre mulher! + +--Se v. ex.^a quer, e isso parece-me o mais sensato, é pregar com ella +ás costas de dois homens que a levem ao hospital de Guimarães. + +--Oh! isso não!--fez D. Aurelia com vehemencia.--Acaso o doutor não terá +recursos na sua sciencia para valer a essa desgraçada? + +--Oh! minha senhora! não se trata de mim, que estou prompto a +soccorrel-a conforme sei e posso: o alvitre tem por fim unicamente +evitar a v. ex.^a os incommodos e cuidados que taes casos sempre +acarretam... + +--Doutor, o destino quiz que essa pobre mulher fosse recolhida em minha +casa. Aqui será tratada com os cuidados que o seu estado requer. + +--Faça-se a sua vontade, minha senhora. + +D. Aurelia deu logo ordem para que ficasse constantemente a velar a +enferma a sua criada de quarto, que era uma enfermeira distincta. + +--Que não falte nada a essa infeliz--disse a irmã de Gustavo--Não lhe +façam perguntas indiscretas, não inquiram coisa alguma do seu passado, e +façam-lhe comprehender que está entre pessoas amigas que se interessam +pela sua saude e que desejam vêl-a restabelecida. + +Esta ordem foi cumprida rigorosamente, e ao cabo de tres dias, tendo +diminuído a febre, a doente encontrava-se sensivelmente melhor. + +--Está salva--disse o medico a D. Aurelia--Agora o que precisamos é ter +muito cuidado com a alimentação. + +--Tel-o-hemos. + +Prescreveu o regimen a seguir e tão rigorosamente foi obedecido que, +oito dias passados, a desconhecida entrava em franca convalescença. + +Durante este tempo, o padre Manoel vinha todos os dias informar que o +João Mil-homens não lobrigava viva alma na Senhora do Porto. + +--É escusado!--dizia o bom do parocho--aquillo foi tudo sonho do nosso +Julio. E quem sabe mesmo se foi visão da febre que o consummia. Pobre +homem! Eu bem lhe disse que não cahisse na asneira de se metter a +caminho com uma noite d'aquellas... Não quiz attender, ainda é dos que +dão credito a tolices e invenções da gente rude do povo, e o resultado +foi cahir de cama e ficar para alli entre a vida e a morte ha uns poucos +de dias... + +--Disse-me o doutor que o encontra muito melhor... + +--É verdade. Até já lhe deu ordem para receber o _Tomba_, que esteve +hontem mais de uma hora em conversa com elle... E o que é mais curioso é +que o doente, hoje, quando todos esperavam que peorasse, appareceu muito +melhor, mais animado e com um semblante alegre e risonho. + +--Não pude ir vêl-o n'estes dois dias, mas talvez vá logo visital-o. + +--O que eu não sei é que diabo de intimidade é a do _Tomba_ com elle. Um +homem ordinario, de baixa esphera, gosa de uma tal consideração em casa +d'aquelle homem, que chega a espantar. Alli ha mysterio por força! + +--Não ha mysterio nenhum, snr. padre Manoel. Os humildes tambem teem +direito á estima e consideração das pessoas superiores, quando possuem +qualidades de honradez e honestidade que os recommendam... + +--Sim, sim... Mas não se vê isso muito frequentemente... A não ser que +v. ex.^a queira attribuir ao _Tomba_ qualidades unicas e até hoje nunca +vistas e apreciadas em remendão portuguez. + +--Não lhe attribuo qualidades nem defeitos, sr. padre Manoel... Acho +natural que o sr. Julio de Montarroyo proteja e estime um pobre homem do +povo, e nada mais. + +O padre fez uma carêta significativa. + +--Sim, sim, minha senhora... V. ex.^a é uma santa, acha tudo muito +natural porque não conhece o mundo... O _Tomba_ é bom homem, não digo +que não, mas ha muitos bons homens como elle, e não encontram o +acolhimento de que este se póde gabar... + +--Nem era possivel, sr. padre Manoel... Eu, por exemplo, recolhi em +minha casa uma pobre mulher que foi encontrada moribunda a um canto da +estrada... Dispensei-lhe todos os cuidados e carinhos compativeis com os +recursos de que disponho e nem sequer sei ainda quem ella é... + +--Quem ha-de ser? Alguma pobre mendiga, alguma desgraçada sem eira nem +beira... Ha tantas por esse mundo! + +--Justamente. Ha tantas por esse mundo, e comtudo é esta a primeira que, +em taes circumstancias, encontra abrigo em minha casa. + +A este tempo, appareceu a creada encarregada de tratar a desconhecida. + +--Minha senhora--disse ella--a nossa doente... + +--O que tem? Peorou? + +--Não, minha senhora. Até está muito melhor. Mas ha pouco perguntou-me +onde estava, que casa era esta e quem é que a tinha trazido para aqui... + +--O que lhe respondeu? + +--Cumpri as ordens de v. ex.^a, disse-lhe que estava em casa de pessoas +amigas e que não se affligisse, que não lhe havia de faltar nada... Mas +ella quiz por força saber como se chamam os donos da casa... e eu +disse-lh'o. + +--E então? + +--Mostrou-se muito inquieta e pediu para fallar á senhora... + +--Para me fallar a mim!--disse D. Aurelia--Pois bem; diga-lhe que vou já +vêl-a... + +E voltando-se para o padre Manoel: + +--Tenha paciencia, meu amigo, se lhe roubo uma parte das attenções que +lhe devo... Bem vê, a enferma está melhor, aliás teria pedido antes o +seu soccorro espiritual... + +--Sinto-me lezado nos meus direitos de confessor--replicou o padre +Manoel gracejando.--Realmente, v. ex.^a com a sua extrema caridade faz +que os infelizes esqueçam que só aos ministros do altar devem +confessar-se... Porque ninguem me tira da cabeça que a sua protegida +quer fazer-lhe revelações intimas... + +--Talvez. E se assim fôr, creia o sr. padre Manoel que serei tão +escrupulosa em guardar rigoroso sigillo como v. s.^a o costuma ser... + +--Quer dizer com isso que escuso de tentar saber o que ella vae +confiar-lhe. + +--Oh, decerto! Se ella me pedir segredo, com certeza que o guardarei... + +--N'esse caso, minha senhora, não quero fazer esperar a sua +confessada... E se o caso fôr de consciencia, estou bem certo que v. +ex.^a lhe aplacará os escrupulos tão bem ou melhor do que o mais +auctorisado mestre de casos... + +--O sr. padre Manuel é sempre demasiado lisonjeiro para mim--replicou D. +Aurelia sorrindo.--Não tenho pretensões a arvorar-me em sacerdotisa. +Faço o bem que posso e valho ao meu semelhante sempre que elle precisa +do meu soccorro, quer temporal quer espiritual. + +--V. ex.^a é inquestionavelmente uma santa!--affirmou o padre sahindo. + +D. Aurelia passou ao quarto da doente. Ao vêl-a entrar, a desconhecida +fitou n'ella os olhos marejados de lagrimas. + +A dona da casa abeirou-se do leito. A meia obscuridade do quarto não lhe +permittia analysar as feições da enferma. + +--Então, como está?--perguntou a irmã de Gustavo com voz doce e +carinhosa. + +--Muito obrigada, minha senhora... sinto-me melhor--replicou a doente +com voz debil. O som d'aquella voz, porém, impressionou a dona da casa. +Parecia-lhe que já a tinha ouvido alguma vez, que o seu timbre lhe não +era estranho. + +Voltou-se para a criada e disse-lhe: + +--Deixe-nos sós--ordenou. + +--Sim, minha senhora--replicou a criada. E sahiu. + +--Disseram-me que queria fallar-me...--interrogou D. Aurelia com os +olhos fitos na doente--Poderei ser-lhe util em alguma cousa? + +--Queria--tornou a doente--que tivesse a bondade de abrir um pouco +aquella janella e attentar no meu rosto... + +D. Aurelia satisfez o desejo á doente e ficou-se fitando-a, sem poder +reconhecel-a. + +--Não me conheces, Aurelia?--balbuciou a infeliz por entre +lagrimas.--Tens razão! Estou tão mudada que nem meu proprio pae me +reconheceria, se fosse vivo e me visse agora! + +E escondendo o rosto entre as mãos, desatou n'um choro convulso e +abafado. + +Como se as palavras e o choro desesperado da desditosa lhe tivessem +levado um raio de luz ao espirito, D. Aurelia gritou n'um indescriptivel +alvoroço de espanto: + +--Helena de Noronha! serás tu?! + +--Sou eu, minha amiga! sou esta desgraçada, rôta e faminta, que vem +receber, como supremo castigo de seus crimes, a esmola da tua compaixão! + +Estas ultimas palavras foram já proferidas nos braços de D. Aurelia, que +estreitava a sua infeliz amiga ao coração, cobrindo-lhe o rosto de +beijos e orvalhando-lh'o de lagrimas. + +--Vamos! não chores, minha querida--disse por fim D. Aurelia.--Quiz Deus +que viesses a esta casa que é tua e onde encontrarás a mesma amisade +sincera de sempre. + +--Obrigada... obrigada!--murmurou Helena de Noronha--Peço-te apenas que +me deixes morrer aqui, ignorada de todos, como uma pobre mendiga que a +miseria arrojou nos ultimos momentos ao suave aconchego do teu lar +bemdito, da tua santa caridade!... + +--Não, minha amiga, não! Tu viverás, tu acharás ainda n'esta casa, que é +tua, no meu coração que é sempre o da tua amiga d'infancia, o conforto e +os affectos de que necessitas e de que os teus soffrimentos te fazem tão +digna. + +--Sinto-me morta, minha amiga... Pouco poderei importunar-te... +Mandei-te chamar e quiz que me reconhecesses e me ouvisses, porque não +desejo levar para a sepultura, com o remorso de tantos erros e de tantos +crimes, ainda mais este cruciante espinho de uma ultima ingratidão... + +D. Aurelia tentava socegal-a e reanimal-a com a sua amisade, com seu +carinho. + +--O medico disse-me que estás melhor... Agora, o que é indispensavel, é +muito socego, muita tranquilidade de espirito... e o restabelecimento +far-se-ha breve e por completo. + +Um sorriso de amarga tristeza vincou os labios de Helena de Neronha. + +--Para que eu me encontre aqui, na tua casa, minha amiga, foi preciso +que as forças me fugissem e a vida estivesse proxima a abandonar este +misero envolucro... por tal modo desfigurado que nem tu mesma o +reconheceste... Não te illudas, Aurelia... eu não poderei viver mais que +alguns dias, e durante elles, deixa que eu te confie a historia das +minhas desgraças, afim de que, ao recordal-as, tenhas ainda uma lagrima +de compaixão para a memoria da tua desditosa e infeliz amiga d'infancia. + +--Eras tu a penitente da Senhora do Porto?--interrogou de repente D. +Aurelia. + +--Era! Como soubeste que eu estava alli? + +--Não o soube. Alguem tinha a fundada suspeita de que eras tu, se é que +não possuia a intima certeza... + +--Esse alguem era...? + +--Julio de Montarroyo... + +A enferma soltou um grito. + +--Ah! tu conhecel-o? Então sempre é certo que era elle... não foi uma +allucinação dos meus sentidos? + +--Não, minha amiga, não! Julio de Montarroyo, ouvindo dizer que na +Senhora do Porto apparecia alta noite uma penitente desconhecida e que +ninguem lograva ver de dia, teve o presentimento de que essa penitente +eras tu... Partiu para a Senhora do Porto, e alli te surprehendeu, ou +antes, adivinhou-te nas trevas da noite... + +--Sim... sim... eu vi um homem encostado á hombreira do portico, e +quando eu, julgando-me só, elevava áquella imagem, a minha fervorosa +prece, ouvi uma voz que chamava por mim. Fugi espavorida e durante muito +tempo ouvi repetir o meu nome... E a voz que o repetia parecia-me a +d'elle... + +--Não te enganaste... Era elle, era Julio de Montarroyo que te chamava. + +--Como veio elle para aqui, para esta terra, que não era a d'elle e onde +não me recordo de o ter visto nunca, nos tempos da minha mocidade? + +--Trouxe-o para aqui o coração, o desejo ardentissimo de se vêr rodeado +de tudo o que pudesse fallar-lhe do passado da mulher que tão infeliz e +desditosamente amou... Viver na mesma terra em que ella viveu e foi +feliz, respirar o mesmo ar que ella respirou out'rora, amar os mesmos +sitios que ella amou. O desgraçado julga viver assim mais perto d'ella, +mais identificado com o pensamento e com as saudades da mulher que foi +toda a sua esperança e que é todo o seu martyrio. «É +impossivel--disse-me elle um dia--que ella algumas vezes não pense com +saudade n'estes sitios, que foram o berço da sua infancia descuidosa e +feliz. E n'esses instantes de dolorosa recordação, consola-me a ideia de +que os nossos pensamentos se unem no mesmo objecto, através a distancia +que os separa». + +Helena de Noronha chorava silenciosamente, apertando com ambas as mãos o +coração, que parecia querer saltar-lhe fóra do peito. + +D. Aurelia proseguiu: + +--Assim, o desditoso adquiriu por todo o preço a casa que foi de teu +pae,--que foi tua,--e n'ella vive, ou antes n'ella vae morrendo +lentamente, ralado de dôr e de saudade... + +--Meu Deus! quantas victimas eu fiz!--bradou Helena de Noronha +angustiadamente, estorcendo-se n'uma dôr incomportavel. + +--Vamos, minha amiga!--tornou-lhe D. Aurelia, querendo +confortal-a.--Quiz Deus que viesses ainda a tempo de reparar o mal que +fizeste áquelle desgraçado. A maior felicidade para elle será o tornar a +encontrar-te. + +--Ah! não! não!--bradou Helena de Noronha, pondo as mãos +supplicante:--Pelo amor de Deus, por tudo quanto mais tens amado n'este +mundo, não lhe digas que eu estou aqui!... Morreria de vergonha, se me +encontrasse na sua presença... Eu não sou digna d'elle... Deixa-me +morrer ignorada de todos, minha querida Aurelia! + +A infeliz arfava afflictivamente, pondo na amiga os olhos turvos de +lagrimas. + +--Morrer! Não falles em morrer, minha amiga... Cobra alento e pensa que +a tua vida é ainda precisa, porque pódes ser util a alguem. Julio de +Montarroyo ama-te com um amor que só as almas essencialmente delicadas +conhecem e avaliam. Desde que te viu e reconheceu na Senhora do Porto, +sem poder fallar-te, porque lhe fugiste, cahiu prostrado no leito por +febre intensa, e ahi agonisa, apenas animado da esperança de poder ainda +encontrar-te. Todas as noites tem sido enviado, por sua ordem, um homem +á Senhora do Porto, a vêr se póde lobrigar-te e seguirte de longe até ao +sitio onde costumavas occultar-te de dia. E cada manhã que o vigia +regressa sem dar novas da penitente, é para elle uma cruel angustia que +o approxima da sepultura. Quererás tu condemnar á morte uma vida que tão +nobre e desinteressadamente se te devotou? Se está na tua mão minorar +tamanho soffrimento, se com a tua presença pódes fazer voltar a +felicidade ao coração d'aquelle desgraçado e banhar de luz e de alegria +os ultimos dias d'aquella existencia amargurada, porque o não has de +fazer? + +--Oh! não! não! É impossivel! Eu estou condemnada, minha amiga! +Existencia maldita foi a minha em que, sem o querer, e guiada, por um +genio infernal, só pude semear a dôr, a desolação e a morte em toda a +parte por onde passei!... Se tu soubesses que horroroso pélago de +crimes, de atrocidades e de infamias tenho atravessado desde que, filha +ingrata, abandonei a casa de meu pobre pae, repelir-me-hias com asco e +nojo! Não! não! eu não posso mais aproximar-me de quem quer que seja sem +que o meu halito pestilencial o envenene, sem que o contacto impuro das +minhas mãos, manchadas de sangue e de crimes, deixem em tudo o que tocam +uma nodoa indelevel de corrupção e de infamia!... Oh! o miseravel! O +maldito persegue-me sempre com o seu olhar de fogo, que me abrasa... com +o seu infernal sorriso de demonio, percuciente como um punhal... +corrosivo como um veneno! Oh! vêl-o?... vêl-o? Lá está elle, envolto na +sua negra sotaina esfarrapada... as faces congestionadas... a bocca +espumante de raiva... e os olhos, como carbunculos, sempre fitos em +mim!... Desprende-se da cruz... estende para mim as garras... Oh! +salva-me! salva-me! + +E n'um estranho accesso de delirio, Helena de Noronha agarrou-se +convulsivamente á sua amiga, tombando em seguida sobre o leito, sem +sentidos... + +Apavorada e attonita, D. Aurelia mandou immediatamente chamar o medico, +a quem contou que a doente, commovida com o caridoso acolhimento que lhe +dispensara, proferira algumas palavras de agradecimento e cahira em +deliquio. + +O doutor observou a enferma e attribuiu o accidente ao seu estado de +extrema fraqueza. + +--Devêmos evitar a menor commoção, o menor abalo--disse elle. + +Tres dias esteve Helena entre a vida e a morte, de tal modo fôra +violento o abalo produzido pelas revelações que lhe fizera a sua amiga. + +A ideia de que Julio de Montarroyo estava alli a dois passos, vivendo na +mesma terra, habitando a casa que fôra d'ella e sempre alimentando-se +das recordações de um amor impossivel, sem remedio e sem esperança, +matava-a. + +A pobre filha de Norberto de Noronha tremia só com a lembrança de que +havia de supportar os olhares de Julio, tão franco, tão leal, tão amante +e apaixonado e tão cruelmente illudido e ludibriado nos seus amores. + +Porque não lhe teria ella confessado francamente a sua situação, a sua +desgraça, a sua queda irremediavel, quando no Sardão o mancebo lhe +implorava de mãos postas que salvasse seu velho pae e confiasse no puro +e desinteressado amor fraternal que lhe offerecia? + +Não quiz. Receou confessar-se indigna do nobre affecto que aquelle +coração lhe tributava. E comtudo, n'esse tempo, ainda ella não passava +de uma victima innocente, sem sombra de culpa, immolada á torpeza +jesuitica. Como poderia ter coragem para se lhe apresentar agora, quando +já não era só uma desgraçada a quem ludibriaram desfolhando-lhe a sua +corôa de innocencia, mas tambem um sêr ascoroso e repugnante, manchado +por toda a especie de crimes, semeando desolação e morte por toda a +parte? + +Filha, ingrata e desobediente, occasionara a morte de seu pae. Mulher, +leviana e perversa, lançara-se imbecilmente nos braços de um monstro de +sotaina, sacrificando o coração e a vida de seu primo, que a adorava, e +deixando que, na embriaguez de um mysticismo absurdo, abusassem da sua +innocencia e a convertessem na incestuosa e infame barregã de um +jesuita. Mãe, abandonara seu filho, repudiara-o cruelmente e, peor que +as feras, relegara-o á fome, á miseria e á morte talvez. Amada +sinceramente por Julio de Montarroyo, mentira-lhe, ludibriara-o, lançara +aquella alma no desespero, na tortura de todas as horas. + +Adorada com louco frenesi pelo padre Hilario, convertera essa paixão +n'um instrumento de morte. Fizera d'elle um parricida e ella propia +manchára as mãos no sangue de um assassinio cobarde, embora justificado +pelas monstruosas infamias e torpesas de que o miseravel a fizera alvo. +Mas um crime não auctorisa outro e, seja qual fôr o sentimento que o +dite, o remorso entra sempre mais tarde ou mais cedo no coração do +criminoso. + +Helena de Noronha, pois, debatia-se nas angustiosas recordações de +tantos crimes e reconhecendo-se perdida para a rehabilitação n'este +mundo, pedia a Deus, como suprema esmola, a morte, embora esta fosse +seguida da condemnação eterna para a sua alma. + +As penas do inferno pensava ella que não podiam ser-lhe mais tormentosas +e afflictivas do que o peso d'esta existencia amaldiçoada que arrastava +havia já dezeseis annos. + +Ao fim do terceiro dia, chamou junto do leito a sua amiga. + +--Aurelia--disse-lhe ella--tu não sabes a grande desgraçada que acolhes +em tua casa e a quem nos ultimos dias da sua tormentosa existencia dás a +esmola da tua compaixão. + +--Helena!--volveu-lhe a irmã de Gustavo--peço-te que não voltes a +atormentar-te com as recordações do passado. Fui tua amiga e tua +companheira de infancia, e se isto merece recompensa, dá-me ao menos a +consolação de te poder chamar minha irmã. + +--Sim, minha boa e santa amiga! Acceito reconhecida os thesouros da tua +bondade nas curtas horas que me restam de vida... É isso um signal +evidente de que Deus se amerceia de mim e tem em conta as lagrimas e o +arrependimento de tantos crimes... + +--Helena! socega, minha irmã... Tem esperança na misericordia divina que +ha de ainda conceder-te dias venturosos. + +--Fazes-me um favor que te peço, Aurelia? + +--Dize, filha! Tu mandas n'esta casa, não pedes. + +--Desejava que enviasses alguem ao Porto, a saber se no convento do +Sardão ou no das Sereias existe ainda uma superiora chamada Madre +Paula... E se ella existir, que lhe entreguem uma carta minha... + +--Madre Paula!--replicou Aurelia--Existe, minha amiga, sei que existe. + +--Como o sabes?--interrogou alvoroçadamente Helena de Noronha. + +--Porque Julio teve tambem interesse em o saber e mandou ao Porto +informar-se um homem de sua confiança, o mesmo que te encontrou +desfallecida na estrada e que aqui te conduziu. + +--E esse homem viu-a, fallou-lhe? + +--Fallou. + +--Serás capaz de fazer com que elle volte a procural-a, minha amiga? + +--Porque não!? + +Fez-se um instante de silencio. + +--Esse homem sabe quem eu sou? Conheceu-me? + +--Não. Todos aqui, excepto eu, ignoram o teu nome. + +--Não o digas a ninguem, por ora. + +--Socega. Cumprirei a tua vontade. + +Helena de Noronha pediu papel o penna, e escreveu algumas linhas, que +fechou em seguida n'um _enveloppe_. + +--Que parta sem perda de tempo!--disse ella, entregando a carta a D. +Aurelia--Desejo que a resposta me encontre viva. + +O _Tomba_ partiu n'essa mesma noite para o Porto. + + + + +XXV + +Pobre Helena! + + +Julio de Montarroyo melhorara um pouco da febre intensa que o +acommettera. O restabelecimento, porém, fazia-se tão lentamente, o seu +estado de fraqueza era tal, que o medico prohibira-lhe que sahisse do +quarto e recommendava-lhe insistentemente que se abstivesse de longas +conversas com quem quer que fosse. + +Todavia, o _Tomba_ lograra fallar-lhe e informal-o de que madre Paula +era viva e podia ser encontrada no Porto. + +--Fallou-lhe, mestre _Tomba_? + +--Fallei, snr. Julinho... saberá vossa incellencia que fallei... Fui ás +Sereias _préscural-a_ e não estava lá... Mas eu taes intrujices armei, +que me mandaram ó Carvalhido ter co'ella... E está ainda fresca que nem +parece a edade que tem... Aquellas bochechas não se criam só com _auga +benta_, essa lhe juro eu!--commentou o sapateiro. + +--Fallou-lhe de Helena de Noronha? + +--A esse respeito nem pio... Tive medo que ella soubesse ó que eu lá ia +e se espantasse... Nada! Eu _infingi_ que ia de mando da prima de vossa +_incellencia_, a snr.^a D. Lucilinha de Villaverde... + +--Ah! + +--Ella ficou toda _estifeita_ e tratou-me com muito bô agrado, mas a +respeito de comer e beber... nem _burro queres tu auga_?! Eu támem não +precisava--accrescentou--e indas que ella me offerecesse, não era o +filho do meu pae que acceitava... Emquanto me lembrar a arriosca que me +armaram no Sardão, não cômo nada da mão dos frades e das freiras nem que +me matem... P'ra lição, bonda uma vez... Mas ó menos queria que ella +tivesse um migalho de cortezia commigo... + +Julio ficou silencioso sem parecer ligar importancia aos queixumes do +sapateiro escandalizado. + +--Precisava de ir ao Porto para lhe fallar. Mas estou tão fraco, tão +abatido, que não posso por emquanto fazer a viagem--murmurou. + +--Mas o snr. Julinho queria ir ao Porto para fallar co'ella? + +--Sim... unicamente para fallar com ella... + +--Mas, o snr. Julinho, porque não lhe escreve uma carta, que eu +levo-lh'a? + +--O que desejo dizer-lhe não é coisa que se escreva em carta... + +--Deixe lá! O preto no branco falla como gente... Sendo uma carta bem +notada e com quatro cantigas que lhe eu cante, a mulher responde... + +--Não, não... É preciso ir eu... + +O _Tomba_ encolheu os hombros, n'um protesto mudo e disse por fim: + +--O snr. Julinho lá fará como entender... Eu cá estou p'ró que fizer +_minga_. E se vê que é coisa que não se póde arranjar sem vossa +_incellencia_ lá ir, sabe o que lhe eu digo? Coma e beba, bote as +paixões p'ra traz das costas, que co'ellas ninguem medra, ponha-se rijo +e teso, que a freira faz o mesmo, e ella lá está á espera... + +--Vá, vá, mestre _Tomba_--despediu Julio.--Deixe-se andar por ahi, que +póde ser-me preciso de um momento para o outro... + +--Eu cá estou, sr. Julinho... Os amigos são p'rás _incasiões_... + +E sahindo dos aposentos do doente: + +--Este, se não trata de metter p'ró bucho alguma coisinha de sustancia, +está aqui, está prompto... E foi o ladrão do padre _Inxelmo_ que o pôz +assim!... + +De repente bateu na testa, exclamando: + +--Ai, a minha cabeça! E eu que não lhe dei novidades d'aquelle ladrão! + +Voltou atraz, bateu á porta do quarto e perguntou: + +--Dá licença, snr. Julinho? + +--Entre, mestre _Tomba_--respondeu o enfermo, da cadeira em que se +achava sentado. + +--Trazia no sentido p'ra lhe dizer que a respeito de padre _Inxelmo_, é +raça de patife de que ninguem me soube dar relações... + +--Já sei... já sei que esse homem ha muito que não reside no +Porto--volveu Julio com um fundo suspiro. + +--Pois eu ia com meu receio de o topar lá por aquellas casas de +_santidade_--disse o sapateiro, grifando a palavra com um sorriso--Que +eu, se o apanhasse na rua, era _home_ p'ra lhe rachar a corôa de meio a +meio, como quem racha cinco tostões falsos... Mas lá dentro da _seve de +pedreiro_ é que eu não queria topal-o... Ninguem me deu noticias d'elle. + +--É natural--respondeu Julio. + +O sapateiro retirou desconsolado pela pouca importancia que Julio dera á +descoberta. + +--Parece que já não se importa muito com o padre...--resmungou--_Támem_, +n'aquelle estado, ainda que o visse e lhe quizesse chegar duas +_galhetas_, não podia... + +Quando o medico soube que o _Tomba_ se demorára em conferencia com o +doente, exasperou-se e ameaçou de não voltar a receitar, se não fosse +obedecido. + +É que notára no enfermo um novo accesso de febre. + +Julio mostrou-se indifferente aos preceitos do doutor. + +--Era um favor--dizia elle--deixar que a doença acabasse com isto!... + +Passaram ainda uns dias, e o _Tomba_ faroleiro e mettidiço, não podendo +ser admittido á presença de Julio, vingava-se indo para casa de D. +Aurelia, a informar-se do estado da _probesinha_. Quando D. Aurelia o +incumbiu de levar ao Porto uma nova carta a madre Paula, o sapateiro não +pôde ter-se e, transgredindo os preceitos do medico, foi ter com Julio. + +--O sr. Julinho quer alguma coisa para madre Paula?--perguntou. + +--Porque? Vae fallar com ella? + +--Não, senhor... É que eu vou ao Porto fazer umas mercas p'rá senhora D. +Aurelia, e se vossa _incellencia_ quizesse, eu, de caminho, levava +qualquer recado para Madre Paula. + +Julio ficou pensativo. + +--Não... não quero nada--disse por fim--Tenho immenso desejo de fallar +com ella; mas não posso pedir-lhe que venha do Porto aqui, ouvir-me. +Alem de indelicado, seria inutil o pedido, tanto mais que o que tenho a +dizer-lhe representa antes uma impertinencia da minha parte do que um +serviço a prestar-lhe... + +E dizendo isto, Julio cruzou os braços e deixou descahir desalentado a +cabeça sobre o peito. + +O sapateiro encarou-o com olhos compadecidos, e depois rompendo na sua +natural expansibilidade, exclamou: + +--_Ameno_, sr. Julinho! O que não se faz em dia de Santa Luzia faz-se ao +oitro dia... O sr. Julinho inda ha-de ter pernas p'ro levarem aonde quer +ir... Mais velho sou eu, que já cá tenho _acaijo_ carro e meio d'annos, +e inda, sendo preciso, vou d'aqui ó cabo do mundo a pé... + +E concluindo: + +--E se fosse causo que eu fallasse co'a tal freira e a _arresolvesse_ a +vir por ahi arriba, assim como coisa minha? + +--Como é que você havia de fazer isso, mestre _Tomba_?--interrompeu +Julio com um sorriso de quem achava disparatada a hypothese do +sapateiro. + +--Como? Isso agora não sei eu... Mas se fosse eu que lhe pedisse como +coisa minha... sem lhe dizer quem é que lhe quer fallar... A mim, já se +sabe, que não me fica mal pedir uma coisa que não seja assim lá muito de +grande inducação... Eu sou p'rá aqui um _probe_ sapateiro, fazem á de +conta que eu não sei o que digo... e ás vezes pegam as bichas. + +--Não, não, mestre _Tomba_, não pense n'isso, que é uma coisa que não +pode fazer-se... + +--Está bô! Vossa _incellencia_ que o diz, lá sabe a _rezão_ porquê... + +O _Tomba_ partiu para o Porto muito resolvido a envidar todos os +esforços para conseguir que madre Paula visitasse Julio de Montarroyo. + +--Eu armo-lhe uma intrujice e ella cae logo--pensava elle.--Entrego-lhe +a carta da snr.^a D. Aurelia e logo vejo na cara os _himores_ de que +ella fica... Estas freiras são amigas de saber e de tirar nabos do +pucaro... e eu a paginas tantas ferro-lhe com a pêta de que a Lucilinha +está muito mal e que lhe manda pedir de bocca--porque não póde +escrever--se ella faz o favor e a esmola de a ir visitar, porque tem +umas coisas de muita importancia a dizer-lhe e não queria morrer sem a +vêr alli ó par d'ella... A freira vem, e eu, em vez de a levar p'ra +Villaverde, ferro com ella em S. Martinho do Campo... Depois digo que me +enganei no caminho e passe por lá muito bem... + +E contente d'esta esperteza, o _Tomba_ achava impossivel que a sua +lembrança não produzisse resultado. + +--Coitado do snr. Julinho, que está p'ra alli, que é mesmo uma dôr de +coração, morto por desabafar, e não vê meio de fallar c'oa madre Paula, +senão indo elle aonde a ella... Pois vamos a vêr se eu tenho labia p'rá +trazer cá... Ella inda está bem rija e fera, póde melhor andar do que +elle... Ora deixa que eu sempre quero vêr se uma coisa que se me mette +em cabeça hade ficar assim em _augas_ de bacalhau! + +Chegado ao Porto, o _Tomba_ encaminhou-se á Bandeirinha, bateu á porta +da casa conventual das Sereias, e pediu para fallar a madre Paula. + +A madre porteira informou-o de que a superiora estava no campo, a ares; +e que não era esperada ainda por aquelles dias... + +Atravessou a cidade em direcção ao Carvalhido onde já fallára com a +madre Paula dias antes, e disse ao criado que veio abrir-lhe a porta: + +--Faça favor de dizer áquella senhora com quem fallei oitro dia que está +aqui o homem de Villaverde com uma carta para ella. + +O criado foi e voltou pouco depois. + +Na mesma sala em que já fôra recebido uma vez, estava madre Paula. O +sapateiro reconheceu-a o cumprimentou-a festivo e humilde, com grande +profusão de zumbaias. + +--Ora atão vossa reverendissima e incellentissima madre como passou? +Passou bem? + +--Obrigada, passei bem--respondeu madre Paula com risonho semblante. + +--Pois eu támem passei bem, muito aguardecido á senhora... A menina de +Villaverde manda muitas _bugitas_ á senhora madre e mais esta +cartinha... + +E entregou-lhe a carta de que era portador. Madre Paula abriu-a e com +grande surpresa leu: + + + «_Minha querida Paula_: + + +«Lembras-te ainda d'aquella desgraçada _irmã Dorothêa_ que no seculo se +chamou Helena de Noronha? Se da tua memoria não se deliu ainda o nome da +tua pobre amiga e desejas receber d'ella o supremo adeus, vem depressa, +antes que a morte lhe gele nos labios as revelações que deseja fazer-te +e que só tu poderás receber. + +Não te demores, minha querida! Sinto que a vida me foge, e, se não vens +immediatamente, receio bem que apenas possas abraçar o cadaver da + + Tua + _Helena_.» + + +--Minha pobre Helena!--murmurou attonita madre Paula, fixando na carta +os olhos turvos de lagrimas. + +E voltando-se para o sapateiro: + +--Onde está ella?--perguntou. + +--Quem? A menina de Villaverde? Está em S. Martinho de Campo, que é alli +adiante da Povoa de Lanhoso...--principiou o _Tomba_, pondo em prática o +seu plano de arrastar a religiosa á presença de Julio.--Ella deu-me essa +carta muito afflicta p'rá vir trazer á senhora madre, porque ella foi +p'ra lá tratar de uma _probe_ senhora que está lá a morrer... E +_díxe-me_ de bôcca: «Diga á madre Paula--e senhora na _presencia_--que +lhe mando pedir se ella me póde fazer o favor de cá vir fallar commigo, +que eu pago todas as despezas de _camboio_ e de carro p'ra cá e p'ra lá, +que é um negocio de muita circumstancia e de muito interesse p'rá santa +religião, o que lhe eu quero dizer... Agora a senhora madre lá verá... +Mas ella _dixe-me_ isto co'uma cara tão afflicta, que eu inté lhe +dixe:--_Esteje_ descançada, menina, não se _affleija_, que a snr.^a +madre Paula não tem _caratle_ de dezer que não a uma coisa d'essas...» + +--Sim... sim, eu vou!--exclamou madre Paula sensibiliaada--A que horas +temos comboio? + +--Temos agora ahi um da tarde, depois das quatro horas... Se a senhora +madre quizer, inda hoje chegamos lá, porque a gente vae d'aqui _dereito_ +a Guimarães e de lá mette-se n'um carro, vamos pelas Taypas e quando +forem oito ou nove horas da noite, estamos lá... + +--Pois bem; vocemecê demore-se. Eu vou mandar que lhe deem de comer e... + +--Comer? Nada, minha senhora! Muito aguardecido, mas á minha bocca é que +não vae nada, seja pelo que fôr!--interrompeu o _Tomba_ horrorisado, ao +lembrar-se da cilada do Sardão. + +--Porque? Vocemecê jantou? + +--Não, minha senhora... eu cá não jantei nem janto... É costume que não +tenho... já estou desafeito... + +--O que! está desafeito de comer!? + +--Quero dezer, minha senhora, eu jejuo... É uma _promessia_ que fiz de +jejuar dia sim, dia não... e hoje é o dia do sim... + +Madre Paula, muito preoccupada com a extraordinaria carta que acabava de +receber, não prestou attenção á estranha physionomia do sapateiro +recusando a refeição que se lhe offerecia. + +--Pois então, se jejua, não quebre o seu jejum, meu irmão. Mas tem de +esperar que eu me aprompte para a partida... + +--Ó reverendissima madre, eu espero o tempo que fôr preciso... Lá p'rá +amor d'isso, não seja a duvida. + +--Sente-se então ahi ou vá até lá fóra, á quinta.... Como quizer. + +Dito, isto Madre Paula dirigiu-se a uma sala interior onde se encontrava +o padre Filippe conversando familiarmente com Paulo de Noronha e Jorge +de Gusmão. + +--Sr. Padre Filippe--pediu ella--vossa reverendissima faz-me a fineza de +me conceder alguns minutos de attenção em particular? + +--Pois não, minha senhora!--respondeu o padre gentilmente. + +Paulo e Jorge levantaram-se. + +--Dêem-me licença, meus amigos--disse-lhes a abbadessa--que lhes roube +por um curto instante a interessante conversa do snr. padre Filippe. + +E dirigindo-se a Paulo: + +--Vae, meu filho, vae até á bibliotheca com o teu amigo a quem pedirás +desculpa da minha impertinencia... + +Quando os dois sahiram, madre Paula, voltando-se para o Padre Filippe, +exclamou: + +--Helena de Noronha, a _irmã Dorotheia_, vive ainda! + +--Como o sabes?--perguntou o padre Filippe surprehendido. + +--Lê! + +E apresentou-lhe a carta de Helena. + +O padre Filippe leu, examinou detidamente a carta e disse: + +--É a letra d'ella! + +--É, não ha duvida... Minha pobre Helena! + +--E o que tencionas fazer? + +--O portador está lá fóra... E, pois que ella está a morrer, quero +pedir-te, meu bom amigo, que me acompanhes a ir visital-a... + +O padre Filippe, com a despreoccupada bondade que lhe era natural, +respondeu sem hesitar: + +--Do melhor grado te acompanharei, minha querida Paula. Quando queres +partir? + +--Hoje mesmo. + +--Porém, Beatriz?... + +--Beatriz ficará em companhia de madre Angelica das Sete Dores, que é, +como sabes, austera e de são conselho. + +--Pois sim. + +--Vou mandal-a chamar já e dar-lhe as instrucções precisas... De resto, +a nossa demora será curta, porque a pobre Helena acha-se moribunda, como +ella propria o diz... + +--Convem prevenir Paulo da nossa ausencia e pedir-lhe que se abstenha de +vir visitar Beatriz emquanto nós não regressarmos... + +Madre Paula sorriu. + +--E porque não ha de vir? + +--É preciso confiarmos nos sentimentos de nobre lealdade d'esse rapaz, e +não o prevertermos com a suspeita que uma tal prohibição traduziria... + +--Dizes bem. + +--Minha pobre Helena! Que mysteriosa cadeia de soffrimentos a conduziu +até ao leito de morte d'onde agora me chama na agonia do traspasse? + + + + +XXVI + +Um amigo dos diabos + + +Na tarde d'esse dia, madre Paula e padre Filippe, convenientemente +disfarçados sob os trajes seculares e guiados por mestre _Tomba_, +tomavam na estação do Pinheiro, em Campanhã, bilhetes para Guimarães, +por ser o caminho que mais rapidamente os levaria a S. Martinho de +Campo. + +O sapateiro, persuadido de que fôra elle quem conseguira resolver a +superiora das Sereias a esta viagem, pois ignorava inteiramente o +conthéudo da carta de que fora portador, ia radiante e vaidoso da sua +astucia. + +A principio observou com desgosto e desconfiança o padre Filippe, em +quem suspeitava um segundo tomo do padre Anselmo. Essa suspeita, porém, +em breve se lhe desvaneceu, em presença da attitude lhana e amavel do +secerdote. + +--Este parece que é vinho d'outra pipa!--commentou comsigo o +sapateiro--Mas _támem_ se o não fôr, o que eu quero é lá pilhal-o, +porque, depois, quem manda é o sr. Julinho e mais eu... E se se fizer +fino, lá ainda ha de haver quem lhe troque a corôa em mindos p'ra lhe +metter juizo á força na cachola... + +Passadas as primeiras estações, o sapateiro tornou-se loquaz e palrador. +Dando largas ao seu genio communicativo e alegre, ia dando informações +pelo caminho aos seus dois companheiros. Conhecia todas as propriedades +e nomeava-lhes os donos pelo nome. Este era muito _bô_ sujeito; aquelle +_támem_ não era mau, mas andava em demanda com os cunhados á conta das +partilhas por morte da sogra. Emfim, elle conhecia toda a gente e de +tudo dava relação exacta e minuciosa. + +Quando chegaram a Guimarães, o _Tomba_ perguntou se queriam descançar um +pouco no _hotle_ ou se queriam seguir logo para S. Martinho. + +--É muito longe d'aqui lá?--? perguntou o padre Filippe. + +--É alli logo _adiente_ das Taypas... Se o cocheiro bater bem, chegamos +lá em tres horas. + +--Então é melhor que partamos já. + +O _Tomba_, solicito, fretou um carro em que entraram os tres, com +recommendação ao cocheiro de que urgia chegar breve. + +Ás 9 horas da noite, o carro parava á porta de Julio de Montarroyo. + +O _Tomba_, sempre movido do pensamento de surprehender agradavelmente o +seu amigo e protector apresentando-lhe madre Paula em casa quando elle +menos o esperava, em vez de parar á porta de D. Aurelia, guiou os seus +companheiros para a antiga casa de Norberto de Noronha. + +O sapateiro introduziu madre Paula e o padre Filippe na primeira sala, +pedindo-lhes que se demorassem, que elle ia dár parte á senhora. E quasi +sem esperar resposta e desrespeitando todas as prescripções medicas, +entrou impetuosamente no quarto de Julio de Montarroyo, exclamando: + +--Ora, sr. Julinho, os amigos conhecem-se nas _incasiões_, e o _Tomba_, +com um raio de diabos! p'ra servir um amigo é capaz de dar uma volta no +inferno! Cá está ella! + +--Ella, quem?--interrogou Julio de Montarroyo. + +--A madre Paula, com seiscentos livros de missa! + +Julio de Montarroyo encarou espantado no sapateiro, suspeitando que elle +tivesse endoidecido. + +--Mas está onde, mestre?--perguntou. + +--Alli fóra, sr. Julinho, alli fóra na sala... Vem acompanhada com um +padréca, mas não tem _duveda_... Quer que os mande entrar p'ra aqui? + +--Você falla serio, mestre Tomba? + +--Ó sr. Julinho, isso não são coisas que vossa _incellencia_ me diga a +mim na minha cara!--exclamou o sapateiro escandalisado--Pois eu ando por +lá a dar voltas ao miolo p'ra lh'a trazer,--que suei e tornei a suar +primeiro que a _arresolvesse_--e o snr. Julinho, chego aqui, e não me +quer _acuarditar_?! Eu serei capaz de lhe _dezer_ uma coisa por oitra, +sr. Julinho? + +--Está bem, mestre...--tornou Julio--Não vale a pena zangar. Eu vou +immediatamente cumprimentar essa senhora... + +--Olhe lá, ó sr. Julinho--observou o sapateiro detendo-o quando elle ia +já a transpôr a porta do quarto--eu enganei-a! + +--Enganou-a? + +--Disse-lhe que estava cá a _irmã Dorotheia_, muito doente e que lhe +mandava pedir p'ra ella cá vir vê-a... Ora agora, o sr. Julinho arranje +lá as coisas de modo que não me deixe ficar por mentiroso... + +--Você está doido, mestre? Como quer que eu sustente essa mentira, se +Helena não está aqui nem eu tenho noticias d'ella? + +--Não sei, sr. Julinho... Diga-lhe que ella já morreu e que se enterrou +_honte_ á noite... Eu cá por mentiroso é que não hei-de ficar, senão +ellas, em me apanhando lá outra vez, são capazes de me dar uma coça... + +--Descance, mestre; eu vou fallar com madre Paula. + +E deixando o sapateiro, entrou na sala onde se encontravam a religiosa e +o seu companheiro. + +Padre Filippe, que o não conhecia, limitou-se a observal-o com +curiosidade. + +--V. ex.^a certamente não reconhece n'este velho o moço que ha desoito +annos teve a honra de admirar na gentil superiora do Sardão uma das mais +austeras religiosas que em sua vida lhe foi dado cumprimentar?--disse +Julio de Montarroyo, dirigindo-se a madre Paula, ao mesmo tempo que +saudava com uma reverente inclinação de cabeça o padre Filippe. + +--Está v. ex.^a enganado, sr. Julio de Montarroyo--replicou madre Paula +recobrando a serenidade--Reconheço-o perfeitamente, e é com verdadeira +satisfação que torno a vel-o, se bem que estava longe de o encontrar +aqui. + +--A surpreza, portanto, é para nós dois, pois que eu tambem, apezar do +vivo desejo que sentia de fallar a v. ex.^a, não podia esperar a subida +honra que me dá da sua caridosa visita... E digo caridosa, porque +visitar um enfermo nas minhas condições é verdadeiramente uma obra de +caridade, que só as almas sinceramente religiosas como a de vossa +excellencia sabem comprehender e praticar. + +Madre Paula escutava-o sem o comprehender. + +Julio de Montarroyo offereceu o sophá aos seus hospedes. + +--Dignem-se v. ex.^{as} sentar-se, e, pois que me dão a honra da sua +visita, permittam-me que os considere meus hospedes por alguns dias. +Esta casa é pobre. Ha aqui o triste desconforto das casas da provincia +que não teem a direcção intelligente de uma mulher a governal-as. + +No entanto, dois titulos tornam digna esta desconfortavel habitação da +subida honra de abrigar sob o seu tecto a superiora do Sardão: o +primeiro vem a ser o soccorro espiritual prestado a um enfermo que +ardentemente o deseja e implora; e o segundo o facto de ter sido esta, +outr'ora, a casa de uma das amigas mais intimas de v. ex.^a, a _irmã +Dorotheia_, conhecida no seculo por Helena de Noronha. + +--Helena!--bradou madre Paula--Onde está ella? Peço-lhe que me conduza +sem demora até junto do seu leito. Mal soube que estava doente, accorri +immediatamente ao seu chamamento, e tenho fé que a minha presença ha de +fazer-lhe bem, ha de melhoral-a... + +Julio de Montarroyo encarou com insistencia a abbadessa. + +--V. ex.^a não sabe onde está Helena de Noronha?--perguntou elle. + +--Julguei encontral-a nesta casa, d'onde me escreveu a chamar-me e onde +me disseram que estava. + +--D'onde lhe escreveu, diz v. ex.^a? + +--Sim. Eis aqui a carta que hoje mesmo recebi pelo homem que aqui nos +conduziu. + +E madre Paula apresentou a Julio de Montarroyo, estupefacto, a carta de +que o _Tomba_ fôra portador. + +--É a lettra de Helena!--exclamou Julio n'um brado de alegria +extrema--Não ha duvida, Helena escreveu esta carta... Mas onde está +ella?--perguntou por sua vez tambem. + +--Pois deveras Helena de Noronha não está aqui?--interrogou ainda madre +Paula, tomada de estranha surpreza. + +--Não, minha senhora--volveu Julio--e até eu ignoro como e de que +maneira esta carta pudesse ser-lhe enviada por Helena, de quem não tenho +noticias ha dezoito annos! Esperava eu que v. ex.^a, compadecida do meu +estado de doença e do muito que tenho soffrido no esforço inutil de +encontrar a filha de Norberto de Noronha, se dignasse dar-me quaesquer +indicações que me permitissem fallar-lhe ou escrever-lhe ainda antes de +morrer. + +E com uma eloquencia febril, contou em rapidas palavras tudo o que lhe +succedera nos desoito annos decorridos e que o leitor não ignora, por já +lh'o ter ouvido contar a Gustavo de Magalhães. + +--Agora--concluiu--alquebrado, doente, com poucos dias de vida, todo o +meu empenho era procurar v. ex.^a e pedir-lhe, por tudo quanto mais ama +no mundo, que me dissesse se Helena de Noronha vive ainda ou se devo +procural-a no mundo dos espiritos... + +--O homem que aqui nos guiou é que foi portador d'esta carta. Elle +portanto, poderá dizer quem lh'a entregou e onde se encontra quem a +escreveu...--explicou madre Paula, de cada vez mais attonita e +surprehendida. + +--Tem v. ex.^a rasão. Vou mandal-o chamar á sua presença, e elle +explicará... + +Julio levantou-se, tocou uma campainha e ordenou ao criado que appareceu +á porta da sala: + +--Diga ao mestre _Tomba_ que venha cá. + +Pouco depois apparecia á porta o sapateiro com o ar petulante de quem +está resolvido a dizer tudo sem rodeios, e a assumir inteira +responsabilidade dos seus actos. + +--O sr. Julinho, chamou? + +--Chamei, mestre. Venha cá... + +--Prompto! + +E o sapateiro avançou dois passos na sala, de cabeça erguida e olhar +firme. + +--Então como é isto?--ia Julio a dizer. + +Mas o sapateiro interrompeu-o, sem o deixar concluir. + +--Então como hade ser? Fui eu que armei esta _trempe_, p'ra fazer que +aqui a nossa reverendissima madre e mais este reverendissimo sr. padre +viessem á _presencia_ do sr. Julinho... Vossa _incellencia_ estava todos +os dias a appellidar por ella, que a queria vêr, que lhe queria fallar e +que morria sem _estifazer_ o seu desejo... Vae eu _atão_ disse comigo: +«Se eu, armar uma pêta bem arranjada e disser á nossa reverendissima +madre que é a sr.^a D. _Helenia de Laronha_ que está a dar a alma a +Deus, ella larga barcos e redes e vem por ahi fóra atrás de mim, que é +um ar que lhe dá... Ponto é que ella me _acuardite_... Vamos a vêr se as +bichas pegam... Fui e as bichas pegaram. Ella aqui está... Agora o sr. +Julinho diga o que tem a _dezer_, e se eu fico por mentiroso, é o +mesmo... Se quer ó menos, _intrujei_, mas foi p'ra _estifazer_ a ultima +vontade a vossa _incellencia_... Agora já póde morrer descançado. + +--Mas venha cá, _Tomba_, como arranjou você a carta de Helena de +Noronha? + +O sapateiro arregalou os olhos: + +--A carta da sr.^a D. _Helenia_? A carta não é d'ella! + +--Como não é d'ella? + +--Não é d'ella, já lhe disse! Assim um raio venha que nos parta aqui a +todos, se eu vi a sr.^a D. _Helenia_ ou sequer alguem me boquejou a +respeito d'ella! + +--Mas esta carta--disse madre Paula--foi-me entregue por vocemecê... + +--Isso é oitra coisa...--tornou o sapateiro--Mas as cartas são papeis... +Essa carta não é da sr.^a _D. Helenia_. + +--Não é!--exclamou Julio--Mas a lettra e a assignatura são d'ella. Como +arranjou você esta carta? + +--São d'ella!?--disse por sua vez o _Tomba_ muito admirado. + +--Se esta carta não é escripta por Helena--tornou Julio de +Montarroyo--então alguem lhe imitou a lettra e a assignatura. O mestre +dirá quem foi... + +--E a carta o que diz, ó sr. Julinho?--interrogou o sapateiro com grande +interesse. + +--Pois você não o sabe, mestre? + +--Eu não, senhor! Cego seja eu e o meu Santo Antonio, que está lá +dentro, permitta que eu não arranje mais cinco réis d'esmola em toda a +minha vida, se eu sei o que ella diz... Eu levei-a fechada, não a abri +para a mandar lêr, como hei-de eu adivinhar o que ella diz? + +Julio percebeu que o sapateiro fallava verdade, e de cada vez mais +surprehendido pela ignorancia do mestre sobre o contheudo da carta, +resolveu-se a esclarecel-o. + +--Esta carta é assignada por Helena de Noronha e pede á virtuosa madre +Paula que venha junto ao seu leito de agonia dizer-lhe o ultimo adeus... + +--Ella diz que está doente? + +--Diz que está a morrer... + +O sapateiro bateu uma palmada na testa com expansão: + +--Quer vossa _incellencia_ vêr que é ella!?--exclamou--Pois não é oitra +coisa. É ella! Oh! com um raio de diabos! E eu aqui a dois passos, e sem +o saber! Que grande cabeça de burro eu sou! Pois é ella, não ha que vêr! + +--Ella quem?--interrogou anciosamente Julio. + +--A doente que está em casa da sr.^a D. Aurelia! Ora... ora esta! E fui +eu que dei co'ella na estrada, como morta, sem dar por burro nem por +albarda... + +E depois, n'um movimento de duvida: + +--Mas olhe lá, ó sr. Julinho, a carta diz isso? + +--Sem duvida, mestre, a carta é de Helena... Diz que está doente e pede +a madre Paula que venha vêl-a... + +--Agora... agora! Por isso vossa reverendissima se pôz tão prompto para +me acompanhar... Cá me queria parecer!... E eu a cuidar que era eu que a +trazia ao engano!... Sou esperto, não tem duvida! Posso ir p'ró diabo +que me carregue e mais a minha esperteza! + +--Mas venha cá, mestre _Tomba_... explique-nos que doente é essa de que +está fallando... Eu não sei nada! + +--Pois se vossa _incellencia_ tem estado ás portas da morte, vae hoje, +vae amanhã, e todos me _deziam_ que não lhe dissesse nada nem lhe +_trouvesse_ novidades, que podia ser ás vezes dar-lhe uma coisa pela +cabeça e alimpal-o ainda mais depressa... como é que eu havia de lhe vir +contar o que era passado? Mas agora é que eu percebo a _tramoia_... +Antão lá vae! + +O sapateiro contou como encontrára inanimada no caminho, quando +regressava, do Porto, uma pobre mulher desconhecida e andrajosa, que +fôra recolhida por caridade em casa de D. Aurelia onde ainda se +encontrava. + +--E atão agora está tudo explicado.--concluiu--A snr.^a D. Aurelia foi +que me mandou ao Porto entregar essa carta aqui á snr.^a madre, mas sem +me dizer de quem era... Ora, se o sr. Julinho diz que a carta foi +escrevida pela snr.^a D. _Helenia_, _atão_ a coisa está bem clara: a +doente que lá está e que eu topei na estrada é ella! + +Julio ouvira com extraordinaria commoção a narrativa do sapateiro. + +--Ah! meu Deus!--exclamou--até que emfim a encontro! + +E voltando-se para madre Paula: + +--Minha senhora, pois que foi chamada por Helena, cumpre-me conduzil-a á +casa onde ella se encontra. + +Minutos passados, madre Paula, padre Filippe e Julio de Montarroyo, +acompanhados por mestre _Tomba_, entravam em casa de D. Aurelia. + +A irmã de Gustavo veio recebel-os ao salão d'entrada, e não ficou pouco +surprehendida quando Julio de Montarroyo lhe disse: + +--Minha amiga, tenho a honra de lhe apresentar madre Paula, virtuosa +superiora da casa conventual das Sereias, no Porto, amiga intima de +Helena de Noronha, que, segundo creio, se hospeda na casa de v. ex.^a... + +E indicando o padre Fillipe: + +--E este cavalheiro é o sr. padre Filippe, respeitavel sacerdote que +teve a amavel complascencia de acompanhar esta senhora na visita á sua +amiga. + +D. Aurelia cumprimentou os visitantes, relanceando um olhar de censura +ao _Tomba_ que, interdicto, coçava na orelha, como quem comprehendia que +tinha feito asneira. + +--É verdade--disse por fim D. Aurelia--que tenho em minha casa Helena de +Noronha; e se d'isso não informei immediatamente, como desejava, o snr. +Julio de Montarroyo, foi devido a duas considerações imperiosas: a +primeira foi o facto de Helena, que recolheu doentissima e em perigo de +vida a minha casa, me haver supplicado que não divulgasse, fosse a quem +fosse, a sua estada aqui; e a segunda foi a circumstancia do snr. Julio +de Montarroyo se achar gravissimamente enfermo e haver especial +recommendação do seu medico para que lhe não dessem noticia que pudesse +causar-lhe qualquer abalo moral, porque isso poria em perigo a sua +existencia. + +--Oh!--protestou Julio--pois se toda a minha doença era não ter noticias +de Helena! + +--Helena, cuja vida continua ainda em perigo--proseguiu D. +Aurelia--pediu-me que fizesse entregar no Porto a madre Paula uma carta +que ella mesma escreveu e cujo contheudo eu ignoro... + +--Essa, carta, minha senhora--disse madre Paula--eil-a aqui. Por ella +verá v. ex.^a que Helena reclama a minha presença... + +E apresentou-lhe a carta que D. Aurelia recusou delicadamente com um +gesto. + +--Por Deus, minha senhora! Eu não duvido um momento da sua palavra... +Simplesmente o que devo é prevenir v. ex.^a do melindroso estado de +saude da nossa pobre amiga... Qualquer abalo, qualquer commoção violenta +póde matal-a... + +--Mas se Helena espera a visita de madre Paula--objectou Julio. + +--Espera a visita de madre Paula, mas não espera a de v. +ex.^a...--retorquio D. Aurelia.--Era justamente essa surpreza que me +parecia bem poupar-lhe por emquanto... + +--Decerto!--atalhou madre Paula.--Nem eu creio que o snr. Julio de +Montarroyo, que é tão dedicado a Helena, pense em lhe aggravar a +enfermidade apresentando-se-lhe, sem ella estar preparada para isso... + +Julio de Montarroyo exclamou n'um accesso de exaltação febril: + +--A minha vida pela d'ella! Digam-me que é preciso fazer saltar os +miolos para salvar Helena e eu não hesitarei um instante! + +--Socegue, socegue, meu amigo, que não será preciso recorrer a esse +extremo, para termos a nossa querida doente restabelecida dentro em +pouco. Aqui o que é preciso é evitar-lhe qualquer sobresalto ou commoção +que possa aggravar-lhe a doença... V. ex.^a não imagina o estado em que +a pobresinha se encontra. Eu mesma, quando aqui m'a apresentaram, não a +reconheci... Foi ella que só passados dias se deu a conhecer, porque se +tal não fizesse, ainda agora eu estaria na ignorancia de quem ella +fosse. + +--Pobre Helena!--exclamou madre Paula. + +--Parece-me, pois, tornou D. Aurelia--que seria bom dispôr a nossa +doente para receber a visita da sua amiga. Emquanto ella a espera, +convem prevenil-a com cuidado... + +--Sim... sim!...--concordou madre Paula. + +D. Aurelia voltou-se para Julio e com um sorriso amavel: + +--Tenha paciencia, meu amigo... Já não é pequena felicidade para o seu +coração o saber que Helena vive, está aqui entre nós e que, dentro +d'alguns dias, poderá vêl-a e fallar-lhe. O que é preciso é que v. ex.^a +mesmo tenha cuidado com a sua saude e trate de se restabelecer, livre de +apprehensões e de tristezas que já não têm razão de ser. + +E a um gesto de assentimento de Julio de Montarroyo, que se inclinou em +silencio, proseguiu: + +--Deem-me licença que eu vá junto da minha amiga, tratar de a predispôr +para receber sem grande surpreza a virtuosa madre Paula. Escuso +dizer-lhes que os considero meus hospedes n'esta casa e que vou tambem +dar as ordens precisas para serem convenientemente installados. + +Fez uma ligeira mesura e sahiu. + +D'ahi a instantes, a criada de quarto de D. Aurelia entrava na sala a +indicar aos hospedes que os seus aposentos estavam preparados. + + + + +XXVII + +Duas amigas + + +No dia seguinte, muito cêdo ainda, Helena de Noronha que passára a noite +socegada, accordou inquieta e perguntou á creada se já tinha chegado uma +senhora que devia vir do Porto. + +--Não sei, minha senhora--respondeu a creada que estava já +prevenida--mas eu hei-de dizer que senti ha pouco parar um trem ao +portão... + +--Oh! vá saber sem demora--pediu Helena--e se fôr a pessoa que eu +espero, diga a sua ama que lhe peço para a fazer entrar aqui o mais +depressa possivel... + +A creada subiu a cumprir a ordem recebida. Pouco depois entrava a dona +da casa. + +--Veio?--perguntou-lhe Helena. + +--Dá-me alviçaras, minha amiga--disse D. Aurelia alegremente--porque, +contra a tua espectativa, madre Paula está n'esta tua casa! + +Helena levantou-se a meio no leito. + +--Por Deus, minha filha, diz-lhe que entre... que entre já! + +Madre Paula, que ficára occulta com o reposteiro, penetrou de um salto +no aposento, dizendo: + +--Não é preciso, minha querida Helena, não é preciso, porque a tua amiga +está aqui! + +--Paula!--exclamou Helena, estendendo para ella os braços, n'um alvoroço +de indizivel contentamento. + +Estiveram assim as duas amigas por muito tempo abraçadas, n'um silencio +apenas cortado pelos soluços que se escapavam do peito de ambas. + +D. Aurelia assistia commovida a esta scena de uma terrivel eloquencia na +mudez d'aquellas lagrimas que ambas vertiam ao abraçarem-se. + +Por fim, foi Helena quem rompeu o silencio, exclamando: + +--Vieste ver-me, minha amiga... Bem hajas pela caridade com que +attendeste o meu pedido! + +--Minha pobre Helena!--respondeu madre Paula--quantas vezes me tens +lembrado nos longos dezesseis annos da tua ausencia! Procurei por mil +modos saber noticias tuas... Tudo inutil!... Ninguem me dava relação de +ti, ninguem te conhecia, ninguem sabia para onde tinhas partido... + +--Fiz uma viagem muito longa, minha amiga... tão longa que só devia +terminar no começo desta outra viagem mais longa ainda, que vou +emprehender... + +--O que! pois não ficas ainda aqui? Tencionas partir outra +vez?--perguntou madre Paula admirada. + +--Sim... vou partir e d'esta vez para nunca mais voltar... Vou +emprehender a eterna viagem do sepulchro... Por isso te pedi que +viesses... + +--Morrer!--exclamou a abbadessa--que extranha fraqueza é essa? A vida +chama-te ainda, minha querida... Tu és nova, és forte, és ainda uma +mulher valida, tens um espirito são, uma alma extraordinariamente +bella... Chama a ti todas as energias, reage contra os soffrimentos, +oppõe ás violencias da dôr que te avassala, a força suprema da tua +vontade e triumpha do abatimento physico pela energia moral. + +Helena tornou a sorrir o sorriso triste dos que não se illudem na +approximação do seu fim. + +--Tu é que estás ainda a mesma, minha querida!--disse ella.--Não parece +que passaram por ti dezesseis annos desde que nos separámos... + +--Os meus cabellos branquearam um pouco, porque ninguem resiste +impunemente á acção do tempo--replicou madre Paula--mas, comquanto um +pouco mais velha que tu, não penso ainda na morte... + +D. Aurelia, sentindo-se de mais n'aquelle colloquio entre as duas +amigas, que certamente tinham mais importantes assumptos a tratar, +interveio pedindo que a dispensassem por um instante, pois tinha que +ordenar serviços domesticos da maior urgencia. + +--Espera!--replicou Helena--deixa-me primeiro dizer á minha Paula quem +tu és... + +--Não é preciso--accudiu D. Aurelia com meiguice--já nos conhecemos +desde hontem á noite... + +--Sim--confirmou madre Paula--já devo a esta senhora a mais amavel e +gentil hospitalidade que ha muitos annos me foi dado receber fóra do meu +convento... + +--Pois tu já cá estás desde hontem?--perguntou Helena admirada. + +--Vim acompanhada pelo portador da tua carta e pelo reverendo padre +Filipe, de quem certamente ainda te recordas... + +--Oh, decerto, decerto! E como são gratas as lembranças que conservo +d'esse honesto e digno sacerdote! Porque não veio elle ver-me tambem? + +--Temos tempo, minha querida--disse madre Paula--Uma das principaes +virtudes christãs é a paciencia... E o padre Filippe, que é, como +acabaste de dizer, um honesto e digno sacerdote, exercita esta virtude +como poucos... Elle espera, e é dos que sabem esperar... + +Logo que D. Aurelia sahiu, madre Paula encarou fito Helena de Noronha e +perguntou-lhe em voz sumida, n'um tom de mysterio: + +--E o padre Anselmo? + +--Matei-o! + +--O que!--disse a religiosa empallidecendo--Mataste-o... quando? + +--Ha desesseis annos, no dia em que deixei de ser superiora da casa +conventual da Covilhã... + +--É extraordinario! E como pudeste...? + +--O miseravel, de quem eu tinha jurado vingança, não soube, no meio de +toda a sua perversa astucia, desconfiar da apparente submissão da mulher +que tão infamemente havia ludibriado e escarnecido... Julgou-se +inteiramente senhor de mim e veio elle mesmo procurar a occultas o +castigo que a sua torpeza e maldade mereciam... + +--E o outro... o filho d'elle... o padre Hilario? + +--Foi meu cumplice. Elle mesmo ajudou a crucificar o pae no subterraneo +do convento. Oh! foi uma vingança terrivel, e esse dia, minha querida +Paula, foi o mais bello e o mais feliz de toda a minha vida, desde que +abandonei a casa de meu pae... de meu pobre pae que ingratamente +condemnei á morte! + +Os olhos de Helena de Noronha coruscavam ainda de furor satanico, ao +recordar aquelle lance supremo em que havia dado morte horrivel ao +jesuita que a perdera. + +Madre Paula, tomada de pavor, encarava Helena de Noronha, mal podendo +acreditar no que ouvia. + +Fez-se um curto silencio em que os olhos das duas exprimiam um mundo de +pensamentos. + +--Sim...--disse Helena de Noronha como respondendo á pergunta muda que +lhe dirigia a sua amiga--o padre Hilario foi, por assim dizer, o +executor da sentença de morte a que eu havia condemnado o pae... E era +preciso que assim succedesse para que a minha vingança fosse completa... + +--Mas não sabia elle os laços de sangue que o prendiam a esse miseravel? + +--Não o sabia; mas, ao expirar, o padre Anselmo patenteou-lhe toda a +verdade do alto da cruz onde agonisava, amarrado como o mau ladrão. +Disse-lh'o por entre maldições e injurias, e a voz do sangue não fallou +no meu cumplice. Assistiu impassivel á agonia do pae, que elle immolava +á minha vingança e sacrificava ao seu amor por mim... Oh! foi uma boa +hora aquella, minha amiga! E se eu alguma vez pude crêr em Deus, foi +justamente n'esse instante em que o maior dos criminosos expiava com a +maior das agonias todo o seu passado de negras infamias! + +E contou então como o padre Anselmo, apparecendo-lhe mysteriosamente no +convento da Covilhã, desceu á cripta, no intuito, dizia elle, de orar +aos pés da cruz, onde devia ser crucificado... Relembrou com infernal +prazer todas as minucias d'essa scena horrivel; a maneira como, +acompanhada do padre Hilario, o seguiu ao subterraneo e como, quando +elle vinha sahindo, depois de ter feito ouvir por largo tempo o ruido +surdo de quem cavava, o proprio filho, com um vigoroso murro, o fez +cahir no meio do subterraneo, fechando-lhe a porta pelo lado de fóra... +Depois, os tres dias de agonia lenta, torturado pela fome e pela sêde, +todas as peripecias terriveis d'esse drama sombrio de vingança e de +sangue, que teve a sua acção no medonho _in-pace_ da Covilhã. + +Madre Paula ouviu attonita toda esta narrativa, chegando por vezes a +suspeitar que Helena de Noronha, tomada de loucura, estivesse +phantasiando uma vingança que não realisára. + +--E o padre Hilario?--perguntou por fim. + +--Pobre rapaz! Nunca mais o tornei a vêr... O pensamento que nos uniu +foi o mesmo que devia separar-nos e... separou-nos. + +--Accusou-te depois, lançando sobre ti as culpas do remorso que o +torturava? + +--Oh, não! Eu poupei-lhe a desgraça do remorso, semeando-lhe no coração +o odio por mim... + +A abbadessa, de cada vez comprehendendo menos o sentido das palavras de +Helena de Noronha, atreveu-se a inquirir: + +--Trahiste o teu novo amante?... + +--Meu amante! Nunca o foi. Trahi o cumplice, isso sim... Utilisei o +instrumento da minha vingança emquanto o necessitava e arremesseio-o +para longe de mim quando já me não era preciso... O padre Hilario +amava-me... dizia elle que me amava.. Porém, eu não poderia vêr nunca +n'esse homem senão o filho do padre Anselmo... Logo depois que a minha +vingança estava cumprida, tratei de me affastar d'elle... + +--Como? + +--Enganando-o como o pae me enganou a mim. Disse-lhe que para não +levantar suspeitas, era conveniente que ambos seguissemos por differente +caminho para o mesmo ponto onde deviamos encontrar-nos. + +Esse ponto era uma terra do estrangeiro, onde passariamos por marido e +mulher, vivendo de algum dinheiro que eu tinha amealhado, emquanto não +pudessemos voltar ao paiz, depois de obtida a certeza de que o nosso +crime não havia sido descoberto. Elle tudo acreditou e, obcecado pela +paixão, não duvidou um momento de que eu fosse reunir-me a elle. Partiu +por um caminho, eu parti por outro, e até hoje nunca mais nos tornámos a +vêr... + +--De modo que... + +--De modo que o meu cumplice, ao reconhecer-se ludibriado, deve ter +sentido mudar-se lhe todo o amor que nutria por mim n'um odio profundo. + +Madre Paula, profundamente impressionada com estas revelações, quasi não +atinava com palavras que dissesse. + +Parecia-lhe impossivel que aquella mulher fraca e ingenua, que ella +recebera na casa das Sereias, pudesse vir a triumphar da maldade +perversa do padre Anselmo, da sua astucia e systemathica desconfiança de +tudo e de todos, tirando d'elle uma vingança atroz, que os mais +poderosos agentes da Companhia não ousariam sequer sonhar. + +--O que me contas é por tal modo extraordinario, minha querida +Helena--disse ella, passados instantes--que me deixa muda de assombro! +Se o não ouvisse de teus proprios labios, recusar-me-hia a +acredital-o... + +--Oh! minha boa Paula!--replicou Helena, ainda tremendo de ira--pois +acaso não teria eu razão para muito mais? Não foi aquelle maldito a +ruina, a miseria e a morte de toda a minha familia? Não abusou elle da +minha innocencia e ingenuidade de creança para me aviltar, roubar e +perder, fazendo de mim sua barregã e sua escrava? poderia eu perdoar ao +maldito que tão infamemente lançou a desgraça e a deshonra sobre mim e +sobre os meus? + +--Tens razão. Mas não é a justiça da tua vingança que me surprehende... + +--O que é que te surprehende, pois? + +--Surprehende-me a habilidade e a coragem com que pudeste levar a cabo o +teu plano... + +--Auxiliou-me o acaso, se não foi antes um designio da propria +Providencia que inspirou ao padre Anselmo a ideia de mandar o filho para +junto de mim... + +--Nunca mais ouvi fallar do padre Hilario... Naturalmente abandonou a +Companhia. + +--Era essa a sua resolução inabalavel quando nos separámos... Eu não +sahi do paiz, como lhe prometti, e passei uma grande parte d'estes +dezeseis annos perdida e obscura pelas terras de provincia, exercendo +mysteres humildes, improprios da minha educação... Sujeitei-me a tudo, +minha querida... Fui creada de quarto, fui costureira, fui creada de +meninos, e confesso que me era menos amargo o pão em casa de meus amos +do que n'esse antro maldito onde, por tua commiseração, fui elevada á +dignidade de abbadessa! Abbadessa! que irrisoria e infame impostura, +minha amiga!... + +--Helena--disse madre Paula--pareceu-te assim porque não amaste... Se +tivesses amado o padre Hilario como eu amei o padre Filippe... + +--Oh! não! eu não podia amar a sotaina desde que a sotaina me havia +ludibriado e escarnecido. No meu coração só havia odio por essa infame +instituição que alberga no seu seio facinoras preversos da laia do padre +Anselmo e vive da exploração cruel das suas victimas. + +--E não tens, já não digo remorso, mas ao menos pezar, de haveres +sacrificado ao teu odio e á tua vingança esse pobre rapaz que te amava e +que pelo teu amor se fez parricida? + +--Era filho _d'elle_. E o meu odio implacavel vae de paes a filhos... +Elle proprio devia ser um monstro como seu pae.. + +--Todavia, minha querida... ha inda um filho do padre Anselmo que em +nada o parece... nem na figura, nem no coração. É nobre, é digno, é +honesto, é leal, é amoravel e trabalhador... + +--Fallas de...? + +--De teu filho, Helena de Noronha! + +--Elle vive ainda? + +--Vive e é um bello e gentil rapaz... + +--Padre tambem? + +--Não. É um academico distincto e espero que ha de ser um homem util a +si e aos seus semelhantes, honrando a sciencia e a humanidade. Eu e o +padre Filippe temol-o educado sob o influxo das doutrinas liberaes, +longe de nós e estranho aos funestos exemplos da falsa religião que nos +victimou. + +--Não te conhece então? + +--Conhece. E ama-me e respeita-me com um carinho e uma ternura que faz +honra aos nobres sentimentos da sua alma. + +--Sabe esse rapaz quem foram seus paes? + +--Ignora-o inteiramente, comquanto use o teu appellido, Helena de +Noronha. + +--O que! pois tu...--ia a dizer Helena, levantando-se a meio no leito. + +--Sim--atalhou madre Paula--quiz que se chamasse Paulo de Noronha, afim +de que sua mãe um dia pudesse reconhecel-o e amal-o. + +--Oh! nunca... nunca! + +--Helena!--tornou madre Paula com severo aspecto--o odio que se estende +ate aos proprios filhos das nossas entranhas é perversidade que repugna +á razão e de que nem as bestas feras, na crueza de seus instinctos, +jámais nos deram exemplo. Vê tu, minha amiga, que nem o padre Anselmo, +esse cynico perverso, de uma ferocidade de chacal, pôde resistir ao +amoravel sentimento que Deus poz no coração dos paes pelos filhos. E +quererás tu cerrar teu peito ao affecto mais nobre e mais santo que póde +caber no coração de uma mulher? Quererás morrer amaldiçoando teu filho +innocente e deixar que elle viva sentindo n'alma o gelo da indifferença +e do abandono de seus paes? Que triste herança lhe queres legar, minha +amiga! E comtudo, Paulo é digno de que o amem porque nas nobres +qualidades de seu caracter, na sua figura varonil e no porte altivo, +reflecte bem a figura e as nobres qualidades d'esse santo e desditoso +homem que foi teu pae. + +--Meu pae!--gritou Helena de Noronha--Paulo parece-se com elle? Não tem +na physionomia os traços odiosos de monstro que lhe deu o ser? + +--Queres vêl-o?--perguntou madre Paula. + +--Não, não!--recusou Helena tomada de subito terror--Para que has de +pôr-me diante dos olhos, na hora extrema, um filho que eu não posso +amar, uma creatura que ha de ser-me sempre odiosa pela recordação dos +negros crimes que lhe andam ligados? Oh! deixa-me morrer, minha amiga, +no esquecimento d'um dever que eu não tenho forças para cumprir... + +Calou-se offegante. E depois, como fallando comsigo mesma: + +--E como poderia eu dizer a esse rapaz: «Sou tua mãe!» sem ter que lhe +confessar a minha miseria e a minha vergonha? Perguntar-me-ia o nome de +seu pae... e eu teria que me calar vexada diante de meu filho para lhe +não dizer: «Teu pae era o padre Anselmo, um monstro com figura humana... +Ladrão e assassino da mais infima especie... Um miseravel sacrilego que +tôrpemente entenebreceu a minha razão e abusou da religião de Christo +para nos condemnar, a mim e a ti, a uma deshonra eterna!» Oh! não... +não! prefiro morrer sem passar por mais esse doloroso transe, consolada +com a certeza de que elle ignorará o nome da desgraçada que foi sua mãe! + +--Socega, minha querida!--tornou-lhe madre Paula suavemente--O que eu te +proponho não é bem isso que tu suppões... + +--O que me propões então? + +--Trazel-o até junto de ti para que o vejas e ouças e possas +certificar-te pelo testemunho dos teus proprios sentidos, de que esse +encantador rapaz, bem longe de reproduzir as feições repellentes do +padre Anselmo, é o vivo retrato do teu pae, de quem parece ter herdado +as santas virtudes e os nobres sentimentos. Em vez de ser para ti uma +tortura, a sua presença ser-te-hia um dôce allivio e uma grande +consolação. Crê, se eu fosse mãe de Paulo, sentir-me-hia orgulhosa e +feliz da minha maternidade. + +--E não corarias, ao menos de pejo, ao teres de lhe confessar a serie de +monstruosas torpezas que deram origem ao seu nascimento, Paula? + +--Não me apresentaria como sua mãe... exactamente como eu te proponho +que o faças... A felicidade seria toda tua em poderes vêl-o junto do teu +leito, sabendo que é teu filho e ignorando elle que sejas sua mãe... + +--E a que titulo viria elle aqui, se a verdade não tivesse de lhe ser +dita? Não... não! De que serviria isso? Sou pobre... nada tenho que lhe +legar... Os bens que me pertenciam roubou-m'os o pae bem o sabes... + +--Filha! é impossivel que no fundo do teu coração não esteja o +sentimento mais sublime que póde nascer em peito de mulher--o sentimento +do amor maternal. Tu, que eu conheci tão candida, tão amoravel e doce, +tu que tiveste affectos para mim e para a pequena Lucilia, terás um +coração insensivel á lembrança de teu pobre e innocente filho? Vamos! +não me recuses a consolação de vêr que testemunhaste, ao menos +secretamente e por alguns instantes, toda a grandeza da minha obra de +dedicação e ternura. Puzeste nos meus braços um pequeno sêr, debil e +fragil. Restituo-te um moço util, uma alma d'eleição. + +Paulo, se eu o mandar chamar, virá immediatamente. Ama-me como filho e +não estranhará que eu deseje tel-o junto de mim por alguns dias... +Queres vêr o teu filho, ao menos por curiosidade? Admira o teu filho, +Helena de Noronha e alegra-te com a ideia de que as virtudes da tua raça +viverão n'elle com a mesma intensidade com que brilharam em teu pobre +pae. + +Helena guardou silencio. + +--Pois bem--disse ella passados instantes--deixa-me recobrar alentos... +e sobretudo deixa-me familiarisar com a ideia de que hei-de vêr n'esse +rapaz sómente o meu filho e não o filho do padre Anselmo. Que tempo +tencionas demorar-te aqui, minha amiga? + +--Todo o que tu julgares preciso para a tua convalescença... + +Helena teve um sorriso estranho. + +--Pois sim... Convalescerei breve...--disse n'um tom cuja sinistra +significação não escapou a madre Paula. + +A freira atalhou: + +--É porisso que eu queria que visses teu filho, Helena. Talvez que, +conhecendo-o, sentisses acordarem em ti todos os ternos affectos que nos +prendem á vida. O mundo, hoje, para ti é um deserto. Morres no +isolamento e no abandono do coração... Nada ha que te estimule o desejo +de viver, e consideras a morte como um beneficio. Mas se tivesses a tua +existencia ligada a outra existencia, se te sentisses viver na vida de +teu filho, então, minha querida amiga, terias triumphado da morte, +justamente porque a vida te offereceria encantos. + +--Ah! minha pobre Paula! comprehendes acaso que um risonho dia de +primavera possa reverdecer a arvore a que destruiram as raizes e que, +sêcca, perdeu a seiva e se despiu da folhagem? Eu sou uma arvore morta, +minha amiga! Perdida a seiva da juventude, desfolhadas as minhas +illusões e as minhas esperanças pelo rijo vendaval da desgraça, não ha +mais para mim no mundo possibilidade de existencia tranquilla e +socegada. Oh! agora só peço o esquecimento e a morte como suprema esmola +da Providencia. Perdida a innocencia e as santas crenças da minha alma +ingenua, vivi para a vingança. Realisada esta como um justo castigo de +que fui providencial instrumento, restava-me viver para a expiação de +minhas culpas... Expiei-as em 16 annos de servidão, de humilhações e de +miserias de toda a ordem. Soffri o frio, a fome, as dôres da alma e do +corpo, com a resignação do condemnado que caminha para o patibulo, +conscio da sua libertação pela morte. Remorsos de haver suppliciado o +infame que me perdeu, nunca eu os tive nem podia ter. Mas a dôr horrivel +de haver causado a morte a meu pae e a meu primo... Oh! essa nunca me +abandonou, e tanto bastava para que eu anceasse morrer, como o supremo +bem a que podia aspirar... Chamei-te porque precisava rehabilitar-me no +teu conceito... precisava que, ao lembrares-te de mim, não assomasse aos +teus labios um sorriso de desprezo e me julgasses egual ás outras... + +--Helena, minha amiga, minha irmã... não sejas injusta para commigo! Eu +sabia que a tua grande alma era capaz de amar como era capaz de +aborrecer... A vingança que tiraste do padre Anselmo foi justa e foi +nobre. Libertaste a humanidade de um facinora que a envergonhava... +Dou-te por isso sinceros louvores. Mais fraca do que tu, eu não ousei +pensar sequer em tirar igual desforço d'aquelle que me condemnou a esta +eterna servidão em que vivo... E não pensei, porque o meu coração +deixou-se illaquear nas redes de um affecto vivissimo qual é o que +tributo ao padre Filippe, tu bem o sabes. Tu mais infeliz do que eu, não +amaste... Porisso, o fel do teu odio se converteu em veneno mortal para +aquelle que te perdeu... + +--Não amei, dizes? Amei, sim... amei um homem que teria feito de mim a +mais venturosa das mulheres se, na hora em que o encontrei, eu não fosse +já indigna da estima de um homem de bem. + +--Fallas de Julio de Montarroyo? + +--Fallo, sim, Paula! Amei-o com todas as véras da minh'alma. Amei-o e +fugi-lhe para não soffrer a horrivel dôr de me ver depresada por elle! + +--Tornaste alguma vez a ter noticias suas? + +--Nunca mais. Recuperada a minha liberdade com a morte do padre Anselmo +e separada do meu cumplice, cuja presença me seria horrorosamente +insupportavel, considerei-me morta pela segunda vez. Nem Helena de +Noronha nem _irmã Dorothea_ deviam existir jámais... Portanto, a minha +nova existencia passou a ser outra bem differente das duas primeiras... +Na misera e obscura condição social a que desci, ninguem, nem mesmo tu, +minha amiga, terias adivinhado sequer, quanto mais reconhecido, a filha +de Norberto de Noronha ou a superiora da casa conventual da Covilhã... + +Calou-se offegante e exhausta. + +--Comtudo...--proseguiu passados instantes--comtudo eu poderia ter +trazido do subterraneo da Covilhã uma grande riqueza... e não a +trouxe... + +--Uma grande riqueza, dizes? + +--Sim... O padre Anselmo appareceu-me inesperadamente no convento uma +noite, exigindo que a sua chegada não fosse conhecida de pessoa +alguma... Elle disse-me que tinha de descer ao subterraneo, no +cumprimento sagrado de uma promessa que fizera para que eu +correspondesse dignamente aos pezados e espinhosos encargos do logar +para que me nomeara. E realmente, na noite seguinte--a noite da rigorosa +justiça--elle, persuadido de que ninguem o observava desceu ao +_in-pace_... Mas lá, com a porta fechada á chave por dentro em vez de +rezar aos pés da cruz, como promettera, cavou na terra por muito +tempo... Ouvimos-lhe cá fóra o bater da enxada no solo recalcado... Tive +a suspeita de que alguma coisa importante elle ia esconder alli... E +essa suspeita converteu-se em certeza, quando do alto da cruz a que o +amarraramos, vociferando maldições e insultos sobre mim e sobre o filho +parricida, declarou n'um accesso de furor que possuia riquezas immensas +que tencionava legar ao filho maldito, mas que lhe permaneceriam vedadas +porque o seu thesouro ninguem o descobriria... + +Madre Paula ouvia com singular attenção esta parte da narrativa de +Helena... + +--Talvez isso não passasse de uma allucinação dos ultimos +momentos...--disse ella. + +--Não... O padre Anselmo tinha ido alli enterrar o seu thesouro, estou +bem certa d'isso... Ao expirar, olhou para o lado direito da cruz e o +olhar baço, de moribundo, perdeu-se-lhe no canto mais escuro e mais +sombrio do subterraneo... Se algum dia lá fôres... manda cavar alli... +manda revolver toda aquella terra e encontrarás, estou bem certa, o +producto de tantos crimes accumulados d'aquelle sicario maldito que o +inferno confunda! + +--E o padre Hilario não manifestou desejo de se apoderar do thesouro do +pae? + +--O padre Hilario, esse comprehendes bem... n'aquelle momento, obcecado +pelo amor e pelo ciume, não via nem comprehendia outra coisa que não +fosse a posse da mulher por quem enlouquecera e se tornára parricida... +Deixou o convento no mesmo dia em que eu o deixei, precedendo-me algumas +horas na partida, convencido de que eu iria reunir-me a elle... E nunca +mais... oh, nunca mais voltou á Covilhã, estou bem certa d'isso... +Depois de se vêr ludibriado por mim, a recordação do seu crime deve +ter-se-lhe tornado bem negra! O proprio remorso o deve ter afugentado de +lá... + +--E viverá ainda? + +--Não sei... Se o remorso matasse, elle deveria ter morrido. Mas o +remorso é um veneno que vae minando lentamente a existencia. Tortura, +mas não fulmina, as suas victimas. Elle matou o pae, é bem certo. Mas +tambem eu matei o meu e não morri... Não morri, quando tantas vezes +pedia a morte a Deus! Deve portanto viver. + +--Socega, minha amiga...--observou-lhe madre Paula, vendo-a de cada vez +mais agitada.--Tens fallado muito... e, no estado de abatimento e +fraqueza em que te encontras, é isso uma imprudencia grave. + +Disse e saiu deixando a doente em repouso. + + + + +XXVIII + +Coração morto + + +Helena de Noronha, a instancias de madre Paula e de D. Aurelia, +consentiu em receber a visita de Julio de Montarroyo. + +O encontro d'estes dois desgraçados, depois de tantos annos d'ausencia, +foi tudo quanto póde imaginar-se de mais simples e de mais tocante. + +Elle, um velho quasi demente, ella, moribunda, quasi um cadaver. + +O que vivia n'elles ainda era a reminiscencia de tempos passados, era a +amarga lembrança de uma mocidade distante, que nem um nem outro puderam +gozar na plenitude da ventura que sonharam. + +No fundo de seus corações, estava gravada a imagem de cada um d'elles. +Julio de Montarroyo, nas evocações da sua amada, não via a pobre e +andrajosa creatura de face cadaverica, que o mestre _Tomba_ encontrara +exangue no seu caminho: via a gentilissima e encantadora noviça que, no +convento do Sardão, proferira os sagrados votos, envolta n'uma nuvem de +incenso, entre o resplendor das luzes e os canticos das religiosas suas +companheiras de fé e martyrio. Ella, pela sua parte, quando volvia os +olhos ao passado e proferia o nome de Julio, era sempre a imagem do +louro e gracioso mancebo da Serra do Carvalho que via reflectir-se na +sua retina de allucinada. + +E assim se amaram e se viram com os olhos da alma no longo precurso dos +dezoito annos decorridos. + +Nem um nem outro jámais havia pensado que o tempo, na sua marcha +destruidora, pudesse ter roubado a frescura e a gentileza áquelles +rostos que mutuamente se reviam nas horas tristes de uma ausencia +crudelissima. + +Foi, pois, com um mixto de surpresa e de doloroso espanto que os dois se +encararam, quasi sem se reconhecerem. + +Julio de Montarroyo recuara um passo aterrado diante d'aquella moribunda +que, com os olhos desmesuradamente abertos e os labios como que a +reprimirem um grito de surpresa, o observava apavorada. + +--Não esperava encontrar-me tão velho, não é verdade, Helena de Noronha? + +--Diga antes, meu amigo--volveu-lhe Helena--que não esperava tornar a +vêl-o n'este mundo... Pensava ir esperal-o na outra patria... na patria +dos grandes desgraçados, onde as dôres acabam e a ventura começa... +Seria melhor para si... poupal-o-hia ao doloroso espectaculo que está +presenceando... Procurava Helena de Noronha e encontra um cadaver, não é +assim? + +Julio aproximou-se do leito, tomou a mão descarnada da pobre Helena e, +levando-a aos labios com piedoso respeito, apenas pôde murmurar: + +--Ha dezoito annos que a procuro, Helena... ha dezoito annos que a sua +imagem occupa constantemente o meu pensamento, que o seu nome é a oração +unica que meus labios sabem proferir. Posso agora morrer, pois que a +encontrei viva para lhe dizer que não a esqueci, que, fiel ao amor que +lhe jurei, gastei a mocidade e a vida, percorrendo o mundo em sua +procura. + +--Pobre amigo!--murmurou Helena com as lagrimas a bailarem-lhe nos +olhos--Era digno de melhor sorte! Eu fui a sua má estrella... Era fatal +que todos os que se aproximassem de mim fossem infelizes! E todavia, +Deus sabe que nunca pratiquei o mal pelo mal... Aquelles que eu mais +amei foram aquelles que mais fiz soffrer... Perdôe-me, Julio! perdoe-me +e creia--agora posso dizer-lh'o, porque me sinto já bafejada pelo sopro +gelido da morte--creia que foi o unico homem que fez palpitar o meu +pobre coração de mulher... + +--Se isso era assim, porque não veio, Helena, porque não veio quando a +chamei, quando a instei a que abandonasse o convento e viesse salvar seu +pobre pae? Que desgraças teria poupado, minha pobre amiga! + +--Não podia... não podia!... Era impossivel sahir d'aquelle inferno em +semelhante occasião... Ah! se soubesse que horriveis laços me prendiam +ao poste de martyrio em que eu agonisava, decerto não me lançaria agora +em rosto a minha recusa! + +--Deus me livre de a accusar, Helena! Amo-a muito para que pense em +dirigir-lhe a menor censura, o mais leve queixume... + +--Ama-me, diz! Deve amar-me como se amam os mortos... com a saudade e o +luto no coração, porque eu, meu amigo, não sou mais que um cadaver. + +Julio de Montarroyo abeirou-se do leito, tomou-lhe a mão, que levou aos +labios respeitosamente exclamando: + +--Não falle em morrer, minha amiga! Deus, que permittiu que nos +tornassemos a vêr, ha de tambem permittir que resurja para a vida e para +a felicidade... + +--Não, não... É inutil toda a esperança. Deus é bom, Deus é justo e +misericordioso; e se consentiu que o meu amigo ainda me encontrasse +viva, foi unicamente para que pudesse ouvir dos meus labios esta +confissão sincera e franca do meu amôr: Amei-o, Julio de Montarroyo... +amei-o, para maior desgraça e castigo meu!... Se esta declaração feita á +beira do tumulo póde servir-lhe de algum lenitivo... receba-a como a +sincera expressão de uma alma que passou no mundo incomprehendida... + +--Helena! fossem quaes fossem os motivos que a impediram de salvar seu +pobre pae, quando eu anciosamente lh'o supplicava; fossem quaes fossem +as rasões que a levaram a faltar á sua promessa de me dar noticias suas +em Paris, tudo respeito e tudo dou por justo e bem cumprido; mas, por +Deus lh'o peço! reanime-se, ganhe novos alentos e triumphe da doença e +da morte para me conceder, ao menos no ultimo quartel da minha +desgraçada existencia, a esmola bemdita da sua presença! + +--Que não cumpri a promessa de lhe dar noticias minhas em +Paris?--balbuciou Helena fazendo visiveis esforços para se recordar--Não +tenho a minima ideia de alguma vez ter sabido que o senhor estaria em +Paris. + +--Pois não me escreveu uma carta dizendo-me que partia para lá e +convidando-me a que a seguisse á capital de França e ahi aguardasse +noticias suas? + +--Nunca lhe escrevi tal carta!--bradou Helena surprehendida. + +--Todavia, eu recebi uma carta sua, com a sua letra e a sua assignatura +a dar-me parte da sua ida para França e a pedir-me que a seguisse... Não +foi realmente para Paris? + +--Nunca sahi do reino! Essa carta é mais uma infamia do miseravel que me +perdeu! + +--A letra, porém, era de tal modo semelhante á sua que a tomei como +verdadeira, e parti immediatamente, na ancia de cumprir as suas ordens! + +--Meu pobre amigo! Como esse maldito padre abusou da sua boa fé! + +--Esperei-a pacientemente, durante, muitos mezes no Hotel das Nações, +aonde ficara de me mandar noticias. Como, porém, a minha espectativa +fosse baldada, resolvi-me a procural-a por todos os conventos e casas +religiosas da França; e não a encontrando, passei á Hespanha, á Italia, +á Africa, ao Brasil, a toda a parte, emfim, onde a negra milicia exerce +as suas hypocritas manobras, sempre sem poder achar o menor vestigio da +sua passagem, minha pobre amiga! Bem sabia que o meu projecto de a +encontrar por semelhante modo era uma loucura irrealisavel. Mas emquanto +a procurava, vivia da esperança de a encontrar, a sua imagem estava +presente sempre ao meu espirito, o seu nome era o meu constante +pensamento... Perdidos dezeseis annos de vida n'estas investigações sem +resultado, cheguei a convencer-me de que estava morta; e então, não +podendo alimentar-me mais da esperança de a tornar a vêr, quiz ao menos +cercar-me de tudo quanto fosse uma recordação sua, e comprei a casa de +seu pae, onde tudo me fallava d'aquella que tanto amara e que fôra a +minha unica aspiração n'este mundo. + +Helena de Noronha fitára no desgraçado os seus grandes olhos brilhantes +de febre e duas grossas lagrimas lhe rolaram silenciosas pelas faces. + +--Foi de todos o mais infeliz, meu pobre amigo!--suspirou ella.--Quiz +Deus, para me punir da minha ingratidão e desobediencia para com meu +pae, que eu não morresse antes de avaliar bem o enorme thesouro de +affectos que perdi n'essa nobre alma, tão digna de melhor sorte e de +mais ventura! ....................................................... +....................................................... + +Helena de Noronha escutara com uma expressão de profundo assombro, que +mais e mais se lhe accentuava no rosto á medida que ia ouvindo, a +narrativa de Julio. + +Quando este chegou ao fim, comprehendeu então que tinha sido amada por +aquelle homem com um ardôr e um enthusiasmo que tocava as raias da +loucura. Um mixto de dôr e de felicidade inaudita lhe agitou o seio +arquejante. Pôz as mãos e levantando os olhos ao ceu, exclamou: + +--Graças, meu Deus!! que se foi grande o soffrimento que me déste, em +expiação das minhas faltas, tambem não é menor a consolação que me +concedeste, permittindo que eu me soubesse tão profundamente amada! + +E volvendo os olhos para Julio, n'uma accentuação de vidente: + +--Meu amigo--acrescentou--uma outra patria nos espera, que não esta em +que tantos soffrimentos e martyrios nos attribularam a existencia. Lá +nos encontraremos, Julio. Agora mais do que nunca o acredito, porque +Deus, tão logico e tão consequente em tudo quanto fez e creou, seria +monstruosamente absurdo se désse á creatura humana os horrores de um +martyrio que ella não provocou, para a lançar por fim no aniquillamento +absoluto, de par com os que nada soffreram e muito gozaram. Não! não +póde ser! Soffrer sem motivo, gozar sem merito, unicamente pelo capricho +de um acaso fortuito, de uma circumstancia inesperada, não póde ser. Que +eu soffresse e me encontre reduzida a este misero estado em que me vê, +recebendo a esmola de um abrigo da compassiva mão de uma amiga, +comprehende-se, é justo, é logico que assim succedesse, porque o meu +crime provocou a expiação. Mas o senhor, moço, rico e feliz, sem um +ligeiro desvio do caminho do bem e do dever, porque motivo soffreu +assim? Porque motivo andou errante dezesseis annos pelo mundo, em busca +de uma felicidade que lhe fugia, expiando de um modo cruel as faltas de +outrem... as minhas faltas? Eis aqui o innocente envolvido na +condemnação do culpado... Porque? Isso é o que não se comprehende, e +resultaria absurdo monstruoso, injustiça flagrante, sem a existencia de +uma vida futura em que as faltas teem de ser relevadas pela expiação e +os martyres innocentes terão de ser recompensados... Oh! não tenha +duvida, Julio de Montarroyo, isto não acaba, não póde acabar aqui! + +Esta longa tirada foi dita com um ardor e uma agitação de tal modo +violenta, que bem deixava perceber a excitação febril da doente. + +Julio de Montarroyo tentou socegal-a. + +--Minha amiga--disse-lhe elle--é bem certo que muito temos ainda que +esperar da misericordia e da justiça divina. E é por isso mesmo que eu +lhe peço, minha querida Helena, que tenha animo e coragem, que não +desanime nem descreia de quem tudo póde e tudo ordena. Tenho fé que +virão dias melhores para nós n'este mundo... Depois de uma juventude tão +tormentosa e cortada de crueis vicissitudes, não será licito esperar que +Deus se amerceie do nosso soffrimento de tantos annos e nos reserve na +ultima quadra da existencia alguns dias de serena tranquilidade na +companhia d'aquelles a quem mais queremos? + +Um amargo e triste sorriso, vincando os labios da doente, respondeu a +estas palavras. + +Julio tentava ainda illudir-se e queria communicar ao coração da enferma +um raio da pallida esperança que já mal o animava a elle. + +--Vou deixal-a, Helena. O repouso deve fazer-lhe bem. Espero que amanha, +quando voltar, hei de encontral-a mais serena e mais bem disposta a +encarar a nossa situação por outro prisma. Escuso dizer-lhe que a sua +casa é ainda e sempre sua. Não deverá, á esmola nem á compaixão de +ninguem o abrigo do mesmo tecto que a acolheu na infancia. Peço-lhe só +que melhore; e no dia em que recobrar forças para entrar em sua casa, eu +sahirei d'ella, se a minha boa e querida Helena de Noronha não achar no +mais intimo da sua alma uma solução que permitta a convivencia dos dois +no mesmo lar... De qualquer das fórmas, o seu coração decidirá... + +--O meu coração está morto para tudo o que é d'este mundo, meu +amigo...--balbuciou Helena, cahindo agora em profundo +abatimento--Agradeço-lhe a generosidade com que pretende ainda insuflar +no meu espirito um resto de apêgo á vida... Mas eu estou morta, creia... + +--Pois bem!--exclamou Julio n'um impeto de desespero--se de todo em todo +pretende morrer, morreremos ambos! Se não podemos unir-nos durante a +vida, faremos ao menos a eterna viagem no mesmo dia e á mesma hora. + +--Louco! Ignora que a vida é um deposito precioso de que não é licito a +nenhum de nós despojar-se, sem que nos seja reclamada por quem nol-a +confiou? + +--Se a vida é um favor, eu tenho o direito de a recusar, por isso mesmo +que a não pedi. Se é um ultrage que se me faz, um soffrimento a que me +condemnam, maior direito me assiste de a rejeitar, pois que o juiz que +me castiga se abstem de me dizer o delicto de que sou reu! + +--Não falle assim, meu amigo! Quem teve animo para soffrer até aqui, +deve tambem ter coragem para supportar o resto e esgotar até ao fim o +calix da amargura que lhe foi offerecido... Adeus! Amanhã tornaremos a +vêr-nos e tenho esperança de que o hei-de encontrar mais resignado... + +Estendeu-lhe a mão descarnada e transparente que elle beijou; e, +extenuada, pousou a cabeça no travesseiro, onde se sumiram duas grossas +lagrimas que furtivamente se lhe escaparam dos olhos semi-cerrados. + + + + +XXIX + +Confidencias + + +Em quanto estas scenas se passam em S. Martinho do Campo, voltemos nós +ao Porto, entremos na mysteriosa casa de S. Bento da Victoria, onde já +uma vez introduzimos o leitor, e ouçamos o dialogo alli travado entre +Jorge de Gusmão e o singular e estranho personagem a quem o amigo de +Paulo dava o tractamento de _Mestre_. + +O homem dos occulos verdes está, como da outra vez, sentado á sua banca +de trabalho, e falla com affectuoso semblante para aquelle que parece +ser o seu discipulo querido. + +--E então--pergunta elle--como vão os negocios do nosso novel irmão? + +--Mestre, quanto ao rapto de Beatriz, nada transpirou ainda. Eugenio de +Mello, apesar de morto, continua a carregar com as culpas do +desapparecimento da rapariga. A loura, industriada por João Lazaro, +persiste em affirmar que Eugenio se suicidou, porque, tendo ella +recusado emprestar-lhe dinheiro para fugir para Hespanha, +inesperadamente disparou um tiro na cabeça, declarando n'esse momento +que estava perdido e que só a morte lhe restava como ultimo recurso. + +--De modo que a policia, sem provas e sem indicios que justifiquem a +suspeita de um crime, não terá remedio senão pôr a loura em liberdade. + +--Creio bem que sim. Demais a mais, a bala foi diparada tanto a +sangue-frio e com tal habilidade, que, pela autopsia, não se descobriu +indicio compromettedor. + +--E quem sabe se realmente se trata de um suicidio? + +--Não creio, Mestre. Em primeiro logar, Eugenio de Mello era crynico +bastante para não pensar em matar-se, fossem quaes fossem as desgraças +que o acabrunhassem. Em segundo logar, João Lazaro é sufficientemente +preverso para induzir a loura, de quem deseja apoderar-se, a praticar +este assassinato por vingança. Tenho, pois, a certeza, quasi iria +jural-o, que Eugenio de Mello não se suicidou. + +--O que de resto pouco deve importar-nos... A sociedade não perdeu nada +com a eliminação d'aquella existencia... + +--Absolutamente nada. Pelo contrario, lucrou. Agora, quanto a Paulo, +partiu hoje para fóra do Porto, a juntar-se á sua mãe adoptiva, á madre +Paula, que o mandou chamar de S. Martinho de Campo, onde se encontra, a +pretexto de que precisa que elle lhe vá fazer companhia. + +--Paulo partiu para S. Martinho de Campo?--perguntou o homem dos +occulos, frazindo o sobr'olho. + +--Partiu. + +--É singular!--disse elle--E que genero de negocio retem madre Paula +n'esse logar? + +--Não sei. Em uma das suas primeiras cartas, madre Paula explicava que +tinha sido chamada alli por uma amiga intima, que já não via ha muitos +annos, e que se encontrava perigosamente enferma... + +O _Mestre_ ficou silencioso por algum tempo, como que buscando uma +explicação para este facto. + +--É extraordinario!--disse elle por fim, quasi fallando comsigo mesmo--é +extraordinario que madre Paula mande chamar o seu protegido para lhe +fazer companhia, quando sabe que a sua ausencia de junto da noiva +importa para o pobre moço um verdadeiro sacrificio... + +--Tambem me quiz parecer isso. + +--Bem!--concluiu o Mestre--o verdadeiro motivo d'esse estranho +chamamento ha de saber-se... + +--Se o Mestre entende que devemos proceder a averiguações... + +--Sim. Convem saber quem é e como se chama essa amiga que retem junto de +si madre Paula. + +--É coisa facil. A _Mão Negra_ está de tal modo ramificada, que em toda +a parte encontramos irmãos a quem recorrer em casos extremos. O Mestre +bem o sabe, pois que a obra é sua e á grande energia e profundo saber +com que nos tem guiado deve a nossa Associação o rapido impulso e a +prodigiosa importancia que conquistou. + +O homem dos oculos fixou por alguns instantes, atravez dos vidros, os +olhos no seu interlocutor e disse: + +--Jorge, a _Mão Negra_ póde ser um instrumento do Bem, como póde ser um +instrumento do Mal, conforme o pensamento do seu supremo dirigente fôr +alevantado e nobre ou mesquinho e vil. As bases em que assenta a nossa +mysteriosa aggremiação permittem concentrar na mão de um só homem a +vontade e as energias de muitos; e d'aqui resulta uma cohesão e um poder +de tal modo irredutivel, que força alguma da terra ousará combatel-o ou +destruil-o. A nossa principal força está no mysterio em que ella se +exerce. Todos os demais poderes vivem publicamente, á luz do dia; os +seus menores movimentos, as suas mais occultas intenções poderão ser +observadas e surprehendidas. Nós, pelo contrario, trabalhamos na sombra, +e a nossa acção, exercitando-se livremente, faz-se sentir sem deixar +conhecer a origem. Isto torna-nos invulneraveis como a propria +divindade. Assim, podemos dizer: «Os homens propõem e a _Mão Negra_ +dispõe». + +--É certo--confirmou Jorge--Mas que outro cerebro, senão o do Mestre, +poderia conceber e realisar o maravilhoso plano da nossa Associação, de +modo a prender nos fios subtilissimos de uma grande teia de interesses +communs o destino de todos e de cada um? Confesso, Mestre, que só um +espirito superior e uma sciencia profunda como a sua poderiam levar a +cabo tamanha e tão extraordinaria empreza. + +O homem que dava pelo nome de Mestre fitou Jorge com interesse, e n'um +tom repassado de extraordinario carinho, disse-lhe: + +--Tu, meu amigo, és novo, és forte e és intelligente. A ti está +reservada a alta missão de continuares um dia a minha obra, que é +realmente grandiosa. + +--Eu, Mestre--replicou Jorge--tenho os hombros extremamente debeis para +tamanha empreza. + +--Não. Tu és o unico de entre tantos que deverá succeder-me. Como sabes, +eu sou o poder occulto que tudo dirijo e tudo governo dentro da nossa +Associação. Em meu nome, poderás governar, mandar e dirigir, mesmo +depois da minha morte. + +--Pensa em morrer? Mestre!--exclamou Jorge surprehendido. + +--A ideia da Morte deve estar sempre presente ao homem que, podendo +tanto, só não póde prolongar a vida uma hora, um instante mais alem +d'aquelle que marca o fim da sua existencia sobre a terra. Ha muito que +eu penso, Jorge, na maneira de triumphar da Morte continuando a viver na +vida e no pensamento da nossa Associação; e, sendo assim, eu não podia +deixar de pensar em ti como meu continuador... + +--Oh, Mestre!--fez Jorge commovido. + +--És o unico que ha muitos annos privas particularmente comigo; és o +unico que bem conhece os fios occultos que movem a nossa Associação; és, +portanto, o unico no caso de me succeder e de sustentar com honra e +brio, com dignidade e consciencia, as tradicções já gloriosas da _Mão +Negra_. Não esqueças, meu filho, que ella é a ingente força, o supremo +poder, e terá no futuro em suas mãos os destinos da humanidade. + +--Mas a sua sciencia, Mestre, esse espirito investigador e profundo, +essa intelligencia privilegiada, esse cerebro potentissimo que tudo +pensa, tudo prevê e tudo resolve, como poderei eu substituil-o? + +O Mestre sorriu. + +--Quando eu faltar--disse elle--virás a esta casa, encerrar-te-has +n'esta sala, sentar-te-has n'esta cadeira, tal como eu estou agora, e +consultarás o archivo secreto da nossa Associação. Ha +aqui--accrescentou--todos os elementos de que careces para proseguir +desassombradamente o caminho que encetei. + +Depois abriu uma gaveta da meza, tirou um enorme livro encadernado a +preto e com fechos de metal. + +--Este livro--disse elle, abrindo-o--está em branco. Quando eu morrer, +basta que lhe passes por cima de cada folha uma lamina de ferro, +aquecida, para que a tinta sympathica em que está escripto se revele e +te permitta fazer a leitura. Então encontrarás aqui a historia d'este +homem mysterioso a quem tanto te affeiçoaste e cuja origem desconheces. +Este livro que é toda a minha vida e toda a minha sciencia, é tambem +toda a vida da nossa Associação. Sê prudente, sê sabio e sê justo, meu +filho; e se a historia da minha vida puder merecer-te uma lagrima de +compaixão, que essa lagrima se crystalise e se transforme na perola dos +nobres intuitos, como symbolo do Bem com que eu quiz redimir tanto mal +feito e recebido da mão da perfidia e da traição humana. + +Jorge ouvia o velho sem o comprehender, mas sentia-se singularmente +commovido. + +--Mestre!--exclamou elle com voz tremula e repassada de +ternura--afastemos para longe de nós a ideia da morte. Não me assusta a +perda da propria vida, mas aterra-me o pensamento de que posso ver +morrer aquelle que tem sido o meu melhor amigo, o meu verdadeiro e unico +Mestre. + +Os dois calaram-se e permaneceram mudos e silenciosos por alguns +instantes. + +Evidentemente, uma profunda commoção embargava n'esse momento a voz +áquelles dois homens energicos, tão fortes e tão activos que, +consubstanciados no mesmo pensamento, tinham conseguido organisar, +dominar e dirigir com superior intelligencia uma das mais poderosas e +terriveis associações secretas dos nossos dias. + +--Meu amigo--disse por fim o mysterioso personagem dos oculos--era +indispensavel que eu te manifestasse a minha ultima vontade, antes de +partir para a grande romagem. Não é que eu pense realisal-a breve; mas +como a vida é um thesouro de que apenas somos depositarios, um valor á +ordem que pode ser-nos reclamado de um momento para o outro, o meu dever +é prevenir. Aqui tens e aqui ficam n'este livro todas as indicações +precisas para poderes continuar a minha obra. Se eu faltar, repito, +assume a direcção suprema da _Mão negra_, e o meu espirito será comtigo. + + + + +XXX + +Mãe + + +Madre Paula enviára o _Tomba_ ao Porto com uma carta a chamar para junto +de si o filho da _Irmã Dorothea_, sob pretexto de que precisava da sua +companhia por alguns dias, para suavisar com a sua presença o +aborrecimento do padre Filippe, constrangido a permanecer alli emquanto +ella velava o leito de uma amiga intima, perigosamente enferma. + +No mesmo dia em que Paulo chegou, a abbadessa approximou-se do leito de +Helena e disse-lhe sorrindo: + +--Deixas que eu te entremostre, minha amiga, um pedaço do ceu azul da +tua existencia por entre as brumas do soffrimento que te opprime? + +--O que queres dizer? + +--Quero dizer que está n'esta casa, debaixo do mesmo tecto que te +abriga, um rapaz que seria o orgulho e a consolação de sua mãe, se sua +mãe consentisse em o vêr e lhe fallar... + +--Meu filho!?--bradou Helena em sobressalto com um afflictivo gesto de +terror--Pois tu, Paula, trouxeste a esta casa esse testimunho vivo da +minha deshonra? + +--Quem o conhece, senão eu e tu? Para todos os effeitos, Paulo é meu +sobrinho, e elle proprio está longe de pensar em que se encontra tão +perto de sua mãe... + +--Embora! Por Deus, poupa-me a esse enorme sacrificio, a essa horrorosa +angustia! + +--Helena, porque teimas em te mostrar sem coração, quando toda a tua +vida está provando o contrario, filha? Lembra-te de que o mesmo terror +experimentaste quando se te fallou em receberes Julio de Montarroyo. E +comtudo, a sua presença, em vez de te mortificar, alegrou-te, quasi te +restabeleceu... Pois bem; deixa-me apresentar-te agora teu filho. Nada +te obriga a reconhecel-o. O segredo fica entre ambas. Se a sua presença +te affligir, se continuares a detestal-o, eu o arredarei para longe de +ti... Se, pelo contrario, te sentires bem ao lado d'elle, ouvindo-o e +apreciando-lhe as nobres qualidades, ficará e continuará a vêr-te, como +uma pessoa amiga, na ignorancia absoluta dos laços que o prendem a ti... + +Helena de Noronha guardou um silencio indeciso que era quasi uma +acquiescencia. + +As palavras de madre Paula eram de uma tão irresistivel persuazão, que a +doente nada tinha a oppôr-lhes. + +--Comprehendes--disse ella--que nem curiosidade nem affecto podem +mover-me a receber esse rapaz que para mim não passa de um estranho... + +--E como estranho se conservará a teu lado... Quem o duvida?--tornou a +religiosa com aquelle meigo sorrir que se prodigalisa aos enfermos +impertinentes e caprichosos.--Aqui, ha apenas da minha parte o interesse +de que conheças teu filho, que revivas nelle os tempos felizes da tua +infancia, recordando nas suas feições as feições de teu pae... + +--Pois sim... que venha!--disse por fim Helena, com visivel esforço. + +Paulo foi introduzido no quarto da doente. + +O mancebo, com a polidez propria das pessoas indifferentes, abeirou-se +do leito; e pois que madre Paula lhe explicára que esta approximação +tinha unicamente por fim distrahir a sua amiga e desviar-lhe o espirito +de dolorosas preoccupações moraes que a obsidiavam, envidou todos os +esforços por tornar alegre e interessante a sua conversação. + +--Disseram-me que v. ex.^a--principiou elle por declarar, dirigindo-se a +Helena--ainda por muito tempo reteria junto do seu leito esta boa e +santa senhora que é minha mãe; e esta alarmante perspectiva obrigou-me a +vir supplicar-lhe que se restabeleça o mais breve que ser possa, porque, +em verdade, minha senhora, começo a sentir-me lesado nos meus sagrados +direitos... de filho. + +--Não é minha vontade prejudical-o...--replicou Helena fitando-o e +estudando-lhe demoradamente as feições.--Quando escrevi á minha amiga +Paula, pedindo-lhe a esmola da sua companhia, estava bem longe de suppôr +que um tal pedido significasse uma contrariedade para alguem... + +--Oh, minha senhora! peço-lhe que não tome á lettra as minhas +palavras--atalhou Paulo rindo.--Isto é mero gracejo da minha parte e +tanto mais desculpavel quanto é certo que v. ex.^a se me affigura em via +de um prompto restabelecimento... E como não quero passar tambem sem o +meu quinhão de importancia n'este jubiloso caso de a vermos restituida á +saude e á vida, tracto de fazer valer, desde já, os meus direitos a um +louvor que não mereço... De resto, minha senhora, eu felicito-me de a +encontrar n'um estado que está bem longe de ser o que á minha imaginação +se apresentava. Julguei vir encontrar uma velhinha na agonia, uma luz +bruxuleante, quasi a extinguir-se; e com grande surpreza e alegria +minha, encontro uma senhora nova e formosa ainda. V. ex.^a, embora um +pouco abatida pela doença, apresenta um aspecto promettedor de muita +vida... Antes assim! + +--É demasiado lisongeiro para com uma pobre doente, sr. Paulo de... + +--De Noronha, minha senhora--apressou-se Paulo a dizer, notando a +hesitação de Helena. + +--Ah! v. ex.^a usa esse appellido?--não pôde Helena impedir-se de +perguntar. + +--Uso, minha senhora; e se quer que lhe falle com franqueza, não sei bem +porquê... + +--Naturalmente, appellido de seus paes... + +--Não os conheci, nunca tive a menor noticia delles... Tanto sei se eram +Noronhas como se eram Silveiras... Podiam ser uma e outra coisa, ou +podiam não ser coisa nenhuma d'estas... Quem podia talvez dizer-me +alguma coisa com verdade a esse respeito era minha mãe... + +--Sua mãe!--interrompeu Helena, mal podendo dominar o +sobresalto--Conhece-a? + +Paulo indicou rindo madre Paula: + +--Pois eu não disse ainda a v. ex.^a que minha mãe é esta santa senhora +que v. ex.^a tem por amiga? + +Madre Paula interveio: + +--Não te admires, minha amiga. Paulo habituou-se a chamar-me _mãe_, não +obstante saber que não é a mim que deve a existencia... + +--Pois a quem a devo? Que outra mãe conheci eu, que affectos, que +carinhos, que disvellos e cuidados devo a outra que não seja a nobre e +santa creatura a quem me estou dirigindo?--accudiu Paulo voltando-se +para a superiora,--É bem certo--creio-o e não discuto--que devo a +existencia a um acto physiologico de terceiros, que me produziram, tão +independentemente da sua vontade como da minha, e que por isso mesmo se +julgaram desobrigados de me reconhecer e amparar. Mas esse facto não +envolve sentimento impeditivo do meu amor e ternura filial para com +aquelles a quem tudo devo, a quem considero meus unicos e verdadeiros +paes e que são madre Paula e o padre Fillippe. + +--Deve então odiar muito aquelles que lhe deram o sêr...--balbuciou +Helena com os olhos fitos nos do filho. + +--Não os odeio, minha senhora, lamento-os. + +--Por natural instincto do coração talvez... + +--Não. Por uma tendencia especial do meu espirito para deplorar a sorte +de todos aquelles que se afastaram da linha recta do dever e resvalaram +no crime ou na cobardia. + +--É singular! Como explica isso? Se não conheceu seus paes, como póde +saber se elles fôram cobardes ou criminosos? + +--A minha propria existencia m'o diz, minha senhora. Eu appareço no +mundo, filho de paes incognitos... isto é, filho de pessoas que me +negaram a paternidade ou para se não macularem a si proprias ou para me +não macularem a mim. No primeiro caso, se temeram a macula do meu +nascimento e a ella se furtaram pela vilta do anonymo, esta acção +reflecte a cobardia dos seus sentimentos, porque não tiveram a coragem +de assumir a responsabilidade dos seus actos. No segundo caso, se a sua +situação era de tal modo contraria ás leis sociaes que, do chamarem-me +_filho_, revertia para mim uma vergonha inilludivel, nenhuma duvida +resta de que meus paes fôram criminosos. De qualquer modo, dois +desgraçados com os quaes não tenho nem quero nada de commum, a não ser +para os lamentar, como sempre lamento todos aquelles que, podendo ser +dignos e honestos, o não são, faltando aos dictames da sua consciencia e +ao cumprimento dos seus deveres. + +--Então, se seus paes um dia lhe apparecessem a reivindicar o direito +que teem á sua ternura, repudial-os-ia--perguntou Helena com a voz de +cada vez mais sumida. + +--Não, minha senhora--replicou Paulo serenamente--não os repudiaria, que +não é do meu animo repudiar os que soffrem e os que se arrependem. Mas +se pedissem ao meu coração mais do que o compassivo sentimento que se +tem para com todos os desgraçados, responder-lhes-ia que o meu amor e a +minha ternura filial pertenciam exclusivamente áquelles que me foram +paes adoptivos na infancia--a madre Paula e ao padre Filippe. + +Helena baixou os olhos e as faces purpurearam-se-lhe n'uma commoção +facil de explicar. + +--Tem razão--murmurou ella--No entanto, talvez que motivos ponderosos +forçassem sua mãe a... + +--A não ser minha mãe?--atalhou Paulo--Perfeitamente de accordo. A mim +cumpre-me respeitar esses motivos que não conheço e que nem sequer tento +conhecer. Mas v. ex.^a comprehende muito bem que, se minha mãe teve +motivos para me arredar de si como a um objecto incommodo e +compromettedor, eu não posso ter no fundo do meu coração razões que +justifiquem e fundamentem qualquer affecto e ternura especial por ella. +De resto, nós estamos apenas formulando hypotheses que estão muito longe +de factos, pois não creio que venha a dar-se o caso de meus paes um dia +apparecerem a reclamar o filho que por tantos annos repudiaram. + +--Quem sabe?--observou madre Paula--Não admittiste ha pouco a hypothese +de que possam soffrer ou arrepender-se? + +--No campo das supposições, tudo póde admittir-se, minha boa mãe, porque +tudo póde suppôr-se... Mas para que havemos de estar a preoccupar-nos +com um assumpto que não interessa a nenhum de nós, e principalmente a +mim? O facto é, minha senhora--proseguiu elle, voltando-se para +Helena--que eu, a despeito da irregularidade do meu nascimento, sou +feliz quanto o póde ser um homem nas minhas circumstancias. + +--Deve muito á Providencia, visto isso!--disse Helena suspirando,--ha +tão poucas pessoas que, mesmo bem nascidas, possam dizer-se felizes!... + +--É certo. Porém eu, até agora, e presentemente, posso considerar-me a +mais feliz das creaturas. Abandonado por meus paes... + +--Mas quem te disse a ti que teus paes te abandonaram?--atalhou, +docemente reprehensiva, madre Paula--É muito avançar, quando nada sabes +a esse respeito, Paulo! + +O mancebo sorriu. + +--Se eu penso assim, a culpa não é por certo minha, mas tão somente +d'aquelles que tenazmente se teem recusado a dizer-me uma palavra unica +que me illucide ácerca do meu nascimento. + +E voltando-se para Helena: + +--Desde a mais tenra infancia que eu vivo exclusivamente do amparo e dos +carinhos do padre Filippe e de madre Paula, que considero meus paes pela +grandeza do beneficio e pela constancia do affecto. Não conheci outros, +nunca me fallaram de outros, nunca d'outros me deram noticia. Já homem, +tive um momento na minha vida em que senti a necessidade cruel de +penetrar o mysterio do meu nascimento para poder dizer á mulher que +amava e que escolhera para companheira de toda a minha existencia, o +nome de meus paes. Interroguei o padre Filippe. Respondeu-me que não os +conhecera, que d'elles não tivera nunca noticia, e que eu fôra passado á +sua benevolente e humanitaria tutella, como um _legado_, no espolio de +um padre seu amigo, que morrera e que levara comsigo para a sepultura o +segredo da minha vinda a este mundo. Creio que, n'estas circumstancias, +quer as palavras do padre Filippe exprimam a verdade quer a encubram, o +abandono não póde ser mais evidente nem mais completo. Não é v. ex.^a +d'esta opinião, minha senhora? + +--De certo--murmurou Helena com voz tremula. + +--Mas eu não accuso meus paes do seu procedimento para commigo, nem +quando emprego esta palavra _abandono_ lhe ligo o menor sentimento de +revolta e indignação que ella póde inspirar. Nada d'isso. Elles +procederam assim, porque talvez tiveram motivos para assim proceder. +D'esses motivos, porém, não fui eu o culpado, e isso me basta pensar +para minha completa tranquillidade. Para tranquillidade d'elles, se +forem vivos e souberem de mim, bastar-lhes-ha a certeza de que sou +completamente feliz com o amor de madre Paula e da minha noiva, e com a +estima e paternal affecto do padre Filippe. Aqui está, pois, um drama +que talvez no seu inicio ameaçou ser de lagrimas e que, por um +extraordinario desenrolar de circumstancias favoraveis, acaba por +apresentar todos os personagens felizes e contentes comsigo mesmos! + +Ao proferir estas ultimas palavras, Paulo ria jubiloso, com aquella +alegria franca do seu temperamento expansivo e sincero. + +Helena de Noronha, de cada vez mais encantada com a attitude +despretenciosa e alegre d'aquelle rapaz que reproduzia nas feições e nos +gestos os modos e as feições de Norberto de Noronha, sentiu-se +extraordinariamente feliz ao ouvir da bocca do proprio filho palavras de +compassivo perdão para o criminoso abandono a que ella o votara. + +--O senhor--disse ella--possue uma alma nobilissima e um coração dotado +de generosos sentimentos. Merece ser feliz; e uma vez que já o é, busque +nortear-se sempre pelos dictames da piedade e da compaixão, mesmo para +com aquelles que o offenderam ou aggravaram... + +O tom quasi supplicante em que estas palavras foram ditas não escapou a +madre Paula que, com a sua natural perspicacia, comprehendeu bem o que +se passava na alma da sua amiga. + +--Paulo é um bello caracter--interrompeu ella envolvendo o mancebo n'um +olhar de maternal ternura--e sinto verdadeiro orgulho de ter sido eu a +sua educadora... Eu e o padre Filippe--emendou logo--porque é justo não +esquecer que esse exemplar sacerdote tem tido com este filho adoptivo +todos os extremos e disvellos de um pae. + +O mancebo começou então recordando alegremente passagens esquecidas da +sua infancia, travessuras de creança, brincadeiras, affagos e +reprimendas do padre Filippe e de madre Paula, e n'isto levou algumas +horas, que muito distrahiram e interessaram Helena de Noronha, agora de +todo familiarisada com o filho. + +Quando Paulo, pretextando não querer com a sua conversação fatigar o +espírito da doente, se retirou promettendo voltar depois, a religiosa, a +sós com Helena, perguntou-lhe: + +--E então? + +--Então, minha querida Paula--exclamou a enferma--é bem meu filho, é bem +o neto de Norberto de Noronha aquelle rapaz que alli está! + +--Não te dizia eu que Paulo era um bello e excellente moço, reflectindo +na figura varonil e cheia de nobreza as feições de teu pae? Dize-me, não +será elle digno de que o ames como filho, e por elle e para elle busques +ainda viver? Não seria doce e consolador para ti vêr-te, depois de +tantos annos de soffrimentos e amarguras, querida e amada por quantos te +rodeiam? + +Helena teve um sorriso e os olhos brilharam-lhe n'um fugitivo anceio de +felicidade. + +--Sim... sim!...--disse ella--seria feliz ainda, se pudesse viver na +companhia de meu filho, amada por elle e respeitada por aquelles que me +conhecem... Mas isso é impossivel! E queres que te diga? Agora, depois +que vi meu filho... sinto-me mais desgraçada! + +--Porque? + +--Porque... tu comprehendes... na minha alma começam a despertar agora +todos os sentimentos do amor maternal, e não posso dizer a meu filho: +«Sou tua mãe!» + + + + +XXXI + +O homem dos oculos verdes + + +Decorreram quinze dias de suave e doce convivencia entre mãe e filho, na +casa de D. Aurelia. + +Madre Paula e a irmã de Gustavo, ambas de intimo accôrdo no empenho de +salvarem Helena de Noronha, tinham sabido dispôr e conduzir as coisas de +modo que Julio, Paulo e o padre Manoel se encontrassem muitas vezes +reunidos á volta da doente, sem que nenhum d'elles suspeitasse os laços +de sangue que ligavam aquelle mancebo, tão cheio de vida e de alegria, á +infeliz victima do padre Anselmo. + +A pobre Helena parecia um tanto esquecida das suas mágoas e infortunios, +sentindo renascer dentro em si o desejo de viver, tal era o amoravel +cuidado que todos punham em lhe suavisar a existencia, tão attribulada +de dôres physicas e moraes. + +Infelizmente, o medico constatara que a doente soffria de uma lesão +cardiaca em estado bastante adiantado, e que tanto podia deixal-a viver +ainda muitos mezes como dar-lhe a morte em breves dias. + +Este diagnostico, porém, reservara-o apenas para si, limitando-se a +recommendar que não expuzessem a enferma a sobresaltos e commoções +fortes, que podiam ser-lhe de funestas consequencias. + +O honesto homem de sciencia, reconhecendo quanto a pobre doente era +amada por todos que a cercavam, não quiz destruir no coração dos que +tanto lhe queriam a dôce esperança de a verem completamente salva. + +Estava-se, pois, n'esta bella illusão de um restabelecimento proximo, +quando um dia, pelo fim da tarde, bateu ao portão de D. Aurelia, pedindo +para fallar á dona da casa, um desconhecido, que a todos causou surpreza +pelo seu extranho aspecto e pelas suas mysteriosas maneiras. + +Era um homem alto, de cabellos compridos e longa barba grisalha. + +Usava oculos verdes. Vestia um amplo casacão, que quasi lhe descia aos +calcanhares e que, todo abotoado na frente, tomava o aspecto de uma +sotaina. Na cabeça, trazia um chapeu de enormes abas que, +ensombrando-lhe o rosto, dava um aspecto mais carregado á sua figura. + +Viera a pé, encostado a um bordão e, comquanto agil, parecia fatigado da +longa jornada. + +D. Aurelia, ao annunciarem-lhe o desconhecido, sahiu á sala de visitas a +recebel-o e ficou extranhamente surprehendida ao vêr diante de si +aquelle homem que ao mesmo tempo lhe infundia respeito e mêdo. + +--Minha senhora--disse elle com voz sonora, mas em que havia uma certa +suavidade--peço desculpa de vir assim importunal-a, apresentando-me a +fazer-lhe um pedido sem para isso estar de forma alguma auctorisado. Mas +a importancia da minha missão é tal, que eu atrevo-me a suppôr que v. +ex.^a não me recusará o auxilio de que careço para bem a cumprir. + +--Não conheço a pessoa a quem estou fallando--respondeu D. Aurelia, com +simplicidade--mas se é o meu concurso para uma obra boa que vem pedir, +rogo-lhe a fineza de me dizer em que posso ser-lhe util. + +O desconhecido baixou a voz e disse n'um tom de confidencia: + +--Fui amigo intimo de Alvaro de Noronha, e elle, um dia antes de ser +assassinado, constituiu-me depositario de um segredo de familia, que só +deve ser revelado a sua prima, a sr.^a D. Helena de Noronha, actualmente +n'esta casa... + +D. Aurelia fitou-o perplexa. + +--E como sabe v. ex.^a que a minha amiga Helena está aqui, quando toda a +gente ignora... + +O desconhecido sorriu de um modo indefinido e volveu com firmeza. + +--Sou um homem de bem, minha senhora, e sei cumprir os meus juramentos. +Jurei ao meu amigo Alvaro que revelaria a sua prima o segredo de familia +que elle me confiou com esse fim, e não me tenho poupado a esforços para +bem cumprir a ultima vontade do moribundo. Tendo a snr.^a D. Helena +permanecido em parte incerta durante muitos annos, comprehende v. ex.^a +certamente o empenho com que eu terei buscado encontral-a, mórmente +achando-me no fim da vida quasi, e não querendo levar commigo para a +sepultura um segredo que me não pertence... + +--Quer v. ex.^a, pois, fallar com Helena de Noronha? + +--É esse o unico objecto da minha vinda a casa de v. ex.^a, e para isso +ouso supplicar-lhe o favor da sua intervenção. + +--A minha amiga, não sei se sabe, tem estado muito doente... + +--Mas tambem sei que ultimamente tem experimentado sensiveis melhoras. + +--O medico recommendou que lhe evitassemos commoções violentas... + +--Estou persuadido de que a minha presença não poderá causar-lhe a menor +commoção, pois que me não conhece, como eu tambem pessoalmente a não +conheço a ella. + +--Mas o objecto da sua visita... + +--Não póde ser-lhe de modo algum desagradavel--atalhou o +desconhecido--porque o que tenho a dizer-lhe é a coisa mais simples e +mais natural d'este mundo. + +--Quem devo, pois, annunciar á minha amiga? + +--Dar-lhe o meu nome é inutil, porque lhe será sempre desconhecido. Se +v. ex.^a tivesse a bondade, dir-lhe-hia que um amigo de seu primo Alvaro +pretende fazer-lhe uma communicação importante e do mais alto interesse +para ella. + +D. Aurelia entrou no quarto da enferma, que a essa hora estava +conversando com Julio, Paulo e a abbadessa, todos já conhecidos e +convivendo n'aquella intimidade tão facil e tão peculiar á gente da +provincia. + +Helena, muito animada e, ao parecer, muito melhor dos seus soffrimentos +physicos, inspirava a todos uma grande esperança de a verem em breve +completamente restabelecida. + +Chegara mesmo, em conversação intima com madre Paula, a fazer projectos +de viver, como governante, em companhia do filho e da nora, logo que +elles fossem casados. + +--Elle não saberá nunca que sou sua mãe--dizia ella--e eu poderei vêl-o +e amal-o, como se visse n'elle a cada momento o retrato vivo do meu pae, +quando mais novo... E cada sorriso affavel, cada palavra de bondade que +elle me dirija, será para mim como que um signal de perdão enviado, +d'alem tumulo e pelos labios do meu filho, por aquelle pobre espirito, +que tanto fiz soffrer! + +Madre Paula sorria de satisfação, ao ouvir da bocca da sua amiga Helena +estas palavras que significavam n'ella o desejo de regressar á vida. + +--Na tua mão está, minha querida, o realisares o teu desejo... Faze por +melhorar. Que o amor por teu filho te dê a força e a energia +indispensavel para triumphar das reminiscencias do teu passado, e o +futuro, relativamente feliz, será teu. + +D. Aurelia não quiz prevenir Helena, na presença das pessoas que a +rodeavam, da inesperada visita do desconhecido. + +Quando todos se retiraram, a irmã de Gustavo, approximando-se do leito, +disse-lhe sorrindo: + +--Venho annunciar-te, minha querida amiga, uma nova visita... + +--Quem?--interrogou Helena. + +--Um desconhecido que pretende fallar-te... + +--Um desconhecido!--repetiu Helena com instinctivo sobresalto. + +--Sim. Um desconhecido para mim e para ti. + +--O que quer elle? + +--Quer ser-te apresentado para te revelar um segredo de familia... + +--A mim?! + +--A ti. + +--Que segredo de familia póde revelar-me uma pessoa que eu não conheço? + +--Este homem diz-se um antigo e intimo amigo de teu primo Alvaro que, na +vespera de ser assassinado e prevendo a desgraça que ia acontecer-lhe, o +incumbiu de te fazer uma revelação importante, se algum dia te +encontrasse ou tivesse noticias tuas... + +--Meu primo Alvaro!--balbuciou Helena estremecendo. + +--Sim... da parte do teu primo Alvaro é que elle vem. + +--Como sabe esse homem que eu estou aqui? + +--Diz elle que tem durante muitos annos empregado os maiores esforços +para te encontrar. Sabendo que está doente n'esta casa uma antiga amiga +minha, pensou que talvez fosses tu e veio interrogar-me a esse respeito. +Como se trata de um assumpto que póde ser de interesse e de utilidade +para ti, achei conveniente dizer-lhe a verdade... + +--Queres, pois, que o receba? + +--Não t'o imponho, minha amiga. Mas creio que farias bem em o ouvir... + +--Pois bem; faça-se a tua vontade... + +--A minha vontade não. Aqui a unica pessoa a resolver e a decidir és +tu... + +--Acho estranho esse caso de um desconhecido a procurar-me para me fazer +revelações!... + +--A mim parece-me a coisa mais natural do mundo. Todas as familias teem +segredos que só em determinados momentos julgam opportuno transmittir +aos que lhes succedem... Teu primo era intimo de teu pae, estava para +ser teu noivo... É, pois, muito natural que, sabendo o estado gravissimo +em que se encontrava teu pae e perdida a esperança de tornar a vêr-te, +encarregasse a um amigo a missão de um dia te esclarecer... E quem nos +diz a nós que este desconhecido vem talvez trazer-te a independencia e a +fortuna, quando tu menos a esperas? + +Helena sorriu incredula. + +--Não creio--disse ella--mas seja o que fôr, desde que se trata de um +segredo de familia, devo ouvil-o. Manda entrar esse homem. + +D. Aurelia saiu e pouco depois dava entrada na camara da enferma o homem +dos oculos. + +Helena, recostada n'uma cadeira de braços, encarou-o fito e não o +reconheceu. + +O desconhecido inclinou a cabeça n'uma saudação, e pareceu esperar que +D. Aurelia se retirasse. + +--Fica!--pôde ainda dizer Helena, tomada de subito receio, olhando para +a sua amiga. + +--Perdão!--obtemperou o desconhecido.--O que tenho a dizer a v. ex.^a é +tão importante segredo, que não póde ser ouvido por mais alguem. + +--Não tenho segredos para a minha amiga... + +--Todas as pessoas teem segredos--insistiu o homem dos oculos--e se a +ninguem é licito devassal-os, menos licito se me afigura revelar os que +nos não pertencem. V. ex.^a não tem o direito de tornar publico um +segredo que lhe não pertence, que não é só seu, porque é tambem de sua +familia... + +Estas palavras foram ditas com tal intimativa que Helena baixou os olhos +tremula e confundida. + +--Este cavalheiro tem razão--disse D. Aurelia--Eu aguardarei na sala +proxima as tuas ordens, minha boa amiga... Escuta este senhor. + +E sahiu. + +Então o desconhecido, avançando alguns passos no quarto, fitou Helena e +disse-lhe em voz soturna: + +--Não me conheces, Irmã Dorothêa, abadessa da Covilhã? Sou eu, o teu +cumplice! + +Helena fez um gesto de horror e soltou um grito abafado. Reconhecera no +homem dos oculos verdes o padre Hilario, o seu cumplice no assassinato +do padre Anselmo. + +--Não venho accusar-te pela maneira infame e ignobil como abusaste da +paixão ardentissima que a tua presença accendeu na minha alma, e menos +ainda do ludibrio de que me fizeste victima, obrigando-me a esperar-te +baldadamente na fronteira, onde prometteste que irias, reunir-te a mim. +Era justo que ao crime succedesse a expiação, e não haveria decerto +Providencia, se eu pudesse ser feliz comtigo. Fizeste de mim um +assassino miseravel, um perjuro, um parricida, Helena de Noronha. Tudo +isso te perdôo. Sabes, porém, o que não te posso perdoar? É que ames +outro e com elle penses viver ainda feliz. Isso não. Julio de Montarroyo +não será mais venturoso comtigo do que eu. + +--Julio de Montarroyo!--balbuciou Helena aterrada--Quem lhe ensinou esse +nome? + +--Eu sei todos os nomes que estão ligados á tua existencia, filha de +Norberto de Noronha, amante do padre Anselmo, mãe de Paulo de Noronha. +Sei tudo, que para outra coisa não tenho vivido ha dezoito annos, +rastejando como a serpente, ao peso do meu remorso. Quiz saber de ti, +quiz conhecer a que qualidade de mulher sacrifiquei a minha posição, o +meu futuro, a minha vida, a minha alma. E soube-o! Nada me resta por +saber. E, pois, que ainda na tua vida ha um lampejo de esperança, e na +tua alma um vinculo de affecto que te prende a alguem, eu venho dizer-te +que chegou a hora de partirmos. Jurei que não pertencerias a outro, que +não amarias outro, que nenhum homem ouviria de teus labios juras eguaes +áquellas que de teus labios fementidos ouvi. Eis-me, pois, aqui, prompto +a cumprir o meu juramento. Queres obedecer a elle voluntariamente, ou +preferes o escandalo ruidoso, que nada remedeia e que te acompanhará +alem da morte? Vamos! fomos companheiros no crime; é bem que o sejamos +na expiação. Se tiveste coragem para matar, tel-a-has agora tambem para +morrer. + +--Mate-me! mate-me!--soluçou Helena, pondo as mãos. + +Então o padre Hilario tirou do interior do casaco uma pequena caixa, que +abriu. Depois, tomando entre os dedos uma pastilha, disse: + +--Eis aqui um veneno activissimo que dentro em duas horas terá cumprido +o seu dever, matando-te suavemente, sem uma agonia prolongada. Até este +beneficio me deves, porque não quero que a morte te seja dolorosa. +Vamos! aqui tens a morte. + +E offereceu-lhe a pastilha. Helena, sem a mais leve hesitação, acceitou +o veneno das mãos do seu cumplice e tomou-o com assombrosa serenidade. + +--Pago-te assim a minha divida--disse ella--Estamos quites. Se para me +ajudares a vingar do monstro que me perdeu tivesses exigido a minha vida +em troca, ter-t'a-hia sacrificado. Pediste, porém, o meu amor... e esse +eu não podia conceder-t'o... Mas era-me preciso vingar-me. Perdoa-me! + +--Mas se eu te amo ainda!--exclamou o padre Hilario debruçando-se no +leito e beijando-lhe freneticamente as faces e os olhos!--Amo-te e morro +feliz, sabendo que me precedes algumas horas na romagem mysteriosa do +tumulo! + +Depois, com voz tremula em que havia toda a expressão de um infinito +amor: + +--Irei comtigo, descança! Se não pude fazer que me pertencesses n'esta +vida, buscarei na outra ser teu companheiro de tormentos e penas +eternas! Lá nos havemos de encontrar. + +Beijou-a ainda com louco frenesi e sahiu do quarto da enferma, sem +deixar transparecer na face impassivel a commoção que lhe agitava a +alma. + +Duas horas depois, Helena de Noronha, tendo-se despedido de todas as +pessoas que lhe rodeavam o leito, morria tranquillamente, docemente, +como se a morte a fizesse cahir n'um somno doce e reparador. + +Este inesperado desenlace surprehendeu a todos; mas ninguem ousou +suspeitar-lhe a verdadeira causa. + +Julio de Montarroyo, cahindo n'um mutismo aterrador, velou-lhe o cadaver +e acompanhou-o á sepultura, frio e impassivel, como se fora um cadaver +tambem. Nem aos olhos lhe assomou uma lagrima nem de seus labios sahiu +um gemido, ao vêr desapparecer para sempre no pó da sepultura a face da +mulher que tanto amara! + + + + +Conclusão + + +Um mez depois d'estes acontecimentos, madre Paula e padre Filippe, +regressando de uma mysteriosa visita ao convento da Covilhã, mandaram +chamar Paulo de Noronha. + +--Meu filho--disse-lhe o padre Filippe, apresentando-lhe um cofre de +ferro quadrado--eu e madre Paula temos até hoje sido depositarios de uma +fortuna que te pertence e que fomos encarregados de te entregar logo que +hajas attingido a maioridade e possas por lei dispôr do que é teu. Estão +n'este cofre oitocentos contos que te pertencem. Como deliberaste unir o +teu destino ao de uma menina que desejas fazer tua mulher, julgamos do +nosso dever informar-te d'esta circumstancia, afim de que possas regular +com o pae da tua futura esposa as condições do teu enlace. + +Paulo, attonito e mal podendo crêr no que ouvia, encarava ora o padre +Filippe, ora madre Paula, sem poder articular uma palavra. + +--Oitocentos contos!--balbuciou por fim.--E d'onde vem tanto dinheiro? + +--De teus paes--respondeu madre Paula. + +--Meus paes! E quem eram elles?--perguntou o mancebo, na esperança de +que, emfim, o segredo do seu nascimento lhe iria ser revelado. + +--Nunca o saberás. Essa fortuna que elles te legaram não traz nome. +Designa-lhe tu, meu filho, um bom destino e uma applicação nobre e +justa. + +Quando o mancebo retirou, louco de alegria a communicar a boa nova a +Beatriz, padre Filippe, voltando-se para madre Paula, exclamou: + +--Como Deus é misericordioso e é justo! Esta fortuna, accumulada á custa +de crimes nas mãos do padre Anselmo, vae agora, nas mãos d'este rapaz +que é seu filho, ter um destino bem mais nobre e mais digno. + +--Que o altruismo do filho possa ao menos redimir as torpezas e os +crimes do pae!--replicou madre Paula. + +No dia em que Paulo de Noronha se unia a Beatriz, a contento do sr. +Custodio de Jesus, seu pretenso progenitor, recebeu madre Paula a +noticia de que Julio de Montarroyo se havia suicidado sobre a sepultura +da _Irmã Dorothea_, legando uma parte dos seus haveres ao _mestre Tomba_ +e a parte restante a D. Aurelia para obras de caridade. + +E como os acontecimentos notaveis nunca veem isolados, o procurador +Belchior leu tambem n'esse dia, nas gazetas, a noticia de que Leonor, +que tanto se salientára no tragico suicidio de Eugenio de Mello, partira +para Lisboa em companhia de João Lazaro. + +Do homem dos oculos verdes, o Mestre fundador da _Mão Negra_, nunca mais +Jorge, o amigo de Paulo, ouviu fallar, substituindo-o porisso na +direcção da famosa sociedade secreta, que é hoje a mais florescente e +poderosa de todas as suas irmãs. + +FIM + + + + +INDICE + + + PAG. + +I--Os irmãos da mão negra 5 + +II--Amor e esperança 23 + +III--Pae e filha 43 + +IV--Dois patifes 69 + +V--Madre Paula 78 + +VI--Á hora da morte 87 + +VII--Tres miseraveis 103 + +VIII--Entre irmãos 124 + +IX--Amores faceis 135 + +X--Para os grandes males 153 + +XI--João Lazaro 168 + +XII--Velhos conhecimentos 181 + +XIII--Denuncia 211 + +XIV--Miseravel! 239 + +XV--Conluio infame 255 + +XVI--O rapto 262 + +XVII--Quem semeia ventos 280 + +XVIII--Revelação 289 + +XIX--Um velho amigo 304 + +XX--Alma negra 317 + +XXI--Tal vida, tal fim 333 + +XXII--Mysterio 346 + +XXIII--Allucinação 357 + +XXIV--Extranho encontro 369 + +XXV--Pobre Helena 389 + +XXVI--Um amigo dos diabos 399 + +XXVII--Duas amigas 411 + +XXVIII--Coração morto 427 + +XXIX--Confidencias 436 + +XXX--Mãe 442 + +XXXI--O homem dos oculos verdes 452 + +Conclusão 461 + + + + +Lista de erros corrigidos + + +Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos: + + + +----------+---------------------+----------------------+ + | | Original | Correcção | + +----------+---------------------+----------------------+ + |#pág. 8| ter fôr | te for | + |#pág. 17| a aquella | aquella | + |#pág. 18| danda-nos | dando-nos | + |#pág. 23| algum temdo | algum tempo | + |#pág. 24| pancado | pancada | + |#pág. 25| com | como | + |#pág. 35| Na primeiro | No primeiro | + |#pág. 43| pupilllo | pupillo | + |#pág. 70| mefica | me fica | + |#pág. 98| ella | elle | + |#pág. 99| pabre | padre | + |#pág. 109| palava | palavra | + |#pág. 111| famila | familia | + |#pág. 112| devo ou | devo eu | + |#pág. 127| circumstancios | circumstancias | + |#pág. 140| continou | continuou | + |#pág. 162| aprsentou | apresentou | + |#pág. 164| auctoridado | auctoridade | + |#pág. 169| importaacia | importancia | + |#pág. 190| as as minhas | as minhas | + |#pág. 194| muduram | mudaram | + |#pág. 201| tembem | tambem | + |#pág. 202| risonha | risonhas | + |#pág. 223| dinheiro | o dinheiro | + |#pág. 226| trasnporte | transporte | + |#pág. 235| respendeu | respondeu | + |#pág. 258| dm | em | + |#pág. 260| mutio | muito | + |#pág. 263| prepada | preparada | + |#pág. 263| seguiramos | seguiram os | + |#pág. 267| pergunou | perguntou | + |#pág. 271| as sentidos | os sentidos | + |#pág. 288| ciosa | coisa | + |#pág. 310| o gente | a gente | + |#pág. 311| semelhanle | semelhante | + |#pág. 311| qne | que | + |#pág. 315| esssas | essas | + |#pág. 317| a molestias | as molestias | + |#pág. 333| pelo colera | pela colera | + |#pág. 344| Lenor | Leonor | + |#pág. 350| desconhcida | desconhecida | + |#pág. 357| horrrivel | horrivel | + |#pág. 357| algnma | alguma | + |#pág. 365| pssou | passou | + |#pág. 366| ssforços | esforços | + |#pág. 430| Juliod e | Julio de | + |#pág. 442| fiho | filho | + |#pág. 450| setas | estas | + |#pág. 450| o reprimendas | e reprimendas | + +----------+---------------------+----------------------+ + + +Ao longo do texto original encontramos "..", num espaço onde caberiam +reticências ("..."): assumi tratar-se de um erro tipográfico, +substituindo os dois pontos horizontais por três. + +Noberto e Norberto são variações constantes da mesma palavra, a manter +de acordo com o original. O mesmo acontece para as palavras Laura e +Leonor, que se identificam como sendo a mesma personagem. + +Os números dos capítulos foram alterados a partir do capítulo XIII (no +original capítulo XIV da página 211), uma vez que houve um erro +confirmado com a ordem correcta do índice. + +Foram acrescentadas aspas de fecho quando estas não existiam e onde +faziam falta, por terem sido iniciadas e não terminadas. + +Foram acrescentados travessões quando se mostraram necessários e +vice-versa. + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Os Filhos do Padre Anselmo, by +António da Costa Couto Sá de Albergaria + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS FILHOS DO PADRE ANSELMO *** + +***** This file should be named 24625-8.txt or 24625-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/4/6/2/24625/ + +Produced by Ricardo F. Diogo, Rita Farinha and the Online +Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose +such as creation of derivative works, reports, performances and +research. They may be modified and printed and given away--you may do +practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +http://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. 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There are a few +things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works +even without complying with the full terms of this agreement. See +paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project +Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement +and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic +works. See paragraph 1.E below. + +1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation" +or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project +Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the +collection are in the public domain in the United States. If an +individual work is in the public domain in the United States and you are +located in the United States, we do not claim a right to prevent you from +copying, distributing, performing, displaying or creating derivative +works based on the work as long as all references to Project Gutenberg +are removed. 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INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the +trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone +providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance +with this agreement, and any volunteers associated with the production, +promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works, +harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees, +that arise directly or indirectly from any of the following which you do +or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm +work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any +Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause. + + +Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm + +Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of +electronic works in formats readable by the widest variety of computers +including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at http://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. Compliance requirements are not uniform and it takes a +considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up +with these requirements. We do not solicit donations in locations +where we have not received written confirmation of compliance. To +SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any +particular state visit http://pglaf.org + +While we cannot and do not solicit contributions from states where we +have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition +against accepting unsolicited donations from donors in such states who +approach us with offers to donate. + +International donations are gratefully accepted, but we cannot make +any statements concerning tax treatment of donations received from +outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. + +Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation +methods and addresses. Donations are accepted in a number of other +ways including checks, online payments and credit card donations. +To donate, please visit: http://pglaf.org/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + http://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/24625-8.zip b/24625-8.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..0d83646 --- /dev/null +++ b/24625-8.zip diff --git a/24625-h.zip b/24625-h.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..da1d1da --- /dev/null +++ b/24625-h.zip diff --git a/24625-h/24625-h.htm b/24625-h/24625-h.htm new file mode 100644 index 0000000..f9b21c8 --- /dev/null +++ b/24625-h/24625-h.htm @@ -0,0 +1,38143 @@ +<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Strict//EN" "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-strict.dtd"> +<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml"> +<head> + <title>Os Filhos do Padre Anselmo</title> + + + <meta content="António da Costa Couto Sá de Albergaria" name="AUTHOR" /> + + <meta content="text/html; charset=ISO-8859-1" http-equiv="Content-Type" /> + + <style type="text/css"> +body {width: 50%; margin-left:10%; text-align: justify;} +h1, h2, h3, h4 { text-align: center;} +h1 {margin: 2em; text-align: center;} +h2, h4 {margin-top: 2em;} +.tiny {font-size: 75%; text-align: center;} +.tinyl {font-size: 90%; margin-left:5%;} +.bbox {border: solid black 1px; margin-left: 5%; margin-right: 5%;} +.fbox {border: solid black 1px; background-color: #FFFFCC; font-size: 75%; margin-left: 10%; margin-right: 10%;} +.intro {font-size: 90%; font-style: italic;} +.signature { +margin-right: 5%; +text-align: right;} +.smallcaps {font-variant: small-caps;} +.quote {margin-left:7%; margin-right:7%;} +.quote1 {margin-left:30%;} +.right {text-align: right;} +.break { +width: 40%; +margin-left:30%;} +.sbreak { +width: 20%; +margin-left:40%;} +.breaks { +width: 90%; +margin-left:5%;} +.dots {color: #fff; background-color: inherit; border: 3px dotted #555; border-style: none none dotted;} +.poetry {margin-left:20%;} +.poetry1 {margin-left:10%;} +.pagenum { position: absolute; right: 35%; +font-size: 75%; +text-align: right; +text-indent: 0em; +font-style: normal; +font-weight: normal; +color: silver; background-color: inherit; +font-variant: normal;} + </style> +</head> + + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of Os Filhos do Padre Anselmo, by +António da Costa Couto Sá de Albergaria + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Os Filhos do Padre Anselmo + +Author: António da Costa Couto Sá de Albergaria + +Release Date: February 15, 2008 [EBook #24625] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS FILHOS DO PADRE ANSELMO *** + + + + +Produced by Ricardo F. Diogo, Rita Farinha and the Online +Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net + + + + + + +</pre> + + +<div> +<div class="fbox"><b>Nota de editor:</b> +Devido à +quantidade de erros tipográficos existentes neste texto, +foram tomadas várias decisões quanto à +versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi +mantida de acordo com o original. No final deste livro +encontrará a lista de erros corrigidos.<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: right; font-style: italic;">Rita +Farinha (Fev. 2008) +</div> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="bbox"> +<br /> + +<h3>SÁ D'ALBERGARIA +</h3> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +<h2>OS FILHOS DO PADRE ANSELMO +</h2> + +<br /> + +<h3>ROMANCE +</h3> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><img style="width: 100px; height: 99px;" alt="" src="images/fig1.png" /><br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +</div> + +<h4>PORTO +LIVRARIA CHARDRON<br /> + +DE<br /> + +<b>Lello & Irmão, +Editores</b> +</h4> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<h4>1904 +</h4> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;">Typ. a vapor da Empreza +Litteraria e Typographica +<br /> + +<br /> + +178, rua de D. Pedro, 184<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2>OS FILHOS DO PADRE ANSELMO +</h2> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c1"></a>I<br /> + +<br /> + +Os irmãos da mão negra +</h3> + +<br /> + +<br /> + +O relogio dos Clerigos tinha acabado de fazer soar +pausadamente as doze badaladas da meia noite. +<br /> + +<br /> + +O tempo estava brusco e o vento, soprando da +barra em frias e cortantes rajadas, punha arrepios +nos transeuntes que, levantadas as golas dos casacos +e as mãos mettidas nos bolsos, seguiam a passo apressado, +recolhendo a casa, sob a ameaça de um temporal +desfeito. +<br /> + +<br /> + +Era em fins do outono. +<br /> + +<br /> + +As arvores do jardim da Cordoaria, varejadas +pela ventania asperrima, despiam-se das suas ultimas +folhas amarellecidas, n'um agitado e sussurrante protesto +de espoliadas. +<br /> + +<br /> + +Quem a essa hora passasse pelo Campo dos Martyres +da Patria, veria, encostado a uma das arvores +que orlam o jardim, defrontando com a praça do Peixe, +um vulto immovel e indifferente ao tempestuoso +rugir d'aquella noite agreste e frigidissima. +<br /> + +<br /> + +Parecia esperar alguem, porque, ao ouvir bater a +meia noite no relogio da torre, levou a mão ao bolso +<span class="pagenum">[2]</span> +e, aproximando-se de um dos candieiros da +illuminação +publica, consultou o seu relogio. +<br /> + +<br /> + +―Aquelle anda adiantado cinco minutos―murmurou. +<br /> + +<br /> + +E deu alguns passos distrahidamente como para +illudir a sua impaciencia. +<br /> + +<br /> + +Agora, que o podemos vêr ao reverbero do lampeão, +notaremos que é um rapaz de 18 annos, decentemente +vestido e de gentil presença, não obstante as +feições finas e delicadas quasi lhe +desapparecerem encobertas +pela aba larga do seu chapéo á Mazzantini. +<br /> + +<br /> + +Tinha apenas dado um curto passeio no prolongamento +do jardim, quando do lado da rua do Calvario +avançou a trote rasgado um trem, que parou em +frente d'elle. +<br /> + +<br /> + +―És tu, Paulo?―disse de dentro uma voz. +<br /> + +<br /> + +―Sou. +<br /> + +<br /> + +―Entra depressa, que a noite está agreste! +<br /> + +<br /> + +E a pessoa que fallava de dentro abriu a portinhola, +facilitando-lhe a entrada. +<br /> + +<br /> + +O mancebo saltou de um pulo para dentro do carro, +a portinhola fechou-se, e os cavallos seguiram no +seu trote largo, dobrando a rua da Restauração e +subindo +a da Liberdade até ganharem a rua do Rosario. +<br /> + +<br /> + +Sigamos aquelle trem e ouçamos o dialogo que se +trava dentro d'elle. +<br /> + +<br /> + +Apenas o mancebo entrou, a pessoa que o chamara +e que era um homem de 28 a 30 annos, desceu rapidamente +as cortinas do carro e disse para o seu joven +companheiro: +<br /> + +<br /> + +―Meu amigo, como já te expliquei, isto são +negocios +em que se requer a maior circumspecção e +escrupulo +na observancia das praxes. Has-de consentir +que te vende os olhos. +<br /> + +<br /> + +―Acaso desconfias da minha lealdade, Jorge? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[3]</span> ―De modo algum. Mas é uma obrigação +que o +regulamento me impõe, e eu não posso faltar a +ella +sem trahir o meu dever. +<br /> + +<br /> + +―Pois bem, seja! +<br /> + +<br /> + +O sujeito que ouvimos chamar Jorge tirou então +do bolso um lenço e vendou com elle os olhos do companheiro. +<br /> + +<br /> + +―Has-de dar-me a tua palavra de honra que não +tentarás arrancar a venda sem que para isso recebas +ordem... +<br /> + +<br /> + +―Dou. Mas se o fizesse? +<br /> + +<br /> + +―Poderia isso custar-te a vida, meu caro. +<br /> + +<br /> + +―Apre!―fez o outro, sorrindo―vocês são +intransigentes! +<br /> + +<br /> + +―Está n'isso a nossa força. Não +violentamos ninguem +a seguir-nos, damos ampla liberdade a cada um +de rejeitar a nossa associação, mas defendemos a +nossa +existencia e mantemos o nosso segredo. +<br /> + +<br /> + +―É justo. +<br /> + +<br /> + +―Assim, tu podes, até á hora de prestares o teu +juramento, reconsiderar e exigir que te restituam a +liberdade. Nenhum mal te acontecerá por isso, a tua +vontade será respeitada, a tua independencia mantida. +Mas não saberás dizer onde estiveste nem as +pessoas +com quem fallaste. +<br /> + +<br /> + +―Poderei dizer que fallei comtigo...―gracejou +o outro. +<br /> + +<br /> + +―Que importa? Eu não sou uma +associação. +Comigo póde fallar toda a gente... +<br /> + +<br /> + +―Fallemos sério!―tornou o moço que dava pelo +nome de Paulo.―Asseveras-me que os intuitos d'essa +associação em que vou entrar são em +tudo dignos das +justas aspirações de um homem de bem? +<br /> + +<br /> + +―Assevero-te que os irmãos da +<em>Mão-negra</em> comprehendem +e cumprem á risca o nobre dever de se +auxiliarem e defenderem mutuamente contra as prepotencias +<span class="pagenum">[4]</span> +sociaes da nossa epoca. No nosso gremio +desapparecem as differenças de gerarchia e de dinheiro. +Não ha pobres, porque todos somos ricos da +riqueza e da importancia dos nossos irmãos. +<br /> + +<br /> + +―Poderei então contar com o auxilio da +Associação +na conquista da mulher que amo? +<br /> + +<br /> + +―Decerto―volveu o outro.―Tanto como amanhã +qualquer de nossos irmãos poderá contar com o +teu auxilio para a realisação dos seus desejos. +Isto é +apenas uma associação de soccorros mutuos, meu +caro +Paulo. A mulher que amas será tua desde que te filies +no nosso gremio. Comprehendes que toda a acção +da <em>Mão-negra</em> se resume em +tornar felizes e ricos os +seus irmãos, porque d'essa riqueza e d'essa felicidade +lhe advem a ella a força, o poderio, a importancia. +<br /> + +<br /> + +O trem ia correndo veloz pela estrada do Carvalhido, +sem que Paulo, entretido na conversa, parecesse +ter notado o tempo gasto na corrida. +<br /> + +<br /> + +―No emtanto―accrescentou ainda Jorge―os +fins e intuitos da Associação vão +sêr-te ainda expostos +e confirmados por pessoa idonea e mais competente +de que eu. Se te restar alguma duvida, o minimo +escrupulo, poderás renunciar ao teu intento, com +a unica condição de não tirares a +venda nem tentares +deslealmente devassar os segredos do nosso gremio... +<br /> + +<br /> + +―Conheces-me, e sabes que isso são processos indignos +do meu caracter!―protestou o mancebo. +<br /> + +<br /> + +O trem parou em frente de um portão largo, que +dava accesso a uma vasta quinta murada. +<br /> + +<br /> + +Jorge apeou-se e deu a mão ao seu companheiro. +<br /> + +<br /> + +―Chegámos!―disse elle. +<br /> + +<br /> + +Paulo apeou-se e, guiado sempre pelo seu amigo, +transpoz o portão, que se abriu mysteriosamente, tornando +a fechar-se sem ruido. +<br /> + +<br /> + +―E o cocheiro?―perguntou o mancebo.―Não +receias a sua indiscreção? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[5]</span> ―É um dos nossos irmãos―respondeu simplesmente +o outro. +<br /> + +<br /> + +―Apre!―tornou o mancebo alegremente.―Eis +aqui o que se chama um serviço bem montado! +<br /> + +<br /> + +Jorge não lhe respondeu. Conduziu-o por uma extensa +e sombria vereda de ramadas até o fazer entrar +n'um corredor ao rez do chão, pelo qual foram seguindo +em silencio. +<br /> + +<br /> + +―Já estamos em casa!―disse Paulo. +<br /> + +<br /> + +―Porque?―perguntou o outro. +<br /> + +<br /> + +―Sinto-o pela differença de temperatura. +<br /> + +<br /> + +―Ainda não... Vamos entrar agora... +<br /> + +<br /> + +E levando aos labios um pequeno apito, tirou d'elle +um silvo agudo e prolongado. +<br /> + +<br /> + +Ouviu-se uma porta girando sobre os gonzos, e os +dois entraram n'um pequeno recinto em que os passos +se amorteciam, abafados no tapete. +<br /> + +<br /> + +―Pódes tirar a venda―disse Jorge. +<br /> + +<br /> + +O mancebo levou a mão aos olhos, e com grande +assombro seu, achou-se sósinho n'uma sala forrada de +crepes, tendo ao centro uma mesa coberta de velludo +preto e em que pousava uma caveira, allumiada por +duas velas. +<br /> + +<br /> + +Um momento impressionado pelo sinistro aspecto +da sala e pelo funebre quadro que se lhe offerecia á +vista, o mancebo empallideceu e recuou um passo, +aterrado. Porém, reflectindo e com uma coragem superior +á que seria de esperar na sua edade, breve retomou +o sangue frio e lançou um olhar de glacial +indifferença +para a caveira. +<br /> + +<br /> + +―É singular!―pensou comsigo.―Entro na vida +pela visão da morte! +<br /> + +<br /> + +Como respondendo a este pensamento, ouviu-se uma +voz soturna e cavernosa resoar na sala: +<br /> + +<br /> + +―Medita!―disse aquella voz. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[6]</span> +O mancebo estremeceu e voltou-se rapidamente, a +vêr quem lhe fallava. +<br /> + +<br /> + +Não viu pessoa alguma. +<br /> + +<br /> + +Passeou então os olhos curiosos pelas paredes +forradas de crepes e não descobriu a porta por onde +tinha entrado. +<br /> + +<br /> + +Se quizesse abandonar aquelle mysterioso e lugubre +recinto, não o poderia fazer, por não encontrar +sahida. +<br /> + +<br /> + +Embora surprehendido, nem por isso se apavorou. +<br /> + +<br /> + +―Medita!―tornou a voz a repetir. +<br /> + +<br /> + +Como resposta muda áquella intimativa, o mancebo +cruzou os braços sobre o peito e ficou encarando +fito a caveira. +<br /> + +<br /> + +N'aquella attitude altiva e firme, esteve assim +por muito tempo. +<br /> + +<br /> + +Dissera-lhe o seu amigo que, para ser admittido +na associação secreta da +<em>Mão negra</em>, era preciso +dar +provas de energia, coragem e inquebrantavel força de +vontade. Accrescentara que as provas a que os neophytos +tinham de sujeitar-se eram rudes e de molde +a fazerem tremer o mais ousado. Elle, não obstante, +insistira. Sentia-se capaz de affrontar os maiores perigos +com animo sereno e tranquillo. +<br /> + +<br /> + +―Principiou a prova!―pensou―julgam-me uma +creança assustadiça, capaz de me apavorar com +este +apparato funebre. Mostrar-lhes-hei que a creança +é +um homem, que póde disputar primasias de coragem +aos mais fortes. +<br /> + +<br /> + +E n'esta resolução avançou para mesa, +estendeu +o braço e ia a tocar no funebre despojo, quando a voz +mysteriosa recuou de novo, gritando: +<br /> + +<br /> + +―Detem-te! O que ias fazer? +<br /> + +<br /> + +―Tocar n'esta caveira―respondeu o mancebo +com voz tranquilla. +<br /> + +<br /> + +―Com que fim? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[7]</span> ―Com o fim de provar que a ideia da morte me +não apavora. +<br /> + +<br /> + +―Que pensamento te suggere a vista d'esse triste +despojo humano? +<br /> + +<br /> + +―Primeiramente, a ideia de que todos caminhamos +para a mesma miseria... +<br /> + +<br /> + +―E depois? +<br /> + +<br /> + +―Depois, que a Morte é a niveladora implacavel +do genero humano. +<br /> + +<br /> + +―Assim, crês que na Morte se confundem bons e +maus, virtuosos e impuros? +<br /> + +<br /> + +―Creio que, materialmente, tudo se confunde na +mesma podridão. +<br /> + +<br /> + +―Materialmente, disseste? +<br /> + +<br /> + +―Disse. +<br /> + +<br /> + +―Crês então que vicio e virtude são +coisas indifferentes, +visto que tudo se apaga ao mesmo gelido +sopro e tudo resvala com o homem ao abysmo do +Nada? +<br /> + +<br /> + +―Não. +<br /> + +<br /> + +―Explica-te. +<br /> + +<br /> + +―Do homem subsistem as ideias, os pensamentos, +os actos bons ou maus de toda a sua vida. Esses +não tem a Morte o poder de os anniquillar. +<br /> + +<br /> + +―Pois bem; visto que assim é, dize-me: De quem +é esse craneo? +<br /> + +<br /> + +―De um meu irmão. +<br /> + +<br /> + +―É vaga a resposta. Dize-me: Será d'um sabio? +Será de um ignorante? Será de um homem honesto? +Será d'um criminoso? Será d'um nobre? +Será d'um +plebeu? +<br /> + +<br /> + +―Ignoro. +<br /> + +<br /> + +―Confessas, pois, que na Morte tudo se confunde? +<br /> + +<br /> + +―Não! Confesso apenas que na Morte todos teem +egual direito ao respeito dos vivos. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p8">[8]</a></span> ―Porém, essa theoria é contradictoria. Se todos +devem confundir-se no mesmo respeito, como queres +que se distingam os bons dos maus? +<br /> + +<br /> + +―Pelo que d'elles fica no mundo e não morre. +Dize-me o nome d'aquelle a quem pertenceu este craneo, +e se elle foi um sabio, um artista, um litterato, +um poeta, um d'esses homens que deixam a sua passagem +assignalada no mundo por obras de grandeza e +de virtude, eu te recordarei as suas conquistas scientificas, +os seus quadros, os seus livros, os seus versos, +as nobres acções e exemplos com que se perpetuou +na +humanidade emfim. +<br /> + +<br /> + +―Tens religião? +<br /> + +<br /> + +―Tenho. +<br /> + +<br /> + +―Qual? +<br /> + +<br /> + +―A do Bem. +<br /> + +<br /> + +―A que vieste? +<br /> + +<br /> + +―Dar e receber auxilio na lucta do Bem contra +o Mal. +<br /> + +<br /> + +―Sabes o sacrificio a que isso obriga? +<br /> + +<br /> + +―A todos os sacrificios me sujeito. +<br /> + +<br /> + +―Repara bem. A abnegação, o desinteresse, a +obediencia cega e passiva ás ordens dos que dirigem +o nosso gremio constituem a principal condição +para +seres admittido entre nós. +<br /> + +<br /> + +―Acceito-a. +<br /> + +<br /> + +―Terás que resistir ás tuas proprias +paixões, terás +que dominar os mais irresistiveis impulsos do teu +coração, para só obedeceres +á lei da nossa Sociedade; +terás, emfim, que sacrificar vida, fortuna, mulher, filhos, +familia―tudo, ao bem de teus irmãos, quando +isso <a href="#e1">te fôr</a> reclamado. +<br /> + +<br /> + +―Obedecerei. +<br /> + +<br /> + +―É preciso que o braço execute o que a +cabeça +ordena. Tu serás o braço. O chefe invisivel da +nossa +Associação é a cabeça. Se +fôr preciso derramar sangue, +<span class="pagenum">[9]</span> +ainda o d'aquelle que no mundo te fôr mais caro, +uma vez que a cabeça t'o ordena, obedecerás? +<br /> + +<br /> + +―Sem a menor hesitação. +<br /> + +<br /> + +―Attende que vaes ligar-te a nós por um juramento +que não póde ser quebrado nem illudido. Em +toda a parte onde te encontres, seja qual fôr a +posição +social a que ascendas, na rua, em casa, no povoado +ou n'um logar deserto, o olhar invisivel da nossa +Associação +seguir-te-ha por toda a parte. A +<em>Mão-negra</em>, +cujo auxilio buscas, mysterisa e potente, +vingadora e +terrivel, como a propria mão da Providencia, +impedirá +teus passos e guiará o teu destino. Não mais te +pertencerás +a ti; pertencerás aos teus irmãos. Senhor +liberrimo +das tuas acções até agora, vaes +reduzir-te por +um juramento ás condições d'um +escravo, mais que +d'um escravo―d'um simples automato. O teu cerebro +não mais pensará para ti; o teu +coração não mais sentirá +por ti. Cerebro e coração teem de emmudecer +perante +as exigencias fataes, crueis e terriveis muitas +vezes, da nossa Associação. Terás +força para tanto? +<br /> + +<br /> + +―Terei―respondeu firmemente o mancebo. +<br /> + +<br /> + +―Pareces corajoso―observou a voz mysteriosa―pareces +ter em pequena conta a propria vida. +<br /> + +<br /> + +―Estou prompto a sacrificál-a para um fim justo. +<br /> + +<br /> + +―A ideia da justiça é relativa. O que para uns +é justiça para outros é iniquidade. Os +irmãos da +<em>Mão-negra</em> +não teem o direito de discutir e apreciar as ordens +que dimanam do seu chefe invisivel: teem só o +dever de as cumprir. Assim, se te exigirem que craves +um punhal no teu coração, não +terás o direito de +discutir a justiça do sacrificio; apenas terás +que obedecer. +<br /> + +<br /> + +―Experimentem. +<br /> + +<br /> + +―Lembra-te, porém, que, se o ―Lembra-te, porém, que, se o sacrificio da propria +vida te é fácil, outros sacrificios te +pódem ser +mais penosos. Estás em tempo: se não te sentes +com +<span class="pagenum">[10]</span> +animo e coragem para te prenderes a nós por toda a +vida,―vae, estás livre, mandar-te-hemos conduzir ao +sitio d'onde vieste. +<br /> + +<br /> + +―Não!―respondeu o mancebo com energia―Eu +não sou dos que recuam. Quero ser dos vossos. +<br /> + +<br /> + +―Estende a mão sobre essa caveira e jura que +queres ser submettido á +<em>prova</em>!―ordenou a voz. +<br /> + +<br /> + +Paulo estendeu a mão sobre a caveira: +<br /> + +<br /> + +―Juro―disse elle―que desejo ser um dos irmãos +da <em>Mão-negra</em> e estou +prompto a submetter-me á prova +que me for imposta! +<br /> + +<br /> + +Quando acabou de proferir este juramento, sentiu +que lhe tocavam no hombro. Voltou-se e viu diante de +si um vulto athletico, sinistramente vestido de preto +e com o rosto coberto por um capuz como o dos antigos +aguazis do Santo Officio. +<br /> + +<br /> + +Sem dar palavra, o mysterioso vulto vendou-lhe de +novo os olhos. Em seguida disse: +<br /> + +<br /> + +―<em>Á prova!</em> +<br /> + +<br /> + +Pegou-lhe na mão e conduziu-o por um extenso +corredor até parar em frente de uma porta, a que +bateu de maneira mysteriosa e symbolica. +<br /> + +<br /> + +―Quem sois?―perguntou de dentro uma voz, +sem abrir. +<br /> + +<br /> + +―Irmão―respondeu o mysterioso guia de Paulo. +<br /> + +<br /> + +―D'onde vindes? +<br /> + +<br /> + +―Da Ala negra. +<br /> + +<br /> + +―Que trazeis? +<br /> + +<br /> + +―Um novo braço. +<br /> + +<br /> + +―Que busca elle? +<br /> + +<br /> + +―A mão. +<br /> + +<br /> + +―Quem vos guia? +<br /> + +<br /> + +―S. Miguel. +<br /> + +<br /> + +A porta abriu-se. +<br /> + +<br /> + +―Passae!―disse um homem, igualmente envolto +n'um habito preto e o rosto coberto pelo capuz. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[11]</span> +Os dois seguiram ávante e entraram n'uma sala +ampla, abobadada, de paredes escuras e illuminada +apenas por um globo enorme de vidro, seguro por uma +phantastica <em>mão negra</em>, +que pendia do tecto. +<br /> + +<br /> + +Á roda d'esta sala, viam-se de pé, hirtos e +impassiveis, +n'uma immobilidade de estatuas, muitos vultos +negros, com o rosto inteiramente occulto sob o capuz +do habito. +<br /> + +<br /> + +Em cada uma das paredes avultava uma grande +mão negra, sustentando punhaes e espadas, em panoplia. +<br /> + +<br /> + +Ao centro, justamente debaixo do globo, erguia-se +uma especie de throno, assente sobre quatro formidaveis +dragões e todo coberto de crepes. Occupando esse +logar, sem duvida destinado ao chefe da seita, estava +uma figura mysteriosa como as suas companheiras e +como ellas silenciosa e immovel. +<br /> + +<br /> + +O <em>irmão</em> introductor de +Paulo avançou, silenciosamente, +com o mancebo pela mão, até curta distancia +do throno, parou, levou a dextra ao peito, movendo +o pollegar rapidamente, de modo a descrever +com elle uma cruz, e ficou de cabeça curvada, em +attitude respeitosa. +<br /> + +<br /> + +―Que quereis, irmão?―interrogou o vulto que +se sentava no throno e que era sem duvida o chefe da +seita. +<br /> + +<br /> + +―Que escuteis e recebaes sob vossa protecção +este +meu companheiro, que pretende entrar na +<em>ala</em> como +combatente. +<br /> + +<br /> + +―Fiaes d'elle? +<br /> + +<br /> + +―D'elle fio, senhor! +<br /> + +<br /> + +―S. Miguel vos proteja! +<br /> + +<br /> + +―O apresentante de Paulo afastou-se e foi tomar +o seu logar junto á parede, em fila com os seus +companheiros. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[12]</span> +Paulo ficou só, junto ao throno, com os olhos vendados. +<br /> + +<br /> + +―Que pretendeis, mancebo?―interrogou o chefe. +<br /> + +<br /> + +―Combater. +<br /> + +<br /> + +―Que armas trazeis? +<br /> + +<br /> + +―A submissão, a energia e a lealdade―disse +Paulo. +<br /> + +<br /> + +―Boas armas são essas quando temperadas ao +fogo vivo do sentimento do Bem e da Justiça. Que +vos falta? +<br /> + +<br /> + +―A força da +<em>Mão-negra</em>. +<br /> + +<br /> + +―A <em>Mão-negra</em> +só dispensa a sua força e o seu +amparo aos que tudo lhe sacrificam com coragem, +valor, e brio. N'este gremio não se admittem nem os +timidos nem os cobardes. +<br /> + +<br /> + +―Não o sou. +<br /> + +<br /> + +―Dizer é facil; provar é difficil. Quereis +sujeitar-vos +á prova? +<br /> + +<br /> + +―Estou prompto! +<br /> + +<br /> + +―Reparae que podeis perder a vida na jornada +aspera que ides emprehender. +<br /> + +<br /> + +―A vida de nada me serve, se não posso dar-lhe +applicação util. +<br /> + +<br /> + +―É facto. No emtanto, é meu dever prevenir-vos +de que, sem perderdes a vida, podeis perder a esperança +da felicidade, que é a vida do +coração, o objectivo +da existencia. +<br /> + +<br /> + +―Tudo sacrificarei aos meus irmãos. +<br /> + +<br /> + +―É melhor recuar, mancebo. Na longa estrada +que tendes a percorrer antes de chegardes á +<em>Mão-negra</em>, +encontrareis mil perigos e mil precipicios terriveis, +que sereis obrigado a transpôr ou a morrer. +Avançado +o primeiro passo n'esse caminho mysterioso e fatal, +recuar é impossivel; a menor hesitação +é a morte. Só +uma coragem admiravel e uma força de vontade rara +pódem conduzir-vos a salvo ao ponto desejado. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[13]</span> ―Irei e hei-de chegar. +<br /> + +<br /> + +―Pois bem, vinde! +<br /> + +<br /> + +Levantou-se, desceu do throno, deu-lhe a mão, +abriu uma porta ao lado da parede e, empurrando-o +para dentro d'ella, disse: +<br /> + +<br /> + +―Podeis tirar a venda. Segui esse longo e escuro +subterraneo até ao fim. Tereis que luctar com o fogo, +com a agua, com os homens e com as feras, antes que +chegueis á porta santa do asylo que buscaes. Ide e +que S. Miguel―que venceu o dragão―vos dê +força +e coragem. +<br /> + +<br /> + +O mancebo levou as mãos aos olhos, arrancou a +venda e embrenhou-se n'uma escura e estreita galeria +subterranea, que foi seguindo com estranha ousadia. +<br /> + +<br /> + +A treva cercava-o sem lhe deixar perceber onde +punha os pés. +<br /> + +<br /> + +Algumas duzias de passos andados, um subito +clarão illuminou o subterraneo. Paulo, deslumbrado, +levou as mãos aos olhos. Na sua frente, erguiam-se as +chammas pavorosas de um incendio, que avançava +para elle em linguas de fogo, ameaçando devoral-o. +Dir-se-hia que uma enorme represa de alcool ou de +petroleo se havia aberto e que, incendiado, ia inundar +o subterraneo, transformando-o n'um immenso +forno crematorio. +<br /> + +<br /> + +O mancebo, n'um momento surpreso, sentindo na +face o calôr das chammas, nem por isso se deteve. +Caminhou audaz e resoluto para o perigo, disposto a +deixar-se queimar vivo antes que retroceder. +<br /> + +<br /> + +Ao aproximar-se das chammas, porém, estas apagaram-se +subitamente, tornando mais densa a treva do +corredor. +<br /> + +<br /> + +Seguiu ávante, e pouco depois sentiu o ruido clamoroso +e sinistro de uma enorme queda d'agua, que +se despe +Seguiu ávante, e pouco depois sentiu o ruido clamoroso +e sinistro de uma enorme queda d'agua, que +se despenhava em catadupas de uma rocha que obstruia +a passagem e que parecia o remate d'aquelle +<span class="pagenum">[14]</span> +medonho e tenebroso subterraneo transformado n'um +lago. +<br /> + +<br /> + +A agua despenhava-se de tal altura e com tal +fragor que, batendo nas pedras, resaltava, esparrinhando +com tanta violencia, que algumas gottas vinham +açoitar o rosto de Paulo. +<br /> + +<br /> + +Á primeira vista, parecia impossivel transpôr +aquelle enorme pégo sem perecer afogado. Uma dubia +luz, coada por uma pequena abertura na abobada do +subterraneo, esclarecia o medonho passo. +<br /> + +<br /> + +Paulo, tomado da raiva febril de transpôr todas as +barreiras ou morrer, avançou corajoso, fechou os olhos +e atirou-se á agua. Com grande assombro seu, achou-se +em terreno enxuto. A agua tinha desapparecido e +com ella o ruido pavoroso da corrente. +<br /> + +<br /> + +A treva tornara-se mais densa. Não obstante, elle +caminhava afoito, quando, de repente, se sentiu agarrado +e preso por duas fortes e vigorosas mãos que o +levantaram ao ar deixando-o cahir. +<br /> + +<br /> + +Procurava firmar-se nas pernas, quando notou que +o terreno lhe faltava debaixo dos pés e se precipitava +n'um abysmo. +<br /> + +<br /> + +Não soltou um grito. Esperava morrer como um +homem, e assim chegou a um segundo subterraneo, +onde se encontrou de pé, illeso e sem que soffresse a +menor contusão. +<br /> + +<br /> + +Continuou o seu caminho corajosamente, embora +sob o peso das commoções soffridas. Foi andando +na +treva por alguns minutos, quando um rugido terrivel +lhe despertou a attenção. +<br /> + +<br /> + +Olhou e viu na sua frente uma porta de ferro, +defendida, por dois enormes leões, que punham n'elle +os olhos de fogo, escancarando n'uma ameaça a guella +hiante. +<br /> + +<br /> + +Fixou a vista aterrado nos monstros, que soltaram +novo rugido atroador. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[15]</span> +Pallido, os cabellos eriçados, as faces contrahidas +de susto, o mancebo pensou em retroceder, mas envergonhado +d'esta cobardia, exclamou, avançando para +as féras: +<br /> + +<br /> + +―Antes morrer que recuar! +<br /> + +<br /> + +Rapidamente, os leões sumiram-se na parede e +Paulo pôde bater á porta, levantando e deixando +cair +o pesado batente em forma de mão negra. +<br /> + +<br /> + +A porta abriu-se. +<br /> + +<br /> + +―Entrae!―disse o mesmo chefe que o havia introduzido +no subterraneo, recebendo-o de novo na sala +d'onde havia partido. +<br /> + +<br /> + +Paulo entrou. +<br /> + +<br /> + +―Ides dar-nos a ultima prova―propoz o chefe.―Aqui +tendes este punhal. N'aquelle gabinete está, sob +a acção de um narcotico, uma mulher, que +é preciso +<em>eliminar</em>... Ide! Cravae-lhe este +punhal no coração. +<br /> + +<br /> + +Paulo pegou no punhal, abriu a porta e ia avançar, +quando recuou espantado, soltando um grito terrivel: +<br /> + +<br /> + +―Ella!―bradou o pobre rapaz afflictivamente. +<br /> + +<br /> + +É que diante dos seus olhos admirados apparecera +uma bella e gentil figura de mulher, estendida sobre +um pôtro de torturas, os pés e as mãos +amarradas, a +face pallida, os olhos cerrados, como que esvaecida ou +morta, e essa mulher, essa visão inesperada, era nem +mais nem menos do que a sua amada, a aspiração +querida +da sua alma, a mulher por quem o pobre moço ia +filiar-se na mysteriosa e terrivel seita da +<em>Mão negra</em>! +<br /> + +<br /> + +―Hesitas?―perguntou o chefe com um accento +de desprezo e sarcasmo na voz.―Não prestaste ainda +juramento, mancebo; não estás preso a +nós por nenhuns +laços. Se o teu coração se entibia, se +o teu braço +treme e se recusa a obedecer, vae, deixa-nos! Profere +apenas uma palavra e serás restituido á +liberdade. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[16]</span> +No rosto do mancebo desenhava-se uma angustia +profunda. Os cabellos em desalinho, a face pallida, a +fronte banhada de um suor frio, não desfitava os olhos +d'aquelle meigo e adorado vulto de mulher, a que tinha +presa toda a sua existencia, todas as esperanças +da sua juventude, todas as nobres aspirações da +sua +alma e que alli via, sem saber como nem porque, semi-morta, +amarrada áquelle pôtro fatal, e prestes a +cahir aos golpes de uma justiça occulta, que a mandava +apunhalar! +<br /> + +<br /> + +E havia de ser elle o algoz, havia de ser elle o +executor da fatal sentença, elle, que por ella sacrificaria +a vida, a honra, a familia, tudo o que um homem +póde sacrificar á mulher amada! +<br /> + +<br /> + +Era horrivel! +<br /> + +<br /> + +―Decide-te, mancebo!―tornou o chefe―Ou +cumpres corajosamente os mysteriosos designios da +<em>Mão-negra</em>, ou recusas e +vaes em paz com a tua cobardia! +<br /> + +<br /> + +Como se lhe tivessem vergastado o rosto, á palavra +<em>cobardia</em>, o mancebo apertou na +mão o punhal e, +voltando-se para o seu mysterioso interlocutor, disse, +rangendo os dentes: +<br /> + +<br /> + +―Cobarde não o sou, não o serei +jámais! Que +posso eu fazer para resgatar a vida d'aquella mulher? +<br /> + +<br /> + +―Nada! +<br /> + +<br /> + +―Offereço-vos a minha vida, senhores! Pegae em +mim, amarrae-me áquelle pôtro onde a tendes +manietada, +sujeitae-me á tortura mais cruel, mais +horrenda,―não +soltarei uma queixa, não me ouvireis um +gemido! Mas libertae-a a ella, restitui-lhe a liberdade, +concedei-lhe a vida, e eu bem direi a vossa generosidade, +a vossa grandeza d'alma, e o meu ultimo alento +será ainda um protesto, de gratidão para +comvosco! +<br /> + +<br /> + +―Nada podemos fazer-te. Essa mulher está condemnada, +<span class="pagenum"><a name="p17">[17]</a></span> +e nada poderá libertal-a da nossa +justiça. +Queres executar a sentença ou preferes retirar-te em +paz com a tua fraqueza... com a tua cobardia, repito? +<br /> + +<br /> + +―Cobarde nunca!―bradou o moço, luzindo-lhe +nos olhos uma colera terrivel―Bem vêdes que não +é +o meu braço que treme―é o meu +coração que lucta! +<br /> + +<br /> + +―Vence-o! +<br /> + +<br /> + +―Vencel o-hei. Mas antes, dizei-me: +não tem preço +aquella vida? Quantas vidas quereis que vos entregue +em resgate d'aquella? Apontae-m'as, e eu vos +juro que vol-as entregarei todas, sem faltar uma, ainda +que para isso eu tenha de descer tão baixo, que +me confunda com os mais infimos sicarios, ou haja de +subir tão alto, que chegue a transpôr os degraus +de +um throno! Reparae que esta é a mulher que amo! +É o mundo que vós me mandaes anniquilar com +<a href="#e2">aquella</a> existencia! +<br /> + +<br /> + +―Está condemnada. Decide-te!―tornou a voz―Partes +ou ficas? +<br /> + +<br /> + +―Pois bem, fico!... para partir com ella! +<br /> + +<br /> + +Avançou desvairadamente para a sua amada, que, +immovel, amarrada ao pôtro, parecia cahida em profundo +lethargo. +<br /> + +<br /> + +―Beatriz, perdoa-me!―murmurou elle.―Não +é a ti que eu apunhál-o, é a mim +proprio... Seguir-te-hei +no teu resgaste! +<br /> + +<br /> + +Dizendo isto, cravou-lhe fundo o punhal no +coração. +O sangue espadanou do peito da victima, que +não soltou um gemido. +<br /> + +<br /> + +O mancebo, com as mãos tintas de sangue, veio á +sala e disse serenamente, encarando os seus lugubres +e mysteriosos companheiros que se conservavam mudos +e immoveis: +<br /> + +<br /> + +―Pedistes-me uma vida. Dar-vos-hei duas, ensinando-vos +<span class="pagenum"><a name="p18">[18]</a></span> +ao mesmo tempo como se mata e como se +morre! +<br /> + +<br /> + +E n'um movimento rapido, sem dar tempo a que +o detivessem, alçou o braço e cravou o punhal no +coração. +<br /> + +<br /> + +A lamina, porém, não penetrou a carne e o +mancebo, +admirado de que o ferro lhe não tivesse produzido +a menor dôr, examinou espantado a arma homicida. +<br /> + +<br /> + +Era um d'estes punhaes simulados, cuja lamina de +latão, se embebe e desapparece no cabo quando se descarrega +a punhalada, voltando a apparecer impellida +por occulta mola desde que deixa de ser premida de +encontro ao corpo. +<br /> + +<br /> + +―Mas o que é isto?―disse elle indignado, quasi +sem comprehender.―Estamos nós representando uma +farça? +<br /> + +<br /> + +―Não, meu amigo!―respondeu amavelmente o +chefe―estiveste <a href="#e3">dando-nos</a> a +prova da tua rara +coragem, +do valor e lealdade do teu caracter, e nós todos, +bemdizendo a hora que traz ao nosso gremio um +<em>irmão</em> +de tanto valor! +<br /> + +<br /> + +Depois, voltando-se para o gabinete onde ainda jazia +inanime a <em>amada</em> de Paulo, continuou: +<br /> + +<br /> + +―Como já deves ter comprehendido, alli não +está +a tua amada, porém a sua imagem tão perfeita e +semelhante, +que a tomaste por ella propria. +<br /> + +<br /> + +O mancebo, aturdido, punha no manequim os +olhos, recusando-se a acreditar o que ouvia. +<br /> + +<br /> + +―Foi, pois, uma simulação de morte―proseguiu +o chefe―O valor moral da acção fica em +pé, visto +que a tua intenção era obedecer aos preceitos da +<em>Mão-negra</em>... +<br /> + +<br /> + +―E matar-me em seguida!―accrescentou o mancebo. +<br /> + +<br /> + +―É a unica porta que resta aberta aos nossos +<span class="pagenum">[19]</span> +<em>irmãos</em> para se separarem +de nós. A sahida por esse +lado, posto seja uma fraqueza, não é nunca um +crime. +De resto, é tambem por ella que fazemos sahir os +que se tornam indignos de pertencerem á nossa +Associação. +<br /> + +<br /> + +―Espero que não tereis o incommodo de me ensinar +o caminho, se algum dia me arrepender de haver +buscado a vossa camaradagem―disse Paulo. +<br /> + +<br /> + +―Felicito-te, mancebo, pela tua rara energia, +lealdade e valor do teu caracter, de que déste prova. +Serás um bom <em>irmão da +Mão-negra</em> e auguro-te uma +brilhante carreira dentro do nosso gremio, se perseverares +em conservar puras e immaculadas as apreciaveis +qualidades a que deves a tua admissão. Queres +prestar juramento? +<br /> + +<br /> + +―Sim! +<br /> + +<br /> + +―Irmão Golias!―ordenou o chefe―vendae os +olhos ao neophyto! +<br /> + +<br /> + +Destacou-se da parede o +<em>irmão</em> que já +havia sido +o apresentante do mancebo, e cumpriu as ordens do +chefe. +<br /> + +<br /> + +―Vendam-se-vos ainda os olhos―disse este―não +porque esteja no nosso animo guardar para comvosco +novos mysterios ou admittir-vos com fins reservados, +mas tão sómente porque a venda que se vos +põe agora +representa a confiança cega, illimitada, que deveis +ter nos vossos irmãos e nos nobres e justos fins para +que todos trabalhamos, unidos como um só homem, +guiados pela mesma potente e mysteriosa +<em>Mão-negra</em>. +<br /> + +<br /> + +Findo este pequeno discurso, o chefe fez um signal. +Os vultos que, de pé e immoveis rodeavam a sala, encostados +á parede, avançaram silenciosamente e formaram +um circulo á roda de Paulo. +<br /> + +<br /> + +―Irmão Golias!―disse o chefe. +<br /> + +<br /> + +―Eis-me, senhor! +<br /> + +<br /> + +―Fiastes o neophyto. Persistes fiando-o? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[20]</span> ―Do fundo da minha alma. +<br /> + +<br /> + +―Sois o seu padrinho. Tomae o vosso logar. +<br /> + +<br /> + +O vulto que dava pelo nome de Golias postou-se +ao lado do mancebo, tendo na mão uma salva de prata +coberta por um crepe. +<br /> + +<br /> + +O chefe subiu então ao throno e passou-se n'aquelle +recinto uma scena deveras surprehendente. +<br /> + +<br /> + +De pé sobre o throno, o chefe pegou em um escrinio +de pau santo com embutidos de prata e marfim representando +uma caveira com dois fémures em cruz, +carregou em um pequeno botão, e o escrinio abriu-se, +transformado-se rapidamente em uma almofada de veludo +carmezim em que assentava um craneo alvissimo, +seguro por dois punhaes em tropheu. +<br /> + +<br /> + +Estendeu para a assembleia o braço sustentando +esta estranha <em>reliquia</em>, e +immediatamente os vultos, +levando as mãos á cinta, desembainharam luzentes +floretes +que traziam occultos debaixo dos habitos e que +apontaram ao neophito, formando-lhe com elles um +circulo de ferro. +<br /> + +<br /> + +Ao mesmo tempo uma voz resoou: +<br /> + +<br /> + +―Está aberto o templo! +<br /> + +<br /> + +Tres portas abriram-se e por ellas começou +entrando +uma verdadeira multidão de capuzes negros, trazendo +na mão esquerda uma tocha accesa e na dextra +um punhal. +<br /> + +<br /> + +Os das tochas formaram em cruz, ao comprido e +ao través do <em>templo</em>, +abrindo em alas, voltados todos +para o centro, onde se agrupavam, como já dissemos, +os primeiros vultos, rodeando Paulo, com os floretes +desembainhados. +<br /> + +<br /> + +Tudo isto se fez no meio do maior silencio e quasi +sem deixar perceber o ruido dos passos. +<br /> + +<br /> + +Então o chefe, erguendo a voz, disse: +<br /> + +<br /> + +―Mancebo, juras obediencia, lealdade e amor a +todos os irmãos da <em>Mão +negra</em>? Juras não revelar a +<span class="pagenum">[21]</span> +alguem os segredos da nossa agremiação? Juras +sacrificar +por ella todos os dias da tua vida, todas as +horas da tua existencia, o vigor do teu braço, os +pensamentos +do teu cerebro, os sentimentos do teu coração? +<br /> + +<br /> + +Paulo estendeu a mão e disse solemnemente: +<br /> + +<br /> + +―Juro! +<br /> + +<br /> + +Immediatamente, o irmão Golias, entregando a +outro a salva que tinha na mão, voltou-se para o neophyto, +dizendo: +<br /> + +<br /> + +―Irmão <em>David</em>, pois que +sou teu padrinho, vou +impor-te o habito de +<em>Mão-negra</em>! +<br /> + +<br /> + +Enfiou-lhe então pelos hombros um habito igual +ao que os outros vestiam, deixando-lhe apenas a cabeça +a descoberto, sem lhe deitar o capuz. +<br /> + +<br /> + +―Tirae a venda, irmão―ordenou o chefe―para +que toda a luz se faça aos vossos olhos! +<br /> + +<br /> + +O mancebo arrancou a venda e ficou maravilhado +e surprehendido ante o estranho quadro que se apresentava +á sua vista. +<br /> + +<br /> + +Os irmãos haviam atirado os capuzes para as costas +e descoberto os rostos, conservando-se, porém, na +mesma attitude severa e hostil, com os florêtes apontados +ao novo irmão. +<br /> + +<br /> + +Passando uma vista curiosa por todos elles, o mancebo +ficou surprehendido de vêr muitos rôstos conhecidos +á volta de si. +<br /> + +<br /> + +O irmão Golias, pegou-lhe na mão e +fêl-o subir os +degraus do throno. +<br /> + +<br /> + +O chefe veio recebel-o a meio, apertou-o nos braços +e osculou-o na testa. +<br /> + +<br /> + +―Bem vindo sejas, irmão, a augmentar a nossa +ala!―disse elle. +<br /> + +<br /> + +A estas palavras, todos os florêtes se abaixaram, +entrando na bainha. +<br /> + +<br /> + +Em seguida tomou-lhe a mão e acompanhou-o até +ao degrau inferior do throno, dizendo: +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[22]</span> ―Recebe o abraço de teus irmãos e faze por te +conservares sempre digno d'elles. +<br /> + +<br /> + +Os irmãos que o haviam rodeado com os florêtes +vieram todos um a um abraçál-o e +beijál-o na testa. +<br /> + +<br /> + +―Irmãos!―disse o chefe do alto do throno―vae +reunir o sublime capitulo. Está encerrado o +<em>templo</em>. +<br /> + +<br /> + +As luzes apagaram-se, e os vultos começaram a +sahir pelas differentes portas do recinto, sumindo-se +mysteriosamente sem que alguem pudesse dizer que +caminho levavam. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p23">[23]</a></span> +<h3><a name="c2"></a>II<br /> + +<br /> + +Amôr e esperança +</h3> + +<br /> + +<br /> + +Deixemos os mysteriosos irmãos da +<em>Mão-negra</em> seguir +o caminho que os havia de reconduzir ao mundo +do qual por algum tempo semelhavam ter-se apartado, +e sigamos o arrojado e corajoso adolescente que +acaba de iniciar-se nos mysterios da terrivel seita. +<br /> + +<br /> + +Paulo, tendo sahido da quinta do Carvalhido em +companhia do seu amigo Jorge, agora convertido em +seu <em>irmão</em>, regressou +á cidade no mesmo trem que o +conduzira, apeando-se e despedindo-se do companheiro +em uma rua proxima da de Cedofeita. +<br /> + +<br /> + +Eram tres horas da manhã e o vento continuava +soprando rijo da barra, pondo negrumes de tempestade +n'aquella noite desabrida. +<br /> + +<br /> + +O mancebo seguiu pela rua deserta até parar +junto de uma casa de luxuosa apparencia, e que denunciava +pelo exterior severo e pelo amplo jardim +gradeado que lhe ficava contiguo, a opulencia dos +seus habitantes. +<br /> + +<br /> + +Inflou as bochechas e, batendo-lhe com as mãos, +imitou o canto da perdiz. +<br /> + +<br /> + +Era evidentemente um signal, porque <a href="#e4">algum +tempo</a> +<span class="pagenum"><a name="p24">[24]</a></span> +depois, uma das janellas do rez do chão, vedada +por grades de ferro, abriu-se manso, e uma voz feminina +disse, tremula e quasi sumida: +<br /> + +<br /> + +―Como vens tarde, meu amigo! +<br /> + +<br /> + +―Beatriz, perdôa, mas um assumpto do mais alto +interesse e de que depende a nossa felicidade futura +impediu-me de vir á hora costumada. Hesitei em vir +despertar-te a esta hora; mas a ideia de que havia +de estar sem te fallar e talvez sem te ver até +amanhã +á noute, obrigou-me a procurar-te, Beatriz. +<br /> + +<br /> + +―Eu esperava-te... Esperava-te, porque tinha +tambem que te dizer... Oh! se soubesses como estou +afflicta! +<br /> + +<br /> + +―Tu! Mas o que te succedeu, anjo da minh'alma?... +<br /> + +<br /> + +―Paulo...―gemeu a meiga voz que fallava do +lado de dentro da grade―não sei como t'o hei de +dizer... meu Deus! +<br /> + +<br /> + +―Falla, Beatriz, falla, pelo nosso amor t'o +peço!―supplicou +o moço―Não me tenhas por mais tempo +n'esta cruel espectativa... Tu choras, tu pareces afflicta... +Meu Deus! o que é que motiva a tua dôr? +<br /> + +<br /> + +Beatriz, cujo vulto mal podemos distinguir na penumbra +do aposento, occultava o rosto entre as mãos +buscando afogar os soluços. +<br /> + +<br /> + +―Paulo,―disse ella―meu pae... quer casar-me! +<br /> + +<br /> + +O mancebo recuou um passo como se lhe tivessem +descarregado uma violenta <a href="#e5">pancada</a> +no peito. +<br /> + +<br /> + +―Quer casar-te!―exclamou.―E com quem? +<br /> + +<br /> + +―Com um rapaz que eu mal conheço... um rapaz +que tem vindo duas ou tres vezes de visita a +nossa casa, onde foi apresentado por um dos mais intimos +amigos de meu pae... +<br /> + +<br /> + +―Dize-me o nome d'esse rapaz!―intimou desvairadamente +o moço. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p25">[25]</a></span> ―Eugenio de Mello―soluçou Beatriz. +<br /> + +<br /> + +―Eugenio de Mello!―repetiu o mancebo.―Esse +nome é completamente estranho para mim. Nunca t'o +ouvi pronunciar. +<br /> + +<br /> + +―Se te digo que apenas veio duas ou tres vezes +de visita a nossa casa, apresentado por um amigo de +meu pae... +<br /> + +<br /> + +―Mas, emfim, como é que surge agora essa ideia +de te casarem com elle? Acaso esse rapaz alguma +vez te manifestou sentimentos de sympathia ou de +amor? Falla-me com franqueza, Beatriz. Comprehendo +que por uma bem entendida delicadeza da tua parte +para comigo, julgasses dever occultar-me os galanteios +d'esse rapaz, se porventura elles te eram indifferentes... +Mas não comprehendo <a href="#e6">como</a> +teu pae pudesse +ter a ideia subita de te casar com elle, sem mesmo +tentar indagar se o teu coração não +repelliria um semelhante +enlace. +<br /> + +<br /> + +―Não! juro-te que nunca dos labios d'esse rapaz +ouvi uma palavra que pudesse dar-me a perceber o +mais tenue sentimento de amor por mim. Fóra dos +cumprimentos e ceremoniosas attenções que as +pessoas +de boa sociedade usam ter para com uma senhora, não +se trocaram entre nós quaesquer amabilidades que +justificassem o pensamento d'este enlace que me surprehende! +<br /> + +<br /> + +―É extraordinario! E como é que teu pae pretende +impor-te um casamento em que tu nem sequer +tinhas pensado? +<br /> + +<br /> + +―Sabes que meu pae―volveu Beatriz―habituou-se +a contar com a minha obediencia cega e passiva +em todos os seus desejos, que para mim são +ordens. Muito austero, educou-me sob um regimen +de ferro em que a sua vontade é a unica que predomina... +<br /> + +<br /> + +―Isso, porém, não é rasão +para que elle se julgue +<span class="pagenum">[26]</span> +no direito de sacrificar o teu futuro de mulher +aos seus caprichos de... pae. +<br /> + +<br /> + +―Meu pae ignora que eu te amo, Paulo! Julga +o meu coração desprendido de qualquer affecto e +crê +que não me repugna a ideia de unir o meu destino ao +de um homem que elle julga digno de mim. +<br /> + +<br /> + +―E se de facto te não repugna... obedece-lhe!―bradou +o mancebo n'uma voz estridente em que ia +todo o fel do seu desespero. +<br /> + +<br /> + +―Paulo! És injusto para comigo! Sabes que te +amo, que não posso amar outro homem que não sejas +tu; e quando me vês afflicta, atormentada ao peso da +cruel exigencia de meu pae, em vez de suavisares a +minha dôr, de me animares com o teu conselho a +resistir á fatal imposição que me +é feita, ainda me +torturas mais com esse tom acrimonioso e hostil das +tuas palavras! Não te mereço isso... +<br /> + +<br /> + +As lagrimas da joven interlocutora de Paulo que, +se realmente possue um rosto tão meigo como as suas +palavras, de linhas tão suaves e puras como é +doce o +accento da sua voz, deve de ser uma creatura encantadora, +pareceu abrandar um pouco o irritado animo +do mancebo. +<br /> + +<br /> + +―Mas o que queres tu que te diga, minha querida, +se eu noto que era vez de pensares em repellir +a despotica imposição de teu pae, ainda tentas +desculpal-o? +<br /> + +<br /> + +―Não o desculpo... digo apenas o que elle +pensa. +<br /> + +<br /> + +―Mas que tenho eu que saber o que pensa teu +pae? O que desejo saber é o que pensas tu, minha +querida! O que é que tencionas fazer? Que respondeste +a teu pae? Qual é a tua intenção? +<br /> + +<br /> + +Beatriz pareceu hesitar na resposta. +<br /> + +<br /> + +―Desejava ouvir-te, primeiro, Paulo... desejava +que me dissesses o que devo fazer... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[27]</span> ―Eu?! Pois é a mim que compete dirigir os teus +actos? É a mim que compete dictar a tua resposta? +Consulta o teu coração, Beatriz... Elle que te +responda +e te diga a resolução que deves tomar... +<br /> + +<br /> + +―Paulo! O meu coração diz-me que só a +ti pertenço, +que só a ti eu desejo ter por marido... Mas, +bem vês, quando eu disser a meu pae que te amo, e +que por ti estou decidida a recusar outro qualquer enlace, +por mais vantajoso que se apresente, meu pae +ha de perguntar-me quem és... +<br /> + +<br /> + +―E tu dize-lhe que sou aquelle que julgas que +eu seja. Ou vae tão longe a tua piedade por mim e o +teu despreso por ti que, tendo-me na conta de indigno +do teu amor, assim mesmo m'o concedes? +<br /> + +<br /> + +―Oh! não, não, Paulo! +<br /> + +<br /> + +―N'esse caso, o que receias? +<br /> + +<br /> + +―É que eu julgo-te com o coração; meu +pae, +porém, ha-de julgar-te com a cabeça; e entre o +coração +da filha e o cerebro do pae existe uma distancia +tão grande, que eu receio bem que não possamos +transpôl-a... +<br /> + +<br /> + +―Se essa é a tua convicção e te +faltam forças +para resistir e luctar, submette-te e... adeus! Adeus +para sempre, Beatriz!... +<br /> + +<br /> + +Paulo ia a retirar-se. O animo orgulhoso e altivo +d'este adolescente de 18 annos, que tinha já a energia +e a vontade de ferro de um homem feito, não podia +supportar sem protesto os timidos receios e as +hesitações +offensivas da mulher que adorava. +<br /> + +<br /> + +―Paulo!―tornou a chamar a joven.―Escuta-me! +Que singular prazer tens em me atormentar, +quando eu tanto preciso da tua compaixão e da tua +piedade! +<br /> + +<br /> + +―Fallas-me em tormentos, Beatriz, quando desde +que aqui cheguei outra coisa não tens feito senão +revolver-me +n'um perfeito inferno de torturas! Acabemos +<span class="pagenum">[28]</span> +com isto, e vamos direitos ao fim sem +tergiversações +nem rodeios. Teu pae impôz-te o casamento com +esse... rapaz, que deve ser por força rico, distincto... +amavel, emfim. E tu acceitaste? +<br /> + +<br /> + +―Eu... +<br /> + +<br /> + +―Hesitas na resposta e a tua propria hesitação +me responde: acceitaste e vens dizer-me que está +tudo terminado entre nós... +<br /> + +<br /> + +―Oh, não!―accudiu a joven, com impeto.―Eu +não acceitei nem respondi como desejava. Pedi que +me deixassem reflectir, porque o meu primeiro pensamento +foi ganhar tempo, para poder combinar comtigo +o que devo fazer... +<br /> + +<br /> + +―O que deves fazer não seja eu quem t'o diga. +Teu pae é rico, Beatriz; tu mesma és +já herdeira de +uma avultada fortuna, e eu sou pobre. Separa-nos, +portanto, actualmente um abysmo... Cuidei que poderia +contar comtigo solteira e livre até ao dia, que +não viria longe, em que eu pudesse apresentar-me a +teu pae, a solicitar a tua mão, sem que o pedido revestisse +o caracter humilhante para mim de uma tentativa +de penetrar no sanctuario da riqueza pela +porta do coração de uma mulher. Vejo, +porém, que o +destino quer o contrário; que outro pretendente se +apresenta com menos escrupulos ou mais dinheiro do +que eu, e que da firmeza e constancia do teu amor +nada tenho a esperar, se eu não me resolver a prestar-te +o amparo incompativel com a minha dignidade +de homem e com o programma que me tracei de só a +mim dever o meu triumpho. Paciencia! +<br /> + +<br /> + +―Paulo, tu não me conheces! ou, ―Paulo, tu não me conheces! ou, se me conheces, +estás sendo para mim de uma injustiça que mais +tarde +te ha-de fazer remorsos... Escuta-me, meu amigo, +escuta-me com serenidade e repara bem nas minhas +palavras. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[29]</span> +E Beatriz, com voz tremula de commoção, +principiou +dizendo: +<br /> + +<br /> + +―Não conheces o caracter de meu pae e não admira +por isso que julgues sêr-me coisa facil o contrariar-lhe +os propositos... Eu, porém, que o conheço, que +por elle fui educada e com elle tenho vivido sob o jugo +do seu genio rispido e severo, avalio bem que crueis +amarguras e horriveis tormentos a sua colera me prepara +na lucta que vou ser obrigada a sustentar, recusando-me +a acceitar por esposo o homem que elle me +escolheu. Não me intimida, porém, a perspectiva +do +soffrimento. Morrerei de bom grado na defesa dos sagrados +affectos do meu coração e conservar-me-hei fiel +ao juramento tantas vezes repetido do meu amôr. O +que quero é ter a certeza de que a tua confiança +me +não abandona, Paulo; que quaesquer que sejam as +mudanças que se operem no nosso modo de viver e de +nos relacionarmos―mudanças que eu não posso +prevêr +por emquanto quaes sejam, mas que certamente hão +de sêr as mais dolorosas para o nosso +coração―eu +terei no teu espirito e na tua lembrança o logar a que +o meu amôr me dá direito... +<br /> + +<br /> + +―Beatriz!―exclamou o mancebo―quando se +ama como eu te amo; quando se sente no peito a +chamma ardentissima de um vivo e intenso amor que +de todo nos senhoreia o espirito e nos absorve a existencia, +lucta-se, soffre-se, morre-se, mas não se esquece +jámais o nome d'aquella que nos inspirou tão +fervoroso +culto! +<br /> + +<br /> + +―Pois bem, meu Paulo! É possivel que o destino +nos reserve dias bem sombrios de uma ausencia +crudelissima, que ha-de retalhar-nos o coração e +quasi +volver-nos loucos de desespero. Sejam quaes forem as +circumstancias em que nos encontremos, sejam quaes +forem as apparencias que me condemnem, não +duvidarás +nunca da lealdade do meu affecto como eu não +<span class="pagenum">[30]</span> +duvidarei, jámais da sinceridade da tua alma, não +é +verdade? +<br /> + +<br /> + +―Fazes-me estremecer de receio, Beatriz! Decerto +exaggeras o pavoroso quadro dos nossos infortunios...―disse +o mancebo, pallido de commoção. +<br /> + +<br /> + +―É que tu não conheces meu pae! +<br /> + +<br /> + +―Que poderá elle fazer, se tu recusares tenazmente +esse enlace como uma violencia imposta ao teu +coração? Antes de tudo, tu és sua +filha; e um pae, +por muito severo e rispido que pareça, não se +transforma +por simples capricho no algoz d'aquella a quem +deu o sêr. +<br /> + +<br /> + +―Não sei... não posso dizer-te nada por +emquanto, +senão que tudo espero d'este funesto designio manifestado +por meu pae... Mas seja como fôr, jura-me +que não duvidarás nunca da mim, que has-de sempre +confiar na tua Beatriz como n'aquella que mais te +ama no mundo. +<br /> + +<br /> + +―Juro-te, meu amor, que serás minha e que não +te has-de encontrar só na lucta e no soffrimento. Tenho +amigos―continuou Paulo―amigos poderosos, contra +os quaes não é facil nem prudente luctar... Com +elles +conto como <em>irmãos</em> e +n'elles espero encontrar o auxilio +de que ambos carecemos. Não te assustes nem te deixes +dominar pelo terror. Hontem, ainda desprotegido, +poderia talvez apavorar-me a ideia da minha fraqueza +contra inimigos tão poderosos como é teu pae; +hoje, +conscio de que os brados intimos do meu coração +ameaçado de morte encontrarão ecco n'outros +corações +que me são dedicados, levanto-me orgulhoso e altivo +do teu amor, e digo-te: «Não succumbas, anjo da +minha alma! Tem confiança em mim, que havemos +de vencer». +<br /> + +<br /> + +O tom de absoluta segurança com que Paulo proferiu +estas palavras pareceu transmittir novo alento +á joven. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[31]</span> ―Luctarei―disse ella―e agora com mais energia, +desde que nas tuas palavras tenho o penhor de +que não será perdido o meu sacrificio. Nada mais +te +pedia e nada mais te peço do que essa confiança +inabalavel +na constancia do meu amor. Ama-me como eu +te amo, Paulo! e d'este sentimento, que é a vida, +hauriremos forças para resistir aos embates de uma sorte +cruel e adversa! +<br /> + +<br /> + +Trocaram-se ainda novas juras e protestos de constancia +e amor sem fim, despedindo-se, e promettendo +tornar a ver-se na noite seguinte. +<br /> + +<br /> + +O leitor, eivado do realismo da epoca, certamente +está sorrindo do córte romanticamente amoroso e +piegas +d'este dialogo dos dois namorados. +<br /> + +<br /> + +Effectivamente, a menina tem a phrase um tanto +brunida e lustrosa das heroinas dos romances d'outras +eras, o que dá um tom de inverosimilhança ao +lance +ingenuamente sentimental. +<br /> + +<br /> + +Mas o romancista, se copía do natural como nós +o estamos fazendo, não tem remedio senão +acingir-se á +verdade e reproduzir os seus personagens com os +aleijões que a natureza, as condições +do meio ou os +acasos do nascimento e da educação lhes +imprimiram +no corpo ou no caracter. +<br /> + +<br /> + +Esta menina, assim romanticamente apaixonada, +exprimindo-se em termos de um antiquado sabor +litterario, não nos está revelando uma assidua e +ingenua +leitora das novellas de Camillo? +<br /> + +<br /> + +Claro está que ella reproduz incorrectamente o +que de peor podia haurir na leitura do genial escriptor―a +emphase, o arredondado do periodo, a declamação +cantante, sem os esmêros da dicção, sem +a impeccavel +belleza e elegancia de fórma do grande Mestre. Mas +o facto é que ella, em assumptos de +coração, não podia +exprimir-se de outra maneira, visto que, como mais +tarde teremos occasião de averiguar, foi nas paginas +<span class="pagenum">[32]</span> +soluçantes do «Amor de +Perdição» que aprendeu a +traduzir as primeiras balbuciações do seu amoroso +coração de creança. +<br /> + +<br /> + +Paulo tambem, pela sua parte, influenciado pelas +mesmas leituras, correspondia-lhe no tom e no gosto +do seu arrasoado. Se, porém, esta linguagem póde +ser +capitulada de falsa, o mais espantoso é que ella exprimia +um sentimento profundamente verdadeiro. +<br /> + +<br /> + +Os dois amavam-se com entranhado ardôr, e isso +é o que mais importa saber ao leitor inimigo de +divagações. +<br /> + +<br /> + +Ponhamos, pois, de parte a preoccupação de +responder +a reparos que a grande maioria certamente +não fará e digamos em poucas palavras o que foi +feito +de Paulo, desde que, cerrada a janella da sua amada, +teve que retirar-se a passos apressados para que a +chuva, que começava a cair em grossas gôtas, o +não +surprehendesse na rua tristemente deserta. +<br /> + +<br /> + +O mancebo era estudante. Tinha completado o +curso do Lyceu e matriculara-se no primeiro anno da +Academia. +<br /> + +<br /> + +O padre Filippe, seu protector e amigo, era quem +se dizia encarregado de lhe fornecer os meios de +subsistencia e de estudo. +<br /> + +<br /> + +Não o tinha, porém, na sua companhia. Incumbira-o +aos cuidados de uma familia honesta, onde era +tratado como filho, e limitara-se apenas a exigir que +o <em>seu estudante</em> o fosse visitar duas +vezes por semana, +nas quintas e nos domingos, á casa que elle habitava, +na rua Chã. +<br /> + +<br /> + +Paulo não conhecera outra familia, além d'aquella +em casa de quem o hospedaram aos doze annos. Até +ahi, que se lembrasse, fôra alumno interno d'um instituto +religioso, onde umas irmãs piedosas o trataram +com o carinho de mães, ficando-lhe d'esse internato +uma recordação tão saudosa que, ainda +agora, ia a +<span class="pagenum">[33]</span> +meudo visitar a abbadessa, madre Paula, que tinha +no seu coração o primeiro logar. +<br /> + +<br /> + +Recolhendo a casa na manhã d'aquella noite accidentadissima, +o mancebo não pôde dormir. +<br /> + +<br /> + +Agitadissimo, recordando o seu passado, em que +parecia haver um ponto escuro que o mortificava, +Paulo resolveu erguer uma ponta do veu mysterioso +que encobria o seu nascimento. +<br /> + +<br /> + +No dia seguinte, pelas 10 horas, dirigiu-se a casa +do seu protector, e sem mais preambulos, disparou-lhe +esta pergunta á queima roupa: +<br /> + +<br /> + +―Diga-me, padre: quem é meu pae? +<br /> + +<br /> + +O padre Filippe, surprehendido pelo imprevisto +da pergunta, pôz no mancebo os olhos espantados e +ficou-se a consideral-o em silencio por alguns momentos. +<br /> + +<br /> + +―Porque me fazes essa pergunta, Paulo?―disse +por fim. +<br /> + +<br /> + +―Porque sou um homem, porque tenho já dezoito +annos, e desejo saber d'onde venho, para poder destinar +para onde vou, ou para onde devo ir... respondeu +o mancebo com firmeza. +<br /> + +<br /> + +O padre Filippe sorriu bondoso a esta replica do +moço e continuou a olhal-o fixamente. +<br /> + +<br /> + +―Paulo―disse elle afinal―se dizes que és um +homem, como póde influir no teu destino o saberes ou +deixares de saber o nome d'aquelles a quem deves a +existencia? És um homem; e todos os homens devem +ser guiados pelo mesmo sentimento do bem, todos +devem caminhar para o mesmo fim: serem uteis a si +e á humanidade. Creio que o facto de cada um saber +ou ignorar o nome de seus paes nada influe ou nada +deve influir no destino que lhe está traçado. +<br /> + +<br /> + +―Perdão, meu bom amigo!―objectou Paulo―Todo +o homem tem o direito, creio eu, de conhecer a +sua origem, de saber o nome dos seus progenitores, +<span class="pagenum">[34]</span> +não só para os respeitar e bemdizer pelo +beneficio da +vida que lhe concederam, mas ainda para nortear os +seus actos pelas tradições da sua familia. Por +isso insisto +na pergunta: quem é ou quem foi meu pae? +<br /> + +<br /> + +―Teu pae―tornou o padre placidamente e agora +de todo reposto do sobresalto que lhe causára a +pergunta―teu +pae é ou foi um homem. D'isso não te +deve restar duvida, pois que homem te dizes já e +como homem te apresentas. +<br /> + +<br /> + +―Mas não tinha nome esse homem? +<br /> + +<br /> + +―Se o tinha, não chegou nunca ao meu conhecimento. +<br /> + +<br /> + +―Nem o nome de minha mãe? +<br /> + +<br /> + +―Nem o nome de tua mãe. +<br /> + +<br /> + +―Como é, pois, que eu me chamo Paulo de +Noronha? +<br /> + +<br /> + +―Naturalmente porque aquelles que te deram o +sêr assim quizeram que te chamasses. +<br /> + +<br /> + +―Assim quizeram! A quem manifestaram elles +essa vontade? São ainda vivos? Se o são, porque +se +occultam e me não apparecem? Se morreram, porque +motivo deixaram envolto no mysterio o meu nascimento? +<br /> + +<br /> + +―A nenhum filho é licito discutir e muito menos +censurar os actos de seus paes. +<br /> + +<br /> + +―Mas eu não censuro, nem sequer discuto!―obtemperou +Paulo―eu apenas pergunto. +<br /> + +<br /> + +―Ha perguntas que envolvem censura, se não +para aquelles a quem se fazem, pelo menos para +aquelles de quem se fazem... Mas dize-me, Paulo, +que estranha curiosidade é essa que assim te move a +querer saber o que por emquanto deves ignorar? +<br /> + +<br /> + +O mancebo hesitou por alguns instantes e por fim +disse: +<br /> + +<br /> + +―Padre Filippe, permitta-me que lhe falle com +franqueza e lhe exponha as duvidas que ha tempo a +<span class="pagenum"><a name="p35">[35]</a></span> +esta parte me obcecam o espirito e me fazem reflectir +na minha estranha situação... +<br /> + +<br /> + +―Falla, meu amigo, falla!―animou o padre +bondosamente―e crê que, a não sêr madre +Paula, +ninguem no mundo merece tanto como eu a tua +confiança. +<br /> + +<br /> + +―Pois bem!―tornou Paulo―ha muito tempo +que eu dirijo a mim mesmo estas perguntas: Quem +sou eu? De que familia descendo? Como se chamam +ou se chamavam meus paes? Todos os meus condiscipulos +dizem de quem são filhos, todos repetem com +orgulho o nome dos paes ou relembram com saudosa +ternura o nome das mães. Todos dizem: «a minha +casa, a minha familia», só eu não posso +dizer―<em>meu +pae</em>, <em>minha +mãe</em>, porque são entes que +não conheço, +de que nunca ouvi fallar, de quem não tenho a menor +noticia. Dar-se-ha caso que eu não tivesse pae, que +não tivesse mãe? Mas então a quem devo +eu a minha +existencia, o amparo e protecção que +até agora tenho +recebido? Sou um orphão? Sou um engeitado? Vivo +e alimento-me do que por direito de nascimento me +pertence, ou recebo a esmola de nobres almas compassivas? +<a href="#e7">No primeiro</a> caso, se tenho +direitos, reclamo-os, +porque esses direitos impõem-me deveres que +eu quero respeitar e cumprir. No segundo, como sou +já um homem e tenho o braço bastante robusto para +ganhar o pão da existencia, não devo por mais +tempo +acceitar criminosamente a caridade que me trouxe +até aqui e que póde fazer falta a outro +desgraçado +como eu! +<br /> + +<br /> + +―Paulo!―disse o padre Filippe, fundamente +commovido―és ainda muito novo para te preoccupares +com assumptos que, por emquanto, devem permanecer +envoltos no véo do mysterio que os encobre aos teus e +aos meus olhos. Eu nada te posso dizer, filho. +<br /> + +<br /> + +―É então á caridade de vossa +reverendissima e +<span class="pagenum">[36]</span> +de madre Paula que eu devo o pão que até agora me +tem alimentado, não é assim?―perguntou o +mancebo, +extraordinariamente commovido e pallido. +<br /> + +<br /> + +―Não! Não!―atalhou padre Filippe.―Eu recebi +de um meu superior, a quem assisti nos ultimos +instantes, o encargo de velar por ti e de applicar ás +despezas da tua sustentação e +educação a quantia que +mensalmente me é enviada por pessoa que +desconheço +e que já antes a enviava ao santo sacerdote que me +legou este encargo. A mim nada me deves, meu filho, +senão a grande estima que tenho por ti e o grande desejo +que sinto de te vêr conquistar uma +posição digna +e honrosa na sociedade. +<br /> + +<br /> + +Paulo calou-se. As palavras do padre Filippe, repassadas +de suavidade e doçura, impressionaram-n'o +profundamente. +<br /> + +<br /> + +―Estou então condemnado―disse elle, passados +instantes―a ignorar toda a vida o nome de meus +paes? +<br /> + +<br /> + +―E de que te valeria o sabel-o? +<br /> + +<br /> + +―De que me valeria! Valer-me-hia de não ter que +córar diante de quem me interrogar a esse respeito! +Valer-me-hia de não ter que recuar envergonhado e +confundido diante de uma familia honesta que, antes +de me admittir como filho em seu seio, terá que perguntar-me +o nome de meus paes! Valer-me-hia, emfim, +de não me encontrar n'esta horrorosa +situação de não +saber quem sou, se o portador legal de um nome honrado, +se o vil e abjecto fructo de uma acção indigna, +de um amor bestial e criminoso! +<br /> + +<br /> + +Ouvindo esta retumbante tirada do moço, o padre +Filippe sorriu ainda amoravel e observou-lhe: +<br /> + +<br /> + +―Os tempos mudaram e com elles a orientação da +sociedade moderna, meu Paulo. Já nenhum homem se +impõe hoje pela familia, pelas +tradições dos seus antepassados, +pelas chimericas e phantasticas illusões de +<span class="pagenum">[37]</span> +uma arvore geneologica, bracejando vergonteas e rebentões +inuteis pelos seculos fóra. Nenhum homem vale +hoje pelo que valeram seus paes e seus avós... Hoje, +cada um vale por si, pelos seus merecimentos proprios, +pelas nobres qualidades do seu caracter, pelas brilhantes +manifestações da sua intelligencia. A tendencia +democratica +dos nossos tempos de ha muito que pôz de +parte as falsas convenções de uma sociedade que +se +desmoronou... +<br /> + +<br /> + +―Mas não pôz de parte, creio eu, os dictames da +honra!―retorquiu o mancebo. +<br /> + +<br /> + +―Decerto. E alguem te impede de te affirmares +sempre um homem honrado, Paulo? A honra está +nos nossos actos, está no uso que fazemos das faculdades +com que a natureza nos dotou, está na firmeza +e altivez com que, através de todas as vicissitudes, +cumprimos intemeratamente o nosso dever; não está +nos acasos do nascimento, nos brios de passados avoengos, +nos appellidos pomposos dos que nos deram o sêr. +Faze, pois, por merecer a estima e o respeito dos teus +concidadãos, Paulo, e não te preoccupe a ideia de +não +saberes de quem vens. Basta que apenas conheças +para onde vaes e sigas sem tergiversar a linha do +dever. +<br /> + +<br /> + +O mancebo guardou silencio por alguns instantes. +<br /> + +<br /> + +―É, pois, um mysterio impenetravel o meu +nascimento? Mas com que direito se me occulta o nome +de meus paes? Com que direito me condemnam a esta +lucta permanente comigo mesmo, sem saber se o que +me dão o devo receber como meu, se o devo considerar +como uma esmola? +<br /> + +<br /> + +―Paulo! Por duas vezes já, desde que aqui entraste, +proferiste a palavra <em>esmola</em>. As +esmolas dão-se +aos desgraçados, aos invalidos, aos que se encontram +impossibilitados de, por esforço proprio, provêrem +aos +meios de subsistencia. Tu não estás n'esse caso. +Quando +<span class="pagenum">[38]</span> +muito, o que recebes de mão ignota que não +precisas +conhecer, é um adiantamento, uma divida que +contrahes e que te será facil solvêr, +correspondendo +dignamente ás esperanças que em ti depositaram os +que quizeram fazer-te um bom cidadão, um homem +util a ti e aos teus semelhantes. E sobre isto, meu +amigo, creio que temos fallado bastante. Dize-me―continuou +o padre Filippe―tens ido visitar madre +Paula? +<br /> + +<br /> + +―Ha mais de quinze dias que a não vejo. +<br /> + +<br /> + +―És ingrato, Paulo! A pobre senhora deve ter +estranhado a falta da tua visita... Como é que +pódes +esquecer assim por tanto tempo quem tantas provas +de carinhoso affecto te tem dado? +<br /> + +<br /> + +―Padre―disse Paulo, ruborisado―eu não esqueço, +nem poderei esquecer nunca quanto devo a essa +bondosa e santa senhora, que tem tido para mim desvelos +e ternuras de... de mãe. Na minha vida, porém, +começam a surgir tão imprevistas luctas, +incidentes +de tal modo inquietadores, que não sei se deva +perturbar com a minha presença o suave remanso +d'aquella existencia para mim tão cara! +<br /> + +<br /> + +―Luctas imprevistas, incidentes inquietadores...―O +que é isso, Paulo? Falla-me com franqueza, dize-me +tudo, rapaz! O que é que te acontece de estranho +e de ameaçador? Não te esqueças de que +deves +considerar-me o teu primeiro e mais sincero amigo, +meu filho! Creio que tenho direito á tua +confiança... +Ou não? +<br /> + +<br /> + +―Respeito-o muito, meu padre, para vir importunal-o +com assumptos que lhe parecerão talvez pueris... +<br /> + +<br /> + +―Bem sei!... Negocios do coração... Temos +amores no caso... São os primeiros rebates da virilidade +no coração de um adolescente. Vamos! quem +é +a tua Virginia, meu Paulo?―perguntou jovialmente +o sacerdote. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[39]</span> ―A minha Virginia―disse o mancebo, com enthusiasmo―chama-se +Beatriz, e não é menos formosa +nem menos adoravel do que a immortal inspiradora +do Dante. +<br /> + +<br /> + +―Bravo!―exclamou rindo o padre Filippe.―Temos, +pois, em perspectiva uma <em>comedia +divina</em>, para +fazer confronto com a <em>Divina +Comedia</em>... +<br /> + +<br /> + +―Se não tivermos antes um drama extraordinario, +até agora inédito na historia dos soffrimentos +humanos... +<br /> + +<br /> + +O padre encarou-o gravemente. +<br /> + +<br /> + +―Fallas serio, Paulo? +<br /> + +<br /> + +―Tão serio que me atrevi a vir interrogal-o, padre +Filippe, sobre a historia do meu nascimento. +<br /> + +<br /> + +―Ah! era por isso que vinhas assim n'essa ancia, +pedir-me a chave do enygma da tua existencia? Eu +devia tel-o adivinhado... Só as mulheres são +curiosas +por indole... +<br /> + +<br /> + +―Não, não!―atalhou Paulo.―A mulher que +eu amo ainda não me fez a menor pergunta que me +difficultasse a resposta. Eu, porém, é que desejo +saber +quem sou para saber o que posso offerecer-lhe. +<br /> + +<br /> + +―Pois não é sufficiente o +coração do homem que +ama para a mulher amada? +<br /> + +<br /> + +―Padre, a mulher que eu amo não é livre; tem +pae, que se julga com direito a intervir no seu destino +e a impedir que sua filha busque a alliança de +um homem de origem... desconhecida. +<br /> + +<br /> + +―Foi essa menina quem t'o disse? +<br /> + +<br /> + +―Disse-m'o a minha propria razão. +<br /> + +<br /> + +―Queres um conselho, Paulo?―perguntou inopinadamente +o padre Filippe. +<br /> + +<br /> + +―Os conselhos de vossa reverendissima são para +mim leis sabias e justas, que eu não posso deixar de +acatar com o respeito e gratidão que lhe devo. +<br /> + +<br /> + +―Pois bem; refreia os impetos da tua paixão por +<span class="pagenum">[40]</span> +essa menina e busca antes de tudo fazer-te digno do +seu amor. +<br /> + +<br /> + +―Já o sou. +<br /> + +<br /> + +―Pelos dotes do coração, concordo, mas +não pela +posição social alcançada. O primeiro +que o pae d'essa +menina ha-de perguntar-te, quando souber que lhe +pretendes a mão da filha, é com que recursos +contas +para proporcionares a tua mulher a felicidade e o +bem estar a que ella tem direito. Quererá saber que +posição é a tua, que +profissão exerces ou de que meios +de fortuna dispões para poderes dignamente apresental-a +na sociedade ao respeito e á +consideração das +pessoas de bem. E comprehendes, meu Paulo, que a +taes perguntas não se responde com uma certidão +de +baptismo que nos dá avós illustres de quem +não herdámos +um palmo de terra onde cahir mortos, nem +com a reedição apaixonada dos mil juramentos de +amor +constante que enviamos á filha em perfumadas cartinhas +que lá estão, em maço, amarradas com +fita de +seda... +<br /> + +<br /> + +O mancebo não pôde deixar de sorrir a estas +palavras +do padre Filippe, que denunciavam um profundo +conhecedor da arte do galanteio. +<br /> + +<br /> + +―Os paes não se contentam com tão pouco, exigem +mais alguma coisa―continuou o sacerdote―Ora +esse <em>mais alguma coisa</em> é +que está na tua mão +offerecer-lh'o, Paulo. Conquista pelo estudo e pelo trabalho +honesto uma posição que te nobilite aos olhos do +mundo; engrandece-te a ti proprio, torna-te homem; +e quando a tua consciencia te disser que não és +inferior +á mulher que amas, vae pedil-a e não receies que +o pae te não encontre bastante nobilitado para entrares +na sua familia. +<br /> + +<br /> + +―Mas o pae de Beatriz quer casal-a com outro!―exclamou +o mancebo, dando largas ao desespero +que lhe ia na alma. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[41]</span> ―O pae d'essa menina sabe que ella te ama? +<br /> + +<br /> + +―Não sabe. +<br /> + +<br /> + +―É, pois, natural que, julgando o +coração da +filha desligado de qualquer affeição, pense em +lhe +proporcionar um enlace que lhe parece vantajoso. Todos +os paes pensam no futuro de suas filhas e esse não +o seria, se desdissesse da regra geral. Mas d'ahi a violentar-lhe +o coração e a impor-lhe á +força um casamento +que ella rejeita, vae uma distancia enorme. Se +essa menina te ama sinceramente, como dizes, recusará +o consorcio que o pae lhe proporciona, allegando motivo +que para todos os paes deve ser sagrado―a ausencia +absoluta de sympathia pelo noivo proposto. Se, +pelo contrario, o sentimento que diz nutrir por ti +não é tão vivo e intenso que lhe +permitta a recusa, +casar-se-ha, e com o facto só tu tens a lucrar, pois +que assim te livras do escolho de vires a possuir por +companheira uma creatura incapaz de corresponder ás +nobres aspirações da tua alma. Não +creio, pois, que +isso seja contrariedade de maior, que te dê motivos +para os sobresaltos e inquietações que revelas. +Vae +visitar madre Paula, meu rapaz... Conta-lhe os +segredos da tua alma, nada lhe occultes, e verás como +nas suas palavras e conselhos has-de encontrar o socego +e quietação que precisas... Isto não +é desviar +de mim o encargo de te guiar e dirigir no accidentado +caminho a que o coração te propelle―accrescentou +o +padre―Mas é que as mulheres, em questões do +coração, +teem mais auctoridade, são mais profundamente +conhecedoras da mysteriosa sciencia do sentimento +alheio, e teem sobretudo um poder de persuasão que a +nós outros os homens nos fallece. Procura madre Paula, +conta-lhe tudo, escuta as suas palavras e verás +que has-de sentir-te bem, meu filho. +<br /> + +<br /> + +―Procural-a-hei―disse Paulo―mas creio bem +que não poderá aconselhar-me melhor do que vossa +<span class="pagenum">[42]</span> +reverendissima acaba de o fazer; nem as palavras da +santa e virtuosa senhora poderão trazer mais funda +ao meu espirito a convicção que vossa +reverendissima +me deu de que preciso engrandecer-me, fazer-me +<em>homem</em> +para conquistar a posse da mulher que amo! +<br /> + +<br /> + +―Folgo de ver que comprehendeste bem o intuito +das minhas palavras, Paulo. Crê que ninguem mais +do que eu deseja a tua felicidade e o teu bem estar. +Se fosses meu filho, não te aconselharia de modo differente +nem desejaria com mais ardor ver-te ascender +a uma posição culminante. D'isso pódes +estar certo. +<br /> + +<br /> + +―Trabalharei e empregarei todos os esforços para +realisar os desejos de vossa reverendissima―que são +tambem os meus. +<br /> + +<br /> + +―E conseguil-o-has, porque és intelligente, és +energico, e revelas nobreza de caracter. Com taes +predicados, só não alcança uma +posição distincta na +sociedade quem não quer. +<br /> + +<br /> + +Agora, reanimado pela esperança que as palavras +do padre Filippe lhe incutiram, o mancebo despediu-se +do seu protector, mais que nunca resolvido a encetar +a lucta pela vida e pelo triumpho completo das nobres +aspirações do seu amoroso +coração de rapaz. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c3"></a>III<br /> + +<br /> + +Pae e filha +</h3> + +<br /> + +<br /> + +Emquanto o <a href="#e8">pupillo</a> do padre +Filippe e de madre +Paula busca a maneira de realisar os dourados sonhos +da sua imaginação juvenil, queira o leitor +acompanhar-nos +a casa do pae de Beatriz e travar conhecimento +com o sombrio progenitor da encantadora +menina. +<br /> + +<br /> + +Não tendo nós os mesmos motivos de Paulo para +occultar do pae as relações com a filha, justo +é que +busquemos o conhecimento de ambos e entremos na +intimidade dos dois para melhor podermos avaliar o +caracter de cada um e apreciar os acontecimentos que +vão desenrolar-se aos nossos olhos. +<br /> + +<br /> + +Á hora a que entramos, está o sr. Custodio de +Jesus +sentado á secretária do seu gabinete, fazendo +contas e archivando documentos que parece lhe são +muito uteis, pela attenção e minuciosidade com +que os +examina e pelo cuidado com que em seguida os guarda +emmaçados e rodeados de uma larga cinta de papel +branco, em que se lê n'uma excellente letra garrafal, +a palavra―<span class="smallcaps">Hypothecas</span>. +<br /> + +<br /> + +―Estas bem estão―murmura elle coçando +distrahidamente +<span class="pagenum">[44]</span> +com a mão direita a vasta suissa grisalha, +talhada em fórma de foucinha e franzindo o labio superior +completamente rapado á navalha, talvez para +facilitar a passagem do meio grosso destillado e liquifeito +em repetidas pitadas nas profundezas insondaveis +de um nariz que exteriormente apresenta a +configuração +e o aspecto de um capacete de alambique―Estas +bem estão... O peor são as outras... +<br /> + +<br /> + +Passou a examinar segundo maço, mostrando no +rosto evidentes signaes de mau humor. +<br /> + +<br /> + +―Aqui está!―disse elle, batendo com a mão +espalmada +sobre os papeis―Mais de cincoenta contos +em hypothecas que não pagam ha um anno um real +de juro! Ladrões! E agora são capazes de ainda +vir +fazer questão para juizo e arranjar-me a tramoia de +modo que eu não fique com as propriedades pelo +preço +da louvação... +<br /> + +<br /> + +Como correspondendo a estas reflexões, que accusavam +no sr. Custodio de Jesus um agiota costumado +a perseguir as suas victimas até as espoliar em +leilão, +nos tribunaes, abriu-se a porta do escriptorio e +entrou por ella um homem alto, espadaudo, porém +excessivamente magro, usando uma comprida barba +que quasi lhe chegava á cintura e que lhe dava á +physionomia um aspecto carregado, ameaçador, capaz +de apavorar o mais remisso devedor, o mais teimoso dos +litigantes. +<br /> + +<br /> + +Este homem entrou como pessoa intima na casa, +cerrou a porta sobre si, dirigiu-se a uma cadeira que +estava devoluta junto da secretária, e sentou-se sem +mesmo se dar ao incommodo de tirar o chapéo que +lhe ensombrava o barbudo rosto. +<br /> + +<br /> + +Ao vêl-o, o sr. Custodio de Jesus teve um sorriso +de intimo contentamento e exclamou: +<br /> + +<br /> + +―Estava agora mesmo a pensar em você, amigo +Belchior! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[45]</span> ―Aqui me tem. Os amigos lembram sempre na +occasião... Não vim mais cedo porque tive de ir +ao +tribunal requerer um arresto... E amanhã tenho outro... +Isto é um nunca acabar de caloteiros, que só +gostam de comer e não pagar! Mas aquelle que me +cahe nas unhas e tem por onde pagar, amola-se! Deixo-o +expremido que nem um limão. +<br /> + +<br /> + +―É o que eu preciso que se faça a estes +tratantes +que aqui estão com o juro por pagar!―exclamou +o sr. Custodio de Jesus, apontando para as escripturas +que tinha diante de si. +<br /> + +<br /> + +―Não se afflija, que isso é negocio de pouca +demora... +Qualquer dia tratamos d'isso. Sabe ao que eu +cá venho? +<br /> + +<br /> + +―Você o dirá, amigo Belchior. +<br /> + +<br /> + +―O rapaz, pelas informações que tenho d'elle, e +um partidão! +<br /> + +<br /> + +―Sim? +<br /> + +<br /> + +―Não imagina! É mesmo mais rico do que eu +supunha... O melhor que temos a fazer é não +perder +tempo e tratarmos de aferventar isto quanto antes. +<br /> + +<br /> + +―Você bem sabe que o caso não é para +pressas, +amigo Belchior... Eu mesmo tenho receio do rapaz... +Diz você que elle tem uma grande fortuna, e eu mesmo +não duvido que assim seja, mas quem é que me +assegura que elle não tem a maior parte dos haveres +compromettidos, ou que não possa vir a compromettel-os? +<br /> + +<br /> + +―Quanto á primeira hypothese, posso affirmar-lhe +que o rapaz tem sido estroina, tem gasto em passeios, +em ceias com as actrizes, tem finalmente pago +o seu tributo á mo ―Quanto á primeira hypothese, posso affirmar-lhe +que o rapaz tem sido estroina, tem gasto em passeios, +em ceias com as actrizes, tem finalmente pago +o seu tributo á mocidade... Mas todas essas rapaziadas +não teem desfalcado o rendimento, que é grande... +Quanto á segunda hypothese, é provavel que elle, +depois de casar com sua filha, mude de feitio e comece +<span class="pagenum">[46]</span> +a portar-se como homem sério... Mas se o não +fôr, +tanto melhor... +<br /> + +<br /> + +―Tanto melhor, como?―interrogou o sr. Custodio +de Jesus, indignado.―Então é melhor que minha +filha case com um valdevinos, um dissipador, um extravagante? +Bonita moral a sua, seu Belchior! Pois eu, +meu amigo, desde já lhe declaro que o que tenho me +custou muito a ganhar, e não é para o +vêr dissipado +em patuscadas e ceias ás actrizes! +<br /> + +<br /> + +―O meu amigo Custodio de Jesus saberá muito bem +como é que se ganha dinheiro, como se descontam +letras e se empresta a juro sobre hypotheca; mas o +que não sabe é nada de jurisprudencia―disse o +Belchior com emphase.―É preciso que o meu amigo +se lembre de que sou solicitador ha mais de vinte e +cinco annos, e que, durante todo este tempo, tenho +adquirido conhecimentos que me habilitam a segurar +o que é meu e o que é dos meus constituintes... +<br /> + +<br /> + +―Não digo que não, mas essa theoria, com +franqueza, +não me agrada... Lá que o rapaz tenha tido +estroinices, emfim, não é bom precedente, mas +desde +que elle ainda possue uma casa grande, de vasto rendimento, +tudo se lhe póde perdoar e esquecer com a +condição de mudar de vida e de costumes +dissipadores, +logo que ligue o seu destino ao de minha filha. +Mas agora achar melhor que elle continue nas suas +dissipações e loucuras, do que se emende e seja +um +bom marido, isso é que me não entra +cá! +<br /> + +<br /> + +―É o que eu digo!―volveu o procurador com +desdem―não sabem nada da lei e mettem-se a discutir +com quem conhece a letra dos codigos! +<br /> + +<br /> + +―Os codigos, amigo Belchior, pódem dizer o que +quizerem, mas o que elles não pódem é +metter-me em +cabeça que um marido estroina é muito melhor do +que +um marido economico, morigerado e amante de sua +mulher. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[47]</span> ―É porque o amigo e sr. Custodio de Jesus―respondeu +o procurador, formalisado―não sabe que +a lei faculta uma acção de +interdicção contra o marido +prodigo, e confere a administração do casal a uma +ou mais pessoas de familia. +<br /> + +<br /> + +O Custodio de Jesus arregalou os olhos, espantado. +<br /> + +<br /> + +―O quê? O que é isso? Explique lá, +homem, que +eu não percebi bem. +<br /> + +<br /> + +―Não tem que explicar. Não se fazem escripturas, +de modo que a noiva tem a meação nos haveres +de seu marido, como o marido a tem nos haveres da +mulher. Ora a administração do casal pertence de +facto e por lei ao marido; mas se este, em vez de +administrar parcimoniosamente, se entrega a +dissipações +e patuscadas escandalosas, á mulher assiste o direito +de requerer a interdicção do marido e +pôr-lhe +uma tutela que, n'este caso, poderia muito bem ser +exercida pelo meu amigo o sr. Custodio de Jesus... +Ora percebe agora a razão por que eu digo que mais +valerá que elle continue a affirmar-se um estroina, um +dissipador de marca? +<br /> + +<br /> + +―Realmente você, amigo Belchior, é uma cabecinha +privilegiada! exclamou enthusiasmado o pae de +Beatriz.―Porque não estudou você para doutor? +<br /> + +<br /> + +O procurador sorriu com bonhomia e encolheu os +hombros com despreso: +<br /> + +<br /> + +―Não me faz falta―disse.―Conheço +tão bem +a lei como aquelles que fôram a Coimbra. Por isso lhe +digo, não deixe perder esta bella occasião de +apanhar +uma fortuna, que decerto lhe não voltará +tão cedo a +bater á porta outra igual... Case a pequena quanto +antes com o doidivanas que se lhe offerece, e deixe o +caso por minha conta. +<br /> + +<br /> + +―Eu já disse á minha Beatriz que fazia muito +gosto em que ella acceitasse por marido este rapaz... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[48]</span> ―E ella, o que respondeu? +<br /> + +<br /> + +―Como o meu amigo póde bem avaliar, minha +filha, que até agora não tem pensado em +casamento, +caiu das nuvens quando lhe fallei em casar. +<br /> + +<br /> + +―Mas manifestou repugnancia em acceitar o marido +que se lhe propõe? +<br /> + +<br /> + +―Ella pediu-me que a deixasse pensar na resposta... +Emfim... deseja consultar o seu coração, e isso +não se lhe póde levar a mal... +<br /> + +<br /> + +―Bem! Mas supponha que ella recusa...? +<br /> + +<br /> + +―Que motivo terá para recusar quando sabe que +a minha vontade é que este casamento se faça e +quando +o noivo é realmente uma bella figura, capaz de +captar as sympathias da menina mais exigente? +<br /> + +<br /> + +―Mas supponhamos que recusa!―Insistiu ainda o +procurador. +<br /> + +<br /> + +―Não posso suppôr tal cousa, porque +não estou +habituado a que, em minha casa, alguem tenha vontade +differente da minha. +<br /> + +<br /> + +―Nas pequenas questões da vida domestica, d'accordo... +eu creio que o meu amigo tenha sido e continuará +a ser completamente obedecido... Mas n'este +caso talvez não encontre a mesma cega obediencia que +suppõe... +<br /> + +<br /> + +―Por que? +<br /> + +<br /> + +―Porque as mulheres, quando encarreiram as suas +affeições para um lado, não ha diabo +que as faça voltar +para outro, amigo e sr. Custodio... +<br /> + +<br /> + +―O que quer dizer com isso, amigo Belchior? +<br /> + +<br /> + +―Quero dizer que se a Beatrizita já tem por ahi +namoro que lhe faça andar a cabeça á +roda, ao meu +amigo não lhe será tão facil como +julga o fazer que +ella obedeça á sua vontade... +<br /> + +<br /> + +―Namoro! A minha Beatriz é uma creança de +dezeseis annos e não pensa n'essas tolices!―protestou +o sr. Custodio de Jesus encrespando o sobr'olho.―Isso +<span class="pagenum">[49]</span> +é bom para aquellas raparigas que são +educadas +á redea solta e que não teem paes que lhes saibam +dar +educação... Namoro! Eu admittia lá que +uma filha +minha tivesse namoro! +<br /> + +<br /> + +―As filhas nunca pedem licença aos paes para +essas coisas...―commentou o outro. +<br /> + +<br /> + +―As filhas que não respeitam os paes ou que não +teem paes que se façam respeitar, d'accordo. Mas em +minha casa não se dá isso... +<br /> + +<br /> + +―E se se desse? +<br /> + +<br /> + +―Se se desse! Você sabe alguma coisa, Belchior? +<br /> + +<br /> + +―Se se desse, é o que eu pergunto?―retorquiu +o procurador com um sorriso mysterioso. +<br /> + +<br /> + +―Se se desse, ia ahi tudo com seiscentos diabos! +Fechava a rapariga n'um quarto, que não tornava a +vêr sol nem lua, emquanto não fosse á +egreja casar +com quem eu dissesse!―bramiu o sr. Custodio de +Jesus, assentando furioso murro sobre as escripturas +das hypothecas em divida.―Mas você sabe alguma +coisa? Homem, seja franco! +<br /> + +<br /> + +―Pois então fique o amigo Custodio sabendo que +temos moiro na costa e que a pequena... mas você +não vá agora fazer asneira... estas coisas +levam-se +com prudencia... +<br /> + +<br /> + +―Diga, diga, homem!―insistiu o capitalista +afflicto.―Sabe que a minha filha... +<br /> + +<br /> + +―Tem um namoro. E então? É a coisa mais natural +d'este mundo. +<br /> + +<br /> + +―Você falla serio? +<br /> + +<br /> + +―Não costumo brincar com coisas d'estas. Quando +eu lhe digo que sua filha se corresponde com um +rapaz a quem vae fallar da janella para a rua todas +as noites, é porque tenho d'isso a certeza. +<br /> + +<br /> + +Custodio de Jesus levantou-se de um salto como +mordido da tarantula. +<br /> + +<br /> + +―Você não me repita isso nem a brincar!―bramiu +<span class="pagenum">[50]</span> +elle―porque eu vou-me áquella desavergonhada +e racho-a! +<br /> + +<br /> + +―Mau! assim não fazemos nada!―reprehendeu +o procurador―Aqui o que convem é saber o que se +passa e tratar de encaminhar as coisas de modo que +o projectado casamento com o nosso rapaz se realise +o mais breve possivel... +<br /> + +<br /> + +―Mas quem é, quem é esse outro que ella namora? +<br /> + +<br /> + +―É um estudantito... um rapaselho. +<br /> + +<br /> + +―Rico?―interrogou o Custodio arregalando os +olhos. +<br /> + +<br /> + +O procurador soltou uma gargalhada. +<br /> + +<br /> + +―Você, amigo Custodio, cuida que os rapazes +ricos andam por ahi aos pontapés! Isto hoje é +tudo +uma pelintrice, você bem o sabe... Quando apparece +um como o Eugenio, é um milagre! Porisso é que eu +digo: vamos a deitar a unha a este, porque se o deixamos +escapar não apparece outro tão cedo... +<br /> + +<br /> + +O Custodio de Jesus passeava agitado pelo aposento, +quasi sem prestar attenção ás palavras +do procurador. +<br /> + +<br /> + +―Mulheres! Raça maldita! Nasceram só para +enganar!―blasphemava elle―Até esta, de 16 annos, +creada com todo o recato, longe das sociedades, +retirada das más companhias, até esta, que +parecia +uma innocente, me sae á ultima hora a corresponder-se +com um namoro, sem que eu, que sou pae e +ando sempre com mil cuidados e cautelas a vigiar-lhe +os menores movimentos, tenha dado por isso! +<br /> + +<br /> + +―Amigo Custodio―obtemperou o procurador―não +vale a pena affligir... Não é caso de morte de +homem ou casa queimada... Que diabo! eu disse +isto porque entendo que a você, como pae, convem +saber o que se passa para saber como ha de proceder... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[51]</span> ―Como hei de proceder sei eu!―rugiu colerico +o pae de Beatriz―Ponho-a de pé descalço a fazer +o +serviço da casa, a varrer, a lavar a louça, a +cosinhar, +para lhe tirar o vicio! Se tem sentimentos de criada +de servir, que seja criada de servir em tudo! +<br /> + +<br /> + +―Homem, eu desconheço-o!―reprehendeu severo +o Belchior―Tinha-o na conta de um homem de +juizo, um homem prudente que sabe o que lhe convem +e que respeita os seus interesses, e você sae-me a +querer fazer tolices e disparates que não lembram a +ninguem! +<br /> + +<br /> + +―É que você não sabe o odio que eu +tenho ás +mulheres!―explicou o Custodio―Esta filha veio +para meu castigo! +<br /> + +<br /> + +―Não veio para seu castigo nada! Apparece-lhe +um casamento bom para ella, um casamento de primeira +ordem? Aproveite-o, trate de a casar por bem +ou por mal... isso sim, senhor! Mas agora romper +no excesso de a pôr a fazer de servilheta, isso é +dar +murros em si proprio, amigo Custodio. Ora imagine +que você faz isso, e a pequena desesperada lhe foge... +E depois? Você desherdal-a não póde, +porque ella é +sua filha. Além d'isso; já não tem +mãe e mais tarde ou +mais cedo tem que entrar na posse da herança materna... +Homem, prudencia!... levemos as coisas +por bem, que é melhor... +<br /> + +<br /> + +―Tem razão!―concordou por fim o Custodio―Mas +olhe que é para um homem arreliar! Não ha +ninguem mais infeliz com as mulheres do que eu!―desabafou +com o desespero de quem tocou a méta do +soffrimento―Eu fui casado duas vezes... A primeira +mulher, a Carlota, sahiu-me uma bebeda, uma +desavergonhada que toda a vida me atraiçoou com um +padre em quem eu tinha toda a confiança e que até +por ultimo me roubou, levando-me tudo, deixando-me +a pedir uma esmola!... Veja lá você! Eu era um +<span class="pagenum">[52]</span> +bolas que não sabia nada do mundo, via Deus no +céo +e a mulher na terra, tudo o que ella dizia era o que se +fazia, e afinal o pago que me deu foi aquelle! Tambem +a levou o diabo, que lá se envenenou em Lisboa, e +tão +infame que até á hora da morte deixou um bilhete +a dizer +que se matava por minha causa! Isso foi uma coisa +muito fallada, até andou nas gazetas... +<br /> + +<br /> + +―Espere lá!... D. Carlota? Tenho ideia de lêr +isso... +<br /> + +<br /> + +―Foi ha dezoito annos... +<br /> + +<br /> + +―Sim... ha de haver esse tempo, ha de... +<br /> + +<br /> + +―Pois, meu amigo, o ladrão do padre arranjou-me +uma tramoia de umas letras que eu acceitei a +um outro maroto como elle, um tal João Ignacio... +<br /> + +<br /> + +―Bem sei! Conheço perfeitamente. Esse homem +tambem parece que deu com tudo á costa. Até +esteve +doido, e a sua mania é que tinha sido roubado por um +padre... +<br /> + +<br /> + +―Era o mesmo... o padre Anselmo! Um ladrão, +um malandro com capa de santo, que foi a minha +desgraça! Se não fosse elle metter-se-me com a +mulher +e roubar-me tudo, eu tinha a estas horas mais de +quatrocentos contos! +<br /> + +<br /> + +―Vamos lá!―observou sorrindo o procurador―Parece +que ainda lhe não levou tudo, porque você, +amigo Custodio, está possuidor de capitaes muito avultados. +<br /> + +<br /> + +―Á custa de muito trabalho e depois do segundo +casamento para cá―explicou o Custodio. +<br /> + +<br /> + +―Não sei como você, depois de ser tão +infeliz +com a primeira mulher, ainda caiu em casar segunda +vez. +<br /> + +<br /> + +―Que remedio tive eu! Não foi por minha vontade, +não... Mas eu fiquei, como o outro que diz, sem ―Que remedio tive eu! Não foi por minha vontade, +não... Mas eu fiquei, como o outro que diz, sem +eira nem beira nem ramo do figueira. Appareceu-me +uma mulher que tinha ido em nova para o Brazil e +<span class="pagenum">[53]</span> +que por lá arranjou uns contos de reis e esta filha +com que voltou a Braga... +<br /> + +<br /> + +―Ah! então Beatriz... +<br /> + +<br /> + +―Não é minha filha, mas eu perfilhei-a no acto +de casar com a mãe, e ahi é que eu quero +chegar... +A bebeda, a grande desavergonhada enganou-me! +<br /> + +<br /> + +―Enganou-o... quem? +<br /> + +<br /> + +―A minha segunda mulher. Disse-me que trazia +para cima de cincoenta contos, e afinal vae-se a vêr, +entre joias, dinheiro e papeis, pouco passava de vinte! +<br /> + +<br /> + +―Está feito! +<br /> + +<br /> + +―Está feito, diz você! Mas eu perfilhei-lhe a +filha, +tenho trabalhado como um burro, aturei-a a ella +até á hora da morte―que ella vinha arruinada da +saude, escangalhada, um caco velho em summa―tive +de sahir de Braga, porque lá toda a gente lhe sabia +a vida e era uma vergonha, e agora, depois de +tudo isto, ainda não sou senhor de deixar o que é +meu +a quem eu quizer, porque para todos os effeitos esta +rapariga é que é a minha herdeira. +<br /> + +<br /> + +―Por esse lado, tem o meu amigo razão―concordou +o procurador―mas tambem, se não tem parentes +ou outra pessoa que melhor lh'o mereça, pouco +desarranjo lhe póde fazer... O amigo para a cova +não o póde levar... +<br /> + +<br /> + +―Mas podia deixal-o ás Ordens ou a quem eu +muito bem quizesse!―recalcitrou o Custodio, indignado. +<br /> + +<br /> + +―As Ordens não lh'o agradeciam melhor do que +esta pequena...―philosophou scepticamente o Belchior, +com um sorriso desdenhoso.―Não havia Ordem +nenhuma que fosse capaz de lhe metter em casa uma +fortuna como a que ella lhe traz pela porta dentro, se +casar com o Eugenio de Mello... +<br /> + +<br /> + +―Fortuna... para ella! +<br /> + +<br /> + +―E você não é pae? E sendo pae, +não fica sendo +<span class="pagenum">[54]</span> +sogro do rapaz? E sendo sogro do rapaz, desde o momento +em que elle não dê carreira direita não +lhe vem +a administração do casal parar ás +unhas? +<br /> + +<br /> + +―Isso ainda está em +<em>vêl-o-hemos</em>... Se o rapaz +ganhar +juizo... +<br /> + +<br /> + +―Se ganhar juizo, faz-se-lhe perder... A questão +é que você queira... +<br /> + +<br /> + +―Mas faz-se-lhe perder como? Como é que eu +hei-de querer?―perguntou o Custodio de Jesus, arregalando +os olhos, sem comprehender.<br /> + +<br /> + +―Homem! o rapaz é estroina, a doidice está-lhe +na massa do sangue... E os estroinas são como os +alcoolicos, a quem os medicos dizem que morrem se +continuarem a beber... Emendam-se, fazem um grande +esforço para se habituarem á agua, mas se um dia +entram n'uma patuscada e vêem uma garrafa que +lhes desperta o appetite, perdem o mêdo atiram-se a +ella, bebem e morrem victimas do vicio que o instincto +da conservação não foi sufficiente +para debelar. +Ora o rapaz está n'este caso. Ha-de querer portar-se +bem, emendar-se, ser um homem exemplar, +mas, se lhe apparecer um amigo que o leve a uma +ceia e lhe mostre uma actrizita com um palmo de cara +regular, não tenha você mêdo que elle +ahi +irá de +vento em pôpa pelo caminho da +dissipação e da prodigalidade, +e então é que é dar-lhe o golpe de +misericordia... Percebe-me agora? +<br /> + +<br /> + +O Custodio, maravilhado, contemplava aquelle patife +que tinha sobre elle a enorme vantagem de conhecer +os <em>escaninhos da lei</em>, segundo a +phrase pittorêsca +do procurador. +<br /> + +<br /> + +―Você―disse elle por fim, encarando sorridente +o Belchior―é dos de estrella e bêta e +pé calçado! +<br /> + +<br /> + +―Meu amigo, um homem tem obrigação de +não +ser tôlo, de não andar no mundo por vêr +andar os +<span class="pagenum">[55]</span> +mais... As patifarias da vida é que põem um homem +fino... +<br /> + +<br /> + +―Você havia de me ter apparecido em Braga, +aqui ha vinte annos antes... Não era comsigo que o +ladrão do padre Anselmo mettia dente... E você +não +me tinha deixado roubar! +<br /> + +<br /> + +―Estava bem arranjado o padreca! Que viesse +para cá... Comigo nem elle nem o mais pintado fazia +farinha!―blasonou basofiento o procurador.―Tenho +dado com elles d'aqui... detrás da orelha; mas eu +atiro-lhes para a caveira com as baldas certas e elles +veem buscar lã mas vão tosquiados! +<br /> + +<br /> + +O Custodio suspirou: +<br /> + +<br /> + +―Aquelle ladrão!―exclamou n'um surdo +rancôr―roubou-me +por eu o não conhecer a você! +<br /> + +<br /> + +―Meu amigo, com aguas passadas não móem +moinhos... O que não tem remedio remediado +está... +Agora vamos a vêr mas é se se trata de arranjar +outro... +Disponha as coisas de modo que o casamento +se faça quanto antes, porque a fatia é boa e +não se +póde perder... +<br /> + +<br /> + +―A rapariga casa. Por bem ou por mal, que remedio +tem ella senão obedecer-me e fazer o que eu +disser! +<br /> + +<br /> + +―Se ella estiver deveras encarriçada com o tal +franganote, ha de custar-lhe a resolvêl-a... +<br /> + +<br /> + +―Por isso não seja a duvida... A questão +é saber +se o negocio convem... +<br /> + +<br /> + +O procurador assobiou, acompanhando o assobio +com repetidos estalos produzidos pelos dedos maioral +e pollegar. +<br /> + +<br /> + +―Se convem!―disse elle―É uma pechincha! +É um negocio de costa acima! Queira elle noventa +contos pela casa, que eu pago-lhe as dividas todas e +ainda metto para cima de cincoenta no bolso. É um +casão! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[56]</span> ―Bom! pois então fique descançado, que a +rapariga +eu cá me encarrego de a domesticar... +<br /> + +<br /> + +―Mas veja lá; você não lhe falle no +namoro, que +é peor...―aconselhou o procurador. +<br /> + +<br /> + +―Nem palavra! Para lhe fallar n'elle, tinha de +lhe partir os ossos... Nada! eu resolvi ir cá por outro +caminho... +<br /> + +<br /> + +―E se fôr preciso que o rapaz appareça para lhe +fazer o seu pé de alferes... +<br /> + +<br /> + +―Por ora não... Deixe estar, deixe vêr como as +coisas se preparam... +<br /> + +<br /> + +―Arranje lá... E adeus, que devo ter lá em casa +os constituintes á espera. +<br /> + +<br /> + +Despediu-se, estendendo dois dêdos protectores ao +Custodio. +<br /> + +<br /> + +―Mas você apparece por cá?―disse o pae de +Beatriz, apertando e retendo na mão os dedos do Belchior. +<br /> + +<br /> + +―Sim, amanhã... +<br /> + +<br /> + +E dirigiu-se para a porta. +<br /> + +<br /> + +―Olhe lá: você vá dando +esperanças ao rapaz, hein? +<br /> + +<br /> + +―Não tem duvida... Disponha você a pequena. +<br /> + +<br /> + +Mal que o procurador sahiu, o Custodio subiu ao +andar superior e chamou a filha. +<br /> + +<br /> + +Beatriz era uma d'estas creaturas franzinas, delicadas, +doceis e submissas por indole e por temperamento, +na apparencia faceis de dominar, mas que, depois +de terem tomado uma resolução, primeiro se +deixarão matar do que render-se. Alta, elegante, cabellos +e olhos castanhos, tez clara, faces rosadas, o seu +gracioso vulto, de uma distincção rara, captivava +pela +belleza e impunha respeito pelo suave perfume de innocencia +e bondade que respirava. +<br /> + +<br /> + +Quando o pae a chamou, a pobre menina appareceu +tremula, como se o coração lhe presagiasse a +tortura +que a esperava. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[57]</span> ―Aqui estou, meu pae―disse ella. +<br /> + +<br /> + +O sr. Custodio ameigou a voz, contra o seu costume, +e, contrafazendo o semblante n'um risinho agradavel, +chamou a filha para o pe de si, fel-a sentar ao seu +lado, e perguntou-lhe: +<br /> + +<br /> + +―Então, já pensaste no casamento em que te +fallei, +minha filha? +<br /> + +<br /> + +―Já, meu pae... já pensei...―tartamudeou a +pobre pequena, commovida. +<br /> + +<br /> + +―E decidiste acceitar o partido que se te offerece, +não é assim? +<br /> + +<br /> + +―Não, meu pae... +<br /> + +<br /> + +―Não?!―exclamou o sr. Custodio, fingindo-se +surprehendido e mudando rapidamente d'aspecto.―E +porque? +<br /> + +<br /> + +―Porque não me sinto ainda com +disposição para +casar... +<br /> + +<br /> + +―Não te sentes com disposição! Essa +é bôa! Mas +para casar ninguem está á espera de +disposição... +Aproveita-se o noivo quando apparece, e a +disposição +vem depois... +<br /> + +<br /> + +―Eu não poderia unir-me a um homem por quem +o meu coração não sentisse a menor +sympathia... +<br /> + +<br /> + +―Sympathia!―bramiu o sr. Custodio furioso, +dando largas ao seu desespero.―Que vem a ser cá +isso? Temos frioleiras de romance? Com as sympathias +não é que os casados fazem sopa e compram os +chapéos e os vestidos ás modistas. O noivo +é rico? É +o essencial. Ora este tem uma grande fortuna, é novo, +é uma bôa figura, não é +cego, não é aleijado―e ainda +que o fosse, não se perdia nada―porque é que +elle +não te hade ser sympathico? +<br /> + +<br /> + +―Será para outras, mulheres, não para +mim...―atreveu-se +a dizer Beatriz. +<br /> + +<br /> + +Isto foi o mesmo que fazer explodir o immenso paiol +em que o sr. Custodio tinha accumulado toda a polvora +<span class="pagenum">[58]</span> +dos seus rancores de ha muitos annos contra as +mulheres. +<br /> + +<br /> + +―Que pouca vergonha é essa?!―berrou elle, levantando-se +e encarando a filha, rubro de colera―Quem +é aqui o pae: sou eu ou é vocemecê? +<br /> + +<br /> + +A ira dementava-o a ponto de não o deixar reparar +no burlesco e incongruente disparate da pergunta, +que faria rir a pobre menina, se o horror da +situação +em que se encontrava não a tivesse afogado em pranto. +<br /> + +<br /> + +―Meu pae! Meu pae!―bradou ella supplicante, +caindo de joelhos com as mãos postas―pelo amor de +Deus, perdoe-me! mas eu não posso... não posso! +<br /> + +<br /> + +―Deixemo-nos de comedias!―rugiu o Custodio +n'um recrudescimento de ira―Ou casa ou metto-a nas +irmãs da caridade! +<br /> + +<br /> + +Beatriz, de joelhos, continuava a implorar: +<br /> + +<br /> + +―Meu pae, por alma de minha mãe lhe peço +que não me force a este casamento que o meu +coração +não póde acceitar! +<br /> + +<br /> + +―Sua mãe! Não me falle em quem já +morreu! +Quem lá vae, lá vae, não é +aqui chamado! +<br /> + +<br /> + +A esta brutal e grosseira reprehensão, Beatriz ergueu-se. +No rosto pallido as lagrimas seccaram-se-lhe +como por encanto, e nos olhos, fulgurantes de +indignação, +lia-se-lhe agora uma resolução inabalavel. +<br /> + +<br /> + +―Minha mãe―disse ella em voz calma e firme―não +me responderia assim, se eu, de joelhos, lhe invocasse +a memoria de meu pae morto. +<br /> + +<br /> + +Esta resposta acabou de exasperar o sr. Custodio. +<br /> + +<br /> + +―Cale-se!―não me falte ao respeito! +<br /> + +<br /> + +―Não sabia que a lembrança de minha +mãe era +para meu pae uma offensa. +<br /> + +<br /> + +Beatriz, perfilhada pelo sr. Custodio aos dois annos +d'edade, fôra educada na crença de que este +homem era seu pae e ignorava por completo a historia +do seu nascimento. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[59]</span> +Notava que o homem a quem chamava pae a tratára +sempre com grande severidade e rispidez, e lamentava-se +intimamente de não achar no coração do +auctor de seus dias a ternura e carinho a que tem +direito uma filha obediente e submissa, como ella era. +<br /> + +<br /> + +Esta severidade recrudescera, quasi degenerando +em tyrannia, depois que a mãe se lhe finara. +<br /> + +<br /> + +A pobre pequena habituara-se áquelle tratamento, +e, crescendo na edade, sentira mudar-se-lhe o terror +infantil n'uma repugnancia instinctiva, porém soffredora +e paciente, que mais e mais a afastava do pae. +<br /> + +<br /> + +Evitava a sua presença o mais que podia; e nos +curtos instantes em que era obrigada a aproximar-se +d'elle e a ouvir-lhe as reprehensões grosseiras e injustas, +era sempre com os olhos no chão que o escutava. +<br /> + +<br /> + +Havia, pois, uma antipathia profunda entre estes +dois sêres, que o destino cruel pussera em face um do +outro, ligados pelos laços de um parentesco ficticio, +mas nem por isso menos respeitavel aos olhos do +mundo e da propria victima. +<br /> + +<br /> + +A attitude do senhor Custodio, que sempre fôra mau +para com a filha, tornara-se desde este momento odiosa. +<br /> + +<br /> + +Ferira a pobre creança no que ella tinha de mais +santo e mais sagrado no fundo do coração e que +fazia +objecto do seu culto:―o respeito pela memoria +de sua mãe e o seu amor por Paulo. +<br /> + +<br /> + +O despreso amargo com que seu pae acolhera a +supplica que ella lhe dirigira humildemente, de joelhos, +em nome da mãe, revoltou-a, e onde a revolta +começa +o respeito acaba. +<br /> + +<br /> + +Aquella phrase altiva, serena e sêcca com que +respondeu ao pae, que a mandava calar, era o prenuncio +da lucta que ia travar-se, era como que o +grito de revolta chamando em seu auxilio todas as +energias da sua alma de mulher para resistir á violencia +com que queriam esmagar-lhe o coração. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[60]</span> ―Já disse!―volveu o descaroado pae.―Quem +manda aqui sou eu. Este casamento ha de fazer-se +por vontade ou por força. +<br /> + +<br /> + +―Viva não me levarão á +egreja!―respondeu +firmemente a pequena. +<br /> + +<br /> + +―Atreve-se a fallar-me assim, a faltar-me ao respeito? +Esquece que sou seu pae? +<br /> + +<br /> + +―Não esqueço. Mas lembro-me tambem de que +não devo ser tratada como escrava. +<br /> + +<br /> + +―Quem é que a quer escravisar? Chama escravisarem-n'a +ao quererem fazer-lhe um casamento +rico, com um rapaz de bôa familia, educado e que +póde dar-lhe respeito na sociedade? +<br /> + +<br /> + +―O meu coração não se vende a pezo de +dinheiro, +meu pae! Se esse homem quer comprar affectos, +que os busque onde elles se vendem. +<br /> + +<br /> + +―Está muito adeantada! Quem é que lhe ensinou +tanto? +<br /> + +<br /> + +―A minha razão e a consciencia dos meus deveres +de mulher digna. +<br /> + +<br /> + +O senhor Custodio enviesou-lhe um olhar furibundo. +A sua vontade seria estrangulal-a. Mas conteve-se. +<br /> + +<br /> + +―Isso são frioleiras de romances!―gritou elle―. A +menina não sabe o que diz. A culpa tenho-a tido eu +em consentir que certas leituras lhe ponham a cabeça +á razão de juros. Mas não tem +duvida... Eu a +mandarei para onde lhe ensinem os seus deveres de +filha. +<br /> + +<br /> + +―Mande-me o pae para onde quizer. Obedecer-lhe-hei +como filha que não necessita que lhe ensinem +os seus deveres. Mas não exija que acceite por marido +um homem que o meu coração não estime, +porque +a isso recusar-me-hei. +<br /> + +<br /> + +―Veremos! +<br /> + +<br /> + +O sr. Custodio sahiu bufando como um touro e foi +direito ao escriptorio. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[61]</span> ― Que tal está a +<em>bisca</em>?!―rosnova elle, no auge +da furia.―Bem se vê que não é minha +filha! +<br /> + +<br /> + +Passeou com as mãos ora mettidas nos bolsos, ora +coçando nervoso a suissa, o que n'elle denunciava +sempre ou uma profunda meditação ou um violento +desespero. +<br /> + +<br /> + +―E ainda o Belchior a dizer-me que leve as coisas +com prudencia!―regougou por fim.―A prudencia +era dar-lhe com um cacête até o diabo dizer +<em>basta</em>! Amanhã estava ahi +macia como um velludo e +ia casar com quem eu quizesse... +<br /> + +<br /> + +De repente parou como ferido por ideia subita. +<br /> + +<br /> + +―E talvez... quem sabe? Esta ideia não é +má +e póde dar resultado... Vamos lá a experimentar +se, +levando as coisas por bem, conseguimos o nosso fim. +<br /> + +<br /> + +Tornou a subir ao andar superior e chamou a filha. +<br /> + +<br /> + +A pequena, muito pallida, veio ter com o pae e +perguntou: +<br /> + +<br /> + +―O pae deseja alguma coisa? +<br /> + +<br /> + +―Desejo, minha filha. Anda cá... senta-te aqui. +Quero que me escutes com attenção e que vejas que +não sou tão mau como pareço... +<br /> + +<br /> + +O sr. Custodio, vendo que Beatriz, sempre com os +olhos baixos, não respondia, pegou-lhe na mão e +puxou-a +docemente para junto de si, fazendo-a sentar ao +seu lado, e principiou dizendo: +<br /> + +<br /> + +―Ora anda cá, minha filha! É preciso que saibas +que ninguem é mais teu amigo n'este mundo do +que teu pae... Eu estou velho... estou com os pés +na cova, e, com estes desgostos que me estás dando, +não posso ir muito longe. +<br /> + +<br /> + +―Mas em que é que eu o desgostei, meu pae? +<br /> + +<br /> + +―Desgostaste-me com o teu procedimento de ha +pouco... +<br /> + +<br /> + +―Perdão! eu fui humilde e submissa, eu implorei +<span class="pagenum">[62]</span> +de joelhos e mãos postas que não me +forçasse ao casamento +com um homem que o meu coração não +póde +acceitar... É isto desobediencia? +<br /> + +<br /> + +―Filha! mas tu matas-me com essa recusa!―exclamou +o sr. Custodio, afflicto, simulando uma enorme +contrariedade. +<br /> + +<br /> + +―Mato-o porque não me quero casar, porque prefiro +viver ao lado de meu pae?! +<br /> + +<br /> + +―Matas-me porque o teu futuro e o meu está +dependente d'esse casamento, filha! Matas-me porque +recusando a mão d'este rapaz lavras uma sentença +de morte contra mim! +<br /> + +<br /> + +Beatriz empallideceu. +<br /> + +<br /> + +―Não o comprehendo, meu pae―balbuciou ella. +<br /> + +<br /> + +―Eu te explico, minha filha... +<br /> + +<br /> + +E aqui o sr. Custodio interrompeu-se, como para +tomar alento, passou o lenço pelos olhos para enxugar +uma lagrima ausente, suspirou fundo e proseguiu: +<br /> + +<br /> + +―Eu ha pouco fallei-te desabridamente, fui severo, +fui rispido, fui mesmo, injusto para comtigo; +mas tudo isto era não só o resultado do muito +amor +que sinto por ti, porque todo o meu desejo é +vêr-te feliz, +mas tambem e principalmente era motivado pelo desespero +da minha horrorosa situação... +<br /> + +<br /> + +Suspendeu-se a olhar para a filha, a vêr o effeito +que n'ella produziam estas palavras. A pequena permanecia +com os olhos baixos, immovel, na attitude de +quem escuta pacientemente uma historia que não lhe +interessa. +<br /> + +<br /> + +―Ouves, Beatriz? +<br /> + +<br /> + +―Ouço, meu pae. +<br /> + +<br /> + +―Da minha horrorosa situação!―tornou o sr. +Custodio a dizer, com um suspiro ainda mais fundo. +E abraçando-se na pequena, a soluçar, exclamou: ―Ah! filha! filha! teu pae está perdido! Se +<span class="pagenum">[63]</span> +tu o não salvas, ficas orphã... orphã +e pobre, porque +eu a esta dôr não resisto! +<br /> + +<br /> + +Beatriz, surprehendida, porém de modo algum +commovida com esta dôr ficticia, perguntou, como se +apenas cumprisse um dever: +<br /> + +<br /> + +―Mas o que foi que lhe succedeu, meu pae? +Porque é que assim se afflige? +<br /> + +<br /> + +―Filha!―tornou o senhor Custodio, com a voz +entrecortada pelos soluços e sem desprender dos +braços +o corpo franzino de Beatriz―estou pobre... estou +arruinado e só tu me pódes salvar! +<br /> + +<br /> + +―Eu, meu pae! O que posso eu fazer em seu +auxilio? +<br /> + +<br /> + +―Tudo, minha filha! Mas deixa-me explicar-te +primeiro... Os meus negocios teem corrido mal... +Nos ultimos tempos tenho soffrido prejuizos importantes +que me teem reduzido á miseria... Este procurador, +este Belchior que aqui vem e que, coitado, é meu +amigo...―não o posso negar, é meu +amigo!...―tem-me +valido com a sua amizade, abonando-me importantes +quantias que me teem sido precisas para +solvêr compromissos creados... Mas agora nem já +elle tem, nem eu... Este rapaz é rico, possue uma +importante fortuna e ama-te apaixonadamente, minha +filha... Elle promette pagar todas as minhas dividas +no momento em que tu consintas em ser sua esposa... +Portanto, vê lá: ou ficamos reduzidos á +miseria, sem +um bocado de pão, e sem abrigo, porque tudo quanto +está n'esta casa é dos credores, ou tu acceitas +este casamento +e voltam para o nosso lar os dias felizes, a paz +e a abundancia, como até aqui. +<br /> + +<br /> + +E como Beatriz permanecesse calada, com os olhos +no chão, sem responder, o sr. Custodio fitou-a anciosamente +e perguntou n'um tom supplicante: +<br /> + +<br /> + +―Então, Beatriz, o que dizes? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[64]</span> +A joven guardou ainda silencio por alguns instantes +e depois murmurou: +<br /> + +<br /> + +―Digo que é uma grande desgraça, meu pae... +<br /> + +<br /> + +―Sim, é uma grande desgraça, não ha +duvida... +Mas, graças a Deus, temos o remedio para ella, se tu +quizeres, minha filha. +<br /> + +<br /> + +―Todas as desgraças teem remedio, meu pae, e +esta tambem o terá, sem nos ser preciso buscar uma +desgraça ainda maior... +<br /> + +<br /> + +―Não te comprehendo, Beatriz!―exclamou o +sr. Custodio―O que queres dizer? +<br /> + +<br /> + +―Quero dizer que se a perda de todos os seus +haveres, meu pae, é uma grande desgraça, o meu +casamento +com esse rapaz ainda a aggravaria mais... +<br /> + +<br /> + +―Porque, minha filha? +<br /> + +<br /> + +―Porque eu não o amo. +<br /> + +<br /> + +―Deixa-te de creancices, Beatriz! O amor +vem com a convivencia.. Tendo tu o que necessitas +para continuar a viver na abundancia, e tendo um +marido que te estime e que satisfaça todos os teus +desejos, ainda os mais insignificantes, verás que breve +te affeiçoas a elle. +<br /> + +<br /> + +―Mas eu não necessito de coisa alguma!―protestou +vivamente Beatriz. +<br /> + +<br /> + +―Não necessitas! Pois estando eu pobre, arruinado... +<br /> + +<br /> + +―Eu trabalharei e viveremos do meu trabalho―acudiu +corajosamente a nobre menina.―Darei lições +pelos collegios e pelas casas particulares, e se não +pudermos +viver com ostentação, o que não +dá a felicidade, +viveremos remediados e livres de maiores +privações... +<br /> + +<br /> + +―Tu estás doida!―berrou o sr. Custodio, desmanchando-se +no seu papel de carpidor de desgraças, +para assumir a attitude grosseiramente petulante da +sua indole má, irritada pola teimosia da filha.―Bem +<span class="pagenum">[65]</span> +se vê que tens instinctos baixos e que não te +repugna +fazer má figura! +<br /> + +<br /> + +―O que me repugna, meu pae, é illudir e enganar +alguem, seja por que preço fôr... +<br /> + +<br /> + +―Mas a quem é que tu enganavas, casando com +o Eugenio? Anda, dize lá! +<br /> + +<br /> + +―Enganava principalmente esse homem, que julgaria +encontrar em mim um affecto que eu não posso +sentir por elle! +<br /> + +<br /> + +―Historias! Affecto não é coisa que se coma! +<br /> + +<br /> + +E recahindo nas lamentações primitivas: +<br /> + +<br /> + +―Que infeliz eu sou! Velho, com os pés na cova, +reduzido á ultima miseria, e não achar na minha +propria +filha amparo nem compaixão para a minha desgraça! +<br /> + +<br /> + +Beatriz ouvia quasi indifferente as lamurias do pae. +<br /> + +<br /> + +Toda aquella dôr, manifestada assim em +lamentações +tão improprias de um homem que sempre se +mostrara altivo, sêcco e intractavel, afigurava-se-lhe +ignobil. Sentia uma revolta interior, um nojo intimo +d'aquella vilissima creatura, de quem se suppunha filha, +e tinha como que um secreto remorso de não poder +amar o auctor de seus dias. +<br /> + +<br /> + +O sr. Custodio percebia esta indifferença da filha, +e emquanto se lamuriava, dizia comsigo: +<br /> + +<br /> + +―Grande desavergonhada! Bem se vê que não +és +minha filha! +<br /> + +<br /> + +Por fim, Beatriz aventurou esta pergunta: +<br /> + +<br /> + +―E se esse rapaz não tivesse apparecido a querer +casar comigo, o pae não teria outro meio de remediar +os desastres soffridos no seu negocio? +<br /> + +<br /> + +―Como havia de eu remediál-os? O remedio era +entregar tudo aos credores e ficarmos sem nada! +<br /> + +<br /> + +―Mas haviamos de viver... +<br /> + +<br /> + +―Viver como?―interrogou o sr. Custodio impaciente. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[66]</span> ―Como vivem tantos pobres, resignados com a +sua miseria... +<br /> + +<br /> + +D'esta vez o sr. Custodio conteve-se e não descambou +no repellão habitual. +<br /> + +<br /> + +―Sabes lá o que dizes, filha! Os que vivem conformados +com a sua pobresa são os que nunca souberam +o que era viver melhor. Nasceram miseraveis, na +miseria se crearam e assim vivem e morrem sem soffrimento +nem pesar. Mas quem está na nossa +situação, +filha, quem experimentou a abundancia e depois se +vê reduzido á penuria póde +lá conformar-se com isso?! +Eu por mim, declaro, dou cabo da vida, e ha-de ficar-te +o remorso de teres causado a morte de teu pae! +<br /> + +<br /> + +Esta ultima phrase fez estremecer a pobre menina. +Tudo quereria menos a pungir-lhe na consciencia o +crime de haver morto seu pae. Embora não sentisse +por elle os extremos de affecto que o genio irascivel, +rispido e severo d'aquelle homem não soubera inspirar-lhe, +a sua razão dizia-lhe que tinha deveres de +filha a cumprir, e a esses não queria ella faltar. +<br /> + +<br /> + +―Mato-me!―continuava o sr. Custodio, abrindo +a valvula ao desespero que lhe ia na alma―mato-me, +porque não tenho animo para soffrer os horrores +da miseria que me estão reservados, e antes quero dar +cabo de mim do que vêr a minha filha exposta a todas +as desgraças que a pobresa traz comsigo! +<br /> + +<br /> + +―Por mim, não se mate, meu pae! Eu tenho força +e coragem para resistir aos golpes da adversidade. +<br /> + +<br /> + +―Tu terás forças, minha filha, mas eu +é que já +não as tenho! Dize-me terminantemente que não +casas +com esse rapaz, que não salvas teu velho pae da miseria, +e tu verás o que eu faço... Não tenho +animo para +vêr os credores entrar por aqui dentro e pôrem-me +lá +fóra a mim e mais a ti! Não! quando elles +entrarem, +hão-de vir já encontrar-me cadaver! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[67]</span> +Disse, e levantando-se como quem tinha tomado +uma resolução inabalavel, perguntou: +<br /> + +<br /> + +―O que resolves, Beatriz? Nas tuas mãos está a +minha vida, a vida de teu pae!... +<br /> + +<br /> + +A joven, assim instada, sentiu-se vacillar. Vencida +pelo tom humilde e supplicante em que o pae se lhe +dirigia, não tinha forças para recusar +abertamente. +<br /> + +<br /> + +―Meu pae―balbuciou por fim―deixe-me ainda +reflectir até amanhã. +<br /> + +<br /> + +O usurario percebeu que levava o inimigo de +vencida e não quiz abandonar a victoria. +<br /> + +<br /> + +―Amanhã será tarde―disse elle―A resposta +tem de ser dada hoje ao Belchior impreterivelmente, +sob pena de amanhã os credores entrarem por +aqui dentro e levarem tudo. Resolve, pois. Eu não te +quero forçar a um casamento que te repugna. Bem +reconheço mesmo que não tenho direito ao teu +sacrificio, +porque eu não sou d'esses paes que andam sempre +a acarinhar as filhas, sem terem por ellas metade +do amor que eu sinto por ti... Tenho este genio assim... +pareço severo, pareço um homem que não +sabe o que +é amor de pae, mas o que o meu coração +sente só eu +é que o sei!... +<br /> + +<br /> + +Interrompeu-se para abafar os soluços e enxugar +as lagrimas, que não chorava, ao lenço tabaqueiro +e +proseguiu: +<br /> + +<br /> + +―Paciencia! Tinha de ser assim... seja! +<br /> + +<br /> + +E como a filha se conservasse silenciosa, pegou-lhe +na mão, exclamando: +<br /> + +<br /> + +―Adeus, Beatriz! Despede-te do teu pae, que o +não tornas a vêr vivo! +<br /> + +<br /> + +―Meu pae!―disse a pobre menina com a voz +embargada na garganta pela commoção―Pelo amor +de Deus, não tome qualquer resolução +desesperada +sem que eu falle primeiro com esse rapaz! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[68]</span> ―Com quem?―interrogou o sr. Custodio, fixando +a filha. +<br /> + +<br /> + +―Com esse... sr. Eugenio. +<br /> + +<br /> + +―Queres fallar com elle para lhe dizeres que +não? Dize-m'o antes a mim, filha! +<br /> + +<br /> + +―Não, meu pae. Desejo fallar com elle para ouvir +de seus labios a declaração de que me quer por +mulher. +<br /> + +<br /> + +―E casarás? +<br /> + +<br /> + +―Casarei, se não houver outro remedio. +<br /> + +<br /> + +O sr. Custodio, radiante, estreitou-a nos braços +com frenesi. +<br /> + +<br /> + +―Deus te abençôe, minha filha! Pódes +dizer que +salvaste teu pobre pae! Vou mandar avisar o Belchior. +<br /> + +<br /> + +E, beijando a filha na testa, sahiu quasi doido de +contentamento.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c4"></a>IV<br /> + +<br /> + +Dois patifes +</h3> + +<br /> + +<br /> + +O procurador Belchior está no seu escriptorio, +sentado á carteira, conversando animadamente com +um rapaz alto, pallido, elegantemente vestido, de maneiras +distinctas, e bastante desenvoltas, que frequentemente +o interrompe com uma gargalhada de +intima satisfação. No rosto d'este rapaz, que +poderá +contar, quando muito, vinte e quatro ou vinte e cinco +annos, ha os traços indeleveis do bohemio que passa a +mocidade entregue a toda a sorte de vicios e prazeres +e para quem a vida tem apenas uma difficuldade séria: +arranjar dinheiro para gastar. +<br /> + +<br /> + +Os olhos pretos, vivissimos e o sorriso zombeteiro +que lhe baila constantemente nos labios, meio disfarçado +pelo bigode fino, lustroso e petulantemente encaracolado +nas guias, dão-lhe á physionomia uma +expressão +velhaca que poria de sobreaviso um observador +experimentado, mas que ao sr. Belchior não +parece inspirar a minima desconfiança. +<br /> + +<br /> + +Este rapaz é Eugenio de Mello, o pretendente á +mão de Beatriz. +<br /> + +<br /> + +Ouçamos a conversa travada entre os dois, a vêr +se por ella podemos conhecer melhor o personagem +com quem vamos travar conhecimento. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p70">[70]</a></span> ―O velhote está enthusiasmado―diz o procurador―e +o meu amigo apanha, além de uma linda mulher, +uma bôa maquia―uma maquia de se lhe tirar +o chapéo! +<br /> + +<br /> + +―Pois é o que se quer―responde o outro―o +que se quer é <em>massa</em>. +Quanto calcula você, amigo +Belchior, que viremos a apanhar? +<br /> + +<br /> + +―Homem, já lhe disse, ao certo não sei, porque +o Custodio é manhoso... Depois que foi roubado +por um padre, não descobre a sua vida a ninguem. +Mas, pelos documentos que me teem passado pela mão, +aquella besta deve ter para mais de setenta contos. +<br /> + +<br /> + +―Menos mau!―considerou o bohemio, piscando +o olho.―Mas isso está ainda tudo nas unhas do velho, +que póde ter a má lembrança de +não morrer estes +dez annnos mais chegados... +<br /> + +<br /> + +―E os vinte contos que couberam á rapariga, no +inventario por morte da mãe?―accudiu o procurador.―Esses +é que lhe passam já para as unhas assim +que o casamento se fizer... +<br /> + +<br /> + +―Vinte contos... que diabo!―tirando-lhe as +commissões, o que é que <a href="#e9">me +fica</a>?―considerou o outro, +encolhendo os hombros com desprezo. +<br /> + +<br /> + +―Sim, que você agora tem mais!―contraveio o +procurador sarcasticamente.―Que diabo! vocês são +todos assim! Quanto mais teem mais querem! +<br /> + +<br /> + +―Não é isso, amigo Belchior. É que eu +penso e +vejo as coisas como ellas são... Afinal de contas, este +negocio vem a ser bom mas é para você... +<br /> + +<br /> + +―É bom para ambos! Ou você queria que eu +trabalhasse de graça para lhe encher os bolsos de dinheiro +e ficasse a fazer cruzes na bocca? +<br /> + +<br /> + +―Não, não queria... Mas vamos a saber: a pequena +tem vinte contos?... +<br /> + +<br /> + +―Para já. Mas a bolada maior ha-de-vir por +morte do velho. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[71]</span> ―Não esperemos por sapatos de defuncto, e +façamos +calculos positivos. Por agora e para já, realisado +o casamento, podemos contar com vinte contos, +não é isso? +<br /> + +<br /> + +―Perfeitamente. +<br /> + +<br /> + +―Você quanto leva de commissão? +<br /> + +<br /> + +―Trinta por cento, por sermos amigos. +<br /> + +<br /> + +―Obrigado!―respondeu o bohemio zombeteiramente―trinta +por cento sobre vinte contos, são seis +contos de réis... +<br /> + +<br /> + +―Muito justos. +<br /> + +<br /> + +―E venho eu a ficar só com quatorze!... +<br /> + +<br /> + +―E acha pouco? Para quem não tem presentemente +quatorze vintens, parece-me que quatorze contos de +mão beijada e uma mulher bôa, é +dinheiro... +<br /> + +<br /> + +―Não ha duvida, é dinheiro... Mas tome +você +conta da mulher, dos encargos de a sustentar, de a +vestir, de lhe dar criadas, de a aturar e de pagar aos +meus crédores antigos, tudo por quatorze contos, e +dê-me para mim os seis que você recebe limpinhos e +sêccos... Quer? +<br /> + +<br /> + +O procurador fez uma carêta. +<br /> + +<br /> + +―Você está a fazer-se de manto de +sêda!―disse +elle descontente.―Se acha que é mau o partido, +não o acceite, que não faltará quem +lhe pegue. +<br /> + +<br /> + +―O partido não é mau, mas não +é tão bom como +você me quer fazer acreditar... +<br /> + +<br /> + +―Com os diabos!―gritou o procurador arreliado.―E +os setenta contos do velho não é nada? +Você acho +que cuida que eu nasci hontem! Eu mettia-me lá +n'este negocio por seis contos de réis, se não +fosse a +certeza de vir a apanhar mais, logo que o velho +<em>estique +o pernil</em>? Não que o meu tempo é +dinheiro e eu +não ando a trabalhar para o bispo! +<br /> + +<br /> + +―Bem sei―tornou o Mello―mas eu é que tambem +não estou para perder a minha liberdade e ficar +<span class="pagenum">[72]</span> +toda a vida com o trambolho da mulher preso á perna, +a troco de quatorze contos que os crédores me +hão-de vir buscar, logo que saibam que tenho por onde +pague... +<br /> + +<br /> + +―Mas você póde arranjar uma coisa. +<br /> + +<br /> + +―O que é? +<br /> + +<br /> + +―Faça uma concordata com elles antes de casar... +<br /> + +<br /> + +―Mas eu não sou commerciante, não posso +lançar +mão desses meios que são privilegio do commercio +honrado...―considerou epigrammaticamente o estroina. +<br /> + +<br /> + +―Agora não póde! Cace-lhes você o +recibo em +como estão pagos, e veremos depois se elles lhe pedem +alguma coisa. +<br /> + +<br /> + +O Mello pareceu meditar. +<br /> + +<br /> + +―Effectivamente, você tem razão... Se +áquelles +a quem devo seis pagasse com dois, a coisa ainda não +iria muito longe... +<br /> + +<br /> + +―Menos a mim!―protestou o procurador―a +mim é que você me ha-de pagar tudo por inteiro. +<br /> + +<br /> + +―Isso, comnosco, é outra coisa... Mas vamos a +saber: como é que eu hei-de propôr esse negocio +aos +meus crédores, se não tenho dinheiro para +liquidar de +prompto antes de casar?. +<br /> + +<br /> + +―Não lhe dê cuidado. Traga-me a lista dos +crédores, +que eu cá arranjarei isso da melhor maneira... +<br /> + +<br /> + +―Abona você o dinheiro? +<br /> + +<br /> + +―Certamente. Você acceita-me letras na importancia +do que eu pagar e depois nós cá nos entenderemos. +<br /> + +<br /> + +―Pois bem, arranje lá isso. +<br /> + +<br /> + +―Ora agora―tornou o procurador―temos ainda +uma questão a decidir... +<br /> + +<br /> + +―Diga lá. +<br /> + +<br /> + +―O velho está persuadido de que você é +um homem +riquissimo... Metti-lhe essa +<em>caraminhola</em> em cabeça, +<span class="pagenum">[73]</span> +porque, de outra forma, elle não lhe dava +a filha... +<br /> + +<br /> + +―Bom! Que duvida ha? Dir-lhe-hei que sou rico... +<br /> + +<br /> + +―A questão não é dizer-lh'o, a +questão é provar-lh'o. +Você não me disse que ha um Eugenio de Mello +no Alemtejo, possuidor de uma riqueza immensa? +<br /> + +<br /> + +―Disse e ha. +<br /> + +<br /> + +―Bom. Pois então é pedir ao escrivão +de fazenda +respectivo uma certidão das decimas e +contribuições +pagas por esse sujeito ao estado... +<br /> + +<br /> + +―Para que? +<br /> + +<br /> + +―Para que! É boa! Para podermos provar ao +Custodio que você é um importante proprietario do +Alemtejo e que póde dar-lhe a filha, porque não +hão +de faltar-lhe porcos nem cortiças para os netos. +<br /> + +<br /> + +O bohemio soltou uma gargalhada. +<br /> + +<br /> + +―Você é o diabo, Belchior!―disse elle. +<br /> + +<br /> + +―E se for preciso provar que você tem quarenta +ou cincoenta contos de reis representados em letras, +tambem se arranjam com <em>acceites</em> +valiosos e de muito +credito... +<br /> + +<br /> + +―Como? +<br /> + +<br /> + +―Tenho constituintes ricos que lhe acceitarão letras +na importancia que se quizer, acceitando-lhes +você outras de igual importancia. Comprehende? +<br /> + +<br /> + +―Não comprehendo muito bem... +<br /> + +<br /> + +―Expliquemos: eu acceito-lhe a você letras no +valor de oitenta contos e você, na mesma data, acceita-me +letras d'igual importância. Você quer +<em>provar</em> +que possue oitenta contos e mostra essas letras acceites +por mim... Mas ellas realmente não valem nada, +porque se você vier recebel-as, eu apresento os seus +<em>acceites</em>, que você tem +igualmente de me pagar, e portanto +estamos quites... Percebe agora? +<br /> + +<br /> + +―Agora, percebo! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[74]</span> ―Bem. Pois este é também um expediente de que +podemos lançar mão quando nos fôr +preciso. Mas obra +mais limpa é certamente essa da confusão dos +nomes, +que nos permitte fazer a prova com um documento +official... Em que terra do Alemtejo existe esse tal +Eugenio de Mello? +<br /> + +<br /> + +―Em Borba. +<br /> + +<br /> + +―Está muito bem! E então eu que +conheço o escrivão +de fazenda que lá está agora. Vou já +escrever-lhe, +e na volta do correio temos cá a certidão. +<br /> + +<br /> + +―Olhe lá, não será conveniente eu +amiudar as +minhas visitas ao Custodio? +<br /> + +<br /> + +―Já lhe fallei n'isso a elle. Mas elle diz que por +ora não... que o deixemos primeiro resolver a filha +a acceitar o casamento, e depois fallaremos... +<br /> + +<br /> + +―E essa delambidita porque é que me hade recusar +Eu não valerei mais do que o franganito +que lhe anda a arrastar a aza?―disse o bohemio. +<br /> + +<br /> + +―Mulheres, meu amigo! As mulheres são caprichosas... +<br /> + +<br /> + +―E escolhem sempre o peor... +<br /> + +<br /> + +―É a unica probabilidade que você tem a seu +favor!―exclamou o procurador rindo―Porque peor +do que você, com franqueza, não +conheço! +<br /> + +<br /> + +―Obrigado, amigo Belchior! Você é muito modesto! +<br /> + +<br /> + +Os dois patifes encararam-se e desataram a rir. +<br /> + +<br /> + +―Ora agora―disse por fim o Mello―não se +esqueça +de que estou a precisar de dinheiro. +<br /> + +<br /> + +―Já? +<br /> + +<br /> + +―Pudera! Este Porto é o diabo! Com os seus +ares pacatos de terriola de provincia, tem sorvedouros +terriveis! +<br /> + +<br /> + +―Mas ainda não ha oito dias que lhe dei duzentos +mil reis. +<br /> + +<br /> + +―E o que vem a ser isso para um homem relacionado +<span class="pagenum">[75]</span> +como eu? Duzentos mil réis gastam-se n'uma +ceia com tres amigos e outras tantas mulheres... +<br /> + +<br /> + +―Mas você, que diabo! está hospedado no +<em>Francfort</em>, +um hotel de primeira, onde o tratamento é magnifico, +não tem necessidade de comer fóra... +<br /> + +<br /> + +―Amigo Belchior, você sabe muito bem como o +dinheiro se arranja, mas não sabe como elle se gasta. +Não falle, portanto, d'aquillo que não sabe, e +chegue-me +cá mais duzentos mil reis, que é o essencial. +<br /> + +<br /> + +―Assim, por esse andar, quando chegar o dia do +casamento, já os haveres da noiva estão +espatifados... +<br /> + +<br /> + +―Não diz você que temos ainda a reserva dos +setenta +contos do velho? +<br /> + +<br /> + +―Sim, mas isso, como você considerou ha pouco, +são sapatos de defuncto... +<br /> + +<br /> + +―Homem, haja os sapatos, que o defuncto arranja-se +quando nos convier... +<br /> + +<br /> + +―Você seria capaz d'isso?―interrogou o procurador +com um sorriso indescriptivel de cynismo. +<br /> + +<br /> + +―Nós somos capazes de muito mais―respondeu o +Mello, frisando intencionalmente a palavra +<em>nós</em>. +<br /> + +<br /> + +―Você é o diabo! Mas olhe lá, +não se alargue +muito, que eu agora estou sem dinheiro... +<br /> + +<br /> + +―Pois sem <em>massas</em> não se +faz nada! Você bem +sabe, que sendo eu um rico proprietario do Alemtejo, +que faço quinze contos de cortiça de tres em tres +annos, +afóra os porcos, não devo deixar de gastar em +harmonia com os meus rendimentos. As mulheres, +aqui no Porto, não são de grande luxo, mas comem +como freiras e aquelle Palacio de Crystal e aquelle +<em>Suisso</em> teem uma lista reduzida, mas +cortante como +uma navalha de barba! Além d'isso, ha sempre uns +amigos <em>depennados</em>, que se +<em>encostam</em> e que não ficam +baratos... +<br /> + +<br /> + +―Mande-os trabalhar! Sucia de vadios!―aconselhou +o Belchior, indignado. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[76]</span> ―Bem digo eu! Você não sabe o que diz! Estes +amigos são os comparsas da grande comedia que eu +preciso de representar. São elles os que fingem de +<em>povo</em> e apregoam aos quatro ventos, +pelas tubas da +fama e das notas de cinco mil réis que lhes empresto, +a minha grandeza e opulencia de rico proprietario. +Que eu lhes negue o regabofe de uma ceia e a +<em>pastilha</em> +que me pedem emprestada no fim, porque a carteira +lhes esqueceu em casa, e ámanhã eu serei o +pelintra, +o intrujão que realmente sou, e toda a gente +saberá, até o Custodio, que eu não +tenho nem cortiça, +nem porcos, nem sequer bolota para comer como elles... +<br /> + +<br /> + +―Você tem razão!―disse o procurador―Mas, +com os diabos, gaste menos. +<br /> + +<br /> + +―Que gaste menos! Eu tenho até gasto mais, e +decerto não chegaria o que você me dá, +se não +tivesse tido umas noites de sorte á batota. Meu amigo, +todo o negocio requer capital para poder dar lucros... +Este negocio do casamento é bom, mas é preciso +empatar capital... Eu sou o socio d'industria; +você é o socio capitalista: chegue-me +cá as <em>massas</em>, porque +eu preciso de mostrar quem sou. +<br /> + +<br /> + +―Deus nos livre! se mostra quem é, está o caldo +entornado!―clamou o procurador, levando as mãos +á cabeça n'um gesto tragico. +<br /> + +<br /> + +O Mello riu com vontade. +<br /> + +<br /> + +―Você nasceu para mim, e eu nasci para +você!―disse +elle.―Difficilmente se encontram e se juntam +dois como nós. Ande, vá buscar o dinheiro. +<br /> + +<br /> + +O procurador levantou-se, foi ao cofre de ferro, ao +canto do escriptorio, contou duzentos mil réis em notas, +e voltou com ellas e com um livro na mão. +<br /> + +<br /> + +―Ande! ponha aqui por sua mão que recebeu este +dinheiro―disse. +<br /> + +<br /> + +―Quanto? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[77]</span> ―Eu dou-lhe duzentos mil réis. Não foi isso o +que +você pediu? +<br /> + +<br /> + +―Mas aqui no livro estão duzentos e cincoenta! +<br /> + +<br /> + +―É isso. Os cincoenta mil réis são de +juros. +<br /> + +<br /> + +―Ladrão! Roubar ao inferno!―clamou o Mello +em tom de amigavel censura. +<br /> + +<br /> + +―E o risco? Você não tem onde cahir morto. Se +este casamento se não fizer, ou se a você o levar +o diabo +d'hoje para ámanhã, quem perde sou eu! +<br /> + +<br /> + +―Não leva, que eu sou cá preciso para animar as +artes e as industrias!―retorquiu risonho e senhor de +si o bohemio. +<br /> + +<br /> + +―O que me anima é que o gado ruim não tem +perigo―disse Belchior gracejando. +<br /> + +<br /> + +O Mello assignou no livro a quantia indicada pelo +procurador, metteu o dinheiro ao bolso e preparou-se +para sahir. +<br /> + +<br /> + +―Você ande-me com o velho!―disse elle.―Não +o deixe resfolegar, e elle que obrigue a filha por geito +ou por força a casar comigo. +<br /> + +<br /> + +―Coitada da creatura! Ha-de ser feliz com um +tal marido! +<br /> + +<br /> + +―Eu lhe digo... póde ser que me apaixone por ella... +Ás vezes o diabo, quando lhe parece, faz das suas... +<br /> + +<br /> + +―Quem! Você apaixonar-se? Se ella fosse uma +dama de copas... talvez! +<br /> + +<br /> + +―Eu supponho-a uma dama d'oiros... Já vê que +a differença do naipe não é tamanha +como parece... +<br /> + +<br /> + +Dizendo isto, o Mello saiu trauteando uma modinha, +emquanto o Belchior, rindo, arrumava o livro das suas +contas com o bohemio. +<br /> + +<br /> + +―Isto é que é um mariola!―murmurava o +procurador +satisfeito.―Não ha dinheiro que lhe chegue... +O jogo e as mulheres levam-lhe tudo... Ha-de acabar +mal este patife!<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c5"></a>V<br /> + +<br /> + +Madre Paula +</h3> + +<br /> + +<br /> + +Na casa conventual das Sereias, vamos encontrar +madre Paula, aquella espirituosa e gentil abbadessa +que os leitores da <em>Irmã +Dorothêa</em> certamente não +terão +esquecido e com quem aquelles que porventura a +não conheçam d'ahi, acharão prazer em +travar conhecimento. +<br /> + +<br /> + +Formosa ainda, posto que um ou outro fio de prata +ponha um signal de velhice nos seus lindos cabellos +pretos, a amiga de Helena de Noronha não tem já +aquella vivacidade traquina dos tempos em que a conhecemos. +<br /> + +<br /> + +A sua conversa, porém, é ainda adoravel d'encanto +pelas scintillações do seu espirito gracioso e +fino, que ás +vezes se desata em torrentes de bom humor que muito +alegram o padre Filippe, de ha muitos annos seu unico +e constante director espiritual. +<br /> + +<br /> + +Á hora a que vamos encontrál-a, está +ella sentada +em fofa poltrona, escutando o padre Filippe, que acaba +de chegar e que, ao que parece, traz novidades importantes +a communicar-lhe. +<br /> + +<br /> + +A conversação intima entre os dois conserva ainda +<span class="pagenum">[79]</span> +aquelle caracter familiarmente carinhoso de duas almas +que se comprehendem, de dois corações que se amam +e que se acham ligados pelos laços indestructiveis da +mais solida confiança. +<br /> + +<br /> + +―Sabes, minha querida amiga?―disse-lhe o padre +Filippe depois de a beijar carinhosamente nas faces―tive +hoje a visita do nosso Paulo, do filho da irmã +Dorothêa... +<br /> + +<br /> + +―Sim? Esse ingrato ha muito tempo que aqui me +não apparece! Senta-te e conta-me: como está +elle? +<br /> + +<br /> + +―Physicamente, pareceu-me bom. Agora, quanto +<em>á bóla</em>, o +rapaz tem-n'a um pouco transtornada... +<br /> + +<br /> + +―O que! que dizes tu?―perguntou madre Paula +com visivel interesse―Notaste n'elle qualquer +alteração? +<br /> + +<br /> + +―Imagina tu, minha amiga, que me entra em +casa com ares melodramáticos e dispara-me esta pergunta +com que eu não contava: «Diga-me, padre, +quem é meu pae?!» +<br /> + +<br /> + +―Elle fez-te essa pergunta? +<br /> + +<br /> + +―E queria por força que eu lhe dissesse de quem +era filho e por que razão se lhe occultava o segredo do +seu nascimento. +<br /> + +<br /> + +―Mas isso é extraordinario! Como se atreveu +a perguntar-te semelhante coisa? +<br /> + +<br /> + +―Como se atreveu! A mocidade de hoje atreve-se +a tudo. A educação livre que lhe demos havia de +produzir +n'elle os naturaes resultados. Não nos suppõe +seus protectores, nem sequer lhe passa pela +imaginação +que tudo quanto é o deve a nós. Julga-nos +intermediarios, +apenas, entre elle e os paes, para o +acto material de lhe entregarmos as mezadas e mais +ou menos inquirirmos do seu aproveitamento. N'estas +circumstancias, comprehendes que acanhamento +algum podia ter em se me dirigir da maneira por que +o fez. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[80]</span> ―E o que lhe respondeste? Como satisfizeste á +curiosidade d'essa creança? +<br /> + +<br /> + +―Comprehendes, minha amiga, que eu não podia +senão tomar o partido de me fingir tão ignorante +como +elle ácerca dos mysterios do seu nascimento; e foi +isso o que fiz. +<br /> + +<br /> + +―Mas que motivo o levou a querer saber quem +são os paes? +<br /> + +<br /> + +―Achas estranho? Tambem eu estranhei uma +tal pergunta, e por isso não o quiz deixar partir sem +indagar o que se passava de extraordinario n'aquella +alma juvenil... +<br /> + +<br /> + +―E indagaste? +<br /> + +<br /> + +―Indaguei e soube. +<br /> + +<br /> + +―O que é, pois? +<br /> + +<br /> + +―O nosso Paulo ama! +<br /> + +<br /> + +―Ah! mau prenuncio! Cêdo começa esse pobre +pequeno! +<br /> + +<br /> + +―Que queres tu, minha Paula? Hoje as creanças +passam cêdo a considerar-se homens feitos, e a não +guardarem para os trinta annos os prazeres do +coração, +que lh'os reclama aos dezoito... +<br /> + +<br /> + +―Isso é uma doença muito séria, a meu +vêr, e +que póde causar graves prejuizos de futuro ao nosso +protegido... +<br /> + +<br /> + +―Ha doenças que em vez de matarem, salvam. +Talvez esta seja uma d'ellas... +<br /> + +<br /> + +―Sempre optimista, sempre!―disse madre Paula +com um sorriso de leve censura.―Não creio que o +nosso Paulo possa lucrar grande coisa com uma +affeição +que certamente lhe ha-de preoccupar o espirito e +desviar-lhe as attenções do estudo para o objecto +dos seus amores. A prova de que essa paixão nascente, +e de todo o ponto intempestiva, começa a produzir +perniciosos effeitos, é que já despertou n'elle o +desejo +de penetrar o segredo do seu nascimento... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[81]</span> ―Isso tinha de succeder mais hoje ou mais amanhã―replicou +o padre Filippe―Não era natural que +um espirito vivo e irrequieto como o de Paulo se conservasse +por muito tempo indifferente ao desejo de saber +quem são ou quem fôram seus paes... +<br /> + +<br /> + +Madre Paula conservou-se silenciosa e meditativa +por alguns instantes. +<br /> + +<br /> + +―Creio que fizemos mal―disse ella―em dar a +esse rapaz a educação livre que os modernos +philosophos +preconisam... Uma creança entregue aos imprudentes +impulsos do seu coração juvenil, sem uma voz +amiga que a aconselhe, sem a presença de preceptor +austero cuja voz auctorisada lhe indique o caminho do +dever, ha de necessariamente cahir no deploravel desvario +de Paulo. +<br /> + +<br /> + +―Os homens formam-se na adversidade; o coração +retempera-se nas amarguras para as grandes luctas da +vida―retorquiu o padre Filippe.―A educação +moralisadora +de um preceptor austero corta os vôos ao +espirito, e perniciosamente contribue para deformar a +indole e perverter o caracter do um adolescente. A +violencia imposta pelos preconceitos de uma conducta +regrada, sujeita a methodos e convenções oppostas +ao +sentir individual, dá em resultado a +falsificação de um +caracter. O individuo assim creado não é nunca um +producto +apreciavel da natureza, é o producto artificial de +uma odiosa tyrannia exercida sobre o seu espirito. Não +é mais um homem são―bom ou mau―é um +hypocrita; +isto é, um aleijado que se arrasta miseravelmente +deformado pela vida fóra, tanto mais perigoso +aos outros homens quanto aprendeu a occultar e a disfarçar +as suas intenções e os seus instinctos. Deixemos +a este rapaz ampla liberdade de manifestar a sua indole. +Se é bôa, avigorada pela liberdade da +educação, +ella bracejará frondescente como arvore de bons fructos; +se é má, não haveria destra +mão de habil podador +<span class="pagenum">[82]</span> +capaz de extirpar a seiva ruim que a natureza +lhe pôz na raiz. +<br /> + +<br /> + +―Elle é filho do padre Anselmo!―disse madre +Paula―e se herdou a indole cruel, hypocrita e verdadeiramente +sanguinaria do pae, com certeza ha de +ser um monstro temivel, de que a sociedade terá que +arrecear-se. +<br /> + +<br /> + +―É tambem filho da irmã +Dorothêa―atalhou o +padre Filippe―e é possível que haja herdado da +mãe +os sentimentos de singela bondade que a fizeram cahir +nas rêdes infernaes d'esse homem extraordinario que +nunca mais tornámos a vêr! +<br /> + +<br /> + +―É um caso que ainda hoje não sei explicar, o +desapparecimento subito d'essas tres creaturas!―exclamou +madre Paula.―Parece incrivel que até hoje +não tenhamos tido mais noticias do padre Anselmo +nem da irmã Dorothêa, nem ainda do padre Hilario! +<br /> + +<br /> + +―Como sabes, minha amiga―ponderou o padre +Filippe―nas congregações jesuiticas, muda-se +frequentamente +de nome, e é esse até o processo adoptado +por muitos dos nossos irmãos e irmãs, para apagar +os +rastos compremettedores da sua passagem por este ou +por aquelle ponto. É, pois, de presumir que o padre +Anselmo, ascendendo aos logares superiores da Companhia, +julgasse conveniente adoptar outro nome, e, +levando comsigo a irmã Dorothêa e o padre Hilario, +lhes impuzesse a mesma mudança, afim de que ninguem +mais pudesse seguir-lhes o rasto no amplo caminho +das suas grandezas... +<br /> + +<br /> + +―Assim será. No emtanto, Helena é ingrata! +Sabendo +quanto eu a estimava, sabendo que lhe salvei a +vida e lhe dediquei sempre uma amizade sincera de +irmã, é imperdoavel o esquecimento a que me +votou! +<br /> + +<br /> + +―Minha querida amiga, a distancia enfraquece +os affectos. Não ha peor inigma da +amizade do que é +a ausencia. Depois, quem sabe? Talvez que o padre +<span class="pagenum">[83]</span> +Anselmo, hoje Provincial ou Assistente com outro nome, +lhe impozesse silencio como condição +indispensavel +de seus beneficios... +<br /> + +<br /> + +―Oh! não! Custa-me a crêr que a irmã +Dorothêa +tranzigisse com esse homem, que tão profundamente +detestava agora! +<br /> + +<br /> + +―Mas não dizes tu, minha querida, que ella +amava o padre Hilario, o joven filho do padre Anselmo, +que desempenhava o cargo de capellão no convento +da Covilhã, de que ella era abbadessa? +<br /> + +<br /> + +―Ella propria m'o confessou. +<br /> + +<br /> + +―Nesse caso, o amor pelo filho venceu a natural +repugnancia pelo pae, e a esta hora temol-os juntos, +n'algum convento do estrangeiro, felizes e resignados +como nós o estamos, cavando com verdadeiro enthusiasmo +na santa vinha do Senhor. +<br /> + +<br /> + +―Se tudo se passou como suppões―ponderou madre +Paula―se realmente o padre Anselmo ascendeu +aos mais altos cargos da Companhia e levou comsigo +o filho e a amante d'elle e do filho, é impossivel que +a estas horas Helena ignore quanto temos feito por +esta creança que ella cruelmente engeitou... +<br /> + +<br /> + +―Decerto. Ella póde ter noticias nossas. Nós +é +que não as temos nem podemos obtel-as d'ella... +<br /> + +<br /> + +―Mas é ingrata!―repetiu ainda madre Paula.―Por +quanto procederia eu de igual modo para com +ella, eu que tu accusavas de leviana, superficial e inconstante +nos meus affectos? +<br /> + +<br /> + +―Minha querida amiga―volveu risonho o padre +Filippe―eu sempre fiz justiça ao teu +coração; e se +me queixava da tua cabeça, é porque era ella a +que +vinha receber-me na ante-camara dos affectos sem me +deixar penetrar no sanctuario intimo do teu peito. E, +para cumulo de desgraça, succedia que eu nunca me +encontrava alli sosinho; havia sempre na sala commum +das affeições triviaes dois ou tres +frequentadores impertinentes +<span class="pagenum">[84]</span> +com quem me acotovelava e cuja presença +me indispunha e fazia soffrer... +<br /> + +<br /> + +―Sabes que foste sempre o preferido do meu +coração! +<br /> + +<br /> + +―Suspeitava-o. Não tinha, porém, a certeza. E +essa duvida torturava-me. +<br /> + +<br /> + +―E agora? +<br /> + +<br /> + +―Agora, minha bôa e querida Paula, tambem +eu me não queixo. Devo-te os mais bellos momentos +de toda a minha vida; devo-te os mais ardentes prazeres +da minha mocidade e as mais suaves consolações +da minha velhice. Bemdita sejas! +<br /> + +<br /> + +E enlaçou-a nos braços, beijando-a com um ardor +ainda não de todo extincto n'aqueile organismo gasto +pela edade. +<br /> + +<br /> + +Madre Paula deixou-se enlaçar n'um suave e doce +abandono, murmurando com os olhos brilhantes e as +faces purpureadas de prazer: +<br /> + +<br /> + +―Agora, e de ha muito tempo, és tu o unico senhor +absoluto de todo o meu ser. Reinas e governas +nos meus sentidos como no meu coração. Se me +faltasses, +morria! +<br /> + +<br /> + +―Se o amôr é a vida―tornou-lhe o padre +Filippe―se +é a grande lei universal que rege todos os sêres; +se o amôr é a suprema +aspiração dos novos, e +ainda a unica força que ampara os velhos, como poderemos +nós, minha querida, impedir ou sequer estranhar +que Paulo ame com todo o fôgo do seu juvenil +coração a mulher que o destino pôz no +seu caminho? +<br /> + +<br /> + +―Não é precisamente esse o meu desejo, mas +tão +sómente guiar e dirigir esse pobre rapaz para que o +desvairamento da paixão o não precipite nos +abysmos +da desgraça irremediavel. +<br /> + +<br /> + +―O coração apaixonado raro escuta os dictames da +prudencia. Todavia, talvez tu possas, minha amiga, +com essa tua dôce voz persuasiva, influir no espirito +<span class="pagenum">[85]</span> +d'esse rapaz a deixar-se guiar pelos conselhos da experiencia. +Prometteu-me que viria procurar-te, e creio +bem que virá. A ti incumbe, pois, a difficil +missão de +dirigir os seus passos e vigiar pelo seu futuro. Elle +ama-te como filho e se não escutar a tua voz, ninguem +n'este mundo poderá fazer-se obedecer por elle. +<br /> + +<br /> + +―Pois bem; se até amanhã aqui não +apparecer, +mandal-o-hei chamar e ouvirei o que me diz. No emtanto, +convém saber quem é a mulher que elle ama, +a que familia pertence, e no caso que a união dos +dois não seja uma d'estas inconsequencias absurdas +que a razão repelle e as conveniencias sociaes condemnam, +espero que não duvidarás unir os teus +esforços +aos meus para aplanarmos o caminho da felicidade a +esse pobre rapaz. +<br /> + +<br /> + +O padre Filippe sorriu. +<br /> + +<br /> + +―Queres arvorar-me em casamenteiro á ultima +hora!―acquiesceu elle―Seja! Interroga-me esse rapaz, +inquire e desvenda todos os segredos da sua alma; e +se te convenceres de que se trata de uma paixão +séria +e não d'uma d'essas velleidades tão frequentes e +tão perigosas na adolescencia, faremos todo o possivel +por lhe aplanar as difficuldades e conduzil-o triumphante +á realisação dos seus desejos. +<br /> + +<br /> + +―Eu devo-lhe protecção e carinhos de +mãe―disse +ainda madre Paula―Não posso esquecer-me de +que fui cumplice, embora forçada, na grande +desgraça +do seu nascimento. Essa creança é o fructo das +milagrosas apparições do Christo á +desvairada Helena +de Noronha. Se não fosse eu, talvez que o padre Anselmo +não realisasse a infame burla por esse processo +tão suave... A minha consciencia accusa-me, se bem +que a intenção com que procedi fosse mais +humanitaria +que criminosa. Eu quiz poupar a essa desgraçada +os horrores de uma desillusão brutal, de uma violencia +monstruosa como aquella de que foi victima a pequena +<span class="pagenum">[86]</span> +Candida, immolada no Sardão aos instinctos +bestiaes do padre Anselmo. +<br /> + +<br /> + +―Não recordemos, minha querida, esses horrores +que a miseria da nossa situação subalterna nos +tem +obrigado a presenciar e até a proteger com o +coração +confrangido de dôr, com a alma revoltada de nojo. +Vinguemo-nos da crueldade da sorte praticando o bem +espontaneamente, em desconto dos males que temos +sido forçados a fazer. Paulo é para todos os +effeitos +nosso filho. Façamos por elle todos os sacrificios +compativeis +com a nossa consciencia e com a nossa posição, +e que Deus nos leve em conta o bom desejo que +temos de proceder sempre bem e de harmonia com os +dictames do nosso coração, que não +é mau, mas que a +fatalidade acorrentou a uma vida de torpezas e de +immoralidades. +<br /> + +<br /> + +Despediu-se de madre Paula promettendo voltar +no dia seguinte. +<br /> + +<br /> + +A abbadessa, ao vêl-o partir, ficou immersa n'uma +profunda tristeza. +<br /> + +<br /> + +―É o unico que a alma negra da seita +não perverteu +de todo!―murmurou ella.―Que adoravel +esposo e que exemplar cidadão se não perdeu +n'este +homem, que assim vae atravessando a vida amortalhado +na sotaina da hypocrisia que elle proprio odeia! +Pobre amigo! morrerás como eu na dôr e na saudade +cruciante da liberdade que te roubaram!<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[87]</span> +<h3><a name="c6"></a>VI<br /> + +<br /> + +Á hora da morte +</h3> + +<br /> + +<br /> + +Tres dias depois d'esta visita do padre Filippe a +madre Paula, bateram violentamente á porta do sacerdote, +era uma hora da noite. +<br /> + +<br /> + +O padre Filippe não se tinha ainda deitado. +<br /> + +<br /> + +Muito dado á leitura de velhos classicos, o amante +de madre Paula passava grande parte da noute a +folhear poeirentas chronicas e a fazer annotações +curiosas, +no intuito de esclarecer varios pontos obscuros +da nossa historia que, como se sabe, ainda hoje offerecem +duvidas aos mais persistentes e lucidos investigadores. +Ouvindo bater á porta com a violencia propria +de quem deseja ser ouvido o mais rapidamente +possivel, o padre Filippe levantou-se, marcou com um +papel em branco a pagina em que interrompia a leitura +e veio á janella indagar quem batia. Á porta +estava uma mulher do povo, com um chaile pela cabeça +para se resguardar do frio cortante da noite. +<br /> + +<br /> + +―É aqui que móra um senhor que é +padre e que +vae dizer todos os dias missa aos Grillos?―perguntou +ella. +<br /> + +<br /> + +―É aqui. O que deseja? +<br /> + +<br /> + +―É que está alli uma velhinha, que é +minha +visinha, a morrer, e a pobre de Christo não faz +senão +<span class="pagenum">[88]</span> +pedir que lhe chamem um padre, porque se quer confessar; +e eu venho cá vêr se v. s.<sup>a</sup> +faz a esmola de a +ouvir de confissão... +<br /> + +<br /> + +―Onde móra essa mulher? +<br /> + +<br /> + +―Na rua da Senhora d'Agosto, meu senhor! É +pertinho... é d'aqui a dois passos, e se v. s.<sup>a</sup> +fizesse +a esmola de vir comigo, chegava lá n'um instante!... +<br /> + +<br /> + +―Espere ahi, que eu desço já. +<br /> + +<br /> + +Embrulhou-se n'um capote á hespanhola, pôz na +cabeça o seu chapéo alto, pegou da bengala, e +pouco +depois estava na rua. +<br /> + +<br /> + +―Vamos lá!―disse elle. +<br /> + +<br /> + +Encaminharam-se para a rua da Senhora d'Agosto, +que fica a curta distancia, nas proximidades do paço +episcopal. A mulher que viera chamar o padre Filippe +caminhava apressada adiante d'elle, na ancia de chegar +a tempo com o soccorro espiritual que a moribunda +reclamava. +<br /> + +<br /> + +―Seja pelas almas!―lamuriava ella.―Está a +pobresinha a appellidar por um confessor desde o +resto da tarde, que parece que nem póde morrer sem +se confessar, e não havia uma alma de Christo que +se <em>arresolvesse</em> a vir chamar v. s.<sup>a</sup> +ou oitro qualquer +que lhe deitasse a +<em>assolvição</em>! +<br /> + +<br /> + +―Não tem familia essa mulhersinha?―inquiriu +o sacerdote. +<br /> + +<br /> + +―Ella não tem ninguem, meu senhor! É velhinha +como as serpes, e não tem filhos nem parentes. Vive +lá n'um quartinho, que uma visinha lhe alugou por +cinco tostões por mez, e dês que caiu +emprégadinha, +o que vale é a gente ir olhando por ella, por caridade, +senão morria p'rá alli, sem ter quem lhe chegasse +uma +sêde <em>d'auga</em>! +<br /> + +<br /> + +―Coitada!―lamentou o padre Filippe. +<br /> + +<br /> + +―Mas que!―tornou a mulher―a gente <em>támem +sêmos probes</em>... +<em>támem</em> temos de olhar pela +nossa vida, +<span class="pagenum">[89]</span> +que, se a gente o não ganhar, ninguem nol-o vem trazer... +De sorte que a <em>probesinha</em> tem +passado muita +necessidade... +<br /> + +<br /> + +―Logo que ella assim adoeceu, porque a não mandaram +para o hospital? +<br /> + +<br /> + +―No <em>isprital</em>, meu senhor, +não na acceitaram, +porque lá diz que não curam a velhice... Nem ella +queria... Eu ás vezes inda lhe +<em>dezia</em>: «Ó sr.<sup>a</sup> +Maria +do Carmo, e se vocemecê pedisse a alguem p'ra vêr +se a <em>arrecolhiam</em> no +<em>Azylio</em> das velhas?» Mas +ella: +«que não, e que não», nem +queria que lhe fallassem +n'isso! +<br /> + +<br /> + +Chegaram a um predio velho e sujo, de miseravel +aspecto, com a porta da rua escancarada. +<br /> + +<br /> + +A mulher guiou o padre pelas profundezas escuras +do portal, e chegando ao fundo de uma estreita e perigosa +escada, que dava accesso aos andares superiores, +gritou: +<br /> + +<br /> + +―Ó sr.<sup>a</sup> Izabelinha, +<em>alumeie</em>, que vae aqui o sr. +padre! +<br /> + +<br /> + +No alto do terceiro andar, rangeu uma porta, sentiram-se +uns chinellos a arrastar, e na balaustrada do +corrimão luziu a mortiça e fumarenta luz d'uma +candeia +de petroleo. +<br /> + +<br /> + +―É vocemecê, sr.<sup>a</sup> +<em>Barbora</em>?―perguntou uma +voz lá do alto. +<br /> + +<br /> + +―Sou eu, sou, alminha do Senhor! +<em>Alumeie</em>, que +não vá este senhor cahir... +<br /> + +<br /> + +A sr.<sup>a</sup> Barbara investiu com a escada como quem +de ha muito estava familiarisada com os perigos +d'aquelles desconjuntados degraus. +<br /> + +<br /> + +E voltando-se para o padre Filippe: +<br /> + +<br /> + +―É melhor v. s.<sup>a</sup> agarrar-se ao +corrimão, que +não vá por ahi cahir e partir alguma perna... +Isto, +quem não está costumado, nada mais +<em>facel</em> do que +aleijar-se... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[90]</span> +O padre Filippe já havia, por instincto, adoptado o +expediente que a sua cuidadosa guia lhe aconselhava. +<br /> + +<br /> + +Segurando-se com a mão esquerda ao sujo e gordurento +corrimão da escada, e tacteando os degraus +com os pés e com a bengala, revestira-se de coragem +e paciencia evangelica para realisar a difficil e arriscadissima +ascenção. +<br /> + +<br /> + +Quando chegou ao alto do terceiro andar, onde +uma velha esguedelhada, de cabeça estopenta e candeia +na mão o aguardava, o amante de madre Paula +parou offegante e cançado. +<br /> + +<br /> + +―É cá muito em cima!―disse elle. +<br /> + +<br /> + +―E as escadas são ruins +<em>d'assobir</em>, meu senhor!―accrescentou +a velha.―Eu <em>támem</em>, +quando venho +de lá de baixo e chego cá arriba, fico que, se me +puzessem +uma mão na bocca, arrebentava! +<br /> + +<br /> + +―Onde está a doente?―interrogou por fim o padre +Filippe. +<br /> + +<br /> + +―Está aqui dentro, meu senhor... Ella está mesmo +a <em>espedir</em>, coitadinha! Já +desde <em>honte</em> que não lhe +foi nada á bocca, e não faz senão +pedir <em>auga</em>... Parece +que está mesmo abrasadinha lá por dentro! O +que aquella creatura me tem consummido p'ra lhe eu +mandar chamar o confessor! +<br /> + +<br /> + +―E vocemecê porque não lhe satisfez a vontade? +<br /> + +<br /> + +―Eu já mandei recado ao sr. padre Luiz, que v. +s.<sup>a</sup> ha de conhecer, mas como a gente <em>semos +probes</em>, +fez á de conta que não era pressa e inda +<em>inté</em> agora +cá não appareceu... +<br /> + +<br /> + +―É que vocemecês não lhe mandaram +talvez dizer +que se tratava de uma pessoa em artigos de morte...―desculpou +o padre Filippe.―Ora vamos lá... +vamos lá ouvir essa creatura de Deus... +<br /> + +<br /> + +A velha, com a candeia lançando de si um enorme +pennacho de fumo negro e suffocante, allumiou o padre +Filippe até ao escuro e fétido cubiculo encravado +no +<span class="pagenum">[91]</span> +interior do misero pardieiro, que era um genuino representante +da miseria suja do Porto, a mais repellente +e odiosa de todas as miserias.<br /> + +<br /> + +Ha n'esta bella cidade trabalhadora virtudes excepcionaes +de honestidade, de honra, de civismo e de +labôr persistente, que fariam o orgulho de todos os +povos do mundo. Os seus habitantes são generosos, +hospitaleiros, leaes, podendo servir de lição e +exemplo +a quantos se presam de possuir em elevado grau +estas raras e nobilissimas qualidades. Mas a par d'isto, +quantos defeitos de educação, deprimentes da +dignidade +de um povo que podia e devia ser o primeiro a +marchar na vanguarda da civilisação do seu paiz! +<br /> + +<br /> + +Nas ruas, as classes trabalhadoras apresentam-se, +na sua grande maioria, sujas, andrajosas, repellentes +de immundicie, mãos e cara accusando uma ignorancia +absoluta do uso da agua, como se o trabalho persistente +e honesto precisasse d'estes ascorosos attestados +da porcaria para se fazer respeitar! +<br /> + +<br /> + +Mulheres novas, bonitas como em nenhuma outra +terra de Portugal, percorrem as ruas, descalças, +esmadrigadas, +as repas soltas, estrelladas de lendeas, e os +pés e pernas nuas, batidas dos trapos sujos das fraldas, +escodeadas de lama! Uma miseria! Um horror! +<br /> + +<br /> + +E todavia era tão facil mudar os gordurosos e sujos +andrajos nas limpas e asseiadas vestes da gente +pobre que se lava! Uma pouca d'agua―e o rio Souza, +e os poços dos quintaes e os ribeiros dos arrabaldes +offerecem tanta!―e dez reis de sabão bastavam! +<br /> + +<br /> + +É talvez esta, a diffusão das ideias de limpeza +nas classes proletarias, uma das mais sympathicas e +civilisadoras missões que estão reservadas +á imprensa +periodica dos nossos dias. +<br /> + +<br /> + +Os jornaes populares, os jornaes baratos, que levam +tantas doutrinas salutares e tantas noticias perniciosas +ás classes humildes, que por elles se guiam +<span class="pagenum">[92]</span> +e norteiam,―quando se não desnorteiam―não +poderiam, +com um bocadinho de boa vontade e persistencia, +encetar efficazmente a propaganda da limpeza publica +e particular dos cidadãos como base primaria de +toda a hygiene social e moral? +<br /> + +<br /> + +Valha-me Deus! Pois não ia eu agora descambando +da facil e comesinha acção do romance para as +considerações +sabias e profundas de um sabio e profundo +auctor de originaes opusculos? +<br /> + +<br /> + +Desculpe-me o leitor a divagação e acompanhemos, +visto que não ha outro remedio, o padre Filippe +através +dos corredores defumados e mal cheirosos, resumando +das paredes e do soalho podridão e esterco, até +ao +humilde grabato em que arqueja agonisante uma octogenaria, +quasi uma mumia, enterrada sob um montão +de farrapos. +<br /> + +<br /> + +É a sr.<sup>a</sup> Maria do Carmo. +<br /> + +<br /> + +Ao vêr entrar o padre Filippe, a moribunda voltou +para elle os olhos, em que perpassou um lampejo +de alegria, e disse com voz debil e quasi extincta: +<br /> + +<br /> + +―Graças a Deus! Não morrerei sem que v. s.<sup>a</sup> +me ouça de confissão! +<br /> + +<br /> + +O padre Filippe aproximou-se do leito e contemplou, +á luz de uma candeia de azeite, espetada na parede, do +lado da cabeceira, o rosto enrugado e magro da pobre +creatura. +<br /> + +<br /> + +―Então deseja reconciliar-se com Deus, não +é +verdade, minha irmã? +<br /> + +<br /> + +―Sim... sim, meu padre!.. Quero confessar-me... +A morte avisinha-se e eu quero... preciso de +alliviar a minha consciencia do peso de... peccados +que não sei se Deus m'os perdorá!―balbuciou a +enferma, +com voz entrecortada e de cada vez mais debil. +<br /> + +<br /> + +―Deus é infinitamente bom, infinitamente +misericordioso―aquietou +o padre Filippe―e está sempre +prompto a perdoar á creatura que, humilde e contrita, +<span class="pagenum">[93]</span> +sente na alma o arrependimento da culpa e para +ella implora o divino perdão! +<br /> + +<br /> + +Puxou uma cadeira de pau de pinho, sentou-se á +cabeceira do leito e, fazendo signal ás duas mulheres +que o conduziram para que o deixassem a sós com a +enferma, continuou: +<br /> + +<br /> + +―Aqui estou, pois, minha irmã, para ouvir em +nome de Deus, cujo humilde ministro sou, as vozes +do seu arrependimento e absolvel-a... De que se accusa? +<br /> + +<br /> + +A velha relanceou para elle os olhos afflictos, em +que se lia o pavor do inferno, e principiou com voz +lenta e abafada a seguinte narrativa: +<br /> + +<br /> + +―Eu sempre fui muito religiosa e devota... Ia +todos os dias ouvir missa e confessar-me, e Deus ajudava-me +sempre com a sua divina graça, porque desde +que comecei a andar pelas casas do Senhor, nunca +me faltou nada, e havia muitas almas bôas que me +soccorriam, compadecidas da minha pobreza... +<br /> + +<br /> + +―Ahi tem, pois, uma prova de que Deus não recusa +nunca o seu divino amparo áquelles que na sua +infinita misericordia depositam inteira fé e +confiança... +<br /> + +<br /> + +―Os srs. padres dos Grillos e os srs. padres de +S. Bento da Victoria conheciam-me todos... e faziam +o favor e esmola... de serem muito meus amigos... +<br /> + +<br /> + +―É porque reconheciam em vocemecê verdadeira +devoção e temor de Deus... +<br /> + +<br /> + +―Lá isso... eu na egreja... portei-me sempre +com muito respeito... E até quando via certas beatas +fingidas―Deus me perdôe!―a fazerem da casa do +Senhor logar de recreio e de pouca vergonha... sentia +um peso na consciencia e ia-me logo confessar d'isso, +como se fosse eu que tivesse commettido o peccado... +<span class="pagenum">[94]</span> +E aonde não chegava mandava... que era +para ellas terem vergonha! +<br /> + +<br /> + +O padre Filippe sorriu indulgente: +<br /> + +<br /> + +―E é talvez d'esse excesso de zelo, em verdade +pouco edificante aos olhos do Altissimo, que se arrepende +agora e quer pedir perdão a Deus? Tem razão, +minha irmã! A moral do evangelho, a religião +santa +do Crucificado manda que perdoemos as faltas e fraquezas +do proximo e não façamos d'ellas objecto de +escandalo e de aggravo, com perda e offensa da +reputação +d'aquelles que peccaram... +<br /> + +<br /> + +―Não é d'isso que eu me accuso, meu +padre!―accudiu +a velha reanimada um pouco pelo prazer da +confissão―Isso até os meus santos padres +confessores +me diziam que fazia muito bem... e pediam-me que +os avisasse de tudo o que visse e ouvisse, que era +para elles não andarem a ser enganados... e saberem +quem tinha religião e quem não tinha...<br /> + +<br /> + +O padre Filippe dissimulou um gesto de repulsão +e de enfado, e perguntou: +<br /> + +<br /> + +―De que é então que se accusa, minha +irmã? +<br /> + +<br /> + +―Eu... de mim... não me accuso de nada, meu +santo padre! Eu... o que fiz... foi sempre com os +olhos em Deus... e tudo para bem da santa religião... +<br /> + +<br /> + +―Pois se não tem de se accusar de faltas proprias, +as dos seus semelhantes tambem não são as que +hão-de +fazer-lhe carga aos olhos do Altissimo, se para +ellas não concorreu nem estava na sua mão +impedil-as... +Portanto, como onde não ha culpa não ha +perdão, eu +nada tenho de que absolvêl-a... Feliz de quem +póde +como vocemecê apparecer no tribunal divino com a +alma limpa de macula. +<br /> + +<br /> + +Dizendo isto, o padre Filippe, entediado, ia a levantar-se +para sahir, quando a velha, estendendo para +<span class="pagenum">[95]</span> +elle as mãos convulsas, bradou com indizivel accento +de pavôr: +<br /> + +<br /> + +―Pelo amor de Deus! Pelas cinco chagas de Christo, +meu padre, ouça-me! Ouça-me que eu quero... +confessar-me!... +<br /> + +<br /> + +―Pois o que tem vocemecê estado a fazer, senão +a confessar-se, creatura de Deus? +<br /> + +<br /> + +―Como v. s.<sup>a</sup> ainda me não perguntou +nada... +<br /> + +<br /> + +―Nada tenho que perguntar-lhe, minha irmã... +Vocemecê consulta a sua consciencia, e se n'ella encontra +escrupulo ou duvida de falta commettida, confessa-a +sinceramente e d'ella pede perdão a Deus, em +nome de quem eu a estou escutando... +<br /> + +<br /> + +A velha revolveu-se arquejante nos trapos e disse +em voz sumida: +<br /> + +<br /> + +―É que eu... criei como se fosse meu filho uma +creança... que era filha... de um padre e d'uma +mulher casada... +<br /> + +<br /> + +―E vocemecê concorreu d'algum modo para que +esse padre e essa mulher casada incorressem na falta +que originou o nascimento d'essa creança? +<br /> + +<br /> + +―Não, meu senhor! Eu conhecia o sr. padre Anselmo +de me confessar a elle, na egreja de S. Bento, +no tempo do sr. padre Couto, que era um santo... +<br /> + +<br /> + +―Só Deus sabe quem é santo!―murmurou o padre +Filippe, surprehendido ao ouvir fallar no padre +Anselmo. +<br /> + +<br /> + +―E vae depois, um dia, o sr. padre Anselmo chamou-me +a Braga para eu tomar conta d'aquella creança +debaixo de todo o segredo... Eu, como lhe devia +muitas obrigações, trouxe-a e tratei a +creança como +minha... E o sr. padre Anselmo é que pagava as +despezas... +<br /> + +<br /> + +―Que nome tinha essa creança?―perguntou o +padre Filippe, agora interessado na estranha narrativ ―Que nome tinha essa creança?―perguntou o +padre Filippe, agora interessado na estranha narrativa +da velha. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[96]</span> ―Chamava-se Hilario, meu senhor... +<br /> + +<br /> + +―Esse rapaz ordenou-se e é ecclesiastico―disse +o padre Filippe. +<br /> + +<br /> + +―V. s.<sup>a</sup> conhece-o? Sabe d'elle? Onde +está?―perguntou +a velha. +<br /> + +<br /> + +―Conheci-o, em tempo, capellão da casa conventual +das irmãs Dorothêas, na Covilhã... +<br /> + +<br /> + +―É esse mesmo! É esse mesmo!―bradou a velha―E +onde está agora? +<br /> + +<br /> + +―Ha muitos annos que o não vejo nem ouço fallar +n'elle... Supponho que talvez haja partido para as +missões ultramarinas ou viva em alguma casa religiosa +do estrangeiro... +<br /> + +<br /> + +―Oh! não... não! Mataram-n'o... mataram-n'o! +<br /> + +<br /> + +―Quem? Quem suppõe vocemecê que pudesse ter +interesse na morte d'esse obscuro sacerdote?... +<br /> + +<br /> + +―O mesmo que lhe matou a mãe... a D. Carlota... +<br /> + +<br /> + +E a velha juntou as mãos n'uma visivel angustia, +murmurando: +<br /> + +<br /> + +―Meu Deus! meu Deus! e eu que o podia ter +salvo... o meu pobre Hilario, coitadinho! +<br /> + +<br /> + +E pelas faces resequidas rolavam-lhe lagrimas em +fio. +<br /> + +<br /> + +―Socegue, minha irmã, que o padre Hilario não +foi victima de nenhum attentado como suppõe―disse +o padre Filippe―A morte de um sacerdote não é +coisa que passe despercebida na sociedade, mormente +se essa morte é resultante de um crime. Ora eu +não +me recordo de ter lido a noticia do fallecimento do padre +Hilario nos jornaes portuguezes e estrangeiros que leio +todos os dias. +<br /> + +<br /> + +―Deus Nosso Senhor permitia que elle viva ainda!―murmurou +afflictivamente Maria do Carmo. +<br /> + +<br /> + +―Vive decerto―affirmou o padre Filippe, no intuito +de serenar a doente. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[97]</span> ―Mas então porque não me escreve elle ha tantos +annos? Eu que o criei com tanto amor... eu a quem +elle chamava mãe... +<br /> + +<br /> + +―Julgará que vocemecê já +não é viva... +<br /> + +<br /> + +―Não... não!―tornou a velha―Mataram-n'o +para o roubar!... +<br /> + +<br /> + +O padre Filippe, suspeitando um tenebroso mysterio +nas palavras da velha beata, perguntou: +<br /> + +<br /> + +―Como póde vocemecê ter semelhante suspeita? +Pareceu-me ouvir-lhe ha pouco que a mãe d'esse rapaz +foi assassinada... +<br /> + +<br /> + +―Foi... foi... +<br /> + +<br /> + +―Matou-a o marido, sabedor de que ella o atraiçoava? +<br /> + +<br /> + +―Não... o marido não... Foi o outro... o proprio +amante... +<br /> + +<br /> + +―Quem? +<br /> + +<br /> + +―O padre Anselmo! +<br /> + +<br /> + +―O padre Anselmo!―disse o padre Filippe com +espanto. +<br /> + +<br /> + +―Foi em Lisboa...―continuou a velha enferma―D. +Carlota, a mãe do meu Hilario... separada +do marido, um tal Custodio, de Braga, tinha feito testamento, +deixando-me todos os haveres, para eu fazer +entrega d'elles ao filho... +<br /> + +<br /> + +―E entregou-os? +<br /> + +<br /> + +A velha revolveu-se afflicta nos farrapos do leito. +<br /> + +<br /> + +―Não... porque o sr. padre Anselmo fez-me +assignar +um papel de divida a um homem... um tal +João Ignacio, da rua de S. Sebastião, que me +levou +tudo, tudo! +<br /> + +<br /> + +O padre Filippe esforçava-se por comprehender a +confusa narrativa da velha. +<br /> + +<br /> + +―Mas como diz vocemecê que o padre Anselmo +matou a mãe do proprio filho d'elle? +<br /> + +<br /> + +―Foi em Lisboa... Elle levou-a para lá a ella +<span class="pagenum"><a name="p98">[98]</a></span> +e mais a mim, promettendo a ambas que o nosso Hilario +iria lá ter comnosco, para vivermos todos juntos... +Depois, elle... uma noite... foi tomar o chá +no quarto da D. Carlota e... envenenou-a! +<br /> + +<br /> + +Aqui a velha esbracejou mais afflicta, evidentemente +torturada pela recordação d'aquelle crime. +<br /> + +<br /> + +―Como o soube?―interrogou o padre Filippe. +<br /> + +<br /> + +―Eu vi n'essa noite a D. Carlota levar para o +quarto d'ella o bule do chá com duas chávenas... +Desconfiei +e fui espreitar á porta do quarto... Presenceei +tudo... Ella a queixar-se do veneno e elle... a +dizer-lhe que a matava por ella lhe faltar á obediencia... +Depois, no outro dia, veio a justiça e achou um +bilhete que, não sei como foi, o sr. padre Anselmo tinha +arranjado em nome d'ella, a dizer que se matou +por causa do marido... +<br /> + +<br /> + +―E vocemecê calou-se com o conhecimento d'esse +crime? +<br /> + +<br /> + +―Eu.. tive mêdo que elle me fizesse o mesmo +a mim, e calei-me... +<br /> + +<br /> + +―Nem mesmo contou ao padre Hilario o que presenceou? +<br /> + +<br /> + +―Eu nunca mais o tornei a vêr... O sr. padre +Anselmo disse-me que ia ter com elle á Covilhã e +nunca mais vi um nem o outro... Por isso eu digo +que elle o foi matar!... +<br /> + +<br /> + +A velha suspirou afflictivamente. Depois, continuou: +<br /> + +<br /> + +―Quando eu voltei para o Porto, o João Ignacio +veio cá com os da justiça e tomou conta de tudo o +que era da sr.<sup>a</sup> D. Carlota... Acho eu que tomou +conta, porque a mim não me chegou nada ás +mãos... +<br /> + +<br /> + +―E quem era esse João Ignacio? +<br /> + +<br /> + +―Era o maior amigo do sr. padre Anselmo... +<br /> + +<br /> + +―Sabe se <a href="#e10">elle</a> ainda vive? +<br /> + +<br /> + +―Ouvi dizer que endoideceu e que o metteram +<span class="pagenum"><a name="p99">[99]</a></span> +no hospital dos doidos... Foi bem feito! Foi o castigo +de Deus!... +<br /> + +<br /> + +―Como conheceu vocemecê a D. Carlota? Foi +em Braga, quando tomou conta da creança? +<br /> + +<br /> + +―Nada! Ella nunca viu o filho... e eu só a conheci +quando o sr. padre Anselmo a <em>trouve</em> +p'rás Sereias +e depois a levou p'ra Lisboa enganada... E como +ella sabia que fui eu a que creou o Hilario... era +muito minha amiga... e fez-me o testamento p'ra eu +deixar tudo ao pequeno... Até me deu uma carta +muito grande p'ra eu lhe entregar só depois d'ella +morrer... Porque ella não queria que o Hilario soubesse +que era filho d'ella... +<br /> + +<br /> + +―E o que fez a essa carta? Entregou-a ao padre +Anselmo? +<br /> + +<br /> + +―Essa carta...―fez a velha―tenho-a aqui... +guardada... como ella m'a deu... Nunca mais +tornei a vêr o meu Hilario... nunca lh'a pude entregar... +<br /> + +<br /> + +Nos olhos do padre Filippe luziu um raio de curiosidade. +<br /> + +<br /> + +―É por isso...―proseguiu a velha―que eu +me queria confessar a quem contasse isto... e confiasse +esta carta... para a entregar ao meu Hilario... +se elle algum dia apparecer vivo... +<br /> + +<br /> + +Dizendo isto, a velha introduziu a mão descarnada +e tremula debaixo do travesseiro e tirou de lá uma +sacca de chita, surrada do attrito das mãos e dos +farrapos, e apresentando-a ao <a href="#e11">padre</a> +Filippe, disse com +a voz estrangulada pelo esforço: +<br /> + +<br /> + +―Aqui está a carta e mais um dinheirinho que +eu fui ajuntando das esmolas dos bemfeitores para lhe +dar a elle... se um dia apparecesse... Tome v. s.<sup>a</sup> +conta de tudo, e se elle fôr vivo... entregue-lh'o... Se +elle tiver morrido... diga-o de missas por minha +alma... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[100]</span> ―Não tem filhos, vocemecê?―perguntou o padre +Filippe, acceitando com repugnancia o thesouro +da velha e sem mesmo verificar a quanto montava. +<br /> + +<br /> + +―Tenho... Mas esses... estão arrumados... +Nunca quizeram saber de mim... Mil contos que eu +tivesse... haviam de ser todos para o meu Hilario... +coitadinho! +<br /> + +<br /> + +―Não seria melhor distribuir pelos seus filhos +este dinheiro, de que o padre Hilario talvez não precise? +<br /> + +<br /> + +―Não! Não! exclamou a velha anciadamente, +arregalando os olhos, onde a vida começava a extinguir-se. +Se elle não apparecer... missas pela minha +alma!... Esse dinheiro... deu-m'o a religião... para +a religião torna! São tres centos de libras... +Tres +centos! +<br /> + +<br /> + +―Está bem! Socegue. A sua vontade será +cumprida―aquietou +o padre Filippe. +<br /> + +<br /> + +―Graças a Deus! Morro descançada... E agora, +meu padre... deite-me a sua absolvição... para +que Deus me perdôe! +<br /> + +<br /> + +O padre murmurou em latim as palavras da +absolvição. +<br /> + +<br /> + +―E elle... se fôr vivo... que se acautele do +padre Anselmo... que não lhe mostre esse dinheiro... +O padre Anselmo é pae d'elle... mas envenenou-lhe +a mãe... para o roubar!...―murmurou ainda a +velha, deixando descair a cabeça no travesseiro e entrando +logo na agonia ultima. +<br /> + +<br /> + +O padre Filippe, impressionadissimo com as +revelações +que ouvira dos labios da moribunda, guardou +no bolso o legado da velha e sahiu do lobrego cubiculo +em que aquella vida se extinguia. +<br /> + +<br /> + +Chegado ao patamar, respirou com força e disse +para a outra velha que o aguardava com a fumarenta +candeia de petroleo na mão. +<br /> + +<br /> + +―Essa pobre mulhersinha está agonisante. Logo +<span class="pagenum">[101]</span> +que ella expire dê-me parte, porque o enterro fica por +minha conta. +<br /> + +<br /> + +―Sim, meu senhor!―disse a velha―Não seria +bom dar-lhe ao menos a Santa Uncção, +já que não +póde tomar o Senhor? +<br /> + +<br /> + +―É tarde―respondeu o padre Filippe―Quando +cá chegasse esse ultimo soccorro espiritual, encontraria +um cadaver. +<br /> + +<br /> + +―Seja pelas almas!―lamuriou a velha―Não +<em>sêmos</em> nada n'este mundo! +<br /> + +<br /> + +―Somos realmente bem pouco, quando presumimos +ser tanto!―concordou philosophicamente o sacerdote―Vocemecê +faria uma obra de caridade, indo +assistir aos ultimos momentos d'aquella desgraçada... +<br /> + +<br /> + +―Sim, meu senhor... eu vou―concedeu a velha. +<br /> + +<br /> + +Padre Filippe, voltando-se para a mulher que o fôra +chamar e que tambem viera ao patamar n'uma curiosidade +agradecida, pediu: +<br /> + +<br /> + +―E vocemecê, santinha, não poderia fazer-me o +favor de me alumiar até ao fundo da escada, que é +tão cheia de precipicios para a minha idade? +<br /> + +<br /> + +―Eu vou, meu senhor... Então não hei-de ir? +<br /> + +<br /> + +E tirando da mão da outra a candeia: +<br /> + +<br /> + +―Vá vocemecê pró par da creaturinha de +Deus, +emquanto eu <em>alumeio</em> ó sr. +padre... +<br /> + +<br /> + +A velha cedeu a luz e retirou para o interior, resmungando: +<br /> + +<br /> + +―Estes <em>carólas</em> do +inferno, em não sentindo dinheiro +a uma creatura, põem-se logo a +<em>avoar</em> e dizem +aos oitros que se <em>aguantem</em> co'as +massadas... Se lhe +cheirasse a que lhe untavam as unhas no fim, punha-se +ahi a alanzoar os officios da agonia e não arredava +d'aqui pé emquanto ella não fechasse o olho... +Assim, +vae a correr metter-se no <em>quente</em> e +tanto se lhe +<span class="pagenum">[102]</span> +dá que a <em>probesinha</em> de +Christo vá p'ró céo como que +vá p'ró inferno! +<br /> + +<br /> + +O padre Filippe, alumiado pela outra visinha, chegara +ao fundo da terrivel escada com as costellas direitas. +<br /> + +<br /> + +―V. s.<sup>a</sup> quer que o vá acompanhar +<em>inté</em> casa?―offereceu +a mulher. +<br /> + +<br /> + +―Não, não é preciso... D'aqui +até lá é perto e +não ha escadas a subir nem a descer. Amanhã +procure-me +para se comprar um caixão á pobre creatura. +Boa noute! +<br /> + +<br /> + +―Vá v. s.<sup>a</sup> na graça de +Deus, meu senhor! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[103]</span> +<h3><a name="c7"></a>VII<br /> + +<br /> + +Tres miseraveis +</h3> + +<br /> + +<br /> + +Depois da scena que representou com a filha, o +Custodio de Jesus correu a procurar o seu amigo +Belchior. +<br /> + +<br /> + +O agiota ia radiante de satisfação. +<br /> + +<br /> + +―Beatriz―disse elle ao procurador―está no +caminho! +<br /> + +<br /> + +―No caminho de quê? +<br /> + +<br /> + +―No caminho de acceitar o casamento com o +Eugenio de Mello. +<br /> + +<br /> + +―Sério? +<br /> + +<br /> + +―Homem, digo-lh'o eu! A principio recusou, fez +cara feia, e ia-me fazendo sahir fóra dos eixos, porque +eu não sou para graças... Mas depois... +<br /> + +<br /> + +―Conseguiu intimidal-a? +<br /> + +<br /> + +―Isso sim! Aquella sonsinha que você alli vê +tem figados! Ameacei-a com as irmãs da caridade +para toda a vida, e ella teve a pouca vergonha de +me dizer que podia matal-a, mas que não podia fazer +com que ella fosse á egreja dizer o +<em>sim</em>!... +<br /> + +<br /> + +―É o que eu digo! O outro rapaselho deu-lhe +volta ao juizo, e as mulheres são assim... são +peores +<span class="pagenum">[104]</span> +que cabras... Em encarreirando para um lado, +não ha diabo que as faça voltar para +trás! +<br /> + +<br /> + +―Mas consegui eu que ella voltasse... +<br /> + +<br /> + +―Como? +<br /> + +<br /> + +―Com bons modos... Você, afinal, foi quem me +ensinou o segredo... Mas eu tambem discorri alguma +coisa... Comecei a amacial-a, a dizer-lhe que se desejava +que ella acceitasse o casamento era para interesse +d'ella, porque eu estava pobre, estava desgraçado, +tudo quanto tinha já não chegava para pagar +aos credores, e portanto que só havia a escolher: ou +casar ella com Eugenio de Mello ou dar eu um tiro +nos miolos e arrumar com isto por uma vez. Chorei, +que se você visse até se admirava! +<br /> + +<br /> + +―E afinal? +<br /> + +<br /> + +―Afinal, ella, que estava de pedra e cal, a dizer +que não e que não, poz-se a considerar um bocado +e +por fim disse-me que queria fallar com o noivo... +<br /> + +<br /> + +―Com o Eugenio de Mello? +<br /> + +<br /> + +―Pois então com quem? Quem é o noivo? +<br /> + +<br /> + +―O noivo é aquelle com quem ella estiver para +se casar... +<br /> + +<br /> + +―Bem! pois esse é o Eugenio de Mello. Não se +trata de outro. +<br /> + +<br /> + +―Que diabo lhe quererá ella?―commentou o +procurador. +<br /> + +<br /> + +―Ora o que ha de querer? Quer que elle lhe +diga que lhe tem muito amor, que está a morrer de +paixão por ella, que não sonha com outra coisa +senão +com o momento ditoso, <em>et +coetera</em>... coisas que todas +as raparigas gostam de ouvir aos namorados. +<br /> + +<br /> + +O Belchior pôz-se a rir. +<br /> + +<br /> + +―Vá lá a gente fiar-se em mulheres!―disse +elle.―Muito amor ao outro, capaz de se deixar matar +antes que trahir a fé jurada; mas assim que lhe +cheirou a que o negocio era de +<em>cobres</em> e que sem elles +<span class="pagenum">[105]</span> +não teria mais vestidos, nem mais luxo nem mais +commodidades,―venha +de lá o <em>homem da massa</em> e +atire-se +com o querido do coração ás ortigas! +Ah! mulheres, +mulheres! quem não as conhecer que se fie +n'ellas!... +<br /> + +<br /> + +―Pois por eu saber isso―retorquiu o Custodio―por +ter a experiencia de que não ha amor que resista +á perspectiva da miseria, é que eu me lembrei +de inventar esta historia, que ha de dar bom resultado... +Agora elle que lhe <em>cante</em> umas +cantiguinhas +bem cantadas... que lhe falle d'amor, de paixão e de +todas essas frioleiras que as raparigas apreciam, e +d'aqui a dois dias, diabos me levem se ella pensa mais +no outro! +<br /> + +<br /> + +―Quando entende você que deve ir fallar-lhe o +Eugenio? +<br /> + +<br /> + +―O mais depressa possivel. N'estas coisas nunca +ha tempo a perder... +<br /> + +<br /> + +―Está bem. N'esse caso, vou lá hoje á +noite com +elle tomar o chá... +<br /> + +<br /> + +―Sim senhor! E passaremos uma noite bem passada... +A pequena toca piano, você gaba-lhe a habilidade +para a musica, o rapaz rende-lhe finezas, e ás +duas por tres a rapariga está ensarilhada, e não +terá +remedio senão dizer que sim. +<br /> + +<br /> + +―Vou então mandar prevenir o rapaz. Foi o diabo +você não vir mais cêdo, porque elle +ainda ha bocado +sahiu d'aqui... Veio cá para eu lhe adiantar +um dinheiro sobre o arrendamento de uma quinta que +de dois em dois annos rende seis contos de réis, +só em +cortiça! É um doidivanas... Não sabe o +que tem de +seu e anda sempre a <em>pillar</em> por +dinheiro! +<br /> + +<br /> + +―Afinal―considerou o Custodio de Jesus―este +casamento até é uma providencia para elle... +Porque +se nós não ―Afinal―considerou o Custodio de +Jesus―este +casamento até é uma providencia para elle... +Porque +se nós não lhe puzessemos uma tutella, por esse +andar ainda vinha a dar n'um pobre de pedir... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[106]</span> +O Belchior disfarçou um sorriso velhaco. +<br /> + +<br /> + +―Quem duvida que é uma obra de caridade casal-o +e tomar-lhe conta dos haveres? Mas é preciso +que você saiba, amigo Custodio, que eu é que fico +em +peores lençoes... +<br /> + +<br /> + +―Porque? +<br /> + +<br /> + +―Porque este diabo é maluco, e depois, quando +você e sua filha lhe moverem um processo de +interdicção, +quem paga as favas sou eu... Contra mim é +que elle se ha-de voltar, a dizer que lhe armei esta +ratoeira de proposito para lhe apanharem a fortuna... +<br /> + +<br /> + +―E a você que se lhe dá? A sua consciencia +diz-lhe +que praticou uma acção bôa... que +importa lá +que elle grite? +<br /> + +<br /> + +―Pois sim, mas a minha consciencia tambem me +diz que eu escuso de me metter em +<em>alhadas</em> sem interesse, +e que se elle, por fim, como é maluco, me +quebrar a cabeça, é bem feito... Portanto, logo +que +este casamento esteja combinado, nós temos um pequeno +negociosinho a fazer... +<br /> + +<br /> + +―Que negocio?―interrogou o Custodio franzindo +o sobr'olho. +<br /> + +<br /> + +―Que diabo! É justo que eu leve rasca na +assudura... Eu pratico uma acção bôa... +bôa para +si e bôa para elle... Parece que tambem +não será +fóra de razão que a pratique bôa para +mim...<br /> + +<br /> + +―Mas o que é então que você quer dizer +com +isso?―tornou o Custodio desconfiado. +<br /> + +<br /> + +―Quero dizer que o negocio é negocio, e que se +eu lhe metto a você para cima de noventa contos de +reis no bolso, é de justiça que leve n'isso uma +pequena +commissão... +<br /> + +<br /> + +―Uma commissão! Mas que commissão quer +você? +<br /> + +<br /> + +O Belchior sorriu: +<br /> + +<br /> + +―Socegue! eu não sou d'aquelles que comem a +sardinha e deixam para os outros só a espinha... Ahi +<span class="pagenum">[107]</span> +uns <em>dezitos</em> por cento sobre a +fortuna do rapaz, não +é coisa que empobreça ninguem... +<br /> + +<br /> + +―Dez por cento! Você está doido!―exclamou o +Custodio de Jesus, fazendo uma careta terrivel―Dez +por cento sobre noventa contos, atirava lá para nove +contos. Isso era melhor do que fazer meia! +<br /> + +<br /> + +―É... é melhor do que fazer meia... E oitenta +contos por uma filha que está em vesperas de casar +com um rapaz que não tem de seu oitenta reis, o que +é? É barro! +<br /> + +<br /> + +―Não que eu não a deixo casar senão +á minha +vontade!―barafustou o Custodio. +<br /> + +<br /> + +O Belchior teve um sorriso desdenhoso. +<br /> + +<br /> + +―Você não a deixa casar senão com quem +muito +bem entender, e ella não casará senão +com quem +muito bem quizer―replicou por fim.―Mas o nosso +caso é muito outro, amigo Custodio... Se você +arranjar +o casamento da pequena com outro rapaz, sem +ser por minha intervenção, ainda que o noivo +tenha +mil contos de reis, descance, que eu não vou lá +metter-me +no negocio nem reclamar para mim a mais +insignificante parte nos lucros... Ora agora, fazendo-se +o casamento com o Eugenio de Mello, e sendo +eu o principal agente d'este negocio que lhe mette a +você para cima de noventa contos no bolso, tenha paciencia, +mas a minha commissão é justo que se pague... +<br /> + +<br /> + +―Com os diabos! eu ainda lhe não disse a você +que queria o seu trabalho de graça!―prorompeu o +Custodio.―Mas é preciso ter consciencia... é +preciso +que você não queira a melhor parte para si... +<br /> + +<br /> + +―A melhor parte! Então nove contos de reis é a +melhor parte de noventa? +<br /> + +<br /> + +―Limpinhos e sêccos, sem mais incommodos, sem +ter que aturar a noiva a choramigar e sem ter que +andar ás testilhas com o noivo para o fazer entrar na +ordem, acha você que não é nada! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[108]</span> ―E a minha responsabilidade? E ter depois de +me haver com o rapaz, que é um touro de força, e +que, se lhe der na cabeça, é muito capaz de me +lançar +as culpas de tudo e quebrar-me as costellas? Isso +não representa nada, não?! +<br /> + +<br /> + +―Se elle fizer isso, você arma-lhe um processo... +Tem a justiça de casa, fica-lhe barato... +<br /> + +<br /> + +―Mas o corpo é meu, e depois de eu as cá ter, +do lombo é que ninguem m'as tira!―berrou o +procurador.―Homem, +é preciso que você veja que isto +é negocio muito arriscado para mim... E eu metter-me +em folias, sem ao menos ter garantidos os pontos que +depois hei-de levar nas feridas... não me serve! +<br /> + +<br /> + +E n'um repellão: +<br /> + +<br /> + +―Então acabemos com isto, não se falla mais em +tal e você case lá a pequena com quem quizer. +<br /> + +<br /> + +O Custodio amaciou um pouco. +<br /> + +<br /> + +―Ora venha cá...―disse elle.―Você sempre +tem um demonio d'um genio! +<br /> + +<br /> + +―Mas pela razão!... pela razão é que +eu tenho +genio!―contestou o Belchior.―Você, se fosse outro, +dava o valôr ás coisas e não estava a +fazer questão +de uma miseria... Demais a mais, sabendo que eu +entro n'isto por ser seu amigo... +<br /> + +<br /> + +―Bem sei, Belchior, bem sei que você é meu +amigo; e por isso mesmo é que eu esperava que você +fosse mais rasoavel... +<br /> + +<br /> + +O procurador descarregou violento murro sobre a +escrivaninha. +<br /> + +<br /> + +―Mais rasoavel!―exclamou elle.―Póde-se ser +mais rasoavel do que isto? Você, que empresta dinheiro +a vinte e a trinta por cento, acha caro noventa +contos de reis comprados a troco de nove?! +<br /> + +<br /> + +―Pois sim, mas isso não é dá +cá, toma lá... +O dinheiro é do rapaz e elle é que continua sendo +senhor d'elle... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p109">[109]</a></span> ―Não me venha com cantigas! Eu já lhe disse +a você como é que as coisas se arranjam... Mas se +acha que é prejudicado ou que o negocio não vale +a +pena, eu lavo d'ahi as minhas mãos e arranje você +casamento melhor para a pequena. +<br /> + +<br /> + +Era a segunda vez que o Belchior ameaçava desmanchar +o negocio. O Custodio de Jesus tremeu com +a ideia de que o procurador tivesse já posto a mira +n'outra noiva para o seu cliente. +<br /> + +<br /> + +―Homem!―disse elle―a gente não está aqui +a jogar facadas. Nem você quer o meu prejuizo nem +eu o seu... Você faz um abatimentosinho... fica a +coisa reduzida a seis por cento...<br /> + +<br /> + +―Sete tenho eu quem me dê!―volveu o procurador.―E +é porque eu não quiz entrar em +transacção, +senão a coisa chegava aos oito. Mas a mim aborrece-me +regatear... Isto não é negocio de cebolas. Disse +que +hão de ser dez, e hão de ser dez, ou o rapaz +não casa +no Porto. Então dou um passeio com elle até +Lisboa, +e você verá como até apanho +lá uma viscondessa para +elle. Aquillo é que é terra! Aquillo sim! Ali +dá-se +valôr ao dinheiro e ao trabalho de cada um... +<br /> + +<br /> + +―Bom! Você é teimoso... tambem não +quero +que diga que, sendo eu seu amigo, estou a fazer questão +por pouca coisa... Está tratado. +<br /> + +<br /> + +―Ora até que, emfim, chegou-se á +razão!―disse +o procurador, como quem se alliviava d'um grande +peso―Eu bem sabia que você não deixava fugir o +bôlo, ainda que tivesse de partir um bocado maior +para mim... Mas eu não gosto d'abusar com os +amigos... +<br /> + +<br /> + +―Vamos lá!―suspirou o Custodio.―Para amigos, +você carregou um bocadito na mão... Mas acabou-se! +Está tratado, está tratado. Não volto +com a +<a href="#e12">palavra</a> atrás. +<br /> + +<br /> + +―Sim, senhor!―tornou o Belchior.―Ora agora +<span class="pagenum">[110]</span> +temos a regular a forma do contracto... Eu recebo +os nove contos no dia do casamento, antes dos noivos +irem para a egreja... +<br /> + +<br /> + +―O que! Então você põe-me assim as +facas ao +peito?!―exclamou o Custodio de Jesus muito admirado. +<br /> + +<br /> + +―Homem, negocio é negocio. Eu comprometto-me +a levar o noivo até sua casa no dia do casamento, sem +escripturas, para a noiva poder entrar na meação +dos +bens que elle possa possuir. Feito isto, o dinheiro que +eu ganhei é meu, você passa-m'o para a +mão e estamos +quites. Pois como queria você? +<br /> + +<br /> + +―Isso não podia ser depois do casamento realisado? +<br /> + +<br /> + +―Póde, acceitando-me você letras... +<br /> + +<br /> + +―Você sabe-a toda!―fez o Cutodio sorrindo, +como quem acaba de effectuar um bello negocio.―Vá +lá! No dia do casamento entrego-lhe o dinheiro e +está a conta arrumada. +<br /> + +<br /> + +―Antes dos noivos partirem para a egreja... +<br /> + +<br /> + +―Sim, homem, sim! Antes dos noivos partirem +para a egreja. +<br /> + +<br /> + +―Pois então esta noite lá estamos. Vou mandar +prevenir o rapaz para não faltar. +<br /> + +<br /> + +O Custodio despediu-se e o Belchior correu ao +<em>Francfort</em> a prevenir Eugenio. +<br /> + +<br /> + +N'essa mesma noite, a sala de visitas do Custodio +de Jesus era theatro da odiosa farça que os tres miseraveis +se dispunham a representar á roda do +coração +de Beatriz, illudindo-se uns aos outros, como +quasi sempre acontece quando tres patifes de grande +marca se encontram unidos pelo mesmo pensamento +de interesse commum. +<br /> + +<br /> + +O Custodio, sahindo de casa do Belchior, passára +pela casa de D. Barbara, viuva d'um general reformado +e mãe de tres filhas feiissimas que o Monte-pio +militar sustentava, e pediu-lhes para irem á noite tomar +<span class="pagenum"><a name="p111">[111]</a></span> +o chá e fazer um bocado de companhia á +Beatriz, +que já tinha fallado n'ellas e estranhado que estivessem +tanto tempo sem lhe irem fazer uma visita. +<br /> + +<br /> + +O Belchior, pela sua parte, fizera-se acompanhar +da mulher, a D. Rosalia, e da cunhada, a D. Adelia, +ambas vermelhuscas e adiposas,―a D. Rosalia queixando-se +sempre do seu figado e a D. Adelia dos seus +flatos. +<br /> + +<br /> + +Eram estas as relações mais intimas do Custodio +que, usurario e forrêta, detestava reuniões e +convivencias +que o forçassem a incommodos e despesas. +<br /> + +<br /> + +Tolerava a viuva do general, cujo conhecimento +proviera de serem as filhas companheiras de Beatriz +no collegio, porque lhe rebatia as pensões com +extraordinaria +usura; e quanto á <a href="#e13">familia</a> +do Belchior, +está +bem patente o interesse que lhe advinha das suas +relações. +<br /> + +<br /> + +Beatriz, prevenida por seu pae de que n'essa noite +viriam visitas, preparou-se para as receber. +<br /> + +<br /> + +A candida menina preferiria antes a solidão do +seu quarto á enfadonha conversação de +tão estolidas +creaturas; mas como era a ella que cumpria desempenhar +os deveres de dona da casa, não teve remedio, +sacrificou-se ás leis da boa educação +e foi com risonho, +embora contrafeito, semblante que veio á sala. +<br /> + +<br /> + +Eugenio de Mello, acompanhando o Belchior, apresentou-se +gentil e muito correcto no seu trajo elegante +de rapaz rico, affectando uns ares superiores, de bom +tom, sem comtudo deixar de se mostrar amavel e attencioso +em extremo para com as damas. +<br /> + +<br /> + +Conversaram estas de modas, do tempo, dos +theatros, dos mil nadas que preoccupam o espirito das +senhoras finas, ou que de taes se presumem; emquanto +Custodio, Belchior e Eugenio commentavam os ultimos +acontecimentos politicos e prophetisavam mil horrores +ao futuro de Portugal. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p112">[112]</a></span> +Veio o chá. Servido elle, o Belchior perguntou: +<br /> + +<br /> + +―Então não temos um bocadinho de musica? +Vá, +sr.<sup>a</sup> D. Rufininha, dê-nos um bocadinho +de piano. +<br /> + +<br /> + +Rufininha era a filha mais velha do general. +<br /> + +<br /> + +―É verdade! apoiou Custodio―e a sr.<sup>a</sup> +D. Therezinha +canta aquella canção +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><em>Murmura, rio, +murmura!</em> +<br /> + +</div> + +<br /> + +que é tão bonita. +<br /> + +<br /> + +A Rufina dirigiu-se logo ao piano e a Therezinha, +morta por cantar, começou a fazer caretas e a desculpar-se, +que estava sem voz, que não se sentia bôa da +garganta, que hoje não, para outra vez cantaria. +<br /> + +<br /> + +Mas o Belchior e o Custodio insistiram,―que cantasse, +que eram desculpas de mau pagador, que quem +tinha uma voz tão bonita não devia ser +tão avara do +seu thesouro. +<br /> + +<br /> + +E agarrando-lhe cada um por seu braço, arrastaram-n'a +até junto do piano, onde já a irmã +pingava +notas preparando-se para o acompanhamento. +<br /> + +<br /> + +Assim instada, a Therezinha começou +esganiçando-se +terrivelmente, a pedir ao rio que murmurasse, em +meio do silencio e da forçada attenção +dos circumstantes. +<br /> + +<br /> + +Aproveitando-se d'este momento, Eugenio, aproximou-se +da filha do Custodio e, sentando-se n'uma cadeira +proxima, encetou com ella este dialogo: +<br /> + +<br /> + +―Dá-me licença, sr.<sup>a</sup> D. +Beatriz, que lhe +faça +uma pergunta? +<br /> + +<br /> + +―Queira v. ex.<sup>a</sup> dizer, sr. Eugenio de +Mello―respondeu +Beatriz, sem poder reprimir um movimento +de terror instinctivo. +<br /> + +<br /> + +―Parece-me vêl-a triste, como que sob o peso de +um desgosto intimo... Acaso <a href="#e14">devo eu</a> +attribuir á +minha +presença a melacholica +expressão do seu rosto? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[113]</span> ―Porque me faz essa pergunta, sr. Eugenio de +Mello? +<br /> + +<br /> + +―Perdão, se fui indiscreto!―tornou o mancebo.―Mas, +em primeiro logar, interessam-me as dôres e +as alegrias do seu coração mais do que talvez +póde +imaginar... Depois... creio que lhe não deve ser +estranho o desejo ardente que me anima de lhe dedicar +toda a minha existencia e de viver feliz da sua +felicidade... +<br /> + +<br /> + +Beatriz baixou os olhos. +<br /> + +<br /> + +―Creio que quer referir-se―disse ella―a um +projecto de casamento de que já ouvi fallar meu pae... +<br /> + +<br /> + +―Não me atrevi a patentear a v. ex.<sup>a</sup> +o sentir +intimo do meu coração, e dizer-lhe a chamma +abrasadora +que o seu dulcissimo olhar me accendeu no peito... +E como a vi filha meiga e carinhosa, filha submissa +e obediente, não hesitei em pedir a seu pae e +meu bom amigo, que fosse interprete fiel e auctorisado +dos meus sentimentos junto de v. ex.<sup>a</sup>. Fiz mal? +<br /> + +<br /> + +―No logar de v. ex.<sup>a</sup>, eu não teria +procedido assim... +<br /> + +<br /> + +―Porque? Quem melhor póde ser fiador dos puros +e santos affectos da minha alma, das delicadas +e nobres intenções que me animam, do que o +proprio +pae da mulher que amo? Porventura, se o meu amor +por v. ex.<sup>a</sup> não fosse uma d'aquellas +paixões +abrasadoras, +violentas, em que fazemos consistir toda a nossa +felicidade, iria eu pedir para elle o consenso do auctor +dos seus dias? +<br /> + +<br /> + +―V. ex.<sup>a</sup> esqueceu ou não contou para +nada com +o meu coração. Era no emtanto a elle que v. ex.<sup>a</sup> +devia +dirigir-se primeiro, creio eu... +<br /> + +<br /> + +―Supponho-a tão bôa, tão pura, +tão santa, que +não duvidei um momento da bondade angelica com +que acolheria as supplicas de um infeliz, sabendo que +eu, infeliz, morro por v. ex.<sup>a</sup>. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[114]</span> ―Por muito bondosa que eu lhe parecesse, nunca +deveria suppôr-me tanto que me julgasse capaz de +sacrificar o meu coração á sua +felicidade, sr. Eugenio +de Mello. +<br /> + +<br /> + +―Quer dizer com isso que me despreza, que recusa +o meu amor, que devo julgar para sempre perdida +a felicidade, esmagado para sempre o meu coração? +<br /> + +<br /> + +―Quero dizer-lhe, senhor, que preciso fallar-lhe +com a lealdade e franqueza que devo a v. ex.<sup>a</sup> e +á +minha dignidade de mulher. Se depois de me escutar, +ainda persistir no seu proposito... +<br /> + +<br /> + +―Consentirá em ser minha esposa? +<br /> + +<br /> + +―É possivel. +<br /> + +<br /> + +―Pois bem; falle! Diga-me v. ex.<sup>a</sup> o que tem a +dizer, +porque eu anceio pelo momento de lhe poder dar +uma prova cabal, irrecusavel, sublime, do meu amôr! +<br /> + +<br /> + +―O que tenho a dizer-lhe, sr. Eugenio de Mello,―respondeu +friamente Beatriz―é por tal modo +grave e serio, requer tanto socego e reflexão que, aqui, +n'esta sala, n'um curto momento de conversa, entre +pessoas que fallam, tocam e cantam, mais poderia v. +ex.<sup>a</sup> dar-lhe peso e eu exprimir-me como desejo. +Se +lhe não fôr demasiado o sacrificio, rogo-lhe que +venha +ámanhã de dia, e então fallaremos. +Já expressei a meu +pae a necessidade que tinha de me entender com v. ex.<sup>a</sup> +sobre o assumpto em questão, e portanto a sua vinda +a esta casa está perfeitamente auctorisada por elle. +<br /> + +<br /> + +―Virei então ámanhã―disse +Eugenio.―Mas, +por Deus, não me roube a esperança de vir a +chamar-lhe +minha esposa, de vir a ser o seu escravo +sendo ao mesmo tempo o mais feliz dos homens. +<br /> + +<br /> + +Beatriz levantou-se, despedindo-o com um gesto. +<br /> + +<br /> + +―Amanhã!―disse ella. +<br /> + +<br /> + +Esta conversa passara-se po +Esta conversa passara-se por entre os olhares obliquos +de Belchior e Custodio, que ambos, fingindo prestar +<span class="pagenum">[115]</span> +grande attenção ás filhas da D. +Thereza, não perdiam +de vista Eugenio e Beatriz. +<br /> + +<br /> + +Por volta das 11 horas, a viuva e as filhas do general +deram o signal da retirada. +<br /> + +<br /> + +A mulher e a cunhada do procurador despediram-se +tambem. +<br /> + +<br /> + +Já na rua, o Belchior, voltando-se para o Eugenio, +perguntou: +<br /> + +<br /> + +―E então? +<br /> + +<br /> + +―Então... nada! +<br /> + +<br /> + +―Pois você não lhe fallou em amor, não +lhe disse +que morria de paixão por ella? +<br /> + +<br /> + +―Disse-lhe tudo isso, porque, verdade, verdade, +eu não vim cá para outra coisa. Mas achei-a muito +fria, muito reservada... Teima que me quer fallar +amanhã, porque tem coisas muito sérias e muito +graves +a dizer-me... +<br /> + +<br /> + +―Já sei. O que ella quer é namoro. Quer que +você lhe cante a sós as lindas cantigas da sua +paixão +por ella e lhe jure mil vezes que a ha de amar até +á +morte... +<br /> + +<br /> + +―Isso não são as coisas sérias e +graves que ella +tem para me dizer... Se me chama, não é para que +eu lhe falle, é para ella me fallar a mim... Que +quererá dizer-me? +<br /> + +<br /> + +―Naturalmente que tem um namoro que a ama +apaixonadamente e que, assim que souber que ella +está para casar com outro, é capaz de se ir +deitar da +ponte abaixo―disse rindo o procurador. +<br /> + +<br /> + +―Emfim, seja o que fôr. Amanhã virei fallar-lhe +e saberemos o que ella quer... +<br /> + +<br /> + +―Que diabo hade querer? Quer casar, quer-lhe +apanhar a cortiça toda da sua quinta―porque julga +que o pae está pobre e que não póde +continuar a dar-lhe +vestidos de seda... As mulheres são todas assim, +meu amigo! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[116]</span> ―Não parece que seja isso―volveu Eugenio―Pelo +contrario, supponho outra coisa... +<br /> + +<br /> + +―O que? +<br /> + +<br /> + +―Que a pequena cahiu em alguma falta grave e +quer francamente confessar-m'a antes de casar... +<br /> + +<br /> + +―Pois você suppõe?... +<br /> + +<br /> + +―Não sei... Mulheres são mulheres... +<br /> + +<br /> + +―Mas você, ainda que isso seja, não faz +caso!...―preveniu +o procurador, receioso d'escrupulos por +parte do seu cumplice. +<br /> + +<br /> + +―Bem me importa cá a mim! Perdôo... +faço +de generoso... O que se quer cá são os vinte +contos... +<br /> + +<br /> + +―E que o Custodio morra breve para vir a +<em>maquia</em> +completa!―accrescentou o Belchior. +<br /> + +<br /> + +―Nem mais nem menos! +<br /> + +<br /> + +Assim entendidos, ao outro dia, Eugenio apresentou-se +em casa do Custodio. +<br /> + +<br /> + +O usurario, informado do que se passava, simulou +uma sahida a tratar de negocios, afim de facilitar a +entrevista dos dois. +<br /> + +<br /> + +Beatriz, pallida de commoção, saiu á +sala de visitas +a receber o mancebo. +<br /> + +<br /> + +―Queira sentar-se, sr. Eugenio de Mello―disse +ella gravemente, indicando-lhe uma cadeira―Pedi-lhe +a fineza de me escutar a sós por alguns instantes, +pois o que tenho a dizer-lhe não deve ser conhecido +de mais pessoa alguma; e confio na sua honra de cavalheiro +que saberá guardar absoluto sigilo sobre o +que me ouvir... +<br /> + +<br /> + +―Oh, minha senhora!―exclamou o mancebo―Amo-a +tanto que, mesmo sem essa prevenção, guardaria +avidamente no fundo da minha alma todas as +suas palavras como um inestimavel thesouro! +<br /> + +<br /> + +―E devem realmente valer para v. ex.<sup>a</sup> um +thesouro +pela franqueza e lealdade que revestem. V. ex.<sup>a</sup>, +<span class="pagenum">[117]</span> +segundo creio, manifestou a meu pae o desejo de me +tomar para sua esposa... +<br /> + +<br /> + +―De novo peço perdão, se assim procedi, mas +julguei que ninguem melhor do que elle podia ser interprete +dos meus sentimentos junto de v. ex.<sup>a</sup>... Nos +tempos que vão correndo é tão +frequente vêr-se um seductor +abusar da hospitalidade de um homem de bem +para lhe ludibriar uma filha, que eu julguei um dever +de honra, antes de tudo, patentear a quem tão +generosamente me acolhia as nobres e puras +intenções +do meu coração apaixonado! Se errei, v. ex.<sup>a</sup> +saberá +perdoar-me o inconsiderando passo com que pude contrarial-a, +em attenção aos honestos sentimentos que +me moveram. +<br /> + +<br /> + +―É v. ex.<sup>a</sup> um homem de bem e por +isso mesmo +ha-de saber comprehender e avaliar os justos melindres +que me forçaram a uma explicação +clara, franca +e leal da minha situação... +<br /> + +<br /> + +―Dos labios de v. ex.<sup>a</sup> está +dependente a minha +sorte, o meu futuro, a minha vida. Peço-lhe que falle +como á pessoa que mais a ama e que mais ardentemente +deseja merecer-lhe inteira confiança! +<br /> + +<br /> + +―Pois bem; em primeiro logar, o meu coração +já não está livre―disse Beatriz―Amo +e sou amada +com o sincero e vehemente amôr de duas almas irmãs +que desejam unir-se no mesmo destino... +<br /> + +<br /> + +Eugenio levantou-se de golpe, simulando uma muito +bem fingida commoção. +<br /> + +<br /> + +―Beatriz!―disse elle arrebatadamente tentando +apoderar-se das mãos da joven―não posso +crêr que +haja no mundo quem a ame, quem a adore com o +santo e fervoroso culto que o meu coração lhe +tributa! +É possivel que haja, e creio bem que haverá, quem +renda o merecido preito á sua belleza, ás suas +virtudes, +á nobre e graciosa distincção de sua +gentil figura. +Mas amor puro, santo, sincero e vehemente como +<span class="pagenum">[118]</span> +este que me agita o peito, que me rouba o socego e a +tranquillidade e me faz sonhar constantemente na ventura +de a possuir, de a ter por esposa, de lhe dedicar +todas as horas da minha vida, todas as alegrias +da minha existencia... oh, não! não é +possivel! Diz-me +que o seu coração não é +livre... Creio bem que o +seu coração a engana e toma como sincera +expressão +de verdadeiro amor um sentimento de mera sympathia, +fugaz, passageiro, como são em geral todas as +affeições que nascem de um olhar, de um sorriso, +de +um entretenimento de cartas amorosas, de uma troca +de simples palavras murmuradas a mêdo no redomoinhar +de uma walsa ou na mysteriosa entrevista de +uma janella para a rua! +<br /> + +<br /> + +―Engana-se, sr. Eugenio de Mello!―retorquiu +Beatriz―Este amor que me prende o coração a +outro +coração, não é um d'esses +caprichosos sentimentos +de futil galanteio, que nascem n'um dia para morrerem +no outro; é, pelo contrario, uma paixão +verdadeira, +profunda, sinceramente sentida e a que está +indissoluvelmente +presa para sempre a nossa existencia, +o nosso destino... +<br /> + +<br /> + +―Todavia―observou Eugenio com um sorriso +levemente desdenhoso―essa declaração de v. ex.<sup>a</sup> +harmonisa-se bem pouco com as esperanças que me +pareceu traduzir na resposta dada por v. ex.<sup>a</sup> a +seu +pae e que elle me transmittiu ácerca do nosso enlace... +<br /> + +<br /> + +―É justamente por isso que desejei fallar-lhe―volveu +Beatriz, com altiva dignidade.―Quando meu +pae me fez sciente das honrosas pretensões de v. ex.<sup>a</sup> +á minha mão, recusei terminantemente, +dispensando-me +de declarar os poderosos motivos que determinavam +a recusa. Meu pae insistiu e eu reagi, pois não +reconheço á auctoridade paterna o direito de +dispôr +do coração dos filhos para os obrigar a um enlace +que +só uma sentida affeição determina. +Ameaçou-me com +<span class="pagenum">[119]</span> +rigores, com violencias, com a sahida immediata de +casa para um convento. Nada d'isso me intimidou nem +me demoveu do meu proposito. A final, meu pae declarou-me +com franqueza que o motivo da sua insistencia +para que esta união se realise é o estado de +ruina financeira em que se encontra e que de um momento +para o outro ameaça deixar-nos sem tecto e sem +pão. Chorou, lamentando a sua e a minha miseria, e +declarou-me que, tendo posto toda a esperança de +salvação +n'este casamento, desde que eu o recusava, faria +saltar os miolos com um tiro na cabeça e que a +mim me ficaria o remorso de lhe ter causado a morte. +Foi então que, para o socegar, prometti annuir aos +seus desejos com a condição de que +préviamente me +seria permittido fallar com v. ex.<sup>a</sup>. Eis tudo o +que se +passou e eis o que tenho a dizer-lhe: Quererá v. ex.<sup>a</sup> +acceitar por esposa uma mulher cujo coração +pertence +a outro e que unicamente,―unicamente, tome v. ex.<sup>a</sup> +nota―por salvar a vida de seu velho pae, faz o sacrificio +da sua vida e do seu amor, acceitando o enlace +que v. ex.<sup>a</sup> lhe propõe? +<br /> + +<br /> + +Eugenio ficou um momento indeciso ante a rude +crueza d'esta inesperada pergunta que punha em cheque +os seus brios d'homem, a tão apregoada dignidade +dos seus sentimentos. +<br /> + +<br /> + +―E v. ex.<sup>a</sup> no meu logar o que faria?―disse +elle por fim, respondendo com esta pergunta á pergunta +que lhe fôra feita. +<br /> + +<br /> + +―Pois que lhe fallo d'esta maneira, é porque não +julgo acceitavel uma união em taes circumstancias. +<br /> + +<br /> + +―N'esse caso, o que é que v. ex.<sup>a</sup> +exige de mim? +<br /> + +<br /> + +―Tudo o que póde exigir-se d'um homem digno. +Que v. ex.<sup>a</sup>, guardando absoluto silencio sobre +os motivos +que acabo de expôr-lhe, simule reconsiderar e +dê como irrealisavel a união que projectou. +<br /> + +<br /> + +―Oh! isso nunca!―protestou vivamente o bohemio―Com +<span class="pagenum">[120]</span> +que pretexto diria eu a seu pae que lhe +rejeitava a mão da filha? Isso envolveria não +só uma +violencia cruel ao meu coração, como uma affronta +gravissima á honra de v. ex.<sup>a</sup>. E eu +que a amo, eu +que faço consistir toda a minha ventura na dita immensa +de a ter por esposa, havia de ser o primeiro a +lançar na reputação de v. ex.<sup>a</sup> +o +stygma affrontoso +de um repudio aviltante?! Repare v. ex.<sup>a</sup> que +isso é +exigir-me mais que a propria vida! +<br /> + +<br /> + +―Pois bem; não diga v. ex.<sup>a</sup> que +desiste inteiramente +das suas pretensões a esta união impossivel; +mas busque, pelo menos, um pretexto para o addiamento +indefinido... Ser-lhe-ha facil pretextar embaraços +emprevistos, uma viagem longa, demorada... +<br /> + +<br /> + +―Quer v. ex.<sup>a</sup> dizer que me afaste, que deixe +de a ver, de lhe fallar, de viver na mesma terra em +que v. ex.<sup>a</sup> vive, de frequentar os mesmos +logares +que v. ex.<sup>a</sup> frequenta, de respirar o mesmo ar +que +v. ex.<sup>a</sup> respira!―exclamou o bohemio n'um +fingido +rapto de desesperada eloquencia―E emquanto eu, +distante, na solidão e no abandono da minha retirada +terra de provincia, curto as dôres e as amarguras de +um amor sem esperança, fica um +<em>outro</em>, um +<em>outro</em> a +quem v. ex.<sup>a</sup> ama, na posse feliz do seu +coração, +gosando +tranquillo as suaves delicias do amor correspondido! +É por demais cruel, minha senhora! E eu, +francamente, não lhe mereço o atroz supplicio a +que +quer condemnar-me! +<br /> + +<br /> + +Estas palavras foram proferidas com um mixto +de indignação e amargura tal, que Beatriz +não +pôde deixar de córar, pensando que tinha sido +demasiado +impiedosa no seu egoismo de mulher apaixonada. +<br /> + +<br /> + +―Peço perdão―balbuciou ella―mas propondo +isto, eu parto do principio de que v. ex.<sup>a</sup>, como +homem +digno, não póde pensar mais em que eu seja sua +<span class="pagenum">[121]</span> +esposa e de que o meu nome deve, por esse motivo, +ser para sempre banido da sua lembrança... +<br /> + +<br /> + +―Oh, minha senhora! Como conhece mal o coração +do homem que ama com o ardor e enthusiasmo +com que eu amo a v. ex.<sup>a</sup>!―exclamou cynicamente +o bohemio.―Se antes de a ouvir eu tinha motivos +para a desejar, para querer ser o possuidor unico de +esse precioso thesouro d'encantos e perfeições +que fazem +de v. ex.<sup>a</sup> a creatura mais adoravel do Universo, +agora, depois de a ouvir, esses motivos redobram e +impellem o meu coração a amal-a doidamente! V. +ex.<sup>a</sup> +está pobre. Eu sou rico. Do meu casamento com v. +ex.<sup>a</sup> depende não só o seu +futuro tranquillo e +feliz, +mas ainda a vida do seu proprio pae, esse amigo +inestimavel a quem me prendem tantos laços de sincera +affeição. Já não fallo de +mim, do meu coração +para sempre morto aos golpes crueis de uma desillusão +sem esperança... Mas poderia eu, sem ser um +miseravel cobarde, abandonar á pobreza e aos horrores +do desespêro a mulher que amo e a vida do amigo +que tanto préso? E tudo isto para quê? Para que +um desconhecido, um homem que eu nunca vi, que +não estimo, que não sei quem é, +não seja perturbado +nos seus caprichosos sonhos de uma felicidade que não +tem nem póde dar! +<br /> + +<br /> + +A estas palavras, Beatriz levantou-se pallida, e +tremula, agitada por uma commoção indescriptivel. +<br /> + +<br /> + +―Sr. Eugenio de Mello―disse ella com os olhos +brilhantes de indignação―o homem de quem falla +não +pediu nada a v. ex.<sup>a</sup>, nem eu quiz com as minhas +palavras collocal-o sob a alçada dos seus juizos temerarios. +Não se trata d'elle: trata-se de mim, trata-se de +nós. V. ex.<sup>a</sup> persiste na ideia d'este +casamento, +não +obstante saber que amo outro homem e que só por +salvar a vida de meu pae é que eu poderia consentir +em conceder-lhe a mão de esposa? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[122]</span> ―Se eu a amo tanto! Se eu a adoro e espero que +á força de dedicação e de +sacrificios hei-de fazer-me +tambem amar por v. ex.<sup>a</sup>! +<br /> + +<br /> + +―Nunca! Nunca!―protestou Beatriz―Mulheres +como eu, amam uma só vez na vida e só podem +pertencer d'alma e coração ao homem a quem se +dedicaram. +<br /> + +<br /> + +Nos labios de Eugenio volitou um sorriso ironico. +<br /> + +<br /> + +―V. ex.<sup>a</sup> é livre, minha +senhora―replicou +elle―Póde +impunemente matar seu pobre pae e matar-me +tambem a mim com a sua recusa... O que +não conseguirá é fazer-me cumplice +n'esse parricidio +e tampouco que eu acceite voluntariamente a morte +a que me condemna, em premio de tanto amor que +lhe consagro. +<br /> + +<br /> + +Beatriz encarou-o fixamente. No seu olhar havia +um desprezo mortal, uma d'estas condemnações +terriveis +que cavam um eterno abysmo de odio entre dois +sêres. +<br /> + +<br /> + +―Tenho entendido, senhor―disse ella em tom +breve e secco―Preciso de meditar nas suas palavras +antes de dar uma resposta definitiva. Meu pae o informará +da minha resolução. +<br /> + +<br /> + +Inclinou a cabeça ligeiramente, n'um movimento +de despedida, e sahiu da sala com altiva serenidade. +<br /> + +<br /> + +―Tens cabellinho na venta―disse comsigo o bohemio, +descendo as escadas que conduziam ao escriptorio +do Custodio―mas, se me caes nas mãos, eu te +porei macia que nem velludo!... +<br /> + +<br /> + +No escriptorio estavam já o Custodio e o Belchior, +anciosos por saberem o que se estaria passando entre +Beatriz e Eugenio. +<br /> + +<br /> + +Quando o mancebo appareceu á porta, os olhares +dos dois patifes cravaram-se perscrutadores no rosto +do bohemio. +<br /> + +<br /> + +―Então?―perguntaram ao mesmo tempo. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[123]</span> ―Quartel-general em Abrantes. Tudo como d'antes. +<br /> + +<br /> + +―Mas o que disse ella?―insistiu o Custodio. +<br /> + +<br /> + +―Contou-me toda a scena da pobreza que o meu +amigo lhe metteu em cabeça; disse-me que amava +outro homem, e que só pelo receio de que o meu +amigo se matasse é que condescendeu em dar +esperanças +d'acceitar o casamento. Queria que eu desse o +dito por não dito, que desistisse de a querer para esposa... +<br /> + +<br /> + +―Mas você nem +<em>nentes</em>!―atalhou o Belchior ancioso +por se inteirar de tudo. +<br /> + +<br /> + +―Está visto! Recusei, porque a amo, porque a +adoro sinceramente, e você amigo Belchior bem sabe +se isto é verdade... +<br /> + +<br /> + +―E ella?―interrogou o Custodio. +<br /> + +<br /> + +―Despediu-me dizendo, que, visto isso, ia pensar +e depois daria resposta definitiva... +<br /> + +<br /> + +―Amigo Custodio!―disse o Belchior, batendo +familiarmente no hombro do usurario―o caso agora +é comsigo... Aperte-me a pequena... torne a representar +a scena da pobreza até ella dizer que sim... +Tenha pena d'este pobre diabo, que anda aqui pelo +queixo!... +<br /> + +<br /> + +―Não tem duvida!―aquietou o Custodio―Ella +ha de ir... O que eu quiz foi apanhar-lhe o +<em>fraco</em>... +Se fôr preciso, até dou um tiro para o ar, a +fingir +que me mato... E ella ha de ir!... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[124]</span> +<h3><a name="c8"></a>VIII<br /> + +<br /> + +Entre irmãos +</h3> + +<br /> + +<br /> + +Paulo de Noronha, depois que se filiara na +<em>Mão-Negra</em>, +não obstante saber que um rival lhe disputava +a posse de Beatriz, alimentava a esperança bem fagueira +de conquistar em breve uma posição que lhe +permittisse apresentar-se a Custodio a pedir-lhe a mão +da filha. +<br /> + +<br /> + +Preoccupava-o, porém, a ideia de que sobre o seu +nascimento pesava um mysterio que elle não sabia explicar +e que o havia de collocar em terriveis embaraços, +quando o pae da Beatriz muito naturalmente lhe +perguntasse o nome de seus paes. +<br /> + +<br /> + +O pobre rapaz não conhecia o usurario. Suppunha-o +um homem honesto, buscando para a filha uma +alliança <em>limpa</em>, e o +sigillo que o padre Filippe e madre +Paula se obstinaram em guardar ácerca d'aquelles +a quem devia a existencia, fazia-o tremer pelos +resultados da pergunta a que não podia responder. +<br /> + +<br /> + +Elle ignorava que Beatriz tambem não tivera nascimento +legitimo e que, se podia apresentar-se como +filha de um homem que a perfilhara, esse homem não +era seu pae. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[125]</span> +O padre Filippe aconselhara-o a que revelasse a +madre Paula os segredos do seu coração e ouvisse +os +conselhos que ella maternalmente entendesse dever +dar-lhe. +<br /> + +<br /> + +Mas se o padre Filippe se retrahia e teimava em +não o elucidar ácerca do seu mysterioso +nascimento, o +mancebo julgou, e com razão, que madre Paula tambem +nada mais adiantaria a esse respeito. +<br /> + +<br /> + +Não procurou, pois, madre Paula e preferiu procurar +o seu amigo Jorge, o mesmo que o iniciára nos +mysterios da <em>Mão-Negra</em>. +<br /> + +<br /> + +―Posso fallar-te com franqueza, não é verdade, +Jorge?―perguntou-lhe elle. +<br /> + +<br /> + +―Como se fallasses a um irmão―replicou o outro―Desde +hontem que nos achamos ligados indissoluvelmente +pelos laços de uma associação secreta +em +que é condição essencial que os +filiados se considerem +e se amem como verdadeiros irmãos. +<br /> + +<br /> + +―Pois muito bem. Vou fallar-te como a um irmão +e espero que como tal prestarás +attenção ao que vou +dizer-te. +<br /> + +<br /> + +―Falla. +<br /> + +<br /> + +―Como te expliquei, amo uma mulher que é todo +o meu pensamento, todo o meu sonho, toda a grande +aspiração da minha vida! +<br /> + +<br /> + +―Já m'o disseste. +<br /> + +<br /> + +―Essa mulher corresponde com lealdade e com +ardor ao sentimento affectuoso que me inspirou. Mas +tem pae, um homem rico, um argentario que busca +para a filha uma alliança vantajosa, alliança de +dinheiro, +e que ha de necessariamente repellir-me com +desdem, quando souber que eu, simples academico, +apenas rico d'esperanças no futuro, lhe pretendo a +mão da filha... +<br /> + +<br /> + +―Mas―objectou Jorge―que necessidade tens +<span class="pagenum">[126]</span> +de que elle o saiba antes de haveres conquistado a +posição +que te ha de permittir constituir familia? +<br /> + +<br /> + +―A necessidade está bem patente desde que elle +pensa em casar Beatriz com um rapaz rico, que se +apresenta como pretendente á sua mão. +<br /> + +<br /> + +―Ah! ah!―fez Jorge―E a pequena? +<br /> + +<br /> + +―Tenciona oppôr a mais tenaz recusa. Mas o pae +é rispido, severo, chega mesmo a ser +brutal... É +capaz de querer impôr pela violencia este enlace e, +comquanto eu não receie pela firmeza e constancia de +Beatriz, receio comtudo pelos maus tratos e soffrimentos +que o pae é capaz de lhe inffligir... +<br /> + +<br /> + +―Não estamos em terra de selvagens―replicou +Jorge sorrindo.―Como se chama esse +<em>amavel</em> progenitor? +<br /> + +<br /> + +―Custodio de Jesus.... +<br /> + +<br /> + +―Mora? +<br /> + +<br /> + +―Na rua do Principe. +<br /> + +<br /> + +―E o outro? +<br /> + +<br /> + +―Qual outro? +<br /> + +<br /> + +―O teu pretendido rival? +<br /> + +<br /> + +―Não o conheço. Sei apenas que se chama Eugenio +de Mello. +<br /> + +<br /> + +―Eugenio de de Mello... É do Porto? +<br /> + +<br /> + +―Não; supponho que é um rico proprietario na +provincia. +<br /> + +<br /> + +―Já <em>entrado</em> na edade, +não? +<br /> + +<br /> + +―Pelo contrario. É novo ainda. Bem vês que lhe +chamei um rapaz. +<br /> + +<br /> + +―Os homens ricos são sempre +<em>rapazes</em> em questão +de casamento... A mocidade tem para elles a +duração do seu dinheiro... +<br /> + +<br /> + +―Mas este, mesmo pobre que fôsse, seria ainda +rapaz. +<br /> + +<br /> + +Jorge tomou apontamento d'estes nomes n'uma carteira. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p127">[127]</a></span> ―Muito bem!―disse elle―Urge, antes de tudo, +conhecer os adversarios com quem temos que medir-nos... +Eu vou obter informações e veremos depois o +que convem fazer... +<br /> + +<br /> + +―Mas poderei ao menos alimentar esperanças?... +<br /> + +<br /> + +―Dou-te a certeza de que esse casamento não se +fará e de que Beatriz não será +maltratada pelo pae... +<br /> + +<br /> + +―Obrigado, meu amigo, meu irmão!―exclamou +Paulo, cahindo-lhe nos braços.―Escuta ainda,―continuou. ―Preciso de te dizer tudo. Entre nós não deve +haver segredos... +<br /> + +<br /> + +―Falla, meu irmão! +<br /> + +<br /> + +Paulo hesitou um instante. A face roborisara-se-lhe +de vergonha. +<br /> + +<br /> + +―Chamas-me <em>irmão</em>―e +comtudo eu creio que não +posso ser irmão de ninguem. +<br /> + +<br /> + +―Porque? +<br /> + +<br /> + +―Porque não tenho pae nem mãe, porque eu +mesmo, sabendo o que sou, ignoro quem sou! +<br /> + +<br /> + +Contou-lhe então o desespero em que se debatia +por não conhecer o segredo do seu nascimento. Conhecia +apenas o padre Filippe e madre Paula como +seus protectores, ignorando comtudo porque serie de +circumstancias se encontrava sob a tutella d'aquelles +dois religiosos, recebendo toda a protecção e +amparo. +<br /> + +<br /> + +―Vê tu, pois, meu amigo, as terriveis circumstancias +em que me encontro!―concluiu elle desalentado.―Ainda +que me encontrasse de um momento +para o outro em <a href="#e15">circumstancias</a> +de pedir +Beatriz, como +poderia eu fazel-o não sabendo o nome de meus paes? +<br /> + +<br /> + +―Os irmãos da +<em>Mão-Negra</em>―disse Jorge +gravemente―são +todos filhos do mesmo pae―o Pensamento +Altruista que os reuniu e congregou, e da mesma +mãe―a Associação Invencivel que os +protege e +lhes dá força. Com semelhante parentesco qualquer +de nós póde considerar-se sufficientemente +nobilitado +<span class="pagenum">[128]</span> +para aspirar á mão da mais nobre e rica princeza +do +mundo, quanto mais á de uma simples burguesinha, +filha de um rico burguez chamado Custodio de Jesus! +<br /> + +<br /> + +―Não duvido da grandeza e poder da nossa +Associação, +meu amigo; mas, pelo caracter secreto que +a reveste, o facto de pertencer-lhe não constitue titulo, +que possamos apresentar publicamente, em abono +da origem honesta do nosso nascimento... +<br /> + +<br /> + +―O homem―volveu Jorge―creatura de Deus, +não póde ser jamais responsavel por actos que +não +praticou nem estava na sua mão impedir. Tanta culpa +teve elle em nascer filho do mais infimo ladrão, +como gloria em descender do mais poderoso monarcha +da terra. Filho d'um criminoso ou filho de um rei, +elle é sempre um homem <em>igual aos +outros</em> e d'elles só +póde distanciar-se pelos seus talentos e virtudes proprias, +ou ser-lhes inferior pelas suas abjecções e pelos +seus crimes. +<br /> + +<br /> + +―Ah! meu amigo! que bella e sã doutrina seria +essa, se todos os homens a comprehendessem assim! +<br /> + +<br /> + +―Para isso trabalhamos e nem outro é o pensamento +que nos une. Temos de luctar, bem sei, contra +o preconceito, contra o prejuizo de muitos seculos, +contra a <em>rotina</em>―que é a +famosa trincheira erguida +a impedir a marcha do aperfeiçoamento moral da humanidade. +Mas se não houvesse lucta, não seria +tão +glorioso o triumpho nem teria tanto valor a conquista. +<br /> + +<br /> + +Dizendo isto, Jorge apertou a mão a Paulo e despediu-se, +deixando o mancebo mais tranquillo e confiado +no futuro. +<br /> + +<br /> + +Sigamos Jorge e vejamol-o bater á porta de uma +casa de modesta apparencia, na rua de S. Bento da +Victoria... +<br /> + +<br /> + +É um predio de dois andares, que nada tem de +notavel e que quasi se confunde na linha de casas +modestas, senão pobres, que se erguem do lado nascente +<span class="pagenum">[129]</span> +d'aquella rua, em frente á +Relação, desde a esquina +dos Martyres da Patria até á travessa de S. +Bento da Victoria. +<br /> + +<br /> + +Posto fosse de dia, a porta principal d'esse predio +permanecia fechada. Mas logo que Jorge bateu abriu-se, +franqueando-lhe a passagem. +<br /> + +<br /> + +Todavia, no portal não appareceu pessoa alguma, +e assim que o amigo de Paulo transpoz a entrada, +tornou a fechar-se sem que alguem a impellisse. +<br /> + +<br /> + +Jorge, que parecia familiarisado com estes estranhos +habitos da casa, penetrou no corredor escuro do +portal e subiu o primeiro lanço das escadas até +ao +primeiro andar. +<br /> + +<br /> + +Chegando ahi, parou em frente da porta de uma +sala que ficava para o lado das trazeiras do predio e +pronunciou em latim: +<br /> + +<br /> + +―<em>Licet?</em> +<br /> + +<br /> + +―Entrae!―disse de dentro uma voz. +<br /> + +<br /> + +Jorge empurrou a porta e entrou n'uma sala, ao +centro da qual se via uma ampla mesa de carvalho, +coberta de livros e papeis e a que estava sentado um +homem, de roupas escuras e oculos verdes. A longa +barba grisalha que lhe descia até ao peito dava-lhe +um aspecto de patriarca biblico, que infundia respeito +e terror a quem pela primeira vez se encontrava na +sua presença. +<br /> + +<br /> + +Rodeado de livros que se viam espalhados pelo +chão, em cima das cadeiras e collocados em desordem +nas estantes que cobriam as paredes, desde o soalho até +ao tecto, não era preciso grande esforço de +intelligencia +para desde logo comprehender que se estava em presença +de um homem de estudo, sabedor e profundo. +<br /> + +<br /> + +Jorge foi passando peio estreito carreiro que se +abria entre rumas de livros, da porta até á mesa, +fazendo +prodigios de equilibrio para não pôr os +pés sobre +os volumes que lhe obstruiam a passagem. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[130]</span> ―É preciso estar na graça de Deus e ter azas +como os cherubins―disse elle rindo―para entrar +no vosso sanctuario, sem pisar aos pés a sciencia, +Mestre! +<br /> + +<br /> + +O homem dos oculos verdes ergueu a cabeça, fitou-o +por trás dos oculos e respondeu grave e pausado: +<br /> + +<br /> + +―Só a sciencia vã cahe por terra e desapparece +esmagada pelo pé inclemente do homem, na sua marcha +para o Bem, para a Verdade e para a Justiça. +A verdadeira sciencia, porém, não sente mais o +pezo +de um pé que se lhe põe em cima do que a torre +dos Clerigos o pezo de uma môsca que vá pouzar-lhe +no pára-raios. +<br /> + +<br /> + +Indicou uma cadeira desoccupada que se achava +junto da sua, e disse ao recem-chegado: +<br /> + +<br /> + +―Sentae-vos, meu amigo. Já cá vos esperava e +estava estranhando a vossa demora... +<br /> + +<br /> + +―Mestre―respondeu o outro―teria vindo mais +cêdo, se um caso novo, de que urge tratar, me não +tivesse tomado o tempo. +<br /> + +<br /> + +―Um caso novo! O que temos, pois? +<br /> + +<br /> + +―Uma injustiça grave, uma monstruosidade revoltante +de que se pretende fazer victima um dos irmãos +da <em>Mão-Negra</em>. +<br /> + +<br /> + +―A <em>Mão Negra</em> tem +já força e poder bastante +para desviar de sobre a cabeça de seus +<em>irmãos</em> a iniquidade +e a injustiça dos homens, por muito alto que +elles estejam collocados. De que se trata? +<br /> + +<br /> + +―Do ultimo iniciado no nosso gremio, de Paulo +de Noronha... +<br /> + +<br /> + +―Ah! O que lhe succede? +<br /> + +<br /> + +―Este rapaz ama uma mulher, que corresponde +ardentemente ao seu amor. O pae d'ella, porém, rico +capitalista, pretende violental-a a casar com um herdeiro +rico, que ella não deseja nem estima. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[131]</span> ―E sabe elle dos amores da filha com Paulo? +<br /> + +<br /> + +―Não o deve saber, pois que este nosso +<em>irmão</em>, +movido de honestos e nobres intuitos, não se julga +auctorisado +a tornar ostensivos os sentimentos amorosos +do seu coração, emquanto não houver +conquistado uma +posição social que lhe permitta pedir a +mão da mulher +que ama. +<br /> + +<br /> + +―O que deseja elle então? Que lhe conquistemos +a posição de que precisa? +<br /> + +<br /> + +―De modo nenhum. Paulo tudo espera do seu esforço +proprio. Simplesmente o que desejaria era que a +mulher que ama e em que faz consistir toda a sua +ventura não fosse compellida a unir-se a um outro. +<br /> + +<br /> + +―Está na mão d'ella. Que recuse. +<br /> + +<br /> + +―Mas a recusa, Mestre, importa o supplicio da +pobre menina, e é isso o que Paulo pretende evitar. +<br /> + +<br /> + +―Pois bem. A <em>Mão-Negra</em> +cumprirá o seu dever. +Como se chama o pae d'essa menina? +<br /> + +<br /> + +―Custodio de Jesus? +<br /> + +<br /> + +―E o pretendido noivo? +<br /> + +<br /> + +―Eugenio de Mello. +<br /> + +<br /> + +―Cumpre, antes de tudo, averiguar quem sejam +esses dois homens; conhecer-lhes a biographia, saber +porque serie de circumstancias vieram a encontrar-se e +a alliar-se para uma violencia d'essa ordem. +<br /> + +<br /> + +―Assim entendo que deve ser; e se vós, Mestre, +não ordenaes o contrario, eu mesmo me encarregarei +do todos esses trabalhos. +<br /> + +<br /> + +―Pois que assim o quereis, nada impede que procedaes. +Conheceis todos os <em>irmãos</em> +que podem prestar-nos +auxilio. Recorrei a elles, e colhidas as +informações, +procederemos como fôr de justiça. +<br /> + +<br /> + +Jorge inclinou-se. +<br /> + +<br /> + +―Temos ainda mais―disse elle. +<br /> + +<br /> + +―O quê? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[132]</span> ―Paulo não conheceu seus paes, e ignora por completo +o segredo do seu nascimento... +<br /> + +<br /> + +―Que póde isso importar-lhe? Se os que lhe deram +o sêr o repudiaram, que tem o filho que vêr com +os paes que o não quizeram ser? +<br /> + +<br /> + +―Perdão, Mestre! É essa a grande duvida e +portanto +o grande tormento do pobre rapaz... Paulo não +pode dizer-se um <em>abandonado</em>... A sua +infancia correu +sob a protecção carinhosa de dois religiosos, um +padre e uma freira, e ainda agora são elles os que +occorrem, como sempre, a todas as despezas da sua +educação scientifica. +<br /> + +<br /> + +―Conhece elle esses protectores? +<br /> + +<br /> + +―Conhece-os e dedica-lhes verdadeira affeição +filial! +<br /> + +<br /> + +―N'esse caso, porque não pensa esse rapaz que +pódem ser elles os seus proprios paes? +<br /> + +<br /> + +―Não são, porque madre Paula foi sua madrinha +e o padre Filippe não usa o appellido Noronha... +<br /> + +<br /> + +―Madre Paula e padre Filippe, dizeis?―interrogou +o homem dos oculos verdes com um leve tremôr +na voz. +<br /> + +<br /> + +―Sim. São estes religiosos os protectores de Paulo +de Noronha. +<br /> + +<br /> + +O homem a quem Jorge dava o respeitoso tratamento +de <em>Mestre</em>, cruzou os +braços, inclinou a cabeça +sobre o peito e ficou por algum tempo immerso em +profunda reflexão. +<br /> + +<br /> + +Dir-se-hia que os nomes de madre Paula e padre +Filippe lhe tinham despertado tristes +recordações, porque, +ao levantar a cabeça e reprimindo a custo um +fundo suspiro, disse, mal disfarçado ainda o tremor da +voz: +<br /> + +<br /> + +―Pensaremos n'isso, veremos se será conveniente +indagar a verdadeira origem d'esse rapaz. +<br /> + +<br /> + +Depois accrescentou: +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[133]</span> ―Ha mysterios de tal modo tenebrosos na vida +do homem, que ás vezes mais vale não querer +desvendal-os +nunca... Ide, e deixae-me só, meu amigo. +<br /> + +<br /> + +Jorge levantou-se. +<br /> + +<br /> + +―Amanhã―disse elle―deve reunir o capitulo +e lá nos encontraremos á hora do costume. +É possivel +mesmo que d'aqui até lá eu tenha podido obter os +esclarecimentos +que desejamos ácerca de Custodio de +Jesus e de Eugenio de Mello. +<br /> + +<br /> + +―Se assim acontecer―replicou o homem dos +oculos verdes―poderemos deliberar em capitulo o que +convirá fazer. +<br /> + +<br /> + +Jorge inclinou-se e sahiu com as mesmas +precauções +com que havia entrado para não calcar com os +pés os livros dispersos pelo sobrado. +<br /> + +<br /> + +Ao vel-o sahir, o homem dos oculos fincou os cotovellos +sobre a mesa, encostou a fronte ás mãos e ficou +assim por largo tempo, engolfado em profundo scismar. +<br /> + +<br /> + +―Madre Paula e padre Filippe!―disse elle por +fim.―Porque extraordinario acaso se encontram estes +dois nomes ligados á existencia d'esse adolescente +que usa o mesmo appellido da <em>Irmã +Dorothêa</em>? +<br /> + +<br /> + +Pegou de uma penna e traçou algumas palavras em +um papel que dobrou por fim cuidadosamente, lacrando-o +em seguida. +<br /> + +<br /> + +Depois, abriu a gaveta da mesa e tirou d'ella um +grosso volume encadernado a preto, que abriu e começou +folheando. +<br /> + +<br /> + +As paginas d'este livro estavam todas em branco. +No emtanto, o mysterioso personagem ia volvendo-as +com um sorriso amargo a vincar-lhe os labios, como +se do fundo branco d'aquellas folhas resaltasse um +pensamento negro. +<br /> + +<br /> + +Chegando ao ponto em que uma fita preta, intercalada +nas folhas, punha uma especie de signal, o novo +personagem, fez saltar a mola de um tinteiro em +<span class="pagenum">[134]</span> +fórma de caixa, pegou de uma penna de pato, que molhou +n'esse tinteiro, e começou escrevendo vertiginosamente. +Ao passo, porém, que a penna ia traçando as +palavras, estas iam-se apagando rapidamente; retomando +o papel a sua brancura immaculada. +<br /> + +<br /> + +É que o homem dos oculos verdes escrevia com +tinta sympathica. +<br /> + +<br /> + +Que mysteriosos pensamentos lançaria elle n'aquelle +papel que os guardava discreto, como um vasto +mar guarda no fundo os coraes e as perolas, as algas +e os peixes que o povoam, sem que a esmeraldina superficie +das suas aguas denuncie a existencia dos +thesouros que elle occulta no seio?<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[135]</span> +<h3><a name="c9"></a>IX<br /> + +<br /> + +Amores faceis +</h3> + +<br /> + +<br /> + +Eugenio de Mello, deixando o procurador e a familia, +seguiu pela rua de Cedofeita, subiu á rua dos +Bragas, desandou á rua da Sovella e, passando o +Campo da Regeneração, entrou na rua da Rainha. +<br /> + +<br /> + +O relogio da Lapa fazia soar uma hora da madrugada +quando o bohemio parou em frente de uma +casa de um unico andar, construcção moderna, em +que se notava decencia e bom gosto. +<br /> + +<br /> + +Eugenio tirou uma chave do bolso, introduziu-a +na fechadura, abriu a porta e entrou. Subiu os quatro +degraus de pedra que davam accesso ao corredor, +sem que o ruido dos passos abafados no tapete parecesse +dever chamar a attenção do dono ou dona da +casa. +<br /> + +<br /> + +Mas o bohemio era sem duvida esperado, porque +a meio do corredor abriu-se uma porta e appareceu no +limiar uma gentil figura de mulher, trazendo na mão +um castiçal de prata em que ardia uma vela. +<br /> + +<br /> + +―És tu, Eugenio? +<br /> + +<br /> + +―Sou eu, minha querida! +<br /> + +<br /> + +O bohemio aproximou-se da formosa dama que +assim lhe fallava, acariciou-lhe amorosamente os longos +cabellos louros, esparsos sobre o fino roupão de +<span class="pagenum">[136]</span> +velludo granada que lhe cingia o corpo airoso, e beijou-a +longamente nos labios. +<br /> + +<br /> + +―Demorei-me, não é verdade?―perguntou elle, +lançando-lhe um braço á roda da +cintura e conduzindo-a +para o interior da saleta d'onde ella havia surgido. +<br /> + +<br /> + +―Principiava a desesperar-me... Imaginei que +já não virias e pensava na maneira de te castigar +bem castigado pelo teu abandono! +<br /> + +<br /> + +―Louquinha! Pois tu pensavas em fazer mal ao +teu Eugenio, que tanto te quer, que tanto te adora?! +<br /> + +<br /> + +―Que queres! O ciume começava a atormentar-me! +Lembrava-me que estavas talvez nos braços +de outra, esquecido da tua Leonor, que só é feliz +quando te vê, quando te tem a seu lado! +<br /> + +<br /> + +A formosa creatura que Eugenio chamára Leonor, +pousou o castiçal sobre um velador de pau ébano +que ficava ao lado do marmore do fogão, e +lançando +os braços ao redor do pescoço do mancebo, +sorveu-lhe +nos labios, com verdadeiro frenesi, um segundo beijo, +mais lento e voluptuoso que o primeiro. +<br /> + +<br /> + +―Mas tu não estiveste com outra, não?―disse +n'um gemido em que havia receio e esperança, supplica +e perdão. +<br /> + +<br /> + +―Que ideia! Estive com uns amigos, de quem +não pude ver-me livre... +<br /> + +<br /> + +―É que eu amo-te tanto que, quando não te +vejo, penso sempre que te perco, que não voltas mais +ao pé de mim, que me esqueces, que foges com outra +para nunca mais! +<br /> + +<br /> + +Eugenio ria. +<br /> + +<br /> + +―Descança, meu amor... Quem é que me ha de +querer? Não vês que eu sou tão infeliz, +tão desgraçado, +que não tenho ninguem no mundo que devéras +me estime senão tu? +<br /> + +<br /> + +―E tambem de ninguem mais precisas!―disse +com vehemencia a dama loura.―Não estou eu aqui +<span class="pagenum">[137]</span> +para te rodear de carinhos, de ternura, de affectos +que só eu sei tributar-te? Não preencho eu todas +as +necessidades do teu coração, todas as +ambições da tua +existencia? Não faço eu por adivinhar os teus +pensamentos, +por satisfazer os teus desejos, as tuas mais +caprichosas phantasias? De quem mais precisas para +ser feliz, meu amado, meu querido e doce sonho +d'amor?! +<br /> + +<br /> + +―Decerto, decerto, minha querida amiga!―fez +Eugenio, suspirando.―Eu seria feliz, muito feliz +comtigo, seria o mais ditoso dos homens se... +<br /> + +<br /> + +E interrompeu-se suspirando. +<br /> + +<br /> + +―Se quê? Anda, acaba! +<br /> + +<br /> + +―Se fosses minha sómente... se eu fosse rico +bastante para não consentir que outro partilhasse os +teus affectos... +<br /> + +<br /> + +―Mas eu não o amo!―protestou a dama loura.―Bem +sabes que o não amo, Eugenio! Recebo-o com +desdem, supporto-o com sacrificio, porque d'elle me +vem o teu e o meu bem estar... E cada prova que +elle me dá do seu amor, cada +manifestação da sua +ternura, mais accrescenta o meu tedio e o meu despreso +por elle! +<br /> + +<br /> + +―Ah! se eu fôsse rico―tornou a suspirar o bohemio―com +que prazer eu o correria a pontapés +d'esta casa para fóra, e com que deliciosa furia eu +quebraria todos estes crystaes, rasgaria estes tapetes, +reduzindo tudo a cacos, tudo a farrapos, para só salvar +de todo este montão de ruinas, puro e intacto, o +adorado coração da minha pobre Leonor! +<br /> + +<br /> + +Levantou-se agitado, passando frenetico as mãos +pelos cabellos, n'uma attitude de heroe de melodrama. +<br /> + +<br /> + +Leonor correu a elle, apoiou-lhe nos hombros as mãos +alvas e pequeninas, em cujos dedos lusiam brilhantes, +supplicando: +<br /> + +<br /> + +―Então! Vá! Não sejas louco!... Isto +ha de acabar +<span class="pagenum">[138]</span> +um dia... Bem sabes que elle é velho... não +póde +durar muito... E como promette contemplar-me no +testamento, ainda nos esperam dias muitos felizes... +<br /> + +<br /> + +―Dias muito felizes!―repetiu o bohemio com +desanimo, deixando-se cahir de novo sobre o estofo do +sofá.―Antes d'isso hei-de eu morrer de desespero! +<br /> + +<br /> + +―Morrer!―exclamou a loura, cobrindo-o de cariciosos +beijos.―Não me falles em morrer, se és meu +amigo, Eugenio! És novo, forte e vigoroso e receias +que um velho dure mais que tu?! +<br /> + +<br /> + +―Não! eu não temo que a morte me colha antes +do tempo... Mas tenho um vago presentimento de que +serei eu que hei-de ir ao encontro da morte... Ás +vezes, para certos desgraçados como eu, a unica felicidade +possivel n'este mundo só existe na paz da sepultura! +<br /> + +<br /> + +―Jesus! que funebre vens hoje! Não tens dinheiro, +aposto! +<br /> + +<br /> + +―O não ter dinheiro é o menos... Desde que +rompi com a minha familia, que quiz por força tolher +o meu destino, anniquilar o meu futuro, habituei-me +ás privações inevitaveis que resultam +de uma mezada, +que minha mãe me manda ás escondidas de meu +pae... +Mas o peor não é isso... o peor são as +decepções, os +desenganos que todos os dias um homem nas minhas +circumstancias está recebendo de amigos que o conhecem +e que nunca deviam ser os primeiros a humilhál-o. +<br /> + +<br /> + +―Mas o que foi? Conta-m'o, filho!―supplicou +Leonor com interesse. +<br /> + +<br /> + +―Para que hei-de eu affligir-te com coisas que +não pódes remediar? Fallêmos antes de +ti, do nosso +amor, tão puro e tão ardente que, se +não fôra elle, +já ha muito eu teria acabado com este negro fadario! +<br /> + +<br /> + +―Não, não! quero saber... Anda, falla!―insistiu +ella amorosamente. +<br /> + +<br /> + +Eugenio passou a mão pelos cabellos, sacudiu a +<span class="pagenum">[139]</span> +cabeça com um fundo suspiro e principiou contando, +em tom de confidencia: +<br /> + +<br /> + +―Quando eu vivia ainda em casa de meus paes +e dispunha de todo o dinheiro que me era preciso para +satisfazer todos os meus caprichos, todas as minhas +loucas phantasias, tinha amigos que todos os dias e +todas as horas me protestavam uma eterna +dedicação, +uma amizade sem limites... Oh! como eu os tenho +conhecido agora, na adversidade, esses falsos e indignos +amigos, esses canalhas, esses biltres, esses miseraveis! +<br /> + +<br /> + +O bohemio interrompeu-se para verberar indignado +com estas apostrophes violentas uns amigos +que nunca teve. +<br /> + +<br /> + +―Vamos! Não te afflijas!―aquietou em voz dôce +a carinhosa e ingenua Leonor. +<br /> + +<br /> + +―Um d'estes, um dia, a meu pedido, consentiu em +valer a um pobre rapaz, nosso novo companheiro de +rapaziadas, emprestando-lhe trezentos mil reis, que o +infeliz tinha desviado da casa commercial em que servia +como empregado, achando-se na dura contingencia +de entrar para a cadeia, se não apresentasse esta quantia. +O pobre moço apaixonara-se por uma actriz e, +arrastado pelo amor, alcançara-se n'aquella importancia. +Veio ter commigo afflicto, contando-me a sua +desgraça e pedindo-me que lhe valesse. N'essa +occasião, +infelizmente, eu não podia dispôr do dinheiro, +porque tinha perdido em uma só noite perto de um +conto de réis. Mas como a todo o custo queria salvar +a reputação e o futuro do pobre rapaz, lembrei-me +de +escrever ao tal amigo de quem fallo, pedindo-lhe que +abonasse elle aquelle dinheiro sob minha responsabilidade. +<br /> + +<br /> + +―Generoso coração!―exclamou a loura, +envolvendo-o +n'um olhar ternissimo, em que havia um +mixto de sensualidade e de respeitosa veneração. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p140">[140]</a></span> +O bohemio continuou: +<br /> + +<br /> + +―Valeu-se ao rapaz, que <a href="#e16">continuou</a> +desempenhando +o seu logar, sem que nunca ninguem, suspeitasse +a sua falta, até que um dia, poucos mezes depois, +foi colhido pela febre typhoide e morreu... +Tive muita pena d'elle! +<br /> + +<br /> + +―Coitado! Esse rapaz era infeliz,―commentou +ingenuamente a loura, mais por comprazer ao amante +do que por se sentir movida á compaixão. +<br /> + +<br /> + +―Era! Era muito infeliz!―suspirou o bohemio.―Como +elle morreu, é claro que não pode pagar... +<br /> + +<br /> + +―Não deixou nada? +<br /> + +<br /> + +―Deixou dividas o infeliz! Poucos mezes depois, +meu pae queria obrigar-me ao casamento com uma +minha prima de que te fallei e que eu detestava e detesto! +Eu recusei-me, elle irritou-se e mandou-me +sahir de casa. Sahi. E calculas que eu, que até alli +era o <em>menino bonito</em> da familia, +fiquei de repente reduzido +a uma magra mezada que minha pobre mãe +me manda ás escondidas de meu pae, porque elle, de +cada vez mais enfurecido contra mim, teima em não +me dar um real... +<br /> + +<br /> + +―Cruel pae! +<br /> + +<br /> + +―Retirei então para o Porto, para esta terra onde +ninguem sabe quem sou, para não dar ás pessoas +que me conheciam o desagradavel e triste espectaculo +da minha decadencia, da minha, triste e apertada +situação... +<br /> + +<br /> + +―Era o destino que te chamava e te impellia +para mim, meu amor! +<br /> + +<br /> + +―Pois sim... era! Mas por essa ventura que a +sorte me deparou, quantas amarguras, quantos dissabores, +quantos crueis desenganos! Este amigo de +quem te fallo, este indigno, que é rico, que está +altamente +collocado, e que sabe a difficil situação em que +me encontro, tem-me escripto mais que uma vez a +<span class="pagenum">[141]</span> +pedir-me o reembolso dos trezentos mil reis, que elle +sabe que eu não utilisei, que não foram para mim +e +que não posso pagar n'esta occasião! Escrevi-lhe +a +expôr-lhe a minha má +situação e a pedir-lhe que não +me apertasse por uma divida que, por emquanto, me +é impossivel solver. Pois este miseravel, este infame +ameaça-me com os jornaes, se eu não lhe mandar na +volta do correio os trezentos mil reis! O biltre! o +canalha! E é capaz de o fazer, desacreditando-me, +cobrindo-me de opprobrio e de vergonha aos olhos de +todo o mundo, sem ter em consideração que eu um +dia +hei de ser rico e que basta que de hoje para amanhã +morra minha tia Quiteria, que é doida por mim, e +que me deixa tudo por sua morte, para eu poder atafulhar-lhe +de contos de reis a guela ignobil! +<br /> + +<br /> + +Dito isto com o calor e a convicção que +põem nas +mentirosas phantasias todos os intrujões que fazem +officio de o ser, o bohemio tornou a levantar-se de +repellão, passeando agitadamente pela sala. +<br /> + +<br /> + +―E é que, se elle cumpre a ameaça, eu sou um +homem perdido! Sou um homem perdido, porque vou +ter com elle, metto-lhe uma bala na cabeça e depois +acabo com a vida, dou um tiro n'um ouvido! +<br /> + +<br /> + +―Eugenio! meu Eugenio!―exclamou afflicta a +loura Leonor―não penses em fazer tolices... +<br /> + +<br /> + +―Como queres tu, meu anjo, que eu continue a +viver depois de ter soffrido este horroroso ultraje? +Homem honrado, antes morto do que injuriado! E eu +não posso... não posso com esta ideia de me +vêr +offendido por um homem que se dizia meu amigo! +Ah! eu só queria ter os trezentos mil reis para lhe +atirar com elles á cara e dizer-lhe: «Ahi tens, +miseravel! +Eugenio de Mello é mais nobre na sua pobreza, +do que tu, infame, em todo o teu fastigio de +homem rico!» +<br /> + +<br /> + +―E assim lhe dirás, meu amigo!―exclamou +<span class="pagenum">[142]</span> +fremente de indignação a apaixonada +loura.―Não +será por trezentos mil reis que esse canalha, quem +quer que elle é, ha-de desacreditar o meu Eugenio... +Os trezentos mil reis tel-os-has amanhã. +<br /> + +<br /> + +―Oh! mas eu não posso acceitar...―recusou o +bohemio, em cujos olhos fulgiu um raio de alegria.―Tens +feito tantos sacrificios por mim... Devo-te já +tantas provas de ternura e carinhosa dedicação, +que +não devo consentir em que te sacrifiques mais... +<br /> + +<br /> + +―Cala-te, não sejas creança!―interrompeu +Leonor, +pondo-lhe a pequenina mão na bocca para o impedir +de continuar.―O meu maior prazer, a minha +maior felicidade n'este mundo seria dar a vida para +te ver contente e feliz! +<br /> + +<br /> + +―Como és boa e como eu te adoro!―exclamou +Eugenio, cingindo-a ardentemente nos braços com amoroso +impulso. +<br /> + +<br /> + +Não devemos nem é justo deixar mais tempo o +leitor +sem a explicação que esta scena extraordinaria +requer. +<br /> + +<br /> + +Em poucas linhas se resume a vulgar e triste historia +d'estes abjectos e sujos amores. +<br /> + +<br /> + +Leonor era uma creatura plebeia, divinamente esculptural, +que um velho commendador―o sr. commendador +Garcia―encontrára um bello dia á sahida +da loja da modista onde a pobresinha picava os dedos +afilados e bonitos, a preço de tres tostões por +dia. +<br /> + +<br /> + +O commendador Garcia, picado tambem pela belleza +provocante da rapariga, começou a sentir-se +apaixonado por ella, e a tal ponto, que offereceu envolvel-a +em sêdas e velludos, recamal-a de perolas e +brilhantes, se ella lhe cedesse a elle, commendador, os +graciosos encantos da sua mocidade e da sua gentileza +em vez de os desperdiçar no provavel matrimonio com +algum pobre operario faminto e honrado. +<br /> + +<br /> + +Leonor ouviu os conselhos auctorisados de uma comadre +<span class="pagenum">[143]</span> +experimentada em varios lances d'esta natureza +e ao cabo de poucos dias, sentindo-se abalada nos +seus escrupulos de mulher honesta, acceitou o dinheiro +do generoso commendador. +<br /> + +<br /> + +Deslumbrou então o Porto e a sociedade elegante +do Palacio de Crystal com o rico esplendor dos seus +vestidos caros e com a phenomenal belleza da sua figura +gentilissima.<br /> + +<br /> + +O commendador deu-lhe mestra de francez e professora +de piano, que passaram um tenue verniz de +educação por sobre aquella rudeza nativa do +berço +humilde da linda Leonor; e então era vêl-a, +esquecida +da sua pobre origem, affectar modos de duqueza, +desdenhosa e altiva, quando passava nas ruas, fazendo +gala do seu impudôr. +<br /> + +<br /> + +Entre o rapaziada fina do Porto foi por muito +tempo Leonor o appetecido pomo, tanto mais cubiçado +quanto era difficil colhel-o, tal era a altura em que o +commendador bizarro e dadivoso a collocára. +<br /> + +<br /> + +Por esse tempo appareceu Eugenio no Porto, bafejado +por uma sorte rara á roleta, que em tres dias +successivos o favorecera com quatro contos de reis +em uma das nossas praias mais concorridas. +<br /> + +<br /> + +O bohemio, de origem pobre e plebeia, porém, +naturalmente fino e intelligente, educara-se na convivencia +dos rapazes estroinas da capital e d'elles copiára +as maneiras elegantes, a linguagem culta e até―oh +supremo instincto de imitação!―o apparente +despreso pelo dinheiro que os outros desperdiçavam +ás +mãos cheias, porque eram ricos e que elle raras vezes +possuia, porque era pobre. +<br /> + +<br /> + +Com taes predicados e n'uma sociedade para a +qual as apparencias são tudo, e que abre sem escrupulos +os braços e as portas ao primeiro adventicio +que lhe mostra uma mão-cheia de libras, sem dizer +de que maneira as adquiriu, Eugenio foi, como não +<span class="pagenum">[144]</span> +podia deixar de ser, logo recebido como uma das +primaciaes figuras da elegancia portuense. +<br /> + +<br /> + +Viu Leonor. Atrevido e audacioso com as mulheres, +habituado, além d'isso, a explorar o vicio dourado +da capital, comprehendeu desde logo que estava +alli uma fonte de receita apreciavel, pois que podia +facultar-lhe vida larga por muito tempo, e tentou a +conquista. Ora como as mulheres do mau sempre escolhem +o peor, Leonor, que rejeitara desdenhosa as +homenagens de tantos que podiam augmentar-lhe os +rendimentos, afinal decidiu-se por aquelle que não +podia senão diminuir-lh'os. +<br /> + +<br /> + +Começou então entre os dois um doce idylio, em +que para Leonor havia apenas o travo do commendador +Garcia a empecer-lhe as noites até ás dez horas +e a impedir-lhe a expansão franca do seu +coração +amoroso. +<br /> + +<br /> + +Eugenio, é claro, apresentou-se como um rico herdeiro +do Alemtejo, futuro senhor de porcos e cortiça +que chegariam para pagar a divida externa, mas, por +desgraça, victima imbelle dos rigores de um pae protervo +e sem coração, que o condemnara á +pobreza por +elle não querer sacrificar o seu +coração de rapaz +brioso á cortiça e aos porcos de uma prima com +quem +pretendiam casal-o. +<br /> + +<br /> + +Assim, Leonor, orgulhosa de ter conquistado o +coração rebelde de um moço que +tão impavidamente +resistia ao despotismo paterno e á cortiça de uma +prima +detestada, puzera á disposição do +amante numero dois, +o seu coração virgem de affectos e todo o +dinheiro +que lhe sobrava das despezas a que occorria o amante +numero um. +<br /> + +<br /> + +Dera-lhe uma gazua da porta e marcara-lhe a +hora da entrada: á noite, depois das dez. De dia, a +toda a hora. +<br /> + +<br /> + +Eugenio, porém, hospedara-se no <em>Hotel +Francfort</em> +<span class="pagenum">[145]</span> +como convinha e era prudente, para que estas +relações, +que deviam conservar-se clandestinas, não chegassem +a escandalisar o commendador Garcia. +<br /> + +<br /> + +Logo que Leonor lhe deu a certeza de que no dia +seguinte lhe facultaria os tresentos mil reis para atirar +com elles á face estanhada do amigo indigno, o +bohemio mudou de aspecto e entregou-se sem +restricções +e sem sombra de melancholia á mais carinhosa e +enthusiaetica adoração que um +coração de mulher +louca e linda jamais recebeu do seu amante. +<br /> + +<br /> + +―Sabes?―disse-lhe elle.―De ti recebo estas +provas de affecto e orgulho-me dos sacrificios que +fazes por minha causa, porque te amo, porque o meu +coração todo te pertence e, assim, vejo que entre +nós +não ha meu nem teu, tudo é commum, tudo +é igualmente +compartilhado pelos dois. E de minha prima... +vê tu lá!―ainda que viesse de rastos +lançar-se a +meus pés, pedir-me que recebesse d'ella a +salvação +da minha vida, a salvação da minha alma, eu +repellil-a-hia, +morreria, iria para o inferno, mas não acceitava +d'ella um real que fosse! +<br /> + +<br /> + +―É porque não a amas... +<br /> + +<br /> + +―É porque te amo, Leonor! É porque só +tu +n'este mundo tiveste poder para quebrantar o meu +orgulho de homem e fazer que eu recebesse de ti um +dinheiro que, vindo d'outra parte, me escaldaria as +mãos! +<br /> + +<br /> + +―Como és bom! e como eu gosto de ti, meu amigo! +Só queria ser bem rica para te fazer o mais rico dos +homens! Nenhum havia de fazer melhor figura que +tu, nenhum havia de poder collocar-se ao pé de ti! +<br /> + +<br /> + +―Quando eu fôr senhor d'aquillo que é meu, +então, +Leonor, o que tu hoje desejas fazer-me, é justamente +o que eu te hei de fazer a ti! Hei de pegar +n'essas joias todas e atiral-as pela janella fóra! Hei +de trazer-te como uma princeza, viveremos em Lisboa, +<span class="pagenum">[146]</span> +que é outra terra, e então verás +o que é vida, +o que é gosar! Havemos de ir a Paris, á Italia, a +Londres, ver esse mundo todo, unidinhos como dois +noivos que se amam, que se adoram e que fazem a +inveja do mundo inteiro! Queres? +<br /> + +<br /> + +―Se quero! Como eu seria feliz, se pudesse viver +contigo sósinha, sem estorvos, sem impecilhos, +ainda que fosse num canto bem retirado do mundo, +numa casinha bem pobre, onde só eu e tu coubessemos! +<br /> + +<br /> + +―Amor e uma cabana!―disse rindo maliciosamente +o velhaco, beijando-a com enthusiasmo.―Graças a Deus, +havemos de ter melhor do que isso... +<br /> + +<br /> + +E suspirando com tristeza: +<br /> + +<br /> + +―Para isso bastava só que morresse meu pae! +<br /> + +<br /> + +―Deixa-o lá, coitado! - intercedeu piedosa a ingenua +loura. +<br /> + +<br /> + +―Deixo, deixo... Eu não lhe desejo a morte... +Mas acredita que, ás vezes, Leonor, até chego a +pensar +que não tenho pae! +<br /> + +<br /> + +O velhaco tinha razão. +<br /> + +<br /> + +Ele não só já o não tinha, +como nunca fizera +caso d'elle, desde que pôde abandonar o pequeno cubiculo +em que o desgraçado vendia, como adelo, botas +e livros velhos, numa das alfurjas do Bairro Alto, +alli pelas immediações da travessa dos Fieis de +Deus. +<br /> + +<br /> + +Mãe, uma esfregadeira que a miseria tinha levado +na sua onda negra para o hospital de S. José, onde +falleceu, nunca elle a conhecera. +<br /> + +<br /> + +Portanto, esta exclamação: +«ás vezes até chego a +pensar que não tenho pae», ficaria verdadeira, +horrivelmente +verdadeira, se dissesse que desde criança +se habituára a pensar que o não tivera. +<br /> + +<br /> + +No dia seguinte, Leonor mandou pedir ao commendador +Garcia os tresentos mil reis que o bohemio +devia levar, não para o phantasiado amigo, mas para +<span class="pagenum">[147]</span> +o jogo do monte, que era o sorvedouro horrivel onde +o miseravel não só afundava o dinheiro que podia +obter á custa de tranquibernias e +abjecções, mas ainda +a sua propria saude e robustez de homem válido. +<br /> + +<br /> + +O commendador, capitalista opulento, mandou o +dinheiro pedido, não sem notar de si para comsigo a +frequencia com que taes exigencias se repetiam. +<br /> + +<br /> + +No emtanto, como a sua paixão por Leonor era +violenta como um incendio n'uma casa velha, ainda +d'esta vez não se atreveu a fazer a menor +objecção. +<br /> + +<br /> + +Foi com extremo contentamento que Leonor passou +para as mãos do seu <em>anjo +mau</em> o dinheiro extorquido +á imbecilidade senil do commendador. +<br /> + +<br /> + +―Aqui tens―disse ella―paga a esse canalha, +a esse falso amigo, e lembra-te que no mundo ninguem +te ama tanto como a tua amiguinha! +<br /> + +<br /> + +―Juro-te, meu amor, minha alma, minha vida, +que ninguem no mundo adora tão ardentemente os +teus encantos como eu!―replicou o bohemio, radiante +de contentamento, guardando na algibeira a generosa +dadiva da amante. +<br /> + +<br /> + +Almoçou e sahiu, pretextando que ia enviar +aquella quantia ao seu destino. +<br /> + +<br /> + +Eram onze horas da manhã quando entrou no escriptorio +do Belchior. +<br /> + +<br /> + +―Olhe lá―disse elle―esta noite posso dispôr +de mim, ou teremos nova estopada? +<br /> + +<br /> + +―Não sei... Deixe vêr o que diz o Custodio. +Elle lá ficou encarregado de tecer os pausinhos... +<br /> + +<br /> + +―O diabo da sirigaita é dura da bocca... Mas +não tem duvida que, se me entra para a +<em>loja</em>, eu saberei +applicar-lhe a espora e obrigal-a a tomar andadura +regular. +<br /> + +<br /> + +―Isso, depois, é lá comsigo e com +ella―respondeu +rindo o procurador.―Mas eu sempre lhe darei +<span class="pagenum">[148]</span> +de conselho que a leve por bem, emquanto o Custodio +não esticar o pernil... +<br /> + +<br /> + +―Isso é dos livros! Mas sabe você que +já me +vae enfadando tanta difficuldade? +<br /> + +<br /> + +―Meu amigo, não se agarram trutas a bragas +enxutas... N'estas coisas, é preciso muita paciencia, +porque de outro modo não se faz nada. +<br /> + +<br /> + +―Mas vamos a saber: poderei hoje ao menos +convidar alguns amigos para uma ceia? +<br /> + +<br /> + +―Póde... Se tem dinheiro, póde. Quem +é que o +ha de impedir? +<br /> + +<br /> + +―Quem me impediu hontem. Você é sempre o +meu <em>desmancha prazeres</em>, amigo +Belchior! +<br /> + +<br /> + +―Para seu bem. +<br /> + +<br /> + +―E para seu... +<br /> + +<br /> + +―Claro! Para o bem de nós ambos. Mas muito +mais para você do que para mim. +<br /> + +<br /> + +O bohemio ia a retrucar, quando a porta se abriu +e appareceu o Custodio de Jesus. +<br /> + +<br /> + +―E então?―interrogaram os dois. +<br /> + +<br /> + +―Então, sabem o que ella me disse? +<br /> + +<br /> + +―O que foi? +<br /> + +<br /> + +―Adivinhem! +<br /> + +<br /> + +―Não somos bruxos!―replicou o procurador―Falle +para ahi, com seiscentos diabos! Sim ou não? +<br /> + +<br /> + +―Pois bem―não! +<br /> + +<br /> + +―Hein?!―fizeram os dois espantados. +<br /> + +<br /> + +―É verdade! Disse-me agora muito terminantemente +que não. +<br /> + +<br /> + +―E você não voltou á historia do tiro +na cabeça?―observou +o procurador. +<br /> + +<br /> + +―Espere ahi, que o mais bonito está por dizer. +A pequena não só me declarou abertamente que +não +queria casar com o sr. Eugenio, mas fez mais. Pediu-me +que visse eu quanto me era preciso para solver +as minhas dividas e que lhe apresentasse uma +<span class="pagenum">[149]</span> +nota dos credores, porque ella se encarregaria de resolver +a questão de modo satisfatorio e que nos puzesse +a coberto da miseria que eu tanto temia... +<br /> + +<br /> + +―E você o que respondeu a isso?―perguntou o +Belchior. +<br /> + +<br /> + +―O que havia de eu responder? Fiquei entalado +com esta sahida... Sim, porque você bem vê que, +depois d'uma resposta d'estas, eu já não podia +dizer +que ia dar um tiro na cabeça... +<br /> + +<br /> + +―Mas o que pensa então fazer?―interrogou +Eugenio. +<br /> + +<br /> + +―Esperar, a ver o que sae d'aqui... +<br /> + +<br /> + +―D'ahi o que sae é ella perceber que você +não +está arruinado como diz, e não só +recusar-se a casar +aqui com o meu amigo e sr. Eugenio, mas ainda pôr-se +a <em>chuchar</em> comsigo!―exclamou o +Belchior furioso.―Segue-se +que você representou mal a scena e não +é por esse modo que nós conseguiremos nada. +<br /> + +<br /> + +―Espere, homem, espere!―interrompeu o Custodio.―Eu +tenho uma ideia. +<br /> + +<br /> + +―Que ideia é? +<br /> + +<br /> + +―Ella hontem, depois que vocês sahiram, foi ainda +á janella fallar ao tal rapaselho que a namora... +<br /> + +<br /> + +―Você viu? +<br /> + +<br /> + +―Vi, porque eu, como já estou prevenido, ando +desconfiado, e quando eu desconfio ninguem me faz o +ninho atrás da orelha... Não ouvi o que disseram, +mas calculo... A rapariga disse ao rapaz o que se +passava, e elle, naturalmente, prometteu-lhe salvar-me +das difficuldades financeiras em que me encontro, +para evitar que o casamento se faça... +<br /> + +<br /> + +―Isso é lá possivel! O rapaz é pobre, +e se prometteu +isso, com certesa temos intrujice no caso, porque +elle não póde arranjar cem mil reis, quanto mais +uns poucos de contos. +<br /> + +<br /> + +―Bem! Mas a mim lembra-me uma coisa: é +<span class="pagenum">[150]</span> +apresentar-lhe a nota dos meus crédores e deixar que +elle confesse que não póde fazer nada. +Então eu torno +a ameaçar que me mato e ella não terá +remedio senão +ceder. +<br /> + +<br /> + +―Mas isso então quer-se para breve!―objectou +o procurador―Aqui o sr. Eugenio de Mello tambem +não póde estar na contingencia da pequena querer +ou +não querer... Porque é pessoa respeitavel e +tomaram-n'o +muitas meninas em tão boas ou melhores +condições +de fortuna do que sua filha... +<br /> + +<br /> + +―Eu é porque devéras a amo!―explicou o +bohemio―Sinto-me +loucamente apaixonado pela senhora +D. Beatriz e estou disposto a todos os sacrificios para +conquistar a ventura immensa de a possuir como esposa. +Mas permitta-me que eu lhe pergunte: se esse +rapaz conseguir offertar generosamente a quantia que +o meu amigo disser carecer para reconstituir a sua +fortuna... o que fará o sr. Custodio de Jesus? +<br /> + +<br /> + +―O que farei? Essa é boa! Faço o que deve fazer +todo o homem de juizo: pego no dinheiro com as +mãos ambas, e depois não dou o consentimento para +a +pequena casar. +<br /> + +<br /> + +―Ande-me assim, seu Custodio!―bradou o procurador.―Essa +é de mestre... Mas n'esse bolo havemos +de ir feitos... +<br /> + +<br /> + +―Está dito! Reparte-se pelos tres... Mas acho +que não havemos de ter questões por causa da +partilha... +<br /> + +<br /> + +Os tres desataram a rir. +<br /> + +<br /> + +―Vamos a ver o que sae d'aqui!―disse por +fim o Belchior.―Tinha graça se o rapazote nos sahia +á ultima hora a fazer chover dinheiro ao toque d'uma +varinha magica, tal qual como nas peças de theatro! +<br /> + +<br /> + +―Amigo Belchior―expôz o Custodio―parece-me +que andei bem em não apertar o fiado... O +<span class="pagenum">[151]</span> +melhor que temos a fazer agora é preparar uma +relação +dos crédores e apresental-a á rapariga... +<br /> + +<br /> + +―Qual relação de crédores!―protestou +o procurador.―Você +não tem senão um credor... Esse credor +sou eu. Você deve-me cincoenta contos, e elle que +venha entender-se comigo... +<br /> + +<br /> + +―Justamente!―apoiou Eugenio.―E assim ficaremos +sabendo os recursos de que o tal menino dispõe... +<br /> + +<br /> + +―Está dito!―decidiu o Custodio.―É claro +que cincoenta contos não se arranjam como se fossem +cincoenta reis; e logo que o tal badaméco ouça +fallar +em tanto dinheiro, põe-se a andar e não torna a +apparecer. Então ficaremos com o campo livre para +continuar a representar a scena do tiro na cabeça, se +a pequena teimar em não querer este casamento. +<br /> + +<br /> + +―Se se dér o caso do rapaz, assustado com tamanha +quantia, passar o pé, a propria pequena, por +despeito e por vingança, será a primeira a dizer +que +pensou melhor e que acceita o noivo que se lhe +propõe―opinou +o procurador. +<br /> + +<br /> + +―Fiquemos então n'isto. Você é meu +credor, +com letras acceites por mim, e impõe que ou este casamento +se faça, ou eu pague no dia do vencimento, +que está para breve―concluiu o Custodio, voltando-se +para o Belchior. +<br /> + +<br /> + +―Exactamente―respondeu este.―E mandemos +para cá, que eu me encarregarei de resolver a +questão. +<br /> + +<br /> + +O procurador piscou o olho a Eugenio e fez-lhe +um signal para que sahisse. +<br /> + +<br /> + +O bohemio comprehendeu-o e despediu-se, affirmando +que estava irresistivelmente apaixonado por +Beatriz e appellando para a amizade dos dois, afim +do que envidassem os seus esforços em defesa da sua +causa. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[152]</span> +Logo que o Belchior se viu a sós com o Custodio, +abriu a gavêta da escrivaninha e, tirando de dentro +uma certidão do escrivão de fazenda de Borba; +apresentou-lh'a, +dizendo: +<br /> + +<br /> + +―Veja você, amigo Custodio, a pechincha a que +a sua filha torce o nariz! +<br /> + +<br /> + +O Custodio pegou na certidão das +contribuições +pagas por Eugenio de Mello á Fazenda Nacional. +<br /> + +<br /> + +―Com os diabos!―disse elle―para pagar tudo +isto, perto de dois contos de reis, é preciso que tenha +uma fortuna enorme! +<br /> + +<br /> + +―Este diabo nem sabe o que tem de seu! E ainda +você está com pannos quentes com a rapariga! +Onde vae ella encontrar um partido como este? +<br /> + +<br /> + +―Pois, amigo Belchior―affirmou o Custodio +com resolução―ainda que saiba de a levar pelos +cabellos +á egreja, esta fortuna é que eu não +deixo perder. +<br /> + +<br /> + +―Mas é preciso que isto não demore muito tempo +a decidir. +<br /> + +<br /> + +―Isto por esta semana rebenta! Deixe-me cá +manobrar á vontade e você verá como a +coisa se arranja... +<br /> + +<br /> + +Tendo affirmado isto, o Custodio deixou o procurador +e partiu a arranjar a conta do seu debito para +apresentar á filha.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[153]</span> +<h3><a name="c10"></a>X<br /> + +<br /> + +Para os grandes males... +</h3> + +<br /> + +<br /> + +Custodio de Jesus não se enganara quando dissera +aos seus dois cumplices em patifaria que suppunha ter +sido Paulo quem inspirara a Beatriz o pedido da +relação +das dividas do pae, para pensar na melhor maneira +de as solver. +<br /> + +<br /> + +Effectivamente, Paulo de Noronha, animado pelos +conselhos de madre Paula, a quem fizera a confidencia +dos seus amores, e pelas palavras de esperança que +ouvira da bôcca do seu amigo Jorge, fôra n'essa +mesma noite fallar com Beatriz. +<br /> + +<br /> + +A pobre menina, aterrada, contara-lhe tudo, a sua +recusa formal, as instancias do pae, o arrebatamento +de colera com que elle, a principio, pretendera impôr-se-lhe, +e afinal a dolorida confissão em que cahira +das suas desgraças financeiras e do funesto designio +em que estava de recorrer ao suicidio, se o casamento +que propunha como unico recurso salvador fosse de +todo em todo repudiado pela filha. +<br /> + +<br /> + +Mais contou a apaixonada creança o expediente de +que lançara mão para retardar o desenlace da +tragedia +com que o pae a ameaçava, pedindo uma entrevista +<span class="pagenum">[154]</span> +com Eugenio de Mello, afim de expôr a este, +com lealdade e franqueza, as circumstancias difficeis +da casa de seu pae e os laços de inquebrantavel +affeição +que já tinha contrahido com Paulo de Noronha. +<br /> + +<br /> + +―E o que respondeu esse homem?―interrogou +Paulo. +<br /> + +<br /> + +―Ao contrario de que eu suppunha, mostrou-se +de cada vez mais apaixonado e declarou não desistir +da sua pretensão, com o fundamento de que, em face +da minha lealdade, agora mais que nunca, o seu +coração +lhe impunha o dever de salvar meu pae da +ruina e a mim da pobreza. +<br /> + +<br /> + +―E tu?... +<br /> + +<br /> + +―Despedi-o sem responder, disposta a recusar, +mas tambem a pensar no meio de evitar que meu pae +pratique o acto de verdadeiro desespero com que me +ameaçou. +<br /> + +<br /> + +―E se não encontrares esse meio? +<br /> + +<br /> + +―Succederá o que Deus quizer, mas eu não serei +jamais mulher de outro homem que não sejas tu, meu +Paulo!―exclamou Beatriz com firmeza. +<br /> + +<br /> + +O mancebo sentiu na alma um transporte de sincera +alegria ao ouvir estas palavras. +<br /> + +<br /> + +―Ouve, Beatriz―disse elle.―É possivel que sejamos +victimas de uma d'essas astuciosas ciladas que +os paes ambiciosos ás vezes preparam á ingenua +affeição +de suas filhas para as compellirem a acceitar +um enlace de que se lhes affigura depender a felicidade +d'ellas e d'elles... Mas o nosso dever é tomar +como verdadeiras as palavras de teu pae e tratarmos +de remediar do melhor modo os males de que se diz +victima. Eu sou pobre, não tenho fortuna, porque, se +a tivera, desde este momento ella pertenceria inteira +a teu pae, sem um documento, sem uma promessa sequer +de que mais tarde me solveria essa divida. Por +mim nada posso. Mas tenho amigos valiosos com quem +<span class="pagenum">[155]</span> +conto e em quem espero encontrar auxilio para remover +as difficuldades que affligem teu pae, sem ser preciso +sacrificar o meu e o teu coração, prendendo-te a +um homem que não estimas e que não duvido +affirmar +indigno de ti. Pede, pois, a teu pae uma nota das +suas dividas, e eu verei se me é possivel libertal-o da +responsabilidade d'ellas. +<br /> + +<br /> + +―Mas, meu Paulo, o que pensas fazer?―interrogou +Beatriz commovida, quasi adivinhando a nobre +intenção de mancebo. +<br /> + +<br /> + +―Penso pedir aos meus amigos que me constituam +seu devedor por essa quantia, que pagarei quando +haja concluido a minha carreira e conquistado a +posição +a que tenho direito na sociedade. Tu és filha unica. +e, portanto, a universal herdeira de teu pae. É o teu +dote que asseguro por esta forma. Se eu morrer antes +de solver toda a divida, tu, um dia, quando te encontrares +senhora da herança paterna, restituirás aos +meus crédores o que faltar para seu integral reembolso. +Assim, não prejudicaremos ninguem e teremos salvado +a vida de teu pae. +<br /> + +<br /> + +―Ah! meu Paulo, como tu és um grande e nobre +coração! Como tu és digno do santo +amor que te +dedico!―exclamou a donzella. +<br /> + +<br /> + +Foi assim que no dia seguinte Beatriz fez a seu +pae o estranho pedido de uma nota dos credôres, declarando +ao mesmo tempo que recusava terminantemente +o enlace com Eugenio de Mello. +<br /> + +<br /> + +O antigo marido de D. Carlota podia perguntar, +com a sua auctoridade de pae tyranno, como é que +uma menina de dezenove annos ousava pensar em remediar +desastres financeiros que elle, velho agiota, +encanecido na usura, não podia sanar; e dando-se +por offendido e desrespeitado nos seus brios de progenitor, +por um momento esteve para exigir que a filha, +<span class="pagenum">[156]</span> +em vez de pedir contas, lh'as desse alli, claras e cathegoricas +de todos os seus actos. +<br /> + +<br /> + +Mas o mariola, que na convivencia do padre Anselmo +ganhára em manha o que perdera em dinheiro +e não em honra―porque essa nunca elle a tivera―achou +prudente e de bom aviso levar a farça até ao +fim, apparentando uma inteira e absoluta submissão +á vontade da filha. +<br /> + +<br /> + +O secreto plano que formára, já nós +lh'o ouvimos +no escriptorio do procurador em conversa com este e +com Eugenio de Mello: apanhar o dinheiro, se Paulo +o arranjasse, e negar o consentimento para o casamento +dos dois jovens; ou esperar que o mancebo, assustado +com a grandeza do sacrificio que era preciso +para obter a mão de Beatriz, desapparecesse sem dar +novas suas, o que resolveria a teimosa menina a acceitar +a mão de Eugenio sem repugnancia. +<br /> + +<br /> + +Firme n'este proposito, entrou no escriptorio e +phantasiou uma conta corrente com o procurador Belchior, +em que este apparecia com um saldo a favor +de cincoenta contos, representado por letras acceites +em poder do crédor e com vencimento em curto praso. +<br /> + +<br /> + +Eram estas letras que o Custodio declarava não +poder pagar, se o casamento com Eugenio não se realisasse, +devendo seguir-se o protesto e a execução em +poucos dias, pois que o procurador, amigo de Eugenio +e deveras interessado no seu enlace com Beatriz, recusaria +a reforma, exigindo immediato embolso. +<br /> + +<br /> + +Organisada a conta corrente, o Custodio subiu ao +quarto de Beatriz e, apresentando-lhe o papel, disse: +<br /> + +<br /> + +―Aqui tens, minha filha... aqui tens o documento +da nossa desgraça! Por elle verás que estamos +perdidos sem remedio, visto que tu recusas o meio unico +da nossa salvação! +<br /> + +<br /> + +―Não fallemos n'isso, meu pae!―retorquiu mansamente +Beatriz―Vamos a vêr se por outro meio mais +<span class="pagenum">[157]</span> +em harmonia com a dignidade de ambos, conseguimos +fazer face á adversidade que nos persegue. +<br /> + +<br /> + +―Mais em harmonia com a nossa dignidade, dizes―observou +o snr. Custodio―Supponho que não +póde haver nada mais digno do que o casamento com +esse rapaz, que é rico, que é de bôa +familia e que te +ama loucamente... +<br /> + +<br /> + +―Mas não o amo eu, e é n'isso que estaria a +indignidade, +se eu consentisse em me vender a elle por +dinheiro... +<br /> + +<br /> + +―Vender! Tu não ias como escrava, ias como mulher +recebida á face da egreja e ficarias senhora de +metade do que é d'elle.<br /> + +<br /> + +―Ainda que ficasse senhora de tudo quanto lhe +pertence, reputaria uma venda ignobil o acto de me +unir a elle, desde que o meu coração o repudia... +<br /> + +<br /> + +―O coração!―fez o sr. Custodio com um +desdenhoso +encolher de hombros―O coração, minha filha, +está sempre bem, desde que o estomago não +está mal... +<br /> + +<br /> + +―Essas theorias não se comprehendem na minha +idade, meu pae... +<br /> + +<br /> + +―Comprehende-as toda a gente, em todas as idades, +Beatriz... Só não as comprehendes tu, porque +até agora, graças a Deus, não tens +sentido falta de +nada e foste sempre considerada como pessoa rica. Mas +quando a miseria chegar e tu vires fugir de ti todos +quantos agora te fazem muita festa, então +comprehenderás +que teu pae tem rasão no que diz. +<br /> + +<br /> + +O usurario, com refalsada velhacaria e crente em +que Paulo sentiria gelarem-se-lhe os ardentes impulsos +do seu coração amoroso ante a horrivel +perspectiva +d'aquella medonha conta-corrente, ia predispondo o +espirito da filha para acceitar no fim o casamento com +Eugenio, como unico recurso que se lhe offerecia. +<br /> + +<br /> + +Beatriz não respondeu. Pegou no papel e dobrou-o, +depois de lhe relancear a vista. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[158]</span> ―Eu verei isto―disse ella―e póde ser que Deus +me inspire alguma ideia salvadora que nos livre de +apuros, sem ser necessario recorrer ao sr. Eugenio de +Mello. +<br /> + +<br /> + +―Deus te ouça, minha filha, mas duvido bem... +<br /> + +<br /> + +E depois de um curto instante de silencio: +<br /> + +<br /> + +―Emfim, pensa e repara que não é brincadeira... +São cincoenta contos. Ha muito que isto teria dado um +estoiro, se não fosse o Belchior, coitado, que, ainda assim, +tem sido meu amigo... Agora é que está +lá embirrado +com a historia do casamento e já me disse +que, se tu não acceitares, escuso eu de contar com elle +para mais nada... Aquellas malditas letras de ouro +do Banco de Credito Real do Brazil arrazaram-me!―suspirou +por fim. +<br /> + +<br /> + +―E foi só o pae que teve prejuizos com +ellas?―perguntou +Beatriz. +<br /> + +<br /> + +―Não. Ficaram muitas familias redusidas á +miseria... +Mas cada qual sente o seu mal... +<br /> + +<br /> + +―E Deus o de todos. +<br /> + +<br /> + +―Pois é verdade, Deus sente o de todos... Mas +quando Elle offerece o remedio á creatura e ella o +não acceita, tambem se offende e não sente +nada... +<br /> + +<br /> + +―Será o que Deus quizer. +<br /> + +<br /> + +O Custodio notou que a filha começava a impacientar-se +e fazia visiveis esforços para respeitosamente +disfarçar o seu enfado. +<br /> + +<br /> + +Resolvido a representar o seu papel de pobre humilde +e dependente da vontade de Beatriz, retirou-se, +dizendo: +<br /> + +<br /> + +―Só te peço, minha filha, que não me +sujeites á +vergonha de me pôrem fóra d'esta casa por +justiça. +Eu, já agora, estou velho, pouco se me dá da +vida... +O que quero é ter tempo de dar cabo de mim, antes +de soffrer um tal desgosto... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[159]</span> ―Não se affija, meu pae, que Deus tudo ha-de +fazer pelo melhor... +<br /> + +<br /> + +N'essa noite, o usurario, fingindo recolher-se cêdo +aos seus aposentos, conservou-se á espreita, para +vêr +se a filha fallava da janella com Paulo. +<br /> + +<br /> + +Teve um sorriso de velhaco satisfeito quando, ahi +pela meia noite, deu conta de que Beatriz descia ao +rez-do-chão para ir fallar através da janella +gradeada +com o mancebo. +<br /> + +<br /> + +―Vaes entregar-lhe o passaporte que o ha-de levar +para longe de ti!...―resmoneou escarninho o +velho, esfregando as mãos de contente.―Cincoenta +contos era o bastante para fazer fugir o homem mais +rico do Porto, quanto mais um pobre diabo que não +tem cincoenta vintens. +<br /> + +<br /> + +E certo do seu triumpho sobre a reluctancia da +filha, enfiou-se na cama. +<br /> + +<br /> + +D'ahi a pouco, ressonava. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Dias depois, Jorge entrava em casa de Paulo e +dizia-lhe: +<br /> + +<br /> + +―Ora, meu amigo, dou-te os sentimentos pela má +escolha que fizeste do homem que ha-de ser teu sogro. +<br /> + +<br /> + +―Então?―interrogou o mancebo. +<br /> + +<br /> + +―Segundo as informações que acabo de obter, o +pae da tua Beatriz é um usurario, um agiota insaciavel, +com instinctos de chacal, incapaz de deixar sahir +com pelle o desgraçado que lhe cáiha nas garras +implacaveis. +<br /> + +<br /> + +Paulo encarou o amigo: +<br /> + +<br /> + +―Tens bem a certeza d'isso?―perguntou. +<br /> + +<br /> + +―Se tenho a certeza! Não me resta a menor +duvida. Esse homem empresta a vinte e a trinta por +cento sobre hypothecas bem garantidas. Não larga das +unhas um real sem lh'o caucionarem pelo menos com +<span class="pagenum">[160]</span> +dois, e é assim que tem conseguido amontoar uma +fortuna que se calcula superior a cem contos de reis. +<br /> + +<br /> + +―Como é então que elle diz dever cincoenta +contos ao procurador Belchior e que está perdido porque +não lh'os póde pagar? +<br /> + +<br /> + +―Esse procurador Belchior―disse Jorge―é +tambem um refinado patife. Não trata senão de +causas +escuras e ha em toda a sua vida uma longa série +de revoltantes ladroeiras. Não seria para admirar que +o Custodio de Jesus lhe devesse cincoenta contos, se +esse Custodio fosse homem para se deixar roubar por +alguem. Mas não. O Belchior e o Custodio entendem-se. +Pactuaram sobre a melhor maneira de esfolar a pobre +humanidade, e não se mordem um ao outro. Vê-se, +pois, que os dois estão combinados para roubarem +um terceiro, que é esse tal Eugenio de Mello, a quem +pretendem casar com a tua namorada. +<br /> + +<br /> + +―E elle quem é? +<br /> + +<br /> + +―Quem? O Eugenio do Mello? Faltam-me ainda +esclarecimentos exactos sobre esse figurão, mas hei-de +obtel-os breve. Por emquanto, o que se sabe é que +é +um rapaz estroina que tem dado que fallar no Porto +pelas suas liberalidades e extravagancias. Suppõem-n'o +rico e é de crêr que o seja pelo interesse que o +Custodio tem em querer casar com elle a filha. +<br /> + +<br /> + +―De maneira que―observou Paulo―essa divida +dos cincoenta contos... +<br /> + +<br /> + +―Não é mais que uma phantasia para justificar +a insistencia em que o casamento se faça e compellir +Beatriz a acceitar o noivo que se lhe offerece. +<br /> + +<br /> + +―Eu já tinha suspeitado isso mesmo!―redarguiu +Paulo indignado―Mas o que precisamos agora +é provas d'essa infamia. +<br /> + +<br /> + +―Descança que hão-de apparecer. Por agora, o +que quiz foi dar-te a certeza de que o pae da tua +amada não se matará por falta do dinheiro +d'elle―que +<span class="pagenum">[161]</span> +esse está bem garantido. O que póde +é matar-se +por não poder apanhar todo o dinheiro dos outros. +Previne, pois, a pequena de que póde recusar a +mão +do tal sr. Eugenio e dormir tranquilla, que o pae não +pensa em deixar este mundo, que é muito do seu gosto +emquanto n'elle houver quem tome dinheiro a trinta +por cento, com hypotheca... +<br /> + +<br /> + +―Mas, se Beatriz recusa, certamente o pae não +transige com a decisão da filha. Tendo-lhe falhado +o plano que imaginou, ha-de buscar outro... +<br /> + +<br /> + +―E nós cá estamos! +<br /> + +<br /> + +―Pois sim, estamos... Mas não impediremos que +elle empregue a violencia, visto que os meios suasorios +lhe não deram resultado... +<br /> + +<br /> + +Jorge poz-se a rir. +<br /> + +<br /> + +―Desde que a <em>Mão-Negra</em> +protege Beatriz, o pae, +o pretendido noivo e o procurador não teem senão +que +tremer pelas consequencias do seu procedimento, se +não fôr correcto. +<br /> + +<br /> + +Paulo, n'essa mesma noite, transmittiu a Beatriz +todas as informações obtidas por Jorge +ácerca das +verdadeiras condições de fortuna em que se +encontrava +o sr. Custodio de Jesus. +<br /> + +<br /> + +―Teu pae não deve coisa algum ao procurador +Belchior―disse-lhe o mancebo―Essa divida, com +que elle finge affligir-se tanto, não passa de um pretexto +para te mover a acceitar a mão d'esse rapaz... +<br /> + +<br /> + +―Tens tu a certeza d'isso, meu Paulo?―perguntou +Beatriz admirada. +<br /> + +<br /> + +―Affirmo-te que teu pae possue uma fortuna superior +a cem contos de reis, solidamente garantidos +por boas hypothecas. Não tenhas, pois, receio de que +se mate apavorado com a ideia da miseria. +<br /> + +<br /> + +―Mas se isso é assim, como é então +que o procurador +Belchior exerce sobre meu pae um tal ascendente? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p162">[162]</a></span> ―São alliados. Quem <a href="#e17">apresentou</a> +em vossa casa +Eugenio de Mello? +<br /> + +<br /> + +―Foi o Belchior. +<br /> + +<br /> + +―Pois bem; logo, o Belchior é que planeou este +casamento. Conhecia Eugenio de Mello, viu n'elle um +bom partido para ti, apresentou-o a teu pae e os dois, +d'accôrdo, procederam de modo que levaram esse rapaz +a pedir a tua mão. Como o negocio se lhe afigura +vantajoso, teu pae emprega todos os meios para +te resolver a casar. A violencia n'estes casos é quasi +sempre inutil, quando não é contraproducente... +Portanto, +qual o melhor meio de vencer a tua resistencia? +Era levar-te pelo lado da compaixão e da ternura filial, +pois que, pelo sentimento do interesse material e grosseiro, +teu pae deve conhecer-te bem para te julgar invulneravel. +D'ahi, as suas queixas, as suas lagrimas e +as suas ameaças de pôr termo á +existencia. Mas com o +que elle não contava era comigo. Teu pae que queira +fazer uma cedencia de todos os seus haveres actuaes +por cem contos de reis, e avisa-me, porque eu promptamente +lhe apresentarei quem realise a transacção. +Propõe-lhe isto, minha amiga, e ouve o que elle te +diz. +<br /> + +<br /> + +―É extraordinario!―disse Beatriz―Suppunha +meu pae um homem de genio rispido, despotico, intractavel +mesmo, mas nunca o julguei capaz de descer +a representar comigo uma comedia tão aviltante +da dignidade paternal! +<br /> + +<br /> + +―Minha querida amiga, bem sabes que te amo +por ti, sómente por ti, e não por tua familia, e +ainda +menos pelos teus haveres, que nunca tratei de indagar +quaes fossem; e se agora sei isto, foi porque as +circumstancias me obrigaram a fixar a minha +attenção +sobre tal assumpto, e Deus sabe com que boas e generosas +intenções. Mas, visto que tanto te admiras, +<span class="pagenum">[163]</span> +permitte-me que te pergunte: sabes que genero de negocio +é o de teu pae?... +<br /> + +<br /> + +―Não sei. Meu pae nunca fallou diante de mim +sobre assumptos commerciaes. Elle foi sempre homem +de poucas palavras e de nenhuns carinhos para mim. +Eu, desde que vim do collegio, tenho vivido n'esta +casa quasi como uma estranha... A primeira vez +que lhe ouvi fallar de negocios foi agora, depois que +este rapaz se apresentou a pedir a minha mão e eu +recusei... +<br /> + +<br /> + +―Então saberás, minha bôa amiga, que +teu pae +empresta dinheiro ao juro de vinte por cento, o minimo, +sobre hypothecas que ordinariamente representam +o dôbro do valôr emprestado. Vê tu se, em +taes +condições, teu pae, que tem dinheiro para +emprestar, +póde dever cincoenta contos ao procurador Belchior +e encontrar-se na situação desesperada que diz. +<br /> + +<br /> + +―O que entendes que devo então fazer? Que +resposta deverei dar-lhe? Eu não queria vexal-o e +desafiar talvez a sua colera dizendo-lhe abertamente +que estou conhecedora da sua odiosa mentira... +<br /> + +<br /> + +Paulo reflectiu por alguns instantes. +<br /> + +<br /> + +―Tu, por emquanto, nada dizes a teu pae, senão +que estás pensando no que melhor convirá fazer em +face da grave situação em que ambos vos achaes... +<br /> + +<br /> + +―No emtanto, elle não deixará de insistir por +uma +decisão rapida... +<br /> + +<br /> + +―Muito bem; e tu dizes-lhe que não tens duvida +em acceitar o marido que se te propõe, desde que +esse casamento seja a unica solução que se te +apresente +para salvar teu pae. Antes d'isso; porém, não te +dispensas de estudar o assumpto com o cuidado e a reflexão +que elle requer. +<br /> + +<br /> + +―Mas esta situação é insustentavel +por muito +tempo, meu Paulo... +<br /> + +<br /> + +―Não te dê cuidado o resto. Antes de seres +obrigada +<span class="pagenum"><a name="p164">[164]</a></span> +a dar uma resposta definitiva, tenho esperança +que os acontecimentos hao-de obrigar teu pae a mudar +de resolução. +<br /> + +<br /> + +―Oxalá que assim seja! +<br /> + +<br /> + +O sr. Custodio de Jesus, que não perdia o menor +movimento da filha, ancioso como estava de saber que +solução daria ella ao intrincado problema dos +cincoenta +contos que se lhe propunha, sentiu que Beatriz viera +mais uma vez á janella do escriptorio conferenciar com +Paulo; e no dia seguinte, depois de almoço, pondo os +olhos enternecidos na pobre menina, perguntou-lhe com +fingido carinho: +<br /> + +<br /> + +―Então, minha querida filha, já pensaste na +nossa +terrivel situação? +<br /> + +<br /> + +―Já, meu pae―respondeu Beatriz baixando os +olhos. +<br /> + +<br /> + +―E o que resolves? +<br /> + +<br /> + +―Por emquanto, nada. +<br /> + +<br /> + +―Nada!―exclamou o snr. Custodio affectando +grande espanto.―Pois é possivel que, tendo-me tu promettido +uma resposta decisiva sobre esta questão de +vida ou de morte para mim, te mostres assim indifferente +ao que póde succeder? Para que me pediste +então essa conta que te apresentei? +<br /> + +<br /> + +Beatriz fitou um olhar persistente no pae e respondeu +placidamente: +<br /> + +<br /> + +―Pedi-lh'a, meu pae, para ter bem a certeza do +que cumpre fazer. +<br /> + +<br /> + +―O que! Pois não sabes o que cumpre fazer? +Quando se devem cincoenta contos de reis e o crédor +os exige, o que cumpre é pagar. +<br /> + +<br /> + +―Pagar ou casar...―replicou Beatriz com amarga +ironia. +<br /> + +<br /> + +―Ninguem te obriga a isso. Eu mesmo, que sou +teu pae e que podia impôr a minha <a href="#e18">auctoridade</a> +paterna, +prefiro deixar-te ampla liberdade na escolha +<span class="pagenum">[165]</span> +do homem que ha-de ser teu esposo, embora eu tenha +de sacrificar a vida... +<br /> + +<br /> + +―Não lhe será preciso sacrifical-a, meu pae. +<br /> + +<br /> + +―Isso tudo são palavras, Beatriz... Mas as dividas +não se pagam com palavras... Prometteste-me +resolver a questão, e afinal já lá +vão uns poucos de +dias e tão adiantados estamos hoje como hontem. +<br /> + +<br /> + +―Alguma coisa temos já adiantado... +<br /> + +<br /> + +―O que? +<br /> + +<br /> + +―A resolução em que estou de salvar meu pae... +<br /> + +<br /> + +―Sério, Beatriz!? Tu acceitas o casamento que +se te propõe, minha filha? +<br /> + +<br /> + +―Se outro recurso não houver, acceital-o-hei. +<br /> + +<br /> + +―Pois olha que não tens outro recurso, crê! +<br /> + +<br /> + +―Veremos. +<br /> + +<br /> + +―Pensas ainda em conjurar o mal que nos ameaça +por outra forma? +<br /> + +<br /> + +―Talvez. +<br /> + +<br /> + +―Ah! minha filha, minha filha! se confias no +auxilio de qualquer das pessoas nossas amigas, desde +já te digo que nada conseguirás... Os amigos +fogem +da desgraça como as andorinhas fogem do inverno. +Se lhes fallamos em dinheiro,―emigram! +<br /> + +<br /> + +Beatriz meneou a cabeça e respondeu com voz submissa, +porém firme e serena: +<br /> + +<br /> + +―Quando se é leal e sincero para com todos; +quando se não abrigam no peito sentimentos de egoismo +e de torpe má fé, a Providencia, que vela pelos +bons, envia-nos sempre alguem que nos comprehende +e nos vale nos lances mais desesperados da nossa vida... +<br /> + +<br /> + +―Pois sim!―tornou o sr. Custodio n'um tom de +mal disfarçado motejo―é bom a gente confiar na +Providencia, mas é muito melhor conhecer o mundo e +tratar cada qual de se livrar de apuros pelos meios +<span class="pagenum">[166]</span> +que puder... A Providencia já não faz pouco em +nos +enviar esse rapaz que te quer para esposa... +<br /> + +<br /> + +―Pois se ella se não manifestar por outra forma, +acceitarei o casamento que se me offerece... Mas, +antes d'isso, meu pae, rogo-lhe que me deixe pensar +reflectidamente sobre o caso... +<br /> + +<br /> + +―Pensa o que quizeres, minha filha, e resolve o +que te parecer melhor, comtanto que não pareça, +pela +demora em dar uma resposta decisiva, que estamos a +caçoar com esse rapaz e com o Belchior que o apresentou +e que é, como sabes, nosso crêdor... +<br /> + +<br /> + +―Ninguem póde tomar como caçoada o facto de +eu querer reflectir maduramente antes de dar um +passo de que vae depender o meu destino... +<br /> + +<br /> + +―Sim, isso é justo...―tornou o Custodio com +brandura―Mas quantas no teu logar, minha filha, +se o Eugenio lhes pedisse a mão, lhe estenderiam logo +as duas sem mais ceremonias, antes que elle se arrependesse! +<br /> + +<br /> + +―Não vejo vantagem nenhuma n'isso. Se tiver de +se arrepender, mais vale que seja antes do que seja +depois. Justamente para que o arrependimento me não +sobrevenha, é que eu desejo pensar bem no que vou +fazer, antes de me decidir... +<br /> + +<br /> + +―Faze lá como entenderes. Para mim, como já +pouco posso durar, a questão está resolvida: +é mais +mez, menos mez, mais dia, menos dia... Quando se +chega á minha idade, a vida já pouco prende... +Preferiria +morrer socegado na minha cama, da morte que +Deus me desse, e não ter eu que pôr termo +á vida para +me livrar de vergonhas... Mas se Deus tiver determinado +o contrario, cumprirei resignado a sua divina +vontade... Acredita que, se me afflijo, não é +tanto +por mim como por ti, a quem eu não queria deixar +no mundo sosinha, pobre e desamparada! +<br /> + +<br /> + +―Sim, meu pae...―respondeu Beatriz levemente +<span class="pagenum">[167]</span> +ironica―Eu conheço quanto lhe devo pelas provas de +carinho que sempre me tem dado... Mas não se afflija +por mim como eu não me afflijo por meu pae, +pois que Deus ha de valer-nos... +<br /> + +<br /> + +―Tens essa fé, Beatriz? +<br /> + +<br /> + +―Tenho a certeza, meu pae. Pois não lhe disse +já que, se outro remedio não houver, casarei com +o sr. +Eugenio de Mello? +<br /> + +<br /> + +―Deus te abençôe, minha filha, pela grande +consolação +que me dás! E has-de ser feliz, crê, porque o +Eugenio é bom rapaz e está perdidamente +apaixonado +por ti. +<br /> + +<br /> + +―É pena que eu não possa apaixonar-me por +elle... +<br /> + +<br /> + +―Minha filha, depois, a convivencia faz tudo... +Pensa, pensa e has-de vêr que não encontras outra +solução melhor do que esta para nos tirar de +difficuldades: +casar e deixar de tolices... +<br /> + +<br /> + +Disse, e retirou intimamente satisfeito, por lhe parecer +que tinha com o seu discurso adiantado um +grande passo no caminho do ambicionado casamento +que sonhava para a filha. +<br /> + +<br /> + +―Naturalmente―ia dizendo comsigo―lá o tal +franganito mostrou-se desanimado e ella vae perdendo +a esperança que tinha n'elle... É +questão de mais +dois dias ou tres, e ella ahi está a dizer que sim, que +se resolve a querer o Eugenio... Se todos os paes +fizessem como eu... se quando as filhas se inclinam +para um bigorrilha sem cinco reis, lhes dessem logo +com as precisas, fazendo-as pensar na pobresa e na +miseria que as espera, não se via tanto casamento +desgraçado como se vê! +<br /> + +<br /> + +E esfregava as mãos, satisfeito de haver conseguido +illudir a filha. +<br /> + +<br /> + +Mal sabia o velhaco que n +Mal sabia o velhaco que n'este caso, o verdadeiro +illudido era elle! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[168]</span> +<h3><a name="c11"></a>XI<br /> + +<br /> + +João Lazaro +</h3> + +<br /> + +<br /> + +Jorge tinha o habito de ir todos os dias ao +<em>Suisso</em> +tomar café, depois de jantar. +<br /> + +<br /> + +Alli passava uma hora em palestra amena com os +amigos, se os encontrava, ou a lêr os jornaes estrangeiros +que o criado lhe punha diante―para matar +tempo. +<br /> + +<br /> + +N'estas rapidas leituras encontrava coisas que +pareciam interessantes, porque ás vezes puxava do +seu livro de lembranças e tomava notas a lapis nas +folhas em branco. +<br /> + +<br /> + +Foi n'uma occasião d'estas que sentiu bateram-lhe +amigavelmente no hombro e ao mesmo tempo uma voz +dizer-lhe: +<br /> + +<br /> + +―Estás a copiar alguma receita para te lembrares +dos amigos? +<br /> + +<br /> + +Jorge levantou a cabeça e encarou o recem-chegado. +<br /> + +<br /> + +―És tu, João!―exclamou levantando-se com +impeto e estendendo os braços para elle.―Como estava +longe de te ver agora aqui! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p169">[169]</a></span> +Os dois abraçaram-se effusivamente e sentaram-se +em seguida. +<br /> + +<br /> + +―Ora o meu João Lazaro!―tornou Jorge com +alegria―Com que, voltaste ao Porto! +<br /> + +<br /> + +―É verdade!―disse o outro recostando-se na +cadeira com importancia e tomando uma attitude de +principe que regressa do exilio―O bom filho á casa +torna... +<br /> + +<br /> + +―E o bonito é que encontras a casa como a deixaste... +<br /> + +<br /> + +―Infelizmente. Isso, porém, não me admira nem +espanta. Não era de esperar outra cousa desde que +eu faltava cá para a reformar. +<br /> + +<br /> + +―Quando chegaste? +<br /> + +<br /> + +―Hoje de manhã. +<br /> + +<br /> + +―Que tempo te demoras? +<br /> + +<br /> + +―Não sei. Venho conferenciar com uns amigos sobre +assumpto importante, e não posso calcular o tempo +que isso me levará... +<br /> + +<br /> + +―Não tencionas fixar residencia no Porto? +<br /> + +<br /> + +―Não. Isto é pequeno demais para mim... +<br /> + +<br /> + +―Bravo, seu João! Você está +crescido!―disse +Jorge galhofeiramente. +<br /> + +<br /> + +―Pois tu comprehendes um vulto politico de certa +<a href="#e19">importancia</a> a viver no Porto? +Já +Lisboa é uma deprimente +miseria, meu caro! Mas, emfim, como não ha +outra terra maior, não ha remedio senão +resignarmo-nos +com ella... +<br /> + +<br /> + +Lançou em volta de si um olhar superior, de desdem, +mordeu a ponta do charuto caro, com affectação, +e exclamou: +<br /> + +<br /> + +―Que mal servido está este café! Não +ha aqui +um criado que venha receber as ordens?... +<br /> + +<br /> + +Jorge bateu as palmas, chamando o criado. +<br /> + +<br /> + +―O que tomas?―perguntou ao amigo. +<br /> + +<br /> + +―Vou tomar cerveja. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[170]</span> ―Cerveja a este senhor―disse Jorge ao criado +que se aproximara. +<br /> + +<br /> + +Este relanceou um olhar curioso para o freguez +que dava pelo nome de João Lazaro, e perguntou: +<br /> + +<br /> + +―Ingleza? +<br /> + +<br /> + +―Ingleza, sim!―respondeu o João Lazaro. +<br /> + +<br /> + +E voltando-se para Jorge, emquanto o criado se +afastava a cumprir a ordem: +<br /> + +<br /> + +―Unica coisa em que transijo com esses bebedos +inglezes! +<br /> + +<br /> + +―Pagas-lhes assim a affeição que manifestam pelo +nosso vinho... +<br /> + +<br /> + +―Pelo nosso vinho e pela nossa Africa!―disse +o João Lazaro com olhar torvo. +<br /> + +<br /> + +―Pela <em>nossa</em>! Pois o Brazil tambem +tem Africa?―interrogou +motejador o amigo de Paulo―Porque +tu, meu caro Lazaro, se bem me recordo, és brazileiro... +<br /> + +<br /> + +―Mas portuguez pelo coração!―respondeu o outro +com emphase. +<br /> + +<br /> + +E accrescentou: +<br /> + +<br /> + +―Ah! se não fosse o coração, cuidas +tu que eu +teria posto a minha mocidade, a minha energia, o meu +talento, ao serviço de um paiz tão pequeno como +este?... +<br /> + +<br /> + +―Effectivamente, meu rapaz, tu és grande de +mais para uma terra tão pequena como esta... E ella +assim o comprehendeu expulsando-te do seu seio por +duas vezes... Porque não vaes tu servir o Brazil, que +é a tua patria, com a grande vantagem de encontrares +lá já realisado o teu ideal politico? +<br /> + +<br /> + +―Já te disse: sou portuguez pelo +coração... +<br /> + +<br /> + +―E ninguem é propheta na sua terra. Ah! velhaco! +sabe-te melhor o pão +<em>negro</em> das terras brancas, +do que a farinha branca das terras negras... +<br /> + +<br /> + +A conversação foi interrompida n'este ponto pela +<span class="pagenum">[171]</span> +aproximação de Eugenio de Mello que, tendo +avistado +João Lazaro, dirigiu-se a elle familiarmente: +<br /> + +<br /> + +―Ó João―preveniu o bohemio―não te +compromettas +para amanhã á noite, porque temos ceia de +rapazes em tua honra... +<br /> + +<br /> + +―Oh, diabo!―replicou o Lazaro, sempre com +ares de grande senhor―Para amanhã não +será possivel, +porque tenho negocios importantes a resolver e +não sei se de dia ficarão concluidos... +<br /> + +<br /> + +―Não sei; arranja-te como puderes, porque a rapaziada +resolveu isto e é uma semsaboria se tu não +appareces... Demais a mais, o elemento feminino, o +elemento galante, faz-se representar, e tu não +pódes +deixar de ser gentil para com as damas. +<br /> + +<br /> + +―Está bem: irei. +<br /> + +<br /> + +E voltando-so para Jorge: +<br /> + +<br /> + +―Não se conhecem? +<br /> + +<br /> + +―Não tenho essa honra―disse Jorge. +<br /> + +<br /> + +João Lazaro então apresentou: +<br /> + +<br /> + +―O meu amigo Eugenio do Mello... +<br /> + +<br /> + +E para este: +<br /> + +<br /> + +―O meu amigo Jorge de Gusmão. +<br /> + +<br /> + +Os dois cortejaram-se. +<br /> + +<br /> + +―Estimo conhecer v. ex.<sup>a</sup>―disse um. +<br /> + +<br /> + +―Igualmente―disse o outro. +<br /> + +<br /> + +E apertaram-se as mãos. +<br /> + +<br /> + +―Como se trata de uma festa intima, de amigos +pessoaes do João―disse Eugenio de Mello, dirigindo-se +a Jorge―V. ex.<sup>a</sup>, que é tambem amigo +d'elle, +dar-nos-ha muito prazer, comparecendo. É no Palacio, +ás 10 da noite. +<br /> + +<br /> + +―Agradeço, mas é-me absolutamente impossivel, +o que muito sinto, associar-me a essa homenagem de +estima ao nosso amigo, porque amanhã de tarde devo +partir para Braga, aonde me chamam negocios urgentes +e inaddiaveis―respondeu Jorge. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[172]</span> ―Creia v. ex.<sup>a</sup>―tornou Eugenio amavelmente―que +teria immenso prazer em o vêr lá... +<br /> + +<br /> + +Jorge agradeceu com uma inclinação de +cabeça. +<br /> + +<br /> + +O bohemio, que não se sentara á mesa, +despediu-se, +dizendo ao Lazaro: +<br /> + +<br /> + +―Vê lá! Se não nos virmos antes, +ás 10, lá te +esperamos. Fui encarregado de te dirigir o convite e +agora não queiras collocar-me mal perante a rapaziada. +<br /> + +<br /> + +Quando Eugenio se afastou, Jorge que, pelo nome, +reconhecera n'elle o rival de Paulo, perguntou: +<br /> + +<br /> + +―Quem é este rapaz? +<br /> + +<br /> + +O outro sorriu desdenhosamente. +<br /> + +<br /> + +―Um aventureiro!―respondeu. +<br /> + +<br /> + +―A classificação é pouco lisonjeira +para ti e menos +ainda para elle... +<br /> + +<br /> + +―De accordo. Mas é verdadeira. De resto, sabes +que um homem politico tem por vezes a dolorosa e imprescindivel +necessidade de se relacionar com a gente +da mais baixa especie. +<br /> + +<br /> + +―Mas este rapaz é...? +<br /> + +<br /> + +―É um typo como ha muitos. Apresenta-se bem +encadernado, insinua-se na confiança da gente fina e +é +util para muita coisa que nós outros não podemos +fazer. +<br /> + +<br /> + +―E vive d'isso? +<br /> + +<br /> + +―Vive de tudo. A sua existencia é uma +série de +expedientes engenhosos. +<br /> + +<br /> + +―Suppunha-o rico. Tenho-o visto frequentando a +melhor roda de rapazes e passa entre elles por ser possuidor +de grande fortuna... +<br /> + +<br /> + +―Essa é a sua grande habilidade. Explora o jogo +e o amor com tanta arte que, em vez de explorador, +parece elle o explorado. Agora, por exemplo, gasta +sommas enormes que lhe dão uma apparencia de rapaz +rico, á custa de uma loura, que é a +<em>sanguesuga</em> +deliciosa do commendador Garcia... Conheces? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[173]</span> ―Conheço o commendador Garcia perfeitamente. +<br /> + +<br /> + +―E a loura? +<br /> + +<br /> + +―Poderei tel-a visto, mas não estou certo. +<br /> + +<br /> + +―Não sabes nada!―volveu o João Lazaro +desdenhoso. +<br /> + +<br /> + +―Mas como é que tu, chegando hontem ao Porto, +já pudeste saber tudo isso? +<br /> + +<br /> + +―Disse-m'o elle, porque o conheço de Lisboa, e +comigo não tem reservas. Conta-me tudo. +<br /> + +<br /> + +―Então, devia contar-te tambem que tem o casamento +ajustado com uma rica herdeira... +<br /> + +<br /> + +―Elle!? +<br /> + +<br /> + +―Elle, sim! +<br /> + +<br /> + +―Oh, diabo! Não me disse nada a esse respeito. +Fallas sério? +<br /> + +<br /> + +―Absolutamente sério. E o mais interessante é +que o pae da noiva suppõe-n'o um rapaz riquissimo... +<br /> + +<br /> + +―É boa! E não me disse nada! Que grande patife! +<br /> + +<br /> + +―Pois é verdade. +<br /> + +<br /> + +―Tens bem a certeza? +<br /> + +<br /> + +―Conheço a noiva... +<br /> + +<br /> + +―Ella quem é? +<br /> + +<br /> + +―É filha de um capitalista, chamado Custodio de +Jesus... +<br /> + +<br /> + +―Não conheço. +<br /> + +<br /> + +―Anda n'isso mettido um procurador chamado +Belchior... Esse deves conhecer... +<br /> + +<br /> + +―De nome apenas... Tenho d'esse homem as peores +referencias, já do tempo em que vivi no Porto. +<br /> + +<br /> + +―Pois mantem ainda hoje a boa reputação que +já +gosava no tempo em que ouviste fallar d'elle. O que +ou não sabia era que especie de +relações podiam ligar +o procurador Belchior a este rapaz. Mas, visto dizeres-me +que elle é um cavalheiro d'industria, está +explicado +<span class="pagenum">[174]</span> +o caso. Os dois combinaram-se para roubar o +capitalista, apanhando-lhe a filha... +<br /> + +<br /> + +―É bonita essa pequena? +<br /> + +<br /> + +―Creio que sim. +<br /> + +<br /> + +―Crês? +<br /> + +<br /> + +―Nunca a vi, e por isso não a conheço +pessoalmente. +Mas tenho d'ella informações que a dão +como +uma belleza indiscutivel. +<br /> + +<br /> + +―É pena, porque, se é formosa, merece outro +marido +que não um <em>escroc</em>... Mas +que imbecil progenitor +é esse, e demais a mais capitalista, que entrega +assim a filha a um typo como é o Eugenio de Mello? +<br /> + +<br /> + +―Não sei. Naturalmente suppõe-n'o rico, como +toda +a gente. +<br /> + +<br /> + +―Pois, meu amigo, se te interessas por essa pequena, +avisa o pae da cilada em que o querem fazer +cahir. +<br /> + +<br /> + +―Eu!―replicou Jorge―Não tenho nada com +isso... Deixemos lá o rapaz. Póde ser que a +fortuna +o regenere. +<br /> + +<br /> + +―A quem? Àquelle? É impossivel! Jogador, bebedo, +extravagante, só está bem quando gasta ouro +ás mãos cheias. Em Lisboa explorava o +amôr de varias +Messallinas da alta roda... Aqui, no Porto, segue +o mesmo caminho, e com bastante felicidade pelo que +vejo, pois que o encontro levando vida do principe e +bellamente relacionado... +<br /> + +<br /> + +―E melhor estará d'aqui por alguns dias, porque +o casamento, segundo se diz, está para breve... +<br /> + +<br /> + +―Os jornaes já deram noticia? +<br /> + +<br /> + +―Não. Este negocio trata-se no maior segredo. +E é natural, porque elle não deve desejar que a +formosa +lourinha o saiba e lhe transtorne os planos... +<br /> + +<br /> + +―É curioso!―tornou o João Lazaro―Como as +mulheres são estupidas nos seus amôres! Essa loura +a que te referes teve a audacia de me resistir. Assediei-a +<span class="pagenum">[175]</span> +durante muitos mezes, nos primeiros tempos +da sua ligação com o commendador Garcia. Eu era +incapaz de a explorar pecuniariamente... Contentava-me +em que não me fizesse exigencias de dinheiro, +porque para isso lá estava <em>o +outro</em>. Escrevi-lhe +cartas apaixonadas no meu estylo... tu sabes! todo +litterario, que até era mal empregado n'aquella +couçoeira +de fórmas divinas, incapaz de me comprehender... +Pois, meu caro, entrincheirou-se na sua fidelidade +ao commendador e não houve de quê! Por fim, +apparece este idiota, sem instrucção, sem +elegancia, +sem espirito, sem nada que o recommende, e conquista-a! +<br /> + +<br /> + +―É sempre assim, meu amigo. As mulheres teem +uma tendencia especial para escolherem o peor. +<br /> + +<br /> + +―Não são só as mulheres. Toda a +humanidade é +assim. Segues uma estrada que se bifurca em dois caminhos, +um dos quaes te conduz e outro te afasta do +sitio a que te diriges. Escolhes ao acaso. Pois tem a +certeza de que o que escolheste é sempre o peor. Mas +o que me irrita é a fortuna estupida d'esse imbecil. +Não vale a pena um homem ter talento, ser distincto, +ser finamente superior a essas vulgaridades ignobeis +que para ahi enxameiam, porque as mulheres, meu +caro, hão-do ser sempre pela materia contra o espirito! +<br /> + +<br /> + +O João Lazaro atirou fóra o charuto com affectado +desdem e levou o copo da cerveja aos labios com a solemnidade +de quem estivesse dando exemplos de suprema +elegancia n'um salão aristocratico. +<br /> + +<br /> + +Jorge Gusmão disfarçou um sorriso de motejo e +disse: +<br /> + +<br /> + +―Quem te ouvir ha de julgar que tens sido infeliz +com as damas... +<br /> + +<br /> + +―Não; não tenho sido. Muito pelo contrario, +tenho +sido alvo do carinhoso interesse de mulheres finas, +<span class="pagenum">[176]</span> +elegantes, da primeira roda. Mas essas, impede-me a +minha posição politica de lhes corresponder, +porque se +tal fizesse, as mediocridades do meu partido tratariam +logo de lançar sobre mim a suspeição, +accusando-me +de me deixar subornar pela aristocracia. +<br /> + +<br /> + +―Sacrificas o amor á politica... +<br /> + +<br /> + +―Ao meu ideal sacrifico tudo!... E só assim, +crê, é que um homem póde affirmar-se +capaz de salvar +um paiz á beira do abysmo... +<br /> + +<br /> + +―Mas, ó João, tu seriamente pensas em salvar os +outros ou em te salvar a ti? Porque afinal, sejamos +francos, tu que diabo tens sacrificado ou o que é que +pódes sacrificar ainda? Tu és pobre, tu nunca +possuiste +dez reis, tu não passavas de um anonymo perdido +na massa dos anonymos, dos obscuros, dos humildes. +Chegou uma occasião em que julgaste poder +especular com o sentimento patriotico do paiz e especulaste, +sem criterio, sem fé, sem consciencia, armando +á popularidade, muito disposto a sacrificar os que te +escutavam ao teu interesse pessoal... Erraste no calculo, +porque, na hora em que julgavas ter triumphado, +cahiste. Depois, por coherencia com os teus planos de +ambição, e tambem porque te era impossivel +retrogradar, +visto que não tinhas adquirido valôr que te desse +direito a uma cotação rasoavel no campo adverso, +seguiste +ávante, simulando convicção onde +só havia +má fé. +<br /> + +<br /> + +―Não é tanto assim, meu caro―protestou o +João +Lazaro frouxamente. +<br /> + +<br /> + +―Que diabo! sabes que te conheço e porisso de +nada te vale o fingimento para comigo... Tu és um +especulador politico, como o teu amigo Eugenio de Mello +é um especulador amorôso... Vives dos +<em>kalenderes do +ideal</em> como elle vive das infelizes sonhado como elle vive +das infelizes sonhadoras do +amôr. +As tuas fontes de receita são tão occultas e +tão inconfessaveis +como as d'elle. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[177]</span> ―Jorge, tu has-de ser sempre brutal com os amigos! +<br /> + +<br /> + +―Sincero, sincero e leal é que eu sou. Não +admitto que os amigos, porque o são, vão julgando +que me illudem e que não os conheço cabalmente. +<br /> + +<br /> + +―Eu não quiz nem quero illudir-te... Confio demasiado +na tua amizade para não ser sincero comtigo. +Mas que demonio queres tu que eu faça n'estas +circumstancias? +Eu bem sei que foi um mau passo o que +dei misturando-me com esta canalha... Mas agora que +remedio tenho senão proseguir no caminho mau em que +me lancei? +<br /> + +<br /> + +―Tambem não é tão mau como +dizes. Que poderias +tu esperar dentro das velhas normas? A manga +d'alpaca e desoito a vinte mil reis por mez com papel +dos officios para as intermittencias jornalisticas. Mais +nada, porque as repartições estão +atulhadas de ociosos +e mais um importa já um verdadeiro attentado +orçamental. +Assim, dás-te ares de martyr, de principe desthronado, +diante dos papalvos que vêem uma aureola +de gloria a circumdar-te a fronte, e pedes-lhes dinheiro +emprestado para poderes sustentar o prestigio da causa... +<br /> + +<br /> + +―Oh! mas estão já desmoralisados... +São uns +verdadeiros biltres! Imagina tu que, para vir ao Porto +onde preciso de me mostrar, porque quem não apparece +esquece, foram-me precisos seis idiotas dos mais fanaticos +para, espremidos e quotisados, poderem dar-me +duzentos mil reis! +<br /> + +<br /> + +―Pois sim, meu bom Lazaro... Concordo que +nem tudo sejam rosas no teu caminho. Mas tu em certo +modo tens tido a culpa. +<br /> + +<br /> + +―Eu? +<br /> + +<br /> + +―De certo. Tens habitos de grandeza, jantas como +um principe, o que não custa a fazer quando se tem +ás ordens a bolsa dos parvos. Mas os parvos tambem +ás vezes ganham juizo... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[178]</span> ―Que queres tu que eu faça? Nas circumstancias +em que me encontro, se deixo de honrar a minha +posição, +apresentando-me em harmonia com o meu nome, +sou um homem perdido, sou um homem morto pelo ridiculo!... +<br /> + +<br /> + +―E o que vens tu fazer ao Porto? +<br /> + +<br /> + +―Venho arranjar dinheiro... +<br /> + +<br /> + +―Para quem? +<br /> + +<br /> + +―Para mim. +<br /> + +<br /> + +―E suppões que t'o dêem? +<br /> + +<br /> + +―Ainda aqui ha gente de muito bôa fé... +<br /> + +<br /> + +―Mas da outra vez não deixaste a vinha vindimada? +<br /> + +<br /> + +―Isso já esqueceu. Agora o processo é outro... +<br /> + +<br /> + +―Bem; anda lá! +<br /> + +<br /> + +João Lazaro levantou-se. +<br /> + +<br /> + +―E tu, sempre o mesmo? +<br /> + +<br /> + +―O mesmo sempre. +<br /> + +<br /> + +―És um homem singular! +<br /> + +<br /> + +―Divirto-me com isto... Gosto de observar a humanidade, +que é realmente o livro mais curioso e mais +difficil de lêr. +<br /> + +<br /> + +―Um homem com o teu espirito, com a tua intelligencia +e com a tua fortuna podia ir longe, se quizesse, +n'este paiz onde só os audaciosos vencem. +<br /> + +<br /> + +―Não sou ambicioso e confio muito pouco nos homens. +Conheço-os tão bem! +<br /> + +<br /> + +João Lazaro consultou o relogio. +<br /> + +<br /> + +―Ainda posso tornar a vêr-te antes de partir? +<br /> + +<br /> + +―Pódes. Sabes a minha casa. Encontras-me lá +todos +os dias até á uma hora da tarde. +<br /> + +<br /> + +―Irei dizer-te adeus. +<br /> + +<br /> + +―Pois sim. +<br /> + +<br /> + +Apertaram-se as mãos e despediram-se. +<br /> + +<br /> + +João Lazaro sahiu com ar altivo e magestoso, relanceando +<span class="pagenum">[179]</span> +um olhar de despreso pelos frequentadores +abancados ás mesas. +<br /> + +<br /> + +Já na rua, ia murmurando: +<br /> + +<br /> + +―Ora o patife do Eugenio de Mello, que vae abotoar-se +com a filha de um capitalista! +<br /> + +<br /> + +Os labios grossos, de mulato, vincaram-se-lhe n'um +sorriso mau. É que ao cerebro accudira-lhe um pensamento +terrivel. +<br /> + +<br /> + +―Bôa occasiao de lhe empalmar a loura e de me +vingar d'elle pelo cuidado com que occultou de mim o +seu projecto de casamento!―rosnou por entre dentes―Decididamente, +eu sou um homem de genio e não +devo consentir que este idiota me passe adiante e se +me avantage em amôr, em fortuna e em +posição social. +<br /> + +<br /> + +João Lazaro, vaidoso, vingativo e perverso, raça +de preto e branco, minado de inveja, roido +d'ambições, +irritava-se e agitava-o um rancor profundo quando +algum dos seus amigos ou companheiros de mocidade, +por esforço proprio, por acaso, ou por capricho da +fortuna, melhorava de posição e subia mais um +furo +na escala das considerações sociaes. +<br /> + +<br /> + +A perspectiva de vêr Eugenio de Mello casado com +a filha de um capitalista, pompeando grandezas e vivendo +a vida feliz que o dinheiro dá, acendera-lhe um +inferno de invejas na alma parda como um ceu de +maio, prenhe de trovões, e como a propria +<em>parda</em> brazileira +de quem era filho e cujas feições retratava na +côr bronzeada, nos labios grossos, nos dentes brancos, +no nariz de ventas largas e acachapadas e no cabello, +onde havia ainda uns longes de carapinha. +<br /> + +<br /> + +De resto, alto, entroncado, de andar desenvolto e +um tanto gingado, de preto <em>capoeira</em>, +tinha o quer +que era de elegante e distincto, e chegaria mesmo a +ser attrahente e sympathico, se não fôra a +pretensão +ridicula que se lhe trahia nos gestos e attitudes de +grande senhor. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[180]</span> +Tal era physica e moralmente João Lazaro, que o +leitor terá occasião de apreciar melhor em +capitulos +subsequentes. +<br /> + +<br /> + +Por agora, deixemol-o ruminar o seu infame plano +de anniquilar o amigo que o convidava para uma ceia +em sua honra, e vamos nós travar +relações com outros +personagens importantes d'esta complicada mas veridica +historia. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[181]</span> +<h3><a name="c12"></a>XII<br /> + +<br /> + +Velhos conhecimentos +</h3> + +<br /> + +<br /> + +Em S. Martinho de Campo, concelho da Povoa de +Lanhoso e não longe da casa de Norberto de Noronha, +que os leitores da <em>Irmã +Dorothea</em> já conhecem, havia +uma outra casa de bôa apparencia,―<em>casa +nobre</em>, como +lá se diz,―mas de severo e melancholico aspecto. +<br /> + +<br /> + +Permanecia a maior parte do anno fechada, e apenas +na quadra estival as suas janellas se abriam e as +salas se illuminavam n'um rumor de alegria e de festa. +<br /> + +<br /> + +É que a proprietaria d'essa casa, D. Aurelia de +Magalhães, tendo casado e perdido marido e filho no +curto espaço de quinze dias, ao cabo de cinco annos +do seu consorcio, envolvera-se nos crepes da viuvez e +encerrara-se n'uma tristeza calma e resignada que a +solidão do seu viver tornava ainda mais profunda. +<br /> + +<br /> + +Occupando um aposento interior do edificio, servida +apenas por uma velha criada que fôra sua ama de +leite, raras vezes sahia do seu quarto; mas quando +sahia, n'um curto passeio, nunca transpunha os limites +da vasta propriedade murada e inaccessivel ás vistas +exteriores. +<br /> + +<br /> + +Os caseiros encarregados do amanho e semeadura +<span class="pagenum">[182]</span> +das terras passavam mezes que a não viam, nem mesmo +ao domingo á hora da missa, na capella da casa; +porque a pobre viuva, occulta nas sombras do côro que +communicava com o interior da vivenda, podia assistir +sem ser vista á celebração do santo +sacrificio. +<br /> + +<br /> + +O irmão d'esta senhora, Gustavo de Magalhães, o +sensato academico que na <em>Irmã +Dorothea</em> vimos desempenhar +um curto mas sympathico papel como amigo +de Julio de Montarroyo e do infeliz Norberto de Noronha, +doutorara-se em direito e, impulsionado pelo talento, +fôra abrir banca de advogado em Lisboa, onde +conquistou rapidamente uma reputação +brilhantissima +de orador e jurisconsulto notavel. +<br /> + +<br /> + +Quando soube que a irmã enviuvára, quiz leval-a +a viver comsigo na capital; mas a magoada viuva recusou, +preferindo gemer as saudades do esposo e do +filho mortos na solidão de S. Martinho do Campo, a +abafal-as no ruidoso e atordoante bulicio da grande cidade. +<br /> + +<br /> + +Gustavo de Magalhães, respeitando a dôr da +irmã, +não insistiu, e como tambem na vida agitada da capital +as saudades da sua aldeia o pungiam, reservava +os mezes do estio para ir em piedosa romagem ao berço +natal, e alli se demorava de junho a setembro. +<br /> + +<br /> + +Era então, quando elle chegava com a mulher e +os filhos―e já contava nada menos de tres―que a +vida entrava na casa, e ao silencio e á tristeza succediam +o ruido e a alegria. +<br /> + +<br /> + +Os amigos vinham de Braga e Guimarães visital-o, +demoravam-se dias, havia passeios, jantares na Senhora +do Porto, os pequenos chilreavam na casa logo de madrugada +e arrastavam a titi a longas caminhadas pelo +campo. +<br /> + +<br /> + +E D. Aurelia, sempre triste e resignada na sua dôr +e no seu luto, acariciava os pequenos e mostrava-se +contente com a alegria dos outros. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[183]</span> ―Aurelia―dizia-lhe o irmão―se vivesses um +anno em Lisboa, verias como isso te fazia bem. +<br /> + +<br /> + +―Não, Gustavo, não―replicava a dolorida +viuva.―Aqui +nasci, aqui vivi feliz na companhia de meu +marido e de meu filho, e aqui desejo morrer na saudade +dos que me fôram queridos. +<br /> + +<br /> + +―Mas este ruido, esta alegria de que nós te cercamos +contraria-te, não é verdade? +<br /> + +<br /> + +―Não, meu irmão! De modo nenhum. A vossa +alegria é a minha alegria, a unica que póde +ser-me +suave alem da que sinto na recordação dos entes +que +perdi. +<br /> + +<br /> + +No emtanto, D. Aurelia, quando o irmão se retirava +para a capital, sentia como que uma especie de allivio +intimo, por poder regressar ao silencio e á +solidão dos +seus habitos, silencio e solidão que eram um linitivo +ás amarguras do seu espirito. +<br /> + +<br /> + +Ora é justamente n'uma d'estas visitas de Gustavo +á sua aldeia que nós vamos encontrar a casa de D. +Aurelia de Magalhães em festa. +<br /> + +<br /> + +Gustavo chegara havia oito dias e os velhos amigos +e condiscipulos, ao saberem da sua chegada, apressaram-se +a visital-o. +<br /> + +<br /> + +Vamos encontral-os reunidos no vasto salão, á +noite, +com as janellas e sacadas abertas, rindo e conversando, +emquanto que D. Albertina, a gentil esposa de Gustavo, +sentada ao piano, executa algumas das modernas +composições mais em voga. +<br /> + +<br /> + +A noite estava bella, de luar―d'esse luar sereno +e calmo das noites claras do estio. +<br /> + +<br /> + +Em volta do velho palacete, reinava a dôce paz +silenciosa das aldeias, apenas quebrada pelo rumôr +dos mil insectos que, n'um admiravel concerto, faziam +ouvir essa magica symphonia dos campos adormecidos, +symphonia cujo maravilhoso segredo de +orchestração +nenhum grande maestro pôde ainda devassar. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[184]</span> +Na sala, o piano calara-se e os hospedes de Gustavo +de Magalhães, attrahidos pela belleza da noite, +vieram debruçar-se nas sacadas continuando as +conversações +em que estavam entretidos. +<br /> + +<br /> + +―É verdade, sabes, Gustavo?―disse D. Aurelia―vende-se +outra vez o palacete que foi de Norberto +de Noronha. +<br /> + +<br /> + +―Vende?―respondeu o advogado―Então o Pinho, +o brazileiro para onde vae? +<br /> + +<br /> + +―Volta para o Brazil, segundo contou hoje a mulher +do caseiro á Mathilde, á minha criada de quarto. +<br /> + +<br /> + +―É singular! Mas o Pinho, segundo se dizia, +veio senhor de uma grande fortuna e não tencionava +tornar para o Brazil. +<br /> + +<br /> + +―O Pinho―esclareceu o medico de partido, o +dr. Gomes, que fôra substituir o Negrão, fallecido +ha +annos―tem soffrido, ao que me consta, prejuizos importantes +no Brazil... Depois, elle não é um homem +economico... tem dispendido. +<br /> + +<br /> + +―Pois parece que não deveria ser assim―objectou +Gustavo―Um homem, com uma fortuna superior e +que vem enterrar-se n'uma aldeia, não tem rasões +para +dissipar as fabulosas sommas que o doutor diz... Em +que? Se vivesse no Porto ou em Lisboa, comprehendo. +Mas aqui, em S. Martinho de Campo! +<br /> + +<br /> + +―Pois é verdade!―tornou o doutor―Aqui +mesmo, em S. Martinho de Campo, o Pinho tem tido +a habilidade de dar cabo de mais de cincoenta contos +em dez annos. +<br /> + +<br /> + +Houve um murmurio de incredulidade no pequeno +auditorio. +<br /> + +<br /> + +―Não póde ser!―insistiu Gustavo―Elle comprou +a casa que foi de Norberto de Noronha, por um +preço inferior; gastou alguma coisa em a reformar, +mas não foi muito, porque não lhe alterou a +planta e +apenas se limitou a uma simples questão de limpesa... +<span class="pagenum">[185]</span> +Não me consta que tenha dado bailes, que reuna em +sua casa grandes companhias ou que se haja cercado +de uma opulencia tal que justifique as loucas despezas +que o doutor lhe attribue. +<br /> + +<br /> + +―Pois ahi é que está a +desgraça!―retorquiu o +medico―Soube ganhal-o e não o soube gastar... O +Pinho desfez-se em dadivas a todo o mundo desde que +chegou... +<br /> + +<br /> + +―A todo o mundo!? +<br /> + +<br /> + +―É um modo de dizer. Deu um manto bordado +a ouro a Nossa Senhora do Porto; offertou um pallio +novo á junta de parochia; mandou fazer um painel +á +irmandade das almas; mandou construir á sua custa +a torre que faltava na egreja, pôz-lhe dois sinos, um +relogio, e tem sido elle o que tem feito á sua custa a +festa a Santo Emilião... Tudo isto parece que não +é +nada, mas bocado hoje, bocado amanhã, no fim vae-se +a vêr e somma contos de reis... +<br /> + +<br /> + +―Isso é verdade!―concordaram alguns do grupo. +<br /> + +<br /> + +―Mas cincoenta contos, doutor, olhe que é muito +dinheiro!―contestou ainda Gustavo. +<br /> + +<br /> + +―Mas não se teem limitado só a isso as despezas +do Pinho... Tem protegido muita gente... tem dotado +muita rapariga pobre cá dos sitios, tem sido padrinho +de todos os afilhados, tem emprestado dinheiro +a toda a gente e d'onde se tira e não se põe... +<br /> + +<br /> + +―Bem sei! Em todo o caso... +<br /> + +<br /> + +―Em todo o caso―concluiu o doutor―se não +fossem os ultimos revezes soffridos lá no Brazil, o Pinho, +com um bocado de juizo, podia ainda aguentar-se. +Mas, ao que me consta, as perdas foram importantes +e elle não tem remedio senão ir acudir ao resto, +para não ficar litteralmente sem nada. +<br /> + +<br /> + +―Pobre homem! Tenho pena. +<br /> + +<br /> + +―O Pinho é um bello coração. Um +bocadinho +vaidoso, gostando de se impôr pelo seu dinheiro, mas, +<span class="pagenum">[186]</span> +no fundo, um pobre diabo. Os de cá conheceram-lhe o +fraco; começaram a lisonjeal-o, tudo era o sr. Pinho +isto, o sr. Pinho aquillo... Se até o metteram em folias +de eleições! A ultima não lhe ficou +por menos de +dez contos... +<br /> + +<br /> + +―E nem sequer o fizeram visconde? Pois admira! +<br /> + +<br /> + +―A esse respeito, houve umas historias muito +compridas... O titulo estava-lhe arranjado, mas quem +lh'o arranjava, á ultima hora, precisou de uma somma +importante... O Pinho soube-o e não se lembrou +de a offerecer. N'isto, o Pires de Briteiros, que andava +com o cheiro em ser titular, apresentou-se a fazer o +offerecimento, e apanhou o titulo para elle... +<br /> + +<br /> + +―Que miseria!―disse Gustavo enojado. +<br /> + +<br /> + +―E até foi bom para o Pinho―tornou o doutor.―Porque, +se lhe tivessem dado o titulo, agora a sua +situação era muito mais difficil. Imaginem: um +homem +sem dinheiro e com um titulo ás costas... +<br /> + +<br /> + +―Deve ser horrivel! +<br /> + +<br /> + +―Pois foi do que elle se livrou! Ha males que +veem por bem... +<br /> + +<br /> + +―E quanto quer elle agora pela casa? +<br /> + +<br /> + +―Não sei... Deve vendel-a barata. Como sabe, +elle não ficou com todas as propriedades do velho +Noberto. +Apenas comprou os campos que circumdam o +predio e que pódem valer, com os melhoramentos que +elle lhes tem feito, os seus nove a dez contos de reis. +Mas estou persuadido que se apparecer quem lhe dê +oito, o homem não diz que não... +<br /> + +<br /> + +N'este momento ouviu-se o rodar de uma carruagem +que parou ao portão da casa de Gustavo. +<br /> + +<br /> + +―Quem nos honra?―disse o doutor, ao ver +apear um sujeito de sobretudo claro e franquear o +portão de entrada, depois de fallar ao criado. +<br /> + +<br /> + +―Querem vocês vêr que é o Sampaio que +se +<span class="pagenum">[187]</span> +aborreceu nas Taypas e veio até cá para se +distrahir +um pouco? +<br /> + +<br /> + +Disse e ia a encaminhar-se para a porta, afim de +o receber, quando Sebastião, o criado da casa, appareceu +no limiar, dizendo: +<br /> + +<br /> + +―Senhor doutor, saberá v. ex.<sup>a</sup> que +está +lá em +baixo um senhor que diz que deseja fallar ao sr. doutor.... +<br /> + +<br /> + +―A qual de nós?―disse rindo Gustavo.―Aqui +ha uns poucos de doutores... Solicita o soccorro da +medicina ou as luzes da jurisprudencia, esse estranho +recemchegado? +<br /> + +<br /> + +―Elle diz que é ao sr. doutor Gustavo. +<br /> + +<br /> + +―Ah! então é comigo... Não disse o +seu nome? +<br /> + +<br /> + +―Não quiz <em>dezer</em>... +É um senhor de barbas... +<br /> + +<br /> + +―Bem! Vamos lá ver as barbas d'esse senhor. +<br /> + +<br /> + +E voltando-se para os hospedes: +<br /> + +<br /> + +―Meus amigos, deem-me licença... Isto é por +força gracejo de algum amigo de nós todos... A +esta +hora, não é natural que um desconhecido me +procure... +Eu volto já. +<br /> + +<br /> + +Gustavo de Magalhães passou á sala onde o +aguardava +o desconhecido visitante. +<br /> + +<br /> + +Era este um homem que figurava ter quarenta a +quarenta e cinco annos, estatura regular, barba loura +em que se entremeavam já muitos fios brancos, accusando, +com as rugas profundas que lhe cavavam as +faces, uma vida de longo soffrimento moral. Vestia correctamente +um sobretudo escuro apesar da estação calmosa +ser mais propria ao uso das côres claras. +<br /> + +<br /> + +Ao vêr entrar Gustavo, caminhou para elle de +braços abertos, n'uma expansão de velha amizade, +dizendo: +<br /> + +<br /> + +―Já me não conheces, não é +assim, Gustavo? +<br /> + +<br /> + +―Julio! Pois és tu? +<br /> + +<br /> + +―Sou eu, meu amigo! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[188]</span> +E Julio de Montarroyo, pois que era elle, estreitou +effusivamente nos braços o seu amigo e companheiro +de infancia. +<br /> + +<br /> + +―Mas o que é feito de ti?―perguntou Gustavo―Ha +quantos annos não tenho tido noticias tuas! +<br /> + +<br /> + +―Tenho viajado. Ha perto de dezoito annos que +deixei o paiz... +<br /> + +<br /> + +―Singularissima ausencia! +<br /> + +<br /> + +―Que queres? Precisava de movimento, precisava +das estranhas commoções do imprevisto, porque +precisava de esquecer... +<br /> + +<br /> + +―E esqueceste, afinal? Ainda bem! +<br /> + +<br /> + +―Não, não esqueci nem esquecerei jamais... E +a prova é que, ainda agora, velho, doente, alquebrado, +eu venho ao sitio onde ella viveu e d'onde +partiu para não mais voltar, dar á minha alma o +supremo +lenitivo de contemplar os logares que a viram +creança, pura, innocente, feliz, e onde tudo me hade +ainda fallar d'ella! +<br /> + +<br /> + +Gustavo encarou surprehendido o seu amigo. +Atravessára-lhe o cerebro a suspeita de que as faculdades +mentaes d'aquelle homem estavam desgraçadamente +transtornadas. +<br /> + +<br /> + +Julio percebeu esta suspeita no olhar do amigo +e disse, sorrindo: +<br /> + +<br /> + +―Julgas-me doido, não é verdade? +<br /> + +<br /> + +―Não, não julgo...―replicou o irmão +de Aurelia +de Magalhães―Surprehende-me apenas que, volvidos +tantos annos, as viagens e o tempo não pudessem ainda +desvanecer-te do peito essa fatal paixão. +<br /> + +<br /> + +―Nada a desvaneceu nem desvanecerá, meu amigo. +Ama-se uma vez na vida, uma unica; e aquelle +que póde esquecer a mulher que uma vez disse amar, +é porque sinceramente não a amou. +<br /> + +<br /> + +―Mas não tiveste mais noticias de Helena de +Noronha? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[189]</span> ―Nunca mais. Recebi d'ella uma carta, participando-me +que ia para Pariz, transferida para uma +casa de <em>irmãs Dorotheias</em> +e pedindo-me que a fosse +esperar n'aquella grande cidade, onde me daria noticias +suas. Fui. Esperei muitos mezes inutilmente uma +carta, um recado, uma palavra que me tirasse da +infernal situação em que me encontrava e me +désse +uma esperança, ainda que longinqua, de a tornar a +vêr... +<br /> + +<br /> + +―E como pudeste esperar tanto tempo? +<br /> + +<br /> + +―Esperaria até ao fim do mundo se, pelas +indagações +a que procedi, pudesse capacitar-me de que +ella estava em Paris. Relacionei-me com os jesuitas, +apparentei uma crença profunda, fiz-me beato, frequentei +as egrejas, as casas religiosas, percorri todos +os institutos, todos os collegios jesuiticos e não a +encontrei. Então tive a suspeita de que talvez houvessem +descoberto a intenção em que aquella infeliz +estava de se unir a mim e a tivessem enviado a outra +parte. Passei á Hespanha, percorri todas as cidades +e usei de todos os meios que podiam permittir-me o +encontral-a. Tudo inutil. Tomado da febre da +investigação, +segui para a Belgica, passei á Italia, familiarisei-me +com toda a ala negra, occultando sempre o meu +pensamento secreto. D'alli fui á Africa Oriental, percorri +as missões onde me seria facil encontral-a, e sempre +baldadamente. Nem pelo nome, nem pela figura, +nem ainda pela familia, me foi possivel obter noticias +d'ella. Afinal, desalentado, velho, gasto, alquebrado +e doente, resolvi regressar a Portugal, convencido de +que Helena de Noronha, na ala negra conhecida pela +<em>irmã Dorotheia</em>, +já não existe! +<br /> + +<br /> + +―Meu pobre amigo!―disse Gustavo envolvendo-o +n'um olhar de funda compaixão―que grande fatalidade +foi para ti essa mulher na tua existencia! +<br /> + +<br /> + +―Bem pensado, não foi―volveu Julio―Devo-lhe +<span class="pagenum"><a name="p190">[190]</a></span> +soffrimentos acerbos, mas tambem lhe devo alegrias +intensas, esperanças dulcissimas que outra mulher +jámais poderia alentar-me! Quando em meio dos +meus desalentos me sorria uma probabilidade de a encontrar, +que felicidade meu amigo! que doida alegria +a minha! Agora, regressando a Braga, leio n'um jornal +que se vende o palacete de Norberto de Noronha, +e venho compral-o. +<br /> + +<br /> + +―Comprar a casa de Norberto de Noronha! +<br /> + +<br /> + +―Sim. +<br /> + +<br /> + +―Com que fim? O que pretendes fazer? +<br /> + +<br /> + +―Viver n'ella os ultimos dias da minha vida, +que não será longa... +<br /> + +<br /> + +―Mas vens só, não tens familia? +<br /> + +<br /> + +―Minha mãe morreu ha mais de dez annos. Minhas +irmãs casaram, constituiram familia, e eu encontro-me +só... só com <a href="#e20">as +minhas</a> recordações! +<br /> + +<br /> + +―Muito bem, meu Julio. Aqui me tens como +amigo e como irmão, hoje como sempre. És meu +hospede, e espero que me darás o prazer da tua companhia +emquanto me demorar por estes sitios. +<br /> + +<br /> + +―Já sabia que estavas aqui, e por isso te procurei. +Desejo a tua interferencia n'este negocio. +<br /> + +<br /> + +―Estou ao teu dispôr, meu caro. Mas deixa-me +apresentar-te aos meus amigos que tiveram a santa +caridade de vir alegrar-me as horas d'esta triste solidão. +Tambem quero apresentar-te minha mulher e +meus filhos, que já te conhecem de me ouvirem fallar +muitas vezes de ti... Minha irmã, essa já t'a +apresentei +n'outros tempos, e has-de gostar de a vêr, porque, +como amiga de infancia de Helena de Noronha, +fallar-te-ha d'ella com aquelle entranhado affecto que +sempre lhe tributou, apesar da sua ingratidão... +Vem! +<br /> + +<br /> + +Deu-lhe o braço e conduziu-o até á +sala onde já +todos os esperavam com grande curiosidade. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[191]</span> +A entrada de Julio de Montarroyo produziu geral +impressão nos circumstantes. +<br /> + +<br /> + +Alguns d'elles, antigos companheiros, mal reconheciam +n'aquelle velho o elegante moço bracarense de +ha 18 annos, notavel nas duas cidades―Braga e +Guimarães―pelo +apurado esmêro no trajar e pelos distinctos +primôres da educação. +<br /> + +<br /> + +Feitas as apresentações, todos quizeram ouvir da +bôca do recemchegado a relação das suas +viagens, +que elle narrou n'uma linguagem viva, scintillante, +pittoresca, cheia de encantos, occultando, no emtanto, +o secreto motivo de tão longa e demorada permanencia +em paizes estranhos. +<br /> + +<br /> + +―De modo que―disse por fim o commendador +Seabra, um dos mais velhos condiscipulos de Julio―eis-te +de novo entre nós, qual filho prodigo que regressa +á casa de seus paes! +<br /> + +<br /> + +―É verdade, meu amigo! Verdadeiramente um +filho prodigo, que desperdiçou vida, mocidade e dinheiro +entre os estranhos e que regressa velho, cançado +e cheio de achaques, a pedir á terra em que +nasceu um canto onde possa morrer descançado. +<br /> + +<br /> + +―Morrer! Quem falla aqui em morrer?―atalhou +Gustavo alegremente―Tens ainda vida para muito +tempo, meu amigo! Vens robusto, vigoroso, cheio de +saude, e fallas em morrer! O que direi eu, gasto e cançado +por uma vida inteira de trabalho, pae de tres +filhos, tres enormes traquinas, que reclamam constantemente +os meus cuidados e que todos os dias me recordam +a necessidade impreterivel que tenho de viver +para elles, até os fazer homens e acompanhar a sua +entrada no mundo com os conselhos da minha experiencia +e do meu amôr de pae? E, no emtanto, não +penso em morrer sem ter cumprido a minha missão... +<br /> + +<br /> + +―É justo―respondeu Julio―Ha um objectivo +na tua existencia, que te faz amar a vida e te dá +força +<span class="pagenum">[192]</span> +e coragem para a não perderes: são os filhos, +é a esposa, +é a familia, é toda essa inquebrantavel cadeia de +affectos que prende o homem ao mundo e o faz triumphar +dos desalentos, das dôres physicas e moraes, conduzindo-o, +confiado e alegre, através a velhice como o +viajeiro através os areaes do deserto, com os olhos fitos +no oasis que, de longe, lhe promette repouso e +frescura. Mas eu, abandonado e só, sem familia, sem +o estimulo dos grandes affectos que tornam o homem +superior a si mesmo, que outra coisa posso desejar senão +a morte redemptora dos grandes desgraçados? +<br /> + +<br /> + +―Casa-te, meu amigo, casa-te!―aconselhou o commendador +Seabra n'um tom de convicta auctoridade.―Olha +que não ha como o casamento para fazer um +homem perder certas ideias... Eu tambem fui rapaz, +tambem tive as minhas estroinices, as minhas excentricidades... +Não andei lá por fóra, +porém, cá dentro mesmo, +no meu paiz, e até sem sahir de Guimarães, fiz +o que pude... Mas quando cheguei a certa altura e +senti que começava a aborrecer-me da vida, disse commigo: +«Nada! isto não está bem... Preciso ter +alguem +a quem me dedique de alma e coração... alguem a +quem eu estime e que me estime tambem, porque um +barco só não faz carreira...» Tive a +fortuna de encontrar +o que desejava, uma esposa que é um anjo, +um genio em tudo igual ao meu, e foi dito e feito! +Casei e temo-nos dado muito bem... Não é assim, +Gracianinha?―rematou, +pondo os olhos na esposa, a D. +Graciana, uma senhora adiposa, de enorme carão vermelhusco, +toda cheia de requebros e denguices, mais +do que é permittido a uma mulher que passa dos quarenta. +<br /> + +<br /> + +―É assim, meu amigo!―suspirou a D. Graciana, +revirando para o marido os olhos ternos e abanando-se +com o leque, na pudibunda attitude de uma paixão confessada. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[193]</span> ―Não temos tido filhos―tornou o commendador, +muito roliço, muito gordo, envolvendo a mulher n'um +olhar carinhoso―mas não é por falta de +amôr... É +que ella não é de qualidade de os ter... Mas +vê tu +que eu era um espeto... lembras-te que eu era um +espeto? Pois estou isto que vês! Gordo e forte, que nem +pareço o mesmo!... E tudo isto foi depois que casei... +Não ha nada como o casamento para dar saude a um +homem! +<br /> + +<br /> + +E empertigava-se vaidoso, com os pollegares mettidos +na cava do collete, e tamborilando com os dedos +restantes no peito, n'uma exhibição +grotêsca das fartas +enxundias que lhe repuxavam a pelle e lhe avolumavam +o rotundo abdomen. +<br /> + +<br /> + +Os circumstantes riam d'esta apologia do matrimonio +feita pelo commendador que, segundo resavam +as más linguas, soffria uma cruz em casa com os destemperos +da D. Graciana, ciumenta e desconfiada. +<br /> + +<br /> + +―Ora agora o que é preciso―propôz o juiz de +direito, um velhote de oculos, bigodes brancos, com +uma voz aflautada e cheia de impetuosidades nervosas―é +não deixar passar despercebido este feliz acontecimento +do regresso de um querido e distincto filho do +Minho aos encantos da sua provincia e aos braços dos +velhos amigos, que todos gemiam saudades pela sua +prolongada ausencia! +<br /> + +<br /> + +E, n'uma voz de cada vez mais aflautada e repassada +de sentimento: +<br /> + +<br /> + +―Isto é mais do que um regresso, isto é uma +resurreição! +Propunho, pois, uma Paschoa <em>inter +amicus</em>, +uma festa alleluitica, em que se celebre condignamente +o <em>resurrexit</em> d'este illustre +cavalheiro, que eu não tinha +a honra de conhecer pessoalmente, mas a quem +já estimava e de quem era sinceramente amigo, pelo +conhecimento de seus primores e gentilezas, que a +tradição +oral tinha trazido até mim! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p194">[194]</a></span> +Este alvitre do festeiro magistrado obteve calorosa +approvação e logo alli se decidiu promover uma +festa +ruidosa em honra de intrepido viajante, que dezoito +annos gastara em percorrer as <em>sete +partidas</em> do mundo, +como o <em>infante D. +Pedro</em>. +<br /> + +<br /> + +O juiz foi o encarregado de elaborar o programma +e nomear a commissão que havia de proceder aos festejos. +<br /> + +<br /> + +Era uma alegria louca entre os hospedes de Gustavo +pela perspectiva de mais um dia de grossa pandega. +<br /> + +<br /> + +―Livra-me d'esta gente, meu amigo!―segredou +Julio a Gustavo.―Tu, que conheces o estado do meu +espirito, bem deves avaliar quanto esta alegria me +mortifica! +<br /> + +<br /> + +―Nem eu, nem poder algum da terra poderá livrar-te +d'estas honras, que só aos +<em>eleitos</em> da amizade +se concedem, meu caro; salvo se tiveres a má +lembrança +de emigrar outra vez; e, ainda assim, ha-de +ser clandestinamente, porque, se constar que andas a +tirar passaporte, agarram-te e não te deixam partir +sem gramares a festa! +<br /> + +<br /> + +―Meu Deus! Em que má hora eu vim a tua casa!―murmurou +Julio.―Venho a fugir do bulicio, do +ruido, da curiosidade dos amigos e conhecidos, e eis-me +o alvo de alegrias, quando mais devêra ser um objecto +de tristezas! +<br /> + +<br /> + +―Tem paciencia, meu amigo! A tua larga ausencia +do paiz fez-te esquecer, pelo que vejo, os habitos +festivos da nossa provincia, que ainda não <a href="#e21">mudaram</a>. +O portuguez, especialmente o minhoto, não +perde occasião, e tudo lhe serve de pretexto, para se +evadir ás melancholias do temperamento. Um casamento, +um baptisado, um dia d'annos, um amigo que chega, +um amigo que parte, tudo isso constitue motivo +de festa. Fóra d'ahi, é sisudo, sorumbatico, +macambuzio, +<span class="pagenum">[195]</span> +incapaz de, por coisa alguma d'este mundo, se +arredar da linha inquebrantavel de uma inquebrantavel +bisonhice. Deixa-os, pois, deixa-os divertir-se, +que a alegria d'elles não é d'aquellas que magoam +o +coração dos que soffrem... +<br /> + +<br /> + +No dia seguinte, Julio levantou-se cêdo e, n'um +curto passeio, dirigiu-se sósinho para os lados da velha +casa de Norberto de Noronha. +<br /> + +<br /> + +O brazileiro Pinho, que conservava os habitos +madrugadores, adquiridos no Brazil, todo vestido de +linho crú e na cabeça um bonnet de +gorgorão preto, +debruçava-se no caramanchão erguido em um dos +angulos do jardim. +<br /> + +<br /> + +Respirava a longos haustos o ar fresco da manhã, +tendo cravado no horisonte um vago olhar de tristeza. +<br /> + +<br /> + +Pensava talvez nas fundas saudades que já curtira +longe da patria, e n'aquellas que ainda o haviam +de consummir, agora que, depois de velho e quando esperava +morrer tranquillo n'aquelle adorado canto da +sua aldeia, era outra vez obrigado a expatriar-se. +<br /> + +<br /> + +Julio, ao vêl-o, parou na estrada e cortejou: +<br /> + +<br /> + +―Bons dias! +<br /> + +<br /> + +O Pinho levou a mão ao bonnet e correspondeu, +saudando: +<br /> + +<br /> + +―Muito bons dias! +<br /> + +<br /> + +―É o proprietario d'esta casa? +<br /> + +<br /> + +―Um seu criado! +<br /> + +<br /> + +―Li que ella se vende. Posso vêl-a?. +<br /> + +<br /> + +―Pois não! Eu lhe vou mandar abrir a porta... +<br /> + +<br /> + +E chamando pelo criado: +<br /> + +<br /> + +―Ó Manéca, vae na porta abrir ao cavalheiro, +hein!―ordenou. +<br /> + +<br /> + +O <em>Manéca</em>, um labrego de +jaqueta, chapéo braguez +e suissa talhada em fórma de foicinha, foi abrir, +com grandes zumbaias, levando no labio escanhoado +<span class="pagenum">[196]</span> +o sorriso humilde e servil de quem nasceu para sêr +mandado e obedecer. +<br /> + +<br /> + +Julio entrou e d'ahi a pouco travava com o brazileiro +Pinho este dialogo: +<br /> + +<br /> + +―V. s.<sup>a</sup> vende esta propriedade, não +é assim? +<br /> + +<br /> + +―Me résólvi á vender ella, porque +estou preparando +minhas coisas p'ra tornar no Brazil... +<br /> + +<br /> + +―Esta casa―disse Julio―era de um antigo +fidalgo que aqui morou e aqui morreu, o sr. Norberto +de Noronha... +<br /> + +<br /> + +―Não conheci elle, mas tenho ouvido +fállár... +Bôa péssôa, pelas +informações que dão-me d'elle, +hein! +<br /> + +<br /> + +―Não foi, portanto, ao velho fidalgo que v.<sup>a</sup> +s.<sup>a</sup> +comprou a casa? +<br /> + +<br /> + +―Nada. Quando vim do Brazil e cheguei em +Portugal, a primeira coisa que lembrou-me foi comprar +casa bôa, que tivesse commodos ella... Mas eu +a queria já feita, hein! Me aborrecia estar esperando +que fizesse-se ella, já viu? Depois meu compadre +Damião me escreveu um dia para o Porto, dizendo +que tinham botado annuncio n'uma gazeta de Braga +p'ra vender este palacete... Vim vêr ella, me agradou +por ficar nos meus sitios e a comprei... É uma +rica peça, que tenho muita pena de deixar ella!... +Mas como vou no Brazil outra vez e não sei o tempo +que demorarei-me por lá... +<br /> + +<br /> + +―Norberto de Noronha―tornou Julio―tinha +uma filha... Foi a essa senhora que comprou esta +casa? +<br /> + +<br /> + +―O négocio foi tratado com um procurador +d'essa minina, qui estava ella, dizem, nas irmãs da +caridade e tinha passado procuração a esse tal +João +Ignacio para vender elle todos os bens, já viu? Mas +eu lhe fiquei só com a casa e com estes campos de +ao pé da porta... As outras propriedades si venderam +<span class="pagenum">[197]</span> +a differentes... Vossa excélléncia conheceu +a +familia de Norberto, já vejo... +<br /> + +<br /> + +―Conheci. A casa soffreu modificações? +<br /> + +<br /> + +―Não altérei-lhe a planta, a ella, +não... Lhe +mandei botar papel e pinturas novas, hein! mas lhe +deixei ficar as divisões todas... O mesmo jardim +ainda é do risco que estava elle no tempo do fidalgo... +<br /> + +<br /> + +O Pinho, muito amável, convidou Julio a vêr a +casa para certificar-se de que era uma vivenda <em>muito +bôa ella</em> e que se conservava quasi no mesmo +estado +em que o fidalgo a deixára. +<br /> + +<br /> + +Julio, ao entrar na sala onde fallára pela primeira +e ultima vez a Norberto de Noronha, já paralytico, +cerrou um momento os olhos, commovido, e a sua +memoria evocou a figura d'aquelle pobre morto-vivo, +que alli jazêra por tanto tempo ainda, na +esperança +de tornar a vêr a filha, criminosamente ingrata ou +assombrosamente desgraçada, por quem morria. +<br /> + +<br /> + +Esse compartimento da casa, por uma d'estas casualidades +difficeis de explicar, não merecêra as +attenções +do brazileiro para o mandar reparar. Conservava-se +no mesmo estado e na mesma disposição em +que Julio o vira a primeira vez quando alli entrou. +Apenas alguns dos velhos moveis de Norberto, inclusivè +a cadeira de rodas em que tão longamente agonisara, +achavam-se alli accumulados, em monte, a um +canto. +<br /> + +<br /> + +―Isto áqui me tem sérvido para +arrumações―explicou +o brazileiro.―Aqui encontrei esta cangalhada +quando vim na casa e, de dia em dia, p'ra +pôr ella fóra, nunca résolvi-me, hein! +e ahi ficou, +já viu? +<br /> + +<br /> + +―Quanto pretende v. s.<sup>a</sup> pela casa?―perguntou +Julio. +<br /> + +<br /> + +―Com mobilia ou sem ella? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[198]</span> ―Tal como está, excepto os objectos de seu uso +pessoal... +<br /> + +<br /> + +―Me custou a mim dez contos... Com mais de +dois que gastei em mobilia e concertos, anda isso por +doze, hein! Más se v. ex.<sup>a</sup> me quizer +comprar ella +por dez, eu lhe deixo ficar tudo, já viu? +<br /> + +<br /> + +―Não, senhor!―acudiu Julio.―Se por doze +contos lhe ficou, doze contos lhe darei por ella. +<br /> + +<br /> + +O Pinho teve um olhar de espanto para o comprador. +Julgára que elle iria regatear o preço, achar +caro, desfazer no valor da propriedade e reservava-se +para, em ultimo caso, fazer uma reducção de um ou +dois contos de reis. E via com surpresa que este generoso +desconhecido queria embolsal-o integralmente +de tudo quanto havia dispendido, elevando a somma, +de dez, a doze contos, que era o que calculava ter +gasto. +<br /> + +<br /> + +―Quer assim?―interrogou Julio. +<br /> + +<br /> + +―Mas...―objectou honradamente o brazileiro +consciencioso―eu tenho vivido na casa, os moveis me +custaram dinheiro que já não valem elle +ágora... +<br /> + +<br /> + +―Pequenas coisas! Não compro isto para negocio, +e por isso não penso em o adquirir por menos do +seu justo valor. +<br /> + +<br /> + +―Mas então a casa é de v. ex.<sup>a</sup>!―decidiu +o +brazileiro +com uma profunda cortezia. +<br /> + +<br /> + +―V. s.<sup>a</sup> não me conhece―disse +Julio―mas eu +dou como fiador á validade d'este contrato o meu +amigo dr. Gustavo de Magalhães, aqui seu vizinho. +Quando quizer, faremos a escriptura! +<br /> + +<br /> + +―O sr. doutor Gustavo! Pois não! Conheço elle +muito bem. V. ex.<sup>a</sup> é hospede d'elle, +já vejo... +<br /> + +<br /> + +―Sou. V. s.<sup>a</sup> dirá agora quando quer +legalisar o +contrato e quanto devo dar-lhe de signal. +<br /> + +<br /> + +―Signal!―protestou o brazileiro―não é priciso +<span class="pagenum">[199]</span> +elle... Os homens se conhecem pelas palavras, já viu? +<br /> + +<br /> + +―Como queira. +<br /> + +<br /> + +―Me dê v. ex.<sup>a</sup> oito dias para tratar +de minha +mudança, e iremos no tabellião fazer a +escriptura, +hein! +<br /> + +<br /> + +―Não lhe dou oito, dou-lhe vinte, dou-lhe um +mez. Não tenho pressa de vir para esta casa, mas tenho-a +de lhe chamar minha. +<br /> + +<br /> + +―Lhe póde chamar desde já. Minha palavra vale +uma escriptura! Mas não ha pricisão de mais +demora, +não... Homens de bem se entendem sempre elles... +Quando v. ex.<sup>a</sup> quizer, vamos no +tabellião... +<br /> + +<br /> + +Julio offereceu-lhe a mão e despediu-se, voltando +a casa de Gustavo. +<br /> + +<br /> + +―Já comprei a casa de Noberto de Noronha―disse +elle ao amigo, logo que chegou. +<br /> + +<br /> + +―O que!―exclamou Gustavo.―Pois logo de +manhã, tão cedo, foste tratar um negocio d'essa +ordem? +<br /> + +<br /> + +―Se eu tinha resolvido compral-a, não vejo motivo +para protelar a compra. Agora conto comtigo, +como advogado, para que o contrato tenha uma +realisação +legal. +<br /> + +<br /> + +―Por quanto a compraste? +<br /> + +<br /> + +―Por doze contos, tal como está. +<br /> + +<br /> + +―Podias tel-a adquirido por oito ou nove! +<br /> + +<br /> + +Alguns dias depois, legalisava-se o contrato e +Julio era o proprietario da casa que pertencera a Noberto +de Noronha. +<br /> + +<br /> + +O brazileiro Pinho, tendo recebido o preço da +venda, apressava agora a sua partida, no intuito sómente +de não occupar por muito tempo a casa alheia. +<br /> + +<br /> + +Os convidados de Gustavo, em assembleia magna, +tendo sabido que Julio comprára a casa de Noberto e +se constituira, por este facto, um dos proprietarios da +localidade, resolveram addiar a celebração dos +festejos +<span class="pagenum">[200]</span> +para o dia em que elle tomasse posse e fixasse residencia +na sua nova propriedade. +<br /> + +<br /> + +Esta deliberação fôra tomada em segredo +e mantinha-se +discretamente guardada entre todos, sem chegar +ao conhecimento do melancholico amigo de Gustavo +de Magalhães. +<br /> + +<br /> + +―Havemos de fazer d'elle um companheiro alegre, +sociavel, sem os absurdos preconceitos de um homem +que, tendo percorrido o mundo e visto tudo, chega a +capacitar-se de que nada mais ha no mundo capaz de +o emocionar e lhe causar alegria―dizia o magistrado +de voz aflautada, presumindo de habil conhecedor das +diversas fraquezas e aberrações do espirito +humano. +<br /> + +<br /> + +―Fatalmente―commentava o medico―alli ha +desiquilibrio de faculdades... Aquella melancolia +profunda, aquelle afastamento systematico de todo +o ruido e de toda a convivencia, accusa uma grave +enfermidade mental, +propria d'um homem que passou +a vida em viagens, sob a impressão dos variados aspectos +da natureza e sob a influencia de diversos e oppostos +costumes... +<br /> + +<br /> + +―Quem sabe? Talvez alli haja mysterio do +coração... +amôres mal succedidos...―aventou um +dos menos theoricos e mais praticos. +<br /> + +<br /> + +―Não, alli o que ha é tedio, cansaço, +o <em>spleen</em> +dos inglezes―opinou o juiz.―O homem correu tudo, +viu tudo, gozou tudo―menos a amizade dos amigos +e o amôr inconsutil da mulher que toda se dedica ao +homem amado. Nas viagens―accrescentou com grande +auctoridade e emphase de sabedor―perde-se a sensibilidade +pela frequente e repetida excitação dos sentidos. +O espirito habitua-se á contemplação +dos espectaculos +grandiosos e desdenha, como insignificantes e +mesquinhos, os suaves e dulcissimos prazeres da convivencia +remansosa e placida de almas irmãs, prazeres +que são a vida do coração... +Amôres mal succedidos, +<span class="pagenum"><a name="p201">[201]</a></span> +como diz aqui o nosso amigo Gilberto, não +creio... Mais me inclino a crêr que seja o desdem +pelos demasiados amôres bem succedidos, pelos +amôres +faceis que não faltam nunca aos viajantes ricos e +que são, por via de regra, os unicos que elles conhecem... +E quem me diz a mim que o que este homem +sente é justamente a falta de um amôr +sério, verdadeiro, +como é o de uma esposa por seu marido?... +<br /> + +<br /> + +―Pelo menos, quando não seja isso―disse o commendador―o +casar devia fazer-lhe bem... Se a mulher +fosse d'estas que ás vezes apparecem na vida de +um homem como um flagello, que com tudo embirram +e com coisa alguma se satisfazem quando estão a +sós +com os maridos, elle buscaria a convivencia da sociedade +como um refugio contra as impertinencias da +esposa! +<br /> + +<br /> + +Todos se riram a esta indiscreta confirmação dos +rumôres que corriam acerca da vida torturada que o +commendador passava, de portas a dentro, com a D. +Graciana. +<br /> + +<br /> + +―Que eu por mim―emendou logo com solicita +dissimulação―com bem o diga, não sei +praticamente +o que isso é... Mas tenho ouvido varios maridos +queixarem-se do inferno que passam em casa com as +mulheres, e faço ideia do petisco que ha-de ser... +<br /> + +<br /> + +―Nós <a href="#e22">tambem</a> fazemos +ideia...―atalhou o juiz +sarcasticamente, na sua voz de assobio. +<br /> + +<br /> + +―Meus amigos―interrompeu Gustavo, que ouvira +esta conversação sem tomar parte +n'ella―não +se cancem em conjecturas sobre os motivos que pódem +ter feito do Julio de Montarroyo o mysanthropo +que hoje é. A vida d'este homem é um mysterio que +não seria facil decifrar nem mesmo aos que na mocidade +o conheceram intimamente, quanto mais áquelles +que só agora o encontram, depois de velho. De +resto, pouco deve preoccupar-nos a sua tristeza, se +<span class="pagenum"><a name="p202">[202]</a></span> +não está na nossa mão o dissipar-lh'a. +Querer á +força fazer de um homem triste um homem alegre, +parece-me coisa tão insensata e absurda como querer +mudar as tardes melancholicas do outono nas <a href="#e23">risonhas</a> +manhãs da primavera. Cada qual é como +é; e +nem me parece que a nós nos seja licito avaliar da +tristeza ou da alegria intima de um homem, pelo simples +aspecto da sua physionomia ou pela estranha soturnidade +dos seus habitos. O que para nós é tedio +póde ser para elle distracção; o que +para nós é dôr +póde muito bem ser para elle um grande prazer. +Quantas pessoas ha que, por temperamento, por indole, +ou por caracter, se comprazem, desde a infancia, +na solidão mais absoluta, achando insupportavel +a convivencia em que outras pessoas encontram uma +verdadeira felicidade, um incomparavel prazer? +<br /> + +<br /> + +―Isso é verdade!―accudiu o commendador―eu +já tive uma epocha na minha vida em que todo o +meu prazer era agarrar môscas para as dar a comêr +a um pisco que tinha mettido n'uma gaiola... Passava +n'isso horas e horas, sem dar palavra, e se alguem +me interrompia n'aquella tarefa em que sentia +um prazer enorme, ia tudo com seiscentos diabos! E +em todo o caso, aposto que nenhum dos senhores acharia +distracção n'uma coisa tão simples... +<br /> + +<br /> + +―Não tanto!―replicou o juiz―Quem não tem +que fazer caça môscas, diz o vulgo. Ora se o meu +amigo não tinha mais que fazer, acho acertado que se +distrahisse por esse modo... e não estranho que ainda +agora se entregue ao divertimento... +<br /> + +<br /> + +―Agora não!―tornou o commendador. +<br /> + +<br /> + +―Por falta de pisco?―perguntou o medico. +<br /> + +<br /> + +―Por falta de pisco e por falta de paciencia... +Mudei completamente... Agora não me entretem +nada d'essas coisas. Minha mulher embirra com passaros +em casa. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[203]</span> +A conversação proseguiu animada de ditos +picarescos +a proposito d'esta ingenua confissão do commendador +que, sem o querer, veio desviar as attenções do +grupo disposto a escalpellar a vida de Julio de Montarroyo. +<br /> + +<br /> + +A esta mesma hora, Julio encontrava no jardim +a D. Aurelia de Magalhães e travava-se entre os +dois este dialogo: +<br /> + +<br /> + +―Então, já sei que vou tel-o por vizinho, +não +é verdade, sr. Julio de Montarroyo? Disse-me o Gustavo +que v. ex.<sup>a</sup> já comprou a casa de +Norberto de +Noronha. +<br /> + +<br /> + +―A casa de Helena, minha senhora... É verdade, +comprei-a. +<br /> + +<br /> + +―Na intenção de a habitar? +<br /> + +<br /> + +―Sim, minha senhora. Faço tenção de +passar +n'ella os ultimos dias da minha vida. +<br /> + +<br /> + +―É muito triste este sitio a que n'este momento +empresta uma apparencia de alegria a permanencia +dos nossos hospedes... Mas, quando meu irmão retirar +para Lisboa e todos regressarem a suas casas, +tudo isto recahe n'um silencio e n'uma tristeza que +só póde agradar ás almas tristes... +<br /> + +<br /> + +―É justamente esse silencio e essa tristeza que +a minha alma anceia... +<br /> + +<br /> + +―A solidão e a tristeza são um lenitivo para a +alma quando nos prendem recordações saudosas aos +sitios +em que habitamos e em que outr'ora fomos felizes. +Estou eu n'esse caso, porque aqui nasci, aqui me +criei, aqui passei dias felizes na companhia dos que +me eram caros, e aqui os vi desapparecer para sempre +e para nunca mais. Mas v. ex.<sup>a</sup>, snr. Julio de +Montarroyo, que aqui veio apenas uma vez, que me +lembre, e em dias bem luctuosos e bem tristes para o +pobre Norberto de Noronha... +<br /> + +<br /> + +―E para o meu coração, minha senhora! Quando +<span class="pagenum">[204]</span> +se é verdadeiramente desgraçado, quando nunca +se teve uma hora de felicidade, sente-se um prazer +amargo, um prazer cruel, em permanecer nos sitios +em que mais soffremos, em que o nosso coração +sentiu +mais profundos e mais lancinantes os golpes da desventura. +Foi justamente n'esse predio que hoje comprei +que eu presenciei um dos mais dolorosos e lancinantes +espectaculos de toda a minha vida. Ao entrar n'aquella +casa, dezoito annos volvidos, pareceu-me vêr ainda, +ao canto da mesma sala, sentado na mesma poltrona +de rodas, aquelle pobre velho semi-morto, com +os olhos fitos em mim, ouvindo com a alma anciada +a espelhar-se-lhe na pupilla dilatada e immovel, as +palavras de animadora esperança que então +proferi, +e que deviam ser-lhe um balsamo consolador no meio +d'aquelle infernal martyrio! E esta evocação +terrivel, +bem longe de augmentar o meu soffrimento, suavisa-o. +Comparando o que soffro e o que tenho soffrido +com o que soffreu aquelle pobre pae, encontro motivo +para me julgar feliz. Depois, foi alli que ella viveu, +que ella passou os unicos dias venturosos da sua +infancia cheia de sonhos vãos e de anhelos de felicidade, +até que a negra mão da desventura a veio +empolgar... +<br /> + +<br /> + +―Pobre Helena!―murmurou D. Aurelia―se +v. ex.<sup>a</sup> a conhecesse n'esse tempo, se pudesse +avaliar +os finos quilates d'aquelle espirito, a suave candura +d'aquelle nobre coração! Eu, que fui sua amiga, +sua +companheira de infancia, eu que tão de perto privei +com ella e conheci todos os primôres d'aquella alma +nobilissina, ainda hoje me espanto, e não sei como explicar +aquelle rapido e insolito reviramento, senão pela +loucura. Para mim, Helena de Noronha soffreu grande +abalo nas faculdades mentaes, antes de abandonar o +pae, por quem era extremosa, e esquecer os sagrados +<span class="pagenum">[205]</span> +deveres de filha, que ella se esmerava em cumprir sempre +com uma religiosa pontualidade! +<br /> + +<br /> + +―V. ex.<sup>a</sup> nunca mais teve noticias d'ella? +<br /> + +<br /> + +―Nunca mais. E isso mesmo me faz pensar que +a minha pobre amiga perdeu a rasão antes do fatal +passo que havia de custar-lhe não só a propria +ventura, +mas tambem a vida do pae e do primo. +<br /> + +<br /> + +―Alvaro, segundo me disseram, morreu assassinado +em casa de um taberneiro da Serra do Carvalho... +<br /> + +<br /> + +―É certo. Foi um tal Perneta quem, attrahindo-o +alli sob pretexto de que encontraria Helena, lá +conseguiu matal-o e roubal-o. A principio, suppôz-se +que a morte fôra obra de malfeitores que o tivessem +assaltado em viagem, porque o cadaver appareceu na +estrada. Mas uma denuncia anonyma, enviada ás auctoridades +e confirmada mais tarde por um sapateiro +de Braga, por alcunha o <em>Tomba</em>, que +foi testemunha +no processo, pôz a justiça na pista do criminoso, +e o +Perneta foi julgado e condemnado a galés por toda a +vida. +<br /> + +<br /> + +―O <em>Tomba</em>!―disse Julio―Conheci +muito bem +esse sapateiro e procurei-o agora no meu regresso a +Braga, esperançado em obter d'elle esclarecimentos +que talvez me explicassem o destino de Helena. Mas +ha muitos annos que desappareceu, e ignora-se o +rumo que levou, podendo ser até que já tenha +morrido... +<br /> + +<br /> + +―Não sei, não conheci o +<em>Tomba</em>. Ouvi fallar +muito n'esse homem por aquella occasião e sei que +veio depôr como testemunha no tribunal de Lanhoso, +mas ignoro completamente o que fosse feito d'elle. +<br /> + +<br /> + +―Se o <em>Tomba</em> esclareceu a +justiça e depôz como +testemunha, então o assassinato do pobre Alvaro obedeceu +a um plano de vingança a que não foi estranho +o raptor de Helena... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[206]</span> ―O padre Anselmo? +<br /> + +<br /> + +―Justamente. Como conhece v. ex.<sup>a</sup> esse nome? +<br /> + +<br /> + +―Pois não sabe v. ex.<sup>a</sup> que elle +andou por aqui +missionando e que foi com as suas perniciosas praticas +ao canto do confissionario que conseguiu desvairar a +minha pobre amiga ao ponto de a fazer abandonar a +casa paterna? +<br /> + +<br /> + +―E v. ex.<sup>a</sup> era sabedora das +intenções de +Helena? +<br /> + +<br /> + +―Eu! Se ella me tivesse dito alguma coisa, eu +trataria de impedil-a d'um semelhante passo. Guardou-se +de mim como de toda a gente. O que eu lhe +notava era uma tristeza profunda, um recolhimento +mystico de que cheguei por vezes a reprehendel-a. +Mas, como ella insistia, não me preoccupei muito com +isso, por suppôr que, retirando os missionarios, breve +retomaria a sua habitual despreoccupação de +espirito. +Enganei-me! O mal tinha lavrado fundo, e o que eu +suppunha não passar de um momentaneo devaneio +mystico, era afinal a monomania religiosa, com todos +os symptomas da loucura incuravel! Pobre Helena! +nem chego sequer a accusal-a de ingratidão pelo seu +procedimento para comigo, porque, apesar de quanto +se possa dizer e de quanto tenho ouvido a meu irmão +Gustavo, julgo-a irresponsavel. +<br /> + +<br /> + +―É esse o juizo que v. ex.<sup>a</sup> forma de +Helena de +Noronha? +<br /> + +<br /> + +―É. E formo-o assim, porque a conheci desde a +infancia, e posso assegurar a v. ex.<sup>a</sup> que +não havia +mais nobre alma, coração mais terno e cheio de +affectos. +Extremamente sensivel e impressionavel, de uma +boa fé e candura de anjo, foi talvez tudo isso que a +perdeu. +<br /> + +<br /> + +―O pae, segundo creio, projectava casal-a com o +primo, com o Alvaro... +<br /> + +<br /> + +―Sim, essas eram as supremas aspirações de +Norberto. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[207]</span> ―E Helena amava o primo? +<br /> + +<br /> + +―Não o amava. Mas tambem não tinha preferencia +por outro homem. Muitas vezes fallámos n'isso e +lhe ouvi dizer que, posto o primo lhe fosse indifferente, +casaria com elle por obediencia ao pae. Recordo-me +até que, de uma das ultimas vezes em que nós +fallámos a tal respeito, ella me affirmou: «Meu +primo é +para mim um homem como os outros. Caso com elle +como casaria com outro que meu pae indicasse. O +mesmo não succederia, se eu tivesse, como muitas meninas +da minha edade, algum rapaz a quem quizesse +mais...» +<br /> + +<br /> + +―Não foi, portanto, a repugnancia invencivel +pelo primo que a levou a abraçar a vida religiosa....<br /> + +<br /> + +―Decerto não foi. Mesmo porque Norberto de +Noronha amava muito a filha para a constranger a +casar com um homem que ella abertamente recusasse. +Em Helena, o que houve foi a imaginação excitada +pelas perigosas e seductoras pinturas que o padre Anselmo +lhe fez da vida religiosa, fanatisando-a e enlouquecendo-a +com infernal habilidade. +<br /> + +<br /> + +Os dois calaram-se por instantes. +<br /> + +<br /> + +―Sabe v. ex.<sup>a</sup>―disse Julio de Montarroyo por +fim―que me tem sido immensamente grata ao espirito +esta conversação a respeito de Helena? +<br /> + +<br /> + +―É natural. Dei-lhe talvez esclarecimentos que +v. ex.<sup>a</sup> ignorava... +<br /> + +<br /> + +―Por isso, e porque não ha para mim felicidade +igual áquella que experimento em poder fallar de +Helena com pessoa que a tivesse conhecido. Com +effeito, v. ex.<sup>a</sup> acaba de me contar pormenores +que +me eram de todo o ponto desconhecidos... Mas ainda +isso não é tudo: é que sinto +verdadeiramente +um grande lenitivo em ouvir fallar de Helena de +Noronha e de coisas que de longe ou de perto se +relacionem com ella. Foi esse, e não outro, o motivo +<span class="pagenum">[208]</span> +porque vim comprar a casa onde ella nasceu, onde se +creou, onde se passou a sua infancia. Parece-me que +alli tudo me hade fallar d'ella. Cada um d'aquelles +logares me dará como que uma +recordação d'aquella +creatura, que o destino pôz no meu caminho para logo +a fazer desapparecer com a rapidez com que foge e +desapparece um meteoro no espaço, em noite calmosa +de estio! +<br /> + +<br /> + +―V. ex.<sup>a</sup>, sr. Julio de Montarroyo, amou Helena +de Noronha com uma paixão que tornaria feliz a minha +pobre amiga, se ella tivesse podido apreciar como +eu toda a vehemencia do seu affecto! +<br /> + +<br /> + +―Helena, minha senhora, sabia bem quanto eu a +amava... +<br /> + +<br /> + +―Sabia e não lhe correspondeu a esse amôr que +preencheria as mais ardentes aspirações de um +coração +sedento de affectos? +<br /> + +<br /> + +―Correspondeu! Helena correspondeu tanto quanto +a sua nobre alma lh'o permittia, a esta paixão que +me inspirou. E se não abandonou o convento para +vir salvar o pae moribundo e tornar feliz o homem +que ella amava, é porque foi victima de alguma infame +cilada que para sempre a perdeu. +<br /> + +<br /> + +Então Julio de Montarroyo contou a D. Aurelia que +tivera repetidas entrevistas com Helena no convento +do Sardão; que ahi combinára com ella a fuga, +quando +uma inesperada e repentina enfermidade veio transtornar +todo o plano concertado entre os dois; e que, +sendo compellida a seguir para Paris, lhe escrevera +uma carta convidando-o a ir esperar noticias d'ella na +grande capital do mundo civilisado. E tendo ahi passado +muitos mezes, aguardando as promettidas noticias, +nunca mais lhe fôra possivel ouvir sequer fallar d'ella. +<br /> + +<br /> + +―Conclue portanto que Helena... +<br /> + +<br /> + +―Foi infamemente illudida mais uma vez pelos +seus crueis algozes!... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[209]</span> ―Se Helena tinha alguma vez pensado sériamente +em abandonar a vida religiosa, creio bem que não +seria facil impedil-a de realisar o seu pensamento. +Helena de Noronha era por demais altiva e dotada +de energia de caracter sufficiente para não se deixar +prender e illaquear por outra vontade que não fosse +a sua. +<br /> + +<br /> + +―Eu creio que Helena de Noronha já não vive... +Procurei-a por toda a parte, percorri o mundo em sua +procura, e em parte alguma pude jamais achar quem +de longe sequer houvesse tido conhecimento d'ella. +Isto me leva a crêr que a supprimiram antes que ella +pudesse effectuar a sua evasão. +<br /> + +<br /> + +―Seria possivel? +<br /> + +<br /> + +―Nos antros jesuiticos tudo é possivel, minha +senhora. +<br /> + +<br /> + +―Mas não sabe v. ex.<sup>a</sup> que o padre +Anselmo foi +quem resolveu Helena a professar? +<br /> + +<br /> + +―Sei muito bem. +<br /> + +<br /> + +―Pois esse padre não poderia dar noticias de Helena, +se lh'as exigissem? +<br /> + +<br /> + +―O padre Anselmo! Esse decerto poderia informar-me +com verdade do destino de Helena, se me fosse +facil encontral-o. Mas é homem de quem tambem +ninguem me deu noticias... A unica pessoa que poderia +talvez dizer-me o que foi feito d'elle morreu ha +muitos annos em Lisboa... Era uma tal D. Carlota que, +tendo auxiliado Alvaro e a mim proprio em todos os +esforços que empregámos para libertar Helena do +convento, +á ultima hora nos trahiu, reatando as suas +relações +com o padre Anselmo... Regressando a Braga, +alimentava ainda esperanças de a encontrar; mas a +morte incumbiu-se de tornar ainda mais negro o mysterio +que envolve tanto a existencia de Helena como +a do jesuita que a arrebatou para sempre á familia e +á sociedade. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[210]</span> ―Pobre Helena!―suspirou D. Aurelia―que negro +destino foi o seu! +<br /> + +<br /> + +―Infelicitou-se e infelicitou quantas pessoas se lhe +aproximaram. Ha creaturas assim dotadas d'este fatal +condão de trazerem o soffrimento e a desgraça +comsigo. +<br /> + +<br /> + +―E no emtanto as suas intenções eram sempre +nobres +e puras. Ninguem conviveu mais de perto com ella +e tambem por isso ninguem melhor do que eu póde avaliar +o thesouro de bondade que se abrigava n'aquelle +coração! +<br /> + +<br /> + +―V. ex.<sup>a</sup> que vae ter-me por vizinho, hade ter +paciencia, sr.<sup>a</sup> D. Aurelia, e permittir-me que +alguma +vez peça ás suas +recordações o dôce lenitivo de me +fallar de Helena... +<br /> + +<br /> + +―A minha vida é tambem uma interminavel +cadeia de amargas tristezas n'este solitario canto do +mundo, onde nasci e me criei, onde gosei e soffri todas +as alegrias e todas as dôres da existencia... Posso +dizer que hoje vivo, como v. ex.<sup>a</sup>, só +de tristes +recordações...―replicou +D. Aurelia com um fundo suspiro. +<br /> + +<br /> + +A conversação foi interrompida n'este ponto pela +chegada do juiz e do commendador que desciam ao +jardim discutindo entre si o programma das festas em +honra de Julio. +<br /> + +<br /> + +Ao vêrem-n'o a distancia, em conversa animada +com a D. Aurelia, os dois entreolharam-se e, com um +sorriso significativo, disse o magistrado: +<br /> + +<br /> + +―Quer vêr que andamos, sem o pensar, preparando +uma festa de nupcias? +<br /> + +<br /> + +―Póde ser...―replicou o commendador―A D. +Aurelia está ainda muito fresca e, se o Julio tiver juizo, +o que deve fazer é casar com ella para se distrahir. +<br /> + +<br /> + +Assim dizendo, fôram aproximando-se sem darem +a perceber nos gestos ou nas palavras a impressão. +que aquelle encontro lhes causára. +<br /> + +<br /> + +Mais tarde veremos se o juiz tinha razão. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p211">[211]</a></span> +<h3><a name="c13"></a>XIII<br /> + +<br /> + +Denuncia</h3> + +<br /> + +<br /> + +João Lazaro fôra pontual em comparecer +á hora +marcada para a ceia que os amigos offereciam em sua +honra, no Palacio de Crystal. +<br /> + +<br /> + +O aventuareiro sentia-se intimamente lisonjeado e +envaidecido por esta demonstração de affecto e +estima +que Eugenio de Mello e os seus amigos lhe davam. +Mas apparentava grande desdem e indifferença por +tudo quanto o cercava, assumindo a attitude altiva e +soberana de quem dispensa uma honra quando recebe +um favôr. Chegou mesmo a dizer a um de seus intimos, +no tom cançado e aborrecido de quem se vê +obrigado a aturar importunos: +<br /> + +<br /> + +―Estes idiotas massam-me, não me largam e +offerecem-me banquetes para terem a honra de se sentarem +ao meu lado! +<br /> + +<br /> + +―Não será bem isso―replicou o outro +delicadamente, +para não o ferir―Devemos conceder que a amizade, +a justa admiração pelos teus talentos e, acima +de tudo uma certa communhão de ideias, mais que a +vaidade pessoal, são as determinantes d'estas +manifestações +de que és alvo... +<br /> + +<br /> + +―Communhão de ideias!―tornou o João Lazaro +<span class="pagenum">[212]</span> +desdenhoso―Que communhão de ideias pódem elles +ter comigo, se são uns idiotas, uns cretinos incapazes +de terem no cerebro impenetravel outra coisa que não +seja arroz cosido em vez de miolos? +<br /> + +<br /> + +―Talvez tenhas razão, talvez... +<br /> + +<br /> + +―Com toda a certeza que a tenho! Se eu não +fosse um homem notavel, se não tivesse conquistado +uma popularidade que me torna a primeira figura do +meu paiz, cuidas tu que estes imbecis, estes biltres, +teriam a generosidade de me pagar um café, quanto +mais uma ceia? Eu conheço-os. Querem explorar-me, +querem illuminar-se da radiosa aureola de immortalidade +que me circumda a fronte. Com os olhos postos +no futuro, querem, a troco de uma ceia, que os seus +nomes brilhem a par do meu, quando se fizer a minha +historia e quando os seculos repetirem com +admiração +o meu nome e o de todos aquelies a quem dei a honra +de se aproximarem de mim. +<br /> + +<br /> + +O intimo, que era um homem sensato, porem delicado, +não pôde conter-se que não dissesse: +<br /> + +<br /> + +―Agora, depois de te ouvir, convenço-me de que +realmente os idiotas são elles, se pensam como tu +dizes... Pois queres que te falle com franqueza? +<br /> + +<br /> + +―Dize lá. +<br /> + +<br /> + +―Creio que outro qualquer que te ouvisse, sem +ser eu, juraria que o idiota és tu! +<br /> + +<br /> + +João Lazaro mordeu os grossos labios e, percebendo +que irritara o amigo com a sua estupida filaucia, +mudou de tom e disse brandamente: +<br /> + +<br /> + +―Confesso que fui talvez demasiado violento e +um poucochinho injusto na apreciação d'esses +sujeitos, +que pódem ser muito bôas pessoas, e animados das +melhores intenções, mas que me irritam +profundamente, +vindo, com esta futilidade d'uma ceia, roubar-me +o tempo que necessito para tratar assumptos +mais serios e de que depende a salvação de todos. +<span class="pagenum">[213]</span> +Porque é preciso que tu o saibas, eu não vim ao +Porto +unicamente para os amigos me darem de cear... +<br /> + +<br /> + +―Para que então? +<br /> + +<br /> + +―Para ver se querem collaborar comigo na grande +obra da salvação publica... +<br /> + +<br /> + +―Já lhes expuzeste o teu plano? +<br /> + +<br /> + +―O meu plano é tão vasto que não +póde ser resumido +n'um discurso para se repetir a cada um em +particular; e é de tal modo melindroso, que tambem +não póde ser publicamente revelado a uma +assembleia. +Aqui, de duas uma: ou ha confiança em mim, ou não +ha. Se ha, faça-se o que eu digo, facultem-se-me os +meios de que careço e mais tarde se verá a obra +grandiosa que projecto e para cuja realisação +todos +devem concorrer. A gloria, porisso, será de todos. Eu +não a quero só para mim... Se não ha, +é inutil perguntar-me +o que penso e o que desejo fazer. Se eu +submetto o plano á discussão, admittindo emendas +e +correcções, então o plano deixa de ser +meu para ser +de todos, e eu deixo de ser a cabeça pensante para +me converter n'um simples instrumento como os outros. +Ora a isso não me sujeito. Sinto aqui dentro―e +batia na testa com impeto―alguma coisa de grande +e de superior, para que consinta em me nivelar com +essas vulgaridades que nada teem feito e nada podem +fazer, pela simples razão de que não nasceram +para +dirigir, nasceram só para serem dirigidas. Ora ahi +tens a razão porque eu sou ás vezes injusto com +aquelles +mesmos para quem o não devo ser... É que queria +vêr mais ardor, mais enthusiasmo e, sobretudo, mais +desprendimento e menos egoismo n'aquelles que me +rodeiam!... +<br /> + +<br /> + +―Bom! Mas, a final, o que queres tu? +<br /> + +<br /> + +―Dinheiro! +<br /> + +<br /> + +―Oh, diabo! isso é o mais difficil de obter, porque +é isso precisamente o que todos querem... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[214]</span> ―Pois se o querem, que m'o ponham ás ordens, +que o semeiem, que eu lhes volverei cem por um!―exclamou +o João Lazaro, convicto.―Não me falta +mais nada. O meu plano está completo. Para o realisar, +apenas careço de dinheiro. Dêem-me dinheiro e, +dentro em tres mezes, eu terei mudado a face do paiz. +<br /> + +<br /> + +―Mas bem vês, meu caro, que isso depende de +circumstancias... +<br /> + +<br /> + +―Quaes circumstancias? +<br /> + +<br /> + +―Se o dinheiro que tu pedes para a realisação +do teu plano fôr uma somma tão importante que +não +esteja nas forças dos nossos amigos... +<br /> + +<br /> + +―Nas forças dos nossos amigos deve estar sempre +tudo aquillo de que depende a salvação da patria. +Quando se trata de um caso d'estes, ninguem está a +medir e a calcular o que póde fazer. As forças +medem-se +pela grandeza da obra e da vontade de cada +um para a realisar. +<br /> + +<br /> + +―Não é tanto assim. Convencido estás +tu da excellencia +e efficacia do teu plano, e tambem mais que +ninguem deves sentir o desejo ardente de o realisar. +E, no emtanto, tropeças na difficuldade suprema de o +pôr em acção e pedes o concurso dos +correligionarios +para que o teu pensamento não fique na cathegoria +das coisas irrealisaveis... +<br /> + +<br /> + +―Certamente. E creio que todos teem obrigação +de me ajudar. O bem não é só para mim, +o bem é +para todos. +<br /> + +<br /> + +―Perfeitamente d'accordo. Isso não se discute. O +que se discute é se as sommas que a +realisação do teu +plano exige estão nas forças dos nossos amigos. +Bem +sabes aquelle aphorismo: Onde não ha... +<br /> + +<br /> + +―Pois sim, mas aqui não é o rei que perde, +é o +povo. +<br /> + +<br /> + +―E o rei ganha, bem sei. Mas se a fatalidade das +<span class="pagenum">[215]</span> +circumstancias assim o impõe, o que havemos de fazer? +<br /> + +<br /> + +―Assim o impõe, dizes tu! N'esse caso, já sabes +que não ha dinheiro!―exclamou João Lazaro n'um +tom de amargo despeito. +<br /> + +<br /> + +―Eu não sei nada!―volveu-lhe o interlocutor.―Isto +são apenas considerações que eu +faço sobre o +que póde succeder. Ainda não me revelaste o teu +plano, +ainda não me disseste de quanto carecias... Como +queres tu que eu saiba se é realisavel ou não a +somma +que desejas? Simplesmente, o que me parece é que, +se essa somma fôr avultada, haverá difficuldade em +a conseguir. +<br /> + +<br /> + +―Onde está então o amôr d'esses +patriotas á ideia? +<br /> + +<br /> + +―Está no coração. Mas tu bem sabes +que o coração +sem dinheiro é uma força tão fraca +que, hoje, nem +sequer remove as difficuldades de um casamento, quanto +mais as difficuldades da salvação de um povo. +<br /> + +<br /> + +João Lazaro fez um gesto de supremo desprezo. +<br /> + +<br /> + +―E é por um partido d'estes que eu penso, trabalho +e me sacrifico! Vale bem a pena, realmente, expôr-se +um homem a todas as violencias, a todos os +odios e todas as perseguições, para melhorar a +sorte +de um povo que não está ainda educado para as +grandes +reformas sociaes! Cuida a gente que encontra ao +seu lado crenças profundas, dedicações +sinceras, homens +capazes de sacrificarem tudo ao seu ideal, e dá +mas é com um bando de egoistas, agarrados ao dinheiro +como a ostra á casca, incapazes de soltarem um +vintem sem se consummirem em calculos sobre o livro +do <em>Deve</em> e +<em>Haver</em>! Raça ignobil de +bacalhoeiros +ignaros, que estão a pedir João Branco e Pita +Beserra! +<br /> + +<br /> + +Depois d'esta violenta explosão de colera, por +não +achar abertos os cofres dos homens a quem d'antes +chamava filhos e netos de heroes e aos quaes agora +<span class="pagenum">[216]</span> +malsinava de <em>bacalhoeiros ignaros</em>, +visto que não lhe +davam o dinheiro que elle queria para sustentar a +ociosidade infame, o João Lazaro despediu o amigo com +um gesto altivo. +<br /> + +<br /> + +―Bem!―disse elle―tenho entendido. Não se +arranja nada. O peor mal é d'elles. Hão-de +arrepender-se, +mas ha de ser tarde... +<br /> + +<br /> + +E consultando o relogio: +<br /> + +<br /> + +―São horas. Vou ao Palacio, á tal ceia, mas +recolherei +cedo, porque não estou para os aturar. Amanhã, +se quizeres, apparece. Mas vem de dia, porque á noite +talvez retire para Lisboa. +<br /> + +<br /> + +―O que! Retiras sem conferenciar com os nossos +amigos? +<br /> + +<br /> + +―Se me dizes que elles não estão dispostos a +sacrificar-se... +<br /> + +<br /> + +―Entendamo-nos! Eu digo apenas o que penso... +Mas isto não é nem póde ser tomado +como uma resposta +decisiva ao teu pedido... +<br /> + +<br /> + +―Não, que eu não peço!―exclamou +Lazaro +com enfatuada altivez―Eu proponho. Era o que me +faltava! Servil-os com as minhas ideias, com o meu +talento, com o meu nome e vir ainda implorar-lhes +que mo acceitem o favor de os salvar! Se querem ser +homens, se querem ser livres, aqui estou eu, prompto +a resgatal-os com o meu plano: dêem o dinheiro preciso +para o pôr em execução. Se, pelo +contrario, preferem +ser escravos abjectos, vis instrumentos de especuladores +sem dignidade nem consciencia, fiquem-se +com o seu dinheiro e a sua escravidão, que eu por mim +não darei mais um passo em beneficio de semelhante +canalha! +<br /> + +<br /> + +Disse e caminhou para a porta, magestoso e solemne +como um deus sagrado. +<br /> + +<br /> + +―Vaes para a ceia dos teus amigos, não é +isso?―perguntou +o outro despedindo-se. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[217]</span> ―Vou fazer ainda esse ultimo sacrificio á popularidade +de um partido que me não merece. +<br /> + +<br /> + +―Pois bem; vae, que eu vou tocar a capitulo, a +vêr o que se póde arranjar... Tu, +porém, tens de +ser ouvido... +<br /> + +<br /> + +―Não terei duvida em fallar e expôr as coisas +com as reservas precisas, se porventura elles estiverem +dispostos a entrar n'isto a sério. Se, porém, +vires +que se retrahem e que apenas desejam ouvir-me por +simples devaneio, peço-te que não me incommodes, +obrigando-me a descer até esses bilhostres. +<br /> + +<br /> + +Estendeu-lhe com superioridade dois dedos que o +outro apertou, e desceu a metter-se na carruagem de +praça, que o esperava á porta do hotel. +<br /> + +<br /> + +―Para o Palacio!―ordenou ao cocheiro. +<br /> + +<br /> + +Pelo caminho, ia monologando: +<br /> + +<br /> + +―Este idiota ficou aterrado com a minha attitude, +e estou certo de que vae mover os outros estupidos a +largarem o dinheiro... Se não fôr assim, +á valentona, +por boas palavras não se se faz nada... Preciso de +lhes apanhar dinheiro para ir até Hespanha. +<br /> + +<br /> + +E com um sorriso lubrico a bailar-lhe nos labios +sensuaes, n'uma atavica reminiscencia da tanga: +<br /> + +<br /> + +―Oh! as hespanholas... as hespanholas são um +encanto! +<br /> + +<br /> + +Quando entrou no Palacio, passava já da hora +marcada. Os amigos, com Eugenio á frente, vieram +recebel-o n'uma doida expansão de alegria. +<br /> + +<br /> + +―Cuidei que não vinhas!―disse-lhe Eugenio.―Seria +um grande desgosto para nós todos, que te estimamos, +mas muito principalments para estas damas, +que nos honraram com a sua presença e que estavam +anciosas por te conhecer. +<br /> + +<br /> + +O aventureiro saudou gravemente, com um forçado +sorriso de polidez e, respondeu n'um tom de pedantesca +superioridade: +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[218]</span> ―Foi em verdade um sacrificio grande para mim +o ter de comparecer a esta hora, e tanto que me vi +forçado a transferir para amanhã uma +reunião importantissima +que devia effectuar-se hoje. Amigos politicos, +que desejam ouvir-me sobre negocios da mais alta +transcendencia, insistiam comigo para que vos enviasse +um bilhete de desculpa e não protelasse a reunião +que se havia marcado; mas eu recusei-me a +acceder aos seus desejos, pois não quero que se diga +que sou menos amavel com os velhos amigos da mocidade +e com as bellas e gentis damas que os acompanham. +<br /> + +<br /> + +Seguiram-se as apresentações: +<br /> + +<br /> + +―Senhorita Lola... +<br /> + +<br /> + +―Senhorita Dolores... +<br /> + +<br /> + +―Senhorita Consuelo... +<br /> + +<br /> + +O João Lazaro, com os ademanes de um principe, +sorria benevolamente a cada um d'estes nomes, inclinando-se +amavel, com modos de grande senhor. +<br /> + +<br /> + +Abancaram á mesa e principiou o festim. +<br /> + +<br /> + +A esta mesma hora, a loura Leonor, despedido o +commendador Garcia, que havia entrado ás sete, vinha +debruçar-se á janella, na anciosa espectativa de +sentir ao longe os passos de Eugenio, quando um moço +de recados parou á porta da rua, espreitando para o +numero, e bateu, depois de se certificar de que era +realmente aquella a casa que procurava. +<br /> + +<br /> + +A criada desceu a vêr quem batia o pouco depois +voltou com uma carta. +<br /> + +<br /> + +―Um moço de fretes com esta carta para a menina... +<br /> + +<br /> + +A criada, velha onzeneira e confidente das perfidias +ao commendador, usava d'este tratamento meio +familiar, meio respeitoso, sempre que se achava a sós +com Leonor. +<br /> + +<br /> + +―Dê cá!―disse a loura, pegando na carta e +examinando +<span class="pagenum">[219]</span> +o sobrescripto.―Queres vêr que é algum +massador a seringar-me com uma declaração? +<br /> + +<br /> + +―O portador não esperou +<em>reposta</em>. +<br /> + +<br /> + +―Bem sei que não esperou. Eu estava á janella +e vi-o partir logo que entregou a carta. +<br /> + +<br /> + +E rasgou com um sorriso de curiosidade o sobrescripto. +<br /> + +<br /> + +―É singular! O papel não vem perfumado―disse +ella, mostrando o papel vulgar em que a missiva +vinha escripta. +<br /> + +<br /> + +―É de homem de dinheiro!―commentou a velha, +muito pratica em negocios d'amôr.―Os +<em>cheiros</em> são +para os pelintras que só querem agradar com bugigangas +e a respeito de <em>louça</em>... +nem um pires!... Homem +sério, homem de <em>massas</em>, +não está lá com essas coisas... +Confia no seu dinheiro e é bastante... +<br /> + +<br /> + +Leonor, sem prestar attenção ao palanfrorio da +criada, ia lendo n'uma agitação crescente. Quando +chegou ao fim, exclamou horrivelmente pallida, amarfanhando +o papel entre as mãos: +<br /> + +<br /> + +―Oh! mas isto é impossivel! Isto é +uma infamia! +<br /> + +<br /> + +―O que é, menina?―perguntou a velha serviçal, +n'um movimento de curiosidade. +<br /> + +<br /> + +―Dizem-me aqui―tornou Leonor com voz rouca +de commoção―que Eugenio vae casar. +<br /> + +<br /> + +―Casar-se o sr. Eugenio! Credo, menina! Olhe +que isso hão-de ser ditos de gente que lhe quer mal... +Que isto é, eu direi... nos homens não ha que +fiar... +Elles prégam-n'a na menina do olho e, quando uma +pessoa mal cuida, parece que estão muito seguros e +põem-se a <em>avoar</em>! +<br /> + +<br /> + +Leonor, agitadissima, relia o papel para se certificar +de que não tinha comprehendido mal o que n'elle +se lhe dizia e que era o seguinte: +<br /> + +<br /> + +«Uma pessoa amiga, que muito a estima e que daria +a vida para lhe ser agradavel, julga dever avisal-a +<span class="pagenum">[220]</span> +de que Eugenio de Mello acaba de pedir em casamento +uma menina de rara belleza, filha unica de um capitalista +muito conhecido n'esta cidade, e que o enlace se +prepara para muito breve. +<br /> + +<br /> + +«Na roda dos rapazes finos, onde este acontecimento +é muito commentado, discute-se de maneira bastante +humilhante para a gentilissima Leonor o procedimento +de Eugenio. +<br /> + +<br /> + +«Uns affirmam que elle, cançado da amante, +aborrecido +de uns amôres que já não lhe offerecem +encanto +nem prazer, busca pelo casamento com uma menina +rica, prendada, e muito formosa, a quem ama apaixonadamente, +libertar-se de umas relações que considera +despreziveis e improprias da sua dignidade. Outros +sustentam que, pelo contrario, Leonor e Eugenio, receiando +que o commendador Garcia, de um momento +para outro, escandalisado com o mau uso que ambos +fazem do seu dinheiro, <em>suspenda +pagamentos</em>, combinaram +que o melhor era garantirem-se contra a miseria +provavel, casando Eugenio com uma mulher de dinheiro +e ficando Leonor a receber d'elle o preço dos seus amores +como agora o recebe do commendador Garcia. +<br /> + +<br /> + +«Quem estas linhas escreve tem a certeza de que +Leonor é vilmente atraiçoada por Eugenio, e por +isso +caridosamente a previne d'este facto, afim de evitar +que a sua reputação, continue a ser infamemente +enxovalhada +pelos mais intimos amigos do perfido e ingrato +amante. +<br /> + +<br /> + +«Se fôr discreta e prudente e quizer informar-se +em segredo da veracidade d'este aviso, a pessoa que +lhe escreve esta carta estará amanhã +ás 11 horas em +sitio d'onde aviste a sua casa. Se a janella do meio estiver +aberta, a sála illuminada e no piano se ouvir a +valsa <em>Leonor</em>, é signal de +que deseja recebel-a e então +essa pessoa apresentar-se-ha para lhe dar todos os esclarecimentos +que desejar. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[221]</span> +«Até lá, silencio e +discreção é a unica coisa que +se recommenda.» +<br /> + +<br /> + +Relida esta carta em voz alta, Leonor encarou desvairada +a velha confidente, exclamando: +<br /> + +<br /> + +―Se é verdade isto que aqui se diz, mato-o! +<br /> + +<br /> + +―Crédo, menina!―bradou a velha benzendo-se―Isso +são tentações do demonio! Deixe +lá, não faça isso, +que não vale a pena uma pessoa ir pagar c'os ossos +na cadeia um burro ruim por um +<em>bô</em>! Homens ha muitos, +tão <em>bôs</em> e +melhores do que aquelle... Olha agora, +se a menina, com uma carinha d'essas, que parece mesmo +uma <em>image</em>, não achava +homem que lhe désse o +merecimento senão aquelle! Crédo! andam ahi +rapazes +como uns soes, babadinhos pela menina que tomaram +elles quem lhes désse attenção... Era +só a menina +abrir a bôcca e veria!... Eu é que não +quero +dizer nada, mas tenho <em>osservado</em> +muita coisa... Só eu +é que sei! +<br /> + +<br /> + +―Que e o que você tem observado, Joanna?―interrogou +Leonor roida da curiosidade de saber alguma +coisa que lhe esclarecesse a perfidia de Eugenio. +<br /> + +<br /> + +―Tenho-os visto por ahi a offerecer-me prendas +se eu fizer com que a menina lhes dê +attenção... +Mas eu cá... como a via virada p'ró sr. +Eugenio... +mal haja elle, se é certo o que diz a carta! +<br /> + +<br /> + +―E você nunca ouviu dizer nada, Joanna? Nunca +ouviu que Eugenio tivesse outro namoro? +<br /> + +<br /> + +―Não, lá isso, na minha +salvação se eu ouvi boquejar +nem tanto como isto! +<br /> + +<br /> + +E mostrava a ponta da unha suja, para indicar o +têrmo da comparação. +<br /> + +<br /> + +―Mas será verdade?―tornava a loura passeando +agitadamente na sala―Elle terá animo para me +fazer uma affronta d'estas, sabendo quanto o amo, +quanto me tenho sacrificado por elle? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[222]</span> ―O amor dos homens é como a fôlha +do olmo... +ora vira para um lado, ora p'ró oitro, menina... +<br /> + +<br /> + +―Oh! mas isto é impossivel! Eu não lhe +mereço +um tamanho despreso, uma tamanha perfidia! É +preciso que um homem seja muito infame para abusar +assim do amôr d'uma pobre mulher, para andar +assim nas trevas preparando um golpe de morte ao +meu coração! +<br /> + +<br /> + +E irritada, anhelante de desespêro torcia as mãos, +com frenesi. +<br /> + +<br /> + +A velha apaziguava: +<br /> + +<br /> + +―Ás vezes +<em>támem</em> se diz mais do que +é,.. +<br /> + +<br /> + +―Mas diz-se, e nada se diz sem motivo... Alem +d'isso, esta carta não póde ser uma impostura, +porque +a pessoa que a escreve presta-se a dar-me esclarecimentos... +E ninguem ousaria vir comprometter-se +affirmando uma coisa que mais tarde se saberia ser +mentira... Oh, meu Deus! meu Deus! que mal te +fiz eu para me fazeres tão desgraçada?!―exclamou +por fim, rompendo em soluços. +<br /> + +<br /> + +―Desgraçado é o diabo!―consolou a velha +Joanna―Quem conta um conto sempre lhe accrescenta +um ponto... Isso ás vezes póde ser que +não +seja tanto assim... Mas se fôr, o que a menina deve +fazer é botar o coração ao largo... +Mal por mal, +antes isso do que o sr. commandador +<em>Gracía</em> dar por +ella e não tornar cá... +<em>Antão</em> sim, +<em>antão</em> é que a +menina se devia affligir, porque o amôr é muito +bonito, +mas sem dinheiro não se arranja nada... +<br /> + +<br /> + +―Cale-se, Joanna, cale-se!―bradou Leonor n'um +impeto de desespero―Você pensa como elle, que +tambem vae atrás do dinheiro, sem se lembrar que +eu, para o amar, não estive a fazer calculos nem a +perguntar-lhe quanto possuia! Oh! mas eu lhe juro +que não chegara a gosar esse maldito ouro pelo qual +me troca! Miseravel! neguei-lhe eu alguma vez todo +<span class="pagenum"><a name="p223">[223]</a></span><a href="#e24"> +o dinheiro</a> que me pedia? Sendo uma pobre mulher, +vivendo unicamente da protecção de um homem, eu +nunca hesitei em sacrificar todos os meus recursos, o +meu dinheiro, as minhas joias, a minha posição―o +proprio amor do homem que me sustenta―ás suas +necessidades, aos seus caprichos, aos seus prazeres! +E anda em segredo tratando casamento com outra, +vendendo ao dinheiro d'ella o meu coração, o meu +socego, +a minha tranquillidade! E expõe-me aos ditos e +ás chufas dos seus amigos, arrasta o meu nome pelas +mesas dos botequins onde me julgam capaz de me associar +a elle na infame exploração de uma mulher! +Oh! a ser verdade, mil vidas que elle tivesse não chegariam +para pagar esta affronta! +<br /> + +<br /> + +No intimo de Leonor tumultuavam todas as paixões +que pódem agitar um peito de mulher: o amôr +despresado, +o amôr proprio offendido, a vaidade irritada, +o odio, o ciume, emfim. +<br /> + +<br /> + +A velha encarava-a receosa, sem já se atrever a +proferir palavras de prudencia ou de banal +consolação. +<br /> + +<br /> + +De pé, a um canto, com as mãos cruzadas sobre a +barriga, limitava-se a suspirar, murmurando em voz +lamurienta: +<br /> + +<br /> + +―Seja pelas almas! Ninguem diga que está bem... +Nossa Senhora do Allivio nos accuda pela sua infinita +misericordia! +<br /> + +<br /> + +Decorreram assim algumas horas. Por fim, Leonor, +mais tranquilla, pareceu tomar uma resolução. +<br /> + +<br /> + +―Joanna―disse ella―de tudo isto que aqui se +passou, você não dá uma palavra ao sr. +Eugenio. +<br /> + +<br /> + +―Ó menina! Crédo!―protestou a velha―a minha +bôcca não se abre para nada! Não diga a +menina +coisa nenhuma, que eu +<em>tàmem</em> faço de +conta que nada +<em>assucedeu</em>... Mas a menina +é capaz de não ter mão +em si e começar-lhe por ahi com <em>climas</em>, +que elle logo +desconfia... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[224]</span> ―Eu nada digo. Preciso inteirar-me da verdade, +e para isso não convem que Eugenio suspeite que alguem +me disse qualquer coisa... +<br /> + +<br /> + +―Por mim, não é que elle ha de desconfiar nada! +E olhe que se a menina fizer isso, anda ás horas!... +Ao menos, assim, não dá logar a que elle se +encubra. +E depois de se <em>infirmar</em> da verdade, +já fica sabendo +quem tem... +<br /> + +<br /> + +―É justamente isso o que eu quero. +<br /> + +<br /> + +―Porque ás vezes―commentou a +velha―<em>támem</em> +são <em>malquerencias</em>... +Pobre do rapaz! póde ser que +ás vezes nem lhe passe pela cabeça nenhuma coisa +d'essas e lhe estejam a alevantar esse falso testemunho, +só p'ra amôr da menina se dar mal co'elle... +Olhe que no mundo <em>támem</em> +hão muitas +<em>invejidades</em>!... +<br /> + +<br /> + +―Pois é por isso...―tornou Leonor dominando-se―Eu +vou-me deitar... Não desejo que elle me +encontre a pé quando vier... E como isto é contra +o +meu costume, vocemecê, amanhã, quando eu a chamar +ao meu quarto, a primeira coisa que tem a fazer é +perguntar-me se estou melhor... +<br /> + +<br /> + +―Bem sei; a menina quer-se <em>infingir</em> +doente esta +noite p'ra elle não desconfiar... +<br /> + +<br /> + +―É isso mesmo. Vocemecê não esquece +isto que +lhe digo? +<br /> + +<br /> + +―Ora essa! A'gora esqueço!... +<br /> + +<br /> + +―Bem! Bôa noite! Pode-se ir deitar... +<br /> + +<br /> + +―Então, com bem passe a noite, menina!... Se +fôr preciso alguma coisa, não tem senão +chamar... +<br /> + +<br /> + +Quando Eugenio recolheu a casa, era madrugada. +A ceia prolongara-se e a alegre companhia das hespanholas +tivera o singular condão de fazer voar as +horas com a rapidez de minutos. +<br /> + +<br /> + +Não foi sem um intimo constrangimento que o bohemio +penetrou, ás quatro horas da manhã, no quarto +da amante. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[225]</span> +Comquanto a tivesse prevenido de que recolheria +tarde, por motivo da ceia offerecida a João Lazaro, +esperava uma scena de ciumes, recriminações e +queixas, +como succedia sempre que a fazia esperar. +<br /> + +<br /> + +Foi, pois, com grande surpreza que a encontrou +deitada e, ao parecer, tranquilla. +<br /> + +<br /> + +―Deitaste-te?―disse elle―Fizeste bem, minha +querida. A ceia prolongou-se mais do que eu esperava, +e depois, conversa d'aqui, anecdota d'acolá, quando demos +conta de nós eram estas horas que vês! +<br /> + +<br /> + +Leonor affectava uma grande serenidade e respondeu +com ternura: +<br /> + +<br /> + +―Estava anciosa que viesses, porque me senti +muito incommodada... Deitei-me por não poder estar +de pé, mas não tenho dormido... +<br /> + +<br /> + +―Estás doente, meu amor! O que foi isso? O que +sentes? +<br /> + +<br /> + +―Nem eu sei o que isto foi! Comecei a sentir +muito frio e grandes dôres de cabeça... E creio +que +tive uma ponta de febre... +<br /> + +<br /> + +―Foi constipação, com toda a certeza! +És uma +descuidada, não te agasalhas... Quando Deus quer, +puzeste-te por ahi á janella, a vêr quando eu +chegava, +e deu-te esse resultado! +<br /> + +<br /> + +―Não! Como sabia para onde tinhas ido, não te +esperava senão mais tarde... Não sei, +não posso calcular +do que isto fôsse... +<br /> + +<br /> + +―Mas estás melhor, não é verdade? +<br /> + +<br /> + +―Sim... agora sinto-me um pouco melhor... +Depois que tomei uma chavena de chá bem quente, as +dôres abrandaram-me um pouco... +<br /> + +<br /> + +―Para que deixaste deitar a Joanna? Ella podia +ter ido chamar-me... Tu sabias onde eu estava, e se +mandasses dizer-me o teu estado, viria immediatamente. +<br /> + +<br /> + +―Não valia a penna ir incommodar-te por uma +coisa tão ligeira... Isto passa. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p226">[226]</a></span> +A conversação proseguiu assim serena, e amigavel, +podendo Leonor occultar aos olhos do amante o terrivel +inferno que lhe ia n'alma. +<br /> + +<br /> + +O bohemio, confiado e desprevenido, acreditou na +simulada doença da formosa loura e attribuiu a isso a +pallidez mortal que no dia seguinte lhe notou nas +feições. +<br /> + +<br /> + +Ella, pela sua parte, ameigava a voz, mostrava-se +dôce e carinhosa, mais ainda do que de costume, e +quando chegou ao fim da tarde e o bohemio teve de +sahir para dar logar ao commendador Garcia, foi com +um <a href="#e25">transporte</a> de +ternura infinita que lhe disse: +<br /> + +<br /> + +―Peço-te que não venhas tarde, mas tambem +não +desejo que sacrifiques a companhia dos teus amigos á +ideia de que estou mal, porque, felizmente, sinto-me +melhor... +<br /> + +<br /> + +―Não, eu venho cêdo... +<br /> + +<br /> + +―A que hora? +<br /> + +<br /> + +―Depois da meia noite. Mas tu deita-te, não me +esperes a pé, filhinha... +<br /> + +<br /> + +―Sim... se me sentir doente, deito-me, e a Joanna, +quando tu vieres, servir-te-ha a ceia, se ainda não tiveres +ceiado... +<br /> + +<br /> + +―N'esse caso, combinemos assim: eu ceio hoje +fóra para não dar trabalho á criada +quando recolher. +E tu não me esperas a pé... Valeu? +<br /> + +<br /> + +―Pois sim. +<br /> + +<br /> + +Beijaram-se e o bohemio partiu a encontrar-se com +os amigos no botequim. +<br /> + +<br /> + +Pelas onze horas da noite, e tendo já sahido o +commendador Garcia, Leonor, com a janella do centro +aberta e a sala illuminada, sentou-se ao piano e +começou executando a walsa +<em>Leonor</em>, conforme o seu +anonymo correspondente lhe havia indicado. +<br /> + +<br /> + +Quando mais não fosse senão a natural curiosidade +de conhecer quem lhe escrevia denunciando-lhe a atroz +<span class="pagenum">[227]</span> +perfidia de Eugenio, já era motivo mais que bastante +para que Leonor acceitasse o offerecimento que se +lhe fazia e désse o signal convencionado. Mas, muito +mais que isso, imperava no espirito da ardente rapariga +o sentimento do ciume e o irresistivel desejo de +conhecer toda a verdade. +<br /> + +<br /> + +Ainda a walsa não tinha chegado aos ultimos compassos +e já á porta da rua carregava no botão +da +campainha electrica um homem, embuçado n'uma ampla +capa á hespanhola e tendo occulto o rosto pelas +abas largas de um chapéo de feltro. +<br /> + +<br /> + +A velha Joanna desceu a escada e, abrindo a +porta, franqueou a entrada ao desconhecido, indo em +seguida postar-se de vigia n'outra janella, para avisar +da chegada de Eugenio, se acaso o presentisse na rua. +<br /> + +<br /> + +Leonor, tendo descido a vidraça e corrido o store, +esperava o denunciante, de pé, na sala, com o +coração +palpitante de anciosa curiosidade. +<br /> + +<br /> + +O desconhecido entrou desembaraçadamente, fechou +a porta sobre si e, parando em frente de Leonor +estupefacta, desembuçou-se, tirou o chapéo e +disse, +inclinando-se em garboso cumprimento: +<br /> + +<br /> + +―Não esperava que fosse eu, não é +verdade? +<br /> + +<br /> + +―O senhor!―disse Leonor com pasmo, reconhecendo +no embuçado as feições de +João Lazaro. +<br /> + +<br /> + +―Eu mesmo, é verdade!―replicou João Lazaro +n'um tom meio grave, meio galanteador;―julgava-me +bem longe do Porto e completamente esquecido +d'esse rosto lindo... Bem vê que se enganou e que o +interesse que uma vez despertou na minha alma não +desappareceu, antes mais se fortaleceu e acrisolou com +a ausencia. +<br /> + +<br /> + +―Mas, perdão!―tornou Leonor, franzindo o sobr'olho +n'um gesto de impaciencia―creio que não foi +para insistir nos seus protestos de estima que aqui +veio... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[228]</span> ―Bem sei! Está impaciente por conhecer toda a +negra perfidia de Eugenio... Vamos de vagar, minha +querida, e deixe-me primeiro expôr-lhe quaes os motivos +que me impelliram a dirigir-lhe a carta que +hontem recebeu... +<br /> + +<br /> + +―Mas não estão elles expostos n'essa mesma +carta? +Se, como creio, os factos n'ella relatados são verdadeiros, +basta a existencia d'esses factos para explicar +o seu procedimento... +<br /> + +<br /> + +―Perdão, minha adoravel e gentil senhora! Tenho +visto commetter muitas perfidias, tenho sido testemunha +de villanias e infamias bem censuraveis, e +nem por isso me tenho julgado no dever de intervir +em favor das victimas. E isto por duas razoes bem +simples: a primeira, porque, hoje em dia, no mundo a +velhacaria, a traição, é moeda +corrente; e a segunda, +porque as pessoas a quem tenho visto ludibriar e escarnecer +são em geral creaturas pelas quaes o meu +coração +não se interessa. Ora com a gentil Leonor não +estamos no mesmo caso. Creio que já em tempo lhe +declarei, e bem sinceramente, quanta sympathia, +quanto interesse e quanta dedicação a sua +estonteante +formosura despertava na minha alma... Não me quiz +attender, ou melhor, não tive a fortuna de lhe merecer +a mais ligeira estima. Outro mais feliz, porém +immensamente menos digno e mais ingrato do que eu, +teve a dôce ventura de tocar o seu +coração. Fui preterido. +Paciencia! O que n'essa preterição houve de +injusto e cruel para mim o de immerecido para elle +vae agora a adoravel e encantadora Leonor sabêl-o... +<br /> + +<br /> + +―Por Deus, sr. Lazaro! conte-me tudo, não me +occulte nada! +<br /> + +<br /> + +―É então certo que o ama muito?―perguntou +o aventureiro com um sorriso ironico. +<br /> + +<br /> + +Leonor franziu ainda o sobr'olho e respondeu n'um +impeto de irreprimivel desespêro: +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[229]</span> ―Não sei se o amo, se o aborreço; sei que desejo +saber quem é, como se chama e onde mora a mulher +com quem vae casar. Sei que o sr. accusa Eugenio de +me haver illudido, de me haver trocado por outra, e +de me haver ultrajado, fazendo suppôr que eu e elle +entramos de sociedade e de intimo accordo n'um casamento +de exploração infame. Estas +accusações são +gravissimas, quer para o caracter de Eugenio, quer +ainda para o meu coração de mulher. É +preciso que +o senhor justifique perante mim, sem subterfugios e +sem rodeios, tudo quanto hontem me escreveu, aliás... +<br /> + +<br /> + +―Aliás?―interrogou João Lazaro, sorrindo. +<br /> + +<br /> + +―Aliás terei o desgosto de lhe metter uma bala +na cabeça. +<br /> + +<br /> + +E, n'um arrebatamento de justa indignação, os +olhos faiscantes, os labios descorados e tremulos, Leonor +tirou do bolso do vestido um pequeno revolver, +com coronha de marfim, e apontou-o a João Lazaro. +<br /> + +<br /> + +―É justo!―disse elle tranquillamente, sem perder +a linha do amavel galanteador.―O castigo deve +sempre igualar o delicto, e eu não mereceria outra +punição se calumniasse de maneira tão +infame o homem +que a senhora ama e que, além d'isso, é meu +amigo... Mas, vejamos: se a mentira merece ser punida, +a verdade não tem direito a ser premiada? +<br /> + +<br /> + +―O que quer dizer? +<br /> + +<br /> + +―Uma coisa muito simples e ao mesmo tempo +muito justa. Se eu minto, mata-me... Se eu fallo +verdade, não é justo que me dê vida? +Porque é preciso +que o saiba, Leonor: a morrer de amôr por esse +esquivo e ingrato coração, que a outro se +abandonou, +ando eu ha muito tempo! +<br /> + +<br /> + +Leonor encarou-o com altiva dignidade: +<br /> + +<br /> + +―É o meu coração o que me pede ou... +a minha +belleza? +<br /> + +<br /> + +―Tudo, Leonor! Desejo tudo quanto póde dar-me +<span class="pagenum">[230]</span> +a vida, a felicidade, que sem o seu amor não +existe para mim, e que outro ingrato indignamente +me tem usurpado! Prometta-me que não me recusará +a esmola que lhe imploro do seu affecto, e terá de mim +a prova evidente, clara, irrecusavel, da negra perfidia +de Eugenio! +<br /> + +<br /> + +Leonor ficou um momento perplexa, fitando o João +Lazaro attentamente, como se quizesse lêr-lhe no +rosto os pensamentos mais intimos. Por fim, respondeu: +<br /> + +<br /> + +―O meu coração, por emquanto, não +está livre. +<br /> + +<br /> + +―Mas se aquelle que n'este momento o occupa +fôr d'elle expulso, como merece, poderei ao menos +contar com um infimo logar no mais afastado recanto +do seu peito, Leonor? +<br /> + +<br /> + +―Não costumo ser ingrata para os que uma vez +me provaram dedicação e estima sincera. +<br /> + +<br /> + +―Não o será então para mim, porque, +desilludindo-a, +dou-lhe a prova mais completa de quanto lhe +quero, de quanto a amo! +<br /> + +<br /> + +A loura indicou uma poltrona a João Lazaro e +recostou-se no sofá que lhe ficava proximo. +<br /> + +<br /> + +―Assim entendidos―disse ella―queira dar-me +as explicações que me prometteu. +<br /> + +<br /> + +―Perdão, minha querida!―tornou o aventureiro, +sorrindo amavelmente―Por emquanto ainda não +passamos de promessas vagas, que a nada obrigam... +<br /> + +<br /> + +―O que deseja então? +<br /> + +<br /> + +―Que me prometta, que me jure duas coisas... +<br /> + +<br /> + +―Dirá. +<br /> + +<br /> + +―A primeira que será discreta, que obedecerá +em tudo e por tudo ás minhas +indicações, para chegar +a obter a certesa absoluta da infidelidade de Eugenio. +<br /> + +<br /> + +―Prometto. +<br /> + +<br /> + +―A segunda é que, confirmada a minha +accusação +<span class="pagenum">[231]</span> +e adquirida a certeza completa dos factos +que lhe +aponto, conceder-me-ha uma hora de felicidade, ao +menos, consentindo que eu occupe durante ella, o logar +que, n'esta casa, occupava Eugenio... +<br /> + +<br /> + +A loura hesitou, tomada de invencivel repugnancia +por este homem que mercadejava infamemente +com a paixão terrivel que abrasava o seu +coração de +mulher ciumenta. +<br /> + +<br /> + +―E se eu recusar essa ultima +condição?―perguntou. +<br /> + +<br /> + +―Calar-me-hei, deixando-lhe o direito salvo de +indagar por si o que póde ficar sabendo desde já. +<br /> + +<br /> + +―Pois bem, prometto. Falle e diga tudo o que +sabe! +<br /> + +<br /> + +―Vê que confio na sua promessa e que não lhe +peço como penhor a mais leve liberdade, nem sequer +o adiantamento de um beijo... +<br /> + +<br /> + +―É de mais!―bradou Leonor, colerica e impaciente.―Se +veio aqui, para se divertir á minha +custa, fez muito mal, porque póde sahir-lhe cara a +brincadeira! +<br /> + +<br /> + +―Ora vamos, minha querida... socegue!―volveu +o Lazaro com um sorriso cynico.―Bem vê que +eu sou incapaz de abusar da sua credulidade, submettendo +o seu coração a um rude soffrimento por mero +gracejo. Mas estes casos, porisso mesmo que são +graves e sérios, querem-se meditados e reflectidos. +Temos obrigação de os encarar com serenidade e +sangue +frio, para procedermos com acerto e prudencia. +<br /> + +<br /> + +―Pois bem; eu estou tranquilla e, se alguma impaciencia +me nota, é apenas a de ouvir as +revelações +que me interessam e que certamente me vae fazer. +<br /> + +<br /> + +―Ora muito bem!―principiou o João Lazaro.―Disse-lhe +na minha carta que Eugenio pediu em casamento +uma menina formosa e rica. E disse a verdade. +<br /> + +<br /> + +―Como se chama essa menina? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[232]</span> ―Beatriz. +<br /> + +<br /> + +―Onde mora? +<br /> + +<br /> + +―Na rua do Breyner e é filha do capitalista Custodio +de Jesus. +<br /> + +<br /> + +―Diz então que o casamento está projectado para +breve? +<br /> + +<br /> + +―Digo. +<br /> + +<br /> + +―N'esse caso, essa menina ama-o? +<br /> + +<br /> + +―Tanto não sei, mas é de suppôr que +sim, visto +que está disposta a recebel-o por marido. O que, +porém, +não offerece duvida é que Eugenio a ama, pois que +pediu a sua mão. +<br /> + +<br /> + +―Foi Eugenio quem lhe disse que ia casar? +<br /> + +<br /> + +―Eugenio nada me disse. Não atraiçôo, +portanto, +o amigo, descobrindo o seu segredo... +<br /> + +<br /> + +―Como o soube então? +<br /> + +<br /> + +―Se é publico e notorio! Se nos cafés +não se falla +de outra coisa! +<br /> + +<br /> + +―Não será isso uma +invenção de rapazes levianos, +que gostam de se divertir á custa alheia? +<br /> + +<br /> + +―Citam-se nomes e fazem-se commentarios. Além +d'isso, a pessoa que mais particularmente me elucidou +d'este caso não conhecia Eugenio e veio pedir-me +informações +a seu respeito. +<br /> + +<br /> + +―O que lhe disse? +<br /> + +<br /> + +―O que não podia deixar de dizer de um homem +de quem sou amigo: que Eugenio é muito bom rapaz, +um cavalheiro a toda a prova. +<br /> + +<br /> + +―Mas é forçoso impedir esse casamento! +<br /> + +<br /> + +―Talvez não seja impossivel. +<br /> + +<br /> + +―Conhece o pae d'essa menina, esse tal Custodio +de Jesus? +<br /> + +<br /> + +―De vista apenas. Não tenho com elle +relações +pessoaes; mas conheço amigos intimos seus. O que deseja +d'elle? +<br /> + +<br /> + +―Informal-o de que Eugenio mantém +relações comigo +<span class="pagenum">[233]</span> +e fazer comprehender que não deve dar a filha +a um homem que tem uma amante... +<br /> + +<br /> + +―Está doida! E o commendador Garcia? +<br /> + +<br /> + +―Que me importa a mim o commendador Garcia, +comtanto que Eugenio não case!―bradou Leonor, erguendo-se +arrebatadamente do sofá em que se achava +sentada e dando alguns passos pela sala, n'uma +agitação +indescriptivel. +<br /> + +<br /> + +―Venha cá, socegue!―disse João Lazaro, +tomando-lhe +a mão.―Prometteu-me obedecer a todas as minhas +indicações, e é forçoso que +cumpra o que prometteu. +<br /> + +<br /> + +―Pois sim... Diga então o que devo fazer...<br /> + +<br /> + +―Em primeiro logar, certificar-se de que é verdade +o Eugenio trahil-a. +<br /> + +<br /> + +―Como? +<br /> + +<br /> + +―Pela sua criada, que deve merecer-lhe toda a +confiança... +<br /> + +<br /> + +―Merece... +<br /> + +<br /> + +―Pois a sua criada procurará travar +relações com +alguma das criadas de Custodio de Jesus, e por esse +modo saberá o que ha de verdade ácerca do que se +diz. Os criados sabem tudo e são os melhores informadores +d'este mundo. +<br /> + +<br /> + +―E obtida a certeza? +<br /> + +<br /> + +―Obtida a certeza, nada diz a Eugenio até ao +momento que eu lhe marcar. Faz isto? +<br /> + +<br /> + +―Faço. +<br /> + +<br /> + +―Que Eugenio não suspeite que lhe está no rasto +da perfidia. +<br /> + +<br /> + +―Não suspeitará. +<br /> + +<br /> + +―E eu voltarei a informál-a. +<br /> + +<br /> + +―Quando? +<br /> + +<br /> + +―Quando tiver obtido todos os informes que precisamos. +<br /> + +<br /> + +―E até lá nada devo dizer nem fazer? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[234]</span> ―Nada, senão isto: pôr a sua criada em +relações +com as criadas do Custodio de Jesus. +<br /> + +<br /> + +―Mas sabe que me condemna a uma tortura horrivel? +Como quer que eu, com o inferno no coração, +guarde silencio e me sujeite ás +dilações de uma informação +tão morosa? Eu preciso de resolver e actuar +immediatamente! Não está no meu genio occultar +por +muito tempo o que me vae n'alma... +<br /> + +<br /> + +―As circumstancias impõem-lhe +dissimulação e +prudencia. +<br /> + +<br /> + +―As circumstancias! Qual é a mulher que no +meu caso attende ás circumstancias? +<br /> + +<br /> + +―Todas. No seu caso, todas―replicou João Lazaro +com reflexiva gravidade. +<br /> + +<br /> + +E amaciando a voz, n'um tom de convicção +profunda: +<br /> + +<br /> + +―Ora venha cá!―disse elle―Deixe-me pensar +pela senhora e defender os seus interesses, o seu futuro, +a sua posição, uma vez que essa cabecinha +transtornada +não se mostra em estado de pensar coisa alguma +com acerto. E, creia, foi principalmente por isso +que não quiz logo dizer-lhe tudo na minha carta... +Calculei que faria escandalo se não tivesse ao seu lado +alguem que a dirigisse, e procedi de fórma a +obrigal-a +a ouvir-me e a attender-me... +<br /> + +<br /> + +―Pois sim... já o ouvi e já o attendi... Mas o +que não posso, o que os meus nervos não consentem +é, +obtida a prova da perfidia de Eugenio, remetter-me a +uma passividade absoluta, deixando que o infame realise +os seus torpes intentos! +<br /> + +<br /> + +―Não seja creança e vamos a vêr se +consigo convencel-a +de que um escandalo ruidoso nada impede e +a mais ninguem prejudica senão á senhora... +<br /> + +<br /> + +―Só a mim, diz? +<br /> + +<br /> + +―Sim, só á senhora. Ora ouça, Leonor: +Imagina +que se se apresentar em casa de Custodio de Jesus e +<span class="pagenum"><a name="p235">[235]</a></span> +disser: «eu sou amante ostensiva do commendador Garcia, +e o Eugenio de Mello é o meu amante clandestino», +essa declaração pesará no espirito do +abastado capitalista +o bastante para impedir o casamento? +<br /> + +<br /> + +Leonor baixou os olhos e não <a href="#e26">respondeu</a>. +João Lazaro +continuou: +<br /> + +<br /> + +―O mais que com isso poderá fazer, é provocar +explicações da parte de Eugenio que, bem longe de +negar, confessará essas relações, que +nada affectam a +reputação de um rapaz livre e em pleno goso da +sua +mocidade; pois, infelizmente, toda a gente considera +perdoaveis uns amôres que sempre se calculam do +duração ephemera e que, por isso mesmo, ninguem +toma a sério. +<br /> + +<br /> + +A loura ergue-se como impellida por occulta mola. +Os olhos faiscaram-lhe de colera, n'uma +indignação +suprema. +<br /> + +<br /> + +―Ninguem toma a sério o amor de uma mulher +como eu!―exclamou ella―E porque? Acaso o +meu coração vale menos do que o d'outra mulher? +Acaso sou eu uma creatura differente de todas as outras, +e porisso condemnada a não sentir no meu +coração +os dôces affectos que são a vida e a felicidade +ainda +dos seres mais despresiveis e obscuros? Não terei +eu o direito de amar e de exigir que o homem que +despertou na minha alma o terno sentimento a que +jurou corresponder cumpra lealmente os seus juramentos? +<br /> + +<br /> + +João Lazaro ouviu impassivel esta rajada de +indignação, +sem perder um só instante o sorriso meio +amavel, meio ironico, que desde o principio lhe brincava +nos labios. +<br /> + +<br /> + +―Tem razão―disse elle por fim―Mas que quer, +minha querida? A sociedade é quasi sempre cruel e +iniquia nas suas decisões; e ahi está +precisamente um +caso em que ninguem, da boa fé, poderá +attribuir-lhe +<span class="pagenum">[236]</span> +rectidão e justiça. No emtanto, como a sociedade +é que +dicta a lei pela qual cada um se rege, segue-se que +Eugenio, na sua perfidia, tem a seu favor a lei, que todos +acatam, ao passo que a senhora tem apenas a razão, +que ninguem attende. +<br /> + +<br /> + +―Ha de pelo menos attendel-a elle! +<br /> + +<br /> + +João Lazaro teve uma gargalhada de zombaria. +<br /> + +<br /> + +―Não o creia, minha querida! Se Eugenio prestasse +ouvidos á razão, se ao menos tivesse uma sombra +de respeito por esse coração que elle esmaga, por +esse amor que calca aos pés, não teria pensado em +casar-se. +Mas, digo-lh'o eu, e a senhora vae em breve +ter a confirmação do que lhe assevero, o Eugenio +pensa, em se <em>fazer homem +sério</em> por meio de uma alliança +vantajosa e respeitavel, e está disposto a romper +os laços de uma affeição que nunca +reputou duradoura +nem digna d'elle. +<br /> + +<br /> + +―Esbofeteal-o-hei publicamente como a um verdadeiro +canalha que é!―bradou Leonor completamente +dementada. +<br /> + +<br /> + +―Eis o perigo! Eis o gravissimo desatino que eu +me julgo no dever de impedir, porque a amo, porque +a estremeço, Leonor, e porque nunca poderia absolver-me +de ter sido eu a causa indirecta d'essa grande +loucura! O que lucraria com isso? Fazer um escandalo +cujo ridiculo cahiria inteiro sobre a senhora? +Obrigar a que a discutissem nos cafés e a ultrajassem +nas conversações particulares, como a uma mulher +despresada, +uma mulher publicamente repellida? A sociedade +é assim, minha querida amiga! Não +perdôa +aos vencidos. E depois, o ruido d'este escandalo chegaria +aos ouvidos do commendador Garcia, seu protector. +Por muito que elle lhe queira, por muito que transija +com os despoticos impetos do seu temperamento +e do seu coração de mulher galante, bem +vê, Leonor, +que seria crear-lhe uma situação que nenhum +<span class="pagenum">[237]</span> +homem, nem mesmo o commendador Garcia, poderia +acceitar... O rompimento, portanto, com este seria +inevitavel, e d'ahi um accrescimo de desgraça e mais +um motivo de prazer para todos aquelles a quem o seu +desdem tem magoado. Repare bem n'isto, Leonor, olhe +que é um amigo sincero e verdadeiro que lhe está +fallando. +<br /> + +<br /> + +―Mas o que devo então fazer, santo Deus!―clamou +a formosa Laura, estorcendo as mãos em desespero. +<br /> + +<br /> + +―Ter prudencia e esperar. +<br /> + +<br /> + +―Ter prudencia! Esperar... o que e como? +<br /> + +<br /> + +―Nunca ouviu dizer, Leonor, que a vingança é +o prazer dos deuses? Pois tenha prudencia e vingue-se, +Leonor... +<br /> + +<br /> + +―Vingar-me? Sim! quero e hei-de vingar-me... +Porém, como? Como é que eu hei-de levar a cabo +essa +vingança tremenda que o meu coração +anhela? +<br /> + +<br /> + +―Primeiro, convença-se serenamente do delicto. +Depois, julgue com provas á vista, e fulmine a +condemnação +que o seu coração lhe ditar. Para a auxiliar +na execução da sentença, cá +estou eu. Façamos +uma alliança, um pacto intimo, para nos auxiliarmos +um ao outro. Eu ajudal-a-hei a vingar-se do homem +que a trahiu; a senhora ajudar-me-ha a... +<br /> + +<br /> + +―A que? +<br /> + +<br /> + +―A realisar grandes emprezas que premedito... +<br /> + +<br /> + +Leonor fitou-o com uma viva curiosidade. +<br /> + +<br /> + +―E que emprezas são essas? +<br /> + +<br /> + +―Mais tarde lh'o direi... Por emquanto, basta +só que saiba que podemos auxiliar-nos reciprocamente +com grande vantagem e interesse para ambos. Posso +contar com a senhora? +<br /> + +<br /> + +A loura hesitou. Por fim respondeu: +<br /> + +<br /> + +―Póde. Mas ha-de de ajudar-me a impedir o casamento +de Eugenio, ou, pelo menos, a vingar-me d'elle. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[238]</span> ―Isso mesmo é o que eu lhe estou propondo. +<br /> + +<br /> + +―Está bem!―disse a loura estendendo-lhe a +mão―póde +contar comigo. +<br /> + +<br /> + +João Lazaro embuçou-se no capote, carregou o +chapéo +sobre os olhos e dispoz-se a sahir. +<br /> + +<br /> + +―Ámanhã voltarei á mesma hora―disse +elle á +sahida.―E o signal convencionado para eu saber que +me recebe, póde ser o mesmo de hoje. +<br /> + +<br /> + +―Espere!―reflectiu a loura―Se ás vezes, por +qualquer motivo, não me fôr possivel recebel-o... +<br /> + +<br /> + +―Claro está que não dá o signal. +<br /> + +<br /> + +―Mas se me fôr preciso prevenil-o de que póde +vir mais tarde... +<br /> + +<br /> + +―Toque então a marcha da +<em>Cadiz</em>. +<br /> + +<br /> + +―Está bem. +<br /> + +<br /> + +―Ainda mais―tornou o Lazaro―se quizer prevenir-me +de que não venha no dia seguinte, substitua. +a marcha da <em>Cadiz</em> pela +<em>Cavallaria Rusticana</em>. Ouvindo-a, +já fico sabendo que só poderei vir dois dias +depois. +<br /> + +<br /> + +―Não se dará esse caso, mas sempre é +bom prevenir... +<br /> + +<br /> + +―Comprehendeu-me perfeitamente. Até amanhã. +<br /> + +<br /> + +―Até amanhã. +<br /> + +<br /> + +O aventureiro tomou a mão de Leonor, depositou +n'ella galantemente um beijo, e sahiu.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[239]</span> +<h3><a name="c14"></a>XIV<br /> + +<br /> + +Miseravel! +</h3> + +<br /> + +<br /> + +João Lazaro recolheu ao hotel e no dia seguinte +batia á porta de Jorge. Era uma casa modesta, de +homem só, em que se notava o natural desarranjo de +quem não tem os cuidados intelligentes de uma mulher +a dirigir o serviço domestico. +<br /> + +<br /> + +―Venho fazer-te a promettida visita―disse João +Lazaro ao amigo que estava já sentado á banca no +seu gabinete de trabalho. +<br /> + +<br /> + +―Bem vindo sejas, meu caro!―volveu-lhe Jorge, +interrompendo a escripta e indicando-lhe uma cadeira. +<br /> + +<br /> + +―Sempre a trabalhar!―disse João Lazaro com +um sorriso de curiosidade.―Em que diabo te occupas +agora? +<br /> + +<br /> + +―Tomo apontamentos para um bosquejo historico... +Bem vês, a historia é a minha paixão... +<br /> + +<br /> + +―Bonito entretenimento para quem não tem que +fazer... +<br /> + +<br /> + +―Que queres? Em alguma coisa se hade matar +o tempo... +<br /> + +<br /> + +―Olha lá, porque não collaboras tu no jornal que +eu dirijo em Lisboa? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[240]</span> ―Eu! +<br /> + +<br /> + +―Sim, que duvida? O teu auxilio podia ser-me +de immensissima utilidade. Ha tão pouco quem escreva +bem, e tu estás ahi a desperdiçar talento n'um +trabalho +obscuro que ninguem lerá, que a ninguem importa, +quando podias brilhar entre os primeiros, tornares-te +lido, popular... Queres? +<br /> + +<br /> + +―Eu não! Detesto os jornaes politicos, bem o sabes, +e principalmente os da tua côr. +<br /> + +<br /> + +―Mas, homem, eu não te peço a +collaboração politica, +posto que ella me fosse extremamente agradavel +e vantajosa... Mas, ao menos, a collaboração +litteraria. +A litteratura pertence a todos os campos e não +impõe solidariedade de principios, nem sequer afinidade +de ideias politicas. O meu jornal está a precisar +de sangue novo... Eu esforço-me por fazer d'elle um +jornal moderno, mas sou só e todo o meu esforço +se +perde por não ter uma penna vigorosa, uma penna +brilhante que me secunde. Além d'isso, o publico +não +está educado, o publico não comprehende o que +é bom +nem o que é mau, e d'ahi resulta preferir o mau a +que está habituado, deixando no olvido e na +indifferença +o que é bom! +<br /> + +<br /> + +―Por esse lado, tenho eu a certesa de que não me +havia de escassear publico...―disse Jorge rindo.―Mas +não, meu caro, eu não estou resolvido a +collaborar +em jornaes... +<br /> + +<br /> + +―Fazes mal! O jornal é ainda hoje uma arma +formidavel, a unica que a sociedade respeita, porque +é a unica que a faz tremer. +<br /> + +<br /> + +―Mas eu não pretendo amedrontar ninguem―tornou +Jorge impassivel.―Não tenho ambições, +não alimento +a vaidade de querer tornar-me celebre por nenhum +titulo, e portanto prefiro o socego, a tranquillidade +do meu gabinete e a suave alegria de um estudo +que me não cança á lucta violenta do +jornalismo +<span class="pagenum">[241]</span> +diario, famulento Minotauro, que consome vida, actividade, +talento que a todos aproveita, menos a quem lh'o +sacrifica. Deixemos isso, meu João, e dize-me: sempre +partes hoje para Lisboa? +<br /> + +<br /> + +―Não. Demoro-me ainda por cá uns dias, +não sei +quantos... +<br /> + +<br /> + +―Bem! Folgo com a tua permanencia entre +nós... É signal de que tiveste bom acolhimento +por +parte dos teus amigos... +<br /> + +<br /> + +João Lazaro fez uma carêta de despeito. +<br /> + +<br /> + +―Uns pulhas, os taes meus amigos! +<br /> + +<br /> + +―O que! Acaso não estás contente com elles? +<br /> + +<br /> + +―Queres que te falle com franqueza? A ti posso +dizer tudo, porque és meu amigo... +<br /> + +<br /> + +―Bem sabes que não tenho o menor interesse em +revelar as confidencias que me fazes. +<br /> + +<br /> + +―Pois bem; declaro-te que estou arrependido de +me haver sacrificado por um partido de verdadeiros +bilhostres! +<br /> + +<br /> + +―Ai, já?! +<br /> + +<br /> + +―Já! E, com franqueza, agora não me fica bem +recuar... seria um escandalo compromettedor da minha +popularidade, do meu nome... Mas, acredita, +que se fosse coisa que eu pudesse fazer sem dar nas +vistas, fazia-o sem a mais leve hesitação. +<br /> + +<br /> + +―Não pódes... isso com certeza não +pódes―tornou +Jorge. +<br /> + +<br /> + +―Pois esse é todo o meu desespero! Tenho de +permanecer atrelado a estes imbecis que n'uma hora +de irreflexão surprehenderam a minha camaradagem, +e não posso tirar d'elles a vingança que merecem! +<br /> + +<br /> + +―Mas de que te queixas? Qual é o motivo do +teu desgosto? +<br /> + +<br /> + +―São uns miseraveis! Não ha quem lhes +apanhe +dinheiro para nada... Estou compromettido, cheio de +dividas, porque tenho gasto sommas enormes, tudo +<span class="pagenum">[242]</span> +para honrar o partido e sustentar o brilho do meu +nome, unica coisa que ainda dá importancia a esse +agrupamento de idiotas... +<br /> + +<br /> + +―És modesto, João!―interrompeu Jorge rindo. +<br /> + +<br /> + +―Que diabo! entre amigos não ha necessidade +de estarmos com cerimonias. A verdade é esta... +<br /> + +<br /> + +―Tens razão. <em>Inter amicus non est +gerigonça</em>, +dizia-se no meu tempo. Continua. +<br /> + +<br /> + +―Pois imagina que eu tinha phantasiado um projecto +que não passava de um plano bem combinado +para arranjar uma somma de que preciso para me livrar +de apuros. Bato á porta dos correligionarios +mais endinheirados de Lisboa e digo-lhes que preciso +de vir ao norte combinar com os nossos amigos um +golpe decisivo, mas que não posso vir sem dinheiro, +porque elle é, ainda hoje como sempre, a grande arma, +a suprema força. Claro está, eu não +pedia para mim, +pedia para o serviço do partido, para o triumpho da +causa... Calcula lá as difficuldades que tive de vencer +para lhes arrancar os magros cobres com que fiz +a viagem? +<br /> + +<br /> + +―Calculo, calculo... o dinheiro é sangue!...―disse +Jorge com sarcasmo. +<br /> + +<br /> + +―É sangue... mas não teem elles +obrigação de +dar o <em>sangue</em> pela patria? +<br /> + +<br /> + +―É que elles não estão talvez bem +convencidos +de que a patria és tu... +<br /> + +<br /> + +―Eu synthetiso a patria! sou a sua verdadeira +imagem, pelintra e cheio de necessidades como ella! +Dar-me dinheiro a mim é dal-o á patria, porque +ella +tem por dever sustentar-me, como eu tenho por nobre +missão o salval-a! Pois os grandes burros não se +capacitam +d'isto! +<br /> + +<br /> + +―Mas, afinal, de que tens tu vivido? +<br /> + +<br /> + +―D'elles. Hoje um, amanhã outro, todos teem +ido largando os cobres, persuadidos uns de que a coisa +<span class="pagenum">[243]</span> +estava para já, outros pela simples vaidade de se +aproximarem de mim e de partilharem da minha gloria... +Mas agora começam a retrahir-se, e sei que +alguns até já teem dito que lhes sou pesado em +demasia! +Vê tu lá, acham pesado o mais brilhante ornamento +do seu partido! +<br /> + +<br /> + +―O mundo está cheio de ingratos, meu caro! +<br /> + +<br /> + +―Agora chego ao Porto, appello para o seu esforço, +reclamo dinheiro á ordem para a +realisação +do meu plano, e contra a minha espectativa, em vez +de pôrem á minha disposição +os seus cofres, torcem +o nariz e perguntam-me quanto é preciso, como +se isto fosse uma sacca de arroz ou um costado de +bacalhau que convém regatear! É inaudito, +não +achas? +<br /> + +<br /> + +―Acho... acho que vieste sem dinheiro e que +voltas sem elle... Meu caro João, sejamos francos, +tens levado uma vida de expedientes, uma vida de +exploração politica que não podia +durar sempre... +Tu devias pensar que não ha minas inexgotaveis e +que o mais vigoroso organismo não resiste a sangrias +repetidas... +<br /> + +<br /> + +―É certo, mas eu não vim ao mundo para viver +de ar e de esperanças... Tenho trabalhado, tenho +sacrificado a minha mocidade, a minha vida, é +justo que me auxiliem aquelles que eu auxilio... +<br /> + +<br /> + +―Mas, que diabo! o teu auxilio é perfeitamente +inutil, improficuo, e os factos demonstram que, em +vez de prestares auxilio, o verdadeiro auxiliado és +tu... +<br /> + +<br /> + +―Estás muito enganado! Eu tenho segredos que +valem dinheiro... Se eu quizesse fallar, se eu quizesse +reduzir a dinheiro tudo o que sei, não teria +difficuldades... +<br /> + +<br /> + +Jorge sorriu. +<br /> + +<br /> + +―Isso tambem eu creio―disse elle. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[244]</span> ―E afinal é o que eu venho a fazer, se vir que +elles não correspondem á sinceridade e +dedicação com +que eu os tenho servido... +<br /> + +<br /> + +―Queres dizer, se não continuarem a corresponder... +<br /> + +<br /> + +―Pois está claro! Eu não tenho +obrigação de +respeitar mais os interesses d'elles do que os meus... +<br /> + +<br /> + +Houve um silencio de alguns minutos. +<br /> + +<br /> + +―É verdade, ainda te dás com o +Avioso?―perguntou +o Lazaro. +<br /> + +<br /> + +―Continuamos a ser amigos como sempre fomos. +<br /> + +<br /> + +―Esse homem é meu adversario politico, dos +mais ferrenhos e intransigentes, mas eu pessoalmente +sympathiso com elle. +<br /> + +<br /> + +―É um bello e generoso caracter. O peor defeito +que lhe conheço é o de ser politico. +<br /> + +<br /> + +―Talvez me convenha aproximar-me d'elle... +<br /> + +<br /> + +―Quando quizeres, estou ao teu dispôr. +<br /> + +<br /> + +―Por emquanto não. Deixa ver no que isto pára... +Mas, se me fôr preciso, conto comtigo, com a tua +discreção, +com a tua amizade... +<br /> + +<br /> + +―Já sabes que estou sempre ao teu dispôr... +<br /> + +<br /> + +―Bem; havemos de fallar. +<br /> + +<br /> + +N'estas meias palavras Jorge traduziu o pensamento +intimo do aventureiro, e disse comsigo: +<br /> + +<br /> + +―Temos o chefe mudado em espião... +<br /> + +<br /> + +João Lazaro accendeu um charuto e passado um +instante, expellindo uma fumaça: +<br /> + +<br /> + +―A vida está para os vadios, para os valdevinos, +para os impostores... Olha aquelle rapaz por quem +na dias me perguntaste no <em>Suisso</em>, o +Eugenio de Mello, +como vae casar-se com uma herdeira rica, hein! +<br /> + +<br /> + +―É verdade... Elle deu-te parte do seu projecto +de casamento? +<br /> + +<br /> + +―Qual! muito meu amigo, muito intimo, mas a +<span class="pagenum">[245]</span> +respeito d'esse negocio, nem pio! Os amigos, em geral, +são assim... guardam o melhor para elles. +<br /> + +<br /> + +―É que não estará ainda +definitivamente resolvido +o enlace... +<br /> + +<br /> + +―Mas tu disseste-me que sim... +<br /> + +<br /> + +―Foi o que constou. Mas tu sabes o que são os +homens de dinheiro. Primeiro que se resolvam a consentir +no casamento de uma filha, tratam de indagar +se o noivo tem bens que correspondam á fortuna que +vae adquirir... E como tu dizes que elle não tem +nada de seu... +<br /> + +<br /> + +―Não tem onde cáia morto, essa te posso eu +jurar! +<br /> + +<br /> + +―Então ahi está! talvez que não sejas +tu o unico +a saber essa particularidade com respeito ao teu amigo, +e d'ahi sobreviessem difficuldades... Apesar de que o +procurador Belchior affirma, segundo ouvi, que elle +possue importantes propriedades no Alemtejo. +<br /> + +<br /> + +―O procurador Belchior? Que sabe o procurador +Belchior ácerca do Eugenio? +<br /> + +<br /> + +―Não sei... talvez indagasse. +<br /> + +<br /> + +―Pois se indagou e diz que elle é rico, mente! +Ahi ha de haver por força grande embrulhada. +<br /> + +<br /> + +―Talvez. No emtanto, o Belchior é muito amigo +d'esse tal Eugenio, que, não obstante, gasta dinheiro +a rodos e sustenta bisarramente a fama de rapaz +rico... +<br /> + +<br /> + +―Á custa do commendador Garcia... +<br /> + +<br /> + +―Será, não contesto. Mas para ser dinheiro +fornecido +por uma mulher n'essas condições, parece-me +demasiado... Salvo se ella tambem é rica... +<br /> + +<br /> + +―Não é, mas o commendador dispende muito com +ella. +<br /> + +<br /> + +―Ainda assim! Esse rapaz deve ter outra fonte +de receita para tamanha dissipação... +<br /> + +<br /> + +―Elle tambem joga, e ás vezes a sorte favorece-o. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[246]</span> ―O jogo constitue uma ruinosa verba de despeza +e nunca uma fonte de receita, tu bem o sabes... +<br /> + +<br /> + +―Pois é verdade; mas como tem cambiantes, +permitte a illusão... +<br /> + +<br /> + +―Nada! Com tão pobres elementos, ser-lhe-ia impossivel +viver como vive, dispender como dispende, e, +sobretudo, conquistar a amizade do procurador Belchior... +Alli deve haver mais alguma coisa... +<br /> + +<br /> + +―A não ser que o procurador vá feito com elle +para embarrilar o capitalista...―aventurou João +Lazaro. +<br /> + +<br /> + +―Tambem póde ser. Julgo o Belchior muito capaz +d'isso. +<br /> + +<br /> + +―Hei de averiguar!―tornou o João Lazaro. +<br /> + +<br /> + +―Que interesse tens tu em o saber? +<br /> + +<br /> + +―O interesse que tem todo o homem em conhecer +as patifarias do seu semelhante... Imagina tu que +este Eugenio de Mello ámanhã me apparece rico, +senhor +de grandes capitaes, personagem importante na +politica e que, por uma d'estas reviravoltas tão frequentes +no homem que muda de posição para melhor, +acaba por se esquecer de mim, a quem hoje chama +amigo e offerece ceias?... +<br /> + +<br /> + +―E se tal acontecer, que te importas tu com isso? +É mais um biltre que ficas conhecendo... +<br /> + +<br /> + +―Pois sim, mas é um biltre que me offenderá +impunemente, +se eu não tiver o cuidado de ir archivando +as notas das suas patifarias d'hoje, para lhe dar com +ellas na cara ámanhã, quando elle se fizer +fino... +<br /> + +<br /> + +―Eu, no teu logar, e realisada semelhante hypothese, +nem mais me lembrava d'elle... O meu despreso +seria castigo sufficiente á sua canalhice... +<br /> + +<br /> + +―Nada, nada, menino!―protestou João Lazaro―Quem +o inimigo poupa nas mãos lhe morre... +<br /> + +<br /> + +―Elle, porém, não é teu inimigo... +<br /> + +<br /> + +―Mas póde ainda vir a sel-o... E a experiencia +<span class="pagenum">[247]</span> +tem demonstrado que o homem previdente está +sempre a coberto dos maiores perigos... +<br /> + +<br /> + +―Tu és extraordinario, João! Se procedes assim +com os amigos, como procederás com aquelles a quem +odeias?... +<br /> + +<br /> + +―Queres ver? Olha! +<br /> + +<br /> + +João Lazaro metteu a mão no bolso e tirou d'elle +uma carteira que abriu. +<br /> + +<br /> + +―Tenho aqui―disse elle―uma relação dos +meus inimigos―a quem hei-de um dia dar lembranças +minhas... É uma espécie de lista da loteria em +que só estão os nomes dos individuos +<em>premiados</em>... +Vê! +<br /> + +<br /> + +Apresentou a Jorge uma longa relação de nomes +conhecidos. +<br /> + +<br /> + +―Para que é isto?―perguntou Jorge. +<br /> + +<br /> + +―Para que? São +<em>crédores</em> meus a quem +tenciono +<em>pagar</em> um dia... Ha-de ser uma +<em>liquidação</em> +completa! +<br /> + +<br /> + +E fez um gesto de quem aperta um laço. +<br /> + +<br /> + +―Serias capaz d'isso, João?―disse Jorge n'um +tom sombrio. +<br /> + +<br /> + +―Oh! os candieiros não se fizeram para outra +coisa! Has-de vêr... Hei-de dar-te o espectaculo +duma +<em>illuminação</em> +como nunca viste. +<br /> + +<br /> + +―Não darás... +<br /> + +<br /> + +―Porque? +<br /> + +<br /> + +―Porque se a <em>festa</em> se preparar, eu +já sei que, +para evitar o espectaculo de uma semelhante +<em>illuminação</em>, +tenho de te procurar e metter-te uma bala na +cabeça antes de mais nada. +<br /> + +<br /> + +―Tu! +<br /> + +<br /> + +―Eu. +<br /> + +<br /> + +―Mas o caso não é comtigo. Tu não +és meu inimigo. +<br /> + +<br /> + +―Mas posso vir a parecêl-o, e com um homem +como tu, é preciso estar sempre prevenido... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[248]</span> +João Lazaro estremeceu. Cobarde até ao extremo, +teve mêdo de Jorge. +<br /> + +<br /> + +―Tu bem sabes que sou muito teu amigo e que +não posso nunca duvidar da tua amizade. Alem d'isso, +eu estava gracejando... +<br /> + +<br /> + +―E a gracejar confeccionaste esta lista... +<br /> + +<br /> + +―Para apavorar simplesmente. É uma fórma +inoffensiva de vingança―aterrar os que são meus +inimigos, os que me fizeram mal!... +<br /> + +<br /> + +Jorge sorriu com despreso: +<br /> + +<br /> + +―Mau processo é esse de apavorar os inimigos +com ameaças que não tencionas realisar...―disse +elle. +<br /> + +<br /> + +―Ao menos sobresalto-lhes as noites...―replicou +o João Lazaro. +<br /> + +<br /> + +―Sobresaltas-lhes as noites sem reparares que +compromettes os teus dias... Queres um conselho, +João? +<br /> + +<br /> + +―Dize lá?... +<br /> + +<br /> + +―Rasga essa relação de nomes, que é o +mais infame +documento que pódes dar do teu caracter... e +se a mais alguem, sem ser eu, tiveste a leviandade de +a mostrar, pede-lhe que esqueça tamanha indignidade. +<br /> + +<br /> + +―Jorge, vejo que levas muito mais longe do que +eu suppunha um caso de mera brincadeira da minha +parte!―disse João Lazaro, verdadeiramente compromettido. +<br /> + +<br /> + +―É que a mim revoltam-me os actos de cobardia, +mesmo quando não passam d'uma invenção +absurda +e idiota. +<br /> + +<br /> + +Fez-se um silencio constrangido entre os dois. +<br /> + +<br /> + +―A prova de que nem sequer houve ou ha da +minha parte a intenção de realisar a +vingança quo te +disse contra os individuos cujos nomes figuram n'esta +relação, está em que t' ―A prova de que nem sequer houve ou ha da +minha parte a intenção de realisar a +vingança quo te +disse contra os individuos cujos nomes figuram n'esta +relação, está em que t'a mostro +justamente no momento +<span class="pagenum">[249]</span> +em que mais afastado vou ficar do campo que +lhes é hostil.. +<br /> + +<br /> + +Jorge encarou-o. +<br /> + +<br /> + +―Vaes então mudar de campo de acção +politica?―perguntou. +<br /> + +<br /> + +―Não vou mudar, mas vou conservar-me inactivo, +indifferente. Não me entendo com semelhante canalha! +<br /> + +<br /> + +―Entendamo-nos. Se conseguires que elles te deem +dinheiro para a realisação do teu decantado +plano, o +que farás? +<br /> + +<br /> + +―Ao dinheiro? Gasto-o. +<br /> + +<br /> + +―E ao plano? +<br /> + +<br /> + +―O plano vou realisal-o para Hespanha; e é +possivel que eu por lá fique e mais elle... +<br /> + +<br /> + +Jorge riu-se.<br /> + +<br /> + +―É então ainda uma +mystificação que projectas? +<br /> + +<br /> + +―Mystificação, propriamente dita, não +é... Estreitarei +relações com os principaes vultos da peninsula, +darei importancia ao meu partido, farei que se falle +n'elle e se julgue uma força muito mais consideravel +do que é... Isto creio que é serviço +de algum valor +e que bem vale o dinheiro que me derem... +<br /> + +<br /> + +―E se não conseguires que te dêem coisa alguma? +<br /> + +<br /> + +―Terei que pedir emprestado aos adversarios―que, +mais avisados, não me recusarão o que os meus +correligionarios me negam... +<br /> + +<br /> + +―Sejamos francos: foi para isso que me perguntaste +se eu estou ainda em boas relações com o Avioso? +<br /> + +<br /> + +―Foi. +<br /> + +<br /> + +―Mas tu sabes que o Avioso não confiará em ti, +se eu não te apresentar. +<br /> + +<br /> + +―E tu apresentar-me-has. Tens duvida n'isso? +<br /> + +<br /> + +―Conforme. Se te comprometteres comigo a não +abusar da boa fé do Avioso, estou ao teu dispôr. +Do +contrario, não. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[250]</span> ―Até faço mais... Isto para tu veres a minha +lealdade... +<br /> + +<br /> + +―Dize lá! +<br /> + +<br /> + +―Eu não me aproximo do Avioso, para não dar +nas vistas nem despertar suspeitas... Faço-te as +communicações a ti para tu lh'as transmittires. +Já +vês que assim assumo a responsabilidade inteira para +comtigo. Acceitas? +<br /> + +<br /> + +―Está combinado. Acceito. +<br /> + +<br /> + +―Mas... tu comprehendes... a minha situação +financeira é difficil... +<br /> + +<br /> + +―Já sei. Quanto? +<br /> + +<br /> + +―Por uma vez só? +<br /> + +<br /> + +―Não. Por mez. +<br /> + +<br /> + +―Diabo! Eu não sou um espião vulgar... +<br /> + +<br /> + +―O que é bom paga-se bem. Quanto? +<br /> + +<br /> + +―Duzentos mil reis será muito? +<br /> + +<br /> + +―Não sou eu que hei-de dizel-o... +<br /> + +<br /> + +―Pois quem? +<br /> + +<br /> + +―Tu e mais ninguem. Não se compra o homem, +compra-se o serviço... +<br /> + +<br /> + +―Pois bem; que me assegurem duzentos mil reis +por mez e eu prestarei serviço que valerá muito +mais. +<br /> + +<br /> + +―Têl-os-has. +<br /> + +<br /> + +―Mas―observou João Lazaro com uma certa +hesitação―ha ainda uma coisa... +<br /> + +<br /> + +―Dize. +<br /> + +<br /> + +―Eu estou crivado de dividas... tenho compromissos +serios que não posso protelar por mais tempo. +<br /> + +<br /> + +―Bem sei, precisas de um adiantamento... +<br /> + +<br /> + +―É isso. +<br /> + +<br /> + +―Quanto calculas que te seja preciso? +<br /> + +<br /> + +―N'esta data, seiscentos mil reis não era tudo, +mas era um grande auxilio. +<br /> + +<br /> + +―Não ha duvida. Eu creio que o Avioso fará o +<span class="pagenum">[251]</span> +adiantamento. Mas, tu bem sabes, elle é curioso, +excessivamente +curioso mesmo... +<br /> + +<br /> + +―Comprehendo. +<br /> + +<br /> + +―Então, se comprehendes, não perderei tempo a +explicar-te qual a maneira de obteres do Avioso a +somma que desejas. +<br /> + +<br /> + +―Olha lá: uma relação completa dos +que mais +se salientaram nas ultimas reuniões secretas e das +resoluções n'ellas tomadas bastará por +emquanto? +<br /> + +<br /> + +―Basta. +<br /> + +<br /> + +―Nesse caso, ámanhã, se, como eu supponho, as +minhas difficuldades não forem removidas por outra +fórma, trarei tudo isso. +<br /> + +<br /> + +―Está bem. +<br /> + +<br /> + +―Visto isso, falas ainda esta noite com o Avioso? +<br /> + +<br /> + +―Fallo. +<br /> + +<br /> + +―Mas recommenda-lhe o maior segredo e +discrecção. +Que isto não transpire por modo algum. +<br /> + +<br /> + +―A quem mais interessa guardar segredo é a +elle. Bem vês que, inutilisado o agente, de nada serviria +gastar dinheiro com elle. +<br /> + +<br /> + +―É precisamente isso. +<br /> + +<br /> + +―Não ha, pois, que recommendar-lhe um segredo +que a elle proprio convem guardar. +<br /> + +<br /> + +João Lazaro accendeu outro charuto. +<br /> + +<br /> + +―Só a tua grande amizade e dedicação +me poderia +levar a isto! +<br /> + +<br /> + +Jorge sorriu. +<br /> + +<br /> + +―A minha amizade e a sovinice sordida dos teus +amigos... +<br /> + +<br /> + +―É claro. Mas se não confiasse tanto como confio +em ti, eu não acceitaria uma +aproximação de +semelhante natureza com o Avioso. +<br /> + +<br /> + +―E eu, se não fosse tão teu amigo co ―E eu, se não fosse tão teu amigo como sou e +não +sentisse um grande desejo de te auxiliar na +situação +difficil em que te encontras, tambem não tomaria sobre +<span class="pagenum">[252]</span> +mim o encargo de resolver o Avioso a dar-te +dinheiro. A proposito: sempre partes breve para +Lisboa? +<br /> + +<br /> + +―Já, já, não. Demoro-me aqui ainda +alguns dias. +Mas quando partir para Lisboa, de lá mesmo nos entenderemos. +<br /> + +<br /> + +―Perfeitamente. Outra coisa: sempre tencionas +indagar a especie de relações que existem entre +Eugenio +de Mello e o procurador Belchior? +<br /> + +<br /> + +―Estou resolvido a tratar d'isso. +<br /> + +<br /> + +―Não me disseste que esse Eugenio tem uns +amores inconfessaveis, occulta fonte de receita que +equilibra o largo orçamento em que estão +representados +todos os vicios com as respectivas verbas de +despeza? +<br /> + +<br /> + +―Digo e sustento. E a ti, como amigo, direi mais: +essa loura, ciumenta como um demonio e apaixonada +como uma gata, já sabe que Eugenio projecta casar-se. +<br /> + +<br /> + +―Sabe? Quem lh'o disse? +<br /> + +<br /> + +―Eu. Tu não me pediste segredo. +<br /> + +<br /> + +―Nem me interessa que ella o não saiba. +<br /> + +<br /> + +―Pois bem; essa loura repudiou-me quando eu +me propuz, e tomou amores com Eugenio de Mello. A +hora da minha vingança havia de chegar, e chegou. +Accendi-lhe um inferno de ciumes no coração, e a +esta +hora está ella esperando impaciente que eu lhe leve +as minhas informações e as minhas ordens. +<br /> + +<br /> + +―Eu já sabia isso. +<br /> + +<br /> + +João Lazaro encarou o amigo com espanto. +<br /> + +<br /> + +―Já?!―perguntou. +<br /> + +<br /> + +―Já. +<br /> + +<br /> + +―Como o soubeste? +<br /> + +<br /> + +―Eu sei tudo. +<br /> + +<br /> + +―Não suppuz que te interessassem os meus actos +a ponto de me mandares espionar. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[253]</span> ―Não fui eu. Bem sabes que alguem mais do +que eu se interessa em saber a tua conducta. +<br /> + +<br /> + +―Ah! sim...―fez João Lazaro reflectindo.―Mas +esta visita que eu fiz não tinha caracter politico―e +não acho correcto que me espionem e me sigam +n'uma aventura galante com o mesmo encarniçamento +com que me perseguem quando eu conspiro... +<br /> + +<br /> + +―Vamos a saber―disse Jorge.―Tens interesse +em que Eugenio de Mello não realise o casamento +com a filha do capitalista? +<br /> + +<br /> + +João Lazaro fez uma carêta. +<br /> + +<br /> + +―Não me importo absolutamente nada com isso. +O meu empenho é só castigál-o pela sua +falta de franqueza +e lealdade para comigo. Devia ter-me dito que +ia casar, visto que se affirma meu amigo... Isto +pelo que lhe diz respeito a elle. Agora pelo que respeita +a Leonor, vingo-me e preparo o terreno para +occupar a praça, que vae ficar abandonada. +<br /> + +<br /> + +―Se Eugenio casar... +<br /> + +<br /> + +―Quer case, quer não, Leonor não lhe +perdoará. +Convencida do que o amante quiz trahil-a casando +com outra, cortará immediatamente as suas +relações +com elle, e, para se vingar, tratará de o substituir +pelo maior amigo do perfido. Ora ella sabe que o +maior amigo de Eugenio sou eu... +<br /> + +<br /> + +―E portanto, és tu o que reune as maiores probabilidades +de vir a ser admittido ao logar vago... +<br /> + +<br /> + +―Justo! +<br /> + +<br /> + +―É curiosa essa aventura! +<br /> + +<br /> + +―É curiosa, mas muito vulgar entre amigos. +<br /> + +<br /> + +―Será, mas entendo que deves proceder com cautela... +<br /> + +<br /> + +―Porque? +<br /> + +<br /> + +―Porque não te fica bem que se torne publico o +teu papel nada invejavel n'essa intriga. Queres fazer +uma coisa? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[254]</span> ―Dize. +<br /> + +<br /> + +―Não envolvas essa endiabrada lourinha em qualquer +aventura sem me consultares primeiro. Valeu? +<br /> + +<br /> + +―Está dito. Mas não te esqueças de +fallar ao +Avioso. Estou immensamente precisado de dinheiro... +<br /> + +<br /> + +―Não me esqueço. +<br /> + +<br /> + +O aventureiro estendeu a mão a Jorge, despedindo-se. +<br /> + +<br /> + +―Adeus―disse elle―Amanhã procuro-te. +<br /> + +<br /> + +―Pois sim. Adeus. +<br /> + +<br /> + +Quando João Lazaro sahiu, Jorge, que o acompanhou +com a vista até elle transpôr a porta da sala, +murmurou: +<br /> + +<br /> + +―Sempre o mesmo biltre! Sempre o mesmo miseravel! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[255]</span> +<h3><a name="c15"></a>XV<br /> + +<br /> + +Conluio infame +</h3> + +<br /> + +<br /> + +No escriptorio de Custodio de Jesus, discutiam animadamente +o dono da casa e o seu amigo e confidente, +o procurador Belchior. +<br /> + +<br /> + +―A coisa é esta:―dizia o procurador―com +pannos quentes não se faz nada. +<br /> + +<br /> + +―Ai, já? Você já é da minha +opinião?―replicou +o Custodio, triumphante.―Pois, meu amigo, se +eu, contra o meu genio, tenho usado de pannos quentes, +a culpa foi toda sua... Quando eu queria usar +da minha auctoridade de pae e levar a rapariga á +força á igreja, você não +deixou... Segui o seu parecer, +tentei levar as coisas pela brandura, e agora é +tarde para tomar outro caminho... +<br /> + +<br /> + +―Qual outro caminho? +<br /> + +<br /> + +―O caminho d'onde eu nunca devêra ter sahido... +o caminho da auctoridade e do rigor paterno... Mas +agora, depois de eu ter descido até ao ponto de chorar +diante da rapariga e de a deixar levantar a crista, +a julgar que estou dependente da sua protecção, +como é que eu hei-de chegar ao pé d'ella e +dar-lhe +dois safanões e quatro berros que a façam entrar +na ordem? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[256]</span> ―Mas não é preciso nada d'isso, homem! +<br /> + +<br /> + +―Não é preciso? Pois você diz que com +pannos +quentes não se arranja nada e acha que não +é preciso +empregar a força? +<br /> + +<br /> + +―Acho que se póde empregar a força, sem que +você passe por ser um pae cruel... +<br /> + +<br /> + +―Pois está claro que eu tambem não vou empregar +a violencia diante de gente. O que se passa +em minha casa escusa de se saber no meio da rua. +Mas não posso... a rapariga perdeu-me o respeito, +agora... boas noites! +<br /> + +<br /> + +―Homem, deixe-se de tolices... Ha uma força +que nós podemos empregar muito bem e a que a pequena +não terá remedio senão obedecer... +<br /> + +<br /> + +―Mas que força é essa então? +<br /> + +<br /> + +―É a força das circumstancias, homem! Quem +é que não se dobra á força +das circumstancias? +<br /> + +<br /> + +―Ó demonio, mas essa força já eu +empreguei; +já disse á pequena que as nossas circumstancias +não +podiam ser mais desgraçadas e nem assim consegui +convencêl-a. +<br /> + +<br /> + +―Pois bem; mudemos de systema―disse o Belchior, +piscando um olho. +<br /> + +<br /> + +―Mudemos do systema como?―perguntou o +Custodio, sem comprehender. +<br /> + +<br /> + +―Se ella não quer largar o tal namorico, obriga-se +o namorico a largal-a a ella... +<br /> + +<br /> + +―Quer você dizer que lhe mande eu dar uma +carga de pau, qualquer noite quando elle cá vier +á +porta... Mas isso o que faz? A rapariga é capaz de +tomar o freio nos dentes e então é que +não haverá +forças humanas que a obriguem a acceitar este casamento... +<br /> + +<br /> + +―Ninguem falla em empregar esses meios violentos... +<br /> + +<br /> + +―Não? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[257]</span> ―Pois com certeza. Isso seria uma tolice sem resultado +pratico. Aqui o caso é outro... +<br /> + +<br /> + +―Mas então diga lá. +<br /> + +<br /> + +O Belchior fitou demoradamente o Custodio e +disse: +<br /> + +<br /> + +―A questão é você querer... +<br /> + +<br /> + +―Pois eu quero! Tomára eu... Diga lá, homem! +<br /> + +<br /> + +―O processo é um bocado exquisito, mas dá +resultado... +<br /> + +<br /> + +―Se dá resultado, vamos a elle!―concordou o +Custodio―Então como é isso? +<br /> + +<br /> + +―É d'uma maneira muito simples; rapta-se a +pequena... +<br /> + +<br /> + +―Hein! O que? Rapta-se? +<br /> + +<br /> + +―É claro! Prepara-se um rapto, faz-se escandalo +e conduzem-se as coisas de modo que a rapariga +não tenha remedio senão casar com o Eugenio... +<br /> + +<br /> + +―Mas...―obtemperou o Custodio indeciso―torne +a dizer, que eu não percebi bem?... +<br /> + +<br /> + +―Isto não tem que perceber: combina-se um passeio +ao campo... Vae você com a pequena, vou +eu com a minha mulher e minha cunhada... Andamos +por lá, petiscamos, e a paginas tantas minha cunhada +afasta-se para mais longe com a Beatriz, a +admirar a paisagem... +<br /> + +<br /> + +―Sim... E depois? +<br /> + +<br /> + +―Depois, o Eugenio, que está emboscado com dois +amigos, salta de lá, agarra na Beatriz, mette-se n'uma +carruagem e parte com ella a todo o galope. Minha +cunhada grita, tem um desmaio, nós acudimos, mas +já é tarde―não lhe podemos valer... O +resto segue-se +depois naturalmente... +<br /> + +<br /> + +―O resto... Mas qual resto? +<br /> + +<br /> + +―Ora qual resto! O casamento. Pois que quer +você que se siga senão o casamento depois d'isto? +<span class="pagenum"><a name="p258">[258]</a></span> +Beatriz, depois de raptada, não terá remedio +senão +acceitar por marido o homem que a raptou... +<br /> + +<br /> + +―Não sei... Ella é muito capaz de ainda assim +recusar... +<br /> + +<br /> + +―Qual recusa! Quando ella reconhecer a impossibilidade +de casar com esse pintalegrete que lhe endoideceu +a cabeça ou com outro qualquer que não seja +o Eugenio, não terá remedio senão +resolver-se... +<br /> + +<br /> + +―E você sabe lá se o rapaz, ainda mesmo assim +desiste? +<br /> + +<br /> + +―Pois desiste, porque a gente faz escandalo... E +depois d'ella desacreditada, só se elle não tiver +vergonha. +<br /> + +<br /> + +―Desacreditada! Então a rapariga ha de ficar +desacreditada? Isso não... isso é que eu +não consinto! +Não é por mais nada... Mas emfim... ella usa +o meu nome, passa por minha filha, e eu não estou +para me sujeitar e andar fallado nas bôccas do +mundo!―recusou +honestamente o marido de D. Carlota. +<br /> + +<br /> + +―Que diabo! Você não sabe que tudo isto +é uma +<em>planta-fórma</em> para obrigar +a pequena a casar? Que +diabo tem que a rapariga seja raptada, uma vez que +o raptor a receba por mulher? +<br /> + +<br /> + +O Custodio ficou silencioso e meditativo por alguns +instantes como que ruminando o plano do seu +amigo Belchior. +<br /> + +<br /> + +―A coisa―disse elle por fim―talvez desse +bom resultado... Mas isso era um escandalo de seiscentos +diabos! +<br /> + +<br /> + +―Pois era... era um escandalo bastante grande, +e isso mesmo era o que convinha... +<br /> + +<br /> + +―O que! Convinha o escandalo―interrogou o +Custodio escandalisado―Então você quer que eu, +como pae―porque afinal ella não tem outro―goste +e ver uma filha minha ou que passa por isso +mettida +<a href="#e27">em</a> escandalos? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[259]</span> ―Você não comprehende, Custodio, você +não comprehende... +Isto era escandalo e não era escandalo... +E como naturalmente fazia barulho, a cidade alvorotava-se +com a noticia do rapto e isso era justamente +o que convinha... +<br /> + +<br /> + +―Mas convinha porque?―insistiu o Custodio. +<br /> + +<br /> + +―Convinha por todos os motivos. Em primeiro +logar, Beatriz, depois d'este escandalo, comprehenderia +que não podia casar com outro homem, senão com o +Eugenio... Em segundo logar, ainda quando ella +teimasse em alimentar no coração essa paixoneta +pelo +tal estudantelho que a namora, não teria remedio +senão +curar-se, porque o rapaz, depois d'ella desacreditada, +não a queria e não lhe tornava a apparecer... +Depois da <em>praça</em> +abandonada, que remedio terá a pequena +senão render-se? +<br /> + +<br /> + +―Sim... e demos o caso que esse tal Eugenio, +emfim... como é rapaz e estroina, depois de a ter +raptado, não se resolve a tomal-a por mulher, +senão +debaixo de certas condições? +<br /> + +<br /> + +―Quaes condições? +<br /> + +<br /> + +―Por exemplo... exigir que eu augmente o dote +á rapariga e querer que se façam escripturas, de +modo +que o que é d'elle fique perfeitamente a coberto... +<br /> + +<br /> + +―O Eugenio não é capaz d'isso!―protestou o +Belchior. +<br /> + +<br /> + +―Eu sei lá! A gente vê caras e não +vê corações... +Depois da rapariga perdida, eu não terei remedio +senão sujeitar-me ás +condições que elle impuzer... +Nada, isso não é bom plano. +<br /> + +<br /> + +―Pois então, meu amigo, o melhor é desistirmos +do negocio, porque não vejo outro meio... +<br /> + +<br /> + +―Desistir tambem não... Talvez que, se eu a +mettesse n'um convento com ordem de a tratarem com +rigor e de não a deixarem fallar nem escrever ao +namoro, isso desse bom resultado. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p260">[260]</a></span> ―Não dá resultado nenhum. Que diabo! +Você é +um homem desconfiado com quem se não póde tratar +nada a sério... +<br /> + +<br /> + +―O mal dos meus burricos é que me tem feito +alveitar―volveu +o Custodio coçando a suissa―Por eu +ter confiado demais nos amigos é que aquelle +ladrão do +padre Anselmo me roubou a fortuna e a mulher... +Depois é que eu vim a saber tudo... Mas era tarde, +já lhe não podia dar remedio... +<br /> + +<br /> + +―Pois sim, mas agora não se trata de lidar com +gente de sotaina... Você conhece-me ha <a href="#e28">muito</a> +tempo +e sabe que tenho sempre zelado os seus interesses como +se fossem meus... +<br /> + +<br /> + +―Bem sei isso, mas o caso não é propriamente +com você, Belchior. Se fosse +você que tivesse de casar, +eu acceitava o plano com os olhos fechados, porque +bem sei que você não era homem capaz de faltar +ao que promettesse... Mas com esse rapaz o caso é +outro... +<br /> + +<br /> + +―Não é outro nada...―replicou o Belchior.―Se +elle se comprometter comigo a casar com a pequena +nas mesma condições em que está +tratado, cumpre +com toda a certeza. +<br /> + +<br /> + +―E se não cumprir? +<br /> + +<br /> + +―Isso não póde ser... Mas se elle cahisse na +asneira de faltar ao contracto, eu cahia-lhe em cima +com uma querella, que elle havia de ir por uma barra +fóra e nem tudo quanto tem lhe havia de chegar para +a justiça... +<br /> + +<br /> + +―E o que lucrava eu com isso?―perguntou o +Custodio com um sorriso velhaco. +<br /> + +<br /> + +―O que lucrava? +<br /> + +<br /> + +―Sim, o que lucrava eu, se a justiça lhe apanhasse +todos os haveres pela maroteira feita a +mim? +<br /> + +<br /> + +―Homem, ninguem quer metter-se em assados... +<span class="pagenum">[261]</span> +Logo que elle visse que o caso era sério, chegava-se +á razão... Você não +comprehende? +<br /> + +<br /> + +―Comprehendo... isso comprehendo eu...―mascou +o Custodio indeciso. +<br /> + +<br /> + +―Então, se comprehende, que mais quer? +<br /> + +<br /> + +―E você compromette-se a fazel-o cumprir? +<br /> + +<br /> + +―Está claro que comprometto! Eu fallo com elle, +percebe? Fallo com elle e proponho-lhe o expediente +do rapto como coisa minha... Não lhe digo que você +está feito comnosco, porque, emfim, você +é pae e +é preciso salvar as apparencias... +<br /> + +<br /> + +―Sim, isso é bom... Mesmo para elle me não +perder o respeito. +<br /> + +<br /> + +―Justissimo! É isso mesmo!―apoiou o +procurador.―Offereço-me +a proporcionar-lhe ensejo para +a obra, mas imponho-lhe a condição de que ha de +casar +sem mais preambulos e sem mais contratos, logo +que seja encontrado com ella. +<br /> + +<br /> + +―Justo!―disse o Custodio. +<br /> + +<br /> + +―Porque, se assim não fizer, compromette-me e +então será comigo que elle terá de se +haver... Está +bem assim? +<br /> + +<br /> + +―Está optimo!―apoiou o Custodio radiante. +<br /> + +<br /> + +―E o dito dito―tornou o Belchior―eu levo a +percentagem combinada... +<br /> + +<br /> + +―Isso está sabido. Arranje você as coisas de +modo que o casamento se faça nas +condições combinadas +e o dinheiro passa-lhe logo para as unhas. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[262]</span> +<h3><a name="c16"></a>XVI<br /> + +<br /> + +O rapto +</h3> + +<br /> + +<br /> + +Dois dias depois da conferencia entre o procurador +e Custodio, Beatriz, que fôra convidada pela mulher e +a cunhada do Belchior para as acompanhar n'um passeio +ao campo, levantou-se de manhã muito contrariada +por não poder furtar-se ao convite que lhe não +proporcionava +o minimo prazer. +<br /> + +<br /> + +O Custodio fingia-se tambem contrariado, e tendo-se +levantado muito cêdo, resmungava de modo que +a filha o ouvisse, maldizendo a lembrança de o convidarem +para um passeio que alterava os seus habitos +e talvez lhe puzesse a saude em risco. +<br /> + +<br /> + +―Ora a minha desgraça!―clamava elle―Não +basta ter tanta coisa que me afflija, senão ainda agora +obrigarem-me a andar um dia inteiro pelo campo, a +apanhar sol e a aturar senhoras! +<br /> + +<br /> + +―Mas se o papá não quer―propoz +Beatriz―manda-se +dizer que está doente e não vamos... +<br /> + +<br /> + +―Isso não! Não póde ser. O Belchior +ficaria desgostoso... +<br /> + +<br /> + +―Mas se é um caso de força maior... +<br /> + +<br /> + +―Não, já agora, estou a pé, sempre +vou... Não +<span class="pagenum"><a name="p263">[263]</a></span> +quero que o homem supponha que não tenho desejo +de lhe acompanhar a familia. Mas isto custa-me muito, +porque a minha idade já não permitte estas +folias... +<br /> + +<br /> + +A este tempo parava um trem á porta e o Belchior +e a familia subiam açodadamente, gritando: +<br /> + +<br /> + +―Então vamos? +<br /> + +<br /> + +―Vamos lá... estou prompto!―disse o Custodio +ao Belchior―A pequena tambem já está +<a href="#e29">preparada</a>, +acho eu... +<br /> + +<br /> + +A mulher e a cunhada do procurador dirigiram-se +aos aposentos de Beatriz n'uma grande alegria: +<br /> + +<br /> + +―Vamos, avie-se, sua preguiçosa! Então ainda +n'esse estado? +<br /> + +<br /> + +―Estou prompta. É só levar para o carro um +pequeno cesto com umas coisas que mandei preparar... +<br /> + +<br /> + +―O quê! Mandou fazer de comer? Que tolice! Nós +levamos alli comida que chega para um regimento!... +<br /> + +<br /> + +―Por demais não perde...―apoiou o procurador―Vamos +embora que são horas... O bonito é +sahir cedo para andarmos por lá todo o dia... +<br /> + +<br /> + +Entraram no carro, um +<em>char-á-bancs</em> enorme, e +seguiram as duas familias aos solavancos em +direcção +á quinta da Lavandeira. +<br /> + +<br /> + +A mulher e a cunhada do procurador não faziam +senão soltar exclamações de +admiração e alegria, encantadas +com a paisagem. +<br /> + +<br /> + +A tudo achavam graça, tudo achavam muito bonito. +<br /> + +<br /> + +Obtida a permissão de entrarem na quinta, n'essa +epocha ao cuidado dos caseiros, <a href="#e30">seguiram os</a> +passeiantes +por baixo do copado arvoredo, dividindo-se em dois +grupos: um formado pelas tres senhoras, e o outro +pelos dois homens. +<br /> + +<br /> + +O procurador, allegando que para baixo todos os +<span class="pagenum">[264]</span> +santos ajudam, despediu o cocheiro, dizendo-lhe que +não voltasse, porque regressariam a pé para a +cidade. +<br /> + +<br /> + +―Vamos indo devagar por ahi fóra e até +é mais +pittoresco... não acha, amigo Custodio? +<br /> + +<br /> + +―A distancia, realmente, não é grande... +<br /> + +<br /> + +―Em chegando á Bandeira, estamos em casa... +A rua do General Torres desce-se bem... +<br /> + +<br /> + +―Eu cuidei que o passeio era para mais longe―disse +a mulher de Belchior. +<br /> + +<br /> + +―Mais longe para que? Aqui estamos muito +bem... A quinta é bonita e é muito grande, +dá bem +logar para passearmos... E quando nos sentirmos +cançados, abancamos e toca a palestrar... Aqui o +que faz bem é o ar... +<br /> + +<br /> + +Passou-se o dia como não podia deixar de ser +n'uma horrivel monotonia para Beatriz, que de modo +algum podia achar-se bem n'uma companhia que não +lhe offerecia o menor sentimento de agrado. +<br /> + +<br /> + +O Custodio conversava com o Belchior sobre negocios, +repisando o assumpto. As duas senhoras que +constituiam a familia do procurador, esgotado o reportorio +da má lingua contra a vizinhança e varias outras +familias conhecidas, calaram-se e, sentadas á sombra +de uma arvore frondosissima, começaram a cabecear +com somno. +<br /> + +<br /> + +Haviam-se levantado cêdo e resentiam-se do longo +passeio. +<br /> + +<br /> + +Beatriz, portanto, ficou uma grande parte do dia +entregue a um aborrecimento cruel, que a punha de +muito mau humor. +<br /> + +<br /> + +Pensava por vezes em Paulo, lembrando-se de +que talvez não lhe fosse possivel vel-o, fallar-lhe na +noite que ia seguir-se a um dia tão horroroso. +<br /> + +<br /> + +Não pudera prevenil-o d'aquelle passeio, porque o +mancebo havia duas noites que não apparecia a fallar-lhe. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[265]</span> +Dissera-lhe que negocios importantes de que dependia +o futuro dos dois o deviam ter afastado do +Porto por alguns dias, mas não se affligisse ella, porque +elle voltaria com boas novas. +<br /> + +<br /> + +―Mas o que vaes fazer?―perguntara-lhe interessada +em tudo o que o mancebo intentava. +<br /> + +<br /> + +―Permitte-me que por ora t'o não diga, meu +amor. Breve saberás tudo e tenho bem fundadas +esperanças +de que has-de applaudir o meu procedimento. +<br /> + +<br /> + +Esta persistencia em guardar absoluto segredo sobre +os seus designios, quando Paulo não tinha tido +até alli um unico pensamento que lhe não +communicasse, +impressionou-a. +<br /> + +<br /> + +E era ainda sob a influencia d'este estranho procedimento +do seu bem amado que a pobre Beatriz se +encontrava n'aquelle dia, um dos mais aborrecidos e +tristes de toda a sua vida, porque, além das +mágoas +intimas que a torturavam, tinha ainda a constrangel-a +e a aggravar-lhe o soffrimento a presença de +pessoas que, se não lhe eram odiosas, eram-lhe pelo +menos antipathicas. +<br /> + +<br /> + +Ao cahir da tarde Custodio e o procurador fingiram +enthusiasmar-se n'uma grande polemica a proposito +de uma questão commercial palpitante; e com +grande profusão de gestos e de berros, interrompiam-se +frequentemente um ao outro, sem chegarem a accôrdo. +De modo que, esquecidos da distancia que os separava +do Porto, foram deixando-se ficar até ao cahir da tarde. +<br /> + +<br /> + +A noite estava de luar, serena e calma, convidativa +de longo passeio pela fresca. +<br /> + +<br /> + +―São horas de nos irmos chegando a casa...―advirtiu +a mulher de Belchior, quando notou que a +conversa se ia demorando. +<br /> + +<br /> + +―É verdade, vamos indo...―disse o procurador, +travando de braço de Custodio para continuar +na discussão acalorada em que estava interessado. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[266]</span> +E voltando-se para as senhoras: +<br /> + +<br /> + +―Andem lá adiante... +<br /> + +<br /> + +Sahiram para a estrada, a essa hora silenciosa e +deserta. +<br /> + +<br /> + +As damas, levando Beatriz cada uma por seu braço, +tomaram a dianteira, e muito alegres, muito lepidas, +iam cantarolando por entre dentes alguns numeros +mais populares de uma revista em voga. +<br /> + +<br /> + +―Ah! que dia tão bem passado!―exclamava a +cunhada do procurador―Não ha nada para abrir o +appetite e dar saude á gente como é um passeio ao +campo! +<br /> + +<br /> + +―E a noite está linda!―accudiu a mulher do +Belchior―dá mesmo gosto passeiar por uma noite +assim! Não gosta do campo, Beatrisinha? +<br /> + +<br /> + +―Não desgosto...―volveu a namorada de Paulo +com o coração oppresso de ignoto receio. +<br /> + +<br /> + +O procurador e Custodio, de cada vez mais encarniçados +na controversia, paravam de vez emquando, +falando muito, gesticulando, adduzindo argumentos +sem tom nem som. +<br /> + +<br /> + +Era uma esperteza dos dois velhacos para justificarem +a distancia a que queriam encontrar-se no momento +do assalto. +<br /> + +<br /> + +―Deixe-as ir... deixe-as ir...―murmurava o +Belchior―Quanto mais longe estivermos d'ellas, mais +facilmente o Eugenio e os amigos deitam a luva á pequena. +<br /> + +<br /> + +Assim foram caminhando, até que, n'uma volta da +estrada, as damas deram de frente com um trem parado, +quasi obstruindo a passagem. +<br /> + +<br /> + +Detiveram-se esperando, que o carro seguisse na +direcção que ellas levavam, para poderem +continuar o +seu caminho. Mas rapidamente dois homens mascarados +saltaram á estrada e, sem darem tempo á mais +leve resistencia, apoderaram-se de Beatriz e atiraram-n'a +<span class="pagenum"><a name="p267">[267]</a></span> +para dentro do carro, que partiu em carreira +desabrida. +<br /> + +<br /> + +―A mulher e a cunhada do procurador, industriadas +pelo marido e perfeitamente conhecedoras do +que havia de succeder, quando viram partir o carro, +desataram a gritar por soccorro, simulando uma +grande afflicção. +<br /> + +<br /> + +Os dois patifes ao ouvir gritar as damas, correram +para ellas muito açodados, perguntando: +<br /> + +<br /> + +―O que é? O que aconteceu? +<br /> + +<br /> + +―Dois homens, sahindo-nos ao caminho, agarraram +a Beatrizinha e fugiram com ella dentro d'aquelle +trem! +<br /> + +<br /> + +E apontavam a carruagem que desapparecia +n'uma curva da estrada. +<br /> + +<br /> + +―E ella não gritou?―disse o procurador. +<br /> + +<br /> + +―Ella soltou um grito, mas elles abafaram-lhe +a voz, de modo que a pobresinha não se tornou a +ouvir! +<br /> + +<br /> + +―Talvez a amordaçassem...―aventurou o Belchior. +<br /> + +<br /> + +―Ou talvez perdesse os sentidos...―concluiu a +mulher. +<br /> + +<br /> + +O Custodio julgou conveniente fingir grande desespero, +e levando as mãos á cabeça, +não fazia senão +gritar: +<br /> + +<br /> + +―Oh! minha filha! minha filha! desgraçado de +mim, que me roubaram a minha filha! +<br /> + +<br /> + +―Um rapto!―gritava o procurador―O crime +foi praticado de noite, e de noite bastam os indicios... +Vamos já ter com a auctoridade da freguezia e +apresentemos-lhe +a queixa... +<br /> + +<br /> + +―E quem diremos que foi o raptor?―<a href="#e31">perguntou</a> +o Custodio. +<br /> + +<br /> + +―Ora essa! Foi o Eugenio de Mello... Pois +quem havia de ser? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[268]</span> ― Sim... foi elle... +<br /> + +<br /> + +―Está visto que foi―tornou o procurador―Elle +queria, ella não queria... raptou-a! +<br /> + +<br /> + +E em tom mais baixo: +<br /> + +<br /> + +―Convem affirmar desde já que o vimos e o reconhecemos +perfeitamente, que é para o entalarmos +logo desde o principio, de modo que não haja outro remedio +senão fazer-se o casamento sem escripturas. +<br /> + +<br /> + +―Vamos a isso! Foi elle, o grande maroto!... +Eu bem o reconheci... Isto não é coisa que se +faça +a um pae! +<br /> + +<br /> + +―Mas que coisa! que coisa!―dizia a mulher do +procurador, simulando a maior +consternação.―Ainda +não estou em mim! +<br /> + +<br /> + +―Ai, meu Deus!―accrescentava a cunhada―Em +que perigo nós nos mettemos! Olhem se aquelles malditos +se lembravam de me raptar tambem a mim! +<br /> + +<br /> + +―Á senhora?!―disse inconvenientemente o Custodio, +com um sorriso escarninho. +<br /> + +<br /> + +―E então?―retorquiu a cunhada do Belchior, +offendida―Eu sou solteira, e elles eram dois... +<br /> + +<br /> + +―Ahi está a prova!―affirmou o procurador―Vinham +dois e raptaram só uma... Logo, provará que +o reu premeditou o crime, porque escolheu a que lhe +fazia conta. Foi o Eugenio de Mello, não ha que ver... +Vamos ter com o regedor para perseguir os fugitivos! +<br /> + +<br /> + +Tudo isto era dito a andar esbofadamente pelo caminho +que conduzia ao largo da Bandeira, em Villa +Nova de Gaya, onde afinal chegaram depois das nove +horas da noite. +<br /> + +<br /> + +Tendo indagado onde morava o regedor, apresentaram-se-lhe, +e contaram-lhe o succedido. +<br /> + +<br /> + +―E para onde fôram elles?―perguntou o funccionario. +<br /> + +<br /> + +―Nós ainda os seguimos um bocado gritando; mas +ninguem nos accudiu, e afinal perdemol-os de vista... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[269]</span> ―Os senhores reconheceram os raptores ou suspeitam +quem fossem? +<br /> + +<br /> + +―Elles levavam a cara coberta, mas um d'elles +descobriu-se sem querer, deixando vêr o rosto, e todos +nós reconhecemos um rapaz que vive no Porto e que +se chama Eugenio de Mello. +<br /> + +<br /> + +―Bem!―concluiu o regedor―Eu vou mandar +os meus cabos indagar, a vêr se descobrem os criminosos... +E amanhã dou parte para a +administração. +Mas sempre será bom os senhores apparecerem lá +para formularem a queixa. +<br /> + +<br /> + +E preparando-se para tomar nota n'um papel: +<br /> + +<br /> + +―Os seus nomes, fazem favor? +<br /> + +<br /> + +O Belchior declinou os nomes de todos, figurando +elle, a mulher e cunhada como testemunhas e o Custodio +de Jesus como queixoso. +<br /> + +<br /> + +―Vou já mandar proceder a rigorosas pesquizas +na minha freguezia―disse o regedor―a vêr se se +encontram os delinquentes. Mas, amanhã, o sr. administrador +terá conhecimento do facto e tomará as +providencias +precisas... +<br /> + +<br /> + +―Veja v. s.<sup>a</sup>, sr. regedor, a +situação em que me +encontro com uma filha roubada nas minhas barbas!...―lamuriou +o Custodio. +<br /> + +<br /> + +―E demais a mais, menor!―declamou o procurador―É +crime de casamento ou penitenciaria! +<br /> + +<br /> + +―Tudo vem a dar na mesma... Pobre de quem +as tem!―Concluiu o regedor. +<br /> + +<br /> + +―E agora―disse o Belchior muito solicito―em +chegando á cidade, vamos direitos ao commissario de +policia, apresentar a queixa... +<br /> + +<br /> + +―Está visto...―apoiou o regedor―Ninguem +sabe o caminho que os fugitivos tomaram, e a policia, +telegraphando para todos os concelhos, póde muito +bem fazel-os capturar... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[270]</span> ―O que vale é que nós conhecemos o raptor... +<br /> + +<br /> + +―Sim, isso é meio caminho andado―disse o regedor―e +se tivessem photographias, ainda melhor... +<br /> + +<br /> + +―A verdadeira photographia é o nome―accudiu +o procurador―Elle é conhecido. +<br /> + +<br /> + +―Bem, bem! Eu vou tratar de ver se elles estão +na minha freguesia, mas não me parece... Amanhã, +amanhã na administração do concelho, o +snr. administrador +dará as ordens. +<br /> + +<br /> + +Despediram se do pacifico funccionario que, interrompido +no trabalho de empacotar prégos para a +Africa, voltou á sua tarefa, logo que os viu sahir. +<br /> + +<br /> + +―E d'aqui para a policia!―bradou o Belchior +já na rua. +<br /> + +<br /> + +Metteram pela rua do General Torres abaixo, em +direcção á cidade. +<br /> + +<br /> + +―Tudo correu bem!―segredava o procurador +ao Custodio―Agora, na policia, é que a coisa vae +dar echo... Talvez amanhã saia nos jornaes... +<br /> + +<br /> + +―Ó diabo! mas isso é uma vergonha... fica-me +a rapariga perdida! +<br /> + +<br /> + +―E você a dar-lhe! Ella fica mas é achada, +porque não terá outro remedio senão +casar com o Eugenio... +<br /> + +<br /> + +―Sim... isso é verdade. +<br /> + +<br /> + +―Pois ahi está! Quanto maior fôr o escandalo, +melhor. Deixe fallar os jornaes... Tomaramos nós +que elles berrassem bastante... Até nos convinha... +<br /> + +<br /> + +―Mas os jornaes só depois d'amanhã é +que se +occuparão do caso, porque já hoje não +vão á policia... +<br /> + +<br /> + +―Pois sim; mas vou eu aos jornaes... Isto é +preciso não deixar arrefecer... Precisamos de lhe tapar +todas as sahidas... Ella ha-de casar, quer queira, +quer não! +<br /> + +<br /> + +Deixemo-los seguir caminho da policia e dos jornaes, +e vejamos o que foi feito de Beatriz, a essa hora +<span class="pagenum"><a name="p271">[271]</a></span> +seguindo caminho desconhecido na companhia dos dois +mascarados que a raptaram. +<br /> + +<br /> + +Surprehendida pelo assalto inesperado d'aquelles +dois homens, Beatriz quiz resistir e gritar, mas vendo-se +cingida por uns braços possantes e atirada para +dentro do carro com uma rapidez assombrosa, foi tal +a commoção que soffreu, que perdeu <a href="#e32">os sentidos</a>. +<br /> + +<br /> + +Quando o trem se poz em fuga n'uma corrida +vertiginosa, um dos mascarados quiz naturalmente +serenal-a, porque disse n'uma voz repassada de ternura, +pegando-lhe na mão: +<br /> + +<br /> + +―Beatriz! +<br /> + +<br /> + +Mas a pobre pequena reclinada sobre um dos +lados do trem, não se mexeu. +<br /> + +<br /> + +―Beatriz!―tornou a dizer a voz, sacudindo-lhe +levemente a mão fina e delicada. +<br /> + +<br /> + +O mesmo silencio e a mesma immobilidade. +<br /> + +<br /> + +Estão o desconhecido que a chamava, inclinou-se-lhe +sobre o rosto, poz-lhe a mão na fronte, que estava +banhada de suor frio, e notou que a filha do Custodio +não respirava. +<br /> + +<br /> + +―Perdeu os sentidos!―disse elle visivelmente +commovido. +<br /> + +<br /> + +―É natural―replicou o +companheiro.―Compleição +franzina e delicada, assustou-se e desmaiou. +<br /> + +<br /> + +―E agora?―perguntou o que primeiro fallara. +<br /> + +<br /> + +―Agora é caminhar... caminhar sempre até +chegarmos a casa... O trem vae em boa carreira e +não devemos demorar muito a chegar lá. +<br /> + +<br /> + +E vendo que o companheiro se mostrava de cada +vez mais inquieto e afflicto: +<br /> + +<br /> + +―Não te assustes―tranquillisou.―Isso passa. +É um ligeiro deliquio, que até nos favorece o bom +exito da empreza. +<br /> + +<br /> + +―Parece-me que não somos seguidos.―tornou o +outro, inquieto. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[272]</span> ―Quem querias tu que nos seguisse, se tudo estava +tão bem combinado e tudo correu tão de molde ao +nosso +desejo que os que podiam impedir-nos foram os proprios +que nos auxiliaram?... +<br /> + +<br /> + +―É verdade. Elles conservavam-se a distancia, +mandando as senhoras adiante... +<br /> + +<br /> + +―Já esperavam o lance, os patifes! +<br /> + +<br /> + +―Pois é claro. O que eu queria era vêr a cara +d'elles quando souberem que a raptada seguiu caminho +differente d'aquelle que lhe haviam assignalado... +<br /> + +<br /> + +―Era para Villar do Paraiso, pois não era? +<br /> + +<br /> + +―Era. +<br /> + +<br /> + +O trem havia descido a rua do General Torres e +parara á entrada do taboleiro inferior da ponte D. +Luiz para pagar a portagem. +<br /> + +<br /> + +―Estamos na ponte―disse o primeiro dos dois +desconhecidos. +<br /> + +<br /> + +―Estamos. Agora falta-nos atravessar a cidade. +É questão de meia hora. +<br /> + +<br /> + +Paga a portagem pelo cocheiro, o trem continuou +o seu caminho, sem que alguem reparasse na veloz +corrida que levava. Andou assim meia hora, até que +a final entrou na estrada do Carvalhido, parando em +frente de um largo portão de ferro. +<br /> + +<br /> + +―Eis-nos, emfim!―disse um dos dois raptores. +<br /> + +<br /> + +E levando um apito aos labios, tirou d'elle um +silvo agudo e prolongado. +<br /> + +<br /> + +Immediatamente o portão se abriu e a carruagem +entrou n'um largo pateo, seguindo por uma extensa +alea de frondosos castanheiros, até junto de uma casa +de severo aspecto, que alli se erguia, dominando os +vastos campos que a circumdavam. +<br /> + +<br /> + +Os dois desconhecidos saltaram do trem, conduzindo +nos braços Beatriz, ainda em deliquio, para uma +sala interior ricamente mobilada. +<br /> + +<br /> + +Depositaram a pobre creança sobre um sofá, e +<span class="pagenum">[273]</span> +rapidamente, correndo-se um reposteiro, appareceu na +sala uma dama alta, de nobre aspecto, que fez aspirar +a Beatriz um frasco de saes. +<br /> + +<br /> + +Dos dois mascarados, um murmurou algumas palavras +ao ouvido da dama e retirou-se; o outro, tirando +a mascara, ficou com os olhos pregados em Beatriz, +sem preferir palavra. +<br /> + +<br /> + +Momentos depois, a filha de Custodio, suspirou, +abriu os olhos e circumvagando um olhar pela sala, +soltou um grito d'alegria. +<br /> + +<br /> + +―Paulo! És tu?―disse ella. +<br /> + +<br /> + +―Sou eu, Beatriz, sou eu! E Paulo aproximou-se +da namorada, pegou-lhe na mão e beijou-lh'a com transporte. +<br /> + +<br /> + +―Paulo!―tornou a filha de Custodio, visivelmente +intrigada―o que é isto? Como me encontro eu aqui? +<br /> + +<br /> + +―Encontras-te aqui, minha querida, porque eu te +salvei de um grande, de um enorme perigo... +<br /> + +<br /> + +―Ah! bem sei... aquelles homens que nos assaltaram +na estrada... Meu Deus!―disse ella, recordando-se +da scena estranha que se déra.―Mas como +pudeste tu saber? +<br /> + +<br /> + +―Pude saber que te queriam raptar, d'accôrdo +com teu pae e com o procurador Belchior―esclareceu +Paulo:―Era uma cilada infame que te estava armada +e em que te queriam fazer cahir... +<br /> + +<br /> + +―Com o consentimento de meu pae?!―gritou +Beatriz horrorisada. +<br /> + +<br /> + +―Com o consentimento de teu pae, sim. E eu que +fui advertido da desgraça a que semelhante infamia ia +condemnar-te, resolvi substituir os raptores e, em vez +d'elles, apresentar-me eu a raptar-te. +<br /> + +<br /> + +―Ah! então os dois homens que me assaltaram +no caminho e me lançaram dentro do carro... +<br /> + +<br /> + +―Era eu e um meu amigo. Teu pae e o Belchior +ficaram persuadidos de que foi Eugenio de Mello quem +<span class="pagenum">[274]</span> +effectuou o rapto, porque tinha de se realisar, estava +combinado entre elles, e nem por sombras suspeitam a +esta hora que, em vez de cahires nas mãos do noivo +que te queriam impôr, estás ao lado do escolhido +do +teu coração!... +<br /> + +<br /> + +Beatriz relanceou um olhar curioso para a dama +desconhecida que, junto d'ella, o estava fitando com +expressão de ternura maternal. +<br /> + +<br /> + +―E esta senhora―disse ella―quem é? +<br /> + +<br /> + +Antes que Paulo respondesse, madre Paula, pois +que era ella, respondeu á pergunta: +<br /> + +<br /> + +―É uma amiga que muito a estima e que só deseja +a sua felicidade, minha filha. +<br /> + +<br /> + +―É minha mãe!―accrescentou Paulo, beijando +carinhosamente a mão á religiosa, mais elegante e +sympathica nos seus trajes seculares. +<br /> + +<br /> + +Madre Paula sorriu amavel e dirigindo-se a Beatriz: +<br /> + +<br /> + +―Este louco―disse ella―teima em querer impôr-me +um titulo que me não pertence e a que de +forma alguma tenho direito... +<br /> + +<br /> + +―Não diga isso, minha mãe!―protestou +Paulo―Pois +quem me acalentou na infancia, quem protegeu +e amparou os meus primeiros passos, quem tem +tido sempre para mim todos os disvellos, todas as ternuras +e carinhos de uma mãe por seu filho? Conheci +eu outra mãe? Ouvi alguma vez palpitar junto +do meu berço outro coração que +não fosse o seu, grande +e generoso? +<br /> + +<br /> + +―Mas, meu filho...―ia a dizer madre Paula +commovida. +<br /> + +<br /> + +―Meu filho! vês?―interrompeu o mancebo voltando-se +para Beatriz―Diz que não é minha mãe +e +chama-me seu filho! +<br /> + +<br /> + +Madre Paula replicou n'um tom cheio de bondade +e doçura: +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[275]</span> ―«Meu filho», é a formula terna, +cariciosa do +meu tratamento para comtigo... Mas se me deves +affeições e cuidados que outra qualquer no meu +logar +te dispensaria, é todavia bem certo que outra tem +direito á funda veneração e aos +ternissimos affectos +do teu coração de filho... +<br /> + +<br /> + +―Outra!―exclamou Paulo indignado―Quem +quer que ella seja não a conheço, nunca a vi nem +desejo vel-a! Se tive outra mãe, aquella de quem a +natureza ou a fatalidade se serviu para me lançar a +este mundo, é tão pouco o que lhe devo em +affeição e +tanto o que d'ella me veio em dôres e soffrimentos, +que já faço muito não a odiando, para +sómente sentir +por ella indifferença. +<br /> + +<br /> + +―Paulo, não digas isso!―reprehendeu madre +Paula―Sabes que me mortificas fallando assim. Não +te aconselhei e não busquei sempre incutir no teu +coração +o sentimento do amor e respeito que se deve +aos paes? +<br /> + +<br /> + +―Perdôe-me, minha boa mãe! Os seus conselhos +não foram esquecidos nem os seus esforços +baldados. +E a prova é que a amo e a respeito com todas as +véras +da minha alma, com todas as forças do meu +coração. +Mas como quer que eu tenha os mesmos affectos, +os mesmos ternos sentimentos de respeitosa +veneração +por uma outra que não conheço, que nunca vi, +que me abandonou e me deixou entregue á generosa +caridade de seu nobre coração, minha boa e santa +mãe? A ella devo os soffrimentos, as angustias da +vida que eu lhe não pedi e que de bom grado dispensava. +A madre Paula devo tudo o que um filho deve a +sua mãe: devo-lhe o amparo, o carinho, a +protecção +o amor que uma boa mãe tem sempre por seu filho. +Quem é, pois, minha mãe? A quem devo eu todo o +respeito, toda a obediencia, toda a estima e gratidão +que constituem a obrigação de um filho para com +<span class="pagenum">[276]</span> +seus paes: aos que me crearam e protegeram, ou aos +que me deram o sêr e me abandonaram? +<br /> + +<br /> + +E voltando-se para Beatriz, que assistia silenciosa +e commovida a esta scena: +<br /> + +<br /> + +―Responde tu, minha amiga! Tu, que tens +sido tambem victima da crueldade e dureza de um +pae descaroado e egoista, que a todo o momento te +torturava, consulta o teu coração e dize-me se +sentes +por elle o mesmo enternecido affecto que sentias +por tua mãe, de quem me tens fallado com tão +viva saudade? +<br /> + +<br /> + +Beatriz corou e disse: +<br /> + +<br /> + +―Se é um crime não amar os paes, que, depois +de nos terem lançado ao mundo, se julgaram dispensados +de ter por nós disvellos e amoravel compaixão +para com a nossa infancia desvalida, confesso que sou +tambem uma grande criminosa... Por meu pae não +senti nunca o suave e dôce affecto que me inspirava +minha pobre mãe. Ella era meiga, terna e bondosa +para mim. Elle, rispido, austero, sêcco, intratavel. +Nunca me dispensou um affago, nunca teve para mim +um sorriso, a não ser agora, nos ultimos tempos, quando, +representando commigo uma comedia... inclassificavel, +queria sacrificar o meu coração ao dinheiro de +um homem que eu não podia amar. Até ahi, +porém, +só teve para mim arremessos, gestos bruscos, despotismos +de senhor que se vê compellido a tolerar um escravo +de que deseja desfazer-se. Depois da morte +de minha mãe, esse mau tratamento accentuou-se de +cada vez com mais rigor. Cheguei a pensar que, se +eu morresse, a minha morte seria motivo de grande +alegria para meu pae. Não ia vêr-me ao collegio, +não me escrevia uma carta, não buscava saber +de mim, nem mesmo quando uma ligeira doença me +prostrava no leito. Contentava-se em pagar todas as +despezas mas ternura paternal, este dôce sentimento +<span class="pagenum">[277]</span> +que liga, n'uma cadeia interminavel, a humanidade de +um ao outro extremo dos seculos, eu conhecia bem +que não existia n'elle... Chorei muito a minha orphandade, +cheguei mesmo a pedir a Deus a morte. +E quando via o alegre alvoroço das minhas companheiras +ao receberem noticias dos paes que adoravam, +perguntava a mim mesma porque é que a +lembrança de meu pae não despertava em mim o +mesmo sentimento, e o meu coração ficava frio e +indifferente. +<br /> + +<br /> + +Madre Paula escutava Beatriz, visivelmente commovida +com o tom de sinceridade e candura que ella +punha n'estes dizeres. +<br /> + +<br /> + +―Minha filha―disse-lhe a abbadessa―eu creio +bem que, apesar de não sentir por seu pae os extremos +de ternura que seriam para desejar, não sentiu +nunca por elle indifferença e muito menos odio... +<br /> + +<br /> + +―Oh, não, minha senhora! Meu pae inspirava-me +receio e temor pelo seu genio desabrido, pela rispidez +e quasi rancor com que me tratava. Mas eu não +pensei jamais em faltar aos meus deveres de filha +obediente... E ainda mesmo quando elle falsamente +allegava que dependia de mim a sua velhice socegada +e tranquilla, estava resolvida a sacrificar-me por elle, +tanto quanto fosse compativel com a minha honestidade +e com os sentimentos do meu coração. +<br /> + +<br /> + +E cortou a phrase para envolver Paulo n'um olhar +caricioso e apaixonado. +<br /> + +<br /> + +―E todavia―observou Paulo―esse homem não +tem o minimo direito á obediencia e ao affecto de Beatriz! +Um pae que desce á ignominia de consentir no +rapto violento de sua filha para a obrigar a casar +com o homem que ella detesta, é um miseravel, um +monstro despresivel, não é um pae! +<br /> + +<br /> + +―Paulo! Paulo... então!―supplicou Beatriz. +<br /> + +<br /> + +Madre Paula interveio: +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[278]</span> ―O procedimento do pae d'esta menina foi incorrecto, +não ha duvida; mas a Providencia encarregou-se +de o punir, fazendo voltar contra elle as proprias +armas da perfidia que queria empregar contra +a filha. +<br /> + +<br /> + +E dirigindo-se a Beatriz: +<br /> + +<br /> + +―Minha menina―accrescentou―agradeça ao +céo o havel-a protegido e amparado contra a odiosa +cilada em que queriam fazel-a cahir. Sem praticar +nenhum acto de desobediencia para com seu pae, encontra-se +liberta do homem a quem queriam entregal-a +com manifesta repugnancia do seu coração e +grave offensa da sua reputação e da sua +honestidade. +Aqui se conservará em minha companhia, se assim o +deseja, em quanto não puder livremente dispôr do +seu +destino, unindo-se pelos laços conjugaes ao escolhido +do seu coração. Servir-lhe-hei de mãe +e serei uma +garantia segura da rectidão e honestidade de seu +comportamento. +Quer assim? +<br /> + +<br /> + +―Oh, minha senhora! quanto lhe devo e quanto +a minha alma se sente agradecida por tanta bondade +e tão valiosa protecção! +<br /> + +<br /> + +―Paulo virá vêl-a―continuou Madre Paula―mas +fallar-lhe-ha sempre na minha presença, para que +a todo o tempo eu possa testemunhar a nobreza e +correcção com que ambos procuram unir os seus +destinos. +Espero, pois, que d'este modo concorrerei para a +realisação dos seus mais vivos e ardentes +desejos, sem +que uma leve sombra de suspeita possa macular a +honra e a reputação dos meus queridos filhos. +<br /> + +<br /> + +Beatriz e Paulo ajoelharam, beijando enternecidamente +a mão da gentil abbadessa. +<br /> + +<br /> + +Esta, sorrindo com um carinho e uma doçura verdadeiramente +maternal, disse para Beatriz, levantando-a +nos braços: +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[279]</span> ―Deve estar fatigada, minha filha... Vou mandar +servir-lhe uma leve refeição e acompanhal-a em +seguida ao seu quarto. +<br /> + +<br /> + +E dirigindo-se a Paulo: +<br /> + +<br /> + +―Vae, meu filho. Despede-te da tua noiva e faze +por merecer sempre a estima e o affecto que ―Vae, meu filho. Despede-te da tua noiva e faze +por merecer sempre a estima e o affecto que tens encontrado +no meu coração. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[280]</span> +<h3><a name="c17"></a>XVII<br /> + +<br /> + +Quem semeia ventos... +</h3> + +<br /> + +<br /> + +O Belchior e o Custodio, mal chegaram ao Porto, +dirigiram-se ao commissariado de policia e ahi formularam +a sua queixa contra Eugenio de Mello, accusando-o +do rapto de Beatriz. +<br /> + +<br /> + +O procurador e a familia apresentaram-se como +testemunhas, e todos declararam haver reconhecido +o bohemio n'um dos dois raptores. +<br /> + +<br /> + +A policia pôz-se em campo para descobrir os fugitivos, +e o Custodio, esfregando as mãos de contente, +recolheu a casa á espera dos acontecimentos. +<br /> + +<br /> + +―Agora, amigo Custodio―disse-lhe o Belchior―como +tudo correu á medida dos nossos desejos, vá +descançado, que o casamento não leva oito dias a +fazer-se... +<br /> + +<br /> + +―Como o rapaz não tenha ainda gasto toda a +cortiça +da quinta...―respondeu o Custodio com um sorriso +velhaco―o casamento vem em bôa occasião. +<br /> + +<br /> + +―Deixe lá, que por falta de cortiça +não é que o +negocio ha-de ir ao fundo... +<br /> + +<br /> + +Despediram-se, promettendo voltar a vêr-se no dia +seguinte. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[281]</span> +Ao chegar a casa, porém, o Belchior ficou surprehendido +ao encontrar um bilhete de Eugenio de Mello, +em que este lhe declarava que, tendo-o procurado sem +o encontrar, voltaria no dia seguinte de manhã, para, +saber que novidade tinha havido. +<br /> + +<br /> + +―É bôa!―disse o procurador á +mulher―Este +maluco rapta a rapariga e quer que eu lhe diga a novidade +que houve! +<br /> + +<br /> + +―Mas―observou a esposa―quando te deixou +elle esse bilhete? +<br /> + +<br /> + +―Não sei... Encontrei-o na caixa das cartas... +Naturalmente, mandou-m'o por algum portador de confiança, +depois do rapto. +<br /> + +<br /> + +―Mas elle diz que veio procurar-te e que não te +encontrou... +<br /> + +<br /> + +―É verdade! Confesso que não percebo isto... +Elle não iria com ella para Villar do Paraiso como +haviamos combinado? +<br /> + +<br /> + +―Não sei... não estaria o dono da casa prevenido +para os receber?... +<br /> + +<br /> + +―Qual! estava tudo prevenido. É uma casa isolada +no fundo de uma quinta e de que um meu constituinte +tem a chave... E elle estava prevenido... +Nada, aqui houve tolice do rapaz... +<br /> + +<br /> + +Intrigado com o bilhete de Eugenio, que não sabia +como explicar, o Belchior metteu-se na cama e dormiu +regaladamente, na ideia de que levava o negocio +do casamento a bom caminho. +<br /> + +<br /> + +No dia seguinte, pelas dez horas, descia ao escriptorio +quando Eugenio entrou: +<br /> + +<br /> + +―Então?―disse-lhe o procurador.―Você +já +aqui, em vez de estar a convencer a pequena! +<br /> + +<br /> + +―Qual pequena?―interrogou Eugenio, sem comprehender. +<br /> + +<br /> + +―Qual pequena? É boa! Então você +não sabe o +que fez? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[282]</span> ―O que fiz? Eu não fiz nada, e não sei de quem +me falla... +<br /> + +<br /> + +―Essa agora! Pois você quer-me metter em cabeça +que não raptou a Beatriz? +<br /> + +<br /> + +―Eu?! +<br /> + +<br /> + +―Homem, sim! Pois quem diabo havia de ser? +Fui eu talvez?! +<br /> + +<br /> + +―Mas se lhe digo que não pratiquei rapto nenhum... +<br /> + +<br /> + +―Mau!―disse o Belchior, abespinhado com a +ideia de que Eugenio estava gracejando.―Isto são +negocios muito serios e eu não gosto d'essas brincadeiras! +<br /> + +<br /> + +―Que diabo! mas se lhe estou dizendo que não +brinco... Você mandou-me um recado, prevenindo-me +de que não fosse, que o rapto não podia +effectuar-se +como se havia combinado... Como queria que eu, +depois d'isto, fosse raptar a pequena? +<br /> + +<br /> + +―Com os diabos!―berrou o procurador, desesperado.―Mas +eu vi! Você, quer-me negar uma coisa +que eu presenciei?! +<br /> + +<br /> + +E n'uma furia crescente, persuadido de que Eugenio +premeditava maroteira grossa: +<br /> + +<br /> + +―Olhe que isso não é digno, ouviu? Eu bem sei +aonde você quer chegar... Mas comigo é preciso +vêr +como se fazem, porque eu não sou menino que se deixe +enganar! +<br /> + +<br /> + +O bohemio encarou-o fito, franziu o sobr'olho e replicou +n'um tom meio zombeteiro, meio ameaçador: +<br /> + +<br /> + +―Você está doido, amigo Belchior? +<br /> + +<br /> + +―Não estou doido nem você é capaz de +me tirar o +juizo, percebeu? É preciso notar que eu cumpri tudo +aquillo a que me obriguei, e você ha de cumprir tambem, +ou então temos muito que vêr! +<br /> + +<br /> + +―O que quer você dizer com isso, Belchior? +<br /> + +<br /> + +―Quero dizer que escusa você de vir negar o rapto +<span class="pagenum">[283]</span> +que eu presenciei, com a ideia de se furtar a entregar-me +a commissão que tinhamos combinado... +Eu sei qual é a sua ideia... A sua ideia é +fazer-se +com o Custodio para arranjarem o casamento a occultas +e deixarem-me a mim a chuchar no dedo... Mas +lembre-se que eu tenho-os a ambos na mão... De +você, descubro tudo, digo quem é e quem +não é, faço +vêr que não tem onde cahir morto, e depois sempre +quero saber se o Custodio não prefere mandal-o por +uma barra fóra, a dar-lhe a filha. E a elle, se se +fizer fino e me quizer ser falso, tenho cá uns certos +segredos que o compromettem e veremos quem n'este +jogo leva a melhor! Comigo é preciso muito cuidado, +ouviu? Eu não me deixo ir assim na rêde, ainda que +a você lhe pareça o contrario!... +<br /> + +<br /> + +O procurador punha tal indignação nas suas +palavras, +que Eugenio comprehendeu que havia alli um +equivoco a desfazer. +<br /> + +<br /> + +―Homem, não se zangue e fallemos sério―disse +elle, procurando serenar o Belchior.―Eu não percebo +uma palavra do que você está para ahi a dizer... +<br /> + +<br /> + +―Não percebe? Ah! você agora não +percebe, +mas eu sou muito capaz de o fazer preceber...―tornou +o Belchior, sempre persistente na ideia de que +o aventureiro o queria enganar.―É preciso que se +lembre de que eu estava lá, vi-o chegar, apear-se do +carro com o outro, deitar as mãos á pequena, +atirar +com ella para dentro do carro e abalar... Isto a mim +não se me nega e bem póde você vir com +um santo +Christo dizer-me o contrario, que eu não o acredito. +<br /> + +<br /> + +―Pois não fui, amigo Belchior, creia que não +fui!―protestou Eugenio, verdadeiramente espantado +das affirmações do procurador. +<br /> + +<br /> + +―Não foi! Então quem foi? +<br /> + +<br /> + +―Não sei. Eu é que posso dar-lhe a minha palavra +d'honra de que não entrei n'isso, nem pensei mais +<span class="pagenum">[284]</span> +em tal, desde que você me mandou recado a dizer que +o rapto ficava transferido para outro dia... +<br /> + +<br /> + +―Que recado? Eu mandei-lhe algum recado? +<br /> + +<br /> + +―Certamente. Eu estava no <em>Suisso</em>, +eram quatro +horas da tarde, conversando com o amigo que devia +acompanhar-me, quando entrou um homem, que me +chamou de parte e me disse: «O sr. Belchior manda +dizer que tenha a bondade de não ir ao sitio onde sabe, +porque houve transtorno e o passeio da menina ficou +addiado para outro dia. Elle depois lhe explicará +os motivos.» Ouvindo isto, perguntei-lhe:―«Onde +está +o sr. Belchior?»―«Em casa do sr. Custodio de Jesus +com a familia e não regressa a casa d'elle senão +á +noite.» Ora, depois d'isto, como queria você que eu +fosse raptar a pequena? +<br /> + +<br /> + +O procurador ficou-se a olhar espantado o aventureiro. +<br /> + +<br /> + +Elle queria convencer-se de que Eugenio fallava +verdade, mas os factos de que tinha sido testemunha, +contradiziam totalmente a narrativa do bohemio. +<br /> + +<br /> + +―Sim... tudo isso está muito bem―disse elle.― Mas +o peor é que a rapariga foi raptada; eu vi, +o pae viu, minha mulher e minha cunhada viram, e +ninguem podia ter sido senão você... +<br /> + +<br /> + +―Mas você não está gracejando, amigo +Belchior?―interrogou +por sua vez o bohemio.―Realmente Beatriz +foi raptada? +<br /> + +<br /> + +―Essa agora! Então não sabe que o foi? +<br /> + +<br /> + +―Ah! sim... então foi raptada por outro!... Não +tem duvida.. Você indemnisa-me dos prejuizos e +está o negocio arrumado... +<br /> + +<br /> + +―Dos prejuizos... Que prejuizos? +<br /> + +<br /> + +O bohemio, sem perder a gravidade, replicou n'um +tom cheio de convicção: +<br /> + +<br /> + +―Obrigou-me a despezas excessivas, na ideia +d'este casamento. Depois, entretendo-me com as suas +<span class="pagenum">[285]</span> +promessas e os seus palanfrorios de me arranjar esta +noiva que me convinha, fez com que eu perdesse outra +união mais vantajosa. Tudo isto são prejuizos que +eu +não estou disposto a soffrer; e você, antes de me +roer +a corda, devia pensar n'isso... +<br /> + +<br /> + +―Com seiscentos diabos!―gritou o procurador +desvairado―Então já o ladrão +é o roubado, hein! Então +a você não lhe basta raptar a rapariga e negar, +para se safar com ella e casarem-se occultamente em +sitio que eu não saiba, para me não darem nada, +senão +ainda por cima quer que eu lhe dê dinheiro, a +titulo de indemnisação? Diz que gastou mundos e +fundos! +E de quem era esse dinheiro, não faz favor de +me dizer? A conta está alli, e o preto no branco falla +como gente! +<br /> + +<br /> + +E apontou para o cofre onde guardava os documentos +da divida de Eugenio. +<br /> + +<br /> + +―É verdade!―replicou o rapaz com soberano +despreso―E esse preto no branco, que você alli tem, +diz de uma maneira bem clara e bem evidente que +você é o maior ladrão que a roda do sol +cobre! +<br /> + +<br /> + +―Veja como falla... Olhe que eu estou em minha +casa!―berrou o procurador n'um gesto de ameaça. +<br /> + +<br /> + +―Esta casa não é sua, é dos +desgraçados que você +tem esfollado, seu malandro! A sua casa é a penitenciaria, +e lá é que você devia estar. +<br /> + +<br /> + +―Pulha!―regougou o Belchior, rouco de colera―Ponha-se +lá fóra! ponha-se lá fóra! +<br /> + +<br /> + +O bohemio avançou para elle com o punho estendido. +O procurador, livido de medo, foi recuando até +á parede. +<br /> + +<br /> + +Então ahi, sereno e imperturbavel, Eugenio, pondo-lhe +a mão vigorosa sobre o hombro, disse: +<br /> + +<br /> + +―Amigo Belchior, você escolheu mau parceiro +para a sua bisca, porque eu não tenho que perder, e +só posso ganhar... Tome bem conta no que lhe digo: +<span class="pagenum">[286]</span> +eu não sou homem de quem se escarneça +impunemente. +Você fez raptar a rapariga por outro... Por ella, +pouco me importa, porque eu não tinha empenho na +mulher. Mas pelo dote, faz-me differença e eu não +posso perder. Tenho, pois, direito a uma +indemnisação +e ou você m'a dá ou lhe mando a vida para o +inferno. +É um ladrão que fica de menos no mundo e +os tribunaes, se não me absolvêrem, tambem +não hão-de +dar-me grande pena. Estou novo, posso bem com +alguns annos de penitenciaria, mesmo porque não tenho +nada que fazer cá fóra... Pense n'isto e +não seja +tôlo. Eu não sou exigente. Receberei mesmo em +prestações. +Adeus! +<br /> + +<br /> + +O Belchior, desorientado, sahiu tambem pouco depois, +dirigindo-se apressado a casa de Custodio. +<br /> + +<br /> + +Não podia crêr no que ouvira da bôcca do +bohemio, +e parecia-lhe, em face de tamanha audacia, que +havia já combinação feita entre +Eugenio e o pae de +Beatriz para o roubarem a elle, despojando-o da commissão +que ambos haviam combinado dar-lhe. +<br /> + +<br /> + +―É incrivel―murmurava elle―a desfaçatez +com que aquelle maroto nega uma coisa que eu vi e +ainda por cima me pede uma indemnisação! Agora o +que falta é que o patife do Custodio tambem +queira +que eu o indemnise... Ah! mas não tem duvida! Eu +arranjo-os... Comigo não brincam elles! +<br /> + +<br /> + +Atravessou a cidade a passo accelerado e entrou +em casa do Custodio no momento mesmo em que este +se preparava para sahir. +<br /> + +<br /> + +―Ia agora mesmo a sua casa―disse-lhe o agiota. +<br /> + +<br /> + +―Sim? Então o que ha de novo?―perguntou-lhe +o Belchior, que tivera tempo de serenar e recobrar o +sangue frio. +<br /> + +<br /> + +―Que eu saiba, não ha nada... O que eu queria +saber era se sempre temos de ir á +administração de +<span class="pagenum">[287]</span> +Villa Nova de Gaya ratificar as declarações que +fizemos +hontem ao regedor e á policia... +<br /> + +<br /> + +―Pois está claro que sim!―tornou o procurador―Agora +é carregar-lhe com a polvora toda, declararmos +que o vimos, que o reconhecemos, de modo que +elle não possa negar ainda que queira... +<br /> + +<br /> + +―Você julga-o capaz d'isso?―perguntou o Custodio +em sobresalto. +<br /> + +<br /> + +―Não... eu não o julgo capaz d'isso... Mas +supponhamos que lhe dá o diabo na cabeça para se +arrepender e dizer que não foi elle? É preciso +que a +gente tenha força nas declarações para +o obrigar. +<br /> + +<br /> + +―Mau! Mas você não fallava assim antes do +rapto...―observou +o Custodio desconfiado. +<br /> + +<br /> + +―Eu sempre fallei como fallo agora, amigo Custodio. +Eu não sou homem de duas caras nem digo uma +coisa por outra... O que eu disse é que ficava por +minha conta obrigal-o a casar com a pequena depois +d'elle a raptar. Mas para isso é preciso que você +me +ajude e puxe certo... +<br /> + +<br /> + +―Eu estou prompto!―volveu o Custodio―Diga +você como quer que puxe... +<br /> + +<br /> + +O Belchior adquiriu n'esta resposta a certeza de +que o Custodio ainda nada sabia da negativa de Eugenio +e que, portanto, não estava combinado com elle +para o espoliarem da parte que lhe cabia n'aquelle +infame negocio. +<br /> + +<br /> + +―Trabalha por conta propria―pensou―e quer +vêr se faz jus a mais dinheiro por parte do velho e a +dar-me menos dinheiro a mim... Mas está enganado. +É mais facil eu arranjar-lhe a cama na penitenciaria +e perder tudo, do que deixar-me comer por aquelle patife! +<br /> + +<br /> + +E voltando-se para o Custodio de Jesus: +<br /> + +<br /> + +―É teimar sempre que foi elle e que foi elle! +Eu juro que o reconheci, porque deixou vêr a cara na +<span class="pagenum"><a name="p288">[288]</a></span> +occasião em que raptava a pequena... Minha mulher +e minha cunhada juram a mesma <a href="#e33">coisa</a>... +e você, já +se sabe, tem de dizer comnosco... não nos póde +contradizer... +<br /> + +<br /> + +―Ágora contradigo! N'essa não caio eu... +<br /> + +<br /> + +―E assim, com esta prova, ainda que elle negue +e diga que não foi, ou casa ou vae para a Penitenciaria +que nem Santo Antonio o livra de lá... +<br /> + +<br /> + +―Mas a você palpita-lhe que elle seja capaz de +negar?―insistiu o Custodio de cada vez mais apprehensivo. +<br /> + +<br /> + +―A mim não me palpita nada... Mas você nunca +ouviu dizer que o seguro morreu de velho? É preciso +a gente prevenir sempre o peor... +<br /> + +<br /> + +―Bem; pois então vamos lá para o administrador +de Gaya. +<br /> + +<br /> + +Chegaram á praça de Carlos Alberto, tomaram +um trem á hora e partiram para Villa Nova. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[289]</span> +<h3><a name="c18"></a>XVIII<br /> + +<br /> + +Revelação +</h3> + +<br /> + +<br /> + +O padre Filippe, quando chegou a casa, depois de +ter assistido aos ultimos momentos de Maria do Carmo, +tirou da sotaina a sacca das libras e o manuscripto +que a moribunda lhe confiara, atirando tudo para +dentro da gaveta da sua secretária, sem se dar pressa +em observar de perto o estranho legado. +<br /> + +<br /> + +Vinha fatigadissimo e como a idade já lhe não +permittia +prolongadas vigilias, recolheu-se ao leito, reservando +para o dia seguinte o exame do mysterioso manuscripto. +<br /> + +<br /> + +A confissão da velha, porém, impressionara-o. +<br /> + +<br /> + +Elle conhecera o padre Hilario e sabia muito bem, +pelo que lhe dissera madre Paula, que o novel capelão +da Covilhã era filho do padre Anselmo. O que de +todo o ponto ignorava eram as particularidades que a +velha lhe revelára nos ultimos momentos. +<br /> + +<br /> + +Nunca tivera grande curiosidade de saber a origem +d'aquelle filho que o padre Anselmo parecia querer +encobrir, não obstante a grande +protecção que sempre +lhe dispensára e que era o que afinal trahira o seu +segrêdo. Mas, comparando os relativos cuidados havidos +<span class="pagenum">[290]</span> +para o padre Hilario com o abandono a que Paulo +fôra votado, o padre Filippe não sabia explicar a +differença, +senão pelo grau de affecto que separava aquellas +duas mães no coração do padre Anselmo. +<br /> + +<br /> + +Todavia, madre Paula suppunha a <em>Irmã +Dorothêa</em> +vivendo em paiz estrangeiro, protegida pelo seu seductor, +a essas horas talvez elevado ao cargo de Provincial +ou Assistente, com outro nome diverso do que +a principio tivera. E n'este caso, como é que os dois +esqueceram Paulo, deixando-o entregue aos cuidados +de duas pessoas amigas, de quem mais não quizeram +saber? +<br /> + +<br /> + +Emaranhado n'esta ordem de considerações, o padre +Filippe adormeceu, reservando para o dia seguinte +a leitura do manuscripto, que talvez viesse fazer luz +em tão escuro labyrinto. +<br /> + +<br /> + +Se essa leitura alguma coisa o esclareceu, poderemos +nós avaliar pela conversação que, na +tarde d'esse +mesmo dia, se travou entre elle e madre Paula, na +casa das Sereias. +<br /> + +<br /> + +―Sabes, minha amiga―disse o padre Filippe, +entrando na cella da abbadessa―que tive noticias do +padre Anselmo? +<br /> + +<br /> + +―Sim?―perguntou madre Paula com curiosidade. +<br /> + +<br /> + +―É verdade. Noticias bastante retardadas, mas +em todo o caso novas para mim e creio que tambem +para ti... +<br /> + +<br /> + +―Decerto. Ha muitos annos que não tenho noticias +do padre Anselmo. É ainda vivo? +<br /> + +<br /> + +―Não sei. A pessoa que d'elle me fallou é +já morta, +e, ao expirar, não soube dizer-me se elle ainda vivia. +<br /> + +<br /> + +―Alguem, ao morrer, fallou-te do padre Anselmo? +<br /> + +<br /> + +―Uma tal Maria do Carmo, que foi creatura +muito d'elle... +<br /> + +<br /> + +―Tenho ideia d'essa mulher. Persuado-me que a +<span class="pagenum">[291]</span> +vi duas ou tres vezes procurar o padre Anselmo, quando +elle se demorava n'esta casa. +<br /> + +<br /> + +―Eu não a conhecia, mas fui chamado hontem á +noute para a ouvir de confissão, porque a pobre creatura +não queria morrer sem fazer revelações +importantes. +<br /> + +<br /> + +Contou então toda a conversação que +tivera com a +moribunda e o legado de que ella o fizera depositario. +<br /> + +<br /> + +―E o manuscripto o que diz? +<br /> + +<br /> + +―O manuscripto―replicou o padre―é uma +sentida e commovente narrativa feita pela mãe do padre +Hilario ao filho, revelando-lhe o segredo do seu +nascimento e dando conta dos funestos amôres que, +desde muito nova ainda, a ligaram ao padre Anselmo... +<br /> + +<br /> + +―É singular! +<br /> + +<br /> + +―Pelo que d'esse manuscripto se deprehende, essa +mulher não vira mais o filho desde o momento em +que o déra á luz. O padre Anselmo arrebatara-lh'o +da vista, dera-o a crear e encarregara-se da sua +educação, conservando no mais rigoroso mysterio +as +circumstancias do nascimento d'aquella creança. Chamava-se +Carlota a mãe, e por suggestões do padre +Anselmo, casara em Braga com um agiota chamado +Custodio de Jesus... +<br /> + +<br /> + +―Custodio de Jesus!―repetiu madre Paula, sobresaltada. +<br /> + +<br /> + +―Sim, Custodio de Jesus―tornou o padre Filippe―Porque +te sobresalta esse nome? +<br /> + +<br /> + +―É porque Custodio de Jesus se chama tambem +o pae de Beatriz, a namorada de Paulo; e creio ter +ouvido dizer que esse homem residira primitivamente +em Braga. +<br /> + +<br /> + +―É extraordinario!―exclamou o padre Pilippe―Dar-se-ha +caso que Beatriz seja filha da amante do +padre Anselmo? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[292]</span> ―Não sei. É possivel, como é +possível que a +propria Beatriz seja... irmã de Paulo. +<br /> + +<br /> + +―Convem esclarecer esse mysterio, mas de modo +que não transpire a menor suspeita do que se trata. +<br /> + +<br /> + +Madre Paula ficou por alguns instantes pensativa. +<br /> + +<br /> + +―Chamava-se D. Carlota―disse―a mãe do padre +Hilario? +<br /> + +<br /> + +―Chamava. +<br /> + +<br /> + +―É ella mesma quem se declara casada com Custodio +de Jesus, no manuscripto que te veio ás mãos? +<br /> + +<br /> + +―É. E posto não diga claramente que as suas +relações +intimas com o padre Anselmo continuaram, bem +o deixa perceber nas differentes passagens em que se +refere ás supplicas que frequentemente lhe fazia para +que a deixasse vêr e beijar o filho, seu unico amor, +sua unica aspiração. +<br /> + +<br /> + +―De modo que―tornou ainda madre Paula―se +Beatriz é filha de D. Carlota... +<br /> + +<br /> + +―Não haverá remedio senão impedir por +todos os +modos o casamento d'essas duas creanças, ainda mesmo +que não tenhamos a certeza moral do impedimento +dirimente. +<br /> + +<br /> + +―E teremos então que revelar a Paulo o segredo +do seu nascimento? +<br /> + +<br /> + +―Não me parece que o devamos fazer emquanto +não tivermos esgotado todos os outros meios ao nosso +alcance. +<br /> + +<br /> + +―Paulo ama loucamente essa menina e é correspondido +com igual vehemencia por parte d'ella... +Creio bem que será empreza difficilima arrancar ao +coração dos dois um sentimento que alli tem +creado +tão fundas raizes. +<br /> + +<br /> + +―Buscaremos convenientemente empregar os nossos +esforços no sentido de suavisar o melhor que pudermos +o golpe que talvez sejamos obrigados a vibrar-lhes... +E se queres que te diga, minha querida, acho extemporaneas +<span class="pagenum">[293]</span> +quaesquer considerações a esse +respeito... +Primeiramente, devemos informar-nos acerca da identidade +d'esse Custodio de Jesus. Póde muito bem acontecer +que, em vez de se tratar da pessoa que suspeitamos, +se trate apenas de um homonymo do marido +de D. Carlota. +<br /> + +<br /> + +―Tratarei de averiguar por alguma das serventuarias +do convento. +<br /> + +<br /> + +―O que não convem―recommendou o padre Filipe―é +que Paulo tenha conhecimento d'estas nossas +indagações que não devem perder o +caracter do mais +intimo segredo... +<br /> + +<br /> + +―Descança, meu amigo. Paulo nada saberá. +<br /> + +<br /> + +N'essa mesma tarde, madre Paula chamou á sua +cella uma das serventuarias do convento e incumbiu-a +de averiguar e saber de certeza certa quem era Custodio +de Jesus, que pessoas compunham a sua familia, +qual o seu estado, e como se chamava a mãe de Beatriz. +<br /> + +<br /> + +―Quero saber isto com a maxima exactidão e a +mais breve possivel―disse madre Paula. +<br /> + +<br /> + +―Isso é uma coisa que eu vou já tratar de +saber... +Alli perto tenho uma alminha do senhor, muito +devota e que sabe a vida de toda a gente da vizinhança... +Ella diz-me tudo assim que eu lá fôr... +<br /> + +<br /> + +―Veja lá, olhe que tenho o maximo interesse em +saber tudo... +<br /> + +<br /> + +―Ó minha senhora! Fique vossa maternidade +descançada que lhe trago aqui tudo sabidinho, sem +faltar nada... Eu parece-me que essa familia não +é +lá de grande religião, porque não +tenho ideia de a +vêr muito pelas igrejas... +<br /> + +<br /> + +―Saiba se esse Custodio de Jesus é de Braga e +se vive cá no Porto ha muito tempo. +<br /> + +<br /> + +―Sim, minha senhora. +<br /> + +<br /> + +―Saiba tambem se a mãe da menina que +é filha +<span class="pagenum">[294]</span> +d'elle, e que se chama Beatriz, tem o nome de D. Carlota... +<br /> + +<br /> + +―Sim minha senhora! Eu vou saber tudo isso... +<br /> + +<br /> + +Sahiu a serventuaria e duas horas depois regressava +com tudo sabido. +<br /> + +<br /> + +―Já aqui estou de volta com tudo na ponta da +lingua!―disse lépida a cuscuvilheira. +<br /> + +<br /> + +―Então, o que soube? +<br /> + +<br /> + +―O homem é de Braga, chama-se Custodio de +Jesus e já cá está no Porto ha muitos +annos. Empresta +dinheiro sobre <em>hybotécas</em> +e pelos modos leva coiro e +cabello... Tem má fama, mas é home de dinheiro... +<br /> + +<br /> + +―E a familia? +<br /> + +<br /> + +―A familia é só elle e mais a filha e mais a +creada―uma <em>focinho de +cão</em> que primeiro que se lhe +<em>arrinque</em> uma palavra do bucho +é um dia de juizo! +<br /> + +<br /> + +―E a mulher? Elle não é casado? +<br /> + +<br /> + +―Já é viuvo duas vezes. A primeira mulher +morreu-lhe ainda elle estava em Braga... Chamava-se +D. Carlota e d'essa não teve filhos. A segunda +chamava-se D. Anna, tinha vindo do Brazil com fama +de trazer mundos e fundos, mas acho que eram +mais as vozes do que as nozes... +<br /> + +<br /> + +―E o que foi feito d'essa mulher? Morreu tambem? +<br /> + +<br /> + +―Pois já se sabe! Morreu e elle fez-lhe um enterro +muito rico... +<br /> + +<br /> + +―Então esta menina Beatriz é filha da segunda +mulher, da tal snr.<sup>a</sup> D. Anna?... +<br /> + +<br /> + +―É como diz, minha senhora! Ella é um palminho +de cara muito bonito... E parece que não ha +de ter mau interior; mas o pae, que é má farda, +não +a deixa pôr pé em ramo verde... Veja lá +como aquella +alminha ha de estar carregada de peccados! +<br /> + +<br /> + +―Tem vocemecê bem a certeza de que essa menina +<span class="pagenum">[295]</span> +Beatriz é filha da segunda mulher do Custodio de +Jesus? +<br /> + +<br /> + +―Então não tenho, minha senhora?! Aquillo foi +chegar a casa d'aquella santa Maria do Rosario e +ella contar-me tudo p-a-pá Santa Justa, nem que estivesse +a lêr n'um livro aberto! E olhe que ella não +me engana, porque quem lhe disse tudo, como era e +como não era, foi a criada do seu +<em>préscurador</em> chamado +o <em>snr. Mélchior</em>, que +é lá todo da casa do Custodio +de Jesus e mais as senhoras d'elle, que são as que +contam estas coisas todas diante da criada... Inda +ella honte lá esteve, porque agora, pelos modos, vae +lá um inferno em casa p'ra amôr do +namorico―Credo! +Santo nome de Jesus!―que a pequena traz com +um estudante que se chama Paulo... E o pae quer +mas é que ella case com oitro, que diz que é +pôdre de +rico. +<br /> + +<br /> + +―Está bem!―disse madre Paula. +<br /> + +<br /> + +―Veja lá a senhora as +<em>desgracias</em> que vão por +esse mundo, tudo causado pela falta de religião e temor +de Deus!... +<br /> + +<br /> + +―Está bem!―repetiu madre-Paula, despedindo +a devota onzeneira.―Vá na graça de Deus e escusa +de dizer a alguem que eu a incumbi d'este serviço... +<br /> + +<br /> + +Quando o padre Filippe voltou ao outro dia, madre +Paula disse jubilosa: +<br /> + +<br /> + +―Já sei tudo. O pae de Beatriz é o mesmo +Custodio +de Jesus, marido da D. Carlota do padre Anselmo... +porém, esta pequena é filha do segundo +matrimonio... +A mãe era uma tal D. Anna, que tambem +já morreu, pois que o Custodio de Jesus é viuvo +duas +vezes... +<br /> + +<br /> + +O padre Filippe, encarou, sorrindo, madre Paula: +<br /> + +<br /> + +―As tuas informações condizem perfeitamente +com aquellas que eu pude obter... +<br /> + +<br /> + +―Ah! tambem indagaste? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[296]</span> ―Tambem. Ha, porém, um ponto escuro que eu +ainda não pude aclarar... +<br /> + +<br /> + +―Qual é? +<br /> + +<br /> + +―É que D. Carlota morreu ha dezoito annos, envenenada +em Lisboa pelo padre Anselmo, e esta pequena +Beatriz, se não tem mais, deve ter pelo menos +uma idade que regula por esse tempo... +<br /> + +<br /> + +―D. Carlota morreu envenenada pelo padre Anselmo, +dizes? +<br /> + +<br /> + +―Morreu. +<br /> + +<br /> + +―Como o sabes? +<br /> + +<br /> + +―Revelou-m'o a velha Maria do Carmo na hora +extrema. +<br /> + +<br /> + +―De modo que essa desgraçada não chegou a +vêr o filho? +<br /> + +<br /> + +―Não. +<br /> + +<br /> + +―E o padre Hilario, pela sua parte, se ainda é +vivo, deve ignorar quem foi sua mãe? +<br /> + +<br /> + +―Decerto. +<br /> + +<br /> + +―Aquelle padre Anselmo era um sicario da peor +especie!―disse ainda horrorisada a bella abbadessa. +<br /> + +<br /> + +―O padre Anselmo, que nós conhecemos, era um +facinora como tantos outros que se acobertam com a +religião santa do Crucificado... Ambicioso e profundamente +perverso, tudo era capaz de sacrificar sem escrupulo +á sua desmedida ambição... +<br /> + +<br /> + +―Envenenaria tambem a pobre Helena de Noronha? +Quem sabe? +<br /> + +<br /> + +―Para isso, bastaria só que ella lhe fosse um leve +estorvo na sua carreira de crimes... +<br /> + +<br /> + +―Não terias meio de indagar se ella ainda vive? +<br /> + +<br /> + +―Como? Se é hoje Provincial ou Assistente e usa +de outro nome, como poderei descobrir-lhe o rasto? +Mas nem isso agora nos serviria de nada. Paulo é +para todos os effeitos nosso filho adoptivo. Desde qua +tomamos sob a nossa protecção essa +creança devemos +<span class="pagenum">[297]</span> +proceder para com ella como se foramos seus unicos +e verdadeiros paes... De que serviria sabermos que +o padre Anselmo e a irmã Dorothea são ainda +vivos? +A mãe renegou-o ao nascer, e o pae nem talvez tivesse +noticia do seu nascimento. Dizer ao filho o nome +dos que lhe deram o sêr era ensinar a Paulo o nome +dos que devia amaldiçoar... Não, minha amiga... +Sejamos caridosos para com a pobre creança. Uma +vez que não tem fundamento o nosso receio de que +Beatriz seja irmã de Paulo, deixemol-os amarem-se e +unirem-se livremente. Concorramos na medida das nossas +forças para a sua união e que sejam felizes +amando-se como nós nos temos amado sempre. +<br /> + +<br /> + +O padre Filippe, sempre de uma galanteria correcta +a despeito da idade, sellou estas ultimas palavras +com um delicado beijo na face de madre Paula, +que, a sorrir, o estreitou com frenesi ao seio palpitante +de alegria. +<br /> + +<br /> + +―Sempre o mesmo gentilissimo espirito! sempre +o mesmo generoso e nobre coração!―disse ella +commovida. +<br /> + +<br /> + +―Esse Custodio de Jesus―continuou o padre +Filippe retomando a sua attitude grave―é, ao que +me consta, um sordido usurario que sonha um casamento +rico para a filha... Ha de ser difficil demovel-o +d'este proposito, que seria desculpavel se elle não tivesse +a certesa de que vae assim sacrificar o coração +de duas pobres creanças. +<br /> + +<br /> + +―Talvez que tu, procurando-o, o pudesses convencer +a dar o seu consentimento... +<br /> + +<br /> + +―Já me lembrou isso. Mas se elle alguma vez +veio a ter conhecimento dos amores da sua primeira +mulher com o padre Anselmo, a presença de um homem +de sotaina não deve ser-lhe muito sympathica... +E talvez mesmo que, em vez de o demover a favor +<span class="pagenum">[298]</span> +de Paulo, isso o irrite e de cada vez mais o mantenha +no proposito de contrariar o casamento... +<br /> + +<br /> + +Como respondendo a esta pergunta, ouviu-se fóra +da porta da cella a voz de Paulo: +<br /> + +<br /> + +―Dá licença, minha mãe? +<br /> + +<br /> + +―Ah! és tu? Entra, entra, meu filho!―exclamou +a abbadessa correndo ao seu encontro. +<br /> + +<br /> + +O mancebo beijou-lhe a mão com respeito filial, e +vendo o padre Filippe dirigiu-se a elle, de braços +abertos, dizendo com sincera alegria: +<br /> + +<br /> + +―Que felicidade! encontro-os a ambos reunidos +quando tanto precisava de os consultar e pedir o seu +conselho e o seu auxilio! +<br /> + +<br /> + +―Tu dirás, meu amigo, o que desejas―disse, +bondoso, o padre Filippe―e se fôr, como creio, coisa +compativel com as nossas forças, pódes +dispôr de nós... +<br /> + +<br /> + +Paulo principiou dizendo: +<br /> + +<br /> + +―O que venho pedir-lhes é realmente um sacrificio... +Mas sacrificio de que está dependente a minha +vida, mais que a minha vida, toda a minha felicidade +futura, e porisso espero bem que o não recusarão +ao seu filho, a este filho que não conheceu nunca outros +paes nem tem no coração logar para outro affecto +igual... +<br /> + +<br /> + +―Falla, falla, meu Paulo!―animou com doçura +a bondosa abbadessa. +<br /> + +<br /> + +―O caso é este―continuou o mancebo―Beatriz, +de quem lhes tenho fallado, está em risco de ser victima +de uma monstruosa infamia com a cumplicidade +de seu proprio pae! +<br /> + +<br /> + +―O que! O que dizes tu, meu filho?―interrogou +madre Paula. +<br /> + +<br /> + +―A verdade, minha mãe! +<br /> + +<br /> + +O padre Filippe silencioso, encarando fito o mancebo, +parecia observal-o com attenção. +<br /> + +<br /> + +―Repara, meu amigo, que essas palavras envolvem +<span class="pagenum">[299]</span> +uma accusação terrivel para o pae da tua +amada, +o que é sempre uma coisa grave e digna da maior +censura, quando se não tem a certeza do que se affirma... +<br /> + +<br /> + +―Mas eu tenho a certeza!―protestou Paulo―E +porque a tenho é que venho pedir-lhe o auxilio no +sentido de obstar a que tal infamia se realise. +<br /> + +<br /> + +―Falla!―disse o padre Filippe. +<br /> + +<br /> + +O mancebo prosegniu: +<br /> + +<br /> + +―Custodio de Jesus, o pae de Beatriz, depois de +ter inutilmente envidado todos os esforços para coagir +a filha a casar com um tal Eugenio de Mello, que se +diz um rico proprietario do Alemtejo, resolveu, de +combinação com o pretendente e com o procurador +Belchior, que tem sido o agente d'esta ignobil negociata, +proteger o rapto da propria filha, com o fim de, +por este meio, a violentar a acceitar o noivo que se +lhe impõe e que ficará sendo o unico que em taes +condições +não duvide recebel-a por esposa. +<br /> + +<br /> + +―Isso é impossivel, Paulo!―bradou madre Paula, +indignada―Não ha um pae que pense em realisar +uma tal monstruosidade! Tu és por força victima +de +um engano, talvez de um cruel gracejo de alguem +que deseja vêr até que ponto vae a tua cegueira +por +essa menina, que não te recusas a acceitar +invenções +de tal ordem! +<br /> + +<br /> + +―Não, minha mãe!―volveu Paulo―O que lhe +digo é absolutamente certo e vae realisar-se, se eu o +não impedir como me cumpre. Um amigo intimo de +Eugenio de Mello e que com este deve tomar parte na +miseravel aventura foi quem o declarou diante de mim. +<br /> + +<br /> + +―É o que eu digo! gracejo de rapazes. +<br /> + +<br /> + +―Não é gracejo como suppõe, minha +mãe. Quem +isto revelou fel-o em taes circumstancias que não podia +nem lhe era permittido gracejar. O rapto está +combinado e deve effectuar-se amanhã, durante um +<span class="pagenum">[300]</span> +passeio ao campo que as duas familias―a do Belchior +e a de Beatriz―teem preparado. +<br /> + +<br /> + +―E Beatriz sabe a infame cilada que lhe querem +armar? +<br /> + +<br /> + +―Beatriz nada sabe, nem eu tenciono prevenil-a. +<br /> + +<br /> + +―O que tencionas então fazer?―perguntou o +padre Filippe. +<br /> + +<br /> + +―Castigar o miseravel pae que assim malbarata +a honra da propria filha n'um trafico infame, +aproveitando-me das circumstancias por elle preparadas, +para lh'a raptar eu. +<br /> + +<br /> + +―Tu?! +<br /> + +<br /> + +―E porque não? Se ella me ama e eu a adoro e +a quero para minha mulher, heide deixar que m'a +roubem e levantem entre mim e ella uma barreira +impossivel de transpor―a barreira da deshonra? Tenho +tudo prevenido e tudo preparado para arredar +sem escandalo, e até sem suspeita do que vae passar-se, +os raptores de Beatriz, e tomar eu e um outro +meu amigo o seu logar. Falta-me apenas uma coisa. +<br /> + +<br /> + +―O que é?―interrogou madre Paula. +<br /> + +<br /> + +―A salvaguarda de uma mulher honesta para +garantir a reputação de Beatriz que eu +não quero vêr +maculada, com a sombra de uma suspeita, antes de a +receber por esposa perante o altar do Deus Vivo. +<br /> + +<br /> + +O padre Filippe e madre Paula trocaram um rapido +olhar. +<br /> + +<br /> + +Se o mancebo pudesse conhecer o segredo da sua +origem e saber a quem devia a vida, teria traduzido +n'esse olhar esta phrase que estava no pensamento +dos dois: +<br /> + +<br /> + +―«Não parece filho do padre Anselmo!» +<br /> + +<br /> + +―Desejas então...?―interrogou madre Paula +dirigindo-se ao mancebo. +<br /> + +<br /> + +―Que minha bôa mãe, de cuja virtude ninguem +ousará suspeitar, se digne receber a minha noiva em +<span class="pagenum">[301]</span> +sua companhia durante todo o tempo que ella seja +forçada a conservar-se occulta... +<br /> + +<br /> + +―Queres trazel-a para aqui, Paulo? Isso, meu +filho, é um passo muito grave, que póde +pôr em risco +a bôa ordem e segurança d'esta santa casa... +Imagina +que as auctoridades são obrigadas a intervir, e +por qualquer circumstancia descobrem aqui essa menina, +que, de mais a mais, não consultaste ainda sobre +se consente em acolher-se á nossa +protecção? +<br /> + +<br /> + +―É tal a confiança que tenho no amôr +de Beatriz, +minha mãe, que não duvido asseverar que ella +dará por bem feito tudo quanto eu haja deliberado, +logo que conheça os motivos que me obrigaram a raptal-a... +<br /> + +<br /> + +O padre Filippe, que durante esta conversação +guardára absoluto silencio, resolveu-se afinal a intervir. +<br /> + +<br /> + +―Parece-me que tudo se póde conciliar muito +bem―disse elle. Paulo deseja salvaguardar a +reputação +da sua noiva, o que é de todo ponto justo e +nobre. Para isso, pois, pede o concurso de sua mãe +adoptiva, porque sob a égide da virtude da madre +Paula, ninguem se atreverá a julgar menos licitos os +intuitos d'este rapto. Portanto, madre Paula deve intervir +com a sua presença, porque é um acto de +verdadeira +caridade evangelica o que se lhe pede. Mas +surge uma difficuldade, que é o poder comprometter +por esta fórma os interesses d'esta santa casa, se a +trouxer para aqui... +<br /> + +<br /> + +―É justamente esse o inconveniente que já +apontei―interrompeu +a abbadessa. +<br /> + +<br /> + +O padre Filippe fez um gesto e proseguiu: +<br /> + +<br /> + +―Ha, porem, um meio, que me parece rasoavel, +de obviar a esse inconveniente... +<br /> + +<br /> + +―Qual? +<br /> + +<br /> + +―Paulo buscará uma casa profana para onde +conduzirá a sua noiva; e ahi, madre Paula, vestindo +<span class="pagenum">[302]</span> +trajos seculares, receberá a pobre menina e conserval-a-ha +em sua companhia durante os primeiros dias. +Se depois de Beatriz conhecer do que se trata, manifestar +desejos de acompanhar madre Paula para +esta santa casa, poderemos então, com as devidas cautelas +e resguardos, internal-a aqui até que as circumstancias +lhe permittam legalisar a sua união com +Paulo. Não acha acceitavel este alvitre, minha +amiga?―concluiu +interrogando a abbadessa. +<br /> + +<br /> + +―As opiniões do padre Filippe teem para mim o +valor de leis indiscutiveis. Far-se-ha como diz, concordou +madre Paula. +<br /> + +<br /> + +Paulo abraçou n'uma expansão de reconhecimento +o padre Filippe. +<br /> + +<br /> + +―Sempre generoso e bom para mim! disse o mancebo +com as lagrimas nos olhos. +<br /> + +<br /> + +―Vamos, vamos!―replicou o padre Filippe commovido, +procurando furtar-se ás demonstrações +de reconhecimento +do pobre rapaz―Trata de procurar +uma casa em condições de abrigar por alguns dias +tua mãe adoptiva e a tua noiva. Os meus recursos +são minguados―concluiu―Sou um pobre sacerdote +que fez eterno voto de pobreza... de pouco posso dispôr... +Mas até onde as minhas magras economias o +permittam, tudo está á tua +disposição, porque tudo é +teu, meu Paulo. +<br /> + +<br /> + +―Oh, meu pae! +<br /> + +<br /> + +―Essa menina deve ser tratada com a decencia +e conforto a que certamente esta habituada... +<br /> + +<br /> + +―Eu tenho amigos, meu pae!―affirmou Jorge. +<br /> + +<br /> + +―Os teus primeiros amigos somo nós, eu e madre +Paula. Não tens, pois, o direito de recorrer ao auxilio +monetario dos segundos emquanto existirem os primeiros. +A minha casa irás buscar todo o dinheiro de que +careceres. Vê bem a casa que escolhes para receberes +n'ella a tua familia. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[303]</span> ―Tenho um amigo, quasi um irmão, que não +só +me acompanha e auxilia na aventura do rapto, como +põe á minha disposição a +sua casa, onde não tem mais +familia e onde nada falta. +<br /> + +<br /> + +―Muito bem. Se entendes que ahi pódem acolher-se +sem perigo, deves acceitar. +<br /> + +<br /> + +―Já acceitei, meu pae! +<br /> + +<br /> + +O leitor já conhece como o rapto se effectuou e +como madre Paula recebeu com os extremos e carinhos +de mãe a gentil Beatriz, salva das garras do +aventureiro Eugenio de Mello e da sua alma negra, +o procurador Belchior, por maneira tão original como +inesperada. +<br /> + +<br /> + +Agora, emquanto a pobre menina, livre de perigo, +encontra na doce convivencia da abbadessa os affectos +maternaes que a morte lhe roubára e os tres sujos heroes +d'esta repellentissima, porém veridica, historia se +empenham n'uma lucta de desconfianças e +malquerenças, +que são o seu verdadeiro castigo, voltemos a +S. Martinho do Campo, onde novos e interessantes episodios +se estão dando. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[304]</span> +<h3><a name="c19"></a>XIX<br /> + +<br /> + +Um velho amigo +</h3> + +<br /> + +<br /> + +Julio de Montarroyo, logo que o brazileiro lhe +deu por desoccupada a casa que pertencera a Norberto +de Noronha, tomou posse da sua nova propriedade +e installou-se n'ella immediatamente, sem mesmo +esperar que se fizessem os convenientes e indispensaveis +reparos. +<br /> + +<br /> + +Este acontecimento foi celebrado pelos convivas e +amigos de Gustavo de Magalhães com um jantar +lauto, em que houve discursos, brindes e poesias, +como estava combinado muito tempo antes. +<br /> + +<br /> + +O amigo de Gustavo, que tinha adquirido fóros +de excentrico, supportou como pôde toda a ruidosa +alegria d'aquelles amigos e passada a +<em>glorificação</em>, +como elles lhe chamavam, encerrou-se na sua habitual +tristeza, sem comtudo se mostrar intratavel e esquivo +a convivencias affectuosas. +<br /> + +<br /> + +No emtanto, furtou-se obstinadamente a toda e +qualquer recepção festiva em sua casa, dando como +desculpa a falta de pessoal habilitado para bem servir +n'um banquete de cerimonia. +<br /> + +<br /> + +O caso, porém, não era esse. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[305]</span> +Julio de Montarroyo considerava um sacrilegio infame +fazer resoar os risos da alegria n'aquellas salas +onde morreram abafados os gemidos de tamanha desgraça, +de tão profunda e inconfortavel dôr. +<br /> + +<br /> + +Elle adquirira aquella casa para recolher n'ella a +sua grande tristeza, o lucto eterno do seu +coração. +<br /> + +<br /> + +Não podia por isso, ainda que o desejasse, converter +aquelle tumulo, em que queria encerrar-se vivo +com as suas recordações e os seus desalentos, +n'um +logar de festivas alegrias, de expansivos affectos. +<br /> + +<br /> + +Os amigos de Gustavo, que o eram tambem seus, +comprehenderam-n'o e não se offenderam. +<br /> + +<br /> + +―É um excentrico―dizia o juiz―Não ha que +vêr, é um excentrico... +<br /> + +<br /> + +―É um paranoico com a tendencia romantica!―affirmava +o medico.―Aquillo desanda n'um volume +de lyricas mais hoje, mais amanhã. E talvez esteja +ahi a sua salvação. +<br /> + +<br /> + +―Não é nada d'isso, meus amigos―contrariava +Gustavo―Este homem é um de tantos incomprehendidos +que teem atravessado a vida como o viageiro +atravéssa os areaes do deserto, sem jámais +encontrar +o appetecido oasis. O maior beneficio que lhe podemos +fazer é deixal-o entregue á sua grande tristeza, +á sua +enorme e insanavel dôr. +<br /> + +<br /> + +Julio de Montarroyo começou, pois, a ser uma +figura estranha ás alegrias ruidosas d'aquella vida +campesina, passada em convivencia intima de amigos. +<br /> + +<br /> + +Os dias do melancholico amante de Helena de Noronha +decorriam-lhe n'uma taciturnidade de espirito +aterradora. +<br /> + +<br /> + +Encerrava-se horas e horas na sala onde pela primeira +e ultima vez fallára a Norberto de Noronha e +parecia experimentar um cruel prazer em recordar, +em todas as suas tristes minudencias, essa estranha e +dolorosa entrevista. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[306]</span> +Mandára collocar todos os moveis que serviram a +Norberto na sua disposição primitiva. +Lá estava a cadeira +de rodas, onde o desgraçado agonisou por tanto +tempo. E em frente d'ella, passava horas esquecidas +a monologar as suas recordações e os seus +desgostos. +<br /> + +<br /> + +Um dia, viera ao jardim e sentára-se no +caramanchão +que olhava sobre a estrada. +<br /> + +<br /> + +Devia ser alli, suppozera elle e confirmara-lh'o +depois a irmã de Gustavo, que Helena de Noronha +vinha sentar-se muitas vezes, nos tempos felizes da +sua infancia, e era por isso mesmo o logar por elle +preferido para as suas meditações ao ar livre. +<br /> + +<br /> + +De repente ao portão chegou alguem que fez vibrar +a sineta. Julio de Montarroyo debruçou-se na +grade do caramanchão e olhou. +<br /> + +<br /> + +Viu um pobre mendigo, um +<em>ermitão</em>, de longas +barbas brancas, vestindo um garnacho remendado e +encostando-se a um bordão. Trazia ao peito, pendente +de uma correia, um nicho de folha de Flandres, em +que se via a imagem de um Santo Antonio, cercada +de flôres artificiaes. +<br /> + +<br /> + +―O que deseja?―interrogou Julio. +<br /> + +<br /> + +―Esmola para Santo Antonio, meu rico senhor!―supplicou +de baixo o pobre, tirando o chapéo e indicando +o santo. +<br /> + +<br /> + +Julio de Montarroyo não +reconheceu aquella figura, +mas ficou estranhamente impressionado com o +metal de voz do pedinte. +<br /> + +<br /> + +Parecia-lhe que já a tinha ouvido em qualquer +parte, e como toda a sua vida, n'aquelle ermo, se compunha +de recordações, aventurou uma pergunta. +<br /> + +<br /> + +―Você é d'estes sitios? +<br /> + +<br /> + +―Não, meu senhor... Eu sou de Braga. +<br /> + +<br /> + +―De Braga?! +<br /> + +<br /> + +―Sim, meu senhor, mas já lá não vou +ha muitos annos... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[307]</span> ―Vem então de muito longe? +<br /> + +<br /> + +―Venho, meu senhor! +<br /> + +<br /> + +―Espere ahi. +<br /> + +<br /> + +Julio desceu ao portão e franqueou a entrada ao +pedinte. +<br /> + +<br /> + +―Entre!―disse elle. +<br /> + +<br /> + +O pobre entrou. +<br /> + +<br /> + +―Você é de Braga?―tornou a perguntar Julio. +<br /> + +<br /> + +―Nascido e baptisado, meu senhor!―confirmou +o pobre. +<br /> + +<br /> + +―Ha que tempo sahiu da sua terra? +<br /> + +<br /> + +―Ha muitos annos, meu senhor... +<br /> + +<br /> + +―Olhe lá; você conheceu lá um +sapateiro chamado +<em>Tomba</em>? +<br /> + +<br /> + +―Conheci, meu senhor, conheci! Era um bom +<em>home</em>, amigo do seu amigo... E eu +<em>támem</em> era muito +amigo d'elle! +<br /> + +<br /> + +―Ah! você então era amigo do +<em>Tomba</em>? +<br /> + +<br /> + +―Oh, senhor! pois se nós eramos da mesma +creação... Eu e mais elle eramos como a unha e a +carne... +<br /> + +<br /> + +―E o que foi feito d'elle? Não sabe? +<br /> + +<br /> + +―Se não morreu... ha-de estar vivo por força, +meu senhor... +<br /> + +<br /> + +Julio reconheceu n'esta resposta o espirito velhaco +do antigo sapateiro. +<br /> + +<br /> + +―Diga-me: o que é feito de D. Carlota e do padre +Anselmo?―interrogou Julio a meia voz. +<br /> + +<br /> + +O pedinte, surprehendido, encarou o seu interlocutor +e de repente, como se a memoria se lhe tivesse +avivado, exclamou: +<br /> + +<br /> + +―Ora espera! Vossa <em>incellencia</em> +é o sr. Julinho +de Montarroyo, pois não é? +<br /> + +<br /> + +―Sou. +<br /> + +<br /> + +―Cá me queria a mim parecer! +<br /> + +<br /> + +E batendo na testa desesperado: +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[308]</span> ―Ah! grande cabeça de burro, que nem já conheces +quem te deu tanto pão a comer!... Ah, sr. +Julinho, vossa <em>incellencia</em> +perdoará, mas eu estava +agora bem longe de o <em>topar</em> aqui! +Antão +<em>cumpassou</em>?―perguntou +o <em>Tomba</em>, lisonjeiro e +carinhoso.―Vossa +<em>incellencia</em> está +féro! Está que é uma bisarria! +<br /> + +<br /> + +―Estou velho, amigo <em>Tomba</em>, estou +velho! +<br /> + +<br /> + +―Qual velho! Velhos são os farrapos! Mais velho +estou eu e olhe que, graças a Deus e a Santo +Antonio, que está aqui e que bem me ouve, ainda as +pernas me levam p'r'a onde eu quero. +<br /> + +<br /> + +Julio de Montarroyo, alegre por ter encontrado +este homem, que podia talvez elucidal-o ácerca de factos +que elle tinha interesse em conhecer minuciosamente, +conduziu o <em>Tomba</em> através +do jardim, até ao +interior da habitação. +<br /> + +<br /> + +―Venha cá, <em>Tomba</em>, venha +cá, homem, que temos +que fallar... +<br /> + +<br /> + +―Ora o sr. Julinho! Como eu havia de vir aqui +topal-o! Isto foi milagre de Santo Antonio, que eu +trago aqui comigo... Foi elle que me <em>trouve +inté</em> +aqui, por sua infinita <em>mesericordia</em>! +<br /> + +<br /> + +Chegados ao gabinete de Julio, este voltou-se para +o sapateiro e disse-lhe:<br /> + +<br /> + +―Arrume o santo, mestre <em>Tomba</em>, e +diga-me se +tem vontade de comer... +<br /> + +<br /> + +―Oh, meu senhor! Vontadinha, graças a Deus, +ha sempre... +<br /> + +<br /> + +―Bom! Vou mandar que lhe dêem alguma coisa. +<br /> + +<br /> + +Julio ordenou que dessem de almoçar ao +<em>Tomba</em> +que, fiel ao seu costume, honrou a cosinha do seu generoso +amphytrião. +<br /> + +<br /> + +Depois, mais animado, e dando parabens á sua +fortuna por ter encontrado aquelle grande e rico amigo, +passou á sala onde o aguardava o dono da casa. +<br /> + +<br /> + +―Já matei quem me matava!―disse elle satisfeito.―Ora +<span class="pagenum">[309]</span> +agora aqui tem vossa +<em>incellencia</em> um +<em>home</em> p'ra tudo que fôr +preciso! +<br /> + +<br /> + +―Conte-me cá, mestre +<em>Tomba</em>, o que é feito de +você? O que foi feito de D. Carlota, do padre Anselmo +e d'aquelle doidivanas do Alvaro de Noronha? +<br /> + +<br /> + +―Pois vossa <em>incellencia</em> +não sabe?―disse o sapateiro +admirado. +<br /> + +<br /> + +―Nada! Não sei nada. +<br /> + +<br /> + +―Pois já tudo isso lá vae! +<br /> + +<br /> + +―Tudo? +<br /> + +<br /> + +―Tudo ou <em>acaijo</em> tudo... +<em>Inté</em> é de +<em>inorar</em> o +sr. Julinho não saber as +<em>desgracias</em> todas que se +déram logo assim que o sr. Julinho +<em>arretirou</em> p'ra +Braga. +<br /> + +<br /> + +―Não! Eu fui obrigado a partir para Paris pouco +depois de sahir do Porto e por lá andei muitos annos +sem ter mais noticias de Portugal. +<br /> + +<br /> + +―Pois é! O sr. Julinho é que fez bem... Foi-se +inté Paris de França e não deu mais +cavaco ás tropas... +Pois a sr.<sup>a</sup> D. Carlota, coitada! lá +deu ao +penagal em Lisboa... O padre +<em>Inxelmo</em>―<em>rais</em> +o +parta!―lá teceu taes indrominas com o +<em>Custoido</em> a +dezer-lhe que ella que lhe tinha sido falsa com o sr. +Julinho... +<br /> + +<br /> + +―Comigo!―exclamou Julio admirado. +<br /> + +<br /> + +―Pois <em>antão</em> +não sabia? +<br /> + +<br /> + +―Eu não sabia de nada... +<br /> + +<br /> + +―Bem digo eu! <em>Antão</em> +já vejo que não sabe nem +da missa a metade!... Pois o maroto do padre +<em>Inxelmo</em>, +emquanto nós estavamos no Porto a ver se lhe +deitavamos a luva, <em>vêo</em> a +Braga dizer ó <em>Custoido</em> +que +a sr.<sup>a</sup> D. Carlota andava lá pelo +Porto mettida c'o +sr. Julinho de Montarroyo... E vai elle, o malandro, +que nunca se importou emquanto ella lhe desfeiteou +as barbas c'o padre, começou a dar por paus e por +<span class="pagenum"><a name="p310">[310]</a></span> +pedras, <em>assubiu-lhe</em> a honra +á cabeça, e quando ella +vinha p'ra tornar p'ra casa, pôl-a fóra e pouco +faltou +p'ra lhe bater... +<br /> + +<br /> + +―Isso é extraordinario!―disse Julio. +<br /> + +<br /> + +―E lá em Braga toda <a href="#e34">a gente</a> +se +<em>acuarditou</em>, porque +demais a mais, como o sr. Julinho se prantou na +<em>planta-giria</em>, todos +<em>dixeram</em> que foi verdade, porque +quem se <em>cia alhos come</em>... +<br /> + +<br /> + +―Mestre <em>Tomba</em>, é +impossivel que você não esteja +doido! Isso que você está a dizer é +tudo quanto +ha de mais absurdo! +<br /> + +<br /> + +―Valha-me Deus, sr. Julinho! Eu o que digo é +o que por lá se constou n'aquelle tempo... +<br /> + +<br /> + +―E você não podia desmentir esses boatos, +não +podia desmascarar os calumniadores? +<br /> + +<br /> + +―Eu a esse tempo, estava, mas era engaiolado +no Sardão, mais morto que vivo, +<em>estrelicadinho</em> com fome, +porque aquellas carochas de seiscentos diabos tinham-me +a jejum de pão e <em>auga</em>, +que eu cuidei que +não tornava mais a ver sol nem lua, e que, a respeito +de petiscos, não se fariam mais para os queixos +do <em>Tomba</em>! +<br /> + +<br /> + +E contou a maneira ardilosa como o padre Anselmo +o encerrara no convento do Sardão e aquella +outra mais ardilosa ainda como elle conseguira escapar-se +da prisão, depois de ter pregado uma sova +mestra na freira que o guardava quasi á vista. +<br /> + +<br /> + +―Eu só queria que vossa +<em>incellencia</em> visse, sr. +Julinho... Aquillo foi uma trépa co'as correias, que +<em>inté</em> o +<em>sengue</em> lhe esguichou pelo sitio da +tripeça, salvo +seja! Depois puz-me a andar e marchei p'ra Braga +a saber novidades... A sr.<sup>a</sup> D. Carlota tinha +morrido +em Lisboa, o sr. Alvarinho―Deus lhe perdôe!―lá +tinha o <em>Perneta</em> dado cabo d'elle... +Raios o parta! +Se quer ó menos, inda fui testemunha escontra elle, +que o enterrei! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p311">[311]</a></span> ―Ah! você foi testemunha no processo contra o +<em>Perneta</em>, mestre? +<br /> + +<br /> + +―Pois atão não havia de ser? Eu tinha a veridica +certeza de que o sr. Alvaro tinha ido p'ra casa +do <em>Perneta</em>, porque arrecebeu uma +carta da sr.<sup>a</sup> D. +Carlota―Deus a chame lá p'ra bem, que eu não a +chamo cá p'ra nada!―a dezer-lhe que a prima +d'elle, a sr.<sup>a</sup> D. Helena de <em>Laronha</em> +estava lá mettida +com vossa <em>incellencia</em>... +<br /> + +<br /> + +―Comigo?!―tornou a exclamar Julio de Montarroyo, +de cada vez mais espantado. +<br /> + +<br /> + +―Tal e qual como eu lhe estou a +<em>dezer</em>, sr. Julinho! +Pode-se <em>acuarditar</em> em mim, porque eu +ouvi lêr +a carta e <em>escorda-me</em> como se fosse +hoje tudo quanto +ella dezia... +<br /> + +<br /> + +―E elle acreditou! Pois Alvaro de Noronha, conhecendo-me +e tendo convivido comigo por algum +tempo, pôde acreditar em <a href="#e35">semelhante</a> +carta, pôde +julgar-me capaz de uma semelhante infamia?! +<br /> + +<br /> + +―Eu bem lhe dizia que não se fiasse, que aquillo +era tramoia que lhe queriam armar... Mas elle, que +tinha aquelle genio de espirra-canivetes, começou +logo a atirar co'aparelho ao ar, a dezer <a href="#e36">que</a> +ia +matar +sete e esfolar quatorze e nem á mão direita de +Deus Padre fui capaz de ter mão n'elle! Lá foi e +se +eu bem lh'o disse, melhor lhe aconteceu... Chegou lá +e aquelle ladrão do +<em>Perneta</em> e mais dois que elle +lá +arranjou deram-lhe tamanha carga de paulada que o +deixaram <em>cadable</em> no meio da estrada! +Eu, já se sabe, +n'essa maré estava preso no Sardão e nem tal +coisa me +passava pelo sentido... Mas quando sahi e cheguei a +Braga, <em>atão</em> é +que eu soube tudo... E disse comigo: +«Ai o alma do diabo do +<em>Perneta</em> que deu cabo do +<em>probe</em> +rapaz! Pois deixa que eu te vou fazer a cama!...» +Fui-me á Povoa, fallei com o sr. +<em>amenistrador</em>, contei-lhe +as coisas como foram e como não foram, e o +<span class="pagenum">[312]</span> +<em>Perneta</em>, que inda estava preso, mas +não confessava +nada, assim que o <em>acarinharam</em> +comigo, não teve mão +em si, começou a <em>entoar</em> e +<em>dixe</em> tudo! Lá foi por uma +barra fóra, que o levou seicentos diabos! +<br /> + +<br /> + +Julio ouvia espantado estas revelações do +<em>Tomba</em>. +<br /> + +<br /> + +―Mas como é―disse elle―que D. Carlota pôde +escrever uma carta d'essas a Alvaro de Noronha na +mesma occasião em que eu recebia uma carta de Helena, +dizendo-me que partia para França? Se D. Carlota +vivia com o padre Anselmo, como podia ella ignorar +que Helena seguia para Paris? +<br /> + +<br /> + +―Vossa <em>incellencia</em> quer que eu lhe +diga uma +coisa, sr. Julinho? +<br /> + +<br /> + +―Diga lá, mestre. +<br /> + +<br /> + +―A mim ninguem me tira da <em>pinha</em> que +a sr.<sup>a</sup> +D. Carlota não escreveu carta nenhuma... Aquillo +foi o maroto do padre <em>Inxelmo</em> que +mandou escrever +a carta em nome d'ella para arranjar a trempe ó +probe rapaz! Vossa <em>incellencia</em> +não se <em>escorda</em> do sr. +Alvaro dizer muitas vezes que o patife do padre +<em>Inxelmo +inté</em> uma vez escreveu uma carta muito bem +<em>escrevida</em>, co'a letra da sr.<sup>a</sup> +D. +Helena, a dizer ó pae +d'ella que estava em Coimbra com um sujeito com +quem se queria casar, e no fim de contas vae-se a vêr +e estava mas era <em>agachada</em> em casa do +<em>Perneta</em>! +<br /> + +<br /> + +Julio de Montarroyo deu um salto na cadeira. Só +ao ouvir estas palavras do <em>Tomba</em> +é que pensou na +possibilidade de ter sido victima de uma infame +mystificação. +<br /> + +<br /> + +―Eu tambem recebi uma carta de Helena convidando-me +a seguil-a, pois que ia partir para uma casa +religiosa de Paris. Seria essa carta escripta por Helena, +ou seria ainda uma tôrpe cilada do padre Anselmo? +<br /> + +<br /> + +―Olhe, sr. Julinho; o cesteiro que faz um cesto +faz um cento, se tiver verga e tempo... O padre já +<span class="pagenum">[313]</span> +tinha feito uma e porisso +<em>támem</em> era capaz de fazer +a +outra... +<br /> + +<br /> + +Julio de Montarroyo ficou por algum tempo silencioso +e pensativo. Estava recordando o singular e extraordinario +mutismo de Helena, a qual tendo-o solicitado +a esperar noticias suas em Paris, nunca mais lhe +mandára aviso nem recado. Porque não teria D. +Carlota +revelado ao padre Anselmo o interesse que elle +tomava pela libertação da filha de Norberto e +suggerido +por esta forma ao jesuita a ideia de se livrar dos dois +ao mesmo tempo, matando um e expatriando o outro? +<br /> + +<br /> + +Mas, n'esse caso, Helena não teria sahido do paiz, +e ao passo que elle a procurava pelo mundo, morria +ella ignorada no mesmo convento onde a deixara. +<br /> + +<br /> + +―Mestre <em>Tomba</em>―disse elle―sabe o +que foi +feito do padre Anselmo? Tornou a ter noticias d'elle? +<br /> + +<br /> + +―O padre <em>Inxelmo</em>, depois que roubou +o <em>Custoido</em> +nunca mais tornou a pôr os pés em Braga, +ó menos +que eu o enxergasse... Aquillo sumiu-se como o +fumo, que nunca mais vi raça d'elle! +<br /> + +<br /> + +―Diz você que o padre Anselmo roubou o Custodio? +<br /> + +<br /> + +―Pois roubou! O <em>Custoido</em>, p'ra +não dar nada á +mulher, assignou letras a fingir ao João Ignacio, que +era p'ra ella lhe não poder pegar em nada... E quem +metteu o probe do <em>home</em>, coitado! +n'essas fofas foi o +patife do padre... Vae +<em>óspois</em> a D. Carlota +<em>esticou</em> o +<em>pernil</em> em Lisboa... diz que se +matou... Tanto sei eu +se ella se matou como se foi o padre que lhe deu cabo +da casta... E vae n'isto, assim que se constou a +morte d'ella, o João Ignacio salta em riba do +<em>Custoido</em> +co'as letras e leva-lhe tudo, que o deixou sem +um fio! O <em>Custoido</em> barregava +<em>escontra</em> o padre a +<em>dezer</em> +que foi elle que o metteu co'aquelle ladrão, que +era uma coisa por demais! Mas o padre +<em>esguipou-se</em> +que ninguem soube mais d'elle! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[314]</span> +Julio de Montarroyo relacionava mentalmente todos +estes factos e procurava o fio mysterioso que devia +explical-os. +<br /> + +<br /> + +―É singular!―disse elle―E o Custodio? Morreu? +<br /> + +<br /> + +―Qual morreu! Casou-se oitra vez e fez um +<em>bô +casorio</em>... Foi co'uma brazileira... co'a Anninhas +das Travessas, que tinha ido p'ró Brazil ha um +<em>rôr</em> +de annos e que <em>vêo</em> de +lá rica que não sabia o que tinha +de seu... O <em>home</em>, como em Braga +todos o conheciam, +pegou e foi co'ella p'ró Porto, e acho que lá +estão na santa paz de Deus... +<em>Porfilhou-lhe</em> a filha +que ella <em>trouve</em> e inda apanhou uma +riquesinha bem +bôa! +<br /> + +<br /> + +―De modo que―tornou Julio―você, mestre, não +voltou mais a saber de Helena de Noronha? +<br /> + +<br /> + +―Eu, como a sr.<sup>a</sup> D. Carlota e o sr. Alvaro +tinham +morrido... e o sr. Julinho +<em>támem</em> não dava +rumor de si... tratei mas foi de governar a minha +vida... Os freguezes, como eu andei por lá todo +aquelle tempo, sem dar nova nem recado, foram ó +aprendiz buscar os sapatos e levaram-n'os a oitro... +O senhorio, como eu não paguei o aluguer, tomou-me +conta da <em>farramenta</em> do officio e +poz-me o rapaz na +rua! Veja lá o alma do diabo, que +<em>inté</em> co'a +tripeça +me ficou! Vi-me <em>desauriado</em>! P'ra me +tornar a estabelecer, +eu já não tinha +<em>farramenta</em> nem freguezia... +estava <em>desacuarditado</em>! Peguei e +fui-me <em>inté</em> Villaverde, +á tia do sr. Julinho, contei-lhe a minha +<em>desgracia</em> +e ella teve dôr de mim e deu-me uma libra d'esmola! +<br /> + +<br /> + +―E você contou a minha tia tudo o que se tinha +passado com respeito a Helena de Noronha? +<br /> + +<br /> + +―Eu não disse nada! N'estas coisas, antes carta +de menos do que carta de mais... Peguei na libra +que ella me deu, mandei arranjar este Santo Antonio +e botei-me a pedir por essas terras de Christo fóra, +<span class="pagenum"><a name="p315">[315]</a></span> +tal e qual como o meu compadre +<em>Longuinhos</em> que +<em>támem</em> +se arranjou muito bem co'este modo de vida... +Tenho corrido todas <a href="#e37">essas</a> +<em>Europias</em> de Portugal, e +louvado seja o meu rico padre Santo Antonio, sempre +tenho tirado mais do que quando trabalhava pelo officio!... +<br /> + +<br /> + +―Diga-me uma coisa, mestre: você seria capaz +de dar conta de uma incumbencia que eu desejo fazer-lhe? +<br /> + +<br /> + +―Ó sr. Julinho! que me pedirá vossa +<em>incellencia</em> +que lhe eu não faça?! +<br /> + +<br /> + +―Bem! Desejava eu que você fosse ao Porto e +indagasse nas <em>Sereias</em> ou no +<em>Sardão</em>, se ainda +lá está +como abbadessa uma senhora chamada madre Paula... +<br /> + +<br /> + +―Madre Paula... disse o sapateiro procurando +reter na memoria este nome.―Eu vou lá e trago-lhe +isso sabido, que é um regalo... O diabo é o +<em>Sardão</em> +que se lá me conhecem fazem-me pagar os açoites +que +preguei na freira velha... Mas da raça do diabo +será ella se não estiver já a fazer +tijolo! +<br /> + +<br /> + +―Não tenha receio, que lá ninguem o conhece... +Eu mesmo, que tão de perto lidei comsigo, já +quasi o +não reconhecia, como hão-de conhecel-o pessoas +que +nunca lhe fallaram?... +<br /> + +<br /> + +―Bem! eu vou―decidiu o sapateiro―mas não +levo o santo, porque se a policia do Porto me apanha +lá com elle, é capaz de ferrar comigo no +<em>Asylio da +Mendecidade</em>, que, aquillo, pelo que me tem zoado +cá +pelos ouvidos, é peor do que estar nas profundas do +inferno a arder!... +<br /> + +<br /> + +―Pois não leve o santo... +<br /> + +<br /> + +―Eu deixo-o cá ao sr. Julinho, mas faça favor +de ter cautela, que m'o não estraguem, que é o +meu +ganha-pão... +<br /> + +<br /> + +―Vá descançado, mestre +<em>Tomba</em>. O santo fica a +meu cuidado... Ninguem cá lhe bulirá n'elle... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[316]</span> ―<em>Atão</em> quando quer o sr. +Julinho que eu vá? +<br /> + +<br /> + +―O mais depressa que possa... +<br /> + +<br /> + +―Eu vou já hoje, se fôr preciso... É +verdade: +e se ella lá estiver, o que quer que lhe diga? +<br /> + +<br /> + +―Nada. Saiba só se ella está em qualquer d'essas +duas casas. +<br /> + +<br /> + +―E se lá não estiver? +<br /> + +<br /> + +―Saiba se é viva e em que casa religiosa da +provincia se encontra. +<br /> + +<br /> + +―Está bem! Vamos a vêr se ainda tenho geito +para estas coisas―disse o <em>Tomba</em> +radiante. +<br /> + +<br /> + +E n'esse mesmo dia partiu para o Porto. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p317">[317]</a></span> +<h3><a name="c20"></a>XX<br /> + +<br /> + +Alma negra +</h3> + +<br /> + +<br /> + +Voltemos a casa da loura Leonor, da doida amante +do commendador Garcia, apaixonada por Eugenio de +Mello e instrumento de torpes vinganças nas mãos +de +João Lazaro. +<br /> + +<br /> + +O commendador Garcia retirára á hora habitual, +dez da noite, muito desconsolado, porque o <em>seu +peccado</em>―que +era assim que elle chamava á endiabrada +creatura que o tinha preso nos laços de uma +affeição +insensata―havia tempos que o recebia desabridamente, +com repellões de histerica, irritando-se sem +motivo, chorando sem saber porquê, n'uns accessos de +nevrosismo que faziam a sua tortura e a tortura do +encarquilhado protector. +<br /> + +<br /> + +Solicito e amoroso, o bom do homem fallou em +chamar o medico, consultal-o, podia ser que aquillo +ás vezes fosse <em>sangue +alvoroçado</em>, que podia subir-lhe +á cabeça, e então o melhor era +tratar-se com tempo, +porque todas <a href="#e38">as molestias</a> em +principio +teem cura e +depois de tomarem posse do corpo é que custam mais +a debellar. +<br /> + +<br /> + +Mas a loura indignou-se, teve um ataque de furia +<span class="pagenum">[318]</span> +e quasi lhe bateu. Ella não tinha sangue na +cabeça; +o que lá tinha era a ideia de se vêr só +por algum +tempo, sem aquelle <em>caustico</em> do +commendador a importunal-a, +a fazer-lhe arrelia com as suas mimalhices +de velho babão. E dizia-lh'o com crueza, +n'uns arremessos de doida. Fallava em se matar, em +acabar com aquella vida que não podia continuar +assim. +<br /> + +<br /> + +―Mas o que queres tu?―perguntava-lhe lacrimoso +o commendador―Falta-te alguma coisa? Queres +vestidos, joias, dinheiro? Anda, falla, minha filha! +Eu estou prompto a satisfazer todos os teus +desejos, todos os teus caprichos, comtanto que não +falles em me deixar! Bem sabes que eu sem ti não +podia viver... +<br /> + +<br /> + +E era sincero o pobre homem quando assim se +expressava. Effectivamente, a loura era a sua incuravel +mania. Tambem, não tivera outra em toda a sua +vida, senão a de ser commendador. +<br /> + +<br /> + +A principio alugára os affectos da loura como +quem adquire um animal de luxo, um cavallo de preço. +Tinha vaidade em que se dissesse que elle era o +possuidor d'aquella bella mulher, que fazia a cubiça +de todos e a inveja de muitos. O seu amor proprio +sentia-se singularmente lisonjeado quando os intimos, +nas assembleias dos bancos de que era accionista, lhe +batiam amigavelmente no hombro e lhe diziam n'um +sorriso discreto: +<br /> + +<br /> + +―Ah! maganão, você é que a sabe +toda!... +<em>Aquella pessoa</em> está de +cada vez mais bonita... Sim, +senhor! mulher de gosto! Se algum dia se quizer desfazer, +endosse-me a letra... +<br /> + +<br /> + +Depois, o commendador, á força de habito, foi +affeiçoando-se. Em cada dia descobria novos attractivos +n'aquella creatura singular que sabia prendel-o +com os encantos de uma linguagem por vezes apaixonada +<span class="pagenum">[319]</span> +e que mais refinava em caricias quanto mais +commodamente o atraiçoava com outro. +<br /> + +<br /> + +Julgando-se sinceramente amado e não ignorando +que o coração d'aquella mulher lhe era disputado +por +outros que offereciam inutilmente mais dinheiro, o +commendador passou insensivelmente da simples +affeição +ao amor profundo e d'este á paixão louca. A +loura era o seu idolo. Mais depressa renunciaria á +commenda do que á posse d'aquella bella e extraordinaria +mulher. +<br /> + +<br /> + +E era feliz, depositando uma confiança illimitada +na fidelidade e constancia de Leonor―que para elle +tinha sempre carinhos e meiguices que nenhuma outra +saberia fazer-lhe. +<br /> + +<br /> + +Desde, porém, que João Lazaro lhe apparecera +pondo-lhe em evidencia a negra traição de +Eugenio, +a loura, obrigada a dissimular com o perfido amante, +descarregava agora todas as suas iras sobre a cabeça +innocente do infeliz commendador. +<br /> + +<br /> + +E isto trazia-o afflicto, apprehensivo ácerca da +saude do <em>seu peccado</em>! +<br /> + +<br /> + +Temia desgotal-a ou exacerbar-lhe mais o +padecimento, +contrariando-a. Por isso pensava na melhor +maneira de a submetter ao tratamento do medico +que, no seu entender, devia pôl-a boa. +<br /> + +<br /> + +N'essa noite apresentara-se com bons modos, procurando +convencel-a suavemente a que se deixasse +observar por quem sabia, porque ella estava doente, e +ás vezes as doenças vão com qualquer +coisa. +<br /> + +<br /> + +A loura explodiu n'uma descompostura tremenda +e ameaçou de lhe fugir, deixando-lhe o +<em>ninho</em>, se elle +tornasse a ter o atrevimento de lhe fallar em medicos. +<br /> + +<br /> + +Teve o pobre homem um trabalhão para a serenar, +e retirou depois de lhe prometter que não mais +se pensaria em remedios de botica. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[320]</span> +Ausente o commendador, a loura passeou febrilmente +pela sala, abriu com impeto a janella e perscrutou +com ancia o prolongamento da rua deserta. +<br /> + +<br /> + +Depois sentou-se n'uma ottomana e batendo impaciente +o pésinho breve no tapete, pôz se a mordiscar +as unhas. +<br /> + +<br /> + +―O João Lazaro―murmurava ella―prometteu +de vir hoje fazer-me revelações importantes, e +ainda não veio... O que terá elle que me dizer? +<br /> + +<br /> + +Que provas terá elle para apresentar-me da falsidade +e perfidia de Eugenio? +<br /> + +<br /> + +N'isto, ouviram-se passos no corredor, o reposteiro +da sala abriu-se e appareceu a figura de João Lazaro. +<br /> + +<br /> + +Tirou logo o chapéo e lançou sobre uma cadeira o +capote á hespanhola em que vinha embuçado. +<br /> + +<br /> + +―Tardei, não é verdade?―disse elle. +<br /> + +<br /> + +―Esperava-o com anciedade―respondeu a loura +febrilmente, levantando-se para o receber―Diga-me: +que noticias traz de Eugenio? +<br /> + +<br /> + +―Eugenio, como sabe, desappareceu ha dias, accusado +de ser elle o auctor do rapto da filha do Custodio +de Jesus... +<br /> + +<br /> + +―Pois sim, bem sei―disse a loura impaciente―Mas +Eugenio jurou-me que era victima de uma odiosa +calumnia dos seus inimigos, que elle não tivera +a menor cumplicidade n'esse rapto. +<br /> + +<br /> + +João Lazaro sorriu.<br /> + +<br /> + +―No emtanto―disse elle―a policia procura-o, +porque sobre elle recahem todas as provas, as mais +completas. O procurador Belchior, a mulher e a cunhada +são unanimes em declarar que o reconheceram +na occasião em que arrebatava Beatriz para dentro +do carro. O proprio pae da victima é concorde com +estas declarações, affirmando que tambem o +reconheceu. +N'estas circumstancias, creio bem que Eugenio +<span class="pagenum">[321]</span> +de Mello viu que não poderia defender-se de tão +grave accusação e tomou o expediente de se +homisiar... +<br /> + +<br /> + +―Até que a luz se faça e os factos provem a sua +innocencia. Foi isso o que elle me disse no bilhete que +me escreveu no proprio dia em que partiu... +<br /> + +<br /> + +―Sem lhe dizer para onde...―tornou o Lazaro +com um sorriso de mófa. +<br /> + +<br /> + +―Não m'o podia dizer porque elle mesmo não sabia +ainda para onde ia... +<br /> + +<br /> + +―E se o sabia, não lhe convinha dizer-lh'o... +<br /> + +<br /> + +―O senhor é terrivel! faz gosto em me torturar!―exclamou +a loura irritada. +<br /> + +<br /> + +―Não, minha querida, faço apenas diligencia +para que veja as coisas como ellas são. Eugenio de +Mello disse-lhe que estava innocente no crime de rapto +de que o accusam e a senhora acreditou-o, não obstante +saber que elle diligenciava casar-se com Beatriz... +<br /> + +<br /> + +―A propria accusação destroe a suspeita de uma +tal intenção por parte de Eugenio... +<br /> + +<br /> + +―Porque? +<br /> + +<br /> + +―Porque se Eugenio quizesse realmente casar +com Beatriz, e a esse enlace não se oppunha senão +a noiva, é claro que o rapto só seria um pretexto +para a forçar a acceitar o noivo; e então +não teria +Eugenio a necessidade de negar e de fugir, nem o +pae da rapariga andaria tão açodado em +perseguição +do raptor da filha. +<br /> + +<br /> + +João Lazaro tornou a sorrir com um ar de cruel +zombaria. +<br /> + +<br /> + +―É bem deduzido―disse elle―Ahi ha logica. +É pena que o raciocinio esteja muito longe da verdade... +<br /> + +<br /> + +―Pois bem; se o senhor sabe a verdade, diga-a!―exclamou +Leonor com impeto―tire-me d'este supplicio +<span class="pagenum">[322]</span> +em que me debato ha dias sem saber o que +hei-de pensar! +<br /> + +<br /> + +―Prometti trazer-lhe revelações importantes, e +é +isso justamente o que venho fazer. +<br /> + +<br /> + +Avançou alguns passos na sala com ar sombrio, +deixou-se cahir com abandono em um sofá, indicou +uma cadeira a Leonor como se fôra elle o dono da +casa, puxou de um charuto, que mordeu distrahido, +e, emquanto o accendia, disse para Leonor, agora anciosa +e humilde com os olhos fitos n'elle: +<br /> + +<br /> + +―Sente-se e escute-me. Eu disse-lhe que Eugenio +de Mello tinha o casamento projectado com a filha do +capitalista Custodio de Jesus; e isto era verdade. A +senhora mesmo, pelas indagações a que procedeu, +veio +a conhecer que eu a informára da verdade. +<br /> + +<br /> + +―Mas soube tambem que Beatriz repudiara esse +casamento―objectou Leonor. +<br /> + +<br /> + +―Devagar! Peço-lhe que não me interrompa +para me recordar minucias, porque eu ainda não me +esqueci... +<br /> + +<br /> + +E atirando uma baforada do charuto, proseguiu: +<br /> + +<br /> + +―Beatriz recusava-se a acceitar a união com Eugenio +de Mello porque tinha o coração preso a um outro +amor. Custodio de Jesus, porém, influenciado pelo procurador +Belchior, seu intimo e collaborador de agiotagens +sordidas, empregava todos os esforços para convencer +a filha a realisar o enlace que se lhe propunha... +É isto ou não o que lhe disseram as suas +informações? +<br /> + +<br /> + +―É. +<br /> + +<br /> + +―Muito bem! prosigamos agora analysando os +factos: Como Beatriz se recusasse a annuir aos desejos +do pae, concertaram os tres entre si jogar um lance +decisivo que entregaria a pobre pequena sem resistencia +nos braços do apaixonado noivo, obrigando-a +por fim a acceitar o recusado enlace como a unica +<span class="pagenum">[323]</span> +solução redemptora da sua honra. Esse lance era o +rapto por Eugenio de Mello, n'um passeio combinado +ao campo, rapto que se effectuou como se havia projectado... +<br /> + +<br /> + +―Por Eugenio? +<br /> + +<br /> + +―Pois por quem? Por mim é que não foi nem +podia ser, pois que nada se combinou comigo. +<br /> + +<br /> + +―Mas é isso o que Eugenio nega... +<br /> + +<br /> + +―Deixe-o negar. A verdade é só uma e isso +está +averiguado de modo que não admitte duvidas. +<br /> + +<br /> + +―Mas então, se é assim, que interesse tem +Eugenio +em negar, quando o que mais lhe convinha era +apresentar-se como culpado, porque mais depressa +realisaria o casamento? +<br /> + +<br /> + +―É esse o ponto escuro da questão, que eu +já +consegui esclarecer... A rapariga tem apenas um +dote de vinte contos. Custodio de Jesus possue mais +de noventa. O dote da noiva, portanto, mal chegaria +para solver as dividas de Eugenio, a quem o procurador +Belchior tem já adiantado sommas enormes á +conta d'este casamento... +<br /> + +<br /> + +―Mas como póde ser isso, se eu mesma tenho +dado muito dinheiro a Eugenio?...<br /> + +<br /> + +―Vejo que não conhece o seu amante, minha +querida. Eugenio tem habitos de dissipação e de +luxo. +Passa ahi no Porto por ser um rico proprietario do +Alemtejo, quando elle não possue em parte alguma +do paiz um palmo de terra a que possa chamar seu. +Todo o dinheiro que a senhora tem dispendido com +elle não lhe chegaria sequer para o café e para +os +charutos... +<br /> + +<br /> + +―Que exaggero!―disse Leonor com desgosto. +<br /> + +<br /> + +―Minha querida amiga―tornou João Lazaro +com modo affavel―não é isto desmerecer a +importancia +das sommas que o seu louco capricho por Eugenio +lhe tem custado: é que esse rapaz tem gasto +<span class="pagenum">[324]</span> +em jogo, em ceias, em mil desperdicios de vaidosa +ostentação, mais talvez de dez contos de reis nos +ultimos +quatro mezes. A senhora certamente não lhe +tem abonado todo esse dinheiro... +<br /> + +<br /> + +―Tanto, não...<br /> + +<br /> + +―Pois ahi tem! Raptada a rapariga, Eugenio, +por sua parte, entendeu que devia fazer outro jogo... +Em vez de a conduzir para a casa que se havia combinado +entre os tres, levou-a para outra parte até +agora desconhecida e negou aos proprios cumplices +que tivesse sido elle o auctor do rapto... +<br /> + +<br /> + +―Mas para quê! meu Deus! para quê?―exclamou +a loura de cada vez mais aturdida. +<br /> + +<br /> + +―Para quê! Pois ainda não comprehendeu? +Para forçar o pae de Beatriz a augmentar o dote da +filha... +<br /> + +<br /> + +―Mas isso é uma infamia! +<br /> + +<br /> + +―Infamia é tudo o que Eugenio de Mello tem +praticado, mesmo com a senhora. O certo é que o +mariola evadiu-se e lá está com a sua gentil +raptada, +sabe Deus onde, até que o Custodio se resolva a +accrescentar o dote da pequena. O casamento, no emtanto, +far-se-ha. É questão de mais mez, menos mez, +até o Custodio chegar ao preço... +<br /> + +<br /> + +―Mas o senhor tem bem a certeza de que isso +é assim?―interrogou Leonor com os olhos chammejantes +de colera. +<br /> + +<br /> + +―Se tenho a certesa! Tudo isto que lhe estou +contando foi-me revelado em confidencia pelo proprio +Belchior. +<br /> + +<br /> + +―Mas o Belchior é então complice de Eugenio +n'essa projectada extorsão ao velho! Se elle conhece +o que Eugenio premedita, não deve ignorar onde elle +se encontra... +<br /> + +<br /> + +―Não! O Belchior não sabe nada do paradeiro +de Eugenio e de Beatriz, e está por isso furioso. O +<span class="pagenum">[325]</span> +que elle imagina é que Eugenio pretende ludibrial-o +a elle e conjunctamente ao velho, para se furtar ao +pagamento do dinheiro que lhe pediu emprestado com +promessa de o reembolsar logo depois do casamento. +<br /> + +<br /> + +―Que sucia de miseraveis!―bradou a loura +enojada. +<br /> + +<br /> + +―Verdade, verdade―observou João Lazaro, +rindo―a partida foi bem pregada. Vê-se que Eugenio +conta com os recursos da sua seductora figura e +com os artificios da sua linguagem para apaixonar a +ingenua raptada, emquanto esta questão se não +dirime +em casa do tabellião e vae ter o seu natural +desenlance na egreja da freguezia. +<br /> + +<br /> + +―Nunca! Nunca!―protestou Leonor levantando-se +enfurecida.―Antes d'isso, hei-de eu encontral-o +e tirar-lhe contas rigorosas da sua infame perfidia! +<br /> + +<br /> + +―O que quer fazer?―perguntou João Lazaro +fleugmaticamente. +<br /> + +<br /> + +―O que quero fazer? Procural-o até o encontrar. +<br /> + +<br /> + +―E depois? +<br /> + +<br /> + +―Depois dar-lhe a escolher: ou eu ou ella. +<br /> + +<br /> + +João Lazaro soltou uma gargalhada. +<br /> + +<br /> + +―A escolha está feita, minha amiga!―disse elle.―Pois +ainda tem duvidas? +<br /> + +<br /> + +Leonor franziu o sobr'olho e encarou fito João +Lazaro. +<br /> + +<br /> + +―Está feita! Como é que o senhor sabe que +está +feita?―perguntou. +<br /> + +<br /> + +―Foi á senhora que elle raptou? Era com a +senhora que elle pensava em casar? +<br /> + +<br /> + +―Ás vezes rapta-se uma mulher por capricho... +<br /> + +<br /> + +―E casa-se com ella por amor. +<br /> + +<br /> + +―Se elle a amasse, não prolongaria uma +situação +que lhe retarda o casamento... +<br /> + +<br /> + +―Mas que não lhe impede a posse do objecto +amado, visto que é elle hoje o unico senhor de Beatriz... +<span class="pagenum">[326]</span> +Além d'isso, a demora no cumprimento da +formalidade... social só representa para elle interesse +e não prejuizo, pois que o velho acabará por se +submetter a todas as condições que elle impuzer. +<br /> + +<br /> + +Leonor bateu o pé furiosa. +<br /> + +<br /> + +―O senhor tem um modo de vêr as coisas que +irrita os nervos á gente!―disse ella. +<br /> + +<br /> + +―Oh, minha querida amiga, a culpa não é minha +em as vêr assim: a culpa é das proprias coisas que +se apresentam com tal aspecto. Bem sabe, eu conheço +Eugenio, sei do que elle é capaz, e a paixão +não me +cega a ponto de não me deixar vêr o que +é mais claro +do que o sol. +<br /> + +<br /> + +Houve uns momentos de silencio. +<br /> + +<br /> + +―Não será possivel saber onde se occulta Eugenio +com... essa rapariga?―perguntou por fim. +<br /> + +<br /> + +―A policia procura-os, mas duvido que os encontre. +Eugenio é fertil em expedientes para se esquivar +á perseguição da policia... +<br /> + +<br /> + +―Mas o senhor... o senhor não será capaz de +lhe achar o rasto? +<br /> + +<br /> + +―Que juizo fórma de mim?―perguntou João +Lazaro encarando-a com desdem―Pois amando-a eu +como a amo, querendo-a para mim como a quero, +julga-me tão imbecil que vá buscar-lhe o amante +que +lhe fugiu? +<br /> + +<br /> + +―Mas não foi isso o que o senhor me prometteu!―bradou +Leonor indignada.―O senhor disse-me que +me informaria de tudo... +<br /> + +<br /> + +―E creio que assim tenho feito. Por quem sabe +a senhora o que se passa, senão por mim? Eu disse-lhe +que lhe apresentaria provas da infidelidade de Eugenio, +e creio que essas provas estão bem patentes... +<br /> + +<br /> + +―Mas disse-me tambem que elle não casaria sem +que eu fosse previamente prevenida... +<br /> + +<br /> + +―Elle ainda não casou... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[327]</span> ―Mas vive com ella, tem-n'a a seu lado, está a +esta hora fazendo-lhe mil protestos, mil juras de +amor! +<br /> + +<br /> + +―Tudo isso, porém, não é +casar―tornou João +Lazaro com placidez. +<br /> + +<br /> + +―Mas é amar outra, é esquecer-me, é +ultrajar-me!―gritou +Leonor n'um despedaçamento do coração. +<br /> + +<br /> + +―Bem! E o que quer a senhora? +<br /> + +<br /> + +Leonor encarou-o com os olhos scintillantes e os +labios tremulos de colera: +<br /> + +<br /> + +―Pois ainda não comprehendeu?―rouquejou ella―Quero +vingar-me! +<br /> + +<br /> + +―Para isso não precisa procural-o nem saber +onde elle está... Pena de Tallião, minha amiga... +Tem-me aqui, doido de amor, a implorar-lhe um +momento de compaixão, e a sua generosidade para +com elle é tanta que ainda não pensou em que eu +podia ser-lhe um optimo instrumento de vingança... +Creio bem que Eugenio, sabendo-o, morder-se-hia de +desespero, por ver que a formosa Leonor não tinha +perdido na troca... +<br /> + +<br /> + +―Cale-se!―intimou ella, repellindo com desespero +e asco o João Lazaro, que tentava tomar-lhe as +mãos para lh'as beijar―Essa não é a +vingança que +me satisfaz, a vingança que eu sonho! +<br /> + +<br /> + +João Lazaro encarou-a com um ar de desdenhosa +superioridade e disse: +<br /> + +<br /> + +―Pois que outra vingança póde tirar uma mulher +nas suas circumstancias? +<br /> + +<br /> + +A loura empallideceu e depois fez-se rubra como +se tivesse levado em cheio uma bofetada na face. +<br /> + +<br /> + +―Quem lhe deu ao senhor o direito de me insultar?―disse +ella tremula de colera. +<br /> + +<br /> + +―Perdão, minha querida Leonor, mas não supponho +ter-lhe feito um insulto lembrando-lhe que, nas +<span class="pagenum">[328]</span> +circumstancias melindrosas em que se encontra, não +lhe conviria sacrificar as relações do +commendador +Garcia á vingança ruidosa contra Eugenio... +<br /> + +<br /> + +―Cuidei que não se referia sómente á +situação, +mas tambem á <em>qualidade</em> da +mulher... Julguei que +não me suppunha moralmente em +condições de tirar +uma desforra digna do miseravel que me atraiçoou! +<br /> + +<br /> + +―Oh! por Deus, Leonor! Toda a mulher tem +direito a ser respeitada nos seus affectos, e a senhora +mais que nenhuma outra, porque tem sido de uma +grande e excepcional dedicação para Eugenio. O +sentido +das minhas palavras era muito outro. A senhora +não é a amante declarada de Eugenio de Mello. A +sua ligação com elle tem um caracter +clandestino... +Como poderia a senhora tirar rasoavelmente um desforço +publico, impedir o casamento d'esse homem, se +toda a gente a considera a amante do commendador +Garcia? +<br /> + +<br /> + +―E que me importa a mim o commendador Garcia, +quando se trata de punir quem ousou ludibriar-me +e esmagar o meu coração? +<br /> + +<br /> + +―Punir, disse? +<br /> + +<br /> + +―Punir, sim! Pois o que julga o senhor? Cuida +talvez que eu seria mulher para deixar nos braços de +outra o homem que amei e que me pagou com a perfidia +mais infame, com o despreso mais cruel? Teria +que vêr se Eugenio havia de ficar contente +e feliz, gozando o amor e o dote de outra mulher a +quem chamaria sua esposa, a quem apresentaria no +mundo cercada dos respeitos e das considerações +de +todos, emquanto que eu, ultrajada e esquecida, ficasse +tragando em silencio todas as amarguras da minha +humilhação, todos os desesperos do meu amor +escarnecido! +Não! Eugenio de Mello não casará, +juro-lh'o +eu, porque eu saberei procural-o por toda a parte e +encontral-o onde elle estiver. E se fôr tão habil +que +<span class="pagenum">[329]</span> +se case antes de eu dar com elle, a mulher, se o +amar, terá o desgosto de ficar viuva... +<br /> + +<br /> + +João Lazaro ouvia attentamente as palavras de +Leonor, pesando-as e calculando até que ponto ellas +podiam ser tomadas como a expressão de uma ameaça +realisavel. +<br /> + +<br /> + +―Minha querida―disse elle―socegue e veja +bem que n'esse estado de excitação nada podemos +fazer... +<br /> + +<br /> + +―Mas se eu já não quero fazer nada!―bradou +Leonor.―O que eu quero unicamente é saber onde +posso encontrar Eugenio... +<br /> + +<br /> + +―Venha cá, Leonor!―exclamou João Lazaro +pegando-lhe na mão e obrigando-a a sentar-se ao seu +lado. Sejamos, antes de tudo, rasoaveis e conversemos +como bons amigos... Sabe que a amo desde muito +e que por coisa alguma eu consentiria n'um desvario +que pudesse trazer-lhe desgraça irremediavel. Quer +vingar-se de Eugenio, não é assim? +<br /> + +<br /> + +―Oh! sim! sim! quero!―respondeu anciosamente +Leonor, n'um estremecimento nervoso. +<br /> + +<br /> + +―Diga-me: que genero de vingança desejaria +tirar? +<br /> + +<br /> + +―A unica que elle merece e a unica que me póde +satisfazer: matal-o! +<br /> + +<br /> + +―Bem sabe que não se mata um homem sem se +assumirem graves responsabilidades perante a +justiça―ponderou +João Lazaro. +<br /> + +<br /> + +―E que me importa a mim a justiça? Á +justiça +direi: «Matei-o porque me ludibriou, porque me +trahiu!» +<br /> + +<br /> + +―A justiça não se contentará com essa +explicação +e punil-a-ha com todo o rigor da lei... +<br /> + +<br /> + +―Embora! Mas eu ficarei vingada. +<br /> + +<br /> + +―Não! Ficará perdida. Calcula, minha boa amiga, +qual vae ser a sua sorte, atirada para o fundo de +<span class="pagenum">[330]</span> +uma prisão, de parceria com outras criminosas, exposta +aos desprezos e aos sarcasmos de toda uma multidão +avida de escandalos e de crueldades que assistirá +ao seu julgamento e aplaudirá com uivos de alegria +a sua condemnação? Calcula o atroz supplicio que +a +espera desde a hora do seu crime até á hora da +sua +partida para o degredo, no porão de um navio, empilhada +com outros condemnados, tratada como um animal +feroz, como um ser abjecto e ascoroso que a sociedade +repelle de si com nojo? E diga-me: vale tanto +o miseravel que a trahiu e tão infamemente a explorou +no seu dinheiro e nos affectos do seu coração? +<br /> + +<br /> + +―Mas eu hei-de deixal-o viver feliz e ditoso nos +braços de outra, a rir-se de mim com desprezo, hei-de +encontral-o na rua dando o braço á mulher por +quem +me trocou e hei-de fugir envergonhada, hei-de desviar-me +humildemente do seu caminho para o deixar +passar? Oh! não! não! Antes a prisão, +antes o degredo, +antes uma eternidade de supplicios n'este mundo +e no outro, do que deixal-o escarnecer impunemente +de mim! +<br /> + +<br /> + +―Mas, minha amiga―tornou João Lazaro com +a voz mais doce e persuasiva―não é isso tambem o +que lhe estou dizendo... +<br /> + +<br /> + +―O que é que me diz então? Explique-se, por +Deus! que não tenho cabeça em estado de perceber +coisas que não sejam ditas bem claramente! +<br /> + +<br /> + +―Ouça, Leonor; toda a vingança se +póde tirar +de duas formas: uma publica, ruidosa, impulsionada +cegamente pela ira. Essa, quando ella tem por consequencia +a morte de um homem, chama-se <em>crime</em> +e é +punida rigorosamente pela lei. A outra é premeditada, +occulta, sem ruido e sem provas; e quando tem como +consequencia igualmente a morte de um homem, chama-se +<em>desastre</em>, +<em>doença</em>, +<em>fatalidade</em>, e a justiça +não tem +alçada para a punir. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[331]</span> ―Não entendo!―disse Leonor. +<br /> + +<br /> + +―Vae entender. Se lhe fosse possivel vingar-se +de Eugenio, matando-o de modo que só elle soubesse +quem o matou, a senhora preferiria assassinal-o publicamente, +diante de todos, e ir depois prestar contas +á justiça? +<br /> + +<br /> + +―De certo não. O que eu queria era vingar-me +e que elle soubesse que no peito de uma mulher como +eu, se existe <em>o amor que salva</em>, +tambem ha o <em>amor +que mata</em>. +<br /> + +<br /> + +―Pois bem; que recompensa me daria se eu lhe +proporcionasse a vingança que deseja? +<br /> + +<br /> + +―Como poderia eu recompensal-o? +<br /> + +<br /> + +―Amar-me-hia? +<br /> + +<br /> + +―O amôr é um sentimento que nasce do +coração, +não é um objecto material cuja posse se transfira +de +um para outro individuo. O senhor que diz amar-me +comprehende assim o amôr? +<br /> + +<br /> + +―Pois bem; não tomemos a palavra na rigorosa +significação que lhe está dando... +Mas, diga-me: +depois da sua vingança realisada, pertencer-me-hia? +<br /> + +<br /> + +―Em espirito, não. Materialmente, sim. +<br /> + +<br /> + +―É quanto me basta. Materia e espirito andam +pelo commum tão ligados que é difficil, ao cabo +de +um certo tempo, que a alma não acompanhe o corpo... +<br /> + +<br /> + +―Imponho uma condição, +porém―objectou Leonor. +<br /> + +<br /> + +―Diga. +<br /> + +<br /> + +―Seja que o espirito acompanhe a materia, seja +que um e outro permaneçam desligados n'este contrato, +o senhor não tolherá nunca a minha liberdade. +Recebel-o-hei quando me parecer, á hora que eu bem +quizer, sem que o senhor tenha mais direito do que o +commendador Garcia ás minhas complacentes +attenções... +<br /> + +<br /> + +―Tambem não exijo mais, tal é a certeza que +<span class="pagenum">[332]</span> +eu tenho de que ha-de chegar a comprehender-me e +a estimar-me, Leonor. +<br /> + +<br /> + +―É possivel. No emtanto não me julgo obrigada +a isso... Vejamos: sabe o senhor onde está Eugenio? +<br /> + +<br /> + +―Talvez... +<br /> + +<br /> + +―Talvez não é certo, e eu não gosto +de incertezas +quando se trata de um assumpto que tanto me +interessa e de que depende o meu socego, a minha +tranquillidade... +<br /> + +<br /> + +―Diga antes―de que depende a satisfação do +seu orgulho ferido... +<br /> + +<br /> + +―Seja! Onde está Eugenio? +<br /> + +<br /> + +―N'este momento não poderia dizer-lh'o, ainda +que quizesse. Mas espero bem que amanhã poderei +dar-lhe indicações seguras... +<br /> + +<br /> + +―Amanhã! E quem lhe assevera ao senhor que +amanhã não será já tarde? +<br /> + +<br /> + +―Nunca é tarde para a vingança. +<br /> + +<br /> + +―Mas eu não desejo vingar-me do marido de +Beatriz: desejo tirar vingança do amante de Leonor +trahida e ludibriada! +<br /> + +<br /> + +―Tiral-a-ha amanhã, porque amanhã Eugenio de +Mello estará aqui a pedir-lhe dinheiro para se passar +com Beatriz para Hespanha. +<br /> + +<br /> + +―Como o sabe? +<br /> + +<br /> + +―Disse-m'o elle. +<br /> + +<br /> + +―Ah! o miseravel! Pois se vier não sahirá vivo +d'esta casa... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p333">[333]</a></span> +<h3><a name="c21"></a>XXI<br /> + +<br /> + +Tal vida, tal fim +</h3> + +<br /> + +<br /> + +Leonor, prevenida na vespera por João Lazaro, ficou +sabendo que Eugenio iria procural-a n'essa noite, +e d'accordo com aquelle, mandára mudar a fechadura +da porta para impedir que elle entrasse sem bater. +<br /> + +<br /> + +No emtanto, não se deitára. Espreitando pela +janella, +vira-o aproximar-se, vira o espanto que lhe causára +a mudança da chave, traduzido na attitude hesitante +do bohemio, indo ao meio da rua a espiar as +janellas como que a certificar-se de que era aquella +a mesma casa e de que tudo lá dentro estava em silencio. +<br /> + +<br /> + +Viu-o depois dar alguns passos na rua, como que +a tomar uma resolução, encostar-se á +parede fronteira +com os olhos cravados nas janellas, voltar á porta +tentando vêr se a chave seria a mesma, e por ultimo +afastar-se a passo vagaroso como homem que não +sabe bem o que pensar d'uma contrariedade que lhe +succede. Viu tudo, e por dentro dos vidros, na escuridão +da sala, com os dentes cerrados <a href="#e39">pela colera</a>, +ia +murmurando com rancôr profundo: +<br /> + +<br /> + +―Miseravel! vinhas ainda, pela calada da noite, +<span class="pagenum">[334]</span> +saltear a tua victima, roubar-lhe o dinheiro que precisas +para sustentar a mulher por quem a trocaste! +Vae! vae e não voltes... Porque se voltas, +saberás +então quanto custa ludibriar uma mulher como eu! +<br /> + +<br /> + +E nervosa, tremula, a face horrivelmente pallida, +os louros cabellos em desalinho, cahiu sobre um sofá +e desatou n'um choro convulso e abafado. +<br /> + +<br /> + +Esteve assim por muito tempo, sem dormir, sem +pensar. A febre escaldava-lhe a fronte, e as lagrimas, +em vez de lhe acalmarem a enorme excitação, mais +lh'a exacerbavam. De manhã, aos primeiros fulgores +da aurora, viu-se a um espelho e achou-se horrivel, +com as feições transtornadas pela vigilia. Teve +então +um accesso de furor invencivel. Era elle, o perfido, +o miseravel, que depois de lhe ter extorquido os affetos +e o dinheiro, depois de lhe haver roubado o socego +e a tranquillidade, ainda por cima lhe roubava a belleza! +Oh! a vingança seria terrivel! +<br /> + +<br /> + +Desde essa hora, Eugenio de Mello estava condemnado. +<br /> + +<br /> + +Logo que a velha criada abriu a porta da rua á +hora habitual para fazer as primeiras compras do +dia, Eugenio de Mello, que já espiava os arredores +da casa, entrou no portal e subiu ao andar superior. +<br /> + +<br /> + +Como pessoa familiarisada com os costumes da +casa, dirigiu-se ao quarto de Leonor e encontrou a +porta fechada por dentro. +<br /> + +<br /> + +Ia bater, quando a criada, apparecendo, preveniu: +<br /> + +<br /> + +―Faça o favor de não bater, que a senhora +passou mal a noite e recommendou que a não acordassem. +<br /> + +<br /> + +―Essa ordem não pode entender-se comigo―volveu +Eugenio, admirado do modo como lhe coarctavam +a liberdade que até alli usara. +<br /> + +<br /> + +―Não se entende com o senhor, porque ella não +<span class="pagenum">[335]</span> +o esperava. Mas deu-me esta ordem e a minha +obrigação +é cumpril-a. +<br /> + +<br /> + +Eugenio encarou a criada por alguns momentos +espantado de tamanho atrevimento, a que não estava +habituado. +<br /> + +<br /> + +―Marianna―disse elle, contendo-se e tomando +um tom affavel―o que se tem passado n'esta casa, +que encontro tudo tão mudado? +<br /> + +<br /> + +―O que se tem passado, diz o senhor? Não se +tem passado nada. Está tudo na mesma. +<br /> + +<br /> + +―Tudo na mesma, não. A chave da porta da rua +foi mudada. Agora é outra. Leonor, que d'antes dormia +com a porta do quarto aberta, agora tem a +precaução +de se fechar por dentro. Porque é isto? +<br /> + +<br /> + +―Porque ha de ser?―respondeu a criada fazendo +uma careta inexpressiva.―O senhor bem sabe +que, em casa onde não ha homem, não +póde uma senhora +estar a dormir com a porta aberta. O sr. Eugenio +foi-se embora, a menina não o esperava... Eu ando +cá na minha vida, e assim como o sr. Eugenio entrou, +podia entrar outra qualquer pessoa por ahi dentro e +ir dar com a senhora na cama. Por isso ella fecha-se, +e faz muito bem... E então agora que andam por +ahi tantos ladrões! +<br /> + +<br /> + +―Foi então por causa dos ladrões que a sua ama +mudou a chave da porta da rua e se fechou no quarto, +por dentro? +<br /> + +<br /> + +―Olhe, senhor, eu não sei!―rematou a velha.―Ella +não me dá contas nem +<em>estifações</em> do +que manda +fazer... Ella é que dá as +<em>ordes</em>, é a senhora, e eu +cá d'essas coisas não sei. +<br /> + +<br /> + +O bohemio tirou o chapéo e a capa, arrumou tudo +sobre uma cadeira e aproximando-se da criada, disse-lhe +a meia voz: +<br /> + +<br /> + +―Marianna, quem está alli n'aquelle quarto? +<br /> + +<br /> + +―Quem ha de estar? Está a senhora... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[336]</span> ―Só? +<br /> + +<br /> + +―Quem queria o senhor que estivesse lá com +ella? O sr. <em>encommendador</em>, +não fica cá, o sr. Eugenio +está ahi... Parece-me que aqui não vem mais +ninguem.... +<br /> + +<br /> + +―Parece-lhe? Não tem a certeza... +<br /> + +<br /> + +―Assim Deus Nosso Senhor me ajude e os anjos +acompanhem a minha alma á hora da morte se já +cá +veio mais alguem depois que o senhor se foi embora, +tirante de ser o sr. +<em>encommendador</em>... Então +ella, +coitadinha, que não se tem fartado de chorar de noite +e de dia, depois que andam aqui estas rodilhices... +<br /> + +<br /> + +―Rodilhices de quem? +<br /> + +<br /> + +―Eu sei lá de quem! O sr. Eugenio bem sabe o +que anda nas gazetas a seu respeito. A senhora lê a +folha todos os dias e afflige-se... Pudera! Outra +qualquer faria o mesmo. +<br /> + +<br /> + +Effectivamente o escandalo do rapto attribuido a +Eugenio de Mello fôra noticiado com grande pompa +de phrase e de minudencias nos jornaes diarios. Eugenio +sabia-o e não estranhou por isso que a leitura +do caso tivesse impressionado a amante, como a criada +affirmava. +<br /> + +<br /> + +―Leonor tem-se então affligido muito?―perguntou +elle. +<br /> + +<br /> + +―Oh, Senhor! Não faz outra vida senão chorar +e affligir-se... E anda ruim que não ha quem a ature... +O pobre do <em>encommendador</em> anda +parvinho de +todo, que ella dá-lhe cada sarabanda por dá +cá aquella +palha, que é uma coisa por demais! +<br /> + +<br /> + +O bohemio teve um sorriso de vaidade satisfeita. +O seu amor proprio comprazia-se na ideia de que +Leonor o amava a ponto de tratar mal toda a gente, +até o homem que a protegia, tudo por sua causa. +<br /> + +<br /> + +―É doida a Leonor em dar importancia ―É doida a +Leonor em dar importancia ao que +dizem os jornaes―disse elle―principalmente quando +<span class="pagenum">[337]</span> +sabe que tudo isso não passa de uma sucia de +pêtas. +<br /> + +<br /> + +―São pêtas, são +pêtas―retorquiu a velha com +um sorriso de incredulidade―mas o sr. Eugenio +anda a fugir da policia que lhe não vá ella +deitar a +mão... +<br /> + +<br /> + +E depois n'um tom de reprehensão amigavel: +<br /> + +<br /> + +―O senhor tambem me sahiu levadinho da breca! +Pois tendo aqui a senhora, que tem uma cara +como um sol, precisava de se importar co'as outras +lambisgoias para nada? Credo! Os homens são +a coisa peor que ha! Quem se fia n'elles está perdida. +<br /> + +<br /> + +―Pois você tambem acredita, Marianna? +<br /> + +<br /> + +―Cale-se, cale-se! Eu não digo nada... mas +estes olhos teem visto muito e estes ouvidos teem +<em>ouvisto</em> +inda mais―disse ella, levando alternativamente +os dedos aos olhos e aos ouvidos. +<br /> + +<br /> + +―O que é que você tem visto e ouvido, Marianna? +<br /> + +<br /> + +―Muita coisa! Deus me livre que a senhora soubesse +da missa ametade... O sr. Eugenio cuida que se +não sabem as coisas... mas eu já ha muito que +ouvia +fallar que o senhor que se queria casar co' essa tal +menina p'ra amor de quem agora andam estas +<em>questães</em>... +<br /> + +<br /> + +E muito persuasiva, como quem dá conselhos bons +de sensatez e de prudencia: +<br /> + +<br /> + +―P'ra que diacho a quer? Ella poderá ter mais +dinheiro, mas nunca é capaz de lhe ter a amizade que +esta lhe tem... O dinheiro, quem tiver mais que se +enforque co'elle!... Demais, casar por casar, então antes +co' esta, que se quer ao menos já sabe quem tem... +É só dezermos não é uma +menina capaz, mas em bom +panno cáem as nodoas... E olhe que ella não lhe +dizia +que não... que o que ella lhe quer de bem só eu +é que o sei... E dinheiro +<em>támem</em> não lhe +havia de faltar, +<span class="pagenum">[338]</span> +que se não fosse o +<em>encommendadôr</em>, +não faltaria +quem lh'o desse... O ponto era ella querer. +<br /> + +<br /> + +―Está bem, Marianna, acabe com o +sermão!―ordenou +o bohemio, de mau humor.―Visto que Leonor +está dormindo, esperarei que ella acorde. +<br /> + +<br /> + +E estirou-se ao comprido sobre um canapé, resolvido +a esperar. +<br /> + +<br /> + +Á hora habitual, a porta da alcova de Leonor +abriu-se e a loura appareceu na sala, fingindo-se surprehendida +de encontrar alli o amante. +<br /> + +<br /> + +Eugenio, ao vêl-a, correu para ella com os braços +estendidos, n'um amplexo carinhoso. +<br /> + +<br /> + +A loura contrafez no rosto pallido um sorriso e +perguntou: +<br /> + +<br /> + +―Tu por cá! Que novidade é essa? +<br /> + +<br /> + +―Venho pedir-te que me salves mais uma vez, +Leonor!―exclamou o bohemio com artificial +commoção. +<br /> + +<br /> + +Leonor não respondeu. Encaminhou-se para um +sofá e sentou-se, indicando a Eugenio que a imitasse. +<br /> + +<br /> + +―O que é então que desejas?―perguntou. +<br /> + +<br /> + +―A policia persegue-me de cada vez mais +encarniçadamente―principiou +dizendo o bohemio―de modo +que não só me é impossivel continuar a +viver no Porto +como permanecer por mais tempo em Portugal... +<br /> + +<br /> + +―E d'ahi? +<br /> + +<br /> + +―D'ahi, comprehendes quanto deve ser doloroso +para o meu coração o pensamento de te deixar... +<br /> + +<br /> + +A loura esboçou nos labios um sorriso de cruel +desdem. +<br /> + +<br /> + +―Faço ideia!―disse ella friamente. +<br /> + +<br /> + +O bohemio, um tanto desconcertado com a attitude +glacial da amante, proseguiu: +<br /> + +<br /> + +―Sou victima da fatalidade, mais ainda do que +dos meus inimigos! Estes não perdem occasião de +me +<span class="pagenum">[339]</span> +perseguir e de instar com a auctoridade para que +me prenda, afim de me fazerem condemnar por culpas +que não commetti! Mas o que mais me afflige +e perturba é o ver accumularem-se contra mim provas +de culpabilidade, quando eu juro que estou innocente! +Dir-se-hia que um genio infernal tomou a peito +a minha desgraça e quer a todo o custo perder-me +sem me deixar possibilidade de salvação! +<br /> + +<br /> + +―Foi talvez feitiçaria que te fizeram!―disse a +amante com um aggressivo sorriso de sarcasmo. +<br /> + +<br /> + +O bohemio encarou-a espantado. +<br /> + +<br /> + +―Tambem tu, Leonor, tambem tu escarneces da +minha desgraça?―lamuriou elle, buscando enternecel-a +com os seus queixumes. +<br /> + +<br /> + +―Eu? Que lembrança!―casquinou nervosamente +a loura.―Eu posso lá escarnecer de um amante feliz, +de um seductor audacioso e arrojado, que affronta +impavido os perigos e os rigores da justiça para +possuir por força a mulher que por bem não quiz +amal-o?! +<br /> + +<br /> + +Laura fallava nervosamente, com os olhos scintillantes +de indignação e de odio mal reprimido. +<br /> + +<br /> + +Eugenio imaginou-a dominada por um dos seus +accessos de indomavel ciume, e respondeu, sorrindo +com a fatuidade do amante que ainda se reconhece +querido: +<br /> + +<br /> + +―Mau! ahi estás tu com as tuas loucuras do +costume! Sabes que tens sido sempre injusta para +comigo, sendo a primeira a accusar-me de faltas +que não commetti. Mas agora peço-te, Leonor, que +te +moderes e repares bem na injustiça que me fazes... +<br /> + +<br /> + +―Injustiça?! +<br /> + +<br /> + +―Sim! É uma injustiça que te não +mereço o +suppôres-me, como toda a gente, auctor do rapto d'essa +rapariga, que mal conheço, que não amo, que nunca +amei e que a esta hora se está rindo nos braços +de +<span class="pagenum">[340]</span> +outro da partida que o seu raptor me pregou, envolvendo-me +na aventura escandalosa dos seus amores, a +que sou―juro-o!―completamente estranho! +<br /> + +<br /> + +Leonor abanou a cabeça em silencio, sem responder. +Eugenio, de cada vez mais possuido do vivo +desejo de mover a loura a emprestar-lhe dinheiro, +continuou: +<br /> + +<br /> + +―Juro-te, Leonor, que estou innocente! Este rapto +não foi obra minha. Eu podia pensar em tudo, +menos em raptar essa rapariga, que é filha de um +homem rico e incapaz de transigir com tal violencia +offensiva da sua honra e do seu bom nome... +<br /> + +<br /> + +―Como é então que o acusam ao senhor?―disse +Leonor, cravando n'elle um olhar que o gelou. +<br /> + +<br /> + +―Tudo obra dos meus inimigos!―balbuciou o +bohemio, desconcertado―Sabes que tenho concitado +contra mim os odios e as invejas d'essa canalha endinheirada +que não póde perdoar-me a maneira como a +affronto com a minha distincção e a minha maneira +de viver... E eu sei lá se n'esta +perseguição surda +que agora se me move entra tambem o ciume d'aquelles +que tu rejeitaste e talvez o do commendador +Garcia, a esta hora sabedor das nossas relações? +<br /> + +<br /> + +―Basta!―bramiu Leonor, livida de colera, levantando-se +de salto―basta! Que o senhor abusasse +da fraqueza do meu coração para me illudir, ainda +lh'o poderia tolerar; mas que leve a infamia ao ponto +de calumniar o homem que confia em mim e a quem +tenho feito soffrer por sua causa, não lh'o consinto! +<br /> + +<br /> + +―Bravo!―tornou o bohemio sarcasticamente―Vejo +que o commendador tem feito progressos no teu +coração durante a minha ausencia! +<br /> + +<br /> + +E encolhendo os hombros com desprezo. +<br /> + +<br /> + +―Afinal, é de justiça... Ha tanto tempo +desapossado +do thesouro que de direito lhe pertencia, é +obra de caridade restituir-lhe o que se lhe tirou. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[341]</span> +Levantou-se e encaminhou-se para a cadeira onde +tinha posto o chapéo e o capote. +<br /> + +<br /> + +Com esta retirada falsa, expediente que tantas +vezes lhe havia sortido o effeito desejado, esperava +elle abrandar a irritação da amante. +<br /> + +<br /> + +―Adeus!―disse, já da porta da sala, como quem +se preparava para sahir. +<br /> + +<br /> + +Leonor avançou para elle: +<br /> + +<br /> + +―Foi para isso que o senhor cá veio?―rugiu indignada―Foi +unicamente para fazer uma accusação +tão insensata como absurda a um homem que nem sabe +que o senhor existe? Visto isso, ainda a +perseguição +que a justiça lhe move não é tamanha +como diz, pois +que lhe deixa ociosidade e tempo para essas +distracções... +<br /> + +<br /> + +O bohemio retrocedeu. +<br /> + +<br /> + +―Não foi para isso precisamente que eu cá vim. +Mas ainda quando não viesse senão para isto, +não +dava por mal empregado o meu tempo, que é sempre +curioso e interessante vêr como as mulheres amam os +que atraiçôam e atraiçôam os +que dizem que amam... +<br /> + +<br /> + +―O que! O que é que o senhor diz? Explique-se +sem trocadilhos, faça favor! +<br /> + +<br /> + +―Digo―volveu o bohemio―que eu devia esperar +isto mesmo... Seria caso unico na historia da +humanidade que a desgraça me perseguisse e o +coração +da amante me restasse firme... Peço-lhe perdão +se vim importunal-a. Eu devia desde logo pensar que +as mulheres só amam o prazer, as alegrias da vida +facil e que não podemos contar com ellas para as horas +negras da desgraça. +<br /> + +<br /> + +Leonor, tremula e excitadissima, lançou-lhe a mão +ao braço e arrastou-o para junto do sofá. O +bohemio +deixou-se conduzir. +<br /> + +<br /> + +―Venha cá!―disse ella.―A accusação +que o +<span class="pagenum">[342]</span> +senhor acaba de fazer é mais uma infamia sobre tantas! +A que é que o senhor veio aqui? +<br /> + +<br /> + +―Vinha despedir-me da mulher que amava e... +<br /> + +<br /> + +―E...? +<br /> + +<br /> + +―E pedir-lhe que me salvasse da vergonha e da +miseria da prisão. Mas isso terminou. Sei que nada +posso esperar. Seguirei o meu destino... +<br /> + +<br /> + +―Se a sua consciencia lhe dizia que nada podia +esperar, para que veio cá? Vamos! explique-se! O +que desejava? +<br /> + +<br /> + +O bohemio conhecia a loura. Sabia por experiencia +que todos os conflictos por ciumes acabavam por +ternissimas demonstrações de affecto, sempre que +elle +proferia palavras de resentimento, desilludido. +<br /> + +<br /> + +―Para que hei-de dizer-lhe nada, se tudo entre +nós acabou? +<br /> + +<br /> + +―Talvez se engane... talvez ainda não acabasse +<em>tudo</em> como o senhor +suppõe... +<br /> + +<br /> + +Illudido por estas palavras, o bohemio ajoelhou +aos pés de Leonor, tomou-lhe as mãos e +cobriu-lh'as +de ardentes beijos. +<br /> + +<br /> + +―Se é certo que conservas ainda no teu +coração +um terno sentimento de affecto por mim, para que +me torturas na minha desgraça, para que me lanças +no desespero quando venho pedir-te consolação e +amparo?―bradou +elle. +<br /> + +<br /> + +―O que desejas de mim? Dize! +<br /> + +<br /> + +―Desejo que me salves! A minha vida, a minha +liberdade, o meu futuro, está tudo na tua mão! +<br /> + +<br /> + +―Como? O que posso eu fazer? +<br /> + +<br /> + +―Vaes ouvir. Não posso continuar a viver em +Portugal sem entrar na cadeia. É, pois, indispensavel +que eu fuja quanto antes para a Hespanha e por lá +me demore até se apurar a minha innocencia. Presentemente +não posso contar com o auxilio de parentes +nem amigos. Só tu me pódes valer, emprestando-me +<span class="pagenum">[343]</span> +a quantia necessaria para eu por lá não +morrer +de fome... Vinha, pois, pedir ao teu amor a +salvação +que todos os outros me recusam... +<br /> + +<br /> + +Era isto justamente o que Leonor esperava para +acabar de se convencer da perfidia do amante. +<br /> + +<br /> + +João Lazaro havia-lhe dito que Eugenio viria, n'uma +ultima exploração, arrancar á sua +boa-fé o dinheiro +para fugir com Beatriz para a Hespanha. +<br /> + +<br /> + +Confirmada a denuncia de João Lazaro pelas palavras +do bohemio, a loura sentiu dentro em si o demonio +do ciume a espicaçar-lhe o desejo da vingança. +<br /> + +<br /> + +―Quinhentos mil reis...―disse com voz tremula.―Não +é isso o que precisas? +<br /> + +<br /> + +―Sim, é isso mesmo!―exclamou o bohemio sem +reparar no tom de pungente sarcasmo em que a pergunta +lhe fôra feita―Quinhentos mil reis é quanto eu +tenho calculado que me serão precisos para os primeiros +tempos... +<br /> + +<br /> + +Leonor sorriu e disse: +<br /> + +<br /> + +―E se eu fosse comtigo? +<br /> + +<br /> + +O bohemio fez um movimento de surpreza a estas +palavras. +<br /> + +<br /> + +―O que!―exclamou―querias ir comigo para +Madrid? +<br /> + +<br /> + +―E porque não?―tornou Leonor sem desfitar +os olhos do amante. +<br /> + +<br /> + +Eugenio ficou um momento calado. Pensava. A +companhia da loura ser-lhe-hia de alta conveniencia, +se ella tivesse dinheiro em abundancia para gastar +com elle. Mas o bohemio sabia que ella apenas poderia +dispôr das suas joias e pouco mais. +<br /> + +<br /> + +Para o acompanhar, seria inevitavel o rompimento +com o commendador Garcia, e, desapparecida esta +fonte de receita, que poderia ainda ser-lhe um auxilio +valioso mesmo distante, a loura ser-lhe-hia um encargo +pesado, senão odioso, em meio da sua desgraça. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p344">[344]</a></span> +Além d'isso, elle não podia contar com os +encantos +de Leonor n'um paiz onde as mulheres são as mais +graciosas e tentadoras do mundo e onde o genero +abunda em tal maneira, que d'elle faz annualmente +grande exportação para as principaes capitaes da +Europa +e até para o Brazil. +<br /> + +<br /> + +Assim, depois de rapidamente ter ponderado a +inconveniencia de um tal passo, respondeu: +<br /> + +<br /> + +―Comprehendes, minha querida, quanto me seria +agradavel a tua companhia n'uma terra estranha, +longe da patria... Mas eu devo antepôr ao meu +egoismo a tua felicidade... Para me acompanhares, +serias forçada a romper com o commendador, a perder +a sua protecção... E esgotados os primeiros +recursos, +o que havia de ser de nós, dois ou tres mezes +depois de havermos d'aqui partido? Não, eu não +posso consentir que faças por mim esse sacrificio, +porque é verdadeiramente o sacrificio do teu futuro e +do teu bem estar o que um tal passo importa! +<br /> + +<br /> + +O bohemio era, senão sincero, pelo menos sensato +e pratico. Mas <a href="#e40">Leonor</a> +é que +não traduziu assim o seu +pensamento e, attribuindo a recusa ao desejo que o +amante teria de partir com Beatriz, como João Lazaro +lhe fizera crêr, irrompeu n'uma explosão de ciume +e +de colera mal contida. +<br /> + +<br /> + +―Eu já esperava a resposta, miseravel!―bradou +ella enfurecida―Eu bem sabia que o teu maior +martyrio seria que eu te acompanhasse, porque, indo +comtigo, não poderias levar na tua companhia a mulher +por quem me trocaste, vil! +<br /> + +<br /> + +―Leonor! +<br /> + +<br /> + +―Não tentes negar! Sei tudo, canalha! +<br /> + +<br /> + +―Leonor! Juro-te... +<br /> + +<br /> + +―Não jures, biltre, que as tuas juras são +mentidas, +são a hedionda expressão do teu caracter baixo, +cobarde e infame, vil explorador de mulheres!... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[345]</span> +E, rapidamente, tirando do bolso o rewolver, sem +que Eugenio, ajoelhado a seus pés, tivesse notado este +movimento, apoiou-lhe o cano da arma á fronte +direita e disparou. +<br /> + +<br /> + +O desgraçado cahiu exanime no pavimento, sem +soltar um gemido. +<br /> + +<br /> + +Então Leonor, pondo-lhe o revolver ao lado, levantou-se +e, desgrenhada, a face livida pela commoção +do momento, levantou-se e começou clamando por +soccorro em brados afflictivos. +<br /> + +<br /> + +A primeira que acudiu foi a velha Marianna. +<br /> + +<br /> + +―Meu Deus! o que foi, senhora? +<br /> + +<br /> + +―Matou-se! Matou-se! Ai, quem acode! Vá +chamar um medico... ande, vá depressa! +<br /> + +<br /> + +E com as mãos enclavinhadas, estorcendo-se n'uma +dôr angustiosa, a loura debruçou-se sobre o +cadaver +do amante e rompeu n'um chôro lancinantissimo. +<br /> + +<br /> + +O estampido do tiro e os gritos de Marianna, que +alternavam com os da sua joven ama, attrahiram as +attenções da visinhança e das pessoas +que iam passando. +<br /> + +<br /> + +Em breve a casa encheu-se de gente, e, por entre +a turba, appareceu tambem o guarda civil de giro, +que recebeu as primeiras declarações, +participando o +caso para o commissariado. +Em breve a casa encheu-se de gente, e, por entre +a turba, appareceu tambem o guarda civil de giro, +que recebeu as primeiras declarações, +participando o +caso para o commissariado. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[346]</span> +<h3><a name="c22"></a>XXII<br /> + +<br /> + +Mysterio +</h3> + +<br /> + +<br /> + +Emquanto o sapateiro andava pelo Porto farejando +o rasto de madre Paula, passavam-se em S. Martinho +do Campo acontecimentos extraordinarios e verdadeiramente +inesperados, tanto para o leitor como para os +personagens d'esta singela narrativa. +<br /> + +<br /> + +Julio de Montarroyo e Aurelia de Magalhães, +propellidos ao natural desafogo de suas mágoas intimas, +encontravam-se a miudo, quer em curtos passeios, quer +em reciprocas visitas, que semanalmente se faziam, +sem ultrapassarem jamais os limites de uma estricta +e rigorosa observancia das leis do decoro e do respeito +devido á posição de cada um. +<br /> + +<br /> + +D. Aurelia, se alguma vez visitava o amigo de +seu irmão, quando um ligeiro incommodo o retinha +no leito, ia sempre acompanhada da sua criada de +quarto e era recebida na presença da velha governante +de Julio; e este, pela sua parte, quando visitava +a amiga de Helena, tinha sempre todo o cuidado +em escolher os dias em que D. Aurelia recebia +algumas pobres viuvas que caridosamente soccorria +com o excesso do rendimento de sua casa. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[347]</span> +Ainda assim, e apesar do cuidado e escrupulo que +ambos punham em não dar pasto á maledicencia da +aldeia, sem duvida mais acerada e mais venenosa do +que a das grandes cidades, não faltava quem esperasse, +como coisa mais ou menos natural e proxima, +a noticia de um enlace matrimonial contrahido entre +os dois. +<br /> + +<br /> + +Ora convem dizer-se que entre D. Aurelia de Magalhães +e Julio de Montarroyo se estabelecera esse mutuo +e invisivel laço de sympathia que une e impelle +irresistivelmente uns para os outros todos os grandes +desgraçados, fazendo-os compartilhar, n'um sentimento +de inquebrantavel fraternidade, as dôres intimas +que os dilaceram. +<br /> + +<br /> + +Assim, Julio de Montarroyo sentia grande lenitivo +á sua magoa quando podia referir á +irmã de Gustavo +toda a grande chaga incuravel que Helena de Noronha +lhe abrira no peito; e a amiga de Helena tambem +não se sentia menos feliz quando podia recordar, +na presença de quem bem a comprehendia, todo o +enorme thesouro de venturas que perdêra com o marido +e com o filho, prematuramente mortos. +<br /> + +<br /> + +Julio de Montarroyo não occultara de D. Aurelia o +encontro com o <em>Tomba</em> e a +missão de que o encarregara +na esperança de poder descobrir, com a existencia +de madre Paula, qualquer indicio do destino que +tomara a <em>irmã Dorotheia</em>. +<br /> + +<br /> + +―Uma coisa que extraordinariamente me preoccupa +e mortifica,―dizia elle―não é tanto a +ingratidão +de Helena como é este mysterio que pesa sobre +a sua existencia! Que ella sahiu de Portugal não +resta duvida, pois que nem minha prima Lucilia nem +nenhuma das educandas e noviças que com ella estiveram +no Sardão ouviram mais noticias suas. Mas, +sendo assim, como é que nem em Pariz nem em nenhuma +das casas religiosas do estrangeiro, que todas +<span class="pagenum">[348]</span> +percorri e visitei, eu pude descobrir indicios da sua +passagem? +<br /> + +<br /> + +―As congregações religiosas―observou +sensatamente +Aurelia de Magalhães―ao que me consta, +parece que teem o costume de mudar frequentemente +o nome das <em>irmãs</em>; de modo +que a que aqui se chama +irmã Dorotheia, alem chama-se irmã Ephigenia, +n'outra parte irmã Sophia, e assim por deante, tornando +por esta fórma impossivel estabelecer a identidade +de cada uma d'ellas. Quem nos diz a nós que, +com Helena, não terá succedido o mesmo? +<br /> + +<br /> + +―Sim; e creio bem que succederia. Porém, ainda +quando assim fosse, Helena não teria deixado de me +reconhecer, se se encontrasse em qualquer das casas +que percorri. Porque não me limitei a simples +informações. +Apparentando decidido amor pelas instituições +jesuiticas, consegui, á custa de donativos, captar +a confiança e a estima de todos os superiores e +superioras, sendo em toda a parte recebido como um +verdadeiro amigo e auxiliar valioso; isto é, como um +jesuita de casaca. +<br /> + +<br /> + +D. Aurelia sorriu tristemente. +<br /> + +<br /> + +―E quem lhe assevera que, sob essa apparencia +de estima e confiança, o senhor não era +rigorosamente +vigiado e a sua verdadeira individualidade absolutamente +conhecida? +<br /> + +<br /> + +―Impossivel! Quem poderia denunciar-me, se +ninguem estava na posse do meu segredo? +<br /> + +<br /> + +―Isto é apenas uma supposição que eu +faço―apressou-se +a dizer D. Aurelia.―Tenho ouvido attribuir +aos jesuitas tanta sagacidade e astucia na defesa +dos seus intimos interesses, que não seria para estranhar +que elles pudessem illudir e annullar todos os +esforços empregados pelo sr. Julio para encontrar Helena... +<br /> + +<br /> + +―Não, não! Helena morreu. Do contrario, eu +<span class="pagenum">[349]</span> +teria tido noticias d'ella... Se o +<em>Tomba</em> encontrar +madre Paula, ella confirmará, estou certo, esta minha +funesta previsão... +<br /> + +<br /> + +―E se, pelo contrario, Helena viver ainda? +<br /> + +<br /> + +Julio pareceu agitado por uma pilha galvanica. +<br /> + +<br /> + +―Oh! se fôr viva, tornarei a vel-a, ainda que +para isso tenha de sacrificar os ultimos dias da minha +vida! +<br /> + +<br /> + +Este dialogo passava-se em casa de D. Aurelia, +ao cahir da tarde. A irmã de Gustavo, no intuito de +proporcionar a Julio, seu vizinho e amigo de seu irmão, +uma distracção que lhe aligeirasse as horas +tristes +das pesadas e longas noites de inverno, costumava +tambem receber o parocho da freguezia, que não era +já aquelle saudoso padre Luiz dos tempos de Norberto +de Noronha. +<br /> + +<br /> + +Era todavia um homem amavel, bondoso e illustrado, +de trato simples e affectuoso, tendo sempre +um sorriso para todas as tristezas, uma palavra de +consolação para todas as amarguras. +<br /> + +<br /> + +Repartia-se o bom do cura entre estes dois desgraçados, +ora visitando Julio, ora visitando D. Aurelia, +succedendo que raras vezes deixavam os tres de encontrar-se +juntos e de, em commum, trocarem impressões +sobre os acontecimentos que se succediam, quer +na localidade, quer mesmo n'outros pontos do paiz, +e cuja noticia lhes chegava pelos jornaes. +<br /> + +<br /> + +D'esta vez, o padre Manoel faltára á hora +habitual +da visita e entrava na sala, já tarde, com o ar +de quem trazia um acontecimento grave a noticiar. +<br /> + +<br /> + +―Hão-de ter a bondade de me desculpar a demora―disse +elle com o seu eterno sorriso bondoso―mas +não foi culpa minha... +<br /> + +<br /> + +―Já cá estavamos sentindo a sua ausencia, sr. +padre Manoel...―disse amavelmente D. Aurelia. +<br /> + +<br /> + +―Que quer v. ex.<sup>a</sup>, minha senhora? Este, minha +senhora? Esteve em +<span class="pagenum"><a name="p350">[350]</a></span> +minha casa o Joaquimsinho de Thayde contando-me +um caso extraordinario... +<br /> + +<br /> + +―Sim? +<br /> + +<br /> + +―É verdade. Imagine v. ex.<sup>a</sup> que ha +oito dias +que se vê todas as noites na Senhora do Porto uma +mulher <a href="#e41">desconhecida</a>, +prostrada com a face no chão, resando +em frente á porta principal do templo e passando +assim as longas horas da noite n'uma oração muda. +De manhã, aos primeiros alvôres do dia, some-se +e ninguem mais a vê! +<br /> + +<br /> + +―Isso, naturalmente, ha-de ser alguma das muitas +phantasias dos invencioneiros das nossas aldeias―disse +D. Aurelia sorrindo―É lá crivel que uma mulher +possa passar assim oito dias prostrada á porta +d'um templo e sumir-se como um demonio de magica, +sem que se saiba o caminho que toma e o destino que +leva? +<br /> + +<br /> + +―O Joaquimsinho de Thayde assevera que a viu +de longe; mas não se atreveu a aproximar-se, apavorado +pelo mysterio que cerca a desconhecida e que +já vae formando lenda. +<br /> + +<br /> + +―Então ninguem se atreve a aproximar-se d'ella +e a interrogal-a?―disse Julio. +<br /> + +<br /> + +―Ninguem. Como v. ex.<sup>a</sup> sabe, esta nossa gente +do Minho é temivel com um cacête nas unhas, +fazendo +frente ao adversario que se lhe apresenta de +cara levantada, n'uma arremettida franca. Porém, +desde que a sombra de um mysterio extraordinario +lhe excita a phantasia, torna-se supersticiosa, fraca, +timida, e foge do rugir de uma folha sêcca com a +precipitação +de quem foge do diabo. Por isso, não admira +que, oito dias volvidos, sobre a extraordinaria +apparição +que a todos apavora, ainda até agora ninguem +se haja atrevido a devassar aquelle estranho mysterio. +<br /> + +<br /> + +―Mas o que julgam elles que seja? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[351]</span> ―As versões variam. Uns querem que seja a +alma penada da D. Rita de Briteiros que anda pela +Senhora do Porto a espiar os seus peccados, que eram +muitos... Outros pensam que, embora aquelle mysterioso +vulto apresente fórmas humanas, é comtudo um +enviado do espirito das trevas para attrahir alli algum +dos incautos habitantes de Thayde e leval-o em corpo +e alma para o inferno... +<br /> + +<br /> + +―E vossa reverendissima o que diz?―interrompeu +Julio. +<br /> + +<br /> + +―Eu digo que, se não é a sombra de alguma +arvore, +transformada pelos olhos medrosos dos aldeãos +de Thayde n'um vulto de mulher sobrenatural, então +é alguma desgraçada a quem o remorso afflige e +que +busca na solidão da noite e no balsamo da +oração o +allivio e perdão de suas culpas. +<br /> + +<br /> + +Julio ouvia a estranha noticia, trazida pelo padre, +com grande curiosidade e interesse. Dir-se-hia que uma +voz secreta o avisava de que aquelle facto extraordinario, +apparentemente absurdo e inacreditavel, como +tantos que a phantasia da gente das aldeias borda a capricho +nas noites interminaveis do inverno, ao fogo da +lareira, tinha relação intima com a sua triste +historia, +feita de amarguras e de esperanças perdidas. +<br /> + +<br /> + +―E acredita, padre Manoel―disse elle por fim―que +a oração, por tal modo, constitua balsamo efficaz +para as tribulações de uma alma alanceada de +remorsos? +<br /> + +<br /> + +―Creio que a oração é sempre um +balsamo consolador +de afflictos―respondeu o padre.―Quando nas +angustias do soffrimento volvêmos os olhos á roda +de +nós e não encontramos em nada do que os cerca um +lenitivo á nossa dôr, então volvemos os +olhos ao céo +e, pondo em Deus toda a esperança, achamos o conforto +e o allivio que nenhuma força humana póde +dar-nos. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[352]</span> ―Mas n'essa mulher, que os aldeãos de Thayde +phantasiaram ou realmente viram na Senhora do +Porto, não ha apenas uma alma crente, buscando na +oração o balsamo suavissimo da +esperança, que as +coisas terrenas já não pódem dar-lhe: +ha uma expiação, +ha um rigor de penitencia, que revela a existencia +de faltas, erros e talvez crimes, cuja lembrança +aterra e apavora a propria creatura que os commetteu... +<br /> + +<br /> + +―Por isso eu disse a v. ex.<sup>a</sup>―volveu o padre, +com bondoso sorrir―que, a ser verdade o que se +diz, não ha duvida que se trata de uma +desgraçada, +atormentada pelo remorso, pedindo o allivio e o perdão +de suas culpas... +<br /> + +<br /> + +―Se a expiação corresponde ás faltas +commettidas, +devem estas ter sido muito grandes para que a +propria culpada busque expial-as por semelhante modo. +<br /> + +<br /> + +―Só Deus lê no coração da +creatura e só Elle +póde julgar com justiça dos erros de cada um... +Em +todo o caso, o que é evidente é que estamos em +frente +de uma creatura desgraçada e como tal merecedora +da nossa compaixão... +<br /> + +<br /> + +Julio calou-se por alguns instantes, parecendo +meditar nas palavras do sacerdote. +<br /> + +<br /> + +―Ás vezes―concluiu por fim―a +imaginação +exagera em nós a gravidade de erros commettidos, +avultando-os até os fazer tomar as +proporções de crimes +horrorosos que nos apavoram e mortificam... +Póde ser que essa pobre creatura seja uma d'estas +allucinadas que, por um excesso de sensibilidade +doentia, se julgam culpadas de crimes que não commetteram... +<br /> + +<br /> + +―Tudo póde ser―tornou o sacerdote―Na minha +opinião, toda a penitencia significa arrependimento +e todo o arrependimento affirma a existencia de uma +alma bôa, embora um momento transviada do recto +<span class="pagenum">[353]</span> +caminho pelo diabolico poder das paixões... Alma +feita para o mal e endurecida no crime não experimenta +arrependimento. Póde simulal-o, é certo, por +mêdo ao castigo, mas, em tal caso, não busca as +sombras +da noite nem a solidão dos logares desertos para +exercitar o seu fingimento... Pelo contrario, ostenta-se +publicamente á luz do dia, prostra-se nos templos, +em face dos altares, aos olhos de todos aquelles +a quem quer illudir... derrama lagrimas fingidas, +bate murros no peito, grita que tudo, espera de Deus +e tem o diabo a rir no coração. Não +é d'esta natureza +a mysteriosa penitente que traz sobresaltados os +habitantes de Thayde, creio eu, porque desapparece +e esconde-se, aos primeiros clarões da aurora, nas +covas do monte, sem que ninguem conheça onde se +occulta. +<br /> + +<br /> + +―O que é estranho―ponderou Julio―é que +ninguem até agora se lembrasse de verificar se realmente +se trata de uma creatura humana, ou se tudo +isso não passa de uma absurda ficção +de espiritos +broncos... Porque não irá o proprio regedor com +os +seus cabos proceder a uma diligencia n'esse sentido? +<br /> + +<br /> + +―Disse-me o Joaquimsinho de Thayde que o regedor +é o primeiro a recolher a casa ao cahir da noite, +tomado de um terror supersticioso... Para aquella +gente, é ponto de fé que se trata da D. Rita de +Briteiros, +morta ha dois mezes, com fama de ter envenenado +o irmão e a cunhada para lhes herdar os bens. +E o regedor de Thayde não quer nada com almas do +outro mundo.. +<br /> + +<br /> + +―O que me parece―opinou D. Aurelia―é que +tudo isso não passa de uma grosseira +invenção d'algum +malevolo inimigo da D. Rita, que nem mesmo +depois de morta quer deixar-lhe o descanço da sepultura... +O sr. padre Manoel não ignora quanto é +má +e ás vezes profundamente perversa esta gente da aldeia, +<span class="pagenum">[354]</span> +perseguindo com os seus odios, ainda além da +campa, aquelles que em vida lhe não mereceram +sympathias... +<br /> + +<br /> + +―Sim, é certo―concordou o padre Manoel―e +creio bem que a sr.<sup>a</sup> D. Aurelia tem +razão em pensar +assim, tanto mais que a D. Rita―Deus lhe perdôe!―era +geralmente odiada, e supponho que com algum +motivo... +<br /> + +<br /> + +―Devemos perdoar aos mortos―tornou D. Aurelia +n'um tom de suave recriminação―pois +não é +justo que vamos revolver-lhes o pó da sepultura para +desenterrar crimes de que a justiça humana lhes +não +tirou contas e que, affectos ao tribunal da justiça divina, +só a Deus pertence julgar... +<br /> + +<br /> + +―Eu tambem concordo, minha senhora―replicou +o padre Manoel―que devemos perdoar aos mortos +e deixal-os repousar na eterna paz do sepulchro. +Todavia, não deixo de reconhecer que esta deshumana +e talvez impiedosa crueldade do povo para os que +se finaram e que em vida não seguiram as normas +do bem e da virtude, tem um alto fim moralisador, +qual é o de dizer aos que ficam que os seus crimes +nem mesmo depois da morte obteem o perdão e o esquecimento +do mundo... +<br /> + +<br /> + +―Mas quantas abusões, quantos erros, quantos +absurdos e quantas injustiças lançadas sobre a +memoria +de pessoas erroneamente julgadas pela opinião, +sempre fallivel, do vulgo ignaro?―interrompeu Julio―O +sr. padre Manoel não ignora decerto que, por +via de regra, não são os peores aquelles que o +povo +aponta como maus... +<br /> + +<br /> + +―<em>Vox populi, vox Dei</em>... A voz do +povo é a +voz de Deus―argumentou o padre Manoel, repetindo +o proloquio latino. +<br /> + +<br /> + +―Mas tambem <em>vox populi, vox +diaboli</em>...―retrucou +Julio―E mais vezes é a voz do povo a voz +<span class="pagenum">[355]</span> +do diabo, do que a voz de Deus. Depois, vossa reverendissima +bem sabe, argumentar com superstições absurdas, +com apparições sobrenaturaes de almas penadas, +é uma cobardia tão abjecta e repugnante, que +só tem +desculpa na estupidez do vulgo semelhante fórma de +castigo infligido aos mortos! +<br /> + +<br /> + +O padre Manoel não insistiu, limitando-se a responder: +<br /> + +<br /> + +―Isto já vem assim do principio do mundo... +<br /> + +<br /> + +―E porque vem assim, devemos nós consentir +que assim continue? Não me parece justo. Illustremos +o povo, desfaçamos-lhe erros e abusões em que +vive. +Procuremos conduzil-o ao caminho do bem pela consciencia +do dever e não por principios erroneos de +superstição +absurda. E, pois, que em Thayde não ha +alguem sufficientemente sensato e honesto para dar +um exemplo de dignidade humana, eu irei esta noite +mesmo á Senhora do Porto investigar o que ha de +verdade na mysteriosa apparição. +<br /> + +<br /> + +―Pois quer aventurar-se, por uma noite d'estas, a +ir d'aqui á Senhora do Porto!―observou D. Aurelia, +espantada. +<br /> + +<br /> + +―E porque não?―respondeu Julio―Conheço o +caminho e o meu cavallo é seguro. Dentro de uma +hora, estarei lá. +<br /> + +<br /> + +―É uma imprudencia!―reprovou o padre Manoel―V. +ex.<sup>a</sup> sabe que as nossas estradas são +mal +frequentadas de noite... +<br /> + +<br /> + +―Estou habituado a toda a especie de encontros. +Na minha mocidade fiz muitas vezes o caminho, de +noite, de Braga para Lanhoso, e era no tempo do +Papa Assucar... +<br /> + +<br /> + +―A mysteriosa apparição―tornou o padre +Manoel―póde +mesmo não ser mais do que o pretexto para +uma cilada. +<br /> + +<br /> + +―Uma cilada, a mim!―exclamou Julio―Não +<span class="pagenum">[356]</span> +ha nada menos provavel... Quem poderia esperar +que eu, vivendo em S. Martinho do Campo, me importasse +com o que se passa de noite na Senhora do +Porto? +<br /> + +<br /> + +―Não digo que seja uma cilada propositadamente +armada para v. ex.<sup>a</sup>. Mas é sempre um +perigo ir +a gente metter-se nas ratoeiras armadas para outros―aconselhou +prudentemente o padre. +<br /> + +<br /> + +Julio sorriu desdenhoso. +<br /> + +<br /> + +―Seja como fôr―decidiu elle―irei certificar-me +do que se trata. Se é um conluio de malfeitores +que pretendem por esta fórma espalhar o terror no +sitio e apavorar os credulos habitantes de Thayde, +para mais á vontade effectuarem o assalto e o roubo, +a auctoridade ficará sabendo com quem tem de se haver. +Se, pelo contrario, é uma creatura infeliz, uma +existencia desgraçada que busca na penitencia e na +oração o remedio para as dôres da alma, +é uma obra +de caridade levar-lhe o balsamo da piedade e da compaixão +como lenitivo a tanto soffrer. +<br /> + +<br /> + +E consultando o relogio d'algibeira: +<br /> + +<br /> + +―São 10 horas―disse elle―Vou partir. Se antes +da meia noite não estiver de volta, amanhã de +manhã poderá vossa reverendissima ouvir em minha +casa a narração fiel do que tiver acontecido. +<br /> + +<br /> + +―Repare, meu amigo―tentou impedir D. Aurelia―que +a noite está tempestuosa e que vae pôr em +perigo a sua saude, bastante abalada. +<br /> + +<br /> + +―A minha existencia―replicou Julio com amargura―ha +muito que decorre batida pelos vendavaes +do infortunio. Que importa uma noite de chuva a +quem traz a alma obscurecida n'uma perpetua noite +de tempestuosas desgraças? Até amanhã! +Nada receiem +por mim, que eu vou preparado para tudo. +<br /> + +<br /> + +E sahiu, na resolução inabalavel de cumprir o que +dizia. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p357">[357]</a></span> +<h3><a name="c23"></a>XXIII<br /> + +<br /> + +Allucinação +</h3> + +<br /> + +<br /> + +No dia seguinte de manhã, D. Aurelia e o padre +Manoel, movidos da extraordinaria curiosidade de saberem +o resultado da audaciosa aventura de Julio de +Montarroyo, correram a casa d'este com o fim de o +interrogarem. +<br /> + +<br /> + +O excentrico apaixonado de Helena de Noronha +estava no leito ardendo em febre. +<br /> + +<br /> + +Ao vêr entrar D. Aurelia e o padre Manoel, estendeu +os braços para elles, exclamando: +<br /> + +<br /> + +―É horrivel, meus amigos, é <a href="#e42">horrivel</a>! +<br /> + +<br /> + +―Como assim! Viu <a href="#e43">alguma</a> +coisa?―interrogou +o padre com espanto. +<br /> + +<br /> + +―Vi... vi!... +<br /> + +<br /> + +―E então? +<br /> + +<br /> + +―Então... oh! não posso dizer-lhes o que vi... +<br /> + +<br /> + +―Malfeitores por certo...―aventurou D. Aurelia―teve +de bater-se com elles... +<br /> + +<br /> + +―Não... não!―contradisse o doente com +vehemencia―Não +se trata de malfeitores... Ha effec ―Não... não!―contradisse o doente com +vehemencia―Não +se trata de malfeitores... Ha effectivamente +alli uma creatura extraordinariamente desgraçada, +um ser mysterioso que tem alguma coisa +<span class="pagenum">[358]</span> +de sobrenatural e phantastico, impossivel de reconhecer... +<br /> + +<br /> + +Padre Manoel e D. Aurelia trocaram um rapido +olhar como se quizessem significar um ao outro que +havia talvez motivo para duvidar da integridade +mental do seu interlocutor. +<br /> + +<br /> + +Julio, com os olhos brilhantes e a face afogueada +pela febre, n'uma grande agitação, proseguiu: +<br /> + +<br /> + +―Fui. A noite estava realmente tempestuosa e +horrivel. Atravessei Quintella sob uma chuva violenta +e, quando cheguei a Thayde, o temporal desencadeou-se +n'um vendaval desfeito. Ainda assim, não +parei. O meu fito era ganhar a Senhora do Porto e +surprehender o mysterioso vulto no extasis da +oração. +Chegando ao sopé do sanctuario, apeei-me, prendi o +cavallo a uma arvore e, envolto na minha capa, com +o revolver engatilhado, fui subindo lentamente o escadorio, +até á crista do monte onde se ergue o +templo da Senhora... A treva era profunda e eu +mal poderia divisar quem quer que fosse, por muito +perto que estivesse de mim, se a luz dos relampagos, +fendendo a miudo o espaço, me não illuminasse o +caminho. +No alto, tudo estava em silencio e tudo deserto... +<br /> + +<br /> + +―Não viu, portanto, pessoa alguma?―interrogou +o padre Manoel. +<br /> + +<br /> + +―Quando cheguei, não vi. Mas, pensando que +talvez a tempestade tivesse retardado a vinda á penitente, +resolvi-me a esperar alli, até de manhã, para +poder testemunhar com verdade até que ponto os terrores +da gente de Thayde tinham fundamento, ou então +que todas essas atoardas de uma phantastica +apparição +não passavam de grosseira patranha de torpes +invencioneiros. Passei assim mais de uma hora, +encostado á porta principal do templo, sem fazer um +movimento, quasi sem respirar. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[359]</span> ―Que estranha imprudencia a sua, sr. Julio de +Montarroyo!―não pôde deixar de exclamar a +irmã +de Gustavo.―Se não estava ninguem no local, como +pôde permanecer tanto tempo encostado ao templo, +debaixo d'um temporal desabrido, provocando um arrefecimento +que podia prejudicar-lhe a saude? +<br /> + +<br /> + +―Morrer hoje ou morrer amanhã, que importa, +minha senhora, quando não sentimos o menor apêgo +á +vida? Eu tinha ido alli para desvendar um mysterio +ou desfazer uma illusão de espiritos ingenuos e credulos. +O meu dever era ficar e fiquei... Ainda bem +que fiquei, porque, uma hora passada, os meus olhos, +habituados á escuridão, viram mover-se na treva +da +noite um vulto que se aproximava lentamente do +portico a que eu me encostava. +<br /> + +<br /> + +―Então sempre era certo!―exclamou o abbade +triumphante. +<br /> + +<br /> + +―Certissimo. O vulto, que não suspeitava a minha +presença alli, a semelhante hora, chegou junto +do primeiro degrau do templo, ajoelhou e n'um grito +lancinantissimo, implorou a morte á Senhora do Porto! +<br /> + +<br /> + +―A morte!―exclamaram a um tempo D. Aurelia +e o padre Manoel. +<br /> + +<br /> + +―A morte, sim!―confirmou Julio―Era uma +voz de mulher, lamentosa e dôce, e de tal modo parecida +com... com outra voz que eu já tinha ouvido, +que todo me senti estremecer e fiquei como que pregado +á porta do templo! Essa voz repetia por entre +gemidos, com a face collada no degrau da egreja:―«Senhora +do Porto! Mãe Misericordiosa! ouve a +minha supplica, dá por terminado o martyrio da minha +existencia, leva para ti esta miseravel creatura!»― +<br /> + +<br /> + +Depois soluços e gemidos abafados seguiram-se a +estas palavras... +<br /> + +<br /> + +―É singular!―disse D. Aurelia. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[360]</span> ―E extraordinario!―accrescentou o padre Manoel. +<br /> + +<br /> + +―Não posso dizer-lhes, meus amigos, o que se +passou em mim... Tomado do sagrado respeito que +inspiram os grandes desgraçados que só ao +céo dirigem +as suas supplicas, permaneci por alguns minutos +mudo e immovel como uma estatua. Todavia, cada um +d'aquelles gemidos penetrava no meu coração como +uma lamina de aço. Identifiquei-me de tal modo com +aquella dôr, que cheguei a pensar que conhecia de +ha muito tempo a infeliz creatura que alli jazia prostrada +e que a minha presença devia ser-lhe como que +o apparecimento de um irmão querido. Então, sem +pensar no que fazia, recordei um nome, o nome de +uma mulher que eu conhecia e que devia ser aquella +mesma: +«Helena!»―bradei-lhe―«Helena!»―e +desloquei-me +da porta do templo descendo um degrau. +Ao ouvir este nome, a mysteriosa creatura soltou um +grito de terror, levantou-se espavorida e fugiu... +Corri em seu seguimento, mas a escuridão da noite e a +incerteza do caminho não me permittiram +alcançal-a... +Sumiu-se. Procurei-a toda a noite chamando-a em altos +brados, dizendo-lhe o meu nome, porém tudo foi baldado! +<br /> + +<br /> + +―Não pôde então conhecer quem +fôsse a estranha +penitente?―aventurou-se a dizer D. Aurelia. +<br /> + +<br /> + +―Os meus olhos não puderam distinguir-lhe as +feições, mas o meu coração +reconheceu-a. Era Helena, +era a filha de Norberto de Noronha, a antiga herdeira +d'esta casa, a penitente que eu surprehendi esta +noite em Nossa Senhora do Porto! +<br /> + +<br /> + +―Talvez se enganasse, meu amigo... Se fosse +ella, para que fugiria ouvindo que a chamavam pelo +seu verdadeiro nome e que quem assim a tratava +era por força uma pessoa amiga?―retorquiu D. Aurelia. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[361]</span> ―De noite todos os gatos são pardos―philosophou +plebeiamente o padre Manoel―Já uma noite, +vindo eu das Caldas, vi debruçado sobre o muro da +estrada um homem com uma fouce roçadoura na mão, +como quem se preparava para me abrir a cabeça de +meio a meio quando eu fosse a passar. Suspeitando +que fosse algum ladrão, sustei a egua e disse ao meliante +que sahisse d'alli porque queria passar. O vulto +não respondeu e agitou com mais força a fouce +roçadoura n'uma silenciosa ameaça. Eu +então era +rapaz. Desesperado por aquella insistente audacia, +puxei de um revolver e intimei tres vezes o meu +aggressor a retirar-se d'alli sob pena de lhe mandar +uma bala. Não obedeceu e eu então dei ao +gatilho―pum! +pum! pum!―e mal vi que elle deixara +cahir a foice com que me ameaçava, metti esporas +á egua e cheguei n'um galope a casa. Ao outro +dia fiquei muito admirado de não ouvir fallar do +caso de apparecer algum homem morto na estrada e, +depois do meio dia, montei a cavallo e lá fui eu +muito disfarçadamente estudar o sitio onde tinha tido +o terrivel encontro... Não lhes minto se lhes disser +que fiquei envergonhado ao reconhecer que o malfeitor +contra quem eu tinha disparado era um carvalho inoffensivo +que bracejava para fóra do muro uma das +suas vergonteas, a tal que eu tomára por uma foice +roçadoura e que lá estáva cahida na +estrada, cortada +pela bala do meu revolver... De noite, a gente vê +coisas extraordinarias, que não passam de ordinarissimas +coisas, observadas de dia, á luz do sol... +<br /> + +<br /> + +―Sr. padre Manoel―protestou Julio, agitado +pela febre e deveras irritado pela incredulidade insultuosa +do padre―faça-me a fineza de acreditar que +eu nem vinha das Caldas nem sentia a pesar-me no +espirito o mêdo deprimente de uma foice roçadoura, +quando vi aproximar-se de mim a penitente de que +<span class="pagenum">[362]</span> +se trata. Estava tranquillo como v. s.<sup>a</sup> o +está agora +e tinha o entendimento tão claro como v. s.<sup>a</sup> +o +póde +ter―logo de manhã, em jejum, quando vae para o +altar dizer missa. +<br /> + +<br /> + +O padre Manoel, que não era tolo, inclinou a +cabeça +n'um sorriso bondoso e apressou-se a dizer: +<br /> + +<br /> + +―Não foi meu proposito pôr em duvida a veracidade +da sua narrativa, sr. Julio de Montarroyo... +Creio que v. ex.<sup>a</sup> visse e ouvisse tudo o que +diz, mas +podia muito bem acontecer que, por uma illusão que +a noite favorecia, tomasse como sendo a filha de Norberto +de Noronha uma outra pessoa bem differente... +Era simplesmente n'este ponto que a confusão podia +dar-se... +<br /> + +<br /> + +Julio aquietou-se um pouco com esta explicação +do padre. +<br /> + +<br /> + +―Tambem não affirmo que fosse ella―disse―mas +tenho a convicção intima, profunda, de que +não é +outra. +<br /> + +<br /> + +―E agora o que tenciona fazer, sr. Julio?―perguntou +D. Aurelia. +<br /> + +<br /> + +―Voltar lá. Procurei-a durante a noite até de +manhã. Bati o monte em todas as +direcções, observei-o +em todos os recantos, e não pude atinar com o +sitio em que ella se occultou. Todavia, é certo que +ella se escondeu alli, porque nem teria forças para +me fugir n'uma longa caminhada a pé, nem a vereda +que seguiu lhe permittiria poder andar muito tempo +a descoberto, sem que eu a encontrasse. +<br /> + +<br /> + +―Mas―observou D. Aurelia―se a mysteriosa +penitente, surprehendida por v. ex.<sup>a</sup>, fugiu, +é que +não +quer ser vista; e sabendo que é conhecida a sua frequencia +n'aquelle sitio, áquella hora, certamente não +voltará lá com receio de ser novamente +surprehendida... +Mórmente se v. ex.<sup>a</sup> acertou +chamando-lhe pelo +nome verdadeiro... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[363]</span> ―Sim, é certo..―concordou Julio―mas eu +tenho de cumprir o meu dever que me manda procurar +vêl-a outra vez, fallar-lhe e concorrer quanto +possivel para pôr termo áquelle soffrimento.<br /> + +<br /> + +―Tenciona, pois, voltar lá esta noite? +<br /> + +<br /> + +―Tenciono. +<br /> + +<br /> + +―Afigura-se-me trabalho inutil, sacrificio baldado. +<br /> + +<br /> + +―Porque? +<br /> + +<br /> + +―Pelas razões que já lhe disse. Se é +realmente +Helena de Noronha e não quer tornar conhecida a +sua presença, esta noite evitará apparecer junto +do +templo onde sabe que é esperada pela pessoa que a +reconheceu e lhe chamou pelo nome... +<br /> + +<br /> + +―O que devo fazer então? +<br /> + +<br /> + +―Esperar que ella, perdido o receio, volte a apparecer +regularmente, e tomar todas as medidas para +a seguir de longe até lhe descobrir o paradeiro. +<br /> + +<br /> + +―É o que se me afigura mais prudente e mais +acertado―approvou +o padre Manoel.―Demais, o sr. Julio +de Montarroyo está n'um estado tal de +excitação +febril, que uma segunda noite passada como a primeira +póde alterar-lhe profundamente a saude. Eu me +encarrego, se v. ex.<sup>a</sup> quer, de mandar vigiar o +local, +e saber se a penitente continua a apparecer lá... +<br /> + +<br /> + +―Com a condição, porém, de que +não hão de perturbal-a +na sua oração nem afugental-a d'aquelle +sitio. +<br /> + +<br /> + +―A recommendação é inutil. Descance +v. ex.<sup>a</sup> +que tambem eu e a sr.<sup>a</sup> D. Aurelia estamos com +verdadeiro +interesse em saber quem é a mysteriosa creatura +de que se trata. Prometta-me que não sahirá +esta noite a expôr a saude a um verdadeiro perigo, +e +amanhã ficará sabendo com certeza se a penitente +voltou ao templo. +<br /> + +<br /> + +Combinadas as coisas d'este modo, despediram-se +os dois do doente, recommendando-lhe socego e promettendo +<span class="pagenum">[364]</span> +voltar no dia seguinte a informal-o do que +tivesse occorrido. +<br /> + +<br /> + +Já cá fóra, disse o padre Manoel +á D. Aurelia: +<br /> + +<br /> + +―E que lhe parece a v. ex.<sup>a</sup> este caso +extraordinario +que acabamos de ouvir? +<br /> + +<br /> + +―Parece-me―respondeu a irmã de Gustavo―que +o nosso pobre amigo tem razão para estar bastante +sobreexcitado com o que lhe succedeu. +<br /> + +<br /> + +―E v. ex.<sup>a</sup> acredita que elle visse +lá alguem? +<br /> + +<br /> + +―Acredito... Porque não hei de acreditar, se o +que elle conta é a confirmação dos +boatos de que +v. s.<sup>a</sup> se fez echo? +<br /> + +<br /> + +―Oh, minha senhora! mas repare v. ex.<sup>a</sup> que: +eu apenas contei como extravagante phantasia dos habitantes +de Thayde o rumôr que corria entre elles de +que apparecia na Senhora do Porto uma alma do outro +mundo.. a alma da D. Rita de Briteiros. +<br /> + +<br /> + +―Mas v. s.<sup>a</sup> não crê nas +almas do outro mundo; e +certamente não recusará acreditar que a estranha +apparição tenha realmente um fundo de verdade, e +que, em vez de ser uma alma penada, seja uma creatura +em corpo e alma, como tantas que, batidas pela +desgraça irremediavel, fogem dos povoados para habitarem +os logares desertos, entregando-se á +oração e á +penitencia!... +<br /> + +<br /> + +―Custa-me muito menos a crêr que o nosso amigo, +allucinado pela febre e pela estranha situação em +que se encontrava, áquella hora e em semelhante local +por uma noite tão tormentosa, foi victima de uma +allucinação +e julgou vêr o que não viu nem podia, +vêr... Não reparou v. ex.<sup>a</sup> +que elle tinha as +faces +afogueadas e os olhos brilhantes da febre? Quem nos +diz a nós que tudo aquillo não será o +delirio da doença? +O mais acertado parecia-me chamar o medico... +<br /> + +<br /> + +―Conhece Julio de Montarroyo e sabe a +organisação +nervosa e irritavel que elle é... Se lhe mandamos +<span class="pagenum"><a name="p365">[365]</a></span> +o doutor sem elle o reclamar, é muito capaz de +não o receber e de se offender comnosco... +<br /> + +<br /> + +―Para tudo ha meio, minha senhora... Contamos +ao doutor o que se <a href="#e44">passou</a> e +elle simulará um motivo +qualquer para lhe ir fallar, sem ser o da doença... +Por exemplo: pedir-lhe o seu concurso para +qualquer obra de beneficencia... ou pedir-lhe +informações +sobre qualquer instituto medico das grandes +cidades que elle percorreu... Qualquer pretexto serve. +O que não devemos é deixal-o abandonado dos +soccorros medicos, porque o pobre homem, se já tinha +<em>falha</em> antes d'este caso, agora, com +a mania de que +viu a filha de Norberto de Noronha, é muito capaz +de ensandecer de todo... +<br /> + +<br /> + +D. Aurelia intimamente revoltada contra esta +apreciação do padre, teve bastante +força em si para +responder apenas: +<br /> + +<br /> + +―Durante o tempo que tenho tratado com o sr. +Julio de Montarroyo, ainda não pude colher elementos +que me auctorisassem a duvidar da sua lucidez +de espirito e da perfeita regularidade das suas faculdades +mentaes... Se agora me pareceu n'um estado +de excitação febril, acho natural que assim +succeda +depois da noite tempestuosa que passou e do violento +abalo que devia ter-lhe causado a apparição falsa +ou +verdadeira da estranha penitente que elle diz ter visto... +Como quer que seja, sr. padre Manoel, a doença +de que presentemente soffre o sr. Julio de Montarroyo +não é d'aquellas que se curam com synapismos +e xaropes receitados pelo medico. +<br /> + +<br /> + +―O que quer então v. ex.<sup>a</sup> que se +faça? +<br /> + +<br /> + +―Que v. s.<sup>a</sup> cumpra o que prometteu... Que +encarregue alguem de sua confiança para vigiar o +templo da Senhora do Porto e vêr se realmente Julio +de Montarroyo tem razão e os habitantes de Thayde +tambem... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p366">[366]</a></span> +O padre Manoel encolheu os hombros: +<br /> + +<br /> + +―Pois v. ex.<sup>a</sup> julga...? +<br /> + +<br /> + +―Julgo que ha de haver um motivo para que +tal boato se espalhasse, como creio que o sr. Julio de +Montarroyo era incapaz de vir affirmar coisas que +não tivessem succedido, ou que pelo menos se lhe +não +tivessem affigurado... O nosso dever, pois, é tirarmo-nos +de duvidas e esclarecer quanto possivel este +mysterio. +<br /> + +<br /> + +―Está bem! Se v. ex.<sup>a</sup> assim o +deseja, mandarei o +João Mil-homens, que é arrojado e valente, e +não crê +em almas do outro mundo, rondar a Senhora do Porto, +esta noite e todas as outras que se lhe seguirem, +até não restar duvida de que não +apparece lá viva +alma... +<br /> + +<br /> + +―Porém, que isso se faça em segredo, com a +maxima prudencia e cautella, para não causar alarme +na povoação nem dar logar a que a mysteriosa +penitente se afaste d'estes sitios. +<br /> + +<br /> + +―Fique v. ex.<sup>a</sup> descançada, que o +Mil-homens é +fino como uma raposa e tem o faro de um cão de +caça para descobrir o esconderijo da tal creaturinha, +onde quer que ella se occulte. Vou já d'aqui prevenil-o +e estou bem certo que não ha nada, ou, se ha +alguma coisa, não levará muito tempo que +não saibamos +tudo. +<br /> + +<br /> + +O aldeão encarregado pelo padre Manoel de vigiar +durante muitas noites seguidas o templo e +immediações +da Senhora do Porto nada pôde observar que +confirmasse a narrativa de Julio de Montarroyo, nem +sequer os boatos que corriam entre os aldeãos de +Thayde. +<br /> + +<br /> + +O padre Manoel sorria vaidosamente sceptico ao +relatar á D. Aurelia os baldados <a href="#e45">esforços</a> +empregados +pelo Mil-homens para descobrir a penitente e dizia: +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[367]</span> ―São tudo imaginações, minha senhora, +são tudo +imaginações... Eu já sei o que isto +é: um vê uma +sombra e diz que é um homem; outro olha e vê um +gigante. Vem um terceiro e affirma logo que é um +gigantarrão e jura até que o ouviu fallar! +Sabidas +as +contas, vae-se a vêr e não é nada... Eu +sempre disse +que este sr. Julio de Montarroyo era boa pessoa, mas +tinha qualquer propensão para visionario... +<br /> + +<br /> + +D. Aurelia defendia o apaixonado de Helena. +<br /> + +<br /> + +―É certo―dizia ella―que o sr. Julio de Montarroyo +é dominado por uma paixão violenta que +quasi constitue n'elle uma doença incuravel. Mas +não +creio que esse estado d'alma o excite e lhe altere por +tal modo as faculdades, que o faça imaginar coisas +que não vê nem ouve... Isso seria a loucura, e o +seu entendimento é por demais lucido para o +suppôrmos +um allucinado... +<br /> + +<br /> + +―Valha-me Deus! não digo que elle esteja doido +varrido... Elle conhece as pessoas e sabe o que +diz... Mas n'este caso, minha senhora, tenha v. ex.<sup>a</sup> +paciencia, eu julgo que elle viu tanto a tal penitente +como eu vi os milagres de Santo Antonio... +<br /> + +<br /> + +―Mas acredita n'elles!... +<br /> + +<br /> + +―Acredito, que é o meu dever... +<br /> + +<br /> + +―Pois então acredite tambem o sr. padre Manoel +nos factos narrados pelo sr. Julio de Montarroyo, por +muito inverosimeis que elles lhe pareçam... Note +v. s.<sup>a</sup> que elle não diz que +prégou aos peixinhos +e +que elles o ouviram devotamente com muita +attenção, +nem affirma que fez levantar Norberto de Noronha +da sepultura para dizer quem o matou... Conta simplesmente +que viu uma pobre mulher prostrada nos +degraus de um templo, invocando a Senhora do Porto +para que lhe désse a morte... Isto não +é tão inverosimil, +acho eu, que repugne acreditar-se... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[368]</span> ―Minha senhora―volveu o padre Manoel fungando +uma pitada―o sr. Julio de Montarroyo não +é santo Antonio nem tem como aquelle santo reconhecidas +auctoridades theologicas a abonar-lhe a veracidade +dos casos que lhe succedem ou que diz haverem-lhe +succedido. Demais, minha senhora, S. Thomé +tambem precisou de vêr para crêr... Ora eu +já me +contentava, para crêr, com o testemunho do João +Mil-homens, que não é nenhum doutor da egreja, +mas +que é homem capaz de averiguar se uma coisa que +vê é pau ou é pedra. Mas o +João Mil-homens diz que +não viu nada na Senhora do Porto... Ora se elle +não viu nada, como é que os outros podem ter +visto? +<br /> + +<br /> + +―É possivel e até provavel que a +estranha creatura +cuja existencia real o sr. padre Manoel põe em +duvida, ao vêr-se surprehendida na sua +oração pelo +sr. Julio de Montarroyo, tivesse receio de ser novamente +encontrada e reconhecida e resolvêsse mudar +de sitio e fugir para bem longe... +<br /> + +<br /> + +―Póde ser―acquiesceu o padre Manoel, incredulo. +<br /> + +<br /> + +―No emtanto, e seja como fôr, v. s.<sup>a</sup> +faz-me o +obsequio de continuar a mandar vigiar o local. Eu +me encarrego de gratificar o Mil-homens pelo trabalho +que lhe está incumbido. +<br /> + +<br /> + +―Para lá vae todas as noites. Mas creia v. ex.<sup>a</sup> +que tanto faz ir como estar na cama... O homem, +não pôde vêr lá pessoa +alguma, pela simples razão de +nunca lá ter estado de noite essa tal penitente imaginaria +que se diz... Os tempos de fé acabaram, minha +senhora, e quem reza gosta de o fazer com +ostentação, +á luz do dia, diante de toda a gente... não se +vae pôr de noite, como os mochos e as corujas que +chupam o azeite das lampadas, a piar miserias á +porta dos templos desertos... +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[369]</span> +<h3><a name="c24"></a>XXIV<br /> + +<br /> + +Estranho encontro +</h3> + +<br /> + +<br /> + +D. Aurelia, despedindo-se do padre Manoel, recolheu +a casa, scismando nas palavras do sacerdote. +<br /> + +<br /> + +―Será realmente Helena de Noronha?―dizia +comsigo―Julio de Montarroyo affirma que sim; mas +o seu estado febril justifica em certo modo uma +allucinação, +que o fizesse tomar pela mulher que ama, uma +sombra, talvez uma phantastica visão dos seus sentidos +excitados... Emfim, o Manoel Mil-homens, que é +arrojado e valente, encarregar-se-ha de verificar até +que ponto são verdadeiras as affirmativas de Julio. +<br /> + +<br /> + +Ia deitar-se, quando no portão da casa soaram violentas +pancadas. +<br /> + +<br /> + +Estranhou que assim batessem áquella hora, e +calculou que não podia ser senão um estranho +desconhecedor +de que o portão tinha uma sineta que facilitava +a chamada. +<br /> + +<br /> + +―Batem ao portão―disse ella para a criada.―Diga +ao Francisco que vá vêr quem é... +<br /> + +<br /> + +D'ahi a pouco, voltava a criada, annunciando: +<br /> + +<br /> + +―Está lá em baixo um homem que pede para +fallar á senhora com toda a urgencia. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[370]</span> ―Que qualidade de homem é? +<br /> + +<br /> + +―Parece una homem do povo, minha senhora; mas +não é d'estes sitios. +<br /> + +<br /> + +―Não disse como se chama, nem de mando de +quem vem? +<br /> + +<br /> + +―O nome não disse. Diz que já foi a casa do sr. +Julio de Montarroyo, mas que não o deixaram fallar +com elle por estar doente, e por isso que deseja dar só +uma palavrinha á senhora. +<br /> + +<br /> + +―Mande-o entrar, e o Francisco que fique de vigia, +que não vá ser algum mal intencionado. +<br /> + +<br /> + +―Não me parece... Só se fôr algum +desgraçado +que use d'este meio para pedir abrigo por esta noite... +<br /> + +<br /> + +―Bem; vejamos o que elle quer. +<br /> + +<br /> + +Pouco depois, apparecia á porta da sala o mestre +<em>Tomba</em>. +<br /> + +<br /> + +D. Aurelia tinha-o visto em casa de Julio de Montarroyo +e reconheceu-o logo. +<br /> + +<br /> + +―Ah! é vocemecê, mestre +<em>Tomba</em>? +<br /> + +<br /> + +―Sou eu, minha... Vossa <em>incelencia</em> +perdoará +eu vir <em>trupar</em> á porta a +esta hora, mas ha um <em>causo</em> +que não póde deixar de ser... +<br /> + +<br /> + +―Diga, mestre, diga!―exclamou D. Aurelia +assustada com as attitudes e gestos solemnes do velho +sapateiro―Occorreu alguma desgraça? +<br /> + +<br /> + +―Uma grande <em>desgracia</em>, minha +senhora! E se +vossa <em>incellencia</em> não +acode e manda alguem comigo, +a <em>probe</em> de Christo está +aqui, está a dar o ultimo suspiro!... +Já fui a casa do sr. Julinho p'ra lhe contar +o <em>assucedido</em>.., Mas lá +<em>dixeram-me</em> que elle +<em>támem</em> estava +de <em>catrambias e atão</em> eu +lembrei-me de vir ter +co' a senhora p'ra esta obra de caridade... +<br /> + +<br /> + +―Mas de que se trata, mestre? Falle. +<br /> + +<br /> + +―Trata-se de uma <em>probe</em> creatura, +uma triste +mulhersinha que eu topei alli adiante, cahida na estrada +sem dar por burro nem por albarda! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[371]</span> ―Uma mulher!? +<br /> + +<br /> + +―Sim minha senhora... Eu vinha p'ra cá e dava +ó canello com toda a força, porque se me tinha +feito +escuro mais cedo do que eu pensava, e estava morto +por chegar a casa do sr. Julinho, porque +<em>támen</em> já +trazia +uma lazeira que nem via nada.. Vae n'isto, não +sei como reparo e vejo estirado ao canto da estrada +um <em>burto</em> preto que me parecia coisa +viva... Cheguei-me, +sempre com cuidado, que não fosse ser algum +alma de cantaro que estivesse a +<em>infingir-se</em> morto, +p'ra me deitar as unhas e alimpar-me o que eu +<em>trouvesse</em>, e vi que o dito +<em>burto</em> não mexia com +pé nem +com mão... Accendi um +<em>phrophe</em>, cheguei-lh'o á +cara, +e era uma mulher, coitadinha! Chamei por ella, abanei-a, +mas, qual quê! a <em>probe</em> de +Christo mal resfolegava... +estava sem sentidos! Inda me lembrou de +pegar n'ella ás costas e trazel-a comigo; mas a caminhada +era mui bem grande e eu +<em>támem</em> já vinha +estafado, +sem poder comigo... de modos que deitei a +correr p'ra vir ó sr. Julinho contar-lhe o caso e pedir-lhe +que mandasse alguem que me ajudasse a trazel-a... +Mas elle támem está doente... +<br /> + +<br /> + +D. Aurelia, verdadeiramente commovida com esta +narrativa, não deixou que o sapateiro terminasse. +<br /> + +<br /> + +Chamou os criados e mandou que fossem com o +sapateiro buscar a infeliz. +<br /> + +<br /> + +―Levem um lampeão para se alumiarem... Deitem +roupa bastante na padiola e tragam n'ella a pobresita +com cuidado. De caminho, um que venha por +casa do medico pedir-lhe para chegar aqui n'um instante. +Vá, não se demorem... lembrem-se que é +uma +vida que vão salvar! +<br /> + +<br /> + +Estas ordens puzeram em movimento toda a gente +da casa, e poucos minutos decorridos, seguia o +<em>Tomba</em>, +pela estrada, á frente do grupo, em soccorro da infeliz +creatura. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[372]</span> +Uma hora depois regressavam o <em>Tomba</em> +e os criados +de D. Aurelia, conduzindo na padiola o corpo quasi +inanimado da desconhecida que o sapateiro encontrára +abandonada no caminho. +<br /> + +<br /> + +A irmã de Gustavo, ao sentir o ruido dos homens +que entravam o portão, acudiu á sala de entrada, +e +sem attentar na pessoa que elles conduziam, deu ordem +para transportarem a enferma para um quarto +onde já havia uma cama preparada. +<br /> + +<br /> + +A esta hora chegava tambem o medico que acudia +solicito ao chamamento, julgando que se tratava +de algum familiar da casa ou talvez mesmo da propria +D. Aurelia. +<br /> + +<br /> + +―Então, quem temos por cá doente?―disse elle +ao encarar D. Aurelia―Já vejo que não +é v. ex.<sup>a</sup>. +E antes assim. +<br /> + +<br /> + +―Felizmente, doutor, não sou eu a que preciso +dos seus soccorros. Trata-se de uma pobre creatura +que foi encontrada cahida, sem accordo, na estrada, e +que eu mandei buscar e recolher pelos meus criados. +<br /> + +<br /> + +―Onde está ella? +<br /> + +<br /> + +―Lá dentro, no quarto onde mandei arranjar-lhe +uma cama. +<br /> + +<br /> + +―Vamos vêl-a. +<br /> + +<br /> + +E encaminhou-se para o interior da casa, guiado +por D. Aurelia. +<br /> + +<br /> + +A infeliz estava já mettida no leito, mas ainda sem +dar accordo de si. +<br /> + +<br /> + +Informou a criada que a despira, que a desgraçada +trazia os vestidos rotos e sujos da terra da estrada. +<br /> + +<br /> + +Vinha andrajosa. Notava-se-lhe, porém, desusado +asseio nas roupas brancas, humildes e pobres, mas +em que havia o cuidado proprio de pessoa que está habituada +á limpeza―que é o primeiro indicio de uma +boa educação. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[373]</span> +O medico e D. Aurelia abeiraram-se do leito e +examinaram a desconhecida. +<br /> + +<br /> + +Trazia os cabellos em desalinho e na face macerada +e pallida havia os vestigios profundos de mil +soffrimentos e privações. +<br /> + +<br /> + +Com os olhos cerrados e a respiração quasi +imperceptivel, +a desditosa similhava um cadaver. +<br /> + +<br /> + +Não era ainda idosa, mas as rugas de uma velhice +precoce sulcavam-lhe o rosto triste. +<br /> + +<br /> + +D. Aurelia fitou-a com uma compassiva curiosidade +e não se recordou de ter visto entre os innumeros +mendigos, que todos os dias lhe batiam á porta implorando +a esmola da sua caridade, uma figura que se +lhe assimilhasse. +<br /> + +<br /> + +―Esta pobre mulher―disse ella―não deve ser +d'estes sitios. +<br /> + +<br /> + +―Tambem me parece―affirmou o doutor―Pelo +menos, não é d'estas aldeias proximas onde +exerço a +clinica e onde conheço quasi toda a gente. +<br /> + +<br /> + +―O que tem ella, doutor?―perguntou D. Aurelia +ao medico, que acabava de auscultar a doente. +<br /> + +<br /> + +―Frio e fome, talvez...―respondeu o homem de +sciencia, fazendo uma careta―Esta mulher tem sido +mal alimentada, a fadiga prostrou-a e seria esta com +certeza a sua ultima noite, se a caridade de v. ex.<sup>a</sup> +a +não amparasse. Vamos tratar de a restituir á +vida, e +encetaremos depois o tratamento que julgarmos conveniente... +Creio, porém, que não teremos grande necessidade +de recorrer á botica... Afigura-se-me que +bastará apenas recorrer á cosinha... +<br /> + +<br /> + +―Vou mandar-lhe já matar uma gallinha!―acudiu +D. Aurelia. +<br /> + +<br /> + +―Sim―approvou o doutor.―E tenha v. ex.a +a bondade de mandar-me cá a criada, a Brigida, +para me ajudar no tratamento a que vou sujeitar a +doente. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[374]</span> ―Eu estou aqui, doutor... Diga-me o que é preciso +fazer... +<br /> + +<br /> + +―Não, não! A Brigida que traga um pouco de +vinagre, para lhe dar uma fomentação nos pulsos e +nas fontes, a vêr se assim conseguimos restituir-lhe +os sentidos. +<br /> + +<br /> + +D. Aurelia sahiu a chamar a criada e a dar ordem +para que tratassem a infeliz com todo o desvelo, seguindo +as indicações do medico. +<br /> + +<br /> + +Pouco depois, a criada vinha annunciar á D. Aurelia +que a pobresinha voltára a si, olhara espantada +á roda do leito sem reconhecer pessoa alguma e sem +soltar uma palavra; que o doutor lhe receitára um +cordeal e que, tomado elle, cahira n'um somno profundo +e reparador. +<br /> + +<br /> + +O medico, passados instantes, confirmava estes dizeres, +promettendo a D. Aurelia voltar no dia seguinte. +<br /> + +<br /> + +―Deixem-n'a socegar―aconselhou elle―e amanhã +veremos o tratamento a que temos de submettel-a. +<br /> + +<br /> + +―Parece-lhe, doutor, que o seu estado é de inspirar +cuidados? +<br /> + +<br /> + +―De certo, minha senhora. Convem não lhe fallar +nem obrigal-a a grande esforço de memoria. A pessoa +que lhe servir de enfermeira deve apenas limitar-se a +ministrar-lhe o que fôr necessario, sem a obrigar a +fallar mais que o indispensavel. Mas por esta noite +não acordará nem necessitará de outra +coisa mais que +o descanço. Amanhã voltarei. Boa noite. +<br /> + +<br /> + +―Boa noite, doutor, e peço-lhe que tome a seu +cuidado esta infeliz que não conheço. Seria para +mim +um grande desgosto que ella viesse morrer a minha +casa... +<br /> + +<br /> + +―Não morrerá, minha senhora, a não +ser que +outra doença mais grave sobrevenha. Por emquanto, +o mal é este: frio e fome. +<br /> + +<br /> + +―Coitadita!―murmurou compungidamente a irmã +<span class="pagenum">[375]</span> +de Gustavo―E pensarmos que ha gente que morre +pelas estradas abandonada de toda a caridade! +<br /> + +<br /> + +―Minha senhora―volveu o medico philosophicamente, +encolhendo os hombros―o mundo compõe-se +de tudo... Ha gente que morre de fome e ha gente +que morre de fartura... Os extremos tocam-se. +<br /> + +<br /> + +E sahiu, embrulhado no seu capote á cavallaria, +e com um <em>cache-nez</em> enrodilhado desde +o pescoço até +á ponta do nariz. +<br /> + +<br /> + +―Que <em>barbeiro</em>!―disse elle, ao +sentir no rosto +a aragem cortante da noite, para o homem que á porta +o esperava com o lampeão acceso afim de o acompanhar +no trajecto até casa―Este +<em>barbeirinho</em> é o +tal das pneumonias! +<br /> + +<br /> + +No dia seguinte voltou. A doente recuperára os +sentidos, mas apresentava-se n'um estado de abatimento +e de fraqueza extraordinaria. +<br /> + +<br /> + +A febre consummia-a. Delirava. +<br /> + +<br /> + +Phrases entrecortadas e sem nexo escapavam-se-lhe +dos labios, n'uma confusão que não deixava +perceber-lhes +o sentido. +<br /> + +<br /> + +O medico observou-a longo tempo e por fim receitou +um calmante, prohibindo que dessem de comer +á enferma. +<br /> + +<br /> + +―Então, doutor?―interrogou D. Aurelia. +<br /> + +<br /> + +―Enganei-me, minha senhora―disse o medico―julguei +que um caldo de gallinha e algum socego +reconfortaria a nossa doente, mas vejo agora que o +remedio não está só na cosinha, +está tambem na botica. +<br /> + +<br /> + +―É então grave o estado d'essa infeliz? +<br /> + +<br /> + +―Gravissimo. A febre é muito violenta e desconfio +bem que tenhamos de nos vêr a contas com +uma pneumonia... +<br /> + +<br /> + +―Pobre mulher! +<br /> + +<br /> + +―Se v. ex.<sup>a</sup> quer, e isso parece-me o mais +sensato, +<span class="pagenum">[376]</span> +é pregar com ella ás costas de dois homens +que +a levem ao hospital de Guimarães. +<br /> + +<br /> + +―Oh! isso não!―fez D. Aurelia com vehemencia.―Acaso +o doutor não terá recursos na sua sciencia +para valer a essa desgraçada? +<br /> + +<br /> + +―Oh! minha senhora! não se trata de mim, que +estou prompto a soccorrel-a conforme sei e posso: o +alvitre tem por fim unicamente evitar a v. ex.<sup>a</sup> +os +incommodos e cuidados que taes casos sempre acarretam... +<br /> + +<br /> + +―Doutor, o destino quiz que essa pobre mulher +fosse recolhida em minha casa. Aqui será tratada +com os cuidados que o seu estado requer. +<br /> + +<br /> + +―Faça-se a sua vontade, minha senhora. +<br /> + +<br /> + +D. Aurelia deu logo ordem para que ficasse constantemente +a velar a enferma a sua criada de quarto, +que era uma enfermeira distincta. +<br /> + +<br /> + +―Que não falte nada a essa infeliz―disse a irmã +de Gustavo―Não lhe façam perguntas indiscretas, +não inquiram coisa alguma do seu passado, e +façam-lhe +comprehender que está entre pessoas amigas que +se interessam pela sua saude e que desejam vêl-a +restabelecida. +<br /> + +<br /> + +Esta ordem foi cumprida rigorosamente, e ao cabo +de tres dias, tendo diminuído a febre, a doente +encontrava-se sensivelmente melhor. +<br /> + +<br /> + +―Está salva―disse o medico a D. Aurelia―Agora +o que precisamos é ter muito cuidado com a +alimentação. +<br /> + +<br /> + +―Tel-o-hemos. +<br /> + +<br /> + +Prescreveu o regimen a seguir e tão rigorosamente +foi obedecido que, oito dias passados, a desconhecida +entrava em franca convalescença. +<br /> + +<br /> + +Durante este tempo, o padre Manoel vinha todos +os dias informar que o João Mil-homens não +lobrigava +viva alma na Senhora do Porto. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[377]</span> ―É escusado!―dizia o bom do parocho―aquillo +foi tudo sonho do nosso Julio. E quem sabe +mesmo se foi visão da febre que o consummia. Pobre +homem! Eu bem lhe disse que não cahisse na +asneira de se metter a caminho com uma noite d'aquellas... +Não quiz attender, ainda é dos que dão +credito +a tolices e invenções da gente rude do povo, e o +resultado foi cahir de cama e ficar para alli entre a +vida e a morte ha uns poucos de dias... +<br /> + +<br /> + +―Disse-me o doutor que o encontra muito melhor... +<br /> + +<br /> + +―É verdade. Até já lhe deu ordem para +receber +o <em>Tomba</em>, que esteve hontem mais de +uma hora em +conversa com elle... E o que é mais curioso é que +o +doente, hoje, quando todos esperavam que peorasse, +appareceu muito melhor, mais animado e com um +semblante alegre e risonho. +<br /> + +<br /> + +―Não pude ir vêl-o n'estes dois dias, mas talvez +vá logo visital-o. +<br /> + +<br /> + +―O que eu não sei é que diabo de intimidade +é +a do <em>Tomba</em> com elle. Um homem +ordinario, de baixa +esphera, gosa de uma tal consideração em casa +d'aquelle homem, que chega a espantar. Alli ha mysterio +por força! +<br /> + +<br /> + +―Não ha mysterio nenhum, snr. padre Manoel. +Os humildes tambem teem direito á estima e +consideração +das pessoas superiores, quando possuem qualidades +de honradez e honestidade que os recommendam... +<br /> + +<br /> + +―Sim, sim... Mas não se vê isso muito +frequentemente... +A não ser que v. ex.<sup>a</sup> queira +attribuir ao +<em>Tomba</em> qualidades unicas e +até hoje nunca vistas e apreciadas +em remendão portuguez. +<br /> + +<br /> + +―Não lhe attribuo qualidades nem defeitos, sr. +padre Manoel... Acho natural que o sr. Julio de +Montarroyo proteja e estime um pobre homem do +povo, e nada mais. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[378]</span> +O padre fez uma carêta significativa. +<br /> + +<br /> + +―Sim, sim, minha senhora... V. ex.<sup>a</sup> +é uma +santa, acha tudo muito natural porque não conhece o +mundo... O <em>Tomba</em> é bom +homem, não digo que não, +mas ha muitos bons homens como elle, e não encontram +o acolhimento de que este se póde gabar... +<br /> + +<br /> + +―Nem era possivel, sr. padre Manoel... Eu, +por exemplo, recolhi em minha casa uma pobre mulher +que foi encontrada moribunda a um canto da estrada... +Dispensei-lhe todos os cuidados e carinhos +compativeis com os recursos de que disponho e nem +sequer sei ainda quem ella é... +<br /> + +<br /> + +―Quem ha-de ser? Alguma pobre mendiga, +alguma desgraçada sem eira nem beira... Ha tantas +por esse mundo! +<br /> + +<br /> + +―Justamente. Ha tantas por esse mundo, e comtudo +é esta a primeira que, em taes circumstancias, +encontra abrigo em minha casa. +<br /> + +<br /> + +A este tempo, appareceu a creada encarregada +de tratar a desconhecida. +<br /> + +<br /> + +―Minha senhora―disse ella―a nossa doente... +<br /> + +<br /> + +―O que tem? Peorou? +<br /> + +<br /> + +―Não, minha senhora. Até está muito +melhor. +Mas ha pouco perguntou-me onde estava, que casa era +esta e quem é que a tinha trazido para aqui... +<br /> + +<br /> + +―O que lhe respondeu? +<br /> + +<br /> + +―Cumpri as ordens de v. ex.<sup>a</sup>, disse-lhe que +estava +em casa de pessoas amigas e que não se affligisse, +que não lhe havia de faltar nada... Mas ella quiz +por força saber como se chamam os donos da casa... +e eu disse-lh'o. +<br /> + +<br /> + +―E então? +<br /> + +<br /> + +―Mostrou-se muito inquieta e pediu para fallar á +senhora... +<br /> + +<br /> + +―Para me fallar a mim!―disse D. Aurelia―Pois +bem; diga-lhe que vou já vêl-a... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[379]</span> +E voltando-se para o padre Manoel: +<br /> + +<br /> + +―Tenha paciencia, meu amigo, se lhe roubo uma +parte das attenções que lhe devo... Bem +vê, a enferma +está melhor, aliás teria pedido antes o seu +soccorro +espiritual... +<br /> + +<br /> + +―Sinto-me lezado nos meus direitos de confessor―replicou +o padre Manoel gracejando.―Realmente, +v. ex.<sup>a</sup> com a sua extrema caridade faz que os +infelizes +esqueçam que só aos ministros do altar devem +confessar-se... Porque ninguem me tira da cabeça +que a sua protegida quer fazer-lhe revelações +intimas... +<br /> + +<br /> + +―Talvez. E se assim fôr, creia o sr. padre Manoel +que serei tão escrupulosa em guardar rigoroso +sigillo como v. s.<sup>a</sup> o costuma ser... +<br /> + +<br /> + +―Quer dizer com isso que escuso de tentar saber +o que ella vae confiar-lhe. +<br /> + +<br /> + +―Oh, decerto! Se ella me pedir segredo, com +certeza que o guardarei... +<br /> + +<br /> + +―N'esse caso, minha senhora, não quero fazer esperar +a sua confessada... E se o caso fôr de consciencia, +estou bem certo que v. ex.<sup>a</sup> lhe +aplacará os escrupulos +tão bem ou melhor do que o mais auctorisado +mestre de casos... +<br /> + +<br /> + +―O sr. padre Manuel é sempre demasiado lisonjeiro +para mim―replicou D. Aurelia sorrindo.―Não +tenho pretensões a arvorar-me em sacerdotisa. +Faço o +bem que posso e valho ao meu semelhante sempre que +elle precisa do meu soccorro, quer temporal quer espiritual. +<br /> + +<br /> + +―V. ex.<sup>a</sup> é inquestionavelmente uma +santa!―affirmou +o padre sahindo. +<br /> + +<br /> + +D. Aurelia passou ao quarto da doente. Ao vêl-a +entrar, a desconhecida fitou n'ella os olhos marejados +de lagrimas. +<br /> + +<br /> + +A dona da casa abeirou-se do leito. A meia obscuridade +<span class="pagenum">[380]</span> +do quarto não lhe permittia analysar as +feições +da enferma. +<br /> + +<br /> + +―Então, como está?―perguntou a irmã +de Gustavo +com voz doce e carinhosa. +<br /> + +<br /> + +―Muito obrigada, minha senhora... sinto-me +melhor―replicou a doente com voz debil. O som +d'aquella voz, porém, impressionou a dona da casa. +Parecia-lhe que já a tinha ouvido alguma vez, que o +seu timbre lhe não era estranho. +<br /> + +<br /> + +Voltou-se para a criada e disse-lhe: +<br /> + +<br /> + +―Deixe-nos sós―ordenou. +<br /> + +<br /> + +―Sim, minha senhora―replicou a criada. E +sahiu. +<br /> + +<br /> + +―Disseram-me que queria fallar-me...―interrogou +D. Aurelia com os olhos fitos na doente―Poderei +ser-lhe util em alguma cousa? +<br /> + +<br /> + +―Queria―tornou a doente―que tivesse a bondade +de abrir um pouco aquella janella e attentar no +meu rosto... +<br /> + +<br /> + +D. Aurelia satisfez o desejo á doente e ficou-se fitando-a, +sem poder reconhecel-a. +<br /> + +<br /> + +―Não me conheces, Aurelia?―balbuciou a infeliz +por entre lagrimas.―Tens razão! Estou tão mudada +que nem meu proprio pae me reconheceria, se +fosse vivo e me visse agora! +<br /> + +<br /> + +E escondendo o rosto entre as mãos, desatou n'um +choro convulso e abafado. +<br /> + +<br /> + +Como se as palavras e o choro desesperado da desditosa +lhe tivessem levado um raio de luz ao espirito, +D. Aurelia gritou n'um indescriptivel alvoroço de espanto: +<br /> + +<br /> + +―Helena de Noronha! serás tu?! +<br /> + +<br /> + +―Sou eu, minha amiga! sou esta desgraçada, rôta +e faminta, que vem receber, como supremo castigo de +seus crimes, a esmola da tua compaixão! +<br /> + +<br /> + +Estas ultimas palavras foram já proferidas nos +<span class="pagenum">[381]</span> +braços de D. Aurelia, que estreitava a sua infeliz amiga +ao coração, cobrindo-lhe o rosto de beijos e +orvalhando-lh'o +de lagrimas. +<br /> + +<br /> + +―Vamos! não chores, minha querida―disse por +fim D. Aurelia.―Quiz Deus que viesses a esta casa +que é tua e onde encontrarás a mesma amisade +sincera +de sempre. +<br /> + +<br /> + +―Obrigada... obrigada!―murmurou Helena de +Noronha―Peço-te apenas que me deixes morrer aqui, +ignorada de todos, como uma pobre mendiga que a +miseria arrojou nos ultimos momentos ao suave aconchego +do teu lar bemdito, da tua santa caridade!... +<br /> + +<br /> + +―Não, minha amiga, não! Tu viverás, +tu acharás +ainda n'esta casa, que é tua, no meu +coração +que é sempre o da tua amiga d'infancia, o conforto e +os affectos de que necessitas e de que os teus soffrimentos +te fazem tão digna. +<br /> + +<br /> + +―Sinto-me morta, minha amiga... Pouco poderei +importunar-te... Mandei-te chamar e quiz que me +reconhecesses e me ouvisses, porque não desejo levar +para a sepultura, com o remorso de tantos erros e de +tantos crimes, ainda mais este cruciante espinho de +uma ultima ingratidão... +<br /> + +<br /> + +D. Aurelia tentava socegal-a e reanimal-a com a +sua amisade, com seu carinho. +<br /> + +<br /> + +―O medico disse-me que estás melhor... Agora, +o que é indispensavel, é muito socego, muita +tranquilidade +de espirito... e o restabelecimento far-se-ha +breve e por completo. +<br /> + +<br /> + +Um sorriso de amarga tristeza vincou os labios +de Helena de Neronha. +<br /> + +<br /> + +―Para que eu me encontre aqui, na tua casa, +minha amiga, foi preciso que as forças me fugissem e +a vida estivesse proxima a abandonar este misero envolucro... +por tal modo desfigurado que nem tu mesma +o reconheceste... Não te illudas, Aurelia... eu +<span class="pagenum">[382]</span> +não poderei viver mais que alguns dias, e durante elles, +deixa que eu te confie a historia das minhas desgraças, +afim de que, ao recordal-as, tenhas ainda uma +lagrima de compaixão para a memoria da tua desditosa +e infeliz amiga d'infancia. +<br /> + +<br /> + +―Eras tu a penitente da Senhora do Porto?―interrogou +de repente D. Aurelia. +<br /> + +<br /> + +―Era! Como soubeste que eu estava alli? +<br /> + +<br /> + +―Não o soube. Alguem tinha a fundada suspeita +de que eras tu, se é que não possuia a intima +certeza... +<br /> + +<br /> + +―Esse alguem era...? +<br /> + +<br /> + +―Julio de Montarroyo... +<br /> + +<br /> + +A enferma soltou um grito. +<br /> + +<br /> + +―Ah! tu conhecel-o? Então sempre é certo que +era elle... não foi uma allucinação +dos meus sentidos? +<br /> + +<br /> + +―Não, minha amiga, não! Julio de Montarroyo, +ouvindo dizer que na Senhora do Porto apparecia alta +noite uma penitente desconhecida e que ninguem lograva +ver de dia, teve o presentimento de que essa +penitente eras tu... Partiu para a Senhora do Porto, +e alli te surprehendeu, ou antes, adivinhou-te nas trevas +da noite... +<br /> + +<br /> + +―Sim... sim... eu vi um homem encostado á +hombreira do portico, e quando eu, julgando-me só, +elevava áquella imagem, a minha fervorosa prece, ouvi +uma voz que chamava por mim. Fugi espavorida +e durante muito tempo ouvi repetir o meu nome... +E a voz que o repetia parecia-me a d'elle... +<br /> + +<br /> + +―Não te enganaste... Era elle, era Julio de +Montarroyo que te chamava. +<br /> + +<br /> + +―Como veio elle para aqui, para esta terra, que +não era a d'elle e onde não me recordo de o ter +visto +nunca, nos tempos da minha mocidade? +<br /> + +<br /> + +―Trouxe-o para aqui o coração, o desejo +ardentissimo +<span class="pagenum">[383]</span> +de se vêr rodeado de tudo o que pudesse fallar-lhe +do passado da mulher que tão infeliz e desditosamente +amou... Viver na mesma terra em que +ella viveu e foi feliz, respirar o mesmo ar que ella +respirou out'rora, amar os mesmos sitios que ella amou. +O desgraçado julga viver assim mais perto d'ella, mais +identificado com o pensamento e com as saudades da +mulher que foi toda a sua esperança e que é todo +o seu +martyrio. «É impossivel―disse-me elle um dia―que +ella algumas vezes não pense com saudade n'estes +sitios, que foram o berço da sua infancia descuidosa e +feliz. E n'esses instantes de dolorosa +recordação, consola-me +a ideia de que os nossos pensamentos se unem +no mesmo objecto, através a distancia que os +separa». +<br /> + +<br /> + +Helena de Noronha chorava silenciosamente, apertando +com ambas as mãos o coração, que +parecia querer +saltar-lhe fóra do peito. +<br /> + +<br /> + +D. Aurelia proseguiu: +<br /> + +<br /> + +―Assim, o desditoso adquiriu por todo o preço a +casa que foi de teu pae,―que foi tua,―e n'ella vive, +ou antes n'ella vae morrendo lentamente, ralado +de dôr e de saudade... +<br /> + +<br /> + +―Meu Deus! quantas victimas eu fiz!―bradou +Helena de Noronha angustiadamente, estorcendo-se +n'uma dôr incomportavel. +<br /> + +<br /> + +―Vamos, minha amiga!―tornou-lhe D. Aurelia, +querendo confortal-a.―Quiz Deus que viesses ainda +a tempo de reparar o mal que fizeste áquelle +desgraçado. +A maior felicidade para elle será o tornar a encontrar-te. +<br /> + +<br /> + +―Ah! não! não!―bradou Helena de Noronha, +pondo as mãos supplicante:―Pelo amor de Deus, por +tudo quanto mais tens amado n'este mundo, não lhe +digas que eu estou aqui!... Morreria de vergonha, +se me encontrasse na sua presença... Eu não sou +digna +<span class="pagenum">[384]</span> +d'elle... Deixa-me morrer ignorada de todos, minha +querida Aurelia! +<br /> + +<br /> + +A infeliz arfava afflictivamente, pondo na amiga +os olhos turvos de lagrimas. +<br /> + +<br /> + +―Morrer! Não falles em morrer, minha amiga... +Cobra alento e pensa que a tua vida é ainda precisa, +porque pódes ser util a alguem. Julio de Montarroyo +ama-te com um amor que só as almas essencialmente +delicadas conhecem e avaliam. Desde que te viu e reconheceu +na Senhora do Porto, sem poder fallar-te, +porque lhe fugiste, cahiu prostrado no leito por febre +intensa, e ahi agonisa, apenas animado da esperança +de poder ainda encontrar-te. Todas as noites tem sido +enviado, por sua ordem, um homem á Senhora do +Porto, a vêr se póde lobrigar-te e seguirte de +longe +até ao sitio onde costumavas occultar-te de dia. E cada +manhã que o vigia regressa sem dar novas da penitente, +é para elle uma cruel angustia que o approxima da +sepultura. Quererás tu condemnar á morte uma vida +que tão nobre e desinteressadamente se te devotou? +Se está na tua mão minorar tamanho soffrimento, +se +com a tua presença pódes fazer voltar a +felicidade +ao coração d'aquelle desgraçado e +banhar de luz e +de alegria os ultimos dias d'aquella existencia amargurada, +porque o não has de fazer? +<br /> + +<br /> + +―Oh! não! não! É impossivel! Eu estou +condemnada, +minha amiga! Existencia maldita foi a +minha em que, sem o querer, e guiada, por um genio +infernal, só pude semear a dôr, a +desolação e a morte +em toda a parte por onde passei!... Se tu soubesses +que horroroso pélago de crimes, de atrocidades +e de infamias tenho atravessado desde que, filha ingrata, +abandonei a casa de meu pobre pae, repelir-me-hias +com asco e nojo! Não! não! eu não +posso +mais aproximar-me de quem quer que seja sem que +o meu halito pestilencial o envenene, sem que o contacto +<span class="pagenum">[385]</span> +impuro das minhas mãos, manchadas de sangue +e de crimes, deixem em tudo o que tocam uma nodoa +indelevel de corrupção e de infamia!... Oh! o +miseravel! +O maldito persegue-me sempre com o seu olhar +de fogo, que me abrasa... com o seu infernal sorriso +de demonio, percuciente como um punhal... corrosivo +como um veneno! Oh! vêl-o?... vêl-o? Lá +está elle, +envolto na sua negra sotaina esfarrapada... as faces +congestionadas... a bocca espumante de raiva... e +os olhos, como carbunculos, sempre fitos em mim!... +Desprende-se da cruz... estende para mim as garras... +Oh! salva-me! salva-me! +<br /> + +<br /> + +E n'um estranho accesso de delirio, Helena de +Noronha agarrou-se convulsivamente á sua amiga, +tombando em seguida sobre o leito, sem sentidos... +<br /> + +<br /> + +Apavorada e attonita, D. Aurelia mandou immediatamente +chamar o medico, a quem contou que a +doente, commovida com o caridoso acolhimento que +lhe dispensara, proferira algumas palavras de agradecimento +e cahira em deliquio. +<br /> + +<br /> + +O doutor observou a enferma e attribuiu o accidente +ao seu estado de extrema fraqueza. +<br /> + +<br /> + +―Devêmos evitar a menor commoção, o +menor +abalo―disse elle. +<br /> + +<br /> + +Tres dias esteve Helena entre a vida e a morte, +de tal modo fôra violento o abalo produzido pelas +revelações +que lhe fizera a sua amiga. +<br /> + +<br /> + +A ideia de que Julio de Montarroyo estava alli a +dois passos, vivendo na mesma terra, habitando a casa +que fôra d'ella e sempre alimentando-se das +recordações +de um amor impossivel, sem remedio e sem esperança, +matava-a. +<br /> + +<br /> + +A pobre filha de Norberto de Noronha tremia só +com a lembrança de que havia de supportar os olhares +de Julio, tão franco, tão leal, tão +amante e apaixonado +e tão cruelmente illudido e ludibriado nos seus amores. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[386]</span> +Porque não lhe teria ella confessado francamente +a sua situação, a sua desgraça, a sua +queda irremediavel, +quando no Sardão o mancebo lhe implorava de +mãos postas que salvasse seu velho pae e confiasse +no puro e desinteressado amor fraternal que lhe offerecia? +<br /> + +<br /> + +Não quiz. Receou confessar-se indigna do nobre +affecto que aquelle coração lhe tributava. E +comtudo, +n'esse tempo, ainda ella não passava de uma victima +innocente, sem sombra de culpa, immolada á torpeza +jesuitica. Como poderia ter coragem para se lhe apresentar +agora, quando já não era só uma +desgraçada +a quem ludibriaram desfolhando-lhe a sua corôa de innocencia, +mas tambem um sêr ascoroso e repugnante, +manchado por toda a especie de crimes, semeando +desolação +e morte por toda a parte? +<br /> + +<br /> + +Filha, ingrata e desobediente, occasionara a morte +de seu pae. Mulher, leviana e perversa, lançara-se +imbecilmente nos braços de um monstro de sotaina, +sacrificando o coração e a vida de seu primo, que +a +adorava, e deixando que, na embriaguez de um mysticismo +absurdo, abusassem da sua innocencia e a +convertessem na incestuosa e infame barregã de um +jesuita. Mãe, abandonara seu filho, repudiara-o cruelmente +e, peor que as feras, relegara-o á fome, á +miseria +e á morte talvez. Amada sinceramente por Julio +de Montarroyo, mentira-lhe, ludibriara-o, lançara +aquella alma no desespero, na tortura de todas as +horas. +<br /> + +<br /> + +Adorada com louco frenesi pelo padre Hilario, convertera +essa paixão n'um instrumento de morte. Fizera +d'elle um parricida e ella propia manchára as +mãos no sangue de um assassinio cobarde, embora justificado +pelas monstruosas infamias e torpesas de que +o miseravel a fizera alvo. Mas um crime não auctorisa +outro e, seja qual fôr o sentimento que o dite, o +<span class="pagenum">[387]</span> +remorso entra sempre mais tarde ou mais cedo no +coração +do criminoso. +<br /> + +<br /> + +Helena de Noronha, pois, debatia-se nas angustiosas +recordações de tantos crimes e reconhecendo-se +perdida para a rehabilitação n'este mundo, pedia +a +Deus, como suprema esmola, a morte, embora esta +fosse seguida da condemnação eterna para a sua +alma. +<br /> + +<br /> + +As penas do inferno pensava ella que não podiam +ser-lhe mais tormentosas e afflictivas do que o peso +d'esta existencia amaldiçoada que arrastava havia +já +dezeseis annos. +<br /> + +<br /> + +Ao fim do terceiro dia, chamou junto do leito a sua +amiga. +<br /> + +<br /> + +―Aurelia―disse-lhe ella―tu não sabes a grande +desgraçada que acolhes em tua casa e a quem nos +ultimos dias da sua tormentosa existencia dás a esmola +da tua compaixão. +<br /> + +<br /> + +―Helena!―volveu-lhe a irmã de Gustavo―peço-te +que não voltes a atormentar-te com as +recordações +do passado. Fui tua amiga e tua companheira +de infancia, e se isto merece recompensa, dá-me ao +menos a consolação de te poder chamar minha +irmã. +<br /> + +<br /> + +―Sim, minha boa e santa amiga! Acceito reconhecida +os thesouros da tua bondade nas curtas horas que +me restam de vida... É isso um signal evidente de +que Deus se amerceia de mim e tem em conta as lagrimas +e o arrependimento de tantos crimes... +<br /> + +<br /> + +―Helena! socega, minha irmã... Tem esperança +na misericordia divina que ha de ainda conceder-te +dias venturosos. +<br /> + +<br /> + +―Fazes-me um favor que te peço, Aurelia? +<br /> + +<br /> + +―Dize, filha! Tu mandas n'esta casa, não pedes. +<br /> + +<br /> + +―Desejava que enviasses alguem ao Porto, a saber +se no convento do Sardão ou no das Sereias existe +ainda ―Desejava que enviasses alguem ao Porto, a saber +se no convento do Sardão ou no das Sereias existe +ainda uma superiora chamada Madre Paula... E se +ella existir, que lhe entreguem uma carta minha... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[388]</span> ―Madre Paula!―replicou Aurelia―Existe, minha +amiga, sei que existe. +<br /> + +<br /> + +―Como o sabes?―interrogou alvoroçadamente +Helena de Noronha. +<br /> + +<br /> + +―Porque Julio teve tambem interesse em o saber +e mandou ao Porto informar-se um homem de sua +confiança, o mesmo que te encontrou desfallecida na +estrada e que aqui te conduziu. +<br /> + +<br /> + +―E esse homem viu-a, fallou-lhe? +<br /> + +<br /> + +―Fallou. +<br /> + +<br /> + +―Serás capaz de fazer com que elle volte a procural-a, +minha amiga? +<br /> + +<br /> + +―Porque não!? +<br /> + +<br /> + +Fez-se um instante de silencio. +<br /> + +<br /> + +―Esse homem sabe quem eu sou? Conheceu-me? +<br /> + +<br /> + +―Não. Todos aqui, excepto eu, ignoram o teu +nome. +<br /> + +<br /> + +―Não o digas a ninguem, por ora. +<br /> + +<br /> + +―Socega. Cumprirei a tua vontade. +<br /> + +<br /> + +Helena de Noronha pediu papel o penna, e escreveu +algumas linhas, que fechou em seguida n'um +<em>enveloppe</em>. +<br /> + +<br /> + +―Que parta sem perda de tempo!―disse ella, +entregando a carta a D. Aurelia―Desejo que a resposta +me encontre viva. +<br /> + +<br /> + +O <em>Tomba</em> partiu n'essa mesma noite +para o Porto. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[389]</span> +<h3><a name="c25"></a>XXV<br /> + +<br /> + +Pobre Helena! +</h3> + +<br /> + +<br /> + +Julio de Montarroyo melhorara um pouco da febre +intensa que o acommettera. O restabelecimento, porém, +fazia-se tão lentamente, o seu estado de fraqueza era +tal, que o medico prohibira-lhe que sahisse do quarto +e recommendava-lhe insistentemente que se abstivesse +de longas conversas com quem quer que fosse. +<br /> + +<br /> + +Todavia, o <em>Tomba</em> lograra fallar-lhe +e informal-o +de que madre Paula era viva e podia ser encontrada +no Porto. +<br /> + +<br /> + +―Fallou-lhe, mestre <em>Tomba</em>? +<br /> + +<br /> + +―Fallei, snr. Julinho... saberá vossa incellencia +que fallei... Fui ás Sereias +<em>préscural-a</em> e +não estava +lá... Mas eu taes intrujices armei, que me mandaram +ó Carvalhido ter co'ella... E está ainda fresca +que +nem parece a edade que tem... Aquellas bochechas +não se criam só com <em>auga +benta</em>, essa lhe juro eu!―commentou +o sapateiro. +<br /> + +<br /> + +―Fallou-lhe de Helena de Noronha? +<br /> + +<br /> + +―A esse respeito nem pio... Tive medo que ella +soubesse ó que eu lá ia e se espantasse... Nada! +Eu +<em>infingi</em> que ia de mando da prima de +vossa <em>incellencia</em>, +a snr.<sup>a</sup> D. Lucilinha de Villaverde... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[390]</span> ―Ah! +<br /> + +<br /> + +―Ella ficou toda <em>estifeita</em> e +tratou-me com muito +bô agrado, mas a respeito de comer e beber... nem +<em>burro queres tu auga</em>?! Eu +támem não precisava―accrescentou―e +indas que ella me offerecesse, não era +o filho do meu pae que acceitava... Emquanto me +lembrar a arriosca que me armaram no Sardão, não +cômo nada da mão dos frades e das freiras nem que +me matem... P'ra lição, bonda uma vez... Mas +ó +menos queria que ella tivesse um migalho de cortezia +commigo... +<br /> + +<br /> + +Julio ficou silencioso sem parecer ligar importancia +aos queixumes do sapateiro escandalizado. +<br /> + +<br /> + +―Precisava de ir ao Porto para lhe fallar. Mas +estou tão fraco, tão abatido, que não +posso por emquanto +fazer a viagem―murmurou. +<br /> + +<br /> + +―Mas o snr. Julinho queria ir ao Porto para fallar +co'ella? +<br /> + +<br /> + +―Sim... unicamente para fallar com ella... +<br /> + +<br /> + +―Mas, o snr. Julinho, porque não lhe escreve uma +carta, que eu levo-lh'a? +<br /> + +<br /> + +―O que desejo dizer-lhe não é coisa que se +escreva +em carta... +<br /> + +<br /> + +―Deixe lá! O preto no branco falla como gente... +Sendo uma carta bem notada e com quatro cantigas +que lhe eu cante, a mulher responde... +<br /> + +<br /> + +―Não, não... É preciso ir eu... +<br /> + +<br /> + +O <em>Tomba</em> encolheu os hombros, n'um +protesto +mudo e disse por fim: +<br /> + +<br /> + +―O snr. Julinho lá fará como entender... Eu +cá +estou p'ró que fizer +<em>minga</em>. E se vê que +é coisa que +não se póde arranjar sem vossa +<em>incellencia</em> lá ir, sabe +o que lhe eu digo? Coma e beba, bote as paixões p'ra +traz das costas, que co'ellas ninguem medra, ponha-se +rijo e teso, que a freira faz o mesmo, e ella lá +está +á espera... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[391]</span> ―Vá, vá, mestre +<em>Tomba</em>―despediu Julio.―Deixe-se +andar por ahi, que póde ser-me preciso de um +momento para o outro... +<br /> + +<br /> + +―Eu cá estou, sr. Julinho... Os amigos são +p'rás +<em>incasiões</em>... +<br /> + +<br /> + +E sahindo dos aposentos do doente: +<br /> + +<br /> + +―Este, se não trata de metter p'ró bucho alguma +coisinha de sustancia, está aqui, está prompto... +E +foi o ladrão do padre +<em>Inxelmo</em> que o pôz +assim!... +<br /> + +<br /> + +De repente bateu na testa, exclamando: +<br /> + +<br /> + +―Ai, a minha cabeça! E eu que não lhe dei +novidades +d'aquelle ladrão! +<br /> + +<br /> + +Voltou atraz, bateu á porta do quarto e perguntou: +<br /> + +<br /> + +―Dá licença, snr. Julinho? +<br /> + +<br /> + +―Entre, mestre <em>Tomba</em>―respondeu o +enfermo, +da cadeira em que se achava sentado. +<br /> + +<br /> + +―Trazia no sentido p'ra lhe dizer que a respeito +de padre <em>Inxelmo</em>, é +raça de patife de que ninguem me +soube dar relações... +<br /> + +<br /> + +―Já sei... já sei que esse homem ha muito que +não reside no Porto―volveu Julio com um fundo suspiro. +<br /> + +<br /> + +―Pois eu ia com meu receio de o topar lá por +aquellas casas de <em>santidade</em>―disse o +sapateiro, grifando +a palavra com um sorriso―Que eu, se o apanhasse +na rua, era <em>home</em> p'ra lhe rachar a +corôa de +meio a meio, como quem racha cinco tostões falsos... +Mas lá dentro da <em>seve de +pedreiro</em> é que eu não queria +topal-o... Ninguem me deu noticias d'elle. +<br /> + +<br /> + +―É natural―respondeu Julio. +<br /> + +<br /> + +O sapateiro retirou desconsolado pela pouca importancia +que Julio dera á descoberta. +<br /> + +<br /> + +―Parece que já não se importa muito com o +padre...―resmungou―<em>Támem</em>, +n'aquelle estado, ainda +que o visse e lhe quizesse chegar duas +<em>galhetas</em>, não +podia... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[392]</span> +Quando o medico soube que o <em>Tomba</em> se +demorára +em conferencia com o doente, exasperou-se e ameaçou +de não voltar a receitar, se não fosse obedecido. +<br /> + +<br /> + +É que notára no enfermo um novo accesso de febre. +<br /> + +<br /> + +Julio mostrou-se indifferente aos preceitos do doutor. +<br /> + +<br /> + +―Era um favor―dizia elle―deixar que a doença +acabasse com isto!... +<br /> + +<br /> + +Passaram ainda uns dias, e o <em>Tomba</em> +faroleiro e +mettidiço, não podendo ser admittido á +presença de Julio, +vingava-se indo para casa de D. Aurelia, a informar-se +do estado da <em>probesinha</em>. Quando D. +Aurelia +o incumbiu de levar ao Porto uma nova carta a madre +Paula, o sapateiro não pôde ter-se e, +transgredindo os +preceitos do medico, foi ter com Julio. +<br /> + +<br /> + +―O sr. Julinho quer alguma coisa para madre +Paula?―perguntou. +<br /> + +<br /> + +―Porque? Vae fallar com ella? +<br /> + +<br /> + +―Não, senhor... É que eu vou ao Porto fazer +umas mercas p'rá senhora D. Aurelia, e se vossa +<em>incellencia</em> +quizesse, eu, de caminho, levava qualquer +recado para Madre Paula. +<br /> + +<br /> + +Julio ficou pensativo. +<br /> + +<br /> + +―Não... não quero nada―disse por fim―Tenho +immenso desejo de fallar com ella; mas não posso pedir-lhe +que venha do Porto aqui, ouvir-me. Alem de +indelicado, seria inutil o pedido, tanto mais que o que +tenho a dizer-lhe representa antes uma impertinencia +da minha parte do que um serviço a prestar-lhe... +<br /> + +<br /> + +E dizendo isto, Julio cruzou os braços e deixou +descahir desalentado a cabeça sobre o peito. +<br /> + +<br /> + +O sapateiro encarou-o com olhos compadecidos, e +depois rompendo na sua natural expansibilidade, exclamou: +<br /> + +<br /> + +―<em>Ameno</em>, sr. Julinho! O que +não se faz em dia +<span class="pagenum">[393]</span> +de Santa Luzia faz-se ao oitro dia... O sr. Julinho +inda ha-de ter pernas p'ro levarem aonde quer ir... +Mais velho sou eu, que já cá tenho +<em>acaijo</em> carro e +meio d'annos, e inda, sendo preciso, vou d'aqui ó cabo +do mundo a pé... +<br /> + +<br /> + +E concluindo: +<br /> + +<br /> + +―E se fosse causo que eu fallasse co'a tal freira +e a <em>arresolvesse</em> a vir por ahi +arriba, assim como coisa +minha? +<br /> + +<br /> + +―Como é que você havia de fazer isso, mestre +<em>Tomba</em>?―interrompeu Julio com um +sorriso de quem +achava disparatada a hypothese do sapateiro. +<br /> + +<br /> + +―Como? Isso agora não sei eu... Mas se fosse +eu que lhe pedisse como coisa minha... sem lhe dizer +quem é que lhe quer fallar... A mim, já se sabe, +que não me fica mal pedir uma coisa que não seja +assim +lá muito de grande inducação... Eu sou +p'rá aqui +um <em>probe</em> sapateiro, fazem +á de conta que eu não sei +o que digo... e ás vezes pegam as bichas. +<br /> + +<br /> + +―Não, não, mestre +<em>Tomba</em>, não pense n'isso, +que +é uma coisa que não pode fazer-se... +<br /> + +<br /> + +―Está bô! Vossa +<em>incellencia</em> que o diz, lá +sabe a +<em>rezão</em> porquê... +<br /> + +<br /> + +O <em>Tomba</em> partiu para o Porto muito +resolvido a +envidar todos os esforços para conseguir que madre +Paula visitasse Julio de Montarroyo. +<br /> + +<br /> + +―Eu armo-lhe uma intrujice e ella cae logo―pensava +elle.―Entrego-lhe a carta da snr.<sup>a</sup> D. Aurelia +e logo vejo na cara os <em>himores</em> de +que ella fica... +Estas freiras são amigas de saber e de tirar nabos +do pucaro... e eu a paginas tantas ferro-lhe com a +pêta de que a Lucilinha está muito mal e que lhe +manda pedir de bocca―porque não póde +escrever―se +ella faz o favor e a esmola de a ir visitar, porque +tem umas coisas de muita importancia a dizer-lhe e +não queria morrer sem a vêr alli ó par +d'ella... A +<span class="pagenum">[394]</span> +freira vem, e eu, em vez de a levar p'ra Villaverde, +ferro com ella em S. Martinho do Campo... Depois +digo que me enganei no caminho e passe por lá muito +bem... +<br /> + +<br /> + +E contente d'esta esperteza, o <em>Tomba</em> +achava impossivel +que a sua lembrança não produzisse resultado. +<br /> + +<br /> + +―Coitado do snr. Julinho, que está p'ra alli, que +é mesmo uma dôr de coração, +morto por desabafar, e +não vê meio de fallar c'oa madre Paula, +senão indo +elle aonde a ella... Pois vamos a vêr se eu tenho +labia p'rá trazer cá... Ella inda está +bem rija e fera, +póde melhor andar do que elle... Ora deixa que +eu sempre quero vêr se uma coisa que se me mette +em cabeça hade ficar assim em +<em>augas</em> de bacalhau! +<br /> + +<br /> + +Chegado ao Porto, o <em>Tomba</em> +encaminhou-se á Bandeirinha, +bateu á porta da casa conventual das Sereias, +e pediu para fallar a madre Paula. +<br /> + +<br /> + +A madre porteira informou-o de que a superiora +estava no campo, a ares; e que não era esperada +ainda por aquelles dias... +<br /> + +<br /> + +Atravessou a cidade em direcção ao Carvalhido +onde já fallára com a madre Paula dias antes, e +disse +ao criado que veio abrir-lhe a porta: +<br /> + +<br /> + +―Faça favor de dizer áquella senhora com quem +fallei oitro dia que está aqui o homem de Villaverde +com uma carta para ella. +<br /> + +<br /> + +O criado foi e voltou pouco depois. +<br /> + +<br /> + +Na mesma sala em que já fôra recebido uma vez, +estava madre Paula. O sapateiro reconheceu-a o cumprimentou-a +festivo e humilde, com grande profusão +de zumbaias. +<br /> + +<br /> + +―Ora atão vossa reverendissima e incellentissima +madre como passou? Passou bem? +<br /> + +<br /> + +―Obrigada, passei bem―respondeu madre Paula +com risonho semblante. +<br /> + +<br /> + +―Pois eu támem passei bem, muito aguardecido +<span class="pagenum">[395]</span> +á senhora... A menina de Villaverde manda muitas +<em>bugitas</em> á senhora madre e +mais esta cartinha... +<br /> + +<br /> + +E entregou-lhe a carta de que era portador. Madre +Paula abriu-a e com grande surpresa leu:<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="signature">«<em>Minha querida +Paula</em>:</div> + +<br /> + +<br /> + +«Lembras-te ainda d'aquella desgraçada +<em>irmã Dorothêa</em> +que no seculo se chamou Helena de Noronha? +Se da tua memoria não se deliu ainda o nome da tua +pobre amiga e desejas receber d'ella o supremo adeus, +vem depressa, antes que a morte lhe gele nos labios +as revelações que deseja fazer-te e que +só tu poderás +receber. +<br /> + +<br /> + +Não te demores, minha querida! Sinto que a vida +me foge, e, se não vens immediatamente, receio bem +que apenas possas abraçar o cadaver da +<br /> + +<br /> + +<div class="signature">Tua<br /> + +<em>Helena</em>.» +</div> + +<br /> + +<br /> + +―Minha pobre Helena!―murmurou attonita madre +Paula, fixando na carta os olhos turvos de lagrimas. +<br /> + +<br /> + +E voltando-se para o sapateiro: +<br /> + +<br /> + +―Onde está ella?―perguntou. +<br /> + +<br /> + +―Quem? A menina de Villaverde? Está em S. +Martinho de Campo, que é alli adiante da Povoa de +Lanhoso...―principiou o <em>Tomba</em>, +pondo em prática +o seu plano de arrastar a religiosa á presença de +Julio.―Ella deu-me essa carta muito afflicta p'rá +vir trazer á senhora madre, porque ella foi p'ra +lá +tratar de uma <em>probe</em> senhora que +está lá a morrer... +E <em>díxe-me</em> de +bôcca: «Diga á madre Paula―e senhora +na <em>presencia</em>―que lhe mando pedir se +ella me póde +<span class="pagenum">[396]</span> +fazer o favor de cá vir fallar commigo, que eu pago +todas as despezas de <em>camboio</em> e de +carro p'ra cá e p'ra +lá, que é um negocio de muita circumstancia e +de muito interesse p'rá santa religião, o que lhe +eu +quero dizer... Agora a senhora madre lá verá... +Mas ella <em>dixe-me</em> isto co'uma cara +tão afflicta, que eu +inté lhe dixe:―<em>Esteje</em> +descançada, menina, não se +<em>affleija</em>, que a snr.<sup>a</sup> madre +Paula +não tem <em>caratle</em> de +dezer que não a uma coisa d'essas...» +<br /> + +<br /> + +―Sim... sim, eu vou!―exclamou madre Paula +sensibiliaada―A que horas temos comboio? +<br /> + +<br /> + +―Temos agora ahi um da tarde, depois das quatro +horas... Se a senhora madre quizer, inda hoje +chegamos lá, porque a gente vae d'aqui +<em>dereito</em> a Guimarães +e de lá mette-se n'um carro, vamos pelas Taypas +e quando forem oito ou nove horas da noite, estamos +lá... +<br /> + +<br /> + +―Pois bem; vocemecê demore-se. Eu vou mandar +que lhe deem de comer e... +<br /> + +<br /> + +―Comer? Nada, minha senhora! Muito aguardecido, +mas á minha bocca é que não vae nada, +seja +pelo que fôr!―interrompeu o +<em>Tomba</em> horrorisado, ao +lembrar-se da cilada do Sardão. +<br /> + +<br /> + +―Porque? Vocemecê jantou? +<br /> + +<br /> + +―Não, minha senhora... eu cá não +jantei nem +janto... É costume que não tenho... já +estou desafeito... +<br /> + +<br /> + +―O que! está desafeito de comer!? +<br /> + +<br /> + +―Quero dezer, minha senhora, eu jejuo... É +uma <em>promessia</em> que fiz de jejuar dia +sim, dia não... +e hoje é o dia do sim... +<br /> + +<br /> + +Madre Paula, muito preoccupada com a extraordinaria +carta que acabava de receber, não prestou +attenção á estranha physionomia do +sapateiro recusando +a refeição que se lhe offerecia. +<br /> + +<br /> + +―Pois então, se jejua, +não q―Pois então, se jejua, +não quebre o seu jejum, meu +<span class="pagenum">[397]</span> +irmão. Mas tem de esperar que eu me aprompte para +a partida... +<br /> + +<br /> + +―Ó reverendissima madre, eu espero o tempo +que fôr preciso... Lá p'rá amor d'isso, +não seja a +duvida. +<br /> + +<br /> + +―Sente-se então ahi ou vá +até lá fóra, á quinta.... +Como quizer. +<br /> + +<br /> + +Dito, isto Madre Paula dirigiu-se a uma sala interior +onde se encontrava o padre Filippe conversando +familiarmente com Paulo de Noronha e Jorge de Gusmão. +<br /> + +<br /> + +―Sr. Padre Filippe―pediu ella―vossa reverendissima +faz-me a fineza de me conceder alguns minutos +de attenção em particular? +<br /> + +<br /> + +―Pois não, minha senhora!―respondeu o padre +gentilmente. +<br /> + +<br /> + +Paulo e Jorge levantaram-se. +<br /> + +<br /> + +―Dêem-me licença, meus amigos―disse-lhes a +abbadessa―que lhes roube por um curto instante a +interessante conversa do snr. padre Filippe. +<br /> + +<br /> + +E dirigindo-se a Paulo: +<br /> + +<br /> + +―Vae, meu filho, vae até á bibliotheca com o teu +amigo a quem pedirás desculpa da minha impertinencia... +<br /> + +<br /> + +Quando os dois sahiram, madre Paula, voltando-se +para o Padre Filippe, exclamou: +<br /> + +<br /> + +―Helena de Noronha, a <em>irmã +Dorotheia</em>, vive +ainda! +<br /> + +<br /> + +―Como o sabes?―perguntou o padre Filippe surprehendido. +<br /> + +<br /> + +―Lê! +<br /> + +<br /> + +E apresentou-lhe a carta de Helena. +<br /> + +<br /> + +O padre Filippe leu, examinou detidamente a carta +e disse: +<br /> + +<br /> + +―É a letra d'ella! +<br /> + +<br /> + +―É, não ha duvida... Minha pobre Helena! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[398]</span> ―E o que tencionas fazer? +<br /> + +<br /> + +―O portador está lá fóra... E, pois +que ella está +a morrer, quero pedir-te, meu bom amigo, que me +acompanhes a ir visital-a... +<br /> + +<br /> + +O padre Filippe, com a despreoccupada bondade +que lhe era natural, respondeu sem hesitar: +<br /> + +<br /> + +―Do melhor grado te acompanharei, minha querida +Paula. Quando queres partir? +<br /> + +<br /> + +―Hoje mesmo. +<br /> + +<br /> + +―Porém, Beatriz?... +<br /> + +<br /> + +―Beatriz ficará em companhia de madre Angelica +das Sete Dores, que é, como sabes, austera e de +são +conselho. +<br /> + +<br /> + +―Pois sim. +<br /> + +<br /> + +―Vou mandal-a chamar já e dar-lhe as +instrucções +precisas... De resto, a nossa demora será curta, +porque a pobre Helena acha-se moribunda, como ella +propria o diz... +<br /> + +<br /> + +―Convem prevenir Paulo da nossa ausencia e +pedir-lhe que se abstenha de vir visitar Beatriz emquanto +nós não regressarmos... +<br /> + +<br /> + +Madre Paula sorriu. +<br /> + +<br /> + +―E porque não ha de vir? +<br /> + +<br /> + +―É preciso confiarmos nos sentimentos de nobre +lealdade d'esse rapaz, e não o prevertermos com a +suspeita que uma tal prohibição traduziria... +<br /> + +<br /> + +―Dizes bem. +<br /> + +<br /> + +―Minha pobre Helena! Que mysteriosa cadeia +de soffrimentos a conduziu até ao leito de morte +d'onde agora me chama na agonia do traspasse? +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[399]</span> +<h3><a name="c26"></a>XXVI<br /> + +<br /> + +Um amigo dos diabos +</h3> + +<br /> + +<br /> + +Na tarde d'esse dia, madre Paula e padre Filippe, +convenientemente disfarçados sob os trajes seculares +e guiados por mestre <em>Tomba</em>, tomavam +na estação do +Pinheiro, em Campanhã, bilhetes para Guimarães, +por ser o caminho que mais rapidamente os levaria a +S. Martinho de Campo. +<br /> + +<br /> + +O sapateiro, persuadido de que fôra elle quem +conseguira resolver a superiora das Sereias a esta +viagem, pois ignorava inteiramente o conthéudo da +carta de que fora portador, ia radiante e vaidoso da +sua astucia. +<br /> + +<br /> + +A principio observou com desgosto e desconfiança +o padre Filippe, em quem suspeitava um segundo tomo +do padre Anselmo. Essa suspeita, porém, em +breve se lhe desvaneceu, em presença da attitude +lhana e amavel do secerdote. +<br /> + +<br /> + +―Este parece que é vinho d'outra pipa!―commentou +comsigo o sapateiro―Mas +<em>támem</em> se o não +fôr, +o que eu quero é lá pilhal-o, porque, depois, +quem +manda é o sr. Julinho e mais eu... E se se fizer fino, +lá ainda ha de haver quem lhe troque a corôa +em mindos p'ra lhe metter juizo á força na +cachola... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[400]</span> +Passadas as primeiras estações, o sapateiro +tornou-se +loquaz e palrador. Dando largas ao seu genio +communicativo e alegre, ia dando informações pelo +caminho aos seus dois companheiros. Conhecia todas +as propriedades e nomeava-lhes os donos pelo nome. +Este era muito <em>bô</em> sujeito; +aquelle <em>támem</em> +não era +mau, mas andava em demanda com os cunhados á +conta das partilhas por morte da sogra. Emfim, elle +conhecia toda a gente e de tudo dava relação +exacta +e minuciosa. +<br /> + +<br /> + +Quando chegaram a Guimarães, o +<em>Tomba</em> perguntou +se queriam descançar um pouco no +<em>hotle</em> ou se +queriam seguir logo para S. Martinho. +<br /> + +<br /> + +―É muito longe d'aqui lá?―? perguntou o padre +Filippe. +<br /> + +<br /> + +―É alli logo <em>adiente</em> das +Taypas... Se o cocheiro +bater bem, chegamos lá em tres horas. +<br /> + +<br /> + +―Então é melhor que partamos já. +<br /> + +<br /> + +O <em>Tomba</em>, solicito, fretou um carro +em que entraram +os tres, com recommendação ao cocheiro de que +urgia chegar breve. +<br /> + +<br /> + +Ás 9 horas da noite, o carro parava á porta de +Julio de Montarroyo. +<br /> + +<br /> + +O <em>Tomba</em>, sempre movido do pensamento +de surprehender +agradavelmente o seu amigo e protector +apresentando-lhe madre Paula em casa quando elle +menos o esperava, em vez de parar á porta de D. +Aurelia, guiou os seus companheiros para a antiga +casa de Norberto de Noronha. +<br /> + +<br /> + +O sapateiro introduziu madre Paula e o padre Filippe +na primeira sala, pedindo-lhes que se demorassem, +que elle ia dár parte á senhora. E quasi sem +esperar +resposta e desrespeitando todas as prescripções +medicas, +entrou impetuosamente no quarto de Julio de +Montarroyo, exclamando: +<br /> + +<br /> + +―Ora, sr. Julinho, os amigos conhecem-se nas +<span class="pagenum">[401]</span> +<em>incasiões</em>, e o +<em>Tomba</em>, com um raio de diabos! p'ra +servir um amigo é capaz de dar uma volta no inferno! +Cá está ella! +<br /> + +<br /> + +―Ella, quem?―interrogou Julio de Montarroyo. +<br /> + +<br /> + +―A madre Paula, com seiscentos livros de missa! +<br /> + +<br /> + +Julio de Montarroyo encarou espantado no sapateiro, +suspeitando que elle tivesse endoidecido. +<br /> + +<br /> + +―Mas está onde, mestre?―perguntou. +<br /> + +<br /> + +―Alli fóra, sr. Julinho, alli fóra na sala... +Vem +acompanhada com um padréca, mas não tem +<em>duveda</em>... +Quer que os mande entrar p'ra aqui? +<br /> + +<br /> + +―Você falla serio, mestre Tomba? +<br /> + +<br /> + +―Ó sr. Julinho, isso não são coisas +que vossa <em>incellencia</em> +me diga a mim na minha cara!―exclamou +o sapateiro escandalisado―Pois eu ando por lá a dar +voltas ao miolo p'ra lh'a trazer,―que suei e tornei a +suar primeiro que a <em>arresolvesse</em>―e +o snr. Julinho, +chego aqui, e não me quer +<em>acuarditar</em>?! Eu serei capaz +de lhe <em>dezer</em> uma coisa por oitra, +sr. Julinho? +<br /> + +<br /> + +―Está bem, mestre...―tornou Julio―Não vale +a pena zangar. Eu vou immediatamente cumprimentar +essa senhora... +<br /> + +<br /> + +―Olhe lá, ó sr. Julinho―observou o sapateiro +detendo-o quando elle ia já a transpôr a porta do +quarto―eu enganei-a! +<br /> + +<br /> + +―Enganou-a? +<br /> + +<br /> + +―Disse-lhe que estava cá a <em>irmã +Dorotheia</em>, muito +doente e que lhe mandava pedir p'ra ella cá vir +vê-a... Ora agora, o sr. Julinho arranje lá as +coisas +de modo que não me deixe ficar por mentiroso... +<br /> + +<br /> + +―Você está doido, mestre? Como quer que eu +sustente essa mentira, se Helena não está aqui +nem +eu tenho noticias d'ella? +<br /> + +<br /> + +―Não sei, sr. Julinho... Diga-lhe que ella já +morreu e que se enterrou <em>honte</em> +á noite... Eu cá por +mentiroso é que +á noite... Eu cá por +mentiroso é que não hei-de ficar, +senão ellas, em me +<span class="pagenum">[402]</span> +apanhando lá outra vez, são capazes de me dar uma +coça... +<br /> + +<br /> + +―Descance, mestre; eu vou fallar com madre +Paula. +<br /> + +<br /> + +E deixando o sapateiro, entrou na sala onde se +encontravam a religiosa e o seu companheiro. +<br /> + +<br /> + +Padre Filippe, que o não conhecia, limitou-se a +observal-o com curiosidade. +<br /> + +<br /> + +―V. ex.<sup>a</sup> certamente não reconhece +n'este velho +o moço que ha desoito annos teve a honra de admirar +na gentil superiora do Sardão uma das mais austeras +religiosas que em sua vida lhe foi dado cumprimentar?―disse +Julio de Montarroyo, dirigindo-se a madre +Paula, ao mesmo tempo que saudava com uma reverente +inclinação de cabeça o padre Filippe. +<br /> + +<br /> + +―Está v. ex.<sup>a</sup> enganado, sr. Julio de +Montarroyo―replicou +madre Paula recobrando a serenidade―Reconheço-o +perfeitamente, e é com verdadeira +satisfação +que torno a vel-o, se bem que estava longe de +o encontrar aqui. +<br /> + +<br /> + +―A surpreza, portanto, é para nós dois, pois que +eu tambem, apezar do vivo desejo que sentia de fallar +a v. ex.<sup>a</sup>, não podia esperar a subida +honra que +me dá da sua caridosa visita... E digo caridosa, porque +visitar um enfermo nas minhas condições +é verdadeiramente +uma obra de caridade, que só as almas +sinceramente religiosas como a de vossa excellencia +sabem comprehender e praticar. +<br /> + +<br /> + +Madre Paula escutava-o sem o comprehender. +<br /> + +<br /> + +Julio de Montarroyo offereceu o sophá aos seus +hospedes. +<br /> + +<br /> + +―Dignem-se v. ex.<sup>as</sup> sentar-se, e, pois que me +dão a honra da sua visita, permittam-me que os considere +meus hospedes por alguns dias. Esta casa é pobre. +Ha aqui o triste desconforto das casas da provincia +<span class="pagenum">[403]</span> +que não teem a direcção +intelligente de uma +mulher a governal-as. +<br /> + +<br /> + +No entanto, dois titulos tornam digna esta desconfortavel +habitação da subida honra de abrigar sob o +seu tecto a superiora do Sardão: o primeiro vem a ser +o soccorro espiritual prestado a um enfermo que ardentemente +o deseja e implora; e o segundo o facto +de ter sido esta, outr'ora, a casa de uma das amigas +mais intimas de v. ex.<sup>a</sup>, a <em>irmã +Dorotheia</em>, conhecida +no seculo por Helena de Noronha. +<br /> + +<br /> + +―Helena!―bradou madre Paula―Onde está +ella? Peço-lhe que me conduza sem demora até +junto +do seu leito. Mal soube que estava doente, accorri immediatamente +ao seu chamamento, e tenho fé que a +minha presença ha de fazer-lhe bem, ha de melhoral-a... +<br /> + +<br /> + +Julio de Montarroyo encarou com insistencia a +abbadessa. +<br /> + +<br /> + +―V. ex.<sup>a</sup> não sabe onde +está Helena de +Noronha?―perguntou +elle. +<br /> + +<br /> + +―Julguei encontral-a nesta casa, d'onde me escreveu +a chamar-me e onde me disseram que estava. +<br /> + +<br /> + +―D'onde lhe escreveu, diz v. ex.<sup>a</sup>? +<br /> + +<br /> + +―Sim. Eis aqui a carta que hoje mesmo recebi +pelo homem que aqui nos conduziu. +<br /> + +<br /> + +E madre Paula apresentou a Julio de Montarroyo, +estupefacto, a carta de que o <em>Tomba</em> +fôra portador. +<br /> + +<br /> + +―É a lettra de Helena!―exclamou Julio n'um +brado de alegria extrema―Não ha duvida, Helena +escreveu esta carta... Mas onde está ella?―perguntou +por sua vez tambem. +<br /> + +<br /> + +―Pois deveras Helena de Noronha não está +aqui?―interrogou +ainda madre Paula, tomada de estranha +surpreza. +<br /> + +<br /> + +―Não, minha senhora―volveu Julio―e até eu +ignoro como e de que maneira esta carta pudesse ser-lhe +<span class="pagenum">[404]</span> +enviada por Helena, de quem não tenho noticias +ha dezoito annos! Esperava eu que v. ex.<sup>a</sup>, +compadecida +do meu estado de doença e do muito que tenho +soffrido no esforço inutil de encontrar a filha de +Norberto de Noronha, se dignasse dar-me quaesquer +indicações que me permitissem fallar-lhe ou +escrever-lhe +ainda antes de morrer. +<br /> + +<br /> + +E com uma eloquencia febril, contou em rapidas +palavras tudo o que lhe succedera nos desoito annos +decorridos e que o leitor não ignora, por já lh'o +ter +ouvido contar a Gustavo de Magalhães. +<br /> + +<br /> + +―Agora―concluiu―alquebrado, doente, com +poucos dias de vida, todo o meu empenho era procurar +v. ex.<sup>a</sup> e pedir-lhe, por tudo quanto mais ama no +mundo, que me dissesse se Helena de Noronha vive +ainda ou se devo procural-a no mundo dos espiritos... +<br /> + +<br /> + +―O homem que aqui nos guiou é que foi portador +d'esta carta. Elle portanto, poderá dizer quem +lh'a entregou e onde se encontra quem a escreveu...―explicou +madre Paula, de cada vez mais attonita +e surprehendida. +<br /> + +<br /> + +―Tem v. ex.<sup>a</sup> rasão. Vou mandal-o +chamar á sua +presença, e elle explicará... +<br /> + +<br /> + +Julio levantou-se, tocou uma campainha e ordenou +ao criado que appareceu á porta da sala: +<br /> + +<br /> + +―Diga ao mestre <em>Tomba</em> que venha +cá. +<br /> + +<br /> + +Pouco depois apparecia á porta o sapateiro com o +ar petulante de quem está resolvido a dizer tudo sem +rodeios, e a assumir inteira responsabilidade dos seus +actos. +<br /> + +<br /> + +―O sr. Julinho, chamou? +<br /> + +<br /> + +―Chamei, mestre. Venha cá... +<br /> + +<br /> + +―Prompto! +<br /> + +<br /> + +E o sapateiro avançou dois passos na sala, de +cabeça +erguida e olhar firme. +<br /> + +<br /> + +―Então como é isto?―ia Julio a dizer. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[405]</span> +Mas o sapateiro interrompeu-o, sem o deixar concluir. +<br /> + +<br /> + +―Então como hade ser? Fui eu que armei esta +<em>trempe</em>, p'ra fazer que aqui a nossa +reverendissima +madre e mais este reverendissimo sr. padre viessem á +<em>presencia</em> do sr. Julinho... Vossa +<em>incellencia</em> estava +todos os dias a appellidar por ella, que a queria vêr, +que lhe queria fallar e que morria sem +<em>estifazer</em> o seu +desejo... Vae eu <em>atão</em> +disse comigo: «Se eu, armar +uma pêta bem arranjada e disser á nossa +reverendissima +madre que é a sr.<sup>a</sup> D. <em>Helenia +de +Laronha</em> que +está a dar a alma a Deus, ella larga barcos e redes e +vem por ahi fóra atrás de mim, que é +um ar que lhe +dá... Ponto é que ella me +<em>acuardite</em>... Vamos a vêr +se as bichas pegam... Fui e as bichas pegaram. Ella +aqui está... Agora o sr. Julinho diga o que tem a +<em>dezer</em>, e se eu fico por mentiroso, +é o mesmo... Se +quer ó menos, <em>intrujei</em>, +mas foi p'ra <em>estifazer</em> a ultima +vontade a vossa <em>incellencia</em>... Agora +já póde morrer +descançado. +<br /> + +<br /> + +―Mas venha cá, <em>Tomba</em>, +como arranjou você a +carta de Helena de Noronha? +<br /> + +<br /> + +O sapateiro arregalou os olhos: +<br /> + +<br /> + +―A carta da sr.<sup>a</sup> D. <em>Helenia</em>? +A +carta não é +d'ella! +<br /> + +<br /> + +―Como não é d'ella? +<br /> + +<br /> + +―Não é d'ella, já lhe disse! Assim um +raio venha +que nos parta aqui a todos, se eu vi a sr.<sup>a</sup> D. +<em>Helenia</em> ou sequer alguem me boquejou +a respeito +d'ella! +<br /> + +<br /> + +―Mas esta carta―disse madre Paula―foi-me +entregue por vocemecê... +<br /> + +<br /> + +―Isso é oitra coisa...―tornou o sapateiro―Mas +as cartas são papeis... Essa carta não +é da sr.<sup>a</sup> +<em>D. Helenia</em>.<br /> + +<br /> + +―Não é!―exclamou Julio―Mas a lettra e a +<span class="pagenum">[406]</span> +assignatura são d'ella. Como arranjou você esta +carta? +<br /> + +<br /> + +―São d'ella!?―disse por sua vez o +<em>Tomba</em> muito +admirado. +<br /> + +<br /> + +―Se esta carta não é escripta por Helena―tornou +Julio de Montarroyo―então alguem lhe imitou a +lettra e a assignatura. O mestre dirá quem foi... +<br /> + +<br /> + +―E a carta o que diz, ó sr. Julinho?―interrogou +o sapateiro com grande interesse. +<br /> + +<br /> + +―Pois você não o sabe, mestre? +<br /> + +<br /> + +―Eu não, senhor! Cego seja eu e o meu Santo +Antonio, que está lá dentro, permitta que eu +não arranje +mais cinco réis d'esmola em toda a minha vida, +se eu sei o que ella diz... Eu levei-a fechada, não a +abri para a mandar lêr, como hei-de eu adivinhar o +que ella diz?<br /> + +<br /> + +Julio percebeu que o sapateiro fallava verdade, e +de cada vez mais surprehendido pela ignorancia do +mestre sobre o contheudo da carta, resolveu-se a esclarecel-o. +<br /> + +<br /> + +―Esta carta é assignada por Helena de Noronha +e pede á virtuosa madre Paula que venha junto ao +seu leito de agonia dizer-lhe o ultimo adeus... +<br /> + +<br /> + +―Ella diz que está doente? +<br /> + +<br /> + +―Diz que está a morrer... +<br /> + +<br /> + +O sapateiro bateu uma palmada na testa com expansão: +<br /> + +<br /> + +―Quer vossa <em>incellencia</em> +vêr que é ella!?―exclamou―Pois +não é oitra coisa. É ella! Oh! com um +raio de diabos! E eu aqui a dois passos, e sem o saber! +Que grande cabeça de burro eu sou! Pois é ella, +não ha que vêr! +<br /> + +<br /> + +―Ella quem?―interrogou anciosamente Julio. +<br /> + +<br /> + +―A doente que está em casa da sr.<sup>a</sup> +D. Aurelia! +Ora... ora esta! E fui eu que dei co'ella na estrada, +como morta, sem dar por burro nem por albarda... +<br /> + +<br /> + +E depois, n'um movimento de duvida: +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[407]</span> ―Mas olhe lá, ó sr. Julinho, a carta diz isso? +<br /> + +<br /> + +―Sem duvida, mestre, a carta é de Helena... Diz +que está doente e pede a madre Paula que venha +vêl-a... +<br /> + +<br /> + +―Agora... agora! Por isso vossa reverendissima +se pôz tão prompto para me acompanhar... +Cá me +queria parecer!... E eu a cuidar que era eu que a +trazia ao engano!... Sou esperto, não tem duvida! +Posso ir p'ró diabo que me carregue e mais a minha +esperteza! +<br /> + +<br /> + +―Mas venha cá, mestre +<em>Tomba</em>... explique-nos +que doente é essa de que está fallando... Eu +não sei +nada! +<br /> + +<br /> + +―Pois se vossa <em>incellencia</em> tem +estado ás portas +da morte, vae hoje, vae amanhã, e todos me +<em>deziam</em> +que não lhe dissesse nada nem lhe +<em>trouvesse</em> novidades, +que podia ser ás vezes dar-lhe uma coisa pela +cabeça +e alimpal-o ainda mais depressa... como é que eu havia +de lhe vir contar o que era passado? Mas agora +é que eu percebo a +<em>tramoia</em>... Antão +lá vae! +<br /> + +<br /> + +O sapateiro contou como encontrára inanimada no +caminho, quando regressava, do Porto, uma pobre +mulher desconhecida e andrajosa, que fôra recolhida +por caridade em casa de D. Aurelia onde ainda se +encontrava. +<br /> + +<br /> + +―E atão agora está tudo explicado.―concluiu―A +snr.<sup>a</sup> D. Aurelia foi que me mandou ao Porto +entregar essa carta aqui á snr.<sup>a</sup> +madre, mas sem me +dizer de quem era... Ora, se o sr. Julinho diz que a +carta foi escrevida pela snr.<sup>a</sup> D. +<em>Helenia</em>, +<em>atão</em> a coisa +está bem clara: a doente que lá está e +que eu topei +na estrada é ella! +<br /> + +<br /> + +Julio ouvira com extraordinaria commoção a +narrativa +do sapateiro. +<br /> + +<br /> + +―Ah! meu Deus!―exclamou―até que emfim +a encontro! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[408]</span> +E voltando-se para madre Paula: +<br /> + +<br /> + +―Minha senhora, pois que foi chamada por Helena, +cumpre-me conduzil-a á casa onde ella se encontra. +<br /> + +<br /> + +Minutos passados, madre Paula, padre Filippe e +Julio de Montarroyo, acompanhados por mestre +<em>Tomba</em>, +entravam em casa de D. Aurelia. +<br /> + +<br /> + +A irmã de Gustavo veio recebel-os ao salão +d'entrada, +e não ficou pouco surprehendida quando Julio +de Montarroyo lhe disse: +<br /> + +<br /> + +―Minha amiga, tenho a honra de lhe apresentar +madre Paula, virtuosa superiora da casa conventual +das Sereias, no Porto, amiga intima de Helena de Noronha, +que, segundo creio, se hospeda na casa de v. +ex.<sup>a</sup>... +<br /> + +<br /> + +E indicando o padre Fillipe: +<br /> + +<br /> + +―E este cavalheiro é o sr. padre Filippe, respeitavel +sacerdote que teve a amavel complascencia de +acompanhar esta senhora na visita á sua amiga. +<br /> + +<br /> + +D. Aurelia cumprimentou os visitantes, relanceando +um olhar de censura ao <em>Tomba</em> que, +interdicto, coçava +na orelha, como quem comprehendia que tinha +feito asneira. +<br /> + +<br /> + +―É verdade―disse por fim D. Aurelia―que +tenho em minha casa Helena de Noronha; e se d'isso +não informei immediatamente, como desejava, o snr. +Julio de Montarroyo, foi devido a duas +considerações +imperiosas: a primeira foi o facto de Helena, que recolheu +doentissima e em perigo de vida a minha casa, +me haver supplicado que não divulgasse, fosse a quem +fosse, a sua estada aqui; e a segunda foi a circumstancia +do snr. Julio de Montarroyo se achar gravissimamente +enfermo e haver especial recommendação do +seu medico para que lhe não dessem noticia que pudesse +causar-lhe qualquer abalo moral, porque isso +poria em perigo a sua existencia. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[409]</span> ―Oh!―protestou Julio―pois se toda a minha +doença era não ter noticias de Helena! +<br /> + +<br /> + +―Helena, cuja vida continua ainda em perigo―proseguiu +D. Aurelia―pediu-me que fizesse entregar +no Porto a madre Paula uma carta que ella mesma +escreveu e cujo contheudo eu ignoro... +<br /> + +<br /> + +―Essa, carta, minha senhora―disse madre Paula―eil-a +aqui. Por ella verá v. ex.<sup>a</sup> que +Helena reclama +a minha presença... +<br /> + +<br /> + +E apresentou-lhe a carta que D. Aurelia recusou +delicadamente com um gesto. +<br /> + +<br /> + +―Por Deus, minha senhora! Eu não duvido um +momento da sua palavra... Simplesmente o que devo +é prevenir v. ex.<sup>a</sup> do melindroso +estado de saude da +nossa pobre amiga... Qualquer abalo, qualquer +commoção +violenta póde matal-a... +<br /> + +<br /> + +―Mas se Helena espera a visita de madre Paula―objectou +Julio. +<br /> + +<br /> + +―Espera a visita de madre Paula, mas não espera +a de v. ex.<sup>a</sup>...―retorquio D. Aurelia.―Era +justamente essa surpreza que me parecia bem poupar-lhe +por emquanto... +<br /> + +<br /> + +―Decerto!―atalhou madre Paula.―Nem eu creio +que o snr. Julio de Montarroyo, que é tão +dedicado a +Helena, pense em lhe aggravar a enfermidade apresentando-se-lhe, +sem ella estar preparada para isso... +<br /> + +<br /> + +Julio de Montarroyo exclamou n'um accesso de +exaltação febril: +<br /> + +<br /> + +―A minha vida pela d'ella! Digam-me que é +preciso fazer saltar os miolos para salvar Helena e eu +não hesitarei um instante! +<br /> + +<br /> + +―Socegue, socegue, meu amigo, que não será +preciso +recorrer a esse extremo, para termos a nossa querida +doente restabelecida dentro em pouco. Aqui o que +é preciso é evitar-lhe qualquer sobresalto ou +commoção +que possa aggravar-lhe a doença... V. ex.<sup>a</sup> +não +<span class="pagenum">[410]</span> +imagina o estado em que a pobresinha se encontra. +Eu mesma, quando aqui m'a apresentaram, não a reconheci... +Foi ella que só passados dias se deu a conhecer, +porque se tal não fizesse, ainda agora eu estaria +na ignorancia de quem ella fosse. +<br /> + +<br /> + +―Pobre Helena!―exclamou madre Paula. +<br /> + +<br /> + +―Parece-me, pois, tornou D. Aurelia―que seria +bom dispôr a nossa doente para receber a visita da +sua amiga. Emquanto ella a espera, convem prevenil-a +com cuidado... +<br /> + +<br /> + +―Sim... sim!...―concordou madre Paula. +<br /> + +<br /> + +D. Aurelia voltou-se para Julio e com um sorriso +amavel: +<br /> + +<br /> + +―Tenha paciencia, meu amigo... Já não +é pequena +felicidade para o seu coração o saber que Helena +vive, está aqui entre nós e que, dentro d'alguns +dias, poderá vêl-a e fallar-lhe. O que +é preciso é que v. +ex.<sup>a</sup> mesmo tenha cuidado com a sua saude e trate +de se restabelecer, livre de apprehensões e de tristezas +que já não têm razão de ser. +<br /> + +<br /> + +E a um gesto de assentimento de Julio de Montarroyo, +que se inclinou em silencio, proseguiu: +<br /> + +<br /> + +―Deem-me licença que eu vá junto da minha +amiga, tratar de a predispôr para receber sem grande +surpreza a virtuosa madre Paula. Escuso dizer-lhes +que os considero meus hospedes n'esta casa e que vou +tambem dar as ordens precisas para serem convenientemente +installados. +<br /> + +<br /> + +Fez uma ligeira mesura e sahiu. +<br /> + +<br /> + +D'ahi a instantes, a criada de quarto de D. Aurelia +entrava na sala a indicar aos hospedes que os +seus aposentos estavam preparados. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[411]</span> +<h3><a name="c27"></a>XXVII<br /> + +<br /> + +Duas amigas +</h3> + +<br /> + +<br /> + +No dia seguinte, muito cêdo ainda, Helena de Noronha +que passára a noite socegada, accordou inquieta +e perguntou á creada se já tinha chegado uma +senhora +que devia vir do Porto. +<br /> + +<br /> + +―Não sei, minha senhora―respondeu a creada +que estava já prevenida―mas eu hei-de dizer que +senti ha pouco parar um trem ao portão... +<br /> + +<br /> + +―Oh! vá saber sem demora―pediu Helena―e +se fôr a pessoa que eu espero, diga a sua ama que +lhe peço para a fazer entrar aqui o mais depressa +possivel... +<br /> + +<br /> + +A creada subiu a cumprir a ordem recebida. Pouco +depois entrava a dona da casa. +<br /> + +<br /> + +―Veio?―perguntou-lhe Helena. +<br /> + +<br /> + +―Dá-me alviçaras, minha amiga―disse D. Aurelia +alegremente―porque, contra a tua espectativa, +madre Paula está n'esta tua casa! +<br /> + +<br /> + +Helena levantou-se a meio no leito. +<br /> + +<br /> + +―Por Deus, minha filha, diz-lhe que entre... que +entre já! +<br /> + +<br /> + +Madre Paula, que ficára occulta com o reposteiro, +penetrou de um salto no aposento, dizendo: +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[412]</span> ―Não é preciso, minha querida Helena, +não é +preciso, porque a tua amiga está aqui! +<br /> + +<br /> + +―Paula!―exclamou Helena, estendendo para ella +os braços, n'um alvoroço de indizivel +contentamento. +<br /> + +<br /> + +Estiveram assim as duas amigas por muito tempo +abraçadas, n'um silencio apenas cortado pelos +soluços +que se escapavam do peito de ambas. +<br /> + +<br /> + +D. Aurelia assistia commovida a esta scena de uma +terrivel eloquencia na mudez d'aquellas lagrimas que +ambas vertiam ao abraçarem-se. +<br /> + +<br /> + +Por fim, foi Helena quem rompeu o silencio, exclamando: +<br /> + +<br /> + +―Vieste ver-me, minha amiga... Bem hajas pela +caridade com que attendeste o meu pedido! +<br /> + +<br /> + +―Minha pobre Helena!―respondeu madre Paula―quantas +vezes me tens lembrado nos longos dezesseis +annos da tua ausencia! Procurei por mil modos +saber noticias tuas... Tudo inutil!... Ninguem me +dava relação de ti, ninguem te conhecia, ninguem +sabia +para onde tinhas partido... +<br /> + +<br /> + +―Fiz uma viagem muito longa, minha amiga... +tão longa que só devia terminar no +começo desta outra +viagem mais longa ainda, que vou emprehender... +<br /> + +<br /> + +―O que! pois não ficas ainda aqui? Tencionas +partir outra vez?―perguntou madre Paula admirada. +<br /> + +<br /> + +―Sim... vou partir e d'esta vez para nunca mais +voltar... Vou emprehender a eterna viagem do sepulchro... +Por isso te pedi que viesses... +<br /> + +<br /> + +―Morrer!―exclamou a abbadessa―que extranha +fraqueza é essa? A vida chama-te ainda, minha +querida... Tu és nova, és forte, és +ainda uma +mulher valida, tens um espirito são, uma alma +extraordinariamente +bella... Chama a ti todas as energias, +reage contra os soffrimentos, oppõe ás violencias +da +<span class="pagenum">[413]</span> +dôr que te avassala, a força suprema da tua +vontade +e triumpha do abatimento physico pela energia moral. +<br /> + +<br /> + +Helena tornou a sorrir o sorriso triste dos que não +se illudem na approximação do seu fim. +<br /> + +<br /> + +―Tu é que estás ainda a mesma, minha +querida!―disse +ella.―Não parece que passaram por ti dezesseis +annos desde que nos separámos... +<br /> + +<br /> + +―Os meus cabellos branquearam um pouco, porque +ninguem resiste impunemente á acção do +tempo―replicou +madre Paula―mas, comquanto um pouco +mais velha que tu, não penso ainda na morte... +<br /> + +<br /> + +D. Aurelia, sentindo-se de mais n'aquelle colloquio +entre as duas amigas, que certamente tinham mais +importantes assumptos a tratar, interveio pedindo que +a dispensassem por um instante, pois tinha que ordenar +serviços domesticos da maior urgencia. +<br /> + +<br /> + +―Espera!―replicou Helena―deixa-me primeiro +dizer á minha Paula quem tu és... +<br /> + +<br /> + +―Não é preciso―accudiu D. Aurelia com +meiguice―já +nos conhecemos desde hontem á noite... +<br /> + +<br /> + +―Sim―confirmou madre Paula―já devo a esta +senhora a mais amavel e gentil hospitalidade que ha +muitos annos me foi dado receber fóra do meu convento... +<br /> + +<br /> + +―Pois tu já cá estás desde +hontem?―perguntou +Helena admirada. +<br /> + +<br /> + +―Vim acompanhada pelo portador da tua carta +e pelo reverendo padre Filipe, de quem certamente +ainda te recordas... +<br /> + +<br /> + +―Oh, decerto, decerto! E como são gratas as +lembranças que conservo d'esse honesto e digno sacerdote! +Porque não veio elle ver-me tambem? +<br /> + +<br /> + +―Temos tempo, minha querida―disse madre +Paula―Uma das principaes virtudes christãs é a +paciencia... +E o p ―Temos tempo, minha querida―disse madre +Paula―Uma das principaes virtudes christãs é a +paciencia... +E o padre Filippe, que é, como acabaste +de dizer, um honesto e digno sacerdote, exercita esta +<span class="pagenum">[414]</span> +virtude como poucos... Elle espera, e é dos que sabem +esperar... +<br /> + +<br /> + +Logo que D. Aurelia sahiu, madre Paula encarou +fito Helena de Noronha e perguntou-lhe em voz sumida, +n'um tom de mysterio: +<br /> + +<br /> + +―E o padre Anselmo? +<br /> + +<br /> + +―Matei-o! +<br /> + +<br /> + +―O que!―disse a religiosa empallidecendo―Mataste-o... +quando? +<br /> + +<br /> + +―Ha desesseis annos, no dia em que deixei de ser +superiora da casa conventual da Covilhã... +<br /> + +<br /> + +―É extraordinario! E como pudeste...? +<br /> + +<br /> + +―O miseravel, de quem eu tinha jurado vingança, +não soube, no meio de toda a sua perversa astucia, +desconfiar da apparente submissão da mulher que +tão infamemente havia ludibriado e escarnecido... Julgou-se +inteiramente senhor de mim e veio elle mesmo +procurar a occultas o castigo que a sua torpeza e +maldade mereciam... +<br /> + +<br /> + +―E o outro... o filho d'elle... o padre Hilario? +<br /> + +<br /> + +―Foi meu cumplice. Elle mesmo ajudou a crucificar +o pae no subterraneo do convento. Oh! foi uma +vingança terrivel, e esse dia, minha querida Paula, +foi o mais bello e o mais feliz de toda a minha vida, +desde que abandonei a casa de meu pae... de meu +pobre pae que ingratamente condemnei á morte! +<br /> + +<br /> + +Os olhos de Helena de Noronha coruscavam ainda +de furor satanico, ao recordar aquelle lance supremo +em que havia dado morte horrivel ao jesuita que a +perdera. +<br /> + +<br /> + +Madre Paula, tomada de pavor, encarava Helena +de Noronha, mal podendo acreditar no que ouvia. +<br /> + +<br /> + +Fez-se um curto silencio em que os olhos das duas +exprimiam um mundo de pensamentos. +<br /> + +<br /> + +―Sim...―disse Helena de Noronha como respondendo +á pergunta muda que lhe dirigia a sua +<span class="pagenum">[415]</span> +amiga―o padre Hilario foi, por assim dizer, o executor +da sentença de morte a que eu havia condemnado +o pae... E era preciso que assim succedesse para que +a minha vingança fosse completa... +<br /> + +<br /> + +―Mas não sabia elle os laços de sangue que o +prendiam a esse miseravel? +<br /> + +<br /> + +―Não o sabia; mas, ao expirar, o padre Anselmo +patenteou-lhe toda a verdade do alto da cruz onde +agonisava, amarrado como o mau ladrão. Disse-lh'o +por entre maldições e injurias, e a voz do sangue +não +fallou no meu cumplice. Assistiu impassivel á agonia +do pae, que elle immolava á minha vingança e +sacrificava +ao seu amor por mim... Oh! foi uma boa hora +aquella, minha amiga! E se eu alguma vez pude crêr +em Deus, foi justamente n'esse instante em que o maior +dos criminosos expiava com a maior das agonias todo +o seu passado de negras infamias! +<br /> + +<br /> + +E contou então como o padre Anselmo, apparecendo-lhe +mysteriosamente no convento da Covilhã, desceu +á cripta, no intuito, dizia elle, de orar aos pés +da +cruz, onde devia ser crucificado... Relembrou com infernal +prazer todas as minucias d'essa scena horrivel; +a maneira como, acompanhada do padre Hilario, o seguiu +ao subterraneo e como, quando elle vinha sahindo, +depois de ter feito ouvir por largo tempo o ruido surdo +de quem cavava, o proprio filho, com um vigoroso +murro, o fez cahir no meio do subterraneo, fechando-lhe +a porta pelo lado de fóra... Depois, os tres dias +de agonia lenta, torturado pela fome e pela sêde, todas +as peripecias terriveis d'esse drama sombrio de vingança +e de sangue, que teve a sua acção no medonho +<em>in-pace</em> da Covilhã. +<br /> + +<br /> + +Madre Paula ouviu attonita toda esta narrativa, +chegando por vezes a suspeitar que Helena de Noronha, +tomada de loucura, estivesse phantasiando uma +vingança que não realisára. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[416]</span> ―E o padre Hilario?―perguntou por fim. +<br /> + +<br /> + +―Pobre rapaz! Nunca mais o tornei a vêr... O +pensamento que nos uniu foi o mesmo que devia separar-nos +e... separou-nos. +<br /> + +<br /> + +―Accusou-te depois, lançando sobre ti as culpas +do remorso que o torturava? +<br /> + +<br /> + +―Oh, não! Eu poupei-lhe a desgraça do remorso, +semeando-lhe no coração o odio por mim... +<br /> + +<br /> + +A abbadessa, de cada vez comprehendendo menos +o sentido das palavras de Helena de Noronha, atreveu-se +a inquirir: +<br /> + +<br /> + +―Trahiste o teu novo amante?... +<br /> + +<br /> + +―Meu amante! Nunca o foi. Trahi o cumplice, +isso sim... Utilisei o instrumento da minha vingança +emquanto o necessitava e arremesseio-o para longe de +mim quando já me não era preciso... O padre +Hilario +amava-me... dizia elle que me amava.. Porém, +eu não poderia vêr nunca n'esse homem +senão o filho do +padre Anselmo... Logo depois que a minha vingança +estava cumprida, tratei de me affastar d'elle... +<br /> + +<br /> + +―Como? +<br /> + +<br /> + +―Enganando-o como o pae me enganou a mim. +Disse-lhe que para não levantar suspeitas, era conveniente +que ambos seguissemos por differente caminho +para o mesmo ponto onde deviamos encontrar-nos. +<br /> + +<br /> + +Esse ponto era uma terra do estrangeiro, onde +passariamos por marido e mulher, vivendo de algum +dinheiro que eu tinha amealhado, emquanto não pudessemos +voltar ao paiz, depois de obtida a certeza de +que o nosso crime não havia sido descoberto. Elle tudo +acreditou e, obcecado pela paixão, não duvidou um +momento +de que eu fosse reunir-me a elle. Partiu por +um caminho, eu parti por outro, e até hoje nunca +mais nos tornámos a vêr... +<br /> + +<br /> + +―De modo que... +<br /> + +<br /> + +―De modo que o meu cumplice, ao reconhecer-se +<span class="pagenum">[417]</span> +ludibriado, deve ter sentido mudar-se lhe todo o amor +que nutria por mim n'um odio profundo. +<br /> + +<br /> + +Madre Paula, profundamente impressionada com +estas revelações, quasi não atinava +com palavras que +dissesse. +<br /> + +<br /> + +Parecia-lhe impossivel que aquella mulher fraca e +ingenua, que ella recebera na casa das Sereias, pudesse +vir a triumphar da maldade perversa do padre Anselmo, +da sua astucia e systemathica desconfiança de +tudo e de todos, tirando d'elle uma vingança atroz, +que os mais poderosos agentes da Companhia não ousariam +sequer sonhar. +<br /> + +<br /> + +―O que me contas é por tal modo extraordinario, +minha querida Helena―disse ella, passados instantes―que +me deixa muda de assombro! Se o não ouvisse de +teus proprios labios, recusar-me-hia a acredital-o... +<br /> + +<br /> + +―Oh! minha boa Paula!―replicou Helena, ainda +tremendo de ira―pois acaso não teria eu razão +para +muito mais? Não foi aquelle maldito a ruina, a miseria +e a morte de toda a minha familia? Não abusou +elle da minha innocencia e ingenuidade de creança +para me aviltar, roubar e perder, fazendo de mim sua +barregã e sua escrava? poderia eu perdoar ao maldito +que tão infamemente lançou a desgraça +e a deshonra +sobre mim e sobre os meus? +<br /> + +<br /> + +―Tens razão. Mas não é a +justiça da tua vingança +que me surprehende... +<br /> + +<br /> + +―O que é que te surprehende, pois? +<br /> + +<br /> + +―Surprehende-me a habilidade e a coragem com +que pudeste levar a cabo o teu plano... +<br /> + +<br /> + +―Auxiliou-me o acaso, se não foi antes um designio +da propria Providencia que inspirou ao padre Anselmo +a ideia de mandar o filho para junto de mim... +<br /> + +<br /> + +―Nunca mais ouvi fallar do padre Hilario... +Naturalmente abandonou a Companhia. +<br /> + +<br /> + +―Era essa a sua resolução inabalavel quando nos +<span class="pagenum">[418]</span> +separámos... Eu não sahi do paiz, como lhe +prometti, +e passei uma grande parte d'estes dezeseis annos perdida +e obscura pelas terras de provincia, exercendo +mysteres humildes, improprios da minha +educação... +Sujeitei-me a tudo, minha querida... Fui creada de +quarto, fui costureira, fui creada de meninos, e confesso +que me era menos amargo o pão em casa de +meus amos do que n'esse antro maldito onde, por tua +commiseração, fui elevada á dignidade +de abbadessa! +Abbadessa! que irrisoria e infame impostura, minha +amiga!... +<br /> + +<br /> + +―Helena―disse madre Paula―pareceu-te assim +porque não amaste... Se tivesses amado o padre Hilario +como eu amei o padre Filippe... +<br /> + +<br /> + +―Oh! não! eu não podia amar a sotaina desde +que a sotaina me havia ludibriado e escarnecido. No +meu coração só havia odio por essa +infame instituição +que alberga no seu seio facinoras preversos da laia do +padre Anselmo e vive da exploração cruel das suas +victimas. +<br /> + +<br /> + +―E não tens, já não digo remorso, mas +ao menos +pezar, de haveres sacrificado ao teu odio e á tua +vingança +esse pobre rapaz que te amava e que pelo teu +amor se fez parricida? +<br /> + +<br /> + +―Era filho <em>d'elle</em>. E o meu odio +implacavel vae de +paes a filhos... Elle proprio devia ser um monstro +como seu pae.. +<br /> + +<br /> + +―Todavia, minha querida... ha inda um filho do +padre Anselmo que em nada o parece... nem na +figura, nem no coração. É nobre, +é digno, é honesto, +é leal, é amoravel e trabalhador... +<br /> + +<br /> + +―Fallas de...? +<br /> + +<br /> + +―De teu filho, Helena de Noronha! +<br /> + +<br /> + +―Elle vive ainda? +<br /> + +<br /> + +―Vive e é um bello e gentil rapaz... +<br /> + +<br /> + +―Padre tambem? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[419]</span> ―Não. É um academico distincto e espero que ha +de ser um homem util a si e aos seus semelhantes, honrando +a sciencia e a humanidade. Eu e o padre Filippe +temol-o educado sob o influxo das doutrinas liberaes, +longe de nós e estranho aos funestos exemplos +da falsa religião que nos victimou. +<br /> + +<br /> + +―Não te conhece então? +<br /> + +<br /> + +―Conhece. E ama-me e respeita-me com um carinho +e uma ternura que faz honra aos nobres sentimentos +da sua alma. +<br /> + +<br /> + +―Sabe esse rapaz quem foram seus paes? +<br /> + +<br /> + +―Ignora-o inteiramente, comquanto use o teu +appellido, Helena de Noronha. +<br /> + +<br /> + +―O que! pois tu...―ia a dizer Helena, levantando-se +a meio no leito. +<br /> + +<br /> + +―Sim―atalhou madre Paula―quiz que se chamasse +Paulo de Noronha, afim de que sua mãe um dia +pudesse reconhecel-o e amal-o. +<br /> + +<br /> + +―Oh! nunca... nunca! +<br /> + +<br /> + +―Helena!―tornou madre Paula com severo aspecto―o +odio que se estende ate aos proprios filhos +das nossas entranhas é perversidade que repugna á +razão e de que nem as bestas feras, na crueza de seus +instinctos, jámais nos deram exemplo. Vê tu, minha +amiga, que nem o padre Anselmo, esse cynico perverso, +de uma ferocidade de chacal, pôde resistir ao amoravel +sentimento que Deus poz no coração dos paes pelos +filhos. +E quererás tu cerrar teu peito ao affecto mais +nobre e mais santo que póde caber no +coração de uma +mulher? Quererás morrer amaldiçoando teu filho +innocente +e deixar que elle viva sentindo n'alma o gelo +da indifferença e do abandono de seus paes? Que triste +herança lhe queres legar, minha amiga! E comtudo, +Paulo é digno de que o amem porque nas nobres qualidades +de seu caracter, na sua figura varonil e no porte +<span class="pagenum">[420]</span> +altivo, reflecte bem a figura e as nobres qualidades +d'esse santo e desditoso homem que foi teu pae. +<br /> + +<br /> + +―Meu pae!―gritou Helena de Noronha―Paulo +parece-se com elle? Não tem na physionomia os +traços +odiosos de monstro que lhe deu o ser? +<br /> + +<br /> + +―Queres vêl-o?―perguntou madre Paula. +<br /> + +<br /> + +―Não, não!―recusou Helena tomada de subito +terror―Para que has de pôr-me diante dos olhos, na +hora extrema, um filho que eu não posso amar, uma +creatura que ha de ser-me sempre odiosa pela +recordação +dos negros crimes que lhe andam ligados? Oh! +deixa-me morrer, minha amiga, no esquecimento d'um +dever que eu não tenho forças para cumprir... +<br /> + +<br /> + +Calou-se offegante. E depois, como fallando comsigo +mesma: +<br /> + +<br /> + +―E como poderia eu dizer a esse rapaz: «Sou +tua mãe!» sem ter que lhe confessar a minha +miseria +e a minha vergonha? Perguntar-me-ia o nome de seu +pae... e eu teria que me calar vexada diante de meu +filho para lhe não dizer: «Teu pae era o padre +Anselmo, +um monstro com figura humana... Ladrão e +assassino da mais infima especie... Um miseravel sacrilego +que tôrpemente entenebreceu a minha razão e +abusou da religião de Christo para nos condemnar, a +mim e a ti, a uma deshonra eterna!» Oh! não... +não! +prefiro morrer sem passar por mais esse doloroso transe, +consolada com a certeza de que elle ignorará o nome +da desgraçada que foi sua mãe! +<br /> + +<br /> + +―Socega, minha querida!―tornou-lhe madre +Paula suavemente―O que eu te proponho não é bem +isso que tu suppões... +<br /> + +<br /> + +―O que me propões então? +<br /> + +<br /> + +―Trazel-o até junto de ti para que o vejas e +ouças e possas certificar-te pelo testemunho dos teus +proprios sentidos, de que esse encantador rapaz, +bem longe de reproduzir as feições repellentes do +padre +<span class="pagenum">[421]</span> +Anselmo, é o vivo retrato do teu pae, de quem +parece ter herdado as santas virtudes e os nobres sentimentos. +Em vez de ser para ti uma tortura, a sua +presença ser-te-hia um dôce allivio e uma grande +consolação. Crê, se eu fosse +mãe de Paulo, sentir-me-hia +orgulhosa e feliz da minha maternidade. +<br /> + +<br /> + +―E não corarias, ao menos de pejo, ao teres de lhe +confessar a serie de monstruosas torpezas que deram +origem ao seu nascimento, Paula? +<br /> + +<br /> + +―Não me apresentaria como sua mãe... exactamente +como eu te proponho que o faças... A felicidade +seria toda tua em poderes vêl-o junto do teu +leito, sabendo que é teu filho e ignorando elle que +sejas sua mãe... +<br /> + +<br /> + +―E a que titulo viria elle aqui, se a verdade não +tivesse de lhe ser dita? Não... não! De que +serviria +isso? Sou pobre... nada tenho que lhe legar... Os +bens que me pertenciam roubou-m'os o pae bem o sabes... +<br /> + +<br /> + +―Filha! é impossivel que no fundo do teu +coração +não esteja o sentimento mais sublime que póde +nascer +em peito de mulher―o sentimento do amor maternal. +Tu, que eu conheci tão candida, tão amoravel e +doce, +tu que tiveste affectos para mim e para a pequena +Lucilia, terás um coração insensivel +á lembrança de +teu pobre e innocente filho? Vamos! não me recuses +a consolação de vêr que testemunhaste, +ao menos secretamente +e por alguns instantes, toda a grandeza +da minha obra de dedicação e ternura. Puzeste nos +meus braços um pequeno sêr, debil e fragil. +Restituo-te +um moço util, uma alma d'eleição. +<br /> + +<br /> + +Paulo, se eu o mandar chamar, virá immediatamente. +Ama-me como filho e não estranhará que eu +deseje tel-o junto de mim por alguns dias... Queres +vêr o teu filho, ao menos por curiosidade? Admira +o teu filho, Helena de Noronha e alegra-te com a +<span class="pagenum">[422]</span> +ideia de que as virtudes da tua raça viverão +n'elle +com a mesma intensidade com que brilharam em teu +pobre pae. +<br /> + +<br /> + +Helena guardou silencio. +<br /> + +<br /> + +―Pois bem―disse ella passados instantes―deixa-me +recobrar alentos... e sobretudo deixa-me +familiarisar com a ideia de que hei-de vêr n'esse rapaz +sómente o meu filho e não o filho do padre +Anselmo. +Que tempo tencionas demorar-te aqui, minha +amiga? +<br /> + +<br /> + +―Todo o que tu julgares preciso para a tua convalescença... +<br /> + +<br /> + +Helena teve um sorriso estranho. +<br /> + +<br /> + +―Pois sim... Convalescerei breve...―disse +n'um tom cuja sinistra significação +não escapou a madre +Paula. +<br /> + +<br /> + +A freira atalhou: +<br /> + +<br /> + +―É porisso que eu queria que visses teu filho, +Helena. Talvez que, conhecendo-o, sentisses acordarem +em ti todos os ternos affectos que nos prendem á vida. +O mundo, hoje, para ti é um deserto. Morres no isolamento +e no abandono do coração... Nada ha que te +estimule o desejo de viver, e consideras a morte como +um beneficio. Mas se tivesses a tua existencia ligada +a outra existencia, se te sentisses viver na vida de +teu filho, então, minha querida amiga, terias triumphado +da morte, justamente porque a vida te offereceria +encantos. +<br /> + +<br /> + +―Ah! minha pobre Paula! comprehendes acaso +que um risonho dia de primavera possa reverdecer a +arvore a que destruiram as raizes e que, sêcca, perdeu +a seiva e se despiu da folhagem? Eu sou uma arvore +morta, minha amiga! Perdida a seiva da juventude, +desfolhadas as minhas illusões e as minhas +esperanças +pelo rijo vendaval da desgraça, não ha mais para +mim +no mundo possibilidade de existencia tranquilla e socegada. +<span class="pagenum">[423]</span> +Oh! agora só peço o esquecimento e a +morte +como suprema esmola da Providencia. Perdida a innocencia +e as santas crenças da minha alma ingenua, +vivi para a vingança. Realisada esta como um justo +castigo de que fui providencial instrumento, restava-me +viver para a expiação de minhas culpas... +Expiei-as +em 16 annos de servidão, de +humilhações e de miserias +de toda a ordem. Soffri o frio, a fome, as dôres da alma +e do corpo, com a resignação do condemnado que +caminha +para o patibulo, conscio da sua libertação pela +morte. Remorsos de haver suppliciado o infame que +me perdeu, nunca eu os tive nem podia ter. Mas a +dôr horrivel de haver causado a morte a meu pae e a +meu primo... Oh! essa nunca me abandonou, e tanto +bastava para que eu anceasse morrer, como o supremo +bem a que podia aspirar... Chamei-te porque +precisava rehabilitar-me no teu conceito... precisava +que, ao lembrares-te de mim, não assomasse aos teus +labios um sorriso de desprezo e me julgasses egual ás +outras... +<br /> + +<br /> + +―Helena, minha amiga, minha irmã... não sejas +injusta para commigo! Eu sabia que a tua +grande alma era capaz de amar como era capaz de +aborrecer... A vingança que tiraste do padre Anselmo +foi justa e foi nobre. Libertaste a humanidade +de um facinora que a envergonhava... Dou-te por +isso sinceros louvores. Mais fraca do que tu, eu não +ousei pensar sequer em tirar igual desforço d'aquelle +que me condemnou a esta eterna servidão em que +vivo... E não pensei, porque o meu +coração deixou-se +illaquear nas redes de um affecto vivissimo qual é +o que tributo ao padre Filippe, tu bem o sabes. Tu +mais infeliz do que eu, não amaste... Porisso, o fel +do teu odio se converteu em veneno mortal para +aquelle que te perdeu... +<br /> + +<br /> + +―Não amei, dizes? Amei, sim... amei um homem +<span class="pagenum">[424]</span> +que teria feito de mim a mais venturosa das +mulheres se, na hora em que o encontrei, eu não fosse +já indigna da estima de um homem de bem. +<br /> + +<br /> + +―Fallas de Julio de Montarroyo? +<br /> + +<br /> + +―Fallo, sim, Paula! Amei-o com todas as véras +da minh'alma. Amei-o e fugi-lhe para não soffrer a +horrivel dôr de me ver depresada por elle! +<br /> + +<br /> + +―Tornaste alguma vez a ter noticias suas? +<br /> + +<br /> + +―Nunca mais. Recuperada a minha liberdade +com a morte do padre Anselmo e separada do meu +cumplice, cuja presença me seria horrorosamente +insupportavel, +considerei-me morta pela segunda vez. +Nem Helena de Noronha nem <em>irmã +Dorothea</em> deviam +existir jámais... Portanto, a minha nova existencia +passou a ser outra bem differente das duas primeiras... +Na misera e obscura condição social a que +desci, ninguem, nem mesmo tu, minha amiga, terias +adivinhado sequer, quanto mais reconhecido, a filha de +Norberto de Noronha ou a superiora da casa conventual +da Covilhã... +<br /> + +<br /> + +Calou-se offegante e exhausta. +<br /> + +<br /> + +―Comtudo...―proseguiu passados instantes―comtudo +eu poderia ter trazido do subterraneo da Covilhã +uma grande riqueza... e não a trouxe... +<br /> + +<br /> + +―Uma grande riqueza, dizes? +<br /> + +<br /> + +―Sim... O padre Anselmo appareceu-me inesperadamente +no convento uma noite, exigindo que a +sua chegada não fosse conhecida de pessoa alguma... +Elle disse-me que tinha de descer ao subterraneo, no +cumprimento sagrado de uma promessa que fizera +para que eu correspondesse dignamente aos pezados e +espinhosos encargos do logar para que me nomeara. +E realmente, na noite seguinte―a noite da rigorosa +justiça―elle, persuadido de que ninguem o observava +desceu ao <em>in-pace</em>... Mas +lá, com a porta +fechada á chave por dentro em vez de rezar aos +pés +<span class="pagenum">[425]</span> +da cruz, como promettera, cavou na terra por muito +tempo... Ouvimos-lhe cá fóra o bater da enxada no +solo recalcado... Tive a suspeita de que alguma coisa +importante elle ia esconder alli... E essa suspeita +converteu-se em certeza, quando do alto da cruz a +que o amarraramos, vociferando maldições e +insultos sobre +mim e sobre o filho parricida, declarou n'um accesso +de furor que possuia riquezas immensas que tencionava +legar ao filho maldito, mas que lhe permaneceriam +vedadas porque o seu thesouro ninguem o descobriria... +<br /> + +<br /> + +Madre Paula ouvia com singular attenção esta +parte +da narrativa de Helena... +<br /> + +<br /> + +―Talvez isso não passasse de uma +allucinação +dos ultimos momentos...―disse ella. +<br /> + +<br /> + +―Não... O padre Anselmo tinha ido alli enterrar +o seu thesouro, estou bem certa d'isso... Ao expirar, +olhou para o lado direito da cruz e o olhar baço, +de moribundo, perdeu-se-lhe no canto mais escuro e +mais sombrio do subterraneo... Se algum dia lá +fôres... +manda cavar alli... manda revolver toda +aquella terra e encontrarás, estou bem certa, o producto +de tantos crimes accumulados d'aquelle sicario +maldito que o inferno confunda! +<br /> + +<br /> + +―E o padre Hilario não manifestou desejo de se +apoderar do thesouro do pae? +<br /> + +<br /> + +―O padre Hilario, esse comprehendes bem... +n'aquelle momento, obcecado pelo amor e pelo ciume, +não via nem comprehendia outra coisa que não +fosse a +posse da mulher por quem enlouquecera e se tornára +parricida... Deixou o convento no mesmo dia em que +eu o deixei, precedendo-me algumas horas na partida, +convencido de que eu iria reunir-me a elle... +E nunca mais... oh, nunca mais voltou á Covilhã, +estou bem certa d'isso... Depois de se vêr ludibriado +por mim, a recordação do seu crime deve +ter-se-lhe +<span class="pagenum">[426]</span> +tornado bem negra! O proprio remorso o deve ter afugentado +de lá... +<br /> + +<br /> + +―E viverá ainda? +<br /> + +<br /> + +―Não sei... Se o remorso matasse, elle deveria +ter morrido. Mas o remorso é um veneno que vae +minando lentamente a existencia. Tortura, mas não +fulmina, as suas victimas. Elle matou o pae, é bem +certo. Mas tambem eu matei o meu e não morri... +Não morri, quando tantas vezes pedia a morte a Deus! +Deve portanto viver. +<br /> + +<br /> + +―Socega, minha amiga...―observou-lhe madre +Paula, vendo-a de cada vez mais agitada.―Tens fallado +muito... e, no estado de abatimento e fraqueza +em que te encontras, é isso uma imprudencia grave. +<br /> + +<br /> + +Disse e saiu deixando a doente em repouso. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[427]</span> +<h3><a name="c28"></a>XXVIII<br /> + +<br /> + +Coração morto +</h3> + +<br /> + +<br /> + +Helena de Noronha, a instancias de madre Paula +e de D. Aurelia, consentiu em receber a visita de Julio +de Montarroyo. +<br /> + +<br /> + +O encontro d'estes dois desgraçados, depois de tantos +annos d'ausencia, foi tudo quanto póde imaginar-se +de mais simples e de mais tocante. +<br /> + +<br /> + +Elle, um velho quasi demente, ella, moribunda, +quasi um cadaver. +<br /> + +<br /> + +O que vivia n'elles ainda era a reminiscencia de +tempos passados, era a amarga lembrança de uma +mocidade distante, que nem um nem outro puderam +gozar na plenitude da ventura que sonharam. +<br /> + +<br /> + +No fundo de seus corações, estava gravada a +imagem +de cada um d'elles. Julio de Montarroyo, nas +evocações da sua amada, não via a +pobre e andrajosa +creatura de face cadaverica, que o mestre +<em>Tomba</em> encontrara +exangue no seu caminho: via a gentilissima +e encantadora noviça que, no convento do Sardão, +proferira os sagrados votos, envolta n'uma nuvem de +incenso, entre o resplendor das luzes e os canticos das +religiosas suas companheiras de fé e martyrio. Ella, +<span class="pagenum">[428]</span> +pela sua parte, quando volvia os olhos ao passado e +proferia o nome de Julio, era sempre a imagem do +louro e gracioso mancebo da Serra do Carvalho que +via reflectir-se na sua retina de allucinada. +<br /> + +<br /> + +E assim se amaram e se viram com os olhos da +alma no longo precurso dos dezoito annos decorridos. +<br /> + +<br /> + +Nem um nem outro jámais havia pensado que o +tempo, na sua marcha destruidora, pudesse ter roubado +a frescura e a gentileza áquelles rostos que mutuamente +se reviam nas horas tristes de uma ausencia +crudelissima. +<br /> + +<br /> + +Foi, pois, com um mixto de surpresa e de doloroso +espanto que os dois se encararam, quasi sem se reconhecerem. +<br /> + +<br /> + +Julio de Montarroyo recuara um passo aterrado +diante d'aquella moribunda que, com os olhos desmesuradamente +abertos e os labios como que a reprimirem +um grito de surpresa, o observava apavorada. +<br /> + +<br /> + +―Não esperava encontrar-me tão velho, +não é +verdade, Helena de Noronha? +<br /> + +<br /> + +―Diga antes, meu amigo―volveu-lhe Helena―que +não esperava tornar a vêl-o n'este mundo... +Pensava +ir esperal-o na outra patria... na patria dos +grandes desgraçados, onde as dôres acabam e a +ventura +começa... Seria melhor para si... poupal-o-hia +ao doloroso espectaculo que está presenceando... Procurava +Helena de Noronha e encontra um cadaver, +não é assim? +<br /> + +<br /> + +Julio aproximou-se do leito, tomou a mão descarnada +da pobre Helena e, levando-a aos labios com +piedoso respeito, apenas pôde murmurar: +<br /> + +<br /> + +―Ha dezoito annos que a procuro, Helena... +ha dezoito annos que a sua imagem occupa constantemente +o meu pensamento, que o seu nome é a +oração +unica que meus labios sabem proferir. Posso agora +morrer, pois que a encontrei viva para lhe dizer que +<span class="pagenum">[429]</span> +não a esqueci, que, fiel ao amor que lhe jurei, gastei +a mocidade e a vida, percorrendo o mundo em sua +procura. +<br /> + +<br /> + +―Pobre amigo!―murmurou Helena com as lagrimas +a bailarem-lhe nos olhos―Era digno de melhor +sorte! Eu fui a sua má estrella... Era fatal que +todos os que se aproximassem de mim fossem infelizes! +E todavia, Deus sabe que nunca pratiquei o mal +pelo mal... Aquelles que eu mais amei foram aquelles +que mais fiz soffrer... Perdôe-me, Julio! perdoe-me +e creia―agora posso dizer-lh'o, porque me sinto +já bafejada pelo sopro gelido da morte―creia que +foi o unico homem que fez palpitar o meu pobre +coração +de mulher... +<br /> + +<br /> + +―Se isso era assim, porque não veio, Helena, +porque não veio quando a chamei, quando a instei a +que abandonasse o convento e viesse salvar seu pobre +pae? Que desgraças teria poupado, minha pobre +amiga! +<br /> + +<br /> + +―Não podia... não podia!... Era +impossivel +sahir d'aquelle inferno em semelhante occasião... Ah! +se soubesse que horriveis laços me prendiam ao poste +de martyrio em que eu agonisava, decerto não me +lançaria +agora em rosto a minha recusa! +<br /> + +<br /> + +―Deus me livre de a accusar, Helena! Amo-a +muito para que pense em dirigir-lhe a menor censura, +o mais leve queixume... +<br /> + +<br /> + +―Ama-me, diz! Deve amar-me como se amam +os mortos... com a saudade e o luto no coração, +porque +eu, meu amigo, não sou mais que um cadaver. +<br /> + +<br /> + +Julio de Montarroyo abeirou-se do leito, tomou-lhe +a mão, que levou aos labios respeitosamente exclamando: +<br /> + +<br /> + +―Não falle em morrer, minha amiga! Deus, que +permittiu que nos tornassemos a vêr, ha de tambem +<span class="pagenum"><a name="p430">[430]</a></span> +permittir que resurja para a vida e para a felicidade... +<br /> + +<br /> + +―Não, não... É inutil toda a +esperança. Deus +é bom, Deus é justo e misericordioso; e se +consentiu +que o meu amigo ainda me encontrasse viva, foi unicamente +para que pudesse ouvir dos meus labios esta +confissão sincera e franca do meu amôr: Amei-o, +<a href="#e46">Julio de</a> Montarroyo... amei-o, +para maior desgraça +e castigo meu!... Se esta declaração feita +á beira +do tumulo póde servir-lhe de algum lenitivo... receba-a +como a sincera expressão de uma alma que passou +no mundo incomprehendida... +<br /> + +<br /> + +―Helena! fossem quaes fossem os motivos que a +impediram de salvar seu pobre pae, quando eu anciosamente +lh'o supplicava; fossem quaes fossem as rasões +que a levaram a faltar á sua promessa de me dar noticias +suas em Paris, tudo respeito e tudo dou por +justo e bem cumprido; mas, por Deus lh'o peço! reanime-se, +ganhe novos alentos e triumphe da doença e +da morte para me conceder, ao menos no ultimo quartel +da minha desgraçada existencia, a esmola bemdita da +sua presença! +<br /> + +<br /> + +―Que não cumpri a promessa de lhe dar noticias +minhas em Paris?―balbuciou Helena fazendo visiveis +esforços para se recordar―Não tenho a minima +ideia de alguma vez ter sabido que o senhor estaria +em Paris. +<br /> + +<br /> + +―Pois não me escreveu uma carta dizendo-me +que partia para lá e convidando-me a que a seguisse +á capital de França e ahi aguardasse noticias +suas? +<br /> + +<br /> + +―Nunca lhe escrevi tal carta!―bradou Helena +surprehendida. +<br /> + +<br /> + +―Todavia, eu recebi uma carta sua, com a sua +letra e a sua assignatura a dar-me parte da sua ida +para França e a pedir-me que a seguisse... Não +foi +realmente para Paris? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[431]</span> ―Nunca sahi do reino! Essa carta é mais uma +infamia do miseravel que me perdeu! +<br /> + +<br /> + +―A letra, porém, era de tal modo semelhante á +sua que a tomei como verdadeira, e parti immediatamente, +na ancia de cumprir as suas ordens! +<br /> + +<br /> + +―Meu pobre amigo! Como esse maldito padre +abusou da sua boa fé! +<br /> + +<br /> + +―Esperei-a pacientemente, durante, muitos mezes +no Hotel das Nações, aonde ficara de me mandar +noticias. Como, porém, a minha espectativa fosse baldada, +resolvi-me a procural-a por todos os conventos +e casas religiosas da França; e não a +encontrando, +passei á Hespanha, á Italia, á Africa, +ao Brasil, a +toda a parte, emfim, onde a negra milicia exerce as +suas hypocritas manobras, sempre sem poder achar +o menor vestigio da sua passagem, minha pobre amiga! +Bem sabia que o meu projecto de a encontrar por +semelhante modo era uma loucura irrealisavel. Mas +emquanto a procurava, vivia da esperança de a encontrar, +a sua imagem estava presente sempre ao meu +espirito, o seu nome era o meu constante pensamento... +Perdidos dezeseis annos de vida n'estas +investigações +sem resultado, cheguei a convencer-me de que +estava morta; e então, não podendo alimentar-me +mais +da esperança de a tornar a vêr, quiz ao menos +cercar-me +de tudo quanto fosse uma recordação sua, e +comprei a casa de seu pae, onde tudo me fallava +d'aquella que tanto amara e que fôra a minha unica +aspiração n'este mundo. +<br /> + +<br /> + +Helena de Noronha fitára no desgraçado os seus +grandes olhos brilhantes de febre e duas grossas lagrimas +lhe rolaram silenciosas pelas faces. +<br /> + +<br /> + +―Foi de todos o mais infeliz, meu pobre amigo!―suspirou +ella.―Quiz Deus, para me punir da minha +ingratidão e desobediencia para com meu pae, +que eu não morresse antes de avaliar bem o enorme +<span class="pagenum">[432]</span> +thesouro de affectos que perdi n'essa nobre alma, tão +digna de melhor sorte e de mais ventura!<br /> + +<br /> + +<div class="dots"></div> + +<div class="dots"><br /> + +</div> + +<br /> + +Helena de Noronha escutara com uma expressão +de profundo assombro, que mais e mais se lhe accentuava +no rosto á medida que ia ouvindo, a narrativa +de Julio. +<br /> + +<br /> + +Quando este chegou ao fim, comprehendeu então +que tinha sido amada por aquelle homem com um +ardôr e um enthusiasmo que tocava as raias da loucura. +Um mixto de dôr e de felicidade inaudita lhe +agitou o seio arquejante. Pôz as mãos e levantando +os olhos ao ceu, exclamou: +<br /> + +<br /> + +―Graças, meu Deus!! que se foi grande o soffrimento +que me déste, em expiação das minhas +faltas, +tambem não é menor a +consolação que me concedeste, +permittindo que eu me soubesse tão profundamente +amada! +<br /> + +<br /> + +E volvendo os olhos para Julio, n'uma accentuação +de vidente: +<br /> + +<br /> + +―Meu amigo―acrescentou―uma outra patria +nos espera, que não esta em que tantos soffrimentos e +martyrios nos attribularam a existencia. Lá nos +encontraremos, +Julio. Agora mais do que nunca o acredito, +porque Deus, tão logico e tão consequente em +tudo quanto fez e creou, seria monstruosamente absurdo +se désse á creatura humana os horrores de um +martyrio que ella não provocou, para a lançar por +fim no aniquillamento absoluto, de par com os que +nada soffreram e muito gozaram. Não! não +póde ser! +Soffrer sem motivo, gozar sem merito, unicamente +pelo capricho de um acaso fortuito, de uma circumstancia +inesperada, não póde ser. Que eu soffresse e +me encontre reduzida a este misero estado em que me +<span class="pagenum">[433]</span> +vê, recebendo a esmola de um abrigo da compassiva +mão de uma amiga, comprehende-se, é justo, +é logico +que assim succedesse, porque o meu crime provocou a +expiação. Mas o senhor, moço, rico e +feliz, sem um ligeiro +desvio do caminho do bem e do dever, porque +motivo soffreu assim? Porque motivo andou errante +dezesseis annos pelo mundo, em busca de uma felicidade +que lhe fugia, expiando de um modo cruel as +faltas de outrem... as minhas faltas? Eis aqui o innocente +envolvido na condemnação do culpado... Porque? +Isso é o que não se comprehende, e resultaria +absurdo +monstruoso, injustiça flagrante, sem a existencia de +uma vida futura em que as faltas teem de ser relevadas +pela expiação e os martyres innocentes +terão +de ser recompensados... Oh! não tenha duvida, Julio +de Montarroyo, isto não acaba, não +póde acabar +aqui! +<br /> + +<br /> + +Esta longa tirada foi dita com um ardor e uma +agitação de tal modo violenta, que bem deixava +perceber +a excitação febril da doente. +<br /> + +<br /> + +Julio de Montarroyo tentou socegal-a. +<br /> + +<br /> + +―Minha amiga―disse-lhe elle―é bem certo +que muito temos ainda que esperar da misericordia e +da justiça divina. E é por isso mesmo que eu lhe +peço, +minha querida Helena, que tenha animo e coragem, +que não desanime nem descreia de quem tudo póde +e tudo ordena. Tenho fé que virão dias melhores +para nós n'este mundo... Depois de uma juventude +tão tormentosa e cortada de crueis vicissitudes, +não +será licito esperar que Deus se amerceie do nosso +soffrimento +de tantos annos e nos reserve na ultima quadra +da existencia alguns dias de serena tranquilidade +na companhia d'aquelles a quem mais queremos? +<br /> + +<br /> + +Um amargo e triste sorriso, vincando os labios da +doente, respondeu a estas palavras. +<br /> + +<br /> + +Julio tentava ainda illudir-se e queria communicar +<span class="pagenum">[434]</span> +ao coração da enferma um raio da pallida +esperança +que já mal o animava a elle. +<br /> + +<br /> + +―Vou deixal-a, Helena. O repouso deve fazer-lhe +bem. Espero que amanha, quando voltar, hei de encontral-a +mais serena e mais bem disposta a encarar +a nossa situação por outro prisma. Escuso +dizer-lhe +que a sua casa é ainda e sempre sua. Não +deverá, +á esmola nem á compaixão de ninguem o +abrigo do +mesmo tecto que a acolheu na infancia. Peço-lhe +só +que melhore; e no dia em que recobrar forças para +entrar em sua casa, eu sahirei d'ella, se a minha boa +e querida Helena de Noronha não achar no mais intimo +da sua alma uma solução que permitta a +convivencia +dos dois no mesmo lar... De qualquer das +fórmas, o seu coração +decidirá... +<br /> + +<br /> + +―O meu coração está morto para tudo o +que é +d'este mundo, meu amigo...―balbuciou Helena, +cahindo agora em profundo abatimento―Agradeço-lhe +a generosidade com que pretende ainda insuflar no +meu espirito um resto de apêgo á vida... Mas eu +estou +morta, creia... +<br /> + +<br /> + +―Pois bem!―exclamou Julio n'um impeto de +desespero―se de todo em todo pretende morrer, morreremos +ambos! Se não podemos unir-nos durante a +vida, faremos ao menos a eterna viagem no mesmo +dia e á mesma hora. +<br /> + +<br /> + +―Louco! Ignora que a vida é um deposito precioso +de que não é licito a nenhum de nós +despojar-se, +sem que nos seja reclamada por quem nol-a confiou? +<br /> + +<br /> + +―Se a vida é um favor, eu tenho o direito de a recusar, +por isso mesmo que a não pedi. Se é um ultrage +que se me faz, um soffrimento a que me condemnam, +maior direito me assiste de a rejeitar, pois que o juiz +que me castiga se abstem de me dizer o delicto de que +sou reu! +<br /> + +<br /> + +―Não falle assim, meu amigo! Quem teve animo +<span class="pagenum">[435]</span> +para soffrer até aqui, deve tambem ter coragem para +supportar o resto e esgotar até ao fim o calix da amargura +que lhe foi offerecido... Adeus! Amanhã tornaremos +a vêr-nos e tenho esperança de que o hei-de +encontrar mais resignado... +<br /> + +<br /> + +Estendeu-lhe a mão descarnada e transparente que +elle beijou; e, extenuada, pousou a cabeça no travesseiro, +onde se sumiram duas grossas lagrimas que +furtivamente se lhe escaparam dos olhos semi-cerrados. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[436]</span> +<h3><a name="c29"></a>XXX<br /> + +<br /> + +Confidencias +</h3> + +<br /> + +<br /> + +Em quanto estas scenas se passam em S. Martinho +do Campo, voltemos nós ao Porto, entremos na +mysteriosa casa de S. Bento da Victoria, onde já uma +vez introduzimos o leitor, e ouçamos o dialogo alli travado +entre Jorge de Gusmão e o singular e estranho +personagem a quem o amigo de Paulo dava o tractamento +de <em>Mestre</em>. +<br /> + +<br /> + +O homem dos occulos verdes está, como da outra +vez, sentado á sua banca de trabalho, e falla com +affectuoso semblante para aquelle que parece ser o seu +discipulo querido. +<br /> + +<br /> + +―E então―pergunta elle―como vão os negocios +do nosso novel irmão? +<br /> + +<br /> + +―Mestre, quanto ao rapto de Beatriz, nada transpirou +ainda. Eugenio de Mello, apesar de morto, continua +a carregar com as culpas do desapparecimento +da rapariga. A loura, industriada por João Lazaro, +persiste em affirmar que Eugenio se suicidou, porque, +tendo ella recusado emprestar-lhe dinheiro para fugir +para Hespanha, inesperadamente disparou um tiro na +<span class="pagenum">[437]</span> +cabeça, declarando n'esse momento que estava perdido +e que só a morte lhe restava como ultimo recurso. +<br /> + +<br /> + +―De modo que a policia, sem provas e sem indicios +que justifiquem a suspeita de um crime, não terá +remedio senão pôr a loura em liberdade. +<br /> + +<br /> + +―Creio bem que sim. Demais a mais, a bala foi +diparada tanto a sangue-frio e com tal habilidade, +que, pela autopsia, não se descobriu indicio compromettedor. +<br /> + +<br /> + +―E quem sabe se realmente se trata de um +suicidio? +<br /> + +<br /> + +―Não creio, Mestre. Em primeiro logar, Eugenio +de Mello era crynico bastante para +não pensar em matar-se, +fossem quaes fossem as desgraças que o acabrunhassem. +Em segundo logar, João Lazaro é sufficientemente +preverso para induzir a loura, de quem +deseja apoderar-se, a praticar este assassinato por +vingança. Tenho, pois, a certeza, quasi iria jural-o, +que Eugenio de Mello não se suicidou. +<br /> + +<br /> + +―O que de resto pouco deve importar-nos... A +sociedade não perdeu nada com a +eliminação d'aquella +existencia... +<br /> + +<br /> + +―Absolutamente nada. Pelo contrario, lucrou. Agora, +quanto a Paulo, partiu hoje para fóra do Porto, a +juntar-se á sua mãe adoptiva, á madre +Paula, que o +mandou chamar de S. Martinho de Campo, onde se +encontra, a pretexto de que precisa que elle lhe vá +fazer companhia. +<br /> + +<br /> + +―Paulo partiu para S. Martinho de Campo?―perguntou +o homem dos occulos, frazindo o sobr'olho. +<br /> + +<br /> + +―Partiu. +<br /> + +<br /> + +―É singular!―disse elle―E que genero de +negocio retem madre Paula n'esse logar? +<br /> + +<br /> + +―Não sei. Em uma das suas primeiras cartas, +madre Paula explicava que tinha sido chamada alli +<span class="pagenum">[438]</span> +por uma amiga intima, que já não via ha muitos +annos, +e que se encontrava perigosamente enferma... +<br /> + +<br /> + +O <em>Mestre</em> ficou silencioso por algum +tempo, como +que buscando uma explicação para este facto. +<br /> + +<br /> + +―É extraordinario!―disse elle por fim, quasi +fallando comsigo mesmo―é extraordinario que madre +Paula mande chamar o seu protegido para lhe +fazer companhia, quando sabe que a sua ausencia de +junto da noiva importa para o pobre moço um verdadeiro +sacrificio... +<br /> + +<br /> + +―Tambem me quiz parecer isso. +<br /> + +<br /> + +―Bem!―concluiu o Mestre―o verdadeiro motivo +d'esse estranho chamamento ha de saber-se... +<br /> + +<br /> + +―Se o Mestre entende que devemos proceder a +averiguações... +<br /> + +<br /> + +―Sim. Convem saber quem é e como se chama +essa amiga que retem junto de si madre Paula. +<br /> + +<br /> + +―É coisa facil. A <em>Mão +Negra</em> está de tal modo +ramificada, que em toda a parte encontramos irmãos a +quem recorrer em casos extremos. O Mestre bem o +sabe, pois que a obra é sua e á grande energia e +profundo +saber com que nos tem guiado deve a nossa +Associação +o rapido impulso e a prodigiosa importancia que +conquistou. +<br /> + +<br /> + +O homem dos oculos fixou por alguns instantes, +atravez dos vidros, os olhos no seu interlocutor e +disse: +<br /> + +<br /> + +―Jorge, a <em>Mão Negra</em> +póde ser um instrumento +do Bem, como póde ser um instrumento do Mal, conforme +o pensamento do seu supremo dirigente fôr alevantado +e nobre ou mesquinho e vil. As bases em +que assenta a nossa mysteriosa aggremiação +permittem +concentrar na mão de um só homem a vontade e as +energias de muitos; e d'aqui resulta uma cohesão e um +poder de tal modo irredutivel, que força alguma da +terra ousará combatel-o ou destruil-o. A nossa principal +<span class="pagenum">[439]</span> +força está no mysterio em que ella se +exerce. +Todos os demais poderes vivem publicamente, á luz +do dia; os seus menores movimentos, as suas mais +occultas intenções poderão ser +observadas e surprehendidas. +Nós, pelo contrario, trabalhamos na sombra, +e a nossa acção, exercitando-se livremente, +faz-se +sentir sem deixar conhecer a origem. Isto torna-nos +invulneraveis como a propria divindade. Assim, podemos +dizer: «Os homens propõem e a +<em>Mão Negra</em> +dispõe». +<br /> + +<br /> + +―É certo―confirmou Jorge―Mas que outro +cerebro, senão o do Mestre, poderia conceber e realisar +o maravilhoso plano da nossa Associação, de modo +a +prender nos fios subtilissimos de uma grande teia de +interesses communs o destino de todos e de cada um? +Confesso, Mestre, que só um espirito superior e uma +sciencia profunda como a sua poderiam levar a cabo +tamanha e tão extraordinaria empreza. +<br /> + +<br /> + +O homem que dava pelo nome de Mestre fitou +Jorge com interesse, e n'um tom repassado de extraordinario +carinho, disse-lhe: +<br /> + +<br /> + +―Tu, meu amigo, és novo, és forte e +és intelligente. +A ti está reservada a alta missão de continuares +um dia a minha obra, que é realmente grandiosa. +<br /> + +<br /> + +―Eu, Mestre―replicou Jorge―tenho os hombros +extremamente debeis para tamanha empreza. +<br /> + +<br /> + +―Não. Tu és o unico de entre tantos que +deverá +succeder-me. Como sabes, eu sou o poder occulto que +tudo dirijo e tudo governo dentro da nossa +Associação. +Em meu nome, poderás governar, mandar e dirigir, +mesmo depois da minha morte. +<br /> + +<br /> + +―Pensa em morrer? Mestre!―exclamou Jorge +surprehendido. +<br /> + +<br /> + +―A ideia da Morte deve estar sempre presente +ao homem que, podendo tanto, só não +póde prolongar +<span class="pagenum">[440]</span> +a vida uma hora, um instante mais alem d'aquelle que +marca o fim da sua existencia sobre a terra. Ha muito +que eu penso, Jorge, na maneira de triumphar da +Morte continuando a viver na vida e no pensamento +da nossa Associação; e, sendo assim, eu +não podia +deixar de pensar em ti como meu continuador... +<br /> + +<br /> + +―Oh, Mestre!―fez Jorge commovido. +<br /> + +<br /> + +―És o unico que ha muitos annos privas particularmente +comigo; és o unico que bem conhece os fios +occultos que movem a nossa Associação; +és, portanto, +o unico no caso de me succeder e de sustentar com +honra e brio, com dignidade e consciencia, as +tradicções +já gloriosas da <em>Mão +Negra</em>. Não esqueças, meu +filho, que ella é a ingente força, o supremo +poder, e +terá no futuro em suas mãos os destinos da +humanidade. +<br /> + +<br /> + +―Mas a sua sciencia, Mestre, esse espirito investigador +e profundo, essa intelligencia privilegiada, esse +cerebro potentissimo que tudo pensa, tudo prevê e tudo +resolve, como poderei eu substituil-o? +<br /> + +<br /> + +O Mestre sorriu. +<br /> + +<br /> + +―Quando eu faltar―disse elle―virás a esta +casa, encerrar-te-has n'esta sala, sentar-te-has n'esta +cadeira, tal como eu estou agora, e consultarás o archivo +secreto da nossa Associação. Ha +aqui―accrescentou―todos +os elementos de que careces para proseguir +desassombradamente o caminho que encetei. +<br /> + +<br /> + +Depois abriu uma gaveta da meza, tirou um enorme +livro encadernado a preto e com fechos de metal. +<br /> + +<br /> + +―Este livro―disse elle, abrindo-o―está em +branco. Quando eu morrer, basta que lhe passes por +cima de cada folha uma lamina de ferro, aquecida, +para que a tinta sympathica em que está escripto se +revele e te permitta fazer a leitura. Então +encontrarás +aqui a historia d'este homem mysterioso a quem +tanto te affeiçoaste e cuja origem desconheces. Este +<span class="pagenum">[441]</span> +livro que é toda a minha vida e toda a minha sciencia, +é tambem toda a vida da nossa +Associação. Sê +prudente, sê sabio e sê justo, meu filho; e se a +historia +da minha vida puder merecer-te uma lagrima de +compaixão, que essa lagrima se crystalise e se transforme +na perola dos nobres intuitos, como symbolo do +Bem com que eu quiz redimir tanto mal feito e recebido +da mão da perfidia e da traição +humana.<br /> + +<br /> + +Jorge ouvia o velho sem o comprehender, mas +sentia-se singularmente commovido. +<br /> + +<br /> + +―Mestre!―exclamou elle com voz tremula e repassada +de ternura―afastemos para longe de nós a +ideia da morte. Não me assusta a perda da propria +vida, mas aterra-me o pensamento de que posso ver +morrer aquelle que tem sido o meu melhor amigo, o +meu verdadeiro e unico Mestre. +<br /> + +<br /> + +Os dois calaram-se e permaneceram mudos e silenciosos +por alguns instantes. +<br /> + +<br /> + +Evidentemente, uma profunda commoção embargava +n'esse momento a voz áquelles dois homens energicos, +tão fortes e tão activos que, consubstanciados +no mesmo pensamento, tinham conseguido organisar, +dominar e dirigir com superior intelligencia uma das +mais poderosas e terriveis associações secretas +dos +nossos dias. +<br /> + +<br /> + +―Meu amigo―disse por fim o mysterioso personagem +dos oculos―era indispensavel que eu te manifestasse +a minha ultima vontade, antes de partir +para a grande romagem. Não é que eu pense +realisal-a +breve; mas como a vida é um thesouro de que +apenas somos depositarios, um valor á ordem que pode +ser-nos reclamado de um momento para o outro, o meu +dever é prevenir. Aqui tens e aqui ficam n'este livro +todas as indicações precisas para poderes +continuar a +minha obra. Se eu faltar, repito, assume a +direcção +suprema da <em>Mão negra</em>, e o +meu espirito será comtigo. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p442">[442]</a></span> +<h3><a name="c30"></a>XXX<br /> + +<br /> + +Mãe +</h3> + +<br /> + +<br /> + +Madre Paula enviára o +<em>Tomba</em> ao Porto com uma +carta a chamar para junto de si o <a href="#e47">filho</a> +da +<em>Irmã Dorothea</em>, +sob pretexto de que precisava da sua companhia +por alguns dias, para suavisar com a sua presença +o aborrecimento do padre Filippe, constrangido a permanecer +alli emquanto ella velava o leito de uma amiga +intima, perigosamente enferma. +<br /> + +<br /> + +No mesmo dia em que Paulo chegou, a abbadessa +approximou-se do leito de Helena e disse-lhe sorrindo: +<br /> + +<br /> + +―Deixas que eu te entremostre, minha amiga, um +pedaço do ceu azul da tua existencia por entre as +brumas do soffrimento que te opprime? +<br /> + +<br /> + +―O que queres dizer? +<br /> + +<br /> + +―Quero dizer que está n'esta casa, debaixo do +mesmo tecto que te abriga, um rapaz que seria o +orgulho e a consolação de sua mãe, se +sua mãe consentisse +em o vêr e lhe fallar... +<br /> + +<br /> + +―Meu filho!?―bradou Helena em sobressalto +com um afflictivo gesto de terror―Pois tu, Paula, +trouxeste a esta casa esse testimunho vivo da minha +deshonra? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[443]</span> ―Quem o conhece, senão eu e tu? Para todos os +effeitos, Paulo é meu sobrinho, e elle proprio +está longe +de pensar em que se encontra tão perto de sua +mãe... +<br /> + +<br /> + +―Embora! Por Deus, poupa-me a esse enorme +sacrificio, a essa horrorosa angustia! +<br /> + +<br /> + +―Helena, porque teimas em te mostrar sem +coração, +quando toda a tua vida está provando o contrario, +filha? Lembra-te de que o mesmo terror experimentaste +quando se te fallou em receberes Julio de +Montarroyo. E comtudo, a sua presença, em vez de +te mortificar, alegrou-te, quasi te restabeleceu... Pois +bem; deixa-me apresentar-te agora teu filho. Nada +te obriga a reconhecel-o. O segredo fica entre ambas. +Se a sua presença te affligir, se continuares a detestal-o, +eu o arredarei para longe de ti... Se, pelo contrario, +te sentires bem ao lado d'elle, ouvindo-o e +apreciando-lhe as nobres qualidades, ficará e +continuará +a vêr-te, como uma pessoa amiga, na ignorancia +absoluta dos laços que o prendem a ti... +<br /> + +<br /> + +Helena de Noronha guardou um silencio indeciso +que era quasi uma acquiescencia. +<br /> + +<br /> + +As palavras de madre Paula eram de uma tão irresistivel +persuazão, que a doente nada tinha a oppôr-lhes. +<br /> + +<br /> + +―Comprehendes―disse ella―que nem curiosidade +nem affecto podem mover-me a receber esse rapaz +que para mim não passa de um estranho... +<br /> + +<br /> + +―E como estranho se conservará a teu lado... +Quem o duvida?―tornou a religiosa com aquelle +meigo sorrir que se prodigalisa aos enfermos impertinentes +e caprichosos.―Aqui, ha apenas da minha parte +o interesse de que conheças teu filho, que revivas nelle +os tempos felizes da tua infancia, recordando nas +suas feições as feições de +teu pae... +<br /> + +<br /> + +―Pois sim... que venha!―disse por fim Helena, +com visivel esforço. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[444]</span> +Paulo foi introduzido no quarto da doente. +<br /> + +<br /> + +O mancebo, com a polidez propria das pessoas indifferentes, +abeirou-se do leito; e pois que madre Paula +lhe explicára que esta approximação +tinha unicamente +por fim distrahir a sua amiga e desviar-lhe o +espirito de dolorosas preoccupações moraes que a +obsidiavam, +envidou todos os esforços por tornar alegre e +interessante a sua conversação. +<br /> + +<br /> + +―Disseram-me que v. ex.<sup>a</sup>―principiou elle por +declarar, dirigindo-se a Helena―ainda por muito tempo +reteria junto do seu leito esta boa e santa senhora +que é minha mãe; e esta alarmante perspectiva +obrigou-me +a vir supplicar-lhe que se restabeleça o mais +breve que ser possa, porque, em verdade, minha senhora, +começo a sentir-me lesado nos meus sagrados +direitos... de filho. +<br /> + +<br /> + +―Não é minha vontade prejudical-o...―replicou +Helena fitando-o e estudando-lhe demoradamente +as feições.―Quando escrevi á minha +amiga Paula, pedindo-lhe +a esmola da sua companhia, estava bem +longe de suppôr que um tal pedido significasse uma +contrariedade para alguem... +<br /> + +<br /> + +―Oh, minha senhora! peço-lhe que não tome +á +lettra as minhas palavras―atalhou Paulo rindo.―Isto +é mero gracejo da minha parte e tanto mais desculpavel +quanto é certo que v. ex.<sup>a</sup> se me +affigura em +via de um prompto restabelecimento... E como não +quero passar tambem sem o meu quinhão de importancia +n'este jubiloso caso de a vermos restituida á saude +e á vida, tracto de fazer valer, desde já, os +meus +direitos a um louvor que não mereço... De resto, +minha senhora, eu felicito-me de a encontrar n'um +estado que está bem longe de ser o que á minha +imaginação +se apresentava. Julguei vir encontrar uma velhinha +na agonia, uma luz bruxuleante, quasi a extinguir-se; +e com grande surpreza e alegria minha, encontro +<span class="pagenum">[445]</span> +uma senhora nova e formosa ainda. V. ex.<sup>a</sup>, +embora um pouco abatida pela doença, apresenta um +aspecto promettedor de muita vida... Antes assim! +<br /> + +<br /> + +―É demasiado lisongeiro para com uma pobre +doente, sr. Paulo de... +<br /> + +<br /> + +―De Noronha, minha senhora―apressou-se Paulo +a dizer, notando a hesitação de Helena. +<br /> + +<br /> + +―Ah! v. ex.<sup>a</sup> usa esse +appellido?―não pôde +Helena impedir-se de perguntar. +<br /> + +<br /> + +―Uso, minha senhora; e se quer que lhe falle +com franqueza, não sei bem porquê... +<br /> + +<br /> + +―Naturalmente, appellido de seus paes... +<br /> + +<br /> + +―Não os conheci, nunca tive a menor noticia delles... +Tanto sei se eram Noronhas como se eram Silveiras... +Podiam ser uma e outra coisa, ou podiam +não ser coisa nenhuma d'estas... Quem podia talvez +dizer-me alguma coisa com verdade a esse respeito +era minha mãe... +<br /> + +<br /> + +―Sua mãe!―interrompeu Helena, mal podendo +dominar o sobresalto―Conhece-a? +<br /> + +<br /> + +Paulo indicou rindo madre Paula: +<br /> + +<br /> + +―Pois eu não disse ainda a v. ex.<sup>a</sup> +que minha +mãe +é esta santa senhora que v. ex.<sup>a</sup> tem +por amiga? +<br /> + +<br /> + +Madre Paula interveio: +<br /> + +<br /> + +―Não te admires, minha amiga. Paulo habituou-se +a chamar-me <em>mãe</em>, +não obstante saber que não é a +mim que deve a existencia... +<br /> + +<br /> + +―Pois a quem a devo? Que outra mãe conheci +eu, que affectos, que carinhos, que disvellos e cuidados +devo a outra que não seja a nobre e santa creatura +a quem me estou dirigindo?―accudiu Paulo +voltando-se para a superiora,―É bem certo―creio-o +e não discuto―que devo a existencia a um acto physiologico +de terceiros, que me produziram, tão independentemente +da sua vontade como da minha, e que por +isso mesmo se julgaram desobrigados de me reconhecer +<span class="pagenum">[446]</span> +e amparar. Mas esse facto não envolve sentimento +impeditivo do meu amor e ternura filial para com +aquelles a quem tudo devo, a quem considero meus +unicos e verdadeiros paes e que são madre Paula e o +padre Fillippe. +<br /> + +<br /> + +―Deve então odiar muito aquelles que lhe deram +o sêr...―balbuciou Helena com os olhos fitos nos +do filho. +<br /> + +<br /> + +―Não os odeio, minha senhora, lamento-os. +<br /> + +<br /> + +―Por natural instincto do coração talvez... +<br /> + +<br /> + +―Não. Por uma tendencia especial do meu espirito +para deplorar a sorte de todos aquelles que se +afastaram da linha recta do dever e resvalaram no crime +ou na cobardia. +<br /> + +<br /> + +―É singular! Como explica isso? Se não conheceu +seus paes, como póde saber se elles fôram cobardes +ou criminosos? +<br /> + +<br /> + +―A minha propria existencia m'o diz, minha senhora. +Eu appareço no mundo, filho de paes incognitos... +isto é, filho de pessoas que me negaram a paternidade +ou para se não macularem a si proprias ou para me +não macularem a mim. No primeiro caso, se temeram +a macula do meu nascimento e a ella se furtaram pela +vilta do anonymo, esta acção reflecte a cobardia +dos +seus sentimentos, porque não tiveram a coragem de +assumir a responsabilidade dos seus actos. No segundo +caso, se a sua situação era de tal modo contraria +ás +leis sociaes que, do chamarem-me +<em>filho</em>, revertia para +mim uma vergonha inilludivel, nenhuma duvida resta +de que meus paes fôram criminosos. De qualquer +modo, dois desgraçados com os quaes não tenho nem +quero nada de commum, a não ser para os lamentar, +como sempre lamento todos aquelles que, podendo ser +dignos e honestos, o não são, faltando aos +dictames +da sua consciencia e ao cumprimento dos seus deveres. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[447]</span> ―Então, se seus paes um dia lhe apparecessem +a reivindicar o direito que teem á sua ternura, +repudial-os-ia―perguntou +Helena com a voz de cada +vez mais sumida. +<br /> + +<br /> + +―Não, minha senhora―replicou Paulo +serenamente―não +os repudiaria, que não é do meu animo +repudiar os que soffrem e os que se arrependem. Mas +se pedissem ao meu coração mais do que o +compassivo +sentimento que se tem para com todos os desgraçados, +responder-lhes-ia que o meu amor e a minha ternura +filial pertenciam exclusivamente áquelles que me foram +paes adoptivos na infancia―a madre Paula e ao padre +Filippe. +<br /> + +<br /> + +Helena baixou os olhos e as faces purpurearam-se-lhe +n'uma commoção facil de explicar. +<br /> + +<br /> + +―Tem razão―murmurou ella―No entanto, talvez +que motivos ponderosos forçassem sua mãe a... +<br /> + +<br /> + +―A não ser minha mãe?―atalhou +Paulo―Perfeitamente +de accordo. A mim cumpre-me respeitar +esses motivos que não conheço e que nem sequer +tento +conhecer. Mas v. ex.<sup>a</sup> comprehende muito bem que, +se minha mãe teve motivos para me arredar de si +como a um objecto incommodo e compromettedor, eu +não posso ter no fundo do meu coração +razões que +justifiquem e fundamentem qualquer affecto e ternura +especial por ella. De resto, nós estamos apenas formulando +hypotheses que estão muito longe de factos, +pois não creio que venha a dar-se o caso de meus +paes um dia apparecerem a reclamar o filho que por +tantos annos repudiaram. +<br /> + +<br /> + +―Quem sabe?―observou madre Paula―Não +admittiste ha pouco a hypothese de que possam soffrer +ou arrepender-se? +<br /> + +<br /> + +―No campo das supposições, tudo póde +admittir-se, +minha boa mãe, porque tudo póde +suppôr-se... +Mas para que havemos de estar a preoccupar-nos com +<span class="pagenum">[448]</span> +um assumpto que não interessa a nenhum de nós, e +principalmente a mim? O facto é, minha senhora―proseguiu +elle, voltando-se para Helena―que eu, a +despeito da irregularidade do meu nascimento, sou feliz +quanto o póde ser um homem nas minhas circumstancias. +<br /> + +<br /> + +―Deve muito á Providencia, visto isso!―disse +Helena suspirando,―ha tão poucas pessoas que, +mesmo bem nascidas, possam dizer-se felizes!... +<br /> + +<br /> + +―É certo. Porém eu, até agora, e +presentemente, +posso considerar-me a mais feliz das creaturas. +Abandonado por meus paes... +<br /> + +<br /> + +―Mas quem te disse a ti que teus paes te abandonaram?―atalhou, +docemente reprehensiva, madre +Paula―É muito avançar, quando nada sabes a esse +respeito, Paulo! +<br /> + +<br /> + +O mancebo sorriu. +<br /> + +<br /> + +―Se eu penso assim, a culpa não é por certo +minha, +mas tão somente d'aquelles que tenazmente se +teem recusado a dizer-me uma palavra unica que me +illucide ácerca do meu nascimento. +<br /> + +<br /> + +E voltando-se para Helena: +<br /> + +<br /> + +―Desde a mais tenra infancia que eu vivo exclusivamente +do amparo e dos carinhos do padre Filippe +e de madre Paula, que considero meus paes pela +grandeza do beneficio e pela constancia do affecto. +Não conheci outros, nunca me fallaram de outros, +nunca d'outros me deram noticia. Já homem, tive um +momento na minha vida em que senti a necessidade +cruel de penetrar o mysterio do meu nascimento para +poder dizer á mulher que amava e que escolhera para +companheira de toda a minha existencia, o nome de +meus paes. Interroguei o padre Filippe. Respondeu-me +que não os conhecera, que d'elles não tivera +nunca +noticia, e que eu fôra passado á sua benevolente e +humanitaria tutella, como um <em>legado</em>, +no espolio de um +<span class="pagenum">[449]</span> +padre seu amigo, que morrera e que levara comsigo +para a sepultura o segredo da minha vinda a este +mundo. Creio que, n'estas circumstancias, quer as palavras +do padre Filippe exprimam a verdade quer a +encubram, o abandono não póde ser mais evidente +nem +mais completo. Não é v. ex.<sup>a</sup> +d'esta +opinião, minha +senhora? +<br /> + +<br /> + +―De certo―murmurou Helena com voz tremula. +<br /> + +<br /> + +―Mas eu não accuso meus paes do seu procedimento +para commigo, nem quando emprego esta palavra +<em>abandono</em> lhe ligo o menor sentimento +de revolta +e indignação que ella póde inspirar. +Nada d'isso. Elles +procederam assim, porque talvez tiveram motivos para +assim proceder. D'esses motivos, porém, não fui +eu o +culpado, e isso me basta pensar para minha completa +tranquillidade. Para tranquillidade d'elles, se forem +vivos e souberem de mim, bastar-lhes-ha a certeza de +que sou completamente feliz com o amor de madre +Paula e da minha noiva, e com a estima e paternal +affecto do padre Filippe. Aqui está, pois, um drama +que talvez no seu inicio ameaçou ser de lagrimas e +que, por um extraordinario desenrolar de circumstancias +favoraveis, acaba por apresentar todos os personagens +felizes e contentes comsigo mesmos! +<br /> + +<br /> + +Ao proferir estas ultimas palavras, Paulo ria jubiloso, +com aquella alegria franca do seu temperamento +expansivo e sincero. +<br /> + +<br /> + +Helena de Noronha, de cada vez mais encantada +com a attitude despretenciosa e alegre d'aquelle rapaz +que reproduzia nas feições e nos gestos os modos +e as +feições de Norberto de Noronha, sentiu-se +extraordinariamente +feliz ao ouvir da bocca do proprio filho palavras +de compassivo perdão para o criminoso abandono +a que ella o votara. +<br /> + +<br /> + +―O senhor―disse ella―possue uma alma nobilissima +e um coração dotado de generosos sentimentos. +<span class="pagenum"><a name="p450">[450]</a></span> +Merece ser feliz; e uma vez que já o é, +busque +nortear-se sempre pelos dictames da piedade e da +compaixão, mesmo para com aquelles que o offenderam +ou aggravaram... +<br /> + +<br /> + +O tom quasi supplicante em que <a href="#e48">estas</a> +palavras +foram ditas não escapou a madre Paula que, com a +sua natural perspicacia, comprehendeu bem o que se +passava na alma da sua amiga. +<br /> + +<br /> + +―Paulo é um bello caracter―interrompeu ella +envolvendo o mancebo n'um olhar de maternal ternura―e +sinto verdadeiro orgulho de ter sido eu a sua +educadora... Eu e o padre Filippe―emendou logo―porque +é justo não esquecer que esse exemplar sacerdote +tem tido com este filho adoptivo todos os extremos +e disvellos de um pae. +<br /> + +<br /> + +O mancebo começou então recordando alegremente +passagens esquecidas da sua infancia, travessuras de +creança, brincadeiras, affagos <a href="#e49">e +reprimendas</a> do padre +Filippe e de madre Paula, e n'isto levou algumas horas, +que muito distrahiram e interessaram Helena de +Noronha, agora de todo familiarisada com o filho. +<br /> + +<br /> + +Quando Paulo, pretextando não querer com a sua +conversação fatigar o espírito da +doente, se retirou +promettendo voltar depois, a religiosa, a sós com Helena, +perguntou-lhe: +<br /> + +<br /> + +―E então? +<br /> + +<br /> + +―Então, minha querida Paula―exclamou a +enferma―é +bem meu filho, é bem o neto de Norberto +de Noronha aquelle rapaz que alli está! +<br /> + +<br /> + +―Não te dizia eu que Paulo era um bello e excellente +moço, reflectindo na figura varonil e cheia de +nobreza as feições de teu pae? Dize-me, +não será elle +digno de que o ames como filho, e por elle e para elle +busques ainda viver? Não seria doce e consolador +para ti vêr-te, depois de tantos annos de soffrimentos +e amarguras, querida e amada por quantos te rodeiam? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[451]</span> +Helena teve um sorriso e os olhos brilharam-lhe +n'um fugitivo anceio de felicidade. +<br /> + +<br /> + +―Sim... sim!...―disse ella―seria feliz ainda, +se pudesse viver na companhia de meu filho, amada +por elle e respeitada por aquelles que me conhecem... +Mas isso é impossivel! E queres que te diga? Agora, +depois que vi meu filho... sinto-me mais desgraçada! +<br /> + +<br /> + +―Porque? +<br /> + +<br /> + +―Porque... tu comprehendes... na minha alma +começam a despertar agora todos os sentimentos do +amor maternal, e não posso dizer a meu filho: «Sou +tua mãe!»<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3> +<a name="c31"></a>XXXI<br /> + +<br /> + +O homem dos oculos verdes +</h3> + +<br /> + +<br /> + +Decorreram quinze dias de suave e doce convivencia +entre mãe e filho, na casa de D. Aurelia. +<br /> + +<br /> + +Madre Paula e a irmã de Gustavo, ambas de intimo +accôrdo no empenho de salvarem Helena de Noronha, +tinham sabido dispôr e conduzir as coisas de +modo que Julio, Paulo e o padre Manoel se encontrassem +muitas vezes reunidos á volta da doente, sem que +nenhum d'elles suspeitasse os laços de sangue que ligavam +aquelle mancebo, tão cheio de vida e de alegria, +á infeliz victima do padre Anselmo. +<br /> + +<br /> + +A pobre Helena parecia um tanto esquecida das +suas mágoas e infortunios, sentindo renascer dentro +em si o desejo de viver, tal era o amoravel cuidado +que todos punham em lhe suavisar a existencia, tão +attribulada de dôres physicas e moraes. +<br /> + +<br /> + +Infelizmente, o medico constatara que a doente +soffria de uma lesão cardiaca em estado bastante +adiantado, e que tanto podia deixal-a viver ainda muitos +mezes como dar-lhe a morte em breves dias. +<br /> + +<br /> + +Este diagnostico, porém, reservara-o apenas para +si, limitando-se a recommendar que não expuzess +Este diagnostico, porém, reservara-o apenas para +si, limitando-se a recommendar que não expuzessem a +<span class="pagenum">[453]</span> +enferma a sobresaltos e commoções fortes, que +podiam +ser-lhe de funestas consequencias. +<br /> + +<br /> + +O honesto homem de sciencia, reconhecendo quanto +a pobre doente era amada por todos que a cercavam, +não quiz destruir no coração dos que +tanto lhe queriam +a dôce esperança de a verem completamente salva. +<br /> + +<br /> + +Estava-se, pois, n'esta bella illusão de um restabelecimento +proximo, quando um dia, pelo fim da tarde, +bateu ao portão de D. Aurelia, pedindo para fallar +á +dona da casa, um desconhecido, que a todos causou +surpreza pelo seu extranho aspecto e pelas suas mysteriosas +maneiras. +<br /> + +<br /> + +Era um homem alto, de cabellos compridos e longa +barba grisalha. +<br /> + +<br /> + +Usava oculos verdes. Vestia um amplo casacão, +que quasi lhe descia aos calcanhares e que, todo abotoado +na frente, tomava o aspecto de uma sotaina. Na +cabeça, trazia um chapeu de enormes abas que, +ensombrando-lhe +o rosto, dava um aspecto mais carregado +á sua figura. +<br /> + +<br /> + +Viera a pé, encostado a um bordão e, comquanto +agil, parecia fatigado da longa jornada. +<br /> + +<br /> + +D. Aurelia, ao annunciarem-lhe o desconhecido, +sahiu á sala de visitas a recebel-o e ficou extranhamente +surprehendida ao vêr diante de si aquelle homem +que ao mesmo tempo lhe infundia respeito e mêdo. +<br /> + +<br /> + +―Minha senhora―disse elle com voz sonora, +mas em que havia uma certa suavidade―peço desculpa +de vir assim importunal-a, apresentando-me a +fazer-lhe um pedido sem para isso estar de forma alguma +auctorisado. Mas a importancia da minha missão +é tal, que eu atrevo-me a suppôr que v. ex.<sup>a</sup> +não +me recusará o auxilio de que careço para bem a +cumprir. +<br /> + +<br /> + +―Não conheço a pessoa a quem estou +fallando―respondeu +D. Aurelia, com simplicidade―mas se é o +<span class="pagenum">[454]</span> +meu concurso para uma obra boa que vem pedir, rogo-lhe +a fineza de me dizer em que posso ser-lhe util. +<br /> + +<br /> + +O desconhecido baixou a voz e disse n'um tom de +confidencia: +<br /> + +<br /> + +―Fui amigo intimo de Alvaro de Noronha, e elle, +um dia antes de ser assassinado, constituiu-me depositario +de um segredo de familia, que só deve ser revelado +a sua prima, a sr.<sup>a</sup> D. Helena de Noronha, +actualmente n'esta casa... +<br /> + +<br /> + +D. Aurelia fitou-o perplexa. +<br /> + +<br /> + +―E como sabe v. ex.<sup>a</sup> que a minha amiga Helena +está aqui, quando toda a gente ignora... +<br /> + +<br /> + +O desconhecido sorriu de um modo indefinido e +volveu com firmeza. +<br /> + +<br /> + +―Sou um homem de bem, minha senhora, e sei +cumprir os meus juramentos. Jurei ao meu amigo +Alvaro que revelaria a sua prima o segredo de familia +que elle me confiou com esse fim, e não me tenho +poupado a esforços para bem cumprir a ultima vontade +do moribundo. Tendo a snr.<sup>a</sup> D. Helena +permanecido +em parte incerta durante muitos annos, comprehende +v. ex.<sup>a</sup> certamente o empenho com que eu terei +buscado +encontral-a, mórmente achando-me no fim da +vida quasi, e não querendo levar commigo para a sepultura +um segredo que me não pertence... +<br /> + +<br /> + +―Quer v. ex.<sup>a</sup>, pois, fallar com Helena de +Noronha? +<br /> + +<br /> + +―É esse o unico objecto da minha vinda a casa +de v. ex.<sup>a</sup>, e para isso ouso supplicar-lhe o +favor da +sua intervenção. +<br /> + +<br /> + +―A minha amiga, não sei se sabe, tem estado +muito doente... +<br /> + +<br /> + +―Mas tambem sei que ultimamente tem experimentado +sensiveis melhoras. +<br /> + +<br /> + +―O medico recommendou que lhe evitassemos +commoções violentas... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[455]</span> ―Estou persuadido de que a minha presença não +poderá causar-lhe a menor commoção, +pois que me +não conhece, como eu tambem pessoalmente a não +conheço +a ella. +<br /> + +<br /> + +―Mas o objecto da sua visita... +<br /> + +<br /> + +―Não póde ser-lhe de modo algum +desagradavel―atalhou +o desconhecido―porque o que tenho a +dizer-lhe é a coisa mais simples e mais natural d'este +mundo. +<br /> + +<br /> + +―Quem devo, pois, annunciar á minha amiga? +<br /> + +<br /> + +―Dar-lhe o meu nome é inutil, porque lhe será +sempre desconhecido. Se v. ex.<sup>a</sup> tivesse a +bondade, +dir-lhe-hia que um amigo de seu primo Alvaro pretende +fazer-lhe uma communicação importante e do +mais alto interesse para ella. +<br /> + +<br /> + +D. Aurelia entrou no quarto da enferma, que a +essa hora estava conversando com Julio, Paulo e a +abbadessa, todos já conhecidos e convivendo n'aquella +intimidade tão facil e tão peculiar á +gente da provincia. +<br /> + +<br /> + +Helena, muito animada e, ao parecer, muito melhor +dos seus soffrimentos physicos, inspirava a todos uma +grande esperança de a verem em breve completamente +restabelecida. +<br /> + +<br /> + +Chegara mesmo, em conversação intima com madre +Paula, a fazer projectos de viver, como governante, +em companhia do filho e da nora, logo que +elles fossem casados. +<br /> + +<br /> + +―Elle não saberá nunca que sou sua +mãe―dizia +ella―e eu poderei vêl-o e amal-o, como se visse +n'elle a cada momento o retrato vivo do meu pae, +quando mais novo... E cada sorriso affavel, cada +palavra de bondade que elle me dirija, será para mim +como que um signal de perdão enviado, d'alem tumulo +e pelos labios do meu filho, por aquelle pobre +espirito, que tanto fiz soffrer! +<br /> + +<br /> + +Madre Paula sorria de satisfação, ao ouvir da +<span class="pagenum">[456]</span> +bocca da sua amiga Helena estas palavras que significavam +n'ella o desejo de regressar á vida. +<br /> + +<br /> + +―Na tua mão está, minha querida, o realisares +o teu desejo... Faze por melhorar. Que o amor por +teu filho te dê a força e a energia indispensavel +para +triumphar das reminiscencias do teu passado, e o futuro, +relativamente feliz, será teu. +<br /> + +<br /> + +D. Aurelia não quiz prevenir Helena, na presença +das pessoas que a rodeavam, da inesperada visita do +desconhecido. +<br /> + +<br /> + +Quando todos se retiraram, a irmã de Gustavo, +approximando-se do leito, disse-lhe sorrindo: +<br /> + +<br /> + +―Venho annunciar-te, minha querida amiga, uma +nova visita... +<br /> + +<br /> + +―Quem?―interrogou Helena.<br /> + +<br /> + +―Um desconhecido que pretende fallar-te... +<br /> + +<br /> + +―Um desconhecido!―repetiu Helena com instinctivo +sobresalto. +<br /> + +<br /> + +―Sim. Um desconhecido para mim e para ti. +<br /> + +<br /> + +―O que quer elle? +<br /> + +<br /> + +―Quer ser-te apresentado para te revelar um segredo +de familia... +<br /> + +<br /> + +―A mim?! +<br /> + +<br /> + +―A ti. +<br /> + +<br /> + +―Que segredo de familia póde revelar-me uma +pessoa que eu não conheço? +<br /> + +<br /> + +―Este homem diz-se um antigo e intimo amigo +de teu primo Alvaro que, na vespera de ser assassinado +e prevendo a desgraça que ia acontecer-lhe, o +incumbiu de te fazer uma revelação importante, se +algum +dia te encontrasse ou tivesse noticias tuas... +<br /> + +<br /> + +―Meu primo Alvaro!―balbuciou Helena estremecendo. +<br /> + +<br /> + +―Sim... da parte do teu primo Alvaro é que +elle vem. +<br /> + +<br /> + +―Como sabe esse homem que eu estou aqui? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[457]</span> ―Diz elle que tem durante muitos annos empregado +os maiores esforços para te encontrar. Sabendo +que está doente n'esta casa uma antiga amiga minha, +pensou que talvez fosses tu e veio interrogar-me +a esse respeito. Como se trata de um assumpto que +póde ser de interesse e de utilidade para ti, achei +conveniente dizer-lhe a verdade... +<br /> + +<br /> + +―Queres, pois, que o receba? +<br /> + +<br /> + +―Não t'o imponho, minha amiga. Mas creio que +farias bem em o ouvir... +<br /> + +<br /> + +―Pois bem; faça-se a tua vontade... +<br /> + +<br /> + +―A minha vontade não. Aqui a unica pessoa a +resolver e a decidir és tu... +<br /> + +<br /> + +―Acho estranho esse caso de um desconhecido a +procurar-me para me fazer revelações!... +<br /> + +<br /> + +―A mim parece-me a coisa mais natural do mundo. +Todas as familias teem segredos que só em determinados +momentos julgam opportuno transmittir aos +que lhes succedem... Teu primo era intimo de teu +pae, estava para ser teu noivo... É, pois, muito natural +que, sabendo o estado gravissimo em que se encontrava +teu pae e perdida a esperança de tornar a +vêr-te, encarregasse a um amigo a missão de um dia +te esclarecer... E quem nos diz a nós que este desconhecido +vem talvez trazer-te a independencia e a +fortuna, quando tu menos a esperas? +<br /> + +<br /> + +Helena sorriu incredula. +<br /> + +<br /> + +―Não creio―disse ella―mas seja o que fôr, +desde que se trata de um segredo de familia, devo +ouvil-o. Manda entrar esse homem. +<br /> + +<br /> + +D. Aurelia saiu e pouco depois dava entrada na +camara da enferma o homem dos oculos. +<br /> + +<br /> + +Helena, recostada n'uma cadeira de braços, encarou-o +fito e não o reconheceu. +<br /> + +<br /> + +O desconhecido inclinou a cabeça n'uma +saudação, +e pareceu esperar que D. Aurelia se retirasse. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[458]</span> ―Fica!―pôde ainda dizer Helena, tomada de +subito receio, olhando para a sua amiga. +<br /> + +<br /> + +―Perdão!―obtemperou o desconhecido.―O que +tenho a dizer a v. ex.<sup>a</sup> é +tão importante +segredo, +que não póde ser ouvido por mais alguem. +<br /> + +<br /> + +―Não tenho segredos para a minha amiga... +<br /> + +<br /> + +―Todas as pessoas teem segredos―insistiu o homem +dos oculos―e se a ninguem é licito devassal-os, +menos licito se me afigura revelar os que nos não pertencem. +V. ex.<sup>a</sup> não tem o direito de tornar +publico +um segredo que lhe não pertence, que não +é só seu, +porque é tambem de sua familia... +<br /> + +<br /> + +Estas palavras foram ditas com tal intimativa que +Helena baixou os olhos tremula e confundida. +<br /> + +<br /> + +―Este cavalheiro tem razão―disse D. Aurelia―Eu +aguardarei na sala proxima as tuas ordens, +minha boa amiga... Escuta este senhor. +<br /> + +<br /> + +E sahiu. +<br /> + +<br /> + +Então o desconhecido, avançando alguns passos no +quarto, fitou Helena e disse-lhe em voz soturna: +<br /> + +<br /> + +―Não me conheces, Irmã Dorothêa, +abadessa da +Covilhã? Sou eu, o teu cumplice! +<br /> + +<br /> + +Helena fez um gesto de horror e soltou um grito +abafado. Reconhecera no homem dos oculos verdes o padre +Hilario, o seu cumplice no assassinato do padre Anselmo. +<br /> + +<br /> + +―Não venho accusar-te pela maneira infame e +ignobil como abusaste da paixão ardentissima que a +tua presença accendeu na minha alma, e menos ainda +do ludibrio de que me fizeste victima, obrigando-me +a esperar-te baldadamente na fronteira, onde prometteste +que irias, reunir-te a mim. Era justo que ao crime +succedesse a expiação, e não haveria +decerto Providencia, +se eu pudesse ser feliz comtigo. Fizeste de +mim um assassino miseravel, um perjuro, um parricida, +Helena de Noronha. Tudo isso te perdôo. Sabes, +<span class="pagenum">[459]</span> +porém, o que não te posso perdoar? É +que ames outro +e com elle penses viver ainda feliz. Isso não. Julio de +Montarroyo não será mais venturoso comtigo do que +eu. +<br /> + +<br /> + +―Julio de Montarroyo!―balbuciou Helena aterrada―Quem +lhe ensinou esse nome? +<br /> + +<br /> + +―Eu sei todos os nomes que estão ligados á tua +existencia, filha de Norberto de Noronha, amante do +padre Anselmo, mãe de Paulo de Noronha. Sei tudo, +que para outra coisa não tenho vivido ha dezoito annos, +rastejando como a serpente, ao peso do meu remorso. +Quiz saber de ti, quiz conhecer a que qualidade +de mulher sacrifiquei a minha posição, o meu +futuro, a minha vida, a minha alma. E soube-o! Nada +me resta por saber. E, pois, que ainda na tua +vida ha um lampejo de esperança, e na tua alma um +vinculo de affecto que te prende a alguem, eu venho +dizer-te que chegou a hora de partirmos. Jurei que +não pertencerias a outro, que não amarias outro, +que +nenhum homem ouviria de teus labios juras eguaes +áquellas que de teus labios fementidos ouvi. Eis-me, +pois, aqui, prompto a cumprir o meu juramento. Queres +obedecer a elle voluntariamente, ou preferes o escandalo +ruidoso, que nada remedeia e que te acompanhará +alem da morte? Vamos! fomos companheiros no +crime; é bem que o sejamos na +expiação. Se tiveste coragem +para matar, tel-a-has agora tambem para morrer. +<br /> + +<br /> + +―Mate-me! mate-me!―soluçou Helena, pondo +as mãos. +<br /> + +<br /> + +Então o padre Hilario tirou do interior do casaco +uma pequena caixa, que abriu. Depois, tomando entre +os dedos uma pastilha, disse: +<br /> + +<br /> + +―Eis aqui um veneno activissimo que dentro em +duas horas terá cumprido o seu dever, matando-te +suavemente, sem uma agonia prolongada. Até este beneficio +me deves, porque não quero que a morte te +seja dolorosa. Vamos! aqui tens a morte. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[460]</span> +E offereceu-lhe a pastilha. Helena, sem a mais leve +hesitação, acceitou o veneno das mãos +do seu cumplice +e tomou-o com assombrosa serenidade. +<br /> + +<br /> + +―Pago-te assim a minha divida―disse ella―Estamos +quites. Se para me ajudares a vingar do +monstro que me perdeu tivesses exigido a minha vida +em troca, ter-t'a-hia sacrificado. Pediste, porém, o +meu amor... e esse eu não podia conceder-t'o... Mas +era-me preciso vingar-me. Perdoa-me! +<br /> + +<br /> + +―Mas se eu te amo ainda!―exclamou o padre +Hilario debruçando-se no leito e beijando-lhe freneticamente +as faces e os olhos!―Amo-te e morro feliz, +sabendo que me precedes algumas horas na romagem +mysteriosa do tumulo! +<br /> + +<br /> + +Depois, com voz tremula em que havia toda a +expressão de um infinito amor: +<br /> + +<br /> + +―Irei comtigo, descança! Se não pude fazer que +me pertencesses n'esta vida, buscarei na outra ser teu +companheiro de tormentos e penas eternas! Lá nos +havemos de encontrar. +<br /> + +<br /> + +Beijou-a ainda com louco frenesi e sahiu do quarto +da enferma, sem deixar transparecer na face impassivel +a commoção que lhe agitava a alma. +<br /> + +<br /> + +Duas horas depois, Helena de Noronha, tendo-se +despedido de todas as pessoas que lhe rodeavam o +leito, morria tranquillamente, docemente, como se a +morte a fizesse cahir n'um somno doce e reparador. +<br /> + +<br /> + +Este inesperado desenlace surprehendeu a todos; +mas ninguem ousou suspeitar-lhe a verdadeira causa. +<br /> + +<br /> + +Julio de Montarroyo, cahindo n'um mutismo aterrador, +velou-lhe o cadaver e acompanhou-o á sepultura, +frio e impassivel, como se fora um cadaver tambem. +Nem aos olhos lhe assomou uma lagrima nem de +seus labios sahiu um gemido, ao vêr desapparecer +para sempre no pó da sepultura a face da mulher +que tanto amara! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[461]</span> +<h3><a name="c32"></a>Conclusão +</h3> + +<br /> + +<br /> + +Um mez depois d'estes acontecimentos, madre Paula +e padre Filippe, regressando de uma mysteriosa visita +ao convento da Covilhã, mandaram chamar Paulo de +Noronha. +<br /> + +<br /> + +―Meu filho―disse-lhe o padre Filippe, apresentando-lhe +um cofre de ferro quadrado―eu e madre +Paula temos até hoje sido depositarios de uma fortuna +que te pertence e que fomos encarregados de te +entregar logo que hajas attingido a maioridade e possas +por lei dispôr do que é teu. Estão +n'este cofre oitocentos +contos que te pertencem. Como deliberaste +unir o teu destino ao de uma menina que desejas fazer +tua mulher, julgamos do nosso dever informar-te +d'esta circumstancia, afim de que possas regular com +o pae da tua futura esposa as condições do teu +enlace. +<br /> + +<br /> + +Paulo, attonito e mal podendo crêr no que ouvia, +encarava ora o padre Filippe, ora madre Paula, sem +poder articular uma palavra. +<br /> + +<br /> + +―Oitocentos contos!―balbuciou por fim.―E +d'onde vem tanto dinheiro? +<br /> + +<br /> + +―De teus paes―respondeu madre Paula. +<br /> + +<br /> + +―Meus paes! E quem eram elles?―perguntou +<span class="pagenum">[462]</span> +o mancebo, na esperança de que, emfim, o segredo +do seu nascimento lhe iria ser revelado. +<br /> + +<br /> + +―Nunca o saberás. Essa fortuna que elles te legaram +não traz nome. Designa-lhe tu, meu filho, um +bom destino e uma applicação nobre e justa. +<br /> + +<br /> + +Quando o mancebo retirou, louco de alegria a communicar +a boa nova a Beatriz, padre Filippe, voltando-se +para madre Paula, exclamou: +<br /> + +<br /> + +―Como Deus é misericordioso e é justo! Esta +fortuna, accumulada á custa de crimes nas mãos do +padre Anselmo, vae agora, nas mãos d'este rapaz que +é seu filho, ter um destino bem mais nobre e mais +digno. +<br /> + +<br /> + +―Que o altruismo do filho possa ao menos redimir +as torpezas e os crimes do pae!―replicou madre +Paula. +<br /> + +<br /> + +No dia em que Paulo de Noronha se unia a Beatriz, +a contento do sr. Custodio de Jesus, seu pretenso +progenitor, recebeu madre Paula a noticia de que +Julio de Montarroyo se havia suicidado sobre a sepultura +da <em>Irmã Dorothea</em>, legando +uma parte dos seus +haveres ao <em>mestre Tomba</em> e a parte +restante a D. Aurelia +para obras de caridade. +<br /> + +<br /> + +E como os acontecimentos notaveis nunca veem isolados, +o procurador Belchior leu tambem n'esse dia, +nas gazetas, a noticia de que Leonor, que tanto se +salientára +no tragico suicidio de Eugenio de Mello, partira +para Lisboa em companhia de João Lazaro. +<br /> + +<br /> + +Do homem dos oculos verdes, o Mestre fundador +da <em>Mão Negra</em>, nunca mais +Jorge, o amigo de Paulo, +ouviu fallar, substituindo-o porisso na +direcção da famosa +sociedade secreta, que é hoje a mais florescente +e poderosa de todas as suas irmãs. +<br /> + +<br /> + +<h4>FIM</h4> + +<br /> + +<br /> + +<h3>INDICE +</h3> + +<br /> + +<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6"> + + <tbody> + + <tr> + + <td style="width: 517px;"></td> + + <td style="width: 63px; text-align: right;">PAG.</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 517px;">I―Os irmãos da +mão +negra</td> + + <td style="width: 63px; text-align: right;"><a href="#c1">5</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 517px;">II―Amor e +esperança</td> + + <td style="width: 63px; text-align: right;"><a href="#c2">23</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 517px;">III―Pae e +filha</td> + + <td style="width: 63px; text-align: right;"><a href="#c3">43</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 517px;">IV―Dois +patifes</td> + + <td style="width: 63px; text-align: right;"><a href="#c4">69</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>V―Madre +Paula</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c5">78</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>VI―Á hora da +morte</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c6">87</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>VII―Tres +miseraveis</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c7">103</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>VIII―Entre +irmãos</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c8">124</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>IX―Amores +faceis</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c9">135</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>X―Para os grandes +males</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c10">153</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>XI―João +Lazaro</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c11">168</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>XII―Velhos +conhecimentos</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c12">181</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>XIII―Denuncia</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c13">211</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>XIV―Miseravel!</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c14">239</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>XV―Conluio +infame</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c15">255</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>XVI―O +rapto</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c16">262</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>XVII―Quem semeia +ventos</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c17">280</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>XVIII―Revelação</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c18">289</a></td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<span class="pagenum">[464]</span> +<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6"> + + <tbody> + + <tr> + + <td style="width: 517px;">XIX―Um velho +amigo</td> + + <td style="width: 63px; text-align: right;"><a href="#c19">304</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 517px;">XX―Alma +negra</td> + + <td style="width: 63px; text-align: right;"><a href="#c20">317</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 517px;">XXI―Tal vida, tal +fim</td> + + <td style="width: 63px; text-align: right;"><a href="#c21">333</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 517px;">XXII―Mysterio</td> + + <td style="width: 63px; text-align: right;"><a href="#c22">346</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 517px;">XXIII―Allucinação</td> + + <td style="width: 63px; text-align: right;"><a href="#c23">357</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>XXIV―Extranho +encontro</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c24">369</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>XXV―Pobre +Helena</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c25">389</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>XXVI―Um amigo dos +diabos</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c26">399</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>XXVII―Duas +amigas</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c27">411</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>XXVIII―Coração +morto</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c28">427</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>XXIX―Confidencias</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c29">436</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>XXX―Mãe</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c30">442</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>XXXI―O homem dos oculos +verdes</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c31">452</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 517px;">Conclusão</td> + + <td style="width: 63px; text-align: right;"><a href="#c32">461</a></td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="fbox"> +<h2>Lista de erros corrigidos</h2> + +<div style="text-align: center;">Aqui encontram-se +listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div> + +<br /> + +<br /> + +<table style="width: 80%; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4"> + + <tbody> + + <tr align="right"> + + <td style="width: 87px;"></td> + + <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 119px;">Original</td> + + <td style="text-align: center; width: 5px;"></td> + + <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 118px;">Correcção</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 87px;"><a name="e1"></a><a href="#p8">#pág. +8</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 119px;">ter +fôr</td> + + <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 118px;">te +fôr</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 87px;"><a name="e2"></a><a href="#p17">#pág. +17</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 119px;">a +aquella</td> + + <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 118px;">aquella</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 87px;"><a name="e3"></a><a href="#p18">#pág. +18</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 119px;">danda-nos</td> + + <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 118px;">dando-nos</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 87px;"><a name="e4"></a><a href="#p23">#pág. +23</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 119px;">algum +temdo</td> + + <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 118px;">algum +tempo</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 87px;"><a name="e5"></a><a href="#p24">#pág. +24</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 119px;">pancado</td> + + <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 118px;">pancada</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 87px;"><a name="e6"></a><a href="#p25">#pág. +25</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 119px;">com</td> + + <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 118px;">como</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 87px;"><a name="e7"></a><a href="#p35">#pág. +35</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 119px;">Na +primeiro</td> + + <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 118px;">No +primeiro</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 87px;"><a name="e8"></a><a href="#c3">#pág. +43</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 119px;">pupilllo</td> + + <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 118px;">pupillo</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 87px;"><a name="e9"></a><a href="#p70">#pág. +70</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 119px;">mefica</td> + + <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 118px;">me fica</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 87px;"><a name="e10"></a><a href="#p98">#pág. +98</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 119px;">ella</td> + + <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 118px;">elle</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 87px;"><a name="e11"></a><a href="#p99">#pág. +99</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 119px;">pabre</td> + + <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 118px;">padre</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 87px;"><a name="e12"></a><a href="#p109">#pág. +109</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 119px;">palava</td> + + <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 118px;">palavra</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e13"></a><a href="#p111">#pág. 111</a></td> + + <td style="text-align: center;">famila</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">familia</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e14"></a><a href="#p112">#pág. 112</a></td> + + <td style="text-align: center;">devo ou</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">devo eu</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e15"></a><a href="#p127">#pág. 127</a></td> + + <td style="text-align: center;">circumstancios</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">circumstancias</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e16"></a><a href="#p140">#pág. 140</a></td> + + <td style="text-align: center;">continou</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">continuou</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e17"></a><a href="#p162">#pág. 162</a></td> + + <td style="text-align: center;">aprsentou</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">apresentou</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e18"></a><a href="#p164">#pág. 164</a></td> + + <td style="text-align: center;">auctoridado</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">auctoridade</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e19"></a><a href="#p169">#pág. 169</a></td> + + <td style="text-align: center;">importaacia</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">importancia</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e20"></a><a href="#p190">#pág. 190</a></td> + + <td style="text-align: center;">as as minhas</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">as minhas</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e21"></a><a href="#p194">#pág. 194</a></td> + + <td style="text-align: center;">muduram</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">mudaram</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e22"></a><a href="#p201">#pág. 201</a></td> + + <td style="text-align: center;">tembem</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">tambem</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e23"></a><a href="#p202">#pág. 202</a></td> + + <td style="text-align: center;">risonha</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">risonhas</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e24"></a><a href="#p223">#pág. 223</a></td> + + <td style="text-align: center;">dinheiro</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">o dinheiro</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e25"></a><a href="#p226">#pág. 226</a></td> + + <td style="text-align: center;">trasnporte</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">transporte</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e26"></a><a href="#p235">#pág. 235</a></td> + + <td style="text-align: center;">respendeu</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">respondeu</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e27"></a><a href="#p258">#pág. 258</a></td> + + <td style="text-align: center;">dm</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">em</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e28"></a><a href="#p260">#pág. 260</a></td> + + <td style="text-align: center;">mutio</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">muito</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e29"></a><a href="#p263">#pág. 263</a></td> + + <td style="text-align: center;">prepada</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">preparada</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e30"></a><a href="#p263">#pág 263</a></td> + + <td style="text-align: center;">seguiramos</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">seguiram os</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e31"></a><a href="#p267">#pág. 267</a></td> + + <td style="text-align: center;">pergunou</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">perguntou</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e32"></a><a href="#p271">#pág. 271</a></td> + + <td style="text-align: center;">as sentidos</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">os sentidos</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e33"></a><a href="#p288">#pág. 288</a></td> + + <td style="text-align: center;">ciosa</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">coisa</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e34"></a><a href="#p310">#pág. 310</a></td> + + <td style="text-align: center;">o gente</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">a gente</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e35"></a><a href="#p311">#pág. 311</a></td> + + <td style="text-align: center;">semelhanle</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">semelhante</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e36"></a><a href="#p311">#pág. 311</a></td> + + <td style="text-align: center;">qne</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">que</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e37"></a><a href="#p315">#pág. 315</a></td> + + <td style="text-align: center;">esssas</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">essas</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e38"></a><a href="#p317">#pág. 317</a></td> + + <td style="text-align: center;">a molestias</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">as molestias</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e39"></a><a href="#p333">#pág. 333</a></td> + + <td style="text-align: center;">pelo colera</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">pela colera</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e40"></a><a href="#p344">#pág. 344</a></td> + + <td style="text-align: center;">Lenor</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">Leonor</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e41"></a><a href="#p350">#pág. 350</a></td> + + <td style="text-align: center;">desconhcida</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">desconhecida</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e42"></a><a href="#p357">#pág. 357</a></td> + + <td style="text-align: center;">horrrivel</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">horrivel</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e43"></a><a href="#p357">#pág. 357</a></td> + + <td style="text-align: center;">algnma</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">alguma</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e44"></a><a href="#p365">#pág. 365</a></td> + + <td style="text-align: center;">pssou</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">passou</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e45"></a><a href="#p366">#pág. 366</a></td> + + <td style="text-align: center;">ssforços</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">esforços</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e46"></a><a href="#p430">#pág. 430</a></td> + + <td style="text-align: center;">Juliod e</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">Julio de</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e47"></a><a href="#p442">#pág. 442</a></td> + + <td style="text-align: center;">fiho</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">filho</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e48"></a><a href="#p450">#pág. 450</a></td> + + <td style="text-align: center;">setas</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">estas</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e49"></a><a href="#p450">#pág. 450</a></td> + + <td style="text-align: center;">o reprimendas</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">e reprimendas</td> + + </tr> + + + </tbody> +</table> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;">Ao longo do texto +original encontramos "..", num espaço onde caberiam +reticências ("..."): assumi tratar-se de um erro +tipográfico, substituindo os dois pontos horizontais por +três.<br /> + +<br /> + +Noberto e Norberto são variações +constantes da mesma palavra, a manter de acordo com o original. O mesmo +acontece para as palavras Laura e Leonor, que se identificam como sendo +a mesma personagem.<br /> + +<br /> + +Os números dos capítulos foram alterados a partir +do capítulo XIII (no original capítulo XIV da <a href="#p211">página 211</a>), uma vez que +houve um erro confirmado com a ordem correcta do índice.<br /> + +<br /> + +</div> + +<div style="text-align: center;">Foram acrescentadas aspas +de fecho quando estas não existiam e onde faziam falta, por +terem sido iniciadas e não terminadas.<br /> + +<br /> + +Foram acrescentados travessões quando se mostraram +necessários e vice-versa.<br /> + +<br /> + +</div> + +</div> + +</div> + + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Os Filhos do Padre Anselmo, by +António da Costa Couto Sá de Albergaria + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS FILHOS DO PADRE ANSELMO *** + +***** This file should be named 24625-h.htm or 24625-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/4/6/2/24625/ + +Produced by Ricardo F. Diogo, Rita Farinha and the Online +Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. 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By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all +the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy +all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession. +If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project +Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the +terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or +entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. + +1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be +used on or associated in any way with an electronic work by people who +agree to be bound by the terms of this agreement. 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