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authorRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-15 02:13:52 -0700
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+The Project Gutenberg EBook of Os Filhos do Padre Anselmo, by
+António da Costa Couto Sá de Albergaria
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Os Filhos do Padre Anselmo
+
+Author: António da Costa Couto Sá de Albergaria
+
+Release Date: February 15, 2008 [EBook #24625]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS FILHOS DO PADRE ANSELMO ***
+
+
+
+
+Produced by Ricardo F. Diogo, Rita Farinha and the Online
+Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net
+
+
+
+
+
+
+ *Nota de editor:* Devido à quantidade de erros tipográficos
+ existentes neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à
+ versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com
+ o original. No final deste livro encontrará a lista de erros
+ corrigidos.
+
+ Rita Farinha (Fev. 2008)
+
+
+
+
+SÁ D'ALBERGARIA
+
+
+OS FILHOS DO PADRE ANSELMO
+
+ROMANCE
+
+
+PORTO
+LIVRARIA CHARDRON
+DE
+*Lello & Irmão, Editores*
+
+1904
+
+
+
+
+Typ. a vapor da Empreza Litteraria e Typographica
+
+178, rua de D. Pedro, 184
+
+
+
+
+OS FILHOS DO PADRE ANSELMO
+
+
+
+
+I
+
+Os irmãos da mão negra
+
+
+O relogio dos Clerigos tinha acabado de fazer soar pausadamente as doze
+badaladas da meia noite.
+
+O tempo estava brusco e o vento, soprando da barra em frias e cortantes
+rajadas, punha arrepios nos transeuntes que, levantadas as golas dos
+casacos e as mãos mettidas nos bolsos, seguiam a passo apressado,
+recolhendo a casa, sob a ameaça de um temporal desfeito.
+
+Era em fins do outono.
+
+As arvores do jardim da Cordoaria, varejadas pela ventania asperrima,
+despiam-se das suas ultimas folhas amarellecidas, n'um agitado e
+sussurrante protesto de espoliadas.
+
+Quem a essa hora passasse pelo Campo dos Martyres da Patria, veria,
+encostado a uma das arvores que orlam o jardim, defrontando com a praça
+do Peixe, um vulto immovel e indifferente ao tempestuoso rugir d'aquella
+noite agreste e frigidissima.
+
+Parecia esperar alguem, porque, ao ouvir bater a meia noite no relogio
+da torre, levou a mão ao bolso e, aproximando-se de um dos candieiros da
+illuminação publica, consultou o seu relogio.
+
+--Aquelle anda adiantado cinco minutos--murmurou.
+
+E deu alguns passos distrahidamente como para illudir a sua impaciencia.
+
+Agora, que o podemos vêr ao reverbero do lampeão, notaremos que é um
+rapaz de 18 annos, decentemente vestido e de gentil presença, não
+obstante as feições finas e delicadas quasi lhe desapparecerem
+encobertas pela aba larga do seu chapéo á Mazzantini.
+
+Tinha apenas dado um curto passeio no prolongamento do jardim, quando do
+lado da rua do Calvario avançou a trote rasgado um trem, que parou em
+frente d'elle.
+
+--És tu, Paulo?--disse de dentro uma voz.
+
+--Sou.
+
+--Entra depressa, que a noite está agreste!
+
+E a pessoa que fallava de dentro abriu a portinhola, facilitando-lhe a
+entrada.
+
+O mancebo saltou de um pulo para dentro do carro, a portinhola
+fechou-se, e os cavallos seguiram no seu trote largo, dobrando a rua da
+Restauração e subindo a da Liberdade até ganharem a rua do Rosario.
+
+Sigamos aquelle trem e ouçamos o dialogo que se trava dentro d'elle.
+
+Apenas o mancebo entrou, a pessoa que o chamara e que era um homem de 28
+a 30 annos, desceu rapidamente as cortinas do carro e disse para o seu
+joven companheiro:
+
+--Meu amigo, como já te expliquei, isto são negocios em que se requer a
+maior circumspecção e escrupulo na observancia das praxes. Has-de
+consentir que te vende os olhos.
+
+--Acaso desconfias da minha lealdade, Jorge?
+
+--De modo algum. Mas é uma obrigação que o regulamento me impõe, e eu
+não posso faltar a ella sem trahir o meu dever.
+
+--Pois bem, seja!
+
+O sujeito que ouvimos chamar Jorge tirou então do bolso um lenço e
+vendou com elle os olhos do companheiro.
+
+--Has-de dar-me a tua palavra de honra que não tentarás arrancar a venda
+sem que para isso recebas ordem...
+
+--Dou. Mas se o fizesse?
+
+--Poderia isso custar-te a vida, meu caro.
+
+--Apre!--fez o outro, sorrindo--vocês são intransigentes!
+
+--Está n'isso a nossa força. Não violentamos ninguem a seguir-nos, damos
+ampla liberdade a cada um de rejeitar a nossa associação, mas defendemos
+a nossa existencia e mantemos o nosso segredo.
+
+--É justo.
+
+--Assim, tu podes, até á hora de prestares o teu juramento, reconsiderar
+e exigir que te restituam a liberdade. Nenhum mal te acontecerá por
+isso, a tua vontade será respeitada, a tua independencia mantida. Mas
+não saberás dizer onde estiveste nem as pessoas com quem fallaste.
+
+--Poderei dizer que fallei comtigo...--gracejou o outro.
+
+--Que importa? Eu não sou uma associação. Comigo póde fallar toda a
+gente...
+
+--Fallemos sério!--tornou o moço que dava pelo nome de
+Paulo.--Asseveras-me que os intuitos d'essa associação em que vou entrar
+são em tudo dignos das justas aspirações de um homem de bem?
+
+--Assevero-te que os irmãos da _Mão-negra_ comprehendem e cumprem á
+risca o nobre dever de se auxiliarem e defenderem mutuamente contra as
+prepotencias sociaes da nossa epoca. No nosso gremio desapparecem as
+differenças de gerarchia e de dinheiro. Não ha pobres, porque todos
+somos ricos da riqueza e da importancia dos nossos irmãos.
+
+--Poderei então contar com o auxilio da Associação na conquista da
+mulher que amo?
+
+--Decerto--volveu o outro.--Tanto como amanhã qualquer de nossos irmãos
+poderá contar com o teu auxilio para a realisação dos seus desejos. Isto
+é apenas uma associação de soccorros mutuos, meu caro Paulo. A mulher
+que amas será tua desde que te filies no nosso gremio. Comprehendes que
+toda a acção da _Mão-negra_ se resume em tornar felizes e ricos os seus
+irmãos, porque d'essa riqueza e d'essa felicidade lhe advem a ella a
+força, o poderio, a importancia.
+
+O trem ia correndo veloz pela estrada do Carvalhido, sem que Paulo,
+entretido na conversa, parecesse ter notado o tempo gasto na corrida.
+
+--No emtanto--accrescentou ainda Jorge--os fins e intuitos da Associação
+vão sêr-te ainda expostos e confirmados por pessoa idonea e mais
+competente de que eu. Se te restar alguma duvida, o minimo escrupulo,
+poderás renunciar ao teu intento, com a unica condição de não tirares a
+venda nem tentares deslealmente devassar os segredos do nosso gremio...
+
+--Conheces-me, e sabes que isso são processos indignos do meu
+caracter!--protestou o mancebo.
+
+O trem parou em frente de um portão largo, que dava accesso a uma vasta
+quinta murada.
+
+Jorge apeou-se e deu a mão ao seu companheiro.
+
+--Chegámos!--disse elle.
+
+Paulo apeou-se e, guiado sempre pelo seu amigo, transpoz o portão, que
+se abriu mysteriosamente, tornando a fechar-se sem ruido.
+
+--E o cocheiro?--perguntou o mancebo.--Não receias a sua indiscreção?
+
+--É um dos nossos irmãos--respondeu simplesmente o outro.
+
+--Apre!--tornou o mancebo alegremente.--Eis aqui o que se chama um
+serviço bem montado!
+
+Jorge não lhe respondeu. Conduziu-o por uma extensa e sombria vereda de
+ramadas até o fazer entrar n'um corredor ao rez do chão, pelo qual foram
+seguindo em silencio.
+
+--Já estamos em casa!--disse Paulo.
+
+--Porque?--perguntou o outro.
+
+--Sinto-o pela differença de temperatura.
+
+--Ainda não... Vamos entrar agora...
+
+E levando aos labios um pequeno apito, tirou d'elle um silvo agudo e
+prolongado.
+
+Ouviu-se uma porta girando sobre os gonzos, e os dois entraram n'um
+pequeno recinto em que os passos se amorteciam, abafados no tapete.
+
+--Pódes tirar a venda--disse Jorge.
+
+O mancebo levou a mão aos olhos, e com grande assombro seu, achou-se
+sósinho n'uma sala forrada de crepes, tendo ao centro uma mesa coberta
+de velludo preto e em que pousava uma caveira, allumiada por duas velas.
+
+Um momento impressionado pelo sinistro aspecto da sala e pelo funebre
+quadro que se lhe offerecia á vista, o mancebo empallideceu e recuou um
+passo, aterrado. Porém, reflectindo e com uma coragem superior á que
+seria de esperar na sua edade, breve retomou o sangue frio e lançou um
+olhar de glacial indifferença para a caveira.
+
+--É singular!--pensou comsigo.--Entro na vida pela visão da morte!
+
+Como respondendo a este pensamento, ouviu-se uma voz soturna e cavernosa
+resoar na sala:
+
+--Medita!--disse aquella voz.
+
+O mancebo estremeceu e voltou-se rapidamente, a vêr quem lhe fallava.
+
+Não viu pessoa alguma.
+
+Passeou então os olhos curiosos pelas paredes forradas de crepes e não
+descobriu a porta por onde tinha entrado.
+
+Se quizesse abandonar aquelle mysterioso e lugubre recinto, não o
+poderia fazer, por não encontrar sahida.
+
+Embora surprehendido, nem por isso se apavorou.
+
+--Medita!--tornou a voz a repetir.
+
+Como resposta muda áquella intimativa, o mancebo cruzou os braços sobre
+o peito e ficou encarando fito a caveira.
+
+N'aquella attitude altiva e firme, esteve assim por muito tempo.
+
+Dissera-lhe o seu amigo que, para ser admittido na associação secreta da
+_Mão negra_, era preciso dar provas de energia, coragem e inquebrantavel
+força de vontade. Accrescentara que as provas a que os neophytos tinham
+de sujeitar-se eram rudes e de molde a fazerem tremer o mais ousado.
+Elle, não obstante, insistira. Sentia-se capaz de affrontar os maiores
+perigos com animo sereno e tranquillo.
+
+--Principiou a prova!--pensou--julgam-me uma creança assustadiça, capaz
+de me apavorar com este apparato funebre. Mostrar-lhes-hei que a creança
+é um homem, que póde disputar primasias de coragem aos mais fortes.
+
+E n'esta resolução avançou para mesa, estendeu o braço e ia a tocar no
+funebre despojo, quando a voz mysteriosa recuou de novo, gritando:
+
+--Detem-te! O que ias fazer?
+
+--Tocar n'esta caveira--respondeu o mancebo com voz tranquilla.
+
+--Com que fim?
+
+--Com o fim de provar que a ideia da morte me não apavora.
+
+--Que pensamento te suggere a vista d'esse triste despojo humano?
+
+--Primeiramente, a ideia de que todos caminhamos para a mesma miseria...
+
+--E depois?
+
+--Depois, que a Morte é a niveladora implacavel do genero humano.
+
+--Assim, crês que na Morte se confundem bons e maus, virtuosos e
+impuros?
+
+--Creio que, materialmente, tudo se confunde na mesma podridão.
+
+--Materialmente, disseste?
+
+--Disse.
+
+--Crês então que vicio e virtude são coisas indifferentes, visto que
+tudo se apaga ao mesmo gelido sopro e tudo resvala com o homem ao abysmo
+do Nada?
+
+--Não.
+
+--Explica-te.
+
+--Do homem subsistem as ideias, os pensamentos, os actos bons ou maus de
+toda a sua vida. Esses não tem a Morte o poder de os anniquillar.
+
+--Pois bem; visto que assim é, dize-me: De quem é esse craneo?
+
+--De um meu irmão.
+
+--É vaga a resposta. Dize-me: Será d'um sabio? Será de um ignorante?
+Será de um homem honesto? Será d'um criminoso? Será d'um nobre? Será
+d'um plebeu?
+
+--Ignoro.
+
+--Confessas, pois, que na Morte tudo se confunde?
+
+--Não! Confesso apenas que na Morte todos teem egual direito ao respeito
+dos vivos.
+
+--Porém, essa theoria é contradictoria. Se todos devem confundir-se no
+mesmo respeito, como queres que se distingam os bons dos maus?
+
+--Pelo que d'elles fica no mundo e não morre. Dize-me o nome d'aquelle a
+quem pertenceu este craneo, e se elle foi um sabio, um artista, um
+litterato, um poeta, um d'esses homens que deixam a sua passagem
+assignalada no mundo por obras de grandeza e de virtude, eu te
+recordarei as suas conquistas scientificas, os seus quadros, os seus
+livros, os seus versos, as nobres acções e exemplos com que se perpetuou
+na humanidade emfim.
+
+--Tens religião?
+
+--Tenho.
+
+--Qual?
+
+--A do Bem.
+
+--A que vieste?
+
+--Dar e receber auxilio na lucta do Bem contra o Mal.
+
+--Sabes o sacrificio a que isso obriga?
+
+--A todos os sacrificios me sujeito.
+
+--Repara bem. A abnegação, o desinteresse, a obediencia cega e passiva
+ás ordens dos que dirigem o nosso gremio constituem a principal condição
+para seres admittido entre nós.
+
+--Acceito-a.
+
+--Terás que resistir ás tuas proprias paixões, terás que dominar os mais
+irresistiveis impulsos do teu coração, para só obedeceres á lei da nossa
+Sociedade; terás, emfim, que sacrificar vida, fortuna, mulher, filhos,
+familia--tudo, ao bem de teus irmãos, quando isso te fôr reclamado.
+
+--Obedecerei.
+
+--É preciso que o braço execute o que a cabeça ordena. Tu serás o braço.
+O chefe invisivel da nossa Associação é a cabeça. Se fôr preciso
+derramar sangue, ainda o d'aquelle que no mundo te fôr mais caro, uma
+vez que a cabeça t'o ordena, obedecerás?
+
+--Sem a menor hesitação.
+
+--Attende que vaes ligar-te a nós por um juramento que não póde ser
+quebrado nem illudido. Em toda a parte onde te encontres, seja qual fôr
+a posição social a que ascendas, na rua, em casa, no povoado ou n'um
+logar deserto, o olhar invisivel da nossa Associação seguir-te-ha por
+toda a parte. A _Mão-negra_, cujo auxilio buscas, mysterisa e potente,
+vingadora e terrivel, como a propria mão da Providencia, impedirá teus
+passos e guiará o teu destino. Não mais te pertencerás a ti; pertencerás
+aos teus irmãos. Senhor liberrimo das tuas acções até agora, vaes
+reduzir-te por um juramento ás condições d'um escravo, mais que d'um
+escravo--d'um simples automato. O teu cerebro não mais pensará para ti;
+o teu coração não mais sentirá por ti. Cerebro e coração teem de
+emmudecer perante as exigencias fataes, crueis e terriveis muitas vezes,
+da nossa Associação. Terás força para tanto?
+
+--Terei--respondeu firmemente o mancebo.
+
+--Pareces corajoso--observou a voz mysteriosa--pareces ter em pequena
+conta a propria vida.
+
+--Estou prompto a sacrificál-a para um fim justo.
+
+--A ideia da justiça é relativa. O que para uns é justiça para outros é
+iniquidade. Os irmãos da _Mão-negra_ não teem o direito de discutir e
+apreciar as ordens que dimanam do seu chefe invisivel: teem só o dever
+de as cumprir. Assim, se te exigirem que craves um punhal no teu
+coração, não terás o direito de discutir a justiça do sacrificio; apenas
+terás que obedecer.
+
+--Experimentem.
+
+--Lembra-te, porém, que, se o sacrificio da propria vida te é fácil,
+outros sacrificios te pódem ser mais penosos. Estás em tempo: se não te
+sentes com animo e coragem para te prenderes a nós por toda a
+vida,--vae, estás livre, mandar-te-hemos conduzir ao sitio d'onde
+vieste.
+
+--Não!--respondeu o mancebo com energia--Eu não sou dos que recuam.
+Quero ser dos vossos.
+
+--Estende a mão sobre essa caveira e jura que queres ser submettido á
+_prova_!--ordenou a voz.
+
+Paulo estendeu a mão sobre a caveira:
+
+--Juro--disse elle--que desejo ser um dos irmãos da _Mão-negra_ e estou
+prompto a submetter-me á prova que me for imposta!
+
+Quando acabou de proferir este juramento, sentiu que lhe tocavam no
+hombro. Voltou-se e viu diante de si um vulto athletico, sinistramente
+vestido de preto e com o rosto coberto por um capuz como o dos antigos
+aguazis do Santo Officio.
+
+Sem dar palavra, o mysterioso vulto vendou-lhe de novo os olhos. Em
+seguida disse:
+
+--_Á prova!_
+
+Pegou-lhe na mão e conduziu-o por um extenso corredor até parar em
+frente de uma porta, a que bateu de maneira mysteriosa e symbolica.
+
+--Quem sois?--perguntou de dentro uma voz, sem abrir.
+
+--Irmão--respondeu o mysterioso guia de Paulo.
+
+--D'onde vindes?
+
+--Da Ala negra.
+
+--Que trazeis?
+
+--Um novo braço.
+
+--Que busca elle?
+
+--A mão.
+
+--Quem vos guia?
+
+--S. Miguel.
+
+A porta abriu-se.
+
+--Passae!--disse um homem, igualmente envolto n'um habito preto e o
+rosto coberto pelo capuz.
+
+Os dois seguiram ávante e entraram n'uma sala ampla, abobadada, de
+paredes escuras e illuminada apenas por um globo enorme de vidro, seguro
+por uma phantastica _mão negra_, que pendia do tecto.
+
+Á roda d'esta sala, viam-se de pé, hirtos e impassiveis, n'uma
+immobilidade de estatuas, muitos vultos negros, com o rosto inteiramente
+occulto sob o capuz do habito.
+
+Em cada uma das paredes avultava uma grande mão negra, sustentando
+punhaes e espadas, em panoplia.
+
+Ao centro, justamente debaixo do globo, erguia-se uma especie de throno,
+assente sobre quatro formidaveis dragões e todo coberto de crepes.
+Occupando esse logar, sem duvida destinado ao chefe da seita, estava uma
+figura mysteriosa como as suas companheiras e como ellas silenciosa e
+immovel.
+
+O _irmão_ introductor de Paulo avançou, silenciosamente, com o mancebo
+pela mão, até curta distancia do throno, parou, levou a dextra ao peito,
+movendo o pollegar rapidamente, de modo a descrever com elle uma cruz, e
+ficou de cabeça curvada, em attitude respeitosa.
+
+--Que quereis, irmão?--interrogou o vulto que se sentava no throno e que
+era sem duvida o chefe da seita.
+
+--Que escuteis e recebaes sob vossa protecção este meu companheiro, que
+pretende entrar na _ala_ como combatente.
+
+--Fiaes d'elle?
+
+--D'elle fio, senhor!
+
+--S. Miguel vos proteja!
+
+--O apresentante de Paulo afastou-se e foi tomar o seu logar junto á
+parede, em fila com os seus companheiros.
+
+Paulo ficou só, junto ao throno, com os olhos vendados.
+
+--Que pretendeis, mancebo?--interrogou o chefe.
+
+--Combater.
+
+--Que armas trazeis?
+
+--A submissão, a energia e a lealdade--disse Paulo.
+
+--Boas armas são essas quando temperadas ao fogo vivo do sentimento do
+Bem e da Justiça. Que vos falta?
+
+--A força da _Mão-negra_.
+
+--A _Mão-negra_ só dispensa a sua força e o seu amparo aos que tudo lhe
+sacrificam com coragem, valor, e brio. N'este gremio não se admittem nem
+os timidos nem os cobardes.
+
+--Não o sou.
+
+--Dizer é facil; provar é difficil. Quereis sujeitar-vos á prova?
+
+--Estou prompto!
+
+--Reparae que podeis perder a vida na jornada aspera que ides
+emprehender.
+
+--A vida de nada me serve, se não posso dar-lhe applicação util.
+
+--É facto. No emtanto, é meu dever prevenir-vos de que, sem perderdes a
+vida, podeis perder a esperança da felicidade, que é a vida do coração,
+o objectivo da existencia.
+
+--Tudo sacrificarei aos meus irmãos.
+
+--É melhor recuar, mancebo. Na longa estrada que tendes a percorrer
+antes de chegardes á _Mão-negra_, encontrareis mil perigos e mil
+precipicios terriveis, que sereis obrigado a transpôr ou a morrer.
+Avançado o primeiro passo n'esse caminho mysterioso e fatal, recuar é
+impossivel; a menor hesitação é a morte. Só uma coragem admiravel e uma
+força de vontade rara pódem conduzir-vos a salvo ao ponto desejado.
+
+--Irei e hei-de chegar.
+
+--Pois bem, vinde!
+
+Levantou-se, desceu do throno, deu-lhe a mão, abriu uma porta ao lado da
+parede e, empurrando-o para dentro d'ella, disse:
+
+--Podeis tirar a venda. Segui esse longo e escuro subterraneo até ao
+fim. Tereis que luctar com o fogo, com a agua, com os homens e com as
+feras, antes que chegueis á porta santa do asylo que buscaes. Ide e que
+S. Miguel--que venceu o dragão--vos dê força e coragem.
+
+O mancebo levou as mãos aos olhos, arrancou a venda e embrenhou-se n'uma
+escura e estreita galeria subterranea, que foi seguindo com estranha
+ousadia.
+
+A treva cercava-o sem lhe deixar perceber onde punha os pés.
+
+Algumas duzias de passos andados, um subito clarão illuminou o
+subterraneo. Paulo, deslumbrado, levou as mãos aos olhos. Na sua frente,
+erguiam-se as chammas pavorosas de um incendio, que avançava para elle
+em linguas de fogo, ameaçando devoral-o. Dir-se-hia que uma enorme
+represa de alcool ou de petroleo se havia aberto e que, incendiado, ia
+inundar o subterraneo, transformando-o n'um immenso forno crematorio.
+
+O mancebo, n'um momento surpreso, sentindo na face o calôr das chammas,
+nem por isso se deteve. Caminhou audaz e resoluto para o perigo,
+disposto a deixar-se queimar vivo antes que retroceder.
+
+Ao aproximar-se das chammas, porém, estas apagaram-se subitamente,
+tornando mais densa a treva do corredor.
+
+Seguiu ávante, e pouco depois sentiu o ruido clamoroso e sinistro de uma
+enorme queda d'agua, que se despenhava em catadupas de uma rocha que
+obstruia a passagem e que parecia o remate d'aquelle medonho e tenebroso
+subterraneo transformado n'um lago.
+
+A agua despenhava-se de tal altura e com tal fragor que, batendo nas
+pedras, resaltava, esparrinhando com tanta violencia, que algumas gottas
+vinham açoitar o rosto de Paulo.
+
+Á primeira vista, parecia impossivel transpôr aquelle enorme pégo sem
+perecer afogado. Uma dubia luz, coada por uma pequena abertura na
+abobada do subterraneo, esclarecia o medonho passo.
+
+Paulo, tomado da raiva febril de transpôr todas as barreiras ou morrer,
+avançou corajoso, fechou os olhos e atirou-se á agua. Com grande
+assombro seu, achou-se em terreno enxuto. A agua tinha desapparecido e
+com ella o ruido pavoroso da corrente.
+
+A treva tornara-se mais densa. Não obstante, elle caminhava afoito,
+quando, de repente, se sentiu agarrado e preso por duas fortes e
+vigorosas mãos que o levantaram ao ar deixando-o cahir.
+
+Procurava firmar-se nas pernas, quando notou que o terreno lhe faltava
+debaixo dos pés e se precipitava n'um abysmo.
+
+Não soltou um grito. Esperava morrer como um homem, e assim chegou a um
+segundo subterraneo, onde se encontrou de pé, illeso e sem que soffresse
+a menor contusão.
+
+Continuou o seu caminho corajosamente, embora sob o peso das commoções
+soffridas. Foi andando na treva por alguns minutos, quando um rugido
+terrivel lhe despertou a attenção.
+
+Olhou e viu na sua frente uma porta de ferro, defendida, por dois
+enormes leões, que punham n'elle os olhos de fogo, escancarando n'uma
+ameaça a guella hiante.
+
+Fixou a vista aterrado nos monstros, que soltaram novo rugido atroador.
+
+Pallido, os cabellos eriçados, as faces contrahidas de susto, o mancebo
+pensou em retroceder, mas envergonhado d'esta cobardia, exclamou,
+avançando para as féras:
+
+--Antes morrer que recuar!
+
+Rapidamente, os leões sumiram-se na parede e Paulo pôde bater á porta,
+levantando e deixando cair o pesado batente em forma de mão negra.
+
+A porta abriu-se.
+
+--Entrae!--disse o mesmo chefe que o havia introduzido no subterraneo,
+recebendo-o de novo na sala d'onde havia partido.
+
+Paulo entrou.
+
+--Ides dar-nos a ultima prova--propoz o chefe.--Aqui tendes este punhal.
+N'aquelle gabinete está, sob a acção de um narcotico, uma mulher, que é
+preciso _eliminar_... Ide! Cravae-lhe este punhal no coração.
+
+Paulo pegou no punhal, abriu a porta e ia avançar, quando recuou
+espantado, soltando um grito terrivel:
+
+--Ella!--bradou o pobre rapaz afflictivamente.
+
+É que diante dos seus olhos admirados apparecera uma bella e gentil
+figura de mulher, estendida sobre um pôtro de torturas, os pés e as mãos
+amarradas, a face pallida, os olhos cerrados, como que esvaecida ou
+morta, e essa mulher, essa visão inesperada, era nem mais nem menos do
+que a sua amada, a aspiração querida da sua alma, a mulher por quem o
+pobre moço ia filiar-se na mysteriosa e terrivel seita da _Mão negra_!
+
+--Hesitas?--perguntou o chefe com um accento de desprezo e sarcasmo na
+voz.--Não prestaste ainda juramento, mancebo; não estás preso a nós por
+nenhuns laços. Se o teu coração se entibia, se o teu braço treme e se
+recusa a obedecer, vae, deixa-nos! Profere apenas uma palavra e serás
+restituido á liberdade.
+
+No rosto do mancebo desenhava-se uma angustia profunda. Os cabellos em
+desalinho, a face pallida, a fronte banhada de um suor frio, não
+desfitava os olhos d'aquelle meigo e adorado vulto de mulher, a que
+tinha presa toda a sua existencia, todas as esperanças da sua juventude,
+todas as nobres aspirações da sua alma e que alli via, sem saber como
+nem porque, semi-morta, amarrada áquelle pôtro fatal, e prestes a cahir
+aos golpes de uma justiça occulta, que a mandava apunhalar!
+
+E havia de ser elle o algoz, havia de ser elle o executor da fatal
+sentença, elle, que por ella sacrificaria a vida, a honra, a familia,
+tudo o que um homem póde sacrificar á mulher amada!
+
+Era horrivel!
+
+--Decide-te, mancebo!--tornou o chefe--Ou cumpres corajosamente os
+mysteriosos designios da _Mão-negra_, ou recusas e vaes em paz com a tua
+cobardia!
+
+Como se lhe tivessem vergastado o rosto, á palavra _cobardia_, o mancebo
+apertou na mão o punhal e, voltando-se para o seu mysterioso
+interlocutor, disse, rangendo os dentes:
+
+--Cobarde não o sou, não o serei jámais! Que posso eu fazer para
+resgatar a vida d'aquella mulher?
+
+--Nada!
+
+--Offereço-vos a minha vida, senhores! Pegae em mim, amarrae-me áquelle
+pôtro onde a tendes manietada, sujeitae-me á tortura mais cruel, mais
+horrenda,--não soltarei uma queixa, não me ouvireis um gemido! Mas
+libertae-a a ella, restitui-lhe a liberdade, concedei-lhe a vida, e eu
+bem direi a vossa generosidade, a vossa grandeza d'alma, e o meu ultimo
+alento será ainda um protesto, de gratidão para comvosco!
+
+--Nada podemos fazer-te. Essa mulher está condemnada, e nada poderá
+libertal-a da nossa justiça. Queres executar a sentença ou preferes
+retirar-te em paz com a tua fraqueza... com a tua cobardia, repito?
+
+--Cobarde nunca!--bradou o moço, luzindo-lhe nos olhos uma colera
+terrivel--Bem vêdes que não é o meu braço que treme--é o meu coração que
+lucta!
+
+--Vence-o!
+
+--Vencel o-hei. Mas antes, dizei-me: não tem preço aquella vida? Quantas
+vidas quereis que vos entregue em resgate d'aquella? Apontae-m'as, e eu
+vos juro que vol-as entregarei todas, sem faltar uma, ainda que para
+isso eu tenha de descer tão baixo, que me confunda com os mais infimos
+sicarios, ou haja de subir tão alto, que chegue a transpôr os degraus de
+um throno! Reparae que esta é a mulher que amo! É o mundo que vós me
+mandaes anniquilar com aquella existencia!
+
+--Está condemnada. Decide-te!--tornou a voz--Partes ou ficas?
+
+--Pois bem, fico!... para partir com ella!
+
+Avançou desvairadamente para a sua amada, que, immovel, amarrada ao
+pôtro, parecia cahida em profundo lethargo.
+
+--Beatriz, perdoa-me!--murmurou elle.--Não é a ti que eu apunhál-o, é a
+mim proprio... Seguir-te-hei no teu resgaste!
+
+Dizendo isto, cravou-lhe fundo o punhal no coração. O sangue espadanou
+do peito da victima, que não soltou um gemido.
+
+O mancebo, com as mãos tintas de sangue, veio á sala e disse
+serenamente, encarando os seus lugubres e mysteriosos companheiros que
+se conservavam mudos e immoveis:
+
+--Pedistes-me uma vida. Dar-vos-hei duas, ensinando-vos ao mesmo tempo
+como se mata e como se morre!
+
+E n'um movimento rapido, sem dar tempo a que o detivessem, alçou o braço
+e cravou o punhal no coração.
+
+A lamina, porém, não penetrou a carne e o mancebo, admirado de que o
+ferro lhe não tivesse produzido a menor dôr, examinou espantado a arma
+homicida.
+
+Era um d'estes punhaes simulados, cuja lamina de latão, se embebe e
+desapparece no cabo quando se descarrega a punhalada, voltando a
+apparecer impellida por occulta mola desde que deixa de ser premida de
+encontro ao corpo.
+
+--Mas o que é isto?--disse elle indignado, quasi sem
+comprehender.--Estamos nós representando uma farça?
+
+--Não, meu amigo!--respondeu amavelmente o chefe--estiveste dando-nos a
+prova da tua rara coragem, do valor e lealdade do teu caracter, e nós
+todos, bemdizendo a hora que traz ao nosso gremio um _irmão_ de tanto
+valor!
+
+Depois, voltando-se para o gabinete onde ainda jazia inanime a _amada_
+de Paulo, continuou:
+
+--Como já deves ter comprehendido, alli não está a tua amada, porém a
+sua imagem tão perfeita e semelhante, que a tomaste por ella propria.
+
+O mancebo, aturdido, punha no manequim os olhos, recusando-se a
+acreditar o que ouvia.
+
+--Foi, pois, uma simulação de morte--proseguiu o chefe--O valor moral da
+acção fica em pé, visto que a tua intenção era obedecer aos preceitos da
+_Mão-negra_...
+
+--E matar-me em seguida!--accrescentou o mancebo.
+
+--É a unica porta que resta aberta aos nossos _irmãos_ para se separarem
+de nós. A sahida por esse lado, posto seja uma fraqueza, não é nunca um
+crime. De resto, é tambem por ella que fazemos sahir os que se tornam
+indignos de pertencerem á nossa Associação.
+
+--Espero que não tereis o incommodo de me ensinar o caminho, se algum
+dia me arrepender de haver buscado a vossa camaradagem--disse Paulo.
+
+--Felicito-te, mancebo, pela tua rara energia, lealdade e valor do teu
+caracter, de que déste prova. Serás um bom _irmão da Mão-negra_ e
+auguro-te uma brilhante carreira dentro do nosso gremio, se perseverares
+em conservar puras e immaculadas as apreciaveis qualidades a que deves a
+tua admissão. Queres prestar juramento?
+
+--Sim!
+
+--Irmão Golias!--ordenou o chefe--vendae os olhos ao neophyto!
+
+Destacou-se da parede o _irmão_ que já havia sido o apresentante do
+mancebo, e cumpriu as ordens do chefe.
+
+--Vendam-se-vos ainda os olhos--disse este--não porque esteja no nosso
+animo guardar para comvosco novos mysterios ou admittir-vos com fins
+reservados, mas tão sómente porque a venda que se vos põe agora
+representa a confiança cega, illimitada, que deveis ter nos vossos
+irmãos e nos nobres e justos fins para que todos trabalhamos, unidos
+como um só homem, guiados pela mesma potente e mysteriosa _Mão-negra_.
+
+Findo este pequeno discurso, o chefe fez um signal. Os vultos que, de pé
+e immoveis rodeavam a sala, encostados á parede, avançaram
+silenciosamente e formaram um circulo á roda de Paulo.
+
+--Irmão Golias!--disse o chefe.
+
+--Eis-me, senhor!
+
+--Fiastes o neophyto. Persistes fiando-o?
+
+--Do fundo da minha alma.
+
+--Sois o seu padrinho. Tomae o vosso logar.
+
+O vulto que dava pelo nome de Golias postou-se ao lado do mancebo, tendo
+na mão uma salva de prata coberta por um crepe.
+
+O chefe subiu então ao throno e passou-se n'aquelle recinto uma scena
+deveras surprehendente.
+
+De pé sobre o throno, o chefe pegou em um escrinio de pau santo com
+embutidos de prata e marfim representando uma caveira com dois fémures
+em cruz, carregou em um pequeno botão, e o escrinio abriu-se,
+transformado-se rapidamente em uma almofada de veludo carmezim em que
+assentava um craneo alvissimo, seguro por dois punhaes em tropheu.
+
+Estendeu para a assembleia o braço sustentando esta estranha _reliquia_,
+e immediatamente os vultos, levando as mãos á cinta, desembainharam
+luzentes floretes que traziam occultos debaixo dos habitos e que
+apontaram ao neophito, formando-lhe com elles um circulo de ferro.
+
+Ao mesmo tempo uma voz resoou:
+
+--Está aberto o templo!
+
+Tres portas abriram-se e por ellas começou entrando uma verdadeira
+multidão de capuzes negros, trazendo na mão esquerda uma tocha accesa e
+na dextra um punhal.
+
+Os das tochas formaram em cruz, ao comprido e ao través do _templo_,
+abrindo em alas, voltados todos para o centro, onde se agrupavam, como
+já dissemos, os primeiros vultos, rodeando Paulo, com os floretes
+desembainhados.
+
+Tudo isto se fez no meio do maior silencio e quasi sem deixar perceber o
+ruido dos passos.
+
+Então o chefe, erguendo a voz, disse:
+
+--Mancebo, juras obediencia, lealdade e amor a todos os irmãos da _Mão
+negra_? Juras não revelar a alguem os segredos da nossa agremiação?
+Juras sacrificar por ella todos os dias da tua vida, todas as horas da
+tua existencia, o vigor do teu braço, os pensamentos do teu cerebro, os
+sentimentos do teu coração?
+
+Paulo estendeu a mão e disse solemnemente:
+
+--Juro!
+
+Immediatamente, o irmão Golias, entregando a outro a salva que tinha na
+mão, voltou-se para o neophyto, dizendo:
+
+--Irmão _David_, pois que sou teu padrinho, vou impor-te o habito de
+_Mão-negra_!
+
+Enfiou-lhe então pelos hombros um habito igual ao que os outros vestiam,
+deixando-lhe apenas a cabeça a descoberto, sem lhe deitar o capuz.
+
+--Tirae a venda, irmão--ordenou o chefe--para que toda a luz se faça aos
+vossos olhos!
+
+O mancebo arrancou a venda e ficou maravilhado e surprehendido ante o
+estranho quadro que se apresentava á sua vista.
+
+Os irmãos haviam atirado os capuzes para as costas e descoberto os
+rostos, conservando-se, porém, na mesma attitude severa e hostil, com os
+florêtes apontados ao novo irmão.
+
+Passando uma vista curiosa por todos elles, o mancebo ficou
+surprehendido de vêr muitos rôstos conhecidos á volta de si.
+
+O irmão Golias, pegou-lhe na mão e fêl-o subir os degraus do throno.
+
+O chefe veio recebel-o a meio, apertou-o nos braços e osculou-o na
+testa.
+
+--Bem vindo sejas, irmão, a augmentar a nossa ala!--disse elle.
+
+A estas palavras, todos os florêtes se abaixaram, entrando na bainha.
+
+Em seguida tomou-lhe a mão e acompanhou-o até ao degrau inferior do
+throno, dizendo:
+
+--Recebe o abraço de teus irmãos e faze por te conservares sempre digno
+d'elles.
+
+Os irmãos que o haviam rodeado com os florêtes vieram todos um a um
+abraçál-o e beijál-o na testa.
+
+--Irmãos!--disse o chefe do alto do throno--vae reunir o sublime
+capitulo. Está encerrado o _templo_.
+
+As luzes apagaram-se, e os vultos começaram a sahir pelas differentes
+portas do recinto, sumindo-se mysteriosamente sem que alguem pudesse
+dizer que caminho levavam.
+
+
+
+
+II
+
+Amôr e esperança
+
+
+Deixemos os mysteriosos irmãos da _Mão-negra_ seguir o caminho que os
+havia de reconduzir ao mundo do qual por algum tempo semelhavam ter-se
+apartado, e sigamos o arrojado e corajoso adolescente que acaba de
+iniciar-se nos mysterios da terrivel seita.
+
+Paulo, tendo sahido da quinta do Carvalhido em companhia do seu amigo
+Jorge, agora convertido em seu _irmão_, regressou á cidade no mesmo trem
+que o conduzira, apeando-se e despedindo-se do companheiro em uma rua
+proxima da de Cedofeita.
+
+Eram tres horas da manhã e o vento continuava soprando rijo da barra,
+pondo negrumes de tempestade n'aquella noite desabrida.
+
+O mancebo seguiu pela rua deserta até parar junto de uma casa de luxuosa
+apparencia, e que denunciava pelo exterior severo e pelo amplo jardim
+gradeado que lhe ficava contiguo, a opulencia dos seus habitantes.
+
+Inflou as bochechas e, batendo-lhe com as mãos, imitou o canto da
+perdiz.
+
+Era evidentemente um signal, porque algum tempo depois, uma das janellas
+do rez do chão, vedada por grades de ferro, abriu-se manso, e uma voz
+feminina disse, tremula e quasi sumida:
+
+--Como vens tarde, meu amigo!
+
+--Beatriz, perdôa, mas um assumpto do mais alto interesse e de que
+depende a nossa felicidade futura impediu-me de vir á hora costumada.
+Hesitei em vir despertar-te a esta hora; mas a ideia de que havia de
+estar sem te fallar e talvez sem te ver até amanhã á noute, obrigou-me a
+procurar-te, Beatriz.
+
+--Eu esperava-te... Esperava-te, porque tinha tambem que te dizer... Oh!
+se soubesses como estou afflicta!
+
+--Tu! Mas o que te succedeu, anjo da minh'alma?...
+
+--Paulo...--gemeu a meiga voz que fallava do lado de dentro da
+grade--não sei como t'o hei de dizer... meu Deus!
+
+--Falla, Beatriz, falla, pelo nosso amor t'o peço!--supplicou o
+moço--Não me tenhas por mais tempo n'esta cruel espectativa... Tu
+choras, tu pareces afflicta... Meu Deus! o que é que motiva a tua dôr?
+
+Beatriz, cujo vulto mal podemos distinguir na penumbra do aposento,
+occultava o rosto entre as mãos buscando afogar os soluços.
+
+--Paulo,--disse ella--meu pae... quer casar-me!
+
+O mancebo recuou um passo como se lhe tivessem descarregado uma violenta
+pancada no peito.
+
+--Quer casar-te!--exclamou.--E com quem?
+
+--Com um rapaz que eu mal conheço... um rapaz que tem vindo duas ou tres
+vezes de visita a nossa casa, onde foi apresentado por um dos mais
+intimos amigos de meu pae...
+
+--Dize-me o nome d'esse rapaz!--intimou desvairadamente o moço.
+
+--Eugenio de Mello--soluçou Beatriz.
+
+--Eugenio de Mello!--repetiu o mancebo.--Esse nome é completamente
+estranho para mim. Nunca t'o ouvi pronunciar.
+
+--Se te digo que apenas veio duas ou tres vezes de visita a nossa casa,
+apresentado por um amigo de meu pae...
+
+--Mas, emfim, como é que surge agora essa ideia de te casarem com elle?
+Acaso esse rapaz alguma vez te manifestou sentimentos de sympathia ou de
+amor? Falla-me com franqueza, Beatriz. Comprehendo que por uma bem
+entendida delicadeza da tua parte para comigo, julgasses dever
+occultar-me os galanteios d'esse rapaz, se porventura elles te eram
+indifferentes... Mas não comprehendo como teu pae pudesse ter a ideia
+subita de te casar com elle, sem mesmo tentar indagar se o teu coração
+não repelliria um semelhante enlace.
+
+--Não! juro-te que nunca dos labios d'esse rapaz ouvi uma palavra que
+pudesse dar-me a perceber o mais tenue sentimento de amor por mim. Fóra
+dos cumprimentos e ceremoniosas attenções que as pessoas de boa
+sociedade usam ter para com uma senhora, não se trocaram entre nós
+quaesquer amabilidades que justificassem o pensamento d'este enlace que
+me surprehende!
+
+--É extraordinario! E como é que teu pae pretende impor-te um casamento
+em que tu nem sequer tinhas pensado?
+
+--Sabes que meu pae--volveu Beatriz--habituou-se a contar com a minha
+obediencia cega e passiva em todos os seus desejos, que para mim são
+ordens. Muito austero, educou-me sob um regimen de ferro em que a sua
+vontade é a unica que predomina...
+
+--Isso, porém, não é rasão para que elle se julgue no direito de
+sacrificar o teu futuro de mulher aos seus caprichos de... pae.
+
+--Meu pae ignora que eu te amo, Paulo! Julga o meu coração desprendido
+de qualquer affecto e crê que não me repugna a ideia de unir o meu
+destino ao de um homem que elle julga digno de mim.
+
+--E se de facto te não repugna... obedece-lhe!--bradou o mancebo n'uma
+voz estridente em que ia todo o fel do seu desespero.
+
+--Paulo! És injusto para comigo! Sabes que te amo, que não posso amar
+outro homem que não sejas tu; e quando me vês afflicta, atormentada ao
+peso da cruel exigencia de meu pae, em vez de suavisares a minha dôr, de
+me animares com o teu conselho a resistir á fatal imposição que me é
+feita, ainda me torturas mais com esse tom acrimonioso e hostil das tuas
+palavras! Não te mereço isso...
+
+As lagrimas da joven interlocutora de Paulo que, se realmente possue um
+rosto tão meigo como as suas palavras, de linhas tão suaves e puras como
+é doce o accento da sua voz, deve de ser uma creatura encantadora,
+pareceu abrandar um pouco o irritado animo do mancebo.
+
+--Mas o que queres tu que te diga, minha querida, se eu noto que era vez
+de pensares em repellir a despotica imposição de teu pae, ainda tentas
+desculpal-o?
+
+--Não o desculpo... digo apenas o que elle pensa.
+
+--Mas que tenho eu que saber o que pensa teu pae? O que desejo saber é o
+que pensas tu, minha querida! O que é que tencionas fazer? Que
+respondeste a teu pae? Qual é a tua intenção?
+
+Beatriz pareceu hesitar na resposta.
+
+--Desejava ouvir-te, primeiro, Paulo... desejava que me dissesses o que
+devo fazer...
+
+--Eu?! Pois é a mim que compete dirigir os teus actos? É a mim que
+compete dictar a tua resposta? Consulta o teu coração, Beatriz... Elle
+que te responda e te diga a resolução que deves tomar...
+
+--Paulo! O meu coração diz-me que só a ti pertenço, que só a ti eu
+desejo ter por marido... Mas, bem vês, quando eu disser a meu pae que te
+amo, e que por ti estou decidida a recusar outro qualquer enlace, por
+mais vantajoso que se apresente, meu pae ha de perguntar-me quem és...
+
+--E tu dize-lhe que sou aquelle que julgas que eu seja. Ou vae tão longe
+a tua piedade por mim e o teu despreso por ti que, tendo-me na conta de
+indigno do teu amor, assim mesmo m'o concedes?
+
+--Oh! não, não, Paulo!
+
+--N'esse caso, o que receias?
+
+--É que eu julgo-te com o coração; meu pae, porém, ha-de julgar-te com a
+cabeça; e entre o coração da filha e o cerebro do pae existe uma
+distancia tão grande, que eu receio bem que não possamos transpôl-a...
+
+--Se essa é a tua convicção e te faltam forças para resistir e luctar,
+submette-te e... adeus! Adeus para sempre, Beatriz!...
+
+Paulo ia a retirar-se. O animo orgulhoso e altivo d'este adolescente de
+18 annos, que tinha já a energia e a vontade de ferro de um homem feito,
+não podia supportar sem protesto os timidos receios e as hesitações
+offensivas da mulher que adorava.
+
+--Paulo!--tornou a chamar a joven.--Escuta-me! Que singular prazer tens
+em me atormentar, quando eu tanto preciso da tua compaixão e da tua
+piedade!
+
+--Fallas-me em tormentos, Beatriz, quando desde que aqui cheguei outra
+coisa não tens feito senão revolver-me n'um perfeito inferno de
+torturas! Acabemos com isto, e vamos direitos ao fim sem tergiversações
+nem rodeios. Teu pae impôz-te o casamento com esse... rapaz, que deve
+ser por força rico, distincto... amavel, emfim. E tu acceitaste?
+
+--Eu...
+
+--Hesitas na resposta e a tua propria hesitação me responde: acceitaste
+e vens dizer-me que está tudo terminado entre nós...
+
+--Oh, não!--accudiu a joven, com impeto.--Eu não acceitei nem respondi
+como desejava. Pedi que me deixassem reflectir, porque o meu primeiro
+pensamento foi ganhar tempo, para poder combinar comtigo o que devo
+fazer...
+
+--O que deves fazer não seja eu quem t'o diga. Teu pae é rico, Beatriz;
+tu mesma és já herdeira de uma avultada fortuna, e eu sou pobre.
+Separa-nos, portanto, actualmente um abysmo... Cuidei que poderia contar
+comtigo solteira e livre até ao dia, que não viria longe, em que eu
+pudesse apresentar-me a teu pae, a solicitar a tua mão, sem que o pedido
+revestisse o caracter humilhante para mim de uma tentativa de penetrar
+no sanctuario da riqueza pela porta do coração de uma mulher. Vejo,
+porém, que o destino quer o contrário; que outro pretendente se
+apresenta com menos escrupulos ou mais dinheiro do que eu, e que da
+firmeza e constancia do teu amor nada tenho a esperar, se eu não me
+resolver a prestar-te o amparo incompativel com a minha dignidade de
+homem e com o programma que me tracei de só a mim dever o meu triumpho.
+Paciencia!
+
+--Paulo, tu não me conheces! ou, se me conheces, estás sendo para mim de
+uma injustiça que mais tarde te ha-de fazer remorsos... Escuta-me, meu
+amigo, escuta-me com serenidade e repara bem nas minhas palavras.
+
+E Beatriz, com voz tremula de commoção, principiou dizendo:
+
+--Não conheces o caracter de meu pae e não admira por isso que julgues
+sêr-me coisa facil o contrariar-lhe os propositos... Eu, porém, que o
+conheço, que por elle fui educada e com elle tenho vivido sob o jugo do
+seu genio rispido e severo, avalio bem que crueis amarguras e horriveis
+tormentos a sua colera me prepara na lucta que vou ser obrigada a
+sustentar, recusando-me a acceitar por esposo o homem que elle me
+escolheu. Não me intimida, porém, a perspectiva do soffrimento. Morrerei
+de bom grado na defesa dos sagrados affectos do meu coração e
+conservar-me-hei fiel ao juramento tantas vezes repetido do meu amôr. O
+que quero é ter a certeza de que a tua confiança me não abandona, Paulo;
+que quaesquer que sejam as mudanças que se operem no nosso modo de viver
+e de nos relacionarmos--mudanças que eu não posso prevêr por emquanto
+quaes sejam, mas que certamente hão de sêr as mais dolorosas para o
+nosso coração--eu terei no teu espirito e na tua lembrança o logar a que
+o meu amôr me dá direito...
+
+--Beatriz!--exclamou o mancebo--quando se ama como eu te amo; quando se
+sente no peito a chamma ardentissima de um vivo e intenso amor que de
+todo nos senhoreia o espirito e nos absorve a existencia, lucta-se,
+soffre-se, morre-se, mas não se esquece jámais o nome d'aquella que nos
+inspirou tão fervoroso culto!
+
+--Pois bem, meu Paulo! É possivel que o destino nos reserve dias bem
+sombrios de uma ausencia crudelissima, que ha-de retalhar-nos o coração
+e quasi volver-nos loucos de desespero. Sejam quaes forem as
+circumstancias em que nos encontremos, sejam quaes forem as apparencias
+que me condemnem, não duvidarás nunca da lealdade do meu affecto como eu
+não duvidarei, jámais da sinceridade da tua alma, não é verdade?
+
+--Fazes-me estremecer de receio, Beatriz! Decerto exaggeras o pavoroso
+quadro dos nossos infortunios...--disse o mancebo, pallido de commoção.
+
+--É que tu não conheces meu pae!
+
+--Que poderá elle fazer, se tu recusares tenazmente esse enlace como uma
+violencia imposta ao teu coração? Antes de tudo, tu és sua filha; e um
+pae, por muito severo e rispido que pareça, não se transforma por
+simples capricho no algoz d'aquella a quem deu o sêr.
+
+--Não sei... não posso dizer-te nada por emquanto, senão que tudo espero
+d'este funesto designio manifestado por meu pae... Mas seja como fôr,
+jura-me que não duvidarás nunca da mim, que has-de sempre confiar na tua
+Beatriz como n'aquella que mais te ama no mundo.
+
+--Juro-te, meu amor, que serás minha e que não te has-de encontrar só na
+lucta e no soffrimento. Tenho amigos--continuou Paulo--amigos poderosos,
+contra os quaes não é facil nem prudente luctar... Com elles conto como
+_irmãos_ e n'elles espero encontrar o auxilio de que ambos carecemos.
+Não te assustes nem te deixes dominar pelo terror. Hontem, ainda
+desprotegido, poderia talvez apavorar-me a ideia da minha fraqueza
+contra inimigos tão poderosos como é teu pae; hoje, conscio de que os
+brados intimos do meu coração ameaçado de morte encontrarão ecco
+n'outros corações que me são dedicados, levanto-me orgulhoso e altivo do
+teu amor, e digo-te: «Não succumbas, anjo da minha alma! Tem confiança
+em mim, que havemos de vencer».
+
+O tom de absoluta segurança com que Paulo proferiu estas palavras
+pareceu transmittir novo alento á joven.
+
+--Luctarei--disse ella--e agora com mais energia, desde que nas tuas
+palavras tenho o penhor de que não será perdido o meu sacrificio. Nada
+mais te pedia e nada mais te peço do que essa confiança inabalavel na
+constancia do meu amor. Ama-me como eu te amo, Paulo! e d'este
+sentimento, que é a vida, hauriremos forças para resistir aos embates de
+uma sorte cruel e adversa!
+
+Trocaram-se ainda novas juras e protestos de constancia e amor sem fim,
+despedindo-se, e promettendo tornar a ver-se na noite seguinte.
+
+O leitor, eivado do realismo da epoca, certamente está sorrindo do córte
+romanticamente amoroso e piegas d'este dialogo dos dois namorados.
+
+Effectivamente, a menina tem a phrase um tanto brunida e lustrosa das
+heroinas dos romances d'outras eras, o que dá um tom de inverosimilhança
+ao lance ingenuamente sentimental.
+
+Mas o romancista, se copía do natural como nós o estamos fazendo, não
+tem remedio senão acingir-se á verdade e reproduzir os seus personagens
+com os aleijões que a natureza, as condições do meio ou os acasos do
+nascimento e da educação lhes imprimiram no corpo ou no caracter.
+
+Esta menina, assim romanticamente apaixonada, exprimindo-se em termos de
+um antiquado sabor litterario, não nos está revelando uma assidua e
+ingenua leitora das novellas de Camillo?
+
+Claro está que ella reproduz incorrectamente o que de peor podia haurir
+na leitura do genial escriptor--a emphase, o arredondado do periodo, a
+declamação cantante, sem os esmêros da dicção, sem a impeccavel belleza
+e elegancia de fórma do grande Mestre. Mas o facto é que ella, em
+assumptos de coração, não podia exprimir-se de outra maneira, visto que,
+como mais tarde teremos occasião de averiguar, foi nas paginas
+soluçantes do «Amor de Perdição» que aprendeu a traduzir as primeiras
+balbuciações do seu amoroso coração de creança.
+
+Paulo tambem, pela sua parte, influenciado pelas mesmas leituras,
+correspondia-lhe no tom e no gosto do seu arrasoado. Se, porém, esta
+linguagem póde ser capitulada de falsa, o mais espantoso é que ella
+exprimia um sentimento profundamente verdadeiro.
+
+Os dois amavam-se com entranhado ardôr, e isso é o que mais importa
+saber ao leitor inimigo de divagações.
+
+Ponhamos, pois, de parte a preoccupação de responder a reparos que a
+grande maioria certamente não fará e digamos em poucas palavras o que
+foi feito de Paulo, desde que, cerrada a janella da sua amada, teve que
+retirar-se a passos apressados para que a chuva, que começava a cair em
+grossas gôtas, o não surprehendesse na rua tristemente deserta.
+
+O mancebo era estudante. Tinha completado o curso do Lyceu e
+matriculara-se no primeiro anno da Academia.
+
+O padre Filippe, seu protector e amigo, era quem se dizia encarregado de
+lhe fornecer os meios de subsistencia e de estudo.
+
+Não o tinha, porém, na sua companhia. Incumbira-o aos cuidados de uma
+familia honesta, onde era tratado como filho, e limitara-se apenas a
+exigir que o _seu estudante_ o fosse visitar duas vezes por semana, nas
+quintas e nos domingos, á casa que elle habitava, na rua Chã.
+
+Paulo não conhecera outra familia, além d'aquella em casa de quem o
+hospedaram aos doze annos. Até ahi, que se lembrasse, fôra alumno
+interno d'um instituto religioso, onde umas irmãs piedosas o trataram
+com o carinho de mães, ficando-lhe d'esse internato uma recordação tão
+saudosa que, ainda agora, ia a meudo visitar a abbadessa, madre Paula,
+que tinha no seu coração o primeiro logar.
+
+Recolhendo a casa na manhã d'aquella noite accidentadissima, o mancebo
+não pôde dormir.
+
+Agitadissimo, recordando o seu passado, em que parecia haver um ponto
+escuro que o mortificava, Paulo resolveu erguer uma ponta do veu
+mysterioso que encobria o seu nascimento.
+
+No dia seguinte, pelas 10 horas, dirigiu-se a casa do seu protector, e
+sem mais preambulos, disparou-lhe esta pergunta á queima roupa:
+
+--Diga-me, padre: quem é meu pae?
+
+O padre Filippe, surprehendido pelo imprevisto da pergunta, pôz no
+mancebo os olhos espantados e ficou-se a consideral-o em silencio por
+alguns momentos.
+
+--Porque me fazes essa pergunta, Paulo?--disse por fim.
+
+--Porque sou um homem, porque tenho já dezoito annos, e desejo saber
+d'onde venho, para poder destinar para onde vou, ou para onde devo ir...
+respondeu o mancebo com firmeza.
+
+O padre Filippe sorriu bondoso a esta replica do moço e continuou a
+olhal-o fixamente.
+
+--Paulo--disse elle afinal--se dizes que és um homem, como póde influir
+no teu destino o saberes ou deixares de saber o nome d'aquelles a quem
+deves a existencia? És um homem; e todos os homens devem ser guiados
+pelo mesmo sentimento do bem, todos devem caminhar para o mesmo fim:
+serem uteis a si e á humanidade. Creio que o facto de cada um saber ou
+ignorar o nome de seus paes nada influe ou nada deve influir no destino
+que lhe está traçado.
+
+--Perdão, meu bom amigo!--objectou Paulo--Todo o homem tem o direito,
+creio eu, de conhecer a sua origem, de saber o nome dos seus
+progenitores, não só para os respeitar e bemdizer pelo beneficio da vida
+que lhe concederam, mas ainda para nortear os seus actos pelas tradições
+da sua familia. Por isso insisto na pergunta: quem é ou quem foi meu
+pae?
+
+--Teu pae--tornou o padre placidamente e agora de todo reposto do
+sobresalto que lhe causára a pergunta--teu pae é ou foi um homem. D'isso
+não te deve restar duvida, pois que homem te dizes já e como homem te
+apresentas.
+
+--Mas não tinha nome esse homem?
+
+--Se o tinha, não chegou nunca ao meu conhecimento.
+
+--Nem o nome de minha mãe?
+
+--Nem o nome de tua mãe.
+
+--Como é, pois, que eu me chamo Paulo de Noronha?
+
+--Naturalmente porque aquelles que te deram o sêr assim quizeram que te
+chamasses.
+
+--Assim quizeram! A quem manifestaram elles essa vontade? São ainda
+vivos? Se o são, porque se occultam e me não apparecem? Se morreram,
+porque motivo deixaram envolto no mysterio o meu nascimento?
+
+--A nenhum filho é licito discutir e muito menos censurar os actos de
+seus paes.
+
+--Mas eu não censuro, nem sequer discuto!--obtemperou Paulo--eu apenas
+pergunto.
+
+--Ha perguntas que envolvem censura, se não para aquelles a quem se
+fazem, pelo menos para aquelles de quem se fazem... Mas dize-me, Paulo,
+que estranha curiosidade é essa que assim te move a querer saber o que
+por emquanto deves ignorar?
+
+O mancebo hesitou por alguns instantes e por fim disse:
+
+--Padre Filippe, permitta-me que lhe falle com franqueza e lhe exponha
+as duvidas que ha tempo a esta parte me obcecam o espirito e me fazem
+reflectir na minha estranha situação...
+
+--Falla, meu amigo, falla!--animou o padre bondosamente--e crê que, a
+não sêr madre Paula, ninguem no mundo merece tanto como eu a tua
+confiança.
+
+--Pois bem!--tornou Paulo--ha muito tempo que eu dirijo a mim mesmo
+estas perguntas: Quem sou eu? De que familia descendo? Como se chamam ou
+se chamavam meus paes? Todos os meus condiscipulos dizem de quem são
+filhos, todos repetem com orgulho o nome dos paes ou relembram com
+saudosa ternura o nome das mães. Todos dizem: «a minha casa, a minha
+familia», só eu não posso dizer--_meu pae_, _minha mãe_, porque são
+entes que não conheço, de que nunca ouvi fallar, de quem não tenho a
+menor noticia. Dar-se-ha caso que eu não tivesse pae, que não tivesse
+mãe? Mas então a quem devo eu a minha existencia, o amparo e protecção
+que até agora tenho recebido? Sou um orphão? Sou um engeitado? Vivo e
+alimento-me do que por direito de nascimento me pertence, ou recebo a
+esmola de nobres almas compassivas? No primeiro caso, se tenho direitos,
+reclamo-os, porque esses direitos impõem-me deveres que eu quero
+respeitar e cumprir. No segundo, como sou já um homem e tenho o braço
+bastante robusto para ganhar o pão da existencia, não devo por mais
+tempo acceitar criminosamente a caridade que me trouxe até aqui e que
+póde fazer falta a outro desgraçado como eu!
+
+--Paulo!--disse o padre Filippe, fundamente commovido--és ainda muito
+novo para te preoccupares com assumptos que, por emquanto, devem
+permanecer envoltos no véo do mysterio que os encobre aos teus e aos
+meus olhos. Eu nada te posso dizer, filho.
+
+--É então á caridade de vossa reverendissima e de madre Paula que eu
+devo o pão que até agora me tem alimentado, não é assim?--perguntou o
+mancebo, extraordinariamente commovido e pallido.
+
+--Não! Não!--atalhou padre Filippe.--Eu recebi de um meu superior, a
+quem assisti nos ultimos instantes, o encargo de velar por ti e de
+applicar ás despezas da tua sustentação e educação a quantia que
+mensalmente me é enviada por pessoa que desconheço e que já antes a
+enviava ao santo sacerdote que me legou este encargo. A mim nada me
+deves, meu filho, senão a grande estima que tenho por ti e o grande
+desejo que sinto de te vêr conquistar uma posição digna e honrosa na
+sociedade.
+
+Paulo calou-se. As palavras do padre Filippe, repassadas de suavidade e
+doçura, impressionaram-n'o profundamente.
+
+--Estou então condemnado--disse elle, passados instantes--a ignorar toda
+a vida o nome de meus paes?
+
+--E de que te valeria o sabel-o?
+
+--De que me valeria! Valer-me-hia de não ter que córar diante de quem me
+interrogar a esse respeito! Valer-me-hia de não ter que recuar
+envergonhado e confundido diante de uma familia honesta que, antes de me
+admittir como filho em seu seio, terá que perguntar-me o nome de meus
+paes! Valer-me-hia, emfim, de não me encontrar n'esta horrorosa situação
+de não saber quem sou, se o portador legal de um nome honrado, se o vil
+e abjecto fructo de uma acção indigna, de um amor bestial e criminoso!
+
+Ouvindo esta retumbante tirada do moço, o padre Filippe sorriu ainda
+amoravel e observou-lhe:
+
+--Os tempos mudaram e com elles a orientação da sociedade moderna, meu
+Paulo. Já nenhum homem se impõe hoje pela familia, pelas tradições dos
+seus antepassados, pelas chimericas e phantasticas illusões de uma
+arvore geneologica, bracejando vergonteas e rebentões inuteis pelos
+seculos fóra. Nenhum homem vale hoje pelo que valeram seus paes e seus
+avós... Hoje, cada um vale por si, pelos seus merecimentos proprios,
+pelas nobres qualidades do seu caracter, pelas brilhantes manifestações
+da sua intelligencia. A tendencia democratica dos nossos tempos de ha
+muito que pôz de parte as falsas convenções de uma sociedade que se
+desmoronou...
+
+--Mas não pôz de parte, creio eu, os dictames da honra!--retorquiu o
+mancebo.
+
+--Decerto. E alguem te impede de te affirmares sempre um homem honrado,
+Paulo? A honra está nos nossos actos, está no uso que fazemos das
+faculdades com que a natureza nos dotou, está na firmeza e altivez com
+que, através de todas as vicissitudes, cumprimos intemeratamente o nosso
+dever; não está nos acasos do nascimento, nos brios de passados
+avoengos, nos appellidos pomposos dos que nos deram o sêr. Faze, pois,
+por merecer a estima e o respeito dos teus concidadãos, Paulo, e não te
+preoccupe a ideia de não saberes de quem vens. Basta que apenas conheças
+para onde vaes e sigas sem tergiversar a linha do dever.
+
+O mancebo guardou silencio por alguns instantes.
+
+--É, pois, um mysterio impenetravel o meu nascimento? Mas com que
+direito se me occulta o nome de meus paes? Com que direito me condemnam
+a esta lucta permanente comigo mesmo, sem saber se o que me dão o devo
+receber como meu, se o devo considerar como uma esmola?
+
+--Paulo! Por duas vezes já, desde que aqui entraste, proferiste a
+palavra _esmola_. As esmolas dão-se aos desgraçados, aos invalidos, aos
+que se encontram impossibilitados de, por esforço proprio, provêrem aos
+meios de subsistencia. Tu não estás n'esse caso. Quando muito, o que
+recebes de mão ignota que não precisas conhecer, é um adiantamento, uma
+divida que contrahes e que te será facil solvêr, correspondendo
+dignamente ás esperanças que em ti depositaram os que quizeram fazer-te
+um bom cidadão, um homem util a ti e aos teus semelhantes. E sobre isto,
+meu amigo, creio que temos fallado bastante. Dize-me--continuou o padre
+Filippe--tens ido visitar madre Paula?
+
+--Ha mais de quinze dias que a não vejo.
+
+--És ingrato, Paulo! A pobre senhora deve ter estranhado a falta da tua
+visita... Como é que pódes esquecer assim por tanto tempo quem tantas
+provas de carinhoso affecto te tem dado?
+
+--Padre--disse Paulo, ruborisado--eu não esqueço, nem poderei esquecer
+nunca quanto devo a essa bondosa e santa senhora, que tem tido para mim
+desvelos e ternuras de... de mãe. Na minha vida, porém, começam a surgir
+tão imprevistas luctas, incidentes de tal modo inquietadores, que não
+sei se deva perturbar com a minha presença o suave remanso d'aquella
+existencia para mim tão cara!
+
+--Luctas imprevistas, incidentes inquietadores...--O que é isso, Paulo?
+Falla-me com franqueza, dize-me tudo, rapaz! O que é que te acontece de
+estranho e de ameaçador? Não te esqueças de que deves considerar-me o
+teu primeiro e mais sincero amigo, meu filho! Creio que tenho direito á
+tua confiança... Ou não?
+
+--Respeito-o muito, meu padre, para vir importunal-o com assumptos que
+lhe parecerão talvez pueris...
+
+--Bem sei!... Negocios do coração... Temos amores no caso... São os
+primeiros rebates da virilidade no coração de um adolescente. Vamos!
+quem é a tua Virginia, meu Paulo?--perguntou jovialmente o sacerdote.
+
+--A minha Virginia--disse o mancebo, com enthusiasmo--chama-se Beatriz,
+e não é menos formosa nem menos adoravel do que a immortal inspiradora
+do Dante.
+
+--Bravo!--exclamou rindo o padre Filippe.--Temos, pois, em perspectiva
+uma _comedia divina_, para fazer confronto com a _Divina Comedia_...
+
+--Se não tivermos antes um drama extraordinario, até agora inédito na
+historia dos soffrimentos humanos...
+
+O padre encarou-o gravemente.
+
+--Fallas serio, Paulo?
+
+--Tão serio que me atrevi a vir interrogal-o, padre Filippe, sobre a
+historia do meu nascimento.
+
+--Ah! era por isso que vinhas assim n'essa ancia, pedir-me a chave do
+enygma da tua existencia? Eu devia tel-o adivinhado... Só as mulheres
+são curiosas por indole...
+
+--Não, não!--atalhou Paulo.--A mulher que eu amo ainda não me fez a
+menor pergunta que me difficultasse a resposta. Eu, porém, é que desejo
+saber quem sou para saber o que posso offerecer-lhe.
+
+--Pois não é sufficiente o coração do homem que ama para a mulher amada?
+
+--Padre, a mulher que eu amo não é livre; tem pae, que se julga com
+direito a intervir no seu destino e a impedir que sua filha busque a
+alliança de um homem de origem... desconhecida.
+
+--Foi essa menina quem t'o disse?
+
+--Disse-m'o a minha propria razão.
+
+--Queres um conselho, Paulo?--perguntou inopinadamente o padre Filippe.
+
+--Os conselhos de vossa reverendissima são para mim leis sabias e
+justas, que eu não posso deixar de acatar com o respeito e gratidão que
+lhe devo.
+
+--Pois bem; refreia os impetos da tua paixão por essa menina e busca
+antes de tudo fazer-te digno do seu amor.
+
+--Já o sou.
+
+--Pelos dotes do coração, concordo, mas não pela posição social
+alcançada. O primeiro que o pae d'essa menina ha-de perguntar-te, quando
+souber que lhe pretendes a mão da filha, é com que recursos contas para
+proporcionares a tua mulher a felicidade e o bem estar a que ella tem
+direito. Quererá saber que posição é a tua, que profissão exerces ou de
+que meios de fortuna dispões para poderes dignamente apresental-a na
+sociedade ao respeito e á consideração das pessoas de bem. E
+comprehendes, meu Paulo, que a taes perguntas não se responde com uma
+certidão de baptismo que nos dá avós illustres de quem não herdámos um
+palmo de terra onde cahir mortos, nem com a reedição apaixonada dos mil
+juramentos de amor constante que enviamos á filha em perfumadas
+cartinhas que lá estão, em maço, amarradas com fita de seda...
+
+O mancebo não pôde deixar de sorrir a estas palavras do padre Filippe,
+que denunciavam um profundo conhecedor da arte do galanteio.
+
+--Os paes não se contentam com tão pouco, exigem mais alguma
+coisa--continuou o sacerdote--Ora esse _mais alguma coisa_ é que está na
+tua mão offerecer-lh'o, Paulo. Conquista pelo estudo e pelo trabalho
+honesto uma posição que te nobilite aos olhos do mundo; engrandece-te a
+ti proprio, torna-te homem; e quando a tua consciencia te disser que não
+és inferior á mulher que amas, vae pedil-a e não receies que o pae te
+não encontre bastante nobilitado para entrares na sua familia.
+
+--Mas o pae de Beatriz quer casal-a com outro!--exclamou o mancebo,
+dando largas ao desespero que lhe ia na alma.
+
+--O pae d'essa menina sabe que ella te ama?
+
+--Não sabe.
+
+--É, pois, natural que, julgando o coração da filha desligado de
+qualquer affeição, pense em lhe proporcionar um enlace que lhe parece
+vantajoso. Todos os paes pensam no futuro de suas filhas e esse não o
+seria, se desdissesse da regra geral. Mas d'ahi a violentar-lhe o
+coração e a impor-lhe á força um casamento que ella rejeita, vae uma
+distancia enorme. Se essa menina te ama sinceramente, como dizes,
+recusará o consorcio que o pae lhe proporciona, allegando motivo que
+para todos os paes deve ser sagrado--a ausencia absoluta de sympathia
+pelo noivo proposto. Se, pelo contrario, o sentimento que diz nutrir por
+ti não é tão vivo e intenso que lhe permitta a recusa, casar-se-ha, e
+com o facto só tu tens a lucrar, pois que assim te livras do escolho de
+vires a possuir por companheira uma creatura incapaz de corresponder ás
+nobres aspirações da tua alma. Não creio, pois, que isso seja
+contrariedade de maior, que te dê motivos para os sobresaltos e
+inquietações que revelas. Vae visitar madre Paula, meu rapaz...
+Conta-lhe os segredos da tua alma, nada lhe occultes, e verás como nas
+suas palavras e conselhos has-de encontrar o socego e quietação que
+precisas... Isto não é desviar de mim o encargo de te guiar e dirigir no
+accidentado caminho a que o coração te propelle--accrescentou o
+padre--Mas é que as mulheres, em questões do coração, teem mais
+auctoridade, são mais profundamente conhecedoras da mysteriosa sciencia
+do sentimento alheio, e teem sobretudo um poder de persuasão que a nós
+outros os homens nos fallece. Procura madre Paula, conta-lhe tudo,
+escuta as suas palavras e verás que has-de sentir-te bem, meu filho.
+
+--Procural-a-hei--disse Paulo--mas creio bem que não poderá
+aconselhar-me melhor do que vossa reverendissima acaba de o fazer; nem
+as palavras da santa e virtuosa senhora poderão trazer mais funda ao meu
+espirito a convicção que vossa reverendissima me deu de que preciso
+engrandecer-me, fazer-me _homem_ para conquistar a posse da mulher que
+amo!
+
+--Folgo de ver que comprehendeste bem o intuito das minhas palavras,
+Paulo. Crê que ninguem mais do que eu deseja a tua felicidade e o teu
+bem estar. Se fosses meu filho, não te aconselharia de modo differente
+nem desejaria com mais ardor ver-te ascender a uma posição culminante.
+D'isso pódes estar certo.
+
+--Trabalharei e empregarei todos os esforços para realisar os desejos de
+vossa reverendissima--que são tambem os meus.
+
+--E conseguil-o-has, porque és intelligente, és energico, e revelas
+nobreza de caracter. Com taes predicados, só não alcança uma posição
+distincta na sociedade quem não quer.
+
+Agora, reanimado pela esperança que as palavras do padre Filippe lhe
+incutiram, o mancebo despediu-se do seu protector, mais que nunca
+resolvido a encetar a lucta pela vida e pelo triumpho completo das
+nobres aspirações do seu amoroso coração de rapaz.
+
+
+
+
+III
+
+Pae e filha
+
+
+Emquanto o pupillo do padre Filippe e de madre Paula busca a maneira de
+realisar os dourados sonhos da sua imaginação juvenil, queira o leitor
+acompanhar-nos a casa do pae de Beatriz e travar conhecimento com o
+sombrio progenitor da encantadora menina.
+
+Não tendo nós os mesmos motivos de Paulo para occultar do pae as
+relações com a filha, justo é que busquemos o conhecimento de ambos e
+entremos na intimidade dos dois para melhor podermos avaliar o caracter
+de cada um e apreciar os acontecimentos que vão desenrolar-se aos nossos
+olhos.
+
+Á hora a que entramos, está o sr. Custodio de Jesus sentado á secretária
+do seu gabinete, fazendo contas e archivando documentos que parece lhe
+são muito uteis, pela attenção e minuciosidade com que os examina e pelo
+cuidado com que em seguida os guarda emmaçados e rodeados de uma larga
+cinta de papel branco, em que se lê n'uma excellente letra garrafal, a
+palavra--Hypothecas.
+
+--Estas bem estão--murmura elle coçando distrahidamente com a mão
+direita a vasta suissa grisalha, talhada em fórma de foucinha e
+franzindo o labio superior completamente rapado á navalha, talvez para
+facilitar a passagem do meio grosso destillado e liquifeito em repetidas
+pitadas nas profundezas insondaveis de um nariz que exteriormente
+apresenta a configuração e o aspecto de um capacete de alambique--Estas
+bem estão... O peor são as outras...
+
+Passou a examinar segundo maço, mostrando no rosto evidentes signaes de
+mau humor.
+
+--Aqui está!--disse elle, batendo com a mão espalmada sobre os
+papeis--Mais de cincoenta contos em hypothecas que não pagam ha um anno
+um real de juro! Ladrões! E agora são capazes de ainda vir fazer questão
+para juizo e arranjar-me a tramoia de modo que eu não fique com as
+propriedades pelo preço da louvação...
+
+Como correspondendo a estas reflexões, que accusavam no sr. Custodio de
+Jesus um agiota costumado a perseguir as suas victimas até as espoliar
+em leilão, nos tribunaes, abriu-se a porta do escriptorio e entrou por
+ella um homem alto, espadaudo, porém excessivamente magro, usando uma
+comprida barba que quasi lhe chegava á cintura e que lhe dava á
+physionomia um aspecto carregado, ameaçador, capaz de apavorar o mais
+remisso devedor, o mais teimoso dos litigantes.
+
+Este homem entrou como pessoa intima na casa, cerrou a porta sobre si,
+dirigiu-se a uma cadeira que estava devoluta junto da secretária, e
+sentou-se sem mesmo se dar ao incommodo de tirar o chapéo que lhe
+ensombrava o barbudo rosto.
+
+Ao vêl-o, o sr. Custodio de Jesus teve um sorriso de intimo
+contentamento e exclamou:
+
+--Estava agora mesmo a pensar em você, amigo Belchior!
+
+--Aqui me tem. Os amigos lembram sempre na occasião... Não vim mais cedo
+porque tive de ir ao tribunal requerer um arresto... E amanhã tenho
+outro... Isto é um nunca acabar de caloteiros, que só gostam de comer e
+não pagar! Mas aquelle que me cahe nas unhas e tem por onde pagar,
+amola-se! Deixo-o expremido que nem um limão.
+
+--É o que eu preciso que se faça a estes tratantes que aqui estão com o
+juro por pagar!--exclamou o sr. Custodio de Jesus, apontando para as
+escripturas que tinha diante de si.
+
+--Não se afflija, que isso é negocio de pouca demora... Qualquer dia
+tratamos d'isso. Sabe ao que eu cá venho?
+
+--Você o dirá, amigo Belchior.
+
+--O rapaz, pelas informações que tenho d'elle, e um partidão!
+
+--Sim?
+
+--Não imagina! É mesmo mais rico do que eu supunha... O melhor que temos
+a fazer é não perder tempo e tratarmos de aferventar isto quanto antes.
+
+--Você bem sabe que o caso não é para pressas, amigo Belchior... Eu
+mesmo tenho receio do rapaz... Diz você que elle tem uma grande fortuna,
+e eu mesmo não duvido que assim seja, mas quem é que me assegura que
+elle não tem a maior parte dos haveres compromettidos, ou que não possa
+vir a compromettel-os?
+
+--Quanto á primeira hypothese, posso affirmar-lhe que o rapaz tem sido
+estroina, tem gasto em passeios, em ceias com as actrizes, tem
+finalmente pago o seu tributo á mocidade... Mas todas essas rapaziadas
+não teem desfalcado o rendimento, que é grande... Quanto á segunda
+hypothese, é provavel que elle, depois de casar com sua filha, mude de
+feitio e comece a portar-se como homem sério... Mas se o não fôr, tanto
+melhor...
+
+--Tanto melhor, como?--interrogou o sr. Custodio de Jesus,
+indignado.--Então é melhor que minha filha case com um valdevinos, um
+dissipador, um extravagante? Bonita moral a sua, seu Belchior! Pois eu,
+meu amigo, desde já lhe declaro que o que tenho me custou muito a
+ganhar, e não é para o vêr dissipado em patuscadas e ceias ás actrizes!
+
+--O meu amigo Custodio de Jesus saberá muito bem como é que se ganha
+dinheiro, como se descontam letras e se empresta a juro sobre hypotheca;
+mas o que não sabe é nada de jurisprudencia--disse o Belchior com
+emphase.--É preciso que o meu amigo se lembre de que sou solicitador ha
+mais de vinte e cinco annos, e que, durante todo este tempo, tenho
+adquirido conhecimentos que me habilitam a segurar o que é meu e o que é
+dos meus constituintes...
+
+--Não digo que não, mas essa theoria, com franqueza, não me agrada... Lá
+que o rapaz tenha tido estroinices, emfim, não é bom precedente, mas
+desde que elle ainda possue uma casa grande, de vasto rendimento, tudo
+se lhe póde perdoar e esquecer com a condição de mudar de vida e de
+costumes dissipadores, logo que ligue o seu destino ao de minha filha.
+Mas agora achar melhor que elle continue nas suas dissipações e
+loucuras, do que se emende e seja um bom marido, isso é que me não entra
+cá!
+
+--É o que eu digo!--volveu o procurador com desdem--não sabem nada da
+lei e mettem-se a discutir com quem conhece a letra dos codigos!
+
+--Os codigos, amigo Belchior, pódem dizer o que quizerem, mas o que
+elles não pódem é metter-me em cabeça que um marido estroina é muito
+melhor do que um marido economico, morigerado e amante de sua mulher.
+
+--É porque o amigo e sr. Custodio de Jesus--respondeu o procurador,
+formalisado--não sabe que a lei faculta uma acção de interdicção contra
+o marido prodigo, e confere a administração do casal a uma ou mais
+pessoas de familia.
+
+O Custodio de Jesus arregalou os olhos, espantado.
+
+--O quê? O que é isso? Explique lá, homem, que eu não percebi bem.
+
+--Não tem que explicar. Não se fazem escripturas, de modo que a noiva
+tem a meação nos haveres de seu marido, como o marido a tem nos haveres
+da mulher. Ora a administração do casal pertence de facto e por lei ao
+marido; mas se este, em vez de administrar parcimoniosamente, se entrega
+a dissipações e patuscadas escandalosas, á mulher assiste o direito de
+requerer a interdicção do marido e pôr-lhe uma tutela que, n'este caso,
+poderia muito bem ser exercida pelo meu amigo o sr. Custodio de Jesus...
+Ora percebe agora a razão por que eu digo que mais valerá que elle
+continue a affirmar-se um estroina, um dissipador de marca?
+
+--Realmente você, amigo Belchior, é uma cabecinha privilegiada! exclamou
+enthusiasmado o pae de Beatriz.--Porque não estudou você para doutor?
+
+O procurador sorriu com bonhomia e encolheu os hombros com despreso:
+
+--Não me faz falta--disse.--Conheço tão bem a lei como aquelles que
+fôram a Coimbra. Por isso lhe digo, não deixe perder esta bella occasião
+de apanhar uma fortuna, que decerto lhe não voltará tão cedo a bater á
+porta outra igual... Case a pequena quanto antes com o doidivanas que se
+lhe offerece, e deixe o caso por minha conta.
+
+--Eu já disse á minha Beatriz que fazia muito gosto em que ella
+acceitasse por marido este rapaz...
+
+--E ella, o que respondeu?
+
+--Como o meu amigo póde bem avaliar, minha filha, que até agora não tem
+pensado em casamento, caiu das nuvens quando lhe fallei em casar.
+
+--Mas manifestou repugnancia em acceitar o marido que se lhe propõe?
+
+--Ella pediu-me que a deixasse pensar na resposta... Emfim... deseja
+consultar o seu coração, e isso não se lhe póde levar a mal...
+
+--Bem! Mas supponha que ella recusa...?
+
+--Que motivo terá para recusar quando sabe que a minha vontade é que
+este casamento se faça e quando o noivo é realmente uma bella figura,
+capaz de captar as sympathias da menina mais exigente?
+
+--Mas supponhamos que recusa!--Insistiu ainda o procurador.
+
+--Não posso suppôr tal cousa, porque não estou habituado a que, em minha
+casa, alguem tenha vontade differente da minha.
+
+--Nas pequenas questões da vida domestica, d'accordo... eu creio que o
+meu amigo tenha sido e continuará a ser completamente obedecido... Mas
+n'este caso talvez não encontre a mesma cega obediencia que suppõe...
+
+--Por que?
+
+--Porque as mulheres, quando encarreiram as suas affeições para um lado,
+não ha diabo que as faça voltar para outro, amigo e sr. Custodio...
+
+--O que quer dizer com isso, amigo Belchior?
+
+--Quero dizer que se a Beatrizita já tem por ahi namoro que lhe faça
+andar a cabeça á roda, ao meu amigo não lhe será tão facil como julga o
+fazer que ella obedeça á sua vontade...
+
+--Namoro! A minha Beatriz é uma creança de dezeseis annos e não pensa
+n'essas tolices!--protestou o sr. Custodio de Jesus encrespando o
+sobr'olho.--Isso é bom para aquellas raparigas que são educadas á redea
+solta e que não teem paes que lhes saibam dar educação... Namoro! Eu
+admittia lá que uma filha minha tivesse namoro!
+
+--As filhas nunca pedem licença aos paes para essas coisas...--commentou
+o outro.
+
+--As filhas que não respeitam os paes ou que não teem paes que se façam
+respeitar, d'accordo. Mas em minha casa não se dá isso...
+
+--E se se desse?
+
+--Se se desse! Você sabe alguma coisa, Belchior?
+
+--Se se desse, é o que eu pergunto?--retorquiu o procurador com um
+sorriso mysterioso.
+
+--Se se desse, ia ahi tudo com seiscentos diabos! Fechava a rapariga
+n'um quarto, que não tornava a vêr sol nem lua, emquanto não fosse á
+egreja casar com quem eu dissesse!--bramiu o sr. Custodio de Jesus,
+assentando furioso murro sobre as escripturas das hypothecas em
+divida.--Mas você sabe alguma coisa? Homem, seja franco!
+
+--Pois então fique o amigo Custodio sabendo que temos moiro na costa e
+que a pequena... mas você não vá agora fazer asneira... estas coisas
+levam-se com prudencia...
+
+--Diga, diga, homem!--insistiu o capitalista afflicto.--Sabe que a minha
+filha...
+
+--Tem um namoro. E então? É a coisa mais natural d'este mundo.
+
+--Você falla serio?
+
+--Não costumo brincar com coisas d'estas. Quando eu lhe digo que sua
+filha se corresponde com um rapaz a quem vae fallar da janella para a
+rua todas as noites, é porque tenho d'isso a certeza.
+
+Custodio de Jesus levantou-se de um salto como mordido da tarantula.
+
+--Você não me repita isso nem a brincar!--bramiu elle--porque eu vou-me
+áquella desavergonhada e racho-a!
+
+--Mau! assim não fazemos nada!--reprehendeu o procurador--Aqui o que
+convem é saber o que se passa e tratar de encaminhar as coisas de modo
+que o projectado casamento com o nosso rapaz se realise o mais breve
+possivel...
+
+--Mas quem é, quem é esse outro que ella namora?
+
+--É um estudantito... um rapaselho.
+
+--Rico?--interrogou o Custodio arregalando os olhos.
+
+O procurador soltou uma gargalhada.
+
+--Você, amigo Custodio, cuida que os rapazes ricos andam por ahi aos
+pontapés! Isto hoje é tudo uma pelintrice, você bem o sabe... Quando
+apparece um como o Eugenio, é um milagre! Porisso é que eu digo: vamos a
+deitar a unha a este, porque se o deixamos escapar não apparece outro
+tão cedo...
+
+O Custodio de Jesus passeava agitado pelo aposento, quasi sem prestar
+attenção ás palavras do procurador.
+
+--Mulheres! Raça maldita! Nasceram só para enganar!--blasphemava
+elle--Até esta, de 16 annos, creada com todo o recato, longe das
+sociedades, retirada das más companhias, até esta, que parecia uma
+innocente, me sae á ultima hora a corresponder-se com um namoro, sem que
+eu, que sou pae e ando sempre com mil cuidados e cautelas a vigiar-lhe
+os menores movimentos, tenha dado por isso!
+
+--Amigo Custodio--obtemperou o procurador--não vale a pena affligir...
+Não é caso de morte de homem ou casa queimada... Que diabo! eu disse
+isto porque entendo que a você, como pae, convem saber o que se passa
+para saber como ha de proceder...
+
+--Como hei de proceder sei eu!--rugiu colerico o pae de Beatriz--Ponho-a
+de pé descalço a fazer o serviço da casa, a varrer, a lavar a louça, a
+cosinhar, para lhe tirar o vicio! Se tem sentimentos de criada de
+servir, que seja criada de servir em tudo!
+
+--Homem, eu desconheço-o!--reprehendeu severo o Belchior--Tinha-o na
+conta de um homem de juizo, um homem prudente que sabe o que lhe convem
+e que respeita os seus interesses, e você sae-me a querer fazer tolices
+e disparates que não lembram a ninguem!
+
+--É que você não sabe o odio que eu tenho ás mulheres!--explicou o
+Custodio--Esta filha veio para meu castigo!
+
+--Não veio para seu castigo nada! Apparece-lhe um casamento bom para
+ella, um casamento de primeira ordem? Aproveite-o, trate de a casar por
+bem ou por mal... isso sim, senhor! Mas agora romper no excesso de a pôr
+a fazer de servilheta, isso é dar murros em si proprio, amigo Custodio.
+Ora imagine que você faz isso, e a pequena desesperada lhe foge... E
+depois? Você desherdal-a não póde, porque ella é sua filha. Além d'isso;
+já não tem mãe e mais tarde ou mais cedo tem que entrar na posse da
+herança materna... Homem, prudencia!... levemos as coisas por bem, que é
+melhor...
+
+--Tem razão!--concordou por fim o Custodio--Mas olhe que é para um homem
+arreliar! Não ha ninguem mais infeliz com as mulheres do que
+eu!--desabafou com o desespero de quem tocou a méta do soffrimento--Eu
+fui casado duas vezes... A primeira mulher, a Carlota, sahiu-me uma
+bebeda, uma desavergonhada que toda a vida me atraiçoou com um padre em
+quem eu tinha toda a confiança e que até por ultimo me roubou,
+levando-me tudo, deixando-me a pedir uma esmola!... Veja lá você! Eu era
+um bolas que não sabia nada do mundo, via Deus no céo e a mulher na
+terra, tudo o que ella dizia era o que se fazia, e afinal o pago que me
+deu foi aquelle! Tambem a levou o diabo, que lá se envenenou em Lisboa,
+e tão infame que até á hora da morte deixou um bilhete a dizer que se
+matava por minha causa! Isso foi uma coisa muito fallada, até andou nas
+gazetas...
+
+--Espere lá!... D. Carlota? Tenho ideia de lêr isso...
+
+--Foi ha dezoito annos...
+
+--Sim... ha de haver esse tempo, ha de...
+
+--Pois, meu amigo, o ladrão do padre arranjou-me uma tramoia de umas
+letras que eu acceitei a um outro maroto como elle, um tal João
+Ignacio...
+
+--Bem sei! Conheço perfeitamente. Esse homem tambem parece que deu com
+tudo á costa. Até esteve doido, e a sua mania é que tinha sido roubado
+por um padre...
+
+--Era o mesmo... o padre Anselmo! Um ladrão, um malandro com capa de
+santo, que foi a minha desgraça! Se não fosse elle metter-se-me com a
+mulher e roubar-me tudo, eu tinha a estas horas mais de quatrocentos
+contos!
+
+--Vamos lá!--observou sorrindo o procurador--Parece que ainda lhe não
+levou tudo, porque você, amigo Custodio, está possuidor de capitaes
+muito avultados.
+
+--Á custa de muito trabalho e depois do segundo casamento para
+cá--explicou o Custodio.
+
+--Não sei como você, depois de ser tão infeliz com a primeira mulher,
+ainda caiu em casar segunda vez.
+
+--Que remedio tive eu! Não foi por minha vontade, não... Mas eu fiquei,
+como o outro que diz, sem eira nem beira nem ramo do figueira.
+Appareceu-me uma mulher que tinha ido em nova para o Brazil e que por lá
+arranjou uns contos de reis e esta filha com que voltou a Braga...
+
+--Ah! então Beatriz...
+
+--Não é minha filha, mas eu perfilhei-a no acto de casar com a mãe, e
+ahi é que eu quero chegar... A bebeda, a grande desavergonhada
+enganou-me!
+
+--Enganou-o... quem?
+
+--A minha segunda mulher. Disse-me que trazia para cima de cincoenta
+contos, e afinal vae-se a vêr, entre joias, dinheiro e papeis, pouco
+passava de vinte!
+
+--Está feito!
+
+--Está feito, diz você! Mas eu perfilhei-lhe a filha, tenho trabalhado
+como um burro, aturei-a a ella até á hora da morte--que ella vinha
+arruinada da saude, escangalhada, um caco velho em summa--tive de sahir
+de Braga, porque lá toda a gente lhe sabia a vida e era uma vergonha, e
+agora, depois de tudo isto, ainda não sou senhor de deixar o que é meu a
+quem eu quizer, porque para todos os effeitos esta rapariga é que é a
+minha herdeira.
+
+--Por esse lado, tem o meu amigo razão--concordou o procurador--mas
+tambem, se não tem parentes ou outra pessoa que melhor lh'o mereça,
+pouco desarranjo lhe póde fazer... O amigo para a cova não o póde
+levar...
+
+--Mas podia deixal-o ás Ordens ou a quem eu muito bem
+quizesse!--recalcitrou o Custodio, indignado.
+
+--As Ordens não lh'o agradeciam melhor do que esta
+pequena...--philosophou scepticamente o Belchior, com um sorriso
+desdenhoso.--Não havia Ordem nenhuma que fosse capaz de lhe metter em
+casa uma fortuna como a que ella lhe traz pela porta dentro, se casar
+com o Eugenio de Mello...
+
+--Fortuna... para ella!
+
+--E você não é pae? E sendo pae, não fica sendo sogro do rapaz? E sendo
+sogro do rapaz, desde o momento em que elle não dê carreira direita não
+lhe vem a administração do casal parar ás unhas?
+
+--Isso ainda está em _vêl-o-hemos_... Se o rapaz ganhar juizo...
+
+--Se ganhar juizo, faz-se-lhe perder... A questão é que você queira...
+
+--Mas faz-se-lhe perder como? Como é que eu hei-de querer?--perguntou o
+Custodio de Jesus, arregalando os olhos, sem comprehender.
+
+--Homem! o rapaz é estroina, a doidice está-lhe na massa do sangue... E
+os estroinas são como os alcoolicos, a quem os medicos dizem que morrem
+se continuarem a beber... Emendam-se, fazem um grande esforço para se
+habituarem á agua, mas se um dia entram n'uma patuscada e vêem uma
+garrafa que lhes desperta o appetite, perdem o mêdo atiram-se a ella,
+bebem e morrem victimas do vicio que o instincto da conservação não foi
+sufficiente para debelar. Ora o rapaz está n'este caso. Ha-de querer
+portar-se bem, emendar-se, ser um homem exemplar, mas, se lhe apparecer
+um amigo que o leve a uma ceia e lhe mostre uma actrizita com um palmo
+de cara regular, não tenha você mêdo que elle ahi irá de vento em pôpa
+pelo caminho da dissipação e da prodigalidade, e então é que é dar-lhe o
+golpe de misericordia... Percebe-me agora?
+
+O Custodio, maravilhado, contemplava aquelle patife que tinha sobre elle
+a enorme vantagem de conhecer os _escaninhos da lei_, segundo a phrase
+pittorêsca do procurador.
+
+--Você--disse elle por fim, encarando sorridente o Belchior--é dos de
+estrella e bêta e pé calçado!
+
+--Meu amigo, um homem tem obrigação de não ser tôlo, de não andar no
+mundo por vêr andar os mais... As patifarias da vida é que põem um homem
+fino...
+
+--Você havia de me ter apparecido em Braga, aqui ha vinte annos antes...
+Não era comsigo que o ladrão do padre Anselmo mettia dente... E você não
+me tinha deixado roubar!
+
+--Estava bem arranjado o padreca! Que viesse para cá... Comigo nem elle
+nem o mais pintado fazia farinha!--blasonou basofiento o
+procurador.--Tenho dado com elles d'aqui... detrás da orelha; mas eu
+atiro-lhes para a caveira com as baldas certas e elles veem buscar lã
+mas vão tosquiados!
+
+O Custodio suspirou:
+
+--Aquelle ladrão!--exclamou n'um surdo rancôr--roubou-me por eu o não
+conhecer a você!
+
+--Meu amigo, com aguas passadas não móem moinhos... O que não tem
+remedio remediado está... Agora vamos a vêr mas é se se trata de
+arranjar outro... Disponha as coisas de modo que o casamento se faça
+quanto antes, porque a fatia é boa e não se póde perder...
+
+--A rapariga casa. Por bem ou por mal, que remedio tem ella senão
+obedecer-me e fazer o que eu disser!
+
+--Se ella estiver deveras encarriçada com o tal franganote, ha de
+custar-lhe a resolvêl-a...
+
+--Por isso não seja a duvida... A questão é saber se o negocio convem...
+
+O procurador assobiou, acompanhando o assobio com repetidos estalos
+produzidos pelos dedos maioral e pollegar.
+
+--Se convem!--disse elle--É uma pechincha! É um negocio de costa acima!
+Queira elle noventa contos pela casa, que eu pago-lhe as dividas todas e
+ainda metto para cima de cincoenta no bolso. É um casão!
+
+--Bom! pois então fique descançado, que a rapariga eu cá me encarrego de
+a domesticar...
+
+--Mas veja lá; você não lhe falle no namoro, que é peor...--aconselhou o
+procurador.
+
+--Nem palavra! Para lhe fallar n'elle, tinha de lhe partir os ossos...
+Nada! eu resolvi ir cá por outro caminho...
+
+--E se fôr preciso que o rapaz appareça para lhe fazer o seu pé de
+alferes...
+
+--Por ora não... Deixe estar, deixe vêr como as coisas se preparam...
+
+--Arranje lá... E adeus, que devo ter lá em casa os constituintes á
+espera.
+
+Despediu-se, estendendo dois dêdos protectores ao Custodio.
+
+--Mas você apparece por cá?--disse o pae de Beatriz, apertando e retendo
+na mão os dedos do Belchior.
+
+--Sim, amanhã...
+
+E dirigiu-se para a porta.
+
+--Olhe lá: você vá dando esperanças ao rapaz, hein?
+
+--Não tem duvida... Disponha você a pequena.
+
+Mal que o procurador sahiu, o Custodio subiu ao andar superior e chamou
+a filha.
+
+Beatriz era uma d'estas creaturas franzinas, delicadas, doceis e
+submissas por indole e por temperamento, na apparencia faceis de
+dominar, mas que, depois de terem tomado uma resolução, primeiro se
+deixarão matar do que render-se. Alta, elegante, cabellos e olhos
+castanhos, tez clara, faces rosadas, o seu gracioso vulto, de uma
+distincção rara, captivava pela belleza e impunha respeito pelo suave
+perfume de innocencia e bondade que respirava.
+
+Quando o pae a chamou, a pobre menina appareceu tremula, como se o
+coração lhe presagiasse a tortura que a esperava.
+
+--Aqui estou, meu pae--disse ella.
+
+O sr. Custodio ameigou a voz, contra o seu costume, e, contrafazendo o
+semblante n'um risinho agradavel, chamou a filha para o pe de si, fel-a
+sentar ao seu lado, e perguntou-lhe:
+
+--Então, já pensaste no casamento em que te fallei, minha filha?
+
+--Já, meu pae... já pensei...--tartamudeou a pobre pequena, commovida.
+
+--E decidiste acceitar o partido que se te offerece, não é assim?
+
+--Não, meu pae...
+
+--Não?!--exclamou o sr. Custodio, fingindo-se surprehendido e mudando
+rapidamente d'aspecto.--E porque?
+
+--Porque não me sinto ainda com disposição para casar...
+
+--Não te sentes com disposição! Essa é bôa! Mas para casar ninguem está
+á espera de disposição... Aproveita-se o noivo quando apparece, e a
+disposição vem depois...
+
+--Eu não poderia unir-me a um homem por quem o meu coração não sentisse
+a menor sympathia...
+
+--Sympathia!--bramiu o sr. Custodio furioso, dando largas ao seu
+desespero.--Que vem a ser cá isso? Temos frioleiras de romance? Com as
+sympathias não é que os casados fazem sopa e compram os chapéos e os
+vestidos ás modistas. O noivo é rico? É o essencial. Ora este tem uma
+grande fortuna, é novo, é uma bôa figura, não é cego, não é aleijado--e
+ainda que o fosse, não se perdia nada--porque é que elle não te hade ser
+sympathico?
+
+--Será para outras, mulheres, não para mim...--atreveu-se a dizer
+Beatriz.
+
+Isto foi o mesmo que fazer explodir o immenso paiol em que o sr.
+Custodio tinha accumulado toda a polvora dos seus rancores de ha muitos
+annos contra as mulheres.
+
+--Que pouca vergonha é essa?!--berrou elle, levantando-se e encarando a
+filha, rubro de colera--Quem é aqui o pae: sou eu ou é vocemecê?
+
+A ira dementava-o a ponto de não o deixar reparar no burlesco e
+incongruente disparate da pergunta, que faria rir a pobre menina, se o
+horror da situação em que se encontrava não a tivesse afogado em pranto.
+
+--Meu pae! Meu pae!--bradou ella supplicante, caindo de joelhos com as
+mãos postas--pelo amor de Deus, perdoe-me! mas eu não posso... não
+posso!
+
+--Deixemo-nos de comedias!--rugiu o Custodio n'um recrudescimento de
+ira--Ou casa ou metto-a nas irmãs da caridade!
+
+Beatriz, de joelhos, continuava a implorar:
+
+--Meu pae, por alma de minha mãe lhe peço que não me force a este
+casamento que o meu coração não póde acceitar!
+
+--Sua mãe! Não me falle em quem já morreu! Quem lá vae, lá vae, não é
+aqui chamado!
+
+A esta brutal e grosseira reprehensão, Beatriz ergueu-se. No rosto
+pallido as lagrimas seccaram-se-lhe como por encanto, e nos olhos,
+fulgurantes de indignação, lia-se-lhe agora uma resolução inabalavel.
+
+--Minha mãe--disse ella em voz calma e firme--não me responderia assim,
+se eu, de joelhos, lhe invocasse a memoria de meu pae morto.
+
+Esta resposta acabou de exasperar o sr. Custodio.
+
+--Cale-se!--não me falte ao respeito!
+
+--Não sabia que a lembrança de minha mãe era para meu pae uma offensa.
+
+Beatriz, perfilhada pelo sr. Custodio aos dois annos d'edade, fôra
+educada na crença de que este homem era seu pae e ignorava por completo
+a historia do seu nascimento.
+
+Notava que o homem a quem chamava pae a tratára sempre com grande
+severidade e rispidez, e lamentava-se intimamente de não achar no
+coração do auctor de seus dias a ternura e carinho a que tem direito uma
+filha obediente e submissa, como ella era.
+
+Esta severidade recrudescera, quasi degenerando em tyrannia, depois que
+a mãe se lhe finara.
+
+A pobre pequena habituara-se áquelle tratamento, e, crescendo na edade,
+sentira mudar-se-lhe o terror infantil n'uma repugnancia instinctiva,
+porém soffredora e paciente, que mais e mais a afastava do pae.
+
+Evitava a sua presença o mais que podia; e nos curtos instantes em que
+era obrigada a aproximar-se d'elle e a ouvir-lhe as reprehensões
+grosseiras e injustas, era sempre com os olhos no chão que o escutava.
+
+Havia, pois, uma antipathia profunda entre estes dois sêres, que o
+destino cruel pussera em face um do outro, ligados pelos laços de um
+parentesco ficticio, mas nem por isso menos respeitavel aos olhos do
+mundo e da propria victima.
+
+A attitude do senhor Custodio, que sempre fôra mau para com a filha,
+tornara-se desde este momento odiosa.
+
+Ferira a pobre creança no que ella tinha de mais santo e mais sagrado no
+fundo do coração e que fazia objecto do seu culto:--o respeito pela
+memoria de sua mãe e o seu amor por Paulo.
+
+O despreso amargo com que seu pae acolhera a supplica que ella lhe
+dirigira humildemente, de joelhos, em nome da mãe, revoltou-a, e onde a
+revolta começa o respeito acaba.
+
+Aquella phrase altiva, serena e sêcca com que respondeu ao pae, que a
+mandava calar, era o prenuncio da lucta que ia travar-se, era como que o
+grito de revolta chamando em seu auxilio todas as energias da sua alma
+de mulher para resistir á violencia com que queriam esmagar-lhe o
+coração.
+
+--Já disse!--volveu o descaroado pae.--Quem manda aqui sou eu. Este
+casamento ha de fazer-se por vontade ou por força.
+
+--Viva não me levarão á egreja!--respondeu firmemente a pequena.
+
+--Atreve-se a fallar-me assim, a faltar-me ao respeito? Esquece que sou
+seu pae?
+
+--Não esqueço. Mas lembro-me tambem de que não devo ser tratada como
+escrava.
+
+--Quem é que a quer escravisar? Chama escravisarem-n'a ao quererem
+fazer-lhe um casamento rico, com um rapaz de bôa familia, educado e que
+póde dar-lhe respeito na sociedade?
+
+--O meu coração não se vende a pezo de dinheiro, meu pae! Se esse homem
+quer comprar affectos, que os busque onde elles se vendem.
+
+--Está muito adeantada! Quem é que lhe ensinou tanto?
+
+--A minha razão e a consciencia dos meus deveres de mulher digna.
+
+O senhor Custodio enviesou-lhe um olhar furibundo. A sua vontade seria
+estrangulal-a. Mas conteve-se.
+
+--Isso são frioleiras de romances!--gritou elle--. A menina não sabe o
+que diz. A culpa tenho-a tido eu em consentir que certas leituras lhe
+ponham a cabeça á razão de juros. Mas não tem duvida... Eu a mandarei
+para onde lhe ensinem os seus deveres de filha.
+
+--Mande-me o pae para onde quizer. Obedecer-lhe-hei como filha que não
+necessita que lhe ensinem os seus deveres. Mas não exija que acceite por
+marido um homem que o meu coração não estime, porque a isso
+recusar-me-hei.
+
+--Veremos!
+
+O sr. Custodio sahiu bufando como um touro e foi direito ao escriptorio.
+
+-- Que tal está a _bisca_?!--rosnova elle, no auge da furia.--Bem se vê
+que não é minha filha!
+
+Passeou com as mãos ora mettidas nos bolsos, ora coçando nervoso a
+suissa, o que n'elle denunciava sempre ou uma profunda meditação ou um
+violento desespero.
+
+--E ainda o Belchior a dizer-me que leve as coisas com
+prudencia!--regougou por fim.--A prudencia era dar-lhe com um cacête até
+o diabo dizer _basta_! Amanhã estava ahi macia como um velludo e ia
+casar com quem eu quizesse...
+
+De repente parou como ferido por ideia subita.
+
+--E talvez... quem sabe? Esta ideia não é má e póde dar resultado...
+Vamos lá a experimentar se, levando as coisas por bem, conseguimos o
+nosso fim.
+
+Tornou a subir ao andar superior e chamou a filha.
+
+A pequena, muito pallida, veio ter com o pae e perguntou:
+
+--O pae deseja alguma coisa?
+
+--Desejo, minha filha. Anda cá... senta-te aqui. Quero que me escutes
+com attenção e que vejas que não sou tão mau como pareço...
+
+O sr. Custodio, vendo que Beatriz, sempre com os olhos baixos, não
+respondia, pegou-lhe na mão e puxou-a docemente para junto de si,
+fazendo-a sentar ao seu lado, e principiou dizendo:
+
+--Ora anda cá, minha filha! É preciso que saibas que ninguem é mais teu
+amigo n'este mundo do que teu pae... Eu estou velho... estou com os pés
+na cova, e, com estes desgostos que me estás dando, não posso ir muito
+longe.
+
+--Mas em que é que eu o desgostei, meu pae?
+
+--Desgostaste-me com o teu procedimento de ha pouco...
+
+--Perdão! eu fui humilde e submissa, eu implorei de joelhos e mãos
+postas que não me forçasse ao casamento com um homem que o meu coração
+não póde acceitar... É isto desobediencia?
+
+--Filha! mas tu matas-me com essa recusa!--exclamou o sr. Custodio,
+afflicto, simulando uma enorme contrariedade.
+
+--Mato-o porque não me quero casar, porque prefiro viver ao lado de meu
+pae?!
+
+--Matas-me porque o teu futuro e o meu está dependente d'esse casamento,
+filha! Matas-me porque recusando a mão d'este rapaz lavras uma sentença
+de morte contra mim!
+
+Beatriz empallideceu.
+
+--Não o comprehendo, meu pae--balbuciou ella.
+
+--Eu te explico, minha filha...
+
+E aqui o sr. Custodio interrompeu-se, como para tomar alento, passou o
+lenço pelos olhos para enxugar uma lagrima ausente, suspirou fundo e
+proseguiu:
+
+--Eu ha pouco fallei-te desabridamente, fui severo, fui rispido, fui
+mesmo, injusto para comtigo; mas tudo isto era não só o resultado do
+muito amor que sinto por ti, porque todo o meu desejo é vêr-te feliz,
+mas tambem e principalmente era motivado pelo desespero da minha
+horrorosa situação...
+
+Suspendeu-se a olhar para a filha, a vêr o effeito que n'ella produziam
+estas palavras. A pequena permanecia com os olhos baixos, immovel, na
+attitude de quem escuta pacientemente uma historia que não lhe
+interessa.
+
+--Ouves, Beatriz?
+
+--Ouço, meu pae.
+
+--Da minha horrorosa situação!--tornou o sr. Custodio a dizer, com um
+suspiro ainda mais fundo. E abraçando-se na pequena, a soluçar,
+exclamou: --Ah! filha! filha! teu pae está perdido! Se tu o não salvas,
+ficas orphã... orphã e pobre, porque eu a esta dôr não resisto!
+
+Beatriz, surprehendida, porém de modo algum commovida com esta dôr
+ficticia, perguntou, como se apenas cumprisse um dever:
+
+--Mas o que foi que lhe succedeu, meu pae? Porque é que assim se
+afflige?
+
+--Filha!--tornou o senhor Custodio, com a voz entrecortada pelos soluços
+e sem desprender dos braços o corpo franzino de Beatriz--estou pobre...
+estou arruinado e só tu me pódes salvar!
+
+--Eu, meu pae! O que posso eu fazer em seu auxilio?
+
+--Tudo, minha filha! Mas deixa-me explicar-te primeiro... Os meus
+negocios teem corrido mal... Nos ultimos tempos tenho soffrido prejuizos
+importantes que me teem reduzido á miseria... Este procurador, este
+Belchior que aqui vem e que, coitado, é meu amigo...--não o posso negar,
+é meu amigo!...--tem-me valido com a sua amizade, abonando-me
+importantes quantias que me teem sido precisas para solvêr compromissos
+creados... Mas agora nem já elle tem, nem eu... Este rapaz é rico,
+possue uma importante fortuna e ama-te apaixonadamente, minha filha...
+Elle promette pagar todas as minhas dividas no momento em que tu
+consintas em ser sua esposa... Portanto, vê lá: ou ficamos reduzidos á
+miseria, sem um bocado de pão, e sem abrigo, porque tudo quanto está
+n'esta casa é dos credores, ou tu acceitas este casamento e voltam para
+o nosso lar os dias felizes, a paz e a abundancia, como até aqui.
+
+E como Beatriz permanecesse calada, com os olhos no chão, sem responder,
+o sr. Custodio fitou-a anciosamente e perguntou n'um tom supplicante:
+
+--Então, Beatriz, o que dizes?
+
+A joven guardou ainda silencio por alguns instantes e depois murmurou:
+
+--Digo que é uma grande desgraça, meu pae...
+
+--Sim, é uma grande desgraça, não ha duvida... Mas, graças a Deus, temos
+o remedio para ella, se tu quizeres, minha filha.
+
+--Todas as desgraças teem remedio, meu pae, e esta tambem o terá, sem
+nos ser preciso buscar uma desgraça ainda maior...
+
+--Não te comprehendo, Beatriz!--exclamou o sr. Custodio--O que queres
+dizer?
+
+--Quero dizer que se a perda de todos os seus haveres, meu pae, é uma
+grande desgraça, o meu casamento com esse rapaz ainda a aggravaria
+mais...
+
+--Porque, minha filha?
+
+--Porque eu não o amo.
+
+--Deixa-te de creancices, Beatriz! O amor vem com a convivencia... Tendo
+tu o que necessitas para continuar a viver na abundancia, e tendo um
+marido que te estime e que satisfaça todos os teus desejos, ainda os
+mais insignificantes, verás que breve te affeiçoas a elle.
+
+--Mas eu não necessito de coisa alguma!--protestou vivamente Beatriz.
+
+--Não necessitas! Pois estando eu pobre, arruinado...
+
+--Eu trabalharei e viveremos do meu trabalho--acudiu corajosamente a
+nobre menina.--Darei lições pelos collegios e pelas casas particulares,
+e se não pudermos viver com ostentação, o que não dá a felicidade,
+viveremos remediados e livres de maiores privações...
+
+--Tu estás doida!--berrou o sr. Custodio, desmanchando-se no seu papel
+de carpidor de desgraças, para assumir a attitude grosseiramente
+petulante da sua indole má, irritada pola teimosia da filha.--Bem se vê
+que tens instinctos baixos e que não te repugna fazer má figura!
+
+--O que me repugna, meu pae, é illudir e enganar alguem, seja por que
+preço fôr...
+
+--Mas a quem é que tu enganavas, casando com o Eugenio? Anda, dize lá!
+
+--Enganava principalmente esse homem, que julgaria encontrar em mim um
+affecto que eu não posso sentir por elle!
+
+--Historias! Affecto não é coisa que se coma!
+
+E recahindo nas lamentações primitivas:
+
+--Que infeliz eu sou! Velho, com os pés na cova, reduzido á ultima
+miseria, e não achar na minha propria filha amparo nem compaixão para a
+minha desgraça!
+
+Beatriz ouvia quasi indifferente as lamurias do pae.
+
+Toda aquella dôr, manifestada assim em lamentações tão improprias de um
+homem que sempre se mostrara altivo, sêcco e intractavel,
+afigurava-se-lhe ignobil. Sentia uma revolta interior, um nojo intimo
+d'aquella vilissima creatura, de quem se suppunha filha, e tinha como
+que um secreto remorso de não poder amar o auctor de seus dias.
+
+O sr. Custodio percebia esta indifferença da filha, e emquanto se
+lamuriava, dizia comsigo:
+
+--Grande desavergonhada! Bem se vê que não és minha filha!
+
+Por fim, Beatriz aventurou esta pergunta:
+
+--E se esse rapaz não tivesse apparecido a querer casar comigo, o pae
+não teria outro meio de remediar os desastres soffridos no seu negocio?
+
+--Como havia de eu remediál-os? O remedio era entregar tudo aos credores
+e ficarmos sem nada!
+
+--Mas haviamos de viver...
+
+--Viver como?--interrogou o sr. Custodio impaciente.
+
+--Como vivem tantos pobres, resignados com a sua miseria...
+
+D'esta vez o sr. Custodio conteve-se e não descambou no repellão
+habitual.
+
+--Sabes lá o que dizes, filha! Os que vivem conformados com a sua
+pobresa são os que nunca souberam o que era viver melhor. Nasceram
+miseraveis, na miseria se crearam e assim vivem e morrem sem soffrimento
+nem pesar. Mas quem está na nossa situação, filha, quem experimentou a
+abundancia e depois se vê reduzido á penuria póde lá conformar-se com
+isso?! Eu por mim, declaro, dou cabo da vida, e ha-de ficar-te o remorso
+de teres causado a morte de teu pae!
+
+Esta ultima phrase fez estremecer a pobre menina. Tudo quereria menos a
+pungir-lhe na consciencia o crime de haver morto seu pae. Embora não
+sentisse por elle os extremos de affecto que o genio irascivel, rispido
+e severo d'aquelle homem não soubera inspirar-lhe, a sua razão dizia-lhe
+que tinha deveres de filha a cumprir, e a esses não queria ella faltar.
+
+--Mato-me!--continuava o sr. Custodio, abrindo a valvula ao desespero
+que lhe ia na alma--mato-me, porque não tenho animo para soffrer os
+horrores da miseria que me estão reservados, e antes quero dar cabo de
+mim do que vêr a minha filha exposta a todas as desgraças que a pobresa
+traz comsigo!
+
+--Por mim, não se mate, meu pae! Eu tenho força e coragem para resistir
+aos golpes da adversidade.
+
+--Tu terás forças, minha filha, mas eu é que já não as tenho! Dize-me
+terminantemente que não casas com esse rapaz, que não salvas teu velho
+pae da miseria, e tu verás o que eu faço... Não tenho animo para vêr os
+credores entrar por aqui dentro e pôrem-me lá fóra a mim e mais a ti!
+Não! quando elles entrarem, hão-de vir já encontrar-me cadaver!
+
+Disse, e levantando-se como quem tinha tomado uma resolução inabalavel,
+perguntou:
+
+--O que resolves, Beatriz? Nas tuas mãos está a minha vida, a vida de
+teu pae!...
+
+A joven, assim instada, sentiu-se vacillar. Vencida pelo tom humilde e
+supplicante em que o pae se lhe dirigia, não tinha forças para recusar
+abertamente.
+
+--Meu pae--balbuciou por fim--deixe-me ainda reflectir até amanhã.
+
+O usurario percebeu que levava o inimigo de vencida e não quiz abandonar
+a victoria.
+
+--Amanhã será tarde--disse elle--A resposta tem de ser dada hoje ao
+Belchior impreterivelmente, sob pena de amanhã os credores entrarem por
+aqui dentro e levarem tudo. Resolve, pois. Eu não te quero forçar a um
+casamento que te repugna. Bem reconheço mesmo que não tenho direito ao
+teu sacrificio, porque eu não sou d'esses paes que andam sempre a
+acarinhar as filhas, sem terem por ellas metade do amor que eu sinto por
+ti... Tenho este genio assim... pareço severo, pareço um homem que não
+sabe o que é amor de pae, mas o que o meu coração sente só eu é que o
+sei!...
+
+Interrompeu-se para abafar os soluços e enxugar as lagrimas, que não
+chorava, ao lenço tabaqueiro e proseguiu:
+
+--Paciencia! Tinha de ser assim... seja!
+
+E como a filha se conservasse silenciosa, pegou-lhe na mão, exclamando:
+
+--Adeus, Beatriz! Despede-te do teu pae, que o não tornas a vêr vivo!
+
+--Meu pae!--disse a pobre menina com a voz embargada na garganta pela
+commoção--Pelo amor de Deus, não tome qualquer resolução desesperada sem
+que eu falle primeiro com esse rapaz!
+
+--Com quem?--interrogou o sr. Custodio, fixando a filha.
+
+--Com esse... sr. Eugenio.
+
+--Queres fallar com elle para lhe dizeres que não? Dize-m'o antes a mim,
+filha!
+
+--Não, meu pae. Desejo fallar com elle para ouvir de seus labios a
+declaração de que me quer por mulher.
+
+--E casarás?
+
+--Casarei, se não houver outro remedio.
+
+O sr. Custodio, radiante, estreitou-a nos braços com frenesi.
+
+--Deus te abençôe, minha filha! Pódes dizer que salvaste teu pobre pae!
+Vou mandar avisar o Belchior.
+
+E, beijando a filha na testa, sahiu quasi doido de contentamento.
+
+
+
+
+IV
+
+Dois patifes
+
+
+O procurador Belchior está no seu escriptorio, sentado á carteira,
+conversando animadamente com um rapaz alto, pallido, elegantemente
+vestido, de maneiras distinctas, e bastante desenvoltas, que
+frequentemente o interrompe com uma gargalhada de intima satisfação. No
+rosto d'este rapaz, que poderá contar, quando muito, vinte e quatro ou
+vinte e cinco annos, ha os traços indeleveis do bohemio que passa a
+mocidade entregue a toda a sorte de vicios e prazeres e para quem a vida
+tem apenas uma difficuldade séria: arranjar dinheiro para gastar.
+
+Os olhos pretos, vivissimos e o sorriso zombeteiro que lhe baila
+constantemente nos labios, meio disfarçado pelo bigode fino, lustroso e
+petulantemente encaracolado nas guias, dão-lhe á physionomia uma
+expressão velhaca que poria de sobreaviso um observador experimentado,
+mas que ao sr. Belchior não parece inspirar a minima desconfiança.
+
+Este rapaz é Eugenio de Mello, o pretendente á mão de Beatriz.
+
+Ouçamos a conversa travada entre os dois, a vêr se por ella podemos
+conhecer melhor o personagem com quem vamos travar conhecimento.
+
+--O velhote está enthusiasmado--diz o procurador--e o meu amigo apanha,
+além de uma linda mulher, uma bôa maquia--uma maquia de se lhe tirar o
+chapéo!
+
+--Pois é o que se quer--responde o outro--o que se quer é _massa_.
+Quanto calcula você, amigo Belchior, que viremos a apanhar?
+
+--Homem, já lhe disse, ao certo não sei, porque o Custodio é manhoso...
+Depois que foi roubado por um padre, não descobre a sua vida a ninguem.
+Mas, pelos documentos que me teem passado pela mão, aquella besta deve
+ter para mais de setenta contos.
+
+--Menos mau!--considerou o bohemio, piscando o olho.--Mas isso está
+ainda tudo nas unhas do velho, que póde ter a má lembrança de não morrer
+estes dez annnos mais chegados...
+
+--E os vinte contos que couberam á rapariga, no inventario por morte da
+mãe?--accudiu o procurador.--Esses é que lhe passam já para as unhas
+assim que o casamento se fizer...
+
+--Vinte contos... que diabo!--tirando-lhe as commissões, o que é que me
+fica?--considerou o outro, encolhendo os hombros com desprezo.
+
+--Sim, que você agora tem mais!--contraveio o procurador
+sarcasticamente.--Que diabo! vocês são todos assim! Quanto mais teem
+mais querem!
+
+--Não é isso, amigo Belchior. É que eu penso e vejo as coisas como ellas
+são... Afinal de contas, este negocio vem a ser bom mas é para você...
+
+--É bom para ambos! Ou você queria que eu trabalhasse de graça para lhe
+encher os bolsos de dinheiro e ficasse a fazer cruzes na bocca?
+
+--Não, não queria... Mas vamos a saber: a pequena tem vinte contos?...
+
+--Para já. Mas a bolada maior ha-de-vir por morte do velho.
+
+--Não esperemos por sapatos de defuncto, e façamos calculos positivos.
+Por agora e para já, realisado o casamento, podemos contar com vinte
+contos, não é isso?
+
+--Perfeitamente.
+
+--Você quanto leva de commissão?
+
+--Trinta por cento, por sermos amigos.
+
+--Obrigado!--respondeu o bohemio zombeteiramente--trinta por cento sobre
+vinte contos, são seis contos de réis...
+
+--Muito justos.
+
+--E venho eu a ficar só com quatorze!...
+
+--E acha pouco? Para quem não tem presentemente quatorze vintens,
+parece-me que quatorze contos de mão beijada e uma mulher bôa, é
+dinheiro...
+
+--Não ha duvida, é dinheiro... Mas tome você conta da mulher, dos
+encargos de a sustentar, de a vestir, de lhe dar criadas, de a aturar e
+de pagar aos meus crédores antigos, tudo por quatorze contos, e dê-me
+para mim os seis que você recebe limpinhos e sêccos... Quer?
+
+O procurador fez uma carêta.
+
+--Você está a fazer-se de manto de sêda!--disse elle descontente.--Se
+acha que é mau o partido, não o acceite, que não faltará quem lhe pegue.
+
+--O partido não é mau, mas não é tão bom como você me quer fazer
+acreditar...
+
+--Com os diabos!--gritou o procurador arreliado.--E os setenta contos do
+velho não é nada? Você acho que cuida que eu nasci hontem! Eu mettia-me
+lá n'este negocio por seis contos de réis, se não fosse a certeza de vir
+a apanhar mais, logo que o velho _estique o pernil_? Não que o meu tempo
+é dinheiro e eu não ando a trabalhar para o bispo!
+
+--Bem sei--tornou o Mello--mas eu é que tambem não estou para perder a
+minha liberdade e ficar toda a vida com o trambolho da mulher preso á
+perna, a troco de quatorze contos que os crédores me hão-de vir buscar,
+logo que saibam que tenho por onde pague...
+
+--Mas você póde arranjar uma coisa.
+
+--O que é?
+
+--Faça uma concordata com elles antes de casar...
+
+--Mas eu não sou commerciante, não posso lançar mão desses meios que são
+privilegio do commercio honrado...--considerou epigrammaticamente o
+estroina.
+
+--Agora não póde! Cace-lhes você o recibo em como estão pagos, e veremos
+depois se elles lhe pedem alguma coisa.
+
+O Mello pareceu meditar.
+
+--Effectivamente, você tem razão... Se áquelles a quem devo seis pagasse
+com dois, a coisa ainda não iria muito longe...
+
+--Menos a mim!--protestou o procurador--a mim é que você me ha-de pagar
+tudo por inteiro.
+
+--Isso, comnosco, é outra coisa... Mas vamos a saber: como é que eu
+hei-de propôr esse negocio aos meus crédores, se não tenho dinheiro para
+liquidar de prompto antes de casar?.
+
+--Não lhe dê cuidado. Traga-me a lista dos crédores, que eu cá
+arranjarei isso da melhor maneira...
+
+--Abona você o dinheiro?
+
+--Certamente. Você acceita-me letras na importancia do que eu pagar e
+depois nós cá nos entenderemos.
+
+--Pois bem, arranje lá isso.
+
+--Ora agora--tornou o procurador--temos ainda uma questão a decidir...
+
+--Diga lá.
+
+--O velho está persuadido de que você é um homem riquissimo... Metti-lhe
+essa _caraminhola_ em cabeça, porque, de outra forma, elle não lhe dava
+a filha...
+
+--Bom! Que duvida ha? Dir-lhe-hei que sou rico...
+
+--A questão não é dizer-lh'o, a questão é provar-lh'o. Você não me disse
+que ha um Eugenio de Mello no Alemtejo, possuidor de uma riqueza
+immensa?
+
+--Disse e ha.
+
+--Bom. Pois então é pedir ao escrivão de fazenda respectivo uma certidão
+das decimas e contribuições pagas por esse sujeito ao estado...
+
+--Para que?
+
+--Para que! É boa! Para podermos provar ao Custodio que você é um
+importante proprietario do Alemtejo e que póde dar-lhe a filha, porque
+não hão de faltar-lhe porcos nem cortiças para os netos.
+
+O bohemio soltou uma gargalhada.
+
+--Você é o diabo, Belchior!--disse elle.
+
+--E se for preciso provar que você tem quarenta ou cincoenta contos de
+reis representados em letras, tambem se arranjam com _acceites_ valiosos
+e de muito credito...
+
+--Como?
+
+--Tenho constituintes ricos que lhe acceitarão letras na importancia que
+se quizer, acceitando-lhes você outras de igual importancia.
+Comprehende?
+
+--Não comprehendo muito bem...
+
+--Expliquemos: eu acceito-lhe a você letras no valor de oitenta contos e
+você, na mesma data, acceita-me letras d'igual importância. Você quer
+_provar_ que possue oitenta contos e mostra essas letras acceites por
+mim... Mas ellas realmente não valem nada, porque se você vier
+recebel-as, eu apresento os seus _acceites_, que você tem igualmente de
+me pagar, e portanto estamos quites... Percebe agora?
+
+--Agora, percebo!
+
+--Bem. Pois este é também um expediente de que podemos lançar mão quando
+nos fôr preciso. Mas obra mais limpa é certamente essa da confusão dos
+nomes, que nos permitte fazer a prova com um documento official... Em
+que terra do Alemtejo existe esse tal Eugenio de Mello?
+
+--Em Borba.
+
+--Está muito bem! E então eu que conheço o escrivão de fazenda que lá
+está agora. Vou já escrever-lhe, e na volta do correio temos cá a
+certidão.
+
+--Olhe lá, não será conveniente eu amiudar as minhas visitas ao
+Custodio?
+
+--Já lhe fallei n'isso a elle. Mas elle diz que por ora não... que o
+deixemos primeiro resolver a filha a acceitar o casamento, e depois
+fallaremos...
+
+--E essa delambidita porque é que me hade recusar Eu não valerei mais do
+que o franganito que lhe anda a arrastar a aza?--disse o bohemio.
+
+--Mulheres, meu amigo! As mulheres são caprichosas...
+
+--E escolhem sempre o peor...
+
+--É a unica probabilidade que você tem a seu favor!--exclamou o
+procurador rindo--Porque peor do que você, com franqueza, não conheço!
+
+--Obrigado, amigo Belchior! Você é muito modesto!
+
+Os dois patifes encararam-se e desataram a rir.
+
+--Ora agora--disse por fim o Mello--não se esqueça de que estou a
+precisar de dinheiro.
+
+--Já?
+
+--Pudera! Este Porto é o diabo! Com os seus ares pacatos de terriola de
+provincia, tem sorvedouros terriveis!
+
+--Mas ainda não ha oito dias que lhe dei duzentos mil reis.
+
+--E o que vem a ser isso para um homem relacionado como eu? Duzentos mil
+réis gastam-se n'uma ceia com tres amigos e outras tantas mulheres...
+
+--Mas você, que diabo! está hospedado no _Francfort_, um hotel de
+primeira, onde o tratamento é magnifico, não tem necessidade de comer
+fóra...
+
+--Amigo Belchior, você sabe muito bem como o dinheiro se arranja, mas
+não sabe como elle se gasta. Não falle, portanto, d'aquillo que não
+sabe, e chegue-me cá mais duzentos mil reis, que é o essencial.
+
+--Assim, por esse andar, quando chegar o dia do casamento, já os haveres
+da noiva estão espatifados...
+
+--Não diz você que temos ainda a reserva dos setenta contos do velho?
+
+--Sim, mas isso, como você considerou ha pouco, são sapatos de
+defuncto...
+
+--Homem, haja os sapatos, que o defuncto arranja-se quando nos
+convier...
+
+--Você seria capaz d'isso?--interrogou o procurador com um sorriso
+indescriptivel de cynismo.
+
+--Nós somos capazes de muito mais--respondeu o Mello, frisando
+intencionalmente a palavra _nós_.
+
+--Você é o diabo! Mas olhe lá, não se alargue muito, que eu agora estou
+sem dinheiro...
+
+--Pois sem _massas_ não se faz nada! Você bem sabe, que sendo eu um rico
+proprietario do Alemtejo, que faço quinze contos de cortiça de tres em
+tres annos, afóra os porcos, não devo deixar de gastar em harmonia com
+os meus rendimentos. As mulheres, aqui no Porto, não são de grande luxo,
+mas comem como freiras e aquelle Palacio de Crystal e aquelle _Suisso_
+teem uma lista reduzida, mas cortante como uma navalha de barba! Além
+d'isso, ha sempre uns amigos _depennados_, que se _encostam_ e que não
+ficam baratos...
+
+--Mande-os trabalhar! Sucia de vadios!--aconselhou o Belchior,
+indignado.
+
+--Bem digo eu! Você não sabe o que diz! Estes amigos são os comparsas da
+grande comedia que eu preciso de representar. São elles os que fingem de
+_povo_ e apregoam aos quatro ventos, pelas tubas da fama e das notas de
+cinco mil réis que lhes empresto, a minha grandeza e opulencia de rico
+proprietario. Que eu lhes negue o regabofe de uma ceia e a _pastilha_
+que me pedem emprestada no fim, porque a carteira lhes esqueceu em casa,
+e ámanhã eu serei o pelintra, o intrujão que realmente sou, e toda a
+gente saberá, até o Custodio, que eu não tenho nem cortiça, nem porcos,
+nem sequer bolota para comer como elles...
+
+--Você tem razão!--disse o procurador--Mas, com os diabos, gaste menos.
+
+--Que gaste menos! Eu tenho até gasto mais, e decerto não chegaria o que
+você me dá, se não tivesse tido umas noites de sorte á batota. Meu
+amigo, todo o negocio requer capital para poder dar lucros... Este
+negocio do casamento é bom, mas é preciso empatar capital... Eu sou o
+socio d'industria; você é o socio capitalista: chegue-me cá as _massas_,
+porque eu preciso de mostrar quem sou.
+
+--Deus nos livre! se mostra quem é, está o caldo entornado!--clamou o
+procurador, levando as mãos á cabeça n'um gesto tragico.
+
+O Mello riu com vontade.
+
+--Você nasceu para mim, e eu nasci para você!--disse
+elle.--Difficilmente se encontram e se juntam dois como nós. Ande, vá
+buscar o dinheiro.
+
+O procurador levantou-se, foi ao cofre de ferro, ao canto do
+escriptorio, contou duzentos mil réis em notas, e voltou com ellas e com
+um livro na mão.
+
+--Ande! ponha aqui por sua mão que recebeu este dinheiro--disse.
+
+--Quanto?
+
+--Eu dou-lhe duzentos mil réis. Não foi isso o que você pediu?
+
+--Mas aqui no livro estão duzentos e cincoenta!
+
+--É isso. Os cincoenta mil réis são de juros.
+
+--Ladrão! Roubar ao inferno!--clamou o Mello em tom de amigavel censura.
+
+--E o risco? Você não tem onde cahir morto. Se este casamento se não
+fizer, ou se a você o levar o diabo d'hoje para ámanhã, quem perde sou
+eu!
+
+--Não leva, que eu sou cá preciso para animar as artes e as
+industrias!--retorquiu risonho e senhor de si o bohemio.
+
+--O que me anima é que o gado ruim não tem perigo--disse Belchior
+gracejando.
+
+O Mello assignou no livro a quantia indicada pelo procurador, metteu o
+dinheiro ao bolso e preparou-se para sahir.
+
+--Você ande-me com o velho!--disse elle.--Não o deixe resfolegar, e elle
+que obrigue a filha por geito ou por força a casar comigo.
+
+--Coitada da creatura! Ha-de ser feliz com um tal marido!
+
+--Eu lhe digo... póde ser que me apaixone por ella... Ás vezes o diabo,
+quando lhe parece, faz das suas...
+
+--Quem! Você apaixonar-se? Se ella fosse uma dama de copas... talvez!
+
+--Eu supponho-a uma dama d'oiros... Já vê que a differença do naipe não
+é tamanha como parece...
+
+Dizendo isto, o Mello saiu trauteando uma modinha, emquanto o Belchior,
+rindo, arrumava o livro das suas contas com o bohemio.
+
+--Isto é que é um mariola!--murmurava o procurador satisfeito.--Não ha
+dinheiro que lhe chegue... O jogo e as mulheres levam-lhe tudo... Ha-de
+acabar mal este patife!
+
+
+
+
+V
+
+Madre Paula
+
+
+Na casa conventual das Sereias, vamos encontrar madre Paula, aquella
+espirituosa e gentil abbadessa que os leitores da _Irmã Dorothêa_
+certamente não terão esquecido e com quem aquelles que porventura a não
+conheçam d'ahi, acharão prazer em travar conhecimento.
+
+Formosa ainda, posto que um ou outro fio de prata ponha um signal de
+velhice nos seus lindos cabellos pretos, a amiga de Helena de Noronha
+não tem já aquella vivacidade traquina dos tempos em que a conhecemos.
+
+A sua conversa, porém, é ainda adoravel d'encanto pelas scintillações do
+seu espirito gracioso e fino, que ás vezes se desata em torrentes de bom
+humor que muito alegram o padre Filippe, de ha muitos annos seu unico e
+constante director espiritual.
+
+Á hora a que vamos encontrál-a, está ella sentada em fofa poltrona,
+escutando o padre Filippe, que acaba de chegar e que, ao que parece,
+traz novidades importantes a communicar-lhe.
+
+A conversação intima entre os dois conserva ainda aquelle caracter
+familiarmente carinhoso de duas almas que se comprehendem, de dois
+corações que se amam e que se acham ligados pelos laços indestructiveis
+da mais solida confiança.
+
+--Sabes, minha querida amiga?--disse-lhe o padre Filippe depois de a
+beijar carinhosamente nas faces--tive hoje a visita do nosso Paulo, do
+filho da irmã Dorothêa...
+
+--Sim? Esse ingrato ha muito tempo que aqui me não apparece! Senta-te e
+conta-me: como está elle?
+
+--Physicamente, pareceu-me bom. Agora, quanto _á bóla_, o rapaz tem-n'a
+um pouco transtornada...
+
+--O que! que dizes tu?--perguntou madre Paula com visivel
+interesse--Notaste n'elle qualquer alteração?
+
+--Imagina tu, minha amiga, que me entra em casa com ares melodramáticos
+e dispara-me esta pergunta com que eu não contava: «Diga-me, padre, quem
+é meu pae?!»
+
+--Elle fez-te essa pergunta?
+
+--E queria por força que eu lhe dissesse de quem era filho e por que
+razão se lhe occultava o segredo do seu nascimento.
+
+--Mas isso é extraordinario! Como se atreveu a perguntar-te semelhante
+coisa?
+
+--Como se atreveu! A mocidade de hoje atreve-se a tudo. A educação livre
+que lhe demos havia de produzir n'elle os naturaes resultados. Não nos
+suppõe seus protectores, nem sequer lhe passa pela imaginação que tudo
+quanto é o deve a nós. Julga-nos intermediarios, apenas, entre elle e os
+paes, para o acto material de lhe entregarmos as mezadas e mais ou menos
+inquirirmos do seu aproveitamento. N'estas circumstancias, comprehendes
+que acanhamento algum podia ter em se me dirigir da maneira por que o
+fez.
+
+--E o que lhe respondeste? Como satisfizeste á curiosidade d'essa
+creança?
+
+--Comprehendes, minha amiga, que eu não podia senão tomar o partido de
+me fingir tão ignorante como elle ácerca dos mysterios do seu
+nascimento; e foi isso o que fiz.
+
+--Mas que motivo o levou a querer saber quem são os paes?
+
+--Achas estranho? Tambem eu estranhei uma tal pergunta, e por isso não o
+quiz deixar partir sem indagar o que se passava de extraordinario
+n'aquella alma juvenil...
+
+--E indagaste?
+
+--Indaguei e soube.
+
+--O que é, pois?
+
+--O nosso Paulo ama!
+
+--Ah! mau prenuncio! Cêdo começa esse pobre pequeno!
+
+--Que queres tu, minha Paula? Hoje as creanças passam cêdo a
+considerar-se homens feitos, e a não guardarem para os trinta annos os
+prazeres do coração, que lh'os reclama aos dezoito...
+
+--Isso é uma doença muito séria, a meu vêr, e que póde causar graves
+prejuizos de futuro ao nosso protegido...
+
+--Ha doenças que em vez de matarem, salvam. Talvez esta seja uma
+d'ellas...
+
+--Sempre optimista, sempre!--disse madre Paula com um sorriso de leve
+censura.--Não creio que o nosso Paulo possa lucrar grande coisa com uma
+affeição que certamente lhe ha-de preoccupar o espirito e desviar-lhe as
+attenções do estudo para o objecto dos seus amores. A prova de que essa
+paixão nascente, e de todo o ponto intempestiva, começa a produzir
+perniciosos effeitos, é que já despertou n'elle o desejo de penetrar o
+segredo do seu nascimento...
+
+--Isso tinha de succeder mais hoje ou mais amanhã--replicou o padre
+Filippe--Não era natural que um espirito vivo e irrequieto como o de
+Paulo se conservasse por muito tempo indifferente ao desejo de saber
+quem são ou quem fôram seus paes...
+
+Madre Paula conservou-se silenciosa e meditativa por alguns instantes.
+
+--Creio que fizemos mal--disse ella--em dar a esse rapaz a educação
+livre que os modernos philosophos preconisam... Uma creança entregue aos
+imprudentes impulsos do seu coração juvenil, sem uma voz amiga que a
+aconselhe, sem a presença de preceptor austero cuja voz auctorisada lhe
+indique o caminho do dever, ha de necessariamente cahir no deploravel
+desvario de Paulo.
+
+--Os homens formam-se na adversidade; o coração retempera-se nas
+amarguras para as grandes luctas da vida--retorquiu o padre Filippe.--A
+educação moralisadora de um preceptor austero corta os vôos ao espirito,
+e perniciosamente contribue para deformar a indole e perverter o
+caracter do um adolescente. A violencia imposta pelos preconceitos de
+uma conducta regrada, sujeita a methodos e convenções oppostas ao sentir
+individual, dá em resultado a falsificação de um caracter. O individuo
+assim creado não é nunca um producto apreciavel da natureza, é o
+producto artificial de uma odiosa tyrannia exercida sobre o seu
+espirito. Não é mais um homem são--bom ou mau--é um hypocrita; isto é,
+um aleijado que se arrasta miseravelmente deformado pela vida fóra,
+tanto mais perigoso aos outros homens quanto aprendeu a occultar e a
+disfarçar as suas intenções e os seus instinctos. Deixemos a este rapaz
+ampla liberdade de manifestar a sua indole. Se é bôa, avigorada pela
+liberdade da educação, ella bracejará frondescente como arvore de bons
+fructos; se é má, não haveria destra mão de habil podador capaz de
+extirpar a seiva ruim que a natureza lhe pôz na raiz.
+
+--Elle é filho do padre Anselmo!--disse madre Paula--e se herdou a
+indole cruel, hypocrita e verdadeiramente sanguinaria do pae, com
+certeza ha de ser um monstro temivel, de que a sociedade terá que
+arrecear-se.
+
+--É tambem filho da irmã Dorothêa--atalhou o padre Filippe--e é possível
+que haja herdado da mãe os sentimentos de singela bondade que a fizeram
+cahir nas rêdes infernaes d'esse homem extraordinario que nunca mais
+tornámos a vêr!
+
+--É um caso que ainda hoje não sei explicar, o desapparecimento subito
+d'essas tres creaturas!--exclamou madre Paula.--Parece incrivel que até
+hoje não tenhamos tido mais noticias do padre Anselmo nem da irmã
+Dorothêa, nem ainda do padre Hilario!
+
+--Como sabes, minha amiga--ponderou o padre Filippe--nas congregações
+jesuiticas, muda-se frequentamente de nome, e é esse até o processo
+adoptado por muitos dos nossos irmãos e irmãs, para apagar os rastos
+compremettedores da sua passagem por este ou por aquelle ponto. É, pois,
+de presumir que o padre Anselmo, ascendendo aos logares superiores da
+Companhia, julgasse conveniente adoptar outro nome, e, levando comsigo a
+irmã Dorothêa e o padre Hilario, lhes impuzesse a mesma mudança, afim de
+que ninguem mais pudesse seguir-lhes o rasto no amplo caminho das suas
+grandezas...
+
+--Assim será. No emtanto, Helena é ingrata! Sabendo quanto eu a
+estimava, sabendo que lhe salvei a vida e lhe dediquei sempre uma
+amizade sincera de irmã, é imperdoavel o esquecimento a que me votou!
+
+--Minha querida amiga, a distancia enfraquece os affectos. Não ha peor
+inigma da amizade do que é a ausencia. Depois, quem sabe? Talvez que o
+padre Anselmo, hoje Provincial ou Assistente com outro nome, lhe
+impozesse silencio como condição indispensavel de seus beneficios...
+
+--Oh! não! Custa-me a crêr que a irmã Dorothêa tranzigisse com esse
+homem, que tão profundamente detestava agora!
+
+--Mas não dizes tu, minha querida, que ella amava o padre Hilario, o
+joven filho do padre Anselmo, que desempenhava o cargo de capellão no
+convento da Covilhã, de que ella era abbadessa?
+
+--Ella propria m'o confessou.
+
+--Nesse caso, o amor pelo filho venceu a natural repugnancia pelo pae, e
+a esta hora temol-os juntos, n'algum convento do estrangeiro, felizes e
+resignados como nós o estamos, cavando com verdadeiro enthusiasmo na
+santa vinha do Senhor.
+
+--Se tudo se passou como suppões--ponderou madre Paula--se realmente o
+padre Anselmo ascendeu aos mais altos cargos da Companhia e levou
+comsigo o filho e a amante d'elle e do filho, é impossivel que a estas
+horas Helena ignore quanto temos feito por esta creança que ella
+cruelmente engeitou...
+
+--Decerto. Ella póde ter noticias nossas. Nós é que não as temos nem
+podemos obtel-as d'ella...
+
+--Mas é ingrata!--repetiu ainda madre Paula.--Por quanto procederia eu
+de igual modo para com ella, eu que tu accusavas de leviana, superficial
+e inconstante nos meus affectos?
+
+--Minha querida amiga--volveu risonho o padre Filippe--eu sempre fiz
+justiça ao teu coração; e se me queixava da tua cabeça, é porque era
+ella a que vinha receber-me na ante-camara dos affectos sem me deixar
+penetrar no sanctuario intimo do teu peito. E, para cumulo de desgraça,
+succedia que eu nunca me encontrava alli sosinho; havia sempre na sala
+commum das affeições triviaes dois ou tres frequentadores impertinentes
+com quem me acotovelava e cuja presença me indispunha e fazia soffrer...
+
+--Sabes que foste sempre o preferido do meu coração!
+
+--Suspeitava-o. Não tinha, porém, a certeza. E essa duvida torturava-me.
+
+--E agora?
+
+--Agora, minha bôa e querida Paula, tambem eu me não queixo. Devo-te os
+mais bellos momentos de toda a minha vida; devo-te os mais ardentes
+prazeres da minha mocidade e as mais suaves consolações da minha
+velhice. Bemdita sejas!
+
+E enlaçou-a nos braços, beijando-a com um ardor ainda não de todo
+extincto n'aqueile organismo gasto pela edade.
+
+Madre Paula deixou-se enlaçar n'um suave e doce abandono, murmurando com
+os olhos brilhantes e as faces purpureadas de prazer:
+
+--Agora, e de ha muito tempo, és tu o unico senhor absoluto de todo o
+meu ser. Reinas e governas nos meus sentidos como no meu coração. Se me
+faltasses, morria!
+
+--Se o amôr é a vida--tornou-lhe o padre Filippe--se é a grande lei
+universal que rege todos os sêres; se o amôr é a suprema aspiração dos
+novos, e ainda a unica força que ampara os velhos, como poderemos nós,
+minha querida, impedir ou sequer estranhar que Paulo ame com todo o fôgo
+do seu juvenil coração a mulher que o destino pôz no seu caminho?
+
+--Não é precisamente esse o meu desejo, mas tão sómente guiar e dirigir
+esse pobre rapaz para que o desvairamento da paixão o não precipite nos
+abysmos da desgraça irremediavel.
+
+--O coração apaixonado raro escuta os dictames da prudencia. Todavia,
+talvez tu possas, minha amiga, com essa tua dôce voz persuasiva, influir
+no espirito d'esse rapaz a deixar-se guiar pelos conselhos da
+experiencia. Prometteu-me que viria procurar-te, e creio bem que virá. A
+ti incumbe, pois, a difficil missão de dirigir os seus passos e vigiar
+pelo seu futuro. Elle ama-te como filho e se não escutar a tua voz,
+ninguem n'este mundo poderá fazer-se obedecer por elle.
+
+--Pois bem; se até amanhã aqui não apparecer, mandal-o-hei chamar e
+ouvirei o que me diz. No emtanto, convém saber quem é a mulher que elle
+ama, a que familia pertence, e no caso que a união dos dois não seja uma
+d'estas inconsequencias absurdas que a razão repelle e as conveniencias
+sociaes condemnam, espero que não duvidarás unir os teus esforços aos
+meus para aplanarmos o caminho da felicidade a esse pobre rapaz.
+
+O padre Filippe sorriu.
+
+--Queres arvorar-me em casamenteiro á ultima hora!--acquiesceu
+elle--Seja! Interroga-me esse rapaz, inquire e desvenda todos os
+segredos da sua alma; e se te convenceres de que se trata de uma paixão
+séria e não d'uma d'essas velleidades tão frequentes e tão perigosas na
+adolescencia, faremos todo o possivel por lhe aplanar as difficuldades e
+conduzil-o triumphante á realisação dos seus desejos.
+
+--Eu devo-lhe protecção e carinhos de mãe--disse ainda madre Paula--Não
+posso esquecer-me de que fui cumplice, embora forçada, na grande
+desgraça do seu nascimento. Essa creança é o fructo das milagrosas
+apparições do Christo á desvairada Helena de Noronha. Se não fosse eu,
+talvez que o padre Anselmo não realisasse a infame burla por esse
+processo tão suave... A minha consciencia accusa-me, se bem que a
+intenção com que procedi fosse mais humanitaria que criminosa. Eu quiz
+poupar a essa desgraçada os horrores de uma desillusão brutal, de uma
+violencia monstruosa como aquella de que foi victima a pequena Candida,
+immolada no Sardão aos instinctos bestiaes do padre Anselmo.
+
+--Não recordemos, minha querida, esses horrores que a miseria da nossa
+situação subalterna nos tem obrigado a presenciar e até a proteger com o
+coração confrangido de dôr, com a alma revoltada de nojo. Vinguemo-nos
+da crueldade da sorte praticando o bem espontaneamente, em desconto dos
+males que temos sido forçados a fazer. Paulo é para todos os effeitos
+nosso filho. Façamos por elle todos os sacrificios compativeis com a
+nossa consciencia e com a nossa posição, e que Deus nos leve em conta o
+bom desejo que temos de proceder sempre bem e de harmonia com os
+dictames do nosso coração, que não é mau, mas que a fatalidade
+acorrentou a uma vida de torpezas e de immoralidades.
+
+Despediu-se de madre Paula promettendo voltar no dia seguinte.
+
+A abbadessa, ao vêl-o partir, ficou immersa n'uma profunda tristeza.
+
+--É o unico que a alma negra da seita não perverteu de todo!--murmurou
+ella.--Que adoravel esposo e que exemplar cidadão se não perdeu n'este
+homem, que assim vae atravessando a vida amortalhado na sotaina da
+hypocrisia que elle proprio odeia! Pobre amigo! morrerás como eu na dôr
+e na saudade cruciante da liberdade que te roubaram!
+
+
+
+
+VI
+
+Á hora da morte
+
+
+Tres dias depois d'esta visita do padre Filippe a madre Paula, bateram
+violentamente á porta do sacerdote, era uma hora da noite.
+
+O padre Filippe não se tinha ainda deitado.
+
+Muito dado á leitura de velhos classicos, o amante de madre Paula
+passava grande parte da noute a folhear poeirentas chronicas e a fazer
+annotações curiosas, no intuito de esclarecer varios pontos obscuros da
+nossa historia que, como se sabe, ainda hoje offerecem duvidas aos mais
+persistentes e lucidos investigadores. Ouvindo bater á porta com a
+violencia propria de quem deseja ser ouvido o mais rapidamente possivel,
+o padre Filippe levantou-se, marcou com um papel em branco a pagina em
+que interrompia a leitura e veio á janella indagar quem batia. Á porta
+estava uma mulher do povo, com um chaile pela cabeça para se resguardar
+do frio cortante da noite.
+
+--É aqui que móra um senhor que é padre e que vae dizer todos os dias
+missa aos Grillos?--perguntou ella.
+
+--É aqui. O que deseja?
+
+--É que está alli uma velhinha, que é minha visinha, a morrer, e a pobre
+de Christo não faz senão pedir que lhe chamem um padre, porque se quer
+confessar; e eu venho cá vêr se v. s.^a faz a esmola de a ouvir de
+confissão...
+
+--Onde móra essa mulher?
+
+--Na rua da Senhora d'Agosto, meu senhor! É pertinho... é d'aqui a dois
+passos, e se v. s.^a fizesse a esmola de vir comigo, chegava lá n'um
+instante!...
+
+--Espere ahi, que eu desço já.
+
+Embrulhou-se n'um capote á hespanhola, pôz na cabeça o seu chapéo alto,
+pegou da bengala, e pouco depois estava na rua.
+
+--Vamos lá!--disse elle.
+
+Encaminharam-se para a rua da Senhora d'Agosto, que fica a curta
+distancia, nas proximidades do paço episcopal. A mulher que viera chamar
+o padre Filippe caminhava apressada adiante d'elle, na ancia de chegar a
+tempo com o soccorro espiritual que a moribunda reclamava.
+
+--Seja pelas almas!--lamuriava ella.--Está a pobresinha a appellidar por
+um confessor desde o resto da tarde, que parece que nem póde morrer sem
+se confessar, e não havia uma alma de Christo que se _arresolvesse_ a
+vir chamar v. s.^a ou oitro qualquer que lhe deitasse a _assolvição_!
+
+--Não tem familia essa mulhersinha?--inquiriu o sacerdote.
+
+--Ella não tem ninguem, meu senhor! É velhinha como as serpes, e não tem
+filhos nem parentes. Vive lá n'um quartinho, que uma visinha lhe alugou
+por cinco tostões por mez, e dês que caiu emprégadinha, o que vale é a
+gente ir olhando por ella, por caridade, senão morria p'rá alli, sem ter
+quem lhe chegasse uma sêde _d'auga_!
+
+--Coitada!--lamentou o padre Filippe.
+
+--Mas que!--tornou a mulher--a gente _támem sêmos probes_... _támem_
+temos de olhar pela nossa vida, que, se a gente o não ganhar, ninguem
+nol-o vem trazer... De sorte que a _probesinha_ tem passado muita
+necessidade...
+
+--Logo que ella assim adoeceu, porque a não mandaram para o hospital?
+
+--No _isprital_, meu senhor, não na acceitaram, porque lá diz que não
+curam a velhice... Nem ella queria... Eu ás vezes inda lhe _dezia_: «Ó
+sr.^a Maria do Carmo, e se vocemecê pedisse a alguem p'ra vêr se a
+_arrecolhiam_ no _Azylio_ das velhas?» Mas ella: «que não, e que não»,
+nem queria que lhe fallassem n'isso!
+
+Chegaram a um predio velho e sujo, de miseravel aspecto, com a porta da
+rua escancarada.
+
+A mulher guiou o padre pelas profundezas escuras do portal, e chegando
+ao fundo de uma estreita e perigosa escada, que dava accesso aos andares
+superiores, gritou:
+
+--Ó sr.^a Izabelinha, _alumeie_, que vae aqui o sr. padre!
+
+No alto do terceiro andar, rangeu uma porta, sentiram-se uns chinellos a
+arrastar, e na balaustrada do corrimão luziu a mortiça e fumarenta luz
+d'uma candeia de petroleo.
+
+--É vocemecê, sr.^a _Barbora_?--perguntou uma voz lá do alto.
+
+--Sou eu, sou, alminha do Senhor! _Alumeie_, que não vá este senhor
+cahir...
+
+A sr.^a Barbara investiu com a escada como quem de ha muito estava
+familiarisada com os perigos d'aquelles desconjuntados degraus.
+
+E voltando-se para o padre Filippe:
+
+--É melhor v. s.^a agarrar-se ao corrimão, que não vá por ahi cahir e
+partir alguma perna... Isto, quem não está costumado, nada mais _facel_
+do que aleijar-se...
+
+O padre Filippe já havia, por instincto, adoptado o expediente que a sua
+cuidadosa guia lhe aconselhava.
+
+Segurando-se com a mão esquerda ao sujo e gordurento corrimão da escada,
+e tacteando os degraus com os pés e com a bengala, revestira-se de
+coragem e paciencia evangelica para realisar a difficil e arriscadissima
+ascenção.
+
+Quando chegou ao alto do terceiro andar, onde uma velha esguedelhada, de
+cabeça estopenta e candeia na mão o aguardava, o amante de madre Paula
+parou offegante e cançado.
+
+--É cá muito em cima!--disse elle.
+
+--E as escadas são ruins _d'assobir_, meu senhor!--accrescentou a
+velha.--Eu _támem_, quando venho de lá de baixo e chego cá arriba, fico
+que, se me puzessem uma mão na bocca, arrebentava!
+
+--Onde está a doente?--interrogou por fim o padre Filippe.
+
+--Está aqui dentro, meu senhor... Ella está mesmo a _espedir_,
+coitadinha! Já desde _honte_ que não lhe foi nada á bocca, e não faz
+senão pedir _auga_... Parece que está mesmo abrasadinha lá por dentro! O
+que aquella creatura me tem consummido p'ra lhe eu mandar chamar o
+confessor!
+
+--E vocemecê porque não lhe satisfez a vontade?
+
+--Eu já mandei recado ao sr. padre Luiz, que v. s.^a ha de conhecer, mas
+como a gente _semos probes_, fez á de conta que não era pressa e inda
+_inté_ agora cá não appareceu...
+
+--É que vocemecês não lhe mandaram talvez dizer que se tratava de uma
+pessoa em artigos de morte...--desculpou o padre Filippe.--Ora vamos
+lá... vamos lá ouvir essa creatura de Deus...
+
+A velha, com a candeia lançando de si um enorme pennacho de fumo negro e
+suffocante, allumiou o padre Filippe até ao escuro e fétido cubiculo
+encravado no interior do misero pardieiro, que era um genuino
+representante da miseria suja do Porto, a mais repellente e odiosa de
+todas as miserias.
+
+Ha n'esta bella cidade trabalhadora virtudes excepcionaes de
+honestidade, de honra, de civismo e de labôr persistente, que fariam o
+orgulho de todos os povos do mundo. Os seus habitantes são generosos,
+hospitaleiros, leaes, podendo servir de lição e exemplo a quantos se
+presam de possuir em elevado grau estas raras e nobilissimas qualidades.
+Mas a par d'isto, quantos defeitos de educação, deprimentes da dignidade
+de um povo que podia e devia ser o primeiro a marchar na vanguarda da
+civilisação do seu paiz!
+
+Nas ruas, as classes trabalhadoras apresentam-se, na sua grande maioria,
+sujas, andrajosas, repellentes de immundicie, mãos e cara accusando uma
+ignorancia absoluta do uso da agua, como se o trabalho persistente e
+honesto precisasse d'estes ascorosos attestados da porcaria para se
+fazer respeitar!
+
+Mulheres novas, bonitas como em nenhuma outra terra de Portugal,
+percorrem as ruas, descalças, esmadrigadas, as repas soltas, estrelladas
+de lendeas, e os pés e pernas nuas, batidas dos trapos sujos das
+fraldas, escodeadas de lama! Uma miseria! Um horror!
+
+E todavia era tão facil mudar os gordurosos e sujos andrajos nas limpas
+e asseiadas vestes da gente pobre que se lava! Uma pouca d'agua--e o rio
+Souza, e os poços dos quintaes e os ribeiros dos arrabaldes offerecem
+tanta!--e dez reis de sabão bastavam!
+
+É talvez esta, a diffusão das ideias de limpeza nas classes proletarias,
+uma das mais sympathicas e civilisadoras missões que estão reservadas á
+imprensa periodica dos nossos dias.
+
+Os jornaes populares, os jornaes baratos, que levam tantas doutrinas
+salutares e tantas noticias perniciosas ás classes humildes, que por
+elles se guiam e norteiam,--quando se não desnorteiam--não poderiam, com
+um bocadinho de boa vontade e persistencia, encetar efficazmente a
+propaganda da limpeza publica e particular dos cidadãos como base
+primaria de toda a hygiene social e moral?
+
+Valha-me Deus! Pois não ia eu agora descambando da facil e comesinha
+acção do romance para as considerações sabias e profundas de um sabio e
+profundo auctor de originaes opusculos?
+
+Desculpe-me o leitor a divagação e acompanhemos, visto que não ha outro
+remedio, o padre Filippe através dos corredores defumados e mal
+cheirosos, resumando das paredes e do soalho podridão e esterco, até ao
+humilde grabato em que arqueja agonisante uma octogenaria, quasi uma
+mumia, enterrada sob um montão de farrapos.
+
+É a sr.^a Maria do Carmo.
+
+Ao vêr entrar o padre Filippe, a moribunda voltou para elle os olhos, em
+que perpassou um lampejo de alegria, e disse com voz debil e quasi
+extincta:
+
+--Graças a Deus! Não morrerei sem que v. s.^a me ouça de confissão!
+
+O padre Filippe aproximou-se do leito e contemplou, á luz de uma candeia
+de azeite, espetada na parede, do lado da cabeceira, o rosto enrugado e
+magro da pobre creatura.
+
+--Então deseja reconciliar-se com Deus, não é verdade, minha irmã?
+
+--Sim... sim, meu padre!.. Quero confessar-me... A morte avisinha-se e
+eu quero... preciso de alliviar a minha consciencia do peso de...
+peccados que não sei se Deus m'os perdorá!--balbuciou a enferma, com voz
+entrecortada e de cada vez mais debil.
+
+--Deus é infinitamente bom, infinitamente misericordioso--aquietou o
+padre Filippe--e está sempre prompto a perdoar á creatura que, humilde e
+contrita, sente na alma o arrependimento da culpa e para ella implora o
+divino perdão!
+
+Puxou uma cadeira de pau de pinho, sentou-se á cabeceira do leito e,
+fazendo signal ás duas mulheres que o conduziram para que o deixassem a
+sós com a enferma, continuou:
+
+--Aqui estou, pois, minha irmã, para ouvir em nome de Deus, cujo humilde
+ministro sou, as vozes do seu arrependimento e absolvel-a... De que se
+accusa?
+
+A velha relanceou para elle os olhos afflictos, em que se lia o pavor do
+inferno, e principiou com voz lenta e abafada a seguinte narrativa:
+
+--Eu sempre fui muito religiosa e devota... Ia todos os dias ouvir missa
+e confessar-me, e Deus ajudava-me sempre com a sua divina graça, porque
+desde que comecei a andar pelas casas do Senhor, nunca me faltou nada, e
+havia muitas almas bôas que me soccorriam, compadecidas da minha
+pobreza...
+
+--Ahi tem, pois, uma prova de que Deus não recusa nunca o seu divino
+amparo áquelles que na sua infinita misericordia depositam inteira fé e
+confiança...
+
+--Os srs. padres dos Grillos e os srs. padres de S. Bento da Victoria
+conheciam-me todos... e faziam o favor e esmola... de serem muito meus
+amigos...
+
+--É porque reconheciam em vocemecê verdadeira devoção e temor de Deus...
+
+--Lá isso... eu na egreja... portei-me sempre com muito respeito... E
+até quando via certas beatas fingidas--Deus me perdôe!--a fazerem da
+casa do Senhor logar de recreio e de pouca vergonha... sentia um peso na
+consciencia e ia-me logo confessar d'isso, como se fosse eu que tivesse
+commettido o peccado... E aonde não chegava mandava... que era para
+ellas terem vergonha!
+
+O padre Filippe sorriu indulgente:
+
+--E é talvez d'esse excesso de zelo, em verdade pouco edificante aos
+olhos do Altissimo, que se arrepende agora e quer pedir perdão a Deus?
+Tem razão, minha irmã! A moral do evangelho, a religião santa do
+Crucificado manda que perdoemos as faltas e fraquezas do proximo e não
+façamos d'ellas objecto de escandalo e de aggravo, com perda e offensa
+da reputação d'aquelles que peccaram...
+
+--Não é d'isso que eu me accuso, meu padre!--accudiu a velha reanimada
+um pouco pelo prazer da confissão--Isso até os meus santos padres
+confessores me diziam que fazia muito bem... e pediam-me que os avisasse
+de tudo o que visse e ouvisse, que era para elles não andarem a ser
+enganados... e saberem quem tinha religião e quem não tinha...
+
+O padre Filippe dissimulou um gesto de repulsão e de enfado, e
+perguntou:
+
+--De que é então que se accusa, minha irmã?
+
+--Eu... de mim... não me accuso de nada, meu santo padre! Eu... o que
+fiz... foi sempre com os olhos em Deus... e tudo para bem da santa
+religião...
+
+--Pois se não tem de se accusar de faltas proprias, as dos seus
+semelhantes tambem não são as que hão-de fazer-lhe carga aos olhos do
+Altissimo, se para ellas não concorreu nem estava na sua mão
+impedil-as... Portanto, como onde não ha culpa não ha perdão, eu nada
+tenho de que absolvêl-a... Feliz de quem póde como vocemecê apparecer no
+tribunal divino com a alma limpa de macula.
+
+Dizendo isto, o padre Filippe, entediado, ia a levantar-se para sahir,
+quando a velha, estendendo para elle as mãos convulsas, bradou com
+indizivel accento de pavôr:
+
+--Pelo amor de Deus! Pelas cinco chagas de Christo, meu padre, ouça-me!
+Ouça-me que eu quero... confessar-me!...
+
+--Pois o que tem vocemecê estado a fazer, senão a confessar-se, creatura
+de Deus?
+
+--Como v. s.^a ainda me não perguntou nada...
+
+--Nada tenho que perguntar-lhe, minha irmã... Vocemecê consulta a sua
+consciencia, e se n'ella encontra escrupulo ou duvida de falta
+commettida, confessa-a sinceramente e d'ella pede perdão a Deus, em nome
+de quem eu a estou escutando...
+
+A velha revolveu-se arquejante nos trapos e disse em voz sumida:
+
+--É que eu... criei como se fosse meu filho uma creança... que era
+filha... de um padre e d'uma mulher casada...
+
+--E vocemecê concorreu d'algum modo para que esse padre e essa mulher
+casada incorressem na falta que originou o nascimento d'essa creança?
+
+--Não, meu senhor! Eu conhecia o sr. padre Anselmo de me confessar a
+elle, na egreja de S. Bento, no tempo do sr. padre Couto, que era um
+santo...
+
+--Só Deus sabe quem é santo!--murmurou o padre Filippe, surprehendido ao
+ouvir fallar no padre Anselmo.
+
+--E vae depois, um dia, o sr. padre Anselmo chamou-me a Braga para eu
+tomar conta d'aquella creança debaixo de todo o segredo... Eu, como lhe
+devia muitas obrigações, trouxe-a e tratei a creança como minha... E o
+sr. padre Anselmo é que pagava as despezas...
+
+--Que nome tinha essa creança?--perguntou o padre Filippe, agora
+interessado na estranha narrativa da velha.
+
+--Chamava-se Hilario, meu senhor...
+
+--Esse rapaz ordenou-se e é ecclesiastico--disse o padre Filippe.
+
+--V. s.^a conhece-o? Sabe d'elle? Onde está?--perguntou a velha.
+
+--Conheci-o, em tempo, capellão da casa conventual das irmãs Dorothêas,
+na Covilhã...
+
+--É esse mesmo! É esse mesmo!--bradou a velha--E onde está agora?
+
+--Ha muitos annos que o não vejo nem ouço fallar n'elle... Supponho que
+talvez haja partido para as missões ultramarinas ou viva em alguma casa
+religiosa do estrangeiro...
+
+--Oh! não... não! Mataram-n'o... mataram-n'o!
+
+--Quem? Quem suppõe vocemecê que pudesse ter interesse na morte d'esse
+obscuro sacerdote?...
+
+--O mesmo que lhe matou a mãe... a D. Carlota...
+
+E a velha juntou as mãos n'uma visivel angustia, murmurando:
+
+--Meu Deus! meu Deus! e eu que o podia ter salvo... o meu pobre Hilario,
+coitadinho!
+
+E pelas faces resequidas rolavam-lhe lagrimas em fio.
+
+--Socegue, minha irmã, que o padre Hilario não foi victima de nenhum
+attentado como suppõe--disse o padre Filippe--A morte de um sacerdote
+não é coisa que passe despercebida na sociedade, mormente se essa morte
+é resultante de um crime. Ora eu não me recordo de ter lido a noticia do
+fallecimento do padre Hilario nos jornaes portuguezes e estrangeiros que
+leio todos os dias.
+
+--Deus Nosso Senhor permitia que elle viva ainda!--murmurou
+afflictivamente Maria do Carmo.
+
+--Vive decerto--affirmou o padre Filippe, no intuito de serenar a
+doente.
+
+--Mas então porque não me escreve elle ha tantos annos? Eu que o criei
+com tanto amor... eu a quem elle chamava mãe...
+
+--Julgará que vocemecê já não é viva...
+
+--Não... não!--tornou a velha--Mataram-n'o para o roubar!...
+
+O padre Filippe, suspeitando um tenebroso mysterio nas palavras da velha
+beata, perguntou:
+
+--Como póde vocemecê ter semelhante suspeita? Pareceu-me ouvir-lhe ha
+pouco que a mãe d'esse rapaz foi assassinada...
+
+--Foi... foi...
+
+--Matou-a o marido, sabedor de que ella o atraiçoava?
+
+--Não... o marido não... Foi o outro... o proprio amante...
+
+--Quem?
+
+--O padre Anselmo!
+
+--O padre Anselmo!--disse o padre Filippe com espanto.
+
+--Foi em Lisboa...--continuou a velha enferma--D. Carlota, a mãe do meu
+Hilario... separada do marido, um tal Custodio, de Braga, tinha feito
+testamento, deixando-me todos os haveres, para eu fazer entrega d'elles
+ao filho...
+
+--E entregou-os?
+
+A velha revolveu-se afflicta nos farrapos do leito.
+
+--Não... porque o sr. padre Anselmo fez-me assignar um papel de divida a
+um homem... um tal João Ignacio, da rua de S. Sebastião, que me levou
+tudo, tudo!
+
+O padre Filippe esforçava-se por comprehender a confusa narrativa da
+velha.
+
+--Mas como diz vocemecê que o padre Anselmo matou a mãe do proprio filho
+d'elle?
+
+--Foi em Lisboa... Elle levou-a para lá a ella e mais a mim, promettendo
+a ambas que o nosso Hilario iria lá ter comnosco, para vivermos todos
+juntos... Depois, elle... uma noite... foi tomar o chá no quarto da D.
+Carlota e... envenenou-a!
+
+Aqui a velha esbracejou mais afflicta, evidentemente torturada pela
+recordação d'aquelle crime.
+
+--Como o soube?--interrogou o padre Filippe.
+
+--Eu vi n'essa noite a D. Carlota levar para o quarto d'ella o bule do
+chá com duas chávenas... Desconfiei e fui espreitar á porta do quarto...
+Presenceei tudo... Ella a queixar-se do veneno e elle... a dizer-lhe que
+a matava por ella lhe faltar á obediencia... Depois, no outro dia, veio
+a justiça e achou um bilhete que, não sei como foi, o sr. padre Anselmo
+tinha arranjado em nome d'ella, a dizer que se matou por causa do
+marido...
+
+--E vocemecê calou-se com o conhecimento d'esse crime?
+
+--Eu.. tive mêdo que elle me fizesse o mesmo a mim, e calei-me...
+
+--Nem mesmo contou ao padre Hilario o que presenceou?
+
+--Eu nunca mais o tornei a vêr... O sr. padre Anselmo disse-me que ia
+ter com elle á Covilhã e nunca mais vi um nem o outro... Por isso eu
+digo que elle o foi matar!...
+
+A velha suspirou afflictivamente. Depois, continuou:
+
+--Quando eu voltei para o Porto, o João Ignacio veio cá com os da
+justiça e tomou conta de tudo o que era da sr.^a D. Carlota... Acho eu
+que tomou conta, porque a mim não me chegou nada ás mãos...
+
+--E quem era esse João Ignacio?
+
+--Era o maior amigo do sr. padre Anselmo...
+
+--Sabe se elle ainda vive?
+
+--Ouvi dizer que endoideceu e que o metteram no hospital dos doidos...
+Foi bem feito! Foi o castigo de Deus!...
+
+--Como conheceu vocemecê a D. Carlota? Foi em Braga, quando tomou conta
+da creança?
+
+--Nada! Ella nunca viu o filho... e eu só a conheci quando o sr. padre
+Anselmo a _trouve_ p'rás Sereias e depois a levou p'ra Lisboa
+enganada... E como ella sabia que fui eu a que creou o Hilario... era
+muito minha amiga... e fez-me o testamento p'ra eu deixar tudo ao
+pequeno... Até me deu uma carta muito grande p'ra eu lhe entregar só
+depois d'ella morrer... Porque ella não queria que o Hilario soubesse
+que era filho d'ella...
+
+--E o que fez a essa carta? Entregou-a ao padre Anselmo?
+
+--Essa carta...--fez a velha--tenho-a aqui... guardada... como ella m'a
+deu... Nunca mais tornei a vêr o meu Hilario... nunca lh'a pude
+entregar...
+
+Nos olhos do padre Filippe luziu um raio de curiosidade.
+
+--É por isso...--proseguiu a velha--que eu me queria confessar a quem
+contasse isto... e confiasse esta carta... para a entregar ao meu
+Hilario... se elle algum dia apparecer vivo...
+
+Dizendo isto, a velha introduziu a mão descarnada e tremula debaixo do
+travesseiro e tirou de lá uma sacca de chita, surrada do attrito das
+mãos e dos farrapos, e apresentando-a ao padre Filippe, disse com a voz
+estrangulada pelo esforço:
+
+--Aqui está a carta e mais um dinheirinho que eu fui ajuntando das
+esmolas dos bemfeitores para lhe dar a elle... se um dia apparecesse...
+Tome v. s.^a conta de tudo, e se elle fôr vivo... entregue-lh'o... Se
+elle tiver morrido... diga-o de missas por minha alma...
+
+--Não tem filhos, vocemecê?--perguntou o padre Filippe, acceitando com
+repugnancia o thesouro da velha e sem mesmo verificar a quanto montava.
+
+--Tenho... Mas esses... estão arrumados... Nunca quizeram saber de
+mim... Mil contos que eu tivesse... haviam de ser todos para o meu
+Hilario... coitadinho!
+
+--Não seria melhor distribuir pelos seus filhos este dinheiro, de que o
+padre Hilario talvez não precise?
+
+--Não! Não! exclamou a velha anciadamente, arregalando os olhos, onde a
+vida começava a extinguir-se. Se elle não apparecer... missas pela minha
+alma!... Esse dinheiro... deu-m'o a religião... para a religião torna!
+São tres centos de libras... Tres centos!
+
+--Está bem! Socegue. A sua vontade será cumprida--aquietou o padre
+Filippe.
+
+--Graças a Deus! Morro descançada... E agora, meu padre... deite-me a
+sua absolvição... para que Deus me perdôe!
+
+O padre murmurou em latim as palavras da absolvição.
+
+--E elle... se fôr vivo... que se acautele do padre Anselmo... que não
+lhe mostre esse dinheiro... O padre Anselmo é pae d'elle... mas
+envenenou-lhe a mãe... para o roubar!...--murmurou ainda a velha,
+deixando descair a cabeça no travesseiro e entrando logo na agonia
+ultima.
+
+O padre Filippe, impressionadissimo com as revelações que ouvira dos
+labios da moribunda, guardou no bolso o legado da velha e sahiu do
+lobrego cubiculo em que aquella vida se extinguia.
+
+Chegado ao patamar, respirou com força e disse para a outra velha que o
+aguardava com a fumarenta candeia de petroleo na mão.
+
+--Essa pobre mulhersinha está agonisante. Logo que ella expire dê-me
+parte, porque o enterro fica por minha conta.
+
+--Sim, meu senhor!--disse a velha--Não seria bom dar-lhe ao menos a
+Santa Uncção, já que não póde tomar o Senhor?
+
+--É tarde--respondeu o padre Filippe--Quando cá chegasse esse ultimo
+soccorro espiritual, encontraria um cadaver.
+
+--Seja pelas almas!--lamuriou a velha--Não _sêmos_ nada n'este mundo!
+
+--Somos realmente bem pouco, quando presumimos ser tanto!--concordou
+philosophicamente o sacerdote--Vocemecê faria uma obra de caridade, indo
+assistir aos ultimos momentos d'aquella desgraçada...
+
+--Sim, meu senhor... eu vou--concedeu a velha.
+
+Padre Filippe, voltando-se para a mulher que o fôra chamar e que tambem
+viera ao patamar n'uma curiosidade agradecida, pediu:
+
+--E vocemecê, santinha, não poderia fazer-me o favor de me alumiar até
+ao fundo da escada, que é tão cheia de precipicios para a minha idade?
+
+--Eu vou, meu senhor... Então não hei-de ir?
+
+E tirando da mão da outra a candeia:
+
+--Vá vocemecê pró par da creaturinha de Deus, emquanto eu _alumeio_ ó
+sr. padre...
+
+A velha cedeu a luz e retirou para o interior, resmungando:
+
+--Estes _carólas_ do inferno, em não sentindo dinheiro a uma creatura,
+põem-se logo a _avoar_ e dizem aos oitros que se _aguantem_ co'as
+massadas... Se lhe cheirasse a que lhe untavam as unhas no fim, punha-se
+ahi a alanzoar os officios da agonia e não arredava d'aqui pé emquanto
+ella não fechasse o olho... Assim, vae a correr metter-se no _quente_ e
+tanto se lhe dá que a _probesinha_ de Christo vá p'ró céo como que vá
+p'ró inferno!
+
+O padre Filippe, alumiado pela outra visinha, chegara ao fundo da
+terrivel escada com as costellas direitas.
+
+--V. s.^a quer que o vá acompanhar _inté_ casa?--offereceu a mulher.
+
+--Não, não é preciso... D'aqui até lá é perto e não ha escadas a subir
+nem a descer. Amanhã procure-me para se comprar um caixão á pobre
+creatura. Boa noute!
+
+--Vá v. s.^a na graça de Deus, meu senhor!
+
+
+
+
+VII
+
+Tres miseraveis
+
+
+Depois da scena que representou com a filha, o Custodio de Jesus correu
+a procurar o seu amigo Belchior.
+
+O agiota ia radiante de satisfação.
+
+--Beatriz--disse elle ao procurador--está no caminho!
+
+--No caminho de quê?
+
+--No caminho de acceitar o casamento com o Eugenio de Mello.
+
+--Sério?
+
+--Homem, digo-lh'o eu! A principio recusou, fez cara feia, e ia-me
+fazendo sahir fóra dos eixos, porque eu não sou para graças... Mas
+depois...
+
+--Conseguiu intimidal-a?
+
+--Isso sim! Aquella sonsinha que você alli vê tem figados! Ameacei-a com
+as irmãs da caridade para toda a vida, e ella teve a pouca vergonha de
+me dizer que podia matal-a, mas que não podia fazer com que ella fosse á
+egreja dizer o _sim_!...
+
+--É o que eu digo! O outro rapaselho deu-lhe volta ao juizo, e as
+mulheres são assim... são peores que cabras... Em encarreirando para um
+lado, não ha diabo que as faça voltar para trás!
+
+--Mas consegui eu que ella voltasse...
+
+--Como?
+
+--Com bons modos... Você, afinal, foi quem me ensinou o segredo... Mas
+eu tambem discorri alguma coisa... Comecei a amacial-a, a dizer-lhe que
+se desejava que ella acceitasse o casamento era para interesse d'ella,
+porque eu estava pobre, estava desgraçado, tudo quanto tinha já não
+chegava para pagar aos credores, e portanto que só havia a escolher: ou
+casar ella com Eugenio de Mello ou dar eu um tiro nos miolos e arrumar
+com isto por uma vez. Chorei, que se você visse até se admirava!
+
+--E afinal?
+
+--Afinal, ella, que estava de pedra e cal, a dizer que não e que não,
+poz-se a considerar um bocado e por fim disse-me que queria fallar com o
+noivo...
+
+--Com o Eugenio de Mello?
+
+--Pois então com quem? Quem é o noivo?
+
+--O noivo é aquelle com quem ella estiver para se casar...
+
+--Bem! pois esse é o Eugenio de Mello. Não se trata de outro.
+
+--Que diabo lhe quererá ella?--commentou o procurador.
+
+--Ora o que ha de querer? Quer que elle lhe diga que lhe tem muito amor,
+que está a morrer de paixão por ella, que não sonha com outra coisa
+senão com o momento ditoso, _et coetera_... coisas que todas as
+raparigas gostam de ouvir aos namorados.
+
+O Belchior pôz-se a rir.
+
+--Vá lá a gente fiar-se em mulheres!--disse elle.--Muito amor ao outro,
+capaz de se deixar matar antes que trahir a fé jurada; mas assim que lhe
+cheirou a que o negocio era de _cobres_ e que sem elles não teria mais
+vestidos, nem mais luxo nem mais commodidades,--venha de lá o _homem da
+massa_ e atire-se com o querido do coração ás ortigas! Ah! mulheres,
+mulheres! quem não as conhecer que se fie n'ellas!...
+
+--Pois por eu saber isso--retorquiu o Custodio--por ter a experiencia de
+que não ha amor que resista á perspectiva da miseria, é que eu me
+lembrei de inventar esta historia, que ha de dar bom resultado... Agora
+elle que lhe _cante_ umas cantiguinhas bem cantadas... que lhe falle
+d'amor, de paixão e de todas essas frioleiras que as raparigas apreciam,
+e d'aqui a dois dias, diabos me levem se ella pensa mais no outro!
+
+--Quando entende você que deve ir fallar-lhe o Eugenio?
+
+--O mais depressa possivel. N'estas coisas nunca ha tempo a perder...
+
+--Está bem. N'esse caso, vou lá hoje á noite com elle tomar o chá...
+
+--Sim senhor! E passaremos uma noite bem passada... A pequena toca
+piano, você gaba-lhe a habilidade para a musica, o rapaz rende-lhe
+finezas, e ás duas por tres a rapariga está ensarilhada, e não terá
+remedio senão dizer que sim.
+
+--Vou então mandar prevenir o rapaz. Foi o diabo você não vir mais cêdo,
+porque elle ainda ha bocado sahiu d'aqui... Veio cá para eu lhe adiantar
+um dinheiro sobre o arrendamento de uma quinta que de dois em dois annos
+rende seis contos de réis, só em cortiça! É um doidivanas... Não sabe o
+que tem de seu e anda sempre a _pillar_ por dinheiro!
+
+--Afinal--considerou o Custodio de Jesus--este casamento até é uma
+providencia para elle... Porque se nós não lhe puzessemos uma tutella,
+por esse andar ainda vinha a dar n'um pobre de pedir...
+
+O Belchior disfarçou um sorriso velhaco.
+
+--Quem duvida que é uma obra de caridade casal-o e tomar-lhe conta dos
+haveres? Mas é preciso que você saiba, amigo Custodio, que eu é que fico
+em peores lençoes...
+
+--Porque?
+
+--Porque este diabo é maluco, e depois, quando você e sua filha lhe
+moverem um processo de interdicção, quem paga as favas sou eu... Contra
+mim é que elle se ha-de voltar, a dizer que lhe armei esta ratoeira de
+proposito para lhe apanharem a fortuna...
+
+--E a você que se lhe dá? A sua consciencia diz-lhe que praticou uma
+acção bôa... que importa lá que elle grite?
+
+--Pois sim, mas a minha consciencia tambem me diz que eu escuso de me
+metter em _alhadas_ sem interesse, e que se elle, por fim, como é
+maluco, me quebrar a cabeça, é bem feito... Portanto, logo que este
+casamento esteja combinado, nós temos um pequeno negociosinho a fazer...
+
+--Que negocio?--interrogou o Custodio franzindo o sobr'olho.
+
+--Que diabo! É justo que eu leve rasca na assudura... Eu pratico uma
+acção bôa... bôa para si e bôa para elle... Parece que tambem não será
+fóra de razão que a pratique bôa para mim...
+
+--Mas o que é então que você quer dizer com isso?--tornou o Custodio
+desconfiado.
+
+--Quero dizer que o negocio é negocio, e que se eu lhe metto a você para
+cima de noventa contos de reis no bolso, é de justiça que leve n'isso
+uma pequena commissão...
+
+--Uma commissão! Mas que commissão quer você?
+
+O Belchior sorriu:
+
+--Socegue! eu não sou d'aquelles que comem a sardinha e deixam para os
+outros só a espinha... Ahi uns _dezitos_ por cento sobre a fortuna do
+rapaz, não é coisa que empobreça ninguem...
+
+--Dez por cento! Você está doido!--exclamou o Custodio de Jesus, fazendo
+uma careta terrivel--Dez por cento sobre noventa contos, atirava lá para
+nove contos. Isso era melhor do que fazer meia!
+
+--É... é melhor do que fazer meia... E oitenta contos por uma filha que
+está em vesperas de casar com um rapaz que não tem de seu oitenta reis,
+o que é? É barro!
+
+--Não que eu não a deixo casar senão á minha vontade!--barafustou o
+Custodio.
+
+O Belchior teve um sorriso desdenhoso.
+
+--Você não a deixa casar senão com quem muito bem entender, e ella não
+casará senão com quem muito bem quizer--replicou por fim.--Mas o nosso
+caso é muito outro, amigo Custodio... Se você arranjar o casamento da
+pequena com outro rapaz, sem ser por minha intervenção, ainda que o
+noivo tenha mil contos de reis, descance, que eu não vou lá metter-me no
+negocio nem reclamar para mim a mais insignificante parte nos lucros...
+Ora agora, fazendo-se o casamento com o Eugenio de Mello, e sendo eu o
+principal agente d'este negocio que lhe mette a você para cima de
+noventa contos no bolso, tenha paciencia, mas a minha commissão é justo
+que se pague...
+
+--Com os diabos! eu ainda lhe não disse a você que queria o seu trabalho
+de graça!--prorompeu o Custodio.--Mas é preciso ter consciencia... é
+preciso que você não queira a melhor parte para si...
+
+--A melhor parte! Então nove contos de reis é a melhor parte de noventa?
+
+--Limpinhos e sêccos, sem mais incommodos, sem ter que aturar a noiva a
+choramigar e sem ter que andar ás testilhas com o noivo para o fazer
+entrar na ordem, acha você que não é nada!
+
+--E a minha responsabilidade? E ter depois de me haver com o rapaz, que
+é um touro de força, e que, se lhe der na cabeça, é muito capaz de me
+lançar as culpas de tudo e quebrar-me as costellas? Isso não representa
+nada, não?!
+
+--Se elle fizer isso, você arma-lhe um processo... Tem a justiça de
+casa, fica-lhe barato...
+
+--Mas o corpo é meu, e depois de eu as cá ter, do lombo é que ninguem
+m'as tira!--berrou o procurador.--Homem, é preciso que você veja que
+isto é negocio muito arriscado para mim... E eu metter-me em folias, sem
+ao menos ter garantidos os pontos que depois hei-de levar nas feridas...
+não me serve!
+
+E n'um repellão:
+
+--Então acabemos com isto, não se falla mais em tal e você case lá a
+pequena com quem quizer.
+
+O Custodio amaciou um pouco.
+
+--Ora venha cá...--disse elle.--Você sempre tem um demonio d'um genio!
+
+--Mas pela razão!... pela razão é que eu tenho genio!--contestou o
+Belchior.--Você, se fosse outro, dava o valôr ás coisas e não estava a
+fazer questão de uma miseria... Demais a mais, sabendo que eu entro
+n'isto por ser seu amigo...
+
+--Bem sei, Belchior, bem sei que você é meu amigo; e por isso mesmo é
+que eu esperava que você fosse mais rasoavel...
+
+O procurador descarregou violento murro sobre a escrivaninha.
+
+--Mais rasoavel!--exclamou elle.--Póde-se ser mais rasoavel do que isto?
+Você, que empresta dinheiro a vinte e a trinta por cento, acha caro
+noventa contos de reis comprados a troco de nove?!
+
+--Pois sim, mas isso não é dá cá, toma lá... O dinheiro é do rapaz e
+elle é que continua sendo senhor d'elle...
+
+--Não me venha com cantigas! Eu já lhe disse a você como é que as coisas
+se arranjam... Mas se acha que é prejudicado ou que o negocio não vale a
+pena, eu lavo d'ahi as minhas mãos e arranje você casamento melhor para
+a pequena.
+
+Era a segunda vez que o Belchior ameaçava desmanchar o negocio. O
+Custodio de Jesus tremeu com a ideia de que o procurador tivesse já
+posto a mira n'outra noiva para o seu cliente.
+
+--Homem!--disse elle--a gente não está aqui a jogar facadas. Nem você
+quer o meu prejuizo nem eu o seu... Você faz um abatimentosinho... fica
+a coisa reduzida a seis por cento...
+
+--Sete tenho eu quem me dê!--volveu o procurador.--E é porque eu não
+quiz entrar em transacção, senão a coisa chegava aos oito. Mas a mim
+aborrece-me regatear... Isto não é negocio de cebolas. Disse que hão de
+ser dez, e hão de ser dez, ou o rapaz não casa no Porto. Então dou um
+passeio com elle até Lisboa, e você verá como até apanho lá uma
+viscondessa para elle. Aquillo é que é terra! Aquillo sim! Ali dá-se
+valôr ao dinheiro e ao trabalho de cada um...
+
+--Bom! Você é teimoso... tambem não quero que diga que, sendo eu seu
+amigo, estou a fazer questão por pouca coisa... Está tratado.
+
+--Ora até que, emfim, chegou-se á razão!--disse o procurador, como quem
+se alliviava d'um grande peso--Eu bem sabia que você não deixava fugir o
+bôlo, ainda que tivesse de partir um bocado maior para mim... Mas eu não
+gosto d'abusar com os amigos...
+
+--Vamos lá!--suspirou o Custodio.--Para amigos, você carregou um
+bocadito na mão... Mas acabou-se! Está tratado, está tratado. Não volto
+com a palavra atrás.
+
+--Sim, senhor!--tornou o Belchior.--Ora agora temos a regular a forma do
+contracto... Eu recebo os nove contos no dia do casamento, antes dos
+noivos irem para a egreja...
+
+--O que! Então você põe-me assim as facas ao peito?!--exclamou o
+Custodio de Jesus muito admirado.
+
+--Homem, negocio é negocio. Eu comprometto-me a levar o noivo até sua
+casa no dia do casamento, sem escripturas, para a noiva poder entrar na
+meação dos bens que elle possa possuir. Feito isto, o dinheiro que eu
+ganhei é meu, você passa-m'o para a mão e estamos quites. Pois como
+queria você?
+
+--Isso não podia ser depois do casamento realisado?
+
+--Póde, acceitando-me você letras...
+
+--Você sabe-a toda!--fez o Cutodio sorrindo, como quem acaba de
+effectuar um bello negocio.--Vá lá! No dia do casamento entrego-lhe o
+dinheiro e está a conta arrumada.
+
+--Antes dos noivos partirem para a egreja...
+
+--Sim, homem, sim! Antes dos noivos partirem para a egreja.
+
+--Pois então esta noite lá estamos. Vou mandar prevenir o rapaz para não
+faltar.
+
+O Custodio despediu-se e o Belchior correu ao _Francfort_ a prevenir
+Eugenio.
+
+N'essa mesma noite, a sala de visitas do Custodio de Jesus era theatro
+da odiosa farça que os tres miseraveis se dispunham a representar á roda
+do coração de Beatriz, illudindo-se uns aos outros, como quasi sempre
+acontece quando tres patifes de grande marca se encontram unidos pelo
+mesmo pensamento de interesse commum.
+
+O Custodio, sahindo de casa do Belchior, passára pela casa de D.
+Barbara, viuva d'um general reformado e mãe de tres filhas feiissimas
+que o Monte-pio militar sustentava, e pediu-lhes para irem á noite tomar
+o chá e fazer um bocado de companhia á Beatriz, que já tinha fallado
+n'ellas e estranhado que estivessem tanto tempo sem lhe irem fazer uma
+visita.
+
+O Belchior, pela sua parte, fizera-se acompanhar da mulher, a D.
+Rosalia, e da cunhada, a D. Adelia, ambas vermelhuscas e adiposas,--a D.
+Rosalia queixando-se sempre do seu figado e a D. Adelia dos seus flatos.
+
+Eram estas as relações mais intimas do Custodio que, usurario e forrêta,
+detestava reuniões e convivencias que o forçassem a incommodos e
+despesas.
+
+Tolerava a viuva do general, cujo conhecimento proviera de serem as
+filhas companheiras de Beatriz no collegio, porque lhe rebatia as
+pensões com extraordinaria usura; e quanto á familia do Belchior, está
+bem patente o interesse que lhe advinha das suas relações.
+
+Beatriz, prevenida por seu pae de que n'essa noite viriam visitas,
+preparou-se para as receber.
+
+A candida menina preferiria antes a solidão do seu quarto á enfadonha
+conversação de tão estolidas creaturas; mas como era a ella que cumpria
+desempenhar os deveres de dona da casa, não teve remedio, sacrificou-se
+ás leis da boa educação e foi com risonho, embora contrafeito, semblante
+que veio á sala.
+
+Eugenio de Mello, acompanhando o Belchior, apresentou-se gentil e muito
+correcto no seu trajo elegante de rapaz rico, affectando uns ares
+superiores, de bom tom, sem comtudo deixar de se mostrar amavel e
+attencioso em extremo para com as damas.
+
+Conversaram estas de modas, do tempo, dos theatros, dos mil nadas que
+preoccupam o espirito das senhoras finas, ou que de taes se presumem;
+emquanto Custodio, Belchior e Eugenio commentavam os ultimos
+acontecimentos politicos e prophetisavam mil horrores ao futuro de
+Portugal.
+
+Veio o chá. Servido elle, o Belchior perguntou:
+
+--Então não temos um bocadinho de musica? Vá, sr.^a D. Rufininha, dê-nos
+um bocadinho de piano.
+
+Rufininha era a filha mais velha do general.
+
+--É verdade! apoiou Custodio--e a sr.^a D. Therezinha canta aquella
+canção
+
+ _Murmura, rio, murmura!_
+
+que é tão bonita.
+
+A Rufina dirigiu-se logo ao piano e a Therezinha, morta por cantar,
+começou a fazer caretas e a desculpar-se, que estava sem voz, que não se
+sentia bôa da garganta, que hoje não, para outra vez cantaria.
+
+Mas o Belchior e o Custodio insistiram,--que cantasse, que eram
+desculpas de mau pagador, que quem tinha uma voz tão bonita não devia
+ser tão avara do seu thesouro.
+
+E agarrando-lhe cada um por seu braço, arrastaram-n'a até junto do
+piano, onde já a irmã pingava notas preparando-se para o acompanhamento.
+
+Assim instada, a Therezinha começou esganiçando-se terrivelmente, a
+pedir ao rio que murmurasse, em meio do silencio e da forçada attenção
+dos circumstantes.
+
+Aproveitando-se d'este momento, Eugenio, aproximou-se da filha do
+Custodio e, sentando-se n'uma cadeira proxima, encetou com ella este
+dialogo:
+
+--Dá-me licença, sr.^a D. Beatriz, que lhe faça uma pergunta?
+
+--Queira v. ex.^a dizer, sr. Eugenio de Mello--respondeu Beatriz, sem
+poder reprimir um movimento de terror instinctivo.
+
+--Parece-me vêl-a triste, como que sob o peso de um desgosto intimo...
+Acaso devo eu attribuir á minha presença a melacholica expressão do seu
+rosto?
+
+--Porque me faz essa pergunta, sr. Eugenio de Mello?
+
+--Perdão, se fui indiscreto!--tornou o mancebo.--Mas, em primeiro logar,
+interessam-me as dôres e as alegrias do seu coração mais do que talvez
+póde imaginar... Depois... creio que lhe não deve ser estranho o desejo
+ardente que me anima de lhe dedicar toda a minha existencia e de viver
+feliz da sua felicidade...
+
+Beatriz baixou os olhos.
+
+--Creio que quer referir-se--disse ella--a um projecto de casamento de
+que já ouvi fallar meu pae...
+
+--Não me atrevi a patentear a v. ex.^a o sentir intimo do meu coração, e
+dizer-lhe a chamma abrasadora que o seu dulcissimo olhar me accendeu no
+peito... E como a vi filha meiga e carinhosa, filha submissa e
+obediente, não hesitei em pedir a seu pae e meu bom amigo, que fosse
+interprete fiel e auctorisado dos meus sentimentos junto de v. ex.^a.
+Fiz mal?
+
+--No logar de v. ex.^a, eu não teria procedido assim...
+
+--Porque? Quem melhor póde ser fiador dos puros e santos affectos da
+minha alma, das delicadas e nobres intenções que me animam, do que o
+proprio pae da mulher que amo? Porventura, se o meu amor por v. ex.^a
+não fosse uma d'aquellas paixões abrasadoras, violentas, em que fazemos
+consistir toda a nossa felicidade, iria eu pedir para elle o consenso do
+auctor dos seus dias?
+
+--V. ex.^a esqueceu ou não contou para nada com o meu coração. Era no
+emtanto a elle que v. ex.^a devia dirigir-se primeiro, creio eu...
+
+--Supponho-a tão bôa, tão pura, tão santa, que não duvidei um momento da
+bondade angelica com que acolheria as supplicas de um infeliz, sabendo
+que eu, infeliz, morro por v. ex.^a.
+
+--Por muito bondosa que eu lhe parecesse, nunca deveria suppôr-me tanto
+que me julgasse capaz de sacrificar o meu coração á sua felicidade, sr.
+Eugenio de Mello.
+
+--Quer dizer com isso que me despreza, que recusa o meu amor, que devo
+julgar para sempre perdida a felicidade, esmagado para sempre o meu
+coração?
+
+--Quero dizer-lhe, senhor, que preciso fallar-lhe com a lealdade e
+franqueza que devo a v. ex.^a e á minha dignidade de mulher. Se depois
+de me escutar, ainda persistir no seu proposito...
+
+--Consentirá em ser minha esposa?
+
+--É possivel.
+
+--Pois bem; falle! Diga-me v. ex.^a o que tem a dizer, porque eu anceio
+pelo momento de lhe poder dar uma prova cabal, irrecusavel, sublime, do
+meu amôr!
+
+--O que tenho a dizer-lhe, sr. Eugenio de Mello,--respondeu friamente
+Beatriz--é por tal modo grave e serio, requer tanto socego e reflexão
+que, aqui, n'esta sala, n'um curto momento de conversa, entre pessoas
+que fallam, tocam e cantam, mais poderia v. ex.^a dar-lhe peso e eu
+exprimir-me como desejo. Se lhe não fôr demasiado o sacrificio, rogo-lhe
+que venha ámanhã de dia, e então fallaremos. Já expressei a meu pae a
+necessidade que tinha de me entender com v. ex.^a sobre o assumpto em
+questão, e portanto a sua vinda a esta casa está perfeitamente
+auctorisada por elle.
+
+--Virei então ámanhã--disse Eugenio.--Mas, por Deus, não me roube a
+esperança de vir a chamar-lhe minha esposa, de vir a ser o seu escravo
+sendo ao mesmo tempo o mais feliz dos homens.
+
+Beatriz levantou-se, despedindo-o com um gesto.
+
+--Amanhã!--disse ella.
+
+Esta conversa passara-se por entre os olhares obliquos de Belchior e
+Custodio, que ambos, fingindo prestar grande attenção ás filhas da D.
+Thereza, não perdiam de vista Eugenio e Beatriz.
+
+Por volta das 11 horas, a viuva e as filhas do general deram o signal da
+retirada.
+
+A mulher e a cunhada do procurador despediram-se tambem.
+
+Já na rua, o Belchior, voltando-se para o Eugenio, perguntou:
+
+--E então?
+
+--Então... nada!
+
+--Pois você não lhe fallou em amor, não lhe disse que morria de paixão
+por ella?
+
+--Disse-lhe tudo isso, porque, verdade, verdade, eu não vim cá para
+outra coisa. Mas achei-a muito fria, muito reservada... Teima que me
+quer fallar amanhã, porque tem coisas muito sérias e muito graves a
+dizer-me...
+
+--Já sei. O que ella quer é namoro. Quer que você lhe cante a sós as
+lindas cantigas da sua paixão por ella e lhe jure mil vezes que a ha de
+amar até á morte...
+
+--Isso não são as coisas sérias e graves que ella tem para me dizer...
+Se me chama, não é para que eu lhe falle, é para ella me fallar a mim...
+Que quererá dizer-me?
+
+--Naturalmente que tem um namoro que a ama apaixonadamente e que, assim
+que souber que ella está para casar com outro, é capaz de se ir deitar
+da ponte abaixo--disse rindo o procurador.
+
+--Emfim, seja o que fôr. Amanhã virei fallar-lhe e saberemos o que ella
+quer...
+
+--Que diabo hade querer? Quer casar, quer-lhe apanhar a cortiça toda da
+sua quinta--porque julga que o pae está pobre e que não póde continuar a
+dar-lhe vestidos de seda... As mulheres são todas assim, meu amigo!
+
+--Não parece que seja isso--volveu Eugenio--Pelo contrario, supponho
+outra coisa...
+
+--O que?
+
+--Que a pequena cahiu em alguma falta grave e quer francamente
+confessar-m'a antes de casar...
+
+--Pois você suppõe?...
+
+--Não sei... Mulheres são mulheres...
+
+--Mas você, ainda que isso seja, não faz caso!...--preveniu o
+procurador, receioso d'escrupulos por parte do seu cumplice.
+
+--Bem me importa cá a mim! Perdôo... faço de generoso... O que se quer
+cá são os vinte contos...
+
+--E que o Custodio morra breve para vir a _maquia_
+completa!--accrescentou o Belchior.
+
+--Nem mais nem menos!
+
+Assim entendidos, ao outro dia, Eugenio apresentou-se em casa do
+Custodio.
+
+O usurario, informado do que se passava, simulou uma sahida a tratar de
+negocios, afim de facilitar a entrevista dos dois.
+
+Beatriz, pallida de commoção, saiu á sala de visitas a receber o
+mancebo.
+
+--Queira sentar-se, sr. Eugenio de Mello--disse ella gravemente,
+indicando-lhe uma cadeira--Pedi-lhe a fineza de me escutar a sós por
+alguns instantes, pois o que tenho a dizer-lhe não deve ser conhecido de
+mais pessoa alguma; e confio na sua honra de cavalheiro que saberá
+guardar absoluto sigilo sobre o que me ouvir...
+
+--Oh, minha senhora!--exclamou o mancebo--Amo-a tanto que, mesmo sem
+essa prevenção, guardaria avidamente no fundo da minha alma todas as
+suas palavras como um inestimavel thesouro!
+
+--E devem realmente valer para v. ex.^a um thesouro pela franqueza e
+lealdade que revestem. V. ex.^a, segundo creio, manifestou a meu pae o
+desejo de me tomar para sua esposa...
+
+--De novo peço perdão, se assim procedi, mas julguei que ninguem melhor
+do que elle podia ser interprete dos meus sentimentos junto de v.
+ex.^a... Nos tempos que vão correndo é tão frequente vêr-se um seductor
+abusar da hospitalidade de um homem de bem para lhe ludibriar uma filha,
+que eu julguei um dever de honra, antes de tudo, patentear a quem tão
+generosamente me acolhia as nobres e puras intenções do meu coração
+apaixonado! Se errei, v. ex.^a saberá perdoar-me o inconsiderando passo
+com que pude contrarial-a, em attenção aos honestos sentimentos que me
+moveram.
+
+--É v. ex.^a um homem de bem e por isso mesmo ha-de saber comprehender e
+avaliar os justos melindres que me forçaram a uma explicação clara,
+franca e leal da minha situação...
+
+--Dos labios de v. ex.^a está dependente a minha sorte, o meu futuro, a
+minha vida. Peço-lhe que falle como á pessoa que mais a ama e que mais
+ardentemente deseja merecer-lhe inteira confiança!
+
+--Pois bem; em primeiro logar, o meu coração já não está livre--disse
+Beatriz--Amo e sou amada com o sincero e vehemente amôr de duas almas
+irmãs que desejam unir-se no mesmo destino...
+
+Eugenio levantou-se de golpe, simulando uma muito bem fingida commoção.
+
+--Beatriz!--disse elle arrebatadamente tentando apoderar-se das mãos da
+joven--não posso crêr que haja no mundo quem a ame, quem a adore com o
+santo e fervoroso culto que o meu coração lhe tributa! É possivel que
+haja, e creio bem que haverá, quem renda o merecido preito á sua
+belleza, ás suas virtudes, á nobre e graciosa distincção de sua gentil
+figura. Mas amor puro, santo, sincero e vehemente como este que me agita
+o peito, que me rouba o socego e a tranquillidade e me faz sonhar
+constantemente na ventura de a possuir, de a ter por esposa, de lhe
+dedicar todas as horas da minha vida, todas as alegrias da minha
+existencia... oh, não! não é possivel! Diz-me que o seu coração não é
+livre... Creio bem que o seu coração a engana e toma como sincera
+expressão de verdadeiro amor um sentimento de mera sympathia, fugaz,
+passageiro, como são em geral todas as affeições que nascem de um olhar,
+de um sorriso, de um entretenimento de cartas amorosas, de uma troca de
+simples palavras murmuradas a mêdo no redomoinhar de uma walsa ou na
+mysteriosa entrevista de uma janella para a rua!
+
+--Engana-se, sr. Eugenio de Mello!--retorquiu Beatriz--Este amor que me
+prende o coração a outro coração, não é um d'esses caprichosos
+sentimentos de futil galanteio, que nascem n'um dia para morrerem no
+outro; é, pelo contrario, uma paixão verdadeira, profunda, sinceramente
+sentida e a que está indissoluvelmente presa para sempre a nossa
+existencia, o nosso destino...
+
+--Todavia--observou Eugenio com um sorriso levemente desdenhoso--essa
+declaração de v. ex.^a harmonisa-se bem pouco com as esperanças que me
+pareceu traduzir na resposta dada por v. ex.^a a seu pae e que elle me
+transmittiu ácerca do nosso enlace...
+
+--É justamente por isso que desejei fallar-lhe--volveu Beatriz, com
+altiva dignidade.--Quando meu pae me fez sciente das honrosas pretensões
+de v. ex.^a á minha mão, recusei terminantemente, dispensando-me de
+declarar os poderosos motivos que determinavam a recusa. Meu pae
+insistiu e eu reagi, pois não reconheço á auctoridade paterna o direito
+de dispôr do coração dos filhos para os obrigar a um enlace que só uma
+sentida affeição determina. Ameaçou-me com rigores, com violencias, com
+a sahida immediata de casa para um convento. Nada d'isso me intimidou
+nem me demoveu do meu proposito. A final, meu pae declarou-me com
+franqueza que o motivo da sua insistencia para que esta união se realise
+é o estado de ruina financeira em que se encontra e que de um momento
+para o outro ameaça deixar-nos sem tecto e sem pão. Chorou, lamentando a
+sua e a minha miseria, e declarou-me que, tendo posto toda a esperança
+de salvação n'este casamento, desde que eu o recusava, faria saltar os
+miolos com um tiro na cabeça e que a mim me ficaria o remorso de lhe ter
+causado a morte. Foi então que, para o socegar, prometti annuir aos seus
+desejos com a condição de que préviamente me seria permittido fallar com
+v. ex.^a. Eis tudo o que se passou e eis o que tenho a dizer-lhe:
+Quererá v. ex.^a acceitar por esposa uma mulher cujo coração pertence a
+outro e que unicamente,--unicamente, tome v. ex.^a nota--por salvar a
+vida de seu velho pae, faz o sacrificio da sua vida e do seu amor,
+acceitando o enlace que v. ex.^a lhe propõe?
+
+Eugenio ficou um momento indeciso ante a rude crueza d'esta inesperada
+pergunta que punha em cheque os seus brios d'homem, a tão apregoada
+dignidade dos seus sentimentos.
+
+--E v. ex.^a no meu logar o que faria?--disse elle por fim, respondendo
+com esta pergunta á pergunta que lhe fôra feita.
+
+--Pois que lhe fallo d'esta maneira, é porque não julgo acceitavel uma
+união em taes circumstancias.
+
+--N'esse caso, o que é que v. ex.^a exige de mim?
+
+--Tudo o que póde exigir-se d'um homem digno. Que v. ex.^a, guardando
+absoluto silencio sobre os motivos que acabo de expôr-lhe, simule
+reconsiderar e dê como irrealisavel a união que projectou.
+
+--Oh! isso nunca!--protestou vivamente o bohemio--Com que pretexto diria
+eu a seu pae que lhe rejeitava a mão da filha? Isso envolveria não só
+uma violencia cruel ao meu coração, como uma affronta gravissima á honra
+de v. ex.^a. E eu que a amo, eu que faço consistir toda a minha ventura
+na dita immensa de a ter por esposa, havia de ser o primeiro a lançar na
+reputação de v. ex.^a o stygma affrontoso de um repudio aviltante?!
+Repare v. ex.^a que isso é exigir-me mais que a propria vida!
+
+--Pois bem; não diga v. ex.^a que desiste inteiramente das suas
+pretensões a esta união impossivel; mas busque, pelo menos, um pretexto
+para o addiamento indefinido... Ser-lhe-ha facil pretextar embaraços
+emprevistos, uma viagem longa, demorada...
+
+--Quer v. ex.^a dizer que me afaste, que deixe de a ver, de lhe fallar,
+de viver na mesma terra em que v. ex.^a vive, de frequentar os mesmos
+logares que v. ex.^a frequenta, de respirar o mesmo ar que v. ex.^a
+respira!--exclamou o bohemio n'um fingido rapto de desesperada
+eloquencia--E emquanto eu, distante, na solidão e no abandono da minha
+retirada terra de provincia, curto as dôres e as amarguras de um amor
+sem esperança, fica um _outro_, um _outro_ a quem v. ex.^a ama, na posse
+feliz do seu coração, gosando tranquillo as suaves delicias do amor
+correspondido! É por demais cruel, minha senhora! E eu, francamente, não
+lhe mereço o atroz supplicio a que quer condemnar-me!
+
+Estas palavras foram proferidas com um mixto de indignação e amargura
+tal, que Beatriz não pôde deixar de córar, pensando que tinha sido
+demasiado impiedosa no seu egoismo de mulher apaixonada.
+
+--Peço perdão--balbuciou ella--mas propondo isto, eu parto do principio
+de que v. ex.^a, como homem digno, não póde pensar mais em que eu seja
+sua esposa e de que o meu nome deve, por esse motivo, ser para sempre
+banido da sua lembrança...
+
+--Oh, minha senhora! Como conhece mal o coração do homem que ama com o
+ardor e enthusiasmo com que eu amo a v. ex.^a!--exclamou cynicamente o
+bohemio.--Se antes de a ouvir eu tinha motivos para a desejar, para
+querer ser o possuidor unico de esse precioso thesouro d'encantos e
+perfeições que fazem de v. ex.^a a creatura mais adoravel do Universo,
+agora, depois de a ouvir, esses motivos redobram e impellem o meu
+coração a amal-a doidamente! V. ex.^a está pobre. Eu sou rico. Do meu
+casamento com v. ex.^a depende não só o seu futuro tranquillo e feliz,
+mas ainda a vida do seu proprio pae, esse amigo inestimavel a quem me
+prendem tantos laços de sincera affeição. Já não fallo de mim, do meu
+coração para sempre morto aos golpes crueis de uma desillusão sem
+esperança... Mas poderia eu, sem ser um miseravel cobarde, abandonar á
+pobreza e aos horrores do desespêro a mulher que amo e a vida do amigo
+que tanto préso? E tudo isto para quê? Para que um desconhecido, um
+homem que eu nunca vi, que não estimo, que não sei quem é, não seja
+perturbado nos seus caprichosos sonhos de uma felicidade que não tem nem
+póde dar!
+
+A estas palavras, Beatriz levantou-se pallida, e tremula, agitada por
+uma commoção indescriptivel.
+
+--Sr. Eugenio de Mello--disse ella com os olhos brilhantes de
+indignação--o homem de quem falla não pediu nada a v. ex.^a, nem eu quiz
+com as minhas palavras collocal-o sob a alçada dos seus juizos
+temerarios. Não se trata d'elle: trata-se de mim, trata-se de nós. V.
+ex.^a persiste na ideia d'este casamento, não obstante saber que amo
+outro homem e que só por salvar a vida de meu pae é que eu poderia
+consentir em conceder-lhe a mão de esposa?
+
+--Se eu a amo tanto! Se eu a adoro e espero que á força de dedicação e
+de sacrificios hei-de fazer-me tambem amar por v. ex.^a!
+
+--Nunca! Nunca!--protestou Beatriz--Mulheres como eu, amam uma só vez na
+vida e só podem pertencer d'alma e coração ao homem a quem se dedicaram.
+
+Nos labios de Eugenio volitou um sorriso ironico.
+
+--V. ex.^a é livre, minha senhora--replicou elle--Póde impunemente matar
+seu pobre pae e matar-me tambem a mim com a sua recusa... O que não
+conseguirá é fazer-me cumplice n'esse parricidio e tampouco que eu
+acceite voluntariamente a morte a que me condemna, em premio de tanto
+amor que lhe consagro.
+
+Beatriz encarou-o fixamente. No seu olhar havia um desprezo mortal, uma
+d'estas condemnações terriveis que cavam um eterno abysmo de odio entre
+dois sêres.
+
+--Tenho entendido, senhor--disse ella em tom breve e secco--Preciso de
+meditar nas suas palavras antes de dar uma resposta definitiva. Meu pae
+o informará da minha resolução.
+
+Inclinou a cabeça ligeiramente, n'um movimento de despedida, e sahiu da
+sala com altiva serenidade.
+
+--Tens cabellinho na venta--disse comsigo o bohemio, descendo as escadas
+que conduziam ao escriptorio do Custodio--mas, se me caes nas mãos, eu
+te porei macia que nem velludo!...
+
+No escriptorio estavam já o Custodio e o Belchior, anciosos por saberem
+o que se estaria passando entre Beatriz e Eugenio.
+
+Quando o mancebo appareceu á porta, os olhares dos dois patifes
+cravaram-se perscrutadores no rosto do bohemio.
+
+--Então?--perguntaram ao mesmo tempo.
+
+--Quartel-general em Abrantes. Tudo como d'antes.
+
+--Mas o que disse ella?--insistiu o Custodio.
+
+--Contou-me toda a scena da pobreza que o meu amigo lhe metteu em
+cabeça; disse-me que amava outro homem, e que só pelo receio de que o
+meu amigo se matasse é que condescendeu em dar esperanças d'acceitar o
+casamento. Queria que eu desse o dito por não dito, que desistisse de a
+querer para esposa...
+
+--Mas você nem _nentes_!--atalhou o Belchior ancioso por se inteirar de
+tudo.
+
+--Está visto! Recusei, porque a amo, porque a adoro sinceramente, e você
+amigo Belchior bem sabe se isto é verdade...
+
+--E ella?--interrogou o Custodio.
+
+--Despediu-me dizendo, que, visto isso, ia pensar e depois daria
+resposta definitiva...
+
+--Amigo Custodio!--disse o Belchior, batendo familiarmente no hombro do
+usurario--o caso agora é comsigo... Aperte-me a pequena... torne a
+representar a scena da pobreza até ella dizer que sim... Tenha pena
+d'este pobre diabo, que anda aqui pelo queixo!...
+
+--Não tem duvida!--aquietou o Custodio--Ella ha de ir... O que eu quiz
+foi apanhar-lhe o _fraco_... Se fôr preciso, até dou um tiro para o ar,
+a fingir que me mato... E ella ha de ir!...
+
+
+
+
+VIII
+
+Entre irmãos
+
+
+Paulo de Noronha, depois que se filiara na _Mão-Negra_, não obstante
+saber que um rival lhe disputava a posse de Beatriz, alimentava a
+esperança bem fagueira de conquistar em breve uma posição que lhe
+permittisse apresentar-se a Custodio a pedir-lhe a mão da filha.
+
+Preoccupava-o, porém, a ideia de que sobre o seu nascimento pesava um
+mysterio que elle não sabia explicar e que o havia de collocar em
+terriveis embaraços, quando o pae da Beatriz muito naturalmente lhe
+perguntasse o nome de seus paes.
+
+O pobre rapaz não conhecia o usurario. Suppunha-o um homem honesto,
+buscando para a filha uma alliança _limpa_, e o sigillo que o padre
+Filippe e madre Paula se obstinaram em guardar ácerca d'aquelles a quem
+devia a existencia, fazia-o tremer pelos resultados da pergunta a que
+não podia responder.
+
+Elle ignorava que Beatriz tambem não tivera nascimento legitimo e que,
+se podia apresentar-se como filha de um homem que a perfilhara, esse
+homem não era seu pae.
+
+O padre Filippe aconselhara-o a que revelasse a madre Paula os segredos
+do seu coração e ouvisse os conselhos que ella maternalmente entendesse
+dever dar-lhe.
+
+Mas se o padre Filippe se retrahia e teimava em não o elucidar ácerca do
+seu mysterioso nascimento, o mancebo julgou, e com razão, que madre
+Paula tambem nada mais adiantaria a esse respeito.
+
+Não procurou, pois, madre Paula e preferiu procurar o seu amigo Jorge, o
+mesmo que o iniciára nos mysterios da _Mão-Negra_.
+
+--Posso fallar-te com franqueza, não é verdade, Jorge?--perguntou-lhe
+elle.
+
+--Como se fallasses a um irmão--replicou o outro--Desde hontem que nos
+achamos ligados indissoluvelmente pelos laços de uma associação secreta
+em que é condição essencial que os filiados se considerem e se amem como
+verdadeiros irmãos.
+
+--Pois muito bem. Vou fallar-te como a um irmão e espero que como tal
+prestarás attenção ao que vou dizer-te.
+
+--Falla.
+
+--Como te expliquei, amo uma mulher que é todo o meu pensamento, todo o
+meu sonho, toda a grande aspiração da minha vida!
+
+--Já m'o disseste.
+
+--Essa mulher corresponde com lealdade e com ardor ao sentimento
+affectuoso que me inspirou. Mas tem pae, um homem rico, um argentario
+que busca para a filha uma alliança vantajosa, alliança de dinheiro, e
+que ha de necessariamente repellir-me com desdem, quando souber que eu,
+simples academico, apenas rico d'esperanças no futuro, lhe pretendo a
+mão da filha...
+
+--Mas--objectou Jorge--que necessidade tens de que elle o saiba antes de
+haveres conquistado a posição que te ha de permittir constituir familia?
+
+--A necessidade está bem patente desde que elle pensa em casar Beatriz
+com um rapaz rico, que se apresenta como pretendente á sua mão.
+
+--Ah! ah!--fez Jorge--E a pequena?
+
+--Tenciona oppôr a mais tenaz recusa. Mas o pae é rispido, severo, chega
+mesmo a ser brutal... É capaz de querer impôr pela violencia este enlace
+e, comquanto eu não receie pela firmeza e constancia de Beatriz, receio
+comtudo pelos maus tratos e soffrimentos que o pae é capaz de lhe
+inffligir...
+
+--Não estamos em terra de selvagens--replicou Jorge sorrindo.--Como se
+chama esse _amavel_ progenitor?
+
+--Custodio de Jesus....
+
+--Mora?
+
+--Na rua do Principe.
+
+--E o outro?
+
+--Qual outro?
+
+--O teu pretendido rival?
+
+--Não o conheço. Sei apenas que se chama Eugenio de Mello.
+
+--Eugenio de de Mello... É do Porto?
+
+--Não; supponho que é um rico proprietario na provincia.
+
+--Já _entrado_ na edade, não?
+
+--Pelo contrario. É novo ainda. Bem vês que lhe chamei um rapaz.
+
+--Os homens ricos são sempre _rapazes_ em questão de casamento... A
+mocidade tem para elles a duração do seu dinheiro...
+
+--Mas este, mesmo pobre que fôsse, seria ainda rapaz.
+
+Jorge tomou apontamento d'estes nomes n'uma carteira.
+
+--Muito bem!--disse elle--Urge, antes de tudo, conhecer os adversarios
+com quem temos que medir-nos... Eu vou obter informações e veremos
+depois o que convem fazer...
+
+--Mas poderei ao menos alimentar esperanças?...
+
+--Dou-te a certeza de que esse casamento não se fará e de que Beatriz
+não será maltratada pelo pae...
+
+--Obrigado, meu amigo, meu irmão!--exclamou Paulo, cahindo-lhe nos
+braços.--Escuta ainda,--continuou. --Preciso de te dizer tudo. Entre nós
+não deve haver segredos...
+
+--Falla, meu irmão!
+
+Paulo hesitou um instante. A face roborisara-se-lhe de vergonha.
+
+--Chamas-me _irmão_--e comtudo eu creio que não posso ser irmão de
+ninguem.
+
+--Porque?
+
+--Porque não tenho pae nem mãe, porque eu mesmo, sabendo o que sou,
+ignoro quem sou!
+
+Contou-lhe então o desespero em que se debatia por não conhecer o
+segredo do seu nascimento. Conhecia apenas o padre Filippe e madre Paula
+como seus protectores, ignorando comtudo porque serie de circumstancias
+se encontrava sob a tutella d'aquelles dois religiosos, recebendo toda a
+protecção e amparo.
+
+--Vê tu, pois, meu amigo, as terriveis circumstancias em que me
+encontro!--concluiu elle desalentado.--Ainda que me encontrasse de um
+momento para o outro em circumstancias de pedir Beatriz, como poderia eu
+fazel-o não sabendo o nome de meus paes?
+
+--Os irmãos da _Mão-Negra_--disse Jorge gravemente--são todos filhos do
+mesmo pae--o Pensamento Altruista que os reuniu e congregou, e da mesma
+mãe--a Associação Invencivel que os protege e lhes dá força. Com
+semelhante parentesco qualquer de nós póde considerar-se
+sufficientemente nobilitado para aspirar á mão da mais nobre e rica
+princeza do mundo, quanto mais á de uma simples burguesinha, filha de um
+rico burguez chamado Custodio de Jesus!
+
+--Não duvido da grandeza e poder da nossa Associação, meu amigo; mas,
+pelo caracter secreto que a reveste, o facto de pertencer-lhe não
+constitue titulo, que possamos apresentar publicamente, em abono da
+origem honesta do nosso nascimento...
+
+--O homem--volveu Jorge--creatura de Deus, não póde ser jamais
+responsavel por actos que não praticou nem estava na sua mão impedir.
+Tanta culpa teve elle em nascer filho do mais infimo ladrão, como gloria
+em descender do mais poderoso monarcha da terra. Filho d'um criminoso ou
+filho de um rei, elle é sempre um homem _igual aos outros_ e d'elles só
+póde distanciar-se pelos seus talentos e virtudes proprias, ou ser-lhes
+inferior pelas suas abjecções e pelos seus crimes.
+
+--Ah! meu amigo! que bella e sã doutrina seria essa, se todos os homens
+a comprehendessem assim!
+
+--Para isso trabalhamos e nem outro é o pensamento que nos une. Temos de
+luctar, bem sei, contra o preconceito, contra o prejuizo de muitos
+seculos, contra a _rotina_--que é a famosa trincheira erguida a impedir
+a marcha do aperfeiçoamento moral da humanidade. Mas se não houvesse
+lucta, não seria tão glorioso o triumpho nem teria tanto valor a
+conquista.
+
+Dizendo isto, Jorge apertou a mão a Paulo e despediu-se, deixando o
+mancebo mais tranquillo e confiado no futuro.
+
+Sigamos Jorge e vejamol-o bater á porta de uma casa de modesta
+apparencia, na rua de S. Bento da Victoria...
+
+É um predio de dois andares, que nada tem de notavel e que quasi se
+confunde na linha de casas modestas, senão pobres, que se erguem do lado
+nascente d'aquella rua, em frente á Relação, desde a esquina dos
+Martyres da Patria até á travessa de S. Bento da Victoria.
+
+Posto fosse de dia, a porta principal d'esse predio permanecia fechada.
+Mas logo que Jorge bateu abriu-se, franqueando-lhe a passagem.
+
+Todavia, no portal não appareceu pessoa alguma, e assim que o amigo de
+Paulo transpoz a entrada, tornou a fechar-se sem que alguem a
+impellisse.
+
+Jorge, que parecia familiarisado com estes estranhos habitos da casa,
+penetrou no corredor escuro do portal e subiu o primeiro lanço das
+escadas até ao primeiro andar.
+
+Chegando ahi, parou em frente da porta de uma sala que ficava para o
+lado das trazeiras do predio e pronunciou em latim:
+
+--_Licet?_
+
+--Entrae!--disse de dentro uma voz.
+
+Jorge empurrou a porta e entrou n'uma sala, ao centro da qual se via uma
+ampla mesa de carvalho, coberta de livros e papeis e a que estava
+sentado um homem, de roupas escuras e oculos verdes. A longa barba
+grisalha que lhe descia até ao peito dava-lhe um aspecto de patriarca
+biblico, que infundia respeito e terror a quem pela primeira vez se
+encontrava na sua presença.
+
+Rodeado de livros que se viam espalhados pelo chão, em cima das cadeiras
+e collocados em desordem nas estantes que cobriam as paredes, desde o
+soalho até ao tecto, não era preciso grande esforço de intelligencia
+para desde logo comprehender que se estava em presença de um homem de
+estudo, sabedor e profundo.
+
+Jorge foi passando peio estreito carreiro que se abria entre rumas de
+livros, da porta até á mesa, fazendo prodigios de equilibrio para não
+pôr os pés sobre os volumes que lhe obstruiam a passagem.
+
+--É preciso estar na graça de Deus e ter azas como os cherubins--disse
+elle rindo--para entrar no vosso sanctuario, sem pisar aos pés a
+sciencia, Mestre!
+
+O homem dos oculos verdes ergueu a cabeça, fitou-o por trás dos oculos e
+respondeu grave e pausado:
+
+--Só a sciencia vã cahe por terra e desapparece esmagada pelo pé
+inclemente do homem, na sua marcha para o Bem, para a Verdade e para a
+Justiça. A verdadeira sciencia, porém, não sente mais o pezo de um pé
+que se lhe põe em cima do que a torre dos Clerigos o pezo de uma môsca
+que vá pouzar-lhe no pára-raios.
+
+Indicou uma cadeira desoccupada que se achava junto da sua, e disse ao
+recem-chegado:
+
+--Sentae-vos, meu amigo. Já cá vos esperava e estava estranhando a vossa
+demora...
+
+--Mestre--respondeu o outro--teria vindo mais cêdo, se um caso novo, de
+que urge tratar, me não tivesse tomado o tempo.
+
+--Um caso novo! O que temos, pois?
+
+--Uma injustiça grave, uma monstruosidade revoltante de que se pretende
+fazer victima um dos irmãos da _Mão-Negra_.
+
+--A _Mão Negra_ tem já força e poder bastante para desviar de sobre a
+cabeça de seus _irmãos_ a iniquidade e a injustiça dos homens, por muito
+alto que elles estejam collocados. De que se trata?
+
+--Do ultimo iniciado no nosso gremio, de Paulo de Noronha...
+
+--Ah! O que lhe succede?
+
+--Este rapaz ama uma mulher, que corresponde ardentemente ao seu amor. O
+pae d'ella, porém, rico capitalista, pretende violental-a a casar com um
+herdeiro rico, que ella não deseja nem estima.
+
+--E sabe elle dos amores da filha com Paulo?
+
+--Não o deve saber, pois que este nosso _irmão_, movido de honestos e
+nobres intuitos, não se julga auctorisado a tornar ostensivos os
+sentimentos amorosos do seu coração, emquanto não houver conquistado uma
+posição social que lhe permitta pedir a mão da mulher que ama.
+
+--O que deseja elle então? Que lhe conquistemos a posição de que
+precisa?
+
+--De modo nenhum. Paulo tudo espera do seu esforço proprio. Simplesmente
+o que desejaria era que a mulher que ama e em que faz consistir toda a
+sua ventura não fosse compellida a unir-se a um outro.
+
+--Está na mão d'ella. Que recuse.
+
+--Mas a recusa, Mestre, importa o supplicio da pobre menina, e é isso o
+que Paulo pretende evitar.
+
+--Pois bem. A _Mão-Negra_ cumprirá o seu dever. Como se chama o pae
+d'essa menina?
+
+--Custodio de Jesus?
+
+--E o pretendido noivo?
+
+--Eugenio de Mello.
+
+--Cumpre, antes de tudo, averiguar quem sejam esses dois homens;
+conhecer-lhes a biographia, saber porque serie de circumstancias vieram
+a encontrar-se e a alliar-se para uma violencia d'essa ordem.
+
+--Assim entendo que deve ser; e se vós, Mestre, não ordenaes o
+contrario, eu mesmo me encarregarei do todos esses trabalhos.
+
+--Pois que assim o quereis, nada impede que procedaes. Conheceis todos
+os _irmãos_ que podem prestar-nos auxilio. Recorrei a elles, e colhidas
+as informações, procederemos como fôr de justiça.
+
+Jorge inclinou-se.
+
+--Temos ainda mais--disse elle.
+
+--O quê?
+
+--Paulo não conheceu seus paes, e ignora por completo o segredo do seu
+nascimento...
+
+--Que póde isso importar-lhe? Se os que lhe deram o sêr o repudiaram,
+que tem o filho que vêr com os paes que o não quizeram ser?
+
+--Perdão, Mestre! É essa a grande duvida e portanto o grande tormento do
+pobre rapaz... Paulo não pode dizer-se um _abandonado_... A sua infancia
+correu sob a protecção carinhosa de dois religiosos, um padre e uma
+freira, e ainda agora são elles os que occorrem, como sempre, a todas as
+despezas da sua educação scientifica.
+
+--Conhece elle esses protectores?
+
+--Conhece-os e dedica-lhes verdadeira affeição filial!
+
+--N'esse caso, porque não pensa esse rapaz que pódem ser elles os seus
+proprios paes?
+
+--Não são, porque madre Paula foi sua madrinha e o padre Filippe não usa
+o appellido Noronha...
+
+--Madre Paula e padre Filippe, dizeis?--interrogou o homem dos oculos
+verdes com um leve tremôr na voz.
+
+--Sim. São estes religiosos os protectores de Paulo de Noronha.
+
+O homem a quem Jorge dava o respeitoso tratamento de _Mestre_, cruzou os
+braços, inclinou a cabeça sobre o peito e ficou por algum tempo immerso
+em profunda reflexão.
+
+Dir-se-hia que os nomes de madre Paula e padre Filippe lhe tinham
+despertado tristes recordações, porque, ao levantar a cabeça e
+reprimindo a custo um fundo suspiro, disse, mal disfarçado ainda o
+tremor da voz:
+
+--Pensaremos n'isso, veremos se será conveniente indagar a verdadeira
+origem d'esse rapaz.
+
+Depois accrescentou:
+
+--Ha mysterios de tal modo tenebrosos na vida do homem, que ás vezes
+mais vale não querer desvendal-os nunca... Ide, e deixae-me só, meu
+amigo.
+
+Jorge levantou-se.
+
+--Amanhã--disse elle--deve reunir o capitulo e lá nos encontraremos á
+hora do costume. É possivel mesmo que d'aqui até lá eu tenha podido
+obter os esclarecimentos que desejamos ácerca de Custodio de Jesus e de
+Eugenio de Mello.
+
+--Se assim acontecer--replicou o homem dos oculos verdes--poderemos
+deliberar em capitulo o que convirá fazer.
+
+Jorge inclinou-se e sahiu com as mesmas precauções com que havia entrado
+para não calcar com os pés os livros dispersos pelo sobrado.
+
+Ao vel-o sahir, o homem dos oculos fincou os cotovellos sobre a mesa,
+encostou a fronte ás mãos e ficou assim por largo tempo, engolfado em
+profundo scismar.
+
+--Madre Paula e padre Filippe!--disse elle por fim.--Porque
+extraordinario acaso se encontram estes dois nomes ligados á existencia
+d'esse adolescente que usa o mesmo appellido da _Irmã Dorothêa_?
+
+Pegou de uma penna e traçou algumas palavras em um papel que dobrou por
+fim cuidadosamente, lacrando-o em seguida.
+
+Depois, abriu a gaveta da mesa e tirou d'ella um grosso volume
+encadernado a preto, que abriu e começou folheando.
+
+As paginas d'este livro estavam todas em branco. No emtanto, o
+mysterioso personagem ia volvendo-as com um sorriso amargo a vincar-lhe
+os labios, como se do fundo branco d'aquellas folhas resaltasse um
+pensamento negro.
+
+Chegando ao ponto em que uma fita preta, intercalada nas folhas, punha
+uma especie de signal, o novo personagem, fez saltar a mola de um
+tinteiro em fórma de caixa, pegou de uma penna de pato, que molhou
+n'esse tinteiro, e começou escrevendo vertiginosamente. Ao passo, porém,
+que a penna ia traçando as palavras, estas iam-se apagando rapidamente;
+retomando o papel a sua brancura immaculada.
+
+É que o homem dos oculos verdes escrevia com tinta sympathica.
+
+Que mysteriosos pensamentos lançaria elle n'aquelle papel que os
+guardava discreto, como um vasto mar guarda no fundo os coraes e as
+perolas, as algas e os peixes que o povoam, sem que a esmeraldina
+superficie das suas aguas denuncie a existencia dos thesouros que elle
+occulta no seio?
+
+
+
+
+IX
+
+Amores faceis
+
+
+Eugenio de Mello, deixando o procurador e a familia, seguiu pela rua de
+Cedofeita, subiu á rua dos Bragas, desandou á rua da Sovella e, passando
+o Campo da Regeneração, entrou na rua da Rainha.
+
+O relogio da Lapa fazia soar uma hora da madrugada quando o bohemio
+parou em frente de uma casa de um unico andar, construcção moderna, em
+que se notava decencia e bom gosto.
+
+Eugenio tirou uma chave do bolso, introduziu-a na fechadura, abriu a
+porta e entrou. Subiu os quatro degraus de pedra que davam accesso ao
+corredor, sem que o ruido dos passos abafados no tapete parecesse dever
+chamar a attenção do dono ou dona da casa.
+
+Mas o bohemio era sem duvida esperado, porque a meio do corredor
+abriu-se uma porta e appareceu no limiar uma gentil figura de mulher,
+trazendo na mão um castiçal de prata em que ardia uma vela.
+
+--És tu, Eugenio?
+
+--Sou eu, minha querida!
+
+O bohemio aproximou-se da formosa dama que assim lhe fallava,
+acariciou-lhe amorosamente os longos cabellos louros, esparsos sobre o
+fino roupão de velludo granada que lhe cingia o corpo airoso, e beijou-a
+longamente nos labios.
+
+--Demorei-me, não é verdade?--perguntou elle, lançando-lhe um braço á
+roda da cintura e conduzindo-a para o interior da saleta d'onde ella
+havia surgido.
+
+--Principiava a desesperar-me... Imaginei que já não virias e pensava na
+maneira de te castigar bem castigado pelo teu abandono!
+
+--Louquinha! Pois tu pensavas em fazer mal ao teu Eugenio, que tanto te
+quer, que tanto te adora?!
+
+--Que queres! O ciume começava a atormentar-me! Lembrava-me que estavas
+talvez nos braços de outra, esquecido da tua Leonor, que só é feliz
+quando te vê, quando te tem a seu lado!
+
+A formosa creatura que Eugenio chamára Leonor, pousou o castiçal sobre
+um velador de pau ébano que ficava ao lado do marmore do fogão, e
+lançando os braços ao redor do pescoço do mancebo, sorveu-lhe nos
+labios, com verdadeiro frenesi, um segundo beijo, mais lento e
+voluptuoso que o primeiro.
+
+--Mas tu não estiveste com outra, não?--disse n'um gemido em que havia
+receio e esperança, supplica e perdão.
+
+--Que ideia! Estive com uns amigos, de quem não pude ver-me livre...
+
+--É que eu amo-te tanto que, quando não te vejo, penso sempre que te
+perco, que não voltas mais ao pé de mim, que me esqueces, que foges com
+outra para nunca mais!
+
+Eugenio ria.
+
+--Descança, meu amor... Quem é que me ha de querer? Não vês que eu sou
+tão infeliz, tão desgraçado, que não tenho ninguem no mundo que devéras
+me estime senão tu?
+
+--E tambem de ninguem mais precisas!--disse com vehemencia a dama
+loura.--Não estou eu aqui para te rodear de carinhos, de ternura, de
+affectos que só eu sei tributar-te? Não preencho eu todas as
+necessidades do teu coração, todas as ambições da tua existencia? Não
+faço eu por adivinhar os teus pensamentos, por satisfazer os teus
+desejos, as tuas mais caprichosas phantasias? De quem mais precisas para
+ser feliz, meu amado, meu querido e doce sonho d'amor?!
+
+--Decerto, decerto, minha querida amiga!--fez Eugenio, suspirando.--Eu
+seria feliz, muito feliz comtigo, seria o mais ditoso dos homens se...
+
+E interrompeu-se suspirando.
+
+--Se quê? Anda, acaba!
+
+--Se fosses minha sómente... se eu fosse rico bastante para não
+consentir que outro partilhasse os teus affectos...
+
+--Mas eu não o amo!--protestou a dama loura.--Bem sabes que o não amo,
+Eugenio! Recebo-o com desdem, supporto-o com sacrificio, porque d'elle
+me vem o teu e o meu bem estar... E cada prova que elle me dá do seu
+amor, cada manifestação da sua ternura, mais accrescenta o meu tedio e o
+meu despreso por elle!
+
+--Ah! se eu fôsse rico--tornou a suspirar o bohemio--com que prazer eu o
+correria a pontapés d'esta casa para fóra, e com que deliciosa furia eu
+quebraria todos estes crystaes, rasgaria estes tapetes, reduzindo tudo a
+cacos, tudo a farrapos, para só salvar de todo este montão de ruinas,
+puro e intacto, o adorado coração da minha pobre Leonor!
+
+Levantou-se agitado, passando frenetico as mãos pelos cabellos, n'uma
+attitude de heroe de melodrama.
+
+Leonor correu a elle, apoiou-lhe nos hombros as mãos alvas e pequeninas,
+em cujos dedos lusiam brilhantes, supplicando:
+
+--Então! Vá! Não sejas louco!... Isto ha de acabar um dia... Bem sabes
+que elle é velho... não póde durar muito... E como promette
+contemplar-me no testamento, ainda nos esperam dias muitos felizes...
+
+--Dias muito felizes!--repetiu o bohemio com desanimo, deixando-se cahir
+de novo sobre o estofo do sofá.--Antes d'isso hei-de eu morrer de
+desespero!
+
+--Morrer!--exclamou a loura, cobrindo-o de cariciosos beijos.--Não me
+falles em morrer, se és meu amigo, Eugenio! És novo, forte e vigoroso e
+receias que um velho dure mais que tu?!
+
+--Não! eu não temo que a morte me colha antes do tempo... Mas tenho um
+vago presentimento de que serei eu que hei-de ir ao encontro da morte...
+Ás vezes, para certos desgraçados como eu, a unica felicidade possivel
+n'este mundo só existe na paz da sepultura!
+
+--Jesus! que funebre vens hoje! Não tens dinheiro, aposto!
+
+--O não ter dinheiro é o menos... Desde que rompi com a minha familia,
+que quiz por força tolher o meu destino, anniquilar o meu futuro,
+habituei-me ás privações inevitaveis que resultam de uma mezada, que
+minha mãe me manda ás escondidas de meu pae... Mas o peor não é isso...
+o peor são as decepções, os desenganos que todos os dias um homem nas
+minhas circumstancias está recebendo de amigos que o conhecem e que
+nunca deviam ser os primeiros a humilhál-o.
+
+--Mas o que foi? Conta-m'o, filho!--supplicou Leonor com interesse.
+
+--Para que hei-de eu affligir-te com coisas que não pódes remediar?
+Fallêmos antes de ti, do nosso amor, tão puro e tão ardente que, se não
+fôra elle, já ha muito eu teria acabado com este negro fadario!
+
+--Não, não! quero saber... Anda, falla!--insistiu ella amorosamente.
+
+Eugenio passou a mão pelos cabellos, sacudiu a cabeça com um fundo
+suspiro e principiou contando, em tom de confidencia:
+
+--Quando eu vivia ainda em casa de meus paes e dispunha de todo o
+dinheiro que me era preciso para satisfazer todos os meus caprichos,
+todas as minhas loucas phantasias, tinha amigos que todos os dias e
+todas as horas me protestavam uma eterna dedicação, uma amizade sem
+limites... Oh! como eu os tenho conhecido agora, na adversidade, esses
+falsos e indignos amigos, esses canalhas, esses biltres, esses
+miseraveis!
+
+O bohemio interrompeu-se para verberar indignado com estas apostrophes
+violentas uns amigos que nunca teve.
+
+--Vamos! Não te afflijas!--aquietou em voz dôce a carinhosa e ingenua
+Leonor.
+
+--Um d'estes, um dia, a meu pedido, consentiu em valer a um pobre rapaz,
+nosso novo companheiro de rapaziadas, emprestando-lhe trezentos mil
+reis, que o infeliz tinha desviado da casa commercial em que servia como
+empregado, achando-se na dura contingencia de entrar para a cadeia, se
+não apresentasse esta quantia. O pobre moço apaixonara-se por uma actriz
+e, arrastado pelo amor, alcançara-se n'aquella importancia. Veio ter
+commigo afflicto, contando-me a sua desgraça e pedindo-me que lhe
+valesse. N'essa occasião, infelizmente, eu não podia dispôr do dinheiro,
+porque tinha perdido em uma só noite perto de um conto de réis. Mas como
+a todo o custo queria salvar a reputação e o futuro do pobre rapaz,
+lembrei-me de escrever ao tal amigo de quem fallo, pedindo-lhe que
+abonasse elle aquelle dinheiro sob minha responsabilidade.
+
+--Generoso coração!--exclamou a loura, envolvendo-o n'um olhar
+ternissimo, em que havia um mixto de sensualidade e de respeitosa
+veneração.
+
+O bohemio continuou:
+
+--Valeu-se ao rapaz, que continuou desempenhando o seu logar, sem que
+nunca ninguem, suspeitasse a sua falta, até que um dia, poucos mezes
+depois, foi colhido pela febre typhoide e morreu... Tive muita pena
+d'elle!
+
+--Coitado! Esse rapaz era infeliz,--commentou ingenuamente a loura, mais
+por comprazer ao amante do que por se sentir movida á compaixão.
+
+--Era! Era muito infeliz!--suspirou o bohemio.--Como elle morreu, é
+claro que não pode pagar...
+
+--Não deixou nada?
+
+--Deixou dividas o infeliz! Poucos mezes depois, meu pae queria
+obrigar-me ao casamento com uma minha prima de que te fallei e que eu
+detestava e detesto! Eu recusei-me, elle irritou-se e mandou-me sahir de
+casa. Sahi. E calculas que eu, que até alli era o _menino bonito_ da
+familia, fiquei de repente reduzido a uma magra mezada que minha pobre
+mãe me manda ás escondidas de meu pae, porque elle, de cada vez mais
+enfurecido contra mim, teima em não me dar um real...
+
+--Cruel pae!
+
+--Retirei então para o Porto, para esta terra onde ninguem sabe quem
+sou, para não dar ás pessoas que me conheciam o desagradavel e triste
+espectaculo da minha decadencia, da minha, triste e apertada situação...
+
+--Era o destino que te chamava e te impellia para mim, meu amor!
+
+--Pois sim... era! Mas por essa ventura que a sorte me deparou, quantas
+amarguras, quantos dissabores, quantos crueis desenganos! Este amigo de
+quem te fallo, este indigno, que é rico, que está altamente collocado, e
+que sabe a difficil situação em que me encontro, tem-me escripto mais
+que uma vez a pedir-me o reembolso dos trezentos mil reis, que elle sabe
+que eu não utilisei, que não foram para mim e que não posso pagar n'esta
+occasião! Escrevi-lhe a expôr-lhe a minha má situação e a pedir-lhe que
+não me apertasse por uma divida que, por emquanto, me é impossivel
+solver. Pois este miseravel, este infame ameaça-me com os jornaes, se eu
+não lhe mandar na volta do correio os trezentos mil reis! O biltre! o
+canalha! E é capaz de o fazer, desacreditando-me, cobrindo-me de
+opprobrio e de vergonha aos olhos de todo o mundo, sem ter em
+consideração que eu um dia hei de ser rico e que basta que de hoje para
+amanhã morra minha tia Quiteria, que é doida por mim, e que me deixa
+tudo por sua morte, para eu poder atafulhar-lhe de contos de reis a
+guela ignobil!
+
+Dito isto com o calor e a convicção que põem nas mentirosas phantasias
+todos os intrujões que fazem officio de o ser, o bohemio tornou a
+levantar-se de repellão, passeando agitadamente pela sala.
+
+--E é que, se elle cumpre a ameaça, eu sou um homem perdido! Sou um
+homem perdido, porque vou ter com elle, metto-lhe uma bala na cabeça e
+depois acabo com a vida, dou um tiro n'um ouvido!
+
+--Eugenio! meu Eugenio!--exclamou afflicta a loura Leonor--não penses em
+fazer tolices...
+
+--Como queres tu, meu anjo, que eu continue a viver depois de ter
+soffrido este horroroso ultraje? Homem honrado, antes morto do que
+injuriado! E eu não posso... não posso com esta ideia de me vêr
+offendido por um homem que se dizia meu amigo! Ah! eu só queria ter os
+trezentos mil reis para lhe atirar com elles á cara e dizer-lhe: «Ahi
+tens, miseravel! Eugenio de Mello é mais nobre na sua pobreza, do que
+tu, infame, em todo o teu fastigio de homem rico!»
+
+--E assim lhe dirás, meu amigo!--exclamou fremente de indignação a
+apaixonada loura.--Não será por trezentos mil reis que esse canalha,
+quem quer que elle é, ha-de desacreditar o meu Eugenio... Os trezentos
+mil reis tel-os-has amanhã.
+
+--Oh! mas eu não posso acceitar...--recusou o bohemio, em cujos olhos
+fulgiu um raio de alegria.--Tens feito tantos sacrificios por mim...
+Devo-te já tantas provas de ternura e carinhosa dedicação, que não devo
+consentir em que te sacrifiques mais...
+
+--Cala-te, não sejas creança!--interrompeu Leonor, pondo-lhe a pequenina
+mão na bocca para o impedir de continuar.--O meu maior prazer, a minha
+maior felicidade n'este mundo seria dar a vida para te ver contente e
+feliz!
+
+--Como és boa e como eu te adoro!--exclamou Eugenio, cingindo-a
+ardentemente nos braços com amoroso impulso.
+
+Não devemos nem é justo deixar mais tempo o leitor sem a explicação que
+esta scena extraordinaria requer.
+
+Em poucas linhas se resume a vulgar e triste historia d'estes abjectos e
+sujos amores.
+
+Leonor era uma creatura plebeia, divinamente esculptural, que um velho
+commendador--o sr. commendador Garcia--encontrára um bello dia á sahida
+da loja da modista onde a pobresinha picava os dedos afilados e bonitos,
+a preço de tres tostões por dia.
+
+O commendador Garcia, picado tambem pela belleza provocante da rapariga,
+começou a sentir-se apaixonado por ella, e a tal ponto, que offereceu
+envolvel-a em sêdas e velludos, recamal-a de perolas e brilhantes, se
+ella lhe cedesse a elle, commendador, os graciosos encantos da sua
+mocidade e da sua gentileza em vez de os desperdiçar no provavel
+matrimonio com algum pobre operario faminto e honrado.
+
+Leonor ouviu os conselhos auctorisados de uma comadre experimentada em
+varios lances d'esta natureza e ao cabo de poucos dias, sentindo-se
+abalada nos seus escrupulos de mulher honesta, acceitou o dinheiro do
+generoso commendador.
+
+Deslumbrou então o Porto e a sociedade elegante do Palacio de Crystal
+com o rico esplendor dos seus vestidos caros e com a phenomenal belleza
+da sua figura gentilissima.
+
+O commendador deu-lhe mestra de francez e professora de piano, que
+passaram um tenue verniz de educação por sobre aquella rudeza nativa do
+berço humilde da linda Leonor; e então era vêl-a, esquecida da sua pobre
+origem, affectar modos de duqueza, desdenhosa e altiva, quando passava
+nas ruas, fazendo gala do seu impudôr.
+
+Entre o rapaziada fina do Porto foi por muito tempo Leonor o appetecido
+pomo, tanto mais cubiçado quanto era difficil colhel-o, tal era a altura
+em que o commendador bizarro e dadivoso a collocára.
+
+Por esse tempo appareceu Eugenio no Porto, bafejado por uma sorte rara á
+roleta, que em tres dias successivos o favorecera com quatro contos de
+reis em uma das nossas praias mais concorridas.
+
+O bohemio, de origem pobre e plebeia, porém, naturalmente fino e
+intelligente, educara-se na convivencia dos rapazes estroinas da capital
+e d'elles copiára as maneiras elegantes, a linguagem culta e até--oh
+supremo instincto de imitação!--o apparente despreso pelo dinheiro que
+os outros desperdiçavam ás mãos cheias, porque eram ricos e que elle
+raras vezes possuia, porque era pobre.
+
+Com taes predicados e n'uma sociedade para a qual as apparencias são
+tudo, e que abre sem escrupulos os braços e as portas ao primeiro
+adventicio que lhe mostra uma mão-cheia de libras, sem dizer de que
+maneira as adquiriu, Eugenio foi, como não podia deixar de ser, logo
+recebido como uma das primaciaes figuras da elegancia portuense.
+
+Viu Leonor. Atrevido e audacioso com as mulheres, habituado, além
+d'isso, a explorar o vicio dourado da capital, comprehendeu desde logo
+que estava alli uma fonte de receita apreciavel, pois que podia
+facultar-lhe vida larga por muito tempo, e tentou a conquista. Ora como
+as mulheres do mau sempre escolhem o peor, Leonor, que rejeitara
+desdenhosa as homenagens de tantos que podiam augmentar-lhe os
+rendimentos, afinal decidiu-se por aquelle que não podia senão
+diminuir-lh'os.
+
+Começou então entre os dois um doce idylio, em que para Leonor havia
+apenas o travo do commendador Garcia a empecer-lhe as noites até ás dez
+horas e a impedir-lhe a expansão franca do seu coração amoroso.
+
+Eugenio, é claro, apresentou-se como um rico herdeiro do Alemtejo,
+futuro senhor de porcos e cortiça que chegariam para pagar a divida
+externa, mas, por desgraça, victima imbelle dos rigores de um pae
+protervo e sem coração, que o condemnara á pobreza por elle não querer
+sacrificar o seu coração de rapaz brioso á cortiça e aos porcos de uma
+prima com quem pretendiam casal-o.
+
+Assim, Leonor, orgulhosa de ter conquistado o coração rebelde de um moço
+que tão impavidamente resistia ao despotismo paterno e á cortiça de uma
+prima detestada, puzera á disposição do amante numero dois, o seu
+coração virgem de affectos e todo o dinheiro que lhe sobrava das
+despezas a que occorria o amante numero um.
+
+Dera-lhe uma gazua da porta e marcara-lhe a hora da entrada: á noite,
+depois das dez. De dia, a toda a hora.
+
+Eugenio, porém, hospedara-se no _Hotel Francfort_ como convinha e era
+prudente, para que estas relações, que deviam conservar-se clandestinas,
+não chegassem a escandalisar o commendador Garcia.
+
+Logo que Leonor lhe deu a certeza de que no dia seguinte lhe facultaria
+os tresentos mil reis para atirar com elles á face estanhada do amigo
+indigno, o bohemio mudou de aspecto e entregou-se sem restricções e sem
+sombra de melancholia á mais carinhosa e enthusiaetica adoração que um
+coração de mulher louca e linda jamais recebeu do seu amante.
+
+--Sabes?--disse-lhe elle.--De ti recebo estas provas de affecto e
+orgulho-me dos sacrificios que fazes por minha causa, porque te amo,
+porque o meu coração todo te pertence e, assim, vejo que entre nós não
+ha meu nem teu, tudo é commum, tudo é igualmente compartilhado pelos
+dois. E de minha prima... vê tu lá!--ainda que viesse de rastos
+lançar-se a meus pés, pedir-me que recebesse d'ella a salvação da minha
+vida, a salvação da minha alma, eu repellil-a-hia, morreria, iria para o
+inferno, mas não acceitava d'ella um real que fosse!
+
+--É porque não a amas...
+
+--É porque te amo, Leonor! É porque só tu n'este mundo tiveste poder
+para quebrantar o meu orgulho de homem e fazer que eu recebesse de ti um
+dinheiro que, vindo d'outra parte, me escaldaria as mãos!
+
+--Como és bom! e como eu gosto de ti, meu amigo! Só queria ser bem rica
+para te fazer o mais rico dos homens! Nenhum havia de fazer melhor
+figura que tu, nenhum havia de poder collocar-se ao pé de ti!
+
+--Quando eu fôr senhor d'aquillo que é meu, então, Leonor, o que tu hoje
+desejas fazer-me, é justamente o que eu te hei de fazer a ti! Hei de
+pegar n'essas joias todas e atiral-as pela janella fóra! Hei de
+trazer-te como uma princeza, viveremos em Lisboa, que é outra terra, e
+então verás o que é vida, o que é gosar! Havemos de ir a Paris, á
+Italia, a Londres, ver esse mundo todo, unidinhos como dois noivos que
+se amam, que se adoram e que fazem a inveja do mundo inteiro! Queres?
+
+--Se quero! Como eu seria feliz, se pudesse viver contigo sósinha, sem
+estorvos, sem impecilhos, ainda que fosse num canto bem retirado do
+mundo, numa casinha bem pobre, onde só eu e tu coubessemos!
+
+--Amor e uma cabana!--disse rindo maliciosamente o velhaco, beijando-a
+com enthusiasmo.--Graças a Deus, havemos de ter melhor do que isso...
+
+E suspirando com tristeza:
+
+--Para isso bastava só que morresse meu pae!
+
+--Deixa-o lá, coitado! - intercedeu piedosa a ingenua loura.
+
+--Deixo, deixo... Eu não lhe desejo a morte... Mas acredita que, ás
+vezes, Leonor, até chego a pensar que não tenho pae!
+
+O velhaco tinha razão.
+
+Ele não só já o não tinha, como nunca fizera caso d'elle, desde que pôde
+abandonar o pequeno cubiculo em que o desgraçado vendia, como adelo,
+botas e livros velhos, numa das alfurjas do Bairro Alto, alli pelas
+immediações da travessa dos Fieis de Deus.
+
+Mãe, uma esfregadeira que a miseria tinha levado na sua onda negra para
+o hospital de S. José, onde falleceu, nunca elle a conhecera.
+
+Portanto, esta exclamação: «ás vezes até chego a pensar que não tenho
+pae», ficaria verdadeira, horrivelmente verdadeira, se dissesse que
+desde criança se habituára a pensar que o não tivera.
+
+No dia seguinte, Leonor mandou pedir ao commendador Garcia os tresentos
+mil reis que o bohemio devia levar, não para o phantasiado amigo, mas
+para o jogo do monte, que era o sorvedouro horrivel onde o miseravel não
+só afundava o dinheiro que podia obter á custa de tranquibernias e
+abjecções, mas ainda a sua propria saude e robustez de homem válido.
+
+O commendador, capitalista opulento, mandou o dinheiro pedido, não sem
+notar de si para comsigo a frequencia com que taes exigencias se
+repetiam.
+
+No emtanto, como a sua paixão por Leonor era violenta como um incendio
+n'uma casa velha, ainda d'esta vez não se atreveu a fazer a menor
+objecção.
+
+Foi com extremo contentamento que Leonor passou para as mãos do seu
+_anjo mau_ o dinheiro extorquido á imbecilidade senil do commendador.
+
+--Aqui tens--disse ella--paga a esse canalha, a esse falso amigo, e
+lembra-te que no mundo ninguem te ama tanto como a tua amiguinha!
+
+--Juro-te, meu amor, minha alma, minha vida, que ninguem no mundo adora
+tão ardentemente os teus encantos como eu!--replicou o bohemio, radiante
+de contentamento, guardando na algibeira a generosa dadiva da amante.
+
+Almoçou e sahiu, pretextando que ia enviar aquella quantia ao seu
+destino.
+
+Eram onze horas da manhã quando entrou no escriptorio do Belchior.
+
+--Olhe lá--disse elle--esta noite posso dispôr de mim, ou teremos nova
+estopada?
+
+--Não sei... Deixe vêr o que diz o Custodio. Elle lá ficou encarregado
+de tecer os pausinhos...
+
+--O diabo da sirigaita é dura da bocca... Mas não tem duvida que, se me
+entra para a _loja_, eu saberei applicar-lhe a espora e obrigal-a a
+tomar andadura regular.
+
+--Isso, depois, é lá comsigo e com ella--respondeu rindo o
+procurador.--Mas eu sempre lhe darei de conselho que a leve por bem,
+emquanto o Custodio não esticar o pernil...
+
+--Isso é dos livros! Mas sabe você que já me vae enfadando tanta
+difficuldade?
+
+--Meu amigo, não se agarram trutas a bragas enxutas... N'estas coisas, é
+preciso muita paciencia, porque de outro modo não se faz nada.
+
+--Mas vamos a saber: poderei hoje ao menos convidar alguns amigos para
+uma ceia?
+
+--Póde... Se tem dinheiro, póde. Quem é que o ha de impedir?
+
+--Quem me impediu hontem. Você é sempre o meu _desmancha prazeres_,
+amigo Belchior!
+
+--Para seu bem.
+
+--E para seu...
+
+--Claro! Para o bem de nós ambos. Mas muito mais para você do que para
+mim.
+
+O bohemio ia a retrucar, quando a porta se abriu e appareceu o Custodio
+de Jesus.
+
+--E então?--interrogaram os dois.
+
+--Então, sabem o que ella me disse?
+
+--O que foi?
+
+--Adivinhem!
+
+--Não somos bruxos!--replicou o procurador--Falle para ahi, com
+seiscentos diabos! Sim ou não?
+
+--Pois bem--não!
+
+--Hein?!--fizeram os dois espantados.
+
+--É verdade! Disse-me agora muito terminantemente que não.
+
+--E você não voltou á historia do tiro na cabeça?--observou o
+procurador.
+
+--Espere ahi, que o mais bonito está por dizer. A pequena não só me
+declarou abertamente que não queria casar com o sr. Eugenio, mas fez
+mais. Pediu-me que visse eu quanto me era preciso para solver as minhas
+dividas e que lhe apresentasse uma nota dos credores, porque ella se
+encarregaria de resolver a questão de modo satisfatorio e que nos
+puzesse a coberto da miseria que eu tanto temia...
+
+--E você o que respondeu a isso?--perguntou o Belchior.
+
+--O que havia de eu responder? Fiquei entalado com esta sahida... Sim,
+porque você bem vê que, depois d'uma resposta d'estas, eu já não podia
+dizer que ia dar um tiro na cabeça...
+
+--Mas o que pensa então fazer?--interrogou Eugenio.
+
+--Esperar, a ver o que sae d'aqui...
+
+--D'ahi o que sae é ella perceber que você não está arruinado como diz,
+e não só recusar-se a casar aqui com o meu amigo e sr. Eugenio, mas
+ainda pôr-se a _chuchar_ comsigo!--exclamou o Belchior
+furioso.--Segue-se que você representou mal a scena e não é por esse
+modo que nós conseguiremos nada.
+
+--Espere, homem, espere!--interrompeu o Custodio.--Eu tenho uma ideia.
+
+--Que ideia é?
+
+--Ella hontem, depois que vocês sahiram, foi ainda á janella fallar ao
+tal rapaselho que a namora...
+
+--Você viu?
+
+--Vi, porque eu, como já estou prevenido, ando desconfiado, e quando eu
+desconfio ninguem me faz o ninho atrás da orelha... Não ouvi o que
+disseram, mas calculo... A rapariga disse ao rapaz o que se passava, e
+elle, naturalmente, prometteu-lhe salvar-me das difficuldades
+financeiras em que me encontro, para evitar que o casamento se faça...
+
+--Isso é lá possivel! O rapaz é pobre, e se prometteu isso, com certesa
+temos intrujice no caso, porque elle não póde arranjar cem mil reis,
+quanto mais uns poucos de contos.
+
+--Bem! Mas a mim lembra-me uma coisa: é apresentar-lhe a nota dos meus
+crédores e deixar que elle confesse que não póde fazer nada. Então eu
+torno a ameaçar que me mato e ella não terá remedio senão ceder.
+
+--Mas isso então quer-se para breve!--objectou o procurador--Aqui o sr.
+Eugenio de Mello tambem não póde estar na contingencia da pequena querer
+ou não querer... Porque é pessoa respeitavel e tomaram-n'o muitas
+meninas em tão boas ou melhores condições de fortuna do que sua filha...
+
+--Eu é porque devéras a amo!--explicou o bohemio--Sinto-me loucamente
+apaixonado pela senhora D. Beatriz e estou disposto a todos os
+sacrificios para conquistar a ventura immensa de a possuir como esposa.
+Mas permitta-me que eu lhe pergunte: se esse rapaz conseguir offertar
+generosamente a quantia que o meu amigo disser carecer para reconstituir
+a sua fortuna... o que fará o sr. Custodio de Jesus?
+
+--O que farei? Essa é boa! Faço o que deve fazer todo o homem de juizo:
+pego no dinheiro com as mãos ambas, e depois não dou o consentimento
+para a pequena casar.
+
+--Ande-me assim, seu Custodio!--bradou o procurador.--Essa é de
+mestre... Mas n'esse bolo havemos de ir feitos...
+
+--Está dito! Reparte-se pelos tres... Mas acho que não havemos de ter
+questões por causa da partilha...
+
+Os tres desataram a rir.
+
+--Vamos a ver o que sae d'aqui!--disse por fim o Belchior.--Tinha graça
+se o rapazote nos sahia á ultima hora a fazer chover dinheiro ao toque
+d'uma varinha magica, tal qual como nas peças de theatro!
+
+--Amigo Belchior--expôz o Custodio--parece-me que andei bem em não
+apertar o fiado... O melhor que temos a fazer agora é preparar uma
+relação dos crédores e apresental-a á rapariga...
+
+--Qual relação de crédores!--protestou o procurador.--Você não tem senão
+um credor... Esse credor sou eu. Você deve-me cincoenta contos, e elle
+que venha entender-se comigo...
+
+--Justamente!--apoiou Eugenio.--E assim ficaremos sabendo os recursos de
+que o tal menino dispõe...
+
+--Está dito!--decidiu o Custodio.--É claro que cincoenta contos não se
+arranjam como se fossem cincoenta reis; e logo que o tal badaméco ouça
+fallar em tanto dinheiro, põe-se a andar e não torna a apparecer. Então
+ficaremos com o campo livre para continuar a representar a scena do tiro
+na cabeça, se a pequena teimar em não querer este casamento.
+
+--Se se dér o caso do rapaz, assustado com tamanha quantia, passar o pé,
+a propria pequena, por despeito e por vingança, será a primeira a dizer
+que pensou melhor e que acceita o noivo que se lhe propõe--opinou o
+procurador.
+
+--Fiquemos então n'isto. Você é meu credor, com letras acceites por mim,
+e impõe que ou este casamento se faça, ou eu pague no dia do vencimento,
+que está para breve--concluiu o Custodio, voltando-se para o Belchior.
+
+--Exactamente--respondeu este.--E mandemos para cá, que eu me
+encarregarei de resolver a questão.
+
+O procurador piscou o olho a Eugenio e fez-lhe um signal para que
+sahisse.
+
+O bohemio comprehendeu-o e despediu-se, affirmando que estava
+irresistivelmente apaixonado por Beatriz e appellando para a amizade dos
+dois, afim do que envidassem os seus esforços em defesa da sua causa.
+
+Logo que o Belchior se viu a sós com o Custodio, abriu a gavêta da
+escrivaninha e, tirando de dentro uma certidão do escrivão de fazenda de
+Borba; apresentou-lh'a, dizendo:
+
+--Veja você, amigo Custodio, a pechincha a que a sua filha torce o
+nariz!
+
+O Custodio pegou na certidão das contribuições pagas por Eugenio de
+Mello á Fazenda Nacional.
+
+--Com os diabos!--disse elle--para pagar tudo isto, perto de dois contos
+de reis, é preciso que tenha uma fortuna enorme!
+
+--Este diabo nem sabe o que tem de seu! E ainda você está com pannos
+quentes com a rapariga! Onde vae ella encontrar um partido como este?
+
+--Pois, amigo Belchior--affirmou o Custodio com resolução--ainda que
+saiba de a levar pelos cabellos á egreja, esta fortuna é que eu não
+deixo perder.
+
+--Mas é preciso que isto não demore muito tempo a decidir.
+
+--Isto por esta semana rebenta! Deixe-me cá manobrar á vontade e você
+verá como a coisa se arranja...
+
+Tendo affirmado isto, o Custodio deixou o procurador e partiu a arranjar
+a conta do seu debito para apresentar á filha.
+
+
+
+
+X
+
+Para os grandes males...
+
+
+Custodio de Jesus não se enganara quando dissera aos seus dois cumplices
+em patifaria que suppunha ter sido Paulo quem inspirara a Beatriz o
+pedido da relação das dividas do pae, para pensar na melhor maneira de
+as solver.
+
+Effectivamente, Paulo de Noronha, animado pelos conselhos de madre
+Paula, a quem fizera a confidencia dos seus amores, e pelas palavras de
+esperança que ouvira da bôcca do seu amigo Jorge, fôra n'essa mesma
+noite fallar com Beatriz.
+
+A pobre menina, aterrada, contara-lhe tudo, a sua recusa formal, as
+instancias do pae, o arrebatamento de colera com que elle, a principio,
+pretendera impôr-se-lhe, e afinal a dolorida confissão em que cahira das
+suas desgraças financeiras e do funesto designio em que estava de
+recorrer ao suicidio, se o casamento que propunha como unico recurso
+salvador fosse de todo em todo repudiado pela filha.
+
+Mais contou a apaixonada creança o expediente de que lançara mão para
+retardar o desenlace da tragedia com que o pae a ameaçava, pedindo uma
+entrevista com Eugenio de Mello, afim de expôr a este, com lealdade e
+franqueza, as circumstancias difficeis da casa de seu pae e os laços de
+inquebrantavel affeição que já tinha contrahido com Paulo de Noronha.
+
+--E o que respondeu esse homem?--interrogou Paulo.
+
+--Ao contrario de que eu suppunha, mostrou-se de cada vez mais
+apaixonado e declarou não desistir da sua pretensão, com o fundamento de
+que, em face da minha lealdade, agora mais que nunca, o seu coração lhe
+impunha o dever de salvar meu pae da ruina e a mim da pobreza.
+
+--E tu?...
+
+--Despedi-o sem responder, disposta a recusar, mas tambem a pensar no
+meio de evitar que meu pae pratique o acto de verdadeiro desespero com
+que me ameaçou.
+
+--E se não encontrares esse meio?
+
+--Succederá o que Deus quizer, mas eu não serei jamais mulher de outro
+homem que não sejas tu, meu Paulo!--exclamou Beatriz com firmeza.
+
+O mancebo sentiu na alma um transporte de sincera alegria ao ouvir estas
+palavras.
+
+--Ouve, Beatriz--disse elle.--É possivel que sejamos victimas de uma
+d'essas astuciosas ciladas que os paes ambiciosos ás vezes preparam á
+ingenua affeição de suas filhas para as compellirem a acceitar um enlace
+de que se lhes affigura depender a felicidade d'ellas e d'elles... Mas o
+nosso dever é tomar como verdadeiras as palavras de teu pae e tratarmos
+de remediar do melhor modo os males de que se diz victima. Eu sou pobre,
+não tenho fortuna, porque, se a tivera, desde este momento ella
+pertenceria inteira a teu pae, sem um documento, sem uma promessa sequer
+de que mais tarde me solveria essa divida. Por mim nada posso. Mas tenho
+amigos valiosos com quem conto e em quem espero encontrar auxilio para
+remover as difficuldades que affligem teu pae, sem ser preciso
+sacrificar o meu e o teu coração, prendendo-te a um homem que não
+estimas e que não duvido affirmar indigno de ti. Pede, pois, a teu pae
+uma nota das suas dividas, e eu verei se me é possivel libertal-o da
+responsabilidade d'ellas.
+
+--Mas, meu Paulo, o que pensas fazer?--interrogou Beatriz commovida,
+quasi adivinhando a nobre intenção de mancebo.
+
+--Penso pedir aos meus amigos que me constituam seu devedor por essa
+quantia, que pagarei quando haja concluido a minha carreira e
+conquistado a posição a que tenho direito na sociedade. Tu és filha
+unica. e, portanto, a universal herdeira de teu pae. É o teu dote que
+asseguro por esta forma. Se eu morrer antes de solver toda a divida, tu,
+um dia, quando te encontrares senhora da herança paterna, restituirás
+aos meus crédores o que faltar para seu integral reembolso. Assim, não
+prejudicaremos ninguem e teremos salvado a vida de teu pae.
+
+--Ah! meu Paulo, como tu és um grande e nobre coração! Como tu és digno
+do santo amor que te dedico!--exclamou a donzella.
+
+Foi assim que no dia seguinte Beatriz fez a seu pae o estranho pedido de
+uma nota dos credôres, declarando ao mesmo tempo que recusava
+terminantemente o enlace com Eugenio de Mello.
+
+O antigo marido de D. Carlota podia perguntar, com a sua auctoridade de
+pae tyranno, como é que uma menina de dezenove annos ousava pensar em
+remediar desastres financeiros que elle, velho agiota, encanecido na
+usura, não podia sanar; e dando-se por offendido e desrespeitado nos
+seus brios de progenitor, por um momento esteve para exigir que a filha,
+em vez de pedir contas, lh'as desse alli, claras e cathegoricas de todos
+os seus actos.
+
+Mas o mariola, que na convivencia do padre Anselmo ganhára em manha o
+que perdera em dinheiro e não em honra--porque essa nunca elle a
+tivera--achou prudente e de bom aviso levar a farça até ao fim,
+apparentando uma inteira e absoluta submissão á vontade da filha.
+
+O secreto plano que formára, já nós lh'o ouvimos no escriptorio do
+procurador em conversa com este e com Eugenio de Mello: apanhar o
+dinheiro, se Paulo o arranjasse, e negar o consentimento para o
+casamento dos dois jovens; ou esperar que o mancebo, assustado com a
+grandeza do sacrificio que era preciso para obter a mão de Beatriz,
+desapparecesse sem dar novas suas, o que resolveria a teimosa menina a
+acceitar a mão de Eugenio sem repugnancia.
+
+Firme n'este proposito, entrou no escriptorio e phantasiou uma conta
+corrente com o procurador Belchior, em que este apparecia com um saldo a
+favor de cincoenta contos, representado por letras acceites em poder do
+crédor e com vencimento em curto praso.
+
+Eram estas letras que o Custodio declarava não poder pagar, se o
+casamento com Eugenio não se realisasse, devendo seguir-se o protesto e
+a execução em poucos dias, pois que o procurador, amigo de Eugenio e
+deveras interessado no seu enlace com Beatriz, recusaria a reforma,
+exigindo immediato embolso.
+
+Organisada a conta corrente, o Custodio subiu ao quarto de Beatriz e,
+apresentando-lhe o papel, disse:
+
+--Aqui tens, minha filha... aqui tens o documento da nossa desgraça! Por
+elle verás que estamos perdidos sem remedio, visto que tu recusas o meio
+unico da nossa salvação!
+
+--Não fallemos n'isso, meu pae!--retorquiu mansamente Beatriz--Vamos a
+vêr se por outro meio mais em harmonia com a dignidade de ambos,
+conseguimos fazer face á adversidade que nos persegue.
+
+--Mais em harmonia com a nossa dignidade, dizes--observou o snr.
+Custodio--Supponho que não póde haver nada mais digno do que o casamento
+com esse rapaz, que é rico, que é de bôa familia e que te ama
+loucamente...
+
+--Mas não o amo eu, e é n'isso que estaria a indignidade, se eu
+consentisse em me vender a elle por dinheiro...
+
+--Vender! Tu não ias como escrava, ias como mulher recebida á face da
+egreja e ficarias senhora de metade do que é d'elle.
+
+--Ainda que ficasse senhora de tudo quanto lhe pertence, reputaria uma
+venda ignobil o acto de me unir a elle, desde que o meu coração o
+repudia...
+
+--O coração!--fez o sr. Custodio com um desdenhoso encolher de
+hombros--O coração, minha filha, está sempre bem, desde que o estomago
+não está mal...
+
+--Essas theorias não se comprehendem na minha idade, meu pae...
+
+--Comprehende-as toda a gente, em todas as idades, Beatriz... Só não as
+comprehendes tu, porque até agora, graças a Deus, não tens sentido falta
+de nada e foste sempre considerada como pessoa rica. Mas quando a
+miseria chegar e tu vires fugir de ti todos quantos agora te fazem muita
+festa, então comprehenderás que teu pae tem rasão no que diz.
+
+O usurario, com refalsada velhacaria e crente em que Paulo sentiria
+gelarem-se-lhe os ardentes impulsos do seu coração amoroso ante a
+horrivel perspectiva d'aquella medonha conta-corrente, ia predispondo o
+espirito da filha para acceitar no fim o casamento com Eugenio, como
+unico recurso que se lhe offerecia.
+
+Beatriz não respondeu. Pegou no papel e dobrou-o, depois de lhe
+relancear a vista.
+
+--Eu verei isto--disse ella--e póde ser que Deus me inspire alguma ideia
+salvadora que nos livre de apuros, sem ser necessario recorrer ao sr.
+Eugenio de Mello.
+
+--Deus te ouça, minha filha, mas duvido bem...
+
+E depois de um curto instante de silencio:
+
+--Emfim, pensa e repara que não é brincadeira... São cincoenta contos.
+Ha muito que isto teria dado um estoiro, se não fosse o Belchior,
+coitado, que, ainda assim, tem sido meu amigo... Agora é que está lá
+embirrado com a historia do casamento e já me disse que, se tu não
+acceitares, escuso eu de contar com elle para mais nada... Aquellas
+malditas letras de ouro do Banco de Credito Real do Brazil
+arrazaram-me!--suspirou por fim.
+
+--E foi só o pae que teve prejuizos com ellas?--perguntou Beatriz.
+
+--Não. Ficaram muitas familias redusidas á miseria... Mas cada qual
+sente o seu mal...
+
+--E Deus o de todos.
+
+--Pois é verdade, Deus sente o de todos... Mas quando Elle offerece o
+remedio á creatura e ella o não acceita, tambem se offende e não sente
+nada...
+
+--Será o que Deus quizer.
+
+O Custodio notou que a filha começava a impacientar-se e fazia visiveis
+esforços para respeitosamente disfarçar o seu enfado.
+
+Resolvido a representar o seu papel de pobre humilde e dependente da
+vontade de Beatriz, retirou-se, dizendo:
+
+--Só te peço, minha filha, que não me sujeites á vergonha de me pôrem
+fóra d'esta casa por justiça. Eu, já agora, estou velho, pouco se me dá
+da vida... O que quero é ter tempo de dar cabo de mim, antes de soffrer
+um tal desgosto...
+
+--Não se affija, meu pae, que Deus tudo ha-de fazer pelo melhor...
+
+N'essa noite, o usurario, fingindo recolher-se cêdo aos seus aposentos,
+conservou-se á espreita, para vêr se a filha fallava da janella com
+Paulo.
+
+Teve um sorriso de velhaco satisfeito quando, ahi pela meia noite, deu
+conta de que Beatriz descia ao rez-do-chão para ir fallar através da
+janella gradeada com o mancebo.
+
+--Vaes entregar-lhe o passaporte que o ha-de levar para longe de
+ti!...--resmoneou escarninho o velho, esfregando as mãos de
+contente.--Cincoenta contos era o bastante para fazer fugir o homem mais
+rico do Porto, quanto mais um pobre diabo que não tem cincoenta vintens.
+
+E certo do seu triumpho sobre a reluctancia da filha, enfiou-se na cama.
+
+D'ahi a pouco, ressonava.
+
+
+Dias depois, Jorge entrava em casa de Paulo e dizia-lhe:
+
+--Ora, meu amigo, dou-te os sentimentos pela má escolha que fizeste do
+homem que ha-de ser teu sogro.
+
+--Então?--interrogou o mancebo.
+
+--Segundo as informações que acabo de obter, o pae da tua Beatriz é um
+usurario, um agiota insaciavel, com instinctos de chacal, incapaz de
+deixar sahir com pelle o desgraçado que lhe cáiha nas garras
+implacaveis.
+
+Paulo encarou o amigo:
+
+--Tens bem a certeza d'isso?--perguntou.
+
+--Se tenho a certeza! Não me resta a menor duvida. Esse homem empresta a
+vinte e a trinta por cento sobre hypothecas bem garantidas. Não larga
+das unhas um real sem lh'o caucionarem pelo menos com dois, e é assim
+que tem conseguido amontoar uma fortuna que se calcula superior a cem
+contos de reis.
+
+--Como é então que elle diz dever cincoenta contos ao procurador
+Belchior e que está perdido porque não lh'os póde pagar?
+
+--Esse procurador Belchior--disse Jorge--é tambem um refinado patife.
+Não trata senão de causas escuras e ha em toda a sua vida uma longa
+série de revoltantes ladroeiras. Não seria para admirar que o Custodio
+de Jesus lhe devesse cincoenta contos, se esse Custodio fosse homem para
+se deixar roubar por alguem. Mas não. O Belchior e o Custodio
+entendem-se. Pactuaram sobre a melhor maneira de esfolar a pobre
+humanidade, e não se mordem um ao outro. Vê-se, pois, que os dois estão
+combinados para roubarem um terceiro, que é esse tal Eugenio de Mello, a
+quem pretendem casar com a tua namorada.
+
+--E elle quem é?
+
+--Quem? O Eugenio do Mello? Faltam-me ainda esclarecimentos exactos
+sobre esse figurão, mas hei-de obtel-os breve. Por emquanto, o que se
+sabe é que é um rapaz estroina que tem dado que fallar no Porto pelas
+suas liberalidades e extravagancias. Suppõem-n'o rico e é de crêr que o
+seja pelo interesse que o Custodio tem em querer casar com elle a filha.
+
+--De maneira que--observou Paulo--essa divida dos cincoenta contos...
+
+--Não é mais que uma phantasia para justificar a insistencia em que o
+casamento se faça e compellir Beatriz a acceitar o noivo que se lhe
+offerece.
+
+--Eu já tinha suspeitado isso mesmo!--redarguiu Paulo indignado--Mas o
+que precisamos agora é provas d'essa infamia.
+
+--Descança que hão-de apparecer. Por agora, o que quiz foi dar-te a
+certeza de que o pae da tua amada não se matará por falta do dinheiro
+d'elle--que esse está bem garantido. O que póde é matar-se por não poder
+apanhar todo o dinheiro dos outros. Previne, pois, a pequena de que póde
+recusar a mão do tal sr. Eugenio e dormir tranquilla, que o pae não
+pensa em deixar este mundo, que é muito do seu gosto emquanto n'elle
+houver quem tome dinheiro a trinta por cento, com hypotheca...
+
+--Mas, se Beatriz recusa, certamente o pae não transige com a decisão da
+filha. Tendo-lhe falhado o plano que imaginou, ha-de buscar outro...
+
+--E nós cá estamos!
+
+--Pois sim, estamos... Mas não impediremos que elle empregue a
+violencia, visto que os meios suasorios lhe não deram resultado...
+
+Jorge poz-se a rir.
+
+--Desde que a _Mão-Negra_ protege Beatriz, o pae, o pretendido noivo e o
+procurador não teem senão que tremer pelas consequencias do seu
+procedimento, se não fôr correcto.
+
+Paulo, n'essa mesma noite, transmittiu a Beatriz todas as informações
+obtidas por Jorge ácerca das verdadeiras condições de fortuna em que se
+encontrava o sr. Custodio de Jesus.
+
+--Teu pae não deve coisa algum ao procurador Belchior--disse-lhe o
+mancebo--Essa divida, com que elle finge affligir-se tanto, não passa de
+um pretexto para te mover a acceitar a mão d'esse rapaz...
+
+--Tens tu a certeza d'isso, meu Paulo?--perguntou Beatriz admirada.
+
+--Affirmo-te que teu pae possue uma fortuna superior a cem contos de
+reis, solidamente garantidos por boas hypothecas. Não tenhas, pois,
+receio de que se mate apavorado com a ideia da miseria.
+
+--Mas se isso é assim, como é então que o procurador Belchior exerce
+sobre meu pae um tal ascendente?
+
+--São alliados. Quem apresentou em vossa casa Eugenio de Mello?
+
+--Foi o Belchior.
+
+--Pois bem; logo, o Belchior é que planeou este casamento. Conhecia
+Eugenio de Mello, viu n'elle um bom partido para ti, apresentou-o a teu
+pae e os dois, d'accôrdo, procederam de modo que levaram esse rapaz a
+pedir a tua mão. Como o negocio se lhe afigura vantajoso, teu pae
+emprega todos os meios para te resolver a casar. A violencia n'estes
+casos é quasi sempre inutil, quando não é contraproducente... Portanto,
+qual o melhor meio de vencer a tua resistencia? Era levar-te pelo lado
+da compaixão e da ternura filial, pois que, pelo sentimento do interesse
+material e grosseiro, teu pae deve conhecer-te bem para te julgar
+invulneravel. D'ahi, as suas queixas, as suas lagrimas e as suas ameaças
+de pôr termo á existencia. Mas com o que elle não contava era comigo.
+Teu pae que queira fazer uma cedencia de todos os seus haveres actuaes
+por cem contos de reis, e avisa-me, porque eu promptamente lhe
+apresentarei quem realise a transacção. Propõe-lhe isto, minha amiga, e
+ouve o que elle te diz.
+
+--É extraordinario!--disse Beatriz--Suppunha meu pae um homem de genio
+rispido, despotico, intractavel mesmo, mas nunca o julguei capaz de
+descer a representar comigo uma comedia tão aviltante da dignidade
+paternal!
+
+--Minha querida amiga, bem sabes que te amo por ti, sómente por ti, e
+não por tua familia, e ainda menos pelos teus haveres, que nunca tratei
+de indagar quaes fossem; e se agora sei isto, foi porque as
+circumstancias me obrigaram a fixar a minha attenção sobre tal assumpto,
+e Deus sabe com que boas e generosas intenções. Mas, visto que tanto te
+admiras, permitte-me que te pergunte: sabes que genero de negocio é o de
+teu pae?...
+
+--Não sei. Meu pae nunca fallou diante de mim sobre assumptos
+commerciaes. Elle foi sempre homem de poucas palavras e de nenhuns
+carinhos para mim. Eu, desde que vim do collegio, tenho vivido n'esta
+casa quasi como uma estranha... A primeira vez que lhe ouvi fallar de
+negocios foi agora, depois que este rapaz se apresentou a pedir a minha
+mão e eu recusei...
+
+--Então saberás, minha bôa amiga, que teu pae empresta dinheiro ao juro
+de vinte por cento, o minimo, sobre hypothecas que ordinariamente
+representam o dôbro do valôr emprestado. Vê tu se, em taes condições,
+teu pae, que tem dinheiro para emprestar, póde dever cincoenta contos ao
+procurador Belchior e encontrar-se na situação desesperada que diz.
+
+--O que entendes que devo então fazer? Que resposta deverei dar-lhe? Eu
+não queria vexal-o e desafiar talvez a sua colera dizendo-lhe
+abertamente que estou conhecedora da sua odiosa mentira...
+
+Paulo reflectiu por alguns instantes.
+
+--Tu, por emquanto, nada dizes a teu pae, senão que estás pensando no
+que melhor convirá fazer em face da grave situação em que ambos vos
+achaes...
+
+--No emtanto, elle não deixará de insistir por uma decisão rapida...
+
+--Muito bem; e tu dizes-lhe que não tens duvida em acceitar o marido que
+se te propõe, desde que esse casamento seja a unica solução que se te
+apresente para salvar teu pae. Antes d'isso; porém, não te dispensas de
+estudar o assumpto com o cuidado e a reflexão que elle requer.
+
+--Mas esta situação é insustentavel por muito tempo, meu Paulo...
+
+--Não te dê cuidado o resto. Antes de seres obrigada a dar uma resposta
+definitiva, tenho esperança que os acontecimentos hao-de obrigar teu pae
+a mudar de resolução.
+
+--Oxalá que assim seja!
+
+O sr. Custodio de Jesus, que não perdia o menor movimento da filha,
+ancioso como estava de saber que solução daria ella ao intrincado
+problema dos cincoenta contos que se lhe propunha, sentiu que Beatriz
+viera mais uma vez á janella do escriptorio conferenciar com Paulo; e no
+dia seguinte, depois de almoço, pondo os olhos enternecidos na pobre
+menina, perguntou-lhe com fingido carinho:
+
+--Então, minha querida filha, já pensaste na nossa terrivel situação?
+
+--Já, meu pae--respondeu Beatriz baixando os olhos.
+
+--E o que resolves?
+
+--Por emquanto, nada.
+
+--Nada!--exclamou o snr. Custodio affectando grande espanto.--Pois é
+possivel que, tendo-me tu promettido uma resposta decisiva sobre esta
+questão de vida ou de morte para mim, te mostres assim indifferente ao
+que póde succeder? Para que me pediste então essa conta que te
+apresentei?
+
+Beatriz fitou um olhar persistente no pae e respondeu placidamente:
+
+--Pedi-lh'a, meu pae, para ter bem a certeza do que cumpre fazer.
+
+--O que! Pois não sabes o que cumpre fazer? Quando se devem cincoenta
+contos de reis e o crédor os exige, o que cumpre é pagar.
+
+--Pagar ou casar...--replicou Beatriz com amarga ironia.
+
+--Ninguem te obriga a isso. Eu mesmo, que sou teu pae e que podia impôr
+a minha auctoridade paterna, prefiro deixar-te ampla liberdade na
+escolha do homem que ha-de ser teu esposo, embora eu tenha de sacrificar
+a vida...
+
+--Não lhe será preciso sacrifical-a, meu pae.
+
+--Isso tudo são palavras, Beatriz... Mas as dividas não se pagam com
+palavras... Prometteste-me resolver a questão, e afinal já lá vão uns
+poucos de dias e tão adiantados estamos hoje como hontem.
+
+--Alguma coisa temos já adiantado...
+
+--O que?
+
+--A resolução em que estou de salvar meu pae...
+
+--Sério, Beatriz!? Tu acceitas o casamento que se te propõe, minha
+filha?
+
+--Se outro recurso não houver, acceital-o-hei.
+
+--Pois olha que não tens outro recurso, crê!
+
+--Veremos.
+
+--Pensas ainda em conjurar o mal que nos ameaça por outra forma?
+
+--Talvez.
+
+--Ah! minha filha, minha filha! se confias no auxilio de qualquer das
+pessoas nossas amigas, desde já te digo que nada conseguirás... Os
+amigos fogem da desgraça como as andorinhas fogem do inverno. Se lhes
+fallamos em dinheiro,--emigram!
+
+Beatriz meneou a cabeça e respondeu com voz submissa, porém firme e
+serena:
+
+--Quando se é leal e sincero para com todos; quando se não abrigam no
+peito sentimentos de egoismo e de torpe má fé, a Providencia, que vela
+pelos bons, envia-nos sempre alguem que nos comprehende e nos vale nos
+lances mais desesperados da nossa vida...
+
+--Pois sim!--tornou o sr. Custodio n'um tom de mal disfarçado motejo--é
+bom a gente confiar na Providencia, mas é muito melhor conhecer o mundo
+e tratar cada qual de se livrar de apuros pelos meios que puder... A
+Providencia já não faz pouco em nos enviar esse rapaz que te quer para
+esposa...
+
+--Pois se ella se não manifestar por outra forma, acceitarei o casamento
+que se me offerece... Mas, antes d'isso, meu pae, rogo-lhe que me deixe
+pensar reflectidamente sobre o caso...
+
+--Pensa o que quizeres, minha filha, e resolve o que te parecer melhor,
+comtanto que não pareça, pela demora em dar uma resposta decisiva, que
+estamos a caçoar com esse rapaz e com o Belchior que o apresentou e que
+é, como sabes, nosso crêdor...
+
+--Ninguem póde tomar como caçoada o facto de eu querer reflectir
+maduramente antes de dar um passo de que vae depender o meu destino...
+
+--Sim, isso é justo...--tornou o Custodio com brandura--Mas quantas no
+teu logar, minha filha, se o Eugenio lhes pedisse a mão, lhe estenderiam
+logo as duas sem mais ceremonias, antes que elle se arrependesse!
+
+--Não vejo vantagem nenhuma n'isso. Se tiver de se arrepender, mais vale
+que seja antes do que seja depois. Justamente para que o arrependimento
+me não sobrevenha, é que eu desejo pensar bem no que vou fazer, antes de
+me decidir...
+
+--Faze lá como entenderes. Para mim, como já pouco posso durar, a
+questão está resolvida: é mais mez, menos mez, mais dia, menos dia...
+Quando se chega á minha idade, a vida já pouco prende... Preferiria
+morrer socegado na minha cama, da morte que Deus me desse, e não ter eu
+que pôr termo á vida para me livrar de vergonhas... Mas se Deus tiver
+determinado o contrario, cumprirei resignado a sua divina vontade...
+Acredita que, se me afflijo, não é tanto por mim como por ti, a quem eu
+não queria deixar no mundo sosinha, pobre e desamparada!
+
+--Sim, meu pae...--respondeu Beatriz levemente ironica--Eu conheço
+quanto lhe devo pelas provas de carinho que sempre me tem dado... Mas
+não se afflija por mim como eu não me afflijo por meu pae, pois que Deus
+ha de valer-nos...
+
+--Tens essa fé, Beatriz?
+
+--Tenho a certeza, meu pae. Pois não lhe disse já que, se outro remedio
+não houver, casarei com o sr. Eugenio de Mello?
+
+--Deus te abençôe, minha filha, pela grande consolação que me dás! E
+has-de ser feliz, crê, porque o Eugenio é bom rapaz e está perdidamente
+apaixonado por ti.
+
+--É pena que eu não possa apaixonar-me por elle...
+
+--Minha filha, depois, a convivencia faz tudo... Pensa, pensa e has-de
+vêr que não encontras outra solução melhor do que esta para nos tirar de
+difficuldades: casar e deixar de tolices...
+
+Disse, e retirou intimamente satisfeito, por lhe parecer que tinha com o
+seu discurso adiantado um grande passo no caminho do ambicionado
+casamento que sonhava para a filha.
+
+--Naturalmente--ia dizendo comsigo--lá o tal franganito mostrou-se
+desanimado e ella vae perdendo a esperança que tinha n'elle... É questão
+de mais dois dias ou tres, e ella ahi está a dizer que sim, que se
+resolve a querer o Eugenio... Se todos os paes fizessem como eu... se
+quando as filhas se inclinam para um bigorrilha sem cinco reis, lhes
+dessem logo com as precisas, fazendo-as pensar na pobresa e na miseria
+que as espera, não se via tanto casamento desgraçado como se vê!
+
+E esfregava as mãos, satisfeito de haver conseguido illudir a filha.
+
+Mal sabia o velhaco que n'este caso, o verdadeiro illudido era elle!
+
+
+
+
+XI
+
+João Lazaro
+
+
+Jorge tinha o habito de ir todos os dias ao _Suisso_ tomar café, depois
+de jantar.
+
+Alli passava uma hora em palestra amena com os amigos, se os encontrava,
+ou a lêr os jornaes estrangeiros que o criado lhe punha diante--para
+matar tempo.
+
+N'estas rapidas leituras encontrava coisas que pareciam interessantes,
+porque ás vezes puxava do seu livro de lembranças e tomava notas a lapis
+nas folhas em branco.
+
+Foi n'uma occasião d'estas que sentiu bateram-lhe amigavelmente no
+hombro e ao mesmo tempo uma voz dizer-lhe:
+
+--Estás a copiar alguma receita para te lembrares dos amigos?
+
+Jorge levantou a cabeça e encarou o recem-chegado.
+
+--És tu, João!--exclamou levantando-se com impeto e estendendo os braços
+para elle.--Como estava longe de te ver agora aqui!
+
+Os dois abraçaram-se effusivamente e sentaram-se em seguida.
+
+--Ora o meu João Lazaro!--tornou Jorge com alegria--Com que, voltaste ao
+Porto!
+
+--É verdade!--disse o outro recostando-se na cadeira com importancia e
+tomando uma attitude de principe que regressa do exilio--O bom filho á
+casa torna...
+
+--E o bonito é que encontras a casa como a deixaste...
+
+--Infelizmente. Isso, porém, não me admira nem espanta. Não era de
+esperar outra cousa desde que eu faltava cá para a reformar.
+
+--Quando chegaste?
+
+--Hoje de manhã.
+
+--Que tempo te demoras?
+
+--Não sei. Venho conferenciar com uns amigos sobre assumpto importante,
+e não posso calcular o tempo que isso me levará...
+
+--Não tencionas fixar residencia no Porto?
+
+--Não. Isto é pequeno demais para mim...
+
+--Bravo, seu João! Você está crescido!--disse Jorge galhofeiramente.
+
+--Pois tu comprehendes um vulto politico de certa importancia a viver no
+Porto? Já Lisboa é uma deprimente miseria, meu caro! Mas, emfim, como
+não ha outra terra maior, não ha remedio senão resignarmo-nos com
+ella...
+
+Lançou em volta de si um olhar superior, de desdem, mordeu a ponta do
+charuto caro, com affectação, e exclamou:
+
+--Que mal servido está este café! Não ha aqui um criado que venha
+receber as ordens?...
+
+Jorge bateu as palmas, chamando o criado.
+
+--O que tomas?--perguntou ao amigo.
+
+--Vou tomar cerveja.
+
+--Cerveja a este senhor--disse Jorge ao criado que se aproximara.
+
+Este relanceou um olhar curioso para o freguez que dava pelo nome de
+João Lazaro, e perguntou:
+
+--Ingleza?
+
+--Ingleza, sim!--respondeu o João Lazaro.
+
+E voltando-se para Jorge, emquanto o criado se afastava a cumprir a
+ordem:
+
+--Unica coisa em que transijo com esses bebedos inglezes!
+
+--Pagas-lhes assim a affeição que manifestam pelo nosso vinho...
+
+--Pelo nosso vinho e pela nossa Africa!--disse o João Lazaro com olhar
+torvo.
+
+--Pela _nossa_! Pois o Brazil tambem tem Africa?--interrogou motejador o
+amigo de Paulo--Porque tu, meu caro Lazaro, se bem me recordo, és
+brazileiro...
+
+--Mas portuguez pelo coração!--respondeu o outro com emphase.
+
+E accrescentou:
+
+--Ah! se não fosse o coração, cuidas tu que eu teria posto a minha
+mocidade, a minha energia, o meu talento, ao serviço de um paiz tão
+pequeno como este?...
+
+--Effectivamente, meu rapaz, tu és grande de mais para uma terra tão
+pequena como esta... E ella assim o comprehendeu expulsando-te do seu
+seio por duas vezes... Porque não vaes tu servir o Brazil, que é a tua
+patria, com a grande vantagem de encontrares lá já realisado o teu ideal
+politico?
+
+--Já te disse: sou portuguez pelo coração...
+
+--E ninguem é propheta na sua terra. Ah! velhaco! sabe-te melhor o pão
+_negro_ das terras brancas, do que a farinha branca das terras negras...
+
+A conversação foi interrompida n'este ponto pela aproximação de Eugenio
+de Mello que, tendo avistado João Lazaro, dirigiu-se a elle
+familiarmente:
+
+--Ó João--preveniu o bohemio--não te compromettas para amanhã á noite,
+porque temos ceia de rapazes em tua honra...
+
+--Oh, diabo!--replicou o Lazaro, sempre com ares de grande senhor--Para
+amanhã não será possivel, porque tenho negocios importantes a resolver e
+não sei se de dia ficarão concluidos...
+
+--Não sei; arranja-te como puderes, porque a rapaziada resolveu isto e é
+uma semsaboria se tu não appareces... Demais a mais, o elemento
+feminino, o elemento galante, faz-se representar, e tu não pódes deixar
+de ser gentil para com as damas.
+
+--Está bem: irei.
+
+E voltando-so para Jorge:
+
+--Não se conhecem?
+
+--Não tenho essa honra--disse Jorge.
+
+João Lazaro então apresentou:
+
+--O meu amigo Eugenio do Mello...
+
+E para este:
+
+--O meu amigo Jorge de Gusmão.
+
+Os dois cortejaram-se.
+
+--Estimo conhecer v. ex.^a--disse um.
+
+--Igualmente--disse o outro.
+
+E apertaram-se as mãos.
+
+--Como se trata de uma festa intima, de amigos pessoaes do João--disse
+Eugenio de Mello, dirigindo-se a Jorge--V. ex.^a, que é tambem amigo
+d'elle, dar-nos-ha muito prazer, comparecendo. É no Palacio, ás 10 da
+noite.
+
+--Agradeço, mas é-me absolutamente impossivel, o que muito sinto,
+associar-me a essa homenagem de estima ao nosso amigo, porque amanhã de
+tarde devo partir para Braga, aonde me chamam negocios urgentes e
+inaddiaveis--respondeu Jorge.
+
+--Creia v. ex.^a--tornou Eugenio amavelmente--que teria immenso prazer
+em o vêr lá...
+
+Jorge agradeceu com uma inclinação de cabeça.
+
+O bohemio, que não se sentara á mesa, despediu-se, dizendo ao Lazaro:
+
+--Vê lá! Se não nos virmos antes, ás 10, lá te esperamos. Fui
+encarregado de te dirigir o convite e agora não queiras collocar-me mal
+perante a rapaziada.
+
+Quando Eugenio se afastou, Jorge que, pelo nome, reconhecera n'elle o
+rival de Paulo, perguntou:
+
+--Quem é este rapaz?
+
+O outro sorriu desdenhosamente.
+
+--Um aventureiro!--respondeu.
+
+--A classificação é pouco lisonjeira para ti e menos ainda para elle...
+
+--De accordo. Mas é verdadeira. De resto, sabes que um homem politico
+tem por vezes a dolorosa e imprescindivel necessidade de se relacionar
+com a gente da mais baixa especie.
+
+--Mas este rapaz é...?
+
+--É um typo como ha muitos. Apresenta-se bem encadernado, insinua-se na
+confiança da gente fina e é util para muita coisa que nós outros não
+podemos fazer.
+
+--E vive d'isso?
+
+--Vive de tudo. A sua existencia é uma série de expedientes engenhosos.
+
+--Suppunha-o rico. Tenho-o visto frequentando a melhor roda de rapazes e
+passa entre elles por ser possuidor de grande fortuna...
+
+--Essa é a sua grande habilidade. Explora o jogo e o amor com tanta arte
+que, em vez de explorador, parece elle o explorado. Agora, por exemplo,
+gasta sommas enormes que lhe dão uma apparencia de rapaz rico, á custa
+de uma loura, que é a _sanguesuga_ deliciosa do commendador Garcia...
+Conheces?
+
+--Conheço o commendador Garcia perfeitamente.
+
+--E a loura?
+
+--Poderei tel-a visto, mas não estou certo.
+
+--Não sabes nada!--volveu o João Lazaro desdenhoso.
+
+--Mas como é que tu, chegando hontem ao Porto, já pudeste saber tudo
+isso?
+
+--Disse-m'o elle, porque o conheço de Lisboa, e comigo não tem reservas.
+Conta-me tudo.
+
+--Então, devia contar-te tambem que tem o casamento ajustado com uma
+rica herdeira...
+
+--Elle!?
+
+--Elle, sim!
+
+--Oh, diabo! Não me disse nada a esse respeito. Fallas sério?
+
+--Absolutamente sério. E o mais interessante é que o pae da noiva
+suppõe-n'o um rapaz riquissimo...
+
+--É boa! E não me disse nada! Que grande patife!
+
+--Pois é verdade.
+
+--Tens bem a certeza?
+
+--Conheço a noiva...
+
+--Ella quem é?
+
+--É filha de um capitalista, chamado Custodio de Jesus...
+
+--Não conheço.
+
+--Anda n'isso mettido um procurador chamado Belchior... Esse deves
+conhecer...
+
+--De nome apenas... Tenho d'esse homem as peores referencias, já do
+tempo em que vivi no Porto.
+
+--Pois mantem ainda hoje a boa reputação que já gosava no tempo em que
+ouviste fallar d'elle. O que ou não sabia era que especie de relações
+podiam ligar o procurador Belchior a este rapaz. Mas, visto dizeres-me
+que elle é um cavalheiro d'industria, está explicado o caso. Os dois
+combinaram-se para roubar o capitalista, apanhando-lhe a filha...
+
+--É bonita essa pequena?
+
+--Creio que sim.
+
+--Crês?
+
+--Nunca a vi, e por isso não a conheço pessoalmente. Mas tenho d'ella
+informações que a dão como uma belleza indiscutivel.
+
+--É pena, porque, se é formosa, merece outro marido que não um
+_escroc_... Mas que imbecil progenitor é esse, e demais a mais
+capitalista, que entrega assim a filha a um typo como é o Eugenio de
+Mello?
+
+--Não sei. Naturalmente suppõe-n'o rico, como toda a gente.
+
+--Pois, meu amigo, se te interessas por essa pequena, avisa o pae da
+cilada em que o querem fazer cahir.
+
+--Eu!--replicou Jorge--Não tenho nada com isso... Deixemos lá o rapaz.
+Póde ser que a fortuna o regenere.
+
+--A quem? Àquelle? É impossivel! Jogador, bebedo, extravagante, só está
+bem quando gasta ouro ás mãos cheias. Em Lisboa explorava o amôr de
+varias Messallinas da alta roda... Aqui, no Porto, segue o mesmo
+caminho, e com bastante felicidade pelo que vejo, pois que o encontro
+levando vida do principe e bellamente relacionado...
+
+--E melhor estará d'aqui por alguns dias, porque o casamento, segundo se
+diz, está para breve...
+
+--Os jornaes já deram noticia?
+
+--Não. Este negocio trata-se no maior segredo. E é natural, porque elle
+não deve desejar que a formosa lourinha o saiba e lhe transtorne os
+planos...
+
+--É curioso!--tornou o João Lazaro--Como as mulheres são estupidas nos
+seus amôres! Essa loura a que te referes teve a audacia de me resistir.
+Assediei-a durante muitos mezes, nos primeiros tempos da sua ligação com
+o commendador Garcia. Eu era incapaz de a explorar pecuniariamente...
+Contentava-me em que não me fizesse exigencias de dinheiro, porque para
+isso lá estava _o outro_. Escrevi-lhe cartas apaixonadas no meu
+estylo... tu sabes! todo litterario, que até era mal empregado n'aquella
+couçoeira de fórmas divinas, incapaz de me comprehender... Pois, meu
+caro, entrincheirou-se na sua fidelidade ao commendador e não houve de
+quê! Por fim, apparece este idiota, sem instrucção, sem elegancia, sem
+espirito, sem nada que o recommende, e conquista-a!
+
+--É sempre assim, meu amigo. As mulheres teem uma tendencia especial
+para escolherem o peor.
+
+--Não são só as mulheres. Toda a humanidade é assim. Segues uma estrada
+que se bifurca em dois caminhos, um dos quaes te conduz e outro te
+afasta do sitio a que te diriges. Escolhes ao acaso. Pois tem a certeza
+de que o que escolheste é sempre o peor. Mas o que me irrita é a fortuna
+estupida d'esse imbecil. Não vale a pena um homem ter talento, ser
+distincto, ser finamente superior a essas vulgaridades ignobeis que para
+ahi enxameiam, porque as mulheres, meu caro, hão-do ser sempre pela
+materia contra o espirito!
+
+O João Lazaro atirou fóra o charuto com affectado desdem e levou o copo
+da cerveja aos labios com a solemnidade de quem estivesse dando exemplos
+de suprema elegancia n'um salão aristocratico.
+
+Jorge Gusmão disfarçou um sorriso de motejo e disse:
+
+--Quem te ouvir ha de julgar que tens sido infeliz com as damas...
+
+--Não; não tenho sido. Muito pelo contrario, tenho sido alvo do
+carinhoso interesse de mulheres finas, elegantes, da primeira roda. Mas
+essas, impede-me a minha posição politica de lhes corresponder, porque
+se tal fizesse, as mediocridades do meu partido tratariam logo de lançar
+sobre mim a suspeição, accusando-me de me deixar subornar pela
+aristocracia.
+
+--Sacrificas o amor á politica...
+
+--Ao meu ideal sacrifico tudo!... E só assim, crê, é que um homem póde
+affirmar-se capaz de salvar um paiz á beira do abysmo...
+
+--Mas, ó João, tu seriamente pensas em salvar os outros ou em te salvar
+a ti? Porque afinal, sejamos francos, tu que diabo tens sacrificado ou o
+que é que pódes sacrificar ainda? Tu és pobre, tu nunca possuiste dez
+reis, tu não passavas de um anonymo perdido na massa dos anonymos, dos
+obscuros, dos humildes. Chegou uma occasião em que julgaste poder
+especular com o sentimento patriotico do paiz e especulaste, sem
+criterio, sem fé, sem consciencia, armando á popularidade, muito
+disposto a sacrificar os que te escutavam ao teu interesse pessoal...
+Erraste no calculo, porque, na hora em que julgavas ter triumphado,
+cahiste. Depois, por coherencia com os teus planos de ambição, e tambem
+porque te era impossivel retrogradar, visto que não tinhas adquirido
+valôr que te desse direito a uma cotação rasoavel no campo adverso,
+seguiste ávante, simulando convicção onde só havia má fé.
+
+--Não é tanto assim, meu caro--protestou o João Lazaro frouxamente.
+
+--Que diabo! sabes que te conheço e porisso de nada te vale o fingimento
+para comigo... Tu és um especulador politico, como o teu amigo Eugenio
+de Mello é um especulador amorôso... Vives dos _kalenderes do ideal_
+como elle vive das infelizes sonhadoras do amôr. As tuas fontes de
+receita são tão occultas e tão inconfessaveis como as d'elle.
+
+--Jorge, tu has-de ser sempre brutal com os amigos!
+
+--Sincero, sincero e leal é que eu sou. Não admitto que os amigos,
+porque o são, vão julgando que me illudem e que não os conheço
+cabalmente.
+
+--Eu não quiz nem quero illudir-te... Confio demasiado na tua amizade
+para não ser sincero comtigo. Mas que demonio queres tu que eu faça
+n'estas circumstancias? Eu bem sei que foi um mau passo o que dei
+misturando-me com esta canalha... Mas agora que remedio tenho senão
+proseguir no caminho mau em que me lancei?
+
+--Tambem não é tão mau como dizes. Que poderias tu esperar dentro das
+velhas normas? A manga d'alpaca e desoito a vinte mil reis por mez com
+papel dos officios para as intermittencias jornalisticas. Mais nada,
+porque as repartições estão atulhadas de ociosos e mais um importa já um
+verdadeiro attentado orçamental. Assim, dás-te ares de martyr, de
+principe desthronado, diante dos papalvos que vêem uma aureola de gloria
+a circumdar-te a fronte, e pedes-lhes dinheiro emprestado para poderes
+sustentar o prestigio da causa...
+
+--Oh! mas estão já desmoralisados... São uns verdadeiros biltres!
+Imagina tu que, para vir ao Porto onde preciso de me mostrar, porque
+quem não apparece esquece, foram-me precisos seis idiotas dos mais
+fanaticos para, espremidos e quotisados, poderem dar-me duzentos mil
+reis!
+
+--Pois sim, meu bom Lazaro... Concordo que nem tudo sejam rosas no teu
+caminho. Mas tu em certo modo tens tido a culpa.
+
+--Eu?
+
+--De certo. Tens habitos de grandeza, jantas como um principe, o que não
+custa a fazer quando se tem ás ordens a bolsa dos parvos. Mas os parvos
+tambem ás vezes ganham juizo...
+
+--Que queres tu que eu faça? Nas circumstancias em que me encontro, se
+deixo de honrar a minha posição, apresentando-me em harmonia com o meu
+nome, sou um homem perdido, sou um homem morto pelo ridiculo!...
+
+--E o que vens tu fazer ao Porto?
+
+--Venho arranjar dinheiro...
+
+--Para quem?
+
+--Para mim.
+
+--E suppões que t'o dêem?
+
+--Ainda aqui ha gente de muito bôa fé...
+
+--Mas da outra vez não deixaste a vinha vindimada?
+
+--Isso já esqueceu. Agora o processo é outro...
+
+--Bem; anda lá!
+
+João Lazaro levantou-se.
+
+--E tu, sempre o mesmo?
+
+--O mesmo sempre.
+
+--És um homem singular!
+
+--Divirto-me com isto... Gosto de observar a humanidade, que é realmente
+o livro mais curioso e mais difficil de lêr.
+
+--Um homem com o teu espirito, com a tua intelligencia e com a tua
+fortuna podia ir longe, se quizesse, n'este paiz onde só os audaciosos
+vencem.
+
+--Não sou ambicioso e confio muito pouco nos homens. Conheço-os tão bem!
+
+João Lazaro consultou o relogio.
+
+--Ainda posso tornar a vêr-te antes de partir?
+
+--Pódes. Sabes a minha casa. Encontras-me lá todos os dias até á uma
+hora da tarde.
+
+--Irei dizer-te adeus.
+
+--Pois sim.
+
+Apertaram-se as mãos e despediram-se.
+
+João Lazaro sahiu com ar altivo e magestoso, relanceando um olhar de
+despreso pelos frequentadores abancados ás mesas.
+
+Já na rua, ia murmurando:
+
+--Ora o patife do Eugenio de Mello, que vae abotoar-se com a filha de um
+capitalista!
+
+Os labios grossos, de mulato, vincaram-se-lhe n'um sorriso mau. É que ao
+cerebro accudira-lhe um pensamento terrivel.
+
+--Bôa occasiao de lhe empalmar a loura e de me vingar d'elle pelo
+cuidado com que occultou de mim o seu projecto de casamento!--rosnou por
+entre dentes--Decididamente, eu sou um homem de genio e não devo
+consentir que este idiota me passe adiante e se me avantage em amôr, em
+fortuna e em posição social.
+
+João Lazaro, vaidoso, vingativo e perverso, raça de preto e branco,
+minado de inveja, roido d'ambições, irritava-se e agitava-o um rancor
+profundo quando algum dos seus amigos ou companheiros de mocidade, por
+esforço proprio, por acaso, ou por capricho da fortuna, melhorava de
+posição e subia mais um furo na escala das considerações sociaes.
+
+A perspectiva de vêr Eugenio de Mello casado com a filha de um
+capitalista, pompeando grandezas e vivendo a vida feliz que o dinheiro
+dá, acendera-lhe um inferno de invejas na alma parda como um ceu de
+maio, prenhe de trovões, e como a propria _parda_ brazileira de quem era
+filho e cujas feições retratava na côr bronzeada, nos labios grossos,
+nos dentes brancos, no nariz de ventas largas e acachapadas e no
+cabello, onde havia ainda uns longes de carapinha.
+
+De resto, alto, entroncado, de andar desenvolto e um tanto gingado, de
+preto _capoeira_, tinha o quer que era de elegante e distincto, e
+chegaria mesmo a ser attrahente e sympathico, se não fôra a pretensão
+ridicula que se lhe trahia nos gestos e attitudes de grande senhor.
+
+Tal era physica e moralmente João Lazaro, que o leitor terá occasião de
+apreciar melhor em capitulos subsequentes.
+
+Por agora, deixemol-o ruminar o seu infame plano de anniquilar o amigo
+que o convidava para uma ceia em sua honra, e vamos nós travar relações
+com outros personagens importantes d'esta complicada mas veridica
+historia.
+
+
+
+
+XII
+
+Velhos conhecimentos
+
+
+Em S. Martinho de Campo, concelho da Povoa de Lanhoso e não longe da
+casa de Norberto de Noronha, que os leitores da _Irmã Dorothea_ já
+conhecem, havia uma outra casa de bôa apparencia,--_casa nobre_, como lá
+se diz,--mas de severo e melancholico aspecto.
+
+Permanecia a maior parte do anno fechada, e apenas na quadra estival as
+suas janellas se abriam e as salas se illuminavam n'um rumor de alegria
+e de festa.
+
+É que a proprietaria d'essa casa, D. Aurelia de Magalhães, tendo casado
+e perdido marido e filho no curto espaço de quinze dias, ao cabo de
+cinco annos do seu consorcio, envolvera-se nos crepes da viuvez e
+encerrara-se n'uma tristeza calma e resignada que a solidão do seu viver
+tornava ainda mais profunda.
+
+Occupando um aposento interior do edificio, servida apenas por uma velha
+criada que fôra sua ama de leite, raras vezes sahia do seu quarto; mas
+quando sahia, n'um curto passeio, nunca transpunha os limites da vasta
+propriedade murada e inaccessivel ás vistas exteriores.
+
+Os caseiros encarregados do amanho e semeadura das terras passavam mezes
+que a não viam, nem mesmo ao domingo á hora da missa, na capella da
+casa; porque a pobre viuva, occulta nas sombras do côro que communicava
+com o interior da vivenda, podia assistir sem ser vista á celebração do
+santo sacrificio.
+
+O irmão d'esta senhora, Gustavo de Magalhães, o sensato academico que na
+_Irmã Dorothea_ vimos desempenhar um curto mas sympathico papel como
+amigo de Julio de Montarroyo e do infeliz Norberto de Noronha,
+doutorara-se em direito e, impulsionado pelo talento, fôra abrir banca
+de advogado em Lisboa, onde conquistou rapidamente uma reputação
+brilhantissima de orador e jurisconsulto notavel.
+
+Quando soube que a irmã enviuvára, quiz leval-a a viver comsigo na
+capital; mas a magoada viuva recusou, preferindo gemer as saudades do
+esposo e do filho mortos na solidão de S. Martinho do Campo, a abafal-as
+no ruidoso e atordoante bulicio da grande cidade.
+
+Gustavo de Magalhães, respeitando a dôr da irmã, não insistiu, e como
+tambem na vida agitada da capital as saudades da sua aldeia o pungiam,
+reservava os mezes do estio para ir em piedosa romagem ao berço natal, e
+alli se demorava de junho a setembro.
+
+Era então, quando elle chegava com a mulher e os filhos--e já contava
+nada menos de tres--que a vida entrava na casa, e ao silencio e á
+tristeza succediam o ruido e a alegria.
+
+Os amigos vinham de Braga e Guimarães visital-o, demoravam-se dias,
+havia passeios, jantares na Senhora do Porto, os pequenos chilreavam na
+casa logo de madrugada e arrastavam a titi a longas caminhadas pelo
+campo.
+
+E D. Aurelia, sempre triste e resignada na sua dôr e no seu luto,
+acariciava os pequenos e mostrava-se contente com a alegria dos outros.
+
+--Aurelia--dizia-lhe o irmão--se vivesses um anno em Lisboa, verias como
+isso te fazia bem.
+
+--Não, Gustavo, não--replicava a dolorida viuva.--Aqui nasci, aqui vivi
+feliz na companhia de meu marido e de meu filho, e aqui desejo morrer na
+saudade dos que me fôram queridos.
+
+--Mas este ruido, esta alegria de que nós te cercamos contraria-te, não
+é verdade?
+
+--Não, meu irmão! De modo nenhum. A vossa alegria é a minha alegria, a
+unica que póde ser-me suave alem da que sinto na recordação dos entes
+que perdi.
+
+No emtanto, D. Aurelia, quando o irmão se retirava para a capital,
+sentia como que uma especie de allivio intimo, por poder regressar ao
+silencio e á solidão dos seus habitos, silencio e solidão que eram um
+linitivo ás amarguras do seu espirito.
+
+Ora é justamente n'uma d'estas visitas de Gustavo á sua aldeia que nós
+vamos encontrar a casa de D. Aurelia de Magalhães em festa.
+
+Gustavo chegara havia oito dias e os velhos amigos e condiscipulos, ao
+saberem da sua chegada, apressaram-se a visital-o.
+
+Vamos encontral-os reunidos no vasto salão, á noite, com as janellas e
+sacadas abertas, rindo e conversando, emquanto que D. Albertina, a
+gentil esposa de Gustavo, sentada ao piano, executa algumas das modernas
+composições mais em voga.
+
+A noite estava bella, de luar--d'esse luar sereno e calmo das noites
+claras do estio.
+
+Em volta do velho palacete, reinava a dôce paz silenciosa das aldeias,
+apenas quebrada pelo rumôr dos mil insectos que, n'um admiravel
+concerto, faziam ouvir essa magica symphonia dos campos adormecidos,
+symphonia cujo maravilhoso segredo de orchestração nenhum grande maestro
+pôde ainda devassar.
+
+Na sala, o piano calara-se e os hospedes de Gustavo de Magalhães,
+attrahidos pela belleza da noite, vieram debruçar-se nas sacadas
+continuando as conversações em que estavam entretidos.
+
+--É verdade, sabes, Gustavo?--disse D. Aurelia--vende-se outra vez o
+palacete que foi de Norberto de Noronha.
+
+--Vende?--respondeu o advogado--Então o Pinho, o brazileiro para onde
+vae?
+
+--Volta para o Brazil, segundo contou hoje a mulher do caseiro á
+Mathilde, á minha criada de quarto.
+
+--É singular! Mas o Pinho, segundo se dizia, veio senhor de uma grande
+fortuna e não tencionava tornar para o Brazil.
+
+--O Pinho--esclareceu o medico de partido, o dr. Gomes, que fôra
+substituir o Negrão, fallecido ha annos--tem soffrido, ao que me consta,
+prejuizos importantes no Brazil... Depois, elle não é um homem
+economico... tem dispendido.
+
+--Pois parece que não deveria ser assim--objectou Gustavo--Um homem, com
+uma fortuna superior e que vem enterrar-se n'uma aldeia, não tem rasões
+para dissipar as fabulosas sommas que o doutor diz... Em que? Se vivesse
+no Porto ou em Lisboa, comprehendo. Mas aqui, em S. Martinho de Campo!
+
+--Pois é verdade!--tornou o doutor--Aqui mesmo, em S. Martinho de Campo,
+o Pinho tem tido a habilidade de dar cabo de mais de cincoenta contos em
+dez annos.
+
+Houve um murmurio de incredulidade no pequeno auditorio.
+
+--Não póde ser!--insistiu Gustavo--Elle comprou a casa que foi de
+Norberto de Noronha, por um preço inferior; gastou alguma coisa em a
+reformar, mas não foi muito, porque não lhe alterou a planta e apenas se
+limitou a uma simples questão de limpesa... Não me consta que tenha dado
+bailes, que reuna em sua casa grandes companhias ou que se haja cercado
+de uma opulencia tal que justifique as loucas despezas que o doutor lhe
+attribue.
+
+--Pois ahi é que está a desgraça!--retorquiu o medico--Soube ganhal-o e
+não o soube gastar... O Pinho desfez-se em dadivas a todo o mundo desde
+que chegou...
+
+--A todo o mundo!?
+
+--É um modo de dizer. Deu um manto bordado a ouro a Nossa Senhora do
+Porto; offertou um pallio novo á junta de parochia; mandou fazer um
+painel á irmandade das almas; mandou construir á sua custa a torre que
+faltava na egreja, pôz-lhe dois sinos, um relogio, e tem sido elle o que
+tem feito á sua custa a festa a Santo Emilião... Tudo isto parece que
+não é nada, mas bocado hoje, bocado amanhã, no fim vae-se a vêr e somma
+contos de reis...
+
+--Isso é verdade!--concordaram alguns do grupo.
+
+--Mas cincoenta contos, doutor, olhe que é muito dinheiro!--contestou
+ainda Gustavo.
+
+--Mas não se teem limitado só a isso as despezas do Pinho... Tem
+protegido muita gente... tem dotado muita rapariga pobre cá dos sitios,
+tem sido padrinho de todos os afilhados, tem emprestado dinheiro a toda
+a gente e d'onde se tira e não se põe...
+
+--Bem sei! Em todo o caso...
+
+--Em todo o caso--concluiu o doutor--se não fossem os ultimos revezes
+soffridos lá no Brazil, o Pinho, com um bocado de juizo, podia ainda
+aguentar-se. Mas, ao que me consta, as perdas foram importantes e elle
+não tem remedio senão ir acudir ao resto, para não ficar litteralmente
+sem nada.
+
+--Pobre homem! Tenho pena.
+
+--O Pinho é um bello coração. Um bocadinho vaidoso, gostando de se impôr
+pelo seu dinheiro, mas, no fundo, um pobre diabo. Os de cá
+conheceram-lhe o fraco; começaram a lisonjeal-o, tudo era o sr. Pinho
+isto, o sr. Pinho aquillo... Se até o metteram em folias de eleições! A
+ultima não lhe ficou por menos de dez contos...
+
+--E nem sequer o fizeram visconde? Pois admira!
+
+--A esse respeito, houve umas historias muito compridas... O titulo
+estava-lhe arranjado, mas quem lh'o arranjava, á ultima hora, precisou
+de uma somma importante... O Pinho soube-o e não se lembrou de a
+offerecer. N'isto, o Pires de Briteiros, que andava com o cheiro em ser
+titular, apresentou-se a fazer o offerecimento, e apanhou o titulo para
+elle...
+
+--Que miseria!--disse Gustavo enojado.
+
+--E até foi bom para o Pinho--tornou o doutor.--Porque, se lhe tivessem
+dado o titulo, agora a sua situação era muito mais difficil. Imaginem:
+um homem sem dinheiro e com um titulo ás costas...
+
+--Deve ser horrivel!
+
+--Pois foi do que elle se livrou! Ha males que veem por bem...
+
+--E quanto quer elle agora pela casa?
+
+--Não sei... Deve vendel-a barata. Como sabe, elle não ficou com todas
+as propriedades do velho Noberto. Apenas comprou os campos que circumdam
+o predio e que pódem valer, com os melhoramentos que elle lhes tem
+feito, os seus nove a dez contos de reis. Mas estou persuadido que se
+apparecer quem lhe dê oito, o homem não diz que não...
+
+N'este momento ouviu-se o rodar de uma carruagem que parou ao portão da
+casa de Gustavo.
+
+--Quem nos honra?--disse o doutor, ao ver apear um sujeito de sobretudo
+claro e franquear o portão de entrada, depois de fallar ao criado.
+
+--Querem vocês vêr que é o Sampaio que se aborreceu nas Taypas e veio
+até cá para se distrahir um pouco?
+
+Disse e ia a encaminhar-se para a porta, afim de o receber, quando
+Sebastião, o criado da casa, appareceu no limiar, dizendo:
+
+--Senhor doutor, saberá v. ex.^a que está lá em baixo um senhor que diz
+que deseja fallar ao sr. doutor....
+
+--A qual de nós?--disse rindo Gustavo.--Aqui ha uns poucos de
+doutores... Solicita o soccorro da medicina ou as luzes da
+jurisprudencia, esse estranho recemchegado?
+
+--Elle diz que é ao sr. doutor Gustavo.
+
+--Ah! então é comigo... Não disse o seu nome?
+
+--Não quiz _dezer_... É um senhor de barbas...
+
+--Bem! Vamos lá ver as barbas d'esse senhor.
+
+E voltando-se para os hospedes:
+
+--Meus amigos, deem-me licença... Isto é por força gracejo de algum
+amigo de nós todos... A esta hora, não é natural que um desconhecido me
+procure... Eu volto já.
+
+Gustavo de Magalhães passou á sala onde o aguardava o desconhecido
+visitante.
+
+Era este um homem que figurava ter quarenta a quarenta e cinco annos,
+estatura regular, barba loura em que se entremeavam já muitos fios
+brancos, accusando, com as rugas profundas que lhe cavavam as faces, uma
+vida de longo soffrimento moral. Vestia correctamente um sobretudo
+escuro apesar da estação calmosa ser mais propria ao uso das côres
+claras.
+
+Ao vêr entrar Gustavo, caminhou para elle de braços abertos, n'uma
+expansão de velha amizade, dizendo:
+
+--Já me não conheces, não é assim, Gustavo?
+
+--Julio! Pois és tu?
+
+--Sou eu, meu amigo!
+
+E Julio de Montarroyo, pois que era elle, estreitou effusivamente nos
+braços o seu amigo e companheiro de infancia.
+
+--Mas o que é feito de ti?--perguntou Gustavo--Ha quantos annos não
+tenho tido noticias tuas!
+
+--Tenho viajado. Ha perto de dezoito annos que deixei o paiz...
+
+--Singularissima ausencia!
+
+--Que queres? Precisava de movimento, precisava das estranhas commoções
+do imprevisto, porque precisava de esquecer...
+
+--E esqueceste, afinal? Ainda bem!
+
+--Não, não esqueci nem esquecerei jamais... E a prova é que, ainda
+agora, velho, doente, alquebrado, eu venho ao sitio onde ella viveu e
+d'onde partiu para não mais voltar, dar á minha alma o supremo lenitivo
+de contemplar os logares que a viram creança, pura, innocente, feliz, e
+onde tudo me hade ainda fallar d'ella!
+
+Gustavo encarou surprehendido o seu amigo. Atravessára-lhe o cerebro a
+suspeita de que as faculdades mentaes d'aquelle homem estavam
+desgraçadamente transtornadas.
+
+Julio percebeu esta suspeita no olhar do amigo e disse, sorrindo:
+
+--Julgas-me doido, não é verdade?
+
+--Não, não julgo...--replicou o irmão de Aurelia de
+Magalhães--Surprehende-me apenas que, volvidos tantos annos, as viagens
+e o tempo não pudessem ainda desvanecer-te do peito essa fatal paixão.
+
+--Nada a desvaneceu nem desvanecerá, meu amigo. Ama-se uma vez na vida,
+uma unica; e aquelle que póde esquecer a mulher que uma vez disse amar,
+é porque sinceramente não a amou.
+
+--Mas não tiveste mais noticias de Helena de Noronha?
+
+--Nunca mais. Recebi d'ella uma carta, participando-me que ia para
+Pariz, transferida para uma casa de _irmãs Dorotheias_ e pedindo-me que
+a fosse esperar n'aquella grande cidade, onde me daria noticias suas.
+Fui. Esperei muitos mezes inutilmente uma carta, um recado, uma palavra
+que me tirasse da infernal situação em que me encontrava e me désse uma
+esperança, ainda que longinqua, de a tornar a vêr...
+
+--E como pudeste esperar tanto tempo?
+
+--Esperaria até ao fim do mundo se, pelas indagações a que procedi,
+pudesse capacitar-me de que ella estava em Paris. Relacionei-me com os
+jesuitas, apparentei uma crença profunda, fiz-me beato, frequentei as
+egrejas, as casas religiosas, percorri todos os institutos, todos os
+collegios jesuiticos e não a encontrei. Então tive a suspeita de que
+talvez houvessem descoberto a intenção em que aquella infeliz estava de
+se unir a mim e a tivessem enviado a outra parte. Passei á Hespanha,
+percorri todas as cidades e usei de todos os meios que podiam
+permittir-me o encontral-a. Tudo inutil. Tomado da febre da
+investigação, segui para a Belgica, passei á Italia, familiarisei-me com
+toda a ala negra, occultando sempre o meu pensamento secreto. D'alli fui
+á Africa Oriental, percorri as missões onde me seria facil encontral-a,
+e sempre baldadamente. Nem pelo nome, nem pela figura, nem ainda pela
+familia, me foi possivel obter noticias d'ella. Afinal, desalentado,
+velho, gasto, alquebrado e doente, resolvi regressar a Portugal,
+convencido de que Helena de Noronha, na ala negra conhecida pela _irmã
+Dorotheia_, já não existe!
+
+--Meu pobre amigo!--disse Gustavo envolvendo-o n'um olhar de funda
+compaixão--que grande fatalidade foi para ti essa mulher na tua
+existencia!
+
+--Bem pensado, não foi--volveu Julio--Devo-lhe soffrimentos acerbos, mas
+tambem lhe devo alegrias intensas, esperanças dulcissimas que outra
+mulher jámais poderia alentar-me! Quando em meio dos meus desalentos me
+sorria uma probabilidade de a encontrar, que felicidade meu amigo! que
+doida alegria a minha! Agora, regressando a Braga, leio n'um jornal que
+se vende o palacete de Norberto de Noronha, e venho compral-o.
+
+--Comprar a casa de Norberto de Noronha!
+
+--Sim.
+
+--Com que fim? O que pretendes fazer?
+
+--Viver n'ella os ultimos dias da minha vida, que não será longa...
+
+--Mas vens só, não tens familia?
+
+--Minha mãe morreu ha mais de dez annos. Minhas irmãs casaram,
+constituiram familia, e eu encontro-me só... só com as minhas
+recordações!
+
+--Muito bem, meu Julio. Aqui me tens como amigo e como irmão, hoje como
+sempre. És meu hospede, e espero que me darás o prazer da tua companhia
+emquanto me demorar por estes sitios.
+
+--Já sabia que estavas aqui, e por isso te procurei. Desejo a tua
+interferencia n'este negocio.
+
+--Estou ao teu dispôr, meu caro. Mas deixa-me apresentar-te aos meus
+amigos que tiveram a santa caridade de vir alegrar-me as horas d'esta
+triste solidão. Tambem quero apresentar-te minha mulher e meus filhos,
+que já te conhecem de me ouvirem fallar muitas vezes de ti... Minha
+irmã, essa já t'a apresentei n'outros tempos, e has-de gostar de a vêr,
+porque, como amiga de infancia de Helena de Noronha, fallar-te-ha d'ella
+com aquelle entranhado affecto que sempre lhe tributou, apesar da sua
+ingratidão... Vem!
+
+Deu-lhe o braço e conduziu-o até á sala onde já todos os esperavam com
+grande curiosidade.
+
+A entrada de Julio de Montarroyo produziu geral impressão nos
+circumstantes.
+
+Alguns d'elles, antigos companheiros, mal reconheciam n'aquelle velho o
+elegante moço bracarense de ha 18 annos, notavel nas duas cidades--Braga
+e Guimarães--pelo apurado esmêro no trajar e pelos distinctos primôres
+da educação.
+
+Feitas as apresentações, todos quizeram ouvir da bôca do recemchegado a
+relação das suas viagens, que elle narrou n'uma linguagem viva,
+scintillante, pittoresca, cheia de encantos, occultando, no emtanto, o
+secreto motivo de tão longa e demorada permanencia em paizes estranhos.
+
+--De modo que--disse por fim o commendador Seabra, um dos mais velhos
+condiscipulos de Julio--eis-te de novo entre nós, qual filho prodigo que
+regressa á casa de seus paes!
+
+--É verdade, meu amigo! Verdadeiramente um filho prodigo, que
+desperdiçou vida, mocidade e dinheiro entre os estranhos e que regressa
+velho, cançado e cheio de achaques, a pedir á terra em que nasceu um
+canto onde possa morrer descançado.
+
+--Morrer! Quem falla aqui em morrer?--atalhou Gustavo alegremente--Tens
+ainda vida para muito tempo, meu amigo! Vens robusto, vigoroso, cheio de
+saude, e fallas em morrer! O que direi eu, gasto e cançado por uma vida
+inteira de trabalho, pae de tres filhos, tres enormes traquinas, que
+reclamam constantemente os meus cuidados e que todos os dias me recordam
+a necessidade impreterivel que tenho de viver para elles, até os fazer
+homens e acompanhar a sua entrada no mundo com os conselhos da minha
+experiencia e do meu amôr de pae? E, no emtanto, não penso em morrer sem
+ter cumprido a minha missão...
+
+--É justo--respondeu Julio--Ha um objectivo na tua existencia, que te
+faz amar a vida e te dá força e coragem para a não perderes: são os
+filhos, é a esposa, é a familia, é toda essa inquebrantavel cadeia de
+affectos que prende o homem ao mundo e o faz triumphar dos desalentos,
+das dôres physicas e moraes, conduzindo-o, confiado e alegre, através a
+velhice como o viajeiro através os areaes do deserto, com os olhos fitos
+no oasis que, de longe, lhe promette repouso e frescura. Mas eu,
+abandonado e só, sem familia, sem o estimulo dos grandes affectos que
+tornam o homem superior a si mesmo, que outra coisa posso desejar senão
+a morte redemptora dos grandes desgraçados?
+
+--Casa-te, meu amigo, casa-te!--aconselhou o commendador Seabra n'um tom
+de convicta auctoridade.--Olha que não ha como o casamento para fazer um
+homem perder certas ideias... Eu tambem fui rapaz, tambem tive as minhas
+estroinices, as minhas excentricidades... Não andei lá por fóra, porém,
+cá dentro mesmo, no meu paiz, e até sem sahir de Guimarães, fiz o que
+pude... Mas quando cheguei a certa altura e senti que começava a
+aborrecer-me da vida, disse commigo: «Nada! isto não está bem... Preciso
+ter alguem a quem me dedique de alma e coração... alguem a quem eu
+estime e que me estime tambem, porque um barco só não faz carreira...»
+Tive a fortuna de encontrar o que desejava, uma esposa que é um anjo, um
+genio em tudo igual ao meu, e foi dito e feito! Casei e temo-nos dado
+muito bem... Não é assim, Gracianinha?--rematou, pondo os olhos na
+esposa, a D. Graciana, uma senhora adiposa, de enorme carão vermelhusco,
+toda cheia de requebros e denguices, mais do que é permittido a uma
+mulher que passa dos quarenta.
+
+--É assim, meu amigo!--suspirou a D. Graciana, revirando para o marido
+os olhos ternos e abanando-se com o leque, na pudibunda attitude de uma
+paixão confessada.
+
+--Não temos tido filhos--tornou o commendador, muito roliço, muito
+gordo, envolvendo a mulher n'um olhar carinhoso--mas não é por falta de
+amôr... É que ella não é de qualidade de os ter... Mas vê tu que eu era
+um espeto... lembras-te que eu era um espeto? Pois estou isto que vês!
+Gordo e forte, que nem pareço o mesmo!... E tudo isto foi depois que
+casei... Não ha nada como o casamento para dar saude a um homem!
+
+E empertigava-se vaidoso, com os pollegares mettidos na cava do collete,
+e tamborilando com os dedos restantes no peito, n'uma exhibição grotêsca
+das fartas enxundias que lhe repuxavam a pelle e lhe avolumavam o
+rotundo abdomen.
+
+Os circumstantes riam d'esta apologia do matrimonio feita pelo
+commendador que, segundo resavam as más linguas, soffria uma cruz em
+casa com os destemperos da D. Graciana, ciumenta e desconfiada.
+
+--Ora agora o que é preciso--propôz o juiz de direito, um velhote de
+oculos, bigodes brancos, com uma voz aflautada e cheia de impetuosidades
+nervosas--é não deixar passar despercebido este feliz acontecimento do
+regresso de um querido e distincto filho do Minho aos encantos da sua
+provincia e aos braços dos velhos amigos, que todos gemiam saudades pela
+sua prolongada ausencia!
+
+E, n'uma voz de cada vez mais aflautada e repassada de sentimento:
+
+--Isto é mais do que um regresso, isto é uma resurreição! Propunho,
+pois, uma Paschoa _inter amicus_, uma festa alleluitica, em que se
+celebre condignamente o _resurrexit_ d'este illustre cavalheiro, que eu
+não tinha a honra de conhecer pessoalmente, mas a quem já estimava e de
+quem era sinceramente amigo, pelo conhecimento de seus primores e
+gentilezas, que a tradição oral tinha trazido até mim!
+
+Este alvitre do festeiro magistrado obteve calorosa approvação e logo
+alli se decidiu promover uma festa ruidosa em honra de intrepido
+viajante, que dezoito annos gastara em percorrer as _sete partidas_ do
+mundo, como o _infante D. Pedro_.
+
+O juiz foi o encarregado de elaborar o programma e nomear a commissão
+que havia de proceder aos festejos.
+
+Era uma alegria louca entre os hospedes de Gustavo pela perspectiva de
+mais um dia de grossa pandega.
+
+--Livra-me d'esta gente, meu amigo!--segredou Julio a Gustavo.--Tu, que
+conheces o estado do meu espirito, bem deves avaliar quanto esta alegria
+me mortifica!
+
+--Nem eu, nem poder algum da terra poderá livrar-te d'estas honras, que
+só aos _eleitos_ da amizade se concedem, meu caro; salvo se tiveres a má
+lembrança de emigrar outra vez; e, ainda assim, ha-de ser
+clandestinamente, porque, se constar que andas a tirar passaporte,
+agarram-te e não te deixam partir sem gramares a festa!
+
+--Meu Deus! Em que má hora eu vim a tua casa!--murmurou Julio.--Venho a
+fugir do bulicio, do ruido, da curiosidade dos amigos e conhecidos, e
+eis-me o alvo de alegrias, quando mais devêra ser um objecto de
+tristezas!
+
+--Tem paciencia, meu amigo! A tua larga ausencia do paiz fez-te
+esquecer, pelo que vejo, os habitos festivos da nossa provincia, que
+ainda não mudaram. O portuguez, especialmente o minhoto, não perde
+occasião, e tudo lhe serve de pretexto, para se evadir ás melancholias
+do temperamento. Um casamento, um baptisado, um dia d'annos, um amigo
+que chega, um amigo que parte, tudo isso constitue motivo de festa. Fóra
+d'ahi, é sisudo, sorumbatico, macambuzio, incapaz de, por coisa alguma
+d'este mundo, se arredar da linha inquebrantavel de uma inquebrantavel
+bisonhice. Deixa-os, pois, deixa-os divertir-se, que a alegria d'elles
+não é d'aquellas que magoam o coração dos que soffrem...
+
+No dia seguinte, Julio levantou-se cêdo e, n'um curto passeio,
+dirigiu-se sósinho para os lados da velha casa de Norberto de Noronha.
+
+O brazileiro Pinho, que conservava os habitos madrugadores, adquiridos
+no Brazil, todo vestido de linho crú e na cabeça um bonnet de gorgorão
+preto, debruçava-se no caramanchão erguido em um dos angulos do jardim.
+
+Respirava a longos haustos o ar fresco da manhã, tendo cravado no
+horisonte um vago olhar de tristeza.
+
+Pensava talvez nas fundas saudades que já curtira longe da patria, e
+n'aquellas que ainda o haviam de consummir, agora que, depois de velho e
+quando esperava morrer tranquillo n'aquelle adorado canto da sua aldeia,
+era outra vez obrigado a expatriar-se.
+
+Julio, ao vêl-o, parou na estrada e cortejou:
+
+--Bons dias!
+
+O Pinho levou a mão ao bonnet e correspondeu, saudando:
+
+--Muito bons dias!
+
+--É o proprietario d'esta casa?
+
+--Um seu criado!
+
+--Li que ella se vende. Posso vêl-a?.
+
+--Pois não! Eu lhe vou mandar abrir a porta...
+
+E chamando pelo criado:
+
+--Ó Manéca, vae na porta abrir ao cavalheiro, hein!--ordenou.
+
+O _Manéca_, um labrego de jaqueta, chapéo braguez e suissa talhada em
+fórma de foicinha, foi abrir, com grandes zumbaias, levando no labio
+escanhoado o sorriso humilde e servil de quem nasceu para sêr mandado e
+obedecer.
+
+Julio entrou e d'ahi a pouco travava com o brazileiro Pinho este
+dialogo:
+
+--V. s.^a vende esta propriedade, não é assim?
+
+--Me résólvi á vender ella, porque estou preparando minhas coisas p'ra
+tornar no Brazil...
+
+--Esta casa--disse Julio--era de um antigo fidalgo que aqui morou e aqui
+morreu, o sr. Norberto de Noronha...
+
+--Não conheci elle, mas tenho ouvido fállár... Bôa péssôa, pelas
+informações que dão-me d'elle, hein!
+
+--Não foi, portanto, ao velho fidalgo que v.^a s.^a comprou a casa?
+
+--Nada. Quando vim do Brazil e cheguei em Portugal, a primeira coisa que
+lembrou-me foi comprar casa bôa, que tivesse commodos ella... Mas eu a
+queria já feita, hein! Me aborrecia estar esperando que fizesse-se ella,
+já viu? Depois meu compadre Damião me escreveu um dia para o Porto,
+dizendo que tinham botado annuncio n'uma gazeta de Braga p'ra vender
+este palacete... Vim vêr ella, me agradou por ficar nos meus sitios e a
+comprei... É uma rica peça, que tenho muita pena de deixar ella!... Mas
+como vou no Brazil outra vez e não sei o tempo que demorarei-me por
+lá...
+
+--Norberto de Noronha--tornou Julio--tinha uma filha... Foi a essa
+senhora que comprou esta casa?
+
+--O négocio foi tratado com um procurador d'essa minina, qui estava
+ella, dizem, nas irmãs da caridade e tinha passado procuração a esse tal
+João Ignacio para vender elle todos os bens, já viu? Mas eu lhe fiquei
+só com a casa e com estes campos de ao pé da porta... As outras
+propriedades si venderam a differentes... Vossa excélléncia conheceu a
+familia de Norberto, já vejo...
+
+--Conheci. A casa soffreu modificações?
+
+--Não altérei-lhe a planta, a ella, não... Lhe mandei botar papel e
+pinturas novas, hein! mas lhe deixei ficar as divisões todas... O mesmo
+jardim ainda é do risco que estava elle no tempo do fidalgo...
+
+O Pinho, muito amável, convidou Julio a vêr a casa para certificar-se de
+que era uma vivenda _muito bôa ella_ e que se conservava quasi no mesmo
+estado em que o fidalgo a deixára.
+
+Julio, ao entrar na sala onde fallára pela primeira e ultima vez a
+Norberto de Noronha, já paralytico, cerrou um momento os olhos,
+commovido, e a sua memoria evocou a figura d'aquelle pobre morto-vivo,
+que alli jazêra por tanto tempo ainda, na esperança de tornar a vêr a
+filha, criminosamente ingrata ou assombrosamente desgraçada, por quem
+morria.
+
+Esse compartimento da casa, por uma d'estas casualidades difficeis de
+explicar, não merecêra as attenções do brazileiro para o mandar reparar.
+Conservava-se no mesmo estado e na mesma disposição em que Julio o vira
+a primeira vez quando alli entrou. Apenas alguns dos velhos moveis de
+Norberto, inclusivè a cadeira de rodas em que tão longamente agonisara,
+achavam-se alli accumulados, em monte, a um canto.
+
+--Isto áqui me tem sérvido para arrumações--explicou o brazileiro.--Aqui
+encontrei esta cangalhada quando vim na casa e, de dia em dia, p'ra pôr
+ella fóra, nunca résolvi-me, hein! e ahi ficou, já viu?
+
+--Quanto pretende v. s.^a pela casa?--perguntou Julio.
+
+--Com mobilia ou sem ella?
+
+--Tal como está, excepto os objectos de seu uso pessoal...
+
+--Me custou a mim dez contos... Com mais de dois que gastei em mobilia e
+concertos, anda isso por doze, hein! Más se v. ex.^a me quizer comprar
+ella por dez, eu lhe deixo ficar tudo, já viu?
+
+--Não, senhor!--acudiu Julio.--Se por doze contos lhe ficou, doze contos
+lhe darei por ella.
+
+O Pinho teve um olhar de espanto para o comprador. Julgára que elle iria
+regatear o preço, achar caro, desfazer no valor da propriedade e
+reservava-se para, em ultimo caso, fazer uma reducção de um ou dois
+contos de reis. E via com surpresa que este generoso desconhecido queria
+embolsal-o integralmente de tudo quanto havia dispendido, elevando a
+somma, de dez, a doze contos, que era o que calculava ter gasto.
+
+--Quer assim?--interrogou Julio.
+
+--Mas...--objectou honradamente o brazileiro consciencioso--eu tenho
+vivido na casa, os moveis me custaram dinheiro que já não valem elle
+ágora...
+
+--Pequenas coisas! Não compro isto para negocio, e por isso não penso em
+o adquirir por menos do seu justo valor.
+
+--Mas então a casa é de v. ex.^a!--decidiu o brazileiro com uma profunda
+cortezia.
+
+--V. s.^a não me conhece--disse Julio--mas eu dou como fiador á validade
+d'este contrato o meu amigo dr. Gustavo de Magalhães, aqui seu vizinho.
+Quando quizer, faremos a escriptura!
+
+--O sr. doutor Gustavo! Pois não! Conheço elle muito bem. V. ex.^a é
+hospede d'elle, já vejo...
+
+--Sou. V. s.^a dirá agora quando quer legalisar o contrato e quanto devo
+dar-lhe de signal.
+
+--Signal!--protestou o brazileiro--não é priciso elle... Os homens se
+conhecem pelas palavras, já viu?
+
+--Como queira.
+
+--Me dê v. ex.^a oito dias para tratar de minha mudança, e iremos no
+tabellião fazer a escriptura, hein!
+
+--Não lhe dou oito, dou-lhe vinte, dou-lhe um mez. Não tenho pressa de
+vir para esta casa, mas tenho-a de lhe chamar minha.
+
+--Lhe póde chamar desde já. Minha palavra vale uma escriptura! Mas não
+ha pricisão de mais demora, não... Homens de bem se entendem sempre
+elles... Quando v. ex.^a quizer, vamos no tabellião...
+
+Julio offereceu-lhe a mão e despediu-se, voltando a casa de Gustavo.
+
+--Já comprei a casa de Noberto de Noronha--disse elle ao amigo, logo que
+chegou.
+
+--O que!--exclamou Gustavo.--Pois logo de manhã, tão cedo, foste tratar
+um negocio d'essa ordem?
+
+--Se eu tinha resolvido compral-a, não vejo motivo para protelar a
+compra. Agora conto comtigo, como advogado, para que o contrato tenha
+uma realisação legal.
+
+--Por quanto a compraste?
+
+--Por doze contos, tal como está.
+
+--Podias tel-a adquirido por oito ou nove!
+
+Alguns dias depois, legalisava-se o contrato e Julio era o proprietario
+da casa que pertencera a Noberto de Noronha.
+
+O brazileiro Pinho, tendo recebido o preço da venda, apressava agora a
+sua partida, no intuito sómente de não occupar por muito tempo a casa
+alheia.
+
+Os convidados de Gustavo, em assembleia magna, tendo sabido que Julio
+comprára a casa de Noberto e se constituira, por este facto, um dos
+proprietarios da localidade, resolveram addiar a celebração dos festejos
+para o dia em que elle tomasse posse e fixasse residencia na sua nova
+propriedade.
+
+Esta deliberação fôra tomada em segredo e mantinha-se discretamente
+guardada entre todos, sem chegar ao conhecimento do melancholico amigo
+de Gustavo de Magalhães.
+
+--Havemos de fazer d'elle um companheiro alegre, sociavel, sem os
+absurdos preconceitos de um homem que, tendo percorrido o mundo e visto
+tudo, chega a capacitar-se de que nada mais ha no mundo capaz de o
+emocionar e lhe causar alegria--dizia o magistrado de voz aflautada,
+presumindo de habil conhecedor das diversas fraquezas e aberrações do
+espirito humano.
+
+--Fatalmente--commentava o medico--alli ha desiquilibrio de
+faculdades... Aquella melancolia profunda, aquelle afastamento
+systematico de todo o ruido e de toda a convivencia, accusa uma grave
+enfermidade mental, propria d'um homem que passou a vida em viagens, sob
+a impressão dos variados aspectos da natureza e sob a influencia de
+diversos e oppostos costumes...
+
+--Quem sabe? Talvez alli haja mysterio do coração... amôres mal
+succedidos...--aventou um dos menos theoricos e mais praticos.
+
+--Não, alli o que ha é tedio, cansaço, o _spleen_ dos inglezes--opinou o
+juiz.--O homem correu tudo, viu tudo, gozou tudo--menos a amizade dos
+amigos e o amôr inconsutil da mulher que toda se dedica ao homem amado.
+Nas viagens--accrescentou com grande auctoridade e emphase de
+sabedor--perde-se a sensibilidade pela frequente e repetida excitação
+dos sentidos. O espirito habitua-se á contemplação dos espectaculos
+grandiosos e desdenha, como insignificantes e mesquinhos, os suaves e
+dulcissimos prazeres da convivencia remansosa e placida de almas irmãs,
+prazeres que são a vida do coração... Amôres mal succedidos, como diz
+aqui o nosso amigo Gilberto, não creio... Mais me inclino a crêr que
+seja o desdem pelos demasiados amôres bem succedidos, pelos amôres
+faceis que não faltam nunca aos viajantes ricos e que são, por via de
+regra, os unicos que elles conhecem... E quem me diz a mim que o que
+este homem sente é justamente a falta de um amôr sério, verdadeiro, como
+é o de uma esposa por seu marido?...
+
+--Pelo menos, quando não seja isso--disse o commendador--o casar devia
+fazer-lhe bem... Se a mulher fosse d'estas que ás vezes apparecem na
+vida de um homem como um flagello, que com tudo embirram e com coisa
+alguma se satisfazem quando estão a sós com os maridos, elle buscaria a
+convivencia da sociedade como um refugio contra as impertinencias da
+esposa!
+
+Todos se riram a esta indiscreta confirmação dos rumôres que corriam
+acerca da vida torturada que o commendador passava, de portas a dentro,
+com a D. Graciana.
+
+--Que eu por mim--emendou logo com solicita dissimulação--com bem o
+diga, não sei praticamente o que isso é... Mas tenho ouvido varios
+maridos queixarem-se do inferno que passam em casa com as mulheres, e
+faço ideia do petisco que ha-de ser...
+
+--Nós tambem fazemos ideia...--atalhou o juiz sarcasticamente, na sua
+voz de assobio.
+
+--Meus amigos--interrompeu Gustavo, que ouvira esta conversação sem
+tomar parte n'ella--não se cancem em conjecturas sobre os motivos que
+pódem ter feito do Julio de Montarroyo o mysanthropo que hoje é. A vida
+d'este homem é um mysterio que não seria facil decifrar nem mesmo aos
+que na mocidade o conheceram intimamente, quanto mais áquelles que só
+agora o encontram, depois de velho. De resto, pouco deve preoccupar-nos
+a sua tristeza, se não está na nossa mão o dissipar-lh'a. Querer á força
+fazer de um homem triste um homem alegre, parece-me coisa tão insensata
+e absurda como querer mudar as tardes melancholicas do outono nas
+risonhas manhãs da primavera. Cada qual é como é; e nem me parece que a
+nós nos seja licito avaliar da tristeza ou da alegria intima de um
+homem, pelo simples aspecto da sua physionomia ou pela estranha
+soturnidade dos seus habitos. O que para nós é tedio póde ser para elle
+distracção; o que para nós é dôr póde muito bem ser para elle um grande
+prazer. Quantas pessoas ha que, por temperamento, por indole, ou por
+caracter, se comprazem, desde a infancia, na solidão mais absoluta,
+achando insupportavel a convivencia em que outras pessoas encontram uma
+verdadeira felicidade, um incomparavel prazer?
+
+--Isso é verdade!--accudiu o commendador--eu já tive uma epocha na minha
+vida em que todo o meu prazer era agarrar môscas para as dar a comêr a
+um pisco que tinha mettido n'uma gaiola... Passava n'isso horas e horas,
+sem dar palavra, e se alguem me interrompia n'aquella tarefa em que
+sentia um prazer enorme, ia tudo com seiscentos diabos! E em todo o
+caso, aposto que nenhum dos senhores acharia distracção n'uma coisa tão
+simples...
+
+--Não tanto!--replicou o juiz--Quem não tem que fazer caça môscas, diz o
+vulgo. Ora se o meu amigo não tinha mais que fazer, acho acertado que se
+distrahisse por esse modo... e não estranho que ainda agora se entregue
+ao divertimento...
+
+--Agora não!--tornou o commendador.
+
+--Por falta de pisco?--perguntou o medico.
+
+--Por falta de pisco e por falta de paciencia... Mudei completamente...
+Agora não me entretem nada d'essas coisas. Minha mulher embirra com
+passaros em casa.
+
+A conversação proseguiu animada de ditos picarescos a proposito d'esta
+ingenua confissão do commendador que, sem o querer, veio desviar as
+attenções do grupo disposto a escalpellar a vida de Julio de Montarroyo.
+
+A esta mesma hora, Julio encontrava no jardim a D. Aurelia de Magalhães
+e travava-se entre os dois este dialogo:
+
+--Então, já sei que vou tel-o por vizinho, não é verdade, sr. Julio de
+Montarroyo? Disse-me o Gustavo que v. ex.^a já comprou a casa de
+Norberto de Noronha.
+
+--A casa de Helena, minha senhora... É verdade, comprei-a.
+
+--Na intenção de a habitar?
+
+--Sim, minha senhora. Faço tenção de passar n'ella os ultimos dias da
+minha vida.
+
+--É muito triste este sitio a que n'este momento empresta uma apparencia
+de alegria a permanencia dos nossos hospedes... Mas, quando meu irmão
+retirar para Lisboa e todos regressarem a suas casas, tudo isto recahe
+n'um silencio e n'uma tristeza que só póde agradar ás almas tristes...
+
+--É justamente esse silencio e essa tristeza que a minha alma anceia...
+
+--A solidão e a tristeza são um lenitivo para a alma quando nos prendem
+recordações saudosas aos sitios em que habitamos e em que outr'ora fomos
+felizes. Estou eu n'esse caso, porque aqui nasci, aqui me criei, aqui
+passei dias felizes na companhia dos que me eram caros, e aqui os vi
+desapparecer para sempre e para nunca mais. Mas v. ex.^a, snr. Julio de
+Montarroyo, que aqui veio apenas uma vez, que me lembre, e em dias bem
+luctuosos e bem tristes para o pobre Norberto de Noronha...
+
+--E para o meu coração, minha senhora! Quando se é verdadeiramente
+desgraçado, quando nunca se teve uma hora de felicidade, sente-se um
+prazer amargo, um prazer cruel, em permanecer nos sitios em que mais
+soffremos, em que o nosso coração sentiu mais profundos e mais
+lancinantes os golpes da desventura. Foi justamente n'esse predio que
+hoje comprei que eu presenciei um dos mais dolorosos e lancinantes
+espectaculos de toda a minha vida. Ao entrar n'aquella casa, dezoito
+annos volvidos, pareceu-me vêr ainda, ao canto da mesma sala, sentado na
+mesma poltrona de rodas, aquelle pobre velho semi-morto, com os olhos
+fitos em mim, ouvindo com a alma anciada a espelhar-se-lhe na pupilla
+dilatada e immovel, as palavras de animadora esperança que então
+proferi, e que deviam ser-lhe um balsamo consolador no meio d'aquelle
+infernal martyrio! E esta evocação terrivel, bem longe de augmentar o
+meu soffrimento, suavisa-o. Comparando o que soffro e o que tenho
+soffrido com o que soffreu aquelle pobre pae, encontro motivo para me
+julgar feliz. Depois, foi alli que ella viveu, que ella passou os unicos
+dias venturosos da sua infancia cheia de sonhos vãos e de anhelos de
+felicidade, até que a negra mão da desventura a veio empolgar...
+
+--Pobre Helena!--murmurou D. Aurelia--se v. ex.^a a conhecesse n'esse
+tempo, se pudesse avaliar os finos quilates d'aquelle espirito, a suave
+candura d'aquelle nobre coração! Eu, que fui sua amiga, sua companheira
+de infancia, eu que tão de perto privei com ella e conheci todos os
+primôres d'aquella alma nobilissina, ainda hoje me espanto, e não sei
+como explicar aquelle rapido e insolito reviramento, senão pela loucura.
+Para mim, Helena de Noronha soffreu grande abalo nas faculdades mentaes,
+antes de abandonar o pae, por quem era extremosa, e esquecer os sagrados
+deveres de filha, que ella se esmerava em cumprir sempre com uma
+religiosa pontualidade!
+
+--V. ex.^a nunca mais teve noticias d'ella?
+
+--Nunca mais. E isso mesmo me faz pensar que a minha pobre amiga perdeu
+a rasão antes do fatal passo que havia de custar-lhe não só a propria
+ventura, mas tambem a vida do pae e do primo.
+
+--Alvaro, segundo me disseram, morreu assassinado em casa de um
+taberneiro da Serra do Carvalho...
+
+--É certo. Foi um tal Perneta quem, attrahindo-o alli sob pretexto de
+que encontraria Helena, lá conseguiu matal-o e roubal-o. A principio,
+suppôz-se que a morte fôra obra de malfeitores que o tivessem assaltado
+em viagem, porque o cadaver appareceu na estrada. Mas uma denuncia
+anonyma, enviada ás auctoridades e confirmada mais tarde por um
+sapateiro de Braga, por alcunha o _Tomba_, que foi testemunha no
+processo, pôz a justiça na pista do criminoso, e o Perneta foi julgado e
+condemnado a galés por toda a vida.
+
+--O _Tomba_!--disse Julio--Conheci muito bem esse sapateiro e procurei-o
+agora no meu regresso a Braga, esperançado em obter d'elle
+esclarecimentos que talvez me explicassem o destino de Helena. Mas ha
+muitos annos que desappareceu, e ignora-se o rumo que levou, podendo ser
+até que já tenha morrido...
+
+--Não sei, não conheci o _Tomba_. Ouvi fallar muito n'esse homem por
+aquella occasião e sei que veio depôr como testemunha no tribunal de
+Lanhoso, mas ignoro completamente o que fosse feito d'elle.
+
+--Se o _Tomba_ esclareceu a justiça e depôz como testemunha, então o
+assassinato do pobre Alvaro obedeceu a um plano de vingança a que não
+foi estranho o raptor de Helena...
+
+--O padre Anselmo?
+
+--Justamente. Como conhece v. ex.^a esse nome?
+
+--Pois não sabe v. ex.^a que elle andou por aqui missionando e que foi
+com as suas perniciosas praticas ao canto do confissionario que
+conseguiu desvairar a minha pobre amiga ao ponto de a fazer abandonar a
+casa paterna?
+
+--E v. ex.^a era sabedora das intenções de Helena?
+
+--Eu! Se ella me tivesse dito alguma coisa, eu trataria de impedil-a
+d'um semelhante passo. Guardou-se de mim como de toda a gente. O que eu
+lhe notava era uma tristeza profunda, um recolhimento mystico de que
+cheguei por vezes a reprehendel-a. Mas, como ella insistia, não me
+preoccupei muito com isso, por suppôr que, retirando os missionarios,
+breve retomaria a sua habitual despreoccupação de espirito. Enganei-me!
+O mal tinha lavrado fundo, e o que eu suppunha não passar de um
+momentaneo devaneio mystico, era afinal a monomania religiosa, com todos
+os symptomas da loucura incuravel! Pobre Helena! nem chego sequer a
+accusal-a de ingratidão pelo seu procedimento para comigo, porque,
+apesar de quanto se possa dizer e de quanto tenho ouvido a meu irmão
+Gustavo, julgo-a irresponsavel.
+
+--É esse o juizo que v. ex.^a forma de Helena de Noronha?
+
+--É. E formo-o assim, porque a conheci desde a infancia, e posso
+assegurar a v. ex.^a que não havia mais nobre alma, coração mais terno e
+cheio de affectos. Extremamente sensivel e impressionavel, de uma boa fé
+e candura de anjo, foi talvez tudo isso que a perdeu.
+
+--O pae, segundo creio, projectava casal-a com o primo, com o Alvaro...
+
+--Sim, essas eram as supremas aspirações de Norberto.
+
+--E Helena amava o primo?
+
+--Não o amava. Mas tambem não tinha preferencia por outro homem. Muitas
+vezes fallámos n'isso e lhe ouvi dizer que, posto o primo lhe fosse
+indifferente, casaria com elle por obediencia ao pae. Recordo-me até
+que, de uma das ultimas vezes em que nós fallámos a tal respeito, ella
+me affirmou: «Meu primo é para mim um homem como os outros. Caso com
+elle como casaria com outro que meu pae indicasse. O mesmo não
+succederia, se eu tivesse, como muitas meninas da minha edade, algum
+rapaz a quem quizesse mais...»
+
+--Não foi, portanto, a repugnancia invencivel pelo primo que a levou a
+abraçar a vida religiosa....
+
+--Decerto não foi. Mesmo porque Norberto de Noronha amava muito a filha
+para a constranger a casar com um homem que ella abertamente recusasse.
+Em Helena, o que houve foi a imaginação excitada pelas perigosas e
+seductoras pinturas que o padre Anselmo lhe fez da vida religiosa,
+fanatisando-a e enlouquecendo-a com infernal habilidade.
+
+Os dois calaram-se por instantes.
+
+--Sabe v. ex.^a--disse Julio de Montarroyo por fim--que me tem sido
+immensamente grata ao espirito esta conversação a respeito de Helena?
+
+--É natural. Dei-lhe talvez esclarecimentos que v. ex.^a ignorava...
+
+--Por isso, e porque não ha para mim felicidade igual áquella que
+experimento em poder fallar de Helena com pessoa que a tivesse
+conhecido. Com effeito, v. ex.^a acaba de me contar pormenores que me
+eram de todo o ponto desconhecidos... Mas ainda isso não é tudo: é que
+sinto verdadeiramente um grande lenitivo em ouvir fallar de Helena de
+Noronha e de coisas que de longe ou de perto se relacionem com ella. Foi
+esse, e não outro, o motivo porque vim comprar a casa onde ella nasceu,
+onde se creou, onde se passou a sua infancia. Parece-me que alli tudo me
+hade fallar d'ella. Cada um d'aquelles logares me dará como que uma
+recordação d'aquella creatura, que o destino pôz no meu caminho para
+logo a fazer desapparecer com a rapidez com que foge e desapparece um
+meteoro no espaço, em noite calmosa de estio!
+
+--V. ex.^a, sr. Julio de Montarroyo, amou Helena de Noronha com uma
+paixão que tornaria feliz a minha pobre amiga, se ella tivesse podido
+apreciar como eu toda a vehemencia do seu affecto!
+
+--Helena, minha senhora, sabia bem quanto eu a amava...
+
+--Sabia e não lhe correspondeu a esse amôr que preencheria as mais
+ardentes aspirações de um coração sedento de affectos?
+
+--Correspondeu! Helena correspondeu tanto quanto a sua nobre alma lh'o
+permittia, a esta paixão que me inspirou. E se não abandonou o convento
+para vir salvar o pae moribundo e tornar feliz o homem que ella amava, é
+porque foi victima de alguma infame cilada que para sempre a perdeu.
+
+Então Julio de Montarroyo contou a D. Aurelia que tivera repetidas
+entrevistas com Helena no convento do Sardão; que ahi combinára com ella
+a fuga, quando uma inesperada e repentina enfermidade veio transtornar
+todo o plano concertado entre os dois; e que, sendo compellida a seguir
+para Paris, lhe escrevera uma carta convidando-o a ir esperar noticias
+d'ella na grande capital do mundo civilisado. E tendo ahi passado muitos
+mezes, aguardando as promettidas noticias, nunca mais lhe fôra possivel
+ouvir sequer fallar d'ella.
+
+--Conclue portanto que Helena...
+
+--Foi infamemente illudida mais uma vez pelos seus crueis algozes!...
+
+--Se Helena tinha alguma vez pensado sériamente em abandonar a vida
+religiosa, creio bem que não seria facil impedil-a de realisar o seu
+pensamento. Helena de Noronha era por demais altiva e dotada de energia
+de caracter sufficiente para não se deixar prender e illaquear por outra
+vontade que não fosse a sua.
+
+--Eu creio que Helena de Noronha já não vive... Procurei-a por toda a
+parte, percorri o mundo em sua procura, e em parte alguma pude jamais
+achar quem de longe sequer houvesse tido conhecimento d'ella. Isto me
+leva a crêr que a supprimiram antes que ella pudesse effectuar a sua
+evasão.
+
+--Seria possivel?
+
+--Nos antros jesuiticos tudo é possivel, minha senhora.
+
+--Mas não sabe v. ex.^a que o padre Anselmo foi quem resolveu Helena a
+professar?
+
+--Sei muito bem.
+
+--Pois esse padre não poderia dar noticias de Helena, se lh'as
+exigissem?
+
+--O padre Anselmo! Esse decerto poderia informar-me com verdade do
+destino de Helena, se me fosse facil encontral-o. Mas é homem de quem
+tambem ninguem me deu noticias... A unica pessoa que poderia talvez
+dizer-me o que foi feito d'elle morreu ha muitos annos em Lisboa... Era
+uma tal D. Carlota que, tendo auxiliado Alvaro e a mim proprio em todos
+os esforços que empregámos para libertar Helena do convento, á ultima
+hora nos trahiu, reatando as suas relações com o padre Anselmo...
+Regressando a Braga, alimentava ainda esperanças de a encontrar; mas a
+morte incumbiu-se de tornar ainda mais negro o mysterio que envolve
+tanto a existencia de Helena como a do jesuita que a arrebatou para
+sempre á familia e á sociedade.
+
+--Pobre Helena!--suspirou D. Aurelia--que negro destino foi o seu!
+
+--Infelicitou-se e infelicitou quantas pessoas se lhe aproximaram. Ha
+creaturas assim dotadas d'este fatal condão de trazerem o soffrimento e
+a desgraça comsigo.
+
+--E no emtanto as suas intenções eram sempre nobres e puras. Ninguem
+conviveu mais de perto com ella e tambem por isso ninguem melhor do que
+eu póde avaliar o thesouro de bondade que se abrigava n'aquelle coração!
+
+--V. ex.^a que vae ter-me por vizinho, hade ter paciencia, sr.^a D.
+Aurelia, e permittir-me que alguma vez peça ás suas recordações o dôce
+lenitivo de me fallar de Helena...
+
+--A minha vida é tambem uma interminavel cadeia de amargas tristezas
+n'este solitario canto do mundo, onde nasci e me criei, onde gosei e
+soffri todas as alegrias e todas as dôres da existencia... Posso dizer
+que hoje vivo, como v. ex.^a, só de tristes recordações...--replicou D.
+Aurelia com um fundo suspiro.
+
+A conversação foi interrompida n'este ponto pela chegada do juiz e do
+commendador que desciam ao jardim discutindo entre si o programma das
+festas em honra de Julio.
+
+Ao vêrem-n'o a distancia, em conversa animada com a D. Aurelia, os dois
+entreolharam-se e, com um sorriso significativo, disse o magistrado:
+
+--Quer vêr que andamos, sem o pensar, preparando uma festa de nupcias?
+
+--Póde ser...--replicou o commendador--A D. Aurelia está ainda muito
+fresca e, se o Julio tiver juizo, o que deve fazer é casar com ella para
+se distrahir.
+
+Assim dizendo, fôram aproximando-se sem darem a perceber nos gestos ou
+nas palavras a impressão. que aquelle encontro lhes causára.
+
+Mais tarde veremos se o juiz tinha razão.
+
+
+
+
+XIII
+
+Denuncia
+
+
+João Lazaro fôra pontual em comparecer á hora marcada para a ceia que os
+amigos offereciam em sua honra, no Palacio de Crystal.
+
+O aventuareiro sentia-se intimamente lisonjeado e envaidecido por esta
+demonstração de affecto e estima que Eugenio de Mello e os seus amigos
+lhe davam. Mas apparentava grande desdem e indifferença por tudo quanto
+o cercava, assumindo a attitude altiva e soberana de quem dispensa uma
+honra quando recebe um favôr. Chegou mesmo a dizer a um de seus intimos,
+no tom cançado e aborrecido de quem se vê obrigado a aturar importunos:
+
+--Estes idiotas massam-me, não me largam e offerecem-me banquetes para
+terem a honra de se sentarem ao meu lado!
+
+--Não será bem isso--replicou o outro delicadamente, para não o
+ferir--Devemos conceder que a amizade, a justa admiração pelos teus
+talentos e, acima de tudo uma certa communhão de ideias, mais que a
+vaidade pessoal, são as determinantes d'estas manifestações de que és
+alvo...
+
+--Communhão de ideias!--tornou o João Lazaro desdenhoso--Que communhão
+de ideias pódem elles ter comigo, se são uns idiotas, uns cretinos
+incapazes de terem no cerebro impenetravel outra coisa que não seja
+arroz cosido em vez de miolos?
+
+--Talvez tenhas razão, talvez...
+
+--Com toda a certeza que a tenho! Se eu não fosse um homem notavel, se
+não tivesse conquistado uma popularidade que me torna a primeira figura
+do meu paiz, cuidas tu que estes imbecis, estes biltres, teriam a
+generosidade de me pagar um café, quanto mais uma ceia? Eu conheço-os.
+Querem explorar-me, querem illuminar-se da radiosa aureola de
+immortalidade que me circumda a fronte. Com os olhos postos no futuro,
+querem, a troco de uma ceia, que os seus nomes brilhem a par do meu,
+quando se fizer a minha historia e quando os seculos repetirem com
+admiração o meu nome e o de todos aquelies a quem dei a honra de se
+aproximarem de mim.
+
+O intimo, que era um homem sensato, porem delicado, não pôde conter-se
+que não dissesse:
+
+--Agora, depois de te ouvir, convenço-me de que realmente os idiotas são
+elles, se pensam como tu dizes... Pois queres que te falle com
+franqueza?
+
+--Dize lá.
+
+--Creio que outro qualquer que te ouvisse, sem ser eu, juraria que o
+idiota és tu!
+
+João Lazaro mordeu os grossos labios e, percebendo que irritara o amigo
+com a sua estupida filaucia, mudou de tom e disse brandamente:
+
+--Confesso que fui talvez demasiado violento e um poucochinho injusto na
+apreciação d'esses sujeitos, que pódem ser muito bôas pessoas, e
+animados das melhores intenções, mas que me irritam profundamente,
+vindo, com esta futilidade d'uma ceia, roubar-me o tempo que necessito
+para tratar assumptos mais serios e de que depende a salvação de todos.
+Porque é preciso que tu o saibas, eu não vim ao Porto unicamente para os
+amigos me darem de cear...
+
+--Para que então?
+
+--Para ver se querem collaborar comigo na grande obra da salvação
+publica...
+
+--Já lhes expuzeste o teu plano?
+
+--O meu plano é tão vasto que não póde ser resumido n'um discurso para
+se repetir a cada um em particular; e é de tal modo melindroso, que
+tambem não póde ser publicamente revelado a uma assembleia. Aqui, de
+duas uma: ou ha confiança em mim, ou não ha. Se ha, faça-se o que eu
+digo, facultem-se-me os meios de que careço e mais tarde se verá a obra
+grandiosa que projecto e para cuja realisação todos devem concorrer. A
+gloria, porisso, será de todos. Eu não a quero só para mim... Se não ha,
+é inutil perguntar-me o que penso e o que desejo fazer. Se eu submetto o
+plano á discussão, admittindo emendas e correcções, então o plano deixa
+de ser meu para ser de todos, e eu deixo de ser a cabeça pensante para
+me converter n'um simples instrumento como os outros. Ora a isso não me
+sujeito. Sinto aqui dentro--e batia na testa com impeto--alguma coisa de
+grande e de superior, para que consinta em me nivelar com essas
+vulgaridades que nada teem feito e nada podem fazer, pela simples razão
+de que não nasceram para dirigir, nasceram só para serem dirigidas. Ora
+ahi tens a razão porque eu sou ás vezes injusto com aquelles mesmos para
+quem o não devo ser... É que queria vêr mais ardor, mais enthusiasmo e,
+sobretudo, mais desprendimento e menos egoismo n'aquelles que me
+rodeiam!...
+
+--Bom! Mas, a final, o que queres tu?
+
+--Dinheiro!
+
+--Oh, diabo! isso é o mais difficil de obter, porque é isso precisamente
+o que todos querem...
+
+--Pois se o querem, que m'o ponham ás ordens, que o semeiem, que eu lhes
+volverei cem por um!--exclamou o João Lazaro, convicto.--Não me falta
+mais nada. O meu plano está completo. Para o realisar, apenas careço de
+dinheiro. Dêem-me dinheiro e, dentro em tres mezes, eu terei mudado a
+face do paiz.
+
+--Mas bem vês, meu caro, que isso depende de circumstancias...
+
+--Quaes circumstancias?
+
+--Se o dinheiro que tu pedes para a realisação do teu plano fôr uma
+somma tão importante que não esteja nas forças dos nossos amigos...
+
+--Nas forças dos nossos amigos deve estar sempre tudo aquillo de que
+depende a salvação da patria. Quando se trata de um caso d'estes,
+ninguem está a medir e a calcular o que póde fazer. As forças medem-se
+pela grandeza da obra e da vontade de cada um para a realisar.
+
+--Não é tanto assim. Convencido estás tu da excellencia e efficacia do
+teu plano, e tambem mais que ninguem deves sentir o desejo ardente de o
+realisar. E, no emtanto, tropeças na difficuldade suprema de o pôr em
+acção e pedes o concurso dos correligionarios para que o teu pensamento
+não fique na cathegoria das coisas irrealisaveis...
+
+--Certamente. E creio que todos teem obrigação de me ajudar. O bem não é
+só para mim, o bem é para todos.
+
+--Perfeitamente d'accordo. Isso não se discute. O que se discute é se as
+sommas que a realisação do teu plano exige estão nas forças dos nossos
+amigos. Bem sabes aquelle aphorismo: Onde não ha...
+
+--Pois sim, mas aqui não é o rei que perde, é o povo.
+
+--E o rei ganha, bem sei. Mas se a fatalidade das circumstancias assim o
+impõe, o que havemos de fazer?
+
+--Assim o impõe, dizes tu! N'esse caso, já sabes que não ha
+dinheiro!--exclamou João Lazaro n'um tom de amargo despeito.
+
+--Eu não sei nada!--volveu-lhe o interlocutor.--Isto são apenas
+considerações que eu faço sobre o que póde succeder. Ainda não me
+revelaste o teu plano, ainda não me disseste de quanto carecias... Como
+queres tu que eu saiba se é realisavel ou não a somma que desejas?
+Simplesmente, o que me parece é que, se essa somma fôr avultada, haverá
+difficuldade em a conseguir.
+
+--Onde está então o amôr d'esses patriotas á ideia?
+
+--Está no coração. Mas tu bem sabes que o coração sem dinheiro é uma
+força tão fraca que, hoje, nem sequer remove as difficuldades de um
+casamento, quanto mais as difficuldades da salvação de um povo.
+
+João Lazaro fez um gesto de supremo desprezo.
+
+--E é por um partido d'estes que eu penso, trabalho e me sacrifico! Vale
+bem a pena, realmente, expôr-se um homem a todas as violencias, a todos
+os odios e todas as perseguições, para melhorar a sorte de um povo que
+não está ainda educado para as grandes reformas sociaes! Cuida a gente
+que encontra ao seu lado crenças profundas, dedicações sinceras, homens
+capazes de sacrificarem tudo ao seu ideal, e dá mas é com um bando de
+egoistas, agarrados ao dinheiro como a ostra á casca, incapazes de
+soltarem um vintem sem se consummirem em calculos sobre o livro do
+_Deve_ e _Haver_! Raça ignobil de bacalhoeiros ignaros, que estão a
+pedir João Branco e Pita Beserra!
+
+Depois d'esta violenta explosão de colera, por não achar abertos os
+cofres dos homens a quem d'antes chamava filhos e netos de heroes e aos
+quaes agora malsinava de _bacalhoeiros ignaros_, visto que não lhe davam
+o dinheiro que elle queria para sustentar a ociosidade infame, o João
+Lazaro despediu o amigo com um gesto altivo.
+
+--Bem!--disse elle--tenho entendido. Não se arranja nada. O peor mal é
+d'elles. Hão-de arrepender-se, mas ha de ser tarde...
+
+E consultando o relogio:
+
+--São horas. Vou ao Palacio, á tal ceia, mas recolherei cedo, porque não
+estou para os aturar. Amanhã, se quizeres, apparece. Mas vem de dia,
+porque á noite talvez retire para Lisboa.
+
+--O que! Retiras sem conferenciar com os nossos amigos?
+
+--Se me dizes que elles não estão dispostos a sacrificar-se...
+
+--Entendamo-nos! Eu digo apenas o que penso... Mas isto não é nem póde
+ser tomado como uma resposta decisiva ao teu pedido...
+
+--Não, que eu não peço!--exclamou Lazaro com enfatuada altivez--Eu
+proponho. Era o que me faltava! Servil-os com as minhas ideias, com o
+meu talento, com o meu nome e vir ainda implorar-lhes que mo acceitem o
+favor de os salvar! Se querem ser homens, se querem ser livres, aqui
+estou eu, prompto a resgatal-os com o meu plano: dêem o dinheiro preciso
+para o pôr em execução. Se, pelo contrario, preferem ser escravos
+abjectos, vis instrumentos de especuladores sem dignidade nem
+consciencia, fiquem-se com o seu dinheiro e a sua escravidão, que eu por
+mim não darei mais um passo em beneficio de semelhante canalha!
+
+Disse e caminhou para a porta, magestoso e solemne como um deus sagrado.
+
+--Vaes para a ceia dos teus amigos, não é isso?--perguntou o outro
+despedindo-se.
+
+--Vou fazer ainda esse ultimo sacrificio á popularidade de um partido
+que me não merece.
+
+--Pois bem; vae, que eu vou tocar a capitulo, a vêr o que se póde
+arranjar... Tu, porém, tens de ser ouvido...
+
+--Não terei duvida em fallar e expôr as coisas com as reservas precisas,
+se porventura elles estiverem dispostos a entrar n'isto a sério. Se,
+porém, vires que se retrahem e que apenas desejam ouvir-me por simples
+devaneio, peço-te que não me incommodes, obrigando-me a descer até esses
+bilhostres.
+
+Estendeu-lhe com superioridade dois dedos que o outro apertou, e desceu
+a metter-se na carruagem de praça, que o esperava á porta do hotel.
+
+--Para o Palacio!--ordenou ao cocheiro.
+
+Pelo caminho, ia monologando:
+
+--Este idiota ficou aterrado com a minha attitude, e estou certo de que
+vae mover os outros estupidos a largarem o dinheiro... Se não fôr assim,
+á valentona, por boas palavras não se se faz nada... Preciso de lhes
+apanhar dinheiro para ir até Hespanha.
+
+E com um sorriso lubrico a bailar-lhe nos labios sensuaes, n'uma atavica
+reminiscencia da tanga:
+
+--Oh! as hespanholas... as hespanholas são um encanto!
+
+Quando entrou no Palacio, passava já da hora marcada. Os amigos, com
+Eugenio á frente, vieram recebel-o n'uma doida expansão de alegria.
+
+--Cuidei que não vinhas!--disse-lhe Eugenio.--Seria um grande desgosto
+para nós todos, que te estimamos, mas muito principalments para estas
+damas, que nos honraram com a sua presença e que estavam anciosas por te
+conhecer.
+
+O aventureiro saudou gravemente, com um forçado sorriso de polidez e,
+respondeu n'um tom de pedantesca superioridade:
+
+--Foi em verdade um sacrificio grande para mim o ter de comparecer a
+esta hora, e tanto que me vi forçado a transferir para amanhã uma
+reunião importantissima que devia effectuar-se hoje. Amigos politicos,
+que desejam ouvir-me sobre negocios da mais alta transcendencia,
+insistiam comigo para que vos enviasse um bilhete de desculpa e não
+protelasse a reunião que se havia marcado; mas eu recusei-me a acceder
+aos seus desejos, pois não quero que se diga que sou menos amavel com os
+velhos amigos da mocidade e com as bellas e gentis damas que os
+acompanham.
+
+Seguiram-se as apresentações:
+
+--Senhorita Lola...
+
+--Senhorita Dolores...
+
+--Senhorita Consuelo...
+
+O João Lazaro, com os ademanes de um principe, sorria benevolamente a
+cada um d'estes nomes, inclinando-se amavel, com modos de grande senhor.
+
+Abancaram á mesa e principiou o festim.
+
+A esta mesma hora, a loura Leonor, despedido o commendador Garcia, que
+havia entrado ás sete, vinha debruçar-se á janella, na anciosa
+espectativa de sentir ao longe os passos de Eugenio, quando um moço de
+recados parou á porta da rua, espreitando para o numero, e bateu, depois
+de se certificar de que era realmente aquella a casa que procurava.
+
+A criada desceu a vêr quem batia o pouco depois voltou com uma carta.
+
+--Um moço de fretes com esta carta para a menina...
+
+A criada, velha onzeneira e confidente das perfidias ao commendador,
+usava d'este tratamento meio familiar, meio respeitoso, sempre que se
+achava a sós com Leonor.
+
+--Dê cá!--disse a loura, pegando na carta e examinando o
+sobrescripto.--Queres vêr que é algum massador a seringar-me com uma
+declaração?
+
+--O portador não esperou _reposta_.
+
+--Bem sei que não esperou. Eu estava á janella e vi-o partir logo que
+entregou a carta.
+
+E rasgou com um sorriso de curiosidade o sobrescripto.
+
+--É singular! O papel não vem perfumado--disse ella, mostrando o papel
+vulgar em que a missiva vinha escripta.
+
+--É de homem de dinheiro!--commentou a velha, muito pratica em negocios
+d'amôr.--Os _cheiros_ são para os pelintras que só querem agradar com
+bugigangas e a respeito de _louça_... nem um pires!... Homem sério,
+homem de _massas_, não está lá com essas coisas... Confia no seu
+dinheiro e é bastante...
+
+Leonor, sem prestar attenção ao palanfrorio da criada, ia lendo n'uma
+agitação crescente. Quando chegou ao fim, exclamou horrivelmente
+pallida, amarfanhando o papel entre as mãos:
+
+--Oh! mas isto é impossivel! Isto é uma infamia!
+
+--O que é, menina?--perguntou a velha serviçal, n'um movimento de
+curiosidade.
+
+--Dizem-me aqui--tornou Leonor com voz rouca de commoção--que Eugenio
+vae casar.
+
+--Casar-se o sr. Eugenio! Credo, menina! Olhe que isso hão-de ser ditos
+de gente que lhe quer mal... Que isto é, eu direi... nos homens não ha
+que fiar... Elles prégam-n'a na menina do olho e, quando uma pessoa mal
+cuida, parece que estão muito seguros e põem-se a _avoar_!
+
+Leonor, agitadissima, relia o papel para se certificar de que não tinha
+comprehendido mal o que n'elle se lhe dizia e que era o seguinte:
+
+«Uma pessoa amiga, que muito a estima e que daria a vida para lhe ser
+agradavel, julga dever avisal-a de que Eugenio de Mello acaba de pedir
+em casamento uma menina de rara belleza, filha unica de um capitalista
+muito conhecido n'esta cidade, e que o enlace se prepara para muito
+breve.
+
+«Na roda dos rapazes finos, onde este acontecimento é muito commentado,
+discute-se de maneira bastante humilhante para a gentilissima Leonor o
+procedimento de Eugenio.
+
+«Uns affirmam que elle, cançado da amante, aborrecido de uns amôres que
+já não lhe offerecem encanto nem prazer, busca pelo casamento com uma
+menina rica, prendada, e muito formosa, a quem ama apaixonadamente,
+libertar-se de umas relações que considera despreziveis e improprias da
+sua dignidade. Outros sustentam que, pelo contrario, Leonor e Eugenio,
+receiando que o commendador Garcia, de um momento para outro,
+escandalisado com o mau uso que ambos fazem do seu dinheiro, _suspenda
+pagamentos_, combinaram que o melhor era garantirem-se contra a miseria
+provavel, casando Eugenio com uma mulher de dinheiro e ficando Leonor a
+receber d'elle o preço dos seus amores como agora o recebe do
+commendador Garcia.
+
+«Quem estas linhas escreve tem a certeza de que Leonor é vilmente
+atraiçoada por Eugenio, e por isso caridosamente a previne d'este facto,
+afim de evitar que a sua reputação, continue a ser infamemente
+enxovalhada pelos mais intimos amigos do perfido e ingrato amante.
+
+«Se fôr discreta e prudente e quizer informar-se em segredo da
+veracidade d'este aviso, a pessoa que lhe escreve esta carta estará
+amanhã ás 11 horas em sitio d'onde aviste a sua casa. Se a janella do
+meio estiver aberta, a sála illuminada e no piano se ouvir a valsa
+_Leonor_, é signal de que deseja recebel-a e então essa pessoa
+apresentar-se-ha para lhe dar todos os esclarecimentos que desejar.
+
+«Até lá, silencio e discreção é a unica coisa que se recommenda.»
+
+Relida esta carta em voz alta, Leonor encarou desvairada a velha
+confidente, exclamando:
+
+--Se é verdade isto que aqui se diz, mato-o!
+
+--Crédo, menina!--bradou a velha benzendo-se--Isso são tentações do
+demonio! Deixe lá, não faça isso, que não vale a pena uma pessoa ir
+pagar c'os ossos na cadeia um burro ruim por um _bô_! Homens ha muitos,
+tão _bôs_ e melhores do que aquelle... Olha agora, se a menina, com uma
+carinha d'essas, que parece mesmo uma _image_, não achava homem que lhe
+désse o merecimento senão aquelle! Crédo! andam ahi rapazes como uns
+soes, babadinhos pela menina que tomaram elles quem lhes désse
+attenção... Era só a menina abrir a bôcca e veria!... Eu é que não quero
+dizer nada, mas tenho _osservado_ muita coisa... Só eu é que sei!
+
+--Que e o que você tem observado, Joanna?--interrogou Leonor roida da
+curiosidade de saber alguma coisa que lhe esclarecesse a perfidia de
+Eugenio.
+
+--Tenho-os visto por ahi a offerecer-me prendas se eu fizer com que a
+menina lhes dê attenção... Mas eu cá... como a via virada p'ró sr.
+Eugenio... mal haja elle, se é certo o que diz a carta!
+
+--E você nunca ouviu dizer nada, Joanna? Nunca ouviu que Eugenio tivesse
+outro namoro?
+
+--Não, lá isso, na minha salvação se eu ouvi boquejar nem tanto como
+isto!
+
+E mostrava a ponta da unha suja, para indicar o têrmo da comparação.
+
+--Mas será verdade?--tornava a loura passeando agitadamente na
+sala--Elle terá animo para me fazer uma affronta d'estas, sabendo quanto
+o amo, quanto me tenho sacrificado por elle?
+
+--O amor dos homens é como a fôlha do olmo... ora vira para um lado, ora
+p'ró oitro, menina...
+
+--Oh! mas isto é impossivel! Eu não lhe mereço um tamanho despreso, uma
+tamanha perfidia! É preciso que um homem seja muito infame para abusar
+assim do amôr d'uma pobre mulher, para andar assim nas trevas preparando
+um golpe de morte ao meu coração!
+
+E irritada, anhelante de desespêro torcia as mãos, com frenesi.
+
+A velha apaziguava:
+
+--Ás vezes _támem_ se diz mais do que é,..
+
+--Mas diz-se, e nada se diz sem motivo... Alem d'isso, esta carta não
+póde ser uma impostura, porque a pessoa que a escreve presta-se a dar-me
+esclarecimentos... E ninguem ousaria vir comprometter-se affirmando uma
+coisa que mais tarde se saberia ser mentira... Oh, meu Deus! meu Deus!
+que mal te fiz eu para me fazeres tão desgraçada?!--exclamou por fim,
+rompendo em soluços.
+
+--Desgraçado é o diabo!--consolou a velha Joanna--Quem conta um conto
+sempre lhe accrescenta um ponto... Isso ás vezes póde ser que não seja
+tanto assim... Mas se fôr, o que a menina deve fazer é botar o coração
+ao largo... Mal por mal, antes isso do que o sr. commandador _Gracía_
+dar por ella e não tornar cá... _Antão_ sim, _antão_ é que a menina se
+devia affligir, porque o amôr é muito bonito, mas sem dinheiro não se
+arranja nada...
+
+--Cale-se, Joanna, cale-se!--bradou Leonor n'um impeto de
+desespero--Você pensa como elle, que tambem vae atrás do dinheiro, sem
+se lembrar que eu, para o amar, não estive a fazer calculos nem a
+perguntar-lhe quanto possuia! Oh! mas eu lhe juro que não chegara a
+gosar esse maldito ouro pelo qual me troca! Miseravel! neguei-lhe eu
+alguma vez todo o dinheiro que me pedia? Sendo uma pobre mulher, vivendo
+unicamente da protecção de um homem, eu nunca hesitei em sacrificar
+todos os meus recursos, o meu dinheiro, as minhas joias, a minha
+posição--o proprio amor do homem que me sustenta--ás suas necessidades,
+aos seus caprichos, aos seus prazeres! E anda em segredo tratando
+casamento com outra, vendendo ao dinheiro d'ella o meu coração, o meu
+socego, a minha tranquillidade! E expõe-me aos ditos e ás chufas dos
+seus amigos, arrasta o meu nome pelas mesas dos botequins onde me julgam
+capaz de me associar a elle na infame exploração de uma mulher! Oh! a
+ser verdade, mil vidas que elle tivesse não chegariam para pagar esta
+affronta!
+
+No intimo de Leonor tumultuavam todas as paixões que pódem agitar um
+peito de mulher: o amôr despresado, o amôr proprio offendido, a vaidade
+irritada, o odio, o ciume, emfim.
+
+A velha encarava-a receosa, sem já se atrever a proferir palavras de
+prudencia ou de banal consolação.
+
+De pé, a um canto, com as mãos cruzadas sobre a barriga, limitava-se a
+suspirar, murmurando em voz lamurienta:
+
+--Seja pelas almas! Ninguem diga que está bem... Nossa Senhora do
+Allivio nos accuda pela sua infinita misericordia!
+
+Decorreram assim algumas horas. Por fim, Leonor, mais tranquilla,
+pareceu tomar uma resolução.
+
+--Joanna--disse ella--de tudo isto que aqui se passou, você não dá uma
+palavra ao sr. Eugenio.
+
+--Ó menina! Crédo!--protestou a velha--a minha bôcca não se abre para
+nada! Não diga a menina coisa nenhuma, que eu _tàmem_ faço de conta que
+nada _assucedeu_... Mas a menina é capaz de não ter mão em si e
+começar-lhe por ahi com _climas_, que elle logo desconfia...
+
+--Eu nada digo. Preciso inteirar-me da verdade, e para isso não convem
+que Eugenio suspeite que alguem me disse qualquer coisa...
+
+--Por mim, não é que elle ha de desconfiar nada! E olhe que se a menina
+fizer isso, anda ás horas!... Ao menos, assim, não dá logar a que elle
+se encubra. E depois de se _infirmar_ da verdade, já fica sabendo quem
+tem...
+
+--É justamente isso o que eu quero.
+
+--Porque ás vezes--commentou a velha--_támem_ são _malquerencias_...
+Pobre do rapaz! póde ser que ás vezes nem lhe passe pela cabeça nenhuma
+coisa d'essas e lhe estejam a alevantar esse falso testemunho, só p'ra
+amôr da menina se dar mal co'elle... Olhe que no mundo _támem_ hão
+muitas _invejidades_!...
+
+--Pois é por isso...--tornou Leonor dominando-se--Eu vou-me deitar...
+Não desejo que elle me encontre a pé quando vier... E como isto é contra
+o meu costume, vocemecê, amanhã, quando eu a chamar ao meu quarto, a
+primeira coisa que tem a fazer é perguntar-me se estou melhor...
+
+--Bem sei; a menina quer-se _infingir_ doente esta noite p'ra elle não
+desconfiar...
+
+--É isso mesmo. Vocemecê não esquece isto que lhe digo?
+
+--Ora essa! A'gora esqueço!...
+
+--Bem! Bôa noite! Pode-se ir deitar...
+
+--Então, com bem passe a noite, menina!... Se fôr preciso alguma coisa,
+não tem senão chamar...
+
+Quando Eugenio recolheu a casa, era madrugada. A ceia prolongara-se e a
+alegre companhia das hespanholas tivera o singular condão de fazer voar
+as horas com a rapidez de minutos.
+
+Não foi sem um intimo constrangimento que o bohemio penetrou, ás quatro
+horas da manhã, no quarto da amante.
+
+Comquanto a tivesse prevenido de que recolheria tarde, por motivo da
+ceia offerecida a João Lazaro, esperava uma scena de ciumes,
+recriminações e queixas, como succedia sempre que a fazia esperar.
+
+Foi, pois, com grande surpreza que a encontrou deitada e, ao parecer,
+tranquilla.
+
+--Deitaste-te?--disse elle--Fizeste bem, minha querida. A ceia
+prolongou-se mais do que eu esperava, e depois, conversa d'aqui,
+anecdota d'acolá, quando demos conta de nós eram estas horas que vês!
+
+Leonor affectava uma grande serenidade e respondeu com ternura:
+
+--Estava anciosa que viesses, porque me senti muito incommodada...
+Deitei-me por não poder estar de pé, mas não tenho dormido...
+
+--Estás doente, meu amor! O que foi isso? O que sentes?
+
+--Nem eu sei o que isto foi! Comecei a sentir muito frio e grandes dôres
+de cabeça... E creio que tive uma ponta de febre...
+
+--Foi constipação, com toda a certeza! És uma descuidada, não te
+agasalhas... Quando Deus quer, puzeste-te por ahi á janella, a vêr
+quando eu chegava, e deu-te esse resultado!
+
+--Não! Como sabia para onde tinhas ido, não te esperava senão mais
+tarde... Não sei, não posso calcular do que isto fôsse...
+
+--Mas estás melhor, não é verdade?
+
+--Sim... agora sinto-me um pouco melhor... Depois que tomei uma chavena
+de chá bem quente, as dôres abrandaram-me um pouco...
+
+--Para que deixaste deitar a Joanna? Ella podia ter ido chamar-me... Tu
+sabias onde eu estava, e se mandasses dizer-me o teu estado, viria
+immediatamente.
+
+--Não valia a penna ir incommodar-te por uma coisa tão ligeira... Isto
+passa.
+
+A conversação proseguiu assim serena, e amigavel, podendo Leonor
+occultar aos olhos do amante o terrivel inferno que lhe ia n'alma.
+
+O bohemio, confiado e desprevenido, acreditou na simulada doença da
+formosa loura e attribuiu a isso a pallidez mortal que no dia seguinte
+lhe notou nas feições.
+
+Ella, pela sua parte, ameigava a voz, mostrava-se dôce e carinhosa, mais
+ainda do que de costume, e quando chegou ao fim da tarde e o bohemio
+teve de sahir para dar logar ao commendador Garcia, foi com um
+transporte de ternura infinita que lhe disse:
+
+--Peço-te que não venhas tarde, mas tambem não desejo que sacrifiques a
+companhia dos teus amigos á ideia de que estou mal, porque, felizmente,
+sinto-me melhor...
+
+--Não, eu venho cêdo...
+
+--A que hora?
+
+--Depois da meia noite. Mas tu deita-te, não me esperes a pé,
+filhinha...
+
+--Sim... se me sentir doente, deito-me, e a Joanna, quando tu vieres,
+servir-te-ha a ceia, se ainda não tiveres ceiado...
+
+--N'esse caso, combinemos assim: eu ceio hoje fóra para não dar trabalho
+á criada quando recolher. E tu não me esperas a pé... Valeu?
+
+--Pois sim.
+
+Beijaram-se e o bohemio partiu a encontrar-se com os amigos no botequim.
+
+Pelas onze horas da noite, e tendo já sahido o commendador Garcia,
+Leonor, com a janella do centro aberta e a sala illuminada, sentou-se ao
+piano e começou executando a walsa _Leonor_, conforme o seu anonymo
+correspondente lhe havia indicado.
+
+Quando mais não fosse senão a natural curiosidade de conhecer quem lhe
+escrevia denunciando-lhe a atroz perfidia de Eugenio, já era motivo mais
+que bastante para que Leonor acceitasse o offerecimento que se lhe fazia
+e désse o signal convencionado. Mas, muito mais que isso, imperava no
+espirito da ardente rapariga o sentimento do ciume e o irresistivel
+desejo de conhecer toda a verdade.
+
+Ainda a walsa não tinha chegado aos ultimos compassos e já á porta da
+rua carregava no botão da campainha electrica um homem, embuçado n'uma
+ampla capa á hespanhola e tendo occulto o rosto pelas abas largas de um
+chapéo de feltro.
+
+A velha Joanna desceu a escada e, abrindo a porta, franqueou a entrada
+ao desconhecido, indo em seguida postar-se de vigia n'outra janella,
+para avisar da chegada de Eugenio, se acaso o presentisse na rua.
+
+Leonor, tendo descido a vidraça e corrido o store, esperava o
+denunciante, de pé, na sala, com o coração palpitante de anciosa
+curiosidade.
+
+O desconhecido entrou desembaraçadamente, fechou a porta sobre si e,
+parando em frente de Leonor estupefacta, desembuçou-se, tirou o chapéo e
+disse, inclinando-se em garboso cumprimento:
+
+--Não esperava que fosse eu, não é verdade?
+
+--O senhor!--disse Leonor com pasmo, reconhecendo no embuçado as feições
+de João Lazaro.
+
+--Eu mesmo, é verdade!--replicou João Lazaro n'um tom meio grave, meio
+galanteador;--julgava-me bem longe do Porto e completamente esquecido
+d'esse rosto lindo... Bem vê que se enganou e que o interesse que uma
+vez despertou na minha alma não desappareceu, antes mais se fortaleceu e
+acrisolou com a ausencia.
+
+--Mas, perdão!--tornou Leonor, franzindo o sobr'olho n'um gesto de
+impaciencia--creio que não foi para insistir nos seus protestos de
+estima que aqui veio...
+
+--Bem sei! Está impaciente por conhecer toda a negra perfidia de
+Eugenio... Vamos de vagar, minha querida, e deixe-me primeiro expôr-lhe
+quaes os motivos que me impelliram a dirigir-lhe a carta que hontem
+recebeu...
+
+--Mas não estão elles expostos n'essa mesma carta? Se, como creio, os
+factos n'ella relatados são verdadeiros, basta a existencia d'esses
+factos para explicar o seu procedimento...
+
+--Perdão, minha adoravel e gentil senhora! Tenho visto commetter muitas
+perfidias, tenho sido testemunha de villanias e infamias bem
+censuraveis, e nem por isso me tenho julgado no dever de intervir em
+favor das victimas. E isto por duas razoes bem simples: a primeira,
+porque, hoje em dia, no mundo a velhacaria, a traição, é moeda corrente;
+e a segunda, porque as pessoas a quem tenho visto ludibriar e escarnecer
+são em geral creaturas pelas quaes o meu coração não se interessa. Ora
+com a gentil Leonor não estamos no mesmo caso. Creio que já em tempo lhe
+declarei, e bem sinceramente, quanta sympathia, quanto interesse e
+quanta dedicação a sua estonteante formosura despertava na minha alma...
+Não me quiz attender, ou melhor, não tive a fortuna de lhe merecer a
+mais ligeira estima. Outro mais feliz, porém immensamente menos digno e
+mais ingrato do que eu, teve a dôce ventura de tocar o seu coração. Fui
+preterido. Paciencia! O que n'essa preterição houve de injusto e cruel
+para mim o de immerecido para elle vae agora a adoravel e encantadora
+Leonor sabêl-o...
+
+--Por Deus, sr. Lazaro! conte-me tudo, não me occulte nada!
+
+--É então certo que o ama muito?--perguntou o aventureiro com um sorriso
+ironico.
+
+Leonor franziu ainda o sobr'olho e respondeu n'um impeto de irreprimivel
+desespêro:
+
+--Não sei se o amo, se o aborreço; sei que desejo saber quem é, como se
+chama e onde mora a mulher com quem vae casar. Sei que o sr. accusa
+Eugenio de me haver illudido, de me haver trocado por outra, e de me
+haver ultrajado, fazendo suppôr que eu e elle entramos de sociedade e de
+intimo accordo n'um casamento de exploração infame. Estas accusações são
+gravissimas, quer para o caracter de Eugenio, quer ainda para o meu
+coração de mulher. É preciso que o senhor justifique perante mim, sem
+subterfugios e sem rodeios, tudo quanto hontem me escreveu, aliás...
+
+--Aliás?--interrogou João Lazaro, sorrindo.
+
+--Aliás terei o desgosto de lhe metter uma bala na cabeça.
+
+E, n'um arrebatamento de justa indignação, os olhos faiscantes, os
+labios descorados e tremulos, Leonor tirou do bolso do vestido um
+pequeno revolver, com coronha de marfim, e apontou-o a João Lazaro.
+
+--É justo!--disse elle tranquillamente, sem perder a linha do amavel
+galanteador.--O castigo deve sempre igualar o delicto, e eu não
+mereceria outra punição se calumniasse de maneira tão infame o homem que
+a senhora ama e que, além d'isso, é meu amigo... Mas, vejamos: se a
+mentira merece ser punida, a verdade não tem direito a ser premiada?
+
+--O que quer dizer?
+
+--Uma coisa muito simples e ao mesmo tempo muito justa. Se eu minto,
+mata-me... Se eu fallo verdade, não é justo que me dê vida? Porque é
+preciso que o saiba, Leonor: a morrer de amôr por esse esquivo e ingrato
+coração, que a outro se abandonou, ando eu ha muito tempo!
+
+Leonor encarou-o com altiva dignidade:
+
+--É o meu coração o que me pede ou... a minha belleza?
+
+--Tudo, Leonor! Desejo tudo quanto póde dar-me a vida, a felicidade, que
+sem o seu amor não existe para mim, e que outro ingrato indignamente me
+tem usurpado! Prometta-me que não me recusará a esmola que lhe imploro
+do seu affecto, e terá de mim a prova evidente, clara, irrecusavel, da
+negra perfidia de Eugenio!
+
+Leonor ficou um momento perplexa, fitando o João Lazaro attentamente,
+como se quizesse lêr-lhe no rosto os pensamentos mais intimos. Por fim,
+respondeu:
+
+--O meu coração, por emquanto, não está livre.
+
+--Mas se aquelle que n'este momento o occupa fôr d'elle expulso, como
+merece, poderei ao menos contar com um infimo logar no mais afastado
+recanto do seu peito, Leonor?
+
+--Não costumo ser ingrata para os que uma vez me provaram dedicação e
+estima sincera.
+
+--Não o será então para mim, porque, desilludindo-a, dou-lhe a prova
+mais completa de quanto lhe quero, de quanto a amo!
+
+A loura indicou uma poltrona a João Lazaro e recostou-se no sofá que lhe
+ficava proximo.
+
+--Assim entendidos--disse ella--queira dar-me as explicações que me
+prometteu.
+
+--Perdão, minha querida!--tornou o aventureiro, sorrindo
+amavelmente--Por emquanto ainda não passamos de promessas vagas, que a
+nada obrigam...
+
+--O que deseja então?
+
+--Que me prometta, que me jure duas coisas...
+
+--Dirá.
+
+--A primeira que será discreta, que obedecerá em tudo e por tudo ás
+minhas indicações, para chegar a obter a certesa absoluta da
+infidelidade de Eugenio.
+
+--Prometto.
+
+--A segunda é que, confirmada a minha accusação e adquirida a certeza
+completa dos factos que lhe aponto, conceder-me-ha uma hora de
+felicidade, ao menos, consentindo que eu occupe durante ella, o logar
+que, n'esta casa, occupava Eugenio...
+
+A loura hesitou, tomada de invencivel repugnancia por este homem que
+mercadejava infamemente com a paixão terrivel que abrasava o seu coração
+de mulher ciumenta.
+
+--E se eu recusar essa ultima condição?--perguntou.
+
+--Calar-me-hei, deixando-lhe o direito salvo de indagar por si o que
+póde ficar sabendo desde já.
+
+--Pois bem, prometto. Falle e diga tudo o que sabe!
+
+--Vê que confio na sua promessa e que não lhe peço como penhor a mais
+leve liberdade, nem sequer o adiantamento de um beijo...
+
+--É de mais!--bradou Leonor, colerica e impaciente.--Se veio aqui, para
+se divertir á minha custa, fez muito mal, porque póde sahir-lhe cara a
+brincadeira!
+
+--Ora vamos, minha querida... socegue!--volveu o Lazaro com um sorriso
+cynico.--Bem vê que eu sou incapaz de abusar da sua credulidade,
+submettendo o seu coração a um rude soffrimento por mero gracejo. Mas
+estes casos, porisso mesmo que são graves e sérios, querem-se meditados
+e reflectidos. Temos obrigação de os encarar com serenidade e sangue
+frio, para procedermos com acerto e prudencia.
+
+--Pois bem; eu estou tranquilla e, se alguma impaciencia me nota, é
+apenas a de ouvir as revelações que me interessam e que certamente me
+vae fazer.
+
+--Ora muito bem!--principiou o João Lazaro.--Disse-lhe na minha carta
+que Eugenio pediu em casamento uma menina formosa e rica. E disse a
+verdade.
+
+--Como se chama essa menina?
+
+--Beatriz.
+
+--Onde mora?
+
+--Na rua do Breyner e é filha do capitalista Custodio de Jesus.
+
+--Diz então que o casamento está projectado para breve?
+
+--Digo.
+
+--N'esse caso, essa menina ama-o?
+
+--Tanto não sei, mas é de suppôr que sim, visto que está disposta a
+recebel-o por marido. O que, porém, não offerece duvida é que Eugenio a
+ama, pois que pediu a sua mão.
+
+--Foi Eugenio quem lhe disse que ia casar?
+
+--Eugenio nada me disse. Não atraiçôo, portanto, o amigo, descobrindo o
+seu segredo...
+
+--Como o soube então?
+
+--Se é publico e notorio! Se nos cafés não se falla de outra coisa!
+
+--Não será isso uma invenção de rapazes levianos, que gostam de se
+divertir á custa alheia?
+
+--Citam-se nomes e fazem-se commentarios. Além d'isso, a pessoa que mais
+particularmente me elucidou d'este caso não conhecia Eugenio e veio
+pedir-me informações a seu respeito.
+
+--O que lhe disse?
+
+--O que não podia deixar de dizer de um homem de quem sou amigo: que
+Eugenio é muito bom rapaz, um cavalheiro a toda a prova.
+
+--Mas é forçoso impedir esse casamento!
+
+--Talvez não seja impossivel.
+
+--Conhece o pae d'essa menina, esse tal Custodio de Jesus?
+
+--De vista apenas. Não tenho com elle relações pessoaes; mas conheço
+amigos intimos seus. O que deseja d'elle?
+
+--Informal-o de que Eugenio mantém relações comigo e fazer comprehender
+que não deve dar a filha a um homem que tem uma amante...
+
+--Está doida! E o commendador Garcia?
+
+--Que me importa a mim o commendador Garcia, comtanto que Eugenio não
+case!--bradou Leonor, erguendo-se arrebatadamente do sofá em que se
+achava sentada e dando alguns passos pela sala, n'uma agitação
+indescriptivel.
+
+--Venha cá, socegue!--disse João Lazaro, tomando-lhe a
+mão.--Prometteu-me obedecer a todas as minhas indicações, e é forçoso
+que cumpra o que prometteu.
+
+--Pois sim... Diga então o que devo fazer...
+
+--Em primeiro logar, certificar-se de que é verdade o Eugenio trahil-a.
+
+--Como?
+
+--Pela sua criada, que deve merecer-lhe toda a confiança...
+
+--Merece...
+
+--Pois a sua criada procurará travar relações com alguma das criadas de
+Custodio de Jesus, e por esse modo saberá o que ha de verdade ácerca do
+que se diz. Os criados sabem tudo e são os melhores informadores d'este
+mundo.
+
+--E obtida a certeza?
+
+--Obtida a certeza, nada diz a Eugenio até ao momento que eu lhe marcar.
+Faz isto?
+
+--Faço.
+
+--Que Eugenio não suspeite que lhe está no rasto da perfidia.
+
+--Não suspeitará.
+
+--E eu voltarei a informál-a.
+
+--Quando?
+
+--Quando tiver obtido todos os informes que precisamos.
+
+--E até lá nada devo dizer nem fazer?
+
+--Nada, senão isto: pôr a sua criada em relações com as criadas do
+Custodio de Jesus.
+
+--Mas sabe que me condemna a uma tortura horrivel? Como quer que eu, com
+o inferno no coração, guarde silencio e me sujeite ás dilações de uma
+informação tão morosa? Eu preciso de resolver e actuar immediatamente!
+Não está no meu genio occultar por muito tempo o que me vae n'alma...
+
+--As circumstancias impõem-lhe dissimulação e prudencia.
+
+--As circumstancias! Qual é a mulher que no meu caso attende ás
+circumstancias?
+
+--Todas. No seu caso, todas--replicou João Lazaro com reflexiva
+gravidade.
+
+E amaciando a voz, n'um tom de convicção profunda:
+
+--Ora venha cá!--disse elle--Deixe-me pensar pela senhora e defender os
+seus interesses, o seu futuro, a sua posição, uma vez que essa cabecinha
+transtornada não se mostra em estado de pensar coisa alguma com acerto.
+E, creia, foi principalmente por isso que não quiz logo dizer-lhe tudo
+na minha carta... Calculei que faria escandalo se não tivesse ao seu
+lado alguem que a dirigisse, e procedi de fórma a obrigal-a a ouvir-me e
+a attender-me...
+
+--Pois sim... já o ouvi e já o attendi... Mas o que não posso, o que os
+meus nervos não consentem é, obtida a prova da perfidia de Eugenio,
+remetter-me a uma passividade absoluta, deixando que o infame realise os
+seus torpes intentos!
+
+--Não seja creança e vamos a vêr se consigo convencel-a de que um
+escandalo ruidoso nada impede e a mais ninguem prejudica senão á
+senhora...
+
+--Só a mim, diz?
+
+--Sim, só á senhora. Ora ouça, Leonor: Imagina que se se apresentar em
+casa de Custodio de Jesus e disser: «eu sou amante ostensiva do
+commendador Garcia, e o Eugenio de Mello é o meu amante clandestino»,
+essa declaração pesará no espirito do abastado capitalista o bastante
+para impedir o casamento?
+
+Leonor baixou os olhos e não respondeu. João Lazaro continuou:
+
+--O mais que com isso poderá fazer, é provocar explicações da parte de
+Eugenio que, bem longe de negar, confessará essas relações, que nada
+affectam a reputação de um rapaz livre e em pleno goso da sua mocidade;
+pois, infelizmente, toda a gente considera perdoaveis uns amôres que
+sempre se calculam do duração ephemera e que, por isso mesmo, ninguem
+toma a sério.
+
+A loura ergue-se como impellida por occulta mola. Os olhos faiscaram-lhe
+de colera, n'uma indignação suprema.
+
+--Ninguem toma a sério o amor de uma mulher como eu!--exclamou ella--E
+porque? Acaso o meu coração vale menos do que o d'outra mulher? Acaso
+sou eu uma creatura differente de todas as outras, e porisso condemnada
+a não sentir no meu coração os dôces affectos que são a vida e a
+felicidade ainda dos seres mais despresiveis e obscuros? Não terei eu o
+direito de amar e de exigir que o homem que despertou na minha alma o
+terno sentimento a que jurou corresponder cumpra lealmente os seus
+juramentos?
+
+João Lazaro ouviu impassivel esta rajada de indignação, sem perder um só
+instante o sorriso meio amavel, meio ironico, que desde o principio lhe
+brincava nos labios.
+
+--Tem razão--disse elle por fim--Mas que quer, minha querida? A
+sociedade é quasi sempre cruel e iniquia nas suas decisões; e ahi está
+precisamente um caso em que ninguem, da boa fé, poderá attribuir-lhe
+rectidão e justiça. No emtanto, como a sociedade é que dicta a lei pela
+qual cada um se rege, segue-se que Eugenio, na sua perfidia, tem a seu
+favor a lei, que todos acatam, ao passo que a senhora tem apenas a
+razão, que ninguem attende.
+
+--Ha de pelo menos attendel-a elle!
+
+João Lazaro teve uma gargalhada de zombaria.
+
+--Não o creia, minha querida! Se Eugenio prestasse ouvidos á razão, se
+ao menos tivesse uma sombra de respeito por esse coração que elle
+esmaga, por esse amor que calca aos pés, não teria pensado em casar-se.
+Mas, digo-lh'o eu, e a senhora vae em breve ter a confirmação do que lhe
+assevero, o Eugenio pensa, em se _fazer homem sério_ por meio de uma
+alliança vantajosa e respeitavel, e está disposto a romper os laços de
+uma affeição que nunca reputou duradoura nem digna d'elle.
+
+--Esbofeteal-o-hei publicamente como a um verdadeiro canalha que
+é!--bradou Leonor completamente dementada.
+
+--Eis o perigo! Eis o gravissimo desatino que eu me julgo no dever de
+impedir, porque a amo, porque a estremeço, Leonor, e porque nunca
+poderia absolver-me de ter sido eu a causa indirecta d'essa grande
+loucura! O que lucraria com isso? Fazer um escandalo cujo ridiculo
+cahiria inteiro sobre a senhora? Obrigar a que a discutissem nos cafés e
+a ultrajassem nas conversações particulares, como a uma mulher
+despresada, uma mulher publicamente repellida? A sociedade é assim,
+minha querida amiga! Não perdôa aos vencidos. E depois, o ruido d'este
+escandalo chegaria aos ouvidos do commendador Garcia, seu protector. Por
+muito que elle lhe queira, por muito que transija com os despoticos
+impetos do seu temperamento e do seu coração de mulher galante, bem vê,
+Leonor, que seria crear-lhe uma situação que nenhum homem, nem mesmo o
+commendador Garcia, poderia acceitar... O rompimento, portanto, com este
+seria inevitavel, e d'ahi um accrescimo de desgraça e mais um motivo de
+prazer para todos aquelles a quem o seu desdem tem magoado. Repare bem
+n'isto, Leonor, olhe que é um amigo sincero e verdadeiro que lhe está
+fallando.
+
+--Mas o que devo então fazer, santo Deus!--clamou a formosa Laura,
+estorcendo as mãos em desespero.
+
+--Ter prudencia e esperar.
+
+--Ter prudencia! Esperar... o que e como?
+
+--Nunca ouviu dizer, Leonor, que a vingança é o prazer dos deuses? Pois
+tenha prudencia e vingue-se, Leonor...
+
+--Vingar-me? Sim! quero e hei-de vingar-me... Porém, como? Como é que eu
+hei-de levar a cabo essa vingança tremenda que o meu coração anhela?
+
+--Primeiro, convença-se serenamente do delicto. Depois, julgue com
+provas á vista, e fulmine a condemnação que o seu coração lhe ditar.
+Para a auxiliar na execução da sentença, cá estou eu. Façamos uma
+alliança, um pacto intimo, para nos auxiliarmos um ao outro. Eu
+ajudal-a-hei a vingar-se do homem que a trahiu; a senhora ajudar-me-ha
+a...
+
+--A que?
+
+--A realisar grandes emprezas que premedito...
+
+Leonor fitou-o com uma viva curiosidade.
+
+--E que emprezas são essas?
+
+--Mais tarde lh'o direi... Por emquanto, basta só que saiba que podemos
+auxiliar-nos reciprocamente com grande vantagem e interesse para ambos.
+Posso contar com a senhora?
+
+A loura hesitou. Por fim respondeu:
+
+--Póde. Mas ha-de de ajudar-me a impedir o casamento de Eugenio, ou,
+pelo menos, a vingar-me d'elle.
+
+--Isso mesmo é o que eu lhe estou propondo.
+
+--Está bem!--disse a loura estendendo-lhe a mão--póde contar comigo.
+
+João Lazaro embuçou-se no capote, carregou o chapéo sobre os olhos e
+dispoz-se a sahir.
+
+--Ámanhã voltarei á mesma hora--disse elle á sahida.--E o signal
+convencionado para eu saber que me recebe, póde ser o mesmo de hoje.
+
+--Espere!--reflectiu a loura--Se ás vezes, por qualquer motivo, não me
+fôr possivel recebel-o...
+
+--Claro está que não dá o signal.
+
+--Mas se me fôr preciso prevenil-o de que póde vir mais tarde...
+
+--Toque então a marcha da _Cadiz_.
+
+--Está bem.
+
+--Ainda mais--tornou o Lazaro--se quizer prevenir-me de que não venha no
+dia seguinte, substitua. a marcha da _Cadiz_ pela _Cavallaria
+Rusticana_. Ouvindo-a, já fico sabendo que só poderei vir dois dias
+depois.
+
+--Não se dará esse caso, mas sempre é bom prevenir...
+
+--Comprehendeu-me perfeitamente. Até amanhã.
+
+--Até amanhã.
+
+O aventureiro tomou a mão de Leonor, depositou n'ella galantemente um
+beijo, e sahiu.
+
+
+
+
+XIV
+
+Miseravel!
+
+
+João Lazaro recolheu ao hotel e no dia seguinte batia á porta de Jorge.
+Era uma casa modesta, de homem só, em que se notava o natural desarranjo
+de quem não tem os cuidados intelligentes de uma mulher a dirigir o
+serviço domestico.
+
+--Venho fazer-te a promettida visita--disse João Lazaro ao amigo que
+estava já sentado á banca no seu gabinete de trabalho.
+
+--Bem vindo sejas, meu caro!--volveu-lhe Jorge, interrompendo a escripta
+e indicando-lhe uma cadeira.
+
+--Sempre a trabalhar!--disse João Lazaro com um sorriso de
+curiosidade.--Em que diabo te occupas agora?
+
+--Tomo apontamentos para um bosquejo historico... Bem vês, a historia é
+a minha paixão...
+
+--Bonito entretenimento para quem não tem que fazer...
+
+--Que queres? Em alguma coisa se hade matar o tempo...
+
+--Olha lá, porque não collaboras tu no jornal que eu dirijo em Lisboa?
+
+--Eu!
+
+--Sim, que duvida? O teu auxilio podia ser-me de immensissima utilidade.
+Ha tão pouco quem escreva bem, e tu estás ahi a desperdiçar talento n'um
+trabalho obscuro que ninguem lerá, que a ninguem importa, quando podias
+brilhar entre os primeiros, tornares-te lido, popular... Queres?
+
+--Eu não! Detesto os jornaes politicos, bem o sabes, e principalmente os
+da tua côr.
+
+--Mas, homem, eu não te peço a collaboração politica, posto que ella me
+fosse extremamente agradavel e vantajosa... Mas, ao menos, a
+collaboração litteraria. A litteratura pertence a todos os campos e não
+impõe solidariedade de principios, nem sequer afinidade de ideias
+politicas. O meu jornal está a precisar de sangue novo... Eu esforço-me
+por fazer d'elle um jornal moderno, mas sou só e todo o meu esforço se
+perde por não ter uma penna vigorosa, uma penna brilhante que me
+secunde. Além d'isso, o publico não está educado, o publico não
+comprehende o que é bom nem o que é mau, e d'ahi resulta preferir o mau
+a que está habituado, deixando no olvido e na indifferença o que é bom!
+
+--Por esse lado, tenho eu a certesa de que não me havia de escassear
+publico...--disse Jorge rindo.--Mas não, meu caro, eu não estou
+resolvido a collaborar em jornaes...
+
+--Fazes mal! O jornal é ainda hoje uma arma formidavel, a unica que a
+sociedade respeita, porque é a unica que a faz tremer.
+
+--Mas eu não pretendo amedrontar ninguem--tornou Jorge impassivel.--Não
+tenho ambições, não alimento a vaidade de querer tornar-me celebre por
+nenhum titulo, e portanto prefiro o socego, a tranquillidade do meu
+gabinete e a suave alegria de um estudo que me não cança á lucta
+violenta do jornalismo diario, famulento Minotauro, que consome vida,
+actividade, talento que a todos aproveita, menos a quem lh'o sacrifica.
+Deixemos isso, meu João, e dize-me: sempre partes hoje para Lisboa?
+
+--Não. Demoro-me ainda por cá uns dias, não sei quantos...
+
+--Bem! Folgo com a tua permanencia entre nós... É signal de que tiveste
+bom acolhimento por parte dos teus amigos...
+
+João Lazaro fez uma carêta de despeito.
+
+--Uns pulhas, os taes meus amigos!
+
+--O que! Acaso não estás contente com elles?
+
+--Queres que te falle com franqueza? A ti posso dizer tudo, porque és
+meu amigo...
+
+--Bem sabes que não tenho o menor interesse em revelar as confidencias
+que me fazes.
+
+--Pois bem; declaro-te que estou arrependido de me haver sacrificado por
+um partido de verdadeiros bilhostres!
+
+--Ai, já?!
+
+--Já! E, com franqueza, agora não me fica bem recuar... seria um
+escandalo compromettedor da minha popularidade, do meu nome... Mas,
+acredita, que se fosse coisa que eu pudesse fazer sem dar nas vistas,
+fazia-o sem a mais leve hesitação.
+
+--Não pódes... isso com certeza não pódes--tornou Jorge.
+
+--Pois esse é todo o meu desespero! Tenho de permanecer atrelado a estes
+imbecis que n'uma hora de irreflexão surprehenderam a minha camaradagem,
+e não posso tirar d'elles a vingança que merecem!
+
+--Mas de que te queixas? Qual é o motivo do teu desgosto?
+
+--São uns miseraveis! Não ha quem lhes apanhe dinheiro para nada...
+Estou compromettido, cheio de dividas, porque tenho gasto sommas
+enormes, tudo para honrar o partido e sustentar o brilho do meu nome,
+unica coisa que ainda dá importancia a esse agrupamento de idiotas...
+
+--És modesto, João!--interrompeu Jorge rindo.
+
+--Que diabo! entre amigos não ha necessidade de estarmos com cerimonias.
+A verdade é esta...
+
+--Tens razão. _Inter amicus non est gerigonça_, dizia-se no meu tempo.
+Continua.
+
+--Pois imagina que eu tinha phantasiado um projecto que não passava de
+um plano bem combinado para arranjar uma somma de que preciso para me
+livrar de apuros. Bato á porta dos correligionarios mais endinheirados
+de Lisboa e digo-lhes que preciso de vir ao norte combinar com os nossos
+amigos um golpe decisivo, mas que não posso vir sem dinheiro, porque
+elle é, ainda hoje como sempre, a grande arma, a suprema força. Claro
+está, eu não pedia para mim, pedia para o serviço do partido, para o
+triumpho da causa... Calcula lá as difficuldades que tive de vencer para
+lhes arrancar os magros cobres com que fiz a viagem?
+
+--Calculo, calculo... o dinheiro é sangue!...--disse Jorge com sarcasmo.
+
+--É sangue... mas não teem elles obrigação de dar o _sangue_ pela
+patria?
+
+--É que elles não estão talvez bem convencidos de que a patria és tu...
+
+--Eu synthetiso a patria! sou a sua verdadeira imagem, pelintra e cheio
+de necessidades como ella! Dar-me dinheiro a mim é dal-o á patria,
+porque ella tem por dever sustentar-me, como eu tenho por nobre missão o
+salval-a! Pois os grandes burros não se capacitam d'isto!
+
+--Mas, afinal, de que tens tu vivido?
+
+--D'elles. Hoje um, amanhã outro, todos teem ido largando os cobres,
+persuadidos uns de que a coisa estava para já, outros pela simples
+vaidade de se aproximarem de mim e de partilharem da minha gloria... Mas
+agora começam a retrahir-se, e sei que alguns até já teem dito que lhes
+sou pesado em demasia! Vê tu lá, acham pesado o mais brilhante ornamento
+do seu partido!
+
+--O mundo está cheio de ingratos, meu caro!
+
+--Agora chego ao Porto, appello para o seu esforço, reclamo dinheiro á
+ordem para a realisação do meu plano, e contra a minha espectativa, em
+vez de pôrem á minha disposição os seus cofres, torcem o nariz e
+perguntam-me quanto é preciso, como se isto fosse uma sacca de arroz ou
+um costado de bacalhau que convém regatear! É inaudito, não achas?
+
+--Acho... acho que vieste sem dinheiro e que voltas sem elle... Meu caro
+João, sejamos francos, tens levado uma vida de expedientes, uma vida de
+exploração politica que não podia durar sempre... Tu devias pensar que
+não ha minas inexgotaveis e que o mais vigoroso organismo não resiste a
+sangrias repetidas...
+
+--É certo, mas eu não vim ao mundo para viver de ar e de esperanças...
+Tenho trabalhado, tenho sacrificado a minha mocidade, a minha vida, é
+justo que me auxiliem aquelles que eu auxilio...
+
+--Mas, que diabo! o teu auxilio é perfeitamente inutil, improficuo, e os
+factos demonstram que, em vez de prestares auxilio, o verdadeiro
+auxiliado és tu...
+
+--Estás muito enganado! Eu tenho segredos que valem dinheiro... Se eu
+quizesse fallar, se eu quizesse reduzir a dinheiro tudo o que sei, não
+teria difficuldades...
+
+Jorge sorriu.
+
+--Isso tambem eu creio--disse elle.
+
+--E afinal é o que eu venho a fazer, se vir que elles não correspondem á
+sinceridade e dedicação com que eu os tenho servido...
+
+--Queres dizer, se não continuarem a corresponder...
+
+--Pois está claro! Eu não tenho obrigação de respeitar mais os
+interesses d'elles do que os meus...
+
+Houve um silencio de alguns minutos.
+
+--É verdade, ainda te dás com o Avioso?--perguntou o Lazaro.
+
+--Continuamos a ser amigos como sempre fomos.
+
+--Esse homem é meu adversario politico, dos mais ferrenhos e
+intransigentes, mas eu pessoalmente sympathiso com elle.
+
+--É um bello e generoso caracter. O peor defeito que lhe conheço é o de
+ser politico.
+
+--Talvez me convenha aproximar-me d'elle...
+
+--Quando quizeres, estou ao teu dispôr.
+
+--Por emquanto não. Deixa ver no que isto pára... Mas, se me fôr
+preciso, conto comtigo, com a tua discreção, com a tua amizade...
+
+--Já sabes que estou sempre ao teu dispôr...
+
+--Bem; havemos de fallar.
+
+N'estas meias palavras Jorge traduziu o pensamento intimo do
+aventureiro, e disse comsigo:
+
+--Temos o chefe mudado em espião...
+
+João Lazaro accendeu um charuto e passado um instante, expellindo uma
+fumaça:
+
+--A vida está para os vadios, para os valdevinos, para os impostores...
+Olha aquelle rapaz por quem na dias me perguntaste no _Suisso_, o
+Eugenio de Mello, como vae casar-se com uma herdeira rica, hein!
+
+--É verdade... Elle deu-te parte do seu projecto de casamento?
+
+--Qual! muito meu amigo, muito intimo, mas a respeito d'esse negocio,
+nem pio! Os amigos, em geral, são assim... guardam o melhor para elles.
+
+--É que não estará ainda definitivamente resolvido o enlace...
+
+--Mas tu disseste-me que sim...
+
+--Foi o que constou. Mas tu sabes o que são os homens de dinheiro.
+Primeiro que se resolvam a consentir no casamento de uma filha, tratam
+de indagar se o noivo tem bens que correspondam á fortuna que vae
+adquirir... E como tu dizes que elle não tem nada de seu...
+
+--Não tem onde cáia morto, essa te posso eu jurar!
+
+--Então ahi está! talvez que não sejas tu o unico a saber essa
+particularidade com respeito ao teu amigo, e d'ahi sobreviessem
+difficuldades... Apesar de que o procurador Belchior affirma, segundo
+ouvi, que elle possue importantes propriedades no Alemtejo.
+
+--O procurador Belchior? Que sabe o procurador Belchior ácerca do
+Eugenio?
+
+--Não sei... talvez indagasse.
+
+--Pois se indagou e diz que elle é rico, mente! Ahi ha de haver por
+força grande embrulhada.
+
+--Talvez. No emtanto, o Belchior é muito amigo d'esse tal Eugenio, que,
+não obstante, gasta dinheiro a rodos e sustenta bisarramente a fama de
+rapaz rico...
+
+--Á custa do commendador Garcia...
+
+--Será, não contesto. Mas para ser dinheiro fornecido por uma mulher
+n'essas condições, parece-me demasiado... Salvo se ella tambem é rica...
+
+--Não é, mas o commendador dispende muito com ella.
+
+--Ainda assim! Esse rapaz deve ter outra fonte de receita para tamanha
+dissipação...
+
+--Elle tambem joga, e ás vezes a sorte favorece-o.
+
+--O jogo constitue uma ruinosa verba de despeza e nunca uma fonte de
+receita, tu bem o sabes...
+
+--Pois é verdade; mas como tem cambiantes, permitte a illusão...
+
+--Nada! Com tão pobres elementos, ser-lhe-ia impossivel viver como vive,
+dispender como dispende, e, sobretudo, conquistar a amizade do
+procurador Belchior... Alli deve haver mais alguma coisa...
+
+--A não ser que o procurador vá feito com elle para embarrilar o
+capitalista...--aventurou João Lazaro.
+
+--Tambem póde ser. Julgo o Belchior muito capaz d'isso.
+
+--Hei de averiguar!--tornou o João Lazaro.
+
+--Que interesse tens tu em o saber?
+
+--O interesse que tem todo o homem em conhecer as patifarias do seu
+semelhante... Imagina tu que este Eugenio de Mello ámanhã me apparece
+rico, senhor de grandes capitaes, personagem importante na politica e
+que, por uma d'estas reviravoltas tão frequentes no homem que muda de
+posição para melhor, acaba por se esquecer de mim, a quem hoje chama
+amigo e offerece ceias?...
+
+--E se tal acontecer, que te importas tu com isso? É mais um biltre que
+ficas conhecendo...
+
+--Pois sim, mas é um biltre que me offenderá impunemente, se eu não
+tiver o cuidado de ir archivando as notas das suas patifarias d'hoje,
+para lhe dar com ellas na cara ámanhã, quando elle se fizer fino...
+
+--Eu, no teu logar, e realisada semelhante hypothese, nem mais me
+lembrava d'elle... O meu despreso seria castigo sufficiente á sua
+canalhice...
+
+--Nada, nada, menino!--protestou João Lazaro--Quem o inimigo poupa nas
+mãos lhe morre...
+
+--Elle, porém, não é teu inimigo...
+
+--Mas póde ainda vir a sel-o... E a experiencia tem demonstrado que o
+homem previdente está sempre a coberto dos maiores perigos...
+
+--Tu és extraordinario, João! Se procedes assim com os amigos, como
+procederás com aquelles a quem odeias?...
+
+--Queres ver? Olha!
+
+João Lazaro metteu a mão no bolso e tirou d'elle uma carteira que abriu.
+
+--Tenho aqui--disse elle--uma relação dos meus inimigos--a quem hei-de
+um dia dar lembranças minhas... É uma espécie de lista da loteria em que
+só estão os nomes dos individuos _premiados_... Vê!
+
+Apresentou a Jorge uma longa relação de nomes conhecidos.
+
+--Para que é isto?--perguntou Jorge.
+
+--Para que? São _crédores_ meus a quem tenciono _pagar_ um dia... Ha-de
+ser uma _liquidação_ completa!
+
+E fez um gesto de quem aperta um laço.
+
+--Serias capaz d'isso, João?--disse Jorge n'um tom sombrio.
+
+--Oh! os candieiros não se fizeram para outra coisa! Has-de vêr...
+Hei-de dar-te o espectaculo duma _illuminação_ como nunca viste.
+
+--Não darás...
+
+--Porque?
+
+--Porque se a _festa_ se preparar, eu já sei que, para evitar o
+espectaculo de uma semelhante _illuminação_, tenho de te procurar e
+metter-te uma bala na cabeça antes de mais nada.
+
+--Tu!
+
+--Eu.
+
+--Mas o caso não é comtigo. Tu não és meu inimigo.
+
+--Mas posso vir a parecêl-o, e com um homem como tu, é preciso estar
+sempre prevenido...
+
+João Lazaro estremeceu. Cobarde até ao extremo, teve mêdo de Jorge.
+
+--Tu bem sabes que sou muito teu amigo e que não posso nunca duvidar da
+tua amizade. Alem d'isso, eu estava gracejando...
+
+--E a gracejar confeccionaste esta lista...
+
+--Para apavorar simplesmente. É uma fórma inoffensiva de
+vingança--aterrar os que são meus inimigos, os que me fizeram mal!...
+
+Jorge sorriu com despreso:
+
+--Mau processo é esse de apavorar os inimigos com ameaças que não
+tencionas realisar...--disse elle.
+
+--Ao menos sobresalto-lhes as noites...--replicou o João Lazaro.
+
+--Sobresaltas-lhes as noites sem reparares que compromettes os teus
+dias... Queres um conselho, João?
+
+--Dize lá?...
+
+--Rasga essa relação de nomes, que é o mais infame documento que pódes
+dar do teu caracter... e se a mais alguem, sem ser eu, tiveste a
+leviandade de a mostrar, pede-lhe que esqueça tamanha indignidade.
+
+--Jorge, vejo que levas muito mais longe do que eu suppunha um caso de
+mera brincadeira da minha parte!--disse João Lazaro, verdadeiramente
+compromettido.
+
+--É que a mim revoltam-me os actos de cobardia, mesmo quando não passam
+d'uma invenção absurda e idiota.
+
+Fez-se um silencio constrangido entre os dois.
+
+--A prova de que nem sequer houve ou ha da minha parte a intenção de
+realisar a vingança quo te disse contra os individuos cujos nomes
+figuram n'esta relação, está em que t'a mostro justamente no momento em
+que mais afastado vou ficar do campo que lhes é hostil..
+
+Jorge encarou-o.
+
+--Vaes então mudar de campo de acção politica?--perguntou.
+
+--Não vou mudar, mas vou conservar-me inactivo, indifferente. Não me
+entendo com semelhante canalha!
+
+--Entendamo-nos. Se conseguires que elles te deem dinheiro para a
+realisação do teu decantado plano, o que farás?
+
+--Ao dinheiro? Gasto-o.
+
+--E ao plano?
+
+--O plano vou realisal-o para Hespanha; e é possivel que eu por lá fique
+e mais elle...
+
+Jorge riu-se.
+
+--É então ainda uma mystificação que projectas?
+
+--Mystificação, propriamente dita, não é... Estreitarei relações com os
+principaes vultos da peninsula, darei importancia ao meu partido, farei
+que se falle n'elle e se julgue uma força muito mais consideravel do que
+é... Isto creio que é serviço de algum valor e que bem vale o dinheiro
+que me derem...
+
+--E se não conseguires que te dêem coisa alguma?
+
+--Terei que pedir emprestado aos adversarios--que, mais avisados, não me
+recusarão o que os meus correligionarios me negam...
+
+--Sejamos francos: foi para isso que me perguntaste se eu estou ainda em
+boas relações com o Avioso?
+
+--Foi.
+
+--Mas tu sabes que o Avioso não confiará em ti, se eu não te apresentar.
+
+--E tu apresentar-me-has. Tens duvida n'isso?
+
+--Conforme. Se te comprometteres comigo a não abusar da boa fé do
+Avioso, estou ao teu dispôr. Do contrario, não.
+
+--Até faço mais... Isto para tu veres a minha lealdade...
+
+--Dize lá!
+
+--Eu não me aproximo do Avioso, para não dar nas vistas nem despertar
+suspeitas... Faço-te as communicações a ti para tu lh'as transmittires.
+Já vês que assim assumo a responsabilidade inteira para comtigo.
+Acceitas?
+
+--Está combinado. Acceito.
+
+--Mas... tu comprehendes... a minha situação financeira é difficil...
+
+--Já sei. Quanto?
+
+--Por uma vez só?
+
+--Não. Por mez.
+
+--Diabo! Eu não sou um espião vulgar...
+
+--O que é bom paga-se bem. Quanto?
+
+--Duzentos mil reis será muito?
+
+--Não sou eu que hei-de dizel-o...
+
+--Pois quem?
+
+--Tu e mais ninguem. Não se compra o homem, compra-se o serviço...
+
+--Pois bem; que me assegurem duzentos mil reis por mez e eu prestarei
+serviço que valerá muito mais.
+
+--Têl-os-has.
+
+--Mas--observou João Lazaro com uma certa hesitação--ha ainda uma
+coisa...
+
+--Dize.
+
+--Eu estou crivado de dividas... tenho compromissos serios que não posso
+protelar por mais tempo.
+
+--Bem sei, precisas de um adiantamento...
+
+--É isso.
+
+--Quanto calculas que te seja preciso?
+
+--N'esta data, seiscentos mil reis não era tudo, mas era um grande
+auxilio.
+
+--Não ha duvida. Eu creio que o Avioso fará o adiantamento. Mas, tu bem
+sabes, elle é curioso, excessivamente curioso mesmo...
+
+--Comprehendo.
+
+--Então, se comprehendes, não perderei tempo a explicar-te qual a
+maneira de obteres do Avioso a somma que desejas.
+
+--Olha lá: uma relação completa dos que mais se salientaram nas ultimas
+reuniões secretas e das resoluções n'ellas tomadas bastará por emquanto?
+
+--Basta.
+
+--Nesse caso, ámanhã, se, como eu supponho, as minhas difficuldades não
+forem removidas por outra fórma, trarei tudo isso.
+
+--Está bem.
+
+--Visto isso, falas ainda esta noite com o Avioso?
+
+--Fallo.
+
+--Mas recommenda-lhe o maior segredo e discrecção. Que isto não
+transpire por modo algum.
+
+--A quem mais interessa guardar segredo é a elle. Bem vês que,
+inutilisado o agente, de nada serviria gastar dinheiro com elle.
+
+--É precisamente isso.
+
+--Não ha, pois, que recommendar-lhe um segredo que a elle proprio convem
+guardar.
+
+João Lazaro accendeu outro charuto.
+
+--Só a tua grande amizade e dedicação me poderia levar a isto!
+
+Jorge sorriu.
+
+--A minha amizade e a sovinice sordida dos teus amigos...
+
+--É claro. Mas se não confiasse tanto como confio em ti, eu não
+acceitaria uma aproximação de semelhante natureza com o Avioso.
+
+--E eu, se não fosse tão teu amigo como sou e não sentisse um grande
+desejo de te auxiliar na situação difficil em que te encontras, tambem
+não tomaria sobre mim o encargo de resolver o Avioso a dar-te dinheiro.
+A proposito: sempre partes breve para Lisboa?
+
+--Já, já, não. Demoro-me aqui ainda alguns dias. Mas quando partir para
+Lisboa, de lá mesmo nos entenderemos.
+
+--Perfeitamente. Outra coisa: sempre tencionas indagar a especie de
+relações que existem entre Eugenio de Mello e o procurador Belchior?
+
+--Estou resolvido a tratar d'isso.
+
+--Não me disseste que esse Eugenio tem uns amores inconfessaveis,
+occulta fonte de receita que equilibra o largo orçamento em que estão
+representados todos os vicios com as respectivas verbas de despeza?
+
+--Digo e sustento. E a ti, como amigo, direi mais: essa loura, ciumenta
+como um demonio e apaixonada como uma gata, já sabe que Eugenio projecta
+casar-se.
+
+--Sabe? Quem lh'o disse?
+
+--Eu. Tu não me pediste segredo.
+
+--Nem me interessa que ella o não saiba.
+
+--Pois bem; essa loura repudiou-me quando eu me propuz, e tomou amores
+com Eugenio de Mello. A hora da minha vingança havia de chegar, e
+chegou. Accendi-lhe um inferno de ciumes no coração, e a esta hora está
+ella esperando impaciente que eu lhe leve as minhas informações e as
+minhas ordens.
+
+--Eu já sabia isso.
+
+João Lazaro encarou o amigo com espanto.
+
+--Já?!--perguntou.
+
+--Já.
+
+--Como o soubeste?
+
+--Eu sei tudo.
+
+--Não suppuz que te interessassem os meus actos a ponto de me mandares
+espionar.
+
+--Não fui eu. Bem sabes que alguem mais do que eu se interessa em saber
+a tua conducta.
+
+--Ah! sim...--fez João Lazaro reflectindo.--Mas esta visita que eu fiz
+não tinha caracter politico--e não acho correcto que me espionem e me
+sigam n'uma aventura galante com o mesmo encarniçamento com que me
+perseguem quando eu conspiro...
+
+--Vamos a saber--disse Jorge.--Tens interesse em que Eugenio de Mello
+não realise o casamento com a filha do capitalista?
+
+João Lazaro fez uma carêta.
+
+--Não me importo absolutamente nada com isso. O meu empenho é só
+castigál-o pela sua falta de franqueza e lealdade para comigo. Devia
+ter-me dito que ia casar, visto que se affirma meu amigo... Isto pelo
+que lhe diz respeito a elle. Agora pelo que respeita a Leonor, vingo-me
+e preparo o terreno para occupar a praça, que vae ficar abandonada.
+
+--Se Eugenio casar...
+
+--Quer case, quer não, Leonor não lhe perdoará. Convencida do que o
+amante quiz trahil-a casando com outra, cortará immediatamente as suas
+relações com elle, e, para se vingar, tratará de o substituir pelo maior
+amigo do perfido. Ora ella sabe que o maior amigo de Eugenio sou eu...
+
+--E portanto, és tu o que reune as maiores probabilidades de vir a ser
+admittido ao logar vago...
+
+--Justo!
+
+--É curiosa essa aventura!
+
+--É curiosa, mas muito vulgar entre amigos.
+
+--Será, mas entendo que deves proceder com cautela...
+
+--Porque?
+
+--Porque não te fica bem que se torne publico o teu papel nada invejavel
+n'essa intriga. Queres fazer uma coisa?
+
+--Dize.
+
+--Não envolvas essa endiabrada lourinha em qualquer aventura sem me
+consultares primeiro. Valeu?
+
+--Está dito. Mas não te esqueças de fallar ao Avioso. Estou immensamente
+precisado de dinheiro...
+
+--Não me esqueço.
+
+O aventureiro estendeu a mão a Jorge, despedindo-se.
+
+--Adeus--disse elle--Amanhã procuro-te.
+
+--Pois sim. Adeus.
+
+Quando João Lazaro sahiu, Jorge, que o acompanhou com a vista até elle
+transpôr a porta da sala, murmurou:
+
+--Sempre o mesmo biltre! Sempre o mesmo miseravel!
+
+
+
+
+XV
+
+Conluio infame
+
+
+No escriptorio de Custodio de Jesus, discutiam animadamente o dono da
+casa e o seu amigo e confidente, o procurador Belchior.
+
+--A coisa é esta:--dizia o procurador--com pannos quentes não se faz
+nada.
+
+--Ai, já? Você já é da minha opinião?--replicou o Custodio,
+triumphante.--Pois, meu amigo, se eu, contra o meu genio, tenho usado de
+pannos quentes, a culpa foi toda sua... Quando eu queria usar da minha
+auctoridade de pae e levar a rapariga á força á igreja, você não
+deixou... Segui o seu parecer, tentei levar as coisas pela brandura, e
+agora é tarde para tomar outro caminho...
+
+--Qual outro caminho?
+
+--O caminho d'onde eu nunca devêra ter sahido... o caminho da
+auctoridade e do rigor paterno... Mas agora, depois de eu ter descido
+até ao ponto de chorar diante da rapariga e de a deixar levantar a
+crista, a julgar que estou dependente da sua protecção, como é que eu
+hei-de chegar ao pé d'ella e dar-lhe dois safanões e quatro berros que a
+façam entrar na ordem?
+
+--Mas não é preciso nada d'isso, homem!
+
+--Não é preciso? Pois você diz que com pannos quentes não se arranja
+nada e acha que não é preciso empregar a força?
+
+--Acho que se póde empregar a força, sem que você passe por ser um pae
+cruel...
+
+--Pois está claro que eu tambem não vou empregar a violencia diante de
+gente. O que se passa em minha casa escusa de se saber no meio da rua.
+Mas não posso... a rapariga perdeu-me o respeito, agora... boas noites!
+
+--Homem, deixe-se de tolices... Ha uma força que nós podemos empregar
+muito bem e a que a pequena não terá remedio senão obedecer...
+
+--Mas que força é essa então?
+
+--É a força das circumstancias, homem! Quem é que não se dobra á força
+das circumstancias?
+
+--Ó demonio, mas essa força já eu empreguei; já disse á pequena que as
+nossas circumstancias não podiam ser mais desgraçadas e nem assim
+consegui convencêl-a.
+
+--Pois bem; mudemos de systema--disse o Belchior, piscando um olho.
+
+--Mudemos do systema como?--perguntou o Custodio, sem comprehender.
+
+--Se ella não quer largar o tal namorico, obriga-se o namorico a
+largal-a a ella...
+
+--Quer você dizer que lhe mande eu dar uma carga de pau, qualquer noite
+quando elle cá vier á porta... Mas isso o que faz? A rapariga é capaz de
+tomar o freio nos dentes e então é que não haverá forças humanas que a
+obriguem a acceitar este casamento...
+
+--Ninguem falla em empregar esses meios violentos...
+
+--Não?
+
+--Pois com certeza. Isso seria uma tolice sem resultado pratico. Aqui o
+caso é outro...
+
+--Mas então diga lá.
+
+O Belchior fitou demoradamente o Custodio e disse:
+
+--A questão é você querer...
+
+--Pois eu quero! Tomára eu... Diga lá, homem!
+
+--O processo é um bocado exquisito, mas dá resultado...
+
+--Se dá resultado, vamos a elle!--concordou o Custodio--Então como é
+isso?
+
+--É d'uma maneira muito simples; rapta-se a pequena...
+
+--Hein! O que? Rapta-se?
+
+--É claro! Prepara-se um rapto, faz-se escandalo e conduzem-se as coisas
+de modo que a rapariga não tenha remedio senão casar com o Eugenio...
+
+--Mas...--obtemperou o Custodio indeciso--torne a dizer, que eu não
+percebi bem?...
+
+--Isto não tem que perceber: combina-se um passeio ao campo... Vae você
+com a pequena, vou eu com a minha mulher e minha cunhada... Andamos por
+lá, petiscamos, e a paginas tantas minha cunhada afasta-se para mais
+longe com a Beatriz, a admirar a paisagem...
+
+--Sim... E depois?
+
+--Depois, o Eugenio, que está emboscado com dois amigos, salta de lá,
+agarra na Beatriz, mette-se n'uma carruagem e parte com ella a todo o
+galope. Minha cunhada grita, tem um desmaio, nós acudimos, mas já é
+tarde--não lhe podemos valer... O resto segue-se depois naturalmente...
+
+--O resto... Mas qual resto?
+
+--Ora qual resto! O casamento. Pois que quer você que se siga senão o
+casamento depois d'isto? Beatriz, depois de raptada, não terá remedio
+senão acceitar por marido o homem que a raptou...
+
+--Não sei... Ella é muito capaz de ainda assim recusar...
+
+--Qual recusa! Quando ella reconhecer a impossibilidade de casar com
+esse pintalegrete que lhe endoideceu a cabeça ou com outro qualquer que
+não seja o Eugenio, não terá remedio senão resolver-se...
+
+--E você sabe lá se o rapaz, ainda mesmo assim desiste?
+
+--Pois desiste, porque a gente faz escandalo... E depois d'ella
+desacreditada, só se elle não tiver vergonha.
+
+--Desacreditada! Então a rapariga ha de ficar desacreditada? Isso não...
+isso é que eu não consinto! Não é por mais nada... Mas emfim... ella usa
+o meu nome, passa por minha filha, e eu não estou para me sujeitar e
+andar fallado nas bôccas do mundo!--recusou honestamente o marido de D.
+Carlota.
+
+--Que diabo! Você não sabe que tudo isto é uma _planta-fórma_ para
+obrigar a pequena a casar? Que diabo tem que a rapariga seja raptada,
+uma vez que o raptor a receba por mulher?
+
+O Custodio ficou silencioso e meditativo por alguns instantes como que
+ruminando o plano do seu amigo Belchior.
+
+--A coisa--disse elle por fim--talvez desse bom resultado... Mas isso
+era um escandalo de seiscentos diabos!
+
+--Pois era... era um escandalo bastante grande, e isso mesmo era o que
+convinha...
+
+--O que! Convinha o escandalo--interrogou o Custodio
+escandalisado--Então você quer que eu, como pae--porque afinal ella não
+tem outro--goste e ver uma filha minha ou que passa por isso mettida em
+escandalos?
+
+--Você não comprehende, Custodio, você não comprehende... Isto era
+escandalo e não era escandalo... E como naturalmente fazia barulho, a
+cidade alvorotava-se com a noticia do rapto e isso era justamente o que
+convinha...
+
+--Mas convinha porque?--insistiu o Custodio.
+
+--Convinha por todos os motivos. Em primeiro logar, Beatriz, depois
+d'este escandalo, comprehenderia que não podia casar com outro homem,
+senão com o Eugenio... Em segundo logar, ainda quando ella teimasse em
+alimentar no coração essa paixoneta pelo tal estudantelho que a namora,
+não teria remedio senão curar-se, porque o rapaz, depois d'ella
+desacreditada, não a queria e não lhe tornava a apparecer... Depois da
+_praça_ abandonada, que remedio terá a pequena senão render-se?
+
+--Sim... e demos o caso que esse tal Eugenio, emfim... como é rapaz e
+estroina, depois de a ter raptado, não se resolve a tomal-a por mulher,
+senão debaixo de certas condições?
+
+--Quaes condições?
+
+--Por exemplo... exigir que eu augmente o dote á rapariga e querer que
+se façam escripturas, de modo que o que é d'elle fique perfeitamente a
+coberto...
+
+--O Eugenio não é capaz d'isso!--protestou o Belchior.
+
+--Eu sei lá! A gente vê caras e não vê corações... Depois da rapariga
+perdida, eu não terei remedio senão sujeitar-me ás condições que elle
+impuzer... Nada, isso não é bom plano.
+
+--Pois então, meu amigo, o melhor é desistirmos do negocio, porque não
+vejo outro meio...
+
+--Desistir tambem não... Talvez que, se eu a mettesse n'um convento com
+ordem de a tratarem com rigor e de não a deixarem fallar nem escrever ao
+namoro, isso desse bom resultado.
+
+--Não dá resultado nenhum. Que diabo! Você é um homem desconfiado com
+quem se não póde tratar nada a sério...
+
+--O mal dos meus burricos é que me tem feito alveitar--volveu o Custodio
+coçando a suissa--Por eu ter confiado demais nos amigos é que aquelle
+ladrão do padre Anselmo me roubou a fortuna e a mulher... Depois é que
+eu vim a saber tudo... Mas era tarde, já lhe não podia dar remedio...
+
+--Pois sim, mas agora não se trata de lidar com gente de sotaina... Você
+conhece-me ha muito tempo e sabe que tenho sempre zelado os seus
+interesses como se fossem meus...
+
+--Bem sei isso, mas o caso não é propriamente com você, Belchior. Se
+fosse você que tivesse de casar, eu acceitava o plano com os olhos
+fechados, porque bem sei que você não era homem capaz de faltar ao que
+promettesse... Mas com esse rapaz o caso é outro...
+
+--Não é outro nada...--replicou o Belchior.--Se elle se comprometter
+comigo a casar com a pequena nas mesma condições em que está tratado,
+cumpre com toda a certeza.
+
+--E se não cumprir?
+
+--Isso não póde ser... Mas se elle cahisse na asneira de faltar ao
+contracto, eu cahia-lhe em cima com uma querella, que elle havia de ir
+por uma barra fóra e nem tudo quanto tem lhe havia de chegar para a
+justiça...
+
+--E o que lucrava eu com isso?--perguntou o Custodio com um sorriso
+velhaco.
+
+--O que lucrava?
+
+--Sim, o que lucrava eu, se a justiça lhe apanhasse todos os haveres
+pela maroteira feita a mim?
+
+--Homem, ninguem quer metter-se em assados... Logo que elle visse que o
+caso era sério, chegava-se á razão... Você não comprehende?
+
+--Comprehendo... isso comprehendo eu...--mascou o Custodio indeciso.
+
+--Então, se comprehende, que mais quer?
+
+--E você compromette-se a fazel-o cumprir?
+
+--Está claro que comprometto! Eu fallo com elle, percebe? Fallo com elle
+e proponho-lhe o expediente do rapto como coisa minha... Não lhe digo
+que você está feito comnosco, porque, emfim, você é pae e é preciso
+salvar as apparencias...
+
+--Sim, isso é bom... Mesmo para elle me não perder o respeito.
+
+--Justissimo! É isso mesmo!--apoiou o procurador.--Offereço-me a
+proporcionar-lhe ensejo para a obra, mas imponho-lhe a condição de que
+ha de casar sem mais preambulos e sem mais contratos, logo que seja
+encontrado com ella.
+
+--Justo!--disse o Custodio.
+
+--Porque, se assim não fizer, compromette-me e então será comigo que
+elle terá de se haver... Está bem assim?
+
+--Está optimo!--apoiou o Custodio radiante.
+
+--E o dito dito--tornou o Belchior--eu levo a percentagem combinada...
+
+--Isso está sabido. Arranje você as coisas de modo que o casamento se
+faça nas condições combinadas e o dinheiro passa-lhe logo para as unhas.
+
+
+
+
+XVI
+
+O rapto
+
+
+Dois dias depois da conferencia entre o procurador e Custodio, Beatriz,
+que fôra convidada pela mulher e a cunhada do Belchior para as
+acompanhar n'um passeio ao campo, levantou-se de manhã muito contrariada
+por não poder furtar-se ao convite que lhe não proporcionava o minimo
+prazer.
+
+O Custodio fingia-se tambem contrariado, e tendo-se levantado muito
+cêdo, resmungava de modo que a filha o ouvisse, maldizendo a lembrança
+de o convidarem para um passeio que alterava os seus habitos e talvez
+lhe puzesse a saude em risco.
+
+--Ora a minha desgraça!--clamava elle--Não basta ter tanta coisa que me
+afflija, senão ainda agora obrigarem-me a andar um dia inteiro pelo
+campo, a apanhar sol e a aturar senhoras!
+
+--Mas se o papá não quer--propoz Beatriz--manda-se dizer que está doente
+e não vamos...
+
+--Isso não! Não póde ser. O Belchior ficaria desgostoso...
+
+--Mas se é um caso de força maior...
+
+--Não, já agora, estou a pé, sempre vou... Não quero que o homem
+supponha que não tenho desejo de lhe acompanhar a familia. Mas isto
+custa-me muito, porque a minha idade já não permitte estas folias...
+
+A este tempo parava um trem á porta e o Belchior e a familia subiam
+açodadamente, gritando:
+
+--Então vamos?
+
+--Vamos lá... estou prompto!--disse o Custodio ao Belchior--A pequena
+tambem já está preparada, acho eu...
+
+A mulher e a cunhada do procurador dirigiram-se aos aposentos de Beatriz
+n'uma grande alegria:
+
+--Vamos, avie-se, sua preguiçosa! Então ainda n'esse estado?
+
+--Estou prompta. É só levar para o carro um pequeno cesto com umas
+coisas que mandei preparar...
+
+--O quê! Mandou fazer de comer? Que tolice! Nós levamos alli comida que
+chega para um regimento!...
+
+--Por demais não perde...--apoiou o procurador--Vamos embora que são
+horas... O bonito é sahir cedo para andarmos por lá todo o dia...
+
+Entraram no carro, um _char-á-bancs_ enorme, e seguiram as duas familias
+aos solavancos em direcção á quinta da Lavandeira.
+
+A mulher e a cunhada do procurador não faziam senão soltar exclamações
+de admiração e alegria, encantadas com a paisagem.
+
+A tudo achavam graça, tudo achavam muito bonito.
+
+Obtida a permissão de entrarem na quinta, n'essa epocha ao cuidado dos
+caseiros, seguiram os passeiantes por baixo do copado arvoredo,
+dividindo-se em dois grupos: um formado pelas tres senhoras, e o outro
+pelos dois homens.
+
+O procurador, allegando que para baixo todos os santos ajudam, despediu
+o cocheiro, dizendo-lhe que não voltasse, porque regressariam a pé para
+a cidade.
+
+--Vamos indo devagar por ahi fóra e até é mais pittoresco... não acha,
+amigo Custodio?
+
+--A distancia, realmente, não é grande...
+
+--Em chegando á Bandeira, estamos em casa... A rua do General Torres
+desce-se bem...
+
+--Eu cuidei que o passeio era para mais longe--disse a mulher de
+Belchior.
+
+--Mais longe para que? Aqui estamos muito bem... A quinta é bonita e é
+muito grande, dá bem logar para passearmos... E quando nos sentirmos
+cançados, abancamos e toca a palestrar... Aqui o que faz bem é o ar...
+
+Passou-se o dia como não podia deixar de ser n'uma horrivel monotonia
+para Beatriz, que de modo algum podia achar-se bem n'uma companhia que
+não lhe offerecia o menor sentimento de agrado.
+
+O Custodio conversava com o Belchior sobre negocios, repisando o
+assumpto. As duas senhoras que constituiam a familia do procurador,
+esgotado o reportorio da má lingua contra a vizinhança e varias outras
+familias conhecidas, calaram-se e, sentadas á sombra de uma arvore
+frondosissima, começaram a cabecear com somno.
+
+Haviam-se levantado cêdo e resentiam-se do longo passeio.
+
+Beatriz, portanto, ficou uma grande parte do dia entregue a um
+aborrecimento cruel, que a punha de muito mau humor.
+
+Pensava por vezes em Paulo, lembrando-se de que talvez não lhe fosse
+possivel vel-o, fallar-lhe na noite que ia seguir-se a um dia tão
+horroroso.
+
+Não pudera prevenil-o d'aquelle passeio, porque o mancebo havia duas
+noites que não apparecia a fallar-lhe.
+
+Dissera-lhe que negocios importantes de que dependia o futuro dos dois o
+deviam ter afastado do Porto por alguns dias, mas não se affligisse
+ella, porque elle voltaria com boas novas.
+
+--Mas o que vaes fazer?--perguntara-lhe interessada em tudo o que o
+mancebo intentava.
+
+--Permitte-me que por ora t'o não diga, meu amor. Breve saberás tudo e
+tenho bem fundadas esperanças de que has-de applaudir o meu
+procedimento.
+
+Esta persistencia em guardar absoluto segredo sobre os seus designios,
+quando Paulo não tinha tido até alli um unico pensamento que lhe não
+communicasse, impressionou-a.
+
+E era ainda sob a influencia d'este estranho procedimento do seu bem
+amado que a pobre Beatriz se encontrava n'aquelle dia, um dos mais
+aborrecidos e tristes de toda a sua vida, porque, além das mágoas
+intimas que a torturavam, tinha ainda a constrangel-a e a aggravar-lhe o
+soffrimento a presença de pessoas que, se não lhe eram odiosas, eram-lhe
+pelo menos antipathicas.
+
+Ao cahir da tarde Custodio e o procurador fingiram enthusiasmar-se n'uma
+grande polemica a proposito de uma questão commercial palpitante; e com
+grande profusão de gestos e de berros, interrompiam-se frequentemente um
+ao outro, sem chegarem a accôrdo. De modo que, esquecidos da distancia
+que os separava do Porto, foram deixando-se ficar até ao cahir da tarde.
+
+A noite estava de luar, serena e calma, convidativa de longo passeio
+pela fresca.
+
+--São horas de nos irmos chegando a casa...--advirtiu a mulher de
+Belchior, quando notou que a conversa se ia demorando.
+
+--É verdade, vamos indo...--disse o procurador, travando de braço de
+Custodio para continuar na discussão acalorada em que estava
+interessado.
+
+E voltando-se para as senhoras:
+
+--Andem lá adiante...
+
+Sahiram para a estrada, a essa hora silenciosa e deserta.
+
+As damas, levando Beatriz cada uma por seu braço, tomaram a dianteira, e
+muito alegres, muito lepidas, iam cantarolando por entre dentes alguns
+numeros mais populares de uma revista em voga.
+
+--Ah! que dia tão bem passado!--exclamava a cunhada do procurador--Não
+ha nada para abrir o appetite e dar saude á gente como é um passeio ao
+campo!
+
+--E a noite está linda!--accudiu a mulher do Belchior--dá mesmo gosto
+passeiar por uma noite assim! Não gosta do campo, Beatrisinha?
+
+--Não desgosto...--volveu a namorada de Paulo com o coração oppresso de
+ignoto receio.
+
+O procurador e Custodio, de cada vez mais encarniçados na controversia,
+paravam de vez emquando, falando muito, gesticulando, adduzindo
+argumentos sem tom nem som.
+
+Era uma esperteza dos dois velhacos para justificarem a distancia a que
+queriam encontrar-se no momento do assalto.
+
+--Deixe-as ir... deixe-as ir...--murmurava o Belchior--Quanto mais longe
+estivermos d'ellas, mais facilmente o Eugenio e os amigos deitam a luva
+á pequena.
+
+Assim foram caminhando, até que, n'uma volta da estrada, as damas deram
+de frente com um trem parado, quasi obstruindo a passagem.
+
+Detiveram-se esperando, que o carro seguisse na direcção que ellas
+levavam, para poderem continuar o seu caminho. Mas rapidamente dois
+homens mascarados saltaram á estrada e, sem darem tempo á mais leve
+resistencia, apoderaram-se de Beatriz e atiraram-n'a para dentro do
+carro, que partiu em carreira desabrida.
+
+--A mulher e a cunhada do procurador, industriadas pelo marido e
+perfeitamente conhecedoras do que havia de succeder, quando viram partir
+o carro, desataram a gritar por soccorro, simulando uma grande
+afflicção.
+
+Os dois patifes ao ouvir gritar as damas, correram para ellas muito
+açodados, perguntando:
+
+--O que é? O que aconteceu?
+
+--Dois homens, sahindo-nos ao caminho, agarraram a Beatrizinha e fugiram
+com ella dentro d'aquelle trem!
+
+E apontavam a carruagem que desapparecia n'uma curva da estrada.
+
+--E ella não gritou?--disse o procurador.
+
+--Ella soltou um grito, mas elles abafaram-lhe a voz, de modo que a
+pobresinha não se tornou a ouvir!
+
+--Talvez a amordaçassem...--aventurou o Belchior.
+
+--Ou talvez perdesse os sentidos...--concluiu a mulher.
+
+O Custodio julgou conveniente fingir grande desespero, e levando as mãos
+á cabeça, não fazia senão gritar:
+
+--Oh! minha filha! minha filha! desgraçado de mim, que me roubaram a
+minha filha!
+
+--Um rapto!--gritava o procurador--O crime foi praticado de noite, e de
+noite bastam os indicios... Vamos já ter com a auctoridade da freguezia
+e apresentemos-lhe a queixa...
+
+--E quem diremos que foi o raptor?--perguntou o Custodio.
+
+--Ora essa! Foi o Eugenio de Mello... Pois quem havia de ser?
+
+-- Sim... foi elle...
+
+--Está visto que foi--tornou o procurador--Elle queria, ella não
+queria... raptou-a!
+
+E em tom mais baixo:
+
+--Convem affirmar desde já que o vimos e o reconhecemos perfeitamente,
+que é para o entalarmos logo desde o principio, de modo que não haja
+outro remedio senão fazer-se o casamento sem escripturas.
+
+--Vamos a isso! Foi elle, o grande maroto!... Eu bem o reconheci... Isto
+não é coisa que se faça a um pae!
+
+--Mas que coisa! que coisa!--dizia a mulher do procurador, simulando a
+maior consternação.--Ainda não estou em mim!
+
+--Ai, meu Deus!--accrescentava a cunhada--Em que perigo nós nos
+mettemos! Olhem se aquelles malditos se lembravam de me raptar tambem a
+mim!
+
+--Á senhora?!--disse inconvenientemente o Custodio, com um sorriso
+escarninho.
+
+--E então?--retorquiu a cunhada do Belchior, offendida--Eu sou solteira,
+e elles eram dois...
+
+--Ahi está a prova!--affirmou o procurador--Vinham dois e raptaram só
+uma... Logo, provará que o reu premeditou o crime, porque escolheu a que
+lhe fazia conta. Foi o Eugenio de Mello, não ha que ver... Vamos ter com
+o regedor para perseguir os fugitivos!
+
+Tudo isto era dito a andar esbofadamente pelo caminho que conduzia ao
+largo da Bandeira, em Villa Nova de Gaya, onde afinal chegaram depois
+das nove horas da noite.
+
+Tendo indagado onde morava o regedor, apresentaram-se-lhe, e
+contaram-lhe o succedido.
+
+--E para onde fôram elles?--perguntou o funccionario.
+
+--Nós ainda os seguimos um bocado gritando; mas ninguem nos accudiu, e
+afinal perdemol-os de vista...
+
+--Os senhores reconheceram os raptores ou suspeitam quem fossem?
+
+--Elles levavam a cara coberta, mas um d'elles descobriu-se sem querer,
+deixando vêr o rosto, e todos nós reconhecemos um rapaz que vive no
+Porto e que se chama Eugenio de Mello.
+
+--Bem!--concluiu o regedor--Eu vou mandar os meus cabos indagar, a vêr
+se descobrem os criminosos... E amanhã dou parte para a administração.
+Mas sempre será bom os senhores apparecerem lá para formularem a queixa.
+
+E preparando-se para tomar nota n'um papel:
+
+--Os seus nomes, fazem favor?
+
+O Belchior declinou os nomes de todos, figurando elle, a mulher e
+cunhada como testemunhas e o Custodio de Jesus como queixoso.
+
+--Vou já mandar proceder a rigorosas pesquizas na minha freguezia--disse
+o regedor--a vêr se se encontram os delinquentes. Mas, amanhã, o sr.
+administrador terá conhecimento do facto e tomará as providencias
+precisas...
+
+--Veja v. s.^a, sr. regedor, a situação em que me encontro com uma filha
+roubada nas minhas barbas!...--lamuriou o Custodio.
+
+--E demais a mais, menor!--declamou o procurador--É crime de casamento
+ou penitenciaria!
+
+--Tudo vem a dar na mesma... Pobre de quem as tem!--Concluiu o regedor.
+
+--E agora--disse o Belchior muito solicito--em chegando á cidade, vamos
+direitos ao commissario de policia, apresentar a queixa...
+
+--Está visto...--apoiou o regedor--Ninguem sabe o caminho que os
+fugitivos tomaram, e a policia, telegraphando para todos os concelhos,
+póde muito bem fazel-os capturar...
+
+--O que vale é que nós conhecemos o raptor...
+
+--Sim, isso é meio caminho andado--disse o regedor--e se tivessem
+photographias, ainda melhor...
+
+--A verdadeira photographia é o nome--accudiu o procurador--Elle é
+conhecido.
+
+--Bem, bem! Eu vou tratar de ver se elles estão na minha freguesia, mas
+não me parece... Amanhã, amanhã na administração do concelho, o snr.
+administrador dará as ordens.
+
+Despediram se do pacifico funccionario que, interrompido no trabalho de
+empacotar prégos para a Africa, voltou á sua tarefa, logo que os viu
+sahir.
+
+--E d'aqui para a policia!--bradou o Belchior já na rua.
+
+Metteram pela rua do General Torres abaixo, em direcção á cidade.
+
+--Tudo correu bem!--segredava o procurador ao Custodio--Agora, na
+policia, é que a coisa vae dar echo... Talvez amanhã saia nos jornaes...
+
+--Ó diabo! mas isso é uma vergonha... fica-me a rapariga perdida!
+
+--E você a dar-lhe! Ella fica mas é achada, porque não terá outro
+remedio senão casar com o Eugenio...
+
+--Sim... isso é verdade.
+
+--Pois ahi está! Quanto maior fôr o escandalo, melhor. Deixe fallar os
+jornaes... Tomaramos nós que elles berrassem bastante... Até nos
+convinha...
+
+--Mas os jornaes só depois d'amanhã é que se occuparão do caso, porque
+já hoje não vão á policia...
+
+--Pois sim; mas vou eu aos jornaes... Isto é preciso não deixar
+arrefecer... Precisamos de lhe tapar todas as sahidas... Ella ha-de
+casar, quer queira, quer não!
+
+Deixemo-los seguir caminho da policia e dos jornaes, e vejamos o que foi
+feito de Beatriz, a essa hora seguindo caminho desconhecido na companhia
+dos dois mascarados que a raptaram.
+
+Surprehendida pelo assalto inesperado d'aquelles dois homens, Beatriz
+quiz resistir e gritar, mas vendo-se cingida por uns braços possantes e
+atirada para dentro do carro com uma rapidez assombrosa, foi tal a
+commoção que soffreu, que perdeu os sentidos.
+
+Quando o trem se poz em fuga n'uma corrida vertiginosa, um dos
+mascarados quiz naturalmente serenal-a, porque disse n'uma voz repassada
+de ternura, pegando-lhe na mão:
+
+--Beatriz!
+
+Mas a pobre pequena reclinada sobre um dos lados do trem, não se mexeu.
+
+--Beatriz!--tornou a dizer a voz, sacudindo-lhe levemente a mão fina e
+delicada.
+
+O mesmo silencio e a mesma immobilidade.
+
+Estão o desconhecido que a chamava, inclinou-se-lhe sobre o rosto,
+poz-lhe a mão na fronte, que estava banhada de suor frio, e notou que a
+filha do Custodio não respirava.
+
+--Perdeu os sentidos!--disse elle visivelmente commovido.
+
+--É natural--replicou o companheiro.--Compleição franzina e delicada,
+assustou-se e desmaiou.
+
+--E agora?--perguntou o que primeiro fallara.
+
+--Agora é caminhar... caminhar sempre até chegarmos a casa... O trem vae
+em boa carreira e não devemos demorar muito a chegar lá.
+
+E vendo que o companheiro se mostrava de cada vez mais inquieto e
+afflicto:
+
+--Não te assustes--tranquillisou.--Isso passa. É um ligeiro deliquio,
+que até nos favorece o bom exito da empreza.
+
+--Parece-me que não somos seguidos.--tornou o outro, inquieto.
+
+--Quem querias tu que nos seguisse, se tudo estava tão bem combinado e
+tudo correu tão de molde ao nosso desejo que os que podiam impedir-nos
+foram os proprios que nos auxiliaram?...
+
+--É verdade. Elles conservavam-se a distancia, mandando as senhoras
+adiante...
+
+--Já esperavam o lance, os patifes!
+
+--Pois é claro. O que eu queria era vêr a cara d'elles quando souberem
+que a raptada seguiu caminho differente d'aquelle que lhe haviam
+assignalado...
+
+--Era para Villar do Paraiso, pois não era?
+
+--Era.
+
+O trem havia descido a rua do General Torres e parara á entrada do
+taboleiro inferior da ponte D. Luiz para pagar a portagem.
+
+--Estamos na ponte--disse o primeiro dos dois desconhecidos.
+
+--Estamos. Agora falta-nos atravessar a cidade. É questão de meia hora.
+
+Paga a portagem pelo cocheiro, o trem continuou o seu caminho, sem que
+alguem reparasse na veloz corrida que levava. Andou assim meia hora, até
+que a final entrou na estrada do Carvalhido, parando em frente de um
+largo portão de ferro.
+
+--Eis-nos, emfim!--disse um dos dois raptores.
+
+E levando um apito aos labios, tirou d'elle um silvo agudo e prolongado.
+
+Immediatamente o portão se abriu e a carruagem entrou n'um largo pateo,
+seguindo por uma extensa alea de frondosos castanheiros, até junto de
+uma casa de severo aspecto, que alli se erguia, dominando os vastos
+campos que a circumdavam.
+
+Os dois desconhecidos saltaram do trem, conduzindo nos braços Beatriz,
+ainda em deliquio, para uma sala interior ricamente mobilada.
+
+Depositaram a pobre creança sobre um sofá, e rapidamente, correndo-se um
+reposteiro, appareceu na sala uma dama alta, de nobre aspecto, que fez
+aspirar a Beatriz um frasco de saes.
+
+Dos dois mascarados, um murmurou algumas palavras ao ouvido da dama e
+retirou-se; o outro, tirando a mascara, ficou com os olhos pregados em
+Beatriz, sem preferir palavra.
+
+Momentos depois, a filha de Custodio, suspirou, abriu os olhos e
+circumvagando um olhar pela sala, soltou um grito d'alegria.
+
+--Paulo! És tu?--disse ella.
+
+--Sou eu, Beatriz, sou eu! E Paulo aproximou-se da namorada, pegou-lhe
+na mão e beijou-lh'a com transporte.
+
+--Paulo!--tornou a filha de Custodio, visivelmente intrigada--o que é
+isto? Como me encontro eu aqui?
+
+--Encontras-te aqui, minha querida, porque eu te salvei de um grande, de
+um enorme perigo...
+
+--Ah! bem sei... aquelles homens que nos assaltaram na estrada... Meu
+Deus!--disse ella, recordando-se da scena estranha que se déra.--Mas
+como pudeste tu saber?
+
+--Pude saber que te queriam raptar, d'accôrdo com teu pae e com o
+procurador Belchior--esclareceu Paulo:--Era uma cilada infame que te
+estava armada e em que te queriam fazer cahir...
+
+--Com o consentimento de meu pae?!--gritou Beatriz horrorisada.
+
+--Com o consentimento de teu pae, sim. E eu que fui advertido da
+desgraça a que semelhante infamia ia condemnar-te, resolvi substituir os
+raptores e, em vez d'elles, apresentar-me eu a raptar-te.
+
+--Ah! então os dois homens que me assaltaram no caminho e me lançaram
+dentro do carro...
+
+--Era eu e um meu amigo. Teu pae e o Belchior ficaram persuadidos de que
+foi Eugenio de Mello quem effectuou o rapto, porque tinha de se
+realisar, estava combinado entre elles, e nem por sombras suspeitam a
+esta hora que, em vez de cahires nas mãos do noivo que te queriam impôr,
+estás ao lado do escolhido do teu coração!...
+
+Beatriz relanceou um olhar curioso para a dama desconhecida que, junto
+d'ella, o estava fitando com expressão de ternura maternal.
+
+--E esta senhora--disse ella--quem é?
+
+Antes que Paulo respondesse, madre Paula, pois que era ella, respondeu á
+pergunta:
+
+--É uma amiga que muito a estima e que só deseja a sua felicidade, minha
+filha.
+
+--É minha mãe!--accrescentou Paulo, beijando carinhosamente a mão á
+religiosa, mais elegante e sympathica nos seus trajes seculares.
+
+Madre Paula sorriu amavel e dirigindo-se a Beatriz:
+
+--Este louco--disse ella--teima em querer impôr-me um titulo que me não
+pertence e a que de forma alguma tenho direito...
+
+--Não diga isso, minha mãe!--protestou Paulo--Pois quem me acalentou na
+infancia, quem protegeu e amparou os meus primeiros passos, quem tem
+tido sempre para mim todos os disvellos, todas as ternuras e carinhos de
+uma mãe por seu filho? Conheci eu outra mãe? Ouvi alguma vez palpitar
+junto do meu berço outro coração que não fosse o seu, grande e generoso?
+
+--Mas, meu filho...--ia a dizer madre Paula commovida.
+
+--Meu filho! vês?--interrompeu o mancebo voltando-se para Beatriz--Diz
+que não é minha mãe e chama-me seu filho!
+
+Madre Paula replicou n'um tom cheio de bondade e doçura:
+
+--«Meu filho», é a formula terna, cariciosa do meu tratamento para
+comtigo... Mas se me deves affeições e cuidados que outra qualquer no
+meu logar te dispensaria, é todavia bem certo que outra tem direito á
+funda veneração e aos ternissimos affectos do teu coração de filho...
+
+--Outra!--exclamou Paulo indignado--Quem quer que ella seja não a
+conheço, nunca a vi nem desejo vel-a! Se tive outra mãe, aquella de quem
+a natureza ou a fatalidade se serviu para me lançar a este mundo, é tão
+pouco o que lhe devo em affeição e tanto o que d'ella me veio em dôres e
+soffrimentos, que já faço muito não a odiando, para sómente sentir por
+ella indifferença.
+
+--Paulo, não digas isso!--reprehendeu madre Paula--Sabes que me
+mortificas fallando assim. Não te aconselhei e não busquei sempre
+incutir no teu coração o sentimento do amor e respeito que se deve aos
+paes?
+
+--Perdôe-me, minha boa mãe! Os seus conselhos não foram esquecidos nem
+os seus esforços baldados. E a prova é que a amo e a respeito com todas
+as véras da minha alma, com todas as forças do meu coração. Mas como
+quer que eu tenha os mesmos affectos, os mesmos ternos sentimentos de
+respeitosa veneração por uma outra que não conheço, que nunca vi, que me
+abandonou e me deixou entregue á generosa caridade de seu nobre coração,
+minha boa e santa mãe? A ella devo os soffrimentos, as angustias da vida
+que eu lhe não pedi e que de bom grado dispensava. A madre Paula devo
+tudo o que um filho deve a sua mãe: devo-lhe o amparo, o carinho, a
+protecção o amor que uma boa mãe tem sempre por seu filho. Quem é, pois,
+minha mãe? A quem devo eu todo o respeito, toda a obediencia, toda a
+estima e gratidão que constituem a obrigação de um filho para com seus
+paes: aos que me crearam e protegeram, ou aos que me deram o sêr e me
+abandonaram?
+
+E voltando-se para Beatriz, que assistia silenciosa e commovida a esta
+scena:
+
+--Responde tu, minha amiga! Tu, que tens sido tambem victima da
+crueldade e dureza de um pae descaroado e egoista, que a todo o momento
+te torturava, consulta o teu coração e dize-me se sentes por elle o
+mesmo enternecido affecto que sentias por tua mãe, de quem me tens
+fallado com tão viva saudade?
+
+Beatriz corou e disse:
+
+--Se é um crime não amar os paes, que, depois de nos terem lançado ao
+mundo, se julgaram dispensados de ter por nós disvellos e amoravel
+compaixão para com a nossa infancia desvalida, confesso que sou tambem
+uma grande criminosa... Por meu pae não senti nunca o suave e dôce
+affecto que me inspirava minha pobre mãe. Ella era meiga, terna e
+bondosa para mim. Elle, rispido, austero, sêcco, intratavel. Nunca me
+dispensou um affago, nunca teve para mim um sorriso, a não ser agora,
+nos ultimos tempos, quando, representando commigo uma comedia...
+inclassificavel, queria sacrificar o meu coração ao dinheiro de um homem
+que eu não podia amar. Até ahi, porém, só teve para mim arremessos,
+gestos bruscos, despotismos de senhor que se vê compellido a tolerar um
+escravo de que deseja desfazer-se. Depois da morte de minha mãe, esse
+mau tratamento accentuou-se de cada vez com mais rigor. Cheguei a pensar
+que, se eu morresse, a minha morte seria motivo de grande alegria para
+meu pae. Não ia vêr-me ao collegio, não me escrevia uma carta, não
+buscava saber de mim, nem mesmo quando uma ligeira doença me prostrava
+no leito. Contentava-se em pagar todas as despezas mas ternura paternal,
+este dôce sentimento que liga, n'uma cadeia interminavel, a humanidade
+de um ao outro extremo dos seculos, eu conhecia bem que não existia
+n'elle... Chorei muito a minha orphandade, cheguei mesmo a pedir a Deus
+a morte. E quando via o alegre alvoroço das minhas companheiras ao
+receberem noticias dos paes que adoravam, perguntava a mim mesma porque
+é que a lembrança de meu pae não despertava em mim o mesmo sentimento, e
+o meu coração ficava frio e indifferente.
+
+Madre Paula escutava Beatriz, visivelmente commovida com o tom de
+sinceridade e candura que ella punha n'estes dizeres.
+
+--Minha filha--disse-lhe a abbadessa--eu creio bem que, apesar de não
+sentir por seu pae os extremos de ternura que seriam para desejar, não
+sentiu nunca por elle indifferença e muito menos odio...
+
+--Oh, não, minha senhora! Meu pae inspirava-me receio e temor pelo seu
+genio desabrido, pela rispidez e quasi rancor com que me tratava. Mas eu
+não pensei jamais em faltar aos meus deveres de filha obediente... E
+ainda mesmo quando elle falsamente allegava que dependia de mim a sua
+velhice socegada e tranquilla, estava resolvida a sacrificar-me por
+elle, tanto quanto fosse compativel com a minha honestidade e com os
+sentimentos do meu coração.
+
+E cortou a phrase para envolver Paulo n'um olhar caricioso e apaixonado.
+
+--E todavia--observou Paulo--esse homem não tem o minimo direito á
+obediencia e ao affecto de Beatriz! Um pae que desce á ignominia de
+consentir no rapto violento de sua filha para a obrigar a casar com o
+homem que ella detesta, é um miseravel, um monstro despresivel, não é um
+pae!
+
+--Paulo! Paulo... então!--supplicou Beatriz.
+
+Madre Paula interveio:
+
+--O procedimento do pae d'esta menina foi incorrecto, não ha duvida; mas
+a Providencia encarregou-se de o punir, fazendo voltar contra elle as
+proprias armas da perfidia que queria empregar contra a filha.
+
+E dirigindo-se a Beatriz:
+
+--Minha menina--accrescentou--agradeça ao céo o havel-a protegido e
+amparado contra a odiosa cilada em que queriam fazel-a cahir. Sem
+praticar nenhum acto de desobediencia para com seu pae, encontra-se
+liberta do homem a quem queriam entregal-a com manifesta repugnancia do
+seu coração e grave offensa da sua reputação e da sua honestidade. Aqui
+se conservará em minha companhia, se assim o deseja, em quanto não puder
+livremente dispôr do seu destino, unindo-se pelos laços conjugaes ao
+escolhido do seu coração. Servir-lhe-hei de mãe e serei uma garantia
+segura da rectidão e honestidade de seu comportamento. Quer assim?
+
+--Oh, minha senhora! quanto lhe devo e quanto a minha alma se sente
+agradecida por tanta bondade e tão valiosa protecção!
+
+--Paulo virá vêl-a--continuou Madre Paula--mas fallar-lhe-ha sempre na
+minha presença, para que a todo o tempo eu possa testemunhar a nobreza e
+correcção com que ambos procuram unir os seus destinos. Espero, pois,
+que d'este modo concorrerei para a realisação dos seus mais vivos e
+ardentes desejos, sem que uma leve sombra de suspeita possa macular a
+honra e a reputação dos meus queridos filhos.
+
+Beatriz e Paulo ajoelharam, beijando enternecidamente a mão da gentil
+abbadessa.
+
+Esta, sorrindo com um carinho e uma doçura verdadeiramente maternal,
+disse para Beatriz, levantando-a nos braços:
+
+--Deve estar fatigada, minha filha... Vou mandar servir-lhe uma leve
+refeição e acompanhal-a em seguida ao seu quarto.
+
+E dirigindo-se a Paulo:
+
+--Vae, meu filho. Despede-te da tua noiva e faze por merecer sempre a
+estima e o affecto que tens encontrado no meu coração.
+
+
+
+
+XVII
+
+Quem semeia ventos...
+
+
+O Belchior e o Custodio, mal chegaram ao Porto, dirigiram-se ao
+commissariado de policia e ahi formularam a sua queixa contra Eugenio de
+Mello, accusando-o do rapto de Beatriz.
+
+O procurador e a familia apresentaram-se como testemunhas, e todos
+declararam haver reconhecido o bohemio n'um dos dois raptores.
+
+A policia pôz-se em campo para descobrir os fugitivos, e o Custodio,
+esfregando as mãos de contente, recolheu a casa á espera dos
+acontecimentos.
+
+--Agora, amigo Custodio--disse-lhe o Belchior--como tudo correu á medida
+dos nossos desejos, vá descançado, que o casamento não leva oito dias a
+fazer-se...
+
+--Como o rapaz não tenha ainda gasto toda a cortiça da
+quinta...--respondeu o Custodio com um sorriso velhaco--o casamento vem
+em bôa occasião.
+
+--Deixe lá, que por falta de cortiça não é que o negocio ha-de ir ao
+fundo...
+
+Despediram-se, promettendo voltar a vêr-se no dia seguinte.
+
+Ao chegar a casa, porém, o Belchior ficou surprehendido ao encontrar um
+bilhete de Eugenio de Mello, em que este lhe declarava que, tendo-o
+procurado sem o encontrar, voltaria no dia seguinte de manhã, para,
+saber que novidade tinha havido.
+
+--É bôa!--disse o procurador á mulher--Este maluco rapta a rapariga e
+quer que eu lhe diga a novidade que houve!
+
+--Mas--observou a esposa--quando te deixou elle esse bilhete?
+
+--Não sei... Encontrei-o na caixa das cartas... Naturalmente, mandou-m'o
+por algum portador de confiança, depois do rapto.
+
+--Mas elle diz que veio procurar-te e que não te encontrou...
+
+--É verdade! Confesso que não percebo isto... Elle não iria com ella
+para Villar do Paraiso como haviamos combinado?
+
+--Não sei... não estaria o dono da casa prevenido para os receber?...
+
+--Qual! estava tudo prevenido. É uma casa isolada no fundo de uma quinta
+e de que um meu constituinte tem a chave... E elle estava prevenido...
+Nada, aqui houve tolice do rapaz...
+
+Intrigado com o bilhete de Eugenio, que não sabia como explicar, o
+Belchior metteu-se na cama e dormiu regaladamente, na ideia de que
+levava o negocio do casamento a bom caminho.
+
+No dia seguinte, pelas dez horas, descia ao escriptorio quando Eugenio
+entrou:
+
+--Então?--disse-lhe o procurador.--Você já aqui, em vez de estar a
+convencer a pequena!
+
+--Qual pequena?--interrogou Eugenio, sem comprehender.
+
+--Qual pequena? É boa! Então você não sabe o que fez?
+
+--O que fiz? Eu não fiz nada, e não sei de quem me falla...
+
+--Essa agora! Pois você quer-me metter em cabeça que não raptou a
+Beatriz?
+
+--Eu?!
+
+--Homem, sim! Pois quem diabo havia de ser? Fui eu talvez?!
+
+--Mas se lhe digo que não pratiquei rapto nenhum...
+
+--Mau!--disse o Belchior, abespinhado com a ideia de que Eugenio estava
+gracejando.--Isto são negocios muito serios e eu não gosto d'essas
+brincadeiras!
+
+--Que diabo! mas se lhe estou dizendo que não brinco... Você mandou-me
+um recado, prevenindo-me de que não fosse, que o rapto não podia
+effectuar-se como se havia combinado... Como queria que eu, depois
+d'isto, fosse raptar a pequena?
+
+--Com os diabos!--berrou o procurador, desesperado.--Mas eu vi! Você,
+quer-me negar uma coisa que eu presenciei?!
+
+E n'uma furia crescente, persuadido de que Eugenio premeditava maroteira
+grossa:
+
+--Olhe que isso não é digno, ouviu? Eu bem sei aonde você quer chegar...
+Mas comigo é preciso vêr como se fazem, porque eu não sou menino que se
+deixe enganar!
+
+O bohemio encarou-o fito, franziu o sobr'olho e replicou n'um tom meio
+zombeteiro, meio ameaçador:
+
+--Você está doido, amigo Belchior?
+
+--Não estou doido nem você é capaz de me tirar o juizo, percebeu? É
+preciso notar que eu cumpri tudo aquillo a que me obriguei, e você ha de
+cumprir tambem, ou então temos muito que vêr!
+
+--O que quer você dizer com isso, Belchior?
+
+--Quero dizer que escusa você de vir negar o rapto que eu presenciei,
+com a ideia de se furtar a entregar-me a commissão que tinhamos
+combinado... Eu sei qual é a sua ideia... A sua ideia é fazer-se com o
+Custodio para arranjarem o casamento a occultas e deixarem-me a mim a
+chuchar no dedo... Mas lembre-se que eu tenho-os a ambos na mão... De
+você, descubro tudo, digo quem é e quem não é, faço vêr que não tem onde
+cahir morto, e depois sempre quero saber se o Custodio não prefere
+mandal-o por uma barra fóra, a dar-lhe a filha. E a elle, se se fizer
+fino e me quizer ser falso, tenho cá uns certos segredos que o
+compromettem e veremos quem n'este jogo leva a melhor! Comigo é preciso
+muito cuidado, ouviu? Eu não me deixo ir assim na rêde, ainda que a você
+lhe pareça o contrario!...
+
+O procurador punha tal indignação nas suas palavras, que Eugenio
+comprehendeu que havia alli um equivoco a desfazer.
+
+--Homem, não se zangue e fallemos sério--disse elle, procurando serenar
+o Belchior.--Eu não percebo uma palavra do que você está para ahi a
+dizer...
+
+--Não percebe? Ah! você agora não percebe, mas eu sou muito capaz de o
+fazer preceber...--tornou o Belchior, sempre persistente na ideia de que
+o aventureiro o queria enganar.--É preciso que se lembre de que eu
+estava lá, vi-o chegar, apear-se do carro com o outro, deitar as mãos á
+pequena, atirar com ella para dentro do carro e abalar... Isto a mim não
+se me nega e bem póde você vir com um santo Christo dizer-me o
+contrario, que eu não o acredito.
+
+--Pois não fui, amigo Belchior, creia que não fui!--protestou Eugenio,
+verdadeiramente espantado das affirmações do procurador.
+
+--Não foi! Então quem foi?
+
+--Não sei. Eu é que posso dar-lhe a minha palavra d'honra de que não
+entrei n'isso, nem pensei mais em tal, desde que você me mandou recado a
+dizer que o rapto ficava transferido para outro dia...
+
+--Que recado? Eu mandei-lhe algum recado?
+
+--Certamente. Eu estava no _Suisso_, eram quatro horas da tarde,
+conversando com o amigo que devia acompanhar-me, quando entrou um homem,
+que me chamou de parte e me disse: «O sr. Belchior manda dizer que tenha
+a bondade de não ir ao sitio onde sabe, porque houve transtorno e o
+passeio da menina ficou addiado para outro dia. Elle depois lhe
+explicará os motivos.» Ouvindo isto, perguntei-lhe:--«Onde está o sr.
+Belchior?»--«Em casa do sr. Custodio de Jesus com a familia e não
+regressa a casa d'elle senão á noite.» Ora, depois d'isto, como queria
+você que eu fosse raptar a pequena?
+
+O procurador ficou-se a olhar espantado o aventureiro.
+
+Elle queria convencer-se de que Eugenio fallava verdade, mas os factos
+de que tinha sido testemunha, contradiziam totalmente a narrativa do
+bohemio.
+
+--Sim... tudo isso está muito bem--disse elle.-- Mas o peor é que a
+rapariga foi raptada; eu vi, o pae viu, minha mulher e minha cunhada
+viram, e ninguem podia ter sido senão você...
+
+--Mas você não está gracejando, amigo Belchior?--interrogou por sua vez
+o bohemio.--Realmente Beatriz foi raptada?
+
+--Essa agora! Então não sabe que o foi?
+
+--Ah! sim... então foi raptada por outro!... Não tem duvida.. Você
+indemnisa-me dos prejuizos e está o negocio arrumado...
+
+--Dos prejuizos... Que prejuizos?
+
+O bohemio, sem perder a gravidade, replicou n'um tom cheio de convicção:
+
+--Obrigou-me a despezas excessivas, na ideia d'este casamento. Depois,
+entretendo-me com as suas promessas e os seus palanfrorios de me
+arranjar esta noiva que me convinha, fez com que eu perdesse outra união
+mais vantajosa. Tudo isto são prejuizos que eu não estou disposto a
+soffrer; e você, antes de me roer a corda, devia pensar n'isso...
+
+--Com seiscentos diabos!--gritou o procurador desvairado--Então já o
+ladrão é o roubado, hein! Então a você não lhe basta raptar a rapariga e
+negar, para se safar com ella e casarem-se occultamente em sitio que eu
+não saiba, para me não darem nada, senão ainda por cima quer que eu lhe
+dê dinheiro, a titulo de indemnisação? Diz que gastou mundos e fundos! E
+de quem era esse dinheiro, não faz favor de me dizer? A conta está alli,
+e o preto no branco falla como gente!
+
+E apontou para o cofre onde guardava os documentos da divida de Eugenio.
+
+--É verdade!--replicou o rapaz com soberano despreso--E esse preto no
+branco, que você alli tem, diz de uma maneira bem clara e bem evidente
+que você é o maior ladrão que a roda do sol cobre!
+
+--Veja como falla... Olhe que eu estou em minha casa!--berrou o
+procurador n'um gesto de ameaça.
+
+--Esta casa não é sua, é dos desgraçados que você tem esfollado, seu
+malandro! A sua casa é a penitenciaria, e lá é que você devia estar.
+
+--Pulha!--regougou o Belchior, rouco de colera--Ponha-se lá fóra!
+ponha-se lá fóra!
+
+O bohemio avançou para elle com o punho estendido. O procurador, livido
+de medo, foi recuando até á parede.
+
+Então ahi, sereno e imperturbavel, Eugenio, pondo-lhe a mão vigorosa
+sobre o hombro, disse:
+
+--Amigo Belchior, você escolheu mau parceiro para a sua bisca, porque eu
+não tenho que perder, e só posso ganhar... Tome bem conta no que lhe
+digo: eu não sou homem de quem se escarneça impunemente. Você fez raptar
+a rapariga por outro... Por ella, pouco me importa, porque eu não tinha
+empenho na mulher. Mas pelo dote, faz-me differença e eu não posso
+perder. Tenho, pois, direito a uma indemnisação e ou você m'a dá ou lhe
+mando a vida para o inferno. É um ladrão que fica de menos no mundo e os
+tribunaes, se não me absolvêrem, tambem não hão-de dar-me grande pena.
+Estou novo, posso bem com alguns annos de penitenciaria, mesmo porque
+não tenho nada que fazer cá fóra... Pense n'isto e não seja tôlo. Eu não
+sou exigente. Receberei mesmo em prestações. Adeus!
+
+O Belchior, desorientado, sahiu tambem pouco depois, dirigindo-se
+apressado a casa de Custodio.
+
+Não podia crêr no que ouvira da bôcca do bohemio, e parecia-lhe, em face
+de tamanha audacia, que havia já combinação feita entre Eugenio e o pae
+de Beatriz para o roubarem a elle, despojando-o da commissão que ambos
+haviam combinado dar-lhe.
+
+--É incrivel--murmurava elle--a desfaçatez com que aquelle maroto nega
+uma coisa que eu vi e ainda por cima me pede uma indemnisação! Agora o
+que falta é que o patife do Custodio tambem queira que eu o indemnise...
+Ah! mas não tem duvida! Eu arranjo-os... Comigo não brincam elles!
+
+Atravessou a cidade a passo accelerado e entrou em casa do Custodio no
+momento mesmo em que este se preparava para sahir.
+
+--Ia agora mesmo a sua casa--disse-lhe o agiota.
+
+--Sim? Então o que ha de novo?--perguntou-lhe o Belchior, que tivera
+tempo de serenar e recobrar o sangue frio.
+
+--Que eu saiba, não ha nada... O que eu queria saber era se sempre temos
+de ir á administração de Villa Nova de Gaya ratificar as declarações que
+fizemos hontem ao regedor e á policia...
+
+--Pois está claro que sim!--tornou o procurador--Agora é carregar-lhe
+com a polvora toda, declararmos que o vimos, que o reconhecemos, de modo
+que elle não possa negar ainda que queira...
+
+--Você julga-o capaz d'isso?--perguntou o Custodio em sobresalto.
+
+--Não... eu não o julgo capaz d'isso... Mas supponhamos que lhe dá o
+diabo na cabeça para se arrepender e dizer que não foi elle? É preciso
+que a gente tenha força nas declarações para o obrigar.
+
+--Mau! Mas você não fallava assim antes do rapto...--observou o Custodio
+desconfiado.
+
+--Eu sempre fallei como fallo agora, amigo Custodio. Eu não sou homem de
+duas caras nem digo uma coisa por outra... O que eu disse é que ficava
+por minha conta obrigal-o a casar com a pequena depois d'elle a raptar.
+Mas para isso é preciso que você me ajude e puxe certo...
+
+--Eu estou prompto!--volveu o Custodio--Diga você como quer que puxe...
+
+O Belchior adquiriu n'esta resposta a certeza de que o Custodio ainda
+nada sabia da negativa de Eugenio e que, portanto, não estava combinado
+com elle para o espoliarem da parte que lhe cabia n'aquelle infame
+negocio.
+
+--Trabalha por conta propria--pensou--e quer vêr se faz jus a mais
+dinheiro por parte do velho e a dar-me menos dinheiro a mim... Mas está
+enganado. É mais facil eu arranjar-lhe a cama na penitenciaria e perder
+tudo, do que deixar-me comer por aquelle patife!
+
+E voltando-se para o Custodio de Jesus:
+
+--É teimar sempre que foi elle e que foi elle! Eu juro que o reconheci,
+porque deixou vêr a cara na occasião em que raptava a pequena... Minha
+mulher e minha cunhada juram a mesma coisa... e você, já se sabe, tem de
+dizer comnosco... não nos póde contradizer...
+
+--Ágora contradigo! N'essa não caio eu...
+
+--E assim, com esta prova, ainda que elle negue e diga que não foi, ou
+casa ou vae para a Penitenciaria que nem Santo Antonio o livra de lá...
+
+--Mas a você palpita-lhe que elle seja capaz de negar?--insistiu o
+Custodio de cada vez mais apprehensivo.
+
+--A mim não me palpita nada... Mas você nunca ouviu dizer que o seguro
+morreu de velho? É preciso a gente prevenir sempre o peor...
+
+--Bem; pois então vamos lá para o administrador de Gaya.
+
+Chegaram á praça de Carlos Alberto, tomaram um trem á hora e partiram
+para Villa Nova.
+
+
+
+
+XVIII
+
+Revelação
+
+
+O padre Filippe, quando chegou a casa, depois de ter assistido aos
+ultimos momentos de Maria do Carmo, tirou da sotaina a sacca das libras
+e o manuscripto que a moribunda lhe confiara, atirando tudo para dentro
+da gaveta da sua secretária, sem se dar pressa em observar de perto o
+estranho legado.
+
+Vinha fatigadissimo e como a idade já lhe não permittia prolongadas
+vigilias, recolheu-se ao leito, reservando para o dia seguinte o exame
+do mysterioso manuscripto.
+
+A confissão da velha, porém, impressionara-o.
+
+Elle conhecera o padre Hilario e sabia muito bem, pelo que lhe dissera
+madre Paula, que o novel capelão da Covilhã era filho do padre Anselmo.
+O que de todo o ponto ignorava eram as particularidades que a velha lhe
+revelára nos ultimos momentos.
+
+Nunca tivera grande curiosidade de saber a origem d'aquelle filho que o
+padre Anselmo parecia querer encobrir, não obstante a grande protecção
+que sempre lhe dispensára e que era o que afinal trahira o seu segrêdo.
+Mas, comparando os relativos cuidados havidos para o padre Hilario com o
+abandono a que Paulo fôra votado, o padre Filippe não sabia explicar a
+differença, senão pelo grau de affecto que separava aquellas duas mães
+no coração do padre Anselmo.
+
+Todavia, madre Paula suppunha a _Irmã Dorothêa_ vivendo em paiz
+estrangeiro, protegida pelo seu seductor, a essas horas talvez elevado
+ao cargo de Provincial ou Assistente, com outro nome diverso do que a
+principio tivera. E n'este caso, como é que os dois esqueceram Paulo,
+deixando-o entregue aos cuidados de duas pessoas amigas, de quem mais
+não quizeram saber?
+
+Emaranhado n'esta ordem de considerações, o padre Filippe adormeceu,
+reservando para o dia seguinte a leitura do manuscripto, que talvez
+viesse fazer luz em tão escuro labyrinto.
+
+Se essa leitura alguma coisa o esclareceu, poderemos nós avaliar pela
+conversação que, na tarde d'esse mesmo dia, se travou entre elle e madre
+Paula, na casa das Sereias.
+
+--Sabes, minha amiga--disse o padre Filippe, entrando na cella da
+abbadessa--que tive noticias do padre Anselmo?
+
+--Sim?--perguntou madre Paula com curiosidade.
+
+--É verdade. Noticias bastante retardadas, mas em todo o caso novas para
+mim e creio que tambem para ti...
+
+--Decerto. Ha muitos annos que não tenho noticias do padre Anselmo. É
+ainda vivo?
+
+--Não sei. A pessoa que d'elle me fallou é já morta, e, ao expirar, não
+soube dizer-me se elle ainda vivia.
+
+--Alguem, ao morrer, fallou-te do padre Anselmo?
+
+--Uma tal Maria do Carmo, que foi creatura muito d'elle...
+
+--Tenho ideia d'essa mulher. Persuado-me que a vi duas ou tres vezes
+procurar o padre Anselmo, quando elle se demorava n'esta casa.
+
+--Eu não a conhecia, mas fui chamado hontem á noute para a ouvir de
+confissão, porque a pobre creatura não queria morrer sem fazer
+revelações importantes.
+
+Contou então toda a conversação que tivera com a moribunda e o legado de
+que ella o fizera depositario.
+
+--E o manuscripto o que diz?
+
+--O manuscripto--replicou o padre--é uma sentida e commovente narrativa
+feita pela mãe do padre Hilario ao filho, revelando-lhe o segredo do seu
+nascimento e dando conta dos funestos amôres que, desde muito nova
+ainda, a ligaram ao padre Anselmo...
+
+--É singular!
+
+--Pelo que d'esse manuscripto se deprehende, essa mulher não vira mais o
+filho desde o momento em que o déra á luz. O padre Anselmo
+arrebatara-lh'o da vista, dera-o a crear e encarregara-se da sua
+educação, conservando no mais rigoroso mysterio as circumstancias do
+nascimento d'aquella creança. Chamava-se Carlota a mãe, e por suggestões
+do padre Anselmo, casara em Braga com um agiota chamado Custodio de
+Jesus...
+
+--Custodio de Jesus!--repetiu madre Paula, sobresaltada.
+
+--Sim, Custodio de Jesus--tornou o padre Filippe--Porque te sobresalta
+esse nome?
+
+--É porque Custodio de Jesus se chama tambem o pae de Beatriz, a
+namorada de Paulo; e creio ter ouvido dizer que esse homem residira
+primitivamente em Braga.
+
+--É extraordinario!--exclamou o padre Pilippe--Dar-se-ha caso que
+Beatriz seja filha da amante do padre Anselmo?
+
+--Não sei. É possivel, como é possível que a propria Beatriz seja...
+irmã de Paulo.
+
+--Convem esclarecer esse mysterio, mas de modo que não transpire a menor
+suspeita do que se trata.
+
+Madre Paula ficou por alguns instantes pensativa.
+
+--Chamava-se D. Carlota--disse--a mãe do padre Hilario?
+
+--Chamava.
+
+--É ella mesma quem se declara casada com Custodio de Jesus, no
+manuscripto que te veio ás mãos?
+
+--É. E posto não diga claramente que as suas relações intimas com o
+padre Anselmo continuaram, bem o deixa perceber nas differentes
+passagens em que se refere ás supplicas que frequentemente lhe fazia
+para que a deixasse vêr e beijar o filho, seu unico amor, sua unica
+aspiração.
+
+--De modo que--tornou ainda madre Paula--se Beatriz é filha de D.
+Carlota...
+
+--Não haverá remedio senão impedir por todos os modos o casamento
+d'essas duas creanças, ainda mesmo que não tenhamos a certeza moral do
+impedimento dirimente.
+
+--E teremos então que revelar a Paulo o segredo do seu nascimento?
+
+--Não me parece que o devamos fazer emquanto não tivermos esgotado todos
+os outros meios ao nosso alcance.
+
+--Paulo ama loucamente essa menina e é correspondido com igual
+vehemencia por parte d'ella... Creio bem que será empreza difficilima
+arrancar ao coração dos dois um sentimento que alli tem creado tão
+fundas raizes.
+
+--Buscaremos convenientemente empregar os nossos esforços no sentido de
+suavisar o melhor que pudermos o golpe que talvez sejamos obrigados a
+vibrar-lhes... E se queres que te diga, minha querida, acho
+extemporaneas quaesquer considerações a esse respeito... Primeiramente,
+devemos informar-nos acerca da identidade d'esse Custodio de Jesus. Póde
+muito bem acontecer que, em vez de se tratar da pessoa que suspeitamos,
+se trate apenas de um homonymo do marido de D. Carlota.
+
+--Tratarei de averiguar por alguma das serventuarias do convento.
+
+--O que não convem--recommendou o padre Filipe--é que Paulo tenha
+conhecimento d'estas nossas indagações que não devem perder o caracter
+do mais intimo segredo...
+
+--Descança, meu amigo. Paulo nada saberá.
+
+N'essa mesma tarde, madre Paula chamou á sua cella uma das serventuarias
+do convento e incumbiu-a de averiguar e saber de certeza certa quem era
+Custodio de Jesus, que pessoas compunham a sua familia, qual o seu
+estado, e como se chamava a mãe de Beatriz.
+
+--Quero saber isto com a maxima exactidão e a mais breve possivel--disse
+madre Paula.
+
+--Isso é uma coisa que eu vou já tratar de saber... Alli perto tenho uma
+alminha do senhor, muito devota e que sabe a vida de toda a gente da
+vizinhança... Ella diz-me tudo assim que eu lá fôr...
+
+--Veja lá, olhe que tenho o maximo interesse em saber tudo...
+
+--Ó minha senhora! Fique vossa maternidade descançada que lhe trago aqui
+tudo sabidinho, sem faltar nada... Eu parece-me que essa familia não é
+lá de grande religião, porque não tenho ideia de a vêr muito pelas
+igrejas...
+
+--Saiba se esse Custodio de Jesus é de Braga e se vive cá no Porto ha
+muito tempo.
+
+--Sim, minha senhora.
+
+--Saiba tambem se a mãe da menina que é filha d'elle, e que se chama
+Beatriz, tem o nome de D. Carlota...
+
+--Sim minha senhora! Eu vou saber tudo isso...
+
+Sahiu a serventuaria e duas horas depois regressava com tudo sabido.
+
+--Já aqui estou de volta com tudo na ponta da lingua!--disse lépida a
+cuscuvilheira.
+
+--Então, o que soube?
+
+--O homem é de Braga, chama-se Custodio de Jesus e já cá está no Porto
+ha muitos annos. Empresta dinheiro sobre _hybotécas_ e pelos modos leva
+coiro e cabello... Tem má fama, mas é home de dinheiro...
+
+--E a familia?
+
+--A familia é só elle e mais a filha e mais a creada--uma _focinho de
+cão_ que primeiro que se lhe _arrinque_ uma palavra do bucho é um dia de
+juizo!
+
+--E a mulher? Elle não é casado?
+
+--Já é viuvo duas vezes. A primeira mulher morreu-lhe ainda elle estava
+em Braga... Chamava-se D. Carlota e d'essa não teve filhos. A segunda
+chamava-se D. Anna, tinha vindo do Brazil com fama de trazer mundos e
+fundos, mas acho que eram mais as vozes do que as nozes...
+
+--E o que foi feito d'essa mulher? Morreu tambem?
+
+--Pois já se sabe! Morreu e elle fez-lhe um enterro muito rico...
+
+--Então esta menina Beatriz é filha da segunda mulher, da tal snr.^a D.
+Anna?...
+
+--É como diz, minha senhora! Ella é um palminho de cara muito bonito...
+E parece que não ha de ter mau interior; mas o pae, que é má farda, não
+a deixa pôr pé em ramo verde... Veja lá como aquella alminha ha de estar
+carregada de peccados!
+
+--Tem vocemecê bem a certeza de que essa menina Beatriz é filha da
+segunda mulher do Custodio de Jesus?
+
+--Então não tenho, minha senhora?! Aquillo foi chegar a casa d'aquella
+santa Maria do Rosario e ella contar-me tudo p-a-pá Santa Justa, nem que
+estivesse a lêr n'um livro aberto! E olhe que ella não me engana, porque
+quem lhe disse tudo, como era e como não era, foi a criada do seu
+_préscurador_ chamado o _snr. Mélchior_, que é lá todo da casa do
+Custodio de Jesus e mais as senhoras d'elle, que são as que contam estas
+coisas todas diante da criada... Inda ella honte lá esteve, porque
+agora, pelos modos, vae lá um inferno em casa p'ra amôr do
+namorico--Credo! Santo nome de Jesus!--que a pequena traz com um
+estudante que se chama Paulo... E o pae quer mas é que ella case com
+oitro, que diz que é pôdre de rico.
+
+--Está bem!--disse madre Paula.
+
+--Veja lá a senhora as _desgracias_ que vão por esse mundo, tudo causado
+pela falta de religião e temor de Deus!...
+
+--Está bem!--repetiu madre-Paula, despedindo a devota onzeneira.--Vá na
+graça de Deus e escusa de dizer a alguem que eu a incumbi d'este
+serviço...
+
+Quando o padre Filippe voltou ao outro dia, madre Paula disse jubilosa:
+
+--Já sei tudo. O pae de Beatriz é o mesmo Custodio de Jesus, marido da
+D. Carlota do padre Anselmo... porém, esta pequena é filha do segundo
+matrimonio... A mãe era uma tal D. Anna, que tambem já morreu, pois que
+o Custodio de Jesus é viuvo duas vezes...
+
+O padre Filippe, encarou, sorrindo, madre Paula:
+
+--As tuas informações condizem perfeitamente com aquellas que eu pude
+obter...
+
+--Ah! tambem indagaste?
+
+--Tambem. Ha, porém, um ponto escuro que eu ainda não pude aclarar...
+
+--Qual é?
+
+--É que D. Carlota morreu ha dezoito annos, envenenada em Lisboa pelo
+padre Anselmo, e esta pequena Beatriz, se não tem mais, deve ter pelo
+menos uma idade que regula por esse tempo...
+
+--D. Carlota morreu envenenada pelo padre Anselmo, dizes?
+
+--Morreu.
+
+--Como o sabes?
+
+--Revelou-m'o a velha Maria do Carmo na hora extrema.
+
+--De modo que essa desgraçada não chegou a vêr o filho?
+
+--Não.
+
+--E o padre Hilario, pela sua parte, se ainda é vivo, deve ignorar quem
+foi sua mãe?
+
+--Decerto.
+
+--Aquelle padre Anselmo era um sicario da peor especie!--disse ainda
+horrorisada a bella abbadessa.
+
+--O padre Anselmo, que nós conhecemos, era um facinora como tantos
+outros que se acobertam com a religião santa do Crucificado... Ambicioso
+e profundamente perverso, tudo era capaz de sacrificar sem escrupulo á
+sua desmedida ambição...
+
+--Envenenaria tambem a pobre Helena de Noronha? Quem sabe?
+
+--Para isso, bastaria só que ella lhe fosse um leve estorvo na sua
+carreira de crimes...
+
+--Não terias meio de indagar se ella ainda vive?
+
+--Como? Se é hoje Provincial ou Assistente e usa de outro nome, como
+poderei descobrir-lhe o rasto? Mas nem isso agora nos serviria de nada.
+Paulo é para todos os effeitos nosso filho adoptivo. Desde qua tomamos
+sob a nossa protecção essa creança devemos proceder para com ella como
+se foramos seus unicos e verdadeiros paes... De que serviria sabermos
+que o padre Anselmo e a irmã Dorothea são ainda vivos? A mãe renegou-o
+ao nascer, e o pae nem talvez tivesse noticia do seu nascimento. Dizer
+ao filho o nome dos que lhe deram o sêr era ensinar a Paulo o nome dos
+que devia amaldiçoar... Não, minha amiga... Sejamos caridosos para com a
+pobre creança. Uma vez que não tem fundamento o nosso receio de que
+Beatriz seja irmã de Paulo, deixemol-os amarem-se e unirem-se
+livremente. Concorramos na medida das nossas forças para a sua união e
+que sejam felizes amando-se como nós nos temos amado sempre.
+
+O padre Filippe, sempre de uma galanteria correcta a despeito da idade,
+sellou estas ultimas palavras com um delicado beijo na face de madre
+Paula, que, a sorrir, o estreitou com frenesi ao seio palpitante de
+alegria.
+
+--Sempre o mesmo gentilissimo espirito! sempre o mesmo generoso e nobre
+coração!--disse ella commovida.
+
+--Esse Custodio de Jesus--continuou o padre Filippe retomando a sua
+attitude grave--é, ao que me consta, um sordido usurario que sonha um
+casamento rico para a filha... Ha de ser difficil demovel-o d'este
+proposito, que seria desculpavel se elle não tivesse a certesa de que
+vae assim sacrificar o coração de duas pobres creanças.
+
+--Talvez que tu, procurando-o, o pudesses convencer a dar o seu
+consentimento...
+
+--Já me lembrou isso. Mas se elle alguma vez veio a ter conhecimento dos
+amores da sua primeira mulher com o padre Anselmo, a presença de um
+homem de sotaina não deve ser-lhe muito sympathica... E talvez mesmo
+que, em vez de o demover a favor de Paulo, isso o irrite e de cada vez
+mais o mantenha no proposito de contrariar o casamento...
+
+Como respondendo a esta pergunta, ouviu-se fóra da porta da cella a voz
+de Paulo:
+
+--Dá licença, minha mãe?
+
+--Ah! és tu? Entra, entra, meu filho!--exclamou a abbadessa correndo ao
+seu encontro.
+
+O mancebo beijou-lhe a mão com respeito filial, e vendo o padre Filippe
+dirigiu-se a elle, de braços abertos, dizendo com sincera alegria:
+
+--Que felicidade! encontro-os a ambos reunidos quando tanto precisava de
+os consultar e pedir o seu conselho e o seu auxilio!
+
+--Tu dirás, meu amigo, o que desejas--disse, bondoso, o padre Filippe--e
+se fôr, como creio, coisa compativel com as nossas forças, pódes dispôr
+de nós...
+
+Paulo principiou dizendo:
+
+--O que venho pedir-lhes é realmente um sacrificio... Mas sacrificio de
+que está dependente a minha vida, mais que a minha vida, toda a minha
+felicidade futura, e porisso espero bem que o não recusarão ao seu
+filho, a este filho que não conheceu nunca outros paes nem tem no
+coração logar para outro affecto igual...
+
+--Falla, falla, meu Paulo!--animou com doçura a bondosa abbadessa.
+
+--O caso é este--continuou o mancebo--Beatriz, de quem lhes tenho
+fallado, está em risco de ser victima de uma monstruosa infamia com a
+cumplicidade de seu proprio pae!
+
+--O que! O que dizes tu, meu filho?--interrogou madre Paula.
+
+--A verdade, minha mãe!
+
+O padre Filippe silencioso, encarando fito o mancebo, parecia observal-o
+com attenção.
+
+--Repara, meu amigo, que essas palavras envolvem uma accusação terrivel
+para o pae da tua amada, o que é sempre uma coisa grave e digna da maior
+censura, quando se não tem a certeza do que se affirma...
+
+--Mas eu tenho a certeza!--protestou Paulo--E porque a tenho é que venho
+pedir-lhe o auxilio no sentido de obstar a que tal infamia se realise.
+
+--Falla!--disse o padre Filippe.
+
+O mancebo prosegniu:
+
+--Custodio de Jesus, o pae de Beatriz, depois de ter inutilmente
+envidado todos os esforços para coagir a filha a casar com um tal
+Eugenio de Mello, que se diz um rico proprietario do Alemtejo, resolveu,
+de combinação com o pretendente e com o procurador Belchior, que tem
+sido o agente d'esta ignobil negociata, proteger o rapto da propria
+filha, com o fim de, por este meio, a violentar a acceitar o noivo que
+se lhe impõe e que ficará sendo o unico que em taes condições não duvide
+recebel-a por esposa.
+
+--Isso é impossivel, Paulo!--bradou madre Paula, indignada--Não ha um
+pae que pense em realisar uma tal monstruosidade! Tu és por força
+victima de um engano, talvez de um cruel gracejo de alguem que deseja
+vêr até que ponto vae a tua cegueira por essa menina, que não te recusas
+a acceitar invenções de tal ordem!
+
+--Não, minha mãe!--volveu Paulo--O que lhe digo é absolutamente certo e
+vae realisar-se, se eu o não impedir como me cumpre. Um amigo intimo de
+Eugenio de Mello e que com este deve tomar parte na miseravel aventura
+foi quem o declarou diante de mim.
+
+--É o que eu digo! gracejo de rapazes.
+
+--Não é gracejo como suppõe, minha mãe. Quem isto revelou fel-o em taes
+circumstancias que não podia nem lhe era permittido gracejar. O rapto
+está combinado e deve effectuar-se amanhã, durante um passeio ao campo
+que as duas familias--a do Belchior e a de Beatriz--teem preparado.
+
+--E Beatriz sabe a infame cilada que lhe querem armar?
+
+--Beatriz nada sabe, nem eu tenciono prevenil-a.
+
+--O que tencionas então fazer?--perguntou o padre Filippe.
+
+--Castigar o miseravel pae que assim malbarata a honra da propria filha
+n'um trafico infame, aproveitando-me das circumstancias por elle
+preparadas, para lh'a raptar eu.
+
+--Tu?!
+
+--E porque não? Se ella me ama e eu a adoro e a quero para minha mulher,
+heide deixar que m'a roubem e levantem entre mim e ella uma barreira
+impossivel de transpor--a barreira da deshonra? Tenho tudo prevenido e
+tudo preparado para arredar sem escandalo, e até sem suspeita do que vae
+passar-se, os raptores de Beatriz, e tomar eu e um outro meu amigo o seu
+logar. Falta-me apenas uma coisa.
+
+--O que é?--interrogou madre Paula.
+
+--A salvaguarda de uma mulher honesta para garantir a reputação de
+Beatriz que eu não quero vêr maculada, com a sombra de uma suspeita,
+antes de a receber por esposa perante o altar do Deus Vivo.
+
+O padre Filippe e madre Paula trocaram um rapido olhar.
+
+Se o mancebo pudesse conhecer o segredo da sua origem e saber a quem
+devia a vida, teria traduzido n'esse olhar esta phrase que estava no
+pensamento dos dois:
+
+--«Não parece filho do padre Anselmo!»
+
+--Desejas então...?--interrogou madre Paula dirigindo-se ao mancebo.
+
+--Que minha bôa mãe, de cuja virtude ninguem ousará suspeitar, se digne
+receber a minha noiva em sua companhia durante todo o tempo que ella
+seja forçada a conservar-se occulta...
+
+--Queres trazel-a para aqui, Paulo? Isso, meu filho, é um passo muito
+grave, que póde pôr em risco a bôa ordem e segurança d'esta santa
+casa... Imagina que as auctoridades são obrigadas a intervir, e por
+qualquer circumstancia descobrem aqui essa menina, que, de mais a mais,
+não consultaste ainda sobre se consente em acolher-se á nossa protecção?
+
+--É tal a confiança que tenho no amôr de Beatriz, minha mãe, que não
+duvido asseverar que ella dará por bem feito tudo quanto eu haja
+deliberado, logo que conheça os motivos que me obrigaram a raptal-a...
+
+O padre Filippe, que durante esta conversação guardára absoluto
+silencio, resolveu-se afinal a intervir.
+
+--Parece-me que tudo se póde conciliar muito bem--disse elle. Paulo
+deseja salvaguardar a reputação da sua noiva, o que é de todo ponto
+justo e nobre. Para isso, pois, pede o concurso de sua mãe adoptiva,
+porque sob a égide da virtude da madre Paula, ninguem se atreverá a
+julgar menos licitos os intuitos d'este rapto. Portanto, madre Paula
+deve intervir com a sua presença, porque é um acto de verdadeira
+caridade evangelica o que se lhe pede. Mas surge uma difficuldade, que é
+o poder comprometter por esta fórma os interesses d'esta santa casa, se
+a trouxer para aqui...
+
+--É justamente esse o inconveniente que já apontei--interrompeu a
+abbadessa.
+
+O padre Filippe fez um gesto e proseguiu:
+
+--Ha, porem, um meio, que me parece rasoavel, de obviar a esse
+inconveniente...
+
+--Qual?
+
+--Paulo buscará uma casa profana para onde conduzirá a sua noiva; e ahi,
+madre Paula, vestindo trajos seculares, receberá a pobre menina e
+conserval-a-ha em sua companhia durante os primeiros dias. Se depois de
+Beatriz conhecer do que se trata, manifestar desejos de acompanhar madre
+Paula para esta santa casa, poderemos então, com as devidas cautelas e
+resguardos, internal-a aqui até que as circumstancias lhe permittam
+legalisar a sua união com Paulo. Não acha acceitavel este alvitre, minha
+amiga?--concluiu interrogando a abbadessa.
+
+--As opiniões do padre Filippe teem para mim o valor de leis
+indiscutiveis. Far-se-ha como diz, concordou madre Paula.
+
+Paulo abraçou n'uma expansão de reconhecimento o padre Filippe.
+
+--Sempre generoso e bom para mim! disse o mancebo com as lagrimas nos
+olhos.
+
+--Vamos, vamos!--replicou o padre Filippe commovido, procurando
+furtar-se ás demonstrações de reconhecimento do pobre rapaz--Trata de
+procurar uma casa em condições de abrigar por alguns dias tua mãe
+adoptiva e a tua noiva. Os meus recursos são minguados--concluiu--Sou um
+pobre sacerdote que fez eterno voto de pobreza... de pouco posso
+dispôr... Mas até onde as minhas magras economias o permittam, tudo está
+á tua disposição, porque tudo é teu, meu Paulo.
+
+--Oh, meu pae!
+
+--Essa menina deve ser tratada com a decencia e conforto a que
+certamente esta habituada...
+
+--Eu tenho amigos, meu pae!--affirmou Jorge.
+
+--Os teus primeiros amigos somo nós, eu e madre Paula. Não tens, pois, o
+direito de recorrer ao auxilio monetario dos segundos emquanto existirem
+os primeiros. A minha casa irás buscar todo o dinheiro de que careceres.
+Vê bem a casa que escolhes para receberes n'ella a tua familia.
+
+--Tenho um amigo, quasi um irmão, que não só me acompanha e auxilia na
+aventura do rapto, como põe á minha disposição a sua casa, onde não tem
+mais familia e onde nada falta.
+
+--Muito bem. Se entendes que ahi pódem acolher-se sem perigo, deves
+acceitar.
+
+--Já acceitei, meu pae!
+
+O leitor já conhece como o rapto se effectuou e como madre Paula recebeu
+com os extremos e carinhos de mãe a gentil Beatriz, salva das garras do
+aventureiro Eugenio de Mello e da sua alma negra, o procurador Belchior,
+por maneira tão original como inesperada.
+
+Agora, emquanto a pobre menina, livre de perigo, encontra na doce
+convivencia da abbadessa os affectos maternaes que a morte lhe roubára e
+os tres sujos heroes d'esta repellentissima, porém veridica, historia se
+empenham n'uma lucta de desconfianças e malquerenças, que são o seu
+verdadeiro castigo, voltemos a S. Martinho do Campo, onde novos e
+interessantes episodios se estão dando.
+
+
+
+
+XIX
+
+Um velho amigo
+
+
+Julio de Montarroyo, logo que o brazileiro lhe deu por desoccupada a
+casa que pertencera a Norberto de Noronha, tomou posse da sua nova
+propriedade e installou-se n'ella immediatamente, sem mesmo esperar que
+se fizessem os convenientes e indispensaveis reparos.
+
+Este acontecimento foi celebrado pelos convivas e amigos de Gustavo de
+Magalhães com um jantar lauto, em que houve discursos, brindes e
+poesias, como estava combinado muito tempo antes.
+
+O amigo de Gustavo, que tinha adquirido fóros de excentrico, supportou
+como pôde toda a ruidosa alegria d'aquelles amigos e passada a
+_glorificação_, como elles lhe chamavam, encerrou-se na sua habitual
+tristeza, sem comtudo se mostrar intratavel e esquivo a convivencias
+affectuosas.
+
+No emtanto, furtou-se obstinadamente a toda e qualquer recepção festiva
+em sua casa, dando como desculpa a falta de pessoal habilitado para bem
+servir n'um banquete de cerimonia.
+
+O caso, porém, não era esse.
+
+Julio de Montarroyo considerava um sacrilegio infame fazer resoar os
+risos da alegria n'aquellas salas onde morreram abafados os gemidos de
+tamanha desgraça, de tão profunda e inconfortavel dôr.
+
+Elle adquirira aquella casa para recolher n'ella a sua grande tristeza,
+o lucto eterno do seu coração.
+
+Não podia por isso, ainda que o desejasse, converter aquelle tumulo, em
+que queria encerrar-se vivo com as suas recordações e os seus
+desalentos, n'um logar de festivas alegrias, de expansivos affectos.
+
+Os amigos de Gustavo, que o eram tambem seus, comprehenderam-n'o e não
+se offenderam.
+
+--É um excentrico--dizia o juiz--Não ha que vêr, é um excentrico...
+
+--É um paranoico com a tendencia romantica!--affirmava o
+medico.--Aquillo desanda n'um volume de lyricas mais hoje, mais amanhã.
+E talvez esteja ahi a sua salvação.
+
+--Não é nada d'isso, meus amigos--contrariava Gustavo--Este homem é um
+de tantos incomprehendidos que teem atravessado a vida como o viageiro
+atravéssa os areaes do deserto, sem jámais encontrar o appetecido oasis.
+O maior beneficio que lhe podemos fazer é deixal-o entregue á sua grande
+tristeza, á sua enorme e insanavel dôr.
+
+Julio de Montarroyo começou, pois, a ser uma figura estranha ás alegrias
+ruidosas d'aquella vida campesina, passada em convivencia intima de
+amigos.
+
+Os dias do melancholico amante de Helena de Noronha decorriam-lhe n'uma
+taciturnidade de espirito aterradora.
+
+Encerrava-se horas e horas na sala onde pela primeira e ultima vez
+fallára a Norberto de Noronha e parecia experimentar um cruel prazer em
+recordar, em todas as suas tristes minudencias, essa estranha e dolorosa
+entrevista.
+
+Mandára collocar todos os moveis que serviram a Norberto na sua
+disposição primitiva. Lá estava a cadeira de rodas, onde o desgraçado
+agonisou por tanto tempo. E em frente d'ella, passava horas esquecidas a
+monologar as suas recordações e os seus desgostos.
+
+Um dia, viera ao jardim e sentára-se no caramanchão que olhava sobre a
+estrada.
+
+Devia ser alli, suppozera elle e confirmara-lh'o depois a irmã de
+Gustavo, que Helena de Noronha vinha sentar-se muitas vezes, nos tempos
+felizes da sua infancia, e era por isso mesmo o logar por elle preferido
+para as suas meditações ao ar livre.
+
+De repente ao portão chegou alguem que fez vibrar a sineta. Julio de
+Montarroyo debruçou-se na grade do caramanchão e olhou.
+
+Viu um pobre mendigo, um _ermitão_, de longas barbas brancas, vestindo
+um garnacho remendado e encostando-se a um bordão. Trazia ao peito,
+pendente de uma correia, um nicho de folha de Flandres, em que se via a
+imagem de um Santo Antonio, cercada de flôres artificiaes.
+
+--O que deseja?--interrogou Julio.
+
+--Esmola para Santo Antonio, meu rico senhor!--supplicou de baixo o
+pobre, tirando o chapéo e indicando o santo.
+
+Julio de Montarroyo não reconheceu aquella figura, mas ficou
+estranhamente impressionado com o metal de voz do pedinte.
+
+Parecia-lhe que já a tinha ouvido em qualquer parte, e como toda a sua
+vida, n'aquelle ermo, se compunha de recordações, aventurou uma
+pergunta.
+
+--Você é d'estes sitios?
+
+--Não, meu senhor... Eu sou de Braga.
+
+--De Braga?!
+
+--Sim, meu senhor, mas já lá não vou ha muitos annos...
+
+--Vem então de muito longe?
+
+--Venho, meu senhor!
+
+--Espere ahi.
+
+Julio desceu ao portão e franqueou a entrada ao pedinte.
+
+--Entre!--disse elle.
+
+O pobre entrou.
+
+--Você é de Braga?--tornou a perguntar Julio.
+
+--Nascido e baptisado, meu senhor!--confirmou o pobre.
+
+--Ha que tempo sahiu da sua terra?
+
+--Ha muitos annos, meu senhor...
+
+--Olhe lá; você conheceu lá um sapateiro chamado _Tomba_?
+
+--Conheci, meu senhor, conheci! Era um bom _home_, amigo do seu amigo...
+E eu _támem_ era muito amigo d'elle!
+
+--Ah! você então era amigo do _Tomba_?
+
+--Oh, senhor! pois se nós eramos da mesma creação... Eu e mais elle
+eramos como a unha e a carne...
+
+--E o que foi feito d'elle? Não sabe?
+
+--Se não morreu... ha-de estar vivo por força, meu senhor...
+
+Julio reconheceu n'esta resposta o espirito velhaco do antigo sapateiro.
+
+--Diga-me: o que é feito de D. Carlota e do padre Anselmo?--interrogou
+Julio a meia voz.
+
+O pedinte, surprehendido, encarou o seu interlocutor e de repente, como
+se a memoria se lhe tivesse avivado, exclamou:
+
+--Ora espera! Vossa _incellencia_ é o sr. Julinho de Montarroyo, pois
+não é?
+
+--Sou.
+
+--Cá me queria a mim parecer!
+
+E batendo na testa desesperado:
+
+--Ah! grande cabeça de burro, que nem já conheces quem te deu tanto pão
+a comer!... Ah, sr. Julinho, vossa _incellencia_ perdoará, mas eu estava
+agora bem longe de o _topar_ aqui! Antão _cumpassou_?--perguntou o
+_Tomba_, lisonjeiro e carinhoso.--Vossa _incellencia_ está féro! Está
+que é uma bisarria!
+
+--Estou velho, amigo _Tomba_, estou velho!
+
+--Qual velho! Velhos são os farrapos! Mais velho estou eu e olhe que,
+graças a Deus e a Santo Antonio, que está aqui e que bem me ouve, ainda
+as pernas me levam p'r'a onde eu quero.
+
+Julio de Montarroyo, alegre por ter encontrado este homem, que podia
+talvez elucidal-o ácerca de factos que elle tinha interesse em conhecer
+minuciosamente, conduziu o _Tomba_ através do jardim, até ao interior da
+habitação.
+
+--Venha cá, _Tomba_, venha cá, homem, que temos que fallar...
+
+--Ora o sr. Julinho! Como eu havia de vir aqui topal-o! Isto foi milagre
+de Santo Antonio, que eu trago aqui comigo... Foi elle que me _trouve
+inté_ aqui, por sua infinita _mesericordia_!
+
+Chegados ao gabinete de Julio, este voltou-se para o sapateiro e
+disse-lhe:
+
+--Arrume o santo, mestre _Tomba_, e diga-me se tem vontade de comer...
+
+--Oh, meu senhor! Vontadinha, graças a Deus, ha sempre...
+
+--Bom! Vou mandar que lhe dêem alguma coisa.
+
+Julio ordenou que dessem de almoçar ao _Tomba_ que, fiel ao seu costume,
+honrou a cosinha do seu generoso amphytrião.
+
+Depois, mais animado, e dando parabens á sua fortuna por ter encontrado
+aquelle grande e rico amigo, passou á sala onde o aguardava o dono da
+casa.
+
+--Já matei quem me matava!--disse elle satisfeito.--Ora agora aqui tem
+vossa _incellencia_ um _home_ p'ra tudo que fôr preciso!
+
+--Conte-me cá, mestre _Tomba_, o que é feito de você? O que foi feito de
+D. Carlota, do padre Anselmo e d'aquelle doidivanas do Alvaro de
+Noronha?
+
+--Pois vossa _incellencia_ não sabe?--disse o sapateiro admirado.
+
+--Nada! Não sei nada.
+
+--Pois já tudo isso lá vae!
+
+--Tudo?
+
+--Tudo ou _acaijo_ tudo... _Inté_ é de _inorar_ o sr. Julinho não saber
+as _desgracias_ todas que se déram logo assim que o sr. Julinho
+_arretirou_ p'ra Braga.
+
+--Não! Eu fui obrigado a partir para Paris pouco depois de sahir do
+Porto e por lá andei muitos annos sem ter mais noticias de Portugal.
+
+--Pois é! O sr. Julinho é que fez bem... Foi-se inté Paris de França e
+não deu mais cavaco ás tropas... Pois a sr.^a D. Carlota, coitada! lá
+deu ao penagal em Lisboa... O padre _Inxelmo_--_rais_ o parta!--lá teceu
+taes indrominas com o _Custoido_ a dezer-lhe que ella que lhe tinha sido
+falsa com o sr. Julinho...
+
+--Comigo!--exclamou Julio admirado.
+
+--Pois _antão_ não sabia?
+
+--Eu não sabia de nada...
+
+--Bem digo eu! _Antão_ já vejo que não sabe nem da missa a metade!...
+Pois o maroto do padre _Inxelmo_, emquanto nós estavamos no Porto a ver
+se lhe deitavamos a luva, _vêo_ a Braga dizer ó _Custoido_ que a sr.^a
+D. Carlota andava lá pelo Porto mettida c'o sr. Julinho de Montarroyo...
+E vai elle, o malandro, que nunca se importou emquanto ella lhe
+desfeiteou as barbas c'o padre, começou a dar por paus e por pedras,
+_assubiu-lhe_ a honra á cabeça, e quando ella vinha p'ra tornar p'ra
+casa, pôl-a fóra e pouco faltou p'ra lhe bater...
+
+--Isso é extraordinario!--disse Julio.
+
+--E lá em Braga toda a gente se _acuarditou_, porque demais a mais, como
+o sr. Julinho se prantou na _planta-giria_, todos _dixeram_ que foi
+verdade, porque quem se _cia alhos come_...
+
+--Mestre _Tomba_, é impossivel que você não esteja doido! Isso que você
+está a dizer é tudo quanto ha de mais absurdo!
+
+--Valha-me Deus, sr. Julinho! Eu o que digo é o que por lá se constou
+n'aquelle tempo...
+
+--E você não podia desmentir esses boatos, não podia desmascarar os
+calumniadores?
+
+--Eu a esse tempo, estava, mas era engaiolado no Sardão, mais morto que
+vivo, _estrelicadinho_ com fome, porque aquellas carochas de seiscentos
+diabos tinham-me a jejum de pão e _auga_, que eu cuidei que não tornava
+mais a ver sol nem lua, e que, a respeito de petiscos, não se fariam
+mais para os queixos do _Tomba_!
+
+E contou a maneira ardilosa como o padre Anselmo o encerrara no convento
+do Sardão e aquella outra mais ardilosa ainda como elle conseguira
+escapar-se da prisão, depois de ter pregado uma sova mestra na freira
+que o guardava quasi á vista.
+
+--Eu só queria que vossa _incellencia_ visse, sr. Julinho... Aquillo foi
+uma trépa co'as correias, que _inté_ o _sengue_ lhe esguichou pelo sitio
+da tripeça, salvo seja! Depois puz-me a andar e marchei p'ra Braga a
+saber novidades... A sr.^a D. Carlota tinha morrido em Lisboa, o sr.
+Alvarinho--Deus lhe perdôe!--lá tinha o _Perneta_ dado cabo d'elle...
+Raios o parta! Se quer ó menos, inda fui testemunha escontra elle, que o
+enterrei!
+
+--Ah! você foi testemunha no processo contra o _Perneta_, mestre?
+
+--Pois atão não havia de ser? Eu tinha a veridica certeza de que o sr.
+Alvaro tinha ido p'ra casa do _Perneta_, porque arrecebeu uma carta da
+sr.^a D. Carlota--Deus a chame lá p'ra bem, que eu não a chamo cá p'ra
+nada!--a dezer-lhe que a prima d'elle, a sr.^a D. Helena de _Laronha_
+estava lá mettida com vossa _incellencia_...
+
+--Comigo?!--tornou a exclamar Julio de Montarroyo, de cada vez mais
+espantado.
+
+--Tal e qual como eu lhe estou a _dezer_, sr. Julinho! Pode-se
+_acuarditar_ em mim, porque eu ouvi lêr a carta e _escorda-me_ como se
+fosse hoje tudo quanto ella dezia...
+
+--E elle acreditou! Pois Alvaro de Noronha, conhecendo-me e tendo
+convivido comigo por algum tempo, pôde acreditar em semelhante carta,
+pôde julgar-me capaz de uma semelhante infamia?!
+
+--Eu bem lhe dizia que não se fiasse, que aquillo era tramoia que lhe
+queriam armar... Mas elle, que tinha aquelle genio de espirra-canivetes,
+começou logo a atirar co'aparelho ao ar, a dezer que ia matar sete e
+esfolar quatorze e nem á mão direita de Deus Padre fui capaz de ter mão
+n'elle! Lá foi e se eu bem lh'o disse, melhor lhe aconteceu... Chegou lá
+e aquelle ladrão do _Perneta_ e mais dois que elle lá arranjou deram-lhe
+tamanha carga de paulada que o deixaram _cadable_ no meio da estrada!
+Eu, já se sabe, n'essa maré estava preso no Sardão e nem tal coisa me
+passava pelo sentido... Mas quando sahi e cheguei a Braga, _atão_ é que
+eu soube tudo... E disse comigo: «Ai o alma do diabo do _Perneta_ que
+deu cabo do _probe_ rapaz! Pois deixa que eu te vou fazer a cama!...»
+Fui-me á Povoa, fallei com o sr. _amenistrador_, contei-lhe as coisas
+como foram e como não foram, e o _Perneta_, que inda estava preso, mas
+não confessava nada, assim que o _acarinharam_ comigo, não teve mão em
+si, começou a _entoar_ e _dixe_ tudo! Lá foi por uma barra fóra, que o
+levou seicentos diabos!
+
+Julio ouvia espantado estas revelações do _Tomba_.
+
+--Mas como é--disse elle--que D. Carlota pôde escrever uma carta d'essas
+a Alvaro de Noronha na mesma occasião em que eu recebia uma carta de
+Helena, dizendo-me que partia para França? Se D. Carlota vivia com o
+padre Anselmo, como podia ella ignorar que Helena seguia para Paris?
+
+--Vossa _incellencia_ quer que eu lhe diga uma coisa, sr. Julinho?
+
+--Diga lá, mestre.
+
+--A mim ninguem me tira da _pinha_ que a sr.^a D. Carlota não escreveu
+carta nenhuma... Aquillo foi o maroto do padre _Inxelmo_ que mandou
+escrever a carta em nome d'ella para arranjar a trempe ó probe rapaz!
+Vossa _incellencia_ não se _escorda_ do sr. Alvaro dizer muitas vezes
+que o patife do padre _Inxelmo inté_ uma vez escreveu uma carta muito
+bem _escrevida_, co'a letra da sr.^a D. Helena, a dizer ó pae d'ella que
+estava em Coimbra com um sujeito com quem se queria casar, e no fim de
+contas vae-se a vêr e estava mas era _agachada_ em casa do _Perneta_!
+
+Julio de Montarroyo deu um salto na cadeira. Só ao ouvir estas palavras
+do _Tomba_ é que pensou na possibilidade de ter sido victima de uma
+infame mystificação.
+
+--Eu tambem recebi uma carta de Helena convidando-me a seguil-a, pois
+que ia partir para uma casa religiosa de Paris. Seria essa carta
+escripta por Helena, ou seria ainda uma tôrpe cilada do padre Anselmo?
+
+--Olhe, sr. Julinho; o cesteiro que faz um cesto faz um cento, se tiver
+verga e tempo... O padre já tinha feito uma e porisso _támem_ era capaz
+de fazer a outra...
+
+Julio de Montarroyo ficou por algum tempo silencioso e pensativo. Estava
+recordando o singular e extraordinario mutismo de Helena, a qual tendo-o
+solicitado a esperar noticias suas em Paris, nunca mais lhe mandára
+aviso nem recado. Porque não teria D. Carlota revelado ao padre Anselmo
+o interesse que elle tomava pela libertação da filha de Norberto e
+suggerido por esta forma ao jesuita a ideia de se livrar dos dois ao
+mesmo tempo, matando um e expatriando o outro?
+
+Mas, n'esse caso, Helena não teria sahido do paiz, e ao passo que elle a
+procurava pelo mundo, morria ella ignorada no mesmo convento onde a
+deixara.
+
+--Mestre _Tomba_--disse elle--sabe o que foi feito do padre Anselmo?
+Tornou a ter noticias d'elle?
+
+--O padre _Inxelmo_, depois que roubou o _Custoido_ nunca mais tornou a
+pôr os pés em Braga, ó menos que eu o enxergasse... Aquillo sumiu-se
+como o fumo, que nunca mais vi raça d'elle!
+
+--Diz você que o padre Anselmo roubou o Custodio?
+
+--Pois roubou! O _Custoido_, p'ra não dar nada á mulher, assignou letras
+a fingir ao João Ignacio, que era p'ra ella lhe não poder pegar em
+nada... E quem metteu o probe do _home_, coitado! n'essas fofas foi o
+patife do padre... Vae _óspois_ a D. Carlota _esticou_ o _pernil_ em
+Lisboa... diz que se matou... Tanto sei eu se ella se matou como se foi
+o padre que lhe deu cabo da casta... E vae n'isto, assim que se constou
+a morte d'ella, o João Ignacio salta em riba do _Custoido_ co'as letras
+e leva-lhe tudo, que o deixou sem um fio! O _Custoido_ barregava
+_escontra_ o padre a _dezer_ que foi elle que o metteu co'aquelle
+ladrão, que era uma coisa por demais! Mas o padre _esguipou-se_ que
+ninguem soube mais d'elle!
+
+Julio de Montarroyo relacionava mentalmente todos estes factos e
+procurava o fio mysterioso que devia explical-os.
+
+--É singular!--disse elle--E o Custodio? Morreu?
+
+--Qual morreu! Casou-se oitra vez e fez um _bô casorio_... Foi co'uma
+brazileira... co'a Anninhas das Travessas, que tinha ido p'ró Brazil ha
+um _rôr_ de annos e que _vêo_ de lá rica que não sabia o que tinha de
+seu... O _home_, como em Braga todos o conheciam, pegou e foi co'ella
+p'ró Porto, e acho que lá estão na santa paz de Deus... _Porfilhou-lhe_
+a filha que ella _trouve_ e inda apanhou uma riquesinha bem bôa!
+
+--De modo que--tornou Julio--você, mestre, não voltou mais a saber de
+Helena de Noronha?
+
+--Eu, como a sr.^a D. Carlota e o sr. Alvaro tinham morrido... e o sr.
+Julinho _támem_ não dava rumor de si... tratei mas foi de governar a
+minha vida... Os freguezes, como eu andei por lá todo aquelle tempo, sem
+dar nova nem recado, foram ó aprendiz buscar os sapatos e levaram-n'os a
+oitro... O senhorio, como eu não paguei o aluguer, tomou-me conta da
+_farramenta_ do officio e poz-me o rapaz na rua! Veja lá o alma do
+diabo, que _inté_ co'a tripeça me ficou! Vi-me _desauriado_! P'ra me
+tornar a estabelecer, eu já não tinha _farramenta_ nem freguezia...
+estava _desacuarditado_! Peguei e fui-me _inté_ Villaverde, á tia do sr.
+Julinho, contei-lhe a minha _desgracia_ e ella teve dôr de mim e deu-me
+uma libra d'esmola!
+
+--E você contou a minha tia tudo o que se tinha passado com respeito a
+Helena de Noronha?
+
+--Eu não disse nada! N'estas coisas, antes carta de menos do que carta
+de mais... Peguei na libra que ella me deu, mandei arranjar este Santo
+Antonio e botei-me a pedir por essas terras de Christo fóra, tal e qual
+como o meu compadre _Longuinhos_ que _támem_ se arranjou muito bem
+co'este modo de vida... Tenho corrido todas essas _Europias_ de
+Portugal, e louvado seja o meu rico padre Santo Antonio, sempre tenho
+tirado mais do que quando trabalhava pelo officio!...
+
+--Diga-me uma coisa, mestre: você seria capaz de dar conta de uma
+incumbencia que eu desejo fazer-lhe?
+
+--Ó sr. Julinho! que me pedirá vossa _incellencia_ que lhe eu não faça?!
+
+--Bem! Desejava eu que você fosse ao Porto e indagasse nas _Sereias_ ou
+no _Sardão_, se ainda lá está como abbadessa uma senhora chamada madre
+Paula...
+
+--Madre Paula... disse o sapateiro procurando reter na memoria este
+nome.--Eu vou lá e trago-lhe isso sabido, que é um regalo... O diabo é o
+_Sardão_ que se lá me conhecem fazem-me pagar os açoites que preguei na
+freira velha... Mas da raça do diabo será ella se não estiver já a fazer
+tijolo!
+
+--Não tenha receio, que lá ninguem o conhece... Eu mesmo, que tão de
+perto lidei comsigo, já quasi o não reconhecia, como hão-de conhecel-o
+pessoas que nunca lhe fallaram?...
+
+--Bem! eu vou--decidiu o sapateiro--mas não levo o santo, porque se a
+policia do Porto me apanha lá com elle, é capaz de ferrar comigo no
+_Asylio da Mendecidade_, que, aquillo, pelo que me tem zoado cá pelos
+ouvidos, é peor do que estar nas profundas do inferno a arder!...
+
+--Pois não leve o santo...
+
+--Eu deixo-o cá ao sr. Julinho, mas faça favor de ter cautela, que m'o
+não estraguem, que é o meu ganha-pão...
+
+--Vá descançado, mestre _Tomba_. O santo fica a meu cuidado... Ninguem
+cá lhe bulirá n'elle...
+
+--_Atão_ quando quer o sr. Julinho que eu vá?
+
+--O mais depressa que possa...
+
+--Eu vou já hoje, se fôr preciso... É verdade: e se ella lá estiver, o
+que quer que lhe diga?
+
+--Nada. Saiba só se ella está em qualquer d'essas duas casas.
+
+--E se lá não estiver?
+
+--Saiba se é viva e em que casa religiosa da provincia se encontra.
+
+--Está bem! Vamos a vêr se ainda tenho geito para estas coisas--disse o
+_Tomba_ radiante.
+
+E n'esse mesmo dia partiu para o Porto.
+
+
+
+
+XX
+
+Alma negra
+
+
+Voltemos a casa da loura Leonor, da doida amante do commendador Garcia,
+apaixonada por Eugenio de Mello e instrumento de torpes vinganças nas
+mãos de João Lazaro.
+
+O commendador Garcia retirára á hora habitual, dez da noite, muito
+desconsolado, porque o _seu peccado_--que era assim que elle chamava á
+endiabrada creatura que o tinha preso nos laços de uma affeição
+insensata--havia tempos que o recebia desabridamente, com repellões de
+histerica, irritando-se sem motivo, chorando sem saber porquê, n'uns
+accessos de nevrosismo que faziam a sua tortura e a tortura do
+encarquilhado protector.
+
+Solicito e amoroso, o bom do homem fallou em chamar o medico,
+consultal-o, podia ser que aquillo ás vezes fosse _sangue alvoroçado_,
+que podia subir-lhe á cabeça, e então o melhor era tratar-se com tempo,
+porque todas as molestias em principio teem cura e depois de tomarem
+posse do corpo é que custam mais a debellar.
+
+Mas a loura indignou-se, teve um ataque de furia e quasi lhe bateu. Ella
+não tinha sangue na cabeça; o que lá tinha era a ideia de se vêr só por
+algum tempo, sem aquelle _caustico_ do commendador a importunal-a, a
+fazer-lhe arrelia com as suas mimalhices de velho babão. E dizia-lh'o
+com crueza, n'uns arremessos de doida. Fallava em se matar, em acabar
+com aquella vida que não podia continuar assim.
+
+--Mas o que queres tu?--perguntava-lhe lacrimoso o commendador--Falta-te
+alguma coisa? Queres vestidos, joias, dinheiro? Anda, falla, minha
+filha! Eu estou prompto a satisfazer todos os teus desejos, todos os
+teus caprichos, comtanto que não falles em me deixar! Bem sabes que eu
+sem ti não podia viver...
+
+E era sincero o pobre homem quando assim se expressava. Effectivamente,
+a loura era a sua incuravel mania. Tambem, não tivera outra em toda a
+sua vida, senão a de ser commendador.
+
+A principio alugára os affectos da loura como quem adquire um animal de
+luxo, um cavallo de preço. Tinha vaidade em que se dissesse que elle era
+o possuidor d'aquella bella mulher, que fazia a cubiça de todos e a
+inveja de muitos. O seu amor proprio sentia-se singularmente lisonjeado
+quando os intimos, nas assembleias dos bancos de que era accionista, lhe
+batiam amigavelmente no hombro e lhe diziam n'um sorriso discreto:
+
+--Ah! maganão, você é que a sabe toda!... _Aquella pessoa_ está de cada
+vez mais bonita... Sim, senhor! mulher de gosto! Se algum dia se quizer
+desfazer, endosse-me a letra...
+
+Depois, o commendador, á força de habito, foi affeiçoando-se. Em cada
+dia descobria novos attractivos n'aquella creatura singular que sabia
+prendel-o com os encantos de uma linguagem por vezes apaixonada e que
+mais refinava em caricias quanto mais commodamente o atraiçoava com
+outro.
+
+Julgando-se sinceramente amado e não ignorando que o coração d'aquella
+mulher lhe era disputado por outros que offereciam inutilmente mais
+dinheiro, o commendador passou insensivelmente da simples affeição ao
+amor profundo e d'este á paixão louca. A loura era o seu idolo. Mais
+depressa renunciaria á commenda do que á posse d'aquella bella e
+extraordinaria mulher.
+
+E era feliz, depositando uma confiança illimitada na fidelidade e
+constancia de Leonor--que para elle tinha sempre carinhos e meiguices
+que nenhuma outra saberia fazer-lhe.
+
+Desde, porém, que João Lazaro lhe apparecera pondo-lhe em evidencia a
+negra traição de Eugenio, a loura, obrigada a dissimular com o perfido
+amante, descarregava agora todas as suas iras sobre a cabeça innocente
+do infeliz commendador.
+
+E isto trazia-o afflicto, apprehensivo ácerca da saude do _seu peccado_!
+
+Temia desgotal-a ou exacerbar-lhe mais o padecimento, contrariando-a.
+Por isso pensava na melhor maneira de a submetter ao tratamento do
+medico que, no seu entender, devia pôl-a boa.
+
+N'essa noite apresentara-se com bons modos, procurando convencel-a
+suavemente a que se deixasse observar por quem sabia, porque ella estava
+doente, e ás vezes as doenças vão com qualquer coisa.
+
+A loura explodiu n'uma descompostura tremenda e ameaçou de lhe fugir,
+deixando-lhe o _ninho_, se elle tornasse a ter o atrevimento de lhe
+fallar em medicos.
+
+Teve o pobre homem um trabalhão para a serenar, e retirou depois de lhe
+prometter que não mais se pensaria em remedios de botica.
+
+Ausente o commendador, a loura passeou febrilmente pela sala, abriu com
+impeto a janella e perscrutou com ancia o prolongamento da rua deserta.
+
+Depois sentou-se n'uma ottomana e batendo impaciente o pésinho breve no
+tapete, pôz se a mordiscar as unhas.
+
+--O João Lazaro--murmurava ella--prometteu de vir hoje fazer-me
+revelações importantes, e ainda não veio... O que terá elle que me
+dizer?
+
+Que provas terá elle para apresentar-me da falsidade e perfidia de
+Eugenio?
+
+N'isto, ouviram-se passos no corredor, o reposteiro da sala abriu-se e
+appareceu a figura de João Lazaro.
+
+Tirou logo o chapéo e lançou sobre uma cadeira o capote á hespanhola em
+que vinha embuçado.
+
+--Tardei, não é verdade?--disse elle.
+
+--Esperava-o com anciedade--respondeu a loura febrilmente, levantando-se
+para o receber--Diga-me: que noticias traz de Eugenio?
+
+--Eugenio, como sabe, desappareceu ha dias, accusado de ser elle o
+auctor do rapto da filha do Custodio de Jesus...
+
+--Pois sim, bem sei--disse a loura impaciente--Mas Eugenio jurou-me que
+era victima de uma odiosa calumnia dos seus inimigos, que elle não
+tivera a menor cumplicidade n'esse rapto.
+
+João Lazaro sorriu.
+
+--No emtanto--disse elle--a policia procura-o, porque sobre elle recahem
+todas as provas, as mais completas. O procurador Belchior, a mulher e a
+cunhada são unanimes em declarar que o reconheceram na occasião em que
+arrebatava Beatriz para dentro do carro. O proprio pae da victima é
+concorde com estas declarações, affirmando que tambem o reconheceu.
+N'estas circumstancias, creio bem que Eugenio de Mello viu que não
+poderia defender-se de tão grave accusação e tomou o expediente de se
+homisiar...
+
+--Até que a luz se faça e os factos provem a sua innocencia. Foi isso o
+que elle me disse no bilhete que me escreveu no proprio dia em que
+partiu...
+
+--Sem lhe dizer para onde...--tornou o Lazaro com um sorriso de mófa.
+
+--Não m'o podia dizer porque elle mesmo não sabia ainda para onde ia...
+
+--E se o sabia, não lhe convinha dizer-lh'o...
+
+--O senhor é terrivel! faz gosto em me torturar!--exclamou a loura
+irritada.
+
+--Não, minha querida, faço apenas diligencia para que veja as coisas
+como ellas são. Eugenio de Mello disse-lhe que estava innocente no crime
+de rapto de que o accusam e a senhora acreditou-o, não obstante saber
+que elle diligenciava casar-se com Beatriz...
+
+--A propria accusação destroe a suspeita de uma tal intenção por parte
+de Eugenio...
+
+--Porque?
+
+--Porque se Eugenio quizesse realmente casar com Beatriz, e a esse
+enlace não se oppunha senão a noiva, é claro que o rapto só seria um
+pretexto para a forçar a acceitar o noivo; e então não teria Eugenio a
+necessidade de negar e de fugir, nem o pae da rapariga andaria tão
+açodado em perseguição do raptor da filha.
+
+João Lazaro tornou a sorrir com um ar de cruel zombaria.
+
+--É bem deduzido--disse elle--Ahi ha logica. É pena que o raciocinio
+esteja muito longe da verdade...
+
+--Pois bem; se o senhor sabe a verdade, diga-a!--exclamou Leonor com
+impeto--tire-me d'este supplicio em que me debato ha dias sem saber o
+que hei-de pensar!
+
+--Prometti trazer-lhe revelações importantes, e é isso justamente o que
+venho fazer.
+
+Avançou alguns passos na sala com ar sombrio, deixou-se cahir com
+abandono em um sofá, indicou uma cadeira a Leonor como se fôra elle o
+dono da casa, puxou de um charuto, que mordeu distrahido, e, emquanto o
+accendia, disse para Leonor, agora anciosa e humilde com os olhos fitos
+n'elle:
+
+--Sente-se e escute-me. Eu disse-lhe que Eugenio de Mello tinha o
+casamento projectado com a filha do capitalista Custodio de Jesus; e
+isto era verdade. A senhora mesmo, pelas indagações a que procedeu, veio
+a conhecer que eu a informára da verdade.
+
+--Mas soube tambem que Beatriz repudiara esse casamento--objectou
+Leonor.
+
+--Devagar! Peço-lhe que não me interrompa para me recordar minucias,
+porque eu ainda não me esqueci...
+
+E atirando uma baforada do charuto, proseguiu:
+
+--Beatriz recusava-se a acceitar a união com Eugenio de Mello porque
+tinha o coração preso a um outro amor. Custodio de Jesus, porém,
+influenciado pelo procurador Belchior, seu intimo e collaborador de
+agiotagens sordidas, empregava todos os esforços para convencer a filha
+a realisar o enlace que se lhe propunha... É isto ou não o que lhe
+disseram as suas informações?
+
+--É.
+
+--Muito bem! prosigamos agora analysando os factos: Como Beatriz se
+recusasse a annuir aos desejos do pae, concertaram os tres entre si
+jogar um lance decisivo que entregaria a pobre pequena sem resistencia
+nos braços do apaixonado noivo, obrigando-a por fim a acceitar o
+recusado enlace como a unica solução redemptora da sua honra. Esse lance
+era o rapto por Eugenio de Mello, n'um passeio combinado ao campo, rapto
+que se effectuou como se havia projectado...
+
+--Por Eugenio?
+
+--Pois por quem? Por mim é que não foi nem podia ser, pois que nada se
+combinou comigo.
+
+--Mas é isso o que Eugenio nega...
+
+--Deixe-o negar. A verdade é só uma e isso está averiguado de modo que
+não admitte duvidas.
+
+--Mas então, se é assim, que interesse tem Eugenio em negar, quando o
+que mais lhe convinha era apresentar-se como culpado, porque mais
+depressa realisaria o casamento?
+
+--É esse o ponto escuro da questão, que eu já consegui esclarecer... A
+rapariga tem apenas um dote de vinte contos. Custodio de Jesus possue
+mais de noventa. O dote da noiva, portanto, mal chegaria para solver as
+dividas de Eugenio, a quem o procurador Belchior tem já adiantado sommas
+enormes á conta d'este casamento...
+
+--Mas como póde ser isso, se eu mesma tenho dado muito dinheiro a
+Eugenio?...
+
+--Vejo que não conhece o seu amante, minha querida. Eugenio tem habitos
+de dissipação e de luxo. Passa ahi no Porto por ser um rico proprietario
+do Alemtejo, quando elle não possue em parte alguma do paiz um palmo de
+terra a que possa chamar seu. Todo o dinheiro que a senhora tem
+dispendido com elle não lhe chegaria sequer para o café e para os
+charutos...
+
+--Que exaggero!--disse Leonor com desgosto.
+
+--Minha querida amiga--tornou João Lazaro com modo affavel--não é isto
+desmerecer a importancia das sommas que o seu louco capricho por Eugenio
+lhe tem custado: é que esse rapaz tem gasto em jogo, em ceias, em mil
+desperdicios de vaidosa ostentação, mais talvez de dez contos de reis
+nos ultimos quatro mezes. A senhora certamente não lhe tem abonado todo
+esse dinheiro...
+
+--Tanto, não...
+
+--Pois ahi tem! Raptada a rapariga, Eugenio, por sua parte, entendeu que
+devia fazer outro jogo... Em vez de a conduzir para a casa que se havia
+combinado entre os tres, levou-a para outra parte até agora desconhecida
+e negou aos proprios cumplices que tivesse sido elle o auctor do
+rapto...
+
+--Mas para quê! meu Deus! para quê?--exclamou a loura de cada vez mais
+aturdida.
+
+--Para quê! Pois ainda não comprehendeu? Para forçar o pae de Beatriz a
+augmentar o dote da filha...
+
+--Mas isso é uma infamia!
+
+--Infamia é tudo o que Eugenio de Mello tem praticado, mesmo com a
+senhora. O certo é que o mariola evadiu-se e lá está com a sua gentil
+raptada, sabe Deus onde, até que o Custodio se resolva a accrescentar o
+dote da pequena. O casamento, no emtanto, far-se-ha. É questão de mais
+mez, menos mez, até o Custodio chegar ao preço...
+
+--Mas o senhor tem bem a certeza de que isso é assim?--interrogou Leonor
+com os olhos chammejantes de colera.
+
+--Se tenho a certesa! Tudo isto que lhe estou contando foi-me revelado
+em confidencia pelo proprio Belchior.
+
+--Mas o Belchior é então complice de Eugenio n'essa projectada extorsão
+ao velho! Se elle conhece o que Eugenio premedita, não deve ignorar onde
+elle se encontra...
+
+--Não! O Belchior não sabe nada do paradeiro de Eugenio e de Beatriz, e
+está por isso furioso. O que elle imagina é que Eugenio pretende
+ludibrial-o a elle e conjunctamente ao velho, para se furtar ao
+pagamento do dinheiro que lhe pediu emprestado com promessa de o
+reembolsar logo depois do casamento.
+
+--Que sucia de miseraveis!--bradou a loura enojada.
+
+--Verdade, verdade--observou João Lazaro, rindo--a partida foi bem
+pregada. Vê-se que Eugenio conta com os recursos da sua seductora figura
+e com os artificios da sua linguagem para apaixonar a ingenua raptada,
+emquanto esta questão se não dirime em casa do tabellião e vae ter o seu
+natural desenlance na egreja da freguezia.
+
+--Nunca! Nunca!--protestou Leonor levantando-se enfurecida.--Antes
+d'isso, hei-de eu encontral-o e tirar-lhe contas rigorosas da sua infame
+perfidia!
+
+--O que quer fazer?--perguntou João Lazaro fleugmaticamente.
+
+--O que quero fazer? Procural-o até o encontrar.
+
+--E depois?
+
+--Depois dar-lhe a escolher: ou eu ou ella.
+
+João Lazaro soltou uma gargalhada.
+
+--A escolha está feita, minha amiga!--disse elle.--Pois ainda tem
+duvidas?
+
+Leonor franziu o sobr'olho e encarou fito João Lazaro.
+
+--Está feita! Como é que o senhor sabe que está feita?--perguntou.
+
+--Foi á senhora que elle raptou? Era com a senhora que elle pensava em
+casar?
+
+--Ás vezes rapta-se uma mulher por capricho...
+
+--E casa-se com ella por amor.
+
+--Se elle a amasse, não prolongaria uma situação que lhe retarda o
+casamento...
+
+--Mas que não lhe impede a posse do objecto amado, visto que é elle hoje
+o unico senhor de Beatriz... Além d'isso, a demora no cumprimento da
+formalidade... social só representa para elle interesse e não prejuizo,
+pois que o velho acabará por se submetter a todas as condições que elle
+impuzer.
+
+Leonor bateu o pé furiosa.
+
+--O senhor tem um modo de vêr as coisas que irrita os nervos á
+gente!--disse ella.
+
+--Oh, minha querida amiga, a culpa não é minha em as vêr assim: a culpa
+é das proprias coisas que se apresentam com tal aspecto. Bem sabe, eu
+conheço Eugenio, sei do que elle é capaz, e a paixão não me cega a ponto
+de não me deixar vêr o que é mais claro do que o sol.
+
+Houve uns momentos de silencio.
+
+--Não será possivel saber onde se occulta Eugenio com... essa
+rapariga?--perguntou por fim.
+
+--A policia procura-os, mas duvido que os encontre. Eugenio é fertil em
+expedientes para se esquivar á perseguição da policia...
+
+--Mas o senhor... o senhor não será capaz de lhe achar o rasto?
+
+--Que juizo fórma de mim?--perguntou João Lazaro encarando-a com
+desdem--Pois amando-a eu como a amo, querendo-a para mim como a quero,
+julga-me tão imbecil que vá buscar-lhe o amante que lhe fugiu?
+
+--Mas não foi isso o que o senhor me prometteu!--bradou Leonor
+indignada.--O senhor disse-me que me informaria de tudo...
+
+--E creio que assim tenho feito. Por quem sabe a senhora o que se passa,
+senão por mim? Eu disse-lhe que lhe apresentaria provas da infidelidade
+de Eugenio, e creio que essas provas estão bem patentes...
+
+--Mas disse-me tambem que elle não casaria sem que eu fosse previamente
+prevenida...
+
+--Elle ainda não casou...
+
+--Mas vive com ella, tem-n'a a seu lado, está a esta hora fazendo-lhe
+mil protestos, mil juras de amor!
+
+--Tudo isso, porém, não é casar--tornou João Lazaro com placidez.
+
+--Mas é amar outra, é esquecer-me, é ultrajar-me!--gritou Leonor n'um
+despedaçamento do coração.
+
+--Bem! E o que quer a senhora?
+
+Leonor encarou-o com os olhos scintillantes e os labios tremulos de
+colera:
+
+--Pois ainda não comprehendeu?--rouquejou ella--Quero vingar-me!
+
+--Para isso não precisa procural-o nem saber onde elle está... Pena de
+Tallião, minha amiga... Tem-me aqui, doido de amor, a implorar-lhe um
+momento de compaixão, e a sua generosidade para com elle é tanta que
+ainda não pensou em que eu podia ser-lhe um optimo instrumento de
+vingança... Creio bem que Eugenio, sabendo-o, morder-se-hia de
+desespero, por ver que a formosa Leonor não tinha perdido na troca...
+
+--Cale-se!--intimou ella, repellindo com desespero e asco o João Lazaro,
+que tentava tomar-lhe as mãos para lh'as beijar--Essa não é a vingança
+que me satisfaz, a vingança que eu sonho!
+
+João Lazaro encarou-a com um ar de desdenhosa superioridade e disse:
+
+--Pois que outra vingança póde tirar uma mulher nas suas circumstancias?
+
+A loura empallideceu e depois fez-se rubra como se tivesse levado em
+cheio uma bofetada na face.
+
+--Quem lhe deu ao senhor o direito de me insultar?--disse ella tremula
+de colera.
+
+--Perdão, minha querida Leonor, mas não supponho ter-lhe feito um
+insulto lembrando-lhe que, nas circumstancias melindrosas em que se
+encontra, não lhe conviria sacrificar as relações do commendador Garcia
+á vingança ruidosa contra Eugenio...
+
+--Cuidei que não se referia sómente á situação, mas tambem á _qualidade_
+da mulher... Julguei que não me suppunha moralmente em condições de
+tirar uma desforra digna do miseravel que me atraiçoou!
+
+--Oh! por Deus, Leonor! Toda a mulher tem direito a ser respeitada nos
+seus affectos, e a senhora mais que nenhuma outra, porque tem sido de
+uma grande e excepcional dedicação para Eugenio. O sentido das minhas
+palavras era muito outro. A senhora não é a amante declarada de Eugenio
+de Mello. A sua ligação com elle tem um caracter clandestino... Como
+poderia a senhora tirar rasoavelmente um desforço publico, impedir o
+casamento d'esse homem, se toda a gente a considera a amante do
+commendador Garcia?
+
+--E que me importa a mim o commendador Garcia, quando se trata de punir
+quem ousou ludibriar-me e esmagar o meu coração?
+
+--Punir, disse?
+
+--Punir, sim! Pois o que julga o senhor? Cuida talvez que eu seria
+mulher para deixar nos braços de outra o homem que amei e que me pagou
+com a perfidia mais infame, com o despreso mais cruel? Teria que vêr se
+Eugenio havia de ficar contente e feliz, gozando o amor e o dote de
+outra mulher a quem chamaria sua esposa, a quem apresentaria no mundo
+cercada dos respeitos e das considerações de todos, emquanto que eu,
+ultrajada e esquecida, ficasse tragando em silencio todas as amarguras
+da minha humilhação, todos os desesperos do meu amor escarnecido! Não!
+Eugenio de Mello não casará, juro-lh'o eu, porque eu saberei procural-o
+por toda a parte e encontral-o onde elle estiver. E se fôr tão habil que
+se case antes de eu dar com elle, a mulher, se o amar, terá o desgosto
+de ficar viuva...
+
+João Lazaro ouvia attentamente as palavras de Leonor, pesando-as e
+calculando até que ponto ellas podiam ser tomadas como a expressão de
+uma ameaça realisavel.
+
+--Minha querida--disse elle--socegue e veja bem que n'esse estado de
+excitação nada podemos fazer...
+
+--Mas se eu já não quero fazer nada!--bradou Leonor.--O que eu quero
+unicamente é saber onde posso encontrar Eugenio...
+
+--Venha cá, Leonor!--exclamou João Lazaro pegando-lhe na mão e
+obrigando-a a sentar-se ao seu lado. Sejamos, antes de tudo, rasoaveis e
+conversemos como bons amigos... Sabe que a amo desde muito e que por
+coisa alguma eu consentiria n'um desvario que pudesse trazer-lhe
+desgraça irremediavel. Quer vingar-se de Eugenio, não é assim?
+
+--Oh! sim! sim! quero!--respondeu anciosamente Leonor, n'um
+estremecimento nervoso.
+
+--Diga-me: que genero de vingança desejaria tirar?
+
+--A unica que elle merece e a unica que me póde satisfazer: matal-o!
+
+--Bem sabe que não se mata um homem sem se assumirem graves
+responsabilidades perante a justiça--ponderou João Lazaro.
+
+--E que me importa a mim a justiça? Á justiça direi: «Matei-o porque me
+ludibriou, porque me trahiu!»
+
+--A justiça não se contentará com essa explicação e punil-a-ha com todo
+o rigor da lei...
+
+--Embora! Mas eu ficarei vingada.
+
+--Não! Ficará perdida. Calcula, minha boa amiga, qual vae ser a sua
+sorte, atirada para o fundo de uma prisão, de parceria com outras
+criminosas, exposta aos desprezos e aos sarcasmos de toda uma multidão
+avida de escandalos e de crueldades que assistirá ao seu julgamento e
+aplaudirá com uivos de alegria a sua condemnação? Calcula o atroz
+supplicio que a espera desde a hora do seu crime até á hora da sua
+partida para o degredo, no porão de um navio, empilhada com outros
+condemnados, tratada como um animal feroz, como um ser abjecto e
+ascoroso que a sociedade repelle de si com nojo? E diga-me: vale tanto o
+miseravel que a trahiu e tão infamemente a explorou no seu dinheiro e
+nos affectos do seu coração?
+
+--Mas eu hei-de deixal-o viver feliz e ditoso nos braços de outra, a
+rir-se de mim com desprezo, hei-de encontral-o na rua dando o braço á
+mulher por quem me trocou e hei-de fugir envergonhada, hei-de desviar-me
+humildemente do seu caminho para o deixar passar? Oh! não! não! Antes a
+prisão, antes o degredo, antes uma eternidade de supplicios n'este mundo
+e no outro, do que deixal-o escarnecer impunemente de mim!
+
+--Mas, minha amiga--tornou João Lazaro com a voz mais doce e
+persuasiva--não é isso tambem o que lhe estou dizendo...
+
+--O que é que me diz então? Explique-se, por Deus! que não tenho cabeça
+em estado de perceber coisas que não sejam ditas bem claramente!
+
+--Ouça, Leonor; toda a vingança se póde tirar de duas formas: uma
+publica, ruidosa, impulsionada cegamente pela ira. Essa, quando ella tem
+por consequencia a morte de um homem, chama-se _crime_ e é punida
+rigorosamente pela lei. A outra é premeditada, occulta, sem ruido e sem
+provas; e quando tem como consequencia igualmente a morte de um homem,
+chama-se _desastre_, _doença_, _fatalidade_, e a justiça não tem alçada
+para a punir.
+
+--Não entendo!--disse Leonor.
+
+--Vae entender. Se lhe fosse possivel vingar-se de Eugenio, matando-o de
+modo que só elle soubesse quem o matou, a senhora preferiria
+assassinal-o publicamente, diante de todos, e ir depois prestar contas á
+justiça?
+
+--De certo não. O que eu queria era vingar-me e que elle soubesse que no
+peito de uma mulher como eu, se existe _o amor que salva_, tambem ha o
+_amor que mata_.
+
+--Pois bem; que recompensa me daria se eu lhe proporcionasse a vingança
+que deseja?
+
+--Como poderia eu recompensal-o?
+
+--Amar-me-hia?
+
+--O amôr é um sentimento que nasce do coração, não é um objecto material
+cuja posse se transfira de um para outro individuo. O senhor que diz
+amar-me comprehende assim o amôr?
+
+--Pois bem; não tomemos a palavra na rigorosa significação que lhe está
+dando... Mas, diga-me: depois da sua vingança realisada,
+pertencer-me-hia?
+
+--Em espirito, não. Materialmente, sim.
+
+--É quanto me basta. Materia e espirito andam pelo commum tão ligados
+que é difficil, ao cabo de um certo tempo, que a alma não acompanhe o
+corpo...
+
+--Imponho uma condição, porém--objectou Leonor.
+
+--Diga.
+
+--Seja que o espirito acompanhe a materia, seja que um e outro
+permaneçam desligados n'este contrato, o senhor não tolherá nunca a
+minha liberdade. Recebel-o-hei quando me parecer, á hora que eu bem
+quizer, sem que o senhor tenha mais direito do que o commendador Garcia
+ás minhas complacentes attenções...
+
+--Tambem não exijo mais, tal é a certeza que eu tenho de que ha-de
+chegar a comprehender-me e a estimar-me, Leonor.
+
+--É possivel. No emtanto não me julgo obrigada a isso... Vejamos: sabe o
+senhor onde está Eugenio?
+
+--Talvez...
+
+--Talvez não é certo, e eu não gosto de incertezas quando se trata de um
+assumpto que tanto me interessa e de que depende o meu socego, a minha
+tranquillidade...
+
+--Diga antes--de que depende a satisfação do seu orgulho ferido...
+
+--Seja! Onde está Eugenio?
+
+--N'este momento não poderia dizer-lh'o, ainda que quizesse. Mas espero
+bem que amanhã poderei dar-lhe indicações seguras...
+
+--Amanhã! E quem lhe assevera ao senhor que amanhã não será já tarde?
+
+--Nunca é tarde para a vingança.
+
+--Mas eu não desejo vingar-me do marido de Beatriz: desejo tirar
+vingança do amante de Leonor trahida e ludibriada!
+
+--Tiral-a-ha amanhã, porque amanhã Eugenio de Mello estará aqui a
+pedir-lhe dinheiro para se passar com Beatriz para Hespanha.
+
+--Como o sabe?
+
+--Disse-m'o elle.
+
+--Ah! o miseravel! Pois se vier não sahirá vivo d'esta casa...
+
+
+
+
+XXI
+
+Tal vida, tal fim
+
+
+Leonor, prevenida na vespera por João Lazaro, ficou sabendo que Eugenio
+iria procural-a n'essa noite, e d'accordo com aquelle, mandára mudar a
+fechadura da porta para impedir que elle entrasse sem bater.
+
+No emtanto, não se deitára. Espreitando pela janella, vira-o
+aproximar-se, vira o espanto que lhe causára a mudança da chave,
+traduzido na attitude hesitante do bohemio, indo ao meio da rua a espiar
+as janellas como que a certificar-se de que era aquella a mesma casa e
+de que tudo lá dentro estava em silencio.
+
+Viu-o depois dar alguns passos na rua, como que a tomar uma resolução,
+encostar-se á parede fronteira com os olhos cravados nas janellas,
+voltar á porta tentando vêr se a chave seria a mesma, e por ultimo
+afastar-se a passo vagaroso como homem que não sabe bem o que pensar
+d'uma contrariedade que lhe succede. Viu tudo, e por dentro dos vidros,
+na escuridão da sala, com os dentes cerrados pela colera, ia murmurando
+com rancôr profundo:
+
+--Miseravel! vinhas ainda, pela calada da noite, saltear a tua victima,
+roubar-lhe o dinheiro que precisas para sustentar a mulher por quem a
+trocaste! Vae! vae e não voltes... Porque se voltas, saberás então
+quanto custa ludibriar uma mulher como eu!
+
+E nervosa, tremula, a face horrivelmente pallida, os louros cabellos em
+desalinho, cahiu sobre um sofá e desatou n'um choro convulso e abafado.
+
+Esteve assim por muito tempo, sem dormir, sem pensar. A febre
+escaldava-lhe a fronte, e as lagrimas, em vez de lhe acalmarem a enorme
+excitação, mais lh'a exacerbavam. De manhã, aos primeiros fulgores da
+aurora, viu-se a um espelho e achou-se horrivel, com as feições
+transtornadas pela vigilia. Teve então um accesso de furor invencivel.
+Era elle, o perfido, o miseravel, que depois de lhe ter extorquido os
+affetos e o dinheiro, depois de lhe haver roubado o socego e a
+tranquillidade, ainda por cima lhe roubava a belleza! Oh! a vingança
+seria terrivel!
+
+Desde essa hora, Eugenio de Mello estava condemnado.
+
+Logo que a velha criada abriu a porta da rua á hora habitual para fazer
+as primeiras compras do dia, Eugenio de Mello, que já espiava os
+arredores da casa, entrou no portal e subiu ao andar superior.
+
+Como pessoa familiarisada com os costumes da casa, dirigiu-se ao quarto
+de Leonor e encontrou a porta fechada por dentro.
+
+Ia bater, quando a criada, apparecendo, preveniu:
+
+--Faça o favor de não bater, que a senhora passou mal a noite e
+recommendou que a não acordassem.
+
+--Essa ordem não pode entender-se comigo--volveu Eugenio, admirado do
+modo como lhe coarctavam a liberdade que até alli usara.
+
+--Não se entende com o senhor, porque ella não o esperava. Mas deu-me
+esta ordem e a minha obrigação é cumpril-a.
+
+Eugenio encarou a criada por alguns momentos espantado de tamanho
+atrevimento, a que não estava habituado.
+
+--Marianna--disse elle, contendo-se e tomando um tom affavel--o que se
+tem passado n'esta casa, que encontro tudo tão mudado?
+
+--O que se tem passado, diz o senhor? Não se tem passado nada. Está tudo
+na mesma.
+
+--Tudo na mesma, não. A chave da porta da rua foi mudada. Agora é outra.
+Leonor, que d'antes dormia com a porta do quarto aberta, agora tem a
+precaução de se fechar por dentro. Porque é isto?
+
+--Porque ha de ser?--respondeu a criada fazendo uma careta
+inexpressiva.--O senhor bem sabe que, em casa onde não ha homem, não
+póde uma senhora estar a dormir com a porta aberta. O sr. Eugenio foi-se
+embora, a menina não o esperava... Eu ando cá na minha vida, e assim
+como o sr. Eugenio entrou, podia entrar outra qualquer pessoa por ahi
+dentro e ir dar com a senhora na cama. Por isso ella fecha-se, e faz
+muito bem... E então agora que andam por ahi tantos ladrões!
+
+--Foi então por causa dos ladrões que a sua ama mudou a chave da porta
+da rua e se fechou no quarto, por dentro?
+
+--Olhe, senhor, eu não sei!--rematou a velha.--Ella não me dá contas nem
+_estifações_ do que manda fazer... Ella é que dá as _ordes_, é a
+senhora, e eu cá d'essas coisas não sei.
+
+O bohemio tirou o chapéo e a capa, arrumou tudo sobre uma cadeira e
+aproximando-se da criada, disse-lhe a meia voz:
+
+--Marianna, quem está alli n'aquelle quarto?
+
+--Quem ha de estar? Está a senhora...
+
+--Só?
+
+--Quem queria o senhor que estivesse lá com ella? O sr. _encommendador_,
+não fica cá, o sr. Eugenio está ahi... Parece-me que aqui não vem mais
+ninguem....
+
+--Parece-lhe? Não tem a certeza...
+
+--Assim Deus Nosso Senhor me ajude e os anjos acompanhem a minha alma á
+hora da morte se já cá veio mais alguem depois que o senhor se foi
+embora, tirante de ser o sr. _encommendador_... Então ella, coitadinha,
+que não se tem fartado de chorar de noite e de dia, depois que andam
+aqui estas rodilhices...
+
+--Rodilhices de quem?
+
+--Eu sei lá de quem! O sr. Eugenio bem sabe o que anda nas gazetas a seu
+respeito. A senhora lê a folha todos os dias e afflige-se... Pudera!
+Outra qualquer faria o mesmo.
+
+Effectivamente o escandalo do rapto attribuido a Eugenio de Mello fôra
+noticiado com grande pompa de phrase e de minudencias nos jornaes
+diarios. Eugenio sabia-o e não estranhou por isso que a leitura do caso
+tivesse impressionado a amante, como a criada affirmava.
+
+--Leonor tem-se então affligido muito?--perguntou elle.
+
+--Oh, Senhor! Não faz outra vida senão chorar e affligir-se... E anda
+ruim que não ha quem a ature... O pobre do _encommendador_ anda parvinho
+de todo, que ella dá-lhe cada sarabanda por dá cá aquella palha, que é
+uma coisa por demais!
+
+O bohemio teve um sorriso de vaidade satisfeita. O seu amor proprio
+comprazia-se na ideia de que Leonor o amava a ponto de tratar mal toda a
+gente, até o homem que a protegia, tudo por sua causa.
+
+--É doida a Leonor em dar importancia ao que dizem os jornaes--disse
+elle--principalmente quando sabe que tudo isso não passa de uma sucia de
+pêtas.
+
+--São pêtas, são pêtas--retorquiu a velha com um sorriso de
+incredulidade--mas o sr. Eugenio anda a fugir da policia que lhe não vá
+ella deitar a mão...
+
+E depois n'um tom de reprehensão amigavel:
+
+--O senhor tambem me sahiu levadinho da breca! Pois tendo aqui a
+senhora, que tem uma cara como um sol, precisava de se importar co'as
+outras lambisgoias para nada? Credo! Os homens são a coisa peor que ha!
+Quem se fia n'elles está perdida.
+
+--Pois você tambem acredita, Marianna?
+
+--Cale-se, cale-se! Eu não digo nada... mas estes olhos teem visto muito
+e estes ouvidos teem _ouvisto_ inda mais--disse ella, levando
+alternativamente os dedos aos olhos e aos ouvidos.
+
+--O que é que você tem visto e ouvido, Marianna?
+
+--Muita coisa! Deus me livre que a senhora soubesse da missa ametade...
+O sr. Eugenio cuida que se não sabem as coisas... mas eu já ha muito que
+ouvia fallar que o senhor que se queria casar co' essa tal menina p'ra
+amor de quem agora andam estas _questães_...
+
+E muito persuasiva, como quem dá conselhos bons de sensatez e de
+prudencia:
+
+--P'ra que diacho a quer? Ella poderá ter mais dinheiro, mas nunca é
+capaz de lhe ter a amizade que esta lhe tem... O dinheiro, quem tiver
+mais que se enforque co'elle!... Demais, casar por casar, então antes
+co' esta, que se quer ao menos já sabe quem tem... É só dezermos não é
+uma menina capaz, mas em bom panno cáem as nodoas... E olhe que ella não
+lhe dizia que não... que o que ella lhe quer de bem só eu é que o sei...
+E dinheiro _támem_ não lhe havia de faltar, que se não fosse o
+_encommendadôr_, não faltaria quem lh'o desse... O ponto era ella
+querer.
+
+--Está bem, Marianna, acabe com o sermão!--ordenou o bohemio, de mau
+humor.--Visto que Leonor está dormindo, esperarei que ella acorde.
+
+E estirou-se ao comprido sobre um canapé, resolvido a esperar.
+
+Á hora habitual, a porta da alcova de Leonor abriu-se e a loura
+appareceu na sala, fingindo-se surprehendida de encontrar alli o amante.
+
+Eugenio, ao vêl-a, correu para ella com os braços estendidos, n'um
+amplexo carinhoso.
+
+A loura contrafez no rosto pallido um sorriso e perguntou:
+
+--Tu por cá! Que novidade é essa?
+
+--Venho pedir-te que me salves mais uma vez, Leonor!--exclamou o bohemio
+com artificial commoção.
+
+Leonor não respondeu. Encaminhou-se para um sofá e sentou-se, indicando
+a Eugenio que a imitasse.
+
+--O que é então que desejas?--perguntou.
+
+--A policia persegue-me de cada vez mais encarniçadamente--principiou
+dizendo o bohemio--de modo que não só me é impossivel continuar a viver
+no Porto como permanecer por mais tempo em Portugal...
+
+--E d'ahi?
+
+--D'ahi, comprehendes quanto deve ser doloroso para o meu coração o
+pensamento de te deixar...
+
+A loura esboçou nos labios um sorriso de cruel desdem.
+
+--Faço ideia!--disse ella friamente.
+
+O bohemio, um tanto desconcertado com a attitude glacial da amante,
+proseguiu:
+
+--Sou victima da fatalidade, mais ainda do que dos meus inimigos! Estes
+não perdem occasião de me perseguir e de instar com a auctoridade para
+que me prenda, afim de me fazerem condemnar por culpas que não commetti!
+Mas o que mais me afflige e perturba é o ver accumularem-se contra mim
+provas de culpabilidade, quando eu juro que estou innocente! Dir-se-hia
+que um genio infernal tomou a peito a minha desgraça e quer a todo o
+custo perder-me sem me deixar possibilidade de salvação!
+
+--Foi talvez feitiçaria que te fizeram!--disse a amante com um
+aggressivo sorriso de sarcasmo.
+
+O bohemio encarou-a espantado.
+
+--Tambem tu, Leonor, tambem tu escarneces da minha desgraça?--lamuriou
+elle, buscando enternecel-a com os seus queixumes.
+
+--Eu? Que lembrança!--casquinou nervosamente a loura.--Eu posso lá
+escarnecer de um amante feliz, de um seductor audacioso e arrojado, que
+affronta impavido os perigos e os rigores da justiça para possuir por
+força a mulher que por bem não quiz amal-o?!
+
+Laura fallava nervosamente, com os olhos scintillantes de indignação e
+de odio mal reprimido.
+
+Eugenio imaginou-a dominada por um dos seus accessos de indomavel ciume,
+e respondeu, sorrindo com a fatuidade do amante que ainda se reconhece
+querido:
+
+--Mau! ahi estás tu com as tuas loucuras do costume! Sabes que tens sido
+sempre injusta para comigo, sendo a primeira a accusar-me de faltas que
+não commetti. Mas agora peço-te, Leonor, que te moderes e repares bem na
+injustiça que me fazes...
+
+--Injustiça?!
+
+--Sim! É uma injustiça que te não mereço o suppôres-me, como toda a
+gente, auctor do rapto d'essa rapariga, que mal conheço, que não amo,
+que nunca amei e que a esta hora se está rindo nos braços de outro da
+partida que o seu raptor me pregou, envolvendo-me na aventura
+escandalosa dos seus amores, a que sou--juro-o!--completamente estranho!
+
+Leonor abanou a cabeça em silencio, sem responder. Eugenio, de cada vez
+mais possuido do vivo desejo de mover a loura a emprestar-lhe dinheiro,
+continuou:
+
+--Juro-te, Leonor, que estou innocente! Este rapto não foi obra minha.
+Eu podia pensar em tudo, menos em raptar essa rapariga, que é filha de
+um homem rico e incapaz de transigir com tal violencia offensiva da sua
+honra e do seu bom nome...
+
+--Como é então que o acusam ao senhor?--disse Leonor, cravando n'elle um
+olhar que o gelou.
+
+--Tudo obra dos meus inimigos!--balbuciou o bohemio,
+desconcertado--Sabes que tenho concitado contra mim os odios e as
+invejas d'essa canalha endinheirada que não póde perdoar-me a maneira
+como a affronto com a minha distincção e a minha maneira de viver... E
+eu sei lá se n'esta perseguição surda que agora se me move entra tambem
+o ciume d'aquelles que tu rejeitaste e talvez o do commendador Garcia, a
+esta hora sabedor das nossas relações?
+
+--Basta!--bramiu Leonor, livida de colera, levantando-se de
+salto--basta! Que o senhor abusasse da fraqueza do meu coração para me
+illudir, ainda lh'o poderia tolerar; mas que leve a infamia ao ponto de
+calumniar o homem que confia em mim e a quem tenho feito soffrer por sua
+causa, não lh'o consinto!
+
+--Bravo!--tornou o bohemio sarcasticamente--Vejo que o commendador tem
+feito progressos no teu coração durante a minha ausencia!
+
+E encolhendo os hombros com desprezo.
+
+--Afinal, é de justiça... Ha tanto tempo desapossado do thesouro que de
+direito lhe pertencia, é obra de caridade restituir-lhe o que se lhe
+tirou.
+
+Levantou-se e encaminhou-se para a cadeira onde tinha posto o chapéo e o
+capote.
+
+Com esta retirada falsa, expediente que tantas vezes lhe havia sortido o
+effeito desejado, esperava elle abrandar a irritação da amante.
+
+--Adeus!--disse, já da porta da sala, como quem se preparava para sahir.
+
+Leonor avançou para elle:
+
+--Foi para isso que o senhor cá veio?--rugiu indignada--Foi unicamente
+para fazer uma accusação tão insensata como absurda a um homem que nem
+sabe que o senhor existe? Visto isso, ainda a perseguição que a justiça
+lhe move não é tamanha como diz, pois que lhe deixa ociosidade e tempo
+para essas distracções...
+
+O bohemio retrocedeu.
+
+--Não foi para isso precisamente que eu cá vim. Mas ainda quando não
+viesse senão para isto, não dava por mal empregado o meu tempo, que é
+sempre curioso e interessante vêr como as mulheres amam os que atraiçôam
+e atraiçôam os que dizem que amam...
+
+--O que! O que é que o senhor diz? Explique-se sem trocadilhos, faça
+favor!
+
+--Digo--volveu o bohemio--que eu devia esperar isto mesmo... Seria caso
+unico na historia da humanidade que a desgraça me perseguisse e o
+coração da amante me restasse firme... Peço-lhe perdão se vim
+importunal-a. Eu devia desde logo pensar que as mulheres só amam o
+prazer, as alegrias da vida facil e que não podemos contar com ellas
+para as horas negras da desgraça.
+
+Leonor, tremula e excitadissima, lançou-lhe a mão ao braço e arrastou-o
+para junto do sofá. O bohemio deixou-se conduzir.
+
+--Venha cá!--disse ella.--A accusação que o senhor acaba de fazer é mais
+uma infamia sobre tantas! A que é que o senhor veio aqui?
+
+--Vinha despedir-me da mulher que amava e...
+
+--E...?
+
+--E pedir-lhe que me salvasse da vergonha e da miseria da prisão. Mas
+isso terminou. Sei que nada posso esperar. Seguirei o meu destino...
+
+--Se a sua consciencia lhe dizia que nada podia esperar, para que veio
+cá? Vamos! explique-se! O que desejava?
+
+O bohemio conhecia a loura. Sabia por experiencia que todos os
+conflictos por ciumes acabavam por ternissimas demonstrações de affecto,
+sempre que elle proferia palavras de resentimento, desilludido.
+
+--Para que hei-de dizer-lhe nada, se tudo entre nós acabou?
+
+--Talvez se engane... talvez ainda não acabasse _tudo_ como o senhor
+suppõe...
+
+Illudido por estas palavras, o bohemio ajoelhou aos pés de Leonor,
+tomou-lhe as mãos e cobriu-lh'as de ardentes beijos.
+
+--Se é certo que conservas ainda no teu coração um terno sentimento de
+affecto por mim, para que me torturas na minha desgraça, para que me
+lanças no desespero quando venho pedir-te consolação e amparo?--bradou
+elle.
+
+--O que desejas de mim? Dize!
+
+--Desejo que me salves! A minha vida, a minha liberdade, o meu futuro,
+está tudo na tua mão!
+
+--Como? O que posso eu fazer?
+
+--Vaes ouvir. Não posso continuar a viver em Portugal sem entrar na
+cadeia. É, pois, indispensavel que eu fuja quanto antes para a Hespanha
+e por lá me demore até se apurar a minha innocencia. Presentemente não
+posso contar com o auxilio de parentes nem amigos. Só tu me pódes valer,
+emprestando-me a quantia necessaria para eu por lá não morrer de fome...
+Vinha, pois, pedir ao teu amor a salvação que todos os outros me
+recusam...
+
+Era isto justamente o que Leonor esperava para acabar de se convencer da
+perfidia do amante.
+
+João Lazaro havia-lhe dito que Eugenio viria, n'uma ultima exploração,
+arrancar á sua boa-fé o dinheiro para fugir com Beatriz para a Hespanha.
+
+Confirmada a denuncia de João Lazaro pelas palavras do bohemio, a loura
+sentiu dentro em si o demonio do ciume a espicaçar-lhe o desejo da
+vingança.
+
+--Quinhentos mil reis...--disse com voz tremula.--Não é isso o que
+precisas?
+
+--Sim, é isso mesmo!--exclamou o bohemio sem reparar no tom de pungente
+sarcasmo em que a pergunta lhe fôra feita--Quinhentos mil reis é quanto
+eu tenho calculado que me serão precisos para os primeiros tempos...
+
+Leonor sorriu e disse:
+
+--E se eu fosse comtigo?
+
+O bohemio fez um movimento de surpreza a estas palavras.
+
+--O que!--exclamou--querias ir comigo para Madrid?
+
+--E porque não?--tornou Leonor sem desfitar os olhos do amante.
+
+Eugenio ficou um momento calado. Pensava. A companhia da loura
+ser-lhe-hia de alta conveniencia, se ella tivesse dinheiro em abundancia
+para gastar com elle. Mas o bohemio sabia que ella apenas poderia dispôr
+das suas joias e pouco mais.
+
+Para o acompanhar, seria inevitavel o rompimento com o commendador
+Garcia, e, desapparecida esta fonte de receita, que poderia ainda
+ser-lhe um auxilio valioso mesmo distante, a loura ser-lhe-hia um
+encargo pesado, senão odioso, em meio da sua desgraça.
+
+Além d'isso, elle não podia contar com os encantos de Leonor n'um paiz
+onde as mulheres são as mais graciosas e tentadoras do mundo e onde o
+genero abunda em tal maneira, que d'elle faz annualmente grande
+exportação para as principaes capitaes da Europa e até para o Brazil.
+
+Assim, depois de rapidamente ter ponderado a inconveniencia de um tal
+passo, respondeu:
+
+--Comprehendes, minha querida, quanto me seria agradavel a tua companhia
+n'uma terra estranha, longe da patria... Mas eu devo antepôr ao meu
+egoismo a tua felicidade... Para me acompanhares, serias forçada a
+romper com o commendador, a perder a sua protecção... E esgotados os
+primeiros recursos, o que havia de ser de nós, dois ou tres mezes depois
+de havermos d'aqui partido? Não, eu não posso consentir que faças por
+mim esse sacrificio, porque é verdadeiramente o sacrificio do teu futuro
+e do teu bem estar o que um tal passo importa!
+
+O bohemio era, senão sincero, pelo menos sensato e pratico. Mas Leonor é
+que não traduziu assim o seu pensamento e, attribuindo a recusa ao
+desejo que o amante teria de partir com Beatriz, como João Lazaro lhe
+fizera crêr, irrompeu n'uma explosão de ciume e de colera mal contida.
+
+--Eu já esperava a resposta, miseravel!--bradou ella enfurecida--Eu bem
+sabia que o teu maior martyrio seria que eu te acompanhasse, porque,
+indo comtigo, não poderias levar na tua companhia a mulher por quem me
+trocaste, vil!
+
+--Leonor!
+
+--Não tentes negar! Sei tudo, canalha!
+
+--Leonor! Juro-te...
+
+--Não jures, biltre, que as tuas juras são mentidas, são a hedionda
+expressão do teu caracter baixo, cobarde e infame, vil explorador de
+mulheres!...
+
+E, rapidamente, tirando do bolso o rewolver, sem que Eugenio, ajoelhado
+a seus pés, tivesse notado este movimento, apoiou-lhe o cano da arma á
+fronte direita e disparou.
+
+O desgraçado cahiu exanime no pavimento, sem soltar um gemido.
+
+Então Leonor, pondo-lhe o revolver ao lado, levantou-se e, desgrenhada,
+a face livida pela commoção do momento, levantou-se e começou clamando
+por soccorro em brados afflictivos.
+
+A primeira que acudiu foi a velha Marianna.
+
+--Meu Deus! o que foi, senhora?
+
+--Matou-se! Matou-se! Ai, quem acode! Vá chamar um medico... ande, vá
+depressa!
+
+E com as mãos enclavinhadas, estorcendo-se n'uma dôr angustiosa, a loura
+debruçou-se sobre o cadaver do amante e rompeu n'um chôro
+lancinantissimo.
+
+O estampido do tiro e os gritos de Marianna, que alternavam com os da
+sua joven ama, attrahiram as attenções da visinhança e das pessoas que
+iam passando.
+
+Em breve a casa encheu-se de gente, e, por entre a turba, appareceu
+tambem o guarda civil de giro, que recebeu as primeiras declarações,
+participando o caso para o commissariado.
+
+
+
+
+XXII
+
+Mysterio
+
+
+Emquanto o sapateiro andava pelo Porto farejando o rasto de madre Paula,
+passavam-se em S. Martinho do Campo acontecimentos extraordinarios e
+verdadeiramente inesperados, tanto para o leitor como para os
+personagens d'esta singela narrativa.
+
+Julio de Montarroyo e Aurelia de Magalhães, propellidos ao natural
+desafogo de suas mágoas intimas, encontravam-se a miudo, quer em curtos
+passeios, quer em reciprocas visitas, que semanalmente se faziam, sem
+ultrapassarem jamais os limites de uma estricta e rigorosa observancia
+das leis do decoro e do respeito devido á posição de cada um.
+
+D. Aurelia, se alguma vez visitava o amigo de seu irmão, quando um
+ligeiro incommodo o retinha no leito, ia sempre acompanhada da sua
+criada de quarto e era recebida na presença da velha governante de
+Julio; e este, pela sua parte, quando visitava a amiga de Helena, tinha
+sempre todo o cuidado em escolher os dias em que D. Aurelia recebia
+algumas pobres viuvas que caridosamente soccorria com o excesso do
+rendimento de sua casa.
+
+Ainda assim, e apesar do cuidado e escrupulo que ambos punham em não dar
+pasto á maledicencia da aldeia, sem duvida mais acerada e mais venenosa
+do que a das grandes cidades, não faltava quem esperasse, como coisa
+mais ou menos natural e proxima, a noticia de um enlace matrimonial
+contrahido entre os dois.
+
+Ora convem dizer-se que entre D. Aurelia de Magalhães e Julio de
+Montarroyo se estabelecera esse mutuo e invisivel laço de sympathia que
+une e impelle irresistivelmente uns para os outros todos os grandes
+desgraçados, fazendo-os compartilhar, n'um sentimento de inquebrantavel
+fraternidade, as dôres intimas que os dilaceram.
+
+Assim, Julio de Montarroyo sentia grande lenitivo á sua magoa quando
+podia referir á irmã de Gustavo toda a grande chaga incuravel que Helena
+de Noronha lhe abrira no peito; e a amiga de Helena tambem não se sentia
+menos feliz quando podia recordar, na presença de quem bem a
+comprehendia, todo o enorme thesouro de venturas que perdêra com o
+marido e com o filho, prematuramente mortos.
+
+Julio de Montarroyo não occultara de D. Aurelia o encontro com o _Tomba_
+e a missão de que o encarregara na esperança de poder descobrir, com a
+existencia de madre Paula, qualquer indicio do destino que tomara a
+_irmã Dorotheia_.
+
+--Uma coisa que extraordinariamente me preoccupa e mortifica,--dizia
+elle--não é tanto a ingratidão de Helena como é este mysterio que pesa
+sobre a sua existencia! Que ella sahiu de Portugal não resta duvida,
+pois que nem minha prima Lucilia nem nenhuma das educandas e noviças que
+com ella estiveram no Sardão ouviram mais noticias suas. Mas, sendo
+assim, como é que nem em Pariz nem em nenhuma das casas religiosas do
+estrangeiro, que todas percorri e visitei, eu pude descobrir indicios da
+sua passagem?
+
+--As congregações religiosas--observou sensatamente Aurelia de
+Magalhães--ao que me consta, parece que teem o costume de mudar
+frequentemente o nome das _irmãs_; de modo que a que aqui se chama irmã
+Dorotheia, alem chama-se irmã Ephigenia, n'outra parte irmã Sophia, e
+assim por deante, tornando por esta fórma impossivel estabelecer a
+identidade de cada uma d'ellas. Quem nos diz a nós que, com Helena, não
+terá succedido o mesmo?
+
+--Sim; e creio bem que succederia. Porém, ainda quando assim fosse,
+Helena não teria deixado de me reconhecer, se se encontrasse em qualquer
+das casas que percorri. Porque não me limitei a simples informações.
+Apparentando decidido amor pelas instituições jesuiticas, consegui, á
+custa de donativos, captar a confiança e a estima de todos os superiores
+e superioras, sendo em toda a parte recebido como um verdadeiro amigo e
+auxiliar valioso; isto é, como um jesuita de casaca.
+
+D. Aurelia sorriu tristemente.
+
+--E quem lhe assevera que, sob essa apparencia de estima e confiança, o
+senhor não era rigorosamente vigiado e a sua verdadeira individualidade
+absolutamente conhecida?
+
+--Impossivel! Quem poderia denunciar-me, se ninguem estava na posse do
+meu segredo?
+
+--Isto é apenas uma supposição que eu faço--apressou-se a dizer D.
+Aurelia.--Tenho ouvido attribuir aos jesuitas tanta sagacidade e astucia
+na defesa dos seus intimos interesses, que não seria para estranhar que
+elles pudessem illudir e annullar todos os esforços empregados pelo sr.
+Julio para encontrar Helena...
+
+--Não, não! Helena morreu. Do contrario, eu teria tido noticias
+d'ella... Se o _Tomba_ encontrar madre Paula, ella confirmará, estou
+certo, esta minha funesta previsão...
+
+--E se, pelo contrario, Helena viver ainda?
+
+Julio pareceu agitado por uma pilha galvanica.
+
+--Oh! se fôr viva, tornarei a vel-a, ainda que para isso tenha de
+sacrificar os ultimos dias da minha vida!
+
+Este dialogo passava-se em casa de D. Aurelia, ao cahir da tarde. A irmã
+de Gustavo, no intuito de proporcionar a Julio, seu vizinho e amigo de
+seu irmão, uma distracção que lhe aligeirasse as horas tristes das
+pesadas e longas noites de inverno, costumava tambem receber o parocho
+da freguezia, que não era já aquelle saudoso padre Luiz dos tempos de
+Norberto de Noronha.
+
+Era todavia um homem amavel, bondoso e illustrado, de trato simples e
+affectuoso, tendo sempre um sorriso para todas as tristezas, uma palavra
+de consolação para todas as amarguras.
+
+Repartia-se o bom do cura entre estes dois desgraçados, ora visitando
+Julio, ora visitando D. Aurelia, succedendo que raras vezes deixavam os
+tres de encontrar-se juntos e de, em commum, trocarem impressões sobre
+os acontecimentos que se succediam, quer na localidade, quer mesmo
+n'outros pontos do paiz, e cuja noticia lhes chegava pelos jornaes.
+
+D'esta vez, o padre Manoel faltára á hora habitual da visita e entrava
+na sala, já tarde, com o ar de quem trazia um acontecimento grave a
+noticiar.
+
+--Hão-de ter a bondade de me desculpar a demora--disse elle com o seu
+eterno sorriso bondoso--mas não foi culpa minha...
+
+--Já cá estavamos sentindo a sua ausencia, sr. padre Manoel...--disse
+amavelmente D. Aurelia.
+
+--Que quer v. ex.^a, minha senhora? Esteve em minha casa o Joaquimsinho
+de Thayde contando-me um caso extraordinario...
+
+--Sim?
+
+--É verdade. Imagine v. ex.^a que ha oito dias que se vê todas as noites
+na Senhora do Porto uma mulher desconhecida, prostrada com a face no
+chão, resando em frente á porta principal do templo e passando assim as
+longas horas da noite n'uma oração muda. De manhã, aos primeiros alvôres
+do dia, some-se e ninguem mais a vê!
+
+--Isso, naturalmente, ha-de ser alguma das muitas phantasias dos
+invencioneiros das nossas aldeias--disse D. Aurelia sorrindo--É lá
+crivel que uma mulher possa passar assim oito dias prostrada á porta
+d'um templo e sumir-se como um demonio de magica, sem que se saiba o
+caminho que toma e o destino que leva?
+
+--O Joaquimsinho de Thayde assevera que a viu de longe; mas não se
+atreveu a aproximar-se, apavorado pelo mysterio que cerca a desconhecida
+e que já vae formando lenda.
+
+--Então ninguem se atreve a aproximar-se d'ella e a interrogal-a?--disse
+Julio.
+
+--Ninguem. Como v. ex.^a sabe, esta nossa gente do Minho é temivel com
+um cacête nas unhas, fazendo frente ao adversario que se lhe apresenta
+de cara levantada, n'uma arremettida franca. Porém, desde que a sombra
+de um mysterio extraordinario lhe excita a phantasia, torna-se
+supersticiosa, fraca, timida, e foge do rugir de uma folha sêcca com a
+precipitação de quem foge do diabo. Por isso, não admira que, oito dias
+volvidos, sobre a extraordinaria apparição que a todos apavora, ainda
+até agora ninguem se haja atrevido a devassar aquelle estranho mysterio.
+
+--Mas o que julgam elles que seja?
+
+--As versões variam. Uns querem que seja a alma penada da D. Rita de
+Briteiros que anda pela Senhora do Porto a espiar os seus peccados, que
+eram muitos... Outros pensam que, embora aquelle mysterioso vulto
+apresente fórmas humanas, é comtudo um enviado do espirito das trevas
+para attrahir alli algum dos incautos habitantes de Thayde e leval-o em
+corpo e alma para o inferno...
+
+--E vossa reverendissima o que diz?--interrompeu Julio.
+
+--Eu digo que, se não é a sombra de alguma arvore, transformada pelos
+olhos medrosos dos aldeãos de Thayde n'um vulto de mulher sobrenatural,
+então é alguma desgraçada a quem o remorso afflige e que busca na
+solidão da noite e no balsamo da oração o allivio e perdão de suas
+culpas.
+
+Julio ouvia a estranha noticia, trazida pelo padre, com grande
+curiosidade e interesse. Dir-se-hia que uma voz secreta o avisava de que
+aquelle facto extraordinario, apparentemente absurdo e inacreditavel,
+como tantos que a phantasia da gente das aldeias borda a capricho nas
+noites interminaveis do inverno, ao fogo da lareira, tinha relação
+intima com a sua triste historia, feita de amarguras e de esperanças
+perdidas.
+
+--E acredita, padre Manoel--disse elle por fim--que a oração, por tal
+modo, constitua balsamo efficaz para as tribulações de uma alma
+alanceada de remorsos?
+
+--Creio que a oração é sempre um balsamo consolador de
+afflictos--respondeu o padre.--Quando nas angustias do soffrimento
+volvêmos os olhos á roda de nós e não encontramos em nada do que os
+cerca um lenitivo á nossa dôr, então volvemos os olhos ao céo e, pondo
+em Deus toda a esperança, achamos o conforto e o allivio que nenhuma
+força humana póde dar-nos.
+
+--Mas n'essa mulher, que os aldeãos de Thayde phantasiaram ou realmente
+viram na Senhora do Porto, não ha apenas uma alma crente, buscando na
+oração o balsamo suavissimo da esperança, que as coisas terrenas já não
+pódem dar-lhe: ha uma expiação, ha um rigor de penitencia, que revela a
+existencia de faltas, erros e talvez crimes, cuja lembrança aterra e
+apavora a propria creatura que os commetteu...
+
+--Por isso eu disse a v. ex.^a--volveu o padre, com bondoso sorrir--que,
+a ser verdade o que se diz, não ha duvida que se trata de uma
+desgraçada, atormentada pelo remorso, pedindo o allivio e o perdão de
+suas culpas...
+
+--Se a expiação corresponde ás faltas commettidas, devem estas ter sido
+muito grandes para que a propria culpada busque expial-as por semelhante
+modo.
+
+--Só Deus lê no coração da creatura e só Elle póde julgar com justiça
+dos erros de cada um... Em todo o caso, o que é evidente é que estamos
+em frente de uma creatura desgraçada e como tal merecedora da nossa
+compaixão...
+
+Julio calou-se por alguns instantes, parecendo meditar nas palavras do
+sacerdote.
+
+--Ás vezes--concluiu por fim--a imaginação exagera em nós a gravidade de
+erros commettidos, avultando-os até os fazer tomar as proporções de
+crimes horrorosos que nos apavoram e mortificam... Póde ser que essa
+pobre creatura seja uma d'estas allucinadas que, por um excesso de
+sensibilidade doentia, se julgam culpadas de crimes que não
+commetteram...
+
+--Tudo póde ser--tornou o sacerdote--Na minha opinião, toda a penitencia
+significa arrependimento e todo o arrependimento affirma a existencia de
+uma alma bôa, embora um momento transviada do recto caminho pelo
+diabolico poder das paixões... Alma feita para o mal e endurecida no
+crime não experimenta arrependimento. Póde simulal-o, é certo, por mêdo
+ao castigo, mas, em tal caso, não busca as sombras da noite nem a
+solidão dos logares desertos para exercitar o seu fingimento... Pelo
+contrario, ostenta-se publicamente á luz do dia, prostra-se nos templos,
+em face dos altares, aos olhos de todos aquelles a quem quer illudir...
+derrama lagrimas fingidas, bate murros no peito, grita que tudo, espera
+de Deus e tem o diabo a rir no coração. Não é d'esta natureza a
+mysteriosa penitente que traz sobresaltados os habitantes de Thayde,
+creio eu, porque desapparece e esconde-se, aos primeiros clarões da
+aurora, nas covas do monte, sem que ninguem conheça onde se occulta.
+
+--O que é estranho--ponderou Julio--é que ninguem até agora se lembrasse
+de verificar se realmente se trata de uma creatura humana, ou se tudo
+isso não passa de uma absurda ficção de espiritos broncos... Porque não
+irá o proprio regedor com os seus cabos proceder a uma diligencia n'esse
+sentido?
+
+--Disse-me o Joaquimsinho de Thayde que o regedor é o primeiro a
+recolher a casa ao cahir da noite, tomado de um terror supersticioso...
+Para aquella gente, é ponto de fé que se trata da D. Rita de Briteiros,
+morta ha dois mezes, com fama de ter envenenado o irmão e a cunhada para
+lhes herdar os bens. E o regedor de Thayde não quer nada com almas do
+outro mundo..
+
+--O que me parece--opinou D. Aurelia--é que tudo isso não passa de uma
+grosseira invenção d'algum malevolo inimigo da D. Rita, que nem mesmo
+depois de morta quer deixar-lhe o descanço da sepultura... O sr. padre
+Manoel não ignora quanto é má e ás vezes profundamente perversa esta
+gente da aldeia, perseguindo com os seus odios, ainda além da campa,
+aquelles que em vida lhe não mereceram sympathias...
+
+--Sim, é certo--concordou o padre Manoel--e creio bem que a sr.^a D.
+Aurelia tem razão em pensar assim, tanto mais que a D. Rita--Deus lhe
+perdôe!--era geralmente odiada, e supponho que com algum motivo...
+
+--Devemos perdoar aos mortos--tornou D. Aurelia n'um tom de suave
+recriminação--pois não é justo que vamos revolver-lhes o pó da sepultura
+para desenterrar crimes de que a justiça humana lhes não tirou contas e
+que, affectos ao tribunal da justiça divina, só a Deus pertence
+julgar...
+
+--Eu tambem concordo, minha senhora--replicou o padre Manoel--que
+devemos perdoar aos mortos e deixal-os repousar na eterna paz do
+sepulchro. Todavia, não deixo de reconhecer que esta deshumana e talvez
+impiedosa crueldade do povo para os que se finaram e que em vida não
+seguiram as normas do bem e da virtude, tem um alto fim moralisador,
+qual é o de dizer aos que ficam que os seus crimes nem mesmo depois da
+morte obteem o perdão e o esquecimento do mundo...
+
+--Mas quantas abusões, quantos erros, quantos absurdos e quantas
+injustiças lançadas sobre a memoria de pessoas erroneamente julgadas
+pela opinião, sempre fallivel, do vulgo ignaro?--interrompeu Julio--O
+sr. padre Manoel não ignora decerto que, por via de regra, não são os
+peores aquelles que o povo aponta como maus...
+
+--_Vox populi, vox Dei_... A voz do povo é a voz de Deus--argumentou o
+padre Manoel, repetindo o proloquio latino.
+
+--Mas tambem _vox populi, vox diaboli_...--retrucou Julio--E mais vezes
+é a voz do povo a voz do diabo, do que a voz de Deus. Depois, vossa
+reverendissima bem sabe, argumentar com superstições absurdas, com
+apparições sobrenaturaes de almas penadas, é uma cobardia tão abjecta e
+repugnante, que só tem desculpa na estupidez do vulgo semelhante fórma
+de castigo infligido aos mortos!
+
+O padre Manoel não insistiu, limitando-se a responder:
+
+--Isto já vem assim do principio do mundo...
+
+--E porque vem assim, devemos nós consentir que assim continue? Não me
+parece justo. Illustremos o povo, desfaçamos-lhe erros e abusões em que
+vive. Procuremos conduzil-o ao caminho do bem pela consciencia do dever
+e não por principios erroneos de superstição absurda. E, pois, que em
+Thayde não ha alguem sufficientemente sensato e honesto para dar um
+exemplo de dignidade humana, eu irei esta noite mesmo á Senhora do Porto
+investigar o que ha de verdade na mysteriosa apparição.
+
+--Pois quer aventurar-se, por uma noite d'estas, a ir d'aqui á Senhora
+do Porto!--observou D. Aurelia, espantada.
+
+--E porque não?--respondeu Julio--Conheço o caminho e o meu cavallo é
+seguro. Dentro de uma hora, estarei lá.
+
+--É uma imprudencia!--reprovou o padre Manoel--V. ex.^a sabe que as
+nossas estradas são mal frequentadas de noite...
+
+--Estou habituado a toda a especie de encontros. Na minha mocidade fiz
+muitas vezes o caminho, de noite, de Braga para Lanhoso, e era no tempo
+do Papa Assucar...
+
+--A mysteriosa apparição--tornou o padre Manoel--póde mesmo não ser mais
+do que o pretexto para uma cilada.
+
+--Uma cilada, a mim!--exclamou Julio--Não ha nada menos provavel... Quem
+poderia esperar que eu, vivendo em S. Martinho do Campo, me importasse
+com o que se passa de noite na Senhora do Porto?
+
+--Não digo que seja uma cilada propositadamente armada para v. ex.^a.
+Mas é sempre um perigo ir a gente metter-se nas ratoeiras armadas para
+outros--aconselhou prudentemente o padre.
+
+Julio sorriu desdenhoso.
+
+--Seja como fôr--decidiu elle--irei certificar-me do que se trata. Se é
+um conluio de malfeitores que pretendem por esta fórma espalhar o terror
+no sitio e apavorar os credulos habitantes de Thayde, para mais á
+vontade effectuarem o assalto e o roubo, a auctoridade ficará sabendo
+com quem tem de se haver. Se, pelo contrario, é uma creatura infeliz,
+uma existencia desgraçada que busca na penitencia e na oração o remedio
+para as dôres da alma, é uma obra de caridade levar-lhe o balsamo da
+piedade e da compaixão como lenitivo a tanto soffrer.
+
+E consultando o relogio d'algibeira:
+
+--São 10 horas--disse elle--Vou partir. Se antes da meia noite não
+estiver de volta, amanhã de manhã poderá vossa reverendissima ouvir em
+minha casa a narração fiel do que tiver acontecido.
+
+--Repare, meu amigo--tentou impedir D. Aurelia--que a noite está
+tempestuosa e que vae pôr em perigo a sua saude, bastante abalada.
+
+--A minha existencia--replicou Julio com amargura--ha muito que decorre
+batida pelos vendavaes do infortunio. Que importa uma noite de chuva a
+quem traz a alma obscurecida n'uma perpetua noite de tempestuosas
+desgraças? Até amanhã! Nada receiem por mim, que eu vou preparado para
+tudo.
+
+E sahiu, na resolução inabalavel de cumprir o que dizia.
+
+
+
+
+XXIII
+
+Allucinação
+
+
+No dia seguinte de manhã, D. Aurelia e o padre Manoel, movidos da
+extraordinaria curiosidade de saberem o resultado da audaciosa aventura
+de Julio de Montarroyo, correram a casa d'este com o fim de o
+interrogarem.
+
+O excentrico apaixonado de Helena de Noronha estava no leito ardendo em
+febre.
+
+Ao vêr entrar D. Aurelia e o padre Manoel, estendeu os braços para
+elles, exclamando:
+
+--É horrivel, meus amigos, é horrivel!
+
+--Como assim! Viu alguma coisa?--interrogou o padre com espanto.
+
+--Vi... vi!...
+
+--E então?
+
+--Então... oh! não posso dizer-lhes o que vi...
+
+--Malfeitores por certo...--aventurou D. Aurelia--teve de bater-se com
+elles...
+
+--Não... não!--contradisse o doente com vehemencia--Não se trata de
+malfeitores... Ha effectivamente alli uma creatura extraordinariamente
+desgraçada, um ser mysterioso que tem alguma coisa de sobrenatural e
+phantastico, impossivel de reconhecer...
+
+Padre Manoel e D. Aurelia trocaram um rapido olhar como se quizessem
+significar um ao outro que havia talvez motivo para duvidar da
+integridade mental do seu interlocutor.
+
+Julio, com os olhos brilhantes e a face afogueada pela febre, n'uma
+grande agitação, proseguiu:
+
+--Fui. A noite estava realmente tempestuosa e horrivel. Atravessei
+Quintella sob uma chuva violenta e, quando cheguei a Thayde, o temporal
+desencadeou-se n'um vendaval desfeito. Ainda assim, não parei. O meu
+fito era ganhar a Senhora do Porto e surprehender o mysterioso vulto no
+extasis da oração. Chegando ao sopé do sanctuario, apeei-me, prendi o
+cavallo a uma arvore e, envolto na minha capa, com o revolver
+engatilhado, fui subindo lentamente o escadorio, até á crista do monte
+onde se ergue o templo da Senhora... A treva era profunda e eu mal
+poderia divisar quem quer que fosse, por muito perto que estivesse de
+mim, se a luz dos relampagos, fendendo a miudo o espaço, me não
+illuminasse o caminho. No alto, tudo estava em silencio e tudo
+deserto...
+
+--Não viu, portanto, pessoa alguma?--interrogou o padre Manoel.
+
+--Quando cheguei, não vi. Mas, pensando que talvez a tempestade tivesse
+retardado a vinda á penitente, resolvi-me a esperar alli, até de manhã,
+para poder testemunhar com verdade até que ponto os terrores da gente de
+Thayde tinham fundamento, ou então que todas essas atoardas de uma
+phantastica apparição não passavam de grosseira patranha de torpes
+invencioneiros. Passei assim mais de uma hora, encostado á porta
+principal do templo, sem fazer um movimento, quasi sem respirar.
+
+--Que estranha imprudencia a sua, sr. Julio de Montarroyo!--não pôde
+deixar de exclamar a irmã de Gustavo.--Se não estava ninguem no local,
+como pôde permanecer tanto tempo encostado ao templo, debaixo d'um
+temporal desabrido, provocando um arrefecimento que podia prejudicar-lhe
+a saude?
+
+--Morrer hoje ou morrer amanhã, que importa, minha senhora, quando não
+sentimos o menor apêgo á vida? Eu tinha ido alli para desvendar um
+mysterio ou desfazer uma illusão de espiritos ingenuos e credulos. O meu
+dever era ficar e fiquei... Ainda bem que fiquei, porque, uma hora
+passada, os meus olhos, habituados á escuridão, viram mover-se na treva
+da noite um vulto que se aproximava lentamente do portico a que eu me
+encostava.
+
+--Então sempre era certo!--exclamou o abbade triumphante.
+
+--Certissimo. O vulto, que não suspeitava a minha presença alli, a
+semelhante hora, chegou junto do primeiro degrau do templo, ajoelhou e
+n'um grito lancinantissimo, implorou a morte á Senhora do Porto!
+
+--A morte!--exclamaram a um tempo D. Aurelia e o padre Manoel.
+
+--A morte, sim!--confirmou Julio--Era uma voz de mulher, lamentosa e
+dôce, e de tal modo parecida com... com outra voz que eu já tinha
+ouvido, que todo me senti estremecer e fiquei como que pregado á porta
+do templo! Essa voz repetia por entre gemidos, com a face collada no
+degrau da egreja:--«Senhora do Porto! Mãe Misericordiosa! ouve a minha
+supplica, dá por terminado o martyrio da minha existencia, leva para ti
+esta miseravel creatura!»--
+
+Depois soluços e gemidos abafados seguiram-se a estas palavras...
+
+--É singular!--disse D. Aurelia.
+
+--E extraordinario!--accrescentou o padre Manoel.
+
+--Não posso dizer-lhes, meus amigos, o que se passou em mim... Tomado do
+sagrado respeito que inspiram os grandes desgraçados que só ao céo
+dirigem as suas supplicas, permaneci por alguns minutos mudo e immovel
+como uma estatua. Todavia, cada um d'aquelles gemidos penetrava no meu
+coração como uma lamina de aço. Identifiquei-me de tal modo com aquella
+dôr, que cheguei a pensar que conhecia de ha muito tempo a infeliz
+creatura que alli jazia prostrada e que a minha presença devia ser-lhe
+como que o apparecimento de um irmão querido. Então, sem pensar no que
+fazia, recordei um nome, o nome de uma mulher que eu conhecia e que
+devia ser aquella mesma: «Helena!»--bradei-lhe--«Helena!»--e
+desloquei-me da porta do templo descendo um degrau. Ao ouvir este nome,
+a mysteriosa creatura soltou um grito de terror, levantou-se espavorida
+e fugiu... Corri em seu seguimento, mas a escuridão da noite e a
+incerteza do caminho não me permittiram alcançal-a... Sumiu-se.
+Procurei-a toda a noite chamando-a em altos brados, dizendo-lhe o meu
+nome, porém tudo foi baldado!
+
+--Não pôde então conhecer quem fôsse a estranha penitente?--aventurou-se
+a dizer D. Aurelia.
+
+--Os meus olhos não puderam distinguir-lhe as feições, mas o meu coração
+reconheceu-a. Era Helena, era a filha de Norberto de Noronha, a antiga
+herdeira d'esta casa, a penitente que eu surprehendi esta noite em Nossa
+Senhora do Porto!
+
+--Talvez se enganasse, meu amigo... Se fosse ella, para que fugiria
+ouvindo que a chamavam pelo seu verdadeiro nome e que quem assim a
+tratava era por força uma pessoa amiga?--retorquiu D. Aurelia.
+
+--De noite todos os gatos são pardos--philosophou plebeiamente o padre
+Manoel--Já uma noite, vindo eu das Caldas, vi debruçado sobre o muro da
+estrada um homem com uma fouce roçadoura na mão, como quem se preparava
+para me abrir a cabeça de meio a meio quando eu fosse a passar.
+Suspeitando que fosse algum ladrão, sustei a egua e disse ao meliante
+que sahisse d'alli porque queria passar. O vulto não respondeu e agitou
+com mais força a fouce roçadoura n'uma silenciosa ameaça. Eu então era
+rapaz. Desesperado por aquella insistente audacia, puxei de um revolver
+e intimei tres vezes o meu aggressor a retirar-se d'alli sob pena de lhe
+mandar uma bala. Não obedeceu e eu então dei ao gatilho--pum! pum!
+pum!--e mal vi que elle deixara cahir a foice com que me ameaçava, metti
+esporas á egua e cheguei n'um galope a casa. Ao outro dia fiquei muito
+admirado de não ouvir fallar do caso de apparecer algum homem morto na
+estrada e, depois do meio dia, montei a cavallo e lá fui eu muito
+disfarçadamente estudar o sitio onde tinha tido o terrivel encontro...
+Não lhes minto se lhes disser que fiquei envergonhado ao reconhecer que
+o malfeitor contra quem eu tinha disparado era um carvalho inoffensivo
+que bracejava para fóra do muro uma das suas vergonteas, a tal que eu
+tomára por uma foice roçadoura e que lá estáva cahida na estrada,
+cortada pela bala do meu revolver... De noite, a gente vê coisas
+extraordinarias, que não passam de ordinarissimas coisas, observadas de
+dia, á luz do sol...
+
+--Sr. padre Manoel--protestou Julio, agitado pela febre e deveras
+irritado pela incredulidade insultuosa do padre--faça-me a fineza de
+acreditar que eu nem vinha das Caldas nem sentia a pesar-me no espirito
+o mêdo deprimente de uma foice roçadoura, quando vi aproximar-se de mim
+a penitente de que se trata. Estava tranquillo como v. s.^a o está agora
+e tinha o entendimento tão claro como v. s.^a o póde ter--logo de manhã,
+em jejum, quando vae para o altar dizer missa.
+
+O padre Manoel, que não era tolo, inclinou a cabeça n'um sorriso bondoso
+e apressou-se a dizer:
+
+--Não foi meu proposito pôr em duvida a veracidade da sua narrativa, sr.
+Julio de Montarroyo... Creio que v. ex.^a visse e ouvisse tudo o que
+diz, mas podia muito bem acontecer que, por uma illusão que a noite
+favorecia, tomasse como sendo a filha de Norberto de Noronha uma outra
+pessoa bem differente... Era simplesmente n'este ponto que a confusão
+podia dar-se...
+
+Julio aquietou-se um pouco com esta explicação do padre.
+
+--Tambem não affirmo que fosse ella--disse--mas tenho a convicção
+intima, profunda, de que não é outra.
+
+--E agora o que tenciona fazer, sr. Julio?--perguntou D. Aurelia.
+
+--Voltar lá. Procurei-a durante a noite até de manhã. Bati o monte em
+todas as direcções, observei-o em todos os recantos, e não pude atinar
+com o sitio em que ella se occultou. Todavia, é certo que ella se
+escondeu alli, porque nem teria forças para me fugir n'uma longa
+caminhada a pé, nem a vereda que seguiu lhe permittiria poder andar
+muito tempo a descoberto, sem que eu a encontrasse.
+
+--Mas--observou D. Aurelia--se a mysteriosa penitente, surprehendida por
+v. ex.^a, fugiu, é que não quer ser vista; e sabendo que é conhecida a
+sua frequencia n'aquelle sitio, áquella hora, certamente não voltará lá
+com receio de ser novamente surprehendida... Mórmente se v. ex.^a
+acertou chamando-lhe pelo nome verdadeiro...
+
+--Sim, é certo..--concordou Julio--mas eu tenho de cumprir o meu dever
+que me manda procurar vêl-a outra vez, fallar-lhe e concorrer quanto
+possivel para pôr termo áquelle soffrimento.
+
+--Tenciona, pois, voltar lá esta noite?
+
+--Tenciono.
+
+--Afigura-se-me trabalho inutil, sacrificio baldado.
+
+--Porque?
+
+--Pelas razões que já lhe disse. Se é realmente Helena de Noronha e não
+quer tornar conhecida a sua presença, esta noite evitará apparecer junto
+do templo onde sabe que é esperada pela pessoa que a reconheceu e lhe
+chamou pelo nome...
+
+--O que devo fazer então?
+
+--Esperar que ella, perdido o receio, volte a apparecer regularmente, e
+tomar todas as medidas para a seguir de longe até lhe descobrir o
+paradeiro.
+
+--É o que se me afigura mais prudente e mais acertado--approvou o padre
+Manoel.--Demais, o sr. Julio de Montarroyo está n'um estado tal de
+excitação febril, que uma segunda noite passada como a primeira póde
+alterar-lhe profundamente a saude. Eu me encarrego, se v. ex.^a quer, de
+mandar vigiar o local, e saber se a penitente continua a apparecer lá...
+
+--Com a condição, porém, de que não hão de perturbal-a na sua oração nem
+afugental-a d'aquelle sitio.
+
+--A recommendação é inutil. Descance v. ex.^a que tambem eu e a sr.^a D.
+Aurelia estamos com verdadeiro interesse em saber quem é a mysteriosa
+creatura de que se trata. Prometta-me que não sahirá esta noite a expôr
+a saude a um verdadeiro perigo, e amanhã ficará sabendo com certeza se a
+penitente voltou ao templo.
+
+Combinadas as coisas d'este modo, despediram-se os dois do doente,
+recommendando-lhe socego e promettendo voltar no dia seguinte a
+informal-o do que tivesse occorrido.
+
+Já cá fóra, disse o padre Manoel á D. Aurelia:
+
+--E que lhe parece a v. ex.^a este caso extraordinario que acabamos de
+ouvir?
+
+--Parece-me--respondeu a irmã de Gustavo--que o nosso pobre amigo tem
+razão para estar bastante sobreexcitado com o que lhe succedeu.
+
+--E v. ex.^a acredita que elle visse lá alguem?
+
+--Acredito... Porque não hei de acreditar, se o que elle conta é a
+confirmação dos boatos de que v. s.^a se fez echo?
+
+--Oh, minha senhora! mas repare v. ex.^a que: eu apenas contei como
+extravagante phantasia dos habitantes de Thayde o rumôr que corria entre
+elles de que apparecia na Senhora do Porto uma alma do outro mundo.. a
+alma da D. Rita de Briteiros.
+
+--Mas v. s.^a não crê nas almas do outro mundo; e certamente não
+recusará acreditar que a estranha apparição tenha realmente um fundo de
+verdade, e que, em vez de ser uma alma penada, seja uma creatura em
+corpo e alma, como tantas que, batidas pela desgraça irremediavel, fogem
+dos povoados para habitarem os logares desertos, entregando-se á oração
+e á penitencia!...
+
+--Custa-me muito menos a crêr que o nosso amigo, allucinado pela febre e
+pela estranha situação em que se encontrava, áquella hora e em
+semelhante local por uma noite tão tormentosa, foi victima de uma
+allucinação e julgou vêr o que não viu nem podia, vêr... Não reparou v.
+ex.^a que elle tinha as faces afogueadas e os olhos brilhantes da febre?
+Quem nos diz a nós que tudo aquillo não será o delirio da doença? O mais
+acertado parecia-me chamar o medico...
+
+--Conhece Julio de Montarroyo e sabe a organisação nervosa e irritavel
+que elle é... Se lhe mandamos o doutor sem elle o reclamar, é muito
+capaz de não o receber e de se offender comnosco...
+
+--Para tudo ha meio, minha senhora... Contamos ao doutor o que se passou
+e elle simulará um motivo qualquer para lhe ir fallar, sem ser o da
+doença... Por exemplo: pedir-lhe o seu concurso para qualquer obra de
+beneficencia... ou pedir-lhe informações sobre qualquer instituto medico
+das grandes cidades que elle percorreu... Qualquer pretexto serve. O que
+não devemos é deixal-o abandonado dos soccorros medicos, porque o pobre
+homem, se já tinha _falha_ antes d'este caso, agora, com a mania de que
+viu a filha de Norberto de Noronha, é muito capaz de ensandecer de
+todo...
+
+D. Aurelia intimamente revoltada contra esta apreciação do padre, teve
+bastante força em si para responder apenas:
+
+--Durante o tempo que tenho tratado com o sr. Julio de Montarroyo, ainda
+não pude colher elementos que me auctorisassem a duvidar da sua lucidez
+de espirito e da perfeita regularidade das suas faculdades mentaes... Se
+agora me pareceu n'um estado de excitação febril, acho natural que assim
+succeda depois da noite tempestuosa que passou e do violento abalo que
+devia ter-lhe causado a apparição falsa ou verdadeira da estranha
+penitente que elle diz ter visto... Como quer que seja, sr. padre
+Manoel, a doença de que presentemente soffre o sr. Julio de Montarroyo
+não é d'aquellas que se curam com synapismos e xaropes receitados pelo
+medico.
+
+--O que quer então v. ex.^a que se faça?
+
+--Que v. s.^a cumpra o que prometteu... Que encarregue alguem de sua
+confiança para vigiar o templo da Senhora do Porto e vêr se realmente
+Julio de Montarroyo tem razão e os habitantes de Thayde tambem...
+
+O padre Manoel encolheu os hombros:
+
+--Pois v. ex.^a julga...?
+
+--Julgo que ha de haver um motivo para que tal boato se espalhasse, como
+creio que o sr. Julio de Montarroyo era incapaz de vir affirmar coisas
+que não tivessem succedido, ou que pelo menos se lhe não tivessem
+affigurado... O nosso dever, pois, é tirarmo-nos de duvidas e esclarecer
+quanto possivel este mysterio.
+
+--Está bem! Se v. ex.^a assim o deseja, mandarei o João Mil-homens, que
+é arrojado e valente, e não crê em almas do outro mundo, rondar a
+Senhora do Porto, esta noite e todas as outras que se lhe seguirem, até
+não restar duvida de que não apparece lá viva alma...
+
+--Porém, que isso se faça em segredo, com a maxima prudencia e cautella,
+para não causar alarme na povoação nem dar logar a que a mysteriosa
+penitente se afaste d'estes sitios.
+
+--Fique v. ex.^a descançada, que o Mil-homens é fino como uma raposa e
+tem o faro de um cão de caça para descobrir o esconderijo da tal
+creaturinha, onde quer que ella se occulte. Vou já d'aqui prevenil-o e
+estou bem certo que não ha nada, ou, se ha alguma coisa, não levará
+muito tempo que não saibamos tudo.
+
+O aldeão encarregado pelo padre Manoel de vigiar durante muitas noites
+seguidas o templo e immediações da Senhora do Porto nada pôde observar
+que confirmasse a narrativa de Julio de Montarroyo, nem sequer os boatos
+que corriam entre os aldeãos de Thayde.
+
+O padre Manoel sorria vaidosamente sceptico ao relatar á D. Aurelia os
+baldados esforços empregados pelo Mil-homens para descobrir a penitente
+e dizia:
+
+--São tudo imaginações, minha senhora, são tudo imaginações... Eu já sei
+o que isto é: um vê uma sombra e diz que é um homem; outro olha e vê um
+gigante. Vem um terceiro e affirma logo que é um gigantarrão e jura até
+que o ouviu fallar! Sabidas as contas, vae-se a vêr e não é nada... Eu
+sempre disse que este sr. Julio de Montarroyo era boa pessoa, mas tinha
+qualquer propensão para visionario...
+
+D. Aurelia defendia o apaixonado de Helena.
+
+--É certo--dizia ella--que o sr. Julio de Montarroyo é dominado por uma
+paixão violenta que quasi constitue n'elle uma doença incuravel. Mas não
+creio que esse estado d'alma o excite e lhe altere por tal modo as
+faculdades, que o faça imaginar coisas que não vê nem ouve... Isso seria
+a loucura, e o seu entendimento é por demais lucido para o suppôrmos um
+allucinado...
+
+--Valha-me Deus! não digo que elle esteja doido varrido... Elle conhece
+as pessoas e sabe o que diz... Mas n'este caso, minha senhora, tenha v.
+ex.^a paciencia, eu julgo que elle viu tanto a tal penitente como eu vi
+os milagres de Santo Antonio...
+
+--Mas acredita n'elles!...
+
+--Acredito, que é o meu dever...
+
+--Pois então acredite tambem o sr. padre Manoel nos factos narrados pelo
+sr. Julio de Montarroyo, por muito inverosimeis que elles lhe pareçam...
+Note v. s.^a que elle não diz que prégou aos peixinhos e que elles o
+ouviram devotamente com muita attenção, nem affirma que fez levantar
+Norberto de Noronha da sepultura para dizer quem o matou... Conta
+simplesmente que viu uma pobre mulher prostrada nos degraus de um
+templo, invocando a Senhora do Porto para que lhe désse a morte... Isto
+não é tão inverosimil, acho eu, que repugne acreditar-se...
+
+--Minha senhora--volveu o padre Manoel fungando uma pitada--o sr. Julio
+de Montarroyo não é santo Antonio nem tem como aquelle santo
+reconhecidas auctoridades theologicas a abonar-lhe a veracidade dos
+casos que lhe succedem ou que diz haverem-lhe succedido. Demais, minha
+senhora, S. Thomé tambem precisou de vêr para crêr... Ora eu já me
+contentava, para crêr, com o testemunho do João Mil-homens, que não é
+nenhum doutor da egreja, mas que é homem capaz de averiguar se uma coisa
+que vê é pau ou é pedra. Mas o João Mil-homens diz que não viu nada na
+Senhora do Porto... Ora se elle não viu nada, como é que os outros podem
+ter visto?
+
+--É possivel e até provavel que a estranha creatura cuja existencia real
+o sr. padre Manoel põe em duvida, ao vêr-se surprehendida na sua oração
+pelo sr. Julio de Montarroyo, tivesse receio de ser novamente encontrada
+e reconhecida e resolvêsse mudar de sitio e fugir para bem longe...
+
+--Póde ser--acquiesceu o padre Manoel, incredulo.
+
+--No emtanto, e seja como fôr, v. s.^a faz-me o obsequio de continuar a
+mandar vigiar o local. Eu me encarrego de gratificar o Mil-homens pelo
+trabalho que lhe está incumbido.
+
+--Para lá vae todas as noites. Mas creia v. ex.^a que tanto faz ir como
+estar na cama... O homem, não pôde vêr lá pessoa alguma, pela simples
+razão de nunca lá ter estado de noite essa tal penitente imaginaria que
+se diz... Os tempos de fé acabaram, minha senhora, e quem reza gosta de
+o fazer com ostentação, á luz do dia, diante de toda a gente... não se
+vae pôr de noite, como os mochos e as corujas que chupam o azeite das
+lampadas, a piar miserias á porta dos templos desertos...
+
+
+
+
+XXIV
+
+Estranho encontro
+
+
+D. Aurelia, despedindo-se do padre Manoel, recolheu a casa, scismando
+nas palavras do sacerdote.
+
+--Será realmente Helena de Noronha?--dizia comsigo--Julio de Montarroyo
+affirma que sim; mas o seu estado febril justifica em certo modo uma
+allucinação, que o fizesse tomar pela mulher que ama, uma sombra, talvez
+uma phantastica visão dos seus sentidos excitados... Emfim, o Manoel
+Mil-homens, que é arrojado e valente, encarregar-se-ha de verificar até
+que ponto são verdadeiras as affirmativas de Julio.
+
+Ia deitar-se, quando no portão da casa soaram violentas pancadas.
+
+Estranhou que assim batessem áquella hora, e calculou que não podia ser
+senão um estranho desconhecedor de que o portão tinha uma sineta que
+facilitava a chamada.
+
+--Batem ao portão--disse ella para a criada.--Diga ao Francisco que vá
+vêr quem é...
+
+D'ahi a pouco, voltava a criada, annunciando:
+
+--Está lá em baixo um homem que pede para fallar á senhora com toda a
+urgencia.
+
+--Que qualidade de homem é?
+
+--Parece una homem do povo, minha senhora; mas não é d'estes sitios.
+
+--Não disse como se chama, nem de mando de quem vem?
+
+--O nome não disse. Diz que já foi a casa do sr. Julio de Montarroyo,
+mas que não o deixaram fallar com elle por estar doente, e por isso que
+deseja dar só uma palavrinha á senhora.
+
+--Mande-o entrar, e o Francisco que fique de vigia, que não vá ser algum
+mal intencionado.
+
+--Não me parece... Só se fôr algum desgraçado que use d'este meio para
+pedir abrigo por esta noite...
+
+--Bem; vejamos o que elle quer.
+
+Pouco depois, apparecia á porta da sala o mestre _Tomba_.
+
+D. Aurelia tinha-o visto em casa de Julio de Montarroyo e reconheceu-o
+logo.
+
+--Ah! é vocemecê, mestre _Tomba_?
+
+--Sou eu, minha... Vossa _incelencia_ perdoará eu vir _trupar_ á porta a
+esta hora, mas ha um _causo_ que não póde deixar de ser...
+
+--Diga, mestre, diga!--exclamou D. Aurelia assustada com as attitudes e
+gestos solemnes do velho sapateiro--Occorreu alguma desgraça?
+
+--Uma grande _desgracia_, minha senhora! E se vossa _incellencia_ não
+acode e manda alguem comigo, a _probe_ de Christo está aqui, está a dar
+o ultimo suspiro!... Já fui a casa do sr. Julinho p'ra lhe contar o
+_assucedido_.., Mas lá _dixeram-me_ que elle _támem_ estava de
+_catrambias e atão_ eu lembrei-me de vir ter co' a senhora p'ra esta
+obra de caridade...
+
+--Mas de que se trata, mestre? Falle.
+
+--Trata-se de uma _probe_ creatura, uma triste mulhersinha que eu topei
+alli adiante, cahida na estrada sem dar por burro nem por albarda!
+
+--Uma mulher!?
+
+--Sim minha senhora... Eu vinha p'ra cá e dava ó canello com toda a
+força, porque se me tinha feito escuro mais cedo do que eu pensava, e
+estava morto por chegar a casa do sr. Julinho, porque _támen_ já trazia
+uma lazeira que nem via nada.. Vae n'isto, não sei como reparo e vejo
+estirado ao canto da estrada um _burto_ preto que me parecia coisa
+viva... Cheguei-me, sempre com cuidado, que não fosse ser algum alma de
+cantaro que estivesse a _infingir-se_ morto, p'ra me deitar as unhas e
+alimpar-me o que eu _trouvesse_, e vi que o dito _burto_ não mexia com
+pé nem com mão... Accendi um _phrophe_, cheguei-lh'o á cara, e era uma
+mulher, coitadinha! Chamei por ella, abanei-a, mas, qual quê! a _probe_
+de Christo mal resfolegava... estava sem sentidos! Inda me lembrou de
+pegar n'ella ás costas e trazel-a comigo; mas a caminhada era mui bem
+grande e eu _támem_ já vinha estafado, sem poder comigo... de modos que
+deitei a correr p'ra vir ó sr. Julinho contar-lhe o caso e pedir-lhe que
+mandasse alguem que me ajudasse a trazel-a... Mas elle támem está
+doente...
+
+D. Aurelia, verdadeiramente commovida com esta narrativa, não deixou que
+o sapateiro terminasse.
+
+Chamou os criados e mandou que fossem com o sapateiro buscar a infeliz.
+
+--Levem um lampeão para se alumiarem... Deitem roupa bastante na padiola
+e tragam n'ella a pobresita com cuidado. De caminho, um que venha por
+casa do medico pedir-lhe para chegar aqui n'um instante. Vá, não se
+demorem... lembrem-se que é uma vida que vão salvar!
+
+Estas ordens puzeram em movimento toda a gente da casa, e poucos minutos
+decorridos, seguia o _Tomba_, pela estrada, á frente do grupo, em
+soccorro da infeliz creatura.
+
+Uma hora depois regressavam o _Tomba_ e os criados de D. Aurelia,
+conduzindo na padiola o corpo quasi inanimado da desconhecida que o
+sapateiro encontrára abandonada no caminho.
+
+A irmã de Gustavo, ao sentir o ruido dos homens que entravam o portão,
+acudiu á sala de entrada, e sem attentar na pessoa que elles conduziam,
+deu ordem para transportarem a enferma para um quarto onde já havia uma
+cama preparada.
+
+A esta hora chegava tambem o medico que acudia solicito ao chamamento,
+julgando que se tratava de algum familiar da casa ou talvez mesmo da
+propria D. Aurelia.
+
+--Então, quem temos por cá doente?--disse elle ao encarar D. Aurelia--Já
+vejo que não é v. ex.^a. E antes assim.
+
+--Felizmente, doutor, não sou eu a que preciso dos seus soccorros.
+Trata-se de uma pobre creatura que foi encontrada cahida, sem accordo,
+na estrada, e que eu mandei buscar e recolher pelos meus criados.
+
+--Onde está ella?
+
+--Lá dentro, no quarto onde mandei arranjar-lhe uma cama.
+
+--Vamos vêl-a.
+
+E encaminhou-se para o interior da casa, guiado por D. Aurelia.
+
+A infeliz estava já mettida no leito, mas ainda sem dar accordo de si.
+
+Informou a criada que a despira, que a desgraçada trazia os vestidos
+rotos e sujos da terra da estrada.
+
+Vinha andrajosa. Notava-se-lhe, porém, desusado asseio nas roupas
+brancas, humildes e pobres, mas em que havia o cuidado proprio de pessoa
+que está habituada á limpeza--que é o primeiro indicio de uma boa
+educação.
+
+O medico e D. Aurelia abeiraram-se do leito e examinaram a desconhecida.
+
+Trazia os cabellos em desalinho e na face macerada e pallida havia os
+vestigios profundos de mil soffrimentos e privações.
+
+Com os olhos cerrados e a respiração quasi imperceptivel, a desditosa
+similhava um cadaver.
+
+Não era ainda idosa, mas as rugas de uma velhice precoce sulcavam-lhe o
+rosto triste.
+
+D. Aurelia fitou-a com uma compassiva curiosidade e não se recordou de
+ter visto entre os innumeros mendigos, que todos os dias lhe batiam á
+porta implorando a esmola da sua caridade, uma figura que se lhe
+assimilhasse.
+
+--Esta pobre mulher--disse ella--não deve ser d'estes sitios.
+
+--Tambem me parece--affirmou o doutor--Pelo menos, não é d'estas aldeias
+proximas onde exerço a clinica e onde conheço quasi toda a gente.
+
+--O que tem ella, doutor?--perguntou D. Aurelia ao medico, que acabava
+de auscultar a doente.
+
+--Frio e fome, talvez...--respondeu o homem de sciencia, fazendo uma
+careta--Esta mulher tem sido mal alimentada, a fadiga prostrou-a e seria
+esta com certeza a sua ultima noite, se a caridade de v. ex.^a a não
+amparasse. Vamos tratar de a restituir á vida, e encetaremos depois o
+tratamento que julgarmos conveniente... Creio, porém, que não teremos
+grande necessidade de recorrer á botica... Afigura-se-me que bastará
+apenas recorrer á cosinha...
+
+--Vou mandar-lhe já matar uma gallinha!--acudiu D. Aurelia.
+
+--Sim--approvou o doutor.--E tenha v. ex.a a bondade de mandar-me cá a
+criada, a Brigida, para me ajudar no tratamento a que vou sujeitar a
+doente.
+
+--Eu estou aqui, doutor... Diga-me o que é preciso fazer...
+
+--Não, não! A Brigida que traga um pouco de vinagre, para lhe dar uma
+fomentação nos pulsos e nas fontes, a vêr se assim conseguimos
+restituir-lhe os sentidos.
+
+D. Aurelia sahiu a chamar a criada e a dar ordem para que tratassem a
+infeliz com todo o desvelo, seguindo as indicações do medico.
+
+Pouco depois, a criada vinha annunciar á D. Aurelia que a pobresinha
+voltára a si, olhara espantada á roda do leito sem reconhecer pessoa
+alguma e sem soltar uma palavra; que o doutor lhe receitára um cordeal e
+que, tomado elle, cahira n'um somno profundo e reparador.
+
+O medico, passados instantes, confirmava estes dizeres, promettendo a D.
+Aurelia voltar no dia seguinte.
+
+--Deixem-n'a socegar--aconselhou elle--e amanhã veremos o tratamento a
+que temos de submettel-a.
+
+--Parece-lhe, doutor, que o seu estado é de inspirar cuidados?
+
+--De certo, minha senhora. Convem não lhe fallar nem obrigal-a a grande
+esforço de memoria. A pessoa que lhe servir de enfermeira deve apenas
+limitar-se a ministrar-lhe o que fôr necessario, sem a obrigar a fallar
+mais que o indispensavel. Mas por esta noite não acordará nem
+necessitará de outra coisa mais que o descanço. Amanhã voltarei. Boa
+noite.
+
+--Boa noite, doutor, e peço-lhe que tome a seu cuidado esta infeliz que
+não conheço. Seria para mim um grande desgosto que ella viesse morrer a
+minha casa...
+
+--Não morrerá, minha senhora, a não ser que outra doença mais grave
+sobrevenha. Por emquanto, o mal é este: frio e fome.
+
+--Coitadita!--murmurou compungidamente a irmã de Gustavo--E pensarmos
+que ha gente que morre pelas estradas abandonada de toda a caridade!
+
+--Minha senhora--volveu o medico philosophicamente, encolhendo os
+hombros--o mundo compõe-se de tudo... Ha gente que morre de fome e ha
+gente que morre de fartura... Os extremos tocam-se.
+
+E sahiu, embrulhado no seu capote á cavallaria, e com um _cache-nez_
+enrodilhado desde o pescoço até á ponta do nariz.
+
+--Que _barbeiro_!--disse elle, ao sentir no rosto a aragem cortante da
+noite, para o homem que á porta o esperava com o lampeão acceso afim de
+o acompanhar no trajecto até casa--Este _barbeirinho_ é o tal das
+pneumonias!
+
+No dia seguinte voltou. A doente recuperára os sentidos, mas
+apresentava-se n'um estado de abatimento e de fraqueza extraordinaria.
+
+A febre consummia-a. Delirava.
+
+Phrases entrecortadas e sem nexo escapavam-se-lhe dos labios, n'uma
+confusão que não deixava perceber-lhes o sentido.
+
+O medico observou-a longo tempo e por fim receitou um calmante,
+prohibindo que dessem de comer á enferma.
+
+--Então, doutor?--interrogou D. Aurelia.
+
+--Enganei-me, minha senhora--disse o medico--julguei que um caldo de
+gallinha e algum socego reconfortaria a nossa doente, mas vejo agora que
+o remedio não está só na cosinha, está tambem na botica.
+
+--É então grave o estado d'essa infeliz?
+
+--Gravissimo. A febre é muito violenta e desconfio bem que tenhamos de
+nos vêr a contas com uma pneumonia...
+
+--Pobre mulher!
+
+--Se v. ex.^a quer, e isso parece-me o mais sensato, é pregar com ella
+ás costas de dois homens que a levem ao hospital de Guimarães.
+
+--Oh! isso não!--fez D. Aurelia com vehemencia.--Acaso o doutor não terá
+recursos na sua sciencia para valer a essa desgraçada?
+
+--Oh! minha senhora! não se trata de mim, que estou prompto a
+soccorrel-a conforme sei e posso: o alvitre tem por fim unicamente
+evitar a v. ex.^a os incommodos e cuidados que taes casos sempre
+acarretam...
+
+--Doutor, o destino quiz que essa pobre mulher fosse recolhida em minha
+casa. Aqui será tratada com os cuidados que o seu estado requer.
+
+--Faça-se a sua vontade, minha senhora.
+
+D. Aurelia deu logo ordem para que ficasse constantemente a velar a
+enferma a sua criada de quarto, que era uma enfermeira distincta.
+
+--Que não falte nada a essa infeliz--disse a irmã de Gustavo--Não lhe
+façam perguntas indiscretas, não inquiram coisa alguma do seu passado, e
+façam-lhe comprehender que está entre pessoas amigas que se interessam
+pela sua saude e que desejam vêl-a restabelecida.
+
+Esta ordem foi cumprida rigorosamente, e ao cabo de tres dias, tendo
+diminuído a febre, a doente encontrava-se sensivelmente melhor.
+
+--Está salva--disse o medico a D. Aurelia--Agora o que precisamos é ter
+muito cuidado com a alimentação.
+
+--Tel-o-hemos.
+
+Prescreveu o regimen a seguir e tão rigorosamente foi obedecido que,
+oito dias passados, a desconhecida entrava em franca convalescença.
+
+Durante este tempo, o padre Manoel vinha todos os dias informar que o
+João Mil-homens não lobrigava viva alma na Senhora do Porto.
+
+--É escusado!--dizia o bom do parocho--aquillo foi tudo sonho do nosso
+Julio. E quem sabe mesmo se foi visão da febre que o consummia. Pobre
+homem! Eu bem lhe disse que não cahisse na asneira de se metter a
+caminho com uma noite d'aquellas... Não quiz attender, ainda é dos que
+dão credito a tolices e invenções da gente rude do povo, e o resultado
+foi cahir de cama e ficar para alli entre a vida e a morte ha uns poucos
+de dias...
+
+--Disse-me o doutor que o encontra muito melhor...
+
+--É verdade. Até já lhe deu ordem para receber o _Tomba_, que esteve
+hontem mais de uma hora em conversa com elle... E o que é mais curioso é
+que o doente, hoje, quando todos esperavam que peorasse, appareceu muito
+melhor, mais animado e com um semblante alegre e risonho.
+
+--Não pude ir vêl-o n'estes dois dias, mas talvez vá logo visital-o.
+
+--O que eu não sei é que diabo de intimidade é a do _Tomba_ com elle. Um
+homem ordinario, de baixa esphera, gosa de uma tal consideração em casa
+d'aquelle homem, que chega a espantar. Alli ha mysterio por força!
+
+--Não ha mysterio nenhum, snr. padre Manoel. Os humildes tambem teem
+direito á estima e consideração das pessoas superiores, quando possuem
+qualidades de honradez e honestidade que os recommendam...
+
+--Sim, sim... Mas não se vê isso muito frequentemente... A não ser que
+v. ex.^a queira attribuir ao _Tomba_ qualidades unicas e até hoje nunca
+vistas e apreciadas em remendão portuguez.
+
+--Não lhe attribuo qualidades nem defeitos, sr. padre Manoel... Acho
+natural que o sr. Julio de Montarroyo proteja e estime um pobre homem do
+povo, e nada mais.
+
+O padre fez uma carêta significativa.
+
+--Sim, sim, minha senhora... V. ex.^a é uma santa, acha tudo muito
+natural porque não conhece o mundo... O _Tomba_ é bom homem, não digo
+que não, mas ha muitos bons homens como elle, e não encontram o
+acolhimento de que este se póde gabar...
+
+--Nem era possivel, sr. padre Manoel... Eu, por exemplo, recolhi em
+minha casa uma pobre mulher que foi encontrada moribunda a um canto da
+estrada... Dispensei-lhe todos os cuidados e carinhos compativeis com os
+recursos de que disponho e nem sequer sei ainda quem ella é...
+
+--Quem ha-de ser? Alguma pobre mendiga, alguma desgraçada sem eira nem
+beira... Ha tantas por esse mundo!
+
+--Justamente. Ha tantas por esse mundo, e comtudo é esta a primeira que,
+em taes circumstancias, encontra abrigo em minha casa.
+
+A este tempo, appareceu a creada encarregada de tratar a desconhecida.
+
+--Minha senhora--disse ella--a nossa doente...
+
+--O que tem? Peorou?
+
+--Não, minha senhora. Até está muito melhor. Mas ha pouco perguntou-me
+onde estava, que casa era esta e quem é que a tinha trazido para aqui...
+
+--O que lhe respondeu?
+
+--Cumpri as ordens de v. ex.^a, disse-lhe que estava em casa de pessoas
+amigas e que não se affligisse, que não lhe havia de faltar nada... Mas
+ella quiz por força saber como se chamam os donos da casa... e eu
+disse-lh'o.
+
+--E então?
+
+--Mostrou-se muito inquieta e pediu para fallar á senhora...
+
+--Para me fallar a mim!--disse D. Aurelia--Pois bem; diga-lhe que vou já
+vêl-a...
+
+E voltando-se para o padre Manoel:
+
+--Tenha paciencia, meu amigo, se lhe roubo uma parte das attenções que
+lhe devo... Bem vê, a enferma está melhor, aliás teria pedido antes o
+seu soccorro espiritual...
+
+--Sinto-me lezado nos meus direitos de confessor--replicou o padre
+Manoel gracejando.--Realmente, v. ex.^a com a sua extrema caridade faz
+que os infelizes esqueçam que só aos ministros do altar devem
+confessar-se... Porque ninguem me tira da cabeça que a sua protegida
+quer fazer-lhe revelações intimas...
+
+--Talvez. E se assim fôr, creia o sr. padre Manoel que serei tão
+escrupulosa em guardar rigoroso sigillo como v. s.^a o costuma ser...
+
+--Quer dizer com isso que escuso de tentar saber o que ella vae
+confiar-lhe.
+
+--Oh, decerto! Se ella me pedir segredo, com certeza que o guardarei...
+
+--N'esse caso, minha senhora, não quero fazer esperar a sua
+confessada... E se o caso fôr de consciencia, estou bem certo que v.
+ex.^a lhe aplacará os escrupulos tão bem ou melhor do que o mais
+auctorisado mestre de casos...
+
+--O sr. padre Manuel é sempre demasiado lisonjeiro para mim--replicou D.
+Aurelia sorrindo.--Não tenho pretensões a arvorar-me em sacerdotisa.
+Faço o bem que posso e valho ao meu semelhante sempre que elle precisa
+do meu soccorro, quer temporal quer espiritual.
+
+--V. ex.^a é inquestionavelmente uma santa!--affirmou o padre sahindo.
+
+D. Aurelia passou ao quarto da doente. Ao vêl-a entrar, a desconhecida
+fitou n'ella os olhos marejados de lagrimas.
+
+A dona da casa abeirou-se do leito. A meia obscuridade do quarto não lhe
+permittia analysar as feições da enferma.
+
+--Então, como está?--perguntou a irmã de Gustavo com voz doce e
+carinhosa.
+
+--Muito obrigada, minha senhora... sinto-me melhor--replicou a doente
+com voz debil. O som d'aquella voz, porém, impressionou a dona da casa.
+Parecia-lhe que já a tinha ouvido alguma vez, que o seu timbre lhe não
+era estranho.
+
+Voltou-se para a criada e disse-lhe:
+
+--Deixe-nos sós--ordenou.
+
+--Sim, minha senhora--replicou a criada. E sahiu.
+
+--Disseram-me que queria fallar-me...--interrogou D. Aurelia com os
+olhos fitos na doente--Poderei ser-lhe util em alguma cousa?
+
+--Queria--tornou a doente--que tivesse a bondade de abrir um pouco
+aquella janella e attentar no meu rosto...
+
+D. Aurelia satisfez o desejo á doente e ficou-se fitando-a, sem poder
+reconhecel-a.
+
+--Não me conheces, Aurelia?--balbuciou a infeliz por entre
+lagrimas.--Tens razão! Estou tão mudada que nem meu proprio pae me
+reconheceria, se fosse vivo e me visse agora!
+
+E escondendo o rosto entre as mãos, desatou n'um choro convulso e
+abafado.
+
+Como se as palavras e o choro desesperado da desditosa lhe tivessem
+levado um raio de luz ao espirito, D. Aurelia gritou n'um indescriptivel
+alvoroço de espanto:
+
+--Helena de Noronha! serás tu?!
+
+--Sou eu, minha amiga! sou esta desgraçada, rôta e faminta, que vem
+receber, como supremo castigo de seus crimes, a esmola da tua compaixão!
+
+Estas ultimas palavras foram já proferidas nos braços de D. Aurelia, que
+estreitava a sua infeliz amiga ao coração, cobrindo-lhe o rosto de
+beijos e orvalhando-lh'o de lagrimas.
+
+--Vamos! não chores, minha querida--disse por fim D. Aurelia.--Quiz Deus
+que viesses a esta casa que é tua e onde encontrarás a mesma amisade
+sincera de sempre.
+
+--Obrigada... obrigada!--murmurou Helena de Noronha--Peço-te apenas que
+me deixes morrer aqui, ignorada de todos, como uma pobre mendiga que a
+miseria arrojou nos ultimos momentos ao suave aconchego do teu lar
+bemdito, da tua santa caridade!...
+
+--Não, minha amiga, não! Tu viverás, tu acharás ainda n'esta casa, que é
+tua, no meu coração que é sempre o da tua amiga d'infancia, o conforto e
+os affectos de que necessitas e de que os teus soffrimentos te fazem tão
+digna.
+
+--Sinto-me morta, minha amiga... Pouco poderei importunar-te...
+Mandei-te chamar e quiz que me reconhecesses e me ouvisses, porque não
+desejo levar para a sepultura, com o remorso de tantos erros e de tantos
+crimes, ainda mais este cruciante espinho de uma ultima ingratidão...
+
+D. Aurelia tentava socegal-a e reanimal-a com a sua amisade, com seu
+carinho.
+
+--O medico disse-me que estás melhor... Agora, o que é indispensavel, é
+muito socego, muita tranquilidade de espirito... e o restabelecimento
+far-se-ha breve e por completo.
+
+Um sorriso de amarga tristeza vincou os labios de Helena de Neronha.
+
+--Para que eu me encontre aqui, na tua casa, minha amiga, foi preciso
+que as forças me fugissem e a vida estivesse proxima a abandonar este
+misero envolucro... por tal modo desfigurado que nem tu mesma o
+reconheceste... Não te illudas, Aurelia... eu não poderei viver mais que
+alguns dias, e durante elles, deixa que eu te confie a historia das
+minhas desgraças, afim de que, ao recordal-as, tenhas ainda uma lagrima
+de compaixão para a memoria da tua desditosa e infeliz amiga d'infancia.
+
+--Eras tu a penitente da Senhora do Porto?--interrogou de repente D.
+Aurelia.
+
+--Era! Como soubeste que eu estava alli?
+
+--Não o soube. Alguem tinha a fundada suspeita de que eras tu, se é que
+não possuia a intima certeza...
+
+--Esse alguem era...?
+
+--Julio de Montarroyo...
+
+A enferma soltou um grito.
+
+--Ah! tu conhecel-o? Então sempre é certo que era elle... não foi uma
+allucinação dos meus sentidos?
+
+--Não, minha amiga, não! Julio de Montarroyo, ouvindo dizer que na
+Senhora do Porto apparecia alta noite uma penitente desconhecida e que
+ninguem lograva ver de dia, teve o presentimento de que essa penitente
+eras tu... Partiu para a Senhora do Porto, e alli te surprehendeu, ou
+antes, adivinhou-te nas trevas da noite...
+
+--Sim... sim... eu vi um homem encostado á hombreira do portico, e
+quando eu, julgando-me só, elevava áquella imagem, a minha fervorosa
+prece, ouvi uma voz que chamava por mim. Fugi espavorida e durante muito
+tempo ouvi repetir o meu nome... E a voz que o repetia parecia-me a
+d'elle...
+
+--Não te enganaste... Era elle, era Julio de Montarroyo que te chamava.
+
+--Como veio elle para aqui, para esta terra, que não era a d'elle e onde
+não me recordo de o ter visto nunca, nos tempos da minha mocidade?
+
+--Trouxe-o para aqui o coração, o desejo ardentissimo de se vêr rodeado
+de tudo o que pudesse fallar-lhe do passado da mulher que tão infeliz e
+desditosamente amou... Viver na mesma terra em que ella viveu e foi
+feliz, respirar o mesmo ar que ella respirou out'rora, amar os mesmos
+sitios que ella amou. O desgraçado julga viver assim mais perto d'ella,
+mais identificado com o pensamento e com as saudades da mulher que foi
+toda a sua esperança e que é todo o seu martyrio. «É
+impossivel--disse-me elle um dia--que ella algumas vezes não pense com
+saudade n'estes sitios, que foram o berço da sua infancia descuidosa e
+feliz. E n'esses instantes de dolorosa recordação, consola-me a ideia de
+que os nossos pensamentos se unem no mesmo objecto, através a distancia
+que os separa».
+
+Helena de Noronha chorava silenciosamente, apertando com ambas as mãos o
+coração, que parecia querer saltar-lhe fóra do peito.
+
+D. Aurelia proseguiu:
+
+--Assim, o desditoso adquiriu por todo o preço a casa que foi de teu
+pae,--que foi tua,--e n'ella vive, ou antes n'ella vae morrendo
+lentamente, ralado de dôr e de saudade...
+
+--Meu Deus! quantas victimas eu fiz!--bradou Helena de Noronha
+angustiadamente, estorcendo-se n'uma dôr incomportavel.
+
+--Vamos, minha amiga!--tornou-lhe D. Aurelia, querendo
+confortal-a.--Quiz Deus que viesses ainda a tempo de reparar o mal que
+fizeste áquelle desgraçado. A maior felicidade para elle será o tornar a
+encontrar-te.
+
+--Ah! não! não!--bradou Helena de Noronha, pondo as mãos
+supplicante:--Pelo amor de Deus, por tudo quanto mais tens amado n'este
+mundo, não lhe digas que eu estou aqui!... Morreria de vergonha, se me
+encontrasse na sua presença... Eu não sou digna d'elle... Deixa-me
+morrer ignorada de todos, minha querida Aurelia!
+
+A infeliz arfava afflictivamente, pondo na amiga os olhos turvos de
+lagrimas.
+
+--Morrer! Não falles em morrer, minha amiga... Cobra alento e pensa que
+a tua vida é ainda precisa, porque pódes ser util a alguem. Julio de
+Montarroyo ama-te com um amor que só as almas essencialmente delicadas
+conhecem e avaliam. Desde que te viu e reconheceu na Senhora do Porto,
+sem poder fallar-te, porque lhe fugiste, cahiu prostrado no leito por
+febre intensa, e ahi agonisa, apenas animado da esperança de poder ainda
+encontrar-te. Todas as noites tem sido enviado, por sua ordem, um homem
+á Senhora do Porto, a vêr se póde lobrigar-te e seguirte de longe até ao
+sitio onde costumavas occultar-te de dia. E cada manhã que o vigia
+regressa sem dar novas da penitente, é para elle uma cruel angustia que
+o approxima da sepultura. Quererás tu condemnar á morte uma vida que tão
+nobre e desinteressadamente se te devotou? Se está na tua mão minorar
+tamanho soffrimento, se com a tua presença pódes fazer voltar a
+felicidade ao coração d'aquelle desgraçado e banhar de luz e de alegria
+os ultimos dias d'aquella existencia amargurada, porque o não has de
+fazer?
+
+--Oh! não! não! É impossivel! Eu estou condemnada, minha amiga!
+Existencia maldita foi a minha em que, sem o querer, e guiada, por um
+genio infernal, só pude semear a dôr, a desolação e a morte em toda a
+parte por onde passei!... Se tu soubesses que horroroso pélago de
+crimes, de atrocidades e de infamias tenho atravessado desde que, filha
+ingrata, abandonei a casa de meu pobre pae, repelir-me-hias com asco e
+nojo! Não! não! eu não posso mais aproximar-me de quem quer que seja sem
+que o meu halito pestilencial o envenene, sem que o contacto impuro das
+minhas mãos, manchadas de sangue e de crimes, deixem em tudo o que tocam
+uma nodoa indelevel de corrupção e de infamia!... Oh! o miseravel! O
+maldito persegue-me sempre com o seu olhar de fogo, que me abrasa... com
+o seu infernal sorriso de demonio, percuciente como um punhal...
+corrosivo como um veneno! Oh! vêl-o?... vêl-o? Lá está elle, envolto na
+sua negra sotaina esfarrapada... as faces congestionadas... a bocca
+espumante de raiva... e os olhos, como carbunculos, sempre fitos em
+mim!... Desprende-se da cruz... estende para mim as garras... Oh!
+salva-me! salva-me!
+
+E n'um estranho accesso de delirio, Helena de Noronha agarrou-se
+convulsivamente á sua amiga, tombando em seguida sobre o leito, sem
+sentidos...
+
+Apavorada e attonita, D. Aurelia mandou immediatamente chamar o medico,
+a quem contou que a doente, commovida com o caridoso acolhimento que lhe
+dispensara, proferira algumas palavras de agradecimento e cahira em
+deliquio.
+
+O doutor observou a enferma e attribuiu o accidente ao seu estado de
+extrema fraqueza.
+
+--Devêmos evitar a menor commoção, o menor abalo--disse elle.
+
+Tres dias esteve Helena entre a vida e a morte, de tal modo fôra
+violento o abalo produzido pelas revelações que lhe fizera a sua amiga.
+
+A ideia de que Julio de Montarroyo estava alli a dois passos, vivendo na
+mesma terra, habitando a casa que fôra d'ella e sempre alimentando-se
+das recordações de um amor impossivel, sem remedio e sem esperança,
+matava-a.
+
+A pobre filha de Norberto de Noronha tremia só com a lembrança de que
+havia de supportar os olhares de Julio, tão franco, tão leal, tão amante
+e apaixonado e tão cruelmente illudido e ludibriado nos seus amores.
+
+Porque não lhe teria ella confessado francamente a sua situação, a sua
+desgraça, a sua queda irremediavel, quando no Sardão o mancebo lhe
+implorava de mãos postas que salvasse seu velho pae e confiasse no puro
+e desinteressado amor fraternal que lhe offerecia?
+
+Não quiz. Receou confessar-se indigna do nobre affecto que aquelle
+coração lhe tributava. E comtudo, n'esse tempo, ainda ella não passava
+de uma victima innocente, sem sombra de culpa, immolada á torpeza
+jesuitica. Como poderia ter coragem para se lhe apresentar agora, quando
+já não era só uma desgraçada a quem ludibriaram desfolhando-lhe a sua
+corôa de innocencia, mas tambem um sêr ascoroso e repugnante, manchado
+por toda a especie de crimes, semeando desolação e morte por toda a
+parte?
+
+Filha, ingrata e desobediente, occasionara a morte de seu pae. Mulher,
+leviana e perversa, lançara-se imbecilmente nos braços de um monstro de
+sotaina, sacrificando o coração e a vida de seu primo, que a adorava, e
+deixando que, na embriaguez de um mysticismo absurdo, abusassem da sua
+innocencia e a convertessem na incestuosa e infame barregã de um
+jesuita. Mãe, abandonara seu filho, repudiara-o cruelmente e, peor que
+as feras, relegara-o á fome, á miseria e á morte talvez. Amada
+sinceramente por Julio de Montarroyo, mentira-lhe, ludibriara-o, lançara
+aquella alma no desespero, na tortura de todas as horas.
+
+Adorada com louco frenesi pelo padre Hilario, convertera essa paixão
+n'um instrumento de morte. Fizera d'elle um parricida e ella propia
+manchára as mãos no sangue de um assassinio cobarde, embora justificado
+pelas monstruosas infamias e torpesas de que o miseravel a fizera alvo.
+Mas um crime não auctorisa outro e, seja qual fôr o sentimento que o
+dite, o remorso entra sempre mais tarde ou mais cedo no coração do
+criminoso.
+
+Helena de Noronha, pois, debatia-se nas angustiosas recordações de
+tantos crimes e reconhecendo-se perdida para a rehabilitação n'este
+mundo, pedia a Deus, como suprema esmola, a morte, embora esta fosse
+seguida da condemnação eterna para a sua alma.
+
+As penas do inferno pensava ella que não podiam ser-lhe mais tormentosas
+e afflictivas do que o peso d'esta existencia amaldiçoada que arrastava
+havia já dezeseis annos.
+
+Ao fim do terceiro dia, chamou junto do leito a sua amiga.
+
+--Aurelia--disse-lhe ella--tu não sabes a grande desgraçada que acolhes
+em tua casa e a quem nos ultimos dias da sua tormentosa existencia dás a
+esmola da tua compaixão.
+
+--Helena!--volveu-lhe a irmã de Gustavo--peço-te que não voltes a
+atormentar-te com as recordações do passado. Fui tua amiga e tua
+companheira de infancia, e se isto merece recompensa, dá-me ao menos a
+consolação de te poder chamar minha irmã.
+
+--Sim, minha boa e santa amiga! Acceito reconhecida os thesouros da tua
+bondade nas curtas horas que me restam de vida... É isso um signal
+evidente de que Deus se amerceia de mim e tem em conta as lagrimas e o
+arrependimento de tantos crimes...
+
+--Helena! socega, minha irmã... Tem esperança na misericordia divina que
+ha de ainda conceder-te dias venturosos.
+
+--Fazes-me um favor que te peço, Aurelia?
+
+--Dize, filha! Tu mandas n'esta casa, não pedes.
+
+--Desejava que enviasses alguem ao Porto, a saber se no convento do
+Sardão ou no das Sereias existe ainda uma superiora chamada Madre
+Paula... E se ella existir, que lhe entreguem uma carta minha...
+
+--Madre Paula!--replicou Aurelia--Existe, minha amiga, sei que existe.
+
+--Como o sabes?--interrogou alvoroçadamente Helena de Noronha.
+
+--Porque Julio teve tambem interesse em o saber e mandou ao Porto
+informar-se um homem de sua confiança, o mesmo que te encontrou
+desfallecida na estrada e que aqui te conduziu.
+
+--E esse homem viu-a, fallou-lhe?
+
+--Fallou.
+
+--Serás capaz de fazer com que elle volte a procural-a, minha amiga?
+
+--Porque não!?
+
+Fez-se um instante de silencio.
+
+--Esse homem sabe quem eu sou? Conheceu-me?
+
+--Não. Todos aqui, excepto eu, ignoram o teu nome.
+
+--Não o digas a ninguem, por ora.
+
+--Socega. Cumprirei a tua vontade.
+
+Helena de Noronha pediu papel o penna, e escreveu algumas linhas, que
+fechou em seguida n'um _enveloppe_.
+
+--Que parta sem perda de tempo!--disse ella, entregando a carta a D.
+Aurelia--Desejo que a resposta me encontre viva.
+
+O _Tomba_ partiu n'essa mesma noite para o Porto.
+
+
+
+
+XXV
+
+Pobre Helena!
+
+
+Julio de Montarroyo melhorara um pouco da febre intensa que o
+acommettera. O restabelecimento, porém, fazia-se tão lentamente, o seu
+estado de fraqueza era tal, que o medico prohibira-lhe que sahisse do
+quarto e recommendava-lhe insistentemente que se abstivesse de longas
+conversas com quem quer que fosse.
+
+Todavia, o _Tomba_ lograra fallar-lhe e informal-o de que madre Paula
+era viva e podia ser encontrada no Porto.
+
+--Fallou-lhe, mestre _Tomba_?
+
+--Fallei, snr. Julinho... saberá vossa incellencia que fallei... Fui ás
+Sereias _préscural-a_ e não estava lá... Mas eu taes intrujices armei,
+que me mandaram ó Carvalhido ter co'ella... E está ainda fresca que nem
+parece a edade que tem... Aquellas bochechas não se criam só com _auga
+benta_, essa lhe juro eu!--commentou o sapateiro.
+
+--Fallou-lhe de Helena de Noronha?
+
+--A esse respeito nem pio... Tive medo que ella soubesse ó que eu lá ia
+e se espantasse... Nada! Eu _infingi_ que ia de mando da prima de vossa
+_incellencia_, a snr.^a D. Lucilinha de Villaverde...
+
+--Ah!
+
+--Ella ficou toda _estifeita_ e tratou-me com muito bô agrado, mas a
+respeito de comer e beber... nem _burro queres tu auga_?! Eu támem não
+precisava--accrescentou--e indas que ella me offerecesse, não era o
+filho do meu pae que acceitava... Emquanto me lembrar a arriosca que me
+armaram no Sardão, não cômo nada da mão dos frades e das freiras nem que
+me matem... P'ra lição, bonda uma vez... Mas ó menos queria que ella
+tivesse um migalho de cortezia commigo...
+
+Julio ficou silencioso sem parecer ligar importancia aos queixumes do
+sapateiro escandalizado.
+
+--Precisava de ir ao Porto para lhe fallar. Mas estou tão fraco, tão
+abatido, que não posso por emquanto fazer a viagem--murmurou.
+
+--Mas o snr. Julinho queria ir ao Porto para fallar co'ella?
+
+--Sim... unicamente para fallar com ella...
+
+--Mas, o snr. Julinho, porque não lhe escreve uma carta, que eu
+levo-lh'a?
+
+--O que desejo dizer-lhe não é coisa que se escreva em carta...
+
+--Deixe lá! O preto no branco falla como gente... Sendo uma carta bem
+notada e com quatro cantigas que lhe eu cante, a mulher responde...
+
+--Não, não... É preciso ir eu...
+
+O _Tomba_ encolheu os hombros, n'um protesto mudo e disse por fim:
+
+--O snr. Julinho lá fará como entender... Eu cá estou p'ró que fizer
+_minga_. E se vê que é coisa que não se póde arranjar sem vossa
+_incellencia_ lá ir, sabe o que lhe eu digo? Coma e beba, bote as
+paixões p'ra traz das costas, que co'ellas ninguem medra, ponha-se rijo
+e teso, que a freira faz o mesmo, e ella lá está á espera...
+
+--Vá, vá, mestre _Tomba_--despediu Julio.--Deixe-se andar por ahi, que
+póde ser-me preciso de um momento para o outro...
+
+--Eu cá estou, sr. Julinho... Os amigos são p'rás _incasiões_...
+
+E sahindo dos aposentos do doente:
+
+--Este, se não trata de metter p'ró bucho alguma coisinha de sustancia,
+está aqui, está prompto... E foi o ladrão do padre _Inxelmo_ que o pôz
+assim!...
+
+De repente bateu na testa, exclamando:
+
+--Ai, a minha cabeça! E eu que não lhe dei novidades d'aquelle ladrão!
+
+Voltou atraz, bateu á porta do quarto e perguntou:
+
+--Dá licença, snr. Julinho?
+
+--Entre, mestre _Tomba_--respondeu o enfermo, da cadeira em que se
+achava sentado.
+
+--Trazia no sentido p'ra lhe dizer que a respeito de padre _Inxelmo_, é
+raça de patife de que ninguem me soube dar relações...
+
+--Já sei... já sei que esse homem ha muito que não reside no
+Porto--volveu Julio com um fundo suspiro.
+
+--Pois eu ia com meu receio de o topar lá por aquellas casas de
+_santidade_--disse o sapateiro, grifando a palavra com um sorriso--Que
+eu, se o apanhasse na rua, era _home_ p'ra lhe rachar a corôa de meio a
+meio, como quem racha cinco tostões falsos... Mas lá dentro da _seve de
+pedreiro_ é que eu não queria topal-o... Ninguem me deu noticias d'elle.
+
+--É natural--respondeu Julio.
+
+O sapateiro retirou desconsolado pela pouca importancia que Julio dera á
+descoberta.
+
+--Parece que já não se importa muito com o padre...--resmungou--_Támem_,
+n'aquelle estado, ainda que o visse e lhe quizesse chegar duas
+_galhetas_, não podia...
+
+Quando o medico soube que o _Tomba_ se demorára em conferencia com o
+doente, exasperou-se e ameaçou de não voltar a receitar, se não fosse
+obedecido.
+
+É que notára no enfermo um novo accesso de febre.
+
+Julio mostrou-se indifferente aos preceitos do doutor.
+
+--Era um favor--dizia elle--deixar que a doença acabasse com isto!...
+
+Passaram ainda uns dias, e o _Tomba_ faroleiro e mettidiço, não podendo
+ser admittido á presença de Julio, vingava-se indo para casa de D.
+Aurelia, a informar-se do estado da _probesinha_. Quando D. Aurelia o
+incumbiu de levar ao Porto uma nova carta a madre Paula, o sapateiro não
+pôde ter-se e, transgredindo os preceitos do medico, foi ter com Julio.
+
+--O sr. Julinho quer alguma coisa para madre Paula?--perguntou.
+
+--Porque? Vae fallar com ella?
+
+--Não, senhor... É que eu vou ao Porto fazer umas mercas p'rá senhora D.
+Aurelia, e se vossa _incellencia_ quizesse, eu, de caminho, levava
+qualquer recado para Madre Paula.
+
+Julio ficou pensativo.
+
+--Não... não quero nada--disse por fim--Tenho immenso desejo de fallar
+com ella; mas não posso pedir-lhe que venha do Porto aqui, ouvir-me.
+Alem de indelicado, seria inutil o pedido, tanto mais que o que tenho a
+dizer-lhe representa antes uma impertinencia da minha parte do que um
+serviço a prestar-lhe...
+
+E dizendo isto, Julio cruzou os braços e deixou descahir desalentado a
+cabeça sobre o peito.
+
+O sapateiro encarou-o com olhos compadecidos, e depois rompendo na sua
+natural expansibilidade, exclamou:
+
+--_Ameno_, sr. Julinho! O que não se faz em dia de Santa Luzia faz-se ao
+oitro dia... O sr. Julinho inda ha-de ter pernas p'ro levarem aonde quer
+ir... Mais velho sou eu, que já cá tenho _acaijo_ carro e meio d'annos,
+e inda, sendo preciso, vou d'aqui ó cabo do mundo a pé...
+
+E concluindo:
+
+--E se fosse causo que eu fallasse co'a tal freira e a _arresolvesse_ a
+vir por ahi arriba, assim como coisa minha?
+
+--Como é que você havia de fazer isso, mestre _Tomba_?--interrompeu
+Julio com um sorriso de quem achava disparatada a hypothese do
+sapateiro.
+
+--Como? Isso agora não sei eu... Mas se fosse eu que lhe pedisse como
+coisa minha... sem lhe dizer quem é que lhe quer fallar... A mim, já se
+sabe, que não me fica mal pedir uma coisa que não seja assim lá muito de
+grande inducação... Eu sou p'rá aqui um _probe_ sapateiro, fazem á de
+conta que eu não sei o que digo... e ás vezes pegam as bichas.
+
+--Não, não, mestre _Tomba_, não pense n'isso, que é uma coisa que não
+pode fazer-se...
+
+--Está bô! Vossa _incellencia_ que o diz, lá sabe a _rezão_ porquê...
+
+O _Tomba_ partiu para o Porto muito resolvido a envidar todos os
+esforços para conseguir que madre Paula visitasse Julio de Montarroyo.
+
+--Eu armo-lhe uma intrujice e ella cae logo--pensava elle.--Entrego-lhe
+a carta da snr.^a D. Aurelia e logo vejo na cara os _himores_ de que
+ella fica... Estas freiras são amigas de saber e de tirar nabos do
+pucaro... e eu a paginas tantas ferro-lhe com a pêta de que a Lucilinha
+está muito mal e que lhe manda pedir de bocca--porque não póde
+escrever--se ella faz o favor e a esmola de a ir visitar, porque tem
+umas coisas de muita importancia a dizer-lhe e não queria morrer sem a
+vêr alli ó par d'ella... A freira vem, e eu, em vez de a levar p'ra
+Villaverde, ferro com ella em S. Martinho do Campo... Depois digo que me
+enganei no caminho e passe por lá muito bem...
+
+E contente d'esta esperteza, o _Tomba_ achava impossivel que a sua
+lembrança não produzisse resultado.
+
+--Coitado do snr. Julinho, que está p'ra alli, que é mesmo uma dôr de
+coração, morto por desabafar, e não vê meio de fallar c'oa madre Paula,
+senão indo elle aonde a ella... Pois vamos a vêr se eu tenho labia p'rá
+trazer cá... Ella inda está bem rija e fera, póde melhor andar do que
+elle... Ora deixa que eu sempre quero vêr se uma coisa que se me mette
+em cabeça hade ficar assim em _augas_ de bacalhau!
+
+Chegado ao Porto, o _Tomba_ encaminhou-se á Bandeirinha, bateu á porta
+da casa conventual das Sereias, e pediu para fallar a madre Paula.
+
+A madre porteira informou-o de que a superiora estava no campo, a ares;
+e que não era esperada ainda por aquelles dias...
+
+Atravessou a cidade em direcção ao Carvalhido onde já fallára com a
+madre Paula dias antes, e disse ao criado que veio abrir-lhe a porta:
+
+--Faça favor de dizer áquella senhora com quem fallei oitro dia que está
+aqui o homem de Villaverde com uma carta para ella.
+
+O criado foi e voltou pouco depois.
+
+Na mesma sala em que já fôra recebido uma vez, estava madre Paula. O
+sapateiro reconheceu-a o cumprimentou-a festivo e humilde, com grande
+profusão de zumbaias.
+
+--Ora atão vossa reverendissima e incellentissima madre como passou?
+Passou bem?
+
+--Obrigada, passei bem--respondeu madre Paula com risonho semblante.
+
+--Pois eu támem passei bem, muito aguardecido á senhora... A menina de
+Villaverde manda muitas _bugitas_ á senhora madre e mais esta
+cartinha...
+
+E entregou-lhe a carta de que era portador. Madre Paula abriu-a e com
+grande surpresa leu:
+
+
+ «_Minha querida Paula_:
+
+
+«Lembras-te ainda d'aquella desgraçada _irmã Dorothêa_ que no seculo se
+chamou Helena de Noronha? Se da tua memoria não se deliu ainda o nome da
+tua pobre amiga e desejas receber d'ella o supremo adeus, vem depressa,
+antes que a morte lhe gele nos labios as revelações que deseja fazer-te
+e que só tu poderás receber.
+
+Não te demores, minha querida! Sinto que a vida me foge, e, se não vens
+immediatamente, receio bem que apenas possas abraçar o cadaver da
+
+ Tua
+ _Helena_.»
+
+
+--Minha pobre Helena!--murmurou attonita madre Paula, fixando na carta
+os olhos turvos de lagrimas.
+
+E voltando-se para o sapateiro:
+
+--Onde está ella?--perguntou.
+
+--Quem? A menina de Villaverde? Está em S. Martinho de Campo, que é alli
+adiante da Povoa de Lanhoso...--principiou o _Tomba_, pondo em prática o
+seu plano de arrastar a religiosa á presença de Julio.--Ella deu-me essa
+carta muito afflicta p'rá vir trazer á senhora madre, porque ella foi
+p'ra lá tratar de uma _probe_ senhora que está lá a morrer... E
+_díxe-me_ de bôcca: «Diga á madre Paula--e senhora na _presencia_--que
+lhe mando pedir se ella me póde fazer o favor de cá vir fallar commigo,
+que eu pago todas as despezas de _camboio_ e de carro p'ra cá e p'ra lá,
+que é um negocio de muita circumstancia e de muito interesse p'rá santa
+religião, o que lhe eu quero dizer... Agora a senhora madre lá verá...
+Mas ella _dixe-me_ isto co'uma cara tão afflicta, que eu inté lhe
+dixe:--_Esteje_ descançada, menina, não se _affleija_, que a snr.^a
+madre Paula não tem _caratle_ de dezer que não a uma coisa d'essas...»
+
+--Sim... sim, eu vou!--exclamou madre Paula sensibiliaada--A que horas
+temos comboio?
+
+--Temos agora ahi um da tarde, depois das quatro horas... Se a senhora
+madre quizer, inda hoje chegamos lá, porque a gente vae d'aqui _dereito_
+a Guimarães e de lá mette-se n'um carro, vamos pelas Taypas e quando
+forem oito ou nove horas da noite, estamos lá...
+
+--Pois bem; vocemecê demore-se. Eu vou mandar que lhe deem de comer e...
+
+--Comer? Nada, minha senhora! Muito aguardecido, mas á minha bocca é que
+não vae nada, seja pelo que fôr!--interrompeu o _Tomba_ horrorisado, ao
+lembrar-se da cilada do Sardão.
+
+--Porque? Vocemecê jantou?
+
+--Não, minha senhora... eu cá não jantei nem janto... É costume que não
+tenho... já estou desafeito...
+
+--O que! está desafeito de comer!?
+
+--Quero dezer, minha senhora, eu jejuo... É uma _promessia_ que fiz de
+jejuar dia sim, dia não... e hoje é o dia do sim...
+
+Madre Paula, muito preoccupada com a extraordinaria carta que acabava de
+receber, não prestou attenção á estranha physionomia do sapateiro
+recusando a refeição que se lhe offerecia.
+
+--Pois então, se jejua, não quebre o seu jejum, meu irmão. Mas tem de
+esperar que eu me aprompte para a partida...
+
+--Ó reverendissima madre, eu espero o tempo que fôr preciso... Lá p'rá
+amor d'isso, não seja a duvida.
+
+--Sente-se então ahi ou vá até lá fóra, á quinta.... Como quizer.
+
+Dito, isto Madre Paula dirigiu-se a uma sala interior onde se encontrava
+o padre Filippe conversando familiarmente com Paulo de Noronha e Jorge
+de Gusmão.
+
+--Sr. Padre Filippe--pediu ella--vossa reverendissima faz-me a fineza de
+me conceder alguns minutos de attenção em particular?
+
+--Pois não, minha senhora!--respondeu o padre gentilmente.
+
+Paulo e Jorge levantaram-se.
+
+--Dêem-me licença, meus amigos--disse-lhes a abbadessa--que lhes roube
+por um curto instante a interessante conversa do snr. padre Filippe.
+
+E dirigindo-se a Paulo:
+
+--Vae, meu filho, vae até á bibliotheca com o teu amigo a quem pedirás
+desculpa da minha impertinencia...
+
+Quando os dois sahiram, madre Paula, voltando-se para o Padre Filippe,
+exclamou:
+
+--Helena de Noronha, a _irmã Dorotheia_, vive ainda!
+
+--Como o sabes?--perguntou o padre Filippe surprehendido.
+
+--Lê!
+
+E apresentou-lhe a carta de Helena.
+
+O padre Filippe leu, examinou detidamente a carta e disse:
+
+--É a letra d'ella!
+
+--É, não ha duvida... Minha pobre Helena!
+
+--E o que tencionas fazer?
+
+--O portador está lá fóra... E, pois que ella está a morrer, quero
+pedir-te, meu bom amigo, que me acompanhes a ir visital-a...
+
+O padre Filippe, com a despreoccupada bondade que lhe era natural,
+respondeu sem hesitar:
+
+--Do melhor grado te acompanharei, minha querida Paula. Quando queres
+partir?
+
+--Hoje mesmo.
+
+--Porém, Beatriz?...
+
+--Beatriz ficará em companhia de madre Angelica das Sete Dores, que é,
+como sabes, austera e de são conselho.
+
+--Pois sim.
+
+--Vou mandal-a chamar já e dar-lhe as instrucções precisas... De resto,
+a nossa demora será curta, porque a pobre Helena acha-se moribunda, como
+ella propria o diz...
+
+--Convem prevenir Paulo da nossa ausencia e pedir-lhe que se abstenha de
+vir visitar Beatriz emquanto nós não regressarmos...
+
+Madre Paula sorriu.
+
+--E porque não ha de vir?
+
+--É preciso confiarmos nos sentimentos de nobre lealdade d'esse rapaz, e
+não o prevertermos com a suspeita que uma tal prohibição traduziria...
+
+--Dizes bem.
+
+--Minha pobre Helena! Que mysteriosa cadeia de soffrimentos a conduziu
+até ao leito de morte d'onde agora me chama na agonia do traspasse?
+
+
+
+
+XXVI
+
+Um amigo dos diabos
+
+
+Na tarde d'esse dia, madre Paula e padre Filippe, convenientemente
+disfarçados sob os trajes seculares e guiados por mestre _Tomba_,
+tomavam na estação do Pinheiro, em Campanhã, bilhetes para Guimarães,
+por ser o caminho que mais rapidamente os levaria a S. Martinho de
+Campo.
+
+O sapateiro, persuadido de que fôra elle quem conseguira resolver a
+superiora das Sereias a esta viagem, pois ignorava inteiramente o
+conthéudo da carta de que fora portador, ia radiante e vaidoso da sua
+astucia.
+
+A principio observou com desgosto e desconfiança o padre Filippe, em
+quem suspeitava um segundo tomo do padre Anselmo. Essa suspeita, porém,
+em breve se lhe desvaneceu, em presença da attitude lhana e amavel do
+secerdote.
+
+--Este parece que é vinho d'outra pipa!--commentou comsigo o
+sapateiro--Mas _támem_ se o não fôr, o que eu quero é lá pilhal-o,
+porque, depois, quem manda é o sr. Julinho e mais eu... E se se fizer
+fino, lá ainda ha de haver quem lhe troque a corôa em mindos p'ra lhe
+metter juizo á força na cachola...
+
+Passadas as primeiras estações, o sapateiro tornou-se loquaz e palrador.
+Dando largas ao seu genio communicativo e alegre, ia dando informações
+pelo caminho aos seus dois companheiros. Conhecia todas as propriedades
+e nomeava-lhes os donos pelo nome. Este era muito _bô_ sujeito; aquelle
+_támem_ não era mau, mas andava em demanda com os cunhados á conta das
+partilhas por morte da sogra. Emfim, elle conhecia toda a gente e de
+tudo dava relação exacta e minuciosa.
+
+Quando chegaram a Guimarães, o _Tomba_ perguntou se queriam descançar um
+pouco no _hotle_ ou se queriam seguir logo para S. Martinho.
+
+--É muito longe d'aqui lá?--? perguntou o padre Filippe.
+
+--É alli logo _adiente_ das Taypas... Se o cocheiro bater bem, chegamos
+lá em tres horas.
+
+--Então é melhor que partamos já.
+
+O _Tomba_, solicito, fretou um carro em que entraram os tres, com
+recommendação ao cocheiro de que urgia chegar breve.
+
+Ás 9 horas da noite, o carro parava á porta de Julio de Montarroyo.
+
+O _Tomba_, sempre movido do pensamento de surprehender agradavelmente o
+seu amigo e protector apresentando-lhe madre Paula em casa quando elle
+menos o esperava, em vez de parar á porta de D. Aurelia, guiou os seus
+companheiros para a antiga casa de Norberto de Noronha.
+
+O sapateiro introduziu madre Paula e o padre Filippe na primeira sala,
+pedindo-lhes que se demorassem, que elle ia dár parte á senhora. E quasi
+sem esperar resposta e desrespeitando todas as prescripções medicas,
+entrou impetuosamente no quarto de Julio de Montarroyo, exclamando:
+
+--Ora, sr. Julinho, os amigos conhecem-se nas _incasiões_, e o _Tomba_,
+com um raio de diabos! p'ra servir um amigo é capaz de dar uma volta no
+inferno! Cá está ella!
+
+--Ella, quem?--interrogou Julio de Montarroyo.
+
+--A madre Paula, com seiscentos livros de missa!
+
+Julio de Montarroyo encarou espantado no sapateiro, suspeitando que elle
+tivesse endoidecido.
+
+--Mas está onde, mestre?--perguntou.
+
+--Alli fóra, sr. Julinho, alli fóra na sala... Vem acompanhada com um
+padréca, mas não tem _duveda_... Quer que os mande entrar p'ra aqui?
+
+--Você falla serio, mestre Tomba?
+
+--Ó sr. Julinho, isso não são coisas que vossa _incellencia_ me diga a
+mim na minha cara!--exclamou o sapateiro escandalisado--Pois eu ando por
+lá a dar voltas ao miolo p'ra lh'a trazer,--que suei e tornei a suar
+primeiro que a _arresolvesse_--e o snr. Julinho, chego aqui, e não me
+quer _acuarditar_?! Eu serei capaz de lhe _dezer_ uma coisa por oitra,
+sr. Julinho?
+
+--Está bem, mestre...--tornou Julio--Não vale a pena zangar. Eu vou
+immediatamente cumprimentar essa senhora...
+
+--Olhe lá, ó sr. Julinho--observou o sapateiro detendo-o quando elle ia
+já a transpôr a porta do quarto--eu enganei-a!
+
+--Enganou-a?
+
+--Disse-lhe que estava cá a _irmã Dorotheia_, muito doente e que lhe
+mandava pedir p'ra ella cá vir vê-a... Ora agora, o sr. Julinho arranje
+lá as coisas de modo que não me deixe ficar por mentiroso...
+
+--Você está doido, mestre? Como quer que eu sustente essa mentira, se
+Helena não está aqui nem eu tenho noticias d'ella?
+
+--Não sei, sr. Julinho... Diga-lhe que ella já morreu e que se enterrou
+_honte_ á noite... Eu cá por mentiroso é que não hei-de ficar, senão
+ellas, em me apanhando lá outra vez, são capazes de me dar uma coça...
+
+--Descance, mestre; eu vou fallar com madre Paula.
+
+E deixando o sapateiro, entrou na sala onde se encontravam a religiosa e
+o seu companheiro.
+
+Padre Filippe, que o não conhecia, limitou-se a observal-o com
+curiosidade.
+
+--V. ex.^a certamente não reconhece n'este velho o moço que ha desoito
+annos teve a honra de admirar na gentil superiora do Sardão uma das mais
+austeras religiosas que em sua vida lhe foi dado cumprimentar?--disse
+Julio de Montarroyo, dirigindo-se a madre Paula, ao mesmo tempo que
+saudava com uma reverente inclinação de cabeça o padre Filippe.
+
+--Está v. ex.^a enganado, sr. Julio de Montarroyo--replicou madre Paula
+recobrando a serenidade--Reconheço-o perfeitamente, e é com verdadeira
+satisfação que torno a vel-o, se bem que estava longe de o encontrar
+aqui.
+
+--A surpreza, portanto, é para nós dois, pois que eu tambem, apezar do
+vivo desejo que sentia de fallar a v. ex.^a, não podia esperar a subida
+honra que me dá da sua caridosa visita... E digo caridosa, porque
+visitar um enfermo nas minhas condições é verdadeiramente uma obra de
+caridade, que só as almas sinceramente religiosas como a de vossa
+excellencia sabem comprehender e praticar.
+
+Madre Paula escutava-o sem o comprehender.
+
+Julio de Montarroyo offereceu o sophá aos seus hospedes.
+
+--Dignem-se v. ex.^{as} sentar-se, e, pois que me dão a honra da sua
+visita, permittam-me que os considere meus hospedes por alguns dias.
+Esta casa é pobre. Ha aqui o triste desconforto das casas da provincia
+que não teem a direcção intelligente de uma mulher a governal-as.
+
+No entanto, dois titulos tornam digna esta desconfortavel habitação da
+subida honra de abrigar sob o seu tecto a superiora do Sardão: o
+primeiro vem a ser o soccorro espiritual prestado a um enfermo que
+ardentemente o deseja e implora; e o segundo o facto de ter sido esta,
+outr'ora, a casa de uma das amigas mais intimas de v. ex.^a, a _irmã
+Dorotheia_, conhecida no seculo por Helena de Noronha.
+
+--Helena!--bradou madre Paula--Onde está ella? Peço-lhe que me conduza
+sem demora até junto do seu leito. Mal soube que estava doente, accorri
+immediatamente ao seu chamamento, e tenho fé que a minha presença ha de
+fazer-lhe bem, ha de melhoral-a...
+
+Julio de Montarroyo encarou com insistencia a abbadessa.
+
+--V. ex.^a não sabe onde está Helena de Noronha?--perguntou elle.
+
+--Julguei encontral-a nesta casa, d'onde me escreveu a chamar-me e onde
+me disseram que estava.
+
+--D'onde lhe escreveu, diz v. ex.^a?
+
+--Sim. Eis aqui a carta que hoje mesmo recebi pelo homem que aqui nos
+conduziu.
+
+E madre Paula apresentou a Julio de Montarroyo, estupefacto, a carta de
+que o _Tomba_ fôra portador.
+
+--É a lettra de Helena!--exclamou Julio n'um brado de alegria
+extrema--Não ha duvida, Helena escreveu esta carta... Mas onde está
+ella?--perguntou por sua vez tambem.
+
+--Pois deveras Helena de Noronha não está aqui?--interrogou ainda madre
+Paula, tomada de estranha surpreza.
+
+--Não, minha senhora--volveu Julio--e até eu ignoro como e de que
+maneira esta carta pudesse ser-lhe enviada por Helena, de quem não tenho
+noticias ha dezoito annos! Esperava eu que v. ex.^a, compadecida do meu
+estado de doença e do muito que tenho soffrido no esforço inutil de
+encontrar a filha de Norberto de Noronha, se dignasse dar-me quaesquer
+indicações que me permitissem fallar-lhe ou escrever-lhe ainda antes de
+morrer.
+
+E com uma eloquencia febril, contou em rapidas palavras tudo o que lhe
+succedera nos desoito annos decorridos e que o leitor não ignora, por já
+lh'o ter ouvido contar a Gustavo de Magalhães.
+
+--Agora--concluiu--alquebrado, doente, com poucos dias de vida, todo o
+meu empenho era procurar v. ex.^a e pedir-lhe, por tudo quanto mais ama
+no mundo, que me dissesse se Helena de Noronha vive ainda ou se devo
+procural-a no mundo dos espiritos...
+
+--O homem que aqui nos guiou é que foi portador d'esta carta. Elle
+portanto, poderá dizer quem lh'a entregou e onde se encontra quem a
+escreveu...--explicou madre Paula, de cada vez mais attonita e
+surprehendida.
+
+--Tem v. ex.^a rasão. Vou mandal-o chamar á sua presença, e elle
+explicará...
+
+Julio levantou-se, tocou uma campainha e ordenou ao criado que appareceu
+á porta da sala:
+
+--Diga ao mestre _Tomba_ que venha cá.
+
+Pouco depois apparecia á porta o sapateiro com o ar petulante de quem
+está resolvido a dizer tudo sem rodeios, e a assumir inteira
+responsabilidade dos seus actos.
+
+--O sr. Julinho, chamou?
+
+--Chamei, mestre. Venha cá...
+
+--Prompto!
+
+E o sapateiro avançou dois passos na sala, de cabeça erguida e olhar
+firme.
+
+--Então como é isto?--ia Julio a dizer.
+
+Mas o sapateiro interrompeu-o, sem o deixar concluir.
+
+--Então como hade ser? Fui eu que armei esta _trempe_, p'ra fazer que
+aqui a nossa reverendissima madre e mais este reverendissimo sr. padre
+viessem á _presencia_ do sr. Julinho... Vossa _incellencia_ estava todos
+os dias a appellidar por ella, que a queria vêr, que lhe queria fallar e
+que morria sem _estifazer_ o seu desejo... Vae eu _atão_ disse comigo:
+«Se eu, armar uma pêta bem arranjada e disser á nossa reverendissima
+madre que é a sr.^a D. _Helenia de Laronha_ que está a dar a alma a
+Deus, ella larga barcos e redes e vem por ahi fóra atrás de mim, que é
+um ar que lhe dá... Ponto é que ella me _acuardite_... Vamos a vêr se as
+bichas pegam... Fui e as bichas pegaram. Ella aqui está... Agora o sr.
+Julinho diga o que tem a _dezer_, e se eu fico por mentiroso, é o
+mesmo... Se quer ó menos, _intrujei_, mas foi p'ra _estifazer_ a ultima
+vontade a vossa _incellencia_... Agora já póde morrer descançado.
+
+--Mas venha cá, _Tomba_, como arranjou você a carta de Helena de
+Noronha?
+
+O sapateiro arregalou os olhos:
+
+--A carta da sr.^a D. _Helenia_? A carta não é d'ella!
+
+--Como não é d'ella?
+
+--Não é d'ella, já lhe disse! Assim um raio venha que nos parta aqui a
+todos, se eu vi a sr.^a D. _Helenia_ ou sequer alguem me boquejou a
+respeito d'ella!
+
+--Mas esta carta--disse madre Paula--foi-me entregue por vocemecê...
+
+--Isso é oitra coisa...--tornou o sapateiro--Mas as cartas são papeis...
+Essa carta não é da sr.^a _D. Helenia_.
+
+--Não é!--exclamou Julio--Mas a lettra e a assignatura são d'ella. Como
+arranjou você esta carta?
+
+--São d'ella!?--disse por sua vez o _Tomba_ muito admirado.
+
+--Se esta carta não é escripta por Helena--tornou Julio de
+Montarroyo--então alguem lhe imitou a lettra e a assignatura. O mestre
+dirá quem foi...
+
+--E a carta o que diz, ó sr. Julinho?--interrogou o sapateiro com grande
+interesse.
+
+--Pois você não o sabe, mestre?
+
+--Eu não, senhor! Cego seja eu e o meu Santo Antonio, que está lá
+dentro, permitta que eu não arranje mais cinco réis d'esmola em toda a
+minha vida, se eu sei o que ella diz... Eu levei-a fechada, não a abri
+para a mandar lêr, como hei-de eu adivinhar o que ella diz?
+
+Julio percebeu que o sapateiro fallava verdade, e de cada vez mais
+surprehendido pela ignorancia do mestre sobre o contheudo da carta,
+resolveu-se a esclarecel-o.
+
+--Esta carta é assignada por Helena de Noronha e pede á virtuosa madre
+Paula que venha junto ao seu leito de agonia dizer-lhe o ultimo adeus...
+
+--Ella diz que está doente?
+
+--Diz que está a morrer...
+
+O sapateiro bateu uma palmada na testa com expansão:
+
+--Quer vossa _incellencia_ vêr que é ella!?--exclamou--Pois não é oitra
+coisa. É ella! Oh! com um raio de diabos! E eu aqui a dois passos, e sem
+o saber! Que grande cabeça de burro eu sou! Pois é ella, não ha que vêr!
+
+--Ella quem?--interrogou anciosamente Julio.
+
+--A doente que está em casa da sr.^a D. Aurelia! Ora... ora esta! E fui
+eu que dei co'ella na estrada, como morta, sem dar por burro nem por
+albarda...
+
+E depois, n'um movimento de duvida:
+
+--Mas olhe lá, ó sr. Julinho, a carta diz isso?
+
+--Sem duvida, mestre, a carta é de Helena... Diz que está doente e pede
+a madre Paula que venha vêl-a...
+
+--Agora... agora! Por isso vossa reverendissima se pôz tão prompto para
+me acompanhar... Cá me queria parecer!... E eu a cuidar que era eu que a
+trazia ao engano!... Sou esperto, não tem duvida! Posso ir p'ró diabo
+que me carregue e mais a minha esperteza!
+
+--Mas venha cá, mestre _Tomba_... explique-nos que doente é essa de que
+está fallando... Eu não sei nada!
+
+--Pois se vossa _incellencia_ tem estado ás portas da morte, vae hoje,
+vae amanhã, e todos me _deziam_ que não lhe dissesse nada nem lhe
+_trouvesse_ novidades, que podia ser ás vezes dar-lhe uma coisa pela
+cabeça e alimpal-o ainda mais depressa... como é que eu havia de lhe vir
+contar o que era passado? Mas agora é que eu percebo a _tramoia_...
+Antão lá vae!
+
+O sapateiro contou como encontrára inanimada no caminho, quando
+regressava, do Porto, uma pobre mulher desconhecida e andrajosa, que
+fôra recolhida por caridade em casa de D. Aurelia onde ainda se
+encontrava.
+
+--E atão agora está tudo explicado.--concluiu--A snr.^a D. Aurelia foi
+que me mandou ao Porto entregar essa carta aqui á snr.^a madre, mas sem
+me dizer de quem era... Ora, se o sr. Julinho diz que a carta foi
+escrevida pela snr.^a D. _Helenia_, _atão_ a coisa está bem clara: a
+doente que lá está e que eu topei na estrada é ella!
+
+Julio ouvira com extraordinaria commoção a narrativa do sapateiro.
+
+--Ah! meu Deus!--exclamou--até que emfim a encontro!
+
+E voltando-se para madre Paula:
+
+--Minha senhora, pois que foi chamada por Helena, cumpre-me conduzil-a á
+casa onde ella se encontra.
+
+Minutos passados, madre Paula, padre Filippe e Julio de Montarroyo,
+acompanhados por mestre _Tomba_, entravam em casa de D. Aurelia.
+
+A irmã de Gustavo veio recebel-os ao salão d'entrada, e não ficou pouco
+surprehendida quando Julio de Montarroyo lhe disse:
+
+--Minha amiga, tenho a honra de lhe apresentar madre Paula, virtuosa
+superiora da casa conventual das Sereias, no Porto, amiga intima de
+Helena de Noronha, que, segundo creio, se hospeda na casa de v. ex.^a...
+
+E indicando o padre Fillipe:
+
+--E este cavalheiro é o sr. padre Filippe, respeitavel sacerdote que
+teve a amavel complascencia de acompanhar esta senhora na visita á sua
+amiga.
+
+D. Aurelia cumprimentou os visitantes, relanceando um olhar de censura
+ao _Tomba_ que, interdicto, coçava na orelha, como quem comprehendia que
+tinha feito asneira.
+
+--É verdade--disse por fim D. Aurelia--que tenho em minha casa Helena de
+Noronha; e se d'isso não informei immediatamente, como desejava, o snr.
+Julio de Montarroyo, foi devido a duas considerações imperiosas: a
+primeira foi o facto de Helena, que recolheu doentissima e em perigo de
+vida a minha casa, me haver supplicado que não divulgasse, fosse a quem
+fosse, a sua estada aqui; e a segunda foi a circumstancia do snr. Julio
+de Montarroyo se achar gravissimamente enfermo e haver especial
+recommendação do seu medico para que lhe não dessem noticia que pudesse
+causar-lhe qualquer abalo moral, porque isso poria em perigo a sua
+existencia.
+
+--Oh!--protestou Julio--pois se toda a minha doença era não ter noticias
+de Helena!
+
+--Helena, cuja vida continua ainda em perigo--proseguiu D.
+Aurelia--pediu-me que fizesse entregar no Porto a madre Paula uma carta
+que ella mesma escreveu e cujo contheudo eu ignoro...
+
+--Essa, carta, minha senhora--disse madre Paula--eil-a aqui. Por ella
+verá v. ex.^a que Helena reclama a minha presença...
+
+E apresentou-lhe a carta que D. Aurelia recusou delicadamente com um
+gesto.
+
+--Por Deus, minha senhora! Eu não duvido um momento da sua palavra...
+Simplesmente o que devo é prevenir v. ex.^a do melindroso estado de
+saude da nossa pobre amiga... Qualquer abalo, qualquer commoção violenta
+póde matal-a...
+
+--Mas se Helena espera a visita de madre Paula--objectou Julio.
+
+--Espera a visita de madre Paula, mas não espera a de v.
+ex.^a...--retorquio D. Aurelia.--Era justamente essa surpreza que me
+parecia bem poupar-lhe por emquanto...
+
+--Decerto!--atalhou madre Paula.--Nem eu creio que o snr. Julio de
+Montarroyo, que é tão dedicado a Helena, pense em lhe aggravar a
+enfermidade apresentando-se-lhe, sem ella estar preparada para isso...
+
+Julio de Montarroyo exclamou n'um accesso de exaltação febril:
+
+--A minha vida pela d'ella! Digam-me que é preciso fazer saltar os
+miolos para salvar Helena e eu não hesitarei um instante!
+
+--Socegue, socegue, meu amigo, que não será preciso recorrer a esse
+extremo, para termos a nossa querida doente restabelecida dentro em
+pouco. Aqui o que é preciso é evitar-lhe qualquer sobresalto ou commoção
+que possa aggravar-lhe a doença... V. ex.^a não imagina o estado em que
+a pobresinha se encontra. Eu mesma, quando aqui m'a apresentaram, não a
+reconheci... Foi ella que só passados dias se deu a conhecer, porque se
+tal não fizesse, ainda agora eu estaria na ignorancia de quem ella
+fosse.
+
+--Pobre Helena!--exclamou madre Paula.
+
+--Parece-me, pois, tornou D. Aurelia--que seria bom dispôr a nossa
+doente para receber a visita da sua amiga. Emquanto ella a espera,
+convem prevenil-a com cuidado...
+
+--Sim... sim!...--concordou madre Paula.
+
+D. Aurelia voltou-se para Julio e com um sorriso amavel:
+
+--Tenha paciencia, meu amigo... Já não é pequena felicidade para o seu
+coração o saber que Helena vive, está aqui entre nós e que, dentro
+d'alguns dias, poderá vêl-a e fallar-lhe. O que é preciso é que v. ex.^a
+mesmo tenha cuidado com a sua saude e trate de se restabelecer, livre de
+apprehensões e de tristezas que já não têm razão de ser.
+
+E a um gesto de assentimento de Julio de Montarroyo, que se inclinou em
+silencio, proseguiu:
+
+--Deem-me licença que eu vá junto da minha amiga, tratar de a predispôr
+para receber sem grande surpreza a virtuosa madre Paula. Escuso
+dizer-lhes que os considero meus hospedes n'esta casa e que vou tambem
+dar as ordens precisas para serem convenientemente installados.
+
+Fez uma ligeira mesura e sahiu.
+
+D'ahi a instantes, a criada de quarto de D. Aurelia entrava na sala a
+indicar aos hospedes que os seus aposentos estavam preparados.
+
+
+
+
+XXVII
+
+Duas amigas
+
+
+No dia seguinte, muito cêdo ainda, Helena de Noronha que passára a noite
+socegada, accordou inquieta e perguntou á creada se já tinha chegado uma
+senhora que devia vir do Porto.
+
+--Não sei, minha senhora--respondeu a creada que estava já
+prevenida--mas eu hei-de dizer que senti ha pouco parar um trem ao
+portão...
+
+--Oh! vá saber sem demora--pediu Helena--e se fôr a pessoa que eu
+espero, diga a sua ama que lhe peço para a fazer entrar aqui o mais
+depressa possivel...
+
+A creada subiu a cumprir a ordem recebida. Pouco depois entrava a dona
+da casa.
+
+--Veio?--perguntou-lhe Helena.
+
+--Dá-me alviçaras, minha amiga--disse D. Aurelia alegremente--porque,
+contra a tua espectativa, madre Paula está n'esta tua casa!
+
+Helena levantou-se a meio no leito.
+
+--Por Deus, minha filha, diz-lhe que entre... que entre já!
+
+Madre Paula, que ficára occulta com o reposteiro, penetrou de um salto
+no aposento, dizendo:
+
+--Não é preciso, minha querida Helena, não é preciso, porque a tua amiga
+está aqui!
+
+--Paula!--exclamou Helena, estendendo para ella os braços, n'um alvoroço
+de indizivel contentamento.
+
+Estiveram assim as duas amigas por muito tempo abraçadas, n'um silencio
+apenas cortado pelos soluços que se escapavam do peito de ambas.
+
+D. Aurelia assistia commovida a esta scena de uma terrivel eloquencia na
+mudez d'aquellas lagrimas que ambas vertiam ao abraçarem-se.
+
+Por fim, foi Helena quem rompeu o silencio, exclamando:
+
+--Vieste ver-me, minha amiga... Bem hajas pela caridade com que
+attendeste o meu pedido!
+
+--Minha pobre Helena!--respondeu madre Paula--quantas vezes me tens
+lembrado nos longos dezesseis annos da tua ausencia! Procurei por mil
+modos saber noticias tuas... Tudo inutil!... Ninguem me dava relação de
+ti, ninguem te conhecia, ninguem sabia para onde tinhas partido...
+
+--Fiz uma viagem muito longa, minha amiga... tão longa que só devia
+terminar no começo desta outra viagem mais longa ainda, que vou
+emprehender...
+
+--O que! pois não ficas ainda aqui? Tencionas partir outra
+vez?--perguntou madre Paula admirada.
+
+--Sim... vou partir e d'esta vez para nunca mais voltar... Vou
+emprehender a eterna viagem do sepulchro... Por isso te pedi que
+viesses...
+
+--Morrer!--exclamou a abbadessa--que extranha fraqueza é essa? A vida
+chama-te ainda, minha querida... Tu és nova, és forte, és ainda uma
+mulher valida, tens um espirito são, uma alma extraordinariamente
+bella... Chama a ti todas as energias, reage contra os soffrimentos,
+oppõe ás violencias da dôr que te avassala, a força suprema da tua
+vontade e triumpha do abatimento physico pela energia moral.
+
+Helena tornou a sorrir o sorriso triste dos que não se illudem na
+approximação do seu fim.
+
+--Tu é que estás ainda a mesma, minha querida!--disse ella.--Não parece
+que passaram por ti dezesseis annos desde que nos separámos...
+
+--Os meus cabellos branquearam um pouco, porque ninguem resiste
+impunemente á acção do tempo--replicou madre Paula--mas, comquanto um
+pouco mais velha que tu, não penso ainda na morte...
+
+D. Aurelia, sentindo-se de mais n'aquelle colloquio entre as duas
+amigas, que certamente tinham mais importantes assumptos a tratar,
+interveio pedindo que a dispensassem por um instante, pois tinha que
+ordenar serviços domesticos da maior urgencia.
+
+--Espera!--replicou Helena--deixa-me primeiro dizer á minha Paula quem
+tu és...
+
+--Não é preciso--accudiu D. Aurelia com meiguice--já nos conhecemos
+desde hontem á noite...
+
+--Sim--confirmou madre Paula--já devo a esta senhora a mais amavel e
+gentil hospitalidade que ha muitos annos me foi dado receber fóra do meu
+convento...
+
+--Pois tu já cá estás desde hontem?--perguntou Helena admirada.
+
+--Vim acompanhada pelo portador da tua carta e pelo reverendo padre
+Filipe, de quem certamente ainda te recordas...
+
+--Oh, decerto, decerto! E como são gratas as lembranças que conservo
+d'esse honesto e digno sacerdote! Porque não veio elle ver-me tambem?
+
+--Temos tempo, minha querida--disse madre Paula--Uma das principaes
+virtudes christãs é a paciencia... E o padre Filippe, que é, como
+acabaste de dizer, um honesto e digno sacerdote, exercita esta virtude
+como poucos... Elle espera, e é dos que sabem esperar...
+
+Logo que D. Aurelia sahiu, madre Paula encarou fito Helena de Noronha e
+perguntou-lhe em voz sumida, n'um tom de mysterio:
+
+--E o padre Anselmo?
+
+--Matei-o!
+
+--O que!--disse a religiosa empallidecendo--Mataste-o... quando?
+
+--Ha desesseis annos, no dia em que deixei de ser superiora da casa
+conventual da Covilhã...
+
+--É extraordinario! E como pudeste...?
+
+--O miseravel, de quem eu tinha jurado vingança, não soube, no meio de
+toda a sua perversa astucia, desconfiar da apparente submissão da mulher
+que tão infamemente havia ludibriado e escarnecido... Julgou-se
+inteiramente senhor de mim e veio elle mesmo procurar a occultas o
+castigo que a sua torpeza e maldade mereciam...
+
+--E o outro... o filho d'elle... o padre Hilario?
+
+--Foi meu cumplice. Elle mesmo ajudou a crucificar o pae no subterraneo
+do convento. Oh! foi uma vingança terrivel, e esse dia, minha querida
+Paula, foi o mais bello e o mais feliz de toda a minha vida, desde que
+abandonei a casa de meu pae... de meu pobre pae que ingratamente
+condemnei á morte!
+
+Os olhos de Helena de Noronha coruscavam ainda de furor satanico, ao
+recordar aquelle lance supremo em que havia dado morte horrivel ao
+jesuita que a perdera.
+
+Madre Paula, tomada de pavor, encarava Helena de Noronha, mal podendo
+acreditar no que ouvia.
+
+Fez-se um curto silencio em que os olhos das duas exprimiam um mundo de
+pensamentos.
+
+--Sim...--disse Helena de Noronha como respondendo á pergunta muda que
+lhe dirigia a sua amiga--o padre Hilario foi, por assim dizer, o
+executor da sentença de morte a que eu havia condemnado o pae... E era
+preciso que assim succedesse para que a minha vingança fosse completa...
+
+--Mas não sabia elle os laços de sangue que o prendiam a esse miseravel?
+
+--Não o sabia; mas, ao expirar, o padre Anselmo patenteou-lhe toda a
+verdade do alto da cruz onde agonisava, amarrado como o mau ladrão.
+Disse-lh'o por entre maldições e injurias, e a voz do sangue não fallou
+no meu cumplice. Assistiu impassivel á agonia do pae, que elle immolava
+á minha vingança e sacrificava ao seu amor por mim... Oh! foi uma boa
+hora aquella, minha amiga! E se eu alguma vez pude crêr em Deus, foi
+justamente n'esse instante em que o maior dos criminosos expiava com a
+maior das agonias todo o seu passado de negras infamias!
+
+E contou então como o padre Anselmo, apparecendo-lhe mysteriosamente no
+convento da Covilhã, desceu á cripta, no intuito, dizia elle, de orar
+aos pés da cruz, onde devia ser crucificado... Relembrou com infernal
+prazer todas as minucias d'essa scena horrivel; a maneira como,
+acompanhada do padre Hilario, o seguiu ao subterraneo e como, quando
+elle vinha sahindo, depois de ter feito ouvir por largo tempo o ruido
+surdo de quem cavava, o proprio filho, com um vigoroso murro, o fez
+cahir no meio do subterraneo, fechando-lhe a porta pelo lado de fóra...
+Depois, os tres dias de agonia lenta, torturado pela fome e pela sêde,
+todas as peripecias terriveis d'esse drama sombrio de vingança e de
+sangue, que teve a sua acção no medonho _in-pace_ da Covilhã.
+
+Madre Paula ouviu attonita toda esta narrativa, chegando por vezes a
+suspeitar que Helena de Noronha, tomada de loucura, estivesse
+phantasiando uma vingança que não realisára.
+
+--E o padre Hilario?--perguntou por fim.
+
+--Pobre rapaz! Nunca mais o tornei a vêr... O pensamento que nos uniu
+foi o mesmo que devia separar-nos e... separou-nos.
+
+--Accusou-te depois, lançando sobre ti as culpas do remorso que o
+torturava?
+
+--Oh, não! Eu poupei-lhe a desgraça do remorso, semeando-lhe no coração
+o odio por mim...
+
+A abbadessa, de cada vez comprehendendo menos o sentido das palavras de
+Helena de Noronha, atreveu-se a inquirir:
+
+--Trahiste o teu novo amante?...
+
+--Meu amante! Nunca o foi. Trahi o cumplice, isso sim... Utilisei o
+instrumento da minha vingança emquanto o necessitava e arremesseio-o
+para longe de mim quando já me não era preciso... O padre Hilario
+amava-me... dizia elle que me amava.. Porém, eu não poderia vêr nunca
+n'esse homem senão o filho do padre Anselmo... Logo depois que a minha
+vingança estava cumprida, tratei de me affastar d'elle...
+
+--Como?
+
+--Enganando-o como o pae me enganou a mim. Disse-lhe que para não
+levantar suspeitas, era conveniente que ambos seguissemos por differente
+caminho para o mesmo ponto onde deviamos encontrar-nos.
+
+Esse ponto era uma terra do estrangeiro, onde passariamos por marido e
+mulher, vivendo de algum dinheiro que eu tinha amealhado, emquanto não
+pudessemos voltar ao paiz, depois de obtida a certeza de que o nosso
+crime não havia sido descoberto. Elle tudo acreditou e, obcecado pela
+paixão, não duvidou um momento de que eu fosse reunir-me a elle. Partiu
+por um caminho, eu parti por outro, e até hoje nunca mais nos tornámos a
+vêr...
+
+--De modo que...
+
+--De modo que o meu cumplice, ao reconhecer-se ludibriado, deve ter
+sentido mudar-se lhe todo o amor que nutria por mim n'um odio profundo.
+
+Madre Paula, profundamente impressionada com estas revelações, quasi não
+atinava com palavras que dissesse.
+
+Parecia-lhe impossivel que aquella mulher fraca e ingenua, que ella
+recebera na casa das Sereias, pudesse vir a triumphar da maldade
+perversa do padre Anselmo, da sua astucia e systemathica desconfiança de
+tudo e de todos, tirando d'elle uma vingança atroz, que os mais
+poderosos agentes da Companhia não ousariam sequer sonhar.
+
+--O que me contas é por tal modo extraordinario, minha querida
+Helena--disse ella, passados instantes--que me deixa muda de assombro!
+Se o não ouvisse de teus proprios labios, recusar-me-hia a
+acredital-o...
+
+--Oh! minha boa Paula!--replicou Helena, ainda tremendo de ira--pois
+acaso não teria eu razão para muito mais? Não foi aquelle maldito a
+ruina, a miseria e a morte de toda a minha familia? Não abusou elle da
+minha innocencia e ingenuidade de creança para me aviltar, roubar e
+perder, fazendo de mim sua barregã e sua escrava? poderia eu perdoar ao
+maldito que tão infamemente lançou a desgraça e a deshonra sobre mim e
+sobre os meus?
+
+--Tens razão. Mas não é a justiça da tua vingança que me surprehende...
+
+--O que é que te surprehende, pois?
+
+--Surprehende-me a habilidade e a coragem com que pudeste levar a cabo o
+teu plano...
+
+--Auxiliou-me o acaso, se não foi antes um designio da propria
+Providencia que inspirou ao padre Anselmo a ideia de mandar o filho para
+junto de mim...
+
+--Nunca mais ouvi fallar do padre Hilario... Naturalmente abandonou a
+Companhia.
+
+--Era essa a sua resolução inabalavel quando nos separámos... Eu não
+sahi do paiz, como lhe prometti, e passei uma grande parte d'estes
+dezeseis annos perdida e obscura pelas terras de provincia, exercendo
+mysteres humildes, improprios da minha educação... Sujeitei-me a tudo,
+minha querida... Fui creada de quarto, fui costureira, fui creada de
+meninos, e confesso que me era menos amargo o pão em casa de meus amos
+do que n'esse antro maldito onde, por tua commiseração, fui elevada á
+dignidade de abbadessa! Abbadessa! que irrisoria e infame impostura,
+minha amiga!...
+
+--Helena--disse madre Paula--pareceu-te assim porque não amaste... Se
+tivesses amado o padre Hilario como eu amei o padre Filippe...
+
+--Oh! não! eu não podia amar a sotaina desde que a sotaina me havia
+ludibriado e escarnecido. No meu coração só havia odio por essa infame
+instituição que alberga no seu seio facinoras preversos da laia do padre
+Anselmo e vive da exploração cruel das suas victimas.
+
+--E não tens, já não digo remorso, mas ao menos pezar, de haveres
+sacrificado ao teu odio e á tua vingança esse pobre rapaz que te amava e
+que pelo teu amor se fez parricida?
+
+--Era filho _d'elle_. E o meu odio implacavel vae de paes a filhos...
+Elle proprio devia ser um monstro como seu pae..
+
+--Todavia, minha querida... ha inda um filho do padre Anselmo que em
+nada o parece... nem na figura, nem no coração. É nobre, é digno, é
+honesto, é leal, é amoravel e trabalhador...
+
+--Fallas de...?
+
+--De teu filho, Helena de Noronha!
+
+--Elle vive ainda?
+
+--Vive e é um bello e gentil rapaz...
+
+--Padre tambem?
+
+--Não. É um academico distincto e espero que ha de ser um homem util a
+si e aos seus semelhantes, honrando a sciencia e a humanidade. Eu e o
+padre Filippe temol-o educado sob o influxo das doutrinas liberaes,
+longe de nós e estranho aos funestos exemplos da falsa religião que nos
+victimou.
+
+--Não te conhece então?
+
+--Conhece. E ama-me e respeita-me com um carinho e uma ternura que faz
+honra aos nobres sentimentos da sua alma.
+
+--Sabe esse rapaz quem foram seus paes?
+
+--Ignora-o inteiramente, comquanto use o teu appellido, Helena de
+Noronha.
+
+--O que! pois tu...--ia a dizer Helena, levantando-se a meio no leito.
+
+--Sim--atalhou madre Paula--quiz que se chamasse Paulo de Noronha, afim
+de que sua mãe um dia pudesse reconhecel-o e amal-o.
+
+--Oh! nunca... nunca!
+
+--Helena!--tornou madre Paula com severo aspecto--o odio que se estende
+ate aos proprios filhos das nossas entranhas é perversidade que repugna
+á razão e de que nem as bestas feras, na crueza de seus instinctos,
+jámais nos deram exemplo. Vê tu, minha amiga, que nem o padre Anselmo,
+esse cynico perverso, de uma ferocidade de chacal, pôde resistir ao
+amoravel sentimento que Deus poz no coração dos paes pelos filhos. E
+quererás tu cerrar teu peito ao affecto mais nobre e mais santo que póde
+caber no coração de uma mulher? Quererás morrer amaldiçoando teu filho
+innocente e deixar que elle viva sentindo n'alma o gelo da indifferença
+e do abandono de seus paes? Que triste herança lhe queres legar, minha
+amiga! E comtudo, Paulo é digno de que o amem porque nas nobres
+qualidades de seu caracter, na sua figura varonil e no porte altivo,
+reflecte bem a figura e as nobres qualidades d'esse santo e desditoso
+homem que foi teu pae.
+
+--Meu pae!--gritou Helena de Noronha--Paulo parece-se com elle? Não tem
+na physionomia os traços odiosos de monstro que lhe deu o ser?
+
+--Queres vêl-o?--perguntou madre Paula.
+
+--Não, não!--recusou Helena tomada de subito terror--Para que has de
+pôr-me diante dos olhos, na hora extrema, um filho que eu não posso
+amar, uma creatura que ha de ser-me sempre odiosa pela recordação dos
+negros crimes que lhe andam ligados? Oh! deixa-me morrer, minha amiga,
+no esquecimento d'um dever que eu não tenho forças para cumprir...
+
+Calou-se offegante. E depois, como fallando comsigo mesma:
+
+--E como poderia eu dizer a esse rapaz: «Sou tua mãe!» sem ter que lhe
+confessar a minha miseria e a minha vergonha? Perguntar-me-ia o nome de
+seu pae... e eu teria que me calar vexada diante de meu filho para lhe
+não dizer: «Teu pae era o padre Anselmo, um monstro com figura humana...
+Ladrão e assassino da mais infima especie... Um miseravel sacrilego que
+tôrpemente entenebreceu a minha razão e abusou da religião de Christo
+para nos condemnar, a mim e a ti, a uma deshonra eterna!» Oh! não...
+não! prefiro morrer sem passar por mais esse doloroso transe, consolada
+com a certeza de que elle ignorará o nome da desgraçada que foi sua mãe!
+
+--Socega, minha querida!--tornou-lhe madre Paula suavemente--O que eu te
+proponho não é bem isso que tu suppões...
+
+--O que me propões então?
+
+--Trazel-o até junto de ti para que o vejas e ouças e possas
+certificar-te pelo testemunho dos teus proprios sentidos, de que esse
+encantador rapaz, bem longe de reproduzir as feições repellentes do
+padre Anselmo, é o vivo retrato do teu pae, de quem parece ter herdado
+as santas virtudes e os nobres sentimentos. Em vez de ser para ti uma
+tortura, a sua presença ser-te-hia um dôce allivio e uma grande
+consolação. Crê, se eu fosse mãe de Paulo, sentir-me-hia orgulhosa e
+feliz da minha maternidade.
+
+--E não corarias, ao menos de pejo, ao teres de lhe confessar a serie de
+monstruosas torpezas que deram origem ao seu nascimento, Paula?
+
+--Não me apresentaria como sua mãe... exactamente como eu te proponho
+que o faças... A felicidade seria toda tua em poderes vêl-o junto do teu
+leito, sabendo que é teu filho e ignorando elle que sejas sua mãe...
+
+--E a que titulo viria elle aqui, se a verdade não tivesse de lhe ser
+dita? Não... não! De que serviria isso? Sou pobre... nada tenho que lhe
+legar... Os bens que me pertenciam roubou-m'os o pae bem o sabes...
+
+--Filha! é impossivel que no fundo do teu coração não esteja o
+sentimento mais sublime que póde nascer em peito de mulher--o sentimento
+do amor maternal. Tu, que eu conheci tão candida, tão amoravel e doce,
+tu que tiveste affectos para mim e para a pequena Lucilia, terás um
+coração insensivel á lembrança de teu pobre e innocente filho? Vamos!
+não me recuses a consolação de vêr que testemunhaste, ao menos
+secretamente e por alguns instantes, toda a grandeza da minha obra de
+dedicação e ternura. Puzeste nos meus braços um pequeno sêr, debil e
+fragil. Restituo-te um moço util, uma alma d'eleição.
+
+Paulo, se eu o mandar chamar, virá immediatamente. Ama-me como filho e
+não estranhará que eu deseje tel-o junto de mim por alguns dias...
+Queres vêr o teu filho, ao menos por curiosidade? Admira o teu filho,
+Helena de Noronha e alegra-te com a ideia de que as virtudes da tua raça
+viverão n'elle com a mesma intensidade com que brilharam em teu pobre
+pae.
+
+Helena guardou silencio.
+
+--Pois bem--disse ella passados instantes--deixa-me recobrar alentos...
+e sobretudo deixa-me familiarisar com a ideia de que hei-de vêr n'esse
+rapaz sómente o meu filho e não o filho do padre Anselmo. Que tempo
+tencionas demorar-te aqui, minha amiga?
+
+--Todo o que tu julgares preciso para a tua convalescença...
+
+Helena teve um sorriso estranho.
+
+--Pois sim... Convalescerei breve...--disse n'um tom cuja sinistra
+significação não escapou a madre Paula.
+
+A freira atalhou:
+
+--É porisso que eu queria que visses teu filho, Helena. Talvez que,
+conhecendo-o, sentisses acordarem em ti todos os ternos affectos que nos
+prendem á vida. O mundo, hoje, para ti é um deserto. Morres no
+isolamento e no abandono do coração... Nada ha que te estimule o desejo
+de viver, e consideras a morte como um beneficio. Mas se tivesses a tua
+existencia ligada a outra existencia, se te sentisses viver na vida de
+teu filho, então, minha querida amiga, terias triumphado da morte,
+justamente porque a vida te offereceria encantos.
+
+--Ah! minha pobre Paula! comprehendes acaso que um risonho dia de
+primavera possa reverdecer a arvore a que destruiram as raizes e que,
+sêcca, perdeu a seiva e se despiu da folhagem? Eu sou uma arvore morta,
+minha amiga! Perdida a seiva da juventude, desfolhadas as minhas
+illusões e as minhas esperanças pelo rijo vendaval da desgraça, não ha
+mais para mim no mundo possibilidade de existencia tranquilla e
+socegada. Oh! agora só peço o esquecimento e a morte como suprema esmola
+da Providencia. Perdida a innocencia e as santas crenças da minha alma
+ingenua, vivi para a vingança. Realisada esta como um justo castigo de
+que fui providencial instrumento, restava-me viver para a expiação de
+minhas culpas... Expiei-as em 16 annos de servidão, de humilhações e de
+miserias de toda a ordem. Soffri o frio, a fome, as dôres da alma e do
+corpo, com a resignação do condemnado que caminha para o patibulo,
+conscio da sua libertação pela morte. Remorsos de haver suppliciado o
+infame que me perdeu, nunca eu os tive nem podia ter. Mas a dôr horrivel
+de haver causado a morte a meu pae e a meu primo... Oh! essa nunca me
+abandonou, e tanto bastava para que eu anceasse morrer, como o supremo
+bem a que podia aspirar... Chamei-te porque precisava rehabilitar-me no
+teu conceito... precisava que, ao lembrares-te de mim, não assomasse aos
+teus labios um sorriso de desprezo e me julgasses egual ás outras...
+
+--Helena, minha amiga, minha irmã... não sejas injusta para commigo! Eu
+sabia que a tua grande alma era capaz de amar como era capaz de
+aborrecer... A vingança que tiraste do padre Anselmo foi justa e foi
+nobre. Libertaste a humanidade de um facinora que a envergonhava...
+Dou-te por isso sinceros louvores. Mais fraca do que tu, eu não ousei
+pensar sequer em tirar igual desforço d'aquelle que me condemnou a esta
+eterna servidão em que vivo... E não pensei, porque o meu coração
+deixou-se illaquear nas redes de um affecto vivissimo qual é o que
+tributo ao padre Filippe, tu bem o sabes. Tu mais infeliz do que eu, não
+amaste... Porisso, o fel do teu odio se converteu em veneno mortal para
+aquelle que te perdeu...
+
+--Não amei, dizes? Amei, sim... amei um homem que teria feito de mim a
+mais venturosa das mulheres se, na hora em que o encontrei, eu não fosse
+já indigna da estima de um homem de bem.
+
+--Fallas de Julio de Montarroyo?
+
+--Fallo, sim, Paula! Amei-o com todas as véras da minh'alma. Amei-o e
+fugi-lhe para não soffrer a horrivel dôr de me ver depresada por elle!
+
+--Tornaste alguma vez a ter noticias suas?
+
+--Nunca mais. Recuperada a minha liberdade com a morte do padre Anselmo
+e separada do meu cumplice, cuja presença me seria horrorosamente
+insupportavel, considerei-me morta pela segunda vez. Nem Helena de
+Noronha nem _irmã Dorothea_ deviam existir jámais... Portanto, a minha
+nova existencia passou a ser outra bem differente das duas primeiras...
+Na misera e obscura condição social a que desci, ninguem, nem mesmo tu,
+minha amiga, terias adivinhado sequer, quanto mais reconhecido, a filha
+de Norberto de Noronha ou a superiora da casa conventual da Covilhã...
+
+Calou-se offegante e exhausta.
+
+--Comtudo...--proseguiu passados instantes--comtudo eu poderia ter
+trazido do subterraneo da Covilhã uma grande riqueza... e não a
+trouxe...
+
+--Uma grande riqueza, dizes?
+
+--Sim... O padre Anselmo appareceu-me inesperadamente no convento uma
+noite, exigindo que a sua chegada não fosse conhecida de pessoa
+alguma... Elle disse-me que tinha de descer ao subterraneo, no
+cumprimento sagrado de uma promessa que fizera para que eu
+correspondesse dignamente aos pezados e espinhosos encargos do logar
+para que me nomeara. E realmente, na noite seguinte--a noite da rigorosa
+justiça--elle, persuadido de que ninguem o observava desceu ao
+_in-pace_... Mas lá, com a porta fechada á chave por dentro em vez de
+rezar aos pés da cruz, como promettera, cavou na terra por muito
+tempo... Ouvimos-lhe cá fóra o bater da enxada no solo recalcado... Tive
+a suspeita de que alguma coisa importante elle ia esconder alli... E
+essa suspeita converteu-se em certeza, quando do alto da cruz a que o
+amarraramos, vociferando maldições e insultos sobre mim e sobre o filho
+parricida, declarou n'um accesso de furor que possuia riquezas immensas
+que tencionava legar ao filho maldito, mas que lhe permaneceriam vedadas
+porque o seu thesouro ninguem o descobriria...
+
+Madre Paula ouvia com singular attenção esta parte da narrativa de
+Helena...
+
+--Talvez isso não passasse de uma allucinação dos ultimos
+momentos...--disse ella.
+
+--Não... O padre Anselmo tinha ido alli enterrar o seu thesouro, estou
+bem certa d'isso... Ao expirar, olhou para o lado direito da cruz e o
+olhar baço, de moribundo, perdeu-se-lhe no canto mais escuro e mais
+sombrio do subterraneo... Se algum dia lá fôres... manda cavar alli...
+manda revolver toda aquella terra e encontrarás, estou bem certa, o
+producto de tantos crimes accumulados d'aquelle sicario maldito que o
+inferno confunda!
+
+--E o padre Hilario não manifestou desejo de se apoderar do thesouro do
+pae?
+
+--O padre Hilario, esse comprehendes bem... n'aquelle momento, obcecado
+pelo amor e pelo ciume, não via nem comprehendia outra coisa que não
+fosse a posse da mulher por quem enlouquecera e se tornára parricida...
+Deixou o convento no mesmo dia em que eu o deixei, precedendo-me algumas
+horas na partida, convencido de que eu iria reunir-me a elle... E nunca
+mais... oh, nunca mais voltou á Covilhã, estou bem certa d'isso...
+Depois de se vêr ludibriado por mim, a recordação do seu crime deve
+ter-se-lhe tornado bem negra! O proprio remorso o deve ter afugentado de
+lá...
+
+--E viverá ainda?
+
+--Não sei... Se o remorso matasse, elle deveria ter morrido. Mas o
+remorso é um veneno que vae minando lentamente a existencia. Tortura,
+mas não fulmina, as suas victimas. Elle matou o pae, é bem certo. Mas
+tambem eu matei o meu e não morri... Não morri, quando tantas vezes
+pedia a morte a Deus! Deve portanto viver.
+
+--Socega, minha amiga...--observou-lhe madre Paula, vendo-a de cada vez
+mais agitada.--Tens fallado muito... e, no estado de abatimento e
+fraqueza em que te encontras, é isso uma imprudencia grave.
+
+Disse e saiu deixando a doente em repouso.
+
+
+
+
+XXVIII
+
+Coração morto
+
+
+Helena de Noronha, a instancias de madre Paula e de D. Aurelia,
+consentiu em receber a visita de Julio de Montarroyo.
+
+O encontro d'estes dois desgraçados, depois de tantos annos d'ausencia,
+foi tudo quanto póde imaginar-se de mais simples e de mais tocante.
+
+Elle, um velho quasi demente, ella, moribunda, quasi um cadaver.
+
+O que vivia n'elles ainda era a reminiscencia de tempos passados, era a
+amarga lembrança de uma mocidade distante, que nem um nem outro puderam
+gozar na plenitude da ventura que sonharam.
+
+No fundo de seus corações, estava gravada a imagem de cada um d'elles.
+Julio de Montarroyo, nas evocações da sua amada, não via a pobre e
+andrajosa creatura de face cadaverica, que o mestre _Tomba_ encontrara
+exangue no seu caminho: via a gentilissima e encantadora noviça que, no
+convento do Sardão, proferira os sagrados votos, envolta n'uma nuvem de
+incenso, entre o resplendor das luzes e os canticos das religiosas suas
+companheiras de fé e martyrio. Ella, pela sua parte, quando volvia os
+olhos ao passado e proferia o nome de Julio, era sempre a imagem do
+louro e gracioso mancebo da Serra do Carvalho que via reflectir-se na
+sua retina de allucinada.
+
+E assim se amaram e se viram com os olhos da alma no longo precurso dos
+dezoito annos decorridos.
+
+Nem um nem outro jámais havia pensado que o tempo, na sua marcha
+destruidora, pudesse ter roubado a frescura e a gentileza áquelles
+rostos que mutuamente se reviam nas horas tristes de uma ausencia
+crudelissima.
+
+Foi, pois, com um mixto de surpresa e de doloroso espanto que os dois se
+encararam, quasi sem se reconhecerem.
+
+Julio de Montarroyo recuara um passo aterrado diante d'aquella moribunda
+que, com os olhos desmesuradamente abertos e os labios como que a
+reprimirem um grito de surpresa, o observava apavorada.
+
+--Não esperava encontrar-me tão velho, não é verdade, Helena de Noronha?
+
+--Diga antes, meu amigo--volveu-lhe Helena--que não esperava tornar a
+vêl-o n'este mundo... Pensava ir esperal-o na outra patria... na patria
+dos grandes desgraçados, onde as dôres acabam e a ventura começa...
+Seria melhor para si... poupal-o-hia ao doloroso espectaculo que está
+presenceando... Procurava Helena de Noronha e encontra um cadaver, não é
+assim?
+
+Julio aproximou-se do leito, tomou a mão descarnada da pobre Helena e,
+levando-a aos labios com piedoso respeito, apenas pôde murmurar:
+
+--Ha dezoito annos que a procuro, Helena... ha dezoito annos que a sua
+imagem occupa constantemente o meu pensamento, que o seu nome é a oração
+unica que meus labios sabem proferir. Posso agora morrer, pois que a
+encontrei viva para lhe dizer que não a esqueci, que, fiel ao amor que
+lhe jurei, gastei a mocidade e a vida, percorrendo o mundo em sua
+procura.
+
+--Pobre amigo!--murmurou Helena com as lagrimas a bailarem-lhe nos
+olhos--Era digno de melhor sorte! Eu fui a sua má estrella... Era fatal
+que todos os que se aproximassem de mim fossem infelizes! E todavia,
+Deus sabe que nunca pratiquei o mal pelo mal... Aquelles que eu mais
+amei foram aquelles que mais fiz soffrer... Perdôe-me, Julio! perdoe-me
+e creia--agora posso dizer-lh'o, porque me sinto já bafejada pelo sopro
+gelido da morte--creia que foi o unico homem que fez palpitar o meu
+pobre coração de mulher...
+
+--Se isso era assim, porque não veio, Helena, porque não veio quando a
+chamei, quando a instei a que abandonasse o convento e viesse salvar seu
+pobre pae? Que desgraças teria poupado, minha pobre amiga!
+
+--Não podia... não podia!... Era impossivel sahir d'aquelle inferno em
+semelhante occasião... Ah! se soubesse que horriveis laços me prendiam
+ao poste de martyrio em que eu agonisava, decerto não me lançaria agora
+em rosto a minha recusa!
+
+--Deus me livre de a accusar, Helena! Amo-a muito para que pense em
+dirigir-lhe a menor censura, o mais leve queixume...
+
+--Ama-me, diz! Deve amar-me como se amam os mortos... com a saudade e o
+luto no coração, porque eu, meu amigo, não sou mais que um cadaver.
+
+Julio de Montarroyo abeirou-se do leito, tomou-lhe a mão, que levou aos
+labios respeitosamente exclamando:
+
+--Não falle em morrer, minha amiga! Deus, que permittiu que nos
+tornassemos a vêr, ha de tambem permittir que resurja para a vida e para
+a felicidade...
+
+--Não, não... É inutil toda a esperança. Deus é bom, Deus é justo e
+misericordioso; e se consentiu que o meu amigo ainda me encontrasse
+viva, foi unicamente para que pudesse ouvir dos meus labios esta
+confissão sincera e franca do meu amôr: Amei-o, Julio de Montarroyo...
+amei-o, para maior desgraça e castigo meu!... Se esta declaração feita á
+beira do tumulo póde servir-lhe de algum lenitivo... receba-a como a
+sincera expressão de uma alma que passou no mundo incomprehendida...
+
+--Helena! fossem quaes fossem os motivos que a impediram de salvar seu
+pobre pae, quando eu anciosamente lh'o supplicava; fossem quaes fossem
+as rasões que a levaram a faltar á sua promessa de me dar noticias suas
+em Paris, tudo respeito e tudo dou por justo e bem cumprido; mas, por
+Deus lh'o peço! reanime-se, ganhe novos alentos e triumphe da doença e
+da morte para me conceder, ao menos no ultimo quartel da minha
+desgraçada existencia, a esmola bemdita da sua presença!
+
+--Que não cumpri a promessa de lhe dar noticias minhas em
+Paris?--balbuciou Helena fazendo visiveis esforços para se recordar--Não
+tenho a minima ideia de alguma vez ter sabido que o senhor estaria em
+Paris.
+
+--Pois não me escreveu uma carta dizendo-me que partia para lá e
+convidando-me a que a seguisse á capital de França e ahi aguardasse
+noticias suas?
+
+--Nunca lhe escrevi tal carta!--bradou Helena surprehendida.
+
+--Todavia, eu recebi uma carta sua, com a sua letra e a sua assignatura
+a dar-me parte da sua ida para França e a pedir-me que a seguisse... Não
+foi realmente para Paris?
+
+--Nunca sahi do reino! Essa carta é mais uma infamia do miseravel que me
+perdeu!
+
+--A letra, porém, era de tal modo semelhante á sua que a tomei como
+verdadeira, e parti immediatamente, na ancia de cumprir as suas ordens!
+
+--Meu pobre amigo! Como esse maldito padre abusou da sua boa fé!
+
+--Esperei-a pacientemente, durante, muitos mezes no Hotel das Nações,
+aonde ficara de me mandar noticias. Como, porém, a minha espectativa
+fosse baldada, resolvi-me a procural-a por todos os conventos e casas
+religiosas da França; e não a encontrando, passei á Hespanha, á Italia,
+á Africa, ao Brasil, a toda a parte, emfim, onde a negra milicia exerce
+as suas hypocritas manobras, sempre sem poder achar o menor vestigio da
+sua passagem, minha pobre amiga! Bem sabia que o meu projecto de a
+encontrar por semelhante modo era uma loucura irrealisavel. Mas emquanto
+a procurava, vivia da esperança de a encontrar, a sua imagem estava
+presente sempre ao meu espirito, o seu nome era o meu constante
+pensamento... Perdidos dezeseis annos de vida n'estas investigações sem
+resultado, cheguei a convencer-me de que estava morta; e então, não
+podendo alimentar-me mais da esperança de a tornar a vêr, quiz ao menos
+cercar-me de tudo quanto fosse uma recordação sua, e comprei a casa de
+seu pae, onde tudo me fallava d'aquella que tanto amara e que fôra a
+minha unica aspiração n'este mundo.
+
+Helena de Noronha fitára no desgraçado os seus grandes olhos brilhantes
+de febre e duas grossas lagrimas lhe rolaram silenciosas pelas faces.
+
+--Foi de todos o mais infeliz, meu pobre amigo!--suspirou ella.--Quiz
+Deus, para me punir da minha ingratidão e desobediencia para com meu
+pae, que eu não morresse antes de avaliar bem o enorme thesouro de
+affectos que perdi n'essa nobre alma, tão digna de melhor sorte e de
+mais ventura! .......................................................
+.......................................................
+
+Helena de Noronha escutara com uma expressão de profundo assombro, que
+mais e mais se lhe accentuava no rosto á medida que ia ouvindo, a
+narrativa de Julio.
+
+Quando este chegou ao fim, comprehendeu então que tinha sido amada por
+aquelle homem com um ardôr e um enthusiasmo que tocava as raias da
+loucura. Um mixto de dôr e de felicidade inaudita lhe agitou o seio
+arquejante. Pôz as mãos e levantando os olhos ao ceu, exclamou:
+
+--Graças, meu Deus!! que se foi grande o soffrimento que me déste, em
+expiação das minhas faltas, tambem não é menor a consolação que me
+concedeste, permittindo que eu me soubesse tão profundamente amada!
+
+E volvendo os olhos para Julio, n'uma accentuação de vidente:
+
+--Meu amigo--acrescentou--uma outra patria nos espera, que não esta em
+que tantos soffrimentos e martyrios nos attribularam a existencia. Lá
+nos encontraremos, Julio. Agora mais do que nunca o acredito, porque
+Deus, tão logico e tão consequente em tudo quanto fez e creou, seria
+monstruosamente absurdo se désse á creatura humana os horrores de um
+martyrio que ella não provocou, para a lançar por fim no aniquillamento
+absoluto, de par com os que nada soffreram e muito gozaram. Não! não
+póde ser! Soffrer sem motivo, gozar sem merito, unicamente pelo capricho
+de um acaso fortuito, de uma circumstancia inesperada, não póde ser. Que
+eu soffresse e me encontre reduzida a este misero estado em que me vê,
+recebendo a esmola de um abrigo da compassiva mão de uma amiga,
+comprehende-se, é justo, é logico que assim succedesse, porque o meu
+crime provocou a expiação. Mas o senhor, moço, rico e feliz, sem um
+ligeiro desvio do caminho do bem e do dever, porque motivo soffreu
+assim? Porque motivo andou errante dezesseis annos pelo mundo, em busca
+de uma felicidade que lhe fugia, expiando de um modo cruel as faltas de
+outrem... as minhas faltas? Eis aqui o innocente envolvido na
+condemnação do culpado... Porque? Isso é o que não se comprehende, e
+resultaria absurdo monstruoso, injustiça flagrante, sem a existencia de
+uma vida futura em que as faltas teem de ser relevadas pela expiação e
+os martyres innocentes terão de ser recompensados... Oh! não tenha
+duvida, Julio de Montarroyo, isto não acaba, não póde acabar aqui!
+
+Esta longa tirada foi dita com um ardor e uma agitação de tal modo
+violenta, que bem deixava perceber a excitação febril da doente.
+
+Julio de Montarroyo tentou socegal-a.
+
+--Minha amiga--disse-lhe elle--é bem certo que muito temos ainda que
+esperar da misericordia e da justiça divina. E é por isso mesmo que eu
+lhe peço, minha querida Helena, que tenha animo e coragem, que não
+desanime nem descreia de quem tudo póde e tudo ordena. Tenho fé que
+virão dias melhores para nós n'este mundo... Depois de uma juventude tão
+tormentosa e cortada de crueis vicissitudes, não será licito esperar que
+Deus se amerceie do nosso soffrimento de tantos annos e nos reserve na
+ultima quadra da existencia alguns dias de serena tranquilidade na
+companhia d'aquelles a quem mais queremos?
+
+Um amargo e triste sorriso, vincando os labios da doente, respondeu a
+estas palavras.
+
+Julio tentava ainda illudir-se e queria communicar ao coração da enferma
+um raio da pallida esperança que já mal o animava a elle.
+
+--Vou deixal-a, Helena. O repouso deve fazer-lhe bem. Espero que amanha,
+quando voltar, hei de encontral-a mais serena e mais bem disposta a
+encarar a nossa situação por outro prisma. Escuso dizer-lhe que a sua
+casa é ainda e sempre sua. Não deverá, á esmola nem á compaixão de
+ninguem o abrigo do mesmo tecto que a acolheu na infancia. Peço-lhe só
+que melhore; e no dia em que recobrar forças para entrar em sua casa, eu
+sahirei d'ella, se a minha boa e querida Helena de Noronha não achar no
+mais intimo da sua alma uma solução que permitta a convivencia dos dois
+no mesmo lar... De qualquer das fórmas, o seu coração decidirá...
+
+--O meu coração está morto para tudo o que é d'este mundo, meu
+amigo...--balbuciou Helena, cahindo agora em profundo
+abatimento--Agradeço-lhe a generosidade com que pretende ainda insuflar
+no meu espirito um resto de apêgo á vida... Mas eu estou morta, creia...
+
+--Pois bem!--exclamou Julio n'um impeto de desespero--se de todo em todo
+pretende morrer, morreremos ambos! Se não podemos unir-nos durante a
+vida, faremos ao menos a eterna viagem no mesmo dia e á mesma hora.
+
+--Louco! Ignora que a vida é um deposito precioso de que não é licito a
+nenhum de nós despojar-se, sem que nos seja reclamada por quem nol-a
+confiou?
+
+--Se a vida é um favor, eu tenho o direito de a recusar, por isso mesmo
+que a não pedi. Se é um ultrage que se me faz, um soffrimento a que me
+condemnam, maior direito me assiste de a rejeitar, pois que o juiz que
+me castiga se abstem de me dizer o delicto de que sou reu!
+
+--Não falle assim, meu amigo! Quem teve animo para soffrer até aqui,
+deve tambem ter coragem para supportar o resto e esgotar até ao fim o
+calix da amargura que lhe foi offerecido... Adeus! Amanhã tornaremos a
+vêr-nos e tenho esperança de que o hei-de encontrar mais resignado...
+
+Estendeu-lhe a mão descarnada e transparente que elle beijou; e,
+extenuada, pousou a cabeça no travesseiro, onde se sumiram duas grossas
+lagrimas que furtivamente se lhe escaparam dos olhos semi-cerrados.
+
+
+
+
+XXIX
+
+Confidencias
+
+
+Em quanto estas scenas se passam em S. Martinho do Campo, voltemos nós
+ao Porto, entremos na mysteriosa casa de S. Bento da Victoria, onde já
+uma vez introduzimos o leitor, e ouçamos o dialogo alli travado entre
+Jorge de Gusmão e o singular e estranho personagem a quem o amigo de
+Paulo dava o tractamento de _Mestre_.
+
+O homem dos occulos verdes está, como da outra vez, sentado á sua banca
+de trabalho, e falla com affectuoso semblante para aquelle que parece
+ser o seu discipulo querido.
+
+--E então--pergunta elle--como vão os negocios do nosso novel irmão?
+
+--Mestre, quanto ao rapto de Beatriz, nada transpirou ainda. Eugenio de
+Mello, apesar de morto, continua a carregar com as culpas do
+desapparecimento da rapariga. A loura, industriada por João Lazaro,
+persiste em affirmar que Eugenio se suicidou, porque, tendo ella
+recusado emprestar-lhe dinheiro para fugir para Hespanha,
+inesperadamente disparou um tiro na cabeça, declarando n'esse momento
+que estava perdido e que só a morte lhe restava como ultimo recurso.
+
+--De modo que a policia, sem provas e sem indicios que justifiquem a
+suspeita de um crime, não terá remedio senão pôr a loura em liberdade.
+
+--Creio bem que sim. Demais a mais, a bala foi diparada tanto a
+sangue-frio e com tal habilidade, que, pela autopsia, não se descobriu
+indicio compromettedor.
+
+--E quem sabe se realmente se trata de um suicidio?
+
+--Não creio, Mestre. Em primeiro logar, Eugenio de Mello era crynico
+bastante para não pensar em matar-se, fossem quaes fossem as desgraças
+que o acabrunhassem. Em segundo logar, João Lazaro é sufficientemente
+preverso para induzir a loura, de quem deseja apoderar-se, a praticar
+este assassinato por vingança. Tenho, pois, a certeza, quasi iria
+jural-o, que Eugenio de Mello não se suicidou.
+
+--O que de resto pouco deve importar-nos... A sociedade não perdeu nada
+com a eliminação d'aquella existencia...
+
+--Absolutamente nada. Pelo contrario, lucrou. Agora, quanto a Paulo,
+partiu hoje para fóra do Porto, a juntar-se á sua mãe adoptiva, á madre
+Paula, que o mandou chamar de S. Martinho de Campo, onde se encontra, a
+pretexto de que precisa que elle lhe vá fazer companhia.
+
+--Paulo partiu para S. Martinho de Campo?--perguntou o homem dos
+occulos, frazindo o sobr'olho.
+
+--Partiu.
+
+--É singular!--disse elle--E que genero de negocio retem madre Paula
+n'esse logar?
+
+--Não sei. Em uma das suas primeiras cartas, madre Paula explicava que
+tinha sido chamada alli por uma amiga intima, que já não via ha muitos
+annos, e que se encontrava perigosamente enferma...
+
+O _Mestre_ ficou silencioso por algum tempo, como que buscando uma
+explicação para este facto.
+
+--É extraordinario!--disse elle por fim, quasi fallando comsigo mesmo--é
+extraordinario que madre Paula mande chamar o seu protegido para lhe
+fazer companhia, quando sabe que a sua ausencia de junto da noiva
+importa para o pobre moço um verdadeiro sacrificio...
+
+--Tambem me quiz parecer isso.
+
+--Bem!--concluiu o Mestre--o verdadeiro motivo d'esse estranho
+chamamento ha de saber-se...
+
+--Se o Mestre entende que devemos proceder a averiguações...
+
+--Sim. Convem saber quem é e como se chama essa amiga que retem junto de
+si madre Paula.
+
+--É coisa facil. A _Mão Negra_ está de tal modo ramificada, que em toda
+a parte encontramos irmãos a quem recorrer em casos extremos. O Mestre
+bem o sabe, pois que a obra é sua e á grande energia e profundo saber
+com que nos tem guiado deve a nossa Associação o rapido impulso e a
+prodigiosa importancia que conquistou.
+
+O homem dos oculos fixou por alguns instantes, atravez dos vidros, os
+olhos no seu interlocutor e disse:
+
+--Jorge, a _Mão Negra_ póde ser um instrumento do Bem, como póde ser um
+instrumento do Mal, conforme o pensamento do seu supremo dirigente fôr
+alevantado e nobre ou mesquinho e vil. As bases em que assenta a nossa
+mysteriosa aggremiação permittem concentrar na mão de um só homem a
+vontade e as energias de muitos; e d'aqui resulta uma cohesão e um poder
+de tal modo irredutivel, que força alguma da terra ousará combatel-o ou
+destruil-o. A nossa principal força está no mysterio em que ella se
+exerce. Todos os demais poderes vivem publicamente, á luz do dia; os
+seus menores movimentos, as suas mais occultas intenções poderão ser
+observadas e surprehendidas. Nós, pelo contrario, trabalhamos na sombra,
+e a nossa acção, exercitando-se livremente, faz-se sentir sem deixar
+conhecer a origem. Isto torna-nos invulneraveis como a propria
+divindade. Assim, podemos dizer: «Os homens propõem e a _Mão Negra_
+dispõe».
+
+--É certo--confirmou Jorge--Mas que outro cerebro, senão o do Mestre,
+poderia conceber e realisar o maravilhoso plano da nossa Associação, de
+modo a prender nos fios subtilissimos de uma grande teia de interesses
+communs o destino de todos e de cada um? Confesso, Mestre, que só um
+espirito superior e uma sciencia profunda como a sua poderiam levar a
+cabo tamanha e tão extraordinaria empreza.
+
+O homem que dava pelo nome de Mestre fitou Jorge com interesse, e n'um
+tom repassado de extraordinario carinho, disse-lhe:
+
+--Tu, meu amigo, és novo, és forte e és intelligente. A ti está
+reservada a alta missão de continuares um dia a minha obra, que é
+realmente grandiosa.
+
+--Eu, Mestre--replicou Jorge--tenho os hombros extremamente debeis para
+tamanha empreza.
+
+--Não. Tu és o unico de entre tantos que deverá succeder-me. Como sabes,
+eu sou o poder occulto que tudo dirijo e tudo governo dentro da nossa
+Associação. Em meu nome, poderás governar, mandar e dirigir, mesmo
+depois da minha morte.
+
+--Pensa em morrer? Mestre!--exclamou Jorge surprehendido.
+
+--A ideia da Morte deve estar sempre presente ao homem que, podendo
+tanto, só não póde prolongar a vida uma hora, um instante mais alem
+d'aquelle que marca o fim da sua existencia sobre a terra. Ha muito que
+eu penso, Jorge, na maneira de triumphar da Morte continuando a viver na
+vida e no pensamento da nossa Associação; e, sendo assim, eu não podia
+deixar de pensar em ti como meu continuador...
+
+--Oh, Mestre!--fez Jorge commovido.
+
+--És o unico que ha muitos annos privas particularmente comigo; és o
+unico que bem conhece os fios occultos que movem a nossa Associação; és,
+portanto, o unico no caso de me succeder e de sustentar com honra e
+brio, com dignidade e consciencia, as tradicções já gloriosas da _Mão
+Negra_. Não esqueças, meu filho, que ella é a ingente força, o supremo
+poder, e terá no futuro em suas mãos os destinos da humanidade.
+
+--Mas a sua sciencia, Mestre, esse espirito investigador e profundo,
+essa intelligencia privilegiada, esse cerebro potentissimo que tudo
+pensa, tudo prevê e tudo resolve, como poderei eu substituil-o?
+
+O Mestre sorriu.
+
+--Quando eu faltar--disse elle--virás a esta casa, encerrar-te-has
+n'esta sala, sentar-te-has n'esta cadeira, tal como eu estou agora, e
+consultarás o archivo secreto da nossa Associação. Ha
+aqui--accrescentou--todos os elementos de que careces para proseguir
+desassombradamente o caminho que encetei.
+
+Depois abriu uma gaveta da meza, tirou um enorme livro encadernado a
+preto e com fechos de metal.
+
+--Este livro--disse elle, abrindo-o--está em branco. Quando eu morrer,
+basta que lhe passes por cima de cada folha uma lamina de ferro,
+aquecida, para que a tinta sympathica em que está escripto se revele e
+te permitta fazer a leitura. Então encontrarás aqui a historia d'este
+homem mysterioso a quem tanto te affeiçoaste e cuja origem desconheces.
+Este livro que é toda a minha vida e toda a minha sciencia, é tambem
+toda a vida da nossa Associação. Sê prudente, sê sabio e sê justo, meu
+filho; e se a historia da minha vida puder merecer-te uma lagrima de
+compaixão, que essa lagrima se crystalise e se transforme na perola dos
+nobres intuitos, como symbolo do Bem com que eu quiz redimir tanto mal
+feito e recebido da mão da perfidia e da traição humana.
+
+Jorge ouvia o velho sem o comprehender, mas sentia-se singularmente
+commovido.
+
+--Mestre!--exclamou elle com voz tremula e repassada de
+ternura--afastemos para longe de nós a ideia da morte. Não me assusta a
+perda da propria vida, mas aterra-me o pensamento de que posso ver
+morrer aquelle que tem sido o meu melhor amigo, o meu verdadeiro e unico
+Mestre.
+
+Os dois calaram-se e permaneceram mudos e silenciosos por alguns
+instantes.
+
+Evidentemente, uma profunda commoção embargava n'esse momento a voz
+áquelles dois homens energicos, tão fortes e tão activos que,
+consubstanciados no mesmo pensamento, tinham conseguido organisar,
+dominar e dirigir com superior intelligencia uma das mais poderosas e
+terriveis associações secretas dos nossos dias.
+
+--Meu amigo--disse por fim o mysterioso personagem dos oculos--era
+indispensavel que eu te manifestasse a minha ultima vontade, antes de
+partir para a grande romagem. Não é que eu pense realisal-a breve; mas
+como a vida é um thesouro de que apenas somos depositarios, um valor á
+ordem que pode ser-nos reclamado de um momento para o outro, o meu dever
+é prevenir. Aqui tens e aqui ficam n'este livro todas as indicações
+precisas para poderes continuar a minha obra. Se eu faltar, repito,
+assume a direcção suprema da _Mão negra_, e o meu espirito será comtigo.
+
+
+
+
+XXX
+
+Mãe
+
+
+Madre Paula enviára o _Tomba_ ao Porto com uma carta a chamar para junto
+de si o filho da _Irmã Dorothea_, sob pretexto de que precisava da sua
+companhia por alguns dias, para suavisar com a sua presença o
+aborrecimento do padre Filippe, constrangido a permanecer alli emquanto
+ella velava o leito de uma amiga intima, perigosamente enferma.
+
+No mesmo dia em que Paulo chegou, a abbadessa approximou-se do leito de
+Helena e disse-lhe sorrindo:
+
+--Deixas que eu te entremostre, minha amiga, um pedaço do ceu azul da
+tua existencia por entre as brumas do soffrimento que te opprime?
+
+--O que queres dizer?
+
+--Quero dizer que está n'esta casa, debaixo do mesmo tecto que te
+abriga, um rapaz que seria o orgulho e a consolação de sua mãe, se sua
+mãe consentisse em o vêr e lhe fallar...
+
+--Meu filho!?--bradou Helena em sobressalto com um afflictivo gesto de
+terror--Pois tu, Paula, trouxeste a esta casa esse testimunho vivo da
+minha deshonra?
+
+--Quem o conhece, senão eu e tu? Para todos os effeitos, Paulo é meu
+sobrinho, e elle proprio está longe de pensar em que se encontra tão
+perto de sua mãe...
+
+--Embora! Por Deus, poupa-me a esse enorme sacrificio, a essa horrorosa
+angustia!
+
+--Helena, porque teimas em te mostrar sem coração, quando toda a tua
+vida está provando o contrario, filha? Lembra-te de que o mesmo terror
+experimentaste quando se te fallou em receberes Julio de Montarroyo. E
+comtudo, a sua presença, em vez de te mortificar, alegrou-te, quasi te
+restabeleceu... Pois bem; deixa-me apresentar-te agora teu filho. Nada
+te obriga a reconhecel-o. O segredo fica entre ambas. Se a sua presença
+te affligir, se continuares a detestal-o, eu o arredarei para longe de
+ti... Se, pelo contrario, te sentires bem ao lado d'elle, ouvindo-o e
+apreciando-lhe as nobres qualidades, ficará e continuará a vêr-te, como
+uma pessoa amiga, na ignorancia absoluta dos laços que o prendem a ti...
+
+Helena de Noronha guardou um silencio indeciso que era quasi uma
+acquiescencia.
+
+As palavras de madre Paula eram de uma tão irresistivel persuazão, que a
+doente nada tinha a oppôr-lhes.
+
+--Comprehendes--disse ella--que nem curiosidade nem affecto podem
+mover-me a receber esse rapaz que para mim não passa de um estranho...
+
+--E como estranho se conservará a teu lado... Quem o duvida?--tornou a
+religiosa com aquelle meigo sorrir que se prodigalisa aos enfermos
+impertinentes e caprichosos.--Aqui, ha apenas da minha parte o interesse
+de que conheças teu filho, que revivas nelle os tempos felizes da tua
+infancia, recordando nas suas feições as feições de teu pae...
+
+--Pois sim... que venha!--disse por fim Helena, com visivel esforço.
+
+Paulo foi introduzido no quarto da doente.
+
+O mancebo, com a polidez propria das pessoas indifferentes, abeirou-se
+do leito; e pois que madre Paula lhe explicára que esta approximação
+tinha unicamente por fim distrahir a sua amiga e desviar-lhe o espirito
+de dolorosas preoccupações moraes que a obsidiavam, envidou todos os
+esforços por tornar alegre e interessante a sua conversação.
+
+--Disseram-me que v. ex.^a--principiou elle por declarar, dirigindo-se a
+Helena--ainda por muito tempo reteria junto do seu leito esta boa e
+santa senhora que é minha mãe; e esta alarmante perspectiva obrigou-me a
+vir supplicar-lhe que se restabeleça o mais breve que ser possa, porque,
+em verdade, minha senhora, começo a sentir-me lesado nos meus sagrados
+direitos... de filho.
+
+--Não é minha vontade prejudical-o...--replicou Helena fitando-o e
+estudando-lhe demoradamente as feições.--Quando escrevi á minha amiga
+Paula, pedindo-lhe a esmola da sua companhia, estava bem longe de suppôr
+que um tal pedido significasse uma contrariedade para alguem...
+
+--Oh, minha senhora! peço-lhe que não tome á lettra as minhas
+palavras--atalhou Paulo rindo.--Isto é mero gracejo da minha parte e
+tanto mais desculpavel quanto é certo que v. ex.^a se me affigura em via
+de um prompto restabelecimento... E como não quero passar tambem sem o
+meu quinhão de importancia n'este jubiloso caso de a vermos restituida á
+saude e á vida, tracto de fazer valer, desde já, os meus direitos a um
+louvor que não mereço... De resto, minha senhora, eu felicito-me de a
+encontrar n'um estado que está bem longe de ser o que á minha imaginação
+se apresentava. Julguei vir encontrar uma velhinha na agonia, uma luz
+bruxuleante, quasi a extinguir-se; e com grande surpreza e alegria
+minha, encontro uma senhora nova e formosa ainda. V. ex.^a, embora um
+pouco abatida pela doença, apresenta um aspecto promettedor de muita
+vida... Antes assim!
+
+--É demasiado lisongeiro para com uma pobre doente, sr. Paulo de...
+
+--De Noronha, minha senhora--apressou-se Paulo a dizer, notando a
+hesitação de Helena.
+
+--Ah! v. ex.^a usa esse appellido?--não pôde Helena impedir-se de
+perguntar.
+
+--Uso, minha senhora; e se quer que lhe falle com franqueza, não sei bem
+porquê...
+
+--Naturalmente, appellido de seus paes...
+
+--Não os conheci, nunca tive a menor noticia delles... Tanto sei se eram
+Noronhas como se eram Silveiras... Podiam ser uma e outra coisa, ou
+podiam não ser coisa nenhuma d'estas... Quem podia talvez dizer-me
+alguma coisa com verdade a esse respeito era minha mãe...
+
+--Sua mãe!--interrompeu Helena, mal podendo dominar o
+sobresalto--Conhece-a?
+
+Paulo indicou rindo madre Paula:
+
+--Pois eu não disse ainda a v. ex.^a que minha mãe é esta santa senhora
+que v. ex.^a tem por amiga?
+
+Madre Paula interveio:
+
+--Não te admires, minha amiga. Paulo habituou-se a chamar-me _mãe_, não
+obstante saber que não é a mim que deve a existencia...
+
+--Pois a quem a devo? Que outra mãe conheci eu, que affectos, que
+carinhos, que disvellos e cuidados devo a outra que não seja a nobre e
+santa creatura a quem me estou dirigindo?--accudiu Paulo voltando-se
+para a superiora,--É bem certo--creio-o e não discuto--que devo a
+existencia a um acto physiologico de terceiros, que me produziram, tão
+independentemente da sua vontade como da minha, e que por isso mesmo se
+julgaram desobrigados de me reconhecer e amparar. Mas esse facto não
+envolve sentimento impeditivo do meu amor e ternura filial para com
+aquelles a quem tudo devo, a quem considero meus unicos e verdadeiros
+paes e que são madre Paula e o padre Fillippe.
+
+--Deve então odiar muito aquelles que lhe deram o sêr...--balbuciou
+Helena com os olhos fitos nos do filho.
+
+--Não os odeio, minha senhora, lamento-os.
+
+--Por natural instincto do coração talvez...
+
+--Não. Por uma tendencia especial do meu espirito para deplorar a sorte
+de todos aquelles que se afastaram da linha recta do dever e resvalaram
+no crime ou na cobardia.
+
+--É singular! Como explica isso? Se não conheceu seus paes, como póde
+saber se elles fôram cobardes ou criminosos?
+
+--A minha propria existencia m'o diz, minha senhora. Eu appareço no
+mundo, filho de paes incognitos... isto é, filho de pessoas que me
+negaram a paternidade ou para se não macularem a si proprias ou para me
+não macularem a mim. No primeiro caso, se temeram a macula do meu
+nascimento e a ella se furtaram pela vilta do anonymo, esta acção
+reflecte a cobardia dos seus sentimentos, porque não tiveram a coragem
+de assumir a responsabilidade dos seus actos. No segundo caso, se a sua
+situação era de tal modo contraria ás leis sociaes que, do chamarem-me
+_filho_, revertia para mim uma vergonha inilludivel, nenhuma duvida
+resta de que meus paes fôram criminosos. De qualquer modo, dois
+desgraçados com os quaes não tenho nem quero nada de commum, a não ser
+para os lamentar, como sempre lamento todos aquelles que, podendo ser
+dignos e honestos, o não são, faltando aos dictames da sua consciencia e
+ao cumprimento dos seus deveres.
+
+--Então, se seus paes um dia lhe apparecessem a reivindicar o direito
+que teem á sua ternura, repudial-os-ia--perguntou Helena com a voz de
+cada vez mais sumida.
+
+--Não, minha senhora--replicou Paulo serenamente--não os repudiaria, que
+não é do meu animo repudiar os que soffrem e os que se arrependem. Mas
+se pedissem ao meu coração mais do que o compassivo sentimento que se
+tem para com todos os desgraçados, responder-lhes-ia que o meu amor e a
+minha ternura filial pertenciam exclusivamente áquelles que me foram
+paes adoptivos na infancia--a madre Paula e ao padre Filippe.
+
+Helena baixou os olhos e as faces purpurearam-se-lhe n'uma commoção
+facil de explicar.
+
+--Tem razão--murmurou ella--No entanto, talvez que motivos ponderosos
+forçassem sua mãe a...
+
+--A não ser minha mãe?--atalhou Paulo--Perfeitamente de accordo. A mim
+cumpre-me respeitar esses motivos que não conheço e que nem sequer tento
+conhecer. Mas v. ex.^a comprehende muito bem que, se minha mãe teve
+motivos para me arredar de si como a um objecto incommodo e
+compromettedor, eu não posso ter no fundo do meu coração razões que
+justifiquem e fundamentem qualquer affecto e ternura especial por ella.
+De resto, nós estamos apenas formulando hypotheses que estão muito longe
+de factos, pois não creio que venha a dar-se o caso de meus paes um dia
+apparecerem a reclamar o filho que por tantos annos repudiaram.
+
+--Quem sabe?--observou madre Paula--Não admittiste ha pouco a hypothese
+de que possam soffrer ou arrepender-se?
+
+--No campo das supposições, tudo póde admittir-se, minha boa mãe, porque
+tudo póde suppôr-se... Mas para que havemos de estar a preoccupar-nos
+com um assumpto que não interessa a nenhum de nós, e principalmente a
+mim? O facto é, minha senhora--proseguiu elle, voltando-se para
+Helena--que eu, a despeito da irregularidade do meu nascimento, sou
+feliz quanto o póde ser um homem nas minhas circumstancias.
+
+--Deve muito á Providencia, visto isso!--disse Helena suspirando,--ha
+tão poucas pessoas que, mesmo bem nascidas, possam dizer-se felizes!...
+
+--É certo. Porém eu, até agora, e presentemente, posso considerar-me a
+mais feliz das creaturas. Abandonado por meus paes...
+
+--Mas quem te disse a ti que teus paes te abandonaram?--atalhou,
+docemente reprehensiva, madre Paula--É muito avançar, quando nada sabes
+a esse respeito, Paulo!
+
+O mancebo sorriu.
+
+--Se eu penso assim, a culpa não é por certo minha, mas tão somente
+d'aquelles que tenazmente se teem recusado a dizer-me uma palavra unica
+que me illucide ácerca do meu nascimento.
+
+E voltando-se para Helena:
+
+--Desde a mais tenra infancia que eu vivo exclusivamente do amparo e dos
+carinhos do padre Filippe e de madre Paula, que considero meus paes pela
+grandeza do beneficio e pela constancia do affecto. Não conheci outros,
+nunca me fallaram de outros, nunca d'outros me deram noticia. Já homem,
+tive um momento na minha vida em que senti a necessidade cruel de
+penetrar o mysterio do meu nascimento para poder dizer á mulher que
+amava e que escolhera para companheira de toda a minha existencia, o
+nome de meus paes. Interroguei o padre Filippe. Respondeu-me que não os
+conhecera, que d'elles não tivera nunca noticia, e que eu fôra passado á
+sua benevolente e humanitaria tutella, como um _legado_, no espolio de
+um padre seu amigo, que morrera e que levara comsigo para a sepultura o
+segredo da minha vinda a este mundo. Creio que, n'estas circumstancias,
+quer as palavras do padre Filippe exprimam a verdade quer a encubram, o
+abandono não póde ser mais evidente nem mais completo. Não é v. ex.^a
+d'esta opinião, minha senhora?
+
+--De certo--murmurou Helena com voz tremula.
+
+--Mas eu não accuso meus paes do seu procedimento para commigo, nem
+quando emprego esta palavra _abandono_ lhe ligo o menor sentimento de
+revolta e indignação que ella póde inspirar. Nada d'isso. Elles
+procederam assim, porque talvez tiveram motivos para assim proceder.
+D'esses motivos, porém, não fui eu o culpado, e isso me basta pensar
+para minha completa tranquillidade. Para tranquillidade d'elles, se
+forem vivos e souberem de mim, bastar-lhes-ha a certeza de que sou
+completamente feliz com o amor de madre Paula e da minha noiva, e com a
+estima e paternal affecto do padre Filippe. Aqui está, pois, um drama
+que talvez no seu inicio ameaçou ser de lagrimas e que, por um
+extraordinario desenrolar de circumstancias favoraveis, acaba por
+apresentar todos os personagens felizes e contentes comsigo mesmos!
+
+Ao proferir estas ultimas palavras, Paulo ria jubiloso, com aquella
+alegria franca do seu temperamento expansivo e sincero.
+
+Helena de Noronha, de cada vez mais encantada com a attitude
+despretenciosa e alegre d'aquelle rapaz que reproduzia nas feições e nos
+gestos os modos e as feições de Norberto de Noronha, sentiu-se
+extraordinariamente feliz ao ouvir da bocca do proprio filho palavras de
+compassivo perdão para o criminoso abandono a que ella o votara.
+
+--O senhor--disse ella--possue uma alma nobilissima e um coração dotado
+de generosos sentimentos. Merece ser feliz; e uma vez que já o é, busque
+nortear-se sempre pelos dictames da piedade e da compaixão, mesmo para
+com aquelles que o offenderam ou aggravaram...
+
+O tom quasi supplicante em que estas palavras foram ditas não escapou a
+madre Paula que, com a sua natural perspicacia, comprehendeu bem o que
+se passava na alma da sua amiga.
+
+--Paulo é um bello caracter--interrompeu ella envolvendo o mancebo n'um
+olhar de maternal ternura--e sinto verdadeiro orgulho de ter sido eu a
+sua educadora... Eu e o padre Filippe--emendou logo--porque é justo não
+esquecer que esse exemplar sacerdote tem tido com este filho adoptivo
+todos os extremos e disvellos de um pae.
+
+O mancebo começou então recordando alegremente passagens esquecidas da
+sua infancia, travessuras de creança, brincadeiras, affagos e
+reprimendas do padre Filippe e de madre Paula, e n'isto levou algumas
+horas, que muito distrahiram e interessaram Helena de Noronha, agora de
+todo familiarisada com o filho.
+
+Quando Paulo, pretextando não querer com a sua conversação fatigar o
+espírito da doente, se retirou promettendo voltar depois, a religiosa, a
+sós com Helena, perguntou-lhe:
+
+--E então?
+
+--Então, minha querida Paula--exclamou a enferma--é bem meu filho, é bem
+o neto de Norberto de Noronha aquelle rapaz que alli está!
+
+--Não te dizia eu que Paulo era um bello e excellente moço, reflectindo
+na figura varonil e cheia de nobreza as feições de teu pae? Dize-me, não
+será elle digno de que o ames como filho, e por elle e para elle busques
+ainda viver? Não seria doce e consolador para ti vêr-te, depois de
+tantos annos de soffrimentos e amarguras, querida e amada por quantos te
+rodeiam?
+
+Helena teve um sorriso e os olhos brilharam-lhe n'um fugitivo anceio de
+felicidade.
+
+--Sim... sim!...--disse ella--seria feliz ainda, se pudesse viver na
+companhia de meu filho, amada por elle e respeitada por aquelles que me
+conhecem... Mas isso é impossivel! E queres que te diga? Agora, depois
+que vi meu filho... sinto-me mais desgraçada!
+
+--Porque?
+
+--Porque... tu comprehendes... na minha alma começam a despertar agora
+todos os sentimentos do amor maternal, e não posso dizer a meu filho:
+«Sou tua mãe!»
+
+
+
+
+XXXI
+
+O homem dos oculos verdes
+
+
+Decorreram quinze dias de suave e doce convivencia entre mãe e filho, na
+casa de D. Aurelia.
+
+Madre Paula e a irmã de Gustavo, ambas de intimo accôrdo no empenho de
+salvarem Helena de Noronha, tinham sabido dispôr e conduzir as coisas de
+modo que Julio, Paulo e o padre Manoel se encontrassem muitas vezes
+reunidos á volta da doente, sem que nenhum d'elles suspeitasse os laços
+de sangue que ligavam aquelle mancebo, tão cheio de vida e de alegria, á
+infeliz victima do padre Anselmo.
+
+A pobre Helena parecia um tanto esquecida das suas mágoas e infortunios,
+sentindo renascer dentro em si o desejo de viver, tal era o amoravel
+cuidado que todos punham em lhe suavisar a existencia, tão attribulada
+de dôres physicas e moraes.
+
+Infelizmente, o medico constatara que a doente soffria de uma lesão
+cardiaca em estado bastante adiantado, e que tanto podia deixal-a viver
+ainda muitos mezes como dar-lhe a morte em breves dias.
+
+Este diagnostico, porém, reservara-o apenas para si, limitando-se a
+recommendar que não expuzessem a enferma a sobresaltos e commoções
+fortes, que podiam ser-lhe de funestas consequencias.
+
+O honesto homem de sciencia, reconhecendo quanto a pobre doente era
+amada por todos que a cercavam, não quiz destruir no coração dos que
+tanto lhe queriam a dôce esperança de a verem completamente salva.
+
+Estava-se, pois, n'esta bella illusão de um restabelecimento proximo,
+quando um dia, pelo fim da tarde, bateu ao portão de D. Aurelia, pedindo
+para fallar á dona da casa, um desconhecido, que a todos causou surpreza
+pelo seu extranho aspecto e pelas suas mysteriosas maneiras.
+
+Era um homem alto, de cabellos compridos e longa barba grisalha.
+
+Usava oculos verdes. Vestia um amplo casacão, que quasi lhe descia aos
+calcanhares e que, todo abotoado na frente, tomava o aspecto de uma
+sotaina. Na cabeça, trazia um chapeu de enormes abas que,
+ensombrando-lhe o rosto, dava um aspecto mais carregado á sua figura.
+
+Viera a pé, encostado a um bordão e, comquanto agil, parecia fatigado da
+longa jornada.
+
+D. Aurelia, ao annunciarem-lhe o desconhecido, sahiu á sala de visitas a
+recebel-o e ficou extranhamente surprehendida ao vêr diante de si
+aquelle homem que ao mesmo tempo lhe infundia respeito e mêdo.
+
+--Minha senhora--disse elle com voz sonora, mas em que havia uma certa
+suavidade--peço desculpa de vir assim importunal-a, apresentando-me a
+fazer-lhe um pedido sem para isso estar de forma alguma auctorisado. Mas
+a importancia da minha missão é tal, que eu atrevo-me a suppôr que v.
+ex.^a não me recusará o auxilio de que careço para bem a cumprir.
+
+--Não conheço a pessoa a quem estou fallando--respondeu D. Aurelia, com
+simplicidade--mas se é o meu concurso para uma obra boa que vem pedir,
+rogo-lhe a fineza de me dizer em que posso ser-lhe util.
+
+O desconhecido baixou a voz e disse n'um tom de confidencia:
+
+--Fui amigo intimo de Alvaro de Noronha, e elle, um dia antes de ser
+assassinado, constituiu-me depositario de um segredo de familia, que só
+deve ser revelado a sua prima, a sr.^a D. Helena de Noronha, actualmente
+n'esta casa...
+
+D. Aurelia fitou-o perplexa.
+
+--E como sabe v. ex.^a que a minha amiga Helena está aqui, quando toda a
+gente ignora...
+
+O desconhecido sorriu de um modo indefinido e volveu com firmeza.
+
+--Sou um homem de bem, minha senhora, e sei cumprir os meus juramentos.
+Jurei ao meu amigo Alvaro que revelaria a sua prima o segredo de familia
+que elle me confiou com esse fim, e não me tenho poupado a esforços para
+bem cumprir a ultima vontade do moribundo. Tendo a snr.^a D. Helena
+permanecido em parte incerta durante muitos annos, comprehende v. ex.^a
+certamente o empenho com que eu terei buscado encontral-a, mórmente
+achando-me no fim da vida quasi, e não querendo levar commigo para a
+sepultura um segredo que me não pertence...
+
+--Quer v. ex.^a, pois, fallar com Helena de Noronha?
+
+--É esse o unico objecto da minha vinda a casa de v. ex.^a, e para isso
+ouso supplicar-lhe o favor da sua intervenção.
+
+--A minha amiga, não sei se sabe, tem estado muito doente...
+
+--Mas tambem sei que ultimamente tem experimentado sensiveis melhoras.
+
+--O medico recommendou que lhe evitassemos commoções violentas...
+
+--Estou persuadido de que a minha presença não poderá causar-lhe a menor
+commoção, pois que me não conhece, como eu tambem pessoalmente a não
+conheço a ella.
+
+--Mas o objecto da sua visita...
+
+--Não póde ser-lhe de modo algum desagradavel--atalhou o
+desconhecido--porque o que tenho a dizer-lhe é a coisa mais simples e
+mais natural d'este mundo.
+
+--Quem devo, pois, annunciar á minha amiga?
+
+--Dar-lhe o meu nome é inutil, porque lhe será sempre desconhecido. Se
+v. ex.^a tivesse a bondade, dir-lhe-hia que um amigo de seu primo Alvaro
+pretende fazer-lhe uma communicação importante e do mais alto interesse
+para ella.
+
+D. Aurelia entrou no quarto da enferma, que a essa hora estava
+conversando com Julio, Paulo e a abbadessa, todos já conhecidos e
+convivendo n'aquella intimidade tão facil e tão peculiar á gente da
+provincia.
+
+Helena, muito animada e, ao parecer, muito melhor dos seus soffrimentos
+physicos, inspirava a todos uma grande esperança de a verem em breve
+completamente restabelecida.
+
+Chegara mesmo, em conversação intima com madre Paula, a fazer projectos
+de viver, como governante, em companhia do filho e da nora, logo que
+elles fossem casados.
+
+--Elle não saberá nunca que sou sua mãe--dizia ella--e eu poderei vêl-o
+e amal-o, como se visse n'elle a cada momento o retrato vivo do meu pae,
+quando mais novo... E cada sorriso affavel, cada palavra de bondade que
+elle me dirija, será para mim como que um signal de perdão enviado,
+d'alem tumulo e pelos labios do meu filho, por aquelle pobre espirito,
+que tanto fiz soffrer!
+
+Madre Paula sorria de satisfação, ao ouvir da bocca da sua amiga Helena
+estas palavras que significavam n'ella o desejo de regressar á vida.
+
+--Na tua mão está, minha querida, o realisares o teu desejo... Faze por
+melhorar. Que o amor por teu filho te dê a força e a energia
+indispensavel para triumphar das reminiscencias do teu passado, e o
+futuro, relativamente feliz, será teu.
+
+D. Aurelia não quiz prevenir Helena, na presença das pessoas que a
+rodeavam, da inesperada visita do desconhecido.
+
+Quando todos se retiraram, a irmã de Gustavo, approximando-se do leito,
+disse-lhe sorrindo:
+
+--Venho annunciar-te, minha querida amiga, uma nova visita...
+
+--Quem?--interrogou Helena.
+
+--Um desconhecido que pretende fallar-te...
+
+--Um desconhecido!--repetiu Helena com instinctivo sobresalto.
+
+--Sim. Um desconhecido para mim e para ti.
+
+--O que quer elle?
+
+--Quer ser-te apresentado para te revelar um segredo de familia...
+
+--A mim?!
+
+--A ti.
+
+--Que segredo de familia póde revelar-me uma pessoa que eu não conheço?
+
+--Este homem diz-se um antigo e intimo amigo de teu primo Alvaro que, na
+vespera de ser assassinado e prevendo a desgraça que ia acontecer-lhe, o
+incumbiu de te fazer uma revelação importante, se algum dia te
+encontrasse ou tivesse noticias tuas...
+
+--Meu primo Alvaro!--balbuciou Helena estremecendo.
+
+--Sim... da parte do teu primo Alvaro é que elle vem.
+
+--Como sabe esse homem que eu estou aqui?
+
+--Diz elle que tem durante muitos annos empregado os maiores esforços
+para te encontrar. Sabendo que está doente n'esta casa uma antiga amiga
+minha, pensou que talvez fosses tu e veio interrogar-me a esse respeito.
+Como se trata de um assumpto que póde ser de interesse e de utilidade
+para ti, achei conveniente dizer-lhe a verdade...
+
+--Queres, pois, que o receba?
+
+--Não t'o imponho, minha amiga. Mas creio que farias bem em o ouvir...
+
+--Pois bem; faça-se a tua vontade...
+
+--A minha vontade não. Aqui a unica pessoa a resolver e a decidir és
+tu...
+
+--Acho estranho esse caso de um desconhecido a procurar-me para me fazer
+revelações!...
+
+--A mim parece-me a coisa mais natural do mundo. Todas as familias teem
+segredos que só em determinados momentos julgam opportuno transmittir
+aos que lhes succedem... Teu primo era intimo de teu pae, estava para
+ser teu noivo... É, pois, muito natural que, sabendo o estado gravissimo
+em que se encontrava teu pae e perdida a esperança de tornar a vêr-te,
+encarregasse a um amigo a missão de um dia te esclarecer... E quem nos
+diz a nós que este desconhecido vem talvez trazer-te a independencia e a
+fortuna, quando tu menos a esperas?
+
+Helena sorriu incredula.
+
+--Não creio--disse ella--mas seja o que fôr, desde que se trata de um
+segredo de familia, devo ouvil-o. Manda entrar esse homem.
+
+D. Aurelia saiu e pouco depois dava entrada na camara da enferma o homem
+dos oculos.
+
+Helena, recostada n'uma cadeira de braços, encarou-o fito e não o
+reconheceu.
+
+O desconhecido inclinou a cabeça n'uma saudação, e pareceu esperar que
+D. Aurelia se retirasse.
+
+--Fica!--pôde ainda dizer Helena, tomada de subito receio, olhando para
+a sua amiga.
+
+--Perdão!--obtemperou o desconhecido.--O que tenho a dizer a v. ex.^a é
+tão importante segredo, que não póde ser ouvido por mais alguem.
+
+--Não tenho segredos para a minha amiga...
+
+--Todas as pessoas teem segredos--insistiu o homem dos oculos--e se a
+ninguem é licito devassal-os, menos licito se me afigura revelar os que
+nos não pertencem. V. ex.^a não tem o direito de tornar publico um
+segredo que lhe não pertence, que não é só seu, porque é tambem de sua
+familia...
+
+Estas palavras foram ditas com tal intimativa que Helena baixou os olhos
+tremula e confundida.
+
+--Este cavalheiro tem razão--disse D. Aurelia--Eu aguardarei na sala
+proxima as tuas ordens, minha boa amiga... Escuta este senhor.
+
+E sahiu.
+
+Então o desconhecido, avançando alguns passos no quarto, fitou Helena e
+disse-lhe em voz soturna:
+
+--Não me conheces, Irmã Dorothêa, abadessa da Covilhã? Sou eu, o teu
+cumplice!
+
+Helena fez um gesto de horror e soltou um grito abafado. Reconhecera no
+homem dos oculos verdes o padre Hilario, o seu cumplice no assassinato
+do padre Anselmo.
+
+--Não venho accusar-te pela maneira infame e ignobil como abusaste da
+paixão ardentissima que a tua presença accendeu na minha alma, e menos
+ainda do ludibrio de que me fizeste victima, obrigando-me a esperar-te
+baldadamente na fronteira, onde prometteste que irias, reunir-te a mim.
+Era justo que ao crime succedesse a expiação, e não haveria decerto
+Providencia, se eu pudesse ser feliz comtigo. Fizeste de mim um
+assassino miseravel, um perjuro, um parricida, Helena de Noronha. Tudo
+isso te perdôo. Sabes, porém, o que não te posso perdoar? É que ames
+outro e com elle penses viver ainda feliz. Isso não. Julio de Montarroyo
+não será mais venturoso comtigo do que eu.
+
+--Julio de Montarroyo!--balbuciou Helena aterrada--Quem lhe ensinou esse
+nome?
+
+--Eu sei todos os nomes que estão ligados á tua existencia, filha de
+Norberto de Noronha, amante do padre Anselmo, mãe de Paulo de Noronha.
+Sei tudo, que para outra coisa não tenho vivido ha dezoito annos,
+rastejando como a serpente, ao peso do meu remorso. Quiz saber de ti,
+quiz conhecer a que qualidade de mulher sacrifiquei a minha posição, o
+meu futuro, a minha vida, a minha alma. E soube-o! Nada me resta por
+saber. E, pois, que ainda na tua vida ha um lampejo de esperança, e na
+tua alma um vinculo de affecto que te prende a alguem, eu venho dizer-te
+que chegou a hora de partirmos. Jurei que não pertencerias a outro, que
+não amarias outro, que nenhum homem ouviria de teus labios juras eguaes
+áquellas que de teus labios fementidos ouvi. Eis-me, pois, aqui, prompto
+a cumprir o meu juramento. Queres obedecer a elle voluntariamente, ou
+preferes o escandalo ruidoso, que nada remedeia e que te acompanhará
+alem da morte? Vamos! fomos companheiros no crime; é bem que o sejamos
+na expiação. Se tiveste coragem para matar, tel-a-has agora tambem para
+morrer.
+
+--Mate-me! mate-me!--soluçou Helena, pondo as mãos.
+
+Então o padre Hilario tirou do interior do casaco uma pequena caixa, que
+abriu. Depois, tomando entre os dedos uma pastilha, disse:
+
+--Eis aqui um veneno activissimo que dentro em duas horas terá cumprido
+o seu dever, matando-te suavemente, sem uma agonia prolongada. Até este
+beneficio me deves, porque não quero que a morte te seja dolorosa.
+Vamos! aqui tens a morte.
+
+E offereceu-lhe a pastilha. Helena, sem a mais leve hesitação, acceitou
+o veneno das mãos do seu cumplice e tomou-o com assombrosa serenidade.
+
+--Pago-te assim a minha divida--disse ella--Estamos quites. Se para me
+ajudares a vingar do monstro que me perdeu tivesses exigido a minha vida
+em troca, ter-t'a-hia sacrificado. Pediste, porém, o meu amor... e esse
+eu não podia conceder-t'o... Mas era-me preciso vingar-me. Perdoa-me!
+
+--Mas se eu te amo ainda!--exclamou o padre Hilario debruçando-se no
+leito e beijando-lhe freneticamente as faces e os olhos!--Amo-te e morro
+feliz, sabendo que me precedes algumas horas na romagem mysteriosa do
+tumulo!
+
+Depois, com voz tremula em que havia toda a expressão de um infinito
+amor:
+
+--Irei comtigo, descança! Se não pude fazer que me pertencesses n'esta
+vida, buscarei na outra ser teu companheiro de tormentos e penas
+eternas! Lá nos havemos de encontrar.
+
+Beijou-a ainda com louco frenesi e sahiu do quarto da enferma, sem
+deixar transparecer na face impassivel a commoção que lhe agitava a
+alma.
+
+Duas horas depois, Helena de Noronha, tendo-se despedido de todas as
+pessoas que lhe rodeavam o leito, morria tranquillamente, docemente,
+como se a morte a fizesse cahir n'um somno doce e reparador.
+
+Este inesperado desenlace surprehendeu a todos; mas ninguem ousou
+suspeitar-lhe a verdadeira causa.
+
+Julio de Montarroyo, cahindo n'um mutismo aterrador, velou-lhe o cadaver
+e acompanhou-o á sepultura, frio e impassivel, como se fora um cadaver
+tambem. Nem aos olhos lhe assomou uma lagrima nem de seus labios sahiu
+um gemido, ao vêr desapparecer para sempre no pó da sepultura a face da
+mulher que tanto amara!
+
+
+
+
+Conclusão
+
+
+Um mez depois d'estes acontecimentos, madre Paula e padre Filippe,
+regressando de uma mysteriosa visita ao convento da Covilhã, mandaram
+chamar Paulo de Noronha.
+
+--Meu filho--disse-lhe o padre Filippe, apresentando-lhe um cofre de
+ferro quadrado--eu e madre Paula temos até hoje sido depositarios de uma
+fortuna que te pertence e que fomos encarregados de te entregar logo que
+hajas attingido a maioridade e possas por lei dispôr do que é teu. Estão
+n'este cofre oitocentos contos que te pertencem. Como deliberaste unir o
+teu destino ao de uma menina que desejas fazer tua mulher, julgamos do
+nosso dever informar-te d'esta circumstancia, afim de que possas regular
+com o pae da tua futura esposa as condições do teu enlace.
+
+Paulo, attonito e mal podendo crêr no que ouvia, encarava ora o padre
+Filippe, ora madre Paula, sem poder articular uma palavra.
+
+--Oitocentos contos!--balbuciou por fim.--E d'onde vem tanto dinheiro?
+
+--De teus paes--respondeu madre Paula.
+
+--Meus paes! E quem eram elles?--perguntou o mancebo, na esperança de
+que, emfim, o segredo do seu nascimento lhe iria ser revelado.
+
+--Nunca o saberás. Essa fortuna que elles te legaram não traz nome.
+Designa-lhe tu, meu filho, um bom destino e uma applicação nobre e
+justa.
+
+Quando o mancebo retirou, louco de alegria a communicar a boa nova a
+Beatriz, padre Filippe, voltando-se para madre Paula, exclamou:
+
+--Como Deus é misericordioso e é justo! Esta fortuna, accumulada á custa
+de crimes nas mãos do padre Anselmo, vae agora, nas mãos d'este rapaz
+que é seu filho, ter um destino bem mais nobre e mais digno.
+
+--Que o altruismo do filho possa ao menos redimir as torpezas e os
+crimes do pae!--replicou madre Paula.
+
+No dia em que Paulo de Noronha se unia a Beatriz, a contento do sr.
+Custodio de Jesus, seu pretenso progenitor, recebeu madre Paula a
+noticia de que Julio de Montarroyo se havia suicidado sobre a sepultura
+da _Irmã Dorothea_, legando uma parte dos seus haveres ao _mestre Tomba_
+e a parte restante a D. Aurelia para obras de caridade.
+
+E como os acontecimentos notaveis nunca veem isolados, o procurador
+Belchior leu tambem n'esse dia, nas gazetas, a noticia de que Leonor,
+que tanto se salientára no tragico suicidio de Eugenio de Mello, partira
+para Lisboa em companhia de João Lazaro.
+
+Do homem dos oculos verdes, o Mestre fundador da _Mão Negra_, nunca mais
+Jorge, o amigo de Paulo, ouviu fallar, substituindo-o porisso na
+direcção da famosa sociedade secreta, que é hoje a mais florescente e
+poderosa de todas as suas irmãs.
+
+FIM
+
+
+
+
+INDICE
+
+
+ PAG.
+
+I--Os irmãos da mão negra 5
+
+II--Amor e esperança 23
+
+III--Pae e filha 43
+
+IV--Dois patifes 69
+
+V--Madre Paula 78
+
+VI--Á hora da morte 87
+
+VII--Tres miseraveis 103
+
+VIII--Entre irmãos 124
+
+IX--Amores faceis 135
+
+X--Para os grandes males 153
+
+XI--João Lazaro 168
+
+XII--Velhos conhecimentos 181
+
+XIII--Denuncia 211
+
+XIV--Miseravel! 239
+
+XV--Conluio infame 255
+
+XVI--O rapto 262
+
+XVII--Quem semeia ventos 280
+
+XVIII--Revelação 289
+
+XIX--Um velho amigo 304
+
+XX--Alma negra 317
+
+XXI--Tal vida, tal fim 333
+
+XXII--Mysterio 346
+
+XXIII--Allucinação 357
+
+XXIV--Extranho encontro 369
+
+XXV--Pobre Helena 389
+
+XXVI--Um amigo dos diabos 399
+
+XXVII--Duas amigas 411
+
+XXVIII--Coração morto 427
+
+XXIX--Confidencias 436
+
+XXX--Mãe 442
+
+XXXI--O homem dos oculos verdes 452
+
+Conclusão 461
+
+
+
+
+Lista de erros corrigidos
+
+
+Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:
+
+
+ +----------+---------------------+----------------------+
+ | | Original | Correcção |
+ +----------+---------------------+----------------------+
+ |#pág. 8| ter fôr | te for |
+ |#pág. 17| a aquella | aquella |
+ |#pág. 18| danda-nos | dando-nos |
+ |#pág. 23| algum temdo | algum tempo |
+ |#pág. 24| pancado | pancada |
+ |#pág. 25| com | como |
+ |#pág. 35| Na primeiro | No primeiro |
+ |#pág. 43| pupilllo | pupillo |
+ |#pág. 70| mefica | me fica |
+ |#pág. 98| ella | elle |
+ |#pág. 99| pabre | padre |
+ |#pág. 109| palava | palavra |
+ |#pág. 111| famila | familia |
+ |#pág. 112| devo ou | devo eu |
+ |#pág. 127| circumstancios | circumstancias |
+ |#pág. 140| continou | continuou |
+ |#pág. 162| aprsentou | apresentou |
+ |#pág. 164| auctoridado | auctoridade |
+ |#pág. 169| importaacia | importancia |
+ |#pág. 190| as as minhas | as minhas |
+ |#pág. 194| muduram | mudaram |
+ |#pág. 201| tembem | tambem |
+ |#pág. 202| risonha | risonhas |
+ |#pág. 223| dinheiro | o dinheiro |
+ |#pág. 226| trasnporte | transporte |
+ |#pág. 235| respendeu | respondeu |
+ |#pág. 258| dm | em |
+ |#pág. 260| mutio | muito |
+ |#pág. 263| prepada | preparada |
+ |#pág. 263| seguiramos | seguiram os |
+ |#pág. 267| pergunou | perguntou |
+ |#pág. 271| as sentidos | os sentidos |
+ |#pág. 288| ciosa | coisa |
+ |#pág. 310| o gente | a gente |
+ |#pág. 311| semelhanle | semelhante |
+ |#pág. 311| qne | que |
+ |#pág. 315| esssas | essas |
+ |#pág. 317| a molestias | as molestias |
+ |#pág. 333| pelo colera | pela colera |
+ |#pág. 344| Lenor | Leonor |
+ |#pág. 350| desconhcida | desconhecida |
+ |#pág. 357| horrrivel | horrivel |
+ |#pág. 357| algnma | alguma |
+ |#pág. 365| pssou | passou |
+ |#pág. 366| ssforços | esforços |
+ |#pág. 430| Juliod e | Julio de |
+ |#pág. 442| fiho | filho |
+ |#pág. 450| setas | estas |
+ |#pág. 450| o reprimendas | e reprimendas |
+ +----------+---------------------+----------------------+
+
+
+Ao longo do texto original encontramos "..", num espaço onde caberiam
+reticências ("..."): assumi tratar-se de um erro tipográfico,
+substituindo os dois pontos horizontais por três.
+
+Noberto e Norberto são variações constantes da mesma palavra, a manter
+de acordo com o original. O mesmo acontece para as palavras Laura e
+Leonor, que se identificam como sendo a mesma personagem.
+
+Os números dos capítulos foram alterados a partir do capítulo XIII (no
+original capítulo XIV da página 211), uma vez que houve um erro
+confirmado com a ordem correcta do índice.
+
+Foram acrescentadas aspas de fecho quando estas não existiam e onde
+faziam falta, por terem sido iniciadas e não terminadas.
+
+Foram acrescentados travessões quando se mostraram necessários e
+vice-versa.
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Os Filhos do Padre Anselmo, by
+António da Costa Couto Sá de Albergaria
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS FILHOS DO PADRE ANSELMO ***
+
+***** This file should be named 24625-8.txt or 24625-8.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ http://www.gutenberg.org/2/4/6/2/24625/
+
+Produced by Ricardo F. Diogo, Rita Farinha and the Online
+Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net
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+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
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+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
+
+
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+PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK
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+electronic works
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+electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
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+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
+terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
+entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.
+
+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
+Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
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+work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
+through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
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+1.E.9.
+
+1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
+with the permission of the copyright holder, your use and distribution
+must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
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+
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+electronic work, or any part of this electronic work, without
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+compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
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+request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
+form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
+License as specified in paragraph 1.E.1.
+
+1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
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+unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.
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+1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
+access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
+that
+
+- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
+ the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
+ owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
+- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
+ does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
+ Project Gutenberg-tm works.
+
+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
+
+1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
+effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
+public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
+collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
+works, and the medium on which they may be stored, may contain
+"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
+corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
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+of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
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+fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
+LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
+PROVIDED IN PARAGRAPH F3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
+TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
+LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
+INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
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+
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+defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
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+received the work on a physical medium, you must return the medium with
+your written explanation. The person or entity that provided you with
+the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
+refund. If you received the work electronically, the person or entity
+providing it to you may choose to give you a second opportunity to
+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
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+
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+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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+The Project Gutenberg EBook of Os Filhos do Padre Anselmo, by
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+Title: Os Filhos do Padre Anselmo
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+Author: António da Costa Couto Sá de Albergaria
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+Release Date: February 15, 2008 [EBook #24625]
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+Language: Portuguese
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS FILHOS DO PADRE ANSELMO ***
+
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+
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+Produced by Ricardo F. Diogo, Rita Farinha and the Online
+Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net
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+
+
+
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+
+
+<div>
+<div class="fbox"><b>Nota de editor:</b>
+Devido &agrave;
+quantidade de erros tipogr&aacute;ficos existentes neste texto,
+foram tomadas v&aacute;rias decis&otilde;es quanto &agrave;
+vers&atilde;o final. Em caso de d&uacute;vida, a grafia foi
+mantida de acordo com o original. No final deste livro
+encontrar&aacute; a lista de erros corrigidos.<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: right; font-style: italic;">Rita
+Farinha (Fev. 2008)
+</div>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="bbox">
+<br />
+
+<h3>S&Aacute; D'ALBERGARIA
+</h3>
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>OS FILHOS DO PADRE ANSELMO
+</h2>
+
+<br />
+
+<h3>ROMANCE
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 100px; height: 99px;" alt="" src="images/fig1.png" /><br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+</div>
+
+<h4>PORTO
+LIVRARIA CHARDRON<br />
+
+DE<br />
+
+<b>Lello &amp; Irm&atilde;o,
+Editores</b>
+</h4>
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<h4>1904
+</h4>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;">Typ. a vapor da Empreza
+Litteraria e Typographica
+<br />
+
+<br />
+
+178, rua de D. Pedro, 184<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>OS FILHOS DO PADRE ANSELMO
+</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c1"></a>I<br />
+
+<br />
+
+Os irm&atilde;os da m&atilde;o negra
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O relogio dos Clerigos tinha acabado de fazer soar
+pausadamente as doze badaladas da meia noite.
+<br />
+
+<br />
+
+O tempo estava brusco e o vento, soprando da
+barra em frias e cortantes rajadas, punha arrepios
+nos transeuntes que, levantadas as golas dos casacos
+e as m&atilde;os mettidas nos bolsos, seguiam a passo apressado,
+recolhendo a casa, sob a amea&ccedil;a de um temporal
+desfeito.
+<br />
+
+<br />
+
+Era em fins do outono.
+<br />
+
+<br />
+
+As arvores do jardim da Cordoaria, varejadas
+pela ventania asperrima, despiam-se das suas ultimas
+folhas amarellecidas, n'um agitado e sussurrante protesto
+de espoliadas.
+<br />
+
+<br />
+
+Quem a essa hora passasse pelo Campo dos Martyres
+da Patria, veria, encostado a uma das arvores
+que orlam o jardim, defrontando com a pra&ccedil;a do Peixe,
+um vulto immovel e indifferente ao tempestuoso
+rugir d'aquella noite agreste e frigidissima.
+<br />
+
+<br />
+
+Parecia esperar alguem, porque, ao ouvir bater a
+meia noite no relogio da torre, levou a m&atilde;o ao bolso
+<span class="pagenum">[2]</span>
+e, aproximando-se de um dos candieiros da
+illumina&ccedil;&atilde;o
+publica, consultou o seu relogio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Aquelle anda adiantado cinco minutos&#8213;murmurou.
+<br />
+
+<br />
+
+E deu alguns passos distrahidamente como para
+illudir a sua impaciencia.
+<br />
+
+<br />
+
+Agora, que o podemos v&ecirc;r ao reverbero do lampe&atilde;o,
+notaremos que &eacute; um rapaz de 18 annos, decentemente
+vestido e de gentil presen&ccedil;a, n&atilde;o obstante as
+fei&ccedil;&otilde;es finas e delicadas quasi lhe
+desapparecerem encobertas
+pela aba larga do seu chap&eacute;o &aacute; Mazzantini.
+<br />
+
+<br />
+
+Tinha apenas dado um curto passeio no prolongamento
+do jardim, quando do lado da rua do Calvario
+avan&ccedil;ou a trote rasgado um trem, que parou em
+frente d'elle.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute;s tu, Paulo?&#8213;disse de dentro uma voz.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sou.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Entra depressa, que a noite est&aacute; agreste!
+<br />
+
+<br />
+
+E a pessoa que fallava de dentro abriu a portinhola,
+facilitando-lhe a entrada.
+<br />
+
+<br />
+
+O mancebo saltou de um pulo para dentro do carro,
+a portinhola fechou-se, e os cavallos seguiram no
+seu trote largo, dobrando a rua da Restaura&ccedil;&atilde;o e
+subindo
+a da Liberdade at&eacute; ganharem a rua do Rosario.
+<br />
+
+<br />
+
+Sigamos aquelle trem e ou&ccedil;amos o dialogo que se
+trava dentro d'elle.
+<br />
+
+<br />
+
+Apenas o mancebo entrou, a pessoa que o chamara
+e que era um homem de 28 a 30 annos, desceu rapidamente
+as cortinas do carro e disse para o seu joven
+companheiro:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meu amigo, como j&aacute; te expliquei, isto s&atilde;o
+negocios
+em que se requer a maior circumspec&ccedil;&atilde;o e
+escrupulo
+na observancia das praxes. Has-de consentir
+que te vende os olhos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Acaso desconfias da minha lealdade, Jorge?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[3]</span> &#8213;De modo algum. Mas &eacute; uma obriga&ccedil;&atilde;o
+que o
+regulamento me imp&otilde;e, e eu n&atilde;o posso faltar a
+ella
+sem trahir o meu dever.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois bem, seja!
+<br />
+
+<br />
+
+O sujeito que ouvimos chamar Jorge tirou ent&atilde;o
+do bolso um len&ccedil;o e vendou com elle os olhos do companheiro.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Has-de dar-me a tua palavra de honra que n&atilde;o
+tentar&aacute;s arrancar a venda sem que para isso recebas
+ordem...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dou. Mas se o fizesse?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Poderia isso custar-te a vida, meu caro.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Apre!&#8213;fez o outro, sorrindo&#8213;voc&ecirc;s s&atilde;o
+intransigentes!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; n'isso a nossa for&ccedil;a. N&atilde;o
+violentamos ninguem
+a seguir-nos, damos ampla liberdade a cada um
+de rejeitar a nossa associa&ccedil;&atilde;o, mas defendemos a
+nossa
+existencia e mantemos o nosso segredo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; justo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Assim, tu podes, at&eacute; &aacute; hora de prestares o teu
+juramento, reconsiderar e exigir que te restituam a
+liberdade. Nenhum mal te acontecer&aacute; por isso, a tua
+vontade ser&aacute; respeitada, a tua independencia mantida.
+Mas n&atilde;o saber&aacute;s dizer onde estiveste nem as
+pessoas
+com quem fallaste.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Poderei dizer que fallei comtigo...&#8213;gracejou
+o outro.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que importa? Eu n&atilde;o sou uma
+associa&ccedil;&atilde;o.
+Comigo p&oacute;de fallar toda a gente...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fallemos s&eacute;rio!&#8213;tornou o mo&ccedil;o que dava pelo
+nome de Paulo.&#8213;Asseveras-me que os intuitos d'essa
+associa&ccedil;&atilde;o em que vou entrar s&atilde;o em
+tudo dignos das
+justas aspira&ccedil;&otilde;es de um homem de bem?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Assevero-te que os irm&atilde;os da
+<em>M&atilde;o-negra</em> comprehendem
+e cumprem &aacute; risca o nobre dever de se
+auxiliarem e defenderem mutuamente contra as prepotencias
+<span class="pagenum">[4]</span>
+sociaes da nossa epoca. No nosso gremio
+desapparecem as differen&ccedil;as de gerarchia e de dinheiro.
+N&atilde;o ha pobres, porque todos somos ricos da
+riqueza e da importancia dos nossos irm&atilde;os.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Poderei ent&atilde;o contar com o auxilio da
+Associa&ccedil;&atilde;o
+na conquista da mulher que amo?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Decerto&#8213;volveu o outro.&#8213;Tanto como amanh&atilde;
+qualquer de nossos irm&atilde;os poder&aacute; contar com o
+teu auxilio para a realisa&ccedil;&atilde;o dos seus desejos.
+Isto &eacute;
+apenas uma associa&ccedil;&atilde;o de soccorros mutuos, meu
+caro
+Paulo. A mulher que amas ser&aacute; tua desde que te filies
+no nosso gremio. Comprehendes que toda a ac&ccedil;&atilde;o
+da <em>M&atilde;o-negra</em> se resume em
+tornar felizes e ricos os
+seus irm&atilde;os, porque d'essa riqueza e d'essa felicidade
+lhe advem a ella a for&ccedil;a, o poderio, a importancia.
+<br />
+
+<br />
+
+O trem ia correndo veloz pela estrada do Carvalhido,
+sem que Paulo, entretido na conversa, parecesse
+ter notado o tempo gasto na corrida.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;No emtanto&#8213;accrescentou ainda Jorge&#8213;os
+fins e intuitos da Associa&ccedil;&atilde;o v&atilde;o
+s&ecirc;r-te ainda expostos
+e confirmados por pessoa idonea e mais competente
+de que eu. Se te restar alguma duvida, o minimo
+escrupulo, poder&aacute;s renunciar ao teu intento, com
+a unica condi&ccedil;&atilde;o de n&atilde;o tirares a
+venda nem tentares
+deslealmente devassar os segredos do nosso gremio...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Conheces-me, e sabes que isso s&atilde;o processos indignos
+do meu caracter!&#8213;protestou o mancebo.
+<br />
+
+<br />
+
+O trem parou em frente de um port&atilde;o largo, que
+dava accesso a uma vasta quinta murada.
+<br />
+
+<br />
+
+Jorge apeou-se e deu a m&atilde;o ao seu companheiro.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Cheg&aacute;mos!&#8213;disse elle.
+<br />
+
+<br />
+
+Paulo apeou-se e, guiado sempre pelo seu amigo,
+transpoz o port&atilde;o, que se abriu mysteriosamente, tornando
+a fechar-se sem ruido.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E o cocheiro?&#8213;perguntou o mancebo.&#8213;N&atilde;o
+receias a sua indiscre&ccedil;&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[5]</span> &#8213;&Eacute; um dos nossos irm&atilde;os&#8213;respondeu simplesmente
+o outro.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Apre!&#8213;tornou o mancebo alegremente.&#8213;Eis
+aqui o que se chama um servi&ccedil;o bem montado!
+<br />
+
+<br />
+
+Jorge n&atilde;o lhe respondeu. Conduziu-o por uma extensa
+e sombria vereda de ramadas at&eacute; o fazer entrar
+n'um corredor ao rez do ch&atilde;o, pelo qual foram seguindo
+em silencio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; estamos em casa!&#8213;disse Paulo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Porque?&#8213;perguntou o outro.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sinto-o pela differen&ccedil;a de temperatura.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ainda n&atilde;o... Vamos entrar agora...
+<br />
+
+<br />
+
+E levando aos labios um pequeno apito, tirou d'elle
+um silvo agudo e prolongado.
+<br />
+
+<br />
+
+Ouviu-se uma porta girando sobre os gonzos, e os
+dois entraram n'um pequeno recinto em que os passos
+se amorteciam, abafados no tapete.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;P&oacute;des tirar a venda&#8213;disse Jorge.
+<br />
+
+<br />
+
+O mancebo levou a m&atilde;o aos olhos, e com grande
+assombro seu, achou-se s&oacute;sinho n'uma sala forrada de
+crepes, tendo ao centro uma mesa coberta de velludo
+preto e em que pousava uma caveira, allumiada por
+duas velas.
+<br />
+
+<br />
+
+Um momento impressionado pelo sinistro aspecto
+da sala e pelo funebre quadro que se lhe offerecia &aacute;
+vista, o mancebo empallideceu e recuou um passo,
+aterrado. Por&eacute;m, reflectindo e com uma coragem superior
+&aacute; que seria de esperar na sua edade, breve retomou
+o sangue frio e lan&ccedil;ou um olhar de glacial
+indifferen&ccedil;a
+para a caveira.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; singular!&#8213;pensou comsigo.&#8213;Entro na vida
+pela vis&atilde;o da morte!
+<br />
+
+<br />
+
+Como respondendo a este pensamento, ouviu-se uma
+voz soturna e cavernosa resoar na sala:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Medita!&#8213;disse aquella voz.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[6]</span>
+O mancebo estremeceu e voltou-se rapidamente, a
+v&ecirc;r quem lhe fallava.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o viu pessoa alguma.
+<br />
+
+<br />
+
+Passeou ent&atilde;o os olhos curiosos pelas paredes
+forradas de crepes e n&atilde;o descobriu a porta por onde
+tinha entrado.
+<br />
+
+<br />
+
+Se quizesse abandonar aquelle mysterioso e lugubre
+recinto, n&atilde;o o poderia fazer, por n&atilde;o encontrar
+sahida.
+<br />
+
+<br />
+
+Embora surprehendido, nem por isso se apavorou.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Medita!&#8213;tornou a voz a repetir.
+<br />
+
+<br />
+
+Como resposta muda &aacute;quella intimativa, o mancebo
+cruzou os bra&ccedil;os sobre o peito e ficou encarando
+fito a caveira.
+<br />
+
+<br />
+
+N'aquella attitude altiva e firme, esteve assim
+por muito tempo.
+<br />
+
+<br />
+
+Dissera-lhe o seu amigo que, para ser admittido
+na associa&ccedil;&atilde;o secreta da
+<em>M&atilde;o negra</em>, era preciso
+dar
+provas de energia, coragem e inquebrantavel for&ccedil;a de
+vontade. Accrescentara que as provas a que os neophytos
+tinham de sujeitar-se eram rudes e de molde
+a fazerem tremer o mais ousado. Elle, n&atilde;o obstante,
+insistira. Sentia-se capaz de affrontar os maiores perigos
+com animo sereno e tranquillo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Principiou a prova!&#8213;pensou&#8213;julgam-me uma
+crean&ccedil;a assustadi&ccedil;a, capaz de me apavorar com
+este
+apparato funebre. Mostrar-lhes-hei que a crean&ccedil;a
+&eacute;
+um homem, que p&oacute;de disputar primasias de coragem
+aos mais fortes.
+<br />
+
+<br />
+
+E n'esta resolu&ccedil;&atilde;o avan&ccedil;ou para mesa,
+estendeu
+o bra&ccedil;o e ia a tocar no funebre despojo, quando a voz
+mysteriosa recuou de novo, gritando:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Detem-te! O que ias fazer?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tocar n'esta caveira&#8213;respondeu o mancebo
+com voz tranquilla.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Com que fim?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[7]</span> &#8213;Com o fim de provar que a ideia da morte me
+n&atilde;o apavora.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que pensamento te suggere a vista d'esse triste
+despojo humano?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Primeiramente, a ideia de que todos caminhamos
+para a mesma miseria...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E depois?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Depois, que a Morte &eacute; a niveladora implacavel
+do genero humano.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Assim, cr&ecirc;s que na Morte se confundem bons e
+maus, virtuosos e impuros?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Creio que, materialmente, tudo se confunde na
+mesma podrid&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Materialmente, disseste?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Disse.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Cr&ecirc;s ent&atilde;o que vicio e virtude s&atilde;o
+coisas indifferentes,
+visto que tudo se apaga ao mesmo gelido
+sopro e tudo resvala com o homem ao abysmo do
+Nada?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Explica-te.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Do homem subsistem as ideias, os pensamentos,
+os actos bons ou maus de toda a sua vida. Esses
+n&atilde;o tem a Morte o poder de os anniquillar.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois bem; visto que assim &eacute;, dize-me: De quem
+&eacute; esse craneo?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;De um meu irm&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; vaga a resposta. Dize-me: Ser&aacute; d'um sabio?
+Ser&aacute; de um ignorante? Ser&aacute; de um homem honesto?
+Ser&aacute; d'um criminoso? Ser&aacute; d'um nobre?
+Ser&aacute; d'um
+plebeu?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ignoro.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Confessas, pois, que na Morte tudo se confunde?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o! Confesso apenas que na Morte todos teem
+egual direito ao respeito dos vivos.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p8">[8]</a></span> &#8213;Por&eacute;m, essa theoria &eacute; contradictoria. Se todos
+devem confundir-se no mesmo respeito, como queres
+que se distingam os bons dos maus?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pelo que d'elles fica no mundo e n&atilde;o morre.
+Dize-me o nome d'aquelle a quem pertenceu este craneo,
+e se elle foi um sabio, um artista, um litterato,
+um poeta, um d'esses homens que deixam a sua passagem
+assignalada no mundo por obras de grandeza e
+de virtude, eu te recordarei as suas conquistas scientificas,
+os seus quadros, os seus livros, os seus versos,
+as nobres ac&ccedil;&otilde;es e exemplos com que se perpetuou
+na
+humanidade emfim.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tens religi&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tenho.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Qual?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A do Bem.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A que vieste?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dar e receber auxilio na lucta do Bem contra
+o Mal.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sabes o sacrificio a que isso obriga?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A todos os sacrificios me sujeito.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Repara bem. A abnega&ccedil;&atilde;o, o desinteresse, a
+obediencia cega e passiva &aacute;s ordens dos que dirigem
+o nosso gremio constituem a principal condi&ccedil;&atilde;o
+para
+seres admittido entre n&oacute;s.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Acceito-a.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ter&aacute;s que resistir &aacute;s tuas proprias
+paix&otilde;es, ter&aacute;s
+que dominar os mais irresistiveis impulsos do teu
+cora&ccedil;&atilde;o, para s&oacute; obedeceres
+&aacute; lei da nossa Sociedade;
+ter&aacute;s, emfim, que sacrificar vida, fortuna, mulher, filhos,
+familia&#8213;tudo, ao bem de teus irm&atilde;os, quando
+isso <a href="#e1">te f&ocirc;r</a> reclamado.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Obedecerei.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; preciso que o bra&ccedil;o execute o que a
+cabe&ccedil;a
+ordena. Tu ser&aacute;s o bra&ccedil;o. O chefe invisivel da
+nossa
+Associa&ccedil;&atilde;o &eacute; a cabe&ccedil;a. Se
+f&ocirc;r preciso derramar sangue,
+<span class="pagenum">[9]</span>
+ainda o d'aquelle que no mundo te f&ocirc;r mais caro,
+uma vez que a cabe&ccedil;a t'o ordena, obedecer&aacute;s?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sem a menor hesita&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Attende que vaes ligar-te a n&oacute;s por um juramento
+que n&atilde;o p&oacute;de ser quebrado nem illudido. Em
+toda a parte onde te encontres, seja qual f&ocirc;r a
+posi&ccedil;&atilde;o
+social a que ascendas, na rua, em casa, no povoado
+ou n'um logar deserto, o olhar invisivel da nossa
+Associa&ccedil;&atilde;o
+seguir-te-ha por toda a parte. A
+<em>M&atilde;o-negra</em>,
+cujo auxilio buscas, mysterisa e potente,
+vingadora e
+terrivel, como a propria m&atilde;o da Providencia,
+impedir&aacute;
+teus passos e guiar&aacute; o teu destino. N&atilde;o mais te
+pertencer&aacute;s
+a ti; pertencer&aacute;s aos teus irm&atilde;os. Senhor
+liberrimo
+das tuas ac&ccedil;&otilde;es at&eacute; agora, vaes
+reduzir-te por
+um juramento &aacute;s condi&ccedil;&otilde;es d'um
+escravo, mais que
+d'um escravo&#8213;d'um simples automato. O teu cerebro
+n&atilde;o mais pensar&aacute; para ti; o teu
+cora&ccedil;&atilde;o n&atilde;o mais sentir&aacute;
+por ti. Cerebro e cora&ccedil;&atilde;o teem de emmudecer
+perante
+as exigencias fataes, crueis e terriveis muitas
+vezes, da nossa Associa&ccedil;&atilde;o. Ter&aacute;s
+for&ccedil;a para tanto?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Terei&#8213;respondeu firmemente o mancebo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pareces corajoso&#8213;observou a voz mysteriosa&#8213;pareces
+ter em pequena conta a propria vida.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estou prompto a sacrific&aacute;l-a para um fim justo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A ideia da justi&ccedil;a &eacute; relativa. O que para uns
+&eacute; justi&ccedil;a para outros &eacute; iniquidade. Os
+irm&atilde;os da
+<em>M&atilde;o-negra</em>
+n&atilde;o teem o direito de discutir e apreciar as ordens
+que dimanam do seu chefe invisivel: teem s&oacute; o
+dever de as cumprir. Assim, se te exigirem que craves
+um punhal no teu cora&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o
+ter&aacute;s o direito de
+discutir a justi&ccedil;a do sacrificio; apenas ter&aacute;s
+que obedecer.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Experimentem.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Lembra-te, por&eacute;m, que, se o &#8213;Lembra-te, por&eacute;m, que, se o sacrificio da propria
+vida te &eacute; f&aacute;cil, outros sacrificios te
+p&oacute;dem ser
+mais penosos. Est&aacute;s em tempo: se n&atilde;o te sentes
+com
+<span class="pagenum">[10]</span>
+animo e coragem para te prenderes a n&oacute;s por toda a
+vida,&#8213;vae, est&aacute;s livre, mandar-te-hemos conduzir ao
+sitio d'onde vieste.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o!&#8213;respondeu o mancebo com energia&#8213;Eu
+n&atilde;o sou dos que recuam. Quero ser dos vossos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estende a m&atilde;o sobre essa caveira e jura que
+queres ser submettido &aacute;
+<em>prova</em>!&#8213;ordenou a voz.
+<br />
+
+<br />
+
+Paulo estendeu a m&atilde;o sobre a caveira:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Juro&#8213;disse elle&#8213;que desejo ser um dos irm&atilde;os
+da <em>M&atilde;o-negra</em> e estou
+prompto a submetter-me &aacute; prova
+que me for imposta!
+<br />
+
+<br />
+
+Quando acabou de proferir este juramento, sentiu
+que lhe tocavam no hombro. Voltou-se e viu diante de
+si um vulto athletico, sinistramente vestido de preto
+e com o rosto coberto por um capuz como o dos antigos
+aguazis do Santo Officio.
+<br />
+
+<br />
+
+Sem dar palavra, o mysterioso vulto vendou-lhe de
+novo os olhos. Em seguida disse:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;<em>&Aacute; prova!</em>
+<br />
+
+<br />
+
+Pegou-lhe na m&atilde;o e conduziu-o por um extenso
+corredor at&eacute; parar em frente de uma porta, a que
+bateu de maneira mysteriosa e symbolica.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem sois?&#8213;perguntou de dentro uma voz,
+sem abrir.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Irm&atilde;o&#8213;respondeu o mysterioso guia de Paulo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;D'onde vindes?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Da Ala negra.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que trazeis?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Um novo bra&ccedil;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que busca elle?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A m&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem vos guia?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;S. Miguel.
+<br />
+
+<br />
+
+A porta abriu-se.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Passae!&#8213;disse um homem, igualmente envolto
+n'um habito preto e o rosto coberto pelo capuz.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[11]</span>
+Os dois seguiram &aacute;vante e entraram n'uma sala
+ampla, abobadada, de paredes escuras e illuminada
+apenas por um globo enorme de vidro, seguro por uma
+phantastica <em>m&atilde;o negra</em>,
+que pendia do tecto.
+<br />
+
+<br />
+
+&Aacute; roda d'esta sala, viam-se de p&eacute;, hirtos e
+impassiveis,
+n'uma immobilidade de estatuas, muitos vultos
+negros, com o rosto inteiramente occulto sob o capuz
+do habito.
+<br />
+
+<br />
+
+Em cada uma das paredes avultava uma grande
+m&atilde;o negra, sustentando punhaes e espadas, em panoplia.
+<br />
+
+<br />
+
+Ao centro, justamente debaixo do globo, erguia-se
+uma especie de throno, assente sobre quatro formidaveis
+drag&otilde;es e todo coberto de crepes. Occupando esse
+logar, sem duvida destinado ao chefe da seita, estava
+uma figura mysteriosa como as suas companheiras e
+como ellas silenciosa e immovel.
+<br />
+
+<br />
+
+O <em>irm&atilde;o</em> introductor de
+Paulo avan&ccedil;ou, silenciosamente,
+com o mancebo pela m&atilde;o, at&eacute; curta distancia
+do throno, parou, levou a dextra ao peito, movendo
+o pollegar rapidamente, de modo a descrever
+com elle uma cruz, e ficou de cabe&ccedil;a curvada, em
+attitude respeitosa.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que quereis, irm&atilde;o?&#8213;interrogou o vulto que
+se sentava no throno e que era sem duvida o chefe da
+seita.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que escuteis e recebaes sob vossa protec&ccedil;&atilde;o
+este
+meu companheiro, que pretende entrar na
+<em>ala</em> como
+combatente.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fiaes d'elle?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;D'elle fio, senhor!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;S. Miguel vos proteja!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O apresentante de Paulo afastou-se e foi tomar
+o seu logar junto &aacute; parede, em fila com os seus
+companheiros.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[12]</span>
+Paulo ficou s&oacute;, junto ao throno, com os olhos vendados.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que pretendeis, mancebo?&#8213;interrogou o chefe.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Combater.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que armas trazeis?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A submiss&atilde;o, a energia e a lealdade&#8213;disse
+Paulo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Boas armas s&atilde;o essas quando temperadas ao
+fogo vivo do sentimento do Bem e da Justi&ccedil;a. Que
+vos falta?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A for&ccedil;a da
+<em>M&atilde;o-negra</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A <em>M&atilde;o-negra</em>
+s&oacute; dispensa a sua for&ccedil;a e o seu
+amparo aos que tudo lhe sacrificam com coragem,
+valor, e brio. N'este gremio n&atilde;o se admittem nem os
+timidos nem os cobardes.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o o sou.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dizer &eacute; facil; provar &eacute; difficil. Quereis
+sujeitar-vos
+&aacute; prova?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estou prompto!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Reparae que podeis perder a vida na jornada
+aspera que ides emprehender.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A vida de nada me serve, se n&atilde;o posso dar-lhe
+applica&ccedil;&atilde;o util.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; facto. No emtanto, &eacute; meu dever prevenir-vos
+de que, sem perderdes a vida, podeis perder a esperan&ccedil;a
+da felicidade, que &eacute; a vida do
+cora&ccedil;&atilde;o, o objectivo
+da existencia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tudo sacrificarei aos meus irm&atilde;os.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; melhor recuar, mancebo. Na longa estrada
+que tendes a percorrer antes de chegardes &aacute;
+<em>M&atilde;o-negra</em>,
+encontrareis mil perigos e mil precipicios terriveis,
+que sereis obrigado a transp&ocirc;r ou a morrer.
+Avan&ccedil;ado
+o primeiro passo n'esse caminho mysterioso e fatal,
+recuar &eacute; impossivel; a menor hesita&ccedil;&atilde;o
+&eacute; a morte. S&oacute;
+uma coragem admiravel e uma for&ccedil;a de vontade rara
+p&oacute;dem conduzir-vos a salvo ao ponto desejado.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[13]</span> &#8213;Irei e hei-de chegar.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois bem, vinde!
+<br />
+
+<br />
+
+Levantou-se, desceu do throno, deu-lhe a m&atilde;o,
+abriu uma porta ao lado da parede e, empurrando-o
+para dentro d'ella, disse:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Podeis tirar a venda. Segui esse longo e escuro
+subterraneo at&eacute; ao fim. Tereis que luctar com o fogo,
+com a agua, com os homens e com as feras, antes que
+chegueis &aacute; porta santa do asylo que buscaes. Ide e
+que S. Miguel&#8213;que venceu o drag&atilde;o&#8213;vos d&ecirc;
+for&ccedil;a
+e coragem.
+<br />
+
+<br />
+
+O mancebo levou as m&atilde;os aos olhos, arrancou a
+venda e embrenhou-se n'uma escura e estreita galeria
+subterranea, que foi seguindo com estranha ousadia.
+<br />
+
+<br />
+
+A treva cercava-o sem lhe deixar perceber onde
+punha os p&eacute;s.
+<br />
+
+<br />
+
+Algumas duzias de passos andados, um subito
+clar&atilde;o illuminou o subterraneo. Paulo, deslumbrado,
+levou as m&atilde;os aos olhos. Na sua frente, erguiam-se as
+chammas pavorosas de um incendio, que avan&ccedil;ava
+para elle em linguas de fogo, amea&ccedil;ando devoral-o.
+Dir-se-hia que uma enorme represa de alcool ou de
+petroleo se havia aberto e que, incendiado, ia inundar
+o subterraneo, transformando-o n'um immenso
+forno crematorio.
+<br />
+
+<br />
+
+O mancebo, n'um momento surpreso, sentindo na
+face o cal&ocirc;r das chammas, nem por isso se deteve.
+Caminhou audaz e resoluto para o perigo, disposto a
+deixar-se queimar vivo antes que retroceder.
+<br />
+
+<br />
+
+Ao aproximar-se das chammas, por&eacute;m, estas apagaram-se
+subitamente, tornando mais densa a treva do
+corredor.
+<br />
+
+<br />
+
+Seguiu &aacute;vante, e pouco depois sentiu o ruido clamoroso
+e sinistro de uma enorme queda d'agua, que
+se despe
+Seguiu &aacute;vante, e pouco depois sentiu o ruido clamoroso
+e sinistro de uma enorme queda d'agua, que
+se despenhava em catadupas de uma rocha que obstruia
+a passagem e que parecia o remate d'aquelle
+<span class="pagenum">[14]</span>
+medonho e tenebroso subterraneo transformado n'um
+lago.
+<br />
+
+<br />
+
+A agua despenhava-se de tal altura e com tal
+fragor que, batendo nas pedras, resaltava, esparrinhando
+com tanta violencia, que algumas gottas vinham
+a&ccedil;oitar o rosto de Paulo.
+<br />
+
+<br />
+
+&Aacute; primeira vista, parecia impossivel transp&ocirc;r
+aquelle enorme p&eacute;go sem perecer afogado. Uma dubia
+luz, coada por uma pequena abertura na abobada do
+subterraneo, esclarecia o medonho passo.
+<br />
+
+<br />
+
+Paulo, tomado da raiva febril de transp&ocirc;r todas as
+barreiras ou morrer, avan&ccedil;ou corajoso, fechou os olhos
+e atirou-se &aacute; agua. Com grande assombro seu, achou-se
+em terreno enxuto. A agua tinha desapparecido e
+com ella o ruido pavoroso da corrente.
+<br />
+
+<br />
+
+A treva tornara-se mais densa. N&atilde;o obstante, elle
+caminhava afoito, quando, de repente, se sentiu agarrado
+e preso por duas fortes e vigorosas m&atilde;os que o
+levantaram ao ar deixando-o cahir.
+<br />
+
+<br />
+
+Procurava firmar-se nas pernas, quando notou que
+o terreno lhe faltava debaixo dos p&eacute;s e se precipitava
+n'um abysmo.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o soltou um grito. Esperava morrer como um
+homem, e assim chegou a um segundo subterraneo,
+onde se encontrou de p&eacute;, illeso e sem que soffresse a
+menor contus&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Continuou o seu caminho corajosamente, embora
+sob o peso das commo&ccedil;&otilde;es soffridas. Foi andando
+na
+treva por alguns minutos, quando um rugido terrivel
+lhe despertou a atten&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Olhou e viu na sua frente uma porta de ferro,
+defendida, por dois enormes le&otilde;es, que punham n'elle
+os olhos de fogo, escancarando n'uma amea&ccedil;a a guella
+hiante.
+<br />
+
+<br />
+
+Fixou a vista aterrado nos monstros, que soltaram
+novo rugido atroador.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[15]</span>
+Pallido, os cabellos eri&ccedil;ados, as faces contrahidas
+de susto, o mancebo pensou em retroceder, mas envergonhado
+d'esta cobardia, exclamou, avan&ccedil;ando para
+as f&eacute;ras:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Antes morrer que recuar!
+<br />
+
+<br />
+
+Rapidamente, os le&otilde;es sumiram-se na parede e
+Paulo p&ocirc;de bater &aacute; porta, levantando e deixando
+cair
+o pesado batente em forma de m&atilde;o negra.
+<br />
+
+<br />
+
+A porta abriu-se.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Entrae!&#8213;disse o mesmo chefe que o havia introduzido
+no subterraneo, recebendo-o de novo na sala
+d'onde havia partido.
+<br />
+
+<br />
+
+Paulo entrou.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ides dar-nos a ultima prova&#8213;propoz o chefe.&#8213;Aqui
+tendes este punhal. N'aquelle gabinete est&aacute;, sob
+a ac&ccedil;&atilde;o de um narcotico, uma mulher, que
+&eacute; preciso
+<em>eliminar</em>... Ide! Cravae-lhe este
+punhal no cora&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Paulo pegou no punhal, abriu a porta e ia avan&ccedil;ar,
+quando recuou espantado, soltando um grito terrivel:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ella!&#8213;bradou o pobre rapaz afflictivamente.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; que diante dos seus olhos admirados apparecera
+uma bella e gentil figura de mulher, estendida sobre
+um p&ocirc;tro de torturas, os p&eacute;s e as m&atilde;os
+amarradas, a
+face pallida, os olhos cerrados, como que esvaecida ou
+morta, e essa mulher, essa vis&atilde;o inesperada, era nem
+mais nem menos do que a sua amada, a aspira&ccedil;&atilde;o
+querida
+da sua alma, a mulher por quem o pobre mo&ccedil;o ia
+filiar-se na mysteriosa e terrivel seita da
+<em>M&atilde;o negra</em>!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Hesitas?&#8213;perguntou o chefe com um accento
+de desprezo e sarcasmo na voz.&#8213;N&atilde;o prestaste ainda
+juramento, mancebo; n&atilde;o est&aacute;s preso a
+n&oacute;s por nenhuns
+la&ccedil;os. Se o teu cora&ccedil;&atilde;o se entibia, se
+o teu bra&ccedil;o
+treme e se recusa a obedecer, vae, deixa-nos! Profere
+apenas uma palavra e ser&aacute;s restituido &aacute;
+liberdade.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[16]</span>
+No rosto do mancebo desenhava-se uma angustia
+profunda. Os cabellos em desalinho, a face pallida, a
+fronte banhada de um suor frio, n&atilde;o desfitava os olhos
+d'aquelle meigo e adorado vulto de mulher, a que tinha
+presa toda a sua existencia, todas as esperan&ccedil;as
+da sua juventude, todas as nobres aspira&ccedil;&otilde;es da
+sua
+alma e que alli via, sem saber como nem porque, semi-morta,
+amarrada &aacute;quelle p&ocirc;tro fatal, e prestes a
+cahir aos golpes de uma justi&ccedil;a occulta, que a mandava
+apunhalar!
+<br />
+
+<br />
+
+E havia de ser elle o algoz, havia de ser elle o
+executor da fatal senten&ccedil;a, elle, que por ella sacrificaria
+a vida, a honra, a familia, tudo o que um homem
+p&oacute;de sacrificar &aacute; mulher amada!
+<br />
+
+<br />
+
+Era horrivel!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Decide-te, mancebo!&#8213;tornou o chefe&#8213;Ou
+cumpres corajosamente os mysteriosos designios da
+<em>M&atilde;o-negra</em>, ou recusas e
+vaes em paz com a tua cobardia!
+<br />
+
+<br />
+
+Como se lhe tivessem vergastado o rosto, &aacute; palavra
+<em>cobardia</em>, o mancebo apertou na
+m&atilde;o o punhal e,
+voltando-se para o seu mysterioso interlocutor, disse,
+rangendo os dentes:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Cobarde n&atilde;o o sou, n&atilde;o o serei
+j&aacute;mais! Que
+posso eu fazer para resgatar a vida d'aquella mulher?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nada!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Offere&ccedil;o-vos a minha vida, senhores! Pegae em
+mim, amarrae-me &aacute;quelle p&ocirc;tro onde a tendes
+manietada,
+sujeitae-me &aacute; tortura mais cruel, mais
+horrenda,&#8213;n&atilde;o
+soltarei uma queixa, n&atilde;o me ouvireis um
+gemido! Mas libertae-a a ella, restitui-lhe a liberdade,
+concedei-lhe a vida, e eu bem direi a vossa generosidade,
+a vossa grandeza d'alma, e o meu ultimo alento
+ser&aacute; ainda um protesto, de gratid&atilde;o para
+comvosco!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nada podemos fazer-te. Essa mulher est&aacute; condemnada,
+<span class="pagenum"><a name="p17">[17]</a></span>
+e nada poder&aacute; libertal-a da nossa
+justi&ccedil;a.
+Queres executar a senten&ccedil;a ou preferes retirar-te em
+paz com a tua fraqueza... com a tua cobardia, repito?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Cobarde nunca!&#8213;bradou o mo&ccedil;o, luzindo-lhe
+nos olhos uma colera terrivel&#8213;Bem v&ecirc;des que n&atilde;o
+&eacute;
+o meu bra&ccedil;o que treme&#8213;&eacute; o meu
+cora&ccedil;&atilde;o que lucta!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vence-o!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vencel o-hei. Mas antes, dizei-me:
+n&atilde;o tem pre&ccedil;o
+aquella vida? Quantas vidas quereis que vos entregue
+em resgate d'aquella? Apontae-m'as, e eu vos
+juro que vol-as entregarei todas, sem faltar uma, ainda
+que para isso eu tenha de descer t&atilde;o baixo, que
+me confunda com os mais infimos sicarios, ou haja de
+subir t&atilde;o alto, que chegue a transp&ocirc;r os degraus
+de
+um throno! Reparae que esta &eacute; a mulher que amo!
+&Eacute; o mundo que v&oacute;s me mandaes anniquilar com
+<a href="#e2">aquella</a> existencia!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; condemnada. Decide-te!&#8213;tornou a voz&#8213;Partes
+ou ficas?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois bem, fico!... para partir com ella!
+<br />
+
+<br />
+
+Avan&ccedil;ou desvairadamente para a sua amada, que,
+immovel, amarrada ao p&ocirc;tro, parecia cahida em profundo
+lethargo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Beatriz, perdoa-me!&#8213;murmurou elle.&#8213;N&atilde;o
+&eacute; a ti que eu apunh&aacute;l-o, &eacute; a mim
+proprio... Seguir-te-hei
+no teu resgaste!
+<br />
+
+<br />
+
+Dizendo isto, cravou-lhe fundo o punhal no
+cora&ccedil;&atilde;o.
+O sangue espadanou do peito da victima, que
+n&atilde;o soltou um gemido.
+<br />
+
+<br />
+
+O mancebo, com as m&atilde;os tintas de sangue, veio &aacute;
+sala e disse serenamente, encarando os seus lugubres
+e mysteriosos companheiros que se conservavam mudos
+e immoveis:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pedistes-me uma vida. Dar-vos-hei duas, ensinando-vos
+<span class="pagenum"><a name="p18">[18]</a></span>
+ao mesmo tempo como se mata e como se
+morre!
+<br />
+
+<br />
+
+E n'um movimento rapido, sem dar tempo a que
+o detivessem, al&ccedil;ou o bra&ccedil;o e cravou o punhal no
+cora&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+A lamina, por&eacute;m, n&atilde;o penetrou a carne e o
+mancebo,
+admirado de que o ferro lhe n&atilde;o tivesse produzido
+a menor d&ocirc;r, examinou espantado a arma homicida.
+<br />
+
+<br />
+
+Era um d'estes punhaes simulados, cuja lamina de
+lat&atilde;o, se embebe e desapparece no cabo quando se descarrega
+a punhalada, voltando a apparecer impellida
+por occulta mola desde que deixa de ser premida de
+encontro ao corpo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas o que &eacute; isto?&#8213;disse elle indignado, quasi
+sem comprehender.&#8213;Estamos n&oacute;s representando uma
+far&ccedil;a?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, meu amigo!&#8213;respondeu amavelmente o
+chefe&#8213;estiveste <a href="#e3">dando-nos</a> a
+prova da tua rara
+coragem,
+do valor e lealdade do teu caracter, e n&oacute;s todos,
+bemdizendo a hora que traz ao nosso gremio um
+<em>irm&atilde;o</em>
+de tanto valor!
+<br />
+
+<br />
+
+Depois, voltando-se para o gabinete onde ainda jazia
+inanime a <em>amada</em> de Paulo, continuou:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como j&aacute; deves ter comprehendido, alli n&atilde;o
+est&aacute;
+a tua amada, por&eacute;m a sua imagem t&atilde;o perfeita e
+semelhante,
+que a tomaste por ella propria.
+<br />
+
+<br />
+
+O mancebo, aturdido, punha no manequim os
+olhos, recusando-se a acreditar o que ouvia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Foi, pois, uma simula&ccedil;&atilde;o de morte&#8213;proseguiu
+o chefe&#8213;O valor moral da ac&ccedil;&atilde;o fica em
+p&eacute;, visto
+que a tua inten&ccedil;&atilde;o era obedecer aos preceitos da
+<em>M&atilde;o-negra</em>...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E matar-me em seguida!&#8213;accrescentou o mancebo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; a unica porta que resta aberta aos nossos
+<span class="pagenum">[19]</span>
+<em>irm&atilde;os</em> para se separarem
+de n&oacute;s. A sahida por esse
+lado, posto seja uma fraqueza, n&atilde;o &eacute; nunca um
+crime.
+De resto, &eacute; tambem por ella que fazemos sahir os
+que se tornam indignos de pertencerem &aacute; nossa
+Associa&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Espero que n&atilde;o tereis o incommodo de me ensinar
+o caminho, se algum dia me arrepender de haver
+buscado a vossa camaradagem&#8213;disse Paulo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Felicito-te, mancebo, pela tua rara energia,
+lealdade e valor do teu caracter, de que d&eacute;ste prova.
+Ser&aacute;s um bom <em>irm&atilde;o da
+M&atilde;o-negra</em> e auguro-te uma
+brilhante carreira dentro do nosso gremio, se perseverares
+em conservar puras e immaculadas as apreciaveis
+qualidades a que deves a tua admiss&atilde;o. Queres
+prestar juramento?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Irm&atilde;o Golias!&#8213;ordenou o chefe&#8213;vendae os
+olhos ao neophyto!
+<br />
+
+<br />
+
+Destacou-se da parede o
+<em>irm&atilde;o</em> que j&aacute;
+havia sido
+o apresentante do mancebo, e cumpriu as ordens do
+chefe.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vendam-se-vos ainda os olhos&#8213;disse este&#8213;n&atilde;o
+porque esteja no nosso animo guardar para comvosco
+novos mysterios ou admittir-vos com fins reservados,
+mas t&atilde;o s&oacute;mente porque a venda que se vos
+p&otilde;e agora
+representa a confian&ccedil;a cega, illimitada, que deveis
+ter nos vossos irm&atilde;os e nos nobres e justos fins para
+que todos trabalhamos, unidos como um s&oacute; homem,
+guiados pela mesma potente e mysteriosa
+<em>M&atilde;o-negra</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Findo este pequeno discurso, o chefe fez um signal.
+Os vultos que, de p&eacute; e immoveis rodeavam a sala, encostados
+&aacute; parede, avan&ccedil;aram silenciosamente e formaram
+um circulo &aacute; roda de Paulo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Irm&atilde;o Golias!&#8213;disse o chefe.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eis-me, senhor!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fiastes o neophyto. Persistes fiando-o?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[20]</span> &#8213;Do fundo da minha alma.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sois o seu padrinho. Tomae o vosso logar.
+<br />
+
+<br />
+
+O vulto que dava pelo nome de Golias postou-se
+ao lado do mancebo, tendo na m&atilde;o uma salva de prata
+coberta por um crepe.
+<br />
+
+<br />
+
+O chefe subiu ent&atilde;o ao throno e passou-se n'aquelle
+recinto uma scena deveras surprehendente.
+<br />
+
+<br />
+
+De p&eacute; sobre o throno, o chefe pegou em um escrinio
+de pau santo com embutidos de prata e marfim representando
+uma caveira com dois f&eacute;mures em cruz,
+carregou em um pequeno bot&atilde;o, e o escrinio abriu-se,
+transformado-se rapidamente em uma almofada de veludo
+carmezim em que assentava um craneo alvissimo,
+seguro por dois punhaes em tropheu.
+<br />
+
+<br />
+
+Estendeu para a assembleia o bra&ccedil;o sustentando
+esta estranha <em>reliquia</em>, e
+immediatamente os vultos,
+levando as m&atilde;os &aacute; cinta, desembainharam luzentes
+floretes
+que traziam occultos debaixo dos habitos e que
+apontaram ao neophito, formando-lhe com elles um
+circulo de ferro.
+<br />
+
+<br />
+
+Ao mesmo tempo uma voz resoou:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; aberto o templo!
+<br />
+
+<br />
+
+Tres portas abriram-se e por ellas come&ccedil;ou
+entrando
+uma verdadeira multid&atilde;o de capuzes negros, trazendo
+na m&atilde;o esquerda uma tocha accesa e na dextra
+um punhal.
+<br />
+
+<br />
+
+Os das tochas formaram em cruz, ao comprido e
+ao trav&eacute;s do <em>templo</em>,
+abrindo em alas, voltados todos
+para o centro, onde se agrupavam, como j&aacute; dissemos,
+os primeiros vultos, rodeando Paulo, com os floretes
+desembainhados.
+<br />
+
+<br />
+
+Tudo isto se fez no meio do maior silencio e quasi
+sem deixar perceber o ruido dos passos.
+<br />
+
+<br />
+
+Ent&atilde;o o chefe, erguendo a voz, disse:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mancebo, juras obediencia, lealdade e amor a
+todos os irm&atilde;os da <em>M&atilde;o
+negra</em>? Juras n&atilde;o revelar a
+<span class="pagenum">[21]</span>
+alguem os segredos da nossa agremia&ccedil;&atilde;o? Juras
+sacrificar
+por ella todos os dias da tua vida, todas as
+horas da tua existencia, o vigor do teu bra&ccedil;o, os
+pensamentos
+do teu cerebro, os sentimentos do teu cora&ccedil;&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+Paulo estendeu a m&atilde;o e disse solemnemente:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Juro!
+<br />
+
+<br />
+
+Immediatamente, o irm&atilde;o Golias, entregando a
+outro a salva que tinha na m&atilde;o, voltou-se para o neophyto,
+dizendo:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Irm&atilde;o <em>David</em>, pois que
+sou teu padrinho, vou
+impor-te o habito de
+<em>M&atilde;o-negra</em>!
+<br />
+
+<br />
+
+Enfiou-lhe ent&atilde;o pelos hombros um habito igual
+ao que os outros vestiam, deixando-lhe apenas a cabe&ccedil;a
+a descoberto, sem lhe deitar o capuz.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tirae a venda, irm&atilde;o&#8213;ordenou o chefe&#8213;para
+que toda a luz se fa&ccedil;a aos vossos olhos!
+<br />
+
+<br />
+
+O mancebo arrancou a venda e ficou maravilhado
+e surprehendido ante o estranho quadro que se apresentava
+&aacute; sua vista.
+<br />
+
+<br />
+
+Os irm&atilde;os haviam atirado os capuzes para as costas
+e descoberto os rostos, conservando-se, por&eacute;m, na
+mesma attitude severa e hostil, com os flor&ecirc;tes apontados
+ao novo irm&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Passando uma vista curiosa por todos elles, o mancebo
+ficou surprehendido de v&ecirc;r muitos r&ocirc;stos conhecidos
+&aacute; volta de si.
+<br />
+
+<br />
+
+O irm&atilde;o Golias, pegou-lhe na m&atilde;o e
+f&ecirc;l-o subir os
+degraus do throno.
+<br />
+
+<br />
+
+O chefe veio recebel-o a meio, apertou-o nos bra&ccedil;os
+e osculou-o na testa.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem vindo sejas, irm&atilde;o, a augmentar a nossa
+ala!&#8213;disse elle.
+<br />
+
+<br />
+
+A estas palavras, todos os flor&ecirc;tes se abaixaram,
+entrando na bainha.
+<br />
+
+<br />
+
+Em seguida tomou-lhe a m&atilde;o e acompanhou-o at&eacute;
+ao degrau inferior do throno, dizendo:
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[22]</span> &#8213;Recebe o abra&ccedil;o de teus irm&atilde;os e faze por te
+conservares sempre digno d'elles.
+<br />
+
+<br />
+
+Os irm&atilde;os que o haviam rodeado com os flor&ecirc;tes
+vieram todos um a um abra&ccedil;&aacute;l-o e
+beij&aacute;l-o na testa.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Irm&atilde;os!&#8213;disse o chefe do alto do throno&#8213;vae
+reunir o sublime capitulo. Est&aacute; encerrado o
+<em>templo</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+As luzes apagaram-se, e os vultos come&ccedil;aram a
+sahir pelas differentes portas do recinto, sumindo-se
+mysteriosamente sem que alguem pudesse dizer que
+caminho levavam.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p23">[23]</a></span>
+<h3><a name="c2"></a>II<br />
+
+<br />
+
+Am&ocirc;r e esperan&ccedil;a
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Deixemos os mysteriosos irm&atilde;os da
+<em>M&atilde;o-negra</em> seguir
+o caminho que os havia de reconduzir ao mundo
+do qual por algum tempo semelhavam ter-se apartado,
+e sigamos o arrojado e corajoso adolescente que
+acaba de iniciar-se nos mysterios da terrivel seita.
+<br />
+
+<br />
+
+Paulo, tendo sahido da quinta do Carvalhido em
+companhia do seu amigo Jorge, agora convertido em
+seu <em>irm&atilde;o</em>, regressou
+&aacute; cidade no mesmo trem que o
+conduzira, apeando-se e despedindo-se do companheiro
+em uma rua proxima da de Cedofeita.
+<br />
+
+<br />
+
+Eram tres horas da manh&atilde; e o vento continuava
+soprando rijo da barra, pondo negrumes de tempestade
+n'aquella noite desabrida.
+<br />
+
+<br />
+
+O mancebo seguiu pela rua deserta at&eacute; parar
+junto de uma casa de luxuosa apparencia, e que denunciava
+pelo exterior severo e pelo amplo jardim
+gradeado que lhe ficava contiguo, a opulencia dos
+seus habitantes.
+<br />
+
+<br />
+
+Inflou as bochechas e, batendo-lhe com as m&atilde;os,
+imitou o canto da perdiz.
+<br />
+
+<br />
+
+Era evidentemente um signal, porque <a href="#e4">algum
+tempo</a>
+<span class="pagenum"><a name="p24">[24]</a></span>
+depois, uma das janellas do rez do ch&atilde;o, vedada
+por grades de ferro, abriu-se manso, e uma voz feminina
+disse, tremula e quasi sumida:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como vens tarde, meu amigo!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Beatriz, perd&ocirc;a, mas um assumpto do mais alto
+interesse e de que depende a nossa felicidade futura
+impediu-me de vir &aacute; hora costumada. Hesitei em vir
+despertar-te a esta hora; mas a ideia de que havia
+de estar sem te fallar e talvez sem te ver at&eacute;
+amanh&atilde;
+&aacute; noute, obrigou-me a procurar-te, Beatriz.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu esperava-te... Esperava-te, porque tinha
+tambem que te dizer... Oh! se soubesses como estou
+afflicta!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tu! Mas o que te succedeu, anjo da minh'alma?...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Paulo...&#8213;gemeu a meiga voz que fallava do
+lado de dentro da grade&#8213;n&atilde;o sei como t'o hei de
+dizer... meu Deus!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Falla, Beatriz, falla, pelo nosso amor t'o
+pe&ccedil;o!&#8213;supplicou
+o mo&ccedil;o&#8213;N&atilde;o me tenhas por mais tempo
+n'esta cruel espectativa... Tu choras, tu pareces afflicta...
+Meu Deus! o que &eacute; que motiva a tua d&ocirc;r?
+<br />
+
+<br />
+
+Beatriz, cujo vulto mal podemos distinguir na penumbra
+do aposento, occultava o rosto entre as m&atilde;os
+buscando afogar os solu&ccedil;os.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Paulo,&#8213;disse ella&#8213;meu pae... quer casar-me!
+<br />
+
+<br />
+
+O mancebo recuou um passo como se lhe tivessem
+descarregado uma violenta <a href="#e5">pancada</a>
+no peito.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quer casar-te!&#8213;exclamou.&#8213;E com quem?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Com um rapaz que eu mal conhe&ccedil;o... um rapaz
+que tem vindo duas ou tres vezes de visita a
+nossa casa, onde foi apresentado por um dos mais intimos
+amigos de meu pae...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dize-me o nome d'esse rapaz!&#8213;intimou desvairadamente
+o mo&ccedil;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p25">[25]</a></span> &#8213;Eugenio de Mello&#8213;solu&ccedil;ou Beatriz.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eugenio de Mello!&#8213;repetiu o mancebo.&#8213;Esse
+nome &eacute; completamente estranho para mim. Nunca t'o
+ouvi pronunciar.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se te digo que apenas veio duas ou tres vezes
+de visita a nossa casa, apresentado por um amigo de
+meu pae...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas, emfim, como &eacute; que surge agora essa ideia
+de te casarem com elle? Acaso esse rapaz alguma
+vez te manifestou sentimentos de sympathia ou de
+amor? Falla-me com franqueza, Beatriz. Comprehendo
+que por uma bem entendida delicadeza da tua parte
+para comigo, julgasses dever occultar-me os galanteios
+d'esse rapaz, se porventura elles te eram indifferentes...
+Mas n&atilde;o comprehendo <a href="#e6">como</a>
+teu pae pudesse
+ter a ideia subita de te casar com elle, sem mesmo
+tentar indagar se o teu cora&ccedil;&atilde;o n&atilde;o
+repelliria um semelhante
+enlace.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o! juro-te que nunca dos labios d'esse rapaz
+ouvi uma palavra que pudesse dar-me a perceber o
+mais tenue sentimento de amor por mim. F&oacute;ra dos
+cumprimentos e ceremoniosas atten&ccedil;&otilde;es que as
+pessoas
+de boa sociedade usam ter para com uma senhora, n&atilde;o
+se trocaram entre n&oacute;s quaesquer amabilidades que
+justificassem o pensamento d'este enlace que me surprehende!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; extraordinario! E como &eacute; que teu pae pretende
+impor-te um casamento em que tu nem sequer
+tinhas pensado?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sabes que meu pae&#8213;volveu Beatriz&#8213;habituou-se
+a contar com a minha obediencia cega e passiva
+em todos os seus desejos, que para mim s&atilde;o
+ordens. Muito austero, educou-me sob um regimen
+de ferro em que a sua vontade &eacute; a unica que predomina...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso, por&eacute;m, n&atilde;o &eacute; ras&atilde;o
+para que elle se julgue
+<span class="pagenum">[26]</span>
+no direito de sacrificar o teu futuro de mulher
+aos seus caprichos de... pae.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meu pae ignora que eu te amo, Paulo! Julga
+o meu cora&ccedil;&atilde;o desprendido de qualquer affecto e
+cr&ecirc;
+que n&atilde;o me repugna a ideia de unir o meu destino ao
+de um homem que elle julga digno de mim.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E se de facto te n&atilde;o repugna... obedece-lhe!&#8213;bradou
+o mancebo n'uma voz estridente em que ia
+todo o fel do seu desespero.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Paulo! &Eacute;s injusto para comigo! Sabes que te
+amo, que n&atilde;o posso amar outro homem que n&atilde;o sejas
+tu; e quando me v&ecirc;s afflicta, atormentada ao peso da
+cruel exigencia de meu pae, em vez de suavisares a
+minha d&ocirc;r, de me animares com o teu conselho a
+resistir &aacute; fatal imposi&ccedil;&atilde;o que me
+&eacute; feita, ainda me
+torturas mais com esse tom acrimonioso e hostil das
+tuas palavras! N&atilde;o te mere&ccedil;o isso...
+<br />
+
+<br />
+
+As lagrimas da joven interlocutora de Paulo que,
+se realmente possue um rosto t&atilde;o meigo como as suas
+palavras, de linhas t&atilde;o suaves e puras como &eacute;
+doce o
+accento da sua voz, deve de ser uma creatura encantadora,
+pareceu abrandar um pouco o irritado animo
+do mancebo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas o que queres tu que te diga, minha querida,
+se eu noto que era vez de pensares em repellir
+a despotica imposi&ccedil;&atilde;o de teu pae, ainda tentas
+desculpal-o?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o o desculpo... digo apenas o que elle
+pensa.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas que tenho eu que saber o que pensa teu
+pae? O que desejo saber &eacute; o que pensas tu, minha
+querida! O que &eacute; que tencionas fazer? Que respondeste
+a teu pae? Qual &eacute; a tua inten&ccedil;&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+Beatriz pareceu hesitar na resposta.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Desejava ouvir-te, primeiro, Paulo... desejava
+que me dissesses o que devo fazer...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[27]</span> &#8213;Eu?! Pois &eacute; a mim que compete dirigir os teus
+actos? &Eacute; a mim que compete dictar a tua resposta?
+Consulta o teu cora&ccedil;&atilde;o, Beatriz... Elle que te
+responda
+e te diga a resolu&ccedil;&atilde;o que deves tomar...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Paulo! O meu cora&ccedil;&atilde;o diz-me que s&oacute; a
+ti perten&ccedil;o,
+que s&oacute; a ti eu desejo ter por marido... Mas,
+bem v&ecirc;s, quando eu disser a meu pae que te amo, e
+que por ti estou decidida a recusar outro qualquer enlace,
+por mais vantajoso que se apresente, meu pae
+ha de perguntar-me quem &eacute;s...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E tu dize-lhe que sou aquelle que julgas que
+eu seja. Ou vae t&atilde;o longe a tua piedade por mim e o
+teu despreso por ti que, tendo-me na conta de indigno
+do teu amor, assim mesmo m'o concedes?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! n&atilde;o, n&atilde;o, Paulo!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N'esse caso, o que receias?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; que eu julgo-te com o cora&ccedil;&atilde;o; meu
+pae,
+por&eacute;m, ha-de julgar-te com a cabe&ccedil;a; e entre o
+cora&ccedil;&atilde;o
+da filha e o cerebro do pae existe uma distancia
+t&atilde;o grande, que eu receio bem que n&atilde;o possamos
+transp&ocirc;l-a...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se essa &eacute; a tua convic&ccedil;&atilde;o e te
+faltam for&ccedil;as
+para resistir e luctar, submette-te e... adeus! Adeus
+para sempre, Beatriz!...
+<br />
+
+<br />
+
+Paulo ia a retirar-se. O animo orgulhoso e altivo
+d'este adolescente de 18 annos, que tinha j&aacute; a energia
+e a vontade de ferro de um homem feito, n&atilde;o podia
+supportar sem protesto os timidos receios e as
+hesita&ccedil;&otilde;es
+offensivas da mulher que adorava.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Paulo!&#8213;tornou a chamar a joven.&#8213;Escuta-me!
+Que singular prazer tens em me atormentar,
+quando eu tanto preciso da tua compaix&atilde;o e da tua
+piedade!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fallas-me em tormentos, Beatriz, quando desde
+que aqui cheguei outra coisa n&atilde;o tens feito sen&atilde;o
+revolver-me
+n'um perfeito inferno de torturas! Acabemos
+<span class="pagenum">[28]</span>
+com isto, e vamos direitos ao fim sem
+tergiversa&ccedil;&otilde;es
+nem rodeios. Teu pae imp&ocirc;z-te o casamento com
+esse... rapaz, que deve ser por for&ccedil;a rico, distincto...
+amavel, emfim. E tu acceitaste?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Hesitas na resposta e a tua propria hesita&ccedil;&atilde;o
+me responde: acceitaste e vens dizer-me que est&aacute;
+tudo terminado entre n&oacute;s...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh, n&atilde;o!&#8213;accudiu a joven, com impeto.&#8213;Eu
+n&atilde;o acceitei nem respondi como desejava. Pedi que
+me deixassem reflectir, porque o meu primeiro pensamento
+foi ganhar tempo, para poder combinar comtigo
+o que devo fazer...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que deves fazer n&atilde;o seja eu quem t'o diga.
+Teu pae &eacute; rico, Beatriz; tu mesma &eacute;s
+j&aacute; herdeira de
+uma avultada fortuna, e eu sou pobre. Separa-nos,
+portanto, actualmente um abysmo... Cuidei que poderia
+contar comtigo solteira e livre at&eacute; ao dia, que
+n&atilde;o viria longe, em que eu pudesse apresentar-me a
+teu pae, a solicitar a tua m&atilde;o, sem que o pedido revestisse
+o caracter humilhante para mim de uma tentativa
+de penetrar no sanctuario da riqueza pela
+porta do cora&ccedil;&atilde;o de uma mulher. Vejo,
+por&eacute;m, que o
+destino quer o contr&aacute;rio; que outro pretendente se
+apresenta com menos escrupulos ou mais dinheiro do
+que eu, e que da firmeza e constancia do teu amor
+nada tenho a esperar, se eu n&atilde;o me resolver a prestar-te
+o amparo incompativel com a minha dignidade
+de homem e com o programma que me tracei de s&oacute; a
+mim dever o meu triumpho. Paciencia!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Paulo, tu n&atilde;o me conheces! ou, &#8213;Paulo, tu n&atilde;o me conheces! ou, se me conheces,
+est&aacute;s sendo para mim de uma injusti&ccedil;a que mais
+tarde
+te ha-de fazer remorsos... Escuta-me, meu amigo,
+escuta-me com serenidade e repara bem nas minhas
+palavras.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[29]</span>
+E Beatriz, com voz tremula de commo&ccedil;&atilde;o,
+principiou
+dizendo:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o conheces o caracter de meu pae e n&atilde;o admira
+por isso que julgues s&ecirc;r-me coisa facil o contrariar-lhe
+os propositos... Eu, por&eacute;m, que o conhe&ccedil;o, que
+por elle fui educada e com elle tenho vivido sob o jugo
+do seu genio rispido e severo, avalio bem que crueis
+amarguras e horriveis tormentos a sua colera me prepara
+na lucta que vou ser obrigada a sustentar, recusando-me
+a acceitar por esposo o homem que elle me
+escolheu. N&atilde;o me intimida, por&eacute;m, a perspectiva
+do
+soffrimento. Morrerei de bom grado na defesa dos sagrados
+affectos do meu cora&ccedil;&atilde;o e conservar-me-hei fiel
+ao juramento tantas vezes repetido do meu am&ocirc;r. O
+que quero &eacute; ter a certeza de que a tua confian&ccedil;a
+me
+n&atilde;o abandona, Paulo; que quaesquer que sejam as
+mudan&ccedil;as que se operem no nosso modo de viver e de
+nos relacionarmos&#8213;mudan&ccedil;as que eu n&atilde;o posso
+prev&ecirc;r
+por emquanto quaes sejam, mas que certamente h&atilde;o
+de s&ecirc;r as mais dolorosas para o nosso
+cora&ccedil;&atilde;o&#8213;eu
+terei no teu espirito e na tua lembran&ccedil;a o logar a que
+o meu am&ocirc;r me d&aacute; direito...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Beatriz!&#8213;exclamou o mancebo&#8213;quando se
+ama como eu te amo; quando se sente no peito a
+chamma ardentissima de um vivo e intenso amor que
+de todo nos senhoreia o espirito e nos absorve a existencia,
+lucta-se, soffre-se, morre-se, mas n&atilde;o se esquece
+j&aacute;mais o nome d'aquella que nos inspirou t&atilde;o
+fervoroso
+culto!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois bem, meu Paulo! &Eacute; possivel que o destino
+nos reserve dias bem sombrios de uma ausencia
+crudelissima, que ha-de retalhar-nos o cora&ccedil;&atilde;o e
+quasi
+volver-nos loucos de desespero. Sejam quaes forem as
+circumstancias em que nos encontremos, sejam quaes
+forem as apparencias que me condemnem, n&atilde;o
+duvidar&aacute;s
+nunca da lealdade do meu affecto como eu n&atilde;o
+<span class="pagenum">[30]</span>
+duvidarei, j&aacute;mais da sinceridade da tua alma, n&atilde;o
+&eacute;
+verdade?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fazes-me estremecer de receio, Beatriz! Decerto
+exaggeras o pavoroso quadro dos nossos infortunios...&#8213;disse
+o mancebo, pallido de commo&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; que tu n&atilde;o conheces meu pae!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que poder&aacute; elle fazer, se tu recusares tenazmente
+esse enlace como uma violencia imposta ao teu
+cora&ccedil;&atilde;o? Antes de tudo, tu &eacute;s sua
+filha; e um pae,
+por muito severo e rispido que pare&ccedil;a, n&atilde;o se
+transforma
+por simples capricho no algoz d'aquella a quem
+deu o s&ecirc;r.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sei... n&atilde;o posso dizer-te nada por
+emquanto,
+sen&atilde;o que tudo espero d'este funesto designio manifestado
+por meu pae... Mas seja como f&ocirc;r, jura-me
+que n&atilde;o duvidar&aacute;s nunca da mim, que has-de sempre
+confiar na tua Beatriz como n'aquella que mais te
+ama no mundo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Juro-te, meu amor, que ser&aacute;s minha e que n&atilde;o
+te has-de encontrar s&oacute; na lucta e no soffrimento. Tenho
+amigos&#8213;continuou Paulo&#8213;amigos poderosos, contra
+os quaes n&atilde;o &eacute; facil nem prudente luctar... Com
+elles
+conto como <em>irm&atilde;os</em> e
+n'elles espero encontrar o auxilio
+de que ambos carecemos. N&atilde;o te assustes nem te deixes
+dominar pelo terror. Hontem, ainda desprotegido,
+poderia talvez apavorar-me a ideia da minha fraqueza
+contra inimigos t&atilde;o poderosos como &eacute; teu pae;
+hoje,
+conscio de que os brados intimos do meu cora&ccedil;&atilde;o
+amea&ccedil;ado de morte encontrar&atilde;o ecco n'outros
+cora&ccedil;&otilde;es
+que me s&atilde;o dedicados, levanto-me orgulhoso e altivo
+do teu amor, e digo-te: &laquo;N&atilde;o succumbas, anjo da
+minha alma! Tem confian&ccedil;a em mim, que havemos
+de vencer&raquo;.
+<br />
+
+<br />
+
+O tom de absoluta seguran&ccedil;a com que Paulo proferiu
+estas palavras pareceu transmittir novo alento
+&aacute; joven.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[31]</span> &#8213;Luctarei&#8213;disse ella&#8213;e agora com mais energia,
+desde que nas tuas palavras tenho o penhor de
+que n&atilde;o ser&aacute; perdido o meu sacrificio. Nada mais
+te
+pedia e nada mais te pe&ccedil;o do que essa confian&ccedil;a
+inabalavel
+na constancia do meu amor. Ama-me como eu
+te amo, Paulo! e d'este sentimento, que &eacute; a vida,
+hauriremos for&ccedil;as para resistir aos embates de uma sorte
+cruel e adversa!
+<br />
+
+<br />
+
+Trocaram-se ainda novas juras e protestos de constancia
+e amor sem fim, despedindo-se, e promettendo
+tornar a ver-se na noite seguinte.
+<br />
+
+<br />
+
+O leitor, eivado do realismo da epoca, certamente
+est&aacute; sorrindo do c&oacute;rte romanticamente amoroso e
+piegas
+d'este dialogo dos dois namorados.
+<br />
+
+<br />
+
+Effectivamente, a menina tem a phrase um tanto
+brunida e lustrosa das heroinas dos romances d'outras
+eras, o que d&aacute; um tom de inverosimilhan&ccedil;a ao
+lance
+ingenuamente sentimental.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas o romancista, se cop&iacute;a do natural como n&oacute;s
+o estamos fazendo, n&atilde;o tem remedio sen&atilde;o
+acingir-se &aacute;
+verdade e reproduzir os seus personagens com os
+aleij&otilde;es que a natureza, as condi&ccedil;&otilde;es
+do meio ou os
+acasos do nascimento e da educa&ccedil;&atilde;o lhes
+imprimiram
+no corpo ou no caracter.
+<br />
+
+<br />
+
+Esta menina, assim romanticamente apaixonada,
+exprimindo-se em termos de um antiquado sabor
+litterario, n&atilde;o nos est&aacute; revelando uma assidua e
+ingenua
+leitora das novellas de Camillo?
+<br />
+
+<br />
+
+Claro est&aacute; que ella reproduz incorrectamente o
+que de peor podia haurir na leitura do genial escriptor&#8213;a
+emphase, o arredondado do periodo, a declama&ccedil;&atilde;o
+cantante, sem os esm&ecirc;ros da dic&ccedil;&atilde;o, sem
+a impeccavel
+belleza e elegancia de f&oacute;rma do grande Mestre. Mas
+o facto &eacute; que ella, em assumptos de
+cora&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o podia
+exprimir-se de outra maneira, visto que, como mais
+tarde teremos occasi&atilde;o de averiguar, foi nas paginas
+<span class="pagenum">[32]</span>
+solu&ccedil;antes do &laquo;Amor de
+Perdi&ccedil;&atilde;o&raquo; que aprendeu a
+traduzir as primeiras balbucia&ccedil;&otilde;es do seu amoroso
+cora&ccedil;&atilde;o de crean&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+Paulo tambem, pela sua parte, influenciado pelas
+mesmas leituras, correspondia-lhe no tom e no gosto
+do seu arrasoado. Se, por&eacute;m, esta linguagem p&oacute;de
+ser
+capitulada de falsa, o mais espantoso &eacute; que ella exprimia
+um sentimento profundamente verdadeiro.
+<br />
+
+<br />
+
+Os dois amavam-se com entranhado ard&ocirc;r, e isso
+&eacute; o que mais importa saber ao leitor inimigo de
+divaga&ccedil;&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+Ponhamos, pois, de parte a preoccupa&ccedil;&atilde;o de
+responder
+a reparos que a grande maioria certamente
+n&atilde;o far&aacute; e digamos em poucas palavras o que foi
+feito
+de Paulo, desde que, cerrada a janella da sua amada,
+teve que retirar-se a passos apressados para que a
+chuva, que come&ccedil;ava a cair em grossas g&ocirc;tas, o
+n&atilde;o
+surprehendesse na rua tristemente deserta.
+<br />
+
+<br />
+
+O mancebo era estudante. Tinha completado o
+curso do Lyceu e matriculara-se no primeiro anno da
+Academia.
+<br />
+
+<br />
+
+O padre Filippe, seu protector e amigo, era quem
+se dizia encarregado de lhe fornecer os meios de
+subsistencia e de estudo.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o o tinha, por&eacute;m, na sua companhia. Incumbira-o
+aos cuidados de uma familia honesta, onde era
+tratado como filho, e limitara-se apenas a exigir que
+o <em>seu estudante</em> o fosse visitar duas
+vezes por semana,
+nas quintas e nos domingos, &aacute; casa que elle habitava,
+na rua Ch&atilde;.
+<br />
+
+<br />
+
+Paulo n&atilde;o conhecera outra familia, al&eacute;m d'aquella
+em casa de quem o hospedaram aos doze annos. At&eacute;
+ahi, que se lembrasse, f&ocirc;ra alumno interno d'um instituto
+religioso, onde umas irm&atilde;s piedosas o trataram
+com o carinho de m&atilde;es, ficando-lhe d'esse internato
+uma recorda&ccedil;&atilde;o t&atilde;o saudosa que, ainda
+agora, ia a
+<span class="pagenum">[33]</span>
+meudo visitar a abbadessa, madre Paula, que tinha
+no seu cora&ccedil;&atilde;o o primeiro logar.
+<br />
+
+<br />
+
+Recolhendo a casa na manh&atilde; d'aquella noite accidentadissima,
+o mancebo n&atilde;o p&ocirc;de dormir.
+<br />
+
+<br />
+
+Agitadissimo, recordando o seu passado, em que
+parecia haver um ponto escuro que o mortificava,
+Paulo resolveu erguer uma ponta do veu mysterioso
+que encobria o seu nascimento.
+<br />
+
+<br />
+
+No dia seguinte, pelas 10 horas, dirigiu-se a casa
+do seu protector, e sem mais preambulos, disparou-lhe
+esta pergunta &aacute; queima roupa:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Diga-me, padre: quem &eacute; meu pae?
+<br />
+
+<br />
+
+O padre Filippe, surprehendido pelo imprevisto
+da pergunta, p&ocirc;z no mancebo os olhos espantados e
+ficou-se a consideral-o em silencio por alguns momentos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Porque me fazes essa pergunta, Paulo?&#8213;disse
+por fim.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Porque sou um homem, porque tenho j&aacute; dezoito
+annos, e desejo saber d'onde venho, para poder destinar
+para onde vou, ou para onde devo ir... respondeu
+o mancebo com firmeza.
+<br />
+
+<br />
+
+O padre Filippe sorriu bondoso a esta replica do
+mo&ccedil;o e continuou a olhal-o fixamente.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Paulo&#8213;disse elle afinal&#8213;se dizes que &eacute;s um
+homem, como p&oacute;de influir no teu destino o saberes ou
+deixares de saber o nome d'aquelles a quem deves a
+existencia? &Eacute;s um homem; e todos os homens devem
+ser guiados pelo mesmo sentimento do bem, todos
+devem caminhar para o mesmo fim: serem uteis a si
+e &aacute; humanidade. Creio que o facto de cada um saber
+ou ignorar o nome de seus paes nada influe ou nada
+deve influir no destino que lhe est&aacute; tra&ccedil;ado.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Perd&atilde;o, meu bom amigo!&#8213;objectou Paulo&#8213;Todo
+o homem tem o direito, creio eu, de conhecer a
+sua origem, de saber o nome dos seus progenitores,
+<span class="pagenum">[34]</span>
+n&atilde;o s&oacute; para os respeitar e bemdizer pelo
+beneficio da
+vida que lhe concederam, mas ainda para nortear os
+seus actos pelas tradi&ccedil;&otilde;es da sua familia. Por
+isso insisto
+na pergunta: quem &eacute; ou quem foi meu pae?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Teu pae&#8213;tornou o padre placidamente e agora
+de todo reposto do sobresalto que lhe caus&aacute;ra a
+pergunta&#8213;teu
+pae &eacute; ou foi um homem. D'isso n&atilde;o te
+deve restar duvida, pois que homem te dizes j&aacute; e
+como homem te apresentas.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas n&atilde;o tinha nome esse homem?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se o tinha, n&atilde;o chegou nunca ao meu conhecimento.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nem o nome de minha m&atilde;e?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nem o nome de tua m&atilde;e.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como &eacute;, pois, que eu me chamo Paulo de
+Noronha?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Naturalmente porque aquelles que te deram o
+s&ecirc;r assim quizeram que te chamasses.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Assim quizeram! A quem manifestaram elles
+essa vontade? S&atilde;o ainda vivos? Se o s&atilde;o, porque
+se
+occultam e me n&atilde;o apparecem? Se morreram, porque
+motivo deixaram envolto no mysterio o meu nascimento?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A nenhum filho &eacute; licito discutir e muito menos
+censurar os actos de seus paes.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas eu n&atilde;o censuro, nem sequer discuto!&#8213;obtemperou
+Paulo&#8213;eu apenas pergunto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ha perguntas que envolvem censura, se n&atilde;o
+para aquelles a quem se fazem, pelo menos para
+aquelles de quem se fazem... Mas dize-me, Paulo,
+que estranha curiosidade &eacute; essa que assim te move a
+querer saber o que por emquanto deves ignorar?
+<br />
+
+<br />
+
+O mancebo hesitou por alguns instantes e por fim
+disse:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Padre Filippe, permitta-me que lhe falle com
+franqueza e lhe exponha as duvidas que ha tempo a
+<span class="pagenum"><a name="p35">[35]</a></span>
+esta parte me obcecam o espirito e me fazem reflectir
+na minha estranha situa&ccedil;&atilde;o...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Falla, meu amigo, falla!&#8213;animou o padre
+bondosamente&#8213;e cr&ecirc; que, a n&atilde;o s&ecirc;r madre
+Paula,
+ninguem no mundo merece tanto como eu a tua
+confian&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois bem!&#8213;tornou Paulo&#8213;ha muito tempo
+que eu dirijo a mim mesmo estas perguntas: Quem
+sou eu? De que familia descendo? Como se chamam
+ou se chamavam meus paes? Todos os meus condiscipulos
+dizem de quem s&atilde;o filhos, todos repetem com
+orgulho o nome dos paes ou relembram com saudosa
+ternura o nome das m&atilde;es. Todos dizem: &laquo;a minha
+casa, a minha familia&raquo;, s&oacute; eu n&atilde;o posso
+dizer&#8213;<em>meu
+pae</em>, <em>minha
+m&atilde;e</em>, porque s&atilde;o entes que
+n&atilde;o conhe&ccedil;o,
+de que nunca ouvi fallar, de quem n&atilde;o tenho a menor
+noticia. Dar-se-ha caso que eu n&atilde;o tivesse pae, que
+n&atilde;o tivesse m&atilde;e? Mas ent&atilde;o a quem devo
+eu a minha
+existencia, o amparo e protec&ccedil;&atilde;o que
+at&eacute; agora tenho
+recebido? Sou um orph&atilde;o? Sou um engeitado? Vivo
+e alimento-me do que por direito de nascimento me
+pertence, ou recebo a esmola de nobres almas compassivas?
+<a href="#e7">No primeiro</a> caso, se tenho
+direitos, reclamo-os,
+porque esses direitos imp&otilde;em-me deveres que
+eu quero respeitar e cumprir. No segundo, como sou
+j&aacute; um homem e tenho o bra&ccedil;o bastante robusto para
+ganhar o p&atilde;o da existencia, n&atilde;o devo por mais
+tempo
+acceitar criminosamente a caridade que me trouxe
+at&eacute; aqui e que p&oacute;de fazer falta a outro
+desgra&ccedil;ado
+como eu!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Paulo!&#8213;disse o padre Filippe, fundamente
+commovido&#8213;&eacute;s ainda muito novo para te preoccupares
+com assumptos que, por emquanto, devem permanecer
+envoltos no v&eacute;o do mysterio que os encobre aos teus e
+aos meus olhos. Eu nada te posso dizer, filho.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; ent&atilde;o &aacute; caridade de vossa
+reverendissima e
+<span class="pagenum">[36]</span>
+de madre Paula que eu devo o p&atilde;o que at&eacute; agora me
+tem alimentado, n&atilde;o &eacute; assim?&#8213;perguntou o
+mancebo,
+extraordinariamente commovido e pallido.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o! N&atilde;o!&#8213;atalhou padre Filippe.&#8213;Eu recebi
+de um meu superior, a quem assisti nos ultimos
+instantes, o encargo de velar por ti e de applicar &aacute;s
+despezas da tua sustenta&ccedil;&atilde;o e
+educa&ccedil;&atilde;o a quantia que
+mensalmente me &eacute; enviada por pessoa que
+desconhe&ccedil;o
+e que j&aacute; antes a enviava ao santo sacerdote que me
+legou este encargo. A mim nada me deves, meu filho,
+sen&atilde;o a grande estima que tenho por ti e o grande desejo
+que sinto de te v&ecirc;r conquistar uma
+posi&ccedil;&atilde;o digna
+e honrosa na sociedade.
+<br />
+
+<br />
+
+Paulo calou-se. As palavras do padre Filippe, repassadas
+de suavidade e do&ccedil;ura, impressionaram-n'o
+profundamente.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estou ent&atilde;o condemnado&#8213;disse elle, passados
+instantes&#8213;a ignorar toda a vida o nome de meus
+paes?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E de que te valeria o sabel-o?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;De que me valeria! Valer-me-hia de n&atilde;o ter que
+c&oacute;rar diante de quem me interrogar a esse respeito!
+Valer-me-hia de n&atilde;o ter que recuar envergonhado e
+confundido diante de uma familia honesta que, antes
+de me admittir como filho em seu seio, ter&aacute; que perguntar-me
+o nome de meus paes! Valer-me-hia, emfim,
+de n&atilde;o me encontrar n'esta horrorosa
+situa&ccedil;&atilde;o de n&atilde;o
+saber quem sou, se o portador legal de um nome honrado,
+se o vil e abjecto fructo de uma ac&ccedil;&atilde;o indigna,
+de um amor bestial e criminoso!
+<br />
+
+<br />
+
+Ouvindo esta retumbante tirada do mo&ccedil;o, o padre
+Filippe sorriu ainda amoravel e observou-lhe:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Os tempos mudaram e com elles a orienta&ccedil;&atilde;o da
+sociedade moderna, meu Paulo. J&aacute; nenhum homem se
+imp&otilde;e hoje pela familia, pelas
+tradi&ccedil;&otilde;es dos seus antepassados,
+pelas chimericas e phantasticas illus&otilde;es de
+<span class="pagenum">[37]</span>
+uma arvore geneologica, bracejando vergonteas e rebent&otilde;es
+inuteis pelos seculos f&oacute;ra. Nenhum homem vale
+hoje pelo que valeram seus paes e seus av&oacute;s... Hoje,
+cada um vale por si, pelos seus merecimentos proprios,
+pelas nobres qualidades do seu caracter, pelas brilhantes
+manifesta&ccedil;&otilde;es da sua intelligencia. A tendencia
+democratica
+dos nossos tempos de ha muito que p&ocirc;z de
+parte as falsas conven&ccedil;&otilde;es de uma sociedade que
+se
+desmoronou...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas n&atilde;o p&ocirc;z de parte, creio eu, os dictames da
+honra!&#8213;retorquiu o mancebo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Decerto. E alguem te impede de te affirmares
+sempre um homem honrado, Paulo? A honra est&aacute;
+nos nossos actos, est&aacute; no uso que fazemos das faculdades
+com que a natureza nos dotou, est&aacute; na firmeza
+e altivez com que, atrav&eacute;s de todas as vicissitudes,
+cumprimos intemeratamente o nosso dever; n&atilde;o est&aacute;
+nos acasos do nascimento, nos brios de passados avoengos,
+nos appellidos pomposos dos que nos deram o s&ecirc;r.
+Faze, pois, por merecer a estima e o respeito dos teus
+concidad&atilde;os, Paulo, e n&atilde;o te preoccupe a ideia de
+n&atilde;o
+saberes de quem vens. Basta que apenas conhe&ccedil;as
+para onde vaes e sigas sem tergiversar a linha do
+dever.
+<br />
+
+<br />
+
+O mancebo guardou silencio por alguns instantes.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute;, pois, um mysterio impenetravel o meu
+nascimento? Mas com que direito se me occulta o nome
+de meus paes? Com que direito me condemnam a esta
+lucta permanente comigo mesmo, sem saber se o que
+me d&atilde;o o devo receber como meu, se o devo considerar
+como uma esmola?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Paulo! Por duas vezes j&aacute;, desde que aqui entraste,
+proferiste a palavra <em>esmola</em>. As
+esmolas d&atilde;o-se
+aos desgra&ccedil;ados, aos invalidos, aos que se encontram
+impossibilitados de, por esfor&ccedil;o proprio, prov&ecirc;rem
+aos
+meios de subsistencia. Tu n&atilde;o est&aacute;s n'esse caso.
+Quando
+<span class="pagenum">[38]</span>
+muito, o que recebes de m&atilde;o ignota que n&atilde;o
+precisas
+conhecer, &eacute; um adiantamento, uma divida que
+contrahes e que te ser&aacute; facil solv&ecirc;r,
+correspondendo
+dignamente &aacute;s esperan&ccedil;as que em ti depositaram os
+que quizeram fazer-te um bom cidad&atilde;o, um homem
+util a ti e aos teus semelhantes. E sobre isto, meu
+amigo, creio que temos fallado bastante. Dize-me&#8213;continuou
+o padre Filippe&#8213;tens ido visitar madre
+Paula?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ha mais de quinze dias que a n&atilde;o vejo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute;s ingrato, Paulo! A pobre senhora deve ter
+estranhado a falta da tua visita... Como &eacute; que
+p&oacute;des
+esquecer assim por tanto tempo quem tantas provas
+de carinhoso affecto te tem dado?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Padre&#8213;disse Paulo, ruborisado&#8213;eu n&atilde;o esque&ccedil;o,
+nem poderei esquecer nunca quanto devo a essa
+bondosa e santa senhora, que tem tido para mim desvelos
+e ternuras de... de m&atilde;e. Na minha vida, por&eacute;m,
+come&ccedil;am a surgir t&atilde;o imprevistas luctas,
+incidentes
+de tal modo inquietadores, que n&atilde;o sei se deva
+perturbar com a minha presen&ccedil;a o suave remanso
+d'aquella existencia para mim t&atilde;o cara!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Luctas imprevistas, incidentes inquietadores...&#8213;O
+que &eacute; isso, Paulo? Falla-me com franqueza, dize-me
+tudo, rapaz! O que &eacute; que te acontece de estranho
+e de amea&ccedil;ador? N&atilde;o te esque&ccedil;as de que
+deves
+considerar-me o teu primeiro e mais sincero amigo,
+meu filho! Creio que tenho direito &aacute; tua
+confian&ccedil;a...
+Ou n&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Respeito-o muito, meu padre, para vir importunal-o
+com assumptos que lhe parecer&atilde;o talvez pueris...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem sei!... Negocios do cora&ccedil;&atilde;o... Temos
+amores no caso... S&atilde;o os primeiros rebates da virilidade
+no cora&ccedil;&atilde;o de um adolescente. Vamos! quem
+&eacute;
+a tua Virginia, meu Paulo?&#8213;perguntou jovialmente
+o sacerdote.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[39]</span> &#8213;A minha Virginia&#8213;disse o mancebo, com enthusiasmo&#8213;chama-se
+Beatriz, e n&atilde;o &eacute; menos formosa
+nem menos adoravel do que a immortal inspiradora
+do Dante.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bravo!&#8213;exclamou rindo o padre Filippe.&#8213;Temos,
+pois, em perspectiva uma <em>comedia
+divina</em>, para
+fazer confronto com a <em>Divina
+Comedia</em>...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se n&atilde;o tivermos antes um drama extraordinario,
+at&eacute; agora in&eacute;dito na historia dos soffrimentos
+humanos...
+<br />
+
+<br />
+
+O padre encarou-o gravemente.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fallas serio, Paulo?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;T&atilde;o serio que me atrevi a vir interrogal-o, padre
+Filippe, sobre a historia do meu nascimento.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! era por isso que vinhas assim n'essa ancia,
+pedir-me a chave do enygma da tua existencia? Eu
+devia tel-o adivinhado... S&oacute; as mulheres s&atilde;o
+curiosas
+por indole...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, n&atilde;o!&#8213;atalhou Paulo.&#8213;A mulher que
+eu amo ainda n&atilde;o me fez a menor pergunta que me
+difficultasse a resposta. Eu, por&eacute;m, &eacute; que desejo
+saber
+quem sou para saber o que posso offerecer-lhe.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois n&atilde;o &eacute; sufficiente o
+cora&ccedil;&atilde;o do homem que
+ama para a mulher amada?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Padre, a mulher que eu amo n&atilde;o &eacute; livre; tem
+pae, que se julga com direito a intervir no seu destino
+e a impedir que sua filha busque a allian&ccedil;a de
+um homem de origem... desconhecida.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Foi essa menina quem t'o disse?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Disse-m'o a minha propria raz&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Queres um conselho, Paulo?&#8213;perguntou inopinadamente
+o padre Filippe.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Os conselhos de vossa reverendissima s&atilde;o para
+mim leis sabias e justas, que eu n&atilde;o posso deixar de
+acatar com o respeito e gratid&atilde;o que lhe devo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois bem; refreia os impetos da tua paix&atilde;o por
+<span class="pagenum">[40]</span>
+essa menina e busca antes de tudo fazer-te digno do
+seu amor.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; o sou.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pelos dotes do cora&ccedil;&atilde;o, concordo, mas
+n&atilde;o pela
+posi&ccedil;&atilde;o social alcan&ccedil;ada. O primeiro
+que o pae d'essa
+menina ha-de perguntar-te, quando souber que lhe
+pretendes a m&atilde;o da filha, &eacute; com que recursos
+contas
+para proporcionares a tua mulher a felicidade e o
+bem estar a que ella tem direito. Querer&aacute; saber que
+posi&ccedil;&atilde;o &eacute; a tua, que
+profiss&atilde;o exerces ou de que meios
+de fortuna disp&otilde;es para poderes dignamente apresental-a
+na sociedade ao respeito e &aacute;
+considera&ccedil;&atilde;o das
+pessoas de bem. E comprehendes, meu Paulo, que a
+taes perguntas n&atilde;o se responde com uma certid&atilde;o
+de
+baptismo que nos d&aacute; av&oacute;s illustres de quem
+n&atilde;o herd&aacute;mos
+um palmo de terra onde cahir mortos, nem
+com a reedi&ccedil;&atilde;o apaixonada dos mil juramentos de
+amor
+constante que enviamos &aacute; filha em perfumadas cartinhas
+que l&aacute; est&atilde;o, em ma&ccedil;o, amarradas com
+fita de
+seda...
+<br />
+
+<br />
+
+O mancebo n&atilde;o p&ocirc;de deixar de sorrir a estas
+palavras
+do padre Filippe, que denunciavam um profundo
+conhecedor da arte do galanteio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Os paes n&atilde;o se contentam com t&atilde;o pouco, exigem
+mais alguma coisa&#8213;continuou o sacerdote&#8213;Ora
+esse <em>mais alguma coisa</em> &eacute;
+que est&aacute; na tua m&atilde;o
+offerecer-lh'o, Paulo. Conquista pelo estudo e pelo trabalho
+honesto uma posi&ccedil;&atilde;o que te nobilite aos olhos do
+mundo; engrandece-te a ti proprio, torna-te homem;
+e quando a tua consciencia te disser que n&atilde;o &eacute;s
+inferior
+&aacute; mulher que amas, vae pedil-a e n&atilde;o receies que
+o pae te n&atilde;o encontre bastante nobilitado para entrares
+na sua familia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas o pae de Beatriz quer casal-a com outro!&#8213;exclamou
+o mancebo, dando largas ao desespero
+que lhe ia na alma.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[41]</span> &#8213;O pae d'essa menina sabe que ella te ama?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sabe.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute;, pois, natural que, julgando o
+cora&ccedil;&atilde;o da
+filha desligado de qualquer affei&ccedil;&atilde;o, pense em
+lhe
+proporcionar um enlace que lhe parece vantajoso. Todos
+os paes pensam no futuro de suas filhas e esse n&atilde;o
+o seria, se desdissesse da regra geral. Mas d'ahi a violentar-lhe
+o cora&ccedil;&atilde;o e a impor-lhe &aacute;
+for&ccedil;a um casamento
+que ella rejeita, vae uma distancia enorme. Se
+essa menina te ama sinceramente, como dizes, recusar&aacute;
+o consorcio que o pae lhe proporciona, allegando motivo
+que para todos os paes deve ser sagrado&#8213;a ausencia
+absoluta de sympathia pelo noivo proposto. Se,
+pelo contrario, o sentimento que diz nutrir por ti
+n&atilde;o &eacute; t&atilde;o vivo e intenso que lhe
+permitta a recusa,
+casar-se-ha, e com o facto s&oacute; tu tens a lucrar, pois
+que assim te livras do escolho de vires a possuir por
+companheira uma creatura incapaz de corresponder &aacute;s
+nobres aspira&ccedil;&otilde;es da tua alma. N&atilde;o
+creio, pois, que
+isso seja contrariedade de maior, que te d&ecirc; motivos
+para os sobresaltos e inquieta&ccedil;&otilde;es que revelas.
+Vae
+visitar madre Paula, meu rapaz... Conta-lhe os
+segredos da tua alma, nada lhe occultes, e ver&aacute;s como
+nas suas palavras e conselhos has-de encontrar o socego
+e quieta&ccedil;&atilde;o que precisas... Isto n&atilde;o
+&eacute; desviar
+de mim o encargo de te guiar e dirigir no accidentado
+caminho a que o cora&ccedil;&atilde;o te propelle&#8213;accrescentou
+o
+padre&#8213;Mas &eacute; que as mulheres, em quest&otilde;es do
+cora&ccedil;&atilde;o,
+teem mais auctoridade, s&atilde;o mais profundamente
+conhecedoras da mysteriosa sciencia do sentimento
+alheio, e teem sobretudo um poder de persuas&atilde;o que a
+n&oacute;s outros os homens nos fallece. Procura madre Paula,
+conta-lhe tudo, escuta as suas palavras e ver&aacute;s
+que has-de sentir-te bem, meu filho.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Procural-a-hei&#8213;disse Paulo&#8213;mas creio bem
+que n&atilde;o poder&aacute; aconselhar-me melhor do que vossa
+<span class="pagenum">[42]</span>
+reverendissima acaba de o fazer; nem as palavras da
+santa e virtuosa senhora poder&atilde;o trazer mais funda
+ao meu espirito a convic&ccedil;&atilde;o que vossa
+reverendissima
+me deu de que preciso engrandecer-me, fazer-me
+<em>homem</em>
+para conquistar a posse da mulher que amo!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Folgo de ver que comprehendeste bem o intuito
+das minhas palavras, Paulo. Cr&ecirc; que ninguem mais
+do que eu deseja a tua felicidade e o teu bem estar.
+Se fosses meu filho, n&atilde;o te aconselharia de modo differente
+nem desejaria com mais ardor ver-te ascender
+a uma posi&ccedil;&atilde;o culminante. D'isso p&oacute;des
+estar certo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Trabalharei e empregarei todos os esfor&ccedil;os para
+realisar os desejos de vossa reverendissima&#8213;que s&atilde;o
+tambem os meus.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E conseguil-o-has, porque &eacute;s intelligente, &eacute;s
+energico, e revelas nobreza de caracter. Com taes
+predicados, s&oacute; n&atilde;o alcan&ccedil;a uma
+posi&ccedil;&atilde;o distincta na
+sociedade quem n&atilde;o quer.
+<br />
+
+<br />
+
+Agora, reanimado pela esperan&ccedil;a que as palavras
+do padre Filippe lhe incutiram, o mancebo despediu-se
+do seu protector, mais que nunca resolvido a encetar
+a lucta pela vida e pelo triumpho completo das nobres
+aspira&ccedil;&otilde;es do seu amoroso
+cora&ccedil;&atilde;o de rapaz.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c3"></a>III<br />
+
+<br />
+
+Pae e filha
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Emquanto o <a href="#e8">pupillo</a> do padre
+Filippe e de madre
+Paula busca a maneira de realisar os dourados sonhos
+da sua imagina&ccedil;&atilde;o juvenil, queira o leitor
+acompanhar-nos
+a casa do pae de Beatriz e travar conhecimento
+com o sombrio progenitor da encantadora
+menina.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o tendo n&oacute;s os mesmos motivos de Paulo para
+occultar do pae as rela&ccedil;&otilde;es com a filha, justo
+&eacute; que
+busquemos o conhecimento de ambos e entremos na
+intimidade dos dois para melhor podermos avaliar o
+caracter de cada um e apreciar os acontecimentos que
+v&atilde;o desenrolar-se aos nossos olhos.
+<br />
+
+<br />
+
+&Aacute; hora a que entramos, est&aacute; o sr. Custodio de
+Jesus
+sentado &aacute; secret&aacute;ria do seu gabinete, fazendo
+contas e archivando documentos que parece lhe s&atilde;o
+muito uteis, pela atten&ccedil;&atilde;o e minuciosidade com
+que os
+examina e pelo cuidado com que em seguida os guarda
+emma&ccedil;ados e rodeados de uma larga cinta de papel
+branco, em que se l&ecirc; n'uma excellente letra garrafal,
+a palavra&#8213;<span class="smallcaps">Hypothecas</span>.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estas bem est&atilde;o&#8213;murmura elle co&ccedil;ando
+distrahidamente
+<span class="pagenum">[44]</span>
+com a m&atilde;o direita a vasta suissa grisalha,
+talhada em f&oacute;rma de foucinha e franzindo o labio superior
+completamente rapado &aacute; navalha, talvez para
+facilitar a passagem do meio grosso destillado e liquifeito
+em repetidas pitadas nas profundezas insondaveis
+de um nariz que exteriormente apresenta a
+configura&ccedil;&atilde;o
+e o aspecto de um capacete de alambique&#8213;Estas
+bem est&atilde;o... O peor s&atilde;o as outras...
+<br />
+
+<br />
+
+Passou a examinar segundo ma&ccedil;o, mostrando no
+rosto evidentes signaes de mau humor.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Aqui est&aacute;!&#8213;disse elle, batendo com a m&atilde;o
+espalmada
+sobre os papeis&#8213;Mais de cincoenta contos
+em hypothecas que n&atilde;o pagam ha um anno um real
+de juro! Ladr&otilde;es! E agora s&atilde;o capazes de ainda
+vir
+fazer quest&atilde;o para juizo e arranjar-me a tramoia de
+modo que eu n&atilde;o fique com as propriedades pelo
+pre&ccedil;o
+da louva&ccedil;&atilde;o...
+<br />
+
+<br />
+
+Como correspondendo a estas reflex&otilde;es, que accusavam
+no sr. Custodio de Jesus um agiota costumado
+a perseguir as suas victimas at&eacute; as espoliar em
+leil&atilde;o,
+nos tribunaes, abriu-se a porta do escriptorio e
+entrou por ella um homem alto, espadaudo, por&eacute;m
+excessivamente magro, usando uma comprida barba
+que quasi lhe chegava &aacute; cintura e que lhe dava &aacute;
+physionomia um aspecto carregado, amea&ccedil;ador, capaz
+de apavorar o mais remisso devedor, o mais teimoso dos
+litigantes.
+<br />
+
+<br />
+
+Este homem entrou como pessoa intima na casa,
+cerrou a porta sobre si, dirigiu-se a uma cadeira que
+estava devoluta junto da secret&aacute;ria, e sentou-se sem
+mesmo se dar ao incommodo de tirar o chap&eacute;o que
+lhe ensombrava o barbudo rosto.
+<br />
+
+<br />
+
+Ao v&ecirc;l-o, o sr. Custodio de Jesus teve um sorriso
+de intimo contentamento e exclamou:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estava agora mesmo a pensar em voc&ecirc;, amigo
+Belchior!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[45]</span> &#8213;Aqui me tem. Os amigos lembram sempre na
+occasi&atilde;o... N&atilde;o vim mais cedo porque tive de ir
+ao
+tribunal requerer um arresto... E amanh&atilde; tenho outro...
+Isto &eacute; um nunca acabar de caloteiros, que s&oacute;
+gostam de comer e n&atilde;o pagar! Mas aquelle que me
+cahe nas unhas e tem por onde pagar, amola-se! Deixo-o
+expremido que nem um lim&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; o que eu preciso que se fa&ccedil;a a estes
+tratantes
+que aqui est&atilde;o com o juro por pagar!&#8213;exclamou
+o sr. Custodio de Jesus, apontando para as escripturas
+que tinha diante de si.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o se afflija, que isso &eacute; negocio de pouca
+demora...
+Qualquer dia tratamos d'isso. Sabe ao que eu
+c&aacute; venho?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Voc&ecirc; o dir&aacute;, amigo Belchior.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O rapaz, pelas informa&ccedil;&otilde;es que tenho d'elle, e
+um partid&atilde;o!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o imagina! &Eacute; mesmo mais rico do que eu
+supunha... O melhor que temos a fazer &eacute; n&atilde;o
+perder
+tempo e tratarmos de aferventar isto quanto antes.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Voc&ecirc; bem sabe que o caso n&atilde;o &eacute; para
+pressas,
+amigo Belchior... Eu mesmo tenho receio do rapaz...
+Diz voc&ecirc; que elle tem uma grande fortuna, e eu mesmo
+n&atilde;o duvido que assim seja, mas quem &eacute; que me
+assegura que elle n&atilde;o tem a maior parte dos haveres
+compromettidos, ou que n&atilde;o possa vir a compromettel-os?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quanto &aacute; primeira hypothese, posso affirmar-lhe
+que o rapaz tem sido estroina, tem gasto em passeios,
+em ceias com as actrizes, tem finalmente pago
+o seu tributo &aacute; mo &#8213;Quanto &aacute; primeira hypothese, posso affirmar-lhe
+que o rapaz tem sido estroina, tem gasto em passeios,
+em ceias com as actrizes, tem finalmente pago
+o seu tributo &aacute; mocidade... Mas todas essas rapaziadas
+n&atilde;o teem desfalcado o rendimento, que &eacute; grande...
+Quanto &aacute; segunda hypothese, &eacute; provavel que elle,
+depois de casar com sua filha, mude de feitio e comece
+<span class="pagenum">[46]</span>
+a portar-se como homem s&eacute;rio... Mas se o n&atilde;o
+f&ocirc;r,
+tanto melhor...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tanto melhor, como?&#8213;interrogou o sr. Custodio
+de Jesus, indignado.&#8213;Ent&atilde;o &eacute; melhor que minha
+filha case com um valdevinos, um dissipador, um extravagante?
+Bonita moral a sua, seu Belchior! Pois eu,
+meu amigo, desde j&aacute; lhe declaro que o que tenho me
+custou muito a ganhar, e n&atilde;o &eacute; para o
+v&ecirc;r dissipado
+em patuscadas e ceias &aacute;s actrizes!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O meu amigo Custodio de Jesus saber&aacute; muito bem
+como &eacute; que se ganha dinheiro, como se descontam
+letras e se empresta a juro sobre hypotheca; mas o
+que n&atilde;o sabe &eacute; nada de jurisprudencia&#8213;disse o
+Belchior com emphase.&#8213;&Eacute; preciso que o meu amigo
+se lembre de que sou solicitador ha mais de vinte e
+cinco annos, e que, durante todo este tempo, tenho
+adquirido conhecimentos que me habilitam a segurar
+o que &eacute; meu e o que &eacute; dos meus constituintes...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o digo que n&atilde;o, mas essa theoria, com
+franqueza,
+n&atilde;o me agrada... L&aacute; que o rapaz tenha tido
+estroinices, emfim, n&atilde;o &eacute; bom precedente, mas
+desde
+que elle ainda possue uma casa grande, de vasto rendimento,
+tudo se lhe p&oacute;de perdoar e esquecer com a
+condi&ccedil;&atilde;o de mudar de vida e de costumes
+dissipadores,
+logo que ligue o seu destino ao de minha filha.
+Mas agora achar melhor que elle continue nas suas
+dissipa&ccedil;&otilde;es e loucuras, do que se emende e seja
+um
+bom marido, isso &eacute; que me n&atilde;o entra
+c&aacute;!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; o que eu digo!&#8213;volveu o procurador com
+desdem&#8213;n&atilde;o sabem nada da lei e mettem-se a discutir
+com quem conhece a letra dos codigos!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Os codigos, amigo Belchior, p&oacute;dem dizer o que
+quizerem, mas o que elles n&atilde;o p&oacute;dem &eacute;
+metter-me em
+cabe&ccedil;a que um marido estroina &eacute; muito melhor do
+que
+um marido economico, morigerado e amante de sua
+mulher.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[47]</span> &#8213;&Eacute; porque o amigo e sr. Custodio de Jesus&#8213;respondeu
+o procurador, formalisado&#8213;n&atilde;o sabe que
+a lei faculta uma ac&ccedil;&atilde;o de
+interdic&ccedil;&atilde;o contra o marido
+prodigo, e confere a administra&ccedil;&atilde;o do casal a uma
+ou mais pessoas de familia.
+<br />
+
+<br />
+
+O Custodio de Jesus arregalou os olhos, espantado.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O qu&ecirc;? O que &eacute; isso? Explique l&aacute;,
+homem, que
+eu n&atilde;o percebi bem.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o tem que explicar. N&atilde;o se fazem escripturas,
+de modo que a noiva tem a mea&ccedil;&atilde;o nos haveres
+de seu marido, como o marido a tem nos haveres da
+mulher. Ora a administra&ccedil;&atilde;o do casal pertence de
+facto e por lei ao marido; mas se este, em vez de
+administrar parcimoniosamente, se entrega a
+dissipa&ccedil;&otilde;es
+e patuscadas escandalosas, &aacute; mulher assiste o direito
+de requerer a interdic&ccedil;&atilde;o do marido e
+p&ocirc;r-lhe
+uma tutela que, n'este caso, poderia muito bem ser
+exercida pelo meu amigo o sr. Custodio de Jesus...
+Ora percebe agora a raz&atilde;o por que eu digo que mais
+valer&aacute; que elle continue a affirmar-se um estroina, um
+dissipador de marca?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Realmente voc&ecirc;, amigo Belchior, &eacute; uma cabecinha
+privilegiada! exclamou enthusiasmado o pae de
+Beatriz.&#8213;Porque n&atilde;o estudou voc&ecirc; para doutor?
+<br />
+
+<br />
+
+O procurador sorriu com bonhomia e encolheu os
+hombros com despreso:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o me faz falta&#8213;disse.&#8213;Conhe&ccedil;o
+t&atilde;o bem
+a lei como aquelles que f&ocirc;ram a Coimbra. Por isso lhe
+digo, n&atilde;o deixe perder esta bella occasi&atilde;o de
+apanhar
+uma fortuna, que decerto lhe n&atilde;o voltar&aacute;
+t&atilde;o cedo a
+bater &aacute; porta outra igual... Case a pequena quanto
+antes com o doidivanas que se lhe offerece, e deixe o
+caso por minha conta.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu j&aacute; disse &aacute; minha Beatriz que fazia muito
+gosto em que ella acceitasse por marido este rapaz...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[48]</span> &#8213;E ella, o que respondeu?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como o meu amigo p&oacute;de bem avaliar, minha
+filha, que at&eacute; agora n&atilde;o tem pensado em
+casamento,
+caiu das nuvens quando lhe fallei em casar.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas manifestou repugnancia em acceitar o marido
+que se lhe prop&otilde;e?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ella pediu-me que a deixasse pensar na resposta...
+Emfim... deseja consultar o seu cora&ccedil;&atilde;o, e isso
+n&atilde;o se lhe p&oacute;de levar a mal...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem! Mas supponha que ella recusa...?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que motivo ter&aacute; para recusar quando sabe que
+a minha vontade &eacute; que este casamento se fa&ccedil;a e
+quando
+o noivo &eacute; realmente uma bella figura, capaz de
+captar as sympathias da menina mais exigente?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas supponhamos que recusa!&#8213;Insistiu ainda o
+procurador.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o posso supp&ocirc;r tal cousa, porque
+n&atilde;o estou
+habituado a que, em minha casa, alguem tenha vontade
+differente da minha.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nas pequenas quest&otilde;es da vida domestica, d'accordo...
+eu creio que o meu amigo tenha sido e continuar&aacute;
+a ser completamente obedecido... Mas n'este
+caso talvez n&atilde;o encontre a mesma cega obediencia que
+supp&otilde;e...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por que?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Porque as mulheres, quando encarreiram as suas
+affei&ccedil;&otilde;es para um lado, n&atilde;o ha diabo
+que as fa&ccedil;a voltar
+para outro, amigo e sr. Custodio...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que quer dizer com isso, amigo Belchior?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quero dizer que se a Beatrizita j&aacute; tem por ahi
+namoro que lhe fa&ccedil;a andar a cabe&ccedil;a &aacute;
+roda, ao meu
+amigo n&atilde;o lhe ser&aacute; t&atilde;o facil como
+julga o fazer que
+ella obede&ccedil;a &aacute; sua vontade...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Namoro! A minha Beatriz &eacute; uma crean&ccedil;a de
+dezeseis annos e n&atilde;o pensa n'essas tolices!&#8213;protestou
+o sr. Custodio de Jesus encrespando o sobr'olho.&#8213;Isso
+<span class="pagenum">[49]</span>
+&eacute; bom para aquellas raparigas que s&atilde;o
+educadas
+&aacute; redea solta e que n&atilde;o teem paes que lhes saibam
+dar
+educa&ccedil;&atilde;o... Namoro! Eu admittia l&aacute; que
+uma filha
+minha tivesse namoro!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;As filhas nunca pedem licen&ccedil;a aos paes para
+essas coisas...&#8213;commentou o outro.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;As filhas que n&atilde;o respeitam os paes ou que n&atilde;o
+teem paes que se fa&ccedil;am respeitar, d'accordo. Mas em
+minha casa n&atilde;o se d&aacute; isso...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E se se desse?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se se desse! Voc&ecirc; sabe alguma coisa, Belchior?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se se desse, &eacute; o que eu pergunto?&#8213;retorquiu
+o procurador com um sorriso mysterioso.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se se desse, ia ahi tudo com seiscentos diabos!
+Fechava a rapariga n'um quarto, que n&atilde;o tornava a
+v&ecirc;r sol nem lua, emquanto n&atilde;o fosse &aacute;
+egreja casar
+com quem eu dissesse!&#8213;bramiu o sr. Custodio de
+Jesus, assentando furioso murro sobre as escripturas
+das hypothecas em divida.&#8213;Mas voc&ecirc; sabe alguma
+coisa? Homem, seja franco!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois ent&atilde;o fique o amigo Custodio sabendo que
+temos moiro na costa e que a pequena... mas voc&ecirc;
+n&atilde;o v&aacute; agora fazer asneira... estas coisas
+levam-se
+com prudencia...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Diga, diga, homem!&#8213;insistiu o capitalista
+afflicto.&#8213;Sabe que a minha filha...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tem um namoro. E ent&atilde;o? &Eacute; a coisa mais natural
+d'este mundo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Voc&ecirc; falla serio?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o costumo brincar com coisas d'estas. Quando
+eu lhe digo que sua filha se corresponde com um
+rapaz a quem vae fallar da janella para a rua todas
+as noites, &eacute; porque tenho d'isso a certeza.
+<br />
+
+<br />
+
+Custodio de Jesus levantou-se de um salto como
+mordido da tarantula.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Voc&ecirc; n&atilde;o me repita isso nem a brincar!&#8213;bramiu
+<span class="pagenum">[50]</span>
+elle&#8213;porque eu vou-me &aacute;quella desavergonhada
+e racho-a!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mau! assim n&atilde;o fazemos nada!&#8213;reprehendeu
+o procurador&#8213;Aqui o que convem &eacute; saber o que se
+passa e tratar de encaminhar as coisas de modo que
+o projectado casamento com o nosso rapaz se realise
+o mais breve possivel...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas quem &eacute;, quem &eacute; esse outro que ella namora?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; um estudantito... um rapaselho.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Rico?&#8213;interrogou o Custodio arregalando os
+olhos.
+<br />
+
+<br />
+
+O procurador soltou uma gargalhada.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Voc&ecirc;, amigo Custodio, cuida que os rapazes
+ricos andam por ahi aos pontap&eacute;s! Isto hoje &eacute;
+tudo
+uma pelintrice, voc&ecirc; bem o sabe... Quando apparece
+um como o Eugenio, &eacute; um milagre! Porisso &eacute; que eu
+digo: vamos a deitar a unha a este, porque se o deixamos
+escapar n&atilde;o apparece outro t&atilde;o cedo...
+<br />
+
+<br />
+
+O Custodio de Jesus passeava agitado pelo aposento,
+quasi sem prestar atten&ccedil;&atilde;o &aacute;s palavras
+do procurador.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mulheres! Ra&ccedil;a maldita! Nasceram s&oacute; para
+enganar!&#8213;blasphemava elle&#8213;At&eacute; esta, de 16 annos,
+creada com todo o recato, longe das sociedades,
+retirada das m&aacute;s companhias, at&eacute; esta, que
+parecia
+uma innocente, me sae &aacute; ultima hora a corresponder-se
+com um namoro, sem que eu, que sou pae e
+ando sempre com mil cuidados e cautelas a vigiar-lhe
+os menores movimentos, tenha dado por isso!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Amigo Custodio&#8213;obtemperou o procurador&#8213;n&atilde;o
+vale a pena affligir... N&atilde;o &eacute; caso de morte de
+homem ou casa queimada... Que diabo! eu disse
+isto porque entendo que a voc&ecirc;, como pae, convem
+saber o que se passa para saber como ha de proceder...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[51]</span> &#8213;Como hei de proceder sei eu!&#8213;rugiu colerico
+o pae de Beatriz&#8213;Ponho-a de p&eacute; descal&ccedil;o a fazer
+o
+servi&ccedil;o da casa, a varrer, a lavar a lou&ccedil;a, a
+cosinhar,
+para lhe tirar o vicio! Se tem sentimentos de criada
+de servir, que seja criada de servir em tudo!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Homem, eu desconhe&ccedil;o-o!&#8213;reprehendeu severo
+o Belchior&#8213;Tinha-o na conta de um homem de
+juizo, um homem prudente que sabe o que lhe convem
+e que respeita os seus interesses, e voc&ecirc; sae-me a
+querer fazer tolices e disparates que n&atilde;o lembram a
+ninguem!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; que voc&ecirc; n&atilde;o sabe o odio que eu
+tenho &aacute;s
+mulheres!&#8213;explicou o Custodio&#8213;Esta filha veio
+para meu castigo!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o veio para seu castigo nada! Apparece-lhe
+um casamento bom para ella, um casamento de primeira
+ordem? Aproveite-o, trate de a casar por bem
+ou por mal... isso sim, senhor! Mas agora romper
+no excesso de a p&ocirc;r a fazer de servilheta, isso &eacute;
+dar
+murros em si proprio, amigo Custodio. Ora imagine
+que voc&ecirc; faz isso, e a pequena desesperada lhe foge...
+E depois? Voc&ecirc; desherdal-a n&atilde;o p&oacute;de,
+porque ella &eacute;
+sua filha. Al&eacute;m d'isso; j&aacute; n&atilde;o tem
+m&atilde;e e mais tarde ou
+mais cedo tem que entrar na posse da heran&ccedil;a materna...
+Homem, prudencia!... levemos as coisas
+por bem, que &eacute; melhor...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tem raz&atilde;o!&#8213;concordou por fim o Custodio&#8213;Mas
+olhe que &eacute; para um homem arreliar! N&atilde;o ha
+ninguem mais infeliz com as mulheres do que eu!&#8213;desabafou
+com o desespero de quem tocou a m&eacute;ta do
+soffrimento&#8213;Eu fui casado duas vezes... A primeira
+mulher, a Carlota, sahiu-me uma bebeda, uma
+desavergonhada que toda a vida me atrai&ccedil;oou com um
+padre em quem eu tinha toda a confian&ccedil;a e que at&eacute;
+por ultimo me roubou, levando-me tudo, deixando-me
+a pedir uma esmola!... Veja l&aacute; voc&ecirc;! Eu era um
+<span class="pagenum">[52]</span>
+bolas que n&atilde;o sabia nada do mundo, via Deus no
+c&eacute;o
+e a mulher na terra, tudo o que ella dizia era o que se
+fazia, e afinal o pago que me deu foi aquelle! Tambem
+a levou o diabo, que l&aacute; se envenenou em Lisboa, e
+t&atilde;o
+infame que at&eacute; &aacute; hora da morte deixou um bilhete
+a dizer
+que se matava por minha causa! Isso foi uma coisa
+muito fallada, at&eacute; andou nas gazetas...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Espere l&aacute;!... D. Carlota? Tenho ideia de l&ecirc;r
+isso...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Foi ha dezoito annos...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim... ha de haver esse tempo, ha de...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois, meu amigo, o ladr&atilde;o do padre arranjou-me
+uma tramoia de umas letras que eu acceitei a
+um outro maroto como elle, um tal Jo&atilde;o Ignacio...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem sei! Conhe&ccedil;o perfeitamente. Esse homem
+tambem parece que deu com tudo &aacute; costa. At&eacute;
+esteve
+doido, e a sua mania &eacute; que tinha sido roubado por um
+padre...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Era o mesmo... o padre Anselmo! Um ladr&atilde;o,
+um malandro com capa de santo, que foi a minha
+desgra&ccedil;a! Se n&atilde;o fosse elle metter-se-me com a
+mulher
+e roubar-me tudo, eu tinha a estas horas mais de
+quatrocentos contos!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vamos l&aacute;!&#8213;observou sorrindo o procurador&#8213;Parece
+que ainda lhe n&atilde;o levou tudo, porque voc&ecirc;,
+amigo Custodio, est&aacute; possuidor de capitaes muito avultados.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Aacute; custa de muito trabalho e depois do segundo
+casamento para c&aacute;&#8213;explicou o Custodio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sei como voc&ecirc;, depois de ser t&atilde;o
+infeliz
+com a primeira mulher, ainda caiu em casar segunda
+vez.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que remedio tive eu! N&atilde;o foi por minha vontade,
+n&atilde;o... Mas eu fiquei, como o outro que diz, sem &#8213;Que remedio tive eu! N&atilde;o foi por minha vontade,
+n&atilde;o... Mas eu fiquei, como o outro que diz, sem
+eira nem beira nem ramo do figueira. Appareceu-me
+uma mulher que tinha ido em nova para o Brazil e
+<span class="pagenum">[53]</span>
+que por l&aacute; arranjou uns contos de reis e esta filha
+com que voltou a Braga...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! ent&atilde;o Beatriz...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o &eacute; minha filha, mas eu perfilhei-a no acto
+de casar com a m&atilde;e, e ahi &eacute; que eu quero
+chegar...
+A bebeda, a grande desavergonhada enganou-me!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Enganou-o... quem?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A minha segunda mulher. Disse-me que trazia
+para cima de cincoenta contos, e afinal vae-se a v&ecirc;r,
+entre joias, dinheiro e papeis, pouco passava de vinte!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; feito!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; feito, diz voc&ecirc;! Mas eu perfilhei-lhe a
+filha,
+tenho trabalhado como um burro, aturei-a a ella
+at&eacute; &aacute; hora da morte&#8213;que ella vinha arruinada da
+saude, escangalhada, um caco velho em summa&#8213;tive
+de sahir de Braga, porque l&aacute; toda a gente lhe sabia
+a vida e era uma vergonha, e agora, depois de
+tudo isto, ainda n&atilde;o sou senhor de deixar o que &eacute;
+meu
+a quem eu quizer, porque para todos os effeitos esta
+rapariga &eacute; que &eacute; a minha herdeira.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por esse lado, tem o meu amigo raz&atilde;o&#8213;concordou
+o procurador&#8213;mas tambem, se n&atilde;o tem parentes
+ou outra pessoa que melhor lh'o mere&ccedil;a, pouco
+desarranjo lhe p&oacute;de fazer... O amigo para a cova
+n&atilde;o o p&oacute;de levar...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas podia deixal-o &aacute;s Ordens ou a quem eu
+muito bem quizesse!&#8213;recalcitrou o Custodio, indignado.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;As Ordens n&atilde;o lh'o agradeciam melhor do que
+esta pequena...&#8213;philosophou scepticamente o Belchior,
+com um sorriso desdenhoso.&#8213;N&atilde;o havia Ordem
+nenhuma que fosse capaz de lhe metter em casa uma
+fortuna como a que ella lhe traz pela porta dentro, se
+casar com o Eugenio de Mello...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fortuna... para ella!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E voc&ecirc; n&atilde;o &eacute; pae? E sendo pae,
+n&atilde;o fica sendo
+<span class="pagenum">[54]</span>
+sogro do rapaz? E sendo sogro do rapaz, desde o momento
+em que elle n&atilde;o d&ecirc; carreira direita n&atilde;o
+lhe vem
+a administra&ccedil;&atilde;o do casal parar &aacute;s
+unhas?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso ainda est&aacute; em
+<em>v&ecirc;l-o-hemos</em>... Se o rapaz
+ganhar
+juizo...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se ganhar juizo, faz-se-lhe perder... A quest&atilde;o
+&eacute; que voc&ecirc; queira...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas faz-se-lhe perder como? Como &eacute; que eu
+hei-de querer?&#8213;perguntou o Custodio de Jesus, arregalando
+os olhos, sem comprehender.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Homem! o rapaz &eacute; estroina, a doidice est&aacute;-lhe
+na massa do sangue... E os estroinas s&atilde;o como os
+alcoolicos, a quem os medicos dizem que morrem se
+continuarem a beber... Emendam-se, fazem um grande
+esfor&ccedil;o para se habituarem &aacute; agua, mas se um dia
+entram n'uma patuscada e v&ecirc;em uma garrafa que
+lhes desperta o appetite, perdem o m&ecirc;do atiram-se a
+ella, bebem e morrem victimas do vicio que o instincto
+da conserva&ccedil;&atilde;o n&atilde;o foi sufficiente
+para debelar.
+Ora o rapaz est&aacute; n'este caso. Ha-de querer portar-se
+bem, emendar-se, ser um homem exemplar,
+mas, se lhe apparecer um amigo que o leve a uma
+ceia e lhe mostre uma actrizita com um palmo de cara
+regular, n&atilde;o tenha voc&ecirc; m&ecirc;do que elle
+ahi
+ir&aacute; de
+vento em p&ocirc;pa pelo caminho da
+dissipa&ccedil;&atilde;o e da prodigalidade,
+e ent&atilde;o &eacute; que &eacute; dar-lhe o golpe de
+misericordia... Percebe-me agora?
+<br />
+
+<br />
+
+O Custodio, maravilhado, contemplava aquelle patife
+que tinha sobre elle a enorme vantagem de conhecer
+os <em>escaninhos da lei</em>, segundo a
+phrase pittor&ecirc;sca
+do procurador.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Voc&ecirc;&#8213;disse elle por fim, encarando sorridente
+o Belchior&#8213;&eacute; dos de estrella e b&ecirc;ta e
+p&eacute; cal&ccedil;ado!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meu amigo, um homem tem obriga&ccedil;&atilde;o de
+n&atilde;o
+ser t&ocirc;lo, de n&atilde;o andar no mundo por v&ecirc;r
+andar os
+<span class="pagenum">[55]</span>
+mais... As patifarias da vida &eacute; que p&otilde;em um homem
+fino...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Voc&ecirc; havia de me ter apparecido em Braga,
+aqui ha vinte annos antes... N&atilde;o era comsigo que o
+ladr&atilde;o do padre Anselmo mettia dente... E voc&ecirc;
+n&atilde;o
+me tinha deixado roubar!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estava bem arranjado o padreca! Que viesse
+para c&aacute;... Comigo nem elle nem o mais pintado fazia
+farinha!&#8213;blasonou basofiento o procurador.&#8213;Tenho
+dado com elles d'aqui... detr&aacute;s da orelha; mas eu
+atiro-lhes para a caveira com as baldas certas e elles
+veem buscar l&atilde; mas v&atilde;o tosquiados!
+<br />
+
+<br />
+
+O Custodio suspirou:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Aquelle ladr&atilde;o!&#8213;exclamou n'um surdo
+ranc&ocirc;r&#8213;roubou-me
+por eu o n&atilde;o conhecer a voc&ecirc;!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meu amigo, com aguas passadas n&atilde;o m&oacute;em
+moinhos... O que n&atilde;o tem remedio remediado
+est&aacute;...
+Agora vamos a v&ecirc;r mas &eacute; se se trata de arranjar
+outro...
+Disponha as coisas de modo que o casamento
+se fa&ccedil;a quanto antes, porque a fatia &eacute; boa e
+n&atilde;o se
+p&oacute;de perder...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A rapariga casa. Por bem ou por mal, que remedio
+tem ella sen&atilde;o obedecer-me e fazer o que eu
+disser!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se ella estiver deveras encarri&ccedil;ada com o tal
+franganote, ha de custar-lhe a resolv&ecirc;l-a...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por isso n&atilde;o seja a duvida... A quest&atilde;o
+&eacute; saber
+se o negocio convem...
+<br />
+
+<br />
+
+O procurador assobiou, acompanhando o assobio
+com repetidos estalos produzidos pelos dedos maioral
+e pollegar.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se convem!&#8213;disse elle&#8213;&Eacute; uma pechincha!
+&Eacute; um negocio de costa acima! Queira elle noventa
+contos pela casa, que eu pago-lhe as dividas todas e
+ainda metto para cima de cincoenta no bolso. &Eacute; um
+cas&atilde;o!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[56]</span> &#8213;Bom! pois ent&atilde;o fique descan&ccedil;ado, que a
+rapariga
+eu c&aacute; me encarrego de a domesticar...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas veja l&aacute;; voc&ecirc; n&atilde;o lhe falle no
+namoro, que
+&eacute; peor...&#8213;aconselhou o procurador.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nem palavra! Para lhe fallar n'elle, tinha de
+lhe partir os ossos... Nada! eu resolvi ir c&aacute; por outro
+caminho...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E se f&ocirc;r preciso que o rapaz appare&ccedil;a para lhe
+fazer o seu p&eacute; de alferes...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por ora n&atilde;o... Deixe estar, deixe v&ecirc;r como as
+coisas se preparam...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Arranje l&aacute;... E adeus, que devo ter l&aacute; em casa
+os constituintes &aacute; espera.
+<br />
+
+<br />
+
+Despediu-se, estendendo dois d&ecirc;dos protectores ao
+Custodio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas voc&ecirc; apparece por c&aacute;?&#8213;disse o pae de
+Beatriz, apertando e retendo na m&atilde;o os dedos do Belchior.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim, amanh&atilde;...
+<br />
+
+<br />
+
+E dirigiu-se para a porta.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olhe l&aacute;: voc&ecirc; v&aacute; dando
+esperan&ccedil;as ao rapaz, hein?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o tem duvida... Disponha voc&ecirc; a pequena.
+<br />
+
+<br />
+
+Mal que o procurador sahiu, o Custodio subiu ao
+andar superior e chamou a filha.
+<br />
+
+<br />
+
+Beatriz era uma d'estas creaturas franzinas, delicadas,
+doceis e submissas por indole e por temperamento,
+na apparencia faceis de dominar, mas que, depois
+de terem tomado uma resolu&ccedil;&atilde;o, primeiro se
+deixar&atilde;o matar do que render-se. Alta, elegante, cabellos
+e olhos castanhos, tez clara, faces rosadas, o seu
+gracioso vulto, de uma distinc&ccedil;&atilde;o rara, captivava
+pela
+belleza e impunha respeito pelo suave perfume de innocencia
+e bondade que respirava.
+<br />
+
+<br />
+
+Quando o pae a chamou, a pobre menina appareceu
+tremula, como se o cora&ccedil;&atilde;o lhe presagiasse a
+tortura
+que a esperava.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[57]</span> &#8213;Aqui estou, meu pae&#8213;disse ella.
+<br />
+
+<br />
+
+O sr. Custodio ameigou a voz, contra o seu costume,
+e, contrafazendo o semblante n'um risinho agradavel,
+chamou a filha para o pe de si, fel-a sentar ao seu
+lado, e perguntou-lhe:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o, j&aacute; pensaste no casamento em que te
+fallei,
+minha filha?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute;, meu pae... j&aacute; pensei...&#8213;tartamudeou a
+pobre pequena, commovida.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E decidiste acceitar o partido que se te offerece,
+n&atilde;o &eacute; assim?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, meu pae...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o?!&#8213;exclamou o sr. Custodio, fingindo-se
+surprehendido e mudando rapidamente d'aspecto.&#8213;E
+porque?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Porque n&atilde;o me sinto ainda com
+disposi&ccedil;&atilde;o para
+casar...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o te sentes com disposi&ccedil;&atilde;o! Essa
+&eacute; b&ocirc;a! Mas
+para casar ninguem est&aacute; &aacute; espera de
+disposi&ccedil;&atilde;o...
+Aproveita-se o noivo quando apparece, e a
+disposi&ccedil;&atilde;o
+vem depois...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu n&atilde;o poderia unir-me a um homem por quem
+o meu cora&ccedil;&atilde;o n&atilde;o sentisse a menor
+sympathia...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sympathia!&#8213;bramiu o sr. Custodio furioso,
+dando largas ao seu desespero.&#8213;Que vem a ser c&aacute;
+isso? Temos frioleiras de romance? Com as sympathias
+n&atilde;o &eacute; que os casados fazem sopa e compram os
+chap&eacute;os e os vestidos &aacute;s modistas. O noivo
+&eacute; rico? &Eacute;
+o essencial. Ora este tem uma grande fortuna, &eacute; novo,
+&eacute; uma b&ocirc;a figura, n&atilde;o &eacute;
+cego, n&atilde;o &eacute; aleijado&#8213;e ainda
+que o fosse, n&atilde;o se perdia nada&#8213;porque &eacute; que
+elle
+n&atilde;o te hade ser sympathico?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ser&aacute; para outras, mulheres, n&atilde;o para
+mim...&#8213;atreveu-se
+a dizer Beatriz.
+<br />
+
+<br />
+
+Isto foi o mesmo que fazer explodir o immenso paiol
+em que o sr. Custodio tinha accumulado toda a polvora
+<span class="pagenum">[58]</span>
+dos seus rancores de ha muitos annos contra as
+mulheres.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que pouca vergonha &eacute; essa?!&#8213;berrou elle, levantando-se
+e encarando a filha, rubro de colera&#8213;Quem
+&eacute; aqui o pae: sou eu ou &eacute; vocemec&ecirc;?
+<br />
+
+<br />
+
+A ira dementava-o a ponto de n&atilde;o o deixar reparar
+no burlesco e incongruente disparate da pergunta,
+que faria rir a pobre menina, se o horror da
+situa&ccedil;&atilde;o
+em que se encontrava n&atilde;o a tivesse afogado em pranto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meu pae! Meu pae!&#8213;bradou ella supplicante,
+caindo de joelhos com as m&atilde;os postas&#8213;pelo amor de
+Deus, perdoe-me! mas eu n&atilde;o posso... n&atilde;o posso!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deixemo-nos de comedias!&#8213;rugiu o Custodio
+n'um recrudescimento de ira&#8213;Ou casa ou metto-a nas
+irm&atilde;s da caridade!
+<br />
+
+<br />
+
+Beatriz, de joelhos, continuava a implorar:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meu pae, por alma de minha m&atilde;e lhe pe&ccedil;o
+que n&atilde;o me force a este casamento que o meu
+cora&ccedil;&atilde;o
+n&atilde;o p&oacute;de acceitar!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sua m&atilde;e! N&atilde;o me falle em quem j&aacute;
+morreu!
+Quem l&aacute; vae, l&aacute; vae, n&atilde;o &eacute;
+aqui chamado!
+<br />
+
+<br />
+
+A esta brutal e grosseira reprehens&atilde;o, Beatriz ergueu-se.
+No rosto pallido as lagrimas seccaram-se-lhe
+como por encanto, e nos olhos, fulgurantes de
+indigna&ccedil;&atilde;o,
+lia-se-lhe agora uma resolu&ccedil;&atilde;o inabalavel.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Minha m&atilde;e&#8213;disse ella em voz calma e firme&#8213;n&atilde;o
+me responderia assim, se eu, de joelhos, lhe invocasse
+a memoria de meu pae morto.
+<br />
+
+<br />
+
+Esta resposta acabou de exasperar o sr. Custodio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Cale-se!&#8213;n&atilde;o me falte ao respeito!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sabia que a lembran&ccedil;a de minha
+m&atilde;e era
+para meu pae uma offensa.
+<br />
+
+<br />
+
+Beatriz, perfilhada pelo sr. Custodio aos dois annos
+d'edade, f&ocirc;ra educada na cren&ccedil;a de que este
+homem era seu pae e ignorava por completo a historia
+do seu nascimento.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[59]</span>
+Notava que o homem a quem chamava pae a trat&aacute;ra
+sempre com grande severidade e rispidez, e lamentava-se
+intimamente de n&atilde;o achar no cora&ccedil;&atilde;o do
+auctor de seus dias a ternura e carinho a que tem
+direito uma filha obediente e submissa, como ella era.
+<br />
+
+<br />
+
+Esta severidade recrudescera, quasi degenerando
+em tyrannia, depois que a m&atilde;e se lhe finara.
+<br />
+
+<br />
+
+A pobre pequena habituara-se &aacute;quelle tratamento,
+e, crescendo na edade, sentira mudar-se-lhe o terror
+infantil n'uma repugnancia instinctiva, por&eacute;m soffredora
+e paciente, que mais e mais a afastava do pae.
+<br />
+
+<br />
+
+Evitava a sua presen&ccedil;a o mais que podia; e nos
+curtos instantes em que era obrigada a aproximar-se
+d'elle e a ouvir-lhe as reprehens&otilde;es grosseiras e injustas,
+era sempre com os olhos no ch&atilde;o que o escutava.
+<br />
+
+<br />
+
+Havia, pois, uma antipathia profunda entre estes
+dois s&ecirc;res, que o destino cruel pussera em face um do
+outro, ligados pelos la&ccedil;os de um parentesco ficticio,
+mas nem por isso menos respeitavel aos olhos do
+mundo e da propria victima.
+<br />
+
+<br />
+
+A attitude do senhor Custodio, que sempre f&ocirc;ra mau
+para com a filha, tornara-se desde este momento odiosa.
+<br />
+
+<br />
+
+Ferira a pobre crean&ccedil;a no que ella tinha de mais
+santo e mais sagrado no fundo do cora&ccedil;&atilde;o e que
+fazia
+objecto do seu culto:&#8213;o respeito pela memoria
+de sua m&atilde;e e o seu amor por Paulo.
+<br />
+
+<br />
+
+O despreso amargo com que seu pae acolhera a
+supplica que ella lhe dirigira humildemente, de joelhos,
+em nome da m&atilde;e, revoltou-a, e onde a revolta
+come&ccedil;a
+o respeito acaba.
+<br />
+
+<br />
+
+Aquella phrase altiva, serena e s&ecirc;cca com que
+respondeu ao pae, que a mandava calar, era o prenuncio
+da lucta que ia travar-se, era como que o
+grito de revolta chamando em seu auxilio todas as
+energias da sua alma de mulher para resistir &aacute; violencia
+com que queriam esmagar-lhe o cora&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[60]</span> &#8213;J&aacute; disse!&#8213;volveu o descaroado pae.&#8213;Quem
+manda aqui sou eu. Este casamento ha de fazer-se
+por vontade ou por for&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Viva n&atilde;o me levar&atilde;o &aacute;
+egreja!&#8213;respondeu
+firmemente a pequena.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Atreve-se a fallar-me assim, a faltar-me ao respeito?
+Esquece que sou seu pae?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o esque&ccedil;o. Mas lembro-me tambem de que
+n&atilde;o devo ser tratada como escrava.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem &eacute; que a quer escravisar? Chama escravisarem-n'a
+ao quererem fazer-lhe um casamento
+rico, com um rapaz de b&ocirc;a familia, educado e que
+p&oacute;de dar-lhe respeito na sociedade?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O meu cora&ccedil;&atilde;o n&atilde;o se vende a pezo de
+dinheiro,
+meu pae! Se esse homem quer comprar affectos,
+que os busque onde elles se vendem.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; muito adeantada! Quem &eacute; que lhe ensinou
+tanto?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A minha raz&atilde;o e a consciencia dos meus deveres
+de mulher digna.
+<br />
+
+<br />
+
+O senhor Custodio enviesou-lhe um olhar furibundo.
+A sua vontade seria estrangulal-a. Mas conteve-se.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso s&atilde;o frioleiras de romances!&#8213;gritou elle&#8213;. A
+menina n&atilde;o sabe o que diz. A culpa tenho-a tido eu
+em consentir que certas leituras lhe ponham a cabe&ccedil;a
+&aacute; raz&atilde;o de juros. Mas n&atilde;o tem
+duvida... Eu a
+mandarei para onde lhe ensinem os seus deveres de
+filha.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mande-me o pae para onde quizer. Obedecer-lhe-hei
+como filha que n&atilde;o necessita que lhe ensinem
+os seus deveres. Mas n&atilde;o exija que acceite por marido
+um homem que o meu cora&ccedil;&atilde;o n&atilde;o estime,
+porque
+a isso recusar-me-hei.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Veremos!
+<br />
+
+<br />
+
+O sr. Custodio sahiu bufando como um touro e foi
+direito ao escriptorio.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[61]</span> &#8213; Que tal est&aacute; a
+<em>bisca</em>?!&#8213;rosnova elle, no auge
+da furia.&#8213;Bem se v&ecirc; que n&atilde;o &eacute; minha
+filha!
+<br />
+
+<br />
+
+Passeou com as m&atilde;os ora mettidas nos bolsos, ora
+co&ccedil;ando nervoso a suissa, o que n'elle denunciava
+sempre ou uma profunda medita&ccedil;&atilde;o ou um violento
+desespero.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E ainda o Belchior a dizer-me que leve as coisas
+com prudencia!&#8213;regougou por fim.&#8213;A prudencia
+era dar-lhe com um cac&ecirc;te at&eacute; o diabo dizer
+<em>basta</em>! Amanh&atilde; estava ahi
+macia como um velludo e
+ia casar com quem eu quizesse...
+<br />
+
+<br />
+
+De repente parou como ferido por ideia subita.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E talvez... quem sabe? Esta ideia n&atilde;o &eacute;
+m&aacute;
+e p&oacute;de dar resultado... Vamos l&aacute; a experimentar
+se,
+levando as coisas por bem, conseguimos o nosso fim.
+<br />
+
+<br />
+
+Tornou a subir ao andar superior e chamou a filha.
+<br />
+
+<br />
+
+A pequena, muito pallida, veio ter com o pae e
+perguntou:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O pae deseja alguma coisa?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Desejo, minha filha. Anda c&aacute;... senta-te aqui.
+Quero que me escutes com atten&ccedil;&atilde;o e que vejas que
+n&atilde;o sou t&atilde;o mau como pare&ccedil;o...
+<br />
+
+<br />
+
+O sr. Custodio, vendo que Beatriz, sempre com os
+olhos baixos, n&atilde;o respondia, pegou-lhe na m&atilde;o e
+puxou-a
+docemente para junto de si, fazendo-a sentar ao
+seu lado, e principiou dizendo:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora anda c&aacute;, minha filha! &Eacute; preciso que saibas
+que ninguem &eacute; mais teu amigo n'este mundo do
+que teu pae... Eu estou velho... estou com os p&eacute;s
+na cova, e, com estes desgostos que me est&aacute;s dando,
+n&atilde;o posso ir muito longe.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas em que &eacute; que eu o desgostei, meu pae?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Desgostaste-me com o teu procedimento de ha
+pouco...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Perd&atilde;o! eu fui humilde e submissa, eu implorei
+<span class="pagenum">[62]</span>
+de joelhos e m&atilde;os postas que n&atilde;o me
+for&ccedil;asse ao casamento
+com um homem que o meu cora&ccedil;&atilde;o n&atilde;o
+p&oacute;de
+acceitar... &Eacute; isto desobediencia?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Filha! mas tu matas-me com essa recusa!&#8213;exclamou
+o sr. Custodio, afflicto, simulando uma enorme
+contrariedade.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mato-o porque n&atilde;o me quero casar, porque prefiro
+viver ao lado de meu pae?!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Matas-me porque o teu futuro e o meu est&aacute;
+dependente d'esse casamento, filha! Matas-me porque
+recusando a m&atilde;o d'este rapaz lavras uma senten&ccedil;a
+de morte contra mim!
+<br />
+
+<br />
+
+Beatriz empallideceu.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o o comprehendo, meu pae&#8213;balbuciou ella.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu te explico, minha filha...
+<br />
+
+<br />
+
+E aqui o sr. Custodio interrompeu-se, como para
+tomar alento, passou o len&ccedil;o pelos olhos para enxugar
+uma lagrima ausente, suspirou fundo e proseguiu:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu ha pouco fallei-te desabridamente, fui severo,
+fui rispido, fui mesmo, injusto para comtigo;
+mas tudo isto era n&atilde;o s&oacute; o resultado do muito
+amor
+que sinto por ti, porque todo o meu desejo &eacute;
+v&ecirc;r-te feliz,
+mas tambem e principalmente era motivado pelo desespero
+da minha horrorosa situa&ccedil;&atilde;o...
+<br />
+
+<br />
+
+Suspendeu-se a olhar para a filha, a v&ecirc;r o effeito
+que n'ella produziam estas palavras. A pequena permanecia
+com os olhos baixos, immovel, na attitude de
+quem escuta pacientemente uma historia que n&atilde;o lhe
+interessa.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ouves, Beatriz?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ou&ccedil;o, meu pae.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Da minha horrorosa situa&ccedil;&atilde;o!&#8213;tornou o sr.
+Custodio a dizer, com um suspiro ainda mais fundo.
+E abra&ccedil;ando-se na pequena, a solu&ccedil;ar, exclamou: &#8213;Ah! filha! filha! teu pae est&aacute; perdido! Se
+<span class="pagenum">[63]</span>
+tu o n&atilde;o salvas, ficas orph&atilde;... orph&atilde;
+e pobre, porque
+eu a esta d&ocirc;r n&atilde;o resisto!
+<br />
+
+<br />
+
+Beatriz, surprehendida, por&eacute;m de modo algum
+commovida com esta d&ocirc;r ficticia, perguntou, como se
+apenas cumprisse um dever:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas o que foi que lhe succedeu, meu pae?
+Porque &eacute; que assim se afflige?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Filha!&#8213;tornou o senhor Custodio, com a voz
+entrecortada pelos solu&ccedil;os e sem desprender dos
+bra&ccedil;os
+o corpo franzino de Beatriz&#8213;estou pobre... estou
+arruinado e s&oacute; tu me p&oacute;des salvar!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu, meu pae! O que posso eu fazer em seu
+auxilio?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tudo, minha filha! Mas deixa-me explicar-te
+primeiro... Os meus negocios teem corrido mal...
+Nos ultimos tempos tenho soffrido prejuizos importantes
+que me teem reduzido &aacute; miseria... Este procurador,
+este Belchior que aqui vem e que, coitado, &eacute; meu
+amigo...&#8213;n&atilde;o o posso negar, &eacute; meu
+amigo!...&#8213;tem-me
+valido com a sua amizade, abonando-me importantes
+quantias que me teem sido precisas para
+solv&ecirc;r compromissos creados... Mas agora nem j&aacute;
+elle tem, nem eu... Este rapaz &eacute; rico, possue uma
+importante fortuna e ama-te apaixonadamente, minha
+filha... Elle promette pagar todas as minhas dividas
+no momento em que tu consintas em ser sua esposa...
+Portanto, v&ecirc; l&aacute;: ou ficamos reduzidos &aacute;
+miseria, sem
+um bocado de p&atilde;o, e sem abrigo, porque tudo quanto
+est&aacute; n'esta casa &eacute; dos credores, ou tu acceitas
+este casamento
+e voltam para o nosso lar os dias felizes, a paz
+e a abundancia, como at&eacute; aqui.
+<br />
+
+<br />
+
+E como Beatriz permanecesse calada, com os olhos
+no ch&atilde;o, sem responder, o sr. Custodio fitou-a anciosamente
+e perguntou n'um tom supplicante:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o, Beatriz, o que dizes?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[64]</span>
+A joven guardou ainda silencio por alguns instantes
+e depois murmurou:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Digo que &eacute; uma grande desgra&ccedil;a, meu pae...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim, &eacute; uma grande desgra&ccedil;a, n&atilde;o ha
+duvida...
+Mas, gra&ccedil;as a Deus, temos o remedio para ella, se tu
+quizeres, minha filha.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Todas as desgra&ccedil;as teem remedio, meu pae, e
+esta tambem o ter&aacute;, sem nos ser preciso buscar uma
+desgra&ccedil;a ainda maior...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o te comprehendo, Beatriz!&#8213;exclamou o
+sr. Custodio&#8213;O que queres dizer?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quero dizer que se a perda de todos os seus
+haveres, meu pae, &eacute; uma grande desgra&ccedil;a, o meu
+casamento
+com esse rapaz ainda a aggravaria mais...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Porque, minha filha?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Porque eu n&atilde;o o amo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deixa-te de creancices, Beatriz! O amor
+vem com a convivencia.. Tendo tu o que necessitas
+para continuar a viver na abundancia, e tendo um
+marido que te estime e que satisfa&ccedil;a todos os teus
+desejos, ainda os mais insignificantes, ver&aacute;s que breve
+te affei&ccedil;oas a elle.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas eu n&atilde;o necessito de coisa alguma!&#8213;protestou
+vivamente Beatriz.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o necessitas! Pois estando eu pobre, arruinado...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu trabalharei e viveremos do meu trabalho&#8213;acudiu
+corajosamente a nobre menina.&#8213;Darei li&ccedil;&otilde;es
+pelos collegios e pelas casas particulares, e se n&atilde;o
+pudermos
+viver com ostenta&ccedil;&atilde;o, o que n&atilde;o
+d&aacute; a felicidade,
+viveremos remediados e livres de maiores
+priva&ccedil;&otilde;es...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tu est&aacute;s doida!&#8213;berrou o sr. Custodio, desmanchando-se
+no seu papel de carpidor de desgra&ccedil;as,
+para assumir a attitude grosseiramente petulante da
+sua indole m&aacute;, irritada pola teimosia da filha.&#8213;Bem
+<span class="pagenum">[65]</span>
+se v&ecirc; que tens instinctos baixos e que n&atilde;o te
+repugna
+fazer m&aacute; figura!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que me repugna, meu pae, &eacute; illudir e enganar
+alguem, seja por que pre&ccedil;o f&ocirc;r...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas a quem &eacute; que tu enganavas, casando com
+o Eugenio? Anda, dize l&aacute;!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Enganava principalmente esse homem, que julgaria
+encontrar em mim um affecto que eu n&atilde;o posso
+sentir por elle!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Historias! Affecto n&atilde;o &eacute; coisa que se coma!
+<br />
+
+<br />
+
+E recahindo nas lamenta&ccedil;&otilde;es primitivas:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que infeliz eu sou! Velho, com os p&eacute;s na cova,
+reduzido &aacute; ultima miseria, e n&atilde;o achar na minha
+propria
+filha amparo nem compaix&atilde;o para a minha desgra&ccedil;a!
+<br />
+
+<br />
+
+Beatriz ouvia quasi indifferente as lamurias do pae.
+<br />
+
+<br />
+
+Toda aquella d&ocirc;r, manifestada assim em
+lamenta&ccedil;&otilde;es
+t&atilde;o improprias de um homem que sempre se
+mostrara altivo, s&ecirc;cco e intractavel, afigurava-se-lhe
+ignobil. Sentia uma revolta interior, um nojo intimo
+d'aquella vilissima creatura, de quem se suppunha filha,
+e tinha como que um secreto remorso de n&atilde;o poder
+amar o auctor de seus dias.
+<br />
+
+<br />
+
+O sr. Custodio percebia esta indifferen&ccedil;a da filha,
+e emquanto se lamuriava, dizia comsigo:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Grande desavergonhada! Bem se v&ecirc; que n&atilde;o
+&eacute;s
+minha filha!
+<br />
+
+<br />
+
+Por fim, Beatriz aventurou esta pergunta:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E se esse rapaz n&atilde;o tivesse apparecido a querer
+casar comigo, o pae n&atilde;o teria outro meio de remediar
+os desastres soffridos no seu negocio?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como havia de eu remedi&aacute;l-os? O remedio era
+entregar tudo aos credores e ficarmos sem nada!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas haviamos de viver...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Viver como?&#8213;interrogou o sr. Custodio impaciente.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[66]</span> &#8213;Como vivem tantos pobres, resignados com a
+sua miseria...
+<br />
+
+<br />
+
+D'esta vez o sr. Custodio conteve-se e n&atilde;o descambou
+no repell&atilde;o habitual.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sabes l&aacute; o que dizes, filha! Os que vivem conformados
+com a sua pobresa s&atilde;o os que nunca souberam
+o que era viver melhor. Nasceram miseraveis, na
+miseria se crearam e assim vivem e morrem sem soffrimento
+nem pesar. Mas quem est&aacute; na nossa
+situa&ccedil;&atilde;o,
+filha, quem experimentou a abundancia e depois se
+v&ecirc; reduzido &aacute; penuria p&oacute;de
+l&aacute; conformar-se com isso?!
+Eu por mim, declaro, dou cabo da vida, e ha-de ficar-te
+o remorso de teres causado a morte de teu pae!
+<br />
+
+<br />
+
+Esta ultima phrase fez estremecer a pobre menina.
+Tudo quereria menos a pungir-lhe na consciencia o
+crime de haver morto seu pae. Embora n&atilde;o sentisse
+por elle os extremos de affecto que o genio irascivel,
+rispido e severo d'aquelle homem n&atilde;o soubera inspirar-lhe,
+a sua raz&atilde;o dizia-lhe que tinha deveres de
+filha a cumprir, e a esses n&atilde;o queria ella faltar.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mato-me!&#8213;continuava o sr. Custodio, abrindo
+a valvula ao desespero que lhe ia na alma&#8213;mato-me,
+porque n&atilde;o tenho animo para soffrer os horrores
+da miseria que me est&atilde;o reservados, e antes quero dar
+cabo de mim do que v&ecirc;r a minha filha exposta a todas
+as desgra&ccedil;as que a pobresa traz comsigo!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por mim, n&atilde;o se mate, meu pae! Eu tenho for&ccedil;a
+e coragem para resistir aos golpes da adversidade.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tu ter&aacute;s for&ccedil;as, minha filha, mas eu
+&eacute; que j&aacute;
+n&atilde;o as tenho! Dize-me terminantemente que n&atilde;o
+casas
+com esse rapaz, que n&atilde;o salvas teu velho pae da miseria,
+e tu ver&aacute;s o que eu fa&ccedil;o... N&atilde;o tenho
+animo para
+v&ecirc;r os credores entrar por aqui dentro e p&ocirc;rem-me
+l&aacute;
+f&oacute;ra a mim e mais a ti! N&atilde;o! quando elles
+entrarem,
+h&atilde;o-de vir j&aacute; encontrar-me cadaver!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[67]</span>
+Disse, e levantando-se como quem tinha tomado
+uma resolu&ccedil;&atilde;o inabalavel, perguntou:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que resolves, Beatriz? Nas tuas m&atilde;os est&aacute; a
+minha vida, a vida de teu pae!...
+<br />
+
+<br />
+
+A joven, assim instada, sentiu-se vacillar. Vencida
+pelo tom humilde e supplicante em que o pae se lhe
+dirigia, n&atilde;o tinha for&ccedil;as para recusar
+abertamente.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meu pae&#8213;balbuciou por fim&#8213;deixe-me ainda
+reflectir at&eacute; amanh&atilde;.
+<br />
+
+<br />
+
+O usurario percebeu que levava o inimigo de
+vencida e n&atilde;o quiz abandonar a victoria.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Amanh&atilde; ser&aacute; tarde&#8213;disse elle&#8213;A resposta
+tem de ser dada hoje ao Belchior impreterivelmente,
+sob pena de amanh&atilde; os credores entrarem por
+aqui dentro e levarem tudo. Resolve, pois. Eu n&atilde;o te
+quero for&ccedil;ar a um casamento que te repugna. Bem
+reconhe&ccedil;o mesmo que n&atilde;o tenho direito ao teu
+sacrificio,
+porque eu n&atilde;o sou d'esses paes que andam sempre
+a acarinhar as filhas, sem terem por ellas metade
+do amor que eu sinto por ti... Tenho este genio assim...
+pare&ccedil;o severo, pare&ccedil;o um homem que n&atilde;o
+sabe o que
+&eacute; amor de pae, mas o que o meu cora&ccedil;&atilde;o
+sente s&oacute; eu
+&eacute; que o sei!...
+<br />
+
+<br />
+
+Interrompeu-se para abafar os solu&ccedil;os e enxugar
+as lagrimas, que n&atilde;o chorava, ao len&ccedil;o tabaqueiro
+e
+proseguiu:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Paciencia! Tinha de ser assim... seja!
+<br />
+
+<br />
+
+E como a filha se conservasse silenciosa, pegou-lhe
+na m&atilde;o, exclamando:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Adeus, Beatriz! Despede-te do teu pae, que o
+n&atilde;o tornas a v&ecirc;r vivo!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meu pae!&#8213;disse a pobre menina com a voz
+embargada na garganta pela commo&ccedil;&atilde;o&#8213;Pelo amor
+de Deus, n&atilde;o tome qualquer resolu&ccedil;&atilde;o
+desesperada
+sem que eu falle primeiro com esse rapaz!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[68]</span> &#8213;Com quem?&#8213;interrogou o sr. Custodio, fixando
+a filha.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Com esse... sr. Eugenio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Queres fallar com elle para lhe dizeres que
+n&atilde;o? Dize-m'o antes a mim, filha!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, meu pae. Desejo fallar com elle para ouvir
+de seus labios a declara&ccedil;&atilde;o de que me quer por
+mulher.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E casar&aacute;s?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Casarei, se n&atilde;o houver outro remedio.
+<br />
+
+<br />
+
+O sr. Custodio, radiante, estreitou-a nos bra&ccedil;os
+com frenesi.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deus te aben&ccedil;&ocirc;e, minha filha! P&oacute;des
+dizer que
+salvaste teu pobre pae! Vou mandar avisar o Belchior.
+<br />
+
+<br />
+
+E, beijando a filha na testa, sahiu quasi doido de
+contentamento.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c4"></a>IV<br />
+
+<br />
+
+Dois patifes
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O procurador Belchior est&aacute; no seu escriptorio,
+sentado &aacute; carteira, conversando animadamente com
+um rapaz alto, pallido, elegantemente vestido, de maneiras
+distinctas, e bastante desenvoltas, que frequentemente
+o interrompe com uma gargalhada de
+intima satisfa&ccedil;&atilde;o. No rosto d'este rapaz, que
+poder&aacute;
+contar, quando muito, vinte e quatro ou vinte e cinco
+annos, ha os tra&ccedil;os indeleveis do bohemio que passa a
+mocidade entregue a toda a sorte de vicios e prazeres
+e para quem a vida tem apenas uma difficuldade s&eacute;ria:
+arranjar dinheiro para gastar.
+<br />
+
+<br />
+
+Os olhos pretos, vivissimos e o sorriso zombeteiro
+que lhe baila constantemente nos labios, meio disfar&ccedil;ado
+pelo bigode fino, lustroso e petulantemente encaracolado
+nas guias, d&atilde;o-lhe &aacute; physionomia uma
+express&atilde;o
+velhaca que poria de sobreaviso um observador
+experimentado, mas que ao sr. Belchior n&atilde;o
+parece inspirar a minima desconfian&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+Este rapaz &eacute; Eugenio de Mello, o pretendente &aacute;
+m&atilde;o de Beatriz.
+<br />
+
+<br />
+
+Ou&ccedil;amos a conversa travada entre os dois, a v&ecirc;r
+se por ella podemos conhecer melhor o personagem
+com quem vamos travar conhecimento.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p70">[70]</a></span> &#8213;O velhote est&aacute; enthusiasmado&#8213;diz o procurador&#8213;e
+o meu amigo apanha, al&eacute;m de uma linda mulher,
+uma b&ocirc;a maquia&#8213;uma maquia de se lhe tirar
+o chap&eacute;o!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois &eacute; o que se quer&#8213;responde o outro&#8213;o
+que se quer &eacute; <em>massa</em>.
+Quanto calcula voc&ecirc;, amigo
+Belchior, que viremos a apanhar?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Homem, j&aacute; lhe disse, ao certo n&atilde;o sei, porque
+o Custodio &eacute; manhoso... Depois que foi roubado
+por um padre, n&atilde;o descobre a sua vida a ninguem.
+Mas, pelos documentos que me teem passado pela m&atilde;o,
+aquella besta deve ter para mais de setenta contos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Menos mau!&#8213;considerou o bohemio, piscando
+o olho.&#8213;Mas isso est&aacute; ainda tudo nas unhas do velho,
+que p&oacute;de ter a m&aacute; lembran&ccedil;a de
+n&atilde;o morrer estes
+dez annnos mais chegados...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E os vinte contos que couberam &aacute; rapariga, no
+inventario por morte da m&atilde;e?&#8213;accudiu o procurador.&#8213;Esses
+&eacute; que lhe passam j&aacute; para as unhas assim
+que o casamento se fizer...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vinte contos... que diabo!&#8213;tirando-lhe as
+commiss&otilde;es, o que &eacute; que <a href="#e9">me
+fica</a>?&#8213;considerou o outro,
+encolhendo os hombros com desprezo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim, que voc&ecirc; agora tem mais!&#8213;contraveio o
+procurador sarcasticamente.&#8213;Que diabo! voc&ecirc;s s&atilde;o
+todos assim! Quanto mais teem mais querem!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o &eacute; isso, amigo Belchior. &Eacute; que eu
+penso e
+vejo as coisas como ellas s&atilde;o... Afinal de contas, este
+negocio vem a ser bom mas &eacute; para voc&ecirc;...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; bom para ambos! Ou voc&ecirc; queria que eu
+trabalhasse de gra&ccedil;a para lhe encher os bolsos de dinheiro
+e ficasse a fazer cruzes na bocca?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, n&atilde;o queria... Mas vamos a saber: a pequena
+tem vinte contos?...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para j&aacute;. Mas a bolada maior ha-de-vir por
+morte do velho.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[71]</span> &#8213;N&atilde;o esperemos por sapatos de defuncto, e
+fa&ccedil;amos
+calculos positivos. Por agora e para j&aacute;, realisado
+o casamento, podemos contar com vinte contos,
+n&atilde;o &eacute; isso?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Perfeitamente.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Voc&ecirc; quanto leva de commiss&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Trinta por cento, por sermos amigos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Obrigado!&#8213;respondeu o bohemio zombeteiramente&#8213;trinta
+por cento sobre vinte contos, s&atilde;o seis
+contos de r&eacute;is...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Muito justos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E venho eu a ficar s&oacute; com quatorze!...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E acha pouco? Para quem n&atilde;o tem presentemente
+quatorze vintens, parece-me que quatorze contos de
+m&atilde;o beijada e uma mulher b&ocirc;a, &eacute;
+dinheiro...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o ha duvida, &eacute; dinheiro... Mas tome
+voc&ecirc;
+conta da mulher, dos encargos de a sustentar, de a
+vestir, de lhe dar criadas, de a aturar e de pagar aos
+meus cr&eacute;dores antigos, tudo por quatorze contos, e
+d&ecirc;-me para mim os seis que voc&ecirc; recebe limpinhos e
+s&ecirc;ccos... Quer?
+<br />
+
+<br />
+
+O procurador fez uma car&ecirc;ta.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Voc&ecirc; est&aacute; a fazer-se de manto de
+s&ecirc;da!&#8213;disse
+elle descontente.&#8213;Se acha que &eacute; mau o partido,
+n&atilde;o o acceite, que n&atilde;o faltar&aacute; quem
+lhe pegue.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O partido n&atilde;o &eacute; mau, mas n&atilde;o
+&eacute; t&atilde;o bom como
+voc&ecirc; me quer fazer acreditar...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Com os diabos!&#8213;gritou o procurador arreliado.&#8213;E
+os setenta contos do velho n&atilde;o &eacute; nada?
+Voc&ecirc; acho
+que cuida que eu nasci hontem! Eu mettia-me l&aacute;
+n'este negocio por seis contos de r&eacute;is, se n&atilde;o
+fosse a
+certeza de vir a apanhar mais, logo que o velho
+<em>estique
+o pernil</em>? N&atilde;o que o meu tempo &eacute;
+dinheiro e eu
+n&atilde;o ando a trabalhar para o bispo!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem sei&#8213;tornou o Mello&#8213;mas eu &eacute; que tambem
+n&atilde;o estou para perder a minha liberdade e ficar
+<span class="pagenum">[72]</span>
+toda a vida com o trambolho da mulher preso &aacute; perna,
+a troco de quatorze contos que os cr&eacute;dores me
+h&atilde;o-de vir buscar, logo que saibam que tenho por onde
+pague...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas voc&ecirc; p&oacute;de arranjar uma coisa.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que &eacute;?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fa&ccedil;a uma concordata com elles antes de casar...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas eu n&atilde;o sou commerciante, n&atilde;o posso
+lan&ccedil;ar
+m&atilde;o desses meios que s&atilde;o privilegio do commercio
+honrado...&#8213;considerou epigrammaticamente o estroina.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agora n&atilde;o p&oacute;de! Cace-lhes voc&ecirc; o
+recibo em
+como est&atilde;o pagos, e veremos depois se elles lhe pedem
+alguma coisa.
+<br />
+
+<br />
+
+O Mello pareceu meditar.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Effectivamente, voc&ecirc; tem raz&atilde;o... Se
+&aacute;quelles
+a quem devo seis pagasse com dois, a coisa ainda n&atilde;o
+iria muito longe...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Menos a mim!&#8213;protestou o procurador&#8213;a
+mim &eacute; que voc&ecirc; me ha-de pagar tudo por inteiro.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso, comnosco, &eacute; outra coisa... Mas vamos a
+saber: como &eacute; que eu hei-de prop&ocirc;r esse negocio
+aos
+meus cr&eacute;dores, se n&atilde;o tenho dinheiro para
+liquidar de
+prompto antes de casar?.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o lhe d&ecirc; cuidado. Traga-me a lista dos
+cr&eacute;dores,
+que eu c&aacute; arranjarei isso da melhor maneira...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Abona voc&ecirc; o dinheiro?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Certamente. Voc&ecirc; acceita-me letras na importancia
+do que eu pagar e depois n&oacute;s c&aacute; nos entenderemos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois bem, arranje l&aacute; isso.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora agora&#8213;tornou o procurador&#8213;temos ainda
+uma quest&atilde;o a decidir...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Diga l&aacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O velho est&aacute; persuadido de que voc&ecirc; &eacute;
+um homem
+riquissimo... Metti-lhe essa
+<em>caraminhola</em> em cabe&ccedil;a,
+<span class="pagenum">[73]</span>
+porque, de outra forma, elle n&atilde;o lhe dava
+a filha...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bom! Que duvida ha? Dir-lhe-hei que sou rico...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A quest&atilde;o n&atilde;o &eacute; dizer-lh'o, a
+quest&atilde;o &eacute; provar-lh'o.
+Voc&ecirc; n&atilde;o me disse que ha um Eugenio de Mello
+no Alemtejo, possuidor de uma riqueza immensa?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Disse e ha.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bom. Pois ent&atilde;o &eacute; pedir ao escriv&atilde;o
+de fazenda
+respectivo uma certid&atilde;o das decimas e
+contribui&ccedil;&otilde;es
+pagas por esse sujeito ao estado...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para que?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para que! &Eacute; boa! Para podermos provar ao
+Custodio que voc&ecirc; &eacute; um importante proprietario do
+Alemtejo e que p&oacute;de dar-lhe a filha, porque n&atilde;o
+h&atilde;o
+de faltar-lhe porcos nem corti&ccedil;as para os netos.
+<br />
+
+<br />
+
+O bohemio soltou uma gargalhada.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Voc&ecirc; &eacute; o diabo, Belchior!&#8213;disse elle.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E se for preciso provar que voc&ecirc; tem quarenta
+ou cincoenta contos de reis representados em letras,
+tambem se arranjam com <em>acceites</em>
+valiosos e de muito
+credito...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tenho constituintes ricos que lhe acceitar&atilde;o letras
+na importancia que se quizer, acceitando-lhes
+voc&ecirc; outras de igual importancia. Comprehende?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o comprehendo muito bem...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Expliquemos: eu acceito-lhe a voc&ecirc; letras no
+valor de oitenta contos e voc&ecirc;, na mesma data, acceita-me
+letras d'igual import&acirc;ncia. Voc&ecirc; quer
+<em>provar</em>
+que possue oitenta contos e mostra essas letras acceites
+por mim... Mas ellas realmente n&atilde;o valem nada,
+porque se voc&ecirc; vier recebel-as, eu apresento os seus
+<em>acceites</em>, que voc&ecirc; tem
+igualmente de me pagar, e portanto
+estamos quites... Percebe agora?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agora, percebo!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[74]</span> &#8213;Bem. Pois este &eacute; tamb&eacute;m um expediente de que
+podemos lan&ccedil;ar m&atilde;o quando nos f&ocirc;r
+preciso. Mas obra
+mais limpa &eacute; certamente essa da confus&atilde;o dos
+nomes,
+que nos permitte fazer a prova com um documento
+official... Em que terra do Alemtejo existe esse tal
+Eugenio de Mello?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Em Borba.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; muito bem! E ent&atilde;o eu que
+conhe&ccedil;o o escriv&atilde;o
+de fazenda que l&aacute; est&aacute; agora. Vou j&aacute;
+escrever-lhe,
+e na volta do correio temos c&aacute; a certid&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olhe l&aacute;, n&atilde;o ser&aacute; conveniente eu
+amiudar as
+minhas visitas ao Custodio?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; lhe fallei n'isso a elle. Mas elle diz que por
+ora n&atilde;o... que o deixemos primeiro resolver a filha
+a acceitar o casamento, e depois fallaremos...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E essa delambidita porque &eacute; que me hade recusar
+Eu n&atilde;o valerei mais do que o franganito
+que lhe anda a arrastar a aza?&#8213;disse o bohemio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mulheres, meu amigo! As mulheres s&atilde;o caprichosas...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E escolhem sempre o peor...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; a unica probabilidade que voc&ecirc; tem a seu
+favor!&#8213;exclamou o procurador rindo&#8213;Porque peor
+do que voc&ecirc;, com franqueza, n&atilde;o
+conhe&ccedil;o!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Obrigado, amigo Belchior! Voc&ecirc; &eacute; muito modesto!
+<br />
+
+<br />
+
+Os dois patifes encararam-se e desataram a rir.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora agora&#8213;disse por fim o Mello&#8213;n&atilde;o se
+esque&ccedil;a
+de que estou a precisar de dinheiro.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute;?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pudera! Este Porto &eacute; o diabo! Com os seus
+ares pacatos de terriola de provincia, tem sorvedouros
+terriveis!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas ainda n&atilde;o ha oito dias que lhe dei duzentos
+mil reis.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E o que vem a ser isso para um homem relacionado
+<span class="pagenum">[75]</span>
+como eu? Duzentos mil r&eacute;is gastam-se n'uma
+ceia com tres amigos e outras tantas mulheres...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas voc&ecirc;, que diabo! est&aacute; hospedado no
+<em>Francfort</em>,
+um hotel de primeira, onde o tratamento &eacute; magnifico,
+n&atilde;o tem necessidade de comer f&oacute;ra...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Amigo Belchior, voc&ecirc; sabe muito bem como o
+dinheiro se arranja, mas n&atilde;o sabe como elle se gasta.
+N&atilde;o falle, portanto, d'aquillo que n&atilde;o sabe, e
+chegue-me
+c&aacute; mais duzentos mil reis, que &eacute; o essencial.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Assim, por esse andar, quando chegar o dia do
+casamento, j&aacute; os haveres da noiva est&atilde;o
+espatifados...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o diz voc&ecirc; que temos ainda a reserva dos
+setenta
+contos do velho?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim, mas isso, como voc&ecirc; considerou ha pouco,
+s&atilde;o sapatos de defuncto...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Homem, haja os sapatos, que o defuncto arranja-se
+quando nos convier...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Voc&ecirc; seria capaz d'isso?&#8213;interrogou o procurador
+com um sorriso indescriptivel de cynismo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&oacute;s somos capazes de muito mais&#8213;respondeu o
+Mello, frisando intencionalmente a palavra
+<em>n&oacute;s</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Voc&ecirc; &eacute; o diabo! Mas olhe l&aacute;,
+n&atilde;o se alargue
+muito, que eu agora estou sem dinheiro...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois sem <em>massas</em> n&atilde;o se
+faz nada! Voc&ecirc; bem
+sabe, que sendo eu um rico proprietario do Alemtejo,
+que fa&ccedil;o quinze contos de corti&ccedil;a de tres em tres
+annos,
+af&oacute;ra os porcos, n&atilde;o devo deixar de gastar em
+harmonia com os meus rendimentos. As mulheres,
+aqui no Porto, n&atilde;o s&atilde;o de grande luxo, mas comem
+como freiras e aquelle Palacio de Crystal e aquelle
+<em>Suisso</em> teem uma lista reduzida, mas
+cortante como
+uma navalha de barba! Al&eacute;m d'isso, ha sempre uns
+amigos <em>depennados</em>, que se
+<em>encostam</em> e que n&atilde;o ficam
+baratos...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mande-os trabalhar! Sucia de vadios!&#8213;aconselhou
+o Belchior, indignado.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[76]</span> &#8213;Bem digo eu! Voc&ecirc; n&atilde;o sabe o que diz! Estes
+amigos s&atilde;o os comparsas da grande comedia que eu
+preciso de representar. S&atilde;o elles os que fingem de
+<em>povo</em> e apregoam aos quatro ventos,
+pelas tubas da
+fama e das notas de cinco mil r&eacute;is que lhes empresto,
+a minha grandeza e opulencia de rico proprietario.
+Que eu lhes negue o regabofe de uma ceia e a
+<em>pastilha</em>
+que me pedem emprestada no fim, porque a carteira
+lhes esqueceu em casa, e &aacute;manh&atilde; eu serei o
+pelintra,
+o intruj&atilde;o que realmente sou, e toda a gente
+saber&aacute;, at&eacute; o Custodio, que eu n&atilde;o
+tenho nem corti&ccedil;a,
+nem porcos, nem sequer bolota para comer como elles...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Voc&ecirc; tem raz&atilde;o!&#8213;disse o procurador&#8213;Mas,
+com os diabos, gaste menos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que gaste menos! Eu tenho at&eacute; gasto mais, e
+decerto n&atilde;o chegaria o que voc&ecirc; me d&aacute;,
+se n&atilde;o
+tivesse tido umas noites de sorte &aacute; batota. Meu amigo,
+todo o negocio requer capital para poder dar lucros...
+Este negocio do casamento &eacute; bom, mas &eacute; preciso
+empatar capital... Eu sou o socio d'industria;
+voc&ecirc; &eacute; o socio capitalista: chegue-me
+c&aacute; as <em>massas</em>, porque
+eu preciso de mostrar quem sou.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deus nos livre! se mostra quem &eacute;, est&aacute; o caldo
+entornado!&#8213;clamou o procurador, levando as m&atilde;os
+&aacute; cabe&ccedil;a n'um gesto tragico.
+<br />
+
+<br />
+
+O Mello riu com vontade.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Voc&ecirc; nasceu para mim, e eu nasci para
+voc&ecirc;!&#8213;disse
+elle.&#8213;Difficilmente se encontram e se juntam
+dois como n&oacute;s. Ande, v&aacute; buscar o dinheiro.
+<br />
+
+<br />
+
+O procurador levantou-se, foi ao cofre de ferro, ao
+canto do escriptorio, contou duzentos mil r&eacute;is em notas,
+e voltou com ellas e com um livro na m&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ande! ponha aqui por sua m&atilde;o que recebeu este
+dinheiro&#8213;disse.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quanto?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[77]</span> &#8213;Eu dou-lhe duzentos mil r&eacute;is. N&atilde;o foi isso o
+que
+voc&ecirc; pediu?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas aqui no livro est&atilde;o duzentos e cincoenta!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; isso. Os cincoenta mil r&eacute;is s&atilde;o de
+juros.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ladr&atilde;o! Roubar ao inferno!&#8213;clamou o Mello
+em tom de amigavel censura.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E o risco? Voc&ecirc; n&atilde;o tem onde cahir morto. Se
+este casamento se n&atilde;o fizer, ou se a voc&ecirc; o levar
+o diabo
+d'hoje para &aacute;manh&atilde;, quem perde sou eu!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o leva, que eu sou c&aacute; preciso para animar as
+artes e as industrias!&#8213;retorquiu risonho e senhor de
+si o bohemio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que me anima &eacute; que o gado ruim n&atilde;o tem
+perigo&#8213;disse Belchior gracejando.
+<br />
+
+<br />
+
+O Mello assignou no livro a quantia indicada pelo
+procurador, metteu o dinheiro ao bolso e preparou-se
+para sahir.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Voc&ecirc; ande-me com o velho!&#8213;disse elle.&#8213;N&atilde;o
+o deixe resfolegar, e elle que obrigue a filha por geito
+ou por for&ccedil;a a casar comigo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Coitada da creatura! Ha-de ser feliz com um
+tal marido!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu lhe digo... p&oacute;de ser que me apaixone por ella...
+&Aacute;s vezes o diabo, quando lhe parece, faz das suas...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem! Voc&ecirc; apaixonar-se? Se ella fosse uma
+dama de copas... talvez!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu supponho-a uma dama d'oiros... J&aacute; v&ecirc; que
+a differen&ccedil;a do naipe n&atilde;o &eacute; tamanha
+como parece...
+<br />
+
+<br />
+
+Dizendo isto, o Mello saiu trauteando uma modinha,
+emquanto o Belchior, rindo, arrumava o livro das suas
+contas com o bohemio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isto &eacute; que &eacute; um mariola!&#8213;murmurava o
+procurador
+satisfeito.&#8213;N&atilde;o ha dinheiro que lhe chegue...
+O jogo e as mulheres levam-lhe tudo... Ha-de acabar
+mal este patife!<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c5"></a>V<br />
+
+<br />
+
+Madre Paula
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Na casa conventual das Sereias, vamos encontrar
+madre Paula, aquella espirituosa e gentil abbadessa
+que os leitores da <em>Irm&atilde;
+Doroth&ecirc;a</em> certamente n&atilde;o
+ter&atilde;o
+esquecido e com quem aquelles que porventura a
+n&atilde;o conhe&ccedil;am d'ahi, achar&atilde;o prazer em
+travar conhecimento.
+<br />
+
+<br />
+
+Formosa ainda, posto que um ou outro fio de prata
+ponha um signal de velhice nos seus lindos cabellos
+pretos, a amiga de Helena de Noronha n&atilde;o tem j&aacute;
+aquella vivacidade traquina dos tempos em que a conhecemos.
+<br />
+
+<br />
+
+A sua conversa, por&eacute;m, &eacute; ainda adoravel d'encanto
+pelas scintilla&ccedil;&otilde;es do seu espirito gracioso e
+fino, que &aacute;s
+vezes se desata em torrentes de bom humor que muito
+alegram o padre Filippe, de ha muitos annos seu unico
+e constante director espiritual.
+<br />
+
+<br />
+
+&Aacute; hora a que vamos encontr&aacute;l-a, est&aacute;
+ella sentada
+em fofa poltrona, escutando o padre Filippe, que acaba
+de chegar e que, ao que parece, traz novidades importantes
+a communicar-lhe.
+<br />
+
+<br />
+
+A conversa&ccedil;&atilde;o intima entre os dois conserva ainda
+<span class="pagenum">[79]</span>
+aquelle caracter familiarmente carinhoso de duas almas
+que se comprehendem, de dois cora&ccedil;&otilde;es que se amam
+e que se acham ligados pelos la&ccedil;os indestructiveis da
+mais solida confian&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sabes, minha querida amiga?&#8213;disse-lhe o padre
+Filippe depois de a beijar carinhosamente nas faces&#8213;tive
+hoje a visita do nosso Paulo, do filho da irm&atilde;
+Doroth&ecirc;a...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim? Esse ingrato ha muito tempo que aqui me
+n&atilde;o apparece! Senta-te e conta-me: como est&aacute;
+elle?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Physicamente, pareceu-me bom. Agora, quanto
+<em>&aacute; b&oacute;la</em>, o
+rapaz tem-n'a um pouco transtornada...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que! que dizes tu?&#8213;perguntou madre Paula
+com visivel interesse&#8213;Notaste n'elle qualquer
+altera&ccedil;&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Imagina tu, minha amiga, que me entra em
+casa com ares melodram&aacute;ticos e dispara-me esta pergunta
+com que eu n&atilde;o contava: &laquo;Diga-me, padre,
+quem &eacute; meu pae?!&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Elle fez-te essa pergunta?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E queria por for&ccedil;a que eu lhe dissesse de quem
+era filho e por que raz&atilde;o se lhe occultava o segredo do
+seu nascimento.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas isso &eacute; extraordinario! Como se atreveu
+a perguntar-te semelhante coisa?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como se atreveu! A mocidade de hoje atreve-se
+a tudo. A educa&ccedil;&atilde;o livre que lhe demos havia de
+produzir
+n'elle os naturaes resultados. N&atilde;o nos supp&otilde;e
+seus protectores, nem sequer lhe passa pela
+imagina&ccedil;&atilde;o
+que tudo quanto &eacute; o deve a n&oacute;s. Julga-nos
+intermediarios,
+apenas, entre elle e os paes, para o
+acto material de lhe entregarmos as mezadas e mais
+ou menos inquirirmos do seu aproveitamento. N'estas
+circumstancias, comprehendes que acanhamento
+algum podia ter em se me dirigir da maneira por que
+o fez.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[80]</span> &#8213;E o que lhe respondeste? Como satisfizeste &aacute;
+curiosidade d'essa crean&ccedil;a?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Comprehendes, minha amiga, que eu n&atilde;o podia
+sen&atilde;o tomar o partido de me fingir t&atilde;o ignorante
+como
+elle &aacute;cerca dos mysterios do seu nascimento; e foi
+isso o que fiz.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas que motivo o levou a querer saber quem
+s&atilde;o os paes?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Achas estranho? Tambem eu estranhei uma
+tal pergunta, e por isso n&atilde;o o quiz deixar partir sem
+indagar o que se passava de extraordinario n'aquella
+alma juvenil...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E indagaste?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Indaguei e soube.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que &eacute;, pois?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O nosso Paulo ama!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! mau prenuncio! C&ecirc;do come&ccedil;a esse pobre
+pequeno!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que queres tu, minha Paula? Hoje as crean&ccedil;as
+passam c&ecirc;do a considerar-se homens feitos, e a n&atilde;o
+guardarem para os trinta annos os prazeres do
+cora&ccedil;&atilde;o,
+que lh'os reclama aos dezoito...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso &eacute; uma doen&ccedil;a muito s&eacute;ria, a meu
+v&ecirc;r, e
+que p&oacute;de causar graves prejuizos de futuro ao nosso
+protegido...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ha doen&ccedil;as que em vez de matarem, salvam.
+Talvez esta seja uma d'ellas...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sempre optimista, sempre!&#8213;disse madre Paula
+com um sorriso de leve censura.&#8213;N&atilde;o creio que o
+nosso Paulo possa lucrar grande coisa com uma
+affei&ccedil;&atilde;o
+que certamente lhe ha-de preoccupar o espirito e
+desviar-lhe as atten&ccedil;&otilde;es do estudo para o objecto
+dos seus amores. A prova de que essa paix&atilde;o nascente,
+e de todo o ponto intempestiva, come&ccedil;a a produzir
+perniciosos effeitos, &eacute; que j&aacute; despertou n'elle o
+desejo
+de penetrar o segredo do seu nascimento...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[81]</span> &#8213;Isso tinha de succeder mais hoje ou mais amanh&atilde;&#8213;replicou
+o padre Filippe&#8213;N&atilde;o era natural que
+um espirito vivo e irrequieto como o de Paulo se conservasse
+por muito tempo indifferente ao desejo de saber
+quem s&atilde;o ou quem f&ocirc;ram seus paes...
+<br />
+
+<br />
+
+Madre Paula conservou-se silenciosa e meditativa
+por alguns instantes.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Creio que fizemos mal&#8213;disse ella&#8213;em dar a
+esse rapaz a educa&ccedil;&atilde;o livre que os modernos
+philosophos
+preconisam... Uma crean&ccedil;a entregue aos imprudentes
+impulsos do seu cora&ccedil;&atilde;o juvenil, sem uma voz
+amiga que a aconselhe, sem a presen&ccedil;a de preceptor
+austero cuja voz auctorisada lhe indique o caminho do
+dever, ha de necessariamente cahir no deploravel desvario
+de Paulo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Os homens formam-se na adversidade; o cora&ccedil;&atilde;o
+retempera-se nas amarguras para as grandes luctas da
+vida&#8213;retorquiu o padre Filippe.&#8213;A educa&ccedil;&atilde;o
+moralisadora
+de um preceptor austero corta os v&ocirc;os ao
+espirito, e perniciosamente contribue para deformar a
+indole e perverter o caracter do um adolescente. A
+violencia imposta pelos preconceitos de uma conducta
+regrada, sujeita a methodos e conven&ccedil;&otilde;es oppostas
+ao
+sentir individual, d&aacute; em resultado a
+falsifica&ccedil;&atilde;o de um
+caracter. O individuo assim creado n&atilde;o &eacute; nunca um
+producto
+apreciavel da natureza, &eacute; o producto artificial de
+uma odiosa tyrannia exercida sobre o seu espirito. N&atilde;o
+&eacute; mais um homem s&atilde;o&#8213;bom ou mau&#8213;&eacute; um
+hypocrita;
+isto &eacute;, um aleijado que se arrasta miseravelmente
+deformado pela vida f&oacute;ra, tanto mais perigoso
+aos outros homens quanto aprendeu a occultar e a disfar&ccedil;ar
+as suas inten&ccedil;&otilde;es e os seus instinctos. Deixemos
+a este rapaz ampla liberdade de manifestar a sua indole.
+Se &eacute; b&ocirc;a, avigorada pela liberdade da
+educa&ccedil;&atilde;o,
+ella bracejar&aacute; frondescente como arvore de bons fructos;
+se &eacute; m&aacute;, n&atilde;o haveria destra
+m&atilde;o de habil podador
+<span class="pagenum">[82]</span>
+capaz de extirpar a seiva ruim que a natureza
+lhe p&ocirc;z na raiz.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Elle &eacute; filho do padre Anselmo!&#8213;disse madre
+Paula&#8213;e se herdou a indole cruel, hypocrita e verdadeiramente
+sanguinaria do pae, com certeza ha de
+ser um monstro temivel, de que a sociedade ter&aacute; que
+arrecear-se.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; tambem filho da irm&atilde;
+Doroth&ecirc;a&#8213;atalhou o
+padre Filippe&#8213;e &eacute; poss&iacute;vel que haja herdado da
+m&atilde;e
+os sentimentos de singela bondade que a fizeram cahir
+nas r&ecirc;des infernaes d'esse homem extraordinario que
+nunca mais torn&aacute;mos a v&ecirc;r!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; um caso que ainda hoje n&atilde;o sei explicar, o
+desapparecimento subito d'essas tres creaturas!&#8213;exclamou
+madre Paula.&#8213;Parece incrivel que at&eacute; hoje
+n&atilde;o tenhamos tido mais noticias do padre Anselmo
+nem da irm&atilde; Doroth&ecirc;a, nem ainda do padre Hilario!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como sabes, minha amiga&#8213;ponderou o padre
+Filippe&#8213;nas congrega&ccedil;&otilde;es jesuiticas, muda-se
+frequentamente
+de nome, e &eacute; esse at&eacute; o processo adoptado
+por muitos dos nossos irm&atilde;os e irm&atilde;s, para apagar
+os
+rastos compremettedores da sua passagem por este ou
+por aquelle ponto. &Eacute;, pois, de presumir que o padre
+Anselmo, ascendendo aos logares superiores da Companhia,
+julgasse conveniente adoptar outro nome, e,
+levando comsigo a irm&atilde; Doroth&ecirc;a e o padre Hilario,
+lhes impuzesse a mesma mudan&ccedil;a, afim de que ninguem
+mais pudesse seguir-lhes o rasto no amplo caminho
+das suas grandezas...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Assim ser&aacute;. No emtanto, Helena &eacute; ingrata!
+Sabendo
+quanto eu a estimava, sabendo que lhe salvei a
+vida e lhe dediquei sempre uma amizade sincera de
+irm&atilde;, &eacute; imperdoavel o esquecimento a que me
+votou!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Minha querida amiga, a distancia enfraquece
+os affectos. N&atilde;o ha peor inigma da
+amizade do que &eacute;
+a ausencia. Depois, quem sabe? Talvez que o padre
+<span class="pagenum">[83]</span>
+Anselmo, hoje Provincial ou Assistente com outro nome,
+lhe impozesse silencio como condi&ccedil;&atilde;o
+indispensavel
+de seus beneficios...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! n&atilde;o! Custa-me a cr&ecirc;r que a irm&atilde;
+Doroth&ecirc;a
+tranzigisse com esse homem, que t&atilde;o profundamente
+detestava agora!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas n&atilde;o dizes tu, minha querida, que ella
+amava o padre Hilario, o joven filho do padre Anselmo,
+que desempenhava o cargo de capell&atilde;o no convento
+da Covilh&atilde;, de que ella era abbadessa?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ella propria m'o confessou.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nesse caso, o amor pelo filho venceu a natural
+repugnancia pelo pae, e a esta hora temol-os juntos,
+n'algum convento do estrangeiro, felizes e resignados
+como n&oacute;s o estamos, cavando com verdadeiro enthusiasmo
+na santa vinha do Senhor.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se tudo se passou como supp&otilde;es&#8213;ponderou madre
+Paula&#8213;se realmente o padre Anselmo ascendeu
+aos mais altos cargos da Companhia e levou comsigo
+o filho e a amante d'elle e do filho, &eacute; impossivel que
+a estas horas Helena ignore quanto temos feito por
+esta crean&ccedil;a que ella cruelmente engeitou...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Decerto. Ella p&oacute;de ter noticias nossas. N&oacute;s
+&eacute;
+que n&atilde;o as temos nem podemos obtel-as d'ella...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas &eacute; ingrata!&#8213;repetiu ainda madre Paula.&#8213;Por
+quanto procederia eu de igual modo para com
+ella, eu que tu accusavas de leviana, superficial e inconstante
+nos meus affectos?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Minha querida amiga&#8213;volveu risonho o padre
+Filippe&#8213;eu sempre fiz justi&ccedil;a ao teu
+cora&ccedil;&atilde;o; e se
+me queixava da tua cabe&ccedil;a, &eacute; porque era ella a
+que
+vinha receber-me na ante-camara dos affectos sem me
+deixar penetrar no sanctuario intimo do teu peito. E,
+para cumulo de desgra&ccedil;a, succedia que eu nunca me
+encontrava alli sosinho; havia sempre na sala commum
+das affei&ccedil;&otilde;es triviaes dois ou tres
+frequentadores impertinentes
+<span class="pagenum">[84]</span>
+com quem me acotovelava e cuja presen&ccedil;a
+me indispunha e fazia soffrer...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sabes que foste sempre o preferido do meu
+cora&ccedil;&atilde;o!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Suspeitava-o. N&atilde;o tinha, por&eacute;m, a certeza. E
+essa duvida torturava-me.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E agora?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agora, minha b&ocirc;a e querida Paula, tambem
+eu me n&atilde;o queixo. Devo-te os mais bellos momentos
+de toda a minha vida; devo-te os mais ardentes prazeres
+da minha mocidade e as mais suaves consola&ccedil;&otilde;es
+da minha velhice. Bemdita sejas!
+<br />
+
+<br />
+
+E enla&ccedil;ou-a nos bra&ccedil;os, beijando-a com um ardor
+ainda n&atilde;o de todo extincto n'aqueile organismo gasto
+pela edade.
+<br />
+
+<br />
+
+Madre Paula deixou-se enla&ccedil;ar n'um suave e doce
+abandono, murmurando com os olhos brilhantes e as
+faces purpureadas de prazer:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agora, e de ha muito tempo, &eacute;s tu o unico senhor
+absoluto de todo o meu ser. Reinas e governas
+nos meus sentidos como no meu cora&ccedil;&atilde;o. Se me
+faltasses,
+morria!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se o am&ocirc;r &eacute; a vida&#8213;tornou-lhe o padre
+Filippe&#8213;se
+&eacute; a grande lei universal que rege todos os s&ecirc;res;
+se o am&ocirc;r &eacute; a suprema
+aspira&ccedil;&atilde;o dos novos, e
+ainda a unica for&ccedil;a que ampara os velhos, como poderemos
+n&oacute;s, minha querida, impedir ou sequer estranhar
+que Paulo ame com todo o f&ocirc;go do seu juvenil
+cora&ccedil;&atilde;o a mulher que o destino p&ocirc;z no
+seu caminho?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o &eacute; precisamente esse o meu desejo, mas
+t&atilde;o
+s&oacute;mente guiar e dirigir esse pobre rapaz para que o
+desvairamento da paix&atilde;o o n&atilde;o precipite nos
+abysmos
+da desgra&ccedil;a irremediavel.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O cora&ccedil;&atilde;o apaixonado raro escuta os dictames da
+prudencia. Todavia, talvez tu possas, minha amiga,
+com essa tua d&ocirc;ce voz persuasiva, influir no espirito
+<span class="pagenum">[85]</span>
+d'esse rapaz a deixar-se guiar pelos conselhos da experiencia.
+Prometteu-me que viria procurar-te, e creio
+bem que vir&aacute;. A ti incumbe, pois, a difficil
+miss&atilde;o de
+dirigir os seus passos e vigiar pelo seu futuro. Elle
+ama-te como filho e se n&atilde;o escutar a tua voz, ninguem
+n'este mundo poder&aacute; fazer-se obedecer por elle.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois bem; se at&eacute; amanh&atilde; aqui n&atilde;o
+apparecer,
+mandal-o-hei chamar e ouvirei o que me diz. No emtanto,
+conv&eacute;m saber quem &eacute; a mulher que elle ama,
+a que familia pertence, e no caso que a uni&atilde;o dos
+dois n&atilde;o seja uma d'estas inconsequencias absurdas
+que a raz&atilde;o repelle e as conveniencias sociaes condemnam,
+espero que n&atilde;o duvidar&aacute;s unir os teus
+esfor&ccedil;os
+aos meus para aplanarmos o caminho da felicidade a
+esse pobre rapaz.
+<br />
+
+<br />
+
+O padre Filippe sorriu.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Queres arvorar-me em casamenteiro &aacute; ultima
+hora!&#8213;acquiesceu elle&#8213;Seja! Interroga-me esse rapaz,
+inquire e desvenda todos os segredos da sua alma; e
+se te convenceres de que se trata de uma paix&atilde;o
+s&eacute;ria
+e n&atilde;o d'uma d'essas velleidades t&atilde;o frequentes e
+t&atilde;o perigosas na adolescencia, faremos todo o possivel
+por lhe aplanar as difficuldades e conduzil-o triumphante
+&aacute; realisa&ccedil;&atilde;o dos seus desejos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu devo-lhe protec&ccedil;&atilde;o e carinhos de
+m&atilde;e&#8213;disse
+ainda madre Paula&#8213;N&atilde;o posso esquecer-me de
+que fui cumplice, embora for&ccedil;ada, na grande
+desgra&ccedil;a
+do seu nascimento. Essa crean&ccedil;a &eacute; o fructo das
+milagrosas appari&ccedil;&otilde;es do Christo &aacute;
+desvairada Helena
+de Noronha. Se n&atilde;o fosse eu, talvez que o padre Anselmo
+n&atilde;o realisasse a infame burla por esse processo
+t&atilde;o suave... A minha consciencia accusa-me, se bem
+que a inten&ccedil;&atilde;o com que procedi fosse mais
+humanitaria
+que criminosa. Eu quiz poupar a essa desgra&ccedil;ada
+os horrores de uma desillus&atilde;o brutal, de uma violencia
+monstruosa como aquella de que foi victima a pequena
+<span class="pagenum">[86]</span>
+Candida, immolada no Sard&atilde;o aos instinctos
+bestiaes do padre Anselmo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o recordemos, minha querida, esses horrores
+que a miseria da nossa situa&ccedil;&atilde;o subalterna nos
+tem
+obrigado a presenciar e at&eacute; a proteger com o
+cora&ccedil;&atilde;o
+confrangido de d&ocirc;r, com a alma revoltada de nojo.
+Vinguemo-nos da crueldade da sorte praticando o bem
+espontaneamente, em desconto dos males que temos
+sido for&ccedil;ados a fazer. Paulo &eacute; para todos os
+effeitos
+nosso filho. Fa&ccedil;amos por elle todos os sacrificios
+compativeis
+com a nossa consciencia e com a nossa posi&ccedil;&atilde;o,
+e que Deus nos leve em conta o bom desejo que
+temos de proceder sempre bem e de harmonia com os
+dictames do nosso cora&ccedil;&atilde;o, que n&atilde;o
+&eacute; mau, mas que a
+fatalidade acorrentou a uma vida de torpezas e de
+immoralidades.
+<br />
+
+<br />
+
+Despediu-se de madre Paula promettendo voltar
+no dia seguinte.
+<br />
+
+<br />
+
+A abbadessa, ao v&ecirc;l-o partir, ficou immersa n'uma
+profunda tristeza.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; o unico que a alma negra da seita
+n&atilde;o perverteu
+de todo!&#8213;murmurou ella.&#8213;Que adoravel
+esposo e que exemplar cidad&atilde;o se n&atilde;o perdeu
+n'este
+homem, que assim vae atravessando a vida amortalhado
+na sotaina da hypocrisia que elle proprio odeia!
+Pobre amigo! morrer&aacute;s como eu na d&ocirc;r e na saudade
+cruciante da liberdade que te roubaram!<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[87]</span>
+<h3><a name="c6"></a>VI<br />
+
+<br />
+
+&Aacute; hora da morte
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Tres dias depois d'esta visita do padre Filippe a
+madre Paula, bateram violentamente &aacute; porta do sacerdote,
+era uma hora da noite.
+<br />
+
+<br />
+
+O padre Filippe n&atilde;o se tinha ainda deitado.
+<br />
+
+<br />
+
+Muito dado &aacute; leitura de velhos classicos, o amante
+de madre Paula passava grande parte da noute a
+folhear poeirentas chronicas e a fazer annota&ccedil;&otilde;es
+curiosas,
+no intuito de esclarecer varios pontos obscuros
+da nossa historia que, como se sabe, ainda hoje offerecem
+duvidas aos mais persistentes e lucidos investigadores.
+Ouvindo bater &aacute; porta com a violencia propria
+de quem deseja ser ouvido o mais rapidamente
+possivel, o padre Filippe levantou-se, marcou com um
+papel em branco a pagina em que interrompia a leitura
+e veio &aacute; janella indagar quem batia. &Aacute; porta
+estava uma mulher do povo, com um chaile pela cabe&ccedil;a
+para se resguardar do frio cortante da noite.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; aqui que m&oacute;ra um senhor que &eacute;
+padre e que
+vae dizer todos os dias missa aos Grillos?&#8213;perguntou
+ella.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; aqui. O que deseja?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; que est&aacute; alli uma velhinha, que &eacute;
+minha
+visinha, a morrer, e a pobre de Christo n&atilde;o faz
+sen&atilde;o
+<span class="pagenum">[88]</span>
+pedir que lhe chamem um padre, porque se quer confessar;
+e eu venho c&aacute; v&ecirc;r se v. s.<sup>a</sup>
+faz a esmola de a
+ouvir de confiss&atilde;o...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Onde m&oacute;ra essa mulher?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Na rua da Senhora d'Agosto, meu senhor! &Eacute;
+pertinho... &eacute; d'aqui a dois passos, e se v. s.<sup>a</sup>
+fizesse
+a esmola de vir comigo, chegava l&aacute; n'um instante!...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Espere ahi, que eu des&ccedil;o j&aacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+Embrulhou-se n'um capote &aacute; hespanhola, p&ocirc;z na
+cabe&ccedil;a o seu chap&eacute;o alto, pegou da bengala, e
+pouco
+depois estava na rua.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vamos l&aacute;!&#8213;disse elle.
+<br />
+
+<br />
+
+Encaminharam-se para a rua da Senhora d'Agosto,
+que fica a curta distancia, nas proximidades do pa&ccedil;o
+episcopal. A mulher que viera chamar o padre Filippe
+caminhava apressada adiante d'elle, na ancia de chegar
+a tempo com o soccorro espiritual que a moribunda
+reclamava.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Seja pelas almas!&#8213;lamuriava ella.&#8213;Est&aacute; a
+pobresinha a appellidar por um confessor desde o
+resto da tarde, que parece que nem p&oacute;de morrer sem
+se confessar, e n&atilde;o havia uma alma de Christo que
+se <em>arresolvesse</em> a vir chamar v. s.<sup>a</sup>
+ou oitro qualquer
+que lhe deitasse a
+<em>assolvi&ccedil;&atilde;o</em>!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o tem familia essa mulhersinha?&#8213;inquiriu
+o sacerdote.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ella n&atilde;o tem ninguem, meu senhor! &Eacute; velhinha
+como as serpes, e n&atilde;o tem filhos nem parentes. Vive
+l&aacute; n'um quartinho, que uma visinha lhe alugou por
+cinco tost&otilde;es por mez, e d&ecirc;s que caiu
+empr&eacute;gadinha,
+o que vale &eacute; a gente ir olhando por ella, por caridade,
+sen&atilde;o morria p'r&aacute; alli, sem ter quem lhe chegasse
+uma
+s&ecirc;de <em>d'auga</em>!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Coitada!&#8213;lamentou o padre Filippe.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas que!&#8213;tornou a mulher&#8213;a gente <em>t&aacute;mem
+s&ecirc;mos probes</em>...
+<em>t&aacute;mem</em> temos de olhar pela
+nossa vida,
+<span class="pagenum">[89]</span>
+que, se a gente o n&atilde;o ganhar, ninguem nol-o vem trazer...
+De sorte que a <em>probesinha</em> tem
+passado muita
+necessidade...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Logo que ella assim adoeceu, porque a n&atilde;o mandaram
+para o hospital?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;No <em>isprital</em>, meu senhor,
+n&atilde;o na acceitaram,
+porque l&aacute; diz que n&atilde;o curam a velhice... Nem ella
+queria... Eu &aacute;s vezes inda lhe
+<em>dezia</em>: &laquo;&Oacute; sr.<sup>a</sup>
+Maria
+do Carmo, e se vocemec&ecirc; pedisse a alguem p'ra v&ecirc;r
+se a <em>arrecolhiam</em> no
+<em>Azylio</em> das velhas?&raquo; Mas
+ella:
+&laquo;que n&atilde;o, e que n&atilde;o&raquo;, nem
+queria que lhe fallassem
+n'isso!
+<br />
+
+<br />
+
+Chegaram a um predio velho e sujo, de miseravel
+aspecto, com a porta da rua escancarada.
+<br />
+
+<br />
+
+A mulher guiou o padre pelas profundezas escuras
+do portal, e chegando ao fundo de uma estreita e perigosa
+escada, que dava accesso aos andares superiores,
+gritou:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; sr.<sup>a</sup> Izabelinha,
+<em>alumeie</em>, que vae aqui o sr.
+padre!
+<br />
+
+<br />
+
+No alto do terceiro andar, rangeu uma porta, sentiram-se
+uns chinellos a arrastar, e na balaustrada do
+corrim&atilde;o luziu a morti&ccedil;a e fumarenta luz d'uma
+candeia
+de petroleo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; vocemec&ecirc;, sr.<sup>a</sup>
+<em>Barbora</em>?&#8213;perguntou uma
+voz l&aacute; do alto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sou eu, sou, alminha do Senhor!
+<em>Alumeie</em>, que
+n&atilde;o v&aacute; este senhor cahir...
+<br />
+
+<br />
+
+A sr.<sup>a</sup> Barbara investiu com a escada como quem
+de ha muito estava familiarisada com os perigos
+d'aquelles desconjuntados degraus.
+<br />
+
+<br />
+
+E voltando-se para o padre Filippe:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; melhor v. s.<sup>a</sup> agarrar-se ao
+corrim&atilde;o, que
+n&atilde;o v&aacute; por ahi cahir e partir alguma perna...
+Isto,
+quem n&atilde;o est&aacute; costumado, nada mais
+<em>facel</em> do que
+aleijar-se...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[90]</span>
+O padre Filippe j&aacute; havia, por instincto, adoptado o
+expediente que a sua cuidadosa guia lhe aconselhava.
+<br />
+
+<br />
+
+Segurando-se com a m&atilde;o esquerda ao sujo e gordurento
+corrim&atilde;o da escada, e tacteando os degraus
+com os p&eacute;s e com a bengala, revestira-se de coragem
+e paciencia evangelica para realisar a difficil e arriscadissima
+ascen&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Quando chegou ao alto do terceiro andar, onde
+uma velha esguedelhada, de cabe&ccedil;a estopenta e candeia
+na m&atilde;o o aguardava, o amante de madre Paula
+parou offegante e can&ccedil;ado.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; c&aacute; muito em cima!&#8213;disse elle.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E as escadas s&atilde;o ruins
+<em>d'assobir</em>, meu senhor!&#8213;accrescentou
+a velha.&#8213;Eu <em>t&aacute;mem</em>,
+quando venho
+de l&aacute; de baixo e chego c&aacute; arriba, fico que, se me
+puzessem
+uma m&atilde;o na bocca, arrebentava!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Onde est&aacute; a doente?&#8213;interrogou por fim o padre
+Filippe.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; aqui dentro, meu senhor... Ella est&aacute; mesmo
+a <em>espedir</em>, coitadinha! J&aacute;
+desde <em>honte</em> que n&atilde;o lhe
+foi nada &aacute; bocca, e n&atilde;o faz sen&atilde;o
+pedir <em>auga</em>... Parece
+que est&aacute; mesmo abrasadinha l&aacute; por dentro! O
+que aquella creatura me tem consummido p'ra lhe eu
+mandar chamar o confessor!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E vocemec&ecirc; porque n&atilde;o lhe satisfez a vontade?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu j&aacute; mandei recado ao sr. padre Luiz, que v.
+s.<sup>a</sup> ha de conhecer, mas como a gente <em>semos
+probes</em>,
+fez &aacute; de conta que n&atilde;o era pressa e inda
+<em>int&eacute;</em> agora
+c&aacute; n&atilde;o appareceu...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; que vocemec&ecirc;s n&atilde;o lhe mandaram
+talvez dizer
+que se tratava de uma pessoa em artigos de morte...&#8213;desculpou
+o padre Filippe.&#8213;Ora vamos l&aacute;...
+vamos l&aacute; ouvir essa creatura de Deus...
+<br />
+
+<br />
+
+A velha, com a candeia lan&ccedil;ando de si um enorme
+pennacho de fumo negro e suffocante, allumiou o padre
+Filippe at&eacute; ao escuro e f&eacute;tido cubiculo encravado
+no
+<span class="pagenum">[91]</span>
+interior do misero pardieiro, que era um genuino representante
+da miseria suja do Porto, a mais repellente
+e odiosa de todas as miserias.<br />
+
+<br />
+
+Ha n'esta bella cidade trabalhadora virtudes excepcionaes
+de honestidade, de honra, de civismo e de
+lab&ocirc;r persistente, que fariam o orgulho de todos os
+povos do mundo. Os seus habitantes s&atilde;o generosos,
+hospitaleiros, leaes, podendo servir de li&ccedil;&atilde;o e
+exemplo
+a quantos se presam de possuir em elevado grau
+estas raras e nobilissimas qualidades. Mas a par d'isto,
+quantos defeitos de educa&ccedil;&atilde;o, deprimentes da
+dignidade
+de um povo que podia e devia ser o primeiro a
+marchar na vanguarda da civilisa&ccedil;&atilde;o do seu paiz!
+<br />
+
+<br />
+
+Nas ruas, as classes trabalhadoras apresentam-se,
+na sua grande maioria, sujas, andrajosas, repellentes
+de immundicie, m&atilde;os e cara accusando uma ignorancia
+absoluta do uso da agua, como se o trabalho persistente
+e honesto precisasse d'estes ascorosos attestados
+da porcaria para se fazer respeitar!
+<br />
+
+<br />
+
+Mulheres novas, bonitas como em nenhuma outra
+terra de Portugal, percorrem as ruas, descal&ccedil;as,
+esmadrigadas,
+as repas soltas, estrelladas de lendeas, e os
+p&eacute;s e pernas nuas, batidas dos trapos sujos das fraldas,
+escodeadas de lama! Uma miseria! Um horror!
+<br />
+
+<br />
+
+E todavia era t&atilde;o facil mudar os gordurosos e sujos
+andrajos nas limpas e asseiadas vestes da gente
+pobre que se lava! Uma pouca d'agua&#8213;e o rio Souza,
+e os po&ccedil;os dos quintaes e os ribeiros dos arrabaldes
+offerecem tanta!&#8213;e dez reis de sab&atilde;o bastavam!
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; talvez esta, a diffus&atilde;o das ideias de limpeza
+nas classes proletarias, uma das mais sympathicas e
+civilisadoras miss&otilde;es que est&atilde;o reservadas
+&aacute; imprensa
+periodica dos nossos dias.
+<br />
+
+<br />
+
+Os jornaes populares, os jornaes baratos, que levam
+tantas doutrinas salutares e tantas noticias perniciosas
+&aacute;s classes humildes, que por elles se guiam
+<span class="pagenum">[92]</span>
+e norteiam,&#8213;quando se n&atilde;o desnorteiam&#8213;n&atilde;o
+poderiam,
+com um bocadinho de boa vontade e persistencia,
+encetar efficazmente a propaganda da limpeza publica
+e particular dos cidad&atilde;os como base primaria de
+toda a hygiene social e moral?
+<br />
+
+<br />
+
+Valha-me Deus! Pois n&atilde;o ia eu agora descambando
+da facil e comesinha ac&ccedil;&atilde;o do romance para as
+considera&ccedil;&otilde;es
+sabias e profundas de um sabio e profundo
+auctor de originaes opusculos?
+<br />
+
+<br />
+
+Desculpe-me o leitor a divaga&ccedil;&atilde;o e acompanhemos,
+visto que n&atilde;o ha outro remedio, o padre Filippe
+atrav&eacute;s
+dos corredores defumados e mal cheirosos, resumando
+das paredes e do soalho podrid&atilde;o e esterco, at&eacute;
+ao
+humilde grabato em que arqueja agonisante uma octogenaria,
+quasi uma mumia, enterrada sob um mont&atilde;o
+de farrapos.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; a sr.<sup>a</sup> Maria do Carmo.
+<br />
+
+<br />
+
+Ao v&ecirc;r entrar o padre Filippe, a moribunda voltou
+para elle os olhos, em que perpassou um lampejo
+de alegria, e disse com voz debil e quasi extincta:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Gra&ccedil;as a Deus! N&atilde;o morrerei sem que v. s.<sup>a</sup>
+me ou&ccedil;a de confiss&atilde;o!
+<br />
+
+<br />
+
+O padre Filippe aproximou-se do leito e contemplou,
+&aacute; luz de uma candeia de azeite, espetada na parede, do
+lado da cabeceira, o rosto enrugado e magro da pobre
+creatura.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o deseja reconciliar-se com Deus, n&atilde;o
+&eacute;
+verdade, minha irm&atilde;?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim... sim, meu padre!.. Quero confessar-me...
+A morte avisinha-se e eu quero... preciso de
+alliviar a minha consciencia do peso de... peccados
+que n&atilde;o sei se Deus m'os perdor&aacute;!&#8213;balbuciou a
+enferma,
+com voz entrecortada e de cada vez mais debil.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deus &eacute; infinitamente bom, infinitamente
+misericordioso&#8213;aquietou
+o padre Filippe&#8213;e est&aacute; sempre
+prompto a perdoar &aacute; creatura que, humilde e contrita,
+<span class="pagenum">[93]</span>
+sente na alma o arrependimento da culpa e para
+ella implora o divino perd&atilde;o!
+<br />
+
+<br />
+
+Puxou uma cadeira de pau de pinho, sentou-se &aacute;
+cabeceira do leito e, fazendo signal &aacute;s duas mulheres
+que o conduziram para que o deixassem a s&oacute;s com a
+enferma, continuou:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Aqui estou, pois, minha irm&atilde;, para ouvir em
+nome de Deus, cujo humilde ministro sou, as vozes
+do seu arrependimento e absolvel-a... De que se accusa?
+<br />
+
+<br />
+
+A velha relanceou para elle os olhos afflictos, em
+que se lia o pavor do inferno, e principiou com voz
+lenta e abafada a seguinte narrativa:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu sempre fui muito religiosa e devota... Ia
+todos os dias ouvir missa e confessar-me, e Deus ajudava-me
+sempre com a sua divina gra&ccedil;a, porque desde
+que comecei a andar pelas casas do Senhor, nunca
+me faltou nada, e havia muitas almas b&ocirc;as que me
+soccorriam, compadecidas da minha pobreza...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ahi tem, pois, uma prova de que Deus n&atilde;o recusa
+nunca o seu divino amparo &aacute;quelles que na sua
+infinita misericordia depositam inteira f&eacute; e
+confian&ccedil;a...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Os srs. padres dos Grillos e os srs. padres de
+S. Bento da Victoria conheciam-me todos... e faziam
+o favor e esmola... de serem muito meus amigos...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; porque reconheciam em vocemec&ecirc; verdadeira
+devo&ccedil;&atilde;o e temor de Deus...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;L&aacute; isso... eu na egreja... portei-me sempre
+com muito respeito... E at&eacute; quando via certas beatas
+fingidas&#8213;Deus me perd&ocirc;e!&#8213;a fazerem da casa do
+Senhor logar de recreio e de pouca vergonha... sentia
+um peso na consciencia e ia-me logo confessar d'isso,
+como se fosse eu que tivesse commettido o peccado...
+<span class="pagenum">[94]</span>
+E aonde n&atilde;o chegava mandava... que era
+para ellas terem vergonha!
+<br />
+
+<br />
+
+O padre Filippe sorriu indulgente:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E &eacute; talvez d'esse excesso de zelo, em verdade
+pouco edificante aos olhos do Altissimo, que se arrepende
+agora e quer pedir perd&atilde;o a Deus? Tem raz&atilde;o,
+minha irm&atilde;! A moral do evangelho, a religi&atilde;o
+santa
+do Crucificado manda que perdoemos as faltas e fraquezas
+do proximo e n&atilde;o fa&ccedil;amos d'ellas objecto de
+escandalo e de aggravo, com perda e offensa da
+reputa&ccedil;&atilde;o
+d'aquelles que peccaram...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o &eacute; d'isso que eu me accuso, meu
+padre!&#8213;accudiu
+a velha reanimada um pouco pelo prazer da
+confiss&atilde;o&#8213;Isso at&eacute; os meus santos padres
+confessores
+me diziam que fazia muito bem... e pediam-me que
+os avisasse de tudo o que visse e ouvisse, que era
+para elles n&atilde;o andarem a ser enganados... e saberem
+quem tinha religi&atilde;o e quem n&atilde;o tinha...<br />
+
+<br />
+
+O padre Filippe dissimulou um gesto de repuls&atilde;o
+e de enfado, e perguntou:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;De que &eacute; ent&atilde;o que se accusa, minha
+irm&atilde;?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu... de mim... n&atilde;o me accuso de nada, meu
+santo padre! Eu... o que fiz... foi sempre com os
+olhos em Deus... e tudo para bem da santa religi&atilde;o...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois se n&atilde;o tem de se accusar de faltas proprias,
+as dos seus semelhantes tambem n&atilde;o s&atilde;o as que
+h&atilde;o-de
+fazer-lhe carga aos olhos do Altissimo, se para
+ellas n&atilde;o concorreu nem estava na sua m&atilde;o
+impedil-as...
+Portanto, como onde n&atilde;o ha culpa n&atilde;o ha
+perd&atilde;o, eu
+nada tenho de que absolv&ecirc;l-a... Feliz de quem
+p&oacute;de
+como vocemec&ecirc; apparecer no tribunal divino com a
+alma limpa de macula.
+<br />
+
+<br />
+
+Dizendo isto, o padre Filippe, entediado, ia a levantar-se
+para sahir, quando a velha, estendendo para
+<span class="pagenum">[95]</span>
+elle as m&atilde;os convulsas, bradou com indizivel accento
+de pav&ocirc;r:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pelo amor de Deus! Pelas cinco chagas de Christo,
+meu padre, ou&ccedil;a-me! Ou&ccedil;a-me que eu quero...
+confessar-me!...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois o que tem vocemec&ecirc; estado a fazer, sen&atilde;o
+a confessar-se, creatura de Deus?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como v. s.<sup>a</sup> ainda me n&atilde;o perguntou
+nada...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nada tenho que perguntar-lhe, minha irm&atilde;...
+Vocemec&ecirc; consulta a sua consciencia, e se n'ella encontra
+escrupulo ou duvida de falta commettida, confessa-a
+sinceramente e d'ella pede perd&atilde;o a Deus, em
+nome de quem eu a estou escutando...
+<br />
+
+<br />
+
+A velha revolveu-se arquejante nos trapos e disse
+em voz sumida:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; que eu... criei como se fosse meu filho uma
+crean&ccedil;a... que era filha... de um padre e d'uma
+mulher casada...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E vocemec&ecirc; concorreu d'algum modo para que
+esse padre e essa mulher casada incorressem na falta
+que originou o nascimento d'essa crean&ccedil;a?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, meu senhor! Eu conhecia o sr. padre Anselmo
+de me confessar a elle, na egreja de S. Bento,
+no tempo do sr. padre Couto, que era um santo...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;S&oacute; Deus sabe quem &eacute; santo!&#8213;murmurou o padre
+Filippe, surprehendido ao ouvir fallar no padre
+Anselmo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E vae depois, um dia, o sr. padre Anselmo chamou-me
+a Braga para eu tomar conta d'aquella crean&ccedil;a
+debaixo de todo o segredo... Eu, como lhe devia
+muitas obriga&ccedil;&otilde;es, trouxe-a e tratei a
+crean&ccedil;a como
+minha... E o sr. padre Anselmo &eacute; que pagava as
+despezas...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que nome tinha essa crean&ccedil;a?&#8213;perguntou o
+padre Filippe, agora interessado na estranha narrativ &#8213;Que nome tinha essa crean&ccedil;a?&#8213;perguntou o
+padre Filippe, agora interessado na estranha narrativa
+da velha.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[96]</span> &#8213;Chamava-se Hilario, meu senhor...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esse rapaz ordenou-se e &eacute; ecclesiastico&#8213;disse
+o padre Filippe.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;V. s.<sup>a</sup> conhece-o? Sabe d'elle? Onde
+est&aacute;?&#8213;perguntou
+a velha.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Conheci-o, em tempo, capell&atilde;o da casa conventual
+das irm&atilde;s Doroth&ecirc;as, na Covilh&atilde;...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; esse mesmo! &Eacute; esse mesmo!&#8213;bradou a velha&#8213;E
+onde est&aacute; agora?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ha muitos annos que o n&atilde;o vejo nem ou&ccedil;o fallar
+n'elle... Supponho que talvez haja partido para as
+miss&otilde;es ultramarinas ou viva em alguma casa religiosa
+do estrangeiro...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! n&atilde;o... n&atilde;o! Mataram-n'o... mataram-n'o!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem? Quem supp&otilde;e vocemec&ecirc; que pudesse ter
+interesse na morte d'esse obscuro sacerdote?...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O mesmo que lhe matou a m&atilde;e... a D. Carlota...
+<br />
+
+<br />
+
+E a velha juntou as m&atilde;os n'uma visivel angustia,
+murmurando:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meu Deus! meu Deus! e eu que o podia ter
+salvo... o meu pobre Hilario, coitadinho!
+<br />
+
+<br />
+
+E pelas faces resequidas rolavam-lhe lagrimas em
+fio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Socegue, minha irm&atilde;, que o padre Hilario n&atilde;o
+foi victima de nenhum attentado como supp&otilde;e&#8213;disse
+o padre Filippe&#8213;A morte de um sacerdote n&atilde;o &eacute;
+coisa que passe despercebida na sociedade, mormente
+se essa morte &eacute; resultante de um crime. Ora eu
+n&atilde;o
+me recordo de ter lido a noticia do fallecimento do padre
+Hilario nos jornaes portuguezes e estrangeiros que leio
+todos os dias.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deus Nosso Senhor permitia que elle viva ainda!&#8213;murmurou
+afflictivamente Maria do Carmo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vive decerto&#8213;affirmou o padre Filippe, no intuito
+de serenar a doente.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[97]</span> &#8213;Mas ent&atilde;o porque n&atilde;o me escreve elle ha tantos
+annos? Eu que o criei com tanto amor... eu a quem
+elle chamava m&atilde;e...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Julgar&aacute; que vocemec&ecirc; j&aacute;
+n&atilde;o &eacute; viva...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o... n&atilde;o!&#8213;tornou a velha&#8213;Mataram-n'o
+para o roubar!...
+<br />
+
+<br />
+
+O padre Filippe, suspeitando um tenebroso mysterio
+nas palavras da velha beata, perguntou:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como p&oacute;de vocemec&ecirc; ter semelhante suspeita?
+Pareceu-me ouvir-lhe ha pouco que a m&atilde;e d'esse rapaz
+foi assassinada...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Foi... foi...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Matou-a o marido, sabedor de que ella o atrai&ccedil;oava?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o... o marido n&atilde;o... Foi o outro... o proprio
+amante...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O padre Anselmo!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O padre Anselmo!&#8213;disse o padre Filippe com
+espanto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Foi em Lisboa...&#8213;continuou a velha enferma&#8213;D.
+Carlota, a m&atilde;e do meu Hilario... separada
+do marido, um tal Custodio, de Braga, tinha feito testamento,
+deixando-me todos os haveres, para eu fazer
+entrega d'elles ao filho...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E entregou-os?
+<br />
+
+<br />
+
+A velha revolveu-se afflicta nos farrapos do leito.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o... porque o sr. padre Anselmo fez-me
+assignar
+um papel de divida a um homem... um tal
+Jo&atilde;o Ignacio, da rua de S. Sebasti&atilde;o, que me
+levou
+tudo, tudo!
+<br />
+
+<br />
+
+O padre Filippe esfor&ccedil;ava-se por comprehender a
+confusa narrativa da velha.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas como diz vocemec&ecirc; que o padre Anselmo
+matou a m&atilde;e do proprio filho d'elle?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Foi em Lisboa... Elle levou-a para l&aacute; a ella
+<span class="pagenum"><a name="p98">[98]</a></span>
+e mais a mim, promettendo a ambas que o nosso Hilario
+iria l&aacute; ter comnosco, para vivermos todos juntos...
+Depois, elle... uma noite... foi tomar o ch&aacute;
+no quarto da D. Carlota e... envenenou-a!
+<br />
+
+<br />
+
+Aqui a velha esbracejou mais afflicta, evidentemente
+torturada pela recorda&ccedil;&atilde;o d'aquelle crime.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como o soube?&#8213;interrogou o padre Filippe.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu vi n'essa noite a D. Carlota levar para o
+quarto d'ella o bule do ch&aacute; com duas ch&aacute;venas...
+Desconfiei
+e fui espreitar &aacute; porta do quarto... Presenceei
+tudo... Ella a queixar-se do veneno e elle... a
+dizer-lhe que a matava por ella lhe faltar &aacute; obediencia...
+Depois, no outro dia, veio a justi&ccedil;a e achou um
+bilhete que, n&atilde;o sei como foi, o sr. padre Anselmo tinha
+arranjado em nome d'ella, a dizer que se matou
+por causa do marido...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E vocemec&ecirc; calou-se com o conhecimento d'esse
+crime?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu.. tive m&ecirc;do que elle me fizesse o mesmo
+a mim, e calei-me...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nem mesmo contou ao padre Hilario o que presenceou?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu nunca mais o tornei a v&ecirc;r... O sr. padre
+Anselmo disse-me que ia ter com elle &aacute; Covilh&atilde; e
+nunca mais vi um nem o outro... Por isso eu digo
+que elle o foi matar!...
+<br />
+
+<br />
+
+A velha suspirou afflictivamente. Depois, continuou:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quando eu voltei para o Porto, o Jo&atilde;o Ignacio
+veio c&aacute; com os da justi&ccedil;a e tomou conta de tudo o
+que era da sr.<sup>a</sup> D. Carlota... Acho eu que tomou
+conta, porque a mim n&atilde;o me chegou nada &aacute;s
+m&atilde;os...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E quem era esse Jo&atilde;o Ignacio?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Era o maior amigo do sr. padre Anselmo...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sabe se <a href="#e10">elle</a> ainda vive?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ouvi dizer que endoideceu e que o metteram
+<span class="pagenum"><a name="p99">[99]</a></span>
+no hospital dos doidos... Foi bem feito! Foi o castigo
+de Deus!...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como conheceu vocemec&ecirc; a D. Carlota? Foi
+em Braga, quando tomou conta da crean&ccedil;a?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nada! Ella nunca viu o filho... e eu s&oacute; a conheci
+quando o sr. padre Anselmo a <em>trouve</em>
+p'r&aacute;s Sereias
+e depois a levou p'ra Lisboa enganada... E como
+ella sabia que fui eu a que creou o Hilario... era
+muito minha amiga... e fez-me o testamento p'ra eu
+deixar tudo ao pequeno... At&eacute; me deu uma carta
+muito grande p'ra eu lhe entregar s&oacute; depois d'ella
+morrer... Porque ella n&atilde;o queria que o Hilario soubesse
+que era filho d'ella...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E o que fez a essa carta? Entregou-a ao padre
+Anselmo?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Essa carta...&#8213;fez a velha&#8213;tenho-a aqui...
+guardada... como ella m'a deu... Nunca mais
+tornei a v&ecirc;r o meu Hilario... nunca lh'a pude entregar...
+<br />
+
+<br />
+
+Nos olhos do padre Filippe luziu um raio de curiosidade.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; por isso...&#8213;proseguiu a velha&#8213;que eu
+me queria confessar a quem contasse isto... e confiasse
+esta carta... para a entregar ao meu Hilario...
+se elle algum dia apparecer vivo...
+<br />
+
+<br />
+
+Dizendo isto, a velha introduziu a m&atilde;o descarnada
+e tremula debaixo do travesseiro e tirou de l&aacute; uma
+sacca de chita, surrada do attrito das m&atilde;os e dos
+farrapos, e apresentando-a ao <a href="#e11">padre</a>
+Filippe, disse com
+a voz estrangulada pelo esfor&ccedil;o:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Aqui est&aacute; a carta e mais um dinheirinho que
+eu fui ajuntando das esmolas dos bemfeitores para lhe
+dar a elle... se um dia apparecesse... Tome v. s.<sup>a</sup>
+conta de tudo, e se elle f&ocirc;r vivo... entregue-lh'o... Se
+elle tiver morrido... diga-o de missas por minha
+alma...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[100]</span> &#8213;N&atilde;o tem filhos, vocemec&ecirc;?&#8213;perguntou o padre
+Filippe, acceitando com repugnancia o thesouro
+da velha e sem mesmo verificar a quanto montava.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tenho... Mas esses... est&atilde;o arrumados...
+Nunca quizeram saber de mim... Mil contos que eu
+tivesse... haviam de ser todos para o meu Hilario...
+coitadinho!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o seria melhor distribuir pelos seus filhos
+este dinheiro, de que o padre Hilario talvez n&atilde;o precise?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o! N&atilde;o! exclamou a velha anciadamente,
+arregalando os olhos, onde a vida come&ccedil;ava a extinguir-se.
+Se elle n&atilde;o apparecer... missas pela minha
+alma!... Esse dinheiro... deu-m'o a religi&atilde;o... para
+a religi&atilde;o torna! S&atilde;o tres centos de libras...
+Tres
+centos!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; bem! Socegue. A sua vontade ser&aacute;
+cumprida&#8213;aquietou
+o padre Filippe.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Gra&ccedil;as a Deus! Morro descan&ccedil;ada... E agora,
+meu padre... deite-me a sua absolvi&ccedil;&atilde;o... para
+que Deus me perd&ocirc;e!
+<br />
+
+<br />
+
+O padre murmurou em latim as palavras da
+absolvi&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E elle... se f&ocirc;r vivo... que se acautele do
+padre Anselmo... que n&atilde;o lhe mostre esse dinheiro...
+O padre Anselmo &eacute; pae d'elle... mas envenenou-lhe
+a m&atilde;e... para o roubar!...&#8213;murmurou ainda a
+velha, deixando descair a cabe&ccedil;a no travesseiro e entrando
+logo na agonia ultima.
+<br />
+
+<br />
+
+O padre Filippe, impressionadissimo com as
+revela&ccedil;&otilde;es
+que ouvira dos labios da moribunda, guardou
+no bolso o legado da velha e sahiu do lobrego cubiculo
+em que aquella vida se extinguia.
+<br />
+
+<br />
+
+Chegado ao patamar, respirou com for&ccedil;a e disse
+para a outra velha que o aguardava com a fumarenta
+candeia de petroleo na m&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Essa pobre mulhersinha est&aacute; agonisante. Logo
+<span class="pagenum">[101]</span>
+que ella expire d&ecirc;-me parte, porque o enterro fica por
+minha conta.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim, meu senhor!&#8213;disse a velha&#8213;N&atilde;o seria
+bom dar-lhe ao menos a Santa Unc&ccedil;&atilde;o,
+j&aacute; que n&atilde;o
+p&oacute;de tomar o Senhor?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; tarde&#8213;respondeu o padre Filippe&#8213;Quando
+c&aacute; chegasse esse ultimo soccorro espiritual, encontraria
+um cadaver.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Seja pelas almas!&#8213;lamuriou a velha&#8213;N&atilde;o
+<em>s&ecirc;mos</em> nada n'este mundo!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Somos realmente bem pouco, quando presumimos
+ser tanto!&#8213;concordou philosophicamente o sacerdote&#8213;Vocemec&ecirc;
+faria uma obra de caridade, indo
+assistir aos ultimos momentos d'aquella desgra&ccedil;ada...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim, meu senhor... eu vou&#8213;concedeu a velha.
+<br />
+
+<br />
+
+Padre Filippe, voltando-se para a mulher que o f&ocirc;ra
+chamar e que tambem viera ao patamar n'uma curiosidade
+agradecida, pediu:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E vocemec&ecirc;, santinha, n&atilde;o poderia fazer-me o
+favor de me alumiar at&eacute; ao fundo da escada, que &eacute;
+t&atilde;o cheia de precipicios para a minha idade?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu vou, meu senhor... Ent&atilde;o n&atilde;o hei-de ir?
+<br />
+
+<br />
+
+E tirando da m&atilde;o da outra a candeia:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;V&aacute; vocemec&ecirc; pr&oacute; par da creaturinha de
+Deus,
+emquanto eu <em>alumeio</em> &oacute; sr.
+padre...
+<br />
+
+<br />
+
+A velha cedeu a luz e retirou para o interior, resmungando:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estes <em>car&oacute;las</em> do
+inferno, em n&atilde;o sentindo dinheiro
+a uma creatura, p&otilde;em-se logo a
+<em>avoar</em> e dizem
+aos oitros que se <em>aguantem</em> co'as
+massadas... Se lhe
+cheirasse a que lhe untavam as unhas no fim, punha-se
+ahi a alanzoar os officios da agonia e n&atilde;o arredava
+d'aqui p&eacute; emquanto ella n&atilde;o fechasse o olho...
+Assim,
+vae a correr metter-se no <em>quente</em> e
+tanto se lhe
+<span class="pagenum">[102]</span>
+d&aacute; que a <em>probesinha</em> de
+Christo v&aacute; p'r&oacute; c&eacute;o como que
+v&aacute; p'r&oacute; inferno!
+<br />
+
+<br />
+
+O padre Filippe, alumiado pela outra visinha, chegara
+ao fundo da terrivel escada com as costellas direitas.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;V. s.<sup>a</sup> quer que o v&aacute; acompanhar
+<em>int&eacute;</em> casa?&#8213;offereceu
+a mulher.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, n&atilde;o &eacute; preciso... D'aqui
+at&eacute; l&aacute; &eacute; perto e
+n&atilde;o ha escadas a subir nem a descer. Amanh&atilde;
+procure-me
+para se comprar um caix&atilde;o &aacute; pobre creatura.
+Boa noute!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;V&aacute; v. s.<sup>a</sup> na gra&ccedil;a de
+Deus, meu senhor!
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[103]</span>
+<h3><a name="c7"></a>VII<br />
+
+<br />
+
+Tres miseraveis
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Depois da scena que representou com a filha, o
+Custodio de Jesus correu a procurar o seu amigo
+Belchior.
+<br />
+
+<br />
+
+O agiota ia radiante de satisfa&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Beatriz&#8213;disse elle ao procurador&#8213;est&aacute; no
+caminho!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;No caminho de qu&ecirc;?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;No caminho de acceitar o casamento com o
+Eugenio de Mello.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;S&eacute;rio?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Homem, digo-lh'o eu! A principio recusou, fez
+cara feia, e ia-me fazendo sahir f&oacute;ra dos eixos, porque
+eu n&atilde;o sou para gra&ccedil;as... Mas depois...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Conseguiu intimidal-a?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso sim! Aquella sonsinha que voc&ecirc; alli v&ecirc;
+tem figados! Ameacei-a com as irm&atilde;s da caridade
+para toda a vida, e ella teve a pouca vergonha de
+me dizer que podia matal-a, mas que n&atilde;o podia fazer
+com que ella fosse &aacute; egreja dizer o
+<em>sim</em>!...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; o que eu digo! O outro rapaselho deu-lhe
+volta ao juizo, e as mulheres s&atilde;o assim... s&atilde;o
+peores
+<span class="pagenum">[104]</span>
+que cabras... Em encarreirando para um lado,
+n&atilde;o ha diabo que as fa&ccedil;a voltar para
+tr&aacute;s!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas consegui eu que ella voltasse...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Com bons modos... Voc&ecirc;, afinal, foi quem me
+ensinou o segredo... Mas eu tambem discorri alguma
+coisa... Comecei a amacial-a, a dizer-lhe que se desejava
+que ella acceitasse o casamento era para interesse
+d'ella, porque eu estava pobre, estava desgra&ccedil;ado,
+tudo quanto tinha j&aacute; n&atilde;o chegava para pagar
+aos credores, e portanto que s&oacute; havia a escolher: ou
+casar ella com Eugenio de Mello ou dar eu um tiro
+nos miolos e arrumar com isto por uma vez. Chorei,
+que se voc&ecirc; visse at&eacute; se admirava!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E afinal?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Afinal, ella, que estava de pedra e cal, a dizer
+que n&atilde;o e que n&atilde;o, poz-se a considerar um bocado
+e
+por fim disse-me que queria fallar com o noivo...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Com o Eugenio de Mello?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois ent&atilde;o com quem? Quem &eacute; o noivo?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O noivo &eacute; aquelle com quem ella estiver para
+se casar...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem! pois esse &eacute; o Eugenio de Mello. N&atilde;o se
+trata de outro.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que diabo lhe querer&aacute; ella?&#8213;commentou o
+procurador.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora o que ha de querer? Quer que elle lhe
+diga que lhe tem muito amor, que est&aacute; a morrer de
+paix&atilde;o por ella, que n&atilde;o sonha com outra coisa
+sen&atilde;o
+com o momento ditoso, <em>et
+coetera</em>... coisas que todas
+as raparigas gostam de ouvir aos namorados.
+<br />
+
+<br />
+
+O Belchior p&ocirc;z-se a rir.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;V&aacute; l&aacute; a gente fiar-se em mulheres!&#8213;disse
+elle.&#8213;Muito amor ao outro, capaz de se deixar matar
+antes que trahir a f&eacute; jurada; mas assim que lhe
+cheirou a que o negocio era de
+<em>cobres</em> e que sem elles
+<span class="pagenum">[105]</span>
+n&atilde;o teria mais vestidos, nem mais luxo nem mais
+commodidades,&#8213;venha
+de l&aacute; o <em>homem da massa</em> e
+atire-se
+com o querido do cora&ccedil;&atilde;o &aacute;s ortigas!
+Ah! mulheres,
+mulheres! quem n&atilde;o as conhecer que se fie
+n'ellas!...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois por eu saber isso&#8213;retorquiu o Custodio&#8213;por
+ter a experiencia de que n&atilde;o ha amor que resista
+&aacute; perspectiva da miseria, &eacute; que eu me lembrei
+de inventar esta historia, que ha de dar bom resultado...
+Agora elle que lhe <em>cante</em> umas
+cantiguinhas
+bem cantadas... que lhe falle d'amor, de paix&atilde;o e de
+todas essas frioleiras que as raparigas apreciam, e
+d'aqui a dois dias, diabos me levem se ella pensa mais
+no outro!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quando entende voc&ecirc; que deve ir fallar-lhe o
+Eugenio?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O mais depressa possivel. N'estas coisas nunca
+ha tempo a perder...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; bem. N'esse caso, vou l&aacute; hoje &aacute;
+noite com
+elle tomar o ch&aacute;...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim senhor! E passaremos uma noite bem passada...
+A pequena toca piano, voc&ecirc; gaba-lhe a habilidade
+para a musica, o rapaz rende-lhe finezas, e &aacute;s
+duas por tres a rapariga est&aacute; ensarilhada, e n&atilde;o
+ter&aacute;
+remedio sen&atilde;o dizer que sim.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vou ent&atilde;o mandar prevenir o rapaz. Foi o diabo
+voc&ecirc; n&atilde;o vir mais c&ecirc;do, porque elle
+ainda ha bocado
+sahiu d'aqui... Veio c&aacute; para eu lhe adiantar
+um dinheiro sobre o arrendamento de uma quinta que
+de dois em dois annos rende seis contos de r&eacute;is,
+s&oacute; em
+corti&ccedil;a! &Eacute; um doidivanas... N&atilde;o sabe o
+que tem de
+seu e anda sempre a <em>pillar</em> por
+dinheiro!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Afinal&#8213;considerou o Custodio de Jesus&#8213;este
+casamento at&eacute; &eacute; uma providencia para elle...
+Porque
+se n&oacute;s n&atilde;o &#8213;Afinal&#8213;considerou o Custodio de
+Jesus&#8213;este
+casamento at&eacute; &eacute; uma providencia para elle...
+Porque
+se n&oacute;s n&atilde;o lhe puzessemos uma tutella, por esse
+andar ainda vinha a dar n'um pobre de pedir...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[106]</span>
+O Belchior disfar&ccedil;ou um sorriso velhaco.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem duvida que &eacute; uma obra de caridade casal-o
+e tomar-lhe conta dos haveres? Mas &eacute; preciso
+que voc&ecirc; saiba, amigo Custodio, que eu &eacute; que fico
+em
+peores len&ccedil;oes...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Porque?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Porque este diabo &eacute; maluco, e depois, quando
+voc&ecirc; e sua filha lhe moverem um processo de
+interdic&ccedil;&atilde;o,
+quem paga as favas sou eu... Contra mim &eacute;
+que elle se ha-de voltar, a dizer que lhe armei esta
+ratoeira de proposito para lhe apanharem a fortuna...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E a voc&ecirc; que se lhe d&aacute;? A sua consciencia
+diz-lhe
+que praticou uma ac&ccedil;&atilde;o b&ocirc;a... que
+importa l&aacute;
+que elle grite?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois sim, mas a minha consciencia tambem me
+diz que eu escuso de me metter em
+<em>alhadas</em> sem interesse,
+e que se elle, por fim, como &eacute; maluco, me
+quebrar a cabe&ccedil;a, &eacute; bem feito... Portanto, logo
+que
+este casamento esteja combinado, n&oacute;s temos um pequeno
+negociosinho a fazer...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que negocio?&#8213;interrogou o Custodio franzindo
+o sobr'olho.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que diabo! &Eacute; justo que eu leve rasca na
+assudura... Eu pratico uma ac&ccedil;&atilde;o b&ocirc;a...
+b&ocirc;a para
+si e b&ocirc;a para elle... Parece que tambem
+n&atilde;o ser&aacute;
+f&oacute;ra de raz&atilde;o que a pratique b&ocirc;a para
+mim...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas o que &eacute; ent&atilde;o que voc&ecirc; quer dizer
+com
+isso?&#8213;tornou o Custodio desconfiado.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quero dizer que o negocio &eacute; negocio, e que se
+eu lhe metto a voc&ecirc; para cima de noventa contos de
+reis no bolso, &eacute; de justi&ccedil;a que leve n'isso uma
+pequena
+commiss&atilde;o...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Uma commiss&atilde;o! Mas que commiss&atilde;o quer
+voc&ecirc;?
+<br />
+
+<br />
+
+O Belchior sorriu:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Socegue! eu n&atilde;o sou d'aquelles que comem a
+sardinha e deixam para os outros s&oacute; a espinha... Ahi
+<span class="pagenum">[107]</span>
+uns <em>dezitos</em> por cento sobre a
+fortuna do rapaz, n&atilde;o
+&eacute; coisa que empobre&ccedil;a ninguem...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dez por cento! Voc&ecirc; est&aacute; doido!&#8213;exclamou o
+Custodio de Jesus, fazendo uma careta terrivel&#8213;Dez
+por cento sobre noventa contos, atirava l&aacute; para nove
+contos. Isso era melhor do que fazer meia!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute;... &eacute; melhor do que fazer meia... E oitenta
+contos por uma filha que est&aacute; em vesperas de casar
+com um rapaz que n&atilde;o tem de seu oitenta reis, o que
+&eacute;? &Eacute; barro!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o que eu n&atilde;o a deixo casar sen&atilde;o
+&aacute; minha
+vontade!&#8213;barafustou o Custodio.
+<br />
+
+<br />
+
+O Belchior teve um sorriso desdenhoso.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Voc&ecirc; n&atilde;o a deixa casar sen&atilde;o com quem
+muito
+bem entender, e ella n&atilde;o casar&aacute; sen&atilde;o
+com quem
+muito bem quizer&#8213;replicou por fim.&#8213;Mas o nosso
+caso &eacute; muito outro, amigo Custodio... Se voc&ecirc;
+arranjar
+o casamento da pequena com outro rapaz, sem
+ser por minha interven&ccedil;&atilde;o, ainda que o noivo
+tenha
+mil contos de reis, descance, que eu n&atilde;o vou l&aacute;
+metter-me
+no negocio nem reclamar para mim a mais
+insignificante parte nos lucros... Ora agora, fazendo-se
+o casamento com o Eugenio de Mello, e sendo
+eu o principal agente d'este negocio que lhe mette a
+voc&ecirc; para cima de noventa contos no bolso, tenha paciencia,
+mas a minha commiss&atilde;o &eacute; justo que se pague...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Com os diabos! eu ainda lhe n&atilde;o disse a voc&ecirc;
+que queria o seu trabalho de gra&ccedil;a!&#8213;prorompeu o
+Custodio.&#8213;Mas &eacute; preciso ter consciencia... &eacute;
+preciso
+que voc&ecirc; n&atilde;o queira a melhor parte para si...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A melhor parte! Ent&atilde;o nove contos de reis &eacute; a
+melhor parte de noventa?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Limpinhos e s&ecirc;ccos, sem mais incommodos, sem
+ter que aturar a noiva a choramigar e sem ter que
+andar &aacute;s testilhas com o noivo para o fazer entrar na
+ordem, acha voc&ecirc; que n&atilde;o &eacute; nada!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[108]</span> &#8213;E a minha responsabilidade? E ter depois de
+me haver com o rapaz, que &eacute; um touro de for&ccedil;a, e
+que, se lhe der na cabe&ccedil;a, &eacute; muito capaz de me
+lan&ccedil;ar
+as culpas de tudo e quebrar-me as costellas? Isso
+n&atilde;o representa nada, n&atilde;o?!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se elle fizer isso, voc&ecirc; arma-lhe um processo...
+Tem a justi&ccedil;a de casa, fica-lhe barato...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas o corpo &eacute; meu, e depois de eu as c&aacute; ter,
+do lombo &eacute; que ninguem m'as tira!&#8213;berrou o
+procurador.&#8213;Homem,
+&eacute; preciso que voc&ecirc; veja que isto
+&eacute; negocio muito arriscado para mim... E eu metter-me
+em folias, sem ao menos ter garantidos os pontos que
+depois hei-de levar nas feridas... n&atilde;o me serve!
+<br />
+
+<br />
+
+E n'um repell&atilde;o:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o acabemos com isto, n&atilde;o se falla mais em
+tal e voc&ecirc; case l&aacute; a pequena com quem quizer.
+<br />
+
+<br />
+
+O Custodio amaciou um pouco.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora venha c&aacute;...&#8213;disse elle.&#8213;Voc&ecirc; sempre
+tem um demonio d'um genio!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas pela raz&atilde;o!... pela raz&atilde;o &eacute; que
+eu tenho
+genio!&#8213;contestou o Belchior.&#8213;Voc&ecirc;, se fosse outro,
+dava o val&ocirc;r &aacute;s coisas e n&atilde;o estava a
+fazer quest&atilde;o
+de uma miseria... Demais a mais, sabendo que eu
+entro n'isto por ser seu amigo...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem sei, Belchior, bem sei que voc&ecirc; &eacute; meu
+amigo; e por isso mesmo &eacute; que eu esperava que voc&ecirc;
+fosse mais rasoavel...
+<br />
+
+<br />
+
+O procurador descarregou violento murro sobre a
+escrivaninha.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mais rasoavel!&#8213;exclamou elle.&#8213;P&oacute;de-se ser
+mais rasoavel do que isto? Voc&ecirc;, que empresta dinheiro
+a vinte e a trinta por cento, acha caro noventa
+contos de reis comprados a troco de nove?!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois sim, mas isso n&atilde;o &eacute; d&aacute;
+c&aacute;, toma l&aacute;...
+O dinheiro &eacute; do rapaz e elle &eacute; que continua sendo
+senhor d'elle...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p109">[109]</a></span> &#8213;N&atilde;o me venha com cantigas! Eu j&aacute; lhe disse
+a voc&ecirc; como &eacute; que as coisas se arranjam... Mas se
+acha que &eacute; prejudicado ou que o negocio n&atilde;o vale
+a
+pena, eu lavo d'ahi as minhas m&atilde;os e arranje voc&ecirc;
+casamento melhor para a pequena.
+<br />
+
+<br />
+
+Era a segunda vez que o Belchior amea&ccedil;ava desmanchar
+o negocio. O Custodio de Jesus tremeu com
+a ideia de que o procurador tivesse j&aacute; posto a mira
+n'outra noiva para o seu cliente.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Homem!&#8213;disse elle&#8213;a gente n&atilde;o est&aacute; aqui
+a jogar facadas. Nem voc&ecirc; quer o meu prejuizo nem
+eu o seu... Voc&ecirc; faz um abatimentosinho... fica a
+coisa reduzida a seis por cento...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sete tenho eu quem me d&ecirc;!&#8213;volveu o procurador.&#8213;E
+&eacute; porque eu n&atilde;o quiz entrar em
+transac&ccedil;&atilde;o,
+sen&atilde;o a coisa chegava aos oito. Mas a mim aborrece-me
+regatear... Isto n&atilde;o &eacute; negocio de cebolas. Disse
+que
+h&atilde;o de ser dez, e h&atilde;o de ser dez, ou o rapaz
+n&atilde;o casa
+no Porto. Ent&atilde;o dou um passeio com elle at&eacute;
+Lisboa,
+e voc&ecirc; ver&aacute; como at&eacute; apanho
+l&aacute; uma viscondessa para
+elle. Aquillo &eacute; que &eacute; terra! Aquillo sim! Ali
+d&aacute;-se
+val&ocirc;r ao dinheiro e ao trabalho de cada um...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bom! Voc&ecirc; &eacute; teimoso... tambem n&atilde;o
+quero
+que diga que, sendo eu seu amigo, estou a fazer quest&atilde;o
+por pouca coisa... Est&aacute; tratado.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora at&eacute; que, emfim, chegou-se &aacute;
+raz&atilde;o!&#8213;disse
+o procurador, como quem se alliviava d'um grande
+peso&#8213;Eu bem sabia que voc&ecirc; n&atilde;o deixava fugir o
+b&ocirc;lo, ainda que tivesse de partir um bocado maior
+para mim... Mas eu n&atilde;o gosto d'abusar com os
+amigos...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vamos l&aacute;!&#8213;suspirou o Custodio.&#8213;Para amigos,
+voc&ecirc; carregou um bocadito na m&atilde;o... Mas acabou-se!
+Est&aacute; tratado, est&aacute; tratado. N&atilde;o volto
+com a
+<a href="#e12">palavra</a> atr&aacute;s.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim, senhor!&#8213;tornou o Belchior.&#8213;Ora agora
+<span class="pagenum">[110]</span>
+temos a regular a forma do contracto... Eu recebo
+os nove contos no dia do casamento, antes dos noivos
+irem para a egreja...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que! Ent&atilde;o voc&ecirc; p&otilde;e-me assim as
+facas ao
+peito?!&#8213;exclamou o Custodio de Jesus muito admirado.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Homem, negocio &eacute; negocio. Eu comprometto-me
+a levar o noivo at&eacute; sua casa no dia do casamento, sem
+escripturas, para a noiva poder entrar na mea&ccedil;&atilde;o
+dos
+bens que elle possa possuir. Feito isto, o dinheiro que
+eu ganhei &eacute; meu, voc&ecirc; passa-m'o para a
+m&atilde;o e estamos
+quites. Pois como queria voc&ecirc;?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso n&atilde;o podia ser depois do casamento realisado?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;P&oacute;de, acceitando-me voc&ecirc; letras...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Voc&ecirc; sabe-a toda!&#8213;fez o Cutodio sorrindo,
+como quem acaba de effectuar um bello negocio.&#8213;V&aacute;
+l&aacute;! No dia do casamento entrego-lhe o dinheiro e
+est&aacute; a conta arrumada.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Antes dos noivos partirem para a egreja...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim, homem, sim! Antes dos noivos partirem
+para a egreja.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois ent&atilde;o esta noite l&aacute; estamos. Vou mandar
+prevenir o rapaz para n&atilde;o faltar.
+<br />
+
+<br />
+
+O Custodio despediu-se e o Belchior correu ao
+<em>Francfort</em> a prevenir Eugenio.
+<br />
+
+<br />
+
+N'essa mesma noite, a sala de visitas do Custodio
+de Jesus era theatro da odiosa far&ccedil;a que os tres miseraveis
+se dispunham a representar &aacute; roda do
+cora&ccedil;&atilde;o
+de Beatriz, illudindo-se uns aos outros, como
+quasi sempre acontece quando tres patifes de grande
+marca se encontram unidos pelo mesmo pensamento
+de interesse commum.
+<br />
+
+<br />
+
+O Custodio, sahindo de casa do Belchior, pass&aacute;ra
+pela casa de D. Barbara, viuva d'um general reformado
+e m&atilde;e de tres filhas feiissimas que o Monte-pio
+militar sustentava, e pediu-lhes para irem &aacute; noite tomar
+<span class="pagenum"><a name="p111">[111]</a></span>
+o ch&aacute; e fazer um bocado de companhia &aacute;
+Beatriz,
+que j&aacute; tinha fallado n'ellas e estranhado que estivessem
+tanto tempo sem lhe irem fazer uma visita.
+<br />
+
+<br />
+
+O Belchior, pela sua parte, fizera-se acompanhar
+da mulher, a D. Rosalia, e da cunhada, a D. Adelia,
+ambas vermelhuscas e adiposas,&#8213;a D. Rosalia queixando-se
+sempre do seu figado e a D. Adelia dos seus
+flatos.
+<br />
+
+<br />
+
+Eram estas as rela&ccedil;&otilde;es mais intimas do Custodio
+que, usurario e forr&ecirc;ta, detestava reuni&otilde;es e
+convivencias
+que o for&ccedil;assem a incommodos e despesas.
+<br />
+
+<br />
+
+Tolerava a viuva do general, cujo conhecimento
+proviera de serem as filhas companheiras de Beatriz
+no collegio, porque lhe rebatia as pens&otilde;es com
+extraordinaria
+usura; e quanto &aacute; <a href="#e13">familia</a>
+do Belchior,
+est&aacute;
+bem patente o interesse que lhe advinha das suas
+rela&ccedil;&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+Beatriz, prevenida por seu pae de que n'essa noite
+viriam visitas, preparou-se para as receber.
+<br />
+
+<br />
+
+A candida menina preferiria antes a solid&atilde;o do
+seu quarto &aacute; enfadonha conversa&ccedil;&atilde;o de
+t&atilde;o estolidas
+creaturas; mas como era a ella que cumpria desempenhar
+os deveres de dona da casa, n&atilde;o teve remedio,
+sacrificou-se &aacute;s leis da boa educa&ccedil;&atilde;o
+e foi com risonho,
+embora contrafeito, semblante que veio &aacute; sala.
+<br />
+
+<br />
+
+Eugenio de Mello, acompanhando o Belchior, apresentou-se
+gentil e muito correcto no seu trajo elegante
+de rapaz rico, affectando uns ares superiores, de bom
+tom, sem comtudo deixar de se mostrar amavel e attencioso
+em extremo para com as damas.
+<br />
+
+<br />
+
+Conversaram estas de modas, do tempo, dos
+theatros, dos mil nadas que preoccupam o espirito das
+senhoras finas, ou que de taes se presumem; emquanto
+Custodio, Belchior e Eugenio commentavam os ultimos
+acontecimentos politicos e prophetisavam mil horrores
+ao futuro de Portugal.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p112">[112]</a></span>
+Veio o ch&aacute;. Servido elle, o Belchior perguntou:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o n&atilde;o temos um bocadinho de musica?
+V&aacute;,
+sr.<sup>a</sup> D. Rufininha, d&ecirc;-nos um bocadinho
+de piano.
+<br />
+
+<br />
+
+Rufininha era a filha mais velha do general.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade! apoiou Custodio&#8213;e a sr.<sup>a</sup>
+D. Therezinha
+canta aquella can&ccedil;&atilde;o
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><em>Murmura, rio,
+murmura!</em>
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+que &eacute; t&atilde;o bonita.
+<br />
+
+<br />
+
+A Rufina dirigiu-se logo ao piano e a Therezinha,
+morta por cantar, come&ccedil;ou a fazer caretas e a desculpar-se,
+que estava sem voz, que n&atilde;o se sentia b&ocirc;a da
+garganta, que hoje n&atilde;o, para outra vez cantaria.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas o Belchior e o Custodio insistiram,&#8213;que cantasse,
+que eram desculpas de mau pagador, que quem
+tinha uma voz t&atilde;o bonita n&atilde;o devia ser
+t&atilde;o avara do
+seu thesouro.
+<br />
+
+<br />
+
+E agarrando-lhe cada um por seu bra&ccedil;o, arrastaram-n'a
+at&eacute; junto do piano, onde j&aacute; a irm&atilde;
+pingava
+notas preparando-se para o acompanhamento.
+<br />
+
+<br />
+
+Assim instada, a Therezinha come&ccedil;ou
+esgani&ccedil;ando-se
+terrivelmente, a pedir ao rio que murmurasse, em
+meio do silencio e da for&ccedil;ada atten&ccedil;&atilde;o
+dos circumstantes.
+<br />
+
+<br />
+
+Aproveitando-se d'este momento, Eugenio, aproximou-se
+da filha do Custodio e, sentando-se n'uma cadeira
+proxima, encetou com ella este dialogo:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;D&aacute;-me licen&ccedil;a, sr.<sup>a</sup> D.
+Beatriz, que lhe
+fa&ccedil;a
+uma pergunta?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Queira v. ex.<sup>a</sup> dizer, sr. Eugenio de
+Mello&#8213;respondeu
+Beatriz, sem poder reprimir um movimento
+de terror instinctivo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Parece-me v&ecirc;l-a triste, como que sob o peso de
+um desgosto intimo... Acaso <a href="#e14">devo eu</a>
+attribuir &aacute;
+minha
+presen&ccedil;a a melacholica
+express&atilde;o do seu rosto?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[113]</span> &#8213;Porque me faz essa pergunta, sr. Eugenio de
+Mello?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Perd&atilde;o, se fui indiscreto!&#8213;tornou o mancebo.&#8213;Mas,
+em primeiro logar, interessam-me as d&ocirc;res e
+as alegrias do seu cora&ccedil;&atilde;o mais do que talvez
+p&oacute;de
+imaginar... Depois... creio que lhe n&atilde;o deve ser
+estranho o desejo ardente que me anima de lhe dedicar
+toda a minha existencia e de viver feliz da sua
+felicidade...
+<br />
+
+<br />
+
+Beatriz baixou os olhos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Creio que quer referir-se&#8213;disse ella&#8213;a um
+projecto de casamento de que j&aacute; ouvi fallar meu pae...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o me atrevi a patentear a v. ex.<sup>a</sup>
+o sentir
+intimo do meu cora&ccedil;&atilde;o, e dizer-lhe a chamma
+abrasadora
+que o seu dulcissimo olhar me accendeu no peito...
+E como a vi filha meiga e carinhosa, filha submissa
+e obediente, n&atilde;o hesitei em pedir a seu pae e
+meu bom amigo, que fosse interprete fiel e auctorisado
+dos meus sentimentos junto de v. ex.<sup>a</sup>. Fiz mal?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;No logar de v. ex.<sup>a</sup>, eu n&atilde;o teria
+procedido assim...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Porque? Quem melhor p&oacute;de ser fiador dos puros
+e santos affectos da minha alma, das delicadas
+e nobres inten&ccedil;&otilde;es que me animam, do que o
+proprio
+pae da mulher que amo? Porventura, se o meu amor
+por v. ex.<sup>a</sup> n&atilde;o fosse uma d'aquellas
+paix&otilde;es
+abrasadoras,
+violentas, em que fazemos consistir toda a nossa
+felicidade, iria eu pedir para elle o consenso do auctor
+dos seus dias?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;V. ex.<sup>a</sup> esqueceu ou n&atilde;o contou para
+nada com
+o meu cora&ccedil;&atilde;o. Era no emtanto a elle que v. ex.<sup>a</sup>
+devia
+dirigir-se primeiro, creio eu...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Supponho-a t&atilde;o b&ocirc;a, t&atilde;o pura,
+t&atilde;o santa, que
+n&atilde;o duvidei um momento da bondade angelica com
+que acolheria as supplicas de um infeliz, sabendo que
+eu, infeliz, morro por v. ex.<sup>a</sup>.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[114]</span> &#8213;Por muito bondosa que eu lhe parecesse, nunca
+deveria supp&ocirc;r-me tanto que me julgasse capaz de
+sacrificar o meu cora&ccedil;&atilde;o &aacute; sua
+felicidade, sr. Eugenio
+de Mello.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quer dizer com isso que me despreza, que recusa
+o meu amor, que devo julgar para sempre perdida
+a felicidade, esmagado para sempre o meu cora&ccedil;&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quero dizer-lhe, senhor, que preciso fallar-lhe
+com a lealdade e franqueza que devo a v. ex.<sup>a</sup> e
+&aacute;
+minha dignidade de mulher. Se depois de me escutar,
+ainda persistir no seu proposito...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Consentir&aacute; em ser minha esposa?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; possivel.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois bem; falle! Diga-me v. ex.<sup>a</sup> o que tem a
+dizer,
+porque eu anceio pelo momento de lhe poder dar
+uma prova cabal, irrecusavel, sublime, do meu am&ocirc;r!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que tenho a dizer-lhe, sr. Eugenio de Mello,&#8213;respondeu
+friamente Beatriz&#8213;&eacute; por tal modo
+grave e serio, requer tanto socego e reflex&atilde;o que, aqui,
+n'esta sala, n'um curto momento de conversa, entre
+pessoas que fallam, tocam e cantam, mais poderia v.
+ex.<sup>a</sup> dar-lhe peso e eu exprimir-me como desejo.
+Se
+lhe n&atilde;o f&ocirc;r demasiado o sacrificio, rogo-lhe que
+venha
+&aacute;manh&atilde; de dia, e ent&atilde;o fallaremos.
+J&aacute; expressei a meu
+pae a necessidade que tinha de me entender com v. ex.<sup>a</sup>
+sobre o assumpto em quest&atilde;o, e portanto a sua vinda
+a esta casa est&aacute; perfeitamente auctorisada por elle.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Virei ent&atilde;o &aacute;manh&atilde;&#8213;disse
+Eugenio.&#8213;Mas,
+por Deus, n&atilde;o me roube a esperan&ccedil;a de vir a
+chamar-lhe
+minha esposa, de vir a ser o seu escravo
+sendo ao mesmo tempo o mais feliz dos homens.
+<br />
+
+<br />
+
+Beatriz levantou-se, despedindo-o com um gesto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Amanh&atilde;!&#8213;disse ella.
+<br />
+
+<br />
+
+Esta conversa passara-se po
+Esta conversa passara-se por entre os olhares obliquos
+de Belchior e Custodio, que ambos, fingindo prestar
+<span class="pagenum">[115]</span>
+grande atten&ccedil;&atilde;o &aacute;s filhas da D.
+Thereza, n&atilde;o perdiam
+de vista Eugenio e Beatriz.
+<br />
+
+<br />
+
+Por volta das 11 horas, a viuva e as filhas do general
+deram o signal da retirada.
+<br />
+
+<br />
+
+A mulher e a cunhada do procurador despediram-se
+tambem.
+<br />
+
+<br />
+
+J&aacute; na rua, o Belchior, voltando-se para o Eugenio,
+perguntou:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E ent&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o... nada!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois voc&ecirc; n&atilde;o lhe fallou em amor, n&atilde;o
+lhe disse
+que morria de paix&atilde;o por ella?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Disse-lhe tudo isso, porque, verdade, verdade,
+eu n&atilde;o vim c&aacute; para outra coisa. Mas achei-a muito
+fria, muito reservada... Teima que me quer fallar
+amanh&atilde;, porque tem coisas muito s&eacute;rias e muito
+graves
+a dizer-me...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; sei. O que ella quer &eacute; namoro. Quer que
+voc&ecirc; lhe cante a s&oacute;s as lindas cantigas da sua
+paix&atilde;o
+por ella e lhe jure mil vezes que a ha de amar at&eacute;
+&aacute;
+morte...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso n&atilde;o s&atilde;o as coisas s&eacute;rias e
+graves que ella
+tem para me dizer... Se me chama, n&atilde;o &eacute; para que
+eu lhe falle, &eacute; para ella me fallar a mim... Que
+querer&aacute; dizer-me?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Naturalmente que tem um namoro que a ama
+apaixonadamente e que, assim que souber que ella
+est&aacute; para casar com outro, &eacute; capaz de se ir
+deitar da
+ponte abaixo&#8213;disse rindo o procurador.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Emfim, seja o que f&ocirc;r. Amanh&atilde; virei fallar-lhe
+e saberemos o que ella quer...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que diabo hade querer? Quer casar, quer-lhe
+apanhar a corti&ccedil;a toda da sua quinta&#8213;porque julga
+que o pae est&aacute; pobre e que n&atilde;o p&oacute;de
+continuar a dar-lhe
+vestidos de seda... As mulheres s&atilde;o todas assim,
+meu amigo!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[116]</span> &#8213;N&atilde;o parece que seja isso&#8213;volveu Eugenio&#8213;Pelo
+contrario, supponho outra coisa...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que a pequena cahiu em alguma falta grave e
+quer francamente confessar-m'a antes de casar...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois voc&ecirc; supp&otilde;e?...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sei... Mulheres s&atilde;o mulheres...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas voc&ecirc;, ainda que isso seja, n&atilde;o faz
+caso!...&#8213;preveniu
+o procurador, receioso d'escrupulos por
+parte do seu cumplice.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem me importa c&aacute; a mim! Perd&ocirc;o...
+fa&ccedil;o
+de generoso... O que se quer c&aacute; s&atilde;o os vinte
+contos...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E que o Custodio morra breve para vir a
+<em>maquia</em>
+completa!&#8213;accrescentou o Belchior.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nem mais nem menos!
+<br />
+
+<br />
+
+Assim entendidos, ao outro dia, Eugenio apresentou-se
+em casa do Custodio.
+<br />
+
+<br />
+
+O usurario, informado do que se passava, simulou
+uma sahida a tratar de negocios, afim de facilitar a
+entrevista dos dois.
+<br />
+
+<br />
+
+Beatriz, pallida de commo&ccedil;&atilde;o, saiu &aacute;
+sala de visitas
+a receber o mancebo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Queira sentar-se, sr. Eugenio de Mello&#8213;disse
+ella gravemente, indicando-lhe uma cadeira&#8213;Pedi-lhe
+a fineza de me escutar a s&oacute;s por alguns instantes,
+pois o que tenho a dizer-lhe n&atilde;o deve ser conhecido
+de mais pessoa alguma; e confio na sua honra de cavalheiro
+que saber&aacute; guardar absoluto sigilo sobre o
+que me ouvir...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh, minha senhora!&#8213;exclamou o mancebo&#8213;Amo-a
+tanto que, mesmo sem essa preven&ccedil;&atilde;o, guardaria
+avidamente no fundo da minha alma todas as
+suas palavras como um inestimavel thesouro!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E devem realmente valer para v. ex.<sup>a</sup> um
+thesouro
+pela franqueza e lealdade que revestem. V. ex.<sup>a</sup>,
+<span class="pagenum">[117]</span>
+segundo creio, manifestou a meu pae o desejo de me
+tomar para sua esposa...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;De novo pe&ccedil;o perd&atilde;o, se assim procedi, mas
+julguei que ninguem melhor do que elle podia ser interprete
+dos meus sentimentos junto de v. ex.<sup>a</sup>... Nos
+tempos que v&atilde;o correndo &eacute; t&atilde;o
+frequente v&ecirc;r-se um seductor
+abusar da hospitalidade de um homem de bem
+para lhe ludibriar uma filha, que eu julguei um dever
+de honra, antes de tudo, patentear a quem t&atilde;o
+generosamente me acolhia as nobres e puras
+inten&ccedil;&otilde;es
+do meu cora&ccedil;&atilde;o apaixonado! Se errei, v. ex.<sup>a</sup>
+saber&aacute;
+perdoar-me o inconsiderando passo com que pude contrarial-a,
+em atten&ccedil;&atilde;o aos honestos sentimentos que
+me moveram.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; v. ex.<sup>a</sup> um homem de bem e por
+isso mesmo
+ha-de saber comprehender e avaliar os justos melindres
+que me for&ccedil;aram a uma explica&ccedil;&atilde;o
+clara, franca
+e leal da minha situa&ccedil;&atilde;o...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dos labios de v. ex.<sup>a</sup> est&aacute;
+dependente a minha
+sorte, o meu futuro, a minha vida. Pe&ccedil;o-lhe que falle
+como &aacute; pessoa que mais a ama e que mais ardentemente
+deseja merecer-lhe inteira confian&ccedil;a!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois bem; em primeiro logar, o meu cora&ccedil;&atilde;o
+j&aacute; n&atilde;o est&aacute; livre&#8213;disse Beatriz&#8213;Amo
+e sou amada
+com o sincero e vehemente am&ocirc;r de duas almas irm&atilde;s
+que desejam unir-se no mesmo destino...
+<br />
+
+<br />
+
+Eugenio levantou-se de golpe, simulando uma muito
+bem fingida commo&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Beatriz!&#8213;disse elle arrebatadamente tentando
+apoderar-se das m&atilde;os da joven&#8213;n&atilde;o posso
+cr&ecirc;r que
+haja no mundo quem a ame, quem a adore com o
+santo e fervoroso culto que o meu cora&ccedil;&atilde;o lhe
+tributa!
+&Eacute; possivel que haja, e creio bem que haver&aacute;, quem
+renda o merecido preito &aacute; sua belleza, &aacute;s suas
+virtudes,
+&aacute; nobre e graciosa distinc&ccedil;&atilde;o de sua
+gentil figura.
+Mas amor puro, santo, sincero e vehemente como
+<span class="pagenum">[118]</span>
+este que me agita o peito, que me rouba o socego e a
+tranquillidade e me faz sonhar constantemente na ventura
+de a possuir, de a ter por esposa, de lhe dedicar
+todas as horas da minha vida, todas as alegrias
+da minha existencia... oh, n&atilde;o! n&atilde;o &eacute;
+possivel! Diz-me
+que o seu cora&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute;
+livre... Creio bem que o
+seu cora&ccedil;&atilde;o a engana e toma como sincera
+express&atilde;o
+de verdadeiro amor um sentimento de mera sympathia,
+fugaz, passageiro, como s&atilde;o em geral todas as
+affei&ccedil;&otilde;es que nascem de um olhar, de um sorriso,
+de
+um entretenimento de cartas amorosas, de uma troca
+de simples palavras murmuradas a m&ecirc;do no redomoinhar
+de uma walsa ou na mysteriosa entrevista de
+uma janella para a rua!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Engana-se, sr. Eugenio de Mello!&#8213;retorquiu
+Beatriz&#8213;Este amor que me prende o cora&ccedil;&atilde;o a
+outro
+cora&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o &eacute; um d'esses
+caprichosos sentimentos
+de futil galanteio, que nascem n'um dia para morrerem
+no outro; &eacute;, pelo contrario, uma paix&atilde;o
+verdadeira,
+profunda, sinceramente sentida e a que est&aacute;
+indissoluvelmente
+presa para sempre a nossa existencia,
+o nosso destino...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Todavia&#8213;observou Eugenio com um sorriso
+levemente desdenhoso&#8213;essa declara&ccedil;&atilde;o de v. ex.<sup>a</sup>
+harmonisa-se bem pouco com as esperan&ccedil;as que me
+pareceu traduzir na resposta dada por v. ex.<sup>a</sup> a
+seu
+pae e que elle me transmittiu &aacute;cerca do nosso enlace...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; justamente por isso que desejei fallar-lhe&#8213;volveu
+Beatriz, com altiva dignidade.&#8213;Quando meu
+pae me fez sciente das honrosas pretens&otilde;es de v. ex.<sup>a</sup>
+&aacute; minha m&atilde;o, recusei terminantemente,
+dispensando-me
+de declarar os poderosos motivos que determinavam
+a recusa. Meu pae insistiu e eu reagi, pois n&atilde;o
+reconhe&ccedil;o &aacute; auctoridade paterna o direito de
+disp&ocirc;r
+do cora&ccedil;&atilde;o dos filhos para os obrigar a um enlace
+que
+s&oacute; uma sentida affei&ccedil;&atilde;o determina.
+Amea&ccedil;ou-me com
+<span class="pagenum">[119]</span>
+rigores, com violencias, com a sahida immediata de
+casa para um convento. Nada d'isso me intimidou nem
+me demoveu do meu proposito. A final, meu pae declarou-me
+com franqueza que o motivo da sua insistencia
+para que esta uni&atilde;o se realise &eacute; o estado de
+ruina financeira em que se encontra e que de um momento
+para o outro amea&ccedil;a deixar-nos sem tecto e sem
+p&atilde;o. Chorou, lamentando a sua e a minha miseria, e
+declarou-me que, tendo posto toda a esperan&ccedil;a de
+salva&ccedil;&atilde;o
+n'este casamento, desde que eu o recusava, faria
+saltar os miolos com um tiro na cabe&ccedil;a e que a
+mim me ficaria o remorso de lhe ter causado a morte.
+Foi ent&atilde;o que, para o socegar, prometti annuir aos
+seus desejos com a condi&ccedil;&atilde;o de que
+pr&eacute;viamente me
+seria permittido fallar com v. ex.<sup>a</sup>. Eis tudo o
+que se
+passou e eis o que tenho a dizer-lhe: Querer&aacute; v. ex.<sup>a</sup>
+acceitar por esposa uma mulher cujo cora&ccedil;&atilde;o
+pertence
+a outro e que unicamente,&#8213;unicamente, tome v. ex.<sup>a</sup>
+nota&#8213;por salvar a vida de seu velho pae, faz o sacrificio
+da sua vida e do seu amor, acceitando o enlace
+que v. ex.<sup>a</sup> lhe prop&otilde;e?
+<br />
+
+<br />
+
+Eugenio ficou um momento indeciso ante a rude
+crueza d'esta inesperada pergunta que punha em cheque
+os seus brios d'homem, a t&atilde;o apregoada dignidade
+dos seus sentimentos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E v. ex.<sup>a</sup> no meu logar o que faria?&#8213;disse
+elle por fim, respondendo com esta pergunta &aacute; pergunta
+que lhe f&ocirc;ra feita.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois que lhe fallo d'esta maneira, &eacute; porque n&atilde;o
+julgo acceitavel uma uni&atilde;o em taes circumstancias.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N'esse caso, o que &eacute; que v. ex.<sup>a</sup>
+exige de mim?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tudo o que p&oacute;de exigir-se d'um homem digno.
+Que v. ex.<sup>a</sup>, guardando absoluto silencio sobre
+os motivos
+que acabo de exp&ocirc;r-lhe, simule reconsiderar e
+d&ecirc; como irrealisavel a uni&atilde;o que projectou.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! isso nunca!&#8213;protestou vivamente o bohemio&#8213;Com
+<span class="pagenum">[120]</span>
+que pretexto diria eu a seu pae que lhe
+rejeitava a m&atilde;o da filha? Isso envolveria n&atilde;o
+s&oacute; uma
+violencia cruel ao meu cora&ccedil;&atilde;o, como uma affronta
+gravissima &aacute; honra de v. ex.<sup>a</sup>. E eu
+que a amo, eu
+que fa&ccedil;o consistir toda a minha ventura na dita immensa
+de a ter por esposa, havia de ser o primeiro a
+lan&ccedil;ar na reputa&ccedil;&atilde;o de v. ex.<sup>a</sup>
+o
+stygma affrontoso
+de um repudio aviltante?! Repare v. ex.<sup>a</sup> que
+isso &eacute;
+exigir-me mais que a propria vida!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois bem; n&atilde;o diga v. ex.<sup>a</sup> que
+desiste inteiramente
+das suas pretens&otilde;es a esta uni&atilde;o impossivel;
+mas busque, pelo menos, um pretexto para o addiamento
+indefinido... Ser-lhe-ha facil pretextar embara&ccedil;os
+emprevistos, uma viagem longa, demorada...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quer v. ex.<sup>a</sup> dizer que me afaste, que deixe
+de a ver, de lhe fallar, de viver na mesma terra em
+que v. ex.<sup>a</sup> vive, de frequentar os mesmos
+logares
+que v. ex.<sup>a</sup> frequenta, de respirar o mesmo ar
+que
+v. ex.<sup>a</sup> respira!&#8213;exclamou o bohemio n'um
+fingido
+rapto de desesperada eloquencia&#8213;E emquanto eu,
+distante, na solid&atilde;o e no abandono da minha retirada
+terra de provincia, curto as d&ocirc;res e as amarguras de
+um amor sem esperan&ccedil;a, fica um
+<em>outro</em>, um
+<em>outro</em> a
+quem v. ex.<sup>a</sup> ama, na posse feliz do seu
+cora&ccedil;&atilde;o,
+gosando
+tranquillo as suaves delicias do amor correspondido!
+&Eacute; por demais cruel, minha senhora! E eu,
+francamente, n&atilde;o lhe mere&ccedil;o o atroz supplicio a
+que
+quer condemnar-me!
+<br />
+
+<br />
+
+Estas palavras foram proferidas com um mixto
+de indigna&ccedil;&atilde;o e amargura tal, que Beatriz
+n&atilde;o
+p&ocirc;de deixar de c&oacute;rar, pensando que tinha sido
+demasiado
+impiedosa no seu egoismo de mulher apaixonada.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pe&ccedil;o perd&atilde;o&#8213;balbuciou ella&#8213;mas propondo
+isto, eu parto do principio de que v. ex.<sup>a</sup>, como
+homem
+digno, n&atilde;o p&oacute;de pensar mais em que eu seja sua
+<span class="pagenum">[121]</span>
+esposa e de que o meu nome deve, por esse motivo,
+ser para sempre banido da sua lembran&ccedil;a...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh, minha senhora! Como conhece mal o cora&ccedil;&atilde;o
+do homem que ama com o ardor e enthusiasmo
+com que eu amo a v. ex.<sup>a</sup>!&#8213;exclamou cynicamente
+o bohemio.&#8213;Se antes de a ouvir eu tinha motivos
+para a desejar, para querer ser o possuidor unico de
+esse precioso thesouro d'encantos e perfei&ccedil;&otilde;es
+que fazem
+de v. ex.<sup>a</sup> a creatura mais adoravel do Universo,
+agora, depois de a ouvir, esses motivos redobram e
+impellem o meu cora&ccedil;&atilde;o a amal-a doidamente! V.
+ex.<sup>a</sup>
+est&aacute; pobre. Eu sou rico. Do meu casamento com v.
+ex.<sup>a</sup> depende n&atilde;o s&oacute; o seu
+futuro tranquillo e
+feliz,
+mas ainda a vida do seu proprio pae, esse amigo
+inestimavel a quem me prendem tantos la&ccedil;os de sincera
+affei&ccedil;&atilde;o. J&aacute; n&atilde;o fallo de
+mim, do meu cora&ccedil;&atilde;o
+para sempre morto aos golpes crueis de uma desillus&atilde;o
+sem esperan&ccedil;a... Mas poderia eu, sem ser um
+miseravel cobarde, abandonar &aacute; pobreza e aos horrores
+do desesp&ecirc;ro a mulher que amo e a vida do amigo
+que tanto pr&eacute;so? E tudo isto para qu&ecirc;? Para que
+um desconhecido, um homem que eu nunca vi, que
+n&atilde;o estimo, que n&atilde;o sei quem &eacute;,
+n&atilde;o seja perturbado
+nos seus caprichosos sonhos de uma felicidade que n&atilde;o
+tem nem p&oacute;de dar!
+<br />
+
+<br />
+
+A estas palavras, Beatriz levantou-se pallida, e
+tremula, agitada por uma commo&ccedil;&atilde;o indescriptivel.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sr. Eugenio de Mello&#8213;disse ella com os olhos
+brilhantes de indigna&ccedil;&atilde;o&#8213;o homem de quem falla
+n&atilde;o
+pediu nada a v. ex.<sup>a</sup>, nem eu quiz com as minhas
+palavras collocal-o sob a al&ccedil;ada dos seus juizos temerarios.
+N&atilde;o se trata d'elle: trata-se de mim, trata-se de
+n&oacute;s. V. ex.<sup>a</sup> persiste na ideia d'este
+casamento,
+n&atilde;o
+obstante saber que amo outro homem e que s&oacute; por
+salvar a vida de meu pae &eacute; que eu poderia consentir
+em conceder-lhe a m&atilde;o de esposa?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[122]</span> &#8213;Se eu a amo tanto! Se eu a adoro e espero que
+&aacute; for&ccedil;a de dedica&ccedil;&atilde;o e de
+sacrificios hei-de fazer-me
+tambem amar por v. ex.<sup>a</sup>!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nunca! Nunca!&#8213;protestou Beatriz&#8213;Mulheres
+como eu, amam uma s&oacute; vez na vida e s&oacute; podem
+pertencer d'alma e cora&ccedil;&atilde;o ao homem a quem se
+dedicaram.
+<br />
+
+<br />
+
+Nos labios de Eugenio volitou um sorriso ironico.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;V. ex.<sup>a</sup> &eacute; livre, minha
+senhora&#8213;replicou
+elle&#8213;P&oacute;de
+impunemente matar seu pobre pae e matar-me
+tambem a mim com a sua recusa... O que
+n&atilde;o conseguir&aacute; &eacute; fazer-me cumplice
+n'esse parricidio
+e tampouco que eu acceite voluntariamente a morte
+a que me condemna, em premio de tanto amor que
+lhe consagro.
+<br />
+
+<br />
+
+Beatriz encarou-o fixamente. No seu olhar havia
+um desprezo mortal, uma d'estas condemna&ccedil;&otilde;es
+terriveis
+que cavam um eterno abysmo de odio entre dois
+s&ecirc;res.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tenho entendido, senhor&#8213;disse ella em tom
+breve e secco&#8213;Preciso de meditar nas suas palavras
+antes de dar uma resposta definitiva. Meu pae o informar&aacute;
+da minha resolu&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Inclinou a cabe&ccedil;a ligeiramente, n'um movimento
+de despedida, e sahiu da sala com altiva serenidade.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tens cabellinho na venta&#8213;disse comsigo o bohemio,
+descendo as escadas que conduziam ao escriptorio
+do Custodio&#8213;mas, se me caes nas m&atilde;os, eu te
+porei macia que nem velludo!...
+<br />
+
+<br />
+
+No escriptorio estavam j&aacute; o Custodio e o Belchior,
+anciosos por saberem o que se estaria passando entre
+Beatriz e Eugenio.
+<br />
+
+<br />
+
+Quando o mancebo appareceu &aacute; porta, os olhares
+dos dois patifes cravaram-se perscrutadores no rosto
+do bohemio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o?&#8213;perguntaram ao mesmo tempo.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[123]</span> &#8213;Quartel-general em Abrantes. Tudo como d'antes.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas o que disse ella?&#8213;insistiu o Custodio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Contou-me toda a scena da pobreza que o meu
+amigo lhe metteu em cabe&ccedil;a; disse-me que amava
+outro homem, e que s&oacute; pelo receio de que o meu
+amigo se matasse &eacute; que condescendeu em dar
+esperan&ccedil;as
+d'acceitar o casamento. Queria que eu desse o
+dito por n&atilde;o dito, que desistisse de a querer para esposa...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas voc&ecirc; nem
+<em>nentes</em>!&#8213;atalhou o Belchior ancioso
+por se inteirar de tudo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; visto! Recusei, porque a amo, porque a
+adoro sinceramente, e voc&ecirc; amigo Belchior bem sabe
+se isto &eacute; verdade...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E ella?&#8213;interrogou o Custodio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Despediu-me dizendo, que, visto isso, ia pensar
+e depois daria resposta definitiva...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Amigo Custodio!&#8213;disse o Belchior, batendo
+familiarmente no hombro do usurario&#8213;o caso agora
+&eacute; comsigo... Aperte-me a pequena... torne a representar
+a scena da pobreza at&eacute; ella dizer que sim...
+Tenha pena d'este pobre diabo, que anda aqui pelo
+queixo!...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o tem duvida!&#8213;aquietou o Custodio&#8213;Ella
+ha de ir... O que eu quiz foi apanhar-lhe o
+<em>fraco</em>...
+Se f&ocirc;r preciso, at&eacute; dou um tiro para o ar, a
+fingir
+que me mato... E ella ha de ir!...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[124]</span>
+<h3><a name="c8"></a>VIII<br />
+
+<br />
+
+Entre irm&atilde;os
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Paulo de Noronha, depois que se filiara na
+<em>M&atilde;o-Negra</em>,
+n&atilde;o obstante saber que um rival lhe disputava
+a posse de Beatriz, alimentava a esperan&ccedil;a bem fagueira
+de conquistar em breve uma posi&ccedil;&atilde;o que lhe
+permittisse apresentar-se a Custodio a pedir-lhe a m&atilde;o
+da filha.
+<br />
+
+<br />
+
+Preoccupava-o, por&eacute;m, a ideia de que sobre o seu
+nascimento pesava um mysterio que elle n&atilde;o sabia explicar
+e que o havia de collocar em terriveis embara&ccedil;os,
+quando o pae da Beatriz muito naturalmente lhe
+perguntasse o nome de seus paes.
+<br />
+
+<br />
+
+O pobre rapaz n&atilde;o conhecia o usurario. Suppunha-o
+um homem honesto, buscando para a filha uma
+allian&ccedil;a <em>limpa</em>, e o
+sigillo que o padre Filippe e madre
+Paula se obstinaram em guardar &aacute;cerca d'aquelles
+a quem devia a existencia, fazia-o tremer pelos
+resultados da pergunta a que n&atilde;o podia responder.
+<br />
+
+<br />
+
+Elle ignorava que Beatriz tambem n&atilde;o tivera nascimento
+legitimo e que, se podia apresentar-se como
+filha de um homem que a perfilhara, esse homem n&atilde;o
+era seu pae.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[125]</span>
+O padre Filippe aconselhara-o a que revelasse a
+madre Paula os segredos do seu cora&ccedil;&atilde;o e ouvisse
+os
+conselhos que ella maternalmente entendesse dever
+dar-lhe.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas se o padre Filippe se retrahia e teimava em
+n&atilde;o o elucidar &aacute;cerca do seu mysterioso
+nascimento, o
+mancebo julgou, e com raz&atilde;o, que madre Paula tambem
+nada mais adiantaria a esse respeito.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o procurou, pois, madre Paula e preferiu procurar
+o seu amigo Jorge, o mesmo que o inici&aacute;ra nos
+mysterios da <em>M&atilde;o-Negra</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Posso fallar-te com franqueza, n&atilde;o &eacute; verdade,
+Jorge?&#8213;perguntou-lhe elle.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como se fallasses a um irm&atilde;o&#8213;replicou o outro&#8213;Desde
+hontem que nos achamos ligados indissoluvelmente
+pelos la&ccedil;os de uma associa&ccedil;&atilde;o secreta
+em
+que &eacute; condi&ccedil;&atilde;o essencial que os
+filiados se considerem
+e se amem como verdadeiros irm&atilde;os.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois muito bem. Vou fallar-te como a um irm&atilde;o
+e espero que como tal prestar&aacute;s
+atten&ccedil;&atilde;o ao que vou
+dizer-te.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Falla.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como te expliquei, amo uma mulher que &eacute; todo
+o meu pensamento, todo o meu sonho, toda a grande
+aspira&ccedil;&atilde;o da minha vida!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; m'o disseste.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Essa mulher corresponde com lealdade e com
+ardor ao sentimento affectuoso que me inspirou. Mas
+tem pae, um homem rico, um argentario que busca
+para a filha uma allian&ccedil;a vantajosa, allian&ccedil;a de
+dinheiro,
+e que ha de necessariamente repellir-me com
+desdem, quando souber que eu, simples academico,
+apenas rico d'esperan&ccedil;as no futuro, lhe pretendo a
+m&atilde;o da filha...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas&#8213;objectou Jorge&#8213;que necessidade tens
+<span class="pagenum">[126]</span>
+de que elle o saiba antes de haveres conquistado a
+posi&ccedil;&atilde;o
+que te ha de permittir constituir familia?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A necessidade est&aacute; bem patente desde que elle
+pensa em casar Beatriz com um rapaz rico, que se
+apresenta como pretendente &aacute; sua m&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! ah!&#8213;fez Jorge&#8213;E a pequena?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tenciona opp&ocirc;r a mais tenaz recusa. Mas o pae
+&eacute; rispido, severo, chega mesmo a ser
+brutal... &Eacute;
+capaz de querer imp&ocirc;r pela violencia este enlace e,
+comquanto eu n&atilde;o receie pela firmeza e constancia de
+Beatriz, receio comtudo pelos maus tratos e soffrimentos
+que o pae &eacute; capaz de lhe inffligir...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o estamos em terra de selvagens&#8213;replicou
+Jorge sorrindo.&#8213;Como se chama esse
+<em>amavel</em> progenitor?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Custodio de Jesus....
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mora?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Na rua do Principe.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E o outro?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Qual outro?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O teu pretendido rival?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o o conhe&ccedil;o. Sei apenas que se chama Eugenio
+de Mello.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eugenio de de Mello... &Eacute; do Porto?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o; supponho que &eacute; um rico proprietario na
+provincia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; <em>entrado</em> na edade,
+n&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pelo contrario. &Eacute; novo ainda. Bem v&ecirc;s que lhe
+chamei um rapaz.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Os homens ricos s&atilde;o sempre
+<em>rapazes</em> em quest&atilde;o
+de casamento... A mocidade tem para elles a
+dura&ccedil;&atilde;o do seu dinheiro...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas este, mesmo pobre que f&ocirc;sse, seria ainda
+rapaz.
+<br />
+
+<br />
+
+Jorge tomou apontamento d'estes nomes n'uma carteira.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p127">[127]</a></span> &#8213;Muito bem!&#8213;disse elle&#8213;Urge, antes de tudo,
+conhecer os adversarios com quem temos que medir-nos...
+Eu vou obter informa&ccedil;&otilde;es e veremos depois o
+que convem fazer...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas poderei ao menos alimentar esperan&ccedil;as?...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dou-te a certeza de que esse casamento n&atilde;o se
+far&aacute; e de que Beatriz n&atilde;o ser&aacute;
+maltratada pelo pae...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Obrigado, meu amigo, meu irm&atilde;o!&#8213;exclamou
+Paulo, cahindo-lhe nos bra&ccedil;os.&#8213;Escuta ainda,&#8213;continuou. &#8213;Preciso de te dizer tudo. Entre n&oacute;s n&atilde;o deve
+haver segredos...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Falla, meu irm&atilde;o!
+<br />
+
+<br />
+
+Paulo hesitou um instante. A face roborisara-se-lhe
+de vergonha.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Chamas-me <em>irm&atilde;o</em>&#8213;e
+comtudo eu creio que n&atilde;o
+posso ser irm&atilde;o de ninguem.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Porque?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Porque n&atilde;o tenho pae nem m&atilde;e, porque eu
+mesmo, sabendo o que sou, ignoro quem sou!
+<br />
+
+<br />
+
+Contou-lhe ent&atilde;o o desespero em que se debatia
+por n&atilde;o conhecer o segredo do seu nascimento. Conhecia
+apenas o padre Filippe e madre Paula como
+seus protectores, ignorando comtudo porque serie de
+circumstancias se encontrava sob a tutella d'aquelles
+dois religiosos, recebendo toda a protec&ccedil;&atilde;o e
+amparo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;V&ecirc; tu, pois, meu amigo, as terriveis circumstancias
+em que me encontro!&#8213;concluiu elle desalentado.&#8213;Ainda
+que me encontrasse de um momento
+para o outro em <a href="#e15">circumstancias</a>
+de pedir
+Beatriz, como
+poderia eu fazel-o n&atilde;o sabendo o nome de meus paes?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Os irm&atilde;os da
+<em>M&atilde;o-Negra</em>&#8213;disse Jorge
+gravemente&#8213;s&atilde;o
+todos filhos do mesmo pae&#8213;o Pensamento
+Altruista que os reuniu e congregou, e da mesma
+m&atilde;e&#8213;a Associa&ccedil;&atilde;o Invencivel que os
+protege e
+lhes d&aacute; for&ccedil;a. Com semelhante parentesco qualquer
+de n&oacute;s p&oacute;de considerar-se sufficientemente
+nobilitado
+<span class="pagenum">[128]</span>
+para aspirar &aacute; m&atilde;o da mais nobre e rica princeza
+do
+mundo, quanto mais &aacute; de uma simples burguesinha,
+filha de um rico burguez chamado Custodio de Jesus!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o duvido da grandeza e poder da nossa
+Associa&ccedil;&atilde;o,
+meu amigo; mas, pelo caracter secreto que
+a reveste, o facto de pertencer-lhe n&atilde;o constitue titulo,
+que possamos apresentar publicamente, em abono
+da origem honesta do nosso nascimento...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O homem&#8213;volveu Jorge&#8213;creatura de Deus,
+n&atilde;o p&oacute;de ser jamais responsavel por actos que
+n&atilde;o
+praticou nem estava na sua m&atilde;o impedir. Tanta culpa
+teve elle em nascer filho do mais infimo ladr&atilde;o,
+como gloria em descender do mais poderoso monarcha
+da terra. Filho d'um criminoso ou filho de um rei,
+elle &eacute; sempre um homem <em>igual aos
+outros</em> e d'elles s&oacute;
+p&oacute;de distanciar-se pelos seus talentos e virtudes proprias,
+ou ser-lhes inferior pelas suas abjec&ccedil;&otilde;es e pelos
+seus crimes.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! meu amigo! que bella e s&atilde; doutrina seria
+essa, se todos os homens a comprehendessem assim!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para isso trabalhamos e nem outro &eacute; o pensamento
+que nos une. Temos de luctar, bem sei, contra
+o preconceito, contra o prejuizo de muitos seculos,
+contra a <em>rotina</em>&#8213;que &eacute; a
+famosa trincheira erguida
+a impedir a marcha do aperfei&ccedil;oamento moral da humanidade.
+Mas se n&atilde;o houvesse lucta, n&atilde;o seria
+t&atilde;o
+glorioso o triumpho nem teria tanto valor a conquista.
+<br />
+
+<br />
+
+Dizendo isto, Jorge apertou a m&atilde;o a Paulo e despediu-se,
+deixando o mancebo mais tranquillo e confiado
+no futuro.
+<br />
+
+<br />
+
+Sigamos Jorge e vejamol-o bater &aacute; porta de uma
+casa de modesta apparencia, na rua de S. Bento da
+Victoria...
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; um predio de dois andares, que nada tem de
+notavel e que quasi se confunde na linha de casas
+modestas, sen&atilde;o pobres, que se erguem do lado nascente
+<span class="pagenum">[129]</span>
+d'aquella rua, em frente &aacute;
+Rela&ccedil;&atilde;o, desde a esquina
+dos Martyres da Patria at&eacute; &aacute; travessa de S.
+Bento da Victoria.
+<br />
+
+<br />
+
+Posto fosse de dia, a porta principal d'esse predio
+permanecia fechada. Mas logo que Jorge bateu abriu-se,
+franqueando-lhe a passagem.
+<br />
+
+<br />
+
+Todavia, no portal n&atilde;o appareceu pessoa alguma,
+e assim que o amigo de Paulo transpoz a entrada,
+tornou a fechar-se sem que alguem a impellisse.
+<br />
+
+<br />
+
+Jorge, que parecia familiarisado com estes estranhos
+habitos da casa, penetrou no corredor escuro do
+portal e subiu o primeiro lan&ccedil;o das escadas at&eacute;
+ao
+primeiro andar.
+<br />
+
+<br />
+
+Chegando ahi, parou em frente da porta de uma
+sala que ficava para o lado das trazeiras do predio e
+pronunciou em latim:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;<em>Licet?</em>
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Entrae!&#8213;disse de dentro uma voz.
+<br />
+
+<br />
+
+Jorge empurrou a porta e entrou n'uma sala, ao
+centro da qual se via uma ampla mesa de carvalho,
+coberta de livros e papeis e a que estava sentado um
+homem, de roupas escuras e oculos verdes. A longa
+barba grisalha que lhe descia at&eacute; ao peito dava-lhe
+um aspecto de patriarca biblico, que infundia respeito
+e terror a quem pela primeira vez se encontrava na
+sua presen&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+Rodeado de livros que se viam espalhados pelo
+ch&atilde;o, em cima das cadeiras e collocados em desordem
+nas estantes que cobriam as paredes, desde o soalho at&eacute;
+ao tecto, n&atilde;o era preciso grande esfor&ccedil;o de
+intelligencia
+para desde logo comprehender que se estava em presen&ccedil;a
+de um homem de estudo, sabedor e profundo.
+<br />
+
+<br />
+
+Jorge foi passando peio estreito carreiro que se
+abria entre rumas de livros, da porta at&eacute; &aacute; mesa,
+fazendo
+prodigios de equilibrio para n&atilde;o p&ocirc;r os
+p&eacute;s sobre
+os volumes que lhe obstruiam a passagem.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[130]</span> &#8213;&Eacute; preciso estar na gra&ccedil;a de Deus e ter azas
+como os cherubins&#8213;disse elle rindo&#8213;para entrar
+no vosso sanctuario, sem pisar aos p&eacute;s a sciencia,
+Mestre!
+<br />
+
+<br />
+
+O homem dos oculos verdes ergueu a cabe&ccedil;a, fitou-o
+por tr&aacute;s dos oculos e respondeu grave e pausado:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;S&oacute; a sciencia v&atilde; cahe por terra e desapparece
+esmagada pelo p&eacute; inclemente do homem, na sua marcha
+para o Bem, para a Verdade e para a Justi&ccedil;a.
+A verdadeira sciencia, por&eacute;m, n&atilde;o sente mais o
+pezo
+de um p&eacute; que se lhe p&otilde;e em cima do que a torre
+dos Clerigos o pezo de uma m&ocirc;sca que v&aacute; pouzar-lhe
+no p&aacute;ra-raios.
+<br />
+
+<br />
+
+Indicou uma cadeira desoccupada que se achava
+junto da sua, e disse ao recem-chegado:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sentae-vos, meu amigo. J&aacute; c&aacute; vos esperava e
+estava estranhando a vossa demora...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mestre&#8213;respondeu o outro&#8213;teria vindo mais
+c&ecirc;do, se um caso novo, de que urge tratar, me n&atilde;o
+tivesse tomado o tempo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Um caso novo! O que temos, pois?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Uma injusti&ccedil;a grave, uma monstruosidade revoltante
+de que se pretende fazer victima um dos irm&atilde;os
+da <em>M&atilde;o-Negra</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A <em>M&atilde;o Negra</em> tem
+j&aacute; for&ccedil;a e poder bastante
+para desviar de sobre a cabe&ccedil;a de seus
+<em>irm&atilde;os</em> a iniquidade
+e a injusti&ccedil;a dos homens, por muito alto que
+elles estejam collocados. De que se trata?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Do ultimo iniciado no nosso gremio, de Paulo
+de Noronha...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! O que lhe succede?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Este rapaz ama uma mulher, que corresponde
+ardentemente ao seu amor. O pae d'ella, por&eacute;m, rico
+capitalista, pretende violental-a a casar com um herdeiro
+rico, que ella n&atilde;o deseja nem estima.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[131]</span> &#8213;E sabe elle dos amores da filha com Paulo?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o o deve saber, pois que este nosso
+<em>irm&atilde;o</em>,
+movido de honestos e nobres intuitos, n&atilde;o se julga
+auctorisado
+a tornar ostensivos os sentimentos amorosos
+do seu cora&ccedil;&atilde;o, emquanto n&atilde;o houver
+conquistado uma
+posi&ccedil;&atilde;o social que lhe permitta pedir a
+m&atilde;o da mulher
+que ama.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que deseja elle ent&atilde;o? Que lhe conquistemos
+a posi&ccedil;&atilde;o de que precisa?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;De modo nenhum. Paulo tudo espera do seu esfor&ccedil;o
+proprio. Simplesmente o que desejaria era que a
+mulher que ama e em que faz consistir toda a sua
+ventura n&atilde;o fosse compellida a unir-se a um outro.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; na m&atilde;o d'ella. Que recuse.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas a recusa, Mestre, importa o supplicio da
+pobre menina, e &eacute; isso o que Paulo pretende evitar.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois bem. A <em>M&atilde;o-Negra</em>
+cumprir&aacute; o seu dever.
+Como se chama o pae d'essa menina?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Custodio de Jesus?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E o pretendido noivo?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eugenio de Mello.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Cumpre, antes de tudo, averiguar quem sejam
+esses dois homens; conhecer-lhes a biographia, saber
+porque serie de circumstancias vieram a encontrar-se e
+a alliar-se para uma violencia d'essa ordem.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Assim entendo que deve ser; e se v&oacute;s, Mestre,
+n&atilde;o ordenaes o contrario, eu mesmo me encarregarei
+do todos esses trabalhos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois que assim o quereis, nada impede que procedaes.
+Conheceis todos os <em>irm&atilde;os</em>
+que podem prestar-nos
+auxilio. Recorrei a elles, e colhidas as
+informa&ccedil;&otilde;es,
+procederemos como f&ocirc;r de justi&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+Jorge inclinou-se.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Temos ainda mais&#8213;disse elle.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O qu&ecirc;?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[132]</span> &#8213;Paulo n&atilde;o conheceu seus paes, e ignora por completo
+o segredo do seu nascimento...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que p&oacute;de isso importar-lhe? Se os que lhe deram
+o s&ecirc;r o repudiaram, que tem o filho que v&ecirc;r com
+os paes que o n&atilde;o quizeram ser?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Perd&atilde;o, Mestre! &Eacute; essa a grande duvida e
+portanto
+o grande tormento do pobre rapaz... Paulo n&atilde;o
+pode dizer-se um <em>abandonado</em>... A sua
+infancia correu
+sob a protec&ccedil;&atilde;o carinhosa de dois religiosos, um
+padre e uma freira, e ainda agora s&atilde;o elles os que
+occorrem, como sempre, a todas as despezas da sua
+educa&ccedil;&atilde;o scientifica.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Conhece elle esses protectores?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Conhece-os e dedica-lhes verdadeira affei&ccedil;&atilde;o
+filial!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N'esse caso, porque n&atilde;o pensa esse rapaz que
+p&oacute;dem ser elles os seus proprios paes?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o s&atilde;o, porque madre Paula foi sua madrinha
+e o padre Filippe n&atilde;o usa o appellido Noronha...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Madre Paula e padre Filippe, dizeis?&#8213;interrogou
+o homem dos oculos verdes com um leve trem&ocirc;r
+na voz.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim. S&atilde;o estes religiosos os protectores de Paulo
+de Noronha.
+<br />
+
+<br />
+
+O homem a quem Jorge dava o respeitoso tratamento
+de <em>Mestre</em>, cruzou os
+bra&ccedil;os, inclinou a cabe&ccedil;a
+sobre o peito e ficou por algum tempo immerso em
+profunda reflex&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Dir-se-hia que os nomes de madre Paula e padre
+Filippe lhe tinham despertado tristes
+recorda&ccedil;&otilde;es, porque,
+ao levantar a cabe&ccedil;a e reprimindo a custo um
+fundo suspiro, disse, mal disfar&ccedil;ado ainda o tremor da
+voz:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pensaremos n'isso, veremos se ser&aacute; conveniente
+indagar a verdadeira origem d'esse rapaz.
+<br />
+
+<br />
+
+Depois accrescentou:
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[133]</span> &#8213;Ha mysterios de tal modo tenebrosos na vida
+do homem, que &aacute;s vezes mais vale n&atilde;o querer
+desvendal-os
+nunca... Ide, e deixae-me s&oacute;, meu amigo.
+<br />
+
+<br />
+
+Jorge levantou-se.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Amanh&atilde;&#8213;disse elle&#8213;deve reunir o capitulo
+e l&aacute; nos encontraremos &aacute; hora do costume.
+&Eacute; possivel
+mesmo que d'aqui at&eacute; l&aacute; eu tenha podido obter os
+esclarecimentos
+que desejamos &aacute;cerca de Custodio de
+Jesus e de Eugenio de Mello.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se assim acontecer&#8213;replicou o homem dos
+oculos verdes&#8213;poderemos deliberar em capitulo o que
+convir&aacute; fazer.
+<br />
+
+<br />
+
+Jorge inclinou-se e sahiu com as mesmas
+precau&ccedil;&otilde;es
+com que havia entrado para n&atilde;o calcar com os
+p&eacute;s os livros dispersos pelo sobrado.
+<br />
+
+<br />
+
+Ao vel-o sahir, o homem dos oculos fincou os cotovellos
+sobre a mesa, encostou a fronte &aacute;s m&atilde;os e ficou
+assim por largo tempo, engolfado em profundo scismar.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Madre Paula e padre Filippe!&#8213;disse elle por
+fim.&#8213;Porque extraordinario acaso se encontram estes
+dois nomes ligados &aacute; existencia d'esse adolescente
+que usa o mesmo appellido da <em>Irm&atilde;
+Doroth&ecirc;a</em>?
+<br />
+
+<br />
+
+Pegou de uma penna e tra&ccedil;ou algumas palavras em
+um papel que dobrou por fim cuidadosamente, lacrando-o
+em seguida.
+<br />
+
+<br />
+
+Depois, abriu a gaveta da mesa e tirou d'ella um
+grosso volume encadernado a preto, que abriu e come&ccedil;ou
+folheando.
+<br />
+
+<br />
+
+As paginas d'este livro estavam todas em branco.
+No emtanto, o mysterioso personagem ia volvendo-as
+com um sorriso amargo a vincar-lhe os labios, como
+se do fundo branco d'aquellas folhas resaltasse um
+pensamento negro.
+<br />
+
+<br />
+
+Chegando ao ponto em que uma fita preta, intercalada
+nas folhas, punha uma especie de signal, o novo
+personagem, fez saltar a mola de um tinteiro em
+<span class="pagenum">[134]</span>
+f&oacute;rma de caixa, pegou de uma penna de pato, que molhou
+n'esse tinteiro, e come&ccedil;ou escrevendo vertiginosamente.
+Ao passo, por&eacute;m, que a penna ia tra&ccedil;ando as
+palavras, estas iam-se apagando rapidamente; retomando
+o papel a sua brancura immaculada.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; que o homem dos oculos verdes escrevia com
+tinta sympathica.
+<br />
+
+<br />
+
+Que mysteriosos pensamentos lan&ccedil;aria elle n'aquelle
+papel que os guardava discreto, como um vasto
+mar guarda no fundo os coraes e as perolas, as algas
+e os peixes que o povoam, sem que a esmeraldina superficie
+das suas aguas denuncie a existencia dos
+thesouros que elle occulta no seio?<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[135]</span>
+<h3><a name="c9"></a>IX<br />
+
+<br />
+
+Amores faceis
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Eugenio de Mello, deixando o procurador e a familia,
+seguiu pela rua de Cedofeita, subiu &aacute; rua dos
+Bragas, desandou &aacute; rua da Sovella e, passando o
+Campo da Regenera&ccedil;&atilde;o, entrou na rua da Rainha.
+<br />
+
+<br />
+
+O relogio da Lapa fazia soar uma hora da madrugada
+quando o bohemio parou em frente de uma
+casa de um unico andar, construc&ccedil;&atilde;o moderna, em
+que se notava decencia e bom gosto.
+<br />
+
+<br />
+
+Eugenio tirou uma chave do bolso, introduziu-a
+na fechadura, abriu a porta e entrou. Subiu os quatro
+degraus de pedra que davam accesso ao corredor,
+sem que o ruido dos passos abafados no tapete parecesse
+dever chamar a atten&ccedil;&atilde;o do dono ou dona da
+casa.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas o bohemio era sem duvida esperado, porque
+a meio do corredor abriu-se uma porta e appareceu no
+limiar uma gentil figura de mulher, trazendo na m&atilde;o
+um casti&ccedil;al de prata em que ardia uma vela.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute;s tu, Eugenio?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sou eu, minha querida!
+<br />
+
+<br />
+
+O bohemio aproximou-se da formosa dama que
+assim lhe fallava, acariciou-lhe amorosamente os longos
+cabellos louros, esparsos sobre o fino roup&atilde;o de
+<span class="pagenum">[136]</span>
+velludo granada que lhe cingia o corpo airoso, e beijou-a
+longamente nos labios.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Demorei-me, n&atilde;o &eacute; verdade?&#8213;perguntou elle,
+lan&ccedil;ando-lhe um bra&ccedil;o &aacute; roda da
+cintura e conduzindo-a
+para o interior da saleta d'onde ella havia surgido.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Principiava a desesperar-me... Imaginei que
+j&aacute; n&atilde;o virias e pensava na maneira de te castigar
+bem castigado pelo teu abandono!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Louquinha! Pois tu pensavas em fazer mal ao
+teu Eugenio, que tanto te quer, que tanto te adora?!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que queres! O ciume come&ccedil;ava a atormentar-me!
+Lembrava-me que estavas talvez nos bra&ccedil;os
+de outra, esquecido da tua Leonor, que s&oacute; &eacute; feliz
+quando te v&ecirc;, quando te tem a seu lado!
+<br />
+
+<br />
+
+A formosa creatura que Eugenio cham&aacute;ra Leonor,
+pousou o casti&ccedil;al sobre um velador de pau &eacute;bano
+que ficava ao lado do marmore do fog&atilde;o, e
+lan&ccedil;ando
+os bra&ccedil;os ao redor do pesco&ccedil;o do mancebo,
+sorveu-lhe
+nos labios, com verdadeiro frenesi, um segundo beijo,
+mais lento e voluptuoso que o primeiro.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas tu n&atilde;o estiveste com outra, n&atilde;o?&#8213;disse
+n'um gemido em que havia receio e esperan&ccedil;a, supplica
+e perd&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que ideia! Estive com uns amigos, de quem
+n&atilde;o pude ver-me livre...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; que eu amo-te tanto que, quando n&atilde;o te
+vejo, penso sempre que te perco, que n&atilde;o voltas mais
+ao p&eacute; de mim, que me esqueces, que foges com outra
+para nunca mais!
+<br />
+
+<br />
+
+Eugenio ria.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Descan&ccedil;a, meu amor... Quem &eacute; que me ha de
+querer? N&atilde;o v&ecirc;s que eu sou t&atilde;o infeliz,
+t&atilde;o desgra&ccedil;ado,
+que n&atilde;o tenho ninguem no mundo que dev&eacute;ras
+me estime sen&atilde;o tu?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E tambem de ninguem mais precisas!&#8213;disse
+com vehemencia a dama loura.&#8213;N&atilde;o estou eu aqui
+<span class="pagenum">[137]</span>
+para te rodear de carinhos, de ternura, de affectos
+que s&oacute; eu sei tributar-te? N&atilde;o preencho eu todas
+as
+necessidades do teu cora&ccedil;&atilde;o, todas as
+ambi&ccedil;&otilde;es da tua
+existencia? N&atilde;o fa&ccedil;o eu por adivinhar os teus
+pensamentos,
+por satisfazer os teus desejos, as tuas mais
+caprichosas phantasias? De quem mais precisas para
+ser feliz, meu amado, meu querido e doce sonho
+d'amor?!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Decerto, decerto, minha querida amiga!&#8213;fez
+Eugenio, suspirando.&#8213;Eu seria feliz, muito feliz
+comtigo, seria o mais ditoso dos homens se...
+<br />
+
+<br />
+
+E interrompeu-se suspirando.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se qu&ecirc;? Anda, acaba!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se fosses minha s&oacute;mente... se eu fosse rico
+bastante para n&atilde;o consentir que outro partilhasse os
+teus affectos...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas eu n&atilde;o o amo!&#8213;protestou a dama loura.&#8213;Bem
+sabes que o n&atilde;o amo, Eugenio! Recebo-o com
+desdem, supporto-o com sacrificio, porque d'elle me
+vem o teu e o meu bem estar... E cada prova que
+elle me d&aacute; do seu amor, cada
+manifesta&ccedil;&atilde;o da sua
+ternura, mais accrescenta o meu tedio e o meu despreso
+por elle!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! se eu f&ocirc;sse rico&#8213;tornou a suspirar o bohemio&#8213;com
+que prazer eu o correria a pontap&eacute;s
+d'esta casa para f&oacute;ra, e com que deliciosa furia eu
+quebraria todos estes crystaes, rasgaria estes tapetes,
+reduzindo tudo a cacos, tudo a farrapos, para s&oacute; salvar
+de todo este mont&atilde;o de ruinas, puro e intacto, o
+adorado cora&ccedil;&atilde;o da minha pobre Leonor!
+<br />
+
+<br />
+
+Levantou-se agitado, passando frenetico as m&atilde;os
+pelos cabellos, n'uma attitude de heroe de melodrama.
+<br />
+
+<br />
+
+Leonor correu a elle, apoiou-lhe nos hombros as m&atilde;os
+alvas e pequeninas, em cujos dedos lusiam brilhantes,
+supplicando:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o! V&aacute;! N&atilde;o sejas louco!... Isto
+ha de acabar
+<span class="pagenum">[138]</span>
+um dia... Bem sabes que elle &eacute; velho... n&atilde;o
+p&oacute;de
+durar muito... E como promette contemplar-me no
+testamento, ainda nos esperam dias muitos felizes...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dias muito felizes!&#8213;repetiu o bohemio com
+desanimo, deixando-se cahir de novo sobre o estofo do
+sof&aacute;.&#8213;Antes d'isso hei-de eu morrer de desespero!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Morrer!&#8213;exclamou a loura, cobrindo-o de cariciosos
+beijos.&#8213;N&atilde;o me falles em morrer, se &eacute;s meu
+amigo, Eugenio! &Eacute;s novo, forte e vigoroso e receias
+que um velho dure mais que tu?!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o! eu n&atilde;o temo que a morte me colha antes
+do tempo... Mas tenho um vago presentimento de que
+serei eu que hei-de ir ao encontro da morte... &Aacute;s
+vezes, para certos desgra&ccedil;ados como eu, a unica felicidade
+possivel n'este mundo s&oacute; existe na paz da sepultura!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Jesus! que funebre vens hoje! N&atilde;o tens dinheiro,
+aposto!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O n&atilde;o ter dinheiro &eacute; o menos... Desde que
+rompi com a minha familia, que quiz por for&ccedil;a tolher
+o meu destino, anniquilar o meu futuro, habituei-me
+&aacute;s priva&ccedil;&otilde;es inevitaveis que resultam
+de uma mezada,
+que minha m&atilde;e me manda &aacute;s escondidas de meu
+pae...
+Mas o peor n&atilde;o &eacute; isso... o peor s&atilde;o as
+decep&ccedil;&otilde;es, os
+desenganos que todos os dias um homem nas minhas
+circumstancias est&aacute; recebendo de amigos que o conhecem
+e que nunca deviam ser os primeiros a humilh&aacute;l-o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas o que foi? Conta-m'o, filho!&#8213;supplicou
+Leonor com interesse.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para que hei-de eu affligir-te com coisas que
+n&atilde;o p&oacute;des remediar? Fall&ecirc;mos antes de
+ti, do nosso
+amor, t&atilde;o puro e t&atilde;o ardente que, se
+n&atilde;o f&ocirc;ra elle,
+j&aacute; ha muito eu teria acabado com este negro fadario!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, n&atilde;o! quero saber... Anda, falla!&#8213;insistiu
+ella amorosamente.
+<br />
+
+<br />
+
+Eugenio passou a m&atilde;o pelos cabellos, sacudiu a
+<span class="pagenum">[139]</span>
+cabe&ccedil;a com um fundo suspiro e principiou contando,
+em tom de confidencia:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quando eu vivia ainda em casa de meus paes
+e dispunha de todo o dinheiro que me era preciso para
+satisfazer todos os meus caprichos, todas as minhas
+loucas phantasias, tinha amigos que todos os dias e
+todas as horas me protestavam uma eterna
+dedica&ccedil;&atilde;o,
+uma amizade sem limites... Oh! como eu os tenho
+conhecido agora, na adversidade, esses falsos e indignos
+amigos, esses canalhas, esses biltres, esses miseraveis!
+<br />
+
+<br />
+
+O bohemio interrompeu-se para verberar indignado
+com estas apostrophes violentas uns amigos
+que nunca teve.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vamos! N&atilde;o te afflijas!&#8213;aquietou em voz d&ocirc;ce
+a carinhosa e ingenua Leonor.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Um d'estes, um dia, a meu pedido, consentiu em
+valer a um pobre rapaz, nosso novo companheiro de
+rapaziadas, emprestando-lhe trezentos mil reis, que o
+infeliz tinha desviado da casa commercial em que servia
+como empregado, achando-se na dura contingencia
+de entrar para a cadeia, se n&atilde;o apresentasse esta quantia.
+O pobre mo&ccedil;o apaixonara-se por uma actriz e,
+arrastado pelo amor, alcan&ccedil;ara-se n'aquella importancia.
+Veio ter commigo afflicto, contando-me a sua
+desgra&ccedil;a e pedindo-me que lhe valesse. N'essa
+occasi&atilde;o,
+infelizmente, eu n&atilde;o podia disp&ocirc;r do dinheiro,
+porque tinha perdido em uma s&oacute; noite perto de um
+conto de r&eacute;is. Mas como a todo o custo queria salvar
+a reputa&ccedil;&atilde;o e o futuro do pobre rapaz, lembrei-me
+de
+escrever ao tal amigo de quem fallo, pedindo-lhe que
+abonasse elle aquelle dinheiro sob minha responsabilidade.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Generoso cora&ccedil;&atilde;o!&#8213;exclamou a loura,
+envolvendo-o
+n'um olhar ternissimo, em que havia um
+mixto de sensualidade e de respeitosa venera&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p140">[140]</a></span>
+O bohemio continuou:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Valeu-se ao rapaz, que <a href="#e16">continuou</a>
+desempenhando
+o seu logar, sem que nunca ninguem, suspeitasse
+a sua falta, at&eacute; que um dia, poucos mezes depois,
+foi colhido pela febre typhoide e morreu...
+Tive muita pena d'elle!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Coitado! Esse rapaz era infeliz,&#8213;commentou
+ingenuamente a loura, mais por comprazer ao amante
+do que por se sentir movida &aacute; compaix&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Era! Era muito infeliz!&#8213;suspirou o bohemio.&#8213;Como
+elle morreu, &eacute; claro que n&atilde;o pode pagar...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o deixou nada?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deixou dividas o infeliz! Poucos mezes depois,
+meu pae queria obrigar-me ao casamento com uma
+minha prima de que te fallei e que eu detestava e detesto!
+Eu recusei-me, elle irritou-se e mandou-me
+sahir de casa. Sahi. E calculas que eu, que at&eacute; alli
+era o <em>menino bonito</em> da familia,
+fiquei de repente reduzido
+a uma magra mezada que minha pobre m&atilde;e
+me manda &aacute;s escondidas de meu pae, porque elle, de
+cada vez mais enfurecido contra mim, teima em n&atilde;o
+me dar um real...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Cruel pae!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Retirei ent&atilde;o para o Porto, para esta terra onde
+ninguem sabe quem sou, para n&atilde;o dar &aacute;s pessoas
+que me conheciam o desagradavel e triste espectaculo
+da minha decadencia, da minha, triste e apertada
+situa&ccedil;&atilde;o...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Era o destino que te chamava e te impellia
+para mim, meu amor!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois sim... era! Mas por essa ventura que a
+sorte me deparou, quantas amarguras, quantos dissabores,
+quantos crueis desenganos! Este amigo de
+quem te fallo, este indigno, que &eacute; rico, que est&aacute;
+altamente
+collocado, e que sabe a difficil situa&ccedil;&atilde;o em que
+me encontro, tem-me escripto mais que uma vez a
+<span class="pagenum">[141]</span>
+pedir-me o reembolso dos trezentos mil reis, que elle
+sabe que eu n&atilde;o utilisei, que n&atilde;o foram para mim
+e
+que n&atilde;o posso pagar n'esta occasi&atilde;o! Escrevi-lhe
+a
+exp&ocirc;r-lhe a minha m&aacute;
+situa&ccedil;&atilde;o e a pedir-lhe que n&atilde;o
+me apertasse por uma divida que, por emquanto, me
+&eacute; impossivel solver. Pois este miseravel, este infame
+amea&ccedil;a-me com os jornaes, se eu n&atilde;o lhe mandar na
+volta do correio os trezentos mil reis! O biltre! o
+canalha! E &eacute; capaz de o fazer, desacreditando-me,
+cobrindo-me de opprobrio e de vergonha aos olhos de
+todo o mundo, sem ter em considera&ccedil;&atilde;o que eu um
+dia
+hei de ser rico e que basta que de hoje para amanh&atilde;
+morra minha tia Quiteria, que &eacute; doida por mim, e
+que me deixa tudo por sua morte, para eu poder atafulhar-lhe
+de contos de reis a guela ignobil!
+<br />
+
+<br />
+
+Dito isto com o calor e a convic&ccedil;&atilde;o que
+p&otilde;em nas
+mentirosas phantasias todos os intruj&otilde;es que fazem
+officio de o ser, o bohemio tornou a levantar-se de
+repell&atilde;o, passeando agitadamente pela sala.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E &eacute; que, se elle cumpre a amea&ccedil;a, eu sou um
+homem perdido! Sou um homem perdido, porque vou
+ter com elle, metto-lhe uma bala na cabe&ccedil;a e depois
+acabo com a vida, dou um tiro n'um ouvido!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eugenio! meu Eugenio!&#8213;exclamou afflicta a
+loura Leonor&#8213;n&atilde;o penses em fazer tolices...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como queres tu, meu anjo, que eu continue a
+viver depois de ter soffrido este horroroso ultraje?
+Homem honrado, antes morto do que injuriado! E eu
+n&atilde;o posso... n&atilde;o posso com esta ideia de me
+v&ecirc;r
+offendido por um homem que se dizia meu amigo!
+Ah! eu s&oacute; queria ter os trezentos mil reis para lhe
+atirar com elles &aacute; cara e dizer-lhe: &laquo;Ahi tens,
+miseravel!
+Eugenio de Mello &eacute; mais nobre na sua pobreza,
+do que tu, infame, em todo o teu fastigio de
+homem rico!&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E assim lhe dir&aacute;s, meu amigo!&#8213;exclamou
+<span class="pagenum">[142]</span>
+fremente de indigna&ccedil;&atilde;o a apaixonada
+loura.&#8213;N&atilde;o
+ser&aacute; por trezentos mil reis que esse canalha, quem
+quer que elle &eacute;, ha-de desacreditar o meu Eugenio...
+Os trezentos mil reis tel-os-has amanh&atilde;.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! mas eu n&atilde;o posso acceitar...&#8213;recusou o
+bohemio, em cujos olhos fulgiu um raio de alegria.&#8213;Tens
+feito tantos sacrificios por mim... Devo-te j&aacute;
+tantas provas de ternura e carinhosa dedica&ccedil;&atilde;o,
+que
+n&atilde;o devo consentir em que te sacrifiques mais...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Cala-te, n&atilde;o sejas crean&ccedil;a!&#8213;interrompeu
+Leonor,
+pondo-lhe a pequenina m&atilde;o na bocca para o impedir
+de continuar.&#8213;O meu maior prazer, a minha
+maior felicidade n'este mundo seria dar a vida para
+te ver contente e feliz!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como &eacute;s boa e como eu te adoro!&#8213;exclamou
+Eugenio, cingindo-a ardentemente nos bra&ccedil;os com amoroso
+impulso.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o devemos nem &eacute; justo deixar mais tempo o
+leitor
+sem a explica&ccedil;&atilde;o que esta scena extraordinaria
+requer.
+<br />
+
+<br />
+
+Em poucas linhas se resume a vulgar e triste historia
+d'estes abjectos e sujos amores.
+<br />
+
+<br />
+
+Leonor era uma creatura plebeia, divinamente esculptural,
+que um velho commendador&#8213;o sr. commendador
+Garcia&#8213;encontr&aacute;ra um bello dia &aacute; sahida
+da loja da modista onde a pobresinha picava os dedos
+afilados e bonitos, a pre&ccedil;o de tres tost&otilde;es por
+dia.
+<br />
+
+<br />
+
+O commendador Garcia, picado tambem pela belleza
+provocante da rapariga, come&ccedil;ou a sentir-se
+apaixonado por ella, e a tal ponto, que offereceu envolvel-a
+em s&ecirc;das e velludos, recamal-a de perolas e
+brilhantes, se ella lhe cedesse a elle, commendador, os
+graciosos encantos da sua mocidade e da sua gentileza
+em vez de os desperdi&ccedil;ar no provavel matrimonio com
+algum pobre operario faminto e honrado.
+<br />
+
+<br />
+
+Leonor ouviu os conselhos auctorisados de uma comadre
+<span class="pagenum">[143]</span>
+experimentada em varios lances d'esta natureza
+e ao cabo de poucos dias, sentindo-se abalada nos
+seus escrupulos de mulher honesta, acceitou o dinheiro
+do generoso commendador.
+<br />
+
+<br />
+
+Deslumbrou ent&atilde;o o Porto e a sociedade elegante
+do Palacio de Crystal com o rico esplendor dos seus
+vestidos caros e com a phenomenal belleza da sua figura
+gentilissima.<br />
+
+<br />
+
+O commendador deu-lhe mestra de francez e professora
+de piano, que passaram um tenue verniz de
+educa&ccedil;&atilde;o por sobre aquella rudeza nativa do
+ber&ccedil;o
+humilde da linda Leonor; e ent&atilde;o era v&ecirc;l-a,
+esquecida
+da sua pobre origem, affectar modos de duqueza,
+desdenhosa e altiva, quando passava nas ruas, fazendo
+gala do seu impud&ocirc;r.
+<br />
+
+<br />
+
+Entre o rapaziada fina do Porto foi por muito
+tempo Leonor o appetecido pomo, tanto mais cubi&ccedil;ado
+quanto era difficil colhel-o, tal era a altura em que o
+commendador bizarro e dadivoso a colloc&aacute;ra.
+<br />
+
+<br />
+
+Por esse tempo appareceu Eugenio no Porto, bafejado
+por uma sorte rara &aacute; roleta, que em tres dias
+successivos o favorecera com quatro contos de reis
+em uma das nossas praias mais concorridas.
+<br />
+
+<br />
+
+O bohemio, de origem pobre e plebeia, por&eacute;m,
+naturalmente fino e intelligente, educara-se na convivencia
+dos rapazes estroinas da capital e d'elles copi&aacute;ra
+as maneiras elegantes, a linguagem culta e at&eacute;&#8213;oh
+supremo instincto de imita&ccedil;&atilde;o!&#8213;o apparente
+despreso pelo dinheiro que os outros desperdi&ccedil;avam
+&aacute;s
+m&atilde;os cheias, porque eram ricos e que elle raras vezes
+possuia, porque era pobre.
+<br />
+
+<br />
+
+Com taes predicados e n'uma sociedade para a
+qual as apparencias s&atilde;o tudo, e que abre sem escrupulos
+os bra&ccedil;os e as portas ao primeiro adventicio
+que lhe mostra uma m&atilde;o-cheia de libras, sem dizer
+de que maneira as adquiriu, Eugenio foi, como n&atilde;o
+<span class="pagenum">[144]</span>
+podia deixar de ser, logo recebido como uma das
+primaciaes figuras da elegancia portuense.
+<br />
+
+<br />
+
+Viu Leonor. Atrevido e audacioso com as mulheres,
+habituado, al&eacute;m d'isso, a explorar o vicio dourado
+da capital, comprehendeu desde logo que estava
+alli uma fonte de receita apreciavel, pois que podia
+facultar-lhe vida larga por muito tempo, e tentou a
+conquista. Ora como as mulheres do mau sempre escolhem
+o peor, Leonor, que rejeitara desdenhosa as
+homenagens de tantos que podiam augmentar-lhe os
+rendimentos, afinal decidiu-se por aquelle que n&atilde;o
+podia sen&atilde;o diminuir-lh'os.
+<br />
+
+<br />
+
+Come&ccedil;ou ent&atilde;o entre os dois um doce idylio, em
+que para Leonor havia apenas o travo do commendador
+Garcia a empecer-lhe as noites at&eacute; &aacute;s dez horas
+e a impedir-lhe a expans&atilde;o franca do seu
+cora&ccedil;&atilde;o
+amoroso.
+<br />
+
+<br />
+
+Eugenio, &eacute; claro, apresentou-se como um rico herdeiro
+do Alemtejo, futuro senhor de porcos e corti&ccedil;a
+que chegariam para pagar a divida externa, mas, por
+desgra&ccedil;a, victima imbelle dos rigores de um pae protervo
+e sem cora&ccedil;&atilde;o, que o condemnara &aacute;
+pobreza por
+elle n&atilde;o querer sacrificar o seu
+cora&ccedil;&atilde;o de rapaz
+brioso &aacute; corti&ccedil;a e aos porcos de uma prima com
+quem
+pretendiam casal-o.
+<br />
+
+<br />
+
+Assim, Leonor, orgulhosa de ter conquistado o
+cora&ccedil;&atilde;o rebelde de um mo&ccedil;o que
+t&atilde;o impavidamente
+resistia ao despotismo paterno e &aacute; corti&ccedil;a de uma
+prima
+detestada, puzera &aacute; disposi&ccedil;&atilde;o do
+amante numero dois,
+o seu cora&ccedil;&atilde;o virgem de affectos e todo o
+dinheiro
+que lhe sobrava das despezas a que occorria o amante
+numero um.
+<br />
+
+<br />
+
+Dera-lhe uma gazua da porta e marcara-lhe a
+hora da entrada: &aacute; noite, depois das dez. De dia, a
+toda a hora.
+<br />
+
+<br />
+
+Eugenio, por&eacute;m, hospedara-se no <em>Hotel
+Francfort</em>
+<span class="pagenum">[145]</span>
+como convinha e era prudente, para que estas
+rela&ccedil;&otilde;es,
+que deviam conservar-se clandestinas, n&atilde;o chegassem
+a escandalisar o commendador Garcia.
+<br />
+
+<br />
+
+Logo que Leonor lhe deu a certeza de que no dia
+seguinte lhe facultaria os tresentos mil reis para atirar
+com elles &aacute; face estanhada do amigo indigno, o
+bohemio mudou de aspecto e entregou-se sem
+restric&ccedil;&otilde;es
+e sem sombra de melancholia &aacute; mais carinhosa e
+enthusiaetica adora&ccedil;&atilde;o que um
+cora&ccedil;&atilde;o de mulher
+louca e linda jamais recebeu do seu amante.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sabes?&#8213;disse-lhe elle.&#8213;De ti recebo estas
+provas de affecto e orgulho-me dos sacrificios que
+fazes por minha causa, porque te amo, porque o meu
+cora&ccedil;&atilde;o todo te pertence e, assim, vejo que entre
+n&oacute;s
+n&atilde;o ha meu nem teu, tudo &eacute; commum, tudo
+&eacute; igualmente
+compartilhado pelos dois. E de minha prima...
+v&ecirc; tu l&aacute;!&#8213;ainda que viesse de rastos
+lan&ccedil;ar-se a
+meus p&eacute;s, pedir-me que recebesse d'ella a
+salva&ccedil;&atilde;o
+da minha vida, a salva&ccedil;&atilde;o da minha alma, eu
+repellil-a-hia,
+morreria, iria para o inferno, mas n&atilde;o acceitava
+d'ella um real que fosse!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; porque n&atilde;o a amas...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; porque te amo, Leonor! &Eacute; porque s&oacute;
+tu
+n'este mundo tiveste poder para quebrantar o meu
+orgulho de homem e fazer que eu recebesse de ti um
+dinheiro que, vindo d'outra parte, me escaldaria as
+m&atilde;os!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como &eacute;s bom! e como eu gosto de ti, meu amigo!
+S&oacute; queria ser bem rica para te fazer o mais rico dos
+homens! Nenhum havia de fazer melhor figura que
+tu, nenhum havia de poder collocar-se ao p&eacute; de ti!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quando eu f&ocirc;r senhor d'aquillo que &eacute; meu,
+ent&atilde;o,
+Leonor, o que tu hoje desejas fazer-me, &eacute; justamente
+o que eu te hei de fazer a ti! Hei de pegar
+n'essas joias todas e atiral-as pela janella f&oacute;ra! Hei
+de trazer-te como uma princeza, viveremos em Lisboa,
+<span class="pagenum">[146]</span>
+que &eacute; outra terra, e ent&atilde;o ver&aacute;s
+o que &eacute; vida,
+o que &eacute; gosar! Havemos de ir a Paris, &aacute; Italia, a
+Londres, ver esse mundo todo, unidinhos como dois
+noivos que se amam, que se adoram e que fazem a
+inveja do mundo inteiro! Queres?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se quero! Como eu seria feliz, se pudesse viver
+contigo s&oacute;sinha, sem estorvos, sem impecilhos,
+ainda que fosse num canto bem retirado do mundo,
+numa casinha bem pobre, onde s&oacute; eu e tu coubessemos!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Amor e uma cabana!&#8213;disse rindo maliciosamente
+o velhaco, beijando-a com enthusiasmo.&#8213;Gra&ccedil;as a Deus,
+havemos de ter melhor do que isso...
+<br />
+
+<br />
+
+E suspirando com tristeza:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para isso bastava s&oacute; que morresse meu pae!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deixa-o l&aacute;, coitado! - intercedeu piedosa a ingenua
+loura.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deixo, deixo... Eu n&atilde;o lhe desejo a morte...
+Mas acredita que, &aacute;s vezes, Leonor, at&eacute; chego a
+pensar
+que n&atilde;o tenho pae!
+<br />
+
+<br />
+
+O velhaco tinha raz&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Ele n&atilde;o s&oacute; j&aacute; o n&atilde;o tinha,
+como nunca fizera
+caso d'elle, desde que p&ocirc;de abandonar o pequeno cubiculo
+em que o desgra&ccedil;ado vendia, como adelo, botas
+e livros velhos, numa das alfurjas do Bairro Alto,
+alli pelas immedia&ccedil;&otilde;es da travessa dos Fieis de
+Deus.
+<br />
+
+<br />
+
+M&atilde;e, uma esfregadeira que a miseria tinha levado
+na sua onda negra para o hospital de S. Jos&eacute;, onde
+falleceu, nunca elle a conhecera.
+<br />
+
+<br />
+
+Portanto, esta exclama&ccedil;&atilde;o:
+&laquo;&aacute;s vezes at&eacute; chego a
+pensar que n&atilde;o tenho pae&raquo;, ficaria verdadeira,
+horrivelmente
+verdadeira, se dissesse que desde crian&ccedil;a
+se habitu&aacute;ra a pensar que o n&atilde;o tivera.
+<br />
+
+<br />
+
+No dia seguinte, Leonor mandou pedir ao commendador
+Garcia os tresentos mil reis que o bohemio
+devia levar, n&atilde;o para o phantasiado amigo, mas para
+<span class="pagenum">[147]</span>
+o jogo do monte, que era o sorvedouro horrivel onde
+o miseravel n&atilde;o s&oacute; afundava o dinheiro que podia
+obter &aacute; custa de tranquibernias e
+abjec&ccedil;&otilde;es, mas ainda
+a sua propria saude e robustez de homem v&aacute;lido.
+<br />
+
+<br />
+
+O commendador, capitalista opulento, mandou o
+dinheiro pedido, n&atilde;o sem notar de si para comsigo a
+frequencia com que taes exigencias se repetiam.
+<br />
+
+<br />
+
+No emtanto, como a sua paix&atilde;o por Leonor era
+violenta como um incendio n'uma casa velha, ainda
+d'esta vez n&atilde;o se atreveu a fazer a menor
+objec&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Foi com extremo contentamento que Leonor passou
+para as m&atilde;os do seu <em>anjo
+mau</em> o dinheiro extorquido
+&aacute; imbecilidade senil do commendador.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Aqui tens&#8213;disse ella&#8213;paga a esse canalha,
+a esse falso amigo, e lembra-te que no mundo ninguem
+te ama tanto como a tua amiguinha!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Juro-te, meu amor, minha alma, minha vida,
+que ninguem no mundo adora t&atilde;o ardentemente os
+teus encantos como eu!&#8213;replicou o bohemio, radiante
+de contentamento, guardando na algibeira a generosa
+dadiva da amante.
+<br />
+
+<br />
+
+Almo&ccedil;ou e sahiu, pretextando que ia enviar
+aquella quantia ao seu destino.
+<br />
+
+<br />
+
+Eram onze horas da manh&atilde; quando entrou no escriptorio
+do Belchior.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olhe l&aacute;&#8213;disse elle&#8213;esta noite posso disp&ocirc;r
+de mim, ou teremos nova estopada?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sei... Deixe v&ecirc;r o que diz o Custodio.
+Elle l&aacute; ficou encarregado de tecer os pausinhos...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O diabo da sirigaita &eacute; dura da bocca... Mas
+n&atilde;o tem duvida que, se me entra para a
+<em>loja</em>, eu saberei
+applicar-lhe a espora e obrigal-a a tomar andadura
+regular.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso, depois, &eacute; l&aacute; comsigo e com
+ella&#8213;respondeu
+rindo o procurador.&#8213;Mas eu sempre lhe darei
+<span class="pagenum">[148]</span>
+de conselho que a leve por bem, emquanto o Custodio
+n&atilde;o esticar o pernil...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso &eacute; dos livros! Mas sabe voc&ecirc; que
+j&aacute; me
+vae enfadando tanta difficuldade?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meu amigo, n&atilde;o se agarram trutas a bragas
+enxutas... N'estas coisas, &eacute; preciso muita paciencia,
+porque de outro modo n&atilde;o se faz nada.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas vamos a saber: poderei hoje ao menos
+convidar alguns amigos para uma ceia?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;P&oacute;de... Se tem dinheiro, p&oacute;de. Quem
+&eacute; que o
+ha de impedir?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem me impediu hontem. Voc&ecirc; &eacute; sempre o
+meu <em>desmancha prazeres</em>, amigo
+Belchior!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para seu bem.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E para seu...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Claro! Para o bem de n&oacute;s ambos. Mas muito
+mais para voc&ecirc; do que para mim.
+<br />
+
+<br />
+
+O bohemio ia a retrucar, quando a porta se abriu
+e appareceu o Custodio de Jesus.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E ent&atilde;o?&#8213;interrogaram os dois.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o, sabem o que ella me disse?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que foi?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Adivinhem!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o somos bruxos!&#8213;replicou o procurador&#8213;Falle
+para ahi, com seiscentos diabos! Sim ou n&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois bem&#8213;n&atilde;o!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Hein?!&#8213;fizeram os dois espantados.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade! Disse-me agora muito terminantemente
+que n&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E voc&ecirc; n&atilde;o voltou &aacute; historia do tiro
+na cabe&ccedil;a?&#8213;observou
+o procurador.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Espere ahi, que o mais bonito est&aacute; por dizer.
+A pequena n&atilde;o s&oacute; me declarou abertamente que
+n&atilde;o
+queria casar com o sr. Eugenio, mas fez mais. Pediu-me
+que visse eu quanto me era preciso para solver
+as minhas dividas e que lhe apresentasse uma
+<span class="pagenum">[149]</span>
+nota dos credores, porque ella se encarregaria de resolver
+a quest&atilde;o de modo satisfatorio e que nos puzesse
+a coberto da miseria que eu tanto temia...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E voc&ecirc; o que respondeu a isso?&#8213;perguntou o
+Belchior.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que havia de eu responder? Fiquei entalado
+com esta sahida... Sim, porque voc&ecirc; bem v&ecirc; que,
+depois d'uma resposta d'estas, eu j&aacute; n&atilde;o podia
+dizer
+que ia dar um tiro na cabe&ccedil;a...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas o que pensa ent&atilde;o fazer?&#8213;interrogou
+Eugenio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esperar, a ver o que sae d'aqui...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;D'ahi o que sae &eacute; ella perceber que voc&ecirc;
+n&atilde;o
+est&aacute; arruinado como diz, e n&atilde;o s&oacute;
+recusar-se a casar
+aqui com o meu amigo e sr. Eugenio, mas ainda p&ocirc;r-se
+a <em>chuchar</em> comsigo!&#8213;exclamou o
+Belchior furioso.&#8213;Segue-se
+que voc&ecirc; representou mal a scena e n&atilde;o
+&eacute; por esse modo que n&oacute;s conseguiremos nada.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Espere, homem, espere!&#8213;interrompeu o Custodio.&#8213;Eu
+tenho uma ideia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que ideia &eacute;?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ella hontem, depois que voc&ecirc;s sahiram, foi ainda
+&aacute; janella fallar ao tal rapaselho que a namora...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Voc&ecirc; viu?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vi, porque eu, como j&aacute; estou prevenido, ando
+desconfiado, e quando eu desconfio ninguem me faz o
+ninho atr&aacute;s da orelha... N&atilde;o ouvi o que disseram,
+mas calculo... A rapariga disse ao rapaz o que se
+passava, e elle, naturalmente, prometteu-lhe salvar-me
+das difficuldades financeiras em que me encontro,
+para evitar que o casamento se fa&ccedil;a...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso &eacute; l&aacute; possivel! O rapaz &eacute; pobre,
+e se prometteu
+isso, com certesa temos intrujice no caso, porque
+elle n&atilde;o p&oacute;de arranjar cem mil reis, quanto mais
+uns poucos de contos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem! Mas a mim lembra-me uma coisa: &eacute;
+<span class="pagenum">[150]</span>
+apresentar-lhe a nota dos meus cr&eacute;dores e deixar que
+elle confesse que n&atilde;o p&oacute;de fazer nada.
+Ent&atilde;o eu torno
+a amea&ccedil;ar que me mato e ella n&atilde;o ter&aacute;
+remedio sen&atilde;o
+ceder.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas isso ent&atilde;o quer-se para breve!&#8213;objectou
+o procurador&#8213;Aqui o sr. Eugenio de Mello tambem
+n&atilde;o p&oacute;de estar na contingencia da pequena querer
+ou
+n&atilde;o querer... Porque &eacute; pessoa respeitavel e
+tomaram-n'o
+muitas meninas em t&atilde;o boas ou melhores
+condi&ccedil;&otilde;es
+de fortuna do que sua filha...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu &eacute; porque dev&eacute;ras a amo!&#8213;explicou o
+bohemio&#8213;Sinto-me
+loucamente apaixonado pela senhora
+D. Beatriz e estou disposto a todos os sacrificios para
+conquistar a ventura immensa de a possuir como esposa.
+Mas permitta-me que eu lhe pergunte: se esse
+rapaz conseguir offertar generosamente a quantia que
+o meu amigo disser carecer para reconstituir a sua
+fortuna... o que far&aacute; o sr. Custodio de Jesus?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que farei? Essa &eacute; boa! Fa&ccedil;o o que deve fazer
+todo o homem de juizo: pego no dinheiro com as
+m&atilde;os ambas, e depois n&atilde;o dou o consentimento para
+a
+pequena casar.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ande-me assim, seu Custodio!&#8213;bradou o procurador.&#8213;Essa
+&eacute; de mestre... Mas n'esse bolo havemos
+de ir feitos...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; dito! Reparte-se pelos tres... Mas acho
+que n&atilde;o havemos de ter quest&otilde;es por causa da
+partilha...
+<br />
+
+<br />
+
+Os tres desataram a rir.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vamos a ver o que sae d'aqui!&#8213;disse por
+fim o Belchior.&#8213;Tinha gra&ccedil;a se o rapazote nos sahia
+&aacute; ultima hora a fazer chover dinheiro ao toque d'uma
+varinha magica, tal qual como nas pe&ccedil;as de theatro!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Amigo Belchior&#8213;exp&ocirc;z o Custodio&#8213;parece-me
+que andei bem em n&atilde;o apertar o fiado... O
+<span class="pagenum">[151]</span>
+melhor que temos a fazer agora &eacute; preparar uma
+rela&ccedil;&atilde;o
+dos cr&eacute;dores e apresental-a &aacute; rapariga...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Qual rela&ccedil;&atilde;o de cr&eacute;dores!&#8213;protestou
+o procurador.&#8213;Voc&ecirc;
+n&atilde;o tem sen&atilde;o um credor... Esse credor
+sou eu. Voc&ecirc; deve-me cincoenta contos, e elle que
+venha entender-se comigo...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Justamente!&#8213;apoiou Eugenio.&#8213;E assim ficaremos
+sabendo os recursos de que o tal menino disp&otilde;e...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; dito!&#8213;decidiu o Custodio.&#8213;&Eacute; claro
+que cincoenta contos n&atilde;o se arranjam como se fossem
+cincoenta reis; e logo que o tal badam&eacute;co ou&ccedil;a
+fallar
+em tanto dinheiro, p&otilde;e-se a andar e n&atilde;o torna a
+apparecer. Ent&atilde;o ficaremos com o campo livre para
+continuar a representar a scena do tiro na cabe&ccedil;a, se
+a pequena teimar em n&atilde;o querer este casamento.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se se d&eacute;r o caso do rapaz, assustado com tamanha
+quantia, passar o p&eacute;, a propria pequena, por
+despeito e por vingan&ccedil;a, ser&aacute; a primeira a dizer
+que
+pensou melhor e que acceita o noivo que se lhe
+prop&otilde;e&#8213;opinou
+o procurador.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fiquemos ent&atilde;o n'isto. Voc&ecirc; &eacute; meu
+credor,
+com letras acceites por mim, e imp&otilde;e que ou este casamento
+se fa&ccedil;a, ou eu pague no dia do vencimento,
+que est&aacute; para breve&#8213;concluiu o Custodio, voltando-se
+para o Belchior.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Exactamente&#8213;respondeu este.&#8213;E mandemos
+para c&aacute;, que eu me encarregarei de resolver a
+quest&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+O procurador piscou o olho a Eugenio e fez-lhe
+um signal para que sahisse.
+<br />
+
+<br />
+
+O bohemio comprehendeu-o e despediu-se, affirmando
+que estava irresistivelmente apaixonado por
+Beatriz e appellando para a amizade dos dois, afim
+do que envidassem os seus esfor&ccedil;os em defesa da sua
+causa.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[152]</span>
+Logo que o Belchior se viu a s&oacute;s com o Custodio,
+abriu a gav&ecirc;ta da escrivaninha e, tirando de dentro
+uma certid&atilde;o do escriv&atilde;o de fazenda de Borba;
+apresentou-lh'a,
+dizendo:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Veja voc&ecirc;, amigo Custodio, a pechincha a que
+a sua filha torce o nariz!
+<br />
+
+<br />
+
+O Custodio pegou na certid&atilde;o das
+contribui&ccedil;&otilde;es
+pagas por Eugenio de Mello &aacute; Fazenda Nacional.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Com os diabos!&#8213;disse elle&#8213;para pagar tudo
+isto, perto de dois contos de reis, &eacute; preciso que tenha
+uma fortuna enorme!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Este diabo nem sabe o que tem de seu! E ainda
+voc&ecirc; est&aacute; com pannos quentes com a rapariga!
+Onde vae ella encontrar um partido como este?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois, amigo Belchior&#8213;affirmou o Custodio
+com resolu&ccedil;&atilde;o&#8213;ainda que saiba de a levar pelos
+cabellos
+&aacute; egreja, esta fortuna &eacute; que eu n&atilde;o
+deixo perder.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas &eacute; preciso que isto n&atilde;o demore muito tempo
+a decidir.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isto por esta semana rebenta! Deixe-me c&aacute;
+manobrar &aacute; vontade e voc&ecirc; ver&aacute; como a
+coisa se arranja...
+<br />
+
+<br />
+
+Tendo affirmado isto, o Custodio deixou o procurador
+e partiu a arranjar a conta do seu debito para
+apresentar &aacute; filha.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[153]</span>
+<h3><a name="c10"></a>X<br />
+
+<br />
+
+Para os grandes males...
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Custodio de Jesus n&atilde;o se enganara quando dissera
+aos seus dois cumplices em patifaria que suppunha ter
+sido Paulo quem inspirara a Beatriz o pedido da
+rela&ccedil;&atilde;o
+das dividas do pae, para pensar na melhor maneira
+de as solver.
+<br />
+
+<br />
+
+Effectivamente, Paulo de Noronha, animado pelos
+conselhos de madre Paula, a quem fizera a confidencia
+dos seus amores, e pelas palavras de esperan&ccedil;a que
+ouvira da b&ocirc;cca do seu amigo Jorge, f&ocirc;ra n'essa
+mesma noite fallar com Beatriz.
+<br />
+
+<br />
+
+A pobre menina, aterrada, contara-lhe tudo, a sua
+recusa formal, as instancias do pae, o arrebatamento
+de colera com que elle, a principio, pretendera imp&ocirc;r-se-lhe,
+e afinal a dolorida confiss&atilde;o em que cahira
+das suas desgra&ccedil;as financeiras e do funesto designio
+em que estava de recorrer ao suicidio, se o casamento
+que propunha como unico recurso salvador fosse de
+todo em todo repudiado pela filha.
+<br />
+
+<br />
+
+Mais contou a apaixonada crean&ccedil;a o expediente de
+que lan&ccedil;ara m&atilde;o para retardar o desenlace da
+tragedia
+com que o pae a amea&ccedil;ava, pedindo uma entrevista
+<span class="pagenum">[154]</span>
+com Eugenio de Mello, afim de exp&ocirc;r a este,
+com lealdade e franqueza, as circumstancias difficeis
+da casa de seu pae e os la&ccedil;os de inquebrantavel
+affei&ccedil;&atilde;o
+que j&aacute; tinha contrahido com Paulo de Noronha.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E o que respondeu esse homem?&#8213;interrogou
+Paulo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ao contrario de que eu suppunha, mostrou-se
+de cada vez mais apaixonado e declarou n&atilde;o desistir
+da sua pretens&atilde;o, com o fundamento de que, em face
+da minha lealdade, agora mais que nunca, o seu
+cora&ccedil;&atilde;o
+lhe impunha o dever de salvar meu pae da
+ruina e a mim da pobreza.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E tu?...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Despedi-o sem responder, disposta a recusar,
+mas tambem a pensar no meio de evitar que meu pae
+pratique o acto de verdadeiro desespero com que me
+amea&ccedil;ou.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E se n&atilde;o encontrares esse meio?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Succeder&aacute; o que Deus quizer, mas eu n&atilde;o serei
+jamais mulher de outro homem que n&atilde;o sejas tu, meu
+Paulo!&#8213;exclamou Beatriz com firmeza.
+<br />
+
+<br />
+
+O mancebo sentiu na alma um transporte de sincera
+alegria ao ouvir estas palavras.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ouve, Beatriz&#8213;disse elle.&#8213;&Eacute; possivel que sejamos
+victimas de uma d'essas astuciosas ciladas que
+os paes ambiciosos &aacute;s vezes preparam &aacute; ingenua
+affei&ccedil;&atilde;o
+de suas filhas para as compellirem a acceitar
+um enlace de que se lhes affigura depender a felicidade
+d'ellas e d'elles... Mas o nosso dever &eacute; tomar
+como verdadeiras as palavras de teu pae e tratarmos
+de remediar do melhor modo os males de que se diz
+victima. Eu sou pobre, n&atilde;o tenho fortuna, porque, se
+a tivera, desde este momento ella pertenceria inteira
+a teu pae, sem um documento, sem uma promessa sequer
+de que mais tarde me solveria essa divida. Por
+mim nada posso. Mas tenho amigos valiosos com quem
+<span class="pagenum">[155]</span>
+conto e em quem espero encontrar auxilio para remover
+as difficuldades que affligem teu pae, sem ser preciso
+sacrificar o meu e o teu cora&ccedil;&atilde;o, prendendo-te a
+um homem que n&atilde;o estimas e que n&atilde;o duvido
+affirmar
+indigno de ti. Pede, pois, a teu pae uma nota das
+suas dividas, e eu verei se me &eacute; possivel libertal-o da
+responsabilidade d'ellas.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas, meu Paulo, o que pensas fazer?&#8213;interrogou
+Beatriz commovida, quasi adivinhando a nobre
+inten&ccedil;&atilde;o de mancebo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Penso pedir aos meus amigos que me constituam
+seu devedor por essa quantia, que pagarei quando
+haja concluido a minha carreira e conquistado a
+posi&ccedil;&atilde;o
+a que tenho direito na sociedade. Tu &eacute;s filha unica.
+e, portanto, a universal herdeira de teu pae. &Eacute; o teu
+dote que asseguro por esta forma. Se eu morrer antes
+de solver toda a divida, tu, um dia, quando te encontrares
+senhora da heran&ccedil;a paterna, restituir&aacute;s aos
+meus cr&eacute;dores o que faltar para seu integral reembolso.
+Assim, n&atilde;o prejudicaremos ninguem e teremos salvado
+a vida de teu pae.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! meu Paulo, como tu &eacute;s um grande e nobre
+cora&ccedil;&atilde;o! Como tu &eacute;s digno do santo
+amor que te
+dedico!&#8213;exclamou a donzella.
+<br />
+
+<br />
+
+Foi assim que no dia seguinte Beatriz fez a seu
+pae o estranho pedido de uma nota dos cred&ocirc;res, declarando
+ao mesmo tempo que recusava terminantemente
+o enlace com Eugenio de Mello.
+<br />
+
+<br />
+
+O antigo marido de D. Carlota podia perguntar,
+com a sua auctoridade de pae tyranno, como &eacute; que
+uma menina de dezenove annos ousava pensar em remediar
+desastres financeiros que elle, velho agiota,
+encanecido na usura, n&atilde;o podia sanar; e dando-se
+por offendido e desrespeitado nos seus brios de progenitor,
+por um momento esteve para exigir que a filha,
+<span class="pagenum">[156]</span>
+em vez de pedir contas, lh'as desse alli, claras e cathegoricas
+de todos os seus actos.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas o mariola, que na convivencia do padre Anselmo
+ganh&aacute;ra em manha o que perdera em dinheiro
+e n&atilde;o em honra&#8213;porque essa nunca elle a tivera&#8213;achou
+prudente e de bom aviso levar a far&ccedil;a at&eacute; ao
+fim, apparentando uma inteira e absoluta submiss&atilde;o
+&aacute; vontade da filha.
+<br />
+
+<br />
+
+O secreto plano que form&aacute;ra, j&aacute; n&oacute;s
+lh'o ouvimos
+no escriptorio do procurador em conversa com este e
+com Eugenio de Mello: apanhar o dinheiro, se Paulo
+o arranjasse, e negar o consentimento para o casamento
+dos dois jovens; ou esperar que o mancebo, assustado
+com a grandeza do sacrificio que era preciso
+para obter a m&atilde;o de Beatriz, desapparecesse sem dar
+novas suas, o que resolveria a teimosa menina a acceitar
+a m&atilde;o de Eugenio sem repugnancia.
+<br />
+
+<br />
+
+Firme n'este proposito, entrou no escriptorio e
+phantasiou uma conta corrente com o procurador Belchior,
+em que este apparecia com um saldo a favor
+de cincoenta contos, representado por letras acceites
+em poder do cr&eacute;dor e com vencimento em curto praso.
+<br />
+
+<br />
+
+Eram estas letras que o Custodio declarava n&atilde;o
+poder pagar, se o casamento com Eugenio n&atilde;o se realisasse,
+devendo seguir-se o protesto e a execu&ccedil;&atilde;o em
+poucos dias, pois que o procurador, amigo de Eugenio
+e deveras interessado no seu enlace com Beatriz, recusaria
+a reforma, exigindo immediato embolso.
+<br />
+
+<br />
+
+Organisada a conta corrente, o Custodio subiu ao
+quarto de Beatriz e, apresentando-lhe o papel, disse:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Aqui tens, minha filha... aqui tens o documento
+da nossa desgra&ccedil;a! Por elle ver&aacute;s que estamos
+perdidos sem remedio, visto que tu recusas o meio unico
+da nossa salva&ccedil;&atilde;o!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o fallemos n'isso, meu pae!&#8213;retorquiu mansamente
+Beatriz&#8213;Vamos a v&ecirc;r se por outro meio mais
+<span class="pagenum">[157]</span>
+em harmonia com a dignidade de ambos, conseguimos
+fazer face &aacute; adversidade que nos persegue.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mais em harmonia com a nossa dignidade, dizes&#8213;observou
+o snr. Custodio&#8213;Supponho que n&atilde;o
+p&oacute;de haver nada mais digno do que o casamento com
+esse rapaz, que &eacute; rico, que &eacute; de b&ocirc;a
+familia e que te
+ama loucamente...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas n&atilde;o o amo eu, e &eacute; n'isso que estaria a
+indignidade,
+se eu consentisse em me vender a elle por
+dinheiro...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vender! Tu n&atilde;o ias como escrava, ias como mulher
+recebida &aacute; face da egreja e ficarias senhora de
+metade do que &eacute; d'elle.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ainda que ficasse senhora de tudo quanto lhe
+pertence, reputaria uma venda ignobil o acto de me
+unir a elle, desde que o meu cora&ccedil;&atilde;o o repudia...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O cora&ccedil;&atilde;o!&#8213;fez o sr. Custodio com um
+desdenhoso
+encolher de hombros&#8213;O cora&ccedil;&atilde;o, minha filha,
+est&aacute; sempre bem, desde que o estomago n&atilde;o
+est&aacute; mal...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Essas theorias n&atilde;o se comprehendem na minha
+idade, meu pae...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Comprehende-as toda a gente, em todas as idades,
+Beatriz... S&oacute; n&atilde;o as comprehendes tu, porque
+at&eacute; agora, gra&ccedil;as a Deus, n&atilde;o tens
+sentido falta de
+nada e foste sempre considerada como pessoa rica. Mas
+quando a miseria chegar e tu vires fugir de ti todos
+quantos agora te fazem muita festa, ent&atilde;o
+comprehender&aacute;s
+que teu pae tem ras&atilde;o no que diz.
+<br />
+
+<br />
+
+O usurario, com refalsada velhacaria e crente em
+que Paulo sentiria gelarem-se-lhe os ardentes impulsos
+do seu cora&ccedil;&atilde;o amoroso ante a horrivel
+perspectiva
+d'aquella medonha conta-corrente, ia predispondo o
+espirito da filha para acceitar no fim o casamento com
+Eugenio, como unico recurso que se lhe offerecia.
+<br />
+
+<br />
+
+Beatriz n&atilde;o respondeu. Pegou no papel e dobrou-o,
+depois de lhe relancear a vista.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[158]</span> &#8213;Eu verei isto&#8213;disse ella&#8213;e p&oacute;de ser que Deus
+me inspire alguma ideia salvadora que nos livre de
+apuros, sem ser necessario recorrer ao sr. Eugenio de
+Mello.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deus te ou&ccedil;a, minha filha, mas duvido bem...
+<br />
+
+<br />
+
+E depois de um curto instante de silencio:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Emfim, pensa e repara que n&atilde;o &eacute; brincadeira...
+S&atilde;o cincoenta contos. Ha muito que isto teria dado um
+estoiro, se n&atilde;o fosse o Belchior, coitado, que, ainda assim,
+tem sido meu amigo... Agora &eacute; que est&aacute;
+l&aacute; embirrado
+com a historia do casamento e j&aacute; me disse
+que, se tu n&atilde;o acceitares, escuso eu de contar com elle
+para mais nada... Aquellas malditas letras de ouro
+do Banco de Credito Real do Brazil arrazaram-me!&#8213;suspirou
+por fim.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E foi s&oacute; o pae que teve prejuizos com
+ellas?&#8213;perguntou
+Beatriz.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o. Ficaram muitas familias redusidas &aacute;
+miseria...
+Mas cada qual sente o seu mal...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E Deus o de todos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois &eacute; verdade, Deus sente o de todos... Mas
+quando Elle offerece o remedio &aacute; creatura e ella o
+n&atilde;o acceita, tambem se offende e n&atilde;o sente
+nada...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ser&aacute; o que Deus quizer.
+<br />
+
+<br />
+
+O Custodio notou que a filha come&ccedil;ava a impacientar-se
+e fazia visiveis esfor&ccedil;os para respeitosamente
+disfar&ccedil;ar o seu enfado.
+<br />
+
+<br />
+
+Resolvido a representar o seu papel de pobre humilde
+e dependente da vontade de Beatriz, retirou-se,
+dizendo:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;S&oacute; te pe&ccedil;o, minha filha, que n&atilde;o me
+sujeites &aacute;
+vergonha de me p&ocirc;rem f&oacute;ra d'esta casa por
+justi&ccedil;a.
+Eu, j&aacute; agora, estou velho, pouco se me d&aacute; da
+vida...
+O que quero &eacute; ter tempo de dar cabo de mim, antes
+de soffrer um tal desgosto...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[159]</span> &#8213;N&atilde;o se affija, meu pae, que Deus tudo ha-de
+fazer pelo melhor...
+<br />
+
+<br />
+
+N'essa noite, o usurario, fingindo recolher-se c&ecirc;do
+aos seus aposentos, conservou-se &aacute; espreita, para
+v&ecirc;r
+se a filha fallava da janella com Paulo.
+<br />
+
+<br />
+
+Teve um sorriso de velhaco satisfeito quando, ahi
+pela meia noite, deu conta de que Beatriz descia ao
+rez-do-ch&atilde;o para ir fallar atrav&eacute;s da janella
+gradeada
+com o mancebo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vaes entregar-lhe o passaporte que o ha-de levar
+para longe de ti!...&#8213;resmoneou escarninho o
+velho, esfregando as m&atilde;os de contente.&#8213;Cincoenta
+contos era o bastante para fazer fugir o homem mais
+rico do Porto, quanto mais um pobre diabo que n&atilde;o
+tem cincoenta vintens.
+<br />
+
+<br />
+
+E certo do seu triumpho sobre a reluctancia da
+filha, enfiou-se na cama.
+<br />
+
+<br />
+
+D'ahi a pouco, ressonava.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Dias depois, Jorge entrava em casa de Paulo e
+dizia-lhe:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora, meu amigo, dou-te os sentimentos pela m&aacute;
+escolha que fizeste do homem que ha-de ser teu sogro.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o?&#8213;interrogou o mancebo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Segundo as informa&ccedil;&otilde;es que acabo de obter, o
+pae da tua Beatriz &eacute; um usurario, um agiota insaciavel,
+com instinctos de chacal, incapaz de deixar sahir
+com pelle o desgra&ccedil;ado que lhe c&aacute;iha nas garras
+implacaveis.
+<br />
+
+<br />
+
+Paulo encarou o amigo:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tens bem a certeza d'isso?&#8213;perguntou.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se tenho a certeza! N&atilde;o me resta a menor
+duvida. Esse homem empresta a vinte e a trinta por
+cento sobre hypothecas bem garantidas. N&atilde;o larga das
+unhas um real sem lh'o caucionarem pelo menos com
+<span class="pagenum">[160]</span>
+dois, e &eacute; assim que tem conseguido amontoar uma
+fortuna que se calcula superior a cem contos de reis.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como &eacute; ent&atilde;o que elle diz dever cincoenta
+contos ao procurador Belchior e que est&aacute; perdido porque
+n&atilde;o lh'os p&oacute;de pagar?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esse procurador Belchior&#8213;disse Jorge&#8213;&eacute;
+tambem um refinado patife. N&atilde;o trata sen&atilde;o de
+causas
+escuras e ha em toda a sua vida uma longa s&eacute;rie
+de revoltantes ladroeiras. N&atilde;o seria para admirar que
+o Custodio de Jesus lhe devesse cincoenta contos, se
+esse Custodio fosse homem para se deixar roubar por
+alguem. Mas n&atilde;o. O Belchior e o Custodio entendem-se.
+Pactuaram sobre a melhor maneira de esfolar a pobre
+humanidade, e n&atilde;o se mordem um ao outro. V&ecirc;-se,
+pois, que os dois est&atilde;o combinados para roubarem
+um terceiro, que &eacute; esse tal Eugenio de Mello, a quem
+pretendem casar com a tua namorada.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E elle quem &eacute;?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem? O Eugenio do Mello? Faltam-me ainda
+esclarecimentos exactos sobre esse figur&atilde;o, mas hei-de
+obtel-os breve. Por emquanto, o que se sabe &eacute; que
+&eacute;
+um rapaz estroina que tem dado que fallar no Porto
+pelas suas liberalidades e extravagancias. Supp&otilde;em-n'o
+rico e &eacute; de cr&ecirc;r que o seja pelo interesse que o
+Custodio tem em querer casar com elle a filha.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;De maneira que&#8213;observou Paulo&#8213;essa divida
+dos cincoenta contos...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o &eacute; mais que uma phantasia para justificar
+a insistencia em que o casamento se fa&ccedil;a e compellir
+Beatriz a acceitar o noivo que se lhe offerece.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu j&aacute; tinha suspeitado isso mesmo!&#8213;redarguiu
+Paulo indignado&#8213;Mas o que precisamos agora
+&eacute; provas d'essa infamia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Descan&ccedil;a que h&atilde;o-de apparecer. Por agora, o
+que quiz foi dar-te a certeza de que o pae da tua
+amada n&atilde;o se matar&aacute; por falta do dinheiro
+d'elle&#8213;que
+<span class="pagenum">[161]</span>
+esse est&aacute; bem garantido. O que p&oacute;de
+&eacute; matar-se
+por n&atilde;o poder apanhar todo o dinheiro dos outros.
+Previne, pois, a pequena de que p&oacute;de recusar a
+m&atilde;o
+do tal sr. Eugenio e dormir tranquilla, que o pae n&atilde;o
+pensa em deixar este mundo, que &eacute; muito do seu gosto
+emquanto n'elle houver quem tome dinheiro a trinta
+por cento, com hypotheca...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas, se Beatriz recusa, certamente o pae n&atilde;o
+transige com a decis&atilde;o da filha. Tendo-lhe falhado
+o plano que imaginou, ha-de buscar outro...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E n&oacute;s c&aacute; estamos!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois sim, estamos... Mas n&atilde;o impediremos que
+elle empregue a violencia, visto que os meios suasorios
+lhe n&atilde;o deram resultado...
+<br />
+
+<br />
+
+Jorge poz-se a rir.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Desde que a <em>M&atilde;o-Negra</em>
+protege Beatriz, o pae,
+o pretendido noivo e o procurador n&atilde;o teem sen&atilde;o
+que
+tremer pelas consequencias do seu procedimento, se
+n&atilde;o f&ocirc;r correcto.
+<br />
+
+<br />
+
+Paulo, n'essa mesma noite, transmittiu a Beatriz
+todas as informa&ccedil;&otilde;es obtidas por Jorge
+&aacute;cerca das
+verdadeiras condi&ccedil;&otilde;es de fortuna em que se
+encontrava
+o sr. Custodio de Jesus.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Teu pae n&atilde;o deve coisa algum ao procurador
+Belchior&#8213;disse-lhe o mancebo&#8213;Essa divida, com
+que elle finge affligir-se tanto, n&atilde;o passa de um pretexto
+para te mover a acceitar a m&atilde;o d'esse rapaz...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tens tu a certeza d'isso, meu Paulo?&#8213;perguntou
+Beatriz admirada.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Affirmo-te que teu pae possue uma fortuna superior
+a cem contos de reis, solidamente garantidos
+por boas hypothecas. N&atilde;o tenhas, pois, receio de que
+se mate apavorado com a ideia da miseria.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas se isso &eacute; assim, como &eacute; ent&atilde;o
+que o procurador
+Belchior exerce sobre meu pae um tal ascendente?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p162">[162]</a></span> &#8213;S&atilde;o alliados. Quem <a href="#e17">apresentou</a>
+em vossa casa
+Eugenio de Mello?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Foi o Belchior.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois bem; logo, o Belchior &eacute; que planeou este
+casamento. Conhecia Eugenio de Mello, viu n'elle um
+bom partido para ti, apresentou-o a teu pae e os dois,
+d'acc&ocirc;rdo, procederam de modo que levaram esse rapaz
+a pedir a tua m&atilde;o. Como o negocio se lhe afigura
+vantajoso, teu pae emprega todos os meios para
+te resolver a casar. A violencia n'estes casos &eacute; quasi
+sempre inutil, quando n&atilde;o &eacute; contraproducente...
+Portanto,
+qual o melhor meio de vencer a tua resistencia?
+Era levar-te pelo lado da compaix&atilde;o e da ternura filial,
+pois que, pelo sentimento do interesse material e grosseiro,
+teu pae deve conhecer-te bem para te julgar invulneravel.
+D'ahi, as suas queixas, as suas lagrimas e
+as suas amea&ccedil;as de p&ocirc;r termo &aacute;
+existencia. Mas com o
+que elle n&atilde;o contava era comigo. Teu pae que queira
+fazer uma cedencia de todos os seus haveres actuaes
+por cem contos de reis, e avisa-me, porque eu promptamente
+lhe apresentarei quem realise a transac&ccedil;&atilde;o.
+Prop&otilde;e-lhe isto, minha amiga, e ouve o que elle te
+diz.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; extraordinario!&#8213;disse Beatriz&#8213;Suppunha
+meu pae um homem de genio rispido, despotico, intractavel
+mesmo, mas nunca o julguei capaz de descer
+a representar comigo uma comedia t&atilde;o aviltante
+da dignidade paternal!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Minha querida amiga, bem sabes que te amo
+por ti, s&oacute;mente por ti, e n&atilde;o por tua familia, e
+ainda
+menos pelos teus haveres, que nunca tratei de indagar
+quaes fossem; e se agora sei isto, foi porque as
+circumstancias me obrigaram a fixar a minha
+atten&ccedil;&atilde;o
+sobre tal assumpto, e Deus sabe com que boas e generosas
+inten&ccedil;&otilde;es. Mas, visto que tanto te admiras,
+<span class="pagenum">[163]</span>
+permitte-me que te pergunte: sabes que genero de negocio
+&eacute; o de teu pae?...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sei. Meu pae nunca fallou diante de mim
+sobre assumptos commerciaes. Elle foi sempre homem
+de poucas palavras e de nenhuns carinhos para mim.
+Eu, desde que vim do collegio, tenho vivido n'esta
+casa quasi como uma estranha... A primeira vez
+que lhe ouvi fallar de negocios foi agora, depois que
+este rapaz se apresentou a pedir a minha m&atilde;o e eu
+recusei...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o saber&aacute;s, minha b&ocirc;a amiga, que
+teu pae
+empresta dinheiro ao juro de vinte por cento, o minimo,
+sobre hypothecas que ordinariamente representam
+o d&ocirc;bro do val&ocirc;r emprestado. V&ecirc; tu se, em
+taes
+condi&ccedil;&otilde;es, teu pae, que tem dinheiro para
+emprestar,
+p&oacute;de dever cincoenta contos ao procurador Belchior
+e encontrar-se na situa&ccedil;&atilde;o desesperada que diz.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que entendes que devo ent&atilde;o fazer? Que
+resposta deverei dar-lhe? Eu n&atilde;o queria vexal-o e
+desafiar talvez a sua colera dizendo-lhe abertamente
+que estou conhecedora da sua odiosa mentira...
+<br />
+
+<br />
+
+Paulo reflectiu por alguns instantes.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tu, por emquanto, nada dizes a teu pae, sen&atilde;o
+que est&aacute;s pensando no que melhor convir&aacute; fazer em
+face da grave situa&ccedil;&atilde;o em que ambos vos achaes...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;No emtanto, elle n&atilde;o deixar&aacute; de insistir por
+uma
+decis&atilde;o rapida...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Muito bem; e tu dizes-lhe que n&atilde;o tens duvida
+em acceitar o marido que se te prop&otilde;e, desde que
+esse casamento seja a unica solu&ccedil;&atilde;o que se te
+apresente
+para salvar teu pae. Antes d'isso; por&eacute;m, n&atilde;o te
+dispensas de estudar o assumpto com o cuidado e a reflex&atilde;o
+que elle requer.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas esta situa&ccedil;&atilde;o &eacute; insustentavel
+por muito
+tempo, meu Paulo...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o te d&ecirc; cuidado o resto. Antes de seres
+obrigada
+<span class="pagenum"><a name="p164">[164]</a></span>
+a dar uma resposta definitiva, tenho esperan&ccedil;a
+que os acontecimentos hao-de obrigar teu pae a mudar
+de resolu&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oxal&aacute; que assim seja!
+<br />
+
+<br />
+
+O sr. Custodio de Jesus, que n&atilde;o perdia o menor
+movimento da filha, ancioso como estava de saber que
+solu&ccedil;&atilde;o daria ella ao intrincado problema dos
+cincoenta
+contos que se lhe propunha, sentiu que Beatriz viera
+mais uma vez &aacute; janella do escriptorio conferenciar com
+Paulo; e no dia seguinte, depois de almo&ccedil;o, pondo os
+olhos enternecidos na pobre menina, perguntou-lhe com
+fingido carinho:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o, minha querida filha, j&aacute; pensaste na
+nossa
+terrivel situa&ccedil;&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute;, meu pae&#8213;respondeu Beatriz baixando os
+olhos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E o que resolves?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por emquanto, nada.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nada!&#8213;exclamou o snr. Custodio affectando
+grande espanto.&#8213;Pois &eacute; possivel que, tendo-me tu promettido
+uma resposta decisiva sobre esta quest&atilde;o de
+vida ou de morte para mim, te mostres assim indifferente
+ao que p&oacute;de succeder? Para que me pediste
+ent&atilde;o essa conta que te apresentei?
+<br />
+
+<br />
+
+Beatriz fitou um olhar persistente no pae e respondeu
+placidamente:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pedi-lh'a, meu pae, para ter bem a certeza do
+que cumpre fazer.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que! Pois n&atilde;o sabes o que cumpre fazer?
+Quando se devem cincoenta contos de reis e o cr&eacute;dor
+os exige, o que cumpre &eacute; pagar.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pagar ou casar...&#8213;replicou Beatriz com amarga
+ironia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ninguem te obriga a isso. Eu mesmo, que sou
+teu pae e que podia imp&ocirc;r a minha <a href="#e18">auctoridade</a>
+paterna,
+prefiro deixar-te ampla liberdade na escolha
+<span class="pagenum">[165]</span>
+do homem que ha-de ser teu esposo, embora eu tenha
+de sacrificar a vida...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o lhe ser&aacute; preciso sacrifical-a, meu pae.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso tudo s&atilde;o palavras, Beatriz... Mas as dividas
+n&atilde;o se pagam com palavras... Prometteste-me
+resolver a quest&atilde;o, e afinal j&aacute; l&aacute;
+v&atilde;o uns poucos de
+dias e t&atilde;o adiantados estamos hoje como hontem.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Alguma coisa temos j&aacute; adiantado...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A resolu&ccedil;&atilde;o em que estou de salvar meu pae...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;S&eacute;rio, Beatriz!? Tu acceitas o casamento que
+se te prop&otilde;e, minha filha?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se outro recurso n&atilde;o houver, acceital-o-hei.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois olha que n&atilde;o tens outro recurso, cr&ecirc;!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Veremos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pensas ainda em conjurar o mal que nos amea&ccedil;a
+por outra forma?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Talvez.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! minha filha, minha filha! se confias no
+auxilio de qualquer das pessoas nossas amigas, desde
+j&aacute; te digo que nada conseguir&aacute;s... Os amigos
+fogem
+da desgra&ccedil;a como as andorinhas fogem do inverno.
+Se lhes fallamos em dinheiro,&#8213;emigram!
+<br />
+
+<br />
+
+Beatriz meneou a cabe&ccedil;a e respondeu com voz submissa,
+por&eacute;m firme e serena:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quando se &eacute; leal e sincero para com todos;
+quando se n&atilde;o abrigam no peito sentimentos de egoismo
+e de torpe m&aacute; f&eacute;, a Providencia, que vela pelos
+bons, envia-nos sempre alguem que nos comprehende
+e nos vale nos lances mais desesperados da nossa vida...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois sim!&#8213;tornou o sr. Custodio n'um tom de
+mal disfar&ccedil;ado motejo&#8213;&eacute; bom a gente confiar na
+Providencia, mas &eacute; muito melhor conhecer o mundo e
+tratar cada qual de se livrar de apuros pelos meios
+<span class="pagenum">[166]</span>
+que puder... A Providencia j&aacute; n&atilde;o faz pouco em
+nos
+enviar esse rapaz que te quer para esposa...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois se ella se n&atilde;o manifestar por outra forma,
+acceitarei o casamento que se me offerece... Mas,
+antes d'isso, meu pae, rogo-lhe que me deixe pensar
+reflectidamente sobre o caso...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pensa o que quizeres, minha filha, e resolve o
+que te parecer melhor, comtanto que n&atilde;o pare&ccedil;a,
+pela
+demora em dar uma resposta decisiva, que estamos a
+ca&ccedil;oar com esse rapaz e com o Belchior que o apresentou
+e que &eacute;, como sabes, nosso cr&ecirc;dor...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ninguem p&oacute;de tomar como ca&ccedil;oada o facto de
+eu querer reflectir maduramente antes de dar um
+passo de que vae depender o meu destino...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim, isso &eacute; justo...&#8213;tornou o Custodio com
+brandura&#8213;Mas quantas no teu logar, minha filha,
+se o Eugenio lhes pedisse a m&atilde;o, lhe estenderiam logo
+as duas sem mais ceremonias, antes que elle se arrependesse!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o vejo vantagem nenhuma n'isso. Se tiver de
+se arrepender, mais vale que seja antes do que seja
+depois. Justamente para que o arrependimento me n&atilde;o
+sobrevenha, &eacute; que eu desejo pensar bem no que vou
+fazer, antes de me decidir...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Faze l&aacute; como entenderes. Para mim, como j&aacute;
+pouco posso durar, a quest&atilde;o est&aacute; resolvida:
+&eacute; mais
+mez, menos mez, mais dia, menos dia... Quando se
+chega &aacute; minha idade, a vida j&aacute; pouco prende...
+Preferiria
+morrer socegado na minha cama, da morte que
+Deus me desse, e n&atilde;o ter eu que p&ocirc;r termo
+&aacute; vida para
+me livrar de vergonhas... Mas se Deus tiver determinado
+o contrario, cumprirei resignado a sua divina
+vontade... Acredita que, se me afflijo, n&atilde;o &eacute;
+tanto
+por mim como por ti, a quem eu n&atilde;o queria deixar
+no mundo sosinha, pobre e desamparada!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim, meu pae...&#8213;respondeu Beatriz levemente
+<span class="pagenum">[167]</span>
+ironica&#8213;Eu conhe&ccedil;o quanto lhe devo pelas provas de
+carinho que sempre me tem dado... Mas n&atilde;o se afflija
+por mim como eu n&atilde;o me afflijo por meu pae,
+pois que Deus ha de valer-nos...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tens essa f&eacute;, Beatriz?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tenho a certeza, meu pae. Pois n&atilde;o lhe disse
+j&aacute; que, se outro remedio n&atilde;o houver, casarei com
+o sr.
+Eugenio de Mello?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deus te aben&ccedil;&ocirc;e, minha filha, pela grande
+consola&ccedil;&atilde;o
+que me d&aacute;s! E has-de ser feliz, cr&ecirc;, porque o
+Eugenio &eacute; bom rapaz e est&aacute; perdidamente
+apaixonado
+por ti.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; pena que eu n&atilde;o possa apaixonar-me por
+elle...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Minha filha, depois, a convivencia faz tudo...
+Pensa, pensa e has-de v&ecirc;r que n&atilde;o encontras outra
+solu&ccedil;&atilde;o melhor do que esta para nos tirar de
+difficuldades:
+casar e deixar de tolices...
+<br />
+
+<br />
+
+Disse, e retirou intimamente satisfeito, por lhe parecer
+que tinha com o seu discurso adiantado um
+grande passo no caminho do ambicionado casamento
+que sonhava para a filha.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Naturalmente&#8213;ia dizendo comsigo&#8213;l&aacute; o tal
+franganito mostrou-se desanimado e ella vae perdendo
+a esperan&ccedil;a que tinha n'elle... &Eacute;
+quest&atilde;o de mais
+dois dias ou tres, e ella ahi est&aacute; a dizer que sim, que
+se resolve a querer o Eugenio... Se todos os paes
+fizessem como eu... se quando as filhas se inclinam
+para um bigorrilha sem cinco reis, lhes dessem logo
+com as precisas, fazendo-as pensar na pobresa e na
+miseria que as espera, n&atilde;o se via tanto casamento
+desgra&ccedil;ado como se v&ecirc;!
+<br />
+
+<br />
+
+E esfregava as m&atilde;os, satisfeito de haver conseguido
+illudir a filha.
+<br />
+
+<br />
+
+Mal sabia o velhaco que n
+Mal sabia o velhaco que n'este caso, o verdadeiro
+illudido era elle!
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[168]</span>
+<h3><a name="c11"></a>XI<br />
+
+<br />
+
+Jo&atilde;o Lazaro
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Jorge tinha o habito de ir todos os dias ao
+<em>Suisso</em>
+tomar caf&eacute;, depois de jantar.
+<br />
+
+<br />
+
+Alli passava uma hora em palestra amena com os
+amigos, se os encontrava, ou a l&ecirc;r os jornaes estrangeiros
+que o criado lhe punha diante&#8213;para matar
+tempo.
+<br />
+
+<br />
+
+N'estas rapidas leituras encontrava coisas que
+pareciam interessantes, porque &aacute;s vezes puxava do
+seu livro de lembran&ccedil;as e tomava notas a lapis nas
+folhas em branco.
+<br />
+
+<br />
+
+Foi n'uma occasi&atilde;o d'estas que sentiu bateram-lhe
+amigavelmente no hombro e ao mesmo tempo uma voz
+dizer-lhe:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute;s a copiar alguma receita para te lembrares
+dos amigos?
+<br />
+
+<br />
+
+Jorge levantou a cabe&ccedil;a e encarou o recem-chegado.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute;s tu, Jo&atilde;o!&#8213;exclamou levantando-se com
+impeto e estendendo os bra&ccedil;os para elle.&#8213;Como estava
+longe de te ver agora aqui!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p169">[169]</a></span>
+Os dois abra&ccedil;aram-se effusivamente e sentaram-se
+em seguida.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora o meu Jo&atilde;o Lazaro!&#8213;tornou Jorge com
+alegria&#8213;Com que, voltaste ao Porto!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade!&#8213;disse o outro recostando-se na
+cadeira com importancia e tomando uma attitude de
+principe que regressa do exilio&#8213;O bom filho &aacute; casa
+torna...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E o bonito &eacute; que encontras a casa como a deixaste...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Infelizmente. Isso, por&eacute;m, n&atilde;o me admira nem
+espanta. N&atilde;o era de esperar outra cousa desde que
+eu faltava c&aacute; para a reformar.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quando chegaste?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Hoje de manh&atilde;.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que tempo te demoras?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sei. Venho conferenciar com uns amigos sobre
+assumpto importante, e n&atilde;o posso calcular o tempo
+que isso me levar&aacute;...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o tencionas fixar residencia no Porto?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o. Isto &eacute; pequeno demais para mim...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bravo, seu Jo&atilde;o! Voc&ecirc; est&aacute;
+crescido!&#8213;disse
+Jorge galhofeiramente.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois tu comprehendes um vulto politico de certa
+<a href="#e19">importancia</a> a viver no Porto?
+J&aacute;
+Lisboa &eacute; uma deprimente
+miseria, meu caro! Mas, emfim, como n&atilde;o ha
+outra terra maior, n&atilde;o ha remedio sen&atilde;o
+resignarmo-nos
+com ella...
+<br />
+
+<br />
+
+Lan&ccedil;ou em volta de si um olhar superior, de desdem,
+mordeu a ponta do charuto caro, com affecta&ccedil;&atilde;o,
+e exclamou:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que mal servido est&aacute; este caf&eacute;! N&atilde;o
+ha aqui
+um criado que venha receber as ordens?...
+<br />
+
+<br />
+
+Jorge bateu as palmas, chamando o criado.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que tomas?&#8213;perguntou ao amigo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vou tomar cerveja.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[170]</span> &#8213;Cerveja a este senhor&#8213;disse Jorge ao criado
+que se aproximara.
+<br />
+
+<br />
+
+Este relanceou um olhar curioso para o freguez
+que dava pelo nome de Jo&atilde;o Lazaro, e perguntou:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ingleza?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ingleza, sim!&#8213;respondeu o Jo&atilde;o Lazaro.
+<br />
+
+<br />
+
+E voltando-se para Jorge, emquanto o criado se
+afastava a cumprir a ordem:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Unica coisa em que transijo com esses bebedos
+inglezes!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pagas-lhes assim a affei&ccedil;&atilde;o que manifestam pelo
+nosso vinho...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pelo nosso vinho e pela nossa Africa!&#8213;disse
+o Jo&atilde;o Lazaro com olhar torvo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pela <em>nossa</em>! Pois o Brazil tambem
+tem Africa?&#8213;interrogou
+motejador o amigo de Paulo&#8213;Porque
+tu, meu caro Lazaro, se bem me recordo, &eacute;s brazileiro...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas portuguez pelo cora&ccedil;&atilde;o!&#8213;respondeu o outro
+com emphase.
+<br />
+
+<br />
+
+E accrescentou:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! se n&atilde;o fosse o cora&ccedil;&atilde;o, cuidas
+tu que eu
+teria posto a minha mocidade, a minha energia, o meu
+talento, ao servi&ccedil;o de um paiz t&atilde;o pequeno como
+este?...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Effectivamente, meu rapaz, tu &eacute;s grande de
+mais para uma terra t&atilde;o pequena como esta... E ella
+assim o comprehendeu expulsando-te do seu seio por
+duas vezes... Porque n&atilde;o vaes tu servir o Brazil, que
+&eacute; a tua patria, com a grande vantagem de encontrares
+l&aacute; j&aacute; realisado o teu ideal politico?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; te disse: sou portuguez pelo
+cora&ccedil;&atilde;o...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E ninguem &eacute; propheta na sua terra. Ah! velhaco!
+sabe-te melhor o p&atilde;o
+<em>negro</em> das terras brancas,
+do que a farinha branca das terras negras...
+<br />
+
+<br />
+
+A conversa&ccedil;&atilde;o foi interrompida n'este ponto pela
+<span class="pagenum">[171]</span>
+aproxima&ccedil;&atilde;o de Eugenio de Mello que, tendo
+avistado
+Jo&atilde;o Lazaro, dirigiu-se a elle familiarmente:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; Jo&atilde;o&#8213;preveniu o bohemio&#8213;n&atilde;o te
+compromettas
+para amanh&atilde; &aacute; noite, porque temos ceia de
+rapazes em tua honra...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh, diabo!&#8213;replicou o Lazaro, sempre com
+ares de grande senhor&#8213;Para amanh&atilde; n&atilde;o
+ser&aacute; possivel,
+porque tenho negocios importantes a resolver e
+n&atilde;o sei se de dia ficar&atilde;o concluidos...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sei; arranja-te como puderes, porque a rapaziada
+resolveu isto e &eacute; uma semsaboria se tu n&atilde;o
+appareces... Demais a mais, o elemento feminino, o
+elemento galante, faz-se representar, e tu n&atilde;o
+p&oacute;des
+deixar de ser gentil para com as damas.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; bem: irei.
+<br />
+
+<br />
+
+E voltando-so para Jorge:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o se conhecem?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o tenho essa honra&#8213;disse Jorge.
+<br />
+
+<br />
+
+Jo&atilde;o Lazaro ent&atilde;o apresentou:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O meu amigo Eugenio do Mello...
+<br />
+
+<br />
+
+E para este:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O meu amigo Jorge de Gusm&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Os dois cortejaram-se.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estimo conhecer v. ex.<sup>a</sup>&#8213;disse um.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Igualmente&#8213;disse o outro.
+<br />
+
+<br />
+
+E apertaram-se as m&atilde;os.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como se trata de uma festa intima, de amigos
+pessoaes do Jo&atilde;o&#8213;disse Eugenio de Mello, dirigindo-se
+a Jorge&#8213;V. ex.<sup>a</sup>, que &eacute; tambem amigo
+d'elle,
+dar-nos-ha muito prazer, comparecendo. &Eacute; no Palacio,
+&aacute;s 10 da noite.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agrade&ccedil;o, mas &eacute;-me absolutamente impossivel,
+o que muito sinto, associar-me a essa homenagem de
+estima ao nosso amigo, porque amanh&atilde; de tarde devo
+partir para Braga, aonde me chamam negocios urgentes
+e inaddiaveis&#8213;respondeu Jorge.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[172]</span> &#8213;Creia v. ex.<sup>a</sup>&#8213;tornou Eugenio amavelmente&#8213;que
+teria immenso prazer em o v&ecirc;r l&aacute;...
+<br />
+
+<br />
+
+Jorge agradeceu com uma inclina&ccedil;&atilde;o de
+cabe&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+O bohemio, que n&atilde;o se sentara &aacute; mesa,
+despediu-se,
+dizendo ao Lazaro:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;V&ecirc; l&aacute;! Se n&atilde;o nos virmos antes,
+&aacute;s 10, l&aacute; te
+esperamos. Fui encarregado de te dirigir o convite e
+agora n&atilde;o queiras collocar-me mal perante a rapaziada.
+<br />
+
+<br />
+
+Quando Eugenio se afastou, Jorge que, pelo nome,
+reconhecera n'elle o rival de Paulo, perguntou:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem &eacute; este rapaz?
+<br />
+
+<br />
+
+O outro sorriu desdenhosamente.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Um aventureiro!&#8213;respondeu.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A classifica&ccedil;&atilde;o &eacute; pouco lisonjeira
+para ti e menos
+ainda para elle...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;De accordo. Mas &eacute; verdadeira. De resto, sabes
+que um homem politico tem por vezes a dolorosa e imprescindivel
+necessidade de se relacionar com a gente
+da mais baixa especie.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas este rapaz &eacute;...?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; um typo como ha muitos. Apresenta-se bem
+encadernado, insinua-se na confian&ccedil;a da gente fina e
+&eacute;
+util para muita coisa que n&oacute;s outros n&atilde;o podemos
+fazer.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E vive d'isso?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vive de tudo. A sua existencia &eacute; uma
+s&eacute;rie de
+expedientes engenhosos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Suppunha-o rico. Tenho-o visto frequentando a
+melhor roda de rapazes e passa entre elles por ser possuidor
+de grande fortuna...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Essa &eacute; a sua grande habilidade. Explora o jogo
+e o amor com tanta arte que, em vez de explorador,
+parece elle o explorado. Agora, por exemplo, gasta
+sommas enormes que lhe d&atilde;o uma apparencia de rapaz
+rico, &aacute; custa de uma loura, que &eacute; a
+<em>sanguesuga</em>
+deliciosa do commendador Garcia... Conheces?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[173]</span> &#8213;Conhe&ccedil;o o commendador Garcia perfeitamente.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E a loura?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Poderei tel-a visto, mas n&atilde;o estou certo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sabes nada!&#8213;volveu o Jo&atilde;o Lazaro
+desdenhoso.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas como &eacute; que tu, chegando hontem ao Porto,
+j&aacute; pudeste saber tudo isso?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Disse-m'o elle, porque o conhe&ccedil;o de Lisboa, e
+comigo n&atilde;o tem reservas. Conta-me tudo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o, devia contar-te tambem que tem o casamento
+ajustado com uma rica herdeira...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Elle!?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Elle, sim!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh, diabo! N&atilde;o me disse nada a esse respeito.
+Fallas s&eacute;rio?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Absolutamente s&eacute;rio. E o mais interessante &eacute;
+que o pae da noiva supp&otilde;e-n'o um rapaz riquissimo...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; boa! E n&atilde;o me disse nada! Que grande patife!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois &eacute; verdade.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tens bem a certeza?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Conhe&ccedil;o a noiva...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ella quem &eacute;?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; filha de um capitalista, chamado Custodio de
+Jesus...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o conhe&ccedil;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Anda n'isso mettido um procurador chamado
+Belchior... Esse deves conhecer...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;De nome apenas... Tenho d'esse homem as peores
+referencias, j&aacute; do tempo em que vivi no Porto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois mantem ainda hoje a boa reputa&ccedil;&atilde;o que
+j&aacute;
+gosava no tempo em que ouviste fallar d'elle. O que
+ou n&atilde;o sabia era que especie de
+rela&ccedil;&otilde;es podiam ligar
+o procurador Belchior a este rapaz. Mas, visto dizeres-me
+que elle &eacute; um cavalheiro d'industria, est&aacute;
+explicado
+<span class="pagenum">[174]</span>
+o caso. Os dois combinaram-se para roubar o
+capitalista, apanhando-lhe a filha...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; bonita essa pequena?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Creio que sim.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Cr&ecirc;s?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nunca a vi, e por isso n&atilde;o a conhe&ccedil;o
+pessoalmente.
+Mas tenho d'ella informa&ccedil;&otilde;es que a d&atilde;o
+como
+uma belleza indiscutivel.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; pena, porque, se &eacute; formosa, merece outro
+marido
+que n&atilde;o um <em>escroc</em>... Mas
+que imbecil progenitor
+&eacute; esse, e demais a mais capitalista, que entrega
+assim a filha a um typo como &eacute; o Eugenio de Mello?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sei. Naturalmente supp&otilde;e-n'o rico, como
+toda
+a gente.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois, meu amigo, se te interessas por essa pequena,
+avisa o pae da cilada em que o querem fazer
+cahir.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu!&#8213;replicou Jorge&#8213;N&atilde;o tenho nada com
+isso... Deixemos l&aacute; o rapaz. P&oacute;de ser que a
+fortuna
+o regenere.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A quem? &Agrave;quelle? &Eacute; impossivel! Jogador, bebedo,
+extravagante, s&oacute; est&aacute; bem quando gasta ouro
+&aacute;s m&atilde;os cheias. Em Lisboa explorava o
+am&ocirc;r de varias
+Messallinas da alta roda... Aqui, no Porto, segue
+o mesmo caminho, e com bastante felicidade pelo que
+vejo, pois que o encontro levando vida do principe e
+bellamente relacionado...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E melhor estar&aacute; d'aqui por alguns dias, porque
+o casamento, segundo se diz, est&aacute; para breve...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Os jornaes j&aacute; deram noticia?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o. Este negocio trata-se no maior segredo.
+E &eacute; natural, porque elle n&atilde;o deve desejar que a
+formosa
+lourinha o saiba e lhe transtorne os planos...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; curioso!&#8213;tornou o Jo&atilde;o Lazaro&#8213;Como as
+mulheres s&atilde;o estupidas nos seus am&ocirc;res! Essa loura
+a que te referes teve a audacia de me resistir. Assediei-a
+<span class="pagenum">[175]</span>
+durante muitos mezes, nos primeiros tempos
+da sua liga&ccedil;&atilde;o com o commendador Garcia. Eu era
+incapaz de a explorar pecuniariamente... Contentava-me
+em que n&atilde;o me fizesse exigencias de dinheiro,
+porque para isso l&aacute; estava <em>o
+outro</em>. Escrevi-lhe
+cartas apaixonadas no meu estylo... tu sabes! todo
+litterario, que at&eacute; era mal empregado n'aquella
+cou&ccedil;oeira
+de f&oacute;rmas divinas, incapaz de me comprehender...
+Pois, meu caro, entrincheirou-se na sua fidelidade
+ao commendador e n&atilde;o houve de qu&ecirc;! Por fim,
+apparece este idiota, sem instruc&ccedil;&atilde;o, sem
+elegancia,
+sem espirito, sem nada que o recommende, e conquista-a!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; sempre assim, meu amigo. As mulheres teem
+uma tendencia especial para escolherem o peor.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o s&atilde;o s&oacute; as mulheres. Toda a
+humanidade &eacute;
+assim. Segues uma estrada que se bifurca em dois caminhos,
+um dos quaes te conduz e outro te afasta do
+sitio a que te diriges. Escolhes ao acaso. Pois tem a
+certeza de que o que escolheste &eacute; sempre o peor. Mas
+o que me irrita &eacute; a fortuna estupida d'esse imbecil.
+N&atilde;o vale a pena um homem ter talento, ser distincto,
+ser finamente superior a essas vulgaridades ignobeis
+que para ahi enxameiam, porque as mulheres, meu
+caro, h&atilde;o-do ser sempre pela materia contra o espirito!
+<br />
+
+<br />
+
+O Jo&atilde;o Lazaro atirou f&oacute;ra o charuto com affectado
+desdem e levou o copo da cerveja aos labios com a solemnidade
+de quem estivesse dando exemplos de suprema
+elegancia n'um sal&atilde;o aristocratico.
+<br />
+
+<br />
+
+Jorge Gusm&atilde;o disfar&ccedil;ou um sorriso de motejo e
+disse:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem te ouvir ha de julgar que tens sido infeliz
+com as damas...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o; n&atilde;o tenho sido. Muito pelo contrario,
+tenho
+sido alvo do carinhoso interesse de mulheres finas,
+<span class="pagenum">[176]</span>
+elegantes, da primeira roda. Mas essas, impede-me a
+minha posi&ccedil;&atilde;o politica de lhes corresponder,
+porque se
+tal fizesse, as mediocridades do meu partido tratariam
+logo de lan&ccedil;ar sobre mim a suspei&ccedil;&atilde;o,
+accusando-me
+de me deixar subornar pela aristocracia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sacrificas o amor &aacute; politica...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ao meu ideal sacrifico tudo!... E s&oacute; assim,
+cr&ecirc;, &eacute; que um homem p&oacute;de affirmar-se
+capaz de salvar
+um paiz &aacute; beira do abysmo...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas, &oacute; Jo&atilde;o, tu seriamente pensas em salvar os
+outros ou em te salvar a ti? Porque afinal, sejamos
+francos, tu que diabo tens sacrificado ou o que &eacute; que
+p&oacute;des sacrificar ainda? Tu &eacute;s pobre, tu nunca
+possuiste
+dez reis, tu n&atilde;o passavas de um anonymo perdido
+na massa dos anonymos, dos obscuros, dos humildes.
+Chegou uma occasi&atilde;o em que julgaste poder
+especular com o sentimento patriotico do paiz e especulaste,
+sem criterio, sem f&eacute;, sem consciencia, armando
+&aacute; popularidade, muito disposto a sacrificar os que te
+escutavam ao teu interesse pessoal... Erraste no calculo,
+porque, na hora em que julgavas ter triumphado,
+cahiste. Depois, por coherencia com os teus planos de
+ambi&ccedil;&atilde;o, e tambem porque te era impossivel
+retrogradar,
+visto que n&atilde;o tinhas adquirido val&ocirc;r que te desse
+direito a uma cota&ccedil;&atilde;o rasoavel no campo adverso,
+seguiste
+&aacute;vante, simulando convic&ccedil;&atilde;o onde
+s&oacute; havia
+m&aacute; f&eacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o &eacute; tanto assim, meu caro&#8213;protestou o
+Jo&atilde;o
+Lazaro frouxamente.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que diabo! sabes que te conhe&ccedil;o e porisso de
+nada te vale o fingimento para comigo... Tu &eacute;s um
+especulador politico, como o teu amigo Eugenio de Mello
+&eacute; um especulador amor&ocirc;so... Vives dos
+<em>kalenderes do
+ideal</em> como elle vive das infelizes sonhado como elle vive
+das infelizes sonhadoras do
+am&ocirc;r.
+As tuas fontes de receita s&atilde;o t&atilde;o occultas e
+t&atilde;o inconfessaveis
+como as d'elle.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[177]</span> &#8213;Jorge, tu has-de ser sempre brutal com os amigos!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sincero, sincero e leal &eacute; que eu sou. N&atilde;o
+admitto que os amigos, porque o s&atilde;o, v&atilde;o julgando
+que me illudem e que n&atilde;o os conhe&ccedil;o cabalmente.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu n&atilde;o quiz nem quero illudir-te... Confio demasiado
+na tua amizade para n&atilde;o ser sincero comtigo.
+Mas que demonio queres tu que eu fa&ccedil;a n'estas
+circumstancias?
+Eu bem sei que foi um mau passo o que
+dei misturando-me com esta canalha... Mas agora que
+remedio tenho sen&atilde;o proseguir no caminho mau em que
+me lancei?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tambem n&atilde;o &eacute; t&atilde;o mau como
+dizes. Que poderias
+tu esperar dentro das velhas normas? A manga
+d'alpaca e desoito a vinte mil reis por mez com papel
+dos officios para as intermittencias jornalisticas. Mais
+nada, porque as reparti&ccedil;&otilde;es est&atilde;o
+atulhadas de ociosos
+e mais um importa j&aacute; um verdadeiro attentado
+or&ccedil;amental.
+Assim, d&aacute;s-te ares de martyr, de principe desthronado,
+diante dos papalvos que v&ecirc;em uma aureola
+de gloria a circumdar-te a fronte, e pedes-lhes dinheiro
+emprestado para poderes sustentar o prestigio da causa...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! mas est&atilde;o j&aacute; desmoralisados...
+S&atilde;o uns
+verdadeiros biltres! Imagina tu que, para vir ao Porto
+onde preciso de me mostrar, porque quem n&atilde;o apparece
+esquece, foram-me precisos seis idiotas dos mais fanaticos
+para, espremidos e quotisados, poderem dar-me
+duzentos mil reis!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois sim, meu bom Lazaro... Concordo que
+nem tudo sejam rosas no teu caminho. Mas tu em certo
+modo tens tido a culpa.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;De certo. Tens habitos de grandeza, jantas como
+um principe, o que n&atilde;o custa a fazer quando se tem
+&aacute;s ordens a bolsa dos parvos. Mas os parvos tambem
+&aacute;s vezes ganham juizo...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[178]</span> &#8213;Que queres tu que eu fa&ccedil;a? Nas circumstancias
+em que me encontro, se deixo de honrar a minha
+posi&ccedil;&atilde;o,
+apresentando-me em harmonia com o meu nome,
+sou um homem perdido, sou um homem morto pelo ridiculo!...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E o que vens tu fazer ao Porto?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Venho arranjar dinheiro...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para quem?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para mim.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E supp&otilde;es que t'o d&ecirc;em?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ainda aqui ha gente de muito b&ocirc;a f&eacute;...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas da outra vez n&atilde;o deixaste a vinha vindimada?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso j&aacute; esqueceu. Agora o processo &eacute; outro...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem; anda l&aacute;!
+<br />
+
+<br />
+
+Jo&atilde;o Lazaro levantou-se.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E tu, sempre o mesmo?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O mesmo sempre.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute;s um homem singular!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Divirto-me com isto... Gosto de observar a humanidade,
+que &eacute; realmente o livro mais curioso e mais
+difficil de l&ecirc;r.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Um homem com o teu espirito, com a tua intelligencia
+e com a tua fortuna podia ir longe, se quizesse,
+n'este paiz onde s&oacute; os audaciosos vencem.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sou ambicioso e confio muito pouco nos homens.
+Conhe&ccedil;o-os t&atilde;o bem!
+<br />
+
+<br />
+
+Jo&atilde;o Lazaro consultou o relogio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ainda posso tornar a v&ecirc;r-te antes de partir?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;P&oacute;des. Sabes a minha casa. Encontras-me l&aacute;
+todos
+os dias at&eacute; &aacute; uma hora da tarde.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Irei dizer-te adeus.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois sim.
+<br />
+
+<br />
+
+Apertaram-se as m&atilde;os e despediram-se.
+<br />
+
+<br />
+
+Jo&atilde;o Lazaro sahiu com ar altivo e magestoso, relanceando
+<span class="pagenum">[179]</span>
+um olhar de despreso pelos frequentadores
+abancados &aacute;s mesas.
+<br />
+
+<br />
+
+J&aacute; na rua, ia murmurando:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora o patife do Eugenio de Mello, que vae abotoar-se
+com a filha de um capitalista!
+<br />
+
+<br />
+
+Os labios grossos, de mulato, vincaram-se-lhe n'um
+sorriso mau. &Eacute; que ao cerebro accudira-lhe um pensamento
+terrivel.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;B&ocirc;a occasiao de lhe empalmar a loura e de me
+vingar d'elle pelo cuidado com que occultou de mim o
+seu projecto de casamento!&#8213;rosnou por entre dentes&#8213;Decididamente,
+eu sou um homem de genio e n&atilde;o
+devo consentir que este idiota me passe adiante e se
+me avantage em am&ocirc;r, em fortuna e em
+posi&ccedil;&atilde;o social.
+<br />
+
+<br />
+
+Jo&atilde;o Lazaro, vaidoso, vingativo e perverso, ra&ccedil;a
+de preto e branco, minado de inveja, roido
+d'ambi&ccedil;&otilde;es,
+irritava-se e agitava-o um rancor profundo quando
+algum dos seus amigos ou companheiros de mocidade,
+por esfor&ccedil;o proprio, por acaso, ou por capricho da
+fortuna, melhorava de posi&ccedil;&atilde;o e subia mais um
+furo
+na escala das considera&ccedil;&otilde;es sociaes.
+<br />
+
+<br />
+
+A perspectiva de v&ecirc;r Eugenio de Mello casado com
+a filha de um capitalista, pompeando grandezas e vivendo
+a vida feliz que o dinheiro d&aacute;, acendera-lhe um
+inferno de invejas na alma parda como um ceu de
+maio, prenhe de trov&otilde;es, e como a propria
+<em>parda</em> brazileira
+de quem era filho e cujas fei&ccedil;&otilde;es retratava na
+c&ocirc;r bronzeada, nos labios grossos, nos dentes brancos,
+no nariz de ventas largas e acachapadas e no cabello,
+onde havia ainda uns longes de carapinha.
+<br />
+
+<br />
+
+De resto, alto, entroncado, de andar desenvolto e
+um tanto gingado, de preto <em>capoeira</em>,
+tinha o quer
+que era de elegante e distincto, e chegaria mesmo a
+ser attrahente e sympathico, se n&atilde;o f&ocirc;ra a
+pretens&atilde;o
+ridicula que se lhe trahia nos gestos e attitudes de
+grande senhor.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[180]</span>
+Tal era physica e moralmente Jo&atilde;o Lazaro, que o
+leitor ter&aacute; occasi&atilde;o de apreciar melhor em
+capitulos
+subsequentes.
+<br />
+
+<br />
+
+Por agora, deixemol-o ruminar o seu infame plano
+de anniquilar o amigo que o convidava para uma ceia
+em sua honra, e vamos n&oacute;s travar
+rela&ccedil;&otilde;es com outros
+personagens importantes d'esta complicada mas veridica
+historia.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[181]</span>
+<h3><a name="c12"></a>XII<br />
+
+<br />
+
+Velhos conhecimentos
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Em S. Martinho de Campo, concelho da Povoa de
+Lanhoso e n&atilde;o longe da casa de Norberto de Noronha,
+que os leitores da <em>Irm&atilde;
+Dorothea</em> j&aacute; conhecem, havia
+uma outra casa de b&ocirc;a apparencia,&#8213;<em>casa
+nobre</em>, como
+l&aacute; se diz,&#8213;mas de severo e melancholico aspecto.
+<br />
+
+<br />
+
+Permanecia a maior parte do anno fechada, e apenas
+na quadra estival as suas janellas se abriam e as
+salas se illuminavam n'um rumor de alegria e de festa.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; que a proprietaria d'essa casa, D. Aurelia de
+Magalh&atilde;es, tendo casado e perdido marido e filho no
+curto espa&ccedil;o de quinze dias, ao cabo de cinco annos
+do seu consorcio, envolvera-se nos crepes da viuvez e
+encerrara-se n'uma tristeza calma e resignada que a
+solid&atilde;o do seu viver tornava ainda mais profunda.
+<br />
+
+<br />
+
+Occupando um aposento interior do edificio, servida
+apenas por uma velha criada que f&ocirc;ra sua ama de
+leite, raras vezes sahia do seu quarto; mas quando
+sahia, n'um curto passeio, nunca transpunha os limites
+da vasta propriedade murada e inaccessivel &aacute;s vistas
+exteriores.
+<br />
+
+<br />
+
+Os caseiros encarregados do amanho e semeadura
+<span class="pagenum">[182]</span>
+das terras passavam mezes que a n&atilde;o viam, nem mesmo
+ao domingo &aacute; hora da missa, na capella da casa;
+porque a pobre viuva, occulta nas sombras do c&ocirc;ro que
+communicava com o interior da vivenda, podia assistir
+sem ser vista &aacute; celebra&ccedil;&atilde;o do santo
+sacrificio.
+<br />
+
+<br />
+
+O irm&atilde;o d'esta senhora, Gustavo de Magalh&atilde;es, o
+sensato academico que na <em>Irm&atilde;
+Dorothea</em> vimos desempenhar
+um curto mas sympathico papel como amigo
+de Julio de Montarroyo e do infeliz Norberto de Noronha,
+doutorara-se em direito e, impulsionado pelo talento,
+f&ocirc;ra abrir banca de advogado em Lisboa, onde
+conquistou rapidamente uma reputa&ccedil;&atilde;o
+brilhantissima
+de orador e jurisconsulto notavel.
+<br />
+
+<br />
+
+Quando soube que a irm&atilde; enviuv&aacute;ra, quiz leval-a
+a viver comsigo na capital; mas a magoada viuva recusou,
+preferindo gemer as saudades do esposo e do
+filho mortos na solid&atilde;o de S. Martinho do Campo, a
+abafal-as no ruidoso e atordoante bulicio da grande cidade.
+<br />
+
+<br />
+
+Gustavo de Magalh&atilde;es, respeitando a d&ocirc;r da
+irm&atilde;,
+n&atilde;o insistiu, e como tambem na vida agitada da capital
+as saudades da sua aldeia o pungiam, reservava
+os mezes do estio para ir em piedosa romagem ao ber&ccedil;o
+natal, e alli se demorava de junho a setembro.
+<br />
+
+<br />
+
+Era ent&atilde;o, quando elle chegava com a mulher e
+os filhos&#8213;e j&aacute; contava nada menos de tres&#8213;que a
+vida entrava na casa, e ao silencio e &aacute; tristeza succediam
+o ruido e a alegria.
+<br />
+
+<br />
+
+Os amigos vinham de Braga e Guimar&atilde;es visital-o,
+demoravam-se dias, havia passeios, jantares na Senhora
+do Porto, os pequenos chilreavam na casa logo de madrugada
+e arrastavam a titi a longas caminhadas pelo
+campo.
+<br />
+
+<br />
+
+E D. Aurelia, sempre triste e resignada na sua d&ocirc;r
+e no seu luto, acariciava os pequenos e mostrava-se
+contente com a alegria dos outros.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[183]</span> &#8213;Aurelia&#8213;dizia-lhe o irm&atilde;o&#8213;se vivesses um
+anno em Lisboa, verias como isso te fazia bem.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, Gustavo, n&atilde;o&#8213;replicava a dolorida
+viuva.&#8213;Aqui
+nasci, aqui vivi feliz na companhia de meu
+marido e de meu filho, e aqui desejo morrer na saudade
+dos que me f&ocirc;ram queridos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas este ruido, esta alegria de que n&oacute;s te cercamos
+contraria-te, n&atilde;o &eacute; verdade?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, meu irm&atilde;o! De modo nenhum. A vossa
+alegria &eacute; a minha alegria, a unica que p&oacute;de
+ser-me
+suave alem da que sinto na recorda&ccedil;&atilde;o dos entes
+que
+perdi.
+<br />
+
+<br />
+
+No emtanto, D. Aurelia, quando o irm&atilde;o se retirava
+para a capital, sentia como que uma especie de allivio
+intimo, por poder regressar ao silencio e &aacute;
+solid&atilde;o dos
+seus habitos, silencio e solid&atilde;o que eram um linitivo
+&aacute;s amarguras do seu espirito.
+<br />
+
+<br />
+
+Ora &eacute; justamente n'uma d'estas visitas de Gustavo
+&aacute; sua aldeia que n&oacute;s vamos encontrar a casa de D.
+Aurelia de Magalh&atilde;es em festa.
+<br />
+
+<br />
+
+Gustavo chegara havia oito dias e os velhos amigos
+e condiscipulos, ao saberem da sua chegada, apressaram-se
+a visital-o.
+<br />
+
+<br />
+
+Vamos encontral-os reunidos no vasto sal&atilde;o, &aacute;
+noite,
+com as janellas e sacadas abertas, rindo e conversando,
+emquanto que D. Albertina, a gentil esposa de Gustavo,
+sentada ao piano, executa algumas das modernas
+composi&ccedil;&otilde;es mais em voga.
+<br />
+
+<br />
+
+A noite estava bella, de luar&#8213;d'esse luar sereno
+e calmo das noites claras do estio.
+<br />
+
+<br />
+
+Em volta do velho palacete, reinava a d&ocirc;ce paz
+silenciosa das aldeias, apenas quebrada pelo rum&ocirc;r
+dos mil insectos que, n'um admiravel concerto, faziam
+ouvir essa magica symphonia dos campos adormecidos,
+symphonia cujo maravilhoso segredo de
+orchestra&ccedil;&atilde;o
+nenhum grande maestro p&ocirc;de ainda devassar.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[184]</span>
+Na sala, o piano calara-se e os hospedes de Gustavo
+de Magalh&atilde;es, attrahidos pela belleza da noite,
+vieram debru&ccedil;ar-se nas sacadas continuando as
+conversa&ccedil;&otilde;es
+em que estavam entretidos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade, sabes, Gustavo?&#8213;disse D. Aurelia&#8213;vende-se
+outra vez o palacete que foi de Norberto
+de Noronha.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vende?&#8213;respondeu o advogado&#8213;Ent&atilde;o o Pinho,
+o brazileiro para onde vae?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Volta para o Brazil, segundo contou hoje a mulher
+do caseiro &aacute; Mathilde, &aacute; minha criada de quarto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; singular! Mas o Pinho, segundo se dizia,
+veio senhor de uma grande fortuna e n&atilde;o tencionava
+tornar para o Brazil.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O Pinho&#8213;esclareceu o medico de partido, o
+dr. Gomes, que f&ocirc;ra substituir o Negr&atilde;o, fallecido
+ha
+annos&#8213;tem soffrido, ao que me consta, prejuizos importantes
+no Brazil... Depois, elle n&atilde;o &eacute; um homem
+economico... tem dispendido.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois parece que n&atilde;o deveria ser assim&#8213;objectou
+Gustavo&#8213;Um homem, com uma fortuna superior e
+que vem enterrar-se n'uma aldeia, n&atilde;o tem ras&otilde;es
+para
+dissipar as fabulosas sommas que o doutor diz... Em
+que? Se vivesse no Porto ou em Lisboa, comprehendo.
+Mas aqui, em S. Martinho de Campo!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois &eacute; verdade!&#8213;tornou o doutor&#8213;Aqui
+mesmo, em S. Martinho de Campo, o Pinho tem tido
+a habilidade de dar cabo de mais de cincoenta contos
+em dez annos.
+<br />
+
+<br />
+
+Houve um murmurio de incredulidade no pequeno
+auditorio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o p&oacute;de ser!&#8213;insistiu Gustavo&#8213;Elle comprou
+a casa que foi de Norberto de Noronha, por um
+pre&ccedil;o inferior; gastou alguma coisa em a reformar,
+mas n&atilde;o foi muito, porque n&atilde;o lhe alterou a
+planta e
+apenas se limitou a uma simples quest&atilde;o de limpesa...
+<span class="pagenum">[185]</span>
+N&atilde;o me consta que tenha dado bailes, que reuna em
+sua casa grandes companhias ou que se haja cercado
+de uma opulencia tal que justifique as loucas despezas
+que o doutor lhe attribue.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois ahi &eacute; que est&aacute; a
+desgra&ccedil;a!&#8213;retorquiu o
+medico&#8213;Soube ganhal-o e n&atilde;o o soube gastar... O
+Pinho desfez-se em dadivas a todo o mundo desde que
+chegou...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A todo o mundo!?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; um modo de dizer. Deu um manto bordado
+a ouro a Nossa Senhora do Porto; offertou um pallio
+novo &aacute; junta de parochia; mandou fazer um painel
+&aacute;
+irmandade das almas; mandou construir &aacute; sua custa
+a torre que faltava na egreja, p&ocirc;z-lhe dois sinos, um
+relogio, e tem sido elle o que tem feito &aacute; sua custa a
+festa a Santo Emili&atilde;o... Tudo isto parece que n&atilde;o
+&eacute;
+nada, mas bocado hoje, bocado amanh&atilde;, no fim vae-se
+a v&ecirc;r e somma contos de reis...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso &eacute; verdade!&#8213;concordaram alguns do grupo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas cincoenta contos, doutor, olhe que &eacute; muito
+dinheiro!&#8213;contestou ainda Gustavo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas n&atilde;o se teem limitado s&oacute; a isso as despezas
+do Pinho... Tem protegido muita gente... tem dotado
+muita rapariga pobre c&aacute; dos sitios, tem sido padrinho
+de todos os afilhados, tem emprestado dinheiro
+a toda a gente e d'onde se tira e n&atilde;o se p&otilde;e...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem sei! Em todo o caso...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Em todo o caso&#8213;concluiu o doutor&#8213;se n&atilde;o
+fossem os ultimos revezes soffridos l&aacute; no Brazil, o Pinho,
+com um bocado de juizo, podia ainda aguentar-se.
+Mas, ao que me consta, as perdas foram importantes
+e elle n&atilde;o tem remedio sen&atilde;o ir acudir ao resto,
+para n&atilde;o ficar litteralmente sem nada.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pobre homem! Tenho pena.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O Pinho &eacute; um bello cora&ccedil;&atilde;o. Um
+bocadinho
+vaidoso, gostando de se imp&ocirc;r pelo seu dinheiro, mas,
+<span class="pagenum">[186]</span>
+no fundo, um pobre diabo. Os de c&aacute; conheceram-lhe o
+fraco; come&ccedil;aram a lisonjeal-o, tudo era o sr. Pinho
+isto, o sr. Pinho aquillo... Se at&eacute; o metteram em folias
+de elei&ccedil;&otilde;es! A ultima n&atilde;o lhe ficou
+por menos de
+dez contos...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E nem sequer o fizeram visconde? Pois admira!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A esse respeito, houve umas historias muito
+compridas... O titulo estava-lhe arranjado, mas quem
+lh'o arranjava, &aacute; ultima hora, precisou de uma somma
+importante... O Pinho soube-o e n&atilde;o se lembrou
+de a offerecer. N'isto, o Pires de Briteiros, que andava
+com o cheiro em ser titular, apresentou-se a fazer o
+offerecimento, e apanhou o titulo para elle...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que miseria!&#8213;disse Gustavo enojado.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E at&eacute; foi bom para o Pinho&#8213;tornou o doutor.&#8213;Porque,
+se lhe tivessem dado o titulo, agora a sua
+situa&ccedil;&atilde;o era muito mais difficil. Imaginem: um
+homem
+sem dinheiro e com um titulo &aacute;s costas...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deve ser horrivel!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois foi do que elle se livrou! Ha males que
+veem por bem...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E quanto quer elle agora pela casa?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sei... Deve vendel-a barata. Como sabe,
+elle n&atilde;o ficou com todas as propriedades do velho
+Noberto.
+Apenas comprou os campos que circumdam o
+predio e que p&oacute;dem valer, com os melhoramentos que
+elle lhes tem feito, os seus nove a dez contos de reis.
+Mas estou persuadido que se apparecer quem lhe d&ecirc;
+oito, o homem n&atilde;o diz que n&atilde;o...
+<br />
+
+<br />
+
+N'este momento ouviu-se o rodar de uma carruagem
+que parou ao port&atilde;o da casa de Gustavo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem nos honra?&#8213;disse o doutor, ao ver
+apear um sujeito de sobretudo claro e franquear o
+port&atilde;o de entrada, depois de fallar ao criado.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Querem voc&ecirc;s v&ecirc;r que &eacute; o Sampaio que
+se
+<span class="pagenum">[187]</span>
+aborreceu nas Taypas e veio at&eacute; c&aacute; para se
+distrahir
+um pouco?
+<br />
+
+<br />
+
+Disse e ia a encaminhar-se para a porta, afim de
+o receber, quando Sebasti&atilde;o, o criado da casa, appareceu
+no limiar, dizendo:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Senhor doutor, saber&aacute; v. ex.<sup>a</sup> que
+est&aacute;
+l&aacute; em
+baixo um senhor que diz que deseja fallar ao sr. doutor....
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A qual de n&oacute;s?&#8213;disse rindo Gustavo.&#8213;Aqui
+ha uns poucos de doutores... Solicita o soccorro da
+medicina ou as luzes da jurisprudencia, esse estranho
+recemchegado?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Elle diz que &eacute; ao sr. doutor Gustavo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! ent&atilde;o &eacute; comigo... N&atilde;o disse o
+seu nome?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o quiz <em>dezer</em>...
+&Eacute; um senhor de barbas...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem! Vamos l&aacute; ver as barbas d'esse senhor.
+<br />
+
+<br />
+
+E voltando-se para os hospedes:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meus amigos, deem-me licen&ccedil;a... Isto &eacute; por
+for&ccedil;a gracejo de algum amigo de n&oacute;s todos... A
+esta
+hora, n&atilde;o &eacute; natural que um desconhecido me
+procure...
+Eu volto j&aacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+Gustavo de Magalh&atilde;es passou &aacute; sala onde o
+aguardava
+o desconhecido visitante.
+<br />
+
+<br />
+
+Era este um homem que figurava ter quarenta a
+quarenta e cinco annos, estatura regular, barba loura
+em que se entremeavam j&aacute; muitos fios brancos, accusando,
+com as rugas profundas que lhe cavavam as
+faces, uma vida de longo soffrimento moral. Vestia correctamente
+um sobretudo escuro apesar da esta&ccedil;&atilde;o calmosa
+ser mais propria ao uso das c&ocirc;res claras.
+<br />
+
+<br />
+
+Ao v&ecirc;r entrar Gustavo, caminhou para elle de
+bra&ccedil;os abertos, n'uma expans&atilde;o de velha amizade,
+dizendo:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; me n&atilde;o conheces, n&atilde;o &eacute;
+assim, Gustavo?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Julio! Pois &eacute;s tu?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sou eu, meu amigo!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[188]</span>
+E Julio de Montarroyo, pois que era elle, estreitou
+effusivamente nos bra&ccedil;os o seu amigo e companheiro
+de infancia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas o que &eacute; feito de ti?&#8213;perguntou Gustavo&#8213;Ha
+quantos annos n&atilde;o tenho tido noticias tuas!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tenho viajado. Ha perto de dezoito annos que
+deixei o paiz...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Singularissima ausencia!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que queres? Precisava de movimento, precisava
+das estranhas commo&ccedil;&otilde;es do imprevisto, porque
+precisava de esquecer...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E esqueceste, afinal? Ainda bem!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, n&atilde;o esqueci nem esquecerei jamais... E
+a prova &eacute; que, ainda agora, velho, doente, alquebrado,
+eu venho ao sitio onde ella viveu e d'onde
+partiu para n&atilde;o mais voltar, dar &aacute; minha alma o
+supremo
+lenitivo de contemplar os logares que a viram
+crean&ccedil;a, pura, innocente, feliz, e onde tudo me hade
+ainda fallar d'ella!
+<br />
+
+<br />
+
+Gustavo encarou surprehendido o seu amigo.
+Atravess&aacute;ra-lhe o cerebro a suspeita de que as faculdades
+mentaes d'aquelle homem estavam desgra&ccedil;adamente
+transtornadas.
+<br />
+
+<br />
+
+Julio percebeu esta suspeita no olhar do amigo
+e disse, sorrindo:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Julgas-me doido, n&atilde;o &eacute; verdade?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, n&atilde;o julgo...&#8213;replicou o irm&atilde;o
+de Aurelia
+de Magalh&atilde;es&#8213;Surprehende-me apenas que, volvidos
+tantos annos, as viagens e o tempo n&atilde;o pudessem ainda
+desvanecer-te do peito essa fatal paix&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nada a desvaneceu nem desvanecer&aacute;, meu amigo.
+Ama-se uma vez na vida, uma unica; e aquelle
+que p&oacute;de esquecer a mulher que uma vez disse amar,
+&eacute; porque sinceramente n&atilde;o a amou.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas n&atilde;o tiveste mais noticias de Helena de
+Noronha?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[189]</span> &#8213;Nunca mais. Recebi d'ella uma carta, participando-me
+que ia para Pariz, transferida para uma
+casa de <em>irm&atilde;s Dorotheias</em>
+e pedindo-me que a fosse
+esperar n'aquella grande cidade, onde me daria noticias
+suas. Fui. Esperei muitos mezes inutilmente uma
+carta, um recado, uma palavra que me tirasse da
+infernal situa&ccedil;&atilde;o em que me encontrava e me
+d&eacute;sse
+uma esperan&ccedil;a, ainda que longinqua, de a tornar a
+v&ecirc;r...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E como pudeste esperar tanto tempo?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esperaria at&eacute; ao fim do mundo se, pelas
+indaga&ccedil;&otilde;es
+a que procedi, pudesse capacitar-me de que
+ella estava em Paris. Relacionei-me com os jesuitas,
+apparentei uma cren&ccedil;a profunda, fiz-me beato, frequentei
+as egrejas, as casas religiosas, percorri todos
+os institutos, todos os collegios jesuiticos e n&atilde;o a
+encontrei. Ent&atilde;o tive a suspeita de que talvez houvessem
+descoberto a inten&ccedil;&atilde;o em que aquella infeliz
+estava de se unir a mim e a tivessem enviado a outra
+parte. Passei &aacute; Hespanha, percorri todas as cidades
+e usei de todos os meios que podiam permittir-me o
+encontral-a. Tudo inutil. Tomado da febre da
+investiga&ccedil;&atilde;o,
+segui para a Belgica, passei &aacute; Italia, familiarisei-me
+com toda a ala negra, occultando sempre o meu
+pensamento secreto. D'alli fui &aacute; Africa Oriental, percorri
+as miss&otilde;es onde me seria facil encontral-a, e sempre
+baldadamente. Nem pelo nome, nem pela figura,
+nem ainda pela familia, me foi possivel obter noticias
+d'ella. Afinal, desalentado, velho, gasto, alquebrado
+e doente, resolvi regressar a Portugal, convencido de
+que Helena de Noronha, na ala negra conhecida pela
+<em>irm&atilde; Dorotheia</em>,
+j&aacute; n&atilde;o existe!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meu pobre amigo!&#8213;disse Gustavo envolvendo-o
+n'um olhar de funda compaix&atilde;o&#8213;que grande fatalidade
+foi para ti essa mulher na tua existencia!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem pensado, n&atilde;o foi&#8213;volveu Julio&#8213;Devo-lhe
+<span class="pagenum"><a name="p190">[190]</a></span>
+soffrimentos acerbos, mas tambem lhe devo alegrias
+intensas, esperan&ccedil;as dulcissimas que outra mulher
+j&aacute;mais poderia alentar-me! Quando em meio dos
+meus desalentos me sorria uma probabilidade de a encontrar,
+que felicidade meu amigo! que doida alegria
+a minha! Agora, regressando a Braga, leio n'um jornal
+que se vende o palacete de Norberto de Noronha,
+e venho compral-o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Comprar a casa de Norberto de Noronha!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Com que fim? O que pretendes fazer?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Viver n'ella os ultimos dias da minha vida,
+que n&atilde;o ser&aacute; longa...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas vens s&oacute;, n&atilde;o tens familia?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Minha m&atilde;e morreu ha mais de dez annos. Minhas
+irm&atilde;s casaram, constituiram familia, e eu encontro-me
+s&oacute;... s&oacute; com <a href="#e20">as
+minhas</a> recorda&ccedil;&otilde;es!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Muito bem, meu Julio. Aqui me tens como
+amigo e como irm&atilde;o, hoje como sempre. &Eacute;s meu
+hospede, e espero que me dar&aacute;s o prazer da tua companhia
+emquanto me demorar por estes sitios.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; sabia que estavas aqui, e por isso te procurei.
+Desejo a tua interferencia n'este negocio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estou ao teu disp&ocirc;r, meu caro. Mas deixa-me
+apresentar-te aos meus amigos que tiveram a santa
+caridade de vir alegrar-me as horas d'esta triste solid&atilde;o.
+Tambem quero apresentar-te minha mulher e
+meus filhos, que j&aacute; te conhecem de me ouvirem fallar
+muitas vezes de ti... Minha irm&atilde;, essa j&aacute; t'a
+apresentei
+n'outros tempos, e has-de gostar de a v&ecirc;r, porque,
+como amiga de infancia de Helena de Noronha,
+fallar-te-ha d'ella com aquelle entranhado affecto que
+sempre lhe tributou, apesar da sua ingratid&atilde;o...
+Vem!
+<br />
+
+<br />
+
+Deu-lhe o bra&ccedil;o e conduziu-o at&eacute; &aacute;
+sala onde j&aacute;
+todos os esperavam com grande curiosidade.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[191]</span>
+A entrada de Julio de Montarroyo produziu geral
+impress&atilde;o nos circumstantes.
+<br />
+
+<br />
+
+Alguns d'elles, antigos companheiros, mal reconheciam
+n'aquelle velho o elegante mo&ccedil;o bracarense de
+ha 18 annos, notavel nas duas cidades&#8213;Braga e
+Guimar&atilde;es&#8213;pelo
+apurado esm&ecirc;ro no trajar e pelos distinctos
+prim&ocirc;res da educa&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Feitas as apresenta&ccedil;&otilde;es, todos quizeram ouvir da
+b&ocirc;ca do recemchegado a rela&ccedil;&atilde;o das suas
+viagens,
+que elle narrou n'uma linguagem viva, scintillante,
+pittoresca, cheia de encantos, occultando, no emtanto,
+o secreto motivo de t&atilde;o longa e demorada permanencia
+em paizes estranhos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;De modo que&#8213;disse por fim o commendador
+Seabra, um dos mais velhos condiscipulos de Julio&#8213;eis-te
+de novo entre n&oacute;s, qual filho prodigo que regressa
+&aacute; casa de seus paes!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade, meu amigo! Verdadeiramente um
+filho prodigo, que desperdi&ccedil;ou vida, mocidade e dinheiro
+entre os estranhos e que regressa velho, can&ccedil;ado
+e cheio de achaques, a pedir &aacute; terra em que
+nasceu um canto onde possa morrer descan&ccedil;ado.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Morrer! Quem falla aqui em morrer?&#8213;atalhou
+Gustavo alegremente&#8213;Tens ainda vida para muito
+tempo, meu amigo! Vens robusto, vigoroso, cheio de
+saude, e fallas em morrer! O que direi eu, gasto e can&ccedil;ado
+por uma vida inteira de trabalho, pae de tres
+filhos, tres enormes traquinas, que reclamam constantemente
+os meus cuidados e que todos os dias me recordam
+a necessidade impreterivel que tenho de viver
+para elles, at&eacute; os fazer homens e acompanhar a sua
+entrada no mundo com os conselhos da minha experiencia
+e do meu am&ocirc;r de pae? E, no emtanto, n&atilde;o
+penso em morrer sem ter cumprido a minha miss&atilde;o...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; justo&#8213;respondeu Julio&#8213;Ha um objectivo
+na tua existencia, que te faz amar a vida e te d&aacute;
+for&ccedil;a
+<span class="pagenum">[192]</span>
+e coragem para a n&atilde;o perderes: s&atilde;o os filhos,
+&eacute; a esposa,
+&eacute; a familia, &eacute; toda essa inquebrantavel cadeia de
+affectos que prende o homem ao mundo e o faz triumphar
+dos desalentos, das d&ocirc;res physicas e moraes, conduzindo-o,
+confiado e alegre, atrav&eacute;s a velhice como o
+viajeiro atrav&eacute;s os areaes do deserto, com os olhos fitos
+no oasis que, de longe, lhe promette repouso e
+frescura. Mas eu, abandonado e s&oacute;, sem familia, sem
+o estimulo dos grandes affectos que tornam o homem
+superior a si mesmo, que outra coisa posso desejar sen&atilde;o
+a morte redemptora dos grandes desgra&ccedil;ados?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Casa-te, meu amigo, casa-te!&#8213;aconselhou o commendador
+Seabra n'um tom de convicta auctoridade.&#8213;Olha
+que n&atilde;o ha como o casamento para fazer um
+homem perder certas ideias... Eu tambem fui rapaz,
+tambem tive as minhas estroinices, as minhas excentricidades...
+N&atilde;o andei l&aacute; por f&oacute;ra,
+por&eacute;m, c&aacute; dentro mesmo,
+no meu paiz, e at&eacute; sem sahir de Guimar&atilde;es, fiz
+o que pude... Mas quando cheguei a certa altura e
+senti que come&ccedil;ava a aborrecer-me da vida, disse commigo:
+&laquo;Nada! isto n&atilde;o est&aacute; bem... Preciso ter
+alguem
+a quem me dedique de alma e cora&ccedil;&atilde;o... alguem a
+quem eu estime e que me estime tambem, porque um
+barco s&oacute; n&atilde;o faz carreira...&raquo; Tive a
+fortuna de encontrar
+o que desejava, uma esposa que &eacute; um anjo,
+um genio em tudo igual ao meu, e foi dito e feito!
+Casei e temo-nos dado muito bem... N&atilde;o &eacute; assim,
+Gracianinha?&#8213;rematou,
+pondo os olhos na esposa, a D.
+Graciana, uma senhora adiposa, de enorme car&atilde;o vermelhusco,
+toda cheia de requebros e denguices, mais
+do que &eacute; permittido a uma mulher que passa dos quarenta.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; assim, meu amigo!&#8213;suspirou a D. Graciana,
+revirando para o marido os olhos ternos e abanando-se
+com o leque, na pudibunda attitude de uma paix&atilde;o confessada.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[193]</span> &#8213;N&atilde;o temos tido filhos&#8213;tornou o commendador,
+muito roli&ccedil;o, muito gordo, envolvendo a mulher n'um
+olhar carinhoso&#8213;mas n&atilde;o &eacute; por falta de
+am&ocirc;r... &Eacute;
+que ella n&atilde;o &eacute; de qualidade de os ter... Mas
+v&ecirc; tu
+que eu era um espeto... lembras-te que eu era um
+espeto? Pois estou isto que v&ecirc;s! Gordo e forte, que nem
+pare&ccedil;o o mesmo!... E tudo isto foi depois que casei...
+N&atilde;o ha nada como o casamento para dar saude a um
+homem!
+<br />
+
+<br />
+
+E empertigava-se vaidoso, com os pollegares mettidos
+na cava do collete, e tamborilando com os dedos
+restantes no peito, n'uma exhibi&ccedil;&atilde;o
+grot&ecirc;sca das fartas
+enxundias que lhe repuxavam a pelle e lhe avolumavam
+o rotundo abdomen.
+<br />
+
+<br />
+
+Os circumstantes riam d'esta apologia do matrimonio
+feita pelo commendador que, segundo resavam
+as m&aacute;s linguas, soffria uma cruz em casa com os destemperos
+da D. Graciana, ciumenta e desconfiada.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora agora o que &eacute; preciso&#8213;prop&ocirc;z o juiz de
+direito, um velhote de oculos, bigodes brancos, com
+uma voz aflautada e cheia de impetuosidades nervosas&#8213;&eacute;
+n&atilde;o deixar passar despercebido este feliz acontecimento
+do regresso de um querido e distincto filho do
+Minho aos encantos da sua provincia e aos bra&ccedil;os dos
+velhos amigos, que todos gemiam saudades pela sua
+prolongada ausencia!
+<br />
+
+<br />
+
+E, n'uma voz de cada vez mais aflautada e repassada
+de sentimento:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isto &eacute; mais do que um regresso, isto &eacute; uma
+resurrei&ccedil;&atilde;o!
+Propunho, pois, uma Paschoa <em>inter
+amicus</em>,
+uma festa alleluitica, em que se celebre condignamente
+o <em>resurrexit</em> d'este illustre
+cavalheiro, que eu n&atilde;o tinha
+a honra de conhecer pessoalmente, mas a quem
+j&aacute; estimava e de quem era sinceramente amigo, pelo
+conhecimento de seus primores e gentilezas, que a
+tradi&ccedil;&atilde;o
+oral tinha trazido at&eacute; mim!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p194">[194]</a></span>
+Este alvitre do festeiro magistrado obteve calorosa
+approva&ccedil;&atilde;o e logo alli se decidiu promover uma
+festa
+ruidosa em honra de intrepido viajante, que dezoito
+annos gastara em percorrer as <em>sete
+partidas</em> do mundo,
+como o <em>infante D.
+Pedro</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+O juiz foi o encarregado de elaborar o programma
+e nomear a commiss&atilde;o que havia de proceder aos festejos.
+<br />
+
+<br />
+
+Era uma alegria louca entre os hospedes de Gustavo
+pela perspectiva de mais um dia de grossa pandega.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Livra-me d'esta gente, meu amigo!&#8213;segredou
+Julio a Gustavo.&#8213;Tu, que conheces o estado do meu
+espirito, bem deves avaliar quanto esta alegria me
+mortifica!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nem eu, nem poder algum da terra poder&aacute; livrar-te
+d'estas honras, que s&oacute; aos
+<em>eleitos</em> da amizade
+se concedem, meu caro; salvo se tiveres a m&aacute;
+lembran&ccedil;a
+de emigrar outra vez; e, ainda assim, ha-de
+ser clandestinamente, porque, se constar que andas a
+tirar passaporte, agarram-te e n&atilde;o te deixam partir
+sem gramares a festa!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meu Deus! Em que m&aacute; hora eu vim a tua casa!&#8213;murmurou
+Julio.&#8213;Venho a fugir do bulicio, do
+ruido, da curiosidade dos amigos e conhecidos, e eis-me
+o alvo de alegrias, quando mais dev&ecirc;ra ser um objecto
+de tristezas!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tem paciencia, meu amigo! A tua larga ausencia
+do paiz fez-te esquecer, pelo que vejo, os habitos
+festivos da nossa provincia, que ainda n&atilde;o <a href="#e21">mudaram</a>.
+O portuguez, especialmente o minhoto, n&atilde;o
+perde occasi&atilde;o, e tudo lhe serve de pretexto, para se
+evadir &aacute;s melancholias do temperamento. Um casamento,
+um baptisado, um dia d'annos, um amigo que chega,
+um amigo que parte, tudo isso constitue motivo
+de festa. F&oacute;ra d'ahi, &eacute; sisudo, sorumbatico,
+macambuzio,
+<span class="pagenum">[195]</span>
+incapaz de, por coisa alguma d'este mundo, se
+arredar da linha inquebrantavel de uma inquebrantavel
+bisonhice. Deixa-os, pois, deixa-os divertir-se,
+que a alegria d'elles n&atilde;o &eacute; d'aquellas que magoam
+o
+cora&ccedil;&atilde;o dos que soffrem...
+<br />
+
+<br />
+
+No dia seguinte, Julio levantou-se c&ecirc;do e, n'um
+curto passeio, dirigiu-se s&oacute;sinho para os lados da velha
+casa de Norberto de Noronha.
+<br />
+
+<br />
+
+O brazileiro Pinho, que conservava os habitos
+madrugadores, adquiridos no Brazil, todo vestido de
+linho cr&uacute; e na cabe&ccedil;a um bonnet de
+gorgor&atilde;o preto,
+debru&ccedil;ava-se no caramanch&atilde;o erguido em um dos
+angulos do jardim.
+<br />
+
+<br />
+
+Respirava a longos haustos o ar fresco da manh&atilde;,
+tendo cravado no horisonte um vago olhar de tristeza.
+<br />
+
+<br />
+
+Pensava talvez nas fundas saudades que j&aacute; curtira
+longe da patria, e n'aquellas que ainda o haviam
+de consummir, agora que, depois de velho e quando esperava
+morrer tranquillo n'aquelle adorado canto da
+sua aldeia, era outra vez obrigado a expatriar-se.
+<br />
+
+<br />
+
+Julio, ao v&ecirc;l-o, parou na estrada e cortejou:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bons dias!
+<br />
+
+<br />
+
+O Pinho levou a m&atilde;o ao bonnet e correspondeu,
+saudando:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Muito bons dias!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; o proprietario d'esta casa?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Um seu criado!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Li que ella se vende. Posso v&ecirc;l-a?.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois n&atilde;o! Eu lhe vou mandar abrir a porta...
+<br />
+
+<br />
+
+E chamando pelo criado:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; Man&eacute;ca, vae na porta abrir ao cavalheiro,
+hein!&#8213;ordenou.
+<br />
+
+<br />
+
+O <em>Man&eacute;ca</em>, um labrego de
+jaqueta, chap&eacute;o braguez
+e suissa talhada em f&oacute;rma de foicinha, foi abrir,
+com grandes zumbaias, levando no labio escanhoado
+<span class="pagenum">[196]</span>
+o sorriso humilde e servil de quem nasceu para s&ecirc;r
+mandado e obedecer.
+<br />
+
+<br />
+
+Julio entrou e d'ahi a pouco travava com o brazileiro
+Pinho este dialogo:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;V. s.<sup>a</sup> vende esta propriedade, n&atilde;o
+&eacute; assim?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Me r&eacute;s&oacute;lvi &aacute; vender ella, porque
+estou preparando
+minhas coisas p'ra tornar no Brazil...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esta casa&#8213;disse Julio&#8213;era de um antigo
+fidalgo que aqui morou e aqui morreu, o sr. Norberto
+de Noronha...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o conheci elle, mas tenho ouvido
+f&aacute;ll&aacute;r...
+B&ocirc;a p&eacute;ss&ocirc;a, pelas
+informa&ccedil;&otilde;es que d&atilde;o-me d'elle,
+hein!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o foi, portanto, ao velho fidalgo que v.<sup>a</sup>
+s.<sup>a</sup>
+comprou a casa?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nada. Quando vim do Brazil e cheguei em
+Portugal, a primeira coisa que lembrou-me foi comprar
+casa b&ocirc;a, que tivesse commodos ella... Mas eu
+a queria j&aacute; feita, hein! Me aborrecia estar esperando
+que fizesse-se ella, j&aacute; viu? Depois meu compadre
+Dami&atilde;o me escreveu um dia para o Porto, dizendo
+que tinham botado annuncio n'uma gazeta de Braga
+p'ra vender este palacete... Vim v&ecirc;r ella, me agradou
+por ficar nos meus sitios e a comprei... &Eacute; uma
+rica pe&ccedil;a, que tenho muita pena de deixar ella!...
+Mas como vou no Brazil outra vez e n&atilde;o sei o tempo
+que demorarei-me por l&aacute;...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Norberto de Noronha&#8213;tornou Julio&#8213;tinha
+uma filha... Foi a essa senhora que comprou esta
+casa?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O n&eacute;gocio foi tratado com um procurador
+d'essa minina, qui estava ella, dizem, nas irm&atilde;s da
+caridade e tinha passado procura&ccedil;&atilde;o a esse tal
+Jo&atilde;o
+Ignacio para vender elle todos os bens, j&aacute; viu? Mas
+eu lhe fiquei s&oacute; com a casa e com estes campos de
+ao p&eacute; da porta... As outras propriedades si venderam
+<span class="pagenum">[197]</span>
+a differentes... Vossa exc&eacute;ll&eacute;ncia conheceu
+a
+familia de Norberto, j&aacute; vejo...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Conheci. A casa soffreu modifica&ccedil;&otilde;es?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o alt&eacute;rei-lhe a planta, a ella,
+n&atilde;o... Lhe
+mandei botar papel e pinturas novas, hein! mas lhe
+deixei ficar as divis&otilde;es todas... O mesmo jardim
+ainda &eacute; do risco que estava elle no tempo do fidalgo...
+<br />
+
+<br />
+
+O Pinho, muito am&aacute;vel, convidou Julio a v&ecirc;r a
+casa para certificar-se de que era uma vivenda <em>muito
+b&ocirc;a ella</em> e que se conservava quasi no mesmo
+estado
+em que o fidalgo a deix&aacute;ra.
+<br />
+
+<br />
+
+Julio, ao entrar na sala onde fall&aacute;ra pela primeira
+e ultima vez a Norberto de Noronha, j&aacute; paralytico,
+cerrou um momento os olhos, commovido, e a sua
+memoria evocou a figura d'aquelle pobre morto-vivo,
+que alli jaz&ecirc;ra por tanto tempo ainda, na
+esperan&ccedil;a
+de tornar a v&ecirc;r a filha, criminosamente ingrata ou
+assombrosamente desgra&ccedil;ada, por quem morria.
+<br />
+
+<br />
+
+Esse compartimento da casa, por uma d'estas casualidades
+difficeis de explicar, n&atilde;o merec&ecirc;ra as
+atten&ccedil;&otilde;es
+do brazileiro para o mandar reparar. Conservava-se
+no mesmo estado e na mesma disposi&ccedil;&atilde;o em
+que Julio o vira a primeira vez quando alli entrou.
+Apenas alguns dos velhos moveis de Norberto, inclusiv&egrave;
+a cadeira de rodas em que t&atilde;o longamente agonisara,
+achavam-se alli accumulados, em monte, a um
+canto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isto &aacute;qui me tem s&eacute;rvido para
+arruma&ccedil;&otilde;es&#8213;explicou
+o brazileiro.&#8213;Aqui encontrei esta cangalhada
+quando vim na casa e, de dia em dia, p'ra
+p&ocirc;r ella f&oacute;ra, nunca r&eacute;solvi-me, hein!
+e ahi ficou,
+j&aacute; viu?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quanto pretende v. s.<sup>a</sup> pela casa?&#8213;perguntou
+Julio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Com mobilia ou sem ella?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[198]</span> &#8213;Tal como est&aacute;, excepto os objectos de seu uso
+pessoal...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Me custou a mim dez contos... Com mais de
+dois que gastei em mobilia e concertos, anda isso por
+doze, hein! M&aacute;s se v. ex.<sup>a</sup> me quizer
+comprar ella
+por dez, eu lhe deixo ficar tudo, j&aacute; viu?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, senhor!&#8213;acudiu Julio.&#8213;Se por doze
+contos lhe ficou, doze contos lhe darei por ella.
+<br />
+
+<br />
+
+O Pinho teve um olhar de espanto para o comprador.
+Julg&aacute;ra que elle iria regatear o pre&ccedil;o, achar
+caro, desfazer no valor da propriedade e reservava-se
+para, em ultimo caso, fazer uma reduc&ccedil;&atilde;o de um ou
+dois contos de reis. E via com surpresa que este generoso
+desconhecido queria embolsal-o integralmente
+de tudo quanto havia dispendido, elevando a somma,
+de dez, a doze contos, que era o que calculava ter
+gasto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quer assim?&#8213;interrogou Julio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas...&#8213;objectou honradamente o brazileiro
+consciencioso&#8213;eu tenho vivido na casa, os moveis me
+custaram dinheiro que j&aacute; n&atilde;o valem elle
+&aacute;gora...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pequenas coisas! N&atilde;o compro isto para negocio,
+e por isso n&atilde;o penso em o adquirir por menos do
+seu justo valor.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas ent&atilde;o a casa &eacute; de v. ex.<sup>a</sup>!&#8213;decidiu
+o
+brazileiro
+com uma profunda cortezia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;V. s.<sup>a</sup> n&atilde;o me conhece&#8213;disse
+Julio&#8213;mas eu
+dou como fiador &aacute; validade d'este contrato o meu
+amigo dr. Gustavo de Magalh&atilde;es, aqui seu vizinho.
+Quando quizer, faremos a escriptura!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O sr. doutor Gustavo! Pois n&atilde;o! Conhe&ccedil;o elle
+muito bem. V. ex.<sup>a</sup> &eacute; hospede d'elle,
+j&aacute; vejo...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sou. V. s.<sup>a</sup> dir&aacute; agora quando quer
+legalisar o
+contrato e quanto devo dar-lhe de signal.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Signal!&#8213;protestou o brazileiro&#8213;n&atilde;o &eacute; priciso
+<span class="pagenum">[199]</span>
+elle... Os homens se conhecem pelas palavras, j&aacute; viu?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como queira.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Me d&ecirc; v. ex.<sup>a</sup> oito dias para tratar
+de minha
+mudan&ccedil;a, e iremos no tabelli&atilde;o fazer a
+escriptura,
+hein!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o lhe dou oito, dou-lhe vinte, dou-lhe um
+mez. N&atilde;o tenho pressa de vir para esta casa, mas tenho-a
+de lhe chamar minha.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Lhe p&oacute;de chamar desde j&aacute;. Minha palavra vale
+uma escriptura! Mas n&atilde;o ha pricis&atilde;o de mais
+demora,
+n&atilde;o... Homens de bem se entendem sempre elles...
+Quando v. ex.<sup>a</sup> quizer, vamos no
+tabelli&atilde;o...
+<br />
+
+<br />
+
+Julio offereceu-lhe a m&atilde;o e despediu-se, voltando
+a casa de Gustavo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; comprei a casa de Noberto de Noronha&#8213;disse
+elle ao amigo, logo que chegou.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que!&#8213;exclamou Gustavo.&#8213;Pois logo de
+manh&atilde;, t&atilde;o cedo, foste tratar um negocio d'essa
+ordem?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se eu tinha resolvido compral-a, n&atilde;o vejo motivo
+para protelar a compra. Agora conto comtigo,
+como advogado, para que o contrato tenha uma
+realisa&ccedil;&atilde;o
+legal.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por quanto a compraste?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por doze contos, tal como est&aacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Podias tel-a adquirido por oito ou nove!
+<br />
+
+<br />
+
+Alguns dias depois, legalisava-se o contrato e
+Julio era o proprietario da casa que pertencera a Noberto
+de Noronha.
+<br />
+
+<br />
+
+O brazileiro Pinho, tendo recebido o pre&ccedil;o da
+venda, apressava agora a sua partida, no intuito s&oacute;mente
+de n&atilde;o occupar por muito tempo a casa alheia.
+<br />
+
+<br />
+
+Os convidados de Gustavo, em assembleia magna,
+tendo sabido que Julio compr&aacute;ra a casa de Noberto e
+se constituira, por este facto, um dos proprietarios da
+localidade, resolveram addiar a celebra&ccedil;&atilde;o dos
+festejos
+<span class="pagenum">[200]</span>
+para o dia em que elle tomasse posse e fixasse residencia
+na sua nova propriedade.
+<br />
+
+<br />
+
+Esta delibera&ccedil;&atilde;o f&ocirc;ra tomada em segredo
+e mantinha-se
+discretamente guardada entre todos, sem chegar
+ao conhecimento do melancholico amigo de Gustavo
+de Magalh&atilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Havemos de fazer d'elle um companheiro alegre,
+sociavel, sem os absurdos preconceitos de um homem
+que, tendo percorrido o mundo e visto tudo, chega a
+capacitar-se de que nada mais ha no mundo capaz de
+o emocionar e lhe causar alegria&#8213;dizia o magistrado
+de voz aflautada, presumindo de habil conhecedor das
+diversas fraquezas e aberra&ccedil;&otilde;es do espirito
+humano.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fatalmente&#8213;commentava o medico&#8213;alli ha
+desiquilibrio de faculdades... Aquella melancolia
+profunda, aquelle afastamento systematico de todo
+o ruido e de toda a convivencia, accusa uma grave
+enfermidade mental,
+propria d'um homem que passou
+a vida em viagens, sob a impress&atilde;o dos variados aspectos
+da natureza e sob a influencia de diversos e oppostos
+costumes...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem sabe? Talvez alli haja mysterio do
+cora&ccedil;&atilde;o...
+am&ocirc;res mal succedidos...&#8213;aventou um
+dos menos theoricos e mais praticos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, alli o que ha &eacute; tedio, cansa&ccedil;o,
+o <em>spleen</em>
+dos inglezes&#8213;opinou o juiz.&#8213;O homem correu tudo,
+viu tudo, gozou tudo&#8213;menos a amizade dos amigos
+e o am&ocirc;r inconsutil da mulher que toda se dedica ao
+homem amado. Nas viagens&#8213;accrescentou com grande
+auctoridade e emphase de sabedor&#8213;perde-se a sensibilidade
+pela frequente e repetida excita&ccedil;&atilde;o dos sentidos.
+O espirito habitua-se &aacute; contempla&ccedil;&atilde;o
+dos espectaculos
+grandiosos e desdenha, como insignificantes e
+mesquinhos, os suaves e dulcissimos prazeres da convivencia
+remansosa e placida de almas irm&atilde;s, prazeres
+que s&atilde;o a vida do cora&ccedil;&atilde;o...
+Am&ocirc;res mal succedidos,
+<span class="pagenum"><a name="p201">[201]</a></span>
+como diz aqui o nosso amigo Gilberto, n&atilde;o
+creio... Mais me inclino a cr&ecirc;r que seja o desdem
+pelos demasiados am&ocirc;res bem succedidos, pelos
+am&ocirc;res
+faceis que n&atilde;o faltam nunca aos viajantes ricos e
+que s&atilde;o, por via de regra, os unicos que elles conhecem...
+E quem me diz a mim que o que este homem
+sente &eacute; justamente a falta de um am&ocirc;r
+s&eacute;rio, verdadeiro,
+como &eacute; o de uma esposa por seu marido?...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pelo menos, quando n&atilde;o seja isso&#8213;disse o commendador&#8213;o
+casar devia fazer-lhe bem... Se a mulher
+fosse d'estas que &aacute;s vezes apparecem na vida de
+um homem como um flagello, que com tudo embirram
+e com coisa alguma se satisfazem quando est&atilde;o a
+s&oacute;s
+com os maridos, elle buscaria a convivencia da sociedade
+como um refugio contra as impertinencias da
+esposa!
+<br />
+
+<br />
+
+Todos se riram a esta indiscreta confirma&ccedil;&atilde;o dos
+rum&ocirc;res que corriam acerca da vida torturada que o
+commendador passava, de portas a dentro, com a D.
+Graciana.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que eu por mim&#8213;emendou logo com solicita
+dissimula&ccedil;&atilde;o&#8213;com bem o diga, n&atilde;o sei
+praticamente
+o que isso &eacute;... Mas tenho ouvido varios maridos
+queixarem-se do inferno que passam em casa com as
+mulheres, e fa&ccedil;o ideia do petisco que ha-de ser...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&oacute;s <a href="#e22">tambem</a> fazemos
+ideia...&#8213;atalhou o juiz
+sarcasticamente, na sua voz de assobio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meus amigos&#8213;interrompeu Gustavo, que ouvira
+esta conversa&ccedil;&atilde;o sem tomar parte
+n'ella&#8213;n&atilde;o
+se cancem em conjecturas sobre os motivos que p&oacute;dem
+ter feito do Julio de Montarroyo o mysanthropo
+que hoje &eacute;. A vida d'este homem &eacute; um mysterio que
+n&atilde;o seria facil decifrar nem mesmo aos que na mocidade
+o conheceram intimamente, quanto mais &aacute;quelles
+que s&oacute; agora o encontram, depois de velho. De
+resto, pouco deve preoccupar-nos a sua tristeza, se
+<span class="pagenum"><a name="p202">[202]</a></span>
+n&atilde;o est&aacute; na nossa m&atilde;o o dissipar-lh'a.
+Querer &aacute;
+for&ccedil;a fazer de um homem triste um homem alegre,
+parece-me coisa t&atilde;o insensata e absurda como querer
+mudar as tardes melancholicas do outono nas <a href="#e23">risonhas</a>
+manh&atilde;s da primavera. Cada qual &eacute; como
+&eacute;; e
+nem me parece que a n&oacute;s nos seja licito avaliar da
+tristeza ou da alegria intima de um homem, pelo simples
+aspecto da sua physionomia ou pela estranha soturnidade
+dos seus habitos. O que para n&oacute;s &eacute; tedio
+p&oacute;de ser para elle distrac&ccedil;&atilde;o; o que
+para n&oacute;s &eacute; d&ocirc;r
+p&oacute;de muito bem ser para elle um grande prazer.
+Quantas pessoas ha que, por temperamento, por indole,
+ou por caracter, se comprazem, desde a infancia,
+na solid&atilde;o mais absoluta, achando insupportavel
+a convivencia em que outras pessoas encontram uma
+verdadeira felicidade, um incomparavel prazer?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso &eacute; verdade!&#8213;accudiu o commendador&#8213;eu
+j&aacute; tive uma epocha na minha vida em que todo o
+meu prazer era agarrar m&ocirc;scas para as dar a com&ecirc;r
+a um pisco que tinha mettido n'uma gaiola... Passava
+n'isso horas e horas, sem dar palavra, e se alguem
+me interrompia n'aquella tarefa em que sentia
+um prazer enorme, ia tudo com seiscentos diabos! E
+em todo o caso, aposto que nenhum dos senhores acharia
+distrac&ccedil;&atilde;o n'uma coisa t&atilde;o simples...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o tanto!&#8213;replicou o juiz&#8213;Quem n&atilde;o tem
+que fazer ca&ccedil;a m&ocirc;scas, diz o vulgo. Ora se o meu
+amigo n&atilde;o tinha mais que fazer, acho acertado que se
+distrahisse por esse modo... e n&atilde;o estranho que ainda
+agora se entregue ao divertimento...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agora n&atilde;o!&#8213;tornou o commendador.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por falta de pisco?&#8213;perguntou o medico.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por falta de pisco e por falta de paciencia...
+Mudei completamente... Agora n&atilde;o me entretem
+nada d'essas coisas. Minha mulher embirra com passaros
+em casa.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[203]</span>
+A conversa&ccedil;&atilde;o proseguiu animada de ditos
+picarescos
+a proposito d'esta ingenua confiss&atilde;o do commendador
+que, sem o querer, veio desviar as atten&ccedil;&otilde;es do
+grupo disposto a escalpellar a vida de Julio de Montarroyo.
+<br />
+
+<br />
+
+A esta mesma hora, Julio encontrava no jardim
+a D. Aurelia de Magalh&atilde;es e travava-se entre os
+dois este dialogo:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o, j&aacute; sei que vou tel-o por vizinho,
+n&atilde;o
+&eacute; verdade, sr. Julio de Montarroyo? Disse-me o Gustavo
+que v. ex.<sup>a</sup> j&aacute; comprou a casa de
+Norberto de
+Noronha.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A casa de Helena, minha senhora... &Eacute; verdade,
+comprei-a.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Na inten&ccedil;&atilde;o de a habitar?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim, minha senhora. Fa&ccedil;o ten&ccedil;&atilde;o de
+passar
+n'ella os ultimos dias da minha vida.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; muito triste este sitio a que n'este momento
+empresta uma apparencia de alegria a permanencia
+dos nossos hospedes... Mas, quando meu irm&atilde;o retirar
+para Lisboa e todos regressarem a suas casas,
+tudo isto recahe n'um silencio e n'uma tristeza que
+s&oacute; p&oacute;de agradar &aacute;s almas tristes...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; justamente esse silencio e essa tristeza que
+a minha alma anceia...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A solid&atilde;o e a tristeza s&atilde;o um lenitivo para a
+alma quando nos prendem recorda&ccedil;&otilde;es saudosas aos
+sitios
+em que habitamos e em que outr'ora fomos felizes.
+Estou eu n'esse caso, porque aqui nasci, aqui me
+criei, aqui passei dias felizes na companhia dos que
+me eram caros, e aqui os vi desapparecer para sempre
+e para nunca mais. Mas v. ex.<sup>a</sup>, snr. Julio de
+Montarroyo, que aqui veio apenas uma vez, que me
+lembre, e em dias bem luctuosos e bem tristes para o
+pobre Norberto de Noronha...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E para o meu cora&ccedil;&atilde;o, minha senhora! Quando
+<span class="pagenum">[204]</span>
+se &eacute; verdadeiramente desgra&ccedil;ado, quando nunca
+se teve uma hora de felicidade, sente-se um prazer
+amargo, um prazer cruel, em permanecer nos sitios
+em que mais soffremos, em que o nosso cora&ccedil;&atilde;o
+sentiu
+mais profundos e mais lancinantes os golpes da desventura.
+Foi justamente n'esse predio que hoje comprei
+que eu presenciei um dos mais dolorosos e lancinantes
+espectaculos de toda a minha vida. Ao entrar n'aquella
+casa, dezoito annos volvidos, pareceu-me v&ecirc;r ainda,
+ao canto da mesma sala, sentado na mesma poltrona
+de rodas, aquelle pobre velho semi-morto, com
+os olhos fitos em mim, ouvindo com a alma anciada
+a espelhar-se-lhe na pupilla dilatada e immovel, as
+palavras de animadora esperan&ccedil;a que ent&atilde;o
+proferi,
+e que deviam ser-lhe um balsamo consolador no meio
+d'aquelle infernal martyrio! E esta evoca&ccedil;&atilde;o
+terrivel,
+bem longe de augmentar o meu soffrimento, suavisa-o.
+Comparando o que soffro e o que tenho soffrido
+com o que soffreu aquelle pobre pae, encontro motivo
+para me julgar feliz. Depois, foi alli que ella viveu,
+que ella passou os unicos dias venturosos da sua
+infancia cheia de sonhos v&atilde;os e de anhelos de felicidade,
+at&eacute; que a negra m&atilde;o da desventura a veio
+empolgar...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pobre Helena!&#8213;murmurou D. Aurelia&#8213;se
+v. ex.<sup>a</sup> a conhecesse n'esse tempo, se pudesse
+avaliar
+os finos quilates d'aquelle espirito, a suave candura
+d'aquelle nobre cora&ccedil;&atilde;o! Eu, que fui sua amiga,
+sua
+companheira de infancia, eu que t&atilde;o de perto privei
+com ella e conheci todos os prim&ocirc;res d'aquella alma
+nobilissina, ainda hoje me espanto, e n&atilde;o sei como explicar
+aquelle rapido e insolito reviramento, sen&atilde;o pela
+loucura. Para mim, Helena de Noronha soffreu grande
+abalo nas faculdades mentaes, antes de abandonar o
+pae, por quem era extremosa, e esquecer os sagrados
+<span class="pagenum">[205]</span>
+deveres de filha, que ella se esmerava em cumprir sempre
+com uma religiosa pontualidade!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;V. ex.<sup>a</sup> nunca mais teve noticias d'ella?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nunca mais. E isso mesmo me faz pensar que
+a minha pobre amiga perdeu a ras&atilde;o antes do fatal
+passo que havia de custar-lhe n&atilde;o s&oacute; a propria
+ventura,
+mas tambem a vida do pae e do primo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Alvaro, segundo me disseram, morreu assassinado
+em casa de um taberneiro da Serra do Carvalho...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; certo. Foi um tal Perneta quem, attrahindo-o
+alli sob pretexto de que encontraria Helena, l&aacute;
+conseguiu matal-o e roubal-o. A principio, supp&ocirc;z-se
+que a morte f&ocirc;ra obra de malfeitores que o tivessem
+assaltado em viagem, porque o cadaver appareceu na
+estrada. Mas uma denuncia anonyma, enviada &aacute;s auctoridades
+e confirmada mais tarde por um sapateiro
+de Braga, por alcunha o <em>Tomba</em>, que
+foi testemunha
+no processo, p&ocirc;z a justi&ccedil;a na pista do criminoso,
+e o
+Perneta foi julgado e condemnado a gal&eacute;s por toda a
+vida.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O <em>Tomba</em>!&#8213;disse Julio&#8213;Conheci
+muito bem
+esse sapateiro e procurei-o agora no meu regresso a
+Braga, esperan&ccedil;ado em obter d'elle esclarecimentos
+que talvez me explicassem o destino de Helena. Mas
+ha muitos annos que desappareceu, e ignora-se o
+rumo que levou, podendo ser at&eacute; que j&aacute; tenha
+morrido...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sei, n&atilde;o conheci o
+<em>Tomba</em>. Ouvi fallar
+muito n'esse homem por aquella occasi&atilde;o e sei que
+veio dep&ocirc;r como testemunha no tribunal de Lanhoso,
+mas ignoro completamente o que fosse feito d'elle.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se o <em>Tomba</em> esclareceu a
+justi&ccedil;a e dep&ocirc;z como
+testemunha, ent&atilde;o o assassinato do pobre Alvaro obedeceu
+a um plano de vingan&ccedil;a a que n&atilde;o foi estranho
+o raptor de Helena...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[206]</span> &#8213;O padre Anselmo?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Justamente. Como conhece v. ex.<sup>a</sup> esse nome?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois n&atilde;o sabe v. ex.<sup>a</sup> que elle
+andou por aqui
+missionando e que foi com as suas perniciosas praticas
+ao canto do confissionario que conseguiu desvairar a
+minha pobre amiga ao ponto de a fazer abandonar a
+casa paterna?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E v. ex.<sup>a</sup> era sabedora das
+inten&ccedil;&otilde;es de
+Helena?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu! Se ella me tivesse dito alguma coisa, eu
+trataria de impedil-a d'um semelhante passo. Guardou-se
+de mim como de toda a gente. O que eu lhe
+notava era uma tristeza profunda, um recolhimento
+mystico de que cheguei por vezes a reprehendel-a.
+Mas, como ella insistia, n&atilde;o me preoccupei muito com
+isso, por supp&ocirc;r que, retirando os missionarios, breve
+retomaria a sua habitual despreoccupa&ccedil;&atilde;o de
+espirito.
+Enganei-me! O mal tinha lavrado fundo, e o que eu
+suppunha n&atilde;o passar de um momentaneo devaneio
+mystico, era afinal a monomania religiosa, com todos
+os symptomas da loucura incuravel! Pobre Helena!
+nem chego sequer a accusal-a de ingratid&atilde;o pelo seu
+procedimento para comigo, porque, apesar de quanto
+se possa dizer e de quanto tenho ouvido a meu irm&atilde;o
+Gustavo, julgo-a irresponsavel.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; esse o juizo que v. ex.<sup>a</sup> forma de
+Helena de
+Noronha?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute;. E formo-o assim, porque a conheci desde a
+infancia, e posso assegurar a v. ex.<sup>a</sup> que
+n&atilde;o havia
+mais nobre alma, cora&ccedil;&atilde;o mais terno e cheio de
+affectos.
+Extremamente sensivel e impressionavel, de uma
+boa f&eacute; e candura de anjo, foi talvez tudo isso que a
+perdeu.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O pae, segundo creio, projectava casal-a com o
+primo, com o Alvaro...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim, essas eram as supremas aspira&ccedil;&otilde;es de
+Norberto.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[207]</span> &#8213;E Helena amava o primo?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o o amava. Mas tambem n&atilde;o tinha preferencia
+por outro homem. Muitas vezes fall&aacute;mos n'isso e
+lhe ouvi dizer que, posto o primo lhe fosse indifferente,
+casaria com elle por obediencia ao pae. Recordo-me
+at&eacute; que, de uma das ultimas vezes em que n&oacute;s
+fall&aacute;mos a tal respeito, ella me affirmou: &laquo;Meu
+primo &eacute;
+para mim um homem como os outros. Caso com elle
+como casaria com outro que meu pae indicasse. O
+mesmo n&atilde;o succederia, se eu tivesse, como muitas meninas
+da minha edade, algum rapaz a quem quizesse
+mais...&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o foi, portanto, a repugnancia invencivel
+pelo primo que a levou a abra&ccedil;ar a vida religiosa....<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Decerto n&atilde;o foi. Mesmo porque Norberto de
+Noronha amava muito a filha para a constranger a
+casar com um homem que ella abertamente recusasse.
+Em Helena, o que houve foi a imagina&ccedil;&atilde;o excitada
+pelas perigosas e seductoras pinturas que o padre Anselmo
+lhe fez da vida religiosa, fanatisando-a e enlouquecendo-a
+com infernal habilidade.
+<br />
+
+<br />
+
+Os dois calaram-se por instantes.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sabe v. ex.<sup>a</sup>&#8213;disse Julio de Montarroyo por
+fim&#8213;que me tem sido immensamente grata ao espirito
+esta conversa&ccedil;&atilde;o a respeito de Helena?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; natural. Dei-lhe talvez esclarecimentos que
+v. ex.<sup>a</sup> ignorava...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por isso, e porque n&atilde;o ha para mim felicidade
+igual &aacute;quella que experimento em poder fallar de
+Helena com pessoa que a tivesse conhecido. Com
+effeito, v. ex.<sup>a</sup> acaba de me contar pormenores
+que
+me eram de todo o ponto desconhecidos... Mas ainda
+isso n&atilde;o &eacute; tudo: &eacute; que sinto
+verdadeiramente
+um grande lenitivo em ouvir fallar de Helena de
+Noronha e de coisas que de longe ou de perto se
+relacionem com ella. Foi esse, e n&atilde;o outro, o motivo
+<span class="pagenum">[208]</span>
+porque vim comprar a casa onde ella nasceu, onde se
+creou, onde se passou a sua infancia. Parece-me que
+alli tudo me hade fallar d'ella. Cada um d'aquelles
+logares me dar&aacute; como que uma
+recorda&ccedil;&atilde;o d'aquella
+creatura, que o destino p&ocirc;z no meu caminho para logo
+a fazer desapparecer com a rapidez com que foge e
+desapparece um meteoro no espa&ccedil;o, em noite calmosa
+de estio!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;V. ex.<sup>a</sup>, sr. Julio de Montarroyo, amou Helena
+de Noronha com uma paix&atilde;o que tornaria feliz a minha
+pobre amiga, se ella tivesse podido apreciar como
+eu toda a vehemencia do seu affecto!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Helena, minha senhora, sabia bem quanto eu a
+amava...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sabia e n&atilde;o lhe correspondeu a esse am&ocirc;r que
+preencheria as mais ardentes aspira&ccedil;&otilde;es de um
+cora&ccedil;&atilde;o
+sedento de affectos?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Correspondeu! Helena correspondeu tanto quanto
+a sua nobre alma lh'o permittia, a esta paix&atilde;o que
+me inspirou. E se n&atilde;o abandonou o convento para
+vir salvar o pae moribundo e tornar feliz o homem
+que ella amava, &eacute; porque foi victima de alguma infame
+cilada que para sempre a perdeu.
+<br />
+
+<br />
+
+Ent&atilde;o Julio de Montarroyo contou a D. Aurelia que
+tivera repetidas entrevistas com Helena no convento
+do Sard&atilde;o; que ahi combin&aacute;ra com ella a fuga,
+quando
+uma inesperada e repentina enfermidade veio transtornar
+todo o plano concertado entre os dois; e que,
+sendo compellida a seguir para Paris, lhe escrevera
+uma carta convidando-o a ir esperar noticias d'ella na
+grande capital do mundo civilisado. E tendo ahi passado
+muitos mezes, aguardando as promettidas noticias,
+nunca mais lhe f&ocirc;ra possivel ouvir sequer fallar d'ella.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Conclue portanto que Helena...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Foi infamemente illudida mais uma vez pelos
+seus crueis algozes!...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[209]</span> &#8213;Se Helena tinha alguma vez pensado s&eacute;riamente
+em abandonar a vida religiosa, creio bem que n&atilde;o
+seria facil impedil-a de realisar o seu pensamento.
+Helena de Noronha era por demais altiva e dotada
+de energia de caracter sufficiente para n&atilde;o se deixar
+prender e illaquear por outra vontade que n&atilde;o fosse
+a sua.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu creio que Helena de Noronha j&aacute; n&atilde;o vive...
+Procurei-a por toda a parte, percorri o mundo em sua
+procura, e em parte alguma pude jamais achar quem
+de longe sequer houvesse tido conhecimento d'ella.
+Isto me leva a cr&ecirc;r que a supprimiram antes que ella
+pudesse effectuar a sua evas&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Seria possivel?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nos antros jesuiticos tudo &eacute; possivel, minha
+senhora.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas n&atilde;o sabe v. ex.<sup>a</sup> que o padre
+Anselmo foi
+quem resolveu Helena a professar?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sei muito bem.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois esse padre n&atilde;o poderia dar noticias de Helena,
+se lh'as exigissem?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O padre Anselmo! Esse decerto poderia informar-me
+com verdade do destino de Helena, se me fosse
+facil encontral-o. Mas &eacute; homem de quem tambem
+ninguem me deu noticias... A unica pessoa que poderia
+talvez dizer-me o que foi feito d'elle morreu ha
+muitos annos em Lisboa... Era uma tal D. Carlota que,
+tendo auxiliado Alvaro e a mim proprio em todos os
+esfor&ccedil;os que empreg&aacute;mos para libertar Helena do
+convento,
+&aacute; ultima hora nos trahiu, reatando as suas
+rela&ccedil;&otilde;es
+com o padre Anselmo... Regressando a Braga,
+alimentava ainda esperan&ccedil;as de a encontrar; mas a
+morte incumbiu-se de tornar ainda mais negro o mysterio
+que envolve tanto a existencia de Helena como
+a do jesuita que a arrebatou para sempre &aacute; familia e
+&aacute; sociedade.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[210]</span> &#8213;Pobre Helena!&#8213;suspirou D. Aurelia&#8213;que negro
+destino foi o seu!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Infelicitou-se e infelicitou quantas pessoas se lhe
+aproximaram. Ha creaturas assim dotadas d'este fatal
+cond&atilde;o de trazerem o soffrimento e a desgra&ccedil;a
+comsigo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E no emtanto as suas inten&ccedil;&otilde;es eram sempre
+nobres
+e puras. Ninguem conviveu mais de perto com ella
+e tambem por isso ninguem melhor do que eu p&oacute;de avaliar
+o thesouro de bondade que se abrigava n'aquelle
+cora&ccedil;&atilde;o!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;V. ex.<sup>a</sup> que vae ter-me por vizinho, hade ter
+paciencia, sr.<sup>a</sup> D. Aurelia, e permittir-me que
+alguma
+vez pe&ccedil;a &aacute;s suas
+recorda&ccedil;&otilde;es o d&ocirc;ce lenitivo de me
+fallar de Helena...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A minha vida &eacute; tambem uma interminavel
+cadeia de amargas tristezas n'este solitario canto do
+mundo, onde nasci e me criei, onde gosei e soffri todas
+as alegrias e todas as d&ocirc;res da existencia... Posso
+dizer que hoje vivo, como v. ex.<sup>a</sup>, s&oacute;
+de tristes
+recorda&ccedil;&otilde;es...&#8213;replicou
+D. Aurelia com um fundo suspiro.
+<br />
+
+<br />
+
+A conversa&ccedil;&atilde;o foi interrompida n'este ponto pela
+chegada do juiz e do commendador que desciam ao
+jardim discutindo entre si o programma das festas em
+honra de Julio.
+<br />
+
+<br />
+
+Ao v&ecirc;rem-n'o a distancia, em conversa animada
+com a D. Aurelia, os dois entreolharam-se e, com um
+sorriso significativo, disse o magistrado:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quer v&ecirc;r que andamos, sem o pensar, preparando
+uma festa de nupcias?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;P&oacute;de ser...&#8213;replicou o commendador&#8213;A D.
+Aurelia est&aacute; ainda muito fresca e, se o Julio tiver juizo,
+o que deve fazer &eacute; casar com ella para se distrahir.
+<br />
+
+<br />
+
+Assim dizendo, f&ocirc;ram aproximando-se sem darem
+a perceber nos gestos ou nas palavras a impress&atilde;o.
+que aquelle encontro lhes caus&aacute;ra.
+<br />
+
+<br />
+
+Mais tarde veremos se o juiz tinha raz&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p211">[211]</a></span>
+<h3><a name="c13"></a>XIII<br />
+
+<br />
+
+Denuncia</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Jo&atilde;o Lazaro f&ocirc;ra pontual em comparecer
+&aacute; hora
+marcada para a ceia que os amigos offereciam em sua
+honra, no Palacio de Crystal.
+<br />
+
+<br />
+
+O aventuareiro sentia-se intimamente lisonjeado e
+envaidecido por esta demonstra&ccedil;&atilde;o de affecto e
+estima
+que Eugenio de Mello e os seus amigos lhe davam.
+Mas apparentava grande desdem e indifferen&ccedil;a por
+tudo quanto o cercava, assumindo a attitude altiva e
+soberana de quem dispensa uma honra quando recebe
+um fav&ocirc;r. Chegou mesmo a dizer a um de seus intimos,
+no tom can&ccedil;ado e aborrecido de quem se v&ecirc;
+obrigado a aturar importunos:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estes idiotas massam-me, n&atilde;o me largam e
+offerecem-me banquetes para terem a honra de se sentarem
+ao meu lado!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o ser&aacute; bem isso&#8213;replicou o outro
+delicadamente,
+para n&atilde;o o ferir&#8213;Devemos conceder que a amizade,
+a justa admira&ccedil;&atilde;o pelos teus talentos e, acima
+de tudo uma certa communh&atilde;o de ideias, mais que a
+vaidade pessoal, s&atilde;o as determinantes d'estas
+manifesta&ccedil;&otilde;es
+de que &eacute;s alvo...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Communh&atilde;o de ideias!&#8213;tornou o Jo&atilde;o Lazaro
+<span class="pagenum">[212]</span>
+desdenhoso&#8213;Que communh&atilde;o de ideias p&oacute;dem elles
+ter comigo, se s&atilde;o uns idiotas, uns cretinos incapazes
+de terem no cerebro impenetravel outra coisa que n&atilde;o
+seja arroz cosido em vez de miolos?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Talvez tenhas raz&atilde;o, talvez...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Com toda a certeza que a tenho! Se eu n&atilde;o
+fosse um homem notavel, se n&atilde;o tivesse conquistado
+uma popularidade que me torna a primeira figura do
+meu paiz, cuidas tu que estes imbecis, estes biltres,
+teriam a generosidade de me pagar um caf&eacute;, quanto
+mais uma ceia? Eu conhe&ccedil;o-os. Querem explorar-me,
+querem illuminar-se da radiosa aureola de immortalidade
+que me circumda a fronte. Com os olhos postos
+no futuro, querem, a troco de uma ceia, que os seus
+nomes brilhem a par do meu, quando se fizer a minha
+historia e quando os seculos repetirem com
+admira&ccedil;&atilde;o
+o meu nome e o de todos aquelies a quem dei a honra
+de se aproximarem de mim.
+<br />
+
+<br />
+
+O intimo, que era um homem sensato, porem delicado,
+n&atilde;o p&ocirc;de conter-se que n&atilde;o dissesse:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agora, depois de te ouvir, conven&ccedil;o-me de que
+realmente os idiotas s&atilde;o elles, se pensam como tu
+dizes... Pois queres que te falle com franqueza?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dize l&aacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Creio que outro qualquer que te ouvisse, sem
+ser eu, juraria que o idiota &eacute;s tu!
+<br />
+
+<br />
+
+Jo&atilde;o Lazaro mordeu os grossos labios e, percebendo
+que irritara o amigo com a sua estupida filaucia,
+mudou de tom e disse brandamente:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Confesso que fui talvez demasiado violento e
+um poucochinho injusto na aprecia&ccedil;&atilde;o d'esses
+sujeitos,
+que p&oacute;dem ser muito b&ocirc;as pessoas, e animados das
+melhores inten&ccedil;&otilde;es, mas que me irritam
+profundamente,
+vindo, com esta futilidade d'uma ceia, roubar-me
+o tempo que necessito para tratar assumptos
+mais serios e de que depende a salva&ccedil;&atilde;o de todos.
+<span class="pagenum">[213]</span>
+Porque &eacute; preciso que tu o saibas, eu n&atilde;o vim ao
+Porto
+unicamente para os amigos me darem de cear...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para que ent&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para ver se querem collaborar comigo na grande
+obra da salva&ccedil;&atilde;o publica...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; lhes expuzeste o teu plano?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O meu plano &eacute; t&atilde;o vasto que n&atilde;o
+p&oacute;de ser resumido
+n'um discurso para se repetir a cada um em
+particular; e &eacute; de tal modo melindroso, que tambem
+n&atilde;o p&oacute;de ser publicamente revelado a uma
+assembleia.
+Aqui, de duas uma: ou ha confian&ccedil;a em mim, ou n&atilde;o
+ha. Se ha, fa&ccedil;a-se o que eu digo, facultem-se-me os
+meios de que care&ccedil;o e mais tarde se ver&aacute; a obra
+grandiosa que projecto e para cuja realisa&ccedil;&atilde;o
+todos
+devem concorrer. A gloria, porisso, ser&aacute; de todos. Eu
+n&atilde;o a quero s&oacute; para mim... Se n&atilde;o ha,
+&eacute; inutil perguntar-me
+o que penso e o que desejo fazer. Se eu
+submetto o plano &aacute; discuss&atilde;o, admittindo emendas
+e
+correc&ccedil;&otilde;es, ent&atilde;o o plano deixa de ser
+meu para ser
+de todos, e eu deixo de ser a cabe&ccedil;a pensante para
+me converter n'um simples instrumento como os outros.
+Ora a isso n&atilde;o me sujeito. Sinto aqui dentro&#8213;e
+batia na testa com impeto&#8213;alguma coisa de grande
+e de superior, para que consinta em me nivelar com
+essas vulgaridades que nada teem feito e nada podem
+fazer, pela simples raz&atilde;o de que n&atilde;o nasceram
+para
+dirigir, nasceram s&oacute; para serem dirigidas. Ora ahi
+tens a raz&atilde;o porque eu sou &aacute;s vezes injusto com
+aquelles
+mesmos para quem o n&atilde;o devo ser... &Eacute; que queria
+v&ecirc;r mais ardor, mais enthusiasmo e, sobretudo, mais
+desprendimento e menos egoismo n'aquelles que me
+rodeiam!...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bom! Mas, a final, o que queres tu?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dinheiro!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh, diabo! isso &eacute; o mais difficil de obter, porque
+&eacute; isso precisamente o que todos querem...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[214]</span> &#8213;Pois se o querem, que m'o ponham &aacute;s ordens,
+que o semeiem, que eu lhes volverei cem por um!&#8213;exclamou
+o Jo&atilde;o Lazaro, convicto.&#8213;N&atilde;o me falta
+mais nada. O meu plano est&aacute; completo. Para o realisar,
+apenas care&ccedil;o de dinheiro. D&ecirc;em-me dinheiro e,
+dentro em tres mezes, eu terei mudado a face do paiz.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas bem v&ecirc;s, meu caro, que isso depende de
+circumstancias...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quaes circumstancias?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se o dinheiro que tu pedes para a realisa&ccedil;&atilde;o
+do teu plano f&ocirc;r uma somma t&atilde;o importante que
+n&atilde;o
+esteja nas for&ccedil;as dos nossos amigos...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nas for&ccedil;as dos nossos amigos deve estar sempre
+tudo aquillo de que depende a salva&ccedil;&atilde;o da patria.
+Quando se trata de um caso d'estes, ninguem est&aacute; a
+medir e a calcular o que p&oacute;de fazer. As for&ccedil;as
+medem-se
+pela grandeza da obra e da vontade de cada
+um para a realisar.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o &eacute; tanto assim. Convencido est&aacute;s
+tu da excellencia
+e efficacia do teu plano, e tambem mais que
+ninguem deves sentir o desejo ardente de o realisar.
+E, no emtanto, trope&ccedil;as na difficuldade suprema de o
+p&ocirc;r em ac&ccedil;&atilde;o e pedes o concurso dos
+correligionarios
+para que o teu pensamento n&atilde;o fique na cathegoria
+das coisas irrealisaveis...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Certamente. E creio que todos teem obriga&ccedil;&atilde;o
+de me ajudar. O bem n&atilde;o &eacute; s&oacute; para mim,
+o bem &eacute;
+para todos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Perfeitamente d'accordo. Isso n&atilde;o se discute. O
+que se discute &eacute; se as sommas que a
+realisa&ccedil;&atilde;o do teu
+plano exige est&atilde;o nas for&ccedil;as dos nossos amigos.
+Bem
+sabes aquelle aphorismo: Onde n&atilde;o ha...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois sim, mas aqui n&atilde;o &eacute; o rei que perde,
+&eacute; o
+povo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E o rei ganha, bem sei. Mas se a fatalidade das
+<span class="pagenum">[215]</span>
+circumstancias assim o imp&otilde;e, o que havemos de fazer?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Assim o imp&otilde;e, dizes tu! N'esse caso, j&aacute; sabes
+que n&atilde;o ha dinheiro!&#8213;exclamou Jo&atilde;o Lazaro n'um
+tom de amargo despeito.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu n&atilde;o sei nada!&#8213;volveu-lhe o interlocutor.&#8213;Isto
+s&atilde;o apenas considera&ccedil;&otilde;es que eu
+fa&ccedil;o sobre o
+que p&oacute;de succeder. Ainda n&atilde;o me revelaste o teu
+plano,
+ainda n&atilde;o me disseste de quanto carecias... Como
+queres tu que eu saiba se &eacute; realisavel ou n&atilde;o a
+somma
+que desejas? Simplesmente, o que me parece &eacute; que,
+se essa somma f&ocirc;r avultada, haver&aacute; difficuldade em
+a conseguir.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Onde est&aacute; ent&atilde;o o am&ocirc;r d'esses
+patriotas &aacute; ideia?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; no cora&ccedil;&atilde;o. Mas tu bem sabes
+que o cora&ccedil;&atilde;o
+sem dinheiro &eacute; uma for&ccedil;a t&atilde;o fraca
+que, hoje, nem
+sequer remove as difficuldades de um casamento, quanto
+mais as difficuldades da salva&ccedil;&atilde;o de um povo.
+<br />
+
+<br />
+
+Jo&atilde;o Lazaro fez um gesto de supremo desprezo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E &eacute; por um partido d'estes que eu penso, trabalho
+e me sacrifico! Vale bem a pena, realmente, exp&ocirc;r-se
+um homem a todas as violencias, a todos os
+odios e todas as persegui&ccedil;&otilde;es, para melhorar a
+sorte
+de um povo que n&atilde;o est&aacute; ainda educado para as
+grandes
+reformas sociaes! Cuida a gente que encontra ao
+seu lado cren&ccedil;as profundas, dedica&ccedil;&otilde;es
+sinceras, homens
+capazes de sacrificarem tudo ao seu ideal, e d&aacute;
+mas &eacute; com um bando de egoistas, agarrados ao dinheiro
+como a ostra &aacute; casca, incapazes de soltarem um
+vintem sem se consummirem em calculos sobre o livro
+do <em>Deve</em> e
+<em>Haver</em>! Ra&ccedil;a ignobil de
+bacalhoeiros
+ignaros, que est&atilde;o a pedir Jo&atilde;o Branco e Pita
+Beserra!
+<br />
+
+<br />
+
+Depois d'esta violenta explos&atilde;o de colera, por
+n&atilde;o
+achar abertos os cofres dos homens a quem d'antes
+chamava filhos e netos de heroes e aos quaes agora
+<span class="pagenum">[216]</span>
+malsinava de <em>bacalhoeiros ignaros</em>,
+visto que n&atilde;o lhe
+davam o dinheiro que elle queria para sustentar a
+ociosidade infame, o Jo&atilde;o Lazaro despediu o amigo com
+um gesto altivo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem!&#8213;disse elle&#8213;tenho entendido. N&atilde;o se
+arranja nada. O peor mal &eacute; d'elles. H&atilde;o-de
+arrepender-se,
+mas ha de ser tarde...
+<br />
+
+<br />
+
+E consultando o relogio:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;S&atilde;o horas. Vou ao Palacio, &aacute; tal ceia, mas
+recolherei
+cedo, porque n&atilde;o estou para os aturar. Amanh&atilde;,
+se quizeres, apparece. Mas vem de dia, porque &aacute; noite
+talvez retire para Lisboa.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que! Retiras sem conferenciar com os nossos
+amigos?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se me dizes que elles n&atilde;o est&atilde;o dispostos a
+sacrificar-se...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Entendamo-nos! Eu digo apenas o que penso...
+Mas isto n&atilde;o &eacute; nem p&oacute;de ser tomado
+como uma resposta
+decisiva ao teu pedido...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, que eu n&atilde;o pe&ccedil;o!&#8213;exclamou
+Lazaro
+com enfatuada altivez&#8213;Eu proponho. Era o que me
+faltava! Servil-os com as minhas ideias, com o meu
+talento, com o meu nome e vir ainda implorar-lhes
+que mo acceitem o favor de os salvar! Se querem ser
+homens, se querem ser livres, aqui estou eu, prompto
+a resgatal-os com o meu plano: d&ecirc;em o dinheiro preciso
+para o p&ocirc;r em execu&ccedil;&atilde;o. Se, pelo
+contrario, preferem
+ser escravos abjectos, vis instrumentos de especuladores
+sem dignidade nem consciencia, fiquem-se
+com o seu dinheiro e a sua escravid&atilde;o, que eu por mim
+n&atilde;o darei mais um passo em beneficio de semelhante
+canalha!
+<br />
+
+<br />
+
+Disse e caminhou para a porta, magestoso e solemne
+como um deus sagrado.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vaes para a ceia dos teus amigos, n&atilde;o &eacute;
+isso?&#8213;perguntou
+o outro despedindo-se.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[217]</span> &#8213;Vou fazer ainda esse ultimo sacrificio &aacute; popularidade
+de um partido que me n&atilde;o merece.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois bem; vae, que eu vou tocar a capitulo, a
+v&ecirc;r o que se p&oacute;de arranjar... Tu,
+por&eacute;m, tens de
+ser ouvido...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o terei duvida em fallar e exp&ocirc;r as coisas
+com as reservas precisas, se porventura elles estiverem
+dispostos a entrar n'isto a s&eacute;rio. Se, por&eacute;m,
+vires
+que se retrahem e que apenas desejam ouvir-me por
+simples devaneio, pe&ccedil;o-te que n&atilde;o me incommodes,
+obrigando-me a descer at&eacute; esses bilhostres.
+<br />
+
+<br />
+
+Estendeu-lhe com superioridade dois dedos que o
+outro apertou, e desceu a metter-se na carruagem de
+pra&ccedil;a, que o esperava &aacute; porta do hotel.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para o Palacio!&#8213;ordenou ao cocheiro.
+<br />
+
+<br />
+
+Pelo caminho, ia monologando:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Este idiota ficou aterrado com a minha attitude,
+e estou certo de que vae mover os outros estupidos a
+largarem o dinheiro... Se n&atilde;o f&ocirc;r assim,
+&aacute; valentona,
+por boas palavras n&atilde;o se se faz nada... Preciso de
+lhes apanhar dinheiro para ir at&eacute; Hespanha.
+<br />
+
+<br />
+
+E com um sorriso lubrico a bailar-lhe nos labios
+sensuaes, n'uma atavica reminiscencia da tanga:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! as hespanholas... as hespanholas s&atilde;o um
+encanto!
+<br />
+
+<br />
+
+Quando entrou no Palacio, passava j&aacute; da hora
+marcada. Os amigos, com Eugenio &aacute; frente, vieram
+recebel-o n'uma doida expans&atilde;o de alegria.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Cuidei que n&atilde;o vinhas!&#8213;disse-lhe Eugenio.&#8213;Seria
+um grande desgosto para n&oacute;s todos, que te estimamos,
+mas muito principalments para estas damas,
+que nos honraram com a sua presen&ccedil;a e que estavam
+anciosas por te conhecer.
+<br />
+
+<br />
+
+O aventureiro saudou gravemente, com um for&ccedil;ado
+sorriso de polidez e, respondeu n'um tom de pedantesca
+superioridade:
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[218]</span> &#8213;Foi em verdade um sacrificio grande para mim
+o ter de comparecer a esta hora, e tanto que me vi
+for&ccedil;ado a transferir para amanh&atilde; uma
+reuni&atilde;o importantissima
+que devia effectuar-se hoje. Amigos politicos,
+que desejam ouvir-me sobre negocios da mais alta
+transcendencia, insistiam comigo para que vos enviasse
+um bilhete de desculpa e n&atilde;o protelasse a reuni&atilde;o
+que se havia marcado; mas eu recusei-me a
+acceder aos seus desejos, pois n&atilde;o quero que se diga
+que sou menos amavel com os velhos amigos da mocidade
+e com as bellas e gentis damas que os acompanham.
+<br />
+
+<br />
+
+Seguiram-se as apresenta&ccedil;&otilde;es:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Senhorita Lola...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Senhorita Dolores...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Senhorita Consuelo...
+<br />
+
+<br />
+
+O Jo&atilde;o Lazaro, com os ademanes de um principe,
+sorria benevolamente a cada um d'estes nomes, inclinando-se
+amavel, com modos de grande senhor.
+<br />
+
+<br />
+
+Abancaram &aacute; mesa e principiou o festim.
+<br />
+
+<br />
+
+A esta mesma hora, a loura Leonor, despedido o
+commendador Garcia, que havia entrado &aacute;s sete, vinha
+debru&ccedil;ar-se &aacute; janella, na anciosa espectativa de
+sentir ao longe os passos de Eugenio, quando um mo&ccedil;o
+de recados parou &aacute; porta da rua, espreitando para o
+numero, e bateu, depois de se certificar de que era
+realmente aquella a casa que procurava.
+<br />
+
+<br />
+
+A criada desceu a v&ecirc;r quem batia o pouco depois
+voltou com uma carta.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Um mo&ccedil;o de fretes com esta carta para a menina...
+<br />
+
+<br />
+
+A criada, velha onzeneira e confidente das perfidias
+ao commendador, usava d'este tratamento meio
+familiar, meio respeitoso, sempre que se achava a s&oacute;s
+com Leonor.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;D&ecirc; c&aacute;!&#8213;disse a loura, pegando na carta e
+examinando
+<span class="pagenum">[219]</span>
+o sobrescripto.&#8213;Queres v&ecirc;r que &eacute; algum
+massador a seringar-me com uma declara&ccedil;&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O portador n&atilde;o esperou
+<em>reposta</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem sei que n&atilde;o esperou. Eu estava &aacute; janella
+e vi-o partir logo que entregou a carta.
+<br />
+
+<br />
+
+E rasgou com um sorriso de curiosidade o sobrescripto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; singular! O papel n&atilde;o vem perfumado&#8213;disse
+ella, mostrando o papel vulgar em que a missiva
+vinha escripta.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; de homem de dinheiro!&#8213;commentou a velha,
+muito pratica em negocios d'am&ocirc;r.&#8213;Os
+<em>cheiros</em> s&atilde;o
+para os pelintras que s&oacute; querem agradar com bugigangas
+e a respeito de <em>lou&ccedil;a</em>...
+nem um pires!... Homem
+s&eacute;rio, homem de <em>massas</em>,
+n&atilde;o est&aacute; l&aacute; com essas coisas...
+Confia no seu dinheiro e &eacute; bastante...
+<br />
+
+<br />
+
+Leonor, sem prestar atten&ccedil;&atilde;o ao palanfrorio da
+criada, ia lendo n'uma agita&ccedil;&atilde;o crescente. Quando
+chegou ao fim, exclamou horrivelmente pallida, amarfanhando
+o papel entre as m&atilde;os:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! mas isto &eacute; impossivel! Isto &eacute;
+uma infamia!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que &eacute;, menina?&#8213;perguntou a velha servi&ccedil;al,
+n'um movimento de curiosidade.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dizem-me aqui&#8213;tornou Leonor com voz rouca
+de commo&ccedil;&atilde;o&#8213;que Eugenio vae casar.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Casar-se o sr. Eugenio! Credo, menina! Olhe
+que isso h&atilde;o-de ser ditos de gente que lhe quer mal...
+Que isto &eacute;, eu direi... nos homens n&atilde;o ha que
+fiar...
+Elles pr&eacute;gam-n'a na menina do olho e, quando uma
+pessoa mal cuida, parece que est&atilde;o muito seguros e
+p&otilde;em-se a <em>avoar</em>!
+<br />
+
+<br />
+
+Leonor, agitadissima, relia o papel para se certificar
+de que n&atilde;o tinha comprehendido mal o que n'elle
+se lhe dizia e que era o seguinte:
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Uma pessoa amiga, que muito a estima e que daria
+a vida para lhe ser agradavel, julga dever avisal-a
+<span class="pagenum">[220]</span>
+de que Eugenio de Mello acaba de pedir em casamento
+uma menina de rara belleza, filha unica de um capitalista
+muito conhecido n'esta cidade, e que o enlace se
+prepara para muito breve.
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Na roda dos rapazes finos, onde este acontecimento
+&eacute; muito commentado, discute-se de maneira bastante
+humilhante para a gentilissima Leonor o procedimento
+de Eugenio.
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Uns affirmam que elle, can&ccedil;ado da amante,
+aborrecido
+de uns am&ocirc;res que j&aacute; n&atilde;o lhe offerecem
+encanto
+nem prazer, busca pelo casamento com uma menina
+rica, prendada, e muito formosa, a quem ama apaixonadamente,
+libertar-se de umas rela&ccedil;&otilde;es que considera
+despreziveis e improprias da sua dignidade. Outros
+sustentam que, pelo contrario, Leonor e Eugenio, receiando
+que o commendador Garcia, de um momento
+para outro, escandalisado com o mau uso que ambos
+fazem do seu dinheiro, <em>suspenda
+pagamentos</em>, combinaram
+que o melhor era garantirem-se contra a miseria
+provavel, casando Eugenio com uma mulher de dinheiro
+e ficando Leonor a receber d'elle o pre&ccedil;o dos seus amores
+como agora o recebe do commendador Garcia.
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Quem estas linhas escreve tem a certeza de que
+Leonor &eacute; vilmente atrai&ccedil;oada por Eugenio, e por
+isso
+caridosamente a previne d'este facto, afim de evitar
+que a sua reputa&ccedil;&atilde;o, continue a ser infamemente
+enxovalhada
+pelos mais intimos amigos do perfido e ingrato
+amante.
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Se f&ocirc;r discreta e prudente e quizer informar-se
+em segredo da veracidade d'este aviso, a pessoa que
+lhe escreve esta carta estar&aacute; amanh&atilde;
+&aacute;s 11 horas em
+sitio d'onde aviste a sua casa. Se a janella do meio estiver
+aberta, a s&aacute;la illuminada e no piano se ouvir a
+valsa <em>Leonor</em>, &eacute; signal de
+que deseja recebel-a e ent&atilde;o
+essa pessoa apresentar-se-ha para lhe dar todos os esclarecimentos
+que desejar.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[221]</span>
+&laquo;At&eacute; l&aacute;, silencio e
+discre&ccedil;&atilde;o &eacute; a unica coisa que
+se recommenda.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Relida esta carta em voz alta, Leonor encarou desvairada
+a velha confidente, exclamando:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se &eacute; verdade isto que aqui se diz, mato-o!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Cr&eacute;do, menina!&#8213;bradou a velha benzendo-se&#8213;Isso
+s&atilde;o tenta&ccedil;&otilde;es do demonio! Deixe
+l&aacute;, n&atilde;o fa&ccedil;a isso,
+que n&atilde;o vale a pena uma pessoa ir pagar c'os ossos
+na cadeia um burro ruim por um
+<em>b&ocirc;</em>! Homens ha muitos,
+t&atilde;o <em>b&ocirc;s</em> e
+melhores do que aquelle... Olha agora,
+se a menina, com uma carinha d'essas, que parece mesmo
+uma <em>image</em>, n&atilde;o achava
+homem que lhe d&eacute;sse o
+merecimento sen&atilde;o aquelle! Cr&eacute;do! andam ahi
+rapazes
+como uns soes, babadinhos pela menina que tomaram
+elles quem lhes d&eacute;sse atten&ccedil;&atilde;o... Era
+s&oacute; a menina
+abrir a b&ocirc;cca e veria!... Eu &eacute; que n&atilde;o
+quero
+dizer nada, mas tenho <em>osservado</em>
+muita coisa... S&oacute; eu
+&eacute; que sei!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que e o que voc&ecirc; tem observado, Joanna?&#8213;interrogou
+Leonor roida da curiosidade de saber alguma
+coisa que lhe esclarecesse a perfidia de Eugenio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tenho-os visto por ahi a offerecer-me prendas
+se eu fizer com que a menina lhes d&ecirc;
+atten&ccedil;&atilde;o...
+Mas eu c&aacute;... como a via virada p'r&oacute; sr.
+Eugenio...
+mal haja elle, se &eacute; certo o que diz a carta!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E voc&ecirc; nunca ouviu dizer nada, Joanna? Nunca
+ouviu que Eugenio tivesse outro namoro?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, l&aacute; isso, na minha
+salva&ccedil;&atilde;o se eu ouvi boquejar
+nem tanto como isto!
+<br />
+
+<br />
+
+E mostrava a ponta da unha suja, para indicar o
+t&ecirc;rmo da compara&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas ser&aacute; verdade?&#8213;tornava a loura passeando
+agitadamente na sala&#8213;Elle ter&aacute; animo para me
+fazer uma affronta d'estas, sabendo quanto o amo,
+quanto me tenho sacrificado por elle?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[222]</span> &#8213;O amor dos homens &eacute; como a f&ocirc;lha
+do olmo...
+ora vira para um lado, ora p'r&oacute; oitro, menina...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! mas isto &eacute; impossivel! Eu n&atilde;o lhe
+mere&ccedil;o
+um tamanho despreso, uma tamanha perfidia! &Eacute;
+preciso que um homem seja muito infame para abusar
+assim do am&ocirc;r d'uma pobre mulher, para andar
+assim nas trevas preparando um golpe de morte ao
+meu cora&ccedil;&atilde;o!
+<br />
+
+<br />
+
+E irritada, anhelante de desesp&ecirc;ro torcia as m&atilde;os,
+com frenesi.
+<br />
+
+<br />
+
+A velha apaziguava:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Aacute;s vezes
+<em>t&aacute;mem</em> se diz mais do que
+&eacute;,..
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas diz-se, e nada se diz sem motivo... Alem
+d'isso, esta carta n&atilde;o p&oacute;de ser uma impostura,
+porque
+a pessoa que a escreve presta-se a dar-me esclarecimentos...
+E ninguem ousaria vir comprometter-se
+affirmando uma coisa que mais tarde se saberia ser
+mentira... Oh, meu Deus! meu Deus! que mal te
+fiz eu para me fazeres t&atilde;o desgra&ccedil;ada?!&#8213;exclamou
+por fim, rompendo em solu&ccedil;os.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Desgra&ccedil;ado &eacute; o diabo!&#8213;consolou a velha
+Joanna&#8213;Quem conta um conto sempre lhe accrescenta
+um ponto... Isso &aacute;s vezes p&oacute;de ser que
+n&atilde;o
+seja tanto assim... Mas se f&ocirc;r, o que a menina deve
+fazer &eacute; botar o cora&ccedil;&atilde;o ao largo...
+Mal por mal,
+antes isso do que o sr. commandador
+<em>Grac&iacute;a</em> dar por
+ella e n&atilde;o tornar c&aacute;...
+<em>Ant&atilde;o</em> sim,
+<em>ant&atilde;o</em> &eacute; que a
+menina se devia affligir, porque o am&ocirc;r &eacute; muito
+bonito,
+mas sem dinheiro n&atilde;o se arranja nada...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Cale-se, Joanna, cale-se!&#8213;bradou Leonor n'um
+impeto de desespero&#8213;Voc&ecirc; pensa como elle, que
+tambem vae atr&aacute;s do dinheiro, sem se lembrar que
+eu, para o amar, n&atilde;o estive a fazer calculos nem a
+perguntar-lhe quanto possuia! Oh! mas eu lhe juro
+que n&atilde;o chegara a gosar esse maldito ouro pelo qual
+me troca! Miseravel! neguei-lhe eu alguma vez todo
+<span class="pagenum"><a name="p223">[223]</a></span><a href="#e24">
+o dinheiro</a> que me pedia? Sendo uma pobre mulher,
+vivendo unicamente da protec&ccedil;&atilde;o de um homem, eu
+nunca hesitei em sacrificar todos os meus recursos, o
+meu dinheiro, as minhas joias, a minha posi&ccedil;&atilde;o&#8213;o
+proprio amor do homem que me sustenta&#8213;&aacute;s suas
+necessidades, aos seus caprichos, aos seus prazeres!
+E anda em segredo tratando casamento com outra,
+vendendo ao dinheiro d'ella o meu cora&ccedil;&atilde;o, o meu
+socego,
+a minha tranquillidade! E exp&otilde;e-me aos ditos e
+&aacute;s chufas dos seus amigos, arrasta o meu nome pelas
+mesas dos botequins onde me julgam capaz de me associar
+a elle na infame explora&ccedil;&atilde;o de uma mulher!
+Oh! a ser verdade, mil vidas que elle tivesse n&atilde;o chegariam
+para pagar esta affronta!
+<br />
+
+<br />
+
+No intimo de Leonor tumultuavam todas as paix&otilde;es
+que p&oacute;dem agitar um peito de mulher: o am&ocirc;r
+despresado,
+o am&ocirc;r proprio offendido, a vaidade irritada,
+o odio, o ciume, emfim.
+<br />
+
+<br />
+
+A velha encarava-a receosa, sem j&aacute; se atrever a
+proferir palavras de prudencia ou de banal
+consola&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+De p&eacute;, a um canto, com as m&atilde;os cruzadas sobre a
+barriga, limitava-se a suspirar, murmurando em voz
+lamurienta:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Seja pelas almas! Ninguem diga que est&aacute; bem...
+Nossa Senhora do Allivio nos accuda pela sua infinita
+misericordia!
+<br />
+
+<br />
+
+Decorreram assim algumas horas. Por fim, Leonor,
+mais tranquilla, pareceu tomar uma resolu&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Joanna&#8213;disse ella&#8213;de tudo isto que aqui se
+passou, voc&ecirc; n&atilde;o d&aacute; uma palavra ao sr.
+Eugenio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; menina! Cr&eacute;do!&#8213;protestou a velha&#8213;a minha
+b&ocirc;cca n&atilde;o se abre para nada! N&atilde;o diga a
+menina
+coisa nenhuma, que eu
+<em>t&agrave;mem</em> fa&ccedil;o de
+conta que nada
+<em>assucedeu</em>... Mas a menina
+&eacute; capaz de n&atilde;o ter m&atilde;o
+em si e come&ccedil;ar-lhe por ahi com <em>climas</em>,
+que elle logo
+desconfia...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[224]</span> &#8213;Eu nada digo. Preciso inteirar-me da verdade,
+e para isso n&atilde;o convem que Eugenio suspeite que alguem
+me disse qualquer coisa...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por mim, n&atilde;o &eacute; que elle ha de desconfiar nada!
+E olhe que se a menina fizer isso, anda &aacute;s horas!...
+Ao menos, assim, n&atilde;o d&aacute; logar a que elle se
+encubra.
+E depois de se <em>infirmar</em> da verdade,
+j&aacute; fica sabendo
+quem tem...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; justamente isso o que eu quero.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Porque &aacute;s vezes&#8213;commentou a
+velha&#8213;<em>t&aacute;mem</em>
+s&atilde;o <em>malquerencias</em>...
+Pobre do rapaz! p&oacute;de ser que
+&aacute;s vezes nem lhe passe pela cabe&ccedil;a nenhuma coisa
+d'essas e lhe estejam a alevantar esse falso testemunho,
+s&oacute; p'ra am&ocirc;r da menina se dar mal co'elle...
+Olhe que no mundo <em>t&aacute;mem</em>
+h&atilde;o muitas
+<em>invejidades</em>!...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois &eacute; por isso...&#8213;tornou Leonor dominando-se&#8213;Eu
+vou-me deitar... N&atilde;o desejo que elle me
+encontre a p&eacute; quando vier... E como isto &eacute; contra
+o
+meu costume, vocemec&ecirc;, amanh&atilde;, quando eu a chamar
+ao meu quarto, a primeira coisa que tem a fazer &eacute;
+perguntar-me se estou melhor...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem sei; a menina quer-se <em>infingir</em>
+doente esta
+noite p'ra elle n&atilde;o desconfiar...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; isso mesmo. Vocemec&ecirc; n&atilde;o esquece
+isto que
+lhe digo?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora essa! A'gora esque&ccedil;o!...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem! B&ocirc;a noite! Pode-se ir deitar...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o, com bem passe a noite, menina!... Se
+f&ocirc;r preciso alguma coisa, n&atilde;o tem sen&atilde;o
+chamar...
+<br />
+
+<br />
+
+Quando Eugenio recolheu a casa, era madrugada.
+A ceia prolongara-se e a alegre companhia das hespanholas
+tivera o singular cond&atilde;o de fazer voar as
+horas com a rapidez de minutos.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o foi sem um intimo constrangimento que o bohemio
+penetrou, &aacute;s quatro horas da manh&atilde;, no quarto
+da amante.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[225]</span>
+Comquanto a tivesse prevenido de que recolheria
+tarde, por motivo da ceia offerecida a Jo&atilde;o Lazaro,
+esperava uma scena de ciumes, recrimina&ccedil;&otilde;es e
+queixas,
+como succedia sempre que a fazia esperar.
+<br />
+
+<br />
+
+Foi, pois, com grande surpreza que a encontrou
+deitada e, ao parecer, tranquilla.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deitaste-te?&#8213;disse elle&#8213;Fizeste bem, minha
+querida. A ceia prolongou-se mais do que eu esperava,
+e depois, conversa d'aqui, anecdota d'acol&aacute;, quando demos
+conta de n&oacute;s eram estas horas que v&ecirc;s!
+<br />
+
+<br />
+
+Leonor affectava uma grande serenidade e respondeu
+com ternura:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estava anciosa que viesses, porque me senti
+muito incommodada... Deitei-me por n&atilde;o poder estar
+de p&eacute;, mas n&atilde;o tenho dormido...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute;s doente, meu amor! O que foi isso? O que
+sentes?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nem eu sei o que isto foi! Comecei a sentir
+muito frio e grandes d&ocirc;res de cabe&ccedil;a... E creio
+que
+tive uma ponta de febre...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Foi constipa&ccedil;&atilde;o, com toda a certeza!
+&Eacute;s uma
+descuidada, n&atilde;o te agasalhas... Quando Deus quer,
+puzeste-te por ahi &aacute; janella, a v&ecirc;r quando eu
+chegava,
+e deu-te esse resultado!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o! Como sabia para onde tinhas ido, n&atilde;o te
+esperava sen&atilde;o mais tarde... N&atilde;o sei,
+n&atilde;o posso calcular
+do que isto f&ocirc;sse...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas est&aacute;s melhor, n&atilde;o &eacute; verdade?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim... agora sinto-me um pouco melhor...
+Depois que tomei uma chavena de ch&aacute; bem quente, as
+d&ocirc;res abrandaram-me um pouco...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para que deixaste deitar a Joanna? Ella podia
+ter ido chamar-me... Tu sabias onde eu estava, e se
+mandasses dizer-me o teu estado, viria immediatamente.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o valia a penna ir incommodar-te por uma
+coisa t&atilde;o ligeira... Isto passa.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p226">[226]</a></span>
+A conversa&ccedil;&atilde;o proseguiu assim serena, e amigavel,
+podendo Leonor occultar aos olhos do amante o terrivel
+inferno que lhe ia n'alma.
+<br />
+
+<br />
+
+O bohemio, confiado e desprevenido, acreditou na
+simulada doen&ccedil;a da formosa loura e attribuiu a isso a
+pallidez mortal que no dia seguinte lhe notou nas
+fei&ccedil;&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+Ella, pela sua parte, ameigava a voz, mostrava-se
+d&ocirc;ce e carinhosa, mais ainda do que de costume, e
+quando chegou ao fim da tarde e o bohemio teve de
+sahir para dar logar ao commendador Garcia, foi com
+um <a href="#e25">transporte</a> de
+ternura infinita que lhe disse:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pe&ccedil;o-te que n&atilde;o venhas tarde, mas tambem
+n&atilde;o
+desejo que sacrifiques a companhia dos teus amigos &aacute;
+ideia de que estou mal, porque, felizmente, sinto-me
+melhor...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, eu venho c&ecirc;do...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A que hora?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Depois da meia noite. Mas tu deita-te, n&atilde;o me
+esperes a p&eacute;, filhinha...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim... se me sentir doente, deito-me, e a Joanna,
+quando tu vieres, servir-te-ha a ceia, se ainda n&atilde;o tiveres
+ceiado...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N'esse caso, combinemos assim: eu ceio hoje
+f&oacute;ra para n&atilde;o dar trabalho &aacute; criada
+quando recolher.
+E tu n&atilde;o me esperas a p&eacute;... Valeu?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois sim.
+<br />
+
+<br />
+
+Beijaram-se e o bohemio partiu a encontrar-se com
+os amigos no botequim.
+<br />
+
+<br />
+
+Pelas onze horas da noite, e tendo j&aacute; sahido o
+commendador Garcia, Leonor, com a janella do centro
+aberta e a sala illuminada, sentou-se ao piano e
+come&ccedil;ou executando a walsa
+<em>Leonor</em>, conforme o seu
+anonymo correspondente lhe havia indicado.
+<br />
+
+<br />
+
+Quando mais n&atilde;o fosse sen&atilde;o a natural curiosidade
+de conhecer quem lhe escrevia denunciando-lhe a atroz
+<span class="pagenum">[227]</span>
+perfidia de Eugenio, j&aacute; era motivo mais que bastante
+para que Leonor acceitasse o offerecimento que se
+lhe fazia e d&eacute;sse o signal convencionado. Mas, muito
+mais que isso, imperava no espirito da ardente rapariga
+o sentimento do ciume e o irresistivel desejo de
+conhecer toda a verdade.
+<br />
+
+<br />
+
+Ainda a walsa n&atilde;o tinha chegado aos ultimos compassos
+e j&aacute; &aacute; porta da rua carregava no bot&atilde;o
+da
+campainha electrica um homem, embu&ccedil;ado n'uma ampla
+capa &aacute; hespanhola e tendo occulto o rosto pelas
+abas largas de um chap&eacute;o de feltro.
+<br />
+
+<br />
+
+A velha Joanna desceu a escada e, abrindo a
+porta, franqueou a entrada ao desconhecido, indo em
+seguida postar-se de vigia n'outra janella, para avisar
+da chegada de Eugenio, se acaso o presentisse na rua.
+<br />
+
+<br />
+
+Leonor, tendo descido a vidra&ccedil;a e corrido o store,
+esperava o denunciante, de p&eacute;, na sala, com o
+cora&ccedil;&atilde;o
+palpitante de anciosa curiosidade.
+<br />
+
+<br />
+
+O desconhecido entrou desembara&ccedil;adamente, fechou
+a porta sobre si e, parando em frente de Leonor
+estupefacta, desembu&ccedil;ou-se, tirou o chap&eacute;o e
+disse,
+inclinando-se em garboso cumprimento:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o esperava que fosse eu, n&atilde;o &eacute;
+verdade?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O senhor!&#8213;disse Leonor com pasmo, reconhecendo
+no embu&ccedil;ado as fei&ccedil;&otilde;es de
+Jo&atilde;o Lazaro.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu mesmo, &eacute; verdade!&#8213;replicou Jo&atilde;o Lazaro
+n'um tom meio grave, meio galanteador;&#8213;julgava-me
+bem longe do Porto e completamente esquecido
+d'esse rosto lindo... Bem v&ecirc; que se enganou e que o
+interesse que uma vez despertou na minha alma n&atilde;o
+desappareceu, antes mais se fortaleceu e acrisolou com
+a ausencia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas, perd&atilde;o!&#8213;tornou Leonor, franzindo o sobr'olho
+n'um gesto de impaciencia&#8213;creio que n&atilde;o foi
+para insistir nos seus protestos de estima que aqui
+veio...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[228]</span> &#8213;Bem sei! Est&aacute; impaciente por conhecer toda a
+negra perfidia de Eugenio... Vamos de vagar, minha
+querida, e deixe-me primeiro exp&ocirc;r-lhe quaes os motivos
+que me impelliram a dirigir-lhe a carta que
+hontem recebeu...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas n&atilde;o est&atilde;o elles expostos n'essa mesma
+carta?
+Se, como creio, os factos n'ella relatados s&atilde;o verdadeiros,
+basta a existencia d'esses factos para explicar
+o seu procedimento...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Perd&atilde;o, minha adoravel e gentil senhora! Tenho
+visto commetter muitas perfidias, tenho sido testemunha
+de villanias e infamias bem censuraveis, e
+nem por isso me tenho julgado no dever de intervir
+em favor das victimas. E isto por duas razoes bem
+simples: a primeira, porque, hoje em dia, no mundo a
+velhacaria, a trai&ccedil;&atilde;o, &eacute; moeda
+corrente; e a segunda,
+porque as pessoas a quem tenho visto ludibriar e escarnecer
+s&atilde;o em geral creaturas pelas quaes o meu
+cora&ccedil;&atilde;o
+n&atilde;o se interessa. Ora com a gentil Leonor n&atilde;o
+estamos no mesmo caso. Creio que j&aacute; em tempo lhe
+declarei, e bem sinceramente, quanta sympathia,
+quanto interesse e quanta dedica&ccedil;&atilde;o a sua
+estonteante
+formosura despertava na minha alma... N&atilde;o me quiz
+attender, ou melhor, n&atilde;o tive a fortuna de lhe merecer
+a mais ligeira estima. Outro mais feliz, por&eacute;m
+immensamente menos digno e mais ingrato do que eu,
+teve a d&ocirc;ce ventura de tocar o seu
+cora&ccedil;&atilde;o. Fui preterido.
+Paciencia! O que n'essa preteri&ccedil;&atilde;o houve de
+injusto e cruel para mim o de immerecido para elle
+vae agora a adoravel e encantadora Leonor sab&ecirc;l-o...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por Deus, sr. Lazaro! conte-me tudo, n&atilde;o me
+occulte nada!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; ent&atilde;o certo que o ama muito?&#8213;perguntou
+o aventureiro com um sorriso ironico.
+<br />
+
+<br />
+
+Leonor franziu ainda o sobr'olho e respondeu n'um
+impeto de irreprimivel desesp&ecirc;ro:
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[229]</span> &#8213;N&atilde;o sei se o amo, se o aborre&ccedil;o; sei que desejo
+saber quem &eacute;, como se chama e onde mora a mulher
+com quem vae casar. Sei que o sr. accusa Eugenio de
+me haver illudido, de me haver trocado por outra, e
+de me haver ultrajado, fazendo supp&ocirc;r que eu e elle
+entramos de sociedade e de intimo accordo n'um casamento
+de explora&ccedil;&atilde;o infame. Estas
+accusa&ccedil;&otilde;es s&atilde;o
+gravissimas, quer para o caracter de Eugenio, quer
+ainda para o meu cora&ccedil;&atilde;o de mulher. &Eacute;
+preciso que
+o senhor justifique perante mim, sem subterfugios e
+sem rodeios, tudo quanto hontem me escreveu, ali&aacute;s...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ali&aacute;s?&#8213;interrogou Jo&atilde;o Lazaro, sorrindo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ali&aacute;s terei o desgosto de lhe metter uma bala
+na cabe&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+E, n'um arrebatamento de justa indigna&ccedil;&atilde;o, os
+olhos faiscantes, os labios descorados e tremulos, Leonor
+tirou do bolso do vestido um pequeno revolver,
+com coronha de marfim, e apontou-o a Jo&atilde;o Lazaro.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; justo!&#8213;disse elle tranquillamente, sem perder
+a linha do amavel galanteador.&#8213;O castigo deve
+sempre igualar o delicto, e eu n&atilde;o mereceria outra
+puni&ccedil;&atilde;o se calumniasse de maneira t&atilde;o
+infame o homem
+que a senhora ama e que, al&eacute;m d'isso, &eacute; meu
+amigo... Mas, vejamos: se a mentira merece ser punida,
+a verdade n&atilde;o tem direito a ser premiada?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que quer dizer?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Uma coisa muito simples e ao mesmo tempo
+muito justa. Se eu minto, mata-me... Se eu fallo
+verdade, n&atilde;o &eacute; justo que me d&ecirc; vida?
+Porque &eacute; preciso
+que o saiba, Leonor: a morrer de am&ocirc;r por esse
+esquivo e ingrato cora&ccedil;&atilde;o, que a outro se
+abandonou,
+ando eu ha muito tempo!
+<br />
+
+<br />
+
+Leonor encarou-o com altiva dignidade:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; o meu cora&ccedil;&atilde;o o que me pede ou...
+a minha
+belleza?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tudo, Leonor! Desejo tudo quanto p&oacute;de dar-me
+<span class="pagenum">[230]</span>
+a vida, a felicidade, que sem o seu amor n&atilde;o
+existe para mim, e que outro ingrato indignamente
+me tem usurpado! Prometta-me que n&atilde;o me recusar&aacute;
+a esmola que lhe imploro do seu affecto, e ter&aacute; de mim
+a prova evidente, clara, irrecusavel, da negra perfidia
+de Eugenio!
+<br />
+
+<br />
+
+Leonor ficou um momento perplexa, fitando o Jo&atilde;o
+Lazaro attentamente, como se quizesse l&ecirc;r-lhe no
+rosto os pensamentos mais intimos. Por fim, respondeu:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O meu cora&ccedil;&atilde;o, por emquanto, n&atilde;o
+est&aacute; livre.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas se aquelle que n'este momento o occupa
+f&ocirc;r d'elle expulso, como merece, poderei ao menos
+contar com um infimo logar no mais afastado recanto
+do seu peito, Leonor?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o costumo ser ingrata para os que uma vez
+me provaram dedica&ccedil;&atilde;o e estima sincera.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o o ser&aacute; ent&atilde;o para mim, porque,
+desilludindo-a,
+dou-lhe a prova mais completa de quanto lhe
+quero, de quanto a amo!
+<br />
+
+<br />
+
+A loura indicou uma poltrona a Jo&atilde;o Lazaro e
+recostou-se no sof&aacute; que lhe ficava proximo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Assim entendidos&#8213;disse ella&#8213;queira dar-me
+as explica&ccedil;&otilde;es que me prometteu.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Perd&atilde;o, minha querida!&#8213;tornou o aventureiro,
+sorrindo amavelmente&#8213;Por emquanto ainda n&atilde;o
+passamos de promessas vagas, que a nada obrigam...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que deseja ent&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que me prometta, que me jure duas coisas...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dir&aacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A primeira que ser&aacute; discreta, que obedecer&aacute;
+em tudo e por tudo &aacute;s minhas
+indica&ccedil;&otilde;es, para chegar
+a obter a certesa absoluta da infidelidade de Eugenio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Prometto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A segunda &eacute; que, confirmada a minha
+accusa&ccedil;&atilde;o
+<span class="pagenum">[231]</span>
+e adquirida a certeza completa dos factos
+que lhe
+aponto, conceder-me-ha uma hora de felicidade, ao
+menos, consentindo que eu occupe durante ella, o logar
+que, n'esta casa, occupava Eugenio...
+<br />
+
+<br />
+
+A loura hesitou, tomada de invencivel repugnancia
+por este homem que mercadejava infamemente
+com a paix&atilde;o terrivel que abrasava o seu
+cora&ccedil;&atilde;o de
+mulher ciumenta.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E se eu recusar essa ultima
+condi&ccedil;&atilde;o?&#8213;perguntou.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Calar-me-hei, deixando-lhe o direito salvo de
+indagar por si o que p&oacute;de ficar sabendo desde j&aacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois bem, prometto. Falle e diga tudo o que
+sabe!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;V&ecirc; que confio na sua promessa e que n&atilde;o lhe
+pe&ccedil;o como penhor a mais leve liberdade, nem sequer
+o adiantamento de um beijo...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; de mais!&#8213;bradou Leonor, colerica e impaciente.&#8213;Se
+veio aqui, para se divertir &aacute; minha
+custa, fez muito mal, porque p&oacute;de sahir-lhe cara a
+brincadeira!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora vamos, minha querida... socegue!&#8213;volveu
+o Lazaro com um sorriso cynico.&#8213;Bem v&ecirc; que
+eu sou incapaz de abusar da sua credulidade, submettendo
+o seu cora&ccedil;&atilde;o a um rude soffrimento por mero
+gracejo. Mas estes casos, porisso mesmo que s&atilde;o
+graves e s&eacute;rios, querem-se meditados e reflectidos.
+Temos obriga&ccedil;&atilde;o de os encarar com serenidade e
+sangue
+frio, para procedermos com acerto e prudencia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois bem; eu estou tranquilla e, se alguma impaciencia
+me nota, &eacute; apenas a de ouvir as
+revela&ccedil;&otilde;es
+que me interessam e que certamente me vae fazer.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora muito bem!&#8213;principiou o Jo&atilde;o Lazaro.&#8213;Disse-lhe
+na minha carta que Eugenio pediu em casamento
+uma menina formosa e rica. E disse a verdade.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como se chama essa menina?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[232]</span> &#8213;Beatriz.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Onde mora?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Na rua do Breyner e &eacute; filha do capitalista Custodio
+de Jesus.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Diz ent&atilde;o que o casamento est&aacute; projectado para
+breve?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Digo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N'esse caso, essa menina ama-o?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tanto n&atilde;o sei, mas &eacute; de supp&ocirc;r que
+sim, visto
+que est&aacute; disposta a recebel-o por marido. O que,
+por&eacute;m,
+n&atilde;o offerece duvida &eacute; que Eugenio a ama, pois que
+pediu a sua m&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Foi Eugenio quem lhe disse que ia casar?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eugenio nada me disse. N&atilde;o atrai&ccedil;&ocirc;o,
+portanto,
+o amigo, descobrindo o seu segredo...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como o soube ent&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se &eacute; publico e notorio! Se nos caf&eacute;s
+n&atilde;o se falla
+de outra coisa!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o ser&aacute; isso uma
+inven&ccedil;&atilde;o de rapazes levianos,
+que gostam de se divertir &aacute; custa alheia?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Citam-se nomes e fazem-se commentarios. Al&eacute;m
+d'isso, a pessoa que mais particularmente me elucidou
+d'este caso n&atilde;o conhecia Eugenio e veio pedir-me
+informa&ccedil;&otilde;es
+a seu respeito.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que lhe disse?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que n&atilde;o podia deixar de dizer de um homem
+de quem sou amigo: que Eugenio &eacute; muito bom rapaz,
+um cavalheiro a toda a prova.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas &eacute; for&ccedil;oso impedir esse casamento!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Talvez n&atilde;o seja impossivel.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Conhece o pae d'essa menina, esse tal Custodio
+de Jesus?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;De vista apenas. N&atilde;o tenho com elle
+rela&ccedil;&otilde;es
+pessoaes; mas conhe&ccedil;o amigos intimos seus. O que deseja
+d'elle?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Informal-o de que Eugenio mant&eacute;m
+rela&ccedil;&otilde;es comigo
+<span class="pagenum">[233]</span>
+e fazer comprehender que n&atilde;o deve dar a filha
+a um homem que tem uma amante...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; doida! E o commendador Garcia?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que me importa a mim o commendador Garcia,
+comtanto que Eugenio n&atilde;o case!&#8213;bradou Leonor, erguendo-se
+arrebatadamente do sof&aacute; em que se achava
+sentada e dando alguns passos pela sala, n'uma
+agita&ccedil;&atilde;o
+indescriptivel.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Venha c&aacute;, socegue!&#8213;disse Jo&atilde;o Lazaro,
+tomando-lhe
+a m&atilde;o.&#8213;Prometteu-me obedecer a todas as minhas
+indica&ccedil;&otilde;es, e &eacute; for&ccedil;oso que
+cumpra o que prometteu.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois sim... Diga ent&atilde;o o que devo fazer...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Em primeiro logar, certificar-se de que &eacute; verdade
+o Eugenio trahil-a.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pela sua criada, que deve merecer-lhe toda a
+confian&ccedil;a...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Merece...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois a sua criada procurar&aacute; travar
+rela&ccedil;&otilde;es com
+alguma das criadas de Custodio de Jesus, e por esse
+modo saber&aacute; o que ha de verdade &aacute;cerca do que se
+diz. Os criados sabem tudo e s&atilde;o os melhores informadores
+d'este mundo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E obtida a certeza?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Obtida a certeza, nada diz a Eugenio at&eacute; ao
+momento que eu lhe marcar. Faz isto?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fa&ccedil;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que Eugenio n&atilde;o suspeite que lhe est&aacute; no rasto
+da perfidia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o suspeitar&aacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E eu voltarei a inform&aacute;l-a.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quando?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quando tiver obtido todos os informes que precisamos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E at&eacute; l&aacute; nada devo dizer nem fazer?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[234]</span> &#8213;Nada, sen&atilde;o isto: p&ocirc;r a sua criada em
+rela&ccedil;&otilde;es
+com as criadas do Custodio de Jesus.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas sabe que me condemna a uma tortura horrivel?
+Como quer que eu, com o inferno no cora&ccedil;&atilde;o,
+guarde silencio e me sujeite &aacute;s
+dila&ccedil;&otilde;es de uma informa&ccedil;&atilde;o
+t&atilde;o morosa? Eu preciso de resolver e actuar
+immediatamente! N&atilde;o est&aacute; no meu genio occultar
+por
+muito tempo o que me vae n'alma...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;As circumstancias imp&otilde;em-lhe
+dissimula&ccedil;&atilde;o e
+prudencia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;As circumstancias! Qual &eacute; a mulher que no
+meu caso attende &aacute;s circumstancias?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Todas. No seu caso, todas&#8213;replicou Jo&atilde;o Lazaro
+com reflexiva gravidade.
+<br />
+
+<br />
+
+E amaciando a voz, n'um tom de convic&ccedil;&atilde;o
+profunda:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora venha c&aacute;!&#8213;disse elle&#8213;Deixe-me pensar
+pela senhora e defender os seus interesses, o seu futuro,
+a sua posi&ccedil;&atilde;o, uma vez que essa cabecinha
+transtornada
+n&atilde;o se mostra em estado de pensar coisa alguma
+com acerto. E, creia, foi principalmente por isso
+que n&atilde;o quiz logo dizer-lhe tudo na minha carta...
+Calculei que faria escandalo se n&atilde;o tivesse ao seu lado
+alguem que a dirigisse, e procedi de f&oacute;rma a
+obrigal-a
+a ouvir-me e a attender-me...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois sim... j&aacute; o ouvi e j&aacute; o attendi... Mas o
+que n&atilde;o posso, o que os meus nervos n&atilde;o consentem
+&eacute;,
+obtida a prova da perfidia de Eugenio, remetter-me a
+uma passividade absoluta, deixando que o infame realise
+os seus torpes intentos!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o seja crean&ccedil;a e vamos a v&ecirc;r se
+consigo convencel-a
+de que um escandalo ruidoso nada impede e
+a mais ninguem prejudica sen&atilde;o &aacute; senhora...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;S&oacute; a mim, diz?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim, s&oacute; &aacute; senhora. Ora ou&ccedil;a, Leonor:
+Imagina
+que se se apresentar em casa de Custodio de Jesus e
+<span class="pagenum"><a name="p235">[235]</a></span>
+disser: &laquo;eu sou amante ostensiva do commendador Garcia,
+e o Eugenio de Mello &eacute; o meu amante clandestino&raquo;,
+essa declara&ccedil;&atilde;o pesar&aacute; no espirito do
+abastado capitalista
+o bastante para impedir o casamento?
+<br />
+
+<br />
+
+Leonor baixou os olhos e n&atilde;o <a href="#e26">respondeu</a>.
+Jo&atilde;o Lazaro
+continuou:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O mais que com isso poder&aacute; fazer, &eacute; provocar
+explica&ccedil;&otilde;es da parte de Eugenio que, bem longe de
+negar, confessar&aacute; essas rela&ccedil;&otilde;es, que
+nada affectam a
+reputa&ccedil;&atilde;o de um rapaz livre e em pleno goso da
+sua
+mocidade; pois, infelizmente, toda a gente considera
+perdoaveis uns am&ocirc;res que sempre se calculam do
+dura&ccedil;&atilde;o ephemera e que, por isso mesmo, ninguem
+toma a s&eacute;rio.
+<br />
+
+<br />
+
+A loura ergue-se como impellida por occulta mola.
+Os olhos faiscaram-lhe de colera, n'uma
+indigna&ccedil;&atilde;o
+suprema.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ninguem toma a s&eacute;rio o amor de uma mulher
+como eu!&#8213;exclamou ella&#8213;E porque? Acaso o
+meu cora&ccedil;&atilde;o vale menos do que o d'outra mulher?
+Acaso sou eu uma creatura differente de todas as outras,
+e porisso condemnada a n&atilde;o sentir no meu
+cora&ccedil;&atilde;o
+os d&ocirc;ces affectos que s&atilde;o a vida e a felicidade
+ainda
+dos seres mais despresiveis e obscuros? N&atilde;o terei
+eu o direito de amar e de exigir que o homem que
+despertou na minha alma o terno sentimento a que
+jurou corresponder cumpra lealmente os seus juramentos?
+<br />
+
+<br />
+
+Jo&atilde;o Lazaro ouviu impassivel esta rajada de
+indigna&ccedil;&atilde;o,
+sem perder um s&oacute; instante o sorriso meio
+amavel, meio ironico, que desde o principio lhe brincava
+nos labios.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tem raz&atilde;o&#8213;disse elle por fim&#8213;Mas que quer,
+minha querida? A sociedade &eacute; quasi sempre cruel e
+iniquia nas suas decis&otilde;es; e ahi est&aacute;
+precisamente um
+caso em que ninguem, da boa f&eacute;, poder&aacute;
+attribuir-lhe
+<span class="pagenum">[236]</span>
+rectid&atilde;o e justi&ccedil;a. No emtanto, como a sociedade
+&eacute; que
+dicta a lei pela qual cada um se rege, segue-se que
+Eugenio, na sua perfidia, tem a seu favor a lei, que todos
+acatam, ao passo que a senhora tem apenas a raz&atilde;o,
+que ninguem attende.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ha de pelo menos attendel-a elle!
+<br />
+
+<br />
+
+Jo&atilde;o Lazaro teve uma gargalhada de zombaria.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o o creia, minha querida! Se Eugenio prestasse
+ouvidos &aacute; raz&atilde;o, se ao menos tivesse uma sombra
+de respeito por esse cora&ccedil;&atilde;o que elle esmaga, por
+esse amor que calca aos p&eacute;s, n&atilde;o teria pensado em
+casar-se.
+Mas, digo-lh'o eu, e a senhora vae em breve
+ter a confirma&ccedil;&atilde;o do que lhe assevero, o Eugenio
+pensa, em se <em>fazer homem
+s&eacute;rio</em> por meio de uma allian&ccedil;a
+vantajosa e respeitavel, e est&aacute; disposto a romper
+os la&ccedil;os de uma affei&ccedil;&atilde;o que nunca
+reputou duradoura
+nem digna d'elle.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esbofeteal-o-hei publicamente como a um verdadeiro
+canalha que &eacute;!&#8213;bradou Leonor completamente
+dementada.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eis o perigo! Eis o gravissimo desatino que eu
+me julgo no dever de impedir, porque a amo, porque
+a estreme&ccedil;o, Leonor, e porque nunca poderia absolver-me
+de ter sido eu a causa indirecta d'essa grande
+loucura! O que lucraria com isso? Fazer um escandalo
+cujo ridiculo cahiria inteiro sobre a senhora?
+Obrigar a que a discutissem nos caf&eacute;s e a ultrajassem
+nas conversa&ccedil;&otilde;es particulares, como a uma mulher
+despresada,
+uma mulher publicamente repellida? A sociedade
+&eacute; assim, minha querida amiga! N&atilde;o
+perd&ocirc;a
+aos vencidos. E depois, o ruido d'este escandalo chegaria
+aos ouvidos do commendador Garcia, seu protector.
+Por muito que elle lhe queira, por muito que transija
+com os despoticos impetos do seu temperamento
+e do seu cora&ccedil;&atilde;o de mulher galante, bem
+v&ecirc;, Leonor,
+que seria crear-lhe uma situa&ccedil;&atilde;o que nenhum
+<span class="pagenum">[237]</span>
+homem, nem mesmo o commendador Garcia, poderia
+acceitar... O rompimento, portanto, com este seria
+inevitavel, e d'ahi um accrescimo de desgra&ccedil;a e mais
+um motivo de prazer para todos aquelles a quem o seu
+desdem tem magoado. Repare bem n'isto, Leonor, olhe
+que &eacute; um amigo sincero e verdadeiro que lhe est&aacute;
+fallando.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas o que devo ent&atilde;o fazer, santo Deus!&#8213;clamou
+a formosa Laura, estorcendo as m&atilde;os em desespero.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ter prudencia e esperar.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ter prudencia! Esperar... o que e como?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nunca ouviu dizer, Leonor, que a vingan&ccedil;a &eacute;
+o prazer dos deuses? Pois tenha prudencia e vingue-se,
+Leonor...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vingar-me? Sim! quero e hei-de vingar-me...
+Por&eacute;m, como? Como &eacute; que eu hei-de levar a cabo
+essa
+vingan&ccedil;a tremenda que o meu cora&ccedil;&atilde;o
+anhela?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Primeiro, conven&ccedil;a-se serenamente do delicto.
+Depois, julgue com provas &aacute; vista, e fulmine a
+condemna&ccedil;&atilde;o
+que o seu cora&ccedil;&atilde;o lhe ditar. Para a auxiliar
+na execu&ccedil;&atilde;o da senten&ccedil;a, c&aacute;
+estou eu. Fa&ccedil;amos
+uma allian&ccedil;a, um pacto intimo, para nos auxiliarmos
+um ao outro. Eu ajudal-a-hei a vingar-se do homem
+que a trahiu; a senhora ajudar-me-ha a...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A que?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A realisar grandes emprezas que premedito...
+<br />
+
+<br />
+
+Leonor fitou-o com uma viva curiosidade.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E que emprezas s&atilde;o essas?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mais tarde lh'o direi... Por emquanto, basta
+s&oacute; que saiba que podemos auxiliar-nos reciprocamente
+com grande vantagem e interesse para ambos. Posso
+contar com a senhora?
+<br />
+
+<br />
+
+A loura hesitou. Por fim respondeu:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;P&oacute;de. Mas ha-de de ajudar-me a impedir o casamento
+de Eugenio, ou, pelo menos, a vingar-me d'elle.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[238]</span> &#8213;Isso mesmo &eacute; o que eu lhe estou propondo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; bem!&#8213;disse a loura estendendo-lhe a
+m&atilde;o&#8213;p&oacute;de
+contar comigo.
+<br />
+
+<br />
+
+Jo&atilde;o Lazaro embu&ccedil;ou-se no capote, carregou o
+chap&eacute;o
+sobre os olhos e dispoz-se a sahir.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Aacute;manh&atilde; voltarei &aacute; mesma hora&#8213;disse
+elle &aacute;
+sahida.&#8213;E o signal convencionado para eu saber que
+me recebe, p&oacute;de ser o mesmo de hoje.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Espere!&#8213;reflectiu a loura&#8213;Se &aacute;s vezes, por
+qualquer motivo, n&atilde;o me f&ocirc;r possivel recebel-o...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Claro est&aacute; que n&atilde;o d&aacute; o signal.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas se me f&ocirc;r preciso prevenil-o de que p&oacute;de
+vir mais tarde...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Toque ent&atilde;o a marcha da
+<em>Cadiz</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; bem.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ainda mais&#8213;tornou o Lazaro&#8213;se quizer prevenir-me
+de que n&atilde;o venha no dia seguinte, substitua.
+a marcha da <em>Cadiz</em> pela
+<em>Cavallaria Rusticana</em>. Ouvindo-a,
+j&aacute; fico sabendo que s&oacute; poderei vir dois dias
+depois.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o se dar&aacute; esse caso, mas sempre &eacute;
+bom prevenir...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Comprehendeu-me perfeitamente. At&eacute; amanh&atilde;.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;At&eacute; amanh&atilde;.
+<br />
+
+<br />
+
+O aventureiro tomou a m&atilde;o de Leonor, depositou
+n'ella galantemente um beijo, e sahiu.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[239]</span>
+<h3><a name="c14"></a>XIV<br />
+
+<br />
+
+Miseravel!
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Jo&atilde;o Lazaro recolheu ao hotel e no dia seguinte
+batia &aacute; porta de Jorge. Era uma casa modesta, de
+homem s&oacute;, em que se notava o natural desarranjo de
+quem n&atilde;o tem os cuidados intelligentes de uma mulher
+a dirigir o servi&ccedil;o domestico.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Venho fazer-te a promettida visita&#8213;disse Jo&atilde;o
+Lazaro ao amigo que estava j&aacute; sentado &aacute; banca no
+seu gabinete de trabalho.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem vindo sejas, meu caro!&#8213;volveu-lhe Jorge,
+interrompendo a escripta e indicando-lhe uma cadeira.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sempre a trabalhar!&#8213;disse Jo&atilde;o Lazaro com
+um sorriso de curiosidade.&#8213;Em que diabo te occupas
+agora?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tomo apontamentos para um bosquejo historico...
+Bem v&ecirc;s, a historia &eacute; a minha paix&atilde;o...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bonito entretenimento para quem n&atilde;o tem que
+fazer...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que queres? Em alguma coisa se hade matar
+o tempo...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olha l&aacute;, porque n&atilde;o collaboras tu no jornal que
+eu dirijo em Lisboa?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[240]</span> &#8213;Eu!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim, que duvida? O teu auxilio podia ser-me
+de immensissima utilidade. Ha t&atilde;o pouco quem escreva
+bem, e tu est&aacute;s ahi a desperdi&ccedil;ar talento n'um
+trabalho
+obscuro que ninguem ler&aacute;, que a ninguem importa,
+quando podias brilhar entre os primeiros, tornares-te
+lido, popular... Queres?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu n&atilde;o! Detesto os jornaes politicos, bem o sabes,
+e principalmente os da tua c&ocirc;r.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas, homem, eu n&atilde;o te pe&ccedil;o a
+collabora&ccedil;&atilde;o politica,
+posto que ella me fosse extremamente agradavel
+e vantajosa... Mas, ao menos, a collabora&ccedil;&atilde;o
+litteraria.
+A litteratura pertence a todos os campos e n&atilde;o
+imp&otilde;e solidariedade de principios, nem sequer afinidade
+de ideias politicas. O meu jornal est&aacute; a precisar
+de sangue novo... Eu esfor&ccedil;o-me por fazer d'elle um
+jornal moderno, mas sou s&oacute; e todo o meu esfor&ccedil;o
+se
+perde por n&atilde;o ter uma penna vigorosa, uma penna
+brilhante que me secunde. Al&eacute;m d'isso, o publico
+n&atilde;o
+est&aacute; educado, o publico n&atilde;o comprehende o que
+&eacute; bom
+nem o que &eacute; mau, e d'ahi resulta preferir o mau a
+que est&aacute; habituado, deixando no olvido e na
+indifferen&ccedil;a
+o que &eacute; bom!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por esse lado, tenho eu a certesa de que n&atilde;o me
+havia de escassear publico...&#8213;disse Jorge rindo.&#8213;Mas
+n&atilde;o, meu caro, eu n&atilde;o estou resolvido a
+collaborar
+em jornaes...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fazes mal! O jornal &eacute; ainda hoje uma arma
+formidavel, a unica que a sociedade respeita, porque
+&eacute; a unica que a faz tremer.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas eu n&atilde;o pretendo amedrontar ninguem&#8213;tornou
+Jorge impassivel.&#8213;N&atilde;o tenho ambi&ccedil;&otilde;es,
+n&atilde;o alimento
+a vaidade de querer tornar-me celebre por nenhum
+titulo, e portanto prefiro o socego, a tranquillidade
+do meu gabinete e a suave alegria de um estudo
+que me n&atilde;o can&ccedil;a &aacute; lucta violenta do
+jornalismo
+<span class="pagenum">[241]</span>
+diario, famulento Minotauro, que consome vida, actividade,
+talento que a todos aproveita, menos a quem lh'o
+sacrifica. Deixemos isso, meu Jo&atilde;o, e dize-me: sempre
+partes hoje para Lisboa?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o. Demoro-me ainda por c&aacute; uns dias,
+n&atilde;o sei
+quantos...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem! Folgo com a tua permanencia entre
+n&oacute;s... &Eacute; signal de que tiveste bom acolhimento
+por
+parte dos teus amigos...
+<br />
+
+<br />
+
+Jo&atilde;o Lazaro fez uma car&ecirc;ta de despeito.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Uns pulhas, os taes meus amigos!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que! Acaso n&atilde;o est&aacute;s contente com elles?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Queres que te falle com franqueza? A ti posso
+dizer tudo, porque &eacute;s meu amigo...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem sabes que n&atilde;o tenho o menor interesse em
+revelar as confidencias que me fazes.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois bem; declaro-te que estou arrependido de
+me haver sacrificado por um partido de verdadeiros
+bilhostres!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, j&aacute;?!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute;! E, com franqueza, agora n&atilde;o me fica bem
+recuar... seria um escandalo compromettedor da minha
+popularidade, do meu nome... Mas, acredita,
+que se fosse coisa que eu pudesse fazer sem dar nas
+vistas, fazia-o sem a mais leve hesita&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o p&oacute;des... isso com certeza n&atilde;o
+p&oacute;des&#8213;tornou
+Jorge.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois esse &eacute; todo o meu desespero! Tenho de
+permanecer atrelado a estes imbecis que n'uma hora
+de irreflex&atilde;o surprehenderam a minha camaradagem,
+e n&atilde;o posso tirar d'elles a vingan&ccedil;a que merecem!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas de que te queixas? Qual &eacute; o motivo do
+teu desgosto?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;S&atilde;o uns miseraveis! N&atilde;o ha quem lhes
+apanhe
+dinheiro para nada... Estou compromettido, cheio de
+dividas, porque tenho gasto sommas enormes, tudo
+<span class="pagenum">[242]</span>
+para honrar o partido e sustentar o brilho do meu
+nome, unica coisa que ainda d&aacute; importancia a esse
+agrupamento de idiotas...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute;s modesto, Jo&atilde;o!&#8213;interrompeu Jorge rindo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que diabo! entre amigos n&atilde;o ha necessidade
+de estarmos com cerimonias. A verdade &eacute; esta...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tens raz&atilde;o. <em>Inter amicus non est
+gerigon&ccedil;a</em>,
+dizia-se no meu tempo. Continua.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois imagina que eu tinha phantasiado um projecto
+que n&atilde;o passava de um plano bem combinado
+para arranjar uma somma de que preciso para me livrar
+de apuros. Bato &aacute; porta dos correligionarios
+mais endinheirados de Lisboa e digo-lhes que preciso
+de vir ao norte combinar com os nossos amigos um
+golpe decisivo, mas que n&atilde;o posso vir sem dinheiro,
+porque elle &eacute;, ainda hoje como sempre, a grande arma,
+a suprema for&ccedil;a. Claro est&aacute;, eu n&atilde;o
+pedia para mim,
+pedia para o servi&ccedil;o do partido, para o triumpho da
+causa... Calcula l&aacute; as difficuldades que tive de vencer
+para lhes arrancar os magros cobres com que fiz
+a viagem?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Calculo, calculo... o dinheiro &eacute; sangue!...&#8213;disse
+Jorge com sarcasmo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; sangue... mas n&atilde;o teem elles
+obriga&ccedil;&atilde;o de
+dar o <em>sangue</em> pela patria?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; que elles n&atilde;o est&atilde;o talvez bem
+convencidos
+de que a patria &eacute;s tu...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu synthetiso a patria! sou a sua verdadeira
+imagem, pelintra e cheio de necessidades como ella!
+Dar-me dinheiro a mim &eacute; dal-o &aacute; patria, porque
+ella
+tem por dever sustentar-me, como eu tenho por nobre
+miss&atilde;o o salval-a! Pois os grandes burros n&atilde;o se
+capacitam
+d'isto!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas, afinal, de que tens tu vivido?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;D'elles. Hoje um, amanh&atilde; outro, todos teem
+ido largando os cobres, persuadidos uns de que a coisa
+<span class="pagenum">[243]</span>
+estava para j&aacute;, outros pela simples vaidade de se
+aproximarem de mim e de partilharem da minha gloria...
+Mas agora come&ccedil;am a retrahir-se, e sei que
+alguns at&eacute; j&aacute; teem dito que lhes sou pesado em
+demasia!
+V&ecirc; tu l&aacute;, acham pesado o mais brilhante ornamento
+do seu partido!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O mundo est&aacute; cheio de ingratos, meu caro!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agora chego ao Porto, appello para o seu esfor&ccedil;o,
+reclamo dinheiro &aacute; ordem para a
+realisa&ccedil;&atilde;o
+do meu plano, e contra a minha espectativa, em vez
+de p&ocirc;rem &aacute; minha disposi&ccedil;&atilde;o
+os seus cofres, torcem
+o nariz e perguntam-me quanto &eacute; preciso, como
+se isto fosse uma sacca de arroz ou um costado de
+bacalhau que conv&eacute;m regatear! &Eacute; inaudito,
+n&atilde;o
+achas?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Acho... acho que vieste sem dinheiro e que
+voltas sem elle... Meu caro Jo&atilde;o, sejamos francos,
+tens levado uma vida de expedientes, uma vida de
+explora&ccedil;&atilde;o politica que n&atilde;o podia
+durar sempre...
+Tu devias pensar que n&atilde;o ha minas inexgotaveis e
+que o mais vigoroso organismo n&atilde;o resiste a sangrias
+repetidas...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; certo, mas eu n&atilde;o vim ao mundo para viver
+de ar e de esperan&ccedil;as... Tenho trabalhado, tenho
+sacrificado a minha mocidade, a minha vida, &eacute;
+justo que me auxiliem aquelles que eu auxilio...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas, que diabo! o teu auxilio &eacute; perfeitamente
+inutil, improficuo, e os factos demonstram que, em
+vez de prestares auxilio, o verdadeiro auxiliado &eacute;s
+tu...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute;s muito enganado! Eu tenho segredos que
+valem dinheiro... Se eu quizesse fallar, se eu quizesse
+reduzir a dinheiro tudo o que sei, n&atilde;o teria
+difficuldades...
+<br />
+
+<br />
+
+Jorge sorriu.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso tambem eu creio&#8213;disse elle.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[244]</span> &#8213;E afinal &eacute; o que eu venho a fazer, se vir que
+elles n&atilde;o correspondem &aacute; sinceridade e
+dedica&ccedil;&atilde;o com
+que eu os tenho servido...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Queres dizer, se n&atilde;o continuarem a corresponder...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois est&aacute; claro! Eu n&atilde;o tenho
+obriga&ccedil;&atilde;o de
+respeitar mais os interesses d'elles do que os meus...
+<br />
+
+<br />
+
+Houve um silencio de alguns minutos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade, ainda te d&aacute;s com o
+Avioso?&#8213;perguntou
+o Lazaro.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Continuamos a ser amigos como sempre fomos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esse homem &eacute; meu adversario politico, dos
+mais ferrenhos e intransigentes, mas eu pessoalmente
+sympathiso com elle.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; um bello e generoso caracter. O peor defeito
+que lhe conhe&ccedil;o &eacute; o de ser politico.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Talvez me convenha aproximar-me d'elle...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quando quizeres, estou ao teu disp&ocirc;r.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por emquanto n&atilde;o. Deixa ver no que isto p&aacute;ra...
+Mas, se me f&ocirc;r preciso, conto comtigo, com a tua
+discre&ccedil;&atilde;o,
+com a tua amizade...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; sabes que estou sempre ao teu disp&ocirc;r...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem; havemos de fallar.
+<br />
+
+<br />
+
+N'estas meias palavras Jorge traduziu o pensamento
+intimo do aventureiro, e disse comsigo:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Temos o chefe mudado em espi&atilde;o...
+<br />
+
+<br />
+
+Jo&atilde;o Lazaro accendeu um charuto e passado um
+instante, expellindo uma fuma&ccedil;a:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A vida est&aacute; para os vadios, para os valdevinos,
+para os impostores... Olha aquelle rapaz por quem
+na dias me perguntaste no <em>Suisso</em>, o
+Eugenio de Mello,
+como vae casar-se com uma herdeira rica, hein!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade... Elle deu-te parte do seu projecto
+de casamento?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Qual! muito meu amigo, muito intimo, mas a
+<span class="pagenum">[245]</span>
+respeito d'esse negocio, nem pio! Os amigos, em geral,
+s&atilde;o assim... guardam o melhor para elles.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; que n&atilde;o estar&aacute; ainda
+definitivamente resolvido
+o enlace...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas tu disseste-me que sim...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Foi o que constou. Mas tu sabes o que s&atilde;o os
+homens de dinheiro. Primeiro que se resolvam a consentir
+no casamento de uma filha, tratam de indagar
+se o noivo tem bens que correspondam &aacute; fortuna que
+vae adquirir... E como tu dizes que elle n&atilde;o tem
+nada de seu...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o tem onde c&aacute;ia morto, essa te posso eu
+jurar!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o ahi est&aacute;! talvez que n&atilde;o sejas
+tu o unico
+a saber essa particularidade com respeito ao teu amigo,
+e d'ahi sobreviessem difficuldades... Apesar de que o
+procurador Belchior affirma, segundo ouvi, que elle
+possue importantes propriedades no Alemtejo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O procurador Belchior? Que sabe o procurador
+Belchior &aacute;cerca do Eugenio?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sei... talvez indagasse.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois se indagou e diz que elle &eacute; rico, mente!
+Ahi ha de haver por for&ccedil;a grande embrulhada.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Talvez. No emtanto, o Belchior &eacute; muito amigo
+d'esse tal Eugenio, que, n&atilde;o obstante, gasta dinheiro
+a rodos e sustenta bisarramente a fama de rapaz
+rico...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Aacute; custa do commendador Garcia...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ser&aacute;, n&atilde;o contesto. Mas para ser dinheiro
+fornecido
+por uma mulher n'essas condi&ccedil;&otilde;es, parece-me
+demasiado... Salvo se ella tambem &eacute; rica...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o &eacute;, mas o commendador dispende muito com
+ella.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ainda assim! Esse rapaz deve ter outra fonte
+de receita para tamanha dissipa&ccedil;&atilde;o...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Elle tambem joga, e &aacute;s vezes a sorte favorece-o.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[246]</span> &#8213;O jogo constitue uma ruinosa verba de despeza
+e nunca uma fonte de receita, tu bem o sabes...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois &eacute; verdade; mas como tem cambiantes,
+permitte a illus&atilde;o...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nada! Com t&atilde;o pobres elementos, ser-lhe-ia impossivel
+viver como vive, dispender como dispende, e,
+sobretudo, conquistar a amizade do procurador Belchior...
+Alli deve haver mais alguma coisa...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A n&atilde;o ser que o procurador v&aacute; feito com elle
+para embarrilar o capitalista...&#8213;aventurou Jo&atilde;o
+Lazaro.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tambem p&oacute;de ser. Julgo o Belchior muito capaz
+d'isso.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Hei de averiguar!&#8213;tornou o Jo&atilde;o Lazaro.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que interesse tens tu em o saber?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O interesse que tem todo o homem em conhecer
+as patifarias do seu semelhante... Imagina tu que
+este Eugenio de Mello &aacute;manh&atilde; me apparece rico,
+senhor
+de grandes capitaes, personagem importante na
+politica e que, por uma d'estas reviravoltas t&atilde;o frequentes
+no homem que muda de posi&ccedil;&atilde;o para melhor,
+acaba por se esquecer de mim, a quem hoje chama
+amigo e offerece ceias?...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E se tal acontecer, que te importas tu com isso?
+&Eacute; mais um biltre que ficas conhecendo...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois sim, mas &eacute; um biltre que me offender&aacute;
+impunemente,
+se eu n&atilde;o tiver o cuidado de ir archivando
+as notas das suas patifarias d'hoje, para lhe dar com
+ellas na cara &aacute;manh&atilde;, quando elle se fizer
+fino...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu, no teu logar, e realisada semelhante hypothese,
+nem mais me lembrava d'elle... O meu despreso
+seria castigo sufficiente &aacute; sua canalhice...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nada, nada, menino!&#8213;protestou Jo&atilde;o Lazaro&#8213;Quem
+o inimigo poupa nas m&atilde;os lhe morre...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Elle, por&eacute;m, n&atilde;o &eacute; teu inimigo...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas p&oacute;de ainda vir a sel-o... E a experiencia
+<span class="pagenum">[247]</span>
+tem demonstrado que o homem previdente est&aacute;
+sempre a coberto dos maiores perigos...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tu &eacute;s extraordinario, Jo&atilde;o! Se procedes assim
+com os amigos, como proceder&aacute;s com aquelles a quem
+odeias?...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Queres ver? Olha!
+<br />
+
+<br />
+
+Jo&atilde;o Lazaro metteu a m&atilde;o no bolso e tirou d'elle
+uma carteira que abriu.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tenho aqui&#8213;disse elle&#8213;uma rela&ccedil;&atilde;o dos
+meus inimigos&#8213;a quem hei-de um dia dar lembran&ccedil;as
+minhas... &Eacute; uma esp&eacute;cie de lista da loteria em
+que s&oacute; est&atilde;o os nomes dos individuos
+<em>premiados</em>...
+V&ecirc;!
+<br />
+
+<br />
+
+Apresentou a Jorge uma longa rela&ccedil;&atilde;o de nomes
+conhecidos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para que &eacute; isto?&#8213;perguntou Jorge.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para que? S&atilde;o
+<em>cr&eacute;dores</em> meus a quem
+tenciono
+<em>pagar</em> um dia... Ha-de ser uma
+<em>liquida&ccedil;&atilde;o</em>
+completa!
+<br />
+
+<br />
+
+E fez um gesto de quem aperta um la&ccedil;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Serias capaz d'isso, Jo&atilde;o?&#8213;disse Jorge n'um
+tom sombrio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! os candieiros n&atilde;o se fizeram para outra
+coisa! Has-de v&ecirc;r... Hei-de dar-te o espectaculo
+duma
+<em>illumina&ccedil;&atilde;o</em>
+como nunca viste.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o dar&aacute;s...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Porque?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Porque se a <em>festa</em> se preparar, eu
+j&aacute; sei que,
+para evitar o espectaculo de uma semelhante
+<em>illumina&ccedil;&atilde;o</em>,
+tenho de te procurar e metter-te uma bala na
+cabe&ccedil;a antes de mais nada.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tu!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas o caso n&atilde;o &eacute; comtigo. Tu n&atilde;o
+&eacute;s meu inimigo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas posso vir a parec&ecirc;l-o, e com um homem
+como tu, &eacute; preciso estar sempre prevenido...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[248]</span>
+Jo&atilde;o Lazaro estremeceu. Cobarde at&eacute; ao extremo,
+teve m&ecirc;do de Jorge.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tu bem sabes que sou muito teu amigo e que
+n&atilde;o posso nunca duvidar da tua amizade. Alem d'isso,
+eu estava gracejando...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E a gracejar confeccionaste esta lista...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para apavorar simplesmente. &Eacute; uma f&oacute;rma
+inoffensiva de vingan&ccedil;a&#8213;aterrar os que s&atilde;o meus
+inimigos, os que me fizeram mal!...
+<br />
+
+<br />
+
+Jorge sorriu com despreso:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mau processo &eacute; esse de apavorar os inimigos
+com amea&ccedil;as que n&atilde;o tencionas realisar...&#8213;disse
+elle.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ao menos sobresalto-lhes as noites...&#8213;replicou
+o Jo&atilde;o Lazaro.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sobresaltas-lhes as noites sem reparares que
+compromettes os teus dias... Queres um conselho,
+Jo&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dize l&aacute;?...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Rasga essa rela&ccedil;&atilde;o de nomes, que &eacute; o
+mais infame
+documento que p&oacute;des dar do teu caracter... e
+se a mais alguem, sem ser eu, tiveste a leviandade de
+a mostrar, pede-lhe que esque&ccedil;a tamanha indignidade.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Jorge, vejo que levas muito mais longe do que
+eu suppunha um caso de mera brincadeira da minha
+parte!&#8213;disse Jo&atilde;o Lazaro, verdadeiramente compromettido.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; que a mim revoltam-me os actos de cobardia,
+mesmo quando n&atilde;o passam d'uma inven&ccedil;&atilde;o
+absurda
+e idiota.
+<br />
+
+<br />
+
+Fez-se um silencio constrangido entre os dois.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A prova de que nem sequer houve ou ha da
+minha parte a inten&ccedil;&atilde;o de realisar a
+vingan&ccedil;a quo te
+disse contra os individuos cujos nomes figuram n'esta
+rela&ccedil;&atilde;o, est&aacute; em que t' &#8213;A prova de que nem sequer houve ou ha da
+minha parte a inten&ccedil;&atilde;o de realisar a
+vingan&ccedil;a quo te
+disse contra os individuos cujos nomes figuram n'esta
+rela&ccedil;&atilde;o, est&aacute; em que t'a mostro
+justamente no momento
+<span class="pagenum">[249]</span>
+em que mais afastado vou ficar do campo que
+lhes &eacute; hostil..
+<br />
+
+<br />
+
+Jorge encarou-o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vaes ent&atilde;o mudar de campo de ac&ccedil;&atilde;o
+politica?&#8213;perguntou.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o vou mudar, mas vou conservar-me inactivo,
+indifferente. N&atilde;o me entendo com semelhante canalha!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Entendamo-nos. Se conseguires que elles te deem
+dinheiro para a realisa&ccedil;&atilde;o do teu decantado
+plano, o
+que far&aacute;s?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ao dinheiro? Gasto-o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E ao plano?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O plano vou realisal-o para Hespanha; e &eacute;
+possivel que eu por l&aacute; fique e mais elle...
+<br />
+
+<br />
+
+Jorge riu-se.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; ent&atilde;o ainda uma
+mystifica&ccedil;&atilde;o que projectas?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mystifica&ccedil;&atilde;o, propriamente dita, n&atilde;o
+&eacute;... Estreitarei
+rela&ccedil;&otilde;es com os principaes vultos da peninsula,
+darei importancia ao meu partido, farei que se falle
+n'elle e se julgue uma for&ccedil;a muito mais consideravel
+do que &eacute;... Isto creio que &eacute; servi&ccedil;o
+de algum valor
+e que bem vale o dinheiro que me derem...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E se n&atilde;o conseguires que te d&ecirc;em coisa alguma?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Terei que pedir emprestado aos adversarios&#8213;que,
+mais avisados, n&atilde;o me recusar&atilde;o o que os meus
+correligionarios me negam...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sejamos francos: foi para isso que me perguntaste
+se eu estou ainda em boas rela&ccedil;&otilde;es com o Avioso?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Foi.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas tu sabes que o Avioso n&atilde;o confiar&aacute; em ti,
+se eu n&atilde;o te apresentar.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E tu apresentar-me-has. Tens duvida n'isso?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Conforme. Se te comprometteres comigo a n&atilde;o
+abusar da boa f&eacute; do Avioso, estou ao teu disp&ocirc;r.
+Do
+contrario, n&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[250]</span> &#8213;At&eacute; fa&ccedil;o mais... Isto para tu veres a minha
+lealdade...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dize l&aacute;!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu n&atilde;o me aproximo do Avioso, para n&atilde;o dar
+nas vistas nem despertar suspeitas... Fa&ccedil;o-te as
+communica&ccedil;&otilde;es a ti para tu lh'as transmittires.
+J&aacute;
+v&ecirc;s que assim assumo a responsabilidade inteira para
+comtigo. Acceitas?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; combinado. Acceito.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas... tu comprehendes... a minha situa&ccedil;&atilde;o
+financeira &eacute; difficil...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; sei. Quanto?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por uma vez s&oacute;?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o. Por mez.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Diabo! Eu n&atilde;o sou um espi&atilde;o vulgar...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que &eacute; bom paga-se bem. Quanto?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Duzentos mil reis ser&aacute; muito?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sou eu que hei-de dizel-o...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois quem?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tu e mais ninguem. N&atilde;o se compra o homem,
+compra-se o servi&ccedil;o...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois bem; que me assegurem duzentos mil reis
+por mez e eu prestarei servi&ccedil;o que valer&aacute; muito
+mais.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;T&ecirc;l-os-has.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas&#8213;observou Jo&atilde;o Lazaro com uma certa
+hesita&ccedil;&atilde;o&#8213;ha ainda uma coisa...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dize.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu estou crivado de dividas... tenho compromissos
+serios que n&atilde;o posso protelar por mais tempo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem sei, precisas de um adiantamento...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; isso.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quanto calculas que te seja preciso?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N'esta data, seiscentos mil reis n&atilde;o era tudo,
+mas era um grande auxilio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o ha duvida. Eu creio que o Avioso far&aacute; o
+<span class="pagenum">[251]</span>
+adiantamento. Mas, tu bem sabes, elle &eacute; curioso,
+excessivamente
+curioso mesmo...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Comprehendo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o, se comprehendes, n&atilde;o perderei tempo a
+explicar-te qual a maneira de obteres do Avioso a
+somma que desejas.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olha l&aacute;: uma rela&ccedil;&atilde;o completa dos
+que mais
+se salientaram nas ultimas reuni&otilde;es secretas e das
+resolu&ccedil;&otilde;es n'ellas tomadas bastar&aacute; por
+emquanto?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Basta.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nesse caso, &aacute;manh&atilde;, se, como eu supponho, as
+minhas difficuldades n&atilde;o forem removidas por outra
+f&oacute;rma, trarei tudo isso.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; bem.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Visto isso, falas ainda esta noite com o Avioso?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fallo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas recommenda-lhe o maior segredo e
+discrec&ccedil;&atilde;o.
+Que isto n&atilde;o transpire por modo algum.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A quem mais interessa guardar segredo &eacute; a
+elle. Bem v&ecirc;s que, inutilisado o agente, de nada serviria
+gastar dinheiro com elle.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; precisamente isso.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o ha, pois, que recommendar-lhe um segredo
+que a elle proprio convem guardar.
+<br />
+
+<br />
+
+Jo&atilde;o Lazaro accendeu outro charuto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;S&oacute; a tua grande amizade e dedica&ccedil;&atilde;o
+me poderia
+levar a isto!
+<br />
+
+<br />
+
+Jorge sorriu.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A minha amizade e a sovinice sordida dos teus
+amigos...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; claro. Mas se n&atilde;o confiasse tanto como confio
+em ti, eu n&atilde;o acceitaria uma
+aproxima&ccedil;&atilde;o de
+semelhante natureza com o Avioso.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E eu, se n&atilde;o fosse t&atilde;o teu amigo co &#8213;E eu, se n&atilde;o fosse t&atilde;o teu amigo como sou e
+n&atilde;o
+sentisse um grande desejo de te auxiliar na
+situa&ccedil;&atilde;o
+difficil em que te encontras, tambem n&atilde;o tomaria sobre
+<span class="pagenum">[252]</span>
+mim o encargo de resolver o Avioso a dar-te
+dinheiro. A proposito: sempre partes breve para
+Lisboa?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute;, j&aacute;, n&atilde;o. Demoro-me aqui ainda
+alguns dias.
+Mas quando partir para Lisboa, de l&aacute; mesmo nos entenderemos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Perfeitamente. Outra coisa: sempre tencionas
+indagar a especie de rela&ccedil;&otilde;es que existem entre
+Eugenio
+de Mello e o procurador Belchior?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estou resolvido a tratar d'isso.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o me disseste que esse Eugenio tem uns
+amores inconfessaveis, occulta fonte de receita que
+equilibra o largo or&ccedil;amento em que est&atilde;o
+representados
+todos os vicios com as respectivas verbas de
+despeza?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Digo e sustento. E a ti, como amigo, direi mais:
+essa loura, ciumenta como um demonio e apaixonada
+como uma gata, j&aacute; sabe que Eugenio projecta casar-se.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sabe? Quem lh'o disse?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu. Tu n&atilde;o me pediste segredo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nem me interessa que ella o n&atilde;o saiba.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois bem; essa loura repudiou-me quando eu
+me propuz, e tomou amores com Eugenio de Mello. A
+hora da minha vingan&ccedil;a havia de chegar, e chegou.
+Accendi-lhe um inferno de ciumes no cora&ccedil;&atilde;o, e a
+esta
+hora est&aacute; ella esperando impaciente que eu lhe leve
+as minhas informa&ccedil;&otilde;es e as minhas ordens.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu j&aacute; sabia isso.
+<br />
+
+<br />
+
+Jo&atilde;o Lazaro encarou o amigo com espanto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute;?!&#8213;perguntou.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como o soubeste?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu sei tudo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o suppuz que te interessassem os meus actos
+a ponto de me mandares espionar.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[253]</span> &#8213;N&atilde;o fui eu. Bem sabes que alguem mais do
+que eu se interessa em saber a tua conducta.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! sim...&#8213;fez Jo&atilde;o Lazaro reflectindo.&#8213;Mas
+esta visita que eu fiz n&atilde;o tinha caracter politico&#8213;e
+n&atilde;o acho correcto que me espionem e me sigam
+n'uma aventura galante com o mesmo encarni&ccedil;amento
+com que me perseguem quando eu conspiro...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vamos a saber&#8213;disse Jorge.&#8213;Tens interesse
+em que Eugenio de Mello n&atilde;o realise o casamento
+com a filha do capitalista?
+<br />
+
+<br />
+
+Jo&atilde;o Lazaro fez uma car&ecirc;ta.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o me importo absolutamente nada com isso.
+O meu empenho &eacute; s&oacute; castig&aacute;l-o pela sua
+falta de franqueza
+e lealdade para comigo. Devia ter-me dito que
+ia casar, visto que se affirma meu amigo... Isto
+pelo que lhe diz respeito a elle. Agora pelo que respeita
+a Leonor, vingo-me e preparo o terreno para
+occupar a pra&ccedil;a, que vae ficar abandonada.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se Eugenio casar...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quer case, quer n&atilde;o, Leonor n&atilde;o lhe
+perdoar&aacute;.
+Convencida do que o amante quiz trahil-a casando
+com outra, cortar&aacute; immediatamente as suas
+rela&ccedil;&otilde;es
+com elle, e, para se vingar, tratar&aacute; de o substituir
+pelo maior amigo do perfido. Ora ella sabe que o
+maior amigo de Eugenio sou eu...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E portanto, &eacute;s tu o que reune as maiores probabilidades
+de vir a ser admittido ao logar vago...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Justo!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; curiosa essa aventura!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; curiosa, mas muito vulgar entre amigos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ser&aacute;, mas entendo que deves proceder com cautela...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Porque?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Porque n&atilde;o te fica bem que se torne publico o
+teu papel nada invejavel n'essa intriga. Queres fazer
+uma coisa?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[254]</span> &#8213;Dize.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o envolvas essa endiabrada lourinha em qualquer
+aventura sem me consultares primeiro. Valeu?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; dito. Mas n&atilde;o te esque&ccedil;as de
+fallar ao
+Avioso. Estou immensamente precisado de dinheiro...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o me esque&ccedil;o.
+<br />
+
+<br />
+
+O aventureiro estendeu a m&atilde;o a Jorge, despedindo-se.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Adeus&#8213;disse elle&#8213;Amanh&atilde; procuro-te.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois sim. Adeus.
+<br />
+
+<br />
+
+Quando Jo&atilde;o Lazaro sahiu, Jorge, que o acompanhou
+com a vista at&eacute; elle transp&ocirc;r a porta da sala,
+murmurou:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sempre o mesmo biltre! Sempre o mesmo miseravel!
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[255]</span>
+<h3><a name="c15"></a>XV<br />
+
+<br />
+
+Conluio infame
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+No escriptorio de Custodio de Jesus, discutiam animadamente
+o dono da casa e o seu amigo e confidente,
+o procurador Belchior.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A coisa &eacute; esta:&#8213;dizia o procurador&#8213;com
+pannos quentes n&atilde;o se faz nada.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, j&aacute;? Voc&ecirc; j&aacute; &eacute; da minha
+opini&atilde;o?&#8213;replicou
+o Custodio, triumphante.&#8213;Pois, meu amigo, se
+eu, contra o meu genio, tenho usado de pannos quentes,
+a culpa foi toda sua... Quando eu queria usar
+da minha auctoridade de pae e levar a rapariga &aacute;
+for&ccedil;a &aacute; igreja, voc&ecirc; n&atilde;o
+deixou... Segui o seu parecer,
+tentei levar as coisas pela brandura, e agora &eacute;
+tarde para tomar outro caminho...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Qual outro caminho?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O caminho d'onde eu nunca dev&ecirc;ra ter sahido...
+o caminho da auctoridade e do rigor paterno... Mas
+agora, depois de eu ter descido at&eacute; ao ponto de chorar
+diante da rapariga e de a deixar levantar a crista,
+a julgar que estou dependente da sua protec&ccedil;&atilde;o,
+como &eacute; que eu hei-de chegar ao p&eacute; d'ella e
+dar-lhe
+dois safan&otilde;es e quatro berros que a fa&ccedil;am entrar
+na ordem?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[256]</span> &#8213;Mas n&atilde;o &eacute; preciso nada d'isso, homem!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o &eacute; preciso? Pois voc&ecirc; diz que com
+pannos
+quentes n&atilde;o se arranja nada e acha que n&atilde;o
+&eacute; preciso
+empregar a for&ccedil;a?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Acho que se p&oacute;de empregar a for&ccedil;a, sem que
+voc&ecirc; passe por ser um pae cruel...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois est&aacute; claro que eu tambem n&atilde;o vou empregar
+a violencia diante de gente. O que se passa
+em minha casa escusa de se saber no meio da rua.
+Mas n&atilde;o posso... a rapariga perdeu-me o respeito,
+agora... boas noites!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Homem, deixe-se de tolices... Ha uma for&ccedil;a
+que n&oacute;s podemos empregar muito bem e a que a pequena
+n&atilde;o ter&aacute; remedio sen&atilde;o obedecer...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas que for&ccedil;a &eacute; essa ent&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; a for&ccedil;a das circumstancias, homem! Quem
+&eacute; que n&atilde;o se dobra &aacute; for&ccedil;a
+das circumstancias?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; demonio, mas essa for&ccedil;a j&aacute; eu
+empreguei;
+j&aacute; disse &aacute; pequena que as nossas circumstancias
+n&atilde;o
+podiam ser mais desgra&ccedil;adas e nem assim consegui
+convenc&ecirc;l-a.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois bem; mudemos de systema&#8213;disse o Belchior,
+piscando um olho.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mudemos do systema como?&#8213;perguntou o
+Custodio, sem comprehender.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se ella n&atilde;o quer largar o tal namorico, obriga-se
+o namorico a largal-a a ella...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quer voc&ecirc; dizer que lhe mande eu dar uma
+carga de pau, qualquer noite quando elle c&aacute; vier
+&aacute;
+porta... Mas isso o que faz? A rapariga &eacute; capaz de
+tomar o freio nos dentes e ent&atilde;o &eacute; que
+n&atilde;o haver&aacute;
+for&ccedil;as humanas que a obriguem a acceitar este casamento...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ninguem falla em empregar esses meios violentos...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[257]</span> &#8213;Pois com certeza. Isso seria uma tolice sem resultado
+pratico. Aqui o caso &eacute; outro...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas ent&atilde;o diga l&aacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+O Belchior fitou demoradamente o Custodio e
+disse:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A quest&atilde;o &eacute; voc&ecirc; querer...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois eu quero! Tom&aacute;ra eu... Diga l&aacute;, homem!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O processo &eacute; um bocado exquisito, mas d&aacute;
+resultado...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se d&aacute; resultado, vamos a elle!&#8213;concordou o
+Custodio&#8213;Ent&atilde;o como &eacute; isso?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; d'uma maneira muito simples; rapta-se a
+pequena...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Hein! O que? Rapta-se?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; claro! Prepara-se um rapto, faz-se escandalo
+e conduzem-se as coisas de modo que a rapariga
+n&atilde;o tenha remedio sen&atilde;o casar com o Eugenio...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas...&#8213;obtemperou o Custodio indeciso&#8213;torne
+a dizer, que eu n&atilde;o percebi bem?...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isto n&atilde;o tem que perceber: combina-se um passeio
+ao campo... Vae voc&ecirc; com a pequena, vou
+eu com a minha mulher e minha cunhada... Andamos
+por l&aacute;, petiscamos, e a paginas tantas minha cunhada
+afasta-se para mais longe com a Beatriz, a
+admirar a paisagem...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim... E depois?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Depois, o Eugenio, que est&aacute; emboscado com dois
+amigos, salta de l&aacute;, agarra na Beatriz, mette-se n'uma
+carruagem e parte com ella a todo o galope. Minha
+cunhada grita, tem um desmaio, n&oacute;s acudimos, mas
+j&aacute; &eacute; tarde&#8213;n&atilde;o lhe podemos valer... O
+resto segue-se
+depois naturalmente...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O resto... Mas qual resto?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora qual resto! O casamento. Pois que quer
+voc&ecirc; que se siga sen&atilde;o o casamento depois d'isto?
+<span class="pagenum"><a name="p258">[258]</a></span>
+Beatriz, depois de raptada, n&atilde;o ter&aacute; remedio
+sen&atilde;o
+acceitar por marido o homem que a raptou...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sei... Ella &eacute; muito capaz de ainda assim
+recusar...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Qual recusa! Quando ella reconhecer a impossibilidade
+de casar com esse pintalegrete que lhe endoideceu
+a cabe&ccedil;a ou com outro qualquer que n&atilde;o seja
+o Eugenio, n&atilde;o ter&aacute; remedio sen&atilde;o
+resolver-se...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E voc&ecirc; sabe l&aacute; se o rapaz, ainda mesmo assim
+desiste?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois desiste, porque a gente faz escandalo... E
+depois d'ella desacreditada, s&oacute; se elle n&atilde;o tiver
+vergonha.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Desacreditada! Ent&atilde;o a rapariga ha de ficar
+desacreditada? Isso n&atilde;o... isso &eacute; que eu
+n&atilde;o consinto!
+N&atilde;o &eacute; por mais nada... Mas emfim... ella usa
+o meu nome, passa por minha filha, e eu n&atilde;o estou
+para me sujeitar e andar fallado nas b&ocirc;ccas do
+mundo!&#8213;recusou
+honestamente o marido de D. Carlota.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que diabo! Voc&ecirc; n&atilde;o sabe que tudo isto
+&eacute; uma
+<em>planta-f&oacute;rma</em> para obrigar
+a pequena a casar? Que
+diabo tem que a rapariga seja raptada, uma vez que
+o raptor a receba por mulher?
+<br />
+
+<br />
+
+O Custodio ficou silencioso e meditativo por alguns
+instantes como que ruminando o plano do seu
+amigo Belchior.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A coisa&#8213;disse elle por fim&#8213;talvez desse
+bom resultado... Mas isso era um escandalo de seiscentos
+diabos!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois era... era um escandalo bastante grande,
+e isso mesmo era o que convinha...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que! Convinha o escandalo&#8213;interrogou o
+Custodio escandalisado&#8213;Ent&atilde;o voc&ecirc; quer que eu,
+como pae&#8213;porque afinal ella n&atilde;o tem outro&#8213;goste
+e ver uma filha minha ou que passa por isso
+mettida
+<a href="#e27">em</a> escandalos?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[259]</span> &#8213;Voc&ecirc; n&atilde;o comprehende, Custodio, voc&ecirc;
+n&atilde;o comprehende...
+Isto era escandalo e n&atilde;o era escandalo...
+E como naturalmente fazia barulho, a cidade alvorotava-se
+com a noticia do rapto e isso era justamente
+o que convinha...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas convinha porque?&#8213;insistiu o Custodio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Convinha por todos os motivos. Em primeiro
+logar, Beatriz, depois d'este escandalo, comprehenderia
+que n&atilde;o podia casar com outro homem, sen&atilde;o com o
+Eugenio... Em segundo logar, ainda quando ella
+teimasse em alimentar no cora&ccedil;&atilde;o essa paixoneta
+pelo
+tal estudantelho que a namora, n&atilde;o teria remedio
+sen&atilde;o
+curar-se, porque o rapaz, depois d'ella desacreditada,
+n&atilde;o a queria e n&atilde;o lhe tornava a apparecer...
+Depois da <em>pra&ccedil;a</em>
+abandonada, que remedio ter&aacute; a pequena
+sen&atilde;o render-se?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim... e demos o caso que esse tal Eugenio,
+emfim... como &eacute; rapaz e estroina, depois de a ter
+raptado, n&atilde;o se resolve a tomal-a por mulher,
+sen&atilde;o
+debaixo de certas condi&ccedil;&otilde;es?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quaes condi&ccedil;&otilde;es?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por exemplo... exigir que eu augmente o dote
+&aacute; rapariga e querer que se fa&ccedil;am escripturas, de
+modo
+que o que &eacute; d'elle fique perfeitamente a coberto...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O Eugenio n&atilde;o &eacute; capaz d'isso!&#8213;protestou o
+Belchior.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu sei l&aacute;! A gente v&ecirc; caras e n&atilde;o
+v&ecirc; cora&ccedil;&otilde;es...
+Depois da rapariga perdida, eu n&atilde;o terei remedio
+sen&atilde;o sujeitar-me &aacute;s
+condi&ccedil;&otilde;es que elle impuzer...
+Nada, isso n&atilde;o &eacute; bom plano.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois ent&atilde;o, meu amigo, o melhor &eacute; desistirmos
+do negocio, porque n&atilde;o vejo outro meio...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Desistir tambem n&atilde;o... Talvez que, se eu a
+mettesse n'um convento com ordem de a tratarem com
+rigor e de n&atilde;o a deixarem fallar nem escrever ao
+namoro, isso desse bom resultado.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p260">[260]</a></span> &#8213;N&atilde;o d&aacute; resultado nenhum. Que diabo!
+Voc&ecirc; &eacute;
+um homem desconfiado com quem se n&atilde;o p&oacute;de tratar
+nada a s&eacute;rio...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O mal dos meus burricos &eacute; que me tem feito
+alveitar&#8213;volveu
+o Custodio co&ccedil;ando a suissa&#8213;Por eu
+ter confiado demais nos amigos &eacute; que aquelle
+ladr&atilde;o do
+padre Anselmo me roubou a fortuna e a mulher...
+Depois &eacute; que eu vim a saber tudo... Mas era tarde,
+j&aacute; lhe n&atilde;o podia dar remedio...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois sim, mas agora n&atilde;o se trata de lidar com
+gente de sotaina... Voc&ecirc; conhece-me ha <a href="#e28">muito</a>
+tempo
+e sabe que tenho sempre zelado os seus interesses como
+se fossem meus...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem sei isso, mas o caso n&atilde;o &eacute; propriamente
+com voc&ecirc;, Belchior. Se fosse
+voc&ecirc; que tivesse de casar,
+eu acceitava o plano com os olhos fechados, porque
+bem sei que voc&ecirc; n&atilde;o era homem capaz de faltar
+ao que promettesse... Mas com esse rapaz o caso &eacute;
+outro...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o &eacute; outro nada...&#8213;replicou o Belchior.&#8213;Se
+elle se comprometter comigo a casar com a pequena
+nas mesma condi&ccedil;&otilde;es em que est&aacute;
+tratado, cumpre
+com toda a certeza.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E se n&atilde;o cumprir?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso n&atilde;o p&oacute;de ser... Mas se elle cahisse na
+asneira de faltar ao contracto, eu cahia-lhe em cima
+com uma querella, que elle havia de ir por uma barra
+f&oacute;ra e nem tudo quanto tem lhe havia de chegar para
+a justi&ccedil;a...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E o que lucrava eu com isso?&#8213;perguntou o
+Custodio com um sorriso velhaco.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que lucrava?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim, o que lucrava eu, se a justi&ccedil;a lhe apanhasse
+todos os haveres pela maroteira feita a
+mim?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Homem, ninguem quer metter-se em assados...
+<span class="pagenum">[261]</span>
+Logo que elle visse que o caso era s&eacute;rio, chegava-se
+&aacute; raz&atilde;o... Voc&ecirc; n&atilde;o
+comprehende?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Comprehendo... isso comprehendo eu...&#8213;mascou
+o Custodio indeciso.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o, se comprehende, que mais quer?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E voc&ecirc; compromette-se a fazel-o cumprir?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; claro que comprometto! Eu fallo com elle,
+percebe? Fallo com elle e proponho-lhe o expediente
+do rapto como coisa minha... N&atilde;o lhe digo que voc&ecirc;
+est&aacute; feito comnosco, porque, emfim, voc&ecirc;
+&eacute; pae e
+&eacute; preciso salvar as apparencias...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim, isso &eacute; bom... Mesmo para elle me n&atilde;o
+perder o respeito.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Justissimo! &Eacute; isso mesmo!&#8213;apoiou o
+procurador.&#8213;Offere&ccedil;o-me
+a proporcionar-lhe ensejo para
+a obra, mas imponho-lhe a condi&ccedil;&atilde;o de que ha de
+casar
+sem mais preambulos e sem mais contratos, logo
+que seja encontrado com ella.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Justo!&#8213;disse o Custodio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Porque, se assim n&atilde;o fizer, compromette-me e
+ent&atilde;o ser&aacute; comigo que elle ter&aacute; de se
+haver... Est&aacute;
+bem assim?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; optimo!&#8213;apoiou o Custodio radiante.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E o dito dito&#8213;tornou o Belchior&#8213;eu levo a
+percentagem combinada...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso est&aacute; sabido. Arranje voc&ecirc; as coisas de
+modo que o casamento se fa&ccedil;a nas
+condi&ccedil;&otilde;es combinadas
+e o dinheiro passa-lhe logo para as unhas.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[262]</span>
+<h3><a name="c16"></a>XVI<br />
+
+<br />
+
+O rapto
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Dois dias depois da conferencia entre o procurador
+e Custodio, Beatriz, que f&ocirc;ra convidada pela mulher e
+a cunhada do Belchior para as acompanhar n'um passeio
+ao campo, levantou-se de manh&atilde; muito contrariada
+por n&atilde;o poder furtar-se ao convite que lhe n&atilde;o
+proporcionava
+o minimo prazer.
+<br />
+
+<br />
+
+O Custodio fingia-se tambem contrariado, e tendo-se
+levantado muito c&ecirc;do, resmungava de modo que
+a filha o ouvisse, maldizendo a lembran&ccedil;a de o convidarem
+para um passeio que alterava os seus habitos
+e talvez lhe puzesse a saude em risco.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora a minha desgra&ccedil;a!&#8213;clamava elle&#8213;N&atilde;o
+basta ter tanta coisa que me afflija, sen&atilde;o ainda agora
+obrigarem-me a andar um dia inteiro pelo campo, a
+apanhar sol e a aturar senhoras!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas se o pap&aacute; n&atilde;o quer&#8213;propoz
+Beatriz&#8213;manda-se
+dizer que est&aacute; doente e n&atilde;o vamos...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso n&atilde;o! N&atilde;o p&oacute;de ser. O Belchior
+ficaria desgostoso...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas se &eacute; um caso de for&ccedil;a maior...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, j&aacute; agora, estou a p&eacute;, sempre
+vou... N&atilde;o
+<span class="pagenum"><a name="p263">[263]</a></span>
+quero que o homem supponha que n&atilde;o tenho desejo
+de lhe acompanhar a familia. Mas isto custa-me muito,
+porque a minha idade j&aacute; n&atilde;o permitte estas
+folias...
+<br />
+
+<br />
+
+A este tempo parava um trem &aacute; porta e o Belchior
+e a familia subiam a&ccedil;odadamente, gritando:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o vamos?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vamos l&aacute;... estou prompto!&#8213;disse o Custodio
+ao Belchior&#8213;A pequena tambem j&aacute; est&aacute;
+<a href="#e29">preparada</a>,
+acho eu...
+<br />
+
+<br />
+
+A mulher e a cunhada do procurador dirigiram-se
+aos aposentos de Beatriz n'uma grande alegria:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vamos, avie-se, sua pregui&ccedil;osa! Ent&atilde;o ainda
+n'esse estado?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estou prompta. &Eacute; s&oacute; levar para o carro um
+pequeno cesto com umas coisas que mandei preparar...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O qu&ecirc;! Mandou fazer de comer? Que tolice! N&oacute;s
+levamos alli comida que chega para um regimento!...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por demais n&atilde;o perde...&#8213;apoiou o procurador&#8213;Vamos
+embora que s&atilde;o horas... O bonito &eacute;
+sahir cedo para andarmos por l&aacute; todo o dia...
+<br />
+
+<br />
+
+Entraram no carro, um
+<em>char-&aacute;-bancs</em> enorme, e
+seguiram as duas familias aos solavancos em
+direc&ccedil;&atilde;o
+&aacute; quinta da Lavandeira.
+<br />
+
+<br />
+
+A mulher e a cunhada do procurador n&atilde;o faziam
+sen&atilde;o soltar exclama&ccedil;&otilde;es de
+admira&ccedil;&atilde;o e alegria, encantadas
+com a paisagem.
+<br />
+
+<br />
+
+A tudo achavam gra&ccedil;a, tudo achavam muito bonito.
+<br />
+
+<br />
+
+Obtida a permiss&atilde;o de entrarem na quinta, n'essa
+epocha ao cuidado dos caseiros, <a href="#e30">seguiram os</a>
+passeiantes
+por baixo do copado arvoredo, dividindo-se em dois
+grupos: um formado pelas tres senhoras, e o outro
+pelos dois homens.
+<br />
+
+<br />
+
+O procurador, allegando que para baixo todos os
+<span class="pagenum">[264]</span>
+santos ajudam, despediu o cocheiro, dizendo-lhe que
+n&atilde;o voltasse, porque regressariam a p&eacute; para a
+cidade.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vamos indo devagar por ahi f&oacute;ra e at&eacute;
+&eacute; mais
+pittoresco... n&atilde;o acha, amigo Custodio?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A distancia, realmente, n&atilde;o &eacute; grande...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Em chegando &aacute; Bandeira, estamos em casa...
+A rua do General Torres desce-se bem...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu cuidei que o passeio era para mais longe&#8213;disse
+a mulher de Belchior.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mais longe para que? Aqui estamos muito
+bem... A quinta &eacute; bonita e &eacute; muito grande,
+d&aacute; bem
+logar para passearmos... E quando nos sentirmos
+can&ccedil;ados, abancamos e toca a palestrar... Aqui o
+que faz bem &eacute; o ar...
+<br />
+
+<br />
+
+Passou-se o dia como n&atilde;o podia deixar de ser
+n'uma horrivel monotonia para Beatriz, que de modo
+algum podia achar-se bem n'uma companhia que n&atilde;o
+lhe offerecia o menor sentimento de agrado.
+<br />
+
+<br />
+
+O Custodio conversava com o Belchior sobre negocios,
+repisando o assumpto. As duas senhoras que
+constituiam a familia do procurador, esgotado o reportorio
+da m&aacute; lingua contra a vizinhan&ccedil;a e varias outras
+familias conhecidas, calaram-se e, sentadas &aacute; sombra
+de uma arvore frondosissima, come&ccedil;aram a cabecear
+com somno.
+<br />
+
+<br />
+
+Haviam-se levantado c&ecirc;do e resentiam-se do longo
+passeio.
+<br />
+
+<br />
+
+Beatriz, portanto, ficou uma grande parte do dia
+entregue a um aborrecimento cruel, que a punha de
+muito mau humor.
+<br />
+
+<br />
+
+Pensava por vezes em Paulo, lembrando-se de
+que talvez n&atilde;o lhe fosse possivel vel-o, fallar-lhe na
+noite que ia seguir-se a um dia t&atilde;o horroroso.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o pudera prevenil-o d'aquelle passeio, porque o
+mancebo havia duas noites que n&atilde;o apparecia a fallar-lhe.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[265]</span>
+Dissera-lhe que negocios importantes de que dependia
+o futuro dos dois o deviam ter afastado do
+Porto por alguns dias, mas n&atilde;o se affligisse ella, porque
+elle voltaria com boas novas.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas o que vaes fazer?&#8213;perguntara-lhe interessada
+em tudo o que o mancebo intentava.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Permitte-me que por ora t'o n&atilde;o diga, meu
+amor. Breve saber&aacute;s tudo e tenho bem fundadas
+esperan&ccedil;as
+de que has-de applaudir o meu procedimento.
+<br />
+
+<br />
+
+Esta persistencia em guardar absoluto segredo sobre
+os seus designios, quando Paulo n&atilde;o tinha tido
+at&eacute; alli um unico pensamento que lhe n&atilde;o
+communicasse,
+impressionou-a.
+<br />
+
+<br />
+
+E era ainda sob a influencia d'este estranho procedimento
+do seu bem amado que a pobre Beatriz se
+encontrava n'aquelle dia, um dos mais aborrecidos e
+tristes de toda a sua vida, porque, al&eacute;m das
+m&aacute;goas
+intimas que a torturavam, tinha ainda a constrangel-a
+e a aggravar-lhe o soffrimento a presen&ccedil;a de
+pessoas que, se n&atilde;o lhe eram odiosas, eram-lhe pelo
+menos antipathicas.
+<br />
+
+<br />
+
+Ao cahir da tarde Custodio e o procurador fingiram
+enthusiasmar-se n'uma grande polemica a proposito
+de uma quest&atilde;o commercial palpitante; e com
+grande profus&atilde;o de gestos e de berros, interrompiam-se
+frequentemente um ao outro, sem chegarem a acc&ocirc;rdo.
+De modo que, esquecidos da distancia que os separava
+do Porto, foram deixando-se ficar at&eacute; ao cahir da tarde.
+<br />
+
+<br />
+
+A noite estava de luar, serena e calma, convidativa
+de longo passeio pela fresca.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;S&atilde;o horas de nos irmos chegando a casa...&#8213;advirtiu
+a mulher de Belchior, quando notou que a
+conversa se ia demorando.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade, vamos indo...&#8213;disse o procurador,
+travando de bra&ccedil;o de Custodio para continuar
+na discuss&atilde;o acalorada em que estava interessado.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[266]</span>
+E voltando-se para as senhoras:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Andem l&aacute; adiante...
+<br />
+
+<br />
+
+Sahiram para a estrada, a essa hora silenciosa e
+deserta.
+<br />
+
+<br />
+
+As damas, levando Beatriz cada uma por seu bra&ccedil;o,
+tomaram a dianteira, e muito alegres, muito lepidas,
+iam cantarolando por entre dentes alguns numeros
+mais populares de uma revista em voga.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! que dia t&atilde;o bem passado!&#8213;exclamava a
+cunhada do procurador&#8213;N&atilde;o ha nada para abrir o
+appetite e dar saude &aacute; gente como &eacute; um passeio ao
+campo!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E a noite est&aacute; linda!&#8213;accudiu a mulher do
+Belchior&#8213;d&aacute; mesmo gosto passeiar por uma noite
+assim! N&atilde;o gosta do campo, Beatrisinha?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o desgosto...&#8213;volveu a namorada de Paulo
+com o cora&ccedil;&atilde;o oppresso de ignoto receio.
+<br />
+
+<br />
+
+O procurador e Custodio, de cada vez mais encarni&ccedil;ados
+na controversia, paravam de vez emquando,
+falando muito, gesticulando, adduzindo argumentos
+sem tom nem som.
+<br />
+
+<br />
+
+Era uma esperteza dos dois velhacos para justificarem
+a distancia a que queriam encontrar-se no momento
+do assalto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deixe-as ir... deixe-as ir...&#8213;murmurava o
+Belchior&#8213;Quanto mais longe estivermos d'ellas, mais
+facilmente o Eugenio e os amigos deitam a luva &aacute; pequena.
+<br />
+
+<br />
+
+Assim foram caminhando, at&eacute; que, n'uma volta da
+estrada, as damas deram de frente com um trem parado,
+quasi obstruindo a passagem.
+<br />
+
+<br />
+
+Detiveram-se esperando, que o carro seguisse na
+direc&ccedil;&atilde;o que ellas levavam, para poderem
+continuar o
+seu caminho. Mas rapidamente dois homens mascarados
+saltaram &aacute; estrada e, sem darem tempo &aacute; mais
+leve resistencia, apoderaram-se de Beatriz e atiraram-n'a
+<span class="pagenum"><a name="p267">[267]</a></span>
+para dentro do carro, que partiu em carreira
+desabrida.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A mulher e a cunhada do procurador, industriadas
+pelo marido e perfeitamente conhecedoras do
+que havia de succeder, quando viram partir o carro,
+desataram a gritar por soccorro, simulando uma
+grande afflic&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Os dois patifes ao ouvir gritar as damas, correram
+para ellas muito a&ccedil;odados, perguntando:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que &eacute;? O que aconteceu?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dois homens, sahindo-nos ao caminho, agarraram
+a Beatrizinha e fugiram com ella dentro d'aquelle
+trem!
+<br />
+
+<br />
+
+E apontavam a carruagem que desapparecia
+n'uma curva da estrada.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E ella n&atilde;o gritou?&#8213;disse o procurador.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ella soltou um grito, mas elles abafaram-lhe
+a voz, de modo que a pobresinha n&atilde;o se tornou a
+ouvir!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Talvez a amorda&ccedil;assem...&#8213;aventurou o Belchior.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ou talvez perdesse os sentidos...&#8213;concluiu a
+mulher.
+<br />
+
+<br />
+
+O Custodio julgou conveniente fingir grande desespero,
+e levando as m&atilde;os &aacute; cabe&ccedil;a,
+n&atilde;o fazia sen&atilde;o
+gritar:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! minha filha! minha filha! desgra&ccedil;ado de
+mim, que me roubaram a minha filha!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Um rapto!&#8213;gritava o procurador&#8213;O crime
+foi praticado de noite, e de noite bastam os indicios...
+Vamos j&aacute; ter com a auctoridade da freguezia e
+apresentemos-lhe
+a queixa...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E quem diremos que foi o raptor?&#8213;<a href="#e31">perguntou</a>
+o Custodio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora essa! Foi o Eugenio de Mello... Pois
+quem havia de ser?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[268]</span> &#8213; Sim... foi elle...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; visto que foi&#8213;tornou o procurador&#8213;Elle
+queria, ella n&atilde;o queria... raptou-a!
+<br />
+
+<br />
+
+E em tom mais baixo:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Convem affirmar desde j&aacute; que o vimos e o reconhecemos
+perfeitamente, que &eacute; para o entalarmos
+logo desde o principio, de modo que n&atilde;o haja outro remedio
+sen&atilde;o fazer-se o casamento sem escripturas.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vamos a isso! Foi elle, o grande maroto!...
+Eu bem o reconheci... Isto n&atilde;o &eacute; coisa que se
+fa&ccedil;a
+a um pae!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas que coisa! que coisa!&#8213;dizia a mulher do
+procurador, simulando a maior
+consterna&ccedil;&atilde;o.&#8213;Ainda
+n&atilde;o estou em mim!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, meu Deus!&#8213;accrescentava a cunhada&#8213;Em
+que perigo n&oacute;s nos mettemos! Olhem se aquelles malditos
+se lembravam de me raptar tambem a mim!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Aacute; senhora?!&#8213;disse inconvenientemente o Custodio,
+com um sorriso escarninho.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E ent&atilde;o?&#8213;retorquiu a cunhada do Belchior,
+offendida&#8213;Eu sou solteira, e elles eram dois...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ahi est&aacute; a prova!&#8213;affirmou o procurador&#8213;Vinham
+dois e raptaram s&oacute; uma... Logo, provar&aacute; que
+o reu premeditou o crime, porque escolheu a que lhe
+fazia conta. Foi o Eugenio de Mello, n&atilde;o ha que ver...
+Vamos ter com o regedor para perseguir os fugitivos!
+<br />
+
+<br />
+
+Tudo isto era dito a andar esbofadamente pelo caminho
+que conduzia ao largo da Bandeira, em Villa
+Nova de Gaya, onde afinal chegaram depois das nove
+horas da noite.
+<br />
+
+<br />
+
+Tendo indagado onde morava o regedor, apresentaram-se-lhe,
+e contaram-lhe o succedido.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E para onde f&ocirc;ram elles?&#8213;perguntou o funccionario.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&oacute;s ainda os seguimos um bocado gritando; mas
+ninguem nos accudiu, e afinal perdemol-os de vista...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[269]</span> &#8213;Os senhores reconheceram os raptores ou suspeitam
+quem fossem?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Elles levavam a cara coberta, mas um d'elles
+descobriu-se sem querer, deixando v&ecirc;r o rosto, e todos
+n&oacute;s reconhecemos um rapaz que vive no Porto e que
+se chama Eugenio de Mello.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem!&#8213;concluiu o regedor&#8213;Eu vou mandar
+os meus cabos indagar, a v&ecirc;r se descobrem os criminosos...
+E amanh&atilde; dou parte para a
+administra&ccedil;&atilde;o.
+Mas sempre ser&aacute; bom os senhores apparecerem l&aacute;
+para formularem a queixa.
+<br />
+
+<br />
+
+E preparando-se para tomar nota n'um papel:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Os seus nomes, fazem favor?
+<br />
+
+<br />
+
+O Belchior declinou os nomes de todos, figurando
+elle, a mulher e cunhada como testemunhas e o Custodio
+de Jesus como queixoso.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vou j&aacute; mandar proceder a rigorosas pesquizas
+na minha freguezia&#8213;disse o regedor&#8213;a v&ecirc;r se se
+encontram os delinquentes. Mas, amanh&atilde;, o sr. administrador
+ter&aacute; conhecimento do facto e tomar&aacute; as
+providencias
+precisas...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Veja v. s.<sup>a</sup>, sr. regedor, a
+situa&ccedil;&atilde;o em que me
+encontro com uma filha roubada nas minhas barbas!...&#8213;lamuriou
+o Custodio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E demais a mais, menor!&#8213;declamou o procurador&#8213;&Eacute;
+crime de casamento ou penitenciaria!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tudo vem a dar na mesma... Pobre de quem
+as tem!&#8213;Concluiu o regedor.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E agora&#8213;disse o Belchior muito solicito&#8213;em
+chegando &aacute; cidade, vamos direitos ao commissario de
+policia, apresentar a queixa...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; visto...&#8213;apoiou o regedor&#8213;Ninguem
+sabe o caminho que os fugitivos tomaram, e a policia,
+telegraphando para todos os concelhos, p&oacute;de muito
+bem fazel-os capturar...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[270]</span> &#8213;O que vale &eacute; que n&oacute;s conhecemos o raptor...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim, isso &eacute; meio caminho andado&#8213;disse o regedor&#8213;e
+se tivessem photographias, ainda melhor...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A verdadeira photographia &eacute; o nome&#8213;accudiu
+o procurador&#8213;Elle &eacute; conhecido.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem, bem! Eu vou tratar de ver se elles est&atilde;o
+na minha freguesia, mas n&atilde;o me parece... Amanh&atilde;,
+amanh&atilde; na administra&ccedil;&atilde;o do concelho, o
+snr. administrador
+dar&aacute; as ordens.
+<br />
+
+<br />
+
+Despediram se do pacifico funccionario que, interrompido
+no trabalho de empacotar pr&eacute;gos para a
+Africa, voltou &aacute; sua tarefa, logo que os viu sahir.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E d'aqui para a policia!&#8213;bradou o Belchior
+j&aacute; na rua.
+<br />
+
+<br />
+
+Metteram pela rua do General Torres abaixo, em
+direc&ccedil;&atilde;o &aacute; cidade.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tudo correu bem!&#8213;segredava o procurador
+ao Custodio&#8213;Agora, na policia, &eacute; que a coisa vae
+dar echo... Talvez amanh&atilde; saia nos jornaes...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; diabo! mas isso &eacute; uma vergonha... fica-me
+a rapariga perdida!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E voc&ecirc; a dar-lhe! Ella fica mas &eacute; achada,
+porque n&atilde;o ter&aacute; outro remedio sen&atilde;o
+casar com o Eugenio...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim... isso &eacute; verdade.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois ahi est&aacute;! Quanto maior f&ocirc;r o escandalo,
+melhor. Deixe fallar os jornaes... Tomaramos n&oacute;s
+que elles berrassem bastante... At&eacute; nos convinha...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas os jornaes s&oacute; depois d'amanh&atilde; &eacute;
+que se
+occupar&atilde;o do caso, porque j&aacute; hoje n&atilde;o
+v&atilde;o &aacute; policia...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois sim; mas vou eu aos jornaes... Isto &eacute;
+preciso n&atilde;o deixar arrefecer... Precisamos de lhe tapar
+todas as sahidas... Ella ha-de casar, quer queira,
+quer n&atilde;o!
+<br />
+
+<br />
+
+Deixemo-los seguir caminho da policia e dos jornaes,
+e vejamos o que foi feito de Beatriz, a essa hora
+<span class="pagenum"><a name="p271">[271]</a></span>
+seguindo caminho desconhecido na companhia dos dois
+mascarados que a raptaram.
+<br />
+
+<br />
+
+Surprehendida pelo assalto inesperado d'aquelles
+dois homens, Beatriz quiz resistir e gritar, mas vendo-se
+cingida por uns bra&ccedil;os possantes e atirada para
+dentro do carro com uma rapidez assombrosa, foi tal
+a commo&ccedil;&atilde;o que soffreu, que perdeu <a href="#e32">os sentidos</a>.
+<br />
+
+<br />
+
+Quando o trem se poz em fuga n'uma corrida
+vertiginosa, um dos mascarados quiz naturalmente
+serenal-a, porque disse n'uma voz repassada de ternura,
+pegando-lhe na m&atilde;o:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Beatriz!
+<br />
+
+<br />
+
+Mas a pobre pequena reclinada sobre um dos
+lados do trem, n&atilde;o se mexeu.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Beatriz!&#8213;tornou a dizer a voz, sacudindo-lhe
+levemente a m&atilde;o fina e delicada.
+<br />
+
+<br />
+
+O mesmo silencio e a mesma immobilidade.
+<br />
+
+<br />
+
+Est&atilde;o o desconhecido que a chamava, inclinou-se-lhe
+sobre o rosto, poz-lhe a m&atilde;o na fronte, que estava
+banhada de suor frio, e notou que a filha do Custodio
+n&atilde;o respirava.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Perdeu os sentidos!&#8213;disse elle visivelmente
+commovido.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; natural&#8213;replicou o
+companheiro.&#8213;Complei&ccedil;&atilde;o
+franzina e delicada, assustou-se e desmaiou.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E agora?&#8213;perguntou o que primeiro fallara.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agora &eacute; caminhar... caminhar sempre at&eacute;
+chegarmos a casa... O trem vae em boa carreira e
+n&atilde;o devemos demorar muito a chegar l&aacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+E vendo que o companheiro se mostrava de cada
+vez mais inquieto e afflicto:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o te assustes&#8213;tranquillisou.&#8213;Isso passa.
+&Eacute; um ligeiro deliquio, que at&eacute; nos favorece o bom
+exito da empreza.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Parece-me que n&atilde;o somos seguidos.&#8213;tornou o
+outro, inquieto.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[272]</span> &#8213;Quem querias tu que nos seguisse, se tudo estava
+t&atilde;o bem combinado e tudo correu t&atilde;o de molde ao
+nosso
+desejo que os que podiam impedir-nos foram os proprios
+que nos auxiliaram?...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade. Elles conservavam-se a distancia,
+mandando as senhoras adiante...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; esperavam o lance, os patifes!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois &eacute; claro. O que eu queria era v&ecirc;r a cara
+d'elles quando souberem que a raptada seguiu caminho
+differente d'aquelle que lhe haviam assignalado...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Era para Villar do Paraiso, pois n&atilde;o era?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Era.
+<br />
+
+<br />
+
+O trem havia descido a rua do General Torres e
+parara &aacute; entrada do taboleiro inferior da ponte D.
+Luiz para pagar a portagem.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estamos na ponte&#8213;disse o primeiro dos dois
+desconhecidos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estamos. Agora falta-nos atravessar a cidade.
+&Eacute; quest&atilde;o de meia hora.
+<br />
+
+<br />
+
+Paga a portagem pelo cocheiro, o trem continuou
+o seu caminho, sem que alguem reparasse na veloz
+corrida que levava. Andou assim meia hora, at&eacute; que
+a final entrou na estrada do Carvalhido, parando em
+frente de um largo port&atilde;o de ferro.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eis-nos, emfim!&#8213;disse um dos dois raptores.
+<br />
+
+<br />
+
+E levando um apito aos labios, tirou d'elle um
+silvo agudo e prolongado.
+<br />
+
+<br />
+
+Immediatamente o port&atilde;o se abriu e a carruagem
+entrou n'um largo pateo, seguindo por uma extensa
+alea de frondosos castanheiros, at&eacute; junto de uma casa
+de severo aspecto, que alli se erguia, dominando os
+vastos campos que a circumdavam.
+<br />
+
+<br />
+
+Os dois desconhecidos saltaram do trem, conduzindo
+nos bra&ccedil;os Beatriz, ainda em deliquio, para uma
+sala interior ricamente mobilada.
+<br />
+
+<br />
+
+Depositaram a pobre crean&ccedil;a sobre um sof&aacute;, e
+<span class="pagenum">[273]</span>
+rapidamente, correndo-se um reposteiro, appareceu na
+sala uma dama alta, de nobre aspecto, que fez aspirar
+a Beatriz um frasco de saes.
+<br />
+
+<br />
+
+Dos dois mascarados, um murmurou algumas palavras
+ao ouvido da dama e retirou-se; o outro, tirando
+a mascara, ficou com os olhos pregados em Beatriz,
+sem preferir palavra.
+<br />
+
+<br />
+
+Momentos depois, a filha de Custodio, suspirou,
+abriu os olhos e circumvagando um olhar pela sala,
+soltou um grito d'alegria.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Paulo! &Eacute;s tu?&#8213;disse ella.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sou eu, Beatriz, sou eu! E Paulo aproximou-se
+da namorada, pegou-lhe na m&atilde;o e beijou-lh'a com transporte.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Paulo!&#8213;tornou a filha de Custodio, visivelmente
+intrigada&#8213;o que &eacute; isto? Como me encontro eu aqui?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Encontras-te aqui, minha querida, porque eu te
+salvei de um grande, de um enorme perigo...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! bem sei... aquelles homens que nos assaltaram
+na estrada... Meu Deus!&#8213;disse ella, recordando-se
+da scena estranha que se d&eacute;ra.&#8213;Mas como
+pudeste tu saber?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pude saber que te queriam raptar, d'acc&ocirc;rdo
+com teu pae e com o procurador Belchior&#8213;esclareceu
+Paulo:&#8213;Era uma cilada infame que te estava armada
+e em que te queriam fazer cahir...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Com o consentimento de meu pae?!&#8213;gritou
+Beatriz horrorisada.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Com o consentimento de teu pae, sim. E eu que
+fui advertido da desgra&ccedil;a a que semelhante infamia ia
+condemnar-te, resolvi substituir os raptores e, em vez
+d'elles, apresentar-me eu a raptar-te.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! ent&atilde;o os dois homens que me assaltaram
+no caminho e me lan&ccedil;aram dentro do carro...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Era eu e um meu amigo. Teu pae e o Belchior
+ficaram persuadidos de que foi Eugenio de Mello quem
+<span class="pagenum">[274]</span>
+effectuou o rapto, porque tinha de se realisar, estava
+combinado entre elles, e nem por sombras suspeitam a
+esta hora que, em vez de cahires nas m&atilde;os do noivo
+que te queriam imp&ocirc;r, est&aacute;s ao lado do escolhido
+do
+teu cora&ccedil;&atilde;o!...
+<br />
+
+<br />
+
+Beatriz relanceou um olhar curioso para a dama
+desconhecida que, junto d'ella, o estava fitando com
+express&atilde;o de ternura maternal.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E esta senhora&#8213;disse ella&#8213;quem &eacute;?
+<br />
+
+<br />
+
+Antes que Paulo respondesse, madre Paula, pois
+que era ella, respondeu &aacute; pergunta:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; uma amiga que muito a estima e que s&oacute; deseja
+a sua felicidade, minha filha.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; minha m&atilde;e!&#8213;accrescentou Paulo, beijando
+carinhosamente a m&atilde;o &aacute; religiosa, mais elegante e
+sympathica nos seus trajes seculares.
+<br />
+
+<br />
+
+Madre Paula sorriu amavel e dirigindo-se a Beatriz:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Este louco&#8213;disse ella&#8213;teima em querer imp&ocirc;r-me
+um titulo que me n&atilde;o pertence e a que de
+forma alguma tenho direito...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o diga isso, minha m&atilde;e!&#8213;protestou
+Paulo&#8213;Pois
+quem me acalentou na infancia, quem protegeu
+e amparou os meus primeiros passos, quem tem
+tido sempre para mim todos os disvellos, todas as ternuras
+e carinhos de uma m&atilde;e por seu filho? Conheci
+eu outra m&atilde;e? Ouvi alguma vez palpitar junto
+do meu ber&ccedil;o outro cora&ccedil;&atilde;o que
+n&atilde;o fosse o seu, grande
+e generoso?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas, meu filho...&#8213;ia a dizer madre Paula
+commovida.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meu filho! v&ecirc;s?&#8213;interrompeu o mancebo voltando-se
+para Beatriz&#8213;Diz que n&atilde;o &eacute; minha m&atilde;e
+e
+chama-me seu filho!
+<br />
+
+<br />
+
+Madre Paula replicou n'um tom cheio de bondade
+e do&ccedil;ura:
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[275]</span> &#8213;&laquo;Meu filho&raquo;, &eacute; a formula terna,
+cariciosa do
+meu tratamento para comtigo... Mas se me deves
+affei&ccedil;&otilde;es e cuidados que outra qualquer no meu
+logar
+te dispensaria, &eacute; todavia bem certo que outra tem
+direito &aacute; funda venera&ccedil;&atilde;o e aos
+ternissimos affectos
+do teu cora&ccedil;&atilde;o de filho...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Outra!&#8213;exclamou Paulo indignado&#8213;Quem
+quer que ella seja n&atilde;o a conhe&ccedil;o, nunca a vi nem
+desejo vel-a! Se tive outra m&atilde;e, aquella de quem a
+natureza ou a fatalidade se serviu para me lan&ccedil;ar a
+este mundo, &eacute; t&atilde;o pouco o que lhe devo em
+affei&ccedil;&atilde;o e
+tanto o que d'ella me veio em d&ocirc;res e soffrimentos,
+que j&aacute; fa&ccedil;o muito n&atilde;o a odiando, para
+s&oacute;mente sentir
+por ella indifferen&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Paulo, n&atilde;o digas isso!&#8213;reprehendeu madre
+Paula&#8213;Sabes que me mortificas fallando assim. N&atilde;o
+te aconselhei e n&atilde;o busquei sempre incutir no teu
+cora&ccedil;&atilde;o
+o sentimento do amor e respeito que se deve
+aos paes?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Perd&ocirc;e-me, minha boa m&atilde;e! Os seus conselhos
+n&atilde;o foram esquecidos nem os seus esfor&ccedil;os
+baldados.
+E a prova &eacute; que a amo e a respeito com todas as
+v&eacute;ras
+da minha alma, com todas as for&ccedil;as do meu
+cora&ccedil;&atilde;o.
+Mas como quer que eu tenha os mesmos affectos,
+os mesmos ternos sentimentos de respeitosa
+venera&ccedil;&atilde;o
+por uma outra que n&atilde;o conhe&ccedil;o, que nunca vi,
+que me abandonou e me deixou entregue &aacute; generosa
+caridade de seu nobre cora&ccedil;&atilde;o, minha boa e santa
+m&atilde;e? A ella devo os soffrimentos, as angustias da
+vida que eu lhe n&atilde;o pedi e que de bom grado dispensava.
+A madre Paula devo tudo o que um filho deve a
+sua m&atilde;e: devo-lhe o amparo, o carinho, a
+protec&ccedil;&atilde;o
+o amor que uma boa m&atilde;e tem sempre por seu filho.
+Quem &eacute;, pois, minha m&atilde;e? A quem devo eu todo o
+respeito, toda a obediencia, toda a estima e gratid&atilde;o
+que constituem a obriga&ccedil;&atilde;o de um filho para com
+<span class="pagenum">[276]</span>
+seus paes: aos que me crearam e protegeram, ou aos
+que me deram o s&ecirc;r e me abandonaram?
+<br />
+
+<br />
+
+E voltando-se para Beatriz, que assistia silenciosa
+e commovida a esta scena:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Responde tu, minha amiga! Tu, que tens
+sido tambem victima da crueldade e dureza de um
+pae descaroado e egoista, que a todo o momento te
+torturava, consulta o teu cora&ccedil;&atilde;o e dize-me se
+sentes
+por elle o mesmo enternecido affecto que sentias
+por tua m&atilde;e, de quem me tens fallado com t&atilde;o
+viva saudade?
+<br />
+
+<br />
+
+Beatriz corou e disse:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se &eacute; um crime n&atilde;o amar os paes, que, depois
+de nos terem lan&ccedil;ado ao mundo, se julgaram dispensados
+de ter por n&oacute;s disvellos e amoravel compaix&atilde;o
+para com a nossa infancia desvalida, confesso que sou
+tambem uma grande criminosa... Por meu pae n&atilde;o
+senti nunca o suave e d&ocirc;ce affecto que me inspirava
+minha pobre m&atilde;e. Ella era meiga, terna e bondosa
+para mim. Elle, rispido, austero, s&ecirc;cco, intratavel.
+Nunca me dispensou um affago, nunca teve para mim
+um sorriso, a n&atilde;o ser agora, nos ultimos tempos, quando,
+representando commigo uma comedia... inclassificavel,
+queria sacrificar o meu cora&ccedil;&atilde;o ao dinheiro de
+um homem que eu n&atilde;o podia amar. At&eacute; ahi,
+por&eacute;m,
+s&oacute; teve para mim arremessos, gestos bruscos, despotismos
+de senhor que se v&ecirc; compellido a tolerar um escravo
+de que deseja desfazer-se. Depois da morte
+de minha m&atilde;e, esse mau tratamento accentuou-se de
+cada vez com mais rigor. Cheguei a pensar que, se
+eu morresse, a minha morte seria motivo de grande
+alegria para meu pae. N&atilde;o ia v&ecirc;r-me ao collegio,
+n&atilde;o me escrevia uma carta, n&atilde;o buscava saber
+de mim, nem mesmo quando uma ligeira doen&ccedil;a me
+prostrava no leito. Contentava-se em pagar todas as
+despezas mas ternura paternal, este d&ocirc;ce sentimento
+<span class="pagenum">[277]</span>
+que liga, n'uma cadeia interminavel, a humanidade de
+um ao outro extremo dos seculos, eu conhecia bem
+que n&atilde;o existia n'elle... Chorei muito a minha orphandade,
+cheguei mesmo a pedir a Deus a morte.
+E quando via o alegre alvoro&ccedil;o das minhas companheiras
+ao receberem noticias dos paes que adoravam,
+perguntava a mim mesma porque &eacute; que a
+lembran&ccedil;a de meu pae n&atilde;o despertava em mim o
+mesmo sentimento, e o meu cora&ccedil;&atilde;o ficava frio e
+indifferente.
+<br />
+
+<br />
+
+Madre Paula escutava Beatriz, visivelmente commovida
+com o tom de sinceridade e candura que ella
+punha n'estes dizeres.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Minha filha&#8213;disse-lhe a abbadessa&#8213;eu creio
+bem que, apesar de n&atilde;o sentir por seu pae os extremos
+de ternura que seriam para desejar, n&atilde;o sentiu
+nunca por elle indifferen&ccedil;a e muito menos odio...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh, n&atilde;o, minha senhora! Meu pae inspirava-me
+receio e temor pelo seu genio desabrido, pela rispidez
+e quasi rancor com que me tratava. Mas eu n&atilde;o
+pensei jamais em faltar aos meus deveres de filha
+obediente... E ainda mesmo quando elle falsamente
+allegava que dependia de mim a sua velhice socegada
+e tranquilla, estava resolvida a sacrificar-me por elle,
+tanto quanto fosse compativel com a minha honestidade
+e com os sentimentos do meu cora&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+E cortou a phrase para envolver Paulo n'um olhar
+caricioso e apaixonado.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E todavia&#8213;observou Paulo&#8213;esse homem n&atilde;o
+tem o minimo direito &aacute; obediencia e ao affecto de Beatriz!
+Um pae que desce &aacute; ignominia de consentir no
+rapto violento de sua filha para a obrigar a casar
+com o homem que ella detesta, &eacute; um miseravel, um
+monstro despresivel, n&atilde;o &eacute; um pae!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Paulo! Paulo... ent&atilde;o!&#8213;supplicou Beatriz.
+<br />
+
+<br />
+
+Madre Paula interveio:
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[278]</span> &#8213;O procedimento do pae d'esta menina foi incorrecto,
+n&atilde;o ha duvida; mas a Providencia encarregou-se
+de o punir, fazendo voltar contra elle as proprias
+armas da perfidia que queria empregar contra
+a filha.
+<br />
+
+<br />
+
+E dirigindo-se a Beatriz:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Minha menina&#8213;accrescentou&#8213;agrade&ccedil;a ao
+c&eacute;o o havel-a protegido e amparado contra a odiosa
+cilada em que queriam fazel-a cahir. Sem praticar
+nenhum acto de desobediencia para com seu pae, encontra-se
+liberta do homem a quem queriam entregal-a
+com manifesta repugnancia do seu cora&ccedil;&atilde;o e
+grave offensa da sua reputa&ccedil;&atilde;o e da sua
+honestidade.
+Aqui se conservar&aacute; em minha companhia, se assim o
+deseja, em quanto n&atilde;o puder livremente disp&ocirc;r do
+seu
+destino, unindo-se pelos la&ccedil;os conjugaes ao escolhido
+do seu cora&ccedil;&atilde;o. Servir-lhe-hei de m&atilde;e
+e serei uma
+garantia segura da rectid&atilde;o e honestidade de seu
+comportamento.
+Quer assim?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh, minha senhora! quanto lhe devo e quanto
+a minha alma se sente agradecida por tanta bondade
+e t&atilde;o valiosa protec&ccedil;&atilde;o!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Paulo vir&aacute; v&ecirc;l-a&#8213;continuou Madre Paula&#8213;mas
+fallar-lhe-ha sempre na minha presen&ccedil;a, para que
+a todo o tempo eu possa testemunhar a nobreza e
+correc&ccedil;&atilde;o com que ambos procuram unir os seus
+destinos.
+Espero, pois, que d'este modo concorrerei para a
+realisa&ccedil;&atilde;o dos seus mais vivos e ardentes
+desejos, sem
+que uma leve sombra de suspeita possa macular a
+honra e a reputa&ccedil;&atilde;o dos meus queridos filhos.
+<br />
+
+<br />
+
+Beatriz e Paulo ajoelharam, beijando enternecidamente
+a m&atilde;o da gentil abbadessa.
+<br />
+
+<br />
+
+Esta, sorrindo com um carinho e uma do&ccedil;ura verdadeiramente
+maternal, disse para Beatriz, levantando-a
+nos bra&ccedil;os:
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[279]</span> &#8213;Deve estar fatigada, minha filha... Vou mandar
+servir-lhe uma leve refei&ccedil;&atilde;o e acompanhal-a em
+seguida ao seu quarto.
+<br />
+
+<br />
+
+E dirigindo-se a Paulo:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vae, meu filho. Despede-te da tua noiva e faze
+por merecer sempre a estima e o affecto que &#8213;Vae, meu filho. Despede-te da tua noiva e faze
+por merecer sempre a estima e o affecto que tens encontrado
+no meu cora&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[280]</span>
+<h3><a name="c17"></a>XVII<br />
+
+<br />
+
+Quem semeia ventos...
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Belchior e o Custodio, mal chegaram ao Porto,
+dirigiram-se ao commissariado de policia e ahi formularam
+a sua queixa contra Eugenio de Mello, accusando-o
+do rapto de Beatriz.
+<br />
+
+<br />
+
+O procurador e a familia apresentaram-se como
+testemunhas, e todos declararam haver reconhecido
+o bohemio n'um dos dois raptores.
+<br />
+
+<br />
+
+A policia p&ocirc;z-se em campo para descobrir os fugitivos,
+e o Custodio, esfregando as m&atilde;os de contente,
+recolheu a casa &aacute; espera dos acontecimentos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agora, amigo Custodio&#8213;disse-lhe o Belchior&#8213;como
+tudo correu &aacute; medida dos nossos desejos, v&aacute;
+descan&ccedil;ado, que o casamento n&atilde;o leva oito dias a
+fazer-se...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como o rapaz n&atilde;o tenha ainda gasto toda a
+corti&ccedil;a
+da quinta...&#8213;respondeu o Custodio com um sorriso
+velhaco&#8213;o casamento vem em b&ocirc;a occasi&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deixe l&aacute;, que por falta de corti&ccedil;a
+n&atilde;o &eacute; que o
+negocio ha-de ir ao fundo...
+<br />
+
+<br />
+
+Despediram-se, promettendo voltar a v&ecirc;r-se no dia
+seguinte.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[281]</span>
+Ao chegar a casa, por&eacute;m, o Belchior ficou surprehendido
+ao encontrar um bilhete de Eugenio de Mello,
+em que este lhe declarava que, tendo-o procurado sem
+o encontrar, voltaria no dia seguinte de manh&atilde;, para,
+saber que novidade tinha havido.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; b&ocirc;a!&#8213;disse o procurador &aacute;
+mulher&#8213;Este
+maluco rapta a rapariga e quer que eu lhe diga a novidade
+que houve!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas&#8213;observou a esposa&#8213;quando te deixou
+elle esse bilhete?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sei... Encontrei-o na caixa das cartas...
+Naturalmente, mandou-m'o por algum portador de confian&ccedil;a,
+depois do rapto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas elle diz que veio procurar-te e que n&atilde;o te
+encontrou...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade! Confesso que n&atilde;o percebo isto...
+Elle n&atilde;o iria com ella para Villar do Paraiso como
+haviamos combinado?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sei... n&atilde;o estaria o dono da casa prevenido
+para os receber?...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Qual! estava tudo prevenido. &Eacute; uma casa isolada
+no fundo de uma quinta e de que um meu constituinte
+tem a chave... E elle estava prevenido...
+Nada, aqui houve tolice do rapaz...
+<br />
+
+<br />
+
+Intrigado com o bilhete de Eugenio, que n&atilde;o sabia
+como explicar, o Belchior metteu-se na cama e dormiu
+regaladamente, na ideia de que levava o negocio
+do casamento a bom caminho.
+<br />
+
+<br />
+
+No dia seguinte, pelas dez horas, descia ao escriptorio
+quando Eugenio entrou:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o?&#8213;disse-lhe o procurador.&#8213;Voc&ecirc;
+j&aacute;
+aqui, em vez de estar a convencer a pequena!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Qual pequena?&#8213;interrogou Eugenio, sem comprehender.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Qual pequena? &Eacute; boa! Ent&atilde;o voc&ecirc;
+n&atilde;o sabe o
+que fez?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[282]</span> &#8213;O que fiz? Eu n&atilde;o fiz nada, e n&atilde;o sei de quem
+me falla...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Essa agora! Pois voc&ecirc; quer-me metter em cabe&ccedil;a
+que n&atilde;o raptou a Beatriz?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu?!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Homem, sim! Pois quem diabo havia de ser?
+Fui eu talvez?!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas se lhe digo que n&atilde;o pratiquei rapto nenhum...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mau!&#8213;disse o Belchior, abespinhado com a
+ideia de que Eugenio estava gracejando.&#8213;Isto s&atilde;o
+negocios muito serios e eu n&atilde;o gosto d'essas brincadeiras!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que diabo! mas se lhe estou dizendo que n&atilde;o
+brinco... Voc&ecirc; mandou-me um recado, prevenindo-me
+de que n&atilde;o fosse, que o rapto n&atilde;o podia
+effectuar-se
+como se havia combinado... Como queria que eu,
+depois d'isto, fosse raptar a pequena?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Com os diabos!&#8213;berrou o procurador, desesperado.&#8213;Mas
+eu vi! Voc&ecirc;, quer-me negar uma coisa
+que eu presenciei?!
+<br />
+
+<br />
+
+E n'uma furia crescente, persuadido de que Eugenio
+premeditava maroteira grossa:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olhe que isso n&atilde;o &eacute; digno, ouviu? Eu bem sei
+aonde voc&ecirc; quer chegar... Mas comigo &eacute; preciso
+v&ecirc;r
+como se fazem, porque eu n&atilde;o sou menino que se deixe
+enganar!
+<br />
+
+<br />
+
+O bohemio encarou-o fito, franziu o sobr'olho e replicou
+n'um tom meio zombeteiro, meio amea&ccedil;ador:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Voc&ecirc; est&aacute; doido, amigo Belchior?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o estou doido nem voc&ecirc; &eacute; capaz de
+me tirar o
+juizo, percebeu? &Eacute; preciso notar que eu cumpri tudo
+aquillo a que me obriguei, e voc&ecirc; ha de cumprir tambem,
+ou ent&atilde;o temos muito que v&ecirc;r!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que quer voc&ecirc; dizer com isso, Belchior?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quero dizer que escusa voc&ecirc; de vir negar o rapto
+<span class="pagenum">[283]</span>
+que eu presenciei, com a ideia de se furtar a entregar-me
+a commiss&atilde;o que tinhamos combinado...
+Eu sei qual &eacute; a sua ideia... A sua ideia &eacute;
+fazer-se
+com o Custodio para arranjarem o casamento a occultas
+e deixarem-me a mim a chuchar no dedo... Mas
+lembre-se que eu tenho-os a ambos na m&atilde;o... De
+voc&ecirc;, descubro tudo, digo quem &eacute; e quem
+n&atilde;o &eacute;, fa&ccedil;o
+v&ecirc;r que n&atilde;o tem onde cahir morto, e depois sempre
+quero saber se o Custodio n&atilde;o prefere mandal-o por
+uma barra f&oacute;ra, a dar-lhe a filha. E a elle, se se
+fizer fino e me quizer ser falso, tenho c&aacute; uns certos
+segredos que o compromettem e veremos quem n'este
+jogo leva a melhor! Comigo &eacute; preciso muito cuidado,
+ouviu? Eu n&atilde;o me deixo ir assim na r&ecirc;de, ainda que
+a voc&ecirc; lhe pare&ccedil;a o contrario!...
+<br />
+
+<br />
+
+O procurador punha tal indigna&ccedil;&atilde;o nas suas
+palavras,
+que Eugenio comprehendeu que havia alli um
+equivoco a desfazer.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Homem, n&atilde;o se zangue e fallemos s&eacute;rio&#8213;disse
+elle, procurando serenar o Belchior.&#8213;Eu n&atilde;o percebo
+uma palavra do que voc&ecirc; est&aacute; para ahi a dizer...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o percebe? Ah! voc&ecirc; agora n&atilde;o
+percebe,
+mas eu sou muito capaz de o fazer preceber...&#8213;tornou
+o Belchior, sempre persistente na ideia de que
+o aventureiro o queria enganar.&#8213;&Eacute; preciso que se
+lembre de que eu estava l&aacute;, vi-o chegar, apear-se do
+carro com o outro, deitar as m&atilde;os &aacute; pequena,
+atirar
+com ella para dentro do carro e abalar... Isto a mim
+n&atilde;o se me nega e bem p&oacute;de voc&ecirc; vir com
+um santo
+Christo dizer-me o contrario, que eu n&atilde;o o acredito.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois n&atilde;o fui, amigo Belchior, creia que n&atilde;o
+fui!&#8213;protestou Eugenio, verdadeiramente espantado
+das affirma&ccedil;&otilde;es do procurador.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o foi! Ent&atilde;o quem foi?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sei. Eu &eacute; que posso dar-lhe a minha palavra
+d'honra de que n&atilde;o entrei n'isso, nem pensei mais
+<span class="pagenum">[284]</span>
+em tal, desde que voc&ecirc; me mandou recado a dizer que
+o rapto ficava transferido para outro dia...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que recado? Eu mandei-lhe algum recado?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Certamente. Eu estava no <em>Suisso</em>,
+eram quatro
+horas da tarde, conversando com o amigo que devia
+acompanhar-me, quando entrou um homem, que me
+chamou de parte e me disse: &laquo;O sr. Belchior manda
+dizer que tenha a bondade de n&atilde;o ir ao sitio onde sabe,
+porque houve transtorno e o passeio da menina ficou
+addiado para outro dia. Elle depois lhe explicar&aacute;
+os motivos.&raquo; Ouvindo isto, perguntei-lhe:&#8213;&laquo;Onde
+est&aacute;
+o sr. Belchior?&raquo;&#8213;&laquo;Em casa do sr. Custodio de Jesus
+com a familia e n&atilde;o regressa a casa d'elle sen&atilde;o
+&aacute;
+noite.&raquo; Ora, depois d'isto, como queria voc&ecirc; que eu
+fosse raptar a pequena?
+<br />
+
+<br />
+
+O procurador ficou-se a olhar espantado o aventureiro.
+<br />
+
+<br />
+
+Elle queria convencer-se de que Eugenio fallava
+verdade, mas os factos de que tinha sido testemunha,
+contradiziam totalmente a narrativa do bohemio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim... tudo isso est&aacute; muito bem&#8213;disse elle.&#8213; Mas
+o peor &eacute; que a rapariga foi raptada; eu vi,
+o pae viu, minha mulher e minha cunhada viram, e
+ninguem podia ter sido sen&atilde;o voc&ecirc;...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas voc&ecirc; n&atilde;o est&aacute; gracejando, amigo
+Belchior?&#8213;interrogou
+por sua vez o bohemio.&#8213;Realmente Beatriz
+foi raptada?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Essa agora! Ent&atilde;o n&atilde;o sabe que o foi?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! sim... ent&atilde;o foi raptada por outro!... N&atilde;o
+tem duvida.. Voc&ecirc; indemnisa-me dos prejuizos e
+est&aacute; o negocio arrumado...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dos prejuizos... Que prejuizos?
+<br />
+
+<br />
+
+O bohemio, sem perder a gravidade, replicou n'um
+tom cheio de convic&ccedil;&atilde;o:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Obrigou-me a despezas excessivas, na ideia
+d'este casamento. Depois, entretendo-me com as suas
+<span class="pagenum">[285]</span>
+promessas e os seus palanfrorios de me arranjar esta
+noiva que me convinha, fez com que eu perdesse outra
+uni&atilde;o mais vantajosa. Tudo isto s&atilde;o prejuizos que
+eu
+n&atilde;o estou disposto a soffrer; e voc&ecirc;, antes de me
+roer
+a corda, devia pensar n'isso...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Com seiscentos diabos!&#8213;gritou o procurador
+desvairado&#8213;Ent&atilde;o j&aacute; o ladr&atilde;o
+&eacute; o roubado, hein! Ent&atilde;o
+a voc&ecirc; n&atilde;o lhe basta raptar a rapariga e negar,
+para se safar com ella e casarem-se occultamente em
+sitio que eu n&atilde;o saiba, para me n&atilde;o darem nada,
+sen&atilde;o
+ainda por cima quer que eu lhe d&ecirc; dinheiro, a
+titulo de indemnisa&ccedil;&atilde;o? Diz que gastou mundos e
+fundos!
+E de quem era esse dinheiro, n&atilde;o faz favor de
+me dizer? A conta est&aacute; alli, e o preto no branco falla
+como gente!
+<br />
+
+<br />
+
+E apontou para o cofre onde guardava os documentos
+da divida de Eugenio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade!&#8213;replicou o rapaz com soberano
+despreso&#8213;E esse preto no branco, que voc&ecirc; alli tem,
+diz de uma maneira bem clara e bem evidente que
+voc&ecirc; &eacute; o maior ladr&atilde;o que a roda do sol
+cobre!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Veja como falla... Olhe que eu estou em minha
+casa!&#8213;berrou o procurador n'um gesto de amea&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esta casa n&atilde;o &eacute; sua, &eacute; dos
+desgra&ccedil;ados que voc&ecirc;
+tem esfollado, seu malandro! A sua casa &eacute; a penitenciaria,
+e l&aacute; &eacute; que voc&ecirc; devia estar.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pulha!&#8213;regougou o Belchior, rouco de colera&#8213;Ponha-se
+l&aacute; f&oacute;ra! ponha-se l&aacute; f&oacute;ra!
+<br />
+
+<br />
+
+O bohemio avan&ccedil;ou para elle com o punho estendido.
+O procurador, livido de medo, foi recuando at&eacute;
+&aacute; parede.
+<br />
+
+<br />
+
+Ent&atilde;o ahi, sereno e imperturbavel, Eugenio, pondo-lhe
+a m&atilde;o vigorosa sobre o hombro, disse:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Amigo Belchior, voc&ecirc; escolheu mau parceiro
+para a sua bisca, porque eu n&atilde;o tenho que perder, e
+s&oacute; posso ganhar... Tome bem conta no que lhe digo:
+<span class="pagenum">[286]</span>
+eu n&atilde;o sou homem de quem se escarne&ccedil;a
+impunemente.
+Voc&ecirc; fez raptar a rapariga por outro... Por ella,
+pouco me importa, porque eu n&atilde;o tinha empenho na
+mulher. Mas pelo dote, faz-me differen&ccedil;a e eu n&atilde;o
+posso perder. Tenho, pois, direito a uma
+indemnisa&ccedil;&atilde;o
+e ou voc&ecirc; m'a d&aacute; ou lhe mando a vida para o
+inferno.
+&Eacute; um ladr&atilde;o que fica de menos no mundo e
+os tribunaes, se n&atilde;o me absolv&ecirc;rem, tambem
+n&atilde;o h&atilde;o-de
+dar-me grande pena. Estou novo, posso bem com
+alguns annos de penitenciaria, mesmo porque n&atilde;o tenho
+nada que fazer c&aacute; f&oacute;ra... Pense n'isto e
+n&atilde;o seja
+t&ocirc;lo. Eu n&atilde;o sou exigente. Receberei mesmo em
+presta&ccedil;&otilde;es.
+Adeus!
+<br />
+
+<br />
+
+O Belchior, desorientado, sahiu tambem pouco depois,
+dirigindo-se apressado a casa de Custodio.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o podia cr&ecirc;r no que ouvira da b&ocirc;cca do
+bohemio,
+e parecia-lhe, em face de tamanha audacia, que
+havia j&aacute; combina&ccedil;&atilde;o feita entre
+Eugenio e o pae de
+Beatriz para o roubarem a elle, despojando-o da commiss&atilde;o
+que ambos haviam combinado dar-lhe.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; incrivel&#8213;murmurava elle&#8213;a desfa&ccedil;atez
+com que aquelle maroto nega uma coisa que eu vi e
+ainda por cima me pede uma indemnisa&ccedil;&atilde;o! Agora o
+que falta &eacute; que o patife do Custodio tambem
+queira
+que eu o indemnise... Ah! mas n&atilde;o tem duvida! Eu
+arranjo-os... Comigo n&atilde;o brincam elles!
+<br />
+
+<br />
+
+Atravessou a cidade a passo accelerado e entrou
+em casa do Custodio no momento mesmo em que este
+se preparava para sahir.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ia agora mesmo a sua casa&#8213;disse-lhe o agiota.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim? Ent&atilde;o o que ha de novo?&#8213;perguntou-lhe
+o Belchior, que tivera tempo de serenar e recobrar o
+sangue frio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que eu saiba, n&atilde;o ha nada... O que eu queria
+saber era se sempre temos de ir &aacute;
+administra&ccedil;&atilde;o de
+<span class="pagenum">[287]</span>
+Villa Nova de Gaya ratificar as declara&ccedil;&otilde;es que
+fizemos
+hontem ao regedor e &aacute; policia...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois est&aacute; claro que sim!&#8213;tornou o procurador&#8213;Agora
+&eacute; carregar-lhe com a polvora toda, declararmos
+que o vimos, que o reconhecemos, de modo que
+elle n&atilde;o possa negar ainda que queira...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Voc&ecirc; julga-o capaz d'isso?&#8213;perguntou o Custodio
+em sobresalto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o... eu n&atilde;o o julgo capaz d'isso... Mas
+supponhamos que lhe d&aacute; o diabo na cabe&ccedil;a para se
+arrepender e dizer que n&atilde;o foi elle? &Eacute; preciso
+que a
+gente tenha for&ccedil;a nas declara&ccedil;&otilde;es para
+o obrigar.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mau! Mas voc&ecirc; n&atilde;o fallava assim antes do
+rapto...&#8213;observou
+o Custodio desconfiado.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu sempre fallei como fallo agora, amigo Custodio.
+Eu n&atilde;o sou homem de duas caras nem digo uma
+coisa por outra... O que eu disse &eacute; que ficava por
+minha conta obrigal-o a casar com a pequena depois
+d'elle a raptar. Mas para isso &eacute; preciso que voc&ecirc;
+me
+ajude e puxe certo...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu estou prompto!&#8213;volveu o Custodio&#8213;Diga
+voc&ecirc; como quer que puxe...
+<br />
+
+<br />
+
+O Belchior adquiriu n'esta resposta a certeza de
+que o Custodio ainda nada sabia da negativa de Eugenio
+e que, portanto, n&atilde;o estava combinado com elle
+para o espoliarem da parte que lhe cabia n'aquelle
+infame negocio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Trabalha por conta propria&#8213;pensou&#8213;e quer
+v&ecirc;r se faz jus a mais dinheiro por parte do velho e a
+dar-me menos dinheiro a mim... Mas est&aacute; enganado.
+&Eacute; mais facil eu arranjar-lhe a cama na penitenciaria
+e perder tudo, do que deixar-me comer por aquelle patife!
+<br />
+
+<br />
+
+E voltando-se para o Custodio de Jesus:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; teimar sempre que foi elle e que foi elle!
+Eu juro que o reconheci, porque deixou v&ecirc;r a cara na
+<span class="pagenum"><a name="p288">[288]</a></span>
+occasi&atilde;o em que raptava a pequena... Minha mulher
+e minha cunhada juram a mesma <a href="#e33">coisa</a>...
+e voc&ecirc;, j&aacute;
+se sabe, tem de dizer comnosco... n&atilde;o nos p&oacute;de
+contradizer...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Aacute;gora contradigo! N'essa n&atilde;o caio eu...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E assim, com esta prova, ainda que elle negue
+e diga que n&atilde;o foi, ou casa ou vae para a Penitenciaria
+que nem Santo Antonio o livra de l&aacute;...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas a voc&ecirc; palpita-lhe que elle seja capaz de
+negar?&#8213;insistiu o Custodio de cada vez mais apprehensivo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A mim n&atilde;o me palpita nada... Mas voc&ecirc; nunca
+ouviu dizer que o seguro morreu de velho? &Eacute; preciso
+a gente prevenir sempre o peor...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem; pois ent&atilde;o vamos l&aacute; para o administrador
+de Gaya.
+<br />
+
+<br />
+
+Chegaram &aacute; pra&ccedil;a de Carlos Alberto, tomaram
+um trem &aacute; hora e partiram para Villa Nova.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[289]</span>
+<h3><a name="c18"></a>XVIII<br />
+
+<br />
+
+Revela&ccedil;&atilde;o
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O padre Filippe, quando chegou a casa, depois de
+ter assistido aos ultimos momentos de Maria do Carmo,
+tirou da sotaina a sacca das libras e o manuscripto
+que a moribunda lhe confiara, atirando tudo para
+dentro da gaveta da sua secret&aacute;ria, sem se dar pressa
+em observar de perto o estranho legado.
+<br />
+
+<br />
+
+Vinha fatigadissimo e como a idade j&aacute; lhe n&atilde;o
+permittia
+prolongadas vigilias, recolheu-se ao leito, reservando
+para o dia seguinte o exame do mysterioso manuscripto.
+<br />
+
+<br />
+
+A confiss&atilde;o da velha, por&eacute;m, impressionara-o.
+<br />
+
+<br />
+
+Elle conhecera o padre Hilario e sabia muito bem,
+pelo que lhe dissera madre Paula, que o novel capel&atilde;o
+da Covilh&atilde; era filho do padre Anselmo. O que de
+todo o ponto ignorava eram as particularidades que a
+velha lhe revel&aacute;ra nos ultimos momentos.
+<br />
+
+<br />
+
+Nunca tivera grande curiosidade de saber a origem
+d'aquelle filho que o padre Anselmo parecia querer
+encobrir, n&atilde;o obstante a grande
+protec&ccedil;&atilde;o que sempre
+lhe dispens&aacute;ra e que era o que afinal trahira o seu
+segr&ecirc;do. Mas, comparando os relativos cuidados havidos
+<span class="pagenum">[290]</span>
+para o padre Hilario com o abandono a que Paulo
+f&ocirc;ra votado, o padre Filippe n&atilde;o sabia explicar a
+differen&ccedil;a,
+sen&atilde;o pelo grau de affecto que separava aquellas
+duas m&atilde;es no cora&ccedil;&atilde;o do padre Anselmo.
+<br />
+
+<br />
+
+Todavia, madre Paula suppunha a <em>Irm&atilde;
+Doroth&ecirc;a</em>
+vivendo em paiz estrangeiro, protegida pelo seu seductor,
+a essas horas talvez elevado ao cargo de Provincial
+ou Assistente, com outro nome diverso do que
+a principio tivera. E n'este caso, como &eacute; que os dois
+esqueceram Paulo, deixando-o entregue aos cuidados
+de duas pessoas amigas, de quem mais n&atilde;o quizeram
+saber?
+<br />
+
+<br />
+
+Emaranhado n'esta ordem de considera&ccedil;&otilde;es, o padre
+Filippe adormeceu, reservando para o dia seguinte
+a leitura do manuscripto, que talvez viesse fazer luz
+em t&atilde;o escuro labyrinto.
+<br />
+
+<br />
+
+Se essa leitura alguma coisa o esclareceu, poderemos
+n&oacute;s avaliar pela conversa&ccedil;&atilde;o que, na
+tarde d'esse
+mesmo dia, se travou entre elle e madre Paula, na
+casa das Sereias.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sabes, minha amiga&#8213;disse o padre Filippe,
+entrando na cella da abbadessa&#8213;que tive noticias do
+padre Anselmo?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim?&#8213;perguntou madre Paula com curiosidade.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade. Noticias bastante retardadas, mas
+em todo o caso novas para mim e creio que tambem
+para ti...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Decerto. Ha muitos annos que n&atilde;o tenho noticias
+do padre Anselmo. &Eacute; ainda vivo?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sei. A pessoa que d'elle me fallou &eacute;
+j&aacute; morta,
+e, ao expirar, n&atilde;o soube dizer-me se elle ainda vivia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Alguem, ao morrer, fallou-te do padre Anselmo?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Uma tal Maria do Carmo, que foi creatura
+muito d'elle...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tenho ideia d'essa mulher. Persuado-me que a
+<span class="pagenum">[291]</span>
+vi duas ou tres vezes procurar o padre Anselmo, quando
+elle se demorava n'esta casa.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu n&atilde;o a conhecia, mas fui chamado hontem &aacute;
+noute para a ouvir de confiss&atilde;o, porque a pobre creatura
+n&atilde;o queria morrer sem fazer revela&ccedil;&otilde;es
+importantes.
+<br />
+
+<br />
+
+Contou ent&atilde;o toda a conversa&ccedil;&atilde;o que
+tivera com a
+moribunda e o legado de que ella o fizera depositario.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E o manuscripto o que diz?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O manuscripto&#8213;replicou o padre&#8213;&eacute; uma
+sentida e commovente narrativa feita pela m&atilde;e do padre
+Hilario ao filho, revelando-lhe o segredo do seu
+nascimento e dando conta dos funestos am&ocirc;res que,
+desde muito nova ainda, a ligaram ao padre Anselmo...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; singular!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pelo que d'esse manuscripto se deprehende, essa
+mulher n&atilde;o vira mais o filho desde o momento em
+que o d&eacute;ra &aacute; luz. O padre Anselmo arrebatara-lh'o
+da vista, dera-o a crear e encarregara-se da sua
+educa&ccedil;&atilde;o, conservando no mais rigoroso mysterio
+as
+circumstancias do nascimento d'aquella crean&ccedil;a. Chamava-se
+Carlota a m&atilde;e, e por suggest&otilde;es do padre
+Anselmo, casara em Braga com um agiota chamado
+Custodio de Jesus...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Custodio de Jesus!&#8213;repetiu madre Paula, sobresaltada.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim, Custodio de Jesus&#8213;tornou o padre Filippe&#8213;Porque
+te sobresalta esse nome?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; porque Custodio de Jesus se chama tambem
+o pae de Beatriz, a namorada de Paulo; e creio ter
+ouvido dizer que esse homem residira primitivamente
+em Braga.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; extraordinario!&#8213;exclamou o padre Pilippe&#8213;Dar-se-ha
+caso que Beatriz seja filha da amante do
+padre Anselmo?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[292]</span> &#8213;N&atilde;o sei. &Eacute; possivel, como &eacute;
+poss&iacute;vel que a
+propria Beatriz seja... irm&atilde; de Paulo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Convem esclarecer esse mysterio, mas de modo
+que n&atilde;o transpire a menor suspeita do que se trata.
+<br />
+
+<br />
+
+Madre Paula ficou por alguns instantes pensativa.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Chamava-se D. Carlota&#8213;disse&#8213;a m&atilde;e do padre
+Hilario?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Chamava.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; ella mesma quem se declara casada com Custodio
+de Jesus, no manuscripto que te veio &aacute;s m&atilde;os?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute;. E posto n&atilde;o diga claramente que as suas
+rela&ccedil;&otilde;es
+intimas com o padre Anselmo continuaram, bem
+o deixa perceber nas differentes passagens em que se
+refere &aacute;s supplicas que frequentemente lhe fazia para
+que a deixasse v&ecirc;r e beijar o filho, seu unico amor,
+sua unica aspira&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;De modo que&#8213;tornou ainda madre Paula&#8213;se
+Beatriz &eacute; filha de D. Carlota...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o haver&aacute; remedio sen&atilde;o impedir por
+todos os
+modos o casamento d'essas duas crean&ccedil;as, ainda mesmo
+que n&atilde;o tenhamos a certeza moral do impedimento
+dirimente.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E teremos ent&atilde;o que revelar a Paulo o segredo
+do seu nascimento?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o me parece que o devamos fazer emquanto
+n&atilde;o tivermos esgotado todos os outros meios ao nosso
+alcance.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Paulo ama loucamente essa menina e &eacute; correspondido
+com igual vehemencia por parte d'ella...
+Creio bem que ser&aacute; empreza difficilima arrancar ao
+cora&ccedil;&atilde;o dos dois um sentimento que alli tem
+creado
+t&atilde;o fundas raizes.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Buscaremos convenientemente empregar os nossos
+esfor&ccedil;os no sentido de suavisar o melhor que pudermos
+o golpe que talvez sejamos obrigados a vibrar-lhes...
+E se queres que te diga, minha querida, acho extemporaneas
+<span class="pagenum">[293]</span>
+quaesquer considera&ccedil;&otilde;es a esse
+respeito...
+Primeiramente, devemos informar-nos acerca da identidade
+d'esse Custodio de Jesus. P&oacute;de muito bem acontecer
+que, em vez de se tratar da pessoa que suspeitamos,
+se trate apenas de um homonymo do marido
+de D. Carlota.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tratarei de averiguar por alguma das serventuarias
+do convento.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que n&atilde;o convem&#8213;recommendou o padre Filipe&#8213;&eacute;
+que Paulo tenha conhecimento d'estas nossas
+indaga&ccedil;&otilde;es que n&atilde;o devem perder o
+caracter do mais
+intimo segredo...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Descan&ccedil;a, meu amigo. Paulo nada saber&aacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+N'essa mesma tarde, madre Paula chamou &aacute; sua
+cella uma das serventuarias do convento e incumbiu-a
+de averiguar e saber de certeza certa quem era Custodio
+de Jesus, que pessoas compunham a sua familia,
+qual o seu estado, e como se chamava a m&atilde;e de Beatriz.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quero saber isto com a maxima exactid&atilde;o e a
+mais breve possivel&#8213;disse madre Paula.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso &eacute; uma coisa que eu vou j&aacute; tratar de
+saber...
+Alli perto tenho uma alminha do senhor, muito
+devota e que sabe a vida de toda a gente da vizinhan&ccedil;a...
+Ella diz-me tudo assim que eu l&aacute; f&ocirc;r...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Veja l&aacute;, olhe que tenho o maximo interesse em
+saber tudo...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; minha senhora! Fique vossa maternidade
+descan&ccedil;ada que lhe trago aqui tudo sabidinho, sem
+faltar nada... Eu parece-me que essa familia n&atilde;o
+&eacute;
+l&aacute; de grande religi&atilde;o, porque n&atilde;o
+tenho ideia de a
+v&ecirc;r muito pelas igrejas...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Saiba se esse Custodio de Jesus &eacute; de Braga e
+se vive c&aacute; no Porto ha muito tempo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim, minha senhora.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Saiba tambem se a m&atilde;e da menina que
+&eacute; filha
+<span class="pagenum">[294]</span>
+d'elle, e que se chama Beatriz, tem o nome de D. Carlota...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim minha senhora! Eu vou saber tudo isso...
+<br />
+
+<br />
+
+Sahiu a serventuaria e duas horas depois regressava
+com tudo sabido.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; aqui estou de volta com tudo na ponta da
+lingua!&#8213;disse l&eacute;pida a cuscuvilheira.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o, o que soube?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O homem &eacute; de Braga, chama-se Custodio de
+Jesus e j&aacute; c&aacute; est&aacute; no Porto ha muitos
+annos. Empresta
+dinheiro sobre <em>hybot&eacute;cas</em>
+e pelos modos leva coiro e
+cabello... Tem m&aacute; fama, mas &eacute; home de dinheiro...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E a familia?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A familia &eacute; s&oacute; elle e mais a filha e mais a
+creada&#8213;uma <em>focinho de
+c&atilde;o</em> que primeiro que se lhe
+<em>arrinque</em> uma palavra do bucho
+&eacute; um dia de juizo!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E a mulher? Elle n&atilde;o &eacute; casado?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; &eacute; viuvo duas vezes. A primeira mulher
+morreu-lhe ainda elle estava em Braga... Chamava-se
+D. Carlota e d'essa n&atilde;o teve filhos. A segunda
+chamava-se D. Anna, tinha vindo do Brazil com fama
+de trazer mundos e fundos, mas acho que eram
+mais as vozes do que as nozes...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E o que foi feito d'essa mulher? Morreu tambem?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois j&aacute; se sabe! Morreu e elle fez-lhe um enterro
+muito rico...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o esta menina Beatriz &eacute; filha da segunda
+mulher, da tal snr.<sup>a</sup> D. Anna?...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; como diz, minha senhora! Ella &eacute; um palminho
+de cara muito bonito... E parece que n&atilde;o ha
+de ter mau interior; mas o pae, que &eacute; m&aacute; farda,
+n&atilde;o
+a deixa p&ocirc;r p&eacute; em ramo verde... Veja l&aacute;
+como aquella
+alminha ha de estar carregada de peccados!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tem vocemec&ecirc; bem a certeza de que essa menina
+<span class="pagenum">[295]</span>
+Beatriz &eacute; filha da segunda mulher do Custodio de
+Jesus?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o n&atilde;o tenho, minha senhora?! Aquillo foi
+chegar a casa d'aquella santa Maria do Rosario e
+ella contar-me tudo p-a-p&aacute; Santa Justa, nem que estivesse
+a l&ecirc;r n'um livro aberto! E olhe que ella n&atilde;o
+me engana, porque quem lhe disse tudo, como era e
+como n&atilde;o era, foi a criada do seu
+<em>pr&eacute;scurador</em> chamado
+o <em>snr. M&eacute;lchior</em>, que
+&eacute; l&aacute; todo da casa do Custodio
+de Jesus e mais as senhoras d'elle, que s&atilde;o as que
+contam estas coisas todas diante da criada... Inda
+ella honte l&aacute; esteve, porque agora, pelos modos, vae
+l&aacute; um inferno em casa p'ra am&ocirc;r do
+namorico&#8213;Credo!
+Santo nome de Jesus!&#8213;que a pequena traz com
+um estudante que se chama Paulo... E o pae quer
+mas &eacute; que ella case com oitro, que diz que &eacute;
+p&ocirc;dre de
+rico.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; bem!&#8213;disse madre Paula.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Veja l&aacute; a senhora as
+<em>desgracias</em> que v&atilde;o por
+esse mundo, tudo causado pela falta de religi&atilde;o e temor
+de Deus!...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; bem!&#8213;repetiu madre-Paula, despedindo
+a devota onzeneira.&#8213;V&aacute; na gra&ccedil;a de Deus e escusa
+de dizer a alguem que eu a incumbi d'este servi&ccedil;o...
+<br />
+
+<br />
+
+Quando o padre Filippe voltou ao outro dia, madre
+Paula disse jubilosa:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; sei tudo. O pae de Beatriz &eacute; o mesmo
+Custodio
+de Jesus, marido da D. Carlota do padre Anselmo...
+por&eacute;m, esta pequena &eacute; filha do segundo
+matrimonio...
+A m&atilde;e era uma tal D. Anna, que tambem
+j&aacute; morreu, pois que o Custodio de Jesus &eacute; viuvo
+duas
+vezes...
+<br />
+
+<br />
+
+O padre Filippe, encarou, sorrindo, madre Paula:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;As tuas informa&ccedil;&otilde;es condizem perfeitamente
+com aquellas que eu pude obter...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! tambem indagaste?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[296]</span> &#8213;Tambem. Ha, por&eacute;m, um ponto escuro que eu
+ainda n&atilde;o pude aclarar...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Qual &eacute;?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; que D. Carlota morreu ha dezoito annos, envenenada
+em Lisboa pelo padre Anselmo, e esta pequena
+Beatriz, se n&atilde;o tem mais, deve ter pelo menos
+uma idade que regula por esse tempo...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;D. Carlota morreu envenenada pelo padre Anselmo,
+dizes?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Morreu.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como o sabes?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Revelou-m'o a velha Maria do Carmo na hora
+extrema.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;De modo que essa desgra&ccedil;ada n&atilde;o chegou a
+v&ecirc;r o filho?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E o padre Hilario, pela sua parte, se ainda &eacute;
+vivo, deve ignorar quem foi sua m&atilde;e?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Decerto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Aquelle padre Anselmo era um sicario da peor
+especie!&#8213;disse ainda horrorisada a bella abbadessa.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O padre Anselmo, que n&oacute;s conhecemos, era um
+facinora como tantos outros que se acobertam com a
+religi&atilde;o santa do Crucificado... Ambicioso e profundamente
+perverso, tudo era capaz de sacrificar sem escrupulo
+&aacute; sua desmedida ambi&ccedil;&atilde;o...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Envenenaria tambem a pobre Helena de Noronha?
+Quem sabe?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para isso, bastaria s&oacute; que ella lhe fosse um leve
+estorvo na sua carreira de crimes...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o terias meio de indagar se ella ainda vive?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como? Se &eacute; hoje Provincial ou Assistente e usa
+de outro nome, como poderei descobrir-lhe o rasto?
+Mas nem isso agora nos serviria de nada. Paulo &eacute;
+para todos os effeitos nosso filho adoptivo. Desde qua
+tomamos sob a nossa protec&ccedil;&atilde;o essa
+crean&ccedil;a devemos
+<span class="pagenum">[297]</span>
+proceder para com ella como se foramos seus unicos
+e verdadeiros paes... De que serviria sabermos que
+o padre Anselmo e a irm&atilde; Dorothea s&atilde;o ainda
+vivos?
+A m&atilde;e renegou-o ao nascer, e o pae nem talvez tivesse
+noticia do seu nascimento. Dizer ao filho o nome
+dos que lhe deram o s&ecirc;r era ensinar a Paulo o nome
+dos que devia amaldi&ccedil;oar... N&atilde;o, minha amiga...
+Sejamos caridosos para com a pobre crean&ccedil;a. Uma
+vez que n&atilde;o tem fundamento o nosso receio de que
+Beatriz seja irm&atilde; de Paulo, deixemol-os amarem-se e
+unirem-se livremente. Concorramos na medida das nossas
+for&ccedil;as para a sua uni&atilde;o e que sejam felizes
+amando-se como n&oacute;s nos temos amado sempre.
+<br />
+
+<br />
+
+O padre Filippe, sempre de uma galanteria correcta
+a despeito da idade, sellou estas ultimas palavras
+com um delicado beijo na face de madre Paula,
+que, a sorrir, o estreitou com frenesi ao seio palpitante
+de alegria.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sempre o mesmo gentilissimo espirito! sempre
+o mesmo generoso e nobre cora&ccedil;&atilde;o!&#8213;disse ella
+commovida.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esse Custodio de Jesus&#8213;continuou o padre
+Filippe retomando a sua attitude grave&#8213;&eacute;, ao que
+me consta, um sordido usurario que sonha um casamento
+rico para a filha... Ha de ser difficil demovel-o
+d'este proposito, que seria desculpavel se elle n&atilde;o tivesse
+a certesa de que vae assim sacrificar o cora&ccedil;&atilde;o
+de duas pobres crean&ccedil;as.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Talvez que tu, procurando-o, o pudesses convencer
+a dar o seu consentimento...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; me lembrou isso. Mas se elle alguma vez
+veio a ter conhecimento dos amores da sua primeira
+mulher com o padre Anselmo, a presen&ccedil;a de um homem
+de sotaina n&atilde;o deve ser-lhe muito sympathica...
+E talvez mesmo que, em vez de o demover a favor
+<span class="pagenum">[298]</span>
+de Paulo, isso o irrite e de cada vez mais o mantenha
+no proposito de contrariar o casamento...
+<br />
+
+<br />
+
+Como respondendo a esta pergunta, ouviu-se f&oacute;ra
+da porta da cella a voz de Paulo:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;D&aacute; licen&ccedil;a, minha m&atilde;e?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! &eacute;s tu? Entra, entra, meu filho!&#8213;exclamou
+a abbadessa correndo ao seu encontro.
+<br />
+
+<br />
+
+O mancebo beijou-lhe a m&atilde;o com respeito filial, e
+vendo o padre Filippe dirigiu-se a elle, de bra&ccedil;os
+abertos, dizendo com sincera alegria:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que felicidade! encontro-os a ambos reunidos
+quando tanto precisava de os consultar e pedir o seu
+conselho e o seu auxilio!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tu dir&aacute;s, meu amigo, o que desejas&#8213;disse,
+bondoso, o padre Filippe&#8213;e se f&ocirc;r, como creio, coisa
+compativel com as nossas for&ccedil;as, p&oacute;des
+disp&ocirc;r de n&oacute;s...
+<br />
+
+<br />
+
+Paulo principiou dizendo:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que venho pedir-lhes &eacute; realmente um sacrificio...
+Mas sacrificio de que est&aacute; dependente a minha
+vida, mais que a minha vida, toda a minha felicidade
+futura, e porisso espero bem que o n&atilde;o recusar&atilde;o
+ao seu filho, a este filho que n&atilde;o conheceu nunca outros
+paes nem tem no cora&ccedil;&atilde;o logar para outro affecto
+igual...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Falla, falla, meu Paulo!&#8213;animou com do&ccedil;ura
+a bondosa abbadessa.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O caso &eacute; este&#8213;continuou o mancebo&#8213;Beatriz,
+de quem lhes tenho fallado, est&aacute; em risco de ser victima
+de uma monstruosa infamia com a cumplicidade
+de seu proprio pae!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que! O que dizes tu, meu filho?&#8213;interrogou
+madre Paula.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A verdade, minha m&atilde;e!
+<br />
+
+<br />
+
+O padre Filippe silencioso, encarando fito o mancebo,
+parecia observal-o com atten&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Repara, meu amigo, que essas palavras envolvem
+<span class="pagenum">[299]</span>
+uma accusa&ccedil;&atilde;o terrivel para o pae da tua
+amada,
+o que &eacute; sempre uma coisa grave e digna da maior
+censura, quando se n&atilde;o tem a certeza do que se affirma...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas eu tenho a certeza!&#8213;protestou Paulo&#8213;E
+porque a tenho &eacute; que venho pedir-lhe o auxilio no
+sentido de obstar a que tal infamia se realise.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Falla!&#8213;disse o padre Filippe.
+<br />
+
+<br />
+
+O mancebo prosegniu:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Custodio de Jesus, o pae de Beatriz, depois de
+ter inutilmente envidado todos os esfor&ccedil;os para coagir
+a filha a casar com um tal Eugenio de Mello, que se
+diz um rico proprietario do Alemtejo, resolveu, de
+combina&ccedil;&atilde;o com o pretendente e com o procurador
+Belchior, que tem sido o agente d'esta ignobil negociata,
+proteger o rapto da propria filha, com o fim de,
+por este meio, a violentar a acceitar o noivo que se
+lhe imp&otilde;e e que ficar&aacute; sendo o unico que em taes
+condi&ccedil;&otilde;es
+n&atilde;o duvide recebel-a por esposa.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso &eacute; impossivel, Paulo!&#8213;bradou madre Paula,
+indignada&#8213;N&atilde;o ha um pae que pense em realisar
+uma tal monstruosidade! Tu &eacute;s por for&ccedil;a victima
+de
+um engano, talvez de um cruel gracejo de alguem
+que deseja v&ecirc;r at&eacute; que ponto vae a tua cegueira
+por
+essa menina, que n&atilde;o te recusas a acceitar
+inven&ccedil;&otilde;es
+de tal ordem!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, minha m&atilde;e!&#8213;volveu Paulo&#8213;O que lhe
+digo &eacute; absolutamente certo e vae realisar-se, se eu o
+n&atilde;o impedir como me cumpre. Um amigo intimo de
+Eugenio de Mello e que com este deve tomar parte na
+miseravel aventura foi quem o declarou diante de mim.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; o que eu digo! gracejo de rapazes.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o &eacute; gracejo como supp&otilde;e, minha
+m&atilde;e. Quem
+isto revelou fel-o em taes circumstancias que n&atilde;o podia
+nem lhe era permittido gracejar. O rapto est&aacute;
+combinado e deve effectuar-se amanh&atilde;, durante um
+<span class="pagenum">[300]</span>
+passeio ao campo que as duas familias&#8213;a do Belchior
+e a de Beatriz&#8213;teem preparado.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E Beatriz sabe a infame cilada que lhe querem
+armar?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Beatriz nada sabe, nem eu tenciono prevenil-a.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que tencionas ent&atilde;o fazer?&#8213;perguntou o
+padre Filippe.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Castigar o miseravel pae que assim malbarata
+a honra da propria filha n'um trafico infame,
+aproveitando-me das circumstancias por elle preparadas,
+para lh'a raptar eu.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tu?!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E porque n&atilde;o? Se ella me ama e eu a adoro e
+a quero para minha mulher, heide deixar que m'a
+roubem e levantem entre mim e ella uma barreira
+impossivel de transpor&#8213;a barreira da deshonra? Tenho
+tudo prevenido e tudo preparado para arredar
+sem escandalo, e at&eacute; sem suspeita do que vae passar-se,
+os raptores de Beatriz, e tomar eu e um outro
+meu amigo o seu logar. Falta-me apenas uma coisa.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que &eacute;?&#8213;interrogou madre Paula.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A salvaguarda de uma mulher honesta para
+garantir a reputa&ccedil;&atilde;o de Beatriz que eu
+n&atilde;o quero v&ecirc;r
+maculada, com a sombra de uma suspeita, antes de a
+receber por esposa perante o altar do Deus Vivo.
+<br />
+
+<br />
+
+O padre Filippe e madre Paula trocaram um rapido
+olhar.
+<br />
+
+<br />
+
+Se o mancebo pudesse conhecer o segredo da sua
+origem e saber a quem devia a vida, teria traduzido
+n'esse olhar esta phrase que estava no pensamento
+dos dois:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;N&atilde;o parece filho do padre Anselmo!&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Desejas ent&atilde;o...?&#8213;interrogou madre Paula
+dirigindo-se ao mancebo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que minha b&ocirc;a m&atilde;e, de cuja virtude ninguem
+ousar&aacute; suspeitar, se digne receber a minha noiva em
+<span class="pagenum">[301]</span>
+sua companhia durante todo o tempo que ella seja
+for&ccedil;ada a conservar-se occulta...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Queres trazel-a para aqui, Paulo? Isso, meu
+filho, &eacute; um passo muito grave, que p&oacute;de
+p&ocirc;r em risco
+a b&ocirc;a ordem e seguran&ccedil;a d'esta santa casa...
+Imagina
+que as auctoridades s&atilde;o obrigadas a intervir, e
+por qualquer circumstancia descobrem aqui essa menina,
+que, de mais a mais, n&atilde;o consultaste ainda sobre
+se consente em acolher-se &aacute; nossa
+protec&ccedil;&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; tal a confian&ccedil;a que tenho no am&ocirc;r
+de Beatriz,
+minha m&atilde;e, que n&atilde;o duvido asseverar que ella
+dar&aacute; por bem feito tudo quanto eu haja deliberado,
+logo que conhe&ccedil;a os motivos que me obrigaram a raptal-a...
+<br />
+
+<br />
+
+O padre Filippe, que durante esta conversa&ccedil;&atilde;o
+guard&aacute;ra absoluto silencio, resolveu-se afinal a intervir.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Parece-me que tudo se p&oacute;de conciliar muito
+bem&#8213;disse elle. Paulo deseja salvaguardar a
+reputa&ccedil;&atilde;o
+da sua noiva, o que &eacute; de todo ponto justo e
+nobre. Para isso, pois, pede o concurso de sua m&atilde;e
+adoptiva, porque sob a &eacute;gide da virtude da madre
+Paula, ninguem se atrever&aacute; a julgar menos licitos os
+intuitos d'este rapto. Portanto, madre Paula deve intervir
+com a sua presen&ccedil;a, porque &eacute; um acto de
+verdadeira
+caridade evangelica o que se lhe pede. Mas
+surge uma difficuldade, que &eacute; o poder comprometter
+por esta f&oacute;rma os interesses d'esta santa casa, se a
+trouxer para aqui...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; justamente esse o inconveniente que j&aacute;
+apontei&#8213;interrompeu
+a abbadessa.
+<br />
+
+<br />
+
+O padre Filippe fez um gesto e proseguiu:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ha, porem, um meio, que me parece rasoavel,
+de obviar a esse inconveniente...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Qual?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Paulo buscar&aacute; uma casa profana para onde
+conduzir&aacute; a sua noiva; e ahi, madre Paula, vestindo
+<span class="pagenum">[302]</span>
+trajos seculares, receber&aacute; a pobre menina e conserval-a-ha
+em sua companhia durante os primeiros dias.
+Se depois de Beatriz conhecer do que se trata, manifestar
+desejos de acompanhar madre Paula para
+esta santa casa, poderemos ent&atilde;o, com as devidas cautelas
+e resguardos, internal-a aqui at&eacute; que as circumstancias
+lhe permittam legalisar a sua uni&atilde;o com
+Paulo. N&atilde;o acha acceitavel este alvitre, minha
+amiga?&#8213;concluiu
+interrogando a abbadessa.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;As opini&otilde;es do padre Filippe teem para mim o
+valor de leis indiscutiveis. Far-se-ha como diz, concordou
+madre Paula.
+<br />
+
+<br />
+
+Paulo abra&ccedil;ou n'uma expans&atilde;o de reconhecimento
+o padre Filippe.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sempre generoso e bom para mim! disse o mancebo
+com as lagrimas nos olhos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vamos, vamos!&#8213;replicou o padre Filippe commovido,
+procurando furtar-se &aacute;s demonstra&ccedil;&otilde;es
+de reconhecimento
+do pobre rapaz&#8213;Trata de procurar
+uma casa em condi&ccedil;&otilde;es de abrigar por alguns dias
+tua m&atilde;e adoptiva e a tua noiva. Os meus recursos
+s&atilde;o minguados&#8213;concluiu&#8213;Sou um pobre sacerdote
+que fez eterno voto de pobreza... de pouco posso disp&ocirc;r...
+Mas at&eacute; onde as minhas magras economias o
+permittam, tudo est&aacute; &aacute; tua
+disposi&ccedil;&atilde;o, porque tudo &eacute;
+teu, meu Paulo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh, meu pae!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Essa menina deve ser tratada com a decencia
+e conforto a que certamente esta habituada...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu tenho amigos, meu pae!&#8213;affirmou Jorge.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Os teus primeiros amigos somo n&oacute;s, eu e madre
+Paula. N&atilde;o tens, pois, o direito de recorrer ao auxilio
+monetario dos segundos emquanto existirem os primeiros.
+A minha casa ir&aacute;s buscar todo o dinheiro de que
+careceres. V&ecirc; bem a casa que escolhes para receberes
+n'ella a tua familia.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[303]</span> &#8213;Tenho um amigo, quasi um irm&atilde;o, que n&atilde;o
+s&oacute;
+me acompanha e auxilia na aventura do rapto, como
+p&otilde;e &aacute; minha disposi&ccedil;&atilde;o a
+sua casa, onde n&atilde;o tem mais
+familia e onde nada falta.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Muito bem. Se entendes que ahi p&oacute;dem acolher-se
+sem perigo, deves acceitar.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; acceitei, meu pae!
+<br />
+
+<br />
+
+O leitor j&aacute; conhece como o rapto se effectuou e
+como madre Paula recebeu com os extremos e carinhos
+de m&atilde;e a gentil Beatriz, salva das garras do
+aventureiro Eugenio de Mello e da sua alma negra,
+o procurador Belchior, por maneira t&atilde;o original como
+inesperada.
+<br />
+
+<br />
+
+Agora, emquanto a pobre menina, livre de perigo,
+encontra na doce convivencia da abbadessa os affectos
+maternaes que a morte lhe roub&aacute;ra e os tres sujos heroes
+d'esta repellentissima, por&eacute;m veridica, historia se
+empenham n'uma lucta de desconfian&ccedil;as e
+malqueren&ccedil;as,
+que s&atilde;o o seu verdadeiro castigo, voltemos a
+S. Martinho do Campo, onde novos e interessantes episodios
+se est&atilde;o dando.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[304]</span>
+<h3><a name="c19"></a>XIX<br />
+
+<br />
+
+Um velho amigo
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Julio de Montarroyo, logo que o brazileiro lhe
+deu por desoccupada a casa que pertencera a Norberto
+de Noronha, tomou posse da sua nova propriedade
+e installou-se n'ella immediatamente, sem mesmo
+esperar que se fizessem os convenientes e indispensaveis
+reparos.
+<br />
+
+<br />
+
+Este acontecimento foi celebrado pelos convivas e
+amigos de Gustavo de Magalh&atilde;es com um jantar
+lauto, em que houve discursos, brindes e poesias,
+como estava combinado muito tempo antes.
+<br />
+
+<br />
+
+O amigo de Gustavo, que tinha adquirido f&oacute;ros
+de excentrico, supportou como p&ocirc;de toda a ruidosa
+alegria d'aquelles amigos e passada a
+<em>glorifica&ccedil;&atilde;o</em>,
+como elles lhe chamavam, encerrou-se na sua habitual
+tristeza, sem comtudo se mostrar intratavel e esquivo
+a convivencias affectuosas.
+<br />
+
+<br />
+
+No emtanto, furtou-se obstinadamente a toda e
+qualquer recep&ccedil;&atilde;o festiva em sua casa, dando como
+desculpa a falta de pessoal habilitado para bem servir
+n'um banquete de cerimonia.
+<br />
+
+<br />
+
+O caso, por&eacute;m, n&atilde;o era esse.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[305]</span>
+Julio de Montarroyo considerava um sacrilegio infame
+fazer resoar os risos da alegria n'aquellas salas
+onde morreram abafados os gemidos de tamanha desgra&ccedil;a,
+de t&atilde;o profunda e inconfortavel d&ocirc;r.
+<br />
+
+<br />
+
+Elle adquirira aquella casa para recolher n'ella a
+sua grande tristeza, o lucto eterno do seu
+cora&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o podia por isso, ainda que o desejasse, converter
+aquelle tumulo, em que queria encerrar-se vivo
+com as suas recorda&ccedil;&otilde;es e os seus desalentos,
+n'um
+logar de festivas alegrias, de expansivos affectos.
+<br />
+
+<br />
+
+Os amigos de Gustavo, que o eram tambem seus,
+comprehenderam-n'o e n&atilde;o se offenderam.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; um excentrico&#8213;dizia o juiz&#8213;N&atilde;o ha que
+v&ecirc;r, &eacute; um excentrico...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; um paranoico com a tendencia romantica!&#8213;affirmava
+o medico.&#8213;Aquillo desanda n'um volume
+de lyricas mais hoje, mais amanh&atilde;. E talvez esteja
+ahi a sua salva&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o &eacute; nada d'isso, meus amigos&#8213;contrariava
+Gustavo&#8213;Este homem &eacute; um de tantos incomprehendidos
+que teem atravessado a vida como o viageiro
+atrav&eacute;ssa os areaes do deserto, sem j&aacute;mais
+encontrar
+o appetecido oasis. O maior beneficio que lhe podemos
+fazer &eacute; deixal-o entregue &aacute; sua grande tristeza,
+&aacute; sua
+enorme e insanavel d&ocirc;r.
+<br />
+
+<br />
+
+Julio de Montarroyo come&ccedil;ou, pois, a ser uma
+figura estranha &aacute;s alegrias ruidosas d'aquella vida
+campesina, passada em convivencia intima de amigos.
+<br />
+
+<br />
+
+Os dias do melancholico amante de Helena de Noronha
+decorriam-lhe n'uma taciturnidade de espirito
+aterradora.
+<br />
+
+<br />
+
+Encerrava-se horas e horas na sala onde pela primeira
+e ultima vez fall&aacute;ra a Norberto de Noronha e
+parecia experimentar um cruel prazer em recordar,
+em todas as suas tristes minudencias, essa estranha e
+dolorosa entrevista.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[306]</span>
+Mand&aacute;ra collocar todos os moveis que serviram a
+Norberto na sua disposi&ccedil;&atilde;o primitiva.
+L&aacute; estava a cadeira
+de rodas, onde o desgra&ccedil;ado agonisou por tanto
+tempo. E em frente d'ella, passava horas esquecidas
+a monologar as suas recorda&ccedil;&otilde;es e os seus
+desgostos.
+<br />
+
+<br />
+
+Um dia, viera ao jardim e sent&aacute;ra-se no
+caramanch&atilde;o
+que olhava sobre a estrada.
+<br />
+
+<br />
+
+Devia ser alli, suppozera elle e confirmara-lh'o
+depois a irm&atilde; de Gustavo, que Helena de Noronha
+vinha sentar-se muitas vezes, nos tempos felizes da
+sua infancia, e era por isso mesmo o logar por elle
+preferido para as suas medita&ccedil;&otilde;es ao ar livre.
+<br />
+
+<br />
+
+De repente ao port&atilde;o chegou alguem que fez vibrar
+a sineta. Julio de Montarroyo debru&ccedil;ou-se na
+grade do caramanch&atilde;o e olhou.
+<br />
+
+<br />
+
+Viu um pobre mendigo, um
+<em>ermit&atilde;o</em>, de longas
+barbas brancas, vestindo um garnacho remendado e
+encostando-se a um bord&atilde;o. Trazia ao peito, pendente
+de uma correia, um nicho de folha de Flandres, em
+que se via a imagem de um Santo Antonio, cercada
+de fl&ocirc;res artificiaes.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que deseja?&#8213;interrogou Julio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esmola para Santo Antonio, meu rico senhor!&#8213;supplicou
+de baixo o pobre, tirando o chap&eacute;o e indicando
+o santo.
+<br />
+
+<br />
+
+Julio de Montarroyo n&atilde;o
+reconheceu aquella figura,
+mas ficou estranhamente impressionado com o
+metal de voz do pedinte.
+<br />
+
+<br />
+
+Parecia-lhe que j&aacute; a tinha ouvido em qualquer
+parte, e como toda a sua vida, n'aquelle ermo, se compunha
+de recorda&ccedil;&otilde;es, aventurou uma pergunta.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Voc&ecirc; &eacute; d'estes sitios?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, meu senhor... Eu sou de Braga.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;De Braga?!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim, meu senhor, mas j&aacute; l&aacute; n&atilde;o vou
+ha muitos annos...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[307]</span> &#8213;Vem ent&atilde;o de muito longe?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Venho, meu senhor!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Espere ahi.
+<br />
+
+<br />
+
+Julio desceu ao port&atilde;o e franqueou a entrada ao
+pedinte.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Entre!&#8213;disse elle.
+<br />
+
+<br />
+
+O pobre entrou.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Voc&ecirc; &eacute; de Braga?&#8213;tornou a perguntar Julio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nascido e baptisado, meu senhor!&#8213;confirmou
+o pobre.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ha que tempo sahiu da sua terra?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ha muitos annos, meu senhor...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olhe l&aacute;; voc&ecirc; conheceu l&aacute; um
+sapateiro chamado
+<em>Tomba</em>?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Conheci, meu senhor, conheci! Era um bom
+<em>home</em>, amigo do seu amigo... E eu
+<em>t&aacute;mem</em> era muito
+amigo d'elle!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! voc&ecirc; ent&atilde;o era amigo do
+<em>Tomba</em>?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh, senhor! pois se n&oacute;s eramos da mesma
+crea&ccedil;&atilde;o... Eu e mais elle eramos como a unha e a
+carne...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E o que foi feito d'elle? N&atilde;o sabe?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se n&atilde;o morreu... ha-de estar vivo por for&ccedil;a,
+meu senhor...
+<br />
+
+<br />
+
+Julio reconheceu n'esta resposta o espirito velhaco
+do antigo sapateiro.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Diga-me: o que &eacute; feito de D. Carlota e do padre
+Anselmo?&#8213;interrogou Julio a meia voz.
+<br />
+
+<br />
+
+O pedinte, surprehendido, encarou o seu interlocutor
+e de repente, como se a memoria se lhe tivesse
+avivado, exclamou:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora espera! Vossa <em>incellencia</em>
+&eacute; o sr. Julinho
+de Montarroyo, pois n&atilde;o &eacute;?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sou.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;C&aacute; me queria a mim parecer!
+<br />
+
+<br />
+
+E batendo na testa desesperado:
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[308]</span> &#8213;Ah! grande cabe&ccedil;a de burro, que nem j&aacute; conheces
+quem te deu tanto p&atilde;o a comer!... Ah, sr.
+Julinho, vossa <em>incellencia</em>
+perdoar&aacute;, mas eu estava
+agora bem longe de o <em>topar</em> aqui!
+Ant&atilde;o
+<em>cumpassou</em>?&#8213;perguntou
+o <em>Tomba</em>, lisonjeiro e
+carinhoso.&#8213;Vossa
+<em>incellencia</em> est&aacute;
+f&eacute;ro! Est&aacute; que &eacute; uma bisarria!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estou velho, amigo <em>Tomba</em>, estou
+velho!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Qual velho! Velhos s&atilde;o os farrapos! Mais velho
+estou eu e olhe que, gra&ccedil;as a Deus e a Santo
+Antonio, que est&aacute; aqui e que bem me ouve, ainda as
+pernas me levam p'r'a onde eu quero.
+<br />
+
+<br />
+
+Julio de Montarroyo, alegre por ter encontrado
+este homem, que podia talvez elucidal-o &aacute;cerca de factos
+que elle tinha interesse em conhecer minuciosamente,
+conduziu o <em>Tomba</em> atrav&eacute;s
+do jardim, at&eacute; ao
+interior da habita&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Venha c&aacute;, <em>Tomba</em>, venha
+c&aacute;, homem, que temos
+que fallar...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora o sr. Julinho! Como eu havia de vir aqui
+topal-o! Isto foi milagre de Santo Antonio, que eu
+trago aqui comigo... Foi elle que me <em>trouve
+int&eacute;</em>
+aqui, por sua infinita <em>mesericordia</em>!
+<br />
+
+<br />
+
+Chegados ao gabinete de Julio, este voltou-se para
+o sapateiro e disse-lhe:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Arrume o santo, mestre <em>Tomba</em>, e
+diga-me se
+tem vontade de comer...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh, meu senhor! Vontadinha, gra&ccedil;as a Deus,
+ha sempre...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bom! Vou mandar que lhe d&ecirc;em alguma coisa.
+<br />
+
+<br />
+
+Julio ordenou que dessem de almo&ccedil;ar ao
+<em>Tomba</em>
+que, fiel ao seu costume, honrou a cosinha do seu generoso
+amphytri&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Depois, mais animado, e dando parabens &aacute; sua
+fortuna por ter encontrado aquelle grande e rico amigo,
+passou &aacute; sala onde o aguardava o dono da casa.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; matei quem me matava!&#8213;disse elle satisfeito.&#8213;Ora
+<span class="pagenum">[309]</span>
+agora aqui tem vossa
+<em>incellencia</em> um
+<em>home</em> p'ra tudo que f&ocirc;r
+preciso!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Conte-me c&aacute;, mestre
+<em>Tomba</em>, o que &eacute; feito de
+voc&ecirc;? O que foi feito de D. Carlota, do padre Anselmo
+e d'aquelle doidivanas do Alvaro de Noronha?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois vossa <em>incellencia</em>
+n&atilde;o sabe?&#8213;disse o sapateiro
+admirado.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nada! N&atilde;o sei nada.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois j&aacute; tudo isso l&aacute; vae!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tudo?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tudo ou <em>acaijo</em> tudo...
+<em>Int&eacute;</em> &eacute; de
+<em>inorar</em> o
+sr. Julinho n&atilde;o saber as
+<em>desgracias</em> todas que se
+d&eacute;ram logo assim que o sr. Julinho
+<em>arretirou</em> p'ra
+Braga.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o! Eu fui obrigado a partir para Paris pouco
+depois de sahir do Porto e por l&aacute; andei muitos annos
+sem ter mais noticias de Portugal.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois &eacute;! O sr. Julinho &eacute; que fez bem... Foi-se
+int&eacute; Paris de Fran&ccedil;a e n&atilde;o deu mais
+cavaco &aacute;s tropas...
+Pois a sr.<sup>a</sup> D. Carlota, coitada! l&aacute;
+deu ao
+penagal em Lisboa... O padre
+<em>Inxelmo</em>&#8213;<em>rais</em>
+o
+parta!&#8213;l&aacute; teceu taes indrominas com o
+<em>Custoido</em> a
+dezer-lhe que ella que lhe tinha sido falsa com o sr.
+Julinho...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Comigo!&#8213;exclamou Julio admirado.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois <em>ant&atilde;o</em>
+n&atilde;o sabia?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu n&atilde;o sabia de nada...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem digo eu! <em>Ant&atilde;o</em>
+j&aacute; vejo que n&atilde;o sabe nem
+da missa a metade!... Pois o maroto do padre
+<em>Inxelmo</em>,
+emquanto n&oacute;s estavamos no Porto a ver se lhe
+deitavamos a luva, <em>v&ecirc;o</em> a
+Braga dizer &oacute; <em>Custoido</em>
+que
+a sr.<sup>a</sup> D. Carlota andava l&aacute; pelo
+Porto mettida c'o
+sr. Julinho de Montarroyo... E vai elle, o malandro,
+que nunca se importou emquanto ella lhe desfeiteou
+as barbas c'o padre, come&ccedil;ou a dar por paus e por
+<span class="pagenum"><a name="p310">[310]</a></span>
+pedras, <em>assubiu-lhe</em> a honra
+&aacute; cabe&ccedil;a, e quando ella
+vinha p'ra tornar p'ra casa, p&ocirc;l-a f&oacute;ra e pouco
+faltou
+p'ra lhe bater...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso &eacute; extraordinario!&#8213;disse Julio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E l&aacute; em Braga toda <a href="#e34">a gente</a>
+se
+<em>acuarditou</em>, porque
+demais a mais, como o sr. Julinho se prantou na
+<em>planta-giria</em>, todos
+<em>dixeram</em> que foi verdade, porque
+quem se <em>cia alhos come</em>...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mestre <em>Tomba</em>, &eacute;
+impossivel que voc&ecirc; n&atilde;o esteja
+doido! Isso que voc&ecirc; est&aacute; a dizer &eacute;
+tudo quanto
+ha de mais absurdo!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Valha-me Deus, sr. Julinho! Eu o que digo &eacute;
+o que por l&aacute; se constou n'aquelle tempo...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E voc&ecirc; n&atilde;o podia desmentir esses boatos,
+n&atilde;o
+podia desmascarar os calumniadores?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu a esse tempo, estava, mas era engaiolado
+no Sard&atilde;o, mais morto que vivo,
+<em>estrelicadinho</em> com fome,
+porque aquellas carochas de seiscentos diabos tinham-me
+a jejum de p&atilde;o e <em>auga</em>,
+que eu cuidei que
+n&atilde;o tornava mais a ver sol nem lua, e que, a respeito
+de petiscos, n&atilde;o se fariam mais para os queixos
+do <em>Tomba</em>!
+<br />
+
+<br />
+
+E contou a maneira ardilosa como o padre Anselmo
+o encerrara no convento do Sard&atilde;o e aquella
+outra mais ardilosa ainda como elle conseguira escapar-se
+da pris&atilde;o, depois de ter pregado uma sova
+mestra na freira que o guardava quasi &aacute; vista.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu s&oacute; queria que vossa
+<em>incellencia</em> visse, sr.
+Julinho... Aquillo foi uma tr&eacute;pa co'as correias, que
+<em>int&eacute;</em> o
+<em>sengue</em> lhe esguichou pelo sitio da
+tripe&ccedil;a, salvo
+seja! Depois puz-me a andar e marchei p'ra Braga
+a saber novidades... A sr.<sup>a</sup> D. Carlota tinha
+morrido
+em Lisboa, o sr. Alvarinho&#8213;Deus lhe perd&ocirc;e!&#8213;l&aacute;
+tinha o <em>Perneta</em> dado cabo d'elle...
+Raios o parta!
+Se quer &oacute; menos, inda fui testemunha escontra elle,
+que o enterrei!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p311">[311]</a></span> &#8213;Ah! voc&ecirc; foi testemunha no processo contra o
+<em>Perneta</em>, mestre?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois at&atilde;o n&atilde;o havia de ser? Eu tinha a veridica
+certeza de que o sr. Alvaro tinha ido p'ra casa
+do <em>Perneta</em>, porque arrecebeu uma
+carta da sr.<sup>a</sup> D.
+Carlota&#8213;Deus a chame l&aacute; p'ra bem, que eu n&atilde;o a
+chamo c&aacute; p'ra nada!&#8213;a dezer-lhe que a prima
+d'elle, a sr.<sup>a</sup> D. Helena de <em>Laronha</em>
+estava l&aacute; mettida
+com vossa <em>incellencia</em>...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Comigo?!&#8213;tornou a exclamar Julio de Montarroyo,
+de cada vez mais espantado.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tal e qual como eu lhe estou a
+<em>dezer</em>, sr. Julinho!
+Pode-se <em>acuarditar</em> em mim, porque eu
+ouvi l&ecirc;r
+a carta e <em>escorda-me</em> como se fosse
+hoje tudo quanto
+ella dezia...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E elle acreditou! Pois Alvaro de Noronha, conhecendo-me
+e tendo convivido comigo por algum
+tempo, p&ocirc;de acreditar em <a href="#e35">semelhante</a>
+carta, p&ocirc;de
+julgar-me capaz de uma semelhante infamia?!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu bem lhe dizia que n&atilde;o se fiasse, que aquillo
+era tramoia que lhe queriam armar... Mas elle, que
+tinha aquelle genio de espirra-canivetes, come&ccedil;ou
+logo a atirar co'aparelho ao ar, a dezer <a href="#e36">que</a>
+ia
+matar
+sete e esfolar quatorze e nem &aacute; m&atilde;o direita de
+Deus Padre fui capaz de ter m&atilde;o n'elle! L&aacute; foi e
+se
+eu bem lh'o disse, melhor lhe aconteceu... Chegou l&aacute;
+e aquelle ladr&atilde;o do
+<em>Perneta</em> e mais dois que elle
+l&aacute;
+arranjou deram-lhe tamanha carga de paulada que o
+deixaram <em>cadable</em> no meio da estrada!
+Eu, j&aacute; se sabe,
+n'essa mar&eacute; estava preso no Sard&atilde;o e nem tal
+coisa me
+passava pelo sentido... Mas quando sahi e cheguei a
+Braga, <em>at&atilde;o</em> &eacute;
+que eu soube tudo... E disse comigo:
+&laquo;Ai o alma do diabo do
+<em>Perneta</em> que deu cabo do
+<em>probe</em>
+rapaz! Pois deixa que eu te vou fazer a cama!...&raquo;
+Fui-me &aacute; Povoa, fallei com o sr.
+<em>amenistrador</em>, contei-lhe
+as coisas como foram e como n&atilde;o foram, e o
+<span class="pagenum">[312]</span>
+<em>Perneta</em>, que inda estava preso, mas
+n&atilde;o confessava
+nada, assim que o <em>acarinharam</em>
+comigo, n&atilde;o teve m&atilde;o
+em si, come&ccedil;ou a <em>entoar</em> e
+<em>dixe</em> tudo! L&aacute; foi por uma
+barra f&oacute;ra, que o levou seicentos diabos!
+<br />
+
+<br />
+
+Julio ouvia espantado estas revela&ccedil;&otilde;es do
+<em>Tomba</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas como &eacute;&#8213;disse elle&#8213;que D. Carlota p&ocirc;de
+escrever uma carta d'essas a Alvaro de Noronha na
+mesma occasi&atilde;o em que eu recebia uma carta de Helena,
+dizendo-me que partia para Fran&ccedil;a? Se D. Carlota
+vivia com o padre Anselmo, como podia ella ignorar
+que Helena seguia para Paris?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vossa <em>incellencia</em> quer que eu lhe
+diga uma
+coisa, sr. Julinho?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Diga l&aacute;, mestre.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A mim ninguem me tira da <em>pinha</em> que
+a sr.<sup>a</sup>
+D. Carlota n&atilde;o escreveu carta nenhuma... Aquillo
+foi o maroto do padre <em>Inxelmo</em> que
+mandou escrever
+a carta em nome d'ella para arranjar a trempe &oacute;
+probe rapaz! Vossa <em>incellencia</em>
+n&atilde;o se <em>escorda</em> do sr.
+Alvaro dizer muitas vezes que o patife do padre
+<em>Inxelmo
+int&eacute;</em> uma vez escreveu uma carta muito bem
+<em>escrevida</em>, co'a letra da sr.<sup>a</sup>
+D.
+Helena, a dizer &oacute; pae
+d'ella que estava em Coimbra com um sujeito com
+quem se queria casar, e no fim de contas vae-se a v&ecirc;r
+e estava mas era <em>agachada</em> em casa do
+<em>Perneta</em>!
+<br />
+
+<br />
+
+Julio de Montarroyo deu um salto na cadeira. S&oacute;
+ao ouvir estas palavras do <em>Tomba</em>
+&eacute; que pensou na
+possibilidade de ter sido victima de uma infame
+mystifica&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu tambem recebi uma carta de Helena convidando-me
+a seguil-a, pois que ia partir para uma casa
+religiosa de Paris. Seria essa carta escripta por Helena,
+ou seria ainda uma t&ocirc;rpe cilada do padre Anselmo?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olhe, sr. Julinho; o cesteiro que faz um cesto
+faz um cento, se tiver verga e tempo... O padre j&aacute;
+<span class="pagenum">[313]</span>
+tinha feito uma e porisso
+<em>t&aacute;mem</em> era capaz de fazer
+a
+outra...
+<br />
+
+<br />
+
+Julio de Montarroyo ficou por algum tempo silencioso
+e pensativo. Estava recordando o singular e extraordinario
+mutismo de Helena, a qual tendo-o solicitado
+a esperar noticias suas em Paris, nunca mais lhe
+mand&aacute;ra aviso nem recado. Porque n&atilde;o teria D.
+Carlota
+revelado ao padre Anselmo o interesse que elle
+tomava pela liberta&ccedil;&atilde;o da filha de Norberto e
+suggerido
+por esta forma ao jesuita a ideia de se livrar dos dois
+ao mesmo tempo, matando um e expatriando o outro?
+<br />
+
+<br />
+
+Mas, n'esse caso, Helena n&atilde;o teria sahido do paiz,
+e ao passo que elle a procurava pelo mundo, morria
+ella ignorada no mesmo convento onde a deixara.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mestre <em>Tomba</em>&#8213;disse elle&#8213;sabe o
+que foi
+feito do padre Anselmo? Tornou a ter noticias d'elle?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O padre <em>Inxelmo</em>, depois que roubou
+o <em>Custoido</em>
+nunca mais tornou a p&ocirc;r os p&eacute;s em Braga,
+&oacute; menos
+que eu o enxergasse... Aquillo sumiu-se como o
+fumo, que nunca mais vi ra&ccedil;a d'elle!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Diz voc&ecirc; que o padre Anselmo roubou o Custodio?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois roubou! O <em>Custoido</em>, p'ra
+n&atilde;o dar nada &aacute;
+mulher, assignou letras a fingir ao Jo&atilde;o Ignacio, que
+era p'ra ella lhe n&atilde;o poder pegar em nada... E quem
+metteu o probe do <em>home</em>, coitado!
+n'essas fofas foi o
+patife do padre... Vae
+<em>&oacute;spois</em> a D. Carlota
+<em>esticou</em> o
+<em>pernil</em> em Lisboa... diz que se
+matou... Tanto sei eu
+se ella se matou como se foi o padre que lhe deu cabo
+da casta... E vae n'isto, assim que se constou a
+morte d'ella, o Jo&atilde;o Ignacio salta em riba do
+<em>Custoido</em>
+co'as letras e leva-lhe tudo, que o deixou sem
+um fio! O <em>Custoido</em> barregava
+<em>escontra</em> o padre a
+<em>dezer</em>
+que foi elle que o metteu co'aquelle ladr&atilde;o, que
+era uma coisa por demais! Mas o padre
+<em>esguipou-se</em>
+que ninguem soube mais d'elle!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[314]</span>
+Julio de Montarroyo relacionava mentalmente todos
+estes factos e procurava o fio mysterioso que devia
+explical-os.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; singular!&#8213;disse elle&#8213;E o Custodio? Morreu?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Qual morreu! Casou-se oitra vez e fez um
+<em>b&ocirc;
+casorio</em>... Foi co'uma brazileira... co'a Anninhas
+das Travessas, que tinha ido p'r&oacute; Brazil ha um
+<em>r&ocirc;r</em>
+de annos e que <em>v&ecirc;o</em> de
+l&aacute; rica que n&atilde;o sabia o que tinha
+de seu... O <em>home</em>, como em Braga
+todos o conheciam,
+pegou e foi co'ella p'r&oacute; Porto, e acho que l&aacute;
+est&atilde;o na santa paz de Deus...
+<em>Porfilhou-lhe</em> a filha
+que ella <em>trouve</em> e inda apanhou uma
+riquesinha bem
+b&ocirc;a!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;De modo que&#8213;tornou Julio&#8213;voc&ecirc;, mestre, n&atilde;o
+voltou mais a saber de Helena de Noronha?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu, como a sr.<sup>a</sup> D. Carlota e o sr. Alvaro
+tinham
+morrido... e o sr. Julinho
+<em>t&aacute;mem</em> n&atilde;o dava
+rumor de si... tratei mas foi de governar a minha
+vida... Os freguezes, como eu andei por l&aacute; todo
+aquelle tempo, sem dar nova nem recado, foram &oacute;
+aprendiz buscar os sapatos e levaram-n'os a oitro...
+O senhorio, como eu n&atilde;o paguei o aluguer, tomou-me
+conta da <em>farramenta</em> do officio e
+poz-me o rapaz na
+rua! Veja l&aacute; o alma do diabo, que
+<em>int&eacute;</em> co'a
+tripe&ccedil;a
+me ficou! Vi-me <em>desauriado</em>! P'ra me
+tornar a estabelecer,
+eu j&aacute; n&atilde;o tinha
+<em>farramenta</em> nem freguezia...
+estava <em>desacuarditado</em>! Peguei e
+fui-me <em>int&eacute;</em> Villaverde,
+&aacute; tia do sr. Julinho, contei-lhe a minha
+<em>desgracia</em>
+e ella teve d&ocirc;r de mim e deu-me uma libra d'esmola!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E voc&ecirc; contou a minha tia tudo o que se tinha
+passado com respeito a Helena de Noronha?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu n&atilde;o disse nada! N'estas coisas, antes carta
+de menos do que carta de mais... Peguei na libra
+que ella me deu, mandei arranjar este Santo Antonio
+e botei-me a pedir por essas terras de Christo f&oacute;ra,
+<span class="pagenum"><a name="p315">[315]</a></span>
+tal e qual como o meu compadre
+<em>Longuinhos</em> que
+<em>t&aacute;mem</em>
+se arranjou muito bem co'este modo de vida...
+Tenho corrido todas <a href="#e37">essas</a>
+<em>Europias</em> de Portugal, e
+louvado seja o meu rico padre Santo Antonio, sempre
+tenho tirado mais do que quando trabalhava pelo officio!...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Diga-me uma coisa, mestre: voc&ecirc; seria capaz
+de dar conta de uma incumbencia que eu desejo fazer-lhe?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; sr. Julinho! que me pedir&aacute; vossa
+<em>incellencia</em>
+que lhe eu n&atilde;o fa&ccedil;a?!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem! Desejava eu que voc&ecirc; fosse ao Porto e
+indagasse nas <em>Sereias</em> ou no
+<em>Sard&atilde;o</em>, se ainda
+l&aacute; est&aacute;
+como abbadessa uma senhora chamada madre Paula...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Madre Paula... disse o sapateiro procurando
+reter na memoria este nome.&#8213;Eu vou l&aacute; e trago-lhe
+isso sabido, que &eacute; um regalo... O diabo &eacute; o
+<em>Sard&atilde;o</em>
+que se l&aacute; me conhecem fazem-me pagar os a&ccedil;oites
+que
+preguei na freira velha... Mas da ra&ccedil;a do diabo
+ser&aacute; ella se n&atilde;o estiver j&aacute; a fazer
+tijolo!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o tenha receio, que l&aacute; ninguem o conhece...
+Eu mesmo, que t&atilde;o de perto lidei comsigo, j&aacute;
+quasi o
+n&atilde;o reconhecia, como h&atilde;o-de conhecel-o pessoas
+que
+nunca lhe fallaram?...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem! eu vou&#8213;decidiu o sapateiro&#8213;mas n&atilde;o
+levo o santo, porque se a policia do Porto me apanha
+l&aacute; com elle, &eacute; capaz de ferrar comigo no
+<em>Asylio da
+Mendecidade</em>, que, aquillo, pelo que me tem zoado
+c&aacute;
+pelos ouvidos, &eacute; peor do que estar nas profundas do
+inferno a arder!...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois n&atilde;o leve o santo...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu deixo-o c&aacute; ao sr. Julinho, mas fa&ccedil;a favor
+de ter cautela, que m'o n&atilde;o estraguem, que &eacute; o
+meu
+ganha-p&atilde;o...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;V&aacute; descan&ccedil;ado, mestre
+<em>Tomba</em>. O santo fica a
+meu cuidado... Ninguem c&aacute; lhe bulir&aacute; n'elle...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[316]</span> &#8213;<em>At&atilde;o</em> quando quer o sr.
+Julinho que eu v&aacute;?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O mais depressa que possa...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu vou j&aacute; hoje, se f&ocirc;r preciso... &Eacute;
+verdade:
+e se ella l&aacute; estiver, o que quer que lhe diga?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nada. Saiba s&oacute; se ella est&aacute; em qualquer d'essas
+duas casas.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E se l&aacute; n&atilde;o estiver?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Saiba se &eacute; viva e em que casa religiosa da
+provincia se encontra.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; bem! Vamos a v&ecirc;r se ainda tenho geito
+para estas coisas&#8213;disse o <em>Tomba</em>
+radiante.
+<br />
+
+<br />
+
+E n'esse mesmo dia partiu para o Porto.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p317">[317]</a></span>
+<h3><a name="c20"></a>XX<br />
+
+<br />
+
+Alma negra
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Voltemos a casa da loura Leonor, da doida amante
+do commendador Garcia, apaixonada por Eugenio de
+Mello e instrumento de torpes vingan&ccedil;as nas m&atilde;os
+de
+Jo&atilde;o Lazaro.
+<br />
+
+<br />
+
+O commendador Garcia retir&aacute;ra &aacute; hora habitual,
+dez da noite, muito desconsolado, porque o <em>seu
+peccado</em>&#8213;que
+era assim que elle chamava &aacute; endiabrada
+creatura que o tinha preso nos la&ccedil;os de uma
+affei&ccedil;&atilde;o
+insensata&#8213;havia tempos que o recebia desabridamente,
+com repell&otilde;es de histerica, irritando-se sem
+motivo, chorando sem saber porqu&ecirc;, n'uns accessos de
+nevrosismo que faziam a sua tortura e a tortura do
+encarquilhado protector.
+<br />
+
+<br />
+
+Solicito e amoroso, o bom do homem fallou em
+chamar o medico, consultal-o, podia ser que aquillo
+&aacute;s vezes fosse <em>sangue
+alvoro&ccedil;ado</em>, que podia subir-lhe
+&aacute; cabe&ccedil;a, e ent&atilde;o o melhor era
+tratar-se com tempo,
+porque todas <a href="#e38">as molestias</a> em
+principio
+teem cura e
+depois de tomarem posse do corpo &eacute; que custam mais
+a debellar.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas a loura indignou-se, teve um ataque de furia
+<span class="pagenum">[318]</span>
+e quasi lhe bateu. Ella n&atilde;o tinha sangue na
+cabe&ccedil;a;
+o que l&aacute; tinha era a ideia de se v&ecirc;r s&oacute;
+por algum
+tempo, sem aquelle <em>caustico</em> do
+commendador a importunal-a,
+a fazer-lhe arrelia com as suas mimalhices
+de velho bab&atilde;o. E dizia-lh'o com crueza,
+n'uns arremessos de doida. Fallava em se matar, em
+acabar com aquella vida que n&atilde;o podia continuar
+assim.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas o que queres tu?&#8213;perguntava-lhe lacrimoso
+o commendador&#8213;Falta-te alguma coisa? Queres
+vestidos, joias, dinheiro? Anda, falla, minha filha!
+Eu estou prompto a satisfazer todos os teus
+desejos, todos os teus caprichos, comtanto que n&atilde;o
+falles em me deixar! Bem sabes que eu sem ti n&atilde;o
+podia viver...
+<br />
+
+<br />
+
+E era sincero o pobre homem quando assim se
+expressava. Effectivamente, a loura era a sua incuravel
+mania. Tambem, n&atilde;o tivera outra em toda a sua
+vida, sen&atilde;o a de ser commendador.
+<br />
+
+<br />
+
+A principio alug&aacute;ra os affectos da loura como
+quem adquire um animal de luxo, um cavallo de pre&ccedil;o.
+Tinha vaidade em que se dissesse que elle era o
+possuidor d'aquella bella mulher, que fazia a cubi&ccedil;a
+de todos e a inveja de muitos. O seu amor proprio
+sentia-se singularmente lisonjeado quando os intimos,
+nas assembleias dos bancos de que era accionista, lhe
+batiam amigavelmente no hombro e lhe diziam n'um
+sorriso discreto:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! magan&atilde;o, voc&ecirc; &eacute; que a sabe
+toda!...
+<em>Aquella pessoa</em> est&aacute; de
+cada vez mais bonita... Sim,
+senhor! mulher de gosto! Se algum dia se quizer desfazer,
+endosse-me a letra...
+<br />
+
+<br />
+
+Depois, o commendador, &aacute; for&ccedil;a de habito, foi
+affei&ccedil;oando-se. Em cada dia descobria novos attractivos
+n'aquella creatura singular que sabia prendel-o
+com os encantos de uma linguagem por vezes apaixonada
+<span class="pagenum">[319]</span>
+e que mais refinava em caricias quanto mais
+commodamente o atrai&ccedil;oava com outro.
+<br />
+
+<br />
+
+Julgando-se sinceramente amado e n&atilde;o ignorando
+que o cora&ccedil;&atilde;o d'aquella mulher lhe era disputado
+por
+outros que offereciam inutilmente mais dinheiro, o
+commendador passou insensivelmente da simples
+affei&ccedil;&atilde;o
+ao amor profundo e d'este &aacute; paix&atilde;o louca. A
+loura era o seu idolo. Mais depressa renunciaria &aacute;
+commenda do que &aacute; posse d'aquella bella e extraordinaria
+mulher.
+<br />
+
+<br />
+
+E era feliz, depositando uma confian&ccedil;a illimitada
+na fidelidade e constancia de Leonor&#8213;que para elle
+tinha sempre carinhos e meiguices que nenhuma outra
+saberia fazer-lhe.
+<br />
+
+<br />
+
+Desde, por&eacute;m, que Jo&atilde;o Lazaro lhe apparecera
+pondo-lhe em evidencia a negra trai&ccedil;&atilde;o de
+Eugenio,
+a loura, obrigada a dissimular com o perfido amante,
+descarregava agora todas as suas iras sobre a cabe&ccedil;a
+innocente do infeliz commendador.
+<br />
+
+<br />
+
+E isto trazia-o afflicto, apprehensivo &aacute;cerca da
+saude do <em>seu peccado</em>!
+<br />
+
+<br />
+
+Temia desgotal-a ou exacerbar-lhe mais o
+padecimento,
+contrariando-a. Por isso pensava na melhor
+maneira de a submetter ao tratamento do medico
+que, no seu entender, devia p&ocirc;l-a boa.
+<br />
+
+<br />
+
+N'essa noite apresentara-se com bons modos, procurando
+convencel-a suavemente a que se deixasse
+observar por quem sabia, porque ella estava doente, e
+&aacute;s vezes as doen&ccedil;as v&atilde;o com qualquer
+coisa.
+<br />
+
+<br />
+
+A loura explodiu n'uma descompostura tremenda
+e amea&ccedil;ou de lhe fugir, deixando-lhe o
+<em>ninho</em>, se elle
+tornasse a ter o atrevimento de lhe fallar em medicos.
+<br />
+
+<br />
+
+Teve o pobre homem um trabalh&atilde;o para a serenar,
+e retirou depois de lhe prometter que n&atilde;o mais
+se pensaria em remedios de botica.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[320]</span>
+Ausente o commendador, a loura passeou febrilmente
+pela sala, abriu com impeto a janella e perscrutou
+com ancia o prolongamento da rua deserta.
+<br />
+
+<br />
+
+Depois sentou-se n'uma ottomana e batendo impaciente
+o p&eacute;sinho breve no tapete, p&ocirc;z se a mordiscar
+as unhas.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O Jo&atilde;o Lazaro&#8213;murmurava ella&#8213;prometteu
+de vir hoje fazer-me revela&ccedil;&otilde;es importantes, e
+ainda n&atilde;o veio... O que ter&aacute; elle que me dizer?
+<br />
+
+<br />
+
+Que provas ter&aacute; elle para apresentar-me da falsidade
+e perfidia de Eugenio?
+<br />
+
+<br />
+
+N'isto, ouviram-se passos no corredor, o reposteiro
+da sala abriu-se e appareceu a figura de Jo&atilde;o Lazaro.
+<br />
+
+<br />
+
+Tirou logo o chap&eacute;o e lan&ccedil;ou sobre uma cadeira o
+capote &aacute; hespanhola em que vinha embu&ccedil;ado.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tardei, n&atilde;o &eacute; verdade?&#8213;disse elle.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esperava-o com anciedade&#8213;respondeu a loura
+febrilmente, levantando-se para o receber&#8213;Diga-me:
+que noticias traz de Eugenio?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eugenio, como sabe, desappareceu ha dias, accusado
+de ser elle o auctor do rapto da filha do Custodio
+de Jesus...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois sim, bem sei&#8213;disse a loura impaciente&#8213;Mas
+Eugenio jurou-me que era victima de uma odiosa
+calumnia dos seus inimigos, que elle n&atilde;o tivera
+a menor cumplicidade n'esse rapto.
+<br />
+
+<br />
+
+Jo&atilde;o Lazaro sorriu.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;No emtanto&#8213;disse elle&#8213;a policia procura-o,
+porque sobre elle recahem todas as provas, as mais
+completas. O procurador Belchior, a mulher e a cunhada
+s&atilde;o unanimes em declarar que o reconheceram
+na occasi&atilde;o em que arrebatava Beatriz para dentro
+do carro. O proprio pae da victima &eacute; concorde com
+estas declara&ccedil;&otilde;es, affirmando que tambem o
+reconheceu.
+N'estas circumstancias, creio bem que Eugenio
+<span class="pagenum">[321]</span>
+de Mello viu que n&atilde;o poderia defender-se de t&atilde;o
+grave accusa&ccedil;&atilde;o e tomou o expediente de se
+homisiar...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;At&eacute; que a luz se fa&ccedil;a e os factos provem a sua
+innocencia. Foi isso o que elle me disse no bilhete que
+me escreveu no proprio dia em que partiu...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sem lhe dizer para onde...&#8213;tornou o Lazaro
+com um sorriso de m&oacute;fa.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o m'o podia dizer porque elle mesmo n&atilde;o sabia
+ainda para onde ia...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E se o sabia, n&atilde;o lhe convinha dizer-lh'o...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O senhor &eacute; terrivel! faz gosto em me torturar!&#8213;exclamou
+a loura irritada.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, minha querida, fa&ccedil;o apenas diligencia
+para que veja as coisas como ellas s&atilde;o. Eugenio de
+Mello disse-lhe que estava innocente no crime de rapto
+de que o accusam e a senhora acreditou-o, n&atilde;o obstante
+saber que elle diligenciava casar-se com Beatriz...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A propria accusa&ccedil;&atilde;o destroe a suspeita de uma
+tal inten&ccedil;&atilde;o por parte de Eugenio...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Porque?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Porque se Eugenio quizesse realmente casar
+com Beatriz, e a esse enlace n&atilde;o se oppunha sen&atilde;o
+a noiva, &eacute; claro que o rapto s&oacute; seria um pretexto
+para a for&ccedil;ar a acceitar o noivo; e ent&atilde;o
+n&atilde;o teria
+Eugenio a necessidade de negar e de fugir, nem o
+pae da rapariga andaria t&atilde;o a&ccedil;odado em
+persegui&ccedil;&atilde;o
+do raptor da filha.
+<br />
+
+<br />
+
+Jo&atilde;o Lazaro tornou a sorrir com um ar de cruel
+zombaria.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; bem deduzido&#8213;disse elle&#8213;Ahi ha logica.
+&Eacute; pena que o raciocinio esteja muito longe da verdade...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois bem; se o senhor sabe a verdade, diga-a!&#8213;exclamou
+Leonor com impeto&#8213;tire-me d'este supplicio
+<span class="pagenum">[322]</span>
+em que me debato ha dias sem saber o que
+hei-de pensar!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Prometti trazer-lhe revela&ccedil;&otilde;es importantes, e
+&eacute;
+isso justamente o que venho fazer.
+<br />
+
+<br />
+
+Avan&ccedil;ou alguns passos na sala com ar sombrio,
+deixou-se cahir com abandono em um sof&aacute;, indicou
+uma cadeira a Leonor como se f&ocirc;ra elle o dono da
+casa, puxou de um charuto, que mordeu distrahido,
+e, emquanto o accendia, disse para Leonor, agora anciosa
+e humilde com os olhos fitos n'elle:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sente-se e escute-me. Eu disse-lhe que Eugenio
+de Mello tinha o casamento projectado com a filha do
+capitalista Custodio de Jesus; e isto era verdade. A
+senhora mesmo, pelas indaga&ccedil;&otilde;es a que procedeu,
+veio
+a conhecer que eu a inform&aacute;ra da verdade.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas soube tambem que Beatriz repudiara esse
+casamento&#8213;objectou Leonor.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Devagar! Pe&ccedil;o-lhe que n&atilde;o me interrompa
+para me recordar minucias, porque eu ainda n&atilde;o me
+esqueci...
+<br />
+
+<br />
+
+E atirando uma baforada do charuto, proseguiu:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Beatriz recusava-se a acceitar a uni&atilde;o com Eugenio
+de Mello porque tinha o cora&ccedil;&atilde;o preso a um outro
+amor. Custodio de Jesus, por&eacute;m, influenciado pelo procurador
+Belchior, seu intimo e collaborador de agiotagens
+sordidas, empregava todos os esfor&ccedil;os para convencer
+a filha a realisar o enlace que se lhe propunha...
+&Eacute; isto ou n&atilde;o o que lhe disseram as suas
+informa&ccedil;&otilde;es?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Muito bem! prosigamos agora analysando os
+factos: Como Beatriz se recusasse a annuir aos desejos
+do pae, concertaram os tres entre si jogar um lance
+decisivo que entregaria a pobre pequena sem resistencia
+nos bra&ccedil;os do apaixonado noivo, obrigando-a
+por fim a acceitar o recusado enlace como a unica
+<span class="pagenum">[323]</span>
+solu&ccedil;&atilde;o redemptora da sua honra. Esse lance era o
+rapto por Eugenio de Mello, n'um passeio combinado
+ao campo, rapto que se effectuou como se havia projectado...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por Eugenio?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois por quem? Por mim &eacute; que n&atilde;o foi nem
+podia ser, pois que nada se combinou comigo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas &eacute; isso o que Eugenio nega...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deixe-o negar. A verdade &eacute; s&oacute; uma e isso
+est&aacute;
+averiguado de modo que n&atilde;o admitte duvidas.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas ent&atilde;o, se &eacute; assim, que interesse tem
+Eugenio
+em negar, quando o que mais lhe convinha era
+apresentar-se como culpado, porque mais depressa
+realisaria o casamento?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; esse o ponto escuro da quest&atilde;o, que eu
+j&aacute;
+consegui esclarecer... A rapariga tem apenas um
+dote de vinte contos. Custodio de Jesus possue mais
+de noventa. O dote da noiva, portanto, mal chegaria
+para solver as dividas de Eugenio, a quem o procurador
+Belchior tem j&aacute; adiantado sommas enormes &aacute;
+conta d'este casamento...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas como p&oacute;de ser isso, se eu mesma tenho
+dado muito dinheiro a Eugenio?...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vejo que n&atilde;o conhece o seu amante, minha
+querida. Eugenio tem habitos de dissipa&ccedil;&atilde;o e de
+luxo.
+Passa ahi no Porto por ser um rico proprietario do
+Alemtejo, quando elle n&atilde;o possue em parte alguma
+do paiz um palmo de terra a que possa chamar seu.
+Todo o dinheiro que a senhora tem dispendido com
+elle n&atilde;o lhe chegaria sequer para o caf&eacute; e para
+os
+charutos...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que exaggero!&#8213;disse Leonor com desgosto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Minha querida amiga&#8213;tornou Jo&atilde;o Lazaro
+com modo affavel&#8213;n&atilde;o &eacute; isto desmerecer a
+importancia
+das sommas que o seu louco capricho por Eugenio
+lhe tem custado: &eacute; que esse rapaz tem gasto
+<span class="pagenum">[324]</span>
+em jogo, em ceias, em mil desperdicios de vaidosa
+ostenta&ccedil;&atilde;o, mais talvez de dez contos de reis nos
+ultimos
+quatro mezes. A senhora certamente n&atilde;o lhe
+tem abonado todo esse dinheiro...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tanto, n&atilde;o...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois ahi tem! Raptada a rapariga, Eugenio,
+por sua parte, entendeu que devia fazer outro jogo...
+Em vez de a conduzir para a casa que se havia combinado
+entre os tres, levou-a para outra parte at&eacute;
+agora desconhecida e negou aos proprios cumplices
+que tivesse sido elle o auctor do rapto...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas para qu&ecirc;! meu Deus! para qu&ecirc;?&#8213;exclamou
+a loura de cada vez mais aturdida.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para qu&ecirc;! Pois ainda n&atilde;o comprehendeu?
+Para for&ccedil;ar o pae de Beatriz a augmentar o dote da
+filha...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas isso &eacute; uma infamia!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Infamia &eacute; tudo o que Eugenio de Mello tem
+praticado, mesmo com a senhora. O certo &eacute; que o
+mariola evadiu-se e l&aacute; est&aacute; com a sua gentil
+raptada,
+sabe Deus onde, at&eacute; que o Custodio se resolva a
+accrescentar o dote da pequena. O casamento, no emtanto,
+far-se-ha. &Eacute; quest&atilde;o de mais mez, menos mez,
+at&eacute; o Custodio chegar ao pre&ccedil;o...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas o senhor tem bem a certeza de que isso
+&eacute; assim?&#8213;interrogou Leonor com os olhos chammejantes
+de colera.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se tenho a certesa! Tudo isto que lhe estou
+contando foi-me revelado em confidencia pelo proprio
+Belchior.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas o Belchior &eacute; ent&atilde;o complice de Eugenio
+n'essa projectada extors&atilde;o ao velho! Se elle conhece
+o que Eugenio premedita, n&atilde;o deve ignorar onde elle
+se encontra...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o! O Belchior n&atilde;o sabe nada do paradeiro
+de Eugenio e de Beatriz, e est&aacute; por isso furioso. O
+<span class="pagenum">[325]</span>
+que elle imagina &eacute; que Eugenio pretende ludibrial-o
+a elle e conjunctamente ao velho, para se furtar ao
+pagamento do dinheiro que lhe pediu emprestado com
+promessa de o reembolsar logo depois do casamento.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que sucia de miseraveis!&#8213;bradou a loura
+enojada.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Verdade, verdade&#8213;observou Jo&atilde;o Lazaro,
+rindo&#8213;a partida foi bem pregada. V&ecirc;-se que Eugenio
+conta com os recursos da sua seductora figura e
+com os artificios da sua linguagem para apaixonar a
+ingenua raptada, emquanto esta quest&atilde;o se n&atilde;o
+dirime
+em casa do tabelli&atilde;o e vae ter o seu natural
+desenlance na egreja da freguezia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nunca! Nunca!&#8213;protestou Leonor levantando-se
+enfurecida.&#8213;Antes d'isso, hei-de eu encontral-o
+e tirar-lhe contas rigorosas da sua infame perfidia!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que quer fazer?&#8213;perguntou Jo&atilde;o Lazaro
+fleugmaticamente.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que quero fazer? Procural-o at&eacute; o encontrar.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E depois?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Depois dar-lhe a escolher: ou eu ou ella.
+<br />
+
+<br />
+
+Jo&atilde;o Lazaro soltou uma gargalhada.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A escolha est&aacute; feita, minha amiga!&#8213;disse elle.&#8213;Pois
+ainda tem duvidas?
+<br />
+
+<br />
+
+Leonor franziu o sobr'olho e encarou fito Jo&atilde;o
+Lazaro.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; feita! Como &eacute; que o senhor sabe que
+est&aacute;
+feita?&#8213;perguntou.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Foi &aacute; senhora que elle raptou? Era com a
+senhora que elle pensava em casar?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Aacute;s vezes rapta-se uma mulher por capricho...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E casa-se com ella por amor.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se elle a amasse, n&atilde;o prolongaria uma
+situa&ccedil;&atilde;o
+que lhe retarda o casamento...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas que n&atilde;o lhe impede a posse do objecto
+amado, visto que &eacute; elle hoje o unico senhor de Beatriz...
+<span class="pagenum">[326]</span>
+Al&eacute;m d'isso, a demora no cumprimento da
+formalidade... social s&oacute; representa para elle interesse
+e n&atilde;o prejuizo, pois que o velho acabar&aacute; por se
+submetter a todas as condi&ccedil;&otilde;es que elle impuzer.
+<br />
+
+<br />
+
+Leonor bateu o p&eacute; furiosa.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O senhor tem um modo de v&ecirc;r as coisas que
+irrita os nervos &aacute; gente!&#8213;disse ella.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh, minha querida amiga, a culpa n&atilde;o &eacute; minha
+em as v&ecirc;r assim: a culpa &eacute; das proprias coisas que
+se apresentam com tal aspecto. Bem sabe, eu conhe&ccedil;o
+Eugenio, sei do que elle &eacute; capaz, e a paix&atilde;o
+n&atilde;o me
+cega a ponto de n&atilde;o me deixar v&ecirc;r o que
+&eacute; mais claro
+do que o sol.
+<br />
+
+<br />
+
+Houve uns momentos de silencio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o ser&aacute; possivel saber onde se occulta Eugenio
+com... essa rapariga?&#8213;perguntou por fim.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A policia procura-os, mas duvido que os encontre.
+Eugenio &eacute; fertil em expedientes para se esquivar
+&aacute; persegui&ccedil;&atilde;o da policia...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas o senhor... o senhor n&atilde;o ser&aacute; capaz de
+lhe achar o rasto?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que juizo f&oacute;rma de mim?&#8213;perguntou Jo&atilde;o
+Lazaro encarando-a com desdem&#8213;Pois amando-a eu
+como a amo, querendo-a para mim como a quero,
+julga-me t&atilde;o imbecil que v&aacute; buscar-lhe o amante
+que
+lhe fugiu?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas n&atilde;o foi isso o que o senhor me prometteu!&#8213;bradou
+Leonor indignada.&#8213;O senhor disse-me que
+me informaria de tudo...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E creio que assim tenho feito. Por quem sabe
+a senhora o que se passa, sen&atilde;o por mim? Eu disse-lhe
+que lhe apresentaria provas da infidelidade de Eugenio,
+e creio que essas provas est&atilde;o bem patentes...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas disse-me tambem que elle n&atilde;o casaria sem
+que eu fosse previamente prevenida...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Elle ainda n&atilde;o casou...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[327]</span> &#8213;Mas vive com ella, tem-n'a a seu lado, est&aacute; a
+esta hora fazendo-lhe mil protestos, mil juras de
+amor!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tudo isso, por&eacute;m, n&atilde;o &eacute;
+casar&#8213;tornou Jo&atilde;o
+Lazaro com placidez.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas &eacute; amar outra, &eacute; esquecer-me, &eacute;
+ultrajar-me!&#8213;gritou
+Leonor n'um despeda&ccedil;amento do cora&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem! E o que quer a senhora?
+<br />
+
+<br />
+
+Leonor encarou-o com os olhos scintillantes e os
+labios tremulos de colera:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois ainda n&atilde;o comprehendeu?&#8213;rouquejou ella&#8213;Quero
+vingar-me!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para isso n&atilde;o precisa procural-o nem saber
+onde elle est&aacute;... Pena de Talli&atilde;o, minha amiga...
+Tem-me aqui, doido de amor, a implorar-lhe um
+momento de compaix&atilde;o, e a sua generosidade para
+com elle &eacute; tanta que ainda n&atilde;o pensou em que eu
+podia ser-lhe um optimo instrumento de vingan&ccedil;a...
+Creio bem que Eugenio, sabendo-o, morder-se-hia de
+desespero, por ver que a formosa Leonor n&atilde;o tinha
+perdido na troca...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Cale-se!&#8213;intimou ella, repellindo com desespero
+e asco o Jo&atilde;o Lazaro, que tentava tomar-lhe as
+m&atilde;os para lh'as beijar&#8213;Essa n&atilde;o &eacute; a
+vingan&ccedil;a que
+me satisfaz, a vingan&ccedil;a que eu sonho!
+<br />
+
+<br />
+
+Jo&atilde;o Lazaro encarou-a com um ar de desdenhosa
+superioridade e disse:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois que outra vingan&ccedil;a p&oacute;de tirar uma mulher
+nas suas circumstancias?
+<br />
+
+<br />
+
+A loura empallideceu e depois fez-se rubra como
+se tivesse levado em cheio uma bofetada na face.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem lhe deu ao senhor o direito de me insultar?&#8213;disse
+ella tremula de colera.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Perd&atilde;o, minha querida Leonor, mas n&atilde;o supponho
+ter-lhe feito um insulto lembrando-lhe que, nas
+<span class="pagenum">[328]</span>
+circumstancias melindrosas em que se encontra, n&atilde;o
+lhe conviria sacrificar as rela&ccedil;&otilde;es do
+commendador
+Garcia &aacute; vingan&ccedil;a ruidosa contra Eugenio...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Cuidei que n&atilde;o se referia s&oacute;mente &aacute;
+situa&ccedil;&atilde;o,
+mas tambem &aacute; <em>qualidade</em> da
+mulher... Julguei que
+n&atilde;o me suppunha moralmente em
+condi&ccedil;&otilde;es de tirar
+uma desforra digna do miseravel que me atrai&ccedil;oou!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! por Deus, Leonor! Toda a mulher tem
+direito a ser respeitada nos seus affectos, e a senhora
+mais que nenhuma outra, porque tem sido de uma
+grande e excepcional dedica&ccedil;&atilde;o para Eugenio. O
+sentido
+das minhas palavras era muito outro. A senhora
+n&atilde;o &eacute; a amante declarada de Eugenio de Mello. A
+sua liga&ccedil;&atilde;o com elle tem um caracter
+clandestino...
+Como poderia a senhora tirar rasoavelmente um desfor&ccedil;o
+publico, impedir o casamento d'esse homem, se
+toda a gente a considera a amante do commendador
+Garcia?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E que me importa a mim o commendador Garcia,
+quando se trata de punir quem ousou ludibriar-me
+e esmagar o meu cora&ccedil;&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Punir, disse?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Punir, sim! Pois o que julga o senhor? Cuida
+talvez que eu seria mulher para deixar nos bra&ccedil;os de
+outra o homem que amei e que me pagou com a perfidia
+mais infame, com o despreso mais cruel? Teria
+que v&ecirc;r se Eugenio havia de ficar contente
+e feliz, gozando o amor e o dote de outra mulher a
+quem chamaria sua esposa, a quem apresentaria no
+mundo cercada dos respeitos e das considera&ccedil;&otilde;es
+de
+todos, emquanto que eu, ultrajada e esquecida, ficasse
+tragando em silencio todas as amarguras da minha
+humilha&ccedil;&atilde;o, todos os desesperos do meu amor
+escarnecido!
+N&atilde;o! Eugenio de Mello n&atilde;o casar&aacute;,
+juro-lh'o
+eu, porque eu saberei procural-o por toda a parte e
+encontral-o onde elle estiver. E se f&ocirc;r t&atilde;o habil
+que
+<span class="pagenum">[329]</span>
+se case antes de eu dar com elle, a mulher, se o
+amar, ter&aacute; o desgosto de ficar viuva...
+<br />
+
+<br />
+
+Jo&atilde;o Lazaro ouvia attentamente as palavras de
+Leonor, pesando-as e calculando at&eacute; que ponto ellas
+podiam ser tomadas como a express&atilde;o de uma amea&ccedil;a
+realisavel.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Minha querida&#8213;disse elle&#8213;socegue e veja
+bem que n'esse estado de excita&ccedil;&atilde;o nada podemos
+fazer...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas se eu j&aacute; n&atilde;o quero fazer nada!&#8213;bradou
+Leonor.&#8213;O que eu quero unicamente &eacute; saber onde
+posso encontrar Eugenio...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Venha c&aacute;, Leonor!&#8213;exclamou Jo&atilde;o Lazaro
+pegando-lhe na m&atilde;o e obrigando-a a sentar-se ao seu
+lado. Sejamos, antes de tudo, rasoaveis e conversemos
+como bons amigos... Sabe que a amo desde muito
+e que por coisa alguma eu consentiria n'um desvario
+que pudesse trazer-lhe desgra&ccedil;a irremediavel. Quer
+vingar-se de Eugenio, n&atilde;o &eacute; assim?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! sim! sim! quero!&#8213;respondeu anciosamente
+Leonor, n'um estremecimento nervoso.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Diga-me: que genero de vingan&ccedil;a desejaria
+tirar?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A unica que elle merece e a unica que me p&oacute;de
+satisfazer: matal-o!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem sabe que n&atilde;o se mata um homem sem se
+assumirem graves responsabilidades perante a
+justi&ccedil;a&#8213;ponderou
+Jo&atilde;o Lazaro.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E que me importa a mim a justi&ccedil;a? &Aacute;
+justi&ccedil;a
+direi: &laquo;Matei-o porque me ludibriou, porque me
+trahiu!&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A justi&ccedil;a n&atilde;o se contentar&aacute; com essa
+explica&ccedil;&atilde;o
+e punil-a-ha com todo o rigor da lei...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Embora! Mas eu ficarei vingada.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o! Ficar&aacute; perdida. Calcula, minha boa amiga,
+qual vae ser a sua sorte, atirada para o fundo de
+<span class="pagenum">[330]</span>
+uma pris&atilde;o, de parceria com outras criminosas, exposta
+aos desprezos e aos sarcasmos de toda uma multid&atilde;o
+avida de escandalos e de crueldades que assistir&aacute;
+ao seu julgamento e aplaudir&aacute; com uivos de alegria
+a sua condemna&ccedil;&atilde;o? Calcula o atroz supplicio que
+a
+espera desde a hora do seu crime at&eacute; &aacute; hora da
+sua
+partida para o degredo, no por&atilde;o de um navio, empilhada
+com outros condemnados, tratada como um animal
+feroz, como um ser abjecto e ascoroso que a sociedade
+repelle de si com nojo? E diga-me: vale tanto
+o miseravel que a trahiu e t&atilde;o infamemente a explorou
+no seu dinheiro e nos affectos do seu cora&ccedil;&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas eu hei-de deixal-o viver feliz e ditoso nos
+bra&ccedil;os de outra, a rir-se de mim com desprezo, hei-de
+encontral-o na rua dando o bra&ccedil;o &aacute; mulher por
+quem
+me trocou e hei-de fugir envergonhada, hei-de desviar-me
+humildemente do seu caminho para o deixar
+passar? Oh! n&atilde;o! n&atilde;o! Antes a pris&atilde;o,
+antes o degredo,
+antes uma eternidade de supplicios n'este mundo
+e no outro, do que deixal-o escarnecer impunemente
+de mim!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas, minha amiga&#8213;tornou Jo&atilde;o Lazaro com
+a voz mais doce e persuasiva&#8213;n&atilde;o &eacute; isso tambem o
+que lhe estou dizendo...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que &eacute; que me diz ent&atilde;o? Explique-se, por
+Deus! que n&atilde;o tenho cabe&ccedil;a em estado de perceber
+coisas que n&atilde;o sejam ditas bem claramente!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ou&ccedil;a, Leonor; toda a vingan&ccedil;a se
+p&oacute;de tirar
+de duas formas: uma publica, ruidosa, impulsionada
+cegamente pela ira. Essa, quando ella tem por consequencia
+a morte de um homem, chama-se <em>crime</em>
+e &eacute;
+punida rigorosamente pela lei. A outra &eacute; premeditada,
+occulta, sem ruido e sem provas; e quando tem como
+consequencia igualmente a morte de um homem, chama-se
+<em>desastre</em>,
+<em>doen&ccedil;a</em>,
+<em>fatalidade</em>, e a justi&ccedil;a
+n&atilde;o tem
+al&ccedil;ada para a punir.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[331]</span> &#8213;N&atilde;o entendo!&#8213;disse Leonor.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vae entender. Se lhe fosse possivel vingar-se
+de Eugenio, matando-o de modo que s&oacute; elle soubesse
+quem o matou, a senhora preferiria assassinal-o publicamente,
+diante de todos, e ir depois prestar contas
+&aacute; justi&ccedil;a?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;De certo n&atilde;o. O que eu queria era vingar-me
+e que elle soubesse que no peito de uma mulher como
+eu, se existe <em>o amor que salva</em>,
+tambem ha o <em>amor
+que mata</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois bem; que recompensa me daria se eu lhe
+proporcionasse a vingan&ccedil;a que deseja?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como poderia eu recompensal-o?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Amar-me-hia?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O am&ocirc;r &eacute; um sentimento que nasce do
+cora&ccedil;&atilde;o,
+n&atilde;o &eacute; um objecto material cuja posse se transfira
+de
+um para outro individuo. O senhor que diz amar-me
+comprehende assim o am&ocirc;r?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois bem; n&atilde;o tomemos a palavra na rigorosa
+significa&ccedil;&atilde;o que lhe est&aacute; dando...
+Mas, diga-me:
+depois da sua vingan&ccedil;a realisada, pertencer-me-hia?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Em espirito, n&atilde;o. Materialmente, sim.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; quanto me basta. Materia e espirito andam
+pelo commum t&atilde;o ligados que &eacute; difficil, ao cabo
+de
+um certo tempo, que a alma n&atilde;o acompanhe o corpo...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Imponho uma condi&ccedil;&atilde;o,
+por&eacute;m&#8213;objectou Leonor.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Diga.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Seja que o espirito acompanhe a materia, seja
+que um e outro permane&ccedil;am desligados n'este contrato,
+o senhor n&atilde;o tolher&aacute; nunca a minha liberdade.
+Recebel-o-hei quando me parecer, &aacute; hora que eu bem
+quizer, sem que o senhor tenha mais direito do que o
+commendador Garcia &aacute;s minhas complacentes
+atten&ccedil;&otilde;es...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tambem n&atilde;o exijo mais, tal &eacute; a certeza que
+<span class="pagenum">[332]</span>
+eu tenho de que ha-de chegar a comprehender-me e
+a estimar-me, Leonor.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; possivel. No emtanto n&atilde;o me julgo obrigada
+a isso... Vejamos: sabe o senhor onde est&aacute; Eugenio?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Talvez...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Talvez n&atilde;o &eacute; certo, e eu n&atilde;o gosto
+de incertezas
+quando se trata de um assumpto que tanto me
+interessa e de que depende o meu socego, a minha
+tranquillidade...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Diga antes&#8213;de que depende a satisfa&ccedil;&atilde;o do
+seu orgulho ferido...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Seja! Onde est&aacute; Eugenio?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N'este momento n&atilde;o poderia dizer-lh'o, ainda
+que quizesse. Mas espero bem que amanh&atilde; poderei
+dar-lhe indica&ccedil;&otilde;es seguras...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Amanh&atilde;! E quem lhe assevera ao senhor que
+amanh&atilde; n&atilde;o ser&aacute; j&aacute; tarde?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nunca &eacute; tarde para a vingan&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas eu n&atilde;o desejo vingar-me do marido de
+Beatriz: desejo tirar vingan&ccedil;a do amante de Leonor
+trahida e ludibriada!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tiral-a-ha amanh&atilde;, porque amanh&atilde; Eugenio de
+Mello estar&aacute; aqui a pedir-lhe dinheiro para se passar
+com Beatriz para Hespanha.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como o sabe?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Disse-m'o elle.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! o miseravel! Pois se vier n&atilde;o sahir&aacute; vivo
+d'esta casa...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p333">[333]</a></span>
+<h3><a name="c21"></a>XXI<br />
+
+<br />
+
+Tal vida, tal fim
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Leonor, prevenida na vespera por Jo&atilde;o Lazaro, ficou
+sabendo que Eugenio iria procural-a n'essa noite,
+e d'accordo com aquelle, mand&aacute;ra mudar a fechadura
+da porta para impedir que elle entrasse sem bater.
+<br />
+
+<br />
+
+No emtanto, n&atilde;o se deit&aacute;ra. Espreitando pela
+janella,
+vira-o aproximar-se, vira o espanto que lhe caus&aacute;ra
+a mudan&ccedil;a da chave, traduzido na attitude hesitante
+do bohemio, indo ao meio da rua a espiar as
+janellas como que a certificar-se de que era aquella
+a mesma casa e de que tudo l&aacute; dentro estava em silencio.
+<br />
+
+<br />
+
+Viu-o depois dar alguns passos na rua, como que
+a tomar uma resolu&ccedil;&atilde;o, encostar-se &aacute;
+parede fronteira
+com os olhos cravados nas janellas, voltar &aacute; porta
+tentando v&ecirc;r se a chave seria a mesma, e por ultimo
+afastar-se a passo vagaroso como homem que n&atilde;o
+sabe bem o que pensar d'uma contrariedade que lhe
+succede. Viu tudo, e por dentro dos vidros, na escurid&atilde;o
+da sala, com os dentes cerrados <a href="#e39">pela colera</a>,
+ia
+murmurando com ranc&ocirc;r profundo:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Miseravel! vinhas ainda, pela calada da noite,
+<span class="pagenum">[334]</span>
+saltear a tua victima, roubar-lhe o dinheiro que precisas
+para sustentar a mulher por quem a trocaste!
+Vae! vae e n&atilde;o voltes... Porque se voltas,
+saber&aacute;s
+ent&atilde;o quanto custa ludibriar uma mulher como eu!
+<br />
+
+<br />
+
+E nervosa, tremula, a face horrivelmente pallida,
+os louros cabellos em desalinho, cahiu sobre um sof&aacute;
+e desatou n'um choro convulso e abafado.
+<br />
+
+<br />
+
+Esteve assim por muito tempo, sem dormir, sem
+pensar. A febre escaldava-lhe a fronte, e as lagrimas,
+em vez de lhe acalmarem a enorme excita&ccedil;&atilde;o, mais
+lh'a exacerbavam. De manh&atilde;, aos primeiros fulgores
+da aurora, viu-se a um espelho e achou-se horrivel,
+com as fei&ccedil;&otilde;es transtornadas pela vigilia. Teve
+ent&atilde;o
+um accesso de furor invencivel. Era elle, o perfido,
+o miseravel, que depois de lhe ter extorquido os affetos
+e o dinheiro, depois de lhe haver roubado o socego
+e a tranquillidade, ainda por cima lhe roubava a belleza!
+Oh! a vingan&ccedil;a seria terrivel!
+<br />
+
+<br />
+
+Desde essa hora, Eugenio de Mello estava condemnado.
+<br />
+
+<br />
+
+Logo que a velha criada abriu a porta da rua &aacute;
+hora habitual para fazer as primeiras compras do
+dia, Eugenio de Mello, que j&aacute; espiava os arredores
+da casa, entrou no portal e subiu ao andar superior.
+<br />
+
+<br />
+
+Como pessoa familiarisada com os costumes da
+casa, dirigiu-se ao quarto de Leonor e encontrou a
+porta fechada por dentro.
+<br />
+
+<br />
+
+Ia bater, quando a criada, apparecendo, preveniu:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fa&ccedil;a o favor de n&atilde;o bater, que a senhora
+passou mal a noite e recommendou que a n&atilde;o acordassem.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Essa ordem n&atilde;o pode entender-se comigo&#8213;volveu
+Eugenio, admirado do modo como lhe coarctavam
+a liberdade que at&eacute; alli usara.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o se entende com o senhor, porque ella n&atilde;o
+<span class="pagenum">[335]</span>
+o esperava. Mas deu-me esta ordem e a minha
+obriga&ccedil;&atilde;o
+&eacute; cumpril-a.
+<br />
+
+<br />
+
+Eugenio encarou a criada por alguns momentos
+espantado de tamanho atrevimento, a que n&atilde;o estava
+habituado.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Marianna&#8213;disse elle, contendo-se e tomando
+um tom affavel&#8213;o que se tem passado n'esta casa,
+que encontro tudo t&atilde;o mudado?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que se tem passado, diz o senhor? N&atilde;o se
+tem passado nada. Est&aacute; tudo na mesma.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tudo na mesma, n&atilde;o. A chave da porta da rua
+foi mudada. Agora &eacute; outra. Leonor, que d'antes dormia
+com a porta do quarto aberta, agora tem a
+precau&ccedil;&atilde;o
+de se fechar por dentro. Porque &eacute; isto?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Porque ha de ser?&#8213;respondeu a criada fazendo
+uma careta inexpressiva.&#8213;O senhor bem sabe
+que, em casa onde n&atilde;o ha homem, n&atilde;o
+p&oacute;de uma senhora
+estar a dormir com a porta aberta. O sr. Eugenio
+foi-se embora, a menina n&atilde;o o esperava... Eu ando
+c&aacute; na minha vida, e assim como o sr. Eugenio entrou,
+podia entrar outra qualquer pessoa por ahi dentro e
+ir dar com a senhora na cama. Por isso ella fecha-se,
+e faz muito bem... E ent&atilde;o agora que andam por
+ahi tantos ladr&otilde;es!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Foi ent&atilde;o por causa dos ladr&otilde;es que a sua ama
+mudou a chave da porta da rua e se fechou no quarto,
+por dentro?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olhe, senhor, eu n&atilde;o sei!&#8213;rematou a velha.&#8213;Ella
+n&atilde;o me d&aacute; contas nem
+<em>estifa&ccedil;&otilde;es</em> do
+que manda
+fazer... Ella &eacute; que d&aacute; as
+<em>ordes</em>, &eacute; a senhora, e eu
+c&aacute; d'essas coisas n&atilde;o sei.
+<br />
+
+<br />
+
+O bohemio tirou o chap&eacute;o e a capa, arrumou tudo
+sobre uma cadeira e aproximando-se da criada, disse-lhe
+a meia voz:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Marianna, quem est&aacute; alli n'aquelle quarto?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem ha de estar? Est&aacute; a senhora...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[336]</span> &#8213;S&oacute;?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem queria o senhor que estivesse l&aacute; com
+ella? O sr. <em>encommendador</em>,
+n&atilde;o fica c&aacute;, o sr. Eugenio
+est&aacute; ahi... Parece-me que aqui n&atilde;o vem mais
+ninguem....
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Parece-lhe? N&atilde;o tem a certeza...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Assim Deus Nosso Senhor me ajude e os anjos
+acompanhem a minha alma &aacute; hora da morte se j&aacute;
+c&aacute;
+veio mais alguem depois que o senhor se foi embora,
+tirante de ser o sr.
+<em>encommendador</em>... Ent&atilde;o
+ella,
+coitadinha, que n&atilde;o se tem fartado de chorar de noite
+e de dia, depois que andam aqui estas rodilhices...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Rodilhices de quem?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu sei l&aacute; de quem! O sr. Eugenio bem sabe o
+que anda nas gazetas a seu respeito. A senhora l&ecirc; a
+folha todos os dias e afflige-se... Pudera! Outra
+qualquer faria o mesmo.
+<br />
+
+<br />
+
+Effectivamente o escandalo do rapto attribuido a
+Eugenio de Mello f&ocirc;ra noticiado com grande pompa
+de phrase e de minudencias nos jornaes diarios. Eugenio
+sabia-o e n&atilde;o estranhou por isso que a leitura
+do caso tivesse impressionado a amante, como a criada
+affirmava.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Leonor tem-se ent&atilde;o affligido muito?&#8213;perguntou
+elle.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh, Senhor! N&atilde;o faz outra vida sen&atilde;o chorar
+e affligir-se... E anda ruim que n&atilde;o ha quem a ature...
+O pobre do <em>encommendador</em> anda
+parvinho de
+todo, que ella d&aacute;-lhe cada sarabanda por d&aacute;
+c&aacute; aquella
+palha, que &eacute; uma coisa por demais!
+<br />
+
+<br />
+
+O bohemio teve um sorriso de vaidade satisfeita.
+O seu amor proprio comprazia-se na ideia de que
+Leonor o amava a ponto de tratar mal toda a gente,
+at&eacute; o homem que a protegia, tudo por sua causa.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; doida a Leonor em dar importancia &#8213;&Eacute; doida a
+Leonor em dar importancia ao que
+dizem os jornaes&#8213;disse elle&#8213;principalmente quando
+<span class="pagenum">[337]</span>
+sabe que tudo isso n&atilde;o passa de uma sucia de
+p&ecirc;tas.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;S&atilde;o p&ecirc;tas, s&atilde;o
+p&ecirc;tas&#8213;retorquiu a velha com
+um sorriso de incredulidade&#8213;mas o sr. Eugenio
+anda a fugir da policia que lhe n&atilde;o v&aacute; ella
+deitar a
+m&atilde;o...
+<br />
+
+<br />
+
+E depois n'um tom de reprehens&atilde;o amigavel:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O senhor tambem me sahiu levadinho da breca!
+Pois tendo aqui a senhora, que tem uma cara
+como um sol, precisava de se importar co'as outras
+lambisgoias para nada? Credo! Os homens s&atilde;o
+a coisa peor que ha! Quem se fia n'elles est&aacute; perdida.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois voc&ecirc; tambem acredita, Marianna?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Cale-se, cale-se! Eu n&atilde;o digo nada... mas
+estes olhos teem visto muito e estes ouvidos teem
+<em>ouvisto</em>
+inda mais&#8213;disse ella, levando alternativamente
+os dedos aos olhos e aos ouvidos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que &eacute; que voc&ecirc; tem visto e ouvido, Marianna?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Muita coisa! Deus me livre que a senhora soubesse
+da missa ametade... O sr. Eugenio cuida que se
+n&atilde;o sabem as coisas... mas eu j&aacute; ha muito que
+ouvia
+fallar que o senhor que se queria casar co' essa tal
+menina p'ra amor de quem agora andam estas
+<em>quest&atilde;es</em>...
+<br />
+
+<br />
+
+E muito persuasiva, como quem d&aacute; conselhos bons
+de sensatez e de prudencia:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;P'ra que diacho a quer? Ella poder&aacute; ter mais
+dinheiro, mas nunca &eacute; capaz de lhe ter a amizade que
+esta lhe tem... O dinheiro, quem tiver mais que se
+enforque co'elle!... Demais, casar por casar, ent&atilde;o antes
+co' esta, que se quer ao menos j&aacute; sabe quem tem...
+&Eacute; s&oacute; dezermos n&atilde;o &eacute; uma
+menina capaz, mas em bom
+panno c&aacute;em as nodoas... E olhe que ella n&atilde;o lhe
+dizia
+que n&atilde;o... que o que ella lhe quer de bem s&oacute; eu
+&eacute; que o sei... E dinheiro
+<em>t&aacute;mem</em> n&atilde;o lhe
+havia de faltar,
+<span class="pagenum">[338]</span>
+que se n&atilde;o fosse o
+<em>encommendad&ocirc;r</em>,
+n&atilde;o faltaria
+quem lh'o desse... O ponto era ella querer.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; bem, Marianna, acabe com o
+serm&atilde;o!&#8213;ordenou
+o bohemio, de mau humor.&#8213;Visto que Leonor
+est&aacute; dormindo, esperarei que ella acorde.
+<br />
+
+<br />
+
+E estirou-se ao comprido sobre um canap&eacute;, resolvido
+a esperar.
+<br />
+
+<br />
+
+&Aacute; hora habitual, a porta da alcova de Leonor
+abriu-se e a loura appareceu na sala, fingindo-se surprehendida
+de encontrar alli o amante.
+<br />
+
+<br />
+
+Eugenio, ao v&ecirc;l-a, correu para ella com os bra&ccedil;os
+estendidos, n'um amplexo carinhoso.
+<br />
+
+<br />
+
+A loura contrafez no rosto pallido um sorriso e
+perguntou:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tu por c&aacute;! Que novidade &eacute; essa?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Venho pedir-te que me salves mais uma vez,
+Leonor!&#8213;exclamou o bohemio com artificial
+commo&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Leonor n&atilde;o respondeu. Encaminhou-se para um
+sof&aacute; e sentou-se, indicando a Eugenio que a imitasse.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que &eacute; ent&atilde;o que desejas?&#8213;perguntou.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A policia persegue-me de cada vez mais
+encarni&ccedil;adamente&#8213;principiou
+dizendo o bohemio&#8213;de modo
+que n&atilde;o s&oacute; me &eacute; impossivel continuar a
+viver no Porto
+como permanecer por mais tempo em Portugal...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E d'ahi?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;D'ahi, comprehendes quanto deve ser doloroso
+para o meu cora&ccedil;&atilde;o o pensamento de te deixar...
+<br />
+
+<br />
+
+A loura esbo&ccedil;ou nos labios um sorriso de cruel
+desdem.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fa&ccedil;o ideia!&#8213;disse ella friamente.
+<br />
+
+<br />
+
+O bohemio, um tanto desconcertado com a attitude
+glacial da amante, proseguiu:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sou victima da fatalidade, mais ainda do que
+dos meus inimigos! Estes n&atilde;o perdem occasi&atilde;o de
+me
+<span class="pagenum">[339]</span>
+perseguir e de instar com a auctoridade para que
+me prenda, afim de me fazerem condemnar por culpas
+que n&atilde;o commetti! Mas o que mais me afflige
+e perturba &eacute; o ver accumularem-se contra mim provas
+de culpabilidade, quando eu juro que estou innocente!
+Dir-se-hia que um genio infernal tomou a peito
+a minha desgra&ccedil;a e quer a todo o custo perder-me
+sem me deixar possibilidade de salva&ccedil;&atilde;o!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Foi talvez feiti&ccedil;aria que te fizeram!&#8213;disse a
+amante com um aggressivo sorriso de sarcasmo.
+<br />
+
+<br />
+
+O bohemio encarou-a espantado.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tambem tu, Leonor, tambem tu escarneces da
+minha desgra&ccedil;a?&#8213;lamuriou elle, buscando enternecel-a
+com os seus queixumes.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu? Que lembran&ccedil;a!&#8213;casquinou nervosamente
+a loura.&#8213;Eu posso l&aacute; escarnecer de um amante feliz,
+de um seductor audacioso e arrojado, que affronta
+impavido os perigos e os rigores da justi&ccedil;a para
+possuir por for&ccedil;a a mulher que por bem n&atilde;o quiz
+amal-o?!
+<br />
+
+<br />
+
+Laura fallava nervosamente, com os olhos scintillantes
+de indigna&ccedil;&atilde;o e de odio mal reprimido.
+<br />
+
+<br />
+
+Eugenio imaginou-a dominada por um dos seus
+accessos de indomavel ciume, e respondeu, sorrindo
+com a fatuidade do amante que ainda se reconhece
+querido:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mau! ahi est&aacute;s tu com as tuas loucuras do
+costume! Sabes que tens sido sempre injusta para
+comigo, sendo a primeira a accusar-me de faltas
+que n&atilde;o commetti. Mas agora pe&ccedil;o-te, Leonor, que
+te
+moderes e repares bem na injusti&ccedil;a que me fazes...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Injusti&ccedil;a?!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim! &Eacute; uma injusti&ccedil;a que te n&atilde;o
+mere&ccedil;o o
+supp&ocirc;res-me, como toda a gente, auctor do rapto d'essa
+rapariga, que mal conhe&ccedil;o, que n&atilde;o amo, que nunca
+amei e que a esta hora se est&aacute; rindo nos bra&ccedil;os
+de
+<span class="pagenum">[340]</span>
+outro da partida que o seu raptor me pregou, envolvendo-me
+na aventura escandalosa dos seus amores, a
+que sou&#8213;juro-o!&#8213;completamente estranho!
+<br />
+
+<br />
+
+Leonor abanou a cabe&ccedil;a em silencio, sem responder.
+Eugenio, de cada vez mais possuido do vivo
+desejo de mover a loura a emprestar-lhe dinheiro,
+continuou:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Juro-te, Leonor, que estou innocente! Este rapto
+n&atilde;o foi obra minha. Eu podia pensar em tudo,
+menos em raptar essa rapariga, que &eacute; filha de um
+homem rico e incapaz de transigir com tal violencia
+offensiva da sua honra e do seu bom nome...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como &eacute; ent&atilde;o que o acusam ao senhor?&#8213;disse
+Leonor, cravando n'elle um olhar que o gelou.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tudo obra dos meus inimigos!&#8213;balbuciou o
+bohemio, desconcertado&#8213;Sabes que tenho concitado
+contra mim os odios e as invejas d'essa canalha endinheirada
+que n&atilde;o p&oacute;de perdoar-me a maneira como a
+affronto com a minha distinc&ccedil;&atilde;o e a minha maneira
+de viver... E eu sei l&aacute; se n'esta
+persegui&ccedil;&atilde;o surda
+que agora se me move entra tambem o ciume d'aquelles
+que tu rejeitaste e talvez o do commendador
+Garcia, a esta hora sabedor das nossas rela&ccedil;&otilde;es?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Basta!&#8213;bramiu Leonor, livida de colera, levantando-se
+de salto&#8213;basta! Que o senhor abusasse
+da fraqueza do meu cora&ccedil;&atilde;o para me illudir, ainda
+lh'o poderia tolerar; mas que leve a infamia ao ponto
+de calumniar o homem que confia em mim e a quem
+tenho feito soffrer por sua causa, n&atilde;o lh'o consinto!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bravo!&#8213;tornou o bohemio sarcasticamente&#8213;Vejo
+que o commendador tem feito progressos no teu
+cora&ccedil;&atilde;o durante a minha ausencia!
+<br />
+
+<br />
+
+E encolhendo os hombros com desprezo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Afinal, &eacute; de justi&ccedil;a... Ha tanto tempo
+desapossado
+do thesouro que de direito lhe pertencia, &eacute;
+obra de caridade restituir-lhe o que se lhe tirou.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[341]</span>
+Levantou-se e encaminhou-se para a cadeira onde
+tinha posto o chap&eacute;o e o capote.
+<br />
+
+<br />
+
+Com esta retirada falsa, expediente que tantas
+vezes lhe havia sortido o effeito desejado, esperava
+elle abrandar a irrita&ccedil;&atilde;o da amante.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Adeus!&#8213;disse, j&aacute; da porta da sala, como quem
+se preparava para sahir.
+<br />
+
+<br />
+
+Leonor avan&ccedil;ou para elle:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Foi para isso que o senhor c&aacute; veio?&#8213;rugiu indignada&#8213;Foi
+unicamente para fazer uma accusa&ccedil;&atilde;o
+t&atilde;o insensata como absurda a um homem que nem sabe
+que o senhor existe? Visto isso, ainda a
+persegui&ccedil;&atilde;o
+que a justi&ccedil;a lhe move n&atilde;o &eacute; tamanha
+como diz, pois
+que lhe deixa ociosidade e tempo para essas
+distrac&ccedil;&otilde;es...
+<br />
+
+<br />
+
+O bohemio retrocedeu.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o foi para isso precisamente que eu c&aacute; vim.
+Mas ainda quando n&atilde;o viesse sen&atilde;o para isto,
+n&atilde;o
+dava por mal empregado o meu tempo, que &eacute; sempre
+curioso e interessante v&ecirc;r como as mulheres amam os
+que atrai&ccedil;&ocirc;am e atrai&ccedil;&ocirc;am os
+que dizem que amam...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que! O que &eacute; que o senhor diz? Explique-se
+sem trocadilhos, fa&ccedil;a favor!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Digo&#8213;volveu o bohemio&#8213;que eu devia esperar
+isto mesmo... Seria caso unico na historia da
+humanidade que a desgra&ccedil;a me perseguisse e o
+cora&ccedil;&atilde;o
+da amante me restasse firme... Pe&ccedil;o-lhe perd&atilde;o
+se vim importunal-a. Eu devia desde logo pensar que
+as mulheres s&oacute; amam o prazer, as alegrias da vida
+facil e que n&atilde;o podemos contar com ellas para as horas
+negras da desgra&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+Leonor, tremula e excitadissima, lan&ccedil;ou-lhe a m&atilde;o
+ao bra&ccedil;o e arrastou-o para junto do sof&aacute;. O
+bohemio
+deixou-se conduzir.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Venha c&aacute;!&#8213;disse ella.&#8213;A accusa&ccedil;&atilde;o
+que o
+<span class="pagenum">[342]</span>
+senhor acaba de fazer &eacute; mais uma infamia sobre tantas!
+A que &eacute; que o senhor veio aqui?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vinha despedir-me da mulher que amava e...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E...?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E pedir-lhe que me salvasse da vergonha e da
+miseria da pris&atilde;o. Mas isso terminou. Sei que nada
+posso esperar. Seguirei o meu destino...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se a sua consciencia lhe dizia que nada podia
+esperar, para que veio c&aacute;? Vamos! explique-se! O
+que desejava?
+<br />
+
+<br />
+
+O bohemio conhecia a loura. Sabia por experiencia
+que todos os conflictos por ciumes acabavam por
+ternissimas demonstra&ccedil;&otilde;es de affecto, sempre que
+elle
+proferia palavras de resentimento, desilludido.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para que hei-de dizer-lhe nada, se tudo entre
+n&oacute;s acabou?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Talvez se engane... talvez ainda n&atilde;o acabasse
+<em>tudo</em> como o senhor
+supp&otilde;e...
+<br />
+
+<br />
+
+Illudido por estas palavras, o bohemio ajoelhou
+aos p&eacute;s de Leonor, tomou-lhe as m&atilde;os e
+cobriu-lh'as
+de ardentes beijos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se &eacute; certo que conservas ainda no teu
+cora&ccedil;&atilde;o
+um terno sentimento de affecto por mim, para que
+me torturas na minha desgra&ccedil;a, para que me lan&ccedil;as
+no desespero quando venho pedir-te consola&ccedil;&atilde;o e
+amparo?&#8213;bradou
+elle.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que desejas de mim? Dize!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Desejo que me salves! A minha vida, a minha
+liberdade, o meu futuro, est&aacute; tudo na tua m&atilde;o!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como? O que posso eu fazer?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vaes ouvir. N&atilde;o posso continuar a viver em
+Portugal sem entrar na cadeia. &Eacute;, pois, indispensavel
+que eu fuja quanto antes para a Hespanha e por l&aacute;
+me demore at&eacute; se apurar a minha innocencia. Presentemente
+n&atilde;o posso contar com o auxilio de parentes
+nem amigos. S&oacute; tu me p&oacute;des valer, emprestando-me
+<span class="pagenum">[343]</span>
+a quantia necessaria para eu por l&aacute; n&atilde;o
+morrer
+de fome... Vinha, pois, pedir ao teu amor a
+salva&ccedil;&atilde;o
+que todos os outros me recusam...
+<br />
+
+<br />
+
+Era isto justamente o que Leonor esperava para
+acabar de se convencer da perfidia do amante.
+<br />
+
+<br />
+
+Jo&atilde;o Lazaro havia-lhe dito que Eugenio viria, n'uma
+ultima explora&ccedil;&atilde;o, arrancar &aacute; sua
+boa-f&eacute; o dinheiro
+para fugir com Beatriz para a Hespanha.
+<br />
+
+<br />
+
+Confirmada a denuncia de Jo&atilde;o Lazaro pelas palavras
+do bohemio, a loura sentiu dentro em si o demonio
+do ciume a espica&ccedil;ar-lhe o desejo da vingan&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quinhentos mil reis...&#8213;disse com voz tremula.&#8213;N&atilde;o
+&eacute; isso o que precisas?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim, &eacute; isso mesmo!&#8213;exclamou o bohemio sem
+reparar no tom de pungente sarcasmo em que a pergunta
+lhe f&ocirc;ra feita&#8213;Quinhentos mil reis &eacute; quanto eu
+tenho calculado que me ser&atilde;o precisos para os primeiros
+tempos...
+<br />
+
+<br />
+
+Leonor sorriu e disse:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E se eu fosse comtigo?
+<br />
+
+<br />
+
+O bohemio fez um movimento de surpreza a estas
+palavras.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que!&#8213;exclamou&#8213;querias ir comigo para
+Madrid?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E porque n&atilde;o?&#8213;tornou Leonor sem desfitar
+os olhos do amante.
+<br />
+
+<br />
+
+Eugenio ficou um momento calado. Pensava. A
+companhia da loura ser-lhe-hia de alta conveniencia,
+se ella tivesse dinheiro em abundancia para gastar
+com elle. Mas o bohemio sabia que ella apenas poderia
+disp&ocirc;r das suas joias e pouco mais.
+<br />
+
+<br />
+
+Para o acompanhar, seria inevitavel o rompimento
+com o commendador Garcia, e, desapparecida esta
+fonte de receita, que poderia ainda ser-lhe um auxilio
+valioso mesmo distante, a loura ser-lhe-hia um encargo
+pesado, sen&atilde;o odioso, em meio da sua desgra&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p344">[344]</a></span>
+Al&eacute;m d'isso, elle n&atilde;o podia contar com os
+encantos
+de Leonor n'um paiz onde as mulheres s&atilde;o as mais
+graciosas e tentadoras do mundo e onde o genero
+abunda em tal maneira, que d'elle faz annualmente
+grande exporta&ccedil;&atilde;o para as principaes capitaes da
+Europa
+e at&eacute; para o Brazil.
+<br />
+
+<br />
+
+Assim, depois de rapidamente ter ponderado a
+inconveniencia de um tal passo, respondeu:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Comprehendes, minha querida, quanto me seria
+agradavel a tua companhia n'uma terra estranha,
+longe da patria... Mas eu devo antep&ocirc;r ao meu
+egoismo a tua felicidade... Para me acompanhares,
+serias for&ccedil;ada a romper com o commendador, a perder
+a sua protec&ccedil;&atilde;o... E esgotados os primeiros
+recursos,
+o que havia de ser de n&oacute;s, dois ou tres mezes
+depois de havermos d'aqui partido? N&atilde;o, eu n&atilde;o
+posso consentir que fa&ccedil;as por mim esse sacrificio,
+porque &eacute; verdadeiramente o sacrificio do teu futuro e
+do teu bem estar o que um tal passo importa!
+<br />
+
+<br />
+
+O bohemio era, sen&atilde;o sincero, pelo menos sensato
+e pratico. Mas <a href="#e40">Leonor</a>
+&eacute; que
+n&atilde;o traduziu assim o seu
+pensamento e, attribuindo a recusa ao desejo que o
+amante teria de partir com Beatriz, como Jo&atilde;o Lazaro
+lhe fizera cr&ecirc;r, irrompeu n'uma explos&atilde;o de ciume
+e
+de colera mal contida.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu j&aacute; esperava a resposta, miseravel!&#8213;bradou
+ella enfurecida&#8213;Eu bem sabia que o teu maior
+martyrio seria que eu te acompanhasse, porque, indo
+comtigo, n&atilde;o poderias levar na tua companhia a mulher
+por quem me trocaste, vil!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Leonor!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o tentes negar! Sei tudo, canalha!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Leonor! Juro-te...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o jures, biltre, que as tuas juras s&atilde;o
+mentidas,
+s&atilde;o a hedionda express&atilde;o do teu caracter baixo,
+cobarde e infame, vil explorador de mulheres!...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[345]</span>
+E, rapidamente, tirando do bolso o rewolver, sem
+que Eugenio, ajoelhado a seus p&eacute;s, tivesse notado este
+movimento, apoiou-lhe o cano da arma &aacute; fronte
+direita e disparou.
+<br />
+
+<br />
+
+O desgra&ccedil;ado cahiu exanime no pavimento, sem
+soltar um gemido.
+<br />
+
+<br />
+
+Ent&atilde;o Leonor, pondo-lhe o revolver ao lado, levantou-se
+e, desgrenhada, a face livida pela commo&ccedil;&atilde;o
+do momento, levantou-se e come&ccedil;ou clamando por
+soccorro em brados afflictivos.
+<br />
+
+<br />
+
+A primeira que acudiu foi a velha Marianna.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meu Deus! o que foi, senhora?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Matou-se! Matou-se! Ai, quem acode! V&aacute;
+chamar um medico... ande, v&aacute; depressa!
+<br />
+
+<br />
+
+E com as m&atilde;os enclavinhadas, estorcendo-se n'uma
+d&ocirc;r angustiosa, a loura debru&ccedil;ou-se sobre o
+cadaver
+do amante e rompeu n'um ch&ocirc;ro lancinantissimo.
+<br />
+
+<br />
+
+O estampido do tiro e os gritos de Marianna, que
+alternavam com os da sua joven ama, attrahiram as
+atten&ccedil;&otilde;es da visinhan&ccedil;a e das pessoas
+que iam passando.
+<br />
+
+<br />
+
+Em breve a casa encheu-se de gente, e, por entre
+a turba, appareceu tambem o guarda civil de giro,
+que recebeu as primeiras declara&ccedil;&otilde;es,
+participando o
+caso para o commissariado.
+Em breve a casa encheu-se de gente, e, por entre
+a turba, appareceu tambem o guarda civil de giro,
+que recebeu as primeiras declara&ccedil;&otilde;es,
+participando o
+caso para o commissariado.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[346]</span>
+<h3><a name="c22"></a>XXII<br />
+
+<br />
+
+Mysterio
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Emquanto o sapateiro andava pelo Porto farejando
+o rasto de madre Paula, passavam-se em S. Martinho
+do Campo acontecimentos extraordinarios e verdadeiramente
+inesperados, tanto para o leitor como para os
+personagens d'esta singela narrativa.
+<br />
+
+<br />
+
+Julio de Montarroyo e Aurelia de Magalh&atilde;es,
+propellidos ao natural desafogo de suas m&aacute;goas intimas,
+encontravam-se a miudo, quer em curtos passeios, quer
+em reciprocas visitas, que semanalmente se faziam,
+sem ultrapassarem jamais os limites de uma estricta
+e rigorosa observancia das leis do decoro e do respeito
+devido &aacute; posi&ccedil;&atilde;o de cada um.
+<br />
+
+<br />
+
+D. Aurelia, se alguma vez visitava o amigo de
+seu irm&atilde;o, quando um ligeiro incommodo o retinha
+no leito, ia sempre acompanhada da sua criada de
+quarto e era recebida na presen&ccedil;a da velha governante
+de Julio; e este, pela sua parte, quando visitava
+a amiga de Helena, tinha sempre todo o cuidado
+em escolher os dias em que D. Aurelia recebia
+algumas pobres viuvas que caridosamente soccorria
+com o excesso do rendimento de sua casa.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[347]</span>
+Ainda assim, e apesar do cuidado e escrupulo que
+ambos punham em n&atilde;o dar pasto &aacute; maledicencia da
+aldeia, sem duvida mais acerada e mais venenosa do
+que a das grandes cidades, n&atilde;o faltava quem esperasse,
+como coisa mais ou menos natural e proxima,
+a noticia de um enlace matrimonial contrahido entre
+os dois.
+<br />
+
+<br />
+
+Ora convem dizer-se que entre D. Aurelia de Magalh&atilde;es
+e Julio de Montarroyo se estabelecera esse mutuo
+e invisivel la&ccedil;o de sympathia que une e impelle
+irresistivelmente uns para os outros todos os grandes
+desgra&ccedil;ados, fazendo-os compartilhar, n'um sentimento
+de inquebrantavel fraternidade, as d&ocirc;res intimas
+que os dilaceram.
+<br />
+
+<br />
+
+Assim, Julio de Montarroyo sentia grande lenitivo
+&aacute; sua magoa quando podia referir &aacute;
+irm&atilde; de Gustavo
+toda a grande chaga incuravel que Helena de Noronha
+lhe abrira no peito; e a amiga de Helena tambem
+n&atilde;o se sentia menos feliz quando podia recordar,
+na presen&ccedil;a de quem bem a comprehendia, todo o
+enorme thesouro de venturas que perd&ecirc;ra com o marido
+e com o filho, prematuramente mortos.
+<br />
+
+<br />
+
+Julio de Montarroyo n&atilde;o occultara de D. Aurelia o
+encontro com o <em>Tomba</em> e a
+miss&atilde;o de que o encarregara
+na esperan&ccedil;a de poder descobrir, com a existencia
+de madre Paula, qualquer indicio do destino que
+tomara a <em>irm&atilde; Dorotheia</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Uma coisa que extraordinariamente me preoccupa
+e mortifica,&#8213;dizia elle&#8213;n&atilde;o &eacute; tanto a
+ingratid&atilde;o
+de Helena como &eacute; este mysterio que pesa sobre
+a sua existencia! Que ella sahiu de Portugal n&atilde;o
+resta duvida, pois que nem minha prima Lucilia nem
+nenhuma das educandas e novi&ccedil;as que com ella estiveram
+no Sard&atilde;o ouviram mais noticias suas. Mas,
+sendo assim, como &eacute; que nem em Pariz nem em nenhuma
+das casas religiosas do estrangeiro, que todas
+<span class="pagenum">[348]</span>
+percorri e visitei, eu pude descobrir indicios da sua
+passagem?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;As congrega&ccedil;&otilde;es religiosas&#8213;observou
+sensatamente
+Aurelia de Magalh&atilde;es&#8213;ao que me consta,
+parece que teem o costume de mudar frequentemente
+o nome das <em>irm&atilde;s</em>; de modo
+que a que aqui se chama
+irm&atilde; Dorotheia, alem chama-se irm&atilde; Ephigenia,
+n'outra parte irm&atilde; Sophia, e assim por deante, tornando
+por esta f&oacute;rma impossivel estabelecer a identidade
+de cada uma d'ellas. Quem nos diz a n&oacute;s que,
+com Helena, n&atilde;o ter&aacute; succedido o mesmo?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim; e creio bem que succederia. Por&eacute;m, ainda
+quando assim fosse, Helena n&atilde;o teria deixado de me
+reconhecer, se se encontrasse em qualquer das casas
+que percorri. Porque n&atilde;o me limitei a simples
+informa&ccedil;&otilde;es.
+Apparentando decidido amor pelas institui&ccedil;&otilde;es
+jesuiticas, consegui, &aacute; custa de donativos, captar
+a confian&ccedil;a e a estima de todos os superiores e
+superioras, sendo em toda a parte recebido como um
+verdadeiro amigo e auxiliar valioso; isto &eacute;, como um
+jesuita de casaca.
+<br />
+
+<br />
+
+D. Aurelia sorriu tristemente.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E quem lhe assevera que, sob essa apparencia
+de estima e confian&ccedil;a, o senhor n&atilde;o era
+rigorosamente
+vigiado e a sua verdadeira individualidade absolutamente
+conhecida?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Impossivel! Quem poderia denunciar-me, se
+ninguem estava na posse do meu segredo?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isto &eacute; apenas uma supposi&ccedil;&atilde;o que eu
+fa&ccedil;o&#8213;apressou-se
+a dizer D. Aurelia.&#8213;Tenho ouvido attribuir
+aos jesuitas tanta sagacidade e astucia na defesa
+dos seus intimos interesses, que n&atilde;o seria para estranhar
+que elles pudessem illudir e annullar todos os
+esfor&ccedil;os empregados pelo sr. Julio para encontrar Helena...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, n&atilde;o! Helena morreu. Do contrario, eu
+<span class="pagenum">[349]</span>
+teria tido noticias d'ella... Se o
+<em>Tomba</em> encontrar
+madre Paula, ella confirmar&aacute;, estou certo, esta minha
+funesta previs&atilde;o...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E se, pelo contrario, Helena viver ainda?
+<br />
+
+<br />
+
+Julio pareceu agitado por uma pilha galvanica.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! se f&ocirc;r viva, tornarei a vel-a, ainda que
+para isso tenha de sacrificar os ultimos dias da minha
+vida!
+<br />
+
+<br />
+
+Este dialogo passava-se em casa de D. Aurelia,
+ao cahir da tarde. A irm&atilde; de Gustavo, no intuito de
+proporcionar a Julio, seu vizinho e amigo de seu irm&atilde;o,
+uma distrac&ccedil;&atilde;o que lhe aligeirasse as horas
+tristes
+das pesadas e longas noites de inverno, costumava
+tambem receber o parocho da freguezia, que n&atilde;o era
+j&aacute; aquelle saudoso padre Luiz dos tempos de Norberto
+de Noronha.
+<br />
+
+<br />
+
+Era todavia um homem amavel, bondoso e illustrado,
+de trato simples e affectuoso, tendo sempre
+um sorriso para todas as tristezas, uma palavra de
+consola&ccedil;&atilde;o para todas as amarguras.
+<br />
+
+<br />
+
+Repartia-se o bom do cura entre estes dois desgra&ccedil;ados,
+ora visitando Julio, ora visitando D. Aurelia,
+succedendo que raras vezes deixavam os tres de encontrar-se
+juntos e de, em commum, trocarem impress&otilde;es
+sobre os acontecimentos que se succediam, quer
+na localidade, quer mesmo n'outros pontos do paiz,
+e cuja noticia lhes chegava pelos jornaes.
+<br />
+
+<br />
+
+D'esta vez, o padre Manoel falt&aacute;ra &aacute; hora
+habitual
+da visita e entrava na sala, j&aacute; tarde, com o ar
+de quem trazia um acontecimento grave a noticiar.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;H&atilde;o-de ter a bondade de me desculpar a demora&#8213;disse
+elle com o seu eterno sorriso bondoso&#8213;mas
+n&atilde;o foi culpa minha...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; c&aacute; estavamos sentindo a sua ausencia, sr.
+padre Manoel...&#8213;disse amavelmente D. Aurelia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que quer v. ex.<sup>a</sup>, minha senhora? Este, minha
+senhora? Esteve em
+<span class="pagenum"><a name="p350">[350]</a></span>
+minha casa o Joaquimsinho de Thayde contando-me
+um caso extraordinario...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade. Imagine v. ex.<sup>a</sup> que ha
+oito dias
+que se v&ecirc; todas as noites na Senhora do Porto uma
+mulher <a href="#e41">desconhecida</a>,
+prostrada com a face no ch&atilde;o, resando
+em frente &aacute; porta principal do templo e passando
+assim as longas horas da noite n'uma ora&ccedil;&atilde;o muda.
+De manh&atilde;, aos primeiros alv&ocirc;res do dia, some-se
+e ninguem mais a v&ecirc;!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso, naturalmente, ha-de ser alguma das muitas
+phantasias dos invencioneiros das nossas aldeias&#8213;disse
+D. Aurelia sorrindo&#8213;&Eacute; l&aacute; crivel que uma mulher
+possa passar assim oito dias prostrada &aacute; porta
+d'um templo e sumir-se como um demonio de magica,
+sem que se saiba o caminho que toma e o destino que
+leva?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O Joaquimsinho de Thayde assevera que a viu
+de longe; mas n&atilde;o se atreveu a aproximar-se, apavorado
+pelo mysterio que cerca a desconhecida e que
+j&aacute; vae formando lenda.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o ninguem se atreve a aproximar-se d'ella
+e a interrogal-a?&#8213;disse Julio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ninguem. Como v. ex.<sup>a</sup> sabe, esta nossa gente
+do Minho &eacute; temivel com um cac&ecirc;te nas unhas,
+fazendo
+frente ao adversario que se lhe apresenta de
+cara levantada, n'uma arremettida franca. Por&eacute;m,
+desde que a sombra de um mysterio extraordinario
+lhe excita a phantasia, torna-se supersticiosa, fraca,
+timida, e foge do rugir de uma folha s&ecirc;cca com a
+precipita&ccedil;&atilde;o
+de quem foge do diabo. Por isso, n&atilde;o admira
+que, oito dias volvidos, sobre a extraordinaria
+appari&ccedil;&atilde;o
+que a todos apavora, ainda at&eacute; agora ninguem
+se haja atrevido a devassar aquelle estranho mysterio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas o que julgam elles que seja?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[351]</span> &#8213;As vers&otilde;es variam. Uns querem que seja a
+alma penada da D. Rita de Briteiros que anda pela
+Senhora do Porto a espiar os seus peccados, que eram
+muitos... Outros pensam que, embora aquelle mysterioso
+vulto apresente f&oacute;rmas humanas, &eacute; comtudo um
+enviado do espirito das trevas para attrahir alli algum
+dos incautos habitantes de Thayde e leval-o em corpo
+e alma para o inferno...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E vossa reverendissima o que diz?&#8213;interrompeu
+Julio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu digo que, se n&atilde;o &eacute; a sombra de alguma
+arvore,
+transformada pelos olhos medrosos dos alde&atilde;os
+de Thayde n'um vulto de mulher sobrenatural, ent&atilde;o
+&eacute; alguma desgra&ccedil;ada a quem o remorso afflige e
+que
+busca na solid&atilde;o da noite e no balsamo da
+ora&ccedil;&atilde;o o
+allivio e perd&atilde;o de suas culpas.
+<br />
+
+<br />
+
+Julio ouvia a estranha noticia, trazida pelo padre,
+com grande curiosidade e interesse. Dir-se-hia que uma
+voz secreta o avisava de que aquelle facto extraordinario,
+apparentemente absurdo e inacreditavel, como
+tantos que a phantasia da gente das aldeias borda a capricho
+nas noites interminaveis do inverno, ao fogo da
+lareira, tinha rela&ccedil;&atilde;o intima com a sua triste
+historia,
+feita de amarguras e de esperan&ccedil;as perdidas.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E acredita, padre Manoel&#8213;disse elle por fim&#8213;que
+a ora&ccedil;&atilde;o, por tal modo, constitua balsamo efficaz
+para as tribula&ccedil;&otilde;es de uma alma alanceada de
+remorsos?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Creio que a ora&ccedil;&atilde;o &eacute; sempre um
+balsamo consolador
+de afflictos&#8213;respondeu o padre.&#8213;Quando nas
+angustias do soffrimento volv&ecirc;mos os olhos &aacute; roda
+de
+n&oacute;s e n&atilde;o encontramos em nada do que os cerca um
+lenitivo &aacute; nossa d&ocirc;r, ent&atilde;o volvemos os
+olhos ao c&eacute;o
+e, pondo em Deus toda a esperan&ccedil;a, achamos o conforto
+e o allivio que nenhuma for&ccedil;a humana p&oacute;de
+dar-nos.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[352]</span> &#8213;Mas n'essa mulher, que os alde&atilde;os de Thayde
+phantasiaram ou realmente viram na Senhora do
+Porto, n&atilde;o ha apenas uma alma crente, buscando na
+ora&ccedil;&atilde;o o balsamo suavissimo da
+esperan&ccedil;a, que as
+coisas terrenas j&aacute; n&atilde;o p&oacute;dem dar-lhe:
+ha uma expia&ccedil;&atilde;o,
+ha um rigor de penitencia, que revela a existencia
+de faltas, erros e talvez crimes, cuja lembran&ccedil;a
+aterra e apavora a propria creatura que os commetteu...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por isso eu disse a v. ex.<sup>a</sup>&#8213;volveu o padre,
+com bondoso sorrir&#8213;que, a ser verdade o que se
+diz, n&atilde;o ha duvida que se trata de uma
+desgra&ccedil;ada,
+atormentada pelo remorso, pedindo o allivio e o perd&atilde;o
+de suas culpas...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se a expia&ccedil;&atilde;o corresponde &aacute;s faltas
+commettidas,
+devem estas ter sido muito grandes para que a
+propria culpada busque expial-as por semelhante modo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;S&oacute; Deus l&ecirc; no cora&ccedil;&atilde;o da
+creatura e s&oacute; Elle
+p&oacute;de julgar com justi&ccedil;a dos erros de cada um...
+Em
+todo o caso, o que &eacute; evidente &eacute; que estamos em
+frente
+de uma creatura desgra&ccedil;ada e como tal merecedora
+da nossa compaix&atilde;o...
+<br />
+
+<br />
+
+Julio calou-se por alguns instantes, parecendo
+meditar nas palavras do sacerdote.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Aacute;s vezes&#8213;concluiu por fim&#8213;a
+imagina&ccedil;&atilde;o
+exagera em n&oacute;s a gravidade de erros commettidos,
+avultando-os at&eacute; os fazer tomar as
+propor&ccedil;&otilde;es de crimes
+horrorosos que nos apavoram e mortificam...
+P&oacute;de ser que essa pobre creatura seja uma d'estas
+allucinadas que, por um excesso de sensibilidade
+doentia, se julgam culpadas de crimes que n&atilde;o commetteram...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tudo p&oacute;de ser&#8213;tornou o sacerdote&#8213;Na minha
+opini&atilde;o, toda a penitencia significa arrependimento
+e todo o arrependimento affirma a existencia de uma
+alma b&ocirc;a, embora um momento transviada do recto
+<span class="pagenum">[353]</span>
+caminho pelo diabolico poder das paix&otilde;es... Alma
+feita para o mal e endurecida no crime n&atilde;o experimenta
+arrependimento. P&oacute;de simulal-o, &eacute; certo, por
+m&ecirc;do ao castigo, mas, em tal caso, n&atilde;o busca as
+sombras
+da noite nem a solid&atilde;o dos logares desertos para
+exercitar o seu fingimento... Pelo contrario, ostenta-se
+publicamente &aacute; luz do dia, prostra-se nos templos,
+em face dos altares, aos olhos de todos aquelles
+a quem quer illudir... derrama lagrimas fingidas,
+bate murros no peito, grita que tudo, espera de Deus
+e tem o diabo a rir no cora&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o
+&eacute; d'esta natureza
+a mysteriosa penitente que traz sobresaltados os
+habitantes de Thayde, creio eu, porque desapparece
+e esconde-se, aos primeiros clar&otilde;es da aurora, nas
+covas do monte, sem que ninguem conhe&ccedil;a onde se
+occulta.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que &eacute; estranho&#8213;ponderou Julio&#8213;&eacute; que
+ninguem at&eacute; agora se lembrasse de verificar se realmente
+se trata de uma creatura humana, ou se tudo
+isso n&atilde;o passa de uma absurda fic&ccedil;&atilde;o
+de espiritos
+broncos... Porque n&atilde;o ir&aacute; o proprio regedor com
+os
+seus cabos proceder a uma diligencia n'esse sentido?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Disse-me o Joaquimsinho de Thayde que o regedor
+&eacute; o primeiro a recolher a casa ao cahir da noite,
+tomado de um terror supersticioso... Para aquella
+gente, &eacute; ponto de f&eacute; que se trata da D. Rita de
+Briteiros,
+morta ha dois mezes, com fama de ter envenenado
+o irm&atilde;o e a cunhada para lhes herdar os bens.
+E o regedor de Thayde n&atilde;o quer nada com almas do
+outro mundo..
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que me parece&#8213;opinou D. Aurelia&#8213;&eacute; que
+tudo isso n&atilde;o passa de uma grosseira
+inven&ccedil;&atilde;o d'algum
+malevolo inimigo da D. Rita, que nem mesmo
+depois de morta quer deixar-lhe o descan&ccedil;o da sepultura...
+O sr. padre Manoel n&atilde;o ignora quanto &eacute;
+m&aacute;
+e &aacute;s vezes profundamente perversa esta gente da aldeia,
+<span class="pagenum">[354]</span>
+perseguindo com os seus odios, ainda al&eacute;m da
+campa, aquelles que em vida lhe n&atilde;o mereceram
+sympathias...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim, &eacute; certo&#8213;concordou o padre Manoel&#8213;e
+creio bem que a sr.<sup>a</sup> D. Aurelia tem
+raz&atilde;o em pensar
+assim, tanto mais que a D. Rita&#8213;Deus lhe perd&ocirc;e!&#8213;era
+geralmente odiada, e supponho que com algum
+motivo...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Devemos perdoar aos mortos&#8213;tornou D. Aurelia
+n'um tom de suave recrimina&ccedil;&atilde;o&#8213;pois
+n&atilde;o &eacute;
+justo que vamos revolver-lhes o p&oacute; da sepultura para
+desenterrar crimes de que a justi&ccedil;a humana lhes
+n&atilde;o
+tirou contas e que, affectos ao tribunal da justi&ccedil;a divina,
+s&oacute; a Deus pertence julgar...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu tambem concordo, minha senhora&#8213;replicou
+o padre Manoel&#8213;que devemos perdoar aos mortos
+e deixal-os repousar na eterna paz do sepulchro.
+Todavia, n&atilde;o deixo de reconhecer que esta deshumana
+e talvez impiedosa crueldade do povo para os que
+se finaram e que em vida n&atilde;o seguiram as normas
+do bem e da virtude, tem um alto fim moralisador,
+qual &eacute; o de dizer aos que ficam que os seus crimes
+nem mesmo depois da morte obteem o perd&atilde;o e o esquecimento
+do mundo...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas quantas abus&otilde;es, quantos erros, quantos
+absurdos e quantas injusti&ccedil;as lan&ccedil;adas sobre a
+memoria
+de pessoas erroneamente julgadas pela opini&atilde;o,
+sempre fallivel, do vulgo ignaro?&#8213;interrompeu Julio&#8213;O
+sr. padre Manoel n&atilde;o ignora decerto que, por
+via de regra, n&atilde;o s&atilde;o os peores aquelles que o
+povo
+aponta como maus...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;<em>Vox populi, vox Dei</em>... A voz do
+povo &eacute; a
+voz de Deus&#8213;argumentou o padre Manoel, repetindo
+o proloquio latino.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas tambem <em>vox populi, vox
+diaboli</em>...&#8213;retrucou
+Julio&#8213;E mais vezes &eacute; a voz do povo a voz
+<span class="pagenum">[355]</span>
+do diabo, do que a voz de Deus. Depois, vossa reverendissima
+bem sabe, argumentar com supersti&ccedil;&otilde;es absurdas,
+com appari&ccedil;&otilde;es sobrenaturaes de almas penadas,
+&eacute; uma cobardia t&atilde;o abjecta e repugnante, que
+s&oacute; tem
+desculpa na estupidez do vulgo semelhante f&oacute;rma de
+castigo infligido aos mortos!
+<br />
+
+<br />
+
+O padre Manoel n&atilde;o insistiu, limitando-se a responder:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isto j&aacute; vem assim do principio do mundo...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E porque vem assim, devemos n&oacute;s consentir
+que assim continue? N&atilde;o me parece justo. Illustremos
+o povo, desfa&ccedil;amos-lhe erros e abus&otilde;es em que
+vive.
+Procuremos conduzil-o ao caminho do bem pela consciencia
+do dever e n&atilde;o por principios erroneos de
+supersti&ccedil;&atilde;o
+absurda. E, pois, que em Thayde n&atilde;o ha
+alguem sufficientemente sensato e honesto para dar
+um exemplo de dignidade humana, eu irei esta noite
+mesmo &aacute; Senhora do Porto investigar o que ha de
+verdade na mysteriosa appari&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois quer aventurar-se, por uma noite d'estas, a
+ir d'aqui &aacute; Senhora do Porto!&#8213;observou D. Aurelia,
+espantada.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E porque n&atilde;o?&#8213;respondeu Julio&#8213;Conhe&ccedil;o o
+caminho e o meu cavallo &eacute; seguro. Dentro de uma
+hora, estarei l&aacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; uma imprudencia!&#8213;reprovou o padre Manoel&#8213;V.
+ex.<sup>a</sup> sabe que as nossas estradas s&atilde;o
+mal
+frequentadas de noite...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estou habituado a toda a especie de encontros.
+Na minha mocidade fiz muitas vezes o caminho, de
+noite, de Braga para Lanhoso, e era no tempo do
+Papa Assucar...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A mysteriosa appari&ccedil;&atilde;o&#8213;tornou o padre
+Manoel&#8213;p&oacute;de
+mesmo n&atilde;o ser mais do que o pretexto para
+uma cilada.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Uma cilada, a mim!&#8213;exclamou Julio&#8213;N&atilde;o
+<span class="pagenum">[356]</span>
+ha nada menos provavel... Quem poderia esperar
+que eu, vivendo em S. Martinho do Campo, me importasse
+com o que se passa de noite na Senhora do
+Porto?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o digo que seja uma cilada propositadamente
+armada para v. ex.<sup>a</sup>. Mas &eacute; sempre um
+perigo ir
+a gente metter-se nas ratoeiras armadas para outros&#8213;aconselhou
+prudentemente o padre.
+<br />
+
+<br />
+
+Julio sorriu desdenhoso.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Seja como f&ocirc;r&#8213;decidiu elle&#8213;irei certificar-me
+do que se trata. Se &eacute; um conluio de malfeitores
+que pretendem por esta f&oacute;rma espalhar o terror no
+sitio e apavorar os credulos habitantes de Thayde,
+para mais &aacute; vontade effectuarem o assalto e o roubo,
+a auctoridade ficar&aacute; sabendo com quem tem de se haver.
+Se, pelo contrario, &eacute; uma creatura infeliz, uma
+existencia desgra&ccedil;ada que busca na penitencia e na
+ora&ccedil;&atilde;o o remedio para as d&ocirc;res da alma,
+&eacute; uma obra
+de caridade levar-lhe o balsamo da piedade e da compaix&atilde;o
+como lenitivo a tanto soffrer.
+<br />
+
+<br />
+
+E consultando o relogio d'algibeira:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;S&atilde;o 10 horas&#8213;disse elle&#8213;Vou partir. Se antes
+da meia noite n&atilde;o estiver de volta, amanh&atilde; de
+manh&atilde; poder&aacute; vossa reverendissima ouvir em minha
+casa a narra&ccedil;&atilde;o fiel do que tiver acontecido.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Repare, meu amigo&#8213;tentou impedir D. Aurelia&#8213;que
+a noite est&aacute; tempestuosa e que vae p&ocirc;r em
+perigo a sua saude, bastante abalada.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A minha existencia&#8213;replicou Julio com amargura&#8213;ha
+muito que decorre batida pelos vendavaes
+do infortunio. Que importa uma noite de chuva a
+quem traz a alma obscurecida n'uma perpetua noite
+de tempestuosas desgra&ccedil;as? At&eacute; amanh&atilde;!
+Nada receiem
+por mim, que eu vou preparado para tudo.
+<br />
+
+<br />
+
+E sahiu, na resolu&ccedil;&atilde;o inabalavel de cumprir o que
+dizia.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p357">[357]</a></span>
+<h3><a name="c23"></a>XXIII<br />
+
+<br />
+
+Allucina&ccedil;&atilde;o
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+No dia seguinte de manh&atilde;, D. Aurelia e o padre
+Manoel, movidos da extraordinaria curiosidade de saberem
+o resultado da audaciosa aventura de Julio de
+Montarroyo, correram a casa d'este com o fim de o
+interrogarem.
+<br />
+
+<br />
+
+O excentrico apaixonado de Helena de Noronha
+estava no leito ardendo em febre.
+<br />
+
+<br />
+
+Ao v&ecirc;r entrar D. Aurelia e o padre Manoel, estendeu
+os bra&ccedil;os para elles, exclamando:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; horrivel, meus amigos, &eacute; <a href="#e42">horrivel</a>!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como assim! Viu <a href="#e43">alguma</a>
+coisa?&#8213;interrogou
+o padre com espanto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vi... vi!...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E ent&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o... oh! n&atilde;o posso dizer-lhes o que vi...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Malfeitores por certo...&#8213;aventurou D. Aurelia&#8213;teve
+de bater-se com elles...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o... n&atilde;o!&#8213;contradisse o doente com
+vehemencia&#8213;N&atilde;o
+se trata de malfeitores... Ha effec &#8213;N&atilde;o... n&atilde;o!&#8213;contradisse o doente com
+vehemencia&#8213;N&atilde;o
+se trata de malfeitores... Ha effectivamente
+alli uma creatura extraordinariamente desgra&ccedil;ada,
+um ser mysterioso que tem alguma coisa
+<span class="pagenum">[358]</span>
+de sobrenatural e phantastico, impossivel de reconhecer...
+<br />
+
+<br />
+
+Padre Manoel e D. Aurelia trocaram um rapido
+olhar como se quizessem significar um ao outro que
+havia talvez motivo para duvidar da integridade
+mental do seu interlocutor.
+<br />
+
+<br />
+
+Julio, com os olhos brilhantes e a face afogueada
+pela febre, n'uma grande agita&ccedil;&atilde;o, proseguiu:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fui. A noite estava realmente tempestuosa e
+horrivel. Atravessei Quintella sob uma chuva violenta
+e, quando cheguei a Thayde, o temporal desencadeou-se
+n'um vendaval desfeito. Ainda assim, n&atilde;o
+parei. O meu fito era ganhar a Senhora do Porto e
+surprehender o mysterioso vulto no extasis da
+ora&ccedil;&atilde;o.
+Chegando ao sop&eacute; do sanctuario, apeei-me, prendi o
+cavallo a uma arvore e, envolto na minha capa, com
+o revolver engatilhado, fui subindo lentamente o escadorio,
+at&eacute; &aacute; crista do monte onde se ergue o
+templo da Senhora... A treva era profunda e eu
+mal poderia divisar quem quer que fosse, por muito
+perto que estivesse de mim, se a luz dos relampagos,
+fendendo a miudo o espa&ccedil;o, me n&atilde;o illuminasse o
+caminho.
+No alto, tudo estava em silencio e tudo deserto...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o viu, portanto, pessoa alguma?&#8213;interrogou
+o padre Manoel.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quando cheguei, n&atilde;o vi. Mas, pensando que
+talvez a tempestade tivesse retardado a vinda &aacute; penitente,
+resolvi-me a esperar alli, at&eacute; de manh&atilde;, para
+poder testemunhar com verdade at&eacute; que ponto os terrores
+da gente de Thayde tinham fundamento, ou ent&atilde;o
+que todas essas atoardas de uma phantastica
+appari&ccedil;&atilde;o
+n&atilde;o passavam de grosseira patranha de torpes
+invencioneiros. Passei assim mais de uma hora,
+encostado &aacute; porta principal do templo, sem fazer um
+movimento, quasi sem respirar.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[359]</span> &#8213;Que estranha imprudencia a sua, sr. Julio de
+Montarroyo!&#8213;n&atilde;o p&ocirc;de deixar de exclamar a
+irm&atilde;
+de Gustavo.&#8213;Se n&atilde;o estava ninguem no local, como
+p&ocirc;de permanecer tanto tempo encostado ao templo,
+debaixo d'um temporal desabrido, provocando um arrefecimento
+que podia prejudicar-lhe a saude?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Morrer hoje ou morrer amanh&atilde;, que importa,
+minha senhora, quando n&atilde;o sentimos o menor ap&ecirc;go
+&aacute;
+vida? Eu tinha ido alli para desvendar um mysterio
+ou desfazer uma illus&atilde;o de espiritos ingenuos e credulos.
+O meu dever era ficar e fiquei... Ainda bem
+que fiquei, porque, uma hora passada, os meus olhos,
+habituados &aacute; escurid&atilde;o, viram mover-se na treva
+da
+noite um vulto que se aproximava lentamente do
+portico a que eu me encostava.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o sempre era certo!&#8213;exclamou o abbade
+triumphante.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Certissimo. O vulto, que n&atilde;o suspeitava a minha
+presen&ccedil;a alli, a semelhante hora, chegou junto
+do primeiro degrau do templo, ajoelhou e n'um grito
+lancinantissimo, implorou a morte &aacute; Senhora do Porto!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A morte!&#8213;exclamaram a um tempo D. Aurelia
+e o padre Manoel.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A morte, sim!&#8213;confirmou Julio&#8213;Era uma
+voz de mulher, lamentosa e d&ocirc;ce, e de tal modo parecida
+com... com outra voz que eu j&aacute; tinha ouvido,
+que todo me senti estremecer e fiquei como que pregado
+&aacute; porta do templo! Essa voz repetia por entre
+gemidos, com a face collada no degrau da egreja:&#8213;&laquo;Senhora
+do Porto! M&atilde;e Misericordiosa! ouve a
+minha supplica, d&aacute; por terminado o martyrio da minha
+existencia, leva para ti esta miseravel creatura!&raquo;&#8213;
+<br />
+
+<br />
+
+Depois solu&ccedil;os e gemidos abafados seguiram-se a
+estas palavras...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; singular!&#8213;disse D. Aurelia.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[360]</span> &#8213;E extraordinario!&#8213;accrescentou o padre Manoel.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o posso dizer-lhes, meus amigos, o que se
+passou em mim... Tomado do sagrado respeito que
+inspiram os grandes desgra&ccedil;ados que s&oacute; ao
+c&eacute;o dirigem
+as suas supplicas, permaneci por alguns minutos
+mudo e immovel como uma estatua. Todavia, cada um
+d'aquelles gemidos penetrava no meu cora&ccedil;&atilde;o como
+uma lamina de a&ccedil;o. Identifiquei-me de tal modo com
+aquella d&ocirc;r, que cheguei a pensar que conhecia de
+ha muito tempo a infeliz creatura que alli jazia prostrada
+e que a minha presen&ccedil;a devia ser-lhe como que
+o apparecimento de um irm&atilde;o querido. Ent&atilde;o, sem
+pensar no que fazia, recordei um nome, o nome de
+uma mulher que eu conhecia e que devia ser aquella
+mesma:
+&laquo;Helena!&raquo;&#8213;bradei-lhe&#8213;&laquo;Helena!&raquo;&#8213;e
+desloquei-me
+da porta do templo descendo um degrau.
+Ao ouvir este nome, a mysteriosa creatura soltou um
+grito de terror, levantou-se espavorida e fugiu...
+Corri em seu seguimento, mas a escurid&atilde;o da noite e a
+incerteza do caminho n&atilde;o me permittiram
+alcan&ccedil;al-a...
+Sumiu-se. Procurei-a toda a noite chamando-a em altos
+brados, dizendo-lhe o meu nome, por&eacute;m tudo foi baldado!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o p&ocirc;de ent&atilde;o conhecer quem
+f&ocirc;sse a estranha
+penitente?&#8213;aventurou-se a dizer D. Aurelia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Os meus olhos n&atilde;o puderam distinguir-lhe as
+fei&ccedil;&otilde;es, mas o meu cora&ccedil;&atilde;o
+reconheceu-a. Era Helena,
+era a filha de Norberto de Noronha, a antiga herdeira
+d'esta casa, a penitente que eu surprehendi esta
+noite em Nossa Senhora do Porto!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Talvez se enganasse, meu amigo... Se fosse
+ella, para que fugiria ouvindo que a chamavam pelo
+seu verdadeiro nome e que quem assim a tratava
+era por for&ccedil;a uma pessoa amiga?&#8213;retorquiu D. Aurelia.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[361]</span> &#8213;De noite todos os gatos s&atilde;o pardos&#8213;philosophou
+plebeiamente o padre Manoel&#8213;J&aacute; uma noite,
+vindo eu das Caldas, vi debru&ccedil;ado sobre o muro da
+estrada um homem com uma fouce ro&ccedil;adoura na m&atilde;o,
+como quem se preparava para me abrir a cabe&ccedil;a de
+meio a meio quando eu fosse a passar. Suspeitando
+que fosse algum ladr&atilde;o, sustei a egua e disse ao meliante
+que sahisse d'alli porque queria passar. O vulto
+n&atilde;o respondeu e agitou com mais for&ccedil;a a fouce
+ro&ccedil;adoura n'uma silenciosa amea&ccedil;a. Eu
+ent&atilde;o era
+rapaz. Desesperado por aquella insistente audacia,
+puxei de um revolver e intimei tres vezes o meu
+aggressor a retirar-se d'alli sob pena de lhe mandar
+uma bala. N&atilde;o obedeceu e eu ent&atilde;o dei ao
+gatilho&#8213;pum!
+pum! pum!&#8213;e mal vi que elle deixara
+cahir a foice com que me amea&ccedil;ava, metti esporas
+&aacute; egua e cheguei n'um galope a casa. Ao outro
+dia fiquei muito admirado de n&atilde;o ouvir fallar do
+caso de apparecer algum homem morto na estrada e,
+depois do meio dia, montei a cavallo e l&aacute; fui eu
+muito disfar&ccedil;adamente estudar o sitio onde tinha tido
+o terrivel encontro... N&atilde;o lhes minto se lhes disser
+que fiquei envergonhado ao reconhecer que o malfeitor
+contra quem eu tinha disparado era um carvalho inoffensivo
+que bracejava para f&oacute;ra do muro uma das
+suas vergonteas, a tal que eu tom&aacute;ra por uma foice
+ro&ccedil;adoura e que l&aacute; est&aacute;va cahida na
+estrada, cortada
+pela bala do meu revolver... De noite, a gente v&ecirc;
+coisas extraordinarias, que n&atilde;o passam de ordinarissimas
+coisas, observadas de dia, &aacute; luz do sol...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sr. padre Manoel&#8213;protestou Julio, agitado
+pela febre e deveras irritado pela incredulidade insultuosa
+do padre&#8213;fa&ccedil;a-me a fineza de acreditar que
+eu nem vinha das Caldas nem sentia a pesar-me no
+espirito o m&ecirc;do deprimente de uma foice ro&ccedil;adoura,
+quando vi aproximar-se de mim a penitente de que
+<span class="pagenum">[362]</span>
+se trata. Estava tranquillo como v. s.<sup>a</sup> o
+est&aacute; agora
+e tinha o entendimento t&atilde;o claro como v. s.<sup>a</sup>
+o
+p&oacute;de
+ter&#8213;logo de manh&atilde;, em jejum, quando vae para o
+altar dizer missa.
+<br />
+
+<br />
+
+O padre Manoel, que n&atilde;o era tolo, inclinou a
+cabe&ccedil;a
+n'um sorriso bondoso e apressou-se a dizer:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o foi meu proposito p&ocirc;r em duvida a veracidade
+da sua narrativa, sr. Julio de Montarroyo...
+Creio que v. ex.<sup>a</sup> visse e ouvisse tudo o que
+diz, mas
+podia muito bem acontecer que, por uma illus&atilde;o que
+a noite favorecia, tomasse como sendo a filha de Norberto
+de Noronha uma outra pessoa bem differente...
+Era simplesmente n'este ponto que a confus&atilde;o podia
+dar-se...
+<br />
+
+<br />
+
+Julio aquietou-se um pouco com esta explica&ccedil;&atilde;o
+do padre.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tambem n&atilde;o affirmo que fosse ella&#8213;disse&#8213;mas
+tenho a convic&ccedil;&atilde;o intima, profunda, de que
+n&atilde;o &eacute;
+outra.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E agora o que tenciona fazer, sr. Julio?&#8213;perguntou
+D. Aurelia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Voltar l&aacute;. Procurei-a durante a noite at&eacute; de
+manh&atilde;. Bati o monte em todas as
+direc&ccedil;&otilde;es, observei-o
+em todos os recantos, e n&atilde;o pude atinar com o
+sitio em que ella se occultou. Todavia, &eacute; certo que
+ella se escondeu alli, porque nem teria for&ccedil;as para
+me fugir n'uma longa caminhada a p&eacute;, nem a vereda
+que seguiu lhe permittiria poder andar muito tempo
+a descoberto, sem que eu a encontrasse.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas&#8213;observou D. Aurelia&#8213;se a mysteriosa
+penitente, surprehendida por v. ex.<sup>a</sup>, fugiu,
+&eacute; que
+n&atilde;o
+quer ser vista; e sabendo que &eacute; conhecida a sua frequencia
+n'aquelle sitio, &aacute;quella hora, certamente n&atilde;o
+voltar&aacute; l&aacute; com receio de ser novamente
+surprehendida...
+M&oacute;rmente se v. ex.<sup>a</sup> acertou
+chamando-lhe pelo
+nome verdadeiro...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[363]</span> &#8213;Sim, &eacute; certo..&#8213;concordou Julio&#8213;mas eu
+tenho de cumprir o meu dever que me manda procurar
+v&ecirc;l-a outra vez, fallar-lhe e concorrer quanto
+possivel para p&ocirc;r termo &aacute;quelle soffrimento.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tenciona, pois, voltar l&aacute; esta noite?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tenciono.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Afigura-se-me trabalho inutil, sacrificio baldado.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Porque?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pelas raz&otilde;es que j&aacute; lhe disse. Se &eacute;
+realmente
+Helena de Noronha e n&atilde;o quer tornar conhecida a
+sua presen&ccedil;a, esta noite evitar&aacute; apparecer junto
+do
+templo onde sabe que &eacute; esperada pela pessoa que a
+reconheceu e lhe chamou pelo nome...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que devo fazer ent&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esperar que ella, perdido o receio, volte a apparecer
+regularmente, e tomar todas as medidas para
+a seguir de longe at&eacute; lhe descobrir o paradeiro.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; o que se me afigura mais prudente e mais
+acertado&#8213;approvou
+o padre Manoel.&#8213;Demais, o sr. Julio
+de Montarroyo est&aacute; n'um estado tal de
+excita&ccedil;&atilde;o
+febril, que uma segunda noite passada como a primeira
+p&oacute;de alterar-lhe profundamente a saude. Eu me
+encarrego, se v. ex.<sup>a</sup> quer, de mandar vigiar o
+local,
+e saber se a penitente continua a apparecer l&aacute;...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Com a condi&ccedil;&atilde;o, por&eacute;m, de que
+n&atilde;o h&atilde;o de perturbal-a
+na sua ora&ccedil;&atilde;o nem afugental-a d'aquelle
+sitio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A recommenda&ccedil;&atilde;o &eacute; inutil. Descance
+v. ex.<sup>a</sup>
+que tambem eu e a sr.<sup>a</sup> D. Aurelia estamos com
+verdadeiro
+interesse em saber quem &eacute; a mysteriosa creatura
+de que se trata. Prometta-me que n&atilde;o sahir&aacute;
+esta noite a exp&ocirc;r a saude a um verdadeiro perigo,
+e
+amanh&atilde; ficar&aacute; sabendo com certeza se a penitente
+voltou ao templo.
+<br />
+
+<br />
+
+Combinadas as coisas d'este modo, despediram-se
+os dois do doente, recommendando-lhe socego e promettendo
+<span class="pagenum">[364]</span>
+voltar no dia seguinte a informal-o do que
+tivesse occorrido.
+<br />
+
+<br />
+
+J&aacute; c&aacute; f&oacute;ra, disse o padre Manoel
+&aacute; D. Aurelia:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E que lhe parece a v. ex.<sup>a</sup> este caso
+extraordinario
+que acabamos de ouvir?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Parece-me&#8213;respondeu a irm&atilde; de Gustavo&#8213;que
+o nosso pobre amigo tem raz&atilde;o para estar bastante
+sobreexcitado com o que lhe succedeu.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E v. ex.<sup>a</sup> acredita que elle visse
+l&aacute; alguem?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Acredito... Porque n&atilde;o hei de acreditar, se o
+que elle conta &eacute; a confirma&ccedil;&atilde;o dos
+boatos de que
+v. s.<sup>a</sup> se fez echo?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh, minha senhora! mas repare v. ex.<sup>a</sup> que:
+eu apenas contei como extravagante phantasia dos habitantes
+de Thayde o rum&ocirc;r que corria entre elles de
+que apparecia na Senhora do Porto uma alma do outro
+mundo.. a alma da D. Rita de Briteiros.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas v. s.<sup>a</sup> n&atilde;o cr&ecirc; nas
+almas do outro mundo; e
+certamente n&atilde;o recusar&aacute; acreditar que a estranha
+appari&ccedil;&atilde;o tenha realmente um fundo de verdade, e
+que, em vez de ser uma alma penada, seja uma creatura
+em corpo e alma, como tantas que, batidas pela
+desgra&ccedil;a irremediavel, fogem dos povoados para habitarem
+os logares desertos, entregando-se &aacute;
+ora&ccedil;&atilde;o e &aacute;
+penitencia!...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Custa-me muito menos a cr&ecirc;r que o nosso amigo,
+allucinado pela febre e pela estranha situa&ccedil;&atilde;o em
+que se encontrava, &aacute;quella hora e em semelhante local
+por uma noite t&atilde;o tormentosa, foi victima de uma
+allucina&ccedil;&atilde;o
+e julgou v&ecirc;r o que n&atilde;o viu nem podia,
+v&ecirc;r... N&atilde;o reparou v. ex.<sup>a</sup>
+que elle tinha as
+faces
+afogueadas e os olhos brilhantes da febre? Quem nos
+diz a n&oacute;s que tudo aquillo n&atilde;o ser&aacute; o
+delirio da doen&ccedil;a?
+O mais acertado parecia-me chamar o medico...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Conhece Julio de Montarroyo e sabe a
+organisa&ccedil;&atilde;o
+nervosa e irritavel que elle &eacute;... Se lhe mandamos
+<span class="pagenum"><a name="p365">[365]</a></span>
+o doutor sem elle o reclamar, &eacute; muito capaz de
+n&atilde;o o receber e de se offender comnosco...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para tudo ha meio, minha senhora... Contamos
+ao doutor o que se <a href="#e44">passou</a> e
+elle simular&aacute; um motivo
+qualquer para lhe ir fallar, sem ser o da doen&ccedil;a...
+Por exemplo: pedir-lhe o seu concurso para
+qualquer obra de beneficencia... ou pedir-lhe
+informa&ccedil;&otilde;es
+sobre qualquer instituto medico das grandes
+cidades que elle percorreu... Qualquer pretexto serve.
+O que n&atilde;o devemos &eacute; deixal-o abandonado dos
+soccorros medicos, porque o pobre homem, se j&aacute; tinha
+<em>falha</em> antes d'este caso, agora, com
+a mania de que
+viu a filha de Norberto de Noronha, &eacute; muito capaz
+de ensandecer de todo...
+<br />
+
+<br />
+
+D. Aurelia intimamente revoltada contra esta
+aprecia&ccedil;&atilde;o do padre, teve bastante
+for&ccedil;a em si para
+responder apenas:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Durante o tempo que tenho tratado com o sr.
+Julio de Montarroyo, ainda n&atilde;o pude colher elementos
+que me auctorisassem a duvidar da sua lucidez
+de espirito e da perfeita regularidade das suas faculdades
+mentaes... Se agora me pareceu n'um estado
+de excita&ccedil;&atilde;o febril, acho natural que assim
+succeda
+depois da noite tempestuosa que passou e do violento
+abalo que devia ter-lhe causado a appari&ccedil;&atilde;o falsa
+ou
+verdadeira da estranha penitente que elle diz ter visto...
+Como quer que seja, sr. padre Manoel, a doen&ccedil;a
+de que presentemente soffre o sr. Julio de Montarroyo
+n&atilde;o &eacute; d'aquellas que se curam com synapismos
+e xaropes receitados pelo medico.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que quer ent&atilde;o v. ex.<sup>a</sup> que se
+fa&ccedil;a?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que v. s.<sup>a</sup> cumpra o que prometteu... Que
+encarregue alguem de sua confian&ccedil;a para vigiar o
+templo da Senhora do Porto e v&ecirc;r se realmente Julio
+de Montarroyo tem raz&atilde;o e os habitantes de Thayde
+tambem...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p366">[366]</a></span>
+O padre Manoel encolheu os hombros:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois v. ex.<sup>a</sup> julga...?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Julgo que ha de haver um motivo para que
+tal boato se espalhasse, como creio que o sr. Julio de
+Montarroyo era incapaz de vir affirmar coisas que
+n&atilde;o tivessem succedido, ou que pelo menos se lhe
+n&atilde;o
+tivessem affigurado... O nosso dever, pois, &eacute; tirarmo-nos
+de duvidas e esclarecer quanto possivel este
+mysterio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; bem! Se v. ex.<sup>a</sup> assim o
+deseja, mandarei o
+Jo&atilde;o Mil-homens, que &eacute; arrojado e valente, e
+n&atilde;o cr&ecirc;
+em almas do outro mundo, rondar a Senhora do Porto,
+esta noite e todas as outras que se lhe seguirem,
+at&eacute; n&atilde;o restar duvida de que n&atilde;o
+apparece l&aacute; viva
+alma...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por&eacute;m, que isso se fa&ccedil;a em segredo, com a
+maxima prudencia e cautella, para n&atilde;o causar alarme
+na povoa&ccedil;&atilde;o nem dar logar a que a mysteriosa
+penitente se afaste d'estes sitios.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fique v. ex.<sup>a</sup> descan&ccedil;ada, que o
+Mil-homens &eacute;
+fino como uma raposa e tem o faro de um c&atilde;o de
+ca&ccedil;a para descobrir o esconderijo da tal creaturinha,
+onde quer que ella se occulte. Vou j&aacute; d'aqui prevenil-o
+e estou bem certo que n&atilde;o ha nada, ou, se ha
+alguma coisa, n&atilde;o levar&aacute; muito tempo que
+n&atilde;o saibamos
+tudo.
+<br />
+
+<br />
+
+O alde&atilde;o encarregado pelo padre Manoel de vigiar
+durante muitas noites seguidas o templo e
+immedia&ccedil;&otilde;es
+da Senhora do Porto nada p&ocirc;de observar que
+confirmasse a narrativa de Julio de Montarroyo, nem
+sequer os boatos que corriam entre os alde&atilde;os de
+Thayde.
+<br />
+
+<br />
+
+O padre Manoel sorria vaidosamente sceptico ao
+relatar &aacute; D. Aurelia os baldados <a href="#e45">esfor&ccedil;os</a>
+empregados
+pelo Mil-homens para descobrir a penitente e dizia:
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[367]</span> &#8213;S&atilde;o tudo imagina&ccedil;&otilde;es, minha senhora,
+s&atilde;o tudo
+imagina&ccedil;&otilde;es... Eu j&aacute; sei o que isto
+&eacute;: um v&ecirc; uma
+sombra e diz que &eacute; um homem; outro olha e v&ecirc; um
+gigante. Vem um terceiro e affirma logo que &eacute; um
+gigantarr&atilde;o e jura at&eacute; que o ouviu fallar!
+Sabidas
+as
+contas, vae-se a v&ecirc;r e n&atilde;o &eacute; nada... Eu
+sempre disse
+que este sr. Julio de Montarroyo era boa pessoa, mas
+tinha qualquer propens&atilde;o para visionario...
+<br />
+
+<br />
+
+D. Aurelia defendia o apaixonado de Helena.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; certo&#8213;dizia ella&#8213;que o sr. Julio de Montarroyo
+&eacute; dominado por uma paix&atilde;o violenta que
+quasi constitue n'elle uma doen&ccedil;a incuravel. Mas
+n&atilde;o
+creio que esse estado d'alma o excite e lhe altere por
+tal modo as faculdades, que o fa&ccedil;a imaginar coisas
+que n&atilde;o v&ecirc; nem ouve... Isso seria a loucura, e o
+seu entendimento &eacute; por demais lucido para o
+supp&ocirc;rmos
+um allucinado...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Valha-me Deus! n&atilde;o digo que elle esteja doido
+varrido... Elle conhece as pessoas e sabe o que
+diz... Mas n'este caso, minha senhora, tenha v. ex.<sup>a</sup>
+paciencia, eu julgo que elle viu tanto a tal penitente
+como eu vi os milagres de Santo Antonio...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas acredita n'elles!...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Acredito, que &eacute; o meu dever...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois ent&atilde;o acredite tambem o sr. padre Manoel
+nos factos narrados pelo sr. Julio de Montarroyo, por
+muito inverosimeis que elles lhe pare&ccedil;am... Note
+v. s.<sup>a</sup> que elle n&atilde;o diz que
+pr&eacute;gou aos peixinhos
+e
+que elles o ouviram devotamente com muita
+atten&ccedil;&atilde;o,
+nem affirma que fez levantar Norberto de Noronha
+da sepultura para dizer quem o matou... Conta simplesmente
+que viu uma pobre mulher prostrada nos
+degraus de um templo, invocando a Senhora do Porto
+para que lhe d&eacute;sse a morte... Isto n&atilde;o
+&eacute; t&atilde;o inverosimil,
+acho eu, que repugne acreditar-se...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[368]</span> &#8213;Minha senhora&#8213;volveu o padre Manoel fungando
+uma pitada&#8213;o sr. Julio de Montarroyo n&atilde;o
+&eacute; santo Antonio nem tem como aquelle santo reconhecidas
+auctoridades theologicas a abonar-lhe a veracidade
+dos casos que lhe succedem ou que diz haverem-lhe
+succedido. Demais, minha senhora, S. Thom&eacute;
+tambem precisou de v&ecirc;r para cr&ecirc;r... Ora eu
+j&aacute; me
+contentava, para cr&ecirc;r, com o testemunho do Jo&atilde;o
+Mil-homens, que n&atilde;o &eacute; nenhum doutor da egreja,
+mas
+que &eacute; homem capaz de averiguar se uma coisa que
+v&ecirc; &eacute; pau ou &eacute; pedra. Mas o
+Jo&atilde;o Mil-homens diz que
+n&atilde;o viu nada na Senhora do Porto... Ora se elle
+n&atilde;o viu nada, como &eacute; que os outros podem ter
+visto?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; possivel e at&eacute; provavel que a
+estranha creatura
+cuja existencia real o sr. padre Manoel p&otilde;e em
+duvida, ao v&ecirc;r-se surprehendida na sua
+ora&ccedil;&atilde;o pelo
+sr. Julio de Montarroyo, tivesse receio de ser novamente
+encontrada e reconhecida e resolv&ecirc;sse mudar
+de sitio e fugir para bem longe...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;P&oacute;de ser&#8213;acquiesceu o padre Manoel, incredulo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;No emtanto, e seja como f&ocirc;r, v. s.<sup>a</sup>
+faz-me o
+obsequio de continuar a mandar vigiar o local. Eu
+me encarrego de gratificar o Mil-homens pelo trabalho
+que lhe est&aacute; incumbido.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para l&aacute; vae todas as noites. Mas creia v. ex.<sup>a</sup>
+que tanto faz ir como estar na cama... O homem,
+n&atilde;o p&ocirc;de v&ecirc;r l&aacute; pessoa
+alguma, pela simples raz&atilde;o de
+nunca l&aacute; ter estado de noite essa tal penitente imaginaria
+que se diz... Os tempos de f&eacute; acabaram, minha
+senhora, e quem reza gosta de o fazer com
+ostenta&ccedil;&atilde;o,
+&aacute; luz do dia, diante de toda a gente... n&atilde;o se
+vae p&ocirc;r de noite, como os mochos e as corujas que
+chupam o azeite das lampadas, a piar miserias &aacute;
+porta dos templos desertos...
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[369]</span>
+<h3><a name="c24"></a>XXIV<br />
+
+<br />
+
+Estranho encontro
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+D. Aurelia, despedindo-se do padre Manoel, recolheu
+a casa, scismando nas palavras do sacerdote.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ser&aacute; realmente Helena de Noronha?&#8213;dizia
+comsigo&#8213;Julio de Montarroyo affirma que sim; mas
+o seu estado febril justifica em certo modo uma
+allucina&ccedil;&atilde;o,
+que o fizesse tomar pela mulher que ama, uma
+sombra, talvez uma phantastica vis&atilde;o dos seus sentidos
+excitados... Emfim, o Manoel Mil-homens, que &eacute;
+arrojado e valente, encarregar-se-ha de verificar at&eacute;
+que ponto s&atilde;o verdadeiras as affirmativas de Julio.
+<br />
+
+<br />
+
+Ia deitar-se, quando no port&atilde;o da casa soaram violentas
+pancadas.
+<br />
+
+<br />
+
+Estranhou que assim batessem &aacute;quella hora, e
+calculou que n&atilde;o podia ser sen&atilde;o um estranho
+desconhecedor
+de que o port&atilde;o tinha uma sineta que facilitava
+a chamada.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Batem ao port&atilde;o&#8213;disse ella para a criada.&#8213;Diga
+ao Francisco que v&aacute; v&ecirc;r quem &eacute;...
+<br />
+
+<br />
+
+D'ahi a pouco, voltava a criada, annunciando:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; l&aacute; em baixo um homem que pede para
+fallar &aacute; senhora com toda a urgencia.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[370]</span> &#8213;Que qualidade de homem &eacute;?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Parece una homem do povo, minha senhora; mas
+n&atilde;o &eacute; d'estes sitios.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o disse como se chama, nem de mando de
+quem vem?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O nome n&atilde;o disse. Diz que j&aacute; foi a casa do sr.
+Julio de Montarroyo, mas que n&atilde;o o deixaram fallar
+com elle por estar doente, e por isso que deseja dar s&oacute;
+uma palavrinha &aacute; senhora.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mande-o entrar, e o Francisco que fique de vigia,
+que n&atilde;o v&aacute; ser algum mal intencionado.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o me parece... S&oacute; se f&ocirc;r algum
+desgra&ccedil;ado
+que use d'este meio para pedir abrigo por esta noite...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem; vejamos o que elle quer.
+<br />
+
+<br />
+
+Pouco depois, apparecia &aacute; porta da sala o mestre
+<em>Tomba</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+D. Aurelia tinha-o visto em casa de Julio de Montarroyo
+e reconheceu-o logo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! &eacute; vocemec&ecirc;, mestre
+<em>Tomba</em>?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sou eu, minha... Vossa <em>incelencia</em>
+perdoar&aacute;
+eu vir <em>trupar</em> &aacute; porta a
+esta hora, mas ha um <em>causo</em>
+que n&atilde;o p&oacute;de deixar de ser...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Diga, mestre, diga!&#8213;exclamou D. Aurelia
+assustada com as attitudes e gestos solemnes do velho
+sapateiro&#8213;Occorreu alguma desgra&ccedil;a?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Uma grande <em>desgracia</em>, minha
+senhora! E se
+vossa <em>incellencia</em> n&atilde;o
+acode e manda alguem comigo,
+a <em>probe</em> de Christo est&aacute;
+aqui, est&aacute; a dar o ultimo suspiro!...
+J&aacute; fui a casa do sr. Julinho p'ra lhe contar
+o <em>assucedido</em>.., Mas l&aacute;
+<em>dixeram-me</em> que elle
+<em>t&aacute;mem</em> estava
+de <em>catrambias e at&atilde;o</em> eu
+lembrei-me de vir ter
+co' a senhora p'ra esta obra de caridade...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas de que se trata, mestre? Falle.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Trata-se de uma <em>probe</em> creatura,
+uma triste
+mulhersinha que eu topei alli adiante, cahida na estrada
+sem dar por burro nem por albarda!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[371]</span> &#8213;Uma mulher!?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim minha senhora... Eu vinha p'ra c&aacute; e dava
+&oacute; canello com toda a for&ccedil;a, porque se me tinha
+feito
+escuro mais cedo do que eu pensava, e estava morto
+por chegar a casa do sr. Julinho, porque
+<em>t&aacute;men</em> j&aacute;
+trazia
+uma lazeira que nem via nada.. Vae n'isto, n&atilde;o
+sei como reparo e vejo estirado ao canto da estrada
+um <em>burto</em> preto que me parecia coisa
+viva... Cheguei-me,
+sempre com cuidado, que n&atilde;o fosse ser algum
+alma de cantaro que estivesse a
+<em>infingir-se</em> morto,
+p'ra me deitar as unhas e alimpar-me o que eu
+<em>trouvesse</em>, e vi que o dito
+<em>burto</em> n&atilde;o mexia com
+p&eacute; nem
+com m&atilde;o... Accendi um
+<em>phrophe</em>, cheguei-lh'o &aacute;
+cara,
+e era uma mulher, coitadinha! Chamei por ella, abanei-a,
+mas, qual qu&ecirc;! a <em>probe</em> de
+Christo mal resfolegava...
+estava sem sentidos! Inda me lembrou de
+pegar n'ella &aacute;s costas e trazel-a comigo; mas a caminhada
+era mui bem grande e eu
+<em>t&aacute;mem</em> j&aacute; vinha
+estafado,
+sem poder comigo... de modos que deitei a
+correr p'ra vir &oacute; sr. Julinho contar-lhe o caso e pedir-lhe
+que mandasse alguem que me ajudasse a trazel-a...
+Mas elle t&aacute;mem est&aacute; doente...
+<br />
+
+<br />
+
+D. Aurelia, verdadeiramente commovida com esta
+narrativa, n&atilde;o deixou que o sapateiro terminasse.
+<br />
+
+<br />
+
+Chamou os criados e mandou que fossem com o
+sapateiro buscar a infeliz.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Levem um lampe&atilde;o para se alumiarem... Deitem
+roupa bastante na padiola e tragam n'ella a pobresita
+com cuidado. De caminho, um que venha por
+casa do medico pedir-lhe para chegar aqui n'um instante.
+V&aacute;, n&atilde;o se demorem... lembrem-se que &eacute;
+uma
+vida que v&atilde;o salvar!
+<br />
+
+<br />
+
+Estas ordens puzeram em movimento toda a gente
+da casa, e poucos minutos decorridos, seguia o
+<em>Tomba</em>,
+pela estrada, &aacute; frente do grupo, em soccorro da infeliz
+creatura.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[372]</span>
+Uma hora depois regressavam o <em>Tomba</em>
+e os criados
+de D. Aurelia, conduzindo na padiola o corpo quasi
+inanimado da desconhecida que o sapateiro encontr&aacute;ra
+abandonada no caminho.
+<br />
+
+<br />
+
+A irm&atilde; de Gustavo, ao sentir o ruido dos homens
+que entravam o port&atilde;o, acudiu &aacute; sala de entrada,
+e
+sem attentar na pessoa que elles conduziam, deu ordem
+para transportarem a enferma para um quarto
+onde j&aacute; havia uma cama preparada.
+<br />
+
+<br />
+
+A esta hora chegava tambem o medico que acudia
+solicito ao chamamento, julgando que se tratava
+de algum familiar da casa ou talvez mesmo da propria
+D. Aurelia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o, quem temos por c&aacute; doente?&#8213;disse elle
+ao encarar D. Aurelia&#8213;J&aacute; vejo que n&atilde;o
+&eacute; v. ex.<sup>a</sup>.
+E antes assim.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Felizmente, doutor, n&atilde;o sou eu a que preciso
+dos seus soccorros. Trata-se de uma pobre creatura
+que foi encontrada cahida, sem accordo, na estrada, e
+que eu mandei buscar e recolher pelos meus criados.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Onde est&aacute; ella?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;L&aacute; dentro, no quarto onde mandei arranjar-lhe
+uma cama.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vamos v&ecirc;l-a.
+<br />
+
+<br />
+
+E encaminhou-se para o interior da casa, guiado
+por D. Aurelia.
+<br />
+
+<br />
+
+A infeliz estava j&aacute; mettida no leito, mas ainda sem
+dar accordo de si.
+<br />
+
+<br />
+
+Informou a criada que a despira, que a desgra&ccedil;ada
+trazia os vestidos rotos e sujos da terra da estrada.
+<br />
+
+<br />
+
+Vinha andrajosa. Notava-se-lhe, por&eacute;m, desusado
+asseio nas roupas brancas, humildes e pobres, mas
+em que havia o cuidado proprio de pessoa que est&aacute; habituada
+&aacute; limpeza&#8213;que &eacute; o primeiro indicio de uma
+boa educa&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[373]</span>
+O medico e D. Aurelia abeiraram-se do leito e
+examinaram a desconhecida.
+<br />
+
+<br />
+
+Trazia os cabellos em desalinho e na face macerada
+e pallida havia os vestigios profundos de mil
+soffrimentos e priva&ccedil;&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+Com os olhos cerrados e a respira&ccedil;&atilde;o quasi
+imperceptivel,
+a desditosa similhava um cadaver.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o era ainda idosa, mas as rugas de uma velhice
+precoce sulcavam-lhe o rosto triste.
+<br />
+
+<br />
+
+D. Aurelia fitou-a com uma compassiva curiosidade
+e n&atilde;o se recordou de ter visto entre os innumeros
+mendigos, que todos os dias lhe batiam &aacute; porta implorando
+a esmola da sua caridade, uma figura que se
+lhe assimilhasse.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esta pobre mulher&#8213;disse ella&#8213;n&atilde;o deve ser
+d'estes sitios.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tambem me parece&#8213;affirmou o doutor&#8213;Pelo
+menos, n&atilde;o &eacute; d'estas aldeias proximas onde
+exer&ccedil;o a
+clinica e onde conhe&ccedil;o quasi toda a gente.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que tem ella, doutor?&#8213;perguntou D. Aurelia
+ao medico, que acabava de auscultar a doente.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Frio e fome, talvez...&#8213;respondeu o homem de
+sciencia, fazendo uma careta&#8213;Esta mulher tem sido
+mal alimentada, a fadiga prostrou-a e seria esta com
+certeza a sua ultima noite, se a caridade de v. ex.<sup>a</sup>
+a
+n&atilde;o amparasse. Vamos tratar de a restituir &aacute;
+vida, e
+encetaremos depois o tratamento que julgarmos conveniente...
+Creio, por&eacute;m, que n&atilde;o teremos grande necessidade
+de recorrer &aacute; botica... Afigura-se-me que
+bastar&aacute; apenas recorrer &aacute; cosinha...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vou mandar-lhe j&aacute; matar uma gallinha!&#8213;acudiu
+D. Aurelia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim&#8213;approvou o doutor.&#8213;E tenha v. ex.a
+a bondade de mandar-me c&aacute; a criada, a Brigida,
+para me ajudar no tratamento a que vou sujeitar a
+doente.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[374]</span> &#8213;Eu estou aqui, doutor... Diga-me o que &eacute; preciso
+fazer...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, n&atilde;o! A Brigida que traga um pouco de
+vinagre, para lhe dar uma fomenta&ccedil;&atilde;o nos pulsos e
+nas fontes, a v&ecirc;r se assim conseguimos restituir-lhe
+os sentidos.
+<br />
+
+<br />
+
+D. Aurelia sahiu a chamar a criada e a dar ordem
+para que tratassem a infeliz com todo o desvelo, seguindo
+as indica&ccedil;&otilde;es do medico.
+<br />
+
+<br />
+
+Pouco depois, a criada vinha annunciar &aacute; D. Aurelia
+que a pobresinha volt&aacute;ra a si, olhara espantada
+&aacute; roda do leito sem reconhecer pessoa alguma e sem
+soltar uma palavra; que o doutor lhe receit&aacute;ra um
+cordeal e que, tomado elle, cahira n'um somno profundo
+e reparador.
+<br />
+
+<br />
+
+O medico, passados instantes, confirmava estes dizeres,
+promettendo a D. Aurelia voltar no dia seguinte.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deixem-n'a socegar&#8213;aconselhou elle&#8213;e amanh&atilde;
+veremos o tratamento a que temos de submettel-a.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Parece-lhe, doutor, que o seu estado &eacute; de inspirar
+cuidados?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;De certo, minha senhora. Convem n&atilde;o lhe fallar
+nem obrigal-a a grande esfor&ccedil;o de memoria. A pessoa
+que lhe servir de enfermeira deve apenas limitar-se a
+ministrar-lhe o que f&ocirc;r necessario, sem a obrigar a
+fallar mais que o indispensavel. Mas por esta noite
+n&atilde;o acordar&aacute; nem necessitar&aacute; de outra
+coisa mais que
+o descan&ccedil;o. Amanh&atilde; voltarei. Boa noite.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Boa noite, doutor, e pe&ccedil;o-lhe que tome a seu
+cuidado esta infeliz que n&atilde;o conhe&ccedil;o. Seria para
+mim
+um grande desgosto que ella viesse morrer a minha
+casa...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o morrer&aacute;, minha senhora, a n&atilde;o
+ser que
+outra doen&ccedil;a mais grave sobrevenha. Por emquanto,
+o mal &eacute; este: frio e fome.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Coitadita!&#8213;murmurou compungidamente a irm&atilde;
+<span class="pagenum">[375]</span>
+de Gustavo&#8213;E pensarmos que ha gente que morre
+pelas estradas abandonada de toda a caridade!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Minha senhora&#8213;volveu o medico philosophicamente,
+encolhendo os hombros&#8213;o mundo comp&otilde;e-se
+de tudo... Ha gente que morre de fome e ha gente
+que morre de fartura... Os extremos tocam-se.
+<br />
+
+<br />
+
+E sahiu, embrulhado no seu capote &aacute; cavallaria,
+e com um <em>cache-nez</em> enrodilhado desde
+o pesco&ccedil;o at&eacute;
+&aacute; ponta do nariz.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que <em>barbeiro</em>!&#8213;disse elle, ao
+sentir no rosto
+a aragem cortante da noite, para o homem que &aacute; porta
+o esperava com o lampe&atilde;o acceso afim de o acompanhar
+no trajecto at&eacute; casa&#8213;Este
+<em>barbeirinho</em> &eacute; o
+tal das pneumonias!
+<br />
+
+<br />
+
+No dia seguinte voltou. A doente recuper&aacute;ra os
+sentidos, mas apresentava-se n'um estado de abatimento
+e de fraqueza extraordinaria.
+<br />
+
+<br />
+
+A febre consummia-a. Delirava.
+<br />
+
+<br />
+
+Phrases entrecortadas e sem nexo escapavam-se-lhe
+dos labios, n'uma confus&atilde;o que n&atilde;o deixava
+perceber-lhes
+o sentido.
+<br />
+
+<br />
+
+O medico observou-a longo tempo e por fim receitou
+um calmante, prohibindo que dessem de comer
+&aacute; enferma.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o, doutor?&#8213;interrogou D. Aurelia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Enganei-me, minha senhora&#8213;disse o medico&#8213;julguei
+que um caldo de gallinha e algum socego
+reconfortaria a nossa doente, mas vejo agora que o
+remedio n&atilde;o est&aacute; s&oacute; na cosinha,
+est&aacute; tambem na botica.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; ent&atilde;o grave o estado d'essa infeliz?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Gravissimo. A febre &eacute; muito violenta e desconfio
+bem que tenhamos de nos v&ecirc;r a contas com
+uma pneumonia...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pobre mulher!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se v. ex.<sup>a</sup> quer, e isso parece-me o mais
+sensato,
+<span class="pagenum">[376]</span>
+&eacute; pregar com ella &aacute;s costas de dois homens
+que
+a levem ao hospital de Guimar&atilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! isso n&atilde;o!&#8213;fez D. Aurelia com vehemencia.&#8213;Acaso
+o doutor n&atilde;o ter&aacute; recursos na sua sciencia
+para valer a essa desgra&ccedil;ada?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! minha senhora! n&atilde;o se trata de mim, que
+estou prompto a soccorrel-a conforme sei e posso: o
+alvitre tem por fim unicamente evitar a v. ex.<sup>a</sup>
+os
+incommodos e cuidados que taes casos sempre acarretam...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Doutor, o destino quiz que essa pobre mulher
+fosse recolhida em minha casa. Aqui ser&aacute; tratada
+com os cuidados que o seu estado requer.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fa&ccedil;a-se a sua vontade, minha senhora.
+<br />
+
+<br />
+
+D. Aurelia deu logo ordem para que ficasse constantemente
+a velar a enferma a sua criada de quarto,
+que era uma enfermeira distincta.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que n&atilde;o falte nada a essa infeliz&#8213;disse a irm&atilde;
+de Gustavo&#8213;N&atilde;o lhe fa&ccedil;am perguntas indiscretas,
+n&atilde;o inquiram coisa alguma do seu passado, e
+fa&ccedil;am-lhe
+comprehender que est&aacute; entre pessoas amigas que
+se interessam pela sua saude e que desejam v&ecirc;l-a
+restabelecida.
+<br />
+
+<br />
+
+Esta ordem foi cumprida rigorosamente, e ao cabo
+de tres dias, tendo diminu&iacute;do a febre, a doente
+encontrava-se sensivelmente melhor.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; salva&#8213;disse o medico a D. Aurelia&#8213;Agora
+o que precisamos &eacute; ter muito cuidado com a
+alimenta&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tel-o-hemos.
+<br />
+
+<br />
+
+Prescreveu o regimen a seguir e t&atilde;o rigorosamente
+foi obedecido que, oito dias passados, a desconhecida
+entrava em franca convalescen&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+Durante este tempo, o padre Manoel vinha todos
+os dias informar que o Jo&atilde;o Mil-homens n&atilde;o
+lobrigava
+viva alma na Senhora do Porto.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[377]</span> &#8213;&Eacute; escusado!&#8213;dizia o bom do parocho&#8213;aquillo
+foi tudo sonho do nosso Julio. E quem sabe
+mesmo se foi vis&atilde;o da febre que o consummia. Pobre
+homem! Eu bem lhe disse que n&atilde;o cahisse na
+asneira de se metter a caminho com uma noite d'aquellas...
+N&atilde;o quiz attender, ainda &eacute; dos que d&atilde;o
+credito
+a tolices e inven&ccedil;&otilde;es da gente rude do povo, e o
+resultado foi cahir de cama e ficar para alli entre a
+vida e a morte ha uns poucos de dias...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Disse-me o doutor que o encontra muito melhor...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade. At&eacute; j&aacute; lhe deu ordem para
+receber
+o <em>Tomba</em>, que esteve hontem mais de
+uma hora em
+conversa com elle... E o que &eacute; mais curioso &eacute; que
+o
+doente, hoje, quando todos esperavam que peorasse,
+appareceu muito melhor, mais animado e com um
+semblante alegre e risonho.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o pude ir v&ecirc;l-o n'estes dois dias, mas talvez
+v&aacute; logo visital-o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que eu n&atilde;o sei &eacute; que diabo de intimidade
+&eacute;
+a do <em>Tomba</em> com elle. Um homem
+ordinario, de baixa
+esphera, gosa de uma tal considera&ccedil;&atilde;o em casa
+d'aquelle homem, que chega a espantar. Alli ha mysterio
+por for&ccedil;a!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o ha mysterio nenhum, snr. padre Manoel.
+Os humildes tambem teem direito &aacute; estima e
+considera&ccedil;&atilde;o
+das pessoas superiores, quando possuem qualidades
+de honradez e honestidade que os recommendam...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim, sim... Mas n&atilde;o se v&ecirc; isso muito
+frequentemente...
+A n&atilde;o ser que v. ex.<sup>a</sup> queira
+attribuir ao
+<em>Tomba</em> qualidades unicas e
+at&eacute; hoje nunca vistas e apreciadas
+em remend&atilde;o portuguez.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o lhe attribuo qualidades nem defeitos, sr.
+padre Manoel... Acho natural que o sr. Julio de
+Montarroyo proteja e estime um pobre homem do
+povo, e nada mais.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[378]</span>
+O padre fez uma car&ecirc;ta significativa.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim, sim, minha senhora... V. ex.<sup>a</sup>
+&eacute; uma
+santa, acha tudo muito natural porque n&atilde;o conhece o
+mundo... O <em>Tomba</em> &eacute; bom
+homem, n&atilde;o digo que n&atilde;o,
+mas ha muitos bons homens como elle, e n&atilde;o encontram
+o acolhimento de que este se p&oacute;de gabar...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nem era possivel, sr. padre Manoel... Eu,
+por exemplo, recolhi em minha casa uma pobre mulher
+que foi encontrada moribunda a um canto da estrada...
+Dispensei-lhe todos os cuidados e carinhos
+compativeis com os recursos de que disponho e nem
+sequer sei ainda quem ella &eacute;...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem ha-de ser? Alguma pobre mendiga,
+alguma desgra&ccedil;ada sem eira nem beira... Ha tantas
+por esse mundo!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Justamente. Ha tantas por esse mundo, e comtudo
+&eacute; esta a primeira que, em taes circumstancias,
+encontra abrigo em minha casa.
+<br />
+
+<br />
+
+A este tempo, appareceu a creada encarregada
+de tratar a desconhecida.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Minha senhora&#8213;disse ella&#8213;a nossa doente...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que tem? Peorou?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, minha senhora. At&eacute; est&aacute; muito
+melhor.
+Mas ha pouco perguntou-me onde estava, que casa era
+esta e quem &eacute; que a tinha trazido para aqui...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que lhe respondeu?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Cumpri as ordens de v. ex.<sup>a</sup>, disse-lhe que
+estava
+em casa de pessoas amigas e que n&atilde;o se affligisse,
+que n&atilde;o lhe havia de faltar nada... Mas ella quiz
+por for&ccedil;a saber como se chamam os donos da casa...
+e eu disse-lh'o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E ent&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mostrou-se muito inquieta e pediu para fallar &aacute;
+senhora...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para me fallar a mim!&#8213;disse D. Aurelia&#8213;Pois
+bem; diga-lhe que vou j&aacute; v&ecirc;l-a...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[379]</span>
+E voltando-se para o padre Manoel:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tenha paciencia, meu amigo, se lhe roubo uma
+parte das atten&ccedil;&otilde;es que lhe devo... Bem
+v&ecirc;, a enferma
+est&aacute; melhor, ali&aacute;s teria pedido antes o seu
+soccorro
+espiritual...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sinto-me lezado nos meus direitos de confessor&#8213;replicou
+o padre Manoel gracejando.&#8213;Realmente,
+v. ex.<sup>a</sup> com a sua extrema caridade faz que os
+infelizes
+esque&ccedil;am que s&oacute; aos ministros do altar devem
+confessar-se... Porque ninguem me tira da cabe&ccedil;a
+que a sua protegida quer fazer-lhe revela&ccedil;&otilde;es
+intimas...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Talvez. E se assim f&ocirc;r, creia o sr. padre Manoel
+que serei t&atilde;o escrupulosa em guardar rigoroso
+sigillo como v. s.<sup>a</sup> o costuma ser...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quer dizer com isso que escuso de tentar saber
+o que ella vae confiar-lhe.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh, decerto! Se ella me pedir segredo, com
+certeza que o guardarei...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N'esse caso, minha senhora, n&atilde;o quero fazer esperar
+a sua confessada... E se o caso f&ocirc;r de consciencia,
+estou bem certo que v. ex.<sup>a</sup> lhe
+aplacar&aacute; os escrupulos
+t&atilde;o bem ou melhor do que o mais auctorisado
+mestre de casos...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O sr. padre Manuel &eacute; sempre demasiado lisonjeiro
+para mim&#8213;replicou D. Aurelia sorrindo.&#8213;N&atilde;o
+tenho pretens&otilde;es a arvorar-me em sacerdotisa.
+Fa&ccedil;o o
+bem que posso e valho ao meu semelhante sempre que
+elle precisa do meu soccorro, quer temporal quer espiritual.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;V. ex.<sup>a</sup> &eacute; inquestionavelmente uma
+santa!&#8213;affirmou
+o padre sahindo.
+<br />
+
+<br />
+
+D. Aurelia passou ao quarto da doente. Ao v&ecirc;l-a
+entrar, a desconhecida fitou n'ella os olhos marejados
+de lagrimas.
+<br />
+
+<br />
+
+A dona da casa abeirou-se do leito. A meia obscuridade
+<span class="pagenum">[380]</span>
+do quarto n&atilde;o lhe permittia analysar as
+fei&ccedil;&otilde;es
+da enferma.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o, como est&aacute;?&#8213;perguntou a irm&atilde;
+de Gustavo
+com voz doce e carinhosa.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Muito obrigada, minha senhora... sinto-me
+melhor&#8213;replicou a doente com voz debil. O som
+d'aquella voz, por&eacute;m, impressionou a dona da casa.
+Parecia-lhe que j&aacute; a tinha ouvido alguma vez, que o
+seu timbre lhe n&atilde;o era estranho.
+<br />
+
+<br />
+
+Voltou-se para a criada e disse-lhe:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deixe-nos s&oacute;s&#8213;ordenou.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim, minha senhora&#8213;replicou a criada. E
+sahiu.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Disseram-me que queria fallar-me...&#8213;interrogou
+D. Aurelia com os olhos fitos na doente&#8213;Poderei
+ser-lhe util em alguma cousa?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Queria&#8213;tornou a doente&#8213;que tivesse a bondade
+de abrir um pouco aquella janella e attentar no
+meu rosto...
+<br />
+
+<br />
+
+D. Aurelia satisfez o desejo &aacute; doente e ficou-se fitando-a,
+sem poder reconhecel-a.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o me conheces, Aurelia?&#8213;balbuciou a infeliz
+por entre lagrimas.&#8213;Tens raz&atilde;o! Estou t&atilde;o mudada
+que nem meu proprio pae me reconheceria, se
+fosse vivo e me visse agora!
+<br />
+
+<br />
+
+E escondendo o rosto entre as m&atilde;os, desatou n'um
+choro convulso e abafado.
+<br />
+
+<br />
+
+Como se as palavras e o choro desesperado da desditosa
+lhe tivessem levado um raio de luz ao espirito,
+D. Aurelia gritou n'um indescriptivel alvoro&ccedil;o de espanto:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Helena de Noronha! ser&aacute;s tu?!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sou eu, minha amiga! sou esta desgra&ccedil;ada, r&ocirc;ta
+e faminta, que vem receber, como supremo castigo de
+seus crimes, a esmola da tua compaix&atilde;o!
+<br />
+
+<br />
+
+Estas ultimas palavras foram j&aacute; proferidas nos
+<span class="pagenum">[381]</span>
+bra&ccedil;os de D. Aurelia, que estreitava a sua infeliz amiga
+ao cora&ccedil;&atilde;o, cobrindo-lhe o rosto de beijos e
+orvalhando-lh'o
+de lagrimas.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vamos! n&atilde;o chores, minha querida&#8213;disse por
+fim D. Aurelia.&#8213;Quiz Deus que viesses a esta casa
+que &eacute; tua e onde encontrar&aacute;s a mesma amisade
+sincera
+de sempre.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Obrigada... obrigada!&#8213;murmurou Helena de
+Noronha&#8213;Pe&ccedil;o-te apenas que me deixes morrer aqui,
+ignorada de todos, como uma pobre mendiga que a
+miseria arrojou nos ultimos momentos ao suave aconchego
+do teu lar bemdito, da tua santa caridade!...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, minha amiga, n&atilde;o! Tu viver&aacute;s,
+tu achar&aacute;s
+ainda n'esta casa, que &eacute; tua, no meu
+cora&ccedil;&atilde;o
+que &eacute; sempre o da tua amiga d'infancia, o conforto e
+os affectos de que necessitas e de que os teus soffrimentos
+te fazem t&atilde;o digna.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sinto-me morta, minha amiga... Pouco poderei
+importunar-te... Mandei-te chamar e quiz que me
+reconhecesses e me ouvisses, porque n&atilde;o desejo levar
+para a sepultura, com o remorso de tantos erros e de
+tantos crimes, ainda mais este cruciante espinho de
+uma ultima ingratid&atilde;o...
+<br />
+
+<br />
+
+D. Aurelia tentava socegal-a e reanimal-a com a
+sua amisade, com seu carinho.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O medico disse-me que est&aacute;s melhor... Agora,
+o que &eacute; indispensavel, &eacute; muito socego, muita
+tranquilidade
+de espirito... e o restabelecimento far-se-ha
+breve e por completo.
+<br />
+
+<br />
+
+Um sorriso de amarga tristeza vincou os labios
+de Helena de Neronha.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para que eu me encontre aqui, na tua casa,
+minha amiga, foi preciso que as for&ccedil;as me fugissem e
+a vida estivesse proxima a abandonar este misero envolucro...
+por tal modo desfigurado que nem tu mesma
+o reconheceste... N&atilde;o te illudas, Aurelia... eu
+<span class="pagenum">[382]</span>
+n&atilde;o poderei viver mais que alguns dias, e durante elles,
+deixa que eu te confie a historia das minhas desgra&ccedil;as,
+afim de que, ao recordal-as, tenhas ainda uma
+lagrima de compaix&atilde;o para a memoria da tua desditosa
+e infeliz amiga d'infancia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eras tu a penitente da Senhora do Porto?&#8213;interrogou
+de repente D. Aurelia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Era! Como soubeste que eu estava alli?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o o soube. Alguem tinha a fundada suspeita
+de que eras tu, se &eacute; que n&atilde;o possuia a intima
+certeza...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esse alguem era...?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Julio de Montarroyo...
+<br />
+
+<br />
+
+A enferma soltou um grito.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! tu conhecel-o? Ent&atilde;o sempre &eacute; certo que
+era elle... n&atilde;o foi uma allucina&ccedil;&atilde;o
+dos meus sentidos?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, minha amiga, n&atilde;o! Julio de Montarroyo,
+ouvindo dizer que na Senhora do Porto apparecia alta
+noite uma penitente desconhecida e que ninguem lograva
+ver de dia, teve o presentimento de que essa
+penitente eras tu... Partiu para a Senhora do Porto,
+e alli te surprehendeu, ou antes, adivinhou-te nas trevas
+da noite...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim... sim... eu vi um homem encostado &aacute;
+hombreira do portico, e quando eu, julgando-me s&oacute;,
+elevava &aacute;quella imagem, a minha fervorosa prece, ouvi
+uma voz que chamava por mim. Fugi espavorida
+e durante muito tempo ouvi repetir o meu nome...
+E a voz que o repetia parecia-me a d'elle...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o te enganaste... Era elle, era Julio de
+Montarroyo que te chamava.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como veio elle para aqui, para esta terra, que
+n&atilde;o era a d'elle e onde n&atilde;o me recordo de o ter
+visto
+nunca, nos tempos da minha mocidade?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Trouxe-o para aqui o cora&ccedil;&atilde;o, o desejo
+ardentissimo
+<span class="pagenum">[383]</span>
+de se v&ecirc;r rodeado de tudo o que pudesse fallar-lhe
+do passado da mulher que t&atilde;o infeliz e desditosamente
+amou... Viver na mesma terra em que
+ella viveu e foi feliz, respirar o mesmo ar que ella
+respirou out'rora, amar os mesmos sitios que ella amou.
+O desgra&ccedil;ado julga viver assim mais perto d'ella, mais
+identificado com o pensamento e com as saudades da
+mulher que foi toda a sua esperan&ccedil;a e que &eacute; todo
+o seu
+martyrio. &laquo;&Eacute; impossivel&#8213;disse-me elle um dia&#8213;que
+ella algumas vezes n&atilde;o pense com saudade n'estes
+sitios, que foram o ber&ccedil;o da sua infancia descuidosa e
+feliz. E n'esses instantes de dolorosa
+recorda&ccedil;&atilde;o, consola-me
+a ideia de que os nossos pensamentos se unem
+no mesmo objecto, atrav&eacute;s a distancia que os
+separa&raquo;.
+<br />
+
+<br />
+
+Helena de Noronha chorava silenciosamente, apertando
+com ambas as m&atilde;os o cora&ccedil;&atilde;o, que
+parecia querer
+saltar-lhe f&oacute;ra do peito.
+<br />
+
+<br />
+
+D. Aurelia proseguiu:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Assim, o desditoso adquiriu por todo o pre&ccedil;o a
+casa que foi de teu pae,&#8213;que foi tua,&#8213;e n'ella vive,
+ou antes n'ella vae morrendo lentamente, ralado
+de d&ocirc;r e de saudade...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meu Deus! quantas victimas eu fiz!&#8213;bradou
+Helena de Noronha angustiadamente, estorcendo-se
+n'uma d&ocirc;r incomportavel.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vamos, minha amiga!&#8213;tornou-lhe D. Aurelia,
+querendo confortal-a.&#8213;Quiz Deus que viesses ainda
+a tempo de reparar o mal que fizeste &aacute;quelle
+desgra&ccedil;ado.
+A maior felicidade para elle ser&aacute; o tornar a encontrar-te.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! n&atilde;o! n&atilde;o!&#8213;bradou Helena de Noronha,
+pondo as m&atilde;os supplicante:&#8213;Pelo amor de Deus, por
+tudo quanto mais tens amado n'este mundo, n&atilde;o lhe
+digas que eu estou aqui!... Morreria de vergonha,
+se me encontrasse na sua presen&ccedil;a... Eu n&atilde;o sou
+digna
+<span class="pagenum">[384]</span>
+d'elle... Deixa-me morrer ignorada de todos, minha
+querida Aurelia!
+<br />
+
+<br />
+
+A infeliz arfava afflictivamente, pondo na amiga
+os olhos turvos de lagrimas.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Morrer! N&atilde;o falles em morrer, minha amiga...
+Cobra alento e pensa que a tua vida &eacute; ainda precisa,
+porque p&oacute;des ser util a alguem. Julio de Montarroyo
+ama-te com um amor que s&oacute; as almas essencialmente
+delicadas conhecem e avaliam. Desde que te viu e reconheceu
+na Senhora do Porto, sem poder fallar-te,
+porque lhe fugiste, cahiu prostrado no leito por febre
+intensa, e ahi agonisa, apenas animado da esperan&ccedil;a
+de poder ainda encontrar-te. Todas as noites tem sido
+enviado, por sua ordem, um homem &aacute; Senhora do
+Porto, a v&ecirc;r se p&oacute;de lobrigar-te e seguirte de
+longe
+at&eacute; ao sitio onde costumavas occultar-te de dia. E cada
+manh&atilde; que o vigia regressa sem dar novas da penitente,
+&eacute; para elle uma cruel angustia que o approxima da
+sepultura. Querer&aacute;s tu condemnar &aacute; morte uma vida
+que t&atilde;o nobre e desinteressadamente se te devotou?
+Se est&aacute; na tua m&atilde;o minorar tamanho soffrimento,
+se
+com a tua presen&ccedil;a p&oacute;des fazer voltar a
+felicidade
+ao cora&ccedil;&atilde;o d'aquelle desgra&ccedil;ado e
+banhar de luz e
+de alegria os ultimos dias d'aquella existencia amargurada,
+porque o n&atilde;o has de fazer?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! n&atilde;o! n&atilde;o! &Eacute; impossivel! Eu estou
+condemnada,
+minha amiga! Existencia maldita foi a
+minha em que, sem o querer, e guiada, por um genio
+infernal, s&oacute; pude semear a d&ocirc;r, a
+desola&ccedil;&atilde;o e a morte
+em toda a parte por onde passei!... Se tu soubesses
+que horroroso p&eacute;lago de crimes, de atrocidades
+e de infamias tenho atravessado desde que, filha ingrata,
+abandonei a casa de meu pobre pae, repelir-me-hias
+com asco e nojo! N&atilde;o! n&atilde;o! eu n&atilde;o
+posso
+mais aproximar-me de quem quer que seja sem que
+o meu halito pestilencial o envenene, sem que o contacto
+<span class="pagenum">[385]</span>
+impuro das minhas m&atilde;os, manchadas de sangue
+e de crimes, deixem em tudo o que tocam uma nodoa
+indelevel de corrup&ccedil;&atilde;o e de infamia!... Oh! o
+miseravel!
+O maldito persegue-me sempre com o seu olhar
+de fogo, que me abrasa... com o seu infernal sorriso
+de demonio, percuciente como um punhal... corrosivo
+como um veneno! Oh! v&ecirc;l-o?... v&ecirc;l-o? L&aacute;
+est&aacute; elle,
+envolto na sua negra sotaina esfarrapada... as faces
+congestionadas... a bocca espumante de raiva... e
+os olhos, como carbunculos, sempre fitos em mim!...
+Desprende-se da cruz... estende para mim as garras...
+Oh! salva-me! salva-me!
+<br />
+
+<br />
+
+E n'um estranho accesso de delirio, Helena de
+Noronha agarrou-se convulsivamente &aacute; sua amiga,
+tombando em seguida sobre o leito, sem sentidos...
+<br />
+
+<br />
+
+Apavorada e attonita, D. Aurelia mandou immediatamente
+chamar o medico, a quem contou que a
+doente, commovida com o caridoso acolhimento que
+lhe dispensara, proferira algumas palavras de agradecimento
+e cahira em deliquio.
+<br />
+
+<br />
+
+O doutor observou a enferma e attribuiu o accidente
+ao seu estado de extrema fraqueza.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dev&ecirc;mos evitar a menor commo&ccedil;&atilde;o, o
+menor
+abalo&#8213;disse elle.
+<br />
+
+<br />
+
+Tres dias esteve Helena entre a vida e a morte,
+de tal modo f&ocirc;ra violento o abalo produzido pelas
+revela&ccedil;&otilde;es
+que lhe fizera a sua amiga.
+<br />
+
+<br />
+
+A ideia de que Julio de Montarroyo estava alli a
+dois passos, vivendo na mesma terra, habitando a casa
+que f&ocirc;ra d'ella e sempre alimentando-se das
+recorda&ccedil;&otilde;es
+de um amor impossivel, sem remedio e sem esperan&ccedil;a,
+matava-a.
+<br />
+
+<br />
+
+A pobre filha de Norberto de Noronha tremia s&oacute;
+com a lembran&ccedil;a de que havia de supportar os olhares
+de Julio, t&atilde;o franco, t&atilde;o leal, t&atilde;o
+amante e apaixonado
+e t&atilde;o cruelmente illudido e ludibriado nos seus amores.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[386]</span>
+Porque n&atilde;o lhe teria ella confessado francamente
+a sua situa&ccedil;&atilde;o, a sua desgra&ccedil;a, a sua
+queda irremediavel,
+quando no Sard&atilde;o o mancebo lhe implorava de
+m&atilde;os postas que salvasse seu velho pae e confiasse
+no puro e desinteressado amor fraternal que lhe offerecia?
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o quiz. Receou confessar-se indigna do nobre
+affecto que aquelle cora&ccedil;&atilde;o lhe tributava. E
+comtudo,
+n'esse tempo, ainda ella n&atilde;o passava de uma victima
+innocente, sem sombra de culpa, immolada &aacute; torpeza
+jesuitica. Como poderia ter coragem para se lhe apresentar
+agora, quando j&aacute; n&atilde;o era s&oacute; uma
+desgra&ccedil;ada
+a quem ludibriaram desfolhando-lhe a sua cor&ocirc;a de innocencia,
+mas tambem um s&ecirc;r ascoroso e repugnante,
+manchado por toda a especie de crimes, semeando
+desola&ccedil;&atilde;o
+e morte por toda a parte?
+<br />
+
+<br />
+
+Filha, ingrata e desobediente, occasionara a morte
+de seu pae. Mulher, leviana e perversa, lan&ccedil;ara-se
+imbecilmente nos bra&ccedil;os de um monstro de sotaina,
+sacrificando o cora&ccedil;&atilde;o e a vida de seu primo, que
+a
+adorava, e deixando que, na embriaguez de um mysticismo
+absurdo, abusassem da sua innocencia e a
+convertessem na incestuosa e infame barreg&atilde; de um
+jesuita. M&atilde;e, abandonara seu filho, repudiara-o cruelmente
+e, peor que as feras, relegara-o &aacute; fome, &aacute;
+miseria
+e &aacute; morte talvez. Amada sinceramente por Julio
+de Montarroyo, mentira-lhe, ludibriara-o, lan&ccedil;ara
+aquella alma no desespero, na tortura de todas as
+horas.
+<br />
+
+<br />
+
+Adorada com louco frenesi pelo padre Hilario, convertera
+essa paix&atilde;o n'um instrumento de morte. Fizera
+d'elle um parricida e ella propia manch&aacute;ra as
+m&atilde;os no sangue de um assassinio cobarde, embora justificado
+pelas monstruosas infamias e torpesas de que
+o miseravel a fizera alvo. Mas um crime n&atilde;o auctorisa
+outro e, seja qual f&ocirc;r o sentimento que o dite, o
+<span class="pagenum">[387]</span>
+remorso entra sempre mais tarde ou mais cedo no
+cora&ccedil;&atilde;o
+do criminoso.
+<br />
+
+<br />
+
+Helena de Noronha, pois, debatia-se nas angustiosas
+recorda&ccedil;&otilde;es de tantos crimes e reconhecendo-se
+perdida para a rehabilita&ccedil;&atilde;o n'este mundo, pedia
+a
+Deus, como suprema esmola, a morte, embora esta
+fosse seguida da condemna&ccedil;&atilde;o eterna para a sua
+alma.
+<br />
+
+<br />
+
+As penas do inferno pensava ella que n&atilde;o podiam
+ser-lhe mais tormentosas e afflictivas do que o peso
+d'esta existencia amaldi&ccedil;oada que arrastava havia
+j&aacute;
+dezeseis annos.
+<br />
+
+<br />
+
+Ao fim do terceiro dia, chamou junto do leito a sua
+amiga.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Aurelia&#8213;disse-lhe ella&#8213;tu n&atilde;o sabes a grande
+desgra&ccedil;ada que acolhes em tua casa e a quem nos
+ultimos dias da sua tormentosa existencia d&aacute;s a esmola
+da tua compaix&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Helena!&#8213;volveu-lhe a irm&atilde; de Gustavo&#8213;pe&ccedil;o-te
+que n&atilde;o voltes a atormentar-te com as
+recorda&ccedil;&otilde;es
+do passado. Fui tua amiga e tua companheira
+de infancia, e se isto merece recompensa, d&aacute;-me ao
+menos a consola&ccedil;&atilde;o de te poder chamar minha
+irm&atilde;.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim, minha boa e santa amiga! Acceito reconhecida
+os thesouros da tua bondade nas curtas horas que
+me restam de vida... &Eacute; isso um signal evidente de
+que Deus se amerceia de mim e tem em conta as lagrimas
+e o arrependimento de tantos crimes...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Helena! socega, minha irm&atilde;... Tem esperan&ccedil;a
+na misericordia divina que ha de ainda conceder-te
+dias venturosos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fazes-me um favor que te pe&ccedil;o, Aurelia?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dize, filha! Tu mandas n'esta casa, n&atilde;o pedes.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Desejava que enviasses alguem ao Porto, a saber
+se no convento do Sard&atilde;o ou no das Sereias existe
+ainda &#8213;Desejava que enviasses alguem ao Porto, a saber
+se no convento do Sard&atilde;o ou no das Sereias existe
+ainda uma superiora chamada Madre Paula... E se
+ella existir, que lhe entreguem uma carta minha...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[388]</span> &#8213;Madre Paula!&#8213;replicou Aurelia&#8213;Existe, minha
+amiga, sei que existe.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como o sabes?&#8213;interrogou alvoro&ccedil;adamente
+Helena de Noronha.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Porque Julio teve tambem interesse em o saber
+e mandou ao Porto informar-se um homem de sua
+confian&ccedil;a, o mesmo que te encontrou desfallecida na
+estrada e que aqui te conduziu.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E esse homem viu-a, fallou-lhe?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fallou.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ser&aacute;s capaz de fazer com que elle volte a procural-a,
+minha amiga?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Porque n&atilde;o!?
+<br />
+
+<br />
+
+Fez-se um instante de silencio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esse homem sabe quem eu sou? Conheceu-me?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o. Todos aqui, excepto eu, ignoram o teu
+nome.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o o digas a ninguem, por ora.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Socega. Cumprirei a tua vontade.
+<br />
+
+<br />
+
+Helena de Noronha pediu papel o penna, e escreveu
+algumas linhas, que fechou em seguida n'um
+<em>enveloppe</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que parta sem perda de tempo!&#8213;disse ella,
+entregando a carta a D. Aurelia&#8213;Desejo que a resposta
+me encontre viva.
+<br />
+
+<br />
+
+O <em>Tomba</em> partiu n'essa mesma noite
+para o Porto.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[389]</span>
+<h3><a name="c25"></a>XXV<br />
+
+<br />
+
+Pobre Helena!
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Julio de Montarroyo melhorara um pouco da febre
+intensa que o acommettera. O restabelecimento, por&eacute;m,
+fazia-se t&atilde;o lentamente, o seu estado de fraqueza era
+tal, que o medico prohibira-lhe que sahisse do quarto
+e recommendava-lhe insistentemente que se abstivesse
+de longas conversas com quem quer que fosse.
+<br />
+
+<br />
+
+Todavia, o <em>Tomba</em> lograra fallar-lhe
+e informal-o
+de que madre Paula era viva e podia ser encontrada
+no Porto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fallou-lhe, mestre <em>Tomba</em>?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fallei, snr. Julinho... saber&aacute; vossa incellencia
+que fallei... Fui &aacute;s Sereias
+<em>pr&eacute;scural-a</em> e
+n&atilde;o estava
+l&aacute;... Mas eu taes intrujices armei, que me mandaram
+&oacute; Carvalhido ter co'ella... E est&aacute; ainda fresca
+que
+nem parece a edade que tem... Aquellas bochechas
+n&atilde;o se criam s&oacute; com <em>auga
+benta</em>, essa lhe juro eu!&#8213;commentou
+o sapateiro.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fallou-lhe de Helena de Noronha?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A esse respeito nem pio... Tive medo que ella
+soubesse &oacute; que eu l&aacute; ia e se espantasse... Nada!
+Eu
+<em>infingi</em> que ia de mando da prima de
+vossa <em>incellencia</em>,
+a snr.<sup>a</sup> D. Lucilinha de Villaverde...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[390]</span> &#8213;Ah!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ella ficou toda <em>estifeita</em> e
+tratou-me com muito
+b&ocirc; agrado, mas a respeito de comer e beber... nem
+<em>burro queres tu auga</em>?! Eu
+t&aacute;mem n&atilde;o precisava&#8213;accrescentou&#8213;e
+indas que ella me offerecesse, n&atilde;o era
+o filho do meu pae que acceitava... Emquanto me
+lembrar a arriosca que me armaram no Sard&atilde;o, n&atilde;o
+c&ocirc;mo nada da m&atilde;o dos frades e das freiras nem que
+me matem... P'ra li&ccedil;&atilde;o, bonda uma vez... Mas
+&oacute;
+menos queria que ella tivesse um migalho de cortezia
+commigo...
+<br />
+
+<br />
+
+Julio ficou silencioso sem parecer ligar importancia
+aos queixumes do sapateiro escandalizado.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Precisava de ir ao Porto para lhe fallar. Mas
+estou t&atilde;o fraco, t&atilde;o abatido, que n&atilde;o
+posso por emquanto
+fazer a viagem&#8213;murmurou.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas o snr. Julinho queria ir ao Porto para fallar
+co'ella?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim... unicamente para fallar com ella...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas, o snr. Julinho, porque n&atilde;o lhe escreve uma
+carta, que eu levo-lh'a?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que desejo dizer-lhe n&atilde;o &eacute; coisa que se
+escreva
+em carta...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deixe l&aacute;! O preto no branco falla como gente...
+Sendo uma carta bem notada e com quatro cantigas
+que lhe eu cante, a mulher responde...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, n&atilde;o... &Eacute; preciso ir eu...
+<br />
+
+<br />
+
+O <em>Tomba</em> encolheu os hombros, n'um
+protesto
+mudo e disse por fim:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O snr. Julinho l&aacute; far&aacute; como entender... Eu
+c&aacute;
+estou p'r&oacute; que fizer
+<em>minga</em>. E se v&ecirc; que
+&eacute; coisa que
+n&atilde;o se p&oacute;de arranjar sem vossa
+<em>incellencia</em> l&aacute; ir, sabe
+o que lhe eu digo? Coma e beba, bote as paix&otilde;es p'ra
+traz das costas, que co'ellas ninguem medra, ponha-se
+rijo e teso, que a freira faz o mesmo, e ella l&aacute;
+est&aacute;
+&aacute; espera...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[391]</span> &#8213;V&aacute;, v&aacute;, mestre
+<em>Tomba</em>&#8213;despediu Julio.&#8213;Deixe-se
+andar por ahi, que p&oacute;de ser-me preciso de um
+momento para o outro...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu c&aacute; estou, sr. Julinho... Os amigos s&atilde;o
+p'r&aacute;s
+<em>incasi&otilde;es</em>...
+<br />
+
+<br />
+
+E sahindo dos aposentos do doente:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Este, se n&atilde;o trata de metter p'r&oacute; bucho alguma
+coisinha de sustancia, est&aacute; aqui, est&aacute; prompto...
+E
+foi o ladr&atilde;o do padre
+<em>Inxelmo</em> que o p&ocirc;z
+assim!...
+<br />
+
+<br />
+
+De repente bateu na testa, exclamando:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ai, a minha cabe&ccedil;a! E eu que n&atilde;o lhe dei
+novidades
+d'aquelle ladr&atilde;o!
+<br />
+
+<br />
+
+Voltou atraz, bateu &aacute; porta do quarto e perguntou:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;D&aacute; licen&ccedil;a, snr. Julinho?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Entre, mestre <em>Tomba</em>&#8213;respondeu o
+enfermo,
+da cadeira em que se achava sentado.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Trazia no sentido p'ra lhe dizer que a respeito
+de padre <em>Inxelmo</em>, &eacute;
+ra&ccedil;a de patife de que ninguem me
+soube dar rela&ccedil;&otilde;es...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; sei... j&aacute; sei que esse homem ha muito que
+n&atilde;o reside no Porto&#8213;volveu Julio com um fundo suspiro.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois eu ia com meu receio de o topar l&aacute; por
+aquellas casas de <em>santidade</em>&#8213;disse o
+sapateiro, grifando
+a palavra com um sorriso&#8213;Que eu, se o apanhasse
+na rua, era <em>home</em> p'ra lhe rachar a
+cor&ocirc;a de
+meio a meio, como quem racha cinco tost&otilde;es falsos...
+Mas l&aacute; dentro da <em>seve de
+pedreiro</em> &eacute; que eu n&atilde;o queria
+topal-o... Ninguem me deu noticias d'elle.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; natural&#8213;respondeu Julio.
+<br />
+
+<br />
+
+O sapateiro retirou desconsolado pela pouca importancia
+que Julio dera &aacute; descoberta.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Parece que j&aacute; n&atilde;o se importa muito com o
+padre...&#8213;resmungou&#8213;<em>T&aacute;mem</em>,
+n'aquelle estado, ainda
+que o visse e lhe quizesse chegar duas
+<em>galhetas</em>, n&atilde;o
+podia...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[392]</span>
+Quando o medico soube que o <em>Tomba</em> se
+demor&aacute;ra
+em conferencia com o doente, exasperou-se e amea&ccedil;ou
+de n&atilde;o voltar a receitar, se n&atilde;o fosse obedecido.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; que not&aacute;ra no enfermo um novo accesso de febre.
+<br />
+
+<br />
+
+Julio mostrou-se indifferente aos preceitos do doutor.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Era um favor&#8213;dizia elle&#8213;deixar que a doen&ccedil;a
+acabasse com isto!...
+<br />
+
+<br />
+
+Passaram ainda uns dias, e o <em>Tomba</em>
+faroleiro e
+mettidi&ccedil;o, n&atilde;o podendo ser admittido &aacute;
+presen&ccedil;a de Julio,
+vingava-se indo para casa de D. Aurelia, a informar-se
+do estado da <em>probesinha</em>. Quando D.
+Aurelia
+o incumbiu de levar ao Porto uma nova carta a madre
+Paula, o sapateiro n&atilde;o p&ocirc;de ter-se e,
+transgredindo os
+preceitos do medico, foi ter com Julio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O sr. Julinho quer alguma coisa para madre
+Paula?&#8213;perguntou.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Porque? Vae fallar com ella?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, senhor... &Eacute; que eu vou ao Porto fazer
+umas mercas p'r&aacute; senhora D. Aurelia, e se vossa
+<em>incellencia</em>
+quizesse, eu, de caminho, levava qualquer
+recado para Madre Paula.
+<br />
+
+<br />
+
+Julio ficou pensativo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o... n&atilde;o quero nada&#8213;disse por fim&#8213;Tenho
+immenso desejo de fallar com ella; mas n&atilde;o posso pedir-lhe
+que venha do Porto aqui, ouvir-me. Alem de
+indelicado, seria inutil o pedido, tanto mais que o que
+tenho a dizer-lhe representa antes uma impertinencia
+da minha parte do que um servi&ccedil;o a prestar-lhe...
+<br />
+
+<br />
+
+E dizendo isto, Julio cruzou os bra&ccedil;os e deixou
+descahir desalentado a cabe&ccedil;a sobre o peito.
+<br />
+
+<br />
+
+O sapateiro encarou-o com olhos compadecidos, e
+depois rompendo na sua natural expansibilidade, exclamou:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;<em>Ameno</em>, sr. Julinho! O que
+n&atilde;o se faz em dia
+<span class="pagenum">[393]</span>
+de Santa Luzia faz-se ao oitro dia... O sr. Julinho
+inda ha-de ter pernas p'ro levarem aonde quer ir...
+Mais velho sou eu, que j&aacute; c&aacute; tenho
+<em>acaijo</em> carro e
+meio d'annos, e inda, sendo preciso, vou d'aqui &oacute; cabo
+do mundo a p&eacute;...
+<br />
+
+<br />
+
+E concluindo:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E se fosse causo que eu fallasse co'a tal freira
+e a <em>arresolvesse</em> a vir por ahi
+arriba, assim como coisa
+minha?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como &eacute; que voc&ecirc; havia de fazer isso, mestre
+<em>Tomba</em>?&#8213;interrompeu Julio com um
+sorriso de quem
+achava disparatada a hypothese do sapateiro.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como? Isso agora n&atilde;o sei eu... Mas se fosse
+eu que lhe pedisse como coisa minha... sem lhe dizer
+quem &eacute; que lhe quer fallar... A mim, j&aacute; se sabe,
+que n&atilde;o me fica mal pedir uma coisa que n&atilde;o seja
+assim
+l&aacute; muito de grande induca&ccedil;&atilde;o... Eu sou
+p'r&aacute; aqui
+um <em>probe</em> sapateiro, fazem
+&aacute; de conta que eu n&atilde;o sei
+o que digo... e &aacute;s vezes pegam as bichas.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, n&atilde;o, mestre
+<em>Tomba</em>, n&atilde;o pense n'isso,
+que
+&eacute; uma coisa que n&atilde;o pode fazer-se...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; b&ocirc;! Vossa
+<em>incellencia</em> que o diz, l&aacute;
+sabe a
+<em>rez&atilde;o</em> porqu&ecirc;...
+<br />
+
+<br />
+
+O <em>Tomba</em> partiu para o Porto muito
+resolvido a
+envidar todos os esfor&ccedil;os para conseguir que madre
+Paula visitasse Julio de Montarroyo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu armo-lhe uma intrujice e ella cae logo&#8213;pensava
+elle.&#8213;Entrego-lhe a carta da snr.<sup>a</sup> D. Aurelia
+e logo vejo na cara os <em>himores</em> de
+que ella fica...
+Estas freiras s&atilde;o amigas de saber e de tirar nabos
+do pucaro... e eu a paginas tantas ferro-lhe com a
+p&ecirc;ta de que a Lucilinha est&aacute; muito mal e que lhe
+manda pedir de bocca&#8213;porque n&atilde;o p&oacute;de
+escrever&#8213;se
+ella faz o favor e a esmola de a ir visitar, porque
+tem umas coisas de muita importancia a dizer-lhe e
+n&atilde;o queria morrer sem a v&ecirc;r alli &oacute; par
+d'ella... A
+<span class="pagenum">[394]</span>
+freira vem, e eu, em vez de a levar p'ra Villaverde,
+ferro com ella em S. Martinho do Campo... Depois
+digo que me enganei no caminho e passe por l&aacute; muito
+bem...
+<br />
+
+<br />
+
+E contente d'esta esperteza, o <em>Tomba</em>
+achava impossivel
+que a sua lembran&ccedil;a n&atilde;o produzisse resultado.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Coitado do snr. Julinho, que est&aacute; p'ra alli, que
+&eacute; mesmo uma d&ocirc;r de cora&ccedil;&atilde;o,
+morto por desabafar, e
+n&atilde;o v&ecirc; meio de fallar c'oa madre Paula,
+sen&atilde;o indo
+elle aonde a ella... Pois vamos a v&ecirc;r se eu tenho
+labia p'r&aacute; trazer c&aacute;... Ella inda est&aacute;
+bem rija e fera,
+p&oacute;de melhor andar do que elle... Ora deixa que
+eu sempre quero v&ecirc;r se uma coisa que se me mette
+em cabe&ccedil;a hade ficar assim em
+<em>augas</em> de bacalhau!
+<br />
+
+<br />
+
+Chegado ao Porto, o <em>Tomba</em>
+encaminhou-se &aacute; Bandeirinha,
+bateu &aacute; porta da casa conventual das Sereias,
+e pediu para fallar a madre Paula.
+<br />
+
+<br />
+
+A madre porteira informou-o de que a superiora
+estava no campo, a ares; e que n&atilde;o era esperada
+ainda por aquelles dias...
+<br />
+
+<br />
+
+Atravessou a cidade em direc&ccedil;&atilde;o ao Carvalhido
+onde j&aacute; fall&aacute;ra com a madre Paula dias antes, e
+disse
+ao criado que veio abrir-lhe a porta:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fa&ccedil;a favor de dizer &aacute;quella senhora com quem
+fallei oitro dia que est&aacute; aqui o homem de Villaverde
+com uma carta para ella.
+<br />
+
+<br />
+
+O criado foi e voltou pouco depois.
+<br />
+
+<br />
+
+Na mesma sala em que j&aacute; f&ocirc;ra recebido uma vez,
+estava madre Paula. O sapateiro reconheceu-a o cumprimentou-a
+festivo e humilde, com grande profus&atilde;o
+de zumbaias.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora at&atilde;o vossa reverendissima e incellentissima
+madre como passou? Passou bem?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Obrigada, passei bem&#8213;respondeu madre Paula
+com risonho semblante.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois eu t&aacute;mem passei bem, muito aguardecido
+<span class="pagenum">[395]</span>
+&aacute; senhora... A menina de Villaverde manda muitas
+<em>bugitas</em> &aacute; senhora madre e
+mais esta cartinha...
+<br />
+
+<br />
+
+E entregou-lhe a carta de que era portador. Madre
+Paula abriu-a e com grande surpresa leu:<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature">&laquo;<em>Minha querida
+Paula</em>:</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Lembras-te ainda d'aquella desgra&ccedil;ada
+<em>irm&atilde; Doroth&ecirc;a</em>
+que no seculo se chamou Helena de Noronha?
+Se da tua memoria n&atilde;o se deliu ainda o nome da tua
+pobre amiga e desejas receber d'ella o supremo adeus,
+vem depressa, antes que a morte lhe gele nos labios
+as revela&ccedil;&otilde;es que deseja fazer-te e que
+s&oacute; tu poder&aacute;s
+receber.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o te demores, minha querida! Sinto que a vida
+me foge, e, se n&atilde;o vens immediatamente, receio bem
+que apenas possas abra&ccedil;ar o cadaver da
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature">Tua<br />
+
+<em>Helena</em>.&raquo;
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Minha pobre Helena!&#8213;murmurou attonita madre
+Paula, fixando na carta os olhos turvos de lagrimas.
+<br />
+
+<br />
+
+E voltando-se para o sapateiro:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Onde est&aacute; ella?&#8213;perguntou.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem? A menina de Villaverde? Est&aacute; em S.
+Martinho de Campo, que &eacute; alli adiante da Povoa de
+Lanhoso...&#8213;principiou o <em>Tomba</em>,
+pondo em pr&aacute;tica
+o seu plano de arrastar a religiosa &aacute; presen&ccedil;a de
+Julio.&#8213;Ella deu-me essa carta muito afflicta p'r&aacute;
+vir trazer &aacute; senhora madre, porque ella foi p'ra
+l&aacute;
+tratar de uma <em>probe</em> senhora que
+est&aacute; l&aacute; a morrer...
+E <em>d&iacute;xe-me</em> de
+b&ocirc;cca: &laquo;Diga &aacute; madre Paula&#8213;e senhora
+na <em>presencia</em>&#8213;que lhe mando pedir se
+ella me p&oacute;de
+<span class="pagenum">[396]</span>
+fazer o favor de c&aacute; vir fallar commigo, que eu pago
+todas as despezas de <em>camboio</em> e de
+carro p'ra c&aacute; e p'ra
+l&aacute;, que &eacute; um negocio de muita circumstancia e
+de muito interesse p'r&aacute; santa religi&atilde;o, o que lhe
+eu
+quero dizer... Agora a senhora madre l&aacute; ver&aacute;...
+Mas ella <em>dixe-me</em> isto co'uma cara
+t&atilde;o afflicta, que eu
+int&eacute; lhe dixe:&#8213;<em>Esteje</em>
+descan&ccedil;ada, menina, n&atilde;o se
+<em>affleija</em>, que a snr.<sup>a</sup> madre
+Paula
+n&atilde;o tem <em>caratle</em> de
+dezer que n&atilde;o a uma coisa d'essas...&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim... sim, eu vou!&#8213;exclamou madre Paula
+sensibiliaada&#8213;A que horas temos comboio?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Temos agora ahi um da tarde, depois das quatro
+horas... Se a senhora madre quizer, inda hoje
+chegamos l&aacute;, porque a gente vae d'aqui
+<em>dereito</em> a Guimar&atilde;es
+e de l&aacute; mette-se n'um carro, vamos pelas Taypas
+e quando forem oito ou nove horas da noite, estamos
+l&aacute;...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois bem; vocemec&ecirc; demore-se. Eu vou mandar
+que lhe deem de comer e...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Comer? Nada, minha senhora! Muito aguardecido,
+mas &aacute; minha bocca &eacute; que n&atilde;o vae nada,
+seja
+pelo que f&ocirc;r!&#8213;interrompeu o
+<em>Tomba</em> horrorisado, ao
+lembrar-se da cilada do Sard&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Porque? Vocemec&ecirc; jantou?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, minha senhora... eu c&aacute; n&atilde;o
+jantei nem
+janto... &Eacute; costume que n&atilde;o tenho... j&aacute;
+estou desafeito...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que! est&aacute; desafeito de comer!?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quero dezer, minha senhora, eu jejuo... &Eacute;
+uma <em>promessia</em> que fiz de jejuar dia
+sim, dia n&atilde;o...
+e hoje &eacute; o dia do sim...
+<br />
+
+<br />
+
+Madre Paula, muito preoccupada com a extraordinaria
+carta que acabava de receber, n&atilde;o prestou
+atten&ccedil;&atilde;o &aacute; estranha physionomia do
+sapateiro recusando
+a refei&ccedil;&atilde;o que se lhe offerecia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois ent&atilde;o, se jejua,
+n&atilde;o q&#8213;Pois ent&atilde;o, se jejua,
+n&atilde;o quebre o seu jejum, meu
+<span class="pagenum">[397]</span>
+irm&atilde;o. Mas tem de esperar que eu me aprompte para
+a partida...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; reverendissima madre, eu espero o tempo
+que f&ocirc;r preciso... L&aacute; p'r&aacute; amor d'isso,
+n&atilde;o seja a
+duvida.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sente-se ent&atilde;o ahi ou v&aacute;
+at&eacute; l&aacute; f&oacute;ra, &aacute; quinta....
+Como quizer.
+<br />
+
+<br />
+
+Dito, isto Madre Paula dirigiu-se a uma sala interior
+onde se encontrava o padre Filippe conversando
+familiarmente com Paulo de Noronha e Jorge de Gusm&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sr. Padre Filippe&#8213;pediu ella&#8213;vossa reverendissima
+faz-me a fineza de me conceder alguns minutos
+de atten&ccedil;&atilde;o em particular?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois n&atilde;o, minha senhora!&#8213;respondeu o padre
+gentilmente.
+<br />
+
+<br />
+
+Paulo e Jorge levantaram-se.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;D&ecirc;em-me licen&ccedil;a, meus amigos&#8213;disse-lhes a
+abbadessa&#8213;que lhes roube por um curto instante a
+interessante conversa do snr. padre Filippe.
+<br />
+
+<br />
+
+E dirigindo-se a Paulo:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vae, meu filho, vae at&eacute; &aacute; bibliotheca com o teu
+amigo a quem pedir&aacute;s desculpa da minha impertinencia...
+<br />
+
+<br />
+
+Quando os dois sahiram, madre Paula, voltando-se
+para o Padre Filippe, exclamou:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Helena de Noronha, a <em>irm&atilde;
+Dorotheia</em>, vive
+ainda!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como o sabes?&#8213;perguntou o padre Filippe surprehendido.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;L&ecirc;!
+<br />
+
+<br />
+
+E apresentou-lhe a carta de Helena.
+<br />
+
+<br />
+
+O padre Filippe leu, examinou detidamente a carta
+e disse:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; a letra d'ella!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute;, n&atilde;o ha duvida... Minha pobre Helena!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[398]</span> &#8213;E o que tencionas fazer?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O portador est&aacute; l&aacute; f&oacute;ra... E, pois
+que ella est&aacute;
+a morrer, quero pedir-te, meu bom amigo, que me
+acompanhes a ir visital-a...
+<br />
+
+<br />
+
+O padre Filippe, com a despreoccupada bondade
+que lhe era natural, respondeu sem hesitar:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Do melhor grado te acompanharei, minha querida
+Paula. Quando queres partir?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Hoje mesmo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por&eacute;m, Beatriz?...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Beatriz ficar&aacute; em companhia de madre Angelica
+das Sete Dores, que &eacute;, como sabes, austera e de
+s&atilde;o
+conselho.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois sim.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vou mandal-a chamar j&aacute; e dar-lhe as
+instruc&ccedil;&otilde;es
+precisas... De resto, a nossa demora ser&aacute; curta,
+porque a pobre Helena acha-se moribunda, como ella
+propria o diz...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Convem prevenir Paulo da nossa ausencia e
+pedir-lhe que se abstenha de vir visitar Beatriz emquanto
+n&oacute;s n&atilde;o regressarmos...
+<br />
+
+<br />
+
+Madre Paula sorriu.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E porque n&atilde;o ha de vir?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; preciso confiarmos nos sentimentos de nobre
+lealdade d'esse rapaz, e n&atilde;o o prevertermos com a
+suspeita que uma tal prohibi&ccedil;&atilde;o traduziria...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dizes bem.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Minha pobre Helena! Que mysteriosa cadeia
+de soffrimentos a conduziu at&eacute; ao leito de morte
+d'onde agora me chama na agonia do traspasse?
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[399]</span>
+<h3><a name="c26"></a>XXVI<br />
+
+<br />
+
+Um amigo dos diabos
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Na tarde d'esse dia, madre Paula e padre Filippe,
+convenientemente disfar&ccedil;ados sob os trajes seculares
+e guiados por mestre <em>Tomba</em>, tomavam
+na esta&ccedil;&atilde;o do
+Pinheiro, em Campanh&atilde;, bilhetes para Guimar&atilde;es,
+por ser o caminho que mais rapidamente os levaria a
+S. Martinho de Campo.
+<br />
+
+<br />
+
+O sapateiro, persuadido de que f&ocirc;ra elle quem
+conseguira resolver a superiora das Sereias a esta
+viagem, pois ignorava inteiramente o conth&eacute;udo da
+carta de que fora portador, ia radiante e vaidoso da
+sua astucia.
+<br />
+
+<br />
+
+A principio observou com desgosto e desconfian&ccedil;a
+o padre Filippe, em quem suspeitava um segundo tomo
+do padre Anselmo. Essa suspeita, por&eacute;m, em
+breve se lhe desvaneceu, em presen&ccedil;a da attitude
+lhana e amavel do secerdote.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Este parece que &eacute; vinho d'outra pipa!&#8213;commentou
+comsigo o sapateiro&#8213;Mas
+<em>t&aacute;mem</em> se o n&atilde;o
+f&ocirc;r,
+o que eu quero &eacute; l&aacute; pilhal-o, porque, depois,
+quem
+manda &eacute; o sr. Julinho e mais eu... E se se fizer fino,
+l&aacute; ainda ha de haver quem lhe troque a cor&ocirc;a
+em mindos p'ra lhe metter juizo &aacute; for&ccedil;a na
+cachola...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[400]</span>
+Passadas as primeiras esta&ccedil;&otilde;es, o sapateiro
+tornou-se
+loquaz e palrador. Dando largas ao seu genio
+communicativo e alegre, ia dando informa&ccedil;&otilde;es pelo
+caminho aos seus dois companheiros. Conhecia todas
+as propriedades e nomeava-lhes os donos pelo nome.
+Este era muito <em>b&ocirc;</em> sujeito;
+aquelle <em>t&aacute;mem</em>
+n&atilde;o era
+mau, mas andava em demanda com os cunhados &aacute;
+conta das partilhas por morte da sogra. Emfim, elle
+conhecia toda a gente e de tudo dava rela&ccedil;&atilde;o
+exacta
+e minuciosa.
+<br />
+
+<br />
+
+Quando chegaram a Guimar&atilde;es, o
+<em>Tomba</em> perguntou
+se queriam descan&ccedil;ar um pouco no
+<em>hotle</em> ou se
+queriam seguir logo para S. Martinho.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; muito longe d'aqui l&aacute;?&#8213;? perguntou o padre
+Filippe.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; alli logo <em>adiente</em> das
+Taypas... Se o cocheiro
+bater bem, chegamos l&aacute; em tres horas.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o &eacute; melhor que partamos j&aacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+O <em>Tomba</em>, solicito, fretou um carro
+em que entraram
+os tres, com recommenda&ccedil;&atilde;o ao cocheiro de que
+urgia chegar breve.
+<br />
+
+<br />
+
+&Aacute;s 9 horas da noite, o carro parava &aacute; porta de
+Julio de Montarroyo.
+<br />
+
+<br />
+
+O <em>Tomba</em>, sempre movido do pensamento
+de surprehender
+agradavelmente o seu amigo e protector
+apresentando-lhe madre Paula em casa quando elle
+menos o esperava, em vez de parar &aacute; porta de D.
+Aurelia, guiou os seus companheiros para a antiga
+casa de Norberto de Noronha.
+<br />
+
+<br />
+
+O sapateiro introduziu madre Paula e o padre Filippe
+na primeira sala, pedindo-lhes que se demorassem,
+que elle ia d&aacute;r parte &aacute; senhora. E quasi sem
+esperar
+resposta e desrespeitando todas as prescrip&ccedil;&otilde;es
+medicas,
+entrou impetuosamente no quarto de Julio de
+Montarroyo, exclamando:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora, sr. Julinho, os amigos conhecem-se nas
+<span class="pagenum">[401]</span>
+<em>incasi&otilde;es</em>, e o
+<em>Tomba</em>, com um raio de diabos! p'ra
+servir um amigo &eacute; capaz de dar uma volta no inferno!
+C&aacute; est&aacute; ella!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ella, quem?&#8213;interrogou Julio de Montarroyo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A madre Paula, com seiscentos livros de missa!
+<br />
+
+<br />
+
+Julio de Montarroyo encarou espantado no sapateiro,
+suspeitando que elle tivesse endoidecido.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas est&aacute; onde, mestre?&#8213;perguntou.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Alli f&oacute;ra, sr. Julinho, alli f&oacute;ra na sala...
+Vem
+acompanhada com um padr&eacute;ca, mas n&atilde;o tem
+<em>duveda</em>...
+Quer que os mande entrar p'ra aqui?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Voc&ecirc; falla serio, mestre Tomba?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; sr. Julinho, isso n&atilde;o s&atilde;o coisas
+que vossa <em>incellencia</em>
+me diga a mim na minha cara!&#8213;exclamou
+o sapateiro escandalisado&#8213;Pois eu ando por l&aacute; a dar
+voltas ao miolo p'ra lh'a trazer,&#8213;que suei e tornei a
+suar primeiro que a <em>arresolvesse</em>&#8213;e
+o snr. Julinho,
+chego aqui, e n&atilde;o me quer
+<em>acuarditar</em>?! Eu serei capaz
+de lhe <em>dezer</em> uma coisa por oitra,
+sr. Julinho?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; bem, mestre...&#8213;tornou Julio&#8213;N&atilde;o vale
+a pena zangar. Eu vou immediatamente cumprimentar
+essa senhora...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olhe l&aacute;, &oacute; sr. Julinho&#8213;observou o sapateiro
+detendo-o quando elle ia j&aacute; a transp&ocirc;r a porta do
+quarto&#8213;eu enganei-a!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Enganou-a?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Disse-lhe que estava c&aacute; a <em>irm&atilde;
+Dorotheia</em>, muito
+doente e que lhe mandava pedir p'ra ella c&aacute; vir
+v&ecirc;-a... Ora agora, o sr. Julinho arranje l&aacute; as
+coisas
+de modo que n&atilde;o me deixe ficar por mentiroso...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Voc&ecirc; est&aacute; doido, mestre? Como quer que eu
+sustente essa mentira, se Helena n&atilde;o est&aacute; aqui
+nem
+eu tenho noticias d'ella?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sei, sr. Julinho... Diga-lhe que ella j&aacute;
+morreu e que se enterrou <em>honte</em>
+&aacute; noite... Eu c&aacute; por
+mentiroso &eacute; que
+&aacute; noite... Eu c&aacute; por
+mentiroso &eacute; que n&atilde;o hei-de ficar,
+sen&atilde;o ellas, em me
+<span class="pagenum">[402]</span>
+apanhando l&aacute; outra vez, s&atilde;o capazes de me dar uma
+co&ccedil;a...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Descance, mestre; eu vou fallar com madre
+Paula.
+<br />
+
+<br />
+
+E deixando o sapateiro, entrou na sala onde se
+encontravam a religiosa e o seu companheiro.
+<br />
+
+<br />
+
+Padre Filippe, que o n&atilde;o conhecia, limitou-se a
+observal-o com curiosidade.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;V. ex.<sup>a</sup> certamente n&atilde;o reconhece
+n'este velho
+o mo&ccedil;o que ha desoito annos teve a honra de admirar
+na gentil superiora do Sard&atilde;o uma das mais austeras
+religiosas que em sua vida lhe foi dado cumprimentar?&#8213;disse
+Julio de Montarroyo, dirigindo-se a madre
+Paula, ao mesmo tempo que saudava com uma reverente
+inclina&ccedil;&atilde;o de cabe&ccedil;a o padre Filippe.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; v. ex.<sup>a</sup> enganado, sr. Julio de
+Montarroyo&#8213;replicou
+madre Paula recobrando a serenidade&#8213;Reconhe&ccedil;o-o
+perfeitamente, e &eacute; com verdadeira
+satisfa&ccedil;&atilde;o
+que torno a vel-o, se bem que estava longe de
+o encontrar aqui.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A surpreza, portanto, &eacute; para n&oacute;s dois, pois que
+eu tambem, apezar do vivo desejo que sentia de fallar
+a v. ex.<sup>a</sup>, n&atilde;o podia esperar a subida
+honra que
+me d&aacute; da sua caridosa visita... E digo caridosa, porque
+visitar um enfermo nas minhas condi&ccedil;&otilde;es
+&eacute; verdadeiramente
+uma obra de caridade, que s&oacute; as almas
+sinceramente religiosas como a de vossa excellencia
+sabem comprehender e praticar.
+<br />
+
+<br />
+
+Madre Paula escutava-o sem o comprehender.
+<br />
+
+<br />
+
+Julio de Montarroyo offereceu o soph&aacute; aos seus
+hospedes.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dignem-se v. ex.<sup>as</sup> sentar-se, e, pois que me
+d&atilde;o a honra da sua visita, permittam-me que os considere
+meus hospedes por alguns dias. Esta casa &eacute; pobre.
+Ha aqui o triste desconforto das casas da provincia
+<span class="pagenum">[403]</span>
+que n&atilde;o teem a direc&ccedil;&atilde;o
+intelligente de uma
+mulher a governal-as.
+<br />
+
+<br />
+
+No entanto, dois titulos tornam digna esta desconfortavel
+habita&ccedil;&atilde;o da subida honra de abrigar sob o
+seu tecto a superiora do Sard&atilde;o: o primeiro vem a ser
+o soccorro espiritual prestado a um enfermo que ardentemente
+o deseja e implora; e o segundo o facto
+de ter sido esta, outr'ora, a casa de uma das amigas
+mais intimas de v. ex.<sup>a</sup>, a <em>irm&atilde;
+Dorotheia</em>, conhecida
+no seculo por Helena de Noronha.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Helena!&#8213;bradou madre Paula&#8213;Onde est&aacute;
+ella? Pe&ccedil;o-lhe que me conduza sem demora at&eacute;
+junto
+do seu leito. Mal soube que estava doente, accorri immediatamente
+ao seu chamamento, e tenho f&eacute; que a
+minha presen&ccedil;a ha de fazer-lhe bem, ha de melhoral-a...
+<br />
+
+<br />
+
+Julio de Montarroyo encarou com insistencia a
+abbadessa.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;V. ex.<sup>a</sup> n&atilde;o sabe onde
+est&aacute; Helena de
+Noronha?&#8213;perguntou
+elle.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Julguei encontral-a nesta casa, d'onde me escreveu
+a chamar-me e onde me disseram que estava.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;D'onde lhe escreveu, diz v. ex.<sup>a</sup>?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim. Eis aqui a carta que hoje mesmo recebi
+pelo homem que aqui nos conduziu.
+<br />
+
+<br />
+
+E madre Paula apresentou a Julio de Montarroyo,
+estupefacto, a carta de que o <em>Tomba</em>
+f&ocirc;ra portador.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; a lettra de Helena!&#8213;exclamou Julio n'um
+brado de alegria extrema&#8213;N&atilde;o ha duvida, Helena
+escreveu esta carta... Mas onde est&aacute; ella?&#8213;perguntou
+por sua vez tambem.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois deveras Helena de Noronha n&atilde;o est&aacute;
+aqui?&#8213;interrogou
+ainda madre Paula, tomada de estranha
+surpreza.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, minha senhora&#8213;volveu Julio&#8213;e at&eacute; eu
+ignoro como e de que maneira esta carta pudesse ser-lhe
+<span class="pagenum">[404]</span>
+enviada por Helena, de quem n&atilde;o tenho noticias
+ha dezoito annos! Esperava eu que v. ex.<sup>a</sup>,
+compadecida
+do meu estado de doen&ccedil;a e do muito que tenho
+soffrido no esfor&ccedil;o inutil de encontrar a filha de
+Norberto de Noronha, se dignasse dar-me quaesquer
+indica&ccedil;&otilde;es que me permitissem fallar-lhe ou
+escrever-lhe
+ainda antes de morrer.
+<br />
+
+<br />
+
+E com uma eloquencia febril, contou em rapidas
+palavras tudo o que lhe succedera nos desoito annos
+decorridos e que o leitor n&atilde;o ignora, por j&aacute; lh'o
+ter
+ouvido contar a Gustavo de Magalh&atilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agora&#8213;concluiu&#8213;alquebrado, doente, com
+poucos dias de vida, todo o meu empenho era procurar
+v. ex.<sup>a</sup> e pedir-lhe, por tudo quanto mais ama no
+mundo, que me dissesse se Helena de Noronha vive
+ainda ou se devo procural-a no mundo dos espiritos...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O homem que aqui nos guiou &eacute; que foi portador
+d'esta carta. Elle portanto, poder&aacute; dizer quem
+lh'a entregou e onde se encontra quem a escreveu...&#8213;explicou
+madre Paula, de cada vez mais attonita
+e surprehendida.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tem v. ex.<sup>a</sup> ras&atilde;o. Vou mandal-o
+chamar &aacute; sua
+presen&ccedil;a, e elle explicar&aacute;...
+<br />
+
+<br />
+
+Julio levantou-se, tocou uma campainha e ordenou
+ao criado que appareceu &aacute; porta da sala:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Diga ao mestre <em>Tomba</em> que venha
+c&aacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+Pouco depois apparecia &aacute; porta o sapateiro com o
+ar petulante de quem est&aacute; resolvido a dizer tudo sem
+rodeios, e a assumir inteira responsabilidade dos seus
+actos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O sr. Julinho, chamou?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Chamei, mestre. Venha c&aacute;...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Prompto!
+<br />
+
+<br />
+
+E o sapateiro avan&ccedil;ou dois passos na sala, de
+cabe&ccedil;a
+erguida e olhar firme.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o como &eacute; isto?&#8213;ia Julio a dizer.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[405]</span>
+Mas o sapateiro interrompeu-o, sem o deixar concluir.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o como hade ser? Fui eu que armei esta
+<em>trempe</em>, p'ra fazer que aqui a nossa
+reverendissima
+madre e mais este reverendissimo sr. padre viessem &aacute;
+<em>presencia</em> do sr. Julinho... Vossa
+<em>incellencia</em> estava
+todos os dias a appellidar por ella, que a queria v&ecirc;r,
+que lhe queria fallar e que morria sem
+<em>estifazer</em> o seu
+desejo... Vae eu <em>at&atilde;o</em>
+disse comigo: &laquo;Se eu, armar
+uma p&ecirc;ta bem arranjada e disser &aacute; nossa
+reverendissima
+madre que &eacute; a sr.<sup>a</sup> D. <em>Helenia
+de
+Laronha</em> que
+est&aacute; a dar a alma a Deus, ella larga barcos e redes e
+vem por ahi f&oacute;ra atr&aacute;s de mim, que &eacute;
+um ar que lhe
+d&aacute;... Ponto &eacute; que ella me
+<em>acuardite</em>... Vamos a v&ecirc;r
+se as bichas pegam... Fui e as bichas pegaram. Ella
+aqui est&aacute;... Agora o sr. Julinho diga o que tem a
+<em>dezer</em>, e se eu fico por mentiroso,
+&eacute; o mesmo... Se
+quer &oacute; menos, <em>intrujei</em>,
+mas foi p'ra <em>estifazer</em> a ultima
+vontade a vossa <em>incellencia</em>... Agora
+j&aacute; p&oacute;de morrer
+descan&ccedil;ado.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas venha c&aacute;, <em>Tomba</em>,
+como arranjou voc&ecirc; a
+carta de Helena de Noronha?
+<br />
+
+<br />
+
+O sapateiro arregalou os olhos:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A carta da sr.<sup>a</sup> D. <em>Helenia</em>?
+A
+carta n&atilde;o &eacute;
+d'ella!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como n&atilde;o &eacute; d'ella?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o &eacute; d'ella, j&aacute; lhe disse! Assim um
+raio venha
+que nos parta aqui a todos, se eu vi a sr.<sup>a</sup> D.
+<em>Helenia</em> ou sequer alguem me boquejou
+a respeito
+d'ella!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas esta carta&#8213;disse madre Paula&#8213;foi-me
+entregue por vocemec&ecirc;...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso &eacute; oitra coisa...&#8213;tornou o sapateiro&#8213;Mas
+as cartas s&atilde;o papeis... Essa carta n&atilde;o
+&eacute; da sr.<sup>a</sup>
+<em>D. Helenia</em>.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o &eacute;!&#8213;exclamou Julio&#8213;Mas a lettra e a
+<span class="pagenum">[406]</span>
+assignatura s&atilde;o d'ella. Como arranjou voc&ecirc; esta
+carta?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;S&atilde;o d'ella!?&#8213;disse por sua vez o
+<em>Tomba</em> muito
+admirado.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se esta carta n&atilde;o &eacute; escripta por Helena&#8213;tornou
+Julio de Montarroyo&#8213;ent&atilde;o alguem lhe imitou a
+lettra e a assignatura. O mestre dir&aacute; quem foi...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E a carta o que diz, &oacute; sr. Julinho?&#8213;interrogou
+o sapateiro com grande interesse.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois voc&ecirc; n&atilde;o o sabe, mestre?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu n&atilde;o, senhor! Cego seja eu e o meu Santo
+Antonio, que est&aacute; l&aacute; dentro, permitta que eu
+n&atilde;o arranje
+mais cinco r&eacute;is d'esmola em toda a minha vida,
+se eu sei o que ella diz... Eu levei-a fechada, n&atilde;o a
+abri para a mandar l&ecirc;r, como hei-de eu adivinhar o
+que ella diz?<br />
+
+<br />
+
+Julio percebeu que o sapateiro fallava verdade, e
+de cada vez mais surprehendido pela ignorancia do
+mestre sobre o contheudo da carta, resolveu-se a esclarecel-o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esta carta &eacute; assignada por Helena de Noronha
+e pede &aacute; virtuosa madre Paula que venha junto ao
+seu leito de agonia dizer-lhe o ultimo adeus...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ella diz que est&aacute; doente?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Diz que est&aacute; a morrer...
+<br />
+
+<br />
+
+O sapateiro bateu uma palmada na testa com expans&atilde;o:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quer vossa <em>incellencia</em>
+v&ecirc;r que &eacute; ella!?&#8213;exclamou&#8213;Pois
+n&atilde;o &eacute; oitra coisa. &Eacute; ella! Oh! com um
+raio de diabos! E eu aqui a dois passos, e sem o saber!
+Que grande cabe&ccedil;a de burro eu sou! Pois &eacute; ella,
+n&atilde;o ha que v&ecirc;r!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ella quem?&#8213;interrogou anciosamente Julio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A doente que est&aacute; em casa da sr.<sup>a</sup>
+D. Aurelia!
+Ora... ora esta! E fui eu que dei co'ella na estrada,
+como morta, sem dar por burro nem por albarda...
+<br />
+
+<br />
+
+E depois, n'um movimento de duvida:
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[407]</span> &#8213;Mas olhe l&aacute;, &oacute; sr. Julinho, a carta diz isso?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sem duvida, mestre, a carta &eacute; de Helena... Diz
+que est&aacute; doente e pede a madre Paula que venha
+v&ecirc;l-a...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Agora... agora! Por isso vossa reverendissima
+se p&ocirc;z t&atilde;o prompto para me acompanhar...
+C&aacute; me
+queria parecer!... E eu a cuidar que era eu que a
+trazia ao engano!... Sou esperto, n&atilde;o tem duvida!
+Posso ir p'r&oacute; diabo que me carregue e mais a minha
+esperteza!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas venha c&aacute;, mestre
+<em>Tomba</em>... explique-nos
+que doente &eacute; essa de que est&aacute; fallando... Eu
+n&atilde;o sei
+nada!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois se vossa <em>incellencia</em> tem
+estado &aacute;s portas
+da morte, vae hoje, vae amanh&atilde;, e todos me
+<em>deziam</em>
+que n&atilde;o lhe dissesse nada nem lhe
+<em>trouvesse</em> novidades,
+que podia ser &aacute;s vezes dar-lhe uma coisa pela
+cabe&ccedil;a
+e alimpal-o ainda mais depressa... como &eacute; que eu havia
+de lhe vir contar o que era passado? Mas agora
+&eacute; que eu percebo a
+<em>tramoia</em>... Ant&atilde;o
+l&aacute; vae!
+<br />
+
+<br />
+
+O sapateiro contou como encontr&aacute;ra inanimada no
+caminho, quando regressava, do Porto, uma pobre
+mulher desconhecida e andrajosa, que f&ocirc;ra recolhida
+por caridade em casa de D. Aurelia onde ainda se
+encontrava.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E at&atilde;o agora est&aacute; tudo explicado.&#8213;concluiu&#8213;A
+snr.<sup>a</sup> D. Aurelia foi que me mandou ao Porto
+entregar essa carta aqui &aacute; snr.<sup>a</sup>
+madre, mas sem me
+dizer de quem era... Ora, se o sr. Julinho diz que a
+carta foi escrevida pela snr.<sup>a</sup> D.
+<em>Helenia</em>,
+<em>at&atilde;o</em> a coisa
+est&aacute; bem clara: a doente que l&aacute; est&aacute; e
+que eu topei
+na estrada &eacute; ella!
+<br />
+
+<br />
+
+Julio ouvira com extraordinaria commo&ccedil;&atilde;o a
+narrativa
+do sapateiro.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! meu Deus!&#8213;exclamou&#8213;at&eacute; que emfim
+a encontro!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[408]</span>
+E voltando-se para madre Paula:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Minha senhora, pois que foi chamada por Helena,
+cumpre-me conduzil-a &aacute; casa onde ella se encontra.
+<br />
+
+<br />
+
+Minutos passados, madre Paula, padre Filippe e
+Julio de Montarroyo, acompanhados por mestre
+<em>Tomba</em>,
+entravam em casa de D. Aurelia.
+<br />
+
+<br />
+
+A irm&atilde; de Gustavo veio recebel-os ao sal&atilde;o
+d'entrada,
+e n&atilde;o ficou pouco surprehendida quando Julio
+de Montarroyo lhe disse:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Minha amiga, tenho a honra de lhe apresentar
+madre Paula, virtuosa superiora da casa conventual
+das Sereias, no Porto, amiga intima de Helena de Noronha,
+que, segundo creio, se hospeda na casa de v.
+ex.<sup>a</sup>...
+<br />
+
+<br />
+
+E indicando o padre Fillipe:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E este cavalheiro &eacute; o sr. padre Filippe, respeitavel
+sacerdote que teve a amavel complascencia de
+acompanhar esta senhora na visita &aacute; sua amiga.
+<br />
+
+<br />
+
+D. Aurelia cumprimentou os visitantes, relanceando
+um olhar de censura ao <em>Tomba</em> que,
+interdicto, co&ccedil;ava
+na orelha, como quem comprehendia que tinha
+feito asneira.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade&#8213;disse por fim D. Aurelia&#8213;que
+tenho em minha casa Helena de Noronha; e se d'isso
+n&atilde;o informei immediatamente, como desejava, o snr.
+Julio de Montarroyo, foi devido a duas
+considera&ccedil;&otilde;es
+imperiosas: a primeira foi o facto de Helena, que recolheu
+doentissima e em perigo de vida a minha casa,
+me haver supplicado que n&atilde;o divulgasse, fosse a quem
+fosse, a sua estada aqui; e a segunda foi a circumstancia
+do snr. Julio de Montarroyo se achar gravissimamente
+enfermo e haver especial recommenda&ccedil;&atilde;o do
+seu medico para que lhe n&atilde;o dessem noticia que pudesse
+causar-lhe qualquer abalo moral, porque isso
+poria em perigo a sua existencia.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[409]</span> &#8213;Oh!&#8213;protestou Julio&#8213;pois se toda a minha
+doen&ccedil;a era n&atilde;o ter noticias de Helena!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Helena, cuja vida continua ainda em perigo&#8213;proseguiu
+D. Aurelia&#8213;pediu-me que fizesse entregar
+no Porto a madre Paula uma carta que ella mesma
+escreveu e cujo contheudo eu ignoro...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Essa, carta, minha senhora&#8213;disse madre Paula&#8213;eil-a
+aqui. Por ella ver&aacute; v. ex.<sup>a</sup> que
+Helena reclama
+a minha presen&ccedil;a...
+<br />
+
+<br />
+
+E apresentou-lhe a carta que D. Aurelia recusou
+delicadamente com um gesto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por Deus, minha senhora! Eu n&atilde;o duvido um
+momento da sua palavra... Simplesmente o que devo
+&eacute; prevenir v. ex.<sup>a</sup> do melindroso
+estado de saude da
+nossa pobre amiga... Qualquer abalo, qualquer
+commo&ccedil;&atilde;o
+violenta p&oacute;de matal-a...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas se Helena espera a visita de madre Paula&#8213;objectou
+Julio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Espera a visita de madre Paula, mas n&atilde;o espera
+a de v. ex.<sup>a</sup>...&#8213;retorquio D. Aurelia.&#8213;Era
+justamente essa surpreza que me parecia bem poupar-lhe
+por emquanto...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Decerto!&#8213;atalhou madre Paula.&#8213;Nem eu creio
+que o snr. Julio de Montarroyo, que &eacute; t&atilde;o
+dedicado a
+Helena, pense em lhe aggravar a enfermidade apresentando-se-lhe,
+sem ella estar preparada para isso...
+<br />
+
+<br />
+
+Julio de Montarroyo exclamou n'um accesso de
+exalta&ccedil;&atilde;o febril:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A minha vida pela d'ella! Digam-me que &eacute;
+preciso fazer saltar os miolos para salvar Helena e eu
+n&atilde;o hesitarei um instante!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Socegue, socegue, meu amigo, que n&atilde;o ser&aacute;
+preciso
+recorrer a esse extremo, para termos a nossa querida
+doente restabelecida dentro em pouco. Aqui o que
+&eacute; preciso &eacute; evitar-lhe qualquer sobresalto ou
+commo&ccedil;&atilde;o
+que possa aggravar-lhe a doen&ccedil;a... V. ex.<sup>a</sup>
+n&atilde;o
+<span class="pagenum">[410]</span>
+imagina o estado em que a pobresinha se encontra.
+Eu mesma, quando aqui m'a apresentaram, n&atilde;o a reconheci...
+Foi ella que s&oacute; passados dias se deu a conhecer,
+porque se tal n&atilde;o fizesse, ainda agora eu estaria
+na ignorancia de quem ella fosse.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pobre Helena!&#8213;exclamou madre Paula.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Parece-me, pois, tornou D. Aurelia&#8213;que seria
+bom disp&ocirc;r a nossa doente para receber a visita da
+sua amiga. Emquanto ella a espera, convem prevenil-a
+com cuidado...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim... sim!...&#8213;concordou madre Paula.
+<br />
+
+<br />
+
+D. Aurelia voltou-se para Julio e com um sorriso
+amavel:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tenha paciencia, meu amigo... J&aacute; n&atilde;o
+&eacute; pequena
+felicidade para o seu cora&ccedil;&atilde;o o saber que Helena
+vive, est&aacute; aqui entre n&oacute;s e que, dentro d'alguns
+dias, poder&aacute; v&ecirc;l-a e fallar-lhe. O que
+&eacute; preciso &eacute; que v.
+ex.<sup>a</sup> mesmo tenha cuidado com a sua saude e trate
+de se restabelecer, livre de apprehens&otilde;es e de tristezas
+que j&aacute; n&atilde;o t&ecirc;m raz&atilde;o de ser.
+<br />
+
+<br />
+
+E a um gesto de assentimento de Julio de Montarroyo,
+que se inclinou em silencio, proseguiu:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deem-me licen&ccedil;a que eu v&aacute; junto da minha
+amiga, tratar de a predisp&ocirc;r para receber sem grande
+surpreza a virtuosa madre Paula. Escuso dizer-lhes
+que os considero meus hospedes n'esta casa e que vou
+tambem dar as ordens precisas para serem convenientemente
+installados.
+<br />
+
+<br />
+
+Fez uma ligeira mesura e sahiu.
+<br />
+
+<br />
+
+D'ahi a instantes, a criada de quarto de D. Aurelia
+entrava na sala a indicar aos hospedes que os
+seus aposentos estavam preparados.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[411]</span>
+<h3><a name="c27"></a>XXVII<br />
+
+<br />
+
+Duas amigas
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+No dia seguinte, muito c&ecirc;do ainda, Helena de Noronha
+que pass&aacute;ra a noite socegada, accordou inquieta
+e perguntou &aacute; creada se j&aacute; tinha chegado uma
+senhora
+que devia vir do Porto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sei, minha senhora&#8213;respondeu a creada
+que estava j&aacute; prevenida&#8213;mas eu hei-de dizer que
+senti ha pouco parar um trem ao port&atilde;o...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! v&aacute; saber sem demora&#8213;pediu Helena&#8213;e
+se f&ocirc;r a pessoa que eu espero, diga a sua ama que
+lhe pe&ccedil;o para a fazer entrar aqui o mais depressa
+possivel...
+<br />
+
+<br />
+
+A creada subiu a cumprir a ordem recebida. Pouco
+depois entrava a dona da casa.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Veio?&#8213;perguntou-lhe Helena.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;D&aacute;-me alvi&ccedil;aras, minha amiga&#8213;disse D. Aurelia
+alegremente&#8213;porque, contra a tua espectativa,
+madre Paula est&aacute; n'esta tua casa!
+<br />
+
+<br />
+
+Helena levantou-se a meio no leito.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por Deus, minha filha, diz-lhe que entre... que
+entre j&aacute;!
+<br />
+
+<br />
+
+Madre Paula, que fic&aacute;ra occulta com o reposteiro,
+penetrou de um salto no aposento, dizendo:
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[412]</span> &#8213;N&atilde;o &eacute; preciso, minha querida Helena,
+n&atilde;o &eacute;
+preciso, porque a tua amiga est&aacute; aqui!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Paula!&#8213;exclamou Helena, estendendo para ella
+os bra&ccedil;os, n'um alvoro&ccedil;o de indizivel
+contentamento.
+<br />
+
+<br />
+
+Estiveram assim as duas amigas por muito tempo
+abra&ccedil;adas, n'um silencio apenas cortado pelos
+solu&ccedil;os
+que se escapavam do peito de ambas.
+<br />
+
+<br />
+
+D. Aurelia assistia commovida a esta scena de uma
+terrivel eloquencia na mudez d'aquellas lagrimas que
+ambas vertiam ao abra&ccedil;arem-se.
+<br />
+
+<br />
+
+Por fim, foi Helena quem rompeu o silencio, exclamando:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vieste ver-me, minha amiga... Bem hajas pela
+caridade com que attendeste o meu pedido!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Minha pobre Helena!&#8213;respondeu madre Paula&#8213;quantas
+vezes me tens lembrado nos longos dezesseis
+annos da tua ausencia! Procurei por mil modos
+saber noticias tuas... Tudo inutil!... Ninguem me
+dava rela&ccedil;&atilde;o de ti, ninguem te conhecia, ninguem
+sabia
+para onde tinhas partido...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fiz uma viagem muito longa, minha amiga...
+t&atilde;o longa que s&oacute; devia terminar no
+come&ccedil;o desta outra
+viagem mais longa ainda, que vou emprehender...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que! pois n&atilde;o ficas ainda aqui? Tencionas
+partir outra vez?&#8213;perguntou madre Paula admirada.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim... vou partir e d'esta vez para nunca mais
+voltar... Vou emprehender a eterna viagem do sepulchro...
+Por isso te pedi que viesses...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Morrer!&#8213;exclamou a abbadessa&#8213;que extranha
+fraqueza &eacute; essa? A vida chama-te ainda, minha
+querida... Tu &eacute;s nova, &eacute;s forte, &eacute;s
+ainda uma
+mulher valida, tens um espirito s&atilde;o, uma alma
+extraordinariamente
+bella... Chama a ti todas as energias,
+reage contra os soffrimentos, opp&otilde;e &aacute;s violencias
+da
+<span class="pagenum">[413]</span>
+d&ocirc;r que te avassala, a for&ccedil;a suprema da tua
+vontade
+e triumpha do abatimento physico pela energia moral.
+<br />
+
+<br />
+
+Helena tornou a sorrir o sorriso triste dos que n&atilde;o
+se illudem na approxima&ccedil;&atilde;o do seu fim.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tu &eacute; que est&aacute;s ainda a mesma, minha
+querida!&#8213;disse
+ella.&#8213;N&atilde;o parece que passaram por ti dezesseis
+annos desde que nos separ&aacute;mos...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Os meus cabellos branquearam um pouco, porque
+ninguem resiste impunemente &aacute; ac&ccedil;&atilde;o do
+tempo&#8213;replicou
+madre Paula&#8213;mas, comquanto um pouco
+mais velha que tu, n&atilde;o penso ainda na morte...
+<br />
+
+<br />
+
+D. Aurelia, sentindo-se de mais n'aquelle colloquio
+entre as duas amigas, que certamente tinham mais
+importantes assumptos a tratar, interveio pedindo que
+a dispensassem por um instante, pois tinha que ordenar
+servi&ccedil;os domesticos da maior urgencia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Espera!&#8213;replicou Helena&#8213;deixa-me primeiro
+dizer &aacute; minha Paula quem tu &eacute;s...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o &eacute; preciso&#8213;accudiu D. Aurelia com
+meiguice&#8213;j&aacute;
+nos conhecemos desde hontem &aacute; noite...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim&#8213;confirmou madre Paula&#8213;j&aacute; devo a esta
+senhora a mais amavel e gentil hospitalidade que ha
+muitos annos me foi dado receber f&oacute;ra do meu convento...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois tu j&aacute; c&aacute; est&aacute;s desde
+hontem?&#8213;perguntou
+Helena admirada.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vim acompanhada pelo portador da tua carta
+e pelo reverendo padre Filipe, de quem certamente
+ainda te recordas...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh, decerto, decerto! E como s&atilde;o gratas as
+lembran&ccedil;as que conservo d'esse honesto e digno sacerdote!
+Porque n&atilde;o veio elle ver-me tambem?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Temos tempo, minha querida&#8213;disse madre
+Paula&#8213;Uma das principaes virtudes christ&atilde;s &eacute; a
+paciencia...
+E o p &#8213;Temos tempo, minha querida&#8213;disse madre
+Paula&#8213;Uma das principaes virtudes christ&atilde;s &eacute; a
+paciencia...
+E o padre Filippe, que &eacute;, como acabaste
+de dizer, um honesto e digno sacerdote, exercita esta
+<span class="pagenum">[414]</span>
+virtude como poucos... Elle espera, e &eacute; dos que sabem
+esperar...
+<br />
+
+<br />
+
+Logo que D. Aurelia sahiu, madre Paula encarou
+fito Helena de Noronha e perguntou-lhe em voz sumida,
+n'um tom de mysterio:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E o padre Anselmo?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Matei-o!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que!&#8213;disse a religiosa empallidecendo&#8213;Mataste-o...
+quando?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ha desesseis annos, no dia em que deixei de ser
+superiora da casa conventual da Covilh&atilde;...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; extraordinario! E como pudeste...?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O miseravel, de quem eu tinha jurado vingan&ccedil;a,
+n&atilde;o soube, no meio de toda a sua perversa astucia,
+desconfiar da apparente submiss&atilde;o da mulher que
+t&atilde;o infamemente havia ludibriado e escarnecido... Julgou-se
+inteiramente senhor de mim e veio elle mesmo
+procurar a occultas o castigo que a sua torpeza e
+maldade mereciam...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E o outro... o filho d'elle... o padre Hilario?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Foi meu cumplice. Elle mesmo ajudou a crucificar
+o pae no subterraneo do convento. Oh! foi uma
+vingan&ccedil;a terrivel, e esse dia, minha querida Paula,
+foi o mais bello e o mais feliz de toda a minha vida,
+desde que abandonei a casa de meu pae... de meu
+pobre pae que ingratamente condemnei &aacute; morte!
+<br />
+
+<br />
+
+Os olhos de Helena de Noronha coruscavam ainda
+de furor satanico, ao recordar aquelle lance supremo
+em que havia dado morte horrivel ao jesuita que a
+perdera.
+<br />
+
+<br />
+
+Madre Paula, tomada de pavor, encarava Helena
+de Noronha, mal podendo acreditar no que ouvia.
+<br />
+
+<br />
+
+Fez-se um curto silencio em que os olhos das duas
+exprimiam um mundo de pensamentos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim...&#8213;disse Helena de Noronha como respondendo
+&aacute; pergunta muda que lhe dirigia a sua
+<span class="pagenum">[415]</span>
+amiga&#8213;o padre Hilario foi, por assim dizer, o executor
+da senten&ccedil;a de morte a que eu havia condemnado
+o pae... E era preciso que assim succedesse para que
+a minha vingan&ccedil;a fosse completa...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas n&atilde;o sabia elle os la&ccedil;os de sangue que o
+prendiam a esse miseravel?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o o sabia; mas, ao expirar, o padre Anselmo
+patenteou-lhe toda a verdade do alto da cruz onde
+agonisava, amarrado como o mau ladr&atilde;o. Disse-lh'o
+por entre maldi&ccedil;&otilde;es e injurias, e a voz do sangue
+n&atilde;o
+fallou no meu cumplice. Assistiu impassivel &aacute; agonia
+do pae, que elle immolava &aacute; minha vingan&ccedil;a e
+sacrificava
+ao seu amor por mim... Oh! foi uma boa hora
+aquella, minha amiga! E se eu alguma vez pude cr&ecirc;r
+em Deus, foi justamente n'esse instante em que o maior
+dos criminosos expiava com a maior das agonias todo
+o seu passado de negras infamias!
+<br />
+
+<br />
+
+E contou ent&atilde;o como o padre Anselmo, apparecendo-lhe
+mysteriosamente no convento da Covilh&atilde;, desceu
+&aacute; cripta, no intuito, dizia elle, de orar aos p&eacute;s
+da
+cruz, onde devia ser crucificado... Relembrou com infernal
+prazer todas as minucias d'essa scena horrivel;
+a maneira como, acompanhada do padre Hilario, o seguiu
+ao subterraneo e como, quando elle vinha sahindo,
+depois de ter feito ouvir por largo tempo o ruido surdo
+de quem cavava, o proprio filho, com um vigoroso
+murro, o fez cahir no meio do subterraneo, fechando-lhe
+a porta pelo lado de f&oacute;ra... Depois, os tres dias
+de agonia lenta, torturado pela fome e pela s&ecirc;de, todas
+as peripecias terriveis d'esse drama sombrio de vingan&ccedil;a
+e de sangue, que teve a sua ac&ccedil;&atilde;o no medonho
+<em>in-pace</em> da Covilh&atilde;.
+<br />
+
+<br />
+
+Madre Paula ouviu attonita toda esta narrativa,
+chegando por vezes a suspeitar que Helena de Noronha,
+tomada de loucura, estivesse phantasiando uma
+vingan&ccedil;a que n&atilde;o realis&aacute;ra.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[416]</span> &#8213;E o padre Hilario?&#8213;perguntou por fim.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pobre rapaz! Nunca mais o tornei a v&ecirc;r... O
+pensamento que nos uniu foi o mesmo que devia separar-nos
+e... separou-nos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Accusou-te depois, lan&ccedil;ando sobre ti as culpas
+do remorso que o torturava?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh, n&atilde;o! Eu poupei-lhe a desgra&ccedil;a do remorso,
+semeando-lhe no cora&ccedil;&atilde;o o odio por mim...
+<br />
+
+<br />
+
+A abbadessa, de cada vez comprehendendo menos
+o sentido das palavras de Helena de Noronha, atreveu-se
+a inquirir:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Trahiste o teu novo amante?...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meu amante! Nunca o foi. Trahi o cumplice,
+isso sim... Utilisei o instrumento da minha vingan&ccedil;a
+emquanto o necessitava e arremesseio-o para longe de
+mim quando j&aacute; me n&atilde;o era preciso... O padre
+Hilario
+amava-me... dizia elle que me amava.. Por&eacute;m,
+eu n&atilde;o poderia v&ecirc;r nunca n'esse homem
+sen&atilde;o o filho do
+padre Anselmo... Logo depois que a minha vingan&ccedil;a
+estava cumprida, tratei de me affastar d'elle...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Enganando-o como o pae me enganou a mim.
+Disse-lhe que para n&atilde;o levantar suspeitas, era conveniente
+que ambos seguissemos por differente caminho
+para o mesmo ponto onde deviamos encontrar-nos.
+<br />
+
+<br />
+
+Esse ponto era uma terra do estrangeiro, onde
+passariamos por marido e mulher, vivendo de algum
+dinheiro que eu tinha amealhado, emquanto n&atilde;o pudessemos
+voltar ao paiz, depois de obtida a certeza de
+que o nosso crime n&atilde;o havia sido descoberto. Elle tudo
+acreditou e, obcecado pela paix&atilde;o, n&atilde;o duvidou um
+momento
+de que eu fosse reunir-me a elle. Partiu por
+um caminho, eu parti por outro, e at&eacute; hoje nunca
+mais nos torn&aacute;mos a v&ecirc;r...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;De modo que...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;De modo que o meu cumplice, ao reconhecer-se
+<span class="pagenum">[417]</span>
+ludibriado, deve ter sentido mudar-se lhe todo o amor
+que nutria por mim n'um odio profundo.
+<br />
+
+<br />
+
+Madre Paula, profundamente impressionada com
+estas revela&ccedil;&otilde;es, quasi n&atilde;o atinava
+com palavras que
+dissesse.
+<br />
+
+<br />
+
+Parecia-lhe impossivel que aquella mulher fraca e
+ingenua, que ella recebera na casa das Sereias, pudesse
+vir a triumphar da maldade perversa do padre Anselmo,
+da sua astucia e systemathica desconfian&ccedil;a de
+tudo e de todos, tirando d'elle uma vingan&ccedil;a atroz,
+que os mais poderosos agentes da Companhia n&atilde;o ousariam
+sequer sonhar.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que me contas &eacute; por tal modo extraordinario,
+minha querida Helena&#8213;disse ella, passados instantes&#8213;que
+me deixa muda de assombro! Se o n&atilde;o ouvisse de
+teus proprios labios, recusar-me-hia a acredital-o...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! minha boa Paula!&#8213;replicou Helena, ainda
+tremendo de ira&#8213;pois acaso n&atilde;o teria eu raz&atilde;o
+para
+muito mais? N&atilde;o foi aquelle maldito a ruina, a miseria
+e a morte de toda a minha familia? N&atilde;o abusou
+elle da minha innocencia e ingenuidade de crean&ccedil;a
+para me aviltar, roubar e perder, fazendo de mim sua
+barreg&atilde; e sua escrava? poderia eu perdoar ao maldito
+que t&atilde;o infamemente lan&ccedil;ou a desgra&ccedil;a
+e a deshonra
+sobre mim e sobre os meus?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tens raz&atilde;o. Mas n&atilde;o &eacute; a
+justi&ccedil;a da tua vingan&ccedil;a
+que me surprehende...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que &eacute; que te surprehende, pois?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Surprehende-me a habilidade e a coragem com
+que pudeste levar a cabo o teu plano...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Auxiliou-me o acaso, se n&atilde;o foi antes um designio
+da propria Providencia que inspirou ao padre Anselmo
+a ideia de mandar o filho para junto de mim...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nunca mais ouvi fallar do padre Hilario...
+Naturalmente abandonou a Companhia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Era essa a sua resolu&ccedil;&atilde;o inabalavel quando nos
+<span class="pagenum">[418]</span>
+separ&aacute;mos... Eu n&atilde;o sahi do paiz, como lhe
+prometti,
+e passei uma grande parte d'estes dezeseis annos perdida
+e obscura pelas terras de provincia, exercendo
+mysteres humildes, improprios da minha
+educa&ccedil;&atilde;o...
+Sujeitei-me a tudo, minha querida... Fui creada de
+quarto, fui costureira, fui creada de meninos, e confesso
+que me era menos amargo o p&atilde;o em casa de
+meus amos do que n'esse antro maldito onde, por tua
+commisera&ccedil;&atilde;o, fui elevada &aacute; dignidade
+de abbadessa!
+Abbadessa! que irrisoria e infame impostura, minha
+amiga!...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Helena&#8213;disse madre Paula&#8213;pareceu-te assim
+porque n&atilde;o amaste... Se tivesses amado o padre Hilario
+como eu amei o padre Filippe...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! n&atilde;o! eu n&atilde;o podia amar a sotaina desde
+que a sotaina me havia ludibriado e escarnecido. No
+meu cora&ccedil;&atilde;o s&oacute; havia odio por essa
+infame institui&ccedil;&atilde;o
+que alberga no seu seio facinoras preversos da laia do
+padre Anselmo e vive da explora&ccedil;&atilde;o cruel das suas
+victimas.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E n&atilde;o tens, j&aacute; n&atilde;o digo remorso, mas
+ao menos
+pezar, de haveres sacrificado ao teu odio e &aacute; tua
+vingan&ccedil;a
+esse pobre rapaz que te amava e que pelo teu
+amor se fez parricida?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Era filho <em>d'elle</em>. E o meu odio
+implacavel vae de
+paes a filhos... Elle proprio devia ser um monstro
+como seu pae..
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Todavia, minha querida... ha inda um filho do
+padre Anselmo que em nada o parece... nem na
+figura, nem no cora&ccedil;&atilde;o. &Eacute; nobre,
+&eacute; digno, &eacute; honesto,
+&eacute; leal, &eacute; amoravel e trabalhador...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fallas de...?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;De teu filho, Helena de Noronha!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Elle vive ainda?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vive e &eacute; um bello e gentil rapaz...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Padre tambem?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[419]</span> &#8213;N&atilde;o. &Eacute; um academico distincto e espero que ha
+de ser um homem util a si e aos seus semelhantes, honrando
+a sciencia e a humanidade. Eu e o padre Filippe
+temol-o educado sob o influxo das doutrinas liberaes,
+longe de n&oacute;s e estranho aos funestos exemplos
+da falsa religi&atilde;o que nos victimou.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o te conhece ent&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Conhece. E ama-me e respeita-me com um carinho
+e uma ternura que faz honra aos nobres sentimentos
+da sua alma.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sabe esse rapaz quem foram seus paes?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ignora-o inteiramente, comquanto use o teu
+appellido, Helena de Noronha.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que! pois tu...&#8213;ia a dizer Helena, levantando-se
+a meio no leito.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim&#8213;atalhou madre Paula&#8213;quiz que se chamasse
+Paulo de Noronha, afim de que sua m&atilde;e um dia
+pudesse reconhecel-o e amal-o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! nunca... nunca!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Helena!&#8213;tornou madre Paula com severo aspecto&#8213;o
+odio que se estende ate aos proprios filhos
+das nossas entranhas &eacute; perversidade que repugna &aacute;
+raz&atilde;o e de que nem as bestas feras, na crueza de seus
+instinctos, j&aacute;mais nos deram exemplo. V&ecirc; tu, minha
+amiga, que nem o padre Anselmo, esse cynico perverso,
+de uma ferocidade de chacal, p&ocirc;de resistir ao amoravel
+sentimento que Deus poz no cora&ccedil;&atilde;o dos paes pelos
+filhos.
+E querer&aacute;s tu cerrar teu peito ao affecto mais
+nobre e mais santo que p&oacute;de caber no
+cora&ccedil;&atilde;o de uma
+mulher? Querer&aacute;s morrer amaldi&ccedil;oando teu filho
+innocente
+e deixar que elle viva sentindo n'alma o gelo
+da indifferen&ccedil;a e do abandono de seus paes? Que triste
+heran&ccedil;a lhe queres legar, minha amiga! E comtudo,
+Paulo &eacute; digno de que o amem porque nas nobres qualidades
+de seu caracter, na sua figura varonil e no porte
+<span class="pagenum">[420]</span>
+altivo, reflecte bem a figura e as nobres qualidades
+d'esse santo e desditoso homem que foi teu pae.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meu pae!&#8213;gritou Helena de Noronha&#8213;Paulo
+parece-se com elle? N&atilde;o tem na physionomia os
+tra&ccedil;os
+odiosos de monstro que lhe deu o ser?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Queres v&ecirc;l-o?&#8213;perguntou madre Paula.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, n&atilde;o!&#8213;recusou Helena tomada de subito
+terror&#8213;Para que has de p&ocirc;r-me diante dos olhos, na
+hora extrema, um filho que eu n&atilde;o posso amar, uma
+creatura que ha de ser-me sempre odiosa pela
+recorda&ccedil;&atilde;o
+dos negros crimes que lhe andam ligados? Oh!
+deixa-me morrer, minha amiga, no esquecimento d'um
+dever que eu n&atilde;o tenho for&ccedil;as para cumprir...
+<br />
+
+<br />
+
+Calou-se offegante. E depois, como fallando comsigo
+mesma:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E como poderia eu dizer a esse rapaz: &laquo;Sou
+tua m&atilde;e!&raquo; sem ter que lhe confessar a minha
+miseria
+e a minha vergonha? Perguntar-me-ia o nome de seu
+pae... e eu teria que me calar vexada diante de meu
+filho para lhe n&atilde;o dizer: &laquo;Teu pae era o padre
+Anselmo,
+um monstro com figura humana... Ladr&atilde;o e
+assassino da mais infima especie... Um miseravel sacrilego
+que t&ocirc;rpemente entenebreceu a minha raz&atilde;o e
+abusou da religi&atilde;o de Christo para nos condemnar, a
+mim e a ti, a uma deshonra eterna!&raquo; Oh! n&atilde;o...
+n&atilde;o!
+prefiro morrer sem passar por mais esse doloroso transe,
+consolada com a certeza de que elle ignorar&aacute; o nome
+da desgra&ccedil;ada que foi sua m&atilde;e!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Socega, minha querida!&#8213;tornou-lhe madre
+Paula suavemente&#8213;O que eu te proponho n&atilde;o &eacute; bem
+isso que tu supp&otilde;es...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que me prop&otilde;es ent&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Trazel-o at&eacute; junto de ti para que o vejas e
+ou&ccedil;as e possas certificar-te pelo testemunho dos teus
+proprios sentidos, de que esse encantador rapaz,
+bem longe de reproduzir as fei&ccedil;&otilde;es repellentes do
+padre
+<span class="pagenum">[421]</span>
+Anselmo, &eacute; o vivo retrato do teu pae, de quem
+parece ter herdado as santas virtudes e os nobres sentimentos.
+Em vez de ser para ti uma tortura, a sua
+presen&ccedil;a ser-te-hia um d&ocirc;ce allivio e uma grande
+consola&ccedil;&atilde;o. Cr&ecirc;, se eu fosse
+m&atilde;e de Paulo, sentir-me-hia
+orgulhosa e feliz da minha maternidade.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E n&atilde;o corarias, ao menos de pejo, ao teres de lhe
+confessar a serie de monstruosas torpezas que deram
+origem ao seu nascimento, Paula?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o me apresentaria como sua m&atilde;e... exactamente
+como eu te proponho que o fa&ccedil;as... A felicidade
+seria toda tua em poderes v&ecirc;l-o junto do teu
+leito, sabendo que &eacute; teu filho e ignorando elle que
+sejas sua m&atilde;e...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E a que titulo viria elle aqui, se a verdade n&atilde;o
+tivesse de lhe ser dita? N&atilde;o... n&atilde;o! De que
+serviria
+isso? Sou pobre... nada tenho que lhe legar... Os
+bens que me pertenciam roubou-m'os o pae bem o sabes...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Filha! &eacute; impossivel que no fundo do teu
+cora&ccedil;&atilde;o
+n&atilde;o esteja o sentimento mais sublime que p&oacute;de
+nascer
+em peito de mulher&#8213;o sentimento do amor maternal.
+Tu, que eu conheci t&atilde;o candida, t&atilde;o amoravel e
+doce,
+tu que tiveste affectos para mim e para a pequena
+Lucilia, ter&aacute;s um cora&ccedil;&atilde;o insensivel
+&aacute; lembran&ccedil;a de
+teu pobre e innocente filho? Vamos! n&atilde;o me recuses
+a consola&ccedil;&atilde;o de v&ecirc;r que testemunhaste,
+ao menos secretamente
+e por alguns instantes, toda a grandeza
+da minha obra de dedica&ccedil;&atilde;o e ternura. Puzeste nos
+meus bra&ccedil;os um pequeno s&ecirc;r, debil e fragil.
+Restituo-te
+um mo&ccedil;o util, uma alma d'elei&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Paulo, se eu o mandar chamar, vir&aacute; immediatamente.
+Ama-me como filho e n&atilde;o estranhar&aacute; que eu
+deseje tel-o junto de mim por alguns dias... Queres
+v&ecirc;r o teu filho, ao menos por curiosidade? Admira
+o teu filho, Helena de Noronha e alegra-te com a
+<span class="pagenum">[422]</span>
+ideia de que as virtudes da tua ra&ccedil;a viver&atilde;o
+n'elle
+com a mesma intensidade com que brilharam em teu
+pobre pae.
+<br />
+
+<br />
+
+Helena guardou silencio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois bem&#8213;disse ella passados instantes&#8213;deixa-me
+recobrar alentos... e sobretudo deixa-me
+familiarisar com a ideia de que hei-de v&ecirc;r n'esse rapaz
+s&oacute;mente o meu filho e n&atilde;o o filho do padre
+Anselmo.
+Que tempo tencionas demorar-te aqui, minha
+amiga?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Todo o que tu julgares preciso para a tua convalescen&ccedil;a...
+<br />
+
+<br />
+
+Helena teve um sorriso estranho.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois sim... Convalescerei breve...&#8213;disse
+n'um tom cuja sinistra significa&ccedil;&atilde;o
+n&atilde;o escapou a madre
+Paula.
+<br />
+
+<br />
+
+A freira atalhou:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; porisso que eu queria que visses teu filho,
+Helena. Talvez que, conhecendo-o, sentisses acordarem
+em ti todos os ternos affectos que nos prendem &aacute; vida.
+O mundo, hoje, para ti &eacute; um deserto. Morres no isolamento
+e no abandono do cora&ccedil;&atilde;o... Nada ha que te
+estimule o desejo de viver, e consideras a morte como
+um beneficio. Mas se tivesses a tua existencia ligada
+a outra existencia, se te sentisses viver na vida de
+teu filho, ent&atilde;o, minha querida amiga, terias triumphado
+da morte, justamente porque a vida te offereceria
+encantos.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! minha pobre Paula! comprehendes acaso
+que um risonho dia de primavera possa reverdecer a
+arvore a que destruiram as raizes e que, s&ecirc;cca, perdeu
+a seiva e se despiu da folhagem? Eu sou uma arvore
+morta, minha amiga! Perdida a seiva da juventude,
+desfolhadas as minhas illus&otilde;es e as minhas
+esperan&ccedil;as
+pelo rijo vendaval da desgra&ccedil;a, n&atilde;o ha mais para
+mim
+no mundo possibilidade de existencia tranquilla e socegada.
+<span class="pagenum">[423]</span>
+Oh! agora s&oacute; pe&ccedil;o o esquecimento e a
+morte
+como suprema esmola da Providencia. Perdida a innocencia
+e as santas cren&ccedil;as da minha alma ingenua,
+vivi para a vingan&ccedil;a. Realisada esta como um justo
+castigo de que fui providencial instrumento, restava-me
+viver para a expia&ccedil;&atilde;o de minhas culpas...
+Expiei-as
+em 16 annos de servid&atilde;o, de
+humilha&ccedil;&otilde;es e de miserias
+de toda a ordem. Soffri o frio, a fome, as d&ocirc;res da alma
+e do corpo, com a resigna&ccedil;&atilde;o do condemnado que
+caminha
+para o patibulo, conscio da sua liberta&ccedil;&atilde;o pela
+morte. Remorsos de haver suppliciado o infame que
+me perdeu, nunca eu os tive nem podia ter. Mas a
+d&ocirc;r horrivel de haver causado a morte a meu pae e a
+meu primo... Oh! essa nunca me abandonou, e tanto
+bastava para que eu anceasse morrer, como o supremo
+bem a que podia aspirar... Chamei-te porque
+precisava rehabilitar-me no teu conceito... precisava
+que, ao lembrares-te de mim, n&atilde;o assomasse aos teus
+labios um sorriso de desprezo e me julgasses egual &aacute;s
+outras...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Helena, minha amiga, minha irm&atilde;... n&atilde;o sejas
+injusta para commigo! Eu sabia que a tua
+grande alma era capaz de amar como era capaz de
+aborrecer... A vingan&ccedil;a que tiraste do padre Anselmo
+foi justa e foi nobre. Libertaste a humanidade
+de um facinora que a envergonhava... Dou-te por
+isso sinceros louvores. Mais fraca do que tu, eu n&atilde;o
+ousei pensar sequer em tirar igual desfor&ccedil;o d'aquelle
+que me condemnou a esta eterna servid&atilde;o em que
+vivo... E n&atilde;o pensei, porque o meu
+cora&ccedil;&atilde;o deixou-se
+illaquear nas redes de um affecto vivissimo qual &eacute;
+o que tributo ao padre Filippe, tu bem o sabes. Tu
+mais infeliz do que eu, n&atilde;o amaste... Porisso, o fel
+do teu odio se converteu em veneno mortal para
+aquelle que te perdeu...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o amei, dizes? Amei, sim... amei um homem
+<span class="pagenum">[424]</span>
+que teria feito de mim a mais venturosa das
+mulheres se, na hora em que o encontrei, eu n&atilde;o fosse
+j&aacute; indigna da estima de um homem de bem.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fallas de Julio de Montarroyo?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fallo, sim, Paula! Amei-o com todas as v&eacute;ras
+da minh'alma. Amei-o e fugi-lhe para n&atilde;o soffrer a
+horrivel d&ocirc;r de me ver depresada por elle!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tornaste alguma vez a ter noticias suas?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nunca mais. Recuperada a minha liberdade
+com a morte do padre Anselmo e separada do meu
+cumplice, cuja presen&ccedil;a me seria horrorosamente
+insupportavel,
+considerei-me morta pela segunda vez.
+Nem Helena de Noronha nem <em>irm&atilde;
+Dorothea</em> deviam
+existir j&aacute;mais... Portanto, a minha nova existencia
+passou a ser outra bem differente das duas primeiras...
+Na misera e obscura condi&ccedil;&atilde;o social a que
+desci, ninguem, nem mesmo tu, minha amiga, terias
+adivinhado sequer, quanto mais reconhecido, a filha de
+Norberto de Noronha ou a superiora da casa conventual
+da Covilh&atilde;...
+<br />
+
+<br />
+
+Calou-se offegante e exhausta.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Comtudo...&#8213;proseguiu passados instantes&#8213;comtudo
+eu poderia ter trazido do subterraneo da Covilh&atilde;
+uma grande riqueza... e n&atilde;o a trouxe...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Uma grande riqueza, dizes?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim... O padre Anselmo appareceu-me inesperadamente
+no convento uma noite, exigindo que a
+sua chegada n&atilde;o fosse conhecida de pessoa alguma...
+Elle disse-me que tinha de descer ao subterraneo, no
+cumprimento sagrado de uma promessa que fizera
+para que eu correspondesse dignamente aos pezados e
+espinhosos encargos do logar para que me nomeara.
+E realmente, na noite seguinte&#8213;a noite da rigorosa
+justi&ccedil;a&#8213;elle, persuadido de que ninguem o observava
+desceu ao <em>in-pace</em>... Mas
+l&aacute;, com a porta
+fechada &aacute; chave por dentro em vez de rezar aos
+p&eacute;s
+<span class="pagenum">[425]</span>
+da cruz, como promettera, cavou na terra por muito
+tempo... Ouvimos-lhe c&aacute; f&oacute;ra o bater da enxada no
+solo recalcado... Tive a suspeita de que alguma coisa
+importante elle ia esconder alli... E essa suspeita
+converteu-se em certeza, quando do alto da cruz a
+que o amarraramos, vociferando maldi&ccedil;&otilde;es e
+insultos sobre
+mim e sobre o filho parricida, declarou n'um accesso
+de furor que possuia riquezas immensas que tencionava
+legar ao filho maldito, mas que lhe permaneceriam
+vedadas porque o seu thesouro ninguem o descobriria...
+<br />
+
+<br />
+
+Madre Paula ouvia com singular atten&ccedil;&atilde;o esta
+parte
+da narrativa de Helena...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Talvez isso n&atilde;o passasse de uma
+allucina&ccedil;&atilde;o
+dos ultimos momentos...&#8213;disse ella.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o... O padre Anselmo tinha ido alli enterrar
+o seu thesouro, estou bem certa d'isso... Ao expirar,
+olhou para o lado direito da cruz e o olhar ba&ccedil;o,
+de moribundo, perdeu-se-lhe no canto mais escuro e
+mais sombrio do subterraneo... Se algum dia l&aacute;
+f&ocirc;res...
+manda cavar alli... manda revolver toda
+aquella terra e encontrar&aacute;s, estou bem certa, o producto
+de tantos crimes accumulados d'aquelle sicario
+maldito que o inferno confunda!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E o padre Hilario n&atilde;o manifestou desejo de se
+apoderar do thesouro do pae?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O padre Hilario, esse comprehendes bem...
+n'aquelle momento, obcecado pelo amor e pelo ciume,
+n&atilde;o via nem comprehendia outra coisa que n&atilde;o
+fosse a
+posse da mulher por quem enlouquecera e se torn&aacute;ra
+parricida... Deixou o convento no mesmo dia em que
+eu o deixei, precedendo-me algumas horas na partida,
+convencido de que eu iria reunir-me a elle...
+E nunca mais... oh, nunca mais voltou &aacute; Covilh&atilde;,
+estou bem certa d'isso... Depois de se v&ecirc;r ludibriado
+por mim, a recorda&ccedil;&atilde;o do seu crime deve
+ter-se-lhe
+<span class="pagenum">[426]</span>
+tornado bem negra! O proprio remorso o deve ter afugentado
+de l&aacute;...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E viver&aacute; ainda?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sei... Se o remorso matasse, elle deveria
+ter morrido. Mas o remorso &eacute; um veneno que vae
+minando lentamente a existencia. Tortura, mas n&atilde;o
+fulmina, as suas victimas. Elle matou o pae, &eacute; bem
+certo. Mas tambem eu matei o meu e n&atilde;o morri...
+N&atilde;o morri, quando tantas vezes pedia a morte a Deus!
+Deve portanto viver.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Socega, minha amiga...&#8213;observou-lhe madre
+Paula, vendo-a de cada vez mais agitada.&#8213;Tens fallado
+muito... e, no estado de abatimento e fraqueza
+em que te encontras, &eacute; isso uma imprudencia grave.
+<br />
+
+<br />
+
+Disse e saiu deixando a doente em repouso.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[427]</span>
+<h3><a name="c28"></a>XXVIII<br />
+
+<br />
+
+Cora&ccedil;&atilde;o morto
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Helena de Noronha, a instancias de madre Paula
+e de D. Aurelia, consentiu em receber a visita de Julio
+de Montarroyo.
+<br />
+
+<br />
+
+O encontro d'estes dois desgra&ccedil;ados, depois de tantos
+annos d'ausencia, foi tudo quanto p&oacute;de imaginar-se
+de mais simples e de mais tocante.
+<br />
+
+<br />
+
+Elle, um velho quasi demente, ella, moribunda,
+quasi um cadaver.
+<br />
+
+<br />
+
+O que vivia n'elles ainda era a reminiscencia de
+tempos passados, era a amarga lembran&ccedil;a de uma
+mocidade distante, que nem um nem outro puderam
+gozar na plenitude da ventura que sonharam.
+<br />
+
+<br />
+
+No fundo de seus cora&ccedil;&otilde;es, estava gravada a
+imagem
+de cada um d'elles. Julio de Montarroyo, nas
+evoca&ccedil;&otilde;es da sua amada, n&atilde;o via a
+pobre e andrajosa
+creatura de face cadaverica, que o mestre
+<em>Tomba</em> encontrara
+exangue no seu caminho: via a gentilissima
+e encantadora novi&ccedil;a que, no convento do Sard&atilde;o,
+proferira os sagrados votos, envolta n'uma nuvem de
+incenso, entre o resplendor das luzes e os canticos das
+religiosas suas companheiras de f&eacute; e martyrio. Ella,
+<span class="pagenum">[428]</span>
+pela sua parte, quando volvia os olhos ao passado e
+proferia o nome de Julio, era sempre a imagem do
+louro e gracioso mancebo da Serra do Carvalho que
+via reflectir-se na sua retina de allucinada.
+<br />
+
+<br />
+
+E assim se amaram e se viram com os olhos da
+alma no longo precurso dos dezoito annos decorridos.
+<br />
+
+<br />
+
+Nem um nem outro j&aacute;mais havia pensado que o
+tempo, na sua marcha destruidora, pudesse ter roubado
+a frescura e a gentileza &aacute;quelles rostos que mutuamente
+se reviam nas horas tristes de uma ausencia
+crudelissima.
+<br />
+
+<br />
+
+Foi, pois, com um mixto de surpresa e de doloroso
+espanto que os dois se encararam, quasi sem se reconhecerem.
+<br />
+
+<br />
+
+Julio de Montarroyo recuara um passo aterrado
+diante d'aquella moribunda que, com os olhos desmesuradamente
+abertos e os labios como que a reprimirem
+um grito de surpresa, o observava apavorada.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o esperava encontrar-me t&atilde;o velho,
+n&atilde;o &eacute;
+verdade, Helena de Noronha?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Diga antes, meu amigo&#8213;volveu-lhe Helena&#8213;que
+n&atilde;o esperava tornar a v&ecirc;l-o n'este mundo...
+Pensava
+ir esperal-o na outra patria... na patria dos
+grandes desgra&ccedil;ados, onde as d&ocirc;res acabam e a
+ventura
+come&ccedil;a... Seria melhor para si... poupal-o-hia
+ao doloroso espectaculo que est&aacute; presenceando... Procurava
+Helena de Noronha e encontra um cadaver,
+n&atilde;o &eacute; assim?
+<br />
+
+<br />
+
+Julio aproximou-se do leito, tomou a m&atilde;o descarnada
+da pobre Helena e, levando-a aos labios com
+piedoso respeito, apenas p&ocirc;de murmurar:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ha dezoito annos que a procuro, Helena...
+ha dezoito annos que a sua imagem occupa constantemente
+o meu pensamento, que o seu nome &eacute; a
+ora&ccedil;&atilde;o
+unica que meus labios sabem proferir. Posso agora
+morrer, pois que a encontrei viva para lhe dizer que
+<span class="pagenum">[429]</span>
+n&atilde;o a esqueci, que, fiel ao amor que lhe jurei, gastei
+a mocidade e a vida, percorrendo o mundo em sua
+procura.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pobre amigo!&#8213;murmurou Helena com as lagrimas
+a bailarem-lhe nos olhos&#8213;Era digno de melhor
+sorte! Eu fui a sua m&aacute; estrella... Era fatal que
+todos os que se aproximassem de mim fossem infelizes!
+E todavia, Deus sabe que nunca pratiquei o mal
+pelo mal... Aquelles que eu mais amei foram aquelles
+que mais fiz soffrer... Perd&ocirc;e-me, Julio! perdoe-me
+e creia&#8213;agora posso dizer-lh'o, porque me sinto
+j&aacute; bafejada pelo sopro gelido da morte&#8213;creia que
+foi o unico homem que fez palpitar o meu pobre
+cora&ccedil;&atilde;o
+de mulher...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se isso era assim, porque n&atilde;o veio, Helena,
+porque n&atilde;o veio quando a chamei, quando a instei a
+que abandonasse o convento e viesse salvar seu pobre
+pae? Que desgra&ccedil;as teria poupado, minha pobre
+amiga!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o podia... n&atilde;o podia!... Era
+impossivel
+sahir d'aquelle inferno em semelhante occasi&atilde;o... Ah!
+se soubesse que horriveis la&ccedil;os me prendiam ao poste
+de martyrio em que eu agonisava, decerto n&atilde;o me
+lan&ccedil;aria
+agora em rosto a minha recusa!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deus me livre de a accusar, Helena! Amo-a
+muito para que pense em dirigir-lhe a menor censura,
+o mais leve queixume...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ama-me, diz! Deve amar-me como se amam
+os mortos... com a saudade e o luto no cora&ccedil;&atilde;o,
+porque
+eu, meu amigo, n&atilde;o sou mais que um cadaver.
+<br />
+
+<br />
+
+Julio de Montarroyo abeirou-se do leito, tomou-lhe
+a m&atilde;o, que levou aos labios respeitosamente exclamando:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o falle em morrer, minha amiga! Deus, que
+permittiu que nos tornassemos a v&ecirc;r, ha de tambem
+<span class="pagenum"><a name="p430">[430]</a></span>
+permittir que resurja para a vida e para a felicidade...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, n&atilde;o... &Eacute; inutil toda a
+esperan&ccedil;a. Deus
+&eacute; bom, Deus &eacute; justo e misericordioso; e se
+consentiu
+que o meu amigo ainda me encontrasse viva, foi unicamente
+para que pudesse ouvir dos meus labios esta
+confiss&atilde;o sincera e franca do meu am&ocirc;r: Amei-o,
+<a href="#e46">Julio de</a> Montarroyo... amei-o,
+para maior desgra&ccedil;a
+e castigo meu!... Se esta declara&ccedil;&atilde;o feita
+&aacute; beira
+do tumulo p&oacute;de servir-lhe de algum lenitivo... receba-a
+como a sincera express&atilde;o de uma alma que passou
+no mundo incomprehendida...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Helena! fossem quaes fossem os motivos que a
+impediram de salvar seu pobre pae, quando eu anciosamente
+lh'o supplicava; fossem quaes fossem as ras&otilde;es
+que a levaram a faltar &aacute; sua promessa de me dar noticias
+suas em Paris, tudo respeito e tudo dou por
+justo e bem cumprido; mas, por Deus lh'o pe&ccedil;o! reanime-se,
+ganhe novos alentos e triumphe da doen&ccedil;a e
+da morte para me conceder, ao menos no ultimo quartel
+da minha desgra&ccedil;ada existencia, a esmola bemdita da
+sua presen&ccedil;a!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que n&atilde;o cumpri a promessa de lhe dar noticias
+minhas em Paris?&#8213;balbuciou Helena fazendo visiveis
+esfor&ccedil;os para se recordar&#8213;N&atilde;o tenho a minima
+ideia de alguma vez ter sabido que o senhor estaria
+em Paris.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois n&atilde;o me escreveu uma carta dizendo-me
+que partia para l&aacute; e convidando-me a que a seguisse
+&aacute; capital de Fran&ccedil;a e ahi aguardasse noticias
+suas?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nunca lhe escrevi tal carta!&#8213;bradou Helena
+surprehendida.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Todavia, eu recebi uma carta sua, com a sua
+letra e a sua assignatura a dar-me parte da sua ida
+para Fran&ccedil;a e a pedir-me que a seguisse... N&atilde;o
+foi
+realmente para Paris?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[431]</span> &#8213;Nunca sahi do reino! Essa carta &eacute; mais uma
+infamia do miseravel que me perdeu!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A letra, por&eacute;m, era de tal modo semelhante &aacute;
+sua que a tomei como verdadeira, e parti immediatamente,
+na ancia de cumprir as suas ordens!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meu pobre amigo! Como esse maldito padre
+abusou da sua boa f&eacute;!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Esperei-a pacientemente, durante, muitos mezes
+no Hotel das Na&ccedil;&otilde;es, aonde ficara de me mandar
+noticias. Como, por&eacute;m, a minha espectativa fosse baldada,
+resolvi-me a procural-a por todos os conventos
+e casas religiosas da Fran&ccedil;a; e n&atilde;o a
+encontrando,
+passei &aacute; Hespanha, &aacute; Italia, &aacute; Africa,
+ao Brasil, a
+toda a parte, emfim, onde a negra milicia exerce as
+suas hypocritas manobras, sempre sem poder achar
+o menor vestigio da sua passagem, minha pobre amiga!
+Bem sabia que o meu projecto de a encontrar por
+semelhante modo era uma loucura irrealisavel. Mas
+emquanto a procurava, vivia da esperan&ccedil;a de a encontrar,
+a sua imagem estava presente sempre ao meu
+espirito, o seu nome era o meu constante pensamento...
+Perdidos dezeseis annos de vida n'estas
+investiga&ccedil;&otilde;es
+sem resultado, cheguei a convencer-me de que
+estava morta; e ent&atilde;o, n&atilde;o podendo alimentar-me
+mais
+da esperan&ccedil;a de a tornar a v&ecirc;r, quiz ao menos
+cercar-me
+de tudo quanto fosse uma recorda&ccedil;&atilde;o sua, e
+comprei a casa de seu pae, onde tudo me fallava
+d'aquella que tanto amara e que f&ocirc;ra a minha unica
+aspira&ccedil;&atilde;o n'este mundo.
+<br />
+
+<br />
+
+Helena de Noronha fit&aacute;ra no desgra&ccedil;ado os seus
+grandes olhos brilhantes de febre e duas grossas lagrimas
+lhe rolaram silenciosas pelas faces.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Foi de todos o mais infeliz, meu pobre amigo!&#8213;suspirou
+ella.&#8213;Quiz Deus, para me punir da minha
+ingratid&atilde;o e desobediencia para com meu pae,
+que eu n&atilde;o morresse antes de avaliar bem o enorme
+<span class="pagenum">[432]</span>
+thesouro de affectos que perdi n'essa nobre alma, t&atilde;o
+digna de melhor sorte e de mais ventura!<br />
+
+<br />
+
+<div class="dots"></div>
+
+<div class="dots"><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+Helena de Noronha escutara com uma express&atilde;o
+de profundo assombro, que mais e mais se lhe accentuava
+no rosto &aacute; medida que ia ouvindo, a narrativa
+de Julio.
+<br />
+
+<br />
+
+Quando este chegou ao fim, comprehendeu ent&atilde;o
+que tinha sido amada por aquelle homem com um
+ard&ocirc;r e um enthusiasmo que tocava as raias da loucura.
+Um mixto de d&ocirc;r e de felicidade inaudita lhe
+agitou o seio arquejante. P&ocirc;z as m&atilde;os e levantando
+os olhos ao ceu, exclamou:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Gra&ccedil;as, meu Deus!! que se foi grande o soffrimento
+que me d&eacute;ste, em expia&ccedil;&atilde;o das minhas
+faltas,
+tambem n&atilde;o &eacute; menor a
+consola&ccedil;&atilde;o que me concedeste,
+permittindo que eu me soubesse t&atilde;o profundamente
+amada!
+<br />
+
+<br />
+
+E volvendo os olhos para Julio, n'uma accentua&ccedil;&atilde;o
+de vidente:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meu amigo&#8213;acrescentou&#8213;uma outra patria
+nos espera, que n&atilde;o esta em que tantos soffrimentos e
+martyrios nos attribularam a existencia. L&aacute; nos
+encontraremos,
+Julio. Agora mais do que nunca o acredito,
+porque Deus, t&atilde;o logico e t&atilde;o consequente em
+tudo quanto fez e creou, seria monstruosamente absurdo
+se d&eacute;sse &aacute; creatura humana os horrores de um
+martyrio que ella n&atilde;o provocou, para a lan&ccedil;ar por
+fim no aniquillamento absoluto, de par com os que
+nada soffreram e muito gozaram. N&atilde;o! n&atilde;o
+p&oacute;de ser!
+Soffrer sem motivo, gozar sem merito, unicamente
+pelo capricho de um acaso fortuito, de uma circumstancia
+inesperada, n&atilde;o p&oacute;de ser. Que eu soffresse e
+me encontre reduzida a este misero estado em que me
+<span class="pagenum">[433]</span>
+v&ecirc;, recebendo a esmola de um abrigo da compassiva
+m&atilde;o de uma amiga, comprehende-se, &eacute; justo,
+&eacute; logico
+que assim succedesse, porque o meu crime provocou a
+expia&ccedil;&atilde;o. Mas o senhor, mo&ccedil;o, rico e
+feliz, sem um ligeiro
+desvio do caminho do bem e do dever, porque
+motivo soffreu assim? Porque motivo andou errante
+dezesseis annos pelo mundo, em busca de uma felicidade
+que lhe fugia, expiando de um modo cruel as
+faltas de outrem... as minhas faltas? Eis aqui o innocente
+envolvido na condemna&ccedil;&atilde;o do culpado... Porque?
+Isso &eacute; o que n&atilde;o se comprehende, e resultaria
+absurdo
+monstruoso, injusti&ccedil;a flagrante, sem a existencia de
+uma vida futura em que as faltas teem de ser relevadas
+pela expia&ccedil;&atilde;o e os martyres innocentes
+ter&atilde;o
+de ser recompensados... Oh! n&atilde;o tenha duvida, Julio
+de Montarroyo, isto n&atilde;o acaba, n&atilde;o
+p&oacute;de acabar
+aqui!
+<br />
+
+<br />
+
+Esta longa tirada foi dita com um ardor e uma
+agita&ccedil;&atilde;o de tal modo violenta, que bem deixava
+perceber
+a excita&ccedil;&atilde;o febril da doente.
+<br />
+
+<br />
+
+Julio de Montarroyo tentou socegal-a.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Minha amiga&#8213;disse-lhe elle&#8213;&eacute; bem certo
+que muito temos ainda que esperar da misericordia e
+da justi&ccedil;a divina. E &eacute; por isso mesmo que eu lhe
+pe&ccedil;o,
+minha querida Helena, que tenha animo e coragem,
+que n&atilde;o desanime nem descreia de quem tudo p&oacute;de
+e tudo ordena. Tenho f&eacute; que vir&atilde;o dias melhores
+para n&oacute;s n'este mundo... Depois de uma juventude
+t&atilde;o tormentosa e cortada de crueis vicissitudes,
+n&atilde;o
+ser&aacute; licito esperar que Deus se amerceie do nosso
+soffrimento
+de tantos annos e nos reserve na ultima quadra
+da existencia alguns dias de serena tranquilidade
+na companhia d'aquelles a quem mais queremos?
+<br />
+
+<br />
+
+Um amargo e triste sorriso, vincando os labios da
+doente, respondeu a estas palavras.
+<br />
+
+<br />
+
+Julio tentava ainda illudir-se e queria communicar
+<span class="pagenum">[434]</span>
+ao cora&ccedil;&atilde;o da enferma um raio da pallida
+esperan&ccedil;a
+que j&aacute; mal o animava a elle.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vou deixal-a, Helena. O repouso deve fazer-lhe
+bem. Espero que amanha, quando voltar, hei de encontral-a
+mais serena e mais bem disposta a encarar
+a nossa situa&ccedil;&atilde;o por outro prisma. Escuso
+dizer-lhe
+que a sua casa &eacute; ainda e sempre sua. N&atilde;o
+dever&aacute;,
+&aacute; esmola nem &aacute; compaix&atilde;o de ninguem o
+abrigo do
+mesmo tecto que a acolheu na infancia. Pe&ccedil;o-lhe
+s&oacute;
+que melhore; e no dia em que recobrar for&ccedil;as para
+entrar em sua casa, eu sahirei d'ella, se a minha boa
+e querida Helena de Noronha n&atilde;o achar no mais intimo
+da sua alma uma solu&ccedil;&atilde;o que permitta a
+convivencia
+dos dois no mesmo lar... De qualquer das
+f&oacute;rmas, o seu cora&ccedil;&atilde;o
+decidir&aacute;...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O meu cora&ccedil;&atilde;o est&aacute; morto para tudo o
+que &eacute;
+d'este mundo, meu amigo...&#8213;balbuciou Helena,
+cahindo agora em profundo abatimento&#8213;Agrade&ccedil;o-lhe
+a generosidade com que pretende ainda insuflar no
+meu espirito um resto de ap&ecirc;go &aacute; vida... Mas eu
+estou
+morta, creia...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois bem!&#8213;exclamou Julio n'um impeto de
+desespero&#8213;se de todo em todo pretende morrer, morreremos
+ambos! Se n&atilde;o podemos unir-nos durante a
+vida, faremos ao menos a eterna viagem no mesmo
+dia e &aacute; mesma hora.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Louco! Ignora que a vida &eacute; um deposito precioso
+de que n&atilde;o &eacute; licito a nenhum de n&oacute;s
+despojar-se,
+sem que nos seja reclamada por quem nol-a confiou?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se a vida &eacute; um favor, eu tenho o direito de a recusar,
+por isso mesmo que a n&atilde;o pedi. Se &eacute; um ultrage
+que se me faz, um soffrimento a que me condemnam,
+maior direito me assiste de a rejeitar, pois que o juiz
+que me castiga se abstem de me dizer o delicto de que
+sou reu!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o falle assim, meu amigo! Quem teve animo
+<span class="pagenum">[435]</span>
+para soffrer at&eacute; aqui, deve tambem ter coragem para
+supportar o resto e esgotar at&eacute; ao fim o calix da amargura
+que lhe foi offerecido... Adeus! Amanh&atilde; tornaremos
+a v&ecirc;r-nos e tenho esperan&ccedil;a de que o hei-de
+encontrar mais resignado...
+<br />
+
+<br />
+
+Estendeu-lhe a m&atilde;o descarnada e transparente que
+elle beijou; e, extenuada, pousou a cabe&ccedil;a no travesseiro,
+onde se sumiram duas grossas lagrimas que
+furtivamente se lhe escaparam dos olhos semi-cerrados.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[436]</span>
+<h3><a name="c29"></a>XXX<br />
+
+<br />
+
+Confidencias
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Em quanto estas scenas se passam em S. Martinho
+do Campo, voltemos n&oacute;s ao Porto, entremos na
+mysteriosa casa de S. Bento da Victoria, onde j&aacute; uma
+vez introduzimos o leitor, e ou&ccedil;amos o dialogo alli travado
+entre Jorge de Gusm&atilde;o e o singular e estranho
+personagem a quem o amigo de Paulo dava o tractamento
+de <em>Mestre</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+O homem dos occulos verdes est&aacute;, como da outra
+vez, sentado &aacute; sua banca de trabalho, e falla com
+affectuoso semblante para aquelle que parece ser o seu
+discipulo querido.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E ent&atilde;o&#8213;pergunta elle&#8213;como v&atilde;o os negocios
+do nosso novel irm&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mestre, quanto ao rapto de Beatriz, nada transpirou
+ainda. Eugenio de Mello, apesar de morto, continua
+a carregar com as culpas do desapparecimento
+da rapariga. A loura, industriada por Jo&atilde;o Lazaro,
+persiste em affirmar que Eugenio se suicidou, porque,
+tendo ella recusado emprestar-lhe dinheiro para fugir
+para Hespanha, inesperadamente disparou um tiro na
+<span class="pagenum">[437]</span>
+cabe&ccedil;a, declarando n'esse momento que estava perdido
+e que s&oacute; a morte lhe restava como ultimo recurso.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;De modo que a policia, sem provas e sem indicios
+que justifiquem a suspeita de um crime, n&atilde;o ter&aacute;
+remedio sen&atilde;o p&ocirc;r a loura em liberdade.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Creio bem que sim. Demais a mais, a bala foi
+diparada tanto a sangue-frio e com tal habilidade,
+que, pela autopsia, n&atilde;o se descobriu indicio compromettedor.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E quem sabe se realmente se trata de um
+suicidio?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o creio, Mestre. Em primeiro logar, Eugenio
+de Mello era crynico bastante para
+n&atilde;o pensar em matar-se,
+fossem quaes fossem as desgra&ccedil;as que o acabrunhassem.
+Em segundo logar, Jo&atilde;o Lazaro &eacute; sufficientemente
+preverso para induzir a loura, de quem
+deseja apoderar-se, a praticar este assassinato por
+vingan&ccedil;a. Tenho, pois, a certeza, quasi iria jural-o,
+que Eugenio de Mello n&atilde;o se suicidou.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que de resto pouco deve importar-nos... A
+sociedade n&atilde;o perdeu nada com a
+elimina&ccedil;&atilde;o d'aquella
+existencia...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Absolutamente nada. Pelo contrario, lucrou. Agora,
+quanto a Paulo, partiu hoje para f&oacute;ra do Porto, a
+juntar-se &aacute; sua m&atilde;e adoptiva, &aacute; madre
+Paula, que o
+mandou chamar de S. Martinho de Campo, onde se
+encontra, a pretexto de que precisa que elle lhe v&aacute;
+fazer companhia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Paulo partiu para S. Martinho de Campo?&#8213;perguntou
+o homem dos occulos, frazindo o sobr'olho.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Partiu.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; singular!&#8213;disse elle&#8213;E que genero de
+negocio retem madre Paula n'esse logar?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sei. Em uma das suas primeiras cartas,
+madre Paula explicava que tinha sido chamada alli
+<span class="pagenum">[438]</span>
+por uma amiga intima, que j&aacute; n&atilde;o via ha muitos
+annos,
+e que se encontrava perigosamente enferma...
+<br />
+
+<br />
+
+O <em>Mestre</em> ficou silencioso por algum
+tempo, como
+que buscando uma explica&ccedil;&atilde;o para este facto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; extraordinario!&#8213;disse elle por fim, quasi
+fallando comsigo mesmo&#8213;&eacute; extraordinario que madre
+Paula mande chamar o seu protegido para lhe
+fazer companhia, quando sabe que a sua ausencia de
+junto da noiva importa para o pobre mo&ccedil;o um verdadeiro
+sacrificio...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tambem me quiz parecer isso.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem!&#8213;concluiu o Mestre&#8213;o verdadeiro motivo
+d'esse estranho chamamento ha de saber-se...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se o Mestre entende que devemos proceder a
+averigua&ccedil;&otilde;es...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim. Convem saber quem &eacute; e como se chama
+essa amiga que retem junto de si madre Paula.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; coisa facil. A <em>M&atilde;o
+Negra</em> est&aacute; de tal modo
+ramificada, que em toda a parte encontramos irm&atilde;os a
+quem recorrer em casos extremos. O Mestre bem o
+sabe, pois que a obra &eacute; sua e &aacute; grande energia e
+profundo
+saber com que nos tem guiado deve a nossa
+Associa&ccedil;&atilde;o
+o rapido impulso e a prodigiosa importancia que
+conquistou.
+<br />
+
+<br />
+
+O homem dos oculos fixou por alguns instantes,
+atravez dos vidros, os olhos no seu interlocutor e
+disse:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Jorge, a <em>M&atilde;o Negra</em>
+p&oacute;de ser um instrumento
+do Bem, como p&oacute;de ser um instrumento do Mal, conforme
+o pensamento do seu supremo dirigente f&ocirc;r alevantado
+e nobre ou mesquinho e vil. As bases em
+que assenta a nossa mysteriosa aggremia&ccedil;&atilde;o
+permittem
+concentrar na m&atilde;o de um s&oacute; homem a vontade e as
+energias de muitos; e d'aqui resulta uma cohes&atilde;o e um
+poder de tal modo irredutivel, que for&ccedil;a alguma da
+terra ousar&aacute; combatel-o ou destruil-o. A nossa principal
+<span class="pagenum">[439]</span>
+for&ccedil;a est&aacute; no mysterio em que ella se
+exerce.
+Todos os demais poderes vivem publicamente, &aacute; luz
+do dia; os seus menores movimentos, as suas mais
+occultas inten&ccedil;&otilde;es poder&atilde;o ser
+observadas e surprehendidas.
+N&oacute;s, pelo contrario, trabalhamos na sombra,
+e a nossa ac&ccedil;&atilde;o, exercitando-se livremente,
+faz-se
+sentir sem deixar conhecer a origem. Isto torna-nos
+invulneraveis como a propria divindade. Assim, podemos
+dizer: &laquo;Os homens prop&otilde;em e a
+<em>M&atilde;o Negra</em>
+disp&otilde;e&raquo;.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; certo&#8213;confirmou Jorge&#8213;Mas que outro
+cerebro, sen&atilde;o o do Mestre, poderia conceber e realisar
+o maravilhoso plano da nossa Associa&ccedil;&atilde;o, de modo
+a
+prender nos fios subtilissimos de uma grande teia de
+interesses communs o destino de todos e de cada um?
+Confesso, Mestre, que s&oacute; um espirito superior e uma
+sciencia profunda como a sua poderiam levar a cabo
+tamanha e t&atilde;o extraordinaria empreza.
+<br />
+
+<br />
+
+O homem que dava pelo nome de Mestre fitou
+Jorge com interesse, e n'um tom repassado de extraordinario
+carinho, disse-lhe:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tu, meu amigo, &eacute;s novo, &eacute;s forte e
+&eacute;s intelligente.
+A ti est&aacute; reservada a alta miss&atilde;o de continuares
+um dia a minha obra, que &eacute; realmente grandiosa.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu, Mestre&#8213;replicou Jorge&#8213;tenho os hombros
+extremamente debeis para tamanha empreza.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o. Tu &eacute;s o unico de entre tantos que
+dever&aacute;
+succeder-me. Como sabes, eu sou o poder occulto que
+tudo dirijo e tudo governo dentro da nossa
+Associa&ccedil;&atilde;o.
+Em meu nome, poder&aacute;s governar, mandar e dirigir,
+mesmo depois da minha morte.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pensa em morrer? Mestre!&#8213;exclamou Jorge
+surprehendido.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A ideia da Morte deve estar sempre presente
+ao homem que, podendo tanto, s&oacute; n&atilde;o
+p&oacute;de prolongar
+<span class="pagenum">[440]</span>
+a vida uma hora, um instante mais alem d'aquelle que
+marca o fim da sua existencia sobre a terra. Ha muito
+que eu penso, Jorge, na maneira de triumphar da
+Morte continuando a viver na vida e no pensamento
+da nossa Associa&ccedil;&atilde;o; e, sendo assim, eu
+n&atilde;o podia
+deixar de pensar em ti como meu continuador...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh, Mestre!&#8213;fez Jorge commovido.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute;s o unico que ha muitos annos privas particularmente
+comigo; &eacute;s o unico que bem conhece os fios
+occultos que movem a nossa Associa&ccedil;&atilde;o;
+&eacute;s, portanto,
+o unico no caso de me succeder e de sustentar com
+honra e brio, com dignidade e consciencia, as
+tradic&ccedil;&otilde;es
+j&aacute; gloriosas da <em>M&atilde;o
+Negra</em>. N&atilde;o esque&ccedil;as, meu
+filho, que ella &eacute; a ingente for&ccedil;a, o supremo
+poder, e
+ter&aacute; no futuro em suas m&atilde;os os destinos da
+humanidade.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas a sua sciencia, Mestre, esse espirito investigador
+e profundo, essa intelligencia privilegiada, esse
+cerebro potentissimo que tudo pensa, tudo prev&ecirc; e tudo
+resolve, como poderei eu substituil-o?
+<br />
+
+<br />
+
+O Mestre sorriu.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quando eu faltar&#8213;disse elle&#8213;vir&aacute;s a esta
+casa, encerrar-te-has n'esta sala, sentar-te-has n'esta
+cadeira, tal como eu estou agora, e consultar&aacute;s o archivo
+secreto da nossa Associa&ccedil;&atilde;o. Ha
+aqui&#8213;accrescentou&#8213;todos
+os elementos de que careces para proseguir
+desassombradamente o caminho que encetei.
+<br />
+
+<br />
+
+Depois abriu uma gaveta da meza, tirou um enorme
+livro encadernado a preto e com fechos de metal.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Este livro&#8213;disse elle, abrindo-o&#8213;est&aacute; em
+branco. Quando eu morrer, basta que lhe passes por
+cima de cada folha uma lamina de ferro, aquecida,
+para que a tinta sympathica em que est&aacute; escripto se
+revele e te permitta fazer a leitura. Ent&atilde;o
+encontrar&aacute;s
+aqui a historia d'este homem mysterioso a quem
+tanto te affei&ccedil;oaste e cuja origem desconheces. Este
+<span class="pagenum">[441]</span>
+livro que &eacute; toda a minha vida e toda a minha sciencia,
+&eacute; tambem toda a vida da nossa
+Associa&ccedil;&atilde;o. S&ecirc;
+prudente, s&ecirc; sabio e s&ecirc; justo, meu filho; e se a
+historia
+da minha vida puder merecer-te uma lagrima de
+compaix&atilde;o, que essa lagrima se crystalise e se transforme
+na perola dos nobres intuitos, como symbolo do
+Bem com que eu quiz redimir tanto mal feito e recebido
+da m&atilde;o da perfidia e da trai&ccedil;&atilde;o
+humana.<br />
+
+<br />
+
+Jorge ouvia o velho sem o comprehender, mas
+sentia-se singularmente commovido.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mestre!&#8213;exclamou elle com voz tremula e repassada
+de ternura&#8213;afastemos para longe de n&oacute;s a
+ideia da morte. N&atilde;o me assusta a perda da propria
+vida, mas aterra-me o pensamento de que posso ver
+morrer aquelle que tem sido o meu melhor amigo, o
+meu verdadeiro e unico Mestre.
+<br />
+
+<br />
+
+Os dois calaram-se e permaneceram mudos e silenciosos
+por alguns instantes.
+<br />
+
+<br />
+
+Evidentemente, uma profunda commo&ccedil;&atilde;o embargava
+n'esse momento a voz &aacute;quelles dois homens energicos,
+t&atilde;o fortes e t&atilde;o activos que, consubstanciados
+no mesmo pensamento, tinham conseguido organisar,
+dominar e dirigir com superior intelligencia uma das
+mais poderosas e terriveis associa&ccedil;&otilde;es secretas
+dos
+nossos dias.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meu amigo&#8213;disse por fim o mysterioso personagem
+dos oculos&#8213;era indispensavel que eu te manifestasse
+a minha ultima vontade, antes de partir
+para a grande romagem. N&atilde;o &eacute; que eu pense
+realisal-a
+breve; mas como a vida &eacute; um thesouro de que
+apenas somos depositarios, um valor &aacute; ordem que pode
+ser-nos reclamado de um momento para o outro, o meu
+dever &eacute; prevenir. Aqui tens e aqui ficam n'este livro
+todas as indica&ccedil;&otilde;es precisas para poderes
+continuar a
+minha obra. Se eu faltar, repito, assume a
+direc&ccedil;&atilde;o
+suprema da <em>M&atilde;o negra</em>, e o
+meu espirito ser&aacute; comtigo.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p442">[442]</a></span>
+<h3><a name="c30"></a>XXX<br />
+
+<br />
+
+M&atilde;e
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Madre Paula envi&aacute;ra o
+<em>Tomba</em> ao Porto com uma
+carta a chamar para junto de si o <a href="#e47">filho</a>
+da
+<em>Irm&atilde; Dorothea</em>,
+sob pretexto de que precisava da sua companhia
+por alguns dias, para suavisar com a sua presen&ccedil;a
+o aborrecimento do padre Filippe, constrangido a permanecer
+alli emquanto ella velava o leito de uma amiga
+intima, perigosamente enferma.
+<br />
+
+<br />
+
+No mesmo dia em que Paulo chegou, a abbadessa
+approximou-se do leito de Helena e disse-lhe sorrindo:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deixas que eu te entremostre, minha amiga, um
+peda&ccedil;o do ceu azul da tua existencia por entre as
+brumas do soffrimento que te opprime?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que queres dizer?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quero dizer que est&aacute; n'esta casa, debaixo do
+mesmo tecto que te abriga, um rapaz que seria o
+orgulho e a consola&ccedil;&atilde;o de sua m&atilde;e, se
+sua m&atilde;e consentisse
+em o v&ecirc;r e lhe fallar...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meu filho!?&#8213;bradou Helena em sobressalto
+com um afflictivo gesto de terror&#8213;Pois tu, Paula,
+trouxeste a esta casa esse testimunho vivo da minha
+deshonra?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[443]</span> &#8213;Quem o conhece, sen&atilde;o eu e tu? Para todos os
+effeitos, Paulo &eacute; meu sobrinho, e elle proprio
+est&aacute; longe
+de pensar em que se encontra t&atilde;o perto de sua
+m&atilde;e...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Embora! Por Deus, poupa-me a esse enorme
+sacrificio, a essa horrorosa angustia!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Helena, porque teimas em te mostrar sem
+cora&ccedil;&atilde;o,
+quando toda a tua vida est&aacute; provando o contrario,
+filha? Lembra-te de que o mesmo terror experimentaste
+quando se te fallou em receberes Julio de
+Montarroyo. E comtudo, a sua presen&ccedil;a, em vez de
+te mortificar, alegrou-te, quasi te restabeleceu... Pois
+bem; deixa-me apresentar-te agora teu filho. Nada
+te obriga a reconhecel-o. O segredo fica entre ambas.
+Se a sua presen&ccedil;a te affligir, se continuares a detestal-o,
+eu o arredarei para longe de ti... Se, pelo contrario,
+te sentires bem ao lado d'elle, ouvindo-o e
+apreciando-lhe as nobres qualidades, ficar&aacute; e
+continuar&aacute;
+a v&ecirc;r-te, como uma pessoa amiga, na ignorancia
+absoluta dos la&ccedil;os que o prendem a ti...
+<br />
+
+<br />
+
+Helena de Noronha guardou um silencio indeciso
+que era quasi uma acquiescencia.
+<br />
+
+<br />
+
+As palavras de madre Paula eram de uma t&atilde;o irresistivel
+persuaz&atilde;o, que a doente nada tinha a opp&ocirc;r-lhes.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Comprehendes&#8213;disse ella&#8213;que nem curiosidade
+nem affecto podem mover-me a receber esse rapaz
+que para mim n&atilde;o passa de um estranho...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E como estranho se conservar&aacute; a teu lado...
+Quem o duvida?&#8213;tornou a religiosa com aquelle
+meigo sorrir que se prodigalisa aos enfermos impertinentes
+e caprichosos.&#8213;Aqui, ha apenas da minha parte
+o interesse de que conhe&ccedil;as teu filho, que revivas nelle
+os tempos felizes da tua infancia, recordando nas
+suas fei&ccedil;&otilde;es as fei&ccedil;&otilde;es de
+teu pae...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois sim... que venha!&#8213;disse por fim Helena,
+com visivel esfor&ccedil;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[444]</span>
+Paulo foi introduzido no quarto da doente.
+<br />
+
+<br />
+
+O mancebo, com a polidez propria das pessoas indifferentes,
+abeirou-se do leito; e pois que madre Paula
+lhe explic&aacute;ra que esta approxima&ccedil;&atilde;o
+tinha unicamente
+por fim distrahir a sua amiga e desviar-lhe o
+espirito de dolorosas preoccupa&ccedil;&otilde;es moraes que a
+obsidiavam,
+envidou todos os esfor&ccedil;os por tornar alegre e
+interessante a sua conversa&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Disseram-me que v. ex.<sup>a</sup>&#8213;principiou elle por
+declarar, dirigindo-se a Helena&#8213;ainda por muito tempo
+reteria junto do seu leito esta boa e santa senhora
+que &eacute; minha m&atilde;e; e esta alarmante perspectiva
+obrigou-me
+a vir supplicar-lhe que se restabele&ccedil;a o mais
+breve que ser possa, porque, em verdade, minha senhora,
+come&ccedil;o a sentir-me lesado nos meus sagrados
+direitos... de filho.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o &eacute; minha vontade prejudical-o...&#8213;replicou
+Helena fitando-o e estudando-lhe demoradamente
+as fei&ccedil;&otilde;es.&#8213;Quando escrevi &aacute; minha
+amiga Paula, pedindo-lhe
+a esmola da sua companhia, estava bem
+longe de supp&ocirc;r que um tal pedido significasse uma
+contrariedade para alguem...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh, minha senhora! pe&ccedil;o-lhe que n&atilde;o tome
+&aacute;
+lettra as minhas palavras&#8213;atalhou Paulo rindo.&#8213;Isto
+&eacute; mero gracejo da minha parte e tanto mais desculpavel
+quanto &eacute; certo que v. ex.<sup>a</sup> se me
+affigura em
+via de um prompto restabelecimento... E como n&atilde;o
+quero passar tambem sem o meu quinh&atilde;o de importancia
+n'este jubiloso caso de a vermos restituida &aacute; saude
+e &aacute; vida, tracto de fazer valer, desde j&aacute;, os
+meus
+direitos a um louvor que n&atilde;o mere&ccedil;o... De resto,
+minha senhora, eu felicito-me de a encontrar n'um
+estado que est&aacute; bem longe de ser o que &aacute; minha
+imagina&ccedil;&atilde;o
+se apresentava. Julguei vir encontrar uma velhinha
+na agonia, uma luz bruxuleante, quasi a extinguir-se;
+e com grande surpreza e alegria minha, encontro
+<span class="pagenum">[445]</span>
+uma senhora nova e formosa ainda. V. ex.<sup>a</sup>,
+embora um pouco abatida pela doen&ccedil;a, apresenta um
+aspecto promettedor de muita vida... Antes assim!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; demasiado lisongeiro para com uma pobre
+doente, sr. Paulo de...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;De Noronha, minha senhora&#8213;apressou-se Paulo
+a dizer, notando a hesita&ccedil;&atilde;o de Helena.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! v. ex.<sup>a</sup> usa esse
+appellido?&#8213;n&atilde;o p&ocirc;de
+Helena impedir-se de perguntar.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Uso, minha senhora; e se quer que lhe falle
+com franqueza, n&atilde;o sei bem porqu&ecirc;...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Naturalmente, appellido de seus paes...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o os conheci, nunca tive a menor noticia delles...
+Tanto sei se eram Noronhas como se eram Silveiras...
+Podiam ser uma e outra coisa, ou podiam
+n&atilde;o ser coisa nenhuma d'estas... Quem podia talvez
+dizer-me alguma coisa com verdade a esse respeito
+era minha m&atilde;e...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sua m&atilde;e!&#8213;interrompeu Helena, mal podendo
+dominar o sobresalto&#8213;Conhece-a?
+<br />
+
+<br />
+
+Paulo indicou rindo madre Paula:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois eu n&atilde;o disse ainda a v. ex.<sup>a</sup>
+que minha
+m&atilde;e
+&eacute; esta santa senhora que v. ex.<sup>a</sup> tem
+por amiga?
+<br />
+
+<br />
+
+Madre Paula interveio:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o te admires, minha amiga. Paulo habituou-se
+a chamar-me <em>m&atilde;e</em>,
+n&atilde;o obstante saber que n&atilde;o &eacute; a
+mim que deve a existencia...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois a quem a devo? Que outra m&atilde;e conheci
+eu, que affectos, que carinhos, que disvellos e cuidados
+devo a outra que n&atilde;o seja a nobre e santa creatura
+a quem me estou dirigindo?&#8213;accudiu Paulo
+voltando-se para a superiora,&#8213;&Eacute; bem certo&#8213;creio-o
+e n&atilde;o discuto&#8213;que devo a existencia a um acto physiologico
+de terceiros, que me produziram, t&atilde;o independentemente
+da sua vontade como da minha, e que por
+isso mesmo se julgaram desobrigados de me reconhecer
+<span class="pagenum">[446]</span>
+e amparar. Mas esse facto n&atilde;o envolve sentimento
+impeditivo do meu amor e ternura filial para com
+aquelles a quem tudo devo, a quem considero meus
+unicos e verdadeiros paes e que s&atilde;o madre Paula e o
+padre Fillippe.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deve ent&atilde;o odiar muito aquelles que lhe deram
+o s&ecirc;r...&#8213;balbuciou Helena com os olhos fitos nos
+do filho.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o os odeio, minha senhora, lamento-os.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por natural instincto do cora&ccedil;&atilde;o talvez...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o. Por uma tendencia especial do meu espirito
+para deplorar a sorte de todos aquelles que se
+afastaram da linha recta do dever e resvalaram no crime
+ou na cobardia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; singular! Como explica isso? Se n&atilde;o conheceu
+seus paes, como p&oacute;de saber se elles f&ocirc;ram cobardes
+ou criminosos?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A minha propria existencia m'o diz, minha senhora.
+Eu appare&ccedil;o no mundo, filho de paes incognitos...
+isto &eacute;, filho de pessoas que me negaram a paternidade
+ou para se n&atilde;o macularem a si proprias ou para me
+n&atilde;o macularem a mim. No primeiro caso, se temeram
+a macula do meu nascimento e a ella se furtaram pela
+vilta do anonymo, esta ac&ccedil;&atilde;o reflecte a cobardia
+dos
+seus sentimentos, porque n&atilde;o tiveram a coragem de
+assumir a responsabilidade dos seus actos. No segundo
+caso, se a sua situa&ccedil;&atilde;o era de tal modo contraria
+&aacute;s
+leis sociaes que, do chamarem-me
+<em>filho</em>, revertia para
+mim uma vergonha inilludivel, nenhuma duvida resta
+de que meus paes f&ocirc;ram criminosos. De qualquer
+modo, dois desgra&ccedil;ados com os quaes n&atilde;o tenho nem
+quero nada de commum, a n&atilde;o ser para os lamentar,
+como sempre lamento todos aquelles que, podendo ser
+dignos e honestos, o n&atilde;o s&atilde;o, faltando aos
+dictames
+da sua consciencia e ao cumprimento dos seus deveres.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[447]</span> &#8213;Ent&atilde;o, se seus paes um dia lhe apparecessem
+a reivindicar o direito que teem &aacute; sua ternura,
+repudial-os-ia&#8213;perguntou
+Helena com a voz de cada
+vez mais sumida.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, minha senhora&#8213;replicou Paulo
+serenamente&#8213;n&atilde;o
+os repudiaria, que n&atilde;o &eacute; do meu animo
+repudiar os que soffrem e os que se arrependem. Mas
+se pedissem ao meu cora&ccedil;&atilde;o mais do que o
+compassivo
+sentimento que se tem para com todos os desgra&ccedil;ados,
+responder-lhes-ia que o meu amor e a minha ternura
+filial pertenciam exclusivamente &aacute;quelles que me foram
+paes adoptivos na infancia&#8213;a madre Paula e ao padre
+Filippe.
+<br />
+
+<br />
+
+Helena baixou os olhos e as faces purpurearam-se-lhe
+n'uma commo&ccedil;&atilde;o facil de explicar.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tem raz&atilde;o&#8213;murmurou ella&#8213;No entanto, talvez
+que motivos ponderosos for&ccedil;assem sua m&atilde;e a...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A n&atilde;o ser minha m&atilde;e?&#8213;atalhou
+Paulo&#8213;Perfeitamente
+de accordo. A mim cumpre-me respeitar
+esses motivos que n&atilde;o conhe&ccedil;o e que nem sequer
+tento
+conhecer. Mas v. ex.<sup>a</sup> comprehende muito bem que,
+se minha m&atilde;e teve motivos para me arredar de si
+como a um objecto incommodo e compromettedor, eu
+n&atilde;o posso ter no fundo do meu cora&ccedil;&atilde;o
+raz&otilde;es que
+justifiquem e fundamentem qualquer affecto e ternura
+especial por ella. De resto, n&oacute;s estamos apenas formulando
+hypotheses que est&atilde;o muito longe de factos,
+pois n&atilde;o creio que venha a dar-se o caso de meus
+paes um dia apparecerem a reclamar o filho que por
+tantos annos repudiaram.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem sabe?&#8213;observou madre Paula&#8213;N&atilde;o
+admittiste ha pouco a hypothese de que possam soffrer
+ou arrepender-se?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;No campo das supposi&ccedil;&otilde;es, tudo p&oacute;de
+admittir-se,
+minha boa m&atilde;e, porque tudo p&oacute;de
+supp&ocirc;r-se...
+Mas para que havemos de estar a preoccupar-nos com
+<span class="pagenum">[448]</span>
+um assumpto que n&atilde;o interessa a nenhum de n&oacute;s, e
+principalmente a mim? O facto &eacute;, minha senhora&#8213;proseguiu
+elle, voltando-se para Helena&#8213;que eu, a
+despeito da irregularidade do meu nascimento, sou feliz
+quanto o p&oacute;de ser um homem nas minhas circumstancias.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deve muito &aacute; Providencia, visto isso!&#8213;disse
+Helena suspirando,&#8213;ha t&atilde;o poucas pessoas que,
+mesmo bem nascidas, possam dizer-se felizes!...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; certo. Por&eacute;m eu, at&eacute; agora, e
+presentemente,
+posso considerar-me a mais feliz das creaturas.
+Abandonado por meus paes...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas quem te disse a ti que teus paes te abandonaram?&#8213;atalhou,
+docemente reprehensiva, madre
+Paula&#8213;&Eacute; muito avan&ccedil;ar, quando nada sabes a esse
+respeito, Paulo!
+<br />
+
+<br />
+
+O mancebo sorriu.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se eu penso assim, a culpa n&atilde;o &eacute; por certo
+minha,
+mas t&atilde;o somente d'aquelles que tenazmente se
+teem recusado a dizer-me uma palavra unica que me
+illucide &aacute;cerca do meu nascimento.
+<br />
+
+<br />
+
+E voltando-se para Helena:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Desde a mais tenra infancia que eu vivo exclusivamente
+do amparo e dos carinhos do padre Filippe
+e de madre Paula, que considero meus paes pela
+grandeza do beneficio e pela constancia do affecto.
+N&atilde;o conheci outros, nunca me fallaram de outros,
+nunca d'outros me deram noticia. J&aacute; homem, tive um
+momento na minha vida em que senti a necessidade
+cruel de penetrar o mysterio do meu nascimento para
+poder dizer &aacute; mulher que amava e que escolhera para
+companheira de toda a minha existencia, o nome de
+meus paes. Interroguei o padre Filippe. Respondeu-me
+que n&atilde;o os conhecera, que d'elles n&atilde;o tivera
+nunca
+noticia, e que eu f&ocirc;ra passado &aacute; sua benevolente e
+humanitaria tutella, como um <em>legado</em>,
+no espolio de um
+<span class="pagenum">[449]</span>
+padre seu amigo, que morrera e que levara comsigo
+para a sepultura o segredo da minha vinda a este
+mundo. Creio que, n'estas circumstancias, quer as palavras
+do padre Filippe exprimam a verdade quer a
+encubram, o abandono n&atilde;o p&oacute;de ser mais evidente
+nem
+mais completo. N&atilde;o &eacute; v. ex.<sup>a</sup>
+d'esta
+opini&atilde;o, minha
+senhora?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;De certo&#8213;murmurou Helena com voz tremula.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas eu n&atilde;o accuso meus paes do seu procedimento
+para commigo, nem quando emprego esta palavra
+<em>abandono</em> lhe ligo o menor sentimento
+de revolta
+e indigna&ccedil;&atilde;o que ella p&oacute;de inspirar.
+Nada d'isso. Elles
+procederam assim, porque talvez tiveram motivos para
+assim proceder. D'esses motivos, por&eacute;m, n&atilde;o fui
+eu o
+culpado, e isso me basta pensar para minha completa
+tranquillidade. Para tranquillidade d'elles, se forem
+vivos e souberem de mim, bastar-lhes-ha a certeza de
+que sou completamente feliz com o amor de madre
+Paula e da minha noiva, e com a estima e paternal
+affecto do padre Filippe. Aqui est&aacute;, pois, um drama
+que talvez no seu inicio amea&ccedil;ou ser de lagrimas e
+que, por um extraordinario desenrolar de circumstancias
+favoraveis, acaba por apresentar todos os personagens
+felizes e contentes comsigo mesmos!
+<br />
+
+<br />
+
+Ao proferir estas ultimas palavras, Paulo ria jubiloso,
+com aquella alegria franca do seu temperamento
+expansivo e sincero.
+<br />
+
+<br />
+
+Helena de Noronha, de cada vez mais encantada
+com a attitude despretenciosa e alegre d'aquelle rapaz
+que reproduzia nas fei&ccedil;&otilde;es e nos gestos os modos
+e as
+fei&ccedil;&otilde;es de Norberto de Noronha, sentiu-se
+extraordinariamente
+feliz ao ouvir da bocca do proprio filho palavras
+de compassivo perd&atilde;o para o criminoso abandono
+a que ella o votara.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O senhor&#8213;disse ella&#8213;possue uma alma nobilissima
+e um cora&ccedil;&atilde;o dotado de generosos sentimentos.
+<span class="pagenum"><a name="p450">[450]</a></span>
+Merece ser feliz; e uma vez que j&aacute; o &eacute;,
+busque
+nortear-se sempre pelos dictames da piedade e da
+compaix&atilde;o, mesmo para com aquelles que o offenderam
+ou aggravaram...
+<br />
+
+<br />
+
+O tom quasi supplicante em que <a href="#e48">estas</a>
+palavras
+foram ditas n&atilde;o escapou a madre Paula que, com a
+sua natural perspicacia, comprehendeu bem o que se
+passava na alma da sua amiga.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Paulo &eacute; um bello caracter&#8213;interrompeu ella
+envolvendo o mancebo n'um olhar de maternal ternura&#8213;e
+sinto verdadeiro orgulho de ter sido eu a sua
+educadora... Eu e o padre Filippe&#8213;emendou logo&#8213;porque
+&eacute; justo n&atilde;o esquecer que esse exemplar sacerdote
+tem tido com este filho adoptivo todos os extremos
+e disvellos de um pae.
+<br />
+
+<br />
+
+O mancebo come&ccedil;ou ent&atilde;o recordando alegremente
+passagens esquecidas da sua infancia, travessuras de
+crean&ccedil;a, brincadeiras, affagos <a href="#e49">e
+reprimendas</a> do padre
+Filippe e de madre Paula, e n'isto levou algumas horas,
+que muito distrahiram e interessaram Helena de
+Noronha, agora de todo familiarisada com o filho.
+<br />
+
+<br />
+
+Quando Paulo, pretextando n&atilde;o querer com a sua
+conversa&ccedil;&atilde;o fatigar o esp&iacute;rito da
+doente, se retirou
+promettendo voltar depois, a religiosa, a s&oacute;s com Helena,
+perguntou-lhe:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E ent&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o, minha querida Paula&#8213;exclamou a
+enferma&#8213;&eacute;
+bem meu filho, &eacute; bem o neto de Norberto
+de Noronha aquelle rapaz que alli est&aacute;!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o te dizia eu que Paulo era um bello e excellente
+mo&ccedil;o, reflectindo na figura varonil e cheia de
+nobreza as fei&ccedil;&otilde;es de teu pae? Dize-me,
+n&atilde;o ser&aacute; elle
+digno de que o ames como filho, e por elle e para elle
+busques ainda viver? N&atilde;o seria doce e consolador
+para ti v&ecirc;r-te, depois de tantos annos de soffrimentos
+e amarguras, querida e amada por quantos te rodeiam?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[451]</span>
+Helena teve um sorriso e os olhos brilharam-lhe
+n'um fugitivo anceio de felicidade.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim... sim!...&#8213;disse ella&#8213;seria feliz ainda,
+se pudesse viver na companhia de meu filho, amada
+por elle e respeitada por aquelles que me conhecem...
+Mas isso &eacute; impossivel! E queres que te diga? Agora,
+depois que vi meu filho... sinto-me mais desgra&ccedil;ada!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Porque?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Porque... tu comprehendes... na minha alma
+come&ccedil;am a despertar agora todos os sentimentos do
+amor maternal, e n&atilde;o posso dizer a meu filho: &laquo;Sou
+tua m&atilde;e!&raquo;<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>
+<a name="c31"></a>XXXI<br />
+
+<br />
+
+O homem dos oculos verdes
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Decorreram quinze dias de suave e doce convivencia
+entre m&atilde;e e filho, na casa de D. Aurelia.
+<br />
+
+<br />
+
+Madre Paula e a irm&atilde; de Gustavo, ambas de intimo
+acc&ocirc;rdo no empenho de salvarem Helena de Noronha,
+tinham sabido disp&ocirc;r e conduzir as coisas de
+modo que Julio, Paulo e o padre Manoel se encontrassem
+muitas vezes reunidos &aacute; volta da doente, sem que
+nenhum d'elles suspeitasse os la&ccedil;os de sangue que ligavam
+aquelle mancebo, t&atilde;o cheio de vida e de alegria,
+&aacute; infeliz victima do padre Anselmo.
+<br />
+
+<br />
+
+A pobre Helena parecia um tanto esquecida das
+suas m&aacute;goas e infortunios, sentindo renascer dentro
+em si o desejo de viver, tal era o amoravel cuidado
+que todos punham em lhe suavisar a existencia, t&atilde;o
+attribulada de d&ocirc;res physicas e moraes.
+<br />
+
+<br />
+
+Infelizmente, o medico constatara que a doente
+soffria de uma les&atilde;o cardiaca em estado bastante
+adiantado, e que tanto podia deixal-a viver ainda muitos
+mezes como dar-lhe a morte em breves dias.
+<br />
+
+<br />
+
+Este diagnostico, por&eacute;m, reservara-o apenas para
+si, limitando-se a recommendar que n&atilde;o expuzess
+Este diagnostico, por&eacute;m, reservara-o apenas para
+si, limitando-se a recommendar que n&atilde;o expuzessem a
+<span class="pagenum">[453]</span>
+enferma a sobresaltos e commo&ccedil;&otilde;es fortes, que
+podiam
+ser-lhe de funestas consequencias.
+<br />
+
+<br />
+
+O honesto homem de sciencia, reconhecendo quanto
+a pobre doente era amada por todos que a cercavam,
+n&atilde;o quiz destruir no cora&ccedil;&atilde;o dos que
+tanto lhe queriam
+a d&ocirc;ce esperan&ccedil;a de a verem completamente salva.
+<br />
+
+<br />
+
+Estava-se, pois, n'esta bella illus&atilde;o de um restabelecimento
+proximo, quando um dia, pelo fim da tarde,
+bateu ao port&atilde;o de D. Aurelia, pedindo para fallar
+&aacute;
+dona da casa, um desconhecido, que a todos causou
+surpreza pelo seu extranho aspecto e pelas suas mysteriosas
+maneiras.
+<br />
+
+<br />
+
+Era um homem alto, de cabellos compridos e longa
+barba grisalha.
+<br />
+
+<br />
+
+Usava oculos verdes. Vestia um amplo casac&atilde;o,
+que quasi lhe descia aos calcanhares e que, todo abotoado
+na frente, tomava o aspecto de uma sotaina. Na
+cabe&ccedil;a, trazia um chapeu de enormes abas que,
+ensombrando-lhe
+o rosto, dava um aspecto mais carregado
+&aacute; sua figura.
+<br />
+
+<br />
+
+Viera a p&eacute;, encostado a um bord&atilde;o e, comquanto
+agil, parecia fatigado da longa jornada.
+<br />
+
+<br />
+
+D. Aurelia, ao annunciarem-lhe o desconhecido,
+sahiu &aacute; sala de visitas a recebel-o e ficou extranhamente
+surprehendida ao v&ecirc;r diante de si aquelle homem
+que ao mesmo tempo lhe infundia respeito e m&ecirc;do.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Minha senhora&#8213;disse elle com voz sonora,
+mas em que havia uma certa suavidade&#8213;pe&ccedil;o desculpa
+de vir assim importunal-a, apresentando-me a
+fazer-lhe um pedido sem para isso estar de forma alguma
+auctorisado. Mas a importancia da minha miss&atilde;o
+&eacute; tal, que eu atrevo-me a supp&ocirc;r que v. ex.<sup>a</sup>
+n&atilde;o
+me recusar&aacute; o auxilio de que care&ccedil;o para bem a
+cumprir.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o conhe&ccedil;o a pessoa a quem estou
+fallando&#8213;respondeu
+D. Aurelia, com simplicidade&#8213;mas se &eacute; o
+<span class="pagenum">[454]</span>
+meu concurso para uma obra boa que vem pedir, rogo-lhe
+a fineza de me dizer em que posso ser-lhe util.
+<br />
+
+<br />
+
+O desconhecido baixou a voz e disse n'um tom de
+confidencia:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fui amigo intimo de Alvaro de Noronha, e elle,
+um dia antes de ser assassinado, constituiu-me depositario
+de um segredo de familia, que s&oacute; deve ser revelado
+a sua prima, a sr.<sup>a</sup> D. Helena de Noronha,
+actualmente n'esta casa...
+<br />
+
+<br />
+
+D. Aurelia fitou-o perplexa.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E como sabe v. ex.<sup>a</sup> que a minha amiga Helena
+est&aacute; aqui, quando toda a gente ignora...
+<br />
+
+<br />
+
+O desconhecido sorriu de um modo indefinido e
+volveu com firmeza.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sou um homem de bem, minha senhora, e sei
+cumprir os meus juramentos. Jurei ao meu amigo
+Alvaro que revelaria a sua prima o segredo de familia
+que elle me confiou com esse fim, e n&atilde;o me tenho
+poupado a esfor&ccedil;os para bem cumprir a ultima vontade
+do moribundo. Tendo a snr.<sup>a</sup> D. Helena
+permanecido
+em parte incerta durante muitos annos, comprehende
+v. ex.<sup>a</sup> certamente o empenho com que eu terei
+buscado
+encontral-a, m&oacute;rmente achando-me no fim da
+vida quasi, e n&atilde;o querendo levar commigo para a sepultura
+um segredo que me n&atilde;o pertence...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quer v. ex.<sup>a</sup>, pois, fallar com Helena de
+Noronha?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; esse o unico objecto da minha vinda a casa
+de v. ex.<sup>a</sup>, e para isso ouso supplicar-lhe o
+favor da
+sua interven&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A minha amiga, n&atilde;o sei se sabe, tem estado
+muito doente...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas tambem sei que ultimamente tem experimentado
+sensiveis melhoras.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O medico recommendou que lhe evitassemos
+commo&ccedil;&otilde;es violentas...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[455]</span> &#8213;Estou persuadido de que a minha presen&ccedil;a n&atilde;o
+poder&aacute; causar-lhe a menor commo&ccedil;&atilde;o,
+pois que me
+n&atilde;o conhece, como eu tambem pessoalmente a n&atilde;o
+conhe&ccedil;o
+a ella.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas o objecto da sua visita...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o p&oacute;de ser-lhe de modo algum
+desagradavel&#8213;atalhou
+o desconhecido&#8213;porque o que tenho a
+dizer-lhe &eacute; a coisa mais simples e mais natural d'este
+mundo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem devo, pois, annunciar &aacute; minha amiga?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dar-lhe o meu nome &eacute; inutil, porque lhe ser&aacute;
+sempre desconhecido. Se v. ex.<sup>a</sup> tivesse a
+bondade,
+dir-lhe-hia que um amigo de seu primo Alvaro pretende
+fazer-lhe uma communica&ccedil;&atilde;o importante e do
+mais alto interesse para ella.
+<br />
+
+<br />
+
+D. Aurelia entrou no quarto da enferma, que a
+essa hora estava conversando com Julio, Paulo e a
+abbadessa, todos j&aacute; conhecidos e convivendo n'aquella
+intimidade t&atilde;o facil e t&atilde;o peculiar &aacute;
+gente da provincia.
+<br />
+
+<br />
+
+Helena, muito animada e, ao parecer, muito melhor
+dos seus soffrimentos physicos, inspirava a todos uma
+grande esperan&ccedil;a de a verem em breve completamente
+restabelecida.
+<br />
+
+<br />
+
+Chegara mesmo, em conversa&ccedil;&atilde;o intima com madre
+Paula, a fazer projectos de viver, como governante,
+em companhia do filho e da nora, logo que
+elles fossem casados.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Elle n&atilde;o saber&aacute; nunca que sou sua
+m&atilde;e&#8213;dizia
+ella&#8213;e eu poderei v&ecirc;l-o e amal-o, como se visse
+n'elle a cada momento o retrato vivo do meu pae,
+quando mais novo... E cada sorriso affavel, cada
+palavra de bondade que elle me dirija, ser&aacute; para mim
+como que um signal de perd&atilde;o enviado, d'alem tumulo
+e pelos labios do meu filho, por aquelle pobre
+espirito, que tanto fiz soffrer!
+<br />
+
+<br />
+
+Madre Paula sorria de satisfa&ccedil;&atilde;o, ao ouvir da
+<span class="pagenum">[456]</span>
+bocca da sua amiga Helena estas palavras que significavam
+n'ella o desejo de regressar &aacute; vida.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Na tua m&atilde;o est&aacute;, minha querida, o realisares
+o teu desejo... Faze por melhorar. Que o amor por
+teu filho te d&ecirc; a for&ccedil;a e a energia indispensavel
+para
+triumphar das reminiscencias do teu passado, e o futuro,
+relativamente feliz, ser&aacute; teu.
+<br />
+
+<br />
+
+D. Aurelia n&atilde;o quiz prevenir Helena, na presen&ccedil;a
+das pessoas que a rodeavam, da inesperada visita do
+desconhecido.
+<br />
+
+<br />
+
+Quando todos se retiraram, a irm&atilde; de Gustavo,
+approximando-se do leito, disse-lhe sorrindo:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Venho annunciar-te, minha querida amiga, uma
+nova visita...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quem?&#8213;interrogou Helena.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Um desconhecido que pretende fallar-te...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Um desconhecido!&#8213;repetiu Helena com instinctivo
+sobresalto.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim. Um desconhecido para mim e para ti.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que quer elle?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quer ser-te apresentado para te revelar um segredo
+de familia...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A mim?!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A ti.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que segredo de familia p&oacute;de revelar-me uma
+pessoa que eu n&atilde;o conhe&ccedil;o?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Este homem diz-se um antigo e intimo amigo
+de teu primo Alvaro que, na vespera de ser assassinado
+e prevendo a desgra&ccedil;a que ia acontecer-lhe, o
+incumbiu de te fazer uma revela&ccedil;&atilde;o importante, se
+algum
+dia te encontrasse ou tivesse noticias tuas...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meu primo Alvaro!&#8213;balbuciou Helena estremecendo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim... da parte do teu primo Alvaro &eacute; que
+elle vem.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como sabe esse homem que eu estou aqui?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[457]</span> &#8213;Diz elle que tem durante muitos annos empregado
+os maiores esfor&ccedil;os para te encontrar. Sabendo
+que est&aacute; doente n'esta casa uma antiga amiga minha,
+pensou que talvez fosses tu e veio interrogar-me
+a esse respeito. Como se trata de um assumpto que
+p&oacute;de ser de interesse e de utilidade para ti, achei
+conveniente dizer-lhe a verdade...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Queres, pois, que o receba?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o t'o imponho, minha amiga. Mas creio que
+farias bem em o ouvir...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois bem; fa&ccedil;a-se a tua vontade...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A minha vontade n&atilde;o. Aqui a unica pessoa a
+resolver e a decidir &eacute;s tu...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Acho estranho esse caso de um desconhecido a
+procurar-me para me fazer revela&ccedil;&otilde;es!...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A mim parece-me a coisa mais natural do mundo.
+Todas as familias teem segredos que s&oacute; em determinados
+momentos julgam opportuno transmittir aos
+que lhes succedem... Teu primo era intimo de teu
+pae, estava para ser teu noivo... &Eacute;, pois, muito natural
+que, sabendo o estado gravissimo em que se encontrava
+teu pae e perdida a esperan&ccedil;a de tornar a
+v&ecirc;r-te, encarregasse a um amigo a miss&atilde;o de um dia
+te esclarecer... E quem nos diz a n&oacute;s que este desconhecido
+vem talvez trazer-te a independencia e a
+fortuna, quando tu menos a esperas?
+<br />
+
+<br />
+
+Helena sorriu incredula.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o creio&#8213;disse ella&#8213;mas seja o que f&ocirc;r,
+desde que se trata de um segredo de familia, devo
+ouvil-o. Manda entrar esse homem.
+<br />
+
+<br />
+
+D. Aurelia saiu e pouco depois dava entrada na
+camara da enferma o homem dos oculos.
+<br />
+
+<br />
+
+Helena, recostada n'uma cadeira de bra&ccedil;os, encarou-o
+fito e n&atilde;o o reconheceu.
+<br />
+
+<br />
+
+O desconhecido inclinou a cabe&ccedil;a n'uma
+sauda&ccedil;&atilde;o,
+e pareceu esperar que D. Aurelia se retirasse.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[458]</span> &#8213;Fica!&#8213;p&ocirc;de ainda dizer Helena, tomada de
+subito receio, olhando para a sua amiga.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Perd&atilde;o!&#8213;obtemperou o desconhecido.&#8213;O que
+tenho a dizer a v. ex.<sup>a</sup> &eacute;
+t&atilde;o importante
+segredo,
+que n&atilde;o p&oacute;de ser ouvido por mais alguem.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o tenho segredos para a minha amiga...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Todas as pessoas teem segredos&#8213;insistiu o homem
+dos oculos&#8213;e se a ninguem &eacute; licito devassal-os,
+menos licito se me afigura revelar os que nos n&atilde;o pertencem.
+V. ex.<sup>a</sup> n&atilde;o tem o direito de tornar
+publico
+um segredo que lhe n&atilde;o pertence, que n&atilde;o
+&eacute; s&oacute; seu,
+porque &eacute; tambem de sua familia...
+<br />
+
+<br />
+
+Estas palavras foram ditas com tal intimativa que
+Helena baixou os olhos tremula e confundida.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Este cavalheiro tem raz&atilde;o&#8213;disse D. Aurelia&#8213;Eu
+aguardarei na sala proxima as tuas ordens,
+minha boa amiga... Escuta este senhor.
+<br />
+
+<br />
+
+E sahiu.
+<br />
+
+<br />
+
+Ent&atilde;o o desconhecido, avan&ccedil;ando alguns passos no
+quarto, fitou Helena e disse-lhe em voz soturna:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o me conheces, Irm&atilde; Doroth&ecirc;a,
+abadessa da
+Covilh&atilde;? Sou eu, o teu cumplice!
+<br />
+
+<br />
+
+Helena fez um gesto de horror e soltou um grito
+abafado. Reconhecera no homem dos oculos verdes o padre
+Hilario, o seu cumplice no assassinato do padre Anselmo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o venho accusar-te pela maneira infame e
+ignobil como abusaste da paix&atilde;o ardentissima que a
+tua presen&ccedil;a accendeu na minha alma, e menos ainda
+do ludibrio de que me fizeste victima, obrigando-me
+a esperar-te baldadamente na fronteira, onde prometteste
+que irias, reunir-te a mim. Era justo que ao crime
+succedesse a expia&ccedil;&atilde;o, e n&atilde;o haveria
+decerto Providencia,
+se eu pudesse ser feliz comtigo. Fizeste de
+mim um assassino miseravel, um perjuro, um parricida,
+Helena de Noronha. Tudo isso te perd&ocirc;o. Sabes,
+<span class="pagenum">[459]</span>
+por&eacute;m, o que n&atilde;o te posso perdoar? &Eacute;
+que ames outro
+e com elle penses viver ainda feliz. Isso n&atilde;o. Julio de
+Montarroyo n&atilde;o ser&aacute; mais venturoso comtigo do que
+eu.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Julio de Montarroyo!&#8213;balbuciou Helena aterrada&#8213;Quem
+lhe ensinou esse nome?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu sei todos os nomes que est&atilde;o ligados &aacute; tua
+existencia, filha de Norberto de Noronha, amante do
+padre Anselmo, m&atilde;e de Paulo de Noronha. Sei tudo,
+que para outra coisa n&atilde;o tenho vivido ha dezoito annos,
+rastejando como a serpente, ao peso do meu remorso.
+Quiz saber de ti, quiz conhecer a que qualidade
+de mulher sacrifiquei a minha posi&ccedil;&atilde;o, o meu
+futuro, a minha vida, a minha alma. E soube-o! Nada
+me resta por saber. E, pois, que ainda na tua
+vida ha um lampejo de esperan&ccedil;a, e na tua alma um
+vinculo de affecto que te prende a alguem, eu venho
+dizer-te que chegou a hora de partirmos. Jurei que
+n&atilde;o pertencerias a outro, que n&atilde;o amarias outro,
+que
+nenhum homem ouviria de teus labios juras eguaes
+&aacute;quellas que de teus labios fementidos ouvi. Eis-me,
+pois, aqui, prompto a cumprir o meu juramento. Queres
+obedecer a elle voluntariamente, ou preferes o escandalo
+ruidoso, que nada remedeia e que te acompanhar&aacute;
+alem da morte? Vamos! fomos companheiros no
+crime; &eacute; bem que o sejamos na
+expia&ccedil;&atilde;o. Se tiveste coragem
+para matar, tel-a-has agora tambem para morrer.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mate-me! mate-me!&#8213;solu&ccedil;ou Helena, pondo
+as m&atilde;os.
+<br />
+
+<br />
+
+Ent&atilde;o o padre Hilario tirou do interior do casaco
+uma pequena caixa, que abriu. Depois, tomando entre
+os dedos uma pastilha, disse:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eis aqui um veneno activissimo que dentro em
+duas horas ter&aacute; cumprido o seu dever, matando-te
+suavemente, sem uma agonia prolongada. At&eacute; este beneficio
+me deves, porque n&atilde;o quero que a morte te
+seja dolorosa. Vamos! aqui tens a morte.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[460]</span>
+E offereceu-lhe a pastilha. Helena, sem a mais leve
+hesita&ccedil;&atilde;o, acceitou o veneno das m&atilde;os
+do seu cumplice
+e tomou-o com assombrosa serenidade.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pago-te assim a minha divida&#8213;disse ella&#8213;Estamos
+quites. Se para me ajudares a vingar do
+monstro que me perdeu tivesses exigido a minha vida
+em troca, ter-t'a-hia sacrificado. Pediste, por&eacute;m, o
+meu amor... e esse eu n&atilde;o podia conceder-t'o... Mas
+era-me preciso vingar-me. Perdoa-me!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas se eu te amo ainda!&#8213;exclamou o padre
+Hilario debru&ccedil;ando-se no leito e beijando-lhe freneticamente
+as faces e os olhos!&#8213;Amo-te e morro feliz,
+sabendo que me precedes algumas horas na romagem
+mysteriosa do tumulo!
+<br />
+
+<br />
+
+Depois, com voz tremula em que havia toda a
+express&atilde;o de um infinito amor:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Irei comtigo, descan&ccedil;a! Se n&atilde;o pude fazer que
+me pertencesses n'esta vida, buscarei na outra ser teu
+companheiro de tormentos e penas eternas! L&aacute; nos
+havemos de encontrar.
+<br />
+
+<br />
+
+Beijou-a ainda com louco frenesi e sahiu do quarto
+da enferma, sem deixar transparecer na face impassivel
+a commo&ccedil;&atilde;o que lhe agitava a alma.
+<br />
+
+<br />
+
+Duas horas depois, Helena de Noronha, tendo-se
+despedido de todas as pessoas que lhe rodeavam o
+leito, morria tranquillamente, docemente, como se a
+morte a fizesse cahir n'um somno doce e reparador.
+<br />
+
+<br />
+
+Este inesperado desenlace surprehendeu a todos;
+mas ninguem ousou suspeitar-lhe a verdadeira causa.
+<br />
+
+<br />
+
+Julio de Montarroyo, cahindo n'um mutismo aterrador,
+velou-lhe o cadaver e acompanhou-o &aacute; sepultura,
+frio e impassivel, como se fora um cadaver tambem.
+Nem aos olhos lhe assomou uma lagrima nem de
+seus labios sahiu um gemido, ao v&ecirc;r desapparecer
+para sempre no p&oacute; da sepultura a face da mulher
+que tanto amara!
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[461]</span>
+<h3><a name="c32"></a>Conclus&atilde;o
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Um mez depois d'estes acontecimentos, madre Paula
+e padre Filippe, regressando de uma mysteriosa visita
+ao convento da Covilh&atilde;, mandaram chamar Paulo de
+Noronha.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meu filho&#8213;disse-lhe o padre Filippe, apresentando-lhe
+um cofre de ferro quadrado&#8213;eu e madre
+Paula temos at&eacute; hoje sido depositarios de uma fortuna
+que te pertence e que fomos encarregados de te
+entregar logo que hajas attingido a maioridade e possas
+por lei disp&ocirc;r do que &eacute; teu. Est&atilde;o
+n'este cofre oitocentos
+contos que te pertencem. Como deliberaste
+unir o teu destino ao de uma menina que desejas fazer
+tua mulher, julgamos do nosso dever informar-te
+d'esta circumstancia, afim de que possas regular com
+o pae da tua futura esposa as condi&ccedil;&otilde;es do teu
+enlace.
+<br />
+
+<br />
+
+Paulo, attonito e mal podendo cr&ecirc;r no que ouvia,
+encarava ora o padre Filippe, ora madre Paula, sem
+poder articular uma palavra.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oitocentos contos!&#8213;balbuciou por fim.&#8213;E
+d'onde vem tanto dinheiro?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;De teus paes&#8213;respondeu madre Paula.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meus paes! E quem eram elles?&#8213;perguntou
+<span class="pagenum">[462]</span>
+o mancebo, na esperan&ccedil;a de que, emfim, o segredo
+do seu nascimento lhe iria ser revelado.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nunca o saber&aacute;s. Essa fortuna que elles te legaram
+n&atilde;o traz nome. Designa-lhe tu, meu filho, um
+bom destino e uma applica&ccedil;&atilde;o nobre e justa.
+<br />
+
+<br />
+
+Quando o mancebo retirou, louco de alegria a communicar
+a boa nova a Beatriz, padre Filippe, voltando-se
+para madre Paula, exclamou:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como Deus &eacute; misericordioso e &eacute; justo! Esta
+fortuna, accumulada &aacute; custa de crimes nas m&atilde;os do
+padre Anselmo, vae agora, nas m&atilde;os d'este rapaz que
+&eacute; seu filho, ter um destino bem mais nobre e mais
+digno.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que o altruismo do filho possa ao menos redimir
+as torpezas e os crimes do pae!&#8213;replicou madre
+Paula.
+<br />
+
+<br />
+
+No dia em que Paulo de Noronha se unia a Beatriz,
+a contento do sr. Custodio de Jesus, seu pretenso
+progenitor, recebeu madre Paula a noticia de que
+Julio de Montarroyo se havia suicidado sobre a sepultura
+da <em>Irm&atilde; Dorothea</em>, legando
+uma parte dos seus
+haveres ao <em>mestre Tomba</em> e a parte
+restante a D. Aurelia
+para obras de caridade.
+<br />
+
+<br />
+
+E como os acontecimentos notaveis nunca veem isolados,
+o procurador Belchior leu tambem n'esse dia,
+nas gazetas, a noticia de que Leonor, que tanto se
+salient&aacute;ra
+no tragico suicidio de Eugenio de Mello, partira
+para Lisboa em companhia de Jo&atilde;o Lazaro.
+<br />
+
+<br />
+
+Do homem dos oculos verdes, o Mestre fundador
+da <em>M&atilde;o Negra</em>, nunca mais
+Jorge, o amigo de Paulo,
+ouviu fallar, substituindo-o porisso na
+direc&ccedil;&atilde;o da famosa
+sociedade secreta, que &eacute; hoje a mais florescente
+e poderosa de todas as suas irm&atilde;s.
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>FIM</h4>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>INDICE
+</h3>
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 517px;"></td>
+
+ <td style="width: 63px; text-align: right;">PAG.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 517px;">I&#8213;Os irm&atilde;os da
+m&atilde;o
+negra</td>
+
+ <td style="width: 63px; text-align: right;"><a href="#c1">5</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 517px;">II&#8213;Amor e
+esperan&ccedil;a</td>
+
+ <td style="width: 63px; text-align: right;"><a href="#c2">23</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 517px;">III&#8213;Pae e
+filha</td>
+
+ <td style="width: 63px; text-align: right;"><a href="#c3">43</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 517px;">IV&#8213;Dois
+patifes</td>
+
+ <td style="width: 63px; text-align: right;"><a href="#c4">69</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>V&#8213;Madre
+Paula</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c5">78</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>VI&#8213;&Aacute; hora da
+morte</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c6">87</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>VII&#8213;Tres
+miseraveis</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c7">103</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>VIII&#8213;Entre
+irm&atilde;os</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c8">124</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>IX&#8213;Amores
+faceis</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c9">135</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>X&#8213;Para os grandes
+males</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c10">153</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>XI&#8213;Jo&atilde;o
+Lazaro</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c11">168</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>XII&#8213;Velhos
+conhecimentos</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c12">181</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>XIII&#8213;Denuncia</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c13">211</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>XIV&#8213;Miseravel!</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c14">239</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>XV&#8213;Conluio
+infame</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c15">255</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>XVI&#8213;O
+rapto</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c16">262</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>XVII&#8213;Quem semeia
+ventos</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c17">280</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>XVIII&#8213;Revela&ccedil;&atilde;o</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c18">289</a></td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<span class="pagenum">[464]</span>
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 517px;">XIX&#8213;Um velho
+amigo</td>
+
+ <td style="width: 63px; text-align: right;"><a href="#c19">304</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 517px;">XX&#8213;Alma
+negra</td>
+
+ <td style="width: 63px; text-align: right;"><a href="#c20">317</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 517px;">XXI&#8213;Tal vida, tal
+fim</td>
+
+ <td style="width: 63px; text-align: right;"><a href="#c21">333</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 517px;">XXII&#8213;Mysterio</td>
+
+ <td style="width: 63px; text-align: right;"><a href="#c22">346</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 517px;">XXIII&#8213;Allucina&ccedil;&atilde;o</td>
+
+ <td style="width: 63px; text-align: right;"><a href="#c23">357</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>XXIV&#8213;Extranho
+encontro</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c24">369</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>XXV&#8213;Pobre
+Helena</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c25">389</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>XXVI&#8213;Um amigo dos
+diabos</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c26">399</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>XXVII&#8213;Duas
+amigas</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c27">411</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>XXVIII&#8213;Cora&ccedil;&atilde;o
+morto</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c28">427</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>XXIX&#8213;Confidencias</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c29">436</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>XXX&#8213;M&atilde;e</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c30">442</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>XXXI&#8213;O homem dos oculos
+verdes</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c31">452</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 517px;">Conclus&atilde;o</td>
+
+ <td style="width: 63px; text-align: right;"><a href="#c32">461</a></td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="fbox">
+<h2>Lista de erros corrigidos</h2>
+
+<div style="text-align: center;">Aqui encontram-se
+listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="width: 80%; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4">
+
+ <tbody>
+
+ <tr align="right">
+
+ <td style="width: 87px;"></td>
+
+ <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 119px;">Original</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 5px;"></td>
+
+ <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 118px;">Correc&ccedil;&atilde;o</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 87px;"><a name="e1"></a><a href="#p8">#p&aacute;g.
+8</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 119px;">ter
+f&ocirc;r</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 118px;">te
+f&ocirc;r</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 87px;"><a name="e2"></a><a href="#p17">#p&aacute;g.
+17</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 119px;">a
+aquella</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 118px;">aquella</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 87px;"><a name="e3"></a><a href="#p18">#p&aacute;g.
+18</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 119px;">danda-nos</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 118px;">dando-nos</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 87px;"><a name="e4"></a><a href="#p23">#p&aacute;g.
+23</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 119px;">algum
+temdo</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 118px;">algum
+tempo</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 87px;"><a name="e5"></a><a href="#p24">#p&aacute;g.
+24</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 119px;">pancado</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 118px;">pancada</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 87px;"><a name="e6"></a><a href="#p25">#p&aacute;g.
+25</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 119px;">com</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 118px;">como</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 87px;"><a name="e7"></a><a href="#p35">#p&aacute;g.
+35</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 119px;">Na
+primeiro</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 118px;">No
+primeiro</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 87px;"><a name="e8"></a><a href="#c3">#p&aacute;g.
+43</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 119px;">pupilllo</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 118px;">pupillo</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 87px;"><a name="e9"></a><a href="#p70">#p&aacute;g.
+70</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 119px;">mefica</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 118px;">me fica</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 87px;"><a name="e10"></a><a href="#p98">#p&aacute;g.
+98</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 119px;">ella</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 118px;">elle</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 87px;"><a name="e11"></a><a href="#p99">#p&aacute;g.
+99</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 119px;">pabre</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 118px;">padre</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 87px;"><a name="e12"></a><a href="#p109">#p&aacute;g.
+109</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 119px;">palava</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 118px;">palavra</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e13"></a><a href="#p111">#p&aacute;g. 111</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">famila</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">familia</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e14"></a><a href="#p112">#p&aacute;g. 112</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">devo ou</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">devo eu</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e15"></a><a href="#p127">#p&aacute;g. 127</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">circumstancios</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">circumstancias</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e16"></a><a href="#p140">#p&aacute;g. 140</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">continou</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">continuou</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e17"></a><a href="#p162">#p&aacute;g. 162</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">aprsentou</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">apresentou</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e18"></a><a href="#p164">#p&aacute;g. 164</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">auctoridado</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">auctoridade</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e19"></a><a href="#p169">#p&aacute;g. 169</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">importaacia</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">importancia</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e20"></a><a href="#p190">#p&aacute;g. 190</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">as as minhas</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">as minhas</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e21"></a><a href="#p194">#p&aacute;g. 194</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">muduram</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">mudaram</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e22"></a><a href="#p201">#p&aacute;g. 201</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">tembem</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">tambem</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e23"></a><a href="#p202">#p&aacute;g. 202</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">risonha</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">risonhas</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e24"></a><a href="#p223">#p&aacute;g. 223</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">dinheiro</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">o dinheiro</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e25"></a><a href="#p226">#p&aacute;g. 226</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">trasnporte</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">transporte</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e26"></a><a href="#p235">#p&aacute;g. 235</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">respendeu</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">respondeu</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e27"></a><a href="#p258">#p&aacute;g. 258</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">dm</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">em</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e28"></a><a href="#p260">#p&aacute;g. 260</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">mutio</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">muito</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e29"></a><a href="#p263">#p&aacute;g. 263</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">prepada</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">preparada</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e30"></a><a href="#p263">#p&aacute;g 263</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">seguiramos</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">seguiram os</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e31"></a><a href="#p267">#p&aacute;g. 267</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">pergunou</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">perguntou</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e32"></a><a href="#p271">#p&aacute;g. 271</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">as sentidos</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">os sentidos</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e33"></a><a href="#p288">#p&aacute;g. 288</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">ciosa</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">coisa</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e34"></a><a href="#p310">#p&aacute;g. 310</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">o gente</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">a gente</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e35"></a><a href="#p311">#p&aacute;g. 311</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">semelhanle</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">semelhante</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e36"></a><a href="#p311">#p&aacute;g. 311</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">qne</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">que</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e37"></a><a href="#p315">#p&aacute;g. 315</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">esssas</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">essas</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e38"></a><a href="#p317">#p&aacute;g. 317</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">a molestias</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">as molestias</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e39"></a><a href="#p333">#p&aacute;g. 333</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">pelo colera</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">pela colera</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e40"></a><a href="#p344">#p&aacute;g. 344</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">Lenor</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">Leonor</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e41"></a><a href="#p350">#p&aacute;g. 350</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">desconhcida</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">desconhecida</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e42"></a><a href="#p357">#p&aacute;g. 357</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">horrrivel</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">horrivel</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e43"></a><a href="#p357">#p&aacute;g. 357</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">algnma</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">alguma</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e44"></a><a href="#p365">#p&aacute;g. 365</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">pssou</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">passou</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e45"></a><a href="#p366">#p&aacute;g. 366</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">ssfor&ccedil;os</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">esfor&ccedil;os</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e46"></a><a href="#p430">#p&aacute;g. 430</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">Juliod e</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">Julio de</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e47"></a><a href="#p442">#p&aacute;g. 442</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">fiho</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">filho</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e48"></a><a href="#p450">#p&aacute;g. 450</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">setas</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">estas</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e49"></a><a href="#p450">#p&aacute;g. 450</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">o reprimendas</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">e reprimendas</td>
+
+ </tr>
+
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;">Ao longo do texto
+original encontramos "..", num espa&ccedil;o onde caberiam
+retic&ecirc;ncias ("..."): assumi tratar-se de um erro
+tipogr&aacute;fico, substituindo os dois pontos horizontais por
+tr&ecirc;s.<br />
+
+<br />
+
+Noberto e Norberto s&atilde;o varia&ccedil;&otilde;es
+constantes da mesma palavra, a manter de acordo com o original. O mesmo
+acontece para as palavras Laura e Leonor, que se identificam como sendo
+a mesma personagem.<br />
+
+<br />
+
+Os n&uacute;meros dos cap&iacute;tulos foram alterados a partir
+do cap&iacute;tulo XIII (no original cap&iacute;tulo XIV da <a href="#p211">p&aacute;gina 211</a>), uma vez que
+houve um erro confirmado com a ordem correcta do &iacute;ndice.<br />
+
+<br />
+
+</div>
+
+<div style="text-align: center;">Foram acrescentadas aspas
+de fecho quando estas n&atilde;o existiam e onde faziam falta, por
+terem sido iniciadas e n&atilde;o terminadas.<br />
+
+<br />
+
+Foram acrescentados travess&otilde;es quando se mostraram
+necess&aacute;rios e vice-versa.<br />
+
+<br />
+
+</div>
+
+</div>
+
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Os Filhos do Padre Anselmo, by
+António da Costa Couto Sá de Albergaria
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS FILHOS DO PADRE ANSELMO ***
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+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
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