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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 02:13:23 -0700 |
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diff --git a/24455-h/24455-h.htm b/24455-h/24455-h.htm new file mode 100644 index 0000000..f979274 --- /dev/null +++ b/24455-h/24455-h.htm @@ -0,0 +1,20541 @@ +<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Strict//EN" "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-strict.dtd"> +<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml"> +<head> + <title>Resumo elementar de archeologia christã</title> + + + <meta content="Joaquim Possidónio Narciso da Silva" name="AUTHOR" /> + + <meta content="text/html; charset=ISO-8859-1" http-equiv="Content-Type" /> + + <style type="text/css"> +body {width: 50%; margin-left:10%; text-align: justify;} +h1, h2, h3, h4 { text-align: center;} +h1 {margin: 2em; text-align: center;} +h2, h4 {margin-top: 2em;} +.tiny {font-size: 75%; text-align: center;} +.tinyl {font-size: 90%; margin-left:5%;} +.bbox {border: solid black 1px; margin-left: 5%; margin-right: 5%;} +.fbox {border: solid black 1px; background-color: #FFFFCC; font-size: 75%; margin-left: 10%; margin-right: 10%;} +.intro {font-size: 90%;} +.signature { +margin-right: 5%; +text-align: right;} +.smallcaps {font-variant: small-caps;} +.quote {margin-left:7%; margin-right:7%;} +.quote1 {margin-left:30%;} +.right {text-align: right;} +.sbreak { +width: 20%; +margin-left:40%;} +.dots {color: #fff; background-color: inherit; border: 3px dotted #555; border-style: none none dotted;} +.poetry {margin-left:20%;} +.poetry1 {margin-left:10%;} +.pagenum { position: absolute; right: 35%; +font-size: 75%; +text-align: right; +text-indent: 0em; +font-style: normal; +font-weight: normal; +color: silver; background-color: inherit; +font-variant: normal;} + </style> +</head> + + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of Resumo elementar de archeologia christã, by +Joaquim Possidónio Narciso da Silva + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Resumo elementar de archeologia christã + +Author: Joaquim Possidónio Narciso da Silva + +Release Date: January 29, 2008 [EBook #24455] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ARCHEOLOGIA CHRISTÃ *** + + + + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + + + + + +</pre> + + +<div> +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h1> +RESUMO ELEMENTAR<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">de<br /> + +</span> +<br /> + +ARCHEOLOGIA CHRISTÃ </h1> + +<h2> +<span class="smallcaps">por</span> +<br /> + +<br /> + +POSSIDONIO DA SILVA </h2> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<h3>1887</h3> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h4> +Antigo edificio religioso de Santarem<br /> + +<br /> + +LISBOA―Museu de Archeologia do Carmo</h4> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="bbox"><br /> + +<br /> + +<h2> +RESUMO ELEMENTAR<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">de</span><br /> + +<br /> + +ARCHEOLOGIA CHRISTÃ<br /> + +</h2> + +<h3> +<span class="smallcaps">por</span><br /> + +<br /> + +<em>Possidonio da Silva</em></h3> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><img style="width: 143px; height: 141px;" alt="" src="images/fig01.png" /><br /> + +</div> + +<div class="smallcaps"> +<h4>medalha conferida em 1869</h4> + +</div> + +<h4><br /> + +LISBOA<br /> + +LALLEMANT FRÈRES, IMPRENSA<br /> + +1887</h4> + +<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;">Á<br /> + +<br /> + +MEMORIA DE MEU PAE<br /> + +<br /> + +<br /> + +Reinaldo José da Silva<br /> + +<br /> + +</div> + +<br /> + +<div class="tiny">TESTEMUNHO DE RESPEITO E +GRATIDÃO</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="signature">O Auctor<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2><a name="c"></a>AO LEITOR </h2> + +<br /> + +<br /> + +Inaugurando-se agora nos seminarios de algumas dioceses de Portugal +cadeiras para o ensino de archeologia christã, estudo que ha +muito era urgente crear-se no nosso paiz, proponho-me publicar os +elementos principaes d'esta sciencia, afim de facilitar os estudos a +quem desejar possuir esses conhecimentos indispensaveis para curar da +conservação dos objectos do culto e evitar o +ignorante modo de se restaurarem os edificios religiosos dos +differentes estylos, que pertencem á +nação; pois +já é tempo de não se continuar a +praticar nos edificios concertos mal pensados, que alteram o caracter +respectivo da sua architectura, e causam tambem desdouro ao avaliar-se +a nossa civilisação.<br /> + +<br /> + +Ainda que não façamos um compendio completo, +comtudo, talvez possa ser de algum auxilio para se divulgarem as +instrucções principaes +d'esta natureza afim de pôr cobro aos vandalismos que +têem destruido +tantas antiguidades e objectos preciosos do culto.<br /> + +<br /> + +Muito embora não se consiga desde já o proficuo +resultado d'este ensino, todavia ficará registado, no final +do seculo XIX, o empenho que illustres Prelados têem tomado +para obstar a serem illudidos os parochos nas +substituições das alfaias, e para se opporem +ás defeituosas +restaurações dos monumentos religiosos do nosso +paiz. Darei por bem empregada esta minha modesta +publicação, se por ventura conseguir este empenho +patriotico e artistico a que tenho constantemente dedicado a maior +parte da minha existencia.<br /> + +<br /> + +<div class="smallcaps signature">Possidonio da Silva.</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2><a name="c0"></a>INTRODUCÇÃO<sup><a href="#1">[1]</a></sup> +</h2> + +<br /> + +<br /> + +Os monumentos historicos ou simplesmente artisticos são os +marcos que assignalam os passos, mais ou menos firmes, vagarosos ou +apressados, que os povos vão dando no caminho da +civilisação. Porém não se +pense que, relativamente a esses padrões, +a cultura de uma nação deva ser avaliada +sómente pela significação d'elles, por +mais gloriosa que +seja, ou por mais que se aprimorasse n'elles a arte, mas sim tambem +pelo apreço e respeito com que essa +nação vela pela sua +conservação.<br /> + +<br /> + +Sobreleva Portugal a todas as nações na alta +significação dos seus monumentos, porque +não commemoram unicamente façanhas militares e +virtudes christãs e civicas, communs a outros povos. +Não recordam só mil acções +de valor, de coragem e de abnegação, praticadas +na defensa da patria, ou para alargamento das suas fronteiras, ou para +honra e lustre do seu nome. Mas fallam tambem os nossos monumentos +d'essas arrojadissimas +<span class="pagenum">[8]</span> +emprezas de +navegações e descobrimentos, com +que os portuguezes abriram de par em par as portas á moderna +civilisação, levando a luz +do evangelho, atravez de mares ignotos, ás mais longinquas +regiões do globo.<br /> + +<br /> + +Quasi todas essas glorias, que doiram as paginas da nossa historia, +foram memoradas por nossos maiores com a fundação +de um templo, acanhado e singelo, ou grandioso e opulento, segundo o +permittiam a rudeza dos tempos, ou a florescencia da +nação, bem como o animo e posses dos fundadores.<br /> + +<br /> + +As convulsões do sólo, a pouca +illustração dos reedificadores, e modernamente a +sanha brutal dos demolidores, têem destruido ou desfigurado +muitas d'essas auctorisadas testemunhas dos tempos heroicos de +Portugal. Este vandalismo, que nos degrada do gremio das +nações cultas, não +está, infelizmente, ainda de todo proscripto d'entre +nós. Os poderes publicos ainda não prestam aos +nossos monumentos toda a attenção e vigilante +solicitude que, para +a sua conservação, elles demandam, e a honra e +bom nome do paiz com tanta justiça reclamam. E +não basta que se attenda á +conservação dos monumentos commemorativos dos +grandes factos historicos, e ao mesmo tempo opulentos d'arte. Merecem o +nosso apreço e cuidados todos os padrões que +interessam, de qualquer maneira, aos annaes da +nação e á historia da arte.<br /> + +<br /> + +Não obstante os differentes elementos de +destruição, que tem actuado entre nós, +ainda existem de pé n'este reino não poucas +egrejas anteriores +á +<span class="pagenum">[9]</span> +fundação da monarchia, ou contemporaneas do nosso +primeiro rei, ou construidas sob o sceptro dos seus immediatos +successores. São pequenos e de +construcção mesquinha todos esses templos, tendo +por feição principal a mesma simplicidade e +pobreza, que distinguiam n'essa epocha o viver da +nação. Todavia, embora o acanhamento das +proporções, e a simplicidade da architectura +corram parelhas com a pobreza das memorias historicas, todas essas +egrejas são exemplares de subido valor para a historia da +arte em Portugal, tanto mais quanto é tristemente certo, que +os grandes templos, levantados nos principios da monarchia, +têem sido mascarados e desfigurados, por occasião +das +reedificações, como aconteceu ao de +Alcobaça, á Sé de +Lisboa, e a outros, ou desappareceram, como o de Santa Cruz de Coimbra +e o de S. Vicente de Fóra, em Lisboa, para em seu logar se +edificarem outros mais vastos e mais sumptuosos.<br /> + +<br /> + +Pois essas preciosas reliquias de tão remota antiguidade que +têem resistido ao duro embate das tempestades no correr de +tantos seculos, zombando até agora dos cataclysmos da +natureza e dos furores do camartello, acham-se presentemente +ameaçadas, pelo menos algumas d'ellas, de perderem, em +reconstrucções dirigidas sem amor da arte, e sem +respeito aos monumentos de remotas éras, as suas primitivas +e venerandas feições.<br /> + +<br /> + +E ao mesmo passo vão desapparecendo das velhas parochias +sertanêjas as suas antigas alfaias, vendidas por uma +bagatella, a titulo de alcançar +<span class="pagenum">[10]</span> +meios para +reparação do edificio, e os seus vasos +sagrados dos seculos anteriores ao XVIII, de muita belleza e +primôr artistico, a troco de outros de fabrica moderna, mais +luzentes e vistosos, porém destituidos da formosura e +elegancia das fórmas, e da delicadeza e +perfeição do trabalho +esculptural, que dão fóros universaes de +preeminencia +á ourivesaria, principalmente dos seculos XV e XVI.<br /> + +<br /> + +Os compradores d'objectos d'arte e de industria, antigos, que vem a +Lisboa todos os annos do estrangeiro, sobretudo de França e +da Allemanha, percorrem as nossas provincias em todas as +direcções; apparecem em todas as cidades, nas +villas e nas proprias aldeias, tentando com dinheiro á vista +os possuidores d'essas preciosidades, que não sabem +aprecial-as, desconhecendo-lhes o valor.<br /> + +<br /> + +É mister por honra do paiz, e por exigencia imperiosa dos +interesses publicos, que se trate de pôr algum +côbro, quando não possa obstar-se +inteiramente, á assolação ou +deformação d'aquelles monumentos da antiguidade, +e a esta continua expropriação das nossas +riquezas artisticas, documentos irrecusaveis do alto grau de +florescencia nas artes, e por conseguinte de +civilisação, que Portugal +attingiu n'esse glorioso passado.<br /> + +<br /> + +Um dos meios inquestionavelmente mais adequado, seria oppôr a +essa torrente devastadora a +illustração e o zelo dos parochos, +illustração e zelo +provenientes de conhecimentos especiaes para saberem apreciar aquelles +objectos, ricos d'arte e de memorias +<span class="pagenum">[11]</span>piedosas, que os +estranhos nos +cobiçam, e que os nacionaes malbaratam por ignorancia.<br /> + +<br /> + +Se os parochos tivessem algumas noções de +archeologia religiosa, não consentiriam, certamente, que as +suas egrejas perdessem, com feições +bastardas, o typo primitivo que as ennobrecia, nem haviam de tolerar, +que fossem despojadas, por compra ou troca, dos seus vasos sagrados e +alfaias antigas, que são nos templos verdadeiros +brazões da sua nobreza, e testemunhas authenticas, +eloquentes na sua propria mudez, do amor da religião dos +nossos antepassados, que n'elles se casava com o amôr da +patria. E não limitariam esses parochos a sua +acção benefica, sem duvida, a salvaguardar as +preciosidades artisticas das suas egrejas; mas não deixariam +tambem, em casos identicos, de dispensarem aos parochianos os conselhos +do seu saber e da sua experiencia.<br /> + +<br /> + +Foram estas considerações retemperadas pelo +affecto que todos devemos á terra, que nos serviu de +berço, e ás Santas Crenças, que +recebemos dos maiores, que moveram a Real +Associação dos +Architectos e Archeologos a elevar ao esclarecido juizo dos Prelados +Portuguezes o pedido de instituirem nos seus respectivos seminarios uma +cadeira de archeologia religiosa.<br /> + +<br /> + +É uma sciencia muito complexa a archeologia, não +ha duvida, pois que cada uma das partes, que a compõem, e +que se subdividem, a seu turno, em outras partes de materia amplissima +para o estudo, constitue um ramo importante dos conhecimentos +<span class="pagenum">[12]</span>humanos, que +demanda +muita applicação para ser bem sabido.<br /> + +<br /> + +Porém, no que diz respeito á archeologia +religiosa é um estudo muito limitado, facil e agradavel, e +que póde restringir-se, querendo abrevial-o, estabelecendo +o ponto de partida da invasão dos povos septemtrionaes e +destruição do imperio romano; ou dos tempos mais +proximos da fundação da +monarchia portugueza. O que é mister é que se +dê nos seminarios aos futuros parochos a +instrucção precisa para que conheçam +os differentes estylos architectonicos, empregados nos templos do +christianismo; a epocha da sua introducção em +Portugal, e as modificações, que tiveram aqui, +determinadas +pelo estado da nossa civilisação e pelos habitos +e costumes da sociedade. É indispensavel, tambem +ministrar-lhes eguaes conhecimentos em relação +á ourivesaria religiosa, e ás mais artes liberaes +e mechanicas, que, no correr da éra christã, +têem concorrido com os seus productos para o +serviço dos altares, e para a +ornamentação das egrejas.<br /> + +<br /> + +Os parochos assim instruidos não deixarão de +apreciar devidamente, e de velar com verdadeiro zelo pela +conservação dos edificios e dos +objectos concernentes ao culto, venerandos pelas +tradições +religiosas e pela consagração dos seculos, e +dignos de grande estima pelo seu valor artistico ou archeologico.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="smallcaps signature">Ignacio de Vilhena +Barbosa.</div> + +<br /> + +<span class="pagenum">[13]</span><br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2> +Resumo elementar de archeologia christã</h2> + +<br /> + +<h3><a name="c1"></a>CAPITULO I</h3> + +<h3> +Principios da arte christã no Occidente</h3> + +<h4>PRIMEIRO PERIODO</h4> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c2"></a>CAPITULO II<br /> + +</h3> + +<br /> + +<div class="intro"><b>Summario.</b>―Descripcão +das +catacumbas de Roma―Principios artisticos e +classificações das pinturas das +catacumbas―Symbolos ou allegorias dos primitivos +christãos―Representação de Jesus +Christo e de Nossa Senhora―Imagens dos Santos―Monogramma de +Christo―Lampadas―Sarcophagos christãos―Vasos de +sangue―Monumentos christãos fóra das +catacumbas―Edificios religiosos construidos nos tres primeiros +seculos―Cemiterios á superficie do +solo―Alfaias e +instrumentos do culto.</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Os mais numerosos monumentos christãos que se offerecem para +o estudo da archeologia christã +são os cemiterios subterraneos da cidade de Roma. Os +christãos continuaram a escavar nas antigas pedreiras da +cidade novas catacumbas depois do reinado de Constantino, e durante os +quatro ou cinco seculos seguintes, transformaram as catacumbas em +logares de peregrinação. Fizeram-se +restaurações e embellezamentos n'estes +sanctuarios até ao fim do seculo VIII.<br /> + +<br /> + +As catacumbas eram destinadas a tres fins: o primeiro e principal era +servirem de cemiterio aos christãos. Os tumulos ficavam +dispostos nas paredes uns por cima dos outros formando fileiras de tres +a doze. Os corpos eram collocados em nichos oblongos, fechados por +tampas de marmore, ou por tijolos ordinariamente em numero de tres, +ajustados perfeitamente com cal. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[14]</span> +N'estas galerias veem terminar em muitos sitios camaras sepulchraes. +São especies de covas funerarias, no fundo das quaes se +encontra muitas vezes, debaixo de uma abobada, um tumulo encerrando os +restos mortaes de algum martyr illustre. Estes tumulos serviam de altar +no dia anniversario do martyr, em que os christãos vinham +fazer as suas orações.<br /> + +<br /> + +A fórma dos sepulchros era variadissima: ha-os circulares, +semi-circulares, octogonaes, hexagonaes e pentagonaes; comtudo a maior +parte são quadrados.<br /> + +<br /> + +O segundo fim a que destinavam as catacumbas era servirem de logar de +reunião para ahi celebrar as ceremonias do culto. Foi para +fazerem as suas assembléas religiosas que os primitivos +christãos construiram, nos seus cemiterios subterraneos, +oratorios, compostos a maior parte das vezes de dois ou tres sepulchros +contiguos, e que se designam pelo nome de <em>basilicas das +catacumbas</em>.<br /> + +<br /> + +O terceiro fim das catacumbas era tambem servirem de retiro ao +Pontifice, ao clero e aos fieis no tempo da +perseguição.<br /> + +<br /> + +A historia das catacumbas póde dividir-se em tres periodos +principaes: o periodo da formação, o periodo da +restauração e de visitas piedosas, e +o periodo de explorações scientificas.<br /> + +<br /> + +O primeiro periodo abraça os quatro primeiros seculos. No +decurso do seculo IV viu-se diminuirem as sepulturas subterraneas pelo +augmento dos tumulos á superficie do solo. Depois do anno +410 não se encontram sepulturas nas catacumbas. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[15]</span> +O segundo periodo estende-se desde os primitivos annos do seculo V +até ao principio do seculo IX.<br /> + +<br /> + +Chamam-se cryptas historicas as camaras sepulchraes em que repousavam +os restos de martyres illustres.<br /> + +<br /> + +O ultimo periodo, de explorações scientificas, +data do anno de 1578.<br /> + +<br /> + +No mez de maio de 1578, uns trabalhadores que se occupavam em extrahir +pozzolana n'uma vinha, a duas milhas da cidade de Roma, descobriram uma +abertura que dava para um cemiterio christão decorado de +pinturas, de sarcophagos e de inscripcões.<br /> + +<br /> + +Estas pinturas pertencem a epochas differentes, e algumas ao primeiro +seculo da nossa éra. As do seculo II são mais +numerosas, porém as do seculo +III são ainda em muito maior numero.<br /> + +<br /> + +A maior parte das decorações das paredes das +catacumbas foram executadas a fresco, sendo feitas algumas com mosaicos +em limitado numero.<br /> + +<br /> + +Os antigos artistas contentavam-se em traçar a +silhuêta dos personagens e dos objectos, enchiam em seguida o +espaço comprehendido entre os contornos por côres +lisas ou illuminuras, e indicavam convencionalmente as rugas dos fatos +com traços cheios e as saliencias com traços +finos. Faziam o contrario do que se praticava desde o seculo VI, +desprezando, na representação dos assumptos, os +accessorios.<br /> + +<br /> + +As pinturas dos tumulos, em fórma d'arco, apparecem +<span class="pagenum"><a name="p16">[16]</a></span> +sobre um fundo ornado,―um +assumpto com muitas figuras traçadas dentro de molduras de +fórma quadrada ou semicircular.<br /> + +<br /> + +Os ornatos são na maior parte +imitações de objectos usuaes, açafates +com fructos ou grinaldas de flores, sendo imitado este genero de +decoração de +pintura da arte pagã.<br /> + +<br /> + +Nas catacumbas representava-se ordinariamente Jesus Christo debaixo da +fórma do Bom Pastor.<br /> + +<br /> + +As imagens do Redemptor não se encontravam isoladas, +apresentando todos os caracteres das pinturas posteriores a muitos +seculos á conversão de Constantino.<br /> + +<br /> + +A Santa Virgem é figurada nas pinturas das catacumbas sobre +os vidros dourados e os sarcophagos dos seculos primitivos, estando +sentada, com o Menino Jesus ao collo.<br /> + +<br /> + +A adoração dos Magos recordava aos fieis tres +dogmas: a vocação dos infieis, a Divindade de +Nosso Senhor, e a Maternidade Divina.<br /> + +<br /> + +Os primitivos christãos representavam tambem a Virgem com ou +sem o Filho, debaixo da forma d'uma <em>orante</em>, isto +é, em +pé e levantando os braços n'uma attitude de +supplica. Muitas imagens são anteriores ao seculo IV.<br /> + +<br /> + +<em>Jesus Christo multiplicando os +pães</em>: figura a Santa Eucharistia, como sendo +alimento das almas.<br /> + +<br /> + +O Salvador é representado em geral debaixo da figura d'um +mancebo imberbe vestido com manto e tunica ornada com duas bandas de +purpura. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[17]</span> +<em>O paralytico curado</em> é +representado no momento em que, deixando a piscina, leva a sua cama +ás costas. Está vestido com uma tunica e cinta e +uma especie de ceroulas.<br /> + +<br /> + +<em>Jesus resuscitando Lazaro</em>: +é representado Lazaro debaixo da fórma d'uma +pequena mumia envolvida em pequenas fitas e collocada na +posição vertical á entrada do tumulo, +que tem a fórma de um edificio ou pequeno templo.<br /> + +<br /> + +As representações de +refeição dividem-se em duas classes conforme +symbolisam a Eucharistia, ou a felicidade dos predestinados +á +bemaventurança.<br /> + +<br /> + +A felicidade dos predestinados é symbolisada por um banquete +ao qual servem o Amor e a Paz, porque estes dois gosos eram tidos como +os principaes do Paraiso.<br /> + +<br /> + +<em>Jesus Christo rodeado dos seus +discipulos</em>: representa o ensino dado aos apostolos e a +celebração da ultima ceia do Senhor.<br /> + +<br /> + +As imagens dos Santos encontram-se nas cryptas historicas, e todas em +geral são posteriores á +conversão de Constantino. Muitas são ornadas de +resplendor, que só foi dado aos Santos no principio do +seculo VI.<br /> + +<br /> + +A scena do Orpheu tocando lyra, tirada da mythologia, é +muito commum nas pinturas das catacumbas e sobre os monumentos +christãos dos primeiros seculos.<br /> + +<br /> + +Entre os primeiros christãos, Orpheu deleitando os animaes +ferozes com os sons da sua lyra, era +<span class="pagenum"><a name="p18">[18]</a></span> +um symbolo de Jesus Christo domando as +paixões dos homens e attrahindo-os com os encantos da sua +doutrina.<br /> + +<br /> + +Os primeiros christãos reproduziam de differentes maneiras +as quatro estações sobre as paredes das +catacumbas e sobre os sarcophagos, porque as +estações symbolisavam aos olhos dos +christãos a futura resurreição.<br /> + +<br /> + +Os primitivos christãos serviam-se dos symbolos, em primeiro +logar, para subtrahir á irrisão dos infieis as +mais augustas verdades da religião, e em segundo logar, para +se conhecerem entre si. Os mais antigos d'estes symbolos eram a pomba, +o peixe, a barca, a lyra e a ancora.<br /> + +<br /> + +Durante os primeiros tres seculos da Egreja, o peixe era um dos +symbolos mais divulgados entre os christãos para +significarem Jesus Christo. Empregava-se de dois modos, como nome e +como figura. A palavra <em>ichtus</em>, que significa +peixe, fornece as iniciaes das palavras <em>Jesus Christo Filho +de Deus</em>.<br /> + +<br /> + +O peixe representado sobre os monumentos pintados ou esculpidos tinha a +mesma significação, era um signal hyerogliphico +lembrando aos christãos a palavra grega e todas as verdades +que ella symbolisava. Tanto o acrostico como o peixe symbolico, era +principalmente gravado sobre as pedras e sobre os objectos portateis +para o uso da piedade dos primeiros christãos.<br /> + +<br /> + +A Cruz que se encontra nos monumentos christãos dos quatro +primeiros seculos apresenta-se com +<span class="pagenum">[19]</span> +fórmas dissimuladas, de ancora, +que era ao mesmo tempo o symbolo da esperança, e serve desde +o primeiro seculo para recordar aos fieis o signal da +Redempção.<br /> + +<br /> + +Empregou-se desde os primeiros seculos o cordeiro para representar +Jesus Christo.<br /> + +<br /> + +Os primitivos christãos tinham por costume orar em +pé, com os braços estendidos e levantados para +o ceu. Na maior parte dos monumentos christãos primitivos +vêem-se fieis dos dois sexos, e principalmente mulheres em +attitude de <em>orantes</em>.<br /> + +<br /> + +A <em>orante</em> symbolisa a alma +christã admittida no ceu e considerada esposa de Jesus +Christo. As duas arvores que em alguns monumentos se encontram aos +lados, designam o paraiso ou a felicidade eterna.<br /> + +<br /> + +Encontra-se frequentemente nos primitivos monumentos +christãos de toda a especie a pomba, e principalmente nos +epitaphios dos seis primeiros seculos da nossa éra. Nos +tumulos symbolisa ordinariamente a alma pura e innocente dos fieis. A +oliveira que está ao seu lado ou o ramo d'esta arvore, que +muitas vezes tem no bico, são o symbolo da paz que gosa a +alma, e equivale á formula +<em>in pace</em>, tantas vezes empregada nos epitaphios.<br /> + +<br /> + +A <em>palma</em> tem sido em todos os tempos +o symbolo do triumpho; os christãos primitivos +collocaram-n'a nos seus tumulos para recordar a victoria ganha pelo +defuncto aos inimigos da fé.<br /> + +<br /> + +O <em>monogramma de Constantino</em> ou +simplesmente <em>monogramma</em> são as duas +letras gregas X P ligadas da seguinte maneira: +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><span class="pagenum">[20]</span><img style="width: 108px; height: 126px;" alt="" src="images/fig02.png" /><br /> + +</div> + +<br /> + +Outro <em>monogramma cruciforme</em> parece +ter existido no Oriente e tem a letra X com a fórma d'uma +cruz † onde está ligada na perpendicular +superior +a barriga da letra P:<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><img style="width: 82px; height: 136px;" alt="" src="images/fig03.png" /><br /> + +</div> + +<br /> + +As duas fórmas tambem se empregaram no Occidente.<br /> + +<br /> + +A partir do meado do seculo IV, o monogramma é muitas vezes +acrescentado com mais duas letras gregas A e Ω, a +primeira e a ultima do seu +alphabeto.<br /> + +<br /> + +O monogramma data da conversão de Constantino que mandou +fazer o +<em>lábaro</em>, que era encimado pelo +monogramma.<br /> + +<br /> + +Durante os primeiros seculos da Egreja, o altar era apenas uma taboa de +madeira, servindo de mesa aos apostolos para celebrar os divinos +mysterios.<br /> + +<br /> + +As catacumbas forneceram-nos mais tarde o typo dos altares em +fórma de tumulo. As tumbas <em>em arco</em> +tinham uma prateleira +horisontal cobrindo os restos do santo martyr; sobre esta prateleira +é que se dizia a missa.<br /> + +<br /> + +As lampadas que se encontraram nas catacumbas tinham a fórma +das +<em>lucerncae</em> dos antigos. +Assemelham-se a uma barquinha, que era um dos symbolos mais usados na +Egreja primitiva. A maior parte são de argila; tambem se +encontram algumas de bronze. Estas ultimas pertencendo a uma epocha +<span class="pagenum"><a name="p21">[21]</a></span> +menos remota, são +quasi todas munidas de cadeias que serviam para as suspender nos tectos +das capellas.<br /> + +<br /> + +Chama-se sarcophago (palavra derivada de +<em>sarcos</em> carne e <em>phagos</em> eu +como) um tumulo de +marmore ou de porphyro mais ou menos ornado de esculpturas.<br /> + +<br /> + +Podemos classifical-os em <em>simples</em>, +<em>mixtos</em> e +<em>ricos</em>.<br /> + +<br /> + +Os sarcophagos <em>simples</em> apresentavam +a fórma de um cofre rectangular sem +ornamentação.<br /> + +<br /> + +Na maior parte os sarcophagos eram adornados de um ornato que se +chamava +<em>strigiles</em>.<br /> + +<br /> + +Os <em>strigiles</em> são +canneluras de fórma sinuosa, imitando o raspador, +instrumento de que os antigos se serviam para tirar, na +occasião de se banharem, a humidade e os corpos estranhos +espalhados na superficie da pelle.<br /> + +<br /> + +Os sarcophagos <em>ricos</em> têem +as quatro faces, ou pelo menos tres, ornadas de esculpturas em baixo, +ou em alto relevo. Quando se reproduzem sobre uma mesma face muitas +scenas ou figuras, são justapostas simplesmente, ou +separadas por columnas ornadas de pampanos e de pequenos genios +colhendo fructos.<br /> + +<br /> + +Muitos sarcophagos têem, no centro da face principal, um +medalhão circular, onde se vê em busto a figura do +defuncto. Os tumulos que serviam de sepultura a dois esposos, +têem dois bustos, e algumas vezes uma arcada central +apresentando, com a mesma significação, dois +personagens em +pé dando a mão e chorando. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[22]</span> +Os sarcophagos <em>mixtos</em> são +ornados parte com strigiles e parte com figuras gravadas a +traço ou esculpidas em relevo.<br /> + +<br /> + +Os sarcophagos dos tres primeiros seculos foram escolhidos nas +officinas pagãs, ou esculpidos por artistas +christãos, segundo modelos profanos.<br /> + +<br /> + +As scenas da Paixão propriamente dita, taes como a +flagellação, o coroamento de espinhos e a +crucificação, não se encontram +representados em monumento algum do primitivo christianismo.<br /> + +<br /> + +Os christãos dos primeiros seculos punham muitas vezes nas +sepulturas objectos que tinham pertencido ao defuncto.<br /> + +<br /> + +Encontram-se nos tumulos dos fieis: tecidos d'ouro, anneis, +bracelêtes e bijoterias, brinquedos de +creança, relicarios portateis, vasos de vidro ou d'argila +collocados ordinariamente perto das cabeças dos cadaveres, +instrumentos de supplicio.<br /> + +<br /> + +<em>Vasos de sangue</em>. Entre os signaes +certos do martyr o principal é o vaso de vidro ou d'argila, +que serviu para recolher <em>o sangue do +martyr</em>, collocado dentro do tumulo, ou no exterior do nicho +sepulchral.<br /> + +<br /> + +<em>Objectos collocados no exterior do +tumulo</em>. Entre estes objectos, uns são executados +pela mão do homem, outros não o são. +Podem classificar-se, na +primeira cathegoria, os <em>baixos +relêvos</em>, as estatuetas, os pequenos <em>bustos</em>, +e os fragmentos +de esculpturas em pedra e em marmore, os cacos de louça, os +fragmentos de <em>vasos</em> de +<em>crystal</em> e de <em>vidro +esmaltado</em> e <em>dourado</em>, os prismas e as +pequenas <em>placas</em> +<span class="pagenum"><a name="p23">[23]</a></span> +de <em>mosaico</em>, os anneis, os collares, os +bracelêtes, e um grande numero d'outros objectos de <em>toilette +feminino</em>, d'ambar, ouro, marfim e nacar, os brinquedos de +creança, as folhas de taboa de escrever, as placas de +bronze, as guarnições e os ornamentos para portas +e cadeiras, d'ouro, marfim, bronze e ferro, os camapheus, as moedas e +as medalhas, os utensilios de cosinha; n'uma palavra, tudo desde o +objecto mais ordinario até ás joias mais +preciosas.<br /> + +<br /> + +Encontram-se tambem fragmentos brutos de toda a especie de substancias, +os mais diversos objectos naturaes e os mais extravagantes; +pedaços de tufo, estilhaços de pedra ou de +tijôlo, +caróços de fructos, folhas d'arvore ou de planta, +dentes e ossos d'animaes, caracoes, cascas de mexilhão e +d'ôstra, conchas, etc.<br /> + +<br /> + +Estes objectos fixos ao cimento, eram dispostos de maneira que podessem +desenhar figuras de que facilmente se podesse fazer idéa.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<em>Outros monumentos christãos dos tres +primeiros seculos além das catacumbas</em>. +Occupar-nos-hemos dos edificios religiosos construidos sobre a terra, +dos cemiterios construidos ao ar livre, dos paramentos sagrados e dos +instrumentos do culto, anteriores á +abjuração de Constantino.<br /> + +<br /> + +Sabemos por documentos historicos que muitas pessoas abastadas tinham +em seus palacios oratorios onde os soberanos Pontifices vinham celebrar +os Santos Mysterios na presença da multidão dos +<span class="pagenum"><a name="p24">[24]</a></span> +fieis. Muitos d'estes oratorios +foram substituidos, depois da abjuração de +Constantino, por +basilicas, ás quaes deram o nome das pessoas piedosas que +haviam cedido á egreja o direito de propriedade; e se mais +tarde estas pessoas ficavam consideradas no numero dos Santos, estas +basilicas eram-lhes dedicadas.<br /> + +<br /> + +A mais remota menção d'um templo +christão data do tempo de Alexandre Severo, que foi +imperador desde 222 até 235.<br /> + +<br /> + +Não é conhecida a fórma nem a +distribuição interior d'estas primitivas egrejas. +<br /> + +<br /> + +Os unicos monumentos notaveis dos tres primeiros seculos, +até hoje conhecidos, são as +<em>cellas</em> dos cemiterios, ás quaes se deu +tambem o nome de <em>basilicas</em>, desde o principio do +IV +seculo.<br /> + +<br /> + +Estes pequenos edificios, construidos nos cemiterios, serviam para +ponto de reunião dos fieis.<br /> + +<br /> + +<em>Cemiterios ao ar livre</em>. As +sepulturas christãs foram estabelecidas, desde o principio, +ao ar livre.<br /> + +<br /> + +Estes cemiterios, designados em geral pelo nome de <em>d'areae</em><sup><a href="#2">[2]</a></sup> +eram, do mesmo modo +que as catacumbas, situados fóra das portas das cidades; +porque as leis romanas prohibiam severamente as +inhumações dentro dos muros.<br /> + +<br /> + +Depositavam-se os cadaveres, quer em simples fóssas, algumas +vezes revestidas interiormente de tijólos e de lages, quer +em pias de pedra, ou +caixões de madeira mettidos debaixo da terra. As paredes dos +tumulos mais ricos eram, dadas certas +<span class="pagenum"><a name="p25">[25]</a></span> +circumstancias, rebocadas de argamassa, ou +estucadas e decoradas com pinturas <em>a +frêsco</em>, semelhantes ás das galerias e +capellas sepulchraes <a href="#e1">das</a> +catacumbas.<br /> + +<br /> + +<em>Paramentos e objectos do culto</em>. Parece certo que, +durante os primeiros seculos, os paramentos sagrados +não se differençavam dos fatos +ordinarios, nem pela fórma nem pelo talhe.<br /> + +<br /> + +Do mesmo modo que aproveitavam para os sagrados paramentos as +fórmas e os pannos dos fatos ordinarios, assim tambem +aproveitavam para o serviço dos altares os vasos ricos e +preciosos que haviam servido aos usos profanos.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c3"></a>CAPITULO III</h3> + +<br /> + +<div class="intro"> +<b>Summario.</b>―Estylo Latino―Estylo +Bysantino―Fórmas das Basilicas―Origem da Basilica +Christã―O +Narthex―Orientação das Basilicas e Egrejas +Christãs―Egrejas cruciformes, circulares e +polygonaes―Cryptas―Baptisterios―Oratorios domesticos―Templos +pagãos e edificios profanos apropriados em Egrejas +Christãs―Systema e regras de +construcção―Decoração +monumental―Narthex, fachadas e portaes das Basilicas―Janellas e a +maneira de as vedar.―Madeiramento do cume dos +edificios―Torres―Pinturas representadas em mosaico―Pavimento nos +edificios―Altares―Ciborium―<em>Ambon</em>, Tribuna para +as leituras da Biblia―Poltrona para os bispos e bancos para os +sacerdotes―Cemiterios―Monumentos funerarios―Sarcophagos―Tumulos +subterraneos―Objectos com symbolos christãos achados nas +sepulturas―Alfaias religiosas―Calices e +Patenas―Custodias―Relicarios―Pombas e torres―Accessorios do +altar―Corôas de metal precioso suspensas sobre o +altar―Dipticos―Encadernação dos livros dos +Evangelhos―Estofos religiosos―Paramentos sacerdotaes―Jesus Christo +sob fórmas symbolicas―Os Apostolos S. Pedro e S. Paulo.</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<em>Periodo Latino e Bysantino</em>. A +architectura christã póde considerar-se dividida +em dois ramos +<span class="pagenum">[26]</span> perfeitamente +distinctos. O +primeiro, que se poderá chamar o <em>Estylo Latino</em>, +foi adoptado +pela egreja Latina, isto é, na Italia, na Illyria, na +Dalmacia e em toda a Europa Occidental. É caracterisado pela +imitação mais ou menos correcta da architectura +classica, greco-romana. O outro estylo, formado por elementos orientaes +e romanos, nasceu em Constantinopla, e ahi se desenvolveu, formada sob +a influencia Oriental, uma configuração +inteiramente nova: deram-lhe o nome de <em>Bysantino</em>. +<br /> + +<br /> + +O Estylo Latino predominou no Occidente até ao principio do +seculo VIII; e o Estylo Bysantino no Oriente, até +á tomada de Constantinopla pelos +Musulmanos, em 1453.<br /> + +<br /> + +Chamou se <em>Latino</em> o estylo do +imperio do Occidente, em primeiro logar porque, derivando do Estylo +Romano ou Classico, foi empregado nos paizes em que a lingua <em>latina</em> +era a lingua +ecclesiastica e vulgar; em segundo logar, porque existiu tanto tempo +como aquella lingua, approximadamente.<br /> + +<br /> + +O Estylo <em>Bysantino</em> tem o nome +derivado de Bysancio ou Constantinopla, capital do imperio do Oriente.<br /> + +<br /> + +<em>Estylo Latino</em>. A architectura +greco-romana chegou ao seu apogêo durante os dois primeiros +seculos da era christã. A sua decadencia começou +no seculo III, afastando-se da nobre simplicidade do Estylo Classico.<br /> + +<br /> + +No seculo IV, ainda mais se pronunciou a sua +degeneração.<br /> + +<br /> + +Começaram então a desmanchar os antigos +monumentos +<span class="pagenum">[27]</span> +para em seu logar +construir e decorar mais facilmente os novos. Tal era o estado da +architectura no Occidente, quando foram construidos os primeiros +monumentos christãos do periodo +<em>Latino</em>.<br /> + +<br /> + +<em>Fórma das basilicas</em>. As +<em>basilicas profanas</em> eram vastos edificios +construidos no +<em>Forum</em>, ou nos arredores das praças +publicas. Serviam para ponto de reunião dos vendedores, +assim como de outros individuos que se occupassem de negocios. Era +n'ellas que os magistrados administravam Justiça.<br /> + +<br /> + +As <em>basilicas christãs</em> +foram construidas segundo o modêlo das basilicas profanas; +sómente, em vez de se construirem ao longo das +praças publicas, eram precedidas de um pateo quadrado, com o +fim de as afastar do ruido e do tumulto da rua. Tinham, como as +basilicas profanas, a fórma d'um rectangulo mais ou menos +alongado e compunham-se de tres partes principaes―o <em>pateo</em> +ou o <em>atrium</em>; a +<em>nave</em> e o +<em>Sanctuario</em>.<br /> + +<br /> + +O <em>narthex</em> abria-se ao fundo do +atrium. Era uma especie de vestibulo, propriamente dito, formado pelo +portico transversal contiguo á fachada da basilica.<br /> + +<br /> + +Esta primeira parte da basilica era occupada, durante o officio, por +aquelles a quem as leis ecclesiasticas prohibiam tomar parte nas +assembléas dos fieis.<br /> + +<br /> + +Do <em>narthex</em>, entrava-se por uma, tres +ou cinco portas para a basilica, que era ordinariamente +<span class="pagenum">[28]</span> +dividida em tres naves por duas ordens de +columnas.<br /> + +<br /> + +A da direita, reservada para os homens, e a da esquerda para as +mulheres.<br /> + +<br /> + +Avançando pela nave dentro, encontravam-se os <em>ambons</em>, +pulpitos destinados +á leitura dos Santos Evangelhos para as prédicas, +e á +promulgação das leis ecclesiasticas.<br /> + +<br /> + +Entrava-se emfim na terceira parte da basilica, a parte mais Santa e +mais veneranda, aquella onde os seculares não podiam +penetrar, e que se chamava o <em>Sanctuario</em>.<br /> + +<br /> + +O altar occupava a parte central do Sanctuario, e tinha frente para uns +poucos de lados.<br /> + +<br /> + +Atraz do altar desenvolvia-se o +<em>abside</em> de fórma semi-circular e coberto +ordinariamente com uma meia cupula.<br /> + +<br /> + +A cadeira do Bispo era collocada ao fundo do <em>abside</em>, +e para ella se subia por +uns poucos de degraus. Aos lados da cadeira episcopal, se achavam, +contiguos ao hemicyclo do abside, os assentos ou bancos destinados aos +padres, que assistiam aos Officios Divinos.<br /> + +<br /> + +A alteração mais notavel, que a +disposição interior das basilicas soffreu com o +andar do tempo, foi o accrescentamento do cruzeiro ou nave transversal, +entre o abside e a nave propriamente dita.<br /> + +<br /> + +<em>Orientação das basilicas e das +egrejas christãs</em>. Chama-se +<em>orientação</em> uma +disposição particular, segundo a qual o eixo +longitudinal d'um edificio, d'um tumulo, etc., se dirige uma +disposição particular, segundo a qual o eixo +longitudinal d'um edificio, d'um tumulo, etc., se dirige do Occidente +para Oriente.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[29]</span> +Desde a primitiva que a egreja christã adoptou o costume de +orar voltando o rosto para o Oriente.<br /> + +<br /> + +O costume de orientar as egrejas foi dos primeiros seculos do +Christianismo.<br /> + +<br /> + +Ha dois modos inteiramente oppostos d'orientar as egrejas. N'um, usado +antigamente, a fachada principal forma a parte Oriental do edificio e a +capella-mór do lado do Poente. N'outro, que preponderou mais +tarde, a posição de todas as partes da egreja +é completamente trocada, a fachada está voltada +para o Occidente, e a capella-mór para o Oriente.<br /> + +<br /> + +O primeiro modo d'orientação não durou +muito tempo. Nos seculos V e VI, a começar no V, se +construiram muitas egrejas com a capella-mór voltada para o +Oriente. No Occidente a mudança effectuou-se lentamente, +pois só se completou durante o seculo XIII.<br /> + +<br /> + +<em>Cryptas</em>. A maior parte das basilicas +foram edificadas nos mesmos sitios onde tinham sido sepultados os +restos mortaes d'um Martyr, ou de qualquer Santo illustre.<br /> + +<br /> + +Nas primitivas basilicas, o altar era situado mesmo sobre a sepultura.<br /> + +<br /> + +As galerias e capellas subterraneas, que mais tarde foram substituidas, +tiveram o nome de +<em>cryptas</em>, da palavra grega que significa, <em>eu +escondo</em>.<br /> + +<br /> + +Estas galerias abobadadas transformaram-se muito tarde em verdadeiras +capellas, ou egrejas subterraneas, por debaixo de todo o <em>presbyterium</em>; +bastante vastas para necessitarem o emprego de columnas +<span class="pagenum">[30]</span> +que recebiam os arcos das abobadas, +formando assim muitas naves.<br /> + +<br /> + +<em>Baptisterios</em>. Distinguem-se tres +especies de baptismo: o baptismo por <em>immersão</em>, +o baptismo por <em>aspersão</em>, e o baptismo +por <em>infusão</em> ou +<em>affusão</em>.<br /> + +<br /> + +O primeiro ministra-se mergulhando na agua todo o corpo; no segundo e +terceiro, o ministro, de longe ou de perto, lança a agua +sobre a cabeça do +neophito. O baptismo por immersão foi usado até +ao seculo XII; a começar d'esta épocha, +principiou a ser substituido, na egreja Latina, pelo baptismo por +infusão, do qual até ali se não +serviam, a não ser para os doentes em perigo de vida.<br /> + +<br /> + +Primitivamente era reservada aos Bispos a +administração do Solemne Baptismo. O Bispo +mergulhava tres vezes o neophito, invocando de cada vez uma das Pessoas +da Santissima Trindade.<br /> + +<br /> + +Depois da abjuração de Constantino, quasi se +generalisou por toda a christandade o baptismo ministrado nos edificios +particulares situados ao lado das principaes egrejas, e especialmente +das cathedraes.<br /> + +<br /> + +Os baptisterios tinham em geral a fórma circular ou +octogona, mas alguns havia quadrados, e outros ainda em +fórma de cruz grega. As pias baptismaes eram muito grandes, +porque muitas vezes se ministrava a adultos o baptismo por +immersão.<br /> + +<br /> + +<em>Templos pagãos e edificios profanos +convertidos em egrejas christãs</em>. Os templos +pagãos não se prestavam em geral para o culto +christão, em consequencia das suas diminutas +proporções. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p31">[31]</a></span> +Entretanto alguns foram convertidos, com ligeiras +modificações, em egrejas christãs, e +outros foram-lhes encorporados.<br /> + +<br /> + +A maior parte d'estas transformações datam do +reinado do imperador Theodosio (383-385), e dos seus successores +immediatos.<br /> + +<br /> + +Tambem houve monumentos civis que foram transformados em egrejas +christãs; taes como as thermas e os banhos, que entre os +romanos excediam em magnificencia os proprios templos.<br /> + +<br /> + +<em>Caracteres do Estylo Latino</em>. As +basilicas christãs foram muitas d'ellas construidas, +aproveitando para isso monumentos mais antigos. Mas em consequencia das +basilicas serem muito mais vastas do que os templos pagãos, +tornava-se por isso não raras +vezes necessario desmanchar muitos d'esses monumentos para construir +uma só basilica.<br /> + +<br /> + +A architectura estava n'uma tal decadencia, que muitas vezes chegavam a +reunir fragmentos de dimensões e estylos differentes, e +ajustavam-nos o melhor que podiam.<br /> + +<br /> + +Se, por exemplo, se tratava de columnas provenientes de diversos +monumentos, não pertenciam muitas vezes á mesma +Ordem d'architectura; tendo portanto os fûstes e os capiteis +de alturas differentes, enterravam os fustes, ou os collocavam sobre +soccos. O desvio e a distancia relativa das columnas variavam dentro de +limites excessivos.<br /> + +<br /> + +A unica innovação d'alguma importancia +introduzida nas construcções, foi a +substituição da +<em>arcada</em> pela architrave. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p32">[32]</a></span> +Nas regiões onde escasseavam monumentos antigos, os +edificios do periodo Latino eram em geral muito pequenos, baixos e +pobremente decorados, muitos até de madeira.<br /> + +<br /> + +Apezar do que acabâmos de expôr, no seculo V e VI, +construiram-se em Ravenna muitos monumentos importantes (dos quaes +ainda alguns se conservam), sem que fôsse necessario recorrer +á +devastação que tiveram os anteriores; o que prova +existir n'aquella epocha em Ravenna uma brilhante escola de habeis +constructores.<br /> + +<br /> + +<em>Materiaes de +construcção</em>. As basilicas e os +monumentos do periodo Latino eram construidos com pedras d'alvenaria +regulares, quasi sempre quadradas, de mediano preparo, e tambem com +tijolos chatos, ficando separados por uma espessa camada de cimento. +Muitas vezes tambem os muros eram formados por cordões de +uma, duas ou muitas faxas de pedras d'alvenaria alternadas com outras +compostas de uma ou duas fiadas de tijolos.<br /> + +<br /> + +<em>Decoração dos +monumentos</em>. O periodo Latino não foi epocha de +esplendor para a architectura ornamental.<br /> + +<br /> + +O <em>ábaco</em> dos capiteis +recebeu, durante o periodo Latino, dimensões e um +esvasamento taes que muitas vezes parecia ser um capitel +sobrepôsto sobre outro. A frente do ábaco era +adornada, do lado da nave principal, com um symbolo, que algumas vezes +era o monogramma do fundador, e em geral havia uma Cruz d'ordem Trina +isolada, ou inscripta +<span class="pagenum"><a name="p33">[33]</a></span> +n'um +circulo. Chama-se Cruz de Ordem Trina aquella cujos braços +são mais largos nas +extremidades do que no ponto de intersecção dos +ramos. Esta cruz, quer só, ou entre dois cordeiros, ou entre +dois passaros, com a frente um para o outro, foi um dos symbolos +christãos mais usados durante o periodo Latino.<br /> + +<br /> + +<em>Narthex, fachadas e portaes das +basilicas</em>. O narthex interior occupava o fundo do atrio, e +era formado pelo portico contiguo á fachada principal da +basilica. Communicava pelos extremos com as galerias que rodeavam o +atrio; como se observa na egreja de Villarinho de S. Romão, +na provincia do Douro.<br /> + +<br /> + +Nas basilicas latinas, quando a configuração do +terreno não permittia estabelecer o atrio e o narthex, +substituiam algumas vezes estes, por galerias altas collocadas no +interior do edificio ao longo da nave.<br /> + +<br /> + +Os portaes das basilicas eram construidos segundo o modelo dos portaes +ricos do estylo classico.<br /> + +<br /> + +As portas dos portaes das basilicas eram de bronze ou de madeira. +Algumas das portas de bronze, das primeiras basilicas, provieram de +monumentos pagãos. No seculo IX, a egreja de Santa Maria +Maior, em Roma, tinha portas de prata.<br /> + +<br /> + +<em>Janellas e vidraças</em>. As +janellas das basilicas eram rasgadas d'alto a baixo, e de volta +inteira.<br /> + +<br /> + +Serviam de vidraças a estas janellas grandes laminas de +marmore ou de pedra, atravessadas de +<span class="pagenum">[34]</span> +buracos para por elles penetrar a luz no +interior dos edificios. Mais tarde, estas laminas foram vasadas de +maneira que offereciam á vista os mais complicados desenhos. +Na Europa Occidental e Septemtrional, em que as laminas de pedra e de +marmore escasseiavam, guarneciam as janellas com caixilhos de madeira.<br /> + +<br /> + +As clara-boias muitas vezes não tinham cobertura, +principalmente nos paizes meridionaes; e n'outros eram vedadas com +laminas de pedras translucidas ou de placas de alabastro.<br /> + +<br /> + +Desde o seculo VII que começou a haver vidraças +com vidros brancos e esverdeados, e até mesmo com vidros de +differentes côres. Não +appareciam ainda figuras, nem ornatos alguns, pintados sobre os vidros; +as vidraças com vidros de côr eram formadas por um +grande numero de vidros coloridos, cortados de differentes modos e que +se reuniam de certa maneira, a fim do conjuncto representar figuras de +fórmas regulares.<br /> + +<br /> + +Desde o reinado de Constantino, os grandes edificios apenas se cobriam +com madeira.<br /> + +<br /> + +A maior parte d'esta construcção ficava visivel +no interior dos edificios. Em alguns, as naves tinham tectos de madeira +com pinturas diversas, representando caixões ricamente +adornados e dourados.<br /> + +<br /> + +Raras eram as basilicas que desde a sua fundação +tinham possuido torres. Os campanarios que hoje se vêem +proximo das antigas egrejas de Roma, são quasi todos +posteriores ao seculo VIII. As +<span class="pagenum">[35]</span> +torres do <em>periodo Latino</em> +são na maior parte de fórma circular ou +octogonal.<br /> + +<br /> + +Nas grandes basilicas as abobadas esphericas do abside e o Arco +Triumphal, e algumas vezes tambem as paredes comprehendidas entre as +janellas altas da nave e das arcadas que ligam as columnas, ficavam +revestidas com vistosos mosaicos.<br /> + +<br /> + +Os materiaes mais ordinariamente empregados n'este genero de trabalho, +eram folhas de marmore e pedaços de vidro.<br /> + +<br /> + +Em muitas basilicas de Roma, o abside abobadado em forma de esphera tem +ao centro a imagem de Jesus Christo em pé ou sentado, com o +braço direito erguido, ou lançando a +benção, e com um rolo de papel ou um livro +collocado á sua esquerda. Aos lados do Salvador +estão representados os Apostolos, ou outros Santos. O +sólo que pisam é o da Judeia, o que se conhece +pela +representação do rio Jordão, cujo nome +é muitas vezes inscripto debaixo dos pés de Jesus +Christo, e pela presença das palmeiras, que foram, desde o +primeiro seculo da era christã, o symbolo da Terra +promettida. Logo abaixo do abside se estende, em toda a largura, uma +zona estreita, no centro da qual se vê o Cordeiro Divino +coroado com ou sem a Cruz, collocado sobre um outeiro d'onde brotam os +quatro rios do Paraíso: Geham, Phison, o Tigre e o +Euphrates, symbolos dos Evangelistas. Doze cordeirinhos, seis de cada +lado, se dirigem para o cordeiro symbolico, e parecem sahir das +<span class="pagenum"><a name="p36">[36]</a></span> +cidades Santas de Jerusalem e +Bethlem, que occupam os extremos da composição, e +se acham +representadas por varias portas e muralhas com ameias. Estes +cordeirinhos symbolisam os fieis.<br /> + +<br /> + +Alguns mosaicos representam o sonho de S. João, isto +é, os quatro animaes, symbolos dos Evangelistas; e os vinte +e quatro velhos, vestidos de mantos brancos, offerecendo coroas ao +Cordeiro.<br /> + +<br /> + +Para piso das basilicas, os primitivos christãos serviam-se +dos differentes processos de empedramento, como os romanos usavam. Mais +tarde, estes processos foram substituidos por um trabalho de novo +genero, chamado <em>opus +alexandrinum</em>, assim designado por ter sido usado +primeiramente na Alexandria. Estes empedramentos consistiam em um +conjuncto de variados marmores em que predominavam os porphyros verdes +e vermelhos; pareciam como um rico tapete estendido no sólo. +O empedramento <em>alexandrino</em> foi muito +pouco empregado na Europa Occidental e Septemtrional.<br /> + +<br /> + +Havia tambem empedramentos em que sobresahia a prata e outros metaes +preciosos.<br /> + +<br /> + +Parte do piso do Sanctuario da basilica do Vaticano é de +palhetas de prata; mas o da capella de S. Pedro, da mesma basilica, +é de palhetas de ouro.<br /> + +<br /> + +Nas catacumbas era mesmo sobre os tumulos dos martyres que se +celebravam os Santos Mysterios; porém, a começar +do seculo III, este uso foi approvado tambem pela Egreja.<br /> + +<br /> + +No Occidente, o altar era quasi sempre erigido +<span class="pagenum">[37]</span> +sobre o tumulo d'um martyr. Os restos +mortaes do Santo collocavam-se immediatamente debaixo do altar n'um +sarcophago, e ainda, na maior parte dos casos, ficavam depositados +n'uma crypta collocada debaixo do Sanctuario. Tanto na Grecia como no +Oriente, nunca em tempo algum, e até mesmo em nossos dias, +se fez d'um tumulo um altar, mas sim d'uma mesa, que recordava aquella +sobre a qual o Salvador instituiu a Eucharistia. Um altar <em>nunca</em> +encerrava +<em>reliquias</em>. Desde o tempo de +Constantino, que data a maior parte dos altares das egrejas do +Occidente. No principio do seculo VI (517) o concilio de +Épona prescreveu, que todos os altares fossem de pedra, os +quaes foram adoptados pela razão symbolica de ser +considerado o Salvador a pedra angular.<br /> + +<br /> + +Os altares de pedra d'essa épocha eram sempre formados por +uma especie de prateleira quadrada ou rectangular, para constituir a +mesa do altar propriamente dito. Esta mesa, muitas vezes, cobre um +sarcophago ou um tumulo de madeira; outras é sustentada por +um pé central em forma de +cippo e ainda outras posta em quatro, cinco e mesmo até seis +columnellos.<br /> + +<br /> + +Havia altares formados de tres lages, das quaes duas se collocavam +verticalmente, servindo de supporte á terceira, collocada +horisontalmente, a fim de formar a mesa do altar. Encontram-se tambem +altares formados de cinco placas, tendo, pelo seu conjuncto, a +fórma de um cofre de pedra.<br /> + +<br /> + +A Auréola era formada de folhagens e sustentada +<span class="pagenum">[38]</span> +por quatro anjos; Nosso Senhor +Jesus Christo fica collocado entre dois Cherubins, que facilmente se +reconhecem pelas suas asas abertas. Uma mão figurada no +remate superior da Auréola, é para +indicar a presença de Deus. É tambem adornada de +flores, para indicar que o assumpto se passa no Céu.<br /> + +<br /> + +As esculpturas mostram que esta arte estava muito decahida no seculo +VIII. Essas figuras com posições grotescas e +forçadas, teem +todas o rosto de frente, e os membros desproporcionados, +sendo tudo d'uma imperfeição tal, que +é +difficil imaginar-se nada mais grosseiro e rude.<br /> + +<br /> + +A inscripção, muito mal escripta, e n'uma +linguagem quasi inintelligivel, não é mais +esmerada do que as esculpturas.<br /> + +<br /> + +Quando as faces dos altares das basilicas das grandes egrejas +não tinham esculpturas, eram +então revestidas de laminas de ouro e de prata, com engastes +de pedras preciosas, ficando cobertas de colchas bordadas, +representando algumas vezes assumptos sagrados.<br /> + +<br /> + +Desde o seculo IV até meiado do XII, que as mesas dos +altares eram muitas d'ellas escavadas em fórma de bandeja em +toda a extensão do plano superior, tendo um +rebórdo de alguns centimetros de altura; às vezes +tinham ornatos esculpidos. Muitas mesas eram furadas nos angulos, com +um ou muitos buracos, cuja serventia ainda não foi possivel +descobrir. O altar era encimado por um <em>ciborium</em>, +especie de docel ou +baldaquim, sustentado +<span class="pagenum"><a name="p39">[39]</a></span> +por +quatro columnas de madeira ou de marmore e de metal.<br /> + +<br /> + +Entre as columnas do <em>ciborium</em> havia +umas cortinas ou reposteiros de corrediça, que se corriam +para occultar o officiante e o altar durante a +consagração.<br /> + +<br /> + +O <em>ciborium</em>, que data do seculo XII, +tem uma fórma um tanto differente da que foi posta em uso +durante o periodo Latino.<br /> + +<br /> + +As cortinas dos antigos <em>ciboriums</em> +eram em geral de preciosissimos damascos de seda e ouro, ou com ricos +lavores, guarnecidos de perolas, pedrarias e mesmo laminas de ouro e de +prata.<br /> + +<br /> + +Primitivamente, cada egreja apenas tinha um altar. Comtudo mais tarde +houve egrejas no Occidente, que tinham muitos.<br /> + +<br /> + +Os gregos e os orientaes nunca tiveram senão um altar nas +suas egrejas.<br /> + +<br /> + +Os <em>altares portateis</em> antigos +compunham-se, bem como os mais recentes, de uma prancha rectangular de +madeira, de pedra ou de metal, algumas vezes munida de uma moldura de +ouro ou de prata, e tendo no extremo um appendice para servir de punho. +Não se acharam altares portateis do periodo Latino, +não obstante parecer indubitavel que deveriam ser communs +n'aquelle periodo.<br /> + +<br /> + +Uma tribuna, collocada no meio da nave principal das basilicas, era +destinada á leitura dos Santos Evangelhos e aos +sermões. Algumas egrejas possuiam tres: uma para o +Evangelho, outra para a Epistola e outra para as prophecias. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[40]</span> +A tribuna do Evangelho tinha regularmente duas escadas. Perto d'ella +havia um enorme candelabro que servia para supportar uma grande tocha +chamada <em>o facho do Evangelho</em>.<br /> + +<br /> + +Nas basilicas christãs, o sanctuario e o côro eram +separados da nave por uma divisão, umas vezes occultando o +recinto, e outras ficando rendilhado, á altura de metro e +meio a dois metros acima do chão. Esta divisão, +chamada +<em>cancello</em>, era muitas vezes de marmore.<br /> + +<br /> + +A cadeira episcopal ou <em>cathedra</em> +occupava o fundo do abside. Era de pedra de marmore precioso, e elevada +tres degraus, pelo menos, acima do presbyterio.<br /> + +<br /> + +Havia tambem cadeiras de marfim.<br /> + +<br /> + +Aos lados da cadeira episcopal, e ao longo da parede do hemicyclo, +achavam-se os bancos destinados aos padres, chamados algumas vezes +<em>exedrae</em>, pelos auctores antigos. Eram muito +simples, e durante o officio cobriam-se com almofadas.<br /> + +<br /> + +<br /> + +A partir do meado do IV seculo caíu a pouco e pouco em +desuso o enterramento nas catacumbas; e no principio do seculo +seguinte, desappareceu completamente. Os cemiterios estabeleciam-se +á roda da capella-mór das egrejas e das +basilicas, situadas fóra dos muros das cidades, com os seus +tumulos quasi sempre orientados.<br /> + +<br /> + +N'estes cemiterios depositavam-se a maior parte das vezes os cadaveres +em covas de pedra e cal. Entre duas paredes parallelas e distantes +entre si +<span class="pagenum">[41]</span> +70 centimetros, pouco +mais ou menos, abriam-se, por meio de lages ou simples tijolos, nichos +de tamanho sufficiente para receber um cadaver. Estes nichos chegavam +ás vezes a disporem-se em dez ordens, umas sobre as outras. +Este systema foi o adoptado para as sepulturas dos cemiterios do IV, V +e VI seculos.<br /> + +<br /> + +Algumas vezes tambem os cadaveres eram encerrados em sarcophagos, que +em seguida se cobriam com terra, ou se collocavam tanto ao ar livre +como debaixo de abobadas, no interior das egrejas e das basilicas.<br /> + +<br /> + +Foi sómente no VII seculo que a Egreja começou a +permittir, ou antes a tolerar, as inhumações, +não precisamente no interior, mas em redor dos templos +situados dentro das cidades. Unicamente os bispos haviam até +ali gosado do privilegio de serem enterrados nas suas egrejas +Cathedraes.<br /> + +<br /> + +Durante o periodo Latino foram muito raros os edificios isolados que se +construiram para servir de sepultura aos grandes personagens.<br /> + +<br /> + +As esculpturas dos sarcophagos começaram a modificarem-se no +meiado do V seculo. Os assumptos biblicos desapparecem a pouco e pouco, +e são substituidos por imagens de Santos. A Cruz da SS. +Trindade ou o monogramma de Christo occupa, muitas vezes, o centro da +face principal dos sarcophagos, destinada antes para o logar do +Salvador, tendo aos lados pombas, pavões, palmeiras, parras +e outros symbolos.<br /> + +<br /> + +As tampas são ornadas de Cruzes da SS. Trindade, +<span class="pagenum"><a name="p42">[42]</a></span> +formadas pelo +entrelaçamento de Cruzes gregas e de Cruzes de Santo +André, isto é, em +fórma de X.<br /> + +<br /> + +O meio da face principal d'alguns sarcophagos é occupado +pelo monogramma de Christo, que d'este modo preenche o logar do +Salvador. Os pavões aos lados do monogramma são +os emblemas dos Apostolos, e as pombas, bicando os cachos de uvas, +symbolisam os fieis alimentando-se do vinho eucharistico. A maior parte +dos sarcophagos eram de pedra ou de marmore; no entanto alguns havia de +chumbo e até mesmo de gesso.<br /> + +<br /> + +Os <em>sarcophagos do IV seculo</em> tinham +todos a mesma largura e a mesma altura nas extremidades; do V seculo, +apparecem muitos tendo o lado da cabeça mais largo que o dos +pés.<br /> + +<br /> + +As <em>campas sepulchraes</em> são +em geral indicio de uma sepultura subterranea. O seu uso é +muito remoto. As lages tumulares, assentes sobre os tumulos +subterraneos ou nos nichos ao longo das paredes, eram já +empregadas no V seculo, sendo muitas vezes esculpidas em relevo, e +tambem algumas ornadas com desenhos só a traço. +Por vezes +ajustavam na parede, onde existia qualquer sepultura, uma placa de +marmore ou de pedra, sobre a qual se gravavam symbolos, o nome do +defuncto, a sua idade, ou tambem o dia do seu fallecimento.<br /> + +<br /> + +Os <em>tumulos</em> dos cemiterios primitivos +podem-se dividir em tres classes, segundo os objectos que n'elles se +encontram. A primeira classe comprehende aquelles em que, +além do esqueleto, se não +<span class="pagenum">[43]</span> +encontra mais objecto algum, a não +ser ás vezes uma pequena faca: estes tumulos são +os dos servos ou pessoas de condição servil. Nos +tumulos da segunda classe, o esqueleto é acompanhado do +grande alfange de ferro, chamado +<em>scramasaxe</em>: são estes os dos homens +livres ou senhores feudaes. O homem livre gosava do privilegio de +trazer á cintura este instrumento, que com elle era tambem +depositado no tumulo. A terceira classe era constituida ordinariamente +por um certo numero de tumulos ricos em coisas de toda a especie, +principalmente em armas e objectos de toilette feminina: são +esses os tumulos dos chefes militares, dos guerreiros e membros da sua +familia.<br /> + +<br /> + +O homem de guerra era sepultado com todo o seu equipamento, e ao lado +depositava-se a sua esposa, adornada com todas as joias que tinha usado +durante a vida.<br /> + +<br /> + +As fivelas (fibules), que se encontram em tão grande numero +n'essas sepulturas tinham duas serventias.<br /> + +<br /> + +As maiores serviam para fechar o boldrié de coiro onde se +suspendia o <em>scramasaxe</em>. +Quasi todas são de ferro, sendo algumas marchetadas de prata +ou revestidas de laminas de prata, com lavores representando folhagens +ou figuras. Encontram-se algumas de bronze, e são as mais +bellas.<br /> + +<br /> + +Ha tambem umas fivelas de bronze e de menores dimensões, que +serviam para ligar o vestuario á roda dos rins, para +individuos dos dois sexos. Estas +<span class="pagenum">[44]</span> +fivelas eram em geral menos lavradas que as do +cinturão. Algumas havia tambem de ferro.<br /> + +<br /> + +Os alamares, broches ou <em>fibulas</em>, +destinadas a unir sobre os hombros ou sobre o peito as duas +extremidades do vestuario, são sem duvida os objectos mais +interessantes que se encontram nas sepulturas dos cemiterios. Ha-os de +ouro, de prata, de bronze, e encontram-se sobretudo nos tumulos de +mulher.<br /> + +<br /> + +Encontram-se tambem frequentemente nos tumulos de mulher, pregos para +segurar o cabello, com cabeças de aperfeiçoado +trabalho. Ha-os de ouro, de prata e de bronze, com grandes +comprimentos.<br /> + +<br /> + +Os brincos das orelhas são em geral, assim como os pregos +para o cabello, pequenas obras primas de ourivesaria. +Compõem-se quasi sempre de um annel de grande diametro, ao +qual está ligado um pequeno botão de ouro cheio +de filigranas e de vidrilhos embutidos. Os <em>collares</em> +que +frequentemente se encontram nas sepulturas de mulher, +compõem-se de contas, de fórmas e +dimensões differentes, enfiadas n'um cordel. As contas +são de vidro e de loiça de diversas +côres, e de coral natural ou +arredondado; tem-se tambem encontrado, mas raras vezes, contas de ouro +massiço. As de vidro e de loiça são, +em geral, pintadas com differentes +camadas de côres juxtapostas, que adherem pela cozedura, +reprezentando zig-zags, e outras muitas figuras estriadas. As +côres que predominam, são o vermelho, o amarello, +o verde, o pardo, o azul, o branco e o preto. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p45">[45]</a></span> +As <em>vasilhas de barro</em> constituem o +complemento obrigado de todos os tumulos antigos. Encontram-se, quasi +sempre, uma ou duas aos pés do esqueleto. Parece que estas +vasilhas serviam aos pagãos para conterem agua lustral. Em +seguida á sua crença na verdadeira fé, +os convertidos ao Christianismo continuaram a encerrar vasilhas nos +tumulos, porém mudaram a significação +d'esta ceremonia funebre, substituindo a agua lustral pela agua benta.<br /> + +<br /> + +A maior parte d'estas vasilhas são de barro preto e +vermelho. Muitas apresentam a fórma d'uma pequena urna, +tendo na parte superior do bojo ornatos de estylo muito rudimentar, +feitos em volta e por meio da ponta d'um instrumento cortante.<br /> + +<br /> + +As <em>vasilhas de vidro</em>, de +fórmas elegantes e variadas, que se encontram nas sepulturas +junto á cabeça ou aos pés do +esqueleto, mostram que a arte de vidraceiro já tinha +attingido um elevado gráu de +perfeição. O maior numero +são de vidro, d'um amarello esverdeado, soprado ou moldado; +algumas têem como ornato riscas delgadas, brancas ou de +côr, feitas depois da sopragem ou misturadas com a massa +vitrea.<br /> + +<br /> + +A introducção do Christianismo entre os Francos +data do fim do seculo V. Não é por isso para +admirar o encontrarmos nos seus tumulos objectos ornados com symbolos +christãos.<br /> + +<br /> + +O <em>calice</em> occupa o primeiro logar +entre os vasos sagrados. Já os Apostolos se serviam de +calices para a celebração dos Santos Mysterios. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[46]</span> +Nos primeiros seculos da egreja, os calices eram de madeira, de vidro e +até mesmo de chifre.<br /> + +<br /> + +Depois da conversão de Constantino, é que se +começou a generalisar o uso dos calices de ouro e de prata. +Muitas vezes eram tambem ornados de pedrarias.<br /> + +<br /> + +Existem calices de differentes especies. Os calices ordinarios, que se +compõem, como os de todas as idades posteriores, de uma +taça, um nó e um pé, tinham, em geral, +a taça de fórma +cylindrica, mais ou menos vasada, muito estreita e profunda. Os calices +da segunda especie eram os calices ministeriaes, que serviam para +distribuir aos fieis o precioso sangue, quando estava em uso a +communhão de duas especies na Egreja. Este uso foi abolido +no XIII seculo. Os calices ministeriaes, em geral, de grandes +proporções, tinham duas asas.<br /> + +<br /> + +Havia ainda os calices das offerendas, <em>calices +offertorii</em>, nos quaes os diaconos recebiam as +oblações de vinho; os calices baptismaes, que +serviam para dar aos novos baptisados uma mistura de leite e de mel; e +os calices de adorno, que nos dias solemnes eram suspensos na egreja, +nas proximidades do altar, ou collocados sobre a credencia.<br /> + +<br /> + +A <em>patena</em>, assim chamada do verbo +latino <em>patere</em>, <em>estar aberto</em>, +em consequencia da sua +fórma larga e pouco profunda, é um prato de +metal, de vidro, ou de qualquer outra substancia, no qual se colloca a +Hostia, durante a Santa Missa. O seu uso é tão +remoto como o do calice. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[47]</span> +As patenas eram redondas, quadradas ou polygonaes e munidas d'um +rebórdo.<br /> + +<br /> + +O uso de reservar a Santa Eucharistia para os doentes e ausentes, +provém desde a origem do Christianismo.<br /> + +<br /> + +Pouco depois, quando os <em>altares</em> +foram augmentados com o <em>ciborio</em>, suspendiam a +reserva +Eucharistica encerrada em vasos com a fórma de torres e +pombas. Os vasos para as Sagradas Particulas tinham primitivamente a +fórma de uma pomba. Quasi todos eram de ouro, de prata e de +cobre dourado. A pomba Eucharistica encerrava-se geralmente em um +Tabernaculo com fórma de torre.<br /> + +<br /> + +<br /> + +Durante o período +<em>Latino-bysantino</em>, os corpos dos Santos eram +cuidadosamente encerrados em sarcophagos, e depositados em cima d'um +altar ou n'uma crypta subterranea.<br /> + +<br /> + +O Relicario para o Santo Lenho tem quasi sempre a fórma de +pequenas Cruzes peitoraes, concavas interiormente, e abrindo-se em toda +a sua altura, por meio d'uma dobradiça collocada no vertice +superior da Cruz.<br /> + +<br /> + +As <em>chaves da confissão de S. +Pedro</em> são assim chamadas, porque se diz, que +serviam para dar ingresso no tumulo do principe dos Apostolos, na +crypta da basilica Vaticana. As chaves são grossas, ovaes, +ôcas e de lavores rendilhados.<br /> + +<br /> + +Os Soberanos Pontifices dos primeiros seculos tinham por uso distribuir +aos reis, aos principes e +<span class="pagenum"><a name="p48">[48]</a></span> +aos +bispos, parcellas das cadeias de S. Pedro, dentro de anneis, cruzes, e +principalmente em preciosas chaves.<br /> + +<br /> + +Desde o IV seculo que começaram a importar de Jerusalem os +oleos provenientes das lampadas que ardiam de noite e de dia no Santo +Sepulchro, e em outros logares Santos.<br /> + +<br /> + +Os Papas e os Bispos enviavam estes oleos ás egrejas, aos +soberanos e ás pessoas de +distincção. Eram conservados e remettidos em +pequenos vasos de vidro ou de metal, circulares, e achatados, com +gargallo.<br /> + +<br /> + +Durante os primeiros seculos, a Mesa do altar estava inteiramente livre +e a descoberto, e só se punha em cima o pão, o +vinho e os Vasos Sagrados necessarios para o Santo Sacrificio.<br /> + +<br /> + +<em>Os Crucifixos</em> e os +castiçaes <em>eram +desconhecidos</em> durante os primeiros seculos. N'essa +épocha apenas algumas vezes se via uma cruz ao lado direito +do altar.<br /> + +<br /> + +<em>Corôas de altar</em>, +geralmente de <em>metal precioso</em> e ornadas de +pedrarias engastadas, constituiram, durante todo o periodo latino, o +mais rico accessorio do altar.<br /> + +<br /> + +As mais notaveis corôas de altar, que foram descobertas em +1858 e 1860, em Toledo (Hespanha), são em numero de onze, +todas de ouro e cravejadas de pedras.<br /> + +<br /> + +Algumas vezes, principalmente a partir do IX seculo, deu-se o nome de <em>regnum</em> +ás corôas votivas dos altares, para as distinguir +das de illuminar. +<span class="pagenum"><a name="p49">[49]</a></span> +Tambem +ás vezes se penduravam Cruzes proximo dos altares.<br /> + +<br /> + +As luzes que se empregavam com profusão, durante os Officios +Divinos, eram collocadas proximo dos altares, quer sobre uma mesa, quer +sobre candelabros, ou ainda mais vezes sobre lustres, em +fórma de corôa, suspensos no côro, no +Sanctuario e até mesmo no meio da egreja.<br /> + +<br /> + +Os <em>diptycos</em> são de +épocha muito remota. Ao principio eram formados de duas +pequenas taboas de madeira ou de marfim, dobrando-se uma sobre a outra, +e cuja parte interior continha uma camada de cera, sobre a qual se +escrevia. Estas taboas eram rodeadas com uns fios de linho, sobre os +quaes se deitava cêra que se imprimia com um sinete. Serviam +assim para as missivas secretas.<br /> + +<br /> + +Desde a sua origem que a Egreja Christã teve diptycos. Eram +tabellas ou catalogos, sobre os quaes se inscreviam certos nomes que +deviam ser lembrados e lidos, pelo menos em parte, nas +reuniões sagradas dos fieis.<br /> + +<br /> + +Podêmos pois, conforme a origem, distinguir duas especies de +diptycos sagrados: os diptycos consulares adaptados á +liturgia, e os diptycos puramente ecclesiasticos.<br /> + +<br /> + +Os diptycos puramente ecclesiasticos eram de marfim ou de metal. Tinham +nas faces exteriores esculpidos ou cinzelados a imagem de Christo e a +da Santa Virgem, ou assumptos tirados da historia do Velho e Novo +Testamentos, e outros symbolos christãos. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p50">[50]</a></span> +Quando a leitura dos diptycos começou a deixar de se usar +nos officios sagrados, transformaram-se as taboas esculpidas ou +cinzeladas, em capas para livros liturgicos.<br /> + +<br /> + +Desde o tempo de S. Jeronymo que começaram a ornamentar, o +mais ricamente possivel, o livro dos Evangelhos; notava-se esta riqueza +tanto no exterior como no interior do volume.<br /> + +<br /> + +Muitas vezes o texto sagrado era escripto com letras de ouro sobre +membranas côr de purpura.<br /> + +<br /> + +Exteriormente os livros dos Evangelhos eram ornados com todo o esmero; +nas capas abundavam o ouro, a prata, os vidrilhos, as pedrarias e as +perolas, e durante muito tempo, foi costume encerral-os em estojos ou +cofres, <em>capsae</em>, +ricamente trabalhados.<br /> + +<br /> + +As capas dos Evangeliarios podem-se dividir em duas classes: as de +laminas metallicas e as de marfim.<br /> + +<br /> + +Entre as primeiras, umas eram simples, sem figuras e até +mesmo desprovidas de toda a +ornamentação, outras cravejadas de pedras e +esculpidas em relevo, representando assumptos religiosos.<br /> + +<br /> + +Os assumptos das capas dos Evangeliarios de marfim e de metal +não differem dos que têem as dos diptycos. +São symbolos ou scenas extrahidas do Novo Testamento e +principalmente da vida e da paixão de Nosso Senhor.<br /> + +<br /> + +<em>Estofos preciosos</em>. Durante os +primeiros seculos da era christã, os fatos ordinarios eram +de tela, ou, na maior parte das vezes, de lã. Depois da +<span class="pagenum">[51]</span> +conversão de +Constantino, o uso dos tecidos de seda para as vestes liturgicas +generalisou-se bastante, a ponto tal, que o Soberano Pontifice S. +Silvestre, contemporaneo d'este imperador, foi obrigado a abolil-o nas +roupas brancas de altar chamadas <em>corporaes</em>.<br /> + +<br /> + +Além dos tecidos unidos, ha outros ornados com figuras +ordinariamente multicolores, obtidas umas pela +applicação de variegadas côres +depois da tecedura, outras durante a tecedura, por meio de certas +combinações dos fios da cadeia e da trama. +<br /> + +<br /> + +Durante o periodo Latino, o fabrico textil da seda era completamente +desconhecido na Europa meridional e occidental. Provinham da Asia, do +Egypto, da Grecia e de Constantinopla, os tecidos de seda. É +por este motivo que muitas vezes se chamavam <em>estofos +transmarinos</em>, e +mais tarde tambem, estofos dos Sarracenos, porque os arabes mahometanos +forneciam para o Occidente uma grande quantidade.<br /> + +<br /> + +Os estofos mais antigos não raras vezes eram decorados com +medalhões circulares ou ovaes, no genero de <em>Maestricht</em>, +obtidos ou +pela tecedura, ou por bordados applicados posteriormente.<br /> + +<br /> + +A ornamentação dos tecidos, que vinham do Oriente +e sobretudo da Persia, consistia em assumptos em que predominavam o +reino animal e o vegetal, e até por vezes na propria +mythologia d'este ultimo paiz. Em vão procurariamos o +symbolismo christão n'estas +representações +tão variadas. Apenas ali se encontra o producto da +imaginação dos +<span class="pagenum">[52]</span> +artistas orientaes, que confeccionaram +esses tecidos.<br /> + +<br /> + +Os symbolos e os assumptos christãos só +excepcionalmente apparecem sobre alguns productos das fabricas gregas +ou bysantinas, e isso mesmo em uma épocha relativamente +recente; consistem em pequenas Cruzes Gregas da Trindade, inscriptas em +circulos, animaes symbolicos, taes como o leão e o +pavão, e raramente um personagem isolado. As scenas +historicas do Velho e Novo Testamentos não +começaram a representar-se sobre os estofos senão +durante o VIII seculo.<br /> + +<br /> + +Desde o meiado do IV seculo, que a egreja começou a +servir-se d'este meio, para representar, sobre os tecidos empregados +nas ceremonias sagradas, assumptos religiosos extrahidos do Velho e do +Novo Testamentos, ou da historia dos Santos.<br /> + +<br /> + +O ouro, a seda e as perolas, abundavam em todos estes bordados, que +consistiam muitas vezes em medalhões circulares ou ovaes e +que applicavam sobre tecidos preciosos, para lhes imprimir um caracter +religioso.<br /> + +<br /> + +Desde o VI seculo que a arte de bordar foi, na Europa occidental, a +principal occupação das +mulheres nobres, e no seculo seguinte, esta arte elevou-se a um tal +gráu de prosperidade, nas Ilhas Britannicas, que durante +toda a idade media não deixou de florescer.<br /> + +<br /> + +Desde os primeiros seculos, que se ornavam com bordados de purpura, ou +de qualquer outra côr brilhante, as vestes de lã +branca dos padres e +<span class="pagenum"><a name="p53">[53]</a></span> +dos diaconos. Estes bordados +foram mais tarde substituidos por brocados de seda. Serviam-se tambem +dos pannos d'essa qualidade, para armação nas +basilicas e nas egrejas.<br /> + +<br /> + +Estes ricos pannos tinham ainda outro uso. Antes de serem collocadas +nos ataúdes, as ossadas dos Santos eram rodeadas de pelles +de camello e envolvidas em tecidos os mais ricos, de linho, seda e +ouro. A maior parte dos estofos antigos que se conservaram +até aos nossos dias, foram tirados de sepulturas de Santos.<br /> + +<br /> + +<em>Paramentos Sacerdotaes</em>. A Egreja +manteve escrupulosamente, para os ornamentos sagrados, as +fórmas adoptadas pelos primeiros christãos, +emquanto que a fórma e o talhe dos fatos profanos se +modificaram invencivelmente.<br /> + +<br /> + +Em geral, os paramentos sagrados dos padres e dos ministros inferiores +eram brancos. O uso das côres variadas manifestou-se +primeiramente nas <em>casulas</em> e nas <em>capas +d'asperges</em>.<br /> + +<br /> + +As cinco côres liturgicas de que se servem hoje, foram +estabelecidas pouco mais ou menos no +IX seculo, e +definitivamente consagradas dois seculos depois.<br /> + +<br /> + +Os paramentos dos padres são as casulas, a <em>capa +d'asperges</em>, a +<em>estóla</em>, o +<em>manipulo</em>, o +<em>cinto</em>, a <em>ópa</em> e o +<em>amicto</em>. As principaes vestimentas, +proprias para os ministros inferiores, são a +<em>dalmatica</em> e a <em>tunicella</em>.<br /> + +<br /> + +A casula primitiva era uma vestimenta sem mangas, muito ampla, +envolvendo todo o corpo +<span class="pagenum">[54]</span> +desde +o pescoço até aos pés, e +formando uma especie de barraca, <em>casula</em>, em torno +da +pessoa que a vestia. Tinha apenas uma abertura para passar a +cabeça.<br /> + +<br /> + +A <em>estóla</em> deve o seu nome +e origem ao vestuario que os romanos chamavam estola.<br /> + +<br /> + +A Egreja adoptou como paramento a +<em>estóla</em>, de que se fazia uso por toda a +parte, na occasião em que se estabeleceu o Christianismo.<br /> + +<br /> + +O <em>manipulo</em> não se usava +durante os primeiros seculos da Egreja. Foi S. Gregorio o Grande, +(590-604) quem primeiro fallou, em seus escriptos, do manipulo como +paramento sagrado.<br /> + +<br /> + +A <em>capa</em> é um paramento +commum ao padre e a alguns dos ministros inferiores. Primitivamente +serviam-se da capa para se resguardarem da chuva nas +procissões; é tambem por este motivo que ella +se chama muitas vezes <em>pluvial</em>.<br /> + +<br /> + +A <em>alva</em> e o +<em>cinto</em> devem a sua origem +á <em>tunica talar</em> dos antigos, que era um +vestuario de linho, munido de mangas e apertado á roda do +corpo com um cinto.<br /> + +<br /> + +A <em>alva</em> era vestida nas +funcções sagradas pelos bispos, padres e todos os +ministros inferiores.<br /> + +<br /> + +O <em>amicto</em> é uma +espécie de téla de que os padres e os ministros +se servem para cobrir o pescoço. A origem d'este vestuario +não vae além do VIII seculo.<br /> + +<br /> + +Durante os tres primeiros seculos, os diaconos trajavam o <em>colobio</em>, +que era uma +especie de tunica longa e estreita, ordinariamente sem mangas. Foi +<span class="pagenum"><a name="p55">[55]</a></span> +no principio do IV seculo, que +o Papa S. Silvestre substituiu o <em>colobio</em> pela +<em>dalmatica</em>.<br /> + +<br /> + +A <em>dalmatica</em> era uma bluse comprida, +feita de lã da Dalmacia.<br /> + +<br /> + +Até ao VII seculo, os sub-diaconos da Egreja do Occidente +não eram vestidos senão com a alva, com o cinto e +com o amicto.<br /> + +<br /> + +<h4>Mosteiros Latinos</h4> + +<br /> + +Foi no principio do VI seculo, que começaram a maior parte +dos religiosos a reunir-se em communidade, e a viver juntos, debaixo do +mesmo tecto. Vivia então S. Benedicto.<br /> + +<br /> + +<h4>Iconographia do periodo Latino</h4> + +<br /> + +Muitos monumentos do periodo Latino, sobre tudo os mais antigos +mosaicos, conteem personagens em pé e attitude respeitosa, +tendo nas mãos, envoltas nas rugas do manto, uma +corôa em fórma de circulo, que offerecem ao +Salvador. Este é representado sob a fórma +symbolica do Cordeiro, do monogramma, da Cruz, e até mesmo +d'um simples espaço vazio.<br /> + +<br /> + +Christo, debaixo da fórma symbolica do Cordeiro ou do +monogramma, no meio de doze cordeirinhos ou de doze pombas, que os +monumentos do periodo Latino nos offerecem frequentemente, symbolisa o +Salvador rodeado dos seus discipulos, isto é, a Egreja +triumphante no Céu, recebendo na +terra o ensino do seu Divino Fundador.<br /> + +<br /> + +Tambem muitas vezes se encontra um cordeiro, +<span class="pagenum">[56]</span> +uma Cruz Trina, ou o monogramma de +Christo entre dois cordeiros, duas pombas, dois pavões ou +dois veados; isto symbolisa o Salvador sob a fórma humana no +meio dos Apostolos e d'outros Santos, ou sob a fórma +symbolica do Cordeiro e do monogramma no meio de doze cordeirinhos ou +doze pombas.<br /> + +<br /> + +Vê-se tambem uma taça ou um cacho de uvas no meio +de dois pavões ou de duas pombas, o que nos parece uma +allusão mais directa ao regosijo dos que vão para +o Céu.<br /> + +<br /> + +Alguns monumentos do periodo Latino, principalmente os mosaicos do V e +VI seculos, teem um throno, com ou sem docél, e em que ha +uma almofada, um cortinado cahindo diante da cadeira e algumas vezes o +livro dos Evangelhos. Um monogramma ou uma Cruz, geralmente da +Trindade, occupa o meio do throno e domina toda a +composição. Muitas vezes vê-se, ao lado +do throno, os doze Apostolos em pé, ou sómente S. +Pedro e S. Paulo. Em todos estes assumptos o throno representa o +Salvador.<br /> + +<br /> + +Mais tarde, principalmente no Oriente, acrescentaram a esta +representação novos signaes +iconographicos: nas extremidades da almofada collocavam á +direita da Cruz a lança, e á +esquerda a esponja na extremidade d'uma lança; algumas vezes +tambem se entrelaça a corôa de espinhos em torno +da Cruz. A partir d'este momento, a +<em>cathedra</em> da doutrina torna-se o throno do +julgamento final e a Cruz o signal do Filho do Homem.<br /> + +<br /> + +S. Pedro, collocado ao lado do Salvador, sustenta +<span class="pagenum"><a name="p57">[57]</a></span> +ordinariamente sobre o hombro esquerdo +uma cruz de haste comprida; outras vezes recebe com a mão +direita um volume desenrolado, que Nosso Senhor lhe apresenta. Desde a +primeira metade do V seculo, que elle conserva as chaves na ponta do +seu manto.<br /> + +<br /> + +S. Paulo é quasi sempre representado recebendo um ou dois +rolos, symbolos da Lei Evangelica.<br /> + +<br /> + +Muitas vezes tambem collocavam uma phenix sobre uma palmeira. A Phenix +é a figura da +resurreição futura.<br /> + +<br /> + +<h4>Caracteres do estylo Bysantino</h4> + +<br /> + +O plano e a disposição das egrejas bysantinas +apresenta-se com tres typos distinctos: 1.º, com a basilica +coberta de +madeira, similhante á basilica Latina do Occidente; +2.º, +com a rotunda ou egreja circular; 3.º, com a basilica +bysantina +propriamente dita, abobadada e sobreposta d'uma ou de muitas cupulas. A +basilica bysantina abobadada distingue-se perfeitamente de todos os +monumentos dos tempos anteriores, pela cupula sobre abobadas pendentes, +e construida ao meio d'uma nave, mais ou menos alongada.<br /> + +<br /> + +As fachadas das egrejas bysantinas differem das que têem as +basilicas Latinas. Estas terminam em geral por um frontespicio +triangular; as fachadas das egrejas orientaes, pelo contrario, terminam +ou por uma fachada horisontal á maneira d'uma cornija, ou +por uma serie de corôamentos semicirculares. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p58">[58]</a></span> +O systema de construcção das egrejas bysantinas +distingue-se pelos seguintes traços. O tijolo é +geralmente empregado para todas as edificações. +Mesmo nos paizes em que a pedra é abundante, os architectos +bysantinos preferiam, a maior parte das vezes, o tijolo aos materiaes +de grandes dimensões. O caracter distinctivo das egrejas +bysantinas, sob o ponto de vista da construcção, +consiste na presença de uma ou de muitas cupulas elevadas, +sobre abobadas pendentes.<br /> + +<br /> + +Chamam-se <em>abobadas pendentes</em> umas +certas saliencias nas abobadas do cruzeiro, que pela sua +fórma se approximam do sector espherico e que serve para +fazer passar uma construcção de +quadrado a octogono ou a plano circular.<br /> + +<br /> + +A decoração exterior das egrejas bysantinas, +sobretudo no IV e V seculos, era pobre e simples. Do VII seculo ou do +VIII seculo em diante, os ornamentos exteriores das paredes e +archivoltas das janellas são bastantes vezes como os dos +edificios Latinos, formados por fiadas de pedras alternadas com uma ou +muitas fiadas de tijolos. As archivoltas ornadas de molduras ficam em +resaltos umas sobre as outras, e representadas nas paredes por +cordões feitos de tijolos de fórma e +côr variaveis.<br /> + +<br /> + +A decoração +<em>interna</em> consiste em revestimentos de diversas +naturezas, marchetados de marmores ou mosaicos, applicados sobre os +pilares, paredes e abobadas. O caracter essencialmente superficial da +esculptura bysantina consiste regularmente em folhagens lisas e +angulares. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[59]</span> +Os ornatos que os bysantinos gostavam de esculpir nas almofadas de +marmore com que decoravam o interior das egrejas, eram +entrelaçamentos de linhas rectas e curvas, ás +quaes juntavam cruzes da Trindade, florões e algumas vezes +figuras de animaes tanto reaes como chimericos.<br /> + +<br /> + +A começar no VIII +seculo, as pinturas a fresco das egrejas bysantinas foram muitas vezes +substituidas por mosaicos e por embutidos em estuque; acabaram por ser +completamente substituidas.<br /> + +<br /> + +A influencia bysantina fez-se sentir primeiramente no começo +do IX seculo +e mais tarde, no fim do X. +Foram construidas muitas +egrejas sob a influencia bysantina dos monumentos typos.<br /> + +<br /> + +No reinado de Justiniano (527-565) o estylo bysantino ficou +definitivamente constituido com os caracteres acima definidos. Santa +Sophia em Constantinopla constitue o seu typo por excellencia.<br /> + +<br /> + +Leão, o Isauriano, prohibiu, em 726, a +reproducção de qualquer figura, quer pela +esculptura, quer pela pintura nas paredes das egrejas, quer nos +objectos do culto. Esta prohibição, confirmada em +754, por um conciliabulo heretico, subsistiu até 842. N'este +ultimo anno, depois da morte de Theophilo, ultimo imperador +iconoclasta, a imperatriz Theodora substituiu os editos de +Leão o Isauriano e restabeleceu o culto das imagens.<br /> + +<br /> + +A épocha mais florescente da arte bysantina foi no X seculo +e mais +particularmente +no reinado de Constantino Porphyrogeneta.<br /> + +<br /> + +No XI seculo, uma +serie de graves +acontecimentos +<span class="pagenum">[60]</span> +precipitou +a decadencia do imperio bysantino e trouxeram por consequencia o +enfraquecimento das artes. No XIII, XIV e XV seculos, as artes +continuaram a desfallecer, até que, em 1453, os turcos, +apoderando-se de Constantinopla, causaram a decadencia da arte +bysantina.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c4"></a>CAPITULO IV</h3> + +<br /> + +<div class="intro"><b>Summario.</b>―Oestylo +Roman desde o +VIII até ao seculo X―Caracteres do +estylo Lombardo―Planos das Egrejas―Cryptas―Baptisterios―Systemas +de construcção―Abobadas―Pilares e +columnas―Bases―Capiteis―Fachadas―Cornijas―Decoração +monumental―Architectura, antes do seculo XI, nos +outros estados sem +ser na Lombardia: Italia +central e meridional, Belgica e +França―O +estylo Roman durante o +XI e o XII +seculos―Caracter da Architectura +Roman―Plano e distribuição das +Egrejas―Cryptas―Baptisterios n'este +seculo―Materiaes e modo de +construir―Sepultura +monumental―Fachadas―Portico das +egrejas―Portaes―Portas e suas +ferragens―Janellas e rosaceas―Maneira de resguardar da +chuva as +janellas e as +vidraças pintadas―Absides―Pilares, +columnas―Bases e capiteis―Arcadas e +arcarias +menores―<em>Triforium</em>―Cornijas e +modilhões―Abobadas―Contrafortes―Madeiramentos―Torres―Modo +de se lagearem os edificios―Pinturas +muraes―Inscripcões +lapidares―Altares―Piscinas―Tribunas―Cadeiras do +côro e a +separação da capella +mór do corpo +da egreja―Capellas funereas―Tumulos visiveis e occultos―Campas―Pias +Baptismaes―Gradamentos―Alfaias religiosas―Calices e +patenas―Custodias―Relicarios―Corôas +suspensas nos +altares―Lustres de forma de +corôas―Cruzes para os altares e +procissões―Castiçaes e +tocheiros―Evangeliarios―Capas dos +livros do +Evangelho―Thuribulos―Pias para agua +benta―Pentes +liturgicos―Cadeiras para os +sacerdotes―Baculos―Calçado liturgico―Mitras―Tecidos +bordados―Vestuarios sacerdotaes.</div> + +<br /> + +<h4>Periodo Roman</h4> + +<br /> + +O periodo roman estende-se desde o VIII seculo até ao fim do +XII. O estylo roman formou-se e desenvolveu-se +debaixo da influencia combinada de tres elementos: 1.º, o +estylo +classico e latino, +<span class="pagenum">[61]</span> +cujos +monumentos existiam espalhados pela Europa meridional; 2.º, o +estylo +bysantino, cujos principios foram importados do Oriente; 3.º, +o genio +particular dos povos barbaros que invadiram a Europa desde o V seculo.<br /> + +<br /> + +O estylo proveniente da influencia combinada d'estes tres elementos, +chamou-se +<em>roman</em>, porque a sua origem e +duração coincidem pouco mais ou menos com a da +lingua romanica. Por conseguinte a palavra <em>roman</em> +indica, do mesmo +modo que na lingua romanica, o elemento barbaro que contribuiu para a +formação d'este estylo.<br /> + +<br /> + +<h4>O estylo Roman desde o VIII até ao X seculo</h4> + +<br /> + +A decadencia completa das bellas artes foi o effeito necessario dos +movimentos politicos que a Europa soffreu durante tres seculos. +Só os padres e os religiosos luctavam no meio d'este chaos, +contra a barbarie e a força brutal dos invasores. O +renascimento das artes foi lento, e do mesmo modo o das lettras, porque +o solo da Europa occidental estava juncado de destroços +amontoados, dos monumentos antigos; as tradições +artisticas tinham-se perdido, e os principios haviam cahido em +esquecimento.<br /> + +<br /> + +Para a architectura e para as artes, a Lombardia foi, desde o VII +até ao fim do X seculo, o principal centro d'este +renascimento. O estylo formou-se n'esta épocha, ao norte da +Italia, e recebeu o nome de <em>Lombardo</em>.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p62">[62]</a></span> +<h4>Caracteres do estylo Lombardo</h4> + +<br /> + +O estylo Lombardo, ou o estylo Roman do norte da Italia, reinou n'este +paiz desde o VIII seculo até ao fim do XII.<br /> + +<br /> + +O plano da basilica Latina foi geralmente adoptado nas egrejas +lombardas.<br /> + +<br /> + +Na maior parte das grandes egrejas lombardas, as paredes internas +são construidas com galerias.<br /> + +<br /> + +As cryptas das egrejas lombardas estendem-se por baixo de todo o +presbyterio, e formam verdadeiras capellas subterraneas, com muitas +naves abobadadas.<br /> + +<br /> + +Os baptisterios isolados, geralmente octogonaes ou circulares, +usaram-se durante o periodo lombardo.<br /> + +<br /> + +A maior parte dos edificios lombardos são construidos de +tijolo.<br /> + +<br /> + +<em>Abobadas</em>. A abobada em +fórma de <em>berço</em> +consiste n'um semi-cylindro concavo e sem +penetração alguma.<br /> + +<br /> + +A abobada de +<em><b>aresta</b></em>, +assim chamada porque apresenta quatro arestas no intradoz, é +formada pela intersecção ou +penetração de duas abobadas de berço, +com a mesma abertura e reunindo-se em angulo recto.<br /> + +<br /> + +Os architectos lombardos fizeram grandes progressos na +construcção das abobadas. Antes do seu tempo +não se conhecia além da cupula +senão duas especies de abobadas: a abobada de +berço, e a abobada de aresta romana. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[63]</span> +As abobadas lombardas apresentam todas uma +elevação em fórma de zimborio, +particularidade que pertence ao systema de +construcção seguido pelos architectos lombardos. +Esta elevação +dá ás abobadas das egrejas lombardas um aspecto +particular.<br /> + +<br /> + +Nas egrejas lombardas de tres naves, a principal tem sempre dobrada +largura.<br /> + +<br /> + +Como dissémos, as abobadas da nave principal exercem sobre +os seus pontos de apoio não sómente +uma pressão vertical, mas tambem uma obliqua e lateral, que +tende a fazer inclinar para fóra os pilares e as muralhas +superiores. Nos edificios lombardos, esta pressão acha-se +equilibrada pelo encontro opposto das abobadas altas e baixas das naves +lateraes e em parte apoiada sobre os contrafortes exteriores, pelos +arcos-butantes das naves lateraes e pelas porções +de parede que supportam estes arcos.<br /> + +<br /> + +Nos edificios antigos e nas basilicas latinas serviam-se de columnas +cylindricas, pouco espaçadas e recebendo directamente as +pressões verticaes de entablamentos d'um peso relativamente +pouco consideravel. Os constructores lombardos substituiram o pilar +composto de columnas pelo simples supporte cylindrico da basilica +coberta de madeira.<br /> + +<br /> + +Os caracteres dos pilares lombardos pódem resumir-se da +seguinte maneira: 1.º Os pilares apresentam uma +secção rectangular ou quadrada e são +ornados de pilastras ou de columnas envolvidas, recebendo as bases das +nervuras e dos arcos-butantes. +<span class="pagenum">[64]</span> +2.º Não têem todas a mesma +grossura, +umas são menos, outras mais fortes, segundo recebem ao mesmo +tempo as bases de todas as abobadas, ou das naves lateraes +sómente. Foi desde a primeira metade do seculo VIII que +appareceram os pilares ornados de columna, desconhecidos na arte +classica e empregados com profusão no Occidente pela arte na +edade media. As columnas e as columnatas são ordinariamente +construidas por fiadas de desigual altura de medio e pequeno apparelho; +raramente são monolithas.<br /> + +<br /> + +Essas columnatas dos pilares, quasi sempre delgados e muito elevados, +chegam muitas vezes sem interrupção +até á origem +das abobadas, e constituem um facto capital na historia da arte, porque +são um dos elementos mais caracteristicos e fundamentaes de +quasi toda a architectura da edade media.<br /> + +<br /> + +As bases lombardas approximam-se sensivelmente, pela sua +fórma, da base attica propriamente dita.<br /> + +<br /> + +Estas bases são muitas vezes munidas d'um ornato destinado a +ligar o tóro inferior com os angulos do plintho e a dar +d'este modo uma apparencia de maior solidez dos angulos. Este ornato ou +appendice recebeu o nome de <em>garra</em> +ou <em>pata</em>.<br /> + +<br /> + +As garras mais antigas são muito simples, as de data +posterior representam ordinariamente cabeças d'animaes.<br /> + +<br /> + +Os capiteis lombardos, assim como os bysantinos, +<span class="pagenum">[65]</span> +têem ordinariamente a +fórma de açafate +esvasado ou cubico.<br /> + +<br /> + +Uma transformação se opéra +insensivelmente e a arte lombarda adquire uma certa originalidade. Os +seus typos são variadissimos; o cinzel do esculptor +dá ali provas de fecundidade. Mais tarde esta +transformação continúa lentamente, e +durante o X seculo, as esculpturas tornam-se mais salientes, as +folhagens são augmentadas e as extremidades arredondadas.<br /> + +<br /> + +Em relação á esculptura d'ornato que +cobre o açafate, podem distinguir-se duas especies de +capiteis: os capiteis <em>ornados de folhagens</em> e +os capiteis historicos ou legendarios. Os capiteis historicos +são muito communs nas egrejas lombardas que datam do VIII +seculo.<br /> + +<br /> + +Chamam-se historicos e legendarios os capiteis que são +ornados com esculpturas que representam scenas tiradas da historia ou +da lenda e até mesmo algumas vezes têem animaes +symbolicos ou phantasticos.<br /> + +<br /> + +O abaco enorme em fórma de capitel, que se encontra nos +edificios Latinos, só raramente se vê nas egrejas +Lombardas; é substituido por grosso abaco, mas pouco +elevado, de profil muito acentuado e muitas vezes talhado em pedra +differente do corpo do capitel.<br /> + +<br /> + +Em opposição ao principio geralmente admittido +pela antiguidade e pela edade media, as fachadas das egrejas Lombardas +não indicam exteriormente a fórma das naves +lateraes. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p66">[66]</a></span> +Compõem-se d'uma grande parede que chega até aos +dois lados obliquos que a terminam, e na qual não apparece o +resalto na nave principal por cima das naves lateraes.<br /> + +<br /> + +Os campanarios das egrejas Lombardas ficam ordinariamente separados do +edificio da egreja, e compõem-se de uma serie d'andares +quadrados, todos da mesma largura e pouco mais ou menos da mesma +altura, separados uns dos outros por cornijas. Estes andares +são ornados com faixas muraes e pequenas arcadas fingidas, +cujos arcos se apoiam sobre modilhões.<br /> + +<br /> + +As cornijas dos edificios lombardos apenas apresentam uma pequena +saliencia das faces das paredes. São quasi sempre collocadas +sobre arcaduras fingidas, de volta inteira, assentando em +modilhões de fórma muito simples.<br /> + +<br /> + +As arcaduras constituem uma das fórmas caracteristicas da +architectura Lombarda; encontram-se, não só +debaixo das cornijas dos telhados, mas +tambem debaixo das outras cornijas das fachadas; e até mesmo +nas platibandas horisontaes dos edificios.<br /> + +<br /> + +<h4>Decoração +monumental</h4> + +<br /> + +Os bysantinos cobriam com marmores e mosaicos as paredes interiores das +suas egrejas. Os lombardos, pelo contrario, mostram no seu systema +decorativo uma certa preferencia quasi exclusiva pelas esculpturas, a +qual derivando da bysantina, foi por algum tempo sua +imitação; +porém, mais +<span class="pagenum"><a name="p67">[67]</a></span> +tarde, +a começar no IX seculo, principiou-se a abandonar esse modo +de decorar.<br /> + +<br /> + +Nos primitivos edificios lombardos nota-se uma grande +incorrecção nas esculpturas das figuras, quer +verdadeiras, quer phantasticas. Mais tarde, encontram-se, em todo o +periodo do estylo Lombardo, nos seus edificios, animaes chimericos, ora +isolados ora em frente uns dos outros, e acompanhados, e tambem +entrelaçados de folhagens.<br /> + +<br /> + +As esculpturas não cobrem só os capiteis, mas +tambem as archivoltas e os tympanos, assim como as faces dos altares, +dos doceis, etc.<br /> + +<br /> + +Os embutidos e os revestimentos de marmore são raros no +interior dos edificios lombardos.<br /> + +<br /> + +Desde o IX seculo que se substituiram os embutidos em marmore pelas +pinturas a fresco e por mosaicos de pequenos cubos.<br /> + +<br /> + +Em quanto o estylo Lombardo se desenvolvia no Norte da Italia, o Latino +continuava a ser seguido na Italia central e meridional.<br /> + +<br /> + +A maior parte das egrejas do VII e do VIII seculos eram construidas de +madeira, o que explica os frequentes incendios d'essas egrejas.<br /> + +<br /> + +No principio do seculo IX, o imperador Carlos-Magno tentou fazer +reviver as bellas artes na Europa Occidental; quiz restabelecer o +renascimento da arte romana.<br /> + +<br /> + +<h4>O estylo Roman durante os seculos XI e +XII</h4> + +<br /> + +O estylo Lombardo, inteiramente constituido no Norte da Italia desde o +seguinte seculo, exerceu +<span class="pagenum">[68]</span> uma grande +influencia sobre a architectura roman dos paizes cisalpinos +no XI e XII seculos. No fim do X seculo, e no principio do seguinte, os +monges introduziram o estylo Lombardo na Allemanha, na Suissa, e nas +provincias da França visinhas da Italia, d'onde irradiou +para o Norte e Oeste.<br /> + +<br /> + +O estylo roman da Europa Central não é outra +coisa mais que o estylo Lombardo transportado áquem dos +Alpes e modificado occidentalmente pelo proprio genio dos differentes +povos que occupavam esta região. O elemento Gaulo-romano +tomou tambem grande parte na formação do estylo +roman.<br /> + +<br /> + +O roman inglez recebeu o elemento Lombardo por intermedio dos +Normandos, que, depois de terem conquistado a Inglaterra, para ali +levaram o estylo do Occidente da França.<br /> + +<br /> + +A rapida propagação das ordens religiosas durante +o seculo XI, contribuiu poderosamente para a diffusão e +desenvolvimento da architectura Roman. Foi n'este seculo, que as ordens +religiosas, graças a abundantes recursos, cobriram em pouco +tempo a Europa Central e Occidental com um grande numero de egrejas e +mosteiros. Estes monumentos, não obstante apresentarem todos +os mesmos caracteres geraes, taes como o emprego das abobadas de volta +inteira e d'um mesmo systema de construcção, +differem comtudo entre si, em certos caracteres especiaes, proprios de +cada região.<br /> + +<br /> + +O estylo roman do seculo XI differe do estylo +<span class="pagenum"><a name="p69">[69]</a></span> +do XII por uma +ornamentação mais simples, +contornos menos correctos e execução geralmente +inferior.<br /> + +<br /> + +No seculo XII, abundam os ornatos tanto no interior como no exterior +dos edificios. No final do seculo XI, estabeleceram-se, na Europa +Occidental, duas escolas de architectura, animadas de diversas +tendencias. Uma na ordem de S. Bento, que tinha o seu centro principal +na abbadia de Cluny, desenvolvia uma magnificencia e um luxo quasi +extraordinario na decoração dos edificios +religiosos, cuja construcção lhe era incumbida; a +outra, pelo contrario, procedente da Ordem de Cister, quasi que +não admittia ornatos alguns e levava a singeleza +até á severidade. Em todos os paizes em que +existiam edificios romanos por occasião da +formação do estylo roman, a sua existencia +exerceu grande influencia na decoração dos +edificios. Pelo contrario nos paizes em que escasseavam aquelles +monumentos, diligenciaram imitar, a maior parte das vezes, na +esculptura monumental os variados tecidos importados do Oriente.<br /> + +<br /> + +<h4>Caracteres da architectura Roman</h4> + +<br /> + +As egrejas romans apresentam ordinariamente em planta a forma d'uma +Cruz Latina, cuja frente representada pelo côro é +voltada para o Oriente. Têem geralmente tres naves formadas +por duas ordens parallelas de pilares, e algumas vezes de cinco. Depo +As egrejas romans apresentam ordinariamente em planta a forma d'uma +Cruz Latina, cuja frente representada pelo côro é +voltada para o Oriente. Têem geralmente tres naves formadas +por duas ordens parallelas de pilares, e algumas vezes de cinco. Depois +do seculo XI, o côro das egrejas cathedraes, abbaciaes +(exceptuando as da Ordem +<span class="pagenum">[70]</span> +Cistersiense e collegiaes), tem maiores dimensões que nas +basilicas Latinas e Lombardas.<br /> + +<br /> + +Quando o côro não era rodeado de capellas, +terminava por um abside semi-circular ou por uma parede recta. +Encontram-se, nas margens do Rheno e em outras partes da Allemanha, +egrejas Romans com dois absides semi-circulares, um a Leste e o outro a +Oeste.<br /> + +<br /> + +Algumas das grandes egrejas Romans têem os lados do corpo da +egreja divididos por galerias.<br /> + +<br /> + +Todas as egrejas Romans, sem excepção, +são orientadas.<br /> + +<br /> + +Muitas das mesmas egrejas têem cryptas quasi sempre situadas +debaixo do côro, e formando capellas subterraneas, com tres a +cinco naves, cujas abobadas de barrete veem assentar sobre duas ou +quatro ordens de pilares pouco elevados.<br /> + +<br /> + +Desce-se para a maior parte das cryptas por duas escadas collocadas aos +lados da que do transepte conduz ao côro. Nas que +não têem +senão uma entrada, acha-se ordinariamente diante do +côro mesmo no eixo da egreja.<br /> + +<br /> + +O uso de construir cryptas só deixou de existir desde o +seculo XIII.<br /> + +<br /> + +Durante o periodo Roman, ainda se construiram, ao pé das +cathedraes e das grandes Egrejas abbaciaes e parochiaes, baptisterios +isolados, de fórma polygonal e circular.<br /> + +<br /> + +Todavia, logo que a solemne ministração do +baptismo caiu em desuso, não se construiram mais +<span class="pagenum"><a name="p71">[71]</a></span> +baptisterios proximo das novas Egrejas +parochiaes que se edificaram. A pia baptismal foi então +transportada para a nave principal, proximo á porta de +entrada da egreja nas naves lateraes, ou então em uma +capella do lado occidental, proximo da porta principal.<br /> + +<br /> + +A natureza dos materiaes influe poderosamente sobre o modo de +construcção adoptada; assim nos paizes em que a +cantaria é resistente, construe-se com grandes +dimensões, o apparelho é mais +grandioso, as fiadas são altas; emquanto que, nas +localidades em que os materiaes são menos resistentes, e em +que o trabalho de preparar a cantaria é portanto mais facil, +o apparelho tem menor dimensão.<br /> + +<br /> + +No seculo XI, a esculptura monumental toma repentinamente um +desenvolvimento extraordinario pela influencia combinada do estylo +Lombardo, dos monumentos Gaulo-Romanos; dos tecidos e outros objectos +d'arte importados do Oriente pelos cruzados.<br /> + +<br /> + +Em cada paiz ou quasi que em cada provincia, a +decoração Roman offerece caracteres +particulares, devidos á aptidão dos habitantes, +á +variada natureza dos materiaes e a outras influencias locaes. Em geral, +em todos os paizes onde se encontravam documentos romanos ricamente +decorados, a influencia Lombarda se liga e se combina com a d'estes +monumentos.<br /> + +<br /> + +No Noroeste da França, principalmente na Normandia, e +até mesmo na Inglaterra, a decoração +<span class="pagenum">[72]</span> +consiste principalmente em +estrellas e outras figuras geometricas. A +ornamentação Roman da Allemanha +compõe-se sobretudo de galões +entrelaçados, cujas extremidades acabam em folhas com tres a +cinco lobulos. Estes galões, algumas vezes ornados de +perolas, parecem ordinariamente ligados com fitas ou reunidos por +anneis.<br /> + +<br /> + +Na Belgica, onde principalmente se manifestou a influencia da escola +Cistersiense, os monumentos do periodo Roman não +têem as +decorações de trabalhos custosos e variados, que +se encontram n'outros paizes.<br /> + +<br /> + +Assim como nas basilicas Latinas, as fachadas das egrejas Romans +indicam em geral a forma transversal das naves; só no seculo +XI, começaram +a ornal-as com mais cuidado e esmero. A sua +decoração architectural consiste nos portaes, +ordinariamente tres, construidos em profundas arcadas de volta inteira +mais ou menos carregadas de molduras de architectura; as galerias, +verdadeiras ou fingidas, eram formadas por uma ou muitas ordens de +arcadas fingidas ou rendilhadas; e emfim em grandes rosaceas vasadas, +por cima da porta principal.<br /> + +<br /> + +Raras vezes se encontram fachadas romans decoradas com estatuas.<br /> + +<br /> + +Antes do seculo XI, os atrios que succederam aos narthex das basilicas, +apresentavam-se d'ordinario sob a fórma d'um portico, +geralmente pouco profundo e occupando toda a largura da +Antes do seculo XI, os atrios que succederam aos narthex das basilicas, +apresentavam-se d'ordinario sob a fórma d'um portico, +geralmente pouco profundo e occupando toda a largura da fachada da +egreja; havia alguns tambem, ainda que pouco +<span class="pagenum"><a name="p73">[73]</a></span> +numerosos, que eram construidos na +fachada Occidental.<br /> + +<br /> + +Os atrios Romans dos seculos XI e XII dividem-se em fechados e abertos; +os primeiros tomaram, em varios paizes, um desenvolvimento de tal modo +importante, que formavam de alguma maneira uma nova egreja construida +em frente das naves propriamente ditas, como havia na egreja de S. +Francisco de Santarem.<br /> + +<br /> + +Nos grandes monumentos do seculo XI, e especialmente do XII, os portaes +mais notaveis, e até mesmo algumas vezes os secundarios, +são ornados profusamente de esculpturas de todo o genero.<br /> + +<br /> + +Quando as archivoltas dos portaes são cobertas com muitas +esculpturas, o tympano é quasi sempre ornado d'um baixo +relevo, representando Jesus Christo sentado e sob uma aureola. Em +alguns casos o Redemptor offerece as mãos a dois Santos +coroados e ajoelhados cada um do seu lado; em outros, lança +a benção com a +mão direita e segura um livro com a esquerda; n'este caso a +aureola é muitas vezes cercada de animaes symbolicos +representando os Evangelistas.<br /> + +<br /> + +Nos mais importantes monumentos, os batentes dos portaes eram +ordinariamente de bronze ou de qualquer outro metal.<br /> + +<br /> + +As ferragens das portas, que a principio não serviam +senão para consolidar todas as travessas da porta, +forneceram desde +As ferragens das portas, que a principio não serviam +senão para consolidar todas as travessas da porta, +forneceram desde o seculo XI, no estylo Roman, um dos mais bellos +modelos de +ornamentação. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[74]</span> +Encontram-se tambem, nos edificios de architectura Roman, portaes com +batentes de madeira esculpidos em baixo relevo. As janellas d'estes +edificios mais antigos são pequenas e quasi sem +ornamentação alguma.<br /> + +<br /> + +No meado do seculo XI, augmentaram os vãos das janellas +á proporção que mais se +generalisava o uso do vidro. No final d'este seculo e durante todo o +XII, as archivoltas exteriores das janellas dos grandes monumentos +são executadas com o maior cuidado, e compostas de arcos com +muitas ordens de pedras lavradas symetricas, varias vezes com o feitio +de tóros, ficando assentes sobre grupos de pequenas columnas +ou sobre pés direitos ornados de uma imposta com esculptura. +Estes tóros têem tambem muitas vezes ornatos.<br /> + +<br /> + +No seculo XII, apparecem as janellas geminadas de dois vãos, +separados por uma humbreira em fórma de columna, e +servindo-lhe de moldura um arco commum de resalva. Vêem-se +tambem janellas mesmo de tres vãos reunidos debaixo d'um +unico arco. N'estas ultimas ou o vão do meio é +mais alto que os dos lados, ou então +é o tympano formado pelo grande arco, no qual ha um oculo, +inteiramente aberto ou em fórma de trêvo, de +quatro folhas e ás vezes com seis e mais +lóbulos.<br /> + +<br /> + +Tambem se encontram nos edificios romans do seculo XIII, olhos-de-boi e +que não servem de ornamento aos vãos de janellas. +Chamam-se rosaes e são compostos de differentes maneiras. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p75">[75]</a></span> +Nos paizes meridionaes continuaram a vedar os vãos das +janellas com caixilhos rendilhados, de madeira ou de marmore. Os +desenhos produzidos pelos recortes das travessas apresentam +fórmas mais variadas e em harmonia com a +ornamentação Roman; compõem-se quasi +sempre de figuras geometricas. Os caixilhos recortados foram empregados +até ao seculo XVI, na Grecia, Italia e Hespanha e +ainda hoje no Oriente.<br /> + +<br /> + +Na Europa Occidental e Septentrional preferiam tapar as janellas com +vidros pequenos assentes em caixilhos de madeira, mas, desde o seculo +X, reunidos por meio de filetes de chumbo. Algumas vezes estes vidros, +differentemente coloridos, formavam um mosaico transparente, no qual +ainda não havia figuras nem ornatos pintados sobre o vidro.<br /> + +<br /> + +O emprego de vidraças com varios assumptos e personagens +pintados, começou provavelmente no final do seculo X.<br /> + +<br /> + +Em muitas egrejas, o côro e mesmo algumas vezes os +braços do transepto terminam por um abside semi-circular ou +polygonal.<br /> + +<br /> + +O abside está ordinariamente ligado por um abside circular +coberto d'um tecto quasi sempre mais baixo que o do côro.<br /> + +<br /> + +As paredes exteriores dos absides são a maior parte das +vezes ornadas d'uma ou de muitas ordens de arcadas separadas por faixas +de pequena saliencia; columnas ou pilastras envolvidas, ligadas entre +si por arcos de volta inteira. As janellas, ordinariamente +<span class="pagenum">[76]</span> +em numero impar, +são abertas debaixo das arcadas.<br /> + +<br /> + +Os absides de quasi todas as egrejas Romans das margens do Rheno +apresentam junto ao tecto uma galeria aberta, formada por uma serie de +pequenas arcadas de volta inteira e sustentadas por pequenas columnas. +Estes absides receberam o nome de absides <em>rhenanos</em>. +Serviam +outr'ora, e servem ainda hoje, em alguns sitios, para a +exposição das reliquias.<br /> + +<br /> + +Os edificios construidos na Europa Central, no fim do seculo X e +principio do XI, não apresentam, muitas vezes, mais do que +pilares muito simples, de +secção circular, quadrada ou rectangular. No +seculo XI, tambem se introduziu, áquem dos Alpes, o uso dos +pilares com angulos reintrantes para collocar duas ou quatro columnas +envolvidas, de que os constructores Lombardos se serviam já +no seculo VIII.<br /> + +<br /> + +As egrejas, parochias ruraes, de menor importancia teem muitissimas +vezes pilares quadrados, curtos, sem base nem capitel, ou tendo por +ornamento unicamente uma ou duas molduras pouco salientes que fazem +parte do capitel.<br /> + +<br /> + +Durante o periodo Roman, principalmente no seculo XII, muitos dos +fustes das columnas foram cobertos de esculpturas variadas, consistindo +em figuras geometricas, espiraes, torç +Durante o periodo Roman, principalmente no seculo XII, muitos dos +fustes das columnas foram cobertos de esculpturas variadas, consistindo +em figuras geometricas, espiraes, torçaes, +galões, +botões, folhagens, cordões, animaes e mesmo +representações de assumptos historicos ou +legendarios. Estes ornatos são communs principalmente no Sul +da Europa. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p77">[77]</a></span> +No fim do periodo Roman e no principio da época Ogival, as +columnas são +<em>anneladas</em>, isto é, formadas d'uma +especie de tóro á +roda do fuste.<br /> + +<br /> + +As columnas <em>anneladas</em> constituem um +dos caracteres dos monumentos da transição do +estylo Roman para o estylo Ogival. Tambem se encontram d'estes anneis +nas nervuras das abobadas. No seculo <em>XII</em>, as +columnas +são tambem ás vezes duplas ou enfeixadas.<br /> + +<br /> + +As bases das columnas são variadissimas.<br /> + +<br /> + +Muitas das que se encontram nos edificios mais antigos assimilham-se +ás bases Lombardas, mas sem ter garras.<br /> + +<br /> + +As bases ornadas com esculpturas, muito communs no Sul da Europa, +são raras nos paizes do Norte.<br /> + +<br /> + +Foi no meado do seculo XI que começou a apparecer, +áquem dos Alpes, o ornato chamado +<em>garra</em>, que os lombardos já tinham usado +muito tempo antes.<br /> + +<br /> + +A garra Romã tem em geral a fórma d'uma folha +applicada sobre o tóro inferior da base no angulo do +plintho, e tambem ás vezes, a d'uma carranca ou d'um animal +phantastico.<br /> + +<br /> + +Desde o principio do seculo XII, os constructores romans achatam a +forma do tóro inferior, quando a base se approxima da forma +Attica; um pouco mais tarde apparece entre os tóros das +bases, a moldura concava, bastante profunda, que fórma um +dos +caracteres distinctivos dos monumentos +<span class="pagenum"><a name="p78">[78]</a></span> +do fim do seculo XII e da +primeira metade do XIII.<br /> + +<br /> + +Os capiteis de architectura Roman são variadissimos. Ha uns +que apenas se compõem de duas ou tres molduras curvas ou +chanfradas, imitando o capitel toscano ou dorico.<br /> + +<br /> + +A cornija dos capiteis é umas vezes elevada e coroada com um +ábaco saliente, e outras baixa, tendo um ábaco +que não resalta o fuste da +columna.<br /> + +<br /> + +Encontram-se, em muitos monumentos Romans, capiteis chamados <em>cubicos</em>, +porque +têem a configuração d'um cubo. Estes +capiteis são algumas vezes chanfrados nos angulos inferiores +e em geral arredondados na parte inferior.<br /> + +<br /> + +A parte inferior do capitel cubico +<em>Rhenano</em>, do seculo XII, era muitas vezes dividida +em quatro +porções de esphera, formando assim um grupo de +quatro capiteis reunidos debaixo de um mesmo ábaco, mas foi +ainda augmentado o numero das subdivisões, produzindo d'este +modo os capiteis cubicos <em>canellados</em> ou com +resaltos redondos, +que se encontram principalmente na Inglaterra e no Noroeste da +França.<br /> + +<br /> + +No tempo da formação do estylo Roman, a arte da +esculptura estava quasi totalmente perdida áquem dos Alpes. +Os que primeiro tentaram manejar o cinzel esforçaram-se em +reproduzir, melhor ou peior, os antigos ornatos que tinham á +vista; as +producções d'estes artistas improvisados +são imperfeitas e grosseiras. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p79">[79]</a></span> +Encontram-se em muitos monumentos Belgas do seculo XII, capiteis cuja +ornamentação, simples e +rudimentar, consiste unicamente em folhas applicadas sobre o +açafate, e algumas vezes contornadas em voluta debaixo dos +angulos do ábaco.<br /> + +<br /> + +Os capiteis de quasi todos os grandes monumentos dos seculos XI e XII, +são decorados de esculpturas ou de pinturas de +côres carregadas. Os ornatos consistem em galões +imitando perolas, folhagens encrespadas, florões +artisticamente executados, animaes symbolicos, animaes phantasticos +isolados ou em grupos, assumptos tirados da lenda ou da historia, +principalmente do Velho e Novo Testamentos.<br /> + +<br /> + +O capitel de <em>crochets</em> usou-se na +Belgica e em algumas partes da Allemanha desde o fim do periodo Roman. +Dá-se o nome de +<em>crochets</em> e algumas vezes tambem o de <em>baculo +vegetal</em>, +ás folhas mais ou menos compridas, recurvadas em voluta na +sua extremidade.<br /> + +<br /> + +Chama-se <em>arcada</em> toda a abertura, +real ou simulada, contornada por uma archi-volta; e +<em>arcadura</em>, uma arcada de pequenas +dimensões.<br /> + +<br /> + +Até ao seculo XI serviam-se geralmente do arco de volta +inteira ou formado por um semi-circulo para ligar duas columnas ou os +dois pontos extremos d'uma arcada. Nos seculos XI e XII, +começam a apparecer novas formas d'arcos: 1.º, o +arco <em>elevado</em>, +cujos dois ramos +descendentes se prolongam verticalmente abaixo do centro gerador; +2.º, +o arco em fórma de ferradura produzido por +<span class="pagenum">[80]</span> +uma parte da circumferencia que excede o +semi-circulo; 3.º o arco de volta abatida ou em aza de cesto, +formado +por uma semi-ellypse cortada segundo a direcção +do eixo maior; 4.º, o arco de tres lóbulos cujo +intradoz +é composto de tres +lóbulos.<br /> + +<br /> + +As paredes interiores lateraes das egrejas, as capellas, as casas +capitulares são em geral ornadas, na sua parte inferior, com +arcaduras sustentadas por pequenas columnas mais ou menos embebidas no +pé-direito e firmadas sobre um sócco de pedra +collocado em roda de todo o edificio.<br /> + +<br /> + +As arcaduras tambem são muitas vezes empregadas, no exterior +dos edificios, para a decoração das fachadas. +Encontram-se egualmente sobre as outras partes dos monumentos arcadas +pouco salientes, cujas extremidades assentam sobre modilhões +muitas vezes executados apenas de feitio chanfrado, e ainda +ás vezes ornadas de esculpturas. Em alguns casos foram os +modilhões substituidos por grupos de columnas embebidas.<br /> + +<br /> + +As arcaduras servem principalmente para ornamentar as partes lisas das +paredes debaixo das cornijas, os parapeitos das janellas e as +platibandas de que se servem para as ligar entre si pelas faixas +muraes.<br /> + +<br /> + +Estas arcaduras foram imitadas do estylo Lombardo. Tambem se encontram +principalmente nos edificios romans da Allemanha, da Inglaterra e +d'algumas partes da França.<br /> + +<br /> + +Chamam-se <em>Triforiums</em> as galerias +mais ou menos +<span class="pagenum"><a name="p81">[81]</a></span> +largas, que +ficam por cima das arcadas das naves lateraes das egrejas, ou +simplesmente por cima das archivoltas das grandes arcadas que ligam +dois pilares contiguos.<br /> + +<br /> + +Encontram-se <em>Triforiums</em>, que +abrangem todo o comprimento do corpo da egreja, nos edificios +Lombardos.<br /> + +<br /> + +Os <em>Triforiums</em> estreitos +são posteriores ao seculo XII, e só durante o +periodo Ogival é que se generalisou o seu emprego.<br /> + +<br /> + +A cornija compõe-se d'uma pedra mais ou menos saliente sobre +a face das paredes de maior ou menor grandeza, segundo a maior ou menor +dureza dos materiaes de que dispomos.<br /> + +<br /> + +A cornija é sustentada por consólas ou +modilhões collocados regularmente por baixo das juntas das +pedras que formam as cornijas. Os modilhões têem a +fórma d'um curvo ou d'um florão. +Chama-se <em>curvo</em> um +modilhão simples, que fica saliente sobre a face d'uma +parede ou d'um pilar e que tem as duas faces lateraes parallelas e +perpendiculares á mesma parede; e com feitio de +florão, é uma consóla que +não tem as faces nem +parallelas, nem perpendiculares á parede. Ás +vezes +são os curvos e esses florões ornados de +esculpturas representando cabeças humanas, figuras +grotêscas, carrancas, monstros, volutas, etc.<br /> + +<br /> + +A maior parte dos edificios do periodo roman não tinham +abobadas senão no abside do +côro, no pavimento inferior dos campanarios e algumas vezes +ao de cima das naves lateraes. A nave central +<span class="pagenum">[82]</span> +era ordinariamente coberta com um +simples tecto de madeira. As abobadas que hoje se vêem em +muitas egrejas do estylo roman foram construidas em epoca bem mais +recente.<br /> + +<br /> + +Nos edificios religiosos que tinham a nave principal coberta +d'abobadas, eram estas d'aresta geralmente em nervuras; e como succede +nas egrejas lombardas, a cada arco da nave central correspondiam nas +paredes lateraes dois arcos de menores dimensões. Para +supportar a pressão +obliqua, exercida sobre os pilares e sobre as altas paredes da nave +pela abobada da nave central, os architectos romans seguiram dois +systemas.<br /> + +<br /> + +Uns, imitando os constructores lombardos, construem as paredes lateraes +quasi da altura da nave e dispõem as abobadas de maneira que +supportem a curva da abobada central. Outros construem nas paredes +lateraes abobadas semi-circulares ou de quarto de cylindro, cuja parte +inferior assenta sobre as paredes mestras do edificio, e a parte +superior vem apoiar-se contra a principal parede da nave central no +logar onde começa a sua abobada.<br /> + +<br /> + +Até ao principio do seculo XII, os arcos duplos +compõem-se de uma ou de duas ordens de cunhas de cantaria +geralmente sem molduras nem ornatos, e apresentam uma +secção quadrada ou rectangular. No fim do periodo +roman, e mais tarde ainda, os angulos do intradoz do arco dobrado +têem regularmente o feitio de tóros.<br /> + +<br /> + +As nervuras das abobadas d'aresta consistem em um simples +tóro, algumas vezes acompanhado de +<span class="pagenum"><a name="p83">[83]</a></span> +dois ou quatro tóros de menor +espessura. No fim da época Roman, e durante o periodo da +transição, o tóro principal foi em +certos paizes achatado e composto de uma aresta viva no intradoz. As +nervuras das abobadas do estylo Roman são muito mais toscas +que as das Ogivaes.<br /> + +<br /> + +Os architectos dos seculos XII, XIII e XIV decoravam algumas vezes o +nascimento das nervuras das abobadas superiores ao capitel com molduras +geometricas.<br /> + +<br /> + +Chamam-se <em>contrafortes</em> aos pilares +embebidos nas paredes exteriores dos edificios, e que servem para +sustentar e diminuir a pressão das abobadas, ou supportar o +peso do madeiramento do telhado. Estes apoios correspondem sempre +exactamente (nos monumentos que não têem abobadas) +aos pontos onde assentam as asnas do madeiramento, e nos edificios +abobadados, aos pontos onde vem exercer-se a pressão +combinada dos arcos duplos e das nervuras das abobadas.<br /> + +<br /> + +Nas construcções de architectura Roman, +especialmente nas mais antigas, os contrafortes apresentam-se algumas +vezes com a apparencia de uma pilastra semi-cylindrica.<br /> + +<br /> + +No XI, e principalmente no seculo XII, apresentam os contrafortes +variadissimas fórmas. Uns são muito largos na +base, e diminuem successivamente em cada um dos seus tres lados +isolados; outros, mais delgados, têem sempre a mesma largura +entre as duas faces lateraes e parallelas, e não diminuem +senão na face exterior, em que essa +diminuição +<span class="pagenum"><a name="p84">[84]</a></span> +se faz +successivamente em diversas partes +na sua total elevação. Alguns ha que +têem sempre as mesmas dimensões em todas as faces, +sem saliencia nem resalto algum, desde a base do edificio +até á cornija.<br /> + +<br /> + +Os madeiramentos nos telhados dos edificios do estylo Roman +são raros.<br /> + +<br /> + +Na Europa Occidental os telhados conservaram até ao seculo +XII uma pequenissima +inclinação.<br /> + +<br /> + +É só no meiado d'este seculo, e até +mesmo mais tarde, que se encontram declives com excessiva correnteza +nos telhados dos edificios da edade média.<br /> + +<br /> + +As <em>Torres</em>, tanto na Europa Central +como na Occidental, anteriores ao seculo XI, são em geral +quadradas, e sem nenhum ornamento, ou apenas ornadas com simples +arcadas, e ordinariamente cobertas por um telhado de quatro abas de +fórma concava, formando uma pyramide obtusa.<br /> + +<br /> + +Os campanarios do seculo XI, e sobretudo do XII, são mais +elevados e ornamentados que os dos seculos precedentes. +Compõem-se de dois e mais pavimentos, que se +sobrepõem, e cujas dimensões vão +muitas vezes diminuindo successivamente. A sua fórma e +aspecto geral variam de um paiz para outro.<br /> + +<br /> + +Os campanarios isolados, que são quasi exclusivamente +proprios da Italia, distinguem-se por mais duas especies.<br /> + +<br /> + +Ha uns construidos no ponto de intersecção do +<span class="pagenum">[85]</span> +transepte com a nave +principal, e ainda outros edificados ora sobre a fachada, ora sobre as +extremidades do côro ou do transepte. Os primeiros assentam +sobre quatro grossos pilares: os segundos erguem-se perpendiculares +sobre os seus quatro lados; ou são sustentados por arcadas +abertas sobre uma, duas e até mesmo tres das suas faces.<br /> + +<br /> + +Os campanarios centraes têem em geral differentes +fórmas. Ha-os quadrados, octogonaes, e ainda com muito maior +numero de lados; existem tambem alguns em fórma de +cúpula.<br /> + +<br /> + +Os campanarios da fachada, e os construidos proximo do côro +ou dos transeptes das egrejas, apresentam ainda fórmas mais +variadas que os centraes. Os mais simples são quadrados e +divididos tanto interior como exteriormente em dois ou mais pavimentos. +Outros, elevando-se sobre uma base quadrada, tornam-se em polygonos de +maior numero de lados logo no primeiro ou segundo andar, tendo em geral +a fórma octogonal.<br /> + +<br /> + +No XI e no XII seculo eram os campanarios cobertos de madeira com +feitio de flecha ou de pyramides construidas de pedra; quadrados ou +octogonaes, eram pouco elevados e acachapados. Os angulos das pyramides +de base quadrada eram ás vezes ornados com pequenos +campanarios. Muitos remates de cantaria foram destruidos pelas chuvas e +pelos gêlos, e depois substituidos nos seculos XIII e XIV +pelas flechas esguias.<br /> + +<br /> + +Algumas torres tinham por cobertura um telhado +<span class="pagenum"><a name="p86">[86]</a></span> +apenas com duas abas, terminando +por uma empêna em cada um dos lados. As torres cobertas por +este modo só se usaram durante uma parte do periodo Ogival.<br /> + +<br /> + +Os pavimentos em <em>opus alexandrinum</em> +continuaram a usar-se na Italia e em todos os paizes aonde havia +marmore. Na Allemanha, na França e na Belgica, por exemplo, +serviam-se de tijolos de terra, cota esmaltada, ou de pedras gravadas e +com embutidos de massa colorida. Até ao fim do seculo XII +cada tijolo tinha a sua côr propria. As côres que +se encontram nos pavimentos do fim do periodo Roman, são a +preta, cinzenta, vermelha, e principalmente amarella e verde-escuro. As +duas ultimas predominam em quasi todos os trabalhos d'este genero do +seculo XII.<br /> + +<br /> + +No Oriente e no Sul da Europa, os edificios historicos, legendarios e +symbolicos eram bastante communs no seculo XII; tambem se viam alguns +na Europa Occidental.<br /> + +<br /> + +Se, na sua origem, a pintura das paredes imitou as mesmas +fórmas que tinha o mosaico, e se inspirou dos principios +d'esta arte, não podia tardar muito que ella tomasse mais +livre desenvolvimento e adquirisse certos principios que lhe fossem +especiaes em consequencia da propria natureza dos seus processos e da +maneira por que estes satisfazem a vontade do artista.<br /> + +<br /> + +Com effeito, a pintura liga-se ás fórmas da +architectura até nas mais delicadas molduras; e por +conseguinte de um modo mais intimo que o mosaico. +<span class="pagenum">[87]</span> +Desde os primeiros seculos +até á +época da Renascença, a pintura das paredes +pôde, sem +duvida, modificar o estylo do desenho, e variar o tom e a harmonia das +côres empregadas, seguindo o progressivo desenvolvimento da +arte de construir, mas ficou sempre subordinada á +architectura.<br /> + +<br /> + +A pintura monumental differe muito da que se emprega ordinariamente +n'um painel.<br /> + +<br /> + +Um painel, no sentido moderno da palavra, não é +mais do que uma scena mostrada nos limites de um quadro, atravez de uma +janella aberta. A pintura monumental, pelo contrario, é uma +arte convencional na qual a imitação da natureza, +a +reproducção das suas fórmas e dos +phenomenos atmosphericos que ella apresenta, quasi que por assim dizer +não existem.<br /> + +<br /> + +A figura humana e as composições em que esta +apparece em grupos são geralmente reservadas para as grandes +superficies planas das paredes; só muito raramente se +encontram nas pilastras e nas columnas. Por toda a parte o symbolismo +ou a allegoria constitue um dos grandes caracteres tanto da pintura das +paredes como de todas as artes em geral durante o periodo de que nos +occupamos.<br /> + +<br /> + +As pinturas historicas eram tratadas da maneira mais simples. O artista +apenas faz figurar o numero de figuras estrictamente necessario para a +composição do assumpto de que trata. As +côres são applicadas com tintas eguaes, sem +indicar sombras +<span class="pagenum"><a name="p88">[88]</a></span> +nem os +differentes accidentes da luz, de fórma que é +muitas vezes impossivel determinar qual o lado por onde o artista teve +em vista que a scena fosse illuminada. As partes salientes dos corpos +são regularmente indicadas por traços finos, e os +contornos são representados com linhas cheias.<br /> + +<br /> + +A pintura a <em>fresco</em>, que tem a +vantagem de produzir tons agradaveis, foi a preferida para as pinturas +historicas e legendarias. A +<em>encaustica</em> foi tambem escolhida para certos +trabalhos. A intensidade e a harmonia dos tons que resultam do emprego +da cêra, a possibilidade de nos occuparmos +<a href="#e2">indefinidamente</a> do trabalho +já começado fizeram com que muitas vezes fosse +adoptado este processo. Com effeito até mesmo a pintura a +oleo é tambem muito antiga. Durante toda a edade +média eram preferidos os outros processos, por meio dos +quaes, obtendo-se tons baços, evitavam o reflexo +tão desagradavel na pintura das paredes.<br /> + +<br /> + +Durante a edade média a primeira pedra do alicerce dos +edificios religiosos era regularmente ornada com uma cruz e uma +inscripção. A sua +collocação era feita com grandes solemnidades: um +prelado ou um dignitario ecclesiastico a benzia publicamente, e elle +proprio a collocava na base de um dos principaes pontos de apoio da +construcção. +<br /> + +<br /> + +Tambem muitas vezes se serviam de inscripções +lapidares para conservar a memoria da fundação do +edificio e o nome do architecto ou do mestre da obra. Em algumas +egrejas encontram-se pedras com dedicatorias indicando a data da +consagração, +<span class="pagenum"><a name="p89">[89]</a></span> +os nomes dos santos cujas +reliquias se acham depositadas no altar, e até mesmo o nome +do orago da egreja.<br /> + +<br /> + +Os altares eram uns fixos e outros portateis.<br /> + +<br /> + +<em>Altares fixos</em>.―As mesas dos altares +fixos, ordinariamente de marmore ou de pedra, e de fórma +quadrada ou rectangular, continuaram até meiado do seculo +XII a ser vasadas em fórma de bandeja, como já se +usára no periodo Latino.<br /> + +<br /> + +O supporte da mesa do altar consiste, muitas vezes, em uma simples base +cubica de alvenaria sem ornamentação alguma, e +algumas vezes tendo em roda uma inscripção e um +simples rebordo. Nos dias solemnes cobriam-se estes altares com alfaias +de lã e seda ou de outros tecidos preciosos.<br /> + +<br /> + +Outras vezes o altar é sustentado por uma ou muitas pequenas +columnas.<br /> + +<br /> + +Os altares de fórma cubica eram muitas vezes revestidos de +oiro e de prata e esmaltados, tendo tambem pedrarias, ou ornados com +esculpturas e pinturas.<br /> + +<br /> + +A face dos altares, com esculpturas, ou pintados, era em geral dividida +em tres compartimentos com a fórma de arcadas mais ou menos +ricamente decoradas. Jesus Christo lançando a +benção, de pé ou sentado, occupa +ordinariamente a parte central, que é muitas vezes a mais +elevada, ou com a fórma +de uma auréola oval ou de quatro lóbulos. Nas +arcadas lateraes vêem-se figuras de santos e os symbolos dos +evangelistas, que se acham dispostos +<span class="pagenum">[90]</span> +ou em torno do compartimento do +meio, ou nos fundos das arcadas.<br /> + +<br /> + +O altar principal das grandes egrejas era muitas vezes, como succedia +no periodo Latino, encimado por um <em>ciborium</em>, e o +mesmo acontecia +com alguns dos altares lateraes.<br /> + +<br /> + +No final do XI +seculo +começou o uso dos retabulos, isto é, dos paineis +ou quadros assentes verticalmente ao fundo dos altares propriamente +ditos. O retabulo não constitue por si só uma +parte essencial do altar, mas sim um accessorio. O seu primitivo e +principal fim é promover a +devoção entre o padre que offerece o santo +sacrificio e os fieis que a elle assistem, fazendo-lhes ver assumptos +religiosos produzidos pelo cinzel, esculptura, pintura, etc.<br /> + +<br /> + +A principio era pouco elevado, attingiu uma excessiva altura no fim do +periodo ogival e na época da Renascença.<br /> + +<br /> + +Representavam-se nos retabulos os mesmos assumptos que nas alfaias: +Christo, sentado ou em pé, occupava em geral o painel do +centro, tendo imagens de Santos e assumptos tirados da Historia +Sagrada, ou da lenda, em arcadas lateraes, ou em medalhões +de diversas fórmas, collocados em redor da imagem do +Salvador.<br /> + +<br /> + +A maior parte dos primitivos retabulos eram de oiro, prata ou cobre +doirado e esmaltado: todavia alguns se encontravam, ainda que em menor +numero, construidos de pedra e de madeira pintada ou esculpida. Estes +ultimos só se generalisaram +<span class="pagenum">[91]</span> +no fim do periodo roman e no principio da +época ogival.<br /> + +<br /> + +A principio os retabulos serviam tambem para encerrar os relicarios +quando elles não tinham mais ornamentos, ou para os +emmoldurar quando os seus frontaes eram ricamente adornados. Parece ter +sido nos mosteiros que este uso teve principio. Durante o XI seculo, a +maior parte das abbadias da Europa Central e Occidental mudaram a +disposição interior das egrejas no que diz +respeito ao logar reservado aos religiosos durante a +celebração do Santo Officio: as cadeiras ou +bancos dos padres, que d'antes occupavam o proprio côro do +abside, foram transportadas para o transepte, e desciam ordinariamente +até á segunda ou +terceira arcada da nave principal, como na egreja +d'Alcobaça.<br /> + +<br /> + +Ao fundo do Sanctuario, proximo á curvatura do abside, +elevava-se o altar das reliquias, atraz ou debaixo do qual eram +expostos os restos mortaes dos Santos, que até ali se tinbam +conservado religiosamente nas cryptas das egrejas.<br /> + +<br /> + +Algumas vezes as reliquias eram encerradas em caixas ou cofres e +collocadas no interior do altar.<br /> + +<br /> + +Tambem se expunham mesmo sobre os altares, como succedia no IX seculo; +mas não é facil +actualmente determinar se esta exposição era +permanente ou temporaria, isto é, durante certas +solemnidades religiosas extraordinarias.<br /> + +<br /> + +Comtudo, está provado que existia em muitos paizes o costume +de se conservarem os relicarios +<span class="pagenum">[92]</span> +sobre os altares. Este costume pouco a +pouco se foi generalisando, pelo menos em alguns d'elles. Quando esta +exposição se realisava por detraz dos +altares, o cofre era collocado pouco mais ou menos dois metros acima do +piso e sustentava um dos lados triangulares sobre o proprio altar, ou +então sobre um retabulo de pedra, collocado em cima +d'aquelle, mas pouco elevado, e o outro sobre uma consola ou um grupo +de columnas junto á parede absidal ou interior da egreja.<br /> + +<br /> + +Os fieis podiam circular em torno do altar e vir collocar-se +directamente debaixo das reliquias. O uso de passar debaixo dos +relicarios, quer de pé, quer de joelhos, ainda hoje existe +em muitos paizes catholicos. Quando a parte superior da urna, que vinha +assentar sobre o altar, era desprovida de qualquer ornato, cobria-se +então com um retabulo de metal ou de pedra; se pelo +contrario, como succedia com as urnas de oiro, de prata ou de cobre +doirado e esmaltado, tinha figuras primorosamente executadas, ficava +inteiramente livre e visivel por detraz do altar. Construia-se +então por cima da urna uma especie de tabernaculo ou de +baldaquino. Algumas vezes ornamentavam a parte central do lado +triangular, com um retabulo de metal precioso.<br /> + +<br /> + +O altar-mór das cathedraes assim como das collegiaes que +não possuiam grandes reliquias, só veiu a ter +retabulo no XIV seculo. Tanto no XII como no XIII seculo, se collocavam +n'estes edificios retabulos sobre os altares secundarios do +<span class="pagenum"><a name="p93">[93]</a></span> +transepte e das Capellas absidaes. Estes +retabulos eram de pouca espessura, não se lhes podendo +collocar em cima nem crucifixos, nem candeeiros.<br /> + +<br /> + +<em>Altares portateis</em>.―Apresentam +ordinariamente, bem como os do periodo Latino, a fórma de um +parallelogrammo rectangular, e são compostos de uma lagea de +marmore ou de pedra mettida n'um caixilho de carvalho e guarnecida com +bordados de oiro ou de prata, de modo a não tornar visivel +senão a parte superior da placa.<br /> + +<br /> + +A lagea que constituia o altar propriamente dito era de porphyro, de +jaspe, de onyx, de crystal de rocha, de pedra preta e até +mesmo de ardosia. Tambem algumas vezes constava de uma pedra preciosa +unicamente como recordação historica que a ella +estava ligada, por exemplo, um fragmento das lageas tintas com o sangue +de S. Thomaz de Cantorbery.<br /> + +<br /> + +As reliquias, cuja presença é de rigor em todo o +altar, encontram-se entre a lagea de marmore ou de pedra e o caixilho +de madeira: algumas vezes era este concavo em fórma de +recipiente. Em geral os altares portateis são de pequena +altura, apenas alguns têem a fórma de um pequeno +cofre sustentado +por pés pouco elevados. As laminas de metal que constituem +os adornos são muitas vezes cobertas com filigranas, de +pedrarias, de folhagens gravadas, ou de figuras esmaltadas.<br /> + +<br /> + +Usaram-se estes altares até ao final do seculo XIII.<br /> + +<br /> + +<em>Piscinas</em>.―A +ablução das mãos, tanto antes como +depois do sacrificio da missa, foi sempre um dos +<span class="pagenum">[94]</span> +preceitos dos padres. Deitava-se nas +piscinas não sò a agua de que o padre se servia +para a +ablução das mãos, mas até +mesmo aquella de que os ministros se serviam para lavar tanto os +calices ordinarios como os ministeriaes em seguida á +communhão do padre e dos fieis.<br /> + +<br /> + +N'esta época o padre não tomava as +abluções do mesmo modo que actualmente.<br /> + +<br /> + +Algumas piscinas, que são as mais antigas, têem +apenas uma abertura ou concavidade para dar passagem á agua; +ha porém outras que têem duas, uma para escoadouro +das aguas ordinarias, e outra para receber as +abluções das mãos.<br /> + +<br /> + +As primeiras chamam-se <em>piscinas +simples</em>, e as segundas <em>duplas</em>. As mais +antigas +são de uma grande simplicidade, pois muitas vezes apenas +constavam de uma bacia, ou escavada no proprio banco de pedra que havia +junto á parte inferior das paredes, ou sustentada por uma +pequena columna isolada, ou por muitas formando grupo. As piscinas que +são sustentadas por columnas chamam-se +<em>pediculadas</em>.<br /> + +<br /> + +No XII seculo começou-se a collocar +<em>piscinas</em> em nichos abertos nas paredes exteriores +da egreja. As piscinas duplas só no fim do XII seculo +appareceram.<br /> + +<br /> + +<em>Doceis</em>.―Foi durante o periodo roman +que maior uso tiveram os doceis. Em geral consistem n'uma especie de +cúpula quadrada ou polygonal, de marmore, de estuque, ou de +pedra. Muitas vezes têem um leão sentado entre a +base e o fuste +<span class="pagenum"><a name="p95">[95]</a></span> +das columnas. A +face anterior da cúpula é quasi sempre munida de +uma estante, sobre a qual o diácono ou o leitor collocava o +livro sagrado.<br /> + +<br /> + +Esta estante assentava ordinariamente na cabeça de uma +aguia, symbolo do Evangelista S. João; e algumas vezes na de +um homem munido de azas, emblema de S. Matheus. Quando a estante +assentava sobre a cabeça de aguia ou de homem com azas, os +symbolos dos outros evangelistas estavam tambem, ás vezes, +representados nos angulos da base da cúpula.<br /> + +<br /> + +Nas egrejas mais ricas havia mesmo doceis cuja cúpula era +revestida de oiro, de prata, e de laminas esmaltadas, ou decorada com +esculpturas sobre marfim.<br /> + +<br /> + +<em>Cadeiras episcopaes ou do clero</em>.―A +cadeira episcopal nas cathedraes, ou do celebrante nas egrejas +inferiores, achava-se regularmente, como no periodo Latino, no fundo do +abside do côro, contiguo á muralha; e aos lados +estendiam-se os bancos ou cadeiras destinadas ao clero. Esta +disposição, +que foi conservada até nossos dias em algumas egrejas +romans, era a que havia em todas as egrejas seculares, tanto +cathedraes, como collegiaes e parochiaes.<br /> + +<br /> + +Havia, já o dissemos, algumas +excepções a esta regra, como succedia com certas +collegiaes que possuiam um altar das reliquias no fundo do +côro, e com as egrejas monasticas. N'estas ultimas cedo foram +mudadas as cadeiras para o transepte, e mesmo para o corpo da nave; sem +duvida por +<span class="pagenum"><a name="p96">[96]</a></span> +causa do grande numero +de religiosos, que era impossivel collocar convenientemente na +curvatura do côro.<br /> + +<br /> + +Durante a maior parte do periodo roman os bancos dos padres foram de +marmore ou de pedra como anteriormente. As cadeiras ou +<em>fórmas</em>, <em>formulae</em>, +de madeira, foram +raras até ao fim do XII seculo; apenas se encontram algumas +que escaparam á destruição. +Vê-se +perfeitamente que estas cadeiras, apezar de bem feitas em madeira, +imitam todavia exactamente as antigas de pedra.<br /> + +<br /> + +<h4>Capellas funerarias, tumulos e pedras +tumulares</h4> + +<br /> + +<em>Capellas funerarias</em>.―Construiram-se +algumas vezes, nos cemiterios e na proximidade das egrejas, capellas +funebres, de fórma circular ou polygonal, á +similhança da rotunda construida pelo imperador +Constantino sobre o Santo Sepulchro, ou o mausoléu de +Theodorico em Ravenna (Italia).<br /> + +<br /> + +<em>Tumulos</em>.―O costume de encerrar em +sarcophagos os restos mortaes das pessoas ricas e poderosas existiu no +Norte da Europa até ao XII seculo, e nos paizes meridionaes, +isto é, no Sul da França, na Italia e na Hespanha +existiu pelo menos até ao XIV. Estes sarcophagos constavam, +como no periodo antecedente, de cofres oblongos, de pedra ou de +marmore, muitas vezes mais estreitos para o lado dos pés, e +fechados por uma tampa convexa ou em fórma de telhado de +duas aguas. Eram esculpidos com ornatos e symbolos; florões, +folhagens, monogrammas, cruzes e alguns assumptos +<span class="pagenum">[97]</span> +allegoricos. Collocavam-nos +habitualmente sobre pequenos pilares grossos, ou sobre columnas curtas +só com o fim de os isolar do solo.<br /> + +<br /> + +Durante o periodo roman tambem foi adoptado o uso dos <em>cenotaphios</em> +que consistem +em sócos de pedra, macissos d'alvenaria ou grupos de +columnas, assentes sobre uma sepultura subterranea e sustentando ou um +sarcophago simulado ou a effigie do defunto. Em tôrno do +sóco ou do macisso d'alvenaria acha-se disposta uma serie de +pequenas columnas. Umas vezes são unidas por meio d'arcos, +outras, o rebordo da grande lage que corôa o sóco +é apoiado sobre as columnas. No XII seculo, os cenotaphios +começaram a ser encimados pela effigie do defunto, esculpida +em relevo e ás vezes até mesmo gravada ao +traço ou representada em esmalte. O personagem é +geralmente collocado estendido sobre um leito e tem todas as insignias +da sua dignidade; os bispos estão com a mitra e o +báculo pastoral; os reis e os principes, com o sceptro e a +corôa. Estas estatuas deitadas não apresentam o +aspecto d'um morto; porque têem os olhos abertos, os gestos e +attitudes de pessoas vivas.<br /> + +<br /> + +Alguns anjinhos fazem balancear thuribulos ou sustentam a almofada +sobre que assenta a cabeça do personagem.<br /> + +<br /> + +<em>Tumulos não apparentes</em>. +Consistem, como os do periodo anterior, em cofres de pedra ou de +alvenaria mais largos do lado da cabeça que dos +pés e fechados por uma tampa chata ou prismatica. +<span class="pagenum"><a name="p98">[98]</a></span> +No interior do cofre encontra-se algumas +vezes, principalmente do XI até ao XIV seculo, um +espaço +circular destinado a receber a cabeça do cadaver. Alguns +têem no fundo dois regos, no prolongamento dos quaes +está feita uma abertura destinada a dar vasão +ás materias viscosas.<br /> + +<br /> + +<em>Pedras tumulares</em>. O uso das pedras +tumulares continuou durante o periodo roman. Em geral têem a +fórma d'um trapezio; algumas tambem, as mais antigas, +são rectangulares. A sua +decoração em geral consiste em figuras +geometricas, folhagens ou figuras symbolicas, e raras vezes se +lê o nome do defuncto, e a causa e data do seu fallecimento.<br /> + +<br /> + +<em>Pias baptismaes</em>. As pias baptismaes +eram de grandes dimensões durante todo o periodo roman, por +isso que se continuou a administrar o baptismo por immersão +até ao XII seculo. As pias eram em geral de pedra; comtudo +algumas havia de bronze e outras de cobre. Em França e +especialmente na Inglaterra tambem as havia de chumbo.<br /> + +<br /> + +As pias romans eram de variadissimas fórmas; sendo algumas +similhantes a uma vasilha.<br /> + +<br /> + +O grande impulso que na Allemanha teve a arte da ourivesaria durante o +XI seculo, longe de affrouxar no seculo seguinte, pôde +conservar-se na vanguarda do movimento artistico da Europa Central e +Occidental.<br /> + +<br /> + +Com a applicação do +<em>esmalte</em>, os objectos d'ourivesaria mudaram +completamente d'aspecto no XI e XII seculos. Até ali a +accumulação das pedrarias +<span class="pagenum"><a name="p99">[99]</a></span> +ligadas por folhagens de +filigranas constituia todo o segredo +d'ornamentação dos ourives do +Occidente; desde o fim do X seculo que as laminas duplas e lavradas +alternam a maior parte das vezes com laminas esmaltadas. Estas +encontram-se não só nas grandes peças +d'ourivesaria, taes como as molduras e as alfaias dos altares, mas +até nos menores objectos.<br /> + +<br /> + +Os primeiros esmaltes fabricados na Allemanha foram engastados em ouro +e prata, semelhantes aos que os Bysantinos fabricavam durante a segunda +metade do X seculo; mais tarde tambem se empregou o cobre com o qual se +douravam as partes que ainda ficavam visiveis depois da +incrustação do esmalte. Foi a começar +no XI seculo que em algumas localidades substituiram o esmalte +introduzido no rebaixo pelo dividido em +separação.<br /> + +<br /> + +Até meado do seculo XII, a influencia Bysantina é +apparente nos esmaltadores Rhenanos. Durante bastante tempo, com +effeito, os esmaltadores allemães imitaram o estylo +Oriental, reproduzindo mais ou menos fielmente typos bysantinos, +modificando-os comtudo segundo o seu proprio engenho. Os seus processos +technicos tambem se resentem da origem Bysantina da arte +allemã: é assim, por exemplo, que, nos esmaltes +em separação, e +até mesmo nos mais antigos esmaltes executados em rebaixos, +as carnações são +substituidas pela pasta vitrea, a exemplo do que se praticava em +Constantinopla. Com tudo isto, os esmaltadores das margens do Rheno +não tardaram em gravar sobre metal +<span class="pagenum">[100]</span> +reservado, as figuras de pequenas +dimensões, emquanto que para as grandes, continuaram ainda, +durante algum tempo, a esmaltar as roupas; e n'este caso só +se serviam da gravura para as +carnações. No final do XII seculo, para proceder +sem duvida d'uma maneira mais expedita, começaram a gravar +figuras inteiras, ainda mesmo que tivessem uma certa grandeza, e quasi +que não era preciso gravar com esmaltes os entalhos, muitas +vezes grandes e profundos da gravura.<br /> + +<br /> + +Em França, os ourives do XI seculo e dos primeiros annos do +XII, continuaram a servir-se exclusivamente, para a +decoração das suas obras, de placas cinzeladas ou +até simplesmente estampadas, e +d'applicações de pedrarias ligadas com +filigranas. Até 1145 os ourives francezes ignoravam o modo +de gravar do esmalte; tanto que, quando no principio d'esse anno, <em>Suger</em>, +abbade +do mosteiro de S. Diniz, proximo de Paris, quiz mandar fazer uma peanha +e cobril-a de placas de esmalte engastadas sobre cobre, viu-se +obrigado, segundo elle mesmo conta, a chamar em seu auxilio ourives da +Lotharingia, em numero de cinco ou sete, que tiveram o trabalho de +terminar esta obra em dois annos.<br /> + +<br /> + +As producções dos primeiros esmaltadores +francezes apresentam grandes analogias com as dos allemães +do Rheno, que vieram ensinar a arte de esmaltar, em França.<br /> + +<br /> + +Uma vez começado, o gosto pela ourivesaria esmaltada em +breve foi augmentando em França, e +<span class="pagenum"><a name="p101">[101]</a></span> +deu logar a que, em 1160, se creasse +uma celebre escola de esmaltadores em cobre cuja séde foi em +Limoges.<br /> + +<br /> + +Nos primeiros ensaios, os ourives de Limoges procuraram dar aos seus +esmaltes o aspecto do dos allemães; representavam as figuras +inteiras, até as proprias carnações, +com +côres d'esmalte; só aproveitavam o metal para lhe +fazer traçar as principaes linhas do desenho. Em pouco +tempo, para mais rapida e mais barata producção, +renunciaram a este processo e principiaram a gravar logo sobre o metal, +todas as figuras e a esmaltar <em>apenas</em> o fundo. +Muitas vezes +até substituiam as partes gravadas por figuras em +alto relevo de bronze fundido e cinzelado. Os esmaltadores de Limoges +cederam em parte a sua obra ao gravador, ao esculptor, ao fundidor e ao +cinzelador, limitando assim o seu trabalho á simples +decoração dos fundos, +operação que se tornava pouco +difficil.<br /> + +<br /> + +Pelo lado artistico o esmalte rhenano é muito superior ao de +Limoges. Os esmaltes fabricados no XI e no XII seculo nas margens do +Mósa, em Liêge, Maestricht, Stavelot, em Waulsort +e em Gembloux têem os caracteres da escola rhenana, cujo +principal centro de fabrico era em Colonia, constituindo por isso uma +variedade dos esmaltes rhenanos. As differenças que se +encontram entre os esmaltes com rebaixo de Limoges, os do Rheno e os do +Mósa são estas: nos primeiros predominam as +côres azul e verde claros, em quanto que nos outros +são o verde e o azul carregados. Os esmaltadores +<span class="pagenum"><a name="p102">[102]</a></span> +do Rheno e os do +Mósa servem-se d'algumas côres que lhes +são proprias; o bello azul de torqueza, o branco de leite, o +vermelho de purpura muito vivo e o preto. Os tons são mais +harmonicos na Belgica e na Allemanha, e mais vivos e asperos na +França. Os esmaltes do Rheno e do Mósa reproduzem +scenas em que toma parte um grande numero de personagens, com +inscripções latinas em verso, gravadas e +encrustadas de esmalte; nos de Limoges não se encontram +inscripções a não ser apenas um ou +outro nome. Os differentes lavôres que os esmaltadores do +Rheno e do +Mósa executavam sobre o cobre e com as +incrustações de esmalte, são notaveis +pelo bom gosto e variedade de assumptos, <a href="#e3">qualidade</a> +que se +não encontra entre os de Limoges.<br /> + +<br /> + +Os objectos, grandes ou pequenos, ornados com esmaltes do +Mósa ou do Rheno apresentam geralmente uma particularidade +que se não observa na ourivesaria franceza contemporanea. +Têem, além das placas esmaltadas, filigranas e +pedrarias, placas de cobre vermelho com ornatos e +inscripções douradas sobre campo brunido ou +vice-versa.<br /> + +<br /> + +<em>Calices e patênas</em>. Conservou-se, durante +o periodo roman, o uso dos calices ordinarios e +ministeriaes.<br /> + +<br /> + +Os calices ordinarios do VIII e do IX seculo, têem muitas +vezes, como os do periodo Latino, a taça profunda e +estreita, o pé pequeno e ligado á +taça por um simples nó sem haste.<br /> + +<br /> + +No IX seculo começou a usar-se a taça maior, e +<span class="pagenum"><a name="p103">[103]</a></span> +ás vezes de +fórma espherica e com azas. O +pé conserva-se ainda n'este seculo com as mesmas +dimensões que nos precedentes.<br /> + +<br /> + +Os calices do XI e do XII seculos têem a taça e o +pé muito grandes, o nó bastante grosso e a +haste curta quando a têem.<br /> + +<br /> + +Na Allemanha encontram-se calices do XII seculo que têem o +exterior da taça inteiramente coberto de +medalhões, de esmaltes, de pedrarias e de filigranas; estes +ornatos são apenas interrompidos por um pequeno +espaço semi-circular destinado para o padre applicar o labio +inferior durante a communhão.<br /> + +<br /> + +Os mysterios da vida e da paixão do Salvador e +principalmente a sua crucifixão, eram os assumptos que os +artistas mais gostavam de reproduzir sobre os medalhões +circulares ou ovaes com que decoravam a taça e o +pé dos calices.<br /> + +<br /> + +Em geral compõem-se d'um reservatorio sustentado por um +grosso fuste cylindrico, ou mesmo por um pilar quadrado, e tambem se +encontram alguns cujos angulos se apoiam sobre quatro columnas.<br /> + +<br /> + +Estas pias baptismaes, exteriormente quadradas, são os +reservatorios circulares e ovaes, tendo as faces externas esculpidas +com florões, folhagens, arcos, animaes phantasticos, +carrancas e até é facil vêrem-se +assumptos legendarios ou historicos.<br /> + +<br /> + +<em>Grades</em>. Os romanos faziam muitas +vezes grades fundidas em bronze. Na Italia e no Sul da Allemanha +<span class="pagenum"><a name="p104">[104]</a></span> +ainda se empregaram +até ao XI seculo. estas grades.<br /> + +<br /> + +Carlos Magno empregou o bronze nas grades da egreja de Aix-la-Chapelle +que foram, assim como o edificio de que fazem parte, uma +importação meridional.<br /> + +<br /> + +Durante o XI e XII seculo, as grades eram compostas de montantes +verticaes mettidos n'uma moldura e encerrando ornatos formados de +barras, de secção quadrada ou rectangular; estes +ornatos consistem em geral em curvas entrelaçadas.<br /> + +<br /> + +<h4>Alfaias religiosas</h4> + +<br /> + +No seculo VIII estavam as artes e as sciencias inteiramente decahidas +no Occidente, em consequencia das continuas guerras provocadas pelas +invasões dos barbaros. Os processos technicos das artes +industriaes e mais faceis d'adoptar tinham quasi +caído no esquecimento. No +imperio do Oriente, pelo contrario, o culto das artes não +cessou de prosperar desde Constantino Magno até ao XI seculo +inclusivamente, graças á +protecção generosa dos imperadores bysantinos. +Tambem, logo que se seguiram os primeiros momentos de socego depois das +tempestades politicas, pensou-se na Italia e no resto do Occidente em +dotar d'alfaias convenientes as egrejas, e basilicas que se acabavam de +construir ou de restaurar e para isso foram obrigados a dirigirem-se a +Constantinopla tanto para proc +No seculo VIII estavam as artes e as sciencias inteiramente decahidas +no Occidente, em consequencia das continuas guerras provocadas pelas +invasões dos barbaros. Os processos technicos das artes +industriaes e mais faceis d'adoptar tinham quasi +caído no esquecimento. No +imperio do Oriente, pelo contrario, o culto das artes não +cessou de prosperar desde Constantino Magno até ao XI seculo +inclusivamente, graças á +protecção generosa dos imperadores bysantinos. +Tambem, logo que se seguiram os primeiros momentos de socego depois das +tempestades politicas, pensou-se na Italia e no resto do Occidente em +dotar d'alfaias convenientes as egrejas, e basilicas que se acabavam de +construir ou de restaurar e para isso foram obrigados a dirigirem-se a +Constantinopla tanto para procurar os objectos que desejavam como para +obter +<span class="pagenum"><a name="p105">[105]</a></span> +artistas aptos que +annuissem a vir trabalhar no Occidente.<br /> + +<br /> + +Durante muito tempo os artistas verdadeiramente dignos d'este nome, +pintores, esculptores, ourives e outros, continuaram a vir de Bysancio, +e quando no principio do IX seculo, Carlos Magno quiz decorar com +mosaicos e enriquecer com vasos sagrados e outros objectos d'arte o +edificio religioso que elle acabára de construir em +Aix-la-Chapelle, teve que se dirigir a artistas gregos ou aos +discipulos que se haviam formado na Italia, particularmente em Ravenna. +<br /> + +<br /> + +Com os inferiores successores d'este principe, a arte cessou de ter +desenvolvimento, retrocedendo tanto na Europa central como na +Occidental, ao mesmo estado de barbaria em que se achava antes dos +esforços empregados por Carlos Magno para restabelecer o seu +progresso.<br /> + +<br /> + +No fim do X seculo, produziu-se no Occidente um movimento util nos +estudos artisticos; os artistas gregos foram ainda aqui, como mais +tarde na Italia, os iniciadores que presidiram a este movimento +instructivo.<br /> + +<br /> + +A restauração artistica, começada sob +a influencia dos artistas bysantinos, foi extremamente rapida na +Allemanha. Desde o fim do X seculo, a escola de Trèves, +dirigida pelo bispo Egberto, deu nascimento, no territorio germanico, a +muitos outros centros artisticos creados pelos bispos nos seus palacios +episcopaes, ou pelos abbades nos seus Mosteiros. Santo Henrique que +governou o +<span class="pagenum"><a name="p106">[106]</a></span> +imperio do +Occidente durante o primeiro quartel do XI seculo, foi tambem um dos +grandes promotores da restauração artistica na +Allemanha.<br /> + +<br /> + +Os <em>calices ministeriaes</em> conservaram, +durante o periodo roman, a mesma fórma que tinham tido +anteriormente. A sua decoração é a +mesma que a dos calices ordinarios. São munidos d'azas com a +fórma de folhagens, ou de dragões e d'outros +animaes phantasticos.<br /> + +<br /> + +Nos medalhões sobre a taça representavam-se +scenas da vida do Salvador; nos do pé, as quatro virtudes +Cardeaes e assumptos tirados da historia do Velho Testamento; e nos +medalhões do nó mostravam-se as +personificações dos +quatro rios do Paraizo.<br /> + +<br /> + +As patênas, ordinariamente muito simples, tinham a +configuração d'um pires com um esvasamento +circular no meio. O fundo interior era liso, com adornos de buril; os +bordos, por vezes lavrados em relevos ou gravados ao buril, eram de +pequenas dimensões. Encontram-se comtudo algumas +patênas da época roman, sobre as quaes abundavam +os ornatos e as esculpturas.<br /> + +<br /> + +<em>Custodias eucharisticas: pyxides e +ciborios</em>. Desde o XI seculo que as pombas eucharisticas +foram substituidas em geral pelas pyxides, cuja origem alguns auctores +reputam ser do V seculo. Dá-se o nome <em>pyxides</em> +a pequenas caixas de +marfim, d'onyx, d'ouro, de prata ou de cobre esmaltado, nas quaes se +guardavam as Sagradas particulas. Suspendiam-se, debaixo do docel do +altar, n'uma bolsa de tecido +<span class="pagenum">[107]</span> +precioso, ou então collocavam-se n'um pequeno nicho +aberto em parede proxima do altar.<br /> + +<br /> + +Durante os primeiros seculos do periodo roman as pyxides de marfim +empregavam-se em concorrencia com as pombas eucharisticas de metal.<br /> + +<br /> + +Consistiam regularmente em pequenas caixas cylindricas, tendo muitas +vezes no exterior esculpturas em relevo.<br /> + +<br /> + +As pyxides do XII e do XIII seculo são ordinariamente de +cobre dourado e esmaltado; compõem-se d'uma pequena caixa +cylindrica encimada por uma tampa de fórma conica ligada ao +cylindro por uma charneira. Muitas d'estas pyxides sairam das officinas +dos esmaltadores de Limoges.<br /> + +<br /> + +As pyxides romans têem algumas vezes um pé, e +são em geral tanto umas como outras de pequenas +dimensões, por isso que apenas servem para guardar um +pequeno numero d'hostias necessarias para dar o Sagrado Viatico aos +doentes em perigo de vida.<br /> + +<br /> + +Todas as pyxides anteriores ao XVI seculo, com raras +excepções, têem a tampa ligada ao +cylindro por meio de charneira.<br /> + +<br /> + +<em>Relicarios</em>. Consideraram-se +primeiramente como reliquias os restos mortaes dos Santos, +porém, hoje têem um sentido mais lato; +considerando-se tambem como taes os paramentos e outros objectos usados +por elles durante a sua vida mortal. A Egreja professou sempre um +grande respeito pelas reliquias, prestando-lhes um culto particular. Em +vista d'isto não é para admirar que nos primeiros +<span class="pagenum"><a name="p108">[108]</a></span> +seculos se fabricasse um +tão grande numero e diversidade de relicarios, afim de +conservarem estes preciosos thesouros e expôl-os á +veneração dos fieis.<br /> + +<br /> + +<em>Relicarios da verdadeira Cruz</em>. A +maior parte dos relicarios que contéem parcellas da +verdadeira Cruz foram trazidos do Oriente na época das +Cruzadas, ou fabricados na Europa segundo os modêlos +bysantinos. São ricamente cravejados de pedraria e +d'esmaltes, e têem muitas vezes a fórma de uma +dupla cruz chamada cruz do Santo Sepulchro, de Lorrena ou de Caravalla. +Como a travessa superior d'esta cruz é menor que a inferior, +leva isto a suppôr que o que parece uma +repetição dos braços seja simplesmente +o +<em>titulo</em> da cruz, pelo qual os Gregos e os Orientaes +sempre tiveram especial veneração.<br /> + +<br /> + +Tambem muitas vezes se collocavam as reliquias da Sagrada madeira n'uma +cruz com uma simples travessa.<br /> + +<br /> + +As reliquias da verdadeira Cruz, encerradas n'uma cruzeta, muitas vezes +com duas travessas, eram tambem muitas vezes emmolduradas n'uma placa +metallica ricamente ornada e fixa sobre um centro de madeira. Estes +relicarios, com a fórma d'um pequeno quadro rectangular ou +d'um triptyco, eram mettidos em ricos estojos guarnecidos d'esmaltes, +filigranas e pedras preciosas.<br /> + +<br /> + +Não eram só os relicarios da madeira da +verdadeira Cruz, que tinham a fórma d'uma cruz com duas +travessas horisontaes; os proprios edíficios +<span class="pagenum">[109]</span> +em que se conservavam estes relicarios +eram muitas vezes encimados com uma cruz do mesmo genero. Nas parochias +em que os campanarios tinham a dita cruz, eram collocadas sobre os +tumulos n'ellas existentes, cruzes de madeira ou de pedra com a mesma +fórma.<br /> + +<br /> + +<em>Urnas</em>. A urna é uma +especie d'um cofre dentro do qual são guardadas as reliquias +d'um Santo. O emprego das urnas vulgarisou-se desde o XI seculo. Ha-as <em>grandes</em> +e +<em>pequenas</em>. As grandes urnas têem o feitio +d'um pequeno edificio rectangular, com a fórma de telhado de +duas vertentes; ha algumas, como a dos Reis Magos em Colonia, que +imitam uma egreja com as suas paredes exteriores.<br /> + +<br /> + +Em geral são cobertas de placas de metal ornadas com +filigranas, esmaltes e pedrarias. Christo lançando a +benção, sentado ou em +pé, só ou no meio de dois Santos, occupa +ordinariamente uma das faces extremas, e na outra face a Santissima +Virgem entre dois Santos cujas reliquias a urna encerra. As faces +lateraes são divididas por arcadas de volta inteira ou +abatida, debaixo das quaes se vêem as figuras dos Apostolos +ou d'outros Santos; emfim, as vertentes da +imitação de telhado são decoradas com +baixos relevos. Os esmaltes servem de caixilhos aos differentes +assumptos e cobrem tanto as archivoltas como as columnas das arcadas. +Ha tambem urnas exclusivamente feitas de placas esmaltadas.<br /> + +<br /> + +As urnas pequenas, muito triviaes nos seculos XII e XIII, +têem a fórma d'um cofre oblongo, coberto +<span class="pagenum">[110]</span> +com uma tampa semelhante a um +telhado de duas aguas. Compõem-se em geral de placas de +cobre vermelho, esmaltadas segundo o processo do buril. Tanto as quatro +faces da urna, como a tampa são adornadas de figuras e +algumas vezes com assumptos completos. Merecem +attenção as +figuras pela gravura em relevo ou pelo seu modo de +execução especial.<br /> + +<br /> + +Sobre muitas d'estas urnas se vêem em relevo as +cabeças e as mãos ou sómente as +cabeças; nas mais antigas, em vez de serem simplesmente +gravadas, são incrustadas de esmalte.<br /> + +<br /> + +D'ordinario o trabalho é rude e barbaro e o desenho deixa +muito a desejar com relação a +correcção.<br /> + +<br /> + +A tampa é geralmente terminada por uma lamina de cobre +recortada em fórma de crista.<br /> + +<br /> + +Pertencem em geral estas urnas ao trabalho dos esmaltadores de Limoges. +<br /> + +<br /> + +Tambem se têem encontrado urnas romanas de pedra, marfim e +mesmo de madeira.<br /> + +<br /> + +<em>Estatuêtas</em>, +<em>bustos</em>, +<em>braços</em>, +<em>pés</em>, etc. No seculo X, +começou-se a collocar as reliquias em estatuêtas, +bustos, ou relicarios de metal ricamente ornamentados e imitando a +fórma do corpo humano a que ellas haviam pertencido. Assim, +quando queriam guardar os ossos d'um pé, ou d'um +braço, dava-se ao relicario a fórma de qualquer +d'estes dois modelos. Continuaram a usar-se estes relicarios durante os +seculos seguintes, tornando-se bastante vulgares. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[111]</span> +<em>Urnas de marfim</em>. Encontram-se, com +frequencia, nos thesouros das egrejas e nas +collecções d'objectos antigos, cofres de marfim +cobertos de esculpturas decorativas e legendarias. As que offerecem +assumptos religiosos ou alguns signaes de symbolismo +christão, e que por consequencia foram executadas para o +serviço do culto, são +extremamente raras. Isto prova que primitivamente eram destinadas aos +usos profanos, por exemplo, para guarda joias. No entanto +não é para admirar que se encontrem nas egrejas, +pois que umas foram cedidas ás egrejas como obras artisticas +offerecidas por bemfeitores generosos; outras, executadas no Oriente, +serviram aos cavalleiros cruzados para trazerem as reliquias de +Constantinopla e da Terra Santa. As reliquias vindas do Oriente, +ficaram encerradas em pequenos cofres, adquiridos por alto +preço no Egypto, na Syria e na Asia Menor. Estes pequenos +cofres, que sahiam d'officinas musulmanas ou indianas, são +regularmente cobertos de figuras geometricas, d'arabescos d'animaes +phantasticos e algumas vezes +d'inscripções Orientaes.<br /> + +<br /> + +<em>Frascos de crystal de rocha</em>. D'entre os varios +objectos de que os cruzados se serviam como +relicarios, para trazerem reliquias para o Occidente, devemos +especialmente mencionar os pequenos frascos de crystal de rocha. Estes +frascos, cuja altura raras vezes excedia dez centimetros, eram ou muito +simples ou com fórmas d'ani. D'entre os varios objectos de +que os cruzados se serviam como +relicarios, para trazerem reliquias para o Occidente, devemos +especialmente mencionar os pequenos frascos de crystal de rocha. Estes +frascos, cuja altura raras vezes excedia dez centimetros, eram ou muito +simples ou com fórmas d'animaes phantasticos. Muitos +estiveram +guardados, durante o +<span class="pagenum"><a name="p112">[112]</a></span> +periodo +ogival, em ricos estojos de ouro ou de prata.<br /> + +<br /> + +<em>Diversos relicarios</em>. Ha-os com +diversas fórmas architecturaes imitando, em metal ou em +marfim, as principaes partes das egrejas romans, e até mesmo +as dos edificios civis.<br /> + +<br /> + +<em>Corôas suspensas nos +altares</em>. Estas corôas conhecidas com o nome de <em>votivas</em> +eram por +devoção offerecidas a Deus e aos Santos, ou em +cumprimento d'algum voto. Já existiam durante o periodo +latino; como então, compunham-se de um circulo de metal +precioso, muitas vezes adornado com o brilho de pedrarias e de +esmaltes. Fabricou-se grande numero d'estas corôas +directamente para o serviço dos altares; todavia os antigos +chronistas designam-nas tambem muitos como offertas feitas por reis e +principes, de corôas d'ouro e de prata e que elles +precedentemente cingiam como insignia de realeza.<br /> + +<br /> + +<em>Corôas para luzes</em>. As +corôas para luzes continuaram a usar-se durante o periodo +roman e as mais bellas que a idade media nos legou são +d'esta época.<br /> + +<br /> + +Todas estas corôas, guarnecidas de torres e ameias parecem +alludir á visão de que falla S. João +no capitulo XXI do Apocalypse. <em>Deus me +mostrará a santa cidade de Jerusalem, que desceu do Ceu, +mandada por Deus...</em> representada por uma alta muralha, +franqueada por dôze portas; vendo-se a estas portas +dôze anjos, e tendo gravados os nomes das dôze +tribus de Israel. As portas +<span class="pagenum"><a name="p113">[113]</a></span> +ficavam tres ao Oriente, tres ao Norte, tres ao Sul e tres ao +Occidente. A muralha tinha dôze socalcos, em que se achavam +gravados os nomes dos dôze Apostolos.<br /> + +<br /> + +Suspendiam-se estas corôas no côro proximo do altar +e tambem no ponto de intersecção da nave com o +transepte, quando eram muito grandes.<br /> + +<br /> + +A corôa para luzes de Aix-la-Chapelle tem oito metros de +circumferencia; é composta de oito arcos de circulo +unindo-se de maneira que formam angulos reintrantes. Estes angulos +são guarnecidos de lanternas em fórma de +torrinhas redondas havendo, no ponto medio de cada arco de circulo, uma +torre quadrada maior. Entre cada torrinha podem ser collocadas tres +vellas; como são dezeseis torres, oito quadradas e oito +redondas, a corôa póde receber quarenta e oito +luzes em todo o seu circuito. Duas inscripções +latinas se +lêem em tôrno do circulo metallico, indicando a +data do XII seculo em que foi dada á egreja de +Aix-la-Chapelle pelo imperador Frederico Barba-rôxa.<br /> + +<br /> + +<em>Cruzes d'altar e para as +procissões</em>. Até ao final do XV seculo, +não havia distincção +alguma entre as cruzes do altar e as procissionarias ou estacionarias. +A mesma cruz servia para ambos os fins; collocava-se sobre o altar +fixando-a em uma peanha, trazia-se em procissão na +extremidade d'uma vara comprida.<br /> + +<br /> + +As cruzes d'altar romans, ordinariamente de cobre, de prata, ou mesmo +d'ouro, têem em geral apenas uma só cruzeta; as +mais antigas são de +fórma +<span class="pagenum">[114]</span> +Trina, +e cravejadas de perolas ou de variadas pedrarias. Mais tarde, no XI e +no XII seculos, são então compostas com a imagem +de Christo, sendo os ramos da cruz de desiguaes dimensões, +isto é, deixam de ter a fórma Trina.<br /> + +<br /> + +Grande parte das cruzes d'altar romans são de cobre vermelho +adornado com esmaltes entalhados ao buril, outras compõem-se +de simples laminas de cobre sobre as quaes se reproduzem em esmalte a +imagem do Divino crucificado ou outros symbolos religiosos. Muitas +cruzes são formadas de madeira, tendo as duas faces ou +só a principal revestidas com placas esmaltadas. A imagem de +Christo era representada n'estas cruzes e em alto-relevo. O <em>perizonium</em>, +que cobre +os rins e a corôa que cinge a cabeça do Salvador, +são ordinariamente esmaltados e os olhos representados por +fragmentos de vidro azul.<br /> + +<br /> + +No fim do periodo roman, as peanhas em que se fixavam as cruzes para as +collocar sobre o altar eram muitas vezes d'uma riqueza notavel; algumas +eram de fórma triangular, a mais geral; e outras tinham +quatro faces. Em cada um dos quatro angulos, d'estas ultimas, +apresentam um Evangelista escrevendo textos relativos á vida +ou +á morte do Salvador. Queria-se d'este modo symbolisar a +diffusão, pela prédica do Evangelho, da +Fé em Jesus-Christo, Redemptor do genero humano.<br /> + +<br /> + +<em>Candelabros</em>. Os candelabros eram em +geral pequenos e terminavam na sua parte superior por uma dirandella +ponteaguda. A fórma d'estes candelabros +<span class="pagenum">[115]</span> +do XII seculo, +varía pouco; consta em geral de um pé assente +sobre tres patas de leão ou em tres corpos de +dragão; um nó de folhagens ou de +dragões enroscados; e uma dirandella bastante concava, +sustentada por tres ou quatro pequenos animaes phantasticos que se +assimilham aos dragões ou aos lagartos com azas.<br /> + +<br /> + +O contraste que existe entre os pequenos candelabros d'outro tempo e os +que actualmente se empregam de excessiva altura, explica-se da seguinte +maneira: deram aos candelabros e ciriaes uma tão descommunal +altura que obrigaram a substituir as antigas velas de cêra +por um cirial simulado e accrescentado com uma vela. Não +devemos esquecer que os ciriaes se accendem em homenagem ao Crucifixo +ou ao Santissimo Sacramento, e que portanto não devem +exceder em altura o tabernaculo. Comprehende-se, pois, a +razão por que um candelabro d'altar é maior e +mais monumental que outro qualquer de sala.<br /> + +<br /> + +<em>Candelabros para o Cirio Pascal</em>. Tinham uma altura +bastante consideravel.<br /> + +<br /> + +A ornamentação d'estes candelabros, destinados a +sustentar o Cirio Pascal, era analoga á dos candelabros +d'altar. N'elles se encontram, tanto no pé como na +dirandella, os dragões e os lagartos com azas (geralmente no +numero de tres), as folhagens e os florões. Em alguns, +tambem se representavam varios personagens e diversos outros assumptos +nas facetas do pé.<br /> + +<br /> + +<em>Candelabros de sete +braços</em>. Estes candelabros +<span class="pagenum"><a name="p116">[116]</a></span> +sempre de bronze, usavam-se desde o +periodo roman, e talvez antes. Destinados, sem duvida, a fazer recordar +o antigo candelabro dos israelitas, são tambem muito +elevados. O pé, o nó +e os ramos eram ordinariamente ornados.<br /> + +<br /> + +Os braços estão collocados, em geral, no mesmo +plano, tres de cada lado da haste central e as dirandellas tambem se +encontram ao mesmo nivel.<br /> + +<br /> + +<em>Evangeliarios</em>. Durante o periodo +roman, trataram, como até ali, de reproduzir o mais +correctamente possivel o texto Sagrado; e continuaram do mesmo modo a +transcrever os exemplares de luxo com lettras de ouro sobre velino +branco ou côr de purpura.<br /> + +<br /> + +As Biblias completas e os evangeliarios, isto é, os +manuscriptos em que se encerra o texto dos quatro Evangelhos, +são em geral ornados com um grande numero de miniaturas +representando personagens e assumptos do Novo e Velho Testamentos, e +até mesmo alguns factos legendarios. Todavia, nos mais +antigos manuscriptos o numero das illustrações +é geralmente muito menor +que nos do XI e XII seculos. Encontra-se com frequencia, na parte +superior de cada Evangelho, a figura do Evangelista, sentado e +escrevendo o seu livro.<br /> + +<br /> + +Egualmente se encontram na parte superior de quasi todos os +Evangeliarios, miniaturas que occupam muitas paginas, consistindo em +arcadas sobre columnas, agrupadas ás t +Egualmente se encontram na parte superior de quasi todos os +Evangeliarios, miniaturas que occupam muitas paginas, consistindo em +arcadas sobre columnas, agrupadas ás tres e ás +quatro, sob um arco commum que abrange toda a largura da +<span class="pagenum">[117]</span> +pagina; em cada arcada +lêem-se series de numeros collocados uns debaixo dos outros.<br /> + +<br /> + +Estas columnatas formam o que se chamam os <em>canhões +d'Euzebio</em> ou de +<em>concordancia Evangelica</em>. Foram compostas por +Euzebio de Cezaréa para facilitar o estudo comparativo dos +Evangelhos, e consistem em quadros que indicam, por meio de algarismos +escriptos na mesma linha horisontal em duas ou mais arcadas, as +citações dos Evangelhos com +relação ao mesmo objecto.<br /> + +<br /> + +São dez: o primeiro indica todos os logares communs aos +quatro Evangelhos; o segundo, os que se não lêem +senão em S. Matheus, S. +Marcos e S. Lucas; o terceiro, o que é referido por S. +Matheus, S. Lucas e S. João; o quarto, as passagens +comparativas de S. Matheus, S. Marcos e S. João; o quinto, o +accôrdo de S. Matheus com S. Lucas; o sexto, de S. Matheus +com S. Marcos; o setimo, de S. Matheus com S. João; o +oitavo, de S. Lucas com S. Marcos; o nôno, de S. Lucas com S. +João; emfim o decimo, sob differentes series, o que cada +evangelista escreveu de particular.<br /> + +<br /> + +Cada Evangelho tem á margem, com tinta preta por ordem +numerica, a indicação de todos os +versos que o compõem; e inferiormente a cada verso +está notado a encarnado o numero do canhão a que +se tem de recorrer para encontrar a concordancia.<br /> + +<br /> + +<em>Capas evangeliarias</em>. Durante o +periodo roman as capas dos livros lithurgicos tinham ordinariamente um. +Durante o +periodo roman as capas dos livros lithurgicos tinham ordinariamente um +comprimento dobrado ou triplicado da +<span class="pagenum">[118]</span> +largura. Comtudo já havia +n'essa epoca +encadernações que se approximavam sensivelmente +da fórma quadrada, que foi a que mais tarde prevaleceu.<br /> + +<br /> + +As capas dos livros romans são de metal e tambem de marfim; +acontecendo muitas vezes reunirem estas duas materias na mesma capa, ou +servindo de caixilho a uma placa de marfim quadrada ou rectangular e +com relevos metallicos.<br /> + +<br /> + +Os assumptos que mais trivialmente se encontram sobre as capas dos +evangelhos são: 1.º O Salvador, sentado ou de +pé, lançando a +benção e collocado n'uma aureola oval; +2.º A +crucificação de +Christo; 3.º A Santissima Virgem com o menino Jesus; +4.º Scenas +tiradas da historia do Novo Testamento.<br /> + +<br /> + +Os symbolos dos Evangelistas occupam quasi sempre os quatro angulos das +capas.<br /> + +<br /> + +Para o fim do periodo roman, tambem frequentemente se empregaram, como +capas de livros lithurgicos, placas esmaltadas, oblongas, +rectangulares, fabricadas em Limoges, representando a +crucificação do Senhor, com as figuras +accessorias.<br /> + +<br /> + +<em>Thuribulos</em>. É provavel +que nos primeiros seculos fossem simples vasos com grande diametro e um +peso consideravel.<br /> + +<br /> + +Dos thuribulos anteriores ao XI seculo apenas temos conhecimento pelas +pinturas das paredes e pelas miniaturas dos manuscriptos.<br /> + +<br /> + +São d'uma simplicidade notavel; têem, como todos +os que se lhes seguiram, a fórma espheroidal.<br /> + +<br /> + +No XI e XII seculos apparecem thuribulos mais ricos. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[119]</span> +<em>Caldeirinhas d'agua benta portateis</em>. +Estas caldeirinhas serviam para levar agua benta aos imperadores, aos +reis e outros grandes personagens no momento em que entravam na egreja. +Têem a fórma d'um cóne troncado e +invertido.<br /> + +<br /> + +Geralmente são de pequenas dimensões, +não excedendo 20 centimetros em altura.<br /> + +<br /> + +Tambem as ha de marfim e outras de metal. A maior parte tem +exteriormente duas ordens sobrepostas de figuras em relevo, +representando assumptos religiosos, figuras de Santos ou symbolos.<br /> + +<br /> + +<em>Pentes lithurgicos</em>. Os padres eram +obrigados a pentear os cabellos e a barba antes de celebrar o Officio +Divino. O uso dos pentes lithurgicos existiu até ao XVI +seculo, e ainda nos nossos dias se emprega o pente na +Sagração dos Bispos.<br /> + +<br /> + +<em>Os pentes lithurgicos</em> são +geralmente d'osso ou de marfim e tambem algumas vezes de madeira.<br /> + +<br /> + +Uns são maiores do que outros; os maiores são +guarnecidos com duas ordens oppostas de dentes, tendo uma com mais +finissimos dentes. O espaço comprehendido entre as duas +ordens de dentes é em geral esculpido. Os pentes de menores +dimensões têem apenas uma ordem de dentes, sendo +egualmente mais ou menos ricamente esculpidos.<br /> + +<br /> + +<em>Cadeiras</em>. O uso da cadeira, +<em>cathedra</em>, foi durante, muito tempo considerado +como uma prerogativa dos Papas, dos Bispos e dos Soberanos temporaes.<br /> + +<br /> + +No fim do periodo Latino e no começo do Roman, as cadeiras, +eram por vezes feitas á imitação +<span class="pagenum"><a name="p120">[120]</a></span> +da cadeira +<em>curúl</em> dos Romanos, a qual +era formada de duas dobradiças em fórma de X, +entre as quaes assentava um coxim. Os ramos das +dobradiças d'esta especie de cadeiras romans são +ordinariamente terminados, superiormente, por cabeças +d'animaes e inferiormente por patas ou garras; como tambem succede com +as cadeiras curúes mais ricamente esculpidas.<br /> + +<br /> + +As cadeiras romans têem d'ordinario a fórma d'um +cofre rectangular, não tendo costas nem tão pouco +braços. Adornavam-nas com +incrustações de marfim, ouro, prata ou outros +metaes; eram estofadas de preciosos brilhantes e damascos. As cadeiras +de costas altas são raras.<br /> + +<br /> + +<em>Baculos pastoraes</em>. Desde os +primeiros seculos que os Bispos empunhavam o bastão pastoral +como insignia da sua dignidade. Mais tarde foi este privilegio +extensivo aos abbades dos grandes mosteiros.<br /> + +<br /> + +Os bastões pastoraes mais antigos eram de duas +fórmas diversas: havia o bastão em +fórma de muleta e o bastão em <em>voluta</em>. +O +primeiro, pela sua similhança com a letra T (a que os gregos +chamavam <em>tau</em>) +é conhecido pelo +nome de <em>bastão</em> ou baculo em +fórma de <em>tau</em>. O +cabo ou travessa ordinariamente de marfim é todo esculpido.<br /> + +<br /> + +Os baculos de <em>voluta</em> que ainda hoje +existem, datam do XII seculo. A fórma que tinham antes +d'esta epocha sabe-se pelas esculpturas, pinturas e miniaturas.<br /> + +<br /> + +Não nos parece que se encont +Não nos parece que se encontrem Bispos empunhando +<span class="pagenum">[121]</span> +o baculo em monumentos cuja +data seja anterior ao ultimo quartel de X seculo.<br /> + +<br /> + +No seculo XII e até mesmo já durante a ultima +metade do seculo XI, é que se começaram a usar os +<em>baculos de voluta</em>. São +tambem d'esta epocha os <em>bastões de metal</em> +ornados +de pedrarias d'esmaltes e filigranas.<br /> + +<br /> + +A voluta de quasi todos os baculos do XII seculo termina por uma +cabeça de serpente ou de dragão encimada por uma +cruz, ou lutando com o Divino Cordeiro armado com o signal da +redempção. +As volutas terminando em florão são por emquanto +raras n'esta epocha, assim como tambem aquellas que têem +representadas scenas historicas.<br /> + +<br /> + +Attribue-se geralmente aos baculos pastoraes e a todas as suas +differentes partes, uma +significação symbolica. O baculo representa o +bordão do Pastor espiritual; do Bispo na sua diocese e do +abbade no seu mosteiro. A haste é recta para recordar ao +Prelado a rectidão da governação; a +ponteira de metal é o emblema da justa severidade com que +deve reprimir os rebeldes, e a voluta recurvada symbolisa a bondade +como as almas são attrahidas para o bem pelas +consolações. A voluta do baculo voltada para o +peito, indica a +jurisdicção interna dos Abbades; voltada para +fóra, mostra a auctoridade dos Prelados.<br /> + +<br /> + +<em>Sapatos lithurgicos</em>. Estes sapatos, +que desde os primeiros seculos são considerados como uma das +principaes insignias dos Bispos e dos Abbades, tinham o nome de +sandalias, +<em>sandalia</em>, e eram em +<span class="pagenum"><a name="p122">[122]</a></span> +geral de fórma identica. +Constavam d'uma solla de coiro ordinario, d'uma gaspea e de dois +quartos.<br /> + +<br /> + +A gaspea era de coiro e recortada muito profundamente a formar uma +especie de lingueta, +<em>lingua</em>, e quatro appendices, <em>ligulae</em>, +em +fórma de orelhas atravez das quaes passavam os +cordões. As seis chanfraduras, formadas por estas orelhas, +fizeram dar á gaspea o nome de <em>coiro +fenestrado</em>, <em>corium fenestratum</em>, por +affectarem a fórma de +aberturas dos rotulos de janellas.<br /> + +<br /> + +Tanto a gaspea como os quartos tinham um grande numero de furos, os +quaes bem como as chanfraduras da gaspea tinham uma +significação symbolica.<br /> + +<br /> + +As sandalias são guarnecidas, inferiormente, por uma solla e +superiormente por um pedaço de cabedal chanfrado ou +fenestrado, porque os pés dos prégadores devem +ser resguardados inferiormente para se não sujarem nas +coisas terrestres conforme as palavras do Senhor―<em>Sacudi o +pó de +vossos pés</em>―; são descobertos pela +parte superior para que lhes seja relevado o conhecimento dos +celestiaes mysterios, segundo estas palavras do propheta: +«Desvendae-me os olhos e considerarei as maravilhas da tua +Lei».<br /> + +<br /> + +A gaspea e os quartos eram ordinariamente bordados a ouro e seda e +até mesmo de pedras preciosas.<br /> + +<br /> + +<em>Mitras</em>. As mitras de dois bicos eram +desconhecidas até ao fim do XI seculo. D'antes os Bispos +usavam algumas vezes uma corôa ou grinalda de +<span class="pagenum"><a name="p123">[123]</a></span> +laminas de metal, cravejada de pedras, +debaixo da qual elles punham um barrete pouco elevado ou um +pedaço rectangular de seda ou de tela, cujas extremidades, +ordinariamente bastante compridas, fluctuavam livremente sobre as +costas.<br /> + +<br /> + +No fim do XI seculo, a cobertura collocada por debaixo da +corôa tornou-se mais alta de maneira que formava ou uma +especie de touca ponteaguda ou dois lobulos obtusos ou arredondados e +pouco tempo depois duas agudas pontas. N'esta mesma epocha foi +substituido o circulo de metal por fachas de pergaminho primorosamente +pintadas e as extremidades fluctuantes do pedaço de tela por +duas fachas compridas e estreitas, que se chamam <em>fanons</em>. +<br /> + +<br /> + +<em>Alfaias preciosas</em>. <em>Tecidos.</em> +Durante +os primeiros seculos da éra christã, os tecidos +de seda apenas +se fabricavam no Oriente.<br /> + +<br /> + +Mas no periodo roman continuou a Europa a mandar vir todos os tecidos +preciosos de Constantinopla, da Grecia, da Asia Menor e da Persia.<br /> + +<br /> + +Comtudo, no seculo IX, os Mouros introduziram a cultura do bicho de +seda no Sul da Hespanha, e a começar do seculo seguinte, a +pequena cidade de Almeria, situada a pequena distancia de Malaga sobre +as costas do Mediterraneo, tornou-se um importante centro de industria +de seda, cujos productos da Europa eram procurados.<br /> + +<br /> + +Em seguida á expulsão dos musulmanos no anno de +1146 ou 1147, as fabricas de seda tambem se desinvolveram muito na ilha +da Sicilia, e o commercio +<span class="pagenum">[124]</span> +de tecidos de seda tornou-se extremamente florescente e prospero, +graças aos intelligentes +esforços do rei normando Roger, secundado na sua empreza por +operarios trazidos da Grecia na escolta d'uma +expedição militar. Os tecidos d'ouro e seda, +fabricados na celebre manufactura official de Palermo, e conhecida pelo +nome de <em>Hotel de Tiraz</em>, foram os mais estimados +durante toda a edade média.<br /> + +<br /> + +Os tecidos do periodo roman, geralmente encorpados e solidos, +são uns lisos e outros ornados de desenhos representando +animaes, plantas, flôres e fructos, empregados apenas como +decoração, sem a menor +intenção de symbolismo. Os estofos produzidos +pelas fabricas musulmanas, tinham tambem ás vezes +inscripções arabes; +aquelles cujas decorações consistiam em assumptos +biblicos +ou symbolos christãos, fabricavam-se em Constantinopla, na +Grecia e mais tarde egualmente na Sicilia.<br /> + +<br /> + +<em>Bordados</em>. Os bordados continuaram a +usar-se para reproduzirem assumptos religiosos quer em +medalhões quer sobre umas fitas que applicavam ás +velas d'altar e aos paramentos sacerdotaes. A arte de bordar fez +consideraveis progressos durante o periodo roman. Encontram-se um +grande numero de passamanarias inteiramente executada á +agulha «<em>acula +pictae</em>» no XI e XII seculos.<br /> + +<br /> + +Os bordados executados durante o periodo roman eram geralmente feitos +em seda ou lã fina sobre uma talagarça de tela +fina. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[125]</span> +<em>Paramentos sacerdotaes.</em> No principio +do periodo roman eram ainda desconhecidas as côres +lithurgicas, e só se começaram a empregar no IX +seculo tomando um certo desinvolvimento nos seculos seguintes, ao mesmo +tempo que se fixou o seu symbolismo. A côr branca e a +vermelha foram as primeiras adoptadas: aquella, como emblema da +innocencia e da candura, servia nas festas do Salvador, da Santa +Virgem, dos anjos, dos Santos que não morreram martyres e +durante a Paschoa; o vermelho, symbolo da caridade e do heroismo, foi +destinado aos martyres bem como ao Pentecostes, festas por excellencia +do amor.<br /> + +<br /> + +No XII seculo duas novas côres vieram augmentar as que +já se usavam: o verde, symbolo da +esperança, foi empregado aos domingos e nos dias de semana +em que se não celebrava festa alguma de Santo e durante o +tempo que decorre entre a Epiphania e a septuagesima, entre o +Pentecostes e o Advento, o preto, signal de luto, foi reservado para a +sexta feira Santa e para os officios funebres.<br /> + +<br /> + +A principio, o uso d'estas differentes côres era facultativo; +porém desde o final do XII seculo e ainda mais durante o +seculo XIII, tornou-se obrigatorio.<br /> + +<br /> + +Mais tarde, tambem se introduziu o uso da côr violeta, +symbolisando <em>penitencia</em>, +para o Advento, quaresma, temporas e vigilias.<br /> + +<br /> + +A <em>casula</em> conservou, durante o +periodo roman a mesma fórma que até ali havia +tido, isto +é, +<span class="pagenum">[126]</span> +a d'uma veste +dupla, sem mangas, e caindo livremente á roda do corpo.<br /> + +<br /> + +As <em>casulas</em> mais ricas eram de seda; +cravejadas de pedras, de perolas e bordadas a ouro, prata, seda ou +lã, reproduzindo figuras geometricas, +flôres, animaes, symbolos e assumptos religiosos. Estes +ornatos espalhavam-se muitas vezes por toda a casula; comtudo, +d'ordinario, apenas occupavam as bandas verticaes longas e estreitas, +chamadas <em>praetestae</em>, <em>listae</em> +ou +<em>augusti clavi</em>; regularmente são duas, +uma na frente e outra na parte posterior. Além do modo +decorativo que ellas tinham, estas bandas serviam ainda a um fim util, +a de tapar as duas costuras precisas para dar feitio ao paramento. Duas +outras fachas, egualmente estreitas, passavam sobre os hombros e vinham +terminar nas bandas verticaes do peito e ao meio das costas, figurando, +adiante e atraz, uma Cruz em fórma de Y.<br /> + +<br /> + +Ha <em>casulas</em> antigas que +não têem as fachas de +juncção que passam sobre os hombros e cuja +decoração se resume nas duas fachas verticaes. +Algumas vezes tambem estas fachas são substituidas por +arvores ou plantas com muitas ramificações.<br /> + +<br /> + +As casulas de uso diario e as das egrejas mais modestas não +eram de seda, materia de um preço excessivo n'essa +época, mas sim de lã, tela ou +outros tecidos mais baratos.<br /> + +<br /> + +A <em>estola</em> consiste em uma facha +comprida e estreita, de seda, de lã ou de tela, medindo em +geral 2<sup>m</sup>,70 de comprimento sobre 6 a 7 +centimetros +<span class="pagenum">[127]</span> +de largura. Foi a partir do IX +seculo, que ella tomou esta fórma e estas +dimensões, que se approximam muito das que ainda hoje tem.<br /> + +<br /> + +As estolas ricas eram ornadas de pedrarias bordadas, e placas de metal +cinzeladas e esmaltadas, e terminavam nas pontas por longas franjas.<br /> + +<br /> + +O <em>manipulo</em>, que d'antes consistia +n'uma especie de toalha, com a qual os padres limpavam as +mãos e a cara ou purificavam os vasos sagrados, +só perdeu a fórma e o destino primitivo, durante +o IX seculo, quando se tornou um verdadeiro paramento similhante +á estola na fórma, côr e +decoração.<br /> + +<br /> + +A <em>capa</em> conservou, durante o periodo +roman, a mesma fórma que tinha antes; especialmente +reservada aos chantres e clero inferior, era feita com um tecido +ordinario. Os Bispos só raras vezes a vestiam e, por +consequencia, não havia capas ricamente decoradas.<br /> + +<br /> + +A <em>alva</em> era de linho mais ou menos +fino e algumas vezes de seda branca. Havia duas especies de alva: as +alvas sem ornatos, chamadas <em>albae purae</em> ou +<em>simplices</em>, e as alvas guarnecidas, +<em>albae paratae</em> ou +<em>frisiatae</em>. As primeiras +serviam nos dias ordinarios e nas egrejas de segunda ordem; as outras +eram usadas pelos Bispos e pelo clero, especialmente nos grandes dias +de festa.<br /> + +<br /> + +A decoração das alvas dos Bispos consistia apenas +em certos ornatos em volta do pescoço, +nas extremidades das mangas e no bordo inferior; além de +duas orlas parallelas verticaes que lembram +<span class="pagenum">[128]</span> +as <em>augusti clavi</em> +dos Romanos, +e que descem do pescoço até aos pés, +tanto na +frente como nas costas.<br /> + +<br /> + +O <em>cinto</em> era geralmente ornamentado +com grande luxo.<br /> + +<br /> + +Muitos tecidos preciosos se fabricaram com fio d'ouro; tendo a +fórma d'uma grande fita de largura entre tres e seis +centimetros, podendo-se mui facilmente assentar, em toda a sua largura, +perolas, pedrarias, e placas de metal cinzeladas e esmaltadas.<br /> + +<br /> + +O <em>amicto</em> é composto d'um +pedaço de panno quadrado ou rectangular, que o sacerdote +põe na cabeça, quando começa a +revestir-se, e que depois +faz descer sobre o pescoço.<br /> + +<br /> + +Os amictos eram em geral de panno de linho. No periodo roman tambem os +havia de seda, e de fio d'ouro.<br /> + +<br /> + +No IX seculo começaram os amictos a ter um ornamento, que se +conservou em uso durante toda a edade média, e que recebeu o +nome +de―<em>parura plaga</em>―e tambem, ás vezes o +de―<em>praetextae</em>. Este adorno consistia, no seu +principio, em uma tira +rectangular d'ouro, de renda ou tecido de côr brilhante, que +se pregava no bordo superior do amicto, e que formava em torno do +pescoço uma especie de rico collar, visivel mesmo depois do +sacerdote e os ministros sagrados terem revestido a casula ou a +dalmatica. Algumas vezes tambem tinham como adorno perolas e pedras +preciosas.<br /> + +<br /> + +A <em>dalmatica</em> é o paramento +sacerdotal para vestir +<span class="pagenum"><a name="p129">[129]</a></span> +por +cima, pertencente ao diacono e sub-diacono. Consistia, durante o +periodo roman, regularmente n'uma especie de toga fechada muito +comprida, com mangas e uma abertura para passar a cabeça. +Duas faixas verticaes d'ouro ou de côr brilhante se +applicavam, ás vezes, sobre a toga, prolongando-se +até ao bordo inferior.<br /> + +<br /> + +Do seculo XI em diante appareceram dalmaticas abertas nos dois lados +até uma certa altura. Eram muitas vezes guarnecidas de +faixas douradas em volta do pescoço, e nos +canhões das mangas.<br /> + +<br /> + +O <em>pallium</em> constituia entre os +antigos o principal paramento de vestir por cima.<br /> + +<br /> + +Deu-se com o pallio o mesmo que se havia dado com a estola; a parte +principal, e primitivamente essencial, isto é, o manto foi +supprimido, e apenas se conservou o ornato accessorio, as faixas que se +lhe applicaram. Estas uniam sobre o peito e sobre as costas, em +fórma de Y, da mesma maneira que as <em>listae</em> +em +certas casulas.<br /> + +<br /> + +Durante o periodo Latino já se decoravam as faixas do <em>pallium</em> +com pequenas cruzes +gregas. Estas cruzes, pouco numerosas a principio, foram-se +multiplicando insensivelmente, e desde o XI que já se +contavam muitas sobre toda a extensão das faixas.<br /> + +<br /> + +<h4>Abbadias, Mosteiros e claustros dos +Capitulos</h4> + +<br /> + +Desde o VIII seculo que se começaram a levantar +estabelecimentos religiosos, compostos de numerosas +<span class="pagenum">[130]</span> +construcções +edificadas e dispostas com +arte. Havia já egrejas, edificios para alojamento e +exercicios dos frades, enfermarias, escolas, bibliothecas, hospedarias +para os estrangeiros, celleiros, jardins, +edificações destinadas aos +aprovisionamentos, emfim, habitações e officinas +para as +corporações d'artistas que as abbadias tinham +sempre ao seu serviço.<br /> + +<br /> + +Todos estes antigos mosteiros foram destruidos ou inteiramente +modificados com o correr dos seculos.<br /> + +<br /> + +Examinaremos as suas disposições interiores, +quando tratarmos do plano das abbadias do periodo ogival.<br /> + +<br /> + +A principio os conegos das cathedraes e collegiaes viviam em +communidade como os religiosos.<br /> + +<br /> + +Os claustros dos simples collegiaes eram ordinariamente, como os das +abbadias, contiguos ás paredes meridionaes da egreja, porque +a exposição ao sol do meio dia é a +mais agradavel e a mais vantajosa para a saude. Por estas +razões o lado sul nas cathedraes era occupado pelos palacios +episcopaes, e os conegos viam-se obrigados a escolher o lado norte das +egrejas, para edificarem os seus claustros.<br /> + +<br /> + +Todavia, esta regra não era geral: existem muitos exemplos +de claustros tanto d'abbadias como de capitulos occupando outros +logares. Estas +excepções á regra geral são +devidas a differentes causas, taes como a presença de ruas +ou de +construcções que era impossivel supprimir, e, nos +<span class="pagenum">[131]</span> +paizes montanhosos, os +accidentes do terreno que torneava a egreja.<br /> + +<br /> + +Os claustros das egrejas monasticas, cathedraes e collegiaes, +compunham-se ordinariamente de um pateo quadrado ou rectangular, +rodeado de galerias cobertas, que serviam de passeio aos religiosos e +aos conegos.<br /> + +<br /> + +Estas galerias, abertas para o lado do pateo, eram comtudo d'elle +separadas por meio de um apoio quasi continuo, sobre o qual vinham +assentar as columnas com archivoltas, tornando a arcada toda +contínua. +Os mais antigos claustros apenas tinham uma especie de +ornamentação com as galerias cobertas d'um +simples alpendre de madeira, cujo madeiramento só era +visivel no interior. Desde o fim do X seculo foram estes alpendres +substituidos por abobadas de berço com aresta, por baixo das +quaes muitas vezes tambem se construia um pavimento.<br /> + +<br /> + +Na maior parte dos claustros romans do XII seculo, as curvas +descendentes das archivoltas são sustentadas por columnas +duplas, cobertas por uma perna de telhado. Algumas vezes columnas +isoladas alternam com columnas duplas.<br /> + +<br /> + +Os claustros das cathedraes e das collegiaes eram, como os das +abbadias, rodeados de edificações +indispensaveis para a vida commum dos conegos.<br /> + +<br /> + +Debaixo d'essas galerias se abriam as portas do refeitorio, do +dormitorio, da escola, e da sala capitular e outros locaes affectos ao +serviço da communidade. Mais tarde, quando a vida commum foi +<span class="pagenum"><a name="p132">[132]</a></span> +abandonada pelos capitulos, as +habitações +privadas dos conegos occuparam, em torno das galerias, o logar d'estes +differentes edificios.<br /> + +<br /> + +A iconographia, isto é, a <em>sciencia das +imagens</em>, occupa-se das representações +figuradas devidas +á esculptura e, em geral, a todas as outras artes de +modelar.<br /> + +<br /> + +<em>A gloria, o nimbo e a +auréola</em>. A gloria é um ornamento +symbolisando uma nuvem luminosa, que os artistas da idade +média põem em torno da cabeça ou do +corpo d'um personagem, como attributo da santidade ou do poder. Quando +ella não rodeia senão a cabeça, +dá-se-lhe o +nome de <em>nimbo</em>; quando rodeia o corpo inteiro, +chama-se +<em>auréola</em>.<br /> + +<br /> + +O nimbo derivado da palavra latina +(<em>nimbus</em>) é um adorno circular, e tambem +ás vezes quadrado, oblongo ou triangular com que se costumam +adornar as cabeças das figuras que representam as pessoas +divinas, os santos e os homens revestidos d'auctoridade suprema, quer +civil, quer ecclesiastica. É costume collocal-o +verticalmente na parte posterior da cabeça. Assim como a +corôa +é o signal da realeza, assim o nimbo é o da +santidade ou da auctoridade.<br /> + +<br /> + +O nimbo circular ou em fórma de disco é o symbolo +de Deus, dos anjos e dos Santos; comtudo, quando circumda a +cabeça d'alguma das pessoas divinas, o disco é +regularmente ornado com uma cruz grega, de que apenas se vêem +tres ramos, pelo que se chama nimbo crucifero. A cruz do +<span class="pagenum">[133]</span> +nimbo crucifero deve ser vertical, e +não inclinada como a cruz de Santo André X. +Muitos artistas, quando se servem do nimbo, commettem um erro, contra +esta regra de iconographia. O nimbo crucifero é o symbolo +caracteristico das pessoas divinas, mesmo quando apenas se representam +por figuras symbolicas. Assim, por exemplo, a mão, symbolo +do Pae Eterno, o cordeiro, symbolo do Filho Jesus Christo, e a pomba, +symbolo do Espirito Santo, representam-se sempre com o nimbo crucifero. +<br /> + +<br /> + +Os ramos do nimbo crucifero são geralmente bastante +compridos e mais largos nas extremidades. O nimbo circular sem a cruz +é o symbolo dos anjos e dos Santos do Novo Testamento. No +Oriente tambem os Santos do Velho Testamento têem o nimbo, +mas no Occidente não se segue essa pratica. As +personificações das virtudes, das provincias e +das cidades têem tambem o nimbo. Elle é egualmente +concedido aos Papas, aos imperadores, aos reis, e aos padres quando +são representados administrando o Sacramento do baptismo, +por isso que elles se acham n'estes casos revestidos d'uma auctoridade +suprema.<br /> + +<br /> + +Os personagens vivos depositarios da auctoridade suprema, eram tambem +adornados com o nimbo quadrado ou rectangular. O nimbo é +muitas vezes substituido pela corôa que se dá +ás imagens esculpidas do Salvador crucificado ou da Virgem +com seu Filho.<br /> + +<br /> + +<em>Origem do nimbo</em>. Os +pagãos já faziam uso do +<span class="pagenum">[134]</span> +nimbo, para ornamentar os seus deuses e +imperadores.<br /> + +<br /> + +Assim se vê Trajano n'um baixo relevo do arco de Constantino +e Antonio o Piedoso em uma moeda, confirmando o uso d'este emblema. Mas +que época indicará a +introducção do nimbo na +iconographia christã? O nimbo parece só ter sido +empregado pelos christãos depois da conversão de +Constantino. Até este tempo não se conhece +monumento algum authentico dos tres primeiros seculos, em que vejamos +Christo ou os Santos adornados com o nimbo. Os mais antigos monumentos, +de data determinada, em que este ornamento se acha empregado como +signal iconographico, são os mosaicos de Roma e de +Ravêna.<br /> + +<br /> + +Ora foi da comparação d'estes differentes +monumentos entre si que se conheceu terem sido as imagens do Salvador +as primeiras que tiveram nimbo, em segundo logar as dos anjos, depois +as dos evangelistas e seus symbolos e emfim as dos Santos e dos +soberanos. As imagens de Nosso Senhor começaram a ter nimbo +desde o principio do IV seculo; até ao VI seculo se +vê o nimbo umas vezes simples, outras crucifero. A Santissima +Virgem e os anjos começaram a ter nimbo desde os primeiros +annos do seculo V, os Evangelistas e os Apostolos no meado do mesmo +seculo, os Santos e os personagens revestidos de auctoridade soberana +no começo do seculo seguinte.<br /> + +<br /> + +Auréola (palavra derivada do latim +<em>aura</em>, <em>vento suave</em>, <em>sôpro +luminoso</em>) é uma especie de moldura +<span class="pagenum">[135]</span> +que envolve todo o corpo como se +fôsse o nimbo do corpo inteiro.<br /> + +<br /> + +Os artistas da edade média dão auréola +ás tres Pessoas Divinas e á Santissima Virgem e +tambem ás almas dos Santos e principalmente á do +pobre Lazaro, figuradas por um pequeno corpo inteiramente +nú. A alma é assim deificada no momento em que +volta ao seio do Creador.<br /> + +<br /> + +Os Santos, por mais venerados que sejam, nunca têem +auréola.<br /> + +<br /> + +Quando Deus Pae ou Deus Filho se representam sentados na +auréola, os seus pés assentam em +geral sobre um arco-iris, e sentados sobre um arco similhante.<br /> + +<br /> + +Estes arco-iris são muitas vezes substituidos, o primeiro +por um escabello rendilhado, e o segundo por uma especie de poltrona. +Sendo a auréola mais recente do que o nimbo, caíu +comtudo em +desuso primeiramente do que este ultimo.<br /> + +<br /> + +<em>Representações da Santissima +Trindade</em>. Durante o periodo roman eram as pessoas da +Santissima Trindade representadas de varios modos.<br /> + +<br /> + +1.º―Para inculcar aos fieis o dogma da egualdade dos homens, +representavam-se estes com fórmas inteiramente similhantes. +Ás vezes tambem o Deus Filho se representa nos +pés ou nas mãos, e o Espirito Santo é +representado com a fórma d'uma pomba. As pessoas Divinas +quando se representam com fórmas humanas, têem +sempre nús os pés.<br /> + +<br /> + +2.º―Tambem empregavam a representação +do +<span class="pagenum">[136]</span> +baptismo do Senhor nas aguas +do Jordão, para figurar as pessoas da Santissima Trindade.<br /> + +<br /> + +3.º―Nos ultimos annos do periodo roman representava-se a +Santissima +Trindade da maneira seguinte: Deus Pae, sentado n'um throno ou sobre um +arco-iris, tendo nas mãos uma cruz na qual está +crucificado o Salvador; o Espirito Santo, representado por uma pomba, +apparece entre a bôca do Pae e a do Filho, para mostrar que o +procede tanto d'um como do outro. Este typo foi conservado durante toda +a idade e mesmo até aos XVI e XVII seculos.<br /> + +<br /> + +Comtudo, a partir do XV seculo, deixou de se symbolisar o dogma da +procissão do Espirito Santo, e collocava-se a pomba ou no +braço da cruz ou no hombro do Pae.<br /> + +<br /> + +<em>Representações das tres Pessoas +Divinas</em>. <em>Deus Pae</em>. Até ao +seculo XI, nunca se +attribuiram a Deus Pae fórmas humanas. A sua +presença era apenas +indicada por uma mão saindo das nuvens. Esta mão +symbolica, primeiramente sem nimbo, e mais tarde com o nimbo simples ou +crucifero, encontra-se nos sarcophagos e nos antigos cofres. Foi pois +no XI seculo que Deus Pae começou a ser representado sob +fórmas humanas.<br /> + +<br /> + +<em>Deus Filho</em>. Quando +tratámos da iconographia das catacumbas, dissémos +que, durante os tres primeiros seculos, só se representava o +Salvador, debaixo das fórmas symbolicas ou das scenas +historicas. Já no IV seculo se encontram imagens isoladas do +Salvador. Até ao X seculo, Christo representa-se +<span class="pagenum"><a name="p137">[137]</a></span> +muitas vezes com as +feições d'um mancebo de quinze a vinte annos, sem +barba, de figura agradavel e resplandecente d'uma mocidade Divina; +só excepcionalmente Christo tem barba e parece +não ter mais de vinte e cinco annos. No XI e XII seculos os +artistas dão-lhe uma expressão +mais severa; ordinariamente apresenta barba parecendo ter trinta a +trinta e cinco annos.<br /> + +<br /> + +<em>Deus Espirito Santo</em>. Até +meiado do X seculo foi sempre representado com a fórma d'uma +pomba; mas no XI e XII seculos começou tambem a ser figurado +com a fórma humana.<br /> + +<br /> + +<h4>A cruz e a +crucificação</h4> + +<br /> + +<em>Considerações +geraes</em>. A historia da +representação da +crucificação póde resumir-se +dizendo que este assumpto não se encontra sobre os +monumentos christãos e outros objectos do culto anteriores +á conversão de Constantino; a cruz apresenta uma +fórma dissimulada.<br /> + +<br /> + +No IV seculo, a cruz fez a sua apparição na +iconographia christã. Desde a conversão de +Constantino foi então que appareceu sobre um grande numero +de monumentos; mas até ao VI seculo ainda não +tinha a imagem de Christo: era no emtanto adornada com pedrarias e +ás vezes circumdada por uma auréola.<br /> + +<br /> + +No VI seculo começam então alguns artistas +christãos, ainda que timidamente, a representar o Salvador +sobre a cruz. Primeiramente servem-se do Cordeiro symbolico, que elles +representavam +<span class="pagenum">[138]</span> +de differentes +maneiras com o signal da +redempção. Tambem se vêem cruzes tendo +ao centro, e ás vezes nas extremidades dos +braços, uns +medalhões com o Divino Cordeiro ou com a imagem do Salvador +Triumphante.<br /> + +<br /> + +Desde o VI até ao XI seculo representa-se o Salvador sobre a +cruz com o fim manifesto de recordar o Seu Triumpho sem nunca indicar a +minima idéa de soffrimento ou d'opprobrio.<br /> + +<br /> + +Do XI ao XII seculo representa-se Christo crucificado mas Glorioso e +Triumphante, apesar de ser manifesta a idéa de soffrimento.<br /> + +<br /> + +Do XIII ao XV seculo, os artistas christãos, tendo mais ou +menos em vista o symbolismo das épocas precedentes, +esforçam-se por patentear realmente os soffrimentos do +Divino Crucificado.<br /> + +<br /> + +Durante o periodo do renascimento, o culto da fórma e da +realidade constitue por assim dizer a unica +preoccupação do artista, que, dominado pela +idéa de expressar uma dôr vulgar ou de representar +um corpo morto ou moribundo, perde todo o sentimento de nobre +symbolismo.<br /> + +<br /> + +A historia das representações da cruz e do +crucifixo comprehende, pois, duas épocas distinctas: a +primeira, que durou desde o IV ao XII seculo inclusive, tem por +caracter distinctivo a representação glorificada +do instrumento da Paixão e da Victima, sem signal de que se +tivesse prestado voluntariamente; a segunda, que começa no +XIII seculo e termina no XIX, é caracterisada pela +expressão +dos soffrimentos do Divino Salvador. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[139]</span> +A época do soffrimento corresponde ao periodo ogival e ao do +renascimento.<br /> + +<br /> + +No IV seculo a cruz é frequentemente encimada por um +monogramma inscripto em uma corôa. Quando não tem +o referido monogramma, (o que se dá principalmente desde o V +seculo) ou tem os braços eguaes e mais largos nos extremos, +ou é ornada de perolas em renques, ou ornada de +flôres e folhagens, ou rodeiada de auréola. Ha +todo o cuidado de apresentar na cruz qualquer idéa +d'opprobrio ou d'ignominia; a cruz não é o +instrumento de supplicio, mas sim, a cruz glorificada, o instrumento da +Redempção do genero humano.<br /> + +<br /> + +Estas diversas fórmas de cruz continuaram a usar-se +até muito antes do periodo Roman.<br /> + +<br /> + +Datam do ultimo quartel do VI seculo as primeiras imagens conhecidas do +Salvador crucificado. Porém, entre a cruz simples e o +Cruxifixo encontra-se uma série de monumentos +intermediarios, offerecendo a cruz associada ao Cordeiro symbolico.<br /> + +<br /> + +Estas cruzes intermediarias, partindo da cruz sem figuras animadas, ao +crucifixo propriamente dito, ainda se encontram em alguns monumentos do +VII seculo.<br /> + +<br /> + +Os mais antigos monumentos conhecidos que representam Christo pregado +á cruz, pertencem ao ultimo quartel do seculo VI. Taes +são a miniatura do celebre manuscripto syriaco de +Florença, do anno 586, e muitos objectos enviados por S. +Gregorio +<span class="pagenum">[140]</span> +o Grande, a +Theodolinda, rainha dos Longobardos e conservados hoje no thesouro de +Monza. Alguns d'estes ultimos mostram-nos claramente Christo na cruz, +ao passo que outros, taes como os frascos de chumbo, que continham +liquidos recolhidos dos tumulos dos martyres, não fazem mais +do que relacionar a imagem de Christo com a cruz, d'uma maneira muito +mais sensivel do que a cruz do imperador Justino e outros objectos +similhantes. Tres d'estes curiosos frascos têem ao meio da +face principal, uma simples cruz folheada, acima da qual se acha o +busto do Salvador entre as personificações do Sol +e da Lua; aos lados da cruz vêem-se dois adoradores, os dois +ladrões, a Santissima Virgem e S. João; +inferiormente está figurado o Anjo e as Santas mulheres ao +pé do tumulo de Christo.<br /> + +<br /> + +No reverso acha-se a Ascensão do Senhor, nos dois lados do +gargalo uma cruz grega de braços eguaes debaixo d'um arco de +triumpho e inscripto n'uma corôa folheada. Sobre o quarto +frasco figuram scenas symbolicas analogas: está Nosso Senhor +em pé entre os dois ladrões, tendo os +braços estendidos em cruz. O instrumento do supplicio, que +não se vê na face principal, é +comtudo representado no reverso do frasco, debaixo d'um arco de +triumpho, e cercado pelas cabeças dos Apostolos inscriptas +em medalhões circulares e formando uma especie de +corôa. Conclue-se, pois, que o artista christão +foi obrigado primeiramente a +não representar a menor idéa de opprobrio e de +soffrimento; +<span class="pagenum">[141]</span> +para isto +elle transformou a cruz tornando-a de braços eguaes, +ornando-a de folhagens e metamorphoseando-a em arvore da vida: quiz +affirmar o triumpho alcançado com a morte, por Aquelle que +morreu sobre a cruz, recordando a Resurreição e +Ascensão do Salvador.<br /> + +<br /> + +Os crucifixos primitivos não têem quasi nunca +Christo esculpido em alto relevo.<br /> + +<br /> + +Christo está vestido com um +<em>colobium</em> ou tunica, ordinariamente sem mangas, que +chega até aos pés. +O uso d'esta longa veste serviu exclusivamente durante o VII seculo e +generalisou-se no IX seculo. N'esta época foi substituida +por uma tunica larga cobrindo os rins do Salvador.<br /> + +<br /> + +Christo tem sempre a cabeça elevada ou ligeiramente +inclinada para a direita e os braços estendidos e +perfeitamente horisontaes. Os pés estão pregados +separadamente á cruz por dois cravos e muitas vezes apoiados +sobre um escabello, ou suppedaneum. Algumas vezes parece serem +supprimidos os cravos com a intenção manifesta de +significar que o Christo se offereceu voluntaria e espontaneamente +sobre a cruz para a redempção dos homens.<br /> + +<br /> + +Desde o VI seculo até ao VIII, a scena da +crucifixão é muitas vezes acompanhada de +personagens e outros accessorios fundados na verdade historica, mas que +se representam, bem como a imagem de Christo, de uma maneira symbolica. +Assim vemos a Santissima Virgem e S. João, o phariseu que +empunha a lança e o que segura a +<span class="pagenum"><a name="p142">[142]</a></span> +esponja, o Sol e a Lua, a +resurreição do +Salvador, o bom e o mau ladrão. Todos estes accessorios, com +excepção do bom e do mau ladrão, +se encontram ainda representados nos crucifixos do seculo +VIII.<br /> + +<br /> + +O sacrificio da crucifixão e os crucifixos do <a href="#e4">seculo</a> IX até ao XII, +apresentam Christo na mesma attitude que nos seculos precedentes. Os +pés conservam-se ainda com dois cravos, mas afastados um do +outro e assentes geralmente em +um―<em>suppedaneum</em>.<br /> + +<br /> + +Foi no XII seculo que appareceram os primeiros crucifixos apresentando +Christo com os pés <em>sobre-postos</em>.<br /> + +<br /> + +Christo poucas vezes se encontra vestido com o <em>colobium</em>; +apenas em geral tem +á volta dos rins uma toalha de linho larga e comprida, que +lhe cobre o corpo desde os quadris até aos joelhos. Nos +seculos XI e XII, esta toalha tem muitas vezes a +configuração d'uma pequena saia que se +chama―<em>perizonium</em>.<br /> + +<br /> + +A Cruz tem geralmente quatro ramos.<br /> + +<br /> + +Algumas vezes teem um rotulo, mas sem inscripção +alguma; outras, nem mesmo teem rotulo, que em geral consiste n'uma +pequena travessa de madeira rectangular. As +inscripções costumam ser variadissimas.<br /> + +<br /> + +Antes do seculo IX, os personagens e outros accessorios que acompanham +a Cruz, são historicos, isto é, a sua +presença é justificada +pela narração dos proprios Evangelistas. No IX +seculo começaram então a apparecer os crucifixos +com figuras +<span class="pagenum"><a name="p143">[143]</a></span> +allegoricas, +taes como a Egreja, a Synagoga e as +personificações da Terra e do Oceano. Vamos, +pois, tratar successivamente dos principaes typos do cyclo d'estas +representações, +começando pelos accessorios historicos, visto que elles se +empregam desde o VI seculo.<br /> + +<br /> + +<h4>Personagens e accessorios historicos +</h4> + +<br /> + +<em>A Santissima Virgem e S. +João</em>.―Santa Maria está á +direita e por debaixo da Cruz, e o +Apostolo em posição analoga, mas á +esquerda do +Salvador. Só muito raramente se encontram ambos do lado +direito, como succede na miniatura de Florença.<br /> + +<br /> + +Ordinariamente estão como que erguendo os braços +ao Salvador ou occultam o rosto em signal de dôr com a +mão núa ou escondida na +ponta do manto. A Santissima Virgem tem a cabeça envolvida +em um veu e os pés calçados, em quanto que S. +João, de cabeça descoberta e com os +pés descalços, tem nas mãos um livro.<br /> + +<br /> + +<em>O phariseu que empunha a lança e segura a esponja</em>.―Ha +uma piedosa +tradição, desde a idade media, em que se diz que +o guarda que feriu o Salvador com uma lançada, era um +pagão chamado <em>Longino</em>, que mais tarde +se fizera +christão, sendo depois venerado como Santo pela Egreja.<br /> + +<br /> + +Quasi todos os escriptores ecclesiasticos consideram Longino +representado ao lado da Cruz com o typo dos gentios, em quanto que o +phariseu que apresentou a Jesu-Christo a esponja embebida em vinagre +parece ser um judeu. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[144]</span> +<em>O Sol e a Lua</em>.―No seculo VI, tambem +estes astros começaram a ser representados no sacrificio da +crucifixão, vendo-se o Sol á direita e a Lua +á esquerda do Senhor.<br /> + +<br /> + +A presença do Sol e da Lua n'estes primitivos monumentos, +parece ter por fim recordar o obscurecimento do Sol e as trevas que +subitamente se deram em seguida á morte do Salvador.<br /> + +<br /> + +No seculo IX, a significação, ainda limitada e +puramente historica d'este assumpto, foi amplificada com outra mais +allegorica, desde esta epocha. O Sol e a Lua não alludem +sómente á +obscuridade que envolveu a terra por occasião da morte de +Christo, simulam tambem o firmamento assistindo e tomando parte na +morte e no triumpho do seu Creador.<br /> + +<br /> + +N'este mesmo seculo os dois astros são quasi sempre +personificados e representados por um homem e uma mulher. A +personificação do Sol tem regularmente a +cabeça cingida de raios luminosos, a da Lua é em +geral encimada por um crescente. Uma e outra teem ás vezes +um facho.<br /> + +<br /> + +<em>As santas mulheres chegando ao tumulo do +Salvador</em>.―Desde o VI até ao XII seculo, apparece +muitas vezes, por debaixo do crucifixo, a +approximação, ao tumulo, das tres santas +mulheres, Maria Magdalena, Maria, mãe de S. Thiago, e +Salomé. Ellas seguram jarros, thuribulos ou outros vasos, e +estão diante do Anjo, sentadas, não dentro do +sepulchro, como diz o Evangelho, mas diante d'elle. Muitas vezes +figuram-se tambem soldados desfallecidos ou adormecidos. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[145]</span> +A reproducção d'esta scena na parte inferior da +Cruz era para pôr em parallelo a +humilhação e a glorificação +do Salvador, a sua morte sobre a +Cruz e a sua resurreição gloriosa.<br /> + +<br /> + +<em>A resurreição dos mortos e a sua +sahida do tumulo</em>.―Durante o seculo IX figurava-se muitas +vezes ao pé da Cruz a Resurreição dos +mortos que se deu por occasião da morte de Jesus Christo, +segundo narra o Evangelho.<br /> + +<br /> + +Os tumulos d'onde sahiram os resuscitados têem a forma de +pequenos edificios, geralmente armados com uma capella, mais raramente +d'um frontão triangular ou d'um telhado de duas aguas. Nada +havia que mais se prestasse a proclamar a victoria alçada +contra a morte de Nosso Senhor expirando sobre a Cruz, como a +Resurreição dos mortos.<br /> + +<br /> + +<h4>Personagens e accessorios +allegoricos</h4> + +<br /> + +<em>A Egreja e a Synagoga</em>. Desde o +seculo IX até ao XII encontram-se, sobre a maior parte das +representações do Sacrificio da Cruz, +personificações da Egreja e da Synagoga. Tinham +ellas por fim recordar aos Christãos a +reproducção do povo d'Israel e a +vocação dos infieis á +Fé da Egreja Christã. A Egreja, quasi sempre +á direita da +Cruz, é representada por uma mulher com uma bandeira e +aparando n'um calix o sangue que corre da chaga de Nosso Senhor feita +no lado direito. A Synagoga é representada por uma mulher +com uma bandeira e tambem ás vezes uma palma. +<span class="pagenum">[146]</span> +Está collocada á +esquerda do Salvador com as costas voltadas para o Senhor, e algumas +vezes parece afastar-se lançando olhares d'insulto e de +cólera.<br /> + +<br /> + +<em>O Oceano e a Terra</em>.―Os artistas +romans collocavam frequentemente sobre o marfim e sobre as miniaturas +dos manuscriptos, no pé da Cruz ou inferiormente a toda a +composição, as +personificações do Oceano e da Terra tiradas da +mythologia.<br /> + +<br /> + +O Oceano, geralmente collocado á direita do Salvador, +é representado por um homem barbado, sentado sobre um +monstro marinho, ou despejando uma urna; tem na mão um remo, +um peixe, uma cornucopia, ou o tridente de Neptuno, e na +cabeça chavelhos em fórma de serpentes, e tambem, +ás vezes, trazendo azas. Defronte do Oceano acha-se a Terra +com a fórma d'uma mulher, semi-nua, segurando, e +até amamentando creanças ou serpentes, muito +proximo d'ella; ás vezes mesmo, n'uma das mãos, +vê-se uma cornucopia.<br /> + +<br /> + +As personificações do Oceano e da Terra +collocavam-se perto da Cruz, primitivamente, como acima dissemos, para +exprimir a dôr que a Natureza soffreu com a morte do seu +Creador; e mais tarde, para mostrar que todo o Universo partilhou da +Redempção operada pela morte do Salvador.<br /> + +<br /> + +<em>A mão Divina e a pomba</em>. Muitas vezes +vê-se na extremidade superior da Cruz uma +mão, com ou +<span class="pagenum">[147]</span> +sem +nimbo crucifero, parecendo sair das nuvens e segurando uma +corôa. Esta mão é o +symbolo de Deus Pae, do mesmo modo que a pomba, que se vê +sobre algumas Cruzes, symbolisa o Espirito Santo.<br /> + +<br /> + +<em>Os Anjos</em>. Superiormente á +travessa horisontal da Cruz e proximo do Sol e da Lua vêem-se +ás vezes dois, tres ou quatro anjos, em attitude de +adoração. Algumas vezes suspendem sobre a +cabeça do Salvador uma corôa. Nos monumentos mais +remotos (os do IX seculo), onde mais frequentemente se vêem +os anjos, são estes em numero de dois e designados pelos +nomes de Miguel e Gabriel: representam a Natureza angelica assistindo +á morte do Salvador.<br /> + +<br /> + +<em>Os Evangelistas</em>.―Anteriormente ao +IX seculo, nunca se representavam os Evangelistas do lado principal aos +crucifixos, mas sim nas quatro extremidades do reverso, tendo no centro +a imagem da Santissima Virgem. A razão d'isto é +porque n'esta epocha não se admittiam no sacrificio da Cruz +senão accessorios puramente historicos.<br /> + +<br /> + +No VIII seculo, quando na iconographia da Cruz se introduziram as +allegorias e os symbolos, tambem appareceram os Evangelistas.<br /> + +<br /> + +Encontram-se ora por cima dos braços horisontaes da Cruz, +com os anjos e os astros, ora nos quatro angulos da cercadura, que +forma a moldura da scena principal. Tambem ás vezes se +encontram, tanto no IX como no XII seculo, no lado principal dos +crucifixos, nas extremidades dos ramos. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[148]</span> +<em>O Calix</em>. Encontram-se crucifixos em +que o <em>suppedaneum</em> é substituido por um +calix.<br /> + +<br /> + +É muito provavel que este calix não seja mais que +o <em>Santo Graal</em>,<sup><a href="#3">[3]</a></sup> +tão +celebre na idade mèdia. O <em>Santo Graal</em> +diz-se que servira +á Ceia; foi n'elle que Jesus-Christo transformou o vinho +pelo seu proprio sangue.<br /> + +<br /> + +<em>Adão sahindo do tumulo</em>. Esta scena +representa-se muitas vezes proximo da Cruz, para significar +que a resurreição da carne é uma +consequencia da morte de Christo.<br /> + +<br /> + +O sacrificio da Cruz, desde o IX até ao XII seculo, com os +seus accessorios allegoricos e historicos, deve interpretar-se: a +Natureza Angelica, Celeste e Terrestre assistindo ao sublime sacrificio +do Homem-Deus sobre a Cruz, onde affronta os salutares affectos; a +Synagoga reprovada, a Egreja formada, a cabeça da serpente +infernal esmagada, o genero humano rehabilitado e recebendo o +testemunho da Resurreição da Carne.<br /> + +<br /> + +<em>Os crucifixos dos seculos XI e XII</em>. Existem muitos +d'estes crucifixos; apresentam os seguintes caracteres:<br /> + +<br /> + +A imagem de Christo é, em geral, de cobre vermelho; tem, +quasi sempre, os olhos de vidro azul. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[149]</span> +<em>O perisonium</em>, ou a toalha que cobre +o corpo de Christo desde os quadris até aos joelhos, toma +ordinariamente a forma d'um saiote cujas orlas são ornadas +de perolas. Os Christos dos seculos XI e XII, vestidos de tunica +comprida com mangas ou com o <em>perisonium</em> em forma +de saiote, +que lhe chega até aos pés, são +extremamente +raros.<br /> + +<br /> + +<em>Nos crucifixos do XI seculo</em>, Christo +está muitas vezes coroado com uma especie de gorra ou +corôa real. No XII seculo, já a gorra e a +corôa se +tornam raras desapparecendo completamente no fim d'elle.<br /> + +<br /> + +<em>Os braços das cruzes</em> que +teem imagens de Christo, são geralmente ornados com esmaltes +e symbolos, tanto no reverso como na frente principal.<br /> + +<br /> + +<em>Cruzes da Paixão e Cruzes da +Resurreição</em>. A Cruz da +Paixão é formada por uma haste e uma ou duas +travessas e representa ou imita as +proporções das differentes partes da Cruz, +instrumento de supplicio.<br /> + +<br /> + +<em>A Cruz da +Resurreição</em> é apenas +um symbolo da Cruz Real ou da Paixão; é uma +pequena cruz na extremidade d'uma haste como a que segura o Divino +Cordeiro.<br /> + +<br /> + +<em>A Santissima Virgem</em>. Durante os doze +primeiros seculos da nossa era representa-se a Virgem umas vezes +sósinha e outras acompanhada do Divino Filho.<br /> + +<br /> + +<em>A Virgem sem o Menino Jesus</em> tem +ordinariamente os braços estendidos e erguidos parecendo +<span class="pagenum">[150]</span> +orar e perto da +cabeça está inscripta a sigla +MPOY, isto é: <span class="smallcaps">Mãe +de +Deus</span>. Este modo de +representação, muito usado desde o IV +até ao VII seculo, deixou comtudo de ser empregado nos +seculos seguintes.<br /> + +<br /> + +<em>A Virgem com o Menino Jesus</em>. Ha duas +maneiras de representar a Virgem com o Menino. Quando a scena +é imaginada para prestar homenagem a Nossa Senhora, diz-se +que ella é +<em>poetica</em>.<br /> + +<br /> + +Quando os reis magos, por exemplo, vêem trazer os seus +presentes a Jesus no collo da Santissima Mãe, a scena +é puramente historica.<br /> + +<br /> + +Durante o periodo Latino e a primeira parte do periodo Roman, o grupo +historico é o mais frequente. Vemol-o em differentes scenas +da vida do Senhor, principalmente na adoração dos +reis +Magos.<br /> + +<br /> + +O grupo poetico póde reduzir-se a dois typos distinctos. O +primeiro que chamaremos +<em>grego</em> ou <em>bysantino</em>, consiste +em representar a +imagem da Virgem com os braços erguidos como que orando, +tendo diante de si o Menino Jesus, lançando a +benção, ao modo Grego, com as duas +mãos, ou só com a direita. Este typo +já se encontra nas catacumbas.<br /> + +<br /> + +Os Bysantinos empregaram-se durante toda a idade media, e os Gregos +ainda hoje se empregam.<br /> + +<br /> + +<em>O Guia da pintura</em> (manual +iconographico, adoptado pelos antigos pintores e ainda hoje seguido +pelos Gregos), recommenda que se represente Nossa Senhora com as +mãos erguidas e Christo +<span class="pagenum">[151]</span> +lançando a +benção para ambos os lados, +com o evangelho sobre o peito.<br /> + +<br /> + +No outro typo do grupo <em>poetico</em>, a +Santissima Virgem é representada umas vezes de pé +com o Menino Jesus nos braços, outras sentada tendo-o sobre +os joelhos.<br /> + +<br /> + +Dá-se a este typo o nome de Occidental, não +porque elle fôsse desconhecido pelos Gregos, pois que o +usavam conjuntamente com o typo +<em>bysantino</em>, mas por que foi este o unico usado no +Occidente durante toda a idade média. Foi introduzido ou +pelo menos generalisado insensivelmente na iconographia +christã depois da +condemnação de Nestorio pelo Concilio de +Épheso, celebrado em 431. Este heresiarcha negava que Nossa +Senhora fôsse mãe de Deus.<br /> + +<br /> + +Para affirmar o dogma da maternidade divina de Nossa Senhora, +representavam-n'a com o Menino Jesus nos braços, e muitas +vezes acompanhada da inscripção Η +ΑΓΙΑ +ΟΕΟΤΟΚΟϚ, +isto é, <em>Santa Deipara</em>, ou a +<em>Santa Mãe de Deus</em>.<br /> + +<br /> + +Em geral Nossa Senhora está sentada com o Menino Jesus sobre +os joelhos, lançando a +benção, pelo menos, com uma das mãos.<br /> + +<br /> + +Durante todo o periodo Roman estas representações +de Nossa Senhora e do seu Divino Filho distinguem-se por uma magestade +e nobreza de sentimento como quasi se não encontra nos +seculos seguintes.<br /> + +<br /> + +A Santissima Virgem tem geralmente diante de si o Menino Jesus +completamente vestido, não estando +<span class="pagenum"><a name="p152">[152]</a></span> +entretido com sua Divina +Mãe, mas sim abençoando aquelles que lhe +vêem prestar +homenagem. Tem nas mãos uma esphera ou mais geralmente um +livro, ou um rolo, <em>volumen</em>, +symbolo da doutrina da nova Lei dada ao mundo.<br /> + +<br /> + +Na Grecia e no Oriente, os pintores e os esculptores cobrem +ordinariamente a cabeça da Santissima Virgem com um veu; os +artistas occidentaes tambem conservaram esta +tradição durante algum tempo, mas, a +começar do seculo IX, dão a Nossa Senhora uma +corôa real e algumas vezes uma especie de gorra.<br /> + +<br /> + +<em>Os Anjos</em>. Os anjos têem +figurado nos monumentos christãos desde o IV seculo. Os +primeiros não tinham azas. Só do V seculo em +diante +é que começaram a tel-as bem como o nimbo. +São +representados com uma longa tunica, orlada por duas faixas em +fórma de <em>clavi</em>, e têem +algumas vezes na +mão um longo sceptro ou +<em>bastão</em>, terminado por um +florão ou por uma cruz. Os archanjos Miguel, Gabriel e +Raphael, tambem muitas vezes são representados.<br /> + +<br /> + +Os Anjos têem sempre os pés descalços. +Symbolisava-se d'esta maneira a sua qualidade de mensageiros celestes.<br /> + +<br /> + +<em>Os Evangelistas e seus symbolos</em>. O +uso de representar os Evangelistas sob a fórma humana ou por +symbolos, data pelo menos do IV seculo.<br /> + +<br /> + +Sob a fórma humana encontrâmol-os primeiramente em +alguns mosaicos antiquissimos e um pouco mais tarde tambem nas +miniaturas dos evangeliarios. +<span class="pagenum">[153]</span> +Estão regularmente sentados debaixo d'um +portico, tendo na sua frente um pulpito chamado <em>scriptional</em>, +sobre o qual +está desenrolada uma folha de pergaminho, com o titulo ou as +primeiras palavras do seu Evangelho. Apparecem sempre +descalços e ás vezes acompanhados do animal que +lhes serve de symbolo.<br /> + +<br /> + +Os symbolos mais usados dos evangelistas são os seguintes:<br /> + +<br /> + +<em>Os quatro rios do Paraizo</em>. O modo de +symbolisar os evangelistas pelos quatro rios: Phisonte, +Géhonte, Tigre e Euphrates, tem origem muito remota. Os mais +antigos mosaicos e as proprias catacumbas nos offerecem já +exemplos d'esta +representação. O Salvador com a fórma +humana ou com a do Divino Cordeiro, apparece sobre um outeiro d'onde +brotam quatro rios, emblemas dos Evangelhos, os quaes, produzidos pela +fonte da Vida Eterna, trouxeram ao Universo a fertil doutrina de +Christo.<br /> + +<br /> + +<em>Os animaes symbolicos</em>. Os +Evangelistas são muitas vezes symbolisados por quatro +figuras com azas: um homem, uma aguia, um leão e um bezerro. +Estes symbolos devem a sua origem ás visões do +propheta Ezequiel e do Apostolo S. João. Eu vi (dizia este +ultimo), em torno do throno do Cordeiro quatro animaes. O primeiro com +o aspecto de um leão; o segundo, de um bezerro; o terceiro +com rôsto humano e o ultimo semelhando-se a uma aguia em +pleno +vôo.<br /> + +<br /> + +Os santos Padres consideraram estas visões como +<span class="pagenum">[154]</span> +os seguintes symbolos: o homem o de S. +Matheus; a aguia o de S. João, o leão o de S. +Marcos e o bezerro o de S. Lucas.<br /> + +<br /> + +Encontram-se os animaes symbolicos mais a miudo: 1.º, sobre as +capas +dos evangeliarios; 2.º, nas quatro extremidades das cruzes +d'Altar; +3.º, nos quatro angulos da representação +do +Christo em sua Gloria, como elle existe sobre as frentes dos altares, e +nos tympanos dos portaes d'egreja do XI e XII seculos.<br /> + +<br /> + +Os symbolos dos evangelistas reduzem-se a quatro sobre um unico objecto +ou empregados conjunctamente n'uma pintura, ou esculptura; +são regularmente acompanhados de Christo figurado com a +fórma humana ou por um symbolo.<br /> + +<br /> + +É, finalmente, da doutrina de Christo que derivam, como +d'uma fonte commum, os quatro Evangelhos.<br /> + +<br /> + +Quando se dá o caso dos animaes symbolicos ornarem os quatro +angulos d'uma superficie quadrada, quadrangular ou redonda, taes como +as capas dos livros, os tympanos dos portaes, as frentes d'altar ou a <em>flabella</em>, +têem certos logares determinados pelo uso: o homem com azas +(ao qual muitos auctores dão abusivamente o nome d'anjo) +occupa o angulo superior direito (á esquerda do espectador); +a aguia, o angulo superior esquerdo; o leão, o angulo +inferior direito, e o bezerro, o angulo inferior da esquerda.<br /> + +<br /> + +Quando collocados nas extremidades dos quatro braços da +Cruz, a aguia acha-se no vertice, +<span class="pagenum"><a name="p155">[155]</a></span> +o homem na extremidade inferior, o +leão no braço direito e o bezerro no +braço esquerdo da Cruz.<br /> + +<br /> + +<em>Os Apostolos</em>. S. Pedro e S. Paulo +eram os unicos Apostolos que durante o periodo Roman se representavam +com um typo uniforme.<br /> + +<br /> + +Desde os tempos mais remotos, que S. Pedro era representado trazendo +uma Cruz, ou as chaves, e tem cabello na cabeça, emquanto +que S. Paulo é calvo. Até ao XIII seculo +não +se encontra nos outros Apostolos nenhum attributo caracteristico. +Representam-se todos do mesmo modo, com um rôlo ou livro na +mão.<br /> + +<br /> + +Os Apostolos e mesmo Judas, têem os pés +descalços.<br /> + +<br /> + +Os artistas da idade media symbolisavam com este signal iconographico a +missão sublime, confiada aos Apostolos, de derramar por toda +a terra a doutrina Evangelica.<br /> + +<br /> + +<em>Assumptos religiosos representados sobre os monumentos dos +seculos XI e XII</em>. Estes assumptos tirados quasi todos da +Biblia, não +eram muito variados; tinham em geral um caracter uniforme e +reconheciam-se bem ao primeiro golpe de vista. Eis pois os que mais +frequentemente eram reproduzidos:<br /> + +<br /> + +1.º, a tentação dos nossos primeiros +paes; 2.º, +o sacrificio d'Abrahão; 3.º, a +Annunciação; 4.º, a +visitação da Santissima Virgem; 5.º, o +Nascimento de Nosso Senhor, que já se representava sobre os +sarcophagos e nas pinturas a fresco das catacumbas +<span class="pagenum">[156]</span> +do seculo IV; 6.º, a +Adoração dos reis +magos; 7.º, a degolação dos innocentes; +8.º, a +fugida +para o Egypto; 9.º, a exposição do +Menino Jesus +no Templo; 10.º, o baptismo de Nosso Senhor; 11.º, a +sua entrada +triumphal em Jerusalem; 12.º, a +transfiguração; +13.º, a ultima ceia; 14.º, a +crucifixão; 15.º, a descida da Cruz; 16.º, +a +Resurreicão; 17.º, as Santas mulheres no tumulo; +18.º, a +Ascensão de Nosso Senhor.<br /> + +<br /> + +<em>Representações symbolicas das +virtudes e dos vicios</em>. Os artistas christãos da +idade media estimavam muito symbolisar tanto as virtudes como os +vicios. Durante o periodo Roman as virtudes representam-se sob a figura +de mulheres tendo corôas, algumas vezes tambem azas, e na +cabeça uma especie de gorra. O seu nome acha-se inscripto do +seu lado, ou sobre qualquer objecto que conservam nas mãos; +ás vezes teem mesmo um emblema. As quatro Virtudes +Cardeaes;―prudencia, justiça, força e +temperança―encontram-se frequentemente sobre os monumentos +Romans de toda a especie.<br /> + +<br /> + +Os vicios são figurados, ou por monstros phantasticos, ou +por homens e mulheres entregues aos excessos de suas +paixões; encontram-se muitas vezes sobre o mesmo monumento +em concorrencia com as virtudes que lhes são oppostas.<br /> + +<br /> + +<em>Animaes phantasticos</em>. Os monumentos +do periodo Roman offerecem-nos a representação de +numerosos animaes reaes e phantasticos.<br /> + +<br /> + +Indicaremos alguns d'estes ultimos. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[157]</span> +1.º O <em>basilisco</em> é um +animal com a fórma d'um gallo, mas com a cauda semelhante +á d'uma serpente. Reputa-se provir d'um ovo de gallinha +chocado por um reptil. O basilisco symbolisava o demonio.<br /> + +<br /> + +2.º A <em>aspide</em> é uma +especie de serpente que a lenda diz estar de guarda á arvore +do balsamo. Se o homem quizer approximar-se d'esta arvore para lhe +colher o fructo, torna-se necessario que elle primeiro +adormeça a mesma serpente pelo encanto; mas esta, para se +subtrahir ao encantamento, tapa uma das orelhas com a cauda e a outra +com terra, espojando-se na lama. A +<em>aspide</em> representa os que voluntariamente deixam de +attender aos mandamentos do Senhor.<br /> + +<br /> + +3.º O <em>griffo</em> é um +quadrupede com azas e cabeça d'aguia. Symbolisa o demonio. +Vê-se muitas vezes sobre os monumentos Romans dos seculos XI +e XII.<br /> + +<br /> + +4.º A <em>sereia</em> é um +monstro com o corpo metade mulher e metade peixe. A parte superior do +corpo, que comprehende a cabeça, os braços e o +corpo até á cintura, tem a fórma +humana; e o resto inferior é a cauda d'um monstro marinho. +Entre os Gregos e os Romanos as sereias terminavam em passaro e +não em peixe; eram tres e habitavam uns rochedos escarpados +entre a ilha de Capri e as costas d'Italia; os seus cantos tinham o +poder de fazer esquecer aos navegadores o paiz d'onde vinham. Durante a +idade media a sereia foi o symbolo da seducção +causada pelos attractivos das pessoas. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[158]</span> +Tambem se encontram sobre muitos monumentos os doze signos do zodiaco, +muitas vezes acompanhados com os trabalhos do anno que lhes +correspondem. Eram frequentemente empregados para ornar as archivoltas +dos portaes principaes das egrejas.<br /> + +<br /> + +<em>Doadores e doadoras</em>. Quando os +doadores e as doadoras d'um monumento queriam conservar ás +gerações futuras a lembrança do seu +beneficio, faziam-se representar em pequenissimas +proporções, humildemente prostrados aos +pés de Jesus Christo, da Santissima Virgem ou d'outros +Santos.<br /> + +<br /> + +Algumas vezes tambem os doadores se figuravam n'uma parte secundaria do +monumento, apresentando a Deus ou tendo simplesmente nas +mãos um modelo da egreja, do altar ou do objecto que haviam +offerecido. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c5"></a>CAPITULO V</h3> + +<br /> + +<div class="intro"><b>Summario.</b>―Noções +preliminares―Diversas fórmas de ogiva―Origem da ogiva e do +estylo ogival―Periodo de transição +do estylo Roman ao estylo Ogival―Caracteres d'Architectura +Ogival―Observações geraes―Plano e +disposição das egrejas―Systema +de construcção―Materiaes e apparelhos de +construcção―Esculptura +monumental―Fachadas―Adros―Portaes―Pinturas―Janellas―Rosaes―Caixilhos +de janellas e vidros―Vidraças pintadas―Pilares, columnas e +columnasinhas―Bases de columnas―Capiteis―Caxorros e misulas―Arcadas +e +arcaduras―Triforium―Cornijas―Platibandas―Abobadas―Arcos +butantes―Contrafortes―Gargulhas―Nichos e +Docel―Madeiramentos―Telhados―Torres e +campanarios―Pavimentos―Labyrintho―Pinturas das paredes―Cruzes de +consagração―Altares―Tabernaculos―Cadeiras de +côro―Separação do +Altar-mór―Pulpito e confissonarios―Capellas funereas, +tumulos, campas, Cruzes de Cemiterio―Pias Baptismaes―Pias de agua +benta―Engradamentos―Orgãos―Alfaias +religiosas―Calices e +patenas―Custodias―Thuribulos―Relicarios―Corôas para +luzes―Cruzes de altar e de +procissão―Castiçaes―Estantes―Instrumentos de +paz―Moldes para Hostias―Baculos―Mitras―Vestimentas +sacerdotaes―Abbadias e Mosteiros―Egrejas―Claustros e +Refeitorios―Sala de Capitulo―Dormitorios―Casa para +hospedes―Celleiros―Prisão―Cartuxa―Hospitaes―Iconographia―O +Nimbo―O Crucificado―Os Apostolos e os Evangelistas―O Dia de +Juizo―Sibyllas.</div> + +<br /> + +<h4>Periodo Ogival</h4> + +<br /> + +O estylo ogival, tambem chamado +<em>gothico</em>, foi usado desde o meiado do XII seculo +até ao principio do XIV. Chama-se ogival, porque differe de +todos os outros estylos que o precederam, pelo emprego da <em>ogiva</em>. +Os allemães +chamam-lhe ás vezes―<em>estylo em arco bicudo</em>. +As janellas, as arcadas, os vãos das portas, n'uma palavra, +todas as aberturas são regularmente terminadas por arcos em +fórma de ogiva. Devemos acrescentar que a +denominação de <em>Gothico</em>, +dada ao estylo da idade +media, é uma especie de ironia da época da +renascença, +<span class="pagenum"><a name="p160">[160]</a></span> +pois que o estylo ogival nada tem de commum com os <em>Gôdos</em>. +Foi o +italiano Vasari quem primeiro empregou este epitheto como synonimo de <em>barbaro</em>! +<br /> + +<br /> + +<em>Diversas fórmas de ogiva</em>. Chama-se <em>ogiva</em> +toda a figura formada por dois ou +mais arcos de circulo, cortando-se segundo um certo angulo.<br /> + +<br /> + +Expliquemos, segundo a ordem chronologica, as principaes +fórmas da ogiva:<br /> + +<br /> + +<em>Ogiva obtusa</em>. Chamada tambem Roman, +quando termina superiormente em bico, muitas vezes quasi se confunde +com o arco de volta inteira. Os dois arcos que a formam, têem +os centros muito proximos; algumas vezes mesmo tão perto um +do outro que é necessario um attento exame para distinguir o +bico pouco sensivel que o distingue do arco de volta inteira.<br /> + +<br /> + +A ogiva com esta fórma encontra-se muito frequentemente nos +edificios do principio do periodo ogival, reapparecendo mais tarde, +já no fim do mesmo periodo, nos monumentos dos ultimos annos +dos seculos XV e XVI.<br /> + +<br /> + +<em>Ogiva aguda ou lanceta</em>. É +formada por dois arcos cujos centros estão situados +além da corda que une as suas duas extremidades inferiores +da volta do berço.<br /> + +<br /> + +Tem o nome de <em>Lanceta</em> pela sua +semelhança com o instrumento de cirurgia d'este nome.<br /> + +<br /> + +<em>Ogiva equilatera</em>. É +aquella cujos centros se acham nos dois extremos da corda, e na qual +podemos por consequencia inscrever um triangulo +<span class="pagenum">[161]</span> +equilatero. Tambem se dá a +esta ogiva o nome de ogiva traçada de terceiro ponto.<br /> + +<br /> + +<em>A ogiva alteada</em> é aquella +cujos arcos se prolongam inferiormente, sendo formados por dois ramos +verticaes e parallelos abaixo da linha dos centros. Encontra-se muitas +vezes no fundo do côro das grandes egrejas.<br /> + +<br /> + +As tres fórmas de ogiva acima descriptas empregaram-se +durante os seculos XII e XIII.<br /> + +<br /> + +<em>A ogiva de terceiro ponto</em> +é a que tem os centros dos arcos situados no terceiro ponto +da linha dos centros ou corda, e está dividida em tres +partes eguaes. Chama-se effectivamente ogiva de terceiro ponto, por +isso que se colloca a ponta do compasso no terceiro dos pontos de +divisão da corda.<br /> + +<br /> + +É para notar que muitos auctores, aliás muito +recommendaveis, não mencionam a ogiva formada por arcos cujo +centro se encontra a um terço da corda; a razão +d'isto é porque consideram a ogiva +equilateral como de terceiro ponto.<br /> + +<br /> + +Esta ogiva começou a apparecer no fim do XIII seculo e +generalisou-se bastante nos seculos XIV e XV.<br /> + +<br /> + +<em>A ogiva inflexa</em> descreve-se por meio +de raios partindo de quatro pontos e produzindo duas curvas junto +á corda e duas outras curvas em sentido inverso no vertice.<br /> + +<br /> + +O extradorso d'esta ogiva bem como o da fórma seguinte +é convexo na parte inferior e concavo na superior.<br /> + +<br /> + +<em>A ogiva em fórma de +chaveta</em> apenas differe da precedente por ser mais achatada. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p162">[162]</a></span> +Estas duas ultimas fórmas usaram-se durante os XV e XVI +seculos.<br /> + +<br /> + +A ogiva inflexa serve muitas vezes de coroamento a um arco de terceiro +ponto, durante a primeira metade do seculo XV, ou em chaveta, durante a +segunda metade do seculo XV e principio do XVI.<br /> + +<br /> + +A ogiva formada meia convexa e meia concava é +traçada como a ogiva em chaveta, com raios que partem de +quatro centros differentes, mas inversamente; o extradorso do arco +é concavo inferiormente e convexo no vertice. Encontra-se +esta ogiva, ainda que raras vezes, em alguns monumentos dos seculos XV +e XVI.<br /> + +<br /> + +<em>O arco Tudor</em>, assim chamado, porque +tomou o nome dos reis, que estavam no throno de Inglaterra na epoca em +que o seu uso se generalisou n'este paiz; é formado por +quatro arcos cujos centros se acham todos dentro do espaço +da ogiva. Ha uma fórma mais aguda, que é a que se +vê em monumentos inglezes de uma grande parte do seculo XV; a +outra forma mais abatida só foi empregada no fim do XV +seculo, e no principio do XVI. Os inglezes chamam á +primeira, arco de quatro centros, e á segunda arco abatido. +Ha ainda muitas fórmas intermediarias entre estes dois +extremos.<br /> + +<br /> + +<em>Origem da ogiva e do estylo ogival</em>. Os archeologos +não concordam uns com outros sobre a origem +da ogiva. A opinião que parece mais provavel, attendendo a +que os monumentos do Oriente exerceram certa influencia sobre a +introducção da +<span class="pagenum">[163]</span> +ogiva na architectura da +Europa no meiado do XII seculo, considera como um producto do genio +Occidental a applicação logica e systematica da +ogiva nas construcções executadas no Occidente +desde essa epoca. A ogiva appareceu na Europa poucos annos depois da +primeira cruzada.<br /> + +<br /> + +É possivel que esta forma architectonica fosse como outras +muitas cousas, introduzida no Occidente pelos cavalleiros cruzados, +quando regressaram das suas longiquas expedições. +Empregada a ogiva no principio como pura phantasia e como um novo modo +de ornamentação, quer para formar os +vãos das portas e janellas, quer para decorar as arcadas, as +paredes lisas e por baixo das cornijas, tornou-se mais tarde o ponto de +partida para o bello estylo da architectura cujo nome se ligou ao XIII +seculo e cujo desenvolvimento methodico pertence exclusivamente +á Europa Occidental.<br /> + +<br /> + +Este estylo rapidamente attingiu um subido gráo de +perfeição, devido ás numerosas +egrejas parochiaes, collegiaes, monasticas e cathedraes, que foram +fundadas, construidas ou reconstruidas e augmentadas nos seculos XIII e +XIV.<br /> + +<br /> + +A palavra <em>ogiva</em> nem sempre teve a +mesma accepção, que nos nossos dias se lhe +attribue. Outr'ora designava as nervuras salientes que se cruzam em uma +abobada, seja qual for a curvatura em arco de circulo, em ogival, +d'estas nervuras. Só depois do principio do seculo XIX +é que este termo foi empregado para designar o arco +terminando em ponta, conhecido agora pelo nome de ogiva. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p164">[164]</a></span> +<em>Divisões do periodo +ogival</em>. O periodo de treze seculos e tres quarteis, durante +o qual reinou na Europa Occidental o estylo ogival, póde ser +dividido em tres grandes epocas, tendo cada uma caracteres distinctos.<br /> + +<br /> + +As denominações francezas de estylo em +<em>lancetas</em>, <em>radiante</em>, +são tiradas da +fórma das janellas, assim como o nome de <em>perpendicular</em>, +dado em Inglaterra, no terciario do seculo XV.<br /> + +<br /> + +O estylo ogival não foi introduzido ao mesmo tempo em todos +os paizes, nem mesmo em todas as partes do mesmo paiz. Nasceu e +desenvolveu-se rapidamente, no meado do XII seculo, nos arredores de +Paris.<br /> + +<br /> + +O primeiro monumento que appareceu do estylo ogival, foi a fachada +occidental da abbadia de S. Diniz, perto de Paris, construida entre +1135 e 1140. Foi introduzido em Inglaterra, Allemanha, Hespanha e mesmo +n'algumas partes da Italia, por constructores formados em +França.<br /> + +<br /> + +<h4>Periodo de transição do estylo +Roman para o Ogival</h4> + +<br /> + +A substituição do estylo ogival pelo roman +não se fez em um dia, foram precisos muitos annos para a +operar. Foi esta epoca de transformação que +recebeu o nome de <em>periodo de +transição</em> entre os dois estylos. A +duração não +foi a mesma em todos os paizes, elle começou mais cedo n'um +paiz do que n'outro.<br /> + +<br /> + +Os monumentos do periodo de transição +distinguem-se quasi todos pelo emprego simultaneo do +<span class="pagenum"><a name="p165">[165]</a></span> +arco de volta inteira e da ogiva. Esta +combinação +consegue-se por dois modos:<br /> + +<br /> + +1.º Por simples +<em>juxtaposição</em>, +quando a ogiva isolada se acha n'um mesmo monumento ao lado d'um arco +de volta inteira. Nos edificios de +transição, vêem-se muitas vezes +aberturas de forma circular nos pavimentos inferiores, que +são os mais antigos, emquanto que, nos demais andares, se +vêem aberturas ogivaes; porém mais raramente se +vêem voltas inteiras nas divisões elevadas d'um +monumento, tendo vãos ogivaes nas inferiores.<br /> + +<br /> + +2.º Como decoração, quando duas ou +muitas ogivas +estão comprehendidas debaixo de uma só volta +inteira. Este modo de reunir a ogiva ao arco circular encontra-se +principalmente nas janellas e nas arcadas. Tambem se vêem +ás vezes dois ou muitos vãos de volta inteira +emmoldurados n'uma ogiva.<br /> + +<br /> + +3.º Quando arcos de volta inteira produzem ogivas, +entrecruzando-se +reciprocamente.<br /> + +<br /> + +Uma outra particularidade que muitas vezes se observa nos edificios de +transição, é +a união da esculptura da ornamentação +roman com a ogival.<br /> + +<br /> + +<h4>Caracteres da architectura ogival</h4> + +<br /> + +O estylo ogival seguiu principios até então +desconhecidos e um methodo novo e constante nas suas +deducções.<br /> + +<br /> + +A fórma dada a um objecto era conforme a +construcção, resultante não d'um +capricho ou d'uma phantasia, mas d'uma necessidade real. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[166]</span> +Segue-se que a ornamentação não se +applica indifferentemente e sem razão sobre as differentes +partes d'um monumento. D'ella nos servimos ou para chamar a +attenção sobre uma principal parte da +construcção, ou sobre um ponto importante d'um +objecto, ou para dissimular um obstaculo.<br /> + +<br /> + +Um outro caracter distinctivo do estylo ogival é que os seus +monumentos estão, como se diz em termos de architectura, <em>na +escala do +homem</em>, isto é: que em toda a +construcção, grande +ou pequena, ha certas partes em harmonia com a estatura humana e, por +consequencia, tendo pouco mais ou menos sempre as mesmas +dimensões.<br /> + +<br /> + +Os caracteres notaveis do estylo ogival, que nós acabamos de +assignalar em poucas palavras, encontram-se principalmente nos +edificios construidos na edade media, no Noroeste da Europa.<br /> + +<br /> + +Durante o periodo Roman os architectos e os operarios habilitavam-se +nas grandes obras das abbadias.<br /> + +<br /> + +O clero secular, e até mesmo os particulares ficaram sob a +direcção de Bispos protectores das artes, taes +como Egberto de Tréves (977-993) e S. Bernardo de Hildesheim +(993-1022) tomaram tambem uma grande parte na +direcção dos +movimentos artisticos.<br /> + +<br /> + +No XIII seculo as corporações seculares +apoderaram-se da pratica da architectura, e desde este momento, tod +No XIII seculo as corporações seculares +apoderaram-se da pratica da architectura, e desde este momento, todos +os grandes monumentos, quer religiosos, quer profanos, foram +construidos por mestres praticos. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[167]</span> +<em>Plano e disposição das +egrejas</em>. Plano no rez-do-chão.―Grande parte das +egrejas ogivaes apresentam, na planta, a fórma d'uma cruz +latina, cujo vertice figurado pelo côro, é voltado +para o +Oriente. Em algumas, nota-se sensivelmente um desvio grande no eixo do +côro com relação ao +da nave principal. Este desvio, que em geral só tem logar no +Norte e raramente no Sul, symbolisa provavelmente a +inclinação da cabeça do Salvador +sobre a Cruz no momento em que deu o ultimo suspiro.<br /> + +<br /> + +A orientação symbolica das egrejas, introduzida +desde os primeiros seculos do Christianismo, foi observada +escrupulosamente durante toda a edade media, e mesmo na epoca da +renascença. Foi só nos primeiros annos do nosso +seculo que a +orientação começou a desapparecer.<br /> + +<br /> + +Um pequeno numero d'egrejas tem o plano quasi rectangular.<br /> + +<br /> + +No Sul e no Oeste da França muitas grandes egrejas do XIII +seculo apresentam uma vasta nave unica sem naves lateraes, tendo +contrafortes interiores para sustentar o esforço da abobada +principal, que é d'aresta com nervuras.<br /> + +<br /> + +Encontram-se, principalmente na Allemanha, egrejas com duas naves. +Quasi todas foram construidas por religiosos d'ordens mendicantes, taes +como os Dominicanos e os Franciscanos. No seculo XIII tambem os +Jacobinos ou Dominicanos construiram egrejas de duas naves em Paris e +no Sul da França.<br /> + +<br /> + +As grandes egrejas do XIII seculo compõem-se +<span class="pagenum">[168]</span> +de tres, de cinco e até mesmo +de sete naves. Na Europa Central e Meridional, na França e +na Belgica, o côro tem geralmente a fórma +polygonal, emquanto que na Inglaterra elle é muitas vezes +rectangular e terminado por uma parede liza. No continente, apenas +excepcionalmente se encontra esta +disposição no côro d'algumas grandes +egrejas, a não ser nas extremidades do transepte.<br /> + +<br /> + +No final do periodo Roman, tinha-se começado em +França a dispôr capellas absidaes no +côro das grandes egrejas. Este uso manteve-se durante todo o +periodo ogival, e as capellas tomaram grandes +proporções. As primeiras que se chamam absidaes, +irradiam em torno da capella-mór; as outras ao longo das +paredes lateraes: exemplo a Sé de Lisboa.<br /> + +<br /> + +Notar-se-ha tambem que na cathedral d'Amiens, conforme o uso muito +geralmente seguido em França e em outros paizes, a +capella-mór +é muito mais vasta do que as outras. Encontram-se +egualmente, no côro das cathedraes inglezas do XIII seculo, +capellas da Virgem, com a simples differença que +são em geral muito maiores do que as do continente e +construidas sobre plano rectangular.<br /> + +<br /> + +Na Belgica, os córos das grandes egrejas do XIII seculo +estão ás vezes, como succede em +França, rodeados de capellas collateraes, dando a volta +completa ao côro, e limitadas por capellas construidas em +parte sobre plano rectangular e em parte sobre o polygonal; mas em +geral são pequenas e o seu numero mais restricto do que nas +cathedraes francezas. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p169">[169]</a></span> +Estas capellas constroem-se entre os contrafortes, que as dissimulam.<br /> + +<br /> + +O plano das egrejas do XIV e do XV seculos conserva pouco mais ou menos +a mesma disposição que durante o precedente +seculo. A unica mudança importante, que geralmente se nota, +consiste na addição de pequenas capellas ao longo +das paredes +lateraes das naves.<br /> + +<br /> + +As capellas são estabelecidas sobre um plano rectangular +entre os contrafortes, parecendo como que formar uma segunda nave +collateral ao lado da primeira. Na mesma época, juntou-se +muitas vezes, aos edificios do XIII seculo, ao longo das naves +lateraes, capellas construidas fóra do primitivo plano.<br /> + +<br /> + +Estas addições tornavam-se precisas pelo grande +numero de capellanias fundadas nos seculos XIV e no XV. Pelo mesmo +motivo se acrescentaram altares entre as pilastras das egrejas.<br /> + +<br /> + +<em>Disposição acima do solo, e +aspecto exterior das egrejas</em>. As egrejas <em>d'uma +só nave</em>―apresentam sempre uma +secção rectangular. Nos edificios +abobadados os contrafortes têem muitas vezes uma grande +importancia apresentando maior saliencia sobre a parede do edificio +tanto no interior como no exterior. Quando os contrafortes +estão construidos no interior, estabelecem-se regularmente, +entre estes contrafortes, capellas fazendo corpo com a egreja: como na +de S. Vicente em Lisboa.<br /> + +<br /> + +As egrejas que têem tres ou um numero impar de naves, podem +dividir-se em duas classes conforme +<span class="pagenum">[170]</span> +fôr a nave do meio mais +elevada ou da mesma altura que as paredes lateraes.<br /> + +<br /> + +A primeira classe comprehende as egrejas cuja nave do meio é +notavelmente mais elevada do que as paredes dos lados. As egrejas com +esta fórma são as unicas conhecidas na Europa +Occidental e Meridional, isto é, na Belgica, na +França, na +Inglaterra, na Hespanha, na Italia e em Portugal. A sua nave mais alta +é coberta com telhado de duas aguas inteiramente +independentes, emquanto que as paredes dos lados têem muitas +vezes um terraço ou um telhado de fórma de +alpendre e a sua +inclinação approximando-se sensivelmente da linha +horisontal; ás vezes tambem são cobertos com +repetidos pequenos telhados de duas vertentes, ficando perpendiculares +á nave e terminados por empenas.<br /> + +<br /> + +Abrem-se regularmente nas paredes lateraes da grande nave, janellas que +deitam para cima dos telhados lateraes.<br /> + +<br /> + +A segunda classe compõe-se das egrejas cujas naves se elevam +á mesma altura. Estas egrejas são +proprias da Europa central; encontra-se um grande numero d'ellas, +conjunctamente com alguns edificios da primeira classe, na Allemanha, +Austria e Hungria.<br /> + +<br /> + +Os Allemães deram ás egrejas tendo nave de egual +altura o nome de egrejas-mercado, sem duvida porque ellas parecem +formar uma vasta salla, um <em>hall</em> inglez, devido +á +elevação uniforme das suas naves. O seu aspecto +exterior tambem differe sensivelmente do das egrejas belgas, francezas +e +<span class="pagenum">[171]</span> +inglezas; as tres naves +são cobertas por um telhado unico de duas aguas, e, por +conseguinte, a nave central não recebe luz directamente, +como nas egrejas de primeira classe; a luz só lhe penetra +pelas janellas lateraes; todavia estas, altissimas em consequencia da +grande elevação das paredes, compensam bem a +suppressão das janellas superiores introduzindo a luz na +nave central.<br /> + +<br /> + +No fim do periodo ogival encontram-se, particularmente na Austria e +Hungria, egrejas com esta fórma, cujas paredes lateraes +são um pouco menos elevadas que a nave do meio.<br /> + +<br /> + +Tambem se construiram, na época do renascimento, egrejas com +naves da mesma altura.<br /> + +<br /> + +<em>Egrejas da Flandres maritima</em>. +Encontram-se em muitas cidades e aldeias da Flandres Occidental, +egrejas cujas disposições differem notavelmente +das que se construiram no resto da Europa. Apesar de se assimilharem +ás precedentes, de tres naves da mesma altura, +não se devem de modo algum confundir com as egrejas +allemãs, com as quaes se parecem á primeira vista +por terem as naves da mesma altura; não têem nada +mais de commum entre si.<br /> + +<br /> + +Construidas em geral sobre um plano rectangular, compõem-se +d'uma nave principal fechada por paredes d'egual extensão; +não têem +transepte ou, se o têem, não produz saliencia +alguma no exterior das paredes.<br /> + +<br /> + +As abobadas de pedra ou de tijolo são substituidas, mesmo +nos grandes edificios, por tectos +<span class="pagenum"><a name="p172">[172]</a></span> +curvos formados de madeira com divisões visiveis, pintados e +até com obra de talha, e deixando vêr as +peças do madeiramento.<br /> + +<br /> + +A cobertura das egrejas é formada por tres telhados de duas +aguas da mesma altura pouco mais ou menos; resultando não +ter a nave principal janellas altas e ser a fachada sempre terminada +por tres empenas da mesma altura.<br /> + +<br /> + +<em>O plano das capellas</em>.―As capellas +construidas durante o periodo ogival não têem +ordinariamente transepte +e são construidas sobre plano rectangular.<br /> + +<br /> + +O côro termina no lado Oriental por um abside polygonal ou +uma parede lisa. As capellas das egrejas conventuaes +compõem-se geralmente de tres naves, emquanto que as +pequenas capellas não têem regularmente +senão uma.<br /> + +<br /> + +As construcções ogivaes não apresentam +em geral symetria, e o mesmo se nota no traçado do plano e +nos caracteres architectonicos. Estas irregularidades provêem +de duas causas principaes. Em primeiro logar os architectos d'esta +época, sem desprezarem a symetria, não a +consideraram propria das conveniencias, necessidades e harmonia geral.<br /> + +<br /> + +Algumas vezes tambem, vindo a faltar-lhes os recursos com que contavam +no principio dos trabalhos, viam-se forçados a alterar o +plano primitivo e supprimirem-lhe certas partes. Emfim, muitos +monumentos foram construidos muito lentamente, o que deu logar a que as +suas differentes partes fossem successivamente construidas, +apresentando +<span class="pagenum">[173]</span> +sempre por esse motivo +cada uma d'ellas os caracteres architectonicos em voga na +occasião da sua construcção.<br /> + +<br /> + +<em>Systema de +construcção</em>.―Os grandes +monumentos edificados pelos romanos no tempo da republica e sob os +imperadores, formavam, pela estabilidade dos seus pontos d'apoio, +condensação e cohesão perfeita dos +seus materiaes, massas solidas capazes de resistir ao peso, e, em caso +de necessidade, á pressão das abobadas, que eram +formadas de peças homogeneas, concretas e sem elasticidade.<br /> + +<br /> + +Em substituição da abobada romana os architectos +romans empregaram pouco a pouco a abobada de nervuras, cuja +construcção assenta sobre o principio da +elasticidade e do equilibrio das forças. O plano quadrado +era o escolhido para as suas edificações; mas +quando se tratava de +neutralisar a pressão lateral exercida por esta abobada +sobre os seus pontos d'apoio, ou quando era preciso construir uma +abobada sobre um plano que não fosse quadrado, entregavam-se +então a experiencias cujo resultado nem sempre correspondia +á espectativa.<br /> + +<br /> + +Os architectos do periodo ogival realisam grandes progressos na +construcção das abobadas. +Primeiramente cobrem os edificios servindo-se das abobadas de nervuras, +superficies cujos planos são parallelogrammos, trapesios, +pentagonos e mesmo polygonos irregulares; depois, resolvem d'um modo +completo o problema tão difficil da estabilidade +<span class="pagenum">[174]</span> +das abobadas, pelo principio do +equilibrio das forças. Empregam a abobada, não +como uma crosta homogenea e inerte, mas como uma serie de paineis de +superficies curvas ou de triangulos de enchimento independentes uns dos +outros e limitados por nervuras apparelhadas e flexiveis. Ás +pressões obliquas d'estas abobadas, oppõem +resistencias activas, em vez de obstaculos passivos, e transportam a +resultante de todas as pressões obliquas e contrarias para +os contrafortes exteriores, que fazem rigidos e firmes, dando-lhes uma +base muito ampla e carregando-os com um consideravel pezo.<br /> + +<br /> + +As nervuras das abobadas com os seus pontos d'apoio, isto é, +as columnas, os contrafortes e algumas vezes os arco-butantes, +compõem a ossada, o esqueleto de todo o grande edificio +ogival. As outras partes da construcção, que +formam o +revestimento d'esta ossada, desempenham o logar de simples tabiques: as +janellas occupam, entre os pontos d'apoio das abobadas, o maior +espaço possivel, e as paredes pouco espessas são +ornadas de arcadas que ainda as tornam mais delgadas. As janellas e as +paredes podiam ser supprimidas sem que a +construcção principal soffresse o menor +prejuiso.<br /> + +<br /> + +<em>Materiaes e apparelhos de +construcção</em>. Tanto durante o periodo +roman, como durante o ogival, se procuravam os materiaes precisos o +mais proximo possivel do logar em que se fazia a +construcção. Com effeito o transporte, ainda +n'este tempo, offerecia +<span class="pagenum"><a name="p175">[175]</a></span> +grandes difficuldades por causa da ausencia completa de estradas +viaveis. Os materiaes empregados são em geral de pequenas +dimensões, porque os instrumentos para os +extraír, +transportar e assentar eram insufficientes em +comparação com as +poderosas machinas de que dispomos em nossos dias.<br /> + +<br /> + +Quando não havia pedreiras para explorar, serviam-se de +tijolos.<br /> + +<br /> + +<em>Esculptura monumental</em>. Durante o +periodo roman, a esculptura d'ornato consistia em figuras geometricas, +animaes monstruosos, e tambem ás vezes de +imitação de vegetaes. Durante a segunda metade do +seculo XII, teve logar uma revolução completa na +esculptura ornamental; as palmas, as folhagens, os galões e +as figuras geometricas, os cordões entrelaçados +dão logar aos +vegetaes indigenas; n'uma palavra, tudo o que não +é inspirado pela flora do paiz desapparece.<br /> + +<br /> + +Os primeiros artistas que se entregam ao estudo das plantas indigenas +para as reproduzir na esculptura d'ornato, não procuram +imitar fielmente nas suas obras os vegetaes que têem +á sua vista; mas antes os interpretam a seu modo, isto +é, apoderam-se dos caracteres principaes com que se inspiram +e compõem a largos traços a sua esculptura +monumental.<br /> + +<br /> + +Os artistas entendem que a arte para ser bem apreciada não +consiste na reproducção +escrupulosa como se fôsse photographia da natureza real, mas +sim na expressão do real idealisado e transformado pela +imaginação do esculptor. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[176]</span> +Esses artistas introduziram no centro e no norte da França +este novo estylo de esculptura monumental durante a segunda metade do +seculo XII; e os seus imitadores nas outras partes da Europa, no +principio do seculo seguinte, limitaram-se em principio a imitar nas +suas obras as plantas mais humildes dos bosques e dos campos na +occasião em que dão os seus primeiros rebentos, +quando os botões apparecem apenas meio abertos ou n'uma +palavra quando começam o seu primeiro desenvolvimento. Ha um +exemplo bem conhecido d'esta ornamentação vegetal +rudimentar nos mais antigos <em>crochetes</em> de capiteis +e nas rampas +dos edificios que se usaram no final do seculo XII e principio do XIII. +<br /> + +<br /> + +Estes <em>crochetes</em> primitivos terminam +enroscados de folhagem, semelhando-se bastante com os rebentos das +plantas que brotam da terra.<br /> + +<br /> + +Entretanto os esculptores vão progredindo; depois de haverem +applicado as suas inspirações ao estudo do +primeiro desenvolvimento dos mais modestos vegetaes, abandonam estes +humildes modelos, para em seu logar applicarem as folhas completamente +formadas, as flores e os fructos das arvores, dos arbustos e das +plantas herbaceas, mais graciosas.<br /> + +<br /> + +Procuram reproduzir a vinha, a hera, o acre, o azevinho, a roseira +brava, a figueira, o carvalho, a pereira, o nenuphar, as campainhas, o +rainunculo, o morangueiro, o trevo, o platano, a salsa, etc. Todavia +esta transformação não se +operou bruscamente, +<span class="pagenum">[177]</span> +mas a +pouco e pouco e por successivas transições: na +flora monumental, bem como na +flora natural, á maneira que os tempos passavam, os renovos +abrem, as folhas desdobram-se, os botões tornam-se em flores +e produzem fructos. Foi n'esta epoca que na França (no final +do XII seculo, e +até mais tarde) os roulamentos primitivos das +<em>crochetes</em> se abrem dando logar a +florões e ramos de folhagens inteiramente desenvolvidos.<br /> + +<br /> + +Progredindo sempre, os esculptores do seculo XIV abandonavam pouco a +pouco a nobre e graciosa simplicidade que os do seculo XIII costumavam +imprimir a todas as suas obras; entregam-se apaixonadamente +á imitação da natureza real e escolhem +de preferencia as plantas d'um modelo exagerado; reproduzem-nas com uma +rara perfeição, mas exageram-lhes as +ondulações e contornos. +Estas ondulações, que constituem um dos +caracteres que distinguem a esculptura do seculo XIV, encontram-se +já algumas vezes, ainda que poucas, durante a segunda metade +do seculo XIII.<br /> + +<br /> + +As esculpturas do seculo XIV são muitas vezes inferiores +ás do XIII, porque são menos +francamente executadas e carecem de simplicidade nos contornos e no +modelado; finalmente já visam muito a produzir effeito. O +seculo XIV no entanto produziu obras esculpturaes de grande merito.<br /> + +<br /> + +A esculptura monumental no seculo XV caminha cada vez mais para o +affectado. Toma as plantas com folhagens m +A esculptura monumental no seculo XV caminha cada vez mais para o +affectado. Toma as plantas com folhagens muito recortadas, taes como o +cardo, a folha do repolho, etc. e para as imitar +exagera-lhes +<span class="pagenum">[178]</span> +as profundas +chanfraduras e os lóbulos angulosos das folhas.<br /> + +<br /> + +Estas esculpturas são finas, delgadas e excessivamente +vasadas.<br /> + +<br /> + +Um ornato muito frequente do XV seculo em diante e que principalmente +se vê nas açafatas dos +capiteís, é o que vulgarmente se chama folha de +repolho por causa da sua semelhança mais ou menos com a sua +folha enroscada.<br /> + +<br /> + +Tambem se vêem representados na esculptura decorativa do +periodo ogival, assumptos historicos, legendarios e symbolicos bem como +animaes reaes e phantasticos. Estes animaes e as figuras grotescas, +algum tanto raras no interior dos edificios, encontram-se comtudo +bastante na decoração +exterior dos monumentos, como carrancas, modilhões e +até algumas vezes ornatos em +substituição dos <em>crochetes</em> +de rampa.<br /> + +<br /> + +Durante todo o periodo ogival, as esculpturas eram completamente +concluidas antes de se collocarem.<br /> + +<br /> + +Os esculptores de imagens terminavam as suas obras na casa do trabalho, +e eram collocadas no seu logar pelos alveneos. Um esculptor nunca subia +a um andaime.<br /> + +<br /> + +<em>Fachadas</em>.―As faces exteriores dos +monumentos da edade media são a expressão exacta +das disposições interiores.<br /> + +<br /> + +Em consequencia d'este principio, as fachadas occidentaes das egrejas +reproduzem no conjuncto o córte transversal das naves. +Além d'isso, como +<span class="pagenum"><a name="p179">[179]</a></span> +a +fórma d'este córte é pouco mais ou +menos a mesma em quasi todas as egrejas ogivaes, resulta d'isso, que o +aspecto geral de muitas fachadas é d'uma grande +semelhança. Apezar d'esta semelhança +no conjuncto geral e dos contornos exteriores, a +disposição e a +ornamentação das fachadas são +extremamente variadas. As mais bellas fachadas ogivaes são +sem duvida as das grandes cathedraes francezas. Compõem-se +em geral de muitas zonas horisontaes e parallelas; o pavimento terreo +tem tres portaes, que dão ingresso para as tres naves; o +central, que é a porta principal, é mais largo e +ornado mais ricamente que os outros dois.<br /> + +<br /> + +As fachadas das grandes egrejas inglezas e allemãs (excepto +a de Colonia), não têem +ornamentações tão vistosas como as +cathedraes francezas. A disposição é +menos regular e a +ornamentação destituida ás vezes de +bom gosto. Grande numero das egrejas allemãs têem +só na fachada +Occidental duas torres em cada lado.<br /> + +<br /> + +Na Belgica poucas egrejas têem tres portaes; geralmente na +fachada principal ha apenas um. As rosaceas, que são +tão vulgares nas fachadas +francezas, raramente se vêem nas egrejas da Belgica.<br /> + +<br /> + +As fachadas das egrejas ruraes são sempre de uma grande +simplicidade. Em geral tem um campanario, e apenas uma porta ao centro +da fachada e uma ou tres janellas no frontispicio.<br /> + +<br /> + +<em>Alpendres</em>. Quasi todas as grandes +egrejas ogivaes apresentam um ou muitos alpendres, collocados adiante +da fachada Occidental, ou das entradas +<span class="pagenum">[180]</span> +lateraes. Em muitas egrejas +romans foi addicionado o alpendre na epocha ogival.<br /> + +<br /> + +Os alpendres contiguos á fachada principal das egrejas +ogivaes ou os construidos debaixo do campanario, que limita esta +fachada, quasi se não encontram em França desde o +seculo XIII. Ainda são mais raros na Belgica, Allemanha e +Inglaterra.<br /> + +<br /> + +Durante o periodo ogival, muitos alpendres se construiram adiante das +entradas lateraes. Os mais bellos monumentos d'este genero +são os alpendres ao Norte e ao Sul da Cathedral de Chartres, +que datam dos primeiros annos do seculo XIII. Na Belgica tambem ha +alguns alpendres lateraes notaveis, compostos d'um ou dois +vãos na frente e vedados por tres lados, estando ornados no +interior com estatuas collocadas sobre misulas e coroadas de doceis. +Tambem se construiam, mas raramente, alpendres abertos em tres lados ou +vedados por frestas nos dois lados.<br /> + +<br /> + +<em>Portaes</em>. Na França e +mesmo em Colonia as cathedraes e as grandes egrejas ogivaes +não têem geralmente alpendres adiante da fachada +principal, mas os portaes formam de per si verdadeiros alpendres, que +são cuidadosamente adornados.<br /> + +<br /> + +Os portaes principaes das grandes egrejas francezas do seculo XIII +distinguem-se pela riqueza extraordinaria das esculpturas de todos os +generos com que são adornados. Apresentam grandes +vãos que se abrem do interior para o exterior e divididos em +duas partes eguaes por uma parede.<br /> + +<br /> + +Na fachada de <em>Notre-Dâme</em> +de Paris vê-se, em +<span class="pagenum">[181]</span> +frente d'essa parede e sob um docel, uma grande estatua representando o +Salvador deitando a +benção, a Santissima Virgem com o seu amado +Filho, e tambem ás vezes o orago da Egreja. A base d'essa +parede e os rodapés dos vãos +são ornados com baixo-relevos.<br /> + +<br /> + +Os tympanos são regularmente divididos em tres partes +horisontaes, onde se figuram em relevo assumptos religiosos, estatuas +de grandes dimensões, que em numero consideravel guarnecem +as paredes verticaes dos portaes, emquanto que as curvas das abobadas +recebem muitas ordens parallelas de estatuetas collocadas debaixo de +doceis.<br /> + +<br /> + +Todas estas esculpturas representam Santos e factos tirados da historia +do Velho e Novo Testamento, da lenda e de certos dogmas da +Fé.<br /> + +<br /> + +Os arcos dos portaes, das janellas e das empenas são, +algumas vezes, ornados tambem interiormente, d'um appendice chamado <em>redente</em>; +este ornato tambem ás vezes se encontra no intradorso das +grandes arcadas, ligando as columnas que separam as naves das paredes +lateraes das egrejas.<br /> + +<br /> + +Os <em>redentes</em> são recortes +em fórma de dente ou de bicos, que guarnecem o intradorso +d'um arco. Tambem se applicou este mesmo nome a uns ornatos analogos, +que se collocam sobre as prumadas das empenas.<br /> + +<br /> + +Nos edificios do seculo XIV, os portaes são ainda bem +delineados, todavia já não têem a +grandeza que caracterisa os do seculo XIII. Os perfis das +<span class="pagenum">[182]</span> +molduras são agudos e muito +multiplicados; a estatuaria, abandonando a nobre simplicidade, +preoccupou-se em cogitar formas affectadas, e por isso mesmo a arte +declina. Apesar d'estes defeitos, os grandes portaes das egrejas do +seculo XIV têem +ainda verdadeiro merito quanto á +composição e outras qualidades que debalde se +procuram nos monumentos dos seculos posteriores.<br /> + +<br /> + +Os grandes portaes dos seculos XIV +e XV têem +as mesmas disposições geraes que os do seculo +precedente, com a simples differença de que as columnas +cylindricas que formavam os vãos dos portaes e que sustentam +as archivoltas são substituidas por molduras prismaticas, +ordinariamente sem capitel, e que prolongando-se constituem por si +só as archivoltas. Estes portaes occupam +espaço profundo, porque são regularmente +construidos entre dois contrafortes salientes da fachada.<br /> + +<br /> + +O pilar que separa o portal, e o tympano dos grandes portaes do XIV e +XV seculos, tem +sempre estatuas de Santos debaixo dos doceis e apoiando-se sobre +misulas primorosamente esculpidas. Desapparecem as estatuas em muitos +monumentos.<br /> + +<br /> + +Ordinariamente os vãos ogivaes dos portaes e muitas vezes os +da entrada dos alpendres, são emmoldurados por um contorno +em forma de empena.<br /> + +<br /> + +Nos seculos XIII e XIV, este feitio +representa a extremidade d'um telhado de duas vertentes com a +inclinação d'um angulo que varia entre 45 e 90 +gráos. No XV +seculo, os +vãos de todos os portaes grandes e pequenos, e algumas vezes +tambem os +<span class="pagenum">[183]</span> +das janellas, +são formados por ogivas ou por contracurva.<br /> + +<br /> + +No seculo XII, as inclinações das empenas +são quasi sempre ornadas de <em>colchetes</em> +enroscados; desde o principio do seculo XIII, os enroscamentos ou +extremidades d'estes <em>colchetes</em> +desdobram-se e transformam-se em florões. Os +<em>colchetes</em> são +substituidos, no seculo XIV, por folhas de extraordinaria grandeza, que +muitas vezes se designam ainda pelo nome de colchetes, redentes ou +animaes phantasticos; nos seculos XV e XVI apparecem as folhas de +repolho.<br /> + +<br /> + +Estes ornamentos pouco numerosos e muito espaçados no XIII +seculo, multiplicam-se e approximam-se á medida que a arte +ogival vae em decadencia. O vertice das empenas ou das ogivas inflexas +que substituem as empenas do XV seculo, termina ora por um +florão, ora por uma estatua assente sobre uma quartella, em +fórma de sóco.<br /> + +<br /> + +Os portaes de segunda e terceira ordem offerecem mais simplicidade do +que os outros que acabamos de descrever. Não têem +pilar de +separação e por causa dos seus vãos +geralmente pouco profundos, têem molduras menores que os +portaes de primeira ordem.<br /> + +<br /> + +No XIII e XIV seculos, as empenas compõem-se de duas, tres +ou quatro columnatas na rectaguarda umas das outras, e ligam-se com os +extremos dos arcos superiores. Desde o final do XIV seculo, foram as +columnatas substituidas por molduras prismaticas, quasi sempre sem +divisão de capitel. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[184]</span> +Até meiado do seculo XV, ajuntava-se, muitas vezes, +á archivolta dos portaes e tambem ás +curvas das janellas, um rebordo exterior em fórma de goteira +cujas extremidades assentam á altura da nascença +da ogiva, sobre modilhões esculpidos, +representando figuras, animaes phantasticos ou carrancas; este rebordo +tambem ás vezes é ornado de <em>colchetes</em> +com folhas de grande +lavor ou figuras grotescas.<br /> + +<br /> + +<em>Lemes das portas</em>. Os constructores +romans tinham, como já explicámos, convertido em +objecto de ornamentação os lemes e as ferragens +que +empregavam para reunir os frisos que compõem os batentes. As +archivoltas do periodo ogival ultrapassaram os seus precedentes n'este +genero de decoração.<br /> + +<br /> + +No seculo XIII e ainda mesmo no XIV, os lemes representam folhagens +entrelaçadas, armadas de flores e fructos. As suas +differentes partes são reunidas com uma arte e delicadeza +notaveis, apesar de n'esta epoca os meios de fabrico serem muito +simples. Um martello movido por uma corrente de agua +constituía, por assim dizer, o unico recurso das +fabricas da edade media. O ferro obtido em fragmentos de um peso +mediocre, era entregue ao ferreiro, que á força +de braço +convertia estes fragmentos em barras ou peças mais ou menos +delgadas. Não eram conhecidas, nem a lima, nem as cisalhas. +Apezar da pobreza de meios de +fabricação, os ferreiros da edade media +produziram obras primas de serralheria. Podemos affirmar que em +<span class="pagenum"><a name="p185">[185]</a></span> +muitos paizes a arte de +serralheria attingiu o seu apogeu no seculo XIII. Os lemes do principio +do periodo ogival distinguem-se dos das epocas posteriores em que, +ordinariamente, são +<em>estampados</em>, isto é, trabalhados em +relevo por meio de matriz. Foi pela estampagem que se obtiveram +ramagens cheias de vigor e estes soberbos cachos que caracterisam os +lemes dos portaes de todas as grandes egrejas do XIII seculo.<br /> + +<br /> + +Os lemes estampados começaram a desapparecer na +França no principio do seculo XIV, ao passo que na Belgica +foram muito empregados ainda n'este seculo e até mesmo no +seculo XV.<br /> + +<br /> + +Nos fins do seculo XIII começaram a apparecer na +França os lemes lisos, isto é, formados por uma +peça de ferro batido, poucas vezes executados em relevo. +Este uso generalisou-se desde os primeiros annos do seculo XIV; nos +outros paizes e especialmente na Belgica eram empregados +simultaneamente com as ferragens estampadas, tanto no seculo XIV, como +no XV.<br /> + +<br /> + +Os serralheiros da edade média procuraram para objecto de +ornamentação, não +só os lemes, mas tambem todos os outros accessorios +necessarios para os portaes, taes como os prégos, os fechos, +as argolas das fechaduras.<br /> + +<br /> + +<em>Janellas</em>. Durante o periodo de +transição e no principio da epoca ogival, os +vãos das janellas eram estreitos, pouco elevados e fechados, +na sua parte superior, por lancetas ou ogivas agudas. Estes +vãos, em geral reunidos em dois ou tres, são +<span class="pagenum">[186]</span> +separados por pequenos pilares em +fórma de humbreira, estando muitas vezes como emmoldurados +por um grande arco commum. Chamam-se prumos de cantaria os que dividem +uma janella em humbreiras aos vãos ou compartimentos +verticaes. A triplice lanceta da janella tem o vão do meio +geralmente mais elevado que o dos lados.<br /> + +<br /> + +Em França, no principio do seculo XIII, e n'outros paizes +alguns annos mais tarde, em vez de estreitarem os vãos das +janellas, alargavam-nos e formavam por cima bandeira com +construcção de cantaria compostas de humbreiras +simples e ligeiras. Em geral existe uma abertura independente por cima +dos vãos d'estas janellas primitivas. Nas +construcções esmeradas e ricas, as humbreiras +estão collocadas tanto no interior como no exterior, tendo +uma columna com base e capitel, e o tympano da janella é +ornado de redentes, com uma ou muitas vidraças compostas de +tres, quatro, seis e algumas vezes oito vidros.<br /> + +<br /> + +As grandes egrejas do XIII seculo e um grande numero de edificios do +XIV seculo teem as janellas muito grandes, divididas em muitos +vãos.<br /> + +<br /> + +Estas janellas compõem-se de uma rosacea de grande diametro, +que occupa a parte superior do tympano tendo uma columna que divide o +vão em duas partes eguaes; em cada um d'estes +vãos secundarios, apresenta uma abertura composta egualmente +de uma columna central, porém, mais delgada que a primeira e +d'um oculo circular do feitio de folha de trêvo, ou uma de +quatro folhas. Se mesmo +<span class="pagenum">[187]</span> +com +estas sub-divisões (como succede nas janellas de grande +largura), estas columnas não ficam +sufficientemente proximas para a segurança das +vidraças, estabelecem-se ainda entre si novas humbreiras +divisorias, tendo por cima tambem rosaceas de menor grandeza.<br /> + +<br /> + +Na Belgica, Allemanha e Inglaterra, ha janellas do seculo XIII, +divididas por duas humbreiras de menor importancia para formarem tres +vãos. Ás vezes é o vão do +meio mais estreito que os dos lados. Este feitio de janellas era muito +raro na França, no principio do periodo ogival.<br /> + +<br /> + +Para diminuir o espaço vazio das rosaceas do tympano das +grandes janellas, collocavam-se redentes de cantaria seguros por +circulos de ferro. Ás vezes, no seculo XIV, se substituiam +as rosaceas do tympano por folhas de trêvo, ou compostas de +quatro folhas, e tambem com outras combinações +de figuras geometricas.<br /> + +<br /> + +Durante os seculos XIV e XV, o numero dos vãos das janellas +varia muito, mas em geral é de tres.<br /> + +<br /> + +No mesmo edificio, se vêem, conforme a largura dos +vãos, janellas de dois, tres, quatro, cinco, seis, sete ou +oito compartimentos.<br /> + +<br /> + +Em alguns monumentos belgas, inglezes e allemães, as grandes +janellas das extremidades do transepte e da capella mór, +quando esta termina por uma parede recta, ficam divididas em duas +partes eguaes por uma columna central de grande grossura formando um +verdadeiro pilar.<br /> + +<br /> + +As humbreiras das janellas dos seculos XIII e XIV +<span class="pagenum">[188]</span> +são ás vezes +formadas por uma só pedra +inteiriça; comtudo geralmente são construidas por +pedras pequenas. Em grande numero dos edificios francezes, ha, interior +e exteriormente, ou n'um dos lados das janellas, uma columna embebida, +com base e capitel.<br /> + +<br /> + +Na Belgica, Allemanha e Inglaterra as humbreiras das janellas de muitos +monumentos não têem columnas, principalmente as do +seculo XIV.<br /> + +<br /> + +As columnas servindo de humbreiras apparecem sempre collocadas junto +dos pés direitos, no interior e no exterior da janella. Na +Belgica vêem-se com frequencia essas columnas embebidas nos +angulos das paredes pertencentes ás janellas nas quaes lhes +faltam as humbreiras.<br /> + +<br /> + +Os capiteis das columnas que formam as humbreiras das janellas, +são coroados por um ábaco <em>quadrado</em>, +no principio do periodo +ogival, mais tarde tornou-se <em>circular</em>, e no +principio do XIV seculo, <em>hexagonal</em>.<br /> + +<br /> + +Os constructores dos seculos XIII e XIV, habituados a discorrer sobre +todas as suas obras, facilmente comprehendiam que collocar um capitel +nas columnas servindo de humbreiras, era ir ao encontro do principio +fundamental da architectura ogival, que prescrevia desprezar todas as +partes inuteis, todos os motivos de ornamentação +que +não resultassem d'uma necessidade de +construcção. Effectivamente não parece +sufficientemente justificada a necessidade d'este capitel, porque a +parte superior da columna não serve de ponto de apoio a +nenhum +<span class="pagenum">[189]</span> +peso extraordinario, e +tambem não serve de +transição ás duas partes realmente +distinctas, pois a moldura superior do capitel é em tudo +semelhante á fórma do fuste da columna, porquanto +o capitel apenas servia de ornato, sem outro fim verdadeiramente util. +Tendo em vista o principio fundamental do estylo ogival e todas as +consequencias logicas que elle encerra, os architectos da segunda +metade do seculo XIV e do principio do XV não se +detêem em reconsiderar, supprimem inteiramente o capitel e +muitas vezes a propria columna, e dão a todas as humbreiras +a mesma espessura. No fim do XIV seculo introduziram egualmente +modificações importantes nos desenhos +traçados pelas humbreiras dos tympanos das janellas. Os +redentes que até aqui serviam para diminuir o +espaço roto das grandes rosaceas foram primeiramente +substituidos por combinações de figuras +geometricas em que predominam as formas ogivaes com curvas compostas de +duas em sentido oppostos e do feitio de chamma. É d'esta +epocha que data o ornato conhecido pelo nome de <em>chamma</em> +e deu +o nome de <em>flammejante</em> ao estylo do seculo XV. +Este ornato não só se encontra nos tympanos de +janellas, mas tambem nas balaustradas, nos batentes das portas, fechos, +mobilias, n'uma palavra, em tudo onde é possivel applical-o. +Os allemães chamam-lhe Fischblase (bexiga de +peixe).<br /> + +<br /> + +As janellas da <em>primeira metade</em> do +seculo XV têem ainda ás vezes alguma analogia com +as dos seculos precedentes. Não é raro +encontrar-se nos +<span class="pagenum">[190]</span> +tympanos +grandes rosaceas com figuras curvas ou chammas em vez de redentes. +Todavia grande numero das rosaceas circulares dos tympanos, durante a +primeira metade do seculo XV, foram substituidas com o feitio de +triangulos e quadrilateros curvilineos ou por outras figuras +geometricas regulares, nas quaes ha chammas representadas. No meado do +seculo XV desapparecem do tympano as figuras regulares, e as humbreiras +tomando +direcções cada vez mais arbitrarias, +dão logar aos mais variados desenhos flammejantes.<br /> + +<br /> + +No fim do XV seculo as archivoltas das janellas tornam-se mais obtusas +e tomam no principio do seculo XVI a forma de arcos de volta abatida ou +em aza de cesto; os desenhos dos tympanos são toscos e +angulosos. A volta inteira ou de semicirculo, que começa a +apparecer timidamente nos vãos entre as humbreiras, annuncia +o proximo regresso dos typos de architectura classica.<br /> + +<br /> + +Do que acabamos de dizer resulta que os desenhos geometricos +encontram-se principalmente nos tympanos das janellas durante a +primeira metade do seculo XV, emquanto que os desenhos flammejantes +propriamente ditos são da ultima metade do XV e do principio +do XVI seculos.<br /> + +<br /> + +As archivoltas exteriores das janellas dos edificios de primeira ordem +têem ás vezes alguns ornatos.<br /> + +<br /> + +O cavado mais largo e mais profundo do intradorso d'estas archivoltas +é ornado de colchetes nos grandes monumentos francezes do +seculo XIII; no +<span class="pagenum">[191]</span> +seculo XIV +é ornado de florões e de cachos, e no XV apparece +a folha de repôlho.<br /> + +<br /> + +As archivoltas exteriores das janellas são do mesmo modo que +as dos portaes e dos alpendres rodeadas por um rebordo saliente ou +encimadas por uma galeria. Os rebordos que rodeiam as archivoltas das +janellas têem o mesmo feitio que os dos portaes.<br /> + +<br /> + +Nos seculos XIII e XIV, têem a fórma d'uma goteira +e são geralmente formados nos proprios fechos da archivolta; +as extremidades vêem acabar á altura do nascimento +da ogiva, ficando assentes sobre modilhões ou +então na +direcção horisontal sob a fórma de +cordão, que liga entre si duas +janellas proximas uma da outra.<br /> + +<br /> + +Nos edificios mais importantes, os rebordos são em geral +decorados de distancia a distancia, com colchetes ou folhas +ornamentaes. Nos seculos XV e XVI, os feitios das janellas +têem a fórma de uma ogiva com curvas inversas, +terminando por um florão. Os remates que coroam muitas vezes +as janellas dos grandes monumentos, são similhantes aos dos +portaes, tendo do mesmo modo a fórma da empena e os seus +lados inclinados têem colchetes, redentes ou folhas de +repolho encrispadas. O vertice, que em geral termina em +florão, penetra muitas vezes na balaustrada prolongando a +altura do tecto e fazendo corpo com elle.<br /> + +<br /> + +Os architectos do periodo ogival, e até mesmo os do periodo +de transição, de ordinario +reservaram nas grandes egrejas, galerias passando junto +<span class="pagenum"><a name="p192">[192]</a></span> +das janellas e que eram principalmente +destinadas a facilitar a collocação e +conservação das vidraças. Estas +galerias são estabelecidas em toda a extensão do +edificio, dando muitas vezes a volta completa em todo o monumento; +são verdadeiros corredores de serviço. No +rez-do-chão, isto +é, nas paredes dos lados e no côro, quando este +não tem capellas lateraes, são ellas +estabelecidas no interior em quanto que no pavimento superior ficam +sempre exteriores e atravessam os contrafortes. D'aqui resulta haver +galerias em que as vidraças estão assentes por +dentro nas janellas inferiores e por fóra nas altas.<br /> + +<br /> + +<em>Rosaceas</em>. As rosaceas são +um dos mais bellos ornamentos dos grandes monumentos religiosos do +periodo ogival.<br /> + +<br /> + +Apparecem tanto na fachada Occidental como nas empenas dos transeptes. +Na França, as rosaceas são muito communs nos +seculos XIII e XIV; pelo contrario na Belgica e na Inglaterra, +são raras, mesmo nas maiores egrejas.<br /> + +<br /> + +As rosaceas e as janellas têem caixilhos de pedra destinados +a fixar as vidraças. Estes caixilhos +são muitas vezes dispostos em fórma de raios de +roda.<br /> + +<br /> + +Durante a segunda metade do seculo XIII e todo o XIV, foram construidas +grande numero de rosaceas em contacto umas das outras e dispostas em +muitos renques concentricos á volta d'uma rosacea central, +na qual são inseridos caixilhos do feitio de folhas de +trêvo ou em quatro folhas.<br /> + +<br /> + +Foi a brilhante ornamentação d'estas rosaceas e +<span class="pagenum">[193]</span> +dos tympanos das janellas que deu +ao estylo ogival do XIV seculo a denominação de +<em>radiante</em>.<br /> + +<br /> + +Os caixilhos das rosaceas do XV seculo descrevem em geral desenhos +flammejantes, semelhantes aos que se vêem nos tympanos das +janellas da mesma epoca. Ás vezes encontram-se: 1.º +nos +monumentos do seculo XIII rosaceas que têem analogia com as +dos edificios romans do seculo XII; 2.º nos edificios dos +seculos XIV +e XV, rosaceas compostas de folhas de feitio de trevo, e de quatro +folhas, ou com figuras geometricas curvilineas.<br /> + +<br /> + +No seculo XV, e na Belgica já no XIV, os caixilhos das +rosaceas, não têem como d'antes, columnas formando +as divisões, mas têem os mesmos +compartimentos que os caixilhos de janella d'esta epoca.<br /> + +<br /> + +<em>Vedações das janellas e +vidraças</em>. Por causa da aspereza do clima nos +paizes do Norte foram muito cêdo usadas as +vidraças nas janellas.<br /> + +<br /> + +Os vidros, incolores ou pintados d'uma côr unica e de +pequenas dimensões, eram antigamente collocados em caixilhos +de madeira ou de cantaria. Depois do seculo X eram fixos por meio de +pestanas de chumbo. Foi devido ao emprego do chumbo que conseguiram +formar bellas vidraças pintadas, cuja historia vamos +expôr succintamente.<br /> + +<br /> + +As vidraças dividem-se em duas classes: vidraças <em>incolores</em> +e +<em>pintadas</em>.<br /> + +<br /> + +<em>Vidraças incolores</em>. As +vidraças incolores dos seculos XII e XIII são +compostas de pequenos pedaços de vidro, não +excedendo doze a quinze centimetros, na sua maior dimensão, +sendo de côr esverdeada +<span class="pagenum">[194]</span> +escura, irregulares e um pouco convexas.<br /> + +<br /> + +O chumbo empregado antigamente era muito espesso, convexo nas suas +faces e algumas vezes polido nas ranhuras; distingue-se facilmente dos +modernos, fabricados depois do fim do seculo XVI, por se servirem de +instrumento proprio para o reduzir a tiras, com uma especie de +laminador.<br /> + +<br /> + +Em consequencia da maleabilidade e brandura do chumbo, as tiras que +reunem os vidros das vidraças incolores dos periodos roman e +ogival apresentam muitas vezes as mais curiosas figuras. N'este caso e +em muitos outros a urgencia fornece um motivo +d'ornamentação; era necessario vedar uma abertura +relativamente alta e larga com pequenos fragmentos de vidro, porque as +grandes chapas de vidro eram ainda então desconhecidas. Os +vidraceiros da idade média resolveram este problema como +verdadeiros artistas: em vez de adoptarem um systema de +envidraçar vulgar, consistindo em quadrados ou rhombos, +serviram-se das tiras de chumbo para produzir, nas janellas, os mais +variados e vistosos desenhos.<br /> + +<br /> + +Na Belgica as vidraças incolores eram muito communs nos +seculos XII e XIII; ha exemplos de vidraças, ainda +existentes, que se podem referir com certeza a esta epoca. É +verdade que se encontra aqui e ali algumas vidraças +representando +entrelaçamentos de fitas, anneis, circulos e figuras +geometricas, que parecem muito antigas por causa da pequenez das +aberturas destinadas a receber as +<span class="pagenum"><a name="p195">[195]</a></span> +chapas de vidro; mas não é possivel +determinar-lhes uma data approximada.<br /> + +<br /> + +Estes entrelaçamentos de fitas e de figuras geometricas +foram usados na Belgica durante todo o periodo ogival e conservaram-se +com modificações mais ou menos consideraveis +até ao presente.<br /> + +<br /> + +<em>Vidraças pintadas</em>. Ha uma +grande differença entre colorir um vidro ou pintal-o, ou por +outras palavras, entre os vidros coloridos e os pintados. Os primeiros, +que tambem se chamam vidros de côr, obtêem-se +misturando-lhes na massa vitrea em fusão oxydos metallicos, +que dão a toda a +pasta um colorido uniforme. Este colorido não é +superficial; as materias que produzem as diversas +côres penetram durante a fusão na massa vitrea e +combinam-se inteiramente com ella. Para fazer vidros pintados toma-se +uma chapa de vidro translucido e sobre uma das faces, ou em ambas, +applica-se com o pincel os traços do desenho a +côres vitrificaveis, que não são mais +que pastas +vitreas coloridas por meio d'oxydos metallicos, reduzidos a +pó e diluidos n'um liquido como vinho, agua gommada e +essencia de therebentina. A lamina de vidro, esmaltada, é em +seguida submettida ao fogo; o pó corante entrando +promptamente em fusão, fixa-se sobre a placa de vidro que a +sustenta e que apenas está amollecida pela +acção +do calôr.<br /> + +<br /> + +No VII seculo, havia vidraças compostas de laminas de vidro +diversamente coloridas; eram especies de mosaicos transparentes. Mas +seria n'essa epoca que começaram a pintar a côres, +sobre vidro +<span class="pagenum">[196]</span> +branco ou +colorido, personagens e assumptos historicos e legendarios? A +opinião mais provavel colloca a +invenção da pintura sobre vidro no fim do X +seculo. Comtudo só no seguinte é que esta arte +nasceu na Allemanha e se desenvolveu e espalhou pela Europa occidental. +Logo que se inventou a pintura sobre vidro no meiado do seculo XIV, o +pintor de vidros servia-se de laminas, cada uma de sua côr +uniforme.<br /> + +<br /> + +No seculo XII e XIII, houve excepção a esta regra +para o vidro vermelho, que, em geral era +<em>duplicado</em>, isto é, composto de uma +lamina delgada vermelha, applicada sobre uma lamina de vidro incolor.<br /> + +<br /> + +As differenças de espessura que têem os vidros +antigos, differenças que resultam da +imperfeição dos processos de fabríco +do vidro, contribuem singularmente para augmentar o brilho das +vidraças da idade média. Em primeiro logar, os +pintores vidraceiros empregavam com muita pericia estes vidros +desiguaes ou ondulados, cortando-os de fórma que a parte +mais delgada se achasse do lado da luz; o que fazia augmentar +consideravelmente o effeito da vidraça. Por consequencia, +mesmo para os fundos fechados, estas differenças de +espessura dão á coloração +um aspecto +scintillante, que a certa distancia augmenta consideravelmente a +intensidade dos tons.<br /> + +<br /> + +As côres de que o pintor de vidros dispunha na idade +média eram numerosas e variadas, porque a maior parte das +operações chimicas empregadas +<span class="pagenum">[197]</span> +para obter vidros de côr, eram +empiricas e por consequencia, davam muitas vezes resultados +imprevistos.<br /> + +<br /> + +Esta gamma de côres extensissima póde comtudo ser +reduzida a cinco tons principaes: azul, vermelho, amarello, verde e +côr de purpura.<br /> + +<br /> + +Para exprimir as carnações, isto é as +partes apparentes das carnes, taes como as cabeças, as +mãos e os pés, usavam nos seculos XII e XIII, +d'um vidro d'uma leve côr de violeta, e mais tarde d'um vidro +esbranquiçado; os traços sobre estes vidros +eram d'uma côr parda, applicada com um pincel e em seguida +fixada com a cozedura.<br /> + +<br /> + +Os pintores de vidros dos seculos XII e XIII occupavam-se +principalmente, na composição do +cartão, da harmonia das côres. Para o obter elles +não hesitavam em sacrificar a verdade, dando aos objectos +côres que a natureza lhes não deu; é +assim que se encontram nas vidraças antigas, cavallos verdes +e arvores com folhas de muitas côres diferentes. Como o +vermelho, e sobre tudo o azul se prestam admiravelmente a uma +collocação vigorosa e alliam-se admiravelmente +com todos os outros tons, os fundos vermelhos e azues são +sómente empregados nas vidraças de assumptos +historicos ou legendarios.<br /> + +<br /> + +Os vidros coloridos das vidraças, vistos a distancia, tomam, +graças á translucidez e á luz +que os atravessa, um brilho que faz parecer a sua superficie maior do +que na realidade é; este effeito chama-se <em>rayonnement</em>. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[198]</span> +As diversas côres translucidas têem +<em>rayonnements</em> de valôr muito differente; +assim, para não fallar senão das tres +côres fundamentaes do +prisma; o azul é a mais brilhante, seguindo-se o vermelho e +depois o amarello.<br /> + +<br /> + +O <em>rayonnement</em> de certas +côres translucidas, a distancia, é tal que +não só faz +parecer a sua superficie maior do que na realidade é, mas +até modifica mesmo a qualidade d'estas côres e das +que lhe ficam proximas.<br /> + +<br /> + +É d'este modo que um azul limpido, collocado ao lado d'um +vermelho augmenta o brilho dos bordos d'este e torna-os côr +de violeta. Além +d'isso, este brilho faz ás vezes desapparecer totalmente os +filetes de chumbo, que engastam os vidros, e altera as linhas do +desenho fixado sobre os vidros por meio do esmalte escuro.<br /> + +<br /> + +Os principios artisticos que regem a pintura sobre vidro ou translucida +differem notavelmente dos principios da pintura opaca. A luz +atravessando côres translucidas actua sobre estas +côres, e sobre +as combinações d'estas côres entre si, +de maneira differente do que se fossem opacas; a luz passando atravez +d'um desenho modifica os contornos d'este, facto que se não +dá quando actúa sobre uma superficie opaca +desenhada.<br /> + +<br /> + +A pintura sobre vidro só póde ser uma pintura de +convenção muito differente da pintura em +quadro. N'esta procura-se illudir a vista do espectador servindo-se de +todos os recursos das sombras, do claro escuro e da perspectiva linear +e aérea. +<span class="pagenum">[199]</span> +Na pintura +sobre vidro, pelo contrario, assim como na pintura monumental, o +artista deve respeitar e deixar parecer plana a superficie sobre que +pinta; deve contentar-se em traçar a silhueta dos +personagens e dos objectos que entram na +composição do seu assumpto, fazer pouco caso da +perspectiva, mesmo linear, traçar as sombras d'uma maneira +convencional, indicando as partes salientes por claros e as rugas por +tons opacos, e desprezar os accessorios ou, quando muito, +represental-os +hieroglyphicamente. Na pintura opaca o artista deve procurar +grupar os personagens d'uma scena de modo que se destaquem uns dos +outros afim de obter uma sèrie de planos, em quanto que na +pintura translucida, evita-se, tanto quanto possivel, as +agglomerações d'um grande numero de figuras, e +esforçam-se por fazer apparecer o fundo em torno de cada uma +d'ellas.<br /> + +<br /> + +As vidraças pintadas do XII seculo são sempre +formadas de pequenos medalhões circulares, quadrados ou +apresentando outras fórmas simples e regulares. Estes +medalhões, nos quaes apparecem +composições adornadas, ficam dispostos +symetricamente sobre fundos formados de mosaicos de vidro simples ou +differentemente coloridos.<br /> + +<br /> + +A côr <em>azul</em> domina +geralmente nos fundos das vidraças pintadas no XII seculo; +pouco empregam a côr encarnada; algumas vezes tem tambem o +fundo azul, ficando mais harmonico, tendo-se espalhado, sobre esse +fundo, pequenos florões encarnados, ou pequenos +traços que se encruzam e +<span class="pagenum"><a name="p200">[200]</a></span> +cobrem o fundo azul de um tecido encarnado +com divisões quadradas ou rhombos. Em roda da +vidraça +e de cada medalhão ha cercaduras differentes, quasi sempre +bastante longas e compostas de florões, palmetas, folhagens +e enlaçadas com +perolas.<br /> + +<br /> + +As composições representadas nos +medalhões são tiradas da vida de Jesus Christo e +de Nossa Senhora, ou da historia do antigo e novo Testamento; assim +como da legenda dos Santos. A execução +é d'uma grande simplicidade e com muita ingenuidade. O +desenho accusa as tradições +bysantinas: o emprego das figuras apparece, não obstante as +roupas que o vestem, sendo as prégas da roupagem estreitas e +parallelas.<br /> + +<br /> + +<em>As vidraças do XIII +seculo</em>. As vidraças pintadas no XIII seculo +têem grande similhança com as do XII, porque a +maneira de sua execução ficou quasi +a mesma. Nas janellas inferiores da capella mór e das naves +lateraes, as vidraças compunham-se, como precedentemente, de +medalhões historiados de differentes fórmas, +dispostos uns por cima dos outros sobre uma ou muitas fileiras. Nas +janellas superiores da capella mór e da nave principal, +principiaram a representar, desde o final do XII seculo, grandes +figuras em pé, figurando veneraveis personagens do antigo e +novo Testamento.<br /> + +<br /> + +As côres de que mais uso se fez para os fundos das +vidraças pintadas no XIII seculo foram o +<em>azul</em>, o <em>encarnado</em> e o +<em>verde</em>; empregava-se tambem, em certos casos, +porém com moderação, o +<em>amarello</em> +<span class="pagenum">[201]</span> +e o +<em>roxo</em>. Os fundos não +são lisos, formam uma especie de pannos-de-raz sobre os +quaes vem assentar a composição dos assumptos. +Esta +tapeçaria se compõe não +sómente de +<em>escamas</em>, +<em>canniçal</em> e de <em>xadrez</em>, +mas, muitas vezes +tambem, de enlaçados, festões e folhagens, +enrolamento, +sobre os quaes os assumptos se destacam perfeitamente. Do mesmo modo +que nas composições com as grandes figuras, as +tiras de chumbo indicam os contornos principaes d'estas +ornamentações.<br /> + +<br /> + +No correr do XIII seculo, o estylo e o caracter do desenho mudaram +completamente, porém por séries de +transformações successivas. +Desde a metade do XII seculo, os artistas de vidraças +pintadas, da mesma fórma que os miniaturistas, os pintores, +e os esculptores, tinham principiado a abandonar pouco a pouco as +tradicções da arte Byzantina, e a manifestar uma +direcção notavel para a +imitação da natureza. Esta +direcção augmenta e se affirma cada vez mais no +XIII seculo. Os pintores das vidraças d'esta +época não +continuam a representar o nú das figuras em desdem da +inclinação natural dos vestuarios, estudam a +natureza e esforçam-se de a reproduzir tal qual se apresenta +á sua vista: reconhece-se facilmente este novo methodo pela +maneira por que são indicados os gestos das personagens, a +physionomia das cabeças e as prégas dos +vestuarios: os gestos perdem a sua +expressão archaïca, as cabeças +não são +já desenhadas conforme os typos convencionaes, e os trajes +são os da epoca, fielmente imitados. A +composição +<span class="pagenum">[202]</span> +dos assumptos +é apresentada com +animação; sendo evidente que os artistas do XIII +seculo se preoccupavam de proposito em produzir no espectador um +effeito subito.<br /> + +<br /> + +As vidraças pintadas do XIII seculo offerecem muito +interesse para o estudo do vestuario da idade média. +Conforme o uso adoptado n'esta epoca em todas as +representações artisticas, sejam pintadas ou em +esculptura, o artista vidraceiro tomava os seus modelos que lhe eram +familiares; não se preoccupando de nenhuma maneira da +fidelidade historica, trajava as suas figuras á moda do seu +tempo.<br /> + +<br /> + +A arte da pintura das vidraças não se conservou +por muito tempo no apogeu que havia alcançado no decurso de +alguns annos. Desde o meiado do XIII seculo principiou a declinar pouco +a pouco. Em consequencia da sua propensão notavel para os +effeitos dramaticos, chega á +affectação e ao exquisito, occupando-se mais dos +detalhes, perdendo facilmente a nobre simplicidade que tanto +caracterisava as suas obras no final do XII seculo e no principio do +XIII seculo.<br /> + +<br /> + +Ao findar o XII seculo, as pinturas das janellas superiores da nave +principal e quasi todas da capella mór foram ornadas com +figuras em pé, +representando santos do antigo ou do novo Testamento, não +excedendo, em tamanho, a estatura geral do homem. No XIII seculo, +dava-se a estas figuras proporções mais +colossaes, porque ficavam +collocadas a uma grande distancia do espectador. +<span class="pagenum">[203]</span> +A disposição geral +d'estas vidraças +nas cathedraes e nas grandes egrejas do XIII seculo merece o exame +reflectido da parte do archeologo. A pintura da vidraça +superior do côro da capella +mór, que attrahe sobretudo a vista e domina, de alguma +maneira, o altar mór, era dedicada ao Salvador soffrendo +pela redempção do genero humano; +vê-se ahi quasi sempre Jesus Christo na Cruz entre a sua +Divina Mãe e o discipulo querido, com os symbolos +accessorios, que na idade média acompanham sempre a scena da +crucifixação. Nas outras janellas superiores do +côro estão em pé +os Apostolos e os Santos venerados na basilica; as janellas altas da +nave principal são pintadas com grandes imagens de outros +Santos, taes como as dos patriarchas, reis e prophetas do antigo +Testamento. As vidraças pintadas á roda da +capella mór e das capellas da charola, formadas por +medalhões, representam os principaes factos da vida de Jesus +Christo e de Nossa Senhora, ou as legendas dos oragos da egreja; +algumas vezes tambem, se representavam, sob fórmas +symbolicas, os principaes dogmas da Fé. As +vidraças pintadas das +janellas lateraes da nave, e muitas vezes do transepte, eram dedicadas +ás legendas de devoção +da localidade, e aos Santos ou Santas de que a egreja possuia +reliquias.<br /> + +<br /> + +Nas vidraças pintadas do XII e XIII seculo, ás +vezes reproduziam os retratos dos doadores, mas sempre de tamanho +menor.<br /> + +<br /> + +Passemos agora a fallar das vidraças com pinturas +<span class="pagenum"><a name="p204">[204]</a></span> +de <em>grisalha</em>. +Dá-se +este nome á composição do caixilho +pintado de vidros brancos ou um pouco esverdinhados, sobre os quaes +são traçados, por meio do <em>esmalte pardo</em>, +desenhos e +ornatos variados.<br /> + +<br /> + +Nas <em>grisalhas</em> da primeira metade do +XIII seculo, o desenho é desenvolvido com firmeza, +vigorosamente modelado, e os vidros seguros por filetes de chumbo que +indicam os traços mais fortes dos ornatos ou formam as +principaes divisões do caixilho da vidraça +pintada. Os vidros são quasi opacos e completamente sem +nenhuma parte colorida. Estes vidros são geralmente grossos, +esverdeados e muitas vezes apresentam bolhas na superficie.<br /> + +<br /> + +A começar da ultima metade do XIII seculo, as <em>grisalhas</em> +vieram a ser menos opacas, +deixando penetrar uma claridade mais abundante no interior dos +edificios; ás vezes não são estes +vidros sem ter colorido, porque se lhe ajuntam vidros coloridos nos +filetes que os dividem, ou nas pequenas rosetas espalhadas na +superficie.<br /> + +<br /> + +<h4>Vidraças pintadas do XIV seculo</h4> + +<br /> + +<em>As vidraças pintadas do XIV +seculo</em> apresentam aspecto differente das dos seculos +precedentes, posto que, durante toda a metade do seculo, o artista +d'esta especialidade se servia ainda dos mesmos processos +d'execução dos seus antecessores. Esta +mudança total d'aspecto proveio de muitas causas: pelas +novas disposições da +armação de +<span class="pagenum">[205]</span> +ferro, assim como pelo tom claro e brilhante que se deu ás +vidraças, finalmente pelas +propensões exageradas para a imitação +servil da natureza real.<br /> + +<br /> + +Nas guarnições de ferro das vidraças +do XII e do XIII seculo, desenhando os contornos tão +variados dos medalhões legendarios, foram levados a seguir a +fórma primitiva, consistindo em simples hastes verticaes +divididas de distancia a distancia, por travessas horisontaes, formando +angulo recto com essas hastes.<br /> + +<br /> + +As côres mais empregadas nas vidraças do XIV +seculo, eram o <em>azul</em>, o +<em>encarnado</em> e o +<em>amarello</em>; este ultimo tom, geralmente muito usado, +produzia um brilhante effeito, que fazia desmerecer as grisalhas +claras, frequentemente empregadas n'essa epoca. A côr <em>verde</em> +e o +<em>roxo</em> vão sendo menos usadas.<br /> + +<br /> + +O desenho continúa, durante o XIV seculo, a obter mais +correcção; porém o pintor de +vidraças, esquecendo cada vez mais a pintura transluzente +que não é e não podia ser uma simples +pintura de conservação, procura já +produzir +illusão para a vista do espectador; tenta de copiar a +natureza, e consegue algumas vezes reproduzil-a com certa fidelidade.<br /> + +<br /> + +As vidraças <em>legendarias</em> +desapparecem quasi completamente no XIV seculo, e nos raros exemplos +que se encontram, os medalhões são quasi sempre +supprimidos e as representações das differentes +scenas religiosas sobre-postas uma ás outras, ficam +<span class="pagenum"><a name="p206">[206]</a></span> +sem molduras e sem +separação. As grandes figuras isoladas preferidas +n'esta epoca, apparecem, não sómente nas +vidraças altas, mas +tambem nas outras dos lados da nave e á roda da +capella-mór. Representam mais vezes Santos, e poucas vezes +pessoas ainda existentes.<br /> + +<br /> + +As figuras estão sempre postas debaixo de doceis cheios de +ornamentação tirada da architectura, taes como +ridentes, pinaculos, clochetões, rosaceas e arcos-butantes. +Estes doceis parecem ficar sustentados por pés-direitos com +feitio de contrafortes ornados de arcadas e de nichos, nos quaes se +collocam pequenas figuras d'anjos e de santos. As molduras e os doceis +do remate das grandes figuras tomam ás vezes uma +tão grande importancia +que occupam tanto e mesmo maior espaço, que as figuras que +elles adornam.<br /> + +<br /> + +No principio do XIV seculo os fundos das vidraças sobre os +quaes sobresaem as grandes figuras são ás vezes +lizos, outra de côr +<em>encarnada</em> ou <em>azul</em>; vindo a +ser depois quasi +sempre de feitio <em>adamascado</em>, isto é, +cheias de desenhos differentes, similhantes aos que se vêem +na seda chamada <em>damasco</em>.<br /> + +<br /> + +No XIV seculo, os brazões dos doadores apparecem muitas +vezes nas vidraças pintadas. Vêem-se tambem nos +bordados, nas rosaceas do tympano e nas almofadas inferiores das +janellas, e +inscripções que apparecem frequentemente.<br /> + +<br /> + +No meiado do XIV seculo, uma importante descoberta, do <em>amarello +de prata</em>, fez obter aos +pintores +<span class="pagenum"><a name="p207">[207]</a></span> +de +vidraças um novo esmalte e proporcionou-lhes grande +facilidade no trabalho da pintura. O <em>amarello de prata</em>, +é um +esmalte obtido por um composto d'ocre amarello com o sulphureto de +prata. Depois de ter passado pelo lume os vidros cobertos d'este mixto, +separa-se a demão secca d'ocre; ficando depois sobre o vidro +um bellissimo tom amarello mais ou menos carregado e perfeitamente +translucido.<br /> + +<br /> + +Os fabricantes dos vidros tornando-se mais habeis, conseguiram tambem, +durante o curso do XIV seculo, produzir chapas de vidro muito maiores +que nos seculos precedentes.<br /> + +<br /> + +A descoberta do amarello de prata e os progressos feitos no fabrico do +vidro contribuiram poderosamente para modificar o aspecto das +vidraças pintadas, porque fizeram diminuir o numero dos +filetes de chumbo, e simplificaram, por conseguinte, a +armação da vidraça.<br /> + +<br /> + +As grisalhas do XIV seculo parecem-se muito com as do final do seculo +precedente. Todavia as grisalhas sem colorido são +substituidas pouco a pouco pelas que apresentam algum colorido. +Além d'isso, depois do meiado do XIV seculo, apparecem as +grisalhas brancas, com o realce do amarello de prata.<br /> + +<br /> + +<h4>Vidraças pintadas do XV +seculo</h4> + +<br /> + +<em>No XV seculo</em> uma unica côr +tem applicação, posto que, de pouca importancia, +para servir de +incarnação, vindo-se ajuntar á palheta +do artista aos dois +<span class="pagenum">[208]</span> +esmaltes +já conhecidos. Esta fraca tinta, que servia para modelar as +cabeças e as partes nuas do corpo humano, era provavel +fôsse um composto d'oxydo de ferro e terra de sombra +calcinada. O pintor de vidraças não tinha ainda +á +sua disposição senão tres +côres para pintar sobre o vidro: o <em>pardo</em>, +o <em>amarello +de prata</em> e a +<em>côr</em> para a +incarnação; porém achou novo +expediente para a sua arte no emprego de <em>vidros +duplicados</em>. Já explicámos como, desde +o XII seculo, o vidro encarnado era muitas vezes composto de duas +laminas, uma sem côr e outra encarnada, ficando sobrepostas +durante a sua fabricação. Depois no final do XIV +seculo, o processo que tinha servido antes para se obter vidros +encarnados, foi applicado ás outras côres. +Sobrepondo duas ou mais demãos de differentes +côres, obtinham-se vidros de +tintas muito variadas. Os vidros duplos lhe davam certos tons d'um +vigor desconhecido até então: obtinham-se vidros +roxos sobrepondo o vidro encarnado ao azul claro; verdes, sobrepondo o +branco, amarello e o azul.<br /> + +<br /> + +O colorifico que é resultado de se terem unido dois vidros +de côres differentes não +póde ser confundido com o que se obtem pela +applicação d'uma côr d'esmalte sobre o +vidro fabricado, e posto depois á +recocção do fogo.<br /> + +<br /> + +Os pintores de vidraças do XV seculo, não +empregavam sempre os recentes aperfeiçoamentos introduzidos +na sua arte com bastante cuidado e intelligencia. É por isso +que o emprego muito frequente +<span class="pagenum"><a name="p209">[209]</a></span> +e irracional da pintura em grizalha sobre vidro branco +constitue um dos caracteres particulares das vidraças +pintadas da ultima metade do XV seculo e do principio do XVI seculo. +Muitas vezes as roupas superiores das grandes figuras em pé +são brancas e o fôrro sómente de +côr. Comprehende-se que este abuso das grizalhas, nas +roupagens e na maior parte dos accessorios, dá +necessariamente ás vidraças uma apparencia clara +e scintillante. Muitas vezes os fundos azues e encarnados, adamascados +superiormente, nos quaes sobresaem as figuras e os assumptos, offerecem +ainda unicamente um tom real com bastante colorido.<br /> + +<br /> + +O maior numero d'estas vidraças tem emmoldurados de feitio +architectural, consistindo em contrafortes cheios de pinaculos ou +columnasinhas, com os fustes mais ou menos ornados. Estes emmoldurados +parecem suster os docéis, cujos lados inclinados da empena, +sempre de fórma ogival, são ornados de elegantes +folhagens. Debaixo dos docéis estão figuras em +pé +separadas pelas molduras das hombreiras, seja por assumptos historicos +ou legendarios, occupando toda a largura do vão. Nas +vidraças com assumptos não +apparecem os filetes de ferro na separação dos +vidros. Quando se superpõem, como às vezes +acontece, muitas figuras e muitos assumptos em um só +vão da janella, ficam separados uns dos outros por +sócos ornatados com decoração +architectonica <a href="#e5">da época</a>, +e +apoiando-se sobre os +docéis que formam o remate do renque inferior. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[210]</span> +Os grandes progressos que foram realisados, no XV seculo, na pintura +opaca ou de cavallete, e o estado prospero em que ella se achava desde +a primeira metade do XV seculo, exerceram a mais funesta influencia +sobre a pintura translucida. Os pintores de vidraças, que +quasi sempre eram tambem, e mesmo principalmente, pintores de quadros, +esqueciam diariamente, cada vez mais, que a pintura sobre o vidro +é essencialmente uma pintura de +convenção. Não se contentavam de +introduzir nas vidraças pintadas um desenho mais correcto, +procuravam ainda enganar a vista do espectador tão +completamente quanto fosse possivel; por outras palavras, executavam +sobre o vidro composições que só +convinham para +superficies opacas.<br /> + +<br /> + +No meiado do XV seculo, apparecem nas vidraças pintadas, +como nos quadros de tela, pequenas paisagens em perspectiva longiqua; +estas paisagens representavam vistas pittorescas de castellos cheios de +ameias, edificios de toda qualidade e +apresentações dos trabalhos agricolas.<br /> + +<br /> + +No XII e no XIII seculo, as vidraças das egrejas +compunham-se de pinturas e esculpturas, eram um livro sempre patente, +onde os ignorantes e bem assim os estudiosos podiam instruir-se nos +principaes dogmas da Fé, na historia da religião +e nos deveres do homem para com Deus e o proximo. Esta +missão sublime da arte religiosa começou a ser +esquecida durante o XIV seculo; em muitas vidraças d'esta +época, as +representações exemplares +<span class="pagenum"><a name="p211">[211]</a></span> +e instructivas são +substituidas por brazões +e retratos em pé dos doadores. No XV seculo, as +propensões, cada vez mais profanas, se manifestam na escolha +dos assumptos reproduzidos nas vidraças pintadas. Estas +não serviam para +instrucção do povo; muitas vezes os principaes +dignitarios ecclesiasticos e os poderosos do mundo se faziam ahi +representar sumptuosamente; quando muito, o santo orago apparece atraz +no segundo plano da pintura, emquanto os brazões de armas se +repetem, sob fórmas diversas, em todos os lados da +vidraça.<br /> + +<br /> + +<h4>Vidraças pintadas no XVI +seculo</h4> + +<br /> + +No XVI seculo, as vidraças pintadas apresentam um aspecto +inteiramente novo. Todavia o primeiro terço do seculo se +passou sem que os processos materiaes da pintura sobre o vidro se +tivessem modificado; e se a <em>renascença</em> +não tivesse, desde este momento principiado a influir nas +composições +artisticas, seria difficil distinguir as vidraças dos +primeiros annos do XVI seculo das do final do seculo precedente. Em +1540, uma nova côr teve applicação, o <em>encarnado +de +ferro</em>, que se juntou na paleta do pintor de +vidraças aos tres esmaltes conhecidos então: o +pardo, o amarello de prata, e a côr para +encarnação. Alguns annos +depois, em 1550, achou-se o segredo de applicar todas as +côres, preparando-as com um liquefactivo (que não +era outra coisa que o pó vitreo), +incorporando-os pela cozedura nas placas de vidro. Este +<span class="pagenum">[212]</span> +genero de pintura sobre vidro, que teve o +nome de <em>pintura</em> ou +<em>apprèt</em>, deu grandissimas facilidades +para os pintores de +vidraças, e fez mudar completamente os processos da arte. O +artista preparava primeiramente a placa vitrea, pouco mais ou menos +como a téla, para a pintura a oleo pela maneira de tintas +geraes e sitios; sobre estes tons modelava depois as figuras e +objectos; finalmente traçava as sombras e +alcançava o effeito com os +retoques de côres, emquanto fazia apparecer os pontos +luminosos, desfazendo com promptidão a tinta opaca afim de +deixar ao vidro toda a sua translucidez.<br /> + +<br /> + +Cerca da mesma época descobria-se a propriedade que tem o +diamante de cortar o vidro, inventando-se o tira-chumbo, que facilitou +a producção dos filetes de chumbo para segurar os +vidros, conseguindo-se tambem executar placas de vidro de grande +dimensão. Todos estes progressos nos processos materiaes +produziram uma revolução completa na arte da +pintura das vidraças, e tiveram por principal resultado o +abandono quasi total dos vidros tintos na massa.<br /> + +<br /> + +O estylo das vidraças transforma-se inteiramente no XVI +seculo sob a influencia artistica do renascimento. Nos edificios +religiosos dos primeiros annos do XVI seculo, a volta inteira +substituiu insensivelmente a ogiva. Depois d'esse momento tambem +appareceram, sobre as vidraças pintadas, ornatos tirados do +estylo classico, misturados com florões e outras +decorações que recordavam ainda a +época +<span class="pagenum">[213]</span> +ogival. Pouco a +pouco as idéas classicas fazem progressos e conseguem, +depois de algum tempo, obter a preferencia. Não se +vê mais então +ovanos, volutas, folhas de acantho, festões de flores e +fructas. O arco de triumpho ou portico, imitado da architectura +pagã, forma de ora ávante o +moldurado proprio das vidraças pintadas em que figuram as +personagens e os assumptos. Até metade do XVI seculo, o +artista se satisfaz em desenvolver, na parte inferior da +vidraça o assumpto principal com o moldurado que o limita, e +reserva a parte superior, assim como o tympano para collocar os +brazões e os symbolos. Poucos annos depois da metade do XVI +seculo, em 1560, o assumpto e o emmoldurado passam mesmo atravez dos +enlaçamentos do tympano, se todavia os quizerem respeitar, e +não fazel-os desapparecer.<br /> + +<br /> + +Os assumptos religiosos e symbolicos são raros sobre as +vidraças pintadas do XVI seculo: vêem-se as mais +das vezes os retratos dos doadores nas vidraças, onde +apparecem representados geralmente de joelhos sobre um genuflexorio, +quer só, quer rodeados das pessoas de suas familias. O orago +do sanctuario os acompanha sempre, e os seus brazões +repetem-se muitas vezes em differentes partes na pintura da +vidraça.<br /> + +<br /> + +No XVI seculo, produziu-se uma certa predilecção +pelas pequenas almofadas pintadas com que se ornavam antes, algumas +vezes no final do seculo precedente, as vidraças dos +edificios publicos, castellos, claustros e mesmo as +habitações particulares. +<span class="pagenum"><a name="p214">[214]</a></span> +Essas bonitas pequenas almofadas, +quer em grizalha retocada com amarello de prata, quer de +côres differentes, são feitas com bastante +tenuidade e delicadeza extrema. Ás vezes occupam toda a +abertura, ou pelo menos uma das divisões principaes da +vidraça, outras vezes consistem em simples +medalhões circulares ou ovaes, circumdados de vidro colorido +ou branco. As pequenas vidraças pintadas, designadas <em>vidraças +suissas</em>, porque tiveram primeiramente uso na republica +Helvetica, pertencem á mesma categoria. Estas +vidraças, cujo uso se conservou durante os seculos +seguintes, reproduziram para a nobreza os brazões de +familias differentes moldurados; para os edificios municipaes, as +armarias da cidade ou da provincia com figuras de porta-estandartes +vestidos com os trajos e as armaduras da época; para as +abbadias, as armas do mosteiro ou a figura em pé do +fundador. Os burguezes e as pessoas de profissão eram ahi +representados com os symbolos do seu officio sobre um escudo. Muitas +vezes tambem os fidalgos, burguezes e operarios eram representados +todos nos seus trajos com sua familia. A transparencia e o brilho do +colorido são geralmente mais vistosos nas +vidraças suissas, que nas maiores vidraças +pintadas.<br /> + +<br /> + +<h4>Vidraças pintadas do XVII +seculo</h4> + +<br /> + +No XVII seculo, a pintura com preparo ou com côres pegadas, +continuou a ter voga, devido aos aperfeiçoamentos +introduzidos na +composição e no +<span class="pagenum">[215]</span> +assentar os esmaltes, o que fez +abandonar completamente o emprego dos vidros duplos e dos vidros tintos +na massa. Este genero de pintura, muito apropriada para as +vidraças pintadas dos aposentos, não convinha de +maneira nenhuma para +decoração das grandes vidraças +pintadas, porque o artista querendo apresentar grandes sombras e tons +fugitivos, servindo-se de meias-tintas e de tintas de bistre, tornava a +sua pintura tão carregada, embaciada e confusa que, por +vezes, era difficil distinguir os objectos.<br /> + +<br /> + +A representação de Arcos de Triumpho ou porticos +constituia, como no seculo precedente, o moldurado forçoso +de todas as composições, com +esta differença, que esses arcos e esses porticos +são agora vistos obliquamente ou de lado, isto é, +em perspectiva, emquanto d'antes apresentavam a frente geometral.<br /> + +<br /> + +Os filetes de chumbo, que anteriormente seguravam tão +vantajosamente os principaes contornos do desenho, foram considerados +como inuteis e mesmo causando embaraço na +execução da +pintura. Não serviram mais que para reunir vidros eguaes e +quadrados, formando uma especie de canniçado, por detraz do +qual os artistas pintavam sobre os vidros como se fossem uma tela, +não fazendo nenhum +Os filetes de chumbo, que anteriormente seguravam tão +vantajosamente os principaes contornos do desenho, foram considerados +como inuteis e mesmo causando embaraço na +execução da +pintura. Não serviram mais que para reunir vidros eguaes e +quadrados, formando uma especie de canniçado, por detraz do +qual os artistas pintavam sobre os vidros como se fossem uma tela, +não fazendo nenhum caso das juntas metallicas.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p216">[216]</a></span> +<h4>Vidraças pintadas do XVIII +seculo</h4> + +<br /> + +<em>No XVIII seculo</em>, os vidros tintos na +massa foram pouco fabricados; seu preço era avultado, e sua +falta muito grande. Quasi todas as vidraças d'esta +época são com vidros esmaltados. O esmalte +branco, já conhecído no XVI e XVII seculo, veiu +a ser +então de uso geral e formou as principaes côres +empregadas. A decadencia da pintura das vidraças foi +completa, e a arte perdeu a tal ponto que havia em Paris um <em>unico +pintor d'esta +especialidade</em>, o qual não podia subsistir por +este seu trabalho.<br /> + +<br /> + +Finalisando a historia de pintura sobre o vidro, devemos notar uma +tradição popular muito vulgar que considera, sem +razão, a arte da pintura sobre o vidro, conforme era feita +na edade média, como sendo um segredo que se perdeu desde +muito tempo. Esta opinião não tem nenhum +fundamento.<br /> + +<br /> + +<h4>Pilares, columnas e columnasinhas</h4> + +<br /> + +Na edade média, as designações de +<em>pilar</em> e de <em>columna</em> se +confundem muitas vezes; +todavia a palavra <em>columna</em> indica a +idéa de +um apoio com fuste cylindrico. Eucontram-se nos edificios do periodo +ogival quatro especies principaes de pilares ou columnas: o pilar <em>quadrado</em>, +a columna +<em>monocylindrica</em>, a columna <em>cruciforme</em> +e a columna +<em>enfeixada</em>. A columna monocylindrica dá +em secção +um <em>circulo</em>, e o pilar quadrado, um <em>quadrado</em> +ou +um <em>rectangulo</em>; a columna cruciforme se +compõe de um <em>pilar central</em>, tendo +sobre +<em>as faces quatro columnas</em> +<span class="pagenum">[217]</span> +mais ou menos +envolvidas; finalmente a columna <em>enfeixada</em>, como +o nome indica, +é o resultado da reunião em +<em>mólho</em>, em roda de um +massiço formando pilar, <em>muitas columnasinhas ou +nervuras</em>.<br /> + +<br /> + +Os pilares quadrados são raros durante o periodo ogival; +apparecem no começo, e ás vezes as suas arestas +são chanfradas.<br /> + +<br /> + +Em quasi todos os monumentos belgas do XIII e XIV seculos, as columnas +são monocylindricas. As columnas cruciformes, communs nas +cathedraes francezas, servem na Belgica principalmente na +intersecção da nave e do transepte nos grandes +edificios.<br /> + +<br /> + +Os edificios do XV seculo teem as columnas monocylindricas ou +enfeixadas. As primeiras apresentam ás vezes capiteis; +outras vezes são inteiramente privadas d'elles. N'este +ultimo caso os arcos-duplos e as nervuras das abobadas nascem +directamente do fuste da columna, no logar onde se colloca o capitel. +Este genero de columnas se encontra muitas vezes em todos os paizes da +Europa central e occidental.<br /> + +<br /> + +No XV seculo, as columnas enfeixadas não são +já formadas, como precedentemente, de columnasinhas com +capitel, porém compostas de nervuras <em>prismaticas +em grupo</em>, á +roda de um pilar central. Estas nervuras saem da base da columna +erguendo-se quasi sempre sem ter por intermedio o capitel +até ás abobadas do edificio, afim de +formar os <em>arcos-duplos</em> e os arcos ogivaes; +são sempre +<span class="pagenum">[218]</span> +com a +fórma angulosa e apresentam +secções similhantes ao feitio de um seio. +É por +excepção que se encontram ainda, em certas partes +dos monumentos do XV seculo, columnas enfeixadas formadas pela +reunião de columnasinhas cylindricas com capitel.<br /> + +<br /> + +Os pilares e as columnas são construidas por +<em>fiadas</em> na Belgica, na Allemanha e no Norte da +França. No meiodia da França e na Italia, as +columnas cylindricas são quasi sempre monolithos.<br /> + +<br /> + +Durante o periodo ogival, os fustes das +<em>columnasinhas</em> não são, como +muitas vezes no periodo <em>roman</em>, cobertas de +diversas +esculpturas. Todavia encontram-se, em alguns edificios dos primeiros +annos da época ogival, como na cathedral de Chartres em +França, e em muitos monumentos italianos, columnasinhas <em>terciaes</em> +em que o +fuste é em espiral.<br /> + +<br /> + +As columnasinhas tiveram principalmente +applicação no XIII e no XIV seculos. As que +compõem os grandes pilares teem geralmente o seu fuste +envolvido n'um quarto de circumferencia, os outros tres quartos ficam +apparentes; algumas, não obstante, estão +inteiramente separadas da parede ou da columna que fórma o +pilar que ellas ornam, como existe nas cathedraes de Amiens, +França, e de Salisbury, na Inglaterra. No XIII seculo, essas +columnas são muitas vezes, como as do seculo precedente, <em>anneladas</em>, +ou compostas de +engrossamentos em fórma de bracelete.<br /> + +<br /> + +No XV seculo, estas columnasinhas são raras; +<span class="pagenum"><a name="p219">[219]</a></span> +ou então substituidas por +nervuras prismaticas não sómente nas columnas +enfeixadas, mas tambem em todas as outras partes dos edificios, taes +como o molduramento das portas e das janellas. Estas nervuras teem +base, mas sem capitel.<br /> + +<br /> + +No principio do XVI seculo tornam a apparecer as columnasinhas com o +fuste coberto de esculpturas, representando figuras geometricas, +festões e arabescos. Os fustes das columnasinhas d'esta +época são regularmente cylindricos: algumas vezes +polygonaes ou apresentando a forma de +<em>balaustre</em>.<br /> + +<br /> + +<h4>Bases das columnas</h4> + +<br /> + +As bases das columnas do XIII seculo compõem-se de dois <em>tóros</em> +separados +por uma cavidade redonda (<em>scocia</em>) bastante +profunda +de maneira a formar uma calha na qual a agua da chuva se retem afim de +não prejudicar o cimento da +construcção. Algumas vezes o tóro +inferior é achatado e sobresae bastante por cima do +<em>plintho</em>; o tóro superior é +quasi sempre cylindrico; por vezes todavia apresenta uma pequena +depressão.<br /> + +<br /> + +Durante a primeira metade do XIII seculo, as bases das columnas +estão ainda muitas vezes ligadas aos angulos dos seus +plinthos <em>por +garras</em>. As garras apparecem por vezes, porém +excepcionalmente no final do periodo ogival.<br /> + +<br /> + +Depois do meiado do XIII seculo, a +<em>scocia</em> profunda, que indica um dos signaes +caracteristicos das bases da ultima metade do XII seculo e do principio +do XIII seculo, desapparece pouco a pouco, +<span class="pagenum">[220]</span> +assim como o achatamento do tóro +inferior. As bases passam depois successivamente pela fórma +polygonal ou cylindrica; pertencendo a primeira d'este feitio ao XIII +seculo, e a segunda ás bases do XVI seculo.<br /> + +<br /> + +Quando o tóro inferior da base desdobra muito sobre o +plintho da columna, põe-se algumas vezes um pequeno apoio +por baixo do t­óro. Esta particularidade, sem +belleza, se encontra nos edificios francezes e da Belgica.<br /> + +<br /> + +O sóco sobre o qual vem assentar a base da columna do XIII e +do XIV seculos, fórma, quasi sempre, um octogono regular; +algumas vezes, comtudo, é quadrado (nos edificios dos +primeiros annos do periodo ogival) ou cylindrico. Os <em>sócos +cylindricos</em> se encontram em muitos monumentos belgas do XIII +e do XIV seculo: tambem são bastante communs na Inglaterra: +em França servem na Normandia, na Bretanha e no Maine.<br /> + +<br /> + +No XV seculo, a base e plintho das columnas monocylindricas +são extraordinariamente delgadas. A base é +formada sempre por uma simples moldura do feitio de tóro. +Muitas vezes esta moldura, que nos seculos precedentes era +traçada sobre um plano circular, toma a fórma +polygonal do sóco.<br /> + +<br /> + +Nas columnas enfeixadas do seculo XV, as pequenas bases parciaes das +nervuras prismaticas ou cylindricas em grupo á roda do pilar +central, formam, pela sua reunião e +penetração, +a base e o sóco da columna. Durante a primeira metade +<span class="pagenum"><a name="p221">[221]</a></span> +d'este seculo, as pequenas bases +teem todas o mesmo perfil e ficam ao mesmo nivel. Mais tarde, os +architectos costumaram perfilar as bases parciaes em niveis +differentes, como para melhor fixar cada columnasinha e para evitar +tantas compridas linhas horisontaes.<br /> + +<br /> + +<em>Capiteis</em>.―Durante todo tempo do +periodo ogival, ornaram regularmente com bellas esculpturas os +açafates dos capiteis. Houve comtudo +excepções a esta regra, e por isso se encontram +em alguns edificios religiosos de segunda e terceira ordem do XII +e do XIII seculo, limitados por uma simples moldura.<br /> + +<br /> + +Os capiteis do XIII seculo distinguem-se com facilidade pela +ornamentação vegetal de um caracter mui +particular. O seu açafate compõe-se +geralmente de um, de dois, e algumas vezes mesmo de tres renques de +crochetes ou enroscamento de folhagens. Os crochetes de renque superior +supportam quasi sempre os angulos do abaco, e substituem, de alguma +maneira, o emprego dos modilhões. No final do XII seculo e +no principio do XIII seculo, teem a sua extremidade enroscada e parecem +rebentos de vegetaes. Em França desde o final do XII seculo, +e na Belgica um pouco depois, as extremidades dos crochetes se +desenrolam, e os rebentos se abrem em folhagens.<br /> + +<br /> + +Algumas vezes os crochetes, em logar de acabarem por folhagens +enroscadas ou abertas, trazem no seu cume cabeças de homens +e de animaes verdadeiros ou phantasticos. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[222]</span> +Os capiteis com crochetes enroscados, cujo emprego então +estava abandonado em toda a parte no final do XIII seculo, continuou na +Flandres maritima até ao fim do periodo ogival. +Além d'isso, os crochetes teem, n'esta região, +uma fórma +especial; seus enroscados são muito mais chatos e mais +largos.<br /> + +<br /> + +A ornamentação dos capiteis do XIV seculo +consiste em ramos de folhagens, de flôres e de fructos, de +fórma muito variada, nas quaes se acham todos os caracteres +da esculptura ornamental do XIV seculo. Os crochetes, apropriadamente +assim designados, não apparecem mais que excepcionalmente +com os capiteis d'esta época: todavia os ramos de folhagens +e de flores são geralmente collocados, nos angulos do abaco, +de maneira a recordar pelo seu vulto os crochetes do XIII seculo, e +servem para o mesmo fim. Muitas vezes estes ramos são +dispostos sobre dois renques; esta maneira se nota sempre quando, como +acontece repetidas vezes, o açafate é composto de +duas +peças sobrepostas, e mesmo algumas vezes, quando o capitel +é formado de uma só pedra.<br /> + +<br /> + +As figuras de animaes reaes ou phantasticos se encontram poucas vezes +sobre os capiteis do XIII e do XIV seculos.<br /> + +<br /> + +Os capiteis do XV seculo teem, como os dos seculos precedentes, o seu +açafate coberto de folhagens; porém essas +folhagens apresentam geralmente mais ou menos desenvolvimento; +são delgadas, angulosas, muito recortadas, muito profundas +<span class="pagenum"><a name="p223">[223]</a></span> +e exaggeradas. Com o XV +seculo, appareceu sobre os capiteis o ornato vulgarmente designado <em>folha +de repolho</em>.<br /> + +<br /> + +Em muitos ornamentos do XV seculo, os architectos, levados pela +applicação muito rigorosa do preceito que +qualquer ornato deve ter ao mesmo tempo um emprego necessario, +supprimiram o capitel. N'estes casos, os arcos-butantes e as nervuras +das abobadas sobem, sem intermediario, do fuste cylindrico, ou +então nascem na base mesmo da columna, seguindo toda a +largura do fuste até ao nascimento das abobadas, e tomam, +n'esse logar, as differentes direcções +convenientes para a construcção das abobadas.<br /> + +<br /> + +As columnas cylindricas com capitel são usadas nos edificios +belgas do XV seculo, mas são bastante raras em +França.<br /> + +<br /> + +<h4>Modilhões e misulas</h4> + +<br /> + +É um apoio que faz saliencia sobre a face de uma parede ou +de uma columna que se chama +<em>modilhão</em> quando tiver dois lados +lateraes parallelos e perpendiculares á parede; e +<em>misula</em>, quando apresentar uma outra differente +posição.<br /> + +<br /> + +Depois do meiado do XIII seculo, os modilhões do feitio de +curvas são raros.<br /> + +<br /> + +As misulas apresentam por vezes uma tal ou qual similhança +com os capiteis, e são tambem +sempre rematadas por um abaco; differençam-se comtudo, as +mais das vezes, pelo seu genero de +ornamentação. Na verdade, as esculpturas dos +capiteis +<span class="pagenum"><a name="p224">[224]</a></span> +do periodo ogival +reproduzem quasi sempre vegetaes: e sómente por +excepção mostram figuras +de homens ou de animaes. Sobre as misulas, pelo contrario, a +ornamentação vegetal não apparece, +por assim dizer, senão no XIII seculo, e mesmo é +rara; durante os dois seculos seguintes desapparece, e então +as misulas são constantemente formadas de personagens +grotescas, acocoradas, de animaes reaes ou phantasticos, e algumas +vezes tambem de cabeças humanas, ou figuras de anjo e de +homem sustentando escudos, disticos e bandeirolas.<br /> + +<br /> + +Muitas vezes as misulas, collocadas quer no interior, quer no exterior +dos edificios, são pintadas com côres vivas. +<br /> + +<br /> + +<h4>Arcadas e arcaduras</h4> + +<br /> + +As grandes arcadas ou archivoltas ligando os pilares das naves e +sustentando o peso das paredes superiores, compõem-se +regularmente de dois ou tres renques de sobre-arcos nos edificios do +periodo ogival. Os perfis variam nos differentes seculos.<br /> + +<br /> + +No XIII seculo, e mesmo ainda no XIV seculo, as arestas da archivolta +são formadas por tóros inscriptos na face +quadrada da peça do arco; no XIV seculo e durante uma grande +parte do XV seculo, os tóros já não +são +completamente cylindricos, mas teem antes do termino a curva d'esta +moldura, um filete destinado a deter a força do reflexo; no +final do XV seculo e no principio do XVI, os tóros +cylindricos tornam a apparecer. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[225]</span> +As <em>arcaduras</em> são bastante +vulgares nos monumentos do periodo ogival; servem para ornar o liso das +paredes internas e exteriores dos edificios. Na parte interna apparecem +principalmente no <em>triforium</em> e por baixo dos +peitorís das janellas das naves lateraes; na parte exterior, +por baixo das cornijas e nos frontespicios, nos vasamentos dos grandes +portaes e nas galerias dos claustros.<br /> + +<br /> + +As arcaduras que se vêem em baixo das janellas de quasi todos +os grandes monumentos, compõem-se de uma serie de pequenas +arcadas fingidas, collocadas entre os peitorís das janellas +e o solo ou no sóco de cantaria que fórma, muitas +vezes, uma especie de base ao longo das paredes das naves lateraes.<br /> + +<br /> + +No XIII seculo, as curvas das arcaduras assentam sobre columnellos mais +ou menos embebidos na parede. No XIV e no XV seculos, os +<em>columnellos</em> ficam substituidos por simples +nervuras, ás vezes cylindricas; porém as mais das +vezes a +secção polygonal não differe muito da +de uma semi-hombreira de janella. Estas nervuras teem remate junto do +solo, sobre as bases que lhes pertencem. No final do periodo ogival, +supprimem-se, por vezes, as nervuras, e então as +<em>arcaduras</em> assentam sobre modilhões.<br /> + +<br /> + +No XIV e no XV seculos, as arcaduras sobre os peitorís das +janellas ligam-se inteiramente com as hombreiras das janellas e +parecem, de alguma maneira, confundir-se com elles: parecendo que +atravessam a cantaria do peitoril e descem até ao solo. +<span class="pagenum">[226]</span> +As arcaduras não +são mais do que a parte inferior +da janella que está tapada, e na verdade, a parede +necessitando de diminuir para dentro, ficando á face da +vidraça, afim de deixar metade do peitoril apparente, +conserva apenas uma pequena +grossura, que equivale a uma simples divisão.<br /> + +<br /> + +Nos edificios mais esmerados, os +<em>seguintes</em>, isto é, os lados +triangulares comprehendidos entre os extradoz das archivoltas e de duas +<em>arcaduras</em>, proximas uma da outra, estão +geralmente ornatados com esculpturas, pinturas ou rendilhados, +mostrando a fórma trilobada ou quadrilobada, e com vidros +pintados, emquanto as paredes que separam os entre-columnios, +apresentam pinturas decorativas.<br /> + +<br /> + +As esculpturas e as pinturas com as quaes se decoravam os <em>seguintes</em> +das +arcaduras, durante o periodo ogival, são ora legendarios ou +satyricos, ora tirados do reino vegetal. Nos monumentos inglezes do +XIII seculo, os <em>seguintes</em> +estão muitas vezes com ornatos similhantes a estofo cheio de +relevo.<br /> + +<br /> + +Dentro das grandes egrejas do XV seculo existem como +decoração as arcaduras e outras figuras por cima +e por baixo do <em>triforium</em>, +sobre o dorso das grandes arcadas e ao correr das janellas mais +superiores; ás vezes mesmo sobre o liso das paredes e em +outras partes do edificio.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[227]</span> +<h4>Triforium</h4> + +<br /> + +Os <em>triforiums</em> comprehendem toda a +largura das naves lateraes, não se vêem +senão por +acaso nos edificios do periodo ogival. Desde o final do XII seculo, +lhes substituiram, nas egrejas da Europa occidental, galerias +estreitas, abertas na grossura da parede, por baixo dos +peitorís das janellas superiores da nave principal. Estas +galerias estreitas offereciam commodidade: em primeiro logar +facilitavam a circulação dentro da egreja quasi +á +altura das janellas superiores, e davam logar a collocarem-se as +armações e outros adornos com que havia o costume +de decorar as egrejas nos dias de festa; e em segundo logar, diminuindo +a grossura das paredes superiores, alliviavam a pressão +exercida sobre os pilares principaes dos edificios; finalmente, +offereciam uma das mais importantes disposições +para a +decoração da nave principal.<br /> + +<br /> + +O triforium communica com o interior da egreja por series de arcaduras +abertas, tendo o mesmo feitio que as arcaduras que havia sobre o liso +das paredes, debaixo dos peitorís das janellas +inferiores. +Muitas vezes, principalmente no XV seculo, tapava-se a parte inferior +da arcadura com um parapeito formando ornato de feitio de +trêvo ou de quatro folhas.<br /> + +<br /> + +Nota-se que nos triforiums, assim como nas arcaduras com ornato, as +archivoltas ficam assentes sobre columnatas com +capitel pertencente ao estylo do XIII seculo, e sobre <em>nervuras +das +hombreiras</em> +<span class="pagenum"><a name="p228">[228]</a></span> +dos seculos seguintes. A +disposição das arcaduras do triforium apresenta +ainda uma outra analogia muito parecida com as arcaduras de ornato, +formando regularmente, desde o final do XIII seculo, a +continuação das janellas das naves lateraes. +Depois d'esta época tambem as arcaduras do triforium se +assemelham ás janellas superiores da nave principal.<br /> + +<br /> + +No termo do periodo ogival, supprimem-se muitas vezes as arcaduras, +não conservando mais do que um simples guarda-peito; o +ornamento denominado <em>chama</em> apparece regularmente +nos +desenhos que formam as hombreiras d'esses guarda-peitos. As janellas +superiores ficam, n'este caso, collocadas a prumo sobre a parede +exterior do triforium.<br /> + +<br /> + +Na Belgica, o triforium é geralmente tapado do lado exterior +da nave por uma parede; é, por +excepção, que esta parede tem abertura, e a um ou +dois metros por cima do pavimento da galeria, pequenas aberturas +circulares, <em>trilobadas</em> ou +<em>quadrilobadas</em>, cobertas de grisalhas ou com +ornatos elevados. Nos edificios francezes do XIII e XIV seculos, pelo +contrario, a galeria do triforium não fica, as mais das +vezes, separada do exterior senão por uma simples lumieira, +apresentando bellos vidros pintados, semelhantes aos que decoram as +janellas. +<br /> + +<br /> + +<h4>Cornijas</h4> + +<br /> + +As cornijas do estylo ogival têem geralmente pouca +importancia. Nos edificios que pertencem ao periodo de +transição, e mesmo, na Belgica, em +<span class="pagenum">[229]</span> +algumas que são dos primeiros +annos do periodo ogival, o <em>larmier</em> superior da +cornija assenta ainda muitas vezes, de distancia em distancia, do mesmo +modo que na época <em>roman</em>, +sobre cachorros servindo de modilhões, com muita sacada, mas +de grande simplicidade.<br /> + +<br /> + +Em França, as cornijas dos monumentos mais principaes +compõem-se, quasi sempre, de duas fiadas de cantaria. A +fiada inferior está ornada de crochetes vegetaes no XIII +seculo, de folhagens ondeadas no XIV, e de folhas de repôlho +encrespadas no XV. Algumas vezes vê-se tambem, entre estas +esculpturas, modilhões formados por cabeças +humanas ou por carrancas.<br /> + +<br /> + +As cornijas dos grandes edificios belgas apresentam as mesmas +fórmas geraes que as cornijas francezas, porém +não têem esculpturas, +sendo substituidas por arcaduras simples, ogivaes, ou triboladas. Estas +arcaduras apparecem principalmente nos paizes onde, durante o periodo +Roman, as arcaduras serviam de decoração, +imitando-se o estylo Lombardo, e foram usadas para ornar certas partes +dos edificios.<br /> + +<br /> + +Desde o começo da ultima metade do XIII seculo +até o final do XIV, os edificios de segunda ordem, e mesmo +os de primeira ordem na Belgica, têem as cornijas compostas +de simples perfis, formados por um pequeno numero de molduras pouco +importantes. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[230]</span> +<h4>Platibandas</h4> + +<br /> + +As <em>platibandas</em> que corôam +as cornijas no exterior dos edificios principiaram nos primeiros annos +do XIII seculo. Antes, a agua da chuva caía dos telhados +directamente sobre o solo; até o meiado do XIII seculo +sómente os edificios mais importantes tiveram canos de +chumbo para dar vasão á agua da chuva e se +assentaram platibandas sobre a beira do telhado. Estas platibandas +encanavam a agua por gargúlas, que a lançavam +para longe da face das paredes, e impediam por esta maneira que as +aguas da chuva podessem prejudicar a base da +construcção, introduzindo-se-lhe a humidade. As +platibandas, cujo destino principal era evitar o perigo que apresentava +passar sobre as gargúlas, facilitam além d'isso +os concertos do telhado, e resguardam das telhas da beira quando +cáem; permittindo aos architectos darem melhores +decorações ao exterior dos monumentos.<br /> + +<br /> + +As mais antigas platibandas têem a fórma de +arcaduras rendilhadas, compostas de columnatas, sobre as quaes vem +assentar um remate vasado, na sua parte inferior, em arco ogival, +<em>trilobado</em>. No final do XIII seculo substituiram-se +as arcaduras pelas folhas de trêvo e de quatro folhas +vasadas.<br /> + +<br /> + +A altura e o feitio das platibandas variam conforme os materiaes +empregados. No XIV seculo as platibandas, as mais das vezes, tinham +folhas de trêvo e de quatro folhas, vasadas e divididas de +<span class="pagenum"><a name="p231">[231]</a></span> +distancia em distancia, na +prumada dos contra-fortes, por pinaculos. No XV seculo, as prumadas +são compostas, umas vezes pela reunião de +rhombos, de triangulos equilateraes curvilineos, ou por figuras +geometricas angulares; outras vezes por desenhos flammejantes, +parecidos com os que caracterisam os tympanos das janellas d'esta +época. No final do XIV seculo apparecem, principalmente nos +edificios civis, as platibandas com ameias, nas quaes se vêem +os mesmos feitios que nas platibandas vulgares. O seu uso persistiu +até ao final do periodo ogival.<br /> + +<br /> + +As platibandas com arcaduras verticaes apparecem ainda aqui ou +acolá nos edificios do XIV, XV e mesmo do XVI seculo.<br /> + +<br /> + +<em>Abobadas</em>. As abobadas ogivaes +distinguem-se ao mesmo tempo pela sua elegancia e leveza. Isto foi +resultado da pouca grossura dos triangulos do enchimento que vedava a +parte composta de arcos-duplos e de nervuras. Comtudo a leveza +não excluia a solidez; pelo contrario, as abobadas ogivaes +são mais solidas e mais resistentes que as dos periodos +anteriores, posto que sejam muito menos massiças.<br /> + +<br /> + +<em>Estabilidade e plano das abobadas</em>. Já +explicámos que a estabilidade das abobadas +não depende do mesmo principio dos edificios antigos e do +periodo ogival; e fizemos notar, em poucas palavras, os progressos +tão importantes realisados pelos architectos do XII e XIII +seculos nas +construcções das abobadas. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p232">[232]</a></span> +Fizemos tambem conhecer que as abobadas com o feitio das nervuras, como +são construidas as abobadas ogivaes, causam um +esforço lateral que tende a desviar para fóra dos +seus pontos de apoio as columnas, contra-fortes ou paredes. Os +constructores do periodo ogival evitavam esse esforço +lateral, oppondo-lhe quer um esforço em sentido inverso, +quer um obstaculo rigido que, impedindo de operar, resolveu-o +empregando cargas verticaes. É caso particularmente para +notar, porque constitue egualmente uma differença essencial +do systema de construcção dos antigos, esses +obstaculos apresentam as dimensões unicamente necessarias +para preencher o fim ao qual são destinados.<br /> + +<br /> + +Esta neutralisação dos esforços +lateraes não se obtem da mesma maneira nos edificios +religiosos, cuja nave principal é notavelmente mais alta do +que as naves lateraes, e n'aquelles em que todas as naves teem egual +altura.<br /> + +<br /> + +<em>Egrejas que teem a sua nave central muito mais elevada do que +as outras lateraes</em>. Foi o systema adoptado, desde o final do +XII seculo, pelos constructores da Europa occidental, afim de conservar +o equilibrio das differentes partes de que se compunham os seus +monumentos; porque o arco-duplo da abobada principal á +parede mestra, o arco butante, o contraforte e a columna que separavam +a nave principal da nave lateral do seu arco-duplo, formavam um triplo +esforço motivado pelo arco-duplo da abobada principal e os +seus dois arcos +<span class="pagenum">[233]</span> +ogivaes, que +faziam pender para fóra a parede mestra do edificio. A este +esforço, o constructor da edade média oppunha o +arco butante, que vinha apoiar-se sobre a parede mestra, ficando +collocado ao mesmo nivel. Por esta maneira o esforço triplo +causado n'esse ponto era transferido sobre o contraforte, onde se +quebrantava por causa da sua rigidez; e devido a essa rigidez, o seu +peso juntando-se ao da parede mestra do edificio, que comprime sobre a +columna que sepára as duas naves; por ambas as +forças reunidas, tornava-se esta bastante fixa para aguentar +e neutralisar o triplo esforço exercido pelo arco-duplo da +nave lateral e pelas nervuras proximas da mesma nave. O +esforço do arco-duplo d'esta nave e das duas nervuras ficam +supprimidas pelo encontro do contraforte.<br /> + +<br /> + +<em>Egrejas em que as naves ficam na mesma +altura</em>. N'estas egrejas os esforços lateraes que +a abobada da nave principal opéra sobre os seus pontos de +apoio ficam diminuidos pela pressão das abobadas exteriores +d'estas mesmas naves lateraes, ficando supprimidos pelos contrafortes, +geralmente bastante salientes, os quaes lhes oppõem um +obstaculo rigido, que produz o equilibrio das abobadas.<br /> + +<br /> + +<em>Abobadas de feitio de tecido</em>. As +abobadas sobre plano <em>quadrado longo</em>, formadas por +arcos ogivaes que se entroncam uma só vez, foram geralmente +abandonadas proximo do meiado do XV seculo. Apparecem então +as abobadas em +<em>tecido</em>, designadas +<span class="pagenum"><a name="p234">[234]</a></span> +tambem pelos archeologos, abobadas <em>com +divisões prismaticas</em>. N'estas abobadas as +nervuras +bifurcam-se, ramificam-se e encruzam-se em todos os sentidos, de +maneira a figurar um verdadeiro tecido, como está +representado na surprehendente abobada do cruzeiro da egreja monumental +dos Jeronymos em Belem. Todos os pontos de +intersecção das nervuras estão +regularmente ornados de esculpturas.<br /> + +<br /> + +<em>Perfis das nervuras nas abobadas +ogivaes</em>. As nervuras ou arcos ogivaes das abobadas +construidas no final do periodo Roman consistem muitas vezes em um +grosso tóro, algumas vezes tendo dois ou quatro +tóros de menos vulto. Os arcos-duplos da mesma +época, muito mais massiços que as nervuras, +apresentam secções quadradas ou +rectangulares, e teem os angulos das partes concavas da abobada +talhadas em tóro. Desde o principio do XIII seculo, os +arcos-duplos tiveram, com raras excepções, os +mesmos perfis que os arcos ogivaes.<br /> + +<br /> + +Durante os primeiros annos do periodo ogival, vê-se ainda +arcos-duplos e arcos ogivaes muito grossos, semelhantes aos dos +edificios romans. Todavia não tardou a +adelgaçarem, a diminuirem de grossura. Pouco depois, a parte +redonda do tóro principal apresenta uma aresta viva. Esta +fórma teve logar em França desde o final do XII +seculo, e na Belgica sómente no meiado do seculo seguinte. +Mais tarde, em França ao principio, e na Belgica proximo do +meiado do XIII seculo, a aresta viva é +<span class="pagenum">[235]</span> +substituida por um filete, que ficou +adoptado até ao final do periodo ogival. Nos edificios +francezes apparece tambem o filete sobre os tóros +secundarios desde o meiado do XIV seculo. No final do XV e no +começo do XVI seculo, as nervuras apresentam muitas vezes o +perfil composto de molduras concavas e redondas.<br /> + +<br /> + +Comparando-se os perfis mais antigos com os mais recentes, nota-se que +os primeiros apresentam uma superficie mais larga e menos alta que as +dos ultimos. Esta mudança na fórma dos perfis +não se fez sem motivo: os constructores tinham aprendido por +experiencia que a resistencia de um arco ou de uma nervura +está em razão directa da altura da +peça de voltas e não em +razão da sua largura.<br /> + +<br /> + +<em>Fecho da abobada</em>. No XII seculo, +tinham principiado a ornar com esculpturas os fechos da abobada. Estes +primeiros fechos esculpidos representavam Jesus Christo deitando a +benção, o Cordeiro Divino, Nossa Senhora, os +anjos, os animaes symbolicos dos evangelistas, santos, e muitas vezes +tambem carrancas ou animaes phantasticos. Nas abobadas dos edificios de +segunda ordem contentavam-se algumas vezes de indicar um simples +florão ou entrelaços.<br /> + +<br /> + +No XIII seculo o emprego dos fechos de abobadas com esculpturas veiu a +ser geral, sendo representado nas abobadas do côro, Jesus +Christo, o Cordeiro Divino, os symbolos dos evangelistas e outros +objectos religiosos. Na nave principal e nas +<span class="pagenum"><a name="p236">[236]</a></span> +lateraes a +ornamentação distingue-se por ser +vegetal. Os fechos de abobada no XIV seculo, e tambem na primeira +metade do XV seculo, apresentam bastantes vezes a mesma +decoração que a do XIII seculo; todavia na sua +esculptura vegetal ha os caracteres proprios da +ornamentação de cada um d'estes seculos. No XV +seculo, os brazões dos bemfeitores da egreja são +esculpidos frequentemente sobre os fechos da abobada.<br /> + +<br /> + +No final do XV seculo, apparecem os fechos da abobada ornados de um +appendice que recebeu o nome de <em>pendente</em>, que +ficou em uso +durante uma parte do XVI seculo, imitando stalactites que +estão suspensas ás superficies superiores das +grutas. Algumas vezes tem o feitio de um florão ou um +ornamento extravagante; outras representa uma estatua pegada +á abobada.<br /> + +<br /> + +Muitas vezes os fechos da abobada são furados por um buraco +circular, para se poder içar os sinos e outros objectos +acima das abobadas: como havia dois oculos na abobada da egreja de +Belem, indicando não sómente essa +applicação, mas que o edificio <em>deveria +ter duas +torres</em>: todavia, construiram modernamente um +torreão colossal, que esmaga aquelle monumento, e +não respeitaram o que fôra projectado na sua +primitiva +edificação!<br /> + +<br /> + +<em>Arcos butantes</em>. Chama-se +<em>arcos butantes</em> aos arcos destinados a transportar +até aos contrafortes exteriores o esforço lateral +das abobadas mais elevadas de um edificio. Nascem dos contrafortes e +<span class="pagenum">[237]</span> +apoiam-se sobre as paredes da +nave principal nos differentes pontos onde vão confinar os +resultantes dos <em>encostes</em> dos arcos ogivaes e dos +arcos-duplos.<br /> + +<br /> + +Já explicámos os dois systemas empregados durante +o periodo roman para contramurar o esforço lateral produzido +pelas abobadas superiores sobre as paredes altas das egrejas em que a +abobada principal é muito mais alta que as outras das naves +inferiores, e notámos os inconvenientes que resultavam de +uma e de outra applicação. Estes dois systemas +foram em pouco tempo abandonados, primeiramente porque a nave principal +ficava sem claridade, sobretudo nos edificios de maior largura, e em +segundo logar porque, n'um como no outro systema, as abobadas das naves +lateraes precisavam de ser muito altas para attingir o ponto onde se +effectuava o encontro combinado das nervuras das abobadas altas. +Raciocinadores dispostos a sujeitar tudo aos principios dos architectos +do XII seculo e do XIII seculo, conheceram que os semicirculos das +abobadas em berço contiguo, do qual alguns dos seus +antecessores se tinham servido com o fim de neutralisar o +esforço lateral das abobadas altas, não era +necessario na sua fórma completa, e que se obtinha o mesmo +resultado applicando sobre a parede exterior do edificio no ponto onde +viesse dar a resultante dos encostes, um arco partindo de um +contraforte exterior: foi esta combinação que deu +origem aos arcos-butantes. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[238]</span> +Para que satisfaça á sua +applicação deve o arco-butante: 1.º, ter +as +juntas das peças de sua construcção +<em>normaes</em> ou perpendiculares +á curva por elle descripta; 2.º, ficar o seu +vertice sobre +a parede exterior no ponto onde passe a resultante do +esforço da abobada. Esse ponto acha-se entre o nascimento +das nervuras ou arcos ogivaes e perto da metade da altura da abobada. +Em theoria esse ponto é um ponto geometrico; todavia na +prática é preciso que a summidade ou +cabeça do +arco-butante seja larga; primeiro porque é impossivel, na +execução, determinar de uma maneira exacta a +direcção da resultante dos differentes +esforços das abobadas; depois porque a +direcção d'esta linha póde facilmente +desviar-se em resultado de ter dado de si nos pontos de apoio +verticaes, effeito que acontece frequentemente nas grandes +construcções medievaes cujos pontos de apoio +são delgados e supportam uma pesada carga.<br /> + +<br /> + +Os arcos-butantes são geralmente reforçados, no +seu <em>extradoz</em>, por um encosto em +linha recta, construido em cantaria. O espigão d'este +encosto é muitas vezes ornatado de <em>crochets</em>. +<br /> + +<br /> + +Desde o final do XII seculo e no principio do XIII seculo, os +arcos-butantes vieram a ser de uso geral em todos os grandes monumentos +religiosos, cuja nave principal era mais alta que as naves lateraes. Os +mais antigos são geralmente formados por um quarto de +circulo. Depois a curvatura veiu a ser menos curva, approximando-se da +linha recta. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[239]</span> +Empregaram tambem desde os primeiros annos do XIII seculo, +arcos-butantes +<em>duplos</em>, isto é, dois arcos-butantes +collocados um por cima do outro.<br /> + +<br /> + +Os arcos-butantes foram empregados durante todo periodo ogival; todavia +eram menos usados durante a ultima metade do XV seculo. Em muitos +monumentos d'esta época, mesmo os mais principaes, +julgavam-se sufficientes os contrafortes muito massiços e +salientes para diminuir o esforço das abobadas.<br /> + +<br /> + +Quando no principio do XIII seculo collocaram por baixo do madeiramento +um canal para receber as aguas da chuva, dirigiam as aguas do telhado +principal para os contrafortes exteriores por um canal de cantaria +posto sobre o capello do arco-butante. As aguas passavam atravez no +cimo dos contrafortes, e eram depois lançadas +fóra por gargulas, caindo afastadas da base do monumento. As +infiltrações causadas pela passagem das aguas +sobre o capello dos arcos-butantes, e atravez dos contrafortes, +produziram damnos tão consideraveis nas +construcções que ficou em pouco tempo abandonado +este systema de dar escoante ás aguas da chuva.<br /> + +<br /> + +<em>Contrafortes</em>. Durante os primeiros +annos do periodo ogival, os contrafortes dos edificios de abobadas +foram demasiadamente engrossados e tiveram bases bastante salientes; +á proporção +que se elevavam assim, iam diminuindo consideravelmente por grandes +resaltos successivos sobre cada uma das faces. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[240]</span> +No meiado do XIII seculo, os contrafortes ficam mais regulares, +erguem-se quasi verticalmente da base á extremidade +superior, e não apresentam já por cima do +envasamento um ou dois resaltos bastante pequenos e sómente +sobre a face principal.<br /> + +<br /> + +Estes contrafortes terminavam por uma face chanfrada que ia ter +até á cornija, e muitas +vezes era de fórma abahulada, quando ficavam isolados ou +excediam a base do madeiramento. Nos monumentos principaes limitavam-se +algumas vezes a pôr pinaculos, e ornavam as suas faces lisas +de arcaduras e estatuas postas sobre misula, tendo docel.<br /> + +<br /> + +No XIV seculo a fórma dos contrafortes ficou quasi a mesma +que durante a ultima metade do seculo precedente. Tinham a sua +extremidade, como d'antes, quer em pinaculos e fórma +abahulada, quer ficando os pinaculos assentes sobre base quadrada ou +octogona, terminando por agulhas pyramidaes, cujas arestas +estão ornadas de +cróchets.<br /> + +<br /> + +Os contrafortes do XV seculo semelham-se ainda muitas vezes aos dos +dois seculos precedentes. Como estes, apresentam, de distancia em +distancia, diminuição de grossura pouco apparente +sobre a sua face anterior, e são ornados de arcaduras, +nichos e doceis, ornamentação no gosto da +época. Todavia, desde o fim do XIV seculo, principiaram a +modificar algumas vezes a sua +disposição; regularmente deixaram subsistir a +base +<span class="pagenum">[241]</span> +quadrada ou rectangular, +tendo a face anterior parallela e as duas faces lateraes +perpendiculares com o liso da parede; porém, a certa +distancia acima do solo (ao primeiro ou segundo resalto), a face +anterior, parallela á parede, passa a ser angular; mesmo +ás vezes se vêem contrafortes cuja face anterior +fica angular á parede desde a base do edificio. Estes +contrafortes, com lados chanfrados, acabam como todos os outros, por um +plano inclinado, platafórma ou espigão de +feitio abahulado, ou por um pinaculo bastante ornado.<br /> + +<br /> + +No XIII e no XIV seculo, os contrafortes collocados no ponto de +intersecção de paredes que se +encontram em angulo recto, são sempre em numero de dois. No +XV seculo, julgavam ás vezes ser sufficiente um unico +contraforte collocado de maneira a fazer face ao angulo; sendo estes +contrafortes angulares muito communs nos edificios d'esta +época.<br /> + +<br /> + +Por causa do excessivo esforço lateral que produzem sobre os +seus pontos de apoio, as abobadas ogivaes necessitavam o emprego de +contrafortes com base de bastante largura. Nos monumentos dos primeiros +annos do periodo ogival, esses contrafortes, que teem tres de suas +faces inteiramente livres, apresentam saliencias grandes sobre as +paredes exteriores dos edificios. Estas sacadas desagradaram em pouco +tempo aos constructores, que cogitaram em as diminuir ou fazel-as +desapparecer inteiramente disfarçando os contrafortes. +<span class="pagenum"><a name="p242">[242]</a></span> +Para esse fim recuáram +até á parede +mestra a divisoria que havia antes na nave lateral, aproveitando na +parte interna do monumento o espaço de um rectangulo que +communicava com a extremidade da nave lateral e servia ás +vezes de capella.<br /> + +<br /> + +Nos edificios do periodo ogival, cobertos por simples fôrro +do tecto, de madeira, os contrafortes tinham pequena sacada sobre o +liso das paredes.<br /> + +<br /> + +<em>Gargulas</em>. Dá-se o nome de +<em>gargulas</em> aos canaes salientes pelos quaes as aguas +da chuva sáem dos telhados e são +lançadas longe da base das +paredes dos edificios. Teem quasi sempre a +configuração de animaes monstruosos e +phantasticos, e raramente a figura humana. Admira-se, n'estas +esculpturas, uma variedade prodigiosa, e seria difficil de achar duas +do mesmo feitio, todavia a maior parte dos edificios ogivaes apresentam +um grande numero. N'este genero ha duas no nosso paiz bastante +exquisitas, uma no angulo da cimalha da egreja de Caminha, na capella +mór, voltada para o norte da fronteira do paiz, estando a +figura humana revirada, isto é, em +posição +dobrada, com a cabeça para o lado do telhado e a parte +trazeira do corpo para fóra do edificio, e é pelo +anus que sáem as aguas da chuva: no castello de Pombal ha +outra com a figura de mulher na mesma attitude, saindo aos canaes +salientes pelos quaes as aguas +da chuva sáem dos telhados e são +lançadas longe da base das +paredes dos edificios. Teem quasi sempre a +configuração de animaes monstruosos e +phantasticos, e raramente a figura humana. Admira-se, n'estas +esculpturas, uma variedade prodigiosa, e seria difficil de achar duas +do mesmo feitio, todavia a maior parte dos edificios ogivaes apresentam +um grande numero. N'este genero ha duas no nosso paiz bastante +exquisitas, uma no angulo da cimalha da egreja de Caminha, na capella +mór, voltada para o norte da fronteira do paiz, estando a +figura humana revirada, isto é, em +posição +dobrada, com a cabeça para o lado do telhado e a parte +trazeira do corpo para fóra do edificio, e é pelo +anus que sáem as aguas da chuva: no castello de Pombal ha +outra com a figura de mulher na mesma attitude, saindo a agua da chuva +pelo que distingue o seu sexo. Eram de proporções +curtas e solidas no principio da sua applicação; +vieram a +<span class="pagenum"><a name="p243">[243]</a></span> +ser mais compridas e com +melhores fórmas desde o final do XIII seculo.<br /> + +<br /> + +<em>Nichos e doceis</em>. Dá-se o +nome de <em>nicho</em> a qualquer espaço +aberto, mais ou menos profundo, feito na grossura de uma parede, pilar +ou contraforte, para n'elle se collocar uma estatua, um grupo, um vaso, +ou qualquer objecto de decoração. Os nichos +apparecem poucas vezes nos monumentos do XIII e XIV seculos; n'essa +época as estatuas, com as quaes ornavam ás vezes +certas partes dos monumentos, eram postas sobre misulas salientes, +tendo doceis egualmente salientes sobre a face das paredes.<br /> + +<br /> + +No XV seculo, o uso dos nichos vem a ser mais geral; vêem-se +bastantes vezes no exterior dos monumentos, sobre as fachadas, nos +contrafortes e nos tympanos dos portaes.<br /> + +<br /> + +Os doceis, isto é, os remates salientes, mais ou menos +ornamentados de esculpturas, ficando collocados por cima da +cabeça das estatuas, são muito geraes desde o +final do periodo roman. No XII e no XIII seculos, esses doceis +primitivos representam quasi sempre edificios, fortalezas, e mesmo +algumas vezes cidades inteiras cercadas de muralhas. Não +havia ainda n'esta época, por cima, pinaculos +ou pyramides delgadas, posto que em certas partes do centro da +França, as tiveram desde o meiado do XIII seculo, sendo +terminadas por <em>clochetons</em>. As fórmas +architectonicas dos edificios representadas pelos doceis são +muitas vezes anteriores á época em que foram +esculpidos; +<span class="pagenum">[244]</span> +é por +isso que no XIII +seculo apparecem n'elles zimborios, arcos de volta inteira, etc., que +todavia não se vêem já nos monumentos +contemporaneos.<br /> + +<br /> + +No XIV seculo, os doceis mudam totalmente de aspecto, cobrem-se de +arcaduras com ornamentação e com outros detalhes +imitados da architectura; teem geralmente por cima vistosos pinaculos, +muitas vezes vasados.<br /> + +<br /> + +No XV seculo, apresentam quasi as mesmas fórmas que no +seculo precedente, porém exaggeradas; sendo os doceis +contornados demasiadamente, e a sua ornamentação +feita com muita delicadeza.<br /> + +<br /> + +<em>Madeiramentos</em>. Distinguem-se, nos +edificios do periodo ogival, duas especies principaes de madeiramentos: +os que não ficavam apparentes, porque não +revestiam as construcções +abobadadas, e os apparentes que se empregavam nos edificios que +não tivessem abobadas, sendo estes que interessam sobretudo +os archeologos.<br /> + +<br /> + +Quando os madeiramentos ficam apparentes, isto é, visiveis +no interior do edificio, apresentam sempre o aspecto de uma abobada de +fórma de berço. Este berço +é algumas vezes semi-cylindrico, +semelhante aos que se encontram em algumas egrejas romans; as mais das +vezes, todavia, são traçados por tres centros. <em>Ripas</em> +de carvalho, +ou de qualquer outra especie de madeira, tendo as juntas sobrepostas, +são pregadas sobre as +<em>cambotas</em>, circulares ou ogivaes, formadas pelas +asnas e +<em>varedo</em>. Tendo +<span class="pagenum">[245]</span> +pinturas por +decoração, e algumas vezes as +extremidades das peças de madeira ficam visiveis, tendo +esculpturas, que representam anjos com escudos ou phylacterias, +cabeças de gente, figuras de cocoras com carranca, ou +animaes phantasticos. Muitas vezes as nervuras ou as <em>franquias</em> +ficam parallelas ás nervuras das <em>asnas</em>, +porém sendo mais estreitas, estão pregadas sobre +o varedo e sustentam no seu logar as ripas. Estas nervuras +são cobertas com vivas côres ou com elegantes +entrelaçados.<br /> + +<br /> + +Algumas vezes tambem são assentes sobre as ripas, as +nervuras que se encruzam do mesmo modo que os arcos diagonaes ou as +ogivas das abobadas de cantaria.<br /> + +<br /> + +As abobadas cobertas de gesso, taes como as constroem os architectos +modernos na maior parte das novas egrejas ruraes, eram inteiramente +desconhecidas durante o periodo ogival. Quando a verba de que dispunham +não lhes permittia o estabelecer abobada de alvenaria, +serviam-se do madeiramento apparente, que se ornava tão +artisticamente quanto fosse possivel. Nunca se empregavam pueris +dissimulações, fingimentos architecturaes, +onde as <em>ripas</em> appareciam a imitar a +cantaria com a capa desprezivel de gesso ou de argamassa! +Não se esquecia n'esta época, que a verdade +é a condição essencial da existencia +da arte; esta deve engrandecer o espirito, encantar a vista, e +não enganal-a.<br /> + +<br /> + +<em>Telhados</em>. No meiado do XII seculo, +os telhados +<span class="pagenum">[246]</span> +teem grandes +inclinações nos edificios da Europa Central e +Septentrional; emquanto nos paizes meridionaes conservam pequena +correnteza, como se praticava nos telhados da antiguidade e no periodo +roman.<br /> + +<br /> + +Cobriam-se os madeiramentos com chumbo, cobre, ardozia e telhas. +Ás grandes cathedraes e aos edificios mais importantes +punham chapas de chumbo ou de cobre, por tal maneira, que podiam, sem +alterar a sua superficie, dilatar-se ou encolher-se, conforme fosse a +temperatura.<br /> + +<br /> + +<em>Cumieira e cimeira.</em> Dá-se +o nome de <em>cumieira</em> ao remate do +espigão de um edificio. Durante o periodo ogival este remate +era de metal (quasi sempre de chumbo), de barro cozido ou de cantaria. +As <em>cimeiras</em> são telhas +que formam uma cumieira; eram de barro de cozedura.<br /> + +<br /> + +O maior numero dos grandes monumentos da edade média tinham +d'antes por remate cumieiras nos madeiramentos, egualmente recortadas, +imitando quasi sempre folhagens. Infelizmente são poucos os +edificios do XIII e XIV seculos que conservam esse ornato primitivo. De +todas as cumieiras de chumbo anteriores ao XV seculo (e eram as mais em +uso n'essa época) não ha já +vestigios: a oxydação do metal e muitas outras +causas de destruição as teem feito desapparecer.<br /> + +<br /> + +Nos paizes onde a telha foi empregada para cobrir os edificios, como, +por exemplo, na Borgonha, as cumieiras dos madeiramentos compunham-se +de uma continuação de cimeiras de barro +<span class="pagenum"><a name="p247">[247]</a></span> +de cozedura, mais ou menos +ornado. Uma capa esmaltada e envernizada ao fogo tinham sempre estas +cumieiras para se tornarem menos permeaveis á humidade.<br /> + +<br /> + +Desde o XI seculo, o emprego das cumieiras de pedra veiu a ser geral no +meio dia de França. Encontra-se ainda hoje n'este paiz um +grande numero de cumieiras dos periodos roman e ogival, as quaes +escaparam á sua destruição. As mais +antigas apresentam enlaçamentos e figuras geometricas; as +que pertencem ao XIV e XV seculos são compostas de +ornamentação com remate de folhagens, como ha na +egreja de Belem.<br /> + +<br /> + +<em>Torres e campanarios</em>. Do mesmo modo +que no periodo roman os campanarios da época ogival +são compostos de dois ou mais andares sobrepostos. A +separação dos differentes andares é +indicada, no exterior, quer por um resalto saliente, quer por uma +pequena diminuição de grossura do andar +superior sobre o inferior. Estes andares não teem +já, como precedentemente, a mesma altura: são +baixos ou altos, conforme as disposições internas +dos campanarios. O rez-do-chão das torres é +geralmente construido sobre plano quadrado; mas no primeiro ou no +segundo andar, e as mais das vezes sómente no principio da +flecha o plano vem a ser octogono. Os espaços triangulares, +que ficam livres nos angulos do quadrado, pela passagem da +fórma de quadrado para octogono, apresentam quasi sempre +quatro pinaculos ou clochetões.<br /> + +<br /> + +As frentes das torres teem aberturas nos differentes +<span class="pagenum">[248]</span> +andares, janellas estreitas +ogivaes, muitas vezes geminadas, sendo raro estarem separadas ou +reunidas em tres vãos.<br /> + +<br /> + +Desde o principio do periodo ogival, os campanarios acabavam por +flechas construidas de madeira ou de cantaria, com muita +elevação, tendo a fórma de uma +pyramide com oito lados eguaes. Já no XIII seculo, as +arestas das flechas de pedra e os pinaculos collocados na base do +octogono estão por vezes ornados, de distancia em distancia, +por crochets vegetaes; no XIV seculo, principia-se a vasar os lados das +flechas fazendo-se pequenas aberturas do feitio de flor de trevo, ou +quatro folhas e com florão. No XV seculo, essas +ornamentações são substituidas por +feitios de chammas e por outras figuras geometricas vasadas. No final +do XV seculo e no principio do seculo seguinte, construiram-se, em +muita parte, os campanarios com flechas rendilhadas.<br /> + +<br /> + +Muitos campanarios mais importantes, de grandes +proporções, ficaram por concluir desde a base da +flecha projectada, e ás vezes ainda mais abaixo. Algumas +vezes tambem, as flechas da primitiva +construcção, depois de terem sido destruidas por +uma tempestade ou incendio causado pelo raio, foram substituidas por +corpos simples ou remates hybridos, que não teem nada de +commum com as lindas pyramides da época ogival.<br /> + +<br /> + +No XIV e no XV seculos, muitos campanarios teem na base da flecha uma +platibanda vasada, composta de arcaduras ou com feitios chammejantes. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[249]</span> +A maior parte das egrejas ogivaes de segunda e terceira ordem tinham +campanarios de uma extraordinaria simplicidade, cujo effeito +é agradavel e mesmo admiravel, se reflectirmos na pouca +resistencia dos meios empregados para a execução. +Estes campanarios, sem nenhum ornato, compunham-se de dois andares +quadrados, dos quaes o superior só tinha as quatro frentes +com janellas geminadas ou com tres aberturas, servindo para sair o som +do sino. Uma flecha octogona limita a sua extremidade.<br /> + +<br /> + +Os constructores da edade média comprehendiam que, sobretudo +nos edificios de menor importancia, as +combinações geraes mais simples eram as unicas +mais acertadas para produzirem um aspecto monumental.<br /> + +<br /> + +Em Flandres maritima tem-se conservado até ao presente um +grande numero de campanarios ogivaes de segunda e terceira ordem, +dignos de chamar a attenção dos archeologos e dos +architectos; +encontram-se alguns muito bellos até nas modestas freguezias +do campo. Estes campanarios, construidos com tijolos, como todas as +outras partes dos edificios d'este paiz, são geralmente +terminados por uma flecha octogona tambem de tijolos, muitas vezes +tendo quatro pinaculos nos angulos da sua base; as arestas da flecha e +dos pinaculos são quasi sempre decoradas de crochets +egualmente com tijolos. As platibandas que ligam entre si os pinaculos +são cheias, pouco altas e ornadas com arcaduras fingidas. +Uma outra particularidade que +<span class="pagenum">[250]</span> +apresentam alguns campanarios de Flandres maritima, é +inclinarem-se um pouco para o lado oeste, que se suppõe ser +um facto intencional do architecto para fazer resistir melhor contra os +ventos d'este quadrante que sopram com extrema violencia á +beira mar.<br /> + +<br /> + +Muitas egrejas monasticas, e algumas vezes tambem as parochiaes, teem +um campanario collocado quer na extremidade da capella mór, +quer em um dos dois angulos formados pela +intersecção da capella mór e o +cruzeiro. Esta +disposição é bastante geral nas +egrejas ruraes na Baviera e na Austria. As abbadias preferiam esta +collocação afim de que os frades incumbidos de +darem signal pelos sinos para as ceremonias religiosas não +fossem obrigados a afastar-se da egreja.<br /> + +<br /> + +Os constructores romans construíam muitas vezes um +campanario no logar da intersecção da nave e do +cruzeiro. Na Inglaterra e na Normandia, estes campanarios centraes +conservam-se durante o periodo ogival; por toda parte, fóra +d'isso, são raros desde o XIII seculo, e muitas vezes foram +substituidos por simples campanariosinhos de madeira. Na Belgica, +encontram-se por vezes campanarios centraes de cantaria, +porém de resumida dimensão, nos edificios do +periodo de +transição.<br /> + +<br /> + +As <em>escadas dos campanarios</em> e tambem +as que servem em outras partes dos monumentos para subirem aos +madeiramentos, são geralmente de caracol com centro +cylindrico ou octogono. Estas caixas das escadas, collocadas no +exterior do edificio +<span class="pagenum"><a name="p251">[251]</a></span> +nos +angulos formados pela saliencia dos contrafortes, nunca são +dissimuladas, mas visiveis, facilitando as seteiras que +estão abertas darem luz á escada.<br /> + +<br /> + +Durante o periodo ogival, collocavam quasi sempre <em>cruzes de +ferro batido</em> no cimo das +flechas dos campanarios, na extremidade do espigão do +côro por cima da abside, e algumas vezes tambem sobre os +espigões do cruzeiro. Estas cruzes distinguem-se geralmente +por uma composição de bastante trabalho. As +cruzes dos campanarios são quasi sempre encimadas por um +gallo servindo de catavento. Primitivamente este adorno encontrava-se +sobre as torres das egrejas parochiaes ou dos capitulos apenas. O gallo +collocado no cimo da egreja symbolisa a imagem dos +prégadores; pois o gallo vela durante a noite escura e +assignala as horas pelo seu canto, faz despertar aquelles que dormem, e +annuncia a aurora que se approxima; mas antes d'isso, elle se excita a +si mesmo a cantar, dando ás azas.<br /> + +<br /> + +<em>Pavimentos</em>. Os pavimentos romans +eram compostos com mosaicos. Nos paizes meridionaes esses mosaicos +foram formados de marmores differentes. Tanto em França como +na Belgica, Allemanha, Inglaterra e Portugal, eram compostos de +ladrilhos esmaltados ou de lagedo gravado e com embutido egualmente de +côres diversas. Os ladrilhos e os lagedos gravados +continuaram a ser empregados nos pavimentos dos edificios ogivaes na +Europa Occidental e Septentrional. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[252]</span> +Esses pavimentos eram ora de uma grande simplicidade, ora esplendidos. +Poucas vezes o chão todo das egrejas estava coberto por +bellos mosaicos; em geral, não se adoptou este genero de +decoração senão para a capella +mór e para as capellas do corpo da egreja, porque nas naves, +onde todas as pessoas são admittidas indistinctamente, o +roçar do calçado em pouco tempo teria destruido o +verniz do ladrilho ou o lagedo com gravuras.<br /> + +<br /> + +Como já explicámos, o amarello e o verde-escuro +são as côres preferidas no final do periodo roman, +nos pavimentos de ladrilho do Norte e Oeste da Europa. No XIII seculo, +substituiu-se muitas vezes a côr verde-escura, o encarnado e +o avermelhado escuro, empregando-se o amarello para os embutidos. As +côres carregadas e escuras deixaram de ser usadas nos +pavimentos.<br /> + +<br /> + +Os ladrilhos esmaltados são geralmente de pequenas +dimensões, como havia no cruzeiro da egreja monumental do +convento de Alcobaça, cujos ladrilhos estão agora +<em>escondidos por baixo +de simples lagedo</em>, na profundidade de <em>0<sup>m</sup>,34 +centimetros</em>!<br /> + +<br /> + +Quando os desenhos dos ladrilhos ficam completos sobre um só +ladrilho, ou se completam em quatro e mesmo em maior numero de +ladrilhos reunidos, formam regularmente figuras geometricas, +brazões, florões, animaes existentes ou +phantasticos. Circulos, flores de liz, veados, aguias com duas +cabeças, é o que mais frequentemente se +vê. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p253">[253]</a></span> +No XIII e no XIV seculos, figuras de homens em pé foram +algumas vezes representadas pela reunião +de um certo numero de ladrilhos pintados. Estas effigies de personagens +eram muitas vezes acompanhadas de letreiros, empregados nas campas de +cantaria.<br /> + +<br /> + +Durante o XIV e o XV seculos, os desenhos dos ladrilhos conservam quasi +o mesmo caracter precedente, mas são menos vistosos e +não teem o vigor das côres e o desenvolvimento que +apresentavam os do XIII seculo. No XIV seculo, as +ornamentações são muitas vezes +substituidas por firmas, letras, inscripções, +escudos, e mesmo pequenas vistas. Pelo mesmo tempo apparecem os tons +verdes e azues-claros.<br /> + +<br /> + +Nos edificios de segunda e terceira ordem, e tambem em algumas egrejas +abbaciaes, principalmente da Ordem de Cister, fazia-se uso, durante o +periodo ogival, de pavimentos compostos de ladrilhos de differentes +côres, sem nenhum ornato.<br /> + +<br /> + +Em alguns sitios fabricavam-se tambem ladrilhos sem ser esmaltados, +apresentando figuras em relevo. Estes ladrilhos são muito +raros, porque +não se podiam fazer senão com barro muito rijo, +para que os relevos não ficassem em pouco tempo gastos.<br /> + +<br /> + +<em>Lages gravadas e com embutidos</em>. Desde o XII +seculo, empregaram-se algumas vezes, para cobrir o +chão das egrejas, lages de pedra e de marmore gravadas e com +embutidos. Os desenhos dos ornatos eram indicados em parte pelos +espaços conservados +<span class="pagenum"><a name="p254">[254]</a></span> +da propria lage, ou por um betume colorido que enchia as +cavidades deixadas pela gravura. As lages d'este genero não +foram muito communs, e um limitado numero escapou da sua +destruição! Um dos mais bellos e mais completos +é o que ornava a capella mór da cathedral de <em>Saint-Omer</em> +(França), e +do qual bastantes fragmentos se têem conservado +até ao presente. Os fundos dos arabescos são de +côr castanho-escuro, assim como a +inscripção; os traços do +contorno das personagens e do cavallo são a encarnado, assim +como está representado em gravura o nobre cavalheiro, no +meio d'essa composição, que +é do meiado do XIII seculo.<br /> + +<br /> + +<em>Labyrinthos</em>. Na antiguidade +pagã designavam-se com o nome de <em>labyrinthos</em>, +as +galerias subterraneas ou os edificios construidos em cima do solo, com +ramificações em grande numero e complicadas. +Todos sabem da existencia do labyrintho de Creta, onde, conforme a +mythologia, o Minotauro foi morto por Theseo. Durante a edade +média o nome de labyrintho foi dado a uma +disposição +particular que se vê no pavimento de algumas egrejas dos +periodos Latino, Roman e Ogival. A +disposição, divisão e côr +das lages, formam, pelas suas +combinações, linhas sinuosas com bastantes +voltas, todas para um ponto central. Os Romanos e os Gregos +representavam já, por vezes, labyrinthos nos pavimentos em +mosaico ou sobre as paredes de seus templos e de suas +habitações. Os labyrinthos que existem desde os +primeiros seculos nas egrejas +<span class="pagenum">[255]</span> +christãs, por exemplo, na de S. João Vidal de +Ravana (Italia), que é do VI seculo, acharam, sem nenhuma +duvida, a sua origem nos labyrinthos dos edificios pagãos. A +presença da figura de +Theseo combatendo o Minotauro, que se vê no centro dos +labyrinthos de alguns monumentos christãos, como em Pavia e +em Luca, dão uma prova evidente d'esta +affirmação. Os christãos +introduzindo os labyrinthos nas egrejas, deram-lhes uma +significação symbolica. Seria comtudo difficil, +por não dizer impossivel, determinar de uma maneira +irrefutavel o symbolismo dos labyrinthos nas antigas egrejas +christãs.<br /> + +<br /> + +Na edade média, parece ter-se reputado os labyrinthos como +emblema da viagem á terra Santa, ou, segundo outras +opiniões, o transito doloroso de Jesus Christo desde a casa +de Pilatos até ao Calvario. Indulgencias eram concedidas +ás pessoas que os percorressem de joelhos, recitando as +orações prescriptas. Os labyrinthos n'esta epoca +eram tambem designados com o nome de +<em>dedalo</em>, +<em>meandro</em>, <em>caminhos de Jerusalem</em>. +<br /> + +<br /> + +A fórma dos labyrinthos não é sempre a +mesma, O de <em>Chartres</em> é circular; +o de <em>Saint-Quentin</em>, octogono; taes eram tambem os +de <em>Arrhas</em>, +<em>Amiens</em> e <em>Reims</em>. Na egreja de +<em>Saint-Bertin</em> em +<em>Saint-Omer</em>, tinha a fórma quadrada. +Muitas vezes havia, ao centro e aos angulos do labyrintho, pedras com +inscripção lembrando algum facto relativo +á construcção do edificio. Em +<em>Amiens</em>, por exemplo, a pedra central representava +os architectos +<span class="pagenum"><a name="p256">[256]</a></span> +da egreja +e +o bispo +<em>Évrard</em>, seu fundador, com os nomes dos +personagens e a época da +construcção, gravados sobre laminas de cobre +embebidas na parede.<br /> + +<br /> + +<em>Pinturas das paredes</em>. Já +descrevemos os caracteres da pintura mural na época roman. +Esses caracteres e o systema do colorido modificam-se de uma maneira +evidente seguindo o desenvolvimento da architectura ogival.<br /> + +<br /> + +Se o leitor tiver presente na memoria o que fizemos notar a respeito do +estylo ogival, da sua decoração esculpida e do +seu systema de +construcção, comprehenderá facilmente +que uma +modificação notavel motivou tambem o colorido da +decoração. Com effeito, nas +construcções ogivaes os membros das paredes +desapparecem, por assim dizer, e cedem o espaço para +aberturas de janellas; os membros da architectura multiplicam-se e +apresentam-se com grande evidencia; a vista examina sem custo a sua +fórma e os seus fins, desde a base da columna até +ao fecho da abobada que reune as nervuras da abobada. Além +d'isso, as superficies das paredes, que não foi possivel +supprimir, ficavam com esses espaços divididos. Como +acontece nas paredes divisorias sobre os peitorís das +janellas inferiores, as paredes são todas cheias de series +de arcaduras estreitas, muitas vezes cheias parcialmente de +esculpturas. Finalmente a multiplicidade dos detalhes e a vista de +ornamentações esculpidas, diminuindo a escala dos +elementos embellezadores para augmentar o +<span class="pagenum">[257]</span> +espaço de união, +modificaram a seu modo as +condições da pintura, dando-lhe caracteres novos. +<br /> + +<br /> + +O augmento extraordinario dos vãos das janellas e o aspecto +grandioso que lhes deram nos edificios motivou que nas +vidraças pintadas eram quasi todas as +preoccupações do constructor do periodo ogival. +Era ali, em certo modo, que devia apparecer o effeito da +decoração. Os progressos da arte da pintura sobre +o vidro corresponderam então ás exigencias que +esta arte tinha a satisfazer, e a palheta abundante, vigorosa e variada +do pintor vidraceiro impôz á +coloração adoptada +pelo pintor ornatista uma harmonia e combinações +novas. Por outras palavras, a pintura historica e legendaria, +não tendo mais do que um espaço limitado e +parcimonioso medido sobre a superficie das paredes foi servir-se das +vidraças para os seus trabalhos, e por este motivo as +figuras mostram, onde apparecem, ainda umas +proporções +acanhadissimas. A intensidade da coloração das +vidraças pede, pela logica dos preceitos da harmonia, maior +energia na pintura ornamental das paredes. Todavia, não foi +essa a unica consequencia do emprego das vidraças +excessivamente coloridas: a luz não entrando já +no interior da massa vitrea a qual atravessava como peneirada atravez +d'um tecido multicolor, dava á pintura mural um aspecto +differente d'aquelle que teria a luz natural do dia; havia pois a +attender simultaneamente ao reflexo das côres translucidas +com as da pintura mural que se devia harmonisar com a luz colorida e +sombria +<span class="pagenum">[258]</span> +que as +vidraças pintadas projectam sobre as paredes e partes +architecturaes. D'aqui veiu o emprego, principalmente no XIII seculo, +de côres vivas sem ficarem separadas: encarnado, purpura, +verde, azul carregado, realçado, ás vezes, por +tons claros e ouro com bastante profusão quando os meios o +permittiam. D'aqui ainda uma outra grande divisão dos +elementos decorativos e desenho dos detalhes.<br /> + +<br /> + +Não é pois para estranhar que as +<em>pinturas historicas e legendarias</em> tivessem tido +muita voga durante o periodo roman, vindo a ser bastante raras nos +edificios do estylo ogival. As arcaduras decorativas debaixo dos +peitorís das janellas inferiores, são muitas +vezes as unicas +superficies convenientes para terem pinturas com assumptos, e mesmo +esse espaço é muito limitado e regularmente +dividido em pequenos compartimentos por columnadas ou nervuras, sobre +as quaes assentam as archivoltas das arcaduras. As pinturas das +arcaduras decorativas representam muitas vezes personagens isolados.<br /> + +<br /> + +A influencia das tradições byzantinas sobre a +arte occidental é manifesta durante todo o tempo do periodo +roman. Todavia, se desde o XII seculo se observa no <em>desenho</em> +uma tendencia a +abandonar os typos byzantinos, não foi senão nos +seculos +seguintes que o caracter das pinturas mudou completamente no Occidente. +Nas figuras das pinturas muraes, como nas outras que ornam as +miniaturas dos manuscriptos, se observa uma +transformação +<span class="pagenum">[259]</span> +cada vez mais +visivel no que respeita ao estylo do desenho. Este se desprende +insensivelmente das formas tradicionaes afim de adquirir maior +liberdade. As attitudes veem a ser mais variadas, o gesto mais natural, +o caracter das cabeças mais individual, a +expressão dos rostos mais viva ou mais serena conforme as +situações. Uma tendencia ao naturalismo principia +a apparecer desde o começo do XIII seculo, e torna-se mais +notavel nos seculos seguintes.<br /> + +<br /> + +Na <em>colorisação</em> +succederam, tanto como no desenho, transformações +successivas durante o periodo ogival. Nas pinturas muraes do periodo +roman, os tons claros são frequentes, e seu aspecto +é geralmente suave.<br /> + +<br /> + +No XIII seculo, a colorisação teve, na +<em>pintura decorativa</em>, as mesmas +transformações que na pintura historica e +legendaria. Nos edificios romans, em que as janellas eram relativamente +pequenas e envidraçadas as mais das vezes com vidros brancos +ou muito claros, a luz diffusa e pouco dilatada dos fundos podia-se +usar para a pintura decorativa, de tons brilhantes e brandos ao mesmo +tempo; porém, quando, no XIII seculo, os vãos das +janellas se alargaram e tiveram vidraças extremamente +coloridas, esses tons suaves ficaram inteiramente sumidos pela +intensidade da colorisação das novas +vidraças. O azul e o encarnado, entrando com maior emprego +na composição das +vidraças pintadas, davam um aspecto turvo aos tons claros e +terreos ás pinturas: os verdes, por exemplo, +<span class="pagenum">[260]</span> +ficavam pardos e baços; os +brancos, e em geral todos os tons claros, ficavam estriados. Com os +vidros coloridos, foi preciso necessariamente mudar a gamma de +colorisação das pinturas muraes, fazendo uso de +tons brilhantes e fortes. Além d'isso, os tons, para terem +toda a sua apparencia, devem ser acompanhados e contornados com +traços pretos. É assim que se veem n'esta epocha +as nervuras, os fechos das abobadas, e muitas vezes mesmo os tympanos +das abobadas pintados com vivas côres. O uso de destacar o +vertice das nervuras das abobadas servindo-se de côres vivas +e com desenho chaveiroado continuou durante todo o tempo do periodo +ogival.<br /> + +<br /> + +No XIV seculo e durante a primeira metade do XV seculo, as pinturas de +decoração por baixo dos +peitorís das janellas inferiores, muitas vezes representavam +pannos de armações. No XV seculo, viam-se +bastantes vezes sobre as paredes das capellas dedicadas a um santo, os +attributos caracteristicos d'esse santo, dispostos symetricamente sobre +um fundo colorido. Descobriram-se, ha pouco tempo, pinturas d'este +genero n'uma egreja de Bruxellas.<br /> + +<br /> + +Motivos de economia e, nas egrejas dos monges de Cister, +prescripções da regra monastica fizeram que por +vezes tambem se empregasse um modo de pintura de +decoração muito simples, consistindo na +imitação das pedras de +construcção: traçavam-se sobre fundo +mais ou menos claro +traços de côres differentes, pardos, encarnados ou +amarellos, +<span class="pagenum">[261]</span> +sobrepostos, +representando as juntas dos apparelhos, e algumas vezes com +ornamentação.<br /> + +<br /> + +Da mesma maneira que a pintura historica e legendaria, a pintura de +decoração da idade media não se servia +da perspectiva; nem conservava nos monumentos as paredes lisas e +opacas, não procurando affastal-as, por assim dizer, do +espectador pela illusão da perspectiva linear e aerea. +São principalmente as pinturas representando as formas +architectonicas, por exemplo as arcaduras e columnas, que mostram +não ter o artista nenhuma intenção de +disfarçar a +ornamentação em relevo; o que elle pretende +é sómente um effeito de +decoração, não pensa por nenhum modo +em produzir exactamente as dimensões relativas, o modelo, +apparencia real com relevos, molduras, columnas, capiteis; contenta-se +de apresentar essas formas para servirem a dar mais attractivo aos +monumentos.<br /> + +<br /> + +Muito poucos monumentos do periodo ogival têem conservado as +suas pinturas bastante completas para se poder formar uma +idéa cabal do systema empregado e do resultado obtido. A +mais notavel de todas pela esplendida decoração, +e além d'isso pela sua restauração +tão habil quanto perfeita, é a da Capella Santa +de Paris.<br /> + +<br /> + +A estatuaria e a esculptura ornamental seguem o systema geral da +decoração pictorica; tanto assim, que muitas +estatuas e baixos relevos têem conservado até ao +presente bastantes vestigios de +<span class="pagenum"><a name="p262">[262]</a></span> +dourados e polychromia, concorrendo para se harmonisarem com as +vidraças pintadas e as pinturas a fresco das paredes.<br /> + +<br /> + +A decadencia da pintura monumental, decoração +historica e legendaria, data da ultima metade do XV seculo; vindo a ser +completa desde o principio do seculo seguinte. As pinturas das abobadas +das egrejas não vão além do XVI +seculo.<br /> + +<br /> + +<em>Cruz de +consagração</em>. O Pontifical +romano prescreve que, para a dedicação de uma +egreja, doze cruzes serão pintadas ou esculpidas sobre as +columnas ou paredes internas do edificio. Estas cruzes, que o Prelado +consagrante unge com os Santos oleos, devem ficar apparentes. Desde o +periodo roman, estabeleceu-se o uso de ornar essas cruzes, que +geralmente eram pintadas. As cruzes de +consagração datam do periodo roman e vieram a ser +bastante raras; conservam-se muito singulares no oratorio carlovingiano +de Nimégue. Encontraram-se em grande numero da epocha ogival +debaixo de grossas <em>camadas de cal</em> na +parte interna das egrejas antigas, que ficaram escondidas na +occasião do renascimento. Todas são executadas +com grande esmero e esplendidamente coloridas.<br /> + +<br /> + +Acontece ás vezes que as doze cruzes de +consagração do XIII e XIV seculos são +sustentadas pelas figuras dos Apostolos pintados ou em esculptura. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p263">[263]</a></span> +<h4>Altares, tabernaculos, piscinas<br /> + +cadeiras do +côro, bancos para os celebrantes,<br /> + +tribunas e +separações da +capella-mór</h4> + +<br /> + +<em>Altares</em>. Como já +explicámos, o altar verdadeiramente designado é +uma mesa de pedra sobre a qual o padre diz a missa. Sem esta mesa o +altar não existe; ella e só ella, forma, todo o +altar. +Esta mesa é de pedra, porque o altar é a imagem e +o symbolo de Jesus Christo em pessoa. Portanto, durante os oito +primeiros seculos da nossa era, a egreja quiz, pela +veneração por este famoso +symbolismo, que o altar ficasse inteiramente independente; prohibiu +severamente que n'elle se pozesse o mais simples objecto, salvo o livro +dos Evangelhos, a custodia eucharistica com as divinas hostias. No +correr do IX, o Papa Leão IV permittiu que se collocassem +reliquarios contendo reliquias de santos. Quando o altar é +formado de um corpo macisso cubico, o que tinha logar muitas vezes +durante o periodo Latino e Roman, os seus lados eram cobertos com +laminas de ouro, prata e de cobre dourado e esmaltado, ou ornados de +esculpturas e de pinturas, ou ainda revestidos de estofos preciosos.<br /> + +<br /> + +Algumas vezes, principalmente nas grandes egrejas, o altar estava +collocado debaixo de um baldaquino sustentado por quatro columnas, +entre as quaes se suspendia, sobre varões, pannos cortinas, +que se corriam durante certas partes da missa afim de occultar os +sacerdotes da vista dos fieis. No final do XI seculo, introduziu-se +tambem o uso dos +<em>retabulos</em>. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[264]</span> +Devemos notar, que todos estes accessorios eram ideiados e dispostos de +maneira a não obstar por nenhum modo ao symbolismo sublime +do altar.<br /> + +<br /> + +Explicaremos successivamente, o +<em>altar</em> com <em>a sua verdadeira +fórma</em>, os +<em>frontaes</em> dos altares, +<em>baldaquino</em>, os <em>cortinados</em> e +os +<em>retabulos</em> do periodo ogival.<br /> + +<br /> + +<em>O altar assim designado</em>. Como os do +periodo roman, os altares da epoca ogival compunham-se as mais das +vezes de um simples macisso de alvenaria, apresentando regularmente uma +especie de ornamentação pintada ou esculpida. +Estes macissos estavam rodeados de tapeçarias cujas +côres mudavam nos diversos dias de festa. Algumas vezes, +porém poucas, se decoravam os lados nús d'estes +altares com arcaduras fingidas, cujos arcos assentavam sobre +columnasinhas ou pilares embebidos na parede; as arcaduras tinham +pinturas historiadas e decorativas, ou estatuas e baixos relevos.<br /> + +<br /> + +Nos altares cheios ou macissos, decorados de arcaduras, estas eram +formadas no XIII e no XIV seculos por ogivas equilateraes ou arcos +traçados por tres centros; no XV seculo por ogivas inflexas +ou postas a pár, e no XVI por arcos abatidos ou de volta +inteira.<br /> + +<br /> + +Na idade media os altares eram sempre de pedra, nunca de madeira. +Consagravam-se ao mesmo tempo que a egreja ou a capella: não +havia então as <em>pedras aras</em>, bentas, +que se +podiam assentar +<span class="pagenum"><a name="p265">[265]</a></span> +depois na meza de +um altar sem estar benzido, e como presentemente se usa muitas vezes.<br /> + +<br /> + +O altar mór das egrejas cathedraes, conservou durante quasi +todo o periodo ogival, uma fórma simples e positivamente +symbolica. Em geral ou era sem retabulo, ou ficava-lhe por cima um +retabulo de pouca altura. Tinha um crucifixo, o livro dos Evangelhos, +dois castiçaes, e ás vezes um +tabernaculo para a conservação da Eucharistia. +Outra maneira de reservar o Santissimo Sacramento usada em certos +paizes pelo menos desde o XIII seculo, foi aquella cuja +recordação se conservou n'um curioso quadro do +XIII seculo, representando o altar mór da antiga cathedral +d'Arras com todos os seus accessorios. Uma hastea quadrada, collocada +por detraz do altar, que se eleva em dois andares, a uma grande altura, +tem por remate um pinaculo sobre o qual ha um crucifixo. Em meia altura +da hastea ha um bello baculo ficando a sua voluta suspensa no meio de +uma corrente, e a custodia eucharistica é formada com o +feitio de torrinha.<br /> + +<br /> + +Nas egrejas, cathedraes e abbadias, havia, como em muitas egrejas +romans, um altar para reliquias, ao fundo da capella mór, +por detraz do altar proximo do abside oriental da egreja.<br /> + +<br /> + +Os grandes reliquarios costumavam a ficar expostos detraz do altar, de +modo a deixar passar as pessoas por baixo; ás vezes tinham +um docel.<br /> + +<br /> + +<em>Frontaes</em>. São cortinados +de seda que cobrem +<span class="pagenum">[266]</span> +tambem os +lados verticaes de um altar, e algumas vezes o retabulo; como se usa +ainda hoje em muitos paizes. Designam-se vulgarmente com o nome de <em>antependium</em>. +Na idade media +quasi todos os altares tinham frontaes. Esses frontaes eram cobertos +com fazenda de custo; algumas vezes apresentavam laminas de ouro, prata +e cobre dourado e esmaltado, ou almofadas de madeira cobertas de +pinturas.<br /> + +<br /> + +Os frontaes metallicos, assaz communs durante os periodos Latino e +Roman, vieram a ser mais raros a começar do final do XII +seculo, e pouco a pouco o seu uso foi completamente abandonado. Durante +a epocha ogival, os frontaes com estofo fôram, por assim +dizer, os unicos empregados. A sua côr condizia com as +vestimentas lithurgicas e mudava, por conseguinte, conforme os dias +festivos. Havia de linho, seda e mesmo de veludo; os mais sumptuosos +eram todos bordados e ornados de pedras preciosas. Representavam +figuras de Santos e assumptos historicos e legendarios.<br /> + +<br /> + +<em>Baldaquino</em>. O uso do baldaquino +cobrindo o altar em signal de veneração, foi +bastante geral +até ao XII seculo; mas ficou quasi abandonado na Belgica e +França durante o periodo ogival; na Europa Occidental e +Septentrional não se serviram mais do baldaquino n'esta +epocha, como summidade dos reliquarios.<br /> + +<br /> + +Na Italia, em Roma, n'este paiz onde o estylo ogival nunca teve +principio, vê-se ainda um grande numero de baldaquinos da +epocha ogival. +<span class="pagenum">[267]</span> +Os mais +notaveis são os de S. Paulo fóra +dos muros, os de S. João, de Santa Maria no Trastever, Santa +Maria em Cosmedin e de Santa Cecilia.<br /> + +<br /> + +Na França e na Belgica suppriam algumas vezes a falta do +baldaquino, suspendendo por cima do altar um docel esculpido ou forrado +com estofo de custo.<br /> + +<br /> + +O baldaquino parece-nos apresentar a maneira mais adequada para +inspirar aos fieis o respeito e a veneração +devida ao altar, symbolo do +Salvador. Muito melhor que todos os outros accessorios, sem exceptuar o +retabulo, preenchia este fim resguardando o altar, sem todavia se +confundir com elle, e conservando-lhe assim toda a sua +significação symbolica. O retabulo, pelo +contrario, liga de certo modo o altar fazendo parte d'elle, desvia a +attenção das pessoas para o accessorio com grande +perda do objecto principal, que é o altar apropriadamente +assim chamado.<br /> + +<br /> + +<em>Cortinas</em>. Chamam-se cortinas a +armação suspensa nos dois lados do altar, e por +detraz do retabulo quando fôr pouco alto. Essas cortinas, da +mesma maneira que os frontaes, eram geralmente muito simples; algumas +vezes, todavia, representavam figuras, quer no tecido, quer nos +bordados, ornamentação, figuras e objectos +religiosos.<br /> + +<br /> + +Ficavam estas cortinas prezas por varões apoiados muitas +vezes em quatro ou seis columnasinhas de cobre ou de madeira, encimadas +de figuras de anjos, tendo na mão luzes ou differentes +<span class="pagenum"><a name="p268">[268]</a></span> +instrumentos da +paixão. A côr das cortinas +mudava conforme os dias de festa e as differentes occasiões +do anno lithurgico.<br /> + +<br /> + +Além das cortinas do altar, serviam-se tambem, durante a +idade media, de duas outras especies de armação +lithurgica. Eram: 1.º a grande +cortina que se suspendia durante a quaresma na entrada da +capella-mór ou do presbyterio, e que se designava <em>o +véo do templo</em>; 2.º os +véos que serviam na mesma occasião nos +crucifixos, retabulos e imagens, eram designados pelo nome <em>véos +de quaresma</em>.<br /> + +<br /> + +<em>Retabulos</em>. Como já +indicámos, o uso dos retabulos foi introduzido no final do +XI seculo. No começo collocavam-os sobre os altares das +reliquias e os altares de segunda classe; ficavam encostados +á tribuna ou postos no cruzeiro e nas capellas ornando a +capella-mór. Nas egrejas matrizes, collegiaes e monasticas +de primeira ordem, o altar-mór ficava quasi sempre sem ter +retabulo, pelo menos durante todo o seculo XIII. Em França, +Belgica, Allemanha, Inglaterra e nos outros paizes septentrionaes da +Europa, adoptou-se no XIV seculo, depois que a cadeira do bispo ou do +abbade e as cadeiras do côro dos conegos ou dos frades, que +até então ficavam por detraz do +altar-mór ao correr +da parede do hemicyclo obsial, foram mudados, para diante do sanctuario +sobre os dois lados do côro, isto é, para o logar +onde se vê presentemente nas egrejas do Norte.<br /> + +<br /> + +Durante o periodo ogival serviram-se de diversa +<span class="pagenum">[269]</span> +qualidade de materiaes para os retabulos. +O mais antigo era o metal; como n'aquelles do periodo roman a cantaria +(excepcionalmente a madeira), substituiu o metal. Desde a ultima metade +do XIII seculo, os retabulos de cantaria parece terem sido preferidos. +No meiado do seculo seguinte, os retabulos de madeira com obra de talha +foram mais adoptados, e no XV seculo, substituiram quasi completamenle +os retabulos de cantaria. Principiaram, todavia, já n'essa +epocha, a introduzir as almofadas pintadas, em fórma de +<em>trypticos</em>, que, no meiado do XVI seculo +supplantaram, para assim dizer, totalmente, os retabulos com obra de +talha.<br /> + +<br /> + +As portas que os retabulos haviam tido muitas vezes desde o XIV seculo, +tiveram no principio +ornamentação de esculptura na face interior, e +pinturas na exterior. Porém o peso das portas com ornatos +compostos de estatuas ou baixo-relevos tornavam esse appendice muito +difficil, e mesmo por vezes como perigoso, quando era preciso abrir ou +fechar o retabulo; preferiram pois d'ali a pouco as pinturas para +decoração d'essas duas frentes +das portas.<br /> + +<br /> + +Os retabulos não apresentavam a mesma +<em>fórma</em> durante todo o periodo ogival. +Quasi sempre com pouca altura no começo, tendo tambem pouca +grossura. Os mais antigos eram muitas vezes rectangulares: algumas +vezes comtudo a sua parte central tinha mais altura. Esta ultima +fórma, +principiaram-n'a a usar no meiado do XIII seculo; conservou-se +<span class="pagenum">[270]</span> +em alguns paizes, +até o meiado do XV seculo.<br /> + +<br /> + +O uso dos retabulos de madeira com obra de talha introduziu-se pouco a +pouco no XIV seculo, principalmente na Belgica. Desde o principio, +tiveram muitas vezes portas. Esta circumstancia lhe fez dar, como aos +retabulos pintados tendo portas, o nome de <em>tryptycos</em> +ou +<em>polyptycos</em>, conforme tinham tres ou maior numero +d'esses appendices.<br /> + +<br /> + +Na Belgica, França, Inglaterra no XV seculo, e na Europa +central e meridional já durante o seculo precedente, os +retabulos perderam a bella e elegante simplicidade que os distinguiam +antes. Os seus contornos e subdivisões se complicam cada vez +mais, á proporção que se aproximam +do final do periodo ogival. Tinham por remate, no XIII seculo e no XIV +seculo, linhas horisontaes e sem nenhum adorno no cimo; os caixilhos +dos retabulos do XV seculo passam depois por +transições com mistura de linhas rectas e curvas +para chegar por fim ás ogivas de requebro, arcos unidos de +volta abatida e volta de sarapanel com curvas de todo o genero que +ornavam muitas vezes no XVI seculo de crochetes e florões; +chegando mesmo a rematar o retabulo com torrinhas e pinaculos, estatuas +e enlaçamentos do feitio de firmas.<br /> + +<br /> + +Devemos todavia notar que as formas dos moldurados do XIII e XIV seculo +se encontram ainda no XV e mesmo no XVI seculo, principalmente nos +triptycos pintados. Os moldurados d'este u +Devemos todavia notar que as formas dos moldurados do XIII e XIV seculo +se encontram ainda no XV e mesmo no XVI seculo, principalmente nos +triptycos pintados. Os moldurados d'este ultimo +<span class="pagenum">[271]</span> +seculo apresentam sempre maior simplicidade +que os dos retabulos com obra de talha.<br /> + +<br /> + +<em>Os assumptos representados sobre os +retabulos</em>, eram tirados da historia do antigo e novo +testamento ou das lendas dos santos. No XII seculo e no XIII, +ornavam-se os retabulos quer de baixos relevos, quer de estatuasinhas +collocadas em arcaduras; um medalhão central de forma +quadrilobada ou de aureola se via as mais das vezes no centro do +retabulo, tendo a imagem de Jesus Christo na cruz ou assentado sobre o +arco-iris. No XV seculo, as arcaduras não apparecem +senão poucas vezes; quasi sempre, n'esta epoca, o retabulo +esta dividido em muitas series verticaes e horizontaes com as +divisões cheias de baixos relevos sobrepostos uns aos +outros. A representação da +cruxificação com a Virgem Nossa Senhora e S. +José, com os dois ladrões e grupos de +personagens, occupa bastantes vezes o compartimento central, +commummente mais alto e por vezes tambem mais largo que os +compartimentos inferiores.<br /> + +<br /> + +Os retabulos estavam cobertos, em certas occasiões, por +frontaes similhantes aos dos altares. Muitos <em>retabulos +pintados</em> do periodo +ogival se têem conservado até ao presente. +Arrancados quasi todos ao logar que occupavam primitivamente detraz dos +altares, apparecem agora como paineis nos museus de pinturas ou +estão dependurados nas paredes internas das egrejas.<br /> + +<br /> + +As obras primas dos pintores do XIV, do XV e do +<span class="pagenum"><a name="p272">[272]</a></span> +principio do XVI seculo, não +são como os antigos +retabulos em forma de triptyco.<br /> + +<br /> + +<em>Os retabulos esculpidos</em> foram usados +simultaneamente com os retabulos pintados. Os que se fizeram na Belgica +durante o XV seculo e os primeiros annos do XVI seculo compunham-se +quasi sempre de um certo numero de grupos com mais ou menos alto +relevo, em caixilhos ou collocados debaixo de docel delicadamente +recortado; os dos outros paizes, pelo contrario, e particularmente os +da Europa Oriental, compõem-se de estatuas perfiladas no +compartimento central, e muitas vezes tambem sobre as portas. Ainda que +entre os retabulos belgas do ultimo seculo do periodo ogival apparecem +alguns de execução grosseira e sem nenhum merito, +quasi todos, todavia apresentam bastante apreço artistico e +testemunham o estado florescente da esculptura n'esse periodo.<br /> + +<br /> + +Os retabulos de madeira com talha eram muitas vezes dourados e pintados +de côres. Convém +advertir que as letras que, n'esses retabulos, se veem frequentemente +sobre os bordados das vestimentas dos personagens, não +apresentam commummente nenhuma significação, +tendo sido ahi collocadas unicamente com o fim decorativo.<br /> + +<br /> + +No final do periodo ogival, o retabulo firma-se quasi sempre sobre um +sóco de 20 a 30 centimetros de altura, e por este modo se +liga ao altar.<br /> + +<br /> + +Esta base se designa <em>predella</em>, nome +que se dá egualmente aos degrausinhos para os +castiçaes do +<span class="pagenum">[273]</span> +throno +dos altares modernos. O lado superior, que corresponde á +base do retabulo, é muitas vezes mais comprido que o lado +interior; n'este caso a differença de tamanho é +disfarçada +por um arco de circulo saliente.<br /> + +<br /> + +A <em>predella</em> (banqueta) é +muitas vezes ornada do busto do Redemptor e dos doze apostolos.<br /> + +<br /> + +Das observações precedentes resulta que, +não obstante as dimensões por vezes exageradas, o +retabulo parte inteiramente accessoria, conservou até aos +fins do periodo ogival, o seu caracter essencial. A maior parte dos +artistas modernos que se encarregam de compor os altares no estylo +ogival não se preoccupam de forma alguma com o primitivo +destino do retabulo, a que dão impropriamente o nome de +altar. Desconhecendo a verdadeira significação do +retabulo, substituem-lhe tablados +ridiculos, muitas vezes de <em>madeira</em>, +com côr de <em>pedra!!!</em> compostos de socos, +arcaduras e pinaculos, onde os symbolos religiosos, as imagens, e os +baixos relevos são inteiramente supprimidos ou +estão mesquinhamente representados. Muitas vezes estes +symbolos, estas imagens, e estes assumptos são executados +apesar das regras da iconographia christã, regras das quaes +os architectos, esculptores e pintores <em>não teem +geralmente o incommodo +de adquirir as noções as mais +elementares</em>! É tambem para lastimar, que nas +restaurações das antigas egrejas, não +encarreguem os retabulos +<em>triptycos</em> ao talento dos pinto ao talento dos +pintores que se occupam +de trabalhos religiosos. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p274">[274]</a></span> +<em>Sacrarios</em>. Durante quasi todo o +periodo ogival não se reservava, depois da +celebração +da missa, senão a quantidade de hostias consagradas e +necessarias para levar o viatico aos enfermos em perigo de vida, e para +expor o Santissimo Sacramento á +veneração dos fieis.<br /> + +<br /> + +Quando as pessoas que assistiam aos officios divinos queriam commungar, +approximavam-se da mesa da communhão durante a missa, e +recebiam <em>uma parte das sacramentaes</em> que o +padre acabava de consagrar. Não se deve, pois, estranhar que +os vasos sagrados destinados á +veneração +da Santa Eucharistia e o logar onde os depositavam tivessem pequenas +dimensões durante o XIII e o XIV seculos.<br /> + +<br /> + +Conservavam a Santa Eucharistia de muitas maneiras:<br /> + +<br /> + +1.º Nas egrejas dos paizes meridionaes, onde a pyxide se +manteve em +uso durante o periodo ogival, continuaram a ficar suspensos, como se +fazia precedentemente, o calix e a pyxide com as hostias.<br /> + +<br /> + +2.º Em França e na Belgica e nos paizes +septentrionaes da +Europa serviram-se muitas vezes durante o XIII e o XIV seculos, da +maneira indicada na <a href="#p272">pag. 272</a>. +As hostias encerradas +em uma pyxide ou dentro de uma pomba dourada e esmaltada, ficavam +collocadas n'uma pequena torre ou pequena tenda (<em>tabernaculum</em>) +em estofos custozos, +que se suspendiam, por cima do altar, n'um baculo de bronze ou de +prata.<br /> + +<br /> + +3.º Algumas vezes conservam-se as hostias em +<span class="pagenum">[275]</span> +cofres de forma de arca, relicario ou torre. +Estes cofres eram transportados e depositados no sacrario, ou +sacristia, ora collocados de vez sobre o altar.<br /> + +<br /> + +4.º No maior numero de casos, principalmente nas egrejas de +segunda e +terceira ordem, a Santa Eucharistia ficava em armarios construidos +detraz ou ao lado do altar. O uso de collocar as hostias nos +tabernaculos em forma de armario, parece ter sido muito geral na +Belgica, pelo menos depois do XIV seculo.<br /> + +<br /> + +5.º No XIV e XV seculos, construiram tambem, para a reserva +Eucharistica, tabernaculos de fórma de torre, inteiramente +isolados e ao lado do Evangelho. Os tabernaculos d'este genero vieram a +ser communs na Belgica e na Allemanha desde o XV seculo. Encontram-se +muitos n'este ultimo paiz que são do XIV seculo.<br /> + +<br /> + +O maior numero dos tabernaculos com a fórma de torre +são de pedra; encontram-se não obstante, +mas excepcionalmente, de madeira ou mesmo de metal.<br /> + +<br /> + +Do lado da Epistola, defronte do tabernaculo, se faz muitas vezes na +parede um armario imitando a fórma de tabernaculo, +porém mais pequeno e muito menos ornado.<br /> + +<br /> + +Os armarios feitos na grossura da parede tinham a frente para o altar +sendo destinados a guardar as alfayas e vestuario dos ecclesiasticos +que deviam celebrar a missa; encontram-se algumas vezes, nas capellas +que guarnecem os lados da capella-mór ou da nave. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[276]</span> +<em>Piscinas</em>. O uso das piscinas ou pias +abertas na parede do lado da Epistola, que havia durante o periodo +roman, foi conservado tambem na epocha ogival.<br /> + +<br /> + +No XIII seculo, a maior parte das piscinas eram <em>geminadas</em>, +isto é +compostas de duas pias ou orificios para passarem as aguas por uma +bica, quer por baixo do pavimento da egreja, quer por fóra +do pavimento do edificio. Uma d'essas pias era destinada a receber as +aguas de uso, a outra, as oblações das +mãos do sacerdote e mesmo as do calix; porque, ainda n'esta +epocha, as oblações do calix +eram lançadas nas piscinas, e não bebidas pelo +padre. Encontram-se todavia ainda agora piscinas +<em>simples</em>, isto é tendo um unico orificio +para sahir a agua.<br /> + +<br /> + +As piscinas gemeas fingem geralmente a fórma de um duplo +nicho, separado por uma columnasinha. Muitas vezes, nas egrejas ornadas +de arcaduras fingidas debaixo do peitoril das janellas, a piscina +occupa duas arcaduras proximas, e une-se a ellas; n'este caso, a +columnasinha posta entre as duas arcaduras forma a divisão +dos dois nichos da piscina.<br /> + +<br /> + +As piscinas do XIV seculo não differem muito das outras do +seculo precedente senão pelo genero da +ornamentação architectonica e esculptura, que +harmonisa com o estylo da epocha. As mais das vezes são +gemeas, posto que o ecclesiastico beba, desde então, a agua +de que se serve para fazer a +oblação do calix. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p277">[277]</a></span> +No XV, e mesmo já no final do XIV seculo, as piscinas +tornaram-se raras e acabaram proximo do fim do periodo ogival, para +desapparecerem completamente.<br /> + +<br /> + +<em>Cadeiras de côro</em>. Estas +cadeiras collocadas no côro das egrejas eram destinadas +ás dignidades ecclesiasticas assistentes aos officios +religiosos. Durante o periodo roman estas cadeiras eram geralmente de +pedra; porém desde o fim do XV seculo, sempre se fizeram de +madeira.<br /> + +<br /> + +As cadeiras de madeira compõem-se de differentes partes, +tendo cada uma um nome para a designar.<br /> + +<br /> + +As separações de duas cadeiras são +formadas por curvas elegantes com ornamentação de +obra de talha na sua parte superior, que lhes dão +graça e belleza. Os <em>arrimos</em> +são +apoios horisontaes que limitam as cadeiras na parte superior; +geralmente esta parte tem bastante largura com fórma +inclinada, podendo as pessoas de pé encostarem-se +facilmente.<br /> + +<br /> + +Alguns auctores dão impropriamente o nome de encosto +á <em>rampa curva</em> da +divisão da cadeira, sobre o qual se apoia o cotovello, +quando se está sentado. A taboa movediça servindo +de assento gira sobre gonzos ou eixos, e póde-se abaixar e +levantar como se quizer. Tem, por baixo uma misula que se chama <em>misericordia</em> +ou +<em>paciencia</em>, sobre a qual se póde sentar, +<em>fingindo estar a +pessoa de pé</em>, quando a taboa que pertence ao +assento +está levantada. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[278]</span> +No côro das cathedraes, egrejas collegiaes e abbaciaes, estas +cadeiras ficam collocadas á direita ou esquerda do fundo do +côro em duplo renque e altura: cadeiras altas para os conegos +e religiosos, cadeiras mais baixas para os ecclesiasticos de cathegoria +inferior ou de congregação. O piso das cadeiras +superiores fica alto com dois ou mais degraus acima do chão; +em quanto as cadeiras inferiores assentam sobre o solo ou sobre um +unico degrau. As pessoas sentadas em cima podem mais facilmente que as +debaixo vêr o altar. As costas das cadeiras do primeiro +renque ficam muito baixas e servem de genuflexorio aos conegos que +estiverem nas cadeiras superiores; as costas d'estas são +muitas vezes inteiramente semilhantes das cadeiras baixas, outras teem +por cima obra de madeira bastante alta e limitada por um remate em +sacada com a fórma de um docel. As pessoas que occupam as +cadeiras baixas se ajoelham sobre o chão com o rosto virado +para as costas de suas cadeiras. De distancia em distancia a fila das +cadeiras baixas fica interrompida pela suppressão de uma +cadeira para dar passagem aos que vão assentar-se nas +cadeiras mais altas; estas aberturas chamam-se <em>entradas</em>. +Encontram-se tambem cadeiras com genuflexorios.<br /> + +<br /> + +As cadeiras do côro do XIII seculo são notaveis +tanto pela sua singeleza como pela sua elegancia. Duas columnasinhas, +uma na parte inferior e outra na parte superior, ornam quasi sempre os +lados de cada divisão d'estas cadeiras. As mais sumptuosas +<span class="pagenum">[279]</span> +têem +além d'isso, esculpturas sobre as +<em>misericordias</em> e nos remates, que no quarto de +circulo. E reunem ás columnasinhas servindo de apoio aos +braços das cadeiras. Estas +ornamentações constam de folhagens, fructos e +algumas vezes de figuras de animaes reaes ou phantasticos.<br /> + +<br /> + +As cadeiras do côro do XIV seculo apresentam o mesmo feitio +que as do XIII seculo; só com a +differença de maior ostentação na obra +de talha.<br /> + +<br /> + +Muitas vezes no XIII seculo, e mesmo ainda no princípio do +XIV seculo, +estas cadeiras não tinham costas. Quando as apresentavam +eram com uma almofada e arcaduras, tendo regularmente um tecto lavrado +similhante a um docel, um pouco saliente na face interna e com poucas +esculpturas. No XIV seculo, esse tecto lavrado apparece mais +apparatoso; cada vez mais saliente, descança sobre reprezas, +acabando em forma de curvatura. Nos dias de grandes festas, +suspendiam-se em frente, no cimo do encosto, sedas de côres, +bordados e pannos de raz.<br /> + +<br /> + +Na mesma epocha, os lados superiores das cadeiras do côro, +mesmo quando não tenham alto encosto, cobrem-se de diversas +esculpturas, representando estatuasinhas, animaes reaes ou +phantasticos, e uma decoração vegetal muito +vistosa.<br /> + +<br /> + +As cadeiras do côro do XV seculo distinguem-se geralmente das +precedentes por uma abundancia extraordinaria no ornato esculptural. +São cheias de bastante decoração e +executadas com mais primor e delicadeza que nos seculos XIII e XIV. Os +<span class="pagenum">[280]</span> +seus altos encostos +compõem-se quasi sempre de baixo relevos dentro de arcaduras +com redentes feitos delicadamente, e cada cadeira tem um docel em que +um pinaculo vasado muito alto forma a extremidade. Os baixos relevos +das costas representam assumptos tirados da Biblia, da historia +ecclesiastica ou da legenda; successos da vida de Jesus Christo ou de +Nossa Senhora são representados quasi sempre. As esculpturas +dos lados internos das cadeiras e das misericordias apresentam muitas +vezes figuras com carantonhas, animaes reaes ou phantasticos, +symbolisando os vicios. Poucas vezes as esculpturas das cadeiras +representam santos ou assumptos religiosos.<br /> + +<br /> + +Na Belgica ha um limitado numero de cadeiras do côro do XV e +XVI seculos.<br /> + +<br /> + +Em França, as mais notaveis são as da cathedral +d'Amiens (XV seculo), e d'Auch (principio do XVI seculo), e na +Allemanha, as da cathedral d'Ulm, com esculpturas de Jorge Syrlino de +1474 a 1476; em Portugal as da Sé Velha de Coimbra.<br /> + +<br /> + +<em>Bancos e docéis dos +celebrantes</em>. O banco dos officiantes era destinado para o +celebrante, diacono e subdiacono se assentarem emquanto se canta o <em>Gloria</em>, +<em>Credo</em>, e <em>Dies +irae</em>; servia ao mesmo fim as poltronas que é +costume collocar presentemente no côro proximo dos degraus do +altar. Estes bancos, que havia na idade media em todas as egrejas de +primeira e segunda ordem, estavam regularmente no <em>presbyterium</em>, +do lado da Epistola +defronte do tabernaculo, e apresentavam uma certa +<span class="pagenum"><a name="p281">[281]</a></span> +analogia com as cadeiras do côro. +Conforme as prescripções lithurgicas, +distinguia-se por uma grande simplicidade; eram lisos e sem +subdivisões. Algumas vezes, todavia, se compunha de tres +cadeiras mais ou menos similhantes ás do côro. +Este banco, liso ou subdividido, tinha muitas vezes um docel cheio de +esculpturas, formado por um nicho aberto na grossura da parede do +côro, quando este não tinha naves lateraes ou +sustentado por columnas e de paredes mestras quando o côro +estava rodeado de naves lateraes.<br /> + +<br /> + +<em>Jubes, Screens</em><sup><a href="#4">[4]</a></sup> +<em>e Cruzes +triumphales</em>. Antigamente chamava-se <em>Jube</em> +á tribuna +(em latim <em>doxale</em>) especie de barreira com tres e +mais arcadas esplendidamente ornadas que nas egrejas separava o +côro das naves; tinha por cima uma especie de galeria ou +tribuna com <em>guarda-peito</em>, +havendo na extremidade uma ou duas escadas em espiral, em cuja tribuna +um abbade vinha lêr o Evangelho, depois de ter pronunciado a +formula: <em>Jube, Domine, benedicere</em>.<br /> + +<br /> + +D'ahi vem o nome <em>Jube</em>.<br /> + +<br /> + +As escadas ficavam algumas vezes escondidas detraz dos pilares dentro +de caixas rendilhadas com linda decoração.<br /> + +<br /> + +Durante a primeira parte do periodo ogival, a arcada do meio estava +tapada por uma parede, as duas outras arcadas ficavam abertas, tendo +portas +<span class="pagenum">[282]</span> +ou grades. Mais tarde mudou-se em alguns +paizes esta disposição primitiva; na Belgica, por +exemplo, na França e em certas partes da Allemanha, a arcada +central só ficou aberta com uma grade de pau ou de ferro +servindo de porta; taparam com parede as duas outras lateraes +encostando-lhe altares.<br /> + +<br /> + +Na primeira metade do XIII seculo, os +<em>Jubes</em> eram raros. Foi sómente no final +d'este seculo, e principalmente durante os seculos seguintes que se +fizeram geralmente nas cathedraes, collegiadas, e nas abbaciaes. No XV +e no XVI seculo tambem, os collocaram nas egrejas parochiaes, mais +importantes. Alguns se teem conservado na Belgica até ao +presente: o mais antigo é da era 1490.<br /> + +<br /> + +O mais magestoso é o da cathedral de Milão.<br /> + +<br /> + +Os <em>jubes</em> teem sempre proxima a +<em>cruz triumphal</em>. Esta cruz, de grande +dimensão, é geralmente de madeira e ornada de +pinturas e dourados. Os seus quatro ramos com florões teem +muitas vezes quadrilobos, nos quaes estavam do lado da nave os symbolos +dos quatro evangelistas, e do lado do côro, os quatro +doutores da egreja latina; S. Gregorio, S. Ambrosio, S. Agostinho e S. +Jeronymo. Ao pé da cruz estão as imagens de Nossa +Senhora, e do apostolo S. João; a primeira á +direita, e a segunda á esquerda.<br /> + +<br /> + +Antes da introducção dos +<em>jubes</em> a cruz triumphal estava igualmente suspensa +por tres correntes no meio do arco chamado <em>triumphal</em>, +que occupa a entrada da capella-mór.<br /> + +<br /> + +Havia tambem antigamente nas egrejas do periodo +<span class="pagenum">[283]</span> +Latino e Roman uma <em>haste</em> +(Tress). Era costume collocar nas basilicas entre o côro e a +parte reservada para o publico uma viga atravez do côro, +sobre o qual se punham luzes e tambem suspendiam lampadas, e tambem +durante a quaresma, servia para pôr o véu chamado +<em>velum templi</em>.<br /> + +<br /> + +<em>Separações do +côro</em>. A disposição +dos antigos bancos da clerezia ao comprimento da parede absidal do +côro, ja descripto, +não foi conservada durante o periodo ogival, sendo em Italia +e tambem em Portugal, onde continua ainda, assim como em algumas +egrejas da Allemanha, principalmente nas cathedraes de Spire e de +Mayence.<br /> + +<br /> + +Desde o XI seculo, a maior parte das abbadias da <em>Europa +central e occidental</em> +tinham, como já referimos, transferido para o cruzeiro, os +bancos, alem das cadeiras dos ecclesiasticos, que occupavam antes a +capella da abside. Mais tarde tambem a mesma mudança se +introduziu pouco a pouco nas cathedraes e nas collegiadas d'essas +mesmas regiões, principalmente depois da reunião +das +naves lateraes e capellas absides á roda da capella +mór. Os bancos de pedra do periodo roman transformados em +cadeiras do côro ou cadeiras de madeira, foram collocados +diante do sanctuario, sobre o lado d'esta parte da egreja. O +côro ficou separado das naves lateraes pelas barreiras, as +mais das vezes de cantaria, bastante alta, vedado por detraz com as +cadeiras do côro collocadas entre as columnas da +capella-mór. A roda do sanctuario +<span class="pagenum"><a name="p284">[284]</a></span> +propriamente chamado, ás vezes, +recortavam aberturas, de maneira que as pessoas que estivessem nas +naves lateraes podessem vêr o altar, e outras vezes tambem +substituiam as barreiras da porta circular da capella-mór +por tumulos ou mausoléos. +Nas grandes cathedraes, numerosas esculpturas em alto relevo ornavam as +partes lizas das +separações tanto no exterior como no interior da +capella-mór. Alguns monumentos, por exemplo as cathedraes de +Paris e de Amiens, teem conservado, por completo ou em parte, as suas +antigas separações da capella-mór.<br /> + +<br /> + +<h4>Pulpitos e confessionarios</h4> + +<br /> + +<em>Pulpitos</em>. Durante os primeiros +seculos da era christã, as tribunas do alto onde se fazia a +leitura do Evangelho e da Epistola, serviam ao mesmo tempo de pulpito.<br /> + +<br /> + +Ao uso de prégar do alto da tribuna, veiu juntar-se o de um +pulpito saliente que se conservou na Europa central e occidental +até ao final do XV seculo. Por isso, os pulpitos anteriores +ao meiado do XV seculo se encontram mui raras vezes. Foi +sómente no começo d'esta epocha que se principiou +a pôl-os isolados na nave principal das egrejas d'esta parte +da Europa.<br /> + +<br /> + +Os mais antigos pulpitos são quasi todos de pedra; no XV e +XVI seculos fizeram-se egualmente de madeira.<br /> + +<br /> + +O espaço dentro do pulpito, para o prégador, +<span class="pagenum">[285]</span> +no periodo ogival é +geralmente hexagono e ornatado no cimo dos lados, ficando o sexto lado +reservado para a entrada n'elle; a decoração +compõe-se de estatuas, baixos relevos, e algumas vezes +tambem, de simples desenhos geometricos ou chammas. Vê-se com +frequencia Jesus Christo e Nossa Senhora entre quatro evangelistas ou +os quatro doutores da egreja do Occidente, S. Gregorio, Santo Ambrosio, +Santo Agostinho e S. Jeronymo.<br /> + +<br /> + +Ha em Portugal um pulpito de pedra de admiravel +composição, que pertence á egreja de +Santa Cruz de Coimbra, de que tirámos o modelo e figurou na +exposição universal de Paris em 1867; depois o +museu de Londres quiz compral-o, ao que nos oppozemos.<br /> + +<br /> + +O pulpito apoia-se por vezes sobre uma curva em sacada, sobre um +macisso de alvenaria ou sobre columnatas enfeixadas; as mais das vezes, +todavia, está assente sobre uma columnata ou sobre um +pedunculo. Esta ultima maneira foi mais commum no XV e no XVI seculo. +Estes apoios eram ornados com esculpturas, muitas vezes muito +intrincadas conforme o uso adoptado no final do periodo ogival. Na +Allemanha haviam por vezes representado as figuras de Adão, +Eva ou Moysés em alto relevo nas frentes do pulpito.<br /> + +<br /> + +O sobreceu dos pulpitos principiou a servir no final do periodo ogival, +e mesmo não era muito imitado n'essa epocha. Veiu a ser de +uso geral no fim do XVI seculo. Os sobreceus do XV seculo +têem geralmente a forma d'uma pyramide, d'um +<span class="pagenum"><a name="p286">[286]</a></span> +coruchéo ou d'um +campanariosinho. Na Inglaterra vêem-se sobreceus +sómente com uma simples +guarnição. Esta ultima forma nos parece a melhor, +pois não causa a desagradavel vista do remate de tanto +vulto, que parece abafar a voz. Ha poucos exemplares de pulpitos do +periodo ogival.<br /> + +<br /> + +<em>Confessionarios</em>. Os confessionarios +em que o confessor fica separado do penitente por uma rotula, foram +desconhecidos durante o periodo ogival. N'essa epocha, o confessor +collocava-se, para ouvir as confissões, em uma poltrona ou +nas cadeiras do côro, e o penitente ajoelhava deante d'elle. +A recordação d'esta maneira de se confessar foi +conservada nas miniaturas, paineis e gravuras do XV seculo.<br /> + +<br /> + +Foi proximo do final do XVI seculo que os confessionarios com rotula +foram introduzidos na Belgica.<br /> + +<br /> + +<h4>Capellas funereas, tumulos, campas,<br /> + +lanternas dos +defunctos e cruz de cemiterio</h4> + +<br /> + +<em>Capellas funereas</em>. Estas capellas +funereas eram construidas isoladas nos cemiterios durante o periodo +ogival. São raras em quasi todos os paizes. Não +ha nenhuma na Belgica nem em Inglaterra. Em França +vêem-se algumas nos cemiterios +bretões, e existe uma muito notavel, do XV seculo, em Avioth +nas <em>Ardennes</em> francezas. +É na Austria que são mais communs.<br /> + +<br /> + +<em>Tumulos apparentes</em>. O uso de +encerrar os cadaveres nos sarcophagos e pôl-os sobre o solo +ficou +<span class="pagenum">[287]</span> +completamente abandonado no +norte da Europa desde o XIII seculo.<br /> + +<br /> + +Na Inglaterra, Belgica, Allemanha, e nas provincias septentrionaes da +França, os tumulos apparentes do periodo ogival +são cenotaphios, consistindo em socos de cantaria com +massiços de alvenaria postos sobre uma sepultura +subterranea, tendo a effigie do finado. Compõem-se +geralmente, como no XIII seculo, de um sóco ou macisso +coberto de uma grande lousa, sobre a qual está deitada a +estatua do defuncto. Este estendido sobre uma cama ricamente disposta, +apresentando todas as insignias de sua dígnidade: os +bispos e os abbades trazendo mitra e baculo; os reis e principes, a +corôa e o sceptro; os cavalleiros, o seu escudo e a sua +armadura. Os pés dos bispos e dos ecclesiasticos, e em +certos paizes tambem dos seculares, apoiam-se contra um +dragão ou um monstro phantastico; os dos clericaes, +principes e nobres, contra um leão, symbolo de coragem, e +mesmo, ás vezes, como para as damas tendo os pés +sobre um rafeiro, emblema da fidelidade conjugal. Pequenas figuras de +anjos agitam thuribulos, sustentando tochas ou almofadas em que +descança a cabeça do personagem. Depois do XIII +seculo, os anjos com thuribulos tornaram-se raros. Durante muito tempo, +a effigie do finado não apresenta nenhum dos caracteres da +morte.<br /> + +<br /> + +No XIII seculo e ainda no principio do XIV seculo, as estatuas deitadas +têem os olhos abertos e reproduzem os gestos e as attitudes +dos personagens +<span class="pagenum">[288]</span> +vivos. +Sómente depois do XIV seculo o defuncto principia a ser +representado morto ou adormecido, com os olhos fechados.<br /> + +<br /> + +Muitas vezes, columnatas reunidas por arcaduras são +dispostas em roda do sóco, no qual +estão assentes; algumas vezes, mas, raramente, as arcaduras +são vasadas, e a estatua +<em>deitada</em> do finado occupa o <em>logar</em> +do sóco +supprimido.<br /> + +<br /> + +Os cenotaphios do periodo ogival são geralmente de pedra, +poucas vezes de cobre ou de outro metal. Os tumulos de pedra +têem quasi um metro de altura, em quanto que os sepulchros de +metal, que se conservam até ao presente têem +apenas 50 centimetros acima do solo; todavia o unico de metal que +possue a Sé de Braga tem maior altura.<br /> + +<br /> + +Para evitar o estorvo nas egrejas, não se permittia, salvo +raras vezes, erguer-se um cenotaphio. Na capella-mór +admittia-se o tumulo do fundador ou de um bemfeitor distincto, +collocando os dos outros personagens de +distincção nas capellas +que cercam os lados do côro e da nave principal. Estes +monumentos apresentavam muitas vezes uma +decoração de pinturas e dourados. Alguns ficavam +encostados á parede e dentro de um grande nicho sob +fórma de arcadura ogival; outros, e era o maior numero, +ficavam separados em todos os seus lados.<br /> + +<br /> + +<em>As campas com gravuras a +traço</em> tornaram-se vulgares desde o XIV seculo. +Muitas têem sido conservadas até ao presente, +não obstante o grande +<span class="pagenum">[289]</span> +numero de causas de +destruição, ás +quaes têem ficado expostas desde seis seculos. A maior parte +estão ornadas de imagens do finado, debaixo de arcaduras +trilobadas do feitio de docel, muito simples e sustentado por +columnatas. Quasi sempre vê-se uma mão deitando a +benção, symbolo de Deus, sahida do cimo da ogiva; +e anjos agitando thuribulos occupam os <em>seguintes</em> +da +arcadura. Sobre as campas dos bispos, dos abbades e dos padres, +vê-se tambem, algumas vezes, aos dois lados do personagem, +clerigos, ou anjos de pequeno tamanho, segurando em velas accesas.<br /> + +<br /> + +Muito antes do XIII seculo, as campas têem, bastantes vezes +ainda, como durante o periodo roman, a forma de um trapezio, isto +é, são mais +estreitas do lado dos pés. A +inscripção que +quasi sempre têem, forma geralmente o contorno exterior da +pedra, menos geral do que o emmoldurado de ogiva; principia por uma +cruz a inscripção e +quasi no fim do XIII seculo, ajuntam já por vezes, aos +quatro angulos, os emblemas dos evangelistas collocados nos +quadrilobos.<br /> + +<br /> + +As campas dos tumulos do XIII seculo que não têem +um emblema, um symbolo ou um escudo com armarias, são +bastante raras na Belgica.<br /> + +<br /> + +Sobre as campas do XIV seculo, a effigie do finado continua a ser +collocada debaixo de uma arcadura, poucas vezes trilobada, +porém não durante os primeiros annos. +Sómente esta arcadura é muito mais carregada de +detalhes architectonicos do que precedentemente, taes como ridentes, +crochetes, +<span class="pagenum">[290]</span> +florões, pinaculos e rosaes; além +d'isso, as arcaduras principiam a não ser sustentadas por +columnatas com base e capitel, mas sim por pés-direitos do +feitio de contra-fortes ornados de pinaculos e nichos, nos quaes se +vêem pequenas figuras de homens.<br /> + +<br /> + +Quando uma unica campa cobre uma sepultura dupla ou tripla, as +arcaduras estão reunidas no numero de duas ou tres, e +contéem, cada uma, sua effigie. O leão, o +cão e os outros symbolos, que acompanham quasi sempre as +estatuas deitadas dos cenotaphos, se vêem tambem sobre as +campas do XIV seculo. Estas são geralmente de +fórma rectangular, e não têem o feitio +de um trapezio. Os anjos incensadores e ceroferários +não se +vêem excepcionalmente a começar do XVI seculo.<br /> + +<br /> + +As arcaduras e o contorno com curvas em rampa que formam o remate +caracteristico dos moldurados do XIV e XV seculos, são +regularmente substituidos no XV seculo por docéis, +representados em perspectiva e muitas vezes compostos de ogivas +inflexas com desenhos complicados; os pinaculos, os nichos, as rosaceas +flammejantes se multiplicam sobre todo o moldurado; além +d'isso, os arcos-butantes apparecem para ligar os docéis aos +contrafortes.<br /> + +<br /> + +Será bom notar que os moldurados das campas do XIV e do XV +seculos apresentam a maior similhança com as +decorações do mesmo genero que se vêem +nas vidraças pintadas contemporaneas.<br /> + +<br /> + +Como no XIII seculo, a inscripção apparece no +<span class="pagenum">[291]</span> +XIV e no XV seculos sobre a +borda da campa e está inscripta entre duas linhas +parallelas. Nos angulos formados pela intersecção +d'essas quatro linhas +se vêem quadrilobos com os emblemas dos evangelistas, ou +tambem algumas vezes, desde o começo do meiado do XIV +seculo, as armarias; acontece mesmo que a +inscripção está, além +d'isso, interrompida pelo escudo da armaria sobre os seus lados mais +compridos.<br /> + +<br /> + +Já explicámos que, quando são +applicados para ornar os quatro angulos de um quadrado ou de um +rectangulo, os symbolos dos evangelistas põem-se, pelo +menos, até ao XIII seculo, da +maneira seguinte: o homem alado no angulo superior á <em>esquerda</em> +do espectador; +a aguia á <em>direita</em>, o leão +no angulo inferior á +<em>esquerda</em> e o novilho á <em>direita</em>. +No XIV seculo, houve uma +mudança; desde esta epocha, vê-se quasi geralmente +a aguia no <em>angulo superior esquerdo</em>, e o homem +alado no <em>angulo superior direito</em>. É +ali tambem o logar que +estes symbolos occupam sobre as campas.<br /> + +<br /> + +Os caracteres das campas que acabamos de indicar por cada seculo do +periodo ogival, não são de tal maneira proprios +como os que são mais proximos da epocha indicada. Pelo +contrario, acontece muitas vezes, principalmente na Belgica, que as +campas do XV seculo apresentam ainda, por assim dizer, os caracteres +que não se está acostumado a encontrar n'outra +parte nas campas do seculo precedente. Não é raro +tambem achar campas do XIII, XIV e XV seculos, nas quaes +<span class="pagenum">[292]</span> +o ornamento architectural seja moderado de +detalhes, ou inteiramente os supprimiram.<br /> + +<br /> + +Em França quasi sempre e algumas vezes na Belgica, as +carnes, em vez de serem imitadas a traço, são +represeutadas por embutidos de marmore +ou de metal.<br /> + +<br /> + +<em>Tumulos chatos de cobre</em>. Durante o +periodo ogival, introduziu-se o uso do cobre ou de laminas de +latão sobre as quaes as linhas do desenho são +feitas a traços gravados bastante fundos, estando cheios com +uma substancia rezinosa de côr preta e de tom mate. Essas +largas linhas pretas se destacam perfeitamente sobre a superficie +brilhante do metal brunido ou adamascado, até mesmo dourado, +cujo reflexo luzidio é muitas vezes realçado pela +armaria colorida em esmalte da composição da +campa, a qual fica solidamente fixa na grossura do cobre. Devido a +estas qualidades, os tumulos lizos em cobre contribuiam admiravelmente, +assim como o pavimento e as vidraças pintadas, para a +decoração das egrejas. É na Inglaterra +e Flandres que têem sido mais communs durante toda a idade +media.<br /> + +<br /> + +Os tumulos chatos de cobre podem dividir-se em duas classes. A +primeira, de maior numero, comprehende as laminas de cantaria, quer de +marmore ou de gres, nas quaes a figura do finado fica recortada em <em>silhoeta</em> +na lamina +de metal, assim como differentes ornatos; as armarias, emblemas, +inscripções em feitio de fita, gravadas sobre +tantas peças distinctas, ficam embutidas e arrebitadas +<span class="pagenum">[293]</span> +separadamente nos +entalhes correspondentes da pedra, designados <em>casements</em> +pelos +auctores inglezes. A segunda classe parece ter sido menos numerosa, +porém contém especimens mais bellos e preciosos. +Acham-se comprehendidos n'ella os monumentos que apparecem debaixo do +aspecto de grandes placas de cobre, d'uma só +peça, mas que, na realidade, são muitas vezes +compostas de muitas laminas ajustadas, das quaes com grande habilidade +ficam disfarçadas as juntas na profundura dos +traços. A figura do finado, geralmente de grandeza do +natural, representa-se de pé ou deitada.<br /> + +<br /> + +Os tumulos de latão consistem em grandes laminas soltas, +não destinadas a ser embutidas nas laminas de pedra, e que +formam por si um todo completo; foram communs na Belgica durante todo o +periodo ogival; o seu uso continuou, em certos sitios, até o +XVII seculo. Na Allemanha e igualmente no Norte da França +tiveram +acceitação. Sobre as laminas, não +sómente a figura do finado, como tambem os accessorios +symbolicos e de decoração que lhe servem, foram +executadas da mesma maneira que sobre as pedras das campas gravadas. +Todavia, a composição do assumpto é +regularmente mais superior, e a +execução mais esmerada que das outras; os mais +insignificantes detalhes do vestuario, os docéis do remate, +as pequenas figuras dos anjos e dos santos que os ornam muitas vezes +assim como os pés-direitos, todas as partes, em uma palavra, +são feitas com fidelidade, +<span class="pagenum"><a name="p294">[294]</a></span> +com arte e com delicadeza. Além d'isso, o fundo +sobre o qual se destaca a effigie do finado, em logar de ser lizo e sem +ornato, como sobre as pedras das campas gravadas, é +regularmente adamascado, isto é, coberto de ornatos +differentes imitando os desenhos que apresentam certos estofos +orientaes; esses desenhos assemelham-se aos que se vêem +á roda dos personagens nas vidraças pintadas do +XIV seculo. São compostos de +folhas do trevo, de quatro folhas, folhagens, côres +matizadas, figuras de animaes, gritos de guerra, ou com divisas muitas +vezes repetidas. Parece mesmo por vezes no XV e no XVI seculo, que os +detalhes architectonicos desapparecem completamente para dar logar aos +fundos adamascados. Finalmente, uma particularidade que apresentam +ainda as laminas de cobre funereas do XV e do XVI seculo, vem a ser que +as +<em>phylactéres</em> se +veem muito mais frequentemente que sobre as pedras das +campas. Chama-se <em>phylactéres</em> a +bandeirolas compridas e estreitas, saindo da boca das personagens ou +estão seguras nas suas mãos, e sobre as quaes +está inscripta uma oração, uma divisa +ou uma +sentença.<br /> + +<br /> + +<em>Pequenos monumentos funereos do XV e do XVI +seculo</em>. Além dos cénotaphos, das +campas e dos tumulos chatos de latão, erigiam-se tambem, nos +XV e XVI seculos, pequenos monumentos funereos de pedra ou +latão, encaixados na face da parede proxima do logar da +sepultara. Estes monumentos curiosos encontram-se, não +só no interior das egrejas, mas +<span class="pagenum">[295]</span> +tambem nos claustros das cathedraes, +collegiaes e mosteiros. Compõe-se regularmente d'um +epitaphio, por cima do qual se vê um assumpto religioso, por +exemplo, a SS. Trindade, a flagellação, a +crucificação ou qualquer scena da +Paixão. Muitas vezes tambem se vê Nossa Senhora +com o Menino Jesus. O finado está regularmente representado +ao lado da scena principal, de joelhos em oração +e por vezes acompanhado do santo da sua devoção, +o qual fica em pé por detraz +d'elle e parece recommendal-o á clemencia Divina; sobre a +bandeirola saindo da boca na direcção da scena +principal, lêem-se frequentemente as palavras que +é natural dirigir a Deus ou aos santos, por exemplo: <em>Qui +potes, oro, rei, Christe, mementa +mei</em>, e <em>O mater Dei, memento mei</em>.<br /> + +<br /> + +A scena religiosa está esculpida em relevo ou gravada a +traço. Quando feita em alto relevo, vê-se quasi +sempre em um nicho ogival, aberto na grossura da parede, e o epitaphio +inscripto na parte inferior do nicho, sobre uma pequena chapa de +latão, de marmore ou de pedra.<br /> + +<br /> + +Nos baixos relevos e nas pedras gravadas a traço, o assumpto +e o epitaphio são geralmente collocados sobre uma unica +pedra; ora n'uma, ora n'outra occupa a maior parte. A scena +é coberta por um docél servindo de remate; +algumas vezes, comtudo este docel não apparece.<br /> + +<br /> + +Não obstante as mutilaçõ +Não obstante as mutilações lamentaveis +que lhe causaram os iconoclastas, estes monumentos merecem chamar a +attenção, não +sómente dos archeologos, +<span class="pagenum">[296]</span> +mas tambem dos artistas e sobretudo dos esculptores.<br /> + +<br /> + +Serviram-se tambem de monumentos similhantes para perpetuar a +fundação praticada por generosos +bemfeitores. Na parte superior d'uma pedra ou de uma placa de +latão, vê-se uma scena +religiosa, diante da qual está de joelhos o fundador muitas +vezes acompanhado do santo da sua devoção. +Uma inscripção commemorativa da +fundação substitue o epitaphio, o qual nos +monumentos funereos se vê por baixo da scena. Algumas vezes +sómente apparece uma simples +inscripção gravada sobre uma pedra ou lamina de +cobre.<br /> + +<br /> + +<em>Lanternas dos defunctos</em>. Dá-se o nome +de <em>lanternas dos defunctos</em> +e <em>pharol de +cemiterio</em>, a columnas ou pyramides ôcas que se +collocavam n'outro tempo nos cemiterios. Este pequeno monumento tinha +no cimo um pavilhão vasado, no qual se suspendia de noite +uma lampada accesa com o fim de lembrar aos caminhantes que orassem +pelos defunctos e para lhes indicar a presença da casa de +Deus.<br /> + +<br /> + +<em>Cruz de cemiterio</em>. Erguiam tambem, +nos cemiterios, grandes cruzes de pedra durante o periodo Roman, +ajuntavam-lhe, poucas vezes, a imagem de Christo; porém do +começo do XIII seculo, essa imagem vê-se quasi +sempre acompanhada de Nossa Senhora e do Menino Jesus, postos no +revesso da cruz, ou encostados á columna que serve para a +sustentar. Outras vezes, e isso é mais seguido, a cruz fica +entre a imagem de Nossa Senhora sem +<span class="pagenum">[297]</span> +o Menino e a de S. João. As +hastes que forma a columna ou o pilar sobre os quaes está +assente a cruz, são geralmente postas sobre um +sóco mais ou menos alto, tendo na sua base um pequeno altar. +<br /> + +<br /> + +As cruzes de pedra que se erigiam muitas vezes, na idade media, nas +encruzilhadas das vias e no meio das praças publicas, +apresentavam as mesmas fórmas que as cruzes de cemiterios; +sómente não tinham altar na base do seu +sustentaculo. Em Lisboa havia um excellente especimen no cruzeiro de +Arroyos, estando presentemente guardadas as esculpturas na egreja +d'esse bairro.<br /> + +<br /> + +As cruzes de cemiterio e dos cruzeiros não eram todas de +cantaria; havia-as tambem de bronze, de ferro e madeira. Inutil +é declarar que as cruzes de madeira ficaram destruidas +já ha muito tempo. As de bronze têem desapparecido +egualmente, para fundirem o metal! Mas ha ainda, em alguns paizes, as +que foram feitas com ferro forjado.<br /> + +<br /> + +As cruzes de cemiterio continuaram a estar em uso durante a epocha do +renascimento, e estão quasi sempre acompanhadas das imagens +de Nossa Senhora e S. João, e algumas vezes d'uma pintura +representando o purgatorio. Quando o cemiterio fica adjacente +á egreja, a cruz colloca-se sobre um alpendre junto do coro, +na parte interna. As cruzes triumphaes, que se viam durante o periodo +ogival por cima do Jubé foram aproveitadas, em muitos +logares, para servirem de cruzes de cemiterios. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p298">[298]</a></span> +<h4>Pias baptismaes</h4> + +<br /> + +A pia de baptismo no periodo ogival é geralmente menos larga +e profunda do que a em uso no periodo Roman. Esta differença +foi motivada pelo abandono do baptismo por +<em>immersão</em> no XIII seculo. Como +precedentemente, algumas das pias têem o feitio d'uma tina +sem pé, redonda, quadrada +ou com seis ou oito lados; outras assentam sobre um grosso pilar +central acompanhado nos angulos da pia por quatro columnasinhas, mas o +maior numero são monopediculados.<br /> + +<br /> + +As pias de feitio de tina sem pé encontravam-se ainda +algumas vezes no periodo ogival, porém muito poucas durante +o periodo Roman.<br /> + +<br /> + +<em>As pias monopediculadas</em>, isto +é, firmadas sobre um só pilar, foram as mais +communs na Belgica durante todo o tempo do periodo ogival. Estas pias +baptismaes, em vez de serem como as Romans, circulares ou quadradas na +parte externa, eram geralmente de seis ou oito lados. A pia continua a +apresentar, como durante o periodo Roman, a fórma +hemispherica ou oval; havendo muitas vezes, na parte mais baixa, um +orificio servindo para vasar a pia.<br /> + +<br /> + +Na Allemanha e na Belgica desde o final do seculo XIV, e principalmente +no XV seculo, havia pias monopediculadas em latão.<br /> + +<br /> + +O maior numero de pias Romans estavam cobertas de esculpturas +decorativas, symbolicas ou historicas. Sobre as pias do periodo ogival, +pelo contrario, +<span class="pagenum">[299]</span> +os +assumptos historicos e legendarios, assim como as figuras symbolicas e +phantasticas são raras; por excepção +se vê ainda n'ellas +o baptismo de Jesus Christo e outras scenas biblicas ou tambem +personagens isolados collocados debaixo de arcaduras.<br /> + +<br /> + +Os ornatos simplesmente decorativos, taes como folhagens e carrancas, +são tambem bastante raros sobre as pias do XIV e XV seculo. +Toda a +decoração das pias ogivaes, principalmente no XV +seculo, consiste as mais das vezes n'um certo numero de molduras que se +vêem sobre a pia e sobre o pilar em que se fórmam. +<br /> + +<br /> + +<h4>Pias para agua benta</h4> + +<br /> + +Ha duas qualidades de pias para agua benta: as <em>fixas</em> +e as +<em>portateis</em>.<br /> + +<br /> + +As pias fixas são cylindricas ou polygonaes, com +reservatorio hemispherico, collocadas junto da entrada da egreja, no +interior ou exterior do edificio: umas isoladas e postas sobre um +pé, outras sem terem apoio. Estas ultimas, que +estão sempre unidas com as +construcções, vê-se quer +em nichos, quer em sacada sobre o liso da parede ou d'um pilar, no qual +estão encaixadas.<br /> + +<br /> + +Posto que as pias para agua benta pediculadas estivessem já +em uso no XIII seculo, e talvez ainda antes, foi todavia no XIV e XV +seculos que vieram a ser mais communs. Em muitos paizes, apresentam +bastante analogia com as pias baptismaes contemporaneas, de maneira que +é muitas vezes difficil +<span class="pagenum">[300]</span> +distinguir de repente, se o +objecto que está presente serviria na primitiva de pia para +agua benta ou de pia baptismal, pela sua grandeza. A capacidade +limitada do reservatorio e a falta do orificio destinado para dar +sahida ás aguas baptismaes, dão algumas vezes um +indicio para designar que o objecto seja uma pia para agua benta e +não uma pia baptismal.<br /> + +<br /> + +O maior numero das pias para agua benta fixas do periodo ogival que +existem, ainda são de pedra. Havia tambem em outro tempo um +certo numero d'ellas de bronze e de latão. A memoria de +algumas d'estas pias de metal nos foi conservada, quer por desenhos e +gravuras, quer por testemunhos de escriptores antigos. Encontram-se +mesmo raros especimens que escaparam á +destruição vandalica.<br /> + +<br /> + +As pias para agua benta <em>portateis</em> +são vasos com azas, destinados a conter a agua benta. Como +já referimos, serviam durante o periodo Roman, para +apresentar a agua benta aos imperadores, reis e outros distinctos +personagens, na occasião da sua entrada na egreja. Serviam +tambem n'esta epocha, para a agua com que se faziam as +aspersões prescriptas pela liturgia. O costume de principiar +a missa solemne do domingo por uma procissão dentro da +egreja, durante a qual se aspergia o povo com agua benta, remonta aos +primeiros seculos do christianismo. As capitulares de Carlos Magno +confirmam já este costume, e no Concilio reunido em Nantes +em 911 determina aos curas +<span class="pagenum"><a name="p301">[301]</a></span> +que +benzam a agua ao domingo, em um vaso limpo e apropriado, para que o +povo seja aspergido, e o sacerdote possa leval-a aos enfermos, +<a href="#e6">aspergil-os</a> e á sua +habitação.<br /> + +<br /> + +As mais antigas pias para agua benta portateis são de +marfim. As pias para agua benta em metal, já conhecidas +durante o periodo Roman, vieram a ser muito communs no XIII e XIV +seculos. Todas as pias para a agua benta portateis são, +comparativamente ás em uso desde o XV seculo, de muito +pequena dimensão: medem apenas 20 centimetros pouco mais ou +menos de altura, com um diametro entre 10 e 13 centimetros.<br /> + +<br /> + +Quando, no XV seculo, as pias para a agua benta portateis de metal +vieram a tornar-se de uso geral, deram-lhes dimensões +maiores. Todavia encontram-se ainda muitas d'esta epocha, que +são muito pequenas.<br /> + +<br /> + +Quasi todas as pias para agua benta antigas têem a +fórma d'um balde; algumas apresentam um engrossamento +consideravel sobre a borda superior, diminuindo sensivelmente para a +base. Vêem-se com uma inscripção +mostrando +como as das pias fixas, assim como a allusão ao symbolismo +de agua benta pelo baptismo de Jesus Christo.<br /> + +<br /> + +<h4>Grades e barreiras</h4> + +<br /> + +<em>Grades de ferro</em>. As grades do XIV +seculo apresentam mais ou menos o aspecto geral que as do periodo +Roman. Como antecedentemente, têem os prumos verticaes com um +caixilho de ferro a +<span class="pagenum">[302]</span> +que ficam +reunidos por ornatos em fórma de +<em>X</em> composto por barrinhas de ferro com +secção +differente; e todavia, quando as grades são destinadas para +as cathedraes ou para os edificios importantes, as barrinhas das +extremidades simplesmente enroscadas não têem por +ornato senão algumas hastes verticaes. A +suppressão das couceiras póde ter logar sem +inconveniente nos vãos de pequena largura, de pouco peso e +fórmas delicadas, mas para grades maiores e expostas aos +encontrões da multidão, o systema de +almofadas com ornato entre as couceiras e as travessas é o +unico modo que dará a solidez precisa sem obstar ao aspecto +de leveza.<br /> + +<br /> + +Os cenotaphos erguidos nos logares frequentados da egreja, os +reliquarios expostos publicamente á +veneração dos fieis e os armarios +dos thesouros eram muitas vezes resguardados por grades com importante +trabalho de mão d'obra. Estas grades ornadas geralmente por +barrinhas estampadas do lado externo sómente +estão por +vezes armadas com grandes pontas e ganchos de ferro que impossibilitam +o assalto.<br /> + +<br /> + +Nas grades do XIV e XV seculo, os prumos servindo de couceiras e as +travessas continúam a ser empregadas; porém as +barrinhas torcidas e estampadas das grades do XIII seculo ficaram +substituidas por ornatos obtidos, servindo-se de chapas de ferro +batido, recortadas em florões ou folhagens. Depois, em logar +de ficarem seguros como precedentemente os prumos por bracedeiras, +não soldados, +<span class="pagenum">[303]</span> +esses ornatos estão fixos por cavilhas arrebitadas. Os +caixilhos de ferro são muitas vezes supprimidos, e a esses +prumos depois de lhe assentar na extremidade remates mais ou menos +vistosos, compostos de flôres de liz ou florões de +folha de ferro soldadas.<br /> + +<br /> + +As grades que se não abrem, que assentam na frente das +janellas, nos thesouros das egrejas, casas de capitulo, depositos do +archivo, casas nobres e mesmo nas casas particulares, estão +muitas vezes guarnecidas de pontas de ferro dispostas em espigas nas +duas extremidades das couceiras. Algumas vezes as grades com espigas +têem, álem d'isso, as suas couceiras e travessas +reunidas de maneira impossivel para fazer mover as couceiras nos olhaes +das travessas ou nos olhaes das couceiras; estes olhaes +estão alternativamente feitos nas travessas e nas couceiras. +<br /> + +<br /> + +<em>Barreiras de madeira</em>. Em logar de +grades de ferro, tambem se serviam de barreiras de madeira, a fim de +separar as capellas. Estas barreiras são geralmente tapadas +até á altura +quasi d'um metro, não ficando interrompida a vista na parte +superior. Quasi todas são feitas com madeira de carvalho, +devendo a sua duração não +sómente ao bem feito da obra, como á excellente +qualidade do material empregado. A começar do XIV seculo, a +parte inferior tapada é formada de duas ou muitas ordens +sobrepostas de almofadas encaixadas entre as couceiras e as travessas. +Estas almofadas teem muitas vezes obra de talha figurando +<span class="pagenum"><a name="p304">[304]</a></span> +pinasios dos caixilhos, ou folhas de +pergaminho dobradas. A parte superior d'estas barreiras +compõe-se quasi sempre de arcaduras rotas, deixando passar a +vista entre os prumos em que se dividem.<br /> + +<br /> + +<h4>Orgãos e caixas para +elles</h4> + +<br /> + +Os primeiros orgãos de que os chronistas occidentaes fazem +menção, são os que o rei Pepin recebeu +de presente da côrte imperial de Constantinopla no meiado do +VIII seculo, e que fez collocar no seu palacio de +<em>Compiègne</em>. Carlos Magno tambem no +principio do seculo seguinte mandou fabricar orgãos, +conforme o modelo byzantino para ornar a sua egreja de +<em>Aix-la-Chapelle</em>. Depois de Carlos Magno, o uso dos +orgãos para o acompanhamento de certas partes cantadas do +officio divino, introduziu-se pouco a pouco na egreja Latina. Desde o +final do X seculo, a maior parte das egrejas cathedraes e abbaciaes de +primeira ordem tinham-os adquirido, e durante os dois seculos seguintes +continuaram a generalisar-se.<br /> + +<br /> + +Os orgãos primitivos eram muito defeituosos e d'uma grande +singeleza, como vemos nas miniaturas dos manuscriptos contemporaneos.<br /> + +<br /> + +Durante o periodo ogival a predilecção pelos +orgãos tomou novos desenvolvimentos, e, no final do XV +seculo, todas as egrejas de alguma importancia e mesmo as capellas +tinham o seu orgão. No XIII seculo, começaram +já, em alguns logares, +<span class="pagenum">[305]</span> +a multiplicar o numero dos +orgãos em uma só e mesma egreja. Ao principio +contentavam-se com dois d'estes instrumentos; porém no XIV e +XV seculos tinham tres, quatro e até cinco. Na egreja do +convento de Mafra, el-rei D. João V mandou collocar quatro +grandiosos orgãos nos angulos do cruzeiro, no XVII seculo.<br /> + +<br /> + +<em>Até ao XV seculo</em>, diz o +insigne architecto Violet-le-Duc, <em>não parece que +os grandes orgãos +estivessem em uso. Serviam-se apenas de instrumentos de mediocres +dimensões e que podiam ficar dentro d'um movel assentes na +capella-mór, nos jubés ou sobre tribunas mais ou +menos espaçosas, destinadas não +sómente aos orgãos, mas +ainda aos cantores e musicos. Foi no final do XV e principio do XVI +seculo que houve a ideia de dar aos orgãos, +dimensões +extraordinarias</em> desconhecidas até +então, tendo uma <em>grande +força de som e exigindo, caixas collossaes</em>. +Todavia esses orgãos +não são nada em comparação +com os +instrumentos que se fizeram depois no XVII seculo.<br /> + +<br /> + +No fim do periodo ogival, a fórma das caixas dos +orgãos era determinada pela +disposição que tinha esse instrumento. A obra de +entalhador para as caixas dos orgãos do XV e XVI seculos, e +mesmo de alguns orgãos do XVII seculo era independente do +instrumento e servia para o resguardar, cobrindo-o. O mechanismo e os +folles ficam inteiramente mettidos entre as almofadas macissas dos +sócos; as almofadas recortadas enchem os espaços +rotos existentes entre a extremidade superior +<span class="pagenum"><a name="p306">[306]</a></span> +dos canudos e os tectos, afim de +facilitar a emissão do som. A marceneria ornada de +esculpturas e de polychromia e os canudos eram muitas vezes estampados +e dourados. Tudo ficava encerrado por portas que o organista abria +quando tocava; estas portas eram, as mais das vezes, ornadas, pelo +menos na parte interna, com pinturas historicas que se viam quando +servia o instrumento. Os orgãos e as caixas, anteriores ao +XVI seculo, são muitissimo raros.<br /> + +<br /> + +<h4>Alfaias religiosas</h4> + +<br /> + +<em>Ourivesaria e esmaltadores</em>. No XIII +seculo, a arte de ourives transformou-se completamente sob a influencia +do novo estylo architectural. Durante o primeiro quartel e mesmo +durante a primeira metade d'esse seculo, os vasos sagrados e os +objectos do culto apresentavam ainda, é verdade, as mesmas +fórmas geraes que durante o periodo Roman; porém +o systema da decoração teve +modificações importantes. O artista, fosse quem +fosse, esculptor, pintor ou ourives, ia procurar as suas +inspirações, jamais como precedentemente aos +objectos byzantinos ou aos estofos orientaes, mas sim na flora do seu +paiz; serviam-lhe de modelos os vegetaes indigenas e applicava-se +interpretal-os artisticamente.<br /> + +<br /> + +As chapas esmaltadas e os engastes das joias, com algumas folhagens de +filigrana, ficam geralmente em uso até ao meiado do XIII +seculo; continuando a dar o principal modelo de +decoração +<span class="pagenum">[307]</span> +para os objectos de grandes +dimensões, taes como os reliquarios e os frontaes dos +altares.<br /> + +<br /> + +Todavia n'uma parte da Belgica, o uso dos esmaltes de côres +desappareceu mais cedo que nas outras partes. Desde o primeiro quartel +do seculo XIII, encontra-se, sobre as margens do +<em>Lambre</em>, uma escola de ourives tendo em pratica +principios inteiramente novos. Á frente d'esta escola e ao +impulso artistico que produz, apparece o irmão Hugo, frade +Agostinho do priorado de +<em>Oignies</em>. Este humilde religioso executou durante o +primeiro quartel do XIII seculo, (um dos seus trabalhos tem a data de +1220), em alguns annos, uma serie de obras-primas que ainda +não foram imitadas, algumas das quaes teem resistido aos +estragos dos tempos, e guardam-se devotamente no thesouro das freiras +de Nossa Senhora em <em>Nemours</em>, produzindo a +admiração de todos os entendedores. Desprezando o +emprego dos esmaltes com muitas côres, elle procurou o +principal effeito de decoração n'um trabalho +original, que consiste +em cobrir os objectos, no todo ou em parte, com delicadas folhagens +formadas de cachos, de flôrsinhas e pequenas folhas +estampadas, reunidas pela soldadura a delicados pés. A estas +folhagens ajuntava figuras de veados, cães e +caçadores, tudo produzido da mesma maneira. O tecido muito +unido que resultava d'estes trabalhos era depois arribitado ou soldado +sobre as differentes partes do objecto do qual elle abrangia todos os +contornos. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[308]</span> +Hugo empregou ainda as joias; mas ás vezes, em logar de +dispôl-as sobre chapas rectangulares e ligal-as pela +filigrana, as dispunha artisticamente entre as suas delicadas +folhagens. Além d'isto, seguindo o exemplo dos seus +antecessores, não empregava camafeus e com gravuras concavas +á maneira antiga, todas as vezes que não tinha +joias novas para o seu trabalho.<br /> + +<br /> + +Quanto ás massas coloridas embutidas no metal, Hugo +não conserva quasi o negro do buril que serve para +traçar as inscripções, +ornamentos e tambem as figuras.<br /> + +<br /> + +Depois do meiado do XIII seculo, os objectos de ourivesaria +principiaram pouco a pouco por imitar na sua fórma e aspecto +geral os monumentos de architectura: os relicarios, que antes eram +cofres, sarcophagos, remedando o feitio dos edificios religiosos, +vieram a ser pequeninas egrejas em ouro e prata: os relicarios tinham +enfeites, por vezes remates, torrinhas ladeadas de contra-fortes e +bastantes arcos; em uma palavra, as fórmas elegantes e +graciosas da architectura ogival foram copiadas nos objectos do culto. +A cinzelura tambem faz cada vez mais progresso; e vê-se mesmo +a maior parte das vezes pequenos objectos apresentarem as esculpturas e +altos relevos, o que não se fazia antes, excepto nos grandes +objectos de ourivesaria.<br /> + +<br /> + +Os objectos de ourivesaria propriamente chamados conservam, no XIV +seculo, as fórmas que tinham precedentemente, isto +é, imitam o aspecto +<span class="pagenum">[309]</span> +dos monumentos de architectura, ou, +pelo menos, são decorados com certos detalhes +architectonicos. Todavia na França, e sem excesso na +Belgica, os ourives executaram, para relicarios, estatuas pequenas de +alto relevo, grupos e imitações de membros de +corpo humano, ou outros objectos que se desejava encerrar dentro +d'elles. Desde o XIV seculo, os vasos sagrados e os outros objectos do +culto perdem a nobre simplicidade do estylo grave da época +precedente.<br /> + +<br /> + +No XV seculo os trabalhos de ourivesaria correctos +differençavam pouco, quanto ao aspecto geral, dos do seculo +anterior. As suas fórmas patenteavam todavia as +modificações successivas que teve a architectura +n'esta época. Os ourives empregavam menos simplicidade nas +suas composições, menos elegancia nas +fórmas, porém o seu trabalho é +geralmente mais apurado e mais delicado; levado por vezes +até á +exaggeração pelo acabamento e +perfeição dos pequenos detalhes.<br /> + +<br /> + +Quando empregavam ainda algumas esmaltes para realçar o oiro +e a prata, os ourives do XIII seculo, como os seus predecessores do XII +seculo, indicavam sobre o liso do metal o contorno das figuras, e +dispunham depois todas as partes internas do desenho, quer por um +cinzelado produzindo um relevo pouco saliente, quer, mais simplesmente +ainda, por uma delicada gravura, cujos traços refaziam o +desenho dos contornos das figuras; emfim, abaixavam o fundo +á roda das figuras e enchiam-no de um esmalte, geralmente +escuro, +<span class="pagenum"><a name="p310">[310]</a></span> +adequado para fazer +sobresair a composição. +Até ao final do XIII seculo, os traços da gravura +delicada ficavam geralmente vasios; era só excepcionalmente +que os enchiam de preto. Mas, no começo d'esta +época, enchiam-n'os quasi sempre de encarnado ou +pardo-escuro.<br /> + +<br /> + +<em>Dinanderie</em>. Dá-se o nome +de <em>dinanderie</em> a um objecto de cobre ou +latão coado e martellado, conforme o modo de fabricar esses +objectos. Esta palavra tira a sua origem da cidade de +<em>Dinant</em> sobre o <em>Meuse</em>, a qual +tinha adquirido, na +edade média, uma grande fama pela +execução de objectos de +latão. Portanto, em virtude d'esta etymologia, alguns +archeologos continuaram com o uso recebido, +escrevendo―Dinan<em>te</em>rie, em logar de Dinan<em>de</em>rie. +<br /> + +<br /> + +A arte de <em>dinanderie</em> estava prospera +desde o fim do XI seculo nos Paizes-Baixos, e durante os seculos +seguintes, os bate-folhas de cobre obtiveram de differentes soberanos +muitos privilegios, que facilitaram a exportação +dos productos de sua +industria para Allemanha, França, Inglaterra e todo o norte +da Europa.<br /> + +<br /> + +As pias baptismaes executadas com este material, as primeiras de 1112, +e as outras de 1149, ainda se conservam na Belgica.<br /> + +<br /> + +<em>Calices e Patenas</em>. A +communhão sob a especie de vinho tendo sido abolida na +Egreja Latina, proximo do XII seculo, os calices +<em>ministraes</em> com aza cessaram de ser empregados no +Occidente, e a sua fabricação ficou completamente +abandonada. Assim, todos os calices ministraes de origem occidental +<span class="pagenum">[311]</span> +são +anteriores ao periodo ogival. Na Grecia e no Oriente, pelo contrario, +onde a communhão se dava ainda aos seculares sob as especies +de pão e vinho, o uso dos calices ministraes conservou-se +até ao presente.<br /> + +<br /> + +<em>Os calices vulgares</em>, isto +é, os de uso do sacerdote que celebra a missa, teem +geralmente no XIII seculo, como nos dois seculos precedentes, a +taça muito larga e pouco funda, o pé redondo e de +grande diametro; a tige está ornada de um nó +grosso, composto muitas vezes de arestas salientes, mas raramente de +medalhões circulares.<br /> + +<br /> + +No XIV seculo, e mesmo no fim do XIII uma mudança notavel se +deu na fórma dos calices. A taça estreitou-se, e +de hemispherica, como era antes, veiu a ser conica ou enfundibuliforme, +isto é, similhando-se a um funil. A fórma +desegual, quasi desconhecida nos calices do XIII seculo, veiu a ser +commum, sem todavia tomar uma grande importancia. A hastea, que durante +a primeira metade do XIII seculo, era regularmente cylindrica, +tornou-se angulosa e prismatica, tendo geralmente seis faces. Os lados +do nó foram mudados para +botões redondos, quadrados ou rhombos, egualmente em numero +de seis, e quasi sempre embutidos de esmalte, gravuras ou joias. Sobre +os seis botões estão algumas vezes inscriptas as +seis letras do nome de Jesus, como ortographavam então: +IHESUS. O pé está dividido em seis lobulos +ornados de esmaltes e de gravuras a traço representando +imagens, e mesmo composição completa; estes +lobulos +<span class="pagenum">[312]</span> +correspondem +ás faces da hastea e aos +botões do nó. O sóco do pé +está +recortado em folhas de trevo, quatro folhas ou arcaduras; seu diametro, +sempre menor que o dos calices romans, conserva não obstante +uma base bastante larga para evitar a quéda. Em resumo, os +calices do XIV seculo, comparados com os dos seculos precedentes, tem +mais altura, mas o diametro da taça e do pé +é muito menor.<br /> + +<br /> + +A fórma geral dos calices do XV seculo é pouco +mais ou menos a mesma dos calices do XIV seculo. Todavia, em certos +paizes, por exemplo na Belgica, observa-se que os lobulos do +pé, as faces das hasteas e os botões do +nó teem muitas vezes o numero oito em logar de seis. Esta +mudança foi introduzida proximo do meiado do XV seculo.<br /> + +<br /> + +A <em>patena</em> do periodo ogival tem como +a do periodo roman, a fórma de uma pequena salva, +apresentando no meio uma cavidade circular. O fundo da salva traz +muitas vezes, gravado a traço, um circulo ou um quadrilobo, +circumdando quer o Cordeiro Divino, quer a Mão com aureola +que symbolisa a Divindade, quer qualquer outro assumpto. Colloca-se +algumas vezes uma pequena cruz sobre a borda da salva.<br /> + +<br /> + +<em>Galhetas</em>. Existem raros especimens +de galhetas da época ogival. Havia-as de cobre esmaltado e +em crystal de rocha com guarnição de prata +cinzelada +e algumas de prata dourada com guarnições +gravadas.<br /> + +<br /> + +Durante a edade média serviram-se tambem +<span class="pagenum"><a name="p313">[313]</a></span> +mais frequentemente de galhetas de +vidro, mas por causa da fragilidade da materia, muito poucos objectos +d'esta especie escaparam da destruição.<br /> + +<br /> + +<em>Custodias Eucharisticas</em>. Em alguns +paizes, particularmente em França, a Eucharistia continuou, +durante o periodo ogival, a estar conservada, como anteriormente, nas +pombas douradas e esmaltadas, collocada, a maior parte das vezes, em +uma torresinha ou pequena tenda forradas de telas custosas, ficando +suspensa por cima do altar, quer sob a pyxide, quer no baculo de metal. +<br /> + +<br /> + +No XIII, no XIV, e mesmo ainda durante uma parte do XV seculo, as +pyxides eram geralmente como as do periodo Roman, de muito pequeno +tamanho, porque, até proximo do meiado do XV seculo, serviam +sómente para conservar o numero necessario de hostias de que +havia precisão para a communhão dos doentes em +perigo de vida. Os fieis que podiam assistir aos officios religiosos, +recebiam a Santa Eucharistia depois da communhão do +sacerdote, com as especies consagradas durante a missa, sendo +distribuidas servindo-se da patena.<br /> + +<br /> + +Quasi todas as pyxides do periodo ogival eram de metal; as de marfim e +cobre não apparecem senão excepcionalmente.<br /> + +<br /> + +<em>As pyxides sem pé</em>, de +cobre dourado e esmaltado, compostas de pequenas caixas cylindricas, +tendo uma tampa de fórma de cone, ficaram em uso pelo menos +até o XVI seculo; empregando-se principalmente para levar o +Viatico aos enfermos. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[314]</span> +Encontram-se ainda presentemente muitas d'estas pyxides, mais ou menos +valiosas e ornadas. Não poucas devem a sua +conservação a +esta circumstancia, que depois da introducção das +grandes pyxides aproveitaram-nas para guardar as reliquias destinadas a +ficar chancelladas no altar no momento da +consagração: portanto, não +é raro encontrarem-se nos desmanchos dos altares do XVI e +XVII seculos.<br /> + +<br /> + +As pyxides <em>pediculares</em>, isto +é, tendo um pé, que eram raras antes, vieram a +ser as mais communs desde o XVIII seculo. Algumas destinadas a ficarem +suspensas por cima do altar, sob o sacrario, ou na voluta do baculo, +teem o pé muito pequeno, e a taça assim como a +tampa bastante grandes e quasi hemisphericas, de maneira a formar +reunidas uma bola ôca, geralmente um pouco achatada.<br /> + +<br /> + +No seculo XII, as pyxides, em logar de ficarem suspensas por cima do +altar, foram postas nos sacrarios, deram-lhes regularmente um +pé mais alto, similhante aos dos calices e dos relicarios. +No principio, bastava collocar sobre um pé as pequenas +pyxides de cobre dourado e esmaltado; depois fizeram tambem as pyxides +em metal com cinzelados e rebatidos, vindo a ser unicamente usadas. As +mais antigas da ultima especie teem a taça e o pé +circular.<br /> + +<br /> + +No XIV seculo, a taça e a tampa tiveram a fórma +hexagonal, isto é, seis faces, e o pé divide-se +em seis lobulos. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[315]</span> +Durante a ultima metade do XIV seculo e todo o XV seculo, as pyxides +pediculadas têem muitas vezes as arestas da tampa decorada de +crochetes; os angulos formados pela intersecção +dos seis +lados da taça, sendo flanqueados de contra-fortes, e os +lados tambem ornados de arcaduras com ou sem estatuasinhas.<br /> + +<br /> + +Quando no XV seculo, ficou introduzido o costume de conservar o maior +numero de hostias consagradas, afim de poder dar a communhão +aos fieis, mesmo sem ser na occasião da missa, as pyxides +tiveram dimensões muito maiores. Continuou-se geralmente a +dar-lhe fórmas architecturaes, porém essas +fórmas vieram a ser, sobretudo na Allemanha, mais altas e +mais complicadas ajuntando-se arcos-butantes aos contra-fortes e +ás arcaduras com as quaes já as ornavam +precedentemente. Em França e na Belgica, appareceram proximo +do final do XV seculo as pyxides esphericas, cuja fórma faz +lembrar a dos antigos ciborios suspensos. Não é +raro, além d'isso, achar pyxides +transformadas em relicarios.<br /> + +<br /> + +Não será inutil aqui repetir, que, salvo raras +excepções, todas as pyxides anteriores ao XVI +seculo teem a tampa presa á taça por um gonzo.<br /> + +<br /> + +<em>Custodias</em>. A solemnidade do +<em>Corpus Domini</em>, ou festa do Corpo de Deus, +instituida em Liège em 1246, e extensiva á Egreja +Universal, dezoito annos mais tarde pelo pontifice Urbano IV, trouxe o +uso de expôr publicamente o Santissimo Sacramento +á veneração dos fieis. Foi este uso +que +<span class="pagenum">[316]</span> +deu origem ao vaso +chamado <em>custodia</em>, +ou +<em>apresentação</em> nome derivado +dos verbos latinos +<em>ostendere</em> e <em>monstrare</em>, +significam, um e outro, +<em>mostrar</em>.<br /> + +<br /> + +No principio, parece que o <em>Santissimo +Sacramento</em>, estava exposto publicamente nas pyxides +<em>transparentes</em> com cruzes e torrinhas cheias de +aberturas; mas, dentro em pouco adoptaram-se, geralmente as custodias.<br /> + +<br /> + +Algumas d'estas custodias primitivas apresentam a maior analogia com os +relicarios expostos contemporaneos. São pequenos edificios +de metal, com recortes, tendo um pé e furados sobre dois ou +muitos dos seus lados, com aberturas, as mais das vezes sob a +fórma de janella ogival.<br /> + +<br /> + +As custodias mais communs durante todo o periodo ogival, foram as de <em>cylindro</em>, +assim +designadas porque são formadas d'um cylindro de crystal ou +de vidro posto sobre um pé de metal. No XIV, XV e XVI +seculos, o cylindro tem geralmente por cima um campanariosinho e nos +flancos contra-fortes e arcos-butantes, igualmente de metal. Depois do +XIII seculo, o campanariosinho e o pinaculo não +são usados. A hostia colloca-se no interior do cylindro +n'uma luneta sustentada por um ou mais anjos. O pé e o +nó d'estas custodias +apresentam a maior similhança com os calices e as pyxides +contemporaneas; todavia, o diametro do pé é +geralmente maior nas custodias que nas pyxides e calices.<br /> + +<br /> + +As custodias em que o cylindro de crystal é substituido por +um <em>sol radiante</em> +vieram a ser geraes +<span class="pagenum"><a name="p317">[317]</a></span> +desde o +XVI seculo. Antes d'esta epocha, eram extremamente raras, e +sómente se conhecem pela noticia que se encontra nos +inventarios dos thesouros das egrejas pertencentes ao XV seculo.<br /> + +<br /> + +<em>Relicarios</em>. Os relicarios do periodo +ogival apresentam fórmas tão variadas como os da +epocha Roman. Seria difficil descrevel-os todos; occupar-nos-hemos dos +principaes.<br /> + +<br /> + +<em>Relicario da vera Cruz</em>. Como +precedentemente dava-se muitas vezes a estes relicarios a +fórma d'uma cruz com travessa dupla; porém +empregavam-se os ornatos proprios da ourivesaria da epocha ogival. A +maior parte d'estas +<em>cruzes-relicarios</em>, sobretudo as mais bellas, +são do XIII seculo.<br /> + +<br /> + +Depois d'essa epocha abandonou-se o costume de encaixilhar os +relicarios da vera cruz, nas cruzes relicarias com travessa dupla, e +serviram-se geralmente da cruz com uma unica travessa.<br /> + +<br /> + +Deu-se tambem algumas vezes a fórma de uma cruz aos +relicarios contendo reliquias de santo; mas n'este caso a cruz tem +sempre uma só travessa.<br /> + +<br /> + +No XIII seculo, os relicarios da vera cruz, collocados n'uma pequena +cruz ou bocota, eram ainda ás vezes, como durante o periodo +Roman, encaixilhados dentro de placas metallicas fixas sobre o meio da +madeira e ornados de esmaltes, gravuras e cinzelados de maneira a +formar uma especie de quadro com portas de metal ou madeira pintada.<br /> + +<br /> + +<em>Relicario da corôa com +espinhos</em>. Os espinhos +<span class="pagenum">[318]</span> +da corôa trazida pelo +Redemptor durante a sua +paixão, eram collocados regularmente em corôas de +ouro ou de prata enriquecidas de joias. Algumas d'estas +corôas, feitas no Oriente, foram enviadas para a Europa +Occidental pelos imperadores que as conquistas dos cruzados tinham +collocado sobre o throno de Constantinopla.<br /> + +<br /> + +A Santa Corôa de espinhos que tinha vindo em poder dos +cavalleiros cruzados em seguida ás suas conquistas no +Oriente, ficou conservada religiosamente no throno sagrado do novo +imperio byzantino até 1237, epocha em que o imperador +Bauduino II foi obrigado a dal-a em penhor aos commerciantes +venezianos, os quaes lhe haviam feito um emprestimo da quantia de +quatro mil marcos de prata para occorrer ás necessidades +mais urgentes das finanças imperiaes.<br /> + +<br /> + +Pouco tempo depois, S. Luiz IX, rei de França, tendo tido a +felicidade de occupar o logar dos emprestadores, ficando responsavel +pela quantia entregue, pôde obter a preciosa reliquia, e a +fez transportar para França por dois frades dominicanos.<br /> + +<br /> + +O santo rei mandou pôr muitos espinhos nas corôas +do mesmo feitio que tinha a corôa real, e presenteou com +ellas um certo numero de estabelecimentos religiosos.<br /> + +<br /> + +Os Santos Espinhos foram tambem por vezes encaixilhados em relicarios +mais simples e d'um feitio differente.<br /> + +<br /> + +Os relicarios do periodo ogival apresentam o mesmo aspecto que os do +XII seculo, isto é, teem +<span class="pagenum">[319]</span> +a fórma d'um cofre oblongo, +fechado por uma tampa imitando um telhado com duas aguas.<br /> + +<br /> + +Os grandes relicarios do XIII seculo são cofres de madeira +coberta com chapas de metal esmaltado, cinzelado e por vezes +simplesmente gravado. Quasi todos são rectangulares; ha +todavia, por exemplo, a grande caixa das reliquias de Nossa Senhora de <em>Aix-la-Chapelle</em>, +que se +vê sobre os seus dois compridos lados, saliencias que a faz +parecer com uma egreja tendo um cruzeiro. As suas faces verticaes +são ornadas de estatuasinhas de ouro, prata ou de cobre +dourado, ficando collocados debaixo de docéis ou arcaduras. +Jesus Christo abençoando, sentado ou de pé, +só ou +entre dois santos, se vê, como nos relicarios Romans, sobre +um dos dois pequenos lados formando empena, emquanto o outro lado fica +occupado por Nossa Senhora, ou pelo Santo cujas reliquias se conservam +no relicario, igualmente collocado entre dois santos.<br /> + +<br /> + +Os dois lados compridos estão divididos n'um certo numero de +compartimentos tendo como remates frontões dentro dos quaes +estão inscriptas ogivas quasi sempre trilobaes. Estes +compartimentos formam docéis ou arcaduras, mostrando +estatuasinhas dos apostolos ou de outros santos assentados.<br /> + +<br /> + +Sobre as abas da tampa ha figuras em pé ou baixos relevos +representando os mysterios da vida de Jesus Christo e os principaes +factos do corpo que encerra o relicario. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[320]</span> +Finalmente, algumas vezes a aresta superior do cofre, e mesmo os lados +inclinados dos frontões, teem na summidade folhagens de +esmerado lavor, interrompidas de distancia a distancia, por +castões.<br /> + +<br /> + +As linhas inclinadas dos frontões, os docéis, os +molduramentos e os fustes das columnasinhas que sustentam os +docéis estão bastantes vezes cheios de esmaltes e +filigranas como se fazia precedentemente.<br /> + +<br /> + +Desde o final do XIV seculo, os relicarios em metal perdem o aspecto de +feretro ou cofre, como haviam tido até então; +transformam-se pouco a pouco e tomam a apparencia de capellas e mesmo +de pequenas egrejas.<br /> + +<br /> + +Alguns relicarios do XIV seculo fingem, d'uma maneira extremamente +caracterisada as fórmas +architectonicas: representando rosaceas, galerias, campanariosinhos e +contrafortes; os seus docéis e frontões teem as +inclinações dos +contornos decorados de crochetes acabando no feitio d'um +florão.<br /> + +<br /> + +O maior numero dos relicarios metallicos dos XV e XVI seculos imitam +servilmente a maneira de se construirem os monumentos de cantaria; +vindo a ser reproducções em pequeno das grandes +egrejas +ogivaes. Tendo egualmenle arcos-butantes, na summidade recortes, +parapeitos vasados em trefles ou de quatro folhas, uma nave principal e +as lateraes, etc., e ás vezes tambem uma torre se ergue no +centro do espigão.<br /> + +<br /> + +Usaram tambem, durante o periodo ogival, de +<span class="pagenum">[321]</span> +<em>relicarios de madeira</em> +cobertos de +pinturas representando assumptos religiosos que recordam geralmente os +principaes factos da vida do santo que contém o relicario.<br /> + +<br /> + +O relicario de madeira mais notavel como objecto d'arte por causa de +suas pinturas, é o de Santa Ursula, que está no +hospital de S. João em Burges. Tem a data do XV seculo e +constitue uma das obras primas do pintor Hans Memlinc.<br /> + +<br /> + +Ha tambem poucos exemplares de relicarios de pedraria do periodo +ogival.<br /> + +<br /> + +Os relicarios não contém sempre os corpos +inteiros dos santos, e são tambem destinados a +conservar reliquias diversas.<br /> + +<br /> + +<em>Bustos, braços, pés, +estatuasinhas</em>, etc. O uso de conservar as reliquias dos +santos dentro de bustos ou nos relicarios preciosamente ornados +imitando a fórma dos ornatos a que os relicarios pertenciam +já no periodo roman, manteve-se durante toda a epocha +ogival, e encontram-se ainda muitos exemplares do periodo do +renascimento.<br /> + +<br /> + +O maior <em>busto-relicario</em> conhecido, +pois mede 1<sup>m</sup>,62 centimetros de altura e um dos +mais magnificamente +ornados, é o de S. Lamberto da cathedral de +Liège, obra de 1506 a 1512. É de prata dourada e +está posto sobre um plintho decagono decorado de seis baixos +relevos representando differentes scenas da vida do santo bispo de +Maestricht. O bispo está paramentado com as vestes +pontificaes e todo coberto de joias e perolas.<br /> + +<br /> + +Os ossos dos braços e dos pés estão +muitas vezes +<span class="pagenum">[322]</span> +introduzidos nos relicarios apresentando a fórma d'esses +membros do corpo humano. Nos relicarios de fórma de +braço, a mão fica sempre +representada <em>benzendo</em> á maneira +Latina.<br /> + +<br /> + +No thesouro da egreja de Nossa Senhora de Tongres ha sete relicarios +com a fórma de braços. Dois são do +final do XIII ou principio do XIV seculo, estando compostos de chapas +de prata com faxas de cobre dourado guarnecido de joias e filigranas; +os outros cinco são de madeira pintados e dourados. Os tres +mais admiraveis e preciosos, têem dois a fórma +d'um pé, e no terceiro, com a +fórma de meia lua, guarda-se uma costella do apostolo S. +Pedro.<br /> + +<br /> + +Ha tambem relicarios apresentando o feitio de estatuasinhas. Geralmente +as reliquias estão contidas em um pequeno cylindro de +crystal, guarnecido de prata ou cobre dourado, fechado nas duas +extremidades e posto ao lado da estatuasinha ou trazendo-o na +mão. Algumas vezes, posto que raramente, estão +fixos n'um medalhão ou pequena cruz, sobre o peito ou sobre +outra qualquer parte da estatuasinha.<br /> + +<br /> + +<em>Mostrador-relicario</em>. Estes +relicarios compõem-se de vasos de crystal ou de qualquer +outra materia transparente, engastados em obra de ourivesaria, onde se +mettem as reliquias, depois de as ter embrulhado em pellica, seda ou +estofo, tecidos de ouro ou prata. Estes vasos, geralmente de +fórma de cylindro ôco, põem-se muitas +vezes n'uma +posição vertical, e ficam limitados por um remate +tambem conico. O maior numero dos mostradores-relicarios +<span class="pagenum">[323]</span> +são postos sobre +pés similhantes aos +dos calices e das custodias; alguns são sustentados por +anjos ou levitas; finalmente ha os que ficam postos sobre um +sóco; por vezes acontece não +terem essa base.<br /> + +<br /> + +No XIII seculo, e mesmo ainda ás vezes no seculo seguinte, +os ourives, á imitação das +obras dos esculptores contemporaneos, iam buscar os feitios de +decoração para os mostradores-relicarios +ás reliquias nos engastes das joias, ás +filigranas e as folhagens imitando a flora indigena.<br /> + +<br /> + +Ao começar do XIV seculo, muitos relicarios fingem +fórmas architecturaes e imitam mais ou menos certas partes +dos edificios do estylo ogival. Os feitios da +decoração tirados até ali +ao reino vegetal, dão logar para formar pinaculos, +contra-fortes, arcosbutantes e docéis, estando delicadamente +lavrados e executados, não pela +imitação servil dos edificios de cantaria, mas +com uma intelligencia apurada que distingue todas as +producções artisticas da idade media e que +attendiam á natureza da materia que se punha em obra. O +ourives, posto que conservasse as fórmas geraes da +architectura, dava-lhes uma leveza que seria impossivel, se fosse +executada na pedra.<br /> + +<br /> + +Quando o cylindro ficava na posição vertical, a +fórma do mostrador-relicario confundia-se geralmente com a +das custodias, como já referimos.<br /> + +<br /> + +Vêem-se tambem algumas veze +Vêem-se tambem algumas vezes relicarios com cylindro vertical +e feitio da decoração imitando +a architectura, não tendo peanha. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[324]</span> +Quando, pelo contrario, o cylindro tem a posição +horisontal, é geralmente executado em obra de ourivesaria de +fórma de egreja com uma ou mais naves, encimado d'uma +torresinha elevada e ligada por arcos-butantes sahindo do engaste que +encerra o cylindro.<br /> + +<br /> + +<em>Phylacteras</em>. Não podemos +deixar de mencionar uma outra fórma de relicarios que foi +commum no XII e no XIII seculos. Estes objectos compõem-se +de pequenos moldes de madeira cobertos de prata e cobre dourado e +esmaltado, sobre os quaes estão traçadas, em +esmalte ou relevo, imagens, scenas historicas e legendarias, +emmolduradas n'uma cercadura de filigrana recamada de joias sem serem +lapidadas. Muitas vezes mesmo as representações +dos assumptos, das figuras e symbolos faltam inteiramente. As costas, +formadas igualmente d'uma chapa de metal, são ornadas de +lavores, gravuras ou pinturas. Têem sempre pequenas +dimensões (o seu diametro não é de +mais que dois a tres decimetros), e fórma redonda, ellyptica +ou, as mais das vezes, com quatro folhas. Alguns archeologos lhes +dão o nome especial de +<em>phylacteras</em>, posto que, conforme a etymologia, +este nome, derivado do grego, <em>guardar</em>, designa +qualquer +especie de custodia ou recipiente, e deveria por conseguinte +applicar-se indistinctamente a todos os relicarios.<br /> + +<br /> + +Algumas vezes as phylacteras são, como os relicarios de +cylindro de crystal, postas sobre um pé de metal com figuras +de anjos ou de santos. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[325]</span> +<em>Cofres-relicarios</em>. Continuou-se, +durante o periodo ogival, a encerrar as reliquias dos santos nos cofres +de metal, madeira, marfim e couro com figuras em relevo. É +bastante raro achar, sobre estes cofres, scenas historicas ou symbolos +religiosos.<br /> + +<br /> + +No XV seculo principiou-se a fazer cofres de ferro, e o seu uso +não se demorou a generalisar. Não devemos pois +admirar-nos, se um grande numero d'estes objectos curiosos +têem sido conservados até ao presente. A maior +parte eram destinados a uso profano: guardavam joias e outros objectos +preciosos. Ha todavia alguns que serviram de relicarios, principalmente +os que têem +inscripções religiosas, como―AVE MARIA GRATIA +PLENA e O MATER DEI MEMENTO MEI.<br /> + +<br /> + +Ás vezes estes cofres eram inteiramente de ferro; sendo +todavia formados d'uma caixa de carvalho ou de faia forrada de couro +encarnado, sobre o qual assentava uma chapa de ferro recortada e segura +por enfeites de ferro. O ferrolho tinha ás vezes a +fórma d'um lagarto ou de salamandra. A maior parte d'estes +cofres eram cobertos de florões scintillantes, o que faz +vêr que no XV seculo os serralheiros como os ourives iam +buscar á architectura as suas principaes fórmas +de +decoração.<br /> + +<br /> + +Os cofres de marfim, dos quaes se haviam servido muitas vezes para os +relicarios durante o periodo Roman, ficaram em uso até +á epocha ogival juntamente com os de madeira, de metal e de +couro. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[326]</span> +<em>Trombetas-relicarios</em>. Não +é raro achar, nos thesouros de egrejas, antigas trombetas de +guerra e de caça transformadas em relicarios. Durante a +idade media, os christãos não receiavam empregar +no culto certos objectos profanos emquanto á sua origem e +á sua +ornamentação, mais preciosos como materia ou como +obra d'arte. Já assignalamos esta pratica para os +camafêos e pedras antigas gravadas concavamente, das quaes os +ourives da idade media frequentemente faziam uso para dar mais brilho +ao metal nos differentes objectos para o culto; encontrando-se tambem +nas trombetas dos caçadores de que tratamos agora e dos +esmoleres de que fallaremos depois.<br /> + +<br /> + +Quasi todas as trombetas-relicarios são de marfim e +apresentam a mesma fórma, imitando a defeza do elephante de +cuja materia eram fabricadas. É do nome d'este animal, que +as trombetas de marfim têem tirado o de +<em>olifante</em>, pelos quaes são geralmente +conhecidos. Na idade media o +<em>olifante</em> era tanto se não fosse mais, +um instrumento de guerra como para a caça; servia +principalmente para dar signal de commando, reunir as tropas e +annunciar a presença do inimigo.<br /> + +<br /> + +Os elephantes e as trombetas estão guarnecidos de aros de +metal, floreado com florões ou redentados que facilitam +suspendel-os em bandoleira. Estas virolas, algumas mostrando a +cabeça de bezerro, estão fixas nas duas +extremidades, e de distancia em distancia sobre o comprimento do +objecto. Algumas vezes tambem ornam-se os elephantes +<span class="pagenum"><a name="p327">[327]</a></span> +de esculpturas em baixo-relevo, e +então as virolas não têem ornatos.<br /> + +<br /> + +As principaes officinas para a esculptura dos oliphantes e guarnecel-as +de metal existiam durante a idade media no Norte de França, +principalmente em Abbeville e Paris.<br /> + +<br /> + +Encontram-se tambem trombetas relicarios em chifre de boi e de bufalo; +posto que guarnecidas pela mesma maneira que os +<em>oliphantes</em>, são todavia faceis de +reconhecer, não sómente pela sua côr, +mas ainda +pela sua curva muito mais fechada, approximando-se geralmente d'um +semi-circulo.<br /> + +<br /> + +<em>Esmoleres-relicarios</em>. Chama-se +<em>esmoler</em> a uma pequena bolsa com cordões +ou fechos, que se traz suspenso á cintura para guardar o +dinheiro e os objectos de serviço habitual. Estas bolsas, +que formavam na idade media o complemento indispensavel do vestuario +dos dois sexos, eram de couro ou estofos de preço. +Dava-se-lhes tambem o nome de algibeira.<br /> + +<br /> + +A fórma mais antiga é d'uma pequena bolsinha com +dois cordões de correr para fechar, e d'um outro +cordão para suspender á cintura. Mais tarde +supprimiram-se os cordões e dobraram na frente do bolsinho +uma parte do estofo, que se levantava quando se queria introduzir a +mão no esmoler.<br /> + +<br /> + +Não se tem conservado até ao presente esmoleres +de estofo, e mesmo os de couro não se encontram +senão casualmente. Entre estes estofos uns são de +seda lavrada, outros têem bordados +sobre linho ou seda com fios de ouro ou seda de differentes +<span class="pagenum">[328]</span> +côres +traçando simples ornamentos, +symbolos e mesmo algumas vezes assumptos.<br /> + +<br /> + +Na idade media serviam-se, muitas vezes dos esmoleres para embrulhar as +reliquias dos santos e deposital-as nos relicarios. É mesmo +a esta circumstancia que deve ter-se conservado um grande numero +d'esses curiosos objectos, o que serve tambem para se explicar +acharem-se nos thesouros das egrejas. Poucas vezes esses esmoleres +mostram symbolos ou assumptos religiosos; no maior numero +vêem-se simples ornamentos; algumas vezes mesmo +estão decorados com assumptos profanos.<br /> + +<br /> + +<em>Relicarios diversos</em>. Além +dos relicarios que acabamos de descrever por classes, ha tambem outros +de que seria impossivel formar grupo, havendo infinita variedade, e ao +mesmo tempo um gosto singular, que os artistas de todo o periodo ogival +empregaram no feitio d'esses objectos.<br /> + +<br /> + +<em>Custodias</em> <span class="smallcaps">d'Agnus +Dei</span>. Chama-se <em>Agnus +Dei</em> a pequenos medalhões de cera branca, de +fórma +circular ou oval, ornados sobre as duas faces com a +impressão d'um cordeiro deitado, uma cruz de +resurreição, estandarte e tendo dois ou tres +guiões fluctuantes. Por baixo do cordeiro ha n'um segmento +de circulo, o nome do Pontifice que benzeu o objecto. N'uma epocha +bastante recente, tem-se muitas vezes completado esta +indicação, ajuntando-se-lhe o anno do +pontificado; havendo-se substituido ao cordeiro collocado no reverso do +medalhão, o brazão d'armas do papa ou uma +<span class="pagenum">[329]</span> +imagem. Em exergo +lê-se quasi sempre: AGNE DEI MISERERE MEI QUI CRIMINA TOLLIS. +<br /> + +<br /> + +Desde o IV seculo é provavel se estabelecesse o uso de +aproveitar, no domingo depois da Paschoa, os restos do cirio paschal do +anno precedente para o dividir em pequenos fragmentos e distribuil-os +depois aos fieis, os quaes os levavam comsigo para suas casas e serviam +como objecto bento de devoção. É +n'esta pratica ao +presente conservado em algumas dioceses com as +modificações accessorias, que se acha a origem da +devoção dos <em>Agnus Dei</em>. Em +Roma, principiaram +cedo a ajuntar cera pura e oleo aos fragmentos do cirio paschal e com +esta mistura, se moldavam medalhões em forma de distico, +tendo a effigie do cordeiro Divino. Estes medalhões eram +já conhecidos em Roma perto do fim do VI seculo. Mais tarde, +e ainda presentemente, os restos do cirio paschal foram completamente +excluidos da materia dos <em>Agnus Dei</em>, e serviram-se +unicamente da cêra sem nenhuma addição +de +substancias estranhas, que o soberano Pontifice mergulha durante algum +tempo em agua benta misturada dos Santos Oleos e de balsamo puro.<br /> + +<br /> + +Em todos os tempos os <em>Agnus Dei</em> +têem sido recebidos pelos fieis com grande +veneração, e muitas vezes encerrados em pequenas +bocetas de metal mais ou menos precioso, cuja forma e +ornamentação +apresentam a maior analogia com os dos relicarios. Estas bocetas +têem geralmente uma argola para se suspender; são +circulares +<span class="pagenum">[330]</span> +como os antigos <em>Agnus +Dei</em>, trazendo +em exergo a legenda como está: AGNE, (ou mais vezes ainda +AGNUS) DEI MISERERE MEI QUI CRIMINA TOLLIS, ou uma outra +oração. São +muitas vezes recortadas de maneira a mostrarem uma maior ou menor parte +da cêra. Os espaços que occupam o metal +são ora dispostos em simples cruz grega tendo na +intersecção dos ramos, um +medalhão cinzelado, gravado ou esmaltado, ora em relevo sob +a fórma de cordeiro, imagens, ou simples florão.<br /> + +<br /> + +Os mais antigos <em>Agnus Dei</em> +conservados até ao presente não vão +além do principio do +XIV seculo; porém os d'uma epocha posterior encontram-se com +bastante frequencia.<br /> + +<br /> + +<em>Armarios para reliquias</em>. Os +relicarios, os vasos sagrados, os livros do Evangelho e outros objectos +preciosos conservam-se regularmente em armarios ou tendo simples nichos +feitos na grossura da parede; outras vezes formavam +construcções de pedra encostadas a uma parede; +todavia as mais das vezes eram moveis de madeira com mais ou menos obra +de apurado trabalho.<br /> + +<br /> + +No XIII seculo, e mesmo ainda muitas vezes no XIV seculo, estes moveis, +d'uma fórma sempre simples e adequada ao seu destino eram +principalmente ornados com ferragens de feitio esmerado e com pinturas +sobre as suas portas. As portas sem molduras compunham-se d'uma serie +de taboas simplesmente juntas, duplas, consolidadas na parte interna, +por travessas e no lado exterior ornadas com bellas pinturas. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p331">[331]</a></span> +Desde o fim do XIII seculo e durante a primeira parte do XIV seculo, a +pintura e a esculptura foram, em certas occasiões, +empregadas simultaneamente na decoração dos +armarios das reliquias; algumas vezes mesmo, as portas com esculpturas +tinham dourados, e o lavor de estojo com ornamentos coloridos. Depois, +a esculptura augmenta e pouco a pouco acaba, no fim do XIV seculo, para +substituir completamente a polychromia. As portas dos armarios +não apresentam já, a +contar d'esta epocha, as superficies inteiramente lisas e cheias de +pinturas. Compõe-se então de +almofadas encaixilhadas e preparadas do mesmo modo que as partes lisas +das portas. Entre estas almofadas, algumas têem em relevo +molduras com desenhos imitando as travessas das almofadas das janellas, +as outras estão cheias de folhagens ou ornatos de talha +imitando folhas de pergaminho, como já +explicámos. Uma cimeira recortada e +vasada e na qual os prumos dos aros veem terminar em florão +rematam muitas vezes o movel em todo o seu comprimento.<br /> + +<br /> + +<em>Vasos para os santos oleos</em>. Na +quinta feira de cada anno, o bispo benze solemnemente, durante a missa +que elle celebra na sua cathedral, tres especies de oleos, os quaes +são depois distribuidos pelas egrejas da diocese. +São: 1.º oleos para os cathecumenos; 2.º, +oleo para os +enfermos; e 3.º, oleo para a chrisma.<br /> + +<br /> + +Acham-se ainda hoje em algumas cathedraes, grandes vasos do periodo +ogival que serviram antigamente +<span class="pagenum">[332]</span> +para benzer os santos oleos na ceremonia de Quinta Feira +Santa.<br /> + +<br /> + +Além d'estes vasos de grandes dimensões, nos +quaes o bispo benzia os oleos para toda uma diocese, ás +vezes mesmo para muitas, havia recipientes mais pequenos, que continham +sómente os santos oleos para o deão de uma grande +cidade. Alguns eram cofresinhos rectangulares ou ovaes, de madeira +forrada de couro, dividido interiormente em tres +separações, podendo em cada uma caber um frasco. +Outros em metal mais ou menos precioso, compõe-se de tres +vasos, geralmente cylindricos reunidos estando soldados ou simplesmente +unidos.<br /> + +<br /> + +Os vasos contendo os santos oleos para a occasião mesmo em +que dar os sacramentos e nas differentes uncções +de +bençãos, são regularmente muito mais +pequenos do que aquelles que fallamos, e podem ser divididos em duas +classes. Os da primeira classe, destinados a conter ao mesmo tempo as +tres especies de oleos, são triplicados como os dos +deões, os quaes se differençam unicamente pela +sua menor dimensão. Compõem-se quasi sempre de +tres cylindros ôcos, com uma tampa conica, collocados em roda +d'um nucleo, porém raras vezes postos em linha. Alguns +não têem pés, outros mostram esse +appendice.<br /> + +<br /> + +Para distinguir os differentes oleos, marcam-se os vasos com lettras +differentes: I, designa o oleo para os enfermos, <em>oleum +Infirmorum</em>; +C, o santo oleo, <em>chrisma</em>. Para o oleo dos +cathecumenos servem-se +<span class="pagenum"><a name="p333">[333]</a></span> +ora da +lettra S, <em>oleum +Sacrum</em>, ora da lettra O, <em>oleum</em>, ou +mesmo da lettra +E, do grego +Ελχιον, +oleo. Como cada um d'estes oleos +não serve sempre nas mesmas ceremonias, e se precisa levar +longe o oleo para os doentes, cada um dos pequenos vasos pode-se +separar do nó central que os reune.<br /> + +<br /> + +A segunda classe dos vasos para uso immediato de ungir comprehende +aquelles que encerram uma unica especie, geralmente o oleo para os +enfermos. Teem quasi sempre a forma +cylindrica e estão tapados com uma tampa de fórma +conica. Alguns teem pés, outros não.<br /> + +<br /> + +<em>Corôas suspensas sobre o +altar</em>. Estas corôas chamadas <em>votivas</em>, +estiveram em uso pelo menos +durante uma parte do periodo ogival, e conservavam a fórma +que tinham antes: a de um circulo de metal, cujo brilho era muitas +vezes augmentado com joias e esmaltes. Algumas eram feitas de proposito +para o serviço do altar; outras pertencentes aos soberanos +como insignia de realeza, foram dadas ás egrejas pela +generosidade dos principes.<br /> + +<br /> + +<em>Corôas com luzes</em>. As +coroas de luzes do periodo +ogival são ou <em>suspensas</em> +ou sustidas em um <em>pedicello</em>.<br /> + +<br /> + +As corôas <em>suspensas</em>, que +estiveram em uso desde os primeiros seculos do christianismo, chegaram +ao seu maior desenvolvimento no XI e XII seculos. Durante o periodo +ogival, perderam muito da sua importancia, e as maiores d'esta epoca, +encontram-se muito raro presentemente.<br /> + +<br /> + +No XV seculo apparecem os lustres, que quaes +<span class="pagenum">[334]</span> +vieram a ser communs em pouco tempo, e +ficaram a substituir as corôas desde o principio do periodo +do renascimento.<br /> + +<br /> + +As corôas de luzes +<em>pediculadas</em> são +geralmente de ferro forjado e compõe-se quasi sempre de uma +tampa da qual se ergue uma hastea vertical ornada de um ou muitos +nós. No alto d'esta haste estão postos em +diversas alturas, dois ou mais numeros de circulos em fórma +de polygonos de diametros differentes, compostas de espigas e +dirandellas para terem vellas. Os circulos são +movediços e +podem girar em roda da hastea que os sustenta; esta +disposição permitte aos devotos puxar para si as +dirandellas sem vellas pôr-lhes outras vellas offerecidas por +promessa. Estas corôas estavam em uso nas egrejas onde +numerosos peregrinos vinham venerar as reliquias ou a imagem de algum +santo. As mais remotas corôas tendo pé +não +vão além do XV seculo.<br /> + +<br /> + +<em>Cruz de altar e de +procissão</em>. Já dissemos, que +até o fim do XV seculo não houve +distincção entre as cruzes do altar e as cruzes +processionaes ou estacionarias. A mesma cruz servia para o mesmo uso: +punham-a sobre o altar ficando firmada sobre uma base ou levavam-a em +procissão no cimo de uma comprida hastea.<br /> + +<br /> + +No XIII seculo, as cruzes processionaes eram de uma grande +simplicidade. Tinham geralmente a imagem de Jesus Christo, e nas +extremidades dos braços havia os symbolos dos evangelistas +collocados em um quadrilobo. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[335]</span> +No XIV e no XV seculo, ornam muitas vezes com as fórmas +architecturaes, e mesmo tendo estatuasinhas debaixo de docel, o cabo +era ôco servindo para fixar a cruz sobre a hastea ou sobre um +pé.<br /> + +<br /> + +Quando no XIV, e principalmente no XV seculo, multiplicaram-se as +capellas e os altares em uma mesma egreja por causa do augmento +extraordinario da fundação de missas, +introduziu-se o uso das cruzes do altar, isto é, assentes +permanentemente sobre elle. A cruz do altar principal era a unica que +ficava portatil, podendo servir no altar e nas procissões.<br /> + +<br /> + +<em>Castiçaes</em>. Havia, durante +o periodo ogival, quatro especies principaes de castiçaes: +os castiçaes do <em>altar</em>, os +castiçaes de +<em>elevação</em>, e os +castiçaes <em>paschoaes</em> aos quaes se podem +ajuntar +os <em>tocheiros</em> collocados aos lados dos catafalcos. +<br /> + +<br /> + +<em>Castiçaes de altar</em>. O uso +de collocar <em>dois castiçaes sobre o altar</em> +foi introduzido, em certas partes, no fim do periodo roman, e veiu a +ser geral no XIII seculo.<br /> + +<br /> + +Os castiçaes de altar do XIII seculo apresentam uma grande +similhança com os do periodo roman. Do mesmo modo eram de +metal e compunham-se regularmente de um pé +descançando sobre tres garras, d'um nó e d'um +prato com uma espiga; sendo todavia menos ornados. É por +isso, que apparecem excepcionalmente animaes phantasticos de forma de +lagarto ou dragão de azas que sustentam o prato de quasi +todos os castiçaes romans. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[336]</span> +No XIII seculo, como precedentemente, os castiçaes teem +pouca altura, sendo as mais das vezes de 15 a 25 centimetros. Algumas +vezes todavia, porém muito raro, proximo do fim do XIII +seculo, tinham a hastea com dois ou tres nós quasi 50 +centimetros de alto.<br /> + +<br /> + +O uso de não pôr sobre o altar mais de dois +castiçaes pequenos durou até ao XVII seculo.<br /> + +<br /> + +Nos XIV e XV seculos, os nós da hastea foram substituidos +por virólas, sendo o numero de duas ou tres; ha todavia +exemplos, principalmente no XIV seculo, onde a hastea tem uma unica +viróla.<br /> + +<br /> + +No fim do XV seculo e no principio do XVI seculo, os +castiçaes têem muitas vezes os nós, +o pé e o prato com relevos do feitio de meias perolas e a +hastea torcida em espiral.<br /> + +<br /> + +<em>Castiçaes de +elevação</em>. Este nome foi dado +aos castiçaes destinados para terem as vellas accesas antes +da elevação da Hostia, e que se apagam +depois da communhão do padre. Estes castiçaes, +regularmente em numero de dois e collocados aos lados do altar, eram +muito mais altos que os castiçaes do altar, tendo de altura +muitas vezes um a dois metros de alto.<br /> + +<br /> + +<em>Castiçaes paschoaes</em>. Assenta-se +geralmente a hastea do <em>castiçal +paschoal</em> n'uma estante vasada, onde se põe o +livro para o canto do +<em>Exultet</em>. Muitas vezes se collocam dois ou mais +braços destinados a ter pequenas vellas; ha-os de +latão e de ferro forjado.<br /> + +<br /> + +No XIII seculo, o +No XIII seculo, os castiçaes paschoaes são +ornados +<span class="pagenum">[337]</span> +muito simplesmente imitando +na ornamentação o reino vegetal.<br /> + +<br /> + +No XIV seculo, os candelabros para a tocha paschoal estão +ornados muito modestamente.<br /> + +<br /> + +Os castiçaes paschoaes do XV seculo são ainda +muito mais simples.<br /> + +<br /> + +<em>Os castiçaes postos aos lados do +catafalco</em>. Estes castiçaes geralmente muito +simples são as mais das vezes de ferro forjado e ornados com +polychromia. A sua altura varia entre um a dois metros. Um grande +numero se têem conservado. Algumas vezes estes +castiçaes eram tambem de madeira.<br /> + +<br /> + +Aos lados dos catafalcos, os tocheiros isolados eram muitas vezes +substituidos por um +<em>candieiro-triangular</em> de pau ou metal composto de +um certo numero de bicos ou de pratos e assente sobre um ou dois +pés. Esta alfaia é tambem designada, +principalmente nos antigos inventarios, <em>cabide</em>, +<em>rastrum</em> e <em>rastrellum</em>.<br /> + +<br /> + +Vestigios de apparato com luzes para os defuntos, se vêem +ainda hoje em muitos monumentos funerarios do XIII seculo, nas egrejas +de S. Diniz, proximo de Paris, mandados erigir por S. Luiz Rei de +França, em memoria dos reis seus predecessores.<br /> + +<br /> + +<em>Braços com vellas e +dirandellas</em>. Os candieiros com braços e as +dirandellas vieram a ser de um uso geral no principio do XV seculo. +Têem geralmente o mesmo feitio que os braços do +candieiro paschoal com o prato adentado. São postos sobre +<span class="pagenum"><a name="p338">[338]</a></span> +as paredes, e mais vezes ficam +defronte de uma imagem. O maior numero são de +latão; os de ferro forjado encontram-se raras vezes.<br /> + +<br /> + +<em>Estantes para o côro</em>. +Chama-se <em>estante do côro</em> a uma estante +de madeira ou de metal sobre a qual se põe os livros para +facilitar as leituras +lithurgicas.<br /> + +<br /> + +As estantes do côro fazem parte das alfaias religiosas; +são de duas especies: estantes +<em>fixas</em>, collocadas geralmente no meio da +capella-mór e chumbadas no pavimento, ou com um +pé tão pesado que se não poderia +facilmente mudar para outra parte, e estantes <em>portateis</em>. +As +primeiras serviam para os chantres recitarem os officios; as outras +para o diacono e subdiaconos cantarem o Evangelho, a Epistola ou as +lições sagradas.<br /> + +<br /> + +<em>Observações +preliminares</em>. Desde o VII e VIII seculos, e durante todo o +periodo roman, fizeram algumas vezes as <em>estantes fixas</em> +independentes da tribuna. Estas estantes isoladas, estando destruidas +presentemente, eram quasi sempre de metal, e compunham-se, como tambem +as do principio do periodo ogival, d'uma aguia com as azas abertas, +pousada sobre um sóco. Muitas vezes a aguia, attributo do +evangelista S. João, era acompanhada de symbolos dos tres +outros evangelistas.<br /> + +<br /> + +<em>Estantes fixas collocadas no meio do +côro</em>. As estantes do côro destinadas aos +chantres, são +ordinariamente de latão e compõem-se d'uma aguia +assente sobre um pé em fórma de pilar ou de +columna. Este pé algumas vezes é consolidado por +<span class="pagenum"><a name="p339">[339]</a></span> +arcos-butantes, os quaes +estão ornados de arcaduras vasadas com rosaceas e ornatos +variados, similhantes aos que ornam as grinaldas dos tympanos das +janellas ogivaes.<br /> + +<br /> + +Nos antigos documentos a estante do côro é +designada <em>aguia</em>, em latim +<em>aquila</em>, porque a maior parte das estantes, tanto +do periodo ogival como da renascença, têem a forma +d'uma aguia. Muitas <em>estantes-aguias</em> do XV seculo +escaparam de serem destruidas, talvez pelo seu peso. Algumas vezes a +aguia é substituida por outros animaes, ou por homens e +anjos. As estantes de pelicanos, cujo uso foi introduzido no tempo do +periodo ogival, veiu a ser bastante commum na epocha do renascimento.<br /> + +<br /> + +<em>As estantes moveis</em>. Estas estantes +facilmente transportaveis, foram empregadas durante o periodo ogival, +quer para a leitura do Evangelho e da Epistola, quer para as outras +ceremonias do culto; eram geralmente de ferro e poucas vezes de +madeira. Estas estantes eram regularmente formadas d'uma dupla +dobradiça com o feitio d'um <em>X</em>, cujas +extremidades superiores +ficam ligadas entre si por uma cobertura de couro sobre a qual se +põem os livros lithurgicos. Acontece todavia, principalmente +nas estantes moveis de madeira, que elle não é +formado d'uma cobertura de couro, mas sim de taboinhas postas no +prolongamento de duas das quatro extremidades superiores da +dobradiça da estante.<br /> + +<br /> + +<em>Livros do Evangelho e manuscriptos +lithurgicos</em>. +<span class="pagenum">[340]</span> +Continuou-se, durante o periodo ogival, a +<em>illuminar</em> os textos dos livros santos.<br /> + +<br /> + +No fim do XII seculo, isto é, no momento em que a ogiva +tomou o logar da <em>volta +inteira</em>, fez-se uma revolução completa +na arte de pintura. Os +miniaturistas da Europa Occidental do mesmo modo que os pintores das +vidraças e esculptores libertaram-se das +tradicções byzantinas e romans, para se +applicarem principalmente á +imitação da natureza. Este novo genero nascido em +França, como o estylo ogival, generalisou-se por todos os +paizes proximos.<br /> + +<br /> + +A escola dos <em>miniaturistas</em> do XIII +seculo dilatou a carreira de suas obras. Até esta epocha, as +Biblias, os livros dos Evangelhos e os dos psalterios tinham sido as +unicas obras ornadas de estampas illuminadas; depois as obras profanas +da antiguidade classica, as dos padres, os romances dos cavalleiros e +as chronicas tiveram tambem illustrações +calligraphicas.<br /> + +<br /> + +Proximo do meiado do XIV seculo, uma nova mudança teve a +pintura em geral, estendendo a sua influencia sobre todos os ramos +d'esta arte. Ao primor do desenho que traça os principaes +contornos, esforçou-se o pintor por ajuntar o modelado dos +objectos no afrouxamento gradual dos tons e na +opposição das sombras e da luz. A +começar d'esta epocha, o colorido deu á figura, +não +sómente a côr, mas ainda a fórma e o +relevo.<br /> + +<br /> + +No XV seculo, a arte da pintura e do miniaturista, subiu em Flandres ao +mais alto grau de prosperidade, +<span class="pagenum">[341]</span> +sob a influencia dos irmãos Hubert e +João Van Dyck, Thierry, Streerbout, Roger von der Weyden e +Haus Memling; em Portugal, Antonio e Francisco de Hollanda. Todos estes +eximios mestres não desprezavam empregar o seu tempo na +illuminura dos manuscriptos. O rei Filippe―o Bom―1419-1467―, tinha +uma predilecção notavel pela +ornamentação dos manuscriptos, como tambem em +Portugal el-rei D. João II e D. Manuel<sup><a href="#5">[5]</a></sup>, contribuiram +singularmente para o desenvolvimento d'este genero de trabalho.<br /> + +<br /> + +Os pintores d'esta epocha applicam-se a reproduzir a belleza real que +se colhe da natureza, mais agradavel que uma belleza ideal; substituem +de alguma maneira, o realismo ao symbolismo dos seculos findos +passados; diligenciando representar com toda a verdade os minimos +detalhes da natureza, cogitam o modo de apresentar a mais exacta +reproducção do feitio e côr dos +objectos.<br /> + +<br /> + +<em>Capas dos livros dos Evangelhos</em>. Até ao +IX seculo serviram-se bastantes vezes de capas de +marfim; do IX seculo ao XII, o marfim estava misturado ao metal e +ás pedras preciosas. Durante o periodo +<span class="pagenum"><a name="p342">[342]</a></span> +ogival, abandonaram geralmente o uso do +marfim, e o metal só ornado com riqueza, sobretudo no XIII +seculo, de esmaltes e joias, foi empregado nas capas das Biblias, nos +livros dos Evangelhos e nos lithurgicos. Salvo raras +excepções, eram cobertos de estofos, de couro, e +algumas vezes de madeira com esculpturas ou de chapas de prata em +relevo<sup><a href="#6">[6]</a></sup>. +<br /> + +<br /> + +<em>Thuribulos e naveta para incenso</em>. Os +thuribulos do XIII seculo compõem-se geralmente, como os dos +seculos antecedentes, de duas semi-espheras ôcas, as quaes +juntas formam uma bola. A semi-esphera inferior tem um pé +que lhe serve de apoio, no qual se põe as brazas e o +incenso; vem a ser o verdadeiro perfumador. A semi-esphera superior, +que serve de tampa, está crivada de muitos +orificíos para +sahir o fumo do incenso. Esta tampa que tem como remate muitas vezes +uma torrinha com a figura de homem ou de animal, é +movediça: sóbe e desce ao correr de tres ou +quatro correntes prezas por uma extremidade do thuribulo e por outra +parte da mesma tampa atravez da qual passa uma cadeia que fixa o +remate, e facilita levantal-a ou abaixal-a como se quizer.<br /> + +<br /> + +A fórma geral dos thuribulos do XIII seculo é +conhecida, não sómente pelos raros +especimens em metal conservados até ao presente, mas tambem +<span class="pagenum">[343]</span> +pelas esculpturas e miniaturas contemporaneas, nas quaes se +vêem anjos ou clerigos thuriferarios.<br /> + +<br /> + +Nos seculos XIV e XV, os thuribulos mudam de aspecto, apresentam poucas +vezes a fórma espherica e têem geralmente o feitio +de diversas curvas; tomando a fórma de torrinhas com +telhado, janellas recortadas, etc. O metal de que geralmente se +serviam, era o latão; para os de melhor qualidade empregavam +a prata.<br /> + +<br /> + +<em>Gomís</em> ou +<em>aquamaniles</em>. Os gomís +designados tambem <em>aquamaniles</em> (de +<em>aqua</em>, agua, e +<em>manile</em>, vaso para deitar agua nas mãos) +faziam parte das alfaias ecclesiasticas e continham agua para as +abluções das mãos, durante as +ceremonias religiosas. Empregavam-se tambem no uso civil para a lavagem +das mãos antes e depois das +refeições. No fim do periodo roman e durante todo +o período ogival tinham as mais caprichosas e mais varias +fórmas. A maior parte apresentam a d'um animal real ou +phantastico; a agua é geralmente introduzida no +gomíl pelo cimo, na cabeça do animal, servindo de +gargalo; a bocca ou o bico finalmente a aza é formada, quer +pela cauda do animal revirada sobre o lombo, quer por um lagarto ou um +dragão alado; algumas vezes mesmo a torneira está +posta diante da figura. Os animaes representados mais vezes +são o leão, o cavallo, o veado, o gallo, o +dragão, a sereia e differentes passaros. Quasi todos os <em>aquamaniles</em> +são de latão ou de cobre. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[344]</span> +Alguns gomís de metal têem a fórma do +busto de homem, de mulher e de creança. Devemos tambem +mencionar os gomis do XIII seculo apresentando a fórma d'um +prato côvo, não sendo +diverso da bacia que servia senão para pela existencia, +sobre a borda d'um bico para sahir a agua sobre as mãos.<br /> + +<br /> + +No XI seculo principiou o uso de lavatorios collocados no meio das +sacristias. Havia-os de fórmas architectonicas, imitando +mais ou menos uma fortaleza ou uma torre; outros (e eram os mais +communs), compunham-se de vasos de bronze ou latão, de +pequenas dimensões, tendo uma grande aza e dois gargalos +oppostos; para se lavar as mãos, abaixava-se, empurrando de +cima para baixo, um dos gargalos. O seu uso durou até ao XV +seculo.<br /> + +<br /> + +<em>Pratos para offerendas</em>. Encontram-se +em muitas egrejas grandes pratos ou bacias de latão +estampado, cinzelado e gravado, ornados de assumptos, symbolos, +brasões, folhagens e figuras geometricas. Estes pratos +designados <em>bacias de +offerenda</em>, porque serviam e servem ainda para receber as +offertas dos fieis, principalmente as que se fazem durante as missas +para os defuntos, eram feitos no XV e XVI seculo nas officinas dos +fundidores de cobre em Augsbourg, Nuremberg e Brunswick. É +preciso advertir, que as bacias do XV seculo e do principio do XVI +seculo, apresentam os caracteres da decoração +ogival, e que as do XVI e XVII +seculos apresentam ornatos do estylo da renascença. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[345]</span> +Os assumptos e os symbolos, representados geralmente no centro do +prato, mais raramente sobre a borda do prato, são quasi +sempre religiosos: todavia vê-se tambem algumas vezes com o +busto de <em>Cicero</em>, de sereias, veados, +cães, escudos com brazões, etc.<br /> + +<br /> + +Inscripções ou legendas estão gravadas +dentro d'um ou dois circulos concentricos proximo da borda do prato, e +repetem-se geralmente cinco vezes. Entre essas legendas ha um grande +numero que apresentam um sentido facil de interpretar, por exemplo: <em>Got +sei met vus, hiff Got aves not, hiff Th</em> +(esu) <em>vnd Maria, van allen +schriftvren het slodt myt sonder Gost, eh wart</em> +(ou <em>gich wart</em>) <em>der in fridt, ch</em> +(ou <em>ich</em>) +<em>bart et zeit +gelvek, gi seal recorden, gustate et benedicite Deus</em>; outros +pelo contrario (e estes são os que se encontram mais vezes) +compõem-se de lettras, as quaes reunidas não +apresentam nenhum sentido; taes são as +seguintes: <em>rahe wishnbi et vrmtlife, vrmtielf</em> +ou <em>lifevrmto</em>.<br /> + +<br /> + +Parece bastante provavel que estas legendas, até ao presente +indecifraveis, foram os signaes ou as primeiras lettras de muitas +palavras formando uma divisa conhecida geralmente na epocha em que se +executavam estas bacias para offerendas.<br /> + +<br /> + +<em>Representação da +patena</em>. Em vez de se beijar a patena, recommendava o +apostolo S. Paulo aos primeiros christãos, um +abraço fraternal. No XIII +seculo, por motivo de decencia e de respeito foi substituido em muitas +partes, pelo uso d'um <em>osculatorium</em> +<span class="pagenum"><a name="p346">[346]</a></span> +o abraço +porque julgaram +então não se poder praticar sem detrimento para a +moral e distincção das dignidades.<br /> + +<br /> + +As regras lithurgicas fallam da patena, mas não determinam +nem a fórma nem a +representação. Serviram-se pois para este fim +indifferentemente da cruz, relicarios, capas dos evangelhos, etc. +Todavia a fórma que prevaleceu, foi a d'um pequeno painel, +feito com materias de estimação, taes +como ouro, prata, madeira rija ou marfim cinzelado, gravado, esmaltado +ou pintado, representando um assumpto religioso ou santo. Este pequeno +painel tem geralmente um cabo no lado posterior.<br /> + +<br /> + +<em>Moldes ou ferros para hostias</em>. Serviam-se desde +muito tempo, e servem-se ainda hoje de ferros para +coser o pão que symbolisa a Eucharistia, imprimindo-se-lhe +figuras e lettras. Estas hostias teem regularmente a fórma +circular. Muitas vezes os moldes representam +crucificação, o Cordeiro Divino, a simples cruz, +o signal I H S, imagens de santos e symbolos.<br /> + +<br /> + +<em>Insignias e medalhas dos peregrinos</em>. +As insignias de <em>romaria</em> compõem-se, +durante toda a idade média, de pequenas chapas +rectangulares, quadradas ou circulares, muitas vezes de chumbo fundido +e de obra vasada, outras de cobre ou prata impressa e +aperfeiçoada ao buril. Apresentam geralmente em relevo a +imagem do santo para quem ella foi feita. Distinguem-se de duas sortes: +umas (e eram em maior numero), cosiam-se sobre o ornato pertencente +á cabeça e sobre o +vestuario; +<span class="pagenum">[347]</span> +as outras, bastante +raras, fixavam-se na extremidade do bordão ou arrimo do +peregrino.<br /> + +<br /> + +Havia-as egualmente apresentando a fórma de medalhas +ornadas, nas duas faces, com imagem de santos e +inscripções; muitas vezes +são acompanhadas de um carneiro ou argola servindo para se +trazer ao collo, ou pegadas quer no vestuario, quer nos objectos de +devoção, como são +os rosarios, etc.<br /> + +<br /> + +<em>Pequenos altares domesticos</em>. Encontram-se muitas +vezes, nos museus publicos e nas +collecções particulares, pequenos <em>triptycos</em> +e +<em>polyptycos</em> de marfim, metal ou madeira, +esculpidos, pintados ou esmaltados. Estes objectos, os fieis se serviam +antigamente nas suas habitações para satisfazer a +sua devoção, teem muitas vezes a fórma +de +um retabulo com portas, porém, de grandes +proporções; sendo como os outros retabulos, +ornados de baixo-relevos, estatuas e pinturas.<br /> + +<br /> + +<em>Baculos</em>. Como já +explicamos, a voluta do maior numero dos baculos romans era terminado +por uma cabeça de serpente ou de dragão; +completava-os uma cruz com o Cordeiro Divino. Esta scena, symbolo do +triumpho de Redemptor alcançado sobre o demonio pelo +sacrificio do Calvario, veiu a ser raro desde o XIII seculo. Algumas +volutas, sem duvida, trazem ainda n'esse tempo na extremidade, uma +cabeça de dragão ou serpente, mas essa +cabeça fica inteiramente separada ou invez já +não ao Cordeiro nem sobre uma personagem ou sobre uma scena +religiosa. Em um grande +<span class="pagenum"><a name="p348">[348]</a></span> +numero +de baculos a cabeça da serpente é +substituida por um ramo de folhagens ou por uma flôr aberta.<br /> + +<br /> + +Quando, proximo ao fim do XIII seculo, os detalhes de architectura +substituiram-se as peças de ourivesaria, e a +decoração foi buscar aos reinos animal e vegetal, +real ou phantastico, os baculos mudaram egualmente de aspecto. +Ornaram-se então de nichos, estatuasinhas, flechas e +pinaculos. O nó principalmente, e tambem a hostia, ficaram +sobrecarregados com estes ornatos.<br /> + +<br /> + +<em>Estofos preciosos</em>. Durante o periodo +ogival, serviram-se muitas vezes, para os vestuarios sagrados, de +estofos preciosos, nos quaes os desenhos da +decoração eram feitos, +<em>juntamente</em> com o tecido mesmo, por meio de uma +trama de differentes côres, sendo depois urdido pela +applicação de bordados feitos com agulha. O uso +dos pannos de raz para a decoração das egrejas +generalisou-se cada vez mais durante o periodo.<br /> + +<br /> + +<em>Tecidos</em>. A arte de fabricar os +tecidos de seda foi trazida da Italia no XIII seculo. Os desenhos +embellezadores que ornam bastantes vezes os tecidos no XIII seculo e +durante uma parte do XIV são geralmente copiados sobre os +estofos orientaes. As figuras symbolicas e os assumptos pertencentes +á historia do antigo e novo Testamento, que se acham +excepcionalmente nos tecidos sicilianos ou italianos antes do meado do +XIV seculo, apparecem frequentemente depois d'esta epocha, com +cercadura, ou não tendo este enfeite. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[349]</span> +No XV seculo, a industria do tecido da seda desenvolveu-se cada vez +mais a Oeste e Norte da Europa. A Suissa, França e a +Belgica, que possuíam, depois do XIII seculo, alguns teares +isolados +para a fabricação da seda, do veludo, e do setim, +viram então os seus teares a multiplicar-se e tomar +consideravel incremento.<br /> + +<br /> + +Em Flandres tambem se tinha alcançado, desde o XIII seculo, +bastante fama pelos tecidos preciosos, para os quaes os primeiros +aprestos foram fornecidos pela Inglaterra. De todos os estofos o mais +estimado e de preço fabricado em Flandres era o setim de <em>Bruges</em>. +<br /> + +<br /> + +<em>Bordados</em>. Nas +bordaduras do XIII +seculo, como nas pinturas e esculpturas contemporaneas, o desenhador +abandonou pouco a pouco as tradicções byzantinas. +Os gestos dos personagens perdem a sua expressão archaica, +as cabeças +não são delineadas conforme typos convencionaes, +as pregas dos vestidos, em logar de serem comprimidas e paralellas, +são executadas com fidelidade; finalmente, as figuras teem +muitas vezes a presença curvada.<br /> + +<br /> + +Desde o fim do XIII seculo, a arte de bordar, designada muito +distinctamente na idade média +<em>pintura com a agulha, acupictura</em>, attingiu a um +subido gráo de prosperidade; desenvolvendo-se cada vez mais +durante o XIV seculo, e chegou ao seu apogeu no principio do XV seculo. +N'esta ultima epocha, tres paizes se distinguiram sobretudo pelo +talento e habilidade no acabamento dos bordados: +<span class="pagenum"><a name="p350">[350]</a></span> +foram a <em>Belgica</em>, a +<em>Prussia rhenal</em> e a +<em>Bourgogne</em>. Os dois principaes centros de +manufactura para os estofos bordados encontravam-se em Arrhas, em <em>Flandres</em> +e em +<em>Cologne</em>; a estas duas cidades se póde +ajuntar em segundo logar +<em>Malines</em>, +<em>Liége</em>, <em>Tournai</em> e +<em>Reims</em>.<br /> + +<br /> + +<em>Pannos de Raz</em>. Chama-se panno de raz +a <em>um tecido no qual os fios de côr, enrolados +sobre uma urdidura fixa vertical ou horisontalmente, faz corpo +juntamente, e produz combinações de linhas e tons +similhantes aos de pintura que se obtem com o pincel, e o mosaista com +os cubos de marmore ou de esmalte</em>. O panno de raz +distingue-se do bordado em que as figuras fazem parte integrante do +tecido, em quanto os bordados são simplesmente sobrepostos +sobre um tecido já feito. Distingue-se por outro modo, dos +estofos tecidos de ouro e seda, porque constitue sempre um trabalho +manual, e não é obtido por um mechanismo +<a href="#e7">representando</a> sem fim o mesmo +padrão. +Cada uma das producções do <em>panno de +raz</em> é uma obra original.<br /> + +<br /> + +Os fios com que o tecelão delinea as sua +composições, seus symbolos e ornatos, +são o ouro, prata, seda e lã.<br /> + +<br /> + +A arte dos pannos de raz era já conhecida no XI seculo. +Antes do anno 1025, havia, em +<em>Potiers</em>, uma fabrica de pannos de raz, cujos +trabalhos tinham sido muito apreciados, mesmo fóra de +França. Os productos d'estas officinas eram ornados de +retratos dos reis, de imperadores, de figuras de animaes, assim como de +assumptos da biblia. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p351">[351]</a></span> +No XII seculo a Allemanha toma egualmente uma parte activa no +desenvolvimento do fabrico dos pannos de raz.<br /> + +<br /> + +No XIV seculo, a arte do tapisseiro, posto que continuando a empregar o +mesmo fabrico technico do seculo precedente, progride como todas as +outras artes.<br /> + +<br /> + +Desde o principio do XIV seculo a manufactura dos pannos de raz de +alto-liço prosperou em Paris, Bruxellas e Arrhas; depois foi +introduzida em muitas outras cidades de Flandres e do Brabante. No fim +do XIV seculo os pannos de raz de Arrhas principiaram a ter a primazia; +devendo a sua reputação á +perfeição dos seus tecidos e á sua +tintura. Desde esta epocha, os pannos de raz de alto-liço +foram designados, principalmente pelos Italianos e Inglezes, sendo da +fabrica de Arrhas, pelo nome de <em>finos pontos de Arrhaz, e +arazzi</em>.<br /> + +<br /> + +O XV seculo foi a idade de ouro para os pannos de raz. Realisaram-se +então notaveis progressos na execução +material. Os fios vieram a ser cada vez mais finos, a +proporção da seda e do ouro augmentaram +consideravelmente, os tintureiros inventaram +graduação de côres novas, +emfim os tecelões aprenderam a combinar as côres +com tal habilidade que não podia ser nunca excedida. N'esta +epocha os pannos de Arrhas eram os mais estimados e por isso muito +procurados.<br /> + +<br /> + +<em>Vestimentas sagradas</em>. Durante toda a +idade média, as vestimentas sagradas, das quaes se serviam +nos dias ordinarios, eram feitas de tecido de +<span class="pagenum"><a name="p352">[352]</a></span>lã, +ou algumas vezes tambem de +linho. Os estofos de seda empregavam-se nas vestimentas ricas e +preciosas.<br /> + +<br /> + +A <em>casula</em> conserva, até ao +meado do XV seculo, a fórma que tinha durante o periodo +Roman, isto é, de um vestuario largo, comprimido +á roda do collo, cobrindo inteiramente os braços +e caindo negligentemente de todos os lados á roda do corpo. +Da mesma maneira que precedentemente, quasi sempre as estolas com +bordaduras são comprimidas e estreitas, representando +assumptos religiosos. Na Italia, nos paizes meridionaes e no meio dia +de França, estas estolas são geralmente em numero +de duas postas verticalmente, uma por diante e a outra por detraz do +peito; a de diante fica com o feitio de um <em>tau</em> T. +Na Belgica, na Hollanda, na Allemanha, e em Inglaterra, +duas outras pequenas faxas saindo do peito passam sobre os hombros e +vão ter ao meio das costas, formando assim, pela sua +combinação com as +estolas verticaes, duas cruzes cujos braços ficam levantados +com o feitio de Y.<br /> + +<br /> + +As casulas com dupla cruz entraram em uso no norte da Europa +até ao XV seculo, epocha na qual uma mudança +notavel se operou na fórma e +disposição das estolas. Primeiramente, estas +ficavam com muito mais largura; depois em toda a parte onde a dupla +cruz com braços levantados havia tido uso precedentemente, +pozeram sobre o lado opposto da casula, <a href="#e8">uma +cruz</a> latina †, e sobre a +frente uma columna. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[353]</span> +No XIII e XIV seculos, sendo sempre estreitas, +eram regularmente ornadas com figuras geometricas +ou pequenas folhagens simplesmente de decoração. +Quando no XV seculo se fizeram mais +largas, representavam muitas vezes imagens ou +assumptos religiosos. +<br /> + +<br /> + +<em>A estola e o manipulo</em> consistiam, durante o +periodo +ogival, em faxas compridas e estreitas, quasi +sempre ficando as extremidades um pouco mais +largas. +<br /> + +<br /> + +As estolas e os manipulos, geralmente de uma +grande simplicidade, eram feitos de linho, de lã +ou de seda, acabando n'um bordado e franjas. +Os de ornamentos ricos eram por vezes bordados +e apresentavam uma certa analogia com as faxas +de recamo d'ouro das casulas, que lhes pertenciam. +As suas extremidades não tinham ornatos +com bordados symbolicos, que só se usaram depois +da primeira metade do XV seculo. +<br /> + +<br /> + +No principio o <em>pluvial</em>, em latim <em>coppa</em>, +isto é, +capote para resguardo da chuva (<em>pluvia</em>) era usado +sómente pelo clero inferior, principalmente pelos +chantres e mesmo por vezes pelos seculares, tomando +uma parte na celebração do culto. Foi +sómente +no XIII seculo que veiu a ser commum para +todas as ordens da hierarchia ecclesiastica, incluindo +mesmo o pontifice. +<br /> + +<br /> + +Serviam-se do pluvial, como se pratíca ainda +hoje, nas procissões e em todos os outros officios +da missa; por exemplo, no canto solemne +de vesperas. O seu feitio é o mesmo da casula; +<span class="pagenum">[354]</span> +sómente, em logar de ser, como esta, inteiramente +fechada de maneira a esconder todo o +corpo, é aberto na frente desde os pés +até ao collo. +<br /> + +<br /> + +O pluvial da idade media tinha, sobre as costas, +um capuz de ponta muito comprida, com a +qual se podia cobrir a cabeça. Nos pluviaes ricos +as orlas da abertura de diante, e tambem a orla +inferior, estão cobertas de faxas de estofo colorido, +bastante estreitas e ornadas, principalmente +no principio do XIV seculo, sendo os assumptos religiosos +feitos com bordados. No XIV seculo as faxas +veem a ser mais largas, e proximo da mesma +época, o capuz augmenta, ficando a sua extremidade +redonda, e como as faxas, ornada. +<br /> + +<br /> + +<em>Colchete do pluvial</em>. Prendia-se o pluvial sobre +o peito com um grande colchete coberto de medalhões +em metal precioso, ornado de esmaltes ou +delicadamente cinzelado. Estes <em>medalhões colchetes</em>, +em latim <em>fibulae</em>, <em>morsus</em>, <em>monilia</em> +ou <em>pectoralia</em>, +teem muitas vezes a fórma de quatro folhas; ha +tambem circulares, ovaes, e mesmo quadrados. +São geralmente ornados com assumptos religiosos +ou com estatuasinhas de santos. Acompanham-os, +principalmente no XV seculo, a figura ajoelhada e +os brazões do doador. +<br /> + +<br /> + +A <em>alva</em> e o <em>amicto</em> +conservaram as fórmas primitivas +durante o periodo ogival. Eram geralmente +de linho, algumas vezes tambem de seda +ou brocado. Continuou-se a guarnecel-os de faxas +rectangulares com recamo de oiro, bordados ou +tecidos vistosos. Estas vestimentas prendiam-se no +<span class="pagenum">[355]</span> +meio da orla superior do amicto; e sobre a alva +nas extremidades das mangas á roda do punho, +por diante e detraz sobre a orla inferior proximo +dos pés, e algumas vezes tambem sobre o peito. +<br /> + +<br /> + +A <em>cintura</em>, da qual o sacerdote se serve para +arregaçar a alva, prende-se á estola em cruz +sobre +o peito; não teve nunca na idade média a +fórma de cordão que apresenta actualmente. N'essa +época geralmente consistia em um comprido cinto, +especie de fita comprida de dois metros e +meio, com a largura de cinco a seis centimetros. +Dá-se-lhe algumas vezes o comprimento symbolico, +por exemplo, do tumulo de Jesus Christo. +<br /> + +<br /> + +A <em>dalmatica</em> é a vestimenta decima do +diacono, +a <em>tunicella</em>, a do sub-diacono. Não +existe, ha muito +differença entre estas duas vestimentas, posto que +n'outro tempo a tunicella teve mangas mais curtas +e era mais comprida, porém menos ornada que a +dalmatica. +<br /> + +<br /> + +Durante o periodo Roman e no principio do ogival, +a dalmatica consistia em um comprido vestido +inteiramente fechado, com mangas e uma abertura +para passar a cabeça. Era enfeitada diante +e detraz por duas faxas verticaes com recamo de +ouro ou de côr, descendo até a orla inferior. +Estas +faxas, muito estreitas no XIII seculo, vieram a ser +cada vez mais largas desde o XIV seculo. +<br /> + +<br /> + +No XIII seculo, a dalmatica não era ainda aberta +nos dois lados da orla inferior até quasi á +quarta +parte do seu comprimento. No XIV e XV seculos, +estas aberturas augmentaram até meia altura do +<span class="pagenum"><a name="p356">[356]</a></span> +vestuario; tendo então, do mesmo modo, toda a +parte inferior da dalmatica, bordados de faxas de +côr ou as superiores de recamo de ouro. +<br /> + +<br /> + +<em>Mitras</em>. As mitras com dois bicos, o uso das quaes +se tinha generalisado no XII seculo, foram definitivamente +adoptadas no XIII seculo, como um ornamento +episcopal e abbacial. Comparadas com as +mitras modernas, as primitivas eram muito baixas, +a sua altura variava entre 0,20 a 0,25 centimetros. +<br /> + +<br /> + +As differentes partes de que se compõem as mitras +são: 1.º as peças triangulares formando +pela +sua reunião o barrete; 2.º as duas fitas pendentes +da mitra mais largas nas extremidades inferiores, +ficando prezas por detraz da mitra. +<br /> + +<br /> + +Havia na idade média duas qualidades de mitras: +simples ou lisas, e com bordaduras recamadas +de oiro, designadas na latinidade da idade +media pelo nome <em>mitrae auriphry giatae</em>. Sobre +estas ultimas as bordaduras recamadas de oiro +dispunham-se por tres maneiras: 1.º verticalmente +ou, como dizem os livros lithurgicos, <em>en titre in +titulo</em>; 2.º horisontalmente ou <em>in circulo</em>; +3.º em +titulo e em circulo juntamente. +<br /> + +<br /> + +No meiado do XIV seculo, os bicos da mitra +são maiores. A maior parte das mitras da ultima +metade d'este seculo medem de 32 a 35 centimetros +de altura. Esta altura chega regularmente +a 40 centimetros no seguinte. N'esta ultima época +tambem as orlas dos bicos são algumas vezes guarnecidas +com bordaduras recamadas de oiro, ou +tendo uma especie de renda de prata dourada similhando-se +<span class="pagenum"><a name="p357">[357]</a></span> +a folhas de repolho ou de crochetes +vegetaes. +<br /> + +<br /> + +<h4>Abbadias e Mosteiros +</h4> + +<br /> + +<em>Observações preliminares</em>. As +partes principaes +de que se compõem as abbadias e os mosteiros +da idade media são a egreja, o claustro, o refeitorio, +a sala do capitulo, o dormitorio, o aposento para o +abbade e para os hospedes, o celleiro, o palheiro, a +prisão e as casas de arrecadações. +Estas differentes +partes ficavam geralmente da mesma maneira, +principalmente nos conventos que observavam a +mesma regra. +<br /> + +<br /> + +A egreja era sempre <em>orientada</em>, isto é, +ficando +a capella mór voltada para o Oriente. No lado meridional +da nave fica encostado o claustro, do qual +se entra para a egreja por duas portas collocadas +nas extremidades da galeria encostada á parede +lateral da egreja: uma junto do alpendre, outra na +proximidade do cruzeiro. A galeria opposta, que +fórma o lado meridional do claustro, dá entrada +para +o refeitorio. A sala do capitulo e o parlatorio occupam +o rez-do-chão ao longo da galeria oriental, +que se liga por uma extremidade com o cruzeiro; +no andar por cima está o dormitorio, o qual communica +com a egreja por uma escada conduzindo +do dormitorio ao transepte. As construcções do +occidente do claustro serviram primitivamente aos +irmãos conversos, os quaes eram em grande numero +nas grandes abbadias do XII e XIII seculos. +Porém, quando mais tarde se supprimiu esta +instituição, +<span class="pagenum">[358]</span> +e se limitaram os irmãos +conversos ao +numero estrictamente necessario para o serviço +dos religiosos, ellas foram destinadas para outros +usos. Muitas vezes serviram para aposentos +dos hospedes, e uma parte foi transformada em +celleiros e armazens. +<br /> + +<br /> + +As differentes Ordens religiosas distinguem-se +na escolha do local; quando pretendiam fundar +uma nova abbadia, cada uma dava preferencia aos +sitios de mais predilecção. Os Benedictinos +escolhiam +geralmente os sitios altos e as montanhas; +os Bernardos, pelo contrario, gostavam de se estabelecer +nos valles sobre as margens dos ribeiros, +como exprimem estes dois versos: +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry"><em>Bernardus valles, montes +Benedictus amabat,<br /> + +Oppida Franciscus, magnas Ignatius urbes.</em> +</div> + +<br /> + +A similhança que apresentam a maior parte das +abbadias cistercienses na disposição das suas +differentes +fórmas é bastante notavel; quasi todas, +quando o accidentado do terreno o permittia, reproduziam, +por assim dizer, servilmente o plano +das abbadias primitivas da Ordem de Cister; plano +typo adoptado para a construcção d'estas abbadias +na Europa occidental do XII e XIII seculos. +<br /> + +<br /> + +A egreja era muito vasta; a sua nave meridional +ficava encostada ao claustro, com as suas galerias +para passeiar; a Leste do claustro está a +casa do capitulo; o parlatorio era o grande recinto +onde se reuniam os monges; no andar sobre este +lado ficava o dormitorio e o refeitorio, e a cozinha +<span class="pagenum"><a name="p359">[359]</a></span> +do lado da galeria meridional do claustro. O rez-do-chão +era destinado para reuniões durante o +dia, e o andar superior para as de noite; como +se dizia na idade média, <em>domus conversorum</em>. +O +rio ou ribeiro passava por baixo do refeitorio ou +cozinha para levar o lixo de toda a qualidade. +Defronte dos aposentos dos irmãos conversos, havia +um grande pateo murado, no qual estava, na +direcção de sudoeste, a porta da entrada +principal +da abbadia. Temos em Portugal um famoso modelo +na antiga abbadia de Alcobaça. +<br /> + +<br /> + +As outras grandes ordens religiosas adoptaram +muitas vezes, para os seus mosteiros, disposições +analogas. +<br /> + +<br /> + +As ordens de S. Domingos e S. Francisco, fundadas +ambas no principio do XIII seculo, estabeleciam-se +regularmente nos grandes centros da povoação, +onde não achavam sempre espaço bastante +vasto para se poderem desenvolver á vontade e +dispôr as differentes partes dos seus mosteiros +seguindo dados uniformes. É por esta razão que, +em muitos casos, o plano dos seus conventos differe +sensivelmente da disposição tradicional observada +escrupulosamente pelos monges de Cister, +mesmo, porém, com mais liberdade pelos Benedictinos. +<br /> + +<br /> + +<em>Egrejas</em>. A planta das egrejas monasticas apresenta +geralmente, como a das cathedraes e das +collegiadas, a fórma de uma cruz Latina. Muitas +vezes a capella-mór não é muito +comprida. Foi +então no XIII seculo que na Europa occidental e +<span class="pagenum">[360]</span> +central se pozeram as cadeiras no côro para os +frades, não sómente na capella-mór, +mas tambem +no cruzeiro, e mesmo em uma parte da nave principal, +como existia na egreja de Alcobaça. +<br /> + +<br /> + +As egrejas dos frades Dominicanos e dos Franciscanos +não tinham ordinariamente nem cruzeiro +nem torre. No XIII seculo, os Dominicanos, construiram +em Paris, Augsbourg, Dresde e outras +muitas cidades, egrejas com esta disposição +excepcional, +ficando divididas por duas naves com um +unico renque de columnas. Encontra-se tambem +esta disposição, porém, raramente, nas +egrejas das +outras Ordens religiosas. +<br /> + +<br /> + +<em>Claustros</em>. Durante o periodo ogival, os claustros +eram geralmente construidos de abobada de +barrete com nervuras, e communicando com o +pateo do convento por arcadas ogivaes, vasadas e +separadas umas das outras por contrafortes. Nas +arcadas collocavam nos XIII, XIV e XV seculos, trabalhos +rendilhados em cantaria, similhantes aos +feitios que se viam nas janellas contemporaneas; e +de que temos exemplos nos edificios religiosos da +Batalha e de Belem. Muitas vezes esses caixilhos +de pedra não tinham vidros; todavia, principalmente +no Norte e Oeste da Europa, vedavam os tympanos +com vidros brancos ou de côres, a fim de +dar abrigo contra os rigores da temperatura a +quem passeasse pelas galerias do claustro. +<br /> + +<br /> + +Desde o XIV seculo algumas vezes, e bastantes +no XV seculo, substituiram nos claustros, as arcadas +ogivaes pelo feitio de janellas com pinasios de +<span class="pagenum">[361]</span> +pedra similhantes aos das arcaduras ornadas, que +se veem nos peitoris das janellas inferiores nas +egrejas do ultimo periodo ogival. +<br /> + +<br /> + +Fizemos notar, que as egrejas cathedraes e collegiaes +tinham antigamente um claustro, porque, do +mesmo modo que os frades, os conegos viviam a +principio em communidade. Este uso, que principiou +a não se seguir desde o XIII seculo, persistiu +não obstante +em muitas partes até ao fim do periodo ogival. +<br /> + +<br /> + +Quasi todos os claustros, grandes e pequenos, +construidos na idade média, possuiam um <em>lavabo</em>, +<em>lavadouro</em>, tendo uma pia com uma fonte. A fonte +occupava, no principio, o centro do pateo do convento. +Mais tarde approximaram-a da galeria do +refeitorio; ficando então collocada em frente da +entrada do refeitorio, ou em um dos angulos da +galeria ao longo d'elle. Os frades voltando do trabalho +da lavoura, lavavam ahi as mãos antes de +se pôrem á mesa ou ir ás rezas. +<br /> + +<br /> + +<em>Refeitorio</em>. O refeitorio estava geralmente situado +ao correr da galeria meridional do claustro. Como +já referimos, compunha-se d'uma vasta sala +traçada +sobre um plano rectangular, abobadada em +geral ou por vãos descançando sobre um fuste de +columnas. Por cima do claustro, havia muitas vezes +um andar pouco alto, servindo de celleiro para +abastecimento no inverno, com alimentos e fructas +passadas. +<br /> + +<br /> + +Nos conventos dos Cistercienses, o refeitorio era +sempre dividido em duas naves por um renque de +columnas, collocadas ao meio longitudinal; além +<span class="pagenum">[362]</span> +d'isto, ficava este renque perpendicular á galeria +proxima do claustro. No refeitorio dos frades de +S. Bento, e em geral, em todas as outras abbadias, +o grande eixo corria parallelo á galeria do +claustro, e o renque das columnas muitas vezes +não é representado. +<br /> + +<br /> + +Ao lado do grande refeitorio, quasi sempre a +oeste d'elle, ficava a cosinha, geralmente com +uma grande chaminé quadrada. +<br /> + +<br /> + +<em>Casa do Capitulo</em>. No rez-do-chão ao +correr da +galeria oriental do claustro era a casa do Capitulo, +a casa para as visitas e a sala dos frades. O +dormitorio occupava o andar d'este lado uma escada +conduzindo directamente do andar superior ao +cruzeiro do lado do sul, facilitava aos frades descerem +á egreja para os officios nocturnos sem se +expôrem ao ar exterior. +<br /> + +<br /> + +A casa do Capitulo, isto é, o logar onde os frades +se reuniam sob a presidencia do abbade, afim +de tratarem dos negocios espirituaes e temporaes +do mosteiro, era edificado sobre um plano quadrado +ou rectangular com um ou muitos renques de pilares +sustentando as abobadas e as suas nervuras, +dividindo-se em duas ou mais naves. Bancos de pedra +guarneciam as paredes em roda. Na Inglaterra +dá-se frequentemente ao plano das casas de capitulo +a fórma circular ou polygona; e n'este caso, +uma unica columna central sustenta a abobada e +as suas nervuras, como ha em Westminster e em +Lincoln. +<br /> + +<br /> + +<em>Parlatorio</em>. O parlatorio, <em>collocutorium</em>, +era uma +<span class="pagenum"><a name="p363">[363]</a></span> +pequena casa entre a do capitulo e a escada conduzindo +ao dormitorio. Ali os frades tinham licença +de conversarem em voz baixa, quando relações +indispensaveis da vida commum o exigissem. Em +todas as outras partes do mosteiro se devia guardar +o maior silencio. +<br /> + +<br /> + +Ao lado da escada proxima do parlatorio, havia +um corredor pelo qual se podia passar para o +grande claustro e annexos da abbadia perto do +côro da egreja. +<br /> + +<br /> + +<em>Casa e dormitório dos frades</em>. A casa +onde os +frades passavam o dia, que os <em>antigos</em> designavam +<em>domus fratrum</em> e que os inglezes designam ainda +sob o nome de <em>fratres</em>, isto é, logar +onde vivem +os frades, consistia n'um vasto espaço abobadado +e occupava sempre o rez-do-chão, na extremidade +Sul do lado Oriental do mosteiro. +<br /> + +<br /> + +No andar da casa de que acabamos de fallar, +encontrava-se o dormitorio commum dos frades, +pois a regra de S. Bento determinava que os frades +dormissem n'uma só casa, mas em camas separadas: +<em>Monachi singuli, per singula lecta dormiant; +si potest fieri, omnes in uno loco dormiant</em>. +<br /> + +<br /> + +O uso das cellas, que havia em alguns raros mosteiros +desde o XII seculo, não veiu a ser commum +senão na epocha do renascimento. +<br /> + +<br /> + +<em>Aposento dos irmãos leigos</em>. Todas as +grandes +abbadias benedictinas e cistercienses tinham, no +XII e no XIII seculos, um numero consideravel, +chegando a ter 300 a 400 leigos, designados +nos necrologios com o nome de <em>conversi</em> ou <em>fratres +<span class="pagenum">[364]</span> +ad succurrendum</em>. Estes irmãos, que +não entravam +nas ordens sagradas, mas faziam profissão +de religiosos, destinavam-se, sob a direcção dos +frades, aos trabalhos da agricultura e ao exercicio +de diversos officios. Habitavam o lado occidental +dos edificios monasticos, designados por esta razão +casa dos leigos, <em>domus conversorum</em>, e +prolongava-se +muitas vezes desde o portico da egreja +até muito álem do grande refeitorio. +<br /> + +<br /> + +Nos edificios cistercienses, a habitação dos +leigos +compunha-se regularmente, no rez-do-chão, +d'uma só e vasta casa abobadada, dividida em duas +naves por um renque de columnas; e no andar +por cima, de uma casa do mesmo tamanho da inferior, +coberta as mais das vezes por um telhado +tendo o madeiramento visivel na parte interna. +<br /> + +<br /> + +<em>Casa abbacial</em>. Originariamente o aposento do +padre abbade consistia n'uma simples cella. D'ahi +a pouco, todavia, o aposento do chefe do mosteiro +veiu a ser uma construcção importante; e viam-se +muito raramente, na idade média, os abbades contentarem-se +com o dormitorio commum ou uma +simples cella. A começar do XIV seculo, e principalmente +na epocha do renascimento, as casas +abbaciaes vieram a ser muitas vezes verdadeiros +palacios, constando d'uma capella particular, grandes +salas, pateos, cavallariças, jardins com +terraços, +etc. +<br /> + +<br /> + +<em>Aposentos para hospedes.</em> Todas as abbadias tinham +uma habitação reservada ou uma parte do +proprio edificio para hospedar as pessoas que visitavam +<span class="pagenum"><a name="p365">[365]</a></span> +os frades. No principio, esta habitação +estava +sempre a pouca distancia da porta principal +afim de evitar distracção para os frades do +convento: +como ha um bello exemplo no extincto +mosteiro de Alcobaça. +<br /> + +<br /> + +As abbadias, que foram em todos os tempos casas +de caridade, possuiam tambem suas esmolerias +destinadas a dar habitação e sustento aos pobres +e peregrinos. Eram situadas na visinhança +da entrada do convento. +<br /> + +<br /> + +<em>Celleiros.</em> Nos seculos XI e XII, as abbadias +applicaram-se +activamente ao surribamento dos terrenos +incultos; os trabalhos campestres eram de +certo modo, a sua occupação principal. Foram as +Ordens de Cister e de S. Bernardo que prestaram +assignalados serviços á agricultura. +<br /> + +<br /> + +As abbadias não faziam colheita sómente do +producto +das suas proprias explorações agricolas; +cobravam tambem o dizimo em muitos sitios e +recebiam em genero o pagamento dos rendeiros. +Precisavam portanto vastos celleiros e armazens +muito grandes para recolher, no tempo da ceifa, +os cereaes que recebiam por esses differentes titulos. +<br /> + +<br /> + +Nos conventos cistercienses o celleiro formava, +no principio do periodo ogival, um edificio muito +vasto, edificado sob um plano rectangular. Era algumas +vezes abobadado e dividia-se em duas naves +por um renque de columnas para maior solidez, +servindo o andar para os cereaes. Outras vezes +compunha-se de tres naves separadas por dois +<span class="pagenum">[366]</span> +renques de pilares ou prumos de madeira para +sustentar o madeiramento sem precisão de abobadas. +<br /> + +<br /> + +<em>Officinas</em>. Nos XII e XIII seculos havia em cada +abbadia, alguns leigos ajudados muitas vezes por +seculares exercendo os officios necessarios para a +conservação do edificio e para o +fabríco dos pannos, +couros e instrumentos aratorios. Empregavam +um certo numero de alveneos, ferreiros, carpinteiros, +fabricantes de pannos, tanoeiros, etc.; as +officinas estavam geralmente collocadas aos dois +lados do pateo situado entre a porta da entrada +principal do convento e a habitação dos leigos. +<br /> + +<br /> + +A maior parte das abbadias possuiam tambem +seu moinho e fabrica de cerveja. +<br /> + +<br /> + +O desenvolvimento extraordinario dos estabelecimentos +religiosos durante as suas culturas e +explorações ruraes motivou a +construcção de curraes +espaçosos. Encontravam-se tambem em todas +as abbadias pateos para aves. +<br /> + +<br /> + +Em propriedades importantes situadas a alguma +distancia da abbadia, estabeleciam-se muitas vezes +grandes herdades, sendo a sua exploração confiada +a alguns leigos sob a direcção d'um frade. +Compunham-se d'um corpo de casas situadas em +roda d'um pateo quadrado, as quaes tinham +communicação +só do lado d'elle. Além d'esta +habitação, +curraes, celleiro e outros edificios necessarios +para o serviço da exploração, havia +n'estas +herdades, uma capella onde os leigos assistiam aos +officios religiosos. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p367">[367]</a></span> +<em>Celleiros</em>. Dá-se o nome de celleiro aos +armazens +onde se conservam os mantimentos de todo o +genero. O frade encarregado de vigiar o abastecimento +tinha o nome de <em>celleiro</em>, <em>cellerarius</em> +e <em>collarius</em>, +mudado mais tarde, por algumas ordens religiosas, +no de <em>procurador</em>, <em>procurator</em>. +Este logar +passava por um dos mais importantes nas abbadias. +<br /> + +<br /> + +<em>Prisões</em>. Na idade média, as +abbadias, universidades +e algumas vezes os cabidos possuiam prisões +para encarcerar os membros da communidade +que se tivessem tornado criminosos de delictos +ou insubordinação para com os superiores. +<br /> + +<br /> + +Na qualidade de soberania, as abbadias, universidades +e cabidos gosavam, nos territorios que +lhe pertenciam, o poder superior de justiça, e +tinham prisões para encarcerar os seus subditos +seculares criminosos. As prisões das abbadias +ficavam a uma certa distancia dos edificios da +habitação +dos religiosos. +<br /> + +<br /> + +<em>Cartuchas</em>. As cartuchas, cuja origem vem dos +ultimos annos do XI seculo, apresentam +disposições +notavelmente differentes das cellas das abbadias. +As principaes differenças que se observam, +são: grandissimo comprimento dos claustros; numerosas +habitações inteiramente separadas, para +uso dos religiosos, as quaes se compunham sempre +de dois ou tres quartos e d'um pequeno jardim, +com uma porta dando entrada para a galeria +do claustro. +<br /> + +<br /> + +Quasí todas as cartuchas tinham dois claustros +unidos. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p368">[368]</a></span> +<em>Mosteiros para mulheres</em>. As +disposições das +differentes partes dos mosteiros para mulheres +apresentam a maior analogia com os das abbadias +para homens. Á roda do claustro ergue-se a +egreja, a casa do capitulo com dormitorio no andar +superior, o refeitorio e os outros aposentos. +As escolas exteriores, que havia ás vezes nos +conventos de homens, como por exemplo dos frades +Agostinhos, as casas para hospedes, peregrinos +e viajantes, faltavam nos conventos das mulheres, +porque toda a relação com o exterior lhe era +prohibida. +<br /> + +<br /> + +<em>Os conventos de recolhidas</em> consistiam em casas +particulares e communs, situadas em um recinto +inteiramente fechado, á roda de uma egreja isolada +de todos os lados. Sectarias de <em>Bégard</em>, +partidistas +de uma perfeição extrema que permittia todos os +excessos de devoção e que fôra adoptada +no III +seculo. As recolhidas tinham o nome de Beatas. +<br /> + +<br /> + +<em>Hospitaes</em>. Os hospitaes da idade média +differem +absolutamente dos hospitaes modernos. Os do XII +e do XIII seculos compunham-se sempre, de uma +extensa casa onde estavam as camas para os doentes, +de uma egreja ou capella contigua a esta +casa e communicando com ella, de um aposento +para os enfermeiros, e de algumas casas para serviço. +Por causa da hygiene ficavam geralmente +situados nas proximidades da porta da cidade ou +sobre a margem de um rio. +<br /> + +<br /> + +<h4><span class="pagenum"><a name="p369">[369]</a></span>Iconographia +do periodo ogival +</h4> + +<br /> + +<em>Observações preliminares</em>. As +representações iconographicas +tão variadas e tão abundantes de +symbolismo, que se encontram em grande numero +sobre os monumentos e alfaias religiosas das epochas +Roman e Ogival, eram geralmente projectadas +e imaginadas, não pelo obreiro ou artista que +executava o objecto, porém, por um padre, frade +ou secular litterato. +<br /> + +<br /> + +<em>A aureola</em>. A aureola ficou em uso como signal +iconographico durante todo o periodo ogival. <em>Crucifera</em> +pertence exclusivamente ás pessoas da Santissima +Trindade; simplesmente <em>circular</em> é +attributo +caracteristico dos Santos. A sua fórma manteve-se +geralmente a mesma que era antes, salvas +algumas modificações em certos paizes, mas apenas +no termo do periodo ogival. +<br /> + +<br /> + +No fim do XIV seculo, não sómente os Santos, +os Apostolos e Nossa Senhora, mas tambem os +anjos, assim como o Padre Eterno e Jesus Christo +ficaram privados d'este attributo caracteristico. +Se a aureola por acaso apparece ainda resplandecendo +alguma imagem, foi porque o artista, luctando +contra a moda, commetteu archaismo. Um +sem numero de monumentos que datam d'esta +epocha e chegaram até á nossa, apresentam <em>sem +aureola</em> as imagens divinas, as imagens divinas, angelicas ou +sanctificadas. +<br /> + +<br /> + +<h4><span class="pagenum"><a name="p370">[370]</a></span> +Representação da Santissima Trindade +</h4> + +<br /> + +Na epocha ogival, serviam-se ainda algumas +vezes do baptismo de Jesus Christo para representar +a Santissima Trindade. Como no periodo +Roman, dava-se ainda, durante o periodo ogival, +a fórma humana ás tres pessoas Divinas, ou pelo +menos ás duas primeiras, pois o Espirito Santo +continuou a ser frequentemente symbolisado por +uma pomba. As tres pessoas Divinas continúam a +ser representadas da mesma fórma até ao fim do +XIV seculo. Mais tarde o Padre Eterno teve a figura +de um ancião, o Filho de Deus a de um homem de +trinta a trinta e cinco annos, e o Espirito Santo a +de um adolescente de doze a dezoito annos. Ao +Padre Eterno dá-se então o distinctivo de um +globo, +uma Cruz de resurreição ao Filho, e um livro ao +Espirito Santo. Finalmente, ainda perto da mesma +epocha, representa-se o Padre Eterno, e mesmo +algumas vezes o seu Filho, de papa ou de imperador, +com a pretensão de expressar, por assim +dizer materialmente, o seu supremo poder, achando-os +revestidos das insignias das duas maiores +auctoridades conhecidas sobre a terra. +<br /> + +<br /> + +Encontram-se tambem, no fim do periodo ogival, +dois symbolos da Santissima Trindade, consistindo +em figuras geometricas, o triangulo e tres circulos +entrelaçados. Na epocha do renascimento, costumavam +muito a inscrever n'um triangulo algumas vezes +um olho, outras o nome de Jehovah. +<br /> + +<br /> + +<h4><span class="pagenum"><a name="p371">[371]</a></span> +O crucifixo e a crucificação</h4> + +<br /> + +No XIII seculo, epocha designada <em>do soffrimento</em>, +ou da <em>realidade</em>, principia-se a representar Jesus +Christo na Cruz. O corpo do Redemptor curva-se +ou mais depressa retorce-se de uma maneira bastante +desagradavel; os braços não ficam na sua +posição +horisontal, pois as espaduas descem sensivelmente +abaixo do ponto de união das mãos, de modo +a figurar os esforços naturaes produzidos por um +corpo humano suspenso por meio de cravos; os +pés sobrepostos afastam-se de pessima +posição, +muitas vezes mesmo fazem encruzar as pernas; +finalmente a cabeça de Christo, moribundo ou sem +vida, está quasi sempre inclinada sobre o hombro +direito, isto é, para o logar onde se vê a +Mãe de +Jesus e tambem algumas vezes a personificação +da Egreja. +<br /> + +<br /> + +Nas crucificações pintadas e esculpidas do XV e +XVI seculo, a cruz do Redemptor e as dos ladrões, +muitas vezes bastante altas e de diminuta grossura; +assim como a travessa horisontal da cruz do +Christo tem um grande comprimento, em quanto +que a extremidade que tem o titulo, sobe apenas +ao ponto de intersecção das duas travessas. +<br /> + +<br /> + +Desde os primeiros annos do XIII seculo, principiou-se +com timidez primeiramente a supprimir +o <em>suppedaneum</em> e a pregar á cruz, por +meio de +um unico cravo, os dois pés sobrepostos do Redemptor; +porém, depois de algum tempo, o empreg e a pregar +á cruz, por +meio de +um unico cravo, os dois pés sobrepostos do Redemptor; +porém, depois de algum tempo, o emprego +de tres cravos veiu a ser quasi tão commum +<span class="pagenum">[372]</span> +como o de quatro; e nos seculos XIV XV foi o unico +empregado. +<br /> + +<br /> + +O Christo crucificado traz ainda a aureola no XIII +seculo. A corôa de espinhos, quasí desconhecida +antes, apparece de tempos a tempos no XIV seculo. +No seculo seguinte encontra-se frequentemente. +<br /> + +<br /> + +No XIII seculo, a representação da +crucificação +foi ainda algumas vezes reproduzida com todas as +personagens e accessorios historicos e allegoricos +que acompanhavam precedentemente e que já temos +descripto; o mais das vezes, todavia, não se +conservam senão alguns. Os que se vêem geralmente +são Nossa Senhora e S. João, o sol e a lua. +Os dois ladrões, a egreja e a synagoga raro apparecem. +<br /> + +<br /> + +<em>Nossa Senhora e S. João</em>. Durante o +periodo +roman, Nossa Senhora e o discipulo mais amado +são representados com uma attitude de paz, erguendo +geralmente os braços para o Redemptor +ou occultam o rosto em signal de pezar. No XIII +seculo, e mesmo durante uma parte do XIV seculo, +conservam esta attitude estavel e digna. Mais tarde, +o gesto que se lhe attribue exprime já uma dôr +vulgar e natural. +<br /> + +<br /> + +No XV seculo, e algumas vezes já no XIV seculo, +os artistas christãos procuram produzir, na alma do +espectador, sentimentos de ternura e de compaixão. +<br /> + +<br /> + +Para este effeito representam Nossa Senhora +desmaiada nos braços das duas santas mulheres +que a amparam. Os exemplos d'este <em>deliquio</em>, +encontram-se +na Italia desde o XIII seculo. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p373">[373]</a></span> +<em>O Sol e a Lua</em>. Durante o periodo ogival, o Sol +é figurado geralmente por um disco radiante, e a +Lua por um simples quarto crescente. +<br /> + +<br /> + +<em>A Egreja e a Synagoga</em>. Como já +explicámos, +a Egreja e a Synagoga eram personificadas, durante +o periodo roman, por simples mulheres trazendo +os respectivos attributos. Depois do meiado do XII +seculo, essas mulheres representavam rainhas. A +que symbolisava a Egreja, sempre collocada á direita +de Jesus Christo, traz uma corôa, e levanta +a cabeça com uma expressão de orgulho; as mais +das vezes, tem n'uma das mãos o calix, e na outra +uma cruz de haste comprida ou um pequeno modelo +de uma egreja. +<br /> + +<br /> + +A Synagoga, pelo contrario, tem uma corôa que +lhe pende da cabeça e um estandarte cuja haste +se quebrou entre as suas mãos; deixando escapar +as taboas da Lei, e tendo os olhos vendados por +uma faxa ou por um dragão que se lhe enrosca á +roda da testa. +<br /> + +<br /> + +<em>Os dois ladrões</em>. Os ladrões +nas mais antigas crucificações, +apparecem de tempos a tempos durante +o periodo ogival; teem os musculos encolhidos até +a contorsão, e as mãos, não pregadas +sobre a cruz, +mas ligadas ás costas de maneira a deixar passar, +pelo centro, a travessa horisontal do instrumento +do seu supplicio. No fim do periodo ogival, encontram-se +de novo representados os ladrões, principalmente +nos retabulos de madeira de obra de talha +da escola hollandeza. +<br /> + +<br /> + +<em>Imagem de Nossa Senhora</em>. <em>Nossa Senhora +com +<span class="pagenum"><a name="p374">[374]</a></span> +o Menino Jesus</em>. Durante o periodo ogival, o <em>grupo +historico</em> de adoração dos reis magos, +que se vê +sobre alguns pequenos <em>diptycos</em> ou <em>triptycos</em>, +de +marfim, onde se vê, ao mesmo tempo, a +crucificação +e outras scenas tiradas da vida de Jesus +Christo. N'esta representação os reis magos +trazem +sempre na cabeça a coroa real.<br /> + +<br /> + +No XIII seculo, encontra-se ainda frequentemente +Nossa Senhora <em>assentada</em> em uma cadeira ou throno, +tendo sobre os joelhos o Menino Jesus, o qual deita +a benção com a mão direita e na +esquerda tem um +livro ou o globo terraqueo. +<br /> + +<br /> + +Já muitas vezes no XIII seculo, e mais tarde +quasi sempre, Nossa Senhora está de pé e com +o Menino Jesus no braço esquerdo. Durante a primeira +parte do periodo ogival, a sua posição +é mais +ou menos curvada. +<br /> + +<br /> + +Em quanto aos caracteres que apresentam as +imagens de Nossa Senhora assentada ou de pé +nos differentes monumentos do periodo ogival, pódem-se +resumir nos termos seguintes. Nunca o +grupo de Nossa Senhora com o Menino Jesus foi +mais ideal que no XIII seculo; mal se approxima +o XIV seculo, descuida a sua bella composição +poetica +para adoptar a realidade primeiramente e depois +descahir na vulgaridade até á rudeza. +<br /> + +<br /> + +No fim do XII e no principio do XIII seculo, póde-se +dizer que Nossa Senhora não apparece já com +o Menino Jesus: esta representação seria muito +vulgar e Nossa Senhora assemelhar-se-hia a qualquer +mãe que tivesse o seu filho ao collo; mas então +<span class="pagenum">[375]</span> +a Santa imagem o tem <em>junto de si</em>. +O Menino +Jesus traz o globo do mundo na mão esquerda e +deita a benção com a mão direita; +além d'isso está +completamente vestido, é já crescido, posto que +ainda menino; é o Deus-Homem, mais depressa +que Homem-Deus. No fim do XIII seculo, Nossa +Senhora principia a ser mais do que a guarda de +seu Filho como fazem todas as mães mortaes! Jesus +está ainda vestido, abençôa trazendo um +livro ou +um globo; porém o vestuario é menos largo e mais +curto, o livro menos volumoso, o globo mais pequeno. +<br /> + +<br /> + +<em>Scenas tiradas da vida de Nossa Senhora</em>. +Mencionaremos +as tres principaes: +<br /> + +<br /> + +A <em>Annunciação</em> é +quasi sempre representada da +mesma maneira. Nossa Senhora está de joelhos sobre +um genuflexorio no momento em que apparece +o Anjo. Entre a imagem e o Anjo está um vaso +com a flôr de liz aberta. Muitas vezes S. Gabriel +tem n'uma haste esta flôr ou um sceptro; por vezes +traz na mão uma bandeirola com a +inscripção: +<em>Ave Maria</em>. Um raio luminoso cae sobre a +cabeça +de Nossa Senhora, ou então, o Espirito Santo, sob +a fórma d'uma pomba, descança sobre a imagem +da Virgem Maria. +<br /> + +<br /> + +<em>A morte de Nossa Senhora</em> é quasi sempre +representada +da maneira seguinte: Nossa Senhora +está deitada sobre um leito rodeada pelo seu Divino +Filho e pelos apostolos. Jesus traz no braço +a alma de Nossa Senhora, representada por uma +creancinha. Os apostolos trazem muitas vezes um +livro com figura iconographica. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p376">[376]</a></span> +<em>A coroação de Nossa Senhora</em> +faz-se umas vezes +por Jesus só, outras por tres pessoas da Santissima +Trindade; outras ainda vê-se Nossa Senhora +com a corôa na cabeça, sentada sobre o mesmo +throno em que está o seu Divino Filho, o qual se +lhe abraça ao peito. +<br /> + +<br /> + +Deixariamos incompleta a historia iconographica +de Nossa Senhora, não mencionando aqui a <em>Arvore +de Jessé</em>, que se vê tantas vezes desde +o XII seculo. +Jessé adormecido serve de alguma maneira de raiz +ao tronco mysterioso, o qual sáe quer do seu peito, +quer de sua bocca, quer do seu cerebro. Os ramos +d'este tronco separando-se, trazem na extremidade +um dos antepassados do Redemptor; no +cimo, uma flôr desabrocha e serve de apoio a Nossa +Senhora, algumas vezes só, outras tendo nos +braços +o seu Divino Filho. As mais das vezes a arvore +de Jessé complica-se, entre cada ramo está +collocado +um propheta com um phylateria mostrando +a prophecia de que é auctor, e que se refere á +vínda de Jesus Christo. Olhando para a extremidade +d'esta arvore, mostra com o dedo onde deve +repousar o Espirito Santo. No Oriente, não se limitam +unicamente a intercalar os prophetas no +meio dos ramos, ajuntam-lhe o divino <em>Balaam</em>, +e os sabios da Grecia com as suas maximas. O XV +e XVI seculos produziram um grande numero de +arvores de Jessé. +<br /> + +<br /> + +<em>Os Apostolos e os Evangelistas</em>.―<em>Apostolos</em>. +Jesus +Christo escolheu doze apostolos á frente dos +quaes collocou S. Pedro. Depois da morte do Redemptor, +<span class="pagenum"><a name="p377">[377]</a></span> +o traidor Judas ficou substituido por S. +Mathias. Além d'estes doze apostolos, que constituem +a congregação apostolica assim chamada, +deu-se tambem o nome de apostolos a alguns outros +santos que haviam tomado uma parte activa +e vasta na fundação da Egreja christã. +Tal foi +S. Paulo, convertido milagrosamente no caminho +de Damasco, elle o grande promotor da conversão +dos pagãos e appellidado, por esta razão, o +apostolo dos gentios; taes foram ainda S. Barnabé, +S. Lucas e S. Marcos, unicos discipulos, os quaes +pelas suas prédicas, e, os dois ultimos tambem, +pelos Evangelhos que compozeram, poderosamente +contribuiram para a propagação da doutrina de +Christo. +<br /> + +<br /> + +Como S. Paulo figura quasi sempre entre os +apostolos quando se representam reunidos em +numero de onze, resulta que se supprime geralmente +um; as mais das vezes é S. Mathias, o +successor do traidor Judas, algumas vezes tambem +S. Judas ou qualquer outro apostolo. +<br /> + +<br /> + +Até ao XIII seculo, os apostolos, á +excepção de +S. Pedro e S. Paulo, não tinham nenhum attributo +caracteristico pelo qual se podessem distinguir uns +dos outros. Representavam-se todos de uma maneira +uniforme, com um livro ou um rolo de papel +na mão. Depois do XIII seculo, ficam geralmente +caracterisados pelos instrumentos presumidos do +seu martyrio; porém, como o genero do supplicio +que soffreram não é muito bem determinado para +todos, torna-se por vezes difficil designar com +<span class="pagenum">[378]</span> +certeza o nome de alguns d'elles: todavia o que +os caracterisa ordinariamente é o seguinte: +<br /> + +<br /> + +S. Pedro traz as chaves ou por vezes a Cruz +abatida, instrumento do seu supplicio; S. Paulo, +a espada com que lhe cortaram a cabeça; S. +João, o calix envenenado do qual saiu a morte +sob a fórma de um dragão; Santo André, +com a +Cruz em fórma de X, e que tem o seu nome; S. +Jeronymo, a espada, ou as mais vezes, o bordão e o +vestido de peregrino guarnecido de conchas; S. +Filippe, a cruz com haste comprida; S. Bartholomeu, +um grande cutello do qual se serviram para +o esfollar, e algumas vezes tambem uma cruz; +S. Matheus, um machado, uma espada ou uma +lança; S. Simão, uma serra; S. Judas, uma cruz +ou um livro; S. Thiago, um bordão; S. Thomaz, +uma grande pedra e por vezes ao mesmo tempo +uma lança; finalmente S. Marçal, uma picareta +ou um alfange. +<br /> + +<br /> + +<em>Evangelistas</em>. Os Evangelistas continuaram a ser +representados da mesma maneira que precedentemente, +quer seja com a fórma humana, quer seja +pelos symbolos dos quatro rios do Paraizo, quer +seja por quatro figuras aladas. +<br /> + +<br /> + +Já indicámos o logar respectivo que devem +sempre occupar os animaes symbolicos nos quatro +angulos de um quadrado ou nas extremidades +dos quatro braços da Cruz. Esta regra ficou em +vigor durante o periodo ogival. +<br /> + +<br /> + +<em>Scenas diversas</em>. Seria impossivel indicar, mesmo +resumidamente, todas as scenas representadas pelos +<span class="pagenum"><a name="p379">[379]</a></span> +pintores e esculptores christãos da idade +média. +Mencionaremos sómente as quatro principaes, e +que se veem mais vezes. +<br /> + +<br /> + +<em>O Dia de Juizo.</em> Esta scena encontra-se +principalmente: +1.º <em>no principio do periodo ogival</em>, +esculpida +nos tympanos dos portaes principaes das +abbadias, cathedraes, egrejas das parochias e +mesmo nas capellas; 2.º <em>no fim do mesmo periodo</em>, +pintada na nave principal das egrejas por cima do +arco triumphal. +<br /> + +<br /> + +Para dar uma ideia exacta da maneira como esta +scena é representada nas principaes cathedraes +francezas, faremos a descripção do Dia de Juizo, +que +se vê no portal central da Sé de Paris. Este +assumpto +é um dos mais bem compostos. A verga da +porta está inteiramente occupada por figuras representando +diversos misteres saindo dos seus +tumulos, despertadas por dois anjos, os quaes, de +cada lado, tangem trombeta. Todas estas personagens +estão vestidas; ahi está um papa, um rei, +guerreiros, mulheres e um preto. Na zona superior, +está ao centro um anjo que peza as almas; +dois demonios tentam fazer pender um dos pratos +para o seu lado. Á direita de Jesus Christo estão +os escolhidos, todos vestidos de compridas vestimentas +e coroados. Estes escolhidos são representados +sem barba, jovens e risonhos, olhando +para Jesus. Á esquerda o demonio empurra uma +multidão d'almas agrilhoadas vestidas com os fatos +do seu mister. As expressões d'estas figuras +são indicadas com superior talento: o terror, +<span class="pagenum">[380]</span> +o desespero assignalam-se nas suas feições. Na +parte superior está, ao centro Jesus Christo, representado +semi nu, que mostra as suas chagas; +dois anjos em pé, á direita e á +esquerda, têem +os instrumentos da Paixão; depois, estão de +joelhos, implorando o Redemptor, Nossa Senhora +e S. João. As curvaturas do portal do lado dos +condemnados estão occupadas, na parte inferior, +por vistas do inferno, e do lado dos escolhidos, +por anjos e patriarchas, entre os quaes se vê +Abrahão colhendo as almas no seu regaço; depois +os escolhidos em grupos. Esta esculptura tão notavel +é da era de 1210 a 1215, e estava inteiramente +pintada e dourada. Ha a mesma representação +nas cathedraes de Chartres, Amiens, Reims +e Bordeus. +<br /> + +<br /> + +O inferno é quasi sempre figurado por uma +bocca enorme de monstro lançando chammas, no +meio das quaes os démos, armados de grandissimos +harpeos, abysmam os condemnados. Por vezes +tambem é representado o inferno por uma grande +caldeira na qual os démos precipitam as almas +dos perversos; e, n'este caso, um demonio armado +de um folle activa o fogo da caldeira. +<br /> + +<br /> + +A scena <em>de se pezar as almas</em> faz geralmente +parte do Juizo final, e é quasi sempre representada +da mesma maneira. O archanjo S. Miguel segura +a balança: em um dos pratos está uma alma humana +figurada por uma creança nua; emquanto +ao outro, com o pezo que deve ter a alma do innocente, +afim de ser admittido no paraizo, Satanaz +<span class="pagenum">[381]</span> +procura que elle se incline para o seu lado. +Esta scena, cujo fim era evidentemente inculcar aos +ignorantes a ideia de dar conta a Deus depois da +nossa morte, está representada nas miniaturas dos +manuscriptos, e mesmo nas gravuras em madeira +que ornam alguns livros impressos no fim do XV +e no principio do XVI seculo. +<br /> + +<br /> + +<em>Missa designada de S. Gregorio</em>. Este assumpto +encontra-se muitas vezes nos paineis e nas miniaturas +do XV seculo. O Santo papa diz a missa, e +Jesus Christo apparece-lhe em vida, em pé sobre +o altar, e á roda estão os instrumentos da +Paixão. +Traz os estigmates nos pés e nas mãos, e +deixa saír do lado o sangue da chaga. +<br /> + +<br /> + +<em>Alma humana</em>. Quando os artistas da idade +média representam uma pessoa moribunda, indicam +sempre a alma do justo que acaba de saír +do corpo, por uma creancinha nua trazida nos +braços de Nosso Senhor. +<br /> + +<br /> + +<em>Sibyllas</em>. A representação +dos prophetas tem-se +ás vezes ajuntado ás sibyllas, que se reputa +haverem +predito o nascimento, a vida, a morte, e a +resurreição de Jesus Christo. No XIII seculo, +começou-se +a fazer figurar em alguns monumentos, +principalmente a sibylla do <em>Dies irae</em>. +<br /> + +<br /> + +As doze sibyllas são: 1.ª A Sibylla da Persia, +<em>percicae</em>, que tem na mão uma lanterna, +porque +ella annunciou a vinda do Messias; bastantes vezes +o sol brilha por cima da sua cabeça. 2.ª A de +Libya, +<em>libicae</em>, que tem um brandão acceso e +prediz +o Redemptor como a luz do mundo. 3.ª A de Delphos, +<span class="pagenum"><a name="p382">[382]</a></span> +<em>delphicae</em>, que tem na mão uma +corôa de espinhos, +porque prophetisou as mortificações de Jesus +Christo. 4.ª A do Mar Vermelho ou de Erythrea, +<em>erythracae</em>, uma das mais celebres, que havia +predito +a ruina de Troyes; era a prophetisa das vinganças +divinas; traz uma espada nua. 5.ª A de Cumas, +<em>cumana</em>, egualmente muito citada, tem um presepio, +porque annunciou o nascimento de Christo em +uma manjadoura. 6.ª A de Samos, <em>samia</em>, +traz uma +corôa de espinhos como a de Delphos, e um caniço, +porque prophetisou a Paixão. 7.ª A Cimmerianna, +<em>cimmeria</em>, prophetisou a +crucificação, e por +esta razão traz uma cruz da paixão. 8.ª +A de +Tivoli, +<em>tiburtina</em>, tem na mão uma vara, por +haver +annunciado a flagellação do Redemptor. +9.ª A de +Phrygia, <em>phrygia</em>, traz uma cruz de +resurreição, +no cimo da qual fluctuam tres bandeirolas encarnadas. +10.ª A de Hellesponto, <em>hellespontica</em>, +tem +por attributo uma rozeira florida, ou então uma +cruz, porque annunciou algumas circumstancias da +Paixão. 11.ª A Europa, <em>europaea</em>, +tem u, tem um alfange, +porque predisse a degolação dos innocentes. +12.ª +Finalmente, a Sibylla Agrippa tem a vara como a +de Tivoli. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p383">[383]</a></span> +<h3><a name="c6"></a>CAPITULO VI +</h3> + +<h3> +Periodo da Renascença +</h3> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<h4><em>NOÇÕES PRELIMINARES</em></h4> + +<br /> + +Não nos demoramos muito sobre as differentes +phases da arte na epoca da renascença, mais apropriadamente +moderna do que antiga; e que, por +conseguinte, não pertence ao dominio da archeologia. +<br /> + +<br /> + +Chama-se <em>renascença das artes e das lettras</em> +ao +retrocesso para a arte classica antiga e para as +litteraturas grega e latina. A renascença das artes +estendeu-se não sómente á +architectura, mas a +todas as artes de desenho. A reacção favoravel +para a architectura grega, romana ou classica, +produziu-se primeiramente na Italia, onde nunca +o estylo ogival tinha vigorado summamente, nem +dominado só com poder absoluto. +<br /> + +<br /> + +Proximo ao principio do XVI seculo, a architectura +néo-classica transpoz os Alpes, e passou +successivamente á França, Hespanha, Portugal, +Belgica, Allemanha e Inglaterra. Os paizes mais +afastados do renascimento, foram tambem os ultimos +a adoptarem os seus principios architectonicos. +<br /> + +<br /> + +Na França como na Belgica o progresso do novo +estylo foi rapido, tendo apparecido quasi ao mesmo +tempo. +<br /> + +<br /> + +O retrocesso tão rapido e tão universal para as +<span class="pagenum">[384]</span> +fórmas da arte classica, foi motivado em grande +parte por um desejo de novidade, e por uma +reacção +contra a architectura ogival. Nota-se, realmente, +que em architectura, mais que em qualquer outra +arte, o gosto é sempre movido para a variedade; +e é isto que explica como se póde dizer +com verdade, que a historia da architectura offerece +uma continuação de +transições sem repouso. +A esta causa principal vieram ajuntar-se muitissimas +causas secundarias, taes como a reacção +que se operou nos XV e XVI seculos, a protecção +aos estudos gregos e latinos, e a invenção da +imprensa, +que concorreu tão admiravelmente para a +diffusão das obras primas da litteratura e da arte +antiga, pelas quaes se tinham apaixonado. +<br /> + +<br /> + +Até ao meiado do XVIII seculo, a +renovação das +fórmas antigas fez-se exclusivamente conforme +os modelos antigos de Roma e de Italia, modelos +quasi todos não satisfazendo a respeito da conformidade +artistica. Foi sómente n'esta epocha que +se principiou a estudar os monumentos da melhor +epocha ainda conservados em Athenas e na Grecia. +<br /> + +<br /> + +Houve, entre o estylo ogival e o do renascimento, +um periodo de transição, durante o qual se notou +muitas vezes, no mesmo monumento, uma +mistura, uma fusão de fórmas particulares a cada +estylo. Portanto encontram-se edificios, os quaes, +entre os detalhes melhor caracterisados do estylo +ogival do XVI seculo, apresentam ornatos, taes +como medalhões, folhagens e arabescos, copiados +dos monumentos da Roma antiga. Outras vezes, +<span class="pagenum"><a name="p385">[385]</a></span> +janellas em ogiva são compostas de pinasios com +os perfis no gosto da renascença. Finalmente, ás +vezes as abobadas pendentes, os pinaculos e os +campanariosinhos estão cheios de ornatos imitados +dos edificios da antiguidade. +<br /> + +<br /> + +<h4>Caracteres da architectura da Renascença</h4> + +<br /> + +<em>Comêço</em>. A architectura da +renascença seguiu +os mesmos principios fundamentaes que a architectura +classica, isto é, as cinco ordens greco-romanas. +<br /> + +<br /> + +Os primeiros architectos da renascença inspiram-se +unicamente dos monumentos de Roma e da +Italia. Ora, n'um grande numero d'estes monumentos, +o <em>entablamento</em>, isto é, a parte +superior +da Ordem, composto do <em>friso</em>, da <em>architrava</em> +e da +<em>cornija</em>, membros que, nas Ordens Gregas, servem +sempre para ligar duas columnas proximas, tinha +sido supprimido e substituido por arcos, os quaes +vinham firmar-se nos capiteis d'essas columnas. +Quando procuram empregar materiaes de pequena +dimensão, a substituição do arco pelo +entablamento +é perfeitamente logica; porém esta não +é +a pratica seguida na epocha da <em>decadencia</em> romana, +de interpôr ao fecho inferior do arco e ao açafate +do capitel, um simulacro de entablamento da +Ordem, entablamento que ficava completamente +inutil, visto que o seu emprego está preenchido +pelo <em>arco</em>. Na época da +renascença, esta prática +pouco racional e pouco reflectida foi geralmente +<span class="pagenum">[386]</span> +adoptada, principalmente d'áquem dos Alpes. Além +de que, foram buscar aos mesmos edificios da decadencia +romana outros defeitos tambem notaveis +no que diz respeito ás cornijas: em primeiro logar, +quando muitas Ordens estão sobrepostas na +altura de um monumento, como acontece frequentemente +nas fachadas, põem-se <em>tantas cornijas</em> +quantas +são as <em>Ordens</em>; depois, coisa mais +singular +ainda, a Ordem collocada <em>no interior</em> de um +monumento +<em>conserva</em> a sua cornija, isto é, o <em>remate +do +edificio</em> destinado a ter <em>um telhado</em> e +um algeroz +para dar saída ás aguas da chuva! +<br /> + +<br /> + +A architectura do renascimento, todavia, não é +uma simples mescla, uma copia servil da architectura +greco-romana. Serve-se ella, na verdade, +das cinco Ordens, mas ajustou-as para outros usos +e para outros climas, aproveitando os progressos +obtidos pela arte de edificar durante o estylo ogival. +Os edificios que executou conforme os principios +de construcção d'este ultimo estylo, foram +enfeitados á maneira antiga, ornamentado superficialmente, +ou desfigurados, como em S. Paulo +de Londres, por paredes isoladas que encobrem a +configuração architectonica do monumento; +emquanto +na Belgica, nas egrejas do renascimento, o +systema do apparelho das abobadas ogivaes foi em +toda a parte conservado, porém dissimulado com +arte. As paredes exteriores das naves lateraes, +muito grossas, preenchem o fim dos contrafortes, +e muitas vezes esses arcos-butantes ficam revirados +(isto é, collocados de maneira que a sua curva +<span class="pagenum"><a name="p387">[387]</a></span> +convexa fica posta na direcção do telhado d'essas +naves), e apoiados nos arcos duplos d'elles. +<br /> + +<br /> + +<em>Decoração</em>. Sob o ponto de +vista da decoração +pintada e esculpida, muito mais que sob o ponto +de vista architectonico, o periodo da renascença, +no sentido mais lato, póde-se dividir em muitos +estylos, apresentando cada um caracteres distinctos. +Estas sub-divisões se applicam particularmente +ás producções da arte Franceza. +1.º o estylo +da renascença propriamente chamado, o qual comprehende +o XVI seculo e a primeira metade proximo +do XVII seculo; todavia sepára-se algumas +vezes d'esta época nos annos 1610 a 1642, para +lhe constituir o estylo Luiz XIII; 2.º o estylo +Luiz XIV (1643 a 1715); 3.º o estylo Luiz XV +(1715 a 1774); 4.º o estylo Luiz XVI (1774 a 1796); +5.º finalmente o estylo, designado do imperio (primeiros +annos do XIX seculo). +<br /> + +<br /> + +Na origem da <em>renascença</em>, os ornamentos +foram, +como na architectura imitados quasi servilmente +dos monumentos da antiguidade. As almofadas, +frizos, pilastras e um grande numero de outros +trabalhos architectonicos se revestiram, nos edificios +os mais sumptuosos, de assumptos de decoração +proveniente da arte greco-romana. As palmetas, +folhas de acantho e triglyphos tornaram a +apparecer em todo o logar. Viam-se tambem, genios +alados, figuras naturaes e phantasticas de toda +a especie enlaçadas nas grinaldas e em espiraes +formando desenhos os mais caprichosos. Estes +ultimos ornamentos, compostos principalmente conforme +<span class="pagenum">[388]</span> +os modelos antigos achados em Roma nas +<em>grutas</em> ou ruinas do palacio de Titus, tiveram no +principio o nome de <em>grotescos</em>, +denominação mais +propria do que a de <em>arabescos</em>, a qual lhe foi +dada +depois, porque os Arabes proscreviam severamente +da sua decoração qualquer +representação da natureza +animada. +<br /> + +<br /> + +O estylo da renascença não se conservou intacto +senão até o principio do XVI seculo. +<br /> + +<br /> + +Os ornamentos do estylo Luiz XIV consistem principalmente +em grandes espiraes, palmas muito +desenvolvidas, separadas ou envolvidas com os elementos +de ordem architectural, medalhões, trophéus, +etc. +<br /> + +<br /> + +O estylo Luiz XV, que prima antes de tudo pela +elegancia exaggerada nos pequenos detalhes, desce +á affectação na lindeza. A esculptura +decorativa +abunda nas espiraes com folhagens myrrhadas e +subtilmente contornadas; faz com frequencia uso +de conchas ou embrechado, misturando-as em todas +as suas composições. A linha recta cede o logar +á +linha curva, e sobretudo a symetria não é +observada. +No principio do XVIII seculo, o gosto se corrompeu +de novo; volta-se no traçado do plano e +nas fachadas dos edificios ás fórmas torcidas e +ás +linhas quebradas. Nos ornamentos dos maiores e +soberbos contornos, as plantas vistosas do estylo +Luiz XIV transformam-se em definhados filetes, torcendo-se +e entrelaçando-se uns nos outros da maneira +a mais singular, e acompanhados de abundantes +obras de conchas e de grande numero de +<span class="pagenum"><a name="p389">[389]</a></span> +cupidos; o que fez dar a este <em>estylo exquisito e +todo affectado</em> o appellido de estylo <em>embrechado</em> +e +estylo <em>Pompadour</em>. +<br /> + +<br /> + +A affectação e o grande exaggero que caracterisam +o estylo de Luiz XV motivaram cedo uma +reacção. No reinado de Luiz XVI voltaram a +empregar +menos entrelaçados e menos entalhaduras. +A descoberta de Herculanum e a publicação das +<em>Antiguidades de Athenas</em> contribuiram a levar o +entendimento +para o gosto mais serio, uma decoração +menos contrafeita; fizeram vigorar as fórmas +classicas da arte grega e romana, cujas +investigações +recentes vieram a descobrir os especimens +importantes e notaveis. +<br /> + +<br /> + +A época da revolução franceza e do +directorio +causou um extraordinario prejuizo á industria artistica. +Quando, no principio do actual seculo, um +novo estado politico ficou definitivamente constituido, +o seu novo soberano, vencedor na Italia e +no Egypto, cuidou em conservar junto de si as coisas +que lhe recordassem as suas victorias gloriosas. +<br /> + +<br /> + +No <em>estylo do imperio</em> viu-se apparecer os gryphos, +as sphinges, os feixes consulares, victorias +com palmas e corôas de carvalho. Pouco tempo +depois, esses assumptos foram quasi os unicos +empregados na decoração tanto de architectura, +como na mobilia. +<br /> + +<br /> + +<em>Plano das egrejas</em>. A maior parte das egrejas da +renascença têem a fórma da cruz Latina. +As capellas +que havia ao correr das naves lateraes e na +nave principal das egrejas ogivaes, ficaram supprimidas +<span class="pagenum">[390]</span> +em França, na Belgica e na Allemanha, +porém conservaram-se na Italia. A capella mór e o +cruzeiro terminavam geralmente por uma abside +semicircular ou polygonal, apresentando no interior +uma disposição de pilastras corinthias ou +compositas, +entre as quaes ha janellas e nichos. Arcadas +de volta inteira, descançando sobre columnas ou +pilares põem a nave principal em +communicação +com as naves lateraes. As portas, as janellas e todas +as aberturas estão tapadas na sua parte superior +por um arco de volta inteira. +<br /> + +<br /> + +Os <em>triforiuns</em> das egrejas ogivaes não +se construiram +na renascença. Primeiramente substituiu-os, +durante algum tempo, uma galeria em +sacada, tendo parapeito de cantaria vasado ou de +obra de ferro; todavia pouco depois esse logar +foi occupado por uma simples cornija com sacada +bastante solida para servir como galeria, podendo-se +andar á roda da nave principal, ficando na +altura das janellas superiores. +<br /> + +<br /> + +O monumento mais gigantesco e grandioso que +tem produzido a architectura do renascimento é, +sem duvida, a basilica de S. Pedro do Vaticano +em Roma, cuja construcção foi dirigida pelos mais +celebres architectos, Bramante, Raphael, os dois +S. Gallo, Peruzzi, Miguel Anjo, Vignola, Maderno +e finalmente Bernini, este artista de quem infelizmente +o seu mau gosto em bellas-artes veiu a +ser proverbial, sendo originado pela inveja dos +seus emulos, que pretendiam tirar a fama ao seu +superior talento: imaginando dar formas novas e as +<span class="pagenum"><a name="p391">[391]</a></span> +mais extravagantes ás suas composições +architectonicas +afim de supplantar os seus rivaes, morreu +<em>desesperado</em> por nada ter conseguido; posto que +fosse dotado de talento, o seu desmarcado amor proprio +veiu a causar-lhe o descredito do seu nome. +N'esta colossal construcção da Basilica de S. +Pedro +consumiu-se mais de seculo e meio. +<br /> + +<br /> + +<em>Fachadas das egrejas</em>. As fachadas +compõem-se +regularmente de duas, e algumas vezes de <em>tres +Ordens de columnas sobrepostas</em>. A ordem inferior +abrangendo ao mesmo tempo a nave principal e as +lateraes, é mais larga que a ordem superior; essa +corresponde á unica nave central, pois que o madeiramento +das naves lateraes não sóbe nunca até +o entablamento da primeira ordem. A ordem mais +superior sempre terminada por uma attica ou um +frontão triangular, tendo no vertice uma cruz ornatada +nos angulos, acrotéros com vasos, fogaréos +e tocheiros. Duas misulas deitadas de cada lado da +ordem superior, preenchem os espaços dos angulos +rectos produzidos pela superposição das duas +ordens tendo desigual largura. As columnas da fachada +estão geralmente embebidas um terço ou +metade do seu diametro. Um ou tres portaes, conforme +a importancia do edificio, dão ingresso nas +naves. +<br /> + +<br /> + +Os jesuitas, cuja Ordem se fundou no XVI seculo, +vindo a ser muito rica e poderosa no XVII seculo, +adoptaram em toda a parte esta composição para +as fachadas de suas egrejas; por isso dá-se o +nome do <em>estylo dos Jesuitas</em> á +architectura religiosa +<span class="pagenum"><a name="p392">[392]</a></span> +d'esta época. A maior parte das egrejas que estes +religiosos construiram distinguem-se pela abundancia +dos seus ornamentos, principalmente as edificadas +na Belgica. +<br /> + +<br /> + +<em>Abobadas</em>. As abobadas têem, como as da +época +antecedente, nervuras encruzadas, as quaes, em +logar da fórma da ogiva, descrevem uma curva de +volta inteira ou um arco de volta abatida. Os arcos +duplos são largos e muitas vezes formados por almofadas +pouco fundas. No XVI seculo, as abobadas +tinham ás vezes decorações pintadas, e +os seus fechos +sustentam abobadas pendentes com muitas sacadas +de bastante peso. Depois abandonou-se, além +dos Alpes, a decoração pintada, substituindo-lhe +os +ornatos em relevo. +<br /> + +<br /> + +<em>Torres</em>. As torres, geralmente construidas sobre +plano quadrado, e compostas de dois, tres ou quatro +andares sobrepostos e ornados de pilastras ou +de columnas embebidas, têem muitas d'ellas uma +balaustrada á bôca da flecha, com as +fórmas mais +variadas; campanulada, piriforme, pyramidal ou +uma fórma mais complicada ainda. +<br /> + +<br /> + +<h4>Mobilia religiosa</h4> + +<br /> + +<em>Altares</em>. Durante algum tempo continuou o uso +dos retabulos com divisões multiplices, no genero +d'aquelles dos ultimos annos do periodo ogival, porém +tendo as molduras das almofadas em detalhes +no gosto do renascimento. +<br /> + +<br /> + +Foi proximo do XVI seculo que uma mudança +radical appareceu na fórma e +disposição dos altares. +<span class="pagenum"><a name="p393">[393]</a></span> +Os retabulos foram então substituidos pelos +porticos copiados dos arcos de triumpho da antiguidade, +encimados com frontões de fórmas muito +variadas. Serviram-se quasi sempre de marmores +raros e preciosos, sobretudo para as columnas, +adquirindo-os com grande despeza, dos paizes os +mais distantes. A arcada imitando o <em>arco de triumpho</em> +foi ornada, no principio, de estatuas e de altos e +baixo-relevos, depois por retabulos de grandes dimensões; +e estes mesmos acabaram em pouco +tempo para serem substituidos geralmente por esculpturas. +<br /> + +<br /> + +Quando no XVII e no XVIII seculos, as fórmas +extravagantes (<em>rocôcó</em>) +prevaleceram no systema +da decoração, os altares tambem ficaram +sobrecarregados +de ornamentos de pessimo gosto, e appareceram +as columnas <em>torcidas</em>, em <em>espiral</em> +e em +<em>saca-rolhas</em>! +<br /> + +<br /> + +<em>Tabernaculos</em>. O uso de collocar tabernaculos +para conservar a eucharistia sobre os altares principaes +e secundarios, generalisou-se no fim do XVI +seculo. Até essa época as particulas se +conservaram, +como durante o periodo ogival, nos tabernaculos +isolados em fórma de torre ou em armarios +abertos na parede, por detraz ou á ilharga do altar. +Houve mesmo paizes onde o antigo costume +não ficou abandonado inteiramente só muito depois +do XVII seculo. +<br /> + +<br /> + +Os tabernaculos de marmore e de madeira que +se collocavam sobre o altar desde a época do renascimento, +compõem-se geralmente de um cylindro +<span class="pagenum"><a name="p394">[394]</a></span> +ôco ornado com riqueza e reunido a <em>predella</em> +ou throno, no qual se põem castiçaes sobre +misulas +reviradas. O cylindro fechado no seu cume por uma +tampa de fórma hemispherica tem por remate +um crucifixo, dividido por um, dois ou tres compartimentos +com separação, e girando sobre um +eixo vertical. +<br /> + +<br /> + +<em>Cadeiras do côro, obra de talha e confissionarios</em>. +As obras de entalhador que ornam muitas egrejas +do XVII seculo, são as principaes obras deixadas +pela época da renascença. +<br /> + +<br /> + +As costas das cadeiras do côro compõem-se sempre +de almofadas de marcenaria ornadas de baixos-relevos +ou de pinturas, separadas umas das +outras por columnasinhas da Ordem Corinthia ou +Composita, sustentadas em sacadas por misulas com +bella obra de talha. Os fustes d'essas columnasinhas, +rectos ou torcidos, estão cheios de lindos arabescos +e delicadas folhagens. A obra de talha e dos +confissionarios apresentam na sua decoração de +esculptura bastante similhança com as das cadeiras +do côro. +<br /> + +<br /> + +<em>Jubéos e balaustradas</em>. Os <em>jubéos</em> +da renascença +compõem-se geralmente de tres arcadas de volta +inteira, que descançam sobre columnas ou pilastras +imitadas das Ordens classicas. +<br /> + +<br /> + +Collocam-se os jubéos á entrada da capella +mór +nas grandes egrejas até proximo do meiado do +XVII seculo. +<br /> + +<br /> + +No meiado do XV seculo, uma grande reacção +se fez contra os jubéos, porque, dizia-se então, +<span class="pagenum"><a name="p395">[395]</a></span> +destruiam o aspecto architectonico e impediam os +fieis de vêr o sacerdote no altar. Muitos foram +desmanchados n'esta época, outros transportados +proximo da fachada Occidental da egreja, a fim +de servirem de tribunas para collocar os orgãos. +<br /> + +<br /> + +As <em>balaustradas</em> destinadas a vedar a capella +mór e a separar das naves lateraes as capellas, ou +resguardar certas partes da mobilia religiosa, foram +poucas vezes feitas de ferro ou de madeira, +faziam-se de preferencia de marmore ou latão. A +sua composição era de repetidas columnasinhas de +fórma classica, quer com balaustres em pé ou +<em>revirados</em>, +o que lhe fez dar o nome de <em>balaustrada</em>. +<br /> + +<br /> + +Muitas vezes assentavam extraordinarios monumentos +funerarios entre essas separações da capella +mór e as naves nas cathedraes e nas egrejas +importantes. +<br /> + +<br /> + +<em>Caixas de orgão</em>. Na época do +renascimento, +deu-se ás caixas dos orgãos as maiores +dimensões. +Collocaram-se, primeiramente, nas egrejas ogivaes, +do lado do Evangelho, na parte inferior do <em>triforium</em>, +no primeiro ou segundo vão da nave principal. +Depois, isto é, perto do meiado do XVI seculo, +foram assentes proximo do cruzeiro, á entrada +dos lados lateraes da capella mór. Finalmente, +quando as dimensões dos orgãos se foram +desenvolvendo desmedidamente, estabeleceram-se +tribunas especiaes na nave central, proximo da +frente Occidental da egreja. As mais antigas caixas +dos orgãos estão cobertas de obra de talha. +<br /> + +<br /> + +<em>Pulpitos</em>. Durante o periodo da +renascença, o +<span class="pagenum"><a name="p396">[396]</a></span> +pulpito teve dimensões muito maiores que precedentemente. +No XVI e XVII seculos foram construidos +geralmente de madeira; porém desde o meiado +do seculo seguinte, ajunta-se algumas vezes o marmore +á madeira. Os pulpitos das egrejas de primeira +ordem compõem-se muitas vezes de grupos +de estatuas acompanhadas de arvores, rochedos e +outros detalhes pittorescos representando factos da +historia sagrada ou ecclesiastica. +<br /> + +<br /> + +<em>Tumulos e campas</em>. No XVI seculo os cenotaphios +eram compostos ainda como durante o periodo +ogival, d'um sóco ou macisso de alvenaria, coberto +por uma grande lousa, sobre a qual se vê a estatua +do finado. Á roda do sóco acham-se por vezes +estatuasinhas debaixo de arcaduras de volta inteira +descançando sobre columnelos jonicos, corinthios e +compositos, outras vezes, as arcaduras e as estatuasinhas +estão substituidas por uma ordem de +brazões. A figura do finado vê-se umas vezes +deitada, +outras de joelhos sobre uma almofada ou genuflexorio. +Esta ultima attitude foi a mais commum +no fim do periodo: todavia no XVII seculo, os monumentos +sepulchraes veem a ter uma composição +muito mais complicada; os sarcophagos tiveram as +mais variadas fórmas, e as estatuas dos finados +foram acompanhadas de outras estatuas allegoricas, +como a morte tendo uma foice, figuras de anjos, +a Fé, Esperança, Caridade, etc.<br /> + +<br /> + +No XVII seculo, os mausoleus encontram-se muitas +vezes collocados por baixo de uma arcada muito +ornada no estylo do renascimento. Esta decoração +<span class="pagenum"><a name="p397">[397]</a></span> +architectonica applicada sobre as paredes de uma +capella ou das naves lateraes, da nave principal e +capella mór conservou-se nos <a href="#e9">XVII +e XVIII seculos</a>, +mas disposta com acerto, com as modificações +introduzidas +successivamente na architectura. Na segunda +metade do XVII seculo, e muito mais frequentemente +no seculo seguinte, rematavam os tumulos +com pyramides e obeliscos em meio relevo, +ornados de bustos, em medalhão, do finado. Os cyprestes, +as columnas quebradas, as urnas funereas, +genios com fachos derribados, todas as reminiscencias +pagãs vieram a ser tambem uma +decoração +mais seguida n'esta ultima época. +<br /> + +<br /> + +O uso das <em>campas</em> continuou durante o +periodo do renascimento, e o seu numero augmentou muito relativamente +á época precedente. No XVI e no +XVII seculos eram postas no pavimento das egrejas e dos claustros; +tambem ás vezes se assentavam na grossura da parede, junto +do logar em que fôra sepultado o finado. As mais antigas, +especialmente as da segunda classe, estão cobertas em parte +por figuras em alto e baixo relevo, em parte com +inscripções. Mais tarde limitaram-se a uma +simples inscripção acompanhada de um symbolo ou +de um brazão.<br /> + +<br /> + +A maior parte das campas são de calcareo azul ou de marmore +preto, e muitas vezes têem as +inscripções embutidas com marmore branco. +Acham-se tambem algumas lousas funerarias de latão, cujos +traços gravados estão cheios de um esmalte +encarnado ou preto, posto a frio. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p398">[398]</a></span> +Desde o começo do XVII seculo, as +inscripções funereas principiam frequentemente +pela fórma pagã D (<em>eo</em>) O +(<em>ptimo</em>) M +(<em>aximo</em>), ou com as letras P. M. interpretadas PIAE +MEMORIAE, mas isso tem o inconveniente de fazer directamente +allusão ao P (<em>iis</em>) M +(<em>anibus</em>) dos antigos romanos.<br /> + +<br /> + +<em>Pias baptismaes.</em> As pias baptismaes +apresentam pouca importancia; a iconographia tão esplendida +e tão abundante de symbolismo que se notava sobre as pias +romãs, e algumas vezes ainda sobre as do periodo ogival, +desapparece de todo. Ellas foram então formadas de simples +pias de marmore, circulares ou polygonaes, tendo a fórma de +uma semi-esphera ôca e achatada, ás vezes ornadas +com molduras de fórma de perolas e assentes sobre um +pedunculo com molduras. As tampas são de latão ou +de madeira.<br /> + +<br /> + +<em>Obras de ourivesaria e de +esmaltador</em>. Durante o periodo da renascença, os +ourives serviram-se princípalmente do trabalho de estampar +em relevo, da cinzelura e da gravura para ornar os objectos de +ourivesaria. Os esmaltes de côres, cujo uso havia sido +introduzido no fim do XV seculo, concorreram egualmente ás +officinas de Limoges, Augsbourg e de Nuremberg. Os <em>Limousinos</em> +cobriam quasi sempre com pintura esmaltada as peças +metallicas, grandes e pequenas, transformando-as assim em paineis ou +medalhões: os +<em>Allemães</em> empregaram os esmaltes, +não sómente como faziam os Limousinos, para +pintar pequenos modilhões, muitas vezes camafeus +côr de rosa, e os applicavam sobre os pés +<span class="pagenum"><a name="p399">[399]</a></span> +dos calices, das custodias e +sobre outros logares das suas obras, mas serviam-se tambem para fazer +realçar, pelo emprego do colorido superficial, certos +detalhes das suas peças de ourivesaria, por exemplo, as +figuras, folhagens, flôres e grinaldas.<br /> + +<br /> + +O gosto pelos assumptos mythologicos, que dominava nas artes como na +litteratura, exerceu a sua influencia na ourivesaria religiosa. Os +deuses, os semi-deuses e os monstros da antiguidade pagã +foram resuscitados. Ainda mais, apparecendo nos assumptos da historia +da Biblia ou das legendas dos Santos, os artistas curavam muitas vezes +na +reproducção dos heroes do paganismo: +representavam o Padre Eterno com as feições de +Jupiter antigo; suppunham exaltar Nossa Senhora assemelhando-a +ás deusas mythologicas; os anjos vieram a ser genios +nús, e as tres Graças serviram para +personificarem as virtudes theologaes. Entre os arabescos via-se +reproduzir os Centauros, Pans, Sylvanos, Tritões, Nereidas; +representações onde a natureza humana e a +natureza animal se reunem da maneira a mais singular. Os objectos do +culto revestem-se com todas as excentricidades, e teem muitas vezes +dimensões fóra de toda a +proporção.<br /> + +<br /> + +<em>Calices</em>. Os ourives do XVI seculo +abandonam pouco a pouco as tradições da edade +média, e, posto que a fórma antiga da +taça se conserve +ainda algum tempo mais ou menos primitiva, o calix vem a ser cada vez +maior. A principiar do meiado do XVII seculo, os artistas deixam-se +levar pela sua imaginação, esquecendo +completamente as boas +<span class="pagenum"><a name="p400">[400]</a></span> +tradições dos tempos anteriores. O calix chega, e +mesmo vae além muitas vezes, á altura desmedida +de 35 centimetros; a taça estreita-se muitas vezes de +maneira que na communhão o padre é obrigado a +curvar a cabeça para traz; o nó não +se distingue já da hastea, e o diametro do pé do +calix diminue a tal ponto que ao menor choque o calix está +arriscado a cair.<br /> + +<br /> + +A patena é uma simples chapa redonda, não tendo +nenhuma cavidade.<br /> + +<br /> + +<em>Pyxide</em>. As pyxides distinguem-se das +que havia nas épocas precedentes pelas suas muito grandes +taças; sendo raramente ornadas de lavor representando +assumptos religiosos. A começar do XVII seculo, a sua tampa +não fica ligada á taça por +um gonzo.<br /> + +<br /> + +<em>Custodia</em>. As custodias de +fórma radiante, foram, póde-se dizer, as unicas +conhecidas da época do renascimento; teem geralmente as +dimensões muito exaggeradas. As custodias com cylindro de +crystal apparecem apenas no XVI seculo. Muitas vezes mesmo mudaram mais +tarde estes ultimos, substituindo o cylindro de crystal por um sol +radiante. Nas custodias ricas, o oculo com sol radiante é +algumas vezes ornado de grupos, scenas em alto relevo e estatuasinhas, +que não convém, por fórma alguma, +junto ao Santissimo Sacramento. Essas extravagancias notam-se mais +vezes ainda nas custodias modernas.<br /> + +<br /> + +<em>Relicarios</em>. Os grandes relicarios do +renascimento eram as mais das vezes de madeira pintada +<span class="pagenum"><a name="p401">[401]</a></span> +e dourada. Faziam-se ainda algumas +vezes os relicarios de madeira, apresentando a +imitação de egrejas contemporaneas, com columnas, +entablamento, frontão, etc. Muitas vezes tambem serviam-se +de bustos de Santos de madeira pintada e dourada, que se collocavam +sobre uma base ornada com molduras com ovanos. Encaixilhavam-se as +reliquias no meio da face anterior d'essa base, mettendo-as debaixo de +vidro, ou em um pequeno. relicario de metal.<br /> + +<br /> + +<em>Estofos preciosos</em>. <em>Tecidos</em>. +No XVI +seculo, os estofos de que se serviam para as vestimentas, os mais ricos +eram tecidos com oiro ou prata, brocado e velludos de Genova e de +Utrecht.<br /> + +<br /> + +<em>O estofo com oiro ou prata</em> +é um tecido feito com fios cobertos de qualquer d'estes +metaes. Quando os desenhos são tecidos servindo-se dos +mesmos fios ou fios de seda, designam-se +<em>brocado</em>. Finalmente, se em logar de fios de seda +se servem de velludo, chama-se <em>velludo de +Genova</em>.<br /> + +<br /> + +Antes do XVII seculo não se conhecia o +<em>velludo lavrado</em>: da sua superficie tiravam-se +servindo-se da thesoura, certas partes do pello para formar desenhos de +flôres e grinaldas. Mais tarde conseguiram obter um resultado +analogo comprimindo os velludos com uma poderosa machina movida a +braços ou pela agua; foi este o processo que forneceu, +durante muitos seculos, o <em>velludo +batido</em>. O <em>velludo</em> dito de +<em>Utrecht</em> tem geralmente o pello mais comprido que +as outras qualidades de velludos, e distingue-se por uma consistencia +mais forte. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p402">[402]</a></span> +<em>Bordados</em>. Os +<em>bordados</em> da época do +renascimento podem-se dividir em duas grandes classes. A primeira +comprehende os estofos bordados, tendo conservado a sua flexibilidade, +e consistindo o seu apreço na +disposição artistica +dos fios de oiro, prata, seda ou lã de differentes +côres, +empregadas pelo bordador. Os bordados de segunda classe apresentam em +estofo um aspecto esculptural, devidos aos effeitos das grinaldas, +flôres, fructos e figuras com as quaes estão +ornados; podia-se suppôr que o bordador, esquecendo o seu +proprio officio, foi pedir auxilio a uma arte estranha, que +não é nem póde ser a que lhe +pertence! Inutil seria accrescentar, suppomos, que a logica pedia que o +bordador empregasse os processos de execução dos +quaes legitimamente elle +dispõe pela natureza mesmo do seu officio, +áquelle que empregou da arte da esculptura, arte da qual os +effeitos nos parecem incompativeis com os do bordado inconvenientemente +produzido.<br /> + +<br /> + +<em>Pannos de raz</em>. Os pannos de raz +continuaram em uso, e obtiveram mesmo maior +acceitação +durante o periodo do renascimento. Nunca os teáres de alta e +baixa trama foram nem mais numerosos, nem tiveram maior uso que no XVI +seculo. O centro de fabrico de mais importancia n'esta época +foi Bruxellas, cujos productos alcançaram primazia +não sómente pela habilidade dos operarios, mas +tambem pelos cuidados constantes que se empregavam na +preparação e applicação +do tabalho das materias de que se serviam na sua +execução. +<span class="pagenum"><a name="p403">[403]</a></span> +O magistrado communal da cidade +não desprezava nenhum meio para conservar a merecida +reputação das officinas de Bruxellas, que +contribuiam com uma tão grande parte para a prosperidade +nacional. Finalmente, para conseguir pannos de raz perfeitos, elle +prohibiu, por um edital, de 24 de abril de 1425, que se pintassem ou +retocassem com pincel as encarnações dos tecidos +de uma +certa dimensão; pelo mesmo edital promettia, além +d'isso, aos fabricantes a propriedade artistica de seus grandes modelos +de desenhos, estabelecendo punições muito severas +contra os falsificadores. +Tres annos depois, isto é, em maio de 1528, promulgou um +outro edital mais notavel ainda, ordenando que toda a peça +fabricada na cidade e medindo mais de seis varas devia trazer d'alli em +diante na ourela inferior: de um lado uma das tres marcas dos +fabricantes, Bruxellas, Antuerpia e Tournay, e do outro um pequeno +escudo entre dois BB, iniciaes da palavra Bruxellas.<br /> + +<br /> + +Em 1544, a obrigação de ter a marca foi extensiva +pelo governo a todas as cidades dos Paizes-Baixos.<br /> + +<br /> + +Na marca de Bruxellas algumas vezes o B está voltado, +ficando os dois anneis do B virados para o escudo. A marca de Antuerpia +é formada por uma mão acompanhada de uma flor de +liz; a de Tournay mostra uma torre.<br /> + +<br /> + +Durante o periodo ogival os pannos de raz reproduziram assumptos +religiosos e, algumas vezes tambem, figuras allegoricas ou contos de +cavallaria. +<span class="pagenum">[404]</span> +Á +proporção do adiantamento no +XVI seculo, os assumptos religiosos tornam-se mais raros; ficando +preferidas as representações que se referissem +á mythologia pagã ou á historia antiga +da Grecia e dos Romanos.<br /> + +<br /> + +A fabricação dos pannos de raz de Bruxellas +declinou sensivelmente durante a ultima metade do seculo XVI, por causa +das perturbações religiosas +que assolaram a Belgica.<br /> + +<br /> + +A Antuerpia era mais um deposito commercial que um centro de +producção. Desde o XV seculo, os commerciantes +expediam os pannos de raz para toda parte; tomando no XVI seculo este +commercio uma extensão maior.<br /> + +<br /> + +No principio do XVII seculo, a concorrencia de muitos paizes +estrangeiros estabeleceu manufacturas officiaes, fazendo declinar a +industria da Belgica. Todavia os novos estabelecimentos foram fundados +com o concurso dos mestres e operarios vindos de Bruxellas.<br /> + +<br /> + +Durante a segunda metade do XVII seculo o fabrico dos pannos de raz +bruxellezes principiaram a affrouxar, tanto pela sua qualidade, pois +não empregavam as boas tradições +artisticas, como principalmente +pela fundação, em França, da +manufactura real dos Gobelins, estabelecida em 1662 por Luiz XIV. A +direcção d'este estabelecimento foi +entregue ao pintor O'Brun, que tinha um pessoal numeroso, á +frente do qual estava, entre outros, officiaes, João Jans, +habil tapeceiro, oriundo de Oudenarde, que foi residir para Paris, +depois +<span class="pagenum">[405]</span> +de 1650, com grande +numero de operarios flamengos. A concorrencia da fabrica dos Gobelins +causou a ruina das officinas de Bruxellas.<br /> + +<br /> + +A cidade de Oudenarde, que já tinha officinas de +tapeçaria no seculo XV, produziu nos seculos XVII e XVIII +tapeçarias de um genero especial, designado sob o nome de <em>Verduras</em>. +Representavam, não assumptos historicos, mas paisagens +animadas por algumas pequenas figuras de homens e animaes, assim como +vistas de castellos ao longe. O seu nome deriva da circumstancia dos +tons de verde-carregado que predominam geralmente n'estas +composições. A industria da tapeçaria +acabou em Oudenarde em 1772.<br /> + +<br /> + +No XVIII seculo, a illusão da manufactura dos Gobelins foi +tão grande na Allemanha, que a palavra Gobelin veiu a ser +synonimo de tapeçaria de alta e baixa lissa, e tem +conservado até hoje esta significação. +<br /> + +<br /> + +<h4>Iconographia</h4> + +<br /> + +Uma revolução se effectuou na época do +renascimento, na representação da natureza +humana. +Até ao XV seculo, a nudez das figuras não era +admittida, não sómente na architectura religiosa, +como na architectura civil. Dissimulavam-se mesmo de proposito as +fórmas dos corpos debaixo da roupagem do vestuario, com +receio de despertar as paixões sensuaes; os esculptores do +renascimento <em>fizeram tudo ao contrario</em>: tomaram a +taxa de executar sem disfarce a natureza, e dar ao seio, aos +<span class="pagenum">[406]</span> +hombros, ao corpo um desenvolvimento de +fórmas que na edade média se tinha dissimulado +debaixo da roupagem. O retrocesso do genio para os estudos classicos +levou, por um mesmo estimulo, os artistas ao estudo da anatomia do +corpo humano: vieram a ser pagãos sem comtudo deixarem de +ser christãos, e principiaram a representar, até +no sanctuario das egrejas, a imagem núa da mulher, faunos, +etc., nas attitudes as mais lascivas: foi esta a propensão +da arte desde o XVI seculo. A começar +d'esse momento, foi a sensualidade e a nudez que dominaram na maior +parte das pinturas e esculpturas mesmo as religiosas. Muitas vezes nas +egrejas, os assumptos legendarios ficam substituidos por scenas tiradas +da mythologia. Estas mesmas com figuras núas se +vêem sobre os vasos sagrados. Os anjos, que abundam nos +edificios religiosos, são genios, cupidos com azas, +dispostos para entrarem no banho.<br /> + +<br /> + +Entre as representações proprias do periodo do +renascimento, mencionaremos uma unica: <em>A +deposição de Jesus Christo no tumulo</em>, +que se representa em grande numero de egrejas com figuras de grandeza +natural. Além do corpo inanimado de Christo, +vêem-se mais sete personagens. Nicodémos e +José de Arimathéa pegando nas extremidades da +mortalha sobre a qual descança o corpo do Redemptor; Nossa +Senhora, o apostolo S. João e as tres Marias, Maria +Magdalena, Maria Cleóphas e Maria Salomé, +estão em fileira, entre as duas primeiras por detraz de +Christo. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[407]</span> +Concluiremos estas considerações pelas palavras +de um douto archeologo que estygmatisa o sensualismo:<br /> + +<br /> + +Podemos todavia ponderar que o estylo da architectura da +Renascença, querendo adoptar as formas da architectura +classica, não produziu progresso nenhum na arte +architectural, pelo contrario a fez <em>retrogradar</em>; +se os artistas +antigos tivessem conhecido essas ousadias engenhosas dos periodos em +que a architectura apresentou as suas novas idéas +artisticas, não teriam espontaneamente +renunciado ao grande numero de fórmas que a +Renascença se lembrou de avivar; em uma palavra, +não se teriam adoptado modos differentes antigos, que +não significavam ser o resultado de symptoma de progresso, +sendo pelo contrario uma retroacção +da arte, pois não tinham progredido nas bellezas essenciaes +no estylo antigo, tendo apenas alterado ao mesmo tempo a +perfeição mechanica e a belleza racional da arte +classica.<br /> + +<br /> + +<h4>FIM</h4> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2><a name="c7"></a>Nomes dos Rev.<sup>os</sup> +Parochos</h2> + +<h3><em>QUE FORAM ASSIGNANTES D'ESTA PUBLICAÇAO</em></h3> + +<br /> + +<br /> + +Alexandre de Faria e Silva―Beneficiado da Sé +d'Evora―Correio do Collegio.<br /> + +<br /> + +Alexandre Ramos Cid―Santa Maria da Feira―Beja.<br /> + +<br /> + +Alfredo Elviro dos Santos―Secretario do Patriarchado―Lisboa.<br /> + +<br /> + +Antonio d'Almeida Estrella―Rua do Bomjardim, 187―Porto.<br /> + +<br /> + +Antonio Ferreira da Gama―Alfarellos―Alfarellos.<br /> + +<br /> + +Antonio Luiz Pinto de Carvalho―Cartaxo―Cartaxo.<br /> + +<br /> + +Antonio Luiz Thiago Mesquita―S. Miguel―Villa Franca do Campo.<br /> + +<br /> + +Antonio Narcizo Pereira―Rua da Borragem―Almada.<br /> + +<br /> + +Antonio Roza de Carvalho―Nossa Senhora da +Conceição―Torres Novas (Alqueidão do +Sena).<br /> + +<br /> + +Antonio dos Santos Figueiredo―Seminario de Portalegre.<br /> + +<br /> + +Antonio dos Santos Silva―Santa Catharina da Fonte do Bispo―Tavira.<br /> + +<br /> + +Caetano Xavier d'Almeida da Camara Manuel―Evora.<br /> + +<br /> + +Caetano Honorio da Graça e Sousa―Seminario de Portalegre.<br /> + +<br /> + +Domingos José Alves Almeida―S. João +Baptista―Vieira (Mosteiros). +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p410">[410]</a></span> +Eugenio de Freitas Cavalleiro de Sousa―Rua da Bella Vista, +á Lapa, 7, 2.º―Lisboa.<br /> + +<br /> + +Faustino Antonio de Moraes―S. Saturnino―Fanhões.<br /> + +<br /> + +Francisco da Conceição Costa―S. Pedro―Elvas.<br /> + +<br /> + +Francisco Ferreira Flôres―Nossa Senhora da +Visitação―Ourem.<br /> + +<br /> + +Francisco José Monteiro―Nossa Senhora da +Encarnação―Mirandella.<br /> + +<br /> + +Francisco Lourenço Cardoso―Nossa Senhora da +Assumpção―Caminha.<br /> + +<br /> + +Francisco Maria de Vasconcellos―Nossa Senhora do Milagre―Leiria +(Vieira).<br /> + +<br /> + +João Baptista de Mendoça―Nossa Senhora da +Graça―Olhão (Moncarapacho).<br /> + +<br /> + +João David d'Azevedo Barros―Rua do Bonjardim, 158―Porto.<br /> + +<br /> + +João José de Mattos Ferreira―Santa Maria e S. +Miguel―Cintra.<br /> + +<br /> + +João Maria de Mendoça Vasques―Nossa Senhora da +Conceição―Silves (Alcantarilha).<br /> + +<br /> + +João Nepomuceno da Costa―S. Pedro de Penaferrim―Cintra.<br /> + +<br /> + +Joaquim Antonio dos Reis―S. Domingos de Bemfica.<br /> + +<br /> + +Joaquim Antonio Teixeira―Algarve―Loulé.<br /> + +<br /> + +Joaquim Bernardo das Dôres―Cacella―Villa Real de Santo +Antonio.<br /> + +<br /> + +Joaquim José d'Ánova―Povoa de <a href="#e10">Varzim</a>―Povoa +de Varzim.<br /> + +<br /> + +Joaquim Maria Duarte Dias.<br /> + +<br /> + +Joaquim Martins de Carvalho―Coimbra.<br /> + +<br /> + +Joaquim Pereira de Moraes (Abb.)―Santa Maria―Taboaço +(Sendim).<br /> + +<br /> + +Joaquim Rodrigues Barroso―Nossa Senhora dos Prazeres―Vizeu +(Abravezes). +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p411">[411]</a></span> +Joaquim dos Santos Sequeira―Seminario de Portalegre.<br /> + +<br /> + +José Alves de Mattos (Dr.)―Reitor do Seminario de Santarem. +<br /> + +<br /> + +José Baptista Pereira―Senhor Jesus―Obidos Sanguinhal.<br /> + +<br /> + +José Bernardo dos Santos―Borba.<br /> + +<br /> + +José David d'Azevedo Barros.<br /> + +<br /> + +José Diogo Ribeiro―Vimieiro―Correio de +Alcobaça.<br /> + +<br /> + +José Farinha Martins―Seminario de Portalegre.<br /> + +<br /> + +José da Luz Capella―S. Miguel do Pinheiro―Mertola.<br /> + +<br /> + +José Maria Tavares Portugal―Nossa Senhora +d'Assumpção―Vianna do Castello +(Gaveão).<br /> + +<br /> + +José Ribeiro da Silva―Seminario de Portalegre.<br /> + +<br /> + +José Victorino de Carvalho―Reitor de Marcello―Santa Cruz +de Villa Aleã.<br /> + +<br /> + +Luiz José Nunes (Abb.)―S. Miguel―Bouças +(Leça da Palmeira).<br /> + +<br /> + +Manuel Branco de Lemos―Salvador―Ilhalvo.<br /> + +<br /> + +Manuel Francisco dos Santos Peixoto―Val de S. +Sebastião―Ilha Terceira.<br /> + +<br /> + +Manuel Ferreira Peixoto de Sousa―Vera Cruz―Aveiro.<br /> + +<br /> + +Manuel Henrique de Sousa Machado―S. Martinho de Bornes.<br /> + +<br /> + +Manuel José Bernardo Coelho―S. Thiago―Tavira.<br /> + +<br /> + +Manuel Maria da Costa―S. Matheus da Calheta―Ilha Terceira.<br /> + +<br /> + +Manuel Marques Monteiro―Nossa Senhora da +<a href="#e11">Conceição</a>―Nellas.<br /> + +<br /> + +Manuel Ribeiro de Mello―Valladares―Correio de Gaia.<br /> + +<br /> + +Manuel dos Santos Lourenço―S. João +Baptista―Feira (S. João de Vêz).<br /> + +<br /> + +Mathias M. Grave―Seminario de Portalegre.<br /> + +<br /> + +Miguel Antonio da Fonseca e Sousa―S. Faustino―Pezo da Regoa. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[412]</span> +Paulo da Costa―Rua do Infante D. Augusto―Coimbra.<br /> + +<br /> + +Prior da Freguezia de Cezimbra.<br /> + +<br /> + +Prior da Freguezia de S. Miguel―Vagos (Sôza).<br /> + +<br /> + +Thomaz Joaquim d'Almeida (Dr.)―Santo André―Mafra.<br /> + +<br /> + +Vice-Reitor do Seminario de Faro.<br /> + +<br /> + +Victorino da Silva Araujo―Leiria.<br /> + +<br /> + +Zephyrino José Pinto.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2>INDICE</h2> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6"> + + <tbody> + + <tr> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;">Pag.</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Ao +leitor.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c">5</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Introducção.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c0">7</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo I</span>―Principios +da arte +christã no Occidente.</td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;"><em>Primeiro +periodo.</em></td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c1">13</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo +II</span>―Descripção +das catacumbas +de Roma; 1.º +periodo.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c2">14</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Symbolos ou +allegorias dos primitivos +christãos.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p16">16</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Monogramma de +Christo.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p18">18</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Sarcophagos.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p21">21</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Edificios +religiosos construidos nos tres primeiros +seculos.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p23">23</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Cemiterios.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p24">24</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Paramentos e +objectos do +culto.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p25">25</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo III</span>―Estylo +latino.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c3">25</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Caracteres d'este +estylo.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p31">31</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Decoração +dos monumentos do +periodo +latino.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p32">32</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Narthex, fachadas e +portaes das +basilicas.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p33">33</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Janellas e +vidraças.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p33">33</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Altar nas egrejas +do +Occidente.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p36">36</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">O <em>ciborium</em> +durante o periodo +latino.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p39">39</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Cemiterios―sarcophagos―campas +e +tumulos.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p42">42</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Os calices e +patena.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p45">45</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Os crucifixos e os +castiçaes.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p48">48</a></td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<span class="pagenum">[414]</span> +<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6"> + + <tbody> + + <tr> + + <td style="width: 540px; text-align: justify;">Diptycos.</td> + + <td style="text-align: right; width: 40px;"><a href="#p49">49</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 540px; text-align: justify;">Estofos +preciosos.</td> + + <td style="text-align: right; width: 40px;"><a href="#p50">50</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 540px; text-align: justify;">Paramentos +sacerdotaes.</td> + + <td style="text-align: right; width: 40px;"><a href="#p53">53</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 540px; text-align: justify;">Mosteiros +latinos.</td> + + <td style="text-align: right; width: 40px;"><a href="#p55">55</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 540px; text-align: justify;">Iconographia +do periodo +latino.</td> + + <td style="text-align: right; width: 40px;"><a href="#p55">55</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Caracteres do +estylo +bysantino.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p57">57</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Systema de +construcção.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p58">58</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Duração +exterior e interna das +egrejas.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p58">58</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo IV</span>―Periodo +Roman.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c4">60</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Caracteres do +estylo +lombardo.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p62">62</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Duração +monumental.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p66">66</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Estylo roman +durante os seculos XI e +XII.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p67">67</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Caracteres da +architectura +roman.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p69">69</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Esculptura +monumental no seculo +XI.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p71">71</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Atrios e portaes +romans.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p73">73</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Caixilhos +rendilhados e vidraças +pintadas.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p75">75</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Columnas +anneladas―ornato +designado―garra.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p77">77</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Capiteis da +architectura +roman.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p78">78</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Arcadas e arcaduras +nos seculos XI e +XII.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p79">79</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;"><em>Triforiums</em> +e +cornijas.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p81">81</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Contrafortes e +telhados.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p83">83</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Torres e +campanarios.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p84">84</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Pintura das paredes +e pintura +historica.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p86">86</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Altares fixos, +retabulos e +relicarios.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p89">89</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Piscinas.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p93">93</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Doceis―Cadeiras +episcopaes.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p95">95</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Capellas +funerarias―tumulos―pedras +tumulares.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p96">96</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Pias +baptismaes.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p98">98</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Esmaltes.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p99">99</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Ourives de +Limoges.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p101">101</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Calices e +patênas.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p102">102</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Grades.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p103">103</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Alfaias +religiosas.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p104">104</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 540px; text-align: justify;">Restauração +artistica.</td> + + <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p105">105</a></td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<span class="pagenum"><a name="p415">[415]</a></span> +<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6"> + + <tbody> + + <tr> + + <td style="width: 540px; text-align: justify;">Custodias―pyxides +e +ciborios.</td> + + <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p106">106</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 540px; text-align: justify;">Relicarios +e +urnas.</td> + + <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p108">108</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 540px; text-align: justify;">Corôas +suspensas +nos +altares.</td> + + <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p112">112</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 540px; text-align: justify;">Cruzes +d'altar e para +procissões e +candelabros.</td> + + <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p113">113</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 540px; text-align: justify;">Evangeliarios +e suas +capas.</td> + + <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p116">116</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 540px; text-align: justify;">Baculos +pastoraes e +sapatos +lithurgicos.</td> + + <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p120">120</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 540px; text-align: justify;">Mitras.</td> + + <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p122">122</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 540px; text-align: justify;">Alfaias +preciosas e +paramentos sacerdotaes e suas +côres.</td> + + <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p123">123</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 540px; text-align: justify;">Abbadias―Mosteiros―Claustros +dos +capitulos.</td> + + <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p129">129</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 540px; text-align: justify;">Iconographia, + <em>a +sciencia <a href="#e12">das +imagens</a></em>.</td> + + <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p132">132</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 540px; text-align: justify;">A +cruz e a +crucificação.</td> + + <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p137">137</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 540px; text-align: justify;">Personagens +e accessorios +historicos e +allegoricos.</td> + + <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p143">143</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Evangelistas e seus +symbolos.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p152">152</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Assumptos +religiosos representados sobre os monumentos +dos seculos XI e +XII.</td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p155">155</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo V</span>―Periodo +ogival.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#c5">159</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Diversas +fórmas de +ogiva.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p160">160</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Origem da ogiva e +do estylo +ogival.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p162">162</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Periodo de +transição do estylo +roman para o +ogival.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p164">164</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Caracteres da +architectura +ogival.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p165">165</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Plano das egrejas +do XIV e do XV seculos e aspecto +exterior das +egrejas.</td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p169">169</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Systema de +construcção.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p172">172</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Esculptura +monumental.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p175">175</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Fachadas―Alpendres―Postaes.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p179">179</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Janellas no periodo +de +transição.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p185">185</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Rosaceas―Vidraças +incolores.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p192">192</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Vidraças +pintadas.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p195">195</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Idem do XIII +seculo.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p200">200</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Idem pintadas do +XIV +seculo.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p204">204</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Amarello de +prata.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p206">206</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Vidraças +pintadas do XV +seculo.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p207">207</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 540px; text-align: justify;">Idem +pintadas do XVI +seculo.</td> + + <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p211">211</a></td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<span class="pagenum">[416]</span> +<span class="smallcaps"></span> +<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6"> + + <tbody> + + <tr> + + <td style="width: 540px; text-align: justify;">Idem +do XVII +seculo.</td> + + <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p214">214</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 540px; text-align: justify;">Idem +do XVIII +seculo.</td> + + <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p216">216</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 540px; text-align: justify;">Pilares―Columnas.</td> + + <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p216">216</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 540px; text-align: justify;">Bases +e +columnas.</td> + + <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p219">219</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 540px; text-align: justify;">Capiteis.</td> + + <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p221">221</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Modilhões―misulas.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p223">223</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Arcadas―arcaduras.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p224">224</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Cornijas―platibandas.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p228">228</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Estabilidade e +plano das +abobadas.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p231">231</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Egrejas que teem a +sua nave central muito mais elevada +que as outras +naves lateraes e aquellas tendo igual +altura.</td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p232">232</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Perfis das +nervuras―fecho da +abobada.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p234">234</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Arcos +butantes―contrafortes.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p236">236</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Gargulas.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p242">242</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 540px; text-align: justify;">Nichos +e +doceis.</td> + + <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p243">243</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Torres―campanarios.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p247">247</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Pavimentos.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p251">251</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Lages gravadas com +embutidos.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p253">253</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Labyrinthos.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p254">254</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Pinturas das +paredes.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p256">256</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Cruz da +consagração.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p262">262</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Altares―tabernaculos―piscinas.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p263">263</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Frontaes―baldaquinos.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p265">265</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Retabulos―banqueta.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p268">268</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Sacrarios.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p274">274</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Cadeiras de +côro.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p277">277</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Jubes―cruzes +triumphaes.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p281">281</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Pulpitos―confessionarios.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p284">284</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Capellas +funereas―tumulos―campas.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p286">286</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Pequenos monumentos +funereos do XV e do XVI +seculo.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p294">294</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Pias +baptismaes―pias para agua +benta.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p298">298</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Grades―barreiras +de metal e de +madeira.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p301">301</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Orgãos e +caixas para +elles.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p304">304</a></td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<span class="pagenum">[417]</span> +<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6"> + + <tbody> + + <tr> + + <td style="width: 540px; text-align: justify;">Alfaias +religiosas―esmaltes.</td> + + <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p306">306</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 540px; text-align: justify;">Calices―patenas.</td> + + <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p310">310</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 540px; text-align: justify;">Custodias―pyxides +sem +pé.</td> + + <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p313">313</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 540px; text-align: justify;">Relicarios―braços―pés.</td> + + <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p317">317</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 540px; text-align: justify;">Esmoleres―relicarios―diversos.</td> + + <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p327">327</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 540px; text-align: justify;">Vasos +para os Santos +Oleos.</td> + + <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p331">331</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 540px; text-align: justify;">Corôas +com +luzes―castiçaes.</td> + + <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p333">333</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 540px; text-align: justify;">Estantes +para o +côro.</td> + + <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p338">338</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 540px; text-align: justify;">Livros +do +Evangelho―manuscriptos +lithurgicos―miniaturistas.</td> + + <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p339">339</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 540px; text-align: justify;">Thuribulos―gomis―pratas +para +offerendas.</td> + + <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p342">342</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 540px; text-align: justify;">Insignias―medalhas +dos +peregrinos.</td> + + <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p346">346</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 540px; text-align: justify;">Estofos +preciosos.</td> + + <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p348">348</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 540px; text-align: justify;">Pannos +de +raz.</td> + + <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p350">350</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 540px; text-align: justify;">Vestimentas +sagradas.</td> + + <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p351">351</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 540px; text-align: justify;">Mitras.</td> + + <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p356">356</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 540px; text-align: justify;">Abbadias―mosteiros.</td> + + <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p357">357</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 540px; text-align: justify;">Egrejas―claustros―casa +do +capitulo.</td> + + <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p359">359</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 540px; text-align: justify;">Aposento +dos +irmãos leigos―aposentos para +hospedes.</td> + + <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p363">363</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 540px; text-align: justify;">Celleiros―officinas―prisões.</td> + + <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p365">365</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 540px; text-align: justify;">Cartuchas.</td> + + <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p367">367</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 540px; text-align: justify;">Mosteiros +para +mulheres―conventos do +recolhidas.</td> + + <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p368">368</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 540px; text-align: justify;">Hospitaes.</td> + + <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p368">368</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Iconographia do +periodo +ogival.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p369">369</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Representação +da Santissima +Trindade.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p370">370</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">O crucifixo―a +crucificação.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p371">371</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">O sol―a +lua.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p373">373</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Imagem de Nossa +Senhora―o Menino +Jesus.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p374">374</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">A +Annunciação―a morte de Nossa +Senhora.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p376">376</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Os apostolos―os +evangelistas.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p377">377</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Scenas +diversas.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p379">379</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 540px; text-align: justify;">Sibyllas.</td> + + <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p382">382</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 540px; text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo +VI</span>―Periodo +da +renascença.</td> + + <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#c6">383</a></td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<span class="pagenum">[418]</span> +<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6"> + + <tbody> + + <tr> + + <td style="width: 540px; text-align: justify;">Caracteres +da architectura +da +renascença.</td> + + <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p385">385</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 540px; text-align: justify;">Começo.</td> + + <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p385">385</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 540px; text-align: justify;">Decoração.</td> + + <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p387">387</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 540px; text-align: justify;">Plano +das +egrejas.</td> + + <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p389">389</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 540px; text-align: justify;">Fachadas +das +egrejas.</td> + + <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p391">391</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 540px; text-align: justify;">Abobadas.</td> + + <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p392">392</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 540px; text-align: justify;">Torres.</td> + + <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p392">392</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 540px; text-align: justify;">Altares.</td> + + <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p392">392</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 540px; text-align: justify;">Tabernaculos.</td> + + <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p393">393</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 540px; text-align: justify;">Cadeiras +do +côro, obra de talha e +confessionario.</td> + + <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p394">394</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 540px; text-align: justify;">Jubéos +e +balaustradas.</td> + + <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p394">394</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 540px; text-align: justify;">Caixas +de +orgão.</td> + + <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p395">395</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 540px; text-align: justify;">Pulpitos.</td> + + <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p396">396</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Tumulos e +campas.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p396">396</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Pias +baptismaes.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p398">398</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Obras de +ourivesaria e de +esmalte.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p398">398</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Calices.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p399">399</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Custodias.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p400">400</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Relicarios.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p400">400</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Estofos preciosos. +Tecidos.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p401">401</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Bordados.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p402">402</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Pannos de +Raz.</td> + + <td style="text-align: right;"><a href="#p402">402</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 540px; text-align: justify;">Iconographia.</td> + + <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p403">403</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 540px; text-align: justify;">Lista +dos +assignantes.</td> + + <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#c7">409</a></td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span style="font-weight: bold;">Notas:</span><br /> + +<br /> + +<br /> + +<sup><a name="1">[1]</a></sup> +Extraido +do <em>Boletim de Architectura e +Archeologia</em>, n.º 2, Tomo V, pag. 20 a 22, anno +1886.<br /> + +<br /> + +<sup><a name="2">[2]</a></sup> Tinha a +mesma designação que +coemeteria e criptae.<br /> + +<br /> + +<sup><a name="3">[3]</a></sup> Era um +calix mystico que continha o vinho que bebeu Jesus +Christo na sua ultima ceia. Este calix tinha sido conservado por +José de Arimathêa e transportado por elle para a +Bretanha. (Inglaterra).<br /> + +<br /> + +<sup><a name="4">[4]</a></sup> Termo em +inglez admittido pelos archeologos.<br /> + +<br /> + +<sup><a name="5">[5]</a></sup> Havia +no paiz dois magnificos livros do côro, um +do convento de Christo, em Thomar, e outro do convento de Belem. Este +foi retalhado pelos orphãos da casa pia de Lisboa, que +fizeram d'elle +<em>barretinas</em> e +<em>talabartes</em>. Ao outro livro foram cortadas as +folhas de pergaminho, tendo vistosos arabescos e lettras floreteadas, +coloridas e douradas, cujos preciosos fragmentos comprámos +avulso aos poucos no anno de 1835.<br /> + +<br /> + +<sup><a name="6">[6]</a></sup> Ha +um muito curioso no cabido da Sé de Vizeu, +do qual tirámos o molde em 1869. Está exposto no +museu do Carmo em Lisboa.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="fbox"> +<h2>Lista de erros corrigidos</h2> + +<div style="text-align: center;">Aqui +encontram-se +listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div> + +<br /> + +<br /> + +<table style="width: 80%; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4"> + + <tbody> + + <tr align="right"> + + <td style="width: 64px;"></td> + + <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 135px;">Original</td> + + <td style="text-align: center; width: 7px;"></td> + + <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 123px;">Correcção</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e1"></a><a href="#p25">#pág. +25</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 135px;">das das</td> + + <td style="text-align: center; width: 7px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 123px;">das</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e2"></a><a href="#p88">#pág. +88</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 135px;">indefinidamenie</td> + + <td style="text-align: center; width: 7px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 123px;">indefinidamente</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e3"></a><a href="#p102">#pág. +102</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 135px;">quaiidade</td> + + <td style="text-align: center; width: 7px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 123px;">qualidade</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e4"></a><a href="#p142">#pág. +142</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 135px;">seseculo</td> + + <td style="text-align: center; width: 7px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 123px;">seculo</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e5"></a><a href="#p209">#pág. +209</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 135px;">da da +época</td> + + <td style="text-align: center; width: 7px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 123px;">da +época</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e6"></a><a href="#p301">#pág. +301</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 135px;">asperpergil-os</td> + + <td style="text-align: center; width: 7px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 123px;">aspergil-os</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e7"></a><a href="#p350">#pág. +350</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 135px;">representanto</td> + + <td style="text-align: center; width: 7px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 123px;">representando</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e8"></a><a href="#p352">#pág. +352</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 135px;">nma +cruz</td> + + <td style="text-align: center; width: 7px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 123px;">uma +cruz</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 64px; vertical-align: top;"><a name="e9"></a><a href="#p397">#pág. +397</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 135px; vertical-align: top;">XVII +e XXIII seculos</td> + + <td style="text-align: center; width: 7px; vertical-align: top;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 123px; vertical-align: top;">XVII +e XVIII seculos</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e10"></a><a href="#p410">#pág. +410</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 135px;">Varzlm</td> + + <td style="text-align: center; width: 7px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 123px;">Varzim</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e11"></a><a href="#p411">#pág. +411</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 135px;">Conceiceição</td> + + <td style="text-align: center; width: 7px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 123px;">Conceição</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e12"></a><a href="#p415">#pág. +415</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 135px;">dos +imagens</td> + + <td style="text-align: center; width: 7px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 123px;">das +imagens</td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;">* +correcções feitas com base na errata do +próprio livro.<br /> + +<br /> + +Foi adicionada a indicação do capítulo +II (<a href="#c2">pág. 14</a>) e +corrigida a entrada do capítulo III (<a href="#c3">pág. +25</a>).<br /> + +<br /> + +<br /> + +</div> + +<br /> + +</div> + +</div> + + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Resumo elementar de archeologia christã, by +Joaquim Possidónio Narciso da Silva + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ARCHEOLOGIA CHRISTÃ *** + +***** This file should be named 24455-h.htm or 24455-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/4/4/5/24455/ + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at http://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + http://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + + +</pre> + +</body> +</html> diff --git a/24455-h/images/fig01.png b/24455-h/images/fig01.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..ec04edc --- /dev/null +++ b/24455-h/images/fig01.png diff --git a/24455-h/images/fig02.png b/24455-h/images/fig02.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..2acc332 --- /dev/null +++ b/24455-h/images/fig02.png diff --git a/24455-h/images/fig03.png b/24455-h/images/fig03.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..7efba77 --- /dev/null +++ b/24455-h/images/fig03.png |
