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diff --git a/24463-h/24463-h.htm b/24463-h/24463-h.htm new file mode 100644 index 0000000..8c6f750 --- /dev/null +++ b/24463-h/24463-h.htm @@ -0,0 +1,3576 @@ +<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.01 Transitional//EN" "http://www.w3.org/TR/html4/loose.dtd"> +<html> + +<head> + <title>Noites de Insomnia, offerecidas a quem não póde dormir, n.º 1</title> + <meta name="GENERATOR" content="Quanta Plus"> + <meta name="AUTHOR" content="Camillo Castello Branco"> + <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=iso-8859-1"> + <meta name="KEYWORDS" content=""> + <style type="text/css"> + @media print { + .pagenum { display: none;} + } + @media handheld { + .pagenum { display: none;} + } + body {width: 520px; margin-left: 90px; text-align: justify;} + .pagenum {font-size: 0.6em; font-style: normal;color: #666666; position:absolute; left: 630px;} + .capa {text-align: center; border: solid 1px #000000;} + hr { + border: none; + border-bottom: solid 2px #000000; + text-align: center; + } + a {color: #000000; text-decoration: none;} + sup {font-size: 80%;} + h2, h3, h4 {text-align: center;} + h1 {text-align: center; margin-top: 2em; margin-bottom: 2em;} + .small-caps { + font-variant: small-caps; + } + .direita { + text-align: right; + } + .centrado { + text-align: center; + } + .poesia { + margin: 2em; + text-align: left; + } + .rodape { + font-size: 80%; + margin: 2em; + } + #corpo p{ + line-height: 1.5em; + } + .dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000000;} + #sumario { + width: 75%; + margin: auto; + border-left: solid 1px #000000; + border-top: solid 1px #000000; + border-right: solid 3px #000000; + border-bottom: solid 3px #000000; + padding: 1em; + } + </style> +</head> +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of Noites de insomnia, offerecidas a quem não +póde dormir. Nº1 (of 12), by Camilo Castelo Branco + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº1 (of 12) + +Author: Camilo Castelo Branco + +Release Date: January 31, 2008 [EBook #24463] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOITES DE INSOMNIA *** + + + + +Produced by Pedro Saborano + + + + + +</pre> + +<span class='pagenum'>[1]</span> +<div class="capa"> +<p style="font-size: 1.2em;">BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA</p> +<hr style="width: 6em;"> +<p style="font-size: 2em;">NOITES DE INSOMNIA</p> + +<p style="font-size: 0.7em;">OFFERECIDAS</p> + +<p>A QUEM NÃO PÓDE DORMIR</p> + +<p style="font-size: 0.7em;">POR</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">Camillo Castello Branco</p> +<hr style="width: 3em;"> +<p style="font-size: 0.7em;">PUBLICAÇÃO MENSAL</p> +<br> +<hr style="width: 3em;"> +<p style="font-size: 0.9em;">N.<sup>o</sup> 1--JANEIRO</p> +<hr style="width: 3em;"> +<table width="100%"> +<tr> +<th colspan=2> +LIVRARIA INTERNACIONAL<br> +<span style="font-size: 0.7em;">DE</span> +</th> +</tr> +<tr> +<td style="border-right: solid 1px #000000; text-align:center;"> +<span style="font-size: 0.9em;"> +ERNESTO CHARDRON +<br> +<em>96, Largo dos Clerigos, 98</em><br> +<strong>PORTO</strong> +</span> +</td> +<td style="text-align:center;"> +<span style="font-size: 0.9em;">EUGENIO CHARDRON<br> +<em>4, Largo de S. Francisco, 4</em><br> +<strong>BRAGA</strong> +</span> +</td> +</tr> +</table> +<hr style="width: 2em;"> +<p style="font-size: 0.9em;">1874</p> +</div> +<span class='pagenum'>[2]</span> + +<div id="impressor" style="text-align: center;"> +<br> +<br> +<br> +<br> +<hr style="width: 8em;"> +<p>PORTO</p> + +<p style="font-size: 0.9em;">TVPOGRAPHIA DE ANTONIO JOSÉ DA SILVA TEIXEIRA</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">68--Rua da Cancella Velha--62</p> +<hr style="width: 2em;"> +<p style="font-size: 0.9em;">1874</p> +</div> +<span class='pagenum'>[3]</span> + +<div id="sumario"> +<p style="text-align: center; font-size: 1.5em;"> +BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA +</p> +<hr style="width: 4em;"> +<p style="text-align: center; font-size: 2em;"> +NOITES DE INSOMNIA +</p> +<hr style="width: 4em;"> +<p style="text-align: center; font-size: 1.5em;"> +<strong>SUMMARIO</strong> +</p> + +<p> +<em><a href="#cap1">Proemio</a> +-- <a href="#cap2">Consolação a santos Nazareth</a> +-- <a href="#cap3">As ostras</a> +-- <a href="#cap4">Rehabilitação do snr. visconde de Margaride</a> +-- <a href="#cap5">A Rival de Brites de Almeida</a> +-- <a href="#cap6">Egas Moniz</a> +-- <a href="#cap7">Dous poetas ineditos do Porto</a> +-- <a href="#cap8">D. João 3.<sup>o</sup>, o principe perfeito</a> +-- <a href="#cap9">Subsidio para a historia de um futuro santo</a> +-- <a href="#cap10">O livro 5.<sup>o</sup> da Ordenação, titulo 22</a> +-- <a href="#cap11">Problema historico a premio</a> +-- <a href="#cap12">Desastre do santo officio no Porto</a> +-- <a href="#cap13">Rancho do Carqueja</a>.</em> +</p> +</div> +<span class='pagenum'>[4]</span> +<div id="lista_livros"> +<p style="text-align: center; font-size: 1.2em;"> +TRABALHOS +</p> + +<p style="text-align: center; font-size: 0.8em;"> +DO +</p> + +<p style="text-align: center; font-size: 0.9em;"> +EXC.<sup>mo</sup> SNR. +</p> + +<p style="text-align: center; font-size: 1.1em;"> +CAMILLO CASTELLO BRANCO +</p> + +<p style="text-align: center; font-size: 0.8em;"> +DE QUE É EDITOR ERNESTO CHARDRON +</p> + +<hr style="width: 3em;"> + +<p><strong>O carrasco de Victor Hugo José Alves</strong>, romance. 1 vol. ... 500</p> + +<p><strong>A freira no subterraneo</strong>, romance historico (traducção). 1 vol. ... 500</p> + +<p><strong>Os amores do diabo</strong>, romance (traducção). 1 vol. ... 800</p> + +<p><strong>Mosaico e silva de curiosidades historicas</strong>. 1 vol. ... 500</p> + +<p><strong>Memorias do bispo do Pará</strong>. 1 vol. ... 500</p> + +<p><strong>Poesias e prosas de Soropita</strong>. 1 vol. ... 500</p> + +<p><strong>A espada de Alexandre</strong>. Córte profundo na questão do homem-mulher e mulher-homem, por um socio prendado de varias philarmonicas. ... 240</p> + +<p><strong>Carta de guia de casados</strong>, para que pelo caminho da prudencia se acerte com a casa do descanço, a um amigo, por D. Francisco Manoel. Nova edição, com um prefacio biographico, enriquecido de documentos ineditos. ... 360</p> + +<p><strong>Vida d'el-rei D. Affonso VI</strong>, escripta no anno de 1684. Com um prefacio. ... 400</p> + +<p><strong>Diccionario universal de educação e ensino</strong>, traduzido e muito ampliado nos artigos relativos a Portugal e Brazil. 2 grossos volumes, de 800 paginas cada um, a 2 columnas. ... 6$000</p> +</div> +<span class='pagenum'>[5]</span> +<div id="corpo"> +<hr> + + + +<a name="cap1"></a> +<h1>PROEMIO</h1> + + +<p>Esta serie de livrinhos ha de ser uma +cadêa com elos de bronze rijos e toscos, +e elos de pechisbeque flammantes e quebradiços. +O bronze é a porção prestadía +do opusculo; é a pagina que não seria +descabida em livro de estudo; é a pretenção +do author a que a sua obra perdure +mais de vinte e quatro horas no espirito +de quem a lêr.</p> + +<p>O pechisbeque é a futilidade que, ao +nascer, é acolhida por um sorriso do leitor; +e, apenas o sorriso esmorece, a impressão +<span class='pagenum'>[6]</span> +esvaíu-se; e a idéa fulge e apaga-se +sem deixar mais signal que o relampago +das noites de agosto, e o arrancar +da aguia no seio das nuvens.</p> + +<p>Ambas as especies pertencem ás minhas +noites de insomnia. N'esta deploravel +enfermidade, que ha seis annos me estila +no cerebro gota a gota a peçonha da +morte, achei traça de me vingar do acaso +que embala o regalado dormir do meu +cão, e me estrondeia nos ouvidos o marulhar +das vagas entre penhascos. Vou ao +jazigo das minhas illusões, exhumo os esqueletos, +visto-os de truões, de principes, +de desembargadores, de meninas poeticas +á semelhança das que eu vi quando a poesia +era o aroma dos seus altares. Visto-me +tambem eu das côres prismaticas dos +vinte annos, aperto a alma com as garras +da saudade até que ella chore abraçada +ao que foi. E, depois, n'este festim de mortos, +conversamos todos; e eu, no alto silencio +da noite, escrevo as nossas palestras. +Ás vezes, entre muitos estridores que +<span class='pagenum'>[7]</span> +me resoam nos ouvidos, o mais distincto +é o dobre a finados. É quando a aurora +reponta: a luz espanca as imagens cujo +meio de vida é a treva e o silencio.</p> + +<p>Venho então sentar-me a esta banca, +dou fórmas dramaticas ao dialogo dos +meus phantasmas, e convenço-me de que +pertenço bem aos vivos, ao meu seculo, +ao balcão social, á industria, mandando +vender a Ernesto Chardron as minhas insomnias.</p> + +<p>Eis a minha vingança, que abrangeria +o leitor, se estes livros lhe não abonassem +horas de somnolenta digestão de +alguns artigos substanciosos. Estes artigos +constarão da nobre sciencia da historia, +nomeadamente de historia nacional, +e muito das cousas pertencentes á fidalguia +de raça que vai extinguir-se. É tempo +de esgaravatar entre as ruinas do edificio +derruido algumas reliquias aproveitaveis +para a comedia humana. Mas nem +tudo será escavar no lixo. Não vaguearemos +sempre ao través dos pardieiros dos +<span class='pagenum'>[8]</span> +antigos solares. Alguma vez nos sentaremos +na testada da serenissima casa de +Bragança conversando com os seus duques +e monarchas n'aquella sem ceremonia +permittida á arraia miuda de hoje +em dia; mas escreveremos as nossas +considerações, como lá dizem, de luva +branca e penna de diamante. Desejamos +que a posteridade se entretenha comnosco, +e com o snr. conselheiro Viale. Elle +e nós levaremos aos evos uma sincera +historia de Portugal, e andaremos os dous, +á compíta, a vêr quem maiores emborcações +de morphina injecta nos nervos das +gerações porvindouras.</p> +<span class='pagenum'>[9]</span> +<hr> + + + +<a name="cap2"></a> +<h1>CONSOLAÇÃO A SANTOS NAZARETH</h1> + +<div class="citacao"> +<p><em>Beati qui lugent</em>, e não pagam.</p> + +<p style="margin-left: 8em;">A BIBLIA E EU.</p> +</div> + + +<p>Amigo!</p> + +<p>Sensibilisou-me até ás lagrimas a noticia da +sua prisão no theatro de S. Carlos, n'aquella funesta +noite da sua citada prisão, como diria o +nosso collega Jayme José Ribeiro de Carvalho.</p> + +<p>Não foi a razão que motivou esta ternura: foi +a amizade.</p> + +<p>Vossê devia ser preso. Dizer que o espectador +póde patear um espectaculo desagradavel e caro é +duvidar que o espectaculo é que tem direito de +patear o espectador.</p> + +<p>Santos Nazareth ignora as leis do reino expungidas +da jurisprudencia do Manique, e não tem +<span class='pagenum'>[10]</span> +talvez opinião bem assente ácerca da transmigração +das almas.</p> + +<p>A metempsychose do famoso intendente geral +da policia fez-se ha 60 annos, pouco mais ou menos, +na pessoa d'esse alcaide do real alcaçar que +enviou o meu amigo ao Limoeiro como enviaria +Mattos Lobo e Diogo Alves, se os colhesse no theatro +de S. Carlos em flagrante <em>banzé</em>. Admitta o +plebeismo que tem o fartum fadista da cazerna e +da guitarra, que ainda hoje chora saudades da Severa, +e disputa ás trombetas bastardas de Pedro I +as reaes delicias da sua progenie.</p> + +<p>Quando a imprensa rugiu pelas suas guelas de +zinco um rugido grande a favor de vossê, as minhas +palpebras exsudaram perolas, na hypothese +de que a intendencia da policia o obrigára a pagar +aos quadrilheiros as despezas de o conduzirem +aos ferros d'el-rei.</p> + +<p>É que eu considerando-me em plena monarchia +do Pina Manique, lembrou-me um caso acontecido +ha 89 annos.</p> + +<p>Raphael da Silva Braga, na noite de 2 de outubro +de 1795, pateou uma cantora no theatro de +S. Carlos.</p> + +<p>O corregedor Pedro Duarte da Silva mandou +dous quadrilheiros agarrar o espectador desgostoso, +e mettel-o no Limoeiro.</p> +<span class='pagenum'>[11]</span> + +<p>No dia seguinte participou o successo ao Manique.</p> + +<p>O intendente, informando-se das condições +do preso, soube que era pobre e tinha familia; e, +além d'isso, pateára com tal conhecimento da arte. +Em consequencia do que, ordena que Raphael +seja solto, <em>pagando 3$200 reis de diligencia para +os officiaes</em>.</p> + +<p>Se alguma vez é permittido a um homem da +minha idade soluçar de commoção, é agora. Dar +a liberdade a um homem pobre, mediante 3$200 +reis, em attenção á sua pobre e consternada familia, +é uma cousa bonita e lacrimavel!</p> + +<p>Aqui lhe dou o traslado d'esta pagina de ouro +do Manique, e lhe envio a original pela posta, a +fim de vossê regalar os seus amigos vaidosos de +serem de um paiz onde ha isto:</p> + +<br> +<p>«Snr. Pedro Duarte da Silva. Louvo o procedimento +que v. m.<sup>ce</sup> teve contra Raphael da Silva +Braga, por ser um dos que hontem á noite +deram a pateada no theatro de S. Carlos: attendendo +porém á sua pobre familia, que está em +consternação, e a outros motivos justos, que +concorrem, v. m.<sup>ce</sup> o haverá por corrigido, e o +mandará soltar, pagando tres mil, e duzentos +de diligencia para os officiaes. Deus guarde a +<span class='pagenum'>[12]</span> +v. m.<sup>ce</sup> Lisboa, 3 de outubro de 1795.--<em>Diogo +Ignacio de Pina Manique</em>.»</p> + +<br> +<p>No rodar de 90 annos, desde 1795 até 1874, +a poesia do direito, graças ás insomnias do doutor +Theophilo, defecou os Maniques da prosa dos +3$200 reis, de modo que vossê não pagou nada, +segundo me consta. Isto me faz cogitar que o progredir +é fatal, e que o snr. barão de Zezere, o +longobardo,--chrysalida de outra transmigração,--ha +de passar a fuzil mais polido na cadêa dos +intendentes geraes da policia; por maneira que, +na sua futura metempsychose, já se não distingam +vestigios do corregedor Marques Bacalhau, façanhoso +magistrado de D. João V.</p> + +<p>Entretanto, meu amigo, pois que a raça dos +Maniques ainda referve nas retortas depurantes, +aceite o meu conselho:</p> + +<p>Antes de entrar na platéa, vá ao camarote das +authoridades, e pergunte-lhes:</p> + +<p>--Com quaes dos quatros pés manifestam +v. exc.<sup>as</sup>, esta noite, a sua opinião lyrica?</p> + +<p>E governe-se, consoante a resposta.</p> +<span class='pagenum'>[13]</span> +<hr> + + + +<a name="cap3"></a> +<h1>AS OSTRAS</h1> + + +<p>No Porto, as commoções que sacodem os nervos +da grande cidade, são raras; mas, se rebentam, +são a valer!</p> + +<p>No principio d'este anno, estavamos todos quietos, +com estas nossas caras cheias de ideal, gravidos +de philosophias, hypocondriacos, ares inglezes, +indigestos; mas, sobre tudo, bons visinhos e +inimigos de novidades.</p> + +<p>A quarta pagina das gazetas andava, ha muito, +alugada aos varios <em>barateiros</em>, que se denominam +numericamente como as dynastias, traspassando +a sua qualidade de barateiros n.<sup>o</sup> 1, n.<sup>o</sup> 2, +etc., á proporção que quebram, e vão transmittindo +a genealogia dos epithetos, maneira discreta de +esconder os nomes.</p> + +<p>Eis que, inesperadamente, se annunciam em +letras colossaes <span class="small-caps">as ostras</span>.</p> + +<p>E os litteratos, encarregados de guiarem a corrente +da opinião publica, escolhendo no seu guarda-joias +a mais nitida pedraria de estylo, apregoaram +as ostras como ha dezenove seculos o fazia +<span class='pagenum'>[14]</span> +Horacio quando as afogava no falerno de Mecenas.</p> + +<p>O localista do <em>Primeiro de Janeiro</em>, com pulso +febril, e ternura pelo marisco, exclamou: «Abençoado +o nome de quem quer que em tempos tão +doentios nos trouxe medicina tão efficaz e preconisada!... +Não são de Ostende as ostras que se +nos offerecem, frescas, saborosas e provocadoras, +pela manhã como leite de cabra, ao meio dia +como o <em>lunch</em> á ingleza, á noite como um restaurador +das forças perdidas no labutar diurno. São +de Montijo, igualmente boas, e igualmente irritantes. +Vamos a ellas!»</p> + +<p>Vamos lá! conclamou toda a gente doentia, +toda a gente em uso de leite de cabra, toda a gente +que <em>lunchava</em> á ingleza, e, em summa, toda a +gente que á noite costumava restaurar as forças, +deitando-se a dormir, ou extrahindo do goraz cozido +o phosporo necessario á sua vida intellectual +e physica.</p> + +<p>Desde o alvorejar das gazetas, confluiram á +praça de D. Pedro todos os servos que superintendem +na culinaria das familias. As massas que +desembocavam das ruas circumjacentes davam a +lembrar os comicios d'aquelles dias de vertigem +civica, lá quando os irmãos Passos abriam na +viella da Neta os relampagos do Sinay, e a turbulencia +<span class='pagenum'>[15]</span> +da liberdade alli vinha soltar um rugido e +ameaçar os tyrannos.</p> + +<p>Não assim agora n'estes dias em que o paiz, +podre de feliz e anemico da sua indigestão de +prosperidade, procura restaurar-se pelo marisco.</p> + +<p>De mais a mais, os diarios tinham annunciado +que as ostras eram <span class="small-caps">gordas</span>; e, sobre gordas, dizia +o <em>Primeiro de Janeiro</em>, <span class="small-caps">irritantes</span>. Pela qualidade +de gordas, o sorriso que brincava nos meus labios, +quando mandei o meu gallego comprar doze +vintens d'aquelle remedio, era um sorriso de tão +legitima candura como o leitor os tem visto nas +bentas bochechas dos seraphins que sobem de gatinhas +pelas columnas dos altares. Quanto a irritantes, +como essa virtude me não parecesse a mais +sadía, mandei ao mesmo tempo comprar a linhaça +correspondente.</p> + +<p>E, em quanto o criado ia e vinha, consultei, +para illudir a impaciencia, os meus livros no que +havia, através dos seculos, mais averiguado ácerca +das ostras. Li em Chernoviz que póde uma +pessoa comer oito duzias sem experimentar o minimo +incommodo. Oito duzias--noventa e seis +ostras, de manhã, como leite de cabra; noventa +e seis, como <em>lunch</em> á ingleza; noventa e seis á +noite para restaurar as forças: ao todo, duzentas +<span class='pagenum'>[16]</span> +e oitenta e oito ostras quotidianas que custam no +deposito da praça de D. Pedro 3$840 reis.</p> + +<p>É uma alimentação economica e boa para fortalecer +o estomago de um paiz pobre. Qualquer +sujeito anemico, pallido, que não possa com um +gato por qualquer parte do mesmo, deve nutrir +esperanças de que, no fim de um anno, tendo comido +cento e cinco mil cento e vinte ostras gordas +da praça de D. Pedro, que lhe custam um conto +quatrocentos e um mil e seiscentos reis, póde gozar +uma saude mais ou menos gallega.</p> + +<p>Assim que o meu criado chegou com dezoito +ostras por 240 reis, atadas na ponta de um lenço, +á guisa de biscoutos de revalenta, duvidei da gordura +do testaceo, mas afaguei a charneira da concha +bivalve, porque só de per si a concha tem +virtudes medicinaes cuja noticia eu envio aos risos +jubilosos dos meus amigos. Tenho aqui a <em>Anchora +medicinal</em> do grande medico Francisco da +Fonseca Henriques, e n'ella a pag. 247, <em>mihi</em>, artigo +<em>Ostras</em>, leio com estremeções de gaudio: <em>As +conchas das ostras queimadas são boas para as queixas +das almorreimas.</em></p> + +<p>Isto é o que o <em>Primeiro de Janeiro</em> sabia de +fundamento quando abençoou o inventor de remedio +tão conveniente ás doenças do tempo. Faz-se +mister grande intuição medica de entranhas a +<span class='pagenum'>[17]</span> +dentro para diagnosticar hemorrhoidas universaes +na nação.</p> + +<p>Das alegrias externas, passei a averiguar a +gordura annunciada do testaceo hermaphrodita.</p> + +<p>Não me pareceu tão gorda a ostra espalmada +na concha que podesse disputar vantagens a um +jantar do Ugolino de Dante na Torre de Piza.</p> + +<p>Authorisado pelas idéas que fórmo de gordura, +suspeito que o empresario d'estas ostras descobriu +o segredo de repartir dez por cada casca; +ou, negociando as cascas em Montijo, as encheu +com ameijoas do Cabedelo. É uma falsificação +engenhosa que merece desculpa em quanto se +conservar na familia dos testaceos; mas desde que +o unico depositario das ostras portuenses começar +a introduzir nas conchas das ostras pedacinhos +de bucho de safio, carochas e grillos de salmoura, +quer-nos parecer que uma duzia d'estes +covilhetes por oito vintens não é barato, nem me +garante a renovação do meu sangue depauperado.</p> + +<p>Não obstante, o consummo de ostras no corrente +mez, no Porto e arrabaldes, tocou uma cifra +que seria fabulosa, se as consequencias da irritação, +previstas pelo <em>Primeiro de Janeiro</em>, se não +manifestassem formidaveis, nos geitos, nos ademanes, +nos esgares, nas crispações electricas que +faiscam dos olhos de toda a gente saturada das +<span class='pagenum'>[18]</span> +ostras do unico deposito. Conhece-se que os insultos +inferiores, que o pó da concha combate, se +deslocaram, e evadiram a cupula do edificio humano. +Os systemas nervosos, levados pela irritação +a electróphoros, tornaram-se engenhos luminosos +que transcendem as mais phantasticas idealisações +da pyrotechnica. Esta galvanisação de organismos +extenuados é realmente um espectaculo +que honra muito a ostra; mas que tambem póde +vir a ser nocivo á saude das almas.</p> + +<p>Sei que temos recursos antiphlogisticos para +combater as irritações, desde as cataplasmas de +fecula até ás ventosas sarjadas; mas o emprego +d'estes meios therapeuticos obriga as pessoas timidas +a andarem na rua com um alforge de drogas, +como os antigos physicos, ministrando capilés +e orchatas a todos os sujeitos que denunciem +instinctos inflammados no ultimo grau de irritação.</p> + +<p>Em nome da moral publica, pedimos ás pessoas +irritaveis que se abeberem em agua de cevada, +quando sentirem que a ostra se lhes insinua +perfidamente nos seios do coração.</p> +<span class='pagenum'>[19]</span> +<hr> + + + +<a name="cap4"></a> +<h1>REHABILITAÇÃO DO SNR. VISCONDE DE MARGARIDE</h1> + + +<p>S. exc.<sup>a</sup> festejou o seu natalicio com um baile, +em um dia de jejum, por uma noite de janeiro, +breve e esplendorosa. O dia era de abstinencia +carnal, note-se. Creio que o preceito começava á +meia noite, pontualmente á hora em que a restauração +das forças, esvaídas na vertigem dos +bailados, reclamava varios phenomenos reparadores +desde a trituração até ao filtramento do chylo +no systema sanguineo. Se eu não odiasse o palavriado +vulgar, diria que os hospedes do snr. visconde +precisavam de comer.</p> + +<p>Á magnitude do appetite correspondeu a magnificencia +dos acipipes. Era já soada a hora da +abstinencia do boi, do perú, da gallinhola, do <em>salmagundy</em>. +E, não obstante, as iguarias condimentosas, +a febra, a alimentação rija lourejava nos +pratos e nas terrinas entre ondulações de perfumes. +Alguns dos convivas sabiam que o dia ou a +noite era de peixe. Senhoras de idade canonica, +respeitaveis por seus principios e observantes das +disciplinas da igreja, não vendo alvejar a pescada +<span class='pagenum'>[20]</span> +ou o rodovalho entre coxins de batata e cebola, +tantalisavam a perdiz em molho de villão; mas, +cerrando os dentes á invasão do peccado, esquivavam-se +a sahir do baile com o bolo alimenticio +azedado por escrupulos. N'este comenos, alguem +disse o que quer que fosse a meia voz ás pessoas +perplexas entre a gallinhola <em>truffée</em> e a religião +dos Affonsos.</p> + +<p>Umas pessoas, depois que ouviram a nova, +sorriram, como vencidas de tentação deliciosa, e +comeram carnes. Outras, invulneraveis e inflexas +na sua abstinencia, martyrisaram-se com trutas e +salmões. Como quer que fosse, houve escandalo. +Comeu-se volateria e ruminantes em sexta feira. +Algumas consciencias sahiram do baile do snr. +visconde, ás 8 horas e meia da manhã, com o peso +do estomago sobre si.</p> + +<p>A opinião publica, já em Guimarães, já em +Braga, ergueu-se á altura dos principios, e murmurou. +Eu fiz parte d'esta opinião adversa ao +magistrado superior do districto a quem corre o +dever de penitenciar os seus hospedes com trutas +e salmão em dias de peixe, em memoria dos augustos +mysterios do christianismo.</p> + +<p>Quanto a mim, o snr. visconde era um atheu +e os seus hospedes uma cafila de heresiarcas. Eis +senão quando a imprensa do Porto divulga uma +<span class='pagenum'>[21]</span> +noticia que bafejou um halito de jubilo na face de +Braga, no perfil de Guimarães, e nos tres quartos +do paiz. Apresso-me a repetil-a em grifo com +uma consolação catholica, e tanto ou quê apostolica: +<em>O snr. visconde de Margaride tinha obtido +dispensa do prelado bracharense para que os seus +hospedes podessem comer carne.</em></p> + +<p>Orvalhe-se de lagrimas de alegria o rosto da +christandade portugueza; que eu por mim, quanto +um abraço cabe nas potencias da phantasia, aqui +aperto contra o coração o snr. visconde de Margaride, +e felicito os catholicos que digeriram innocentemente +as suas vitualhas.</p> +<hr> + + + +<a name="cap5"></a> +<h1>A RIVAL DE BRITES DE ALMEIDA</h1> + + +<p>A façanhosa forneira de Aljubarrota resiste á +incredulidade da critica, abordoando-se ás muletas +do patriotismo e á pá. Sabe-se pouco das +proezas de Nuno Alvares e Mem Rodrigues. Nada +referem os historiadores das apostas e porfias dos +<span class='pagenum'>[22]</span> +cavalleiros do Mestre de Aviz. Porém, que a forneira +matou sete hespanhoes ebrios, feridos ou +prostrados de fadiga, isso, que não póde ser honroso +porque é vil, aprendem-o as crianças, e repetem-o +adultos com desvanecimento e orgulho. Por +honra da minha patria, quero crêr que a lenda +da padeira de Aljubarrota é tão authentica e verdadeira +como a do caldeirão de Alcobaça, apresado +no arraial de D. João I de Castella. Dêem-se-me +honras de Niebuhr n'esta cousa do caldeirão +de Alcobaça.</p> + +<p>Houve outra heroina, mais digna de lembrança, +e, todavia, ignorada. Essa praticou um feito +de nobre coragem, defrontando-se a rosto com o +inimigo, e derrubando-o.</p> + +<p>Foi o caso que em 1762 os hespanhoes, commandados +pelo marquez de Sarria, invadiram Portugal +pela provincia de Traz-os-Montes. A cidade +de Miranda foi das terras d'aquella provincia a +que mais soffreu as arremettidas do exercito invasor. +Alli perto, passa o rio Fresno, cujas margens +se communicam por uma ponte. Na extrema +esquerda d'esta ponte vivia uma mulher casada, +cujo marido se alistára nas guerrilhas dispersas +pelas empinadas penedias do Douro. Um piquete +de hespanhoes, com seu sargento, passou a ponte +do Fresno. O sargento viu a mulher do guerrilheiro, +<span class='pagenum'>[23]</span> +que era a mais esbelta e donosa moça da comarca. +Postou os soldados de atalaia a pequena +distancia da ponte, e voltou de noite, acompanhado +de dous, com o proposito de se fazer amar da +aldeã por meio do assalto.</p> + +<p>Este sargento, em tempo de guerra, não usava +das artes maviosas do seu patricio Tenorio. Em +vez da guitarra e da escada de corda, fiava na suspensão +das garantias, na quebra do direito internacional, +na cronha da escopeta, e na pujança de +seis rijas espadoas atiradas á porta d'aquella Elvira +montezinha.</p> + +<p>A rapariga, votada ao saque, se não tinha commendador +em casa, tinha cousa mais infesta ao +sargento: era o marido que, por saudade ou receio, +debandára da horda guerrilheira e fôra, encoberto +por entre penhascos, pernoitar a casa.</p> + +<p>Alta noite, os tres castelhanos bateram á porta.</p> + +<p>O portuguez não respondeu; foi ella que assomou +na adufa do sobrado, perguntando o que +pretendiam áquella hora.</p> + +<p>O sargento, depois de inutilisar algumas phrases +lyricas, tomou o pulso á timidez da moça, intimando-a +a entregar a praça.</p> + +<p>O marido estava ouvindo, e perguntou muito +de manso á mulher:</p> + +<p>--Quantos são?</p> +<span class='pagenum'>[24]</span> + +<p>--Tres--respondeu ella.</p> + +<p>--Deixa-me lá ir, antes que venham mais. +E ella, sahindo da janella, disse:</p> + +<p>--Então vamos lá.</p> + +<p>--Tu não venhas.</p> + +<p>--Não? isso lá, hei de ir, quer queiras, quer +não.</p> + +<p>O sargento no entanto voltou-se aos dous soldados +e disse:</p> + +<p>--A praça rende-se.</p> + +<p>D'ahi a minutos, abriu-se a porta da rua.</p> + +<p>O guerrilheiro deu uma guinada de tigre para +a testada da porta, e desfechou um arcabuz em +um dos tres, que foi a terra. Dous pelouros ao +mesmo tempo lhe bateram no peito; mas o portuguez, +ao cahir morto, levava debaixo de si um +dos dous com uma navalha hespanhola embebida +nas entranhas. Sobrevivêra o sargento aos companheiros, +mas sómente o tempo indispensavel +para que ella o varasse do peito ás costas com o +espeto da cozinha.</p> + +<p>Depois, como sentisse o tropel da soldadesca, +travou do marido, desceu por um algar escuro e +pedregoso á ourela do rio, e cahiu prostrada de +afflicção, quando conheceu que levava um cadaver. +Ao romper da manhã, galgou á cumiada da +serra, onde estanciavam os camaradas de seu marido, +<span class='pagenum'>[25]</span> +e viu de lá as ultimas fumaças da sua casinha, +que os soldados castelhanos haviam queimado.</p> + +<p>Nada mais se sabe d'esta mulher. Não consta, +sequer, que o governo de D. José I lhe mandasse +reconstruir o casebre, acabada a guerra.</p> + +<p>Houve um poeta contemporaneo, que a descantou +em um soneto jocoso, avantajando-a á Brites +de Aljubarrota. As musas sérias não acharam +a heroina digna de poesia grave.</p> + +<p>E esse mesmo soneto chocarreiro ninguem o +conheceria, se lh'o não publicassemos aqui, precedido +de um interrogatorio académico:</p> + +<br> + +<p><em>Qual acção é mais memoravel: a da forneira de Aljubarrota, +matando os castelhanos com a sua pá; +ou a da mulher de Traz-os-Montes, matando o +sargento castelhano com o espeto?</em></p> + + +<div class="poesia"> +<p style="text-align:center;">SONETO</p> + +<i>É problema que deve disputar-se,<br> +entre os authores de mais nome e nota,<br> +se póde essa mulher de Aljubarrota<br> +com a de Traz-os-Montes comparar-se.</i><br> +<span class='pagenum'>[26]</span> +<br> +<i>Aquella tem razão para gabar-se<br> +de fazer com sua pá tanta derrota;<br> +esta, que deixa co'a barriga rota<br> +ao sargento, tambem deve estimar-se.</i><br> +<br> +<i>E esta, a meu vêr, melhor juizo tinha,<br> +pois, vingando o marido seu dilecto,<br> +fez o que ao seu genio lhe convinha.</i><br> +<br> +<i>Metteu-se-lhe nos cascos o projecto<br> +de tratar o hespanhol como gallinha,<br> +e, assim que topou um, pôl-o no espeto.</i><br> +</div> + +<p>No principio d'este artigo, fallamos de apostas, +porfias e promessas de cavalleiros, antes de se +desfraldarem os guiões e bandeiras na batalha de +Aljubarrota. Vasco Martim de Mello prometteu +pôr as mãos no rei D. João I de Castella; Gonçalo +Annes de Castello de Vide prometteu ser o +primeiro que lhe enristasse a lança ao rosto. Estas +promessas são heroicas; mas houve uma de +Martim Affonso de Sousa Chichorro extremamente +original pela deshonestidade. Vejam com que limpeza +de alma este fidalgo se preparava para um +conflicto de morte, e deprehendam d'ahi o que +eram as crenças da immortalidade no seculo do +cavalleiroso Mestre de Aviz.</p> + +<p>Na hoste de D. João assignalava-se João Rodrigues +de Sá, o das Galés, aquelle heroico perfil +<span class='pagenum'>[27]</span> +tão portuguezmente desenhado pelo snr. A. Herculano +no <em>Monge de Cistér</em>.</p> + +<p>João Rodrigues de Sá, ainda moço n'aquelle +tempo, tinha uma bella irmã, abbadessa do mosteiro +benedicino de Rio Tinto chamada Aldonsa Rodrigues. +Martim Chichorro queria muito á gentil +prelada, e não resguardava da censura os seus +amores adulterinos com a esposa do Senhor. Na +vespera da batalha perguntaram-lhe os fidalgos +namorados da ala de Mem Rodrigues que promessa +era a d'elle.</p> + +<p>--Prometto, se escapar da batalha--respondeu +o amoroso selvagem--ir ter uma novena +com a abbadessa de Rio Tinto.</p> + +<p>Grande cascalhada de riso, naturalmente. Houve +logo um bisbilhoteiro que denunciou ao das +Galés a fatuidade de Martim, quinto neto por bastardia +d'el-rei D. Affonso III.</p> + +<p>--Pois eu--disse João Rodrigues serenamente--prometto +ir atraz d'elle, e bater-lhe.</p> + +<p>Deu-se a batalha. Vasco Martim de Mello morreu +no empenho de pôr a lança no rei. Gonçalo +Annes sahiu illeso do voto cumprido. E Martim +de Sousa, tão extensamente cumpriu a sua--as +novenas succederam-se em tanta copia--que a +peregrina Aldonsa houve do seu pontual servidor +dous filhos que se chamaram Martim e Pedro. O +<span class='pagenum'>[28]</span> +que os genealogicos esconderam á posteridade, +edificada com as virtudes das abbadessas e dos +Chichorros, foi o genero de sova que o das Galés +deu no pai dos seus sobrinhos.</p> + +<p>Talvez se desforrasse, consoante o gosto do +tempo, em o fazer tio dos seus numerosos bastardos. +As preladas formosas eram as conciliadoras +em contendas d'esta natureza. D. João I morigerava +os mosteiros, mandando vestir o habito +de commendadeira de Santos a Ignez Pires, depois +de a condecorar com a dupla virtude da maternidade. +Os nossos reis, quando se enfastiavam +das mulheres, davam-as de presente a Deus.</p> +<hr> + + + +<a name="cap6"></a> +<h1>EGAS MONIZ</h1> + + +<p>Representa-se no Porto um drama chamado +<em>Egas Moniz</em>. Não louvo nem censuro a composição, +nem discuto se melhores interpretes a realçariam +no palco. Tambem não levanto a já debatida +questão da veracidade do facto. O snr. Alexandre +<span class='pagenum'>[29]</span> +Herculano crê que o aio de Affonso Henriques +praticou o feito heroico. É o bastante.</p> + +<p>Quando o drama se annunciou, a primeira vez, +nos cartazes, um homem de sessenta annos, vestido +de preto, sobrecasaca no fio, o velludo da +gola rapado, as calças recortadas e lamacentas á +volta das botas azuladas de velhice, parou á esquina +da rua Formosa, a lêr o cartaz grudado no +cunhal da igreja das Almas.</p> + +<p>Eu reconheci-o a distancia, avisinhei-me, e +parei, por detraz d'elle, em frente do cartaz, meditando.</p> + +<p>E meditava isto:</p> + +<p>Egas Moniz gerou Lourenço Viegas, o espadeiro;</p> + +<p>Lourenço Viegas gerou Egas Lourenço;</p> + +<p>Egas Lourenço gerou Sueiro Viegas Coelho;</p> + +<p>Sueiro gerou João Soares Coelho, valido de D. +Affonso III;</p> + +<p>João Soares Coelho gerou Pedro Annes Coelho;</p> + +<p>Que gerou Estevão Coelho;</p> + +<p>Que gerou Pedro Coelho, o matador de D. +Ignez de Castro;</p> + +<p>Pedro Coelho gerou Gonçalo Pires Coelho;</p> + +<p>E assim se foram gerando uns dos outros com +uma constancia digna da nossa admiração, até que +uma senhora da casa dos Coelhos, senhores de +<span class='pagenum'>[30]</span> +Vieira e Felgueiras, casou na casa dos senhores da +Teixeira e Sergude, e d'este consorcio gerou-se:</p> + +<p>Gonçalo Pinto Coelho, que gerou:</p> + +<p>Martim Teixeira Coelho, que gerou:</p> + +<p>Bernardo José Teixeira Coelho, que gerou:</p> + +<p>Gonçalo Christovão Teixeira Coelho de Mello +Pinto de Mesquita, senhor da Teixeira, de Sergude +e do Bom Jardim, pai d'aquelle homem pobremente +vestido que lia o cartaz do drama <em>Egas +Moniz</em>, na esquina da rua Formosa.</p> + +<p>Aproximei-me d'elle, puz-lhe a mão no hombro, +e disse-lhe:</p> + +<p>--Está o meu amigo regosijando-se de lêr em +letras enormes o tio de seu decimo oitavo avô +Egas Moniz...</p> + +<p>--Não, senhor--respondeu elle sorrindo--estava +a scismar n'uma cousa que me não regosija +absolutamente nada...</p> + +<p>--Bem sei--acudi eu com a minha notoria +esperteza--estava v. exc.<sup>a</sup> meditando que já não +ha portuguezes que, á semelhança do seu avô, +fossem de corda ao pescoço dar satisfação da palavra +mal cumprida.</p> + +<p>--Não, senhor; pensava em outra cousa...</p> + +<p>--Bem sei... pensava no apagado luzimento +d'esta heroica estirpe dos Viegas, dos Coelhos, +dos...</p> +<span class='pagenum'>[31]</span> + +<p>--Não, senhor; pensava em ir vêr ao theatro +Baquet representar a façanha d'este meu illustre +avô; mas vejo aqui escripto que um lugar da galeria +custa duzentos reis; e eu, decimo oitavo neto +de Egas Moniz, se tivesse dous tostões, iria empregal-os +no jantar de meus filhos, que estão em +jejum.</p> + +<hr style="border-bottom: dotted 2px #000000;"> + +<p>Snr. Antonio Moutinho de Sousa, dê no seu +theatro um beneficio a favor de alguns netos do +aio de D. Affonso I, e convide-os a levantar o +obolo que os admiradores de seu avô d'elles depositarem +na bandeja dos pobres.</p> + +<p>Os descendentes do fidalgo, que ensinou o primeiro +rei portuguez a ser honrado, não deviam +ter fome e frio, quando as plateias desbordam de +gente jubilosa de bom patriotismo e de melhor +jantar.</p> +<span class='pagenum'>[32]</span> +<hr> + + + +<a name="cap7"></a> +<h1>DOUS POETAS INEDITOS DO PORTO</h1> + + +<p>Na segunda metade do seculo XVII floreceram +no Porto dous doutores, acariciados das musas, e +por isso mesmo rivaes e inimigos: eram João de +Assucarello (ou Sucarello) Claramonte, e Christovão +Alão de Moraes, desembargador da Relação +e mais tarde corregedor do civel do Porto. Do +primeiro temos algumas poesias deshonestas, e diminutas +noticias, e essas em referencias dos poetas +seus contemporaneos, nomeadamente o padre Jeronymo +Bahia. Do segundo encontra o leitor ampla +noticia no <em>Panorama</em> de 1854, n.<sup>os</sup>123 e 127. +Distinguiu-se como poeta e genealogico. Não sei +onde param oito volumes em folha escriptos de sua +mão, intitulados <em>Genealogia das familias de Portugal</em>. +Sei que o duque de Lafões, no seculo passado, +os não quiz comprar porque lhe não respeitavam +a pureza do sangue dos avós; e a bibliotheca +publica de Lisboa tambem os não adquiriu, ha +poucos annos, «por incuria ou capricho do ex-bibliotecario +Canaes», diz o snr. Innocencio Francisco +da Silva.</p> +<span class='pagenum'>[33]</span> + +<p>O doutor João de Assucarello satyrisava o Porto, +representado nas pessoas de mais importancia, +algumas das quaes nos são hoje desconhecidas, e +difficilmente lhes rastrearemos as familias que as +representam.</p> + +<p>Eis-aqui o maledicente soneto do medico, émulo +de Christovão Alão:</p> + +<div class="poesia"> +<i>As valentias de Gaspar de Anhaya,<sup><a name="pn1" href="#n1">[1]</a></sup><br> +O mero e mixto imperio do Sarinho,<br> +A calva de João Nunes frita em vinho,<br> +As filhas do Picão de Miragaya;</i><br> +<br> +<i>Mercancia de esterco, ambar da Maya,<br> +Comprado ou já por lenha ou por toucinho,<br> +Geral remedio de Entre-Douro e Minho,<br> +Achado antes nas casas que na praia;</i><br> +<br> +<i>Beata calva, immensa gravidade<br> +Dos infanções mantidos com farelo,<br> +Da manta rota a celebre Irmandade:</i><br> +<br> +<i>Este é o Porto--acabo de dizel-o.<br> +Ó muito nobre e sempre leal cidade,<br> +Quem te pozera a couves e bacello!</i><br> +</div> +<span class='pagenum'>[34]</span> + +<p>Não se percebem alguns epigrammas do soneto; +mas aquelle verso que rescende ao <em>ambar da +Maya</em> não seria ainda hoje um anacronismo.</p> + +<p>Respondeu Christovão Alão, pelas mesmas +rimas, do seguinte feitio:</p> + +<div class="poesia"> +<i>Bem caro te custou Gaspar de Anhaya,<br> +E te póde custar inda o Sarinho;<br> +Poeta bacchanal, farto de vinho,<br> +Que és deshonra do Porto e Miragaya.</i><br> +<span class='pagenum'>[35]</span> +<br> +<i>Villão inda mais sujo que da Maya,<br> +Creado só com brôa e com toucinho,<br> +Quem te mette a fallar em Douro e Minho,<br> +Sendo filho das ervas e da praia?</i><br> +<br> +<i>Como has tu de entender da gravidade<br> +Dos infanções, brichote de farelo,<br> +Se não logras dos nobres a Irmandade?</i><br> +<br> +<i>Este és, ó bebado!--acabo de dizel-o:<br> +Que só para beber toda a cidade,<br> +A desejaste poeta de bacello!</i><br> +</div> + +<p>Este soneto é bom.</p> + +<p>Desculpa-se ao poeta fidalgo a arrogancia com +que desdenha o plebeismo do Assucarello, appellido +que nenhum linhagista condecora; dado que +este medico já então tivesse o habito de cavalleiro +da ordem de Christo. Ora os Alões são mais +antigos em Portugal que os seus monarchas. D. +Mendo Alão era senhor de Bragança, antes da +vinda do conde D. Henrique a Hespanha. Alguns +genealogicos lhes dão como antepassados os reis +<em>álanos</em>. Na igreja de S. Bartholomeu de Lisboa +existiu o morgado de Santo Eutropio instituido +por D. João Alão, bispo do Algarve. Esta familia +está representada no Porto por descendentes que +não desdouram tão nobre appellido.</p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a name="n1" href="#pn1">[1]</a></sup> Não ha no Porto alguem que use este appellido; mas a +familia que o teve ainda aqui vivia honradamente no meiado +do seculo passado, e se obscureceu no Alemtejo e Minho por +onde se ramificára. Prende com esta familia do Porto Antonio +Fogaça, aqui nascido. D. Sebastião o mandou como seu residente +para Inglaterra, onde permaneceu largos annos, em serviço +dos Philippes, enviando de lá importantes noticias em tempo de +Henrique VIII. Seguiu a facção da rainha Catharina, e gastou o +mais grosso dos seus grandes cabedaes n'esse brioso empenho. +Succedendo no throno a rainha Isabel, foi Antonio Fogaça preso e +duas vezes trateado na Torre de Londres, vindo a morrer das +torturas, quando recobrou a liberdade. Por sua morte, foi-lhe +confiscado o restante dos bens. Antonio Fogaça teve de sua mulher +Isabel Ribeira de Vabo uma filha que se chamou D. Maria, e casou +com Braz Rodrigues Anhaya. D'estes nasceu outra D. Maria do +Vabo Pimentel, que casou com o capitão Manoel Soromenho +Dias, de quem foi filho Luiz do Vabo Pimentel, governador da +praça de Albufeira. Em 1750 ainda existia em elevada categoria +um filho d'aquelle ultimo. Era capitao-mór de Alvor, e chamava-se +Antonio Pimentel do Vabo. Nas provincias de Traz-os-Montes +e Minho, nomeadamente no Paço de Carude e Torre de +D. Chama, existiram Vabos e Soromenhos. De todas estas familias +descende o snr. Augusto Soromenho, erudito professor do +curso superior de letras, e que, ha quinze annos, com legitimo +fundamento, usou em documentos publicos dos seus appellidos +<em>Vabo e Anhaya</em>.</p> +</div> +<span class='pagenum'>[36]</span> +<hr> + + + +<a name="cap8"></a> +<h1>D. JOÃO III, O PRINCIPE PERFEITO</h1> + + +<p>Não me recordo se os chronistas d'este rei nos +contam que os resplendores da graça divina lhe +aureolaram o rosto, quando a alma se desatou +d'aquella infame caverna, e foi receber o galardão +dos milhares de hebreus queimados em obsequio +á religião da fé, esperança e caridade. +O snr. A. Herculano capitula este rei de <em>fanatico, +ruim de condição e inepto</em>; mas isto não faz +implicancia á salvação do monarcha, antes a confirma; +porque o grande historiador, sabendo como +se fazem optimos livros, de certo ignora os processos +da formação da glottica e dos santos. +Afóra isto, sabe tudo, excepto que D. João III, +quando expirou, causava medo aos que lhe viram +a horrendissima cara.</p> + +<p>As pessoas medianamente cultas não ignoram +que houve um frade de grandes virtudes e letras +chamado frei Thomé de Jesus, da ordem de +Santo Agostinho. D. Sebastião o levou comsigo á +batalha de Alcacerquibir. Não sabemos se o frade +pelejou; mas temos de certeza que ficou ferido, +<span class='pagenum'>[37]</span> +captivo, e encarcerado nas masmorras de Maquinez. +Transferido para Marrocos, por diligencia do +embaixador de Portugal, rejeitou o resgate, que +seus irmãos, fidalgos de primeira plana, lhe offereceram, +preferindo a escravidão alli onde eram +muitissimos os captivos carecidos de confortações +e exemplos de paciencia. E, ao cabo de quatro +annos de servidão, morreu em Marrocos, aos 17 +d'abril de 1582, na idade de cincoenta e tres annos, +legando-nos um livro lá escripto e muito +apreciado com o titulo <em>Trabalhos de Jesus</em>.</p> + +<p>D'este escriptor mystico possuimos uma carta +inedita, motivada pelo trespasse de D. João III, e +escripta desde Lisboa a certa communidade religiosa. +O esclarecido bibliographo F. Innocencio +da Silva sente que esta carta, principiada a imprimir +no <em>Murmurio</em>, periodico bracharense, ficasse +incompleta. Nós, que tambem possuimos d'ella +um traslado da mão de D. fr. Manoel do Cenaculo, +arcebispo de Évora, vamos dal-a integral e +textualmente, na certeza que revivemos um documento +historico, lavrado por testemunha presencial, +e, além d'isso, por um dos mais abalizados +escriptores do seculo aureo da lingua portugueza.</p> + +<p>Reza assim:</p> +<span class='pagenum'>[38]</span> + +<p>«Amantissimos Padres. O Spirito Sancto cosolador, +e emparo dos atribulados console suas +almas, que creio estarão já com a dor, que nós +temos da morte de nosso Pai, Rei, e Senhor, taõ +supita, e taõ inopinata, como foi, e lhes dê o emparo +espiritual de sua graça, e temporal de cabeça +tal, qual foi a que perdemos. Amen.</p> + +<p>«Ainda que creio, que já teraõ a certeza da +morte del Rei Nosso Senhor, porem por mo mandar +nosso Padre, e eu o ter já assim determinado +de fazer, e porque muitas cousas se dizem lá, e +cá, que naõ foraõ assim, pera saberem a certeza +do que passa lhes quero contar por ordem tudo: +ainda que folgára eu muito de ter antes perdidas +as virtudes, e forças naturaes do corpo, que te-las +pera aver de escrever o que agora ouvirão.</p> + +<p>Quarta feira <i>infra octavas Penthecostes</i>, sahio +El Rei Nosso Senhor, que santa gloria aja, a ouvir +missa á Misericordia, quasi indo em pessoa a +chamar a Misericordia, que d'ahi a pouco tempo +o avia de levar á sepultura, e assim foi esta derradeira +sahida só, pera seu costume, e hia ainda +muito bem disposto. Ouvida a missa se tornou +muito de pressa ao Paço com muita, infinda gente, +mal disposto de huma perna, mas pouca cousa, +e tudo isto vio hum Padre desta casa. Chegando +<span class='pagenum'>[39]</span> +ao Paço se encerrou em huma camara só +sem ninguem, onde esteve muito grande espaço, +depois do qual chamou, e pedio agoa rosada, com +a qual lavou o rosto, e mãos, e tornou a estar só +outro pedaço, donde sahio a jantar muito melenconisado, +e jantou mal, e á tarde teve huma febrezinha +muito pequena.</p> + +<p>«Quinta feira se alevantou, e andou hum pouco +achacoso, diziaõ que era de naõ dormir com +cuidado do Principe<sup><a name="pn2" href="#n2">[2]</a></sup> que tivera huma febre, e +arrevesava, e naõ dormia. Mas Deos sabe o que +era. Com tudo não tinha doença que o fizesse estar +em cama.</p> + +<p>«Á sexta feira se alevantou tarde, e ouvio +missa em casa, e jantou muito bem assombrado, +e assim esteve toda a sésta, que ao parecer estava +bem, até as quatro horas, as quaes dadas nos +chamárão á procissão <i>praecipue</i> pelo Principe, que +Deos guarde, a qual sahia da Sé á Misericordia. +Sahindo nós da Sé chegou hum recado que fossemos +a Jesu de Saõ Domingos com a procissaõ por +el Rei, que estava muito mal, e assim se fez, e +ouve pregaçaõ. De maneira que perto das cinco +horas se começou el Rei de agastar, e chamou +Confessor, que estava na Mesa da Consciencia, e +<span class='pagenum'>[40]</span> +confessou-se das cinco até as oito. E logo do Saõ +Giaõ lhe leváraõ o Senhor, e chegando nós ao +Rossio, nos deraõ novas, que lhe naõ achavaõ +pulso. Acabando de comungar começou a concertar +seu testamento, o qual naõ acabou de fazer +com as mezinhas, e com os agastamentos; +mas segundo me dixe o Confessor da Rainha o +substancial delle fez, e assinou. Ás dez horas se +achou mais leve, e despejou<sup><a name="pn3" href="#n3">[3]</a></sup> para repousar, e ás +onze chamou, e vendo que carregava o accidente +pedio a Unçaõ, a qual lhe trouxeraõ logo, e +quando já chegou naõ fallava, mas recebeo-a vivo, +a qual recebida, sendo já meia noite, em +quanto podiaõ dizer huma terça rezada, <i>expiravit</i> +levemente, e sem movimentos, nem trabalho +mais, que o mortal, que he o mór de todos. De +maneira que em sete horas, a saber des das cinco +ás doze acabou. A isto naõ estive eu presente, +mas soube-o do Confessor da Rainha, e de +Luiz Gonçalves, que ahi se achavão presentes, e +delles soube que quando el Rei pedio a Unçaõ, +que se recolheo o Cardeal, e os outros Senhores, +e só a Rainha se foi pera el Rei, e com elle esteve +até espirar sem botar lagrima, e acenando a +<span class='pagenum'>[41]</span> +todos que ninguem chorasse alto por não inquietar +a el Rei, ella o consolava, e animava a passar +alegremente aquelle passo com muitas palavras +christãs e devotas: ella lhe teve com grande coraçaõ +a candeia em a maõ, e lhe fechou os olhos, e +acabando elle de espirar se foi cobrir de dó, e se +poz em hum oratorio com quatro vellas no altar, +e frontal, e dorsel de veludo carmesi, com o braço +de Saõ Sebastiaõ, onde o Padre Montoya a visitou, +e consolou, ou para melhor dizer ella consolou +ao Padre, que ainda que com muitas lagrimas, +com tudo mui inteira na rasaõ, e na modestia +exterior, sem nenhum estremo, mostrou estar +muito conforme com a vontade do Senhor Deos, +e receber tudo de sua maõ, e que rogava muito +aos Padres, que a encomendassem a Nosso Senhor.</p> + +<p>«Agora o que vi com meus olhos lhes contarei, +e o que tratei com minhas mãos: querendo +ungir el Rei mandáraõ chamar Padres de todallas +Ordens, os quaes todos chegáraõ tendo elle já espirado, +e assim o nosso Padre, cujo companheiro +fui eu, correndo quanto podiamos fomos quasi +todo o caminho, porque não cuidavamos que +se fosse taõ asinha. Achámos pelas ruas e Ribeira +tudo cheio de pranto, e de gritos, e de muita +gente, que com trabalho entrámos. Entrados <i>vidimus +<span class='pagenum'>[42]</span> +coronam capitis cecidisse, et obiisse</i>:<sup><a name="pn4" href="#n4">[4]</a></sup> ninguem +se ouvia com gritos, e soluços, huns em +pé, outros de giolhos, outros por esse chaõ: huns +chorávaõ, outros gemiaõ, outros amarellos estavaõ +pasmados com ver morte taõ supita e com +desemparo taõ de repente, e de improviso, estavaõ +todos attonitos, e sentidos: ninguem se ouvia, +e escassamente podiaõ os Religiosos rezar +com lagrimas, até que ás duas, ou tres depois da +meia noite entrou o Cardeal ainda de vermelho a +despejar a camara, rogando, e chamando a todos +senhores, sem lagrima nenhuma, e com el Rei +ficáraõ os Religiosos, e alguns Fidalgos, e assim +estivemos até as cinco rezando muitos Officios de +defunctos, e muitas orações. Ás cinco depois de +visto o testamento em conclavi, o Arcebispo despejou +a camara sem deixar mais que de cada Ordem +hum ou dous Religiosos para o amortalharem, +e o Pinheiro com o Confessor del Rei a hum +canto rezando: e assim cobertas as cortinas do +leito dous Padres de Saõ Francisco, e hum do +Carmo, e Frei Jeronimo d'Azambuja de Saõ Domingos, +e eu o amortalhámos, ministrando-nos +<span class='pagenum'>[43]</span> +hum Clerigo Fidalgo, de maneira que estas tristes +maõs o laváraõ, e alimpárão, e amortalhárão: +Bendito seja Deos. Seu corpo ainda que ficou +bem assombrado acabando de espirar, com tudo +pelo muito que esteve por amortalhar <i>quando o +descobrimos estava mais feio, e mais preto do rosto, +e mãos, o mais sujo, e o mais nojento, e em fim o +mais mortal e terreno, que eu vi outro, e eu tive +aquelle pelo mór espectaculo</i>, e pera todo Religioso +ver, pera doctrina, e edificaçaõ, que podia ser: <i>Non +potuimus continere lachrimas</i><sup><a name="pn5" href="#n5">[5]</a></sup> com pranto, e lagrimas +rezando o Officio de Defunctos lhe posemos +huma toalha na cabeça e rosto mal lavada, e despida +huma camiza suja de sangue que botava pela +boca, e cousa verde depois de morto, lhe vestimos +outra lavada, e lhe posemos o Bentinho de Christo, +e o emburilhamos em hum lençol, e cozemos +com barbante, sem outra cousa, nem vestido, nem +mais habito, e o posemos em hum catele sem +alcatifa, nem nada, onde esteve ate trazerem o +ataude. Nisto acabou o estado, o fausto, as riquezas, +as pompas, as cortezias, os serviços, as adorações +reaes, nem em tudo isto se aqueixou dos +que isto lhe faziaõ, aquelle que com só a vista fazia +<span class='pagenum'>[44]</span> +tremer o mundo. Dahi a pouco lhe poseraõ +hum estrado grande em o meio da camara coberto +de veludo preto, rodeado de alcatifas, e sobre +elle hum ataude forrado de veludo preto por fóra +com huma cruz de damasco branco, e de linho de +dentro, aonde o Bispo de Leiria, e o do Funchal, +e o Arcebispo, e o Priol de Palmella, e o Bispo +D. Pedro e eu com dous Frades o metemos, onde +lhe beijáraõ a maõ por sima do lençol estes que +ahi estavaõ, lançando-se todos sobre elle com +muitas lagrimas, começando novo pranto, e pregado +o ataude lhe botáraõ por sima hum panno +de veludo preto muito grande com cruz de damasco +branco, e aos pés poseraõ huma mesa coberta +com hum panno de damasco preto, na qual +estava huma cruz da capella, e dous castiçaes com +suas vellas, e caldeira de agua benta, e ao rededor +quatro tochas em suas tocheiras de prata. E +he muito pera notar, que assim como el Rei, que +santa gloria aja, foi em vida muito amigo dos Frades, +assim des que espirou até o levarem, elles o +acompanháraõ, porque até o amortalharem, como +já dixe: estiveraõ com elle Frades de todallas Ordens, +Frades o amortalháraõ, e meteraõ no ataude, +e concertáraõ, e metido cada Ordem vinha +sobre si com cruz alevantada, e estava com elle +duas horas dizendo hum Officio de Defunctos entoado. +<span class='pagenum'>[45]</span> +Convem a saber os de Saõ Domingos das +sete até as nove; os do Carmo das nove até as +onze; os de Saõ Francisco das onze ás doze e +meia; depois os da Trindade até quasi as duas; +depois nós até as tres, e idos todos ficáraõ huns +poucos de cada Ordem com a capella até as quatro +sempre rezando. Ás quatro entrou o Cardeal, +já de roxo, e de giolhos, sem lagrimas, beijou o +estrado, e repartio as toalhas do ataude, convem +a saber da maõ direita á cabeceira o Senhor Dom +Duarte, logo Dom Constantino, logo outro que +naõ conheci, logo o Conde da Castanheira: da +banda esquerda <i>ad caput</i> o Duque d'Aveiro, logo +tres que naõ conheci, os quaes escassamente podiaõ +levar o ataude, e aberta a porta da camara +por onde o haviaõ de tirar, que estava na varanda, +se alevantou hum pranto taõ grande que era +cousa de pasmo. Eu nunca vi tanta gente junta, +nem tanto grito e choro, nem faces ensanguentadas +e arranhadas, nem barbas depennadas, como +entaõ vi, tanto que nem havia forças pera andar, +nem pera bulir o corpo lugar, até que o Cardeal +rogou, que andassem, e recolhendo-se começarão +a andar, e passadas duas portas não podéraõ +mais, e chamaraõ Religiosos que os ajudassem, +dos quaes fui eu hum, de maneira que eu o +amortalhei e meti no ataude, e levei até o meterem +<span class='pagenum'>[46]</span> +nas andas; a aquelle que a mim, e a toda a +Ordem deo sustentaçaõ, e vida, e com tanto trabalho +de meu corpo, que ando agora muito mal +tratado por pesar muito, e porque descendo pela +escada me ficou sobre mim só todo da banda dos +pés, sem me poderem valer com a muita gente, +onde cuidei de ficar; mas certo que entaõ naõ +senti este trabalho, nem me lembrava repouso, +nem sono, nem comer, no que tinha muitos infindos +companheiros. Assim nas andas forradas +por dentro de veludo preto, com hum panno por +sima muito grande do mesmo, com cruz branca, +o levou a Misericordia, e a Capella, e o Cabido, +sem mais cruz que a da Capella, todos com tochas +a cavallo, em duas azemolas, que bem tinhaõ que +fazer em o levar, que tanto pezava, e levaraõ-no +a Belem, e enterraraõ-no á cabeceira de seu Pai +com hum Responso, que pera mais nem lagrimas, +nem gritos, nem gente davaõ lugar, que segundo +se conjeiturava se ajuntáraõ ao levar, assim na +cidade, como fora, até Belem entre homens, mulheres, +e meninos por todos bem quarenta, ou +cincoenta mil almas, o que crê facilmente quem +presente se achou, e o via por seu olho, e naõ foraõ +com elle Ordens por rasaõ da Festa da Trindade, +nem sabemos ainda quando iraõ, porem todollos +Moesteiros se naõ occupaõ agora senaõ em +<span class='pagenum'>[47]</span> +dizer Officios por elle, e em fim os Padres de Saõ +Jeronimo o botáraõ á terra, onde jaz descansando, +e tornando-se naquillo, que he, aquelle que +na vida era Pai, Rei, Senhor, Emparo, e Soccorro, +a quem naõ faltava nada pera ser o mais illustre +Principe da Christandade: praza a Nosso +Senhor que lhe dê na outra vida a gloria, que todos +lhe desejamos, e que elle com suas boas obras +creio, que merece. Amen.</p> + +<p>«Hoje se quebráraõ nesta cidade os Escudos, +que he o terceiro dia, e ámanhã terça feira juraraõ +o Principe, e cremos que passada a Festa se +faraõ os Saimentos Reaes. Do estado do Reino, e +quem fica por Governador <i>nulli narranti credatis</i>, +porque ainda tudo está secreto, nem se saberá +<i>ut creditur</i> taõ cedo. Isto que lhes escrevi he o +certo do que passa, tudo o ai tenhaõ por incerto. +Resta que o encomendem muito a Nosso Senhor, +e a Rainha, e ao Principe, o qual fica bem disposto, +e eu o vi sabbado em pé, e bom, e nosso Padre +lhe dixe missa depois del Rei amortalhado, e +lhe dixe hum Evangelho.</p> + +<p>«Esta carta tenhaõ cada hum por sua, e encomendem-me +a nosso Senhor todos, porque +eu naõ tenho tempo, nem disposição pera escrever +particularmente a todos, ainda que sim vontade +grande. As ceremonias da cidade já naõ se +<span class='pagenum'>[48]</span> +fazem nos dias ordenados, mas a outro tempo. +De Lisboa a 14 de Junho de 1557. Irmaõ de todos, +e filho em Christo. <i>Frei Thomé de Jesus.</i>»</p> +<br> + +<p>Está visto que o principe perfeito, flagello dos +israelitas, morreu bastantemente fedorento, revessando +postema esverdinhada, e envolto em uma +camisa chagada e esqualida, que fez engulhos ao +bom do frade. No discurso da vida, D. João II +soffreu sempre de uma erysipela nas pernas, que +ás vezes lhe não consentia o uso das piugas; por +maneira que trazia as botas estremes sobre a pelle +esgarçada de sorosidades. Era uma cousa immunda +em corpo e alma este scelerado real! Vem +de molde o extracto de umas antigas Memorias +ineditas de Diogo de Paiva e Andrade:</p> + +<p>«D. João III costumava dormir a sesta depois +de jantar em uma casa que tinha janellas para o +Tejo, assistindo nos Paços da Ribeira, sendo poucas +as pessoas a quem permittia licença de entrar +n'ella em quanto descançava. Succedeu, uma tarde, +abrir a porta uma d'aquellas a quem tinha permittido +a dita faculdade, e viu el-rei não deitado, +mas em uma cadeira sustentando com ambas as +mãos a cabeça e com os braços encostados sobre +uma banca; e, não lhe dando palavra, retirou-se +para a casa immediata, e com os mais que estavam +<span class='pagenum'>[49]</span> +n'ella se principiou a discorrer sobre qual +seria o motivo que obrigava sua alteza a tanta +consideração. Achava-se tambem presente o marmanjo-mór, +um chocarreiro do paço, castelhano, +chamado D. Fernando de Roxas, homem que tinha +siso, o qual, depois de observar muito tempo +a conversação, disse para os que fallavam:--Senhores, +el-rei não quiz dormir, e não considera +em cousa de substancia--e, entrando logo na camara +em que estava, perguntou-lhe em que cuidava; +ao que el-rei respondeu: «Estou considerando +como se me farão umas botas menos largas +do que uso, sem padecerem as pernas.» Voltou o +chocarreiro para fóra, e, contando o que passava, +acabaram os discursos, entrando-se em outros, +que merecia o assumpto. N'este tempo foi +mui frequente o calçado de botas, ainda em dias +de grande funcção, por imitação a el-rei, que +quasi sempre as trazia, por ser muito soroso das +pernas, e tão grossas as tinha que poucas vezes +se servia de meias.»</p> + +<p>Até aqui o author do <i>Casamento perfeito</i>.</p> + +<p>Quando se escrever sincera historia de Portugal, +não se repita sómente o que o snr. A. Herculano +escreveu da inepcia, do fanatismo, e das +ruins entranhas de D. João III. Refira-se que a +alma lhe exsudava o pus na epiderme das pernas, +<span class='pagenum'>[50]</span> +e attribua-se ás angustias da sua suja enfermidade +o phrenesi que rebentava em raivas contra os +judeus, a diabetes que se dessedentava em sanque. +Se Byron satyrisou os bons costumes e as +virtudes inglezas porque tinha um calcanhar desengonçado, +que muito que D. João III queimasse +trinta mil innocentes, se as pernas lhe esvurmavam +peçonha?</p> + +<p>Ao proposito do marmanjo-mór D. Francisco +de Roxas, occorre-nos acrescentar que elle teve +uma filha chamada D. Maria, que casou com André +de Sousa Chichorro, descendente de Affonso +III e de uma formosa moura. D'este neto do +rei e da filha do chocarreiro ha descendentes, +a quem não é hoje permittido saudar como netos +do marmanjo-mór do paço d'el-rei D. João, o +<i>principe perfeito</i>.</p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a name="n2" href="#pn2">[2]</a></sup> Este principe era seu neto D. Sebastião.</p> + +<p><sup><a name="n3" href="#pn3">[3]</a></sup> <i>Despejar</i>, quer dizer que mandou sahir da camara os +que lhe assistiam.</p> + +<p><sup><a name="n4" href="#pn4">[4]</a></sup> Vimos que a corôa lhe resvalára da fronte, e era morto.</p> + +<p><sup><a name="n5" href="#pn5">[5]</a></sup> Não podémos reter as lagrimas.</p> +</div> +<span class='pagenum'>[51]</span> +<hr> + + + +<a name="cap9"></a> +<h1>SUBSIDIO PARA A HISTORIA DE UM FUTURO SANTO</h1> + + +<p>Falla-se na canonisação do arcebispo de Braga +D. fr. Caetano Brandão.</p> + +<p>Li as <i>Memorias para a historia</i> da vida d'este +insigne prelado, colligidas por Antonio Caetano +do Amaral. Não desconheço os louvores que lhe +teceu o insuspeito José Liberato Freire de Carvalho +nas suas <i>Memorias</i>. Li com mais prazer a biographia +que lhe encarece as virtudes, escripta pelo +snr. Innocencio Francisco da Silva. Commoveu-me +a leitura do drama do doutor Silva Gayo, +aquelle optimo coração que já não pulsa cheio do +amor de seus filhos.</p> + +<p>Inferi d'estas variadas leituras que o arcebispo +não tivera em vida quem lhe suspeitasse da +probidade, nem por tanto, no acto da canonisação, +lhe sahiria com libello infamatorio aquelle +personagem que, no processo da santificação, se +chama o <i>advogado do diabo</i>.</p> + +<p>Illusão que me desluz outras muitas fundadas +em bases de vento e poeira.</p> +<span class='pagenum'>[52]</span> + +<p>O primeiro advogado do diabo que enrosca a +hirta cauda e se amezendra n'ella, ao tribunal +dos cardeaes, é o ministro do principe regente, +José de Seabra da Silva; e o pio João é citado +tambem para ouvir da lingua do seu ministro o +depoimento que elle authorisou. Quem duvidar do +que vai lêr, dirija-se ao archivo da secretaria do +reino, e peça que lhe deixem examinar o copiador +dos <i>Avisos</i> expedidos no anno 1794, e lá encontrará +o seguinte:</p> + + +<p>«<i>Ao arcebispo de Braga.</i> Sua magestade, sendo +informada dos procedimentos e <i>amontoados +crimes</i> que v. exc.<sup>a</sup> tem perpretado contra a disciplina +da igreja, e ainda das mesmas leis, usando +de sua regia piedade por esta vez (pois devia ser +outro o exemplo), é servida que logo, sem perda de +tempo, mande restituir por seus despachos a abbadessa +do convento de Santa Clara de Villa Real +á sua occupação, e as mais religiosas aos seus +respectivos cargos, e as noviças continuem o seu +noviciado, levantando a supposta excommunhão, +e dando conta ao confessor do principe, o padre +frei Mathias, incumbido dos negocios das religiosas, +de tudo o que obrou, declarando n'ella o motivo +porque assim tinha praticado, e outra á secretaria +para constar da sua execução. Palacio de +<span class='pagenum'>[53]</span> +Nossa Senhora da Ajuda 10 de fevereiro de 1794.--<i>José +de Seabra da Silva.</i>»</p> + + +<p>Quem viu no começo do aviso o prelado arguido +de <i>amontoados crimes perpretados contra a +disciplina da igreja</i>, e logo adiante encontra uma +ordem de restituir a abbadessa e as religiosas, e +de mais a mais, as noviças aos seus officios no +convento de Santa Clara, cuida que D. frei Caetano +Brandão estava na sacrilega posse da abbadessa, +das outras freiras e--o que mais é de +censurar e invejar--das noviças!</p> + +<p>Apresso-me a desfazer a hypothese que se +encosta á equivoca redacção do <i>Aviso</i>. O arcebispo +não tinha freira nenhuma desgarrada do divino +redil.</p> + +<p>O que elle tinha era a santa e serena coragem +de responder áquelle hypocrita de frei Mathias em +termos que revêem o socego de alma invulneravel +ás phrases insultuosas do ministro que em 1778 +se havia recolhido de Angola com aquelle luxo de +cortezia.</p> + +<p>A razão do insulto é simplesmente miseravel. +O arcebispo, fundado no seu direito, prohibiu +que no convento de franciscanas de Villa Real +professassem religiosas. A relaxação d'aquella +communidade ia na vanguarda dos mosteiros onde +<span class='pagenum'>[54]</span> +os vicios se rehalçavam mais soltamente. D'ahi a +prohibição que punha a mira em desviar d'aquella +gafaria as meninas ainda incontaminadas.</p> + +<p>O vigario geral da terra era amante da prelada, +bem aparentado na côrte, caprichoso e +rico.</p> + +<p>Foi a Lisboa, insinuou-se na estima de frei +Mathias da Conceição, confessor do principe, e +alcançou, por intermedio do frade, licença para +professarem religiosas, directamente enviada á +sua Heloisa d'elle vigario geral, que se parecia +tanto com Pedro de Abeillard como com Origenes.</p> + +<p>O arcebispo, avisado da desobediencia, excommungou +a prelada, a escrivã, a rodeira, a boticaria, +as cantoras, a organista, as noviças, todo +aquelle harém, sujeito a um califado numeroso de +padres, de fidalgos, de poetas, de todos os freiraticos +da provincia. Uma balburdia!</p> + +<p>Voltou a Lisboa o vigario geral, depois da excommunhão, +posto que as excommungadas não +tivessem fastio, nem extraordinarios ataques esthericos.</p> + +<p>D'esta segunda ida, resultou o <i>Aviso</i> ultrajante +que o leitor leu com assombro e indignação.</p> + +<p>D. Caetano respondeu ao confessor e ao ministro +do regente, que garganteava canto-chão +em Mafra devotamente. As cartas são longas e a +<span class='pagenum'>[55]</span> +vida é breve. Da resposta enviada ao padre Mathias, +trasladamos um periodo energico:</p> +<br> + +<p>«... Espero que v. s.<sup>a</sup> se capacite de que não +é o espirito de teima o que me anima ao presente +lance; mas o desejo sincero que tenho de dar +boa conta da minha administração ao supremo +juiz dos vivos e mortos. Respeito com profunda +submissão as ordens dos meus soberanos, e d'esta +disposição creio tenho dado as provas menos +equivocas em doze annos que vou contando de +bispo, como podem attestar assim na America +como no reino todos os que tem ouvido ou lido as +minhas instrucções pastoraes. Mas esta obediencia +ás reaes ordens sabe v. s.<sup>a</sup> perfeitamente que nunca +deve extinguir no coração de um bispo o zelo +que d'elle reclamam os legitimos direitos da igreja, +sobre tudo quando se enlaçam tão apertadamente +com a salvação das almas. O contrario seria +transtornar a ordem que Deus tem estabelecido +entre o sacerdocio e o imperio; é querer fazer +a igreja captiva dos reis da terra convertendo-a +em corpo politico, o que sem difficuldade, diz +Bossuet, arguiria a mais inaudita lisonja que póde +entrar no espirito humano... Uma cousa quero +pedir mui confiadamente a v. s.<sup>a</sup>, e é que no caso +que as razões expendidas lhe não pareçam sufficientes +<span class='pagenum'>[56]</span> +para sustentar o meu designio relativamente +aos mosteiros d'esta diocese, como para +mim tem força, e tal que liga invencivelmente a +minha consciencia, haja de expor a sua alteza a +impossibilidade em que me acho de condescender +com a vontade d'aquellas religiosas, em quanto +se me não fornecerem novas luzes por onde venha +no conhecimento do meu erro... Braga 13 +de março de 1794.»</p> +<br> + +<p>Na resposta ao ministro é humildissimamente +um apostolo da primitiva christandade. Alludindo +ao vigario geral que o detrahe e impugna na carta, +escreve mansamente:</p> +<br> + +<p>«... Só um pequeno numero de espiritos, de +que não era difficil conhecer as intenções, pelo +interesse que tinham de vêr deprimida e mesmo +extincta a authoridade de quem os dessocega na +falsa paz da sua relaxação e desordem (entre os +quaes sobresahe com grande vantagem um clerigo +que se acha n'essa côrte com ar de requerente, +homem que sempre representou no theatro +das intrigas que são manejadas com arte), só este +pequeno numero que a abbadessa se tinha associado +para as suas frequentes conferencias, é quem +podia lisonjeal-a em tão estranho projecto.»</p> +<span class='pagenum'>[57]</span> +<br> + +<p>E, a final, quem venceu?</p> + +<p>Venceu o vigario geral, e a abbadessa, e a rodeira, +e a organista, e a escrivã, e a boticaria. +Houve luminarias no adro do mosteiro. Versejou +o poeta da organista, que era padre, e se chamava +o <i>Mormo</i>, alcunha de molestia que lhe pegára +o pegazo das cavallariças monasticas. Recitou o +poeta da boticaria, que se chamava o padre Mesquita, +que lidava em torneio de murros com o +Mormo em todos os outeiros. O vigario geral fez +córar a abbadessa com uma ode em que ella era +comparada á Venus callipygia; em fim, até os <i>tachos</i>, +que assim lá chamavam ás criadas, deram +motes e pasteis--os celebrados pasteis de Santa +Clara--a muita somma de sapateiro que n'aquella +noite converteu a tripeça em lyra e a sovella +em plectro.</p> + +<p>D. frei Caetano Brandão áquella hora pedia, +talvez, a Deus que lhes perdoasse a ellas e aos +poetas porque não sabiam ellas o que faziam, nem +elles o que diziam. Era santo, em fim!</p> + +<p>Quem poder imital-o, faça a mesma oração a +favor de alguns poetas de hoje em dia, e não se +esqueça de mim, que sou dos mais necessitados.</p> +<span class='pagenum'>[58]</span> +<hr> + + + +<a name="cap10"></a> +<h1>O LIVRO 5.<sup>o</sup> DA ORDENAÇÃO, TITULO 22</h1> + + +<p>O desembargador do paço e conselheiro real +Ignacio da Costa Quintella falleceu em 2 de janeiro +de 1752, deixando o seu nome perpetuado na +<i>Bibliotheca Jurisconsultorum lusitanorum</i>, em +quanto na face da terra se souber latim.</p> + +<p>Além da <i>Bibliotheca</i>, deixou uma viuva e dous +filhos. A viuva chamou-se D. Maria Michaela de +Sousa; o filho era Ignacio Pedro Quintella, e a +filha chamou-se D. Isabel Thereza de Sousa Quintella.</p> + +<p>Em casa da viuva ficou, por morte do desembargador, +um escripturario habilissimo, chamado +Felix Tavares de Almeida, de familia limpa, bem +figurado, intelligente, poeta, e, pelo conseguinte, +namoradiço.</p> + +<p>D. Maria Michaela encarregou-o de todos os +negocios de sua grande casa, incumbindo-o especialmente +de correr com o inventario do casal; +mas nem por isso lhe indultou a audacia de requestar-lhe +a filha.</p> + +<p>Assim, pois, que teve denuncia dos amorios +<span class='pagenum'>[59]</span> +de Isabel com o seu criado, como ella o denominava +para aviltal-o aos olhos da filha, despedia +Felix Tavares, com ameaças de o mandar prender, +se teimasse em deshonrar a estirpe dos Quintellas--estirpe +que, a fallar verdade, ainda estava muito +em vergontea verde.</p> + +<p>Isabel, com o seu amor, impunha ao escrevente +expulso a obrigação de ter coragem. A correspondencia +epistolar continuou, apesar de todas +as vigilancias da mãi e do irmão de Isabel, que +já era casado áquelle tempo.</p> + +<p>Queria muito a viuva dar querela contra o seductor, +mas carecia de prova escripta. A menina +queimava as cartas assim que as lia, e não tinha +confidente que a trahisse, porque o medianeiro +das cartas era um fio de sêda, e as testemunhas +eram a lua discreta e as estrellas silenciosas da +alta noite.</p> + +<p>Acudiu o filho á inquietação da mãi com este +alvitre: «Eu queixo-me de que Felix Tavares, +quando sahiu do nosso serviço, me roubou dinheiro, +e requeiro que se lhe passe revista á casa. As +cartas, que Isabel lhe tem escripto, hão de apparecer, +se o apanharmos de sobresalto. Uma carta +só que appareça, é prova bastante.»</p> + +<p>D. Maria approvou a idéa, applaudindo a esperteza +do filho.</p> +<span class='pagenum'>[60]</span> + +<p>Feita e despachada a petição, o corregedor do +bairro de Andaluz entrou de subito na humilde +casa do moço arguido de ladrão, fez-lhe abrir um +bahú, depois de revistar as gavetas, e achou um +massete de cartas que, n'um volver de olhos, reconheceu +serem de amores. Metteu as cartas na +algibeira, repulsando com desabrimento as supplicas +de Felix Tavares, e sahiu.</p> + +<p>O atribulado rapaz não soube que o infamavam +de furto, porque o magistrado fizera a diligencia +sem proferir palavra nem explicar a razão +da visita.</p> + +<p>Percebeu que as cartas de Isabel iam ser instrumento +de processo. Conhecia bem os homens +do seu tempo, e escondeu-se.</p> + +<p>O corregedor enviou parte das cartas mais lyricas +de Isabel ao duque regedor das justiças; e +este, depois que se regalou e mais a familia com +os requebros delambidos da filha do desembargador, +enviou-as a D. Maria Michaela.</p> + +<p>Esta, quando viu as cartas, perdeu os sentidos, +porque do conteudo das mesmas deprehendeu +que, passados alguns mezes, seria avó. Quando +tornou á sua razão, envergonhou-se de pôr em +juizo tão deshonrosos papeis.</p> + +<p>N'este tempo, a viuva e a filha viviam em uma +quinta nos arrabaldes de Lisboa, esperando que +<span class='pagenum'>[61]</span> +se reedificasse o seu palacete aluido pelo terremoto +de 1755.</p> + +<p>Felix Tavares, certificado do silencio da viuva +e da segurança da sua pessoa, continuou a frequentar +os muros da quinta.</p> + +<p>Instado por Isabel, e alentado para todo o risco, +requereu ao vigario geral, juntamente com +ella, que lhe admittisse fiança a banhos, fundando +a petição em razões de honra, de pudor e de +religiosidade. O vigario geral dispensou-os de licenças +e pregões.</p> + +<p>Uma noite fugiram; e, ao amanhecer do dia +seguinte, casaram-se.</p> + +<p>D. Maria, quando deu falta da filha, sahiu para +Lisboa, e fez espectaculo das suas lagrimas na +presença dos desembargadores amigos de seu defunto +marido. Comprometteram-se todos unanimemente +a vingar a viuva do conselheiro desembargador +do paço Ignacio da Costa Quintella.</p> + +<p>Isabel conhecia o genio iracundo da mãi. Apesar +de haver legitimado com o sacramento o seu +erro, pediu ao marido que evitasse os primeiros +impetos da colera dos seus. Esconderam-se, pois, +mudando o nome, no sitio de Alcantara, e ahi viveram +com o seu filhinho pobremente do producto +de algumas joias, até 1758.</p> + +<p>No fim d'este anno, que era o terceiro de casados, +<span class='pagenum'>[62]</span> +persuadiram-se que o coração da mãi devia +estar aplacado pela acção do tempo. Isabel +escreveu-lhe, e não teve resposta; escreveu novamente, +e recebeu a carta fechada, e um insulto +de viva voz. Apesar d'estes ruins presagios, Felix +Tavares de Almeida, forçado pela necessidade, +mudou para Lisboa, a fim de grangear sua subsistencia +no trabalho da escripta ou agencia de +causas em que era versado.</p> + +<p>Principiava a melhorar de posição, quando, +ao sahir de sua casa, na manhã de 2 de junho de +1760, foi preso á ordem do corregedor, e conduzido +ao Limoeiro.</p> + +<p>Pouco tempo depois, D. Isabel Thereza de Souza +Quintella era tambem, com ordem de captura, +conduzida á quinta de sua mãi nos arrabaldes de +Lisboa. Levava o filho nos braços.</p> + +<p>Foi aquella criança que a defendeu do suicidio +ao vêr-se sósinha na quinta, com uma criada que +nunca vira, e um escudeiro que a encarava de esconso +com tregeitos de menospreço.</p> + +<p>No mesmo dia em que entrou no Limoeiro, +Felix Tavares foi chamado á sala para ouvir lêr a +sua sentença.</p> + +<p>--A minha sentença!--exclamou elle.</p> + +<p>Não lhe respondeu o meirinho. Foi, e ouviu +lêr o seguinte ao escrivão da correição do crime +<span class='pagenum'>[63]</span> +da côrte, Loureiro, sujeito que lia uma sentença +no tom lugubre em que os frades entoavam os +threnos de Jeremias:</p> + +<p>«Vistos estes autos, libello da A. (authora), +provas e documentos juntos, mostra-se que, sendo +o réo criado de escada acima...</p> + +<p>--Criado!--interrompeu o preso.</p> + +<p>--Ouça e cale-se!--respondeu asperamente +o escrivão.</p> + +<p>E continuou:</p> + +<p>«Criado de escada acima assalariado do desembargador +do paço Ignacio da Costa Quintella, +e da A. sua mulher, continuou no mesmo serviço +de casa até alguns dias depois do memoravel terremoto +do 1.<sup>o</sup> de novembro de 1755, no qual tempo +foi visto por muitas pessoas solicitar escandalosamente +de amores a filha da A. sua ama, D. +Isabel Thereza de Sousa Quintella, menor de 25 +annos, escrevendo-lhe escriptos amatorios com +expressões de grande e estranhavel confiança, +dos quaes, muitos d'estes e reciprocamente d'ella +foram achados pelo juiz do crime do bairro de +Andaluz no bahú do réo, indo em diligencia de +furto de dinheiro...</p> + +<p>--Que é!--bradou Felix Tavares--que aleivosia +é essa de furto de dinheiro?</p> +<span class='pagenum'>[64]</span> + +<p>--Já lhe disse que me não interrompa!--sobreveio +o escrivão.</p> + +<p>--Hei de interrompel-o em quanto me não +disser quem é o infame que me chama ladrão!</p> + +<p>--Eu não sou--disse o Loureiro, olhando-o +por cima dos oculos de tartaruga.--Escute lá o +resto, que vm.<sup>ce</sup> não é sentenciado por ladrão...</p> + +<p>O preso não pôde replicar suffocado pelos soluços; +o escrivão proseguiu:</p> + +<p>«De furto de dinheiro feito ao filho mais velho +da A. já casado...</p> + +<p>--O villão mentiu!--exclamou Felix Tavares, +estendendo os braços convulsos ás pessoas +que o rodeavam, como se lhes pedisse que o defendessem +da calumnia.--O villão mentiu, senhores! +Acreditem que eu não furtei dinheiro algum!</p> + +<p>--Já lhe disse que não furtou...--volveu o +escrivão.--Isto são palavras que não tiram nem +põem...</p> + +<p>--Não tiram nem põem!--replicou o sentenciado.--Oh! +que infames! que infames!...</p> + +<p>E cobria o rosto com as mãos, balbuciando +vozes inintelligiveis.</p> + +<p>O escrivão continuou a lêr:</p> + +<p>«E se reconheceram as letras serem suas, que +<span class='pagenum'>[65]</span> +o dito ministro queimou, reservando algumas, que +entregou ao duque regedor, para dar parte d'esta +aleivosia á dita A.; e outro sim foi visto por varias +pessoas na quinta da A., já depois de ultimamente +despedido da dita casa, fallando só com +a filha da A. em sitio suspeitoso para acções +lascivas, tendo assim havido tratamento e ajuste +occulto de se casarem, e ser ella tirada por justiça +contra vontade da A. sua mãi, para o que supplicou +ao vigario geral do patriarchado, e obteve +fiança a banhos com o fundamento de causas occultas +que facilitaram a sua dispensa, do que se +não quiz passar a certidão pedida, fl. 235, de modo +que sendo necessarios todos estes requerimentos +antecedentes e prova d'elles, em que certamente +se havia de gastar tempo, chegaram com +effeito a receber-se em 23 de novembro do dito +anno, pouco depois de ter sido expulso de criado, +retrotrahindo-se todo o facto da solicitação e aleivoso +ajustamento de casarem ao tempo do famulato, +e da quinta em que ella assistia com a A. sua +mãi, como tudo se mostra das certidões fl. 224 +e 322.</p> + +<p>«N'estes termos...--proseguiu o escrivão descarregando +na venta direita a pitada do simonte +que esperava a suspensão de novo periodo--«n'estes +termos, sendo a filha da A. menor de 25 +<span class='pagenum'>[66]</span> +annos, conforme a certidão fl. 232, que o réo não +podia ignorar pelo tratamento e serviço domestico +de muitos annos, e incumbencia de correr com o +inventario do casal, que se fez por fallecimento do +marido da A., não sómente se acha incurso na +pena da Ordenação, livro 5.<sup>o</sup>, titulo 22 por ser indisputavel +a illustre qualidade da filha de um desembargador +do paço e do real conselho, além de +outros honrosos empregos litterarios que tinha +exercitado n'este reino e côrte, e o réo apenas +póde reputar-se em um estado indifferente ou +medio entre as pessoas da sua patria, em cuja camara +e officios pouco servem quaesquer pessoas +desoccupadas<sup><a name="pn6" href="#n6">[6]</a></sup>, e como tal não convinhavel, nem +civilmente digno d'este casamento; mas tambem +se acha comprehendido na pena da Ordenação, tit. +24. Por tanto, attendendo a não concorrer a prova +e circumstancias para se impor a pena capital +ordinaria, o condemnam em seis annos de degredo, +sem açoutes, para o reino de Angola, e 20$000 +reis para as despezas da relação, e no perdimento +de toda a sua fazenda para a A. na fórma da +lei e custas dos autos. E o escrivão não fará publica +esta sentença sem primeiro se passarem as +ordens necessarias para o dito réo ser preso, e +<span class='pagenum'>[67]</span> +com effeito se achar na cadêa da côrte. Lisboa 31 +de maio de 1760.==<i>Giraldes, Franco, Xavier da +Silva, Vidigal, doutor Cunha, Silva.</i>»</p> + +<p>--Agora--disse o escrivão embocetando os +oculos--snr. Felix, seja homem, tenha paciencia, +e dou-lhe de conselho que não perca tempo em +appellações. Seis annos passam depressa. Em toda +a parte se come o pão de Deus ou do diabo. O +que se quer é que seja pão.</p> + +<p>E como o condemnado lhe divisasse nos olhos +um geito de piedade, animou-se a perguntar-lhe, +debulhado em lagrimas:</p> + +<p>--Poderei levar minha mulher?</p> + +<p>--Se ella quizer, ninguem a póde privar. +Adeus, infeliz. Tenha alma...</p> + +<p>Quando o escrivão sahia, encontrou no pateo +da cadêa D. Isabel Quintella, com o menino no +collo, coberta de pó e extenuada de fadiga. Loureiro, +conhecendo-a, chamou-a de parte, precaviu-a +do succedido para que a sua chegada ao +quarto do marido não exacerbasse a agonia do +preso. Reanimou-a com a esperança de o acompanhar +ao degredo, e prometteu-lhe servil-a em +tudo que podesse, pois que já agora o erro do +casamento era irreparavel.</p> + +<p>Entrou Isabel no quarto do esposo com o semblante +constrangidamente sereno; mas elle, apenas +<span class='pagenum'>[68]</span> +a viu, rompeu em alto choro, e, tomando o +filho nos braços, pedia a Deus que lhe valesse por +amor d'aquelle innocentinho.</p> + +<p>A vinda de D. Isabel ao carcere fôra um logro +ás espias que a mãi lhe pozera. O escudeiro ainda +a perseguira na estrada de Bemfica, ao passo que +ella se evadira por atalhos, esbofada de cansaço +com o peso da criança.</p> + +<p>Quando o carcereiro a intimou a sahir, resistiu, +dizendo que havia de saber alli quem ordenára +a sua prisão na quinta. A mulher do carcereiro +compadecida da pobre esposa e mãi, deu-lhe +agasalho n'aquella noite.</p> + +<p>No dia seguinte, D. Isabel Quintella, bem ou +mal avisada, procurou o ministro conde de Oeiras, +que havia sido particular amigo de seu pai.</p> + +<p>O ministro ouviu-a attentamente, sem lhe improperar +a escolha de marido, e disse-lhe que se +recolhesse a sua casa que ninguem a lá iria incommodar.</p> + +<p>E, perguntando Isabel se poderia acompanhar +ao degredo seu marido, o conde de Oeiras compungiu-se, +e respondeu:</p> + +<p>--Se o ama, vá; que a sua vida aqui não +ha de ser melhor.</p> + +<p>Maria Michaela, sabendo que a filha estava na +casa do marido e o visitava na cadêa, sahiu de +<span class='pagenum'>[69]</span> +novo a solicitar a justiça em nome do seu defunto. +Corregedores e desembargadores, encolhendo +os hombros, davam a perceber que sentiam nas +orelhas os beliscões do conde de Oeiras. Volveu +outra vez a viuva a pedir providencias que impedissem +a ida da filha para Angola. Responderam-lhe +os letrados e os juizes que a lei não a embaraçava.</p> + +<p>Em junho d'aquelle anno de 1760 sahiu o degredado +com a mulher e filho. O conde de Oeiras +mandára pelo mesmo navio uma breve carta ao +governador Antonio de Vasconcellos. Horas depois +do desembarque, Felix Tavares de Almeida +recebia ordem de se apresentar ao governador, +em separado dos outros degredados. Recebeu-o +Vasconcellos com bom rosto e desusada cortezia. +Nomeou-o fiscal das obras do palacio dos governadores, +que se andava então edificando, e coucedeu-lhe na +porção já construida moradia muito decente. +Algum tempo depois, deu-lhe dragonas de +capitão, sem consultar a lei que inhibia os degredados +de tão elevada patente. Felix Tavares +houve-se corajosamente n'um encontro com o +sova Quiandala, que expulsou do Libôllo, aprisionando +os mussões que infestavam a provincia +de Cahenda.</p> + +<p>Este governador, sobre ser severo, era cruel +<span class='pagenum'>[70]</span> +com os criminosos. Um historiador dos governos +de Angola diz que Antonio de Vasconcellos <i>por +qualquer desordem fazia trabalhar o sarilho da +polé</i>, e acrescenta: <i>esta inflexivel severidade, que +tanto refreava os maus, deu origem a intentarem +elles um dos mais horrendos e temerarios crimes +que se podem imaginar</i><sup><a name="pn7" href="#n7">[7]</a></sup>.</p> + +<p>Desde o anno de 1756 que as levas de degredados +eram extraordinariamente numerosas. Sentenciados +quasi todos por ladrões, eram esses os +que o conde de Oeiras não vingára pendurar nas +forcas erguidas em Lisboa, depois do dia do terremoto. +Entre os quaes levára pena de degredo +perpetuo um cigano de Torres Novas, chamado +José Alvares, facinoroso que o conde de Obidos, +notavel protector de ciganos, salvára do patibulo +em paga de serviços particulares.</p> + +<p>José Alvares de Oliveira, que não incutira +medo a Antonio de Vasconcellos, e experimentára +o citado <i>sarilho da polé</i>, traçou matar o governador, +a officialidade, os ministros e pessoas mais +gradas de Loanda, saqueando depois as casas, e +abalando d'alli para o Brazil em navio que estava +<span class='pagenum'>[71]</span> +prompto a sahir com despachos. <i>Um dos conjurados</i>, +diz o referido historiador, <i>descobriu tudo ao +seu capitão</i>.</p> + +<p>O capitão era Felix Tavares de Almeida que +simultaneamente avisava o governador, e prendia +José Alvares.</p> + +<p>O cigano foi aspado; quebraram-lhe os braços +e pernas em vida. Os outros em numero de +dezenove, foram estrangulados. O governador de +uma das janellas do palacio assistiu ás execuções.</p> + +<p>Em janeiro de 1764 tornou o governador ao +reino. Na mesma monção voltou Felix Tavares +com o indulto de dous annos da sua sentença: +tão valiosas haviam sido as informações que Vasconcellos +mandára do seu capitão ao conde de +Oeiras.</p> + +<p>Em junho d'aquelle anno já o marido de Isabel +Quintella exercia um emprego liberalmente estipendiado +na mesa da consciencia e ordens.</p> + +<p>D. Maria Michaela, que ainda vivia para maiores +zangas, foi obrigada por sentenças successivas +a dar a sua filha o patrimonio que lhe cabia +por inventario.</p> + +<p class="centrado">*<br>* *</p> + +<p>Deixemos agora rodar 71 annos, ao cabo dos +quaes tambem eu figuro n'esta historia.</p> +<span class='pagenum'>[72]</span> + +<p>Conheci em 1835 um desembargador da supplicação, +quasi octogenario, chamado José Pedro +Quintella. Era o filho de Felix Tavares e D. Isabel--aquella +criancinha cujas supplicas o preso offerecia +a Deus como resgate de seu infortunio. O +desembargador Quintella, que muitos annos o foi +da Relação do Porto, suspeito que casou n'esta +cidade.</p> + +<p>Conheci tambem uma filha d'este magistrado +casada com um bacharel transmontano chamado +José Cabral Teixeira de Moraes, que advogou alguns +annos em Lisboa na rua Nova do Carmo.</p> + +<p>Vi, recentemente nascida, em 1835 uma menina +filha d'aquella senhora, que então morava +em uma rua que liga o largo do Carmo ao largo +da Abegoaria. Em 1861, o nervoso poeta Raymundo +de Bulhão Pato mostrou-me no theatro +de D. Maria uma formosa senhora, que era a +criancinha que eu vira ao lado de sua mãi, no +dia seguinte ao do seu nascimento; contemplei-a +através de lagrimas, porque a imagem de meu +pai cobriu de luto estas reminiscencias da minha +infancia.</p> + +<p>N'esse tempo, ainda vivia em Lisboa o filho +d'aquelle irmão de D. Isabel que aleivosamente +arguira de ladrão seu futuro cunhado. Chamava-se, +como seu avô, Ignacio da Costa Quintella. Era +<span class='pagenum'>[73]</span> +grão-cruz da ordem da Torre-Espada, vice-almirante, +ministro e secretario de estado honorario, +porque havia sido ministro do reino no Brazil e +da marinha em Portugal nos annos de 1821 e +1826. Além d'isso era escriptor distincto porque +escreveu os <i>Annaes da marinha portugueza</i>, e +notavel poeta porque verteu as odes de Horacio +publicadas nos <i>Annaes das sciencias e artes</i>.</p> + +<p>Seu primo, o filho de Felix Tavares, posto que +mais obscuro socialmente, hombreava com elle +nas graças do talento. Traduziu uma ecloga de +Pope publicada no <i>Jornal de Coimbra</i>, e escreveu +originalmente <i>O Redactor</i>, ou <i>Ensaios periodicos +de litteratura e conhecimentos scientificos, destinados +para illustrar a nação portugueza</i> (1803).</p> + +<p>Como sabem, os descendentes de Felix Tavares +eram mui proximos parentes de Farrobos, gerados +de Quintellas; mas, entre as duas familias, +corriam ainda litigios de partilhas que contavam +setenta annos. Odiavam-se reciprocamente. Uns +viviam opulentissimos, outros em mediania decente. +Hoje, parte dos que então estadeavam +fausto de principes, vive da caridade da defunta +viuva do imperador do Brazil. Os outros não sei +o que são. Creio que é viva ainda a bisneta de +D. Isabel Thereza de Sousa Quintella. Se este livrinho +lhe chegar ás mãos, indulte o peccado de +<span class='pagenum'>[74]</span> +murmuração da vida alheia a um velho que, tendo +sete annos de idade, a beijou na face quando +s. exc.<sup>a</sup> contava algumas horas de existencia.</p> + +<p>Oh!... mas, a final, que immensa tristeza me +deixam no coração estas paginas!...</p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a name="n6" href="#pn6">[6]</a></sup> Não percebemos esta salgalhada.</p> + +<p><sup><a name="n7" href="#pn7">[7]</a></sup> Memorias contendo a biographia do vice-almirante Luiz +da Motta Fêo e Torres, etc, por J. C. Fêo Cardoso de Castello +Branco e Torres. <i>Paris</i>, 1825, pag. 260 e seg.</p> +</div> +<hr> + + + +<a name="cap11"></a> +<h1>PROBLEMA HISTORICO A PREMIO</h1> + + +<p style="text-indent: -2em; margin-left: 2em; font-size: 0.8em;">(O premio offerecido a quem dilucidar a escuridade do caso +é uma collecção de <i>Fados</i>, encadernada em marroquim, +de parçaría com os <i>Musicos</i>, do snr. Joaquim de Vasconcellos, +edição quasi em esgoto).</p> +<br> + +<p>O snr. Miguel Dantas escreveu um livro cheio +de noticias ácerca de cada impostor que se intitulou +<i>D. Sebastião</i>, rei de Portugal.</p> + +<p>O ultimo chamou-se Marco Tullio Catizone, +da Calabria. A respeito d'este, o snr. Dantas exhibe +documentos desconhecidos; e, na opinião +do snr. Pinheiro Chagas, não ha mais que dizer.</p> +<span class='pagenum'>[75]</span> + +<p>Ha.</p> + +<p>Affirma o snr. Dantas, fundado em provas, que +Marco Tullio, o embusteiro, foi condemnado ao +córte da mão direita, á forca, e á exposição do +cadaver feito pedaços, sentença executada em S. +Lucar de Barrameda, aos 23 de setembro de +1603.</p> + +<p>Essas provas, se bem me recordo, não tem +maior canção que a devida ao nome do historiador +sério.</p> + +<p>O documento que s. exc.<sup>a</sup> não viu nem indicou +é a <i>sentença de Clemente VIII</i> a favor d'esse +homem, que se intitulava <i>D. Sebastião</i>.</p> + +<p>Este importantissimo depoimento na causa do +pretendido rei nunca foi impresso. É o seguinte:</p> +<br> + +<p>«Clemente VIII, por Divina Providencia servo +dos servos de Deus: Saude e paz em Jesus Christo +Nosso Senhor, que de todos é verdadeiro remedio +e salvação. Fazemos saber a todos nossos filhos +carissimos, que debaixo da protecção do Senhor +virem com fervorosa fé em especial aos do reino +de Portugal, que o nosso mui amado filho D. Sebastião +Rey de Portugal se apresentou pessoalmente +n'esta Curia Romana no sacro Palacio, fazendo-nos +com muita instancia e supplica o mandassemos +meter na posse do seu reino de Portugal +<span class='pagenum'>[76]</span> +pois era o verdadeiro e legitimo Rey delle; que +por peccados seus e juiso divino se perdera em +Africa indo peleijar com ElRey Maluco no campo +de Alcacere quibir, e the agora estivera oculto e +não quizera dar conta de si por meter tempo em +meio dos males que succederam por seu conselho, +e que para justificar ser o proprio estava +prestes para dar toda a satisfação que lhe fosse +pedida: E considerando nós o cazo, como somos +juiz universal entre os principes catholicos, mandamos +por conselho dos cardeaes em conclave +que apparecesse; e, feito, se fez examinar com +muita miudeza como convinha a tal cazo<sup><a name="pn8" href="#n8">[8]</a></sup> de que +se fizeram processos em varias naçoens e no dito +<span class='pagenum'>[77]</span> +Reyno de Portugal por pessoas qualificadas, assim +dos signaes do seu corpo, como de outros mais +miudos do seu reino, ajunctando as partes por +onde andou, e de sua vida e costumes, como outras +particularidades importantes para a verdade +ser mui claramente sabida, não nos fiando por +uma só vez, mas por muitas, e por pessoas constituidas +em dignidade sacerdotal, e por seculares +titulares, do que se fizeram os processos <i>que no +Archivo desta curia se pozeram</i>, e que uns e outros +se conferiram; e visto em Conclave e perante nós +se verificar ser o proprio Rey D. Sebastião e lhe +pertencer o dito Reyno, como unico herdeiro +d'elle, e assim todas as rendas des a data d'este +para se investir de posse; pelo que, Authoritate +appostolica, por tal o declaramos, e sentenceamos, +e mandamos ao muito Catholico Filipe terceiro de +Hespanha que largue o Reyno em pax, sob pena de +excommunhão mayor <i>ipso facto incurrenda</i> reservada +a nós, não permitindo dilações; como filho +obediente aos mandados Appostolicos deve temer +a ira do Senhor fazendo o contrario; nesta Curia +sob o nosso signal do Pescador a 23 de Dezembro +de 1598.»</p> +<br> + +<p>Este documento não desfigura nem contraria +a historia de Marco Tullio, referida pelo snr. Miguel +<span class='pagenum'>[78]</span> +Dantas. O que d'ahi se deprehende é que +Marco Tullio enganára Clemente VIII, depois de +ter enganado os sacerdotes e titulares que depozeram +de sua authenticidade na curia, se é que +os depoentes não mentiram ao summo pontifice +para resuscitarem fraudulentamente D. Sebastião.</p> + +<p>De qualquer modo, se o impostor foi enforcado +em 1603, segundo affirma o snr. Dantas, é impossivel +que esse mesmo, que Clemente VIII sentenciou +como rei em 1598, seja como rei sentenciado +em 1617 por Paulo V.</p> + +<p>Aqui está a sentença de Paulo V:</p> +<br> + +<p>«Paulo V, Bispo de Roma, servo dos servos +de Deus: Ao nosso mui amado filho Phelipe 3.<sup>o</sup><sup><a name="pn9" href="#n9">[9]</a></sup> +Rei de Hespanha, Saude em Jesus Christo Nosso +Senhor, que de todos é verdadeiro remedio e salvação: +Fazemos saber que por parte de ElRey D. +Sebastião, que se dizia ser de Portugal, nos foi +apresentada uma sentença Appostolica de nosso +antecessor Clemente outavo, de que constou estar +julgado pelo verdadeiro Rey e legitimo de +Portugal, nos pedia humildemente mandassemos +por nosso Nuncio assim o declarasse para effeito +<span class='pagenum'>[79]</span> +de se lhe dar a posse pacifica que convinha á boa +Christandade e exemplo dos infieis para que não +tomassem motivo de uzurparem o alheio, e que +mandassemos consultar por nossos Cardeaes, vêr +e examinar a dita sentença com nova justificaçaõ, +e como era o proprio contheudo n'ella: movidos +do Amor Paternal, para evitar escandalos que podiam +resultar, e guerras entre christaõs, nos pareceu +para mais suave meio, mandar-vos avizo +por nosso Nuncio, não permitindo dardes ocaziaõ +para que se valesse das Armas da Igreja, antes +logo com effeito largareis o Reyno a seu dono, +como estava mandado pela sentença junta, na +qual não houve satisfação, cousa estranha entre +os Principes; pelo que <i>authoritate appostolica</i>, e +que nesta parte uzamos, mandamos a vós Philipe +3.<sup>o</sup>, Rey de Hespanha, em virtude da sancta obediencia +que dentro de nove mezes, depois da notificação +d'esta, largueis o dito Reyno de Portugal +a seu legitimo successor D. Sebastião mui pacificamente +sem efuzaõ de sangue e sob pena de excommunhão +maior <i>lata sententia</i> da maneira que +está julgada: Dada em esta Curia Romana sob o +signal do Pescador a 17 de março de 1617.»</p> +<br> + +<p>Temos, por tanto, segunda sentença a favor do +mesmo que a obteve em 1598, e que a historia +<span class='pagenum'>[80]</span> +melhor documentada e <i>estudo definitivo</i>, no conceito +do snr. Pinheiro Chagas, dá como enforcado +em 1603.</p> + +<p>Mas este mesmo homem impetrou terceira +sentença do papa Urbano VIII. Se fosse D. Sebastião +devia, a esse tempo, orçar pelos setenta e +seis annos. A sentença de Urbano é mais pathetica +por que ahi já o decrepito exul pede que o +não esbulhem do seu direito porque tem mulher +e filhos.</p> + +<p>A terceira sentença reza assim:</p> +<br> + +<p>«Urbano VIII por Divina Providencia Bispo de +Roma, Servo dos Servos de Deus. A todos os Arcebispos +e Bispos e pessoas constituidas com dignidade +que vivem debaixo do amparo da Igreja +Catholica, em especial aos do Reyno de Portugal +e suas conquistas, saude e paz em Jesus Christo +nosso Salvador que de todos é verdadeiro remedio +e salvaçaõ: Fazemos saber que por parte do +nosso filho D. Sebastião Rey de Portugal nos foi +aprezentado pessoalmente no Castello de Sancto +Angelo duas sentenças de Clemente Outavo e Paulo +Quinto nossos antecessores, ambas encorporadas, +em que constava estar justificado largamente +ser o proprio Rey e nesta conformidade estava +sentenciado para lh'o largar Felipe 3.<sup>o</sup> Rey de +<span class='pagenum'>[81]</span> +Hespanha, ao que não quiz nunca satisfazer; pedindo-nos +agora tornassemos de novo a examinar +os processos, e constando ser o proprio o mandassemos +com effeito investir da posse do Reyno, +pois tinha filhos e mulher, e não podia perder +seus direitos, que prejudicava a seus herdeiros, o +que mandamos brevemente e por extenso vêr +como convinha em cazo de tanta importancia; e +considerando como nos convem julgar e detreminar +a cauza dos Principes christãos, mandando +dar vista a Felipe Quarto que hoje vive, cometendo +a cauza ao Imperador, e a ElRey de Inglaterra +e a ElRey de França, com o que se passou e se +resolveu que lhe desse posse do Reyno de Portugal; +e hora por parte do dito Rey D. Sebastião +nos foi pedido pozessemos o cumpra-se na sentença, +e mandassemos passar nosso Breve Appostolico +com excommunhão rezervada a nós para +que nenhum fiel christaõ lhe impida sua posse, +nem tome armas offensivas contra elle e seus soldados +e Ministros; e vendo nós com os nossos +Cardiaes do nosso Conselho sua justiça, com maduro +conselho lh'o concedemos: pelo que vos +mandamos que depois da notificação desta a nove +mezes primeiros seguintes que assignamos pelas +trez canonicas admoestaçoens, dando repartidamente +trez mezes por cada canonica admoestaçaõ, +<span class='pagenum'>[82]</span> +termo peremptorio, tanto que vos for apresentado +e da minha parte mandado, façaes por +vossos religiosos assim Seculares como Regulares +publicar-se nos pulpitos das egrejas e praças publicas +que.....<sup><a name="pn10" href="#n10">[10]</a></sup>. Dada em esta Curia Romana +sob o signal do Pescador aos 20 de outubro de +1630.»</p> + +<hr style="width: 4em;"> + +<p>Ahi está o problema.</p> + +<p>Quem era este homem?</p> + +<p>Não podia ser o rei da Ericeira, nem o rei de +Penamacor, nem o pasteleiro do Escurial, nem +Marco Tullio Catizone. Os quatros impostores eram +já mortos.</p> + +<p>Então quem era?</p> + +<p>Ferdinand Denis, quando relata o caso de +Marco Tullio, diz que este homem é um dos problemas +insoluveis da historia.</p> + +<p>Mas o snr. Dantas desatou o nó. O aventureiro +foi enforcado em 1603.</p> + +<p>Houve um quinto Sebastião falso?</p> + +<p>Onde iremos buscar-lhe o rasto na historia?</p> + +<p>É possivel que o snr. Dantas não escrevesse +<span class='pagenum'>[83]</span> +a palavra definitiva a respeito do homem sentenciado +por tres pontifices que o viram?</p> + +<p>Ahi fica o problema.</p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a name="n8" href="#pn8">[8]</a></sup> Os signaes que D. Sebastião tinha no corpo eram estes: +A mão direita maior que a esquerda; o braço direito +maior que o esquerdo; o tronco dos hombros até á cinta desproporcionalmente +curto e curvado, de modo que os seus gibões +não cahiam bem n'outro corpo; da cinta aos joelhos +muito comprido; a perna e o pé direitos maiores que os esquerdos; +os dedos dos pés quasi iguaes. No dedo minimo um +calo grande; na espadoa esquerda um signal pardo e cabelludo; +outro signal preto na espadua direita; sardas pouco perceptiveis +em rosto e mãos; faltava-lhe um dente no queixo +inferior, que lhe fôra tirado por Sebastião Netto; o beiço +grosso da parte direita, pés pequenos, pernas algum tanto +tortas.</p> + +<p>O que ha mais importante historicamente n'esta nota é +ter sido o dente de sua alteza extrahido por Sebastião Netto.</p> + +<p><sup><a name="n9" href="#pn9">[9]</a></sup> As alterações orthographicas constam do texto, que +trasladamos quasi pontualmente.</p> + +<p><sup><a name="n10" href="#pn10">[10]</a></sup> Seguem-se algumas linhas que a humidade tornou inintelligiveis.</p> +</div> +<hr> + + + +<a name="cap12"></a> +<h1>DESASTRE DO SANTO OFFICIO NO PORTO</h1> + + +<p>A inquisição de Portugal, em 1704, confiava +tanto na espada flammejante de S. Domingos, que +nem as esquadras britannicas lhe incutiam pavor.</p> + +<p>N'aquelle anno, morava no Porto uma familia +ingleza de appellido <i>Fiuza</i>. Não assevero que assim +se escrevesse ou pronunciasse o appellido; +mas assim o acho escripto em documento coevo, +extrahido de um processo do santo officio. Esta +familia era catholica romana.</p> + +<p>Havia no Porto outra familia ingleza herege. +Appellidava-se <i>Mosheim</i>, que os escreventes do +tribunal dominicano escrevem Mossão.</p> + +<p>Á familia catholica pertencia uma menina +chamada Isabel. Á protestante um moço chamado +Thomaz.</p> +<span class='pagenum'>[84]</span> + +<p>Amavam-se os dous contra vontade de seus +paes. Eram ambos abastados e bem procedidos; mas +tinham de permeio o inferno. Na opinião +dos Fiuzas a familia Mosheim estava condemnada +ás penas eternas. Os Mosheim, por sua parte, diziam +que os Fiuzas eram lenha secca para as fornalhas +infinitas.</p> + +<p>O pai de Thomaz consentia no casamento, se +Isabel apostatasse do catholicismo. O pai de Isabel +cedia ás supplicas da filha, se Thomaz se convertesse +á verdadeira e unica religião.</p> + +<p>Eram irreconciliaveis os dous inglezes.</p> + +<p>Mas a paixão de Isabel pôde mais que o pai e +que o esteio da fé.</p> + +<p>Uma noite, fugiu de casa. Morava em uma +das tres quintas de João Pedróssem, a Villar. +Desceu a Miragaya, e entrou em uma lancha ingleza, +onde a esperavam Thomaz Mosheim e um +padre protestante.</p> + +<p>Ao repontar da manhã, o padre abençoou o +casamento dos dous contrahentes, alli, sobre as +aguas do Douro, em uma formosa alvorada de +agosto, com quatro marinheiros por testemunhas.</p> + +<p>Feito isto, o sacerdote lutherano foi em demanda +do inglez catholico, e disse-lhe que acabava +de abençoar o casamento de Isabel com +Thomaz, e lhe ia pedir que perdoasse a sua filha +<span class='pagenum'>[85]</span> +pelo amor de Deus. O velho inglez arrepellou as +barbas, injuriou o padre, e bradou tres maldições +á filha e á sua posteridade.</p> + +<p>Divulgou-se o successo na cidade.</p> + +<p>Ao outro dia, Carlos da Rocha Pereira, commissario +da santa inquisição, no Porto, acompanhado +de alguns officiaes, entrou em casa de +Thomaz Mosheim, e prendeu Isabel em nome do +santo officio. Ella, traspassada de terror, seguiu +aquelle homem que tinha nas palavras a rijeza +de uma tenaz de tortura. Foi conduzida ao aljube +ecclesiastico, e interrogada.</p> + +<p>A colonia inglesa, assim que soube da prisão +de Isabel Fiuza, reuniu-se em casa do seu consul. +Sahiu o magistrado á frente dos queixosos, e +pediu audiencia ao vigario geral. Reclamou a ingleza +em termos solemnes com ameaças. O vigario +geral amedrontou-se; mas disse que não podia +soltar a herege, sem ter consultado os inquisidores +de Coimbra.</p> + +<p>E, no em tanto, a noiva chorava incommunicavel +no aljube ecclesiastico.</p> + +<p>Foi encarregado o commissario Carlos da Rocha +Pereira de consultar os inquisidores de Coimbra. +Estes, vacillando na resposta, consultaram o +conselho geral, que residia em Lisboa, no seguinte +officio, que lá chamavam <i>Conta</i>:</p> +<span class='pagenum'>[86]</span> +<br> + +<p>«O commissario do Porto Carlos da Rocha +Pereira nos dá conta pela carta inclusa do matrimonio +que celebrou Isabel Fiuza, catholica romana, +ingleza, com Thomaz Mossão, inglez herege, +no rio Douro, em uma lancha ingleza; e nos remette +o auto de perguntas, que lhe fez, depois de +presa no aljube ecclesiastico da mesma cidade, +em que confessa o mesmo matrimonio; e, no +mesmo correio, dá conta aos inquisidores Affonso +Cabral Botelho, e deputado Francisco Carneiro +de Figueirôa, pela carta junta, do reparo que na +dita cidade faziam os inglezes da prisão do ordinario; +e que ouvira que o seu consul se queria +queixar a sua magestade; e, posto nos pareceu +que deviamos proceder contra a dita Isabel Fiuza, +na forma da disposição do <i>Regimento</i>, liv. 3.<sup>o</sup> +tit. 16, §. 2.<sup>o</sup>, o duvidamos fazer pelas circumstancias +referidas, e reparo do consul; e assim +recorremos a v. ill.<sup>ma</sup> para nos ordenar o que devemos +obrar n'esta materia. Coimbra em mesa +18 de agosto de 1704.==<i>Antonio Portocarreiro, +Affonso Cabral Botelho.</i>»</p> +<br> + +<p>O conselho da santa inquisição, desdenhando +as ameaças do consul e a opinião dor rei a tal respeito, +respondeu, passados quarenta dias:</p> +<span class='pagenum'>[87]</span> +<br> + +<p>«Os inquisidores responderam ao vigario geral +que, suppostas as circunstancias, póde conhecer +do caso de que se faz menção na fórma +que lhe parecer. Lisboa 26 de setembro de 1704.==<i>Carneiro, +Moniz, Hasse, Monteiro, Ribeiro, +Rocha.</i>»</p> +<br> + +<p>E, no em tanto, Isabel conseguira receber no +aljube ecclesiastico alguns padres de notoria virtude +que a reduzissem á religião catholica e a +desatassem do marido herege.</p> + +<p>O vigario geral lisonjeára-se grandemente com +a confiança delegada pelo conselho geral; mas +via-se entalado entre a fé catholica e o consul +inglez.</p> + +<p>Depois de grandes prelios que as duas potencias +lhe travaram na consciencia, o magistrado ecclesiastico +resolveu processar Isabel, visto que +ella, impenitentemente e contumaz, persistia em +querer o seu marido assim herege e condemnado +ao sempiterno horror onde ha o perpetuo ringir +de dentes.</p> + +<p>Esta deliberação foi communicada ao consul, +que a ouviu com um sorriso que o vigario geral +não percebeu porque era sincero, virtuoso e bonacheirão.</p> + +<p>N'esse mesmo dia, o consul teve uma conferencia +<span class='pagenum'>[88]</span> +secreta com quatro capitães de navios inglezes, +ancorados no Douro.</p> + +<p>Á volta das onze da chuvosa noite de 7 de outubro, +pela porta da Lingueta e pela dos Banhos +entraram os muros da cidade trinta marinheiros +que por diversos pontos confluiram ao aljube ecclesiastico, +situado na visinhança da Sé.</p> + +<p>A guarda d'este carcere era indigna de hoste +ingleza tão numerosa. O santo officio confiava +muito dos ferrolhos, e dispensava as escopetas da +milicia; mas nunca lhe negrejára na mente a hypothese de +que os esbirros e carcereiros, tangidos +por valentes sôcos britannicos, iriam libertar da +masmorra um dos seus presos.</p> + +<p>Foi o que aconteceu n'aquella noite funesta +para os fastos do santo officio, e para os queixos +dos quadrilheiros. Isabel que não podera ser prevenida, +quando ouviu a deshoras o rodar de +portas nos gonzos, cuidou que ia ser transferida +aos carceres de Coimbra ou Lisboa. Estava em +joelhos com as mãos postas, quando Thomaz +Mosheim, ladeado de marujos athletas, entrou no +recinto, e a custo a viu ao clarão de uma lampada +que alumiava um crucifixo.</p> + +<p>E ella, reconhecendo-o, lançou-se-lhe nos +braços, e perdeu o alento.</p> + +<p>Um dos quatro colossos vermelhos, que o seguiam, +<span class='pagenum'>[89]</span> +tomou-a nos braços, como quem aconchega +do peito uma pomba assustada.</p> + +<p>Depois, era triste de vêr-se como aquelles +poucos guardas do aljube, porque não percebiam +o regougar dos saxonios, em vez de palavras eram +intimados a pontapés para que entrassem no carcere +devoluto da ingleza. E, todos elles--digamol-o +com dôr de portuguezes e de catholicos--lá +ficaram fechados, apalpando as partes contusas.</p> + +<p>Antes do arraiar da aurora, uma escuna ingleza +balouçava-se defronte do castello da Foz, á +bocca da barra. Assim que amanheceu, as velas +trapejavam com prospero vento.</p> + +<p>Isabel, ainda prostrada no seu beliche, pedia +ao esposo que a convencesse de que ella não estava +louca nem sonhava. E elle, o doudo de paixão +e alegria, lá conseguiu convencel-a de que o +Deus do céo e da terra, que era o Deus de ambos, +a tinha alli bem acordada para a suprema felicidade +d'este mundo.</p> + +<p>Que fez o vigario geral depois de tão insolito +ultrage? Consultou os inquisidores de Coimbra. +Os inquisidores de Coimbra consultaram o conselho +geral. O conselho geral consultou o rei. Fez-se +um profundo silencio. Ninguem fallou mais +d'este caso, senão eu.</p> +<span class='pagenum'>[90]</span> + +<p>Já que estou com as mãos nas cinzas ensanguentadas +do santo officio, hei de dizer ao leitor a +razão que assistiu aos inquisidores que em 1601 +mandaram ensambenitar e queimar uma rica e +gentil dama, chamada Violante Mendes e seu marido +Francisco Borges, ambos de Chaves.</p> + +<p>E, trasladando a denunciação, que é a primeira +peça do processo, dou aos curiosos noticia +do modo como semelhantes instrumentos se lavraram.</p> + +<p>Estamos em Chaves, no dia 28 de maio de +1591, em casa do vigario geral, onde são inquiridos +os denunciantes, que são tres, e todos sacerdotes. +O escrivão James de Moraes escreve o seguinte:</p> +<br> + +<p>«Anno do nascimento de Nosso Senhor Jesus +Christo de 1591, aos 28 dias do mez de maio do +dito anno, na Villa de Chaves, nas pousadas do +licenciado Gaspar da Rocha Paes, vigario geral no +temporal e espiritual n'esta vigararia comarca +da dita villa, pelo ill.<sup>mo</sup> snr. D. fr. Agostinho de +Jesus, pela mercê de Deus e da santa sé apostolica, +arcebispo, senhor de Braga, primaz, etc. Presente +elle appareceu o padre João de Mattos, morador +<span class='pagenum'>[91]</span> +em a dita villa, o qual trouxe a mostrar a +elle vigario uma peça de <i>marfil</i> (marfim), que mostrava +ser de feição de uma bezerrinha, e sómente +lhe faltava as pernas, e braços que estavam quebrados, +e assim os corninhos espontados, o qual +disse que a achára na mão de André, moço de 16 +annos, filho de João Rodrigues do Campo, arrabalde +d'esta villa; que por lh'a vêr na mão lh'a +pediu que lh'a mostrasse, o qual lh'a mostrou; e +por a dita bezerrinha ser tal como dito é, e além +d'isso cheirar muito a almiscar, e parecer estar +em parte...<sup><a name="pn11" href="#n11">[11]</a></sup>, e lhe não parecer bem, lh'a trazia +a mostrar por a pedir ao dito moço André. O qual +André presente disse que era verdade que aquella +peça, indo elle André hoje n'este dia a casa de +Pero Fernandes, escrevente d'esta villa, á escóla, +para o ensinar a lêr, a achou debaixo de uma arca, +e ao tempo que a achou sem ninguem o vêr a +guardou, e levou, e andou mostrando a algumas +pessoas entre as quaes foi ao dito padre João de +Mattos, e a Mathias de Barros cavalleiro d'esta +dita villa; e lh'a tomaram. E logo outro sim appareceu +Pedro moço de 16 annos, filho do dito +Pero Fernandes escrevente acima dito, e por elle +foi dito que era verdade que aquella bezerrinha +<span class='pagenum'>[92]</span> +elle dito Pedro a achára na rua do Sol, d'esta villa, +no meio da rua defronte da casa de Francisco +Borges, em que hora (<i>agora</i>) elle vive, que é +de Diogo Ferreira d'esta mesma villa, o que poderia +haver um mez pouco mais ou menos, e lh'a +viu achar Lazaro, filho que ficou de Gaspar de +Magalhães. E depois de assim a achar a levára +para casa como dito tem sem outra cousa alguma, +e a trazia em casa sem entender o que era; e +andava ahi em casa por detraz das arcas. E estando +assim para se fazer este auto chegou o padre +Gaspar Dias, e o padre Antonio de Magalhães, +ambos d'esta dita villa, e disseram, que estando +ambos juntos, e vindo pela porta do dito Francisco +Borges acima dito, estando Gaspar Teixeira +Chaves á sua janella, lhes disseram elles que se +achára uma bezerra, não sabendo onde, como na +verdade não sabiam; e, estando n'esta pratica da +dita bezerra, disse uma moça que se chama Maria +de Villar de Nantes, e criada do sobredito Francisco +Borges, e outra moça pequena, outro sim +criada de casa por nome Madanella, disse a grande +rindo-se: <i>Senhores, isso é de cá.</i> E elles ambos +passaram seu caminho sem responder nada. E +logo veio atraz d'elles a dita moça Madanella, e +elles a chamaram, e não quiz vir, e foi a casa do +dito Francisco Borges, e tornou logo a sahir, e +<span class='pagenum'>[93]</span> +veio ter com elles ditos padres, e pediu a elle dito +padre Antonio de Magalhães que lhe desse a vaquinha, +e elle lhe perguntou se era sua, e a dita +moça que sim era sua, que viera de Lisboa e que +a trazia o menino na mão, e que em algum tempo +elle dito padre Gaspar Dias ouviu dizer aos antepassados +que uma Branca Manoel em Lisboa fôra +queimada, a qual fôra <i>bredona</i> (?) de Violante Mendes +mulher do dito Francisco Borges, e o vinha denunciar +e dizer. Estando assim elles ditos padres, +presente elle vigario, chegou a dita moça Madanella +duas vezes, e na primeira disse a elle vigario que +a sobredita Violante Mendes sua senhora mandava +pedir a vaquinha que era do seu menino; e da +segunda que tornou disse, que a sobredita sua +senhora a tornava a mandar que por amor de +Deus lhe désse a vaquinha que era do seu menino +que a perdera havia quatro dias. E de tudo +mandou elle vigario fazer este auto, e assignou +com os ditos padres aos quaes todos tres deu juramento +dos Santos Evangelhos que n'esta parte +tivessem todo o segredo como cousa do santo officio, +e elles assim o prometteram e juraram e +assignaram que a tudo se achavam presentes ás +perguntas que se fizeram aos sobreditos moços, +que elle vigario não quiz estivessem presentes ao +fazer do auto, nem que assignassem por não serem +<span class='pagenum'>[94]</span> +capazes de segredo. E eu James de Moraes o +escrevi, e a sobredita vaquinha ficou em poder +d'elle vigario. E eu sobredito escrevi.==<i>Rocha, +Gaspar Dias, Antonio de Magalhães, João de Mattos.</i>»</p> + +<hr style="width: 4em;"> + +<p>Ahi está o corpo de delicto que levou á morte +um homem e uma senhora que tinham um filhinho, +o qual brincava com uma bezerra de marfim +sem pontas nem pernas. Tres ungidos do +Senhor, tres padres denunciantes lá estão na +gloria eterna revendo-se na bemaventarança das +duas almas que elles purificaram no fogo.</p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a name="n11" href="#pn11">[11]</a></sup> Palavra inintelligivel: parece dizer degolada.</p> +</div> +<hr> + + + +<a name="cap13"></a> +<h1>RANCHO DO CARQUEJA</h1> + + +<p>Ha 153 annos que um bando de estudantes, +em Coimbra, acaudilhado pelo mais intrepido e +de peores entranhas, começando por espancar os +archeiros e rondas nocturnas, acabou por matar +quem lhe offerecesse reacção. Chamavam-se <em>do</em> e +<span class='pagenum'>[95]</span> +não <em>da Carqueja</em>, como escrevem todos os que relembram +a funesta existencia d'aquelles rapazes +perdidos. <em>Carqueja</em> e <em>Estopa</em> haviam sido, por +aquelle tempo, dous facinorosos de Vizeu, chefes +dos salteadores. Em honra do primeiro, escolheram +os estudantes o sinistro baptismo do seu bando. +E é de notar e deplorar que alguns da quadrilha +eram padres que cursavam theologia. Depois +de repetidas atrocidades, o governo, a rogos +dos habitantes de Coimbra e lentes da universidade, +enviou a marchas forçadas tropa de infanteria +com alguns esquadrões que chegaram de +madrugada e colheram de sobresalto os criminosos.</p> + +<p>Alguns, bem que não reagissem, entraram +acutilados no carcere, e foram depois morrer no +Limoeiro, em Lisboa. Aqui damos a relação dos +seus nomes:</p> + +<p>O capitão do bando era da Terra da Feira; +chamava-se Francisco Jorge Ayres. João Pedro +Ludovice, natural de Lisboa; o padre Vicente Gomes +Alvares Lobo, do Algarve; Manoel Antonio +Ramos, José Rodrigues Esteves, José Antonio de +Azevedo, Antonio da Costa e Silva, <em>o Pescada</em>; o +padre José da Silva Couto, Miguel Pereira Coelho, +Roque Monteiro Paim, José de Horta, D. Manoel +Alexandre da Costa, todos de Lisboa; Jacintho de +<span class='pagenum'>[96]</span> +Figueiredo, natural de Almeida; José Pereira Manojo, +brazileiro; o padre Francisco Pereira Goes, +natural de Pereira; José da Cunha Borges, do +Alemtejo; Pedro Gomes Barbosa, de Salvaterra; +Lourenço Pimenta, Antonio Maceiro, Thomaz da +Silva, João dos Santos, todos de Coimbra. Estes +foram os presos conduzidos a Lisboa, afóra um +estudante de Aveiro, cujo nome não sabemos, e +um filho do confeiteiro de Loures, muito conhecido +n'aquelle tempo. Um dos mais façanhosos, +Francisco de Sá, natural de Evora, pôde evadir-se +de Coimbra para aquella cidade, e d'alli +para Hespanha. O juiz dos orphãos de Evora, a +quem fôra recommendada a captura de Francisco +de Sá, procedeu negligentemente, d'onde lhe resultou +ir por ordem de el-rei carregado de ferros +para o Limoeiro.</p> + +<p>O estudante Francisco Jorge Ayres, capitão da +malta, foi degolado no Pelourinho de Lisboa em +junho de 1722.</p> + +<p>Antonio da Costa e Silva, de alcunha <em>o Pescada</em>, +e José de Horta morreram na cadêa.</p> + +<p>A maior parte dos outros cumpriu sentença +de degredo.</p> + +<p>Entre os presos havia um poeta, D. Manoel +Alexandre da Costa, neto do primeiro conde de +Soure, filho de D. Rodrigo da Costa, viso-rei da +<span class='pagenum'>[97]</span> +India. Este fidalgo, ao saber que seu filho fôra +preso na cáfila dos scelerados, adoeceu de vergonha, +e morreu n'esse mesmo anno de 1722, aos +16 de novembro, quando o filho ainda estava no +Limoeiro, esperando a sentença.</p> + +<p>O protector deste moço era o marquez de Marialva, +a quem o estudante, desde que o prenderam +relatou em toantes, á moda do tempo, as +suas desventuras. É longo o poema, e fastidioso, +sem impedimento do interesse inspirado pela tragedia +do assumpto. Não me dispenso, porém, de +trasladar as quadras que dizem mais ao intento. +Refere o incidente imprevisto da prisão:</p> + +<div class="poesia"> +......................<br> +<br> +<i>Era, em fim, de madrugada,<br> +a hora menos escura<br> +em que o dia irresoluto<br> +nem se esconde, nem se occulta,</i><br> +<br> +<i>Quando com bellicas vozes<br> +pela destra mão avulsas,<br> +pois a eloquencia de Marte<br> +não tem lingua, e não é muda,</i><br> +<br> +<i>Se ouvem de uma, e outra parte<br> +gemer as portas, e ruas,<br> +em o concavo dos montes<br> +o ar ferido retumba.</i><br> +<span class='pagenum'>[98]</span> +<br> +<i>Todos ás janellas chegam<br> +com desordenada chusma,<br> +quem nas janellas não cabe<br> +talvez aos telhados suba.</i><br> +<br> +<i>Quando vem de infanteria<br> +uma bem formada turba<br> +forte como portugueza;<br> +mas tyranna como turca.</i><br> +<br> +<i>Vem tambem destros ginetes<br> +cujos pennachos, e trunfas<br> +se tocavam das janellas<br> +ao movimento das upas.</i><br> +<br> +<i>Por outra parte a justiça<br> +entre os soldados vem junta,<br> +que o ser a justiça armada<br> +não é só para a pintura.</i><br> +<br> +<i>Das casas as portas tomam,<br> +não de todas; mas de algumas,<br> +pois só se emprega a vingança<br> +onde se suspeita a culpa.</i><br> +<br> +<i>Logo de vista tam nova<br> +com diversas conjecturas<br> +todo o prudente se admira,<br> +todo o culpado se assusta.</i><br> +<br> +<i>Que será, que não será,<br> +todo o innocente pergunta;<br> +não o pergunta o culpado<br> +que a mesma consciencia accusa,</i><br> +<span class='pagenum'>[99]</span> +<br> +<i>Quando para o desengano<br> +de tudo o que se murmura,<br> +a esquadra passa da porta<br> +a guarnição que as occupa</i><br> +<br> +<i>Levando a baioneta<br> +mettida, calçada a buxa,<br> +muito valor, pouco termo,<br> +pouca attenção, muita furia.</i><br> +<br> +<i>Assim entram os soldados<br> +pelas casas mais occultas,<br> +dem-se á prisão repetindo<br> +ainda quando nada escuta.</i><br> +<br> +<i>Pois como vinham temendo<br> +os do rancho, cada um cuida,<br> +que cada taboa pregada<br> +mil criminosos occupa.</i><br> +<br> +<i>Não ha cozinha, ou armario,<br> +nem ha chaminé, nem tulha<br> +que logo se não despegue,<br> +logo não se desentupa.</i><br> +<br> +<i>Porém era muito cedo<br> +sem que nenhum tal presuma,<br> +pois a culpa obra-se sempre,<br> +Que a pena espera-se nunca.</i><br> +<br> +<i>Nas camas os acham todos:<br> +mau é que o culpado durma,<br> +porém quem se deita tarde,<br> +claro está que não madruga.</i><br> +<span class='pagenum'>[100]</span> +<br> +<i>Alli sem trabalho os prendem;<br> +porque alli ninguem repugna,<br> +pois não tinham como os corpos<br> +alli as espadas nuas.</i><br> +<br> +<i>Querem fugir; mas não podem,<br> +pois por militar industria,<br> +como estão guardas ás portas<br> +não ha por onde se fuja.</i><br> +<br> +......................<br> +</div> + +<p>Até aqui, não ha razão para grandes piedades; +mas, ao diante, as trovas exhoram a compaixão; +e o caso foi que o marquez de Marialva +salvou do degredo o supplicante poeta; mas não +pôde arrancar o viso-rei das presas do opprobrio +que o mataram.</p> + +<p>Quem visse dezesete annos depois D. Manoel +Alexandre da Costa, obeso doutor em canones, +prior da igreja de Santa Cruz no Minho, e principal +da santa igreja de Lisboa, devia lembrar-se +do socio bastantemente prendado do <em>rancho do +Carqueja</em>, e recommendar á justiça de Deus os +juizes que degolaram Francisco Jorge Ayres, e +absolveram o afilhado do marquez, e sobrinho do +segundo conde de Soure!...</p> + + +<h4>FIM DO 1.<sup>o</sup> NUMERO</h4> +</div> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Noites de insomnia, offerecidas a quem +não póde dormir. Nº1 (of 12), by Camilo Castelo Branco + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOITES DE INSOMNIA *** + +***** This file should be named 24463-h.htm or 24463-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/4/4/6/24463/ + +Produced by Pedro Saborano + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at http://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. 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