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+The Project Gutenberg EBook of Noites de insomnia, offerecidas a quem não
+póde dormir. Nº1 (of 12), by Camilo Castelo Branco
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº1 (of 12)
+
+Author: Camilo Castelo Branco
+
+Release Date: January 31, 2008 [EBook #24463]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOITES DE INSOMNIA ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano
+
+
+
+
+
+BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA
+
+
+NOITES DE INSOMNIA
+
+OFFERECIDAS
+
+A QUEM NÃO PÓDE DORMIR
+
+POR
+
+Camillo Castello Branco
+
+PUBLICAÇÃO MENSAL
+
+
+N.º 1--Janeiro
+
+
+LIVRARIA INTERNACIONAL
+
+DE
+
+ERNESTO CHARDRON
+
+96, Largo dos Clerigos, 98
+
+PORTO
+
+EUGENIO CHARDRON
+
+4, Largo de S. Francisco, 4
+
+BRAGA
+
+1874
+
+
+PORTO
+
+TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOSÉ DA SILVA TEIXEIRA
+
+62--Rua da Cancella Velha--62
+
+1874
+
+
+BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA
+
+
+NOITES DE INSOMNIA
+
+
+
+
+SUMMARIO
+
+_Proemio--Consolação a santos Nazareth--As ostras--Rehabilitação
+do snr. visconde de Margaride--A Rival de Brites de Almeida--Egas
+Moniz--Dous poetas ineditos do Porto--D. João 3.º, o principe
+perfeito--Subsidio para a historia de um futuro santo--O livro 5.º
+da Ordenação, titulo 22--Problema historico a premio--Desastre do
+santo officio no Porto--Rancho do Carqueja._
+
+
+TRABALHOS
+
+DO
+
+EXC.^mo SNR.
+
+CAMILLO CASTELLO BRANCO
+
+DE QUE É EDITOR ERNESTO CHARDRON
+
+*O carrasco de Victor Hugo José Alves*, romance. 1 vol. ... 500
+
+*A freira no subterraneo*, romance historico (traducção). 1 vol. ... 500
+
+*Os amores do diabo*, romance (traducção). 1 vol. ... 800
+
+*Mosaico e silva de curiosidades historicas*. 1 vol. ... 500
+
+*Memorias do bispo do Pará*. 1 vol. ... 500
+
+*Poesias e prosas de Soropita*. 1 vol. ... 500
+
+*A espada de Alexandre*. Córte profundo na questão do homem-mulher e
+mulher-homem, por um socio prendado de varias philarmonicas. ... 240
+
+*Carta de guia de casados*, para que pelo caminho da prudencia se acerte
+com a casa do descanço, a um amigo, por D. Francisco Manoel. Nova
+edição, com um prefacio biographico, enriquecido de documentos ineditos.
+... 360
+
+*Vida d'el-rei D. Affonso VI*, escripta no anno de 1684. Com um
+prefacio. ... 400
+
+*Diccionario universal de educação e ensino*, traduzido e muito ampliado
+nos artigos relativos a Portugal e Brazil. 2 grossos volumes, de 800
+paginas cada um, a 2 columnas. ... 6$000
+
+
+
+
+PROEMIO
+
+
+Esta serie de livrinhos ha de ser uma cadêa com elos de bronze rijos e
+toscos, e elos de pechisbeque flammantes e quebradiços. O bronze é a
+porção prestadía do opusculo; é a pagina que não seria descabida em
+livro de estudo; é a pretenção do author a que a sua obra perdure mais
+de vinte e quatro horas no espirito de quem a lêr.
+
+O pechisbeque é a futilidade que, ao nascer, é acolhida por um sorriso
+do leitor; e, apenas o sorriso esmorece, a impressão esvaíu-se; e a idéa
+fulge e apaga-se sem deixar mais signal que o relampago das noites de
+agosto, e o arrancar da aguia no seio das nuvens.
+
+Ambas as especies pertencem ás minhas noites de insomnia. N'esta
+deploravel enfermidade, que ha seis annos me estila no cerebro gota a
+gota a peçonha da morte, achei traça de me vingar do acaso que embala o
+regalado dormir do meu cão, e me estrondeia nos ouvidos o marulhar das
+vagas entre penhascos. Vou ao jazigo das minhas illusões, exhumo os
+esqueletos, visto-os de truões, de principes, de desembargadores, de
+meninas poeticas á semelhança das que eu vi quando a poesia era o aroma
+dos seus altares. Visto-me tambem eu das côres prismaticas dos vinte
+annos, aperto a alma com as garras da saudade até que ella chore
+abraçada ao que foi. E, depois, n'este festim de mortos, conversamos
+todos; e eu, no alto silencio da noite, escrevo as nossas palestras. Ás
+vezes, entre muitos estridores que me resoam nos ouvidos, o mais
+distincto é o dobre a finados. É quando a aurora reponta: a luz espanca
+as imagens cujo meio de vida é a treva e o silencio.
+
+Venho então sentar-me a esta banca, dou fórmas dramaticas ao dialogo dos
+meus phantasmas, e convenço-me de que pertenço bem aos vivos, ao meu
+seculo, ao balcão social, á industria, mandando vender a Ernesto
+Chardron as minhas insomnias.
+
+Eis a minha vingança, que abrangeria o leitor, se estes livros lhe não
+abonassem horas de somnolenta digestão de alguns artigos substanciosos.
+Estes artigos constarão da nobre sciencia da historia, nomeadamente de
+historia nacional, e muito das cousas pertencentes á fidalguia de raça
+que vai extinguir-se. É tempo de esgaravatar entre as ruinas do edificio
+derruido algumas reliquias aproveitaveis para a comedia humana. Mas nem
+tudo será escavar no lixo. Não vaguearemos sempre ao través dos
+pardieiros dos antigos solares. Alguma vez nos sentaremos na testada da
+serenissima casa de Bragança conversando com os seus duques e monarchas
+n'aquella sem ceremonia permittida á arraia miuda de hoje em dia; mas
+escreveremos as nossas considerações, como lá dizem, de luva branca e
+penna de diamante. Desejamos que a posteridade se entretenha comnosco, e
+com o snr. conselheiro Viale. Elle e nós levaremos aos evos uma sincera
+historia de Portugal, e andaremos os dous, á compíta, a vêr quem maiores
+emborcações de morphina injecta nos nervos das gerações porvindouras.
+
+
+
+
+CONSOLAÇÃO A SANTOS NAZARETH
+
+ _Beati qui lugent_, e não pagam.
+
+ A BIBLIA E EU.
+
+
+Amigo!
+
+Sensibilisou-me até ás lagrimas a noticia da sua prisão no theatro de S.
+Carlos, n'aquella funesta noite da sua citada prisão, como diria o nosso
+collega Jayme José Ribeiro de Carvalho.
+
+Não foi a razão que motivou esta ternura: foi a amizade.
+
+Vossê devia ser preso. Dizer que o espectador póde patear um espectaculo
+desagradavel e caro é duvidar que o espectaculo é que tem direito de
+patear o espectador.
+
+Santos Nazareth ignora as leis do reino expungidas da jurisprudencia do
+Manique, e não tem talvez opinião bem assente ácerca da transmigração
+das almas.
+
+A metempsychose do famoso intendente geral da policia fez-se ha 60
+annos, pouco mais ou menos, na pessoa d'esse alcaide do real alcaçar que
+enviou o meu amigo ao Limoeiro como enviaria Mattos Lobo e Diogo Alves,
+se os colhesse no theatro de S. Carlos em flagrante _banzé_. Admitta o
+plebeismo que tem o fartum fadista da cazerna e da guitarra, que ainda
+hoje chora saudades da Severa, e disputa ás trombetas bastardas de Pedro
+I as reaes delicias da sua progenie.
+
+Quando a imprensa rugiu pelas suas guelas de zinco um rugido grande a
+favor de vossê, as minhas palpebras exsudaram perolas, na hypothese de
+que a intendencia da policia o obrigára a pagar aos quadrilheiros as
+despezas de o conduzirem aos ferros d'el-rei.
+
+É que eu considerando-me em plena monarchia do Pina Manique, lembrou-me
+um caso acontecido ha 89 annos.
+
+Raphael da Silva Braga, na noite de 2 de outubro de 1795, pateou uma
+cantora no theatro de S. Carlos.
+
+O corregedor Pedro Duarte da Silva mandou dous quadrilheiros agarrar o
+espectador desgostoso, e mettel-o no Limoeiro.
+
+No dia seguinte participou o successo ao Manique.
+
+O intendente, informando-se das condições do preso, soube que era pobre
+e tinha familia; e, além d'isso, pateára com tal conhecimento da arte.
+Em consequencia do que, ordena que Raphael seja solto, _pagando 3$200
+reis de diligencia para os officiaes_.
+
+Se alguma vez é permittido a um homem da minha idade soluçar de
+commoção, é agora. Dar a liberdade a um homem pobre, mediante 3$200
+reis, em attenção á sua pobre e consternada familia, é uma cousa bonita
+e lacrimavel!
+
+Aqui lhe dou o traslado d'esta pagina de ouro do Manique, e lhe envio a
+original pela posta, a fim de vossê regalar os seus amigos vaidosos de
+serem de um paiz onde ha isto:
+
+
+«Snr. Pedro Duarte da Silva. Louvo o procedimento que v. m.^ce teve
+contra Raphael da Silva Braga, por ser um dos que hontem á noite deram a
+pateada no theatro de S. Carlos: attendendo porém á sua pobre familia,
+que está em consternação, e a outros motivos justos, que concorrem, v.
+m.^ce o haverá por corrigido, e o mandará soltar, pagando tres mil, e
+duzentos de diligencia para os officiaes. Deus guarde a v. m.^ce Lisboa,
+3 de outubro de 1795.--_Diogo Ignacio de Pina Manique_.»
+
+
+No rodar de 90 annos, desde 1795 até 1874, a poesia do direito, graças
+ás insomnias do doutor Theophilo, defecou os Maniques da prosa dos 3$200
+reis, de modo que vossê não pagou nada, segundo me consta. Isto me faz
+cogitar que o progredir é fatal, e que o snr. barão de Zezere, o
+longobardo,--chrysalida de outra transmigração,--ha de passar a fuzil
+mais polido na cadêa dos intendentes geraes da policia; por maneira que,
+na sua futura metempsychose, já se não distingam vestigios do corregedor
+Marques Bacalhau, façanhoso magistrado de D. João V.
+
+Entretanto, meu amigo, pois que a raça dos Maniques ainda referve nas
+retortas depurantes, aceite o meu conselho:
+
+Antes de entrar na platéa, vá ao camarote das authoridades, e
+pergunte-lhes:
+
+--Com quaes dos quatros pés manifestam v. exc.^as, esta noite, a sua
+opinião lyrica?
+
+E governe-se, consoante a resposta.
+
+
+
+
+AS OSTRAS
+
+
+No Porto, as commoções que sacodem os nervos da grande cidade, são
+raras; mas, se rebentam, são a valer!
+
+No principio d'este anno, estavamos todos quietos, com estas nossas
+caras cheias de ideal, gravidos de philosophias, hypocondriacos, ares
+inglezes, indigestos; mas, sobre tudo, bons visinhos e inimigos de
+novidades.
+
+A quarta pagina das gazetas andava, ha muito, alugada aos varios
+_barateiros_, que se denominam numericamente como as dynastias,
+traspassando a sua qualidade de barateiros n.^o 1, n.^o 2, etc., á
+proporção que quebram, e vão transmittindo a genealogia dos epithetos,
+maneira discreta de esconder os nomes.
+
+Eis que, inesperadamente, se annunciam em letras colossaes AS OSTRAS.
+
+E os litteratos, encarregados de guiarem a corrente da opinião publica,
+escolhendo no seu guarda-joias a mais nitida pedraria de estylo,
+apregoaram as ostras como ha dezenove seculos o fazia Horacio quando as
+afogava no falerno de Mecenas.
+
+O localista do _Primeiro de Janeiro_, com pulso febril, e ternura pelo
+marisco, exclamou: «Abençoado o nome de quem quer que em tempos tão
+doentios nos trouxe medicina tão efficaz e preconisada!... Não são de
+Ostende as ostras que se nos offerecem, frescas, saborosas e
+provocadoras, pela manhã como leite de cabra, ao meio dia como o _lunch_
+á ingleza, á noite como um restaurador das forças perdidas no labutar
+diurno. São de Montijo, igualmente boas, e igualmente irritantes. Vamos
+a ellas!»
+
+Vamos lá! conclamou toda a gente doentia, toda a gente em uso de leite
+de cabra, toda a gente que _lunchava_ á ingleza, e, em summa, toda a
+gente que á noite costumava restaurar as forças, deitando-se a dormir,
+ou extrahindo do goraz cozido o phosporo necessario á sua vida
+intellectual e physica.
+
+Desde o alvorejar das gazetas, confluiram á praça de D. Pedro todos os
+servos que superintendem na culinaria das familias. As massas que
+desembocavam das ruas circumjacentes davam a lembrar os comicios
+d'aquelles dias de vertigem civica, lá quando os irmãos Passos abriam na
+viella da Neta os relampagos do Sinay, e a turbulencia da liberdade alli
+vinha soltar um rugido e ameaçar os tyrannos.
+
+Não assim agora n'estes dias em que o paiz, podre de feliz e anemico da
+sua indigestão de prosperidade, procura restaurar-se pelo marisco.
+
+De mais a mais, os diarios tinham annunciado que as ostras eram GORDAS;
+e, sobre gordas, dizia o _Primeiro de Janeiro_, IRRITANTES. Pela
+qualidade de gordas, o sorriso que brincava nos meus labios, quando
+mandei o meu gallego comprar doze vintens d'aquelle remedio, era um
+sorriso de tão legitima candura como o leitor os tem visto nas bentas
+bochechas dos seraphins que sobem de gatinhas pelas columnas dos
+altares. Quanto a irritantes, como essa virtude me não parecesse a mais
+sadía, mandei ao mesmo tempo comprar a linhaça correspondente.
+
+E, em quanto o criado ia e vinha, consultei, para illudir a impaciencia,
+os meus livros no que havia, através dos seculos, mais averiguado ácerca
+das ostras. Li em Chernoviz que póde uma pessoa comer oito duzias sem
+experimentar o minimo incommodo. Oito duzias--noventa e seis ostras, de
+manhã, como leite de cabra; noventa e seis, como _lunch_ á ingleza;
+noventa e seis á noite para restaurar as forças: ao todo, duzentas e
+oitenta e oito ostras quotidianas que custam no deposito da praça de D.
+Pedro 3$840 reis.
+
+É uma alimentação economica e boa para fortalecer o estomago de um paiz
+pobre. Qualquer sujeito anemico, pallido, que não possa com um gato por
+qualquer parte do mesmo, deve nutrir esperanças de que, no fim de um
+anno, tendo comido cento e cinco mil cento e vinte ostras gordas da
+praça de D. Pedro, que lhe custam um conto quatrocentos e um mil e
+seiscentos reis, póde gozar uma saude mais ou menos gallega.
+
+Assim que o meu criado chegou com dezoito ostras por 240 reis, atadas na
+ponta de um lenço, á guisa de biscoutos de revalenta, duvidei da gordura
+do testaceo, mas afaguei a charneira da concha bivalve, porque só de per
+si a concha tem virtudes medicinaes cuja noticia eu envio aos risos
+jubilosos dos meus amigos. Tenho aqui a _Anchora medicinal_ do grande
+medico Francisco da Fonseca Henriques, e n'ella a pag. 247, _mihi_,
+artigo _Ostras_, leio com estremeções de gaudio: _As conchas das ostras
+queimadas são boas para as queixas das almorreimas._
+
+Isto é o que o _Primeiro de Janeiro_ sabia de fundamento quando abençoou
+o inventor de remedio tão conveniente ás doenças do tempo. Faz-se mister
+grande intuição medica de entranhas a dentro para diagnosticar
+hemorrhoidas universaes na nação.
+
+Das alegrias externas, passei a averiguar a gordura annunciada do
+testaceo hermaphrodita.
+
+Não me pareceu tão gorda a ostra espalmada na concha que podesse
+disputar vantagens a um jantar do Ugolino de Dante na Torre de Piza.
+
+Authorisado pelas idéas que fórmo de gordura, suspeito que o empresario
+d'estas ostras descobriu o segredo de repartir dez por cada casca; ou,
+negociando as cascas em Montijo, as encheu com ameijoas do Cabedelo. É
+uma falsificação engenhosa que merece desculpa em quanto se conservar na
+familia dos testaceos; mas desde que o unico depositario das ostras
+portuenses começar a introduzir nas conchas das ostras pedacinhos de
+bucho de safio, carochas e grillos de salmoura, quer-nos parecer que uma
+duzia d'estes covilhetes por oito vintens não é barato, nem me garante a
+renovação do meu sangue depauperado.
+
+Não obstante, o consummo de ostras no corrente mez, no Porto e
+arrabaldes, tocou uma cifra que seria fabulosa, se as consequencias da
+irritação, previstas pelo _Primeiro de Janeiro_, se não manifestassem
+formidaveis, nos geitos, nos ademanes, nos esgares, nas crispações
+electricas que faiscam dos olhos de toda a gente saturada das ostras do
+unico deposito. Conhece-se que os insultos inferiores, que o pó da
+concha combate, se deslocaram, e evadiram a cupula do edificio humano.
+Os systemas nervosos, levados pela irritação a electróphoros,
+tornaram-se engenhos luminosos que transcendem as mais phantasticas
+idealisações da pyrotechnica. Esta galvanisação de organismos extenuados
+é realmente um espectaculo que honra muito a ostra; mas que tambem póde
+vir a ser nocivo á saude das almas.
+
+Sei que temos recursos antiphlogisticos para combater as irritações,
+desde as cataplasmas de fecula até ás ventosas sarjadas; mas o emprego
+d'estes meios therapeuticos obriga as pessoas timidas a andarem na rua
+com um alforge de drogas, como os antigos physicos, ministrando capilés
+e orchatas a todos os sujeitos que denunciem instinctos inflammados no
+ultimo grau de irritação.
+
+Em nome da moral publica, pedimos ás pessoas irritaveis que se abeberem
+em agua de cevada, quando sentirem que a ostra se lhes insinua
+perfidamente nos seios do coração.
+
+
+
+
+REHABILITAÇÃO DO SNR. VISCONDE DE MARGARIDE
+
+
+S. exc.^a festejou o seu natalicio com um baile, em um dia de jejum, por
+uma noite de janeiro, breve e esplendorosa. O dia era de abstinencia
+carnal, note-se. Creio que o preceito começava á meia noite,
+pontualmente á hora em que a restauração das forças, esvaídas na
+vertigem dos bailados, reclamava varios phenomenos reparadores desde a
+trituração até ao filtramento do chylo no systema sanguineo. Se eu não
+odiasse o palavriado vulgar, diria que os hospedes do snr. visconde
+precisavam de comer.
+
+Á magnitude do appetite correspondeu a magnificencia dos acipipes. Era
+já soada a hora da abstinencia do boi, do perú, da gallinhola, do
+_salmagundy_. E, não obstante, as iguarias condimentosas, a febra, a
+alimentação rija lourejava nos pratos e nas terrinas entre ondulações de
+perfumes. Alguns dos convivas sabiam que o dia ou a noite era de peixe.
+Senhoras de idade canonica, respeitaveis por seus principios e
+observantes das disciplinas da igreja, não vendo alvejar a pescada ou o
+rodovalho entre coxins de batata e cebola, tantalisavam a perdiz em
+molho de villão; mas, cerrando os dentes á invasão do peccado,
+esquivavam-se a sahir do baile com o bolo alimenticio azedado por
+escrupulos. N'este comenos, alguem disse o que quer que fosse a meia voz
+ás pessoas perplexas entre a gallinhola _truffée_ e a religião dos
+Affonsos.
+
+Umas pessoas, depois que ouviram a nova, sorriram, como vencidas de
+tentação deliciosa, e comeram carnes. Outras, invulneraveis e inflexas
+na sua abstinencia, martyrisaram-se com trutas e salmões. Como quer que
+fosse, houve escandalo. Comeu-se volateria e ruminantes em sexta feira.
+Algumas consciencias sahiram do baile do snr. visconde, ás 8 horas e
+meia da manhã, com o peso do estomago sobre si.
+
+A opinião publica, já em Guimarães, já em Braga, ergueu-se á altura dos
+principios, e murmurou. Eu fiz parte d'esta opinião adversa ao
+magistrado superior do districto a quem corre o dever de penitenciar os
+seus hospedes com trutas e salmão em dias de peixe, em memoria dos
+augustos mysterios do christianismo.
+
+Quanto a mim, o snr. visconde era um atheu e os seus hospedes uma cafila
+de heresiarcas. Eis senão quando a imprensa do Porto divulga uma noticia
+que bafejou um halito de jubilo na face de Braga, no perfil de
+Guimarães, e nos tres quartos do paiz. Apresso-me a repetil-a em grifo
+com uma consolação catholica, e tanto ou quê apostolica: _O snr.
+visconde de Margaride tinha obtido dispensa do prelado bracharense para
+que os seus hospedes podessem comer carne._
+
+Orvalhe-se de lagrimas de alegria o rosto da christandade portugueza;
+que eu por mim, quanto um abraço cabe nas potencias da phantasia, aqui
+aperto contra o coração o snr. visconde de Margaride, e felicito os
+catholicos que digeriram innocentemente as suas vitualhas.
+
+
+
+
+A RIVAL DE BRITES DE ALMEIDA
+
+
+A façanhosa forneira de Aljubarrota resiste á incredulidade da critica,
+abordoando-se ás muletas do patriotismo e á pá. Sabe-se pouco das
+proezas de Nuno Alvares e Mem Rodrigues. Nada referem os historiadores
+das apostas e porfias dos cavalleiros do Mestre de Aviz. Porém, que a
+forneira matou sete hespanhoes ebrios, feridos ou prostrados de fadiga,
+isso, que não póde ser honroso porque é vil, aprendem-o as crianças, e
+repetem-o adultos com desvanecimento e orgulho. Por honra da minha
+patria, quero crêr que a lenda da padeira de Aljubarrota é tão
+authentica e verdadeira como a do caldeirão de Alcobaça, apresado no
+arraial de D. João I de Castella. Dêem-se-me honras de Niebuhr n'esta
+cousa do caldeirão de Alcobaça.
+
+Houve outra heroina, mais digna de lembrança, e, todavia, ignorada. Essa
+praticou um feito de nobre coragem, defrontando-se a rosto com o
+inimigo, e derrubando-o.
+
+Foi o caso que em 1762 os hespanhoes, commandados pelo marquez de
+Sarria, invadiram Portugal pela provincia de Traz-os-Montes. A cidade de
+Miranda foi das terras d'aquella provincia a que mais soffreu as
+arremettidas do exercito invasor. Alli perto, passa o rio Fresno, cujas
+margens se communicam por uma ponte. Na extrema esquerda d'esta ponte
+vivia uma mulher casada, cujo marido se alistára nas guerrilhas
+dispersas pelas empinadas penedias do Douro. Um piquete de hespanhoes,
+com seu sargento, passou a ponte do Fresno. O sargento viu a mulher do
+guerrilheiro, que era a mais esbelta e donosa moça da comarca. Postou os
+soldados de atalaia a pequena distancia da ponte, e voltou de noite,
+acompanhado de dous, com o proposito de se fazer amar da aldeã por meio
+do assalto.
+
+Este sargento, em tempo de guerra, não usava das artes maviosas do seu
+patricio Tenorio. Em vez da guitarra e da escada de corda, fiava na
+suspensão das garantias, na quebra do direito internacional, na cronha
+da escopeta, e na pujança de seis rijas espadoas atiradas á porta
+d'aquella Elvira montezinha.
+
+A rapariga, votada ao saque, se não tinha commendador em casa, tinha
+cousa mais infesta ao sargento: era o marido que, por saudade ou receio,
+debandára da horda guerrilheira e fôra, encoberto por entre penhascos,
+pernoitar a casa.
+
+Alta noite, os tres castelhanos bateram á porta.
+
+O portuguez não respondeu; foi ella que assomou na adufa do sobrado,
+perguntando o que pretendiam áquella hora.
+
+O sargento, depois de inutilisar algumas phrases lyricas, tomou o pulso
+á timidez da moça, intimando-a a entregar a praça.
+
+O marido estava ouvindo, e perguntou muito de manso á mulher:
+
+--Quantos são?
+
+--Tres--respondeu ella.
+
+--Deixa-me lá ir, antes que venham mais. E ella, sahindo da janella,
+disse:
+
+--Então vamos lá.
+
+--Tu não venhas.
+
+--Não? isso lá, hei de ir, quer queiras, quer não.
+
+O sargento no entanto voltou-se aos dous soldados e disse:
+
+--A praça rende-se.
+
+D'ahi a minutos, abriu-se a porta da rua.
+
+O guerrilheiro deu uma guinada de tigre para a testada da porta, e
+desfechou um arcabuz em um dos tres, que foi a terra. Dous pelouros ao
+mesmo tempo lhe bateram no peito; mas o portuguez, ao cahir morto,
+levava debaixo de si um dos dous com uma navalha hespanhola embebida nas
+entranhas. Sobrevivêra o sargento aos companheiros, mas sómente o tempo
+indispensavel para que ella o varasse do peito ás costas com o espeto da
+cozinha.
+
+Depois, como sentisse o tropel da soldadesca, travou do marido, desceu
+por um algar escuro e pedregoso á ourela do rio, e cahiu prostrada de
+afflicção, quando conheceu que levava um cadaver. Ao romper da manhã,
+galgou á cumiada da serra, onde estanciavam os camaradas de seu marido,
+e viu de lá as ultimas fumaças da sua casinha, que os soldados
+castelhanos haviam queimado.
+
+Nada mais se sabe d'esta mulher. Não consta, sequer, que o governo de D.
+José I lhe mandasse reconstruir o casebre, acabada a guerra.
+
+Houve um poeta contemporaneo, que a descantou em um soneto jocoso,
+avantajando-a á Brites de Aljubarrota. As musas sérias não acharam a
+heroina digna de poesia grave.
+
+E esse mesmo soneto chocarreiro ninguem o conheceria, se lh'o não
+publicassemos aqui, precedido de um interrogatorio académico:
+
+
+
+_Qual acção é mais memoravel: a da forneira de Aljubarrota, matando os
+castelhanos com a sua pá; ou a da mulher de Traz-os-Montes, matando o
+sargento castelhano com o espeto?_
+
+ SONETO
+
+ _É problema que deve disputar-se,
+ entre os authores de mais nome e nota,
+ se póde essa mulher de Aljubarrota
+ com a de Traz-os-Montes comparar-se._
+
+ _Aquella tem razão para gabar-se
+ de fazer com sua pá tanta derrota;
+ esta, que deixa co'a barriga rota
+ ao sargento, tambem deve estimar-se._
+
+ _E esta, a meu vêr, melhor juizo tinha,
+ pois, vingando o marido seu dilecto,
+ fez o que ao seu genio lhe convinha._
+
+ _Metteu-se-lhe nos cascos o projecto
+ de tratar o hespanhol como gallinha,
+ e, assim que topou um, pôl-o no espeto._
+
+No principio d'este artigo, fallamos de apostas, porfias e promessas de
+cavalleiros, antes de se desfraldarem os guiões e bandeiras na batalha
+de Aljubarrota. Vasco Martim de Mello prometteu pôr as mãos no rei D.
+João I de Castella; Gonçalo Annes de Castello de Vide prometteu ser o
+primeiro que lhe enristasse a lança ao rosto. Estas promessas são
+heroicas; mas houve uma de Martim Affonso de Sousa Chichorro
+extremamente original pela deshonestidade. Vejam com que limpeza de alma
+este fidalgo se preparava para um conflicto de morte, e deprehendam
+d'ahi o que eram as crenças da immortalidade no seculo do cavalleiroso
+Mestre de Aviz.
+
+Na hoste de D. João assignalava-se João Rodrigues de Sá, o das Galés,
+aquelle heroico perfil tão portuguezmente desenhado pelo snr. A.
+Herculano no _Monge de Cistér_.
+
+João Rodrigues de Sá, ainda moço n'aquelle tempo, tinha uma bella irmã,
+abbadessa do mosteiro benedicino de Rio Tinto chamada Aldonsa Rodrigues.
+Martim Chichorro queria muito á gentil prelada, e não resguardava da
+censura os seus amores adulterinos com a esposa do Senhor. Na vespera da
+batalha perguntaram-lhe os fidalgos namorados da ala de Mem Rodrigues
+que promessa era a d'elle.
+
+--Prometto, se escapar da batalha--respondeu o amoroso selvagem--ir ter
+uma novena com a abbadessa de Rio Tinto.
+
+Grande cascalhada de riso, naturalmente. Houve logo um bisbilhoteiro que
+denunciou ao das Galés a fatuidade de Martim, quinto neto por bastardia
+d'el-rei D. Affonso III.
+
+--Pois eu--disse João Rodrigues serenamente--prometto ir atraz d'elle, e
+bater-lhe.
+
+Deu-se a batalha. Vasco Martim de Mello morreu no empenho de pôr a lança
+no rei. Gonçalo Annes sahiu illeso do voto cumprido. E Martim de Sousa,
+tão extensamente cumpriu a sua--as novenas succederam-se em tanta
+copia--que a peregrina Aldonsa houve do seu pontual servidor dous filhos
+que se chamaram Martim e Pedro. O que os genealogicos esconderam á
+posteridade, edificada com as virtudes das abbadessas e dos Chichorros,
+foi o genero de sova que o das Galés deu no pai dos seus sobrinhos.
+
+Talvez se desforrasse, consoante o gosto do tempo, em o fazer tio dos
+seus numerosos bastardos. As preladas formosas eram as conciliadoras em
+contendas d'esta natureza. D. João I morigerava os mosteiros, mandando
+vestir o habito de commendadeira de Santos a Ignez Pires, depois de a
+condecorar com a dupla virtude da maternidade. Os nossos reis, quando se
+enfastiavam das mulheres, davam-as de presente a Deus.
+
+
+
+
+EGAS MONIZ
+
+
+Representa-se no Porto um drama chamado _Egas Moniz_. Não louvo nem
+censuro a composição, nem discuto se melhores interpretes a realçariam
+no palco. Tambem não levanto a já debatida questão da veracidade do
+facto. O snr. Alexandre Herculano crê que o aio de Affonso Henriques
+praticou o feito heroico. É o bastante.
+
+Quando o drama se annunciou, a primeira vez, nos cartazes, um homem de
+sessenta annos, vestido de preto, sobrecasaca no fio, o velludo da gola
+rapado, as calças recortadas e lamacentas á volta das botas azuladas de
+velhice, parou á esquina da rua Formosa, a lêr o cartaz grudado no
+cunhal da igreja das Almas.
+
+Eu reconheci-o a distancia, avisinhei-me, e parei, por detraz d'elle, em
+frente do cartaz, meditando.
+
+E meditava isto:
+
+Egas Moniz gerou Lourenço Viegas, o espadeiro;
+
+Lourenço Viegas gerou Egas Lourenço;
+
+Egas Lourenço gerou Sueiro Viegas Coelho;
+
+Sueiro gerou João Soares Coelho, valido de D. Affonso III;
+
+João Soares Coelho gerou Pedro Annes Coelho;
+
+Que gerou Estevão Coelho;
+
+Que gerou Pedro Coelho, o matador de D. Ignez de Castro;
+
+Pedro Coelho gerou Gonçalo Pires Coelho;
+
+E assim se foram gerando uns dos outros com uma constancia digna da
+nossa admiração, até que uma senhora da casa dos Coelhos, senhores de
+Vieira e Felgueiras, casou na casa dos senhores da Teixeira e Sergude, e
+d'este consorcio gerou-se:
+
+Gonçalo Pinto Coelho, que gerou:
+
+Martim Teixeira Coelho, que gerou:
+
+Bernardo José Teixeira Coelho, que gerou:
+
+Gonçalo Christovão Teixeira Coelho de Mello Pinto de Mesquita, senhor da
+Teixeira, de Sergude e do Bom Jardim, pai d'aquelle homem pobremente
+vestido que lia o cartaz do drama _Egas Moniz_, na esquina da rua
+Formosa.
+
+Aproximei-me d'elle, puz-lhe a mão no hombro, e disse-lhe:
+
+--Está o meu amigo regosijando-se de lêr em letras enormes o tio de seu
+decimo oitavo avô Egas Moniz...
+
+--Não, senhor--respondeu elle sorrindo--estava a scismar n'uma cousa que
+me não regosija absolutamente nada...
+
+--Bem sei--acudi eu com a minha notoria esperteza--estava v. exc.^a
+meditando que já não ha portuguezes que, á semelhança do seu avô, fossem
+de corda ao pescoço dar satisfação da palavra mal cumprida.
+
+--Não, senhor; pensava em outra cousa...
+
+--Bem sei... pensava no apagado luzimento d'esta heroica estirpe dos
+Viegas, dos Coelhos, dos...
+
+--Não, senhor; pensava em ir vêr ao theatro Baquet representar a façanha
+d'este meu illustre avô; mas vejo aqui escripto que um lugar da galeria
+custa duzentos reis; e eu, decimo oitavo neto de Egas Moniz, se tivesse
+dous tostões, iria empregal-os no jantar de meus filhos, que estão em
+jejum.
+
+..........................................................................
+
+Snr. Antonio Moutinho de Sousa, dê no seu theatro um beneficio a favor
+de alguns netos do aio de D. Affonso I, e convide-os a levantar o obolo
+que os admiradores de seu avô d'elles depositarem na bandeja dos pobres.
+
+Os descendentes do fidalgo, que ensinou o primeiro rei portuguez a ser
+honrado, não deviam ter fome e frio, quando as plateias desbordam de
+gente jubilosa de bom patriotismo e de melhor jantar.
+
+
+
+
+DOUS POETAS INEDITOS DO PORTO
+
+
+Na segunda metade do seculo XVII floreceram no Porto dous doutores,
+acariciados das musas, e por isso mesmo rivaes e inimigos: eram João de
+Assucarello (ou Sucarello) Claramonte, e Christovão Alão de Moraes,
+desembargador da Relação e mais tarde corregedor do civel do Porto. Do
+primeiro temos algumas poesias deshonestas, e diminutas noticias, e
+essas em referencias dos poetas seus contemporaneos, nomeadamente o
+padre Jeronymo Bahia. Do segundo encontra o leitor ampla noticia no
+_Panorama_ de 1854, n.^os 123 e 127. Distinguiu-se como poeta e
+genealogico. Não sei onde param oito volumes em folha escriptos de sua
+mão, intitulados _Genealogia das familias de Portugal_. Sei que o duque
+de Lafões, no seculo passado, os não quiz comprar porque lhe não
+respeitavam a pureza do sangue dos avós; e a bibliotheca publica de
+Lisboa tambem os não adquiriu, ha poucos annos, «por incuria ou capricho
+do ex-bibliotecario Canaes», diz o snr. Innocencio Francisco da Silva.
+
+O doutor João de Assucarello satyrisava o Porto, representado nas
+pessoas de mais importancia, algumas das quaes nos são hoje
+desconhecidas, e difficilmente lhes rastrearemos as familias que as
+representam.
+
+Eis-aqui o maledicente soneto do medico, émulo de Christovão Alão:
+
+ _As valentias de Gaspar de Anhaya,[1]
+ O mero e mixto imperio do Sarinho,
+ A calva de João Nunes frita em vinho,
+ As filhas do Picão de Miragaya;_
+
+ _Mercancia de esterco, ambar da Maya,
+ Comprado ou já por lenha ou por toucinho,
+ Geral remedio de Entre-Douro e Minho,
+ Achado antes nas casas que na praia;_
+
+ _Beata calva, immensa gravidade
+ Dos infanções mantidos com farelo,
+ Da manta rota a celebre Irmandade:_
+
+ _Este é o Porto--acabo de dizel-o.
+ Ó muito nobre e sempre leal cidade,
+ Quem te pozera a couves e bacello!_
+
+Não se percebem alguns epigrammas do soneto; mas aquelle verso que
+rescende ao _ambar da Maya_ não seria ainda hoje um anacronismo.
+
+Respondeu Christovão Alão, pelas mesmas rimas, do seguinte feitio:
+
+ _Bem caro te custou Gaspar de Anhaya,
+ E te póde custar inda o Sarinho;
+ Poeta bacchanal, farto de vinho,
+ Que és deshonra do Porto e Miragaya._
+
+ _Villão inda mais sujo que da Maya,
+ Creado só com brôa e com toucinho,
+ Quem te mette a fallar em Douro e Minho,
+ Sendo filho das ervas e da praia?_
+
+ _Como has tu de entender da gravidade
+ Dos infanções, brichote de farelo,
+ Se não logras dos nobres a Irmandade?_
+
+ _Este és, ó bebado!--acabo de dizel-o:
+ Que só para beber toda a cidade,
+ A desejaste poeta de bacello!_
+
+Este soneto é bom.
+
+Desculpa-se ao poeta fidalgo a arrogancia com que desdenha o plebeismo
+do Assucarello, appellido que nenhum linhagista condecora; dado que este
+medico já então tivesse o habito de cavalleiro da ordem de Christo. Ora
+os Alões são mais antigos em Portugal que os seus monarchas. D. Mendo
+Alão era senhor de Bragança, antes da vinda do conde D. Henrique a
+Hespanha. Alguns genealogicos lhes dão como antepassados os reis
+_álanos_. Na igreja de S. Bartholomeu de Lisboa existiu o morgado de
+Santo Eutropio instituido por D. João Alão, bispo do Algarve. Esta
+familia está representada no Porto por descendentes que não desdouram
+tão nobre appellido.
+
+ [1] Não ha no Porto alguem que use este appellido; mas a familia que
+ o teve ainda aqui vivia honradamente no meiado do seculo passado, e
+ se obscureceu no Alemtejo e Minho por onde se ramificára. Prende com
+ esta familia do Porto Antonio Fogaça, aqui nascido. D. Sebastião o
+ mandou como seu residente para Inglaterra, onde permaneceu largos
+ annos, em serviço dos Philippes, enviando de lá importantes noticias
+ em tempo de Henrique VIII. Seguiu a facção da rainha Catharina, e
+ gastou o mais grosso dos seus grandes cabedaes n'esse brioso
+ empenho. Succedendo no throno a rainha Isabel, foi Antonio Fogaça
+ preso e duas vezes trateado na Torre de Londres, vindo a morrer das
+ torturas, quando recobrou a liberdade. Por sua morte, foi-lhe
+ confiscado o restante dos bens. Antonio Fogaça teve de sua mulher
+ Isabel Ribeira de Vabo uma filha que se chamou D. Maria, e casou com
+ Braz Rodrigues Anhaya. D'estes nasceu outra D. Maria do Vabo
+ Pimentel, que casou com o capitão Manoel Soromenho Dias, de quem foi
+ filho Luiz do Vabo Pimentel, governador da praça de Albufeira. Em
+ 1750 ainda existia em elevada categoria um filho d'aquelle ultimo.
+ Era capitao-mór de Alvor, e chamava-se Antonio Pimentel do Vabo. Nas
+ provincias de Traz-os-Montes e Minho, nomeadamente no Paço de Carude
+ e Torre de D. Chama, existiram Vabos e Soromenhos. De todas estas
+ familias descende o snr. Augusto Soromenho, erudito professor do
+ curso superior de letras, e que, ha quinze annos, com legitimo
+ fundamento, usou em documentos publicos dos seus appellidos _Vabo e
+ Anhaya_.
+
+
+
+
+D. JOÃO III, O PRINCIPE PERFEITO
+
+
+Não me recordo se os chronistas d'este rei nos contam que os
+resplendores da graça divina lhe aureolaram o rosto, quando a alma se
+desatou d'aquella infame caverna, e foi receber o galardão dos milhares
+de hebreus queimados em obsequio á religião da fé, esperança e caridade.
+O snr. A. Herculano capitula este rei de _fanatico, ruim de condição e
+inepto_; mas isto não faz implicancia á salvação do monarcha, antes a
+confirma; porque o grande historiador, sabendo como se fazem optimos
+livros, de certo ignora os processos da formação da glottica e dos
+santos. Afóra isto, sabe tudo, excepto que D. João III, quando expirou,
+causava medo aos que lhe viram a horrendissima cara.
+
+As pessoas medianamente cultas não ignoram que houve um frade de grandes
+virtudes e letras chamado frei Thomé de Jesus, da ordem de Santo
+Agostinho. D. Sebastião o levou comsigo á batalha de Alcacerquibir. Não
+sabemos se o frade pelejou; mas temos de certeza que ficou ferido,
+captivo, e encarcerado nas masmorras de Maquinez. Transferido para
+Marrocos, por diligencia do embaixador de Portugal, rejeitou o resgate,
+que seus irmãos, fidalgos de primeira plana, lhe offereceram, preferindo
+a escravidão alli onde eram muitissimos os captivos carecidos de
+confortações e exemplos de paciencia. E, ao cabo de quatro annos de
+servidão, morreu em Marrocos, aos 17 d'abril de 1582, na idade de
+cincoenta e tres annos, legando-nos um livro lá escripto e muito
+apreciado com o titulo _Trabalhos de Jesus_.
+
+D'este escriptor mystico possuimos uma carta inedita, motivada pelo
+trespasse de D. João III, e escripta desde Lisboa a certa communidade
+religiosa. O esclarecido bibliographo F. Innocencio da Silva sente que
+esta carta, principiada a imprimir no _Murmurio_, periodico bracharense,
+ficasse incompleta. Nós, que tambem possuimos d'ella um traslado da mão
+de D. fr. Manoel do Cenaculo, arcebispo de Évora, vamos dal-a integral e
+textualmente, na certeza que revivemos um documento historico, lavrado
+por testemunha presencial, e, além d'isso, por um dos mais abalizados
+escriptores do seculo aureo da lingua portugueza.
+
+Reza assim:
+
+«Amantissimos Padres. O Spirito Sancto cosolador, e emparo dos
+atribulados console suas almas, que creio estarão já com a dor, que nós
+temos da morte de nosso Pai, Rei, e Senhor, taõ supita, e taõ inopinata,
+como foi, e lhes dê o emparo espiritual de sua graça, e temporal de
+cabeça tal, qual foi a que perdemos. Amen.
+
+«Ainda que creio, que já teraõ a certeza da morte del Rei Nosso Senhor,
+porem por mo mandar nosso Padre, e eu o ter já assim determinado de
+fazer, e porque muitas cousas se dizem lá, e cá, que naõ foraõ assim,
+pera saberem a certeza do que passa lhes quero contar por ordem tudo:
+ainda que folgára eu muito de ter antes perdidas as virtudes, e forças
+naturaes do corpo, que te-las pera aver de escrever o que agora ouvirão.
+
+Quarta feira _infra octavas Penthecostes_, sahio El Rei Nosso Senhor,
+que santa gloria aja, a ouvir missa á Misericordia, quasi indo em pessoa
+a chamar a Misericordia, que d'ahi a pouco tempo o avia de levar á
+sepultura, e assim foi esta derradeira sahida só, pera seu costume, e
+hia ainda muito bem disposto. Ouvida a missa se tornou muito de pressa
+ao Paço com muita, infinda gente, mal disposto de huma perna, mas pouca
+cousa, e tudo isto vio hum Padre desta casa. Chegando ao Paço se
+encerrou em huma camara só sem ninguem, onde esteve muito grande espaço,
+depois do qual chamou, e pedio agoa rosada, com a qual lavou o rosto, e
+mãos, e tornou a estar só outro pedaço, donde sahio a jantar muito
+melenconisado, e jantou mal, e á tarde teve huma febrezinha muito
+pequena.
+
+«Quinta feira se alevantou, e andou hum pouco achacoso, diziaõ que era
+de naõ dormir com cuidado do Principe[2] que tivera huma febre, e
+arrevesava, e naõ dormia. Mas Deos sabe o que era. Com tudo não tinha
+doença que o fizesse estar em cama.
+
+«Á sexta feira se alevantou tarde, e ouvio missa em casa, e jantou muito
+bem assombrado, e assim esteve toda a sésta, que ao parecer estava bem,
+até as quatro horas, as quaes dadas nos chamárão á procissão _praecipue_
+pelo Principe, que Deos guarde, a qual sahia da Sé á Misericordia.
+Sahindo nós da Sé chegou hum recado que fossemos a Jesu de Saõ Domingos
+com a procissaõ por el Rei, que estava muito mal, e assim se fez, e ouve
+pregaçaõ. De maneira que perto das cinco horas se começou el Rei de
+agastar, e chamou Confessor, que estava na Mesa da Consciencia, e
+confessou-se das cinco até as oito. E logo do Saõ Giaõ lhe leváraõ o
+Senhor, e chegando nós ao Rossio, nos deraõ novas, que lhe naõ achavaõ
+pulso. Acabando de comungar começou a concertar seu testamento, o qual
+naõ acabou de fazer com as mezinhas, e com os agastamentos; mas segundo
+me dixe o Confessor da Rainha o substancial delle fez, e assinou. Ás dez
+horas se achou mais leve, e despejou[3] para repousar, e ás onze chamou,
+e vendo que carregava o accidente pedio a Unçaõ, a qual lhe trouxeraõ
+logo, e quando já chegou naõ fallava, mas recebeo-a vivo, a qual
+recebida, sendo já meia noite, em quanto podiaõ dizer huma terça rezada,
+_expiravit_ levemente, e sem movimentos, nem trabalho mais, que o
+mortal, que he o mór de todos. De maneira que em sete horas, a saber des
+das cinco ás doze acabou. A isto naõ estive eu presente, mas soube-o do
+Confessor da Rainha, e de Luiz Gonçalves, que ahi se achavão presentes,
+e delles soube que quando el Rei pedio a Unçaõ, que se recolheo o
+Cardeal, e os outros Senhores, e só a Rainha se foi pera el Rei, e com
+elle esteve até espirar sem botar lagrima, e acenando a todos que
+ninguem chorasse alto por não inquietar a el Rei, ella o consolava, e
+animava a passar alegremente aquelle passo com muitas palavras christãs
+e devotas: ella lhe teve com grande coraçaõ a candeia em a maõ, e lhe
+fechou os olhos, e acabando elle de espirar se foi cobrir de dó, e se
+poz em hum oratorio com quatro vellas no altar, e frontal, e dorsel de
+veludo carmesi, com o braço de Saõ Sebastiaõ, onde o Padre Montoya a
+visitou, e consolou, ou para melhor dizer ella consolou ao Padre, que
+ainda que com muitas lagrimas, com tudo mui inteira na rasaõ, e na
+modestia exterior, sem nenhum estremo, mostrou estar muito conforme com
+a vontade do Senhor Deos, e receber tudo de sua maõ, e que rogava muito
+aos Padres, que a encomendassem a Nosso Senhor.
+
+«Agora o que vi com meus olhos lhes contarei, e o que tratei com minhas
+mãos: querendo ungir el Rei mandáraõ chamar Padres de todallas Ordens,
+os quaes todos chegáraõ tendo elle já espirado, e assim o nosso Padre,
+cujo companheiro fui eu, correndo quanto podiamos fomos quasi todo o
+caminho, porque não cuidavamos que se fosse taõ asinha. Achámos pelas
+ruas e Ribeira tudo cheio de pranto, e de gritos, e de muita gente, que
+com trabalho entrámos. Entrados _vidimus coronam capitis cecidisse, et
+obiisse_:[4] ninguem se ouvia com gritos, e soluços, huns em pé, outros
+de giolhos, outros por esse chaõ: huns chorávaõ, outros gemiaõ, outros
+amarellos estavaõ pasmados com ver morte taõ supita e com desemparo taõ
+de repente, e de improviso, estavaõ todos attonitos, e sentidos: ninguem
+se ouvia, e escassamente podiaõ os Religiosos rezar com lagrimas, até
+que ás duas, ou tres depois da meia noite entrou o Cardeal ainda de
+vermelho a despejar a camara, rogando, e chamando a todos senhores, sem
+lagrima nenhuma, e com el Rei ficáraõ os Religiosos, e alguns Fidalgos,
+e assim estivemos até as cinco rezando muitos Officios de defunctos, e
+muitas orações. Ás cinco depois de visto o testamento em conclavi, o
+Arcebispo despejou a camara sem deixar mais que de cada Ordem hum ou
+dous Religiosos para o amortalharem, e o Pinheiro com o Confessor del
+Rei a hum canto rezando: e assim cobertas as cortinas do leito dous
+Padres de Saõ Francisco, e hum do Carmo, e Frei Jeronimo d'Azambuja de
+Saõ Domingos, e eu o amortalhámos, ministrando-nos hum Clerigo Fidalgo,
+de maneira que estas tristes maõs o laváraõ, e alimpárão, e
+amortalhárão: Bendito seja Deos. Seu corpo ainda que ficou bem
+assombrado acabando de espirar, com tudo pelo muito que esteve por
+amortalhar _quando o descobrimos estava mais feio, e mais preto do
+rosto, e mãos, o mais sujo, e o mais nojento, e em fim o mais mortal e
+terreno, que eu vi outro, e eu tive aquelle pelo mór espectaculo_, e
+pera todo Religioso ver, pera doctrina, e edificaçaõ, que podia ser:
+_Non potuimus continere lachrimas_[5] com pranto, e lagrimas rezando o
+Officio de Defunctos lhe posemos huma toalha na cabeça e rosto mal
+lavada, e despida huma camiza suja de sangue que botava pela boca, e
+cousa verde depois de morto, lhe vestimos outra lavada, e lhe posemos o
+Bentinho de Christo, e o emburilhamos em hum lençol, e cozemos com
+barbante, sem outra cousa, nem vestido, nem mais habito, e o posemos em
+hum catele sem alcatifa, nem nada, onde esteve ate trazerem o ataude.
+Nisto acabou o estado, o fausto, as riquezas, as pompas, as cortezias,
+os serviços, as adorações reaes, nem em tudo isto se aqueixou dos que
+isto lhe faziaõ, aquelle que com só a vista fazia tremer o mundo. Dahi a
+pouco lhe poseraõ hum estrado grande em o meio da camara coberto de
+veludo preto, rodeado de alcatifas, e sobre elle hum ataude forrado de
+veludo preto por fóra com huma cruz de damasco branco, e de linho de
+dentro, aonde o Bispo de Leiria, e o do Funchal, e o Arcebispo, e o
+Priol de Palmella, e o Bispo D. Pedro e eu com dous Frades o metemos,
+onde lhe beijáraõ a maõ por sima do lençol estes que ahi estavaõ,
+lançando-se todos sobre elle com muitas lagrimas, começando novo pranto,
+e pregado o ataude lhe botáraõ por sima hum panno de veludo preto muito
+grande com cruz de damasco branco, e aos pés poseraõ huma mesa coberta
+com hum panno de damasco preto, na qual estava huma cruz da capella, e
+dous castiçaes com suas vellas, e caldeira de agua benta, e ao rededor
+quatro tochas em suas tocheiras de prata. E he muito pera notar, que
+assim como el Rei, que santa gloria aja, foi em vida muito amigo dos
+Frades, assim des que espirou até o levarem, elles o acompanháraõ,
+porque até o amortalharem, como já dixe: estiveraõ com elle Frades de
+todallas Ordens, Frades o amortalháraõ, e meteraõ no ataude, e
+concertáraõ, e metido cada Ordem vinha sobre si com cruz alevantada, e
+estava com elle duas horas dizendo hum Officio de Defunctos entoado.
+Convem a saber os de Saõ Domingos das sete até as nove; os do Carmo das
+nove até as onze; os de Saõ Francisco das onze ás doze e meia; depois os
+da Trindade até quasi as duas; depois nós até as tres, e idos todos
+ficáraõ huns poucos de cada Ordem com a capella até as quatro sempre
+rezando. Ás quatro entrou o Cardeal, já de roxo, e de giolhos, sem
+lagrimas, beijou o estrado, e repartio as toalhas do ataude, convem a
+saber da maõ direita á cabeceira o Senhor Dom Duarte, logo Dom
+Constantino, logo outro que naõ conheci, logo o Conde da Castanheira: da
+banda esquerda _ad caput_ o Duque d'Aveiro, logo tres que naõ conheci,
+os quaes escassamente podiaõ levar o ataude, e aberta a porta da camara
+por onde o haviaõ de tirar, que estava na varanda, se alevantou hum
+pranto taõ grande que era cousa de pasmo. Eu nunca vi tanta gente junta,
+nem tanto grito e choro, nem faces ensanguentadas e arranhadas, nem
+barbas depennadas, como entaõ vi, tanto que nem havia forças pera andar,
+nem pera bulir o corpo lugar, até que o Cardeal rogou, que andassem, e
+recolhendo-se começarão a andar, e passadas duas portas não podéraõ
+mais, e chamaraõ Religiosos que os ajudassem, dos quaes fui eu hum, de
+maneira que eu o amortalhei e meti no ataude, e levei até o meterem nas
+andas; a aquelle que a mim, e a toda a Ordem deo sustentaçaõ, e vida, e
+com tanto trabalho de meu corpo, que ando agora muito mal tratado por
+pesar muito, e porque descendo pela escada me ficou sobre mim só todo da
+banda dos pés, sem me poderem valer com a muita gente, onde cuidei de
+ficar; mas certo que entaõ naõ senti este trabalho, nem me lembrava
+repouso, nem sono, nem comer, no que tinha muitos infindos companheiros.
+Assim nas andas forradas por dentro de veludo preto, com hum panno por
+sima muito grande do mesmo, com cruz branca, o levou a Misericordia, e a
+Capella, e o Cabido, sem mais cruz que a da Capella, todos com tochas a
+cavallo, em duas azemolas, que bem tinhaõ que fazer em o levar, que
+tanto pezava, e levaraõ-no a Belem, e enterraraõ-no á cabeceira de seu
+Pai com hum Responso, que pera mais nem lagrimas, nem gritos, nem gente
+davaõ lugar, que segundo se conjeiturava se ajuntáraõ ao levar, assim na
+cidade, como fora, até Belem entre homens, mulheres, e meninos por todos
+bem quarenta, ou cincoenta mil almas, o que crê facilmente quem presente
+se achou, e o via por seu olho, e naõ foraõ com elle Ordens por rasaõ da
+Festa da Trindade, nem sabemos ainda quando iraõ, porem todollos
+Moesteiros se naõ occupaõ agora senaõ em dizer Officios por elle, e em
+fim os Padres de Saõ Jeronimo o botáraõ á terra, onde jaz descansando, e
+tornando-se naquillo, que he, aquelle que na vida era Pai, Rei, Senhor,
+Emparo, e Soccorro, a quem naõ faltava nada pera ser o mais illustre
+Principe da Christandade: praza a Nosso Senhor que lhe dê na outra vida
+a gloria, que todos lhe desejamos, e que elle com suas boas obras creio,
+que merece. Amen.
+
+«Hoje se quebráraõ nesta cidade os Escudos, que he o terceiro dia, e
+ámanhã terça feira juraraõ o Principe, e cremos que passada a Festa se
+faraõ os Saimentos Reaes. Do estado do Reino, e quem fica por Governador
+_nulli narranti credatis_, porque ainda tudo está secreto, nem se saberá
+_ut creditur_ taõ cedo. Isto que lhes escrevi he o certo do que passa,
+tudo o ai tenhaõ por incerto. Resta que o encomendem muito a Nosso
+Senhor, e a Rainha, e ao Principe, o qual fica bem disposto, e eu o vi
+sabbado em pé, e bom, e nosso Padre lhe dixe missa depois del Rei
+amortalhado, e lhe dixe hum Evangelho.
+
+«Esta carta tenhaõ cada hum por sua, e encomendem-me a nosso Senhor
+todos, porque eu naõ tenho tempo, nem disposição pera escrever
+particularmente a todos, ainda que sim vontade grande. As ceremonias da
+cidade já naõ se fazem nos dias ordenados, mas a outro tempo. De Lisboa
+a 14 de Junho de 1557. Irmaõ de todos, e filho em Christo. _Frei Thomé
+de Jesus._»
+
+
+Está visto que o principe perfeito, flagello dos israelitas, morreu
+bastantemente fedorento, revessando postema esverdinhada, e envolto em
+uma camisa chagada e esqualida, que fez engulhos ao bom do frade. No
+discurso da vida, D. João II soffreu sempre de uma erysipela nas pernas,
+que ás vezes lhe não consentia o uso das piugas; por maneira que trazia
+as botas estremes sobre a pelle esgarçada de sorosidades. Era uma cousa
+immunda em corpo e alma este scelerado real! Vem de molde o extracto de
+umas antigas Memorias ineditas de Diogo de Paiva e Andrade:
+
+«D. João III costumava dormir a sesta depois de jantar em uma casa que
+tinha janellas para o Tejo, assistindo nos Paços da Ribeira, sendo
+poucas as pessoas a quem permittia licença de entrar n'ella em quanto
+descançava. Succedeu, uma tarde, abrir a porta uma d'aquellas a quem
+tinha permittido a dita faculdade, e viu el-rei não deitado, mas em uma
+cadeira sustentando com ambas as mãos a cabeça e com os braços
+encostados sobre uma banca; e, não lhe dando palavra, retirou-se para a
+casa immediata, e com os mais que estavam n'ella se principiou a
+discorrer sobre qual seria o motivo que obrigava sua alteza a tanta
+consideração. Achava-se tambem presente o marmanjo-mór, um chocarreiro
+do paço, castelhano, chamado D. Fernando de Roxas, homem que tinha siso,
+o qual, depois de observar muito tempo a conversação, disse para os que
+fallavam:--Senhores, el-rei não quiz dormir, e não considera em cousa de
+substancia--e, entrando logo na camara em que estava, perguntou-lhe em
+que cuidava; ao que el-rei respondeu: «Estou considerando como se me
+farão umas botas menos largas do que uso, sem padecerem as pernas.»
+Voltou o chocarreiro para fóra, e, contando o que passava, acabaram os
+discursos, entrando-se em outros, que merecia o assumpto. N'este tempo
+foi mui frequente o calçado de botas, ainda em dias de grande funcção,
+por imitação a el-rei, que quasi sempre as trazia, por ser muito soroso
+das pernas, e tão grossas as tinha que poucas vezes se servia de meias.»
+
+Até aqui o author do _Casamento perfeito_.
+
+Quando se escrever sincera historia de Portugal, não se repita sómente o
+que o snr. A. Herculano escreveu da inepcia, do fanatismo, e das ruins
+entranhas de D. João III. Refira-se que a alma lhe exsudava o pus na
+epiderme das pernas, e attribua-se ás angustias da sua suja enfermidade
+o phrenesi que rebentava em raivas contra os judeus, a diabetes que se
+dessedentava em sanque. Se Byron satyrisou os bons costumes e as
+virtudes inglezas porque tinha um calcanhar desengonçado, que muito que
+D. João III queimasse trinta mil innocentes, se as pernas lhe esvurmavam
+peçonha?
+
+Ao proposito do marmanjo-mór D. Francisco de Roxas, occorre-nos
+acrescentar que elle teve uma filha chamada D. Maria, que casou com
+André de Sousa Chichorro, descendente de Affonso III e de uma formosa
+moura. D'este neto do rei e da filha do chocarreiro ha descendentes, a
+quem não é hoje permittido saudar como netos do marmanjo-mór do paço
+d'el-rei D. João, o _principe perfeito_.
+
+ [2] Este principe era seu neto D. Sebastião.
+
+ [3] _Despejar_, quer dizer que mandou sahir da camara os que lhe
+ assistiam.
+
+ [4] Vimos que a corôa lhe resvalára da fronte, e era morto.
+
+ [5] Não podémos reter as lagrimas.
+
+
+
+
+SUBSIDIO PARA A HISTORIA DE UM FUTURO SANTO
+
+
+Falla-se na canonisação do arcebispo de Braga D. fr. Caetano Brandão.
+
+Li as _Memorias para a historia_ da vida d'este insigne prelado,
+colligidas por Antonio Caetano do Amaral. Não desconheço os louvores que
+lhe teceu o insuspeito José Liberato Freire de Carvalho nas suas
+_Memorias_. Li com mais prazer a biographia que lhe encarece as
+virtudes, escripta pelo snr. Innocencio Francisco da Silva. Commoveu-me
+a leitura do drama do doutor Silva Gayo, aquelle optimo coração que já
+não pulsa cheio do amor de seus filhos.
+
+Inferi d'estas variadas leituras que o arcebispo não tivera em vida quem
+lhe suspeitasse da probidade, nem por tanto, no acto da canonisação, lhe
+sahiria com libello infamatorio aquelle personagem que, no processo da
+santificação, se chama o _advogado do diabo_.
+
+Illusão que me desluz outras muitas fundadas em bases de vento e poeira.
+
+O primeiro advogado do diabo que enrosca a hirta cauda e se amezendra
+n'ella, ao tribunal dos cardeaes, é o ministro do principe regente, José
+de Seabra da Silva; e o pio João é citado tambem para ouvir da lingua do
+seu ministro o depoimento que elle authorisou. Quem duvidar do que vai
+lêr, dirija-se ao archivo da secretaria do reino, e peça que lhe deixem
+examinar o copiador dos _Avisos_ expedidos no anno 1794, e lá encontrará
+o seguinte:
+
+
+«_Ao arcebispo de Braga._ Sua magestade, sendo informada dos
+procedimentos e _amontoados crimes_ que v. exc.^a tem perpretado contra
+a disciplina da igreja, e ainda das mesmas leis, usando de sua regia
+piedade por esta vez (pois devia ser outro o exemplo), é servida que
+logo, sem perda de tempo, mande restituir por seus despachos a abbadessa
+do convento de Santa Clara de Villa Real á sua occupação, e as mais
+religiosas aos seus respectivos cargos, e as noviças continuem o seu
+noviciado, levantando a supposta excommunhão, e dando conta ao confessor
+do principe, o padre frei Mathias, incumbido dos negocios das
+religiosas, de tudo o que obrou, declarando n'ella o motivo porque assim
+tinha praticado, e outra á secretaria para constar da sua execução.
+Palacio de Nossa Senhora da Ajuda 10 de fevereiro de 1794.--_José de
+Seabra da Silva._»
+
+
+Quem viu no começo do aviso o prelado arguido de _amontoados crimes
+perpretados contra a disciplina da igreja_, e logo adiante encontra uma
+ordem de restituir a abbadessa e as religiosas, e de mais a mais, as
+noviças aos seus officios no convento de Santa Clara, cuida que D. frei
+Caetano Brandão estava na sacrilega posse da abbadessa, das outras
+freiras e--o que mais é de censurar e invejar--das noviças!
+
+Apresso-me a desfazer a hypothese que se encosta á equivoca redacção do
+_Aviso_. O arcebispo não tinha freira nenhuma desgarrada do divino
+redil.
+
+O que elle tinha era a santa e serena coragem de responder áquelle
+hypocrita de frei Mathias em termos que revêem o socego de alma
+invulneravel ás phrases insultuosas do ministro que em 1778 se havia
+recolhido de Angola com aquelle luxo de cortezia.
+
+A razão do insulto é simplesmente miseravel. O arcebispo, fundado no seu
+direito, prohibiu que no convento de franciscanas de Villa Real
+professassem religiosas. A relaxação d'aquella communidade ia na
+vanguarda dos mosteiros onde os vicios se rehalçavam mais soltamente.
+D'ahi a prohibição que punha a mira em desviar d'aquella gafaria as
+meninas ainda incontaminadas.
+
+O vigario geral da terra era amante da prelada, bem aparentado na côrte,
+caprichoso e rico.
+
+Foi a Lisboa, insinuou-se na estima de frei Mathias da Conceição,
+confessor do principe, e alcançou, por intermedio do frade, licença para
+professarem religiosas, directamente enviada á sua Heloisa d'elle
+vigario geral, que se parecia tanto com Pedro de Abeillard como com
+Origenes.
+
+O arcebispo, avisado da desobediencia, excommungou a prelada, a escrivã,
+a rodeira, a boticaria, as cantoras, a organista, as noviças, todo
+aquelle harém, sujeito a um califado numeroso de padres, de fidalgos, de
+poetas, de todos os freiraticos da provincia. Uma balburdia!
+
+Voltou a Lisboa o vigario geral, depois da excommunhão, posto que as
+excommungadas não tivessem fastio, nem extraordinarios ataques
+esthericos.
+
+D'esta segunda ida, resultou o _Aviso_ ultrajante que o leitor leu com
+assombro e indignação.
+
+D. Caetano respondeu ao confessor e ao ministro do regente, que
+garganteava canto-chão em Mafra devotamente. As cartas são longas e a
+vida é breve. Da resposta enviada ao padre Mathias, trasladamos um
+periodo energico:
+
+
+«... Espero que v. s.^a se capacite de que não é o espirito de teima o
+que me anima ao presente lance; mas o desejo sincero que tenho de dar
+boa conta da minha administração ao supremo juiz dos vivos e mortos.
+Respeito com profunda submissão as ordens dos meus soberanos, e d'esta
+disposição creio tenho dado as provas menos equivocas em doze annos que
+vou contando de bispo, como podem attestar assim na America como no
+reino todos os que tem ouvido ou lido as minhas instrucções pastoraes.
+Mas esta obediencia ás reaes ordens sabe v. s.^a perfeitamente que nunca
+deve extinguir no coração de um bispo o zelo que d'elle reclamam os
+legitimos direitos da igreja, sobre tudo quando se enlaçam tão
+apertadamente com a salvação das almas. O contrario seria transtornar a
+ordem que Deus tem estabelecido entre o sacerdocio e o imperio; é querer
+fazer a igreja captiva dos reis da terra convertendo-a em corpo
+politico, o que sem difficuldade, diz Bossuet, arguiria a mais inaudita
+lisonja que póde entrar no espirito humano... Uma cousa quero pedir mui
+confiadamente a v. s.^a, e é que no caso que as razões expendidas lhe
+não pareçam sufficientes para sustentar o meu designio relativamente aos
+mosteiros d'esta diocese, como para mim tem força, e tal que liga
+invencivelmente a minha consciencia, haja de expor a sua alteza a
+impossibilidade em que me acho de condescender com a vontade d'aquellas
+religiosas, em quanto se me não fornecerem novas luzes por onde venha no
+conhecimento do meu erro... Braga 13 de março de 1794.»
+
+
+Na resposta ao ministro é humildissimamente um apostolo da primitiva
+christandade. Alludindo ao vigario geral que o detrahe e impugna na
+carta, escreve mansamente:
+
+
+«... Só um pequeno numero de espiritos, de que não era difficil conhecer
+as intenções, pelo interesse que tinham de vêr deprimida e mesmo
+extincta a authoridade de quem os dessocega na falsa paz da sua
+relaxação e desordem (entre os quaes sobresahe com grande vantagem um
+clerigo que se acha n'essa côrte com ar de requerente, homem que sempre
+representou no theatro das intrigas que são manejadas com arte), só este
+pequeno numero que a abbadessa se tinha associado para as suas
+frequentes conferencias, é quem podia lisonjeal-a em tão estranho
+projecto.»
+
+
+E, a final, quem venceu?
+
+Venceu o vigario geral, e a abbadessa, e a rodeira, e a organista, e a
+escrivã, e a boticaria. Houve luminarias no adro do mosteiro. Versejou o
+poeta da organista, que era padre, e se chamava o _Mormo_, alcunha de
+molestia que lhe pegára o pegazo das cavallariças monasticas. Recitou o
+poeta da boticaria, que se chamava o padre Mesquita, que lidava em
+torneio de murros com o Mormo em todos os outeiros. O vigario geral fez
+córar a abbadessa com uma ode em que ella era comparada á Venus
+callipygia; em fim, até os _tachos_, que assim lá chamavam ás criadas,
+deram motes e pasteis--os celebrados pasteis de Santa Clara--a muita
+somma de sapateiro que n'aquella noite converteu a tripeça em lyra e a
+sovella em plectro.
+
+D. frei Caetano Brandão áquella hora pedia, talvez, a Deus que lhes
+perdoasse a ellas e aos poetas porque não sabiam ellas o que faziam, nem
+elles o que diziam. Era santo, em fim!
+
+Quem poder imital-o, faça a mesma oração a favor de alguns poetas de
+hoje em dia, e não se esqueça de mim, que sou dos mais necessitados.
+
+
+
+
+O LIVRO 5.º DA ORDENAÇÃO, TITULO 22
+
+
+O desembargador do paço e conselheiro real Ignacio da Costa Quintella
+falleceu em 2 de janeiro de 1752, deixando o seu nome perpetuado na
+_Bibliotheca Jurisconsultorum lusitanorum_, em quanto na face da terra
+se souber latim.
+
+Além da _Bibliotheca_, deixou uma viuva e dous filhos. A viuva chamou-se
+D. Maria Michaela de Sousa; o filho era Ignacio Pedro Quintella, e a
+filha chamou-se D. Isabel Thereza de Sousa Quintella.
+
+Em casa da viuva ficou, por morte do desembargador, um escripturario
+habilissimo, chamado Felix Tavares de Almeida, de familia limpa, bem
+figurado, intelligente, poeta, e, pelo conseguinte, namoradiço.
+
+D. Maria Michaela encarregou-o de todos os negocios de sua grande casa,
+incumbindo-o especialmente de correr com o inventario do casal; mas nem
+por isso lhe indultou a audacia de requestar-lhe a filha.
+
+Assim, pois, que teve denuncia dos amorios de Isabel com o seu criado,
+como ella o denominava para aviltal-o aos olhos da filha, despedia Felix
+Tavares, com ameaças de o mandar prender, se teimasse em deshonrar a
+estirpe dos Quintellas--estirpe que, a fallar verdade, ainda estava
+muito em vergontea verde.
+
+Isabel, com o seu amor, impunha ao escrevente expulso a obrigação de ter
+coragem. A correspondencia epistolar continuou, apesar de todas as
+vigilancias da mãi e do irmão de Isabel, que já era casado áquelle
+tempo.
+
+Queria muito a viuva dar querela contra o seductor, mas carecia de prova
+escripta. A menina queimava as cartas assim que as lia, e não tinha
+confidente que a trahisse, porque o medianeiro das cartas era um fio de
+sêda, e as testemunhas eram a lua discreta e as estrellas silenciosas da
+alta noite.
+
+Acudiu o filho á inquietação da mãi com este alvitre: «Eu queixo-me de
+que Felix Tavares, quando sahiu do nosso serviço, me roubou dinheiro, e
+requeiro que se lhe passe revista á casa. As cartas, que Isabel lhe tem
+escripto, hão de apparecer, se o apanharmos de sobresalto. Uma carta só
+que appareça, é prova bastante.»
+
+D. Maria approvou a idéa, applaudindo a esperteza do filho.
+
+Feita e despachada a petição, o corregedor do bairro de Andaluz entrou
+de subito na humilde casa do moço arguido de ladrão, fez-lhe abrir um
+bahú, depois de revistar as gavetas, e achou um massete de cartas que,
+n'um volver de olhos, reconheceu serem de amores. Metteu as cartas na
+algibeira, repulsando com desabrimento as supplicas de Felix Tavares, e
+sahiu.
+
+O atribulado rapaz não soube que o infamavam de furto, porque o
+magistrado fizera a diligencia sem proferir palavra nem explicar a razão
+da visita.
+
+Percebeu que as cartas de Isabel iam ser instrumento de processo.
+Conhecia bem os homens do seu tempo, e escondeu-se.
+
+O corregedor enviou parte das cartas mais lyricas de Isabel ao duque
+regedor das justiças; e este, depois que se regalou e mais a familia com
+os requebros delambidos da filha do desembargador, enviou-as a D. Maria
+Michaela.
+
+Esta, quando viu as cartas, perdeu os sentidos, porque do conteudo das
+mesmas deprehendeu que, passados alguns mezes, seria avó. Quando tornou
+á sua razão, envergonhou-se de pôr em juizo tão deshonrosos papeis.
+
+N'este tempo, a viuva e a filha viviam em uma quinta nos arrabaldes de
+Lisboa, esperando que se reedificasse o seu palacete aluido pelo
+terremoto de 1755.
+
+Felix Tavares, certificado do silencio da viuva e da segurança da sua
+pessoa, continuou a frequentar os muros da quinta.
+
+Instado por Isabel, e alentado para todo o risco, requereu ao vigario
+geral, juntamente com ella, que lhe admittisse fiança a banhos, fundando
+a petição em razões de honra, de pudor e de religiosidade. O vigario
+geral dispensou-os de licenças e pregões.
+
+Uma noite fugiram; e, ao amanhecer do dia seguinte, casaram-se.
+
+D. Maria, quando deu falta da filha, sahiu para Lisboa, e fez
+espectaculo das suas lagrimas na presença dos desembargadores amigos de
+seu defunto marido. Comprometteram-se todos unanimemente a vingar a
+viuva do conselheiro desembargador do paço Ignacio da Costa Quintella.
+
+Isabel conhecia o genio iracundo da mãi. Apesar de haver legitimado com
+o sacramento o seu erro, pediu ao marido que evitasse os primeiros
+impetos da colera dos seus. Esconderam-se, pois, mudando o nome, no
+sitio de Alcantara, e ahi viveram com o seu filhinho pobremente do
+producto de algumas joias, até 1758.
+
+No fim d'este anno, que era o terceiro de casados, persuadiram-se que o
+coração da mãi devia estar aplacado pela acção do tempo. Isabel
+escreveu-lhe, e não teve resposta; escreveu novamente, e recebeu a carta
+fechada, e um insulto de viva voz. Apesar d'estes ruins presagios, Felix
+Tavares de Almeida, forçado pela necessidade, mudou para Lisboa, a fim
+de grangear sua subsistencia no trabalho da escripta ou agencia de
+causas em que era versado.
+
+Principiava a melhorar de posição, quando, ao sahir de sua casa, na
+manhã de 2 de junho de 1760, foi preso á ordem do corregedor, e
+conduzido ao Limoeiro.
+
+Pouco tempo depois, D. Isabel Thereza de Souza Quintella era tambem, com
+ordem de captura, conduzida á quinta de sua mãi nos arrabaldes de
+Lisboa. Levava o filho nos braços.
+
+Foi aquella criança que a defendeu do suicidio ao vêr-se sósinha na
+quinta, com uma criada que nunca vira, e um escudeiro que a encarava de
+esconso com tregeitos de menospreço.
+
+No mesmo dia em que entrou no Limoeiro, Felix Tavares foi chamado á sala
+para ouvir lêr a sua sentença.
+
+--A minha sentença!--exclamou elle.
+
+Não lhe respondeu o meirinho. Foi, e ouviu lêr o seguinte ao escrivão da
+correição do crime da côrte, Loureiro, sujeito que lia uma sentença no
+tom lugubre em que os frades entoavam os threnos de Jeremias:
+
+«Vistos estes autos, libello da A. (authora), provas e documentos
+juntos, mostra-se que, sendo o réo criado de escada acima...
+
+--Criado!--interrompeu o preso.
+
+--Ouça e cale-se!--respondeu asperamente o escrivão.
+
+E continuou:
+
+«Criado de escada acima assalariado do desembargador do paço Ignacio da
+Costa Quintella, e da A. sua mulher, continuou no mesmo serviço de casa
+até alguns dias depois do memoravel terremoto do 1.º de novembro de
+1755, no qual tempo foi visto por muitas pessoas solicitar
+escandalosamente de amores a filha da A. sua ama, D. Isabel Thereza de
+Sousa Quintella, menor de 25 annos, escrevendo-lhe escriptos amatorios
+com expressões de grande e estranhavel confiança, dos quaes, muitos
+d'estes e reciprocamente d'ella foram achados pelo juiz do crime do
+bairro de Andaluz no bahú do réo, indo em diligencia de furto de
+dinheiro...
+
+--Que é!--bradou Felix Tavares--que aleivosia é essa de furto de
+dinheiro?
+
+--Já lhe disse que me não interrompa!--sobreveio o escrivão.
+
+--Hei de interrompel-o em quanto me não disser quem é o infame que me
+chama ladrão!
+
+--Eu não sou--disse o Loureiro, olhando-o por cima dos oculos de
+tartaruga.--Escute lá o resto, que vm.^ce não é sentenciado por
+ladrão...
+
+O preso não pôde replicar suffocado pelos soluços; o escrivão proseguiu:
+
+«De furto de dinheiro feito ao filho mais velho da A. já casado...
+
+--O villão mentiu!--exclamou Felix Tavares, estendendo os braços
+convulsos ás pessoas que o rodeavam, como se lhes pedisse que o
+defendessem da calumnia.--O villão mentiu, senhores! Acreditem que eu
+não furtei dinheiro algum!
+
+--Já lhe disse que não furtou...--volveu o escrivão.--Isto são palavras
+que não tiram nem põem...
+
+--Não tiram nem põem!--replicou o sentenciado.--Oh! que infames! que
+infames!...
+
+E cobria o rosto com as mãos, balbuciando vozes inintelligiveis.
+
+O escrivão continuou a lêr:
+
+«E se reconheceram as letras serem suas, que o dito ministro queimou,
+reservando algumas, que entregou ao duque regedor, para dar parte d'esta
+aleivosia á dita A.; e outro sim foi visto por varias pessoas na quinta
+da A., já depois de ultimamente despedido da dita casa, fallando só com
+a filha da A. em sitio suspeitoso para acções lascivas, tendo assim
+havido tratamento e ajuste occulto de se casarem, e ser ella tirada por
+justiça contra vontade da A. sua mãi, para o que supplicou ao vigario
+geral do patriarchado, e obteve fiança a banhos com o fundamento de
+causas occultas que facilitaram a sua dispensa, do que se não quiz
+passar a certidão pedida, fl. 235, de modo que sendo necessarios todos
+estes requerimentos antecedentes e prova d'elles, em que certamente se
+havia de gastar tempo, chegaram com effeito a receber-se em 23 de
+novembro do dito anno, pouco depois de ter sido expulso de criado,
+retrotrahindo-se todo o facto da solicitação e aleivoso ajustamento de
+casarem ao tempo do famulato, e da quinta em que ella assistia com a A.
+sua mãi, como tudo se mostra das certidões fl. 224 e 322.
+
+«N'estes termos...--proseguiu o escrivão descarregando na venta direita
+a pitada do simonte que esperava a suspensão de novo periodo--«n'estes
+termos, sendo a filha da A. menor de 25 annos, conforme a certidão fl.
+232, que o réo não podia ignorar pelo tratamento e serviço domestico de
+muitos annos, e incumbencia de correr com o inventario do casal, que se
+fez por fallecimento do marido da A., não sómente se acha incurso na
+pena da Ordenação, livro 5.º, titulo 22 por ser indisputavel a illustre
+qualidade da filha de um desembargador do paço e do real conselho, além
+de outros honrosos empregos litterarios que tinha exercitado n'este
+reino e côrte, e o réo apenas póde reputar-se em um estado indifferente
+ou medio entre as pessoas da sua patria, em cuja camara e officios pouco
+servem quaesquer pessoas desoccupadas[6], e como tal não convinhavel,
+nem civilmente digno d'este casamento; mas tambem se acha comprehendido
+na pena da Ordenação, tit. 24. Por tanto, attendendo a não concorrer a
+prova e circumstancias para se impor a pena capital ordinaria, o
+condemnam em seis annos de degredo, sem açoutes, para o reino de Angola,
+e 20$000 reis para as despezas da relação, e no perdimento de toda a sua
+fazenda para a A. na fórma da lei e custas dos autos. E o escrivão não
+fará publica esta sentença sem primeiro se passarem as ordens
+necessarias para o dito réo ser preso, e com effeito se achar na cadêa
+da côrte. Lisboa 31 de maio de 1760.==_Giraldes, Franco, Xavier da
+Silva, Vidigal, doutor Cunha, Silva._»
+
+--Agora--disse o escrivão embocetando os oculos--snr. Felix, seja homem,
+tenha paciencia, e dou-lhe de conselho que não perca tempo em
+appellações. Seis annos passam depressa. Em toda a parte se come o pão
+de Deus ou do diabo. O que se quer é que seja pão.
+
+E como o condemnado lhe divisasse nos olhos um geito de piedade,
+animou-se a perguntar-lhe, debulhado em lagrimas:
+
+--Poderei levar minha mulher?
+
+--Se ella quizer, ninguem a póde privar. Adeus, infeliz. Tenha alma...
+
+Quando o escrivão sahia, encontrou no pateo da cadêa D. Isabel
+Quintella, com o menino no collo, coberta de pó e extenuada de fadiga.
+Loureiro, conhecendo-a, chamou-a de parte, precaviu-a do succedido para
+que a sua chegada ao quarto do marido não exacerbasse a agonia do preso.
+Reanimou-a com a esperança de o acompanhar ao degredo, e prometteu-lhe
+servil-a em tudo que podesse, pois que já agora o erro do casamento era
+irreparavel.
+
+Entrou Isabel no quarto do esposo com o semblante constrangidamente
+sereno; mas elle, apenas a viu, rompeu em alto choro, e, tomando o filho
+nos braços, pedia a Deus que lhe valesse por amor d'aquelle
+innocentinho.
+
+A vinda de D. Isabel ao carcere fôra um logro ás espias que a mãi lhe
+pozera. O escudeiro ainda a perseguira na estrada de Bemfica, ao passo
+que ella se evadira por atalhos, esbofada de cansaço com o peso da
+criança.
+
+Quando o carcereiro a intimou a sahir, resistiu, dizendo que havia de
+saber alli quem ordenára a sua prisão na quinta. A mulher do carcereiro
+compadecida da pobre esposa e mãi, deu-lhe agasalho n'aquella noite.
+
+No dia seguinte, D. Isabel Quintella, bem ou mal avisada, procurou o
+ministro conde de Oeiras, que havia sido particular amigo de seu pai.
+
+O ministro ouviu-a attentamente, sem lhe improperar a escolha de marido,
+e disse-lhe que se recolhesse a sua casa que ninguem a lá iria
+incommodar.
+
+E, perguntando Isabel se poderia acompanhar ao degredo seu marido, o
+conde de Oeiras compungiu-se, e respondeu:
+
+--Se o ama, vá; que a sua vida aqui não ha de ser melhor.
+
+Maria Michaela, sabendo que a filha estava na casa do marido e o
+visitava na cadêa, sahiu de novo a solicitar a justiça em nome do seu
+defunto. Corregedores e desembargadores, encolhendo os hombros, davam a
+perceber que sentiam nas orelhas os beliscões do conde de Oeiras. Volveu
+outra vez a viuva a pedir providencias que impedissem a ida da filha
+para Angola. Responderam-lhe os letrados e os juizes que a lei não a
+embaraçava.
+
+Em junho d'aquelle anno de 1760 sahiu o degredado com a mulher e filho.
+O conde de Oeiras mandára pelo mesmo navio uma breve carta ao governador
+Antonio de Vasconcellos. Horas depois do desembarque, Felix Tavares de
+Almeida recebia ordem de se apresentar ao governador, em separado dos
+outros degredados. Recebeu-o Vasconcellos com bom rosto e desusada
+cortezia. Nomeou-o fiscal das obras do palacio dos governadores, que se
+andava então edificando, e coucedeu-lhe na porção já construida moradia
+muito decente. Algum tempo depois, deu-lhe dragonas de capitão, sem
+consultar a lei que inhibia os degredados de tão elevada patente. Felix
+Tavares houve-se corajosamente n'um encontro com o sova Quiandala, que
+expulsou do Libôllo, aprisionando os mussões que infestavam a provincia
+de Cahenda.
+
+Este governador, sobre ser severo, era cruel com os criminosos. Um
+historiador dos governos de Angola diz que Antonio de Vasconcellos _por
+qualquer desordem fazia trabalhar o sarilho da polé_, e acrescenta:
+_esta inflexivel severidade, que tanto refreava os maus, deu origem a
+intentarem elles um dos mais horrendos e temerarios crimes que se podem
+imaginar_[7].
+
+Desde o anno de 1756 que as levas de degredados eram extraordinariamente
+numerosas. Sentenciados quasi todos por ladrões, eram esses os que o
+conde de Oeiras não vingára pendurar nas forcas erguidas em Lisboa,
+depois do dia do terremoto. Entre os quaes levára pena de degredo
+perpetuo um cigano de Torres Novas, chamado José Alvares, facinoroso que
+o conde de Obidos, notavel protector de ciganos, salvára do patibulo em
+paga de serviços particulares.
+
+José Alvares de Oliveira, que não incutira medo a Antonio de
+Vasconcellos, e experimentára o citado _sarilho da polé_, traçou matar o
+governador, a officialidade, os ministros e pessoas mais gradas de
+Loanda, saqueando depois as casas, e abalando d'alli para o Brazil em
+navio que estava prompto a sahir com despachos. _Um dos conjurados_, diz
+o referido historiador, _descobriu tudo ao seu capitão_.
+
+O capitão era Felix Tavares de Almeida que simultaneamente avisava o
+governador, e prendia José Alvares.
+
+O cigano foi aspado; quebraram-lhe os braços e pernas em vida. Os outros
+em numero de dezenove, foram estrangulados. O governador de uma das
+janellas do palacio assistiu ás execuções.
+
+Em janeiro de 1764 tornou o governador ao reino. Na mesma monção voltou
+Felix Tavares com o indulto de dous annos da sua sentença: tão valiosas
+haviam sido as informações que Vasconcellos mandára do seu capitão ao
+conde de Oeiras.
+
+Em junho d'aquelle anno já o marido de Isabel Quintella exercia um
+emprego liberalmente estipendiado na mesa da consciencia e ordens.
+
+D. Maria Michaela, que ainda vivia para maiores zangas, foi obrigada por
+sentenças successivas a dar a sua filha o patrimonio que lhe cabia por
+inventario.
+
+ * * *
+
+Deixemos agora rodar 71 annos, ao cabo dos quaes tambem eu figuro n'esta
+historia.
+
+Conheci em 1835 um desembargador da supplicação, quasi octogenario,
+chamado José Pedro Quintella. Era o filho de Felix Tavares e D.
+Isabel--aquella criancinha cujas supplicas o preso offerecia a Deus como
+resgate de seu infortunio. O desembargador Quintella, que muitos annos o
+foi da Relação do Porto, suspeito que casou n'esta cidade.
+
+Conheci tambem uma filha d'este magistrado casada com um bacharel
+transmontano chamado José Cabral Teixeira de Moraes, que advogou alguns
+annos em Lisboa na rua Nova do Carmo.
+
+Vi, recentemente nascida, em 1835 uma menina filha d'aquella senhora,
+que então morava em uma rua que liga o largo do Carmo ao largo da
+Abegoaria. Em 1861, o nervoso poeta Raymundo de Bulhão Pato mostrou-me
+no theatro de D. Maria uma formosa senhora, que era a criancinha que eu
+vira ao lado de sua mãi, no dia seguinte ao do seu nascimento;
+contemplei-a através de lagrimas, porque a imagem de meu pai cobriu de
+luto estas reminiscencias da minha infancia.
+
+N'esse tempo, ainda vivia em Lisboa o filho d'aquelle irmão de D. Isabel
+que aleivosamente arguira de ladrão seu futuro cunhado. Chamava-se, como
+seu avô, Ignacio da Costa Quintella. Era grão-cruz da ordem da
+Torre-Espada, vice-almirante, ministro e secretario de estado honorario,
+porque havia sido ministro do reino no Brazil e da marinha em Portugal
+nos annos de 1821 e 1826. Além d'isso era escriptor distincto porque
+escreveu os _Annaes da marinha portugueza_, e notavel poeta porque
+verteu as odes de Horacio publicadas nos _Annaes das sciencias e artes_.
+
+Seu primo, o filho de Felix Tavares, posto que mais obscuro socialmente,
+hombreava com elle nas graças do talento. Traduziu uma ecloga de Pope
+publicada no _Jornal de Coimbra_, e escreveu originalmente _O Redactor_,
+ou _Ensaios periodicos de litteratura e conhecimentos scientificos,
+destinados para illustrar a nação portugueza_ (1803).
+
+Como sabem, os descendentes de Felix Tavares eram mui proximos parentes
+de Farrobos, gerados de Quintellas; mas, entre as duas familias, corriam
+ainda litigios de partilhas que contavam setenta annos. Odiavam-se
+reciprocamente. Uns viviam opulentissimos, outros em mediania decente.
+Hoje, parte dos que então estadeavam fausto de principes, vive da
+caridade da defunta viuva do imperador do Brazil. Os outros não sei o
+que são. Creio que é viva ainda a bisneta de D. Isabel Thereza de Sousa
+Quintella. Se este livrinho lhe chegar ás mãos, indulte o peccado de
+murmuração da vida alheia a um velho que, tendo sete annos de idade, a
+beijou na face quando s. exc.^a contava algumas horas de existencia.
+
+Oh!... mas, a final, que immensa tristeza me deixam no coração estas
+paginas!...
+
+ [6] Não percebemos esta salgalhada.
+
+ [7] Memorias contendo a biographia do vice-almirante Luiz da Motta
+ Fêo e Torres, etc, por J. C. Fêo Cardoso de Castello Branco e
+ Torres. _Paris_, 1825, pag. 260 e seg.
+
+
+
+
+PROBLEMA HISTORICO A PREMIO
+
+
+(O premio offerecido a quem dilucidar a escuridade do caso é uma
+collecção de _Fados_, encadernada em marroquim, de parçaría com os
+_Musicos_, do snr. Joaquim de Vasconcellos, edição quasi em esgoto).
+
+
+O snr. Miguel Dantas escreveu um livro cheio de noticias ácerca de cada
+impostor que se intitulou _D. Sebastião_, rei de Portugal.
+
+O ultimo chamou-se Marco Tullio Catizone, da Calabria. A respeito
+d'este, o snr. Dantas exhibe documentos desconhecidos; e, na opinião do
+snr. Pinheiro Chagas, não ha mais que dizer.
+
+Ha.
+
+Affirma o snr. Dantas, fundado em provas, que Marco Tullio, o
+embusteiro, foi condemnado ao córte da mão direita, á forca, e á
+exposição do cadaver feito pedaços, sentença executada em S. Lucar de
+Barrameda, aos 23 de setembro de 1603.
+
+Essas provas, se bem me recordo, não tem maior canção que a devida ao
+nome do historiador sério.
+
+O documento que s. exc.^a não viu nem indicou é a _sentença de Clemente
+VIII_ a favor d'esse homem, que se intitulava _D. Sebastião_.
+
+Este importantissimo depoimento na causa do pretendido rei nunca foi
+impresso. É o seguinte:
+
+
+«Clemente VIII, por Divina Providencia servo dos servos de Deus: Saude e
+paz em Jesus Christo Nosso Senhor, que de todos é verdadeiro remedio e
+salvação. Fazemos saber a todos nossos filhos carissimos, que debaixo da
+protecção do Senhor virem com fervorosa fé em especial aos do reino de
+Portugal, que o nosso mui amado filho D. Sebastião Rey de Portugal se
+apresentou pessoalmente n'esta Curia Romana no sacro Palacio,
+fazendo-nos com muita instancia e supplica o mandassemos meter na posse
+do seu reino de Portugal pois era o verdadeiro e legitimo Rey delle; que
+por peccados seus e juiso divino se perdera em Africa indo peleijar com
+ElRey Maluco no campo de Alcacere quibir, e the agora estivera oculto e
+não quizera dar conta de si por meter tempo em meio dos males que
+succederam por seu conselho, e que para justificar ser o proprio estava
+prestes para dar toda a satisfação que lhe fosse pedida: E considerando
+nós o cazo, como somos juiz universal entre os principes catholicos,
+mandamos por conselho dos cardeaes em conclave que apparecesse; e,
+feito, se fez examinar com muita miudeza como convinha a tal cazo[8] de
+que se fizeram processos em varias naçoens e no dito Reyno de Portugal
+por pessoas qualificadas, assim dos signaes do seu corpo, como de outros
+mais miudos do seu reino, ajunctando as partes por onde andou, e de sua
+vida e costumes, como outras particularidades importantes para a verdade
+ser mui claramente sabida, não nos fiando por uma só vez, mas por
+muitas, e por pessoas constituidas em dignidade sacerdotal, e por
+seculares titulares, do que se fizeram os processos _que no Archivo
+desta curia se pozeram_, e que uns e outros se conferiram; e visto em
+Conclave e perante nós se verificar ser o proprio Rey D. Sebastião e lhe
+pertencer o dito Reyno, como unico herdeiro d'elle, e assim todas as
+rendas des a data d'este para se investir de posse; pelo que,
+Authoritate appostolica, por tal o declaramos, e sentenceamos, e
+mandamos ao muito Catholico Filipe terceiro de Hespanha que largue o
+Reyno em pax, sob pena de excommunhão mayor _ipso facto incurrenda_
+reservada a nós, não permitindo dilações; como filho obediente aos
+mandados Appostolicos deve temer a ira do Senhor fazendo o contrario;
+nesta Curia sob o nosso signal do Pescador a 23 de Dezembro de 1598.»
+
+
+Este documento não desfigura nem contraria a historia de Marco Tullio,
+referida pelo snr. Miguel Dantas. O que d'ahi se deprehende é que Marco
+Tullio enganára Clemente VIII, depois de ter enganado os sacerdotes e
+titulares que depozeram de sua authenticidade na curia, se é que os
+depoentes não mentiram ao summo pontifice para resuscitarem
+fraudulentamente D. Sebastião.
+
+De qualquer modo, se o impostor foi enforcado em 1603, segundo affirma o
+snr. Dantas, é impossivel que esse mesmo, que Clemente VIII sentenciou
+como rei em 1598, seja como rei sentenciado em 1617 por Paulo V.
+
+Aqui está a sentença de Paulo V:
+
+
+«Paulo V, Bispo de Roma, servo dos servos de Deus: Ao nosso mui amado
+filho Phelipe 3.º[9] Rei de Hespanha, Saude em Jesus Christo Nosso
+Senhor, que de todos é verdadeiro remedio e salvação: Fazemos saber que
+por parte de ElRey D. Sebastião, que se dizia ser de Portugal, nos foi
+apresentada uma sentença Appostolica de nosso antecessor Clemente
+outavo, de que constou estar julgado pelo verdadeiro Rey e legitimo de
+Portugal, nos pedia humildemente mandassemos por nosso Nuncio assim o
+declarasse para effeito de se lhe dar a posse pacifica que convinha á
+boa Christandade e exemplo dos infieis para que não tomassem motivo de
+uzurparem o alheio, e que mandassemos consultar por nossos Cardeaes, vêr
+e examinar a dita sentença com nova justificaçaõ, e como era o proprio
+contheudo n'ella: movidos do Amor Paternal, para evitar escandalos que
+podiam resultar, e guerras entre christaõs, nos pareceu para mais suave
+meio, mandar-vos avizo por nosso Nuncio, não permitindo dardes ocaziaõ
+para que se valesse das Armas da Igreja, antes logo com effeito
+largareis o Reyno a seu dono, como estava mandado pela sentença junta,
+na qual não houve satisfação, cousa estranha entre os Principes; pelo
+que _authoritate appostolica_, e que nesta parte uzamos, mandamos a vós
+Philipe 3.º, Rey de Hespanha, em virtude da sancta obediencia que
+dentro de nove mezes, depois da notificação d'esta, largueis o dito
+Reyno de Portugal a seu legitimo successor D. Sebastião mui
+pacificamente sem efuzaõ de sangue e sob pena de excommunhão maior _lata
+sententia_ da maneira que está julgada: Dada em esta Curia Romana sob o
+signal do Pescador a 17 de março de 1617.»
+
+
+Temos, por tanto, segunda sentença a favor do mesmo que a obteve em
+1598, e que a historia melhor documentada e _estudo definitivo_, no
+conceito do snr. Pinheiro Chagas, dá como enforcado em 1603.
+
+Mas este mesmo homem impetrou terceira sentença do papa Urbano VIII. Se
+fosse D. Sebastião devia, a esse tempo, orçar pelos setenta e seis
+annos. A sentença de Urbano é mais pathetica por que ahi já o decrepito
+exul pede que o não esbulhem do seu direito porque tem mulher e filhos.
+
+A terceira sentença reza assim:
+
+
+«Urbano VIII por Divina Providencia Bispo de Roma, Servo dos Servos de
+Deus. A todos os Arcebispos e Bispos e pessoas constituidas com
+dignidade que vivem debaixo do amparo da Igreja Catholica, em especial
+aos do Reyno de Portugal e suas conquistas, saude e paz em Jesus Christo
+nosso Salvador que de todos é verdadeiro remedio e salvaçaõ: Fazemos
+saber que por parte do nosso filho D. Sebastião Rey de Portugal nos foi
+aprezentado pessoalmente no Castello de Sancto Angelo duas sentenças de
+Clemente Outavo e Paulo Quinto nossos antecessores, ambas encorporadas,
+em que constava estar justificado largamente ser o proprio Rey e nesta
+conformidade estava sentenciado para lh'o largar Felipe 3.º Rey de
+Hespanha, ao que não quiz nunca satisfazer; pedindo-nos agora
+tornassemos de novo a examinar os processos, e constando ser o proprio o
+mandassemos com effeito investir da posse do Reyno, pois tinha filhos e
+mulher, e não podia perder seus direitos, que prejudicava a seus
+herdeiros, o que mandamos brevemente e por extenso vêr como convinha em
+cazo de tanta importancia; e considerando como nos convem julgar e
+detreminar a cauza dos Principes christãos, mandando dar vista a Felipe
+Quarto que hoje vive, cometendo a cauza ao Imperador, e a ElRey de
+Inglaterra e a ElRey de França, com o que se passou e se resolveu que
+lhe desse posse do Reyno de Portugal; e hora por parte do dito Rey D.
+Sebastião nos foi pedido pozessemos o cumpra-se na sentença, e
+mandassemos passar nosso Breve Appostolico com excommunhão rezervada a
+nós para que nenhum fiel christaõ lhe impida sua posse, nem tome armas
+offensivas contra elle e seus soldados e Ministros; e vendo nós com os
+nossos Cardiaes do nosso Conselho sua justiça, com maduro conselho lh'o
+concedemos: pelo que vos mandamos que depois da notificação desta a nove
+mezes primeiros seguintes que assignamos pelas trez canonicas
+admoestaçoens, dando repartidamente trez mezes por cada canonica
+admoestaçaõ, termo peremptorio, tanto que vos for apresentado e da minha
+parte mandado, façaes por vossos religiosos assim Seculares como
+Regulares publicar-se nos pulpitos das egrejas e praças publicas
+que.....[10]. Dada em esta Curia Romana sob o signal do Pescador aos 20
+de outubro de 1630.»
+
+
+Ahi está o problema.
+
+Quem era este homem?
+
+Não podia ser o rei da Ericeira, nem o rei de Penamacor, nem o
+pasteleiro do Escurial, nem Marco Tullio Catizone. Os quatros impostores
+eram já mortos.
+
+Então quem era?
+
+Ferdinand Denis, quando relata o caso de Marco Tullio, diz que este
+homem é um dos problemas insoluveis da historia.
+
+Mas o snr. Dantas desatou o nó. O aventureiro foi enforcado em 1603.
+
+Houve um quinto Sebastião falso?
+
+Onde iremos buscar-lhe o rasto na historia?
+
+É possivel que o snr. Dantas não escrevesse a palavra definitiva a
+respeito do homem sentenciado por tres pontifices que o viram?
+
+Ahi fica o problema.
+
+ [8] Os signaes que D. Sebastião tinha no corpo eram estes: A mão
+ direita maior que a esquerda; o braço direito maior que o esquerdo;
+ o tronco dos hombros até á cinta desproporcionalmente curto e
+ curvado, de modo que os seus gibões não cahiam bem n'outro corpo; da
+ cinta aos joelhos muito comprido; a perna e o pé direitos maiores
+ que os esquerdos; os dedos dos pés quasi iguaes. No dedo minimo um
+ calo grande; na espadoa esquerda um signal pardo e cabelludo; outro
+ signal preto na espadua direita; sardas pouco perceptiveis em rosto
+ e mãos; faltava-lhe um dente no queixo inferior, que lhe fôra tirado
+ por Sebastião Netto; o beiço grosso da parte direita, pés pequenos,
+ pernas algum tanto tortas.
+
+ O que ha mais importante historicamente n'esta nota é ter sido o
+ dente de sua alteza extrahido por Sebastião Netto.
+
+ [9] As alterações orthographicas constam do texto, que trasladamos
+ quasi pontualmente.
+
+ [10] Seguem-se algumas linhas que a humidade tornou inintelligiveis.
+
+
+
+
+DESASTRE DO SANTO OFFICIO NO PORTO
+
+
+A inquisição de Portugal, em 1704, confiava tanto na espada flammejante
+de S. Domingos, que nem as esquadras britannicas lhe incutiam pavor.
+
+N'aquelle anno, morava no Porto uma familia ingleza de appellido
+_Fiuza_. Não assevero que assim se escrevesse ou pronunciasse o
+appellido; mas assim o acho escripto em documento coevo, extrahido de um
+processo do santo officio. Esta familia era catholica romana.
+
+Havia no Porto outra familia ingleza herege. Appellidava-se _Mosheim_,
+que os escreventes do tribunal dominicano escrevem Mossão.
+
+Á familia catholica pertencia uma menina chamada Isabel. Á protestante
+um moço chamado Thomaz.
+
+Amavam-se os dous contra vontade de seus paes. Eram ambos abastados e
+bem procedidos; mas tinham de permeio o inferno. Na opinião dos Fiuzas a
+familia Mosheim estava condemnada ás penas eternas. Os Mosheim, por sua
+parte, diziam que os Fiuzas eram lenha secca para as fornalhas
+infinitas.
+
+O pai de Thomaz consentia no casamento, se Isabel apostatasse do
+catholicismo. O pai de Isabel cedia ás supplicas da filha, se Thomaz se
+convertesse á verdadeira e unica religião.
+
+Eram irreconciliaveis os dous inglezes.
+
+Mas a paixão de Isabel pôde mais que o pai e que o esteio da fé.
+
+Uma noite, fugiu de casa. Morava em uma das tres quintas de João
+Pedróssem, a Villar. Desceu a Miragaya, e entrou em uma lancha ingleza,
+onde a esperavam Thomaz Mosheim e um padre protestante.
+
+Ao repontar da manhã, o padre abençoou o casamento dos dous
+contrahentes, alli, sobre as aguas do Douro, em uma formosa alvorada de
+agosto, com quatro marinheiros por testemunhas.
+
+Feito isto, o sacerdote lutherano foi em demanda do inglez catholico, e
+disse-lhe que acabava de abençoar o casamento de Isabel com Thomaz, e
+lhe ia pedir que perdoasse a sua filha pelo amor de Deus. O velho inglez
+arrepellou as barbas, injuriou o padre, e bradou tres maldições á filha
+e á sua posteridade.
+
+Divulgou-se o successo na cidade.
+
+Ao outro dia, Carlos da Rocha Pereira, commissario da santa inquisição,
+no Porto, acompanhado de alguns officiaes, entrou em casa de Thomaz
+Mosheim, e prendeu Isabel em nome do santo officio. Ella, traspassada de
+terror, seguiu aquelle homem que tinha nas palavras a rijeza de uma
+tenaz de tortura. Foi conduzida ao aljube ecclesiastico, e interrogada.
+
+A colonia inglesa, assim que soube da prisão de Isabel Fiuza, reuniu-se
+em casa do seu consul. Sahiu o magistrado á frente dos queixosos, e
+pediu audiencia ao vigario geral. Reclamou a ingleza em termos solemnes
+com ameaças. O vigario geral amedrontou-se; mas disse que não podia
+soltar a herege, sem ter consultado os inquisidores de Coimbra.
+
+E, no em tanto, a noiva chorava incommunicavel no aljube ecclesiastico.
+
+Foi encarregado o commissario Carlos da Rocha Pereira de consultar os
+inquisidores de Coimbra. Estes, vacillando na resposta, consultaram o
+conselho geral, que residia em Lisboa, no seguinte officio, que lá
+chamavam _Conta_:
+
+
+«O commissario do Porto Carlos da Rocha Pereira nos dá conta pela carta
+inclusa do matrimonio que celebrou Isabel Fiuza, catholica romana,
+ingleza, com Thomaz Mossão, inglez herege, no rio Douro, em uma lancha
+ingleza; e nos remette o auto de perguntas, que lhe fez, depois de presa
+no aljube ecclesiastico da mesma cidade, em que confessa o mesmo
+matrimonio; e, no mesmo correio, dá conta aos inquisidores Affonso
+Cabral Botelho, e deputado Francisco Carneiro de Figueirôa, pela carta
+junta, do reparo que na dita cidade faziam os inglezes da prisão do
+ordinario; e que ouvira que o seu consul se queria queixar a sua
+magestade; e, posto nos pareceu que deviamos proceder contra a dita
+Isabel Fiuza, na forma da disposição do _Regimento_, liv. 3.º tit. 16,
+§. 2.º, o duvidamos fazer pelas circumstancias referidas, e reparo do
+consul; e assim recorremos a v. ill.^ma para nos ordenar o que devemos
+obrar n'esta materia. Coimbra em mesa 18 de agosto de 1704.==_Antonio
+Portocarreiro, Affonso Cabral Botelho._»
+
+
+O conselho da santa inquisição, desdenhando as ameaças do consul e a
+opinião dor rei a tal respeito, respondeu, passados quarenta dias:
+
+
+«Os inquisidores responderam ao vigario geral que, suppostas as
+circunstancias, póde conhecer do caso de que se faz menção na fórma que
+lhe parecer. Lisboa 26 de setembro de 1704.==_Carneiro, Moniz, Hasse,
+Monteiro, Ribeiro, Rocha._»
+
+
+E, no em tanto, Isabel conseguira receber no aljube ecclesiastico alguns
+padres de notoria virtude que a reduzissem á religião catholica e a
+desatassem do marido herege.
+
+O vigario geral lisonjeára-se grandemente com a confiança delegada pelo
+conselho geral; mas via-se entalado entre a fé catholica e o consul
+inglez.
+
+Depois de grandes prelios que as duas potencias lhe travaram na
+consciencia, o magistrado ecclesiastico resolveu processar Isabel, visto
+que ella, impenitentemente e contumaz, persistia em querer o seu marido
+assim herege e condemnado ao sempiterno horror onde ha o perpetuo ringir
+de dentes.
+
+Esta deliberação foi communicada ao consul, que a ouviu com um sorriso
+que o vigario geral não percebeu porque era sincero, virtuoso e
+bonacheirão.
+
+N'esse mesmo dia, o consul teve uma conferencia secreta com quatro
+capitães de navios inglezes, ancorados no Douro.
+
+Á volta das onze da chuvosa noite de 7 de outubro, pela porta da
+Lingueta e pela dos Banhos entraram os muros da cidade trinta
+marinheiros que por diversos pontos confluiram ao aljube ecclesiastico,
+situado na visinhança da Sé.
+
+A guarda d'este carcere era indigna de hoste ingleza tão numerosa. O
+santo officio confiava muito dos ferrolhos, e dispensava as escopetas da
+milicia; mas nunca lhe negrejára na mente a hypothese de que os esbirros
+e carcereiros, tangidos por valentes sôcos britannicos, iriam libertar
+da masmorra um dos seus presos.
+
+Foi o que aconteceu n'aquella noite funesta para os fastos do santo
+officio, e para os queixos dos quadrilheiros. Isabel que não podera ser
+prevenida, quando ouviu a deshoras o rodar de portas nos gonzos, cuidou
+que ia ser transferida aos carceres de Coimbra ou Lisboa. Estava em
+joelhos com as mãos postas, quando Thomaz Mosheim, ladeado de marujos
+athletas, entrou no recinto, e a custo a viu ao clarão de uma lampada
+que alumiava um crucifixo.
+
+E ella, reconhecendo-o, lançou-se-lhe nos braços, e perdeu o alento.
+
+Um dos quatro colossos vermelhos, que o seguiam, tomou-a nos braços,
+como quem aconchega do peito uma pomba assustada.
+
+Depois, era triste de vêr-se como aquelles poucos guardas do aljube,
+porque não percebiam o regougar dos saxonios, em vez de palavras eram
+intimados a pontapés para que entrassem no carcere devoluto da ingleza.
+E, todos elles--digamol-o com dôr de portuguezes e de catholicos--lá
+ficaram fechados, apalpando as partes contusas.
+
+Antes do arraiar da aurora, uma escuna ingleza balouçava-se defronte do
+castello da Foz, á bocca da barra. Assim que amanheceu, as velas
+trapejavam com prospero vento.
+
+Isabel, ainda prostrada no seu beliche, pedia ao esposo que a
+convencesse de que ella não estava louca nem sonhava. E elle, o doudo de
+paixão e alegria, lá conseguiu convencel-a de que o Deus do céo e da
+terra, que era o Deus de ambos, a tinha alli bem acordada para a suprema
+felicidade d'este mundo.
+
+Que fez o vigario geral depois de tão insolito ultrage? Consultou os
+inquisidores de Coimbra. Os inquisidores de Coimbra consultaram o
+conselho geral. O conselho geral consultou o rei. Fez-se um profundo
+silencio. Ninguem fallou mais d'este caso, senão eu.
+
+Já que estou com as mãos nas cinzas ensanguentadas do santo officio, hei
+de dizer ao leitor a razão que assistiu aos inquisidores que em 1601
+mandaram ensambenitar e queimar uma rica e gentil dama, chamada Violante
+Mendes e seu marido Francisco Borges, ambos de Chaves.
+
+E, trasladando a denunciação, que é a primeira peça do processo, dou aos
+curiosos noticia do modo como semelhantes instrumentos se lavraram.
+
+Estamos em Chaves, no dia 28 de maio de 1591, em casa do vigario geral,
+onde são inquiridos os denunciantes, que são tres, e todos sacerdotes. O
+escrivão James de Moraes escreve o seguinte:
+
+
+«Anno do nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de 1591, aos 28 dias
+do mez de maio do dito anno, na Villa de Chaves, nas pousadas do
+licenciado Gaspar da Rocha Paes, vigario geral no temporal e espiritual
+n'esta vigararia comarca da dita villa, pelo ill.^mo snr. D. fr.
+Agostinho de Jesus, pela mercê de Deus e da santa sé apostolica,
+arcebispo, senhor de Braga, primaz, etc. Presente elle appareceu o padre
+João de Mattos, morador em a dita villa, o qual trouxe a mostrar a elle
+vigario uma peça de _marfil_ (marfim), que mostrava ser de feição de uma
+bezerrinha, e sómente lhe faltava as pernas, e braços que estavam
+quebrados, e assim os corninhos espontados, o qual disse que a achára na
+mão de André, moço de 16 annos, filho de João Rodrigues do Campo,
+arrabalde d'esta villa; que por lh'a vêr na mão lh'a pediu que lh'a
+mostrasse, o qual lh'a mostrou; e por a dita bezerrinha ser tal como
+dito é, e além d'isso cheirar muito a almiscar, e parecer estar em
+parte...[11], e lhe não parecer bem, lh'a trazia a mostrar por a pedir
+ao dito moço André. O qual André presente disse que era verdade que
+aquella peça, indo elle André hoje n'este dia a casa de Pero Fernandes,
+escrevente d'esta villa, á escóla, para o ensinar a lêr, a achou debaixo
+de uma arca, e ao tempo que a achou sem ninguem o vêr a guardou, e
+levou, e andou mostrando a algumas pessoas entre as quaes foi ao dito
+padre João de Mattos, e a Mathias de Barros cavalleiro d'esta dita
+villa; e lh'a tomaram. E logo outro sim appareceu Pedro moço de 16
+annos, filho do dito Pero Fernandes escrevente acima dito, e por elle
+foi dito que era verdade que aquella bezerrinha elle dito Pedro a achára
+na rua do Sol, d'esta villa, no meio da rua defronte da casa de
+Francisco Borges, em que hora (_agora_) elle vive, que é de Diogo
+Ferreira d'esta mesma villa, o que poderia haver um mez pouco mais ou
+menos, e lh'a viu achar Lazaro, filho que ficou de Gaspar de Magalhães.
+E depois de assim a achar a levára para casa como dito tem sem outra
+cousa alguma, e a trazia em casa sem entender o que era; e andava ahi em
+casa por detraz das arcas. E estando assim para se fazer este auto
+chegou o padre Gaspar Dias, e o padre Antonio de Magalhães, ambos d'esta
+dita villa, e disseram, que estando ambos juntos, e vindo pela porta do
+dito Francisco Borges acima dito, estando Gaspar Teixeira Chaves á sua
+janella, lhes disseram elles que se achára uma bezerra, não sabendo
+onde, como na verdade não sabiam; e, estando n'esta pratica da dita
+bezerra, disse uma moça que se chama Maria de Villar de Nantes, e criada
+do sobredito Francisco Borges, e outra moça pequena, outro sim criada de
+casa por nome Madanella, disse a grande rindo-se: _Senhores, isso é de
+cá._ E elles ambos passaram seu caminho sem responder nada. E logo veio
+atraz d'elles a dita moça Madanella, e elles a chamaram, e não quiz vir,
+e foi a casa do dito Francisco Borges, e tornou logo a sahir, e veio ter
+com elles ditos padres, e pediu a elle dito padre Antonio de Magalhães
+que lhe desse a vaquinha, e elle lhe perguntou se era sua, e a dita moça
+que sim era sua, que viera de Lisboa e que a trazia o menino na mão, e
+que em algum tempo elle dito padre Gaspar Dias ouviu dizer aos
+antepassados que uma Branca Manoel em Lisboa fôra queimada, a qual fôra
+_bredona_ (?) de Violante Mendes mulher do dito Francisco Borges, e o
+vinha denunciar e dizer. Estando assim elles ditos padres, presente elle
+vigario, chegou a dita moça Madanella duas vezes, e na primeira disse a
+elle vigario que a sobredita Violante Mendes sua senhora mandava pedir a
+vaquinha que era do seu menino; e da segunda que tornou disse, que a
+sobredita sua senhora a tornava a mandar que por amor de Deus lhe désse
+a vaquinha que era do seu menino que a perdera havia quatro dias. E de
+tudo mandou elle vigario fazer este auto, e assignou com os ditos padres
+aos quaes todos tres deu juramento dos Santos Evangelhos que n'esta
+parte tivessem todo o segredo como cousa do santo officio, e elles assim
+o prometteram e juraram e assignaram que a tudo se achavam presentes ás
+perguntas que se fizeram aos sobreditos moços, que elle vigario não quiz
+estivessem presentes ao fazer do auto, nem que assignassem por não serem
+capazes de segredo. E eu James de Moraes o escrevi, e a sobredita
+vaquinha ficou em poder d'elle vigario. E eu sobredito escrevi.==_Rocha,
+Gaspar Dias, Antonio de Magalhães, João de Mattos._»
+
+
+Ahi está o corpo de delicto que levou á morte um homem e uma senhora que
+tinham um filhinho, o qual brincava com uma bezerra de marfim sem pontas
+nem pernas. Tres ungidos do Senhor, tres padres denunciantes lá estão na
+gloria eterna revendo-se na bemaventarança das duas almas que elles
+purificaram no fogo.
+
+ [11] Palavra inintelligivel: parece dizer degolada.
+
+
+
+
+RANCHO DO CARQUEJA
+
+
+Ha 153 annos que um bando de estudantes, em Coimbra, acaudilhado pelo
+mais intrepido e de peores entranhas, começando por espancar os
+archeiros e rondas nocturnas, acabou por matar quem lhe offerecesse
+reacção. Chamavam-se _do_ e não _da Carqueja_, como escrevem todos os
+que relembram a funesta existencia d'aquelles rapazes perdidos.
+_Carqueja_ e _Estopa_ haviam sido, por aquelle tempo, dous facinorosos
+de Vizeu, chefes dos salteadores. Em honra do primeiro, escolheram os
+estudantes o sinistro baptismo do seu bando. E é de notar e deplorar que
+alguns da quadrilha eram padres que cursavam theologia. Depois de
+repetidas atrocidades, o governo, a rogos dos habitantes de Coimbra e
+lentes da universidade, enviou a marchas forçadas tropa de infanteria
+com alguns esquadrões que chegaram de madrugada e colheram de sobresalto
+os criminosos.
+
+Alguns, bem que não reagissem, entraram acutilados no carcere, e foram
+depois morrer no Limoeiro, em Lisboa. Aqui damos a relação dos seus
+nomes:
+
+O capitão do bando era da Terra da Feira; chamava-se Francisco Jorge
+Ayres. João Pedro Ludovice, natural de Lisboa; o padre Vicente Gomes
+Alvares Lobo, do Algarve; Manoel Antonio Ramos, José Rodrigues Esteves,
+José Antonio de Azevedo, Antonio da Costa e Silva, _o Pescada_; o padre
+José da Silva Couto, Miguel Pereira Coelho, Roque Monteiro Paim, José de
+Horta, D. Manoel Alexandre da Costa, todos de Lisboa; Jacintho de
+Figueiredo, natural de Almeida; José Pereira Manojo, brazileiro; o padre
+Francisco Pereira Goes, natural de Pereira; José da Cunha Borges, do
+Alemtejo; Pedro Gomes Barbosa, de Salvaterra; Lourenço Pimenta, Antonio
+Maceiro, Thomaz da Silva, João dos Santos, todos de Coimbra. Estes foram
+os presos conduzidos a Lisboa, afóra um estudante de Aveiro, cujo nome
+não sabemos, e um filho do confeiteiro de Loures, muito conhecido
+n'aquelle tempo. Um dos mais façanhosos, Francisco de Sá, natural de
+Evora, pôde evadir-se de Coimbra para aquella cidade, e d'alli para
+Hespanha. O juiz dos orphãos de Evora, a quem fôra recommendada a
+captura de Francisco de Sá, procedeu negligentemente, d'onde lhe
+resultou ir por ordem de el-rei carregado de ferros para o Limoeiro.
+
+O estudante Francisco Jorge Ayres, capitão da malta, foi degolado no
+Pelourinho de Lisboa em junho de 1722.
+
+Antonio da Costa e Silva, de alcunha _o Pescada_, e José de Horta
+morreram na cadêa.
+
+A maior parte dos outros cumpriu sentença de degredo.
+
+Entre os presos havia um poeta, D. Manoel Alexandre da Costa, neto do
+primeiro conde de Soure, filho de D. Rodrigo da Costa, viso-rei da
+India. Este fidalgo, ao saber que seu filho fôra preso na cáfila dos
+scelerados, adoeceu de vergonha, e morreu n'esse mesmo anno de 1722, aos
+16 de novembro, quando o filho ainda estava no Limoeiro, esperando a
+sentença.
+
+O protector deste moço era o marquez de Marialva, a quem o estudante,
+desde que o prenderam relatou em toantes, á moda do tempo, as suas
+desventuras. É longo o poema, e fastidioso, sem impedimento do interesse
+inspirado pela tragedia do assumpto. Não me dispenso, porém, de
+trasladar as quadras que dizem mais ao intento. Refere o incidente
+imprevisto da prisão:
+
+
+ ......................
+
+ _Era, em fim, de madrugada,
+ a hora menos escura
+ em que o dia irresoluto
+ nem se esconde, nem se occulta,_
+
+ _Quando com bellicas vozes
+ pela destra mão avulsas,
+ pois a eloquencia de Marte
+ não tem lingua, e não é muda,_
+
+ _Se ouvem de uma, e outra parte
+ gemer as portas, e ruas,
+ em o concavo dos montes
+ o ar ferido retumba._
+
+ _Todos ás janellas chegam
+ com desordenada chusma,
+ quem nas janellas não cabe
+ talvez aos telhados suba._
+
+ _Quando vem de infanteria
+ uma bem formada turba
+ forte como portugueza;
+ mas tyranna como turca._
+
+ _Vem tambem destros ginetes
+ cujos pennachos, e trunfas
+ se tocavam das janellas
+ ao movimento das upas._
+
+ _Por outra parte a justiça
+ entre os soldados vem junta,
+ que o ser a justiça armada
+ não é só para a pintura._
+
+ _Das casas as portas tomam,
+ não de todas; mas de algumas,
+ pois só se emprega a vingança
+ onde se suspeita a culpa._
+
+ _Logo de vista tam nova
+ com diversas conjecturas
+ todo o prudente se admira,
+ todo o culpado se assusta._
+
+ _Que será, que não será,
+ todo o innocente pergunta;
+ não o pergunta o culpado
+ que a mesma consciencia accusa,_
+
+ _Quando para o desengano
+ de tudo o que se murmura,
+ a esquadra passa da porta
+ a guarnição que as occupa_
+
+ _Levando a baioneta
+ mettida, calçada a buxa,
+ muito valor, pouco termo,
+ pouca attenção, muita furia._
+
+ _Assim entram os soldados
+ pelas casas mais occultas,
+ dem-se á prisão repetindo
+ ainda quando nada escuta._
+
+ _Pois como vinham temendo
+ os do rancho, cada um cuida,
+ que cada taboa pregada
+ mil criminosos occupa._
+
+ _Não ha cozinha, ou armario,
+ nem ha chaminé, nem tulha
+ que logo se não despegue,
+ logo não se desentupa._
+
+ _Porém era muito cedo
+ sem que nenhum tal presuma,
+ pois a culpa obra-se sempre,
+ Que a pena espera-se nunca._
+
+ _Nas camas os acham todos:
+ mau é que o culpado durma,
+ porém quem se deita tarde,
+ claro está que não madruga._
+
+ _Alli sem trabalho os prendem;
+ porque alli ninguem repugna,
+ pois não tinham como os corpos
+ alli as espadas nuas._
+
+ _Querem fugir; mas não podem,
+ pois por militar industria,
+ como estão guardas ás portas
+ não ha por onde se fuja._
+
+ ......................
+
+Até aqui, não ha razão para grandes piedades; mas, ao diante, as trovas
+exhoram a compaixão; e o caso foi que o marquez de Marialva salvou do
+degredo o supplicante poeta; mas não pôde arrancar o viso-rei das presas
+do opprobrio que o mataram.
+
+Quem visse dezesete annos depois D. Manoel Alexandre da Costa, obeso
+doutor em canones, prior da igreja de Santa Cruz no Minho, e principal
+da santa igreja de Lisboa, devia lembrar-se do socio bastantemente
+prendado do _rancho do Carqueja_, e recommendar á justiça de Deus os
+juizes que degolaram Francisco Jorge Ayres, e absolveram o afilhado do
+marquez, e sobrinho do segundo conde de Soure!...
+
+
+FIM DO 1.º NUMERO
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Noites de insomnia, offerecidas a quem
+não póde dormir. Nº1 (of 12), by Camilo Castelo Branco
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOITES DE INSOMNIA ***
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+Produced by Pedro Saborano
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+works. See paragraph 1.E below.
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+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
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+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
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+ <title>Noites de Insomnia, offerecidas a quem não póde dormir, n.º 1</title>
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+
+<pre>
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+The Project Gutenberg EBook of Noites de insomnia, offerecidas a quem não
+póde dormir. Nº1 (of 12), by Camilo Castelo Branco
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº1 (of 12)
+
+Author: Camilo Castelo Branco
+
+Release Date: January 31, 2008 [EBook #24463]
+
+Language: Portuguese
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+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOITES DE INSOMNIA ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano
+
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+</pre>
+
+<span class='pagenum'>[1]</span>
+<div class="capa">
+<p style="font-size: 1.2em;">BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA</p>
+<hr style="width: 6em;">
+<p style="font-size: 2em;">NOITES DE INSOMNIA</p>
+
+<p style="font-size: 0.7em;">OFFERECIDAS</p>
+
+<p>A QUEM NÃO PÓDE DORMIR</p>
+
+<p style="font-size: 0.7em;">POR</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">Camillo Castello Branco</p>
+<hr style="width: 3em;">
+<p style="font-size: 0.7em;">PUBLICAÇÃO MENSAL</p>
+<br>
+<hr style="width: 3em;">
+<p style="font-size: 0.9em;">N.<sup>o</sup> 1--JANEIRO</p>
+<hr style="width: 3em;">
+<table width="100%">
+<tr>
+<th colspan=2>
+LIVRARIA INTERNACIONAL<br>
+<span style="font-size: 0.7em;">DE</span>
+</th>
+</tr>
+<tr>
+<td style="border-right: solid 1px #000000; text-align:center;">
+<span style="font-size: 0.9em;">
+ERNESTO CHARDRON
+<br>
+<em>96, Largo dos Clerigos, 98</em><br>
+<strong>PORTO</strong>
+</span>
+</td>
+<td style="text-align:center;">
+<span style="font-size: 0.9em;">EUGENIO CHARDRON<br>
+<em>4, Largo de S. Francisco, 4</em><br>
+<strong>BRAGA</strong>
+</span>
+</td>
+</tr>
+</table>
+<hr style="width: 2em;">
+<p style="font-size: 0.9em;">1874</p>
+</div>
+<span class='pagenum'>[2]</span>
+
+<div id="impressor" style="text-align: center;">
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+<hr style="width: 8em;">
+<p>PORTO</p>
+
+<p style="font-size: 0.9em;">TVPOGRAPHIA DE ANTONIO JOSÉ DA SILVA TEIXEIRA</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">68--Rua da Cancella Velha--62</p>
+<hr style="width: 2em;">
+<p style="font-size: 0.9em;">1874</p>
+</div>
+<span class='pagenum'>[3]</span>
+
+<div id="sumario">
+<p style="text-align: center; font-size: 1.5em;">
+BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA
+</p>
+<hr style="width: 4em;">
+<p style="text-align: center; font-size: 2em;">
+NOITES DE INSOMNIA
+</p>
+<hr style="width: 4em;">
+<p style="text-align: center; font-size: 1.5em;">
+<strong>SUMMARIO</strong>
+</p>
+
+<p>
+<em><a href="#cap1">Proemio</a>
+-- <a href="#cap2">Consolação a santos Nazareth</a>
+-- <a href="#cap3">As ostras</a>
+-- <a href="#cap4">Rehabilitação do snr. visconde de Margaride</a>
+-- <a href="#cap5">A Rival de Brites de Almeida</a>
+-- <a href="#cap6">Egas Moniz</a>
+-- <a href="#cap7">Dous poetas ineditos do Porto</a>
+-- <a href="#cap8">D. João 3.<sup>o</sup>, o principe perfeito</a>
+-- <a href="#cap9">Subsidio para a historia de um futuro santo</a>
+-- <a href="#cap10">O livro 5.<sup>o</sup> da Ordenação, titulo 22</a>
+-- <a href="#cap11">Problema historico a premio</a>
+-- <a href="#cap12">Desastre do santo officio no Porto</a>
+-- <a href="#cap13">Rancho do Carqueja</a>.</em>
+</p>
+</div>
+<span class='pagenum'>[4]</span>
+<div id="lista_livros">
+<p style="text-align: center; font-size: 1.2em;">
+TRABALHOS
+</p>
+
+<p style="text-align: center; font-size: 0.8em;">
+DO
+</p>
+
+<p style="text-align: center; font-size: 0.9em;">
+EXC.<sup>mo</sup> SNR.
+</p>
+
+<p style="text-align: center; font-size: 1.1em;">
+CAMILLO CASTELLO BRANCO
+</p>
+
+<p style="text-align: center; font-size: 0.8em;">
+DE QUE É EDITOR ERNESTO CHARDRON
+</p>
+
+<hr style="width: 3em;">
+
+<p><strong>O carrasco de Victor Hugo José Alves</strong>, romance. 1 vol. ... 500</p>
+
+<p><strong>A freira no subterraneo</strong>, romance historico (traducção). 1 vol. ... 500</p>
+
+<p><strong>Os amores do diabo</strong>, romance (traducção). 1 vol. ... 800</p>
+
+<p><strong>Mosaico e silva de curiosidades historicas</strong>. 1 vol. ... 500</p>
+
+<p><strong>Memorias do bispo do Pará</strong>. 1 vol. ... 500</p>
+
+<p><strong>Poesias e prosas de Soropita</strong>. 1 vol. ... 500</p>
+
+<p><strong>A espada de Alexandre</strong>. Córte profundo na questão do homem-mulher e mulher-homem, por um socio prendado de varias philarmonicas. ... 240</p>
+
+<p><strong>Carta de guia de casados</strong>, para que pelo caminho da prudencia se acerte com a casa do descanço, a um amigo, por D. Francisco Manoel. Nova edição, com um prefacio biographico, enriquecido de documentos ineditos. ... 360</p>
+
+<p><strong>Vida d'el-rei D. Affonso VI</strong>, escripta no anno de 1684. Com um prefacio. ... 400</p>
+
+<p><strong>Diccionario universal de educação e ensino</strong>, traduzido e muito ampliado nos artigos relativos a Portugal e Brazil. 2 grossos volumes, de 800 paginas cada um, a 2 columnas. ... 6$000</p>
+</div>
+<span class='pagenum'>[5]</span>
+<div id="corpo">
+<hr>
+
+
+
+<a name="cap1"></a>
+<h1>PROEMIO</h1>
+
+
+<p>Esta serie de livrinhos ha de ser uma
+cadêa com elos de bronze rijos e toscos,
+e elos de pechisbeque flammantes e quebradiços.
+O bronze é a porção prestadía
+do opusculo; é a pagina que não seria
+descabida em livro de estudo; é a pretenção
+do author a que a sua obra perdure
+mais de vinte e quatro horas no espirito
+de quem a lêr.</p>
+
+<p>O pechisbeque é a futilidade que, ao
+nascer, é acolhida por um sorriso do leitor;
+e, apenas o sorriso esmorece, a impressão
+<span class='pagenum'>[6]</span>
+esvaíu-se; e a idéa fulge e apaga-se
+sem deixar mais signal que o relampago
+das noites de agosto, e o arrancar
+da aguia no seio das nuvens.</p>
+
+<p>Ambas as especies pertencem ás minhas
+noites de insomnia. N'esta deploravel
+enfermidade, que ha seis annos me estila
+no cerebro gota a gota a peçonha da
+morte, achei traça de me vingar do acaso
+que embala o regalado dormir do meu
+cão, e me estrondeia nos ouvidos o marulhar
+das vagas entre penhascos. Vou ao
+jazigo das minhas illusões, exhumo os esqueletos,
+visto-os de truões, de principes,
+de desembargadores, de meninas poeticas
+á semelhança das que eu vi quando a poesia
+era o aroma dos seus altares. Visto-me
+tambem eu das côres prismaticas dos
+vinte annos, aperto a alma com as garras
+da saudade até que ella chore abraçada
+ao que foi. E, depois, n'este festim de mortos,
+conversamos todos; e eu, no alto silencio
+da noite, escrevo as nossas palestras.
+Ás vezes, entre muitos estridores que
+<span class='pagenum'>[7]</span>
+me resoam nos ouvidos, o mais distincto
+é o dobre a finados. É quando a aurora
+reponta: a luz espanca as imagens cujo
+meio de vida é a treva e o silencio.</p>
+
+<p>Venho então sentar-me a esta banca,
+dou fórmas dramaticas ao dialogo dos
+meus phantasmas, e convenço-me de que
+pertenço bem aos vivos, ao meu seculo,
+ao balcão social, á industria, mandando
+vender a Ernesto Chardron as minhas insomnias.</p>
+
+<p>Eis a minha vingança, que abrangeria
+o leitor, se estes livros lhe não abonassem
+horas de somnolenta digestão de
+alguns artigos substanciosos. Estes artigos
+constarão da nobre sciencia da historia,
+nomeadamente de historia nacional,
+e muito das cousas pertencentes á fidalguia
+de raça que vai extinguir-se. É tempo
+de esgaravatar entre as ruinas do edificio
+derruido algumas reliquias aproveitaveis
+para a comedia humana. Mas nem
+tudo será escavar no lixo. Não vaguearemos
+sempre ao través dos pardieiros dos
+<span class='pagenum'>[8]</span>
+antigos solares. Alguma vez nos sentaremos
+na testada da serenissima casa de
+Bragança conversando com os seus duques
+e monarchas n'aquella sem ceremonia
+permittida á arraia miuda de hoje
+em dia; mas escreveremos as nossas
+considerações, como lá dizem, de luva
+branca e penna de diamante. Desejamos
+que a posteridade se entretenha comnosco,
+e com o snr. conselheiro Viale. Elle
+e nós levaremos aos evos uma sincera
+historia de Portugal, e andaremos os dous,
+á compíta, a vêr quem maiores emborcações
+de morphina injecta nos nervos das
+gerações porvindouras.</p>
+<span class='pagenum'>[9]</span>
+<hr>
+
+
+
+<a name="cap2"></a>
+<h1>CONSOLAÇÃO A SANTOS NAZARETH</h1>
+
+<div class="citacao">
+<p><em>Beati qui lugent</em>, e não pagam.</p>
+
+<p style="margin-left: 8em;">A BIBLIA E EU.</p>
+</div>
+
+
+<p>Amigo!</p>
+
+<p>Sensibilisou-me até ás lagrimas a noticia da
+sua prisão no theatro de S. Carlos, n'aquella funesta
+noite da sua citada prisão, como diria o
+nosso collega Jayme José Ribeiro de Carvalho.</p>
+
+<p>Não foi a razão que motivou esta ternura: foi
+a amizade.</p>
+
+<p>Vossê devia ser preso. Dizer que o espectador
+póde patear um espectaculo desagradavel e caro é
+duvidar que o espectaculo é que tem direito de
+patear o espectador.</p>
+
+<p>Santos Nazareth ignora as leis do reino expungidas
+da jurisprudencia do Manique, e não tem
+<span class='pagenum'>[10]</span>
+talvez opinião bem assente ácerca da transmigração
+das almas.</p>
+
+<p>A metempsychose do famoso intendente geral
+da policia fez-se ha 60 annos, pouco mais ou menos,
+na pessoa d'esse alcaide do real alcaçar que
+enviou o meu amigo ao Limoeiro como enviaria
+Mattos Lobo e Diogo Alves, se os colhesse no theatro
+de S. Carlos em flagrante <em>banzé</em>. Admitta o
+plebeismo que tem o fartum fadista da cazerna e
+da guitarra, que ainda hoje chora saudades da Severa,
+e disputa ás trombetas bastardas de Pedro I
+as reaes delicias da sua progenie.</p>
+
+<p>Quando a imprensa rugiu pelas suas guelas de
+zinco um rugido grande a favor de vossê, as minhas
+palpebras exsudaram perolas, na hypothese
+de que a intendencia da policia o obrigára a pagar
+aos quadrilheiros as despezas de o conduzirem
+aos ferros d'el-rei.</p>
+
+<p>É que eu considerando-me em plena monarchia
+do Pina Manique, lembrou-me um caso acontecido
+ha 89 annos.</p>
+
+<p>Raphael da Silva Braga, na noite de 2 de outubro
+de 1795, pateou uma cantora no theatro de
+S. Carlos.</p>
+
+<p>O corregedor Pedro Duarte da Silva mandou
+dous quadrilheiros agarrar o espectador desgostoso,
+e mettel-o no Limoeiro.</p>
+<span class='pagenum'>[11]</span>
+
+<p>No dia seguinte participou o successo ao Manique.</p>
+
+<p>O intendente, informando-se das condições
+do preso, soube que era pobre e tinha familia; e,
+além d'isso, pateára com tal conhecimento da arte.
+Em consequencia do que, ordena que Raphael
+seja solto, <em>pagando 3$200 reis de diligencia para
+os officiaes</em>.</p>
+
+<p>Se alguma vez é permittido a um homem da
+minha idade soluçar de commoção, é agora. Dar
+a liberdade a um homem pobre, mediante 3$200
+reis, em attenção á sua pobre e consternada familia,
+é uma cousa bonita e lacrimavel!</p>
+
+<p>Aqui lhe dou o traslado d'esta pagina de ouro
+do Manique, e lhe envio a original pela posta, a
+fim de vossê regalar os seus amigos vaidosos de
+serem de um paiz onde ha isto:</p>
+
+<br>
+<p>«Snr. Pedro Duarte da Silva. Louvo o procedimento
+que v. m.<sup>ce</sup> teve contra Raphael da Silva
+Braga, por ser um dos que hontem á noite
+deram a pateada no theatro de S. Carlos: attendendo
+porém á sua pobre familia, que está em
+consternação, e a outros motivos justos, que
+concorrem, v. m.<sup>ce</sup> o haverá por corrigido, e o
+mandará soltar, pagando tres mil, e duzentos
+de diligencia para os officiaes. Deus guarde a
+<span class='pagenum'>[12]</span>
+v. m.<sup>ce</sup> Lisboa, 3 de outubro de 1795.--<em>Diogo
+Ignacio de Pina Manique</em>.»</p>
+
+<br>
+<p>No rodar de 90 annos, desde 1795 até 1874,
+a poesia do direito, graças ás insomnias do doutor
+Theophilo, defecou os Maniques da prosa dos
+3$200 reis, de modo que vossê não pagou nada,
+segundo me consta. Isto me faz cogitar que o progredir
+é fatal, e que o snr. barão de Zezere, o
+longobardo,--chrysalida de outra transmigração,--ha
+de passar a fuzil mais polido na cadêa dos
+intendentes geraes da policia; por maneira que,
+na sua futura metempsychose, já se não distingam
+vestigios do corregedor Marques Bacalhau, façanhoso
+magistrado de D. João V.</p>
+
+<p>Entretanto, meu amigo, pois que a raça dos
+Maniques ainda referve nas retortas depurantes,
+aceite o meu conselho:</p>
+
+<p>Antes de entrar na platéa, vá ao camarote das
+authoridades, e pergunte-lhes:</p>
+
+<p>--Com quaes dos quatros pés manifestam
+v. exc.<sup>as</sup>, esta noite, a sua opinião lyrica?</p>
+
+<p>E governe-se, consoante a resposta.</p>
+<span class='pagenum'>[13]</span>
+<hr>
+
+
+
+<a name="cap3"></a>
+<h1>AS OSTRAS</h1>
+
+
+<p>No Porto, as commoções que sacodem os nervos
+da grande cidade, são raras; mas, se rebentam,
+são a valer!</p>
+
+<p>No principio d'este anno, estavamos todos quietos,
+com estas nossas caras cheias de ideal, gravidos
+de philosophias, hypocondriacos, ares inglezes,
+indigestos; mas, sobre tudo, bons visinhos e
+inimigos de novidades.</p>
+
+<p>A quarta pagina das gazetas andava, ha muito,
+alugada aos varios <em>barateiros</em>, que se denominam
+numericamente como as dynastias, traspassando
+a sua qualidade de barateiros n.<sup>o</sup> 1, n.<sup>o</sup> 2,
+etc., á proporção que quebram, e vão transmittindo
+a genealogia dos epithetos, maneira discreta de
+esconder os nomes.</p>
+
+<p>Eis que, inesperadamente, se annunciam em
+letras colossaes <span class="small-caps">as ostras</span>.</p>
+
+<p>E os litteratos, encarregados de guiarem a corrente
+da opinião publica, escolhendo no seu guarda-joias
+a mais nitida pedraria de estylo, apregoaram
+as ostras como ha dezenove seculos o fazia
+<span class='pagenum'>[14]</span>
+Horacio quando as afogava no falerno de Mecenas.</p>
+
+<p>O localista do <em>Primeiro de Janeiro</em>, com pulso
+febril, e ternura pelo marisco, exclamou: «Abençoado
+o nome de quem quer que em tempos tão
+doentios nos trouxe medicina tão efficaz e preconisada!...
+Não são de Ostende as ostras que se
+nos offerecem, frescas, saborosas e provocadoras,
+pela manhã como leite de cabra, ao meio dia
+como o <em>lunch</em> á ingleza, á noite como um restaurador
+das forças perdidas no labutar diurno. São
+de Montijo, igualmente boas, e igualmente irritantes.
+Vamos a ellas!»</p>
+
+<p>Vamos lá! conclamou toda a gente doentia,
+toda a gente em uso de leite de cabra, toda a gente
+que <em>lunchava</em> á ingleza, e, em summa, toda a
+gente que á noite costumava restaurar as forças,
+deitando-se a dormir, ou extrahindo do goraz cozido
+o phosporo necessario á sua vida intellectual
+e physica.</p>
+
+<p>Desde o alvorejar das gazetas, confluiram á
+praça de D. Pedro todos os servos que superintendem
+na culinaria das familias. As massas que
+desembocavam das ruas circumjacentes davam a
+lembrar os comicios d'aquelles dias de vertigem
+civica, lá quando os irmãos Passos abriam na
+viella da Neta os relampagos do Sinay, e a turbulencia
+<span class='pagenum'>[15]</span>
+da liberdade alli vinha soltar um rugido e
+ameaçar os tyrannos.</p>
+
+<p>Não assim agora n'estes dias em que o paiz,
+podre de feliz e anemico da sua indigestão de
+prosperidade, procura restaurar-se pelo marisco.</p>
+
+<p>De mais a mais, os diarios tinham annunciado
+que as ostras eram <span class="small-caps">gordas</span>; e, sobre gordas, dizia
+o <em>Primeiro de Janeiro</em>, <span class="small-caps">irritantes</span>. Pela qualidade
+de gordas, o sorriso que brincava nos meus labios,
+quando mandei o meu gallego comprar doze
+vintens d'aquelle remedio, era um sorriso de tão
+legitima candura como o leitor os tem visto nas
+bentas bochechas dos seraphins que sobem de gatinhas
+pelas columnas dos altares. Quanto a irritantes,
+como essa virtude me não parecesse a mais
+sadía, mandei ao mesmo tempo comprar a linhaça
+correspondente.</p>
+
+<p>E, em quanto o criado ia e vinha, consultei,
+para illudir a impaciencia, os meus livros no que
+havia, através dos seculos, mais averiguado ácerca
+das ostras. Li em Chernoviz que póde uma
+pessoa comer oito duzias sem experimentar o minimo
+incommodo. Oito duzias--noventa e seis
+ostras, de manhã, como leite de cabra; noventa
+e seis, como <em>lunch</em> á ingleza; noventa e seis á
+noite para restaurar as forças: ao todo, duzentas
+<span class='pagenum'>[16]</span>
+e oitenta e oito ostras quotidianas que custam no
+deposito da praça de D. Pedro 3$840 reis.</p>
+
+<p>É uma alimentação economica e boa para fortalecer
+o estomago de um paiz pobre. Qualquer
+sujeito anemico, pallido, que não possa com um
+gato por qualquer parte do mesmo, deve nutrir
+esperanças de que, no fim de um anno, tendo comido
+cento e cinco mil cento e vinte ostras gordas
+da praça de D. Pedro, que lhe custam um conto
+quatrocentos e um mil e seiscentos reis, póde gozar
+uma saude mais ou menos gallega.</p>
+
+<p>Assim que o meu criado chegou com dezoito
+ostras por 240 reis, atadas na ponta de um lenço,
+á guisa de biscoutos de revalenta, duvidei da gordura
+do testaceo, mas afaguei a charneira da concha
+bivalve, porque só de per si a concha tem
+virtudes medicinaes cuja noticia eu envio aos risos
+jubilosos dos meus amigos. Tenho aqui a <em>Anchora
+medicinal</em> do grande medico Francisco da
+Fonseca Henriques, e n'ella a pag. 247, <em>mihi</em>, artigo
+<em>Ostras</em>, leio com estremeções de gaudio: <em>As
+conchas das ostras queimadas são boas para as queixas
+das almorreimas.</em></p>
+
+<p>Isto é o que o <em>Primeiro de Janeiro</em> sabia de
+fundamento quando abençoou o inventor de remedio
+tão conveniente ás doenças do tempo. Faz-se
+mister grande intuição medica de entranhas a
+<span class='pagenum'>[17]</span>
+dentro para diagnosticar hemorrhoidas universaes
+na nação.</p>
+
+<p>Das alegrias externas, passei a averiguar a
+gordura annunciada do testaceo hermaphrodita.</p>
+
+<p>Não me pareceu tão gorda a ostra espalmada
+na concha que podesse disputar vantagens a um
+jantar do Ugolino de Dante na Torre de Piza.</p>
+
+<p>Authorisado pelas idéas que fórmo de gordura,
+suspeito que o empresario d'estas ostras descobriu
+o segredo de repartir dez por cada casca;
+ou, negociando as cascas em Montijo, as encheu
+com ameijoas do Cabedelo. É uma falsificação
+engenhosa que merece desculpa em quanto se
+conservar na familia dos testaceos; mas desde que
+o unico depositario das ostras portuenses começar
+a introduzir nas conchas das ostras pedacinhos
+de bucho de safio, carochas e grillos de salmoura,
+quer-nos parecer que uma duzia d'estes
+covilhetes por oito vintens não é barato, nem me
+garante a renovação do meu sangue depauperado.</p>
+
+<p>Não obstante, o consummo de ostras no corrente
+mez, no Porto e arrabaldes, tocou uma cifra
+que seria fabulosa, se as consequencias da irritação,
+previstas pelo <em>Primeiro de Janeiro</em>, se não
+manifestassem formidaveis, nos geitos, nos ademanes,
+nos esgares, nas crispações electricas que
+faiscam dos olhos de toda a gente saturada das
+<span class='pagenum'>[18]</span>
+ostras do unico deposito. Conhece-se que os insultos
+inferiores, que o pó da concha combate, se
+deslocaram, e evadiram a cupula do edificio humano.
+Os systemas nervosos, levados pela irritação
+a electróphoros, tornaram-se engenhos luminosos
+que transcendem as mais phantasticas idealisações
+da pyrotechnica. Esta galvanisação de organismos
+extenuados é realmente um espectaculo
+que honra muito a ostra; mas que tambem póde
+vir a ser nocivo á saude das almas.</p>
+
+<p>Sei que temos recursos antiphlogisticos para
+combater as irritações, desde as cataplasmas de
+fecula até ás ventosas sarjadas; mas o emprego
+d'estes meios therapeuticos obriga as pessoas timidas
+a andarem na rua com um alforge de drogas,
+como os antigos physicos, ministrando capilés
+e orchatas a todos os sujeitos que denunciem
+instinctos inflammados no ultimo grau de irritação.</p>
+
+<p>Em nome da moral publica, pedimos ás pessoas
+irritaveis que se abeberem em agua de cevada,
+quando sentirem que a ostra se lhes insinua
+perfidamente nos seios do coração.</p>
+<span class='pagenum'>[19]</span>
+<hr>
+
+
+
+<a name="cap4"></a>
+<h1>REHABILITAÇÃO DO SNR. VISCONDE DE MARGARIDE</h1>
+
+
+<p>S. exc.<sup>a</sup> festejou o seu natalicio com um baile,
+em um dia de jejum, por uma noite de janeiro,
+breve e esplendorosa. O dia era de abstinencia
+carnal, note-se. Creio que o preceito começava á
+meia noite, pontualmente á hora em que a restauração
+das forças, esvaídas na vertigem dos
+bailados, reclamava varios phenomenos reparadores
+desde a trituração até ao filtramento do chylo
+no systema sanguineo. Se eu não odiasse o palavriado
+vulgar, diria que os hospedes do snr. visconde
+precisavam de comer.</p>
+
+<p>Á magnitude do appetite correspondeu a magnificencia
+dos acipipes. Era já soada a hora da
+abstinencia do boi, do perú, da gallinhola, do <em>salmagundy</em>.
+E, não obstante, as iguarias condimentosas,
+a febra, a alimentação rija lourejava nos
+pratos e nas terrinas entre ondulações de perfumes.
+Alguns dos convivas sabiam que o dia ou a
+noite era de peixe. Senhoras de idade canonica,
+respeitaveis por seus principios e observantes das
+disciplinas da igreja, não vendo alvejar a pescada
+<span class='pagenum'>[20]</span>
+ou o rodovalho entre coxins de batata e cebola,
+tantalisavam a perdiz em molho de villão; mas,
+cerrando os dentes á invasão do peccado, esquivavam-se
+a sahir do baile com o bolo alimenticio
+azedado por escrupulos. N'este comenos, alguem
+disse o que quer que fosse a meia voz ás pessoas
+perplexas entre a gallinhola <em>truffée</em> e a religião
+dos Affonsos.</p>
+
+<p>Umas pessoas, depois que ouviram a nova,
+sorriram, como vencidas de tentação deliciosa, e
+comeram carnes. Outras, invulneraveis e inflexas
+na sua abstinencia, martyrisaram-se com trutas e
+salmões. Como quer que fosse, houve escandalo.
+Comeu-se volateria e ruminantes em sexta feira.
+Algumas consciencias sahiram do baile do snr.
+visconde, ás 8 horas e meia da manhã, com o peso
+do estomago sobre si.</p>
+
+<p>A opinião publica, já em Guimarães, já em
+Braga, ergueu-se á altura dos principios, e murmurou.
+Eu fiz parte d'esta opinião adversa ao
+magistrado superior do districto a quem corre o
+dever de penitenciar os seus hospedes com trutas
+e salmão em dias de peixe, em memoria dos augustos
+mysterios do christianismo.</p>
+
+<p>Quanto a mim, o snr. visconde era um atheu
+e os seus hospedes uma cafila de heresiarcas. Eis
+senão quando a imprensa do Porto divulga uma
+<span class='pagenum'>[21]</span>
+noticia que bafejou um halito de jubilo na face de
+Braga, no perfil de Guimarães, e nos tres quartos
+do paiz. Apresso-me a repetil-a em grifo com
+uma consolação catholica, e tanto ou quê apostolica:
+<em>O snr. visconde de Margaride tinha obtido
+dispensa do prelado bracharense para que os seus
+hospedes podessem comer carne.</em></p>
+
+<p>Orvalhe-se de lagrimas de alegria o rosto da
+christandade portugueza; que eu por mim, quanto
+um abraço cabe nas potencias da phantasia, aqui
+aperto contra o coração o snr. visconde de Margaride,
+e felicito os catholicos que digeriram innocentemente
+as suas vitualhas.</p>
+<hr>
+
+
+
+<a name="cap5"></a>
+<h1>A RIVAL DE BRITES DE ALMEIDA</h1>
+
+
+<p>A façanhosa forneira de Aljubarrota resiste á
+incredulidade da critica, abordoando-se ás muletas
+do patriotismo e á pá. Sabe-se pouco das
+proezas de Nuno Alvares e Mem Rodrigues. Nada
+referem os historiadores das apostas e porfias dos
+<span class='pagenum'>[22]</span>
+cavalleiros do Mestre de Aviz. Porém, que a forneira
+matou sete hespanhoes ebrios, feridos ou
+prostrados de fadiga, isso, que não póde ser honroso
+porque é vil, aprendem-o as crianças, e repetem-o
+adultos com desvanecimento e orgulho. Por
+honra da minha patria, quero crêr que a lenda
+da padeira de Aljubarrota é tão authentica e verdadeira
+como a do caldeirão de Alcobaça, apresado
+no arraial de D. João I de Castella. Dêem-se-me
+honras de Niebuhr n'esta cousa do caldeirão
+de Alcobaça.</p>
+
+<p>Houve outra heroina, mais digna de lembrança,
+e, todavia, ignorada. Essa praticou um feito
+de nobre coragem, defrontando-se a rosto com o
+inimigo, e derrubando-o.</p>
+
+<p>Foi o caso que em 1762 os hespanhoes, commandados
+pelo marquez de Sarria, invadiram Portugal
+pela provincia de Traz-os-Montes. A cidade
+de Miranda foi das terras d'aquella provincia a
+que mais soffreu as arremettidas do exercito invasor.
+Alli perto, passa o rio Fresno, cujas margens
+se communicam por uma ponte. Na extrema
+esquerda d'esta ponte vivia uma mulher casada,
+cujo marido se alistára nas guerrilhas dispersas
+pelas empinadas penedias do Douro. Um piquete
+de hespanhoes, com seu sargento, passou a ponte
+do Fresno. O sargento viu a mulher do guerrilheiro,
+<span class='pagenum'>[23]</span>
+que era a mais esbelta e donosa moça da comarca.
+Postou os soldados de atalaia a pequena
+distancia da ponte, e voltou de noite, acompanhado
+de dous, com o proposito de se fazer amar da
+aldeã por meio do assalto.</p>
+
+<p>Este sargento, em tempo de guerra, não usava
+das artes maviosas do seu patricio Tenorio. Em
+vez da guitarra e da escada de corda, fiava na suspensão
+das garantias, na quebra do direito internacional,
+na cronha da escopeta, e na pujança de
+seis rijas espadoas atiradas á porta d'aquella Elvira
+montezinha.</p>
+
+<p>A rapariga, votada ao saque, se não tinha commendador
+em casa, tinha cousa mais infesta ao
+sargento: era o marido que, por saudade ou receio,
+debandára da horda guerrilheira e fôra, encoberto
+por entre penhascos, pernoitar a casa.</p>
+
+<p>Alta noite, os tres castelhanos bateram á porta.</p>
+
+<p>O portuguez não respondeu; foi ella que assomou
+na adufa do sobrado, perguntando o que
+pretendiam áquella hora.</p>
+
+<p>O sargento, depois de inutilisar algumas phrases
+lyricas, tomou o pulso á timidez da moça, intimando-a
+a entregar a praça.</p>
+
+<p>O marido estava ouvindo, e perguntou muito
+de manso á mulher:</p>
+
+<p>--Quantos são?</p>
+<span class='pagenum'>[24]</span>
+
+<p>--Tres--respondeu ella.</p>
+
+<p>--Deixa-me lá ir, antes que venham mais.
+E ella, sahindo da janella, disse:</p>
+
+<p>--Então vamos lá.</p>
+
+<p>--Tu não venhas.</p>
+
+<p>--Não? isso lá, hei de ir, quer queiras, quer
+não.</p>
+
+<p>O sargento no entanto voltou-se aos dous soldados
+e disse:</p>
+
+<p>--A praça rende-se.</p>
+
+<p>D'ahi a minutos, abriu-se a porta da rua.</p>
+
+<p>O guerrilheiro deu uma guinada de tigre para
+a testada da porta, e desfechou um arcabuz em
+um dos tres, que foi a terra. Dous pelouros ao
+mesmo tempo lhe bateram no peito; mas o portuguez,
+ao cahir morto, levava debaixo de si um
+dos dous com uma navalha hespanhola embebida
+nas entranhas. Sobrevivêra o sargento aos companheiros,
+mas sómente o tempo indispensavel
+para que ella o varasse do peito ás costas com o
+espeto da cozinha.</p>
+
+<p>Depois, como sentisse o tropel da soldadesca,
+travou do marido, desceu por um algar escuro e
+pedregoso á ourela do rio, e cahiu prostrada de
+afflicção, quando conheceu que levava um cadaver.
+Ao romper da manhã, galgou á cumiada da
+serra, onde estanciavam os camaradas de seu marido,
+<span class='pagenum'>[25]</span>
+e viu de lá as ultimas fumaças da sua casinha,
+que os soldados castelhanos haviam queimado.</p>
+
+<p>Nada mais se sabe d'esta mulher. Não consta,
+sequer, que o governo de D. José I lhe mandasse
+reconstruir o casebre, acabada a guerra.</p>
+
+<p>Houve um poeta contemporaneo, que a descantou
+em um soneto jocoso, avantajando-a á Brites
+de Aljubarrota. As musas sérias não acharam
+a heroina digna de poesia grave.</p>
+
+<p>E esse mesmo soneto chocarreiro ninguem o
+conheceria, se lh'o não publicassemos aqui, precedido
+de um interrogatorio académico:</p>
+
+<br>
+
+<p><em>Qual acção é mais memoravel: a da forneira de Aljubarrota,
+matando os castelhanos com a sua pá;
+ou a da mulher de Traz-os-Montes, matando o
+sargento castelhano com o espeto?</em></p>
+
+
+<div class="poesia">
+<p style="text-align:center;">SONETO</p>
+
+<i>É problema que deve disputar-se,<br>
+entre os authores de mais nome e nota,<br>
+se póde essa mulher de Aljubarrota<br>
+com a de Traz-os-Montes comparar-se.</i><br>
+<span class='pagenum'>[26]</span>
+<br>
+<i>Aquella tem razão para gabar-se<br>
+de fazer com sua pá tanta derrota;<br>
+esta, que deixa co'a barriga rota<br>
+ao sargento, tambem deve estimar-se.</i><br>
+<br>
+<i>E esta, a meu vêr, melhor juizo tinha,<br>
+pois, vingando o marido seu dilecto,<br>
+fez o que ao seu genio lhe convinha.</i><br>
+<br>
+<i>Metteu-se-lhe nos cascos o projecto<br>
+de tratar o hespanhol como gallinha,<br>
+e, assim que topou um, pôl-o no espeto.</i><br>
+</div>
+
+<p>No principio d'este artigo, fallamos de apostas,
+porfias e promessas de cavalleiros, antes de se
+desfraldarem os guiões e bandeiras na batalha de
+Aljubarrota. Vasco Martim de Mello prometteu
+pôr as mãos no rei D. João I de Castella; Gonçalo
+Annes de Castello de Vide prometteu ser o
+primeiro que lhe enristasse a lança ao rosto. Estas
+promessas são heroicas; mas houve uma de
+Martim Affonso de Sousa Chichorro extremamente
+original pela deshonestidade. Vejam com que limpeza
+de alma este fidalgo se preparava para um
+conflicto de morte, e deprehendam d'ahi o que
+eram as crenças da immortalidade no seculo do
+cavalleiroso Mestre de Aviz.</p>
+
+<p>Na hoste de D. João assignalava-se João Rodrigues
+de Sá, o das Galés, aquelle heroico perfil
+<span class='pagenum'>[27]</span>
+tão portuguezmente desenhado pelo snr. A. Herculano
+no <em>Monge de Cistér</em>.</p>
+
+<p>João Rodrigues de Sá, ainda moço n'aquelle
+tempo, tinha uma bella irmã, abbadessa do mosteiro
+benedicino de Rio Tinto chamada Aldonsa Rodrigues.
+Martim Chichorro queria muito á gentil
+prelada, e não resguardava da censura os seus
+amores adulterinos com a esposa do Senhor. Na
+vespera da batalha perguntaram-lhe os fidalgos
+namorados da ala de Mem Rodrigues que promessa
+era a d'elle.</p>
+
+<p>--Prometto, se escapar da batalha--respondeu
+o amoroso selvagem--ir ter uma novena
+com a abbadessa de Rio Tinto.</p>
+
+<p>Grande cascalhada de riso, naturalmente. Houve
+logo um bisbilhoteiro que denunciou ao das
+Galés a fatuidade de Martim, quinto neto por bastardia
+d'el-rei D. Affonso III.</p>
+
+<p>--Pois eu--disse João Rodrigues serenamente--prometto
+ir atraz d'elle, e bater-lhe.</p>
+
+<p>Deu-se a batalha. Vasco Martim de Mello morreu
+no empenho de pôr a lança no rei. Gonçalo
+Annes sahiu illeso do voto cumprido. E Martim
+de Sousa, tão extensamente cumpriu a sua--as
+novenas succederam-se em tanta copia--que a
+peregrina Aldonsa houve do seu pontual servidor
+dous filhos que se chamaram Martim e Pedro. O
+<span class='pagenum'>[28]</span>
+que os genealogicos esconderam á posteridade,
+edificada com as virtudes das abbadessas e dos
+Chichorros, foi o genero de sova que o das Galés
+deu no pai dos seus sobrinhos.</p>
+
+<p>Talvez se desforrasse, consoante o gosto do
+tempo, em o fazer tio dos seus numerosos bastardos.
+As preladas formosas eram as conciliadoras
+em contendas d'esta natureza. D. João I morigerava
+os mosteiros, mandando vestir o habito
+de commendadeira de Santos a Ignez Pires, depois
+de a condecorar com a dupla virtude da maternidade.
+Os nossos reis, quando se enfastiavam
+das mulheres, davam-as de presente a Deus.</p>
+<hr>
+
+
+
+<a name="cap6"></a>
+<h1>EGAS MONIZ</h1>
+
+
+<p>Representa-se no Porto um drama chamado
+<em>Egas Moniz</em>. Não louvo nem censuro a composição,
+nem discuto se melhores interpretes a realçariam
+no palco. Tambem não levanto a já debatida
+questão da veracidade do facto. O snr. Alexandre
+<span class='pagenum'>[29]</span>
+Herculano crê que o aio de Affonso Henriques
+praticou o feito heroico. É o bastante.</p>
+
+<p>Quando o drama se annunciou, a primeira vez,
+nos cartazes, um homem de sessenta annos, vestido
+de preto, sobrecasaca no fio, o velludo da
+gola rapado, as calças recortadas e lamacentas á
+volta das botas azuladas de velhice, parou á esquina
+da rua Formosa, a lêr o cartaz grudado no
+cunhal da igreja das Almas.</p>
+
+<p>Eu reconheci-o a distancia, avisinhei-me, e
+parei, por detraz d'elle, em frente do cartaz, meditando.</p>
+
+<p>E meditava isto:</p>
+
+<p>Egas Moniz gerou Lourenço Viegas, o espadeiro;</p>
+
+<p>Lourenço Viegas gerou Egas Lourenço;</p>
+
+<p>Egas Lourenço gerou Sueiro Viegas Coelho;</p>
+
+<p>Sueiro gerou João Soares Coelho, valido de D.
+Affonso III;</p>
+
+<p>João Soares Coelho gerou Pedro Annes Coelho;</p>
+
+<p>Que gerou Estevão Coelho;</p>
+
+<p>Que gerou Pedro Coelho, o matador de D.
+Ignez de Castro;</p>
+
+<p>Pedro Coelho gerou Gonçalo Pires Coelho;</p>
+
+<p>E assim se foram gerando uns dos outros com
+uma constancia digna da nossa admiração, até que
+uma senhora da casa dos Coelhos, senhores de
+<span class='pagenum'>[30]</span>
+Vieira e Felgueiras, casou na casa dos senhores da
+Teixeira e Sergude, e d'este consorcio gerou-se:</p>
+
+<p>Gonçalo Pinto Coelho, que gerou:</p>
+
+<p>Martim Teixeira Coelho, que gerou:</p>
+
+<p>Bernardo José Teixeira Coelho, que gerou:</p>
+
+<p>Gonçalo Christovão Teixeira Coelho de Mello
+Pinto de Mesquita, senhor da Teixeira, de Sergude
+e do Bom Jardim, pai d'aquelle homem pobremente
+vestido que lia o cartaz do drama <em>Egas
+Moniz</em>, na esquina da rua Formosa.</p>
+
+<p>Aproximei-me d'elle, puz-lhe a mão no hombro,
+e disse-lhe:</p>
+
+<p>--Está o meu amigo regosijando-se de lêr em
+letras enormes o tio de seu decimo oitavo avô
+Egas Moniz...</p>
+
+<p>--Não, senhor--respondeu elle sorrindo--estava
+a scismar n'uma cousa que me não regosija
+absolutamente nada...</p>
+
+<p>--Bem sei--acudi eu com a minha notoria
+esperteza--estava v. exc.<sup>a</sup> meditando que já não
+ha portuguezes que, á semelhança do seu avô,
+fossem de corda ao pescoço dar satisfação da palavra
+mal cumprida.</p>
+
+<p>--Não, senhor; pensava em outra cousa...</p>
+
+<p>--Bem sei... pensava no apagado luzimento
+d'esta heroica estirpe dos Viegas, dos Coelhos,
+dos...</p>
+<span class='pagenum'>[31]</span>
+
+<p>--Não, senhor; pensava em ir vêr ao theatro
+Baquet representar a façanha d'este meu illustre
+avô; mas vejo aqui escripto que um lugar da galeria
+custa duzentos reis; e eu, decimo oitavo neto
+de Egas Moniz, se tivesse dous tostões, iria empregal-os
+no jantar de meus filhos, que estão em
+jejum.</p>
+
+<hr style="border-bottom: dotted 2px #000000;">
+
+<p>Snr. Antonio Moutinho de Sousa, dê no seu
+theatro um beneficio a favor de alguns netos do
+aio de D. Affonso I, e convide-os a levantar o
+obolo que os admiradores de seu avô d'elles depositarem
+na bandeja dos pobres.</p>
+
+<p>Os descendentes do fidalgo, que ensinou o primeiro
+rei portuguez a ser honrado, não deviam
+ter fome e frio, quando as plateias desbordam de
+gente jubilosa de bom patriotismo e de melhor
+jantar.</p>
+<span class='pagenum'>[32]</span>
+<hr>
+
+
+
+<a name="cap7"></a>
+<h1>DOUS POETAS INEDITOS DO PORTO</h1>
+
+
+<p>Na segunda metade do seculo XVII floreceram
+no Porto dous doutores, acariciados das musas, e
+por isso mesmo rivaes e inimigos: eram João de
+Assucarello (ou Sucarello) Claramonte, e Christovão
+Alão de Moraes, desembargador da Relação
+e mais tarde corregedor do civel do Porto. Do
+primeiro temos algumas poesias deshonestas, e diminutas
+noticias, e essas em referencias dos poetas
+seus contemporaneos, nomeadamente o padre Jeronymo
+Bahia. Do segundo encontra o leitor ampla
+noticia no <em>Panorama</em> de 1854, n.<sup>os</sup>123 e 127.
+Distinguiu-se como poeta e genealogico. Não sei
+onde param oito volumes em folha escriptos de sua
+mão, intitulados <em>Genealogia das familias de Portugal</em>.
+Sei que o duque de Lafões, no seculo passado,
+os não quiz comprar porque lhe não respeitavam
+a pureza do sangue dos avós; e a bibliotheca
+publica de Lisboa tambem os não adquiriu, ha
+poucos annos, «por incuria ou capricho do ex-bibliotecario
+Canaes», diz o snr. Innocencio Francisco
+da Silva.</p>
+<span class='pagenum'>[33]</span>
+
+<p>O doutor João de Assucarello satyrisava o Porto,
+representado nas pessoas de mais importancia,
+algumas das quaes nos são hoje desconhecidas, e
+difficilmente lhes rastrearemos as familias que as
+representam.</p>
+
+<p>Eis-aqui o maledicente soneto do medico, émulo
+de Christovão Alão:</p>
+
+<div class="poesia">
+<i>As valentias de Gaspar de Anhaya,<sup><a name="pn1" href="#n1">[1]</a></sup><br>
+O mero e mixto imperio do Sarinho,<br>
+A calva de João Nunes frita em vinho,<br>
+As filhas do Picão de Miragaya;</i><br>
+<br>
+<i>Mercancia de esterco, ambar da Maya,<br>
+Comprado ou já por lenha ou por toucinho,<br>
+Geral remedio de Entre-Douro e Minho,<br>
+Achado antes nas casas que na praia;</i><br>
+<br>
+<i>Beata calva, immensa gravidade<br>
+Dos infanções mantidos com farelo,<br>
+Da manta rota a celebre Irmandade:</i><br>
+<br>
+<i>Este é o Porto--acabo de dizel-o.<br>
+Ó muito nobre e sempre leal cidade,<br>
+Quem te pozera a couves e bacello!</i><br>
+</div>
+<span class='pagenum'>[34]</span>
+
+<p>Não se percebem alguns epigrammas do soneto;
+mas aquelle verso que rescende ao <em>ambar da
+Maya</em> não seria ainda hoje um anacronismo.</p>
+
+<p>Respondeu Christovão Alão, pelas mesmas
+rimas, do seguinte feitio:</p>
+
+<div class="poesia">
+<i>Bem caro te custou Gaspar de Anhaya,<br>
+E te póde custar inda o Sarinho;<br>
+Poeta bacchanal, farto de vinho,<br>
+Que és deshonra do Porto e Miragaya.</i><br>
+<span class='pagenum'>[35]</span>
+<br>
+<i>Villão inda mais sujo que da Maya,<br>
+Creado só com brôa e com toucinho,<br>
+Quem te mette a fallar em Douro e Minho,<br>
+Sendo filho das ervas e da praia?</i><br>
+<br>
+<i>Como has tu de entender da gravidade<br>
+Dos infanções, brichote de farelo,<br>
+Se não logras dos nobres a Irmandade?</i><br>
+<br>
+<i>Este és, ó bebado!--acabo de dizel-o:<br>
+Que só para beber toda a cidade,<br>
+A desejaste poeta de bacello!</i><br>
+</div>
+
+<p>Este soneto é bom.</p>
+
+<p>Desculpa-se ao poeta fidalgo a arrogancia com
+que desdenha o plebeismo do Assucarello, appellido
+que nenhum linhagista condecora; dado que
+este medico já então tivesse o habito de cavalleiro
+da ordem de Christo. Ora os Alões são mais
+antigos em Portugal que os seus monarchas. D.
+Mendo Alão era senhor de Bragança, antes da
+vinda do conde D. Henrique a Hespanha. Alguns
+genealogicos lhes dão como antepassados os reis
+<em>álanos</em>. Na igreja de S. Bartholomeu de Lisboa
+existiu o morgado de Santo Eutropio instituido
+por D. João Alão, bispo do Algarve. Esta familia
+está representada no Porto por descendentes que
+não desdouram tão nobre appellido.</p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup><a name="n1" href="#pn1">[1]</a></sup> Não ha no Porto alguem que use este appellido; mas a
+familia que o teve ainda aqui vivia honradamente no meiado
+do seculo passado, e se obscureceu no Alemtejo e Minho por
+onde se ramificára. Prende com esta familia do Porto Antonio
+Fogaça, aqui nascido. D. Sebastião o mandou como seu residente
+para Inglaterra, onde permaneceu largos annos, em serviço
+dos Philippes, enviando de lá importantes noticias em tempo de
+Henrique VIII. Seguiu a facção da rainha Catharina, e gastou o
+mais grosso dos seus grandes cabedaes n'esse brioso empenho.
+Succedendo no throno a rainha Isabel, foi Antonio Fogaça preso e
+duas vezes trateado na Torre de Londres, vindo a morrer das
+torturas, quando recobrou a liberdade. Por sua morte, foi-lhe
+confiscado o restante dos bens. Antonio Fogaça teve de sua mulher
+Isabel Ribeira de Vabo uma filha que se chamou D. Maria, e casou
+com Braz Rodrigues Anhaya. D'estes nasceu outra D. Maria do
+Vabo Pimentel, que casou com o capitão Manoel Soromenho
+Dias, de quem foi filho Luiz do Vabo Pimentel, governador da
+praça de Albufeira. Em 1750 ainda existia em elevada categoria
+um filho d'aquelle ultimo. Era capitao-mór de Alvor, e chamava-se
+Antonio Pimentel do Vabo. Nas provincias de Traz-os-Montes
+e Minho, nomeadamente no Paço de Carude e Torre de
+D. Chama, existiram Vabos e Soromenhos. De todas estas familias
+descende o snr. Augusto Soromenho, erudito professor do
+curso superior de letras, e que, ha quinze annos, com legitimo
+fundamento, usou em documentos publicos dos seus appellidos
+<em>Vabo e Anhaya</em>.</p>
+</div>
+<span class='pagenum'>[36]</span>
+<hr>
+
+
+
+<a name="cap8"></a>
+<h1>D. JOÃO III, O PRINCIPE PERFEITO</h1>
+
+
+<p>Não me recordo se os chronistas d'este rei nos
+contam que os resplendores da graça divina lhe
+aureolaram o rosto, quando a alma se desatou
+d'aquella infame caverna, e foi receber o galardão
+dos milhares de hebreus queimados em obsequio
+á religião da fé, esperança e caridade.
+O snr. A. Herculano capitula este rei de <em>fanatico,
+ruim de condição e inepto</em>; mas isto não faz
+implicancia á salvação do monarcha, antes a confirma;
+porque o grande historiador, sabendo como
+se fazem optimos livros, de certo ignora os processos
+da formação da glottica e dos santos.
+Afóra isto, sabe tudo, excepto que D. João III,
+quando expirou, causava medo aos que lhe viram
+a horrendissima cara.</p>
+
+<p>As pessoas medianamente cultas não ignoram
+que houve um frade de grandes virtudes e letras
+chamado frei Thomé de Jesus, da ordem de
+Santo Agostinho. D. Sebastião o levou comsigo á
+batalha de Alcacerquibir. Não sabemos se o frade
+pelejou; mas temos de certeza que ficou ferido,
+<span class='pagenum'>[37]</span>
+captivo, e encarcerado nas masmorras de Maquinez.
+Transferido para Marrocos, por diligencia do
+embaixador de Portugal, rejeitou o resgate, que
+seus irmãos, fidalgos de primeira plana, lhe offereceram,
+preferindo a escravidão alli onde eram
+muitissimos os captivos carecidos de confortações
+e exemplos de paciencia. E, ao cabo de quatro
+annos de servidão, morreu em Marrocos, aos 17
+d'abril de 1582, na idade de cincoenta e tres annos,
+legando-nos um livro lá escripto e muito
+apreciado com o titulo <em>Trabalhos de Jesus</em>.</p>
+
+<p>D'este escriptor mystico possuimos uma carta
+inedita, motivada pelo trespasse de D. João III, e
+escripta desde Lisboa a certa communidade religiosa.
+O esclarecido bibliographo F. Innocencio
+da Silva sente que esta carta, principiada a imprimir
+no <em>Murmurio</em>, periodico bracharense, ficasse
+incompleta. Nós, que tambem possuimos d'ella
+um traslado da mão de D. fr. Manoel do Cenaculo,
+arcebispo de Évora, vamos dal-a integral e
+textualmente, na certeza que revivemos um documento
+historico, lavrado por testemunha presencial,
+e, além d'isso, por um dos mais abalizados
+escriptores do seculo aureo da lingua portugueza.</p>
+
+<p>Reza assim:</p>
+<span class='pagenum'>[38]</span>
+
+<p>«Amantissimos Padres. O Spirito Sancto cosolador,
+e emparo dos atribulados console suas
+almas, que creio estarão já com a dor, que nós
+temos da morte de nosso Pai, Rei, e Senhor, taõ
+supita, e taõ inopinata, como foi, e lhes dê o emparo
+espiritual de sua graça, e temporal de cabeça
+tal, qual foi a que perdemos. Amen.</p>
+
+<p>«Ainda que creio, que já teraõ a certeza da
+morte del Rei Nosso Senhor, porem por mo mandar
+nosso Padre, e eu o ter já assim determinado
+de fazer, e porque muitas cousas se dizem lá, e
+cá, que naõ foraõ assim, pera saberem a certeza
+do que passa lhes quero contar por ordem tudo:
+ainda que folgára eu muito de ter antes perdidas
+as virtudes, e forças naturaes do corpo, que te-las
+pera aver de escrever o que agora ouvirão.</p>
+
+<p>Quarta feira <i>infra octavas Penthecostes</i>, sahio
+El Rei Nosso Senhor, que santa gloria aja, a ouvir
+missa á Misericordia, quasi indo em pessoa a
+chamar a Misericordia, que d'ahi a pouco tempo
+o avia de levar á sepultura, e assim foi esta derradeira
+sahida só, pera seu costume, e hia ainda
+muito bem disposto. Ouvida a missa se tornou
+muito de pressa ao Paço com muita, infinda gente,
+mal disposto de huma perna, mas pouca cousa,
+e tudo isto vio hum Padre desta casa. Chegando
+<span class='pagenum'>[39]</span>
+ao Paço se encerrou em huma camara só
+sem ninguem, onde esteve muito grande espaço,
+depois do qual chamou, e pedio agoa rosada, com
+a qual lavou o rosto, e mãos, e tornou a estar só
+outro pedaço, donde sahio a jantar muito melenconisado,
+e jantou mal, e á tarde teve huma febrezinha
+muito pequena.</p>
+
+<p>«Quinta feira se alevantou, e andou hum pouco
+achacoso, diziaõ que era de naõ dormir com
+cuidado do Principe<sup><a name="pn2" href="#n2">[2]</a></sup> que tivera huma febre, e
+arrevesava, e naõ dormia. Mas Deos sabe o que
+era. Com tudo não tinha doença que o fizesse estar
+em cama.</p>
+
+<p>«Á sexta feira se alevantou tarde, e ouvio
+missa em casa, e jantou muito bem assombrado,
+e assim esteve toda a sésta, que ao parecer estava
+bem, até as quatro horas, as quaes dadas nos
+chamárão á procissão <i>praecipue</i> pelo Principe, que
+Deos guarde, a qual sahia da Sé á Misericordia.
+Sahindo nós da Sé chegou hum recado que fossemos
+a Jesu de Saõ Domingos com a procissaõ por
+el Rei, que estava muito mal, e assim se fez, e
+ouve pregaçaõ. De maneira que perto das cinco
+horas se começou el Rei de agastar, e chamou
+Confessor, que estava na Mesa da Consciencia, e
+<span class='pagenum'>[40]</span>
+confessou-se das cinco até as oito. E logo do Saõ
+Giaõ lhe leváraõ o Senhor, e chegando nós ao
+Rossio, nos deraõ novas, que lhe naõ achavaõ
+pulso. Acabando de comungar começou a concertar
+seu testamento, o qual naõ acabou de fazer
+com as mezinhas, e com os agastamentos;
+mas segundo me dixe o Confessor da Rainha o
+substancial delle fez, e assinou. Ás dez horas se
+achou mais leve, e despejou<sup><a name="pn3" href="#n3">[3]</a></sup> para repousar, e ás
+onze chamou, e vendo que carregava o accidente
+pedio a Unçaõ, a qual lhe trouxeraõ logo, e
+quando já chegou naõ fallava, mas recebeo-a vivo,
+a qual recebida, sendo já meia noite, em
+quanto podiaõ dizer huma terça rezada, <i>expiravit</i>
+levemente, e sem movimentos, nem trabalho
+mais, que o mortal, que he o mór de todos. De
+maneira que em sete horas, a saber des das cinco
+ás doze acabou. A isto naõ estive eu presente,
+mas soube-o do Confessor da Rainha, e de
+Luiz Gonçalves, que ahi se achavão presentes, e
+delles soube que quando el Rei pedio a Unçaõ,
+que se recolheo o Cardeal, e os outros Senhores,
+e só a Rainha se foi pera el Rei, e com elle esteve
+até espirar sem botar lagrima, e acenando a
+<span class='pagenum'>[41]</span>
+todos que ninguem chorasse alto por não inquietar
+a el Rei, ella o consolava, e animava a passar
+alegremente aquelle passo com muitas palavras
+christãs e devotas: ella lhe teve com grande coraçaõ
+a candeia em a maõ, e lhe fechou os olhos, e
+acabando elle de espirar se foi cobrir de dó, e se
+poz em hum oratorio com quatro vellas no altar,
+e frontal, e dorsel de veludo carmesi, com o braço
+de Saõ Sebastiaõ, onde o Padre Montoya a visitou,
+e consolou, ou para melhor dizer ella consolou
+ao Padre, que ainda que com muitas lagrimas,
+com tudo mui inteira na rasaõ, e na modestia
+exterior, sem nenhum estremo, mostrou estar
+muito conforme com a vontade do Senhor Deos,
+e receber tudo de sua maõ, e que rogava muito
+aos Padres, que a encomendassem a Nosso Senhor.</p>
+
+<p>«Agora o que vi com meus olhos lhes contarei,
+e o que tratei com minhas mãos: querendo
+ungir el Rei mandáraõ chamar Padres de todallas
+Ordens, os quaes todos chegáraõ tendo elle já espirado,
+e assim o nosso Padre, cujo companheiro
+fui eu, correndo quanto podiamos fomos quasi
+todo o caminho, porque não cuidavamos que
+se fosse taõ asinha. Achámos pelas ruas e Ribeira
+tudo cheio de pranto, e de gritos, e de muita
+gente, que com trabalho entrámos. Entrados <i>vidimus
+<span class='pagenum'>[42]</span>
+coronam capitis cecidisse, et obiisse</i>:<sup><a name="pn4" href="#n4">[4]</a></sup> ninguem
+se ouvia com gritos, e soluços, huns em
+pé, outros de giolhos, outros por esse chaõ: huns
+chorávaõ, outros gemiaõ, outros amarellos estavaõ
+pasmados com ver morte taõ supita e com
+desemparo taõ de repente, e de improviso, estavaõ
+todos attonitos, e sentidos: ninguem se ouvia,
+e escassamente podiaõ os Religiosos rezar
+com lagrimas, até que ás duas, ou tres depois da
+meia noite entrou o Cardeal ainda de vermelho a
+despejar a camara, rogando, e chamando a todos
+senhores, sem lagrima nenhuma, e com el Rei
+ficáraõ os Religiosos, e alguns Fidalgos, e assim
+estivemos até as cinco rezando muitos Officios de
+defunctos, e muitas orações. Ás cinco depois de
+visto o testamento em conclavi, o Arcebispo despejou
+a camara sem deixar mais que de cada Ordem
+hum ou dous Religiosos para o amortalharem,
+e o Pinheiro com o Confessor del Rei a hum
+canto rezando: e assim cobertas as cortinas do
+leito dous Padres de Saõ Francisco, e hum do
+Carmo, e Frei Jeronimo d'Azambuja de Saõ Domingos,
+e eu o amortalhámos, ministrando-nos
+<span class='pagenum'>[43]</span>
+hum Clerigo Fidalgo, de maneira que estas tristes
+maõs o laváraõ, e alimpárão, e amortalhárão:
+Bendito seja Deos. Seu corpo ainda que ficou
+bem assombrado acabando de espirar, com tudo
+pelo muito que esteve por amortalhar <i>quando o
+descobrimos estava mais feio, e mais preto do rosto,
+e mãos, o mais sujo, e o mais nojento, e em fim o
+mais mortal e terreno, que eu vi outro, e eu tive
+aquelle pelo mór espectaculo</i>, e pera todo Religioso
+ver, pera doctrina, e edificaçaõ, que podia ser: <i>Non
+potuimus continere lachrimas</i><sup><a name="pn5" href="#n5">[5]</a></sup> com pranto, e lagrimas
+rezando o Officio de Defunctos lhe posemos
+huma toalha na cabeça e rosto mal lavada, e despida
+huma camiza suja de sangue que botava pela
+boca, e cousa verde depois de morto, lhe vestimos
+outra lavada, e lhe posemos o Bentinho de Christo,
+e o emburilhamos em hum lençol, e cozemos
+com barbante, sem outra cousa, nem vestido, nem
+mais habito, e o posemos em hum catele sem
+alcatifa, nem nada, onde esteve ate trazerem o
+ataude. Nisto acabou o estado, o fausto, as riquezas,
+as pompas, as cortezias, os serviços, as adorações
+reaes, nem em tudo isto se aqueixou dos
+que isto lhe faziaõ, aquelle que com só a vista fazia
+<span class='pagenum'>[44]</span>
+tremer o mundo. Dahi a pouco lhe poseraõ
+hum estrado grande em o meio da camara coberto
+de veludo preto, rodeado de alcatifas, e sobre
+elle hum ataude forrado de veludo preto por fóra
+com huma cruz de damasco branco, e de linho de
+dentro, aonde o Bispo de Leiria, e o do Funchal,
+e o Arcebispo, e o Priol de Palmella, e o Bispo
+D. Pedro e eu com dous Frades o metemos, onde
+lhe beijáraõ a maõ por sima do lençol estes que
+ahi estavaõ, lançando-se todos sobre elle com
+muitas lagrimas, começando novo pranto, e pregado
+o ataude lhe botáraõ por sima hum panno
+de veludo preto muito grande com cruz de damasco
+branco, e aos pés poseraõ huma mesa coberta
+com hum panno de damasco preto, na qual
+estava huma cruz da capella, e dous castiçaes com
+suas vellas, e caldeira de agua benta, e ao rededor
+quatro tochas em suas tocheiras de prata. E
+he muito pera notar, que assim como el Rei, que
+santa gloria aja, foi em vida muito amigo dos Frades,
+assim des que espirou até o levarem, elles o
+acompanháraõ, porque até o amortalharem, como
+já dixe: estiveraõ com elle Frades de todallas Ordens,
+Frades o amortalháraõ, e meteraõ no ataude,
+e concertáraõ, e metido cada Ordem vinha
+sobre si com cruz alevantada, e estava com elle
+duas horas dizendo hum Officio de Defunctos entoado.
+<span class='pagenum'>[45]</span>
+Convem a saber os de Saõ Domingos das
+sete até as nove; os do Carmo das nove até as
+onze; os de Saõ Francisco das onze ás doze e
+meia; depois os da Trindade até quasi as duas;
+depois nós até as tres, e idos todos ficáraõ huns
+poucos de cada Ordem com a capella até as quatro
+sempre rezando. Ás quatro entrou o Cardeal,
+já de roxo, e de giolhos, sem lagrimas, beijou o
+estrado, e repartio as toalhas do ataude, convem
+a saber da maõ direita á cabeceira o Senhor Dom
+Duarte, logo Dom Constantino, logo outro que
+naõ conheci, logo o Conde da Castanheira: da
+banda esquerda <i>ad caput</i> o Duque d'Aveiro, logo
+tres que naõ conheci, os quaes escassamente podiaõ
+levar o ataude, e aberta a porta da camara
+por onde o haviaõ de tirar, que estava na varanda,
+se alevantou hum pranto taõ grande que era
+cousa de pasmo. Eu nunca vi tanta gente junta,
+nem tanto grito e choro, nem faces ensanguentadas
+e arranhadas, nem barbas depennadas, como
+entaõ vi, tanto que nem havia forças pera andar,
+nem pera bulir o corpo lugar, até que o Cardeal
+rogou, que andassem, e recolhendo-se começarão
+a andar, e passadas duas portas não podéraõ
+mais, e chamaraõ Religiosos que os ajudassem,
+dos quaes fui eu hum, de maneira que eu o
+amortalhei e meti no ataude, e levei até o meterem
+<span class='pagenum'>[46]</span>
+nas andas; a aquelle que a mim, e a toda a
+Ordem deo sustentaçaõ, e vida, e com tanto trabalho
+de meu corpo, que ando agora muito mal
+tratado por pesar muito, e porque descendo pela
+escada me ficou sobre mim só todo da banda dos
+pés, sem me poderem valer com a muita gente,
+onde cuidei de ficar; mas certo que entaõ naõ
+senti este trabalho, nem me lembrava repouso,
+nem sono, nem comer, no que tinha muitos infindos
+companheiros. Assim nas andas forradas
+por dentro de veludo preto, com hum panno por
+sima muito grande do mesmo, com cruz branca,
+o levou a Misericordia, e a Capella, e o Cabido,
+sem mais cruz que a da Capella, todos com tochas
+a cavallo, em duas azemolas, que bem tinhaõ que
+fazer em o levar, que tanto pezava, e levaraõ-no
+a Belem, e enterraraõ-no á cabeceira de seu Pai
+com hum Responso, que pera mais nem lagrimas,
+nem gritos, nem gente davaõ lugar, que segundo
+se conjeiturava se ajuntáraõ ao levar, assim na
+cidade, como fora, até Belem entre homens, mulheres,
+e meninos por todos bem quarenta, ou
+cincoenta mil almas, o que crê facilmente quem
+presente se achou, e o via por seu olho, e naõ foraõ
+com elle Ordens por rasaõ da Festa da Trindade,
+nem sabemos ainda quando iraõ, porem todollos
+Moesteiros se naõ occupaõ agora senaõ em
+<span class='pagenum'>[47]</span>
+dizer Officios por elle, e em fim os Padres de Saõ
+Jeronimo o botáraõ á terra, onde jaz descansando,
+e tornando-se naquillo, que he, aquelle que
+na vida era Pai, Rei, Senhor, Emparo, e Soccorro,
+a quem naõ faltava nada pera ser o mais illustre
+Principe da Christandade: praza a Nosso
+Senhor que lhe dê na outra vida a gloria, que todos
+lhe desejamos, e que elle com suas boas obras
+creio, que merece. Amen.</p>
+
+<p>«Hoje se quebráraõ nesta cidade os Escudos,
+que he o terceiro dia, e ámanhã terça feira juraraõ
+o Principe, e cremos que passada a Festa se
+faraõ os Saimentos Reaes. Do estado do Reino, e
+quem fica por Governador <i>nulli narranti credatis</i>,
+porque ainda tudo está secreto, nem se saberá
+<i>ut creditur</i> taõ cedo. Isto que lhes escrevi he o
+certo do que passa, tudo o ai tenhaõ por incerto.
+Resta que o encomendem muito a Nosso Senhor,
+e a Rainha, e ao Principe, o qual fica bem disposto,
+e eu o vi sabbado em pé, e bom, e nosso Padre
+lhe dixe missa depois del Rei amortalhado, e
+lhe dixe hum Evangelho.</p>
+
+<p>«Esta carta tenhaõ cada hum por sua, e encomendem-me
+a nosso Senhor todos, porque
+eu naõ tenho tempo, nem disposição pera escrever
+particularmente a todos, ainda que sim vontade
+grande. As ceremonias da cidade já naõ se
+<span class='pagenum'>[48]</span>
+fazem nos dias ordenados, mas a outro tempo.
+De Lisboa a 14 de Junho de 1557. Irmaõ de todos,
+e filho em Christo. <i>Frei Thomé de Jesus.</i>»</p>
+<br>
+
+<p>Está visto que o principe perfeito, flagello dos
+israelitas, morreu bastantemente fedorento, revessando
+postema esverdinhada, e envolto em uma
+camisa chagada e esqualida, que fez engulhos ao
+bom do frade. No discurso da vida, D. João II
+soffreu sempre de uma erysipela nas pernas, que
+ás vezes lhe não consentia o uso das piugas; por
+maneira que trazia as botas estremes sobre a pelle
+esgarçada de sorosidades. Era uma cousa immunda
+em corpo e alma este scelerado real! Vem
+de molde o extracto de umas antigas Memorias
+ineditas de Diogo de Paiva e Andrade:</p>
+
+<p>«D. João III costumava dormir a sesta depois
+de jantar em uma casa que tinha janellas para o
+Tejo, assistindo nos Paços da Ribeira, sendo poucas
+as pessoas a quem permittia licença de entrar
+n'ella em quanto descançava. Succedeu, uma tarde,
+abrir a porta uma d'aquellas a quem tinha permittido
+a dita faculdade, e viu el-rei não deitado,
+mas em uma cadeira sustentando com ambas as
+mãos a cabeça e com os braços encostados sobre
+uma banca; e, não lhe dando palavra, retirou-se
+para a casa immediata, e com os mais que estavam
+<span class='pagenum'>[49]</span>
+n'ella se principiou a discorrer sobre qual
+seria o motivo que obrigava sua alteza a tanta
+consideração. Achava-se tambem presente o marmanjo-mór,
+um chocarreiro do paço, castelhano,
+chamado D. Fernando de Roxas, homem que tinha
+siso, o qual, depois de observar muito tempo
+a conversação, disse para os que fallavam:--Senhores,
+el-rei não quiz dormir, e não considera
+em cousa de substancia--e, entrando logo na camara
+em que estava, perguntou-lhe em que cuidava;
+ao que el-rei respondeu: «Estou considerando
+como se me farão umas botas menos largas
+do que uso, sem padecerem as pernas.» Voltou o
+chocarreiro para fóra, e, contando o que passava,
+acabaram os discursos, entrando-se em outros,
+que merecia o assumpto. N'este tempo foi
+mui frequente o calçado de botas, ainda em dias
+de grande funcção, por imitação a el-rei, que
+quasi sempre as trazia, por ser muito soroso das
+pernas, e tão grossas as tinha que poucas vezes
+se servia de meias.»</p>
+
+<p>Até aqui o author do <i>Casamento perfeito</i>.</p>
+
+<p>Quando se escrever sincera historia de Portugal,
+não se repita sómente o que o snr. A. Herculano
+escreveu da inepcia, do fanatismo, e das
+ruins entranhas de D. João III. Refira-se que a
+alma lhe exsudava o pus na epiderme das pernas,
+<span class='pagenum'>[50]</span>
+e attribua-se ás angustias da sua suja enfermidade
+o phrenesi que rebentava em raivas contra os
+judeus, a diabetes que se dessedentava em sanque.
+Se Byron satyrisou os bons costumes e as
+virtudes inglezas porque tinha um calcanhar desengonçado,
+que muito que D. João III queimasse
+trinta mil innocentes, se as pernas lhe esvurmavam
+peçonha?</p>
+
+<p>Ao proposito do marmanjo-mór D. Francisco
+de Roxas, occorre-nos acrescentar que elle teve
+uma filha chamada D. Maria, que casou com André
+de Sousa Chichorro, descendente de Affonso
+III e de uma formosa moura. D'este neto do
+rei e da filha do chocarreiro ha descendentes,
+a quem não é hoje permittido saudar como netos
+do marmanjo-mór do paço d'el-rei D. João, o
+<i>principe perfeito</i>.</p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup><a name="n2" href="#pn2">[2]</a></sup> Este principe era seu neto D. Sebastião.</p>
+
+<p><sup><a name="n3" href="#pn3">[3]</a></sup> <i>Despejar</i>, quer dizer que mandou sahir da camara os
+que lhe assistiam.</p>
+
+<p><sup><a name="n4" href="#pn4">[4]</a></sup> Vimos que a corôa lhe resvalára da fronte, e era morto.</p>
+
+<p><sup><a name="n5" href="#pn5">[5]</a></sup> Não podémos reter as lagrimas.</p>
+</div>
+<span class='pagenum'>[51]</span>
+<hr>
+
+
+
+<a name="cap9"></a>
+<h1>SUBSIDIO PARA A HISTORIA DE UM FUTURO SANTO</h1>
+
+
+<p>Falla-se na canonisação do arcebispo de Braga
+D. fr. Caetano Brandão.</p>
+
+<p>Li as <i>Memorias para a historia</i> da vida d'este
+insigne prelado, colligidas por Antonio Caetano
+do Amaral. Não desconheço os louvores que lhe
+teceu o insuspeito José Liberato Freire de Carvalho
+nas suas <i>Memorias</i>. Li com mais prazer a biographia
+que lhe encarece as virtudes, escripta pelo
+snr. Innocencio Francisco da Silva. Commoveu-me
+a leitura do drama do doutor Silva Gayo,
+aquelle optimo coração que já não pulsa cheio do
+amor de seus filhos.</p>
+
+<p>Inferi d'estas variadas leituras que o arcebispo
+não tivera em vida quem lhe suspeitasse da
+probidade, nem por tanto, no acto da canonisação,
+lhe sahiria com libello infamatorio aquelle
+personagem que, no processo da santificação, se
+chama o <i>advogado do diabo</i>.</p>
+
+<p>Illusão que me desluz outras muitas fundadas
+em bases de vento e poeira.</p>
+<span class='pagenum'>[52]</span>
+
+<p>O primeiro advogado do diabo que enrosca a
+hirta cauda e se amezendra n'ella, ao tribunal
+dos cardeaes, é o ministro do principe regente,
+José de Seabra da Silva; e o pio João é citado
+tambem para ouvir da lingua do seu ministro o
+depoimento que elle authorisou. Quem duvidar do
+que vai lêr, dirija-se ao archivo da secretaria do
+reino, e peça que lhe deixem examinar o copiador
+dos <i>Avisos</i> expedidos no anno 1794, e lá encontrará
+o seguinte:</p>
+
+
+<p>«<i>Ao arcebispo de Braga.</i> Sua magestade, sendo
+informada dos procedimentos e <i>amontoados
+crimes</i> que v. exc.<sup>a</sup> tem perpretado contra a disciplina
+da igreja, e ainda das mesmas leis, usando
+de sua regia piedade por esta vez (pois devia ser
+outro o exemplo), é servida que logo, sem perda de
+tempo, mande restituir por seus despachos a abbadessa
+do convento de Santa Clara de Villa Real
+á sua occupação, e as mais religiosas aos seus
+respectivos cargos, e as noviças continuem o seu
+noviciado, levantando a supposta excommunhão,
+e dando conta ao confessor do principe, o padre
+frei Mathias, incumbido dos negocios das religiosas,
+de tudo o que obrou, declarando n'ella o motivo
+porque assim tinha praticado, e outra á secretaria
+para constar da sua execução. Palacio de
+<span class='pagenum'>[53]</span>
+Nossa Senhora da Ajuda 10 de fevereiro de 1794.--<i>José
+de Seabra da Silva.</i>»</p>
+
+
+<p>Quem viu no começo do aviso o prelado arguido
+de <i>amontoados crimes perpretados contra a
+disciplina da igreja</i>, e logo adiante encontra uma
+ordem de restituir a abbadessa e as religiosas, e
+de mais a mais, as noviças aos seus officios no
+convento de Santa Clara, cuida que D. frei Caetano
+Brandão estava na sacrilega posse da abbadessa,
+das outras freiras e--o que mais é de
+censurar e invejar--das noviças!</p>
+
+<p>Apresso-me a desfazer a hypothese que se
+encosta á equivoca redacção do <i>Aviso</i>. O arcebispo
+não tinha freira nenhuma desgarrada do divino
+redil.</p>
+
+<p>O que elle tinha era a santa e serena coragem
+de responder áquelle hypocrita de frei Mathias em
+termos que revêem o socego de alma invulneravel
+ás phrases insultuosas do ministro que em 1778
+se havia recolhido de Angola com aquelle luxo de
+cortezia.</p>
+
+<p>A razão do insulto é simplesmente miseravel.
+O arcebispo, fundado no seu direito, prohibiu
+que no convento de franciscanas de Villa Real
+professassem religiosas. A relaxação d'aquella
+communidade ia na vanguarda dos mosteiros onde
+<span class='pagenum'>[54]</span>
+os vicios se rehalçavam mais soltamente. D'ahi a
+prohibição que punha a mira em desviar d'aquella
+gafaria as meninas ainda incontaminadas.</p>
+
+<p>O vigario geral da terra era amante da prelada,
+bem aparentado na côrte, caprichoso e
+rico.</p>
+
+<p>Foi a Lisboa, insinuou-se na estima de frei
+Mathias da Conceição, confessor do principe, e
+alcançou, por intermedio do frade, licença para
+professarem religiosas, directamente enviada á
+sua Heloisa d'elle vigario geral, que se parecia
+tanto com Pedro de Abeillard como com Origenes.</p>
+
+<p>O arcebispo, avisado da desobediencia, excommungou
+a prelada, a escrivã, a rodeira, a boticaria,
+as cantoras, a organista, as noviças, todo
+aquelle harém, sujeito a um califado numeroso de
+padres, de fidalgos, de poetas, de todos os freiraticos
+da provincia. Uma balburdia!</p>
+
+<p>Voltou a Lisboa o vigario geral, depois da excommunhão,
+posto que as excommungadas não
+tivessem fastio, nem extraordinarios ataques esthericos.</p>
+
+<p>D'esta segunda ida, resultou o <i>Aviso</i> ultrajante
+que o leitor leu com assombro e indignação.</p>
+
+<p>D. Caetano respondeu ao confessor e ao ministro
+do regente, que garganteava canto-chão
+em Mafra devotamente. As cartas são longas e a
+<span class='pagenum'>[55]</span>
+vida é breve. Da resposta enviada ao padre Mathias,
+trasladamos um periodo energico:</p>
+<br>
+
+<p>«... Espero que v. s.<sup>a</sup> se capacite de que não
+é o espirito de teima o que me anima ao presente
+lance; mas o desejo sincero que tenho de dar
+boa conta da minha administração ao supremo
+juiz dos vivos e mortos. Respeito com profunda
+submissão as ordens dos meus soberanos, e d'esta
+disposição creio tenho dado as provas menos
+equivocas em doze annos que vou contando de
+bispo, como podem attestar assim na America
+como no reino todos os que tem ouvido ou lido as
+minhas instrucções pastoraes. Mas esta obediencia
+ás reaes ordens sabe v. s.<sup>a</sup> perfeitamente que nunca
+deve extinguir no coração de um bispo o zelo
+que d'elle reclamam os legitimos direitos da igreja,
+sobre tudo quando se enlaçam tão apertadamente
+com a salvação das almas. O contrario seria
+transtornar a ordem que Deus tem estabelecido
+entre o sacerdocio e o imperio; é querer fazer
+a igreja captiva dos reis da terra convertendo-a
+em corpo politico, o que sem difficuldade, diz
+Bossuet, arguiria a mais inaudita lisonja que póde
+entrar no espirito humano... Uma cousa quero
+pedir mui confiadamente a v. s.<sup>a</sup>, e é que no caso
+que as razões expendidas lhe não pareçam sufficientes
+<span class='pagenum'>[56]</span>
+para sustentar o meu designio relativamente
+aos mosteiros d'esta diocese, como para
+mim tem força, e tal que liga invencivelmente a
+minha consciencia, haja de expor a sua alteza a
+impossibilidade em que me acho de condescender
+com a vontade d'aquellas religiosas, em quanto
+se me não fornecerem novas luzes por onde venha
+no conhecimento do meu erro... Braga 13
+de março de 1794.»</p>
+<br>
+
+<p>Na resposta ao ministro é humildissimamente
+um apostolo da primitiva christandade. Alludindo
+ao vigario geral que o detrahe e impugna na carta,
+escreve mansamente:</p>
+<br>
+
+<p>«... Só um pequeno numero de espiritos, de
+que não era difficil conhecer as intenções, pelo
+interesse que tinham de vêr deprimida e mesmo
+extincta a authoridade de quem os dessocega na
+falsa paz da sua relaxação e desordem (entre os
+quaes sobresahe com grande vantagem um clerigo
+que se acha n'essa côrte com ar de requerente,
+homem que sempre representou no theatro
+das intrigas que são manejadas com arte), só este
+pequeno numero que a abbadessa se tinha associado
+para as suas frequentes conferencias, é quem
+podia lisonjeal-a em tão estranho projecto.»</p>
+<span class='pagenum'>[57]</span>
+<br>
+
+<p>E, a final, quem venceu?</p>
+
+<p>Venceu o vigario geral, e a abbadessa, e a rodeira,
+e a organista, e a escrivã, e a boticaria.
+Houve luminarias no adro do mosteiro. Versejou
+o poeta da organista, que era padre, e se chamava
+o <i>Mormo</i>, alcunha de molestia que lhe pegára
+o pegazo das cavallariças monasticas. Recitou o
+poeta da boticaria, que se chamava o padre Mesquita,
+que lidava em torneio de murros com o
+Mormo em todos os outeiros. O vigario geral fez
+córar a abbadessa com uma ode em que ella era
+comparada á Venus callipygia; em fim, até os <i>tachos</i>,
+que assim lá chamavam ás criadas, deram
+motes e pasteis--os celebrados pasteis de Santa
+Clara--a muita somma de sapateiro que n'aquella
+noite converteu a tripeça em lyra e a sovella
+em plectro.</p>
+
+<p>D. frei Caetano Brandão áquella hora pedia,
+talvez, a Deus que lhes perdoasse a ellas e aos
+poetas porque não sabiam ellas o que faziam, nem
+elles o que diziam. Era santo, em fim!</p>
+
+<p>Quem poder imital-o, faça a mesma oração a
+favor de alguns poetas de hoje em dia, e não se
+esqueça de mim, que sou dos mais necessitados.</p>
+<span class='pagenum'>[58]</span>
+<hr>
+
+
+
+<a name="cap10"></a>
+<h1>O LIVRO 5.<sup>o</sup> DA ORDENAÇÃO, TITULO 22</h1>
+
+
+<p>O desembargador do paço e conselheiro real
+Ignacio da Costa Quintella falleceu em 2 de janeiro
+de 1752, deixando o seu nome perpetuado na
+<i>Bibliotheca Jurisconsultorum lusitanorum</i>, em
+quanto na face da terra se souber latim.</p>
+
+<p>Além da <i>Bibliotheca</i>, deixou uma viuva e dous
+filhos. A viuva chamou-se D. Maria Michaela de
+Sousa; o filho era Ignacio Pedro Quintella, e a
+filha chamou-se D. Isabel Thereza de Sousa Quintella.</p>
+
+<p>Em casa da viuva ficou, por morte do desembargador,
+um escripturario habilissimo, chamado
+Felix Tavares de Almeida, de familia limpa, bem
+figurado, intelligente, poeta, e, pelo conseguinte,
+namoradiço.</p>
+
+<p>D. Maria Michaela encarregou-o de todos os
+negocios de sua grande casa, incumbindo-o especialmente
+de correr com o inventario do casal;
+mas nem por isso lhe indultou a audacia de requestar-lhe
+a filha.</p>
+
+<p>Assim, pois, que teve denuncia dos amorios
+<span class='pagenum'>[59]</span>
+de Isabel com o seu criado, como ella o denominava
+para aviltal-o aos olhos da filha, despedia
+Felix Tavares, com ameaças de o mandar prender,
+se teimasse em deshonrar a estirpe dos Quintellas--estirpe
+que, a fallar verdade, ainda estava muito
+em vergontea verde.</p>
+
+<p>Isabel, com o seu amor, impunha ao escrevente
+expulso a obrigação de ter coragem. A correspondencia
+epistolar continuou, apesar de todas
+as vigilancias da mãi e do irmão de Isabel, que
+já era casado áquelle tempo.</p>
+
+<p>Queria muito a viuva dar querela contra o seductor,
+mas carecia de prova escripta. A menina
+queimava as cartas assim que as lia, e não tinha
+confidente que a trahisse, porque o medianeiro
+das cartas era um fio de sêda, e as testemunhas
+eram a lua discreta e as estrellas silenciosas da
+alta noite.</p>
+
+<p>Acudiu o filho á inquietação da mãi com este
+alvitre: «Eu queixo-me de que Felix Tavares,
+quando sahiu do nosso serviço, me roubou dinheiro,
+e requeiro que se lhe passe revista á casa. As
+cartas, que Isabel lhe tem escripto, hão de apparecer,
+se o apanharmos de sobresalto. Uma carta
+só que appareça, é prova bastante.»</p>
+
+<p>D. Maria approvou a idéa, applaudindo a esperteza
+do filho.</p>
+<span class='pagenum'>[60]</span>
+
+<p>Feita e despachada a petição, o corregedor do
+bairro de Andaluz entrou de subito na humilde
+casa do moço arguido de ladrão, fez-lhe abrir um
+bahú, depois de revistar as gavetas, e achou um
+massete de cartas que, n'um volver de olhos, reconheceu
+serem de amores. Metteu as cartas na
+algibeira, repulsando com desabrimento as supplicas
+de Felix Tavares, e sahiu.</p>
+
+<p>O atribulado rapaz não soube que o infamavam
+de furto, porque o magistrado fizera a diligencia
+sem proferir palavra nem explicar a razão
+da visita.</p>
+
+<p>Percebeu que as cartas de Isabel iam ser instrumento
+de processo. Conhecia bem os homens
+do seu tempo, e escondeu-se.</p>
+
+<p>O corregedor enviou parte das cartas mais lyricas
+de Isabel ao duque regedor das justiças; e
+este, depois que se regalou e mais a familia com
+os requebros delambidos da filha do desembargador,
+enviou-as a D. Maria Michaela.</p>
+
+<p>Esta, quando viu as cartas, perdeu os sentidos,
+porque do conteudo das mesmas deprehendeu
+que, passados alguns mezes, seria avó. Quando
+tornou á sua razão, envergonhou-se de pôr em
+juizo tão deshonrosos papeis.</p>
+
+<p>N'este tempo, a viuva e a filha viviam em uma
+quinta nos arrabaldes de Lisboa, esperando que
+<span class='pagenum'>[61]</span>
+se reedificasse o seu palacete aluido pelo terremoto
+de 1755.</p>
+
+<p>Felix Tavares, certificado do silencio da viuva
+e da segurança da sua pessoa, continuou a frequentar
+os muros da quinta.</p>
+
+<p>Instado por Isabel, e alentado para todo o risco,
+requereu ao vigario geral, juntamente com
+ella, que lhe admittisse fiança a banhos, fundando
+a petição em razões de honra, de pudor e de
+religiosidade. O vigario geral dispensou-os de licenças
+e pregões.</p>
+
+<p>Uma noite fugiram; e, ao amanhecer do dia
+seguinte, casaram-se.</p>
+
+<p>D. Maria, quando deu falta da filha, sahiu para
+Lisboa, e fez espectaculo das suas lagrimas na
+presença dos desembargadores amigos de seu defunto
+marido. Comprometteram-se todos unanimemente
+a vingar a viuva do conselheiro desembargador
+do paço Ignacio da Costa Quintella.</p>
+
+<p>Isabel conhecia o genio iracundo da mãi. Apesar
+de haver legitimado com o sacramento o seu
+erro, pediu ao marido que evitasse os primeiros
+impetos da colera dos seus. Esconderam-se, pois,
+mudando o nome, no sitio de Alcantara, e ahi viveram
+com o seu filhinho pobremente do producto
+de algumas joias, até 1758.</p>
+
+<p>No fim d'este anno, que era o terceiro de casados,
+<span class='pagenum'>[62]</span>
+persuadiram-se que o coração da mãi devia
+estar aplacado pela acção do tempo. Isabel
+escreveu-lhe, e não teve resposta; escreveu novamente,
+e recebeu a carta fechada, e um insulto
+de viva voz. Apesar d'estes ruins presagios, Felix
+Tavares de Almeida, forçado pela necessidade,
+mudou para Lisboa, a fim de grangear sua subsistencia
+no trabalho da escripta ou agencia de
+causas em que era versado.</p>
+
+<p>Principiava a melhorar de posição, quando,
+ao sahir de sua casa, na manhã de 2 de junho de
+1760, foi preso á ordem do corregedor, e conduzido
+ao Limoeiro.</p>
+
+<p>Pouco tempo depois, D. Isabel Thereza de Souza
+Quintella era tambem, com ordem de captura,
+conduzida á quinta de sua mãi nos arrabaldes de
+Lisboa. Levava o filho nos braços.</p>
+
+<p>Foi aquella criança que a defendeu do suicidio
+ao vêr-se sósinha na quinta, com uma criada que
+nunca vira, e um escudeiro que a encarava de esconso
+com tregeitos de menospreço.</p>
+
+<p>No mesmo dia em que entrou no Limoeiro,
+Felix Tavares foi chamado á sala para ouvir lêr a
+sua sentença.</p>
+
+<p>--A minha sentença!--exclamou elle.</p>
+
+<p>Não lhe respondeu o meirinho. Foi, e ouviu
+lêr o seguinte ao escrivão da correição do crime
+<span class='pagenum'>[63]</span>
+da côrte, Loureiro, sujeito que lia uma sentença
+no tom lugubre em que os frades entoavam os
+threnos de Jeremias:</p>
+
+<p>«Vistos estes autos, libello da A. (authora),
+provas e documentos juntos, mostra-se que, sendo
+o réo criado de escada acima...</p>
+
+<p>--Criado!--interrompeu o preso.</p>
+
+<p>--Ouça e cale-se!--respondeu asperamente
+o escrivão.</p>
+
+<p>E continuou:</p>
+
+<p>«Criado de escada acima assalariado do desembargador
+do paço Ignacio da Costa Quintella,
+e da A. sua mulher, continuou no mesmo serviço
+de casa até alguns dias depois do memoravel terremoto
+do 1.<sup>o</sup> de novembro de 1755, no qual tempo
+foi visto por muitas pessoas solicitar escandalosamente
+de amores a filha da A. sua ama, D.
+Isabel Thereza de Sousa Quintella, menor de 25
+annos, escrevendo-lhe escriptos amatorios com
+expressões de grande e estranhavel confiança,
+dos quaes, muitos d'estes e reciprocamente d'ella
+foram achados pelo juiz do crime do bairro de
+Andaluz no bahú do réo, indo em diligencia de
+furto de dinheiro...</p>
+
+<p>--Que é!--bradou Felix Tavares--que aleivosia
+é essa de furto de dinheiro?</p>
+<span class='pagenum'>[64]</span>
+
+<p>--Já lhe disse que me não interrompa!--sobreveio
+o escrivão.</p>
+
+<p>--Hei de interrompel-o em quanto me não
+disser quem é o infame que me chama ladrão!</p>
+
+<p>--Eu não sou--disse o Loureiro, olhando-o
+por cima dos oculos de tartaruga.--Escute lá o
+resto, que vm.<sup>ce</sup> não é sentenciado por ladrão...</p>
+
+<p>O preso não pôde replicar suffocado pelos soluços;
+o escrivão proseguiu:</p>
+
+<p>«De furto de dinheiro feito ao filho mais velho
+da A. já casado...</p>
+
+<p>--O villão mentiu!--exclamou Felix Tavares,
+estendendo os braços convulsos ás pessoas
+que o rodeavam, como se lhes pedisse que o defendessem
+da calumnia.--O villão mentiu, senhores!
+Acreditem que eu não furtei dinheiro algum!</p>
+
+<p>--Já lhe disse que não furtou...--volveu o
+escrivão.--Isto são palavras que não tiram nem
+põem...</p>
+
+<p>--Não tiram nem põem!--replicou o sentenciado.--Oh!
+que infames! que infames!...</p>
+
+<p>E cobria o rosto com as mãos, balbuciando
+vozes inintelligiveis.</p>
+
+<p>O escrivão continuou a lêr:</p>
+
+<p>«E se reconheceram as letras serem suas, que
+<span class='pagenum'>[65]</span>
+o dito ministro queimou, reservando algumas, que
+entregou ao duque regedor, para dar parte d'esta
+aleivosia á dita A.; e outro sim foi visto por varias
+pessoas na quinta da A., já depois de ultimamente
+despedido da dita casa, fallando só com
+a filha da A. em sitio suspeitoso para acções
+lascivas, tendo assim havido tratamento e ajuste
+occulto de se casarem, e ser ella tirada por justiça
+contra vontade da A. sua mãi, para o que supplicou
+ao vigario geral do patriarchado, e obteve
+fiança a banhos com o fundamento de causas occultas
+que facilitaram a sua dispensa, do que se
+não quiz passar a certidão pedida, fl. 235, de modo
+que sendo necessarios todos estes requerimentos
+antecedentes e prova d'elles, em que certamente
+se havia de gastar tempo, chegaram com
+effeito a receber-se em 23 de novembro do dito
+anno, pouco depois de ter sido expulso de criado,
+retrotrahindo-se todo o facto da solicitação e aleivoso
+ajustamento de casarem ao tempo do famulato,
+e da quinta em que ella assistia com a A. sua
+mãi, como tudo se mostra das certidões fl. 224
+e 322.</p>
+
+<p>«N'estes termos...--proseguiu o escrivão descarregando
+na venta direita a pitada do simonte
+que esperava a suspensão de novo periodo--«n'estes
+termos, sendo a filha da A. menor de 25
+<span class='pagenum'>[66]</span>
+annos, conforme a certidão fl. 232, que o réo não
+podia ignorar pelo tratamento e serviço domestico
+de muitos annos, e incumbencia de correr com o
+inventario do casal, que se fez por fallecimento do
+marido da A., não sómente se acha incurso na
+pena da Ordenação, livro 5.<sup>o</sup>, titulo 22 por ser indisputavel
+a illustre qualidade da filha de um desembargador
+do paço e do real conselho, além de
+outros honrosos empregos litterarios que tinha
+exercitado n'este reino e côrte, e o réo apenas
+póde reputar-se em um estado indifferente ou
+medio entre as pessoas da sua patria, em cuja camara
+e officios pouco servem quaesquer pessoas
+desoccupadas<sup><a name="pn6" href="#n6">[6]</a></sup>, e como tal não convinhavel, nem
+civilmente digno d'este casamento; mas tambem
+se acha comprehendido na pena da Ordenação, tit.
+24. Por tanto, attendendo a não concorrer a prova
+e circumstancias para se impor a pena capital
+ordinaria, o condemnam em seis annos de degredo,
+sem açoutes, para o reino de Angola, e 20$000
+reis para as despezas da relação, e no perdimento
+de toda a sua fazenda para a A. na fórma da
+lei e custas dos autos. E o escrivão não fará publica
+esta sentença sem primeiro se passarem as
+ordens necessarias para o dito réo ser preso, e
+<span class='pagenum'>[67]</span>
+com effeito se achar na cadêa da côrte. Lisboa 31
+de maio de 1760.==<i>Giraldes, Franco, Xavier da
+Silva, Vidigal, doutor Cunha, Silva.</i>»</p>
+
+<p>--Agora--disse o escrivão embocetando os
+oculos--snr. Felix, seja homem, tenha paciencia,
+e dou-lhe de conselho que não perca tempo em
+appellações. Seis annos passam depressa. Em toda
+a parte se come o pão de Deus ou do diabo. O
+que se quer é que seja pão.</p>
+
+<p>E como o condemnado lhe divisasse nos olhos
+um geito de piedade, animou-se a perguntar-lhe,
+debulhado em lagrimas:</p>
+
+<p>--Poderei levar minha mulher?</p>
+
+<p>--Se ella quizer, ninguem a póde privar.
+Adeus, infeliz. Tenha alma...</p>
+
+<p>Quando o escrivão sahia, encontrou no pateo
+da cadêa D. Isabel Quintella, com o menino no
+collo, coberta de pó e extenuada de fadiga. Loureiro,
+conhecendo-a, chamou-a de parte, precaviu-a
+do succedido para que a sua chegada ao
+quarto do marido não exacerbasse a agonia do
+preso. Reanimou-a com a esperança de o acompanhar
+ao degredo, e prometteu-lhe servil-a em
+tudo que podesse, pois que já agora o erro do
+casamento era irreparavel.</p>
+
+<p>Entrou Isabel no quarto do esposo com o semblante
+constrangidamente sereno; mas elle, apenas
+<span class='pagenum'>[68]</span>
+a viu, rompeu em alto choro, e, tomando o
+filho nos braços, pedia a Deus que lhe valesse por
+amor d'aquelle innocentinho.</p>
+
+<p>A vinda de D. Isabel ao carcere fôra um logro
+ás espias que a mãi lhe pozera. O escudeiro ainda
+a perseguira na estrada de Bemfica, ao passo que
+ella se evadira por atalhos, esbofada de cansaço
+com o peso da criança.</p>
+
+<p>Quando o carcereiro a intimou a sahir, resistiu,
+dizendo que havia de saber alli quem ordenára
+a sua prisão na quinta. A mulher do carcereiro
+compadecida da pobre esposa e mãi, deu-lhe
+agasalho n'aquella noite.</p>
+
+<p>No dia seguinte, D. Isabel Quintella, bem ou
+mal avisada, procurou o ministro conde de Oeiras,
+que havia sido particular amigo de seu pai.</p>
+
+<p>O ministro ouviu-a attentamente, sem lhe improperar
+a escolha de marido, e disse-lhe que se
+recolhesse a sua casa que ninguem a lá iria incommodar.</p>
+
+<p>E, perguntando Isabel se poderia acompanhar
+ao degredo seu marido, o conde de Oeiras compungiu-se,
+e respondeu:</p>
+
+<p>--Se o ama, vá; que a sua vida aqui não
+ha de ser melhor.</p>
+
+<p>Maria Michaela, sabendo que a filha estava na
+casa do marido e o visitava na cadêa, sahiu de
+<span class='pagenum'>[69]</span>
+novo a solicitar a justiça em nome do seu defunto.
+Corregedores e desembargadores, encolhendo
+os hombros, davam a perceber que sentiam nas
+orelhas os beliscões do conde de Oeiras. Volveu
+outra vez a viuva a pedir providencias que impedissem
+a ida da filha para Angola. Responderam-lhe
+os letrados e os juizes que a lei não a embaraçava.</p>
+
+<p>Em junho d'aquelle anno de 1760 sahiu o degredado
+com a mulher e filho. O conde de Oeiras
+mandára pelo mesmo navio uma breve carta ao
+governador Antonio de Vasconcellos. Horas depois
+do desembarque, Felix Tavares de Almeida
+recebia ordem de se apresentar ao governador,
+em separado dos outros degredados. Recebeu-o
+Vasconcellos com bom rosto e desusada cortezia.
+Nomeou-o fiscal das obras do palacio dos governadores,
+que se andava então edificando, e coucedeu-lhe na
+porção já construida moradia muito decente.
+Algum tempo depois, deu-lhe dragonas de
+capitão, sem consultar a lei que inhibia os degredados
+de tão elevada patente. Felix Tavares
+houve-se corajosamente n'um encontro com o
+sova Quiandala, que expulsou do Libôllo, aprisionando
+os mussões que infestavam a provincia
+de Cahenda.</p>
+
+<p>Este governador, sobre ser severo, era cruel
+<span class='pagenum'>[70]</span>
+com os criminosos. Um historiador dos governos
+de Angola diz que Antonio de Vasconcellos <i>por
+qualquer desordem fazia trabalhar o sarilho da
+polé</i>, e acrescenta: <i>esta inflexivel severidade, que
+tanto refreava os maus, deu origem a intentarem
+elles um dos mais horrendos e temerarios crimes
+que se podem imaginar</i><sup><a name="pn7" href="#n7">[7]</a></sup>.</p>
+
+<p>Desde o anno de 1756 que as levas de degredados
+eram extraordinariamente numerosas. Sentenciados
+quasi todos por ladrões, eram esses os
+que o conde de Oeiras não vingára pendurar nas
+forcas erguidas em Lisboa, depois do dia do terremoto.
+Entre os quaes levára pena de degredo
+perpetuo um cigano de Torres Novas, chamado
+José Alvares, facinoroso que o conde de Obidos,
+notavel protector de ciganos, salvára do patibulo
+em paga de serviços particulares.</p>
+
+<p>José Alvares de Oliveira, que não incutira
+medo a Antonio de Vasconcellos, e experimentára
+o citado <i>sarilho da polé</i>, traçou matar o governador,
+a officialidade, os ministros e pessoas mais
+gradas de Loanda, saqueando depois as casas, e
+abalando d'alli para o Brazil em navio que estava
+<span class='pagenum'>[71]</span>
+prompto a sahir com despachos. <i>Um dos conjurados</i>,
+diz o referido historiador, <i>descobriu tudo ao
+seu capitão</i>.</p>
+
+<p>O capitão era Felix Tavares de Almeida que
+simultaneamente avisava o governador, e prendia
+José Alvares.</p>
+
+<p>O cigano foi aspado; quebraram-lhe os braços
+e pernas em vida. Os outros em numero de
+dezenove, foram estrangulados. O governador de
+uma das janellas do palacio assistiu ás execuções.</p>
+
+<p>Em janeiro de 1764 tornou o governador ao
+reino. Na mesma monção voltou Felix Tavares
+com o indulto de dous annos da sua sentença:
+tão valiosas haviam sido as informações que Vasconcellos
+mandára do seu capitão ao conde de
+Oeiras.</p>
+
+<p>Em junho d'aquelle anno já o marido de Isabel
+Quintella exercia um emprego liberalmente estipendiado
+na mesa da consciencia e ordens.</p>
+
+<p>D. Maria Michaela, que ainda vivia para maiores
+zangas, foi obrigada por sentenças successivas
+a dar a sua filha o patrimonio que lhe cabia
+por inventario.</p>
+
+<p class="centrado">*<br>* &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; *</p>
+
+<p>Deixemos agora rodar 71 annos, ao cabo dos
+quaes tambem eu figuro n'esta historia.</p>
+<span class='pagenum'>[72]</span>
+
+<p>Conheci em 1835 um desembargador da supplicação,
+quasi octogenario, chamado José Pedro
+Quintella. Era o filho de Felix Tavares e D. Isabel--aquella
+criancinha cujas supplicas o preso offerecia
+a Deus como resgate de seu infortunio. O
+desembargador Quintella, que muitos annos o foi
+da Relação do Porto, suspeito que casou n'esta
+cidade.</p>
+
+<p>Conheci tambem uma filha d'este magistrado
+casada com um bacharel transmontano chamado
+José Cabral Teixeira de Moraes, que advogou alguns
+annos em Lisboa na rua Nova do Carmo.</p>
+
+<p>Vi, recentemente nascida, em 1835 uma menina
+filha d'aquella senhora, que então morava
+em uma rua que liga o largo do Carmo ao largo
+da Abegoaria. Em 1861, o nervoso poeta Raymundo
+de Bulhão Pato mostrou-me no theatro
+de D. Maria uma formosa senhora, que era a
+criancinha que eu vira ao lado de sua mãi, no
+dia seguinte ao do seu nascimento; contemplei-a
+através de lagrimas, porque a imagem de meu
+pai cobriu de luto estas reminiscencias da minha
+infancia.</p>
+
+<p>N'esse tempo, ainda vivia em Lisboa o filho
+d'aquelle irmão de D. Isabel que aleivosamente
+arguira de ladrão seu futuro cunhado. Chamava-se,
+como seu avô, Ignacio da Costa Quintella. Era
+<span class='pagenum'>[73]</span>
+grão-cruz da ordem da Torre-Espada, vice-almirante,
+ministro e secretario de estado honorario,
+porque havia sido ministro do reino no Brazil e
+da marinha em Portugal nos annos de 1821 e
+1826. Além d'isso era escriptor distincto porque
+escreveu os <i>Annaes da marinha portugueza</i>, e
+notavel poeta porque verteu as odes de Horacio
+publicadas nos <i>Annaes das sciencias e artes</i>.</p>
+
+<p>Seu primo, o filho de Felix Tavares, posto que
+mais obscuro socialmente, hombreava com elle
+nas graças do talento. Traduziu uma ecloga de
+Pope publicada no <i>Jornal de Coimbra</i>, e escreveu
+originalmente <i>O Redactor</i>, ou <i>Ensaios periodicos
+de litteratura e conhecimentos scientificos, destinados
+para illustrar a nação portugueza</i> (1803).</p>
+
+<p>Como sabem, os descendentes de Felix Tavares
+eram mui proximos parentes de Farrobos, gerados
+de Quintellas; mas, entre as duas familias,
+corriam ainda litigios de partilhas que contavam
+setenta annos. Odiavam-se reciprocamente. Uns
+viviam opulentissimos, outros em mediania decente.
+Hoje, parte dos que então estadeavam
+fausto de principes, vive da caridade da defunta
+viuva do imperador do Brazil. Os outros não sei
+o que são. Creio que é viva ainda a bisneta de
+D. Isabel Thereza de Sousa Quintella. Se este livrinho
+lhe chegar ás mãos, indulte o peccado de
+<span class='pagenum'>[74]</span>
+murmuração da vida alheia a um velho que, tendo
+sete annos de idade, a beijou na face quando
+s. exc.<sup>a</sup> contava algumas horas de existencia.</p>
+
+<p>Oh!... mas, a final, que immensa tristeza me
+deixam no coração estas paginas!...</p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup><a name="n6" href="#pn6">[6]</a></sup> Não percebemos esta salgalhada.</p>
+
+<p><sup><a name="n7" href="#pn7">[7]</a></sup> Memorias contendo a biographia do vice-almirante Luiz
+da Motta Fêo e Torres, etc, por J. C. Fêo Cardoso de Castello
+Branco e Torres. <i>Paris</i>, 1825, pag. 260 e seg.</p>
+</div>
+<hr>
+
+
+
+<a name="cap11"></a>
+<h1>PROBLEMA HISTORICO A PREMIO</h1>
+
+
+<p style="text-indent: -2em; margin-left: 2em; font-size: 0.8em;">(O premio offerecido a quem dilucidar a escuridade do caso
+é uma collecção de <i>Fados</i>, encadernada em marroquim,
+de parçaría com os <i>Musicos</i>, do snr. Joaquim de Vasconcellos,
+edição quasi em esgoto).</p>
+<br>
+
+<p>O snr. Miguel Dantas escreveu um livro cheio
+de noticias ácerca de cada impostor que se intitulou
+<i>D. Sebastião</i>, rei de Portugal.</p>
+
+<p>O ultimo chamou-se Marco Tullio Catizone,
+da Calabria. A respeito d'este, o snr. Dantas exhibe
+documentos desconhecidos; e, na opinião
+do snr. Pinheiro Chagas, não ha mais que dizer.</p>
+<span class='pagenum'>[75]</span>
+
+<p>Ha.</p>
+
+<p>Affirma o snr. Dantas, fundado em provas, que
+Marco Tullio, o embusteiro, foi condemnado ao
+córte da mão direita, á forca, e á exposição do
+cadaver feito pedaços, sentença executada em S.
+Lucar de Barrameda, aos 23 de setembro de
+1603.</p>
+
+<p>Essas provas, se bem me recordo, não tem
+maior canção que a devida ao nome do historiador
+sério.</p>
+
+<p>O documento que s. exc.<sup>a</sup> não viu nem indicou
+é a <i>sentença de Clemente VIII</i> a favor d'esse
+homem, que se intitulava <i>D. Sebastião</i>.</p>
+
+<p>Este importantissimo depoimento na causa do
+pretendido rei nunca foi impresso. É o seguinte:</p>
+<br>
+
+<p>«Clemente VIII, por Divina Providencia servo
+dos servos de Deus: Saude e paz em Jesus Christo
+Nosso Senhor, que de todos é verdadeiro remedio
+e salvação. Fazemos saber a todos nossos filhos
+carissimos, que debaixo da protecção do Senhor
+virem com fervorosa fé em especial aos do reino
+de Portugal, que o nosso mui amado filho D. Sebastião
+Rey de Portugal se apresentou pessoalmente
+n'esta Curia Romana no sacro Palacio, fazendo-nos
+com muita instancia e supplica o mandassemos
+meter na posse do seu reino de Portugal
+<span class='pagenum'>[76]</span>
+pois era o verdadeiro e legitimo Rey delle; que
+por peccados seus e juiso divino se perdera em
+Africa indo peleijar com ElRey Maluco no campo
+de Alcacere quibir, e the agora estivera oculto e
+não quizera dar conta de si por meter tempo em
+meio dos males que succederam por seu conselho,
+e que para justificar ser o proprio estava
+prestes para dar toda a satisfação que lhe fosse
+pedida: E considerando nós o cazo, como somos
+juiz universal entre os principes catholicos, mandamos
+por conselho dos cardeaes em conclave
+que apparecesse; e, feito, se fez examinar com
+muita miudeza como convinha a tal cazo<sup><a name="pn8" href="#n8">[8]</a></sup> de que
+se fizeram processos em varias naçoens e no dito
+<span class='pagenum'>[77]</span>
+Reyno de Portugal por pessoas qualificadas, assim
+dos signaes do seu corpo, como de outros mais
+miudos do seu reino, ajunctando as partes por
+onde andou, e de sua vida e costumes, como outras
+particularidades importantes para a verdade
+ser mui claramente sabida, não nos fiando por
+uma só vez, mas por muitas, e por pessoas constituidas
+em dignidade sacerdotal, e por seculares
+titulares, do que se fizeram os processos <i>que no
+Archivo desta curia se pozeram</i>, e que uns e outros
+se conferiram; e visto em Conclave e perante nós
+se verificar ser o proprio Rey D. Sebastião e lhe
+pertencer o dito Reyno, como unico herdeiro
+d'elle, e assim todas as rendas des a data d'este
+para se investir de posse; pelo que, Authoritate
+appostolica, por tal o declaramos, e sentenceamos,
+e mandamos ao muito Catholico Filipe terceiro de
+Hespanha que largue o Reyno em pax, sob pena de
+excommunhão mayor <i>ipso facto incurrenda</i> reservada
+a nós, não permitindo dilações; como filho
+obediente aos mandados Appostolicos deve temer
+a ira do Senhor fazendo o contrario; nesta Curia
+sob o nosso signal do Pescador a 23 de Dezembro
+de 1598.»</p>
+<br>
+
+<p>Este documento não desfigura nem contraria
+a historia de Marco Tullio, referida pelo snr. Miguel
+<span class='pagenum'>[78]</span>
+Dantas. O que d'ahi se deprehende é que
+Marco Tullio enganára Clemente VIII, depois de
+ter enganado os sacerdotes e titulares que depozeram
+de sua authenticidade na curia, se é que
+os depoentes não mentiram ao summo pontifice
+para resuscitarem fraudulentamente D. Sebastião.</p>
+
+<p>De qualquer modo, se o impostor foi enforcado
+em 1603, segundo affirma o snr. Dantas, é impossivel
+que esse mesmo, que Clemente VIII sentenciou
+como rei em 1598, seja como rei sentenciado
+em 1617 por Paulo V.</p>
+
+<p>Aqui está a sentença de Paulo V:</p>
+<br>
+
+<p>«Paulo V, Bispo de Roma, servo dos servos
+de Deus: Ao nosso mui amado filho Phelipe 3.<sup>o</sup><sup><a name="pn9" href="#n9">[9]</a></sup>
+Rei de Hespanha, Saude em Jesus Christo Nosso
+Senhor, que de todos é verdadeiro remedio e salvação:
+Fazemos saber que por parte de ElRey D.
+Sebastião, que se dizia ser de Portugal, nos foi
+apresentada uma sentença Appostolica de nosso
+antecessor Clemente outavo, de que constou estar
+julgado pelo verdadeiro Rey e legitimo de
+Portugal, nos pedia humildemente mandassemos
+por nosso Nuncio assim o declarasse para effeito
+<span class='pagenum'>[79]</span>
+de se lhe dar a posse pacifica que convinha á boa
+Christandade e exemplo dos infieis para que não
+tomassem motivo de uzurparem o alheio, e que
+mandassemos consultar por nossos Cardeaes, vêr
+e examinar a dita sentença com nova justificaçaõ,
+e como era o proprio contheudo n'ella: movidos
+do Amor Paternal, para evitar escandalos que podiam
+resultar, e guerras entre christaõs, nos pareceu
+para mais suave meio, mandar-vos avizo
+por nosso Nuncio, não permitindo dardes ocaziaõ
+para que se valesse das Armas da Igreja, antes
+logo com effeito largareis o Reyno a seu dono,
+como estava mandado pela sentença junta, na
+qual não houve satisfação, cousa estranha entre
+os Principes; pelo que <i>authoritate appostolica</i>, e
+que nesta parte uzamos, mandamos a vós Philipe
+3.<sup>o</sup>, Rey de Hespanha, em virtude da sancta obediencia
+que dentro de nove mezes, depois da notificação
+d'esta, largueis o dito Reyno de Portugal
+a seu legitimo successor D. Sebastião mui pacificamente
+sem efuzaõ de sangue e sob pena de excommunhão
+maior <i>lata sententia</i> da maneira que
+está julgada: Dada em esta Curia Romana sob o
+signal do Pescador a 17 de março de 1617.»</p>
+<br>
+
+<p>Temos, por tanto, segunda sentença a favor do
+mesmo que a obteve em 1598, e que a historia
+<span class='pagenum'>[80]</span>
+melhor documentada e <i>estudo definitivo</i>, no conceito
+do snr. Pinheiro Chagas, dá como enforcado
+em 1603.</p>
+
+<p>Mas este mesmo homem impetrou terceira
+sentença do papa Urbano VIII. Se fosse D. Sebastião
+devia, a esse tempo, orçar pelos setenta e
+seis annos. A sentença de Urbano é mais pathetica
+por que ahi já o decrepito exul pede que o
+não esbulhem do seu direito porque tem mulher
+e filhos.</p>
+
+<p>A terceira sentença reza assim:</p>
+<br>
+
+<p>«Urbano VIII por Divina Providencia Bispo de
+Roma, Servo dos Servos de Deus. A todos os Arcebispos
+e Bispos e pessoas constituidas com dignidade
+que vivem debaixo do amparo da Igreja
+Catholica, em especial aos do Reyno de Portugal
+e suas conquistas, saude e paz em Jesus Christo
+nosso Salvador que de todos é verdadeiro remedio
+e salvaçaõ: Fazemos saber que por parte do
+nosso filho D. Sebastião Rey de Portugal nos foi
+aprezentado pessoalmente no Castello de Sancto
+Angelo duas sentenças de Clemente Outavo e Paulo
+Quinto nossos antecessores, ambas encorporadas,
+em que constava estar justificado largamente
+ser o proprio Rey e nesta conformidade estava
+sentenciado para lh'o largar Felipe 3.<sup>o</sup> Rey de
+<span class='pagenum'>[81]</span>
+Hespanha, ao que não quiz nunca satisfazer; pedindo-nos
+agora tornassemos de novo a examinar
+os processos, e constando ser o proprio o mandassemos
+com effeito investir da posse do Reyno,
+pois tinha filhos e mulher, e não podia perder
+seus direitos, que prejudicava a seus herdeiros, o
+que mandamos brevemente e por extenso vêr
+como convinha em cazo de tanta importancia; e
+considerando como nos convem julgar e detreminar
+a cauza dos Principes christãos, mandando
+dar vista a Felipe Quarto que hoje vive, cometendo
+a cauza ao Imperador, e a ElRey de Inglaterra
+e a ElRey de França, com o que se passou e se
+resolveu que lhe desse posse do Reyno de Portugal;
+e hora por parte do dito Rey D. Sebastião
+nos foi pedido pozessemos o cumpra-se na sentença,
+e mandassemos passar nosso Breve Appostolico
+com excommunhão rezervada a nós para
+que nenhum fiel christaõ lhe impida sua posse,
+nem tome armas offensivas contra elle e seus soldados
+e Ministros; e vendo nós com os nossos
+Cardiaes do nosso Conselho sua justiça, com maduro
+conselho lh'o concedemos: pelo que vos
+mandamos que depois da notificação desta a nove
+mezes primeiros seguintes que assignamos pelas
+trez canonicas admoestaçoens, dando repartidamente
+trez mezes por cada canonica admoestaçaõ,
+<span class='pagenum'>[82]</span>
+termo peremptorio, tanto que vos for apresentado
+e da minha parte mandado, façaes por
+vossos religiosos assim Seculares como Regulares
+publicar-se nos pulpitos das egrejas e praças publicas
+que.....<sup><a name="pn10" href="#n10">[10]</a></sup>. Dada em esta Curia Romana
+sob o signal do Pescador aos 20 de outubro de
+1630.»</p>
+
+<hr style="width: 4em;">
+
+<p>Ahi está o problema.</p>
+
+<p>Quem era este homem?</p>
+
+<p>Não podia ser o rei da Ericeira, nem o rei de
+Penamacor, nem o pasteleiro do Escurial, nem
+Marco Tullio Catizone. Os quatros impostores eram
+já mortos.</p>
+
+<p>Então quem era?</p>
+
+<p>Ferdinand Denis, quando relata o caso de
+Marco Tullio, diz que este homem é um dos problemas
+insoluveis da historia.</p>
+
+<p>Mas o snr. Dantas desatou o nó. O aventureiro
+foi enforcado em 1603.</p>
+
+<p>Houve um quinto Sebastião falso?</p>
+
+<p>Onde iremos buscar-lhe o rasto na historia?</p>
+
+<p>É possivel que o snr. Dantas não escrevesse
+<span class='pagenum'>[83]</span>
+a palavra definitiva a respeito do homem sentenciado
+por tres pontifices que o viram?</p>
+
+<p>Ahi fica o problema.</p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup><a name="n8" href="#pn8">[8]</a></sup> Os signaes que D. Sebastião tinha no corpo eram estes:
+A mão direita maior que a esquerda; o braço direito
+maior que o esquerdo; o tronco dos hombros até á cinta desproporcionalmente
+curto e curvado, de modo que os seus gibões
+não cahiam bem n'outro corpo; da cinta aos joelhos
+muito comprido; a perna e o pé direitos maiores que os esquerdos;
+os dedos dos pés quasi iguaes. No dedo minimo um
+calo grande; na espadoa esquerda um signal pardo e cabelludo;
+outro signal preto na espadua direita; sardas pouco perceptiveis
+em rosto e mãos; faltava-lhe um dente no queixo
+inferior, que lhe fôra tirado por Sebastião Netto; o beiço
+grosso da parte direita, pés pequenos, pernas algum tanto
+tortas.</p>
+
+<p>O que ha mais importante historicamente n'esta nota é
+ter sido o dente de sua alteza extrahido por Sebastião Netto.</p>
+
+<p><sup><a name="n9" href="#pn9">[9]</a></sup> As alterações orthographicas constam do texto, que
+trasladamos quasi pontualmente.</p>
+
+<p><sup><a name="n10" href="#pn10">[10]</a></sup> Seguem-se algumas linhas que a humidade tornou inintelligiveis.</p>
+</div>
+<hr>
+
+
+
+<a name="cap12"></a>
+<h1>DESASTRE DO SANTO OFFICIO NO PORTO</h1>
+
+
+<p>A inquisição de Portugal, em 1704, confiava
+tanto na espada flammejante de S. Domingos, que
+nem as esquadras britannicas lhe incutiam pavor.</p>
+
+<p>N'aquelle anno, morava no Porto uma familia
+ingleza de appellido <i>Fiuza</i>. Não assevero que assim
+se escrevesse ou pronunciasse o appellido;
+mas assim o acho escripto em documento coevo,
+extrahido de um processo do santo officio. Esta
+familia era catholica romana.</p>
+
+<p>Havia no Porto outra familia ingleza herege.
+Appellidava-se <i>Mosheim</i>, que os escreventes do
+tribunal dominicano escrevem Mossão.</p>
+
+<p>Á familia catholica pertencia uma menina
+chamada Isabel. Á protestante um moço chamado
+Thomaz.</p>
+<span class='pagenum'>[84]</span>
+
+<p>Amavam-se os dous contra vontade de seus
+paes. Eram ambos abastados e bem procedidos; mas
+tinham de permeio o inferno. Na opinião
+dos Fiuzas a familia Mosheim estava condemnada
+ás penas eternas. Os Mosheim, por sua parte, diziam
+que os Fiuzas eram lenha secca para as fornalhas
+infinitas.</p>
+
+<p>O pai de Thomaz consentia no casamento, se
+Isabel apostatasse do catholicismo. O pai de Isabel
+cedia ás supplicas da filha, se Thomaz se convertesse
+á verdadeira e unica religião.</p>
+
+<p>Eram irreconciliaveis os dous inglezes.</p>
+
+<p>Mas a paixão de Isabel pôde mais que o pai e
+que o esteio da fé.</p>
+
+<p>Uma noite, fugiu de casa. Morava em uma
+das tres quintas de João Pedróssem, a Villar.
+Desceu a Miragaya, e entrou em uma lancha ingleza,
+onde a esperavam Thomaz Mosheim e um
+padre protestante.</p>
+
+<p>Ao repontar da manhã, o padre abençoou o
+casamento dos dous contrahentes, alli, sobre as
+aguas do Douro, em uma formosa alvorada de
+agosto, com quatro marinheiros por testemunhas.</p>
+
+<p>Feito isto, o sacerdote lutherano foi em demanda
+do inglez catholico, e disse-lhe que acabava
+de abençoar o casamento de Isabel com
+Thomaz, e lhe ia pedir que perdoasse a sua filha
+<span class='pagenum'>[85]</span>
+pelo amor de Deus. O velho inglez arrepellou as
+barbas, injuriou o padre, e bradou tres maldições
+á filha e á sua posteridade.</p>
+
+<p>Divulgou-se o successo na cidade.</p>
+
+<p>Ao outro dia, Carlos da Rocha Pereira, commissario
+da santa inquisição, no Porto, acompanhado
+de alguns officiaes, entrou em casa de
+Thomaz Mosheim, e prendeu Isabel em nome do
+santo officio. Ella, traspassada de terror, seguiu
+aquelle homem que tinha nas palavras a rijeza
+de uma tenaz de tortura. Foi conduzida ao aljube
+ecclesiastico, e interrogada.</p>
+
+<p>A colonia inglesa, assim que soube da prisão
+de Isabel Fiuza, reuniu-se em casa do seu consul.
+Sahiu o magistrado á frente dos queixosos, e
+pediu audiencia ao vigario geral. Reclamou a ingleza
+em termos solemnes com ameaças. O vigario
+geral amedrontou-se; mas disse que não podia
+soltar a herege, sem ter consultado os inquisidores
+de Coimbra.</p>
+
+<p>E, no em tanto, a noiva chorava incommunicavel
+no aljube ecclesiastico.</p>
+
+<p>Foi encarregado o commissario Carlos da Rocha
+Pereira de consultar os inquisidores de Coimbra.
+Estes, vacillando na resposta, consultaram o
+conselho geral, que residia em Lisboa, no seguinte
+officio, que lá chamavam <i>Conta</i>:</p>
+<span class='pagenum'>[86]</span>
+<br>
+
+<p>«O commissario do Porto Carlos da Rocha
+Pereira nos dá conta pela carta inclusa do matrimonio
+que celebrou Isabel Fiuza, catholica romana,
+ingleza, com Thomaz Mossão, inglez herege,
+no rio Douro, em uma lancha ingleza; e nos remette
+o auto de perguntas, que lhe fez, depois de
+presa no aljube ecclesiastico da mesma cidade,
+em que confessa o mesmo matrimonio; e, no
+mesmo correio, dá conta aos inquisidores Affonso
+Cabral Botelho, e deputado Francisco Carneiro
+de Figueirôa, pela carta junta, do reparo que na
+dita cidade faziam os inglezes da prisão do ordinario;
+e que ouvira que o seu consul se queria
+queixar a sua magestade; e, posto nos pareceu
+que deviamos proceder contra a dita Isabel Fiuza,
+na forma da disposição do <i>Regimento</i>, liv. 3.<sup>o</sup>
+tit. 16, §. 2.<sup>o</sup>, o duvidamos fazer pelas circumstancias
+referidas, e reparo do consul; e assim
+recorremos a v. ill.<sup>ma</sup> para nos ordenar o que devemos
+obrar n'esta materia. Coimbra em mesa
+18 de agosto de 1704.==<i>Antonio Portocarreiro,
+Affonso Cabral Botelho.</i>»</p>
+<br>
+
+<p>O conselho da santa inquisição, desdenhando
+as ameaças do consul e a opinião dor rei a tal respeito,
+respondeu, passados quarenta dias:</p>
+<span class='pagenum'>[87]</span>
+<br>
+
+<p>«Os inquisidores responderam ao vigario geral
+que, suppostas as circunstancias, póde conhecer
+do caso de que se faz menção na fórma
+que lhe parecer. Lisboa 26 de setembro de 1704.==<i>Carneiro,
+Moniz, Hasse, Monteiro, Ribeiro,
+Rocha.</i>»</p>
+<br>
+
+<p>E, no em tanto, Isabel conseguira receber no
+aljube ecclesiastico alguns padres de notoria virtude
+que a reduzissem á religião catholica e a
+desatassem do marido herege.</p>
+
+<p>O vigario geral lisonjeára-se grandemente com
+a confiança delegada pelo conselho geral; mas
+via-se entalado entre a fé catholica e o consul
+inglez.</p>
+
+<p>Depois de grandes prelios que as duas potencias
+lhe travaram na consciencia, o magistrado ecclesiastico
+resolveu processar Isabel, visto que
+ella, impenitentemente e contumaz, persistia em
+querer o seu marido assim herege e condemnado
+ao sempiterno horror onde ha o perpetuo ringir
+de dentes.</p>
+
+<p>Esta deliberação foi communicada ao consul,
+que a ouviu com um sorriso que o vigario geral
+não percebeu porque era sincero, virtuoso e bonacheirão.</p>
+
+<p>N'esse mesmo dia, o consul teve uma conferencia
+<span class='pagenum'>[88]</span>
+secreta com quatro capitães de navios inglezes,
+ancorados no Douro.</p>
+
+<p>Á volta das onze da chuvosa noite de 7 de outubro,
+pela porta da Lingueta e pela dos Banhos
+entraram os muros da cidade trinta marinheiros
+que por diversos pontos confluiram ao aljube ecclesiastico,
+situado na visinhança da Sé.</p>
+
+<p>A guarda d'este carcere era indigna de hoste
+ingleza tão numerosa. O santo officio confiava
+muito dos ferrolhos, e dispensava as escopetas da
+milicia; mas nunca lhe negrejára na mente a hypothese de
+que os esbirros e carcereiros, tangidos
+por valentes sôcos britannicos, iriam libertar da
+masmorra um dos seus presos.</p>
+
+<p>Foi o que aconteceu n'aquella noite funesta
+para os fastos do santo officio, e para os queixos
+dos quadrilheiros. Isabel que não podera ser prevenida,
+quando ouviu a deshoras o rodar de
+portas nos gonzos, cuidou que ia ser transferida
+aos carceres de Coimbra ou Lisboa. Estava em
+joelhos com as mãos postas, quando Thomaz
+Mosheim, ladeado de marujos athletas, entrou no
+recinto, e a custo a viu ao clarão de uma lampada
+que alumiava um crucifixo.</p>
+
+<p>E ella, reconhecendo-o, lançou-se-lhe nos
+braços, e perdeu o alento.</p>
+
+<p>Um dos quatro colossos vermelhos, que o seguiam,
+<span class='pagenum'>[89]</span>
+tomou-a nos braços, como quem aconchega
+do peito uma pomba assustada.</p>
+
+<p>Depois, era triste de vêr-se como aquelles
+poucos guardas do aljube, porque não percebiam
+o regougar dos saxonios, em vez de palavras eram
+intimados a pontapés para que entrassem no carcere
+devoluto da ingleza. E, todos elles--digamol-o
+com dôr de portuguezes e de catholicos--lá
+ficaram fechados, apalpando as partes contusas.</p>
+
+<p>Antes do arraiar da aurora, uma escuna ingleza
+balouçava-se defronte do castello da Foz, á
+bocca da barra. Assim que amanheceu, as velas
+trapejavam com prospero vento.</p>
+
+<p>Isabel, ainda prostrada no seu beliche, pedia
+ao esposo que a convencesse de que ella não estava
+louca nem sonhava. E elle, o doudo de paixão
+e alegria, lá conseguiu convencel-a de que o
+Deus do céo e da terra, que era o Deus de ambos,
+a tinha alli bem acordada para a suprema felicidade
+d'este mundo.</p>
+
+<p>Que fez o vigario geral depois de tão insolito
+ultrage? Consultou os inquisidores de Coimbra.
+Os inquisidores de Coimbra consultaram o conselho
+geral. O conselho geral consultou o rei. Fez-se
+um profundo silencio. Ninguem fallou mais
+d'este caso, senão eu.</p>
+<span class='pagenum'>[90]</span>
+
+<p>Já que estou com as mãos nas cinzas ensanguentadas
+do santo officio, hei de dizer ao leitor a
+razão que assistiu aos inquisidores que em 1601
+mandaram ensambenitar e queimar uma rica e
+gentil dama, chamada Violante Mendes e seu marido
+Francisco Borges, ambos de Chaves.</p>
+
+<p>E, trasladando a denunciação, que é a primeira
+peça do processo, dou aos curiosos noticia
+do modo como semelhantes instrumentos se lavraram.</p>
+
+<p>Estamos em Chaves, no dia 28 de maio de
+1591, em casa do vigario geral, onde são inquiridos
+os denunciantes, que são tres, e todos sacerdotes.
+O escrivão James de Moraes escreve o seguinte:</p>
+<br>
+
+<p>«Anno do nascimento de Nosso Senhor Jesus
+Christo de 1591, aos 28 dias do mez de maio do
+dito anno, na Villa de Chaves, nas pousadas do
+licenciado Gaspar da Rocha Paes, vigario geral no
+temporal e espiritual n'esta vigararia comarca
+da dita villa, pelo ill.<sup>mo</sup> snr. D. fr. Agostinho de
+Jesus, pela mercê de Deus e da santa sé apostolica,
+arcebispo, senhor de Braga, primaz, etc. Presente
+elle appareceu o padre João de Mattos, morador
+<span class='pagenum'>[91]</span>
+em a dita villa, o qual trouxe a mostrar a
+elle vigario uma peça de <i>marfil</i> (marfim), que mostrava
+ser de feição de uma bezerrinha, e sómente
+lhe faltava as pernas, e braços que estavam quebrados,
+e assim os corninhos espontados, o qual
+disse que a achára na mão de André, moço de 16
+annos, filho de João Rodrigues do Campo, arrabalde
+d'esta villa; que por lh'a vêr na mão lh'a
+pediu que lh'a mostrasse, o qual lh'a mostrou; e
+por a dita bezerrinha ser tal como dito é, e além
+d'isso cheirar muito a almiscar, e parecer estar
+em parte...<sup><a name="pn11" href="#n11">[11]</a></sup>, e lhe não parecer bem, lh'a trazia
+a mostrar por a pedir ao dito moço André. O qual
+André presente disse que era verdade que aquella
+peça, indo elle André hoje n'este dia a casa de
+Pero Fernandes, escrevente d'esta villa, á escóla,
+para o ensinar a lêr, a achou debaixo de uma arca,
+e ao tempo que a achou sem ninguem o vêr a
+guardou, e levou, e andou mostrando a algumas
+pessoas entre as quaes foi ao dito padre João de
+Mattos, e a Mathias de Barros cavalleiro d'esta
+dita villa; e lh'a tomaram. E logo outro sim appareceu
+Pedro moço de 16 annos, filho do dito
+Pero Fernandes escrevente acima dito, e por elle
+foi dito que era verdade que aquella bezerrinha
+<span class='pagenum'>[92]</span>
+elle dito Pedro a achára na rua do Sol, d'esta villa,
+no meio da rua defronte da casa de Francisco
+Borges, em que hora (<i>agora</i>) elle vive, que é
+de Diogo Ferreira d'esta mesma villa, o que poderia
+haver um mez pouco mais ou menos, e lh'a
+viu achar Lazaro, filho que ficou de Gaspar de
+Magalhães. E depois de assim a achar a levára
+para casa como dito tem sem outra cousa alguma,
+e a trazia em casa sem entender o que era; e
+andava ahi em casa por detraz das arcas. E estando
+assim para se fazer este auto chegou o padre
+Gaspar Dias, e o padre Antonio de Magalhães,
+ambos d'esta dita villa, e disseram, que estando
+ambos juntos, e vindo pela porta do dito Francisco
+Borges acima dito, estando Gaspar Teixeira
+Chaves á sua janella, lhes disseram elles que se
+achára uma bezerra, não sabendo onde, como na
+verdade não sabiam; e, estando n'esta pratica da
+dita bezerra, disse uma moça que se chama Maria
+de Villar de Nantes, e criada do sobredito Francisco
+Borges, e outra moça pequena, outro sim
+criada de casa por nome Madanella, disse a grande
+rindo-se: <i>Senhores, isso é de cá.</i> E elles ambos
+passaram seu caminho sem responder nada. E
+logo veio atraz d'elles a dita moça Madanella, e
+elles a chamaram, e não quiz vir, e foi a casa do
+dito Francisco Borges, e tornou logo a sahir, e
+<span class='pagenum'>[93]</span>
+veio ter com elles ditos padres, e pediu a elle dito
+padre Antonio de Magalhães que lhe desse a vaquinha,
+e elle lhe perguntou se era sua, e a dita
+moça que sim era sua, que viera de Lisboa e que
+a trazia o menino na mão, e que em algum tempo
+elle dito padre Gaspar Dias ouviu dizer aos antepassados
+que uma Branca Manoel em Lisboa fôra
+queimada, a qual fôra <i>bredona</i> (?) de Violante Mendes
+mulher do dito Francisco Borges, e o vinha denunciar
+e dizer. Estando assim elles ditos padres,
+presente elle vigario, chegou a dita moça Madanella
+duas vezes, e na primeira disse a elle vigario que
+a sobredita Violante Mendes sua senhora mandava
+pedir a vaquinha que era do seu menino; e da
+segunda que tornou disse, que a sobredita sua
+senhora a tornava a mandar que por amor de
+Deus lhe désse a vaquinha que era do seu menino
+que a perdera havia quatro dias. E de tudo
+mandou elle vigario fazer este auto, e assignou
+com os ditos padres aos quaes todos tres deu juramento
+dos Santos Evangelhos que n'esta parte
+tivessem todo o segredo como cousa do santo officio,
+e elles assim o prometteram e juraram e
+assignaram que a tudo se achavam presentes ás
+perguntas que se fizeram aos sobreditos moços,
+que elle vigario não quiz estivessem presentes ao
+fazer do auto, nem que assignassem por não serem
+<span class='pagenum'>[94]</span>
+capazes de segredo. E eu James de Moraes o
+escrevi, e a sobredita vaquinha ficou em poder
+d'elle vigario. E eu sobredito escrevi.==<i>Rocha,
+Gaspar Dias, Antonio de Magalhães, João de Mattos.</i>»</p>
+
+<hr style="width: 4em;">
+
+<p>Ahi está o corpo de delicto que levou á morte
+um homem e uma senhora que tinham um filhinho,
+o qual brincava com uma bezerra de marfim
+sem pontas nem pernas. Tres ungidos do
+Senhor, tres padres denunciantes lá estão na
+gloria eterna revendo-se na bemaventarança das
+duas almas que elles purificaram no fogo.</p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup><a name="n11" href="#pn11">[11]</a></sup> Palavra inintelligivel: parece dizer degolada.</p>
+</div>
+<hr>
+
+
+
+<a name="cap13"></a>
+<h1>RANCHO DO CARQUEJA</h1>
+
+
+<p>Ha 153 annos que um bando de estudantes,
+em Coimbra, acaudilhado pelo mais intrepido e
+de peores entranhas, começando por espancar os
+archeiros e rondas nocturnas, acabou por matar
+quem lhe offerecesse reacção. Chamavam-se <em>do</em> e
+<span class='pagenum'>[95]</span>
+não <em>da Carqueja</em>, como escrevem todos os que relembram
+a funesta existencia d'aquelles rapazes
+perdidos. <em>Carqueja</em> e <em>Estopa</em> haviam sido, por
+aquelle tempo, dous facinorosos de Vizeu, chefes
+dos salteadores. Em honra do primeiro, escolheram
+os estudantes o sinistro baptismo do seu bando.
+E é de notar e deplorar que alguns da quadrilha
+eram padres que cursavam theologia. Depois
+de repetidas atrocidades, o governo, a rogos
+dos habitantes de Coimbra e lentes da universidade,
+enviou a marchas forçadas tropa de infanteria
+com alguns esquadrões que chegaram de
+madrugada e colheram de sobresalto os criminosos.</p>
+
+<p>Alguns, bem que não reagissem, entraram
+acutilados no carcere, e foram depois morrer no
+Limoeiro, em Lisboa. Aqui damos a relação dos
+seus nomes:</p>
+
+<p>O capitão do bando era da Terra da Feira;
+chamava-se Francisco Jorge Ayres. João Pedro
+Ludovice, natural de Lisboa; o padre Vicente Gomes
+Alvares Lobo, do Algarve; Manoel Antonio
+Ramos, José Rodrigues Esteves, José Antonio de
+Azevedo, Antonio da Costa e Silva, <em>o Pescada</em>; o
+padre José da Silva Couto, Miguel Pereira Coelho,
+Roque Monteiro Paim, José de Horta, D. Manoel
+Alexandre da Costa, todos de Lisboa; Jacintho de
+<span class='pagenum'>[96]</span>
+Figueiredo, natural de Almeida; José Pereira Manojo,
+brazileiro; o padre Francisco Pereira Goes,
+natural de Pereira; José da Cunha Borges, do
+Alemtejo; Pedro Gomes Barbosa, de Salvaterra;
+Lourenço Pimenta, Antonio Maceiro, Thomaz da
+Silva, João dos Santos, todos de Coimbra. Estes
+foram os presos conduzidos a Lisboa, afóra um
+estudante de Aveiro, cujo nome não sabemos, e
+um filho do confeiteiro de Loures, muito conhecido
+n'aquelle tempo. Um dos mais façanhosos,
+Francisco de Sá, natural de Evora, pôde evadir-se
+de Coimbra para aquella cidade, e d'alli
+para Hespanha. O juiz dos orphãos de Evora, a
+quem fôra recommendada a captura de Francisco
+de Sá, procedeu negligentemente, d'onde lhe resultou
+ir por ordem de el-rei carregado de ferros
+para o Limoeiro.</p>
+
+<p>O estudante Francisco Jorge Ayres, capitão da
+malta, foi degolado no Pelourinho de Lisboa em
+junho de 1722.</p>
+
+<p>Antonio da Costa e Silva, de alcunha <em>o Pescada</em>,
+e José de Horta morreram na cadêa.</p>
+
+<p>A maior parte dos outros cumpriu sentença
+de degredo.</p>
+
+<p>Entre os presos havia um poeta, D. Manoel
+Alexandre da Costa, neto do primeiro conde de
+Soure, filho de D. Rodrigo da Costa, viso-rei da
+<span class='pagenum'>[97]</span>
+India. Este fidalgo, ao saber que seu filho fôra
+preso na cáfila dos scelerados, adoeceu de vergonha,
+e morreu n'esse mesmo anno de 1722, aos
+16 de novembro, quando o filho ainda estava no
+Limoeiro, esperando a sentença.</p>
+
+<p>O protector deste moço era o marquez de Marialva,
+a quem o estudante, desde que o prenderam
+relatou em toantes, á moda do tempo, as
+suas desventuras. É longo o poema, e fastidioso,
+sem impedimento do interesse inspirado pela tragedia
+do assumpto. Não me dispenso, porém, de
+trasladar as quadras que dizem mais ao intento.
+Refere o incidente imprevisto da prisão:</p>
+
+<div class="poesia">
+......................<br>
+<br>
+<i>Era, em fim, de madrugada,<br>
+a hora menos escura<br>
+em que o dia irresoluto<br>
+nem se esconde, nem se occulta,</i><br>
+<br>
+<i>Quando com bellicas vozes<br>
+pela destra mão avulsas,<br>
+pois a eloquencia de Marte<br>
+não tem lingua, e não é muda,</i><br>
+<br>
+<i>Se ouvem de uma, e outra parte<br>
+gemer as portas, e ruas,<br>
+em o concavo dos montes<br>
+o ar ferido retumba.</i><br>
+<span class='pagenum'>[98]</span>
+<br>
+<i>Todos ás janellas chegam<br>
+com desordenada chusma,<br>
+quem nas janellas não cabe<br>
+talvez aos telhados suba.</i><br>
+<br>
+<i>Quando vem de infanteria<br>
+uma bem formada turba<br>
+forte como portugueza;<br>
+mas tyranna como turca.</i><br>
+<br>
+<i>Vem tambem destros ginetes<br>
+cujos pennachos, e trunfas<br>
+se tocavam das janellas<br>
+ao movimento das upas.</i><br>
+<br>
+<i>Por outra parte a justiça<br>
+entre os soldados vem junta,<br>
+que o ser a justiça armada<br>
+não é só para a pintura.</i><br>
+<br>
+<i>Das casas as portas tomam,<br>
+não de todas; mas de algumas,<br>
+pois só se emprega a vingança<br>
+onde se suspeita a culpa.</i><br>
+<br>
+<i>Logo de vista tam nova<br>
+com diversas conjecturas<br>
+todo o prudente se admira,<br>
+todo o culpado se assusta.</i><br>
+<br>
+<i>Que será, que não será,<br>
+todo o innocente pergunta;<br>
+não o pergunta o culpado<br>
+que a mesma consciencia accusa,</i><br>
+<span class='pagenum'>[99]</span>
+<br>
+<i>Quando para o desengano<br>
+de tudo o que se murmura,<br>
+a esquadra passa da porta<br>
+a guarnição que as occupa</i><br>
+<br>
+<i>Levando a baioneta<br>
+mettida, calçada a buxa,<br>
+muito valor, pouco termo,<br>
+pouca attenção, muita furia.</i><br>
+<br>
+<i>Assim entram os soldados<br>
+pelas casas mais occultas,<br>
+dem-se á prisão repetindo<br>
+ainda quando nada escuta.</i><br>
+<br>
+<i>Pois como vinham temendo<br>
+os do rancho, cada um cuida,<br>
+que cada taboa pregada<br>
+mil criminosos occupa.</i><br>
+<br>
+<i>Não ha cozinha, ou armario,<br>
+nem ha chaminé, nem tulha<br>
+que logo se não despegue,<br>
+logo não se desentupa.</i><br>
+<br>
+<i>Porém era muito cedo<br>
+sem que nenhum tal presuma,<br>
+pois a culpa obra-se sempre,<br>
+Que a pena espera-se nunca.</i><br>
+<br>
+<i>Nas camas os acham todos:<br>
+mau é que o culpado durma,<br>
+porém quem se deita tarde,<br>
+claro está que não madruga.</i><br>
+<span class='pagenum'>[100]</span>
+<br>
+<i>Alli sem trabalho os prendem;<br>
+porque alli ninguem repugna,<br>
+pois não tinham como os corpos<br>
+alli as espadas nuas.</i><br>
+<br>
+<i>Querem fugir; mas não podem,<br>
+pois por militar industria,<br>
+como estão guardas ás portas<br>
+não ha por onde se fuja.</i><br>
+<br>
+......................<br>
+</div>
+
+<p>Até aqui, não ha razão para grandes piedades;
+mas, ao diante, as trovas exhoram a compaixão;
+e o caso foi que o marquez de Marialva
+salvou do degredo o supplicante poeta; mas não
+pôde arrancar o viso-rei das presas do opprobrio
+que o mataram.</p>
+
+<p>Quem visse dezesete annos depois D. Manoel
+Alexandre da Costa, obeso doutor em canones,
+prior da igreja de Santa Cruz no Minho, e principal
+da santa igreja de Lisboa, devia lembrar-se
+do socio bastantemente prendado do <em>rancho do
+Carqueja</em>, e recommendar á justiça de Deus os
+juizes que degolaram Francisco Jorge Ayres, e
+absolveram o afilhado do marquez, e sobrinho do
+segundo conde de Soure!...</p>
+
+
+<h4>FIM DO 1.<sup>o</sup> NUMERO</h4>
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Noites de insomnia, offerecidas a quem
+não póde dormir. Nº1 (of 12), by Camilo Castelo Branco
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOITES DE INSOMNIA ***
+
+***** This file should be named 24463-h.htm or 24463-h.zip *****
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+Produced by Pedro Saborano
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+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
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+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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+This eBook, including all associated images, markup, improvements,
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+the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org.
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