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+The Project Gutenberg EBook of Resumo elementar de archeologia christã, by
+Joaquim Possidónio Narciso da Silva
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Resumo elementar de archeologia christã
+
+Author: Joaquim Possidónio Narciso da Silva
+
+Release Date: January 29, 2008 [EBook #24455]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ARCHEOLOGIA CHRISTÃ ***
+
+
+
+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
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+RESUMO ELEMENTAR
+
+DE
+
+ARCHEOLOGIA CHRISTÃ
+
+POR
+
+POSSIDONIO DA SILVA
+
+1887
+
+
+
+Antigo edificio religioso de Santarem
+
+LISBOA--Museu de Archeologia do Carmo
+
+
+
+
+RESUMO ELEMENTAR
+
+DE
+
+ARCHEOLOGIA CHRISTÃ
+
+POR
+
+_Possidonio da Silva_
+
+
+
+MEDALHA CONFERIDA EM 1869
+
+
+LISBOA
+LALLEMANT FRÈRES, IMPRENSA
+1887
+
+
+
+
+
+MEMORIA DE MEU PAE
+
+Reinaldo José da Silva
+
+
+TESTEMUNHO DE RESPEITO E GRATIDÃO
+
+O Auctor
+
+
+
+
+AO LEITOR
+
+
+Inaugurando-se agora nos seminarios de algumas dioceses de Portugal
+cadeiras para o ensino de archeologia christã, estudo que ha muito era
+urgente crear-se no nosso paiz, proponho-me publicar os elementos
+principaes d'esta sciencia, afim de facilitar os estudos a quem desejar
+possuir esses conhecimentos indispensaveis para curar da conservação dos
+objectos do culto e evitar o ignorante modo de se restaurarem os
+edificios religiosos dos differentes estylos, que pertencem á nação;
+pois já é tempo de não se continuar a praticar nos edificios concertos
+mal pensados, que alteram o caracter respectivo da sua architectura, e
+causam tambem desdouro ao avaliar-se a nossa civilisação.
+
+Ainda que não façamos um compendio completo, comtudo, talvez possa ser
+de algum auxilio para se divulgarem as instrucções principaes d'esta
+natureza afim de pôr cobro aos vandalismos que têem destruido tantas
+antiguidades e objectos preciosos do culto.
+
+Muito embora não se consiga desde já o proficuo resultado d'este ensino,
+todavia ficará registado, no final do seculo XIX, o empenho que
+illustres Prelados têem tomado para obstar a serem illudidos os parochos
+nas substituições das alfaias, e para se opporem ás defeituosas
+restaurações dos monumentos religiosos do nosso paiz. Darei por bem
+empregada esta minha modesta publicação, se por ventura conseguir este
+empenho patriotico e artistico a que tenho constantemente dedicado a
+maior parte da minha existencia.
+
+Possidonio da Silva.
+
+
+
+
+INTRODUCÇÃO[1]
+
+
+Os monumentos historicos ou simplesmente artisticos são os marcos que
+assignalam os passos, mais ou menos firmes, vagarosos ou apressados, que
+os povos vão dando no caminho da civilisação. Porém não se pense que,
+relativamente a esses padrões, a cultura de uma nação deva ser avaliada
+sómente pela significação d'elles, por mais gloriosa que seja, ou por
+mais que se aprimorasse n'elles a arte, mas sim tambem pelo apreço e
+respeito com que essa nação vela pela sua conservação.
+
+Sobreleva Portugal a todas as nações na alta significação dos seus
+monumentos, porque não commemoram unicamente façanhas militares e
+virtudes christãs e civicas, communs a outros povos. Não recordam só mil
+acções de valor, de coragem e de abnegação, praticadas na defensa da
+patria, ou para alargamento das suas fronteiras, ou para honra e lustre
+do seu nome. Mas fallam tambem os nossos monumentos d'essas
+arrojadissimas emprezas de navegações e descobrimentos, com que os
+portuguezes abriram de par em par as portas á moderna civilisação,
+levando a luz do evangelho, atravez de mares ignotos, ás mais longinquas
+regiões do globo.
+
+Quasi todas essas glorias, que doiram as paginas da nossa historia,
+foram memoradas por nossos maiores com a fundação de um templo, acanhado
+e singelo, ou grandioso e opulento, segundo o permittiam a rudeza dos
+tempos, ou a florescencia da nação, bem como o animo e posses dos
+fundadores.
+
+As convulsões do sólo, a pouca illustração dos reedificadores, e
+modernamente a sanha brutal dos demolidores, têem destruido ou
+desfigurado muitas d'essas auctorisadas testemunhas dos tempos heroicos
+de Portugal. Este vandalismo, que nos degrada do gremio das nações
+cultas, não está, infelizmente, ainda de todo proscripto d'entre nós. Os
+poderes publicos ainda não prestam aos nossos monumentos toda a attenção
+e vigilante solicitude que, para a sua conservação, elles demandam, e a
+honra e bom nome do paiz com tanta justiça reclamam. E não basta que se
+attenda á conservação dos monumentos commemorativos dos grandes factos
+historicos, e ao mesmo tempo opulentos d'arte. Merecem o nosso apreço e
+cuidados todos os padrões que interessam, de qualquer maneira, aos
+annaes da nação e á historia da arte.
+
+Não obstante os differentes elementos de destruição, que tem actuado
+entre nós, ainda existem de pé n'este reino não poucas egrejas
+anteriores á fundação da monarchia, ou contemporaneas do nosso primeiro
+rei, ou construidas sob o sceptro dos seus immediatos successores. São
+pequenos e de construcção mesquinha todos esses templos, tendo por
+feição principal a mesma simplicidade e pobreza, que distinguiam n'essa
+epocha o viver da nação. Todavia, embora o acanhamento das proporções, e
+a simplicidade da architectura corram parelhas com a pobreza das
+memorias historicas, todas essas egrejas são exemplares de subido valor
+para a historia da arte em Portugal, tanto mais quanto é tristemente
+certo, que os grandes templos, levantados nos principios da monarchia,
+têem sido mascarados e desfigurados, por occasião das reedificações,
+como aconteceu ao de Alcobaça, á Sé de Lisboa, e a outros, ou
+desappareceram, como o de Santa Cruz de Coimbra e o de S. Vicente de
+Fóra, em Lisboa, para em seu logar se edificarem outros mais vastos e
+mais sumptuosos.
+
+Pois essas preciosas reliquias de tão remota antiguidade que têem
+resistido ao duro embate das tempestades no correr de tantos seculos,
+zombando até agora dos cataclysmos da natureza e dos furores do
+camartello, acham-se presentemente ameaçadas, pelo menos algumas
+d'ellas, de perderem, em reconstrucções dirigidas sem amor da arte, e
+sem respeito aos monumentos de remotas éras, as suas primitivas e
+venerandas feições.
+
+E ao mesmo passo vão desapparecendo das velhas parochias sertanêjas as
+suas antigas alfaias, vendidas por uma bagatella, a titulo de alcançar
+meios para reparação do edificio, e os seus vasos sagrados dos seculos
+anteriores ao XVIII, de muita belleza e primôr artistico, a troco de
+outros de fabrica moderna, mais luzentes e vistosos, porém destituidos
+da formosura e elegancia das fórmas, e da delicadeza e perfeição do
+trabalho esculptural, que dão fóros universaes de preeminencia á
+ourivesaria, principalmente dos seculos XV e XVI.
+
+Os compradores d'objectos d'arte e de industria, antigos, que vem a
+Lisboa todos os annos do estrangeiro, sobretudo de França e da
+Allemanha, percorrem as nossas provincias em todas as direcções;
+apparecem em todas as cidades, nas villas e nas proprias aldeias,
+tentando com dinheiro á vista os possuidores d'essas preciosidades, que
+não sabem aprecial-as, desconhecendo-lhes o valor.
+
+É mister por honra do paiz, e por exigencia imperiosa dos interesses
+publicos, que se trate de pôr algum côbro, quando não possa obstar-se
+inteiramente, á assolação ou deformação d'aquelles monumentos da
+antiguidade, e a esta continua expropriação das nossas riquezas
+artisticas, documentos irrecusaveis do alto grau de florescencia nas
+artes, e por conseguinte de civilisação, que Portugal attingiu n'esse
+glorioso passado.
+
+Um dos meios inquestionavelmente mais adequado, seria oppôr a essa
+torrente devastadora a illustração e o zelo dos parochos, illustração e
+zelo provenientes de conhecimentos especiaes para saberem apreciar
+aquelles objectos, ricos d'arte e de memorias piedosas, que os estranhos
+nos cobiçam, e que os nacionaes malbaratam por ignorancia.
+
+Se os parochos tivessem algumas noções de archeologia religiosa, não
+consentiriam, certamente, que as suas egrejas perdessem, com feições
+bastardas, o typo primitivo que as ennobrecia, nem haviam de tolerar,
+que fossem despojadas, por compra ou troca, dos seus vasos sagrados e
+alfaias antigas, que são nos templos verdadeiros brazões da sua nobreza,
+e testemunhas authenticas, eloquentes na sua propria mudez, do amor da
+religião dos nossos antepassados, que n'elles se casava com o amôr da
+patria. E não limitariam esses parochos a sua acção benefica, sem
+duvida, a salvaguardar as preciosidades artisticas das suas egrejas; mas
+não deixariam tambem, em casos identicos, de dispensarem aos parochianos
+os conselhos do seu saber e da sua experiencia.
+
+Foram estas considerações retemperadas pelo affecto que todos devemos á
+terra, que nos serviu de berço, e ás Santas Crenças, que recebemos dos
+maiores, que moveram a Real Associação dos Architectos e Archeologos a
+elevar ao esclarecido juizo dos Prelados Portuguezes o pedido de
+instituirem nos seus respectivos seminarios uma cadeira de archeologia
+religiosa.
+
+É uma sciencia muito complexa a archeologia, não ha duvida, pois que
+cada uma das partes, que a compõem, e que se subdividem, a seu turno, em
+outras partes de materia amplissima para o estudo, constitue um ramo
+importante dos conhecimentos humanos, que demanda muita applicação para
+ser bem sabido.
+
+Porém, no que diz respeito á archeologia religiosa é um estudo muito
+limitado, facil e agradavel, e que póde restringir-se, querendo
+abrevial-o, estabelecendo o ponto de partida da invasão dos povos
+septemtrionaes e destruição do imperio romano; ou dos tempos mais
+proximos da fundação da monarchia portugueza. O que é mister é que se dê
+nos seminarios aos futuros parochos a instrucção precisa para que
+conheçam os differentes estylos architectonicos, empregados nos templos
+do christianismo; a epocha da sua introducção em Portugal, e as
+modificações, que tiveram aqui, determinadas pelo estado da nossa
+civilisação e pelos habitos e costumes da sociedade. É indispensavel,
+tambem ministrar-lhes eguaes conhecimentos em relação á ourivesaria
+religiosa, e ás mais artes liberaes e mechanicas, que, no correr da éra
+christã, têem concorrido com os seus productos para o serviço dos
+altares, e para a ornamentação das egrejas.
+
+Os parochos assim instruidos não deixarão de apreciar devidamente, e de
+velar com verdadeiro zelo pela conservação dos edificios e dos objectos
+concernentes ao culto, venerandos pelas tradições religiosas e pela
+consagração dos seculos, e dignos de grande estima pelo seu valor
+artistico ou archeologico.
+
+Ignacio de Vilhena Barbosa.
+
+
+
+
+Resumo elementar de archeologia christã
+
+
+
+
+CAPITULO I
+
+Principios da arte christã no Occidente
+
+
+PRIMEIRO PERIODO
+
+
+
+
+CAPITULO II
+
+/#
+ *Summario.*--Descripcão das catacumbas de Roma--Principios
+ artisticos e classificações das pinturas das catacumbas--Symbolos
+ ou allegorias dos primitivos christãos--Representação de Jesus
+ Christo e de Nossa Senhora--Imagens dos Santos--Monogramma de
+ Christo--Lampadas--Sarcophagos christãos--Vasos de
+ sangue--Monumentos christãos fóra das catacumbas--Edificios
+ religiosos construidos nos tres primeiros seculos--Cemiterios á
+ superficie do solo--Alfaias e instrumentos do culto.
+#/
+
+
+Os mais numerosos monumentos christãos que se offerecem para o estudo da
+archeologia christã são os cemiterios subterraneos da cidade de Roma. Os
+christãos continuaram a escavar nas antigas pedreiras da cidade novas
+catacumbas depois do reinado de Constantino, e durante os quatro ou
+cinco seculos seguintes, transformaram as catacumbas em logares de
+peregrinação. Fizeram-se restaurações e embellezamentos n'estes
+sanctuarios até ao fim do seculo VIII.
+
+As catacumbas eram destinadas a tres fins: o primeiro e principal era
+servirem de cemiterio aos christãos. Os tumulos ficavam dispostos nas
+paredes uns por cima dos outros formando fileiras de tres a doze. Os
+corpos eram collocados em nichos oblongos, fechados por tampas de
+marmore, ou por tijolos ordinariamente em numero de tres, ajustados
+perfeitamente com cal.
+
+N'estas galerias veem terminar em muitos sitios camaras sepulchraes. São
+especies de covas funerarias, no fundo das quaes se encontra muitas
+vezes, debaixo de uma abobada, um tumulo encerrando os restos mortaes de
+algum martyr illustre. Estes tumulos serviam de altar no dia
+anniversario do martyr, em que os christãos vinham fazer as suas
+orações.
+
+A fórma dos sepulchros era variadissima: ha-os circulares,
+semi-circulares, octogonaes, hexagonaes e pentagonaes; comtudo a maior
+parte são quadrados.
+
+O segundo fim a que destinavam as catacumbas era servirem de logar de
+reunião para ahi celebrar as ceremonias do culto. Foi para fazerem as
+suas assembléas religiosas que os primitivos christãos construiram, nos
+seus cemiterios subterraneos, oratorios, compostos a maior parte das
+vezes de dois ou tres sepulchros contiguos, e que se designam pelo nome
+de _basilicas das catacumbas_.
+
+O terceiro fim das catacumbas era tambem servirem de retiro ao
+Pontifice, ao clero e aos fieis no tempo da perseguição.
+
+A historia das catacumbas póde dividir-se em tres periodos principaes: o
+periodo da formação, o periodo da restauração e de visitas piedosas, e o
+periodo de explorações scientificas.
+
+O primeiro periodo abraça os quatro primeiros seculos. No decurso do
+seculo IV viu-se diminuirem as sepulturas subterraneas pelo augmento dos
+tumulos á superficie do solo. Depois do anno 410 não se encontram
+sepulturas nas catacumbas.
+
+O segundo periodo estende-se desde os primitivos annos do seculo V até
+ao principio do seculo IX.
+
+Chamam-se cryptas historicas as camaras sepulchraes em que repousavam os
+restos de martyres illustres.
+
+O ultimo periodo, de explorações scientificas, data do anno de 1578.
+
+No mez de maio de 1578, uns trabalhadores que se occupavam em extrahir
+pozzolana n'uma vinha, a duas milhas da cidade de Roma, descobriram uma
+abertura que dava para um cemiterio christão decorado de pinturas, de
+sarcophagos e de inscripcões.
+
+Estas pinturas pertencem a epochas differentes, e algumas ao primeiro
+seculo da nossa éra. As do seculo II são mais numerosas, porém as do
+seculo III são ainda em muito maior numero.
+
+A maior parte das decorações das paredes das catacumbas foram executadas
+a fresco, sendo feitas algumas com mosaicos em limitado numero.
+
+Os antigos artistas contentavam-se em traçar a silhuêta dos personagens
+e dos objectos, enchiam em seguida o espaço comprehendido entre os
+contornos por côres lisas ou illuminuras, e indicavam convencionalmente
+as rugas dos fatos com traços cheios e as saliencias com traços finos.
+Faziam o contrario do que se praticava desde o seculo VI, desprezando,
+na representação dos assumptos, os accessorios.
+
+As pinturas dos tumulos, em fórma d'arco, apparecem sobre um fundo
+ornado,--um assumpto com muitas figuras traçadas dentro de molduras de
+fórma quadrada ou semicircular.
+
+Os ornatos são na maior parte imitações de objectos usuaes, açafates com
+fructos ou grinaldas de flores, sendo imitado este genero de decoração
+de pintura da arte pagã.
+
+Nas catacumbas representava-se ordinariamente Jesus Christo debaixo da
+fórma do Bom Pastor.
+
+As imagens do Redemptor não se encontravam isoladas, apresentando todos
+os caracteres das pinturas posteriores a muitos seculos á conversão de
+Constantino.
+
+A Santa Virgem é figurada nas pinturas das catacumbas sobre os vidros
+dourados e os sarcophagos dos seculos primitivos, estando sentada, com o
+Menino Jesus ao collo.
+
+A adoração dos Magos recordava aos fieis tres dogmas: a vocação dos
+infieis, a Divindade de Nosso Senhor, e a Maternidade Divina.
+
+Os primitivos christãos representavam tambem a Virgem com ou sem o
+Filho, debaixo da forma d'uma _orante_, isto é, em pé e levantando os
+braços n'uma attitude de supplica. Muitas imagens são anteriores ao
+seculo IV.
+
+_Jesus Christo multiplicando os pães_: figura a Santa Eucharistia, como
+sendo alimento das almas.
+
+O Salvador é representado em geral debaixo da figura d'um mancebo
+imberbe vestido com manto e tunica ornada com duas bandas de purpura.
+
+_O paralytico curado_ é representado no momento em que, deixando a
+piscina, leva a sua cama ás costas. Está vestido com uma tunica e cinta
+e uma especie de ceroulas.
+
+_Jesus resuscitando Lazaro_: é representado Lazaro debaixo da fórma
+d'uma pequena mumia envolvida em pequenas fitas e collocada na posição
+vertical á entrada do tumulo, que tem a fórma de um edificio ou pequeno
+templo.
+
+As representações de refeição dividem-se em duas classes conforme
+symbolisam a Eucharistia, ou a felicidade dos predestinados á
+bemaventurança.
+
+A felicidade dos predestinados é symbolisada por um banquete ao qual
+servem o Amor e a Paz, porque estes dois gosos eram tidos como os
+principaes do Paraiso.
+
+_Jesus Christo rodeado dos seus discipulos_: representa o ensino dado
+aos apostolos e a celebração da ultima ceia do Senhor.
+
+As imagens dos Santos encontram-se nas cryptas historicas, e todas em
+geral são posteriores á conversão de Constantino. Muitas são ornadas de
+resplendor, que só foi dado aos Santos no principio do seculo VI.
+
+A scena do Orpheu tocando lyra, tirada da mythologia, é muito commum nas
+pinturas das catacumbas e sobre os monumentos christãos dos primeiros
+seculos.
+
+Entre os primeiros christãos, Orpheu deleitando os animaes ferozes com
+os sons da sua lyra, era um symbolo de Jesus Christo domando as paixões
+dos homens e attrahindo-os com os encantos da sua doutrina.
+
+Os primeiros christãos reproduziam de differentes maneiras as quatro
+estações sobre as paredes das catacumbas e sobre os sarcophagos, porque
+as estações symbolisavam aos olhos dos christãos a futura resurreição.
+
+Os primitivos christãos serviam-se dos symbolos, em primeiro logar, para
+subtrahir á irrisão dos infieis as mais augustas verdades da religião, e
+em segundo logar, para se conhecerem entre si. Os mais antigos d'estes
+symbolos eram a pomba, o peixe, a barca, a lyra e a ancora.
+
+Durante os primeiros tres seculos da Egreja, o peixe era um dos symbolos
+mais divulgados entre os christãos para significarem Jesus Christo.
+Empregava-se de dois modos, como nome e como figura. A palavra _ichtus_,
+que significa peixe, fornece as iniciaes das palavras _Jesus Christo
+Filho de Deus_.
+
+O peixe representado sobre os monumentos pintados ou esculpidos tinha a
+mesma significação, era um signal hyerogliphico lembrando aos christãos
+a palavra grega e todas as verdades que ella symbolisava. Tanto o
+acrostico como o peixe symbolico, era principalmente gravado sobre as
+pedras e sobre os objectos portateis para o uso da piedade dos primeiros
+christãos.
+
+A Cruz que se encontra nos monumentos christãos dos quatro primeiros
+seculos apresenta-se com fórmas dissimuladas, de ancora, que era ao
+mesmo tempo o symbolo da esperança, e serve desde o primeiro seculo para
+recordar aos fieis o signal da Redempção.
+
+Empregou-se desde os primeiros seculos o cordeiro para representar Jesus
+Christo.
+
+Os primitivos christãos tinham por costume orar em pé, com os braços
+estendidos e levantados para o ceu. Na maior parte dos monumentos
+christãos primitivos vêem-se fieis dos dois sexos, e principalmente
+mulheres em attitude de _orantes_.
+
+A _orante_ symbolisa a alma christã admittida no ceu e considerada
+esposa de Jesus Christo. As duas arvores que em alguns monumentos se
+encontram aos lados, designam o paraiso ou a felicidade eterna.
+
+Encontra-se frequentemente nos primitivos monumentos christãos de toda a
+especie a pomba, e principalmente nos epitaphios dos seis primeiros
+seculos da nossa éra. Nos tumulos symbolisa ordinariamente a alma pura e
+innocente dos fieis. A oliveira que está ao seu lado ou o ramo d'esta
+arvore, que muitas vezes tem no bico, são o symbolo da paz que gosa a
+alma, e equivale á formula _in pace_, tantas vezes empregada nos
+epitaphios.
+
+A _palma_ tem sido em todos os tempos o symbolo do triumpho; os
+christãos primitivos collocaram-n'a nos seus tumulos para recordar a
+victoria ganha pelo defuncto aos inimigos da fé.
+
+O _monogramma de Constantino_ ou simplesmente _monogramma_ são as duas
+letras gregas X P ligadas da seguinte maneira:
+
+[Figura]
+
+Outro _monogramma cruciforme_ parece ter existido no Oriente e tem a
+letra X com a fórma d'uma cruz [Símbolo] onde está ligada na perpendicular
+superior a barriga da letra P:
+
+[Figura]
+
+As duas fórmas tambem se empregaram no Occidente.
+
+A partir do meado do seculo IV, o monogramma é muitas vezes acrescentado
+com mais duas letras gregas A e [Grego: Omega], a primeira e a ultima do
+seu alphabeto.
+
+O monogramma data da conversão de Constantino que mandou fazer o
+_lábaro_, que era encimado pelo monogramma.
+
+Durante os primeiros seculos da Egreja, o altar era apenas uma taboa de
+madeira, servindo de mesa aos apostolos para celebrar os divinos
+mysterios.
+
+As catacumbas forneceram-nos mais tarde o typo dos altares em fórma de
+tumulo. As tumbas _em arco_ tinham uma prateleira horisontal cobrindo os
+restos do santo martyr; sobre esta prateleira é que se dizia a missa.
+
+As lampadas que se encontraram nas catacumbas tinham a fórma das
+_lucerncae_ dos antigos. Assemelham-se a uma barquinha, que era um dos
+symbolos mais usados na Egreja primitiva. A maior parte são de argila;
+tambem se encontram algumas de bronze. Estas ultimas pertencendo a uma
+epocha menos remota, são quasi todas munidas de cadeias que serviam para
+as suspender nos tectos das capellas.
+
+Chama-se sarcophago (palavra derivada de _sarcos_ carne e _phagos_ eu
+como) um tumulo de marmore ou de porphyro mais ou menos ornado de
+esculpturas.
+
+Podemos classifical-os em _simples_, _mixtos_ e _ricos_.
+
+Os sarcophagos _simples_ apresentavam a fórma de um cofre rectangular
+sem ornamentação.
+
+Na maior parte os sarcophagos eram adornados de um ornato que se chamava
+_strigiles_.
+
+Os _strigiles_ são canneluras de fórma sinuosa, imitando o raspador,
+instrumento de que os antigos se serviam para tirar, na occasião de se
+banharem, a humidade e os corpos estranhos espalhados na superficie da
+pelle.
+
+Os sarcophagos _ricos_ têem as quatro faces, ou pelo menos tres, ornadas
+de esculpturas em baixo, ou em alto relevo. Quando se reproduzem sobre
+uma mesma face muitas scenas ou figuras, são justapostas simplesmente,
+ou separadas por columnas ornadas de pampanos e de pequenos genios
+colhendo fructos.
+
+Muitos sarcophagos têem, no centro da face principal, um medalhão
+circular, onde se vê em busto a figura do defuncto. Os tumulos que
+serviam de sepultura a dois esposos, têem dois bustos, e algumas vezes
+uma arcada central apresentando, com a mesma significação, dois
+personagens em pé dando a mão e chorando.
+
+Os sarcophagos _mixtos_ são ornados parte com strigiles e parte com
+figuras gravadas a traço ou esculpidas em relevo.
+
+Os sarcophagos dos tres primeiros seculos foram escolhidos nas officinas
+pagãs, ou esculpidos por artistas christãos, segundo modelos profanos.
+
+As scenas da Paixão propriamente dita, taes como a flagellação, o
+coroamento de espinhos e a crucificação, não se encontram representados
+em monumento algum do primitivo christianismo.
+
+Os christãos dos primeiros seculos punham muitas vezes nas sepulturas
+objectos que tinham pertencido ao defuncto.
+
+Encontram-se nos tumulos dos fieis: tecidos d'ouro, anneis, bracelêtes e
+bijoterias, brinquedos de creança, relicarios portateis, vasos de vidro
+ou d'argila collocados ordinariamente perto das cabeças dos cadaveres,
+instrumentos de supplicio.
+
+_Vasos de sangue_. Entre os signaes certos do martyr o principal é o
+vaso de vidro ou d'argila, que serviu para recolher _o sangue do
+martyr_, collocado dentro do tumulo, ou no exterior do nicho sepulchral.
+
+_Objectos collocados no exterior do tumulo_. Entre estes objectos, uns
+são executados pela mão do homem, outros não o são. Podem
+classificar-se, na primeira cathegoria, os _baixos relêvos_, as
+estatuetas, os pequenos _bustos_, e os fragmentos de esculpturas em
+pedra e em marmore, os cacos de louça, os fragmentos de _vasos_ de
+_crystal_ e de _vidro esmaltado_ e _dourado_, os prismas e as pequenas
+_placas_ de _mosaico_, os anneis, os collares, os bracelêtes, e um
+grande numero d'outros objectos de _toilette feminino_, d'ambar, ouro,
+marfim e nacar, os brinquedos de creança, as folhas de taboa de
+escrever, as placas de bronze, as guarnições e os ornamentos para portas
+e cadeiras, d'ouro, marfim, bronze e ferro, os camapheus, as moedas e as
+medalhas, os utensilios de cosinha; n'uma palavra, tudo desde o objecto
+mais ordinario até ás joias mais preciosas.
+
+Encontram-se tambem fragmentos brutos de toda a especie de substancias,
+os mais diversos objectos naturaes e os mais extravagantes; pedaços de
+tufo, estilhaços de pedra ou de tijôlo, caróços de fructos, folhas
+d'arvore ou de planta, dentes e ossos d'animaes, caracoes, cascas de
+mexilhão e d'ôstra, conchas, etc.
+
+Estes objectos fixos ao cimento, eram dispostos de maneira que podessem
+desenhar figuras de que facilmente se podesse fazer idéa.
+
+
+_Outros monumentos christãos dos tres primeiros seculos além das
+catacumbas_. Occupar-nos-hemos dos edificios religiosos construidos
+sobre a terra, dos cemiterios construidos ao ar livre, dos paramentos
+sagrados e dos instrumentos do culto, anteriores á abjuração de
+Constantino.
+
+Sabemos por documentos historicos que muitas pessoas abastadas tinham em
+seus palacios oratorios onde os soberanos Pontifices vinham celebrar os
+Santos Mysterios na presença da multidão dos fieis. Muitos d'estes
+oratorios foram substituidos, depois da abjuração de Constantino, por
+basilicas, ás quaes deram o nome das pessoas piedosas que haviam cedido
+á egreja o direito de propriedade; e se mais tarde estas pessoas ficavam
+consideradas no numero dos Santos, estas basilicas eram-lhes dedicadas.
+
+A mais remota menção d'um templo christão data do tempo de Alexandre
+Severo, que foi imperador desde 222 até 235.
+
+Não é conhecida a fórma nem a distribuição interior d'estas primitivas
+egrejas.
+
+Os unicos monumentos notaveis dos tres primeiros seculos, até hoje
+conhecidos, são as _cellas_ dos cemiterios, ás quaes se deu tambem o
+nome de _basilicas_, desde o principio do IV seculo.
+
+Estes pequenos edificios, construidos nos cemiterios, serviam para ponto
+de reunião dos fieis.
+
+_Cemiterios ao ar livre_. As sepulturas christãs foram estabelecidas,
+desde o principio, ao ar livre.
+
+Estes cemiterios, designados em geral pelo nome de _d'areae_[2] eram, do
+mesmo modo que as catacumbas, situados fóra das portas das cidades;
+porque as leis romanas prohibiam severamente as inhumações dentro dos
+muros.
+
+Depositavam-se os cadaveres, quer em simples fóssas, algumas vezes
+revestidas interiormente de tijólos e de lages, quer em pias de pedra,
+ou caixões de madeira mettidos debaixo da terra. As paredes dos tumulos
+mais ricos eram, dadas certas circumstancias, rebocadas de argamassa, ou
+estucadas e decoradas com pinturas _a frêsco_, semelhantes ás das
+galerias e capellas sepulchraes das catacumbas.
+
+_Paramentos e objectos do culto_. Parece certo que, durante os primeiros
+seculos, os paramentos sagrados não se differençavam dos fatos
+ordinarios, nem pela fórma nem pelo talhe.
+
+Do mesmo modo que aproveitavam para os sagrados paramentos as fórmas e
+os pannos dos fatos ordinarios, assim tambem aproveitavam para o serviço
+dos altares os vasos ricos e preciosos que haviam servido aos usos
+profanos.
+
+
+
+
+CAPITULO III
+
+/#
+ *Summario.*--Estylo Latino--Estylo Bysantino--Fórmas das
+ Basilicas--Origem da Basilica Christã--O Narthex--Orientação das
+ Basilicas e Egrejas Christãs--Egrejas cruciformes, circulares e
+ polygonaes--Cryptas--Baptisterios--Oratorios domesticos--Templos
+ pagãos e edificios profanos apropriados em Egrejas
+ Christãs--Systema e regras de construcção--Decoração
+ monumental--Narthex, fachadas e portaes das Basilicas--Janellas e a
+ maneira de as vedar.--Madeiramento do cume dos
+ edificios--Torres--Pinturas representadas em mosaico--Pavimento nos
+ edificios--Altares--Ciborium--_Ambon_, Tribuna para as leituras da
+ Biblia--Poltrona para os bispos e bancos para os
+ sacerdotes--Cemiterios--Monumentos funerarios--Sarcophagos--Tumulos
+ subterraneos--Objectos com symbolos christãos achados nas
+ sepulturas--Alfaias religiosas--Calices e
+ Patenas--Custodias--Relicarios--Pombas e torres--Accessorios do
+ altar--Corôas de metal precioso suspensas sobre o
+ altar--Dipticos--Encadernação dos livros dos Evangelhos--Estofos
+ religiosos--Paramentos sacerdotaes--Jesus Christo sob fórmas
+ symbolicas--Os Apostolos S. Pedro e S. Paulo.
+#/
+
+
+_Periodo Latino e Bysantino_. A architectura christã póde considerar-se
+dividida em dois ramos perfeitamente distinctos. O primeiro, que se
+poderá chamar o _Estylo Latino_, foi adoptado pela egreja Latina, isto
+é, na Italia, na Illyria, na Dalmacia e em toda a Europa Occidental. É
+caracterisado pela imitação mais ou menos correcta da architectura
+classica, greco-romana. O outro estylo, formado por elementos orientaes
+e romanos, nasceu em Constantinopla, e ahi se desenvolveu, formada sob a
+influencia Oriental, uma configuração inteiramente nova: deram-lhe o
+nome de _Bysantino_.
+
+O Estylo Latino predominou no Occidente até ao principio do seculo VIII;
+e o Estylo Bysantino no Oriente, até á tomada de Constantinopla pelos
+Musulmanos, em 1453.
+
+Chamou se _Latino_ o estylo do imperio do Occidente, em primeiro logar
+porque, derivando do Estylo Romano ou Classico, foi empregado nos paizes
+em que a lingua _latina_ era a lingua ecclesiastica e vulgar; em segundo
+logar, porque existiu tanto tempo como aquella lingua, approximadamente.
+
+O Estylo _Bysantino_ tem o nome derivado de Bysancio ou Constantinopla,
+capital do imperio do Oriente.
+
+_Estylo Latino_. A architectura greco-romana chegou ao seu apogêo
+durante os dois primeiros seculos da era christã. A sua decadencia
+começou no seculo III, afastando-se da nobre simplicidade do Estylo
+Classico.
+
+No seculo IV, ainda mais se pronunciou a sua degeneração.
+
+Começaram então a desmanchar os antigos monumentos para em seu logar
+construir e decorar mais facilmente os novos. Tal era o estado da
+architectura no Occidente, quando foram construidos os primeiros
+monumentos christãos do periodo _Latino_.
+
+_Fórma das basilicas_. As _basilicas profanas_ eram vastos edificios
+construidos no _Forum_, ou nos arredores das praças publicas. Serviam
+para ponto de reunião dos vendedores, assim como de outros individuos
+que se occupassem de negocios. Era n'ellas que os magistrados
+administravam Justiça.
+
+As _basilicas christãs_ foram construidas segundo o modêlo das basilicas
+profanas; sómente, em vez de se construirem ao longo das praças
+publicas, eram precedidas de um pateo quadrado, com o fim de as afastar
+do ruido e do tumulto da rua. Tinham, como as basilicas profanas, a
+fórma d'um rectangulo mais ou menos alongado e compunham-se de tres
+partes principaes--o _pateo_ ou o _atrium_; a _nave_ e o _Sanctuario_.
+
+O _narthex_ abria-se ao fundo do atrium. Era uma especie de vestibulo,
+propriamente dito, formado pelo portico transversal contiguo á fachada
+da basilica.
+
+Esta primeira parte da basilica era occupada, durante o officio, por
+aquelles a quem as leis ecclesiasticas prohibiam tomar parte nas
+assembléas dos fieis.
+
+Do _narthex_, entrava-se por uma, tres ou cinco portas para a basilica,
+que era ordinariamente dividida em tres naves por duas ordens de
+columnas.
+
+A da direita, reservada para os homens, e a da esquerda para as
+mulheres.
+
+Avançando pela nave dentro, encontravam-se os _ambons_, pulpitos
+destinados á leitura dos Santos Evangelhos para as prédicas, e á
+promulgação das leis ecclesiasticas.
+
+Entrava-se emfim na terceira parte da basilica, a parte mais Santa e
+mais veneranda, aquella onde os seculares não podiam penetrar, e que se
+chamava o _Sanctuario_.
+
+O altar occupava a parte central do Sanctuario, e tinha frente para uns
+poucos de lados.
+
+Atraz do altar desenvolvia-se o _abside_ de fórma semi-circular e
+coberto ordinariamente com uma meia cupula.
+
+A cadeira do Bispo era collocada ao fundo do _abside_, e para ella se
+subia por uns poucos de degraus. Aos lados da cadeira episcopal, se
+achavam, contiguos ao hemicyclo do abside, os assentos ou bancos
+destinados aos padres, que assistiam aos Officios Divinos.
+
+A alteração mais notavel, que a disposição interior das basilicas
+soffreu com o andar do tempo, foi o accrescentamento do cruzeiro ou nave
+transversal, entre o abside e a nave propriamente dita.
+
+_Orientação das basilicas e das egrejas christãs_. Chama-se _orientação_
+uma disposição particular, segundo a qual o eixo longitudinal d'um
+edificio, d'um tumulo, etc., se dirige do Occidente para Oriente.
+
+Desde a primitiva que a egreja christã adoptou o costume de orar
+voltando o rosto para o Oriente.
+
+O costume de orientar as egrejas foi dos primeiros seculos do
+Christianismo.
+
+Ha dois modos inteiramente oppostos d'orientar as egrejas. N'um, usado
+antigamente, a fachada principal forma a parte Oriental do edificio e a
+capella-mór do lado do Poente. N'outro, que preponderou mais tarde, a
+posição de todas as partes da egreja é completamente trocada, a fachada
+está voltada para o Occidente, e a capella-mór para o Oriente.
+
+O primeiro modo d'orientação não durou muito tempo. Nos seculos V e VI,
+a começar no V, se construiram muitas egrejas com a capella-mór voltada
+para o Oriente. No Occidente a mudança effectuou-se lentamente, pois só
+se completou durante o seculo XIII.
+
+_Cryptas_. A maior parte das basilicas foram edificadas nos mesmos
+sitios onde tinham sido sepultados os restos mortaes d'um Martyr, ou de
+qualquer Santo illustre.
+
+Nas primitivas basilicas, o altar era situado mesmo sobre a sepultura.
+
+As galerias e capellas subterraneas, que mais tarde foram substituidas,
+tiveram o nome de _cryptas_, da palavra grega que significa, _eu
+escondo_.
+
+Estas galerias abobadadas transformaram-se muito tarde em verdadeiras
+capellas, ou egrejas subterraneas, por debaixo de todo o _presbyterium_;
+bastante vastas para necessitarem o emprego de columnas que recebiam os
+arcos das abobadas, formando assim muitas naves.
+
+_Baptisterios_. Distinguem-se tres especies de baptismo: o baptismo por
+_immersão_, o baptismo por _aspersão_, e o baptismo por _infusão_ ou
+_affusão_.
+
+O primeiro ministra-se mergulhando na agua todo o corpo; no segundo e
+terceiro, o ministro, de longe ou de perto, lança a agua sobre a cabeça
+do neophito. O baptismo por immersão foi usado até ao seculo XII; a
+começar d'esta épocha, principiou a ser substituido, na egreja Latina,
+pelo baptismo por infusão, do qual até ali se não serviam, a não ser
+para os doentes em perigo de vida.
+
+Primitivamente era reservada aos Bispos a administração do Solemne
+Baptismo. O Bispo mergulhava tres vezes o neophito, invocando de cada
+vez uma das Pessoas da Santissima Trindade.
+
+Depois da abjuração de Constantino, quasi se generalisou por toda a
+christandade o baptismo ministrado nos edificios particulares situados
+ao lado das principaes egrejas, e especialmente das cathedraes.
+
+Os baptisterios tinham em geral a fórma circular ou octogona, mas alguns
+havia quadrados, e outros ainda em fórma de cruz grega. As pias
+baptismaes eram muito grandes, porque muitas vezes se ministrava a
+adultos o baptismo por immersão.
+
+_Templos pagãos e edificios profanos convertidos em egrejas christãs_.
+Os templos pagãos não se prestavam em geral para o culto christão, em
+consequencia das suas diminutas proporções.
+
+Entretanto alguns foram convertidos, com ligeiras modificações, em
+egrejas christãs, e outros foram-lhes encorporados.
+
+A maior parte d'estas transformações datam do reinado do imperador
+Theodosio (383-385), e dos seus successores immediatos.
+
+Tambem houve monumentos civis que foram transformados em egrejas
+christãs; taes como as thermas e os banhos, que entre os romanos
+excediam em magnificencia os proprios templos.
+
+_Caracteres do Estylo Latino_. As basilicas christãs foram muitas
+d'ellas construidas, aproveitando para isso monumentos mais antigos. Mas
+em consequencia das basilicas serem muito mais vastas do que os templos
+pagãos, tornava-se por isso não raras vezes necessario desmanchar muitos
+d'esses monumentos para construir uma só basilica.
+
+A architectura estava n'uma tal decadencia, que muitas vezes chegavam a
+reunir fragmentos de dimensões e estylos differentes, e ajustavam-nos o
+melhor que podiam.
+
+Se, por exemplo, se tratava de columnas provenientes de diversos
+monumentos, não pertenciam muitas vezes á mesma Ordem d'architectura;
+tendo portanto os fûstes e os capiteis de alturas differentes,
+enterravam os fustes, ou os collocavam sobre soccos. O desvio e a
+distancia relativa das columnas variavam dentro de limites excessivos.
+
+A unica innovação d'alguma importancia introduzida nas construcções, foi
+a substituição da _arcada_ pela architrave.
+
+Nas regiões onde escasseavam monumentos antigos, os edificios do periodo
+Latino eram em geral muito pequenos, baixos e pobremente decorados,
+muitos até de madeira.
+
+Apezar do que acabâmos de expôr, no seculo V e VI, construiram-se em
+Ravenna muitos monumentos importantes (dos quaes ainda alguns se
+conservam), sem que fôsse necessario recorrer á devastação que tiveram
+os anteriores; o que prova existir n'aquella epocha em Ravenna uma
+brilhante escola de habeis constructores.
+
+_Materiaes de construcção_. As basilicas e os monumentos do periodo
+Latino eram construidos com pedras d'alvenaria regulares, quasi sempre
+quadradas, de mediano preparo, e tambem com tijolos chatos, ficando
+separados por uma espessa camada de cimento. Muitas vezes tambem os
+muros eram formados por cordões de uma, duas ou muitas faxas de pedras
+d'alvenaria alternadas com outras compostas de uma ou duas fiadas de
+tijolos.
+
+_Decoração dos monumentos_. O periodo Latino não foi epocha de esplendor
+para a architectura ornamental.
+
+O _ábaco_ dos capiteis recebeu, durante o periodo Latino, dimensões e um
+esvasamento taes que muitas vezes parecia ser um capitel sobrepôsto
+sobre outro. A frente do ábaco era adornada, do lado da nave principal,
+com um symbolo, que algumas vezes era o monogramma do fundador, e em
+geral havia uma Cruz d'ordem Trina isolada, ou inscripta n'um circulo.
+Chama-se Cruz de Ordem Trina aquella cujos braços são mais largos nas
+extremidades do que no ponto de intersecção dos ramos. Esta cruz, quer
+só, ou entre dois cordeiros, ou entre dois passaros, com a frente um
+para o outro, foi um dos symbolos christãos mais usados durante o
+periodo Latino.
+
+_Narthex, fachadas e portaes das basilicas_. O narthex interior occupava
+o fundo do atrio, e era formado pelo portico contiguo á fachada
+principal da basilica. Communicava pelos extremos com as galerias que
+rodeavam o atrio; como se observa na egreja de Villarinho de S. Romão,
+na provincia do Douro.
+
+Nas basilicas latinas, quando a configuração do terreno não permittia
+estabelecer o atrio e o narthex, substituiam algumas vezes estes, por
+galerias altas collocadas no interior do edificio ao longo da nave.
+
+Os portaes das basilicas eram construidos segundo o modelo dos portaes
+ricos do estylo classico.
+
+As portas dos portaes das basilicas eram de bronze ou de madeira.
+Algumas das portas de bronze, das primeiras basilicas, provieram de
+monumentos pagãos. No seculo IX, a egreja de Santa Maria Maior, em Roma,
+tinha portas de prata.
+
+_Janellas e vidraças_. As janellas das basilicas eram rasgadas d'alto a
+baixo, e de volta inteira.
+
+Serviam de vidraças a estas janellas grandes laminas de marmore ou de
+pedra, atravessadas de buracos para por elles penetrar a luz no interior
+dos edificios. Mais tarde, estas laminas foram vasadas de maneira que
+offereciam á vista os mais complicados desenhos. Na Europa Occidental e
+Septemtrional, em que as laminas de pedra e de marmore escasseiavam,
+guarneciam as janellas com caixilhos de madeira.
+
+As clara-boias muitas vezes não tinham cobertura, principalmente nos
+paizes meridionaes; e n'outros eram vedadas com laminas de pedras
+translucidas ou de placas de alabastro.
+
+Desde o seculo VII que começou a haver vidraças com vidros brancos e
+esverdeados, e até mesmo com vidros de differentes côres. Não appareciam
+ainda figuras, nem ornatos alguns, pintados sobre os vidros; as vidraças
+com vidros de côr eram formadas por um grande numero de vidros
+coloridos, cortados de differentes modos e que se reuniam de certa
+maneira, a fim do conjuncto representar figuras de fórmas regulares.
+
+Desde o reinado de Constantino, os grandes edificios apenas se cobriam
+com madeira.
+
+A maior parte d'esta construcção ficava visivel no interior dos
+edificios. Em alguns, as naves tinham tectos de madeira com pinturas
+diversas, representando caixões ricamente adornados e dourados.
+
+Raras eram as basilicas que desde a sua fundação tinham possuido torres.
+Os campanarios que hoje se vêem proximo das antigas egrejas de Roma, são
+quasi todos posteriores ao seculo VIII. As torres do _periodo Latino_
+são na maior parte de fórma circular ou octogonal.
+
+Nas grandes basilicas as abobadas esphericas do abside e o Arco
+Triumphal, e algumas vezes tambem as paredes comprehendidas entre as
+janellas altas da nave e das arcadas que ligam as columnas, ficavam
+revestidas com vistosos mosaicos.
+
+Os materiaes mais ordinariamente empregados n'este genero de trabalho,
+eram folhas de marmore e pedaços de vidro.
+
+Em muitas basilicas de Roma, o abside abobadado em forma de esphera tem
+ao centro a imagem de Jesus Christo em pé ou sentado, com o braço
+direito erguido, ou lançando a benção, e com um rolo de papel ou um
+livro collocado á sua esquerda. Aos lados do Salvador estão
+representados os Apostolos, ou outros Santos. O sólo que pisam é o da
+Judeia, o que se conhece pela representação do rio Jordão, cujo nome é
+muitas vezes inscripto debaixo dos pés de Jesus Christo, e pela presença
+das palmeiras, que foram, desde o primeiro seculo da era christã, o
+symbolo da Terra promettida. Logo abaixo do abside se estende, em toda a
+largura, uma zona estreita, no centro da qual se vê o Cordeiro Divino
+coroado com ou sem a Cruz, collocado sobre um outeiro d'onde brotam os
+quatro rios do Paraíso: Geham, Phison, o Tigre e o Euphrates, symbolos
+dos Evangelistas. Doze cordeirinhos, seis de cada lado, se dirigem para
+o cordeiro symbolico, e parecem sahir das cidades Santas de Jerusalem e
+Bethlem, que occupam os extremos da composição, e se acham representadas
+por varias portas e muralhas com ameias. Estes cordeirinhos symbolisam
+os fieis.
+
+Alguns mosaicos representam o sonho de S. João, isto é, os quatro
+animaes, symbolos dos Evangelistas; e os vinte e quatro velhos, vestidos
+de mantos brancos, offerecendo coroas ao Cordeiro.
+
+Para piso das basilicas, os primitivos christãos serviam-se dos
+differentes processos de empedramento, como os romanos usavam. Mais
+tarde, estes processos foram substituidos por um trabalho de novo
+genero, chamado _opus alexandrinum_, assim designado por ter sido usado
+primeiramente na Alexandria. Estes empedramentos consistiam em um
+conjuncto de variados marmores em que predominavam os porphyros verdes e
+vermelhos; pareciam como um rico tapete estendido no sólo. O
+empedramento _alexandrino_ foi muito pouco empregado na Europa
+Occidental e Septemtrional.
+
+Havia tambem empedramentos em que sobresahia a prata e outros metaes
+preciosos.
+
+Parte do piso do Sanctuario da basilica do Vaticano é de palhetas de
+prata; mas o da capella de S. Pedro, da mesma basilica, é de palhetas de
+ouro.
+
+Nas catacumbas era mesmo sobre os tumulos dos martyres que se celebravam
+os Santos Mysterios; porém, a começar do seculo III, este uso foi
+approvado tambem pela Egreja.
+
+No Occidente, o altar era quasi sempre erigido sobre o tumulo d'um
+martyr. Os restos mortaes do Santo collocavam-se immediatamente debaixo
+do altar n'um sarcophago, e ainda, na maior parte dos casos, ficavam
+depositados n'uma crypta collocada debaixo do Sanctuario. Tanto na
+Grecia como no Oriente, nunca em tempo algum, e até mesmo em nossos
+dias, se fez d'um tumulo um altar, mas sim d'uma mesa, que recordava
+aquella sobre a qual o Salvador instituiu a Eucharistia. Um altar
+_nunca_ encerrava _reliquias_. Desde o tempo de Constantino, que data a
+maior parte dos altares das egrejas do Occidente. No principio do seculo
+VI (517) o concilio de Épona prescreveu, que todos os altares fossem de
+pedra, os quaes foram adoptados pela razão symbolica de ser considerado
+o Salvador a pedra angular.
+
+Os altares de pedra d'essa épocha eram sempre formados por uma especie
+de prateleira quadrada ou rectangular, para constituir a mesa do altar
+propriamente dito. Esta mesa, muitas vezes, cobre um sarcophago ou um
+tumulo de madeira; outras é sustentada por um pé central em forma de
+cippo e ainda outras posta em quatro, cinco e mesmo até seis
+columnellos.
+
+Havia altares formados de tres lages, das quaes duas se collocavam
+verticalmente, servindo de supporte á terceira, collocada
+horisontalmente, a fim de formar a mesa do altar. Encontram-se tambem
+altares formados de cinco placas, tendo, pelo seu conjuncto, a fórma de
+um cofre de pedra.
+
+A Auréola era formada de folhagens e sustentada por quatro anjos; Nosso
+Senhor Jesus Christo fica collocado entre dois Cherubins, que facilmente
+se reconhecem pelas suas asas abertas. Uma mão figurada no remate
+superior da Auréola, é para indicar a presença de Deus. É tambem
+adornada de flores, para indicar que o assumpto se passa no Céu.
+
+As esculpturas mostram que esta arte estava muito decahida no seculo
+VIII. Essas figuras com posições grotescas e forçadas, teem todas o
+rosto de frente, e os membros desproporcionados, sendo tudo d'uma
+imperfeição tal, que é difficil imaginar-se nada mais grosseiro e rude.
+
+A inscripção, muito mal escripta, e n'uma linguagem quasi
+inintelligivel, não é mais esmerada do que as esculpturas.
+
+Quando as faces dos altares das basilicas das grandes egrejas não tinham
+esculpturas, eram então revestidas de laminas de ouro e de prata, com
+engastes de pedras preciosas, ficando cobertas de colchas bordadas,
+representando algumas vezes assumptos sagrados.
+
+Desde o seculo IV até meiado do XII, que as mesas dos altares eram
+muitas d'ellas escavadas em fórma de bandeja em toda a extensão do plano
+superior, tendo um rebórdo de alguns centimetros de altura; às vezes
+tinham ornatos esculpidos. Muitas mesas eram furadas nos angulos, com um
+ou muitos buracos, cuja serventia ainda não foi possivel descobrir. O
+altar era encimado por um _ciborium_, especie de docel ou baldaquim,
+sustentado por quatro columnas de madeira ou de marmore e de metal.
+
+Entre as columnas do _ciborium_ havia umas cortinas ou reposteiros de
+corrediça, que se corriam para occultar o officiante e o altar durante a
+consagração.
+
+O _ciborium_, que data do seculo XII, tem uma fórma um tanto differente
+da que foi posta em uso durante o periodo Latino.
+
+As cortinas dos antigos _ciboriums_ eram em geral de preciosissimos
+damascos de seda e ouro, ou com ricos lavores, guarnecidos de perolas,
+pedrarias e mesmo laminas de ouro e de prata.
+
+Primitivamente, cada egreja apenas tinha um altar. Comtudo mais tarde
+houve egrejas no Occidente, que tinham muitos.
+
+Os gregos e os orientaes nunca tiveram senão um altar nas suas egrejas.
+
+Os _altares portateis_ antigos compunham-se, bem como os mais recentes,
+de uma prancha rectangular de madeira, de pedra ou de metal, algumas
+vezes munida de uma moldura de ouro ou de prata, e tendo no extremo um
+appendice para servir de punho. Não se acharam altares portateis do
+periodo Latino, não obstante parecer indubitavel que deveriam ser
+communs n'aquelle periodo.
+
+Uma tribuna, collocada no meio da nave principal das basilicas, era
+destinada á leitura dos Santos Evangelhos e aos sermões. Algumas egrejas
+possuiam tres: uma para o Evangelho, outra para a Epistola e outra para
+as prophecias.
+
+A tribuna do Evangelho tinha regularmente duas escadas. Perto d'ella
+havia um enorme candelabro que servia para supportar uma grande tocha
+chamada _o facho do Evangelho_.
+
+Nas basilicas christãs, o sanctuario e o côro eram separados da nave por
+uma divisão, umas vezes occultando o recinto, e outras ficando
+rendilhado, á altura de metro e meio a dois metros acima do chão. Esta
+divisão, chamada _cancello_, era muitas vezes de marmore.
+
+A cadeira episcopal ou _cathedra_ occupava o fundo do abside. Era de
+pedra de marmore precioso, e elevada tres degraus, pelo menos, acima do
+presbyterio.
+
+Havia tambem cadeiras de marfim.
+
+Aos lados da cadeira episcopal, e ao longo da parede do hemicyclo,
+achavam-se os bancos destinados aos padres, chamados algumas vezes
+_exedrae_, pelos auctores antigos. Eram muito simples, e durante o
+officio cobriam-se com almofadas.
+
+
+A partir do meado do IV seculo caíu a pouco e pouco em desuso o
+enterramento nas catacumbas; e no principio do seculo seguinte,
+desappareceu completamente. Os cemiterios estabeleciam-se á roda da
+capella-mór das egrejas e das basilicas, situadas fóra dos muros das
+cidades, com os seus tumulos quasi sempre orientados.
+
+N'estes cemiterios depositavam-se a maior parte das vezes os cadaveres
+em covas de pedra e cal. Entre duas paredes parallelas e distantes entre
+si 70 centimetros, pouco mais ou menos, abriam-se, por meio de lages ou
+simples tijolos, nichos de tamanho sufficiente para receber um cadaver.
+Estes nichos chegavam ás vezes a disporem-se em dez ordens, umas sobre
+as outras. Este systema foi o adoptado para as sepulturas dos cemiterios
+do IV, V e VI seculos.
+
+Algumas vezes tambem os cadaveres eram encerrados em sarcophagos, que em
+seguida se cobriam com terra, ou se collocavam tanto ao ar livre como
+debaixo de abobadas, no interior das egrejas e das basilicas.
+
+Foi sómente no VII seculo que a Egreja começou a permittir, ou antes a
+tolerar, as inhumações, não precisamente no interior, mas em redor dos
+templos situados dentro das cidades. Unicamente os bispos haviam até ali
+gosado do privilegio de serem enterrados nas suas egrejas Cathedraes.
+
+Durante o periodo Latino foram muito raros os edificios isolados que se
+construiram para servir de sepultura aos grandes personagens.
+
+As esculpturas dos sarcophagos começaram a modificarem-se no meiado do V
+seculo. Os assumptos biblicos desapparecem a pouco e pouco, e são
+substituidos por imagens de Santos. A Cruz da SS. Trindade ou o
+monogramma de Christo occupa, muitas vezes, o centro da face principal
+dos sarcophagos, destinada antes para o logar do Salvador, tendo aos
+lados pombas, pavões, palmeiras, parras e outros symbolos.
+
+As tampas são ornadas de Cruzes da SS. Trindade, formadas pelo
+entrelaçamento de Cruzes gregas e de Cruzes de Santo André, isto é, em
+fórma de X.
+
+O meio da face principal d'alguns sarcophagos é occupado pelo monogramma
+de Christo, que d'este modo preenche o logar do Salvador. Os pavões aos
+lados do monogramma são os emblemas dos Apostolos, e as pombas, bicando
+os cachos de uvas, symbolisam os fieis alimentando-se do vinho
+eucharistico. A maior parte dos sarcophagos eram de pedra ou de marmore;
+no entanto alguns havia de chumbo e até mesmo de gesso.
+
+Os _sarcophagos do IV seculo_ tinham todos a mesma largura e a mesma
+altura nas extremidades; do V seculo, apparecem muitos tendo o lado da
+cabeça mais largo que o dos pés.
+
+As _campas sepulchraes_ são em geral indicio de uma sepultura
+subterranea. O seu uso é muito remoto. As lages tumulares, assentes
+sobre os tumulos subterraneos ou nos nichos ao longo das paredes, eram
+já empregadas no V seculo, sendo muitas vezes esculpidas em relevo, e
+tambem algumas ornadas com desenhos só a traço. Por vezes ajustavam na
+parede, onde existia qualquer sepultura, uma placa de marmore ou de
+pedra, sobre a qual se gravavam symbolos, o nome do defuncto, a sua
+idade, ou tambem o dia do seu fallecimento.
+
+Os _tumulos_ dos cemiterios primitivos podem-se dividir em tres classes,
+segundo os objectos que n'elles se encontram. A primeira classe
+comprehende aquelles em que, além do esqueleto, se não encontra mais
+objecto algum, a não ser ás vezes uma pequena faca: estes tumulos são os
+dos servos ou pessoas de condição servil. Nos tumulos da segunda classe,
+o esqueleto é acompanhado do grande alfange de ferro, chamado
+_scramasaxe_: são estes os dos homens livres ou senhores feudaes. O
+homem livre gosava do privilegio de trazer á cintura este instrumento,
+que com elle era tambem depositado no tumulo. A terceira classe era
+constituida ordinariamente por um certo numero de tumulos ricos em
+coisas de toda a especie, principalmente em armas e objectos de toilette
+feminina: são esses os tumulos dos chefes militares, dos guerreiros e
+membros da sua familia.
+
+O homem de guerra era sepultado com todo o seu equipamento, e ao lado
+depositava-se a sua esposa, adornada com todas as joias que tinha usado
+durante a vida.
+
+As fivelas (fibules), que se encontram em tão grande numero n'essas
+sepulturas tinham duas serventias.
+
+As maiores serviam para fechar o boldrié de coiro onde se suspendia o
+_scramasaxe_. Quasi todas são de ferro, sendo algumas marchetadas de
+prata ou revestidas de laminas de prata, com lavores representando
+folhagens ou figuras. Encontram-se algumas de bronze, e são as mais
+bellas.
+
+Ha tambem umas fivelas de bronze e de menores dimensões, que serviam
+para ligar o vestuario á roda dos rins, para individuos dos dois sexos.
+Estas fivelas eram em geral menos lavradas que as do cinturão. Algumas
+havia tambem de ferro.
+
+Os alamares, broches ou _fibulas_, destinadas a unir sobre os hombros ou
+sobre o peito as duas extremidades do vestuario, são sem duvida os
+objectos mais interessantes que se encontram nas sepulturas dos
+cemiterios. Ha-os de ouro, de prata, de bronze, e encontram-se sobretudo
+nos tumulos de mulher.
+
+Encontram-se tambem frequentemente nos tumulos de mulher, pregos para
+segurar o cabello, com cabeças de aperfeiçoado trabalho. Ha-os de ouro,
+de prata e de bronze, com grandes comprimentos.
+
+Os brincos das orelhas são em geral, assim como os pregos para o
+cabello, pequenas obras primas de ourivesaria. Compõem-se quasi sempre
+de um annel de grande diametro, ao qual está ligado um pequeno botão de
+ouro cheio de filigranas e de vidrilhos embutidos. Os _collares_ que
+frequentemente se encontram nas sepulturas de mulher, compõem-se de
+contas, de fórmas e dimensões differentes, enfiadas n'um cordel. As
+contas são de vidro e de loiça de diversas côres, e de coral natural ou
+arredondado; tem-se tambem encontrado, mas raras vezes, contas de ouro
+massiço. As de vidro e de loiça são, em geral, pintadas com differentes
+camadas de côres juxtapostas, que adherem pela cozedura, reprezentando
+zig-zags, e outras muitas figuras estriadas. As côres que predominam,
+são o vermelho, o amarello, o verde, o pardo, o azul, o branco e o
+preto.
+
+As _vasilhas de barro_ constituem o complemento obrigado de todos os
+tumulos antigos. Encontram-se, quasi sempre, uma ou duas aos pés do
+esqueleto. Parece que estas vasilhas serviam aos pagãos para conterem
+agua lustral. Em seguida á sua crença na verdadeira fé, os convertidos
+ao Christianismo continuaram a encerrar vasilhas nos tumulos, porém
+mudaram a significação d'esta ceremonia funebre, substituindo a agua
+lustral pela agua benta.
+
+A maior parte d'estas vasilhas são de barro preto e vermelho. Muitas
+apresentam a fórma d'uma pequena urna, tendo na parte superior do bojo
+ornatos de estylo muito rudimentar, feitos em volta e por meio da ponta
+d'um instrumento cortante.
+
+As _vasilhas de vidro_, de fórmas elegantes e variadas, que se encontram
+nas sepulturas junto á cabeça ou aos pés do esqueleto, mostram que a
+arte de vidraceiro já tinha attingido um elevado gráu de perfeição. O
+maior numero são de vidro, d'um amarello esverdeado, soprado ou moldado;
+algumas têem como ornato riscas delgadas, brancas ou de côr, feitas
+depois da sopragem ou misturadas com a massa vitrea.
+
+A introducção do Christianismo entre os Francos data do fim do seculo V.
+Não é por isso para admirar o encontrarmos nos seus tumulos objectos
+ornados com symbolos christãos.
+
+O _calice_ occupa o primeiro logar entre os vasos sagrados. Já os
+Apostolos se serviam de calices para a celebração dos Santos Mysterios.
+
+Nos primeiros seculos da egreja, os calices eram de madeira, de vidro e
+até mesmo de chifre.
+
+Depois da conversão de Constantino, é que se começou a generalisar o uso
+dos calices de ouro e de prata. Muitas vezes eram tambem ornados de
+pedrarias.
+
+Existem calices de differentes especies. Os calices ordinarios, que se
+compõem, como os de todas as idades posteriores, de uma taça, um nó e um
+pé, tinham, em geral, a taça de fórma cylindrica, mais ou menos vasada,
+muito estreita e profunda. Os calices da segunda especie eram os calices
+ministeriaes, que serviam para distribuir aos fieis o precioso sangue,
+quando estava em uso a communhão de duas especies na Egreja. Este uso
+foi abolido no XIII seculo. Os calices ministeriaes, em geral, de
+grandes proporções, tinham duas asas.
+
+Havia ainda os calices das offerendas, _calices offertorii_, nos quaes
+os diaconos recebiam as oblações de vinho; os calices baptismaes, que
+serviam para dar aos novos baptisados uma mistura de leite e de mel; e
+os calices de adorno, que nos dias solemnes eram suspensos na egreja,
+nas proximidades do altar, ou collocados sobre a credencia.
+
+A _patena_, assim chamada do verbo latino _patere_, _estar aberto_, em
+consequencia da sua fórma larga e pouco profunda, é um prato de metal,
+de vidro, ou de qualquer outra substancia, no qual se colloca a Hostia,
+durante a Santa Missa. O seu uso é tão remoto como o do calice.
+
+As patenas eram redondas, quadradas ou polygonaes e munidas d'um
+rebórdo.
+
+O uso de reservar a Santa Eucharistia para os doentes e ausentes, provém
+desde a origem do Christianismo.
+
+Pouco depois, quando os _altares_ foram augmentados com o _ciborio_,
+suspendiam a reserva Eucharistica encerrada em vasos com a fórma de
+torres e pombas. Os vasos para as Sagradas Particulas tinham
+primitivamente a fórma de uma pomba. Quasi todos eram de ouro, de prata
+e de cobre dourado. A pomba Eucharistica encerrava-se geralmente em um
+Tabernaculo com fórma de torre.
+
+
+Durante o período _Latino-bysantino_, os corpos dos Santos eram
+cuidadosamente encerrados em sarcophagos, e depositados em cima d'um
+altar ou n'uma crypta subterranea.
+
+O Relicario para o Santo Lenho tem quasi sempre a fórma de pequenas
+Cruzes peitoraes, concavas interiormente, e abrindo-se em toda a sua
+altura, por meio d'uma dobradiça collocada no vertice superior da Cruz.
+
+As _chaves da confissão de S. Pedro_ são assim chamadas, porque se diz,
+que serviam para dar ingresso no tumulo do principe dos Apostolos, na
+crypta da basilica Vaticana. As chaves são grossas, ovaes, ôcas e de
+lavores rendilhados.
+
+Os Soberanos Pontifices dos primeiros seculos tinham por uso distribuir
+aos reis, aos principes e aos bispos, parcellas das cadeias de S. Pedro,
+dentro de anneis, cruzes, e principalmente em preciosas chaves.
+
+Desde o IV seculo que começaram a importar de Jerusalem os oleos
+provenientes das lampadas que ardiam de noite e de dia no Santo
+Sepulchro, e em outros logares Santos.
+
+Os Papas e os Bispos enviavam estes oleos ás egrejas, aos soberanos e ás
+pessoas de distincção. Eram conservados e remettidos em pequenos vasos
+de vidro ou de metal, circulares, e achatados, com gargallo.
+
+Durante os primeiros seculos, a Mesa do altar estava inteiramente livre
+e a descoberto, e só se punha em cima o pão, o vinho e os Vasos Sagrados
+necessarios para o Santo Sacrificio.
+
+_Os Crucifixos_ e os castiçaes _eram desconhecidos_ durante os primeiros
+seculos. N'essa épocha apenas algumas vezes se via uma cruz ao lado
+direito do altar.
+
+_Corôas de altar_, geralmente de _metal precioso_ e ornadas de pedrarias
+engastadas, constituiram, durante todo o periodo latino, o mais rico
+accessorio do altar.
+
+As mais notaveis corôas de altar, que foram descobertas em 1858 e 1860,
+em Toledo (Hespanha), são em numero de onze, todas de ouro e cravejadas
+de pedras.
+
+Algumas vezes, principalmente a partir do IX seculo, deu-se o nome de
+_regnum_ ás corôas votivas dos altares, para as distinguir das de
+illuminar. Tambem ás vezes se penduravam Cruzes proximo dos altares.
+
+As luzes que se empregavam com profusão, durante os Officios Divinos,
+eram collocadas proximo dos altares, quer sobre uma mesa, quer sobre
+candelabros, ou ainda mais vezes sobre lustres, em fórma de corôa,
+suspensos no côro, no Sanctuario e até mesmo no meio da egreja.
+
+Os _diptycos_ são de épocha muito remota. Ao principio eram formados de
+duas pequenas taboas de madeira ou de marfim, dobrando-se uma sobre a
+outra, e cuja parte interior continha uma camada de cera, sobre a qual
+se escrevia. Estas taboas eram rodeadas com uns fios de linho, sobre os
+quaes se deitava cêra que se imprimia com um sinete. Serviam assim para
+as missivas secretas.
+
+Desde a sua origem que a Egreja Christã teve diptycos. Eram tabellas ou
+catalogos, sobre os quaes se inscreviam certos nomes que deviam ser
+lembrados e lidos, pelo menos em parte, nas reuniões sagradas dos fieis.
+
+Podêmos pois, conforme a origem, distinguir duas especies de diptycos
+sagrados: os diptycos consulares adaptados á liturgia, e os diptycos
+puramente ecclesiasticos.
+
+Os diptycos puramente ecclesiasticos eram de marfim ou de metal. Tinham
+nas faces exteriores esculpidos ou cinzelados a imagem de Christo e a da
+Santa Virgem, ou assumptos tirados da historia do Velho e Novo
+Testamentos, e outros symbolos christãos.
+
+Quando a leitura dos diptycos começou a deixar de se usar nos officios
+sagrados, transformaram-se as taboas esculpidas ou cinzeladas, em capas
+para livros liturgicos.
+
+Desde o tempo de S. Jeronymo que começaram a ornamentar, o mais
+ricamente possivel, o livro dos Evangelhos; notava-se esta riqueza tanto
+no exterior como no interior do volume.
+
+Muitas vezes o texto sagrado era escripto com letras de ouro sobre
+membranas côr de purpura.
+
+Exteriormente os livros dos Evangelhos eram ornados com todo o esmero;
+nas capas abundavam o ouro, a prata, os vidrilhos, as pedrarias e as
+perolas, e durante muito tempo, foi costume encerral-os em estojos ou
+cofres, _capsae_, ricamente trabalhados.
+
+As capas dos Evangeliarios podem-se dividir em duas classes: as de
+laminas metallicas e as de marfim.
+
+Entre as primeiras, umas eram simples, sem figuras e até mesmo
+desprovidas de toda a ornamentação, outras cravejadas de pedras e
+esculpidas em relevo, representando assumptos religiosos.
+
+Os assumptos das capas dos Evangeliarios de marfim e de metal não
+differem dos que têem as dos diptycos. São symbolos ou scenas extrahidas
+do Novo Testamento e principalmente da vida e da paixão de Nosso Senhor.
+
+_Estofos preciosos_. Durante os primeiros seculos da era christã, os
+fatos ordinarios eram de tela, ou, na maior parte das vezes, de lã.
+Depois da conversão de Constantino, o uso dos tecidos de seda para as
+vestes liturgicas generalisou-se bastante, a ponto tal, que o Soberano
+Pontifice S. Silvestre, contemporaneo d'este imperador, foi obrigado a
+abolil-o nas roupas brancas de altar chamadas _corporaes_.
+
+Além dos tecidos unidos, ha outros ornados com figuras ordinariamente
+multicolores, obtidas umas pela applicação de variegadas côres depois da
+tecedura, outras durante a tecedura, por meio de certas combinações dos
+fios da cadeia e da trama.
+
+Durante o periodo Latino, o fabrico textil da seda era completamente
+desconhecido na Europa meridional e occidental. Provinham da Asia, do
+Egypto, da Grecia e de Constantinopla, os tecidos de seda. É por este
+motivo que muitas vezes se chamavam _estofos transmarinos_, e mais tarde
+tambem, estofos dos Sarracenos, porque os arabes mahometanos forneciam
+para o Occidente uma grande quantidade.
+
+Os estofos mais antigos não raras vezes eram decorados com medalhões
+circulares ou ovaes, no genero de _Maestricht_, obtidos ou pela
+tecedura, ou por bordados applicados posteriormente.
+
+A ornamentação dos tecidos, que vinham do Oriente e sobretudo da Persia,
+consistia em assumptos em que predominavam o reino animal e o vegetal, e
+até por vezes na propria mythologia d'este ultimo paiz. Em vão
+procurariamos o symbolismo christão n'estas representações tão variadas.
+Apenas ali se encontra o producto da imaginação dos artistas orientaes,
+que confeccionaram esses tecidos.
+
+Os symbolos e os assumptos christãos só excepcionalmente apparecem sobre
+alguns productos das fabricas gregas ou bysantinas, e isso mesmo em uma
+épocha relativamente recente; consistem em pequenas Cruzes Gregas da
+Trindade, inscriptas em circulos, animaes symbolicos, taes como o leão e
+o pavão, e raramente um personagem isolado. As scenas historicas do
+Velho e Novo Testamentos não começaram a representar-se sobre os estofos
+senão durante o VIII seculo.
+
+Desde o meiado do IV seculo, que a egreja começou a servir-se d'este
+meio, para representar, sobre os tecidos empregados nas ceremonias
+sagradas, assumptos religiosos extrahidos do Velho e do Novo
+Testamentos, ou da historia dos Santos.
+
+O ouro, a seda e as perolas, abundavam em todos estes bordados, que
+consistiam muitas vezes em medalhões circulares ou ovaes e que
+applicavam sobre tecidos preciosos, para lhes imprimir um caracter
+religioso.
+
+Desde o VI seculo que a arte de bordar foi, na Europa occidental, a
+principal occupação das mulheres nobres, e no seculo seguinte, esta arte
+elevou-se a um tal gráu de prosperidade, nas Ilhas Britannicas, que
+durante toda a idade media não deixou de florescer.
+
+Desde os primeiros seculos, que se ornavam com bordados de purpura, ou
+de qualquer outra côr brilhante, as vestes de lã branca dos padres e dos
+diaconos. Estes bordados foram mais tarde substituidos por brocados de
+seda. Serviam-se tambem dos pannos d'essa qualidade, para armação nas
+basilicas e nas egrejas.
+
+Estes ricos pannos tinham ainda outro uso. Antes de serem collocadas nos
+ataúdes, as ossadas dos Santos eram rodeadas de pelles de camello e
+envolvidas em tecidos os mais ricos, de linho, seda e ouro. A maior
+parte dos estofos antigos que se conservaram até aos nossos dias, foram
+tirados de sepulturas de Santos.
+
+_Paramentos Sacerdotaes_. A Egreja manteve escrupulosamente, para os
+ornamentos sagrados, as fórmas adoptadas pelos primeiros christãos,
+emquanto que a fórma e o talhe dos fatos profanos se modificaram
+invencivelmente.
+
+Em geral, os paramentos sagrados dos padres e dos ministros inferiores
+eram brancos. O uso das côres variadas manifestou-se primeiramente nas
+_casulas_ e nas _capas d'asperges_.
+
+As cinco côres liturgicas de que se servem hoje, foram estabelecidas
+pouco mais ou menos no IX seculo, e definitivamente consagradas dois
+seculos depois.
+
+Os paramentos dos padres são as casulas, a _capa d'asperges_, a
+_estóla_, o _manipulo_, o _cinto_, a _ópa_ e o _amicto_. As principaes
+vestimentas, proprias para os ministros inferiores, são a _dalmatica_ e
+a _tunicella_.
+
+A casula primitiva era uma vestimenta sem mangas, muito ampla,
+envolvendo todo o corpo desde o pescoço até aos pés, e formando uma
+especie de barraca, _casula_, em torno da pessoa que a vestia. Tinha
+apenas uma abertura para passar a cabeça.
+
+A _estóla_ deve o seu nome e origem ao vestuario que os romanos chamavam
+estola.
+
+A Egreja adoptou como paramento a _estóla_, de que se fazia uso por toda
+a parte, na occasião em que se estabeleceu o Christianismo.
+
+O _manipulo_ não se usava durante os primeiros seculos da Egreja. Foi S.
+Gregorio o Grande, (590-604) quem primeiro fallou, em seus escriptos, do
+manipulo como paramento sagrado.
+
+A _capa_ é um paramento commum ao padre e a alguns dos ministros
+inferiores. Primitivamente serviam-se da capa para se resguardarem da
+chuva nas procissões; é tambem por este motivo que ella se chama muitas
+vezes _pluvial_.
+
+A _alva_ e o _cinto_ devem a sua origem á _tunica talar_ dos antigos,
+que era um vestuario de linho, munido de mangas e apertado á roda do
+corpo com um cinto.
+
+A _alva_ era vestida nas funcções sagradas pelos bispos, padres e todos
+os ministros inferiores.
+
+O _amicto_ é uma espécie de téla de que os padres e os ministros se
+servem para cobrir o pescoço. A origem d'este vestuario não vae além do
+VIII seculo.
+
+Durante os tres primeiros seculos, os diaconos trajavam o _colobio_, que
+era uma especie de tunica longa e estreita, ordinariamente sem mangas.
+Foi no principio do IV seculo, que o Papa S. Silvestre substituiu o
+_colobio_ pela _dalmatica_.
+
+A _dalmatica_ era uma bluse comprida, feita de lã da Dalmacia.
+
+Até ao VII seculo, os sub-diaconos da Egreja do Occidente não eram
+vestidos senão com a alva, com o cinto e com o amicto.
+
+
+*Mosteiros Latinos*
+
+
+Foi no principio do VI seculo, que começaram a maior parte dos
+religiosos a reunir-se em communidade, e a viver juntos, debaixo do
+mesmo tecto. Vivia então S. Benedicto.
+
+
+*Iconographia do periodo Latino*
+
+
+Muitos monumentos do periodo Latino, sobre tudo os mais antigos
+mosaicos, conteem personagens em pé e attitude respeitosa, tendo nas
+mãos, envoltas nas rugas do manto, uma corôa em fórma de circulo, que
+offerecem ao Salvador. Este é representado sob a fórma symbolica do
+Cordeiro, do monogramma, da Cruz, e até mesmo d'um simples espaço vazio.
+
+Christo, debaixo da fórma symbolica do Cordeiro ou do monogramma, no
+meio de doze cordeirinhos ou de doze pombas, que os monumentos do
+periodo Latino nos offerecem frequentemente, symbolisa o Salvador
+rodeado dos seus discipulos, isto é, a Egreja triumphante no Céu,
+recebendo na terra o ensino do seu Divino Fundador.
+
+Tambem muitas vezes se encontra um cordeiro, uma Cruz Trina, ou o
+monogramma de Christo entre dois cordeiros, duas pombas, dois pavões ou
+dois veados; isto symbolisa o Salvador sob a fórma humana no meio dos
+Apostolos e d'outros Santos, ou sob a fórma symbolica do Cordeiro e do
+monogramma no meio de doze cordeirinhos ou doze pombas.
+
+Vê-se tambem uma taça ou um cacho de uvas no meio de dois pavões ou de
+duas pombas, o que nos parece uma allusão mais directa ao regosijo dos
+que vão para o Céu.
+
+Alguns monumentos do periodo Latino, principalmente os mosaicos do V e
+VI seculos, teem um throno, com ou sem docél, e em que ha uma almofada,
+um cortinado cahindo diante da cadeira e algumas vezes o livro dos
+Evangelhos. Um monogramma ou uma Cruz, geralmente da Trindade, occupa o
+meio do throno e domina toda a composição. Muitas vezes vê-se, ao lado
+do throno, os doze Apostolos em pé, ou sómente S. Pedro e S. Paulo. Em
+todos estes assumptos o throno representa o Salvador.
+
+Mais tarde, principalmente no Oriente, acrescentaram a esta
+representação novos signaes iconographicos: nas extremidades da almofada
+collocavam á direita da Cruz a lança, e á esquerda a esponja na
+extremidade d'uma lança; algumas vezes tambem se entrelaça a corôa de
+espinhos em torno da Cruz. A partir d'este momento, a _cathedra_ da
+doutrina torna-se o throno do julgamento final e a Cruz o signal do
+Filho do Homem.
+
+S. Pedro, collocado ao lado do Salvador, sustenta ordinariamente sobre o
+hombro esquerdo uma cruz de haste comprida; outras vezes recebe com a
+mão direita um volume desenrolado, que Nosso Senhor lhe apresenta. Desde
+a primeira metade do V seculo, que elle conserva as chaves na ponta do
+seu manto.
+
+S. Paulo é quasi sempre representado recebendo um ou dois rolos,
+symbolos da Lei Evangelica.
+
+Muitas vezes tambem collocavam uma phenix sobre uma palmeira. A Phenix é
+a figura da resurreição futura.
+
+
+*Caracteres do estylo Bysantino*
+
+
+O plano e a disposição das egrejas bysantinas apresenta-se com tres
+typos distinctos: 1.^o, com a basilica coberta de madeira, similhante á
+basilica Latina do Occidente; 2.^o, com a rotunda ou egreja circular;
+3.^o, com a basilica bysantina propriamente dita, abobadada e sobreposta
+d'uma ou de muitas cupulas. A basilica bysantina abobadada distingue-se
+perfeitamente de todos os monumentos dos tempos anteriores, pela cupula
+sobre abobadas pendentes, e construida ao meio d'uma nave, mais ou menos
+alongada.
+
+As fachadas das egrejas bysantinas differem das que têem as basilicas
+Latinas. Estas terminam em geral por um frontespicio triangular; as
+fachadas das egrejas orientaes, pelo contrario, terminam ou por uma
+fachada horisontal á maneira d'uma cornija, ou por uma serie de
+corôamentos semicirculares.
+
+O systema de construcção das egrejas bysantinas distingue-se pelos
+seguintes traços. O tijolo é geralmente empregado para todas as
+edificações. Mesmo nos paizes em que a pedra é abundante, os architectos
+bysantinos preferiam, a maior parte das vezes, o tijolo aos materiaes de
+grandes dimensões. O caracter distinctivo das egrejas bysantinas, sob o
+ponto de vista da construcção, consiste na presença de uma ou de muitas
+cupulas elevadas, sobre abobadas pendentes.
+
+Chamam-se _abobadas pendentes_ umas certas saliencias nas abobadas do
+cruzeiro, que pela sua fórma se approximam do sector espherico e que
+serve para fazer passar uma construcção de quadrado a octogono ou a
+plano circular.
+
+A decoração exterior das egrejas bysantinas, sobretudo no IV e V
+seculos, era pobre e simples. Do VII seculo ou do VIII seculo em diante,
+os ornamentos exteriores das paredes e archivoltas das janellas são
+bastantes vezes como os dos edificios Latinos, formados por fiadas de
+pedras alternadas com uma ou muitas fiadas de tijolos. As archivoltas
+ornadas de molduras ficam em resaltos umas sobre as outras, e
+representadas nas paredes por cordões feitos de tijolos de fórma e côr
+variaveis.
+
+A decoração _interna_ consiste em revestimentos de diversas naturezas,
+marchetados de marmores ou mosaicos, applicados sobre os pilares,
+paredes e abobadas. O caracter essencialmente superficial da esculptura
+bysantina consiste regularmente em folhagens lisas e angulares.
+
+Os ornatos que os bysantinos gostavam de esculpir nas almofadas de
+marmore com que decoravam o interior das egrejas, eram entrelaçamentos
+de linhas rectas e curvas, ás quaes juntavam cruzes da Trindade, florões
+e algumas vezes figuras de animaes tanto reaes como chimericos.
+
+A começar no VIII seculo, as pinturas a fresco das egrejas bysantinas
+foram muitas vezes substituidas por mosaicos e por embutidos em estuque;
+acabaram por ser completamente substituidas.
+
+A influencia bysantina fez-se sentir primeiramente no começo do IX
+seculo e mais tarde, no fim do X. Foram construidas muitas egrejas sob a
+influencia bysantina dos monumentos typos.
+
+No reinado de Justiniano (527-565) o estylo bysantino ficou
+definitivamente constituido com os caracteres acima definidos. Santa
+Sophia em Constantinopla constitue o seu typo por excellencia.
+
+Leão, o Isauriano, prohibiu, em 726, a reproducção de qualquer figura,
+quer pela esculptura, quer pela pintura nas paredes das egrejas, quer
+nos objectos do culto. Esta prohibição, confirmada em 754, por um
+conciliabulo heretico, subsistiu até 842. N'este ultimo anno, depois da
+morte de Theophilo, ultimo imperador iconoclasta, a imperatriz Theodora
+substituiu os editos de Leão o Isauriano e restabeleceu o culto das
+imagens.
+
+A épocha mais florescente da arte bysantina foi no X seculo e mais
+particularmente no reinado de Constantino Porphyrogeneta.
+
+No XI seculo, uma serie de graves acontecimentos precipitou a decadencia
+do imperio bysantino e trouxeram por consequencia o enfraquecimento das
+artes. No XIII, XIV e XV seculos, as artes continuaram a desfallecer,
+até que, em 1453, os turcos, apoderando-se de Constantinopla, causaram a
+decadencia da arte bysantina.
+
+
+
+
+CAPITULO IV
+
+/#
+ *Summario.*--O estylo Roman desde o VIII até ao seculo
+ X--Caracteres do estylo Lombardo--Planos das
+ Egrejas--Cryptas--Baptisterios--Systemas de
+ construcção--Abobadas--Pilares e
+ columnas--Bases--Capiteis--Fachadas--Cornijas--Decoração
+ monumental--Architectura, antes do seculo XI, nos outros estados
+ sem ser na Lombardia: Italia central e meridional, Belgica e
+ França--O estylo Roman durante o XI e o XII seculos--Caracter da
+ Architectura Roman--Plano e distribuição das
+ Egrejas--Cryptas--Baptisterios n'este seculo--Materiaes e modo de
+ construir--Sepultura monumental--Fachadas--Portico das
+ egrejas--Portaes--Portas e suas ferragens--Janellas e
+ rosaceas--Maneira de resguardar da chuva as janellas e as vidraças
+ pintadas--Absides--Pilares, columnas--Bases e capiteis--Arcadas e
+ arcarias menores--_Triforium_--Cornijas e
+ modilhões--Abobadas--Contrafortes--Madeiramentos--Torres--Modo de
+ se lagearem os edificios--Pinturas muraes--Inscripcões
+ lapidares--Altares--Piscinas--Tribunas--Cadeiras do côro e a
+ separação da capella mór do corpo da egreja--Capellas
+ funereas--Tumulos visiveis e occultos--Campas--Pias
+ Baptismaes--Gradamentos--Alfaias religiosas--Calices e
+ patenas--Custodias--Relicarios--Corôas suspensas nos
+ altares--Lustres de forma de corôas--Cruzes para os altares e
+ procissões--Castiçaes e tocheiros--Evangeliarios--Capas dos livros
+ do Evangelho--Thuribulos--Pias para agua benta--Pentes
+ liturgicos--Cadeiras para os sacerdotes--Baculos--Calçado
+ liturgico--Mitras--Tecidos bordados--Vestuarios sacerdotaes.
+#/
+
+
+*Periodo Roman*
+
+
+O periodo roman estende-se desde o VIII seculo até ao fim do XII. O
+estylo roman formou-se e desenvolveu-se debaixo da influencia combinada
+de tres elementos: 1.^o, o estylo classico e latino, cujos monumentos
+existiam espalhados pela Europa meridional; 2.^o, o estylo bysantino,
+cujos principios foram importados do Oriente; 3.^o, o genio particular
+dos povos barbaros que invadiram a Europa desde o V seculo.
+
+O estylo proveniente da influencia combinada d'estes tres elementos,
+chamou-se _roman_, porque a sua origem e duração coincidem pouco mais ou
+menos com a da lingua romanica. Por conseguinte a palavra _roman_
+indica, do mesmo modo que na lingua romanica, o elemento barbaro que
+contribuiu para a formação d'este estylo.
+
+
+*O estylo Roman desde o VIII até ao X seculo*
+
+
+A decadencia completa das bellas artes foi o effeito necessario dos
+movimentos politicos que a Europa soffreu durante tres seculos. Só os
+padres e os religiosos luctavam no meio d'este chaos, contra a barbarie
+e a força brutal dos invasores. O renascimento das artes foi lento, e do
+mesmo modo o das lettras, porque o solo da Europa occidental estava
+juncado de destroços amontoados, dos monumentos antigos; as tradições
+artisticas tinham-se perdido, e os principios haviam cahido em
+esquecimento.
+
+Para a architectura e para as artes, a Lombardia foi, desde o VII até ao
+fim do X seculo, o principal centro d'este renascimento. O estylo
+formou-se n'esta épocha, ao norte da Italia, e recebeu o nome de
+_Lombardo_.
+
+
+*Caracteres do estylo Lombardo*
+
+
+O estylo Lombardo, ou o estylo Roman do norte da Italia, reinou n'este
+paiz desde o VIII seculo até ao fim do XII.
+
+O plano da basilica Latina foi geralmente adoptado nas egrejas
+lombardas.
+
+Na maior parte das grandes egrejas lombardas, as paredes internas são
+construidas com galerias.
+
+As cryptas das egrejas lombardas estendem-se por baixo de todo o
+presbyterio, e formam verdadeiras capellas subterraneas, com muitas
+naves abobadadas.
+
+Os baptisterios isolados, geralmente octogonaes ou circulares, usaram-se
+durante o periodo lombardo.
+
+A maior parte dos edificios lombardos são construidos de tijolo.
+
+_Abobadas_. A abobada em fórma de _berço_ consiste n'um semi-cylindro
+concavo e sem penetração alguma.
+
+A abobada de _*aresta*_, assim chamada porque apresenta quatro arestas
+no intradoz, é formada pela intersecção ou penetração de duas abobadas
+de berço, com a mesma abertura e reunindo-se em angulo recto.
+
+Os architectos lombardos fizeram grandes progressos na construcção das
+abobadas. Antes do seu tempo não se conhecia além da cupula senão duas
+especies de abobadas: a abobada de berço, e a abobada de aresta romana.
+
+As abobadas lombardas apresentam todas uma elevação em fórma de
+zimborio, particularidade que pertence ao systema de construcção seguido
+pelos architectos lombardos. Esta elevação dá ás abobadas das egrejas
+lombardas um aspecto particular.
+
+Nas egrejas lombardas de tres naves, a principal tem sempre dobrada
+largura.
+
+Como dissémos, as abobadas da nave principal exercem sobre os seus
+pontos de apoio não sómente uma pressão vertical, mas tambem uma obliqua
+e lateral, que tende a fazer inclinar para fóra os pilares e as muralhas
+superiores. Nos edificios lombardos, esta pressão acha-se equilibrada
+pelo encontro opposto das abobadas altas e baixas das naves lateraes e
+em parte apoiada sobre os contrafortes exteriores, pelos arcos-butantes
+das naves lateraes e pelas porções de parede que supportam estes arcos.
+
+Nos edificios antigos e nas basilicas latinas serviam-se de columnas
+cylindricas, pouco espaçadas e recebendo directamente as pressões
+verticaes de entablamentos d'um peso relativamente pouco consideravel.
+Os constructores lombardos substituiram o pilar composto de columnas
+pelo simples supporte cylindrico da basilica coberta de madeira.
+
+Os caracteres dos pilares lombardos pódem resumir-se da seguinte
+maneira: 1.^o Os pilares apresentam uma secção rectangular ou quadrada e
+são ornados de pilastras ou de columnas envolvidas, recebendo as bases
+das nervuras e dos arcos-butantes. 2.^o Não têem todas a mesma grossura,
+umas são menos, outras mais fortes, segundo recebem ao mesmo tempo as
+bases de todas as abobadas, ou das naves lateraes sómente. Foi desde a
+primeira metade do seculo VIII que appareceram os pilares ornados de
+columna, desconhecidos na arte classica e empregados com profusão no
+Occidente pela arte na edade media. As columnas e as columnatas são
+ordinariamente construidas por fiadas de desigual altura de medio e
+pequeno apparelho; raramente são monolithas.
+
+Essas columnatas dos pilares, quasi sempre delgados e muito elevados,
+chegam muitas vezes sem interrupção até á origem das abobadas, e
+constituem um facto capital na historia da arte, porque são um dos
+elementos mais caracteristicos e fundamentaes de quasi toda a
+architectura da edade media.
+
+As bases lombardas approximam-se sensivelmente, pela sua fórma, da base
+attica propriamente dita.
+
+Estas bases são muitas vezes munidas d'um ornato destinado a ligar o
+tóro inferior com os angulos do plintho e a dar d'este modo uma
+apparencia de maior solidez dos angulos. Este ornato ou appendice
+recebeu o nome de _garra_ ou _pata_.
+
+As garras mais antigas são muito simples, as de data posterior
+representam ordinariamente cabeças d'animaes.
+
+Os capiteis lombardos, assim como os bysantinos, têem ordinariamente a
+fórma de açafate esvasado ou cubico.
+
+Uma transformação se opéra insensivelmente e a arte lombarda adquire uma
+certa originalidade. Os seus typos são variadissimos; o cinzel do
+esculptor dá ali provas de fecundidade. Mais tarde esta transformação
+continúa lentamente, e durante o X seculo, as esculpturas tornam-se mais
+salientes, as folhagens são augmentadas e as extremidades arredondadas.
+
+Em relação á esculptura d'ornato que cobre o açafate, podem
+distinguir-se duas especies de capiteis: os capiteis _ornados de
+folhagens_ e os capiteis historicos ou legendarios. Os capiteis
+historicos são muito communs nas egrejas lombardas que datam do VIII
+seculo.
+
+Chamam-se historicos e legendarios os capiteis que são ornados com
+esculpturas que representam scenas tiradas da historia ou da lenda e até
+mesmo algumas vezes têem animaes symbolicos ou phantasticos.
+
+O abaco enorme em fórma de capitel, que se encontra nos edificios
+Latinos, só raramente se vê nas egrejas Lombardas; é substituido por
+grosso abaco, mas pouco elevado, de profil muito acentuado e muitas
+vezes talhado em pedra differente do corpo do capitel.
+
+Em opposição ao principio geralmente admittido pela antiguidade e pela
+edade media, as fachadas das egrejas Lombardas não indicam exteriormente
+a fórma das naves lateraes.
+
+Compõem-se d'uma grande parede que chega até aos dois lados obliquos que
+a terminam, e na qual não apparece o resalto na nave principal por cima
+das naves lateraes.
+
+Os campanarios das egrejas Lombardas ficam ordinariamente separados do
+edificio da egreja, e compõem-se de uma serie d'andares quadrados, todos
+da mesma largura e pouco mais ou menos da mesma altura, separados uns
+dos outros por cornijas. Estes andares são ornados com faixas muraes e
+pequenas arcadas fingidas, cujos arcos se apoiam sobre modilhões.
+
+As cornijas dos edificios lombardos apenas apresentam uma pequena
+saliencia das faces das paredes. São quasi sempre collocadas sobre
+arcaduras fingidas, de volta inteira, assentando em modilhões de fórma
+muito simples.
+
+As arcaduras constituem uma das fórmas caracteristicas da architectura
+Lombarda; encontram-se, não só debaixo das cornijas dos telhados, mas
+tambem debaixo das outras cornijas das fachadas; e até mesmo nas
+platibandas horisontaes dos edificios.
+
+
+*Decoração monumental*
+
+
+Os bysantinos cobriam com marmores e mosaicos as paredes interiores das
+suas egrejas. Os lombardos, pelo contrario, mostram no seu systema
+decorativo uma certa preferencia quasi exclusiva pelas esculpturas, a
+qual derivando da bysantina, foi por algum tempo sua imitação; porém,
+mais tarde, a começar no IX seculo, principiou-se a abandonar esse modo
+de decorar.
+
+Nos primitivos edificios lombardos nota-se uma grande incorrecção nas
+esculpturas das figuras, quer verdadeiras, quer phantasticas. Mais
+tarde, encontram-se, em todo o periodo do estylo Lombardo, nos seus
+edificios, animaes chimericos, ora isolados ora em frente uns dos
+outros, e acompanhados, e tambem entrelaçados de folhagens.
+
+As esculpturas não cobrem só os capiteis, mas tambem as archivoltas e os
+tympanos, assim como as faces dos altares, dos doceis, etc.
+
+Os embutidos e os revestimentos de marmore são raros no interior dos
+edificios lombardos.
+
+Desde o IX seculo que se substituiram os embutidos em marmore pelas
+pinturas a fresco e por mosaicos de pequenos cubos.
+
+Em quanto o estylo Lombardo se desenvolvia no Norte da Italia, o Latino
+continuava a ser seguido na Italia central e meridional.
+
+A maior parte das egrejas do VII e do VIII seculos eram construidas de
+madeira, o que explica os frequentes incendios d'essas egrejas.
+
+No principio do seculo IX, o imperador Carlos-Magno tentou fazer reviver
+as bellas artes na Europa Occidental; quiz restabelecer o renascimento
+da arte romana.
+
+
+*O estylo Roman durante os seculos XI e XII*
+
+
+O estylo Lombardo, inteiramente constituido no Norte da Italia desde o
+seguinte seculo, exerceu uma grande influencia sobre a architectura
+roman dos paizes cisalpinos no XI e XII seculos. No fim do X seculo, e
+no principio do seguinte, os monges introduziram o estylo Lombardo na
+Allemanha, na Suissa, e nas provincias da França visinhas da Italia,
+d'onde irradiou para o Norte e Oeste.
+
+O estylo roman da Europa Central não é outra coisa mais que o estylo
+Lombardo transportado áquem dos Alpes e modificado occidentalmente pelo
+proprio genio dos differentes povos que occupavam esta região. O
+elemento Gaulo-romano tomou tambem grande parte na formação do estylo
+roman.
+
+O roman inglez recebeu o elemento Lombardo por intermedio dos Normandos,
+que, depois de terem conquistado a Inglaterra, para ali levaram o estylo
+do Occidente da França.
+
+A rapida propagação das ordens religiosas durante o seculo XI,
+contribuiu poderosamente para a diffusão e desenvolvimento da
+architectura Roman. Foi n'este seculo, que as ordens religiosas, graças
+a abundantes recursos, cobriram em pouco tempo a Europa Central e
+Occidental com um grande numero de egrejas e mosteiros. Estes
+monumentos, não obstante apresentarem todos os mesmos caracteres geraes,
+taes como o emprego das abobadas de volta inteira e d'um mesmo systema
+de construcção, differem comtudo entre si, em certos caracteres
+especiaes, proprios de cada região.
+
+O estylo roman do seculo XI differe do estylo do XII por uma
+ornamentação mais simples, contornos menos correctos e execução
+geralmente inferior.
+
+No seculo XII, abundam os ornatos tanto no interior como no exterior dos
+edificios. No final do seculo XI, estabeleceram-se, na Europa
+Occidental, duas escolas de architectura, animadas de diversas
+tendencias. Uma na ordem de S. Bento, que tinha o seu centro principal
+na abbadia de Cluny, desenvolvia uma magnificencia e um luxo quasi
+extraordinario na decoração dos edificios religiosos, cuja construcção
+lhe era incumbida; a outra, pelo contrario, procedente da Ordem de
+Cister, quasi que não admittia ornatos alguns e levava a singeleza até á
+severidade. Em todos os paizes em que existiam edificios romanos por
+occasião da formação do estylo roman, a sua existencia exerceu grande
+influencia na decoração dos edificios. Pelo contrario nos paizes em que
+escasseavam aquelles monumentos, diligenciaram imitar, a maior parte das
+vezes, na esculptura monumental os variados tecidos importados do
+Oriente.
+
+
+*Caracteres da architectura Roman*
+
+
+As egrejas romans apresentam ordinariamente em planta a forma d'uma Cruz
+Latina, cuja frente representada pelo côro é voltada para o Oriente.
+Têem geralmente tres naves formadas por duas ordens parallelas de
+pilares, e algumas vezes de cinco. Depois do seculo XI, o côro das
+egrejas cathedraes, abbaciaes (exceptuando as da Ordem Cistersiense e
+collegiaes), tem maiores dimensões que nas basilicas Latinas e
+Lombardas.
+
+Quando o côro não era rodeado de capellas, terminava por um abside
+semi-circular ou por uma parede recta. Encontram-se, nas margens do
+Rheno e em outras partes da Allemanha, egrejas Romans com dois absides
+semi-circulares, um a Leste e o outro a Oeste.
+
+Algumas das grandes egrejas Romans têem os lados do corpo da egreja
+divididos por galerias.
+
+Todas as egrejas Romans, sem excepção, são orientadas.
+
+Muitas das mesmas egrejas têem cryptas quasi sempre situadas debaixo do
+côro, e formando capellas subterraneas, com tres a cinco naves, cujas
+abobadas de barrete veem assentar sobre duas ou quatro ordens de pilares
+pouco elevados.
+
+Desce-se para a maior parte das cryptas por duas escadas collocadas aos
+lados da que do transepte conduz ao côro. Nas que não têem senão uma
+entrada, acha-se ordinariamente diante do côro mesmo no eixo da egreja.
+
+O uso de construir cryptas só deixou de existir desde o seculo XIII.
+
+Durante o periodo Roman, ainda se construiram, ao pé das cathedraes e
+das grandes Egrejas abbaciaes e parochiaes, baptisterios isolados, de
+fórma polygonal e circular.
+
+Todavia, logo que a solemne ministração do baptismo caiu em desuso, não
+se construiram mais baptisterios proximo das novas Egrejas parochiaes
+que se edificaram. A pia baptismal foi então transportada para a nave
+principal, proximo á porta de entrada da egreja nas naves lateraes, ou
+então em uma capella do lado occidental, proximo da porta principal.
+
+A natureza dos materiaes influe poderosamente sobre o modo de
+construcção adoptada; assim nos paizes em que a cantaria é resistente,
+construe-se com grandes dimensões, o apparelho é mais grandioso, as
+fiadas são altas; emquanto que, nas localidades em que os materiaes são
+menos resistentes, e em que o trabalho de preparar a cantaria é portanto
+mais facil, o apparelho tem menor dimensão.
+
+No seculo XI, a esculptura monumental toma repentinamente um
+desenvolvimento extraordinario pela influencia combinada do estylo
+Lombardo, dos monumentos Gaulo-Romanos; dos tecidos e outros objectos
+d'arte importados do Oriente pelos cruzados.
+
+Em cada paiz ou quasi que em cada provincia, a decoração Roman offerece
+caracteres particulares, devidos á aptidão dos habitantes, á variada
+natureza dos materiaes e a outras influencias locaes. Em geral, em todos
+os paizes onde se encontravam documentos romanos ricamente decorados, a
+influencia Lombarda se liga e se combina com a d'estes monumentos.
+
+No Noroeste da França, principalmente na Normandia, e até mesmo na
+Inglaterra, a decoração consiste principalmente em estrellas e outras
+figuras geometricas. A ornamentação Roman da Allemanha compõe-se
+sobretudo de galões entrelaçados, cujas extremidades acabam em folhas
+com tres a cinco lobulos. Estes galões, algumas vezes ornados de
+perolas, parecem ordinariamente ligados com fitas ou reunidos por
+anneis.
+
+Na Belgica, onde principalmente se manifestou a influencia da escola
+Cistersiense, os monumentos do periodo Roman não têem as decorações de
+trabalhos custosos e variados, que se encontram n'outros paizes.
+
+Assim como nas basilicas Latinas, as fachadas das egrejas Romans indicam
+em geral a forma transversal das naves; só no seculo XI, começaram a
+ornal-as com mais cuidado e esmero. A sua decoração architectural
+consiste nos portaes, ordinariamente tres, construidos em profundas
+arcadas de volta inteira mais ou menos carregadas de molduras de
+architectura; as galerias, verdadeiras ou fingidas, eram formadas por
+uma ou muitas ordens de arcadas fingidas ou rendilhadas; e emfim em
+grandes rosaceas vasadas, por cima da porta principal.
+
+Raras vezes se encontram fachadas romans decoradas com estatuas.
+
+Antes do seculo XI, os atrios que succederam aos narthex das basilicas,
+apresentavam-se d'ordinario sob a fórma d'um portico, geralmente pouco
+profundo e occupando toda a largura da fachada da egreja; havia alguns
+tambem, ainda que pouco numerosos, que eram construidos na fachada
+Occidental.
+
+Os atrios Romans dos seculos XI e XII dividem-se em fechados e abertos;
+os primeiros tomaram, em varios paizes, um desenvolvimento de tal modo
+importante, que formavam de alguma maneira uma nova egreja construida em
+frente das naves propriamente ditas, como havia na egreja de S.
+Francisco de Santarem.
+
+Nos grandes monumentos do seculo XI, e especialmente do XII, os portaes
+mais notaveis, e até mesmo algumas vezes os secundarios, são ornados
+profusamente de esculpturas de todo o genero.
+
+Quando as archivoltas dos portaes são cobertas com muitas esculpturas, o
+tympano é quasi sempre ornado d'um baixo relevo, representando Jesus
+Christo sentado e sob uma aureola. Em alguns casos o Redemptor offerece
+as mãos a dois Santos coroados e ajoelhados cada um do seu lado; em
+outros, lança a benção com a mão direita e segura um livro com a
+esquerda; n'este caso a aureola é muitas vezes cercada de animaes
+symbolicos representando os Evangelistas.
+
+Nos mais importantes monumentos, os batentes dos portaes eram
+ordinariamente de bronze ou de qualquer outro metal.
+
+As ferragens das portas, que a principio não serviam senão para
+consolidar todas as travessas da porta, forneceram desde o seculo XI, no
+estylo Roman, um dos mais bellos modelos de ornamentação.
+
+Encontram-se tambem, nos edificios de architectura Roman, portaes com
+batentes de madeira esculpidos em baixo relevo. As janellas d'estes
+edificios mais antigos são pequenas e quasi sem ornamentação alguma.
+
+No meado do seculo XI, augmentaram os vãos das janellas á proporção que
+mais se generalisava o uso do vidro. No final d'este seculo e durante
+todo o XII, as archivoltas exteriores das janellas dos grandes
+monumentos são executadas com o maior cuidado, e compostas de arcos com
+muitas ordens de pedras lavradas symetricas, varias vezes com o feitio
+de tóros, ficando assentes sobre grupos de pequenas columnas ou sobre
+pés direitos ornados de uma imposta com esculptura. Estes tóros têem
+tambem muitas vezes ornatos.
+
+No seculo XII, apparecem as janellas geminadas de dois vãos, separados
+por uma humbreira em fórma de columna, e servindo-lhe de moldura um arco
+commum de resalva. Vêem-se tambem janellas mesmo de tres vãos reunidos
+debaixo d'um unico arco. N'estas ultimas ou o vão do meio é mais alto
+que os dos lados, ou então é o tympano formado pelo grande arco, no qual
+ha um oculo, inteiramente aberto ou em fórma de trêvo, de quatro folhas
+e ás vezes com seis e mais lóbulos.
+
+Tambem se encontram nos edificios romans do seculo XIII, olhos-de-boi e
+que não servem de ornamento aos vãos de janellas. Chamam-se rosaes e são
+compostos de differentes maneiras.
+
+Nos paizes meridionaes continuaram a vedar os vãos das janellas com
+caixilhos rendilhados, de madeira ou de marmore. Os desenhos produzidos
+pelos recortes das travessas apresentam fórmas mais variadas e em
+harmonia com a ornamentação Roman; compõem-se quasi sempre de figuras
+geometricas. Os caixilhos recortados foram empregados até ao seculo XVI,
+na Grecia, Italia e Hespanha e ainda hoje no Oriente.
+
+Na Europa Occidental e Septentrional preferiam tapar as janellas com
+vidros pequenos assentes em caixilhos de madeira, mas, desde o seculo X,
+reunidos por meio de filetes de chumbo. Algumas vezes estes vidros,
+differentemente coloridos, formavam um mosaico transparente, no qual
+ainda não havia figuras nem ornatos pintados sobre o vidro.
+
+O emprego de vidraças com varios assumptos e personagens pintados,
+começou provavelmente no final do seculo X.
+
+Em muitas egrejas, o côro e mesmo algumas vezes os braços do transepto
+terminam por um abside semi-circular ou polygonal.
+
+O abside está ordinariamente ligado por um abside circular coberto d'um
+tecto quasi sempre mais baixo que o do côro.
+
+As paredes exteriores dos absides são a maior parte das vezes ornadas
+d'uma ou de muitas ordens de arcadas separadas por faixas de pequena
+saliencia; columnas ou pilastras envolvidas, ligadas entre si por arcos
+de volta inteira. As janellas, ordinariamente em numero impar, são
+abertas debaixo das arcadas.
+
+Os absides de quasi todas as egrejas Romans das margens do Rheno
+apresentam junto ao tecto uma galeria aberta, formada por uma serie de
+pequenas arcadas de volta inteira e sustentadas por pequenas columnas.
+Estes absides receberam o nome de absides _rhenanos_. Serviam outr'ora,
+e servem ainda hoje, em alguns sitios, para a exposição das reliquias.
+
+Os edificios construidos na Europa Central, no fim do seculo X e
+principio do XI, não apresentam, muitas vezes, mais do que pilares muito
+simples, de secção circular, quadrada ou rectangular. No seculo XI,
+tambem se introduziu, áquem dos Alpes, o uso dos pilares com angulos
+reintrantes para collocar duas ou quatro columnas envolvidas, de que os
+constructores Lombardos se serviam já no seculo VIII.
+
+As egrejas, parochias ruraes, de menor importancia teem muitissimas
+vezes pilares quadrados, curtos, sem base nem capitel, ou tendo por
+ornamento unicamente uma ou duas molduras pouco salientes que fazem
+parte do capitel.
+
+Durante o periodo Roman, principalmente no seculo XII, muitos dos fustes
+das columnas foram cobertos de esculpturas variadas, consistindo em
+figuras geometricas, espiraes, torçaes, galões, botões, folhagens,
+cordões, animaes e mesmo representações de assumptos historicos ou
+legendarios. Estes ornatos são communs principalmente no Sul da Europa.
+
+No fim do periodo Roman e no principio da época Ogival, as columnas são
+_anneladas_, isto é, formadas d'uma especie de tóro á roda do fuste.
+
+As columnas _anneladas_ constituem um dos caracteres dos monumentos da
+transição do estylo Roman para o estylo Ogival. Tambem se encontram
+d'estes anneis nas nervuras das abobadas. No seculo _XII_, as columnas
+são tambem ás vezes duplas ou enfeixadas.
+
+As bases das columnas são variadissimas.
+
+Muitas das que se encontram nos edificios mais antigos assimilham-se ás
+bases Lombardas, mas sem ter garras.
+
+As bases ornadas com esculpturas, muito communs no Sul da Europa, são
+raras nos paizes do Norte.
+
+Foi no meado do seculo XI que começou a apparecer, áquem dos Alpes, o
+ornato chamado _garra_, que os lombardos já tinham usado muito tempo
+antes.
+
+A garra Romã tem em geral a fórma d'uma folha applicada sobre o tóro
+inferior da base no angulo do plintho, e tambem ás vezes, a d'uma
+carranca ou d'um animal phantastico.
+
+Desde o principio do seculo XII, os constructores romans achatam a forma
+do tóro inferior, quando a base se approxima da forma Attica; um pouco
+mais tarde apparece entre os tóros das bases, a moldura concava,
+bastante profunda, que fórma um dos caracteres distinctivos dos
+monumentos do fim do seculo XII e da primeira metade do XIII.
+
+Os capiteis de architectura Roman são variadissimos. Ha uns que apenas
+se compõem de duas ou tres molduras curvas ou chanfradas, imitando o
+capitel toscano ou dorico.
+
+A cornija dos capiteis é umas vezes elevada e coroada com um ábaco
+saliente, e outras baixa, tendo um ábaco que não resalta o fuste da
+columna.
+
+Encontram-se, em muitos monumentos Romans, capiteis chamados _cubicos_,
+porque têem a configuração d'um cubo. Estes capiteis são algumas vezes
+chanfrados nos angulos inferiores e em geral arredondados na parte
+inferior.
+
+A parte inferior do capitel cubico _Rhenano_, do seculo XII, era muitas
+vezes dividida em quatro porções de esphera, formando assim um grupo de
+quatro capiteis reunidos debaixo de um mesmo ábaco, mas foi ainda
+augmentado o numero das subdivisões, produzindo d'este modo os capiteis
+cubicos _canellados_ ou com resaltos redondos, que se encontram
+principalmente na Inglaterra e no Noroeste da França.
+
+No tempo da formação do estylo Roman, a arte da esculptura estava quasi
+totalmente perdida áquem dos Alpes. Os que primeiro tentaram manejar o
+cinzel esforçaram-se em reproduzir, melhor ou peior, os antigos ornatos
+que tinham á vista; as producções d'estes artistas improvisados são
+imperfeitas e grosseiras.
+
+Encontram-se em muitos monumentos Belgas do seculo XII, capiteis cuja
+ornamentação, simples e rudimentar, consiste unicamente em folhas
+applicadas sobre o açafate, e algumas vezes contornadas em voluta
+debaixo dos angulos do ábaco.
+
+Os capiteis de quasi todos os grandes monumentos dos seculos XI e XII,
+são decorados de esculpturas ou de pinturas de côres carregadas. Os
+ornatos consistem em galões imitando perolas, folhagens encrespadas,
+florões artisticamente executados, animaes symbolicos, animaes
+phantasticos isolados ou em grupos, assumptos tirados da lenda ou da
+historia, principalmente do Velho e Novo Testamentos.
+
+O capitel de _crochets_ usou-se na Belgica e em algumas partes da
+Allemanha desde o fim do periodo Roman. Dá-se o nome de _crochets_ e
+algumas vezes tambem o de _baculo vegetal_, ás folhas mais ou menos
+compridas, recurvadas em voluta na sua extremidade.
+
+Chama-se _arcada_ toda a abertura, real ou simulada, contornada por uma
+archi-volta; e _arcadura_, uma arcada de pequenas dimensões.
+
+Até ao seculo XI serviam-se geralmente do arco de volta inteira ou
+formado por um semi-circulo para ligar duas columnas ou os dois pontos
+extremos d'uma arcada. Nos seculos XI e XII, começam a apparecer novas
+formas d'arcos: 1.^o, o arco _elevado_, cujos dois ramos descendentes se
+prolongam verticalmente abaixo do centro gerador; 2.^o, o arco em fórma
+de ferradura produzido por uma parte da circumferencia que excede o
+semi-circulo; 3.^o o arco de volta abatida ou em aza de cesto, formado
+por uma semi-ellypse cortada segundo a direcção do eixo maior; 4.^o, o
+arco de tres lóbulos cujo intradoz é composto de tres lóbulos.
+
+As paredes interiores lateraes das egrejas, as capellas, as casas
+capitulares são em geral ornadas, na sua parte inferior, com arcaduras
+sustentadas por pequenas columnas mais ou menos embebidas no pé-direito
+e firmadas sobre um sócco de pedra collocado em roda de todo o edificio.
+
+As arcaduras tambem são muitas vezes empregadas, no exterior dos
+edificios, para a decoração das fachadas. Encontram-se egualmente sobre
+as outras partes dos monumentos arcadas pouco salientes, cujas
+extremidades assentam sobre modilhões muitas vezes executados apenas de
+feitio chanfrado, e ainda ás vezes ornadas de esculpturas. Em alguns
+casos foram os modilhões substituidos por grupos de columnas embebidas.
+
+As arcaduras servem principalmente para ornamentar as partes lisas das
+paredes debaixo das cornijas, os parapeitos das janellas e as
+platibandas de que se servem para as ligar entre si pelas faixas muraes.
+
+Estas arcaduras foram imitadas do estylo Lombardo. Tambem se encontram
+principalmente nos edificios romans da Allemanha, da Inglaterra e
+d'algumas partes da França.
+
+Chamam-se _Triforiums_ as galerias mais ou menos largas, que ficam por
+cima das arcadas das naves lateraes das egrejas, ou simplesmente por
+cima das archivoltas das grandes arcadas que ligam dois pilares
+contiguos.
+
+Encontram-se _Triforiums_, que abrangem todo o comprimento do corpo da
+egreja, nos edificios Lombardos.
+
+Os _Triforiums_ estreitos são posteriores ao seculo XII, e só durante o
+periodo Ogival é que se generalisou o seu emprego.
+
+A cornija compõe-se d'uma pedra mais ou menos saliente sobre a face das
+paredes de maior ou menor grandeza, segundo a maior ou menor dureza dos
+materiaes de que dispomos.
+
+A cornija é sustentada por consólas ou modilhões collocados regularmente
+por baixo das juntas das pedras que formam as cornijas. Os modilhões
+têem a fórma d'um curvo ou d'um florão. Chama-se _curvo_ um modilhão
+simples, que fica saliente sobre a face d'uma parede ou d'um pilar e que
+tem as duas faces lateraes parallelas e perpendiculares á mesma parede;
+e com feitio de florão, é uma consóla que não tem as faces nem
+parallelas, nem perpendiculares á parede. Ás vezes são os curvos e esses
+florões ornados de esculpturas representando cabeças humanas, figuras
+grotêscas, carrancas, monstros, volutas, etc.
+
+A maior parte dos edificios do periodo roman não tinham abobadas senão
+no abside do côro, no pavimento inferior dos campanarios e algumas vezes
+ao de cima das naves lateraes. A nave central era ordinariamente coberta
+com um simples tecto de madeira. As abobadas que hoje se vêem em muitas
+egrejas do estylo roman foram construidas em epoca bem mais recente.
+
+Nos edificios religiosos que tinham a nave principal coberta d'abobadas,
+eram estas d'aresta geralmente em nervuras; e como succede nas egrejas
+lombardas, a cada arco da nave central correspondiam nas paredes
+lateraes dois arcos de menores dimensões. Para supportar a pressão
+obliqua, exercida sobre os pilares e sobre as altas paredes da nave pela
+abobada da nave central, os architectos romans seguiram dois systemas.
+
+Uns, imitando os constructores lombardos, construem as paredes lateraes
+quasi da altura da nave e dispõem as abobadas de maneira que supportem a
+curva da abobada central. Outros construem nas paredes lateraes abobadas
+semi-circulares ou de quarto de cylindro, cuja parte inferior assenta
+sobre as paredes mestras do edificio, e a parte superior vem apoiar-se
+contra a principal parede da nave central no logar onde começa a sua
+abobada.
+
+Até ao principio do seculo XII, os arcos duplos compõem-se de uma ou de
+duas ordens de cunhas de cantaria geralmente sem molduras nem ornatos, e
+apresentam uma secção quadrada ou rectangular. No fim do periodo roman,
+e mais tarde ainda, os angulos do intradoz do arco dobrado têem
+regularmente o feitio de tóros.
+
+As nervuras das abobadas d'aresta consistem em um simples tóro, algumas
+vezes acompanhado de dois ou quatro tóros de menor espessura. No fim da
+época Roman, e durante o periodo da transição, o tóro principal foi em
+certos paizes achatado e composto de uma aresta viva no intradoz. As
+nervuras das abobadas do estylo Roman são muito mais toscas que as das
+Ogivaes.
+
+Os architectos dos seculos XII, XIII e XIV decoravam algumas vezes o
+nascimento das nervuras das abobadas superiores ao capitel com molduras
+geometricas.
+
+Chamam-se _contrafortes_ aos pilares embebidos nas paredes exteriores
+dos edificios, e que servem para sustentar e diminuir a pressão das
+abobadas, ou supportar o peso do madeiramento do telhado. Estes apoios
+correspondem sempre exactamente (nos monumentos que não têem abobadas)
+aos pontos onde assentam as asnas do madeiramento, e nos edificios
+abobadados, aos pontos onde vem exercer-se a pressão combinada dos arcos
+duplos e das nervuras das abobadas.
+
+Nas construcções de architectura Roman, especialmente nas mais antigas,
+os contrafortes apresentam-se algumas vezes com a apparencia de uma
+pilastra semi-cylindrica.
+
+No XI, e principalmente no seculo XII, apresentam os contrafortes
+variadissimas fórmas. Uns são muito largos na base, e diminuem
+successivamente em cada um dos seus tres lados isolados; outros, mais
+delgados, têem sempre a mesma largura entre as duas faces lateraes e
+parallelas, e não diminuem senão na face exterior, em que essa
+diminuição se faz successivamente em diversas partes na sua total
+elevação. Alguns ha que têem sempre as mesmas dimensões em todas as
+faces, sem saliencia nem resalto algum, desde a base do edificio até á
+cornija.
+
+Os madeiramentos nos telhados dos edificios do estylo Roman são raros.
+
+Na Europa Occidental os telhados conservaram até ao seculo XII uma
+pequenissima inclinação.
+
+É só no meiado d'este seculo, e até mesmo mais tarde, que se encontram
+declives com excessiva correnteza nos telhados dos edificios da edade
+média.
+
+As _Torres_, tanto na Europa Central como na Occidental, anteriores ao
+seculo XI, são em geral quadradas, e sem nenhum ornamento, ou apenas
+ornadas com simples arcadas, e ordinariamente cobertas por um telhado de
+quatro abas de fórma concava, formando uma pyramide obtusa.
+
+Os campanarios do seculo XI, e sobretudo do XII, são mais elevados e
+ornamentados que os dos seculos precedentes. Compõem-se de dois e mais
+pavimentos, que se sobrepõem, e cujas dimensões vão muitas vezes
+diminuindo successivamente. A sua fórma e aspecto geral variam de um
+paiz para outro.
+
+Os campanarios isolados, que são quasi exclusivamente proprios da
+Italia, distinguem-se por mais duas especies.
+
+Ha uns construidos no ponto de intersecção do transepte com a nave
+principal, e ainda outros edificados ora sobre a fachada, ora sobre as
+extremidades do côro ou do transepte. Os primeiros assentam sobre quatro
+grossos pilares: os segundos erguem-se perpendiculares sobre os seus
+quatro lados; ou são sustentados por arcadas abertas sobre uma, duas e
+até mesmo tres das suas faces.
+
+Os campanarios centraes têem em geral differentes fórmas. Ha-os
+quadrados, octogonaes, e ainda com muito maior numero de lados; existem
+tambem alguns em fórma de cúpula.
+
+Os campanarios da fachada, e os construidos proximo do côro ou dos
+transeptes das egrejas, apresentam ainda fórmas mais variadas que os
+centraes. Os mais simples são quadrados e divididos tanto interior como
+exteriormente em dois ou mais pavimentos. Outros, elevando-se sobre uma
+base quadrada, tornam-se em polygonos de maior numero de lados logo no
+primeiro ou segundo andar, tendo em geral a fórma octogonal.
+
+No XI e no XII seculo eram os campanarios cobertos de madeira com feitio
+de flecha ou de pyramides construidas de pedra; quadrados ou octogonaes,
+eram pouco elevados e acachapados. Os angulos das pyramides de base
+quadrada eram ás vezes ornados com pequenos campanarios. Muitos remates
+de cantaria foram destruidos pelas chuvas e pelos gêlos, e depois
+substituidos nos seculos XIII e XIV pelas flechas esguias.
+
+Algumas torres tinham por cobertura um telhado apenas com duas abas,
+terminando por uma empêna em cada um dos lados. As torres cobertas por
+este modo só se usaram durante uma parte do periodo Ogival.
+
+Os pavimentos em _opus alexandrinum_ continuaram a usar-se na Italia e
+em todos os paizes aonde havia marmore. Na Allemanha, na França e na
+Belgica, por exemplo, serviam-se de tijolos de terra, cota esmaltada, ou
+de pedras gravadas e com embutidos de massa colorida. Até ao fim do
+seculo XII cada tijolo tinha a sua côr propria. As côres que se
+encontram nos pavimentos do fim do periodo Roman, são a preta, cinzenta,
+vermelha, e principalmente amarella e verde-escuro. As duas ultimas
+predominam em quasi todos os trabalhos d'este genero do seculo XII.
+
+No Oriente e no Sul da Europa, os edificios historicos, legendarios e
+symbolicos eram bastante communs no seculo XII; tambem se viam alguns na
+Europa Occidental.
+
+Se, na sua origem, a pintura das paredes imitou as mesmas fórmas que
+tinha o mosaico, e se inspirou dos principios d'esta arte, não podia
+tardar muito que ella tomasse mais livre desenvolvimento e adquirisse
+certos principios que lhe fossem especiaes em consequencia da propria
+natureza dos seus processos e da maneira por que estes satisfazem a
+vontade do artista.
+
+Com effeito, a pintura liga-se ás fórmas da architectura até nas mais
+delicadas molduras; e por conseguinte de um modo mais intimo que o
+mosaico. Desde os primeiros seculos até á época da Renascença, a pintura
+das paredes pôde, sem duvida, modificar o estylo do desenho, e variar o
+tom e a harmonia das côres empregadas, seguindo o progressivo
+desenvolvimento da arte de construir, mas ficou sempre subordinada á
+architectura.
+
+A pintura monumental differe muito da que se emprega ordinariamente n'um
+painel.
+
+Um painel, no sentido moderno da palavra, não é mais do que uma scena
+mostrada nos limites de um quadro, atravez de uma janella aberta. A
+pintura monumental, pelo contrario, é uma arte convencional na qual a
+imitação da natureza, a reproducção das suas fórmas e dos phenomenos
+atmosphericos que ella apresenta, quasi que por assim dizer não existem.
+
+A figura humana e as composições em que esta apparece em grupos são
+geralmente reservadas para as grandes superficies planas das paredes; só
+muito raramente se encontram nas pilastras e nas columnas. Por toda a
+parte o symbolismo ou a allegoria constitue um dos grandes caracteres
+tanto da pintura das paredes como de todas as artes em geral durante o
+periodo de que nos occupamos.
+
+As pinturas historicas eram tratadas da maneira mais simples. O artista
+apenas faz figurar o numero de figuras estrictamente necessario para a
+composição do assumpto de que trata. As côres são applicadas com tintas
+eguaes, sem indicar sombras nem os differentes accidentes da luz, de
+fórma que é muitas vezes impossivel determinar qual o lado por onde o
+artista teve em vista que a scena fosse illuminada. As partes salientes
+dos corpos são regularmente indicadas por traços finos, e os contornos
+são representados com linhas cheias.
+
+A pintura a _fresco_, que tem a vantagem de produzir tons agradaveis,
+foi a preferida para as pinturas historicas e legendarias. A
+_encaustica_ foi tambem escolhida para certos trabalhos. A intensidade e
+a harmonia dos tons que resultam do emprego da cêra, a possibilidade de
+nos occuparmos indefinidamente do trabalho já começado fizeram com que
+muitas vezes fosse adoptado este processo. Com effeito até mesmo a
+pintura a oleo é tambem muito antiga. Durante toda a edade média eram
+preferidos os outros processos, por meio dos quaes, obtendo-se tons
+baços, evitavam o reflexo tão desagradavel na pintura das paredes.
+
+Durante a edade média a primeira pedra do alicerce dos edificios
+religiosos era regularmente ornada com uma cruz e uma inscripção. A sua
+collocação era feita com grandes solemnidades: um prelado ou um
+dignitario ecclesiastico a benzia publicamente, e elle proprio a
+collocava na base de um dos principaes pontos de apoio da construcção.
+
+Tambem muitas vezes se serviam de inscripções lapidares para conservar a
+memoria da fundação do edificio e o nome do architecto ou do mestre da
+obra. Em algumas egrejas encontram-se pedras com dedicatorias indicando
+a data da consagração, os nomes dos santos cujas reliquias se acham
+depositadas no altar, e até mesmo o nome do orago da egreja.
+
+Os altares eram uns fixos e outros portateis.
+
+_Altares fixos_.--As mesas dos altares fixos, ordinariamente de marmore
+ou de pedra, e de fórma quadrada ou rectangular, continuaram até meiado
+do seculo XII a ser vasadas em fórma de bandeja, como já se usára no
+periodo Latino.
+
+O supporte da mesa do altar consiste, muitas vezes, em uma simples base
+cubica de alvenaria sem ornamentação alguma, e algumas vezes tendo em
+roda uma inscripção e um simples rebordo. Nos dias solemnes cobriam-se
+estes altares com alfaias de lã e seda ou de outros tecidos preciosos.
+
+Outras vezes o altar é sustentado por uma ou muitas pequenas columnas.
+
+Os altares de fórma cubica eram muitas vezes revestidos de oiro e de
+prata e esmaltados, tendo tambem pedrarias, ou ornados com esculpturas e
+pinturas.
+
+A face dos altares, com esculpturas, ou pintados, era em geral dividida
+em tres compartimentos com a fórma de arcadas mais ou menos ricamente
+decoradas. Jesus Christo lançando a benção, de pé ou sentado, occupa
+ordinariamente a parte central, que é muitas vezes a mais elevada, ou
+com a fórma de uma auréola oval ou de quatro lóbulos. Nas arcadas
+lateraes vêem-se figuras de santos e os symbolos dos evangelistas, que
+se acham dispostos ou em torno do compartimento do meio, ou nos fundos
+das arcadas.
+
+O altar principal das grandes egrejas era muitas vezes, como succedia no
+periodo Latino, encimado por um _ciborium_, e o mesmo acontecia com
+alguns dos altares lateraes.
+
+No final do XI seculo começou o uso dos retabulos, isto é, dos paineis
+ou quadros assentes verticalmente ao fundo dos altares propriamente
+ditos. O retabulo não constitue por si só uma parte essencial do altar,
+mas sim um accessorio. O seu primitivo e principal fim é promover a
+devoção entre o padre que offerece o santo sacrificio e os fieis que a
+elle assistem, fazendo-lhes ver assumptos religiosos produzidos pelo
+cinzel, esculptura, pintura, etc.
+
+A principio era pouco elevado, attingiu uma excessiva altura no fim do
+periodo ogival e na época da Renascença.
+
+Representavam-se nos retabulos os mesmos assumptos que nas alfaias:
+Christo, sentado ou em pé, occupava em geral o painel do centro, tendo
+imagens de Santos e assumptos tirados da Historia Sagrada, ou da lenda,
+em arcadas lateraes, ou em medalhões de diversas fórmas, collocados em
+redor da imagem do Salvador.
+
+A maior parte dos primitivos retabulos eram de oiro, prata ou cobre
+doirado e esmaltado: todavia alguns se encontravam, ainda que em menor
+numero, construidos de pedra e de madeira pintada ou esculpida. Estes
+ultimos só se generalisaram no fim do periodo roman e no principio da
+época ogival.
+
+A principio os retabulos serviam tambem para encerrar os relicarios
+quando elles não tinham mais ornamentos, ou para os emmoldurar quando os
+seus frontaes eram ricamente adornados. Parece ter sido nos mosteiros
+que este uso teve principio. Durante o XI seculo, a maior parte das
+abbadias da Europa Central e Occidental mudaram a disposição interior
+das egrejas no que diz respeito ao logar reservado aos religiosos
+durante a celebração do Santo Officio: as cadeiras ou bancos dos padres,
+que d'antes occupavam o proprio côro do abside, foram transportadas para
+o transepte, e desciam ordinariamente até á segunda ou terceira arcada
+da nave principal, como na egreja d'Alcobaça.
+
+Ao fundo do Sanctuario, proximo á curvatura do abside, elevava-se o
+altar das reliquias, atraz ou debaixo do qual eram expostos os restos
+mortaes dos Santos, que até ali se tinbam conservado religiosamente nas
+cryptas das egrejas.
+
+Algumas vezes as reliquias eram encerradas em caixas ou cofres e
+collocadas no interior do altar.
+
+Tambem se expunham mesmo sobre os altares, como succedia no IX seculo;
+mas não é facil actualmente determinar se esta exposição era permanente
+ou temporaria, isto é, durante certas solemnidades religiosas
+extraordinarias.
+
+Comtudo, está provado que existia em muitos paizes o costume de se
+conservarem os relicarios sobre os altares. Este costume pouco a pouco
+se foi generalisando, pelo menos em alguns d'elles. Quando esta
+exposição se realisava por detraz dos altares, o cofre era collocado
+pouco mais ou menos dois metros acima do piso e sustentava um dos lados
+triangulares sobre o proprio altar, ou então sobre um retabulo de pedra,
+collocado em cima d'aquelle, mas pouco elevado, e o outro sobre uma
+consola ou um grupo de columnas junto á parede absidal ou interior da
+egreja.
+
+Os fieis podiam circular em torno do altar e vir collocar-se
+directamente debaixo das reliquias. O uso de passar debaixo dos
+relicarios, quer de pé, quer de joelhos, ainda hoje existe em muitos
+paizes catholicos. Quando a parte superior da urna, que vinha assentar
+sobre o altar, era desprovida de qualquer ornato, cobria-se então com um
+retabulo de metal ou de pedra; se pelo contrario, como succedia com as
+urnas de oiro, de prata ou de cobre doirado e esmaltado, tinha figuras
+primorosamente executadas, ficava inteiramente livre e visivel por
+detraz do altar. Construia-se então por cima da urna uma especie de
+tabernaculo ou de baldaquino. Algumas vezes ornamentavam a parte central
+do lado triangular, com um retabulo de metal precioso.
+
+O altar-mór das cathedraes assim como das collegiaes que não possuiam
+grandes reliquias, só veiu a ter retabulo no XIV seculo. Tanto no XII
+como no XIII seculo, se collocavam n'estes edificios retabulos sobre os
+altares secundarios do transepte e das Capellas absidaes. Estes
+retabulos eram de pouca espessura, não se lhes podendo collocar em cima
+nem crucifixos, nem candeeiros.
+
+_Altares portateis_.--Apresentam ordinariamente, bem como os do periodo
+Latino, a fórma de um parallelogrammo rectangular, e são compostos de
+uma lagea de marmore ou de pedra mettida n'um caixilho de carvalho e
+guarnecida com bordados de oiro ou de prata, de modo a não tornar
+visivel senão a parte superior da placa.
+
+A lagea que constituia o altar propriamente dito era de porphyro, de
+jaspe, de onyx, de crystal de rocha, de pedra preta e até mesmo de
+ardosia. Tambem algumas vezes constava de uma pedra preciosa unicamente
+como recordação historica que a ella estava ligada, por exemplo, um
+fragmento das lageas tintas com o sangue de S. Thomaz de Cantorbery.
+
+As reliquias, cuja presença é de rigor em todo o altar, encontram-se
+entre a lagea de marmore ou de pedra e o caixilho de madeira: algumas
+vezes era este concavo em fórma de recipiente. Em geral os altares
+portateis são de pequena altura, apenas alguns têem a fórma de um
+pequeno cofre sustentado por pés pouco elevados. As laminas de metal que
+constituem os adornos são muitas vezes cobertas com filigranas, de
+pedrarias, de folhagens gravadas, ou de figuras esmaltadas.
+
+Usaram-se estes altares até ao final do seculo XIII.
+
+_Piscinas_.--A ablução das mãos, tanto antes como depois do sacrificio
+da missa, foi sempre um dos preceitos dos padres. Deitava-se nas
+piscinas não sò a agua de que o padre se servia para a ablução das mãos,
+mas até mesmo aquella de que os ministros se serviam para lavar tanto os
+calices ordinarios como os ministeriaes em seguida á communhão do padre
+e dos fieis.
+
+N'esta época o padre não tomava as abluções do mesmo modo que
+actualmente.
+
+Algumas piscinas, que são as mais antigas, têem apenas uma abertura ou
+concavidade para dar passagem á agua; ha porém outras que têem duas, uma
+para escoadouro das aguas ordinarias, e outra para receber as abluções
+das mãos.
+
+As primeiras chamam-se _piscinas simples_, e as segundas _duplas_. As
+mais antigas são de uma grande simplicidade, pois muitas vezes apenas
+constavam de uma bacia, ou escavada no proprio banco de pedra que havia
+junto á parte inferior das paredes, ou sustentada por uma pequena
+columna isolada, ou por muitas formando grupo. As piscinas que são
+sustentadas por columnas chamam-se _pediculadas_.
+
+No XII seculo começou-se a collocar _piscinas_ em nichos abertos nas
+paredes exteriores da egreja. As piscinas duplas só no fim do XII seculo
+appareceram.
+
+_Doceis_.--Foi durante o periodo roman que maior uso tiveram os doceis.
+Em geral consistem n'uma especie de cúpula quadrada ou polygonal, de
+marmore, de estuque, ou de pedra. Muitas vezes têem um leão sentado
+entre a base e o fuste das columnas. A face anterior da cúpula é quasi
+sempre munida de uma estante, sobre a qual o diácono ou o leitor
+collocava o livro sagrado.
+
+Esta estante assentava ordinariamente na cabeça de uma aguia, symbolo do
+Evangelista S. João; e algumas vezes na de um homem munido de azas,
+emblema de S. Matheus. Quando a estante assentava sobre a cabeça de
+aguia ou de homem com azas, os symbolos dos outros evangelistas estavam
+tambem, ás vezes, representados nos angulos da base da cúpula.
+
+Nas egrejas mais ricas havia mesmo doceis cuja cúpula era revestida de
+oiro, de prata, e de laminas esmaltadas, ou decorada com esculpturas
+sobre marfim.
+
+_Cadeiras episcopaes ou do clero_.--A cadeira episcopal nas cathedraes,
+ou do celebrante nas egrejas inferiores, achava-se regularmente, como no
+periodo Latino, no fundo do abside do côro, contiguo á muralha; e aos
+lados estendiam-se os bancos ou cadeiras destinadas ao clero. Esta
+disposição, que foi conservada até nossos dias em algumas egrejas
+romans, era a que havia em todas as egrejas seculares, tanto cathedraes,
+como collegiaes e parochiaes.
+
+Havia, já o dissemos, algumas excepções a esta regra, como succedia com
+certas collegiaes que possuiam um altar das reliquias no fundo do côro,
+e com as egrejas monasticas. N'estas ultimas cedo foram mudadas as
+cadeiras para o transepte, e mesmo para o corpo da nave; sem duvida por
+causa do grande numero de religiosos, que era impossivel collocar
+convenientemente na curvatura do côro.
+
+Durante a maior parte do periodo roman os bancos dos padres foram de
+marmore ou de pedra como anteriormente. As cadeiras ou _fórmas_,
+_formulae_, de madeira, foram raras até ao fim do XII seculo; apenas se
+encontram algumas que escaparam á destruição. Vê-se perfeitamente que
+estas cadeiras, apezar de bem feitas em madeira, imitam todavia
+exactamente as antigas de pedra.
+
+
+*Capellas funerarias, tumulos e pedras tumulares*
+
+
+_Capellas funerarias_.--Construiram-se algumas vezes, nos cemiterios e
+na proximidade das egrejas, capellas funebres, de fórma circular ou
+polygonal, á similhança da rotunda construida pelo imperador Constantino
+sobre o Santo Sepulchro, ou o mausoléu de Theodorico em Ravenna
+(Italia).
+
+_Tumulos_.--O costume de encerrar em sarcophagos os restos mortaes das
+pessoas ricas e poderosas existiu no Norte da Europa até ao XII seculo,
+e nos paizes meridionaes, isto é, no Sul da França, na Italia e na
+Hespanha existiu pelo menos até ao XIV. Estes sarcophagos constavam,
+como no periodo antecedente, de cofres oblongos, de pedra ou de marmore,
+muitas vezes mais estreitos para o lado dos pés, e fechados por uma
+tampa convexa ou em fórma de telhado de duas aguas. Eram esculpidos com
+ornatos e symbolos; florões, folhagens, monogrammas, cruzes e alguns
+assumptos allegoricos. Collocavam-nos habitualmente sobre pequenos
+pilares grossos, ou sobre columnas curtas só com o fim de os isolar do
+solo.
+
+Durante o periodo roman tambem foi adoptado o uso dos _cenotaphios_ que
+consistem em sócos de pedra, macissos d'alvenaria ou grupos de columnas,
+assentes sobre uma sepultura subterranea e sustentando ou um sarcophago
+simulado ou a effigie do defunto. Em tôrno do sóco ou do macisso
+d'alvenaria acha-se disposta uma serie de pequenas columnas. Umas vezes
+são unidas por meio d'arcos, outras, o rebordo da grande lage que corôa
+o sóco é apoiado sobre as columnas. No XII seculo, os cenotaphios
+começaram a ser encimados pela effigie do defunto, esculpida em relevo e
+ás vezes até mesmo gravada ao traço ou representada em esmalte. O
+personagem é geralmente collocado estendido sobre um leito e tem todas
+as insignias da sua dignidade; os bispos estão com a mitra e o báculo
+pastoral; os reis e os principes, com o sceptro e a corôa. Estas
+estatuas deitadas não apresentam o aspecto d'um morto; porque têem os
+olhos abertos, os gestos e attitudes de pessoas vivas.
+
+Alguns anjinhos fazem balancear thuribulos ou sustentam a almofada sobre
+que assenta a cabeça do personagem.
+
+_Tumulos não apparentes_. Consistem, como os do periodo anterior, em
+cofres de pedra ou de alvenaria mais largos do lado da cabeça que dos
+pés e fechados por uma tampa chata ou prismatica. No interior do cofre
+encontra-se algumas vezes, principalmente do XI até ao XIV seculo, um
+espaço circular destinado a receber a cabeça do cadaver. Alguns têem no
+fundo dois regos, no prolongamento dos quaes está feita uma abertura
+destinada a dar vasão ás materias viscosas.
+
+_Pedras tumulares_. O uso das pedras tumulares continuou durante o
+periodo roman. Em geral têem a fórma d'um trapezio; algumas tambem, as
+mais antigas, são rectangulares. A sua decoração em geral consiste em
+figuras geometricas, folhagens ou figuras symbolicas, e raras vezes se
+lê o nome do defuncto, e a causa e data do seu fallecimento.
+
+_Pias baptismaes_. As pias baptismaes eram de grandes dimensões durante
+todo o periodo roman, por isso que se continuou a administrar o baptismo
+por immersão até ao XII seculo. As pias eram em geral de pedra; comtudo
+algumas havia de bronze e outras de cobre. Em França e especialmente na
+Inglaterra tambem as havia de chumbo.
+
+As pias romans eram de variadissimas fórmas; sendo algumas similhantes a
+uma vasilha.
+
+O grande impulso que na Allemanha teve a arte da ourivesaria durante o
+XI seculo, longe de affrouxar no seculo seguinte, pôde conservar-se na
+vanguarda do movimento artistico da Europa Central e Occidental.
+
+Com a applicação do _esmalte_, os objectos d'ourivesaria mudaram
+completamente d'aspecto no XI e XII seculos. Até ali a accumulação das
+pedrarias ligadas por folhagens de filigranas constituia todo o segredo
+d'ornamentação dos ourives do Occidente; desde o fim do X seculo que as
+laminas duplas e lavradas alternam a maior parte das vezes com laminas
+esmaltadas. Estas encontram-se não só nas grandes peças d'ourivesaria,
+taes como as molduras e as alfaias dos altares, mas até nos menores
+objectos.
+
+Os primeiros esmaltes fabricados na Allemanha foram engastados em ouro e
+prata, semelhantes aos que os Bysantinos fabricavam durante a segunda
+metade do X seculo; mais tarde tambem se empregou o cobre com o qual se
+douravam as partes que ainda ficavam visiveis depois da incrustação do
+esmalte. Foi a começar no XI seculo que em algumas localidades
+substituiram o esmalte introduzido no rebaixo pelo dividido em
+separação.
+
+Até meado do seculo XII, a influencia Bysantina é apparente nos
+esmaltadores Rhenanos. Durante bastante tempo, com effeito, os
+esmaltadores allemães imitaram o estylo Oriental, reproduzindo mais ou
+menos fielmente typos bysantinos, modificando-os comtudo segundo o seu
+proprio engenho. Os seus processos technicos tambem se resentem da
+origem Bysantina da arte allemã: é assim, por exemplo, que, nos esmaltes
+em separação, e até mesmo nos mais antigos esmaltes executados em
+rebaixos, as carnações são substituidas pela pasta vitrea, a exemplo do
+que se praticava em Constantinopla. Com tudo isto, os esmaltadores das
+margens do Rheno não tardaram em gravar sobre metal reservado, as
+figuras de pequenas dimensões, emquanto que para as grandes, continuaram
+ainda, durante algum tempo, a esmaltar as roupas; e n'este caso só se
+serviam da gravura para as carnações. No final do XII seculo, para
+proceder sem duvida d'uma maneira mais expedita, começaram a gravar
+figuras inteiras, ainda mesmo que tivessem uma certa grandeza, e quasi
+que não era preciso gravar com esmaltes os entalhos, muitas vezes
+grandes e profundos da gravura.
+
+Em França, os ourives do XI seculo e dos primeiros annos do XII,
+continuaram a servir-se exclusivamente, para a decoração das suas obras,
+de placas cinzeladas ou até simplesmente estampadas, e d'applicações de
+pedrarias ligadas com filigranas. Até 1145 os ourives francezes
+ignoravam o modo de gravar do esmalte; tanto que, quando no principio
+d'esse anno, _Suger_, abbade do mosteiro de S. Diniz, proximo de Paris,
+quiz mandar fazer uma peanha e cobril-a de placas de esmalte engastadas
+sobre cobre, viu-se obrigado, segundo elle mesmo conta, a chamar em seu
+auxilio ourives da Lotharingia, em numero de cinco ou sete, que tiveram
+o trabalho de terminar esta obra em dois annos.
+
+As producções dos primeiros esmaltadores francezes apresentam grandes
+analogias com as dos allemães do Rheno, que vieram ensinar a arte de
+esmaltar, em França.
+
+Uma vez começado, o gosto pela ourivesaria esmaltada em breve foi
+augmentando em França, e deu logar a que, em 1160, se creasse uma
+celebre escola de esmaltadores em cobre cuja séde foi em Limoges.
+
+Nos primeiros ensaios, os ourives de Limoges procuraram dar aos seus
+esmaltes o aspecto do dos allemães; representavam as figuras inteiras,
+até as proprias carnações, com côres d'esmalte; só aproveitavam o metal
+para lhe fazer traçar as principaes linhas do desenho. Em pouco tempo,
+para mais rapida e mais barata producção, renunciaram a este processo e
+principiaram a gravar logo sobre o metal, todas as figuras e a esmaltar
+_apenas_ o fundo. Muitas vezes até substituiam as partes gravadas por
+figuras em alto relevo de bronze fundido e cinzelado. Os esmaltadores de
+Limoges cederam em parte a sua obra ao gravador, ao esculptor, ao
+fundidor e ao cinzelador, limitando assim o seu trabalho á simples
+decoração dos fundos, operação que se tornava pouco difficil.
+
+Pelo lado artistico o esmalte rhenano é muito superior ao de Limoges. Os
+esmaltes fabricados no XI e no XII seculo nas margens do Mósa, em Liêge,
+Maestricht, Stavelot, em Waulsort e em Gembloux têem os caracteres da
+escola rhenana, cujo principal centro de fabrico era em Colonia,
+constituindo por isso uma variedade dos esmaltes rhenanos. As
+differenças que se encontram entre os esmaltes com rebaixo de Limoges,
+os do Rheno e os do Mósa são estas: nos primeiros predominam as côres
+azul e verde claros, em quanto que nos outros são o verde e o azul
+carregados. Os esmaltadores do Rheno e os do Mósa servem-se d'algumas
+côres que lhes são proprias; o bello azul de torqueza, o branco de
+leite, o vermelho de purpura muito vivo e o preto. Os tons são mais
+harmonicos na Belgica e na Allemanha, e mais vivos e asperos na França.
+Os esmaltes do Rheno e do Mósa reproduzem scenas em que toma parte um
+grande numero de personagens, com inscripções latinas em verso, gravadas
+e encrustadas de esmalte; nos de Limoges não se encontram inscripções a
+não ser apenas um ou outro nome. Os differentes lavôres que os
+esmaltadores do Rheno e do Mósa executavam sobre o cobre e com as
+incrustações de esmalte, são notaveis pelo bom gosto e variedade de
+assumptos, qualidade que se não encontra entre os de Limoges.
+
+Os objectos, grandes ou pequenos, ornados com esmaltes do Mósa ou do
+Rheno apresentam geralmente uma particularidade que se não observa na
+ourivesaria franceza contemporanea. Têem, além das placas esmaltadas,
+filigranas e pedrarias, placas de cobre vermelho com ornatos e
+inscripções douradas sobre campo brunido ou vice-versa.
+
+_Calices e patênas_. Conservou-se, durante o periodo roman, o uso dos
+calices ordinarios e ministeriaes.
+
+Os calices ordinarios do VIII e do IX seculo, têem muitas vezes, como os
+do periodo Latino, a taça profunda e estreita, o pé pequeno e ligado á
+taça por um simples nó sem haste.
+
+No IX seculo começou a usar-se a taça maior, e ás vezes de fórma
+espherica e com azas. O pé conserva-se ainda n'este seculo com as mesmas
+dimensões que nos precedentes.
+
+Os calices do XI e do XII seculos têem a taça e o pé muito grandes, o nó
+bastante grosso e a haste curta quando a têem.
+
+Na Allemanha encontram-se calices do XII seculo que têem o exterior da
+taça inteiramente coberto de medalhões, de esmaltes, de pedrarias e de
+filigranas; estes ornatos são apenas interrompidos por um pequeno espaço
+semi-circular destinado para o padre applicar o labio inferior durante a
+communhão.
+
+Os mysterios da vida e da paixão do Salvador e principalmente a sua
+crucifixão, eram os assumptos que os artistas mais gostavam de
+reproduzir sobre os medalhões circulares ou ovaes com que decoravam a
+taça e o pé dos calices.
+
+Em geral compõem-se d'um reservatorio sustentado por um grosso fuste
+cylindrico, ou mesmo por um pilar quadrado, e tambem se encontram alguns
+cujos angulos se apoiam sobre quatro columnas.
+
+Estas pias baptismaes, exteriormente quadradas, são os reservatorios
+circulares e ovaes, tendo as faces externas esculpidas com florões,
+folhagens, arcos, animaes phantasticos, carrancas e até é facil vêrem-se
+assumptos legendarios ou historicos.
+
+_Grades_. Os romanos faziam muitas vezes grades fundidas em bronze. Na
+Italia e no Sul da Allemanha ainda se empregaram até ao XI seculo. estas
+grades.
+
+Carlos Magno empregou o bronze nas grades da egreja de Aix-la-Chapelle
+que foram, assim como o edificio de que fazem parte, uma importação
+meridional.
+
+Durante o XI e XII seculo, as grades eram compostas de montantes
+verticaes mettidos n'uma moldura e encerrando ornatos formados de
+barras, de secção quadrada ou rectangular; estes ornatos consistem em
+geral em curvas entrelaçadas.
+
+
+*Alfaias religiosas*
+
+
+No seculo VIII estavam as artes e as sciencias inteiramente decahidas no
+Occidente, em consequencia das continuas guerras provocadas pelas
+invasões dos barbaros. Os processos technicos das artes industriaes e
+mais faceis d'adoptar tinham quasi caído no esquecimento. No imperio do
+Oriente, pelo contrario, o culto das artes não cessou de prosperar desde
+Constantino Magno até ao XI seculo inclusivamente, graças á protecção
+generosa dos imperadores bysantinos. Tambem, logo que se seguiram os
+primeiros momentos de socego depois das tempestades politicas, pensou-se
+na Italia e no resto do Occidente em dotar d'alfaias convenientes as
+egrejas, e basilicas que se acabavam de construir ou de restaurar e para
+isso foram obrigados a dirigirem-se a Constantinopla tanto para procurar
+os objectos que desejavam como para obter artistas aptos que annuissem a
+vir trabalhar no Occidente.
+
+Durante muito tempo os artistas verdadeiramente dignos d'este nome,
+pintores, esculptores, ourives e outros, continuaram a vir de Bysancio,
+e quando no principio do IX seculo, Carlos Magno quiz decorar com
+mosaicos e enriquecer com vasos sagrados e outros objectos d'arte o
+edificio religioso que elle acabára de construir em Aix-la-Chapelle,
+teve que se dirigir a artistas gregos ou aos discipulos que se haviam
+formado na Italia, particularmente em Ravenna.
+
+Com os inferiores successores d'este principe, a arte cessou de ter
+desenvolvimento, retrocedendo tanto na Europa central como na
+Occidental, ao mesmo estado de barbaria em que se achava antes dos
+esforços empregados por Carlos Magno para restabelecer o seu progresso.
+
+No fim do X seculo, produziu-se no Occidente um movimento util nos
+estudos artisticos; os artistas gregos foram ainda aqui, como mais tarde
+na Italia, os iniciadores que presidiram a este movimento instructivo.
+
+A restauração artistica, começada sob a influencia dos artistas
+bysantinos, foi extremamente rapida na Allemanha. Desde o fim do X
+seculo, a escola de Trèves, dirigida pelo bispo Egberto, deu nascimento,
+no territorio germanico, a muitos outros centros artisticos creados
+pelos bispos nos seus palacios episcopaes, ou pelos abbades nos seus
+Mosteiros. Santo Henrique que governou o imperio do Occidente durante o
+primeiro quartel do XI seculo, foi tambem um dos grandes promotores da
+restauração artistica na Allemanha.
+
+Os _calices ministeriaes_ conservaram, durante o periodo roman, a mesma
+fórma que tinham tido anteriormente. A sua decoração é a mesma que a dos
+calices ordinarios. São munidos d'azas com a fórma de folhagens, ou de
+dragões e d'outros animaes phantasticos.
+
+Nos medalhões sobre a taça representavam-se scenas da vida do Salvador;
+nos do pé, as quatro virtudes Cardeaes e assumptos tirados da historia
+do Velho Testamento; e nos medalhões do nó mostravam-se as
+personificações dos quatro rios do Paraizo.
+
+As patênas, ordinariamente muito simples, tinham a configuração d'um
+pires com um esvasamento circular no meio. O fundo interior era liso,
+com adornos de buril; os bordos, por vezes lavrados em relevos ou
+gravados ao buril, eram de pequenas dimensões. Encontram-se comtudo
+algumas patênas da época roman, sobre as quaes abundavam os ornatos e as
+esculpturas.
+
+_Custodias eucharisticas: pyxides e ciborios_. Desde o XI seculo que as
+pombas eucharisticas foram substituidas em geral pelas pyxides, cuja
+origem alguns auctores reputam ser do V seculo. Dá-se o nome _pyxides_ a
+pequenas caixas de marfim, d'onyx, d'ouro, de prata ou de cobre
+esmaltado, nas quaes se guardavam as Sagradas particulas. Suspendiam-se,
+debaixo do docel do altar, n'uma bolsa de tecido precioso, ou então
+collocavam-se n'um pequeno nicho aberto em parede proxima do altar.
+
+Durante os primeiros seculos do periodo roman as pyxides de marfim
+empregavam-se em concorrencia com as pombas eucharisticas de metal.
+
+Consistiam regularmente em pequenas caixas cylindricas, tendo muitas
+vezes no exterior esculpturas em relevo.
+
+As pyxides do XII e do XIII seculo são ordinariamente de cobre dourado e
+esmaltado; compõem-se d'uma pequena caixa cylindrica encimada por uma
+tampa de fórma conica ligada ao cylindro por uma charneira. Muitas
+d'estas pyxides sairam das officinas dos esmaltadores de Limoges.
+
+As pyxides romans têem algumas vezes um pé, e são em geral tanto umas
+como outras de pequenas dimensões, por isso que apenas servem para
+guardar um pequeno numero d'hostias necessarias para dar o Sagrado
+Viatico aos doentes em perigo de vida.
+
+Todas as pyxides anteriores ao XVI seculo, com raras excepções, têem a
+tampa ligada ao cylindro por meio de charneira.
+
+_Relicarios_. Consideraram-se primeiramente como reliquias os restos
+mortaes dos Santos, porém, hoje têem um sentido mais lato;
+considerando-se tambem como taes os paramentos e outros objectos usados
+por elles durante a sua vida mortal. A Egreja professou sempre um grande
+respeito pelas reliquias, prestando-lhes um culto particular. Em vista
+d'isto não é para admirar que nos primeiros seculos se fabricasse um tão
+grande numero e diversidade de relicarios, afim de conservarem estes
+preciosos thesouros e expôl-os á veneração dos fieis.
+
+_Relicarios da verdadeira Cruz_. A maior parte dos relicarios que
+contéem parcellas da verdadeira Cruz foram trazidos do Oriente na época
+das Cruzadas, ou fabricados na Europa segundo os modêlos bysantinos. São
+ricamente cravejados de pedraria e d'esmaltes, e têem muitas vezes a
+fórma de uma dupla cruz chamada cruz do Santo Sepulchro, de Lorrena ou
+de Caravalla. Como a travessa superior d'esta cruz é menor que a
+inferior, leva isto a suppôr que o que parece uma repetição dos braços
+seja simplesmente o _titulo_ da cruz, pelo qual os Gregos e os Orientaes
+sempre tiveram especial veneração.
+
+Tambem muitas vezes se collocavam as reliquias da Sagrada madeira n'uma
+cruz com uma simples travessa.
+
+As reliquias da verdadeira Cruz, encerradas n'uma cruzeta, muitas vezes
+com duas travessas, eram tambem muitas vezes emmolduradas n'uma placa
+metallica ricamente ornada e fixa sobre um centro de madeira. Estes
+relicarios, com a fórma d'um pequeno quadro rectangular ou d'um
+triptyco, eram mettidos em ricos estojos guarnecidos d'esmaltes,
+filigranas e pedras preciosas.
+
+Não eram só os relicarios da madeira da verdadeira Cruz, que tinham a
+fórma d'uma cruz com duas travessas horisontaes; os proprios edíficios
+em que se conservavam estes relicarios eram muitas vezes encimados com
+uma cruz do mesmo genero. Nas parochias em que os campanarios tinham a
+dita cruz, eram collocadas sobre os tumulos n'ellas existentes, cruzes
+de madeira ou de pedra com a mesma fórma.
+
+_Urnas_. A urna é uma especie d'um cofre dentro do qual são guardadas as
+reliquias d'um Santo. O emprego das urnas vulgarisou-se desde o XI
+seculo. Ha-as _grandes_ e _pequenas_. As grandes urnas têem o feitio
+d'um pequeno edificio rectangular, com a fórma de telhado de duas
+vertentes; ha algumas, como a dos Reis Magos em Colonia, que imitam uma
+egreja com as suas paredes exteriores.
+
+Em geral são cobertas de placas de metal ornadas com filigranas,
+esmaltes e pedrarias. Christo lançando a benção, sentado ou em pé, só ou
+no meio de dois Santos, occupa ordinariamente uma das faces extremas, e
+na outra face a Santissima Virgem entre dois Santos cujas reliquias a
+urna encerra. As faces lateraes são divididas por arcadas de volta
+inteira ou abatida, debaixo das quaes se vêem as figuras dos Apostolos
+ou d'outros Santos; emfim, as vertentes da imitação de telhado são
+decoradas com baixos relevos. Os esmaltes servem de caixilhos aos
+differentes assumptos e cobrem tanto as archivoltas como as columnas das
+arcadas. Ha tambem urnas exclusivamente feitas de placas esmaltadas.
+
+As urnas pequenas, muito triviaes nos seculos XII e XIII, têem a fórma
+d'um cofre oblongo, coberto com uma tampa semelhante a um telhado de
+duas aguas. Compõem-se em geral de placas de cobre vermelho, esmaltadas
+segundo o processo do buril. Tanto as quatro faces da urna, como a tampa
+são adornadas de figuras e algumas vezes com assumptos completos.
+Merecem attenção as figuras pela gravura em relevo ou pelo seu modo de
+execução especial.
+
+Sobre muitas d'estas urnas se vêem em relevo as cabeças e as mãos ou
+sómente as cabeças; nas mais antigas, em vez de serem simplesmente
+gravadas, são incrustadas de esmalte.
+
+D'ordinario o trabalho é rude e barbaro e o desenho deixa muito a
+desejar com relação a correcção.
+
+A tampa é geralmente terminada por uma lamina de cobre recortada em
+fórma de crista.
+
+Pertencem em geral estas urnas ao trabalho dos esmaltadores de Limoges.
+
+Tambem se têem encontrado urnas romanas de pedra, marfim e mesmo de
+madeira.
+
+_Estatuêtas_, _bustos_, _braços_, _pés_, etc. No seculo X, começou-se a
+collocar as reliquias em estatuêtas, bustos, ou relicarios de metal
+ricamente ornamentados e imitando a fórma do corpo humano a que ellas
+haviam pertencido. Assim, quando queriam guardar os ossos d'um pé, ou
+d'um braço, dava-se ao relicario a fórma de qualquer d'estes dois
+modelos. Continuaram a usar-se estes relicarios durante os seculos
+seguintes, tornando-se bastante vulgares.
+
+_Urnas de marfim_. Encontram-se, com frequencia, nos thesouros das
+egrejas e nas collecções d'objectos antigos, cofres de marfim cobertos
+de esculpturas decorativas e legendarias. As que offerecem assumptos
+religiosos ou alguns signaes de symbolismo christão, e que por
+consequencia foram executadas para o serviço do culto, são extremamente
+raras. Isto prova que primitivamente eram destinadas aos usos profanos,
+por exemplo, para guarda joias. No entanto não é para admirar que se
+encontrem nas egrejas, pois que umas foram cedidas ás egrejas como obras
+artisticas offerecidas por bemfeitores generosos; outras, executadas no
+Oriente, serviram aos cavalleiros cruzados para trazerem as reliquias de
+Constantinopla e da Terra Santa. As reliquias vindas do Oriente, ficaram
+encerradas em pequenos cofres, adquiridos por alto preço no Egypto, na
+Syria e na Asia Menor. Estes pequenos cofres, que sahiam d'officinas
+musulmanas ou indianas, são regularmente cobertos de figuras
+geometricas, d'arabescos d'animaes phantasticos e algumas vezes
+d'inscripções Orientaes.
+
+_Frascos de crystal de rocha_. D'entre os varios objectos de que os
+cruzados se serviam como relicarios, para trazerem reliquias para o
+Occidente, devemos especialmente mencionar os pequenos frascos de
+crystal de rocha. Estes frascos, cuja altura raras vezes excedia dez
+centimetros, eram ou muito simples ou com fórmas d'animaes phantasticos.
+Muitos estiveram guardados, durante o periodo ogival, em ricos estojos
+de ouro ou de prata.
+
+_Diversos relicarios_. Ha-os com diversas fórmas architecturaes
+imitando, em metal ou em marfim, as principaes partes das egrejas
+romans, e até mesmo as dos edificios civis.
+
+_Corôas suspensas nos altares_. Estas corôas conhecidas com o nome de
+_votivas_ eram por devoção offerecidas a Deus e aos Santos, ou em
+cumprimento d'algum voto. Já existiam durante o periodo latino; como
+então, compunham-se de um circulo de metal precioso, muitas vezes
+adornado com o brilho de pedrarias e de esmaltes. Fabricou-se grande
+numero d'estas corôas directamente para o serviço dos altares; todavia
+os antigos chronistas designam-nas tambem muitos como offertas feitas
+por reis e principes, de corôas d'ouro e de prata e que elles
+precedentemente cingiam como insignia de realeza.
+
+_Corôas para luzes_. As corôas para luzes continuaram a usar-se durante
+o periodo roman e as mais bellas que a idade media nos legou são d'esta
+época.
+
+Todas estas corôas, guarnecidas de torres e ameias parecem alludir á
+visão de que falla S. João no capitulo XXI do Apocalypse. _Deus me
+mostrará a santa cidade de Jerusalem, que desceu do Ceu, mandada por
+Deus..._ representada por uma alta muralha, franqueada por dôze portas;
+vendo-se a estas portas dôze anjos, e tendo gravados os nomes das dôze
+tribus de Israel. As portas ficavam tres ao Oriente, tres ao Norte, tres
+ao Sul e tres ao Occidente. A muralha tinha dôze socalcos, em que se
+achavam gravados os nomes dos dôze Apostolos.
+
+Suspendiam-se estas corôas no côro proximo do altar e tambem no ponto de
+intersecção da nave com o transepte, quando eram muito grandes.
+
+A corôa para luzes de Aix-la-Chapelle tem oito metros de circumferencia;
+é composta de oito arcos de circulo unindo-se de maneira que formam
+angulos reintrantes. Estes angulos são guarnecidos de lanternas em fórma
+de torrinhas redondas havendo, no ponto medio de cada arco de circulo,
+uma torre quadrada maior. Entre cada torrinha podem ser collocadas tres
+vellas; como são dezeseis torres, oito quadradas e oito redondas, a
+corôa póde receber quarenta e oito luzes em todo o seu circuito. Duas
+inscripções latinas se lêem em tôrno do circulo metallico, indicando a
+data do XII seculo em que foi dada á egreja de Aix-la-Chapelle pelo
+imperador Frederico Barba-rôxa.
+
+_Cruzes d'altar e para as procissões_. Até ao final do XV seculo, não
+havia distincção alguma entre as cruzes do altar e as procissionarias ou
+estacionarias. A mesma cruz servia para ambos os fins; collocava-se
+sobre o altar fixando-a em uma peanha, trazia-se em procissão na
+extremidade d'uma vara comprida.
+
+As cruzes d'altar romans, ordinariamente de cobre, de prata, ou mesmo
+d'ouro, têem em geral apenas uma só cruzeta; as mais antigas são de
+fórma Trina, e cravejadas de perolas ou de variadas pedrarias. Mais
+tarde, no XI e no XII seculos, são então compostas com a imagem de
+Christo, sendo os ramos da cruz de desiguaes dimensões, isto é, deixam
+de ter a fórma Trina.
+
+Grande parte das cruzes d'altar romans são de cobre vermelho adornado
+com esmaltes entalhados ao buril, outras compõem-se de simples laminas
+de cobre sobre as quaes se reproduzem em esmalte a imagem do Divino
+crucificado ou outros symbolos religiosos. Muitas cruzes são formadas de
+madeira, tendo as duas faces ou só a principal revestidas com placas
+esmaltadas. A imagem de Christo era representada n'estas cruzes e em
+alto-relevo. O _perizonium_, que cobre os rins e a corôa que cinge a
+cabeça do Salvador, são ordinariamente esmaltados e os olhos
+representados por fragmentos de vidro azul.
+
+No fim do periodo roman, as peanhas em que se fixavam as cruzes para as
+collocar sobre o altar eram muitas vezes d'uma riqueza notavel; algumas
+eram de fórma triangular, a mais geral; e outras tinham quatro faces. Em
+cada um dos quatro angulos, d'estas ultimas, apresentam um Evangelista
+escrevendo textos relativos á vida ou á morte do Salvador. Queria-se
+d'este modo symbolisar a diffusão, pela prédica do Evangelho, da Fé em
+Jesus-Christo, Redemptor do genero humano.
+
+_Candelabros_. Os candelabros eram em geral pequenos e terminavam na sua
+parte superior por uma dirandella ponteaguda. A fórma d'estes
+candelabros do XII seculo, varía pouco; consta em geral de um pé assente
+sobre tres patas de leão ou em tres corpos de dragão; um nó de folhagens
+ou de dragões enroscados; e uma dirandella bastante concava, sustentada
+por tres ou quatro pequenos animaes phantasticos que se assimilham aos
+dragões ou aos lagartos com azas.
+
+O contraste que existe entre os pequenos candelabros d'outro tempo e os
+que actualmente se empregam de excessiva altura, explica-se da seguinte
+maneira: deram aos candelabros e ciriaes uma tão descommunal altura que
+obrigaram a substituir as antigas velas de cêra por um cirial simulado e
+accrescentado com uma vela. Não devemos esquecer que os ciriaes se
+accendem em homenagem ao Crucifixo ou ao Santissimo Sacramento, e que
+portanto não devem exceder em altura o tabernaculo. Comprehende-se,
+pois, a razão por que um candelabro d'altar é maior e mais monumental
+que outro qualquer de sala.
+
+_Candelabros para o Cirio Pascal_. Tinham uma altura bastante
+consideravel.
+
+A ornamentação d'estes candelabros, destinados a sustentar o Cirio
+Pascal, era analoga á dos candelabros d'altar. N'elles se encontram,
+tanto no pé como na dirandella, os dragões e os lagartos com azas
+(geralmente no numero de tres), as folhagens e os florões. Em alguns,
+tambem se representavam varios personagens e diversos outros assumptos
+nas facetas do pé.
+
+_Candelabros de sete braços_. Estes candelabros sempre de bronze,
+usavam-se desde o periodo roman, e talvez antes. Destinados, sem duvida,
+a fazer recordar o antigo candelabro dos israelitas, são tambem muito
+elevados. O pé, o nó e os ramos eram ordinariamente ornados.
+
+Os braços estão collocados, em geral, no mesmo plano, tres de cada lado
+da haste central e as dirandellas tambem se encontram ao mesmo nivel.
+
+_Evangeliarios_. Durante o periodo roman, trataram, como até ali, de
+reproduzir o mais correctamente possivel o texto Sagrado; e continuaram
+do mesmo modo a transcrever os exemplares de luxo com lettras de ouro
+sobre velino branco ou côr de purpura.
+
+As Biblias completas e os evangeliarios, isto é, os manuscriptos em que
+se encerra o texto dos quatro Evangelhos, são em geral ornados com um
+grande numero de miniaturas representando personagens e assumptos do
+Novo e Velho Testamentos, e até mesmo alguns factos legendarios.
+Todavia, nos mais antigos manuscriptos o numero das illustrações é
+geralmente muito menor que nos do XI e XII seculos. Encontra-se com
+frequencia, na parte superior de cada Evangelho, a figura do
+Evangelista, sentado e escrevendo o seu livro.
+
+Egualmente se encontram na parte superior de quasi todos os
+Evangeliarios, miniaturas que occupam muitas paginas, consistindo em
+arcadas sobre columnas, agrupadas ás tres e ás quatro, sob um arco
+commum que abrange toda a largura da pagina; em cada arcada lêem-se
+series de numeros collocados uns debaixo dos outros.
+
+Estas columnatas formam o que se chamam os _canhões d'Euzebio_ ou de
+_concordancia Evangelica_. Foram compostas por Euzebio de Cezaréa para
+facilitar o estudo comparativo dos Evangelhos, e consistem em quadros
+que indicam, por meio de algarismos escriptos na mesma linha horisontal
+em duas ou mais arcadas, as citações dos Evangelhos com relação ao mesmo
+objecto.
+
+São dez: o primeiro indica todos os logares communs aos quatro
+Evangelhos; o segundo, os que se não lêem senão em S. Matheus, S. Marcos
+e S. Lucas; o terceiro, o que é referido por S. Matheus, S. Lucas e S.
+João; o quarto, as passagens comparativas de S. Matheus, S. Marcos e S.
+João; o quinto, o accôrdo de S. Matheus com S. Lucas; o sexto, de S.
+Matheus com S. Marcos; o setimo, de S. Matheus com S. João; o oitavo, de
+S. Lucas com S. Marcos; o nôno, de S. Lucas com S. João; emfim o decimo,
+sob differentes series, o que cada evangelista escreveu de particular.
+
+Cada Evangelho tem á margem, com tinta preta por ordem numerica, a
+indicação de todos os versos que o compõem; e inferiormente a cada verso
+está notado a encarnado o numero do canhão a que se tem de recorrer para
+encontrar a concordancia.
+
+_Capas evangeliarias_. Durante o periodo roman as capas dos livros
+lithurgicos tinham ordinariamente um comprimento dobrado ou triplicado
+da largura. Comtudo já havia n'essa epoca encadernações que se
+approximavam sensivelmente da fórma quadrada, que foi a que mais tarde
+prevaleceu.
+
+As capas dos livros romans são de metal e tambem de marfim; acontecendo
+muitas vezes reunirem estas duas materias na mesma capa, ou servindo de
+caixilho a uma placa de marfim quadrada ou rectangular e com relevos
+metallicos.
+
+Os assumptos que mais trivialmente se encontram sobre as capas dos
+evangelhos são: 1.^o O Salvador, sentado ou de pé, lançando a benção e
+collocado n'uma aureola oval; 2.^o A crucificação de Christo; 3.^o A
+Santissima Virgem com o menino Jesus; 4.^o Scenas tiradas da historia do
+Novo Testamento.
+
+Os symbolos dos Evangelistas occupam quasi sempre os quatro angulos das
+capas.
+
+Para o fim do periodo roman, tambem frequentemente se empregaram, como
+capas de livros lithurgicos, placas esmaltadas, oblongas, rectangulares,
+fabricadas em Limoges, representando a crucificação do Senhor, com as
+figuras accessorias.
+
+_Thuribulos_. É provavel que nos primeiros seculos fossem simples vasos
+com grande diametro e um peso consideravel.
+
+Dos thuribulos anteriores ao XI seculo apenas temos conhecimento pelas
+pinturas das paredes e pelas miniaturas dos manuscriptos.
+
+São d'uma simplicidade notavel; têem, como todos os que se lhes
+seguiram, a fórma espheroidal.
+
+No XI e XII seculos apparecem thuribulos mais ricos.
+
+_Caldeirinhas d'agua benta portateis_. Estas caldeirinhas serviam para
+levar agua benta aos imperadores, aos reis e outros grandes personagens
+no momento em que entravam na egreja. Têem a fórma d'um cóne troncado e
+invertido.
+
+Geralmente são de pequenas dimensões, não excedendo 20 centimetros em
+altura.
+
+Tambem as ha de marfim e outras de metal. A maior parte tem
+exteriormente duas ordens sobrepostas de figuras em relevo,
+representando assumptos religiosos, figuras de Santos ou symbolos.
+
+_Pentes lithurgicos_. Os padres eram obrigados a pentear os cabellos e a
+barba antes de celebrar o Officio Divino. O uso dos pentes lithurgicos
+existiu até ao XVI seculo, e ainda nos nossos dias se emprega o pente na
+Sagração dos Bispos.
+
+_Os pentes lithurgicos_ são geralmente d'osso ou de marfim e tambem
+algumas vezes de madeira.
+
+Uns são maiores do que outros; os maiores são guarnecidos com duas
+ordens oppostas de dentes, tendo uma com mais finissimos dentes. O
+espaço comprehendido entre as duas ordens de dentes é em geral
+esculpido. Os pentes de menores dimensões têem apenas uma ordem de
+dentes, sendo egualmente mais ou menos ricamente esculpidos.
+
+_Cadeiras_. O uso da cadeira, _cathedra_, foi durante, muito tempo
+considerado como uma prerogativa dos Papas, dos Bispos e dos Soberanos
+temporaes.
+
+No fim do periodo Latino e no começo do Roman, as cadeiras, eram por
+vezes feitas á imitação da cadeira _curúl_ dos Romanos, a qual era
+formada de duas dobradiças em fórma de X, entre as quaes assentava um
+coxim. Os ramos das dobradiças d'esta especie de cadeiras romans são
+ordinariamente terminados, superiormente, por cabeças d'animaes e
+inferiormente por patas ou garras; como tambem succede com as cadeiras
+curúes mais ricamente esculpidas.
+
+As cadeiras romans têem d'ordinario a fórma d'um cofre rectangular, não
+tendo costas nem tão pouco braços. Adornavam-nas com incrustações de
+marfim, ouro, prata ou outros metaes; eram estofadas de preciosos
+brilhantes e damascos. As cadeiras de costas altas são raras.
+
+_Baculos pastoraes_. Desde os primeiros seculos que os Bispos empunhavam
+o bastão pastoral como insignia da sua dignidade. Mais tarde foi este
+privilegio extensivo aos abbades dos grandes mosteiros.
+
+Os bastões pastoraes mais antigos eram de duas fórmas diversas: havia o
+bastão em fórma de muleta e o bastão em _voluta_. O primeiro, pela sua
+similhança com a letra T (a que os gregos chamavam _tau_) é conhecido
+pelo nome de _bastão_ ou baculo em fórma de _tau_. O cabo ou travessa
+ordinariamente de marfim é todo esculpido.
+
+Os baculos de _voluta_ que ainda hoje existem, datam do XII seculo. A
+fórma que tinham antes d'esta epocha sabe-se pelas esculpturas, pinturas
+e miniaturas.
+
+Não nos parece que se encontrem Bispos empunhando o baculo em monumentos
+cuja data seja anterior ao ultimo quartel de X seculo.
+
+No seculo XII e até mesmo já durante a ultima metade do seculo XI, é que
+se começaram a usar os _baculos de voluta_. São tambem d'esta epocha os
+_bastões de metal_ ornados de pedrarias d'esmaltes e filigranas.
+
+A voluta de quasi todos os baculos do XII seculo termina por uma cabeça
+de serpente ou de dragão encimada por uma cruz, ou lutando com o Divino
+Cordeiro armado com o signal da redempção. As volutas terminando em
+florão são por emquanto raras n'esta epocha, assim como tambem aquellas
+que têem representadas scenas historicas.
+
+Attribue-se geralmente aos baculos pastoraes e a todas as suas
+differentes partes, uma significação symbolica. O baculo representa o
+bordão do Pastor espiritual; do Bispo na sua diocese e do abbade no seu
+mosteiro. A haste é recta para recordar ao Prelado a rectidão da
+governação; a ponteira de metal é o emblema da justa severidade com que
+deve reprimir os rebeldes, e a voluta recurvada symbolisa a bondade como
+as almas são attrahidas para o bem pelas consolações. A voluta do baculo
+voltada para o peito, indica a jurisdicção interna dos Abbades; voltada
+para fóra, mostra a auctoridade dos Prelados.
+
+_Sapatos lithurgicos_. Estes sapatos, que desde os primeiros seculos são
+considerados como uma das principaes insignias dos Bispos e dos Abbades,
+tinham o nome de sandalias, _sandalia_, e eram em geral de fórma
+identica. Constavam d'uma solla de coiro ordinario, d'uma gaspea e de
+dois quartos.
+
+A gaspea era de coiro e recortada muito profundamente a formar uma
+especie de lingueta, _lingua_, e quatro appendices, _ligulae_, em fórma
+de orelhas atravez das quaes passavam os cordões. As seis chanfraduras,
+formadas por estas orelhas, fizeram dar á gaspea o nome de _coiro
+fenestrado_, _corium fenestratum_, por affectarem a fórma de aberturas
+dos rotulos de janellas.
+
+Tanto a gaspea como os quartos tinham um grande numero de furos, os
+quaes bem como as chanfraduras da gaspea tinham uma significação
+symbolica.
+
+As sandalias são guarnecidas, inferiormente, por uma solla e
+superiormente por um pedaço de cabedal chanfrado ou fenestrado, porque
+os pés dos prégadores devem ser resguardados inferiormente para se não
+sujarem nas coisas terrestres conforme as palavras do Senhor--_Sacudi o
+pó de vossos pés_--; são descobertos pela parte superior para que lhes
+seja relevado o conhecimento dos celestiaes mysterios, segundo estas
+palavras do propheta: «Desvendae-me os olhos e considerarei as
+maravilhas da tua Lei».
+
+A gaspea e os quartos eram ordinariamente bordados a ouro e seda e até
+mesmo de pedras preciosas.
+
+_Mitras_. As mitras de dois bicos eram desconhecidas até ao fim do XI
+seculo. D'antes os Bispos usavam algumas vezes uma corôa ou grinalda de
+laminas de metal, cravejada de pedras, debaixo da qual elles punham um
+barrete pouco elevado ou um pedaço rectangular de seda ou de tela, cujas
+extremidades, ordinariamente bastante compridas, fluctuavam livremente
+sobre as costas.
+
+No fim do XI seculo, a cobertura collocada por debaixo da corôa
+tornou-se mais alta de maneira que formava ou uma especie de touca
+ponteaguda ou dois lobulos obtusos ou arredondados e pouco tempo depois
+duas agudas pontas. N'esta mesma epocha foi substituido o circulo de
+metal por fachas de pergaminho primorosamente pintadas e as extremidades
+fluctuantes do pedaço de tela por duas fachas compridas e estreitas, que
+se chamam _fanons_.
+
+_Alfaias preciosas_. _Tecidos_. Durante os primeiros seculos da éra
+christã, os tecidos de seda apenas se fabricavam no Oriente.
+
+Mas no periodo roman continuou a Europa a mandar vir todos os tecidos
+preciosos de Constantinopla, da Grecia, da Asia Menor e da Persia.
+
+Comtudo, no seculo IX, os Mouros introduziram a cultura do bicho de seda
+no Sul da Hespanha, e a começar do seculo seguinte, a pequena cidade de
+Almeria, situada a pequena distancia de Malaga sobre as costas do
+Mediterraneo, tornou-se um importante centro de industria de seda, cujos
+productos da Europa eram procurados.
+
+Em seguida á expulsão dos musulmanos no anno de 1146 ou 1147, as
+fabricas de seda tambem se desinvolveram muito na ilha da Sicilia, e o
+commercio de tecidos de seda tornou-se extremamente florescente e
+prospero, graças aos intelligentes esforços do rei normando Roger,
+secundado na sua empreza por operarios trazidos da Grecia na escolta
+d'uma expedição militar. Os tecidos d'ouro e seda, fabricados na celebre
+manufactura official de Palermo, e conhecida pelo nome de _Hotel de
+Tiraz_, foram os mais estimados durante toda a edade média.
+
+Os tecidos do periodo roman, geralmente encorpados e solidos, são uns
+lisos e outros ornados de desenhos representando animaes, plantas,
+flôres e fructos, empregados apenas como decoração, sem a menor intenção
+de symbolismo. Os estofos produzidos pelas fabricas musulmanas, tinham
+tambem ás vezes inscripções arabes; aquelles cujas decorações consistiam
+em assumptos biblicos ou symbolos christãos, fabricavam-se em
+Constantinopla, na Grecia e mais tarde egualmente na Sicilia.
+
+_Bordados_. Os bordados continuaram a usar-se para reproduzirem
+assumptos religiosos quer em medalhões quer sobre umas fitas que
+applicavam ás velas d'altar e aos paramentos sacerdotaes. A arte de
+bordar fez consideraveis progressos durante o periodo roman.
+Encontram-se um grande numero de passamanarias inteiramente executada á
+agulha «_acula pictae_» no XI e XII seculos.
+
+Os bordados executados durante o periodo roman eram geralmente feitos em
+seda ou lã fina sobre uma talagarça de tela fina.
+
+_Paramentos sacerdotaes_. No principio do periodo roman eram ainda
+desconhecidas as côres lithurgicas, e só se começaram a empregar no IX
+seculo tomando um certo desinvolvimento nos seculos seguintes, ao mesmo
+tempo que se fixou o seu symbolismo. A côr branca e a vermelha foram as
+primeiras adoptadas: aquella, como emblema da innocencia e da candura,
+servia nas festas do Salvador, da Santa Virgem, dos anjos, dos Santos
+que não morreram martyres e durante a Paschoa; o vermelho, symbolo da
+caridade e do heroismo, foi destinado aos martyres bem como ao
+Pentecostes, festas por excellencia do amor.
+
+No XII seculo duas novas côres vieram augmentar as que já se usavam: o
+verde, symbolo da esperança, foi empregado aos domingos e nos dias de
+semana em que se não celebrava festa alguma de Santo e durante o tempo
+que decorre entre a Epiphania e a septuagesima, entre o Pentecostes e o
+Advento, o preto, signal de luto, foi reservado para a sexta feira Santa
+e para os officios funebres.
+
+A principio, o uso d'estas differentes côres era facultativo; porém
+desde o final do XII seculo e ainda mais durante o seculo XIII,
+tornou-se obrigatorio.
+
+Mais tarde, tambem se introduziu o uso da côr violeta, symbolisando
+_penitencia_, para o Advento, quaresma, temporas e vigilias.
+
+A _casula_ conservou, durante o periodo roman a mesma fórma que até ali
+havia tido, isto é, a d'uma veste dupla, sem mangas, e caindo livremente
+á roda do corpo.
+
+As _casulas_ mais ricas eram de seda; cravejadas de pedras, de perolas e
+bordadas a ouro, prata, seda ou lã, reproduzindo figuras geometricas,
+flôres, animaes, symbolos e assumptos religiosos. Estes ornatos
+espalhavam-se muitas vezes por toda a casula; comtudo, d'ordinario,
+apenas occupavam as bandas verticaes longas e estreitas, chamadas
+_praetestae_, _listae_ ou _augusti clavi_; regularmente são duas, uma na
+frente e outra na parte posterior. Além do modo decorativo que ellas
+tinham, estas bandas serviam ainda a um fim util, a de tapar as duas
+costuras precisas para dar feitio ao paramento. Duas outras fachas,
+egualmente estreitas, passavam sobre os hombros e vinham terminar nas
+bandas verticaes do peito e ao meio das costas, figurando, adiante e
+atraz, uma Cruz em fórma de Y.
+
+Ha _casulas_ antigas que não têem as fachas de juncção que passam sobre
+os hombros e cuja decoração se resume nas duas fachas verticaes. Algumas
+vezes tambem estas fachas são substituidas por arvores ou plantas com
+muitas ramificações.
+
+As casulas de uso diario e as das egrejas mais modestas não eram de
+seda, materia de um preço excessivo n'essa época, mas sim de lã, tela ou
+outros tecidos mais baratos.
+
+A _estola_ consiste em uma facha comprida e estreita, de seda, de lã ou
+de tela, medindo em geral 2^{m},70 de comprimento sobre 6 a 7
+centimetros de largura. Foi a partir do IX seculo, que ella tomou esta
+fórma e estas dimensões, que se approximam muito das que ainda hoje tem.
+
+As estolas ricas eram ornadas de pedrarias bordadas, e placas de metal
+cinzeladas e esmaltadas, e terminavam nas pontas por longas franjas.
+
+O _manipulo_, que d'antes consistia n'uma especie de toalha, com a qual
+os padres limpavam as mãos e a cara ou purificavam os vasos sagrados, só
+perdeu a fórma e o destino primitivo, durante o IX seculo, quando se
+tornou um verdadeiro paramento similhante á estola na fórma, côr e
+decoração.
+
+A _capa_ conservou, durante o periodo roman, a mesma fórma que tinha
+antes; especialmente reservada aos chantres e clero inferior, era feita
+com um tecido ordinario. Os Bispos só raras vezes a vestiam e, por
+consequencia, não havia capas ricamente decoradas.
+
+A _alva_ era de linho mais ou menos fino e algumas vezes de seda branca.
+Havia duas especies de alva: as alvas sem ornatos, chamadas _albae
+purae_ ou _simplices_, e as alvas guarnecidas, _albae paratae_ ou
+_frisiatae_. As primeiras serviam nos dias ordinarios e nas egrejas de
+segunda ordem; as outras eram usadas pelos Bispos e pelo clero,
+especialmente nos grandes dias de festa.
+
+A decoração das alvas dos Bispos consistia apenas em certos ornatos em
+volta do pescoço, nas extremidades das mangas e no bordo inferior; além
+de duas orlas parallelas verticaes que lembram as _augusti clavi_ dos
+Romanos, e que descem do pescoço até aos pés, tanto na frente como nas
+costas.
+
+O _cinto_ era geralmente ornamentado com grande luxo.
+
+Muitos tecidos preciosos se fabricaram com fio d'ouro; tendo a fórma
+d'uma grande fita de largura entre tres e seis centimetros, podendo-se
+mui facilmente assentar, em toda a sua largura, perolas, pedrarias, e
+placas de metal cinzeladas e esmaltadas.
+
+O _amicto_ é composto d'um pedaço de panno quadrado ou rectangular, que
+o sacerdote põe na cabeça, quando começa a revestir-se, e que depois faz
+descer sobre o pescoço.
+
+Os amictos eram em geral de panno de linho. No periodo roman tambem os
+havia de seda, e de fio d'ouro.
+
+No IX seculo começaram os amictos a ter um ornamento, que se conservou
+em uso durante toda a edade média, e que recebeu o nome de--_parura
+plaga_--e tambem, ás vezes o de--_praetextae_. Este adorno consistia, no
+seu principio, em uma tira rectangular d'ouro, de renda ou tecido de côr
+brilhante, que se pregava no bordo superior do amicto, e que formava em
+torno do pescoço uma especie de rico collar, visivel mesmo depois do
+sacerdote e os ministros sagrados terem revestido a casula ou a
+dalmatica. Algumas vezes tambem tinham como adorno perolas e pedras
+preciosas.
+
+A _dalmatica_ é o paramento sacerdotal para vestir por cima, pertencente
+ao diacono e sub-diacono. Consistia, durante o periodo roman,
+regularmente n'uma especie de toga fechada muito comprida, com mangas e
+uma abertura para passar a cabeça. Duas faixas verticaes d'ouro ou de
+côr brilhante se applicavam, ás vezes, sobre a toga, prolongando-se até
+ao bordo inferior.
+
+Do seculo XI em diante appareceram dalmaticas abertas nos dois lados até
+uma certa altura. Eram muitas vezes guarnecidas de faixas douradas em
+volta do pescoço, e nos canhões das mangas.
+
+O _pallium_ constituia entre os antigos o principal paramento de vestir
+por cima.
+
+Deu-se com o pallio o mesmo que se havia dado com a estola; a parte
+principal, e primitivamente essencial, isto é, o manto foi supprimido, e
+apenas se conservou o ornato accessorio, as faixas que se lhe
+applicaram. Estas uniam sobre o peito e sobre as costas, em fórma de Y,
+da mesma maneira que as _listae_ em certas casulas.
+
+Durante o periodo Latino já se decoravam as faixas do _pallium_ com
+pequenas cruzes gregas. Estas cruzes, pouco numerosas a principio,
+foram-se multiplicando insensivelmente, e desde o XI que já se contavam
+muitas sobre toda a extensão das faixas.
+
+
+*Abbadias, Mosteiros e claustros dos Capitulos*
+
+
+Desde o VIII seculo que se começaram a levantar estabelecimentos
+religiosos, compostos de numerosas construcções edificadas e dispostas
+com arte. Havia já egrejas, edificios para alojamento e exercicios dos
+frades, enfermarias, escolas, bibliothecas, hospedarias para os
+estrangeiros, celleiros, jardins, edificações destinadas aos
+aprovisionamentos, emfim, habitações e officinas para as corporações
+d'artistas que as abbadias tinham sempre ao seu serviço.
+
+Todos estes antigos mosteiros foram destruidos ou inteiramente
+modificados com o correr dos seculos.
+
+Examinaremos as suas disposições interiores, quando tratarmos do plano
+das abbadias do periodo ogival.
+
+A principio os conegos das cathedraes e collegiaes viviam em communidade
+como os religiosos.
+
+Os claustros dos simples collegiaes eram ordinariamente, como os das
+abbadias, contiguos ás paredes meridionaes da egreja, porque a exposição
+ao sol do meio dia é a mais agradavel e a mais vantajosa para a saude.
+Por estas razões o lado sul nas cathedraes era occupado pelos palacios
+episcopaes, e os conegos viam-se obrigados a escolher o lado norte das
+egrejas, para edificarem os seus claustros.
+
+Todavia, esta regra não era geral: existem muitos exemplos de claustros
+tanto d'abbadias como de capitulos occupando outros logares. Estas
+excepções á regra geral são devidas a differentes causas, taes como a
+presença de ruas ou de construcções que era impossivel supprimir, e, nos
+paizes montanhosos, os accidentes do terreno que torneava a egreja.
+
+Os claustros das egrejas monasticas, cathedraes e collegiaes,
+compunham-se ordinariamente de um pateo quadrado ou rectangular, rodeado
+de galerias cobertas, que serviam de passeio aos religiosos e aos
+conegos.
+
+Estas galerias, abertas para o lado do pateo, eram comtudo d'elle
+separadas por meio de um apoio quasi continuo, sobre o qual vinham
+assentar as columnas com archivoltas, tornando a arcada toda contínua.
+Os mais antigos claustros apenas tinham uma especie de ornamentação com
+as galerias cobertas d'um simples alpendre de madeira, cujo madeiramento
+só era visivel no interior. Desde o fim do X seculo foram estes
+alpendres substituidos por abobadas de berço com aresta, por baixo das
+quaes muitas vezes tambem se construia um pavimento.
+
+Na maior parte dos claustros romans do XII seculo, as curvas
+descendentes das archivoltas são sustentadas por columnas duplas,
+cobertas por uma perna de telhado. Algumas vezes columnas isoladas
+alternam com columnas duplas.
+
+Os claustros das cathedraes e das collegiaes eram, como os das abbadias,
+rodeados de edificações indispensaveis para a vida commum dos conegos.
+
+Debaixo d'essas galerias se abriam as portas do refeitorio, do
+dormitorio, da escola, e da sala capitular e outros locaes affectos ao
+serviço da communidade. Mais tarde, quando a vida commum foi abandonada
+pelos capitulos, as habitações privadas dos conegos occuparam, em torno
+das galerias, o logar d'estes differentes edificios.
+
+A iconographia, isto é, a _sciencia das imagens_, occupa-se das
+representações figuradas devidas á esculptura e, em geral, a todas as
+outras artes de modelar.
+
+_A gloria, o nimbo e a auréola_. A gloria é um ornamento symbolisando
+uma nuvem luminosa, que os artistas da idade média põem em torno da
+cabeça ou do corpo d'um personagem, como attributo da santidade ou do
+poder. Quando ella não rodeia senão a cabeça, dá-se-lhe o nome de
+_nimbo_; quando rodeia o corpo inteiro, chama-se _auréola_.
+
+O nimbo derivado da palavra latina (_nimbus_) é um adorno circular, e
+tambem ás vezes quadrado, oblongo ou triangular com que se costumam
+adornar as cabeças das figuras que representam as pessoas divinas, os
+santos e os homens revestidos d'auctoridade suprema, quer civil, quer
+ecclesiastica. É costume collocal-o verticalmente na parte posterior da
+cabeça. Assim como a corôa é o signal da realeza, assim o nimbo é o da
+santidade ou da auctoridade.
+
+O nimbo circular ou em fórma de disco é o symbolo de Deus, dos anjos e
+dos Santos; comtudo, quando circumda a cabeça d'alguma das pessoas
+divinas, o disco é regularmente ornado com uma cruz grega, de que apenas
+se vêem tres ramos, pelo que se chama nimbo crucifero. A cruz do nimbo
+crucifero deve ser vertical, e não inclinada como a cruz de Santo André
+X. Muitos artistas, quando se servem do nimbo, commettem um erro, contra
+esta regra de iconographia. O nimbo crucifero é o symbolo caracteristico
+das pessoas divinas, mesmo quando apenas se representam por figuras
+symbolicas. Assim, por exemplo, a mão, symbolo do Pae Eterno, o
+cordeiro, symbolo do Filho Jesus Christo, e a pomba, symbolo do Espirito
+Santo, representam-se sempre com o nimbo crucifero.
+
+Os ramos do nimbo crucifero são geralmente bastante compridos e mais
+largos nas extremidades. O nimbo circular sem a cruz é o symbolo dos
+anjos e dos Santos do Novo Testamento. No Oriente tambem os Santos do
+Velho Testamento têem o nimbo, mas no Occidente não se segue essa
+pratica. As personificações das virtudes, das provincias e das cidades
+têem tambem o nimbo. Elle é egualmente concedido aos Papas, aos
+imperadores, aos reis, e aos padres quando são representados
+administrando o Sacramento do baptismo, por isso que elles se acham
+n'estes casos revestidos d'uma auctoridade suprema.
+
+Os personagens vivos depositarios da auctoridade suprema, eram tambem
+adornados com o nimbo quadrado ou rectangular. O nimbo é muitas vezes
+substituido pela corôa que se dá ás imagens esculpidas do Salvador
+crucificado ou da Virgem com seu Filho.
+
+_Origem do nimbo_. Os pagãos já faziam uso do nimbo, para ornamentar os
+seus deuses e imperadores.
+
+Assim se vê Trajano n'um baixo relevo do arco de Constantino e Antonio o
+Piedoso em uma moeda, confirmando o uso d'este emblema. Mas que época
+indicará a introducção do nimbo na iconographia christã? O nimbo parece
+só ter sido empregado pelos christãos depois da conversão de
+Constantino. Até este tempo não se conhece monumento algum authentico
+dos tres primeiros seculos, em que vejamos Christo ou os Santos
+adornados com o nimbo. Os mais antigos monumentos, de data determinada,
+em que este ornamento se acha empregado como signal iconographico, são
+os mosaicos de Roma e de Ravêna.
+
+Ora foi da comparação d'estes differentes monumentos entre si que se
+conheceu terem sido as imagens do Salvador as primeiras que tiveram
+nimbo, em segundo logar as dos anjos, depois as dos evangelistas e seus
+symbolos e emfim as dos Santos e dos soberanos. As imagens de Nosso
+Senhor começaram a ter nimbo desde o principio do IV seculo; até ao VI
+seculo se vê o nimbo umas vezes simples, outras crucifero. A Santissima
+Virgem e os anjos começaram a ter nimbo desde os primeiros annos do
+seculo V, os Evangelistas e os Apostolos no meado do mesmo seculo, os
+Santos e os personagens revestidos de auctoridade soberana no começo do
+seculo seguinte.
+
+Auréola (palavra derivada do latim _aura_, _vento suave_, _sôpro
+luminoso_) é uma especie de moldura que envolve todo o corpo como se
+fôsse o nimbo do corpo inteiro.
+
+Os artistas da edade média dão auréola ás tres Pessoas Divinas e á
+Santissima Virgem e tambem ás almas dos Santos e principalmente á do
+pobre Lazaro, figuradas por um pequeno corpo inteiramente nú. A alma é
+assim deificada no momento em que volta ao seio do Creador.
+
+Os Santos, por mais venerados que sejam, nunca têem auréola.
+
+Quando Deus Pae ou Deus Filho se representam sentados na auréola, os
+seus pés assentam em geral sobre um arco-iris, e sentados sobre um arco
+similhante.
+
+Estes arco-iris são muitas vezes substituidos, o primeiro por um
+escabello rendilhado, e o segundo por uma especie de poltrona. Sendo a
+auréola mais recente do que o nimbo, caíu comtudo em desuso
+primeiramente do que este ultimo.
+
+_Representações da Santissima Trindade_. Durante o periodo roman eram as
+pessoas da Santissima Trindade representadas de varios modos.
+
+1.^o--Para inculcar aos fieis o dogma da egualdade dos homens,
+representavam-se estes com fórmas inteiramente similhantes. Ás vezes
+tambem o Deus Filho se representa nos pés ou nas mãos, e o Espirito
+Santo é representado com a fórma d'uma pomba. As pessoas Divinas quando
+se representam com fórmas humanas, têem sempre nús os pés.
+
+2.^o--Tambem empregavam a representação do baptismo do Senhor nas aguas
+do Jordão, para figurar as pessoas da Santissima Trindade.
+
+3.^o--Nos ultimos annos do periodo roman representava-se a Santissima
+Trindade da maneira seguinte: Deus Pae, sentado n'um throno ou sobre um
+arco-iris, tendo nas mãos uma cruz na qual está crucificado o Salvador;
+o Espirito Santo, representado por uma pomba, apparece entre a bôca do
+Pae e a do Filho, para mostrar que o procede tanto d'um como do outro.
+Este typo foi conservado durante toda a idade e mesmo até aos XVI e XVII
+seculos.
+
+Comtudo, a partir do XV seculo, deixou de se symbolisar o dogma da
+procissão do Espirito Santo, e collocava-se a pomba ou no braço da cruz
+ou no hombro do Pae.
+
+_Representações das tres Pessoas Divinas_. _Deus Pae_. Até ao seculo XI,
+nunca se attribuiram a Deus Pae fórmas humanas. A sua presença era
+apenas indicada por uma mão saindo das nuvens. Esta mão symbolica,
+primeiramente sem nimbo, e mais tarde com o nimbo simples ou crucifero,
+encontra-se nos sarcophagos e nos antigos cofres. Foi pois no XI seculo
+que Deus Pae começou a ser representado sob fórmas humanas.
+
+_Deus Filho_. Quando tratámos da iconographia das catacumbas, dissémos
+que, durante os tres primeiros seculos, só se representava o Salvador,
+debaixo das fórmas symbolicas ou das scenas historicas. Já no IV seculo
+se encontram imagens isoladas do Salvador. Até ao X seculo, Christo
+representa-se muitas vezes com as feições d'um mancebo de quinze a vinte
+annos, sem barba, de figura agradavel e resplandecente d'uma mocidade
+Divina; só excepcionalmente Christo tem barba e parece não ter mais de
+vinte e cinco annos. No XI e XII seculos os artistas dão-lhe uma
+expressão mais severa; ordinariamente apresenta barba parecendo ter
+trinta a trinta e cinco annos.
+
+_Deus Espirito Santo_. Até meiado do X seculo foi sempre representado
+com a fórma d'uma pomba; mas no XI e XII seculos começou tambem a ser
+figurado com a fórma humana.
+
+
+*A cruz e a crucificação*
+
+
+_Considerações geraes_. A historia da representação da crucificação póde
+resumir-se dizendo que este assumpto não se encontra sobre os monumentos
+christãos e outros objectos do culto anteriores á conversão de
+Constantino; a cruz apresenta uma fórma dissimulada.
+
+No IV seculo, a cruz fez a sua apparição na iconographia christã. Desde
+a conversão de Constantino foi então que appareceu sobre um grande
+numero de monumentos; mas até ao VI seculo ainda não tinha a imagem de
+Christo: era no emtanto adornada com pedrarias e ás vezes circumdada por
+uma auréola.
+
+No VI seculo começam então alguns artistas christãos, ainda que
+timidamente, a representar o Salvador sobre a cruz. Primeiramente
+servem-se do Cordeiro symbolico, que elles representavam de differentes
+maneiras com o signal da redempção. Tambem se vêem cruzes tendo ao
+centro, e ás vezes nas extremidades dos braços, uns medalhões com o
+Divino Cordeiro ou com a imagem do Salvador Triumphante.
+
+Desde o VI até ao XI seculo representa-se o Salvador sobre a cruz com o
+fim manifesto de recordar o Seu Triumpho sem nunca indicar a minima idéa
+de soffrimento ou d'opprobrio.
+
+Do XI ao XII seculo representa-se Christo crucificado mas Glorioso e
+Triumphante, apesar de ser manifesta a idéa de soffrimento.
+
+Do XIII ao XV seculo, os artistas christãos, tendo mais ou menos em
+vista o symbolismo das épocas precedentes, esforçam-se por patentear
+realmente os soffrimentos do Divino Crucificado.
+
+Durante o periodo do renascimento, o culto da fórma e da realidade
+constitue por assim dizer a unica preoccupação do artista, que, dominado
+pela idéa de expressar uma dôr vulgar ou de representar um corpo morto
+ou moribundo, perde todo o sentimento de nobre symbolismo.
+
+A historia das representações da cruz e do crucifixo comprehende, pois,
+duas épocas distinctas: a primeira, que durou desde o IV ao XII seculo
+inclusive, tem por caracter distinctivo a representação glorificada do
+instrumento da Paixão e da Victima, sem signal de que se tivesse
+prestado voluntariamente; a segunda, que começa no XIII seculo e termina
+no XIX, é caracterisada pela expressão dos soffrimentos do Divino
+Salvador.
+
+A época do soffrimento corresponde ao periodo ogival e ao do
+renascimento.
+
+No IV seculo a cruz é frequentemente encimada por um monogramma
+inscripto em uma corôa. Quando não tem o referido monogramma, (o que se
+dá principalmente desde o V seculo) ou tem os braços eguaes e mais
+largos nos extremos, ou é ornada de perolas em renques, ou ornada de
+flôres e folhagens, ou rodeiada de auréola. Ha todo o cuidado de
+apresentar na cruz qualquer idéa d'opprobrio ou d'ignominia; a cruz não
+é o instrumento de supplicio, mas sim, a cruz glorificada, o instrumento
+da Redempção do genero humano.
+
+Estas diversas fórmas de cruz continuaram a usar-se até muito antes do
+periodo Roman.
+
+Datam do ultimo quartel do VI seculo as primeiras imagens conhecidas do
+Salvador crucificado. Porém, entre a cruz simples e o Cruxifixo
+encontra-se uma série de monumentos intermediarios, offerecendo a cruz
+associada ao Cordeiro symbolico.
+
+Estas cruzes intermediarias, partindo da cruz sem figuras animadas, ao
+crucifixo propriamente dito, ainda se encontram em alguns monumentos do
+VII seculo.
+
+Os mais antigos monumentos conhecidos que representam Christo pregado á
+cruz, pertencem ao ultimo quartel do seculo VI. Taes são a miniatura do
+celebre manuscripto syriaco de Florença, do anno 586, e muitos objectos
+enviados por S. Gregorio o Grande, a Theodolinda, rainha dos Longobardos
+e conservados hoje no thesouro de Monza. Alguns d'estes ultimos
+mostram-nos claramente Christo na cruz, ao passo que outros, taes como
+os frascos de chumbo, que continham liquidos recolhidos dos tumulos dos
+martyres, não fazem mais do que relacionar a imagem de Christo com a
+cruz, d'uma maneira muito mais sensivel do que a cruz do imperador
+Justino e outros objectos similhantes. Tres d'estes curiosos frascos
+têem ao meio da face principal, uma simples cruz folheada, acima da qual
+se acha o busto do Salvador entre as personificações do Sol e da Lua;
+aos lados da cruz vêem-se dois adoradores, os dois ladrões, a Santissima
+Virgem e S. João; inferiormente está figurado o Anjo e as Santas
+mulheres ao pé do tumulo de Christo.
+
+No reverso acha-se a Ascensão do Senhor, nos dois lados do gargalo uma
+cruz grega de braços eguaes debaixo d'um arco de triumpho e inscripto
+n'uma corôa folheada. Sobre o quarto frasco figuram scenas symbolicas
+analogas: está Nosso Senhor em pé entre os dois ladrões, tendo os braços
+estendidos em cruz. O instrumento do supplicio, que não se vê na face
+principal, é comtudo representado no reverso do frasco, debaixo d'um
+arco de triumpho, e cercado pelas cabeças dos Apostolos inscriptas em
+medalhões circulares e formando uma especie de corôa. Conclue-se, pois,
+que o artista christão foi obrigado primeiramente a não representar a
+menor idéa de opprobrio e de soffrimento; para isto elle transformou a
+cruz tornando-a de braços eguaes, ornando-a de folhagens e
+metamorphoseando-a em arvore da vida: quiz affirmar o triumpho alcançado
+com a morte, por Aquelle que morreu sobre a cruz, recordando a
+Resurreição e Ascensão do Salvador.
+
+Os crucifixos primitivos não têem quasi nunca Christo esculpido em alto
+relevo.
+
+Christo está vestido com um _colobium_ ou tunica, ordinariamente sem
+mangas, que chega até aos pés. O uso d'esta longa veste serviu
+exclusivamente durante o VII seculo e generalisou-se no IX seculo.
+N'esta época foi substituida por uma tunica larga cobrindo os rins do
+Salvador.
+
+Christo tem sempre a cabeça elevada ou ligeiramente inclinada para a
+direita e os braços estendidos e perfeitamente horisontaes. Os pés estão
+pregados separadamente á cruz por dois cravos e muitas vezes apoiados
+sobre um escabello, ou suppedaneum. Algumas vezes parece serem
+supprimidos os cravos com a intenção manifesta de significar que o
+Christo se offereceu voluntaria e espontaneamente sobre a cruz para a
+redempção dos homens.
+
+Desde o VI seculo até ao VIII, a scena da crucifixão é muitas vezes
+acompanhada de personagens e outros accessorios fundados na verdade
+historica, mas que se representam, bem como a imagem de Christo, de uma
+maneira symbolica. Assim vemos a Santissima Virgem e S. João, o phariseu
+que empunha a lança e o que segura a esponja, o Sol e a Lua, a
+resurreição do Salvador, o bom e o mau ladrão. Todos estes accessorios,
+com excepção do bom e do mau ladrão, se encontram ainda representados
+nos crucifixos do seculo VIII.
+
+O sacrificio da crucifixão e os crucifixos do seculo IX até ao XII,
+apresentam Christo na mesma attitude que nos seculos precedentes. Os pés
+conservam-se ainda com dois cravos, mas afastados um do outro e assentes
+geralmente em um--_suppedaneum_.
+
+Foi no XII seculo que appareceram os primeiros crucifixos apresentando
+Christo com os pés _sobre-postos_.
+
+Christo poucas vezes se encontra vestido com o _colobium_; apenas em
+geral tem á volta dos rins uma toalha de linho larga e comprida, que lhe
+cobre o corpo desde os quadris até aos joelhos. Nos seculos XI e XII,
+esta toalha tem muitas vezes a configuração d'uma pequena saia que se
+chama--_perizonium_.
+
+A Cruz tem geralmente quatro ramos.
+
+Algumas vezes teem um rotulo, mas sem inscripção alguma; outras, nem
+mesmo teem rotulo, que em geral consiste n'uma pequena travessa de
+madeira rectangular. As inscripções costumam ser variadissimas.
+
+Antes do seculo IX, os personagens e outros accessorios que acompanham a
+Cruz, são historicos, isto é, a sua presença é justificada pela narração
+dos proprios Evangelistas. No IX seculo começaram então a apparecer os
+crucifixos com figuras allegoricas, taes como a Egreja, a Synagoga e as
+personificações da Terra e do Oceano. Vamos, pois, tratar
+successivamente dos principaes typos do cyclo d'estas representações,
+começando pelos accessorios historicos, visto que elles se empregam
+desde o VI seculo.
+
+
+*Personagens e accessorios historicos*
+
+
+_A Santissima Virgem e S. João_.--Santa Maria está á direita e por
+debaixo da Cruz, e o Apostolo em posição analoga, mas á esquerda do
+Salvador. Só muito raramente se encontram ambos do lado direito, como
+succede na miniatura de Florença.
+
+Ordinariamente estão como que erguendo os braços ao Salvador ou occultam
+o rosto em signal de dôr com a mão núa ou escondida na ponta do manto. A
+Santissima Virgem tem a cabeça envolvida em um veu e os pés calçados, em
+quanto que S. João, de cabeça descoberta e com os pés descalços, tem nas
+mãos um livro.
+
+_O phariseu que empunha a lança e segura a esponja_.--Ha uma piedosa
+tradição, desde a idade media, em que se diz que o guarda que feriu o
+Salvador com uma lançada, era um pagão chamado _Longino_, que mais tarde
+se fizera christão, sendo depois venerado como Santo pela Egreja.
+
+Quasi todos os escriptores ecclesiasticos consideram Longino
+representado ao lado da Cruz com o typo dos gentios, em quanto que o
+phariseu que apresentou a Jesu-Christo a esponja embebida em vinagre
+parece ser um judeu.
+
+_O Sol e a Lua_.--No seculo VI, tambem estes astros começaram a ser
+representados no sacrificio da crucifixão, vendo-se o Sol á direita e a
+Lua á esquerda do Senhor.
+
+A presença do Sol e da Lua n'estes primitivos monumentos, parece ter por
+fim recordar o obscurecimento do Sol e as trevas que subitamente se
+deram em seguida á morte do Salvador.
+
+No seculo IX, a significação, ainda limitada e puramente historica
+d'este assumpto, foi amplificada com outra mais allegorica, desde esta
+epocha. O Sol e a Lua não alludem sómente á obscuridade que envolveu a
+terra por occasião da morte de Christo, simulam tambem o firmamento
+assistindo e tomando parte na morte e no triumpho do seu Creador.
+
+N'este mesmo seculo os dois astros são quasi sempre personificados e
+representados por um homem e uma mulher. A personificação do Sol tem
+regularmente a cabeça cingida de raios luminosos, a da Lua é em geral
+encimada por um crescente. Uma e outra teem ás vezes um facho.
+
+_As santas mulheres chegando ao tumulo do Salvador_.--Desde o VI até ao
+XII seculo, apparece muitas vezes, por debaixo do crucifixo, a
+approximação, ao tumulo, das tres santas mulheres, Maria Magdalena,
+Maria, mãe de S. Thiago, e Salomé. Ellas seguram jarros, thuribulos ou
+outros vasos, e estão diante do Anjo, sentadas, não dentro do sepulchro,
+como diz o Evangelho, mas diante d'elle. Muitas vezes figuram-se tambem
+soldados desfallecidos ou adormecidos.
+
+A reproducção d'esta scena na parte inferior da Cruz era para pôr em
+parallelo a humilhação e a glorificação do Salvador, a sua morte sobre a
+Cruz e a sua resurreição gloriosa.
+
+_A resurreição dos mortos e a sua sahida do tumulo_.--Durante o seculo
+IX figurava-se muitas vezes ao pé da Cruz a Resurreição dos mortos que
+se deu por occasião da morte de Jesus Christo, segundo narra o
+Evangelho.
+
+Os tumulos d'onde sahiram os resuscitados têem a forma de pequenos
+edificios, geralmente armados com uma capella, mais raramente d'um
+frontão triangular ou d'um telhado de duas aguas. Nada havia que mais se
+prestasse a proclamar a victoria alçada contra a morte de Nosso Senhor
+expirando sobre a Cruz, como a Resurreição dos mortos.
+
+
+*Personagens e accessorios allegoricos*
+
+
+_A Egreja e a Synagoga_. Desde o seculo IX até ao XII encontram-se,
+sobre a maior parte das representações do Sacrificio da Cruz,
+personificações da Egreja e da Synagoga. Tinham ellas por fim recordar
+aos Christãos a reproducção do povo d'Israel e a vocação dos infieis á
+Fé da Egreja Christã. A Egreja, quasi sempre á direita da Cruz, é
+representada por uma mulher com uma bandeira e aparando n'um calix o
+sangue que corre da chaga de Nosso Senhor feita no lado direito. A
+Synagoga é representada por uma mulher com uma bandeira e tambem ás
+vezes uma palma. Está collocada á esquerda do Salvador com as costas
+voltadas para o Senhor, e algumas vezes parece afastar-se lançando
+olhares d'insulto e de cólera.
+
+_O Oceano e a Terra_.--Os artistas romans collocavam frequentemente
+sobre o marfim e sobre as miniaturas dos manuscriptos, no pé da Cruz ou
+inferiormente a toda a composição, as personificações do Oceano e da
+Terra tiradas da mythologia.
+
+O Oceano, geralmente collocado á direita do Salvador, é representado por
+um homem barbado, sentado sobre um monstro marinho, ou despejando uma
+urna; tem na mão um remo, um peixe, uma cornucopia, ou o tridente de
+Neptuno, e na cabeça chavelhos em fórma de serpentes, e tambem, ás
+vezes, trazendo azas. Defronte do Oceano acha-se a Terra com a fórma
+d'uma mulher, semi-nua, segurando, e até amamentando creanças ou
+serpentes, muito proximo d'ella; ás vezes mesmo, n'uma das mãos, vê-se
+uma cornucopia.
+
+As personificações do Oceano e da Terra collocavam-se perto da Cruz,
+primitivamente, como acima dissemos, para exprimir a dôr que a Natureza
+soffreu com a morte do seu Creador; e mais tarde, para mostrar que todo
+o Universo partilhou da Redempção operada pela morte do Salvador.
+
+_A mão Divina e a pomba_. Muitas vezes vê-se na extremidade superior da
+Cruz uma mão, com ou sem nimbo crucifero, parecendo sair das nuvens e
+segurando uma corôa. Esta mão é o symbolo de Deus Pae, do mesmo modo que
+a pomba, que se vê sobre algumas Cruzes, symbolisa o Espirito Santo.
+
+_Os Anjos_. Superiormente á travessa horisontal da Cruz e proximo do Sol
+e da Lua vêem-se ás vezes dois, tres ou quatro anjos, em attitude de
+adoração. Algumas vezes suspendem sobre a cabeça do Salvador uma corôa.
+Nos monumentos mais remotos (os do IX seculo), onde mais frequentemente
+se vêem os anjos, são estes em numero de dois e designados pelos nomes
+de Miguel e Gabriel: representam a Natureza angelica assistindo á morte
+do Salvador.
+
+_Os Evangelistas_.--Anteriormente ao IX seculo, nunca se representavam
+os Evangelistas do lado principal aos crucifixos, mas sim nas quatro
+extremidades do reverso, tendo no centro a imagem da Santissima Virgem.
+A razão d'isto é porque n'esta epocha não se admittiam no sacrificio da
+Cruz senão accessorios puramente historicos.
+
+No VIII seculo, quando na iconographia da Cruz se introduziram as
+allegorias e os symbolos, tambem appareceram os Evangelistas.
+
+Encontram-se ora por cima dos braços horisontaes da Cruz, com os anjos e
+os astros, ora nos quatro angulos da cercadura, que forma a moldura da
+scena principal. Tambem ás vezes se encontram, tanto no IX como no XII
+seculo, no lado principal dos crucifixos, nas extremidades dos ramos.
+
+_O Calix_. Encontram-se crucifixos em que o _suppedaneum_ é substituido
+por um calix.
+
+É muito provavel que este calix não seja mais que o _Santo Graal_,[3]
+tão celebre na idade mèdia. O _Santo Graal_ diz-se que servira á Ceia;
+foi n'elle que Jesus-Christo transformou o vinho pelo seu proprio
+sangue.
+
+_Adão sahindo do tumulo_. Esta scena representa-se muitas vezes proximo
+da Cruz, para significar que a resurreição da carne é uma consequencia
+da morte de Christo.
+
+O sacrificio da Cruz, desde o IX até ao XII seculo, com os seus
+accessorios allegoricos e historicos, deve interpretar-se: a Natureza
+Angelica, Celeste e Terrestre assistindo ao sublime sacrificio do
+Homem-Deus sobre a Cruz, onde affronta os salutares affectos; a Synagoga
+reprovada, a Egreja formada, a cabeça da serpente infernal esmagada, o
+genero humano rehabilitado e recebendo o testemunho da Resurreição da
+Carne.
+
+_Os crucifixos dos seculos XI e XII_. Existem muitos d'estes crucifixos;
+apresentam os seguintes caracteres:
+
+A imagem de Christo é, em geral, de cobre vermelho; tem, quasi sempre,
+os olhos de vidro azul.
+
+_O perisonium_, ou a toalha que cobre o corpo de Christo desde os
+quadris até aos joelhos, toma ordinariamente a forma d'um saiote cujas
+orlas são ornadas de perolas. Os Christos dos seculos XI e XII, vestidos
+de tunica comprida com mangas ou com o _perisonium_ em forma de saiote,
+que lhe chega até aos pés, são extremamente raros.
+
+_Nos crucifixos do XI seculo_, Christo está muitas vezes coroado com uma
+especie de gorra ou corôa real. No XII seculo, já a gorra e a corôa se
+tornam raras desapparecendo completamente no fim d'elle.
+
+_Os braços das cruzes_ que teem imagens de Christo, são geralmente
+ornados com esmaltes e symbolos, tanto no reverso como na frente
+principal.
+
+_Cruzes da Paixão e Cruzes da Resurreição_. A Cruz da Paixão é formada
+por uma haste e uma ou duas travessas e representa ou imita as
+proporções das differentes partes da Cruz, instrumento de supplicio.
+
+_A Cruz da Resurreição_ é apenas um symbolo da Cruz Real ou da Paixão; é
+uma pequena cruz na extremidade d'uma haste como a que segura o Divino
+Cordeiro.
+
+_A Santissima Virgem_. Durante os doze primeiros seculos da nossa era
+representa-se a Virgem umas vezes sósinha e outras acompanhada do Divino
+Filho.
+
+_A Virgem sem o Menino Jesus_ tem ordinariamente os braços estendidos e
+erguidos parecendo orar e perto da cabeça está inscripta a sigla MPOY,
+isto é: Mãe de Deus. Este modo de representação, muito usado desde o IV
+até ao VII seculo, deixou comtudo de ser empregado nos seculos
+seguintes.
+
+_A Virgem com o Menino Jesus_. Ha duas maneiras de representar a Virgem
+com o Menino. Quando a scena é imaginada para prestar homenagem a Nossa
+Senhora, diz-se que ella é _poetica_.
+
+Quando os reis magos, por exemplo, vêem trazer os seus presentes a Jesus
+no collo da Santissima Mãe, a scena é puramente historica.
+
+Durante o periodo Latino e a primeira parte do periodo Roman, o grupo
+historico é o mais frequente. Vemol-o em differentes scenas da vida do
+Senhor, principalmente na adoração dos reis Magos.
+
+O grupo poetico póde reduzir-se a dois typos distinctos. O primeiro que
+chamaremos _grego_ ou _bysantino_, consiste em representar a imagem da
+Virgem com os braços erguidos como que orando, tendo diante de si o
+Menino Jesus, lançando a benção, ao modo Grego, com as duas mãos, ou só
+com a direita. Este typo já se encontra nas catacumbas.
+
+Os Bysantinos empregaram-se durante toda a idade media, e os Gregos
+ainda hoje se empregam.
+
+_O Guia da pintura_ (manual iconographico, adoptado pelos antigos
+pintores e ainda hoje seguido pelos Gregos), recommenda que se
+represente Nossa Senhora com as mãos erguidas e Christo lançando a
+benção para ambos os lados, com o evangelho sobre o peito.
+
+No outro typo do grupo _poetico_, a Santissima Virgem é representada
+umas vezes de pé com o Menino Jesus nos braços, outras sentada tendo-o
+sobre os joelhos.
+
+Dá-se a este typo o nome de Occidental, não porque elle fôsse
+desconhecido pelos Gregos, pois que o usavam conjuntamente com o typo
+_bysantino_, mas por que foi este o unico usado no Occidente durante
+toda a idade média. Foi introduzido ou pelo menos generalisado
+insensivelmente na iconographia christã depois da condemnação de
+Nestorio pelo Concilio de Épheso, celebrado em 431. Este heresiarcha
+negava que Nossa Senhora fôsse mãe de Deus.
+
+Para affirmar o dogma da maternidade divina de Nossa Senhora,
+representavam-n'a com o Menino Jesus nos braços, e muitas vezes
+acompanhada da inscripção [Grego: Ê AGIA OEOTOKO],isto é, _Santa
+Deipara_, ou a _Santa Mãe de Deus_.
+
+Em geral Nossa Senhora está sentada com o Menino Jesus sobre os joelhos,
+lançando a benção, pelo menos, com uma das mãos.
+
+Durante todo o periodo Roman estas representações de Nossa Senhora e do
+seu Divino Filho distinguem-se por uma magestade e nobreza de sentimento
+como quasi se não encontra nos seculos seguintes.
+
+A Santissima Virgem tem geralmente diante de si o Menino Jesus
+completamente vestido, não estando entretido com sua Divina Mãe, mas sim
+abençoando aquelles que lhe vêem prestar homenagem. Tem nas mãos uma
+esphera ou mais geralmente um livro, ou um rolo, _volumen_, symbolo da
+doutrina da nova Lei dada ao mundo.
+
+Na Grecia e no Oriente, os pintores e os esculptores cobrem
+ordinariamente a cabeça da Santissima Virgem com um veu; os artistas
+occidentaes tambem conservaram esta tradição durante algum tempo, mas, a
+começar do seculo IX, dão a Nossa Senhora uma corôa real e algumas vezes
+uma especie de gorra.
+
+_Os Anjos_. Os anjos têem figurado nos monumentos christãos desde o IV
+seculo. Os primeiros não tinham azas. Só do V seculo em diante é que
+começaram a tel-as bem como o nimbo. São representados com uma longa
+tunica, orlada por duas faixas em fórma de _clavi_, e têem algumas vezes
+na mão um longo sceptro ou _bastão_, terminado por um florão ou por uma
+cruz. Os archanjos Miguel, Gabriel e Raphael, tambem muitas vezes são
+representados.
+
+Os Anjos têem sempre os pés descalços. Symbolisava-se d'esta maneira a
+sua qualidade de mensageiros celestes.
+
+_Os Evangelistas e seus symbolos_. O uso de representar os Evangelistas
+sob a fórma humana ou por symbolos, data pelo menos do IV seculo.
+
+Sob a fórma humana encontrâmol-os primeiramente em alguns mosaicos
+antiquissimos e um pouco mais tarde tambem nas miniaturas dos
+evangeliarios. Estão regularmente sentados debaixo d'um portico, tendo
+na sua frente um pulpito chamado _scriptional_, sobre o qual está
+desenrolada uma folha de pergaminho, com o titulo ou as primeiras
+palavras do seu Evangelho. Apparecem sempre descalços e ás vezes
+acompanhados do animal que lhes serve de symbolo.
+
+Os symbolos mais usados dos evangelistas são os seguintes:
+
+_Os quatro rios do Paraizo_. O modo de symbolisar os evangelistas pelos
+quatro rios: Phisonte, Géhonte, Tigre e Euphrates, tem origem muito
+remota. Os mais antigos mosaicos e as proprias catacumbas nos offerecem
+já exemplos d'esta representação. O Salvador com a fórma humana ou com a
+do Divino Cordeiro, apparece sobre um outeiro d'onde brotam quatro rios,
+emblemas dos Evangelhos, os quaes, produzidos pela fonte da Vida Eterna,
+trouxeram ao Universo a fertil doutrina de Christo.
+
+_Os animaes symbolicos_. Os Evangelistas são muitas vezes symbolisados
+por quatro figuras com azas: um homem, uma aguia, um leão e um bezerro.
+Estes symbolos devem a sua origem ás visões do propheta Ezequiel e do
+Apostolo S. João. Eu vi (dizia este ultimo), em torno do throno do
+Cordeiro quatro animaes. O primeiro com o aspecto de um leão; o segundo,
+de um bezerro; o terceiro com rôsto humano e o ultimo semelhando-se a
+uma aguia em pleno vôo.
+
+Os santos Padres consideraram estas visões como os seguintes symbolos: o
+homem o de S. Matheus; a aguia o de S. João, o leão o de S. Marcos e o
+bezerro o de S. Lucas.
+
+Encontram-se os animaes symbolicos mais a miudo: 1.^o, sobre as capas
+dos evangeliarios; 2.^o, nas quatro extremidades das cruzes d'Altar;
+3.^o, nos quatro angulos da representação do Christo em sua Gloria, como
+elle existe sobre as frentes dos altares, e nos tympanos dos portaes
+d'egreja do XI e XII seculos.
+
+Os symbolos dos evangelistas reduzem-se a quatro sobre um unico objecto
+ou empregados conjunctamente n'uma pintura, ou esculptura; são
+regularmente acompanhados de Christo figurado com a fórma humana ou por
+um symbolo.
+
+É, finalmente, da doutrina de Christo que derivam, como d'uma fonte
+commum, os quatro Evangelhos.
+
+Quando se dá o caso dos animaes symbolicos ornarem os quatro angulos
+d'uma superficie quadrada, quadrangular ou redonda, taes como as capas
+dos livros, os tympanos dos portaes, as frentes d'altar ou a _flabella_,
+têem certos logares determinados pelo uso: o homem com azas (ao qual
+muitos auctores dão abusivamente o nome d'anjo) occupa o angulo superior
+direito (á esquerda do espectador); a aguia, o angulo superior esquerdo;
+o leão, o angulo inferior direito, e o bezerro, o angulo inferior da
+esquerda.
+
+Quando collocados nas extremidades dos quatro braços da Cruz, a aguia
+acha-se no vertice, o homem na extremidade inferior, o leão no braço
+direito e o bezerro no braço esquerdo da Cruz.
+
+_Os Apostolos_. S. Pedro e S. Paulo eram os unicos Apostolos que durante
+o periodo Roman se representavam com um typo uniforme.
+
+Desde os tempos mais remotos, que S. Pedro era representado trazendo uma
+Cruz, ou as chaves, e tem cabello na cabeça, emquanto que S. Paulo é
+calvo. Até ao XIII seculo não se encontra nos outros Apostolos nenhum
+attributo caracteristico. Representam-se todos do mesmo modo, com um
+rôlo ou livro na mão.
+
+Os Apostolos e mesmo Judas, têem os pés descalços.
+
+Os artistas da idade media symbolisavam com este signal iconographico a
+missão sublime, confiada aos Apostolos, de derramar por toda a terra a
+doutrina Evangelica.
+
+_Assumptos religiosos representados sobre os monumentos dos seculos XI e
+XII_. Estes assumptos tirados quasi todos da Biblia, não eram muito
+variados; tinham em geral um caracter uniforme e reconheciam-se bem ao
+primeiro golpe de vista. Eis pois os que mais frequentemente eram
+reproduzidos:
+
+1.^o, a tentação dos nossos primeiros paes; 2.^o, o sacrificio
+d'Abrahão; 3.^o, a Annunciação; 4.^o, a visitação da Santissima Virgem;
+5.^o, o Nascimento de Nosso Senhor, que já se representava sobre os
+sarcophagos e nas pinturas a fresco das catacumbas do seculo IV; 6.^o, a
+Adoração dos reis magos; 7.^o, a degolação dos innocentes; 8.^o, a
+fugida para o Egypto; 9.^o, a exposição do Menino Jesus no Templo;
+10.^o, o baptismo de Nosso Senhor; 11.^o, a sua entrada triumphal em
+Jerusalem; 12.^o, a transfiguração; 13.^o, a ultima ceia; 14.^o, a
+crucifixão; 15.^o, a descida da Cruz; 16.^o, a Resurreicão; 17.^o, as
+Santas mulheres no tumulo; 18.^o, a Ascensão de Nosso Senhor.
+
+_Representações symbolicas das virtudes e dos vicios_. Os artistas
+christãos da idade media estimavam muito symbolisar tanto as virtudes
+como os vicios. Durante o periodo Roman as virtudes representam-se sob a
+figura de mulheres tendo corôas, algumas vezes tambem azas, e na cabeça
+uma especie de gorra. O seu nome acha-se inscripto do seu lado, ou sobre
+qualquer objecto que conservam nas mãos; ás vezes teem mesmo um emblema.
+As quatro Virtudes Cardeaes;--prudencia, justiça, força e
+temperança--encontram-se frequentemente sobre os monumentos Romans de
+toda a especie.
+
+Os vicios são figurados, ou por monstros phantasticos, ou por homens e
+mulheres entregues aos excessos de suas paixões; encontram-se muitas
+vezes sobre o mesmo monumento em concorrencia com as virtudes que lhes
+são oppostas.
+
+_Animaes phantasticos_. Os monumentos do periodo Roman offerecem-nos a
+representação de numerosos animaes reaes e phantasticos.
+
+Indicaremos alguns d'estes ultimos.
+
+1.^o O _basilisco_ é um animal com a fórma d'um gallo, mas com a cauda
+semelhante á d'uma serpente. Reputa-se provir d'um ovo de gallinha
+chocado por um reptil. O basilisco symbolisava o demonio.
+
+2.^o A _aspide_ é uma especie de serpente que a lenda diz estar de
+guarda á arvore do balsamo. Se o homem quizer approximar-se d'esta
+arvore para lhe colher o fructo, torna-se necessario que elle primeiro
+adormeça a mesma serpente pelo encanto; mas esta, para se subtrahir ao
+encantamento, tapa uma das orelhas com a cauda e a outra com terra,
+espojando-se na lama. A _aspide_ representa os que voluntariamente
+deixam de attender aos mandamentos do Senhor.
+
+3.^o O _griffo_ é um quadrupede com azas e cabeça d'aguia. Symbolisa o
+demonio. Vê-se muitas vezes sobre os monumentos Romans dos seculos XI e
+XII.
+
+4.^o A _sereia_ é um monstro com o corpo metade mulher e metade peixe. A
+parte superior do corpo, que comprehende a cabeça, os braços e o corpo
+até á cintura, tem a fórma humana; e o resto inferior é a cauda d'um
+monstro marinho. Entre os Gregos e os Romanos as sereias terminavam em
+passaro e não em peixe; eram tres e habitavam uns rochedos escarpados
+entre a ilha de Capri e as costas d'Italia; os seus cantos tinham o
+poder de fazer esquecer aos navegadores o paiz d'onde vinham. Durante a
+idade media a sereia foi o symbolo da seducção causada pelos attractivos
+das pessoas.
+
+Tambem se encontram sobre muitos monumentos os doze signos do zodiaco,
+muitas vezes acompanhados com os trabalhos do anno que lhes
+correspondem. Eram frequentemente empregados para ornar as archivoltas
+dos portaes principaes das egrejas.
+
+_Doadores e doadoras_. Quando os doadores e as doadoras d'um monumento
+queriam conservar ás gerações futuras a lembrança do seu beneficio,
+faziam-se representar em pequenissimas proporções, humildemente
+prostrados aos pés de Jesus Christo, da Santissima Virgem ou d'outros
+Santos.
+
+Algumas vezes tambem os doadores se figuravam n'uma parte secundaria do
+monumento, apresentando a Deus ou tendo simplesmente nas mãos um modelo
+da egreja, do altar ou do objecto que haviam offerecido.
+
+
+
+
+CAPITULO V
+
+/#
+ *Summario.*--Noções preliminares--Diversas fórmas de ogiva--Origem
+ da ogiva e do estylo ogival--Periodo de transição do estylo Roman
+ ao estylo Ogival--Caracteres d'Architectura Ogival--Observações
+ geraes--Plano e disposição das egrejas--Systema de
+ construcção--Materiaes e apparelhos de construcção--Esculptura
+ monumental--Fachadas--Adros--Portaes--Pinturas--Janellas--Rosaes--Caixilhos
+ de janellas e vidros--Vidraças pintadas--Pilares, columnas e
+ columnasinhas--Bases de columnas--Capiteis--Caxorros e
+ misulas--Arcadas e
+ arcaduras--Triforium--Cornijas--Platibandas--Abobadas--Arcos
+ butantes--Contrafortes--Gargulhas--Nichos e
+ Docel--Madeiramentos--Telhados--Torres e
+ campanarios--Pavimentos--Labyrintho--Pinturas das paredes--Cruzes
+ de consagração--Altares--Tabernaculos--Cadeiras de côro--Separação
+ do Altar-mór--Pulpito e confissonarios--Capellas funereas, tumulos,
+ campas, Cruzes de Cemiterio--Pias Baptismaes--Pias de agua
+ benta--Engradamentos--Orgãos--Alfaias religiosas--Calices e
+ patenas--Custodias--Thuribulos--Relicarios--Corôas para
+ luzes--Cruzes de altar e de
+ procissão--Castiçaes--Estantes--Instrumentos de paz--Moldes para
+ Hostias--Baculos--Mitras--Vestimentas sacerdotaes--Abbadias e
+ Mosteiros--Egrejas--Claustros e Refeitorios--Sala de
+ Capitulo--Dormitorios--Casa para
+ hospedes--Celleiros--Prisão--Cartuxa--Hospitaes--Iconographia--O
+ Nimbo--O Crucificado--Os Apostolos e os Evangelistas--O Dia de
+ Juizo--Sibyllas.
+#/
+
+
+*Periodo Ogival*
+
+
+O estylo ogival, tambem chamado _gothico_, foi usado desde o meiado do
+XII seculo até ao principio do XIV. Chama-se ogival, porque differe de
+todos os outros estylos que o precederam, pelo emprego da _ogiva_. Os
+allemães chamam-lhe ás vezes--_estylo em arco bicudo_. As janellas, as
+arcadas, os vãos das portas, n'uma palavra, todas as aberturas são
+regularmente terminadas por arcos em fórma de ogiva. Devemos acrescentar
+que a denominação de _Gothico_, dada ao estylo da idade media, é uma
+especie de ironia da época da renascença, pois que o estylo ogival nada
+tem de commum com os _Gôdos_. Foi o italiano Vasari quem primeiro
+empregou este epitheto como synonimo de _barbaro_!
+
+_Diversas fórmas de ogiva_. Chama-se _ogiva_ toda a figura formada por
+dois ou mais arcos de circulo, cortando-se segundo um certo angulo.
+
+Expliquemos, segundo a ordem chronologica, as principaes fórmas da
+ogiva:
+
+_Ogiva obtusa_. Chamada tambem Roman, quando termina superiormente em
+bico, muitas vezes quasi se confunde com o arco de volta inteira. Os
+dois arcos que a formam, têem os centros muito proximos; algumas vezes
+mesmo tão perto um do outro que é necessario um attento exame para
+distinguir o bico pouco sensivel que o distingue do arco de volta
+inteira.
+
+A ogiva com esta fórma encontra-se muito frequentemente nos edificios do
+principio do periodo ogival, reapparecendo mais tarde, já no fim do
+mesmo periodo, nos monumentos dos ultimos annos dos seculos XV e XVI.
+
+_Ogiva aguda ou lanceta_. É formada por dois arcos cujos centros estão
+situados além da corda que une as suas duas extremidades inferiores da
+volta do berço.
+
+Tem o nome de _Lanceta_ pela sua semelhança com o instrumento de
+cirurgia d'este nome.
+
+_Ogiva equilatera_. É aquella cujos centros se acham nos dois extremos
+da corda, e na qual podemos por consequencia inscrever um triangulo
+equilatero. Tambem se dá a esta ogiva o nome de ogiva traçada de
+terceiro ponto.
+
+_A ogiva alteada_ é aquella cujos arcos se prolongam inferiormente,
+sendo formados por dois ramos verticaes e parallelos abaixo da linha dos
+centros. Encontra-se muitas vezes no fundo do côro das grandes egrejas.
+
+As tres fórmas de ogiva acima descriptas empregaram-se durante os
+seculos XII e XIII.
+
+_A ogiva de terceiro ponto_ é a que tem os centros dos arcos situados no
+terceiro ponto da linha dos centros ou corda, e está dividida em tres
+partes eguaes. Chama-se effectivamente ogiva de terceiro ponto, por isso
+que se colloca a ponta do compasso no terceiro dos pontos de divisão da
+corda.
+
+É para notar que muitos auctores, aliás muito recommendaveis, não
+mencionam a ogiva formada por arcos cujo centro se encontra a um terço
+da corda; a razão d'isto é porque consideram a ogiva equilateral como de
+terceiro ponto.
+
+Esta ogiva começou a apparecer no fim do XIII seculo e generalisou-se
+bastante nos seculos XIV e XV.
+
+_A ogiva inflexa_ descreve-se por meio de raios partindo de quatro
+pontos e produzindo duas curvas junto á corda e duas outras curvas em
+sentido inverso no vertice.
+
+O extradorso d'esta ogiva bem como o da fórma seguinte é convexo na
+parte inferior e concavo na superior.
+
+_A ogiva em fórma de chaveta_ apenas differe da precedente por ser mais
+achatada.
+
+Estas duas ultimas fórmas usaram-se durante os XV e XVI seculos.
+
+A ogiva inflexa serve muitas vezes de coroamento a um arco de terceiro
+ponto, durante a primeira metade do seculo XV, ou em chaveta, durante a
+segunda metade do seculo XV e principio do XVI.
+
+A ogiva formada meia convexa e meia concava é traçada como a ogiva em
+chaveta, com raios que partem de quatro centros differentes, mas
+inversamente; o extradorso do arco é concavo inferiormente e convexo no
+vertice. Encontra-se esta ogiva, ainda que raras vezes, em alguns
+monumentos dos seculos XV e XVI.
+
+_O arco Tudor_, assim chamado, porque tomou o nome dos reis, que estavam
+no throno de Inglaterra na epoca em que o seu uso se generalisou n'este
+paiz; é formado por quatro arcos cujos centros se acham todos dentro do
+espaço da ogiva. Ha uma fórma mais aguda, que é a que se vê em
+monumentos inglezes de uma grande parte do seculo XV; a outra forma mais
+abatida só foi empregada no fim do XV seculo, e no principio do XVI. Os
+inglezes chamam á primeira, arco de quatro centros, e á segunda arco
+abatido. Ha ainda muitas fórmas intermediarias entre estes dois
+extremos.
+
+_Origem da ogiva e do estylo ogival_. Os archeologos não concordam uns
+com outros sobre a origem da ogiva. A opinião que parece mais provavel,
+attendendo a que os monumentos do Oriente exerceram certa influencia
+sobre a introducção da ogiva na architectura da Europa no meiado do XII
+seculo, considera como um producto do genio Occidental a applicação
+logica e systematica da ogiva nas construcções executadas no Occidente
+desde essa epoca. A ogiva appareceu na Europa poucos annos depois da
+primeira cruzada.
+
+É possivel que esta forma architectonica fosse como outras muitas
+cousas, introduzida no Occidente pelos cavalleiros cruzados, quando
+regressaram das suas longiquas expedições. Empregada a ogiva no
+principio como pura phantasia e como um novo modo de ornamentação, quer
+para formar os vãos das portas e janellas, quer para decorar as arcadas,
+as paredes lisas e por baixo das cornijas, tornou-se mais tarde o ponto
+de partida para o bello estylo da architectura cujo nome se ligou ao
+XIII seculo e cujo desenvolvimento methodico pertence exclusivamente á
+Europa Occidental.
+
+Este estylo rapidamente attingiu um subido gráo de perfeição, devido ás
+numerosas egrejas parochiaes, collegiaes, monasticas e cathedraes, que
+foram fundadas, construidas ou reconstruidas e augmentadas nos seculos
+XIII e XIV.
+
+A palavra _ogiva_ nem sempre teve a mesma accepção, que nos nossos dias
+se lhe attribue. Outr'ora designava as nervuras salientes que se cruzam
+em uma abobada, seja qual for a curvatura em arco de circulo, em ogival,
+d'estas nervuras. Só depois do principio do seculo XIX é que este termo
+foi empregado para designar o arco terminando em ponta, conhecido agora
+pelo nome de ogiva.
+
+_Divisões do periodo ogival_. O periodo de treze seculos e tres
+quarteis, durante o qual reinou na Europa Occidental o estylo ogival,
+póde ser dividido em tres grandes epocas, tendo cada uma caracteres
+distinctos.
+
+As denominações francezas de estylo em _lancetas_, _radiante_, são
+tiradas da fórma das janellas, assim como o nome de _perpendicular_,
+dado em Inglaterra, no terciario do seculo XV.
+
+O estylo ogival não foi introduzido ao mesmo tempo em todos os paizes,
+nem mesmo em todas as partes do mesmo paiz. Nasceu e desenvolveu-se
+rapidamente, no meado do XII seculo, nos arredores de Paris.
+
+O primeiro monumento que appareceu do estylo ogival, foi a fachada
+occidental da abbadia de S. Diniz, perto de Paris, construida entre 1135
+e 1140. Foi introduzido em Inglaterra, Allemanha, Hespanha e mesmo
+n'algumas partes da Italia, por constructores formados em França.
+
+
+*Periodo de transição do estylo Roman para o Ogival*
+
+
+A substituição do estylo ogival pelo roman não se fez em um dia, foram
+precisos muitos annos para a operar. Foi esta epoca de transformação que
+recebeu o nome de _periodo de transição_ entre os dois estylos. A
+duração não foi a mesma em todos os paizes, elle começou mais cedo n'um
+paiz do que n'outro.
+
+Os monumentos do periodo de transição distinguem-se quasi todos pelo
+emprego simultaneo do arco de volta inteira e da ogiva. Esta combinação
+consegue-se por dois modos:
+
+1.^o Por simples _juxtaposição_, quando a ogiva isolada se acha n'um
+mesmo monumento ao lado d'um arco de volta inteira. Nos edificios de
+transição, vêem-se muitas vezes aberturas de forma circular nos
+pavimentos inferiores, que são os mais antigos, emquanto que, nos demais
+andares, se vêem aberturas ogivaes; porém mais raramente se vêem voltas
+inteiras nas divisões elevadas d'um monumento, tendo vãos ogivaes nas
+inferiores.
+
+2.^o Como decoração, quando duas ou muitas ogivas estão comprehendidas
+debaixo de uma só volta inteira. Este modo de reunir a ogiva ao arco
+circular encontra-se principalmente nas janellas e nas arcadas. Tambem
+se vêem ás vezes dois ou muitos vãos de volta inteira emmoldurados n'uma
+ogiva.
+
+3.^o Quando arcos de volta inteira produzem ogivas, entrecruzando-se
+reciprocamente.
+
+Uma outra particularidade que muitas vezes se observa nos edificios de
+transição, é a união da esculptura da ornamentação roman com a ogival.
+
+
+*Caracteres da architectura ogival*
+
+
+O estylo ogival seguiu principios até então desconhecidos e um methodo
+novo e constante nas suas deducções.
+
+A fórma dada a um objecto era conforme a construcção, resultante não
+d'um capricho ou d'uma phantasia, mas d'uma necessidade real.
+
+Segue-se que a ornamentação não se applica indifferentemente e sem razão
+sobre as differentes partes d'um monumento. D'ella nos servimos ou para
+chamar a attenção sobre uma principal parte da construcção, ou sobre um
+ponto importante d'um objecto, ou para dissimular um obstaculo.
+
+Um outro caracter distinctivo do estylo ogival é que os seus monumentos
+estão, como se diz em termos de architectura, _na escala do homem_, isto
+é: que em toda a construcção, grande ou pequena, ha certas partes em
+harmonia com a estatura humana e, por consequencia, tendo pouco mais ou
+menos sempre as mesmas dimensões.
+
+Os caracteres notaveis do estylo ogival, que nós acabamos de assignalar
+em poucas palavras, encontram-se principalmente nos edificios
+construidos na edade media, no Noroeste da Europa.
+
+Durante o periodo Roman os architectos e os operarios habilitavam-se nas
+grandes obras das abbadias.
+
+O clero secular, e até mesmo os particulares ficaram sob a direcção de
+Bispos protectores das artes, taes como Egberto de Tréves (977-993) e S.
+Bernardo de Hildesheim (993-1022) tomaram tambem uma grande parte na
+direcção dos movimentos artisticos.
+
+No XIII seculo as corporações seculares apoderaram-se da pratica da
+architectura, e desde este momento, todos os grandes monumentos, quer
+religiosos, quer profanos, foram construidos por mestres praticos.
+
+_Plano e disposição das egrejas_. Plano no rez-do-chão.--Grande parte
+das egrejas ogivaes apresentam, na planta, a fórma d'uma cruz latina,
+cujo vertice figurado pelo côro, é voltado para o Oriente. Em algumas,
+nota-se sensivelmente um desvio grande no eixo do côro com relação ao da
+nave principal. Este desvio, que em geral só tem logar no Norte e
+raramente no Sul, symbolisa provavelmente a inclinação da cabeça do
+Salvador sobre a Cruz no momento em que deu o ultimo suspiro.
+
+A orientação symbolica das egrejas, introduzida desde os primeiros
+seculos do Christianismo, foi observada escrupulosamente durante toda a
+edade media, e mesmo na epoca da renascença. Foi só nos primeiros annos
+do nosso seculo que a orientação começou a desapparecer.
+
+Um pequeno numero d'egrejas tem o plano quasi rectangular.
+
+No Sul e no Oeste da França muitas grandes egrejas do XIII seculo
+apresentam uma vasta nave unica sem naves lateraes, tendo contrafortes
+interiores para sustentar o esforço da abobada principal, que é d'aresta
+com nervuras.
+
+Encontram-se, principalmente na Allemanha, egrejas com duas naves. Quasi
+todas foram construidas por religiosos d'ordens mendicantes, taes como
+os Dominicanos e os Franciscanos. No seculo XIII tambem os Jacobinos ou
+Dominicanos construiram egrejas de duas naves em Paris e no Sul da
+França.
+
+As grandes egrejas do XIII seculo compõem-se de tres, de cinco e até
+mesmo de sete naves. Na Europa Central e Meridional, na França e na
+Belgica, o côro tem geralmente a fórma polygonal, emquanto que na
+Inglaterra elle é muitas vezes rectangular e terminado por uma parede
+liza. No continente, apenas excepcionalmente se encontra esta disposição
+no côro d'algumas grandes egrejas, a não ser nas extremidades do
+transepte.
+
+No final do periodo Roman, tinha-se começado em França a dispôr capellas
+absidaes no côro das grandes egrejas. Este uso manteve-se durante todo o
+periodo ogival, e as capellas tomaram grandes proporções. As primeiras
+que se chamam absidaes, irradiam em torno da capella-mór; as outras ao
+longo das paredes lateraes: exemplo a Sé de Lisboa.
+
+Notar-se-ha tambem que na cathedral d'Amiens, conforme o uso muito
+geralmente seguido em França e em outros paizes, a capella-mór é muito
+mais vasta do que as outras. Encontram-se egualmente, no côro das
+cathedraes inglezas do XIII seculo, capellas da Virgem, com a simples
+differença que são em geral muito maiores do que as do continente e
+construidas sobre plano rectangular.
+
+Na Belgica, os córos das grandes egrejas do XIII seculo estão ás vezes,
+como succede em França, rodeados de capellas collateraes, dando a volta
+completa ao côro, e limitadas por capellas construidas em parte sobre
+plano rectangular e em parte sobre o polygonal; mas em geral são
+pequenas e o seu numero mais restricto do que nas cathedraes francezas.
+
+Estas capellas constroem-se entre os contrafortes, que as dissimulam.
+
+O plano das egrejas do XIV e do XV seculos conserva pouco mais ou menos
+a mesma disposição que durante o precedente seculo. A unica mudança
+importante, que geralmente se nota, consiste na addição de pequenas
+capellas ao longo das paredes lateraes das naves.
+
+As capellas são estabelecidas sobre um plano rectangular entre os
+contrafortes, parecendo como que formar uma segunda nave collateral ao
+lado da primeira. Na mesma época, juntou-se muitas vezes, aos edificios
+do XIII seculo, ao longo das naves lateraes, capellas construidas fóra
+do primitivo plano.
+
+Estas addições tornavam-se precisas pelo grande numero de capellanias
+fundadas nos seculos XIV e no XV. Pelo mesmo motivo se acrescentaram
+altares entre as pilastras das egrejas.
+
+_Disposição acima do solo, e aspecto exterior das egrejas_. As egrejas
+_d'uma só nave_--apresentam sempre uma secção rectangular. Nos edificios
+abobadados os contrafortes têem muitas vezes uma grande importancia
+apresentando maior saliencia sobre a parede do edificio tanto no
+interior como no exterior. Quando os contrafortes estão construidos no
+interior, estabelecem-se regularmente, entre estes contrafortes,
+capellas fazendo corpo com a egreja: como na de S. Vicente em Lisboa.
+
+As egrejas que têem tres ou um numero impar de naves, podem dividir-se
+em duas classes conforme fôr a nave do meio mais elevada ou da mesma
+altura que as paredes lateraes.
+
+A primeira classe comprehende as egrejas cuja nave do meio é
+notavelmente mais elevada do que as paredes dos lados. As egrejas com
+esta fórma são as unicas conhecidas na Europa Occidental e Meridional,
+isto é, na Belgica, na França, na Inglaterra, na Hespanha, na Italia e
+em Portugal. A sua nave mais alta é coberta com telhado de duas aguas
+inteiramente independentes, emquanto que as paredes dos lados têem
+muitas vezes um terraço ou um telhado de fórma de alpendre e a sua
+inclinação approximando-se sensivelmente da linha horisontal; ás vezes
+tambem são cobertos com repetidos pequenos telhados de duas vertentes,
+ficando perpendiculares á nave e terminados por empenas.
+
+Abrem-se regularmente nas paredes lateraes da grande nave, janellas que
+deitam para cima dos telhados lateraes.
+
+A segunda classe compõe-se das egrejas cujas naves se elevam á mesma
+altura. Estas egrejas são proprias da Europa central; encontra-se um
+grande numero d'ellas, conjunctamente com alguns edificios da primeira
+classe, na Allemanha, Austria e Hungria.
+
+Os Allemães deram ás egrejas tendo nave de egual altura o nome de
+egrejas-mercado, sem duvida porque ellas parecem formar uma vasta salla,
+um _hall_ inglez, devido á elevação uniforme das suas naves. O seu
+aspecto exterior tambem differe sensivelmente do das egrejas belgas,
+francezas e inglezas; as tres naves são cobertas por um telhado unico de
+duas aguas, e, por conseguinte, a nave central não recebe luz
+directamente, como nas egrejas de primeira classe; a luz só lhe penetra
+pelas janellas lateraes; todavia estas, altissimas em consequencia da
+grande elevação das paredes, compensam bem a suppressão das janellas
+superiores introduzindo a luz na nave central.
+
+No fim do periodo ogival encontram-se, particularmente na Austria e
+Hungria, egrejas com esta fórma, cujas paredes lateraes são um pouco
+menos elevadas que a nave do meio.
+
+Tambem se construiram, na época do renascimento, egrejas com naves da
+mesma altura.
+
+_Egrejas da Flandres maritima_. Encontram-se em muitas cidades e aldeias
+da Flandres Occidental, egrejas cujas disposições differem notavelmente
+das que se construiram no resto da Europa. Apesar de se assimilharem ás
+precedentes, de tres naves da mesma altura, não se devem de modo algum
+confundir com as egrejas allemãs, com as quaes se parecem á primeira
+vista por terem as naves da mesma altura; não têem nada mais de commum
+entre si.
+
+Construidas em geral sobre um plano rectangular, compõem-se d'uma nave
+principal fechada por paredes d'egual extensão; não têem transepte ou,
+se o têem, não produz saliencia alguma no exterior das paredes.
+
+As abobadas de pedra ou de tijolo são substituidas, mesmo nos grandes
+edificios, por tectos curvos formados de madeira com divisões visiveis,
+pintados e até com obra de talha, e deixando vêr as peças do
+madeiramento.
+
+A cobertura das egrejas é formada por tres telhados de duas aguas da
+mesma altura pouco mais ou menos; resultando não ter a nave principal
+janellas altas e ser a fachada sempre terminada por tres empenas da
+mesma altura.
+
+_O plano das capellas_.--As capellas construidas durante o periodo
+ogival não têem ordinariamente transepte e são construidas sobre plano
+rectangular.
+
+O côro termina no lado Oriental por um abside polygonal ou uma parede
+lisa. As capellas das egrejas conventuaes compõem-se geralmente de tres
+naves, emquanto que as pequenas capellas não têem regularmente senão
+uma.
+
+As construcções ogivaes não apresentam em geral symetria, e o mesmo se
+nota no traçado do plano e nos caracteres architectonicos. Estas
+irregularidades provêem de duas causas principaes. Em primeiro logar os
+architectos d'esta época, sem desprezarem a symetria, não a consideraram
+propria das conveniencias, necessidades e harmonia geral.
+
+Algumas vezes tambem, vindo a faltar-lhes os recursos com que contavam
+no principio dos trabalhos, viam-se forçados a alterar o plano primitivo
+e supprimirem-lhe certas partes. Emfim, muitos monumentos foram
+construidos muito lentamente, o que deu logar a que as suas differentes
+partes fossem successivamente construidas, apresentando sempre por esse
+motivo cada uma d'ellas os caracteres architectonicos em voga na
+occasião da sua construcção.
+
+_Systema de construcção_.--Os grandes monumentos edificados pelos
+romanos no tempo da republica e sob os imperadores, formavam, pela
+estabilidade dos seus pontos d'apoio, condensação e cohesão perfeita dos
+seus materiaes, massas solidas capazes de resistir ao peso, e, em caso
+de necessidade, á pressão das abobadas, que eram formadas de peças
+homogeneas, concretas e sem elasticidade.
+
+Em substituição da abobada romana os architectos romans empregaram pouco
+a pouco a abobada de nervuras, cuja construcção assenta sobre o
+principio da elasticidade e do equilibrio das forças. O plano quadrado
+era o escolhido para as suas edificações; mas quando se tratava de
+neutralisar a pressão lateral exercida por esta abobada sobre os seus
+pontos d'apoio, ou quando era preciso construir uma abobada sobre um
+plano que não fosse quadrado, entregavam-se então a experiencias cujo
+resultado nem sempre correspondia á espectativa.
+
+Os architectos do periodo ogival realisam grandes progressos na
+construcção das abobadas. Primeiramente cobrem os edificios servindo-se
+das abobadas de nervuras, superficies cujos planos são parallelogrammos,
+trapesios, pentagonos e mesmo polygonos irregulares; depois, resolvem
+d'um modo completo o problema tão difficil da estabilidade das abobadas,
+pelo principio do equilibrio das forças. Empregam a abobada, não como
+uma crosta homogenea e inerte, mas como uma serie de paineis de
+superficies curvas ou de triangulos de enchimento independentes uns dos
+outros e limitados por nervuras apparelhadas e flexiveis. Ás pressões
+obliquas d'estas abobadas, oppõem resistencias activas, em vez de
+obstaculos passivos, e transportam a resultante de todas as pressões
+obliquas e contrarias para os contrafortes exteriores, que fazem rigidos
+e firmes, dando-lhes uma base muito ampla e carregando-os com um
+consideravel pezo.
+
+As nervuras das abobadas com os seus pontos d'apoio, isto é, as
+columnas, os contrafortes e algumas vezes os arco-butantes, compõem a
+ossada, o esqueleto de todo o grande edificio ogival. As outras partes
+da construcção, que formam o revestimento d'esta ossada, desempenham o
+logar de simples tabiques: as janellas occupam, entre os pontos d'apoio
+das abobadas, o maior espaço possivel, e as paredes pouco espessas são
+ornadas de arcadas que ainda as tornam mais delgadas. As janellas e as
+paredes podiam ser supprimidas sem que a construcção principal soffresse
+o menor prejuiso.
+
+_Materiaes e apparelhos de construcção_. Tanto durante o periodo roman,
+como durante o ogival, se procuravam os materiaes precisos o mais
+proximo possivel do logar em que se fazia a construcção. Com effeito o
+transporte, ainda n'este tempo, offerecia grandes difficuldades por
+causa da ausencia completa de estradas viaveis. Os materiaes empregados
+são em geral de pequenas dimensões, porque os instrumentos para os
+extraír, transportar e assentar eram insufficientes em comparação com as
+poderosas machinas de que dispomos em nossos dias.
+
+Quando não havia pedreiras para explorar, serviam-se de tijolos.
+
+_Esculptura monumental_. Durante o periodo roman, a esculptura d'ornato
+consistia em figuras geometricas, animaes monstruosos, e tambem ás vezes
+de imitação de vegetaes. Durante a segunda metade do seculo XII, teve
+logar uma revolução completa na esculptura ornamental; as palmas, as
+folhagens, os galões e as figuras geometricas, os cordões entrelaçados
+dão logar aos vegetaes indigenas; n'uma palavra, tudo o que não é
+inspirado pela flora do paiz desapparece.
+
+Os primeiros artistas que se entregam ao estudo das plantas indigenas
+para as reproduzir na esculptura d'ornato, não procuram imitar fielmente
+nas suas obras os vegetaes que têem á sua vista; mas antes os
+interpretam a seu modo, isto é, apoderam-se dos caracteres principaes
+com que se inspiram e compõem a largos traços a sua esculptura
+monumental.
+
+Os artistas entendem que a arte para ser bem apreciada não consiste na
+reproducção escrupulosa como se fôsse photographia da natureza real, mas
+sim na expressão do real idealisado e transformado pela imaginação do
+esculptor.
+
+Esses artistas introduziram no centro e no norte da França este novo
+estylo de esculptura monumental durante a segunda metade do seculo XII;
+e os seus imitadores nas outras partes da Europa, no principio do seculo
+seguinte, limitaram-se em principio a imitar nas suas obras as plantas
+mais humildes dos bosques e dos campos na occasião em que dão os seus
+primeiros rebentos, quando os botões apparecem apenas meio abertos ou
+n'uma palavra quando começam o seu primeiro desenvolvimento. Ha um
+exemplo bem conhecido d'esta ornamentação vegetal rudimentar nos mais
+antigos _crochetes_ de capiteis e nas rampas dos edificios que se usaram
+no final do seculo XII e principio do XIII.
+
+Estes _crochetes_ primitivos terminam enroscados de folhagem,
+semelhando-se bastante com os rebentos das plantas que brotam da terra.
+
+Entretanto os esculptores vão progredindo; depois de haverem applicado
+as suas inspirações ao estudo do primeiro desenvolvimento dos mais
+modestos vegetaes, abandonam estes humildes modelos, para em seu logar
+applicarem as folhas completamente formadas, as flores e os fructos das
+arvores, dos arbustos e das plantas herbaceas, mais graciosas.
+
+Procuram reproduzir a vinha, a hera, o acre, o azevinho, a roseira
+brava, a figueira, o carvalho, a pereira, o nenuphar, as campainhas, o
+rainunculo, o morangueiro, o trevo, o platano, a salsa, etc. Todavia
+esta transformação não se operou bruscamente, mas a pouco e pouco e por
+successivas transições: na flora monumental, bem como na flora natural,
+á maneira que os tempos passavam, os renovos abrem, as folhas
+desdobram-se, os botões tornam-se em flores e produzem fructos. Foi
+n'esta epoca que na França (no final do XII seculo, e até mais tarde) os
+roulamentos primitivos das _crochetes_ se abrem dando logar a florões e
+ramos de folhagens inteiramente desenvolvidos.
+
+Progredindo sempre, os esculptores do seculo XIV abandonavam pouco a
+pouco a nobre e graciosa simplicidade que os do seculo XIII costumavam
+imprimir a todas as suas obras; entregam-se apaixonadamente á imitação
+da natureza real e escolhem de preferencia as plantas d'um modelo
+exagerado; reproduzem-nas com uma rara perfeição, mas exageram-lhes as
+ondulações e contornos. Estas ondulações, que constituem um dos
+caracteres que distinguem a esculptura do seculo XIV, encontram-se já
+algumas vezes, ainda que poucas, durante a segunda metade do seculo
+XIII.
+
+As esculpturas do seculo XIV são muitas vezes inferiores ás do XIII,
+porque são menos francamente executadas e carecem de simplicidade nos
+contornos e no modelado; finalmente já visam muito a produzir effeito. O
+seculo XIV no entanto produziu obras esculpturaes de grande merito.
+
+A esculptura monumental no seculo XV caminha cada vez mais para o
+affectado. Toma as plantas com folhagens muito recortadas, taes como o
+cardo, a folha do repolho, etc. e para as imitar exagera-lhes as
+profundas chanfraduras e os lóbulos angulosos das folhas.
+
+Estas esculpturas são finas, delgadas e excessivamente vasadas.
+
+Um ornato muito frequente do XV seculo em diante e que principalmente se
+vê nas açafatas dos capiteís, é o que vulgarmente se chama folha de
+repolho por causa da sua semelhança mais ou menos com a sua folha
+enroscada.
+
+Tambem se vêem representados na esculptura decorativa do periodo ogival,
+assumptos historicos, legendarios e symbolicos bem como animaes reaes e
+phantasticos. Estes animaes e as figuras grotescas, algum tanto raras no
+interior dos edificios, encontram-se comtudo bastante na decoração
+exterior dos monumentos, como carrancas, modilhões e até algumas vezes
+ornatos em substituição dos _crochetes_ de rampa.
+
+Durante todo o periodo ogival, as esculpturas eram completamente
+concluidas antes de se collocarem.
+
+Os esculptores de imagens terminavam as suas obras na casa do trabalho,
+e eram collocadas no seu logar pelos alveneos. Um esculptor nunca subia
+a um andaime.
+
+_Fachadas_.--As faces exteriores dos monumentos da edade media são a
+expressão exacta das disposições interiores.
+
+Em consequencia d'este principio, as fachadas occidentaes das egrejas
+reproduzem no conjuncto o córte transversal das naves. Além d'isso, como
+a fórma d'este córte é pouco mais ou menos a mesma em quasi todas as
+egrejas ogivaes, resulta d'isso, que o aspecto geral de muitas fachadas
+é d'uma grande semelhança. Apezar d'esta semelhança no conjuncto geral e
+dos contornos exteriores, a disposição e a ornamentação das fachadas são
+extremamente variadas. As mais bellas fachadas ogivaes são sem duvida as
+das grandes cathedraes francezas. Compõem-se em geral de muitas zonas
+horisontaes e parallelas; o pavimento terreo tem tres portaes, que dão
+ingresso para as tres naves; o central, que é a porta principal, é mais
+largo e ornado mais ricamente que os outros dois.
+
+As fachadas das grandes egrejas inglezas e allemãs (excepto a de
+Colonia), não têem ornamentações tão vistosas como as cathedraes
+francezas. A disposição é menos regular e a ornamentação destituida ás
+vezes de bom gosto. Grande numero das egrejas allemãs têem só na fachada
+Occidental duas torres em cada lado.
+
+Na Belgica poucas egrejas têem tres portaes; geralmente na fachada
+principal ha apenas um. As rosaceas, que são tão vulgares nas fachadas
+francezas, raramente se vêem nas egrejas da Belgica.
+
+As fachadas das egrejas ruraes são sempre de uma grande simplicidade. Em
+geral tem um campanario, e apenas uma porta ao centro da fachada e uma
+ou tres janellas no frontispicio.
+
+_Alpendres_. Quasi todas as grandes egrejas ogivaes apresentam um ou
+muitos alpendres, collocados adiante da fachada Occidental, ou das
+entradas lateraes. Em muitas egrejas romans foi addicionado o alpendre
+na epocha ogival.
+
+Os alpendres contiguos á fachada principal das egrejas ogivaes ou os
+construidos debaixo do campanario, que limita esta fachada, quasi se não
+encontram em França desde o seculo XIII. Ainda são mais raros na
+Belgica, Allemanha e Inglaterra.
+
+Durante o periodo ogival, muitos alpendres se construiram adiante das
+entradas lateraes. Os mais bellos monumentos d'este genero são os
+alpendres ao Norte e ao Sul da Cathedral de Chartres, que datam dos
+primeiros annos do seculo XIII. Na Belgica tambem ha alguns alpendres
+lateraes notaveis, compostos d'um ou dois vãos na frente e vedados por
+tres lados, estando ornados no interior com estatuas collocadas sobre
+misulas e coroadas de doceis. Tambem se construiam, mas raramente,
+alpendres abertos em tres lados ou vedados por frestas nos dois lados.
+
+_Portaes_. Na França e mesmo em Colonia as cathedraes e as grandes
+egrejas ogivaes não têem geralmente alpendres adiante da fachada
+principal, mas os portaes formam de per si verdadeiros alpendres, que
+são cuidadosamente adornados.
+
+Os portaes principaes das grandes egrejas francezas do seculo XIII
+distinguem-se pela riqueza extraordinaria das esculpturas de todos os
+generos com que são adornados. Apresentam grandes vãos que se abrem do
+interior para o exterior e divididos em duas partes eguaes por uma
+parede.
+
+Na fachada de _Notre-Dâme_ de Paris vê-se, em frente d'essa parede e sob
+um docel, uma grande estatua representando o Salvador deitando a benção,
+a Santissima Virgem com o seu amado Filho, e tambem ás vezes o orago da
+Egreja. A base d'essa parede e os rodapés dos vãos são ornados com
+baixo-relevos.
+
+Os tympanos são regularmente divididos em tres partes horisontaes, onde
+se figuram em relevo assumptos religiosos, estatuas de grandes
+dimensões, que em numero consideravel guarnecem as paredes verticaes dos
+portaes, emquanto que as curvas das abobadas recebem muitas ordens
+parallelas de estatuetas collocadas debaixo de doceis.
+
+Todas estas esculpturas representam Santos e factos tirados da historia
+do Velho e Novo Testamento, da lenda e de certos dogmas da Fé.
+
+Os arcos dos portaes, das janellas e das empenas são, algumas vezes,
+ornados tambem interiormente, d'um appendice chamado _redente_; este
+ornato tambem ás vezes se encontra no intradorso das grandes arcadas,
+ligando as columnas que separam as naves das paredes lateraes das
+egrejas.
+
+Os _redentes_ são recortes em fórma de dente ou de bicos, que guarnecem
+o intradorso d'um arco. Tambem se applicou este mesmo nome a uns ornatos
+analogos, que se collocam sobre as prumadas das empenas.
+
+Nos edificios do seculo XIV, os portaes são ainda bem delineados,
+todavia já não têem a grandeza que caracterisa os do seculo XIII. Os
+perfis das molduras são agudos e muito multiplicados; a estatuaria,
+abandonando a nobre simplicidade, preoccupou-se em cogitar formas
+affectadas, e por isso mesmo a arte declina. Apesar d'estes defeitos, os
+grandes portaes das egrejas do seculo XIV têem ainda verdadeiro merito
+quanto á composição e outras qualidades que debalde se procuram nos
+monumentos dos seculos posteriores.
+
+Os grandes portaes dos seculos XIV e XV têem as mesmas disposições
+geraes que os do seculo precedente, com a simples differença de que as
+columnas cylindricas que formavam os vãos dos portaes e que sustentam as
+archivoltas são substituidas por molduras prismaticas, ordinariamente
+sem capitel, e que prolongando-se constituem por si só as archivoltas.
+Estes portaes occupam espaço profundo, porque são regularmente
+construidos entre dois contrafortes salientes da fachada.
+
+O pilar que separa o portal, e o tympano dos grandes portaes do XIV e XV
+seculos, tem sempre estatuas de Santos debaixo dos doceis e apoiando-se
+sobre misulas primorosamente esculpidas. Desapparecem as estatuas em
+muitos monumentos.
+
+Ordinariamente os vãos ogivaes dos portaes e muitas vezes os da entrada
+dos alpendres, são emmoldurados por um contorno em forma de empena.
+
+Nos seculos XIII e XIV, este feitio representa a extremidade d'um
+telhado de duas vertentes com a inclinação d'um angulo que varia entre
+45 e 90 gráos. No XV seculo, os vãos de todos os portaes grandes e
+pequenos, e algumas vezes tambem os das janellas, são formados por
+ogivas ou por contracurva.
+
+No seculo XII, as inclinações das empenas são quasi sempre ornadas de
+_colchetes_ enroscados; desde o principio do seculo XIII, os
+enroscamentos ou extremidades d'estes _colchetes_ desdobram-se e
+transformam-se em florões. Os _colchetes_ são substituidos, no seculo
+XIV, por folhas de extraordinaria grandeza, que muitas vezes se designam
+ainda pelo nome de colchetes, redentes ou animaes phantasticos; nos
+seculos XV e XVI apparecem as folhas de repolho.
+
+Estes ornamentos pouco numerosos e muito espaçados no XIII seculo,
+multiplicam-se e approximam-se á medida que a arte ogival vae em
+decadencia. O vertice das empenas ou das ogivas inflexas que substituem
+as empenas do XV seculo, termina ora por um florão, ora por uma estatua
+assente sobre uma quartella, em fórma de sóco.
+
+Os portaes de segunda e terceira ordem offerecem mais simplicidade do
+que os outros que acabamos de descrever. Não têem pilar de separação e
+por causa dos seus vãos geralmente pouco profundos, têem molduras
+menores que os portaes de primeira ordem.
+
+No XIII e XIV seculos, as empenas compõem-se de duas, tres ou quatro
+columnatas na rectaguarda umas das outras, e ligam-se com os extremos
+dos arcos superiores. Desde o final do XIV seculo, foram as columnatas
+substituidas por molduras prismaticas, quasi sempre sem divisão de
+capitel.
+
+Até meiado do seculo XV, ajuntava-se, muitas vezes, á archivolta dos
+portaes e tambem ás curvas das janellas, um rebordo exterior em fórma de
+goteira cujas extremidades assentam á altura da nascença da ogiva, sobre
+modilhões esculpidos, representando figuras, animaes phantasticos ou
+carrancas; este rebordo tambem ás vezes é ornado de _colchetes_ com
+folhas de grande lavor ou figuras grotescas.
+
+_Lemes das portas_. Os constructores romans tinham, como já explicámos,
+convertido em objecto de ornamentação os lemes e as ferragens que
+empregavam para reunir os frisos que compõem os batentes. As archivoltas
+do periodo ogival ultrapassaram os seus precedentes n'este genero de
+decoração.
+
+No seculo XIII e ainda mesmo no XIV, os lemes representam folhagens
+entrelaçadas, armadas de flores e fructos. As suas differentes partes
+são reunidas com uma arte e delicadeza notaveis, apesar de n'esta epoca
+os meios de fabrico serem muito simples. Um martello movido por uma
+corrente de agua constituía, por assim dizer, o unico recurso das
+fabricas da edade media. O ferro obtido em fragmentos de um peso
+mediocre, era entregue ao ferreiro, que á força de braço convertia estes
+fragmentos em barras ou peças mais ou menos delgadas. Não eram
+conhecidas, nem a lima, nem as cisalhas. Apezar da pobreza de meios de
+fabricação, os ferreiros da edade media produziram obras primas de
+serralheria. Podemos affirmar que em muitos paizes a arte de serralheria
+attingiu o seu apogeu no seculo XIII. Os lemes do principio do periodo
+ogival distinguem-se dos das epocas posteriores em que, ordinariamente,
+são _estampados_, isto é, trabalhados em relevo por meio de matriz. Foi
+pela estampagem que se obtiveram ramagens cheias de vigor e estes
+soberbos cachos que caracterisam os lemes dos portaes de todas as
+grandes egrejas do XIII seculo.
+
+Os lemes estampados começaram a desapparecer na França no principio do
+seculo XIV, ao passo que na Belgica foram muito empregados ainda n'este
+seculo e até mesmo no seculo XV.
+
+Nos fins do seculo XIII começaram a apparecer na França os lemes lisos,
+isto é, formados por uma peça de ferro batido, poucas vezes executados
+em relevo. Este uso generalisou-se desde os primeiros annos do seculo
+XIV; nos outros paizes e especialmente na Belgica eram empregados
+simultaneamente com as ferragens estampadas, tanto no seculo XIV, como
+no XV.
+
+Os serralheiros da edade média procuraram para objecto de ornamentação,
+não só os lemes, mas tambem todos os outros accessorios necessarios para
+os portaes, taes como os prégos, os fechos, as argolas das fechaduras.
+
+_Janellas_. Durante o periodo de transição e no principio da epoca
+ogival, os vãos das janellas eram estreitos, pouco elevados e fechados,
+na sua parte superior, por lancetas ou ogivas agudas. Estes vãos, em
+geral reunidos em dois ou tres, são separados por pequenos pilares em
+fórma de humbreira, estando muitas vezes como emmoldurados por um grande
+arco commum. Chamam-se prumos de cantaria os que dividem uma janella em
+humbreiras aos vãos ou compartimentos verticaes. A triplice lanceta da
+janella tem o vão do meio geralmente mais elevado que o dos lados.
+
+Em França, no principio do seculo XIII, e n'outros paizes alguns annos
+mais tarde, em vez de estreitarem os vãos das janellas, alargavam-nos e
+formavam por cima bandeira com construcção de cantaria compostas de
+humbreiras simples e ligeiras. Em geral existe uma abertura independente
+por cima dos vãos d'estas janellas primitivas. Nas construcções
+esmeradas e ricas, as humbreiras estão collocadas tanto no interior como
+no exterior, tendo uma columna com base e capitel, e o tympano da
+janella é ornado de redentes, com uma ou muitas vidraças compostas de
+tres, quatro, seis e algumas vezes oito vidros.
+
+As grandes egrejas do XIII seculo e um grande numero de edificios do XIV
+seculo teem as janellas muito grandes, divididas em muitos vãos.
+
+Estas janellas compõem-se de uma rosacea de grande diametro, que occupa
+a parte superior do tympano tendo uma columna que divide o vão em duas
+partes eguaes; em cada um d'estes vãos secundarios, apresenta uma
+abertura composta egualmente de uma columna central, porém, mais delgada
+que a primeira e d'um oculo circular do feitio de folha de trêvo, ou uma
+de quatro folhas. Se mesmo com estas sub-divisões (como succede nas
+janellas de grande largura), estas columnas não ficam sufficientemente
+proximas para a segurança das vidraças, estabelecem-se ainda entre si
+novas humbreiras divisorias, tendo por cima tambem rosaceas de menor
+grandeza.
+
+Na Belgica, Allemanha e Inglaterra, ha janellas do seculo XIII,
+divididas por duas humbreiras de menor importancia para formarem tres
+vãos. Ás vezes é o vão do meio mais estreito que os dos lados. Este
+feitio de janellas era muito raro na França, no principio do periodo
+ogival.
+
+Para diminuir o espaço vazio das rosaceas do tympano das grandes
+janellas, collocavam-se redentes de cantaria seguros por circulos de
+ferro. Ás vezes, no seculo XIV, se substituiam as rosaceas do tympano
+por folhas de trêvo, ou compostas de quatro folhas, e tambem com outras
+combinações de figuras geometricas.
+
+Durante os seculos XIV e XV, o numero dos vãos das janellas varia muito,
+mas em geral é de tres.
+
+No mesmo edificio, se vêem, conforme a largura dos vãos, janellas de
+dois, tres, quatro, cinco, seis, sete ou oito compartimentos.
+
+Em alguns monumentos belgas, inglezes e allemães, as grandes janellas
+das extremidades do transepte e da capella mór, quando esta termina por
+uma parede recta, ficam divididas em duas partes eguaes por uma columna
+central de grande grossura formando um verdadeiro pilar.
+
+As humbreiras das janellas dos seculos XIII e XIV são ás vezes formadas
+por uma só pedra inteiriça; comtudo geralmente são construidas por
+pedras pequenas. Em grande numero dos edificios francezes, ha, interior
+e exteriormente, ou n'um dos lados das janellas, uma columna embebida,
+com base e capitel.
+
+Na Belgica, Allemanha e Inglaterra as humbreiras das janellas de muitos
+monumentos não têem columnas, principalmente as do seculo XIV.
+
+As columnas servindo de humbreiras apparecem sempre collocadas junto dos
+pés direitos, no interior e no exterior da janella. Na Belgica vêem-se
+com frequencia essas columnas embebidas nos angulos das paredes
+pertencentes ás janellas nas quaes lhes faltam as humbreiras.
+
+Os capiteis das columnas que formam as humbreiras das janellas, são
+coroados por um ábaco _quadrado_, no principio do periodo ogival, mais
+tarde tornou-se _circular_, e no principio do XIV seculo, _hexagonal_.
+
+Os constructores dos seculos XIII e XIV, habituados a discorrer sobre
+todas as suas obras, facilmente comprehendiam que collocar um capitel
+nas columnas servindo de humbreiras, era ir ao encontro do principio
+fundamental da architectura ogival, que prescrevia desprezar todas as
+partes inuteis, todos os motivos de ornamentação que não resultassem
+d'uma necessidade de construcção. Effectivamente não parece
+sufficientemente justificada a necessidade d'este capitel, porque a
+parte superior da columna não serve de ponto de apoio a nenhum peso
+extraordinario, e tambem não serve de transição ás duas partes realmente
+distinctas, pois a moldura superior do capitel é em tudo semelhante á
+fórma do fuste da columna, porquanto o capitel apenas servia de ornato,
+sem outro fim verdadeiramente util. Tendo em vista o principio
+fundamental do estylo ogival e todas as consequencias logicas que elle
+encerra, os architectos da segunda metade do seculo XIV e do principio
+do XV não se detêem em reconsiderar, supprimem inteiramente o capitel e
+muitas vezes a propria columna, e dão a todas as humbreiras a mesma
+espessura. No fim do XIV seculo introduziram egualmente modificações
+importantes nos desenhos traçados pelas humbreiras dos tympanos das
+janellas. Os redentes que até aqui serviam para diminuir o espaço roto
+das grandes rosaceas foram primeiramente substituidos por combinações de
+figuras geometricas em que predominam as formas ogivaes com curvas
+compostas de duas em sentido oppostos e do feitio de chamma. É d'esta
+epocha que data o ornato conhecido pelo nome de _chamma_ e deu o nome de
+_flammejante_ ao estylo do seculo XV. Este ornato não só se encontra nos
+tympanos de janellas, mas tambem nas balaustradas, nos batentes das
+portas, fechos, mobilias, n'uma palavra, em tudo onde é possivel
+applical-o. Os allemães chamam-lhe Fischblase (bexiga de peixe).
+
+As janellas da _primeira metade_ do seculo XV têem ainda ás vezes alguma
+analogia com as dos seculos precedentes. Não é raro encontrar-se nos
+tympanos grandes rosaceas com figuras curvas ou chammas em vez de
+redentes. Todavia grande numero das rosaceas circulares dos tympanos,
+durante a primeira metade do seculo XV, foram substituidas com o feitio
+de triangulos e quadrilateros curvilineos ou por outras figuras
+geometricas regulares, nas quaes ha chammas representadas. No meado do
+seculo XV desapparecem do tympano as figuras regulares, e as humbreiras
+tomando direcções cada vez mais arbitrarias, dão logar aos mais variados
+desenhos flammejantes.
+
+No fim do XV seculo as archivoltas das janellas tornam-se mais obtusas e
+tomam no principio do seculo XVI a forma de arcos de volta abatida ou em
+aza de cesto; os desenhos dos tympanos são toscos e angulosos. A volta
+inteira ou de semicirculo, que começa a apparecer timidamente nos vãos
+entre as humbreiras, annuncia o proximo regresso dos typos de
+architectura classica.
+
+Do que acabamos de dizer resulta que os desenhos geometricos
+encontram-se principalmente nos tympanos das janellas durante a primeira
+metade do seculo XV, emquanto que os desenhos flammejantes propriamente
+ditos são da ultima metade do XV e do principio do XVI seculos.
+
+As archivoltas exteriores das janellas dos edificios de primeira ordem
+têem ás vezes alguns ornatos.
+
+O cavado mais largo e mais profundo do intradorso d'estas archivoltas é
+ornado de colchetes nos grandes monumentos francezes do seculo XIII; no
+seculo XIV é ornado de florões e de cachos, e no XV apparece a folha de
+repôlho.
+
+As archivoltas exteriores das janellas são do mesmo modo que as dos
+portaes e dos alpendres rodeadas por um rebordo saliente ou encimadas
+por uma galeria. Os rebordos que rodeiam as archivoltas das janellas
+têem o mesmo feitio que os dos portaes.
+
+Nos seculos XIII e XIV, têem a fórma d'uma goteira e são geralmente
+formados nos proprios fechos da archivolta; as extremidades vêem acabar
+á altura do nascimento da ogiva, ficando assentes sobre modilhões ou
+então na direcção horisontal sob a fórma de cordão, que liga entre si
+duas janellas proximas uma da outra.
+
+Nos edificios mais importantes, os rebordos são em geral decorados de
+distancia a distancia, com colchetes ou folhas ornamentaes. Nos seculos
+XV e XVI, os feitios das janellas têem a fórma de uma ogiva com curvas
+inversas, terminando por um florão. Os remates que coroam muitas vezes
+as janellas dos grandes monumentos, são similhantes aos dos portaes,
+tendo do mesmo modo a fórma da empena e os seus lados inclinados têem
+colchetes, redentes ou folhas de repolho encrispadas. O vertice, que em
+geral termina em florão, penetra muitas vezes na balaustrada prolongando
+a altura do tecto e fazendo corpo com elle.
+
+Os architectos do periodo ogival, e até mesmo os do periodo de
+transição, de ordinario reservaram nas grandes egrejas, galerias
+passando junto das janellas e que eram principalmente destinadas a
+facilitar a collocação e conservação das vidraças. Estas galerias são
+estabelecidas em toda a extensão do edificio, dando muitas vezes a volta
+completa em todo o monumento; são verdadeiros corredores de serviço. No
+rez-do-chão, isto é, nas paredes dos lados e no côro, quando este não
+tem capellas lateraes, são ellas estabelecidas no interior em quanto que
+no pavimento superior ficam sempre exteriores e atravessam os
+contrafortes. D'aqui resulta haver galerias em que as vidraças estão
+assentes por dentro nas janellas inferiores e por fóra nas altas.
+
+_Rosaceas_. As rosaceas são um dos mais bellos ornamentos dos grandes
+monumentos religiosos do periodo ogival.
+
+Apparecem tanto na fachada Occidental como nas empenas dos transeptes.
+Na França, as rosaceas são muito communs nos seculos XIII e XIV; pelo
+contrario na Belgica e na Inglaterra, são raras, mesmo nas maiores
+egrejas.
+
+As rosaceas e as janellas têem caixilhos de pedra destinados a fixar as
+vidraças. Estes caixilhos são muitas vezes dispostos em fórma de raios
+de roda.
+
+Durante a segunda metade do seculo XIII e todo o XIV, foram construidas
+grande numero de rosaceas em contacto umas das outras e dispostas em
+muitos renques concentricos á volta d'uma rosacea central, na qual são
+inseridos caixilhos do feitio de folhas de trêvo ou em quatro folhas.
+
+Foi a brilhante ornamentação d'estas rosaceas e dos tympanos das
+janellas que deu ao estylo ogival do XIV seculo a denominação de
+_radiante_.
+
+Os caixilhos das rosaceas do XV seculo descrevem em geral desenhos
+flammejantes, semelhantes aos que se vêem nos tympanos das janellas da
+mesma epoca. Ás vezes encontram-se: 1.^o nos monumentos do seculo XIII
+rosaceas que têem analogia com as dos edificios romans do seculo XII;
+2.^o nos edificios dos seculos XIV e XV, rosaceas compostas de folhas de
+feitio de trevo, e de quatro folhas, ou com figuras geometricas
+curvilineas.
+
+No seculo XV, e na Belgica já no XIV, os caixilhos das rosaceas, não
+têem como d'antes, columnas formando as divisões, mas têem os mesmos
+compartimentos que os caixilhos de janella d'esta epoca.
+
+_Vedações das janellas e vidraças_. Por causa da aspereza do clima nos
+paizes do Norte foram muito cêdo usadas as vidraças nas janellas.
+
+Os vidros, incolores ou pintados d'uma côr unica e de pequenas
+dimensões, eram antigamente collocados em caixilhos de madeira ou de
+cantaria. Depois do seculo X eram fixos por meio de pestanas de chumbo.
+Foi devido ao emprego do chumbo que conseguiram formar bellas vidraças
+pintadas, cuja historia vamos expôr succintamente.
+
+As vidraças dividem-se em duas classes: vidraças _incolores_ e
+_pintadas_.
+
+_Vidraças incolores_. As vidraças incolores dos seculos XII e XIII são
+compostas de pequenos pedaços de vidro, não excedendo doze a quinze
+centimetros, na sua maior dimensão, sendo de côr esverdeada escura,
+irregulares e um pouco convexas.
+
+O chumbo empregado antigamente era muito espesso, convexo nas suas faces
+e algumas vezes polido nas ranhuras; distingue-se facilmente dos
+modernos, fabricados depois do fim do seculo XVI, por se servirem de
+instrumento proprio para o reduzir a tiras, com uma especie de
+laminador.
+
+Em consequencia da maleabilidade e brandura do chumbo, as tiras que
+reunem os vidros das vidraças incolores dos periodos roman e ogival
+apresentam muitas vezes as mais curiosas figuras. N'este caso e em
+muitos outros a urgencia fornece um motivo d'ornamentação; era
+necessario vedar uma abertura relativamente alta e larga com pequenos
+fragmentos de vidro, porque as grandes chapas de vidro eram ainda então
+desconhecidas. Os vidraceiros da idade média resolveram este problema
+como verdadeiros artistas: em vez de adoptarem um systema de envidraçar
+vulgar, consistindo em quadrados ou rhombos, serviram-se das tiras de
+chumbo para produzir, nas janellas, os mais variados e vistosos
+desenhos.
+
+Na Belgica as vidraças incolores eram muito communs nos seculos XII e
+XIII; ha exemplos de vidraças, ainda existentes, que se podem referir
+com certeza a esta epoca. É verdade que se encontra aqui e ali algumas
+vidraças representando entrelaçamentos de fitas, anneis, circulos e
+figuras geometricas, que parecem muito antigas por causa da pequenez das
+aberturas destinadas a receber as chapas de vidro; mas não é possivel
+determinar-lhes uma data approximada.
+
+Estes entrelaçamentos de fitas e de figuras geometricas foram usados na
+Belgica durante todo o periodo ogival e conservaram-se com modificações
+mais ou menos consideraveis até ao presente.
+
+_Vidraças pintadas_. Ha uma grande differença entre colorir um vidro ou
+pintal-o, ou por outras palavras, entre os vidros coloridos e os
+pintados. Os primeiros, que tambem se chamam vidros de côr, obtêem-se
+misturando-lhes na massa vitrea em fusão oxydos metallicos, que dão a
+toda a pasta um colorido uniforme. Este colorido não é superficial; as
+materias que produzem as diversas côres penetram durante a fusão na
+massa vitrea e combinam-se inteiramente com ella. Para fazer vidros
+pintados toma-se uma chapa de vidro translucido e sobre uma das faces,
+ou em ambas, applica-se com o pincel os traços do desenho a côres
+vitrificaveis, que não são mais que pastas vitreas coloridas por meio
+d'oxydos metallicos, reduzidos a pó e diluidos n'um liquido como vinho,
+agua gommada e essencia de therebentina. A lamina de vidro, esmaltada, é
+em seguida submettida ao fogo; o pó corante entrando promptamente em
+fusão, fixa-se sobre a placa de vidro que a sustenta e que apenas está
+amollecida pela acção do calôr.
+
+No VII seculo, havia vidraças compostas de laminas de vidro diversamente
+coloridas; eram especies de mosaicos transparentes. Mas seria n'essa
+epoca que começaram a pintar a côres, sobre vidro branco ou colorido,
+personagens e assumptos historicos e legendarios? A opinião mais
+provavel colloca a invenção da pintura sobre vidro no fim do X seculo.
+Comtudo só no seguinte é que esta arte nasceu na Allemanha e se
+desenvolveu e espalhou pela Europa occidental. Logo que se inventou a
+pintura sobre vidro no meiado do seculo XIV, o pintor de vidros
+servia-se de laminas, cada uma de sua côr uniforme.
+
+No seculo XII e XIII, houve excepção a esta regra para o vidro vermelho,
+que, em geral era _duplicado_, isto é, composto de uma lamina delgada
+vermelha, applicada sobre uma lamina de vidro incolor.
+
+As differenças de espessura que têem os vidros antigos, differenças que
+resultam da imperfeição dos processos de fabríco do vidro, contribuem
+singularmente para augmentar o brilho das vidraças da idade média. Em
+primeiro logar, os pintores vidraceiros empregavam com muita pericia
+estes vidros desiguaes ou ondulados, cortando-os de fórma que a parte
+mais delgada se achasse do lado da luz; o que fazia augmentar
+consideravelmente o effeito da vidraça. Por consequencia, mesmo para os
+fundos fechados, estas differenças de espessura dão á coloração um
+aspecto scintillante, que a certa distancia augmenta consideravelmente a
+intensidade dos tons.
+
+As côres de que o pintor de vidros dispunha na idade média eram
+numerosas e variadas, porque a maior parte das operações chimicas
+empregadas para obter vidros de côr, eram empiricas e por consequencia,
+davam muitas vezes resultados imprevistos.
+
+Esta gamma de côres extensissima póde comtudo ser reduzida a cinco tons
+principaes: azul, vermelho, amarello, verde e côr de purpura.
+
+Para exprimir as carnações, isto é as partes apparentes das carnes, taes
+como as cabeças, as mãos e os pés, usavam nos seculos XII e XIII, d'um
+vidro d'uma leve côr de violeta, e mais tarde d'um vidro esbranquiçado;
+os traços sobre estes vidros eram d'uma côr parda, applicada com um
+pincel e em seguida fixada com a cozedura.
+
+Os pintores de vidros dos seculos XII e XIII occupavam-se
+principalmente, na composição do cartão, da harmonia das côres. Para o
+obter elles não hesitavam em sacrificar a verdade, dando aos objectos
+côres que a natureza lhes não deu; é assim que se encontram nas vidraças
+antigas, cavallos verdes e arvores com folhas de muitas côres
+diferentes. Como o vermelho, e sobre tudo o azul se prestam
+admiravelmente a uma collocação vigorosa e alliam-se admiravelmente com
+todos os outros tons, os fundos vermelhos e azues são sómente empregados
+nas vidraças de assumptos historicos ou legendarios.
+
+Os vidros coloridos das vidraças, vistos a distancia, tomam, graças á
+translucidez e á luz que os atravessa, um brilho que faz parecer a sua
+superficie maior do que na realidade é; este effeito chama-se
+_rayonnement_.
+
+As diversas côres translucidas têem _rayonnements_ de valôr muito
+differente; assim, para não fallar senão das tres côres fundamentaes do
+prisma; o azul é a mais brilhante, seguindo-se o vermelho e depois o
+amarello.
+
+O _rayonnement_ de certas côres translucidas, a distancia, é tal que não
+só faz parecer a sua superficie maior do que na realidade é, mas até
+modifica mesmo a qualidade d'estas côres e das que lhe ficam proximas.
+
+É d'este modo que um azul limpido, collocado ao lado d'um vermelho
+augmenta o brilho dos bordos d'este e torna-os côr de violeta. Além
+d'isso, este brilho faz ás vezes desapparecer totalmente os filetes de
+chumbo, que engastam os vidros, e altera as linhas do desenho fixado
+sobre os vidros por meio do esmalte escuro.
+
+Os principios artisticos que regem a pintura sobre vidro ou translucida
+differem notavelmente dos principios da pintura opaca. A luz
+atravessando côres translucidas actua sobre estas côres, e sobre as
+combinações d'estas côres entre si, de maneira differente do que se
+fossem opacas; a luz passando atravez d'um desenho modifica os contornos
+d'este, facto que se não dá quando actúa sobre uma superficie opaca
+desenhada.
+
+A pintura sobre vidro só póde ser uma pintura de convenção muito
+differente da pintura em quadro. N'esta procura-se illudir a vista do
+espectador servindo-se de todos os recursos das sombras, do claro escuro
+e da perspectiva linear e aérea. Na pintura sobre vidro, pelo contrario,
+assim como na pintura monumental, o artista deve respeitar e deixar
+parecer plana a superficie sobre que pinta; deve contentar-se em traçar
+a silhueta dos personagens e dos objectos que entram na composição do
+seu assumpto, fazer pouco caso da perspectiva, mesmo linear, traçar as
+sombras d'uma maneira convencional, indicando as partes salientes por
+claros e as rugas por tons opacos, e desprezar os accessorios ou, quando
+muito, represental-os hieroglyphicamente. Na pintura opaca o artista
+deve procurar grupar os personagens d'uma scena de modo que se destaquem
+uns dos outros afim de obter uma sèrie de planos, em quanto que na
+pintura translucida, evita-se, tanto quanto possivel, as agglomerações
+d'um grande numero de figuras, e esforçam-se por fazer apparecer o fundo
+em torno de cada uma d'ellas.
+
+As vidraças pintadas do XII seculo são sempre formadas de pequenos
+medalhões circulares, quadrados ou apresentando outras fórmas simples e
+regulares. Estes medalhões, nos quaes apparecem composições adornadas,
+ficam dispostos symetricamente sobre fundos formados de mosaicos de
+vidro simples ou differentemente coloridos.
+
+A côr _azul_ domina geralmente nos fundos das vidraças pintadas no XII
+seculo; pouco empregam a côr encarnada; algumas vezes tem tambem o fundo
+azul, ficando mais harmonico, tendo-se espalhado, sobre esse fundo,
+pequenos florões encarnados, ou pequenos traços que se encruzam e cobrem
+o fundo azul de um tecido encarnado com divisões quadradas ou rhombos.
+Em roda da vidraça e de cada medalhão ha cercaduras differentes, quasi
+sempre bastante longas e compostas de florões, palmetas, folhagens e
+enlaçadas com perolas.
+
+As composições representadas nos medalhões são tiradas da vida de Jesus
+Christo e de Nossa Senhora, ou da historia do antigo e novo Testamento;
+assim como da legenda dos Santos. A execução é d'uma grande simplicidade
+e com muita ingenuidade. O desenho accusa as tradições bysantinas: o
+emprego das figuras apparece, não obstante as roupas que o vestem, sendo
+as prégas da roupagem estreitas e parallelas.
+
+_As vidraças do XIII seculo_. As vidraças pintadas no XIII seculo têem
+grande similhança com as do XII, porque a maneira de sua execução ficou
+quasi a mesma. Nas janellas inferiores da capella mór e das naves
+lateraes, as vidraças compunham-se, como precedentemente, de medalhões
+historiados de differentes fórmas, dispostos uns por cima dos outros
+sobre uma ou muitas fileiras. Nas janellas superiores da capella mór e
+da nave principal, principiaram a representar, desde o final do XII
+seculo, grandes figuras em pé, figurando veneraveis personagens do
+antigo e novo Testamento.
+
+As côres de que mais uso se fez para os fundos das vidraças pintadas no
+XIII seculo foram o _azul_, o _encarnado_ e o _verde_; empregava-se
+tambem, em certos casos, porém com moderação, o _amarello_ e o _roxo_.
+Os fundos não são lisos, formam uma especie de pannos-de-raz sobre os
+quaes vem assentar a composição dos assumptos. Esta tapeçaria se compõe
+não sómente de _escamas_, _canniçal_ e de _xadrez_, mas, muitas vezes
+tambem, de enlaçados, festões e folhagens, enrolamento, sobre os quaes
+os assumptos se destacam perfeitamente. Do mesmo modo que nas
+composições com as grandes figuras, as tiras de chumbo indicam os
+contornos principaes d'estas ornamentações.
+
+No correr do XIII seculo, o estylo e o caracter do desenho mudaram
+completamente, porém por séries de transformações successivas. Desde a
+metade do XII seculo, os artistas de vidraças pintadas, da mesma fórma
+que os miniaturistas, os pintores, e os esculptores, tinham principiado
+a abandonar pouco a pouco as tradicções da arte Byzantina, e a
+manifestar uma direcção notavel para a imitação da natureza. Esta
+direcção augmenta e se affirma cada vez mais no XIII seculo. Os pintores
+das vidraças d'esta época não continuam a representar o nú das figuras
+em desdem da inclinação natural dos vestuarios, estudam a natureza e
+esforçam-se de a reproduzir tal qual se apresenta á sua vista:
+reconhece-se facilmente este novo methodo pela maneira por que são
+indicados os gestos das personagens, a physionomia das cabeças e as
+prégas dos vestuarios: os gestos perdem a sua expressão archaïca, as
+cabeças não são já desenhadas conforme os typos convencionaes, e os
+trajes são os da epoca, fielmente imitados. A composição dos assumptos é
+apresentada com animação; sendo evidente que os artistas do XIII seculo
+se preoccupavam de proposito em produzir no espectador um effeito
+subito.
+
+As vidraças pintadas do XIII seculo offerecem muito interesse para o
+estudo do vestuario da idade média. Conforme o uso adoptado n'esta epoca
+em todas as representações artisticas, sejam pintadas ou em esculptura,
+o artista vidraceiro tomava os seus modelos que lhe eram familiares; não
+se preoccupando de nenhuma maneira da fidelidade historica, trajava as
+suas figuras á moda do seu tempo.
+
+A arte da pintura das vidraças não se conservou por muito tempo no
+apogeu que havia alcançado no decurso de alguns annos. Desde o meiado do
+XIII seculo principiou a declinar pouco a pouco. Em consequencia da sua
+propensão notavel para os effeitos dramaticos, chega á affectação e ao
+exquisito, occupando-se mais dos detalhes, perdendo facilmente a nobre
+simplicidade que tanto caracterisava as suas obras no final do XII
+seculo e no principio do XIII seculo.
+
+Ao findar o XII seculo, as pinturas das janellas superiores da nave
+principal e quasi todas da capella mór foram ornadas com figuras em pé,
+representando santos do antigo ou do novo Testamento, não excedendo, em
+tamanho, a estatura geral do homem. No XIII seculo, dava-se a estas
+figuras proporções mais colossaes, porque ficavam collocadas a uma
+grande distancia do espectador. A disposição geral d'estas vidraças nas
+cathedraes e nas grandes egrejas do XIII seculo merece o exame
+reflectido da parte do archeologo. A pintura da vidraça superior do côro
+da capella mór, que attrahe sobretudo a vista e domina, de alguma
+maneira, o altar mór, era dedicada ao Salvador soffrendo pela redempção
+do genero humano; vê-se ahi quasi sempre Jesus Christo na Cruz entre a
+sua Divina Mãe e o discipulo querido, com os symbolos accessorios, que
+na idade média acompanham sempre a scena da crucifixação. Nas outras
+janellas superiores do côro estão em pé os Apostolos e os Santos
+venerados na basilica; as janellas altas da nave principal são pintadas
+com grandes imagens de outros Santos, taes como as dos patriarchas, reis
+e prophetas do antigo Testamento. As vidraças pintadas á roda da capella
+mór e das capellas da charola, formadas por medalhões, representam os
+principaes factos da vida de Jesus Christo e de Nossa Senhora, ou as
+legendas dos oragos da egreja; algumas vezes tambem, se representavam,
+sob fórmas symbolicas, os principaes dogmas da Fé. As vidraças pintadas
+das janellas lateraes da nave, e muitas vezes do transepte, eram
+dedicadas ás legendas de devoção da localidade, e aos Santos ou Santas
+de que a egreja possuia reliquias.
+
+Nas vidraças pintadas do XII e XIII seculo, ás vezes reproduziam os
+retratos dos doadores, mas sempre de tamanho menor.
+
+Passemos agora a fallar das vidraças com pinturas de _grisalha_. Dá-se
+este nome á composição do caixilho pintado de vidros brancos ou um pouco
+esverdinhados, sobre os quaes são traçados, por meio do _esmalte pardo_,
+desenhos e ornatos variados.
+
+Nas _grisalhas_ da primeira metade do XIII seculo, o desenho é
+desenvolvido com firmeza, vigorosamente modelado, e os vidros seguros
+por filetes de chumbo que indicam os traços mais fortes dos ornatos ou
+formam as principaes divisões do caixilho da vidraça pintada. Os vidros
+são quasi opacos e completamente sem nenhuma parte colorida. Estes
+vidros são geralmente grossos, esverdeados e muitas vezes apresentam
+bolhas na superficie.
+
+A começar da ultima metade do XIII seculo, as _grisalhas_ vieram a ser
+menos opacas, deixando penetrar uma claridade mais abundante no interior
+dos edificios; ás vezes não são estes vidros sem ter colorido, porque se
+lhe ajuntam vidros coloridos nos filetes que os dividem, ou nas pequenas
+rosetas espalhadas na superficie.
+
+
+*Vidraças pintadas do XIV seculo*
+
+
+_As vidraças pintadas do XIV seculo_ apresentam aspecto differente das
+dos seculos precedentes, posto que, durante toda a metade do seculo, o
+artista d'esta especialidade se servia ainda dos mesmos processos
+d'execução dos seus antecessores. Esta mudança total d'aspecto proveio
+de muitas causas: pelas novas disposições da armação de ferro, assim
+como pelo tom claro e brilhante que se deu ás vidraças, finalmente pelas
+propensões exageradas para a imitação servil da natureza real.
+
+Nas guarnições de ferro das vidraças do XII e do XIII seculo, desenhando
+os contornos tão variados dos medalhões legendarios, foram levados a
+seguir a fórma primitiva, consistindo em simples hastes verticaes
+divididas de distancia a distancia, por travessas horisontaes, formando
+angulo recto com essas hastes.
+
+As côres mais empregadas nas vidraças do XIV seculo, eram o _azul_, o
+_encarnado_ e o _amarello_; este ultimo tom, geralmente muito usado,
+produzia um brilhante effeito, que fazia desmerecer as grisalhas claras,
+frequentemente empregadas n'essa epoca. A côr _verde_ e o _roxo_ vão
+sendo menos usadas.
+
+O desenho continúa, durante o XIV seculo, a obter mais correcção; porém
+o pintor de vidraças, esquecendo cada vez mais a pintura transluzente
+que não é e não podia ser uma simples pintura de conservação, procura já
+produzir illusão para a vista do espectador; tenta de copiar a natureza,
+e consegue algumas vezes reproduzil-a com certa fidelidade.
+
+As vidraças _legendarias_ desapparecem quasi completamente no XIV
+seculo, e nos raros exemplos que se encontram, os medalhões são quasi
+sempre supprimidos e as representações das differentes scenas religiosas
+sobre-postas uma ás outras, ficam sem molduras e sem separação. As
+grandes figuras isoladas preferidas n'esta epoca, apparecem, não sómente
+nas vidraças altas, mas tambem nas outras dos lados da nave e á roda da
+capella-mór. Representam mais vezes Santos, e poucas vezes pessoas ainda
+existentes.
+
+As figuras estão sempre postas debaixo de doceis cheios de ornamentação
+tirada da architectura, taes como ridentes, pinaculos, clochetões,
+rosaceas e arcos-butantes. Estes doceis parecem ficar sustentados por
+pés-direitos com feitio de contrafortes ornados de arcadas e de nichos,
+nos quaes se collocam pequenas figuras d'anjos e de santos. As molduras
+e os doceis do remate das grandes figuras tomam ás vezes uma tão grande
+importancia que occupam tanto e mesmo maior espaço, que as figuras que
+elles adornam.
+
+No principio do XIV seculo os fundos das vidraças sobre os quaes
+sobresaem as grandes figuras são ás vezes lizos, outra de côr
+_encarnada_ ou _azul_; vindo a ser depois quasi sempre de feitio
+_adamascado_, isto é, cheias de desenhos differentes, similhantes aos
+que se vêem na seda chamada _damasco_.
+
+No XIV seculo, os brazões dos doadores apparecem muitas vezes nas
+vidraças pintadas. Vêem-se tambem nos bordados, nas rosaceas do tympano
+e nas almofadas inferiores das janellas, e inscripções que apparecem
+frequentemente.
+
+No meiado do XIV seculo, uma importante descoberta, do _amarello de
+prata_, fez obter aos pintores de vidraças um novo esmalte e
+proporcionou-lhes grande facilidade no trabalho da pintura. O _amarello
+de prata_, é um esmalte obtido por um composto d'ocre amarello com o
+sulphureto de prata. Depois de ter passado pelo lume os vidros cobertos
+d'este mixto, separa-se a demão secca d'ocre; ficando depois sobre o
+vidro um bellissimo tom amarello mais ou menos carregado e perfeitamente
+translucido.
+
+Os fabricantes dos vidros tornando-se mais habeis, conseguiram tambem,
+durante o curso do XIV seculo, produzir chapas de vidro muito maiores
+que nos seculos precedentes.
+
+A descoberta do amarello de prata e os progressos feitos no fabrico do
+vidro contribuiram poderosamente para modificar o aspecto das vidraças
+pintadas, porque fizeram diminuir o numero dos filetes de chumbo, e
+simplificaram, por conseguinte, a armação da vidraça.
+
+As grisalhas do XIV seculo parecem-se muito com as do final do seculo
+precedente. Todavia as grisalhas sem colorido são substituidas pouco a
+pouco pelas que apresentam algum colorido. Além d'isso, depois do meiado
+do XIV seculo, apparecem as grisalhas brancas, com o realce do amarello
+de prata.
+
+
+*Vidraças pintadas do XV seculo*
+
+
+_No XV seculo_ uma unica côr tem applicação, posto que, de pouca
+importancia, para servir de incarnação, vindo-se ajuntar á palheta do
+artista aos dois esmaltes já conhecidos. Esta fraca tinta, que servia
+para modelar as cabeças e as partes nuas do corpo humano, era provavel
+fôsse um composto d'oxydo de ferro e terra de sombra calcinada. O pintor
+de vidraças não tinha ainda á sua disposição senão tres côres para
+pintar sobre o vidro: o _pardo_, o _amarello de prata_ e a _côr_ para a
+incarnação; porém achou novo expediente para a sua arte no emprego de
+_vidros duplicados_. Já explicámos como, desde o XII seculo, o vidro
+encarnado era muitas vezes composto de duas laminas, uma sem côr e outra
+encarnada, ficando sobrepostas durante a sua fabricação. Depois no final
+do XIV seculo, o processo que tinha servido antes para se obter vidros
+encarnados, foi applicado ás outras côres. Sobrepondo duas ou mais
+demãos de differentes côres, obtinham-se vidros de tintas muito
+variadas. Os vidros duplos lhe davam certos tons d'um vigor desconhecido
+até então: obtinham-se vidros roxos sobrepondo o vidro encarnado ao azul
+claro; verdes, sobrepondo o branco, amarello e o azul.
+
+O colorifico que é resultado de se terem unido dois vidros de côres
+differentes não póde ser confundido com o que se obtem pela applicação
+d'uma côr d'esmalte sobre o vidro fabricado, e posto depois á recocção
+do fogo.
+
+Os pintores de vidraças do XV seculo, não empregavam sempre os recentes
+aperfeiçoamentos introduzidos na sua arte com bastante cuidado e
+intelligencia. É por isso que o emprego muito frequente e irracional da
+pintura em grizalha sobre vidro branco constitue um dos caracteres
+particulares das vidraças pintadas da ultima metade do XV seculo e do
+principio do XVI seculo. Muitas vezes as roupas superiores das grandes
+figuras em pé são brancas e o fôrro sómente de côr. Comprehende-se que
+este abuso das grizalhas, nas roupagens e na maior parte dos
+accessorios, dá necessariamente ás vidraças uma apparencia clara e
+scintillante. Muitas vezes os fundos azues e encarnados, adamascados
+superiormente, nos quaes sobresaem as figuras e os assumptos, offerecem
+ainda unicamente um tom real com bastante colorido.
+
+O maior numero d'estas vidraças tem emmoldurados de feitio
+architectural, consistindo em contrafortes cheios de pinaculos ou
+columnasinhas, com os fustes mais ou menos ornados. Estes emmoldurados
+parecem suster os docéis, cujos lados inclinados da empena, sempre de
+fórma ogival, são ornados de elegantes folhagens. Debaixo dos docéis
+estão figuras em pé separadas pelas molduras das hombreiras, seja por
+assumptos historicos ou legendarios, occupando toda a largura do vão.
+Nas vidraças com assumptos não apparecem os filetes de ferro na
+separação dos vidros. Quando se superpõem, como às vezes acontece,
+muitas figuras e muitos assumptos em um só vão da janella, ficam
+separados uns dos outros por sócos ornatados com decoração
+architectonica da época, e apoiando-se sobre os docéis que formam o
+remate do renque inferior.
+
+Os grandes progressos que foram realisados, no XV seculo, na pintura
+opaca ou de cavallete, e o estado prospero em que ella se achava desde a
+primeira metade do XV seculo, exerceram a mais funesta influencia sobre
+a pintura translucida. Os pintores de vidraças, que quasi sempre eram
+tambem, e mesmo principalmente, pintores de quadros, esqueciam
+diariamente, cada vez mais, que a pintura sobre o vidro é essencialmente
+uma pintura de convenção. Não se contentavam de introduzir nas vidraças
+pintadas um desenho mais correcto, procuravam ainda enganar a vista do
+espectador tão completamente quanto fosse possivel; por outras palavras,
+executavam sobre o vidro composições que só convinham para superficies
+opacas.
+
+No meiado do XV seculo, apparecem nas vidraças pintadas, como nos
+quadros de tela, pequenas paisagens em perspectiva longiqua; estas
+paisagens representavam vistas pittorescas de castellos cheios de
+ameias, edificios de toda qualidade e apresentações dos trabalhos
+agricolas.
+
+No XII e no XIII seculo, as vidraças das egrejas compunham-se de
+pinturas e esculpturas, eram um livro sempre patente, onde os ignorantes
+e bem assim os estudiosos podiam instruir-se nos principaes dogmas da
+Fé, na historia da religião e nos deveres do homem para com Deus e o
+proximo. Esta missão sublime da arte religiosa começou a ser esquecida
+durante o XIV seculo; em muitas vidraças d'esta época, as representações
+exemplares e instructivas são substituidas por brazões e retratos em pé
+dos doadores. No XV seculo, as propensões, cada vez mais profanas, se
+manifestam na escolha dos assumptos reproduzidos nas vidraças pintadas.
+Estas não serviam para instrucção do povo; muitas vezes os principaes
+dignitarios ecclesiasticos e os poderosos do mundo se faziam ahi
+representar sumptuosamente; quando muito, o santo orago apparece atraz
+no segundo plano da pintura, emquanto os brazões de armas se repetem,
+sob fórmas diversas, em todos os lados da vidraça.
+
+
+*Vidraças pintadas no XVI seculo*
+
+
+No XVI seculo, as vidraças pintadas apresentam um aspecto inteiramente
+novo. Todavia o primeiro terço do seculo se passou sem que os processos
+materiaes da pintura sobre o vidro se tivessem modificado; e se a
+_renascença_ não tivesse, desde este momento principiado a influir nas
+composições artisticas, seria difficil distinguir as vidraças dos
+primeiros annos do XVI seculo das do final do seculo precedente. Em
+1540, uma nova côr teve applicação, o _encarnado de ferro_, que se
+juntou na paleta do pintor de vidraças aos tres esmaltes conhecidos
+então: o pardo, o amarello de prata, e a côr para encarnação. Alguns
+annos depois, em 1550, achou-se o segredo de applicar todas as côres,
+preparando-as com um liquefactivo (que não era outra coisa que o pó
+vitreo), incorporando-os pela cozedura nas placas de vidro. Este genero
+de pintura sobre vidro, que teve o nome de _pintura_ ou _apprèt_, deu
+grandissimas facilidades para os pintores de vidraças, e fez mudar
+completamente os processos da arte. O artista preparava primeiramente a
+placa vitrea, pouco mais ou menos como a téla, para a pintura a oleo
+pela maneira de tintas geraes e sitios; sobre estes tons modelava depois
+as figuras e objectos; finalmente traçava as sombras e alcançava o
+effeito com os retoques de côres, emquanto fazia apparecer os pontos
+luminosos, desfazendo com promptidão a tinta opaca afim de deixar ao
+vidro toda a sua translucidez.
+
+Cerca da mesma época descobria-se a propriedade que tem o diamante de
+cortar o vidro, inventando-se o tira-chumbo, que facilitou a producção
+dos filetes de chumbo para segurar os vidros, conseguindo-se tambem
+executar placas de vidro de grande dimensão. Todos estes progressos nos
+processos materiaes produziram uma revolução completa na arte da pintura
+das vidraças, e tiveram por principal resultado o abandono quasi total
+dos vidros tintos na massa.
+
+O estylo das vidraças transforma-se inteiramente no XVI seculo sob a
+influencia artistica do renascimento. Nos edificios religiosos dos
+primeiros annos do XVI seculo, a volta inteira substituiu
+insensivelmente a ogiva. Depois d'esse momento tambem appareceram, sobre
+as vidraças pintadas, ornatos tirados do estylo classico, misturados com
+florões e outras decorações que recordavam ainda a época ogival. Pouco a
+pouco as idéas classicas fazem progressos e conseguem, depois de algum
+tempo, obter a preferencia. Não se vê mais então ovanos, volutas, folhas
+de acantho, festões de flores e fructas. O arco de triumpho ou portico,
+imitado da architectura pagã, forma de ora ávante o moldurado proprio
+das vidraças pintadas em que figuram as personagens e os assumptos. Até
+metade do XVI seculo, o artista se satisfaz em desenvolver, na parte
+inferior da vidraça o assumpto principal com o moldurado que o limita, e
+reserva a parte superior, assim como o tympano para collocar os brazões
+e os symbolos. Poucos annos depois da metade do XVI seculo, em 1560, o
+assumpto e o emmoldurado passam mesmo atravez dos enlaçamentos do
+tympano, se todavia os quizerem respeitar, e não fazel-os desapparecer.
+
+Os assumptos religiosos e symbolicos são raros sobre as vidraças
+pintadas do XVI seculo: vêem-se as mais das vezes os retratos dos
+doadores nas vidraças, onde apparecem representados geralmente de
+joelhos sobre um genuflexorio, quer só, quer rodeados das pessoas de
+suas familias. O orago do sanctuario os acompanha sempre, e os seus
+brazões repetem-se muitas vezes em differentes partes na pintura da
+vidraça.
+
+No XVI seculo, produziu-se uma certa predilecção pelas pequenas
+almofadas pintadas com que se ornavam antes, algumas vezes no final do
+seculo precedente, as vidraças dos edificios publicos, castellos,
+claustros e mesmo as habitações particulares. Essas bonitas pequenas
+almofadas, quer em grizalha retocada com amarello de prata, quer de
+côres differentes, são feitas com bastante tenuidade e delicadeza
+extrema. Ás vezes occupam toda a abertura, ou pelo menos uma das
+divisões principaes da vidraça, outras vezes consistem em simples
+medalhões circulares ou ovaes, circumdados de vidro colorido ou branco.
+As pequenas vidraças pintadas, designadas _vidraças suissas_, porque
+tiveram primeiramente uso na republica Helvetica, pertencem á mesma
+categoria. Estas vidraças, cujo uso se conservou durante os seculos
+seguintes, reproduziram para a nobreza os brazões de familias
+differentes moldurados; para os edificios municipaes, as armarias da
+cidade ou da provincia com figuras de porta-estandartes vestidos com os
+trajos e as armaduras da época; para as abbadias, as armas do mosteiro
+ou a figura em pé do fundador. Os burguezes e as pessoas de profissão
+eram ahi representados com os symbolos do seu officio sobre um escudo.
+Muitas vezes tambem os fidalgos, burguezes e operarios eram
+representados todos nos seus trajos com sua familia. A transparencia e o
+brilho do colorido são geralmente mais vistosos nas vidraças suissas,
+que nas maiores vidraças pintadas.
+
+
+*Vidraças pintadas do XVII seculo*
+
+
+No XVII seculo, a pintura com preparo ou com côres pegadas, continuou a
+ter voga, devido aos aperfeiçoamentos introduzidos na composição e no
+assentar os esmaltes, o que fez abandonar completamente o emprego dos
+vidros duplos e dos vidros tintos na massa. Este genero de pintura,
+muito apropriada para as vidraças pintadas dos aposentos, não convinha
+de maneira nenhuma para decoração das grandes vidraças pintadas, porque
+o artista querendo apresentar grandes sombras e tons fugitivos,
+servindo-se de meias-tintas e de tintas de bistre, tornava a sua pintura
+tão carregada, embaciada e confusa que, por vezes, era difficil
+distinguir os objectos.
+
+A representação de Arcos de Triumpho ou porticos constituia, como no
+seculo precedente, o moldurado forçoso de todas as composições, com esta
+differença, que esses arcos e esses porticos são agora vistos
+obliquamente ou de lado, isto é, em perspectiva, emquanto d'antes
+apresentavam a frente geometral.
+
+Os filetes de chumbo, que anteriormente seguravam tão vantajosamente os
+principaes contornos do desenho, foram considerados como inuteis e mesmo
+causando embaraço na execução da pintura. Não serviram mais que para
+reunir vidros eguaes e quadrados, formando uma especie de canniçado, por
+detraz do qual os artistas pintavam sobre os vidros como se fossem uma
+tela, não fazendo nenhum caso das juntas metallicas.
+
+
+*Vidraças pintadas do XVIII seculo*
+
+
+_No XVIII seculo_, os vidros tintos na massa foram pouco fabricados; seu
+preço era avultado, e sua falta muito grande. Quasi todas as vidraças
+d'esta época são com vidros esmaltados. O esmalte branco, já conhecído
+no XVI e XVII seculo, veiu a ser então de uso geral e formou as
+principaes côres empregadas. A decadencia da pintura das vidraças foi
+completa, e a arte perdeu a tal ponto que havia em Paris um _unico
+pintor d'esta especialidade_, o qual não podia subsistir por este seu
+trabalho.
+
+Finalisando a historia de pintura sobre o vidro, devemos notar uma
+tradição popular muito vulgar que considera, sem razão, a arte da
+pintura sobre o vidro, conforme era feita na edade média, como sendo um
+segredo que se perdeu desde muito tempo. Esta opinião não tem nenhum
+fundamento.
+
+
+*Pilares, columnas e columnasinhas*
+
+
+Na edade média, as designações de _pilar_ e de _columna_ se confundem
+muitas vezes; todavia a palavra _columna_ indica a idéa de um apoio com
+fuste cylindrico. Eucontram-se nos edificios do periodo ogival quatro
+especies principaes de pilares ou columnas: o pilar _quadrado_, a
+columna _monocylindrica_, a columna _cruciforme_ e a columna
+_enfeixada_. A columna monocylindrica dá em secção um _circulo_, e o
+pilar quadrado, um _quadrado_ ou um _rectangulo_; a columna cruciforme
+se compõe de um _pilar central_, tendo sobre _as faces quatro columnas_
+mais ou menos envolvidas; finalmente a columna _enfeixada_, como o nome
+indica, é o resultado da reunião em _mólho_, em roda de um massiço
+formando pilar, _muitas columnasinhas ou nervuras_.
+
+Os pilares quadrados são raros durante o periodo ogival; apparecem no
+começo, e ás vezes as suas arestas são chanfradas.
+
+Em quasi todos os monumentos belgas do XIII e XIV seculos, as columnas
+são monocylindricas. As columnas cruciformes, communs nas cathedraes
+francezas, servem na Belgica principalmente na intersecção da nave e do
+transepte nos grandes edificios.
+
+Os edificios do XV seculo teem as columnas monocylindricas ou
+enfeixadas. As primeiras apresentam ás vezes capiteis; outras vezes são
+inteiramente privadas d'elles. N'este ultimo caso os arcos-duplos e as
+nervuras das abobadas nascem directamente do fuste da columna, no logar
+onde se colloca o capitel. Este genero de columnas se encontra muitas
+vezes em todos os paizes da Europa central e occidental.
+
+No XV seculo, as columnas enfeixadas não são já formadas, como
+precedentemente, de columnasinhas com capitel, porém compostas de
+nervuras _prismaticas em grupo_, á roda de um pilar central. Estas
+nervuras saem da base da columna erguendo-se quasi sempre sem ter por
+intermedio o capitel até ás abobadas do edificio, afim de formar os
+_arcos-duplos_ e os arcos ogivaes; são sempre com a fórma angulosa e
+apresentam secções similhantes ao feitio de um seio. É por excepção que
+se encontram ainda, em certas partes dos monumentos do XV seculo,
+columnas enfeixadas formadas pela reunião de columnasinhas cylindricas
+com capitel.
+
+Os pilares e as columnas são construidas por _fiadas_ na Belgica, na
+Allemanha e no Norte da França. No meiodia da França e na Italia, as
+columnas cylindricas são quasi sempre monolithos.
+
+Durante o periodo ogival, os fustes das _columnasinhas_ não são, como
+muitas vezes no periodo _roman_, cobertas de diversas esculpturas.
+Todavia encontram-se, em alguns edificios dos primeiros annos da época
+ogival, como na cathedral de Chartres em França, e em muitos monumentos
+italianos, columnasinhas _terciaes_ em que o fuste é em espiral.
+
+As columnasinhas tiveram principalmente applicação no XIII e no XIV
+seculos. As que compõem os grandes pilares teem geralmente o seu fuste
+envolvido n'um quarto de circumferencia, os outros tres quartos ficam
+apparentes; algumas, não obstante, estão inteiramente separadas da
+parede ou da columna que fórma o pilar que ellas ornam, como existe nas
+cathedraes de Amiens, França, e de Salisbury, na Inglaterra. No XIII
+seculo, essas columnas são muitas vezes, como as do seculo precedente,
+_anneladas_, ou compostas de engrossamentos em fórma de bracelete.
+
+No XV seculo, estas columnasinhas são raras; ou então substituidas por
+nervuras prismaticas não sómente nas columnas enfeixadas, mas tambem em
+todas as outras partes dos edificios, taes como o molduramento das
+portas e das janellas. Estas nervuras teem base, mas sem capitel.
+
+No principio do XVI seculo tornam a apparecer as columnasinhas com o
+fuste coberto de esculpturas, representando figuras geometricas, festões
+e arabescos. Os fustes das columnasinhas d'esta época são regularmente
+cylindricos: algumas vezes polygonaes ou apresentando a forma de
+_balaustre_.
+
+
+*Bases das columnas*
+
+
+As bases das columnas do XIII seculo compõem-se de dois _tóros_
+separados por uma cavidade redonda (_scocia_) bastante profunda de
+maneira a formar uma calha na qual a agua da chuva se retem afim de não
+prejudicar o cimento da construcção. Algumas vezes o tóro inferior é
+achatado e sobresae bastante por cima do _plintho_; o tóro superior é
+quasi sempre cylindrico; por vezes todavia apresenta uma pequena
+depressão.
+
+Durante a primeira metade do XIII seculo, as bases das columnas estão
+ainda muitas vezes ligadas aos angulos dos seus plinthos _por garras_.
+As garras apparecem por vezes, porém excepcionalmente no final do
+periodo ogival.
+
+Depois do meiado do XIII seculo, a _scocia_ profunda, que indica um dos
+signaes caracteristicos das bases da ultima metade do XII seculo e do
+principio do XIII seculo, desapparece pouco a pouco, assim como o
+achatamento do tóro inferior. As bases passam depois successivamente
+pela fórma polygonal ou cylindrica; pertencendo a primeira d'este feitio
+ao XIII seculo, e a segunda ás bases do XVI seculo.
+
+Quando o tóro inferior da base desdobra muito sobre o plintho da
+columna, põe-se algumas vezes um pequeno apoio por baixo do t­óro. Esta
+particularidade, sem belleza, se encontra nos edificios francezes e da
+Belgica.
+
+O sóco sobre o qual vem assentar a base da columna do XIII e do XIV
+seculos, fórma, quasi sempre, um octogono regular; algumas vezes,
+comtudo, é quadrado (nos edificios dos primeiros annos do periodo
+ogival) ou cylindrico. Os _sócos cylindricos_ se encontram em muitos
+monumentos belgas do XIII e do XIV seculo: tambem são bastante communs
+na Inglaterra: em França servem na Normandia, na Bretanha e no Maine.
+
+No XV seculo, a base e plintho das columnas monocylindricas são
+extraordinariamente delgadas. A base é formada sempre por uma simples
+moldura do feitio de tóro. Muitas vezes esta moldura, que nos seculos
+precedentes era traçada sobre um plano circular, toma a fórma polygonal
+do sóco.
+
+Nas columnas enfeixadas do seculo XV, as pequenas bases parciaes das
+nervuras prismaticas ou cylindricas em grupo á roda do pilar central,
+formam, pela sua reunião e penetração, a base e o sóco da columna.
+Durante a primeira metade d'este seculo, as pequenas bases teem todas o
+mesmo perfil e ficam ao mesmo nivel. Mais tarde, os architectos
+costumaram perfilar as bases parciaes em niveis differentes, como para
+melhor fixar cada columnasinha e para evitar tantas compridas linhas
+horisontaes.
+
+_Capiteis_.--Durante todo tempo do periodo ogival, ornaram regularmente
+com bellas esculpturas os açafates dos capiteis. Houve comtudo excepções
+a esta regra, e por isso se encontram em alguns edificios religiosos de
+segunda e terceira ordem do XII e do XIII seculo, limitados por uma
+simples moldura.
+
+Os capiteis do XIII seculo distinguem-se com facilidade pela
+ornamentação vegetal de um caracter mui particular. O seu açafate
+compõe-se geralmente de um, de dois, e algumas vezes mesmo de tres
+renques de crochetes ou enroscamento de folhagens. Os crochetes de
+renque superior supportam quasi sempre os angulos do abaco, e
+substituem, de alguma maneira, o emprego dos modilhões. No final do XII
+seculo e no principio do XIII seculo, teem a sua extremidade enroscada e
+parecem rebentos de vegetaes. Em França desde o final do XII seculo, e
+na Belgica um pouco depois, as extremidades dos crochetes se desenrolam,
+e os rebentos se abrem em folhagens.
+
+Algumas vezes os crochetes, em logar de acabarem por folhagens
+enroscadas ou abertas, trazem no seu cume cabeças de homens e de animaes
+verdadeiros ou phantasticos.
+
+Os capiteis com crochetes enroscados, cujo emprego então estava
+abandonado em toda a parte no final do XIII seculo, continuou na
+Flandres maritima até ao fim do periodo ogival. Além d'isso, os
+crochetes teem, n'esta região, uma fórma especial; seus enroscados são
+muito mais chatos e mais largos.
+
+A ornamentação dos capiteis do XIV seculo consiste em ramos de
+folhagens, de flôres e de fructos, de fórma muito variada, nas quaes se
+acham todos os caracteres da esculptura ornamental do XIV seculo. Os
+crochetes, apropriadamente assim designados, não apparecem mais que
+excepcionalmente com os capiteis d'esta época: todavia os ramos de
+folhagens e de flores são geralmente collocados, nos angulos do abaco,
+de maneira a recordar pelo seu vulto os crochetes do XIII seculo, e
+servem para o mesmo fim. Muitas vezes estes ramos são dispostos sobre
+dois renques; esta maneira se nota sempre quando, como acontece
+repetidas vezes, o açafate é composto de duas peças sobrepostas, e mesmo
+algumas vezes, quando o capitel é formado de uma só pedra.
+
+As figuras de animaes reaes ou phantasticos se encontram poucas vezes
+sobre os capiteis do XIII e do XIV seculos.
+
+Os capiteis do XV seculo teem, como os dos seculos precedentes, o seu
+açafate coberto de folhagens; porém essas folhagens apresentam
+geralmente mais ou menos desenvolvimento; são delgadas, angulosas, muito
+recortadas, muito profundas e exaggeradas. Com o XV seculo, appareceu
+sobre os capiteis o ornato vulgarmente designado _folha de repolho_.
+
+Em muitos ornamentos do XV seculo, os architectos, levados pela
+applicação muito rigorosa do preceito que qualquer ornato deve ter ao
+mesmo tempo um emprego necessario, supprimiram o capitel. N'estes casos,
+os arcos-butantes e as nervuras das abobadas sobem, sem intermediario,
+do fuste cylindrico, ou então nascem na base mesmo da columna, seguindo
+toda a largura do fuste até ao nascimento das abobadas, e tomam, n'esse
+logar, as differentes direcções convenientes para a construcção das
+abobadas.
+
+As columnas cylindricas com capitel são usadas nos edificios belgas do
+XV seculo, mas são bastante raras em França.
+
+
+*Modilhões e misulas*
+
+
+É um apoio que faz saliencia sobre a face de uma parede ou de uma
+columna que se chama _modilhão_ quando tiver dois lados lateraes
+parallelos e perpendiculares á parede; e _misula_, quando apresentar uma
+outra differente posição.
+
+Depois do meiado do XIII seculo, os modilhões do feitio de curvas são
+raros.
+
+As misulas apresentam por vezes uma tal ou qual similhança com os
+capiteis, e são tambem sempre rematadas por um abaco; differençam-se
+comtudo, as mais das vezes, pelo seu genero de ornamentação. Na verdade,
+as esculpturas dos capiteis do periodo ogival reproduzem quasi sempre
+vegetaes: e sómente por excepção mostram figuras de homens ou de
+animaes. Sobre as misulas, pelo contrario, a ornamentação vegetal não
+apparece, por assim dizer, senão no XIII seculo, e mesmo é rara; durante
+os dois seculos seguintes desapparece, e então as misulas são
+constantemente formadas de personagens grotescas, acocoradas, de animaes
+reaes ou phantasticos, e algumas vezes tambem de cabeças humanas, ou
+figuras de anjo e de homem sustentando escudos, disticos e bandeirolas.
+
+Muitas vezes as misulas, collocadas quer no interior, quer no exterior
+dos edificios, são pintadas com côres vivas.
+
+
+*Arcadas e arcaduras*
+
+
+As grandes arcadas ou archivoltas ligando os pilares das naves e
+sustentando o peso das paredes superiores, compõem-se regularmente de
+dois ou tres renques de sobre-arcos nos edificios do periodo ogival. Os
+perfis variam nos differentes seculos.
+
+No XIII seculo, e mesmo ainda no XIV seculo, as arestas da archivolta
+são formadas por tóros inscriptos na face quadrada da peça do arco; no
+XIV seculo e durante uma grande parte do XV seculo, os tóros já não são
+completamente cylindricos, mas teem antes do termino a curva d'esta
+moldura, um filete destinado a deter a força do reflexo; no final do XV
+seculo e no principio do XVI, os tóros cylindricos tornam a apparecer.
+
+As _arcaduras_ são bastante vulgares nos monumentos do periodo ogival;
+servem para ornar o liso das paredes internas e exteriores dos
+edificios. Na parte interna apparecem principalmente no _triforium_ e
+por baixo dos peitorís das janellas das naves lateraes; na parte
+exterior, por baixo das cornijas e nos frontespicios, nos vasamentos dos
+grandes portaes e nas galerias dos claustros.
+
+As arcaduras que se vêem em baixo das janellas de quasi todos os grandes
+monumentos, compõem-se de uma serie de pequenas arcadas fingidas,
+collocadas entre os peitorís das janellas e o solo ou no sóco de
+cantaria que fórma, muitas vezes, uma especie de base ao longo das
+paredes das naves lateraes.
+
+No XIII seculo, as curvas das arcaduras assentam sobre columnellos mais
+ou menos embebidos na parede. No XIV e no XV seculos, os _columnellos_
+ficam substituidos por simples nervuras, ás vezes cylindricas; porém as
+mais das vezes a secção polygonal não differe muito da de uma
+semi-hombreira de janella. Estas nervuras teem remate junto do solo,
+sobre as bases que lhes pertencem. No final do periodo ogival,
+supprimem-se, por vezes, as nervuras, e então as _arcaduras_ assentam
+sobre modilhões.
+
+No XIV e no XV seculos, as arcaduras sobre os peitorís das janellas
+ligam-se inteiramente com as hombreiras das janellas e parecem, de
+alguma maneira, confundir-se com elles: parecendo que atravessam a
+cantaria do peitoril e descem até ao solo. As arcaduras não são mais do
+que a parte inferior da janella que está tapada, e na verdade, a parede
+necessitando de diminuir para dentro, ficando á face da vidraça, afim de
+deixar metade do peitoril apparente, conserva apenas uma pequena
+grossura, que equivale a uma simples divisão.
+
+Nos edificios mais esmerados, os _seguintes_, isto é, os lados
+triangulares comprehendidos entre os extradoz das archivoltas e de duas
+_arcaduras_, proximas uma da outra, estão geralmente ornatados com
+esculpturas, pinturas ou rendilhados, mostrando a fórma trilobada ou
+quadrilobada, e com vidros pintados, emquanto as paredes que separam os
+entre-columnios, apresentam pinturas decorativas.
+
+As esculpturas e as pinturas com as quaes se decoravam os _seguintes_
+das arcaduras, durante o periodo ogival, são ora legendarios ou
+satyricos, ora tirados do reino vegetal. Nos monumentos inglezes do XIII
+seculo, os _seguintes_ estão muitas vezes com ornatos similhantes a
+estofo cheio de relevo.
+
+Dentro das grandes egrejas do XV seculo existem como decoração as
+arcaduras e outras figuras por cima e por baixo do _triforium_, sobre o
+dorso das grandes arcadas e ao correr das janellas mais superiores; ás
+vezes mesmo sobre o liso das paredes e em outras partes do edificio.
+
+
+*Triforium*
+
+
+Os _triforiums_ comprehendem toda a largura das naves lateraes, não se
+vêem senão por acaso nos edificios do periodo ogival. Desde o final do
+XII seculo, lhes substituiram, nas egrejas da Europa occidental,
+galerias estreitas, abertas na grossura da parede, por baixo dos
+peitorís das janellas superiores da nave principal. Estas galerias
+estreitas offereciam commodidade: em primeiro logar facilitavam a
+circulação dentro da egreja quasi á altura das janellas superiores, e
+davam logar a collocarem-se as armações e outros adornos com que havia o
+costume de decorar as egrejas nos dias de festa; e em segundo logar,
+diminuindo a grossura das paredes superiores, alliviavam a pressão
+exercida sobre os pilares principaes dos edificios; finalmente,
+offereciam uma das mais importantes disposições para a decoração da nave
+principal.
+
+O triforium communica com o interior da egreja por series de arcaduras
+abertas, tendo o mesmo feitio que as arcaduras que havia sobre o liso
+das paredes, debaixo dos peitorís das janellas inferiores. Muitas vezes,
+principalmente no XV seculo, tapava-se a parte inferior da arcadura com
+um parapeito formando ornato de feitio de trêvo ou de quatro folhas.
+
+Nota-se que nos triforiums, assim como nas arcaduras com ornato, as
+archivoltas ficam assentes sobre columnatas com capitel pertencente ao
+estylo do XIII seculo, e sobre _nervuras das hombreiras_ dos seculos
+seguintes. A disposição das arcaduras do triforium apresenta ainda uma
+outra analogia muito parecida com as arcaduras de ornato, formando
+regularmente, desde o final do XIII seculo, a continuação das janellas
+das naves lateraes. Depois d'esta época tambem as arcaduras do triforium
+se assemelham ás janellas superiores da nave principal.
+
+No termo do periodo ogival, supprimem-se muitas vezes as arcaduras, não
+conservando mais do que um simples guarda-peito; o ornamento denominado
+_chama_ apparece regularmente nos desenhos que formam as hombreiras
+d'esses guarda-peitos. As janellas superiores ficam, n'este caso,
+collocadas a prumo sobre a parede exterior do triforium.
+
+Na Belgica, o triforium é geralmente tapado do lado exterior da nave por
+uma parede; é, por excepção, que esta parede tem abertura, e a um ou
+dois metros por cima do pavimento da galeria, pequenas aberturas
+circulares, _trilobadas_ ou _quadrilobadas_, cobertas de grisalhas ou
+com ornatos elevados. Nos edificios francezes do XIII e XIV seculos,
+pelo contrario, a galeria do triforium não fica, as mais das vezes,
+separada do exterior senão por uma simples lumieira, apresentando bellos
+vidros pintados, semelhantes aos que decoram as janellas.
+
+
+*Cornijas*
+
+
+As cornijas do estylo ogival têem geralmente pouca importancia. Nos
+edificios que pertencem ao periodo de transição, e mesmo, na Belgica, em
+algumas que são dos primeiros annos do periodo ogival, o _larmier_
+superior da cornija assenta ainda muitas vezes, de distancia em
+distancia, do mesmo modo que na época _roman_, sobre cachorros servindo
+de modilhões, com muita sacada, mas de grande simplicidade.
+
+Em França, as cornijas dos monumentos mais principaes compõem-se, quasi
+sempre, de duas fiadas de cantaria. A fiada inferior está ornada de
+crochetes vegetaes no XIII seculo, de folhagens ondeadas no XIV, e de
+folhas de repôlho encrespadas no XV. Algumas vezes vê-se tambem, entre
+estas esculpturas, modilhões formados por cabeças humanas ou por
+carrancas.
+
+As cornijas dos grandes edificios belgas apresentam as mesmas fórmas
+geraes que as cornijas francezas, porém não têem esculpturas, sendo
+substituidas por arcaduras simples, ogivaes, ou triboladas. Estas
+arcaduras apparecem principalmente nos paizes onde, durante o periodo
+Roman, as arcaduras serviam de decoração, imitando-se o estylo Lombardo,
+e foram usadas para ornar certas partes dos edificios.
+
+Desde o começo da ultima metade do XIII seculo até o final do XIV, os
+edificios de segunda ordem, e mesmo os de primeira ordem na Belgica,
+têem as cornijas compostas de simples perfis, formados por um pequeno
+numero de molduras pouco importantes.
+
+
+*Platibandas*
+
+
+As _platibandas_ que corôam as cornijas no exterior dos edificios
+principiaram nos primeiros annos do XIII seculo. Antes, a agua da chuva
+caía dos telhados directamente sobre o solo; até o meiado do XIII seculo
+sómente os edificios mais importantes tiveram canos de chumbo para dar
+vasão á agua da chuva e se assentaram platibandas sobre a beira do
+telhado. Estas platibandas encanavam a agua por gargúlas, que a lançavam
+para longe da face das paredes, e impediam por esta maneira que as aguas
+da chuva podessem prejudicar a base da construcção, introduzindo-se-lhe
+a humidade. As platibandas, cujo destino principal era evitar o perigo
+que apresentava passar sobre as gargúlas, facilitam além d'isso os
+concertos do telhado, e resguardam das telhas da beira quando cáem;
+permittindo aos architectos darem melhores decorações ao exterior dos
+monumentos.
+
+As mais antigas platibandas têem a fórma de arcaduras rendilhadas,
+compostas de columnatas, sobre as quaes vem assentar um remate vasado,
+na sua parte inferior, em arco ogival, _trilobado_. No final do XIII
+seculo substituiram-se as arcaduras pelas folhas de trêvo e de quatro
+folhas vasadas.
+
+A altura e o feitio das platibandas variam conforme os materiaes
+empregados. No XIV seculo as platibandas, as mais das vezes, tinham
+folhas de trêvo e de quatro folhas, vasadas e divididas de distancia em
+distancia, na prumada dos contra-fortes, por pinaculos. No XV seculo, as
+prumadas são compostas, umas vezes pela reunião de rhombos, de
+triangulos equilateraes curvilineos, ou por figuras geometricas
+angulares; outras vezes por desenhos flammejantes, parecidos com os que
+caracterisam os tympanos das janellas d'esta época. No final do XIV
+seculo apparecem, principalmente nos edificios civis, as platibandas com
+ameias, nas quaes se vêem os mesmos feitios que nas platibandas
+vulgares. O seu uso persistiu até ao final do periodo ogival.
+
+As platibandas com arcaduras verticaes apparecem ainda aqui ou acolá nos
+edificios do XIV, XV e mesmo do XVI seculo.
+
+_Abobadas_. As abobadas ogivaes distinguem-se ao mesmo tempo pela sua
+elegancia e leveza. Isto foi resultado da pouca grossura dos triangulos
+do enchimento que vedava a parte composta de arcos-duplos e de nervuras.
+Comtudo a leveza não excluia a solidez; pelo contrario, as abobadas
+ogivaes são mais solidas e mais resistentes que as dos periodos
+anteriores, posto que sejam muito menos massiças.
+
+_Estabilidade e plano das abobadas_. Já explicámos que a estabilidade
+das abobadas não depende do mesmo principio dos edificios antigos e do
+periodo ogival; e fizemos notar, em poucas palavras, os progressos tão
+importantes realisados pelos architectos do XII e XIII seculos nas
+construcções das abobadas.
+
+Fizemos tambem conhecer que as abobadas com o feitio das nervuras, como
+são construidas as abobadas ogivaes, causam um esforço lateral que tende
+a desviar para fóra dos seus pontos de apoio as columnas, contra-fortes
+ou paredes. Os constructores do periodo ogival evitavam esse esforço
+lateral, oppondo-lhe quer um esforço em sentido inverso, quer um
+obstaculo rigido que, impedindo de operar, resolveu-o empregando cargas
+verticaes. É caso particularmente para notar, porque constitue
+egualmente uma differença essencial do systema de construcção dos
+antigos, esses obstaculos apresentam as dimensões unicamente necessarias
+para preencher o fim ao qual são destinados.
+
+Esta neutralisação dos esforços lateraes não se obtem da mesma maneira
+nos edificios religiosos, cuja nave principal é notavelmente mais alta
+do que as naves lateraes, e n'aquelles em que todas as naves teem egual
+altura.
+
+_Egrejas que teem a sua nave central muito mais elevada do que as outras
+lateraes_. Foi o systema adoptado, desde o final do XII seculo, pelos
+constructores da Europa occidental, afim de conservar o equilibrio das
+differentes partes de que se compunham os seus monumentos; porque o
+arco-duplo da abobada principal á parede mestra, o arco butante, o
+contraforte e a columna que separavam a nave principal da nave lateral
+do seu arco-duplo, formavam um triplo esforço motivado pelo arco-duplo
+da abobada principal e os seus dois arcos ogivaes, que faziam pender
+para fóra a parede mestra do edificio. A este esforço, o constructor da
+edade média oppunha o arco butante, que vinha apoiar-se sobre a parede
+mestra, ficando collocado ao mesmo nivel. Por esta maneira o esforço
+triplo causado n'esse ponto era transferido sobre o contraforte, onde se
+quebrantava por causa da sua rigidez; e devido a essa rigidez, o seu
+peso juntando-se ao da parede mestra do edificio, que comprime sobre a
+columna que sepára as duas naves; por ambas as forças reunidas,
+tornava-se esta bastante fixa para aguentar e neutralisar o triplo
+esforço exercido pelo arco-duplo da nave lateral e pelas nervuras
+proximas da mesma nave. O esforço do arco-duplo d'esta nave e das duas
+nervuras ficam supprimidas pelo encontro do contraforte.
+
+_Egrejas em que as naves ficam na mesma altura_. N'estas egrejas os
+esforços lateraes que a abobada da nave principal opéra sobre os seus
+pontos de apoio ficam diminuidos pela pressão das abobadas exteriores
+d'estas mesmas naves lateraes, ficando supprimidos pelos contrafortes,
+geralmente bastante salientes, os quaes lhes oppõem um obstaculo rigido,
+que produz o equilibrio das abobadas.
+
+_Abobadas de feitio de tecido_. As abobadas sobre plano _quadrado
+longo_, formadas por arcos ogivaes que se entroncam uma só vez, foram
+geralmente abandonadas proximo do meiado do XV seculo. Apparecem então
+as abobadas em _tecido_, designadas tambem pelos archeologos, abobadas
+_com divisões prismaticas_. N'estas abobadas as nervuras bifurcam-se,
+ramificam-se e encruzam-se em todos os sentidos, de maneira a figurar um
+verdadeiro tecido, como está representado na surprehendente abobada do
+cruzeiro da egreja monumental dos Jeronymos em Belem. Todos os pontos de
+intersecção das nervuras estão regularmente ornados de esculpturas.
+
+_Perfis das nervuras nas abobadas ogivaes_. As nervuras ou arcos ogivaes
+das abobadas construidas no final do periodo Roman consistem muitas
+vezes em um grosso tóro, algumas vezes tendo dois ou quatro tóros de
+menos vulto. Os arcos-duplos da mesma época, muito mais massiços que as
+nervuras, apresentam secções quadradas ou rectangulares, e teem os
+angulos das partes concavas da abobada talhadas em tóro. Desde o
+principio do XIII seculo, os arcos-duplos tiveram, com raras excepções,
+os mesmos perfis que os arcos ogivaes.
+
+Durante os primeiros annos do periodo ogival, vê-se ainda arcos-duplos e
+arcos ogivaes muito grossos, semelhantes aos dos edificios romans.
+Todavia não tardou a adelgaçarem, a diminuirem de grossura. Pouco
+depois, a parte redonda do tóro principal apresenta uma aresta viva.
+Esta fórma teve logar em França desde o final do XII seculo, e na
+Belgica sómente no meiado do seculo seguinte. Mais tarde, em França ao
+principio, e na Belgica proximo do meiado do XIII seculo, a aresta viva
+é substituida por um filete, que ficou adoptado até ao final do periodo
+ogival. Nos edificios francezes apparece tambem o filete sobre os tóros
+secundarios desde o meiado do XIV seculo. No final do XV e no começo do
+XVI seculo, as nervuras apresentam muitas vezes o perfil composto de
+molduras concavas e redondas.
+
+Comparando-se os perfis mais antigos com os mais recentes, nota-se que
+os primeiros apresentam uma superficie mais larga e menos alta que as
+dos ultimos. Esta mudança na fórma dos perfis não se fez sem motivo: os
+constructores tinham aprendido por experiencia que a resistencia de um
+arco ou de uma nervura está em razão directa da altura da peça de voltas
+e não em razão da sua largura.
+
+_Fecho da abobada_. No XII seculo, tinham principiado a ornar com
+esculpturas os fechos da abobada. Estes primeiros fechos esculpidos
+representavam Jesus Christo deitando a benção, o Cordeiro Divino, Nossa
+Senhora, os anjos, os animaes symbolicos dos evangelistas, santos, e
+muitas vezes tambem carrancas ou animaes phantasticos. Nas abobadas dos
+edificios de segunda ordem contentavam-se algumas vezes de indicar um
+simples florão ou entrelaços.
+
+No XIII seculo o emprego dos fechos de abobadas com esculpturas veiu a
+ser geral, sendo representado nas abobadas do côro, Jesus Christo, o
+Cordeiro Divino, os symbolos dos evangelistas e outros objectos
+religiosos. Na nave principal e nas lateraes a ornamentação distingue-se
+por ser vegetal. Os fechos de abobada no XIV seculo, e tambem na
+primeira metade do XV seculo, apresentam bastantes vezes a mesma
+decoração que a do XIII seculo; todavia na sua esculptura vegetal ha os
+caracteres proprios da ornamentação de cada um d'estes seculos. No XV
+seculo, os brazões dos bemfeitores da egreja são esculpidos
+frequentemente sobre os fechos da abobada.
+
+No final do XV seculo, apparecem os fechos da abobada ornados de um
+appendice que recebeu o nome de _pendente_, que ficou em uso durante uma
+parte do XVI seculo, imitando stalactites que estão suspensas ás
+superficies superiores das grutas. Algumas vezes tem o feitio de um
+florão ou um ornamento extravagante; outras representa uma estatua
+pegada á abobada.
+
+Muitas vezes os fechos da abobada são furados por um buraco circular,
+para se poder içar os sinos e outros objectos acima das abobadas: como
+havia dois oculos na abobada da egreja de Belem, indicando não sómente
+essa applicação, mas que o edificio _deveria ter duas torres_: todavia,
+construiram modernamente um torreão colossal, que esmaga aquelle
+monumento, e não respeitaram o que fôra projectado na sua primitiva
+edificação!
+
+_Arcos butantes_. Chama-se _arcos butantes_ aos arcos destinados a
+transportar até aos contrafortes exteriores o esforço lateral das
+abobadas mais elevadas de um edificio. Nascem dos contrafortes e
+apoiam-se sobre as paredes da nave principal nos differentes pontos onde
+vão confinar os resultantes dos _encostes_ dos arcos ogivaes e dos
+arcos-duplos.
+
+Já explicámos os dois systemas empregados durante o periodo roman para
+contramurar o esforço lateral produzido pelas abobadas superiores sobre
+as paredes altas das egrejas em que a abobada principal é muito mais
+alta que as outras das naves inferiores, e notámos os inconvenientes que
+resultavam de uma e de outra applicação. Estes dois systemas foram em
+pouco tempo abandonados, primeiramente porque a nave principal ficava
+sem claridade, sobretudo nos edificios de maior largura, e em segundo
+logar porque, n'um como no outro systema, as abobadas das naves lateraes
+precisavam de ser muito altas para attingir o ponto onde se effectuava o
+encontro combinado das nervuras das abobadas altas. Raciocinadores
+dispostos a sujeitar tudo aos principios dos architectos do XII seculo e
+do XIII seculo, conheceram que os semicirculos das abobadas em berço
+contiguo, do qual alguns dos seus antecessores se tinham servido com o
+fim de neutralisar o esforço lateral das abobadas altas, não era
+necessario na sua fórma completa, e que se obtinha o mesmo resultado
+applicando sobre a parede exterior do edificio no ponto onde viesse dar
+a resultante dos encostes, um arco partindo de um contraforte exterior:
+foi esta combinação que deu origem aos arcos-butantes.
+
+Para que satisfaça á sua applicação deve o arco-butante: 1.^o, ter as
+juntas das peças de sua construcção _normaes_ ou perpendiculares á curva
+por elle descripta; 2.^o, ficar o seu vertice sobre a parede exterior no
+ponto onde passe a resultante do esforço da abobada. Esse ponto acha-se
+entre o nascimento das nervuras ou arcos ogivaes e perto da metade da
+altura da abobada. Em theoria esse ponto é um ponto geometrico; todavia
+na prática é preciso que a summidade ou cabeça do arco-butante seja
+larga; primeiro porque é impossivel, na execução, determinar de uma
+maneira exacta a direcção da resultante dos differentes esforços das
+abobadas; depois porque a direcção d'esta linha póde facilmente
+desviar-se em resultado de ter dado de si nos pontos de apoio verticaes,
+effeito que acontece frequentemente nas grandes construcções medievaes
+cujos pontos de apoio são delgados e supportam uma pesada carga.
+
+Os arcos-butantes são geralmente reforçados, no seu _extradoz_, por um
+encosto em linha recta, construido em cantaria. O espigão d'este encosto
+é muitas vezes ornatado de _crochets_.
+
+Desde o final do XII seculo e no principio do XIII seculo, os
+arcos-butantes vieram a ser de uso geral em todos os grandes monumentos
+religiosos, cuja nave principal era mais alta que as naves lateraes. Os
+mais antigos são geralmente formados por um quarto de circulo. Depois a
+curvatura veiu a ser menos curva, approximando-se da linha recta.
+
+Empregaram tambem desde os primeiros annos do XIII seculo,
+arcos-butantes _duplos_, isto é, dois arcos-butantes collocados um por
+cima do outro.
+
+Os arcos-butantes foram empregados durante todo periodo ogival; todavia
+eram menos usados durante a ultima metade do XV seculo. Em muitos
+monumentos d'esta época, mesmo os mais principaes, julgavam-se
+sufficientes os contrafortes muito massiços e salientes para diminuir o
+esforço das abobadas.
+
+Quando no principio do XIII seculo collocaram por baixo do madeiramento
+um canal para receber as aguas da chuva, dirigiam as aguas do telhado
+principal para os contrafortes exteriores por um canal de cantaria posto
+sobre o capello do arco-butante. As aguas passavam atravez no cimo dos
+contrafortes, e eram depois lançadas fóra por gargulas, caindo afastadas
+da base do monumento. As infiltrações causadas pela passagem das aguas
+sobre o capello dos arcos-butantes, e atravez dos contrafortes,
+produziram damnos tão consideraveis nas construcções que ficou em pouco
+tempo abandonado este systema de dar escoante ás aguas da chuva.
+
+_Contrafortes_. Durante os primeiros annos do periodo ogival, os
+contrafortes dos edificios de abobadas foram demasiadamente engrossados
+e tiveram bases bastante salientes; á proporção que se elevavam assim,
+iam diminuindo consideravelmente por grandes resaltos successivos sobre
+cada uma das faces.
+
+No meiado do XIII seculo, os contrafortes ficam mais regulares,
+erguem-se quasi verticalmente da base á extremidade superior, e não
+apresentam já por cima do envasamento um ou dois resaltos bastante
+pequenos e sómente sobre a face principal.
+
+Estes contrafortes terminavam por uma face chanfrada que ia ter até á
+cornija, e muitas vezes era de fórma abahulada, quando ficavam isolados
+ou excediam a base do madeiramento. Nos monumentos principaes
+limitavam-se algumas vezes a pôr pinaculos, e ornavam as suas faces
+lisas de arcaduras e estatuas postas sobre misula, tendo docel.
+
+No XIV seculo a fórma dos contrafortes ficou quasi a mesma que durante a
+ultima metade do seculo precedente. Tinham a sua extremidade, como
+d'antes, quer em pinaculos e fórma abahulada, quer ficando os pinaculos
+assentes sobre base quadrada ou octogona, terminando por agulhas
+pyramidaes, cujas arestas estão ornadas de cróchets.
+
+Os contrafortes do XV seculo semelham-se ainda muitas vezes aos dos dois
+seculos precedentes. Como estes, apresentam, de distancia em distancia,
+diminuição de grossura pouco apparente sobre a sua face anterior, e são
+ornados de arcaduras, nichos e doceis, ornamentação no gosto da época.
+Todavia, desde o fim do XIV seculo, principiaram a modificar algumas
+vezes a sua disposição; regularmente deixaram subsistir a base quadrada
+ou rectangular, tendo a face anterior parallela e as duas faces lateraes
+perpendiculares com o liso da parede; porém, a certa distancia acima do
+solo (ao primeiro ou segundo resalto), a face anterior, parallela á
+parede, passa a ser angular; mesmo ás vezes se vêem contrafortes cuja
+face anterior fica angular á parede desde a base do edificio. Estes
+contrafortes, com lados chanfrados, acabam como todos os outros, por um
+plano inclinado, platafórma ou espigão de feitio abahulado, ou por um
+pinaculo bastante ornado.
+
+No XIII e no XIV seculo, os contrafortes collocados no ponto de
+intersecção de paredes que se encontram em angulo recto, são sempre em
+numero de dois. No XV seculo, julgavam ás vezes ser sufficiente um unico
+contraforte collocado de maneira a fazer face ao angulo; sendo estes
+contrafortes angulares muito communs nos edificios d'esta época.
+
+Por causa do excessivo esforço lateral que produzem sobre os seus pontos
+de apoio, as abobadas ogivaes necessitavam o emprego de contrafortes com
+base de bastante largura. Nos monumentos dos primeiros annos do periodo
+ogival, esses contrafortes, que teem tres de suas faces inteiramente
+livres, apresentam saliencias grandes sobre as paredes exteriores dos
+edificios. Estas sacadas desagradaram em pouco tempo aos constructores,
+que cogitaram em as diminuir ou fazel-as desapparecer inteiramente
+disfarçando os contrafortes. Para esse fim recuáram até á parede mestra
+a divisoria que havia antes na nave lateral, aproveitando na parte
+interna do monumento o espaço de um rectangulo que communicava com a
+extremidade da nave lateral e servia ás vezes de capella.
+
+Nos edificios do periodo ogival, cobertos por simples fôrro do tecto, de
+madeira, os contrafortes tinham pequena sacada sobre o liso das paredes.
+
+_Gargulas_. Dá-se o nome de _gargulas_ aos canaes salientes pelos quaes
+as aguas da chuva sáem dos telhados e são lançadas longe da base das
+paredes dos edificios. Teem quasi sempre a configuração de animaes
+monstruosos e phantasticos, e raramente a figura humana. Admira-se,
+n'estas esculpturas, uma variedade prodigiosa, e seria difficil de achar
+duas do mesmo feitio, todavia a maior parte dos edificios ogivaes
+apresentam um grande numero. N'este genero ha duas no nosso paiz
+bastante exquisitas, uma no angulo da cimalha da egreja de Caminha, na
+capella mór, voltada para o norte da fronteira do paiz, estando a figura
+humana revirada, isto é, em posição dobrada, com a cabeça para o lado do
+telhado e a parte trazeira do corpo para fóra do edificio, e é pelo anus
+que sáem as aguas da chuva: no castello de Pombal ha outra com a figura
+de mulher na mesma attitude, saindo a agua da chuva pelo que distingue o
+seu sexo. Eram de proporções curtas e solidas no principio da sua
+applicação; vieram a ser mais compridas e com melhores fórmas desde o
+final do XIII seculo.
+
+_Nichos e doceis_. Dá-se o nome de _nicho_ a qualquer espaço aberto,
+mais ou menos profundo, feito na grossura de uma parede, pilar ou
+contraforte, para n'elle se collocar uma estatua, um grupo, um vaso, ou
+qualquer objecto de decoração. Os nichos apparecem poucas vezes nos
+monumentos do XIII e XIV seculos; n'essa época as estatuas, com as quaes
+ornavam ás vezes certas partes dos monumentos, eram postas sobre misulas
+salientes, tendo doceis egualmente salientes sobre a face das paredes.
+
+No XV seculo, o uso dos nichos vem a ser mais geral; vêem-se bastantes
+vezes no exterior dos monumentos, sobre as fachadas, nos contrafortes e
+nos tympanos dos portaes.
+
+Os doceis, isto é, os remates salientes, mais ou menos ornamentados de
+esculpturas, ficando collocados por cima da cabeça das estatuas, são
+muito geraes desde o final do periodo roman. No XII e no XIII seculos,
+esses doceis primitivos representam quasi sempre edificios, fortalezas,
+e mesmo algumas vezes cidades inteiras cercadas de muralhas. Não havia
+ainda n'esta época, por cima, pinaculos ou pyramides delgadas, posto que
+em certas partes do centro da França, as tiveram desde o meiado do XIII
+seculo, sendo terminadas por _clochetons_. As fórmas architectonicas dos
+edificios representadas pelos doceis são muitas vezes anteriores á época
+em que foram esculpidos; é por isso que no XIII seculo apparecem n'elles
+zimborios, arcos de volta inteira, etc., que todavia não se vêem já nos
+monumentos contemporaneos.
+
+No XIV seculo, os doceis mudam totalmente de aspecto, cobrem-se de
+arcaduras com ornamentação e com outros detalhes imitados da
+architectura; teem geralmente por cima vistosos pinaculos, muitas vezes
+vasados.
+
+No XV seculo, apresentam quasi as mesmas fórmas que no seculo
+precedente, porém exaggeradas; sendo os doceis contornados
+demasiadamente, e a sua ornamentação feita com muita delicadeza.
+
+_Madeiramentos_. Distinguem-se, nos edificios do periodo ogival, duas
+especies principaes de madeiramentos: os que não ficavam apparentes,
+porque não revestiam as construcções abobadadas, e os apparentes que se
+empregavam nos edificios que não tivessem abobadas, sendo estes que
+interessam sobretudo os archeologos.
+
+Quando os madeiramentos ficam apparentes, isto é, visiveis no interior
+do edificio, apresentam sempre o aspecto de uma abobada de fórma de
+berço. Este berço é algumas vezes semi-cylindrico, semelhante aos que se
+encontram em algumas egrejas romans; as mais das vezes, todavia, são
+traçados por tres centros. _Ripas_ de carvalho, ou de qualquer outra
+especie de madeira, tendo as juntas sobrepostas, são pregadas sobre as
+_cambotas_, circulares ou ogivaes, formadas pelas asnas e _varedo_.
+Tendo pinturas por decoração, e algumas vezes as extremidades das peças
+de madeira ficam visiveis, tendo esculpturas, que representam anjos com
+escudos ou phylacterias, cabeças de gente, figuras de cocoras com
+carranca, ou animaes phantasticos. Muitas vezes as nervuras ou as
+_franquias_ ficam parallelas ás nervuras das _asnas_, porém sendo mais
+estreitas, estão pregadas sobre o varedo e sustentam no seu logar as
+ripas. Estas nervuras são cobertas com vivas côres ou com elegantes
+entrelaçados.
+
+Algumas vezes tambem são assentes sobre as ripas, as nervuras que se
+encruzam do mesmo modo que os arcos diagonaes ou as ogivas das abobadas
+de cantaria.
+
+As abobadas cobertas de gesso, taes como as constroem os architectos
+modernos na maior parte das novas egrejas ruraes, eram inteiramente
+desconhecidas durante o periodo ogival. Quando a verba de que dispunham
+não lhes permittia o estabelecer abobada de alvenaria, serviam-se do
+madeiramento apparente, que se ornava tão artisticamente quanto fosse
+possivel. Nunca se empregavam pueris dissimulações, fingimentos
+architecturaes, onde as _ripas_ appareciam a imitar a cantaria com a
+capa desprezivel de gesso ou de argamassa! Não se esquecia n'esta época,
+que a verdade é a condição essencial da existencia da arte; esta deve
+engrandecer o espirito, encantar a vista, e não enganal-a.
+
+_Telhados_. No meiado do XII seculo, os telhados teem grandes
+inclinações nos edificios da Europa Central e Septentrional; emquanto
+nos paizes meridionaes conservam pequena correnteza, como se praticava
+nos telhados da antiguidade e no periodo roman.
+
+Cobriam-se os madeiramentos com chumbo, cobre, ardozia e telhas. Ás
+grandes cathedraes e aos edificios mais importantes punham chapas de
+chumbo ou de cobre, por tal maneira, que podiam, sem alterar a sua
+superficie, dilatar-se ou encolher-se, conforme fosse a temperatura.
+
+_Cumieira e cimeira_. Dá-se o nome de _cumieira_ ao remate do espigão de
+um edificio. Durante o periodo ogival este remate era de metal (quasi
+sempre de chumbo), de barro cozido ou de cantaria. As _cimeiras_ são
+telhas que formam uma cumieira; eram de barro de cozedura.
+
+O maior numero dos grandes monumentos da edade média tinham d'antes por
+remate cumieiras nos madeiramentos, egualmente recortadas, imitando
+quasi sempre folhagens. Infelizmente são poucos os edificios do XIII e
+XIV seculos que conservam esse ornato primitivo. De todas as cumieiras
+de chumbo anteriores ao XV seculo (e eram as mais em uso n'essa época)
+não ha já vestigios: a oxydação do metal e muitas outras causas de
+destruição as teem feito desapparecer.
+
+Nos paizes onde a telha foi empregada para cobrir os edificios, como,
+por exemplo, na Borgonha, as cumieiras dos madeiramentos compunham-se de
+uma continuação de cimeiras de barro de cozedura, mais ou menos ornado.
+Uma capa esmaltada e envernizada ao fogo tinham sempre estas cumieiras
+para se tornarem menos permeaveis á humidade.
+
+Desde o XI seculo, o emprego das cumieiras de pedra veiu a ser geral no
+meio dia de França. Encontra-se ainda hoje n'este paiz um grande numero
+de cumieiras dos periodos roman e ogival, as quaes escaparam á sua
+destruição. As mais antigas apresentam enlaçamentos e figuras
+geometricas; as que pertencem ao XIV e XV seculos são compostas de
+ornamentação com remate de folhagens, como ha na egreja de Belem.
+
+_Torres e campanarios_. Do mesmo modo que no periodo roman os
+campanarios da época ogival são compostos de dois ou mais andares
+sobrepostos. A separação dos differentes andares é indicada, no
+exterior, quer por um resalto saliente, quer por uma pequena diminuição
+de grossura do andar superior sobre o inferior. Estes andares não teem
+já, como precedentemente, a mesma altura: são baixos ou altos, conforme
+as disposições internas dos campanarios. O rez-do-chão das torres é
+geralmente construido sobre plano quadrado; mas no primeiro ou no
+segundo andar, e as mais das vezes sómente no principio da flecha o
+plano vem a ser octogono. Os espaços triangulares, que ficam livres nos
+angulos do quadrado, pela passagem da fórma de quadrado para octogono,
+apresentam quasi sempre quatro pinaculos ou clochetões.
+
+As frentes das torres teem aberturas nos differentes andares, janellas
+estreitas ogivaes, muitas vezes geminadas, sendo raro estarem separadas
+ou reunidas em tres vãos.
+
+Desde o principio do periodo ogival, os campanarios acabavam por flechas
+construidas de madeira ou de cantaria, com muita elevação, tendo a fórma
+de uma pyramide com oito lados eguaes. Já no XIII seculo, as arestas das
+flechas de pedra e os pinaculos collocados na base do octogono estão por
+vezes ornados, de distancia em distancia, por crochets vegetaes; no XIV
+seculo, principia-se a vasar os lados das flechas fazendo-se pequenas
+aberturas do feitio de flor de trevo, ou quatro folhas e com florão. No
+XV seculo, essas ornamentações são substituidas por feitios de chammas e
+por outras figuras geometricas vasadas. No final do XV seculo e no
+principio do seculo seguinte, construiram-se, em muita parte, os
+campanarios com flechas rendilhadas.
+
+Muitos campanarios mais importantes, de grandes proporções, ficaram por
+concluir desde a base da flecha projectada, e ás vezes ainda mais
+abaixo. Algumas vezes tambem, as flechas da primitiva construcção,
+depois de terem sido destruidas por uma tempestade ou incendio causado
+pelo raio, foram substituidas por corpos simples ou remates hybridos,
+que não teem nada de commum com as lindas pyramides da época ogival.
+
+No XIV e no XV seculos, muitos campanarios teem na base da flecha uma
+platibanda vasada, composta de arcaduras ou com feitios chammejantes.
+
+A maior parte das egrejas ogivaes de segunda e terceira ordem tinham
+campanarios de uma extraordinaria simplicidade, cujo effeito é agradavel
+e mesmo admiravel, se reflectirmos na pouca resistencia dos meios
+empregados para a execução. Estes campanarios, sem nenhum ornato,
+compunham-se de dois andares quadrados, dos quaes o superior só tinha as
+quatro frentes com janellas geminadas ou com tres aberturas, servindo
+para sair o som do sino. Uma flecha octogona limita a sua extremidade.
+
+Os constructores da edade média comprehendiam que, sobretudo nos
+edificios de menor importancia, as combinações geraes mais simples eram
+as unicas mais acertadas para produzirem um aspecto monumental.
+
+Em Flandres maritima tem-se conservado até ao presente um grande numero
+de campanarios ogivaes de segunda e terceira ordem, dignos de chamar a
+attenção dos archeologos e dos architectos; encontram-se alguns muito
+bellos até nas modestas freguezias do campo. Estes campanarios,
+construidos com tijolos, como todas as outras partes dos edificios
+d'este paiz, são geralmente terminados por uma flecha octogona tambem de
+tijolos, muitas vezes tendo quatro pinaculos nos angulos da sua base; as
+arestas da flecha e dos pinaculos são quasi sempre decoradas de crochets
+egualmente com tijolos. As platibandas que ligam entre si os pinaculos
+são cheias, pouco altas e ornadas com arcaduras fingidas. Uma outra
+particularidade que apresentam alguns campanarios de Flandres maritima,
+é inclinarem-se um pouco para o lado oeste, que se suppõe ser um facto
+intencional do architecto para fazer resistir melhor contra os ventos
+d'este quadrante que sopram com extrema violencia á beira mar.
+
+Muitas egrejas monasticas, e algumas vezes tambem as parochiaes, teem um
+campanario collocado quer na extremidade da capella mór, quer em um dos
+dois angulos formados pela intersecção da capella mór e o cruzeiro. Esta
+disposição é bastante geral nas egrejas ruraes na Baviera e na Austria.
+As abbadias preferiam esta collocação afim de que os frades incumbidos
+de darem signal pelos sinos para as ceremonias religiosas não fossem
+obrigados a afastar-se da egreja.
+
+Os constructores romans construíam muitas vezes um campanario no logar
+da intersecção da nave e do cruzeiro. Na Inglaterra e na Normandia,
+estes campanarios centraes conservam-se durante o periodo ogival; por
+toda parte, fóra d'isso, são raros desde o XIII seculo, e muitas vezes
+foram substituidos por simples campanariosinhos de madeira. Na Belgica,
+encontram-se por vezes campanarios centraes de cantaria, porém de
+resumida dimensão, nos edificios do periodo de transição.
+
+As _escadas dos campanarios_ e tambem as que servem em outras partes dos
+monumentos para subirem aos madeiramentos, são geralmente de caracol com
+centro cylindrico ou octogono. Estas caixas das escadas, collocadas no
+exterior do edificio nos angulos formados pela saliencia dos
+contrafortes, nunca são dissimuladas, mas visiveis, facilitando as
+seteiras que estão abertas darem luz á escada.
+
+Durante o periodo ogival, collocavam quasi sempre _cruzes de ferro
+batido_ no cimo das flechas dos campanarios, na extremidade do espigão
+do côro por cima da abside, e algumas vezes tambem sobre os espigões do
+cruzeiro. Estas cruzes distinguem-se geralmente por uma composição de
+bastante trabalho. As cruzes dos campanarios são quasi sempre encimadas
+por um gallo servindo de catavento. Primitivamente este adorno
+encontrava-se sobre as torres das egrejas parochiaes ou dos capitulos
+apenas. O gallo collocado no cimo da egreja symbolisa a imagem dos
+prégadores; pois o gallo vela durante a noite escura e assignala as
+horas pelo seu canto, faz despertar aquelles que dormem, e annuncia a
+aurora que se approxima; mas antes d'isso, elle se excita a si mesmo a
+cantar, dando ás azas.
+
+_Pavimentos_. Os pavimentos romans eram compostos com mosaicos. Nos
+paizes meridionaes esses mosaicos foram formados de marmores
+differentes. Tanto em França como na Belgica, Allemanha, Inglaterra e
+Portugal, eram compostos de ladrilhos esmaltados ou de lagedo gravado e
+com embutido egualmente de côres diversas. Os ladrilhos e os lagedos
+gravados continuaram a ser empregados nos pavimentos dos edificios
+ogivaes na Europa Occidental e Septentrional.
+
+Esses pavimentos eram ora de uma grande simplicidade, ora esplendidos.
+Poucas vezes o chão todo das egrejas estava coberto por bellos mosaicos;
+em geral, não se adoptou este genero de decoração senão para a capella
+mór e para as capellas do corpo da egreja, porque nas naves, onde todas
+as pessoas são admittidas indistinctamente, o roçar do calçado em pouco
+tempo teria destruido o verniz do ladrilho ou o lagedo com gravuras.
+
+Como já explicámos, o amarello e o verde-escuro são as côres preferidas
+no final do periodo roman, nos pavimentos de ladrilho do Norte e Oeste
+da Europa. No XIII seculo, substituiu-se muitas vezes a côr
+verde-escura, o encarnado e o avermelhado escuro, empregando-se o
+amarello para os embutidos. As côres carregadas e escuras deixaram de
+ser usadas nos pavimentos.
+
+Os ladrilhos esmaltados são geralmente de pequenas dimensões, como havia
+no cruzeiro da egreja monumental do convento de Alcobaça, cujos
+ladrilhos estão agora _escondidos por baixo de simples lagedo_, na
+profundidade de _0^{m},34 centimetros_!
+
+Quando os desenhos dos ladrilhos ficam completos sobre um só ladrilho,
+ou se completam em quatro e mesmo em maior numero de ladrilhos reunidos,
+formam regularmente figuras geometricas, brazões, florões, animaes
+existentes ou phantasticos. Circulos, flores de liz, veados, aguias com
+duas cabeças, é o que mais frequentemente se vê.
+
+No XIII e no XIV seculos, figuras de homens em pé foram algumas vezes
+representadas pela reunião de um certo numero de ladrilhos pintados.
+Estas effigies de personagens eram muitas vezes acompanhadas de
+letreiros, empregados nas campas de cantaria.
+
+Durante o XIV e o XV seculos, os desenhos dos ladrilhos conservam quasi
+o mesmo caracter precedente, mas são menos vistosos e não teem o vigor
+das côres e o desenvolvimento que apresentavam os do XIII seculo. No XIV
+seculo, as ornamentações são muitas vezes substituidas por firmas,
+letras, inscripções, escudos, e mesmo pequenas vistas. Pelo mesmo tempo
+apparecem os tons verdes e azues-claros.
+
+Nos edificios de segunda e terceira ordem, e tambem em algumas egrejas
+abbaciaes, principalmente da Ordem de Cister, fazia-se uso, durante o
+periodo ogival, de pavimentos compostos de ladrilhos de differentes
+côres, sem nenhum ornato.
+
+Em alguns sitios fabricavam-se tambem ladrilhos sem ser esmaltados,
+apresentando figuras em relevo. Estes ladrilhos são muito raros, porque
+não se podiam fazer senão com barro muito rijo, para que os relevos não
+ficassem em pouco tempo gastos.
+
+_Lages gravadas e com embutidos_. Desde o XII seculo, empregaram-se
+algumas vezes, para cobrir o chão das egrejas, lages de pedra e de
+marmore gravadas e com embutidos. Os desenhos dos ornatos eram indicados
+em parte pelos espaços conservados da propria lage, ou por um betume
+colorido que enchia as cavidades deixadas pela gravura. As lages d'este
+genero não foram muito communs, e um limitado numero escapou da sua
+destruição! Um dos mais bellos e mais completos é o que ornava a capella
+mór da cathedral de _Saint-Omer_ (França), e do qual bastantes
+fragmentos se têem conservado até ao presente. Os fundos dos arabescos
+são de côr castanho-escuro, assim como a inscripção; os traços do
+contorno das personagens e do cavallo são a encarnado, assim como está
+representado em gravura o nobre cavalheiro, no meio d'essa composição,
+que é do meiado do XIII seculo.
+
+_Labyrinthos_. Na antiguidade pagã designavam-se com o nome de
+_labyrinthos_, as galerias subterraneas ou os edificios construidos em
+cima do solo, com ramificações em grande numero e complicadas. Todos
+sabem da existencia do labyrintho de Creta, onde, conforme a mythologia,
+o Minotauro foi morto por Theseo. Durante a edade média o nome de
+labyrintho foi dado a uma disposição particular que se vê no pavimento
+de algumas egrejas dos periodos Latino, Roman e Ogival. A disposição,
+divisão e côr das lages, formam, pelas suas combinações, linhas sinuosas
+com bastantes voltas, todas para um ponto central. Os Romanos e os
+Gregos representavam já, por vezes, labyrinthos nos pavimentos em
+mosaico ou sobre as paredes de seus templos e de suas habitações. Os
+labyrinthos que existem desde os primeiros seculos nas egrejas christãs,
+por exemplo, na de S. João Vidal de Ravana (Italia), que é do VI seculo,
+acharam, sem nenhuma duvida, a sua origem nos labyrinthos dos edificios
+pagãos. A presença da figura de Theseo combatendo o Minotauro, que se vê
+no centro dos labyrinthos de alguns monumentos christãos, como em Pavia
+e em Luca, dão uma prova evidente d'esta affirmação. Os christãos
+introduzindo os labyrinthos nas egrejas, deram-lhes uma significação
+symbolica. Seria comtudo difficil, por não dizer impossivel, determinar
+de uma maneira irrefutavel o symbolismo dos labyrinthos nas antigas
+egrejas christãs.
+
+Na edade média, parece ter-se reputado os labyrinthos como emblema da
+viagem á terra Santa, ou, segundo outras opiniões, o transito doloroso
+de Jesus Christo desde a casa de Pilatos até ao Calvario. Indulgencias
+eram concedidas ás pessoas que os percorressem de joelhos, recitando as
+orações prescriptas. Os labyrinthos n'esta epoca eram tambem designados
+com o nome de _dedalo_, _meandro_, _caminhos de Jerusalem_.
+
+A fórma dos labyrinthos não é sempre a mesma, O de _Chartres_ é
+circular; o de _Saint-Quentin_, octogono; taes eram tambem os de
+_Arrhas_, _Amiens_ e _Reims_. Na egreja de _Saint-Bertin_ em
+_Saint-Omer_, tinha a fórma quadrada. Muitas vezes havia, ao centro e
+aos angulos do labyrintho, pedras com inscripção lembrando algum facto
+relativo á construcção do edificio. Em _Amiens_, por exemplo, a pedra
+central representava os architectos da egreja e o bispo _Évrard_, seu
+fundador, com os nomes dos personagens e a época da construcção,
+gravados sobre laminas de cobre embebidas na parede.
+
+_Pinturas das paredes_. Já descrevemos os caracteres da pintura mural na
+época roman. Esses caracteres e o systema do colorido modificam-se de
+uma maneira evidente seguindo o desenvolvimento da architectura ogival.
+
+Se o leitor tiver presente na memoria o que fizemos notar a respeito do
+estylo ogival, da sua decoração esculpida e do seu systema de
+construcção, comprehenderá facilmente que uma modificação notavel
+motivou tambem o colorido da decoração. Com effeito, nas construcções
+ogivaes os membros das paredes desapparecem, por assim dizer, e cedem o
+espaço para aberturas de janellas; os membros da architectura
+multiplicam-se e apresentam-se com grande evidencia; a vista examina sem
+custo a sua fórma e os seus fins, desde a base da columna até ao fecho
+da abobada que reune as nervuras da abobada. Além d'isso, as superficies
+das paredes, que não foi possivel supprimir, ficavam com esses espaços
+divididos. Como acontece nas paredes divisorias sobre os peitorís das
+janellas inferiores, as paredes são todas cheias de series de arcaduras
+estreitas, muitas vezes cheias parcialmente de esculpturas. Finalmente a
+multiplicidade dos detalhes e a vista de ornamentações esculpidas,
+diminuindo a escala dos elementos embellezadores para augmentar o espaço
+de união, modificaram a seu modo as condições da pintura, dando-lhe
+caracteres novos.
+
+O augmento extraordinario dos vãos das janellas e o aspecto grandioso
+que lhes deram nos edificios motivou que nas vidraças pintadas eram
+quasi todas as preoccupações do constructor do periodo ogival. Era ali,
+em certo modo, que devia apparecer o effeito da decoração. Os progressos
+da arte da pintura sobre o vidro corresponderam então ás exigencias que
+esta arte tinha a satisfazer, e a palheta abundante, vigorosa e variada
+do pintor vidraceiro impôz á coloração adoptada pelo pintor ornatista
+uma harmonia e combinações novas. Por outras palavras, a pintura
+historica e legendaria, não tendo mais do que um espaço limitado e
+parcimonioso medido sobre a superficie das paredes foi servir-se das
+vidraças para os seus trabalhos, e por este motivo as figuras mostram,
+onde apparecem, ainda umas proporções acanhadissimas. A intensidade da
+coloração das vidraças pede, pela logica dos preceitos da harmonia,
+maior energia na pintura ornamental das paredes. Todavia, não foi essa a
+unica consequencia do emprego das vidraças excessivamente coloridas: a
+luz não entrando já no interior da massa vitrea a qual atravessava como
+peneirada atravez d'um tecido multicolor, dava á pintura mural um
+aspecto differente d'aquelle que teria a luz natural do dia; havia pois
+a attender simultaneamente ao reflexo das côres translucidas com as da
+pintura mural que se devia harmonisar com a luz colorida e sombria que
+as vidraças pintadas projectam sobre as paredes e partes architecturaes.
+D'aqui veiu o emprego, principalmente no XIII seculo, de côres vivas sem
+ficarem separadas: encarnado, purpura, verde, azul carregado, realçado,
+ás vezes, por tons claros e ouro com bastante profusão quando os meios o
+permittiam. D'aqui ainda uma outra grande divisão dos elementos
+decorativos e desenho dos detalhes.
+
+Não é pois para estranhar que as _pinturas historicas e legendarias_
+tivessem tido muita voga durante o periodo roman, vindo a ser bastante
+raras nos edificios do estylo ogival. As arcaduras decorativas debaixo
+dos peitorís das janellas inferiores, são muitas vezes as unicas
+superficies convenientes para terem pinturas com assumptos, e mesmo esse
+espaço é muito limitado e regularmente dividido em pequenos
+compartimentos por columnadas ou nervuras, sobre as quaes assentam as
+archivoltas das arcaduras. As pinturas das arcaduras decorativas
+representam muitas vezes personagens isolados.
+
+A influencia das tradições byzantinas sobre a arte occidental é
+manifesta durante todo o tempo do periodo roman. Todavia, se desde o XII
+seculo se observa no _desenho_ uma tendencia a abandonar os typos
+byzantinos, não foi senão nos seculos seguintes que o caracter das
+pinturas mudou completamente no Occidente. Nas figuras das pinturas
+muraes, como nas outras que ornam as miniaturas dos manuscriptos, se
+observa uma transformação cada vez mais visivel no que respeita ao
+estylo do desenho. Este se desprende insensivelmente das formas
+tradicionaes afim de adquirir maior liberdade. As attitudes veem a ser
+mais variadas, o gesto mais natural, o caracter das cabeças mais
+individual, a expressão dos rostos mais viva ou mais serena conforme as
+situações. Uma tendencia ao naturalismo principia a apparecer desde o
+começo do XIII seculo, e torna-se mais notavel nos seculos seguintes.
+
+Na _colorisação_ succederam, tanto como no desenho, transformações
+successivas durante o periodo ogival. Nas pinturas muraes do periodo
+roman, os tons claros são frequentes, e seu aspecto é geralmente suave.
+
+No XIII seculo, a colorisação teve, na _pintura decorativa_, as mesmas
+transformações que na pintura historica e legendaria. Nos edificios
+romans, em que as janellas eram relativamente pequenas e envidraçadas as
+mais das vezes com vidros brancos ou muito claros, a luz diffusa e pouco
+dilatada dos fundos podia-se usar para a pintura decorativa, de tons
+brilhantes e brandos ao mesmo tempo; porém, quando, no XIII seculo, os
+vãos das janellas se alargaram e tiveram vidraças extremamente
+coloridas, esses tons suaves ficaram inteiramente sumidos pela
+intensidade da colorisação das novas vidraças. O azul e o encarnado,
+entrando com maior emprego na composição das vidraças pintadas, davam um
+aspecto turvo aos tons claros e terreos ás pinturas: os verdes, por
+exemplo, ficavam pardos e baços; os brancos, e em geral todos os tons
+claros, ficavam estriados. Com os vidros coloridos, foi preciso
+necessariamente mudar a gamma de colorisação das pinturas muraes,
+fazendo uso de tons brilhantes e fortes. Além d'isso, os tons, para
+terem toda a sua apparencia, devem ser acompanhados e contornados com
+traços pretos. É assim que se veem n'esta epocha as nervuras, os fechos
+das abobadas, e muitas vezes mesmo os tympanos das abobadas pintados com
+vivas côres. O uso de destacar o vertice das nervuras das abobadas
+servindo-se de côres vivas e com desenho chaveiroado continuou durante
+todo o tempo do periodo ogival.
+
+No XIV seculo e durante a primeira metade do XV seculo, as pinturas de
+decoração por baixo dos peitorís das janellas inferiores, muitas vezes
+representavam pannos de armações. No XV seculo, viam-se bastantes vezes
+sobre as paredes das capellas dedicadas a um santo, os attributos
+caracteristicos d'esse santo, dispostos symetricamente sobre um fundo
+colorido. Descobriram-se, ha pouco tempo, pinturas d'este genero n'uma
+egreja de Bruxellas.
+
+Motivos de economia e, nas egrejas dos monges de Cister, prescripções da
+regra monastica fizeram que por vezes tambem se empregasse um modo de
+pintura de decoração muito simples, consistindo na imitação das pedras
+de construcção: traçavam-se sobre fundo mais ou menos claro traços de
+côres differentes, pardos, encarnados ou amarellos, sobrepostos,
+representando as juntas dos apparelhos, e algumas vezes com
+ornamentação.
+
+Da mesma maneira que a pintura historica e legendaria, a pintura de
+decoração da idade media não se servia da perspectiva; nem conservava
+nos monumentos as paredes lisas e opacas, não procurando affastal-as,
+por assim dizer, do espectador pela illusão da perspectiva linear e
+aerea. São principalmente as pinturas representando as formas
+architectonicas, por exemplo as arcaduras e columnas, que mostram não
+ter o artista nenhuma intenção de disfarçar a ornamentação em relevo; o
+que elle pretende é sómente um effeito de decoração, não pensa por
+nenhum modo em produzir exactamente as dimensões relativas, o modelo,
+apparencia real com relevos, molduras, columnas, capiteis; contenta-se
+de apresentar essas formas para servirem a dar mais attractivo aos
+monumentos.
+
+Muito poucos monumentos do periodo ogival têem conservado as suas
+pinturas bastante completas para se poder formar uma idéa cabal do
+systema empregado e do resultado obtido. A mais notavel de todas pela
+esplendida decoração, e além d'isso pela sua restauração tão habil
+quanto perfeita, é a da Capella Santa de Paris.
+
+A estatuaria e a esculptura ornamental seguem o systema geral da
+decoração pictorica; tanto assim, que muitas estatuas e baixos relevos
+têem conservado até ao presente bastantes vestigios de dourados e
+polychromia, concorrendo para se harmonisarem com as vidraças pintadas e
+as pinturas a fresco das paredes.
+
+A decadencia da pintura monumental, decoração historica e legendaria,
+data da ultima metade do XV seculo; vindo a ser completa desde o
+principio do seculo seguinte. As pinturas das abobadas das egrejas não
+vão além do XVI seculo.
+
+_Cruz de consagração_. O Pontifical romano prescreve que, para a
+dedicação de uma egreja, doze cruzes serão pintadas ou esculpidas sobre
+as columnas ou paredes internas do edificio. Estas cruzes, que o Prelado
+consagrante unge com os Santos oleos, devem ficar apparentes. Desde o
+periodo roman, estabeleceu-se o uso de ornar essas cruzes, que
+geralmente eram pintadas. As cruzes de consagração datam do periodo
+roman e vieram a ser bastante raras; conservam-se muito singulares no
+oratorio carlovingiano de Nimégue. Encontraram-se em grande numero da
+epocha ogival debaixo de grossas _camadas de cal_ na parte interna das
+egrejas antigas, que ficaram escondidas na occasião do renascimento.
+Todas são executadas com grande esmero e esplendidamente coloridas.
+
+Acontece ás vezes que as doze cruzes de consagração do XIII e XIV
+seculos são sustentadas pelas figuras dos Apostolos pintados ou em
+esculptura.
+
+
+*Altares, tabernaculos, piscinas, cadeiras do côro, bancos para os
+celebrantes, tribunas e separações da capella-mór*
+
+
+_Altares_. Como já explicámos, o altar verdadeiramente designado é uma
+mesa de pedra sobre a qual o padre diz a missa. Sem esta mesa o altar
+não existe; ella e só ella, forma, todo o altar. Esta mesa é de pedra,
+porque o altar é a imagem e o symbolo de Jesus Christo em pessoa.
+Portanto, durante os oito primeiros seculos da nossa era, a egreja quiz,
+pela veneração por este famoso symbolismo, que o altar ficasse
+inteiramente independente; prohibiu severamente que n'elle se pozesse o
+mais simples objecto, salvo o livro dos Evangelhos, a custodia
+eucharistica com as divinas hostias. No correr do IX, o Papa Leão IV
+permittiu que se collocassem reliquarios contendo reliquias de santos.
+Quando o altar é formado de um corpo macisso cubico, o que tinha logar
+muitas vezes durante o periodo Latino e Roman, os seus lados eram
+cobertos com laminas de ouro, prata e de cobre dourado e esmaltado, ou
+ornados de esculpturas e de pinturas, ou ainda revestidos de estofos
+preciosos.
+
+Algumas vezes, principalmente nas grandes egrejas, o altar estava
+collocado debaixo de um baldaquino sustentado por quatro columnas, entre
+as quaes se suspendia, sobre varões, pannos cortinas, que se corriam
+durante certas partes da missa afim de occultar os sacerdotes da vista
+dos fieis. No final do XI seculo, introduziu-se tambem o uso dos
+_retabulos_.
+
+Devemos notar, que todos estes accessorios eram ideiados e dispostos de
+maneira a não obstar por nenhum modo ao symbolismo sublime do altar.
+
+Explicaremos successivamente, o _altar_ com _a sua verdadeira fórma_, os
+_frontaes_ dos altares, _baldaquino_, os _cortinados_ e os _retabulos_
+do periodo ogival.
+
+_O altar assim designado_. Como os do periodo roman, os altares da epoca
+ogival compunham-se as mais das vezes de um simples macisso de
+alvenaria, apresentando regularmente uma especie de ornamentação pintada
+ou esculpida. Estes macissos estavam rodeados de tapeçarias cujas côres
+mudavam nos diversos dias de festa. Algumas vezes, porém poucas, se
+decoravam os lados nús d'estes altares com arcaduras fingidas, cujos
+arcos assentavam sobre columnasinhas ou pilares embebidos na parede; as
+arcaduras tinham pinturas historiadas e decorativas, ou estatuas e
+baixos relevos.
+
+Nos altares cheios ou macissos, decorados de arcaduras, estas eram
+formadas no XIII e no XIV seculos por ogivas equilateraes ou arcos
+traçados por tres centros; no XV seculo por ogivas inflexas ou postas a
+pár, e no XVI por arcos abatidos ou de volta inteira.
+
+Na idade media os altares eram sempre de pedra, nunca de madeira.
+Consagravam-se ao mesmo tempo que a egreja ou a capella: não havia então
+as _pedras aras_, bentas, que se podiam assentar depois na meza de um
+altar sem estar benzido, e como presentemente se usa muitas vezes.
+
+O altar mór das egrejas cathedraes, conservou durante quasi todo o
+periodo ogival, uma fórma simples e positivamente symbolica. Em geral ou
+era sem retabulo, ou ficava-lhe por cima um retabulo de pouca altura.
+Tinha um crucifixo, o livro dos Evangelhos, dois castiçaes, e ás vezes
+um tabernaculo para a conservação da Eucharistia. Outra maneira de
+reservar o Santissimo Sacramento usada em certos paizes pelo menos desde
+o XIII seculo, foi aquella cuja recordação se conservou n'um curioso
+quadro do XIII seculo, representando o altar mór da antiga cathedral
+d'Arras com todos os seus accessorios. Uma hastea quadrada, collocada
+por detraz do altar, que se eleva em dois andares, a uma grande altura,
+tem por remate um pinaculo sobre o qual ha um crucifixo. Em meia altura
+da hastea ha um bello baculo ficando a sua voluta suspensa no meio de
+uma corrente, e a custodia eucharistica é formada com o feitio de
+torrinha.
+
+Nas egrejas, cathedraes e abbadias, havia, como em muitas egrejas
+romans, um altar para reliquias, ao fundo da capella mór, por detraz do
+altar proximo do abside oriental da egreja.
+
+Os grandes reliquarios costumavam a ficar expostos detraz do altar, de
+modo a deixar passar as pessoas por baixo; ás vezes tinham um docel.
+
+_Frontaes_. São cortinados de seda que cobrem tambem os lados verticaes
+de um altar, e algumas vezes o retabulo; como se usa ainda hoje em
+muitos paizes. Designam-se vulgarmente com o nome de _antependium_. Na
+idade media quasi todos os altares tinham frontaes. Esses frontaes eram
+cobertos com fazenda de custo; algumas vezes apresentavam laminas de
+ouro, prata e cobre dourado e esmaltado, ou almofadas de madeira
+cobertas de pinturas.
+
+Os frontaes metallicos, assaz communs durante os periodos Latino e
+Roman, vieram a ser mais raros a começar do final do XII seculo, e pouco
+a pouco o seu uso foi completamente abandonado. Durante a epocha ogival,
+os frontaes com estofo fôram, por assim dizer, os unicos empregados. A
+sua côr condizia com as vestimentas lithurgicas e mudava, por
+conseguinte, conforme os dias festivos. Havia de linho, seda e mesmo de
+veludo; os mais sumptuosos eram todos bordados e ornados de pedras
+preciosas. Representavam figuras de Santos e assumptos historicos e
+legendarios.
+
+_Baldaquino_. O uso do baldaquino cobrindo o altar em signal de
+veneração, foi bastante geral até ao XII seculo; mas ficou quasi
+abandonado na Belgica e França durante o periodo ogival; na Europa
+Occidental e Septentrional não se serviram mais do baldaquino n'esta
+epocha, como summidade dos reliquarios.
+
+Na Italia, em Roma, n'este paiz onde o estylo ogival nunca teve
+principio, vê-se ainda um grande numero de baldaquinos da epocha ogival.
+Os mais notaveis são os de S. Paulo fóra dos muros, os de S. João, de
+Santa Maria no Trastever, Santa Maria em Cosmedin e de Santa Cecilia.
+
+Na França e na Belgica suppriam algumas vezes a falta do baldaquino,
+suspendendo por cima do altar um docel esculpido ou forrado com estofo
+de custo.
+
+O baldaquino parece-nos apresentar a maneira mais adequada para inspirar
+aos fieis o respeito e a veneração devida ao altar, symbolo do Salvador.
+Muito melhor que todos os outros accessorios, sem exceptuar o retabulo,
+preenchia este fim resguardando o altar, sem todavia se confundir com
+elle, e conservando-lhe assim toda a sua significação symbolica. O
+retabulo, pelo contrario, liga de certo modo o altar fazendo parte
+d'elle, desvia a attenção das pessoas para o accessorio com grande perda
+do objecto principal, que é o altar apropriadamente assim chamado.
+
+_Cortinas_. Chamam-se cortinas a armação suspensa nos dois lados do
+altar, e por detraz do retabulo quando fôr pouco alto. Essas cortinas,
+da mesma maneira que os frontaes, eram geralmente muito simples; algumas
+vezes, todavia, representavam figuras, quer no tecido, quer nos
+bordados, ornamentação, figuras e objectos religiosos.
+
+Ficavam estas cortinas prezas por varões apoiados muitas vezes em quatro
+ou seis columnasinhas de cobre ou de madeira, encimadas de figuras de
+anjos, tendo na mão luzes ou differentes instrumentos da paixão. A côr
+das cortinas mudava conforme os dias de festa e as differentes occasiões
+do anno lithurgico.
+
+Além das cortinas do altar, serviam-se tambem, durante a idade media, de
+duas outras especies de armação lithurgica. Eram: 1.^o a grande cortina
+que se suspendia durante a quaresma na entrada da capella-mór ou do
+presbyterio, e que se designava _o véo do templo_; 2.^o os véos que
+serviam na mesma occasião nos crucifixos, retabulos e imagens, eram
+designados pelo nome _véos de quaresma_.
+
+_Retabulos_. Como já indicámos, o uso dos retabulos foi introduzido no
+final do XI seculo. No começo collocavam-os sobre os altares das
+reliquias e os altares de segunda classe; ficavam encostados á tribuna
+ou postos no cruzeiro e nas capellas ornando a capella-mór. Nas egrejas
+matrizes, collegiaes e monasticas de primeira ordem, o altar-mór ficava
+quasi sempre sem ter retabulo, pelo menos durante todo o seculo XIII. Em
+França, Belgica, Allemanha, Inglaterra e nos outros paizes
+septentrionaes da Europa, adoptou-se no XIV seculo, depois que a cadeira
+do bispo ou do abbade e as cadeiras do côro dos conegos ou dos frades,
+que até então ficavam por detraz do altar-mór ao correr da parede do
+hemicyclo obsial, foram mudados, para diante do sanctuario sobre os dois
+lados do côro, isto é, para o logar onde se vê presentemente nas egrejas
+do Norte.
+
+Durante o periodo ogival serviram-se de diversa qualidade de materiaes
+para os retabulos. O mais antigo era o metal; como n'aquelles do periodo
+roman a cantaria (excepcionalmente a madeira), substituiu o metal. Desde
+a ultima metade do XIII seculo, os retabulos de cantaria parece terem
+sido preferidos. No meiado do seculo seguinte, os retabulos de madeira
+com obra de talha foram mais adoptados, e no XV seculo, substituiram
+quasi completamenle os retabulos de cantaria. Principiaram, todavia, já
+n'essa epocha, a introduzir as almofadas pintadas, em fórma de
+_trypticos_, que, no meiado do XVI seculo supplantaram, para assim
+dizer, totalmente, os retabulos com obra de talha.
+
+As portas que os retabulos haviam tido muitas vezes desde o XIV seculo,
+tiveram no principio ornamentação de esculptura na face interior, e
+pinturas na exterior. Porém o peso das portas com ornatos compostos de
+estatuas ou baixo-relevos tornavam esse appendice muito difficil, e
+mesmo por vezes como perigoso, quando era preciso abrir ou fechar o
+retabulo; preferiram pois d'ali a pouco as pinturas para decoração
+d'essas duas frentes das portas.
+
+Os retabulos não apresentavam a mesma _fórma_ durante todo o periodo
+ogival. Quasi sempre com pouca altura no começo, tendo tambem pouca
+grossura. Os mais antigos eram muitas vezes rectangulares: algumas vezes
+comtudo a sua parte central tinha mais altura. Esta ultima fórma,
+principiaram-n'a a usar no meiado do XIII seculo; conservou-se em alguns
+paizes, até o meiado do XV seculo.
+
+O uso dos retabulos de madeira com obra de talha introduziu-se pouco a
+pouco no XIV seculo, principalmente na Belgica. Desde o principio,
+tiveram muitas vezes portas. Esta circumstancia lhe fez dar, como aos
+retabulos pintados tendo portas, o nome de _tryptycos_ ou _polyptycos_,
+conforme tinham tres ou maior numero d'esses appendices.
+
+Na Belgica, França, Inglaterra no XV seculo, e na Europa central e
+meridional já durante o seculo precedente, os retabulos perderam a bella
+e elegante simplicidade que os distinguiam antes. Os seus contornos e
+subdivisões se complicam cada vez mais, á proporção que se aproximam do
+final do periodo ogival. Tinham por remate, no XIII seculo e no XIV
+seculo, linhas horisontaes e sem nenhum adorno no cimo; os caixilhos dos
+retabulos do XV seculo passam depois por transições com mistura de
+linhas rectas e curvas para chegar por fim ás ogivas de requebro, arcos
+unidos de volta abatida e volta de sarapanel com curvas de todo o genero
+que ornavam muitas vezes no XVI seculo de crochetes e florões; chegando
+mesmo a rematar o retabulo com torrinhas e pinaculos, estatuas e
+enlaçamentos do feitio de firmas.
+
+Devemos todavia notar que as formas dos moldurados do XIII e XIV seculo
+se encontram ainda no XV e mesmo no XVI seculo, principalmente nos
+triptycos pintados. Os moldurados d'este ultimo seculo apresentam sempre
+maior simplicidade que os dos retabulos com obra de talha.
+
+_Os assumptos representados sobre os retabulos_, eram tirados da
+historia do antigo e novo testamento ou das lendas dos santos. No XII
+seculo e no XIII, ornavam-se os retabulos quer de baixos relevos, quer
+de estatuasinhas collocadas em arcaduras; um medalhão central de forma
+quadrilobada ou de aureola se via as mais das vezes no centro do
+retabulo, tendo a imagem de Jesus Christo na cruz ou assentado sobre o
+arco-iris. No XV seculo, as arcaduras não apparecem senão poucas vezes;
+quasi sempre, n'esta epoca, o retabulo esta dividido em muitas series
+verticaes e horizontaes com as divisões cheias de baixos relevos
+sobrepostos uns aos outros. A representação da cruxificação com a Virgem
+Nossa Senhora e S. José, com os dois ladrões e grupos de personagens,
+occupa bastantes vezes o compartimento central, commummente mais alto e
+por vezes tambem mais largo que os compartimentos inferiores.
+
+Os retabulos estavam cobertos, em certas occasiões, por frontaes
+similhantes aos dos altares. Muitos _retabulos pintados_ do periodo
+ogival se têem conservado até ao presente. Arrancados quasi todos ao
+logar que occupavam primitivamente detraz dos altares, apparecem agora
+como paineis nos museus de pinturas ou estão dependurados nas paredes
+internas das egrejas.
+
+As obras primas dos pintores do XIV, do XV e do principio do XVI seculo,
+não são como os antigos retabulos em forma de triptyco.
+
+_Os retabulos esculpidos_ foram usados simultaneamente com os retabulos
+pintados. Os que se fizeram na Belgica durante o XV seculo e os
+primeiros annos do XVI seculo compunham-se quasi sempre de um certo
+numero de grupos com mais ou menos alto relevo, em caixilhos ou
+collocados debaixo de docel delicadamente recortado; os dos outros
+paizes, pelo contrario, e particularmente os da Europa Oriental,
+compõem-se de estatuas perfiladas no compartimento central, e muitas
+vezes tambem sobre as portas. Ainda que entre os retabulos belgas do
+ultimo seculo do periodo ogival apparecem alguns de execução grosseira e
+sem nenhum merito, quasi todos, todavia apresentam bastante apreço
+artistico e testemunham o estado florescente da esculptura n'esse
+periodo.
+
+Os retabulos de madeira com talha eram muitas vezes dourados e pintados
+de côres. Convém advertir que as letras que, n'esses retabulos, se veem
+frequentemente sobre os bordados das vestimentas dos personagens, não
+apresentam commummente nenhuma significação, tendo sido ahi collocadas
+unicamente com o fim decorativo.
+
+No final do periodo ogival, o retabulo firma-se quasi sempre sobre um
+sóco de 20 a 30 centimetros de altura, e por este modo se liga ao altar.
+
+Esta base se designa _predella_, nome que se dá egualmente aos
+degrausinhos para os castiçaes do throno dos altares modernos. O lado
+superior, que corresponde á base do retabulo, é muitas vezes mais
+comprido que o lado interior; n'este caso a differença de tamanho é
+disfarçada por um arco de circulo saliente.
+
+A _predella_ (banqueta) é muitas vezes ornada do busto do Redemptor e
+dos doze apostolos.
+
+Das observações precedentes resulta que, não obstante as dimensões por
+vezes exageradas, o retabulo parte inteiramente accessoria, conservou
+até aos fins do periodo ogival, o seu caracter essencial. A maior parte
+dos artistas modernos que se encarregam de compor os altares no estylo
+ogival não se preoccupam de forma alguma com o primitivo destino do
+retabulo, a que dão impropriamente o nome de altar. Desconhecendo a
+verdadeira significação do retabulo, substituem-lhe tablados ridiculos,
+muitas vezes de _madeira_, com côr de _pedra!!!_ compostos de socos,
+arcaduras e pinaculos, onde os symbolos religiosos, as imagens, e os
+baixos relevos são inteiramente supprimidos ou estão mesquinhamente
+representados. Muitas vezes estes symbolos, estas imagens, e estes
+assumptos são executados apesar das regras da iconographia christã,
+regras das quaes os architectos, esculptores e pintores _não teem
+geralmente o incommodo de adquirir as noções as mais elementares_! É
+tambem para lastimar, que nas restaurações das antigas egrejas, não
+encarreguem os retabulos _triptycos_ ao talento dos pintores que se
+occupam de trabalhos religiosos.
+
+_Sacrarios_. Durante quasi todo o periodo ogival não se reservava,
+depois da celebração da missa, senão a quantidade de hostias consagradas
+e necessarias para levar o viatico aos enfermos em perigo de vida, e
+para expor o Santissimo Sacramento á veneração dos fieis.
+
+Quando as pessoas que assistiam aos officios divinos queriam commungar,
+approximavam-se da mesa da communhão durante a missa, e recebiam _uma
+parte das sacramentaes_ que o padre acabava de consagrar. Não se deve,
+pois, estranhar que os vasos sagrados destinados á veneração da Santa
+Eucharistia e o logar onde os depositavam tivessem pequenas dimensões
+durante o XIII e o XIV seculos.
+
+Conservavam a Santa Eucharistia de muitas maneiras:
+
+1.^o Nas egrejas dos paizes meridionaes, onde a pyxide se manteve em uso
+durante o periodo ogival, continuaram a ficar suspensos, como se fazia
+precedentemente, o calix e a pyxide com as hostias.
+
+2.^o Em França e na Belgica e nos paizes septentrionaes da Europa
+serviram-se muitas vezes durante o XIII e o XIV seculos, da maneira
+indicada na pag. 272. As hostias encerradas em uma pyxide ou dentro de
+uma pomba dourada e esmaltada, ficavam collocadas n'uma pequena torre ou
+pequena tenda (_tabernaculum_) em estofos custozos, que se suspendiam,
+por cima do altar, n'um baculo de bronze ou de prata.
+
+3.^o Algumas vezes conservam-se as hostias em cofres de forma de arca,
+relicario ou torre. Estes cofres eram transportados e depositados no
+sacrario, ou sacristia, ora collocados de vez sobre o altar.
+
+4.^o No maior numero de casos, principalmente nas egrejas de segunda e
+terceira ordem, a Santa Eucharistia ficava em armarios construidos
+detraz ou ao lado do altar. O uso de collocar as hostias nos
+tabernaculos em forma de armario, parece ter sido muito geral na
+Belgica, pelo menos depois do XIV seculo.
+
+5.^o No XIV e XV seculos, construiram tambem, para a reserva
+Eucharistica, tabernaculos de fórma de torre, inteiramente isolados e ao
+lado do Evangelho. Os tabernaculos d'este genero vieram a ser communs na
+Belgica e na Allemanha desde o XV seculo. Encontram-se muitos n'este
+ultimo paiz que são do XIV seculo.
+
+O maior numero dos tabernaculos com a fórma de torre são de pedra;
+encontram-se não obstante, mas excepcionalmente, de madeira ou mesmo de
+metal.
+
+Do lado da Epistola, defronte do tabernaculo, se faz muitas vezes na
+parede um armario imitando a fórma de tabernaculo, porém mais pequeno e
+muito menos ornado.
+
+Os armarios feitos na grossura da parede tinham a frente para o altar
+sendo destinados a guardar as alfayas e vestuario dos ecclesiasticos que
+deviam celebrar a missa; encontram-se algumas vezes, nas capellas que
+guarnecem os lados da capella-mór ou da nave.
+
+_Piscinas_. O uso das piscinas ou pias abertas na parede do lado da
+Epistola, que havia durante o periodo roman, foi conservado tambem na
+epocha ogival.
+
+No XIII seculo, a maior parte das piscinas eram _geminadas_, isto é
+compostas de duas pias ou orificios para passarem as aguas por uma bica,
+quer por baixo do pavimento da egreja, quer por fóra do pavimento do
+edificio. Uma d'essas pias era destinada a receber as aguas de uso, a
+outra, as oblações das mãos do sacerdote e mesmo as do calix; porque,
+ainda n'esta epocha, as oblações do calix eram lançadas nas piscinas, e
+não bebidas pelo padre. Encontram-se todavia ainda agora piscinas
+_simples_, isto é tendo um unico orificio para sahir a agua.
+
+As piscinas gemeas fingem geralmente a fórma de um duplo nicho, separado
+por uma columnasinha. Muitas vezes, nas egrejas ornadas de arcaduras
+fingidas debaixo do peitoril das janellas, a piscina occupa duas
+arcaduras proximas, e une-se a ellas; n'este caso, a columnasinha posta
+entre as duas arcaduras forma a divisão dos dois nichos da piscina.
+
+As piscinas do XIV seculo não differem muito das outras do seculo
+precedente senão pelo genero da ornamentação architectonica e
+esculptura, que harmonisa com o estylo da epocha. As mais das vezes são
+gemeas, posto que o ecclesiastico beba, desde então, a agua de que se
+serve para fazer a oblação do calix.
+
+No XV, e mesmo já no final do XIV seculo, as piscinas tornaram-se raras
+e acabaram proximo do fim do periodo ogival, para desapparecerem
+completamente.
+
+_Cadeiras de côro_. Estas cadeiras collocadas no côro das egrejas eram
+destinadas ás dignidades ecclesiasticas assistentes aos officios
+religiosos. Durante o periodo roman estas cadeiras eram geralmente de
+pedra; porém desde o fim do XV seculo, sempre se fizeram de madeira.
+
+As cadeiras de madeira compõem-se de differentes partes, tendo cada uma
+um nome para a designar.
+
+As separações de duas cadeiras são formadas por curvas elegantes com
+ornamentação de obra de talha na sua parte superior, que lhes dão graça
+e belleza. Os _arrimos_ são apoios horisontaes que limitam as cadeiras
+na parte superior; geralmente esta parte tem bastante largura com fórma
+inclinada, podendo as pessoas de pé encostarem-se facilmente.
+
+Alguns auctores dão impropriamente o nome de encosto á _rampa curva_ da
+divisão da cadeira, sobre o qual se apoia o cotovello, quando se está
+sentado. A taboa movediça servindo de assento gira sobre gonzos ou
+eixos, e póde-se abaixar e levantar como se quizer. Tem, por baixo uma
+misula que se chama _misericordia_ ou _paciencia_, sobre a qual se póde
+sentar, _fingindo estar a pessoa de pé_, quando a taboa que pertence ao
+assento está levantada.
+
+No côro das cathedraes, egrejas collegiaes e abbaciaes, estas cadeiras
+ficam collocadas á direita ou esquerda do fundo do côro em duplo renque
+e altura: cadeiras altas para os conegos e religiosos, cadeiras mais
+baixas para os ecclesiasticos de cathegoria inferior ou de congregação.
+O piso das cadeiras superiores fica alto com dois ou mais degraus acima
+do chão; em quanto as cadeiras inferiores assentam sobre o solo ou sobre
+um unico degrau. As pessoas sentadas em cima podem mais facilmente que
+as debaixo vêr o altar. As costas das cadeiras do primeiro renque ficam
+muito baixas e servem de genuflexorio aos conegos que estiverem nas
+cadeiras superiores; as costas d'estas são muitas vezes inteiramente
+semilhantes das cadeiras baixas, outras teem por cima obra de madeira
+bastante alta e limitada por um remate em sacada com a fórma de um
+docel. As pessoas que occupam as cadeiras baixas se ajoelham sobre o
+chão com o rosto virado para as costas de suas cadeiras. De distancia em
+distancia a fila das cadeiras baixas fica interrompida pela suppressão
+de uma cadeira para dar passagem aos que vão assentar-se nas cadeiras
+mais altas; estas aberturas chamam-se _entradas_. Encontram-se tambem
+cadeiras com genuflexorios.
+
+As cadeiras do côro do XIII seculo são notaveis tanto pela sua singeleza
+como pela sua elegancia. Duas columnasinhas, uma na parte inferior e
+outra na parte superior, ornam quasi sempre os lados de cada divisão
+d'estas cadeiras. As mais sumptuosas têem além d'isso, esculpturas sobre
+as _misericordias_ e nos remates, que no quarto de circulo. E reunem ás
+columnasinhas servindo de apoio aos braços das cadeiras. Estas
+ornamentações constam de folhagens, fructos e algumas vezes de figuras
+de animaes reaes ou phantasticos.
+
+As cadeiras do côro do XIV seculo apresentam o mesmo feitio que as do
+XIII seculo; só com a differença de maior ostentação na obra de talha.
+
+Muitas vezes no XIII seculo, e mesmo ainda no princípio do XIV seculo,
+estas cadeiras não tinham costas. Quando as apresentavam eram com uma
+almofada e arcaduras, tendo regularmente um tecto lavrado similhante a
+um docel, um pouco saliente na face interna e com poucas esculpturas. No
+XIV seculo, esse tecto lavrado apparece mais apparatoso; cada vez mais
+saliente, descança sobre reprezas, acabando em forma de curvatura. Nos
+dias de grandes festas, suspendiam-se em frente, no cimo do encosto,
+sedas de côres, bordados e pannos de raz.
+
+Na mesma epocha, os lados superiores das cadeiras do côro, mesmo quando
+não tenham alto encosto, cobrem-se de diversas esculpturas,
+representando estatuasinhas, animaes reaes ou phantasticos, e uma
+decoração vegetal muito vistosa.
+
+As cadeiras do côro do XV seculo distinguem-se geralmente das
+precedentes por uma abundancia extraordinaria no ornato esculptural. São
+cheias de bastante decoração e executadas com mais primor e delicadeza
+que nos seculos XIII e XIV. Os seus altos encostos compõem-se quasi
+sempre de baixo relevos dentro de arcaduras com redentes feitos
+delicadamente, e cada cadeira tem um docel em que um pinaculo vasado
+muito alto forma a extremidade. Os baixos relevos das costas representam
+assumptos tirados da Biblia, da historia ecclesiastica ou da legenda;
+successos da vida de Jesus Christo ou de Nossa Senhora são representados
+quasi sempre. As esculpturas dos lados internos das cadeiras e das
+misericordias apresentam muitas vezes figuras com carantonhas, animaes
+reaes ou phantasticos, symbolisando os vicios. Poucas vezes as
+esculpturas das cadeiras representam santos ou assumptos religiosos.
+
+Na Belgica ha um limitado numero de cadeiras do côro do XV e XVI
+seculos.
+
+Em França, as mais notaveis são as da cathedral d'Amiens (XV seculo), e
+d'Auch (principio do XVI seculo), e na Allemanha, as da cathedral d'Ulm,
+com esculpturas de Jorge Syrlino de 1474 a 1476; em Portugal as da Sé
+Velha de Coimbra.
+
+_Bancos e docéis dos celebrantes_. O banco dos officiantes era destinado
+para o celebrante, diacono e subdiacono se assentarem emquanto se canta
+o _Gloria_, _Credo_, e _Dies irae_; servia ao mesmo fim as poltronas que
+é costume collocar presentemente no côro proximo dos degraus do altar.
+Estes bancos, que havia na idade media em todas as egrejas de primeira e
+segunda ordem, estavam regularmente no _presbyterium_, do lado da
+Epistola defronte do tabernaculo, e apresentavam uma certa analogia com
+as cadeiras do côro. Conforme as prescripções lithurgicas, distinguia-se
+por uma grande simplicidade; eram lisos e sem subdivisões. Algumas
+vezes, todavia, se compunha de tres cadeiras mais ou menos similhantes
+ás do côro. Este banco, liso ou subdividido, tinha muitas vezes um docel
+cheio de esculpturas, formado por um nicho aberto na grossura da parede
+do côro, quando este não tinha naves lateraes ou sustentado por columnas
+e de paredes mestras quando o côro estava rodeado de naves lateraes.
+
+_Jubes, Screens[4] e Cruzes triumphales_. Antigamente chamava-se _Jube_
+á tribuna (em latim _doxale_) especie de barreira com tres e mais
+arcadas esplendidamente ornadas que nas egrejas separava o côro das
+naves; tinha por cima uma especie de galeria ou tribuna com
+_guarda-peito_, havendo na extremidade uma ou duas escadas em espiral,
+em cuja tribuna um abbade vinha lêr o Evangelho, depois de ter
+pronunciado a formula: _Jube, Domine, benedicere_.
+
+D'ahi vem o nome _Jube_.
+
+As escadas ficavam algumas vezes escondidas detraz dos pilares dentro de
+caixas rendilhadas com linda decoração.
+
+Durante a primeira parte do periodo ogival, a arcada do meio estava
+tapada por uma parede, as duas outras arcadas ficavam abertas, tendo
+portas ou grades. Mais tarde mudou-se em alguns paizes esta disposição
+primitiva; na Belgica, por exemplo, na França e em certas partes da
+Allemanha, a arcada central só ficou aberta com uma grade de pau ou de
+ferro servindo de porta; taparam com parede as duas outras lateraes
+encostando-lhe altares.
+
+Na primeira metade do XIII seculo, os _Jubes_ eram raros. Foi sómente no
+final d'este seculo, e principalmente durante os seculos seguintes que
+se fizeram geralmente nas cathedraes, collegiadas, e nas abbaciaes. No
+XV e no XVI seculo tambem, os collocaram nas egrejas parochiaes, mais
+importantes. Alguns se teem conservado na Belgica até ao presente: o
+mais antigo é da era 1490.
+
+O mais magestoso é o da cathedral de Milão.
+
+Os _jubes_ teem sempre proxima a _cruz triumphal_. Esta cruz, de grande
+dimensão, é geralmente de madeira e ornada de pinturas e dourados. Os
+seus quatro ramos com florões teem muitas vezes quadrilobos, nos quaes
+estavam do lado da nave os symbolos dos quatro evangelistas, e do lado
+do côro, os quatro doutores da egreja latina; S. Gregorio, S. Ambrosio,
+S. Agostinho e S. Jeronymo. Ao pé da cruz estão as imagens de Nossa
+Senhora, e do apostolo S. João; a primeira á direita, e a segunda á
+esquerda.
+
+Antes da introducção dos _jubes_ a cruz triumphal estava igualmente
+suspensa por tres correntes no meio do arco chamado _triumphal_, que
+occupa a entrada da capella-mór.
+
+Havia tambem antigamente nas egrejas do periodo Latino e Roman uma
+_haste_ (Tress). Era costume collocar nas basilicas entre o côro e a
+parte reservada para o publico uma viga atravez do côro, sobre o qual se
+punham luzes e tambem suspendiam lampadas, e tambem durante a quaresma,
+servia para pôr o véu chamado _velum templi_.
+
+_Separações do côro_. A disposição dos antigos bancos da clerezia ao
+comprimento da parede absidal do côro, ja descripto, não foi conservada
+durante o periodo ogival, sendo em Italia e tambem em Portugal, onde
+continua ainda, assim como em algumas egrejas da Allemanha,
+principalmente nas cathedraes de Spire e de Mayence.
+
+Desde o XI seculo, a maior parte das abbadias da _Europa central e
+occidental_ tinham, como já referimos, transferido para o cruzeiro, os
+bancos, alem das cadeiras dos ecclesiasticos, que occupavam antes a
+capella da abside. Mais tarde tambem a mesma mudança se introduziu pouco
+a pouco nas cathedraes e nas collegiadas d'essas mesmas regiões,
+principalmente depois da reunião das naves lateraes e capellas absides á
+roda da capella mór. Os bancos de pedra do periodo roman transformados
+em cadeiras do côro ou cadeiras de madeira, foram collocados diante do
+sanctuario, sobre o lado d'esta parte da egreja. O côro ficou separado
+das naves lateraes pelas barreiras, as mais das vezes de cantaria,
+bastante alta, vedado por detraz com as cadeiras do côro collocadas
+entre as columnas da capella-mór. A roda do sanctuario propriamente
+chamado, ás vezes, recortavam aberturas, de maneira que as pessoas que
+estivessem nas naves lateraes podessem vêr o altar, e outras vezes
+tambem substituiam as barreiras da porta circular da capella-mór por
+tumulos ou mausoléos. Nas grandes cathedraes, numerosas esculpturas em
+alto relevo ornavam as partes lizas das separações tanto no exterior
+como no interior da capella-mór. Alguns monumentos, por exemplo as
+cathedraes de Paris e de Amiens, teem conservado, por completo ou em
+parte, as suas antigas separações da capella-mór.
+
+
+*Pulpitos e confessionarios*
+
+
+_Pulpitos_. Durante os primeiros seculos da era christã, as tribunas do
+alto onde se fazia a leitura do Evangelho e da Epistola, serviam ao
+mesmo tempo de pulpito.
+
+Ao uso de prégar do alto da tribuna, veiu juntar-se o de um pulpito
+saliente que se conservou na Europa central e occidental até ao final do
+XV seculo. Por isso, os pulpitos anteriores ao meiado do XV seculo se
+encontram mui raras vezes. Foi sómente no começo d'esta epocha que se
+principiou a pôl-os isolados na nave principal das egrejas d'esta parte
+da Europa.
+
+Os mais antigos pulpitos são quasi todos de pedra; no XV e XVI seculos
+fizeram-se egualmente de madeira.
+
+O espaço dentro do pulpito, para o prégador, no periodo ogival é
+geralmente hexagono e ornatado no cimo dos lados, ficando o sexto lado
+reservado para a entrada n'elle; a decoração compõe-se de estatuas,
+baixos relevos, e algumas vezes tambem, de simples desenhos geometricos
+ou chammas. Vê-se com frequencia Jesus Christo e Nossa Senhora entre
+quatro evangelistas ou os quatro doutores da egreja do Occidente, S.
+Gregorio, Santo Ambrosio, Santo Agostinho e S. Jeronymo.
+
+Ha em Portugal um pulpito de pedra de admiravel composição, que pertence
+á egreja de Santa Cruz de Coimbra, de que tirámos o modelo e figurou na
+exposição universal de Paris em 1867; depois o museu de Londres quiz
+compral-o, ao que nos oppozemos.
+
+O pulpito apoia-se por vezes sobre uma curva em sacada, sobre um macisso
+de alvenaria ou sobre columnatas enfeixadas; as mais das vezes, todavia,
+está assente sobre uma columnata ou sobre um pedunculo. Esta ultima
+maneira foi mais commum no XV e no XVI seculo. Estes apoios eram ornados
+com esculpturas, muitas vezes muito intrincadas conforme o uso adoptado
+no final do periodo ogival. Na Allemanha haviam por vezes representado
+as figuras de Adão, Eva ou Moysés em alto relevo nas frentes do pulpito.
+
+O sobreceu dos pulpitos principiou a servir no final do periodo ogival,
+e mesmo não era muito imitado n'essa epocha. Veiu a ser de uso geral no
+fim do XVI seculo. Os sobreceus do XV seculo têem geralmente a forma
+d'uma pyramide, d'um coruchéo ou d'um campanariosinho. Na Inglaterra
+vêem-se sobreceus sómente com uma simples guarnição. Esta ultima forma
+nos parece a melhor, pois não causa a desagradavel vista do remate de
+tanto vulto, que parece abafar a voz. Ha poucos exemplares de pulpitos
+do periodo ogival.
+
+_Confessionarios_. Os confessionarios em que o confessor fica separado
+do penitente por uma rotula, foram desconhecidos durante o periodo
+ogival. N'essa epocha, o confessor collocava-se, para ouvir as
+confissões, em uma poltrona ou nas cadeiras do côro, e o penitente
+ajoelhava deante d'elle. A recordação d'esta maneira de se confessar foi
+conservada nas miniaturas, paineis e gravuras do XV seculo.
+
+Foi proximo do final do XVI seculo que os confessionarios com rotula
+foram introduzidos na Belgica.
+
+
+*Capellas funereas, tumulos, campas, lanternas dos defunctos e cruz de
+cemiterio*
+
+
+_Capellas funereas_. Estas capellas funereas eram construidas isoladas
+nos cemiterios durante o periodo ogival. São raras em quasi todos os
+paizes. Não ha nenhuma na Belgica nem em Inglaterra. Em França vêem-se
+algumas nos cemiterios bretões, e existe uma muito notavel, do XV
+seculo, em Avioth nas _Ardennes_ francezas. É na Austria que são mais
+communs.
+
+_Tumulos apparentes_. O uso de encerrar os cadaveres nos sarcophagos e
+pôl-os sobre o solo ficou completamente abandonado no norte da Europa
+desde o XIII seculo.
+
+Na Inglaterra, Belgica, Allemanha, e nas provincias septentrionaes da
+França, os tumulos apparentes do periodo ogival são cenotaphios,
+consistindo em socos de cantaria com massiços de alvenaria postos sobre
+uma sepultura subterranea, tendo a effigie do finado. Compõem-se
+geralmente, como no XIII seculo, de um sóco ou macisso coberto de uma
+grande lousa, sobre a qual está deitada a estatua do defuncto. Este
+estendido sobre uma cama ricamente disposta, apresentando todas as
+insignias de sua dígnidade: os bispos e os abbades trazendo mitra e
+baculo; os reis e principes, a corôa e o sceptro; os cavalleiros, o seu
+escudo e a sua armadura. Os pés dos bispos e dos ecclesiasticos, e em
+certos paizes tambem dos seculares, apoiam-se contra um dragão ou um
+monstro phantastico; os dos clericaes, principes e nobres, contra um
+leão, symbolo de coragem, e mesmo, ás vezes, como para as damas tendo os
+pés sobre um rafeiro, emblema da fidelidade conjugal. Pequenas figuras
+de anjos agitam thuribulos, sustentando tochas ou almofadas em que
+descança a cabeça do personagem. Depois do XIII seculo, os anjos com
+thuribulos tornaram-se raros. Durante muito tempo, a effigie do finado
+não apresenta nenhum dos caracteres da morte.
+
+No XIII seculo e ainda no principio do XIV seculo, as estatuas deitadas
+têem os olhos abertos e reproduzem os gestos e as attitudes dos
+personagens vivos. Sómente depois do XIV seculo o defuncto principia a
+ser representado morto ou adormecido, com os olhos fechados.
+
+Muitas vezes, columnatas reunidas por arcaduras são dispostas em roda do
+sóco, no qual estão assentes; algumas vezes, mas, raramente, as
+arcaduras são vasadas, e a estatua _deitada_ do finado occupa o _logar_
+do sóco supprimido.
+
+Os cenotaphios do periodo ogival são geralmente de pedra, poucas vezes
+de cobre ou de outro metal. Os tumulos de pedra têem quasi um metro de
+altura, em quanto que os sepulchros de metal, que se conservam até ao
+presente têem apenas 50 centimetros acima do solo; todavia o unico de
+metal que possue a Sé de Braga tem maior altura.
+
+Para evitar o estorvo nas egrejas, não se permittia, salvo raras vezes,
+erguer-se um cenotaphio. Na capella-mór admittia-se o tumulo do fundador
+ou de um bemfeitor distincto, collocando os dos outros personagens de
+distincção nas capellas que cercam os lados do côro e da nave principal.
+Estes monumentos apresentavam muitas vezes uma decoração de pinturas e
+dourados. Alguns ficavam encostados á parede e dentro de um grande nicho
+sob fórma de arcadura ogival; outros, e era o maior numero, ficavam
+separados em todos os seus lados.
+
+_As campas com gravuras a traço_ tornaram-se vulgares desde o XIV
+seculo. Muitas têem sido conservadas até ao presente, não obstante o
+grande numero de causas de destruição, ás quaes têem ficado expostas
+desde seis seculos. A maior parte estão ornadas de imagens do finado,
+debaixo de arcaduras trilobadas do feitio de docel, muito simples e
+sustentado por columnatas. Quasi sempre vê-se uma mão deitando a benção,
+symbolo de Deus, sahida do cimo da ogiva; e anjos agitando thuribulos
+occupam os _seguintes_ da arcadura. Sobre as campas dos bispos, dos
+abbades e dos padres, vê-se tambem, algumas vezes, aos dois lados do
+personagem, clerigos, ou anjos de pequeno tamanho, segurando em velas
+accesas.
+
+Muito antes do XIII seculo, as campas têem, bastantes vezes ainda, como
+durante o periodo roman, a forma de um trapezio, isto é, são mais
+estreitas do lado dos pés. A inscripção que quasi sempre têem, forma
+geralmente o contorno exterior da pedra, menos geral do que o
+emmoldurado de ogiva; principia por uma cruz a inscripção e quasi no fim
+do XIII seculo, ajuntam já por vezes, aos quatro angulos, os emblemas
+dos evangelistas collocados nos quadrilobos.
+
+As campas dos tumulos do XIII seculo que não têem um emblema, um symbolo
+ou um escudo com armarias, são bastante raras na Belgica.
+
+Sobre as campas do XIV seculo, a effigie do finado continua a ser
+collocada debaixo de uma arcadura, poucas vezes trilobada, porém não
+durante os primeiros annos. Sómente esta arcadura é muito mais carregada
+de detalhes architectonicos do que precedentemente, taes como ridentes,
+crochetes, florões, pinaculos e rosaes; além d'isso, as arcaduras
+principiam a não ser sustentadas por columnatas com base e capitel, mas
+sim por pés-direitos do feitio de contra-fortes ornados de pinaculos e
+nichos, nos quaes se vêem pequenas figuras de homens.
+
+Quando uma unica campa cobre uma sepultura dupla ou tripla, as arcaduras
+estão reunidas no numero de duas ou tres, e contéem, cada uma, sua
+effigie. O leão, o cão e os outros symbolos, que acompanham quasi sempre
+as estatuas deitadas dos cenotaphos, se vêem tambem sobre as campas do
+XIV seculo. Estas são geralmente de fórma rectangular, e não têem o
+feitio de um trapezio. Os anjos incensadores e ceroferários não se vêem
+excepcionalmente a começar do XVI seculo.
+
+As arcaduras e o contorno com curvas em rampa que formam o remate
+caracteristico dos moldurados do XIV e XV seculos, são regularmente
+substituidos no XV seculo por docéis, representados em perspectiva e
+muitas vezes compostos de ogivas inflexas com desenhos complicados; os
+pinaculos, os nichos, as rosaceas flammejantes se multiplicam sobre todo
+o moldurado; além d'isso, os arcos-butantes apparecem para ligar os
+docéis aos contrafortes.
+
+Será bom notar que os moldurados das campas do XIV e do XV seculos
+apresentam a maior similhança com as decorações do mesmo genero que se
+vêem nas vidraças pintadas contemporaneas.
+
+Como no XIII seculo, a inscripção apparece no XIV e no XV seculos sobre
+a borda da campa e está inscripta entre duas linhas parallelas. Nos
+angulos formados pela intersecção d'essas quatro linhas se vêem
+quadrilobos com os emblemas dos evangelistas, ou tambem algumas vezes,
+desde o começo do meiado do XIV seculo, as armarias; acontece mesmo que
+a inscripção está, além d'isso, interrompida pelo escudo da armaria
+sobre os seus lados mais compridos.
+
+Já explicámos que, quando são applicados para ornar os quatro angulos de
+um quadrado ou de um rectangulo, os symbolos dos evangelistas põem-se,
+pelo menos, até ao XIII seculo, da maneira seguinte: o homem alado no
+angulo superior á _esquerda_ do espectador; a aguia á _direita_, o leão
+no angulo inferior á _esquerda_ e o novilho á _direita_. No XIV seculo,
+houve uma mudança; desde esta epocha, vê-se quasi geralmente a aguia no
+_angulo superior esquerdo_, e o homem alado no _angulo superior
+direito_. É ali tambem o logar que estes symbolos occupam sobre as
+campas.
+
+Os caracteres das campas que acabamos de indicar por cada seculo do
+periodo ogival, não são de tal maneira proprios como os que são mais
+proximos da epocha indicada. Pelo contrario, acontece muitas vezes,
+principalmente na Belgica, que as campas do XV seculo apresentam ainda,
+por assim dizer, os caracteres que não se está acostumado a encontrar
+n'outra parte nas campas do seculo precedente. Não é raro tambem achar
+campas do XIII, XIV e XV seculos, nas quaes o ornamento architectural
+seja moderado de detalhes, ou inteiramente os supprimiram.
+
+Em França quasi sempre e algumas vezes na Belgica, as carnes, em vez de
+serem imitadas a traço, são represeutadas por embutidos de marmore ou de
+metal.
+
+_Tumulos chatos de cobre_. Durante o periodo ogival, introduziu-se o uso
+do cobre ou de laminas de latão sobre as quaes as linhas do desenho são
+feitas a traços gravados bastante fundos, estando cheios com uma
+substancia rezinosa de côr preta e de tom mate. Essas largas linhas
+pretas se destacam perfeitamente sobre a superficie brilhante do metal
+brunido ou adamascado, até mesmo dourado, cujo reflexo luzidio é muitas
+vezes realçado pela armaria colorida em esmalte da composição da campa,
+a qual fica solidamente fixa na grossura do cobre. Devido a estas
+qualidades, os tumulos lizos em cobre contribuiam admiravelmente, assim
+como o pavimento e as vidraças pintadas, para a decoração das egrejas. É
+na Inglaterra e Flandres que têem sido mais communs durante toda a idade
+media.
+
+Os tumulos chatos de cobre podem dividir-se em duas classes. A primeira,
+de maior numero, comprehende as laminas de cantaria, quer de marmore ou
+de gres, nas quaes a figura do finado fica recortada em _silhoeta_ na
+lamina de metal, assim como differentes ornatos; as armarias, emblemas,
+inscripções em feitio de fita, gravadas sobre tantas peças distinctas,
+ficam embutidas e arrebitadas separadamente nos entalhes correspondentes
+da pedra, designados _casements_ pelos auctores inglezes. A segunda
+classe parece ter sido menos numerosa, porém contém especimens mais
+bellos e preciosos. Acham-se comprehendidos n'ella os monumentos que
+apparecem debaixo do aspecto de grandes placas de cobre, d'uma só peça,
+mas que, na realidade, são muitas vezes compostas de muitas laminas
+ajustadas, das quaes com grande habilidade ficam disfarçadas as juntas
+na profundura dos traços. A figura do finado, geralmente de grandeza do
+natural, representa-se de pé ou deitada.
+
+Os tumulos de latão consistem em grandes laminas soltas, não destinadas
+a ser embutidas nas laminas de pedra, e que formam por si um todo
+completo; foram communs na Belgica durante todo o periodo ogival; o seu
+uso continuou, em certos sitios, até o XVII seculo. Na Allemanha e
+igualmente no Norte da França tiveram acceitação. Sobre as laminas, não
+sómente a figura do finado, como tambem os accessorios symbolicos e de
+decoração que lhe servem, foram executadas da mesma maneira que sobre as
+pedras das campas gravadas. Todavia, a composição do assumpto é
+regularmente mais superior, e a execução mais esmerada que das outras;
+os mais insignificantes detalhes do vestuario, os docéis do remate, as
+pequenas figuras dos anjos e dos santos que os ornam muitas vezes assim
+como os pés-direitos, todas as partes, em uma palavra, são feitas com
+fidelidade, com arte e com delicadeza. Além d'isso, o fundo sobre o qual
+se destaca a effigie do finado, em logar de ser lizo e sem ornato, como
+sobre as pedras das campas gravadas, é regularmente adamascado, isto é,
+coberto de ornatos differentes imitando os desenhos que apresentam
+certos estofos orientaes; esses desenhos assemelham-se aos que se vêem á
+roda dos personagens nas vidraças pintadas do XIV seculo. São compostos
+de folhas do trevo, de quatro folhas, folhagens, côres matizadas,
+figuras de animaes, gritos de guerra, ou com divisas muitas vezes
+repetidas. Parece mesmo por vezes no XV e no XVI seculo, que os detalhes
+architectonicos desapparecem completamente para dar logar aos fundos
+adamascados. Finalmente, uma particularidade que apresentam ainda as
+laminas de cobre funereas do XV e do XVI seculo, vem a ser que as
+_phylactéres_ se veem muito mais frequentemente que sobre as pedras das
+campas. Chama-se _phylactéres_ a bandeirolas compridas e estreitas,
+saindo da boca das personagens ou estão seguras nas suas mãos, e sobre
+as quaes está inscripta uma oração, uma divisa ou uma sentença.
+
+_Pequenos monumentos funereos do XV e do XVI seculo_. Além dos
+cénotaphos, das campas e dos tumulos chatos de latão, erigiam-se tambem,
+nos XV e XVI seculos, pequenos monumentos funereos de pedra ou latão,
+encaixados na face da parede proxima do logar da sepultara. Estes
+monumentos curiosos encontram-se, não só no interior das egrejas, mas
+tambem nos claustros das cathedraes, collegiaes e mosteiros. Compõe-se
+regularmente d'um epitaphio, por cima do qual se vê um assumpto
+religioso, por exemplo, a SS. Trindade, a flagellação, a crucificação ou
+qualquer scena da Paixão. Muitas vezes tambem se vê Nossa Senhora com o
+Menino Jesus. O finado está regularmente representado ao lado da scena
+principal, de joelhos em oração e por vezes acompanhado do santo da sua
+devoção, o qual fica em pé por detraz d'elle e parece recommendal-o á
+clemencia Divina; sobre a bandeirola saindo da boca na direcção da scena
+principal, lêem-se frequentemente as palavras que é natural dirigir a
+Deus ou aos santos, por exemplo: _Qui potes, oro, rei, Christe, mementa
+mei_, e _O mater Dei, memento mei_.
+
+A scena religiosa está esculpida em relevo ou gravada a traço. Quando
+feita em alto relevo, vê-se quasi sempre em um nicho ogival, aberto na
+grossura da parede, e o epitaphio inscripto na parte inferior do nicho,
+sobre uma pequena chapa de latão, de marmore ou de pedra.
+
+Nos baixos relevos e nas pedras gravadas a traço, o assumpto e o
+epitaphio são geralmente collocados sobre uma unica pedra; ora n'uma,
+ora n'outra occupa a maior parte. A scena é coberta por um docél
+servindo de remate; algumas vezes, comtudo este docel não apparece.
+
+Não obstante as mutilações lamentaveis que lhe causaram os iconoclastas,
+estes monumentos merecem chamar a attenção, não sómente dos archeologos,
+mas tambem dos artistas e sobretudo dos esculptores.
+
+Serviram-se tambem de monumentos similhantes para perpetuar a fundação
+praticada por generosos bemfeitores. Na parte superior d'uma pedra ou de
+uma placa de latão, vê-se uma scena religiosa, diante da qual está de
+joelhos o fundador muitas vezes acompanhado do santo da sua devoção. Uma
+inscripção commemorativa da fundação substitue o epitaphio, o qual nos
+monumentos funereos se vê por baixo da scena. Algumas vezes sómente
+apparece uma simples inscripção gravada sobre uma pedra ou lamina de
+cobre.
+
+_Lanternas dos defunctos_. Dá-se o nome de _lanternas dos defunctos_ e
+_pharol de cemiterio_, a columnas ou pyramides ôcas que se collocavam
+n'outro tempo nos cemiterios. Este pequeno monumento tinha no cimo um
+pavilhão vasado, no qual se suspendia de noite uma lampada accesa com o
+fim de lembrar aos caminhantes que orassem pelos defunctos e para lhes
+indicar a presença da casa de Deus.
+
+_Cruz de cemiterio_. Erguiam tambem, nos cemiterios, grandes cruzes de
+pedra durante o periodo Roman, ajuntavam-lhe, poucas vezes, a imagem de
+Christo; porém do começo do XIII seculo, essa imagem vê-se quasi sempre
+acompanhada de Nossa Senhora e do Menino Jesus, postos no revesso da
+cruz, ou encostados á columna que serve para a sustentar. Outras vezes,
+e isso é mais seguido, a cruz fica entre a imagem de Nossa Senhora sem o
+Menino e a de S. João. As hastes que forma a columna ou o pilar sobre os
+quaes está assente a cruz, são geralmente postas sobre um sóco mais ou
+menos alto, tendo na sua base um pequeno altar.
+
+As cruzes de pedra que se erigiam muitas vezes, na idade media, nas
+encruzilhadas das vias e no meio das praças publicas, apresentavam as
+mesmas fórmas que as cruzes de cemiterios; sómente não tinham altar na
+base do seu sustentaculo. Em Lisboa havia um excellente especimen no
+cruzeiro de Arroyos, estando presentemente guardadas as esculpturas na
+egreja d'esse bairro.
+
+As cruzes de cemiterio e dos cruzeiros não eram todas de cantaria;
+havia-as tambem de bronze, de ferro e madeira. Inutil é declarar que as
+cruzes de madeira ficaram destruidas já ha muito tempo. As de bronze
+têem desapparecido egualmente, para fundirem o metal! Mas ha ainda, em
+alguns paizes, as que foram feitas com ferro forjado.
+
+As cruzes de cemiterio continuaram a estar em uso durante a epocha do
+renascimento, e estão quasi sempre acompanhadas das imagens de Nossa
+Senhora e S. João, e algumas vezes d'uma pintura representando o
+purgatorio. Quando o cemiterio fica adjacente á egreja, a cruz
+colloca-se sobre um alpendre junto do coro, na parte interna. As cruzes
+triumphaes, que se viam durante o periodo ogival por cima do Jubé foram
+aproveitadas, em muitos logares, para servirem de cruzes de cemiterios.
+
+
+*Pias baptismaes*
+
+
+A pia de baptismo no periodo ogival é geralmente menos larga e profunda
+do que a em uso no periodo Roman. Esta differença foi motivada pelo
+abandono do baptismo por _immersão_ no XIII seculo. Como
+precedentemente, algumas das pias têem o feitio d'uma tina sem pé,
+redonda, quadrada ou com seis ou oito lados; outras assentam sobre um
+grosso pilar central acompanhado nos angulos da pia por quatro
+columnasinhas, mas o maior numero são monopediculados.
+
+As pias de feitio de tina sem pé encontravam-se ainda algumas vezes no
+periodo ogival, porém muito poucas durante o periodo Roman.
+
+_As pias monopediculadas_, isto é, firmadas sobre um só pilar, foram as
+mais communs na Belgica durante todo o tempo do periodo ogival. Estas
+pias baptismaes, em vez de serem como as Romans, circulares ou quadradas
+na parte externa, eram geralmente de seis ou oito lados. A pia continua
+a apresentar, como durante o periodo Roman, a fórma hemispherica ou
+oval; havendo muitas vezes, na parte mais baixa, um orificio servindo
+para vasar a pia.
+
+Na Allemanha e na Belgica desde o final do seculo XIV, e principalmente
+no XV seculo, havia pias monopediculadas em latão.
+
+O maior numero de pias Romans estavam cobertas de esculpturas
+decorativas, symbolicas ou historicas. Sobre as pias do periodo ogival,
+pelo contrario, os assumptos historicos e legendarios, assim como as
+figuras symbolicas e phantasticas são raras; por excepção se vê ainda
+n'ellas o baptismo de Jesus Christo e outras scenas biblicas ou tambem
+personagens isolados collocados debaixo de arcaduras.
+
+Os ornatos simplesmente decorativos, taes como folhagens e carrancas,
+são tambem bastante raros sobre as pias do XIV e XV seculo. Toda a
+decoração das pias ogivaes, principalmente no XV seculo, consiste as
+mais das vezes n'um certo numero de molduras que se vêem sobre a pia e
+sobre o pilar em que se fórmam.
+
+
+*Pias para agua benta*
+
+
+Ha duas qualidades de pias para agua benta: as _fixas_ e as _portateis_.
+
+As pias fixas são cylindricas ou polygonaes, com reservatorio
+hemispherico, collocadas junto da entrada da egreja, no interior ou
+exterior do edificio: umas isoladas e postas sobre um pé, outras sem
+terem apoio. Estas ultimas, que estão sempre unidas com as construcções,
+vê-se quer em nichos, quer em sacada sobre o liso da parede ou d'um
+pilar, no qual estão encaixadas.
+
+Posto que as pias para agua benta pediculadas estivessem já em uso no
+XIII seculo, e talvez ainda antes, foi todavia no XIV e XV seculos que
+vieram a ser mais communs. Em muitos paizes, apresentam bastante
+analogia com as pias baptismaes contemporaneas, de maneira que é muitas
+vezes difficil distinguir de repente, se o objecto que está presente
+serviria na primitiva de pia para agua benta ou de pia baptismal, pela
+sua grandeza. A capacidade limitada do reservatorio e a falta do
+orificio destinado para dar sahida ás aguas baptismaes, dão algumas
+vezes um indicio para designar que o objecto seja uma pia para agua
+benta e não uma pia baptismal.
+
+O maior numero das pias para agua benta fixas do periodo ogival que
+existem, ainda são de pedra. Havia tambem em outro tempo um certo numero
+d'ellas de bronze e de latão. A memoria de algumas d'estas pias de metal
+nos foi conservada, quer por desenhos e gravuras, quer por testemunhos
+de escriptores antigos. Encontram-se mesmo raros especimens que
+escaparam á destruição vandalica.
+
+As pias para agua benta _portateis_ são vasos com azas, destinados a
+conter a agua benta. Como já referimos, serviam durante o periodo Roman,
+para apresentar a agua benta aos imperadores, reis e outros distinctos
+personagens, na occasião da sua entrada na egreja. Serviam tambem n'esta
+epocha, para a agua com que se faziam as aspersões prescriptas pela
+liturgia. O costume de principiar a missa solemne do domingo por uma
+procissão dentro da egreja, durante a qual se aspergia o povo com agua
+benta, remonta aos primeiros seculos do christianismo. As capitulares de
+Carlos Magno confirmam já este costume, e no Concilio reunido em Nantes
+em 911 determina aos curas que benzam a agua ao domingo, em um vaso
+limpo e apropriado, para que o povo seja aspergido, e o sacerdote possa
+leval-a aos enfermos, aspergil-os e á sua habitação.
+
+As mais antigas pias para agua benta portateis são de marfim. As pias
+para agua benta em metal, já conhecidas durante o periodo Roman, vieram
+a ser muito communs no XIII e XIV seculos. Todas as pias para a agua
+benta portateis são, comparativamente ás em uso desde o XV seculo, de
+muito pequena dimensão: medem apenas 20 centimetros pouco mais ou menos
+de altura, com um diametro entre 10 e 13 centimetros.
+
+Quando, no XV seculo, as pias para a agua benta portateis de metal
+vieram a tornar-se de uso geral, deram-lhes dimensões maiores. Todavia
+encontram-se ainda muitas d'esta epocha, que são muito pequenas.
+
+Quasi todas as pias para agua benta antigas têem a fórma d'um balde;
+algumas apresentam um engrossamento consideravel sobre a borda superior,
+diminuindo sensivelmente para a base. Vêem-se com uma inscripção
+mostrando como as das pias fixas, assim como a allusão ao symbolismo de
+agua benta pelo baptismo de Jesus Christo.
+
+
+*Grades e barreiras*
+
+
+_Grades de ferro_. As grades do XIV seculo apresentam mais ou menos o
+aspecto geral que as do periodo Roman. Como antecedentemente, têem os
+prumos verticaes com um caixilho de ferro a que ficam reunidos por
+ornatos em fórma de _X_ composto por barrinhas de ferro com secção
+differente; e todavia, quando as grades são destinadas para as
+cathedraes ou para os edificios importantes, as barrinhas das
+extremidades simplesmente enroscadas não têem por ornato senão algumas
+hastes verticaes. A suppressão das couceiras póde ter logar sem
+inconveniente nos vãos de pequena largura, de pouco peso e fórmas
+delicadas, mas para grades maiores e expostas aos encontrões da
+multidão, o systema de almofadas com ornato entre as couceiras e as
+travessas é o unico modo que dará a solidez precisa sem obstar ao
+aspecto de leveza.
+
+Os cenotaphos erguidos nos logares frequentados da egreja, os
+reliquarios expostos publicamente á veneração dos fieis e os armarios
+dos thesouros eram muitas vezes resguardados por grades com importante
+trabalho de mão d'obra. Estas grades ornadas geralmente por barrinhas
+estampadas do lado externo sómente estão por vezes armadas com grandes
+pontas e ganchos de ferro que impossibilitam o assalto.
+
+Nas grades do XIV e XV seculo, os prumos servindo de couceiras e as
+travessas continúam a ser empregadas; porém as barrinhas torcidas e
+estampadas das grades do XIII seculo ficaram substituidas por ornatos
+obtidos, servindo-se de chapas de ferro batido, recortadas em florões ou
+folhagens. Depois, em logar de ficarem seguros como precedentemente os
+prumos por bracedeiras, não soldados, esses ornatos estão fixos por
+cavilhas arrebitadas. Os caixilhos de ferro são muitas vezes
+supprimidos, e a esses prumos depois de lhe assentar na extremidade
+remates mais ou menos vistosos, compostos de flôres de liz ou florões de
+folha de ferro soldadas.
+
+As grades que se não abrem, que assentam na frente das janellas, nos
+thesouros das egrejas, casas de capitulo, depositos do archivo, casas
+nobres e mesmo nas casas particulares, estão muitas vezes guarnecidas de
+pontas de ferro dispostas em espigas nas duas extremidades das
+couceiras. Algumas vezes as grades com espigas têem, álem d'isso, as
+suas couceiras e travessas reunidas de maneira impossivel para fazer
+mover as couceiras nos olhaes das travessas ou nos olhaes das couceiras;
+estes olhaes estão alternativamente feitos nas travessas e nas
+couceiras.
+
+_Barreiras de madeira_. Em logar de grades de ferro, tambem se serviam
+de barreiras de madeira, a fim de separar as capellas. Estas barreiras
+são geralmente tapadas até á altura quasi d'um metro, não ficando
+interrompida a vista na parte superior. Quasi todas são feitas com
+madeira de carvalho, devendo a sua duração não sómente ao bem feito da
+obra, como á excellente qualidade do material empregado. A começar do
+XIV seculo, a parte inferior tapada é formada de duas ou muitas ordens
+sobrepostas de almofadas encaixadas entre as couceiras e as travessas.
+Estas almofadas teem muitas vezes obra de talha figurando pinasios dos
+caixilhos, ou folhas de pergaminho dobradas. A parte superior d'estas
+barreiras compõe-se quasi sempre de arcaduras rotas, deixando passar a
+vista entre os prumos em que se dividem.
+
+
+*Orgãos e caixas para elles*
+
+
+Os primeiros orgãos de que os chronistas occidentaes fazem menção, são
+os que o rei Pepin recebeu de presente da côrte imperial de
+Constantinopla no meiado do VIII seculo, e que fez collocar no seu
+palacio de _Compiègne_. Carlos Magno tambem no principio do seculo
+seguinte mandou fabricar orgãos, conforme o modelo byzantino para ornar
+a sua egreja de _Aix-la-Chapelle_. Depois de Carlos Magno, o uso dos
+orgãos para o acompanhamento de certas partes cantadas do officio
+divino, introduziu-se pouco a pouco na egreja Latina. Desde o final do X
+seculo, a maior parte das egrejas cathedraes e abbaciaes de primeira
+ordem tinham-os adquirido, e durante os dois seculos seguintes
+continuaram a generalisar-se.
+
+Os orgãos primitivos eram muito defeituosos e d'uma grande singeleza,
+como vemos nas miniaturas dos manuscriptos contemporaneos.
+
+Durante o periodo ogival a predilecção pelos orgãos tomou novos
+desenvolvimentos, e, no final do XV seculo, todas as egrejas de alguma
+importancia e mesmo as capellas tinham o seu orgão. No XIII seculo,
+começaram já, em alguns logares, a multiplicar o numero dos orgãos em
+uma só e mesma egreja. Ao principio contentavam-se com dois d'estes
+instrumentos; porém no XIV e XV seculos tinham tres, quatro e até cinco.
+Na egreja do convento de Mafra, el-rei D. João V mandou collocar quatro
+grandiosos orgãos nos angulos do cruzeiro, no XVII seculo.
+
+_Até ao XV seculo_, diz o insigne architecto Violet-le-Duc, _não parece
+que os grandes orgãos estivessem em uso. Serviam-se apenas de
+instrumentos de mediocres dimensões e que podiam ficar dentro d'um movel
+assentes na capella-mór, nos jubés ou sobre tribunas mais ou menos
+espaçosas, destinadas não sómente aos orgãos, mas ainda aos cantores e
+musicos. Foi no final do XV e principio do XVI seculo que houve a ideia
+de dar aos orgãos, dimensões extraordinarias_ desconhecidas até então,
+tendo uma _grande força de som e exigindo, caixas collossaes_. Todavia
+esses orgãos não são nada em comparação com os instrumentos que se
+fizeram depois no XVII seculo.
+
+No fim do periodo ogival, a fórma das caixas dos orgãos era determinada
+pela disposição que tinha esse instrumento. A obra de entalhador para as
+caixas dos orgãos do XV e XVI seculos, e mesmo de alguns orgãos do XVII
+seculo era independente do instrumento e servia para o resguardar,
+cobrindo-o. O mechanismo e os folles ficam inteiramente mettidos entre
+as almofadas macissas dos sócos; as almofadas recortadas enchem os
+espaços rotos existentes entre a extremidade superior dos canudos e os
+tectos, afim de facilitar a emissão do som. A marceneria ornada de
+esculpturas e de polychromia e os canudos eram muitas vezes estampados e
+dourados. Tudo ficava encerrado por portas que o organista abria quando
+tocava; estas portas eram, as mais das vezes, ornadas, pelo menos na
+parte interna, com pinturas historicas que se viam quando servia o
+instrumento. Os orgãos e as caixas, anteriores ao XVI seculo, são
+muitissimo raros.
+
+
+*Alfaias religiosas*
+
+
+_Ourivesaria e esmaltadores_. No XIII seculo, a arte de ourives
+transformou-se completamente sob a influencia do novo estylo
+architectural. Durante o primeiro quartel e mesmo durante a primeira
+metade d'esse seculo, os vasos sagrados e os objectos do culto
+apresentavam ainda, é verdade, as mesmas fórmas geraes que durante o
+periodo Roman; porém o systema da decoração teve modificações
+importantes. O artista, fosse quem fosse, esculptor, pintor ou ourives,
+ia procurar as suas inspirações, jamais como precedentemente aos
+objectos byzantinos ou aos estofos orientaes, mas sim na flora do seu
+paiz; serviam-lhe de modelos os vegetaes indigenas e applicava-se
+interpretal-os artisticamente.
+
+As chapas esmaltadas e os engastes das joias, com algumas folhagens de
+filigrana, ficam geralmente em uso até ao meiado do XIII seculo;
+continuando a dar o principal modelo de decoração para os objectos de
+grandes dimensões, taes como os reliquarios e os frontaes dos altares.
+
+Todavia n'uma parte da Belgica, o uso dos esmaltes de côres desappareceu
+mais cedo que nas outras partes. Desde o primeiro quartel do seculo
+XIII, encontra-se, sobre as margens do _Lambre_, uma escola de ourives
+tendo em pratica principios inteiramente novos. Á frente d'esta escola e
+ao impulso artistico que produz, apparece o irmão Hugo, frade Agostinho
+do priorado de _Oignies_. Este humilde religioso executou durante o
+primeiro quartel do XIII seculo, (um dos seus trabalhos tem a data de
+1220), em alguns annos, uma serie de obras-primas que ainda não foram
+imitadas, algumas das quaes teem resistido aos estragos dos tempos, e
+guardam-se devotamente no thesouro das freiras de Nossa Senhora em
+_Nemours_, produzindo a admiração de todos os entendedores. Desprezando
+o emprego dos esmaltes com muitas côres, elle procurou o principal
+effeito de decoração n'um trabalho original, que consiste em cobrir os
+objectos, no todo ou em parte, com delicadas folhagens formadas de
+cachos, de flôrsinhas e pequenas folhas estampadas, reunidas pela
+soldadura a delicados pés. A estas folhagens ajuntava figuras de veados,
+cães e caçadores, tudo produzido da mesma maneira. O tecido muito unido
+que resultava d'estes trabalhos era depois arribitado ou soldado sobre
+as differentes partes do objecto do qual elle abrangia todos os
+contornos.
+
+Hugo empregou ainda as joias; mas ás vezes, em logar de dispôl-as sobre
+chapas rectangulares e ligal-as pela filigrana, as dispunha
+artisticamente entre as suas delicadas folhagens. Além d'isto, seguindo
+o exemplo dos seus antecessores, não empregava camafeus e com gravuras
+concavas á maneira antiga, todas as vezes que não tinha joias novas para
+o seu trabalho.
+
+Quanto ás massas coloridas embutidas no metal, Hugo não conserva quasi o
+negro do buril que serve para traçar as inscripções, ornamentos e tambem
+as figuras.
+
+Depois do meiado do XIII seculo, os objectos de ourivesaria principiaram
+pouco a pouco por imitar na sua fórma e aspecto geral os monumentos de
+architectura: os relicarios, que antes eram cofres, sarcophagos,
+remedando o feitio dos edificios religiosos, vieram a ser pequeninas
+egrejas em ouro e prata: os relicarios tinham enfeites, por vezes
+remates, torrinhas ladeadas de contra-fortes e bastantes arcos; em uma
+palavra, as fórmas elegantes e graciosas da architectura ogival foram
+copiadas nos objectos do culto. A cinzelura tambem faz cada vez mais
+progresso; e vê-se mesmo a maior parte das vezes pequenos objectos
+apresentarem as esculpturas e altos relevos, o que não se fazia antes,
+excepto nos grandes objectos de ourivesaria.
+
+Os objectos de ourivesaria propriamente chamados conservam, no XIV
+seculo, as fórmas que tinham precedentemente, isto é, imitam o aspecto
+dos monumentos de architectura, ou, pelo menos, são decorados com certos
+detalhes architectonicos. Todavia na França, e sem excesso na Belgica,
+os ourives executaram, para relicarios, estatuas pequenas de alto
+relevo, grupos e imitações de membros de corpo humano, ou outros
+objectos que se desejava encerrar dentro d'elles. Desde o XIV seculo, os
+vasos sagrados e os outros objectos do culto perdem a nobre simplicidade
+do estylo grave da época precedente.
+
+No XV seculo os trabalhos de ourivesaria correctos differençavam pouco,
+quanto ao aspecto geral, dos do seculo anterior. As suas fórmas
+patenteavam todavia as modificações successivas que teve a architectura
+n'esta época. Os ourives empregavam menos simplicidade nas suas
+composições, menos elegancia nas fórmas, porém o seu trabalho é
+geralmente mais apurado e mais delicado; levado por vezes até á
+exaggeração pelo acabamento e perfeição dos pequenos detalhes.
+
+Quando empregavam ainda algumas esmaltes para realçar o oiro e a prata,
+os ourives do XIII seculo, como os seus predecessores do XII seculo,
+indicavam sobre o liso do metal o contorno das figuras, e dispunham
+depois todas as partes internas do desenho, quer por um cinzelado
+produzindo um relevo pouco saliente, quer, mais simplesmente ainda, por
+uma delicada gravura, cujos traços refaziam o desenho dos contornos das
+figuras; emfim, abaixavam o fundo á roda das figuras e enchiam-no de um
+esmalte, geralmente escuro, adequado para fazer sobresair a composição.
+Até ao final do XIII seculo, os traços da gravura delicada ficavam
+geralmente vasios; era só excepcionalmente que os enchiam de preto. Mas,
+no começo d'esta época, enchiam-n'os quasi sempre de encarnado ou
+pardo-escuro.
+
+_Dinanderie_. Dá-se o nome de _dinanderie_ a um objecto de cobre ou
+latão coado e martellado, conforme o modo de fabricar esses objectos.
+Esta palavra tira a sua origem da cidade de _Dinant_ sobre o _Meuse_, a
+qual tinha adquirido, na edade média, uma grande fama pela execução de
+objectos de latão. Portanto, em virtude d'esta etymologia, alguns
+archeologos continuaram com o uso recebido, escrevendo--Dinan_te_rie, em
+logar de Dinan_de_rie.
+
+A arte de _dinanderie_ estava prospera desde o fim do XI seculo nos
+Paizes-Baixos, e durante os seculos seguintes, os bate-folhas de cobre
+obtiveram de differentes soberanos muitos privilegios, que facilitaram a
+exportação dos productos de sua industria para Allemanha, França,
+Inglaterra e todo o norte da Europa.
+
+As pias baptismaes executadas com este material, as primeiras de 1112, e
+as outras de 1149, ainda se conservam na Belgica.
+
+_Calices e Patenas_. A communhão sob a especie de vinho tendo sido
+abolida na Egreja Latina, proximo do XII seculo, os calices _ministraes_
+com aza cessaram de ser empregados no Occidente, e a sua fabricação
+ficou completamente abandonada. Assim, todos os calices ministraes de
+origem occidental são anteriores ao periodo ogival. Na Grecia e no
+Oriente, pelo contrario, onde a communhão se dava ainda aos seculares
+sob as especies de pão e vinho, o uso dos calices ministraes
+conservou-se até ao presente.
+
+_Os calices vulgares_, isto é, os de uso do sacerdote que celebra a
+missa, teem geralmente no XIII seculo, como nos dois seculos
+precedentes, a taça muito larga e pouco funda, o pé redondo e de grande
+diametro; a tige está ornada de um nó grosso, composto muitas vezes de
+arestas salientes, mas raramente de medalhões circulares.
+
+No XIV seculo, e mesmo no fim do XIII uma mudança notavel se deu na
+fórma dos calices. A taça estreitou-se, e de hemispherica, como era
+antes, veiu a ser conica ou enfundibuliforme, isto é, similhando-se a um
+funil. A fórma desegual, quasi desconhecida nos calices do XIII seculo,
+veiu a ser commum, sem todavia tomar uma grande importancia. A hastea,
+que durante a primeira metade do XIII seculo, era regularmente
+cylindrica, tornou-se angulosa e prismatica, tendo geralmente seis
+faces. Os lados do nó foram mudados para botões redondos, quadrados ou
+rhombos, egualmente em numero de seis, e quasi sempre embutidos de
+esmalte, gravuras ou joias. Sobre os seis botões estão algumas vezes
+inscriptas as seis letras do nome de Jesus, como ortographavam então:
+IHESUS. O pé está dividido em seis lobulos ornados de esmaltes e de
+gravuras a traço representando imagens, e mesmo composição completa;
+estes lobulos correspondem ás faces da hastea e aos botões do nó. O sóco
+do pé está recortado em folhas de trevo, quatro folhas ou arcaduras; seu
+diametro, sempre menor que o dos calices romans, conserva não obstante
+uma base bastante larga para evitar a quéda. Em resumo, os calices do
+XIV seculo, comparados com os dos seculos precedentes, tem mais altura,
+mas o diametro da taça e do pé é muito menor.
+
+A fórma geral dos calices do XV seculo é pouco mais ou menos a mesma dos
+calices do XIV seculo. Todavia, em certos paizes, por exemplo na
+Belgica, observa-se que os lobulos do pé, as faces das hasteas e os
+botões do nó teem muitas vezes o numero oito em logar de seis. Esta
+mudança foi introduzida proximo do meiado do XV seculo.
+
+A _patena_ do periodo ogival tem como a do periodo roman, a fórma de uma
+pequena salva, apresentando no meio uma cavidade circular. O fundo da
+salva traz muitas vezes, gravado a traço, um circulo ou um quadrilobo,
+circumdando quer o Cordeiro Divino, quer a Mão com aureola que symbolisa
+a Divindade, quer qualquer outro assumpto. Colloca-se algumas vezes uma
+pequena cruz sobre a borda da salva.
+
+_Galhetas_. Existem raros especimens de galhetas da época ogival.
+Havia-as de cobre esmaltado e em crystal de rocha com guarnição de prata
+cinzelada e algumas de prata dourada com guarnições gravadas.
+
+Durante a edade média serviram-se tambem mais frequentemente de galhetas
+de vidro, mas por causa da fragilidade da materia, muito poucos objectos
+d'esta especie escaparam da destruição.
+
+_Custodias Eucharisticas_. Em alguns paizes, particularmente em França,
+a Eucharistia continuou, durante o periodo ogival, a estar conservada,
+como anteriormente, nas pombas douradas e esmaltadas, collocada, a maior
+parte das vezes, em uma torresinha ou pequena tenda forradas de telas
+custosas, ficando suspensa por cima do altar, quer sob a pyxide, quer no
+baculo de metal.
+
+No XIII, no XIV, e mesmo ainda durante uma parte do XV seculo, as
+pyxides eram geralmente como as do periodo Roman, de muito pequeno
+tamanho, porque, até proximo do meiado do XV seculo, serviam sómente
+para conservar o numero necessario de hostias de que havia precisão para
+a communhão dos doentes em perigo de vida. Os fieis que podiam assistir
+aos officios religiosos, recebiam a Santa Eucharistia depois da
+communhão do sacerdote, com as especies consagradas durante a missa,
+sendo distribuidas servindo-se da patena.
+
+Quasi todas as pyxides do periodo ogival eram de metal; as de marfim e
+cobre não apparecem senão excepcionalmente.
+
+_As pyxides sem pé_, de cobre dourado e esmaltado, compostas de pequenas
+caixas cylindricas, tendo uma tampa de fórma de cone, ficaram em uso
+pelo menos até o XVI seculo; empregando-se principalmente para levar o
+Viatico aos enfermos.
+
+Encontram-se ainda presentemente muitas d'estas pyxides, mais ou menos
+valiosas e ornadas. Não poucas devem a sua conservação a esta
+circumstancia, que depois da introducção das grandes pyxides
+aproveitaram-nas para guardar as reliquias destinadas a ficar
+chancelladas no altar no momento da consagração: portanto, não é raro
+encontrarem-se nos desmanchos dos altares do XVI e XVII seculos.
+
+As pyxides _pediculares_, isto é, tendo um pé, que eram raras antes,
+vieram a ser as mais communs desde o XVIII seculo. Algumas destinadas a
+ficarem suspensas por cima do altar, sob o sacrario, ou na voluta do
+baculo, teem o pé muito pequeno, e a taça assim como a tampa bastante
+grandes e quasi hemisphericas, de maneira a formar reunidas uma bola
+ôca, geralmente um pouco achatada.
+
+No seculo XII, as pyxides, em logar de ficarem suspensas por cima do
+altar, foram postas nos sacrarios, deram-lhes regularmente um pé mais
+alto, similhante aos dos calices e dos relicarios. No principio, bastava
+collocar sobre um pé as pequenas pyxides de cobre dourado e esmaltado;
+depois fizeram tambem as pyxides em metal com cinzelados e rebatidos,
+vindo a ser unicamente usadas. As mais antigas da ultima especie teem a
+taça e o pé circular.
+
+No XIV seculo, a taça e a tampa tiveram a fórma hexagonal, isto é, seis
+faces, e o pé divide-se em seis lobulos.
+
+Durante a ultima metade do XIV seculo e todo o XV seculo, as pyxides
+pediculadas têem muitas vezes as arestas da tampa decorada de crochetes;
+os angulos formados pela intersecção dos seis lados da taça, sendo
+flanqueados de contra-fortes, e os lados tambem ornados de arcaduras com
+ou sem estatuasinhas.
+
+Quando no XV seculo, ficou introduzido o costume de conservar o maior
+numero de hostias consagradas, afim de poder dar a communhão aos fieis,
+mesmo sem ser na occasião da missa, as pyxides tiveram dimensões muito
+maiores. Continuou-se geralmente a dar-lhe fórmas architecturaes, porém
+essas fórmas vieram a ser, sobretudo na Allemanha, mais altas e mais
+complicadas ajuntando-se arcos-butantes aos contra-fortes e ás arcaduras
+com as quaes já as ornavam precedentemente. Em França e na Belgica,
+appareceram proximo do final do XV seculo as pyxides esphericas, cuja
+fórma faz lembrar a dos antigos ciborios suspensos. Não é raro, além
+d'isso, achar pyxides transformadas em relicarios.
+
+Não será inutil aqui repetir, que, salvo raras excepções, todas as
+pyxides anteriores ao XVI seculo teem a tampa presa á taça por um gonzo.
+
+_Custodias_. A solemnidade do _Corpus Domini_, ou festa do Corpo de
+Deus, instituida em Liège em 1246, e extensiva á Egreja Universal,
+dezoito annos mais tarde pelo pontifice Urbano IV, trouxe o uso de expôr
+publicamente o Santissimo Sacramento á veneração dos fieis. Foi este uso
+que deu origem ao vaso chamado _custodia_, ou _apresentação_ nome
+derivado dos verbos latinos _ostendere_ e _monstrare_, significam, um e
+outro, _mostrar_.
+
+No principio, parece que o _Santissimo Sacramento_, estava exposto
+publicamente nas pyxides _transparentes_ com cruzes e torrinhas cheias
+de aberturas; mas, dentro em pouco adoptaram-se, geralmente as
+custodias.
+
+Algumas d'estas custodias primitivas apresentam a maior analogia com os
+relicarios expostos contemporaneos. São pequenos edificios de metal, com
+recortes, tendo um pé e furados sobre dois ou muitos dos seus lados, com
+aberturas, as mais das vezes sob a fórma de janella ogival.
+
+As custodias mais communs durante todo o periodo ogival, foram as de
+_cylindro_, assim designadas porque são formadas d'um cylindro de
+crystal ou de vidro posto sobre um pé de metal. No XIV, XV e XVI
+seculos, o cylindro tem geralmente por cima um campanariosinho e nos
+flancos contra-fortes e arcos-butantes, igualmente de metal. Depois do
+XIII seculo, o campanariosinho e o pinaculo não são usados. A hostia
+colloca-se no interior do cylindro n'uma luneta sustentada por um ou
+mais anjos. O pé e o nó d'estas custodias apresentam a maior similhança
+com os calices e as pyxides contemporaneas; todavia, o diametro do pé é
+geralmente maior nas custodias que nas pyxides e calices.
+
+As custodias em que o cylindro de crystal é substituido por um _sol
+radiante_ vieram a ser geraes desde o XVI seculo. Antes d'esta epocha,
+eram extremamente raras, e sómente se conhecem pela noticia que se
+encontra nos inventarios dos thesouros das egrejas pertencentes ao XV
+seculo.
+
+_Relicarios_. Os relicarios do periodo ogival apresentam fórmas tão
+variadas como os da epocha Roman. Seria difficil descrevel-os todos;
+occupar-nos-hemos dos principaes.
+
+_Relicario da vera Cruz_. Como precedentemente dava-se muitas vezes a
+estes relicarios a fórma d'uma cruz com travessa dupla; porém
+empregavam-se os ornatos proprios da ourivesaria da epocha ogival. A
+maior parte d'estas _cruzes-relicarios_, sobretudo as mais bellas, são
+do XIII seculo.
+
+Depois d'essa epocha abandonou-se o costume de encaixilhar os relicarios
+da vera cruz, nas cruzes relicarias com travessa dupla, e serviram-se
+geralmente da cruz com uma unica travessa.
+
+Deu-se tambem algumas vezes a fórma de uma cruz aos relicarios contendo
+reliquias de santo; mas n'este caso a cruz tem sempre uma só travessa.
+
+No XIII seculo, os relicarios da vera cruz, collocados n'uma pequena
+cruz ou bocota, eram ainda ás vezes, como durante o periodo Roman,
+encaixilhados dentro de placas metallicas fixas sobre o meio da madeira
+e ornados de esmaltes, gravuras e cinzelados de maneira a formar uma
+especie de quadro com portas de metal ou madeira pintada.
+
+_Relicario da corôa com espinhos_. Os espinhos da corôa trazida pelo
+Redemptor durante a sua paixão, eram collocados regularmente em corôas
+de ouro ou de prata enriquecidas de joias. Algumas d'estas corôas,
+feitas no Oriente, foram enviadas para a Europa Occidental pelos
+imperadores que as conquistas dos cruzados tinham collocado sobre o
+throno de Constantinopla.
+
+A Santa Corôa de espinhos que tinha vindo em poder dos cavalleiros
+cruzados em seguida ás suas conquistas no Oriente, ficou conservada
+religiosamente no throno sagrado do novo imperio byzantino até 1237,
+epocha em que o imperador Bauduino II foi obrigado a dal-a em penhor aos
+commerciantes venezianos, os quaes lhe haviam feito um emprestimo da
+quantia de quatro mil marcos de prata para occorrer ás necessidades mais
+urgentes das finanças imperiaes.
+
+Pouco tempo depois, S. Luiz IX, rei de França, tendo tido a felicidade
+de occupar o logar dos emprestadores, ficando responsavel pela quantia
+entregue, pôde obter a preciosa reliquia, e a fez transportar para
+França por dois frades dominicanos.
+
+O santo rei mandou pôr muitos espinhos nas corôas do mesmo feitio que
+tinha a corôa real, e presenteou com ellas um certo numero de
+estabelecimentos religiosos.
+
+Os Santos Espinhos foram tambem por vezes encaixilhados em relicarios
+mais simples e d'um feitio differente.
+
+Os relicarios do periodo ogival apresentam o mesmo aspecto que os do XII
+seculo, isto é, teem a fórma d'um cofre oblongo, fechado por uma tampa
+imitando um telhado com duas aguas.
+
+Os grandes relicarios do XIII seculo são cofres de madeira coberta com
+chapas de metal esmaltado, cinzelado e por vezes simplesmente gravado.
+Quasi todos são rectangulares; ha todavia, por exemplo, a grande caixa
+das reliquias de Nossa Senhora de _Aix-la-Chapelle_, que se vê sobre os
+seus dois compridos lados, saliencias que a faz parecer com uma egreja
+tendo um cruzeiro. As suas faces verticaes são ornadas de estatuasinhas
+de ouro, prata ou de cobre dourado, ficando collocados debaixo de docéis
+ou arcaduras. Jesus Christo abençoando, sentado ou de pé, só ou entre
+dois santos, se vê, como nos relicarios Romans, sobre um dos dois
+pequenos lados formando empena, emquanto o outro lado fica occupado por
+Nossa Senhora, ou pelo Santo cujas reliquias se conservam no relicario,
+igualmente collocado entre dois santos.
+
+Os dois lados compridos estão divididos n'um certo numero de
+compartimentos tendo como remates frontões dentro dos quaes estão
+inscriptas ogivas quasi sempre trilobaes. Estes compartimentos formam
+docéis ou arcaduras, mostrando estatuasinhas dos apostolos ou de outros
+santos assentados.
+
+Sobre as abas da tampa ha figuras em pé ou baixos relevos representando
+os mysterios da vida de Jesus Christo e os principaes factos do corpo
+que encerra o relicario.
+
+Finalmente, algumas vezes a aresta superior do cofre, e mesmo os lados
+inclinados dos frontões, teem na summidade folhagens de esmerado lavor,
+interrompidas de distancia a distancia, por castões.
+
+As linhas inclinadas dos frontões, os docéis, os molduramentos e os
+fustes das columnasinhas que sustentam os docéis estão bastantes vezes
+cheios de esmaltes e filigranas como se fazia precedentemente.
+
+Desde o final do XIV seculo, os relicarios em metal perdem o aspecto de
+feretro ou cofre, como haviam tido até então; transformam-se pouco a
+pouco e tomam a apparencia de capellas e mesmo de pequenas egrejas.
+
+Alguns relicarios do XIV seculo fingem, d'uma maneira extremamente
+caracterisada as fórmas architectonicas: representando rosaceas,
+galerias, campanariosinhos e contrafortes; os seus docéis e frontões
+teem as inclinações dos contornos decorados de crochetes acabando no
+feitio d'um florão.
+
+O maior numero dos relicarios metallicos dos XV e XVI seculos imitam
+servilmente a maneira de se construirem os monumentos de cantaria; vindo
+a ser reproducções em pequeno das grandes egrejas ogivaes. Tendo
+egualmenle arcos-butantes, na summidade recortes, parapeitos vasados em
+trefles ou de quatro folhas, uma nave principal e as lateraes, etc., e
+ás vezes tambem uma torre se ergue no centro do espigão.
+
+Usaram tambem, durante o periodo ogival, de _relicarios de madeira_
+cobertos de pinturas representando assumptos religiosos que recordam
+geralmente os principaes factos da vida do santo que contém o relicario.
+
+O relicario de madeira mais notavel como objecto d'arte por causa de
+suas pinturas, é o de Santa Ursula, que está no hospital de S. João em
+Burges. Tem a data do XV seculo e constitue uma das obras primas do
+pintor Hans Memlinc.
+
+Ha tambem poucos exemplares de relicarios de pedraria do periodo ogival.
+
+Os relicarios não contém sempre os corpos inteiros dos santos, e são
+tambem destinados a conservar reliquias diversas.
+
+_Bustos, braços, pés, estatuasinhas_, etc. O uso de conservar as
+reliquias dos santos dentro de bustos ou nos relicarios preciosamente
+ornados imitando a fórma dos ornatos a que os relicarios pertenciam já
+no periodo roman, manteve-se durante toda a epocha ogival, e
+encontram-se ainda muitos exemplares do periodo do renascimento.
+
+O maior _busto-relicario_ conhecido, pois mede 1^{m},62 centimetros de
+altura e um dos mais magnificamente ornados, é o de S. Lamberto da
+cathedral de Liège, obra de 1506 a 1512. É de prata dourada e está posto
+sobre um plintho decagono decorado de seis baixos relevos representando
+differentes scenas da vida do santo bispo de Maestricht. O bispo está
+paramentado com as vestes pontificaes e todo coberto de joias e perolas.
+
+Os ossos dos braços e dos pés estão muitas vezes introduzidos nos
+relicarios apresentando a fórma d'esses membros do corpo humano. Nos
+relicarios de fórma de braço, a mão fica sempre representada _benzendo_
+á maneira Latina.
+
+No thesouro da egreja de Nossa Senhora de Tongres ha sete relicarios com
+a fórma de braços. Dois são do final do XIII ou principio do XIV seculo,
+estando compostos de chapas de prata com faxas de cobre dourado
+guarnecido de joias e filigranas; os outros cinco são de madeira
+pintados e dourados. Os tres mais admiraveis e preciosos, têem dois a
+fórma d'um pé, e no terceiro, com a fórma de meia lua, guarda-se uma
+costella do apostolo S. Pedro.
+
+Ha tambem relicarios apresentando o feitio de estatuasinhas. Geralmente
+as reliquias estão contidas em um pequeno cylindro de crystal,
+guarnecido de prata ou cobre dourado, fechado nas duas extremidades e
+posto ao lado da estatuasinha ou trazendo-o na mão. Algumas vezes, posto
+que raramente, estão fixos n'um medalhão ou pequena cruz, sobre o peito
+ou sobre outra qualquer parte da estatuasinha.
+
+_Mostrador-relicario_. Estes relicarios compõem-se de vasos de crystal
+ou de qualquer outra materia transparente, engastados em obra de
+ourivesaria, onde se mettem as reliquias, depois de as ter embrulhado em
+pellica, seda ou estofo, tecidos de ouro ou prata. Estes vasos,
+geralmente de fórma de cylindro ôco, põem-se muitas vezes n'uma posição
+vertical, e ficam limitados por um remate tambem conico. O maior numero
+dos mostradores-relicarios são postos sobre pés similhantes aos dos
+calices e das custodias; alguns são sustentados por anjos ou levitas;
+finalmente ha os que ficam postos sobre um sóco; por vezes acontece não
+terem essa base.
+
+No XIII seculo, e mesmo ainda ás vezes no seculo seguinte, os ourives, á
+imitação das obras dos esculptores contemporaneos, iam buscar os feitios
+de decoração para os mostradores-relicarios ás reliquias nos engastes
+das joias, ás filigranas e as folhagens imitando a flora indigena.
+
+Ao começar do XIV seculo, muitos relicarios fingem fórmas architecturaes
+e imitam mais ou menos certas partes dos edificios do estylo ogival. Os
+feitios da decoração tirados até ali ao reino vegetal, dão logar para
+formar pinaculos, contra-fortes, arcosbutantes e docéis, estando
+delicadamente lavrados e executados, não pela imitação servil dos
+edificios de cantaria, mas com uma intelligencia apurada que distingue
+todas as producções artisticas da idade media e que attendiam á natureza
+da materia que se punha em obra. O ourives, posto que conservasse as
+fórmas geraes da architectura, dava-lhes uma leveza que seria
+impossivel, se fosse executada na pedra.
+
+Quando o cylindro ficava na posição vertical, a fórma do
+mostrador-relicario confundia-se geralmente com a das custodias, como já
+referimos.
+
+Vêem-se tambem algumas vezes relicarios com cylindro vertical e feitio
+da decoração imitando a architectura, não tendo peanha.
+
+Quando, pelo contrario, o cylindro tem a posição horisontal, é
+geralmente executado em obra de ourivesaria de fórma de egreja com uma
+ou mais naves, encimado d'uma torresinha elevada e ligada por
+arcos-butantes sahindo do engaste que encerra o cylindro.
+
+_Phylacteras_. Não podemos deixar de mencionar uma outra fórma de
+relicarios que foi commum no XII e no XIII seculos. Estes objectos
+compõem-se de pequenos moldes de madeira cobertos de prata e cobre
+dourado e esmaltado, sobre os quaes estão traçadas, em esmalte ou
+relevo, imagens, scenas historicas e legendarias, emmolduradas n'uma
+cercadura de filigrana recamada de joias sem serem lapidadas. Muitas
+vezes mesmo as representações dos assumptos, das figuras e symbolos
+faltam inteiramente. As costas, formadas igualmente d'uma chapa de
+metal, são ornadas de lavores, gravuras ou pinturas. Têem sempre
+pequenas dimensões (o seu diametro não é de mais que dois a tres
+decimetros), e fórma redonda, ellyptica ou, as mais das vezes, com
+quatro folhas. Alguns archeologos lhes dão o nome especial de
+_phylacteras_, posto que, conforme a etymologia, este nome, derivado do
+grego, _guardar_, designa qualquer especie de custodia ou recipiente, e
+deveria por conseguinte applicar-se indistinctamente a todos os
+relicarios.
+
+Algumas vezes as phylacteras são, como os relicarios de cylindro de
+crystal, postas sobre um pé de metal com figuras de anjos ou de santos.
+
+_Cofres-relicarios_. Continuou-se, durante o periodo ogival, a encerrar
+as reliquias dos santos nos cofres de metal, madeira, marfim e couro com
+figuras em relevo. É bastante raro achar, sobre estes cofres, scenas
+historicas ou symbolos religiosos.
+
+No XV seculo principiou-se a fazer cofres de ferro, e o seu uso não se
+demorou a generalisar. Não devemos pois admirar-nos, se um grande numero
+d'estes objectos curiosos têem sido conservados até ao presente. A maior
+parte eram destinados a uso profano: guardavam joias e outros objectos
+preciosos. Ha todavia alguns que serviram de relicarios, principalmente
+os que têem inscripções religiosas, como--AVE MARIA GRATIA PLENA e O
+MATER DEI MEMENTO MEI.
+
+Ás vezes estes cofres eram inteiramente de ferro; sendo todavia formados
+d'uma caixa de carvalho ou de faia forrada de couro encarnado, sobre o
+qual assentava uma chapa de ferro recortada e segura por enfeites de
+ferro. O ferrolho tinha ás vezes a fórma d'um lagarto ou de salamandra.
+A maior parte d'estes cofres eram cobertos de florões scintillantes, o
+que faz vêr que no XV seculo os serralheiros como os ourives iam buscar
+á architectura as suas principaes fórmas de decoração.
+
+Os cofres de marfim, dos quaes se haviam servido muitas vezes para os
+relicarios durante o periodo Roman, ficaram em uso até á epocha ogival
+juntamente com os de madeira, de metal e de couro.
+
+_Trombetas-relicarios_. Não é raro achar, nos thesouros de egrejas,
+antigas trombetas de guerra e de caça transformadas em relicarios.
+Durante a idade media, os christãos não receiavam empregar no culto
+certos objectos profanos emquanto á sua origem e á sua ornamentação,
+mais preciosos como materia ou como obra d'arte. Já assignalamos esta
+pratica para os camafêos e pedras antigas gravadas concavamente, das
+quaes os ourives da idade media frequentemente faziam uso para dar mais
+brilho ao metal nos differentes objectos para o culto; encontrando-se
+tambem nas trombetas dos caçadores de que tratamos agora e dos esmoleres
+de que fallaremos depois.
+
+Quasi todas as trombetas-relicarios são de marfim e apresentam a mesma
+fórma, imitando a defeza do elephante de cuja materia eram fabricadas. É
+do nome d'este animal, que as trombetas de marfim têem tirado o de
+_olifante_, pelos quaes são geralmente conhecidos. Na idade media o
+_olifante_ era tanto se não fosse mais, um instrumento de guerra como
+para a caça; servia principalmente para dar signal de commando, reunir
+as tropas e annunciar a presença do inimigo.
+
+Os elephantes e as trombetas estão guarnecidos de aros de metal,
+floreado com florões ou redentados que facilitam suspendel-os em
+bandoleira. Estas virolas, algumas mostrando a cabeça de bezerro, estão
+fixas nas duas extremidades, e de distancia em distancia sobre o
+comprimento do objecto. Algumas vezes tambem ornam-se os elephantes de
+esculpturas em baixo-relevo, e então as virolas não têem ornatos.
+
+As principaes officinas para a esculptura dos oliphantes e guarnecel-as
+de metal existiam durante a idade media no Norte de França,
+principalmente em Abbeville e Paris.
+
+Encontram-se tambem trombetas relicarios em chifre de boi e de bufalo;
+posto que guarnecidas pela mesma maneira que os _oliphantes_, são
+todavia faceis de reconhecer, não sómente pela sua côr, mas ainda pela
+sua curva muito mais fechada, approximando-se geralmente d'um
+semi-circulo.
+
+_Esmoleres-relicarios_. Chama-se _esmoler_ a uma pequena bolsa com
+cordões ou fechos, que se traz suspenso á cintura para guardar o
+dinheiro e os objectos de serviço habitual. Estas bolsas, que formavam
+na idade media o complemento indispensavel do vestuario dos dois sexos,
+eram de couro ou estofos de preço. Dava-se-lhes tambem o nome de
+algibeira.
+
+A fórma mais antiga é d'uma pequena bolsinha com dois cordões de correr
+para fechar, e d'um outro cordão para suspender á cintura. Mais tarde
+supprimiram-se os cordões e dobraram na frente do bolsinho uma parte do
+estofo, que se levantava quando se queria introduzir a mão no esmoler.
+
+Não se tem conservado até ao presente esmoleres de estofo, e mesmo os de
+couro não se encontram senão casualmente. Entre estes estofos uns são de
+seda lavrada, outros têem bordados sobre linho ou seda com fios de ouro
+ou seda de differentes côres traçando simples ornamentos, symbolos e
+mesmo algumas vezes assumptos.
+
+Na idade media serviam-se, muitas vezes dos esmoleres para embrulhar as
+reliquias dos santos e deposital-as nos relicarios. É mesmo a esta
+circumstancia que deve ter-se conservado um grande numero d'esses
+curiosos objectos, o que serve tambem para se explicar acharem-se nos
+thesouros das egrejas. Poucas vezes esses esmoleres mostram symbolos ou
+assumptos religiosos; no maior numero vêem-se simples ornamentos;
+algumas vezes mesmo estão decorados com assumptos profanos.
+
+_Relicarios diversos_. Além dos relicarios que acabamos de descrever por
+classes, ha tambem outros de que seria impossivel formar grupo, havendo
+infinita variedade, e ao mesmo tempo um gosto singular, que os artistas
+de todo o periodo ogival empregaram no feitio d'esses objectos.
+
+_Custodias_ d'Agnus Dei. Chama-se _Agnus Dei_ a pequenos medalhões de
+cera branca, de fórma circular ou oval, ornados sobre as duas faces com
+a impressão d'um cordeiro deitado, uma cruz de resurreição, estandarte e
+tendo dois ou tres guiões fluctuantes. Por baixo do cordeiro ha n'um
+segmento de circulo, o nome do Pontifice que benzeu o objecto. N'uma
+epocha bastante recente, tem-se muitas vezes completado esta indicação,
+ajuntando-se-lhe o anno do pontificado; havendo-se substituido ao
+cordeiro collocado no reverso do medalhão, o brazão d'armas do papa ou
+uma imagem. Em exergo lê-se quasi sempre: AGNE DEI MISERERE MEI QUI
+CRIMINA TOLLIS.
+
+Desde o IV seculo é provavel se estabelecesse o uso de aproveitar, no
+domingo depois da Paschoa, os restos do cirio paschal do anno precedente
+para o dividir em pequenos fragmentos e distribuil-os depois aos fieis,
+os quaes os levavam comsigo para suas casas e serviam como objecto bento
+de devoção. É n'esta pratica ao presente conservado em algumas dioceses
+com as modificações accessorias, que se acha a origem da devoção dos
+_Agnus Dei_. Em Roma, principiaram cedo a ajuntar cera pura e oleo aos
+fragmentos do cirio paschal e com esta mistura, se moldavam medalhões em
+forma de distico, tendo a effigie do cordeiro Divino. Estes medalhões
+eram já conhecidos em Roma perto do fim do VI seculo. Mais tarde, e
+ainda presentemente, os restos do cirio paschal foram completamente
+excluidos da materia dos _Agnus Dei_, e serviram-se unicamente da cêra
+sem nenhuma addição de substancias estranhas, que o soberano Pontifice
+mergulha durante algum tempo em agua benta misturada dos Santos Oleos e
+de balsamo puro.
+
+Em todos os tempos os _Agnus Dei_ têem sido recebidos pelos fieis com
+grande veneração, e muitas vezes encerrados em pequenas bocetas de metal
+mais ou menos precioso, cuja forma e ornamentação apresentam a maior
+analogia com os dos relicarios. Estas bocetas têem geralmente uma argola
+para se suspender; são circulares como os antigos _Agnus Dei_, trazendo
+em exergo a legenda como está: AGNE, (ou mais vezes ainda AGNUS) DEI
+MISERERE MEI QUI CRIMINA TOLLIS, ou uma outra oração. São muitas vezes
+recortadas de maneira a mostrarem uma maior ou menor parte da cêra. Os
+espaços que occupam o metal são ora dispostos em simples cruz grega
+tendo na intersecção dos ramos, um medalhão cinzelado, gravado ou
+esmaltado, ora em relevo sob a fórma de cordeiro, imagens, ou simples
+florão.
+
+Os mais antigos _Agnus Dei_ conservados até ao presente não vão além do
+principio do XIV seculo; porém os d'uma epocha posterior encontram-se
+com bastante frequencia.
+
+_Armarios para reliquias_. Os relicarios, os vasos sagrados, os livros
+do Evangelho e outros objectos preciosos conservam-se regularmente em
+armarios ou tendo simples nichos feitos na grossura da parede; outras
+vezes formavam construcções de pedra encostadas a uma parede; todavia as
+mais das vezes eram moveis de madeira com mais ou menos obra de apurado
+trabalho.
+
+No XIII seculo, e mesmo ainda muitas vezes no XIV seculo, estes moveis,
+d'uma fórma sempre simples e adequada ao seu destino eram principalmente
+ornados com ferragens de feitio esmerado e com pinturas sobre as suas
+portas. As portas sem molduras compunham-se d'uma serie de taboas
+simplesmente juntas, duplas, consolidadas na parte interna, por
+travessas e no lado exterior ornadas com bellas pinturas.
+
+Desde o fim do XIII seculo e durante a primeira parte do XIV seculo, a
+pintura e a esculptura foram, em certas occasiões, empregadas
+simultaneamente na decoração dos armarios das reliquias; algumas vezes
+mesmo, as portas com esculpturas tinham dourados, e o lavor de estojo
+com ornamentos coloridos. Depois, a esculptura augmenta e pouco a pouco
+acaba, no fim do XIV seculo, para substituir completamente a
+polychromia. As portas dos armarios não apresentam já, a contar d'esta
+epocha, as superficies inteiramente lisas e cheias de pinturas.
+Compõe-se então de almofadas encaixilhadas e preparadas do mesmo modo
+que as partes lisas das portas. Entre estas almofadas, algumas têem em
+relevo molduras com desenhos imitando as travessas das almofadas das
+janellas, as outras estão cheias de folhagens ou ornatos de talha
+imitando folhas de pergaminho, como já explicámos. Uma cimeira recortada
+e vasada e na qual os prumos dos aros veem terminar em florão rematam
+muitas vezes o movel em todo o seu comprimento.
+
+_Vasos para os santos oleos_. Na quinta feira de cada anno, o bispo
+benze solemnemente, durante a missa que elle celebra na sua cathedral,
+tres especies de oleos, os quaes são depois distribuidos pelas egrejas
+da diocese. São: 1.^o oleos para os cathecumenos; 2.^o, oleo para os
+enfermos; e 3.^o, oleo para a chrisma.
+
+Acham-se ainda hoje em algumas cathedraes, grandes vasos do periodo
+ogival que serviram antigamente para benzer os santos oleos na ceremonia
+de Quinta Feira Santa.
+
+Além d'estes vasos de grandes dimensões, nos quaes o bispo benzia os
+oleos para toda uma diocese, ás vezes mesmo para muitas, havia
+recipientes mais pequenos, que continham sómente os santos oleos para o
+deão de uma grande cidade. Alguns eram cofresinhos rectangulares ou
+ovaes, de madeira forrada de couro, dividido interiormente em tres
+separações, podendo em cada uma caber um frasco. Outros em metal mais ou
+menos precioso, compõe-se de tres vasos, geralmente cylindricos reunidos
+estando soldados ou simplesmente unidos.
+
+Os vasos contendo os santos oleos para a occasião mesmo em que dar os
+sacramentos e nas differentes uncções de bençãos, são regularmente muito
+mais pequenos do que aquelles que fallamos, e podem ser divididos em
+duas classes. Os da primeira classe, destinados a conter ao mesmo tempo
+as tres especies de oleos, são triplicados como os dos deões, os quaes
+se differençam unicamente pela sua menor dimensão. Compõem-se quasi
+sempre de tres cylindros ôcos, com uma tampa conica, collocados em roda
+d'um nucleo, porém raras vezes postos em linha. Alguns não têem pés,
+outros mostram esse appendice.
+
+Para distinguir os differentes oleos, marcam-se os vasos com lettras
+differentes: I, designa o oleo para os enfermos, _oleum Infirmorum_; C,
+o santo oleo, _chrisma_. Para o oleo dos cathecumenos servem-se ora da
+lettra S, _oleum Sacrum_, ora da lettra O, _oleum_, ou mesmo da lettra
+E, do grego [Grego: Elaion], oleo. Como cada um d'estes oleos não serve
+sempre nas mesmas ceremonias, e se precisa levar longe o oleo para os
+doentes, cada um dos pequenos vasos pode-se separar do nó central que os
+reune.
+
+A segunda classe dos vasos para uso immediato de ungir comprehende
+aquelles que encerram uma unica especie, geralmente o oleo para os
+enfermos. Teem quasi sempre a forma cylindrica e estão tapados com uma
+tampa de fórma conica. Alguns teem pés, outros não.
+
+_Corôas suspensas sobre o altar_. Estas corôas chamadas _votivas_,
+estiveram em uso pelo menos durante uma parte do periodo ogival, e
+conservavam a fórma que tinham antes: a de um circulo de metal, cujo
+brilho era muitas vezes augmentado com joias e esmaltes. Algumas eram
+feitas de proposito para o serviço do altar; outras pertencentes aos
+soberanos como insignia de realeza, foram dadas ás egrejas pela
+generosidade dos principes.
+
+_Corôas com luzes_. As coroas de luzes do periodo ogival são ou
+_suspensas_ ou sustidas em um _pedicello_.
+
+As corôas _suspensas_, que estiveram em uso desde os primeiros seculos
+do christianismo, chegaram ao seu maior desenvolvimento no XI e XII
+seculos. Durante o periodo ogival, perderam muito da sua importancia, e
+as maiores d'esta epoca, encontram-se muito raro presentemente.
+
+No XV seculo apparecem os lustres, que quaes vieram a ser communs em
+pouco tempo, e ficaram a substituir as corôas desde o principio do
+periodo do renascimento.
+
+As corôas de luzes _pediculadas_ são geralmente de ferro forjado e
+compõe-se quasi sempre de uma tampa da qual se ergue uma hastea vertical
+ornada de um ou muitos nós. No alto d'esta haste estão postos em
+diversas alturas, dois ou mais numeros de circulos em fórma de polygonos
+de diametros differentes, compostas de espigas e dirandellas para terem
+vellas. Os circulos são movediços e podem girar em roda da hastea que os
+sustenta; esta disposição permitte aos devotos puxar para si as
+dirandellas sem vellas pôr-lhes outras vellas offerecidas por promessa.
+Estas corôas estavam em uso nas egrejas onde numerosos peregrinos vinham
+venerar as reliquias ou a imagem de algum santo. As mais remotas corôas
+tendo pé não vão além do XV seculo.
+
+_Cruz de altar e de procissão_. Já dissemos, que até o fim do XV seculo
+não houve distincção entre as cruzes do altar e as cruzes processionaes
+ou estacionarias. A mesma cruz servia para o mesmo uso: punham-a sobre o
+altar ficando firmada sobre uma base ou levavam-a em procissão no cimo
+de uma comprida hastea.
+
+No XIII seculo, as cruzes processionaes eram de uma grande simplicidade.
+Tinham geralmente a imagem de Jesus Christo, e nas extremidades dos
+braços havia os symbolos dos evangelistas collocados em um quadrilobo.
+
+No XIV e no XV seculo, ornam muitas vezes com as fórmas architecturaes,
+e mesmo tendo estatuasinhas debaixo de docel, o cabo era ôco servindo
+para fixar a cruz sobre a hastea ou sobre um pé.
+
+Quando no XIV, e principalmente no XV seculo, multiplicaram-se as
+capellas e os altares em uma mesma egreja por causa do augmento
+extraordinario da fundação de missas, introduziu-se o uso das cruzes do
+altar, isto é, assentes permanentemente sobre elle. A cruz do altar
+principal era a unica que ficava portatil, podendo servir no altar e nas
+procissões.
+
+_Castiçaes_. Havia, durante o periodo ogival, quatro especies principaes
+de castiçaes: os castiçaes do _altar_, os castiçaes de _elevação_, e os
+castiçaes _paschoaes_ aos quaes se podem ajuntar os _tocheiros_
+collocados aos lados dos catafalcos.
+
+_Castiçaes de altar_. O uso de collocar _dois castiçaes sobre o altar_
+foi introduzido, em certas partes, no fim do periodo roman, e veiu a ser
+geral no XIII seculo.
+
+Os castiçaes de altar do XIII seculo apresentam uma grande similhança
+com os do periodo roman. Do mesmo modo eram de metal e compunham-se
+regularmente de um pé descançando sobre tres garras, d'um nó e d'um
+prato com uma espiga; sendo todavia menos ornados. É por isso, que
+apparecem excepcionalmente animaes phantasticos de forma de lagarto ou
+dragão de azas que sustentam o prato de quasi todos os castiçaes romans.
+
+No XIII seculo, como precedentemente, os castiçaes teem pouca altura,
+sendo as mais das vezes de 15 a 25 centimetros. Algumas vezes todavia,
+porém muito raro, proximo do fim do XIII seculo, tinham a hastea com
+dois ou tres nós quasi 50 centimetros de alto.
+
+O uso de não pôr sobre o altar mais de dois castiçaes pequenos durou até
+ao XVII seculo.
+
+Nos XIV e XV seculos, os nós da hastea foram substituidos por virólas,
+sendo o numero de duas ou tres; ha todavia exemplos, principalmente no
+XIV seculo, onde a hastea tem uma unica viróla.
+
+No fim do XV seculo e no principio do XVI seculo, os castiçaes têem
+muitas vezes os nós, o pé e o prato com relevos do feitio de meias
+perolas e a hastea torcida em espiral.
+
+_Castiçaes de elevação_. Este nome foi dado aos castiçaes destinados
+para terem as vellas accesas antes da elevação da Hostia, e que se
+apagam depois da communhão do padre. Estes castiçaes, regularmente em
+numero de dois e collocados aos lados do altar, eram muito mais altos
+que os castiçaes do altar, tendo de altura muitas vezes um a dois metros
+de alto.
+
+_Castiçaes paschoaes_. Assenta-se geralmente a hastea do _castiçal
+paschoal_ n'uma estante vasada, onde se põe o livro para o canto do
+_Exultet_. Muitas vezes se collocam dois ou mais braços destinados a ter
+pequenas vellas; ha-os de latão e de ferro forjado.
+
+No XIII seculo, os castiçaes paschoaes são ornados muito simplesmente
+imitando na ornamentação o reino vegetal.
+
+No XIV seculo, os candelabros para a tocha paschoal estão ornados muito
+modestamente.
+
+Os castiçaes paschoaes do XV seculo são ainda muito mais simples.
+
+_Os castiçaes postos aos lados do catafalco_. Estes castiçaes geralmente
+muito simples são as mais das vezes de ferro forjado e ornados com
+polychromia. A sua altura varia entre um a dois metros. Um grande numero
+se têem conservado. Algumas vezes estes castiçaes eram tambem de
+madeira.
+
+Aos lados dos catafalcos, os tocheiros isolados eram muitas vezes
+substituidos por um _candieiro-triangular_ de pau ou metal composto de
+um certo numero de bicos ou de pratos e assente sobre um ou dois pés.
+Esta alfaia é tambem designada, principalmente nos antigos inventarios,
+_cabide_, _rastrum_ e _rastrellum_.
+
+Vestigios de apparato com luzes para os defuntos, se vêem ainda hoje em
+muitos monumentos funerarios do XIII seculo, nas egrejas de S. Diniz,
+proximo de Paris, mandados erigir por S. Luiz Rei de França, em memoria
+dos reis seus predecessores.
+
+_Braços com vellas e dirandellas_. Os candieiros com braços e as
+dirandellas vieram a ser de um uso geral no principio do XV seculo. Têem
+geralmente o mesmo feitio que os braços do candieiro paschoal com o
+prato adentado. São postos sobre as paredes, e mais vezes ficam defronte
+de uma imagem. O maior numero são de latão; os de ferro forjado
+encontram-se raras vezes.
+
+_Estantes para o côro_. Chama-se _estante do côro_ a uma estante de
+madeira ou de metal sobre a qual se põe os livros para facilitar as
+leituras lithurgicas.
+
+As estantes do côro fazem parte das alfaias religiosas; são de duas
+especies: estantes _fixas_, collocadas geralmente no meio da capella-mór
+e chumbadas no pavimento, ou com um pé tão pesado que se não poderia
+facilmente mudar para outra parte, e estantes _portateis_. As primeiras
+serviam para os chantres recitarem os officios; as outras para o diacono
+e subdiaconos cantarem o Evangelho, a Epistola ou as lições sagradas.
+
+_Observações preliminares_. Desde o VII e VIII seculos, e durante todo o
+periodo roman, fizeram algumas vezes as _estantes fixas_ independentes
+da tribuna. Estas estantes isoladas, estando destruidas presentemente,
+eram quasi sempre de metal, e compunham-se, como tambem as do principio
+do periodo ogival, d'uma aguia com as azas abertas, pousada sobre um
+sóco. Muitas vezes a aguia, attributo do evangelista S. João, era
+acompanhada de symbolos dos tres outros evangelistas.
+
+_Estantes fixas collocadas no meio do côro_. As estantes do côro
+destinadas aos chantres, são ordinariamente de latão e compõem-se d'uma
+aguia assente sobre um pé em fórma de pilar ou de columna. Este pé
+algumas vezes é consolidado por arcos-butantes, os quaes estão ornados
+de arcaduras vasadas com rosaceas e ornatos variados, similhantes aos
+que ornam as grinaldas dos tympanos das janellas ogivaes.
+
+Nos antigos documentos a estante do côro é designada _aguia_, em latim
+_aquila_, porque a maior parte das estantes, tanto do periodo ogival
+como da renascença, têem a forma d'uma aguia. Muitas _estantes-aguias_
+do XV seculo escaparam de serem destruidas, talvez pelo seu peso.
+Algumas vezes a aguia é substituida por outros animaes, ou por homens e
+anjos. As estantes de pelicanos, cujo uso foi introduzido no tempo do
+periodo ogival, veiu a ser bastante commum na epocha do renascimento.
+
+_As estantes moveis_. Estas estantes facilmente transportaveis, foram
+empregadas durante o periodo ogival, quer para a leitura do Evangelho e
+da Epistola, quer para as outras ceremonias do culto; eram geralmente de
+ferro e poucas vezes de madeira. Estas estantes eram regularmente
+formadas d'uma dupla dobradiça com o feitio d'um _X_, cujas extremidades
+superiores ficam ligadas entre si por uma cobertura de couro sobre a
+qual se põem os livros lithurgicos. Acontece todavia, principalmente nas
+estantes moveis de madeira, que elle não é formado d'uma cobertura de
+couro, mas sim de taboinhas postas no prolongamento de duas das quatro
+extremidades superiores da dobradiça da estante.
+
+_Livros do Evangelho e manuscriptos lithurgicos_. Continuou-se, durante
+o periodo ogival, a _illuminar_ os textos dos livros santos.
+
+No fim do XII seculo, isto é, no momento em que a ogiva tomou o logar da
+_volta inteira_, fez-se uma revolução completa na arte de pintura. Os
+miniaturistas da Europa Occidental do mesmo modo que os pintores das
+vidraças e esculptores libertaram-se das tradicções byzantinas e romans,
+para se applicarem principalmente á imitação da natureza. Este novo
+genero nascido em França, como o estylo ogival, generalisou-se por todos
+os paizes proximos.
+
+A escola dos _miniaturistas_ do XIII seculo dilatou a carreira de suas
+obras. Até esta epocha, as Biblias, os livros dos Evangelhos e os dos
+psalterios tinham sido as unicas obras ornadas de estampas illuminadas;
+depois as obras profanas da antiguidade classica, as dos padres, os
+romances dos cavalleiros e as chronicas tiveram tambem illustrações
+calligraphicas.
+
+Proximo do meiado do XIV seculo, uma nova mudança teve a pintura em
+geral, estendendo a sua influencia sobre todos os ramos d'esta arte. Ao
+primor do desenho que traça os principaes contornos, esforçou-se o
+pintor por ajuntar o modelado dos objectos no afrouxamento gradual dos
+tons e na opposição das sombras e da luz. A começar d'esta epocha, o
+colorido deu á figura, não sómente a côr, mas ainda a fórma e o relevo.
+
+No XV seculo, a arte da pintura e do miniaturista, subiu em Flandres ao
+mais alto grau de prosperidade, sob a influencia dos irmãos Hubert e
+João Van Dyck, Thierry, Streerbout, Roger von der Weyden e Haus Memling;
+em Portugal, Antonio e Francisco de Hollanda. Todos estes eximios
+mestres não desprezavam empregar o seu tempo na illuminura dos
+manuscriptos. O rei Filippe--o Bom--1419-1467--, tinha uma predilecção
+notavel pela ornamentação dos manuscriptos, como tambem em Portugal
+el-rei D. João II e D. Manuel[5], contribuiram singularmente para o
+desenvolvimento d'este genero de trabalho.
+
+Os pintores d'esta epocha applicam-se a reproduzir a belleza real que se
+colhe da natureza, mais agradavel que uma belleza ideal; substituem de
+alguma maneira, o realismo ao symbolismo dos seculos findos passados;
+diligenciando representar com toda a verdade os minimos detalhes da
+natureza, cogitam o modo de apresentar a mais exacta reproducção do
+feitio e côr dos objectos.
+
+_Capas dos livros dos Evangelhos_. Até ao IX seculo serviram-se
+bastantes vezes de capas de marfim; do IX seculo ao XII, o marfim estava
+misturado ao metal e ás pedras preciosas. Durante o periodo ogival,
+abandonaram geralmente o uso do marfim, e o metal só ornado com riqueza,
+sobretudo no XIII seculo, de esmaltes e joias, foi empregado nas capas
+das Biblias, nos livros dos Evangelhos e nos lithurgicos. Salvo raras
+excepções, eram cobertos de estofos, de couro, e algumas vezes de
+madeira com esculpturas ou de chapas de prata em relevo[6].
+
+_Thuribulos e naveta para incenso_. Os thuribulos do XIII seculo
+compõem-se geralmente, como os dos seculos antecedentes, de duas
+semi-espheras ôcas, as quaes juntas formam uma bola. A semi-esphera
+inferior tem um pé que lhe serve de apoio, no qual se põe as brazas e o
+incenso; vem a ser o verdadeiro perfumador. A semi-esphera superior, que
+serve de tampa, está crivada de muitos orificíos para sahir o fumo do
+incenso. Esta tampa que tem como remate muitas vezes uma torrinha com a
+figura de homem ou de animal, é movediça: sóbe e desce ao correr de tres
+ou quatro correntes prezas por uma extremidade do thuribulo e por outra
+parte da mesma tampa atravez da qual passa uma cadeia que fixa o remate,
+e facilita levantal-a ou abaixal-a como se quizer.
+
+A fórma geral dos thuribulos do XIII seculo é conhecida, não sómente
+pelos raros especimens em metal conservados até ao presente, mas tambem
+pelas esculpturas e miniaturas contemporaneas, nas quaes se vêem anjos
+ou clerigos thuriferarios.
+
+Nos seculos XIV e XV, os thuribulos mudam de aspecto, apresentam poucas
+vezes a fórma espherica e têem geralmente o feitio de diversas curvas;
+tomando a fórma de torrinhas com telhado, janellas recortadas, etc. O
+metal de que geralmente se serviam, era o latão; para os de melhor
+qualidade empregavam a prata.
+
+_Gomís_ ou _aquamaniles_. Os gomís designados tambem _aquamaniles_ (de
+_aqua_, agua, e _manile_, vaso para deitar agua nas mãos) faziam parte
+das alfaias ecclesiasticas e continham agua para as abluções das mãos,
+durante as ceremonias religiosas. Empregavam-se tambem no uso civil para
+a lavagem das mãos antes e depois das refeições. No fim do periodo roman
+e durante todo o período ogival tinham as mais caprichosas e mais varias
+fórmas. A maior parte apresentam a d'um animal real ou phantastico; a
+agua é geralmente introduzida no gomíl pelo cimo, na cabeça do animal,
+servindo de gargalo; a bocca ou o bico finalmente a aza é formada, quer
+pela cauda do animal revirada sobre o lombo, quer por um lagarto ou um
+dragão alado; algumas vezes mesmo a torneira está posta diante da
+figura. Os animaes representados mais vezes são o leão, o cavallo, o
+veado, o gallo, o dragão, a sereia e differentes passaros. Quasi todos
+os _aquamaniles_ são de latão ou de cobre.
+
+Alguns gomís de metal têem a fórma do busto de homem, de mulher e de
+creança. Devemos tambem mencionar os gomis do XIII seculo apresentando a
+fórma d'um prato côvo, não sendo diverso da bacia que servia senão para
+pela existencia, sobre a borda d'um bico para sahir a agua sobre as
+mãos.
+
+No XI seculo principiou o uso de lavatorios collocados no meio das
+sacristias. Havia-os de fórmas architectonicas, imitando mais ou menos
+uma fortaleza ou uma torre; outros (e eram os mais communs),
+compunham-se de vasos de bronze ou latão, de pequenas dimensões, tendo
+uma grande aza e dois gargalos oppostos; para se lavar as mãos,
+abaixava-se, empurrando de cima para baixo, um dos gargalos. O seu uso
+durou até ao XV seculo.
+
+_Pratos para offerendas_. Encontram-se em muitas egrejas grandes pratos
+ou bacias de latão estampado, cinzelado e gravado, ornados de assumptos,
+symbolos, brasões, folhagens e figuras geometricas. Estes pratos
+designados _bacias de offerenda_, porque serviam e servem ainda para
+receber as offertas dos fieis, principalmente as que se fazem durante as
+missas para os defuntos, eram feitos no XV e XVI seculo nas officinas
+dos fundidores de cobre em Augsbourg, Nuremberg e Brunswick. É preciso
+advertir, que as bacias do XV seculo e do principio do XVI seculo,
+apresentam os caracteres da decoração ogival, e que as do XVI e XVII
+seculos apresentam ornatos do estylo da renascença.
+
+Os assumptos e os symbolos, representados geralmente no centro do prato,
+mais raramente sobre a borda do prato, são quasi sempre religiosos:
+todavia vê-se tambem algumas vezes com o busto de _Cicero_, de sereias,
+veados, cães, escudos com brazões, etc.
+
+Inscripções ou legendas estão gravadas dentro d'um ou dois circulos
+concentricos proximo da borda do prato, e repetem-se geralmente cinco
+vezes. Entre essas legendas ha um grande numero que apresentam um
+sentido facil de interpretar, por exemplo: _Got sei met vus, hiff Got
+aves not, hiff Th_ (esu) _vnd Maria, van allen schriftvren het slodt myt
+sonder Gost, eh wart_ (ou _gich wart_) _der in fridt, ch_ (ou _ich_)
+_bart et zeit gelvek, gi seal recorden, gustate et benedicite Deus_;
+outros pelo contrario (e estes são os que se encontram mais vezes)
+compõem-se de lettras, as quaes reunidas não apresentam nenhum sentido;
+taes são as seguintes: _rahe wishnbi et vrmtlife, vrmtielf_ ou
+_lifevrmto_.
+
+Parece bastante provavel que estas legendas, até ao presente
+indecifraveis, foram os signaes ou as primeiras lettras de muitas
+palavras formando uma divisa conhecida geralmente na epocha em que se
+executavam estas bacias para offerendas.
+
+_Representação da patena_. Em vez de se beijar a patena, recommendava o
+apostolo S. Paulo aos primeiros christãos, um abraço fraternal. No XIII
+seculo, por motivo de decencia e de respeito foi substituido em muitas
+partes, pelo uso d'um _osculatorium_ o abraço porque julgaram então não
+se poder praticar sem detrimento para a moral e distincção das
+dignidades.
+
+As regras lithurgicas fallam da patena, mas não determinam nem a fórma
+nem a representação. Serviram-se pois para este fim indifferentemente da
+cruz, relicarios, capas dos evangelhos, etc. Todavia a fórma que
+prevaleceu, foi a d'um pequeno painel, feito com materias de estimação,
+taes como ouro, prata, madeira rija ou marfim cinzelado, gravado,
+esmaltado ou pintado, representando um assumpto religioso ou santo. Este
+pequeno painel tem geralmente um cabo no lado posterior.
+
+_Moldes ou ferros para hostias_. Serviam-se desde muito tempo, e
+servem-se ainda hoje de ferros para coser o pão que symbolisa a
+Eucharistia, imprimindo-se-lhe figuras e lettras. Estas hostias teem
+regularmente a fórma circular. Muitas vezes os moldes representam
+crucificação, o Cordeiro Divino, a simples cruz, o signal I H S, imagens
+de santos e symbolos.
+
+_Insignias e medalhas dos peregrinos_. As insignias de _romaria_
+compõem-se, durante toda a idade média, de pequenas chapas
+rectangulares, quadradas ou circulares, muitas vezes de chumbo fundido e
+de obra vasada, outras de cobre ou prata impressa e aperfeiçoada ao
+buril. Apresentam geralmente em relevo a imagem do santo para quem ella
+foi feita. Distinguem-se de duas sortes: umas (e eram em maior numero),
+cosiam-se sobre o ornato pertencente á cabeça e sobre o vestuario; as
+outras, bastante raras, fixavam-se na extremidade do bordão ou arrimo do
+peregrino.
+
+Havia-as egualmente apresentando a fórma de medalhas ornadas, nas duas
+faces, com imagem de santos e inscripções; muitas vezes são acompanhadas
+de um carneiro ou argola servindo para se trazer ao collo, ou pegadas
+quer no vestuario, quer nos objectos de devoção, como são os rosarios,
+etc.
+
+_Pequenos altares domesticos_. Encontram-se muitas vezes, nos museus
+publicos e nas collecções particulares, pequenos _triptycos_ e
+_polyptycos_ de marfim, metal ou madeira, esculpidos, pintados ou
+esmaltados. Estes objectos, os fieis se serviam antigamente nas suas
+habitações para satisfazer a sua devoção, teem muitas vezes a fórma de
+um retabulo com portas, porém, de grandes proporções; sendo como os
+outros retabulos, ornados de baixo-relevos, estatuas e pinturas.
+
+_Baculos_. Como já explicamos, a voluta do maior numero dos baculos
+romans era terminado por uma cabeça de serpente ou de dragão;
+completava-os uma cruz com o Cordeiro Divino. Esta scena, symbolo do
+triumpho de Redemptor alcançado sobre o demonio pelo sacrificio do
+Calvario, veiu a ser raro desde o XIII seculo. Algumas volutas, sem
+duvida, trazem ainda n'esse tempo na extremidade, uma cabeça de dragão
+ou serpente, mas essa cabeça fica inteiramente separada ou invez já não
+ao Cordeiro nem sobre uma personagem ou sobre uma scena religiosa. Em um
+grande numero de baculos a cabeça da serpente é substituida por um ramo
+de folhagens ou por uma flôr aberta.
+
+Quando, proximo ao fim do XIII seculo, os detalhes de architectura
+substituiram-se as peças de ourivesaria, e a decoração foi buscar aos
+reinos animal e vegetal, real ou phantastico, os baculos mudaram
+egualmente de aspecto. Ornaram-se então de nichos, estatuasinhas,
+flechas e pinaculos. O nó principalmente, e tambem a hostia, ficaram
+sobrecarregados com estes ornatos.
+
+_Estofos preciosos_. Durante o periodo ogival, serviram-se muitas vezes,
+para os vestuarios sagrados, de estofos preciosos, nos quaes os desenhos
+da decoração eram feitos, _juntamente_ com o tecido mesmo, por meio de
+uma trama de differentes côres, sendo depois urdido pela applicação de
+bordados feitos com agulha. O uso dos pannos de raz para a decoração das
+egrejas generalisou-se cada vez mais durante o periodo.
+
+_Tecidos_. A arte de fabricar os tecidos de seda foi trazida da Italia
+no XIII seculo. Os desenhos embellezadores que ornam bastantes vezes os
+tecidos no XIII seculo e durante uma parte do XIV são geralmente
+copiados sobre os estofos orientaes. As figuras symbolicas e os
+assumptos pertencentes á historia do antigo e novo Testamento, que se
+acham excepcionalmente nos tecidos sicilianos ou italianos antes do
+meado do XIV seculo, apparecem frequentemente depois d'esta epocha, com
+cercadura, ou não tendo este enfeite.
+
+No XV seculo, a industria do tecido da seda desenvolveu-se cada vez mais
+a Oeste e Norte da Europa. A Suissa, França e a Belgica, que possuíam,
+depois do XIII seculo, alguns teares isolados para a fabricação da seda,
+do veludo, e do setim, viram então os seus teares a multiplicar-se e
+tomar consideravel incremento.
+
+Em Flandres tambem se tinha alcançado, desde o XIII seculo, bastante
+fama pelos tecidos preciosos, para os quaes os primeiros aprestos foram
+fornecidos pela Inglaterra. De todos os estofos o mais estimado e de
+preço fabricado em Flandres era o setim de _Bruges_.
+
+_Bordados_. Nas bordaduras do XIII seculo, como nas pinturas e
+esculpturas contemporaneas, o desenhador abandonou pouco a pouco as
+tradicções byzantinas. Os gestos dos personagens perdem a sua expressão
+archaica, as cabeças não são delineadas conforme typos convencionaes, as
+pregas dos vestidos, em logar de serem comprimidas e paralellas, são
+executadas com fidelidade; finalmente, as figuras teem muitas vezes a
+presença curvada.
+
+Desde o fim do XIII seculo, a arte de bordar, designada muito
+distinctamente na idade média _pintura com a agulha, acupictura_,
+attingiu a um subido gráo de prosperidade; desenvolvendo-se cada vez
+mais durante o XIV seculo, e chegou ao seu apogeu no principio do XV
+seculo. N'esta ultima epocha, tres paizes se distinguiram sobretudo pelo
+talento e habilidade no acabamento dos bordados: foram a _Belgica_, a
+_Prussia rhenal_ e a _Bourgogne_. Os dois principaes centros de
+manufactura para os estofos bordados encontravam-se em Arrhas, em
+_Flandres_ e em _Cologne_; a estas duas cidades se póde ajuntar em
+segundo logar _Malines_, _Liége_, _Tournai_ e _Reims_.
+
+_Pannos de Raz_. Chama-se panno de raz a _um tecido no qual os fios de
+côr, enrolados sobre uma urdidura fixa vertical ou horisontalmente, faz
+corpo juntamente, e produz combinações de linhas e tons similhantes aos
+de pintura que se obtem com o pincel, e o mosaista com os cubos de
+marmore ou de esmalte_. O panno de raz distingue-se do bordado em que as
+figuras fazem parte integrante do tecido, em quanto os bordados são
+simplesmente sobrepostos sobre um tecido já feito. Distingue-se por
+outro modo, dos estofos tecidos de ouro e seda, porque constitue sempre
+um trabalho manual, e não é obtido por um mechanismo representando sem
+fim o mesmo padrão. Cada uma das producções do _panno de raz_ é uma obra
+original.
+
+Os fios com que o tecelão delinea as sua composições, seus symbolos e
+ornatos, são o ouro, prata, seda e lã.
+
+A arte dos pannos de raz era já conhecida no XI seculo. Antes do anno
+1025, havia, em _Potiers_, uma fabrica de pannos de raz, cujos trabalhos
+tinham sido muito apreciados, mesmo fóra de França. Os productos d'estas
+officinas eram ornados de retratos dos reis, de imperadores, de figuras
+de animaes, assim como de assumptos da biblia.
+
+No XII seculo a Allemanha toma egualmente uma parte activa no
+desenvolvimento do fabrico dos pannos de raz.
+
+No XIV seculo, a arte do tapisseiro, posto que continuando a empregar o
+mesmo fabrico technico do seculo precedente, progride como todas as
+outras artes.
+
+Desde o principio do XIV seculo a manufactura dos pannos de raz de
+alto-liço prosperou em Paris, Bruxellas e Arrhas; depois foi introduzida
+em muitas outras cidades de Flandres e do Brabante. No fim do XIV seculo
+os pannos de raz de Arrhas principiaram a ter a primazia; devendo a sua
+reputação á perfeição dos seus tecidos e á sua tintura. Desde esta
+epocha, os pannos de raz de alto-liço foram designados, principalmente
+pelos Italianos e Inglezes, sendo da fabrica de Arrhas, pelo nome de
+_finos pontos de Arrhaz, e arazzi_.
+
+O XV seculo foi a idade de ouro para os pannos de raz. Realisaram-se
+então notaveis progressos na execução material. Os fios vieram a ser
+cada vez mais finos, a proporção da seda e do ouro augmentaram
+consideravelmente, os tintureiros inventaram graduação de côres novas,
+emfim os tecelões aprenderam a combinar as côres com tal habilidade que
+não podia ser nunca excedida. N'esta epocha os pannos de Arrhas eram os
+mais estimados e por isso muito procurados.
+
+_Vestimentas sagradas_. Durante toda a idade média, as vestimentas
+sagradas, das quaes se serviam nos dias ordinarios, eram feitas de
+tecido de lã, ou algumas vezes tambem de linho. Os estofos de seda
+empregavam-se nas vestimentas ricas e preciosas.
+
+A _casula_ conserva, até ao meado do XV seculo, a fórma que tinha
+durante o periodo Roman, isto é, de um vestuario largo, comprimido á
+roda do collo, cobrindo inteiramente os braços e caindo negligentemente
+de todos os lados á roda do corpo. Da mesma maneira que precedentemente,
+quasi sempre as estolas com bordaduras são comprimidas e estreitas,
+representando assumptos religiosos. Na Italia, nos paizes meridionaes e
+no meio dia de França, estas estolas são geralmente em numero de duas
+postas verticalmente, uma por diante e a outra por detraz do peito; a de
+diante fica com o feitio de um _tau_ T. Na Belgica, na Hollanda, na
+Allemanha, e em Inglaterra, duas outras pequenas faxas saindo do peito
+passam sobre os hombros e vão ter ao meio das costas, formando assim,
+pela sua combinação com as estolas verticaes, duas cruzes cujos braços
+ficam levantados com o feitio de Y.
+
+As casulas com dupla cruz entraram em uso no norte da Europa até ao XV
+seculo, epocha na qual uma mudança notavel se operou na fórma e
+disposição das estolas. Primeiramente, estas ficavam com muito mais
+largura; depois em toda a parte onde a dupla cruz com braços levantados
+havia tido uso precedentemente, pozeram sobre o lado opposto da casula,
+uma cruz latina [Símbolo], e sobre a frente uma columna.
+
+No XIII e XIV seculos, sendo sempre estreitas, eram regularmente ornadas
+com figuras geometricas ou pequenas folhagens simplesmente de decoração.
+Quando no XV seculo se fizeram mais largas, representavam muitas vezes
+imagens ou assumptos religiosos.
+
+_A estola e o manipulo_ consistiam, durante o periodo ogival, em faxas
+compridas e estreitas, quasi sempre ficando as extremidades um pouco
+mais largas.
+
+As estolas e os manipulos, geralmente de uma grande simplicidade, eram
+feitos de linho, de lã ou de seda, acabando n'um bordado e franjas. Os
+de ornamentos ricos eram por vezes bordados e apresentavam uma certa
+analogia com as faxas de recamo d'ouro das casulas, que lhes pertenciam.
+As suas extremidades não tinham ornatos com bordados symbolicos, que só
+se usaram depois da primeira metade do XV seculo.
+
+No principio o _pluvial_, em latim _coppa_, isto é, capote para
+resguardo da chuva (_pluvia_) era usado sómente pelo clero inferior,
+principalmente pelos chantres e mesmo por vezes pelos seculares, tomando
+uma parte na celebração do culto. Foi sómente no XIII seculo que veiu a
+ser commum para todas as ordens da hierarchia ecclesiastica, incluindo
+mesmo o pontifice.
+
+Serviam-se do pluvial, como se pratíca ainda hoje, nas procissões e em
+todos os outros officios da missa; por exemplo, no canto solemne de
+vesperas. O seu feitio é o mesmo da casula; sómente, em logar de ser,
+como esta, inteiramente fechada de maneira a esconder todo o corpo, é
+aberto na frente desde os pés até ao collo.
+
+O pluvial da idade media tinha, sobre as costas, um capuz de ponta muito
+comprida, com a qual se podia cobrir a cabeça. Nos pluviaes ricos as
+orlas da abertura de diante, e tambem a orla inferior, estão cobertas de
+faxas de estofo colorido, bastante estreitas e ornadas, principalmente
+no principio do XIV seculo, sendo os assumptos religiosos feitos com
+bordados. No XIV seculo as faxas veem a ser mais largas, e proximo da
+mesma época, o capuz augmenta, ficando a sua extremidade redonda, e como
+as faxas, ornada.
+
+_Colchete do pluvial_. Prendia-se o pluvial sobre o peito com um grande
+colchete coberto de medalhões em metal precioso, ornado de esmaltes ou
+delicadamente cinzelado. Estes _medalhões colchetes_, em latim
+_fibulae_, _morsus_, _monilia_ ou _pectoralia_, teem muitas vezes a
+fórma de quatro folhas; ha tambem circulares, ovaes, e mesmo quadrados.
+São geralmente ornados com assumptos religiosos ou com estatuasinhas de
+santos. Acompanham-os, principalmente no XV seculo, a figura ajoelhada e
+os brazões do doador.
+
+A _alva_ e o _amicto_ conservaram as fórmas primitivas durante o periodo
+ogival. Eram geralmente de linho, algumas vezes tambem de seda ou
+brocado. Continuou-se a guarnecel-os de faxas rectangulares com recamo
+de oiro, bordados ou tecidos vistosos. Estas vestimentas prendiam-se no
+meio da orla superior do amicto; e sobre a alva nas extremidades das
+mangas á roda do punho, por diante e detraz sobre a orla inferior
+proximo dos pés, e algumas vezes tambem sobre o peito.
+
+A _cintura_, da qual o sacerdote se serve para arregaçar a alva,
+prende-se á estola em cruz sobre o peito; não teve nunca na idade média
+a fórma de cordão que apresenta actualmente. N'essa época geralmente
+consistia em um comprido cinto, especie de fita comprida de dois metros
+e meio, com a largura de cinco a seis centimetros. Dá-se-lhe algumas
+vezes o comprimento symbolico, por exemplo, do tumulo de Jesus Christo.
+
+A _dalmatica_ é a vestimenta decima do diacono, a _tunicella_, a do
+sub-diacono. Não existe, ha muito differença entre estas duas
+vestimentas, posto que n'outro tempo a tunicella teve mangas mais curtas
+e era mais comprida, porém menos ornada que a dalmatica.
+
+Durante o periodo Roman e no principio do ogival, a dalmatica consistia
+em um comprido vestido inteiramente fechado, com mangas e uma abertura
+para passar a cabeça. Era enfeitada diante e detraz por duas faxas
+verticaes com recamo de ouro ou de côr, descendo até a orla inferior.
+Estas faxas, muito estreitas no XIII seculo, vieram a ser cada vez mais
+largas desde o XIV seculo.
+
+No XIII seculo, a dalmatica não era ainda aberta nos dois lados da orla
+inferior até quasi á quarta parte do seu comprimento. No XIV e XV
+seculos, estas aberturas augmentaram até meia altura do vestuario; tendo
+então, do mesmo modo, toda a parte inferior da dalmatica, bordados de
+faxas de côr ou as superiores de recamo de ouro.
+
+_Mitras_. As mitras com dois bicos, o uso das quaes se tinha
+generalisado no XII seculo, foram definitivamente adoptadas no XIII
+seculo, como um ornamento episcopal e abbacial. Comparadas com as mitras
+modernas, as primitivas eram muito baixas, a sua altura variava entre
+0,20 a 0,25 centimetros.
+
+As differentes partes de que se compõem as mitras são: 1.^o as peças
+triangulares formando pela sua reunião o barrete; 2.^o as duas fitas
+pendentes da mitra mais largas nas extremidades inferiores, ficando
+prezas por detraz da mitra.
+
+Havia na idade média duas qualidades de mitras: simples ou lisas, e com
+bordaduras recamadas de oiro, designadas na latinidade da idade media
+pelo nome _mitrae auriphry giatae_. Sobre estas ultimas as bordaduras
+recamadas de oiro dispunham-se por tres maneiras: 1.^o verticalmente ou,
+como dizem os livros lithurgicos, _en titre in titulo_; 2.^o
+horisontalmente ou _in circulo_; 3.^o em titulo e em circulo juntamente.
+
+No meiado do XIV seculo, os bicos da mitra são maiores. A maior parte
+das mitras da ultima metade d'este seculo medem de 32 a 35 centimetros
+de altura. Esta altura chega regularmente a 40 centimetros no seguinte.
+N'esta ultima época tambem as orlas dos bicos são algumas vezes
+guarnecidas com bordaduras recamadas de oiro, ou tendo uma especie de
+renda de prata dourada similhando-se a folhas de repolho ou de crochetes
+vegetaes.
+
+
+*Abbadias e Mosteiros*
+
+
+_Observações preliminares_. As partes principaes de que se compõem as
+abbadias e os mosteiros da idade media são a egreja, o claustro, o
+refeitorio, a sala do capitulo, o dormitorio, o aposento para o abbade e
+para os hospedes, o celleiro, o palheiro, a prisão e as casas de
+arrecadações. Estas differentes partes ficavam geralmente da mesma
+maneira, principalmente nos conventos que observavam a mesma regra.
+
+A egreja era sempre _orientada_, isto é, ficando a capella mór voltada
+para o Oriente. No lado meridional da nave fica encostado o claustro, do
+qual se entra para a egreja por duas portas collocadas nas extremidades
+da galeria encostada á parede lateral da egreja: uma junto do alpendre,
+outra na proximidade do cruzeiro. A galeria opposta, que fórma o lado
+meridional do claustro, dá entrada para o refeitorio. A sala do capitulo
+e o parlatorio occupam o rez-do-chão ao longo da galeria oriental, que
+se liga por uma extremidade com o cruzeiro; no andar por cima está o
+dormitorio, o qual communica com a egreja por uma escada conduzindo do
+dormitorio ao transepte. As construcções do occidente do claustro
+serviram primitivamente aos irmãos conversos, os quaes eram em grande
+numero nas grandes abbadias do XII e XIII seculos. Porém, quando mais
+tarde se supprimiu esta instituição, e se limitaram os irmãos conversos
+ao numero estrictamente necessario para o serviço dos religiosos, ellas
+foram destinadas para outros usos. Muitas vezes serviram para aposentos
+dos hospedes, e uma parte foi transformada em celleiros e armazens.
+
+As differentes Ordens religiosas distinguem-se na escolha do local;
+quando pretendiam fundar uma nova abbadia, cada uma dava preferencia aos
+sitios de mais predilecção. Os Benedictinos escolhiam geralmente os
+sitios altos e as montanhas; os Bernardos, pelo contrario, gostavam de
+se estabelecer nos valles sobre as margens dos ribeiros, como exprimem
+estes dois versos:
+
+ _Bernardus valles, montes Benedictus amabat,
+ Oppida Franciscus, magnas Ignatius urbes_.
+
+A similhança que apresentam a maior parte das abbadias cistercienses na
+disposição das suas differentes fórmas é bastante notavel; quasi todas,
+quando o accidentado do terreno o permittia, reproduziam, por assim
+dizer, servilmente o plano das abbadias primitivas da Ordem de Cister;
+plano typo adoptado para a construcção d'estas abbadias na Europa
+occidental do XII e XIII seculos.
+
+A egreja era muito vasta; a sua nave meridional ficava encostada ao
+claustro, com as suas galerias para passeiar; a Leste do claustro está a
+casa do capitulo; o parlatorio era o grande recinto onde se reuniam os
+monges; no andar sobre este lado ficava o dormitorio e o refeitorio, e a
+cozinha do lado da galeria meridional do claustro. O rez-do-chão era
+destinado para reuniões durante o dia, e o andar superior para as de
+noite; como se dizia na idade média, _domus conversorum_. O rio ou
+ribeiro passava por baixo do refeitorio ou cozinha para levar o lixo de
+toda a qualidade. Defronte dos aposentos dos irmãos conversos, havia um
+grande pateo murado, no qual estava, na direcção de sudoeste, a porta da
+entrada principal da abbadia. Temos em Portugal um famoso modelo na
+antiga abbadia de Alcobaça.
+
+As outras grandes ordens religiosas adoptaram muitas vezes, para os seus
+mosteiros, disposições analogas.
+
+As ordens de S. Domingos e S. Francisco, fundadas ambas no principio do
+XIII seculo, estabeleciam-se regularmente nos grandes centros da
+povoação, onde não achavam sempre espaço bastante vasto para se poderem
+desenvolver á vontade e dispôr as differentes partes dos seus mosteiros
+seguindo dados uniformes. É por esta razão que, em muitos casos, o plano
+dos seus conventos differe sensivelmente da disposição tradicional
+observada escrupulosamente pelos monges de Cister, mesmo, porém, com
+mais liberdade pelos Benedictinos.
+
+_Egrejas_. A planta das egrejas monasticas apresenta geralmente, como a
+das cathedraes e das collegiadas, a fórma de uma cruz Latina. Muitas
+vezes a capella-mór não é muito comprida. Foi então no XIII seculo que
+na Europa occidental e central se pozeram as cadeiras no côro para os
+frades, não sómente na capella-mór, mas tambem no cruzeiro, e mesmo em
+uma parte da nave principal, como existia na egreja de Alcobaça.
+
+As egrejas dos frades Dominicanos e dos Franciscanos não tinham
+ordinariamente nem cruzeiro nem torre. No XIII seculo, os Dominicanos,
+construiram em Paris, Augsbourg, Dresde e outras muitas cidades, egrejas
+com esta disposição excepcional, ficando divididas por duas naves com um
+unico renque de columnas. Encontra-se tambem esta disposição, porém,
+raramente, nas egrejas das outras Ordens religiosas.
+
+_Claustros_. Durante o periodo ogival, os claustros eram geralmente
+construidos de abobada de barrete com nervuras, e communicando com o
+pateo do convento por arcadas ogivaes, vasadas e separadas umas das
+outras por contrafortes. Nas arcadas collocavam nos XIII, XIV e XV
+seculos, trabalhos rendilhados em cantaria, similhantes aos feitios que
+se viam nas janellas contemporaneas; e de que temos exemplos nos
+edificios religiosos da Batalha e de Belem. Muitas vezes esses caixilhos
+de pedra não tinham vidros; todavia, principalmente no Norte e Oeste da
+Europa, vedavam os tympanos com vidros brancos ou de côres, a fim de dar
+abrigo contra os rigores da temperatura a quem passeasse pelas galerias
+do claustro.
+
+Desde o XIV seculo algumas vezes, e bastantes no XV seculo, substituiram
+nos claustros, as arcadas ogivaes pelo feitio de janellas com pinasios
+de pedra similhantes aos das arcaduras ornadas, que se veem nos peitoris
+das janellas inferiores nas egrejas do ultimo periodo ogival.
+
+Fizemos notar, que as egrejas cathedraes e collegiaes tinham antigamente
+um claustro, porque, do mesmo modo que os frades, os conegos viviam a
+principio em communidade. Este uso, que principiou a não se seguir desde
+o XIII seculo, persistiu não obstante em muitas partes até ao fim do
+periodo ogival.
+
+Quasi todos os claustros, grandes e pequenos, construidos na idade
+média, possuiam um _lavabo_, _lavadouro_, tendo uma pia com uma fonte. A
+fonte occupava, no principio, o centro do pateo do convento. Mais tarde
+approximaram-a da galeria do refeitorio; ficando então collocada em
+frente da entrada do refeitorio, ou em um dos angulos da galeria ao
+longo d'elle. Os frades voltando do trabalho da lavoura, lavavam ahi as
+mãos antes de se pôrem á mesa ou ir ás rezas.
+
+_Refeitorio_. O refeitorio estava geralmente situado ao correr da
+galeria meridional do claustro. Como já referimos, compunha-se d'uma
+vasta sala traçada sobre um plano rectangular, abobadada em geral ou por
+vãos descançando sobre um fuste de columnas. Por cima do claustro, havia
+muitas vezes um andar pouco alto, servindo de celleiro para
+abastecimento no inverno, com alimentos e fructas passadas.
+
+Nos conventos dos Cistercienses, o refeitorio era sempre dividido em
+duas naves por um renque de columnas, collocadas ao meio longitudinal;
+além d'isto, ficava este renque perpendicular á galeria proxima do
+claustro. No refeitorio dos frades de S. Bento, e em geral, em todas as
+outras abbadias, o grande eixo corria parallelo á galeria do claustro, e
+o renque das columnas muitas vezes não é representado.
+
+Ao lado do grande refeitorio, quasi sempre a oeste d'elle, ficava a
+cosinha, geralmente com uma grande chaminé quadrada.
+
+_Casa do Capitulo_. No rez-do-chão ao correr da galeria oriental do
+claustro era a casa do Capitulo, a casa para as visitas e a sala dos
+frades. O dormitorio occupava o andar d'este lado uma escada conduzindo
+directamente do andar superior ao cruzeiro do lado do sul, facilitava
+aos frades descerem á egreja para os officios nocturnos sem se expôrem
+ao ar exterior.
+
+A casa do Capitulo, isto é, o logar onde os frades se reuniam sob a
+presidencia do abbade, afim de tratarem dos negocios espirituaes e
+temporaes do mosteiro, era edificado sobre um plano quadrado ou
+rectangular com um ou muitos renques de pilares sustentando as abobadas
+e as suas nervuras, dividindo-se em duas ou mais naves. Bancos de pedra
+guarneciam as paredes em roda. Na Inglaterra dá-se frequentemente ao
+plano das casas de capitulo a fórma circular ou polygona; e n'este caso,
+uma unica columna central sustenta a abobada e as suas nervuras, como ha
+em Westminster e em Lincoln.
+
+_Parlatorio_. O parlatorio, _collocutorium_, era uma pequena casa entre
+a do capitulo e a escada conduzindo ao dormitorio. Ali os frades tinham
+licença de conversarem em voz baixa, quando relações indispensaveis da
+vida commum o exigissem. Em todas as outras partes do mosteiro se devia
+guardar o maior silencio.
+
+Ao lado da escada proxima do parlatorio, havia um corredor pelo qual se
+podia passar para o grande claustro e annexos da abbadia perto do côro
+da egreja.
+
+_Casa e dormitório dos frades_. A casa onde os frades passavam o dia,
+que os _antigos_ designavam _domus fratrum_ e que os inglezes designam
+ainda sob o nome de _fratres_, isto é, logar onde vivem os frades,
+consistia n'um vasto espaço abobadado e occupava sempre o rez-do-chão,
+na extremidade Sul do lado Oriental do mosteiro.
+
+No andar da casa de que acabamos de fallar, encontrava-se o dormitorio
+commum dos frades, pois a regra de S. Bento determinava que os frades
+dormissem n'uma só casa, mas em camas separadas: _Monachi singuli, per
+singula lecta dormiant; si potest fieri, omnes in uno loco dormiant_.
+
+O uso das cellas, que havia em alguns raros mosteiros desde o XII
+seculo, não veiu a ser commum senão na epocha do renascimento.
+
+_Aposento dos irmãos leigos_. Todas as grandes abbadias benedictinas e
+cistercienses tinham, no XII e no XIII seculos, um numero consideravel,
+chegando a ter 300 a 400 leigos, designados nos necrologios com o nome
+de _conversi_ ou _fratres ad succurrendum_. Estes irmãos, que não
+entravam nas ordens sagradas, mas faziam profissão de religiosos,
+destinavam-se, sob a direcção dos frades, aos trabalhos da agricultura e
+ao exercicio de diversos officios. Habitavam o lado occidental dos
+edificios monasticos, designados por esta razão casa dos leigos, _domus
+conversorum_, e prolongava-se muitas vezes desde o portico da egreja até
+muito álem do grande refeitorio.
+
+Nos edificios cistercienses, a habitação dos leigos compunha-se
+regularmente, no rez-do-chão, d'uma só e vasta casa abobadada, dividida
+em duas naves por um renque de columnas; e no andar por cima, de uma
+casa do mesmo tamanho da inferior, coberta as mais das vezes por um
+telhado tendo o madeiramento visivel na parte interna.
+
+_Casa abbacial_. Originariamente o aposento do padre abbade consistia
+n'uma simples cella. D'ahi a pouco, todavia, o aposento do chefe do
+mosteiro veiu a ser uma construcção importante; e viam-se muito
+raramente, na idade média, os abbades contentarem-se com o dormitorio
+commum ou uma simples cella. A começar do XIV seculo, e principalmente
+na epocha do renascimento, as casas abbaciaes vieram a ser muitas vezes
+verdadeiros palacios, constando d'uma capella particular, grandes salas,
+pateos, cavallariças, jardins com terraços, etc.
+
+_Aposentos para hospedes_. Todas as abbadias tinham uma habitação
+reservada ou uma parte do proprio edificio para hospedar as pessoas que
+visitavam os frades. No principio, esta habitação estava sempre a pouca
+distancia da porta principal afim de evitar distracção para os frades do
+convento: como ha um bello exemplo no extincto mosteiro de Alcobaça.
+
+As abbadias, que foram em todos os tempos casas de caridade, possuiam
+tambem suas esmolerias destinadas a dar habitação e sustento aos pobres
+e peregrinos. Eram situadas na visinhança da entrada do convento.
+
+_Celleiros_. Nos seculos XI e XII, as abbadias applicaram-se activamente
+ao surribamento dos terrenos incultos; os trabalhos campestres eram de
+certo modo, a sua occupação principal. Foram as Ordens de Cister e de S.
+Bernardo que prestaram assignalados serviços á agricultura.
+
+As abbadias não faziam colheita sómente do producto das suas proprias
+explorações agricolas; cobravam tambem o dizimo em muitos sitios e
+recebiam em genero o pagamento dos rendeiros. Precisavam portanto vastos
+celleiros e armazens muito grandes para recolher, no tempo da ceifa, os
+cereaes que recebiam por esses differentes titulos.
+
+Nos conventos cistercienses o celleiro formava, no principio do periodo
+ogival, um edificio muito vasto, edificado sob um plano rectangular. Era
+algumas vezes abobadado e dividia-se em duas naves por um renque de
+columnas para maior solidez, servindo o andar para os cereaes. Outras
+vezes compunha-se de tres naves separadas por dois renques de pilares ou
+prumos de madeira para sustentar o madeiramento sem precisão de
+abobadas.
+
+_Officinas_. Nos XII e XIII seculos havia em cada abbadia, alguns leigos
+ajudados muitas vezes por seculares exercendo os officios necessarios
+para a conservação do edificio e para o fabríco dos pannos, couros e
+instrumentos aratorios. Empregavam um certo numero de alveneos,
+ferreiros, carpinteiros, fabricantes de pannos, tanoeiros, etc.; as
+officinas estavam geralmente collocadas aos dois lados do pateo situado
+entre a porta da entrada principal do convento e a habitação dos leigos.
+
+A maior parte das abbadias possuiam tambem seu moinho e fabrica de
+cerveja.
+
+O desenvolvimento extraordinario dos estabelecimentos religiosos durante
+as suas culturas e explorações ruraes motivou a construcção de curraes
+espaçosos. Encontravam-se tambem em todas as abbadias pateos para aves.
+
+Em propriedades importantes situadas a alguma distancia da abbadia,
+estabeleciam-se muitas vezes grandes herdades, sendo a sua exploração
+confiada a alguns leigos sob a direcção d'um frade. Compunham-se d'um
+corpo de casas situadas em roda d'um pateo quadrado, as quaes tinham
+communicação só do lado d'elle. Além d'esta habitação, curraes, celleiro
+e outros edificios necessarios para o serviço da exploração, havia
+n'estas herdades, uma capella onde os leigos assistiam aos officios
+religiosos.
+
+_Celleiros_. Dá-se o nome de celleiro aos armazens onde se conservam os
+mantimentos de todo o genero. O frade encarregado de vigiar o
+abastecimento tinha o nome de _celleiro_, _cellerarius_ e _collarius_,
+mudado mais tarde, por algumas ordens religiosas, no de _procurador_,
+_procurator_. Este logar passava por um dos mais importantes nas
+abbadias.
+
+_Prisões_. Na idade média, as abbadias, universidades e algumas vezes os
+cabidos possuiam prisões para encarcerar os membros da communidade que
+se tivessem tornado criminosos de delictos ou insubordinação para com os
+superiores.
+
+Na qualidade de soberania, as abbadias, universidades e cabidos gosavam,
+nos territorios que lhe pertenciam, o poder superior de justiça, e
+tinham prisões para encarcerar os seus subditos seculares criminosos. As
+prisões das abbadias ficavam a uma certa distancia dos edificios da
+habitação dos religiosos.
+
+_Cartuchas_. As cartuchas, cuja origem vem dos ultimos annos do XI
+seculo, apresentam disposições notavelmente differentes das cellas das
+abbadias. As principaes differenças que se observam, são: grandissimo
+comprimento dos claustros; numerosas habitações inteiramente separadas,
+para uso dos religiosos, as quaes se compunham sempre de dois ou tres
+quartos e d'um pequeno jardim, com uma porta dando entrada para a
+galeria do claustro.
+
+Quasí todas as cartuchas tinham dois claustros unidos.
+
+_Mosteiros para mulheres_. As disposições das differentes partes dos
+mosteiros para mulheres apresentam a maior analogia com os das abbadias
+para homens. Á roda do claustro ergue-se a egreja, a casa do capitulo
+com dormitorio no andar superior, o refeitorio e os outros aposentos. As
+escolas exteriores, que havia ás vezes nos conventos de homens, como por
+exemplo dos frades Agostinhos, as casas para hospedes, peregrinos e
+viajantes, faltavam nos conventos das mulheres, porque toda a relação
+com o exterior lhe era prohibida.
+
+_Os conventos de recolhidas_ consistiam em casas particulares e communs,
+situadas em um recinto inteiramente fechado, á roda de uma egreja
+isolada de todos os lados. Sectarias de _Bégard_, partidistas de uma
+perfeição extrema que permittia todos os excessos de devoção e que fôra
+adoptada no III seculo. As recolhidas tinham o nome de Beatas.
+
+_Hospitaes_. Os hospitaes da idade média differem absolutamente dos
+hospitaes modernos. Os do XII e do XIII seculos compunham-se sempre, de
+uma extensa casa onde estavam as camas para os doentes, de uma egreja ou
+capella contigua a esta casa e communicando com ella, de um aposento
+para os enfermeiros, e de algumas casas para serviço. Por causa da
+hygiene ficavam geralmente situados nas proximidades da porta da cidade
+ou sobre a margem de um rio.
+
+
+*Iconographia do periodo ogival*
+
+
+_Observações preliminares_. As representações iconographicas tão
+variadas e tão abundantes de symbolismo, que se encontram em grande
+numero sobre os monumentos e alfaias religiosas das epochas Roman e
+Ogival, eram geralmente projectadas e imaginadas, não pelo obreiro ou
+artista que executava o objecto, porém, por um padre, frade ou secular
+litterato.
+
+_A aureola_. A aureola ficou em uso como signal iconographico durante
+todo o periodo ogival. _Crucifera_ pertence exclusivamente ás pessoas da
+Santissima Trindade; simplesmente _circular_ é attributo caracteristico
+dos Santos. A sua fórma manteve-se geralmente a mesma que era antes,
+salvas algumas modificações em certos paizes, mas apenas no termo do
+periodo ogival.
+
+No fim do XIV seculo, não sómente os Santos, os Apostolos e Nossa
+Senhora, mas tambem os anjos, assim como o Padre Eterno e Jesus Christo
+ficaram privados d'este attributo caracteristico. Se a aureola por acaso
+apparece ainda resplandecendo alguma imagem, foi porque o artista,
+luctando contra a moda, commetteu archaismo. Um sem numero de monumentos
+que datam d'esta epocha e chegaram até á nossa, apresentam _sem aureola_
+as imagens divinas, angelicas ou sanctificadas.
+
+
+*Representação da Santissima Trindade*
+
+
+Na epocha ogival, serviam-se ainda algumas vezes do baptismo de Jesus
+Christo para representar a Santissima Trindade. Como no periodo Roman,
+dava-se ainda, durante o periodo ogival, a fórma humana ás tres pessoas
+Divinas, ou pelo menos ás duas primeiras, pois o Espirito Santo
+continuou a ser frequentemente symbolisado por uma pomba. As tres
+pessoas Divinas continúam a ser representadas da mesma fórma até ao fim
+do XIV seculo. Mais tarde o Padre Eterno teve a figura de um ancião, o
+Filho de Deus a de um homem de trinta a trinta e cinco annos, e o
+Espirito Santo a de um adolescente de doze a dezoito annos. Ao Padre
+Eterno dá-se então o distinctivo de um globo, uma Cruz de resurreição ao
+Filho, e um livro ao Espirito Santo. Finalmente, ainda perto da mesma
+epocha, representa-se o Padre Eterno, e mesmo algumas vezes o seu Filho,
+de papa ou de imperador, com a pretensão de expressar, por assim dizer
+materialmente, o seu supremo poder, achando-os revestidos das insignias
+das duas maiores auctoridades conhecidas sobre a terra.
+
+Encontram-se tambem, no fim do periodo ogival, dois symbolos da
+Santissima Trindade, consistindo em figuras geometricas, o triangulo e
+tres circulos entrelaçados. Na epocha do renascimento, costumavam muito
+a inscrever n'um triangulo algumas vezes um olho, outras o nome de
+Jehovah.
+
+
+*O crucifixo e a crucificação*
+
+
+No XIII seculo, epocha designada _do soffrimento_, ou da _realidade_,
+principia-se a representar Jesus Christo na Cruz. O corpo do Redemptor
+curva-se ou mais depressa retorce-se de uma maneira bastante
+desagradavel; os braços não ficam na sua posição horisontal, pois as
+espaduas descem sensivelmente abaixo do ponto de união das mãos, de modo
+a figurar os esforços naturaes produzidos por um corpo humano suspenso
+por meio de cravos; os pés sobrepostos afastam-se de pessima posição,
+muitas vezes mesmo fazem encruzar as pernas; finalmente a cabeça de
+Christo, moribundo ou sem vida, está quasi sempre inclinada sobre o
+hombro direito, isto é, para o logar onde se vê a Mãe de Jesus e tambem
+algumas vezes a personificação da Egreja.
+
+Nas crucificações pintadas e esculpidas do XV e XVI seculo, a cruz do
+Redemptor e as dos ladrões, muitas vezes bastante altas e de diminuta
+grossura; assim como a travessa horisontal da cruz do Christo tem um
+grande comprimento, em quanto que a extremidade que tem o titulo, sobe
+apenas ao ponto de intersecção das duas travessas.
+
+Desde os primeiros annos do XIII seculo, principiou-se com timidez
+primeiramente a supprimir o _suppedaneum_ e a pregar á cruz, por meio de
+um unico cravo, os dois pés sobrepostos do Redemptor; porém, depois de
+algum tempo, o emprego de tres cravos veiu a ser quasi tão commum como o
+de quatro; e nos seculos XIV XV foi o unico empregado.
+
+O Christo crucificado traz ainda a aureola no XIII seculo. A corôa de
+espinhos, quasí desconhecida antes, apparece de tempos a tempos no XIV
+seculo. No seculo seguinte encontra-se frequentemente.
+
+No XIII seculo, a representação da crucificação foi ainda algumas vezes
+reproduzida com todas as personagens e accessorios historicos e
+allegoricos que acompanhavam precedentemente e que já temos descripto; o
+mais das vezes, todavia, não se conservam senão alguns. Os que se vêem
+geralmente são Nossa Senhora e S. João, o sol e a lua. Os dois ladrões,
+a egreja e a synagoga raro apparecem.
+
+_Nossa Senhora e S. João_. Durante o periodo roman, Nossa Senhora e o
+discipulo mais amado são representados com uma attitude de paz, erguendo
+geralmente os braços para o Redemptor ou occultam o rosto em signal de
+pezar. No XIII seculo, e mesmo durante uma parte do XIV seculo,
+conservam esta attitude estavel e digna. Mais tarde, o gesto que se lhe
+attribue exprime já uma dôr vulgar e natural.
+
+No XV seculo, e algumas vezes já no XIV seculo, os artistas christãos
+procuram produzir, na alma do espectador, sentimentos de ternura e de
+compaixão.
+
+Para este effeito representam Nossa Senhora desmaiada nos braços das
+duas santas mulheres que a amparam. Os exemplos d'este _deliquio_,
+encontram-se na Italia desde o XIII seculo.
+
+_O Sol e a Lua_. Durante o periodo ogival, o Sol é figurado geralmente
+por um disco radiante, e a Lua por um simples quarto crescente.
+
+_A Egreja e a Synagoga_. Como já explicámos, a Egreja e a Synagoga eram
+personificadas, durante o periodo roman, por simples mulheres trazendo
+os respectivos attributos. Depois do meiado do XII seculo, essas
+mulheres representavam rainhas. A que symbolisava a Egreja, sempre
+collocada á direita de Jesus Christo, traz uma corôa, e levanta a cabeça
+com uma expressão de orgulho; as mais das vezes, tem n'uma das mãos o
+calix, e na outra uma cruz de haste comprida ou um pequeno modelo de uma
+egreja.
+
+A Synagoga, pelo contrario, tem uma corôa que lhe pende da cabeça e um
+estandarte cuja haste se quebrou entre as suas mãos; deixando escapar as
+taboas da Lei, e tendo os olhos vendados por uma faxa ou por um dragão
+que se lhe enrosca á roda da testa.
+
+_Os dois ladrões_. Os ladrões nas mais antigas crucificações, apparecem
+de tempos a tempos durante o periodo ogival; teem os musculos encolhidos
+até a contorsão, e as mãos, não pregadas sobre a cruz, mas ligadas ás
+costas de maneira a deixar passar, pelo centro, a travessa horisontal do
+instrumento do seu supplicio. No fim do periodo ogival, encontram-se de
+novo representados os ladrões, principalmente nos retabulos de madeira
+de obra de talha da escola hollandeza.
+
+_Imagem de Nossa Senhora_. _Nossa Senhora com o Menino Jesus_. Durante o
+periodo ogival, o _grupo historico_ de adoração dos reis magos, que se
+vê sobre alguns pequenos _diptycos_ ou _triptycos_, de marfim, onde se
+vê, ao mesmo tempo, a crucificação e outras scenas tiradas da vida de
+Jesus Christo. N'esta representação os reis magos trazem sempre na
+cabeça a coroa real.
+
+No XIII seculo, encontra-se ainda frequentemente Nossa Senhora
+_assentada_ em uma cadeira ou throno, tendo sobre os joelhos o Menino
+Jesus, o qual deita a benção com a mão direita e na esquerda tem um
+livro ou o globo terraqueo.
+
+Já muitas vezes no XIII seculo, e mais tarde quasi sempre, Nossa Senhora
+está de pé e com o Menino Jesus no braço esquerdo. Durante a primeira
+parte do periodo ogival, a sua posição é mais ou menos curvada.
+
+Em quanto aos caracteres que apresentam as imagens de Nossa Senhora
+assentada ou de pé nos differentes monumentos do periodo ogival,
+pódem-se resumir nos termos seguintes. Nunca o grupo de Nossa Senhora
+com o Menino Jesus foi mais ideal que no XIII seculo; mal se approxima o
+XIV seculo, descuida a sua bella composição poetica para adoptar a
+realidade primeiramente e depois descahir na vulgaridade até á rudeza.
+
+No fim do XII e no principio do XIII seculo, póde-se dizer que Nossa
+Senhora não apparece já com o Menino Jesus: esta representação seria
+muito vulgar e Nossa Senhora assemelhar-se-hia a qualquer mãe que
+tivesse o seu filho ao collo; mas então a Santa imagem o tem _junto de
+si_. O Menino Jesus traz o globo do mundo na mão esquerda e deita a
+benção com a mão direita; além d'isso está completamente vestido, é já
+crescido, posto que ainda menino; é o Deus-Homem, mais depressa que
+Homem-Deus. No fim do XIII seculo, Nossa Senhora principia a ser mais do
+que a guarda de seu Filho como fazem todas as mães mortaes! Jesus está
+ainda vestido, abençôa trazendo um livro ou um globo; porém o vestuario
+é menos largo e mais curto, o livro menos volumoso, o globo mais
+pequeno.
+
+_Scenas tiradas da vida de Nossa Senhora_. Mencionaremos as tres
+principaes:
+
+A _Annunciação_ é quasi sempre representada da mesma maneira. Nossa
+Senhora está de joelhos sobre um genuflexorio no momento em que apparece
+o Anjo. Entre a imagem e o Anjo está um vaso com a flôr de liz aberta.
+Muitas vezes S. Gabriel tem n'uma haste esta flôr ou um sceptro; por
+vezes traz na mão uma bandeirola com a inscripção: _Ave Maria_. Um raio
+luminoso cae sobre a cabeça de Nossa Senhora, ou então, o Espirito
+Santo, sob a fórma d'uma pomba, descança sobre a imagem da Virgem Maria.
+
+_A morte de Nossa Senhora_ é quasi sempre representada da maneira
+seguinte: Nossa Senhora está deitada sobre um leito rodeada pelo seu
+Divino Filho e pelos apostolos. Jesus traz no braço a alma de Nossa
+Senhora, representada por uma creancinha. Os apostolos trazem muitas
+vezes um livro com figura iconographica.
+
+_A coroação de Nossa Senhora_ faz-se umas vezes por Jesus só, outras por
+tres pessoas da Santissima Trindade; outras ainda vê-se Nossa Senhora
+com a corôa na cabeça, sentada sobre o mesmo throno em que está o seu
+Divino Filho, o qual se lhe abraça ao peito.
+
+Deixariamos incompleta a historia iconographica de Nossa Senhora, não
+mencionando aqui a _Arvore de Jessé_, que se vê tantas vezes desde o XII
+seculo. Jessé adormecido serve de alguma maneira de raiz ao tronco
+mysterioso, o qual sáe quer do seu peito, quer de sua bocca, quer do seu
+cerebro. Os ramos d'este tronco separando-se, trazem na extremidade um
+dos antepassados do Redemptor; no cimo, uma flôr desabrocha e serve de
+apoio a Nossa Senhora, algumas vezes só, outras tendo nos braços o seu
+Divino Filho. As mais das vezes a arvore de Jessé complica-se, entre
+cada ramo está collocado um propheta com um phylateria mostrando a
+prophecia de que é auctor, e que se refere á vínda de Jesus Christo.
+Olhando para a extremidade d'esta arvore, mostra com o dedo onde deve
+repousar o Espirito Santo. No Oriente, não se limitam unicamente a
+intercalar os prophetas no meio dos ramos, ajuntam-lhe o divino
+_Balaam_, e os sabios da Grecia com as suas maximas. O XV e XVI seculos
+produziram um grande numero de arvores de Jessé.
+
+_Os Apostolos e os Evangelistas_.--_Apostolos_. Jesus Christo escolheu
+doze apostolos á frente dos quaes collocou S. Pedro. Depois da morte do
+Redemptor, o traidor Judas ficou substituido por S. Mathias. Além
+d'estes doze apostolos, que constituem a congregação apostolica assim
+chamada, deu-se tambem o nome de apostolos a alguns outros santos que
+haviam tomado uma parte activa e vasta na fundação da Egreja christã.
+Tal foi S. Paulo, convertido milagrosamente no caminho de Damasco, elle
+o grande promotor da conversão dos pagãos e appellidado, por esta razão,
+o apostolo dos gentios; taes foram ainda S. Barnabé, S. Lucas e S.
+Marcos, unicos discipulos, os quaes pelas suas prédicas, e, os dois
+ultimos tambem, pelos Evangelhos que compozeram, poderosamente
+contribuiram para a propagação da doutrina de Christo.
+
+Como S. Paulo figura quasi sempre entre os apostolos quando se
+representam reunidos em numero de onze, resulta que se supprime
+geralmente um; as mais das vezes é S. Mathias, o successor do traidor
+Judas, algumas vezes tambem S. Judas ou qualquer outro apostolo.
+
+Até ao XIII seculo, os apostolos, á excepção de S. Pedro e S. Paulo, não
+tinham nenhum attributo caracteristico pelo qual se podessem distinguir
+uns dos outros. Representavam-se todos de uma maneira uniforme, com um
+livro ou um rolo de papel na mão. Depois do XIII seculo, ficam
+geralmente caracterisados pelos instrumentos presumidos do seu martyrio;
+porém, como o genero do supplicio que soffreram não é muito bem
+determinado para todos, torna-se por vezes difficil designar com certeza
+o nome de alguns d'elles: todavia o que os caracterisa ordinariamente é
+o seguinte:
+
+S. Pedro traz as chaves ou por vezes a Cruz abatida, instrumento do seu
+supplicio; S. Paulo, a espada com que lhe cortaram a cabeça; S. João, o
+calix envenenado do qual saiu a morte sob a fórma de um dragão; Santo
+André, com a Cruz em fórma de X, e que tem o seu nome; S. Jeronymo, a
+espada, ou as mais vezes, o bordão e o vestido de peregrino guarnecido
+de conchas; S. Filippe, a cruz com haste comprida; S. Bartholomeu, um
+grande cutello do qual se serviram para o esfollar, e algumas vezes
+tambem uma cruz; S. Matheus, um machado, uma espada ou uma lança; S.
+Simão, uma serra; S. Judas, uma cruz ou um livro; S. Thiago, um bordão;
+S. Thomaz, uma grande pedra e por vezes ao mesmo tempo uma lança;
+finalmente S. Marçal, uma picareta ou um alfange.
+
+_Evangelistas_. Os Evangelistas continuaram a ser representados da mesma
+maneira que precedentemente, quer seja com a fórma humana, quer seja
+pelos symbolos dos quatro rios do Paraizo, quer seja por quatro figuras
+aladas.
+
+Já indicámos o logar respectivo que devem sempre occupar os animaes
+symbolicos nos quatro angulos de um quadrado ou nas extremidades dos
+quatro braços da Cruz. Esta regra ficou em vigor durante o periodo
+ogival.
+
+_Scenas diversas_. Seria impossivel indicar, mesmo resumidamente, todas
+as scenas representadas pelos pintores e esculptores christãos da idade
+média. Mencionaremos sómente as quatro principaes, e que se veem mais
+vezes.
+
+_O Dia de Juizo_. Esta scena encontra-se principalmente: 1.^o _no
+principio do periodo ogival_, esculpida nos tympanos dos portaes
+principaes das abbadias, cathedraes, egrejas das parochias e mesmo nas
+capellas; 2.^o _no fim do mesmo periodo_, pintada na nave principal das
+egrejas por cima do arco triumphal.
+
+Para dar uma ideia exacta da maneira como esta scena é representada nas
+principaes cathedraes francezas, faremos a descripção do Dia de Juizo,
+que se vê no portal central da Sé de Paris. Este assumpto é um dos mais
+bem compostos. A verga da porta está inteiramente occupada por figuras
+representando diversos misteres saindo dos seus tumulos, despertadas por
+dois anjos, os quaes, de cada lado, tangem trombeta. Todas estas
+personagens estão vestidas; ahi está um papa, um rei, guerreiros,
+mulheres e um preto. Na zona superior, está ao centro um anjo que peza
+as almas; dois demonios tentam fazer pender um dos pratos para o seu
+lado. Á direita de Jesus Christo estão os escolhidos, todos vestidos de
+compridas vestimentas e coroados. Estes escolhidos são representados sem
+barba, jovens e risonhos, olhando para Jesus. Á esquerda o demonio
+empurra uma multidão d'almas agrilhoadas vestidas com os fatos do seu
+mister. As expressões d'estas figuras são indicadas com superior
+talento: o terror, o desespero assignalam-se nas suas feições. Na parte
+superior está, ao centro Jesus Christo, representado semi nu, que mostra
+as suas chagas; dois anjos em pé, á direita e á esquerda, têem os
+instrumentos da Paixão; depois, estão de joelhos, implorando o
+Redemptor, Nossa Senhora e S. João. As curvaturas do portal do lado dos
+condemnados estão occupadas, na parte inferior, por vistas do inferno, e
+do lado dos escolhidos, por anjos e patriarchas, entre os quaes se vê
+Abrahão colhendo as almas no seu regaço; depois os escolhidos em grupos.
+Esta esculptura tão notavel é da era de 1210 a 1215, e estava
+inteiramente pintada e dourada. Ha a mesma representação nas cathedraes
+de Chartres, Amiens, Reims e Bordeus.
+
+O inferno é quasi sempre figurado por uma bocca enorme de monstro
+lançando chammas, no meio das quaes os démos, armados de grandissimos
+harpeos, abysmam os condemnados. Por vezes tambem é representado o
+inferno por uma grande caldeira na qual os démos precipitam as almas dos
+perversos; e, n'este caso, um demonio armado de um folle activa o fogo
+da caldeira.
+
+A scena _de se pezar as almas_ faz geralmente parte do Juizo final, e é
+quasi sempre representada da mesma maneira. O archanjo S. Miguel segura
+a balança: em um dos pratos está uma alma humana figurada por uma
+creança nua; emquanto ao outro, com o pezo que deve ter a alma do
+innocente, afim de ser admittido no paraizo, Satanaz procura que elle se
+incline para o seu lado. Esta scena, cujo fim era evidentemente inculcar
+aos ignorantes a ideia de dar conta a Deus depois da nossa morte, está
+representada nas miniaturas dos manuscriptos, e mesmo nas gravuras em
+madeira que ornam alguns livros impressos no fim do XV e no principio do
+XVI seculo.
+
+_Missa designada de S. Gregorio_. Este assumpto encontra-se muitas vezes
+nos paineis e nas miniaturas do XV seculo. O Santo papa diz a missa, e
+Jesus Christo apparece-lhe em vida, em pé sobre o altar, e á roda estão
+os instrumentos da Paixão. Traz os estigmates nos pés e nas mãos, e
+deixa saír do lado o sangue da chaga.
+
+_Alma humana_. Quando os artistas da idade média representam uma pessoa
+moribunda, indicam sempre a alma do justo que acaba de saír do corpo,
+por uma creancinha nua trazida nos braços de Nosso Senhor.
+
+_Sibyllas_. A representação dos prophetas tem-se ás vezes ajuntado ás
+sibyllas, que se reputa haverem predito o nascimento, a vida, a morte, e
+a resurreição de Jesus Christo. No XIII seculo, começou-se a fazer
+figurar em alguns monumentos, principalmente a sibylla do _Dies irae_.
+
+As doze sibyllas são: 1.^a A Sibylla da Persia, _percicae_, que tem na
+mão uma lanterna, porque ella annunciou a vinda do Messias; bastantes
+vezes o sol brilha por cima da sua cabeça. 2.^a A de Libya, _libicae_,
+que tem um brandão acceso e prediz o Redemptor como a luz do mundo. 3.^a
+A de Delphos, _delphicae_, que tem na mão uma corôa de espinhos, porque
+prophetisou as mortificações de Jesus Christo. 4.^a A do Mar Vermelho ou
+de Erythrea, _erythracae_, uma das mais celebres, que havia predito a
+ruina de Troyes; era a prophetisa das vinganças divinas; traz uma espada
+nua. 5.^a A de Cumas, _cumana_, egualmente muito citada, tem um
+presepio, porque annunciou o nascimento de Christo em uma manjadoura.
+6.^a A de Samos, _samia_, traz uma corôa de espinhos como a de Delphos,
+e um caniço, porque prophetisou a Paixão. 7.^a A Cimmerianna,
+_cimmeria_, prophetisou a crucificação, e por esta razão traz uma cruz
+da paixão. 8.^a A de Tivoli, _tiburtina_, tem na mão uma vara, por haver
+annunciado a flagellação do Redemptor. 9.^a A de Phrygia, _phrygia_,
+traz uma cruz de resurreição, no cimo da qual fluctuam tres bandeirolas
+encarnadas. 10.^a A de Hellesponto, _hellespontica_, tem por attributo
+uma rozeira florida, ou então uma cruz, porque annunciou algumas
+circumstancias da Paixão. 11.^a A Europa, _europaea_, tem um alfange,
+porque predisse a degolação dos innocentes. 12.^a Finalmente, a Sibylla
+Agrippa tem a vara como a de Tivoli.
+
+
+
+
+CAPITULO VI
+
+Periodo da Renascença
+
+
+_NOÇÕES PRELIMINARES_
+
+
+Não nos demoramos muito sobre as differentes phases da arte na epoca da
+renascença, mais apropriadamente moderna do que antiga; e que, por
+conseguinte, não pertence ao dominio da archeologia.
+
+Chama-se _renascença das artes e das lettras_ ao retrocesso para a arte
+classica antiga e para as litteraturas grega e latina. A renascença das
+artes estendeu-se não sómente á architectura, mas a todas as artes de
+desenho. A reacção favoravel para a architectura grega, romana ou
+classica, produziu-se primeiramente na Italia, onde nunca o estylo
+ogival tinha vigorado summamente, nem dominado só com poder absoluto.
+
+Proximo ao principio do XVI seculo, a architectura néo-classica transpoz
+os Alpes, e passou successivamente á França, Hespanha, Portugal,
+Belgica, Allemanha e Inglaterra. Os paizes mais afastados do
+renascimento, foram tambem os ultimos a adoptarem os seus principios
+architectonicos.
+
+Na França como na Belgica o progresso do novo estylo foi rapido, tendo
+apparecido quasi ao mesmo tempo.
+
+O retrocesso tão rapido e tão universal para as fórmas da arte classica,
+foi motivado em grande parte por um desejo de novidade, e por uma
+reacção contra a architectura ogival. Nota-se, realmente, que em
+architectura, mais que em qualquer outra arte, o gosto é sempre movido
+para a variedade; e é isto que explica como se póde dizer com verdade,
+que a historia da architectura offerece uma continuação de transições
+sem repouso. A esta causa principal vieram ajuntar-se muitissimas causas
+secundarias, taes como a reacção que se operou nos XV e XVI seculos, a
+protecção aos estudos gregos e latinos, e a invenção da imprensa, que
+concorreu tão admiravelmente para a diffusão das obras primas da
+litteratura e da arte antiga, pelas quaes se tinham apaixonado.
+
+Até ao meiado do XVIII seculo, a renovação das fórmas antigas fez-se
+exclusivamente conforme os modelos antigos de Roma e de Italia, modelos
+quasi todos não satisfazendo a respeito da conformidade artistica. Foi
+sómente n'esta epocha que se principiou a estudar os monumentos da
+melhor epocha ainda conservados em Athenas e na Grecia.
+
+Houve, entre o estylo ogival e o do renascimento, um periodo de
+transição, durante o qual se notou muitas vezes, no mesmo monumento, uma
+mistura, uma fusão de fórmas particulares a cada estylo. Portanto
+encontram-se edificios, os quaes, entre os detalhes melhor
+caracterisados do estylo ogival do XVI seculo, apresentam ornatos, taes
+como medalhões, folhagens e arabescos, copiados dos monumentos da Roma
+antiga. Outras vezes, janellas em ogiva são compostas de pinasios com os
+perfis no gosto da renascença. Finalmente, ás vezes as abobadas
+pendentes, os pinaculos e os campanariosinhos estão cheios de ornatos
+imitados dos edificios da antiguidade.
+
+
+*Caracteres da architectura da Renascença*
+
+
+_Comêço_. A architectura da renascença seguiu os mesmos principios
+fundamentaes que a architectura classica, isto é, as cinco ordens
+greco-romanas.
+
+Os primeiros architectos da renascença inspiram-se unicamente dos
+monumentos de Roma e da Italia. Ora, n'um grande numero d'estes
+monumentos, o _entablamento_, isto é, a parte superior da Ordem,
+composto do _friso_, da _architrava_ e da _cornija_, membros que, nas
+Ordens Gregas, servem sempre para ligar duas columnas proximas, tinha
+sido supprimido e substituido por arcos, os quaes vinham firmar-se nos
+capiteis d'essas columnas. Quando procuram empregar materiaes de pequena
+dimensão, a substituição do arco pelo entablamento é perfeitamente
+logica; porém esta não é a pratica seguida na epocha da _decadencia_
+romana, de interpôr ao fecho inferior do arco e ao açafate do capitel,
+um simulacro de entablamento da Ordem, entablamento que ficava
+completamente inutil, visto que o seu emprego está preenchido pelo
+_arco_. Na época da renascença, esta prática pouco racional e pouco
+reflectida foi geralmente adoptada, principalmente d'áquem dos Alpes.
+Além de que, foram buscar aos mesmos edificios da decadencia romana
+outros defeitos tambem notaveis no que diz respeito ás cornijas: em
+primeiro logar, quando muitas Ordens estão sobrepostas na altura de um
+monumento, como acontece frequentemente nas fachadas, põem-se _tantas
+cornijas_ quantas são as _Ordens_; depois, coisa mais singular ainda, a
+Ordem collocada _no interior_ de um monumento _conserva_ a sua cornija,
+isto é, o _remate do edificio_ destinado a ter _um telhado_ e um algeroz
+para dar saída ás aguas da chuva!
+
+A architectura do renascimento, todavia, não é uma simples mescla, uma
+copia servil da architectura greco-romana. Serve-se ella, na verdade,
+das cinco Ordens, mas ajustou-as para outros usos e para outros climas,
+aproveitando os progressos obtidos pela arte de edificar durante o
+estylo ogival. Os edificios que executou conforme os principios de
+construcção d'este ultimo estylo, foram enfeitados á maneira antiga,
+ornamentado superficialmente, ou desfigurados, como em S. Paulo de
+Londres, por paredes isoladas que encobrem a configuração architectonica
+do monumento; emquanto na Belgica, nas egrejas do renascimento, o
+systema do apparelho das abobadas ogivaes foi em toda a parte
+conservado, porém dissimulado com arte. As paredes exteriores das naves
+lateraes, muito grossas, preenchem o fim dos contrafortes, e muitas
+vezes esses arcos-butantes ficam revirados (isto é, collocados de
+maneira que a sua curva convexa fica posta na direcção do telhado
+d'essas naves), e apoiados nos arcos duplos d'elles.
+
+_Decoração_. Sob o ponto de vista da decoração pintada e esculpida,
+muito mais que sob o ponto de vista architectonico, o periodo da
+renascença, no sentido mais lato, póde-se dividir em muitos estylos,
+apresentando cada um caracteres distinctos. Estas sub-divisões se
+applicam particularmente ás producções da arte Franceza. 1.^o o estylo
+da renascença propriamente chamado, o qual comprehende o XVI seculo e a
+primeira metade proximo do XVII seculo; todavia sepára-se algumas vezes
+d'esta época nos annos 1610 a 1642, para lhe constituir o estylo Luiz
+XIII; 2.^o o estylo Luiz XIV (1643 a 1715); 3.^o o estylo Luiz XV (1715
+a 1774); 4.^o o estylo Luiz XVI (1774 a 1796); 5.^o finalmente o estylo,
+designado do imperio (primeiros annos do XIX seculo).
+
+Na origem da _renascença_, os ornamentos foram, como na architectura
+imitados quasi servilmente dos monumentos da antiguidade. As almofadas,
+frizos, pilastras e um grande numero de outros trabalhos architectonicos
+se revestiram, nos edificios os mais sumptuosos, de assumptos de
+decoração proveniente da arte greco-romana. As palmetas, folhas de
+acantho e triglyphos tornaram a apparecer em todo o logar. Viam-se
+tambem, genios alados, figuras naturaes e phantasticas de toda a especie
+enlaçadas nas grinaldas e em espiraes formando desenhos os mais
+caprichosos. Estes ultimos ornamentos, compostos principalmente conforme
+os modelos antigos achados em Roma nas _grutas_ ou ruinas do palacio de
+Titus, tiveram no principio o nome de _grotescos_, denominação mais
+propria do que a de _arabescos_, a qual lhe foi dada depois, porque os
+Arabes proscreviam severamente da sua decoração qualquer representação
+da natureza animada.
+
+O estylo da renascença não se conservou intacto senão até o principio do
+XVI seculo.
+
+Os ornamentos do estylo Luiz XIV consistem principalmente em grandes
+espiraes, palmas muito desenvolvidas, separadas ou envolvidas com os
+elementos de ordem architectural, medalhões, trophéus, etc.
+
+O estylo Luiz XV, que prima antes de tudo pela elegancia exaggerada nos
+pequenos detalhes, desce á affectação na lindeza. A esculptura
+decorativa abunda nas espiraes com folhagens myrrhadas e subtilmente
+contornadas; faz com frequencia uso de conchas ou embrechado,
+misturando-as em todas as suas composições. A linha recta cede o logar á
+linha curva, e sobretudo a symetria não é observada. No principio do
+XVIII seculo, o gosto se corrompeu de novo; volta-se no traçado do plano
+e nas fachadas dos edificios ás fórmas torcidas e ás linhas quebradas.
+Nos ornamentos dos maiores e soberbos contornos, as plantas vistosas do
+estylo Luiz XIV transformam-se em definhados filetes, torcendo-se e
+entrelaçando-se uns nos outros da maneira a mais singular, e
+acompanhados de abundantes obras de conchas e de grande numero de
+cupidos; o que fez dar a este _estylo exquisito e todo affectado_ o
+appellido de estylo _embrechado_ e estylo _Pompadour_.
+
+A affectação e o grande exaggero que caracterisam o estylo de Luiz XV
+motivaram cedo uma reacção. No reinado de Luiz XVI voltaram a empregar
+menos entrelaçados e menos entalhaduras. A descoberta de Herculanum e a
+publicação das _Antiguidades de Athenas_ contribuiram a levar o
+entendimento para o gosto mais serio, uma decoração menos contrafeita;
+fizeram vigorar as fórmas classicas da arte grega e romana, cujas
+investigações recentes vieram a descobrir os especimens importantes e
+notaveis.
+
+A época da revolução franceza e do directorio causou um extraordinario
+prejuizo á industria artistica. Quando, no principio do actual seculo,
+um novo estado politico ficou definitivamente constituido, o seu novo
+soberano, vencedor na Italia e no Egypto, cuidou em conservar junto de
+si as coisas que lhe recordassem as suas victorias gloriosas.
+
+No _estylo do imperio_ viu-se apparecer os gryphos, as sphinges, os
+feixes consulares, victorias com palmas e corôas de carvalho. Pouco
+tempo depois, esses assumptos foram quasi os unicos empregados na
+decoração tanto de architectura, como na mobilia.
+
+_Plano das egrejas_. A maior parte das egrejas da renascença têem a
+fórma da cruz Latina. As capellas que havia ao correr das naves lateraes
+e na nave principal das egrejas ogivaes, ficaram supprimidas em França,
+na Belgica e na Allemanha, porém conservaram-se na Italia. A capella mór
+e o cruzeiro terminavam geralmente por uma abside semicircular ou
+polygonal, apresentando no interior uma disposição de pilastras
+corinthias ou compositas, entre as quaes ha janellas e nichos. Arcadas
+de volta inteira, descançando sobre columnas ou pilares põem a nave
+principal em communicação com as naves lateraes. As portas, as janellas
+e todas as aberturas estão tapadas na sua parte superior por um arco de
+volta inteira.
+
+Os _triforiuns_ das egrejas ogivaes não se construiram na renascença.
+Primeiramente substituiu-os, durante algum tempo, uma galeria em sacada,
+tendo parapeito de cantaria vasado ou de obra de ferro; todavia pouco
+depois esse logar foi occupado por uma simples cornija com sacada
+bastante solida para servir como galeria, podendo-se andar á roda da
+nave principal, ficando na altura das janellas superiores.
+
+O monumento mais gigantesco e grandioso que tem produzido a architectura
+do renascimento é, sem duvida, a basilica de S. Pedro do Vaticano em
+Roma, cuja construcção foi dirigida pelos mais celebres architectos,
+Bramante, Raphael, os dois S. Gallo, Peruzzi, Miguel Anjo, Vignola,
+Maderno e finalmente Bernini, este artista de quem infelizmente o seu
+mau gosto em bellas-artes veiu a ser proverbial, sendo originado pela
+inveja dos seus emulos, que pretendiam tirar a fama ao seu superior
+talento: imaginando dar formas novas e as mais extravagantes ás suas
+composições architectonicas afim de supplantar os seus rivaes, morreu
+_desesperado_ por nada ter conseguido; posto que fosse dotado de
+talento, o seu desmarcado amor proprio veiu a causar-lhe o descredito do
+seu nome. N'esta colossal construcção da Basilica de S. Pedro
+consumiu-se mais de seculo e meio.
+
+_Fachadas das egrejas_. As fachadas compõem-se regularmente de duas, e
+algumas vezes de _tres Ordens de columnas sobrepostas_. A ordem inferior
+abrangendo ao mesmo tempo a nave principal e as lateraes, é mais larga
+que a ordem superior; essa corresponde á unica nave central, pois que o
+madeiramento das naves lateraes não sóbe nunca até o entablamento da
+primeira ordem. A ordem mais superior sempre terminada por uma attica ou
+um frontão triangular, tendo no vertice uma cruz ornatada nos angulos,
+acrotéros com vasos, fogaréos e tocheiros. Duas misulas deitadas de cada
+lado da ordem superior, preenchem os espaços dos angulos rectos
+produzidos pela superposição das duas ordens tendo desigual largura. As
+columnas da fachada estão geralmente embebidas um terço ou metade do seu
+diametro. Um ou tres portaes, conforme a importancia do edificio, dão
+ingresso nas naves.
+
+Os jesuitas, cuja Ordem se fundou no XVI seculo, vindo a ser muito rica
+e poderosa no XVII seculo, adoptaram em toda a parte esta composição
+para as fachadas de suas egrejas; por isso dá-se o nome do _estylo dos
+Jesuitas_ á architectura religiosa d'esta época. A maior parte das
+egrejas que estes religiosos construiram distinguem-se pela abundancia
+dos seus ornamentos, principalmente as edificadas na Belgica.
+
+_Abobadas_. As abobadas têem, como as da época antecedente, nervuras
+encruzadas, as quaes, em logar da fórma da ogiva, descrevem uma curva de
+volta inteira ou um arco de volta abatida. Os arcos duplos são largos e
+muitas vezes formados por almofadas pouco fundas. No XVI seculo, as
+abobadas tinham ás vezes decorações pintadas, e os seus fechos sustentam
+abobadas pendentes com muitas sacadas de bastante peso. Depois
+abandonou-se, além dos Alpes, a decoração pintada, substituindo-lhe os
+ornatos em relevo.
+
+_Torres_. As torres, geralmente construidas sobre plano quadrado, e
+compostas de dois, tres ou quatro andares sobrepostos e ornados de
+pilastras ou de columnas embebidas, têem muitas d'ellas uma balaustrada
+á bôca da flecha, com as fórmas mais variadas; campanulada, piriforme,
+pyramidal ou uma fórma mais complicada ainda.
+
+
+*Mobilia religiosa*
+
+
+_Altares_. Durante algum tempo continuou o uso dos retabulos com
+divisões multiplices, no genero d'aquelles dos ultimos annos do periodo
+ogival, porém tendo as molduras das almofadas em detalhes no gosto do
+renascimento.
+
+Foi proximo do XVI seculo que uma mudança radical appareceu na fórma e
+disposição dos altares. Os retabulos foram então substituidos pelos
+porticos copiados dos arcos de triumpho da antiguidade, encimados com
+frontões de fórmas muito variadas. Serviram-se quasi sempre de marmores
+raros e preciosos, sobretudo para as columnas, adquirindo-os com grande
+despeza, dos paizes os mais distantes. A arcada imitando o _arco de
+triumpho_ foi ornada, no principio, de estatuas e de altos e
+baixo-relevos, depois por retabulos de grandes dimensões; e estes mesmos
+acabaram em pouco tempo para serem substituidos geralmente por
+esculpturas.
+
+Quando no XVII e no XVIII seculos, as fórmas extravagantes (_rocôcó_)
+prevaleceram no systema da decoração, os altares tambem ficaram
+sobrecarregados de ornamentos de pessimo gosto, e appareceram as
+columnas _torcidas_, em _espiral_ e em _saca-rolhas_!
+
+_Tabernaculos_. O uso de collocar tabernaculos para conservar a
+eucharistia sobre os altares principaes e secundarios, generalisou-se no
+fim do XVI seculo. Até essa época as particulas se conservaram, como
+durante o periodo ogival, nos tabernaculos isolados em fórma de torre ou
+em armarios abertos na parede, por detraz ou á ilharga do altar. Houve
+mesmo paizes onde o antigo costume não ficou abandonado inteiramente só
+muito depois do XVII seculo.
+
+Os tabernaculos de marmore e de madeira que se collocavam sobre o altar
+desde a época do renascimento, compõem-se geralmente de um cylindro ôco
+ornado com riqueza e reunido a _predella_ ou throno, no qual se põem
+castiçaes sobre misulas reviradas. O cylindro fechado no seu cume por
+uma tampa de fórma hemispherica tem por remate um crucifixo, dividido
+por um, dois ou tres compartimentos com separação, e girando sobre um
+eixo vertical.
+
+_Cadeiras do côro, obra de talha e confissionarios_. As obras de
+entalhador que ornam muitas egrejas do XVII seculo, são as principaes
+obras deixadas pela época da renascença.
+
+As costas das cadeiras do côro compõem-se sempre de almofadas de
+marcenaria ornadas de baixos-relevos ou de pinturas, separadas umas das
+outras por columnasinhas da Ordem Corinthia ou Composita, sustentadas em
+sacadas por misulas com bella obra de talha. Os fustes d'essas
+columnasinhas, rectos ou torcidos, estão cheios de lindos arabescos e
+delicadas folhagens. A obra de talha e dos confissionarios apresentam na
+sua decoração de esculptura bastante similhança com as das cadeiras do
+côro.
+
+_Jubéos e balaustradas_. Os _jubéos_ da renascença compõem-se geralmente
+de tres arcadas de volta inteira, que descançam sobre columnas ou
+pilastras imitadas das Ordens classicas.
+
+Collocam-se os jubéos á entrada da capella mór nas grandes egrejas até
+proximo do meiado do XVII seculo.
+
+No meiado do XV seculo, uma grande reacção se fez contra os jubéos,
+porque, dizia-se então, destruiam o aspecto architectonico e impediam os
+fieis de vêr o sacerdote no altar. Muitos foram desmanchados n'esta
+época, outros transportados proximo da fachada Occidental da egreja, a
+fim de servirem de tribunas para collocar os orgãos.
+
+As _balaustradas_ destinadas a vedar a capella mór e a separar das naves
+lateraes as capellas, ou resguardar certas partes da mobilia religiosa,
+foram poucas vezes feitas de ferro ou de madeira, faziam-se de
+preferencia de marmore ou latão. A sua composição era de repetidas
+columnasinhas de fórma classica, quer com balaustres em pé ou
+_revirados_, o que lhe fez dar o nome de _balaustrada_.
+
+Muitas vezes assentavam extraordinarios monumentos funerarios entre
+essas separações da capella mór e as naves nas cathedraes e nas egrejas
+importantes.
+
+_Caixas de orgão_. Na época do renascimento, deu-se ás caixas dos orgãos
+as maiores dimensões. Collocaram-se, primeiramente, nas egrejas ogivaes,
+do lado do Evangelho, na parte inferior do _triforium_, no primeiro ou
+segundo vão da nave principal. Depois, isto é, perto do meiado do XVI
+seculo, foram assentes proximo do cruzeiro, á entrada dos lados lateraes
+da capella mór. Finalmente, quando as dimensões dos orgãos se foram
+desenvolvendo desmedidamente, estabeleceram-se tribunas especiaes na
+nave central, proximo da frente Occidental da egreja. As mais antigas
+caixas dos orgãos estão cobertas de obra de talha.
+
+_Pulpitos_. Durante o periodo da renascença, o pulpito teve dimensões
+muito maiores que precedentemente. No XVI e XVII seculos foram
+construidos geralmente de madeira; porém desde o meiado do seculo
+seguinte, ajunta-se algumas vezes o marmore á madeira. Os pulpitos das
+egrejas de primeira ordem compõem-se muitas vezes de grupos de estatuas
+acompanhadas de arvores, rochedos e outros detalhes pittorescos
+representando factos da historia sagrada ou ecclesiastica.
+
+_Tumulos e campas_. No XVI seculo os cenotaphios eram compostos ainda
+como durante o periodo ogival, d'um sóco ou macisso de alvenaria,
+coberto por uma grande lousa, sobre a qual se vê a estatua do finado. Á
+roda do sóco acham-se por vezes estatuasinhas debaixo de arcaduras de
+volta inteira descançando sobre columnelos jonicos, corinthios e
+compositos, outras vezes, as arcaduras e as estatuasinhas estão
+substituidas por uma ordem de brazões. A figura do finado vê-se umas
+vezes deitada, outras de joelhos sobre uma almofada ou genuflexorio.
+Esta ultima attitude foi a mais commum no fim do periodo: todavia no
+XVII seculo, os monumentos sepulchraes veem a ter uma composição muito
+mais complicada; os sarcophagos tiveram as mais variadas fórmas, e as
+estatuas dos finados foram acompanhadas de outras estatuas allegoricas,
+como a morte tendo uma foice, figuras de anjos, a Fé, Esperança,
+Caridade, etc.
+
+No XVII seculo, os mausoleus encontram-se muitas vezes collocados por
+baixo de uma arcada muito ornada no estylo do renascimento. Esta
+decoração architectonica applicada sobre as paredes de uma capella ou
+das naves lateraes, da nave principal e capella mór conservou-se nos
+XVII e XVIII seculos, mas disposta com acerto, com as modificações
+introduzidas successivamente na architectura. Na segunda metade do XVII
+seculo, e muito mais frequentemente no seculo seguinte, rematavam os
+tumulos com pyramides e obeliscos em meio relevo, ornados de bustos, em
+medalhão, do finado. Os cyprestes, as columnas quebradas, as urnas
+funereas, genios com fachos derribados, todas as reminiscencias pagãs
+vieram a ser tambem uma decoração mais seguida n'esta ultima época.
+
+O uso das _campas_ continuou durante o periodo do renascimento, e o seu
+numero augmentou muito relativamente á época precedente. No XVI e no
+XVII seculos eram postas no pavimento das egrejas e dos claustros;
+tambem ás vezes se assentavam na grossura da parede, junto do logar em
+que fôra sepultado o finado. As mais antigas, especialmente as da
+segunda classe, estão cobertas em parte por figuras em alto e baixo
+relevo, em parte com inscripções. Mais tarde limitaram-se a uma simples
+inscripção acompanhada de um symbolo ou de um brazão.
+
+A maior parte das campas são de calcareo azul ou de marmore preto, e
+muitas vezes têem as inscripções embutidas com marmore branco. Acham-se
+tambem algumas lousas funerarias de latão, cujos traços gravados estão
+cheios de um esmalte encarnado ou preto, posto a frio.
+
+Desde o começo do XVII seculo, as inscripções funereas principiam
+frequentemente pela fórma pagã D (_eo_) O (_ptimo_) M (_aximo_), ou com
+as letras P. M. interpretadas PIAE MEMORIAE, mas isso tem o
+inconveniente de fazer directamente allusão ao P (_iis_) M (_anibus_)
+dos antigos romanos.
+
+_Pias baptismaes_. As pias baptismaes apresentam pouca importancia; a
+iconographia tão esplendida e tão abundante de symbolismo que se notava
+sobre as pias romãs, e algumas vezes ainda sobre as do periodo ogival,
+desapparece de todo. Ellas foram então formadas de simples pias de
+marmore, circulares ou polygonaes, tendo a fórma de uma semi-esphera ôca
+e achatada, ás vezes ornadas com molduras de fórma de perolas e assentes
+sobre um pedunculo com molduras. As tampas são de latão ou de madeira.
+
+_Obras de ourivesaria e de esmaltador_. Durante o periodo da renascença,
+os ourives serviram-se princípalmente do trabalho de estampar em relevo,
+da cinzelura e da gravura para ornar os objectos de ourivesaria. Os
+esmaltes de côres, cujo uso havia sido introduzido no fim do XV seculo,
+concorreram egualmente ás officinas de Limoges, Augsbourg e de
+Nuremberg. Os _Limousinos_ cobriam quasi sempre com pintura esmaltada as
+peças metallicas, grandes e pequenas, transformando-as assim em paineis
+ou medalhões: os _Allemães_ empregaram os esmaltes, não sómente como
+faziam os Limousinos, para pintar pequenos modilhões, muitas vezes
+camafeus côr de rosa, e os applicavam sobre os pés dos calices, das
+custodias e sobre outros logares das suas obras, mas serviam-se tambem
+para fazer realçar, pelo emprego do colorido superficial, certos
+detalhes das suas peças de ourivesaria, por exemplo, as figuras,
+folhagens, flôres e grinaldas.
+
+O gosto pelos assumptos mythologicos, que dominava nas artes como na
+litteratura, exerceu a sua influencia na ourivesaria religiosa. Os
+deuses, os semi-deuses e os monstros da antiguidade pagã foram
+resuscitados. Ainda mais, apparecendo nos assumptos da historia da
+Biblia ou das legendas dos Santos, os artistas curavam muitas vezes na
+reproducção dos heroes do paganismo: representavam o Padre Eterno com as
+feições de Jupiter antigo; suppunham exaltar Nossa Senhora
+assemelhando-a ás deusas mythologicas; os anjos vieram a ser genios nús,
+e as tres Graças serviram para personificarem as virtudes theologaes.
+Entre os arabescos via-se reproduzir os Centauros, Pans, Sylvanos,
+Tritões, Nereidas; representações onde a natureza humana e a natureza
+animal se reunem da maneira a mais singular. Os objectos do culto
+revestem-se com todas as excentricidades, e teem muitas vezes dimensões
+fóra de toda a proporção.
+
+_Calices_. Os ourives do XVI seculo abandonam pouco a pouco as tradições
+da edade média, e, posto que a fórma antiga da taça se conserve ainda
+algum tempo mais ou menos primitiva, o calix vem a ser cada vez maior. A
+principiar do meiado do XVII seculo, os artistas deixam-se levar pela
+sua imaginação, esquecendo completamente as boas tradições dos tempos
+anteriores. O calix chega, e mesmo vae além muitas vezes, á altura
+desmedida de 35 centimetros; a taça estreita-se muitas vezes de maneira
+que na communhão o padre é obrigado a curvar a cabeça para traz; o nó
+não se distingue já da hastea, e o diametro do pé do calix diminue a tal
+ponto que ao menor choque o calix está arriscado a cair.
+
+A patena é uma simples chapa redonda, não tendo nenhuma cavidade.
+
+_Pyxide_. As pyxides distinguem-se das que havia nas épocas precedentes
+pelas suas muito grandes taças; sendo raramente ornadas de lavor
+representando assumptos religiosos. A começar do XVII seculo, a sua
+tampa não fica ligada á taça por um gonzo.
+
+_Custodia_. As custodias de fórma radiante, foram, póde-se dizer, as
+unicas conhecidas da época do renascimento; teem geralmente as dimensões
+muito exaggeradas. As custodias com cylindro de crystal apparecem apenas
+no XVI seculo. Muitas vezes mesmo mudaram mais tarde estes ultimos,
+substituindo o cylindro de crystal por um sol radiante. Nas custodias
+ricas, o oculo com sol radiante é algumas vezes ornado de grupos, scenas
+em alto relevo e estatuasinhas, que não convém, por fórma alguma, junto
+ao Santissimo Sacramento. Essas extravagancias notam-se mais vezes ainda
+nas custodias modernas.
+
+_Relicarios_. Os grandes relicarios do renascimento eram as mais das
+vezes de madeira pintada e dourada. Faziam-se ainda algumas vezes os
+relicarios de madeira, apresentando a imitação de egrejas
+contemporaneas, com columnas, entablamento, frontão, etc. Muitas vezes
+tambem serviam-se de bustos de Santos de madeira pintada e dourada, que
+se collocavam sobre uma base ornada com molduras com ovanos.
+Encaixilhavam-se as reliquias no meio da face anterior d'essa base,
+mettendo-as debaixo de vidro, ou em um pequeno. relicario de metal.
+
+_Estofos preciosos_. _Tecidos_. No XVI seculo, os estofos de que se
+serviam para as vestimentas, os mais ricos eram tecidos com oiro ou
+prata, brocado e velludos de Genova e de Utrecht.
+
+_O estofo com oiro ou prata_ é um tecido feito com fios cobertos de
+qualquer d'estes metaes. Quando os desenhos são tecidos servindo-se dos
+mesmos fios ou fios de seda, designam-se _brocado_. Finalmente, se em
+logar de fios de seda se servem de velludo, chama-se _velludo de
+Genova_.
+
+Antes do XVII seculo não se conhecia o _velludo lavrado_: da sua
+superficie tiravam-se servindo-se da thesoura, certas partes do pello
+para formar desenhos de flôres e grinaldas. Mais tarde conseguiram obter
+um resultado analogo comprimindo os velludos com uma poderosa machina
+movida a braços ou pela agua; foi este o processo que forneceu, durante
+muitos seculos, o _velludo batido_. O _velludo_ dito de _Utrecht_ tem
+geralmente o pello mais comprido que as outras qualidades de velludos, e
+distingue-se por uma consistencia mais forte.
+
+_Bordados_. Os _bordados_ da época do renascimento podem-se dividir em
+duas grandes classes. A primeira comprehende os estofos bordados, tendo
+conservado a sua flexibilidade, e consistindo o seu apreço na disposição
+artistica dos fios de oiro, prata, seda ou lã de differentes côres,
+empregadas pelo bordador. Os bordados de segunda classe apresentam em
+estofo um aspecto esculptural, devidos aos effeitos das grinaldas,
+flôres, fructos e figuras com as quaes estão ornados; podia-se suppôr
+que o bordador, esquecendo o seu proprio officio, foi pedir auxilio a
+uma arte estranha, que não é nem póde ser a que lhe pertence! Inutil
+seria accrescentar, suppomos, que a logica pedia que o bordador
+empregasse os processos de execução dos quaes legitimamente elle dispõe
+pela natureza mesmo do seu officio, áquelle que empregou da arte da
+esculptura, arte da qual os effeitos nos parecem incompativeis com os do
+bordado inconvenientemente produzido.
+
+_Pannos de raz_. Os pannos de raz continuaram em uso, e obtiveram mesmo
+maior acceitação durante o periodo do renascimento. Nunca os teáres de
+alta e baixa trama foram nem mais numerosos, nem tiveram maior uso que
+no XVI seculo. O centro de fabrico de mais importancia n'esta época foi
+Bruxellas, cujos productos alcançaram primazia não sómente pela
+habilidade dos operarios, mas tambem pelos cuidados constantes que se
+empregavam na preparação e applicação do tabalho das materias de que se
+serviam na sua execução. O magistrado communal da cidade não desprezava
+nenhum meio para conservar a merecida reputação das officinas de
+Bruxellas, que contribuiam com uma tão grande parte para a prosperidade
+nacional. Finalmente, para conseguir pannos de raz perfeitos, elle
+prohibiu, por um edital, de 24 de abril de 1425, que se pintassem ou
+retocassem com pincel as encarnações dos tecidos de uma certa dimensão;
+pelo mesmo edital promettia, além d'isso, aos fabricantes a propriedade
+artistica de seus grandes modelos de desenhos, estabelecendo punições
+muito severas contra os falsificadores. Tres annos depois, isto é, em
+maio de 1528, promulgou um outro edital mais notavel ainda, ordenando
+que toda a peça fabricada na cidade e medindo mais de seis varas devia
+trazer d'alli em diante na ourela inferior: de um lado uma das tres
+marcas dos fabricantes, Bruxellas, Antuerpia e Tournay, e do outro um
+pequeno escudo entre dois BB, iniciaes da palavra Bruxellas.
+
+Em 1544, a obrigação de ter a marca foi extensiva pelo governo a todas
+as cidades dos Paizes-Baixos.
+
+Na marca de Bruxellas algumas vezes o B está voltado, ficando os dois
+anneis do B virados para o escudo. A marca de Antuerpia é formada por
+uma mão acompanhada de uma flor de liz; a de Tournay mostra uma torre.
+
+Durante o periodo ogival os pannos de raz reproduziram assumptos
+religiosos e, algumas vezes tambem, figuras allegoricas ou contos de
+cavallaria. Á proporção do adiantamento no XVI seculo, os assumptos
+religiosos tornam-se mais raros; ficando preferidas as representações
+que se referissem á mythologia pagã ou á historia antiga da Grecia e dos
+Romanos.
+
+A fabricação dos pannos de raz de Bruxellas declinou sensivelmente
+durante a ultima metade do seculo XVI, por causa das perturbações
+religiosas que assolaram a Belgica.
+
+A Antuerpia era mais um deposito commercial que um centro de producção.
+Desde o XV seculo, os commerciantes expediam os pannos de raz para toda
+parte; tomando no XVI seculo este commercio uma extensão maior.
+
+No principio do XVII seculo, a concorrencia de muitos paizes
+estrangeiros estabeleceu manufacturas officiaes, fazendo declinar a
+industria da Belgica. Todavia os novos estabelecimentos foram fundados
+com o concurso dos mestres e operarios vindos de Bruxellas.
+
+Durante a segunda metade do XVII seculo o fabrico dos pannos de raz
+bruxellezes principiaram a affrouxar, tanto pela sua qualidade, pois não
+empregavam as boas tradições artisticas, como principalmente pela
+fundação, em França, da manufactura real dos Gobelins, estabelecida em
+1662 por Luiz XIV. A direcção d'este estabelecimento foi entregue ao
+pintor O'Brun, que tinha um pessoal numeroso, á frente do qual estava,
+entre outros, officiaes, João Jans, habil tapeceiro, oriundo de
+Oudenarde, que foi residir para Paris, depois de 1650, com grande numero
+de operarios flamengos. A concorrencia da fabrica dos Gobelins causou a
+ruina das officinas de Bruxellas.
+
+A cidade de Oudenarde, que já tinha officinas de tapeçaria no seculo XV,
+produziu nos seculos XVII e XVIII tapeçarias de um genero especial,
+designado sob o nome de _Verduras_. Representavam, não assumptos
+historicos, mas paisagens animadas por algumas pequenas figuras de
+homens e animaes, assim como vistas de castellos ao longe. O seu nome
+deriva da circumstancia dos tons de verde-carregado que predominam
+geralmente n'estas composições. A industria da tapeçaria acabou em
+Oudenarde em 1772.
+
+No XVIII seculo, a illusão da manufactura dos Gobelins foi tão grande na
+Allemanha, que a palavra Gobelin veiu a ser synonimo de tapeçaria de
+alta e baixa lissa, e tem conservado até hoje esta significação.
+
+
+*Iconographia*
+
+
+Uma revolução se effectuou na época do renascimento, na representação da
+natureza humana. Até ao XV seculo, a nudez das figuras não era
+admittida, não sómente na architectura religiosa, como na architectura
+civil. Dissimulavam-se mesmo de proposito as fórmas dos corpos debaixo
+da roupagem do vestuario, com receio de despertar as paixões sensuaes;
+os esculptores do renascimento _fizeram tudo ao contrario_: tomaram a
+taxa de executar sem disfarce a natureza, e dar ao seio, aos hombros, ao
+corpo um desenvolvimento de fórmas que na edade média se tinha
+dissimulado debaixo da roupagem. O retrocesso do genio para os estudos
+classicos levou, por um mesmo estimulo, os artistas ao estudo da
+anatomia do corpo humano: vieram a ser pagãos sem comtudo deixarem de
+ser christãos, e principiaram a representar, até no sanctuario das
+egrejas, a imagem núa da mulher, faunos, etc., nas attitudes as mais
+lascivas: foi esta a propensão da arte desde o XVI seculo. A começar
+d'esse momento, foi a sensualidade e a nudez que dominaram na maior
+parte das pinturas e esculpturas mesmo as religiosas. Muitas vezes nas
+egrejas, os assumptos legendarios ficam substituidos por scenas tiradas
+da mythologia. Estas mesmas com figuras núas se vêem sobre os vasos
+sagrados. Os anjos, que abundam nos edificios religiosos, são genios,
+cupidos com azas, dispostos para entrarem no banho.
+
+Entre as representações proprias do periodo do renascimento,
+mencionaremos uma unica: _A deposição de Jesus Christo no tumulo_, que
+se representa em grande numero de egrejas com figuras de grandeza
+natural. Além do corpo inanimado de Christo, vêem-se mais sete
+personagens. Nicodémos e José de Arimathéa pegando nas extremidades da
+mortalha sobre a qual descança o corpo do Redemptor; Nossa Senhora, o
+apostolo S. João e as tres Marias, Maria Magdalena, Maria Cleóphas e
+Maria Salomé, estão em fileira, entre as duas primeiras por detraz de
+Christo.
+
+Concluiremos estas considerações pelas palavras de um douto archeologo
+que estygmatisa o sensualismo:
+
+Podemos todavia ponderar que o estylo da architectura da Renascença,
+querendo adoptar as formas da architectura classica, não produziu
+progresso nenhum na arte architectural, pelo contrario a fez
+_retrogradar_; se os artistas antigos tivessem conhecido essas ousadias
+engenhosas dos periodos em que a architectura apresentou as suas novas
+idéas artisticas, não teriam espontaneamente renunciado ao grande numero
+de fórmas que a Renascença se lembrou de avivar; em uma palavra, não se
+teriam adoptado modos differentes antigos, que não significavam ser o
+resultado de symptoma de progresso, sendo pelo contrario uma retroacção
+da arte, pois não tinham progredido nas bellezas essenciaes no estylo
+antigo, tendo apenas alterado ao mesmo tempo a perfeição mechanica e a
+belleza racional da arte classica.
+
+
+FIM
+
+
+
+
+Nomes dos Rev.^{os} Parochos
+
+_QUE FORAM ASSIGNANTES D'ESTA PUBLICAÇAO_
+
+
+Alexandre de Faria e Silva--Beneficiado da Sé d'Evora--Correio do
+Collegio.
+
+Alexandre Ramos Cid--Santa Maria da Feira--Beja.
+
+Alfredo Elviro dos Santos--Secretario do Patriarchado--Lisboa.
+
+Antonio d'Almeida Estrella--Rua do Bomjardim, 187--Porto.
+
+Antonio Ferreira da Gama--Alfarellos--Alfarellos.
+
+Antonio Luiz Pinto de Carvalho--Cartaxo--Cartaxo.
+
+Antonio Luiz Thiago Mesquita--S. Miguel--Villa Franca do Campo.
+
+Antonio Narcizo Pereira--Rua da Borragem--Almada.
+
+Antonio Roza de Carvalho--Nossa Senhora da Conceição--Torres Novas
+(Alqueidão do Sena).
+
+Antonio dos Santos Figueiredo--Seminario de Portalegre.
+
+Antonio dos Santos Silva--Santa Catharina da Fonte do Bispo--Tavira.
+
+Caetano Xavier d'Almeida da Camara Manuel--Evora.
+
+Caetano Honorio da Graça e Sousa--Seminario de Portalegre.
+
+Domingos José Alves Almeida--S. João Baptista--Vieira (Mosteiros).
+
+Eugenio de Freitas Cavalleiro de Sousa--Rua da Bella Vista, á Lapa, 7,
+2.^o--Lisboa.
+
+Faustino Antonio de Moraes--S. Saturnino--Fanhões.
+
+Francisco da Conceição Costa--S. Pedro--Elvas.
+
+Francisco Ferreira Flôres--Nossa Senhora da Visitação--Ourem.
+
+Francisco José Monteiro--Nossa Senhora da Encarnação--Mirandella.
+
+Francisco Lourenço Cardoso--Nossa Senhora da Assumpção--Caminha.
+
+Francisco Maria de Vasconcellos--Nossa Senhora do Milagre--Leiria
+(Vieira).
+
+João Baptista de Mendoça--Nossa Senhora da Graça--Olhão (Moncarapacho).
+
+João David d'Azevedo Barros--Rua do Bonjardim, 158--Porto.
+
+João José de Mattos Ferreira--Santa Maria e S. Miguel--Cintra.
+
+João Maria de Mendoça Vasques--Nossa Senhora da Conceição--Silves
+(Alcantarilha).
+
+João Nepomuceno da Costa--S. Pedro de Penaferrim--Cintra.
+
+Joaquim Antonio dos Reis--S. Domingos de Bemfica.
+
+Joaquim Antonio Teixeira--Algarve--Loulé.
+
+Joaquim Bernardo das Dôres--Cacella--Villa Real de Santo Antonio.
+
+Joaquim José d'Ánova--Povoa de Varzim--Povoa de Varzim.
+
+Joaquim Maria Duarte Dias.
+
+Joaquim Martins de Carvalho--Coimbra.
+
+Joaquim Pereira de Moraes (Abb.)--Santa Maria--Taboaço (Sendim).
+
+Joaquim Rodrigues Barroso--Nossa Senhora dos Prazeres--Vizeu
+(Abravezes).
+
+Joaquim dos Santos Sequeira--Seminario de Portalegre.
+
+José Alves de Mattos (Dr.)--Reitor do Seminario de Santarem.
+
+José Baptista Pereira--Senhor Jesus--Obidos Sanguinhal.
+
+José Bernardo dos Santos--Borba.
+
+José David d'Azevedo Barros.
+
+José Diogo Ribeiro--Vimieiro--Correio de Alcobaça.
+
+José Farinha Martins--Seminario de Portalegre.
+
+José da Luz Capella--S. Miguel do Pinheiro--Mertola.
+
+José Maria Tavares Portugal--Nossa Senhora d'Assumpção--Vianna do
+Castello (Gaveão).
+
+José Ribeiro da Silva--Seminario de Portalegre.
+
+José Victorino de Carvalho--Reitor de Marcello--Santa Cruz de Villa
+Aleã.
+
+Luiz José Nunes (Abb.)--S. Miguel--Bouças (Leça da Palmeira).
+
+Manuel Branco de Lemos--Salvador--Ilhalvo.
+
+Manuel Francisco dos Santos Peixoto--Val de S. Sebastião--Ilha Terceira.
+
+Manuel Ferreira Peixoto de Sousa--Vera Cruz--Aveiro.
+
+Manuel Henrique de Sousa Machado--S. Martinho de Bornes.
+
+Manuel José Bernardo Coelho--S. Thiago--Tavira.
+
+Manuel Maria da Costa--S. Matheus da Calheta--Ilha Terceira.
+
+Manuel Marques Monteiro--Nossa Senhora da Conceição--Nellas.
+
+Manuel Ribeiro de Mello--Valladares--Correio de Gaia.
+
+Manuel dos Santos Lourenço--S. João Baptista--Feira (S. João de Vêz).
+
+Mathias M. Grave--Seminario de Portalegre.
+
+Miguel Antonio da Fonseca e Sousa--S. Faustino--Pezo da Regoa.
+
+Paulo da Costa--Rua do Infante D. Augusto--Coimbra.
+
+Prior da Freguezia de Cezimbra.
+
+Prior da Freguezia de S. Miguel--Vagos (Sôza).
+
+Thomaz Joaquim d'Almeida (Dr.)--Santo André--Mafra.
+
+Vice-Reitor do Seminario de Faro.
+
+Victorino da Silva Araujo--Leiria.
+
+Zephyrino José Pinto.
+
+
+
+
+INDICE
+
+
+
+Ao leitor. 5
+
+Introducção. 7
+
+*Capitulo I*--Principios da arte christã no Occidente.
+
+_Primeiro periodo_. 13
+
+*Capitulo II*--Descripção das catacumbas de Roma; 1.^o periodo. 14
+
+Symbolos ou allegorias dos primitivos christãos. 16
+
+Monogramma de Christo. 18
+
+Sarcophagos. 21
+
+Edificios religiosos construidos nos tres primeiros seculos. 23
+
+Cemiterios. 24
+
+Paramentos e objectos do culto. 25
+
+*Capitulo III*--Estylo latino. 25
+
+Caracteres d'este estylo. 31
+
+Decoração dos monumentos do periodo latino. 32
+
+Narthex, fachadas e portaes das basilicas. 33
+
+Janellas e vidraças. 33
+
+Altar nas egrejas do Occidente. 36
+
+O _ciborium_ durante o periodo latino. 39
+
+Cemiterios--sarcophagos--campas e tumulos. 42
+
+Os calices e patena. 45
+
+Os crucifixos e os castiçaes. 48
+
+Diptycos. 49
+
+Estofos preciosos. 50
+
+Paramentos sacerdotaes. 53
+
+Mosteiros latinos. 55
+
+Iconographia do periodo latino. 55
+
+Caracteres do estylo bysantino. 57
+
+Systema de construcção. 58
+
+Duração exterior e interna das egrejas. 58
+
+*Capitulo IV*--Periodo Roman. 60
+
+Caracteres do estylo lombardo. 62
+
+Duração monumental. 66
+
+Estylo roman durante os seculos XI e XII. 67
+
+Caracteres da architectura roman. 69
+
+Esculptura monumental no seculo XI. 71
+
+Atrios e portaes romans. 73
+
+Caixilhos rendilhados e vidraças pintadas. 75
+
+Columnas anneladas--ornato designado--garra. 77
+
+Capiteis da architectura roman. 78
+
+Arcadas e arcaduras nos seculos XI e XII. 79
+
+_Triforiums_ e cornijas. 81
+
+Contrafortes e telhados. 83
+
+Torres e campanarios. 84
+
+Pintura das paredes e pintura historica. 86
+
+Altares fixos, retabulos e relicarios. 89
+
+Piscinas. 93
+
+Doceis--Cadeiras episcopaes. 95
+
+Capellas funerarias--tumulos--pedras tumulares. 96
+
+Pias baptismaes. 98
+
+Esmaltes. 99
+
+Ourives de Limoges. 101
+
+Calices e patênas. 102
+
+Grades. 103
+
+Alfaias religiosas. 104
+
+Restauração artistica. 105
+
+Custodias--pyxides e ciborios. 106
+
+Relicarios e urnas. 108
+
+Corôas suspensas nos altares. 112
+
+Cruzes d'altar e para procissões e candelabros. 113
+
+Evangeliarios e suas capas. 116
+
+Baculos pastoraes e sapatos lithurgicos. 120
+
+Mitras. 122
+
+Alfaias preciosas e paramentos sacerdotaes e suas côres. 123
+
+Abbadias--Mosteiros--Claustros dos capitulos. 129
+
+Iconographia, _a sciencia das imagens_. 132
+
+A cruz e a crucificação. 137
+
+Personagens e accessorios historicos e allegoricos. 143
+
+Evangelistas e seus symbolos. 152
+
+Assumptos religiosos representados sobre os monumentos dos seculos XI e
+XII. 155
+
+*Capitulo V*--Periodo ogival. 159
+
+Diversas fórmas de ogiva. 160
+
+Origem da ogiva e do estylo ogival. 162
+
+Periodo de transição do estylo roman para o ogival. 164
+
+Caracteres da architectura ogival. 165
+
+Plano das egrejas do XIV e do XV seculos e aspecto exterior das egrejas.
+ 169
+
+Systema de construcção. 172
+
+Esculptura monumental. 175
+
+Fachadas--Alpendres--Postaes. 179
+
+Janellas no periodo de transição. 185
+
+Rosaceas--Vidraças incolores. 192
+
+Vidraças pintadas. 195
+
+Idem do XIII seculo. 200
+
+Idem pintadas do XIV seculo. 204
+
+Amarello de prata. 206
+
+Vidraças pintadas do XV seculo. 207
+
+Idem pintadas do XVI seculo. 211
+
+Idem do XVII seculo. 214
+
+Idem do XVIII seculo. 216
+
+Pilares--Columnas. 216
+
+Bases e columnas. 219
+
+Capiteis. 221
+
+Modilhões--misulas. 223
+
+Arcadas--arcaduras. 224
+
+Cornijas--platibandas. 228
+
+Estabilidade e plano das abobadas. 231
+
+Egrejas que teem a sua nave central muito mais elevada que as outras
+naves lateraes e aquellas tendo igual altura. 232
+
+Perfis das nervuras--fecho da abobada. 234
+
+Arcos butantes--contrafortes. 236
+
+Gargulas. 242
+
+Nichos e doceis. 243
+
+Torres--campanarios. 247
+
+Pavimentos. 251
+
+Lages gravadas com embutidos. 253
+
+Labyrinthos. 254
+
+Pinturas das paredes. 256
+
+Cruz da consagração. 262
+
+Altares--tabernaculos--piscinas. 263
+
+Frontaes--baldaquinos. 265
+
+Retabulos--banqueta. 268
+
+Sacrarios. 274
+
+Cadeiras de côro. 277
+
+Jubes--cruzes triumphaes. 281
+
+Pulpitos--confessionarios. 284
+
+Capellas funereas--tumulos--campas. 286
+
+Pequenos monumentos funereos do XV e do XVI seculo. 294
+
+Pias baptismaes--pias para agua benta. 298
+
+Grades--barreiras de metal e de madeira. 301
+
+Orgãos e caixas para elles. 304
+
+Alfaias religiosas--esmaltes. 306
+
+Calices--patenas. 310
+
+Custodias--pyxides sem pé. 313
+
+Relicarios--braços--pés. 317
+
+Esmoleres--relicarios--diversos. 327
+
+Vasos para os Santos Oleos. 331
+
+Corôas com luzes--castiçaes. 333
+
+Estantes para o côro. 338
+
+Livros do Evangelho--manuscriptos lithurgicos--miniaturistas. 339
+
+Thuribulos--gomis--pratas para offerendas. 342
+
+Insignias--medalhas dos peregrinos. 346
+
+Estofos preciosos. 348
+
+Pannos de raz. 350
+
+Vestimentas sagradas. 351
+
+Mitras. 356
+
+Abbadias--mosteiros. 357
+
+Egrejas--claustros--casa do capitulo. 359
+
+Aposento dos irmãos leigos--aposentos para hospedes. 363
+
+Celleiros--officinas--prisões. 365
+
+Cartuchas. 367
+
+Mosteiros para mulheres--conventos do recolhidas. 368
+
+Hospitaes. 368
+
+Iconographia do periodo ogival. 369
+
+Representação da Santissima Trindade. 370
+
+O crucifixo--a crucificação. 371
+
+O sol--a lua. 373
+
+Imagem de Nossa Senhora--o Menino Jesus. 374
+
+A Annunciação--a morte de Nossa Senhora. 376
+
+Os apostolos--os evangelistas. 377
+
+Scenas diversas. 379
+
+Sibyllas. 382
+
+*Capitulo VI*--Periodo da renascença. 383
+
+Caracteres da architectura da renascença. 385
+
+Começo. 385
+
+Decoração. 387
+
+Plano das egrejas. 389
+
+Fachadas das egrejas. 391
+
+Abobadas. 392
+
+Torres. 392
+
+Altares. 392
+
+Tabernaculos. 393
+
+Cadeiras do côro, obra de talha e confessionario. 394
+
+Jubéos e balaustradas. 394
+
+Caixas de orgão. 395
+
+Pulpitos. 396
+
+Tumulos e campas. 396
+
+Pias baptismaes. 398
+
+Obras de ourivesaria e de esmalte. 398
+
+Calices. 399
+
+Custodias. 400
+
+Relicarios. 400
+
+Estofos preciosos. Tecidos. 401
+
+Bordados. 402
+
+Pannos de Raz. 402
+
+Iconographia. 403
+
+Lista dos assignantes. 409
+
+
+
+
+Notas:
+
+
+[1] Extraido do _Boletim de Architectura e Archeologia_, n.^o 2, Tomo V,
+pag. 20 a 22, anno 1886.
+
+[2] Tinha a mesma designação que coemeteria e criptae.
+
+[3] Era um calix mystico que continha o vinho que bebeu Jesus Christo na
+sua ultima ceia. Este calix tinha sido conservado por José de Arimathêa
+e transportado por elle para a Bretanha. (Inglaterra).
+
+[4] Termo em inglez admittido pelos archeologos.
+
+[5] Havia no paiz dois magnificos livros do côro, um do convento de
+Christo, em Thomar, e outro do convento de Belem. Este foi retalhado
+pelos orphãos da casa pia de Lisboa, que fizeram d'elle _barretinas_ e
+_talabartes_. Ao outro livro foram cortadas as folhas de pergaminho,
+tendo vistosos arabescos e lettras floreteadas, coloridas e douradas,
+cujos preciosos fragmentos comprámos avulso aos poucos no anno de 1835.
+
+[6] Ha um muito curioso no cabido da Sé de Vizeu, do qual tirámos o
+molde em 1869. Está exposto no museu do Carmo em Lisboa.
+
+
+
+
+Lista de erros corrigidos
+
+
+Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:
+
+ +----------+---------------------+----------------------+
+ | | Original | Correcção |
+ +----------+---------------------+----------------------+
+ |#pág. 25| das das | das |
+ |#pág. 88| indefinidamenie | indefinidamente |
+ |#pág. 102| quaiidade | qualidade |
+ |#pág. 142| seseculo | seculo |
+ |#pág. 209| da da época | da época |
+ |#pág. 301| asperpergil-os | aspergil-os |
+ |#pág. 350| representanto | representando |
+ |#pág. 352| nma cruz | uma cruz |
+ |#pág. 397| XVII e XXIII seculos| XVII e XVIII seculos |
+ |#pág. 410| Varzlm | Varzim |
+ |#pág. 411| Conceiceição | Conceição |
+ |#pág. 415| dos imagens | das imagens |
+ +----------+---------------------+----------------------+
+
+* correcções feitas com base na errata do próprio livro.
+
+Foi adicionada a indicação do capítulo II (pág. 14) e corrigida a
+entrada do capítulo III (pág. 25).
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Resumo elementar de archeologia christã, by
+Joaquim Possidónio Narciso da Silva
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ARCHEOLOGIA CHRISTÃ ***
+
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+
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+
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+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
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+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
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+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
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+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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+The Project Gutenberg EBook of Resumo elementar de archeologia christã, by
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+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
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+Title: Resumo elementar de archeologia christã
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+Author: Joaquim Possidónio Narciso da Silva
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+Release Date: January 29, 2008 [EBook #24455]
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ARCHEOLOGIA CHRISTÃ ***
+
+
+
+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
+
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+
+<div>
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h1>
+RESUMO ELEMENTAR<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">de<br />
+
+</span>
+<br />
+
+ARCHEOLOGIA CHRIST&Atilde; </h1>
+
+<h2>
+<span class="smallcaps">por</span>
+<br />
+
+<br />
+
+POSSIDONIO DA SILVA </h2>
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<h3>1887</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>
+Antigo edificio religioso de Santarem<br />
+
+<br />
+
+LISBOA&#8213;Museu de Archeologia do Carmo</h4>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="bbox"><br />
+
+<br />
+
+<h2>
+RESUMO ELEMENTAR<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">de</span><br />
+
+<br />
+
+ARCHEOLOGIA CHRIST&Atilde;<br />
+
+</h2>
+
+<h3>
+<span class="smallcaps">por</span><br />
+
+<br />
+
+<em>Possidonio da Silva</em></h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 143px; height: 141px;" alt="" src="images/fig01.png" /><br />
+
+</div>
+
+<div class="smallcaps">
+<h4>medalha conferida em 1869</h4>
+
+</div>
+
+<h4><br />
+
+LISBOA<br />
+
+LALLEMANT FR&Egrave;RES, IMPRENSA<br />
+
+1887</h4>
+
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;">&Aacute;<br />
+
+<br />
+
+MEMORIA DE MEU PAE<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Reinaldo Jos&eacute; da Silva<br />
+
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<div class="tiny">TESTEMUNHO DE RESPEITO E
+GRATID&Atilde;O</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature">O Auctor<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2><a name="c"></a>AO LEITOR </h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Inaugurando-se agora nos seminarios de algumas dioceses de Portugal
+cadeiras para o ensino de archeologia christ&atilde;, estudo que ha
+muito era urgente crear-se no nosso paiz, proponho-me publicar os
+elementos principaes d'esta sciencia, afim de facilitar os estudos a
+quem desejar possuir esses conhecimentos indispensaveis para curar da
+conserva&ccedil;&atilde;o dos objectos do culto e evitar o
+ignorante modo de se restaurarem os edificios religiosos dos
+differentes estylos, que pertencem &aacute;
+na&ccedil;&atilde;o; pois
+j&aacute; &eacute; tempo de n&atilde;o se continuar a
+praticar nos edificios concertos mal pensados, que alteram o caracter
+respectivo da sua architectura, e causam tambem desdouro ao avaliar-se
+a nossa civilisa&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+Ainda que n&atilde;o fa&ccedil;amos um compendio completo,
+comtudo, talvez possa ser de algum auxilio para se divulgarem as
+instruc&ccedil;&otilde;es principaes
+d'esta natureza afim de p&ocirc;r cobro aos vandalismos que
+t&ecirc;em destruido
+tantas antiguidades e objectos preciosos do culto.<br />
+
+<br />
+
+Muito embora n&atilde;o se consiga desde j&aacute; o proficuo
+resultado d'este ensino, todavia ficar&aacute; registado, no final
+do seculo XIX, o empenho que illustres Prelados t&ecirc;em tomado
+para obstar a serem illudidos os parochos nas
+substitui&ccedil;&otilde;es das alfaias, e para se opporem
+&aacute;s defeituosas
+restaura&ccedil;&otilde;es dos monumentos religiosos do nosso
+paiz. Darei por bem empregada esta minha modesta
+publica&ccedil;&atilde;o, se por ventura conseguir este empenho
+patriotico e artistico a que tenho constantemente dedicado a maior
+parte da minha existencia.<br />
+
+<br />
+
+<div class="smallcaps signature">Possidonio da Silva.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2><a name="c0"></a>INTRODUC&Ccedil;&Atilde;O<sup><a href="#1">[1]</a></sup>
+</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Os monumentos historicos ou simplesmente artisticos s&atilde;o os
+marcos que assignalam os passos, mais ou menos firmes, vagarosos ou
+apressados, que os povos v&atilde;o dando no caminho da
+civilisa&ccedil;&atilde;o. Por&eacute;m n&atilde;o se
+pense que, relativamente a esses padr&otilde;es,
+a cultura de uma na&ccedil;&atilde;o deva ser avaliada
+s&oacute;mente pela significa&ccedil;&atilde;o d'elles, por
+mais gloriosa que
+seja, ou por mais que se aprimorasse n'elles a arte, mas sim tambem
+pelo apre&ccedil;o e respeito com que essa
+na&ccedil;&atilde;o vela pela sua
+conserva&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+Sobreleva Portugal a todas as na&ccedil;&otilde;es na alta
+significa&ccedil;&atilde;o dos seus monumentos, porque
+n&atilde;o commemoram unicamente fa&ccedil;anhas militares e
+virtudes christ&atilde;s e civicas, communs a outros povos.
+N&atilde;o recordam s&oacute; mil ac&ccedil;&otilde;es
+de valor, de coragem e de abnega&ccedil;&atilde;o, praticadas
+na defensa da patria, ou para alargamento das suas fronteiras, ou para
+honra e lustre do seu nome. Mas fallam tambem os nossos monumentos
+d'essas arrojadissimas
+<span class="pagenum">[8]</span>
+emprezas de
+navega&ccedil;&otilde;es e descobrimentos, com
+que os portuguezes abriram de par em par as portas &aacute; moderna
+civilisa&ccedil;&atilde;o, levando a luz
+do evangelho, atravez de mares ignotos, &aacute;s mais longinquas
+regi&otilde;es do globo.<br />
+
+<br />
+
+Quasi todas essas glorias, que doiram as paginas da nossa historia,
+foram memoradas por nossos maiores com a funda&ccedil;&atilde;o
+de um templo, acanhado e singelo, ou grandioso e opulento, segundo o
+permittiam a rudeza dos tempos, ou a florescencia da
+na&ccedil;&atilde;o, bem como o animo e posses dos fundadores.<br />
+
+<br />
+
+As convuls&otilde;es do s&oacute;lo, a pouca
+illustra&ccedil;&atilde;o dos reedificadores, e modernamente a
+sanha brutal dos demolidores, t&ecirc;em destruido ou desfigurado
+muitas d'essas auctorisadas testemunhas dos tempos heroicos de
+Portugal. Este vandalismo, que nos degrada do gremio das
+na&ccedil;&otilde;es cultas, n&atilde;o
+est&aacute;, infelizmente, ainda de todo proscripto d'entre
+n&oacute;s. Os poderes publicos ainda n&atilde;o prestam aos
+nossos monumentos toda a atten&ccedil;&atilde;o e vigilante
+solicitude que, para
+a sua conserva&ccedil;&atilde;o, elles demandam, e a honra e
+bom nome do paiz com tanta justi&ccedil;a reclamam. E
+n&atilde;o basta que se attenda &aacute;
+conserva&ccedil;&atilde;o dos monumentos commemorativos dos
+grandes factos historicos, e ao mesmo tempo opulentos d'arte. Merecem o
+nosso apre&ccedil;o e cuidados todos os padr&otilde;es que
+interessam, de qualquer maneira, aos annaes da
+na&ccedil;&atilde;o e &aacute; historia da arte.<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o obstante os differentes elementos de
+destrui&ccedil;&atilde;o, que tem actuado entre n&oacute;s,
+ainda existem de p&eacute; n'este reino n&atilde;o poucas
+egrejas anteriores
+&aacute;
+<span class="pagenum">[9]</span>
+funda&ccedil;&atilde;o da monarchia, ou contemporaneas do nosso
+primeiro rei, ou construidas sob o sceptro dos seus immediatos
+successores. S&atilde;o pequenos e de
+construc&ccedil;&atilde;o mesquinha todos esses templos, tendo
+por fei&ccedil;&atilde;o principal a mesma simplicidade e
+pobreza, que distinguiam n'essa epocha o viver da
+na&ccedil;&atilde;o. Todavia, embora o acanhamento das
+propor&ccedil;&otilde;es, e a simplicidade da architectura
+corram parelhas com a pobreza das memorias historicas, todas essas
+egrejas s&atilde;o exemplares de subido valor para a historia da
+arte em Portugal, tanto mais quanto &eacute; tristemente certo, que
+os grandes templos, levantados nos principios da monarchia,
+t&ecirc;em sido mascarados e desfigurados, por occasi&atilde;o
+das
+reedifica&ccedil;&otilde;es, como aconteceu ao de
+Alcoba&ccedil;a, &aacute; S&eacute; de
+Lisboa, e a outros, ou desappareceram, como o de Santa Cruz de Coimbra
+e o de S. Vicente de F&oacute;ra, em Lisboa, para em seu logar se
+edificarem outros mais vastos e mais sumptuosos.<br />
+
+<br />
+
+Pois essas preciosas reliquias de t&atilde;o remota antiguidade que
+t&ecirc;em resistido ao duro embate das tempestades no correr de
+tantos seculos, zombando at&eacute; agora dos cataclysmos da
+natureza e dos furores do camartello, acham-se presentemente
+amea&ccedil;adas, pelo menos algumas d'ellas, de perderem, em
+reconstruc&ccedil;&otilde;es dirigidas sem amor da arte, e sem
+respeito aos monumentos de remotas &eacute;ras, as suas primitivas
+e venerandas fei&ccedil;&otilde;es.<br />
+
+<br />
+
+E ao mesmo passo v&atilde;o desapparecendo das velhas parochias
+sertan&ecirc;jas as suas antigas alfaias, vendidas por uma
+bagatella, a titulo de alcan&ccedil;ar
+<span class="pagenum">[10]</span>
+meios para
+repara&ccedil;&atilde;o do edificio, e os seus vasos
+sagrados dos seculos anteriores ao XVIII, de muita belleza e
+prim&ocirc;r artistico, a troco de outros de fabrica moderna, mais
+luzentes e vistosos, por&eacute;m destituidos da formosura e
+elegancia das f&oacute;rmas, e da delicadeza e
+perfei&ccedil;&atilde;o do trabalho
+esculptural, que d&atilde;o f&oacute;ros universaes de
+preeminencia
+&aacute; ourivesaria, principalmente dos seculos XV e XVI.<br />
+
+<br />
+
+Os compradores d'objectos d'arte e de industria, antigos, que vem a
+Lisboa todos os annos do estrangeiro, sobretudo de Fran&ccedil;a e
+da Allemanha, percorrem as nossas provincias em todas as
+direc&ccedil;&otilde;es; apparecem em todas as cidades, nas
+villas e nas proprias aldeias, tentando com dinheiro &aacute; vista
+os possuidores d'essas preciosidades, que n&atilde;o sabem
+aprecial-as, desconhecendo-lhes o valor.<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; mister por honra do paiz, e por exigencia imperiosa dos
+interesses publicos, que se trate de p&ocirc;r algum
+c&ocirc;bro, quando n&atilde;o possa obstar-se
+inteiramente, &aacute; assola&ccedil;&atilde;o ou
+deforma&ccedil;&atilde;o d'aquelles monumentos da antiguidade,
+e a esta continua expropria&ccedil;&atilde;o das nossas
+riquezas artisticas, documentos irrecusaveis do alto grau de
+florescencia nas artes, e por conseguinte de
+civilisa&ccedil;&atilde;o, que Portugal
+attingiu n'esse glorioso passado.<br />
+
+<br />
+
+Um dos meios inquestionavelmente mais adequado, seria opp&ocirc;r a
+essa torrente devastadora a
+illustra&ccedil;&atilde;o e o zelo dos parochos,
+illustra&ccedil;&atilde;o e zelo
+provenientes de conhecimentos especiaes para saberem apreciar aquelles
+objectos, ricos d'arte e de memorias
+<span class="pagenum">[11]</span>piedosas, que os
+estranhos nos
+cobi&ccedil;am, e que os nacionaes malbaratam por ignorancia.<br />
+
+<br />
+
+Se os parochos tivessem algumas no&ccedil;&otilde;es de
+archeologia religiosa, n&atilde;o consentiriam, certamente, que as
+suas egrejas perdessem, com fei&ccedil;&otilde;es
+bastardas, o typo primitivo que as ennobrecia, nem haviam de tolerar,
+que fossem despojadas, por compra ou troca, dos seus vasos sagrados e
+alfaias antigas, que s&atilde;o nos templos verdadeiros
+braz&otilde;es da sua nobreza, e testemunhas authenticas,
+eloquentes na sua propria mudez, do amor da religi&atilde;o dos
+nossos antepassados, que n'elles se casava com o am&ocirc;r da
+patria. E n&atilde;o limitariam esses parochos a sua
+ac&ccedil;&atilde;o benefica, sem duvida, a salvaguardar as
+preciosidades artisticas das suas egrejas; mas n&atilde;o deixariam
+tambem, em casos identicos, de dispensarem aos parochianos os conselhos
+do seu saber e da sua experiencia.<br />
+
+<br />
+
+Foram estas considera&ccedil;&otilde;es retemperadas pelo
+affecto que todos devemos &aacute; terra, que nos serviu de
+ber&ccedil;o, e &aacute;s Santas Cren&ccedil;as, que
+recebemos dos maiores, que moveram a Real
+Associa&ccedil;&atilde;o dos
+Architectos e Archeologos a elevar ao esclarecido juizo dos Prelados
+Portuguezes o pedido de instituirem nos seus respectivos seminarios uma
+cadeira de archeologia religiosa.<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; uma sciencia muito complexa a archeologia, n&atilde;o
+ha duvida, pois que cada uma das partes, que a comp&otilde;em, e
+que se subdividem, a seu turno, em outras partes de materia amplissima
+para o estudo, constitue um ramo importante dos conhecimentos
+<span class="pagenum">[12]</span>humanos, que
+demanda
+muita applica&ccedil;&atilde;o para ser bem sabido.<br />
+
+<br />
+
+Por&eacute;m, no que diz respeito &aacute; archeologia
+religiosa &eacute; um estudo muito limitado, facil e agradavel, e
+que p&oacute;de restringir-se, querendo abrevial-o, estabelecendo
+o ponto de partida da invas&atilde;o dos povos septemtrionaes e
+destrui&ccedil;&atilde;o do imperio romano; ou dos tempos mais
+proximos da funda&ccedil;&atilde;o da
+monarchia portugueza. O que &eacute; mister &eacute; que se
+d&ecirc; nos seminarios aos futuros parochos a
+instruc&ccedil;&atilde;o precisa para que conhe&ccedil;am
+os differentes estylos architectonicos, empregados nos templos do
+christianismo; a epocha da sua introduc&ccedil;&atilde;o em
+Portugal, e as modifica&ccedil;&otilde;es, que tiveram aqui,
+determinadas
+pelo estado da nossa civilisa&ccedil;&atilde;o e pelos habitos
+e costumes da sociedade. &Eacute; indispensavel, tambem
+ministrar-lhes eguaes conhecimentos em rela&ccedil;&atilde;o
+&aacute; ourivesaria religiosa, e &aacute;s mais artes liberaes
+e mechanicas, que, no correr da &eacute;ra christ&atilde;,
+t&ecirc;em concorrido com os seus productos para o
+servi&ccedil;o dos altares, e para a
+ornamenta&ccedil;&atilde;o das egrejas.<br />
+
+<br />
+
+Os parochos assim instruidos n&atilde;o deixar&atilde;o de
+apreciar devidamente, e de velar com verdadeiro zelo pela
+conserva&ccedil;&atilde;o dos edificios e dos
+objectos concernentes ao culto, venerandos pelas
+tradi&ccedil;&otilde;es
+religiosas e pela consagra&ccedil;&atilde;o dos seculos, e
+dignos de grande estima pelo seu valor artistico ou archeologico.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="smallcaps signature">Ignacio de Vilhena
+Barbosa.</div>
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[13]</span><br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>
+Resumo elementar de archeologia christ&atilde;</h2>
+
+<br />
+
+<h3><a name="c1"></a>CAPITULO I</h3>
+
+<h3>
+Principios da arte christ&atilde; no Occidente</h3>
+
+<h4>PRIMEIRO PERIODO</h4>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c2"></a>CAPITULO II<br />
+
+</h3>
+
+<br />
+
+<div class="intro"><b>Summario.</b>&#8213;Descripc&atilde;o
+das
+catacumbas de Roma&#8213;Principios artisticos e
+classifica&ccedil;&otilde;es das pinturas das
+catacumbas&#8213;Symbolos ou allegorias dos primitivos
+christ&atilde;os&#8213;Representa&ccedil;&atilde;o de Jesus
+Christo e de Nossa Senhora&#8213;Imagens dos Santos&#8213;Monogramma de
+Christo&#8213;Lampadas&#8213;Sarcophagos christ&atilde;os&#8213;Vasos de
+sangue&#8213;Monumentos christ&atilde;os f&oacute;ra das
+catacumbas&#8213;Edificios religiosos construidos nos tres primeiros
+seculos&#8213;Cemiterios &aacute; superficie&nbsp; do
+solo&#8213;Alfaias e
+instrumentos do culto.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Os mais numerosos monumentos christ&atilde;os que se offerecem para
+o estudo da archeologia christ&atilde;
+s&atilde;o os cemiterios subterraneos da cidade de Roma. Os
+christ&atilde;os continuaram a escavar nas antigas pedreiras da
+cidade novas catacumbas depois do reinado de Constantino, e durante os
+quatro ou cinco seculos seguintes, transformaram as catacumbas em
+logares de peregrina&ccedil;&atilde;o. Fizeram-se
+restaura&ccedil;&otilde;es e embellezamentos n'estes
+sanctuarios at&eacute; ao fim do seculo VIII.<br />
+
+<br />
+
+As catacumbas eram destinadas a tres fins: o primeiro e principal era
+servirem de cemiterio aos christ&atilde;os. Os tumulos ficavam
+dispostos nas paredes uns por cima dos outros formando fileiras de tres
+a doze. Os corpos eram collocados em nichos oblongos, fechados por
+tampas de marmore, ou por tijolos ordinariamente em numero de tres,
+ajustados perfeitamente com cal.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[14]</span>
+N'estas galerias veem terminar em muitos sitios camaras sepulchraes.
+S&atilde;o especies de covas funerarias, no fundo das quaes se
+encontra muitas vezes, debaixo de uma abobada, um tumulo encerrando os
+restos mortaes de algum martyr illustre. Estes tumulos serviam de altar
+no dia anniversario do martyr, em que os christ&atilde;os vinham
+fazer as suas ora&ccedil;&otilde;es.<br />
+
+<br />
+
+A f&oacute;rma dos sepulchros era variadissima: ha-os circulares,
+semi-circulares, octogonaes, hexagonaes e pentagonaes; comtudo a maior
+parte s&atilde;o quadrados.<br />
+
+<br />
+
+O segundo fim a que destinavam as catacumbas era servirem de logar de
+reuni&atilde;o para ahi celebrar as ceremonias do culto. Foi para
+fazerem as suas assembl&eacute;as religiosas que os primitivos
+christ&atilde;os construiram, nos seus cemiterios subterraneos,
+oratorios, compostos a maior parte das vezes de dois ou tres sepulchros
+contiguos, e que se designam pelo nome de <em>basilicas das
+catacumbas</em>.<br />
+
+<br />
+
+O terceiro fim das catacumbas era tambem servirem de retiro ao
+Pontifice, ao clero e aos fieis no tempo da
+persegui&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+A historia das catacumbas p&oacute;de dividir-se em tres periodos
+principaes: o periodo da forma&ccedil;&atilde;o, o periodo da
+restaura&ccedil;&atilde;o e de visitas piedosas, e
+o periodo de explora&ccedil;&otilde;es scientificas.<br />
+
+<br />
+
+O primeiro periodo abra&ccedil;a os quatro primeiros seculos. No
+decurso do seculo IV viu-se diminuirem as sepulturas subterraneas pelo
+augmento dos tumulos &aacute; superficie do solo. Depois do anno
+410 n&atilde;o se encontram sepulturas nas catacumbas.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[15]</span>
+O segundo periodo estende-se desde os primitivos annos do seculo V
+at&eacute; ao principio do seculo IX.<br />
+
+<br />
+
+Chamam-se cryptas historicas as camaras sepulchraes em que repousavam
+os restos de martyres illustres.<br />
+
+<br />
+
+O ultimo periodo, de explora&ccedil;&otilde;es scientificas,
+data do anno de 1578.<br />
+
+<br />
+
+No mez de maio de 1578, uns trabalhadores que se occupavam em extrahir
+pozzolana n'uma vinha, a duas milhas da cidade de Roma, descobriram uma
+abertura que dava para um cemiterio christ&atilde;o decorado de
+pinturas, de sarcophagos e de inscripc&otilde;es.<br />
+
+<br />
+
+Estas pinturas pertencem a epochas differentes, e algumas ao primeiro
+seculo da nossa &eacute;ra. As do seculo II s&atilde;o mais
+numerosas, por&eacute;m as do seculo
+III s&atilde;o ainda em muito maior numero.<br />
+
+<br />
+
+A maior parte das decora&ccedil;&otilde;es das paredes das
+catacumbas foram executadas a fresco, sendo feitas algumas com mosaicos
+em limitado numero.<br />
+
+<br />
+
+Os antigos artistas contentavam-se em tra&ccedil;ar a
+silhu&ecirc;ta dos personagens e dos objectos, enchiam em seguida o
+espa&ccedil;o comprehendido entre os contornos por c&ocirc;res
+lisas ou illuminuras, e indicavam convencionalmente as rugas dos fatos
+com tra&ccedil;os cheios e as saliencias com tra&ccedil;os
+finos. Faziam o contrario do que se praticava desde o seculo VI,
+desprezando, na representa&ccedil;&atilde;o dos assumptos, os
+accessorios.<br />
+
+<br />
+
+As pinturas dos tumulos, em f&oacute;rma d'arco, apparecem
+<span class="pagenum"><a name="p16">[16]</a></span>
+sobre um fundo ornado,&#8213;um
+assumpto com muitas figuras tra&ccedil;adas dentro de molduras de
+f&oacute;rma quadrada ou semicircular.<br />
+
+<br />
+
+Os ornatos s&atilde;o na maior parte
+imita&ccedil;&otilde;es de objectos usuaes, a&ccedil;afates
+com fructos ou grinaldas de flores, sendo imitado este genero de
+decora&ccedil;&atilde;o de
+pintura da arte pag&atilde;.<br />
+
+<br />
+
+Nas catacumbas representava-se ordinariamente Jesus Christo debaixo da
+f&oacute;rma do Bom Pastor.<br />
+
+<br />
+
+As imagens do Redemptor n&atilde;o se encontravam isoladas,
+apresentando todos os caracteres das pinturas posteriores a muitos
+seculos &aacute; convers&atilde;o de Constantino.<br />
+
+<br />
+
+A Santa Virgem &eacute; figurada nas pinturas das catacumbas sobre
+os vidros dourados e os sarcophagos dos seculos primitivos, estando
+sentada, com o Menino Jesus ao collo.<br />
+
+<br />
+
+A adora&ccedil;&atilde;o dos Magos recordava aos fieis tres
+dogmas: a voca&ccedil;&atilde;o dos infieis, a Divindade de
+Nosso Senhor, e a Maternidade Divina.<br />
+
+<br />
+
+Os primitivos christ&atilde;os representavam tambem a Virgem com ou
+sem o Filho, debaixo da forma d'uma <em>orante</em>, isto
+&eacute;, em
+p&eacute; e levantando os bra&ccedil;os n'uma attitude de
+supplica. Muitas imagens s&atilde;o anteriores ao seculo IV.<br />
+
+<br />
+
+<em>Jesus Christo multiplicando os
+p&atilde;es</em>: figura a Santa Eucharistia, como sendo
+alimento das almas.<br />
+
+<br />
+
+O Salvador &eacute; representado em geral debaixo da figura d'um
+mancebo imberbe vestido com manto e tunica ornada com duas bandas de
+purpura.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[17]</span>
+<em>O paralytico curado</em> &eacute;
+representado no momento em que, deixando a piscina, leva a sua cama
+&aacute;s costas. Est&aacute; vestido com uma tunica e cinta e
+uma especie de ceroulas.<br />
+
+<br />
+
+<em>Jesus resuscitando Lazaro</em>:
+&eacute; representado Lazaro debaixo da f&oacute;rma d'uma
+pequena mumia envolvida em pequenas fitas e collocada na
+posi&ccedil;&atilde;o vertical &aacute; entrada do tumulo,
+que tem a f&oacute;rma de um edificio ou pequeno templo.<br />
+
+<br />
+
+As representa&ccedil;&otilde;es de
+refei&ccedil;&atilde;o dividem-se em duas classes conforme
+symbolisam a Eucharistia, ou a felicidade dos predestinados
+&aacute;
+bemaventuran&ccedil;a.<br />
+
+<br />
+
+A felicidade dos predestinados &eacute; symbolisada por um banquete
+ao qual servem o Amor e a Paz, porque estes dois gosos eram tidos como
+os principaes do Paraiso.<br />
+
+<br />
+
+<em>Jesus Christo rodeado dos seus
+discipulos</em>: representa o ensino dado aos apostolos e a
+celebra&ccedil;&atilde;o da ultima ceia do Senhor.<br />
+
+<br />
+
+As imagens dos Santos encontram-se nas cryptas historicas, e todas em
+geral s&atilde;o posteriores &aacute;
+convers&atilde;o de Constantino. Muitas s&atilde;o ornadas de
+resplendor, que s&oacute; foi dado aos Santos no principio do
+seculo VI.<br />
+
+<br />
+
+A scena do Orpheu tocando lyra, tirada da mythologia, &eacute;
+muito commum nas pinturas das catacumbas e sobre os monumentos
+christ&atilde;os dos primeiros seculos.<br />
+
+<br />
+
+Entre os primeiros christ&atilde;os, Orpheu deleitando os animaes
+ferozes com os sons da sua lyra, era
+<span class="pagenum"><a name="p18">[18]</a></span>
+um symbolo de Jesus Christo domando as
+paix&otilde;es dos homens e attrahindo-os com os encantos da sua
+doutrina.<br />
+
+<br />
+
+Os primeiros christ&atilde;os reproduziam de differentes maneiras
+as quatro esta&ccedil;&otilde;es sobre as paredes das
+catacumbas e sobre os sarcophagos, porque as
+esta&ccedil;&otilde;es symbolisavam aos olhos dos
+christ&atilde;os a futura resurrei&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+Os primitivos christ&atilde;os serviam-se dos symbolos, em primeiro
+logar, para subtrahir &aacute; irris&atilde;o dos infieis as
+mais augustas verdades da religi&atilde;o, e em segundo logar, para
+se conhecerem entre si. Os mais antigos d'estes symbolos eram a pomba,
+o peixe, a barca, a lyra e a ancora.<br />
+
+<br />
+
+Durante os primeiros tres seculos da Egreja, o peixe era um dos
+symbolos mais divulgados entre os christ&atilde;os para
+significarem Jesus Christo. Empregava-se de dois modos, como nome e
+como figura. A palavra <em>ichtus</em>, que significa
+peixe, fornece as iniciaes das palavras <em>Jesus Christo Filho
+de Deus</em>.<br />
+
+<br />
+
+O peixe representado sobre os monumentos pintados ou esculpidos tinha a
+mesma significa&ccedil;&atilde;o, era um signal hyerogliphico
+lembrando aos christ&atilde;os a palavra grega e todas as verdades
+que ella symbolisava. Tanto o acrostico como o peixe symbolico, era
+principalmente gravado sobre as pedras e sobre os objectos portateis
+para o uso da piedade dos primeiros christ&atilde;os.<br />
+
+<br />
+
+A Cruz que se encontra nos monumentos christ&atilde;os dos quatro
+primeiros seculos apresenta-se com
+<span class="pagenum">[19]</span>
+f&oacute;rmas dissimuladas, de ancora,
+que era ao mesmo tempo o symbolo da esperan&ccedil;a, e serve desde
+o primeiro seculo para recordar aos fieis o signal da
+Redemp&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+Empregou-se desde os primeiros seculos o cordeiro para representar
+Jesus Christo.<br />
+
+<br />
+
+Os primitivos christ&atilde;os tinham por costume orar em
+p&eacute;, com os bra&ccedil;os estendidos e levantados para
+o ceu. Na maior parte dos monumentos christ&atilde;os primitivos
+v&ecirc;em-se fieis dos dois sexos, e principalmente mulheres em
+attitude de <em>orantes</em>.<br />
+
+<br />
+
+A <em>orante</em> symbolisa a alma
+christ&atilde; admittida no ceu e considerada esposa de Jesus
+Christo. As duas arvores que em alguns monumentos se encontram aos
+lados, designam o paraiso ou a felicidade eterna.<br />
+
+<br />
+
+Encontra-se frequentemente nos primitivos monumentos
+christ&atilde;os de toda a especie a pomba, e principalmente nos
+epitaphios dos seis primeiros seculos da nossa &eacute;ra. Nos
+tumulos symbolisa ordinariamente a alma pura e innocente dos fieis. A
+oliveira que est&aacute; ao seu lado ou o ramo d'esta arvore, que
+muitas vezes tem no bico, s&atilde;o o symbolo da paz que gosa a
+alma, e equivale &aacute; formula
+<em>in pace</em>, tantas vezes empregada nos epitaphios.<br />
+
+<br />
+
+A <em>palma</em> tem sido em todos os tempos
+o symbolo do triumpho; os christ&atilde;os primitivos
+collocaram-n'a nos seus tumulos para recordar a victoria ganha pelo
+defuncto aos inimigos da f&eacute;.<br />
+
+<br />
+
+O <em>monogramma de Constantino</em> ou
+simplesmente <em>monogramma</em> s&atilde;o as duas
+letras gregas X P ligadas da seguinte maneira:
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><span class="pagenum">[20]</span><img style="width: 108px; height: 126px;" alt="" src="images/fig02.png" /><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+Outro <em>monogramma cruciforme</em> parece
+ter existido no Oriente e tem a letra X com a f&oacute;rma d'uma
+cruz&nbsp;&dagger; onde est&aacute; ligada na perpendicular
+superior
+a barriga da letra P:<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 82px; height: 136px;" alt="" src="images/fig03.png" /><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+As duas f&oacute;rmas tambem se empregaram no Occidente.<br />
+
+<br />
+
+A partir do meado do seculo IV, o monogramma &eacute; muitas vezes
+acrescentado com mais duas letras gregas A e&nbsp;&Omega;, a
+primeira e a ultima do seu
+alphabeto.<br />
+
+<br />
+
+O monogramma data da convers&atilde;o de Constantino que mandou
+fazer o
+<em>l&aacute;baro</em>, que era encimado pelo
+monogramma.<br />
+
+<br />
+
+Durante os primeiros seculos da Egreja, o altar era apenas uma taboa de
+madeira, servindo de mesa aos apostolos para celebrar os divinos
+mysterios.<br />
+
+<br />
+
+As catacumbas forneceram-nos mais tarde o typo dos altares em
+f&oacute;rma de tumulo. As tumbas <em>em arco</em>
+tinham uma prateleira
+horisontal cobrindo os restos do santo martyr; sobre esta prateleira
+&eacute; que se dizia a missa.<br />
+
+<br />
+
+As lampadas que se encontraram nas catacumbas tinham a f&oacute;rma
+das
+<em>lucerncae</em> dos antigos.
+Assemelham-se a uma barquinha, que era um dos symbolos mais usados na
+Egreja primitiva. A maior parte s&atilde;o de argila; tambem se
+encontram algumas de bronze. Estas ultimas pertencendo a uma epocha
+<span class="pagenum"><a name="p21">[21]</a></span>
+menos remota, s&atilde;o
+quasi todas munidas de cadeias que serviam para as suspender nos tectos
+das capellas.<br />
+
+<br />
+
+Chama-se sarcophago (palavra derivada de
+<em>sarcos</em> carne e <em>phagos</em> eu
+como) um tumulo de
+marmore ou de porphyro mais ou menos ornado de esculpturas.<br />
+
+<br />
+
+Podemos classifical-os em <em>simples</em>,
+<em>mixtos</em> e
+<em>ricos</em>.<br />
+
+<br />
+
+Os sarcophagos <em>simples</em> apresentavam
+a f&oacute;rma de um cofre rectangular sem
+ornamenta&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+Na maior parte os sarcophagos eram adornados de um ornato que se
+chamava
+<em>strigiles</em>.<br />
+
+<br />
+
+Os <em>strigiles</em> s&atilde;o
+canneluras de f&oacute;rma sinuosa, imitando o raspador,
+instrumento de que os antigos se serviam para tirar, na
+occasi&atilde;o de se banharem, a humidade e os corpos estranhos
+espalhados na superficie da pelle.<br />
+
+<br />
+
+Os sarcophagos <em>ricos</em> t&ecirc;em
+as quatro faces, ou pelo menos tres, ornadas de esculpturas em baixo,
+ou em alto relevo. Quando se reproduzem sobre uma mesma face muitas
+scenas ou figuras, s&atilde;o justapostas simplesmente, ou
+separadas por columnas ornadas de pampanos e de pequenos genios
+colhendo fructos.<br />
+
+<br />
+
+Muitos sarcophagos t&ecirc;em, no centro da face principal, um
+medalh&atilde;o circular, onde se v&ecirc; em busto a figura do
+defuncto. Os tumulos que serviam de sepultura a dois esposos,
+t&ecirc;em dois bustos, e algumas vezes uma arcada central
+apresentando, com a mesma significa&ccedil;&atilde;o, dois
+personagens em
+p&eacute; dando a m&atilde;o e chorando.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[22]</span>
+Os sarcophagos <em>mixtos</em> s&atilde;o
+ornados parte com strigiles e parte com figuras gravadas a
+tra&ccedil;o ou esculpidas em relevo.<br />
+
+<br />
+
+Os sarcophagos dos tres primeiros seculos foram escolhidos nas
+officinas pag&atilde;s, ou esculpidos por artistas
+christ&atilde;os, segundo modelos profanos.<br />
+
+<br />
+
+As scenas da Paix&atilde;o propriamente dita, taes como a
+flagella&ccedil;&atilde;o, o coroamento de espinhos e a
+crucifica&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o se encontram
+representados em monumento algum do primitivo christianismo.<br />
+
+<br />
+
+Os christ&atilde;os dos primeiros seculos punham muitas vezes nas
+sepulturas objectos que tinham pertencido ao defuncto.<br />
+
+<br />
+
+Encontram-se nos tumulos dos fieis: tecidos d'ouro, anneis,
+bracel&ecirc;tes e bijoterias, brinquedos de
+crean&ccedil;a, relicarios portateis, vasos de vidro ou d'argila
+collocados ordinariamente perto das cabe&ccedil;as dos cadaveres,
+instrumentos de supplicio.<br />
+
+<br />
+
+<em>Vasos de sangue</em>. Entre os signaes
+certos do martyr o principal &eacute; o vaso de vidro ou d'argila,
+que serviu para recolher <em>o sangue do
+martyr</em>, collocado dentro do tumulo, ou no exterior do nicho
+sepulchral.<br />
+
+<br />
+
+<em>Objectos collocados no exterior do
+tumulo</em>. Entre estes objectos, uns s&atilde;o executados
+pela m&atilde;o do homem, outros n&atilde;o o s&atilde;o.
+Podem classificar-se, na
+primeira cathegoria, os <em>baixos
+rel&ecirc;vos</em>, as estatuetas, os pequenos <em>bustos</em>,
+e os fragmentos
+de esculpturas em pedra e em marmore, os cacos de lou&ccedil;a, os
+fragmentos de <em>vasos</em> de
+<em>crystal</em> e de <em>vidro
+esmaltado</em> e <em>dourado</em>, os prismas e as
+pequenas <em>placas</em>
+<span class="pagenum"><a name="p23">[23]</a></span>
+de <em>mosaico</em>, os anneis, os collares, os
+bracel&ecirc;tes, e um grande numero d'outros objectos de <em>toilette
+feminino</em>, d'ambar, ouro, marfim e nacar, os brinquedos de
+crean&ccedil;a, as folhas de taboa de escrever, as placas de
+bronze, as guarni&ccedil;&otilde;es e os ornamentos para portas
+e cadeiras, d'ouro, marfim, bronze e ferro, os camapheus, as moedas e
+as medalhas, os utensilios de cosinha; n'uma palavra, tudo desde o
+objecto mais ordinario at&eacute; &aacute;s joias mais
+preciosas.<br />
+
+<br />
+
+Encontram-se tambem fragmentos brutos de toda a especie de substancias,
+os mais diversos objectos naturaes e os mais extravagantes;
+peda&ccedil;os de tufo, estilha&ccedil;os de pedra ou de
+tij&ocirc;lo,
+car&oacute;&ccedil;os de fructos, folhas d'arvore ou de planta,
+dentes e ossos d'animaes, caracoes, cascas de mexilh&atilde;o e
+d'&ocirc;stra, conchas, etc.<br />
+
+<br />
+
+Estes objectos fixos ao cimento, eram dispostos de maneira que podessem
+desenhar figuras de que facilmente se podesse fazer id&eacute;a.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Outros monumentos christ&atilde;os dos tres
+primeiros seculos al&eacute;m das catacumbas</em>.
+Occupar-nos-hemos dos edificios religiosos construidos sobre a terra,
+dos cemiterios construidos ao ar livre, dos paramentos sagrados e dos
+instrumentos do culto, anteriores &aacute;
+abjura&ccedil;&atilde;o de Constantino.<br />
+
+<br />
+
+Sabemos por documentos historicos que muitas pessoas abastadas tinham
+em seus palacios oratorios onde os soberanos Pontifices vinham celebrar
+os Santos Mysterios na presen&ccedil;a da multid&atilde;o dos
+<span class="pagenum"><a name="p24">[24]</a></span>
+fieis. Muitos d'estes oratorios
+foram substituidos, depois da abjura&ccedil;&atilde;o de
+Constantino, por
+basilicas, &aacute;s quaes deram o nome das pessoas piedosas que
+haviam cedido &aacute; egreja o direito de propriedade; e se mais
+tarde estas pessoas ficavam consideradas no numero dos Santos, estas
+basilicas eram-lhes dedicadas.<br />
+
+<br />
+
+A mais remota men&ccedil;&atilde;o d'um templo
+christ&atilde;o data do tempo de Alexandre Severo, que foi
+imperador desde 222 at&eacute; 235.<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o &eacute; conhecida a f&oacute;rma nem a
+distribui&ccedil;&atilde;o interior d'estas primitivas egrejas.
+<br />
+
+<br />
+
+Os unicos monumentos notaveis dos tres primeiros seculos,
+at&eacute; hoje conhecidos, s&atilde;o as
+<em>cellas</em> dos cemiterios, &aacute;s quaes se deu
+tambem o nome de <em>basilicas</em>, desde o principio do
+IV
+seculo.<br />
+
+<br />
+
+Estes pequenos edificios, construidos nos cemiterios, serviam para
+ponto de reuni&atilde;o dos fieis.<br />
+
+<br />
+
+<em>Cemiterios ao ar livre</em>. As
+sepulturas christ&atilde;s foram estabelecidas, desde o principio,
+ao ar livre.<br />
+
+<br />
+
+Estes cemiterios, designados em geral pelo nome de <em>d'areae</em><sup><a href="#2">[2]</a></sup>
+eram, do mesmo modo
+que as catacumbas, situados f&oacute;ra das portas das cidades;
+porque as leis romanas prohibiam severamente as
+inhuma&ccedil;&otilde;es dentro dos muros.<br />
+
+<br />
+
+Depositavam-se os cadaveres, quer em simples f&oacute;ssas, algumas
+vezes revestidas interiormente de tij&oacute;los e de lages, quer
+em pias de pedra, ou
+caix&otilde;es de madeira mettidos debaixo da terra. As paredes dos
+tumulos mais ricos eram, dadas certas
+<span class="pagenum"><a name="p25">[25]</a></span>
+circumstancias, rebocadas de argamassa, ou
+estucadas e decoradas com pinturas <em>a
+fr&ecirc;sco</em>, semelhantes &aacute;s das galerias e
+capellas sepulchraes <a href="#e1">das</a>
+catacumbas.<br />
+
+<br />
+
+<em>Paramentos e objectos do culto</em>. Parece certo que,
+durante os primeiros seculos, os paramentos sagrados
+n&atilde;o se differen&ccedil;avam dos fatos
+ordinarios, nem pela f&oacute;rma nem pelo talhe.<br />
+
+<br />
+
+Do mesmo modo que aproveitavam para os sagrados paramentos as
+f&oacute;rmas e os pannos dos fatos ordinarios, assim tambem
+aproveitavam para o servi&ccedil;o dos altares os vasos ricos e
+preciosos que haviam servido aos usos profanos.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c3"></a>CAPITULO III</h3>
+
+<br />
+
+<div class="intro">
+<b>Summario.</b>&#8213;Estylo Latino&#8213;Estylo
+Bysantino&#8213;F&oacute;rmas das Basilicas&#8213;Origem da Basilica
+Christ&atilde;&#8213;O
+Narthex&#8213;Orienta&ccedil;&atilde;o das Basilicas e Egrejas
+Christ&atilde;s&#8213;Egrejas cruciformes, circulares e
+polygonaes&#8213;Cryptas&#8213;Baptisterios&#8213;Oratorios domesticos&#8213;Templos
+pag&atilde;os e edificios profanos apropriados em Egrejas
+Christ&atilde;s&#8213;Systema e regras de
+construc&ccedil;&atilde;o&#8213;Decora&ccedil;&atilde;o
+monumental&#8213;Narthex, fachadas e portaes das Basilicas&#8213;Janellas e a
+maneira de as vedar.&#8213;Madeiramento do cume dos
+edificios&#8213;Torres&#8213;Pinturas representadas em mosaico&#8213;Pavimento nos
+edificios&#8213;Altares&#8213;Ciborium&#8213;<em>Ambon</em>, Tribuna para
+as leituras da Biblia&#8213;Poltrona para os bispos e bancos para os
+sacerdotes&#8213;Cemiterios&#8213;Monumentos funerarios&#8213;Sarcophagos&#8213;Tumulos
+subterraneos&#8213;Objectos com symbolos christ&atilde;os achados nas
+sepulturas&#8213;Alfaias religiosas&#8213;Calices e
+Patenas&#8213;Custodias&#8213;Relicarios&#8213;Pombas e torres&#8213;Accessorios do
+altar&#8213;Cor&ocirc;as de metal precioso suspensas sobre o
+altar&#8213;Dipticos&#8213;Encaderna&ccedil;&atilde;o dos livros dos
+Evangelhos&#8213;Estofos religiosos&#8213;Paramentos sacerdotaes&#8213;Jesus Christo
+sob f&oacute;rmas symbolicas&#8213;Os Apostolos S. Pedro e S. Paulo.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Periodo Latino e Bysantino</em>. A
+architectura christ&atilde; p&oacute;de considerar-se dividida
+em dois ramos
+<span class="pagenum">[26]</span> perfeitamente
+distinctos. O
+primeiro, que se poder&aacute; chamar o <em>Estylo Latino</em>,
+foi adoptado
+pela egreja Latina, isto &eacute;, na Italia, na Illyria, na
+Dalmacia e em toda a Europa Occidental. &Eacute; caracterisado pela
+imita&ccedil;&atilde;o mais ou menos correcta da architectura
+classica, greco-romana. O outro estylo, formado por elementos orientaes
+e romanos, nasceu em Constantinopla, e ahi se desenvolveu, formada sob
+a influencia Oriental, uma configura&ccedil;&atilde;o
+inteiramente nova: deram-lhe o nome de <em>Bysantino</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+O Estylo Latino predominou no Occidente at&eacute; ao principio do
+seculo VIII; e o Estylo Bysantino no Oriente, at&eacute;
+&aacute; tomada de Constantinopla pelos
+Musulmanos, em 1453.<br />
+
+<br />
+
+Chamou se <em>Latino</em> o estylo do
+imperio do Occidente, em primeiro logar porque, derivando do Estylo
+Romano ou Classico, foi empregado nos paizes em que a lingua <em>latina</em>
+era a lingua
+ecclesiastica e vulgar; em segundo logar, porque existiu tanto tempo
+como aquella lingua, approximadamente.<br />
+
+<br />
+
+O Estylo <em>Bysantino</em> tem o nome
+derivado de Bysancio ou Constantinopla, capital do imperio do Oriente.<br />
+
+<br />
+
+<em>Estylo Latino</em>. A architectura
+greco-romana chegou ao seu apog&ecirc;o durante os dois primeiros
+seculos da era christ&atilde;. A sua decadencia come&ccedil;ou
+no seculo III, afastando-se da nobre simplicidade do Estylo Classico.<br />
+
+<br />
+
+No seculo IV, ainda mais se pronunciou a sua
+degenera&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+Come&ccedil;aram ent&atilde;o a desmanchar os antigos
+monumentos
+<span class="pagenum">[27]</span>
+para em seu logar
+construir e decorar mais facilmente os novos. Tal era o estado da
+architectura no Occidente, quando foram construidos os primeiros
+monumentos christ&atilde;os do periodo
+<em>Latino</em>.<br />
+
+<br />
+
+<em>F&oacute;rma das basilicas</em>. As
+<em>basilicas profanas</em> eram vastos edificios
+construidos no
+<em>Forum</em>, ou nos arredores das pra&ccedil;as
+publicas. Serviam para ponto de reuni&atilde;o dos vendedores,
+assim como de outros individuos que se occupassem de negocios. Era
+n'ellas que os magistrados administravam Justi&ccedil;a.<br />
+
+<br />
+
+As <em>basilicas christ&atilde;s</em>
+foram construidas segundo o mod&ecirc;lo das basilicas profanas;
+s&oacute;mente, em vez de se construirem ao longo das
+pra&ccedil;as publicas, eram precedidas de um pateo quadrado, com o
+fim de as afastar do ruido e do tumulto da rua. Tinham, como as
+basilicas profanas, a f&oacute;rma d'um rectangulo mais ou menos
+alongado e compunham-se de tres partes principaes&#8213;o <em>pateo</em>
+ou o <em>atrium</em>; a
+<em>nave</em> e o
+<em>Sanctuario</em>.<br />
+
+<br />
+
+O <em>narthex</em> abria-se ao fundo do
+atrium. Era uma especie de vestibulo, propriamente dito, formado pelo
+portico transversal contiguo &aacute; fachada da basilica.<br />
+
+<br />
+
+Esta primeira parte da basilica era occupada, durante o officio, por
+aquelles a quem as leis ecclesiasticas prohibiam tomar parte nas
+assembl&eacute;as dos fieis.<br />
+
+<br />
+
+Do <em>narthex</em>, entrava-se por uma, tres
+ou cinco portas para a basilica, que era ordinariamente
+<span class="pagenum">[28]</span>
+dividida em tres naves por duas ordens de
+columnas.<br />
+
+<br />
+
+A da direita, reservada para os homens, e a da esquerda para as
+mulheres.<br />
+
+<br />
+
+Avan&ccedil;ando pela nave dentro, encontravam-se os <em>ambons</em>,
+pulpitos destinados
+&aacute; leitura dos Santos Evangelhos para as pr&eacute;dicas,
+e &aacute;
+promulga&ccedil;&atilde;o das leis ecclesiasticas.<br />
+
+<br />
+
+Entrava-se emfim na terceira parte da basilica, a parte mais Santa e
+mais veneranda, aquella onde os seculares n&atilde;o podiam
+penetrar, e que se chamava o <em>Sanctuario</em>.<br />
+
+<br />
+
+O altar occupava a parte central do Sanctuario, e tinha frente para uns
+poucos de lados.<br />
+
+<br />
+
+Atraz do altar desenvolvia-se o
+<em>abside</em> de f&oacute;rma semi-circular e coberto
+ordinariamente com uma meia cupula.<br />
+
+<br />
+
+A cadeira do Bispo era collocada ao fundo do <em>abside</em>,
+e para ella se subia por
+uns poucos de degraus. Aos lados da cadeira episcopal, se achavam,
+contiguos ao hemicyclo do abside, os assentos ou bancos destinados aos
+padres, que assistiam aos Officios Divinos.<br />
+
+<br />
+
+A altera&ccedil;&atilde;o mais notavel, que a
+disposi&ccedil;&atilde;o interior das basilicas soffreu com o
+andar do tempo, foi o accrescentamento do cruzeiro ou nave transversal,
+entre o abside e a nave propriamente dita.<br />
+
+<br />
+
+<em>Orienta&ccedil;&atilde;o das basilicas e das
+egrejas christ&atilde;s</em>. Chama-se
+<em>orienta&ccedil;&atilde;o</em> uma
+disposi&ccedil;&atilde;o particular, segundo a qual o eixo
+longitudinal d'um edificio, d'um tumulo, etc., se dirige uma
+disposi&ccedil;&atilde;o particular, segundo a qual o eixo
+longitudinal d'um edificio, d'um tumulo, etc., se dirige do Occidente
+para Oriente.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[29]</span>
+Desde a primitiva que a egreja christ&atilde; adoptou o costume de
+orar voltando o rosto para o Oriente.<br />
+
+<br />
+
+O costume de orientar as egrejas foi dos primeiros seculos do
+Christianismo.<br />
+
+<br />
+
+Ha dois modos inteiramente oppostos d'orientar as egrejas. N'um, usado
+antigamente, a fachada principal forma a parte Oriental do edificio e a
+capella-m&oacute;r do lado do Poente. N'outro, que preponderou mais
+tarde, a posi&ccedil;&atilde;o de todas as partes da egreja
+&eacute; completamente trocada, a fachada est&aacute; voltada
+para o Occidente, e a capella-m&oacute;r para o Oriente.<br />
+
+<br />
+
+O primeiro modo d'orienta&ccedil;&atilde;o n&atilde;o durou
+muito tempo. Nos seculos V e VI, a come&ccedil;ar no V, se
+construiram muitas egrejas com a capella-m&oacute;r voltada para o
+Oriente. No Occidente a mudan&ccedil;a effectuou-se lentamente,
+pois s&oacute; se completou durante o seculo XIII.<br />
+
+<br />
+
+<em>Cryptas</em>. A maior parte das basilicas
+foram edificadas nos mesmos sitios onde tinham sido sepultados os
+restos mortaes d'um Martyr, ou de qualquer Santo illustre.<br />
+
+<br />
+
+Nas primitivas basilicas, o altar era situado mesmo sobre a sepultura.<br />
+
+<br />
+
+As galerias e capellas subterraneas, que mais tarde foram substituidas,
+tiveram o nome de
+<em>cryptas</em>, da palavra grega que significa, <em>eu
+escondo</em>.<br />
+
+<br />
+
+Estas galerias abobadadas transformaram-se muito tarde em verdadeiras
+capellas, ou egrejas subterraneas, por debaixo de todo o <em>presbyterium</em>;
+bastante vastas para necessitarem o emprego de columnas
+<span class="pagenum">[30]</span>
+que recebiam os arcos das abobadas,
+formando assim muitas naves.<br />
+
+<br />
+
+<em>Baptisterios</em>. Distinguem-se tres
+especies de baptismo: o baptismo por <em>immers&atilde;o</em>,
+o baptismo por <em>aspers&atilde;o</em>, e o baptismo
+por <em>infus&atilde;o</em> ou
+<em>affus&atilde;o</em>.<br />
+
+<br />
+
+O primeiro ministra-se mergulhando na agua todo o corpo; no segundo e
+terceiro, o ministro, de longe ou de perto, lan&ccedil;a a agua
+sobre a cabe&ccedil;a do
+neophito. O baptismo por immers&atilde;o foi usado at&eacute;
+ao seculo XII; a come&ccedil;ar d'esta &eacute;pocha,
+principiou a ser substituido, na egreja Latina, pelo baptismo por
+infus&atilde;o, do qual at&eacute; ali se n&atilde;o
+serviam, a n&atilde;o ser para os doentes em perigo de vida.<br />
+
+<br />
+
+Primitivamente era reservada aos Bispos a
+administra&ccedil;&atilde;o do Solemne Baptismo. O Bispo
+mergulhava tres vezes o neophito, invocando de cada vez uma das Pessoas
+da Santissima Trindade.<br />
+
+<br />
+
+Depois da abjura&ccedil;&atilde;o de Constantino, quasi se
+generalisou por toda a christandade o baptismo ministrado nos edificios
+particulares situados ao lado das principaes egrejas, e especialmente
+das cathedraes.<br />
+
+<br />
+
+Os baptisterios tinham em geral a f&oacute;rma circular ou
+octogona, mas alguns havia quadrados, e outros ainda em
+f&oacute;rma de cruz grega. As pias baptismaes eram muito grandes,
+porque muitas vezes se ministrava a adultos o baptismo por
+immers&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+<em>Templos pag&atilde;os e edificios profanos
+convertidos em egrejas christ&atilde;s</em>. Os templos
+pag&atilde;os n&atilde;o se prestavam em geral para o culto
+christ&atilde;o, em consequencia das suas diminutas
+propor&ccedil;&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p31">[31]</a></span>
+Entretanto alguns foram convertidos, com ligeiras
+modifica&ccedil;&otilde;es, em egrejas christ&atilde;s, e
+outros foram-lhes encorporados.<br />
+
+<br />
+
+A maior parte d'estas transforma&ccedil;&otilde;es datam do
+reinado do imperador Theodosio (383-385), e dos seus successores
+immediatos.<br />
+
+<br />
+
+Tambem houve monumentos civis que foram transformados em egrejas
+christ&atilde;s; taes como as thermas e os banhos, que entre os
+romanos excediam em magnificencia os proprios templos.<br />
+
+<br />
+
+<em>Caracteres do Estylo Latino</em>. As
+basilicas christ&atilde;s foram muitas d'ellas construidas,
+aproveitando para isso monumentos mais antigos. Mas em consequencia das
+basilicas serem muito mais vastas do que os templos pag&atilde;os,
+tornava-se por isso n&atilde;o raras
+vezes necessario desmanchar muitos d'esses monumentos para construir
+uma s&oacute; basilica.<br />
+
+<br />
+
+A architectura estava n'uma tal decadencia, que muitas vezes chegavam a
+reunir fragmentos de dimens&otilde;es e estylos differentes, e
+ajustavam-nos o melhor que podiam.<br />
+
+<br />
+
+Se, por exemplo, se tratava de columnas provenientes de diversos
+monumentos, n&atilde;o pertenciam muitas vezes &aacute; mesma
+Ordem d'architectura; tendo portanto os f&ucirc;stes e os capiteis
+de alturas differentes, enterravam os fustes, ou os collocavam sobre
+soccos. O desvio e a distancia relativa das columnas variavam dentro de
+limites excessivos.<br />
+
+<br />
+
+A unica innova&ccedil;&atilde;o d'alguma importancia
+introduzida nas construc&ccedil;&otilde;es, foi a
+substitui&ccedil;&atilde;o da
+<em>arcada</em> pela architrave.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p32">[32]</a></span>
+Nas regi&otilde;es onde escasseavam monumentos antigos, os
+edificios do periodo Latino eram em geral muito pequenos, baixos e
+pobremente decorados, muitos at&eacute; de madeira.<br />
+
+<br />
+
+Apezar do que acab&acirc;mos de exp&ocirc;r, no seculo V e VI,
+construiram-se em Ravenna muitos monumentos importantes (dos quaes
+ainda alguns se conservam), sem que f&ocirc;sse necessario recorrer
+&aacute;
+devasta&ccedil;&atilde;o que tiveram os anteriores; o que prova
+existir n'aquella epocha em Ravenna uma brilhante escola de habeis
+constructores.<br />
+
+<br />
+
+<em>Materiaes de
+construc&ccedil;&atilde;o</em>. As basilicas e os
+monumentos do periodo Latino eram construidos com pedras d'alvenaria
+regulares, quasi sempre quadradas, de mediano preparo, e tambem com
+tijolos chatos, ficando separados por uma espessa camada de cimento.
+Muitas vezes tambem os muros eram formados por cord&otilde;es de
+uma, duas ou muitas faxas de pedras d'alvenaria alternadas com outras
+compostas de uma ou duas fiadas de tijolos.<br />
+
+<br />
+
+<em>Decora&ccedil;&atilde;o dos
+monumentos</em>. O periodo Latino n&atilde;o foi epocha de
+esplendor para a architectura ornamental.<br />
+
+<br />
+
+O <em>&aacute;baco</em> dos capiteis
+recebeu, durante o periodo Latino, dimens&otilde;es e um
+esvasamento taes que muitas vezes parecia ser um capitel
+sobrep&ocirc;sto sobre outro. A frente do &aacute;baco era
+adornada, do lado da nave principal, com um symbolo, que algumas vezes
+era o monogramma do fundador, e em geral havia uma Cruz d'ordem Trina
+isolada, ou inscripta
+<span class="pagenum"><a name="p33">[33]</a></span>
+n'um
+circulo. Chama-se Cruz de Ordem Trina aquella cujos bra&ccedil;os
+s&atilde;o mais largos nas
+extremidades do que no ponto de intersec&ccedil;&atilde;o dos
+ramos. Esta cruz, quer s&oacute;, ou entre dois cordeiros, ou entre
+dois passaros, com a frente um para o outro, foi um dos symbolos
+christ&atilde;os mais usados durante o periodo Latino.<br />
+
+<br />
+
+<em>Narthex, fachadas e portaes das
+basilicas</em>. O narthex interior occupava o fundo do atrio, e
+era formado pelo portico contiguo &aacute; fachada principal da
+basilica. Communicava pelos extremos com as galerias que rodeavam o
+atrio; como se observa na egreja de Villarinho de S. Rom&atilde;o,
+na provincia do Douro.<br />
+
+<br />
+
+Nas basilicas latinas, quando a configura&ccedil;&atilde;o do
+terreno n&atilde;o permittia estabelecer o atrio e o narthex,
+substituiam algumas vezes estes, por galerias altas collocadas no
+interior do edificio ao longo da nave.<br />
+
+<br />
+
+Os portaes das basilicas eram construidos segundo o modelo dos portaes
+ricos do estylo classico.<br />
+
+<br />
+
+As portas dos portaes das basilicas eram de bronze ou de madeira.
+Algumas das portas de bronze, das primeiras basilicas, provieram de
+monumentos pag&atilde;os. No seculo IX, a egreja de Santa Maria
+Maior, em Roma, tinha portas de prata.<br />
+
+<br />
+
+<em>Janellas e vidra&ccedil;as</em>. As
+janellas das basilicas eram rasgadas d'alto a baixo, e de volta
+inteira.<br />
+
+<br />
+
+Serviam de vidra&ccedil;as a estas janellas grandes laminas de
+marmore ou de pedra, atravessadas de
+<span class="pagenum">[34]</span>
+buracos para por elles penetrar a luz no
+interior dos edificios. Mais tarde, estas laminas foram vasadas de
+maneira que offereciam &aacute; vista os mais complicados desenhos.
+Na Europa Occidental e Septemtrional, em que as laminas de pedra e de
+marmore escasseiavam, guarneciam as janellas com caixilhos de madeira.<br />
+
+<br />
+
+As clara-boias muitas vezes n&atilde;o tinham cobertura,
+principalmente nos paizes meridionaes; e n'outros eram vedadas com
+laminas de pedras translucidas ou de placas de alabastro.<br />
+
+<br />
+
+Desde o seculo VII que come&ccedil;ou a haver vidra&ccedil;as
+com vidros brancos e esverdeados, e at&eacute; mesmo com vidros de
+differentes c&ocirc;res. N&atilde;o
+appareciam ainda figuras, nem ornatos alguns, pintados sobre os vidros;
+as vidra&ccedil;as com vidros de c&ocirc;r eram formadas por um
+grande numero de vidros coloridos, cortados de differentes modos e que
+se reuniam de certa maneira, a fim do conjuncto representar figuras de
+f&oacute;rmas regulares.<br />
+
+<br />
+
+Desde o reinado de Constantino, os grandes edificios apenas se cobriam
+com madeira.<br />
+
+<br />
+
+A maior parte d'esta construc&ccedil;&atilde;o ficava visivel
+no interior dos edificios. Em alguns, as naves tinham tectos de madeira
+com pinturas diversas, representando caix&otilde;es ricamente
+adornados e dourados.<br />
+
+<br />
+
+Raras eram as basilicas que desde a sua funda&ccedil;&atilde;o
+tinham possuido torres. Os campanarios que hoje se v&ecirc;em
+proximo das antigas egrejas de Roma, s&atilde;o quasi todos
+posteriores ao seculo VIII. As
+<span class="pagenum">[35]</span>
+torres do <em>periodo Latino</em>
+s&atilde;o na maior parte de f&oacute;rma circular ou
+octogonal.<br />
+
+<br />
+
+Nas grandes basilicas as abobadas esphericas do abside e o Arco
+Triumphal, e algumas vezes tambem as paredes comprehendidas entre as
+janellas altas da nave e das arcadas que ligam as columnas, ficavam
+revestidas com vistosos mosaicos.<br />
+
+<br />
+
+Os materiaes mais ordinariamente empregados n'este genero de trabalho,
+eram folhas de marmore e peda&ccedil;os de vidro.<br />
+
+<br />
+
+Em muitas basilicas de Roma, o abside abobadado em forma de esphera tem
+ao centro a imagem de Jesus Christo em p&eacute; ou sentado, com o
+bra&ccedil;o direito erguido, ou lan&ccedil;ando a
+ben&ccedil;&atilde;o, e com um rolo de papel ou um livro
+collocado &aacute; sua esquerda. Aos lados do Salvador
+est&atilde;o representados os Apostolos, ou outros Santos. O
+s&oacute;lo que pisam &eacute; o da Judeia, o que se conhece
+pela
+representa&ccedil;&atilde;o do rio Jord&atilde;o, cujo nome
+&eacute; muitas vezes inscripto debaixo dos p&eacute;s de Jesus
+Christo, e pela presen&ccedil;a das palmeiras, que foram, desde o
+primeiro seculo da era christ&atilde;, o symbolo da Terra
+promettida. Logo abaixo do abside se estende, em toda a largura, uma
+zona estreita, no centro da qual se v&ecirc; o Cordeiro Divino
+coroado com ou sem a Cruz, collocado sobre um outeiro d'onde brotam os
+quatro rios do Para&iacute;so: Geham, Phison, o Tigre e o
+Euphrates, symbolos dos Evangelistas. Doze cordeirinhos, seis de cada
+lado, se dirigem para o cordeiro symbolico, e parecem sahir das
+<span class="pagenum"><a name="p36">[36]</a></span>
+cidades Santas de Jerusalem e
+Bethlem, que occupam os extremos da composi&ccedil;&atilde;o, e
+se acham
+representadas por varias portas e muralhas com ameias. Estes
+cordeirinhos symbolisam os fieis.<br />
+
+<br />
+
+Alguns mosaicos representam o sonho de S. Jo&atilde;o, isto
+&eacute;, os quatro animaes, symbolos dos Evangelistas; e os vinte
+e quatro velhos, vestidos de mantos brancos, offerecendo coroas ao
+Cordeiro.<br />
+
+<br />
+
+Para piso das basilicas, os primitivos christ&atilde;os serviam-se
+dos differentes processos de empedramento, como os romanos usavam. Mais
+tarde, estes processos foram substituidos por um trabalho de novo
+genero, chamado <em>opus
+alexandrinum</em>, assim designado por ter sido usado
+primeiramente na Alexandria. Estes empedramentos consistiam em um
+conjuncto de variados marmores em que predominavam os porphyros verdes
+e vermelhos; pareciam como um rico tapete estendido no s&oacute;lo.
+O empedramento <em>alexandrino</em> foi muito
+pouco empregado na Europa Occidental e Septemtrional.<br />
+
+<br />
+
+Havia tambem empedramentos em que sobresahia a prata e outros metaes
+preciosos.<br />
+
+<br />
+
+Parte do piso do Sanctuario da basilica do Vaticano &eacute; de
+palhetas de prata; mas o da capella de S. Pedro, da mesma basilica,
+&eacute; de palhetas de ouro.<br />
+
+<br />
+
+Nas catacumbas era mesmo sobre os tumulos dos martyres que se
+celebravam os Santos Mysterios; por&eacute;m, a come&ccedil;ar
+do seculo III, este uso foi approvado tambem pela Egreja.<br />
+
+<br />
+
+No Occidente, o altar era quasi sempre erigido
+<span class="pagenum">[37]</span>
+sobre o tumulo d'um martyr. Os restos
+mortaes do Santo collocavam-se immediatamente debaixo do altar n'um
+sarcophago, e ainda, na maior parte dos casos, ficavam depositados
+n'uma crypta collocada debaixo do Sanctuario. Tanto na Grecia como no
+Oriente, nunca em tempo algum, e at&eacute; mesmo em nossos dias,
+se fez d'um tumulo um altar, mas sim d'uma mesa, que recordava aquella
+sobre a qual o Salvador instituiu a Eucharistia. Um altar <em>nunca</em>
+encerrava
+<em>reliquias</em>. Desde o tempo de
+Constantino, que data a maior parte dos altares das egrejas do
+Occidente. No principio do seculo VI (517) o concilio de
+&Eacute;pona prescreveu, que todos os altares fossem de pedra, os
+quaes foram adoptados pela raz&atilde;o symbolica de ser
+considerado o Salvador a pedra angular.<br />
+
+<br />
+
+Os altares de pedra d'essa &eacute;pocha eram sempre formados por
+uma especie de prateleira quadrada ou rectangular, para constituir a
+mesa do altar propriamente dito. Esta mesa, muitas vezes, cobre um
+sarcophago ou um tumulo de madeira; outras &eacute; sustentada por
+um p&eacute; central em forma de
+cippo e ainda outras posta em quatro, cinco e mesmo at&eacute; seis
+columnellos.<br />
+
+<br />
+
+Havia altares formados de tres lages, das quaes duas se collocavam
+verticalmente, servindo de supporte &aacute; terceira, collocada
+horisontalmente, a fim de formar a mesa do altar. Encontram-se tambem
+altares formados de cinco placas, tendo, pelo seu conjuncto, a
+f&oacute;rma de um cofre de pedra.<br />
+
+<br />
+
+A Aur&eacute;ola era formada de folhagens e sustentada
+<span class="pagenum">[38]</span>
+por quatro anjos; Nosso Senhor
+Jesus Christo fica collocado entre dois Cherubins, que facilmente se
+reconhecem pelas suas asas abertas. Uma m&atilde;o figurada no
+remate superior da Aur&eacute;ola, &eacute; para
+indicar a presen&ccedil;a de Deus. &Eacute; tambem adornada de
+flores, para indicar que o assumpto se passa no C&eacute;u.<br />
+
+<br />
+
+As esculpturas mostram que esta arte estava muito decahida no seculo
+VIII. Essas figuras com posi&ccedil;&otilde;es grotescas e
+for&ccedil;adas, teem
+todas o rosto de frente, e os membros desproporcionados,
+sendo tudo d'uma imperfei&ccedil;&atilde;o tal, que
+&eacute;
+difficil imaginar-se nada mais grosseiro e rude.<br />
+
+<br />
+
+A inscrip&ccedil;&atilde;o, muito mal escripta, e n'uma
+linguagem quasi inintelligivel, n&atilde;o &eacute; mais
+esmerada do que as esculpturas.<br />
+
+<br />
+
+Quando as faces dos altares das basilicas das grandes egrejas
+n&atilde;o tinham esculpturas, eram
+ent&atilde;o revestidas de laminas de ouro e de prata, com engastes
+de pedras preciosas, ficando cobertas de colchas bordadas,
+representando algumas vezes assumptos sagrados.<br />
+
+<br />
+
+Desde o seculo IV at&eacute; meiado do XII, que as mesas dos
+altares eram muitas d'ellas escavadas em f&oacute;rma de bandeja em
+toda a extens&atilde;o do plano superior, tendo um
+reb&oacute;rdo de alguns centimetros de altura; &agrave;s vezes
+tinham ornatos esculpidos. Muitas mesas eram furadas nos angulos, com
+um ou muitos buracos, cuja serventia ainda n&atilde;o foi possivel
+descobrir. O altar era encimado por um <em>ciborium</em>,
+especie de docel ou
+baldaquim, sustentado
+<span class="pagenum"><a name="p39">[39]</a></span>
+por
+quatro columnas de madeira ou de marmore e de metal.<br />
+
+<br />
+
+Entre as columnas do <em>ciborium</em> havia
+umas cortinas ou reposteiros de corredi&ccedil;a, que se corriam
+para occultar o officiante e o altar durante a
+consagra&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+O <em>ciborium</em>, que data do seculo XII,
+tem uma f&oacute;rma um tanto differente da que foi posta em uso
+durante o periodo Latino.<br />
+
+<br />
+
+As cortinas dos antigos <em>ciboriums</em>
+eram em geral de preciosissimos damascos de seda e ouro, ou com ricos
+lavores, guarnecidos de perolas, pedrarias e mesmo laminas de ouro e de
+prata.<br />
+
+<br />
+
+Primitivamente, cada egreja apenas tinha um altar. Comtudo mais tarde
+houve egrejas no Occidente, que tinham muitos.<br />
+
+<br />
+
+Os gregos e os orientaes nunca tiveram sen&atilde;o um altar nas
+suas egrejas.<br />
+
+<br />
+
+Os <em>altares portateis</em> antigos
+compunham-se, bem como os mais recentes, de uma prancha rectangular de
+madeira, de pedra ou de metal, algumas vezes munida de uma moldura de
+ouro ou de prata, e tendo no extremo um appendice para servir de punho.
+N&atilde;o se acharam altares portateis do periodo Latino,
+n&atilde;o obstante parecer indubitavel que deveriam ser communs
+n'aquelle periodo.<br />
+
+<br />
+
+Uma tribuna, collocada no meio da nave principal das basilicas, era
+destinada &aacute; leitura dos Santos Evangelhos e aos
+serm&otilde;es. Algumas egrejas possuiam tres: uma para o
+Evangelho, outra para a Epistola e outra para as prophecias.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[40]</span>
+A tribuna do Evangelho tinha regularmente duas escadas. Perto d'ella
+havia um enorme candelabro que servia para supportar uma grande tocha
+chamada <em>o facho do Evangelho</em>.<br />
+
+<br />
+
+Nas basilicas christ&atilde;s, o sanctuario e o c&ocirc;ro eram
+separados da nave por uma divis&atilde;o, umas vezes occultando o
+recinto, e outras ficando rendilhado, &aacute; altura de metro e
+meio a dois metros acima do ch&atilde;o. Esta divis&atilde;o,
+chamada
+<em>cancello</em>, era muitas vezes de marmore.<br />
+
+<br />
+
+A cadeira episcopal ou <em>cathedra</em>
+occupava o fundo do abside. Era de pedra de marmore precioso, e elevada
+tres degraus, pelo menos, acima do presbyterio.<br />
+
+<br />
+
+Havia tambem cadeiras de marfim.<br />
+
+<br />
+
+Aos lados da cadeira episcopal, e ao longo da parede do hemicyclo,
+achavam-se os bancos destinados aos padres, chamados algumas vezes
+<em>exedrae</em>, pelos auctores antigos. Eram muito
+simples, e durante o officio cobriam-se com almofadas.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+A partir do meado do IV seculo ca&iacute;u a pouco e pouco em
+desuso o enterramento nas catacumbas; e no principio do seculo
+seguinte, desappareceu completamente. Os cemiterios estabeleciam-se
+&aacute; roda da capella-m&oacute;r das egrejas e das
+basilicas, situadas f&oacute;ra dos muros das cidades, com os seus
+tumulos quasi sempre orientados.<br />
+
+<br />
+
+N'estes cemiterios depositavam-se a maior parte das vezes os cadaveres
+em covas de pedra e cal. Entre duas paredes parallelas e distantes
+entre si
+<span class="pagenum">[41]</span>
+70 centimetros, pouco
+mais ou menos, abriam-se, por meio de lages ou simples tijolos, nichos
+de tamanho sufficiente para receber um cadaver. Estes nichos chegavam
+&aacute;s vezes a disporem-se em dez ordens, umas sobre as outras.
+Este systema foi o adoptado para as sepulturas dos cemiterios do IV, V
+e VI seculos.<br />
+
+<br />
+
+Algumas vezes tambem os cadaveres eram encerrados em sarcophagos, que
+em seguida se cobriam com terra, ou se collocavam tanto ao ar livre
+como debaixo de abobadas, no interior das egrejas e das basilicas.<br />
+
+<br />
+
+Foi s&oacute;mente no VII seculo que a Egreja come&ccedil;ou a
+permittir, ou antes a tolerar, as inhuma&ccedil;&otilde;es,
+n&atilde;o precisamente no interior, mas em redor dos templos
+situados dentro das cidades. Unicamente os bispos haviam at&eacute;
+ali gosado do privilegio de serem enterrados nas suas egrejas
+Cathedraes.<br />
+
+<br />
+
+Durante o periodo Latino foram muito raros os edificios isolados que se
+construiram para servir de sepultura aos grandes personagens.<br />
+
+<br />
+
+As esculpturas dos sarcophagos come&ccedil;aram a modificarem-se no
+meiado do V seculo. Os assumptos biblicos desapparecem a pouco e pouco,
+e s&atilde;o substituidos por imagens de Santos. A Cruz da SS.
+Trindade ou o monogramma de Christo occupa, muitas vezes, o centro da
+face principal dos sarcophagos, destinada antes para o logar do
+Salvador, tendo aos lados pombas, pav&otilde;es, palmeiras, parras
+e outros symbolos.<br />
+
+<br />
+
+As tampas s&atilde;o ornadas de Cruzes da SS. Trindade,
+<span class="pagenum"><a name="p42">[42]</a></span>
+formadas pelo
+entrela&ccedil;amento de Cruzes gregas e de Cruzes de Santo
+Andr&eacute;, isto &eacute;, em
+f&oacute;rma de X.<br />
+
+<br />
+
+O meio da face principal d'alguns sarcophagos &eacute; occupado
+pelo monogramma de Christo, que d'este modo preenche o logar do
+Salvador. Os pav&otilde;es aos lados do monogramma s&atilde;o
+os emblemas dos Apostolos, e as pombas, bicando os cachos de uvas,
+symbolisam os fieis alimentando-se do vinho eucharistico. A maior parte
+dos sarcophagos eram de pedra ou de marmore; no entanto alguns havia de
+chumbo e at&eacute; mesmo de gesso.<br />
+
+<br />
+
+Os <em>sarcophagos do IV seculo</em> tinham
+todos a mesma largura e a mesma altura nas extremidades; do V seculo,
+apparecem muitos tendo o lado da cabe&ccedil;a mais largo que o dos
+p&eacute;s.<br />
+
+<br />
+
+As <em>campas sepulchraes</em> s&atilde;o
+em geral indicio de uma sepultura subterranea. O seu uso &eacute;
+muito remoto. As lages tumulares, assentes sobre os tumulos
+subterraneos ou nos nichos ao longo das paredes, eram j&aacute;
+empregadas no V seculo, sendo muitas vezes esculpidas em relevo, e
+tambem algumas ornadas com desenhos s&oacute; a tra&ccedil;o.
+Por vezes
+ajustavam na parede, onde existia qualquer sepultura, uma placa de
+marmore ou de pedra, sobre a qual se gravavam symbolos, o nome do
+defuncto, a sua idade, ou tambem o dia do seu fallecimento.<br />
+
+<br />
+
+Os <em>tumulos</em> dos cemiterios primitivos
+podem-se dividir em tres classes, segundo os objectos que n'elles se
+encontram. A primeira classe comprehende aquelles em que,
+al&eacute;m do esqueleto, se n&atilde;o
+<span class="pagenum">[43]</span>
+encontra mais objecto algum, a n&atilde;o
+ser &aacute;s vezes uma pequena faca: estes tumulos s&atilde;o
+os dos servos ou pessoas de condi&ccedil;&atilde;o servil. Nos
+tumulos da segunda classe, o esqueleto &eacute; acompanhado do
+grande alfange de ferro, chamado
+<em>scramasaxe</em>: s&atilde;o estes os dos homens
+livres ou senhores feudaes. O homem livre gosava do privilegio de
+trazer &aacute; cintura este instrumento, que com elle era tambem
+depositado no tumulo. A terceira classe era constituida ordinariamente
+por um certo numero de tumulos ricos em coisas de toda a especie,
+principalmente em armas e objectos de toilette feminina: s&atilde;o
+esses os tumulos dos chefes militares, dos guerreiros e membros da sua
+familia.<br />
+
+<br />
+
+O homem de guerra era sepultado com todo o seu equipamento, e ao lado
+depositava-se a sua esposa, adornada com todas as joias que tinha usado
+durante a vida.<br />
+
+<br />
+
+As fivelas (fibules), que se encontram em t&atilde;o grande numero
+n'essas sepulturas tinham duas serventias.<br />
+
+<br />
+
+As maiores serviam para fechar o boldri&eacute; de coiro onde se
+suspendia o <em>scramasaxe</em>.
+Quasi todas s&atilde;o de ferro, sendo algumas marchetadas de prata
+ou revestidas de laminas de prata, com lavores representando folhagens
+ou figuras. Encontram-se algumas de bronze, e s&atilde;o as mais
+bellas.<br />
+
+<br />
+
+Ha tambem umas fivelas de bronze e de menores dimens&otilde;es, que
+serviam para ligar o vestuario &aacute; roda dos rins, para
+individuos dos dois sexos. Estas
+<span class="pagenum">[44]</span>
+fivelas eram em geral menos lavradas que as do
+cintur&atilde;o. Algumas havia tambem de ferro.<br />
+
+<br />
+
+Os alamares, broches ou <em>fibulas</em>,
+destinadas a unir sobre os hombros ou sobre o peito as duas
+extremidades do vestuario, s&atilde;o sem duvida os objectos mais
+interessantes que se encontram nas sepulturas dos cemiterios. Ha-os de
+ouro, de prata, de bronze, e encontram-se sobretudo nos tumulos de
+mulher.<br />
+
+<br />
+
+Encontram-se tambem frequentemente nos tumulos de mulher, pregos para
+segurar o cabello, com cabe&ccedil;as de aperfei&ccedil;oado
+trabalho. Ha-os de ouro, de prata e de bronze, com grandes
+comprimentos.<br />
+
+<br />
+
+Os brincos das orelhas s&atilde;o em geral, assim como os pregos
+para o cabello, pequenas obras primas de ourivesaria.
+Comp&otilde;em-se quasi sempre de um annel de grande diametro, ao
+qual est&aacute; ligado um pequeno bot&atilde;o de ouro cheio
+de filigranas e de vidrilhos embutidos. Os <em>collares</em>
+que
+frequentemente se encontram nas sepulturas de mulher,
+comp&otilde;em-se de contas, de f&oacute;rmas e
+dimens&otilde;es differentes, enfiadas n'um cordel. As contas
+s&atilde;o de vidro e de loi&ccedil;a de diversas
+c&ocirc;res, e de coral natural ou
+arredondado; tem-se tambem encontrado, mas raras vezes, contas de ouro
+massi&ccedil;o. As de vidro e de loi&ccedil;a s&atilde;o,
+em geral, pintadas com differentes
+camadas de c&ocirc;res juxtapostas, que adherem pela cozedura,
+reprezentando zig-zags, e outras muitas figuras estriadas. As
+c&ocirc;res que predominam, s&atilde;o o vermelho, o amarello,
+o verde, o pardo, o azul, o branco e o preto.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p45">[45]</a></span>
+As <em>vasilhas de barro</em> constituem o
+complemento obrigado de todos os tumulos antigos. Encontram-se, quasi
+sempre, uma ou duas aos p&eacute;s do esqueleto. Parece que estas
+vasilhas serviam aos pag&atilde;os para conterem agua lustral. Em
+seguida &aacute; sua cren&ccedil;a na verdadeira f&eacute;,
+os convertidos ao Christianismo continuaram a encerrar vasilhas nos
+tumulos, por&eacute;m mudaram a significa&ccedil;&atilde;o
+d'esta ceremonia funebre, substituindo a agua lustral pela agua benta.<br />
+
+<br />
+
+A maior parte d'estas vasilhas s&atilde;o de barro preto e
+vermelho. Muitas apresentam a f&oacute;rma d'uma pequena urna,
+tendo na parte superior do bojo ornatos de estylo muito rudimentar,
+feitos em volta e por meio da ponta d'um instrumento cortante.<br />
+
+<br />
+
+As <em>vasilhas de vidro</em>, de
+f&oacute;rmas elegantes e variadas, que se encontram nas sepulturas
+junto &aacute; cabe&ccedil;a ou aos p&eacute;s do
+esqueleto, mostram que a arte de vidraceiro j&aacute; tinha
+attingido um elevado gr&aacute;u de
+perfei&ccedil;&atilde;o. O maior numero
+s&atilde;o de vidro, d'um amarello esverdeado, soprado ou moldado;
+algumas t&ecirc;em como ornato riscas delgadas, brancas ou de
+c&ocirc;r, feitas depois da sopragem ou misturadas com a massa
+vitrea.<br />
+
+<br />
+
+A introduc&ccedil;&atilde;o do Christianismo entre os Francos
+data do fim do seculo V. N&atilde;o &eacute; por isso para
+admirar o encontrarmos nos seus tumulos objectos ornados com symbolos
+christ&atilde;os.<br />
+
+<br />
+
+O <em>calice</em> occupa o primeiro logar
+entre os vasos sagrados. J&aacute; os Apostolos se serviam de
+calices para a celebra&ccedil;&atilde;o dos Santos Mysterios.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[46]</span>
+Nos primeiros seculos da egreja, os calices eram de madeira, de vidro e
+at&eacute; mesmo de chifre.<br />
+
+<br />
+
+Depois da convers&atilde;o de Constantino, &eacute; que se
+come&ccedil;ou a generalisar o uso dos calices de ouro e de prata.
+Muitas vezes eram tambem ornados de pedrarias.<br />
+
+<br />
+
+Existem calices de differentes especies. Os calices ordinarios, que se
+comp&otilde;em, como os de todas as idades posteriores, de uma
+ta&ccedil;a, um n&oacute; e um p&eacute;, tinham, em geral,
+a ta&ccedil;a de f&oacute;rma
+cylindrica, mais ou menos vasada, muito estreita e profunda. Os calices
+da segunda especie eram os calices ministeriaes, que serviam para
+distribuir aos fieis o precioso sangue, quando estava em uso a
+communh&atilde;o de duas especies na Egreja. Este uso foi abolido
+no XIII seculo. Os calices ministeriaes, em geral, de grandes
+propor&ccedil;&otilde;es, tinham duas asas.<br />
+
+<br />
+
+Havia ainda os calices das offerendas, <em>calices
+offertorii</em>, nos quaes os diaconos recebiam as
+obla&ccedil;&otilde;es de vinho; os calices baptismaes, que
+serviam para dar aos novos baptisados uma mistura de leite e de mel; e
+os calices de adorno, que nos dias solemnes eram suspensos na egreja,
+nas proximidades do altar, ou collocados sobre a credencia.<br />
+
+<br />
+
+A <em>patena</em>, assim chamada do verbo
+latino <em>patere</em>, <em>estar aberto</em>,
+em consequencia da sua
+f&oacute;rma larga e pouco profunda, &eacute; um prato de
+metal, de vidro, ou de qualquer outra substancia, no qual se colloca a
+Hostia, durante a Santa Missa. O seu uso &eacute; t&atilde;o
+remoto como o do calice.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[47]</span>
+As patenas eram redondas, quadradas ou polygonaes e munidas d'um
+reb&oacute;rdo.<br />
+
+<br />
+
+O uso de reservar a Santa Eucharistia para os doentes e ausentes,
+prov&eacute;m desde a origem do Christianismo.<br />
+
+<br />
+
+Pouco depois, quando os <em>altares</em>
+foram augmentados com o <em>ciborio</em>, suspendiam a
+reserva
+Eucharistica encerrada em vasos com a f&oacute;rma de torres e
+pombas. Os vasos para as Sagradas Particulas tinham primitivamente a
+f&oacute;rma de uma pomba. Quasi todos eram de ouro, de prata e de
+cobre dourado. A pomba Eucharistica encerrava-se geralmente em um
+Tabernaculo com f&oacute;rma de torre.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Durante o per&iacute;odo
+<em>Latino-bysantino</em>, os corpos dos Santos eram
+cuidadosamente encerrados em sarcophagos, e depositados em cima d'um
+altar ou n'uma crypta subterranea.<br />
+
+<br />
+
+O Relicario para o Santo Lenho tem quasi sempre a f&oacute;rma de
+pequenas Cruzes peitoraes, concavas interiormente, e abrindo-se em toda
+a sua altura, por meio d'uma dobradi&ccedil;a collocada no vertice
+superior da Cruz.<br />
+
+<br />
+
+As <em>chaves da confiss&atilde;o de S.
+Pedro</em> s&atilde;o assim chamadas, porque se diz, que
+serviam para dar ingresso no tumulo do principe dos Apostolos, na
+crypta da basilica Vaticana. As chaves s&atilde;o grossas, ovaes,
+&ocirc;cas e de lavores rendilhados.<br />
+
+<br />
+
+Os Soberanos Pontifices dos primeiros seculos tinham por uso distribuir
+aos reis, aos principes e
+<span class="pagenum"><a name="p48">[48]</a></span>
+aos
+bispos, parcellas das cadeias de S. Pedro, dentro de anneis, cruzes, e
+principalmente em preciosas chaves.<br />
+
+<br />
+
+Desde o IV seculo que come&ccedil;aram a importar de Jerusalem os
+oleos provenientes das lampadas que ardiam de noite e de dia no Santo
+Sepulchro, e em outros logares Santos.<br />
+
+<br />
+
+Os Papas e os Bispos enviavam estes oleos &aacute;s egrejas, aos
+soberanos e &aacute;s pessoas de
+distinc&ccedil;&atilde;o. Eram conservados e remettidos em
+pequenos vasos de vidro ou de metal, circulares, e achatados, com
+gargallo.<br />
+
+<br />
+
+Durante os primeiros seculos, a Mesa do altar estava inteiramente livre
+e a descoberto, e s&oacute; se punha em cima o p&atilde;o, o
+vinho e os Vasos Sagrados necessarios para o Santo Sacrificio.<br />
+
+<br />
+
+<em>Os Crucifixos</em> e os
+casti&ccedil;aes <em>eram
+desconhecidos</em> durante os primeiros seculos. N'essa
+&eacute;pocha apenas algumas vezes se via uma cruz ao lado direito
+do altar.<br />
+
+<br />
+
+<em>Cor&ocirc;as de altar</em>,
+geralmente de <em>metal precioso</em> e ornadas de
+pedrarias engastadas, constituiram, durante todo o periodo latino, o
+mais rico accessorio do altar.<br />
+
+<br />
+
+As mais notaveis cor&ocirc;as de altar, que foram descobertas em
+1858 e 1860, em Toledo (Hespanha), s&atilde;o em numero de onze,
+todas de ouro e cravejadas de pedras.<br />
+
+<br />
+
+Algumas vezes, principalmente a partir do IX seculo, deu-se o nome de <em>regnum</em>
+&aacute;s cor&ocirc;as votivas dos altares, para as distinguir
+das de illuminar.
+<span class="pagenum"><a name="p49">[49]</a></span>
+Tambem
+&aacute;s vezes se penduravam Cruzes proximo dos altares.<br />
+
+<br />
+
+As luzes que se empregavam com profus&atilde;o, durante os Officios
+Divinos, eram collocadas proximo dos altares, quer sobre uma mesa, quer
+sobre candelabros, ou ainda mais vezes sobre lustres, em
+f&oacute;rma de cor&ocirc;a, suspensos no c&ocirc;ro, no
+Sanctuario e at&eacute; mesmo no meio da egreja.<br />
+
+<br />
+
+Os <em>diptycos</em> s&atilde;o de
+&eacute;pocha muito remota. Ao principio eram formados de duas
+pequenas taboas de madeira ou de marfim, dobrando-se uma sobre a outra,
+e cuja parte interior continha uma camada de cera, sobre a qual se
+escrevia. Estas taboas eram rodeadas com uns fios de linho, sobre os
+quaes se deitava c&ecirc;ra que se imprimia com um sinete. Serviam
+assim para as missivas secretas.<br />
+
+<br />
+
+Desde a sua origem que a Egreja Christ&atilde; teve diptycos. Eram
+tabellas ou catalogos, sobre os quaes se inscreviam certos nomes que
+deviam ser lembrados e lidos, pelo menos em parte, nas
+reuni&otilde;es sagradas dos fieis.<br />
+
+<br />
+
+Pod&ecirc;mos pois, conforme a origem, distinguir duas especies de
+diptycos sagrados: os diptycos consulares adaptados &aacute;
+liturgia, e os diptycos puramente ecclesiasticos.<br />
+
+<br />
+
+Os diptycos puramente ecclesiasticos eram de marfim ou de metal. Tinham
+nas faces exteriores esculpidos ou cinzelados a imagem de Christo e a
+da Santa Virgem, ou assumptos tirados da historia do Velho e Novo
+Testamentos, e outros symbolos christ&atilde;os.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p50">[50]</a></span>
+Quando a leitura dos diptycos come&ccedil;ou a deixar de se usar
+nos officios sagrados, transformaram-se as taboas esculpidas ou
+cinzeladas, em capas para livros liturgicos.<br />
+
+<br />
+
+Desde o tempo de S. Jeronymo que come&ccedil;aram a ornamentar, o
+mais ricamente possivel, o livro dos Evangelhos; notava-se esta riqueza
+tanto no exterior como no interior do volume.<br />
+
+<br />
+
+Muitas vezes o texto sagrado era escripto com letras de ouro sobre
+membranas c&ocirc;r de purpura.<br />
+
+<br />
+
+Exteriormente os livros dos Evangelhos eram ornados com todo o esmero;
+nas capas abundavam o ouro, a prata, os vidrilhos, as pedrarias e as
+perolas, e durante muito tempo, foi costume encerral-os em estojos ou
+cofres, <em>capsae</em>,
+ricamente trabalhados.<br />
+
+<br />
+
+As capas dos Evangeliarios podem-se dividir em duas classes: as de
+laminas metallicas e as de marfim.<br />
+
+<br />
+
+Entre as primeiras, umas eram simples, sem figuras e at&eacute;
+mesmo desprovidas de toda a
+ornamenta&ccedil;&atilde;o, outras cravejadas de pedras e
+esculpidas em relevo, representando assumptos religiosos.<br />
+
+<br />
+
+Os assumptos das capas dos Evangeliarios de marfim e de metal
+n&atilde;o differem dos que t&ecirc;em as dos diptycos.
+S&atilde;o symbolos ou scenas extrahidas do Novo Testamento e
+principalmente da vida e da paix&atilde;o de Nosso Senhor.<br />
+
+<br />
+
+<em>Estofos preciosos</em>. Durante os
+primeiros seculos da era christ&atilde;, os fatos ordinarios eram
+de tela, ou, na maior parte das vezes, de l&atilde;. Depois da
+<span class="pagenum">[51]</span>
+convers&atilde;o de
+Constantino, o uso dos tecidos de seda para as vestes liturgicas
+generalisou-se bastante, a ponto tal, que o Soberano Pontifice S.
+Silvestre, contemporaneo d'este imperador, foi obrigado a abolil-o nas
+roupas brancas de altar chamadas <em>corporaes</em>.<br />
+
+<br />
+
+Al&eacute;m dos tecidos unidos, ha outros ornados com figuras
+ordinariamente multicolores, obtidas umas pela
+applica&ccedil;&atilde;o de variegadas c&ocirc;res
+depois da tecedura, outras durante a tecedura, por meio de certas
+combina&ccedil;&otilde;es dos fios da cadeia e da trama.
+<br />
+
+<br />
+
+Durante o periodo Latino, o fabrico textil da seda era completamente
+desconhecido na Europa meridional e occidental. Provinham da Asia, do
+Egypto, da Grecia e de Constantinopla, os tecidos de seda. &Eacute;
+por este motivo que muitas vezes se chamavam <em>estofos
+transmarinos</em>, e
+mais tarde tambem, estofos dos Sarracenos, porque os arabes mahometanos
+forneciam para o Occidente uma grande quantidade.<br />
+
+<br />
+
+Os estofos mais antigos n&atilde;o raras vezes eram decorados com
+medalh&otilde;es circulares ou ovaes, no genero de <em>Maestricht</em>,
+obtidos ou
+pela tecedura, ou por bordados applicados posteriormente.<br />
+
+<br />
+
+A ornamenta&ccedil;&atilde;o dos tecidos, que vinham do Oriente
+e sobretudo da Persia, consistia em assumptos em que predominavam o
+reino animal e o vegetal, e at&eacute; por vezes na propria
+mythologia d'este ultimo paiz. Em v&atilde;o procurariamos o
+symbolismo christ&atilde;o n'estas
+representa&ccedil;&otilde;es
+t&atilde;o variadas. Apenas ali se encontra o producto da
+imagina&ccedil;&atilde;o dos
+<span class="pagenum">[52]</span>
+artistas orientaes, que confeccionaram
+esses tecidos.<br />
+
+<br />
+
+Os symbolos e os assumptos christ&atilde;os s&oacute;
+excepcionalmente apparecem sobre alguns productos das fabricas gregas
+ou bysantinas, e isso mesmo em uma &eacute;pocha relativamente
+recente; consistem em pequenas Cruzes Gregas da Trindade, inscriptas em
+circulos, animaes symbolicos, taes como o le&atilde;o e o
+pav&atilde;o, e raramente um personagem isolado. As scenas
+historicas do Velho e Novo Testamentos n&atilde;o
+come&ccedil;aram a representar-se sobre os estofos sen&atilde;o
+durante o VIII seculo.<br />
+
+<br />
+
+Desde o meiado do IV seculo, que a egreja come&ccedil;ou a
+servir-se d'este meio, para representar, sobre os tecidos empregados
+nas ceremonias sagradas, assumptos religiosos extrahidos do Velho e do
+Novo Testamentos, ou da historia dos Santos.<br />
+
+<br />
+
+O ouro, a seda e as perolas, abundavam em todos estes bordados, que
+consistiam muitas vezes em medalh&otilde;es circulares ou ovaes e
+que applicavam sobre tecidos preciosos, para lhes imprimir um caracter
+religioso.<br />
+
+<br />
+
+Desde o VI seculo que a arte de bordar foi, na Europa occidental, a
+principal occupa&ccedil;&atilde;o das
+mulheres nobres, e no seculo seguinte, esta arte elevou-se a um tal
+gr&aacute;u de prosperidade, nas Ilhas Britannicas, que durante
+toda a idade media n&atilde;o deixou de florescer.<br />
+
+<br />
+
+Desde os primeiros seculos, que se ornavam com bordados de purpura, ou
+de qualquer outra c&ocirc;r brilhante, as vestes de l&atilde;
+branca dos padres e
+<span class="pagenum"><a name="p53">[53]</a></span>
+dos diaconos. Estes bordados
+foram mais tarde substituidos por brocados de seda. Serviam-se tambem
+dos pannos d'essa qualidade, para arma&ccedil;&atilde;o nas
+basilicas e nas egrejas.<br />
+
+<br />
+
+Estes ricos pannos tinham ainda outro uso. Antes de serem collocadas
+nos ata&uacute;des, as ossadas dos Santos eram rodeadas de pelles
+de camello e envolvidas em tecidos os mais ricos, de linho, seda e
+ouro. A maior parte dos estofos antigos que se conservaram
+at&eacute; aos nossos dias, foram tirados de sepulturas de Santos.<br />
+
+<br />
+
+<em>Paramentos Sacerdotaes</em>. A Egreja
+manteve escrupulosamente, para os ornamentos sagrados, as
+f&oacute;rmas adoptadas pelos primeiros christ&atilde;os,
+emquanto que a f&oacute;rma e o talhe dos fatos profanos se
+modificaram invencivelmente.<br />
+
+<br />
+
+Em geral, os paramentos sagrados dos padres e dos ministros inferiores
+eram brancos. O uso das c&ocirc;res variadas manifestou-se
+primeiramente nas <em>casulas</em> e nas <em>capas
+d'asperges</em>.<br />
+
+<br />
+
+As cinco c&ocirc;res liturgicas de que se servem hoje, foram
+estabelecidas pouco mais ou menos no
+IX seculo, e
+definitivamente consagradas dois seculos depois.<br />
+
+<br />
+
+Os paramentos dos padres s&atilde;o as casulas, a <em>capa
+d'asperges</em>, a
+<em>est&oacute;la</em>, o
+<em>manipulo</em>, o
+<em>cinto</em>, a <em>&oacute;pa</em> e o
+<em>amicto</em>. As principaes vestimentas,
+proprias para os ministros inferiores, s&atilde;o a
+<em>dalmatica</em> e a <em>tunicella</em>.<br />
+
+<br />
+
+A casula primitiva era uma vestimenta sem mangas, muito ampla,
+envolvendo todo o corpo
+<span class="pagenum">[54]</span>
+desde
+o pesco&ccedil;o at&eacute; aos p&eacute;s, e
+formando uma especie de barraca, <em>casula</em>, em torno
+da
+pessoa que a vestia. Tinha apenas uma abertura para passar a
+cabe&ccedil;a.<br />
+
+<br />
+
+A <em>est&oacute;la</em> deve o seu nome
+e origem ao vestuario que os romanos chamavam estola.<br />
+
+<br />
+
+A Egreja adoptou como paramento a
+<em>est&oacute;la</em>, de que se fazia uso por toda a
+parte, na occasi&atilde;o em que se estabeleceu o Christianismo.<br />
+
+<br />
+
+O <em>manipulo</em> n&atilde;o se usava
+durante os primeiros seculos da Egreja. Foi S. Gregorio o Grande,
+(590-604) quem primeiro fallou, em seus escriptos, do manipulo como
+paramento sagrado.<br />
+
+<br />
+
+A <em>capa</em> &eacute; um paramento
+commum ao padre e a alguns dos ministros inferiores. Primitivamente
+serviam-se da capa para se resguardarem da chuva nas
+prociss&otilde;es; &eacute; tambem por este motivo que ella
+se chama muitas vezes <em>pluvial</em>.<br />
+
+<br />
+
+A <em>alva</em> e o
+<em>cinto</em> devem a sua origem
+&aacute; <em>tunica talar</em> dos antigos, que era um
+vestuario de linho, munido de mangas e apertado &aacute; roda do
+corpo com um cinto.<br />
+
+<br />
+
+A <em>alva</em> era vestida nas
+func&ccedil;&otilde;es sagradas pelos bispos, padres e todos os
+ministros inferiores.<br />
+
+<br />
+
+O <em>amicto</em> &eacute; uma
+esp&eacute;cie de t&eacute;la de que os padres e os ministros
+se servem para cobrir o pesco&ccedil;o. A origem d'este vestuario
+n&atilde;o vae al&eacute;m do VIII seculo.<br />
+
+<br />
+
+Durante os tres primeiros seculos, os diaconos trajavam o <em>colobio</em>,
+que era uma
+especie de tunica longa e estreita, ordinariamente sem mangas. Foi
+<span class="pagenum"><a name="p55">[55]</a></span>
+no principio do IV seculo, que
+o Papa S. Silvestre substituiu o <em>colobio</em> pela
+<em>dalmatica</em>.<br />
+
+<br />
+
+A <em>dalmatica</em> era uma bluse comprida,
+feita de l&atilde; da Dalmacia.<br />
+
+<br />
+
+At&eacute; ao VII seculo, os sub-diaconos da Egreja do Occidente
+n&atilde;o eram vestidos sen&atilde;o com a alva, com o cinto e
+com o amicto.<br />
+
+<br />
+
+<h4>Mosteiros Latinos</h4>
+
+<br />
+
+Foi no principio do VI seculo, que come&ccedil;aram a maior parte
+dos religiosos a reunir-se em communidade, e a viver juntos, debaixo do
+mesmo tecto. Vivia ent&atilde;o S. Benedicto.<br />
+
+<br />
+
+<h4>Iconographia do periodo Latino</h4>
+
+<br />
+
+Muitos monumentos do periodo Latino, sobre tudo os mais antigos
+mosaicos, conteem personagens em p&eacute; e attitude respeitosa,
+tendo nas m&atilde;os, envoltas nas rugas do manto, uma
+cor&ocirc;a em f&oacute;rma de circulo, que offerecem ao
+Salvador. Este &eacute; representado sob a f&oacute;rma
+symbolica do Cordeiro, do monogramma, da Cruz, e at&eacute; mesmo
+d'um simples espa&ccedil;o vazio.<br />
+
+<br />
+
+Christo, debaixo da f&oacute;rma symbolica do Cordeiro ou do
+monogramma, no meio de doze cordeirinhos ou de doze pombas, que os
+monumentos do periodo Latino nos offerecem frequentemente, symbolisa o
+Salvador rodeado dos seus discipulos, isto &eacute;, a Egreja
+triumphante no C&eacute;u, recebendo na
+terra o ensino do seu Divino Fundador.<br />
+
+<br />
+
+Tambem muitas vezes se encontra um cordeiro,
+<span class="pagenum">[56]</span>
+uma Cruz Trina, ou o monogramma de
+Christo entre dois cordeiros, duas pombas, dois pav&otilde;es ou
+dois veados; isto symbolisa o Salvador sob a f&oacute;rma humana no
+meio dos Apostolos e d'outros Santos, ou sob a f&oacute;rma
+symbolica do Cordeiro e do monogramma no meio de doze cordeirinhos ou
+doze pombas.<br />
+
+<br />
+
+V&ecirc;-se tambem uma ta&ccedil;a ou um cacho de uvas no meio
+de dois pav&otilde;es ou de duas pombas, o que nos parece uma
+allus&atilde;o mais directa ao regosijo dos que v&atilde;o para
+o C&eacute;u.<br />
+
+<br />
+
+Alguns monumentos do periodo Latino, principalmente os mosaicos do V e
+VI seculos, teem um throno, com ou sem doc&eacute;l, e em que ha
+uma almofada, um cortinado cahindo diante da cadeira e algumas vezes o
+livro dos Evangelhos. Um monogramma ou uma Cruz, geralmente da
+Trindade, occupa o meio do throno e domina toda a
+composi&ccedil;&atilde;o. Muitas vezes v&ecirc;-se, ao lado
+do throno, os doze Apostolos em p&eacute;, ou s&oacute;mente S.
+Pedro e S. Paulo. Em todos estes assumptos o throno representa o
+Salvador.<br />
+
+<br />
+
+Mais tarde, principalmente no Oriente, acrescentaram a esta
+representa&ccedil;&atilde;o novos signaes
+iconographicos: nas extremidades da almofada collocavam &aacute;
+direita da Cruz a lan&ccedil;a, e &aacute;
+esquerda a esponja na extremidade d'uma lan&ccedil;a; algumas vezes
+tambem se entrela&ccedil;a a cor&ocirc;a de espinhos em torno
+da Cruz. A partir d'este momento, a
+<em>cathedra</em> da doutrina torna-se o throno do
+julgamento final e a Cruz o signal do Filho do Homem.<br />
+
+<br />
+
+S. Pedro, collocado ao lado do Salvador, sustenta
+<span class="pagenum"><a name="p57">[57]</a></span>
+ordinariamente sobre o hombro esquerdo
+uma cruz de haste comprida; outras vezes recebe com a m&atilde;o
+direita um volume desenrolado, que Nosso Senhor lhe apresenta. Desde a
+primeira metade do V seculo, que elle conserva as chaves na ponta do
+seu manto.<br />
+
+<br />
+
+S. Paulo &eacute; quasi sempre representado recebendo um ou dois
+rolos, symbolos da Lei Evangelica.<br />
+
+<br />
+
+Muitas vezes tambem collocavam uma phenix sobre uma palmeira. A Phenix
+&eacute; a figura da
+resurrei&ccedil;&atilde;o futura.<br />
+
+<br />
+
+<h4>Caracteres do estylo Bysantino</h4>
+
+<br />
+
+O plano e a disposi&ccedil;&atilde;o das egrejas bysantinas
+apresenta-se com tres typos distinctos: 1.&ordm;, com a basilica
+coberta de
+madeira, similhante &aacute; basilica Latina do Occidente;
+2.&ordm;,
+com a rotunda ou egreja circular; 3.&ordm;, com a basilica
+bysantina
+propriamente dita, abobadada e sobreposta d'uma ou de muitas cupulas. A
+basilica bysantina abobadada distingue-se perfeitamente de todos os
+monumentos dos tempos anteriores, pela cupula sobre abobadas pendentes,
+e construida ao meio d'uma nave, mais ou menos alongada.<br />
+
+<br />
+
+As fachadas das egrejas bysantinas differem das que t&ecirc;em as
+basilicas Latinas. Estas terminam em geral por um frontespicio
+triangular; as fachadas das egrejas orientaes, pelo contrario, terminam
+ou por uma fachada horisontal &aacute; maneira d'uma cornija, ou
+por uma serie de cor&ocirc;amentos semicirculares.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p58">[58]</a></span>
+O systema de construc&ccedil;&atilde;o das egrejas bysantinas
+distingue-se pelos seguintes tra&ccedil;os. O tijolo &eacute;
+geralmente empregado para todas as edifica&ccedil;&otilde;es.
+Mesmo nos paizes em que a pedra &eacute; abundante, os architectos
+bysantinos preferiam, a maior parte das vezes, o tijolo aos materiaes
+de grandes dimens&otilde;es. O caracter distinctivo das egrejas
+bysantinas, sob o ponto de vista da construc&ccedil;&atilde;o,
+consiste na presen&ccedil;a de uma ou de muitas cupulas elevadas,
+sobre abobadas pendentes.<br />
+
+<br />
+
+Chamam-se <em>abobadas pendentes</em> umas
+certas saliencias nas abobadas do cruzeiro, que pela sua
+f&oacute;rma se approximam do sector espherico e que serve para
+fazer passar uma construc&ccedil;&atilde;o de
+quadrado a octogono ou a plano circular.<br />
+
+<br />
+
+A decora&ccedil;&atilde;o exterior das egrejas bysantinas,
+sobretudo no IV e V seculos, era pobre e simples. Do VII seculo ou do
+VIII seculo em diante, os ornamentos exteriores das paredes e
+archivoltas das janellas s&atilde;o bastantes vezes como os dos
+edificios Latinos, formados por fiadas de pedras alternadas com uma ou
+muitas fiadas de tijolos. As archivoltas ornadas de molduras ficam em
+resaltos umas sobre as outras, e representadas nas paredes por
+cord&otilde;es feitos de tijolos de f&oacute;rma e
+c&ocirc;r variaveis.<br />
+
+<br />
+
+A decora&ccedil;&atilde;o
+<em>interna</em> consiste em revestimentos de diversas
+naturezas, marchetados de marmores ou mosaicos, applicados sobre os
+pilares, paredes e abobadas. O caracter essencialmente superficial da
+esculptura bysantina consiste regularmente em folhagens lisas e
+angulares.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[59]</span>
+Os ornatos que os bysantinos gostavam de esculpir nas almofadas de
+marmore com que decoravam o interior das egrejas, eram
+entrela&ccedil;amentos de linhas rectas e curvas, &aacute;s
+quaes juntavam cruzes da Trindade, flor&otilde;es e algumas vezes
+figuras de animaes tanto reaes como chimericos.<br />
+
+<br />
+
+A come&ccedil;ar no VIII
+seculo, as pinturas a fresco das egrejas bysantinas foram muitas vezes
+substituidas por mosaicos e por embutidos em estuque; acabaram por ser
+completamente substituidas.<br />
+
+<br />
+
+A influencia bysantina fez-se sentir primeiramente no come&ccedil;o
+do IX seculo
+e mais tarde, no fim do X.
+Foram construidas muitas
+egrejas sob a influencia bysantina dos monumentos typos.<br />
+
+<br />
+
+No reinado de Justiniano (527-565) o estylo bysantino ficou
+definitivamente constituido com os caracteres acima definidos. Santa
+Sophia em Constantinopla constitue o seu typo por excellencia.<br />
+
+<br />
+
+Le&atilde;o, o Isauriano, prohibiu, em 726, a
+reproduc&ccedil;&atilde;o de qualquer figura, quer pela
+esculptura, quer pela pintura nas paredes das egrejas, quer nos
+objectos do culto. Esta prohibi&ccedil;&atilde;o, confirmada em
+754, por um conciliabulo heretico, subsistiu at&eacute; 842. N'este
+ultimo anno, depois da morte de Theophilo, ultimo imperador
+iconoclasta, a imperatriz Theodora substituiu os editos de
+Le&atilde;o o Isauriano e restabeleceu o culto das imagens.<br />
+
+<br />
+
+A &eacute;pocha mais florescente da arte bysantina foi no X seculo
+e mais
+particularmente
+no reinado de Constantino Porphyrogeneta.<br />
+
+<br />
+
+No XI seculo, uma
+serie de graves
+acontecimentos
+<span class="pagenum">[60]</span>
+precipitou
+a decadencia do imperio bysantino e trouxeram por consequencia o
+enfraquecimento das artes. No XIII, XIV e XV seculos, as artes
+continuaram a desfallecer, at&eacute; que, em 1453, os turcos,
+apoderando-se de Constantinopla, causaram a decadencia da arte
+bysantina.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c4"></a>CAPITULO IV</h3>
+
+<br />
+
+<div class="intro"><b>Summario.</b>&#8213;Oestylo
+Roman desde o
+VIII at&eacute; ao seculo X&#8213;Caracteres do
+estylo Lombardo&#8213;Planos das Egrejas&#8213;Cryptas&#8213;Baptisterios&#8213;Systemas
+de construc&ccedil;&atilde;o&#8213;Abobadas&#8213;Pilares e
+columnas&#8213;Bases&#8213;Capiteis&#8213;Fachadas&#8213;Cornijas&#8213;Decora&ccedil;&atilde;o
+monumental&#8213;Architectura, antes do seculo XI, nos
+outros estados sem
+ser na Lombardia: Italia
+central e meridional, Belgica e
+Fran&ccedil;a&#8213;O
+estylo Roman durante o
+XI e o XII
+seculos&#8213;Caracter da Architectura
+Roman&#8213;Plano e distribui&ccedil;&atilde;o das
+Egrejas&#8213;Cryptas&#8213;Baptisterios n'este
+seculo&#8213;Materiaes e modo de
+construir&#8213;Sepultura
+monumental&#8213;Fachadas&#8213;Portico das
+egrejas&#8213;Portaes&#8213;Portas e suas
+ferragens&#8213;Janellas e rosaceas&#8213;Maneira de resguardar da
+chuva as
+janellas e as
+vidra&ccedil;as pintadas&#8213;Absides&#8213;Pilares,
+columnas&#8213;Bases e capiteis&#8213;Arcadas e
+arcarias
+menores&#8213;<em>Triforium</em>&#8213;Cornijas e
+modilh&otilde;es&#8213;Abobadas&#8213;Contrafortes&#8213;Madeiramentos&#8213;Torres&#8213;Modo
+de se lagearem os edificios&#8213;Pinturas
+muraes&#8213;Inscripc&otilde;es
+lapidares&#8213;Altares&#8213;Piscinas&#8213;Tribunas&#8213;Cadeiras do
+c&ocirc;ro e a
+separa&ccedil;&atilde;o da capella
+m&oacute;r do corpo
+da egreja&#8213;Capellas funereas&#8213;Tumulos visiveis e occultos&#8213;Campas&#8213;Pias
+Baptismaes&#8213;Gradamentos&#8213;Alfaias religiosas&#8213;Calices e
+patenas&#8213;Custodias&#8213;Relicarios&#8213;Cor&ocirc;as
+suspensas nos
+altares&#8213;Lustres de forma de
+cor&ocirc;as&#8213;Cruzes para os altares e
+prociss&otilde;es&#8213;Casti&ccedil;aes e
+tocheiros&#8213;Evangeliarios&#8213;Capas dos
+livros do
+Evangelho&#8213;Thuribulos&#8213;Pias para agua
+benta&#8213;Pentes
+liturgicos&#8213;Cadeiras para os
+sacerdotes&#8213;Baculos&#8213;Cal&ccedil;ado liturgico&#8213;Mitras&#8213;Tecidos
+bordados&#8213;Vestuarios sacerdotaes.</div>
+
+<br />
+
+<h4>Periodo Roman</h4>
+
+<br />
+
+O periodo roman estende-se desde o VIII seculo at&eacute; ao fim do
+XII. O estylo roman formou-se e desenvolveu-se
+debaixo da influencia combinada de tres elementos: 1.&ordm;, o
+estylo
+classico e latino,
+<span class="pagenum">[61]</span>
+cujos
+monumentos existiam espalhados pela Europa meridional; 2.&ordm;, o
+estylo
+bysantino, cujos principios foram importados do Oriente; 3.&ordm;,
+o genio
+particular dos povos barbaros que invadiram a Europa desde o V seculo.<br />
+
+<br />
+
+O estylo proveniente da influencia combinada d'estes tres elementos,
+chamou-se
+<em>roman</em>, porque a sua origem e
+dura&ccedil;&atilde;o coincidem pouco mais ou menos com a da
+lingua romanica. Por conseguinte a palavra <em>roman</em>
+indica, do mesmo
+modo que na lingua romanica, o elemento barbaro que contribuiu para a
+forma&ccedil;&atilde;o d'este estylo.<br />
+
+<br />
+
+<h4>O estylo Roman desde o VIII at&eacute; ao X seculo</h4>
+
+<br />
+
+A decadencia completa das bellas artes foi o effeito necessario dos
+movimentos politicos que a Europa soffreu durante tres seculos.
+S&oacute; os padres e os religiosos luctavam no meio d'este chaos,
+contra a barbarie e a for&ccedil;a brutal dos invasores. O
+renascimento das artes foi lento, e do mesmo modo o das lettras, porque
+o solo da Europa occidental estava juncado de destro&ccedil;os
+amontoados, dos monumentos antigos; as tradi&ccedil;&otilde;es
+artisticas tinham-se perdido, e os principios haviam cahido em
+esquecimento.<br />
+
+<br />
+
+Para a architectura e para as artes, a Lombardia foi, desde o VII
+at&eacute; ao fim do X seculo, o principal centro d'este
+renascimento. O estylo formou-se n'esta &eacute;pocha, ao norte da
+Italia, e recebeu o nome de <em>Lombardo</em>.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p62">[62]</a></span>
+<h4>Caracteres do estylo Lombardo</h4>
+
+<br />
+
+O estylo Lombardo, ou o estylo Roman do norte da Italia, reinou n'este
+paiz desde o VIII seculo at&eacute; ao fim do XII.<br />
+
+<br />
+
+O plano da basilica Latina foi geralmente adoptado nas egrejas
+lombardas.<br />
+
+<br />
+
+Na maior parte das grandes egrejas lombardas, as paredes internas
+s&atilde;o construidas com galerias.<br />
+
+<br />
+
+As cryptas das egrejas lombardas estendem-se por baixo de todo o
+presbyterio, e formam verdadeiras capellas subterraneas, com muitas
+naves abobadadas.<br />
+
+<br />
+
+Os baptisterios isolados, geralmente octogonaes ou circulares,
+usaram-se durante o periodo lombardo.<br />
+
+<br />
+
+A maior parte dos edificios lombardos s&atilde;o construidos de
+tijolo.<br />
+
+<br />
+
+<em>Abobadas</em>. A abobada em
+f&oacute;rma de <em>ber&ccedil;o</em>
+consiste n'um semi-cylindro concavo e sem
+penetra&ccedil;&atilde;o alguma.<br />
+
+<br />
+
+A abobada de
+<em><b>aresta</b></em>,
+assim chamada porque apresenta quatro arestas no intradoz, &eacute;
+formada pela intersec&ccedil;&atilde;o ou
+penetra&ccedil;&atilde;o de duas abobadas de ber&ccedil;o,
+com a mesma abertura e reunindo-se em angulo recto.<br />
+
+<br />
+
+Os architectos lombardos fizeram grandes progressos na
+construc&ccedil;&atilde;o das abobadas. Antes do seu tempo
+n&atilde;o se conhecia al&eacute;m da cupula
+sen&atilde;o duas especies de abobadas: a abobada de
+ber&ccedil;o, e a abobada de aresta romana.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[63]</span>
+As abobadas lombardas apresentam todas uma
+eleva&ccedil;&atilde;o em f&oacute;rma de zimborio,
+particularidade que pertence ao systema de
+construc&ccedil;&atilde;o seguido pelos architectos lombardos.
+Esta eleva&ccedil;&atilde;o
+d&aacute; &aacute;s abobadas das egrejas lombardas um aspecto
+particular.<br />
+
+<br />
+
+Nas egrejas lombardas de tres naves, a principal tem sempre dobrada
+largura.<br />
+
+<br />
+
+Como diss&eacute;mos, as abobadas da nave principal exercem sobre
+os seus pontos de apoio n&atilde;o s&oacute;mente
+uma press&atilde;o vertical, mas tambem uma obliqua e lateral, que
+tende a fazer inclinar para f&oacute;ra os pilares e as muralhas
+superiores. Nos edificios lombardos, esta press&atilde;o acha-se
+equilibrada pelo encontro opposto das abobadas altas e baixas das naves
+lateraes e em parte apoiada sobre os contrafortes exteriores, pelos
+arcos-butantes das naves lateraes e pelas por&ccedil;&otilde;es
+de parede que supportam estes arcos.<br />
+
+<br />
+
+Nos edificios antigos e nas basilicas latinas serviam-se de columnas
+cylindricas, pouco espa&ccedil;adas e recebendo directamente as
+press&otilde;es verticaes de entablamentos d'um peso relativamente
+pouco consideravel. Os constructores lombardos substituiram o pilar
+composto de columnas pelo simples supporte cylindrico da basilica
+coberta de madeira.<br />
+
+<br />
+
+Os caracteres dos pilares lombardos p&oacute;dem resumir-se da
+seguinte maneira: 1.&ordm; Os pilares apresentam uma
+sec&ccedil;&atilde;o rectangular ou quadrada e s&atilde;o
+ornados de pilastras ou de columnas envolvidas, recebendo as bases das
+nervuras e dos arcos-butantes.
+<span class="pagenum">[64]</span>
+2.&ordm; N&atilde;o t&ecirc;em todas a mesma
+grossura,
+umas s&atilde;o menos, outras mais fortes, segundo recebem ao mesmo
+tempo as bases de todas as abobadas, ou das naves lateraes
+s&oacute;mente. Foi desde a primeira metade do seculo VIII que
+appareceram os pilares ornados de columna, desconhecidos na arte
+classica e empregados com profus&atilde;o no Occidente pela arte na
+edade media. As columnas e as columnatas s&atilde;o ordinariamente
+construidas por fiadas de desigual altura de medio e pequeno apparelho;
+raramente s&atilde;o monolithas.<br />
+
+<br />
+
+Essas columnatas dos pilares, quasi sempre delgados e muito elevados,
+chegam muitas vezes sem interrup&ccedil;&atilde;o
+at&eacute; &aacute; origem
+das abobadas, e constituem um facto capital na historia da arte, porque
+s&atilde;o um dos elementos mais caracteristicos e fundamentaes de
+quasi toda a architectura da edade media.<br />
+
+<br />
+
+As bases lombardas approximam-se sensivelmente, pela sua
+f&oacute;rma, da base attica propriamente dita.<br />
+
+<br />
+
+Estas bases s&atilde;o muitas vezes munidas d'um ornato destinado a
+ligar o t&oacute;ro inferior com os angulos do plintho e a dar
+d'este modo uma apparencia de maior solidez dos angulos. Este ornato ou
+appendice recebeu o nome de <em>garra</em>
+ou <em>pata</em>.<br />
+
+<br />
+
+As garras mais antigas s&atilde;o muito simples, as de data
+posterior representam ordinariamente cabe&ccedil;as d'animaes.<br />
+
+<br />
+
+Os capiteis lombardos, assim como os bysantinos,
+<span class="pagenum">[65]</span>
+t&ecirc;em ordinariamente a
+f&oacute;rma de a&ccedil;afate
+esvasado ou cubico.<br />
+
+<br />
+
+Uma transforma&ccedil;&atilde;o se op&eacute;ra
+insensivelmente e a arte lombarda adquire uma certa originalidade. Os
+seus typos s&atilde;o variadissimos; o cinzel do esculptor
+d&aacute; ali provas de fecundidade. Mais tarde esta
+transforma&ccedil;&atilde;o contin&uacute;a lentamente, e
+durante o X seculo, as esculpturas tornam-se mais salientes, as
+folhagens s&atilde;o augmentadas e as extremidades arredondadas.<br />
+
+<br />
+
+Em rela&ccedil;&atilde;o &aacute; esculptura d'ornato que
+cobre o a&ccedil;afate, podem distinguir-se duas especies de
+capiteis: os capiteis <em>ornados de folhagens</em> e
+os capiteis historicos ou legendarios. Os capiteis historicos
+s&atilde;o muito communs nas egrejas lombardas que datam do VIII
+seculo.<br />
+
+<br />
+
+Chamam-se historicos e legendarios os capiteis que s&atilde;o
+ornados com esculpturas que representam scenas tiradas da historia ou
+da lenda e at&eacute; mesmo algumas vezes t&ecirc;em animaes
+symbolicos ou phantasticos.<br />
+
+<br />
+
+O abaco enorme em f&oacute;rma de capitel, que se encontra nos
+edificios Latinos, s&oacute; raramente se v&ecirc; nas egrejas
+Lombardas; &eacute; substituido por grosso abaco, mas pouco
+elevado, de profil muito acentuado e muitas vezes talhado em pedra
+differente do corpo do capitel.<br />
+
+<br />
+
+Em opposi&ccedil;&atilde;o ao principio geralmente admittido
+pela antiguidade e pela edade media, as fachadas das egrejas Lombardas
+n&atilde;o indicam exteriormente a f&oacute;rma das naves
+lateraes.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p66">[66]</a></span>
+Comp&otilde;em-se d'uma grande parede que chega at&eacute; aos
+dois lados obliquos que a terminam, e na qual n&atilde;o apparece o
+resalto na nave principal por cima das naves lateraes.<br />
+
+<br />
+
+Os campanarios das egrejas Lombardas ficam ordinariamente separados do
+edificio da egreja, e comp&otilde;em-se de uma serie d'andares
+quadrados, todos da mesma largura e pouco mais ou menos da mesma
+altura, separados uns dos outros por cornijas. Estes andares
+s&atilde;o ornados com faixas muraes e pequenas arcadas fingidas,
+cujos arcos se apoiam sobre modilh&otilde;es.<br />
+
+<br />
+
+As cornijas dos edificios lombardos apenas apresentam uma pequena
+saliencia das faces das paredes. S&atilde;o quasi sempre collocadas
+sobre arcaduras fingidas, de volta inteira, assentando em
+modilh&otilde;es de f&oacute;rma muito simples.<br />
+
+<br />
+
+As arcaduras constituem uma das f&oacute;rmas caracteristicas da
+architectura Lombarda; encontram-se, n&atilde;o s&oacute;
+debaixo das cornijas dos telhados, mas
+tambem debaixo das outras cornijas das fachadas; e at&eacute; mesmo
+nas platibandas horisontaes dos edificios.<br />
+
+<br />
+
+<h4>Decora&ccedil;&atilde;o
+monumental</h4>
+
+<br />
+
+Os bysantinos cobriam com marmores e mosaicos as paredes interiores das
+suas egrejas. Os lombardos, pelo contrario, mostram no seu systema
+decorativo uma certa preferencia quasi exclusiva pelas esculpturas, a
+qual derivando da bysantina, foi por algum tempo sua
+imita&ccedil;&atilde;o;
+por&eacute;m, mais
+<span class="pagenum"><a name="p67">[67]</a></span>
+tarde,
+a come&ccedil;ar no IX seculo, principiou-se a abandonar esse modo
+de decorar.<br />
+
+<br />
+
+Nos primitivos edificios lombardos nota-se uma grande
+incorrec&ccedil;&atilde;o nas esculpturas das figuras, quer
+verdadeiras, quer phantasticas. Mais tarde, encontram-se, em todo o
+periodo do estylo Lombardo, nos seus edificios, animaes chimericos, ora
+isolados ora em frente uns dos outros, e acompanhados, e tambem
+entrela&ccedil;ados de folhagens.<br />
+
+<br />
+
+As esculpturas n&atilde;o cobrem s&oacute; os capiteis, mas
+tambem as archivoltas e os tympanos, assim como as faces dos altares,
+dos doceis, etc.<br />
+
+<br />
+
+Os embutidos e os revestimentos de marmore s&atilde;o raros no
+interior dos edificios lombardos.<br />
+
+<br />
+
+Desde o IX seculo que se substituiram os embutidos em marmore pelas
+pinturas a fresco e por mosaicos de pequenos cubos.<br />
+
+<br />
+
+Em quanto o estylo Lombardo se desenvolvia no Norte da Italia, o Latino
+continuava a ser seguido na Italia central e meridional.<br />
+
+<br />
+
+A maior parte das egrejas do VII e do VIII seculos eram construidas de
+madeira, o que explica os frequentes incendios d'essas egrejas.<br />
+
+<br />
+
+No principio do seculo IX, o imperador Carlos-Magno tentou fazer
+reviver as bellas artes na Europa Occidental; quiz restabelecer o
+renascimento da arte romana.<br />
+
+<br />
+
+<h4>O estylo Roman durante os seculos XI e
+XII</h4>
+
+<br />
+
+O estylo Lombardo, inteiramente constituido no Norte da Italia desde o
+seguinte seculo, exerceu
+<span class="pagenum">[68]</span> uma grande
+influencia sobre a architectura roman dos paizes cisalpinos
+no XI e XII seculos. No fim do X seculo, e no principio do seguinte, os
+monges introduziram o estylo Lombardo na Allemanha, na Suissa, e nas
+provincias da Fran&ccedil;a visinhas da Italia, d'onde irradiou
+para o Norte e Oeste.<br />
+
+<br />
+
+O estylo roman da Europa Central n&atilde;o &eacute; outra
+coisa mais que o estylo Lombardo transportado &aacute;quem dos
+Alpes e modificado occidentalmente pelo proprio genio dos differentes
+povos que occupavam esta regi&atilde;o. O elemento Gaulo-romano
+tomou tambem grande parte na forma&ccedil;&atilde;o do estylo
+roman.<br />
+
+<br />
+
+O roman inglez recebeu o elemento Lombardo por intermedio dos
+Normandos, que, depois de terem conquistado a Inglaterra, para ali
+levaram o estylo do Occidente da Fran&ccedil;a.<br />
+
+<br />
+
+A rapida propaga&ccedil;&atilde;o das ordens religiosas durante
+o seculo XI, contribuiu poderosamente para a diffus&atilde;o e
+desenvolvimento da architectura Roman. Foi n'este seculo, que as ordens
+religiosas, gra&ccedil;as a abundantes recursos, cobriram em pouco
+tempo a Europa Central e Occidental com um grande numero de egrejas e
+mosteiros. Estes monumentos, n&atilde;o obstante apresentarem todos
+os mesmos caracteres geraes, taes como o emprego das abobadas de volta
+inteira e d'um mesmo systema de construc&ccedil;&atilde;o,
+differem comtudo entre si, em certos caracteres especiaes, proprios de
+cada regi&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+O estylo roman do seculo XI differe do estylo
+<span class="pagenum"><a name="p69">[69]</a></span>
+do XII por uma
+ornamenta&ccedil;&atilde;o mais simples,
+contornos menos correctos e execu&ccedil;&atilde;o geralmente
+inferior.<br />
+
+<br />
+
+No seculo XII, abundam os ornatos tanto no interior como no exterior
+dos edificios. No final do seculo XI, estabeleceram-se, na Europa
+Occidental, duas escolas de architectura, animadas de diversas
+tendencias. Uma na ordem de S. Bento, que tinha o seu centro principal
+na abbadia de Cluny, desenvolvia uma magnificencia e um luxo quasi
+extraordinario na decora&ccedil;&atilde;o dos edificios
+religiosos, cuja construc&ccedil;&atilde;o lhe era incumbida; a
+outra, pelo contrario, procedente da Ordem de Cister, quasi que
+n&atilde;o admittia ornatos alguns e levava a singeleza
+at&eacute; &aacute; severidade. Em todos os paizes em que
+existiam edificios romanos por occasi&atilde;o da
+forma&ccedil;&atilde;o do estylo roman, a sua existencia
+exerceu grande influencia na decora&ccedil;&atilde;o dos
+edificios. Pelo contrario nos paizes em que escasseavam aquelles
+monumentos, diligenciaram imitar, a maior parte das vezes, na
+esculptura monumental os variados tecidos importados do Oriente.<br />
+
+<br />
+
+<h4>Caracteres da architectura Roman</h4>
+
+<br />
+
+As egrejas romans apresentam ordinariamente em planta a forma d'uma
+Cruz Latina, cuja frente representada pelo c&ocirc;ro &eacute;
+voltada para o Oriente. T&ecirc;em geralmente tres naves formadas
+por duas ordens parallelas de pilares, e algumas vezes de cinco. Depo
+As egrejas romans apresentam ordinariamente em planta a forma d'uma
+Cruz Latina, cuja frente representada pelo c&ocirc;ro &eacute;
+voltada para o Oriente. T&ecirc;em geralmente tres naves formadas
+por duas ordens parallelas de pilares, e algumas vezes de cinco. Depois
+do seculo XI, o c&ocirc;ro das egrejas cathedraes, abbaciaes
+(exceptuando as da Ordem
+<span class="pagenum">[70]</span>
+Cistersiense e collegiaes), tem maiores dimens&otilde;es que nas
+basilicas Latinas e Lombardas.<br />
+
+<br />
+
+Quando o c&ocirc;ro n&atilde;o era rodeado de capellas,
+terminava por um abside semi-circular ou por uma parede recta.
+Encontram-se, nas margens do Rheno e em outras partes da Allemanha,
+egrejas Romans com dois absides semi-circulares, um a Leste e o outro a
+Oeste.<br />
+
+<br />
+
+Algumas das grandes egrejas Romans t&ecirc;em os lados do corpo da
+egreja divididos por galerias.<br />
+
+<br />
+
+Todas as egrejas Romans, sem excep&ccedil;&atilde;o,
+s&atilde;o orientadas.<br />
+
+<br />
+
+Muitas das mesmas egrejas t&ecirc;em cryptas quasi sempre situadas
+debaixo do c&ocirc;ro, e formando capellas subterraneas, com tres a
+cinco naves, cujas abobadas de barrete veem assentar sobre duas ou
+quatro ordens de pilares pouco elevados.<br />
+
+<br />
+
+Desce-se para a maior parte das cryptas por duas escadas collocadas aos
+lados da que do transepte conduz ao c&ocirc;ro. Nas que
+n&atilde;o t&ecirc;em
+sen&atilde;o uma entrada, acha-se ordinariamente diante do
+c&ocirc;ro mesmo no eixo da egreja.<br />
+
+<br />
+
+O uso de construir cryptas s&oacute; deixou de existir desde o
+seculo XIII.<br />
+
+<br />
+
+Durante o periodo Roman, ainda se construiram, ao p&eacute; das
+cathedraes e das grandes Egrejas abbaciaes e parochiaes, baptisterios
+isolados, de f&oacute;rma polygonal e circular.<br />
+
+<br />
+
+Todavia, logo que a solemne ministra&ccedil;&atilde;o do
+baptismo caiu em desuso, n&atilde;o se construiram mais
+<span class="pagenum"><a name="p71">[71]</a></span>
+baptisterios proximo das novas Egrejas
+parochiaes que se edificaram. A pia baptismal foi ent&atilde;o
+transportada para a nave principal, proximo &aacute; porta de
+entrada da egreja nas naves lateraes, ou ent&atilde;o em uma
+capella do lado occidental, proximo da porta principal.<br />
+
+<br />
+
+A natureza dos materiaes influe poderosamente sobre o modo de
+construc&ccedil;&atilde;o adoptada; assim nos paizes em que a
+cantaria &eacute; resistente, construe-se com grandes
+dimens&otilde;es, o apparelho &eacute; mais
+grandioso, as fiadas s&atilde;o altas; emquanto que, nas
+localidades em que os materiaes s&atilde;o menos resistentes, e em
+que o trabalho de preparar a cantaria &eacute; portanto mais facil,
+o apparelho tem menor dimens&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+No seculo XI, a esculptura monumental toma repentinamente um
+desenvolvimento extraordinario pela influencia combinada do estylo
+Lombardo, dos monumentos Gaulo-Romanos; dos tecidos e outros objectos
+d'arte importados do Oriente pelos cruzados.<br />
+
+<br />
+
+Em cada paiz ou quasi que em cada provincia, a
+decora&ccedil;&atilde;o Roman offerece caracteres
+particulares, devidos &aacute; aptid&atilde;o dos habitantes,
+&aacute;
+variada natureza dos materiaes e a outras influencias locaes. Em geral,
+em todos os paizes onde se encontravam documentos romanos ricamente
+decorados, a influencia Lombarda se liga e se combina com a d'estes
+monumentos.<br />
+
+<br />
+
+No Noroeste da Fran&ccedil;a, principalmente na Normandia, e
+at&eacute; mesmo na Inglaterra, a decora&ccedil;&atilde;o
+<span class="pagenum">[72]</span>
+consiste principalmente em
+estrellas e outras figuras geometricas. A
+ornamenta&ccedil;&atilde;o Roman da Allemanha
+comp&otilde;e-se sobretudo de gal&otilde;es
+entrela&ccedil;ados, cujas extremidades acabam em folhas com tres a
+cinco lobulos. Estes gal&otilde;es, algumas vezes ornados de
+perolas, parecem ordinariamente ligados com fitas ou reunidos por
+anneis.<br />
+
+<br />
+
+Na Belgica, onde principalmente se manifestou a influencia da escola
+Cistersiense, os monumentos do periodo Roman n&atilde;o
+t&ecirc;em as
+decora&ccedil;&otilde;es de trabalhos custosos e variados, que
+se encontram n'outros paizes.<br />
+
+<br />
+
+Assim como nas basilicas Latinas, as fachadas das egrejas Romans
+indicam em geral a forma transversal das naves; s&oacute; no seculo
+XI, come&ccedil;aram
+a ornal-as com mais cuidado e esmero. A sua
+decora&ccedil;&atilde;o architectural consiste nos portaes,
+ordinariamente tres, construidos em profundas arcadas de volta inteira
+mais ou menos carregadas de molduras de architectura; as galerias,
+verdadeiras ou fingidas, eram formadas por uma ou muitas ordens de
+arcadas fingidas ou rendilhadas; e emfim em grandes rosaceas vasadas,
+por cima da porta principal.<br />
+
+<br />
+
+Raras vezes se encontram fachadas romans decoradas com estatuas.<br />
+
+<br />
+
+Antes do seculo XI, os atrios que succederam aos narthex das basilicas,
+apresentavam-se d'ordinario sob a f&oacute;rma d'um portico,
+geralmente pouco profundo e occupando toda a largura da
+Antes do seculo XI, os atrios que succederam aos narthex das basilicas,
+apresentavam-se d'ordinario sob a f&oacute;rma d'um portico,
+geralmente pouco profundo e occupando toda a largura da fachada da
+egreja; havia alguns tambem, ainda que pouco
+<span class="pagenum"><a name="p73">[73]</a></span>
+numerosos, que eram construidos na
+fachada Occidental.<br />
+
+<br />
+
+Os atrios Romans dos seculos XI e XII dividem-se em fechados e abertos;
+os primeiros tomaram, em varios paizes, um desenvolvimento de tal modo
+importante, que formavam de alguma maneira uma nova egreja construida
+em frente das naves propriamente ditas, como havia na egreja de S.
+Francisco de Santarem.<br />
+
+<br />
+
+Nos grandes monumentos do seculo XI, e especialmente do XII, os portaes
+mais notaveis, e at&eacute; mesmo algumas vezes os secundarios,
+s&atilde;o ornados profusamente de esculpturas de todo o genero.<br />
+
+<br />
+
+Quando as archivoltas dos portaes s&atilde;o cobertas com muitas
+esculpturas, o tympano &eacute; quasi sempre ornado d'um baixo
+relevo, representando Jesus Christo sentado e sob uma aureola. Em
+alguns casos o Redemptor offerece as m&atilde;os a dois Santos
+coroados e ajoelhados cada um do seu lado; em outros, lan&ccedil;a
+a ben&ccedil;&atilde;o com a
+m&atilde;o direita e segura um livro com a esquerda; n'este caso a
+aureola &eacute; muitas vezes cercada de animaes symbolicos
+representando os Evangelistas.<br />
+
+<br />
+
+Nos mais importantes monumentos, os batentes dos portaes eram
+ordinariamente de bronze ou de qualquer outro metal.<br />
+
+<br />
+
+As ferragens das portas, que a principio n&atilde;o serviam
+sen&atilde;o para consolidar todas as travessas da porta,
+forneceram desde
+As ferragens das portas, que a principio n&atilde;o serviam
+sen&atilde;o para consolidar todas as travessas da porta,
+forneceram desde o seculo XI, no estylo Roman, um dos mais bellos
+modelos de
+ornamenta&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[74]</span>
+Encontram-se tambem, nos edificios de architectura Roman, portaes com
+batentes de madeira esculpidos em baixo relevo. As janellas d'estes
+edificios mais antigos s&atilde;o pequenas e quasi sem
+ornamenta&ccedil;&atilde;o alguma.<br />
+
+<br />
+
+No meado do seculo XI, augmentaram os v&atilde;os das janellas
+&aacute; propor&ccedil;&atilde;o que mais se
+generalisava o uso do vidro. No final d'este seculo e durante todo o
+XII, as archivoltas exteriores das janellas dos grandes monumentos
+s&atilde;o executadas com o maior cuidado, e compostas de arcos com
+muitas ordens de pedras lavradas symetricas, varias vezes com o feitio
+de t&oacute;ros, ficando assentes sobre grupos de pequenas columnas
+ou sobre p&eacute;s direitos ornados de uma imposta com esculptura.
+Estes t&oacute;ros t&ecirc;em tambem muitas vezes ornatos.<br />
+
+<br />
+
+No seculo XII, apparecem as janellas geminadas de dois v&atilde;os,
+separados por uma humbreira em f&oacute;rma de columna, e
+servindo-lhe de moldura um arco commum de resalva. V&ecirc;em-se
+tambem janellas mesmo de tres v&atilde;os reunidos debaixo d'um
+unico arco. N'estas ultimas ou o v&atilde;o do meio &eacute;
+mais alto que os dos lados, ou ent&atilde;o
+&eacute; o tympano formado pelo grande arco, no qual ha um oculo,
+inteiramente aberto ou em f&oacute;rma de tr&ecirc;vo, de
+quatro folhas e &aacute;s vezes com seis e mais
+l&oacute;bulos.<br />
+
+<br />
+
+Tambem se encontram nos edificios romans do seculo XIII, olhos-de-boi e
+que n&atilde;o servem de ornamento aos v&atilde;os de janellas.
+Chamam-se rosaes e s&atilde;o compostos de differentes maneiras.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p75">[75]</a></span>
+Nos paizes meridionaes continuaram a vedar os v&atilde;os das
+janellas com caixilhos rendilhados, de madeira ou de marmore. Os
+desenhos produzidos pelos recortes das travessas apresentam
+f&oacute;rmas mais variadas e em harmonia com a
+ornamenta&ccedil;&atilde;o Roman; comp&otilde;em-se quasi
+sempre de figuras geometricas. Os caixilhos recortados foram empregados
+at&eacute; ao seculo XVI, na Grecia, Italia e Hespanha e
+ainda hoje no Oriente.<br />
+
+<br />
+
+Na Europa Occidental e Septentrional preferiam tapar as janellas com
+vidros pequenos assentes em caixilhos de madeira, mas, desde o seculo
+X, reunidos por meio de filetes de chumbo. Algumas vezes estes vidros,
+differentemente coloridos, formavam um mosaico transparente, no qual
+ainda n&atilde;o havia figuras nem ornatos pintados sobre o vidro.<br />
+
+<br />
+
+O emprego de vidra&ccedil;as com varios assumptos e personagens
+pintados, come&ccedil;ou provavelmente no final do seculo X.<br />
+
+<br />
+
+Em muitas egrejas, o c&ocirc;ro e mesmo algumas vezes os
+bra&ccedil;os do transepto terminam por um abside semi-circular ou
+polygonal.<br />
+
+<br />
+
+O abside est&aacute; ordinariamente ligado por um abside circular
+coberto d'um tecto quasi sempre mais baixo que o do c&ocirc;ro.<br />
+
+<br />
+
+As paredes exteriores dos absides s&atilde;o a maior parte das
+vezes ornadas d'uma ou de muitas ordens de arcadas separadas por faixas
+de pequena saliencia; columnas ou pilastras envolvidas, ligadas entre
+si por arcos de volta inteira. As janellas, ordinariamente
+<span class="pagenum">[76]</span>
+em numero impar,
+s&atilde;o abertas debaixo das arcadas.<br />
+
+<br />
+
+Os absides de quasi todas as egrejas Romans das margens do Rheno
+apresentam junto ao tecto uma galeria aberta, formada por uma serie de
+pequenas arcadas de volta inteira e sustentadas por pequenas columnas.
+Estes absides receberam o nome de absides <em>rhenanos</em>.
+Serviam
+outr'ora, e servem ainda hoje, em alguns sitios, para a
+exposi&ccedil;&atilde;o das reliquias.<br />
+
+<br />
+
+Os edificios construidos na Europa Central, no fim do seculo X e
+principio do XI, n&atilde;o apresentam, muitas vezes, mais do que
+pilares muito simples, de
+sec&ccedil;&atilde;o circular, quadrada ou rectangular. No
+seculo XI, tambem se introduziu, &aacute;quem dos Alpes, o uso dos
+pilares com angulos reintrantes para collocar duas ou quatro columnas
+envolvidas, de que os constructores Lombardos se serviam j&aacute;
+no seculo VIII.<br />
+
+<br />
+
+As egrejas, parochias ruraes, de menor importancia teem muitissimas
+vezes pilares quadrados, curtos, sem base nem capitel, ou tendo por
+ornamento unicamente uma ou duas molduras pouco salientes que fazem
+parte do capitel.<br />
+
+<br />
+
+Durante o periodo Roman, principalmente no seculo XII, muitos dos
+fustes das columnas foram cobertos de esculpturas variadas, consistindo
+em figuras geometricas, espiraes, tor&ccedil;
+Durante o periodo Roman, principalmente no seculo XII, muitos dos
+fustes das columnas foram cobertos de esculpturas variadas, consistindo
+em figuras geometricas, espiraes, tor&ccedil;aes,
+gal&otilde;es,
+bot&otilde;es, folhagens, cord&otilde;es, animaes e mesmo
+representa&ccedil;&otilde;es de assumptos historicos ou
+legendarios. Estes ornatos s&atilde;o communs principalmente no Sul
+da Europa.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p77">[77]</a></span>
+No fim do periodo Roman e no principio da &eacute;poca Ogival, as
+columnas s&atilde;o
+<em>anneladas</em>, isto &eacute;, formadas d'uma
+especie de t&oacute;ro &aacute;
+roda do fuste.<br />
+
+<br />
+
+As columnas <em>anneladas</em> constituem um
+dos caracteres dos monumentos da transi&ccedil;&atilde;o do
+estylo Roman para o estylo Ogival. Tambem se encontram d'estes anneis
+nas nervuras das abobadas. No seculo <em>XII</em>, as
+columnas
+s&atilde;o tambem &aacute;s vezes duplas ou enfeixadas.<br />
+
+<br />
+
+As bases das columnas s&atilde;o variadissimas.<br />
+
+<br />
+
+Muitas das que se encontram nos edificios mais antigos assimilham-se
+&aacute;s bases Lombardas, mas sem ter garras.<br />
+
+<br />
+
+As bases ornadas com esculpturas, muito communs no Sul da Europa,
+s&atilde;o raras nos paizes do Norte.<br />
+
+<br />
+
+Foi no meado do seculo XI que come&ccedil;ou a apparecer,
+&aacute;quem dos Alpes, o ornato chamado
+<em>garra</em>, que os lombardos j&aacute; tinham usado
+muito tempo antes.<br />
+
+<br />
+
+A garra Rom&atilde; tem em geral a f&oacute;rma d'uma folha
+applicada sobre o t&oacute;ro inferior da base no angulo do
+plintho, e tambem &aacute;s vezes, a d'uma carranca ou d'um animal
+phantastico.<br />
+
+<br />
+
+Desde o principio do seculo XII, os constructores romans achatam a
+forma do t&oacute;ro inferior, quando a base se approxima da forma
+Attica; um pouco mais tarde apparece entre os t&oacute;ros das
+bases, a moldura concava, bastante profunda, que f&oacute;rma um
+dos
+caracteres distinctivos dos monumentos
+<span class="pagenum"><a name="p78">[78]</a></span>
+do fim do seculo XII e da
+primeira metade do XIII.<br />
+
+<br />
+
+Os capiteis de architectura Roman s&atilde;o variadissimos. Ha uns
+que apenas se comp&otilde;em de duas ou tres molduras curvas ou
+chanfradas, imitando o capitel toscano ou dorico.<br />
+
+<br />
+
+A cornija dos capiteis &eacute; umas vezes elevada e coroada com um
+&aacute;baco saliente, e outras baixa, tendo um &aacute;baco
+que n&atilde;o resalta o fuste da
+columna.<br />
+
+<br />
+
+Encontram-se, em muitos monumentos Romans, capiteis chamados <em>cubicos</em>,
+porque
+t&ecirc;em a configura&ccedil;&atilde;o d'um cubo. Estes
+capiteis s&atilde;o algumas vezes chanfrados nos angulos inferiores
+e em geral arredondados na parte inferior.<br />
+
+<br />
+
+A parte inferior do capitel cubico
+<em>Rhenano</em>, do seculo XII, era muitas vezes dividida
+em quatro
+por&ccedil;&otilde;es de esphera, formando assim um grupo de
+quatro capiteis reunidos debaixo de um mesmo &aacute;baco, mas foi
+ainda augmentado o numero das subdivis&otilde;es, produzindo d'este
+modo os capiteis cubicos <em>canellados</em> ou com
+resaltos redondos,
+que se encontram principalmente na Inglaterra e no Noroeste da
+Fran&ccedil;a.<br />
+
+<br />
+
+No tempo da forma&ccedil;&atilde;o do estylo Roman, a arte da
+esculptura estava quasi totalmente perdida &aacute;quem dos Alpes.
+Os que primeiro tentaram manejar o cinzel esfor&ccedil;aram-se em
+reproduzir, melhor ou peior, os antigos ornatos que tinham &aacute;
+vista; as
+produc&ccedil;&otilde;es d'estes artistas improvisados
+s&atilde;o imperfeitas e grosseiras.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p79">[79]</a></span>
+Encontram-se em muitos monumentos Belgas do seculo XII, capiteis cuja
+ornamenta&ccedil;&atilde;o, simples e
+rudimentar, consiste unicamente em folhas applicadas sobre o
+a&ccedil;afate, e algumas vezes contornadas em voluta debaixo dos
+angulos do &aacute;baco.<br />
+
+<br />
+
+Os capiteis de quasi todos os grandes monumentos dos seculos XI e XII,
+s&atilde;o decorados de esculpturas ou de pinturas de
+c&ocirc;res carregadas. Os ornatos consistem em gal&otilde;es
+imitando perolas, folhagens encrespadas, flor&otilde;es
+artisticamente executados, animaes symbolicos, animaes phantasticos
+isolados ou em grupos, assumptos tirados da lenda ou da historia,
+principalmente do Velho e Novo Testamentos.<br />
+
+<br />
+
+O capitel de <em>crochets</em> usou-se na
+Belgica e em algumas partes da Allemanha desde o fim do periodo Roman.
+D&aacute;-se o nome de
+<em>crochets</em> e algumas vezes tambem o de <em>baculo
+vegetal</em>,
+&aacute;s folhas mais ou menos compridas, recurvadas em voluta na
+sua extremidade.<br />
+
+<br />
+
+Chama-se <em>arcada</em> toda a abertura,
+real ou simulada, contornada por uma archi-volta; e
+<em>arcadura</em>, uma arcada de pequenas
+dimens&otilde;es.<br />
+
+<br />
+
+At&eacute; ao seculo XI serviam-se geralmente do arco de volta
+inteira ou formado por um semi-circulo para ligar duas columnas ou os
+dois pontos extremos d'uma arcada. Nos seculos XI e XII,
+come&ccedil;am a apparecer novas formas d'arcos: 1.&ordm;, o
+arco <em>elevado</em>,
+cujos dois ramos
+descendentes se prolongam verticalmente abaixo do centro gerador;
+2.&ordm;,
+o arco em f&oacute;rma de ferradura produzido por
+<span class="pagenum">[80]</span>
+uma parte da circumferencia que excede o
+semi-circulo; 3.&ordm; o arco de volta abatida ou em aza de cesto,
+formado
+por uma semi-ellypse cortada segundo a direc&ccedil;&atilde;o
+do eixo maior; 4.&ordm;, o arco de tres l&oacute;bulos cujo
+intradoz
+&eacute; composto de tres
+l&oacute;bulos.<br />
+
+<br />
+
+As paredes interiores lateraes das egrejas, as capellas, as casas
+capitulares s&atilde;o em geral ornadas, na sua parte inferior, com
+arcaduras sustentadas por pequenas columnas mais ou menos embebidas no
+p&eacute;-direito e firmadas sobre um s&oacute;cco de pedra
+collocado em roda de todo o edificio.<br />
+
+<br />
+
+As arcaduras tambem s&atilde;o muitas vezes empregadas, no exterior
+dos edificios, para a decora&ccedil;&atilde;o das fachadas.
+Encontram-se egualmente sobre as outras partes dos monumentos arcadas
+pouco salientes, cujas extremidades assentam sobre modilh&otilde;es
+muitas vezes executados apenas de feitio chanfrado, e ainda
+&aacute;s vezes ornadas de esculpturas. Em alguns casos foram os
+modilh&otilde;es substituidos por grupos de columnas embebidas.<br />
+
+<br />
+
+As arcaduras servem principalmente para ornamentar as partes lisas das
+paredes debaixo das cornijas, os parapeitos das janellas e as
+platibandas de que se servem para as ligar entre si pelas faixas
+muraes.<br />
+
+<br />
+
+Estas arcaduras foram imitadas do estylo Lombardo. Tambem se encontram
+principalmente nos edificios romans da Allemanha, da Inglaterra e
+d'algumas partes da Fran&ccedil;a.<br />
+
+<br />
+
+Chamam-se <em>Triforiums</em> as galerias
+mais ou menos
+<span class="pagenum"><a name="p81">[81]</a></span>
+largas, que
+ficam por cima das arcadas das naves lateraes das egrejas, ou
+simplesmente por cima das archivoltas das grandes arcadas que ligam
+dois pilares contiguos.<br />
+
+<br />
+
+Encontram-se <em>Triforiums</em>, que
+abrangem todo o comprimento do corpo da egreja, nos edificios
+Lombardos.<br />
+
+<br />
+
+Os <em>Triforiums</em> estreitos
+s&atilde;o posteriores ao seculo XII, e s&oacute; durante o
+periodo Ogival &eacute; que se generalisou o seu emprego.<br />
+
+<br />
+
+A cornija comp&otilde;e-se d'uma pedra mais ou menos saliente sobre
+a face das paredes de maior ou menor grandeza, segundo a maior ou menor
+dureza dos materiaes de que dispomos.<br />
+
+<br />
+
+A cornija &eacute; sustentada por cons&oacute;las ou
+modilh&otilde;es collocados regularmente por baixo das juntas das
+pedras que formam as cornijas. Os modilh&otilde;es t&ecirc;em a
+f&oacute;rma d'um curvo ou d'um flor&atilde;o.
+Chama-se <em>curvo</em> um
+modilh&atilde;o simples, que fica saliente sobre a face d'uma
+parede ou d'um pilar e que tem as duas faces lateraes parallelas e
+perpendiculares &aacute; mesma parede; e com feitio de
+flor&atilde;o, &eacute; uma cons&oacute;la que
+n&atilde;o tem as faces nem
+parallelas, nem perpendiculares &aacute; parede. &Aacute;s
+vezes
+s&atilde;o os curvos e esses flor&otilde;es ornados de
+esculpturas representando cabe&ccedil;as humanas, figuras
+grot&ecirc;scas, carrancas, monstros, volutas, etc.<br />
+
+<br />
+
+A maior parte dos edificios do periodo roman n&atilde;o tinham
+abobadas sen&atilde;o no abside do
+c&ocirc;ro, no pavimento inferior dos campanarios e algumas vezes
+ao de cima das naves lateraes. A nave central
+<span class="pagenum">[82]</span>
+era ordinariamente coberta com um
+simples tecto de madeira. As abobadas que hoje se v&ecirc;em em
+muitas egrejas do estylo roman foram construidas em epoca bem mais
+recente.<br />
+
+<br />
+
+Nos edificios religiosos que tinham a nave principal coberta
+d'abobadas, eram estas d'aresta geralmente em nervuras; e como succede
+nas egrejas lombardas, a cada arco da nave central correspondiam nas
+paredes lateraes dois arcos de menores dimens&otilde;es. Para
+supportar a press&atilde;o
+obliqua, exercida sobre os pilares e sobre as altas paredes da nave
+pela abobada da nave central, os architectos romans seguiram dois
+systemas.<br />
+
+<br />
+
+Uns, imitando os constructores lombardos, construem as paredes lateraes
+quasi da altura da nave e disp&otilde;em as abobadas de maneira que
+supportem a curva da abobada central. Outros construem nas paredes
+lateraes abobadas semi-circulares ou de quarto de cylindro, cuja parte
+inferior assenta sobre as paredes mestras do edificio, e a parte
+superior vem apoiar-se contra a principal parede da nave central no
+logar onde come&ccedil;a a sua abobada.<br />
+
+<br />
+
+At&eacute; ao principio do seculo XII, os arcos duplos
+comp&otilde;em-se de uma ou de duas ordens de cunhas de cantaria
+geralmente sem molduras nem ornatos, e apresentam uma
+sec&ccedil;&atilde;o quadrada ou rectangular. No fim do periodo
+roman, e mais tarde ainda, os angulos do intradoz do arco dobrado
+t&ecirc;em regularmente o feitio de t&oacute;ros.<br />
+
+<br />
+
+As nervuras das abobadas d'aresta consistem em um simples
+t&oacute;ro, algumas vezes acompanhado de
+<span class="pagenum"><a name="p83">[83]</a></span>
+dois ou quatro t&oacute;ros de menor
+espessura. No fim da &eacute;poca Roman, e durante o periodo da
+transi&ccedil;&atilde;o, o t&oacute;ro principal foi em
+certos paizes achatado e composto de uma aresta viva no intradoz. As
+nervuras das abobadas do estylo Roman s&atilde;o muito mais toscas
+que as das Ogivaes.<br />
+
+<br />
+
+Os architectos dos seculos XII, XIII e XIV decoravam algumas vezes o
+nascimento das nervuras das abobadas superiores ao capitel com molduras
+geometricas.<br />
+
+<br />
+
+Chamam-se <em>contrafortes</em> aos pilares
+embebidos nas paredes exteriores dos edificios, e que servem para
+sustentar e diminuir a press&atilde;o das abobadas, ou supportar o
+peso do madeiramento do telhado. Estes apoios correspondem sempre
+exactamente (nos monumentos que n&atilde;o t&ecirc;em abobadas)
+aos pontos onde assentam as asnas do madeiramento, e nos edificios
+abobadados, aos pontos onde vem exercer-se a press&atilde;o
+combinada dos arcos duplos e das nervuras das abobadas.<br />
+
+<br />
+
+Nas construc&ccedil;&otilde;es de architectura Roman,
+especialmente nas mais antigas, os contrafortes apresentam-se algumas
+vezes com a apparencia de uma pilastra semi-cylindrica.<br />
+
+<br />
+
+No XI, e principalmente no seculo XII, apresentam os contrafortes
+variadissimas f&oacute;rmas. Uns s&atilde;o muito largos na
+base, e diminuem successivamente em cada um dos seus tres lados
+isolados; outros, mais delgados, t&ecirc;em sempre a mesma largura
+entre as duas faces lateraes e parallelas, e n&atilde;o diminuem
+sen&atilde;o na face exterior, em que essa
+diminui&ccedil;&atilde;o
+<span class="pagenum"><a name="p84">[84]</a></span>
+se faz
+successivamente em diversas partes
+na sua total eleva&ccedil;&atilde;o. Alguns ha que
+t&ecirc;em sempre as mesmas dimens&otilde;es em todas as faces,
+sem saliencia nem resalto algum, desde a base do edificio
+at&eacute; &aacute; cornija.<br />
+
+<br />
+
+Os madeiramentos nos telhados dos edificios do estylo Roman
+s&atilde;o raros.<br />
+
+<br />
+
+Na Europa Occidental os telhados conservaram at&eacute; ao seculo
+XII uma pequenissima
+inclina&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; s&oacute; no meiado d'este seculo, e at&eacute;
+mesmo mais tarde, que se encontram declives com excessiva correnteza
+nos telhados dos edificios da edade m&eacute;dia.<br />
+
+<br />
+
+As <em>Torres</em>, tanto na Europa Central
+como na Occidental, anteriores ao seculo XI, s&atilde;o em geral
+quadradas, e sem nenhum ornamento, ou apenas ornadas com simples
+arcadas, e ordinariamente cobertas por um telhado de quatro abas de
+f&oacute;rma concava, formando uma pyramide obtusa.<br />
+
+<br />
+
+Os campanarios do seculo XI, e sobretudo do XII, s&atilde;o mais
+elevados e ornamentados que os dos seculos precedentes.
+Comp&otilde;em-se de dois e mais pavimentos, que se
+sobrep&otilde;em, e cujas dimens&otilde;es v&atilde;o
+muitas vezes diminuindo successivamente. A sua f&oacute;rma e
+aspecto geral variam de um paiz para outro.<br />
+
+<br />
+
+Os campanarios isolados, que s&atilde;o quasi exclusivamente
+proprios da Italia, distinguem-se por mais duas especies.<br />
+
+<br />
+
+Ha uns construidos no ponto de intersec&ccedil;&atilde;o do
+<span class="pagenum">[85]</span>
+transepte com a nave
+principal, e ainda outros edificados ora sobre a fachada, ora sobre as
+extremidades do c&ocirc;ro ou do transepte. Os primeiros assentam
+sobre quatro grossos pilares: os segundos erguem-se perpendiculares
+sobre os seus quatro lados; ou s&atilde;o sustentados por arcadas
+abertas sobre uma, duas e at&eacute; mesmo tres das suas faces.<br />
+
+<br />
+
+Os campanarios centraes t&ecirc;em em geral differentes
+f&oacute;rmas. Ha-os quadrados, octogonaes, e ainda com muito maior
+numero de lados; existem tambem alguns em f&oacute;rma de
+c&uacute;pula.<br />
+
+<br />
+
+Os campanarios da fachada, e os construidos proximo do c&ocirc;ro
+ou dos transeptes das egrejas, apresentam ainda f&oacute;rmas mais
+variadas que os centraes. Os mais simples s&atilde;o quadrados e
+divididos tanto interior como exteriormente em dois ou mais pavimentos.
+Outros, elevando-se sobre uma base quadrada, tornam-se em polygonos de
+maior numero de lados logo no primeiro ou segundo andar, tendo em geral
+a f&oacute;rma octogonal.<br />
+
+<br />
+
+No XI e no XII seculo eram os campanarios cobertos de madeira com
+feitio de flecha ou de pyramides construidas de pedra; quadrados ou
+octogonaes, eram pouco elevados e acachapados. Os angulos das pyramides
+de base quadrada eram &aacute;s vezes ornados com pequenos
+campanarios. Muitos remates de cantaria foram destruidos pelas chuvas e
+pelos g&ecirc;los, e depois substituidos nos seculos XIII e XIV
+pelas flechas esguias.<br />
+
+<br />
+
+Algumas torres tinham por cobertura um telhado
+<span class="pagenum"><a name="p86">[86]</a></span>
+apenas com duas abas, terminando
+por uma emp&ecirc;na em cada um dos lados. As torres cobertas por
+este modo s&oacute; se usaram durante uma parte do periodo Ogival.<br />
+
+<br />
+
+Os pavimentos em <em>opus alexandrinum</em>
+continuaram a usar-se na Italia e em todos os paizes aonde havia
+marmore. Na Allemanha, na Fran&ccedil;a e na Belgica, por exemplo,
+serviam-se de tijolos de terra, cota esmaltada, ou de pedras gravadas e
+com embutidos de massa colorida. At&eacute; ao fim do seculo XII
+cada tijolo tinha a sua c&ocirc;r propria. As c&ocirc;res que
+se encontram nos pavimentos do fim do periodo Roman, s&atilde;o a
+preta, cinzenta, vermelha, e principalmente amarella e verde-escuro. As
+duas ultimas predominam em quasi todos os trabalhos d'este genero do
+seculo XII.<br />
+
+<br />
+
+No Oriente e no Sul da Europa, os edificios historicos, legendarios e
+symbolicos eram bastante communs no seculo XII; tambem se viam alguns
+na Europa Occidental.<br />
+
+<br />
+
+Se, na sua origem, a pintura das paredes imitou as mesmas
+f&oacute;rmas que tinha o mosaico, e se inspirou dos principios
+d'esta arte, n&atilde;o podia tardar muito que ella tomasse mais
+livre desenvolvimento e adquirisse certos principios que lhe fossem
+especiaes em consequencia da propria natureza dos seus processos e da
+maneira por que estes satisfazem a vontade do artista.<br />
+
+<br />
+
+Com effeito, a pintura liga-se &aacute;s f&oacute;rmas da
+architectura at&eacute; nas mais delicadas molduras; e por
+conseguinte de um modo mais intimo que o mosaico.
+<span class="pagenum">[87]</span>
+Desde os primeiros seculos
+at&eacute; &aacute;
+&eacute;poca da Renascen&ccedil;a, a pintura das paredes
+p&ocirc;de, sem
+duvida, modificar o estylo do desenho, e variar o tom e a harmonia das
+c&ocirc;res empregadas, seguindo o progressivo desenvolvimento da
+arte de construir, mas ficou sempre subordinada &aacute;
+architectura.<br />
+
+<br />
+
+A pintura monumental differe muito da que se emprega ordinariamente
+n'um painel.<br />
+
+<br />
+
+Um painel, no sentido moderno da palavra, n&atilde;o &eacute;
+mais do que uma scena mostrada nos limites de um quadro, atravez de uma
+janella aberta. A pintura monumental, pelo contrario, &eacute; uma
+arte convencional na qual a imita&ccedil;&atilde;o da natureza,
+a
+reproduc&ccedil;&atilde;o das suas f&oacute;rmas e dos
+phenomenos atmosphericos que ella apresenta, quasi que por assim dizer
+n&atilde;o existem.<br />
+
+<br />
+
+A figura humana e as composi&ccedil;&otilde;es em que esta
+apparece em grupos s&atilde;o geralmente reservadas para as grandes
+superficies planas das paredes; s&oacute; muito raramente se
+encontram nas pilastras e nas columnas. Por toda a parte o symbolismo
+ou a allegoria constitue um dos grandes caracteres tanto da pintura das
+paredes como de todas as artes em geral durante o periodo de que nos
+occupamos.<br />
+
+<br />
+
+As pinturas historicas eram tratadas da maneira mais simples. O artista
+apenas faz figurar o numero de figuras estrictamente necessario para a
+composi&ccedil;&atilde;o do assumpto de que trata. As
+c&ocirc;res s&atilde;o applicadas com tintas eguaes, sem
+indicar sombras
+<span class="pagenum"><a name="p88">[88]</a></span>
+nem os
+differentes accidentes da luz, de f&oacute;rma que &eacute;
+muitas vezes impossivel determinar qual o lado por onde o artista teve
+em vista que a scena fosse illuminada. As partes salientes dos corpos
+s&atilde;o regularmente indicadas por tra&ccedil;os finos, e os
+contornos s&atilde;o representados com linhas cheias.<br />
+
+<br />
+
+A pintura a <em>fresco</em>, que tem a
+vantagem de produzir tons agradaveis, foi a preferida para as pinturas
+historicas e legendarias. A
+<em>encaustica</em> foi tambem escolhida para certos
+trabalhos. A intensidade e a harmonia dos tons que resultam do emprego
+da c&ecirc;ra, a possibilidade de nos occuparmos
+<a href="#e2">indefinidamente</a> do trabalho
+j&aacute; come&ccedil;ado fizeram com que muitas vezes fosse
+adoptado este processo. Com effeito at&eacute; mesmo a pintura a
+oleo &eacute; tambem muito antiga. Durante toda a edade
+m&eacute;dia eram preferidos os outros processos, por meio dos
+quaes, obtendo-se tons ba&ccedil;os, evitavam o reflexo
+t&atilde;o desagradavel na pintura das paredes.<br />
+
+<br />
+
+Durante a edade m&eacute;dia a primeira pedra do alicerce dos
+edificios religiosos era regularmente ornada com uma cruz e uma
+inscrip&ccedil;&atilde;o. A sua
+colloca&ccedil;&atilde;o era feita com grandes solemnidades: um
+prelado ou um dignitario ecclesiastico a benzia publicamente, e elle
+proprio a collocava na base de um dos principaes pontos de apoio da
+construc&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Tambem muitas vezes se serviam de inscrip&ccedil;&otilde;es
+lapidares para conservar a memoria da funda&ccedil;&atilde;o do
+edificio e o nome do architecto ou do mestre da obra. Em algumas
+egrejas encontram-se pedras com dedicatorias indicando a data da
+consagra&ccedil;&atilde;o,
+<span class="pagenum"><a name="p89">[89]</a></span>
+os nomes dos santos cujas
+reliquias se acham depositadas no altar, e at&eacute; mesmo o nome
+do orago da egreja.<br />
+
+<br />
+
+Os altares eram uns fixos e outros portateis.<br />
+
+<br />
+
+<em>Altares fixos</em>.&#8213;As mesas dos altares
+fixos, ordinariamente de marmore ou de pedra, e de f&oacute;rma
+quadrada ou rectangular, continuaram at&eacute; meiado do seculo
+XII a ser vasadas em f&oacute;rma de bandeja, como j&aacute; se
+us&aacute;ra no periodo Latino.<br />
+
+<br />
+
+O supporte da mesa do altar consiste, muitas vezes, em uma simples base
+cubica de alvenaria sem ornamenta&ccedil;&atilde;o alguma, e
+algumas vezes tendo em roda uma inscrip&ccedil;&atilde;o e um
+simples rebordo. Nos dias solemnes cobriam-se estes altares com alfaias
+de l&atilde; e seda ou de outros tecidos preciosos.<br />
+
+<br />
+
+Outras vezes o altar &eacute; sustentado por uma ou muitas pequenas
+columnas.<br />
+
+<br />
+
+Os altares de f&oacute;rma cubica eram muitas vezes revestidos de
+oiro e de prata e esmaltados, tendo tambem pedrarias, ou ornados com
+esculpturas e pinturas.<br />
+
+<br />
+
+A face dos altares, com esculpturas, ou pintados, era em geral dividida
+em tres compartimentos com a f&oacute;rma de arcadas mais ou menos
+ricamente decoradas. Jesus Christo lan&ccedil;ando a
+ben&ccedil;&atilde;o, de p&eacute; ou sentado, occupa
+ordinariamente a parte central, que &eacute; muitas vezes a mais
+elevada, ou com a f&oacute;rma
+de uma aur&eacute;ola oval ou de quatro l&oacute;bulos. Nas
+arcadas lateraes v&ecirc;em-se figuras de santos e os symbolos dos
+evangelistas, que se acham dispostos
+<span class="pagenum">[90]</span>
+ou em torno do compartimento do
+meio, ou nos fundos das arcadas.<br />
+
+<br />
+
+O altar principal das grandes egrejas era muitas vezes, como succedia
+no periodo Latino, encimado por um <em>ciborium</em>, e o
+mesmo acontecia
+com alguns dos altares lateraes.<br />
+
+<br />
+
+No final do XI
+seculo
+come&ccedil;ou o uso dos retabulos, isto &eacute;, dos paineis
+ou quadros assentes verticalmente ao fundo dos altares propriamente
+ditos. O retabulo n&atilde;o constitue por si s&oacute; uma
+parte essencial do altar, mas sim um accessorio. O seu primitivo e
+principal fim &eacute; promover a
+devo&ccedil;&atilde;o entre o padre que offerece o santo
+sacrificio e os fieis que a elle assistem, fazendo-lhes ver assumptos
+religiosos produzidos pelo cinzel, esculptura, pintura, etc.<br />
+
+<br />
+
+A principio era pouco elevado, attingiu uma excessiva altura no fim do
+periodo ogival e na &eacute;poca da Renascen&ccedil;a.<br />
+
+<br />
+
+Representavam-se nos retabulos os mesmos assumptos que nas alfaias:
+Christo, sentado ou em p&eacute;, occupava em geral o painel do
+centro, tendo imagens de Santos e assumptos tirados da Historia
+Sagrada, ou da lenda, em arcadas lateraes, ou em medalh&otilde;es
+de diversas f&oacute;rmas, collocados em redor da imagem do
+Salvador.<br />
+
+<br />
+
+A maior parte dos primitivos retabulos eram de oiro, prata ou cobre
+doirado e esmaltado: todavia alguns se encontravam, ainda que em menor
+numero, construidos de pedra e de madeira pintada ou esculpida. Estes
+ultimos s&oacute; se generalisaram
+<span class="pagenum">[91]</span>
+no fim do periodo roman e no principio da
+&eacute;poca ogival.<br />
+
+<br />
+
+A principio os retabulos serviam tambem para encerrar os relicarios
+quando elles n&atilde;o tinham mais ornamentos, ou para os
+emmoldurar quando os seus frontaes eram ricamente adornados. Parece ter
+sido nos mosteiros que este uso teve principio. Durante o XI seculo, a
+maior parte das abbadias da Europa Central e Occidental mudaram a
+disposi&ccedil;&atilde;o interior das egrejas no que diz
+respeito ao logar reservado aos religiosos durante a
+celebra&ccedil;&atilde;o do Santo Officio: as cadeiras ou
+bancos dos padres, que d'antes occupavam o proprio c&ocirc;ro do
+abside, foram transportadas para o transepte, e desciam ordinariamente
+at&eacute; &aacute; segunda ou
+terceira arcada da nave principal, como na egreja
+d'Alcoba&ccedil;a.<br />
+
+<br />
+
+Ao fundo do Sanctuario, proximo &aacute; curvatura do abside,
+elevava-se o altar das reliquias, atraz ou debaixo do qual eram
+expostos os restos mortaes dos Santos, que at&eacute; ali se tinbam
+conservado religiosamente nas cryptas das egrejas.<br />
+
+<br />
+
+Algumas vezes as reliquias eram encerradas em caixas ou cofres e
+collocadas no interior do altar.<br />
+
+<br />
+
+Tambem se expunham mesmo sobre os altares, como succedia no IX seculo;
+mas n&atilde;o &eacute; facil
+actualmente determinar se esta exposi&ccedil;&atilde;o era
+permanente ou temporaria, isto &eacute;, durante certas
+solemnidades religiosas extraordinarias.<br />
+
+<br />
+
+Comtudo, est&aacute; provado que existia em muitos paizes o costume
+de se conservarem os relicarios
+<span class="pagenum">[92]</span>
+sobre os altares. Este costume pouco a
+pouco se foi generalisando, pelo menos em alguns d'elles. Quando esta
+exposi&ccedil;&atilde;o se realisava por detraz dos
+altares, o cofre era collocado pouco mais ou menos dois metros acima do
+piso e sustentava um dos lados triangulares sobre o proprio altar, ou
+ent&atilde;o sobre um retabulo de pedra, collocado em cima
+d'aquelle, mas pouco elevado, e o outro sobre uma consola ou um grupo
+de columnas junto &aacute; parede absidal ou interior da egreja.<br />
+
+<br />
+
+Os fieis podiam circular em torno do altar e vir collocar-se
+directamente debaixo das reliquias. O uso de passar debaixo dos
+relicarios, quer de p&eacute;, quer de joelhos, ainda hoje existe
+em muitos paizes catholicos. Quando a parte superior da urna, que vinha
+assentar sobre o altar, era desprovida de qualquer ornato, cobria-se
+ent&atilde;o com um retabulo de metal ou de pedra; se pelo
+contrario, como succedia com as urnas de oiro, de prata ou de cobre
+doirado e esmaltado, tinha figuras primorosamente executadas, ficava
+inteiramente livre e visivel por detraz do altar. Construia-se
+ent&atilde;o por cima da urna uma especie de tabernaculo ou de
+baldaquino. Algumas vezes ornamentavam a parte central do lado
+triangular, com um retabulo de metal precioso.<br />
+
+<br />
+
+O altar-m&oacute;r das cathedraes assim como das collegiaes que
+n&atilde;o possuiam grandes reliquias, s&oacute; veiu a ter
+retabulo no XIV seculo. Tanto no XII como no XIII seculo, se collocavam
+n'estes edificios retabulos sobre os altares secundarios do
+<span class="pagenum"><a name="p93">[93]</a></span>
+transepte e das Capellas absidaes. Estes
+retabulos eram de pouca espessura, n&atilde;o se lhes podendo
+collocar em cima nem crucifixos, nem candeeiros.<br />
+
+<br />
+
+<em>Altares portateis</em>.&#8213;Apresentam
+ordinariamente, bem como os do periodo Latino, a f&oacute;rma de um
+parallelogrammo rectangular, e s&atilde;o compostos de uma lagea de
+marmore ou de pedra mettida n'um caixilho de carvalho e guarnecida com
+bordados de oiro ou de prata, de modo a n&atilde;o tornar visivel
+sen&atilde;o a parte superior da placa.<br />
+
+<br />
+
+A lagea que constituia o altar propriamente dito era de porphyro, de
+jaspe, de onyx, de crystal de rocha, de pedra preta e at&eacute;
+mesmo de ardosia. Tambem algumas vezes constava de uma pedra preciosa
+unicamente como recorda&ccedil;&atilde;o historica que a ella
+estava ligada, por exemplo, um fragmento das lageas tintas com o sangue
+de S. Thomaz de Cantorbery.<br />
+
+<br />
+
+As reliquias, cuja presen&ccedil;a &eacute; de rigor em todo o
+altar, encontram-se entre a lagea de marmore ou de pedra e o caixilho
+de madeira: algumas vezes era este concavo em f&oacute;rma de
+recipiente. Em geral os altares portateis s&atilde;o de pequena
+altura, apenas alguns t&ecirc;em a f&oacute;rma de um pequeno
+cofre sustentado
+por p&eacute;s pouco elevados. As laminas de metal que constituem
+os adornos s&atilde;o muitas vezes cobertas com filigranas, de
+pedrarias, de folhagens gravadas, ou de figuras esmaltadas.<br />
+
+<br />
+
+Usaram-se estes altares at&eacute; ao final do seculo XIII.<br />
+
+<br />
+
+<em>Piscinas</em>.&#8213;A
+ablu&ccedil;&atilde;o das m&atilde;os, tanto antes como
+depois do sacrificio da missa, foi sempre um dos
+<span class="pagenum">[94]</span>
+preceitos dos padres. Deitava-se nas
+piscinas n&atilde;o s&ograve; a agua de que o padre se servia
+para a
+ablu&ccedil;&atilde;o das m&atilde;os, mas at&eacute;
+mesmo aquella de que os ministros se serviam para lavar tanto os
+calices ordinarios como os ministeriaes em seguida &aacute;
+communh&atilde;o do padre e dos fieis.<br />
+
+<br />
+
+N'esta &eacute;poca o padre n&atilde;o tomava as
+ablu&ccedil;&otilde;es do mesmo modo que actualmente.<br />
+
+<br />
+
+Algumas piscinas, que s&atilde;o as mais antigas, t&ecirc;em
+apenas uma abertura ou concavidade para dar passagem &aacute; agua;
+ha por&eacute;m outras que t&ecirc;em duas, uma para escoadouro
+das aguas ordinarias, e outra para receber as
+ablu&ccedil;&otilde;es das m&atilde;os.<br />
+
+<br />
+
+As primeiras chamam-se <em>piscinas
+simples</em>, e as segundas <em>duplas</em>. As mais
+antigas
+s&atilde;o de uma grande simplicidade, pois muitas vezes apenas
+constavam de uma bacia, ou escavada no proprio banco de pedra que havia
+junto &aacute; parte inferior das paredes, ou sustentada por uma
+pequena columna isolada, ou por muitas formando grupo. As piscinas que
+s&atilde;o sustentadas por columnas chamam-se
+<em>pediculadas</em>.<br />
+
+<br />
+
+No XII seculo come&ccedil;ou-se a collocar
+<em>piscinas</em> em nichos abertos nas paredes exteriores
+da egreja. As piscinas duplas s&oacute; no fim do XII seculo
+appareceram.<br />
+
+<br />
+
+<em>Doceis</em>.&#8213;Foi durante o periodo roman
+que maior uso tiveram os doceis. Em geral consistem n'uma especie de
+c&uacute;pula quadrada ou polygonal, de marmore, de estuque, ou de
+pedra. Muitas vezes t&ecirc;em um le&atilde;o sentado entre a
+base e o fuste
+<span class="pagenum"><a name="p95">[95]</a></span>
+das columnas. A
+face anterior da c&uacute;pula &eacute; quasi sempre munida de
+uma estante, sobre a qual o di&aacute;cono ou o leitor collocava o
+livro sagrado.<br />
+
+<br />
+
+Esta estante assentava ordinariamente na cabe&ccedil;a de uma
+aguia, symbolo do Evangelista S. Jo&atilde;o; e algumas vezes na de
+um homem munido de azas, emblema de S. Matheus. Quando a estante
+assentava sobre a cabe&ccedil;a de aguia ou de homem com azas, os
+symbolos dos outros evangelistas estavam tambem, &aacute;s vezes,
+representados nos angulos da base da c&uacute;pula.<br />
+
+<br />
+
+Nas egrejas mais ricas havia mesmo doceis cuja c&uacute;pula era
+revestida de oiro, de prata, e de laminas esmaltadas, ou decorada com
+esculpturas sobre marfim.<br />
+
+<br />
+
+<em>Cadeiras episcopaes ou do clero</em>.&#8213;A
+cadeira episcopal nas cathedraes, ou do celebrante nas egrejas
+inferiores, achava-se regularmente, como no periodo Latino, no fundo do
+abside do c&ocirc;ro, contiguo &aacute; muralha; e aos lados
+estendiam-se os bancos ou cadeiras destinadas ao clero. Esta
+disposi&ccedil;&atilde;o,
+que foi conservada at&eacute; nossos dias em algumas egrejas
+romans, era a que havia em todas as egrejas seculares, tanto
+cathedraes, como collegiaes e parochiaes.<br />
+
+<br />
+
+Havia, j&aacute; o dissemos, algumas
+excep&ccedil;&otilde;es a esta regra, como succedia com certas
+collegiaes que possuiam um altar das reliquias no fundo do
+c&ocirc;ro, e com as egrejas monasticas. N'estas ultimas cedo foram
+mudadas as cadeiras para o transepte, e mesmo para o corpo da nave; sem
+duvida por
+<span class="pagenum"><a name="p96">[96]</a></span>
+causa do grande numero
+de religiosos, que era impossivel collocar convenientemente na
+curvatura do c&ocirc;ro.<br />
+
+<br />
+
+Durante a maior parte do periodo roman os bancos dos padres foram de
+marmore ou de pedra como anteriormente. As cadeiras ou
+<em>f&oacute;rmas</em>, <em>formulae</em>,
+de madeira, foram
+raras at&eacute; ao fim do XII seculo; apenas se encontram algumas
+que escaparam &aacute; destrui&ccedil;&atilde;o.
+V&ecirc;-se
+perfeitamente que estas cadeiras, apezar de bem feitas em madeira,
+imitam todavia exactamente as antigas de pedra.<br />
+
+<br />
+
+<h4>Capellas funerarias, tumulos e pedras
+tumulares</h4>
+
+<br />
+
+<em>Capellas funerarias</em>.&#8213;Construiram-se
+algumas vezes, nos cemiterios e na proximidade das egrejas, capellas
+funebres, de f&oacute;rma circular ou polygonal, &aacute;
+similhan&ccedil;a da rotunda construida pelo imperador
+Constantino sobre o Santo Sepulchro, ou o mausol&eacute;u de
+Theodorico em Ravenna (Italia).<br />
+
+<br />
+
+<em>Tumulos</em>.&#8213;O costume de encerrar em
+sarcophagos os restos mortaes das pessoas ricas e poderosas existiu no
+Norte da Europa at&eacute; ao XII seculo, e nos paizes meridionaes,
+isto &eacute;, no Sul da Fran&ccedil;a, na Italia e na Hespanha
+existiu pelo menos at&eacute; ao XIV. Estes sarcophagos constavam,
+como no periodo antecedente, de cofres oblongos, de pedra ou de
+marmore, muitas vezes mais estreitos para o lado dos p&eacute;s, e
+fechados por uma tampa convexa ou em f&oacute;rma de telhado de
+duas aguas. Eram esculpidos com ornatos e symbolos; flor&otilde;es,
+folhagens, monogrammas, cruzes e alguns assumptos
+<span class="pagenum">[97]</span>
+allegoricos. Collocavam-nos
+habitualmente sobre pequenos pilares grossos, ou sobre columnas curtas
+s&oacute; com o fim de os isolar do solo.<br />
+
+<br />
+
+Durante o periodo roman tambem foi adoptado o uso dos <em>cenotaphios</em>
+que consistem
+em s&oacute;cos de pedra, macissos d'alvenaria ou grupos de
+columnas, assentes sobre uma sepultura subterranea e sustentando ou um
+sarcophago simulado ou a effigie do defunto. Em t&ocirc;rno do
+s&oacute;co ou do macisso d'alvenaria acha-se disposta uma serie de
+pequenas columnas. Umas vezes s&atilde;o unidas por meio d'arcos,
+outras, o rebordo da grande lage que cor&ocirc;a o s&oacute;co
+&eacute; apoiado sobre as columnas. No XII seculo, os cenotaphios
+come&ccedil;aram a ser encimados pela effigie do defunto, esculpida
+em relevo e &aacute;s vezes at&eacute; mesmo gravada ao
+tra&ccedil;o ou representada em esmalte. O personagem &eacute;
+geralmente collocado estendido sobre um leito e tem todas as insignias
+da sua dignidade; os bispos est&atilde;o com a mitra e o
+b&aacute;culo pastoral; os reis e os principes, com o sceptro e a
+cor&ocirc;a. Estas estatuas deitadas n&atilde;o apresentam o
+aspecto d'um morto; porque t&ecirc;em os olhos abertos, os gestos e
+attitudes de pessoas vivas.<br />
+
+<br />
+
+Alguns anjinhos fazem balancear thuribulos ou sustentam a almofada
+sobre que assenta a cabe&ccedil;a do personagem.<br />
+
+<br />
+
+<em>Tumulos n&atilde;o apparentes</em>.
+Consistem, como os do periodo anterior, em cofres de pedra ou de
+alvenaria mais largos do lado da cabe&ccedil;a que dos
+p&eacute;s e fechados por uma tampa chata ou prismatica.
+<span class="pagenum"><a name="p98">[98]</a></span>
+No interior do cofre encontra-se algumas
+vezes, principalmente do XI at&eacute; ao XIV seculo, um
+espa&ccedil;o
+circular destinado a receber a cabe&ccedil;a do cadaver. Alguns
+t&ecirc;em no fundo dois regos, no prolongamento dos quaes
+est&aacute; feita uma abertura destinada a dar vas&atilde;o
+&aacute;s materias viscosas.<br />
+
+<br />
+
+<em>Pedras tumulares</em>. O uso das pedras
+tumulares continuou durante o periodo roman. Em geral t&ecirc;em a
+f&oacute;rma d'um trapezio; algumas tambem, as mais antigas,
+s&atilde;o rectangulares. A sua
+decora&ccedil;&atilde;o em geral consiste em figuras
+geometricas, folhagens ou figuras symbolicas, e raras vezes se
+l&ecirc; o nome do defuncto, e a causa e data do seu fallecimento.<br />
+
+<br />
+
+<em>Pias baptismaes</em>. As pias baptismaes
+eram de grandes dimens&otilde;es durante todo o periodo roman, por
+isso que se continuou a administrar o baptismo por immers&atilde;o
+at&eacute; ao XII seculo. As pias eram em geral de pedra; comtudo
+algumas havia de bronze e outras de cobre. Em Fran&ccedil;a e
+especialmente na Inglaterra tambem as havia de chumbo.<br />
+
+<br />
+
+As pias romans eram de variadissimas f&oacute;rmas; sendo algumas
+similhantes a uma vasilha.<br />
+
+<br />
+
+O grande impulso que na Allemanha teve a arte da ourivesaria durante o
+XI seculo, longe de affrouxar no seculo seguinte, p&ocirc;de
+conservar-se na vanguarda do movimento artistico da Europa Central e
+Occidental.<br />
+
+<br />
+
+Com a applica&ccedil;&atilde;o do
+<em>esmalte</em>, os objectos d'ourivesaria mudaram
+completamente d'aspecto no XI e XII seculos. At&eacute; ali a
+accumula&ccedil;&atilde;o das pedrarias
+<span class="pagenum"><a name="p99">[99]</a></span>
+ligadas por folhagens de
+filigranas constituia todo o segredo
+d'ornamenta&ccedil;&atilde;o dos ourives do
+Occidente; desde o fim do X seculo que as laminas duplas e lavradas
+alternam a maior parte das vezes com laminas esmaltadas. Estas
+encontram-se n&atilde;o s&oacute; nas grandes pe&ccedil;as
+d'ourivesaria, taes como as molduras e as alfaias dos altares, mas
+at&eacute; nos menores objectos.<br />
+
+<br />
+
+Os primeiros esmaltes fabricados na Allemanha foram engastados em ouro
+e prata, semelhantes aos que os Bysantinos fabricavam durante a segunda
+metade do X seculo; mais tarde tambem se empregou o cobre com o qual se
+douravam as partes que ainda ficavam visiveis depois da
+incrusta&ccedil;&atilde;o do esmalte. Foi a come&ccedil;ar
+no XI seculo que em algumas localidades substituiram o esmalte
+introduzido no rebaixo pelo dividido em
+separa&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+At&eacute; meado do seculo XII, a influencia Bysantina &eacute;
+apparente nos esmaltadores Rhenanos. Durante bastante tempo, com
+effeito, os esmaltadores allem&atilde;es imitaram o estylo
+Oriental, reproduzindo mais ou menos fielmente typos bysantinos,
+modificando-os comtudo segundo o seu proprio engenho. Os seus processos
+technicos tambem se resentem da origem Bysantina da arte
+allem&atilde;: &eacute; assim, por exemplo, que, nos esmaltes
+em separa&ccedil;&atilde;o, e
+at&eacute; mesmo nos mais antigos esmaltes executados em rebaixos,
+as carna&ccedil;&otilde;es s&atilde;o
+substituidas pela pasta vitrea, a exemplo do que se praticava em
+Constantinopla. Com tudo isto, os esmaltadores das margens do Rheno
+n&atilde;o tardaram em gravar sobre metal
+<span class="pagenum">[100]</span>
+reservado, as figuras de pequenas
+dimens&otilde;es, emquanto que para as grandes, continuaram ainda,
+durante algum tempo, a esmaltar as roupas; e n'este caso s&oacute;
+se serviam da gravura para as
+carna&ccedil;&otilde;es. No final do XII seculo, para proceder
+sem duvida d'uma maneira mais expedita, come&ccedil;aram a gravar
+figuras inteiras, ainda mesmo que tivessem uma certa grandeza, e quasi
+que n&atilde;o era preciso gravar com esmaltes os entalhos, muitas
+vezes grandes e profundos da gravura.<br />
+
+<br />
+
+Em Fran&ccedil;a, os ourives do XI seculo e dos primeiros annos do
+XII, continuaram a servir-se exclusivamente, para a
+decora&ccedil;&atilde;o das suas obras, de placas cinzeladas ou
+at&eacute; simplesmente estampadas, e
+d'applica&ccedil;&otilde;es de pedrarias ligadas com
+filigranas. At&eacute; 1145 os ourives francezes ignoravam o modo
+de gravar do esmalte; tanto que, quando no principio d'esse anno, <em>Suger</em>,
+abbade
+do mosteiro de S. Diniz, proximo de Paris, quiz mandar fazer uma peanha
+e cobril-a de placas de esmalte engastadas sobre cobre, viu-se
+obrigado, segundo elle mesmo conta, a chamar em seu auxilio ourives da
+Lotharingia, em numero de cinco ou sete, que tiveram o trabalho de
+terminar esta obra em dois annos.<br />
+
+<br />
+
+As produc&ccedil;&otilde;es dos primeiros esmaltadores
+francezes apresentam grandes analogias com as dos allem&atilde;es
+do Rheno, que vieram ensinar a arte de esmaltar, em Fran&ccedil;a.<br />
+
+<br />
+
+Uma vez come&ccedil;ado, o gosto pela ourivesaria esmaltada em
+breve foi augmentando em Fran&ccedil;a, e
+<span class="pagenum"><a name="p101">[101]</a></span>
+deu logar a que, em 1160, se creasse
+uma celebre escola de esmaltadores em cobre cuja s&eacute;de foi em
+Limoges.<br />
+
+<br />
+
+Nos primeiros ensaios, os ourives de Limoges procuraram dar aos seus
+esmaltes o aspecto do dos allem&atilde;es; representavam as figuras
+inteiras, at&eacute; as proprias carna&ccedil;&otilde;es,
+com
+c&ocirc;res d'esmalte; s&oacute; aproveitavam o metal para lhe
+fazer tra&ccedil;ar as principaes linhas do desenho. Em pouco
+tempo, para mais rapida e mais barata produc&ccedil;&atilde;o,
+renunciaram a este processo e principiaram a gravar logo sobre o metal,
+todas as figuras e a esmaltar <em>apenas</em> o fundo.
+Muitas vezes
+at&eacute; substituiam as partes gravadas por&nbsp; figuras em
+alto relevo de bronze fundido e cinzelado. Os esmaltadores de Limoges
+cederam em parte a sua obra ao gravador, ao esculptor, ao fundidor e ao
+cinzelador, limitando assim o seu trabalho &aacute; simples
+decora&ccedil;&atilde;o dos fundos,
+opera&ccedil;&atilde;o que se tornava pouco
+difficil.<br />
+
+<br />
+
+Pelo lado artistico o esmalte rhenano &eacute; muito superior ao de
+Limoges. Os esmaltes fabricados no XI e no XII seculo nas margens do
+M&oacute;sa, em Li&ecirc;ge, Maestricht, Stavelot, em Waulsort
+e em Gembloux t&ecirc;em os caracteres da escola rhenana, cujo
+principal centro de fabrico era em Colonia, constituindo por isso uma
+variedade dos esmaltes rhenanos. As differen&ccedil;as que se
+encontram entre os esmaltes com rebaixo de Limoges, os do Rheno e os do
+M&oacute;sa s&atilde;o estas: nos primeiros predominam as
+c&ocirc;res azul e verde claros, em quanto que nos outros
+s&atilde;o o verde e o azul carregados. Os esmaltadores
+<span class="pagenum"><a name="p102">[102]</a></span>
+do Rheno e os do
+M&oacute;sa servem-se d'algumas c&ocirc;res que lhes
+s&atilde;o proprias; o bello azul de torqueza, o branco de leite, o
+vermelho de purpura muito vivo e o preto. Os tons s&atilde;o mais
+harmonicos na Belgica e na Allemanha, e mais vivos e asperos na
+Fran&ccedil;a. Os esmaltes do Rheno e do M&oacute;sa reproduzem
+scenas em que toma parte um grande numero de personagens, com
+inscrip&ccedil;&otilde;es latinas em verso, gravadas e
+encrustadas de esmalte; nos de Limoges n&atilde;o se encontram
+inscrip&ccedil;&otilde;es a n&atilde;o ser apenas um ou
+outro nome. Os differentes lav&ocirc;res que os esmaltadores do
+Rheno e do
+M&oacute;sa executavam sobre o cobre e com as
+incrusta&ccedil;&otilde;es de esmalte, s&atilde;o notaveis
+pelo bom gosto e variedade de assumptos, <a href="#e3">qualidade</a>
+que se
+n&atilde;o encontra entre os de Limoges.<br />
+
+<br />
+
+Os objectos, grandes ou pequenos, ornados com esmaltes do
+M&oacute;sa ou do Rheno apresentam geralmente uma particularidade
+que se n&atilde;o observa na ourivesaria franceza contemporanea.
+T&ecirc;em, al&eacute;m das placas esmaltadas, filigranas e
+pedrarias, placas de cobre vermelho com ornatos e
+inscrip&ccedil;&otilde;es douradas sobre campo brunido ou
+vice-versa.<br />
+
+<br />
+
+<em>Calices e pat&ecirc;nas</em>. Conservou-se, durante
+o periodo roman, o uso dos calices ordinarios e
+ministeriaes.<br />
+
+<br />
+
+Os calices ordinarios do VIII e do IX seculo, t&ecirc;em muitas
+vezes, como os do periodo Latino, a ta&ccedil;a profunda e
+estreita, o p&eacute; pequeno e ligado &aacute;
+ta&ccedil;a por um simples n&oacute; sem haste.<br />
+
+<br />
+
+No IX seculo come&ccedil;ou a usar-se a ta&ccedil;a maior, e
+<span class="pagenum"><a name="p103">[103]</a></span>
+&aacute;s vezes de
+f&oacute;rma espherica e com azas. O
+p&eacute; conserva-se ainda n'este seculo com as mesmas
+dimens&otilde;es que nos precedentes.<br />
+
+<br />
+
+Os calices do XI e do XII seculos t&ecirc;em a ta&ccedil;a e o
+p&eacute; muito grandes, o n&oacute; bastante grosso e a
+haste curta quando a t&ecirc;em.<br />
+
+<br />
+
+Na Allemanha encontram-se calices do XII seculo que t&ecirc;em o
+exterior da ta&ccedil;a inteiramente coberto de
+medalh&otilde;es, de esmaltes, de pedrarias e de filigranas; estes
+ornatos s&atilde;o apenas interrompidos por um pequeno
+espa&ccedil;o semi-circular destinado para o padre applicar o labio
+inferior durante a communh&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+Os mysterios da vida e da paix&atilde;o do Salvador e
+principalmente a sua crucifix&atilde;o, eram os assumptos que os
+artistas mais gostavam de reproduzir sobre os medalh&otilde;es
+circulares ou ovaes com que decoravam a ta&ccedil;a e o
+p&eacute; dos calices.<br />
+
+<br />
+
+Em geral comp&otilde;em-se d'um reservatorio sustentado por um
+grosso fuste cylindrico, ou mesmo por um pilar quadrado, e tambem se
+encontram alguns cujos angulos se apoiam sobre quatro columnas.<br />
+
+<br />
+
+Estas pias baptismaes, exteriormente quadradas, s&atilde;o os
+reservatorios circulares e ovaes, tendo as faces externas esculpidas
+com flor&otilde;es, folhagens, arcos, animaes phantasticos,
+carrancas e at&eacute; &eacute; facil v&ecirc;rem-se
+assumptos legendarios ou historicos.<br />
+
+<br />
+
+<em>Grades</em>. Os romanos faziam muitas
+vezes grades fundidas em bronze. Na Italia e no Sul da Allemanha
+<span class="pagenum"><a name="p104">[104]</a></span>
+ainda se empregaram
+at&eacute; ao XI seculo. estas grades.<br />
+
+<br />
+
+Carlos Magno empregou o bronze nas grades da egreja de Aix-la-Chapelle
+que foram, assim como o edificio de que fazem parte, uma
+importa&ccedil;&atilde;o meridional.<br />
+
+<br />
+
+Durante o XI e XII seculo, as grades eram compostas de montantes
+verticaes mettidos n'uma moldura e encerrando ornatos formados de
+barras, de sec&ccedil;&atilde;o quadrada ou rectangular; estes
+ornatos consistem em geral em curvas entrela&ccedil;adas.<br />
+
+<br />
+
+<h4>Alfaias religiosas</h4>
+
+<br />
+
+No seculo VIII estavam as artes e as sciencias inteiramente decahidas
+no Occidente, em consequencia das continuas guerras provocadas pelas
+invas&otilde;es dos barbaros. Os processos technicos das artes
+industriaes e mais faceis d'adoptar tinham quasi
+ca&iacute;do no esquecimento. No
+imperio do Oriente, pelo contrario, o culto das artes n&atilde;o
+cessou de prosperar desde Constantino Magno at&eacute; ao XI seculo
+inclusivamente, gra&ccedil;as &aacute;
+protec&ccedil;&atilde;o generosa dos imperadores bysantinos.
+Tambem, logo que se seguiram os primeiros momentos de socego depois das
+tempestades politicas, pensou-se na Italia e no resto do Occidente em
+dotar d'alfaias convenientes as egrejas, e basilicas que se acabavam de
+construir ou de restaurar e para isso foram obrigados a dirigirem-se a
+Constantinopla tanto para proc
+No seculo VIII estavam as artes e as sciencias inteiramente decahidas
+no Occidente, em consequencia das continuas guerras provocadas pelas
+invas&otilde;es dos barbaros. Os processos technicos das artes
+industriaes e mais faceis d'adoptar tinham quasi
+ca&iacute;do no esquecimento. No
+imperio do Oriente, pelo contrario, o culto das artes n&atilde;o
+cessou de prosperar desde Constantino Magno at&eacute; ao XI seculo
+inclusivamente, gra&ccedil;as &aacute;
+protec&ccedil;&atilde;o generosa dos imperadores bysantinos.
+Tambem, logo que se seguiram os primeiros momentos de socego depois das
+tempestades politicas, pensou-se na Italia e no resto do Occidente em
+dotar d'alfaias convenientes as egrejas, e basilicas que se acabavam de
+construir ou de restaurar e para isso foram obrigados a dirigirem-se a
+Constantinopla tanto para procurar os objectos que desejavam como para
+obter
+<span class="pagenum"><a name="p105">[105]</a></span>
+artistas aptos que
+annuissem a vir trabalhar no Occidente.<br />
+
+<br />
+
+Durante muito tempo os artistas verdadeiramente dignos d'este nome,
+pintores, esculptores, ourives e outros, continuaram a vir de Bysancio,
+e quando no principio do IX seculo, Carlos Magno quiz decorar com
+mosaicos e enriquecer com vasos sagrados e outros objectos d'arte o
+edificio religioso que elle acab&aacute;ra de construir em
+Aix-la-Chapelle, teve que se dirigir a artistas gregos ou aos
+discipulos que se haviam formado na Italia, particularmente em Ravenna.
+<br />
+
+<br />
+
+Com os inferiores successores d'este principe, a arte cessou de ter
+desenvolvimento, retrocedendo tanto na Europa central como na
+Occidental, ao mesmo estado de barbaria em que se achava antes dos
+esfor&ccedil;os empregados por Carlos Magno para restabelecer o seu
+progresso.<br />
+
+<br />
+
+No fim do X seculo, produziu-se no Occidente um movimento util nos
+estudos artisticos; os artistas gregos foram ainda aqui, como mais
+tarde na Italia, os iniciadores que presidiram a este movimento
+instructivo.<br />
+
+<br />
+
+A restaura&ccedil;&atilde;o artistica, come&ccedil;ada sob
+a influencia dos artistas bysantinos, foi extremamente rapida na
+Allemanha. Desde o fim do X seculo, a escola de Tr&egrave;ves,
+dirigida pelo bispo Egberto, deu nascimento, no territorio germanico, a
+muitos outros centros artisticos creados pelos bispos nos seus palacios
+episcopaes, ou pelos abbades nos seus Mosteiros. Santo Henrique que
+governou o
+<span class="pagenum"><a name="p106">[106]</a></span>
+imperio do
+Occidente durante o primeiro quartel do XI seculo, foi tambem um dos
+grandes promotores da restaura&ccedil;&atilde;o artistica na
+Allemanha.<br />
+
+<br />
+
+Os <em>calices ministeriaes</em> conservaram,
+durante o periodo roman, a mesma f&oacute;rma que tinham tido
+anteriormente. A sua decora&ccedil;&atilde;o &eacute; a
+mesma que a dos calices ordinarios. S&atilde;o munidos d'azas com a
+f&oacute;rma de folhagens, ou de drag&otilde;es e d'outros
+animaes phantasticos.<br />
+
+<br />
+
+Nos medalh&otilde;es sobre a ta&ccedil;a representavam-se
+scenas da vida do Salvador; nos do p&eacute;, as quatro virtudes
+Cardeaes e assumptos tirados da historia do Velho Testamento; e nos
+medalh&otilde;es do n&oacute; mostravam-se as
+personifica&ccedil;&otilde;es dos
+quatro rios do Paraizo.<br />
+
+<br />
+
+As pat&ecirc;nas, ordinariamente muito simples, tinham a
+configura&ccedil;&atilde;o d'um pires com um esvasamento
+circular no meio. O fundo interior era liso, com adornos de buril; os
+bordos, por vezes lavrados em relevos ou gravados ao buril, eram de
+pequenas dimens&otilde;es. Encontram-se comtudo algumas
+pat&ecirc;nas da &eacute;poca roman, sobre as quaes abundavam
+os ornatos e as esculpturas.<br />
+
+<br />
+
+<em>Custodias eucharisticas: pyxides e
+ciborios</em>. Desde o XI seculo que as pombas eucharisticas
+foram substituidas em geral pelas pyxides, cuja origem alguns auctores
+reputam ser do V seculo. D&aacute;-se o nome <em>pyxides</em>
+a pequenas caixas de
+marfim, d'onyx, d'ouro, de prata ou de cobre esmaltado, nas quaes se
+guardavam as Sagradas particulas. Suspendiam-se, debaixo do docel do
+altar, n'uma bolsa de tecido
+<span class="pagenum">[107]</span>
+precioso, ou ent&atilde;o collocavam-se n'um pequeno nicho
+aberto em parede proxima do altar.<br />
+
+<br />
+
+Durante os primeiros seculos do periodo roman as pyxides de marfim
+empregavam-se em concorrencia com as pombas eucharisticas de metal.<br />
+
+<br />
+
+Consistiam regularmente em pequenas caixas cylindricas, tendo muitas
+vezes no exterior esculpturas em relevo.<br />
+
+<br />
+
+As pyxides do XII e do XIII seculo s&atilde;o ordinariamente de
+cobre dourado e esmaltado; comp&otilde;em-se d'uma pequena caixa
+cylindrica encimada por uma tampa de f&oacute;rma conica ligada ao
+cylindro por uma charneira. Muitas d'estas pyxides sairam das officinas
+dos esmaltadores de Limoges.<br />
+
+<br />
+
+As pyxides romans t&ecirc;em algumas vezes um p&eacute;, e
+s&atilde;o em geral tanto umas como outras de pequenas
+dimens&otilde;es, por isso que apenas servem para guardar um
+pequeno numero d'hostias necessarias para dar o Sagrado Viatico aos
+doentes em perigo de vida.<br />
+
+<br />
+
+Todas as pyxides anteriores ao XVI seculo, com raras
+excep&ccedil;&otilde;es, t&ecirc;em a tampa ligada ao
+cylindro por meio de charneira.<br />
+
+<br />
+
+<em>Relicarios</em>. Consideraram-se
+primeiramente como reliquias os restos mortaes dos Santos,
+por&eacute;m, hoje t&ecirc;em um sentido mais lato;
+considerando-se tambem como taes os paramentos e outros objectos usados
+por elles durante a sua vida mortal. A Egreja professou sempre um
+grande respeito pelas reliquias, prestando-lhes um culto particular. Em
+vista d'isto n&atilde;o &eacute; para admirar que nos primeiros
+<span class="pagenum"><a name="p108">[108]</a></span>
+seculos se fabricasse um
+t&atilde;o grande numero e diversidade de relicarios, afim de
+conservarem estes preciosos thesouros e exp&ocirc;l-os &aacute;
+venera&ccedil;&atilde;o dos fieis.<br />
+
+<br />
+
+<em>Relicarios da verdadeira Cruz</em>. A
+maior parte dos relicarios que cont&eacute;em parcellas da
+verdadeira Cruz foram trazidos do Oriente na &eacute;poca das
+Cruzadas, ou fabricados na Europa segundo os mod&ecirc;los
+bysantinos. S&atilde;o ricamente cravejados de pedraria e
+d'esmaltes, e t&ecirc;em muitas vezes a f&oacute;rma de uma
+dupla cruz chamada cruz do Santo Sepulchro, de Lorrena ou de Caravalla.
+Como a travessa superior d'esta cruz &eacute; menor que a inferior,
+leva isto a supp&ocirc;r que o que parece uma
+repeti&ccedil;&atilde;o dos bra&ccedil;os seja simplesmente
+o
+<em>titulo</em> da cruz, pelo qual os Gregos e os Orientaes
+sempre tiveram especial venera&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+Tambem muitas vezes se collocavam as reliquias da Sagrada madeira n'uma
+cruz com uma simples travessa.<br />
+
+<br />
+
+As reliquias da verdadeira Cruz, encerradas n'uma cruzeta, muitas vezes
+com duas travessas, eram tambem muitas vezes emmolduradas n'uma placa
+metallica ricamente ornada e fixa sobre um centro de madeira. Estes
+relicarios, com a f&oacute;rma d'um pequeno quadro rectangular ou
+d'um triptyco, eram mettidos em ricos estojos guarnecidos d'esmaltes,
+filigranas e pedras preciosas.<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o eram s&oacute; os relicarios da madeira da
+verdadeira Cruz, que tinham a f&oacute;rma d'uma cruz com duas
+travessas horisontaes; os proprios ed&iacute;ficios
+<span class="pagenum">[109]</span>
+em que se conservavam estes relicarios
+eram muitas vezes encimados com uma cruz do mesmo genero. Nas parochias
+em que os campanarios tinham a dita cruz, eram collocadas sobre os
+tumulos n'ellas existentes, cruzes de madeira ou de pedra com a mesma
+f&oacute;rma.<br />
+
+<br />
+
+<em>Urnas</em>. A urna &eacute; uma
+especie d'um cofre dentro do qual s&atilde;o guardadas as reliquias
+d'um Santo. O emprego das urnas vulgarisou-se desde o XI seculo. Ha-as <em>grandes</em>
+e
+<em>pequenas</em>. As grandes urnas t&ecirc;em o feitio
+d'um pequeno edificio rectangular, com a f&oacute;rma de telhado de
+duas vertentes; ha algumas, como a dos Reis Magos em Colonia, que
+imitam uma egreja com as suas paredes exteriores.<br />
+
+<br />
+
+Em geral s&atilde;o cobertas de placas de metal ornadas com
+filigranas, esmaltes e pedrarias. Christo lan&ccedil;ando a
+ben&ccedil;&atilde;o, sentado ou em
+p&eacute;, s&oacute; ou no meio de dois Santos, occupa
+ordinariamente uma das faces extremas, e na outra face a Santissima
+Virgem entre dois Santos cujas reliquias a urna encerra. As faces
+lateraes s&atilde;o divididas por arcadas de volta inteira ou
+abatida, debaixo das quaes se v&ecirc;em as figuras dos Apostolos
+ou d'outros Santos; emfim, as vertentes da
+imita&ccedil;&atilde;o de telhado s&atilde;o decoradas com
+baixos relevos. Os esmaltes servem de caixilhos aos differentes
+assumptos e cobrem tanto as archivoltas como as columnas das arcadas.
+Ha tambem urnas exclusivamente feitas de placas esmaltadas.<br />
+
+<br />
+
+As urnas pequenas, muito triviaes nos seculos XII e XIII,
+t&ecirc;em a f&oacute;rma d'um cofre oblongo, coberto
+<span class="pagenum">[110]</span>
+com uma tampa semelhante a um
+telhado de duas aguas. Comp&otilde;em-se em geral de placas de
+cobre vermelho, esmaltadas segundo o processo do buril. Tanto as quatro
+faces da urna, como a tampa s&atilde;o adornadas de figuras e
+algumas vezes com assumptos completos. Merecem
+atten&ccedil;&atilde;o as
+figuras pela gravura em relevo ou pelo seu modo de
+execu&ccedil;&atilde;o especial.<br />
+
+<br />
+
+Sobre muitas d'estas urnas se v&ecirc;em em relevo as
+cabe&ccedil;as e as m&atilde;os ou s&oacute;mente as
+cabe&ccedil;as; nas mais antigas, em vez de serem simplesmente
+gravadas, s&atilde;o incrustadas de esmalte.<br />
+
+<br />
+
+D'ordinario o trabalho &eacute; rude e barbaro e o desenho deixa
+muito a desejar com rela&ccedil;&atilde;o a
+correc&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+A tampa &eacute; geralmente terminada por uma lamina de cobre
+recortada em f&oacute;rma de crista.<br />
+
+<br />
+
+Pertencem em geral estas urnas ao trabalho dos esmaltadores de Limoges.
+<br />
+
+<br />
+
+Tambem se t&ecirc;em encontrado urnas romanas de pedra, marfim e
+mesmo de madeira.<br />
+
+<br />
+
+<em>Estatu&ecirc;tas</em>,
+<em>bustos</em>,
+<em>bra&ccedil;os</em>,
+<em>p&eacute;s</em>, etc. No seculo X,
+come&ccedil;ou-se a collocar as reliquias em estatu&ecirc;tas,
+bustos, ou relicarios de metal ricamente ornamentados e imitando a
+f&oacute;rma do corpo humano a que ellas haviam pertencido. Assim,
+quando queriam guardar os ossos d'um p&eacute;, ou d'um
+bra&ccedil;o, dava-se ao relicario a f&oacute;rma de qualquer
+d'estes dois modelos. Continuaram a usar-se estes relicarios durante os
+seculos seguintes, tornando-se bastante vulgares.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[111]</span>
+<em>Urnas de marfim</em>. Encontram-se, com
+frequencia, nos thesouros das egrejas e nas
+collec&ccedil;&otilde;es d'objectos antigos, cofres de marfim
+cobertos de esculpturas decorativas e legendarias. As que offerecem
+assumptos religiosos ou alguns signaes de symbolismo
+christ&atilde;o, e que por consequencia foram executadas para o
+servi&ccedil;o do culto, s&atilde;o
+extremamente raras. Isto prova que primitivamente eram destinadas aos
+usos profanos, por exemplo, para guarda joias. No entanto
+n&atilde;o &eacute; para admirar que se encontrem nas egrejas,
+pois que umas foram cedidas &aacute;s egrejas como obras artisticas
+offerecidas por bemfeitores generosos; outras, executadas no Oriente,
+serviram aos cavalleiros cruzados para trazerem as reliquias de
+Constantinopla e da Terra Santa. As reliquias vindas do Oriente,
+ficaram encerradas em pequenos cofres, adquiridos por alto
+pre&ccedil;o no Egypto, na Syria e na Asia Menor. Estes pequenos
+cofres, que sahiam d'officinas musulmanas ou indianas, s&atilde;o
+regularmente cobertos de figuras geometricas, d'arabescos d'animaes
+phantasticos e algumas vezes
+d'inscrip&ccedil;&otilde;es Orientaes.<br />
+
+<br />
+
+<em>Frascos de crystal de rocha</em>. D'entre os varios
+objectos de que os cruzados se serviam como
+relicarios, para trazerem reliquias para o Occidente, devemos
+especialmente mencionar os pequenos frascos de crystal de rocha. Estes
+frascos, cuja altura raras vezes excedia dez centimetros, eram ou muito
+simples ou com f&oacute;rmas d'ani. D'entre os varios objectos de
+que os cruzados se serviam como
+relicarios, para trazerem reliquias para o Occidente, devemos
+especialmente mencionar os pequenos frascos de crystal de rocha. Estes
+frascos, cuja altura raras vezes excedia dez centimetros, eram ou muito
+simples ou com f&oacute;rmas d'animaes phantasticos. Muitos
+estiveram
+guardados, durante o
+<span class="pagenum"><a name="p112">[112]</a></span>
+periodo
+ogival, em ricos estojos de ouro ou de prata.<br />
+
+<br />
+
+<em>Diversos relicarios</em>. Ha-os com
+diversas f&oacute;rmas architecturaes imitando, em metal ou em
+marfim, as principaes partes das egrejas romans, e at&eacute; mesmo
+as dos edificios civis.<br />
+
+<br />
+
+<em>Cor&ocirc;as suspensas nos
+altares</em>. Estas cor&ocirc;as conhecidas com o nome de <em>votivas</em>
+eram por
+devo&ccedil;&atilde;o offerecidas a Deus e aos Santos, ou em
+cumprimento d'algum voto. J&aacute; existiam durante o periodo
+latino; como ent&atilde;o, compunham-se de um circulo de metal
+precioso, muitas vezes adornado com o brilho de pedrarias e de
+esmaltes. Fabricou-se grande numero d'estas cor&ocirc;as
+directamente para o servi&ccedil;o dos altares; todavia os antigos
+chronistas designam-nas tambem muitos como offertas feitas por reis e
+principes, de cor&ocirc;as d'ouro e de prata e que elles
+precedentemente cingiam como insignia de realeza.<br />
+
+<br />
+
+<em>Cor&ocirc;as para luzes</em>. As
+cor&ocirc;as para luzes continuaram a usar-se durante o periodo
+roman e as mais bellas que a idade media nos legou s&atilde;o
+d'esta &eacute;poca.<br />
+
+<br />
+
+Todas estas cor&ocirc;as, guarnecidas de torres e ameias parecem
+alludir &aacute; vis&atilde;o de que falla S. Jo&atilde;o
+no capitulo XXI do Apocalypse. <em>Deus me
+mostrar&aacute; a santa cidade de Jerusalem, que desceu do Ceu,
+mandada por Deus...</em> representada por uma alta muralha,
+franqueada por d&ocirc;ze portas; vendo-se a estas portas
+d&ocirc;ze anjos, e tendo gravados os nomes das d&ocirc;ze
+tribus de Israel. As portas
+<span class="pagenum"><a name="p113">[113]</a></span>
+ficavam tres ao Oriente, tres ao Norte, tres ao Sul e tres ao
+Occidente. A muralha tinha d&ocirc;ze socalcos, em que se achavam
+gravados os nomes dos d&ocirc;ze Apostolos.<br />
+
+<br />
+
+Suspendiam-se estas cor&ocirc;as no c&ocirc;ro proximo do altar
+e tambem no ponto de intersec&ccedil;&atilde;o da nave com o
+transepte, quando eram muito grandes.<br />
+
+<br />
+
+A cor&ocirc;a para luzes de Aix-la-Chapelle tem oito metros de
+circumferencia; &eacute; composta de oito arcos de circulo
+unindo-se de maneira que formam angulos reintrantes. Estes angulos
+s&atilde;o guarnecidos de lanternas em f&oacute;rma de
+torrinhas redondas havendo, no ponto medio de cada arco de circulo, uma
+torre quadrada maior. Entre cada torrinha podem ser collocadas tres
+vellas; como s&atilde;o dezeseis torres, oito quadradas e oito
+redondas, a cor&ocirc;a p&oacute;de receber quarenta e oito
+luzes em todo o seu circuito. Duas inscrip&ccedil;&otilde;es
+latinas se
+l&ecirc;em em t&ocirc;rno do circulo metallico, indicando a
+data do XII seculo em que foi dada &aacute; egreja de
+Aix-la-Chapelle pelo imperador Frederico Barba-r&ocirc;xa.<br />
+
+<br />
+
+<em>Cruzes d'altar e para as
+prociss&otilde;es</em>. At&eacute; ao final do XV seculo,
+n&atilde;o havia distinc&ccedil;&atilde;o
+alguma entre as cruzes do altar e as procissionarias ou estacionarias.
+A mesma cruz servia para ambos os fins; collocava-se sobre o altar
+fixando-a em uma peanha, trazia-se em prociss&atilde;o na
+extremidade d'uma vara comprida.<br />
+
+<br />
+
+As cruzes d'altar romans, ordinariamente de cobre, de prata, ou mesmo
+d'ouro, t&ecirc;em em geral apenas uma s&oacute; cruzeta; as
+mais antigas s&atilde;o de
+f&oacute;rma
+<span class="pagenum">[114]</span>
+Trina,
+e cravejadas de perolas ou de variadas pedrarias. Mais tarde, no XI e
+no XII seculos, s&atilde;o ent&atilde;o compostas com a imagem
+de Christo, sendo os ramos da cruz de desiguaes dimens&otilde;es,
+isto &eacute;, deixam de ter a f&oacute;rma Trina.<br />
+
+<br />
+
+Grande parte das cruzes d'altar romans s&atilde;o de cobre vermelho
+adornado com esmaltes entalhados ao buril, outras comp&otilde;em-se
+de simples laminas de cobre sobre as quaes se reproduzem em esmalte a
+imagem do Divino crucificado ou outros symbolos religiosos. Muitas
+cruzes s&atilde;o formadas de madeira, tendo as duas faces ou
+s&oacute; a principal revestidas com placas esmaltadas. A imagem de
+Christo era representada n'estas cruzes e em alto-relevo. O <em>perizonium</em>,
+que cobre
+os rins e a cor&ocirc;a que cinge a cabe&ccedil;a do Salvador,
+s&atilde;o ordinariamente esmaltados e os olhos representados por
+fragmentos de vidro azul.<br />
+
+<br />
+
+No fim do periodo roman, as peanhas em que se fixavam as cruzes para as
+collocar sobre o altar eram muitas vezes d'uma riqueza notavel; algumas
+eram de f&oacute;rma triangular, a mais geral; e outras tinham
+quatro faces. Em cada um dos quatro angulos, d'estas ultimas,
+apresentam um Evangelista escrevendo textos relativos &aacute; vida
+ou
+&aacute; morte do Salvador. Queria-se d'este modo symbolisar a
+diffus&atilde;o, pela pr&eacute;dica do Evangelho, da
+F&eacute; em Jesus-Christo, Redemptor do genero humano.<br />
+
+<br />
+
+<em>Candelabros</em>. Os candelabros eram em
+geral pequenos e terminavam na sua parte superior por uma dirandella
+ponteaguda. A f&oacute;rma d'estes candelabros
+<span class="pagenum">[115]</span>
+do XII seculo,
+var&iacute;a pouco; consta em geral de um p&eacute; assente
+sobre tres patas de le&atilde;o ou em tres corpos de
+drag&atilde;o; um n&oacute; de folhagens ou de
+drag&otilde;es enroscados; e uma dirandella bastante concava,
+sustentada por tres ou quatro pequenos animaes phantasticos que se
+assimilham aos drag&otilde;es ou aos lagartos com azas.<br />
+
+<br />
+
+O contraste que existe entre os pequenos candelabros d'outro tempo e os
+que actualmente se empregam de excessiva altura, explica-se da seguinte
+maneira: deram aos candelabros e ciriaes uma t&atilde;o descommunal
+altura que obrigaram a substituir as antigas velas de c&ecirc;ra
+por um cirial simulado e accrescentado com uma vela. N&atilde;o
+devemos esquecer que os ciriaes se accendem em homenagem ao Crucifixo
+ou ao Santissimo Sacramento, e que portanto n&atilde;o devem
+exceder em altura o tabernaculo. Comprehende-se, pois, a
+raz&atilde;o por que um candelabro d'altar &eacute; maior e
+mais monumental que outro qualquer de sala.<br />
+
+<br />
+
+<em>Candelabros para o Cirio Pascal</em>. Tinham uma altura
+bastante consideravel.<br />
+
+<br />
+
+A ornamenta&ccedil;&atilde;o d'estes candelabros, destinados a
+sustentar o Cirio Pascal, era analoga &aacute; dos candelabros
+d'altar. N'elles se encontram, tanto no p&eacute; como na
+dirandella, os drag&otilde;es e os lagartos com azas (geralmente no
+numero de tres), as folhagens e os flor&otilde;es. Em alguns,
+tambem se representavam varios personagens e diversos outros assumptos
+nas facetas do p&eacute;.<br />
+
+<br />
+
+<em>Candelabros de sete
+bra&ccedil;os</em>. Estes candelabros
+<span class="pagenum"><a name="p116">[116]</a></span>
+sempre de bronze, usavam-se desde o
+periodo roman, e talvez antes. Destinados, sem duvida, a fazer recordar
+o antigo candelabro dos israelitas, s&atilde;o tambem muito
+elevados. O p&eacute;, o n&oacute;
+e os ramos eram ordinariamente ornados.<br />
+
+<br />
+
+Os bra&ccedil;os est&atilde;o collocados, em geral, no mesmo
+plano, tres de cada lado da haste central e as dirandellas tambem se
+encontram ao mesmo nivel.<br />
+
+<br />
+
+<em>Evangeliarios</em>. Durante o periodo
+roman, trataram, como at&eacute; ali, de reproduzir o mais
+correctamente possivel o texto Sagrado; e continuaram do mesmo modo a
+transcrever os exemplares de luxo com lettras de ouro sobre velino
+branco ou c&ocirc;r de purpura.<br />
+
+<br />
+
+As Biblias completas e os evangeliarios, isto &eacute;, os
+manuscriptos em que se encerra o texto dos quatro Evangelhos,
+s&atilde;o em geral ornados com um grande numero de miniaturas
+representando personagens e assumptos do Novo e Velho Testamentos, e
+at&eacute; mesmo alguns factos legendarios. Todavia, nos mais
+antigos manuscriptos o numero das illustra&ccedil;&otilde;es
+&eacute; geralmente muito menor
+que nos do XI e XII seculos. Encontra-se com frequencia, na parte
+superior de cada Evangelho, a figura do Evangelista, sentado e
+escrevendo o seu livro.<br />
+
+<br />
+
+Egualmente se encontram na parte superior de quasi todos os
+Evangeliarios, miniaturas que occupam muitas paginas, consistindo em
+arcadas sobre columnas, agrupadas &aacute;s t
+Egualmente se encontram na parte superior de quasi todos os
+Evangeliarios, miniaturas que occupam muitas paginas, consistindo em
+arcadas sobre columnas, agrupadas &aacute;s tres e &aacute;s
+quatro, sob um arco commum que abrange toda a largura da
+<span class="pagenum">[117]</span>
+pagina; em cada arcada
+l&ecirc;em-se series de numeros collocados uns debaixo dos outros.<br />
+
+<br />
+
+Estas columnatas formam o que se chamam os <em>canh&otilde;es
+d'Euzebio</em> ou de
+<em>concordancia Evangelica</em>. Foram compostas por
+Euzebio de Cezar&eacute;a para facilitar o estudo comparativo dos
+Evangelhos, e consistem em quadros que indicam, por meio de algarismos
+escriptos na mesma linha horisontal em duas ou mais arcadas, as
+cita&ccedil;&otilde;es dos Evangelhos com
+rela&ccedil;&atilde;o ao mesmo objecto.<br />
+
+<br />
+
+S&atilde;o dez: o primeiro indica todos os logares communs aos
+quatro Evangelhos; o segundo, os que se n&atilde;o l&ecirc;em
+sen&atilde;o em S. Matheus, S.
+Marcos e S. Lucas; o terceiro, o que &eacute; referido por S.
+Matheus, S. Lucas e S. Jo&atilde;o; o quarto, as passagens
+comparativas de S. Matheus, S. Marcos e S. Jo&atilde;o; o quinto, o
+acc&ocirc;rdo de S. Matheus com S. Lucas; o sexto, de S. Matheus
+com S. Marcos; o setimo, de S. Matheus com S. Jo&atilde;o; o
+oitavo, de S. Lucas com S. Marcos; o n&ocirc;no, de S. Lucas com S.
+Jo&atilde;o; emfim o decimo, sob differentes series, o que cada
+evangelista escreveu de particular.<br />
+
+<br />
+
+Cada Evangelho tem &aacute; margem, com tinta preta por ordem
+numerica, a indica&ccedil;&atilde;o de todos os
+versos que o comp&otilde;em; e inferiormente a cada verso
+est&aacute; notado a encarnado o numero do canh&atilde;o a que
+se tem de recorrer para encontrar a concordancia.<br />
+
+<br />
+
+<em>Capas evangeliarias</em>. Durante o
+periodo roman as capas dos livros lithurgicos tinham ordinariamente um.
+Durante o
+periodo roman as capas dos livros lithurgicos tinham ordinariamente um
+comprimento dobrado ou triplicado da
+<span class="pagenum">[118]</span>
+largura. Comtudo j&aacute; havia
+n'essa epoca
+encaderna&ccedil;&otilde;es que se approximavam sensivelmente
+da f&oacute;rma quadrada, que foi a que mais tarde prevaleceu.<br />
+
+<br />
+
+As capas dos livros romans s&atilde;o de metal e tambem de marfim;
+acontecendo muitas vezes reunirem estas duas materias na mesma capa, ou
+servindo de caixilho a uma placa de marfim quadrada ou rectangular e
+com relevos metallicos.<br />
+
+<br />
+
+Os assumptos que mais trivialmente se encontram sobre as capas dos
+evangelhos s&atilde;o: 1.&ordm; O Salvador, sentado ou de
+p&eacute;, lan&ccedil;ando a
+ben&ccedil;&atilde;o e collocado n'uma aureola oval;
+2.&ordm; A
+crucifica&ccedil;&atilde;o de
+Christo; 3.&ordm; A Santissima Virgem com o menino Jesus;
+4.&ordm; Scenas
+tiradas da historia do Novo Testamento.<br />
+
+<br />
+
+Os symbolos dos Evangelistas occupam quasi sempre os quatro angulos das
+capas.<br />
+
+<br />
+
+Para o fim do periodo roman, tambem frequentemente se empregaram, como
+capas de livros lithurgicos, placas esmaltadas, oblongas,
+rectangulares, fabricadas em Limoges, representando a
+crucifica&ccedil;&atilde;o do Senhor, com as figuras
+accessorias.<br />
+
+<br />
+
+<em>Thuribulos</em>. &Eacute; provavel
+que nos primeiros seculos fossem simples vasos com grande diametro e um
+peso consideravel.<br />
+
+<br />
+
+Dos thuribulos anteriores ao XI seculo apenas temos conhecimento pelas
+pinturas das paredes e pelas miniaturas dos manuscriptos.<br />
+
+<br />
+
+S&atilde;o d'uma simplicidade notavel; t&ecirc;em, como todos
+os que se lhes seguiram, a f&oacute;rma espheroidal.<br />
+
+<br />
+
+No XI e XII seculos apparecem thuribulos mais ricos.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[119]</span>
+<em>Caldeirinhas d'agua benta portateis</em>.
+Estas caldeirinhas serviam para levar agua benta aos imperadores, aos
+reis e outros grandes personagens no momento em que entravam na egreja.
+T&ecirc;em a f&oacute;rma d'um c&oacute;ne troncado e
+invertido.<br />
+
+<br />
+
+Geralmente s&atilde;o de pequenas dimens&otilde;es,
+n&atilde;o excedendo 20 centimetros em altura.<br />
+
+<br />
+
+Tambem as ha de marfim e outras de metal. A maior parte tem
+exteriormente duas ordens sobrepostas de figuras em relevo,
+representando assumptos religiosos, figuras de Santos ou symbolos.<br />
+
+<br />
+
+<em>Pentes lithurgicos</em>. Os padres eram
+obrigados a pentear os cabellos e a barba antes de celebrar o Officio
+Divino. O uso dos pentes lithurgicos existiu at&eacute; ao XVI
+seculo, e ainda nos nossos dias se emprega o pente na
+Sagra&ccedil;&atilde;o dos Bispos.<br />
+
+<br />
+
+<em>Os pentes lithurgicos</em> s&atilde;o
+geralmente d'osso ou de marfim e tambem algumas vezes de madeira.<br />
+
+<br />
+
+Uns s&atilde;o maiores do que outros; os maiores s&atilde;o
+guarnecidos com duas ordens oppostas de dentes, tendo uma com mais
+finissimos dentes. O espa&ccedil;o comprehendido entre as duas
+ordens de dentes &eacute; em geral esculpido. Os pentes de menores
+dimens&otilde;es t&ecirc;em apenas uma ordem de dentes, sendo
+egualmente mais ou menos ricamente esculpidos.<br />
+
+<br />
+
+<em>Cadeiras</em>. O uso da cadeira,
+<em>cathedra</em>, foi durante, muito tempo considerado
+como uma prerogativa dos Papas, dos Bispos e dos Soberanos temporaes.<br />
+
+<br />
+
+No fim do periodo Latino e no come&ccedil;o do Roman, as cadeiras,
+eram por vezes feitas &aacute; imita&ccedil;&atilde;o
+<span class="pagenum"><a name="p120">[120]</a></span>
+da cadeira
+<em>cur&uacute;l</em> dos Romanos, a qual
+era formada de duas dobradi&ccedil;as em f&oacute;rma de X,
+entre as quaes assentava um coxim. Os ramos das
+dobradi&ccedil;as d'esta especie de cadeiras romans s&atilde;o
+ordinariamente terminados, superiormente, por cabe&ccedil;as
+d'animaes e inferiormente por patas ou garras; como tambem succede com
+as cadeiras cur&uacute;es mais ricamente esculpidas.<br />
+
+<br />
+
+As cadeiras romans t&ecirc;em d'ordinario a f&oacute;rma d'um
+cofre rectangular, n&atilde;o tendo costas nem t&atilde;o pouco
+bra&ccedil;os. Adornavam-nas com
+incrusta&ccedil;&otilde;es de marfim, ouro, prata ou outros
+metaes; eram estofadas de preciosos brilhantes e damascos. As cadeiras
+de costas altas s&atilde;o raras.<br />
+
+<br />
+
+<em>Baculos pastoraes</em>. Desde os
+primeiros seculos que os Bispos empunhavam o bast&atilde;o pastoral
+como insignia da sua dignidade. Mais tarde foi este privilegio
+extensivo aos abbades dos grandes mosteiros.<br />
+
+<br />
+
+Os bast&otilde;es pastoraes mais antigos eram de duas
+f&oacute;rmas diversas: havia o bast&atilde;o em
+f&oacute;rma de muleta e o bast&atilde;o em <em>voluta</em>.
+O
+primeiro, pela sua similhan&ccedil;a com a letra T (a que os gregos
+chamavam <em>tau</em>)
+&eacute; conhecido pelo
+nome de <em>bast&atilde;o</em> ou baculo em
+f&oacute;rma de <em>tau</em>. O
+cabo ou travessa ordinariamente de marfim &eacute; todo esculpido.<br />
+
+<br />
+
+Os baculos de <em>voluta</em> que ainda hoje
+existem, datam do XII seculo. A f&oacute;rma que tinham antes
+d'esta epocha sabe-se pelas esculpturas, pinturas e miniaturas.<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o nos parece que se encont
+N&atilde;o nos parece que se encontrem Bispos empunhando
+<span class="pagenum">[121]</span>
+o baculo em monumentos cuja
+data seja anterior ao ultimo quartel de X seculo.<br />
+
+<br />
+
+No seculo XII e at&eacute; mesmo j&aacute; durante a ultima
+metade do seculo XI, &eacute; que se come&ccedil;aram a usar os
+<em>baculos de voluta</em>. S&atilde;o
+tambem d'esta epocha os <em>bast&otilde;es de metal</em>
+ornados
+de pedrarias d'esmaltes e filigranas.<br />
+
+<br />
+
+A voluta de quasi todos os baculos do XII seculo termina por uma
+cabe&ccedil;a de serpente ou de drag&atilde;o encimada por uma
+cruz, ou lutando com o Divino Cordeiro armado com o signal da
+redemp&ccedil;&atilde;o.
+As volutas terminando em flor&atilde;o s&atilde;o por emquanto
+raras n'esta epocha, assim como tambem aquellas que t&ecirc;em
+representadas scenas historicas.<br />
+
+<br />
+
+Attribue-se geralmente aos baculos pastoraes e a todas as suas
+differentes partes, uma
+significa&ccedil;&atilde;o symbolica. O baculo representa o
+bord&atilde;o do Pastor espiritual; do Bispo na sua diocese e do
+abbade no seu mosteiro. A haste &eacute; recta para recordar ao
+Prelado a rectid&atilde;o da governa&ccedil;&atilde;o; a
+ponteira de metal &eacute; o emblema da justa severidade com que
+deve reprimir os rebeldes, e a voluta recurvada symbolisa a bondade
+como as almas s&atilde;o attrahidas para o bem pelas
+consola&ccedil;&otilde;es. A voluta do baculo voltada para o
+peito, indica a
+jurisdic&ccedil;&atilde;o interna dos Abbades; voltada para
+f&oacute;ra, mostra a auctoridade dos Prelados.<br />
+
+<br />
+
+<em>Sapatos lithurgicos</em>. Estes sapatos,
+que desde os primeiros seculos s&atilde;o considerados como uma das
+principaes insignias dos Bispos e dos Abbades, tinham o nome de
+sandalias,
+<em>sandalia</em>, e eram em
+<span class="pagenum"><a name="p122">[122]</a></span>
+geral de f&oacute;rma identica.
+Constavam d'uma solla de coiro ordinario, d'uma gaspea e de dois
+quartos.<br />
+
+<br />
+
+A gaspea era de coiro e recortada muito profundamente a formar uma
+especie de lingueta,
+<em>lingua</em>, e quatro appendices, <em>ligulae</em>,
+em
+f&oacute;rma de orelhas atravez das quaes passavam os
+cord&otilde;es. As seis chanfraduras, formadas por estas orelhas,
+fizeram dar &aacute; gaspea o nome de <em>coiro
+fenestrado</em>, <em>corium fenestratum</em>, por
+affectarem a f&oacute;rma de
+aberturas dos rotulos de janellas.<br />
+
+<br />
+
+Tanto a gaspea como os quartos tinham um grande numero de furos, os
+quaes bem como as chanfraduras da gaspea tinham uma
+significa&ccedil;&atilde;o symbolica.<br />
+
+<br />
+
+As sandalias s&atilde;o guarnecidas, inferiormente, por uma solla e
+superiormente por um peda&ccedil;o de cabedal chanfrado ou
+fenestrado, porque os p&eacute;s dos pr&eacute;gadores devem
+ser resguardados inferiormente para se n&atilde;o sujarem nas
+coisas terrestres conforme as palavras do Senhor&#8213;<em>Sacudi o
+p&oacute; de
+vossos p&eacute;s</em>&#8213;; s&atilde;o descobertos pela
+parte superior para que lhes seja relevado o conhecimento dos
+celestiaes mysterios, segundo estas palavras do propheta:
+&laquo;Desvendae-me os olhos e considerarei as maravilhas da tua
+Lei&raquo;.<br />
+
+<br />
+
+A gaspea e os quartos eram ordinariamente bordados a ouro e seda e
+at&eacute; mesmo de pedras preciosas.<br />
+
+<br />
+
+<em>Mitras</em>. As mitras de dois bicos eram
+desconhecidas at&eacute; ao fim do XI seculo. D'antes os Bispos
+usavam algumas vezes uma cor&ocirc;a ou grinalda de
+<span class="pagenum"><a name="p123">[123]</a></span>
+laminas de metal, cravejada de pedras,
+debaixo da qual elles punham um barrete pouco elevado ou um
+peda&ccedil;o rectangular de seda ou de tela, cujas extremidades,
+ordinariamente bastante compridas, fluctuavam livremente sobre as
+costas.<br />
+
+<br />
+
+No fim do XI seculo, a cobertura collocada por debaixo da
+cor&ocirc;a tornou-se mais alta de maneira que formava ou uma
+especie de touca ponteaguda ou dois lobulos obtusos ou arredondados e
+pouco tempo depois duas agudas pontas. N'esta mesma epocha foi
+substituido o circulo de metal por fachas de pergaminho primorosamente
+pintadas e as extremidades fluctuantes do peda&ccedil;o de tela por
+duas fachas compridas e estreitas, que se chamam <em>fanons</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Alfaias preciosas</em>. <em>Tecidos.</em>
+Durante
+os primeiros seculos da &eacute;ra christ&atilde;, os tecidos
+de seda apenas
+se fabricavam no Oriente.<br />
+
+<br />
+
+Mas no periodo roman continuou a Europa a mandar vir todos os tecidos
+preciosos de Constantinopla, da Grecia, da Asia Menor e da Persia.<br />
+
+<br />
+
+Comtudo, no seculo IX, os Mouros introduziram a cultura do bicho de
+seda no Sul da Hespanha, e a come&ccedil;ar do seculo seguinte, a
+pequena cidade de Almeria, situada a pequena distancia de Malaga sobre
+as costas do Mediterraneo, tornou-se um importante centro de industria
+de seda, cujos productos da Europa eram procurados.<br />
+
+<br />
+
+Em seguida &aacute; expuls&atilde;o dos musulmanos no anno de
+1146 ou 1147, as fabricas de seda tambem se desinvolveram muito na ilha
+da Sicilia, e o commercio
+<span class="pagenum">[124]</span>
+de tecidos de seda tornou-se extremamente florescente e prospero,
+gra&ccedil;as aos intelligentes
+esfor&ccedil;os do rei normando Roger, secundado na sua empreza por
+operarios trazidos da Grecia na escolta d'uma
+expedi&ccedil;&atilde;o militar. Os tecidos d'ouro e seda,
+fabricados na celebre manufactura official de Palermo, e conhecida pelo
+nome de <em>Hotel de Tiraz</em>, foram os mais estimados
+durante toda a edade m&eacute;dia.<br />
+
+<br />
+
+Os tecidos do periodo roman, geralmente encorpados e solidos,
+s&atilde;o uns lisos e outros ornados de desenhos representando
+animaes, plantas, fl&ocirc;res e fructos, empregados apenas como
+decora&ccedil;&atilde;o, sem a menor
+inten&ccedil;&atilde;o de symbolismo. Os estofos produzidos
+pelas fabricas musulmanas, tinham tambem &aacute;s vezes
+inscrip&ccedil;&otilde;es arabes;
+aquelles cujas decora&ccedil;&otilde;es consistiam em assumptos
+biblicos
+ou symbolos christ&atilde;os, fabricavam-se em Constantinopla, na
+Grecia e mais tarde egualmente na Sicilia.<br />
+
+<br />
+
+<em>Bordados</em>. Os bordados continuaram a
+usar-se para reproduzirem assumptos religiosos quer em
+medalh&otilde;es quer sobre umas fitas que applicavam &aacute;s
+velas d'altar e aos paramentos sacerdotaes. A arte de bordar fez
+consideraveis progressos durante o periodo roman. Encontram-se um
+grande numero de passamanarias inteiramente executada &aacute;
+agulha &laquo;<em>acula
+pictae</em>&raquo; no XI e XII seculos.<br />
+
+<br />
+
+Os bordados executados durante o periodo roman eram geralmente feitos
+em seda ou l&atilde; fina sobre uma talagar&ccedil;a de tela
+fina.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[125]</span>
+<em>Paramentos sacerdotaes.</em> No principio
+do periodo roman eram ainda desconhecidas as c&ocirc;res
+lithurgicas, e s&oacute; se come&ccedil;aram a empregar no IX
+seculo tomando um certo desinvolvimento nos seculos seguintes, ao mesmo
+tempo que se fixou o seu symbolismo. A c&ocirc;r branca e a
+vermelha foram as primeiras adoptadas: aquella, como emblema da
+innocencia e da candura, servia nas festas do Salvador, da Santa
+Virgem, dos anjos, dos Santos que n&atilde;o morreram martyres e
+durante a Paschoa; o vermelho, symbolo da caridade e do heroismo, foi
+destinado aos martyres bem como ao Pentecostes, festas por excellencia
+do amor.<br />
+
+<br />
+
+No XII seculo duas novas c&ocirc;res vieram augmentar as que
+j&aacute; se usavam: o verde, symbolo da
+esperan&ccedil;a, foi empregado aos domingos e nos dias de semana
+em que se n&atilde;o celebrava festa alguma de Santo e durante o
+tempo que decorre entre a Epiphania e a septuagesima, entre o
+Pentecostes e o Advento, o preto, signal de luto, foi reservado para a
+sexta feira Santa e para os officios funebres.<br />
+
+<br />
+
+A principio, o uso d'estas differentes c&ocirc;res era facultativo;
+por&eacute;m desde o final do XII seculo e ainda mais durante o
+seculo XIII, tornou-se obrigatorio.<br />
+
+<br />
+
+Mais tarde, tambem se introduziu o uso da c&ocirc;r violeta,
+symbolisando <em>penitencia</em>,
+para o Advento, quaresma, temporas e vigilias.<br />
+
+<br />
+
+A <em>casula</em> conservou, durante o
+periodo roman a mesma f&oacute;rma que at&eacute; ali havia
+tido, isto
+&eacute;,
+<span class="pagenum">[126]</span>
+a d'uma veste
+dupla, sem mangas, e caindo livremente &aacute; roda do corpo.<br />
+
+<br />
+
+As <em>casulas</em> mais ricas eram de seda;
+cravejadas de pedras, de perolas e bordadas a ouro, prata, seda ou
+l&atilde;, reproduzindo figuras geometricas,
+fl&ocirc;res, animaes, symbolos e assumptos religiosos. Estes
+ornatos espalhavam-se muitas vezes por toda a casula; comtudo,
+d'ordinario, apenas occupavam as bandas verticaes longas e estreitas,
+chamadas <em>praetestae</em>, <em>listae</em>
+ou
+<em>augusti clavi</em>; regularmente s&atilde;o duas,
+uma na frente e outra na parte posterior. Al&eacute;m do modo
+decorativo que ellas tinham, estas bandas serviam ainda a um fim util,
+a de tapar as duas costuras precisas para dar feitio ao paramento. Duas
+outras fachas, egualmente estreitas, passavam sobre os hombros e vinham
+terminar nas bandas verticaes do peito e ao meio das costas, figurando,
+adiante e atraz, uma Cruz em f&oacute;rma de Y.<br />
+
+<br />
+
+Ha <em>casulas</em> antigas que
+n&atilde;o t&ecirc;em as fachas de
+junc&ccedil;&atilde;o que passam sobre os hombros e cuja
+decora&ccedil;&atilde;o se resume nas duas fachas verticaes.
+Algumas vezes tambem estas fachas s&atilde;o substituidas por
+arvores ou plantas com muitas ramifica&ccedil;&otilde;es.<br />
+
+<br />
+
+As casulas de uso diario e as das egrejas mais modestas n&atilde;o
+eram de seda, materia de um pre&ccedil;o excessivo n'essa
+&eacute;poca, mas sim de l&atilde;, tela ou
+outros tecidos mais baratos.<br />
+
+<br />
+
+A <em>estola</em> consiste em uma facha
+comprida e estreita, de seda, de l&atilde; ou de tela, medindo em
+geral 2<sup>m</sup>,70 de comprimento sobre 6 a 7
+centimetros
+<span class="pagenum">[127]</span>
+de largura. Foi a partir do IX
+seculo, que ella tomou esta f&oacute;rma e estas
+dimens&otilde;es, que se approximam muito das que ainda hoje tem.<br />
+
+<br />
+
+As estolas ricas eram ornadas de pedrarias bordadas, e placas de metal
+cinzeladas e esmaltadas, e terminavam nas pontas por longas franjas.<br />
+
+<br />
+
+O <em>manipulo</em>, que d'antes consistia
+n'uma especie de toalha, com a qual os padres limpavam as
+m&atilde;os e a cara ou purificavam os vasos sagrados,
+s&oacute; perdeu a f&oacute;rma e o destino primitivo, durante
+o IX seculo, quando se tornou um verdadeiro paramento similhante
+&aacute; estola na f&oacute;rma, c&ocirc;r e
+decora&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+A <em>capa</em> conservou, durante o periodo
+roman, a mesma f&oacute;rma que tinha antes; especialmente
+reservada aos chantres e clero inferior, era feita com um tecido
+ordinario. Os Bispos s&oacute; raras vezes a vestiam e, por
+consequencia, n&atilde;o havia capas ricamente decoradas.<br />
+
+<br />
+
+A <em>alva</em> era de linho mais ou menos
+fino e algumas vezes de seda branca. Havia duas especies de alva: as
+alvas sem ornatos, chamadas <em>albae purae</em> ou
+<em>simplices</em>, e as alvas guarnecidas,
+<em>albae paratae</em> ou
+<em>frisiatae</em>. As primeiras
+serviam nos dias ordinarios e nas egrejas de segunda ordem; as outras
+eram usadas pelos Bispos e pelo clero, especialmente nos grandes dias
+de festa.<br />
+
+<br />
+
+A decora&ccedil;&atilde;o das alvas dos Bispos consistia apenas
+em certos ornatos em volta do pesco&ccedil;o,
+nas extremidades das mangas e no bordo inferior; al&eacute;m de
+duas orlas parallelas verticaes que lembram
+<span class="pagenum">[128]</span>
+as <em>augusti clavi</em>
+dos Romanos,
+e que descem do pesco&ccedil;o at&eacute; aos p&eacute;s,
+tanto na
+frente como nas costas.<br />
+
+<br />
+
+O <em>cinto</em> era geralmente ornamentado
+com grande luxo.<br />
+
+<br />
+
+Muitos tecidos preciosos se fabricaram com fio d'ouro; tendo a
+f&oacute;rma d'uma grande fita de largura entre tres e seis
+centimetros, podendo-se mui facilmente assentar, em toda a sua largura,
+perolas, pedrarias, e placas de metal cinzeladas e esmaltadas.<br />
+
+<br />
+
+O <em>amicto</em> &eacute; composto d'um
+peda&ccedil;o de panno quadrado ou rectangular, que o sacerdote
+p&otilde;e na cabe&ccedil;a, quando come&ccedil;a a
+revestir-se, e que depois
+faz descer sobre o pesco&ccedil;o.<br />
+
+<br />
+
+Os amictos eram em geral de panno de linho. No periodo roman tambem os
+havia de seda, e de fio d'ouro.<br />
+
+<br />
+
+No IX seculo come&ccedil;aram os amictos a ter um ornamento, que se
+conservou em uso durante toda a edade m&eacute;dia, e que recebeu o
+nome
+de&#8213;<em>parura plaga</em>&#8213;e tambem, &aacute;s vezes o
+de&#8213;<em>praetextae</em>. Este adorno consistia, no seu
+principio, em uma tira
+rectangular d'ouro, de renda ou tecido de c&ocirc;r brilhante, que
+se pregava no bordo superior do amicto, e que formava em torno do
+pesco&ccedil;o uma especie de rico collar, visivel mesmo depois do
+sacerdote e os ministros sagrados terem revestido a casula ou a
+dalmatica. Algumas vezes tambem tinham como adorno perolas e pedras
+preciosas.<br />
+
+<br />
+
+A <em>dalmatica</em> &eacute; o paramento
+sacerdotal para vestir
+<span class="pagenum"><a name="p129">[129]</a></span>
+por
+cima, pertencente ao diacono e sub-diacono. Consistia, durante o
+periodo roman, regularmente n'uma especie de toga fechada muito
+comprida, com mangas e uma abertura para passar a cabe&ccedil;a.
+Duas faixas verticaes d'ouro ou de c&ocirc;r brilhante se
+applicavam, &aacute;s vezes, sobre a toga, prolongando-se
+at&eacute; ao bordo inferior.<br />
+
+<br />
+
+Do seculo XI em diante appareceram dalmaticas abertas nos dois lados
+at&eacute; uma certa altura. Eram muitas vezes guarnecidas de
+faixas douradas em volta do pesco&ccedil;o, e nos
+canh&otilde;es das mangas.<br />
+
+<br />
+
+O <em>pallium</em> constituia entre os
+antigos o principal paramento de vestir por cima.<br />
+
+<br />
+
+Deu-se com o pallio o mesmo que se havia dado com a estola; a parte
+principal, e primitivamente essencial, isto &eacute;, o manto foi
+supprimido, e apenas se conservou o ornato accessorio, as faixas que se
+lhe applicaram. Estas uniam sobre o peito e sobre as costas, em
+f&oacute;rma de Y, da mesma maneira que as <em>listae</em>
+em
+certas casulas.<br />
+
+<br />
+
+Durante o periodo Latino j&aacute; se decoravam as faixas do <em>pallium</em>
+com pequenas cruzes
+gregas. Estas cruzes, pouco numerosas a principio, foram-se
+multiplicando insensivelmente, e desde o XI que j&aacute; se
+contavam muitas sobre toda a extens&atilde;o das faixas.<br />
+
+<br />
+
+<h4>Abbadias, Mosteiros e claustros dos
+Capitulos</h4>
+
+<br />
+
+Desde o VIII seculo que se come&ccedil;aram a levantar
+estabelecimentos religiosos, compostos de numerosas
+<span class="pagenum">[130]</span>
+construc&ccedil;&otilde;es
+edificadas e dispostas com
+arte. Havia j&aacute; egrejas, edificios para alojamento e
+exercicios dos frades, enfermarias, escolas, bibliothecas, hospedarias
+para os estrangeiros, celleiros, jardins,
+edifica&ccedil;&otilde;es destinadas aos
+aprovisionamentos, emfim, habita&ccedil;&otilde;es e officinas
+para as
+corpora&ccedil;&otilde;es d'artistas que as abbadias tinham
+sempre ao seu servi&ccedil;o.<br />
+
+<br />
+
+Todos estes antigos mosteiros foram destruidos ou inteiramente
+modificados com o correr dos seculos.<br />
+
+<br />
+
+Examinaremos as suas disposi&ccedil;&otilde;es interiores,
+quando tratarmos do plano das abbadias do periodo ogival.<br />
+
+<br />
+
+A principio os conegos das cathedraes e collegiaes viviam em
+communidade como os religiosos.<br />
+
+<br />
+
+Os claustros dos simples collegiaes eram ordinariamente, como os das
+abbadias, contiguos &aacute;s paredes meridionaes da egreja, porque
+a exposi&ccedil;&atilde;o ao sol do meio dia &eacute; a
+mais agradavel e a mais vantajosa para a saude. Por estas
+raz&otilde;es o lado sul nas cathedraes era occupado pelos palacios
+episcopaes, e os conegos viam-se obrigados a escolher o lado norte das
+egrejas, para edificarem os seus claustros.<br />
+
+<br />
+
+Todavia, esta regra n&atilde;o era geral: existem muitos exemplos
+de claustros tanto d'abbadias como de capitulos occupando outros
+logares. Estas
+excep&ccedil;&otilde;es &aacute; regra geral s&atilde;o
+devidas a differentes causas, taes como a presen&ccedil;a de ruas
+ou de
+construc&ccedil;&otilde;es que era impossivel supprimir, e, nos
+<span class="pagenum">[131]</span>
+paizes montanhosos, os
+accidentes do terreno que torneava a egreja.<br />
+
+<br />
+
+Os claustros das egrejas monasticas, cathedraes e collegiaes,
+compunham-se ordinariamente de um pateo quadrado ou rectangular,
+rodeado de galerias cobertas, que serviam de passeio aos religiosos e
+aos conegos.<br />
+
+<br />
+
+Estas galerias, abertas para o lado do pateo, eram comtudo d'elle
+separadas por meio de um apoio quasi continuo, sobre o qual vinham
+assentar as columnas com archivoltas, tornando a arcada toda
+cont&iacute;nua.
+Os mais antigos claustros apenas tinham uma especie de
+ornamenta&ccedil;&atilde;o com as galerias cobertas d'um
+simples alpendre de madeira, cujo madeiramento s&oacute; era
+visivel no interior. Desde o fim do X seculo foram estes alpendres
+substituidos por abobadas de ber&ccedil;o com aresta, por baixo das
+quaes muitas vezes tambem se construia um pavimento.<br />
+
+<br />
+
+Na maior parte dos claustros romans do XII seculo, as curvas
+descendentes das archivoltas s&atilde;o sustentadas por columnas
+duplas, cobertas por uma perna de telhado. Algumas vezes columnas
+isoladas alternam com columnas duplas.<br />
+
+<br />
+
+Os claustros das cathedraes e das collegiaes eram, como os das
+abbadias, rodeados de edifica&ccedil;&otilde;es
+indispensaveis para a vida commum dos conegos.<br />
+
+<br />
+
+Debaixo d'essas galerias se abriam as portas do refeitorio, do
+dormitorio, da escola, e da sala capitular e outros locaes affectos ao
+servi&ccedil;o da communidade. Mais tarde, quando a vida commum foi
+<span class="pagenum"><a name="p132">[132]</a></span>
+abandonada pelos capitulos, as
+habita&ccedil;&otilde;es
+privadas dos conegos occuparam, em torno das galerias, o logar d'estes
+differentes edificios.<br />
+
+<br />
+
+A iconographia, isto &eacute;, a <em>sciencia das
+imagens</em>, occupa-se das representa&ccedil;&otilde;es
+figuradas devidas
+&aacute; esculptura e, em geral, a todas as outras artes de
+modelar.<br />
+
+<br />
+
+<em>A gloria, o nimbo e a
+aur&eacute;ola</em>. A gloria &eacute; um ornamento
+symbolisando uma nuvem luminosa, que os artistas da idade
+m&eacute;dia p&otilde;em em torno da cabe&ccedil;a ou do
+corpo d'um personagem, como attributo da santidade ou do poder. Quando
+ella n&atilde;o rodeia sen&atilde;o a cabe&ccedil;a,
+d&aacute;-se-lhe o
+nome de <em>nimbo</em>; quando rodeia o corpo inteiro,
+chama-se
+<em>aur&eacute;ola</em>.<br />
+
+<br />
+
+O nimbo derivado da palavra latina
+(<em>nimbus</em>) &eacute; um adorno circular, e tambem
+&aacute;s vezes quadrado, oblongo ou triangular com que se costumam
+adornar as cabe&ccedil;as das figuras que representam as pessoas
+divinas, os santos e os homens revestidos d'auctoridade suprema, quer
+civil, quer ecclesiastica. &Eacute; costume collocal-o
+verticalmente na parte posterior da cabe&ccedil;a. Assim como a
+cor&ocirc;a
+&eacute; o signal da realeza, assim o nimbo &eacute; o da
+santidade ou da auctoridade.<br />
+
+<br />
+
+O nimbo circular ou em f&oacute;rma de disco &eacute; o symbolo
+de Deus, dos anjos e dos Santos; comtudo, quando circumda a
+cabe&ccedil;a d'alguma das pessoas divinas, o disco &eacute;
+regularmente ornado com uma cruz grega, de que apenas se v&ecirc;em
+tres ramos, pelo que se chama nimbo crucifero. A cruz do
+<span class="pagenum">[133]</span>
+nimbo crucifero deve ser vertical, e
+n&atilde;o inclinada como a cruz de Santo Andr&eacute; X.
+Muitos artistas, quando se servem do nimbo, commettem um erro, contra
+esta regra de iconographia. O nimbo crucifero &eacute; o symbolo
+caracteristico das pessoas divinas, mesmo quando apenas se representam
+por figuras symbolicas. Assim, por exemplo, a m&atilde;o, symbolo
+do Pae Eterno, o cordeiro, symbolo do Filho Jesus Christo, e a pomba,
+symbolo do Espirito Santo, representam-se sempre com o nimbo crucifero.
+<br />
+
+<br />
+
+Os ramos do nimbo crucifero s&atilde;o geralmente bastante
+compridos e mais largos nas extremidades. O nimbo circular sem a cruz
+&eacute; o symbolo dos anjos e dos Santos do Novo Testamento. No
+Oriente tambem os Santos do Velho Testamento t&ecirc;em o nimbo,
+mas no Occidente n&atilde;o se segue essa pratica. As
+personifica&ccedil;&otilde;es das virtudes, das provincias e
+das cidades t&ecirc;em tambem o nimbo. Elle &eacute; egualmente
+concedido aos Papas, aos imperadores, aos reis, e aos padres quando
+s&atilde;o representados administrando o Sacramento do baptismo,
+por isso que elles se acham n'estes casos revestidos d'uma auctoridade
+suprema.<br />
+
+<br />
+
+Os personagens vivos depositarios da auctoridade suprema, eram tambem
+adornados com o nimbo quadrado ou rectangular. O nimbo &eacute;
+muitas vezes substituido pela cor&ocirc;a que se d&aacute;
+&aacute;s imagens esculpidas do Salvador crucificado ou da Virgem
+com seu Filho.<br />
+
+<br />
+
+<em>Origem do nimbo</em>. Os
+pag&atilde;os j&aacute; faziam uso do
+<span class="pagenum">[134]</span>
+nimbo, para ornamentar os seus deuses e
+imperadores.<br />
+
+<br />
+
+Assim se v&ecirc; Trajano n'um baixo relevo do arco de Constantino
+e Antonio o Piedoso em uma moeda, confirmando o uso d'este emblema. Mas
+que &eacute;poca indicar&aacute; a
+introduc&ccedil;&atilde;o do nimbo na
+iconographia christ&atilde;? O nimbo parece s&oacute; ter sido
+empregado pelos christ&atilde;os depois da convers&atilde;o de
+Constantino. At&eacute; este tempo n&atilde;o se conhece
+monumento algum authentico dos tres primeiros seculos, em que vejamos
+Christo ou os Santos adornados com o nimbo. Os mais antigos monumentos,
+de data determinada, em que este ornamento se acha empregado como
+signal iconographico, s&atilde;o os mosaicos de Roma e de
+Rav&ecirc;na.<br />
+
+<br />
+
+Ora foi da compara&ccedil;&atilde;o d'estes differentes
+monumentos entre si que se conheceu terem sido as imagens do Salvador
+as primeiras que tiveram nimbo, em segundo logar as dos anjos, depois
+as dos evangelistas e seus symbolos e emfim as dos Santos e dos
+soberanos. As imagens de Nosso Senhor come&ccedil;aram a ter nimbo
+desde o principio do IV seculo; at&eacute; ao VI seculo se
+v&ecirc; o nimbo umas vezes simples, outras crucifero. A Santissima
+Virgem e os anjos come&ccedil;aram a ter nimbo desde os primeiros
+annos do seculo V, os Evangelistas e os Apostolos no meado do mesmo
+seculo, os Santos e os personagens revestidos de auctoridade soberana
+no come&ccedil;o do seculo seguinte.<br />
+
+<br />
+
+Aur&eacute;ola (palavra derivada do latim
+<em>aura</em>, <em>vento suave</em>, <em>s&ocirc;pro
+luminoso</em>) &eacute; uma especie de moldura
+<span class="pagenum">[135]</span>
+que envolve todo o corpo como se
+f&ocirc;sse o nimbo do corpo inteiro.<br />
+
+<br />
+
+Os artistas da edade m&eacute;dia d&atilde;o aur&eacute;ola
+&aacute;s tres Pessoas Divinas e &aacute; Santissima Virgem e
+tambem &aacute;s almas dos Santos e principalmente &aacute; do
+pobre Lazaro, figuradas por um pequeno corpo inteiramente
+n&uacute;. A alma &eacute; assim deificada no momento em que
+volta ao seio do Creador.<br />
+
+<br />
+
+Os Santos, por mais venerados que sejam, nunca t&ecirc;em
+aur&eacute;ola.<br />
+
+<br />
+
+Quando Deus Pae ou Deus Filho se representam sentados na
+aur&eacute;ola, os seus p&eacute;s assentam em
+geral sobre um arco-iris, e sentados sobre um arco similhante.<br />
+
+<br />
+
+Estes arco-iris s&atilde;o muitas vezes substituidos, o primeiro
+por um escabello rendilhado, e o segundo por uma especie de poltrona.
+Sendo a aur&eacute;ola mais recente do que o nimbo, ca&iacute;u
+comtudo em
+desuso primeiramente do que este ultimo.<br />
+
+<br />
+
+<em>Representa&ccedil;&otilde;es da Santissima
+Trindade</em>. Durante o periodo roman eram as pessoas da
+Santissima Trindade representadas de varios modos.<br />
+
+<br />
+
+1.&ordm;&#8213;Para inculcar aos fieis o dogma da egualdade dos homens,
+representavam-se estes com f&oacute;rmas inteiramente similhantes.
+&Aacute;s vezes tambem o Deus Filho se representa nos
+p&eacute;s ou nas m&atilde;os, e o Espirito Santo &eacute;
+representado com a f&oacute;rma d'uma pomba. As pessoas Divinas
+quando se representam com f&oacute;rmas humanas, t&ecirc;em
+sempre n&uacute;s os p&eacute;s.<br />
+
+<br />
+
+2.&ordm;&#8213;Tambem empregavam a representa&ccedil;&atilde;o
+do
+<span class="pagenum">[136]</span>
+baptismo do Senhor nas aguas
+do Jord&atilde;o, para figurar as pessoas da Santissima Trindade.<br />
+
+<br />
+
+3.&ordm;&#8213;Nos ultimos annos do periodo roman representava-se a
+Santissima
+Trindade da maneira seguinte: Deus Pae, sentado n'um throno ou sobre um
+arco-iris, tendo nas m&atilde;os uma cruz na qual est&aacute;
+crucificado o Salvador; o Espirito Santo, representado por uma pomba,
+apparece entre a b&ocirc;ca do Pae e a do Filho, para mostrar que o
+procede tanto d'um como do outro. Este typo foi conservado durante toda
+a idade e mesmo at&eacute; aos XVI e XVII seculos.<br />
+
+<br />
+
+Comtudo, a partir do XV seculo, deixou de se symbolisar o dogma da
+prociss&atilde;o do Espirito Santo, e collocava-se a pomba ou no
+bra&ccedil;o da cruz ou no hombro do Pae.<br />
+
+<br />
+
+<em>Representa&ccedil;&otilde;es das tres Pessoas
+Divinas</em>. <em>Deus Pae</em>. At&eacute; ao
+seculo XI, nunca se
+attribuiram a Deus Pae f&oacute;rmas humanas. A sua
+presen&ccedil;a era apenas
+indicada por uma m&atilde;o saindo das nuvens. Esta m&atilde;o
+symbolica, primeiramente sem nimbo, e mais tarde com o nimbo simples ou
+crucifero, encontra-se nos sarcophagos e nos antigos cofres. Foi pois
+no XI seculo que Deus Pae come&ccedil;ou a ser representado sob
+f&oacute;rmas humanas.<br />
+
+<br />
+
+<em>Deus Filho</em>. Quando
+trat&aacute;mos da iconographia das catacumbas, diss&eacute;mos
+que, durante os tres primeiros seculos, s&oacute; se representava o
+Salvador, debaixo das f&oacute;rmas symbolicas ou das scenas
+historicas. J&aacute; no IV seculo se encontram imagens isoladas do
+Salvador. At&eacute; ao X seculo, Christo representa-se
+<span class="pagenum"><a name="p137">[137]</a></span>
+muitas vezes com as
+fei&ccedil;&otilde;es d'um mancebo de quinze a vinte annos, sem
+barba, de figura agradavel e resplandecente d'uma mocidade Divina;
+s&oacute; excepcionalmente Christo tem barba e parece
+n&atilde;o ter mais de vinte e cinco annos. No XI e XII seculos os
+artistas d&atilde;o-lhe uma express&atilde;o
+mais severa; ordinariamente apresenta barba parecendo ter trinta a
+trinta e cinco annos.<br />
+
+<br />
+
+<em>Deus Espirito Santo</em>. At&eacute;
+meiado do X seculo foi sempre representado com a f&oacute;rma d'uma
+pomba; mas no XI e XII seculos come&ccedil;ou tambem a ser figurado
+com a f&oacute;rma humana.<br />
+
+<br />
+
+<h4>A cruz e a
+crucifica&ccedil;&atilde;o</h4>
+
+<br />
+
+<em>Considera&ccedil;&otilde;es
+geraes</em>. A historia da
+representa&ccedil;&atilde;o da
+crucifica&ccedil;&atilde;o p&oacute;de resumir-se
+dizendo que este assumpto n&atilde;o se encontra sobre os
+monumentos christ&atilde;os e outros objectos do culto anteriores
+&aacute; convers&atilde;o de Constantino; a cruz apresenta uma
+f&oacute;rma dissimulada.<br />
+
+<br />
+
+No IV seculo, a cruz fez a sua appari&ccedil;&atilde;o na
+iconographia christ&atilde;. Desde a convers&atilde;o de
+Constantino foi ent&atilde;o que appareceu sobre um grande numero
+de monumentos; mas at&eacute; ao VI seculo ainda n&atilde;o
+tinha a imagem de Christo: era no emtanto adornada com pedrarias e
+&aacute;s vezes circumdada por uma aur&eacute;ola.<br />
+
+<br />
+
+No VI seculo come&ccedil;am ent&atilde;o alguns artistas
+christ&atilde;os, ainda que timidamente, a representar o Salvador
+sobre a cruz. Primeiramente servem-se do Cordeiro symbolico, que elles
+representavam
+<span class="pagenum">[138]</span>
+de differentes
+maneiras com o signal da
+redemp&ccedil;&atilde;o. Tambem se v&ecirc;em cruzes tendo
+ao centro, e &aacute;s vezes nas extremidades dos
+bra&ccedil;os, uns
+medalh&otilde;es com o Divino Cordeiro ou com a imagem do Salvador
+Triumphante.<br />
+
+<br />
+
+Desde o VI at&eacute; ao XI seculo representa-se o Salvador sobre a
+cruz com o fim manifesto de recordar o Seu Triumpho sem nunca indicar a
+minima id&eacute;a de soffrimento ou d'opprobrio.<br />
+
+<br />
+
+Do XI ao XII seculo representa-se Christo crucificado mas Glorioso e
+Triumphante, apesar de ser manifesta a id&eacute;a de soffrimento.<br />
+
+<br />
+
+Do XIII ao XV seculo, os artistas christ&atilde;os, tendo mais ou
+menos em vista o symbolismo das &eacute;pocas precedentes,
+esfor&ccedil;am-se por patentear realmente os soffrimentos do
+Divino Crucificado.<br />
+
+<br />
+
+Durante o periodo do renascimento, o culto da f&oacute;rma e da
+realidade constitue por assim dizer a unica
+preoccupa&ccedil;&atilde;o do artista, que, dominado pela
+id&eacute;a de expressar uma d&ocirc;r vulgar ou de representar
+um corpo morto ou moribundo, perde todo o sentimento de nobre
+symbolismo.<br />
+
+<br />
+
+A historia das representa&ccedil;&otilde;es da cruz e do
+crucifixo comprehende, pois, duas &eacute;pocas distinctas: a
+primeira, que durou desde o IV ao XII seculo inclusive, tem por
+caracter distinctivo a representa&ccedil;&atilde;o glorificada
+do instrumento da Paix&atilde;o e da Victima, sem signal de que se
+tivesse prestado voluntariamente; a segunda, que come&ccedil;a no
+XIII seculo e termina no XIX, &eacute; caracterisada pela
+express&atilde;o
+dos soffrimentos do Divino Salvador.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[139]</span>
+A &eacute;poca do soffrimento corresponde ao periodo ogival e ao do
+renascimento.<br />
+
+<br />
+
+No IV seculo a cruz &eacute; frequentemente encimada por um
+monogramma inscripto em uma cor&ocirc;a. Quando n&atilde;o tem
+o referido monogramma, (o que se d&aacute; principalmente desde o V
+seculo) ou tem os bra&ccedil;os eguaes e mais largos nos extremos,
+ou &eacute; ornada de perolas em renques, ou ornada de
+fl&ocirc;res e folhagens, ou rodeiada de aur&eacute;ola. Ha
+todo o cuidado de apresentar na cruz qualquer id&eacute;a
+d'opprobrio ou d'ignominia; a cruz n&atilde;o &eacute; o
+instrumento de supplicio, mas sim, a cruz glorificada, o instrumento da
+Redemp&ccedil;&atilde;o do genero humano.<br />
+
+<br />
+
+Estas diversas f&oacute;rmas de cruz continuaram a usar-se
+at&eacute; muito antes do periodo Roman.<br />
+
+<br />
+
+Datam do ultimo quartel do VI seculo as primeiras imagens conhecidas do
+Salvador crucificado. Por&eacute;m, entre a cruz simples e o
+Cruxifixo encontra-se uma s&eacute;rie de monumentos
+intermediarios, offerecendo a cruz associada ao Cordeiro symbolico.<br />
+
+<br />
+
+Estas cruzes intermediarias, partindo da cruz sem figuras animadas, ao
+crucifixo propriamente dito, ainda se encontram em alguns monumentos do
+VII seculo.<br />
+
+<br />
+
+Os mais antigos monumentos conhecidos que representam Christo pregado
+&aacute; cruz, pertencem ao ultimo quartel do seculo VI. Taes
+s&atilde;o a miniatura do celebre manuscripto syriaco de
+Floren&ccedil;a, do anno 586, e muitos objectos enviados por S.
+Gregorio
+<span class="pagenum">[140]</span>
+o Grande, a
+Theodolinda, rainha dos Longobardos e conservados hoje no thesouro de
+Monza. Alguns d'estes ultimos mostram-nos claramente Christo na cruz,
+ao passo que outros, taes como os frascos de chumbo, que continham
+liquidos recolhidos dos tumulos dos martyres, n&atilde;o fazem mais
+do que relacionar a imagem de Christo com a cruz, d'uma maneira muito
+mais sensivel do que a cruz do imperador Justino e outros objectos
+similhantes. Tres d'estes curiosos frascos t&ecirc;em ao meio da
+face principal, uma simples cruz folheada, acima da qual se acha o
+busto do Salvador entre as personifica&ccedil;&otilde;es do Sol
+e da Lua; aos lados da cruz v&ecirc;em-se dois adoradores, os dois
+ladr&otilde;es, a Santissima Virgem e S. Jo&atilde;o;
+inferiormente est&aacute; figurado o Anjo e as Santas mulheres ao
+p&eacute; do tumulo de Christo.<br />
+
+<br />
+
+No reverso acha-se a Ascens&atilde;o do Senhor, nos dois lados do
+gargalo uma cruz grega de bra&ccedil;os eguaes debaixo d'um arco de
+triumpho e inscripto n'uma cor&ocirc;a folheada. Sobre o quarto
+frasco figuram scenas symbolicas analogas: est&aacute; Nosso Senhor
+em p&eacute; entre os dois ladr&otilde;es, tendo os
+bra&ccedil;os estendidos em cruz. O instrumento do supplicio, que
+n&atilde;o se v&ecirc; na face principal, &eacute;
+comtudo representado no reverso do frasco, debaixo d'um arco de
+triumpho, e cercado pelas cabe&ccedil;as dos Apostolos inscriptas
+em medalh&otilde;es circulares e formando uma especie de
+cor&ocirc;a. Conclue-se, pois, que o artista christ&atilde;o
+foi obrigado primeiramente a
+n&atilde;o representar a menor id&eacute;a de opprobrio e de
+soffrimento;
+<span class="pagenum">[141]</span>
+para isto
+elle transformou a cruz tornando-a de bra&ccedil;os eguaes,
+ornando-a de folhagens e metamorphoseando-a em arvore da vida: quiz
+affirmar o triumpho alcan&ccedil;ado com a morte, por Aquelle que
+morreu sobre a cruz, recordando a Resurrei&ccedil;&atilde;o e
+Ascens&atilde;o do Salvador.<br />
+
+<br />
+
+Os crucifixos primitivos n&atilde;o t&ecirc;em quasi nunca
+Christo esculpido em alto relevo.<br />
+
+<br />
+
+Christo est&aacute; vestido com um
+<em>colobium</em> ou tunica, ordinariamente sem mangas, que
+chega at&eacute; aos p&eacute;s.
+O uso d'esta longa veste serviu exclusivamente durante o VII seculo e
+generalisou-se no IX seculo. N'esta &eacute;poca foi substituida
+por uma tunica larga cobrindo os rins do Salvador.<br />
+
+<br />
+
+Christo tem sempre a cabe&ccedil;a elevada ou ligeiramente
+inclinada para a direita e os bra&ccedil;os estendidos e
+perfeitamente horisontaes. Os p&eacute;s est&atilde;o pregados
+separadamente &aacute; cruz por dois cravos e muitas vezes apoiados
+sobre um escabello, ou suppedaneum. Algumas vezes parece serem
+supprimidos os cravos com a inten&ccedil;&atilde;o manifesta de
+significar que o Christo se offereceu voluntaria e espontaneamente
+sobre a cruz para a redemp&ccedil;&atilde;o dos homens.<br />
+
+<br />
+
+Desde o VI seculo at&eacute; ao VIII, a scena da
+crucifix&atilde;o &eacute; muitas vezes acompanhada de
+personagens e outros accessorios fundados na verdade historica, mas que
+se representam, bem como a imagem de Christo, de uma maneira symbolica.
+Assim vemos a Santissima Virgem e S. Jo&atilde;o, o phariseu que
+empunha a lan&ccedil;a e o que segura a
+<span class="pagenum"><a name="p142">[142]</a></span>
+esponja, o Sol e a Lua, a
+resurrei&ccedil;&atilde;o do
+Salvador, o bom e o mau ladr&atilde;o. Todos estes accessorios, com
+excep&ccedil;&atilde;o do bom e do mau ladr&atilde;o,
+se encontram ainda representados nos crucifixos do seculo
+VIII.<br />
+
+<br />
+
+O sacrificio da crucifix&atilde;o e os crucifixos do&nbsp;<a href="#e4">seculo</a> IX at&eacute; ao XII,
+apresentam Christo na mesma attitude que nos seculos precedentes. Os
+p&eacute;s conservam-se ainda com dois cravos, mas afastados um do
+outro e assentes geralmente em
+um&#8213;<em>suppedaneum</em>.<br />
+
+<br />
+
+Foi no XII seculo que appareceram os primeiros crucifixos apresentando
+Christo com os p&eacute;s <em>sobre-postos</em>.<br />
+
+<br />
+
+Christo poucas vezes se encontra vestido com o <em>colobium</em>;
+apenas em geral tem
+&aacute; volta dos rins uma toalha de linho larga e comprida, que
+lhe cobre o corpo desde os quadris at&eacute; aos joelhos. Nos
+seculos XI e XII, esta toalha tem muitas vezes a
+configura&ccedil;&atilde;o d'uma pequena saia que se
+chama&#8213;<em>perizonium</em>.<br />
+
+<br />
+
+A Cruz tem geralmente quatro ramos.<br />
+
+<br />
+
+Algumas vezes teem um rotulo, mas sem inscrip&ccedil;&atilde;o
+alguma; outras, nem mesmo teem rotulo, que em geral consiste n'uma
+pequena travessa de madeira rectangular. As
+inscrip&ccedil;&otilde;es costumam ser variadissimas.<br />
+
+<br />
+
+Antes do seculo IX, os personagens e outros accessorios que acompanham
+a Cruz, s&atilde;o historicos, isto &eacute;, a sua
+presen&ccedil;a &eacute; justificada
+pela narra&ccedil;&atilde;o dos proprios Evangelistas. No IX
+seculo come&ccedil;aram ent&atilde;o a apparecer os crucifixos
+com figuras
+<span class="pagenum"><a name="p143">[143]</a></span>
+allegoricas,
+taes como a Egreja, a Synagoga e as
+personifica&ccedil;&otilde;es da Terra e do Oceano. Vamos,
+pois, tratar successivamente dos principaes typos do cyclo d'estas
+representa&ccedil;&otilde;es,
+come&ccedil;ando pelos accessorios historicos, visto que elles se
+empregam desde o VI seculo.<br />
+
+<br />
+
+<h4>Personagens e accessorios historicos
+</h4>
+
+<br />
+
+<em>A Santissima Virgem e S.
+Jo&atilde;o</em>.&#8213;Santa Maria est&aacute; &aacute;
+direita e por debaixo da Cruz, e o
+Apostolo em posi&ccedil;&atilde;o analoga, mas &aacute;
+esquerda do
+Salvador. S&oacute; muito raramente se encontram ambos do lado
+direito, como succede na miniatura de Floren&ccedil;a.<br />
+
+<br />
+
+Ordinariamente est&atilde;o como que erguendo os bra&ccedil;os
+ao Salvador ou occultam o rosto em signal de d&ocirc;r com a
+m&atilde;o n&uacute;a ou escondida na
+ponta do manto. A Santissima Virgem tem a cabe&ccedil;a envolvida
+em um veu e os p&eacute;s cal&ccedil;ados, em quanto que S.
+Jo&atilde;o, de cabe&ccedil;a descoberta e com os
+p&eacute;s descal&ccedil;os, tem nas m&atilde;os um livro.<br />
+
+<br />
+
+<em>O phariseu que empunha a lan&ccedil;a e segura a esponja</em>.&#8213;Ha
+uma piedosa
+tradi&ccedil;&atilde;o, desde a idade media, em que se diz que
+o guarda que feriu o Salvador com uma lan&ccedil;ada, era um
+pag&atilde;o chamado <em>Longino</em>, que mais tarde
+se fizera
+christ&atilde;o, sendo depois venerado como Santo pela Egreja.<br />
+
+<br />
+
+Quasi todos os escriptores ecclesiasticos consideram Longino
+representado ao lado da Cruz com o typo dos gentios, em quanto que o
+phariseu que apresentou a Jesu-Christo a esponja embebida em vinagre
+parece ser um judeu.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[144]</span>
+<em>O Sol e a Lua</em>.&#8213;No seculo VI, tambem
+estes astros come&ccedil;aram a ser representados no sacrificio da
+crucifix&atilde;o, vendo-se o Sol &aacute; direita e a Lua
+&aacute; esquerda do Senhor.<br />
+
+<br />
+
+A presen&ccedil;a do Sol e da Lua n'estes primitivos monumentos,
+parece ter por fim recordar o obscurecimento do Sol e as trevas que
+subitamente se deram em seguida &aacute; morte do Salvador.<br />
+
+<br />
+
+No seculo IX, a significa&ccedil;&atilde;o, ainda limitada e
+puramente historica d'este assumpto, foi amplificada com outra mais
+allegorica, desde esta epocha. O Sol e a Lua n&atilde;o alludem
+s&oacute;mente &aacute;
+obscuridade que envolveu a terra por occasi&atilde;o da morte de
+Christo, simulam tambem o firmamento assistindo e tomando parte na
+morte e no triumpho do seu Creador.<br />
+
+<br />
+
+N'este mesmo seculo os dois astros s&atilde;o quasi sempre
+personificados e representados por um homem e uma mulher. A
+personifica&ccedil;&atilde;o do Sol tem regularmente a
+cabe&ccedil;a cingida de raios luminosos, a da Lua &eacute; em
+geral encimada por um crescente. Uma e outra teem &aacute;s vezes
+um facho.<br />
+
+<br />
+
+<em>As santas mulheres chegando ao tumulo do
+Salvador</em>.&#8213;Desde o VI at&eacute; ao XII seculo, apparece
+muitas vezes, por debaixo do crucifixo, a
+approxima&ccedil;&atilde;o, ao tumulo, das tres santas
+mulheres, Maria Magdalena, Maria, m&atilde;e de S. Thiago, e
+Salom&eacute;. Ellas seguram jarros, thuribulos ou outros vasos, e
+est&atilde;o diante do Anjo, sentadas, n&atilde;o dentro do
+sepulchro, como diz o Evangelho, mas diante d'elle. Muitas vezes
+figuram-se tambem soldados desfallecidos ou adormecidos.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[145]</span>
+A reproduc&ccedil;&atilde;o d'esta scena na parte inferior da
+Cruz era para p&ocirc;r em parallelo a
+humilha&ccedil;&atilde;o e a glorifica&ccedil;&atilde;o
+do Salvador, a sua morte sobre a
+Cruz e a sua resurrei&ccedil;&atilde;o gloriosa.<br />
+
+<br />
+
+<em>A resurrei&ccedil;&atilde;o dos mortos e a sua
+sahida do tumulo</em>.&#8213;Durante o seculo IX figurava-se muitas
+vezes ao p&eacute; da Cruz a Resurrei&ccedil;&atilde;o dos
+mortos que se deu por occasi&atilde;o da morte de Jesus Christo,
+segundo narra o Evangelho.<br />
+
+<br />
+
+Os tumulos d'onde sahiram os resuscitados t&ecirc;em a forma de
+pequenos edificios, geralmente armados com uma capella, mais raramente
+d'um front&atilde;o triangular ou d'um telhado de duas aguas. Nada
+havia que mais se prestasse a proclamar a victoria al&ccedil;ada
+contra a morte de Nosso Senhor expirando sobre a Cruz, como a
+Resurrei&ccedil;&atilde;o dos mortos.<br />
+
+<br />
+
+<h4>Personagens e accessorios
+allegoricos</h4>
+
+<br />
+
+<em>A Egreja e a Synagoga</em>. Desde o
+seculo IX at&eacute; ao XII encontram-se, sobre a maior parte das
+representa&ccedil;&otilde;es do Sacrificio da Cruz,
+personifica&ccedil;&otilde;es da Egreja e da Synagoga. Tinham
+ellas por fim recordar aos Christ&atilde;os a
+reproduc&ccedil;&atilde;o do povo d'Israel e a
+voca&ccedil;&atilde;o dos infieis &aacute;
+F&eacute; da Egreja Christ&atilde;. A Egreja, quasi sempre
+&aacute; direita da
+Cruz, &eacute; representada por uma mulher com uma bandeira e
+aparando n'um calix o sangue que corre da chaga de Nosso Senhor feita
+no lado direito. A Synagoga &eacute; representada por uma mulher
+com uma bandeira e tambem &aacute;s vezes uma palma.
+<span class="pagenum">[146]</span>
+Est&aacute; collocada &aacute;
+esquerda do Salvador com as costas voltadas para o Senhor, e algumas
+vezes parece afastar-se lan&ccedil;ando olhares d'insulto e de
+c&oacute;lera.<br />
+
+<br />
+
+<em>O Oceano e a Terra</em>.&#8213;Os artistas
+romans collocavam frequentemente sobre o marfim e sobre as miniaturas
+dos manuscriptos, no p&eacute; da Cruz ou inferiormente a toda a
+composi&ccedil;&atilde;o, as
+personifica&ccedil;&otilde;es do Oceano e da Terra tiradas da
+mythologia.<br />
+
+<br />
+
+O Oceano, geralmente collocado &aacute; direita do Salvador,
+&eacute; representado por um homem barbado, sentado sobre um
+monstro marinho, ou despejando uma urna; tem na m&atilde;o um remo,
+um peixe, uma cornucopia, ou o tridente de Neptuno, e na
+cabe&ccedil;a chavelhos em f&oacute;rma de serpentes, e tambem,
+&aacute;s vezes, trazendo azas. Defronte do Oceano acha-se a Terra
+com a f&oacute;rma d'uma mulher, semi-nua, segurando, e
+at&eacute; amamentando crean&ccedil;as ou serpentes, muito
+proximo d'ella; &aacute;s vezes mesmo, n'uma das m&atilde;os,
+v&ecirc;-se uma cornucopia.<br />
+
+<br />
+
+As personifica&ccedil;&otilde;es do Oceano e da Terra
+collocavam-se perto da Cruz, primitivamente, como acima dissemos, para
+exprimir a d&ocirc;r que a Natureza soffreu com a morte do seu
+Creador; e mais tarde, para mostrar que todo o Universo partilhou da
+Redemp&ccedil;&atilde;o operada pela morte do Salvador.<br />
+
+<br />
+
+<em>A m&atilde;o Divina e a pomba</em>. Muitas vezes
+v&ecirc;-se na extremidade superior da Cruz uma
+m&atilde;o, com ou
+<span class="pagenum">[147]</span>
+sem
+nimbo crucifero, parecendo sair das nuvens e segurando uma
+cor&ocirc;a. Esta m&atilde;o &eacute; o
+symbolo de Deus Pae, do mesmo modo que a pomba, que se v&ecirc;
+sobre algumas Cruzes, symbolisa o Espirito Santo.<br />
+
+<br />
+
+<em>Os Anjos</em>. Superiormente &aacute;
+travessa horisontal da Cruz e proximo do Sol e da Lua v&ecirc;em-se
+&aacute;s vezes dois, tres ou quatro anjos, em attitude de
+adora&ccedil;&atilde;o. Algumas vezes suspendem sobre a
+cabe&ccedil;a do Salvador uma cor&ocirc;a. Nos monumentos mais
+remotos (os do IX seculo), onde mais frequentemente se v&ecirc;em
+os anjos, s&atilde;o estes em numero de dois e designados pelos
+nomes de Miguel e Gabriel: representam a Natureza angelica assistindo
+&aacute; morte do Salvador.<br />
+
+<br />
+
+<em>Os Evangelistas</em>.&#8213;Anteriormente ao
+IX seculo, nunca se representavam os Evangelistas do lado principal aos
+crucifixos, mas sim nas quatro extremidades do reverso, tendo no centro
+a imagem da Santissima Virgem. A raz&atilde;o d'isto &eacute;
+porque n'esta epocha n&atilde;o se admittiam no sacrificio da Cruz
+sen&atilde;o accessorios puramente historicos.<br />
+
+<br />
+
+No VIII seculo, quando na iconographia da Cruz se introduziram as
+allegorias e os symbolos, tambem appareceram os Evangelistas.<br />
+
+<br />
+
+Encontram-se ora por cima dos bra&ccedil;os horisontaes da Cruz,
+com os anjos e os astros, ora nos quatro angulos da cercadura, que
+forma a moldura da scena principal. Tambem &aacute;s vezes se
+encontram, tanto no IX como no XII seculo, no lado principal dos
+crucifixos, nas extremidades dos ramos.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[148]</span>
+<em>O Calix</em>. Encontram-se crucifixos em
+que o <em>suppedaneum</em> &eacute; substituido por um
+calix.<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; muito provavel que este calix n&atilde;o seja mais que
+o <em>Santo Graal</em>,<sup><a href="#3">[3]</a></sup>
+t&atilde;o
+celebre na idade m&egrave;dia. O <em>Santo Graal</em>
+diz-se que servira
+&aacute; Ceia; foi n'elle que Jesus-Christo transformou o vinho
+pelo seu proprio sangue.<br />
+
+<br />
+
+<em>Ad&atilde;o sahindo do tumulo</em>. Esta scena
+representa-se muitas vezes proximo da Cruz, para significar
+que a resurrei&ccedil;&atilde;o da carne &eacute; uma
+consequencia da morte de Christo.<br />
+
+<br />
+
+O sacrificio da Cruz, desde o IX at&eacute; ao XII seculo, com os
+seus accessorios allegoricos e historicos, deve interpretar-se: a
+Natureza Angelica, Celeste e Terrestre assistindo ao sublime sacrificio
+do Homem-Deus sobre a Cruz, onde affronta os salutares affectos; a
+Synagoga reprovada, a Egreja formada, a cabe&ccedil;a da serpente
+infernal esmagada, o genero humano rehabilitado e recebendo o
+testemunho da Resurrei&ccedil;&atilde;o da Carne.<br />
+
+<br />
+
+<em>Os crucifixos dos seculos XI e XII</em>. Existem muitos
+d'estes crucifixos; apresentam os seguintes caracteres:<br />
+
+<br />
+
+A imagem de Christo &eacute;, em geral, de cobre vermelho; tem,
+quasi sempre, os olhos de vidro azul.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[149]</span>
+<em>O perisonium</em>, ou a toalha que cobre
+o corpo de Christo desde os quadris at&eacute; aos joelhos, toma
+ordinariamente a forma d'um saiote cujas orlas s&atilde;o ornadas
+de perolas. Os Christos dos seculos XI e XII, vestidos de tunica
+comprida com mangas ou com o <em>perisonium</em> em forma
+de saiote,
+que lhe chega at&eacute; aos p&eacute;s, s&atilde;o
+extremamente
+raros.<br />
+
+<br />
+
+<em>Nos crucifixos do XI seculo</em>, Christo
+est&aacute; muitas vezes coroado com uma especie de gorra ou
+cor&ocirc;a real. No XII seculo, j&aacute; a gorra e a
+cor&ocirc;a se
+tornam raras desapparecendo completamente no fim d'elle.<br />
+
+<br />
+
+<em>Os bra&ccedil;os das cruzes</em> que
+teem imagens de Christo, s&atilde;o geralmente ornados com esmaltes
+e symbolos, tanto no reverso como na frente principal.<br />
+
+<br />
+
+<em>Cruzes da Paix&atilde;o e Cruzes da
+Resurrei&ccedil;&atilde;o</em>. A Cruz da
+Paix&atilde;o &eacute; formada por uma haste e uma ou duas
+travessas e representa ou imita as
+propor&ccedil;&otilde;es das differentes partes da Cruz,
+instrumento de supplicio.<br />
+
+<br />
+
+<em>A Cruz da
+Resurrei&ccedil;&atilde;o</em> &eacute; apenas
+um symbolo da Cruz Real ou da Paix&atilde;o; &eacute; uma
+pequena cruz na extremidade d'uma haste como a que segura o Divino
+Cordeiro.<br />
+
+<br />
+
+<em>A Santissima Virgem</em>. Durante os doze
+primeiros seculos da nossa era representa-se a Virgem umas vezes
+s&oacute;sinha e outras acompanhada do Divino Filho.<br />
+
+<br />
+
+<em>A Virgem sem o Menino Jesus</em> tem
+ordinariamente os bra&ccedil;os estendidos e erguidos parecendo
+<span class="pagenum">[150]</span>
+orar e perto da
+cabe&ccedil;a est&aacute; inscripta a sigla
+MPOY, isto &eacute;: <span class="smallcaps">M&atilde;e
+de
+Deus</span>. Este modo de
+representa&ccedil;&atilde;o, muito usado desde o IV
+at&eacute; ao VII seculo, deixou comtudo de ser empregado nos
+seculos seguintes.<br />
+
+<br />
+
+<em>A Virgem com o Menino Jesus</em>. Ha duas
+maneiras de representar a Virgem com o Menino. Quando a scena
+&eacute; imaginada para prestar homenagem a Nossa Senhora, diz-se
+que ella &eacute;
+<em>poetica</em>.<br />
+
+<br />
+
+Quando os reis magos, por exemplo, v&ecirc;em trazer os seus
+presentes a Jesus no collo da Santissima M&atilde;e, a scena
+&eacute; puramente historica.<br />
+
+<br />
+
+Durante o periodo Latino e a primeira parte do periodo Roman, o grupo
+historico &eacute; o mais frequente. Vemol-o em differentes scenas
+da vida do Senhor, principalmente na adora&ccedil;&atilde;o dos
+reis
+Magos.<br />
+
+<br />
+
+O grupo poetico p&oacute;de reduzir-se a dois typos distinctos. O
+primeiro que chamaremos
+<em>grego</em> ou <em>bysantino</em>, consiste
+em representar a
+imagem da Virgem com os bra&ccedil;os erguidos como que orando,
+tendo diante de si o Menino Jesus, lan&ccedil;ando a
+ben&ccedil;&atilde;o, ao modo Grego, com as duas
+m&atilde;os, ou s&oacute; com a direita. Este typo
+j&aacute; se encontra nas catacumbas.<br />
+
+<br />
+
+Os Bysantinos empregaram-se durante toda a idade media, e os Gregos
+ainda hoje se empregam.<br />
+
+<br />
+
+<em>O Guia da pintura</em> (manual
+iconographico, adoptado pelos antigos pintores e ainda hoje seguido
+pelos Gregos), recommenda que se represente Nossa Senhora com as
+m&atilde;os erguidas e Christo
+<span class="pagenum">[151]</span>
+lan&ccedil;ando a
+ben&ccedil;&atilde;o para ambos os lados,
+com o evangelho sobre o peito.<br />
+
+<br />
+
+No outro typo do grupo <em>poetico</em>, a
+Santissima Virgem &eacute; representada umas vezes de p&eacute;
+com o Menino Jesus nos bra&ccedil;os, outras sentada tendo-o sobre
+os joelhos.<br />
+
+<br />
+
+D&aacute;-se a este typo o nome de Occidental, n&atilde;o
+porque elle f&ocirc;sse desconhecido pelos Gregos, pois que o
+usavam conjuntamente com o typo
+<em>bysantino</em>, mas por que foi este o unico usado no
+Occidente durante toda a idade m&eacute;dia. Foi introduzido ou
+pelo menos generalisado insensivelmente na iconographia
+christ&atilde; depois da
+condemna&ccedil;&atilde;o de Nestorio pelo Concilio de
+&Eacute;pheso, celebrado em 431. Este heresiarcha negava que Nossa
+Senhora f&ocirc;sse m&atilde;e de Deus.<br />
+
+<br />
+
+Para affirmar o dogma da maternidade divina de Nossa Senhora,
+representavam-n'a com o Menino Jesus nos bra&ccedil;os, e muitas
+vezes acompanhada da inscrip&ccedil;&atilde;o &Eta;
+&Alpha;&Gamma;&Iota;&Alpha;
+&Omicron;&Epsilon;&Omicron;&Tau;&Omicron;&Kappa;&Omicron;&#986;,
+isto &eacute;, <em>Santa Deipara</em>, ou a
+<em>Santa M&atilde;e de Deus</em>.<br />
+
+<br />
+
+Em geral Nossa Senhora est&aacute; sentada com o Menino Jesus sobre
+os joelhos, lan&ccedil;ando a
+ben&ccedil;&atilde;o, pelo menos, com uma das m&atilde;os.<br />
+
+<br />
+
+Durante todo o periodo Roman estas representa&ccedil;&otilde;es
+de Nossa Senhora e do seu Divino Filho distinguem-se por uma magestade
+e nobreza de sentimento como quasi se n&atilde;o encontra nos
+seculos seguintes.<br />
+
+<br />
+
+A Santissima Virgem tem geralmente diante de si o Menino Jesus
+completamente vestido, n&atilde;o estando
+<span class="pagenum"><a name="p152">[152]</a></span>
+entretido com sua Divina
+M&atilde;e, mas sim aben&ccedil;oando aquelles que lhe
+v&ecirc;em prestar
+homenagem. Tem nas m&atilde;os uma esphera ou mais geralmente um
+livro, ou um rolo, <em>volumen</em>,
+symbolo da doutrina da nova Lei dada ao mundo.<br />
+
+<br />
+
+Na Grecia e no Oriente, os pintores e os esculptores cobrem
+ordinariamente a cabe&ccedil;a da Santissima Virgem com um veu; os
+artistas occidentaes tambem conservaram esta
+tradi&ccedil;&atilde;o durante algum tempo, mas, a
+come&ccedil;ar do seculo IX, d&atilde;o a Nossa Senhora uma
+cor&ocirc;a real e algumas vezes uma especie de gorra.<br />
+
+<br />
+
+<em>Os Anjos</em>. Os anjos t&ecirc;em
+figurado nos monumentos christ&atilde;os desde o IV seculo. Os
+primeiros n&atilde;o tinham azas. S&oacute; do V seculo em
+diante
+&eacute; que come&ccedil;aram a tel-as bem como o nimbo.
+S&atilde;o
+representados com uma longa tunica, orlada por duas faixas em
+f&oacute;rma de <em>clavi</em>, e t&ecirc;em
+algumas vezes na
+m&atilde;o um longo sceptro ou
+<em>bast&atilde;o</em>, terminado por um
+flor&atilde;o ou por uma cruz. Os archanjos Miguel, Gabriel e
+Raphael, tambem muitas vezes s&atilde;o representados.<br />
+
+<br />
+
+Os Anjos t&ecirc;em sempre os p&eacute;s descal&ccedil;os.
+Symbolisava-se d'esta maneira a sua qualidade de mensageiros celestes.<br />
+
+<br />
+
+<em>Os Evangelistas e seus symbolos</em>. O
+uso de representar os Evangelistas sob a f&oacute;rma humana ou por
+symbolos, data pelo menos do IV seculo.<br />
+
+<br />
+
+Sob a f&oacute;rma humana encontr&acirc;mol-os primeiramente em
+alguns mosaicos antiquissimos e um pouco mais tarde tambem nas
+miniaturas dos evangeliarios.
+<span class="pagenum">[153]</span>
+Est&atilde;o regularmente sentados debaixo d'um
+portico, tendo na sua frente um pulpito chamado <em>scriptional</em>,
+sobre o qual
+est&aacute; desenrolada uma folha de pergaminho, com o titulo ou as
+primeiras palavras do seu Evangelho. Apparecem sempre
+descal&ccedil;os e &aacute;s vezes acompanhados do animal que
+lhes serve de symbolo.<br />
+
+<br />
+
+Os symbolos mais usados dos evangelistas s&atilde;o os seguintes:<br />
+
+<br />
+
+<em>Os quatro rios do Paraizo</em>. O modo de
+symbolisar os evangelistas pelos quatro rios: Phisonte,
+G&eacute;honte, Tigre e Euphrates, tem origem muito remota. Os mais
+antigos mosaicos e as proprias catacumbas nos offerecem j&aacute;
+exemplos d'esta
+representa&ccedil;&atilde;o. O Salvador com a f&oacute;rma
+humana ou com a do Divino Cordeiro, apparece sobre um outeiro d'onde
+brotam quatro rios, emblemas dos Evangelhos, os quaes, produzidos pela
+fonte da Vida Eterna, trouxeram ao Universo a fertil doutrina de
+Christo.<br />
+
+<br />
+
+<em>Os animaes symbolicos</em>. Os
+Evangelistas s&atilde;o muitas vezes symbolisados por quatro
+figuras com azas: um homem, uma aguia, um le&atilde;o e um bezerro.
+Estes symbolos devem a sua origem &aacute;s vis&otilde;es do
+propheta Ezequiel e do Apostolo S. Jo&atilde;o. Eu vi (dizia este
+ultimo), em torno do throno do Cordeiro quatro animaes. O primeiro com
+o aspecto de um le&atilde;o; o segundo, de um bezerro; o terceiro
+com r&ocirc;sto humano e o ultimo semelhando-se a uma aguia em
+pleno
+v&ocirc;o.<br />
+
+<br />
+
+Os santos Padres consideraram estas vis&otilde;es como
+<span class="pagenum">[154]</span>
+os seguintes symbolos: o homem o de S.
+Matheus; a aguia o de S. Jo&atilde;o, o le&atilde;o o de S.
+Marcos e o bezerro o de S. Lucas.<br />
+
+<br />
+
+Encontram-se os animaes symbolicos mais a miudo: 1.&ordm;, sobre as
+capas
+dos evangeliarios; 2.&ordm;, nas quatro extremidades das cruzes
+d'Altar;
+3.&ordm;, nos quatro angulos da representa&ccedil;&atilde;o
+do
+Christo em sua Gloria, como elle existe sobre as frentes dos altares, e
+nos tympanos dos portaes d'egreja do XI e XII seculos.<br />
+
+<br />
+
+Os symbolos dos evangelistas reduzem-se a quatro sobre um unico objecto
+ou empregados conjunctamente n'uma pintura, ou esculptura;
+s&atilde;o regularmente acompanhados de Christo figurado com a
+f&oacute;rma humana ou por um symbolo.<br />
+
+<br />
+
+&Eacute;, finalmente, da doutrina de Christo que derivam, como
+d'uma fonte commum, os quatro Evangelhos.<br />
+
+<br />
+
+Quando se d&aacute; o caso dos animaes symbolicos ornarem os quatro
+angulos d'uma superficie quadrada, quadrangular ou redonda, taes como
+as capas dos livros, os tympanos dos portaes, as frentes d'altar ou a <em>flabella</em>,
+t&ecirc;em certos logares determinados pelo uso: o homem com azas
+(ao qual muitos auctores d&atilde;o abusivamente o nome d'anjo)
+occupa o angulo superior direito (&aacute; esquerda do espectador);
+a aguia, o angulo superior esquerdo; o le&atilde;o, o angulo
+inferior direito, e o bezerro, o angulo inferior da esquerda.<br />
+
+<br />
+
+Quando collocados nas extremidades dos quatro bra&ccedil;os da
+Cruz, a aguia acha-se no vertice,
+<span class="pagenum"><a name="p155">[155]</a></span>
+o homem na extremidade inferior, o
+le&atilde;o no bra&ccedil;o direito e o bezerro no
+bra&ccedil;o esquerdo da Cruz.<br />
+
+<br />
+
+<em>Os Apostolos</em>. S. Pedro e S. Paulo
+eram os unicos Apostolos que durante o periodo Roman se representavam
+com um typo uniforme.<br />
+
+<br />
+
+Desde os tempos mais remotos, que S. Pedro era representado trazendo
+uma Cruz, ou as chaves, e tem cabello na cabe&ccedil;a, emquanto
+que S. Paulo &eacute; calvo. At&eacute; ao XIII seculo
+n&atilde;o
+se encontra nos outros Apostolos nenhum attributo caracteristico.
+Representam-se todos do mesmo modo, com um r&ocirc;lo ou livro na
+m&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+Os Apostolos e mesmo Judas, t&ecirc;em os p&eacute;s
+descal&ccedil;os.<br />
+
+<br />
+
+Os artistas da idade media symbolisavam com este signal iconographico a
+miss&atilde;o sublime, confiada aos Apostolos, de derramar por toda
+a terra a doutrina Evangelica.<br />
+
+<br />
+
+<em>Assumptos religiosos representados sobre os monumentos dos
+seculos XI e XII</em>. Estes assumptos tirados quasi todos da
+Biblia, n&atilde;o
+eram muito variados; tinham em geral um caracter uniforme e
+reconheciam-se bem ao primeiro golpe de vista. Eis pois os que mais
+frequentemente eram reproduzidos:<br />
+
+<br />
+
+1.&ordm;, a tenta&ccedil;&atilde;o dos nossos primeiros
+paes; 2.&ordm;,
+o sacrificio d'Abrah&atilde;o; 3.&ordm;, a
+Annuncia&ccedil;&atilde;o; 4.&ordm;, a
+visita&ccedil;&atilde;o da Santissima Virgem; 5.&ordm;, o
+Nascimento de Nosso Senhor, que j&aacute; se representava sobre os
+sarcophagos e nas pinturas a fresco das catacumbas
+<span class="pagenum">[156]</span>
+do seculo IV; 6.&ordm;, a
+Adora&ccedil;&atilde;o dos reis
+magos; 7.&ordm;, a degola&ccedil;&atilde;o dos innocentes;
+8.&ordm;, a
+fugida
+para o Egypto; 9.&ordm;, a exposi&ccedil;&atilde;o do
+Menino Jesus
+no Templo; 10.&ordm;, o baptismo de Nosso Senhor; 11.&ordm;, a
+sua entrada
+triumphal em Jerusalem; 12.&ordm;, a
+transfigura&ccedil;&atilde;o;
+13.&ordm;, a ultima ceia; 14.&ordm;, a
+crucifix&atilde;o; 15.&ordm;, a descida da Cruz; 16.&ordm;,
+a
+Resurreic&atilde;o; 17.&ordm;, as Santas mulheres no tumulo;
+18.&ordm;, a
+Ascens&atilde;o de Nosso Senhor.<br />
+
+<br />
+
+<em>Representa&ccedil;&otilde;es symbolicas das
+virtudes e dos vicios</em>. Os artistas christ&atilde;os da
+idade media estimavam muito symbolisar tanto as virtudes como os
+vicios. Durante o periodo Roman as virtudes representam-se sob a figura
+de mulheres tendo cor&ocirc;as, algumas vezes tambem azas, e na
+cabe&ccedil;a uma especie de gorra. O seu nome acha-se inscripto do
+seu lado, ou sobre qualquer objecto que conservam nas m&atilde;os;
+&aacute;s vezes teem mesmo um emblema. As quatro Virtudes
+Cardeaes;&#8213;prudencia, justi&ccedil;a, for&ccedil;a e
+temperan&ccedil;a&#8213;encontram-se frequentemente sobre os monumentos
+Romans de toda a especie.<br />
+
+<br />
+
+Os vicios s&atilde;o figurados, ou por monstros phantasticos, ou
+por homens e mulheres entregues aos excessos de suas
+paix&otilde;es; encontram-se muitas vezes sobre o mesmo monumento
+em concorrencia com as virtudes que lhes s&atilde;o oppostas.<br />
+
+<br />
+
+<em>Animaes phantasticos</em>. Os monumentos
+do periodo Roman offerecem-nos a representa&ccedil;&atilde;o de
+numerosos animaes reaes e phantasticos.<br />
+
+<br />
+
+Indicaremos alguns d'estes ultimos.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[157]</span>
+1.&ordm; O <em>basilisco</em> &eacute; um
+animal com a f&oacute;rma d'um gallo, mas com a cauda semelhante
+&aacute; d'uma serpente. Reputa-se provir d'um ovo de gallinha
+chocado por um reptil. O basilisco symbolisava o demonio.<br />
+
+<br />
+
+2.&ordm; A <em>aspide</em> &eacute; uma
+especie de serpente que a lenda diz estar de guarda &aacute; arvore
+do balsamo. Se o homem quizer approximar-se d'esta arvore para lhe
+colher o fructo, torna-se necessario que elle primeiro
+adorme&ccedil;a a mesma serpente pelo encanto; mas esta, para se
+subtrahir ao encantamento, tapa uma das orelhas com a cauda e a outra
+com terra, espojando-se na lama. A
+<em>aspide</em> representa os que voluntariamente deixam de
+attender aos mandamentos do Senhor.<br />
+
+<br />
+
+3.&ordm; O <em>griffo</em> &eacute; um
+quadrupede com azas e cabe&ccedil;a d'aguia. Symbolisa o demonio.
+V&ecirc;-se muitas vezes sobre os monumentos Romans dos seculos XI
+e XII.<br />
+
+<br />
+
+4.&ordm; A <em>sereia</em> &eacute; um
+monstro com o corpo metade mulher e metade peixe. A parte superior do
+corpo, que comprehende a cabe&ccedil;a, os bra&ccedil;os e o
+corpo at&eacute; &aacute; cintura, tem a f&oacute;rma
+humana; e o resto inferior &eacute; a cauda d'um monstro marinho.
+Entre os Gregos e os Romanos as sereias terminavam em passaro e
+n&atilde;o em peixe; eram tres e habitavam uns rochedos escarpados
+entre a ilha de Capri e as costas d'Italia; os seus cantos tinham o
+poder de fazer esquecer aos navegadores o paiz d'onde vinham. Durante a
+idade media a sereia foi o symbolo da seduc&ccedil;&atilde;o
+causada pelos attractivos das pessoas.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[158]</span>
+Tambem se encontram sobre muitos monumentos os doze signos do zodiaco,
+muitas vezes acompanhados com os trabalhos do anno que lhes
+correspondem. Eram frequentemente empregados para ornar as archivoltas
+dos portaes principaes das egrejas.<br />
+
+<br />
+
+<em>Doadores e doadoras</em>. Quando os
+doadores e as doadoras d'um monumento queriam conservar &aacute;s
+gera&ccedil;&otilde;es futuras a lembran&ccedil;a do seu
+beneficio, faziam-se representar em pequenissimas
+propor&ccedil;&otilde;es, humildemente prostrados aos
+p&eacute;s de Jesus Christo, da Santissima Virgem ou d'outros
+Santos.<br />
+
+<br />
+
+Algumas vezes tambem os doadores se figuravam n'uma parte secundaria do
+monumento, apresentando a Deus ou tendo simplesmente nas
+m&atilde;os um modelo da egreja, do altar ou do objecto que haviam
+offerecido.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c5"></a>CAPITULO V</h3>
+
+<br />
+
+<div class="intro"><b>Summario.</b>&#8213;No&ccedil;&otilde;es
+preliminares&#8213;Diversas f&oacute;rmas de ogiva&#8213;Origem da ogiva e do
+estylo ogival&#8213;Periodo de transi&ccedil;&atilde;o
+do estylo Roman ao estylo Ogival&#8213;Caracteres d'Architectura
+Ogival&#8213;Observa&ccedil;&otilde;es geraes&#8213;Plano e
+disposi&ccedil;&atilde;o das egrejas&#8213;Systema
+de construc&ccedil;&atilde;o&#8213;Materiaes e apparelhos de
+construc&ccedil;&atilde;o&#8213;Esculptura
+monumental&#8213;Fachadas&#8213;Adros&#8213;Portaes&#8213;Pinturas&#8213;Janellas&#8213;Rosaes&#8213;Caixilhos
+de janellas e vidros&#8213;Vidra&ccedil;as pintadas&#8213;Pilares, columnas e
+columnasinhas&#8213;Bases de columnas&#8213;Capiteis&#8213;Caxorros e misulas&#8213;Arcadas
+e
+arcaduras&#8213;Triforium&#8213;Cornijas&#8213;Platibandas&#8213;Abobadas&#8213;Arcos
+butantes&#8213;Contrafortes&#8213;Gargulhas&#8213;Nichos e
+Docel&#8213;Madeiramentos&#8213;Telhados&#8213;Torres e
+campanarios&#8213;Pavimentos&#8213;Labyrintho&#8213;Pinturas das paredes&#8213;Cruzes de
+consagra&ccedil;&atilde;o&#8213;Altares&#8213;Tabernaculos&#8213;Cadeiras de
+c&ocirc;ro&#8213;Separa&ccedil;&atilde;o do
+Altar-m&oacute;r&#8213;Pulpito e confissonarios&#8213;Capellas funereas,
+tumulos, campas, Cruzes de Cemiterio&#8213;Pias Baptismaes&#8213;Pias de agua
+benta&#8213;Engradamentos&#8213;Org&atilde;os&#8213;Alfaias
+religiosas&#8213;Calices e
+patenas&#8213;Custodias&#8213;Thuribulos&#8213;Relicarios&#8213;Cor&ocirc;as para
+luzes&#8213;Cruzes de altar e de
+prociss&atilde;o&#8213;Casti&ccedil;aes&#8213;Estantes&#8213;Instrumentos de
+paz&#8213;Moldes para Hostias&#8213;Baculos&#8213;Mitras&#8213;Vestimentas
+sacerdotaes&#8213;Abbadias e Mosteiros&#8213;Egrejas&#8213;Claustros e
+Refeitorios&#8213;Sala de Capitulo&#8213;Dormitorios&#8213;Casa para
+hospedes&#8213;Celleiros&#8213;Pris&atilde;o&#8213;Cartuxa&#8213;Hospitaes&#8213;Iconographia&#8213;O
+Nimbo&#8213;O Crucificado&#8213;Os Apostolos e os Evangelistas&#8213;O Dia de
+Juizo&#8213;Sibyllas.</div>
+
+<br />
+
+<h4>Periodo Ogival</h4>
+
+<br />
+
+O estylo ogival, tambem chamado
+<em>gothico</em>, foi usado desde o meiado do XII seculo
+at&eacute; ao principio do XIV. Chama-se ogival, porque differe de
+todos os outros estylos que o precederam, pelo emprego da <em>ogiva</em>.
+Os allem&atilde;es
+chamam-lhe &aacute;s vezes&#8213;<em>estylo em arco bicudo</em>.
+As janellas, as arcadas, os v&atilde;os das portas, n'uma palavra,
+todas as aberturas s&atilde;o regularmente terminadas por arcos em
+f&oacute;rma de ogiva. Devemos acrescentar que a
+denomina&ccedil;&atilde;o de <em>Gothico</em>,
+dada ao estylo da idade
+media, &eacute; uma especie de ironia da &eacute;poca da
+renascen&ccedil;a,
+<span class="pagenum"><a name="p160">[160]</a></span>
+pois que o estylo ogival nada tem de commum com os <em>G&ocirc;dos</em>.
+Foi o
+italiano Vasari quem primeiro empregou este epitheto como synonimo de <em>barbaro</em>!
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Diversas f&oacute;rmas de ogiva</em>. Chama-se <em>ogiva</em>
+toda a figura formada por dois ou
+mais arcos de circulo, cortando-se segundo um certo angulo.<br />
+
+<br />
+
+Expliquemos, segundo a ordem chronologica, as principaes
+f&oacute;rmas da ogiva:<br />
+
+<br />
+
+<em>Ogiva obtusa</em>. Chamada tambem Roman,
+quando termina superiormente em bico, muitas vezes quasi se confunde
+com o arco de volta inteira. Os dois arcos que a formam, t&ecirc;em
+os centros muito proximos; algumas vezes mesmo t&atilde;o perto um
+do outro que &eacute; necessario um attento exame para distinguir o
+bico pouco sensivel que o distingue do arco de volta inteira.<br />
+
+<br />
+
+A ogiva com esta f&oacute;rma encontra-se muito frequentemente nos
+edificios do principio do periodo ogival, reapparecendo mais tarde,
+j&aacute; no fim do mesmo periodo, nos monumentos dos ultimos annos
+dos seculos XV e XVI.<br />
+
+<br />
+
+<em>Ogiva aguda ou lanceta</em>. &Eacute;
+formada por dois arcos cujos centros est&atilde;o situados
+al&eacute;m da corda que une as suas duas extremidades inferiores
+da volta do ber&ccedil;o.<br />
+
+<br />
+
+Tem o nome de <em>Lanceta</em> pela sua
+semelhan&ccedil;a com o instrumento de cirurgia d'este nome.<br />
+
+<br />
+
+<em>Ogiva equilatera</em>. &Eacute;
+aquella cujos centros se acham nos dois extremos da corda, e na qual
+podemos por consequencia inscrever um triangulo
+<span class="pagenum">[161]</span>
+equilatero. Tambem se d&aacute; a
+esta ogiva o nome de ogiva tra&ccedil;ada de terceiro ponto.<br />
+
+<br />
+
+<em>A ogiva alteada</em> &eacute; aquella
+cujos arcos se prolongam inferiormente, sendo formados por dois ramos
+verticaes e parallelos abaixo da linha dos centros. Encontra-se muitas
+vezes no fundo do c&ocirc;ro das grandes egrejas.<br />
+
+<br />
+
+As tres f&oacute;rmas de ogiva acima descriptas empregaram-se
+durante os seculos XII e XIII.<br />
+
+<br />
+
+<em>A ogiva de terceiro ponto</em>
+&eacute; a que tem os centros dos arcos situados no terceiro ponto
+da linha dos centros ou corda, e est&aacute; dividida em tres
+partes eguaes. Chama-se effectivamente ogiva de terceiro ponto, por
+isso que se colloca a ponta do compasso no terceiro dos pontos de
+divis&atilde;o da corda.<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; para notar que muitos auctores, ali&aacute;s muito
+recommendaveis, n&atilde;o mencionam a ogiva formada por arcos cujo
+centro se encontra a um ter&ccedil;o da corda; a raz&atilde;o
+d'isto &eacute; porque consideram a ogiva
+equilateral como de terceiro ponto.<br />
+
+<br />
+
+Esta ogiva come&ccedil;ou a apparecer no fim do XIII seculo e
+generalisou-se bastante nos seculos XIV e XV.<br />
+
+<br />
+
+<em>A ogiva inflexa</em> descreve-se por meio
+de raios partindo de quatro pontos e produzindo duas curvas junto
+&aacute; corda e duas outras curvas em sentido inverso no vertice.<br />
+
+<br />
+
+O extradorso d'esta ogiva bem como o da f&oacute;rma seguinte
+&eacute; convexo na parte inferior e concavo na superior.<br />
+
+<br />
+
+<em>A ogiva em f&oacute;rma de
+chaveta</em> apenas differe da precedente por ser mais achatada.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p162">[162]</a></span>
+Estas duas ultimas f&oacute;rmas usaram-se durante os XV e XVI
+seculos.<br />
+
+<br />
+
+A ogiva inflexa serve muitas vezes de coroamento a um arco de terceiro
+ponto, durante a primeira metade do seculo XV, ou em chaveta, durante a
+segunda metade do seculo XV e principio do XVI.<br />
+
+<br />
+
+A ogiva formada meia convexa e meia concava &eacute;
+tra&ccedil;ada como a ogiva em chaveta, com raios que partem de
+quatro centros differentes, mas inversamente; o extradorso do arco
+&eacute; concavo inferiormente e convexo no vertice. Encontra-se
+esta ogiva, ainda que raras vezes, em alguns monumentos dos seculos XV
+e XVI.<br />
+
+<br />
+
+<em>O arco Tudor</em>, assim chamado, porque
+tomou o nome dos reis, que estavam no throno de Inglaterra na epoca em
+que o seu uso se generalisou n'este paiz; &eacute; formado por
+quatro arcos cujos centros se acham todos dentro do espa&ccedil;o
+da ogiva. Ha uma f&oacute;rma mais aguda, que &eacute; a que se
+v&ecirc; em monumentos inglezes de uma grande parte do seculo XV; a
+outra forma mais abatida s&oacute; foi empregada no fim do XV
+seculo, e no principio do XVI. Os inglezes chamam &aacute;
+primeira, arco de quatro centros, e &aacute; segunda arco abatido.
+Ha ainda muitas f&oacute;rmas intermediarias entre estes dois
+extremos.<br />
+
+<br />
+
+<em>Origem da ogiva e do estylo ogival</em>. Os archeologos
+n&atilde;o concordam uns com outros sobre a origem
+da ogiva. A opini&atilde;o que parece mais provavel, attendendo a
+que os monumentos do Oriente exerceram certa influencia sobre a
+introduc&ccedil;&atilde;o da
+<span class="pagenum">[163]</span>
+ogiva na architectura da
+Europa no meiado do XII seculo, considera como um producto do genio
+Occidental a applica&ccedil;&atilde;o logica e systematica da
+ogiva nas construc&ccedil;&otilde;es executadas no Occidente
+desde essa epoca. A ogiva appareceu na Europa poucos annos depois da
+primeira cruzada.<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; possivel que esta forma architectonica fosse como outras
+muitas cousas, introduzida no Occidente pelos cavalleiros cruzados,
+quando regressaram das suas longiquas expedi&ccedil;&otilde;es.
+Empregada a ogiva no principio como pura phantasia e como um novo modo
+de ornamenta&ccedil;&atilde;o, quer para formar os
+v&atilde;os das portas e janellas, quer para decorar as arcadas, as
+paredes lisas e por baixo das cornijas, tornou-se mais tarde o ponto de
+partida para o bello estylo da architectura cujo nome se ligou ao XIII
+seculo e cujo desenvolvimento methodico pertence exclusivamente
+&aacute; Europa Occidental.<br />
+
+<br />
+
+Este estylo rapidamente attingiu um subido gr&aacute;o de
+perfei&ccedil;&atilde;o, devido &aacute;s numerosas
+egrejas parochiaes, collegiaes, monasticas e cathedraes, que foram
+fundadas, construidas ou reconstruidas e augmentadas nos seculos XIII e
+XIV.<br />
+
+<br />
+
+A palavra <em>ogiva</em> nem sempre teve a
+mesma accep&ccedil;&atilde;o, que nos nossos dias se lhe
+attribue. Outr'ora designava as nervuras salientes que se cruzam em uma
+abobada, seja qual for a curvatura em arco de circulo, em ogival,
+d'estas nervuras. S&oacute; depois do principio do seculo XIX
+&eacute; que este termo foi empregado para designar o arco
+terminando em ponta, conhecido agora pelo nome de ogiva.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p164">[164]</a></span>
+<em>Divis&otilde;es do periodo
+ogival</em>. O periodo de treze seculos e tres quarteis, durante
+o qual reinou na Europa Occidental o estylo ogival, p&oacute;de ser
+dividido em tres grandes epocas, tendo cada uma caracteres distinctos.<br />
+
+<br />
+
+As denomina&ccedil;&otilde;es francezas de estylo em
+<em>lancetas</em>, <em>radiante</em>,
+s&atilde;o tiradas da
+f&oacute;rma das janellas, assim como o nome de <em>perpendicular</em>,
+dado em Inglaterra, no terciario do seculo XV.<br />
+
+<br />
+
+O estylo ogival n&atilde;o foi introduzido ao mesmo tempo em todos
+os paizes, nem mesmo em todas as partes do mesmo paiz. Nasceu e
+desenvolveu-se rapidamente, no meado do XII seculo, nos arredores de
+Paris.<br />
+
+<br />
+
+O primeiro monumento que appareceu do estylo ogival, foi a fachada
+occidental da abbadia de S. Diniz, perto de Paris, construida entre
+1135 e 1140. Foi introduzido em Inglaterra, Allemanha, Hespanha e mesmo
+n'algumas partes da Italia, por constructores formados em
+Fran&ccedil;a.<br />
+
+<br />
+
+<h4>Periodo de transi&ccedil;&atilde;o do estylo
+Roman para o Ogival</h4>
+
+<br />
+
+A substitui&ccedil;&atilde;o do estylo ogival pelo roman
+n&atilde;o se fez em um dia, foram precisos muitos annos para a
+operar. Foi esta epoca de transforma&ccedil;&atilde;o que
+recebeu o nome de <em>periodo de
+transi&ccedil;&atilde;o</em> entre os dois estylos. A
+dura&ccedil;&atilde;o n&atilde;o
+foi a mesma em todos os paizes, elle come&ccedil;ou mais cedo n'um
+paiz do que n'outro.<br />
+
+<br />
+
+Os monumentos do periodo de transi&ccedil;&atilde;o
+distinguem-se quasi todos pelo emprego simultaneo do
+<span class="pagenum"><a name="p165">[165]</a></span>
+arco de volta inteira e da ogiva. Esta
+combina&ccedil;&atilde;o
+consegue-se por dois modos:<br />
+
+<br />
+
+1.&ordm; Por simples
+<em>juxtaposi&ccedil;&atilde;o</em>,
+quando a ogiva isolada se acha n'um mesmo monumento ao lado d'um arco
+de volta inteira. Nos edificios de
+transi&ccedil;&atilde;o, v&ecirc;em-se muitas vezes
+aberturas de forma circular nos pavimentos inferiores, que
+s&atilde;o os mais antigos, emquanto que, nos demais andares, se
+v&ecirc;em aberturas ogivaes; por&eacute;m mais raramente se
+v&ecirc;em voltas inteiras nas divis&otilde;es elevadas d'um
+monumento, tendo v&atilde;os ogivaes nas inferiores.<br />
+
+<br />
+
+2.&ordm; Como decora&ccedil;&atilde;o, quando duas ou
+muitas ogivas
+est&atilde;o comprehendidas debaixo de uma s&oacute; volta
+inteira. Este modo de reunir a ogiva ao arco circular encontra-se
+principalmente nas janellas e nas arcadas. Tambem se v&ecirc;em
+&aacute;s vezes dois ou muitos v&atilde;os de volta inteira
+emmoldurados n'uma ogiva.<br />
+
+<br />
+
+3.&ordm; Quando arcos de volta inteira produzem ogivas,
+entrecruzando-se
+reciprocamente.<br />
+
+<br />
+
+Uma outra particularidade que muitas vezes se observa nos edificios de
+transi&ccedil;&atilde;o, &eacute;
+a uni&atilde;o da esculptura da ornamenta&ccedil;&atilde;o
+roman com a ogival.<br />
+
+<br />
+
+<h4>Caracteres da architectura ogival</h4>
+
+<br />
+
+O estylo ogival seguiu principios at&eacute; ent&atilde;o
+desconhecidos e um methodo novo e constante nas suas
+deduc&ccedil;&otilde;es.<br />
+
+<br />
+
+A f&oacute;rma dada a um objecto era conforme a
+construc&ccedil;&atilde;o, resultante n&atilde;o d'um
+capricho ou d'uma phantasia, mas d'uma necessidade real.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[166]</span>
+Segue-se que a ornamenta&ccedil;&atilde;o n&atilde;o se
+applica indifferentemente e sem raz&atilde;o sobre as differentes
+partes d'um monumento. D'ella nos servimos ou para chamar a
+atten&ccedil;&atilde;o sobre uma principal parte da
+construc&ccedil;&atilde;o, ou sobre um ponto importante d'um
+objecto, ou para dissimular um obstaculo.<br />
+
+<br />
+
+Um outro caracter distinctivo do estylo ogival &eacute; que os seus
+monumentos est&atilde;o, como se diz em termos de architectura, <em>na
+escala do
+homem</em>, isto &eacute;: que em toda a
+construc&ccedil;&atilde;o, grande
+ou pequena, ha certas partes em harmonia com a estatura humana e, por
+consequencia, tendo pouco mais ou menos sempre as mesmas
+dimens&otilde;es.<br />
+
+<br />
+
+Os caracteres notaveis do estylo ogival, que n&oacute;s acabamos de
+assignalar em poucas palavras, encontram-se principalmente nos
+edificios construidos na edade media, no Noroeste da Europa.<br />
+
+<br />
+
+Durante o periodo Roman os architectos e os operarios habilitavam-se
+nas grandes obras das abbadias.<br />
+
+<br />
+
+O clero secular, e at&eacute; mesmo os particulares ficaram sob a
+direc&ccedil;&atilde;o de Bispos protectores das artes, taes
+como Egberto de Tr&eacute;ves (977-993) e S. Bernardo de Hildesheim
+(993-1022) tomaram tambem uma grande parte na
+direc&ccedil;&atilde;o dos
+movimentos artisticos.<br />
+
+<br />
+
+No XIII seculo as corpora&ccedil;&otilde;es seculares
+apoderaram-se da pratica da architectura, e desde este momento, tod
+No XIII seculo as corpora&ccedil;&otilde;es seculares
+apoderaram-se da pratica da architectura, e desde este momento, todos
+os grandes monumentos, quer religiosos, quer profanos, foram
+construidos por mestres praticos.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[167]</span>
+<em>Plano e disposi&ccedil;&atilde;o das
+egrejas</em>. Plano no rez-do-ch&atilde;o.&#8213;Grande parte das
+egrejas ogivaes apresentam, na planta, a f&oacute;rma d'uma cruz
+latina, cujo vertice figurado pelo c&ocirc;ro, &eacute; voltado
+para o
+Oriente. Em algumas, nota-se sensivelmente um desvio grande no eixo do
+c&ocirc;ro com rela&ccedil;&atilde;o ao
+da nave principal. Este desvio, que em geral s&oacute; tem logar no
+Norte e raramente no Sul, symbolisa provavelmente a
+inclina&ccedil;&atilde;o da cabe&ccedil;a do Salvador
+sobre a Cruz no momento em que deu o ultimo suspiro.<br />
+
+<br />
+
+A orienta&ccedil;&atilde;o symbolica das egrejas, introduzida
+desde os primeiros seculos do Christianismo, foi observada
+escrupulosamente durante toda a edade media, e mesmo na epoca da
+renascen&ccedil;a. Foi s&oacute; nos primeiros annos do nosso
+seculo que a
+orienta&ccedil;&atilde;o come&ccedil;ou a desapparecer.<br />
+
+<br />
+
+Um pequeno numero d'egrejas tem o plano quasi rectangular.<br />
+
+<br />
+
+No Sul e no Oeste da Fran&ccedil;a muitas grandes egrejas do XIII
+seculo apresentam uma vasta nave unica sem naves lateraes, tendo
+contrafortes interiores para sustentar o esfor&ccedil;o da abobada
+principal, que &eacute; d'aresta com nervuras.<br />
+
+<br />
+
+Encontram-se, principalmente na Allemanha, egrejas com duas naves.
+Quasi todas foram construidas por religiosos d'ordens mendicantes, taes
+como os Dominicanos e os Franciscanos. No seculo XIII tambem os
+Jacobinos ou Dominicanos construiram egrejas de duas naves em Paris e
+no Sul da Fran&ccedil;a.<br />
+
+<br />
+
+As grandes egrejas do XIII seculo comp&otilde;em-se
+<span class="pagenum">[168]</span>
+de tres, de cinco e at&eacute; mesmo
+de sete naves. Na Europa Central e Meridional, na Fran&ccedil;a e
+na Belgica, o c&ocirc;ro tem geralmente a f&oacute;rma
+polygonal, emquanto que na Inglaterra elle &eacute; muitas vezes
+rectangular e terminado por uma parede liza. No continente, apenas
+excepcionalmente se encontra esta
+disposi&ccedil;&atilde;o no c&ocirc;ro d'algumas grandes
+egrejas, a n&atilde;o ser nas extremidades do transepte.<br />
+
+<br />
+
+No final do periodo Roman, tinha-se come&ccedil;ado em
+Fran&ccedil;a a disp&ocirc;r capellas absidaes no
+c&ocirc;ro das grandes egrejas. Este uso manteve-se durante todo o
+periodo ogival, e as capellas tomaram grandes
+propor&ccedil;&otilde;es. As primeiras que se chamam absidaes,
+irradiam em torno da capella-m&oacute;r; as outras ao longo das
+paredes lateraes: exemplo a S&eacute; de Lisboa.<br />
+
+<br />
+
+Notar-se-ha tambem que na cathedral d'Amiens, conforme o uso muito
+geralmente seguido em Fran&ccedil;a e em outros paizes, a
+capella-m&oacute;r
+&eacute; muito mais vasta do que as outras. Encontram-se
+egualmente, no c&ocirc;ro das cathedraes inglezas do XIII seculo,
+capellas da Virgem, com a simples differen&ccedil;a que
+s&atilde;o em geral muito maiores do que as do continente e
+construidas sobre plano rectangular.<br />
+
+<br />
+
+Na Belgica, os c&oacute;ros das grandes egrejas do XIII seculo
+est&atilde;o &aacute;s vezes, como succede em
+Fran&ccedil;a, rodeados de capellas collateraes, dando a volta
+completa ao c&ocirc;ro, e limitadas por capellas construidas em
+parte sobre plano rectangular e em parte sobre o polygonal; mas em
+geral s&atilde;o pequenas e o seu numero mais restricto do que nas
+cathedraes francezas.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p169">[169]</a></span>
+Estas capellas constroem-se entre os contrafortes, que as dissimulam.<br />
+
+<br />
+
+O plano das egrejas do XIV e do XV seculos conserva pouco mais ou menos
+a mesma disposi&ccedil;&atilde;o que durante o precedente
+seculo. A unica mudan&ccedil;a importante, que geralmente se nota,
+consiste na addi&ccedil;&atilde;o de pequenas capellas ao longo
+das paredes
+lateraes das naves.<br />
+
+<br />
+
+As capellas s&atilde;o estabelecidas sobre um plano rectangular
+entre os contrafortes, parecendo como que formar uma segunda nave
+collateral ao lado da primeira. Na mesma &eacute;poca, juntou-se
+muitas vezes, aos edificios do XIII seculo, ao longo das naves
+lateraes, capellas construidas f&oacute;ra do primitivo plano.<br />
+
+<br />
+
+Estas addi&ccedil;&otilde;es tornavam-se precisas pelo grande
+numero de capellanias fundadas nos seculos XIV e no XV. Pelo mesmo
+motivo se acrescentaram altares entre as pilastras das egrejas.<br />
+
+<br />
+
+<em>Disposi&ccedil;&atilde;o acima do solo, e
+aspecto exterior das egrejas</em>. As egrejas <em>d'uma
+s&oacute; nave</em>&#8213;apresentam sempre uma
+sec&ccedil;&atilde;o rectangular. Nos edificios
+abobadados os contrafortes t&ecirc;em muitas vezes uma grande
+importancia apresentando maior saliencia sobre a parede do edificio
+tanto no interior como no exterior. Quando os contrafortes
+est&atilde;o construidos no interior, estabelecem-se regularmente,
+entre estes contrafortes, capellas fazendo corpo com a egreja: como na
+de S. Vicente em Lisboa.<br />
+
+<br />
+
+As egrejas que t&ecirc;em tres ou um numero impar de naves, podem
+dividir-se em duas classes conforme
+<span class="pagenum">[170]</span>
+f&ocirc;r a nave do meio mais
+elevada ou da mesma altura que as paredes lateraes.<br />
+
+<br />
+
+A primeira classe comprehende as egrejas cuja nave do meio &eacute;
+notavelmente mais elevada do que as paredes dos lados. As egrejas com
+esta f&oacute;rma s&atilde;o as unicas conhecidas na Europa
+Occidental e Meridional, isto &eacute;, na Belgica, na
+Fran&ccedil;a, na
+Inglaterra, na Hespanha, na Italia e em Portugal. A sua nave mais alta
+&eacute; coberta com telhado de duas aguas inteiramente
+independentes, emquanto que as paredes dos lados t&ecirc;em muitas
+vezes um terra&ccedil;o ou um telhado de f&oacute;rma de
+alpendre e a sua
+inclina&ccedil;&atilde;o approximando-se sensivelmente da linha
+horisontal; &aacute;s vezes tambem s&atilde;o cobertos com
+repetidos pequenos telhados de duas vertentes, ficando perpendiculares
+&aacute; nave e terminados por empenas.<br />
+
+<br />
+
+Abrem-se regularmente nas paredes lateraes da grande nave, janellas que
+deitam para cima dos telhados lateraes.<br />
+
+<br />
+
+A segunda classe comp&otilde;e-se das egrejas cujas naves se elevam
+&aacute; mesma altura. Estas egrejas s&atilde;o
+proprias da Europa central; encontra-se um grande numero d'ellas,
+conjunctamente com alguns edificios da primeira classe, na Allemanha,
+Austria e Hungria.<br />
+
+<br />
+
+Os Allem&atilde;es deram &aacute;s egrejas tendo nave de egual
+altura o nome de egrejas-mercado, sem duvida porque ellas parecem
+formar uma vasta salla, um <em>hall</em> inglez, devido
+&aacute;
+eleva&ccedil;&atilde;o uniforme das suas naves. O seu aspecto
+exterior tambem differe sensivelmente do das egrejas belgas, francezas
+e
+<span class="pagenum">[171]</span>
+inglezas; as tres naves
+s&atilde;o cobertas por um telhado unico de duas aguas, e, por
+conseguinte, a nave central n&atilde;o recebe luz directamente,
+como nas egrejas de primeira classe; a luz s&oacute; lhe penetra
+pelas janellas lateraes; todavia estas, altissimas em consequencia da
+grande eleva&ccedil;&atilde;o das paredes, compensam bem a
+suppress&atilde;o das janellas superiores introduzindo a luz na
+nave central.<br />
+
+<br />
+
+No fim do periodo ogival encontram-se, particularmente na Austria e
+Hungria, egrejas com esta f&oacute;rma, cujas paredes lateraes
+s&atilde;o um pouco menos elevadas que a nave do meio.<br />
+
+<br />
+
+Tambem se construiram, na &eacute;poca do renascimento, egrejas com
+naves da mesma altura.<br />
+
+<br />
+
+<em>Egrejas da Flandres maritima</em>.
+Encontram-se em muitas cidades e aldeias da Flandres Occidental,
+egrejas cujas disposi&ccedil;&otilde;es differem notavelmente
+das que se construiram no resto da Europa. Apesar de se assimilharem
+&aacute;s precedentes, de tres naves da mesma altura,
+n&atilde;o se devem de modo algum confundir com as egrejas
+allem&atilde;s, com as quaes se parecem &aacute; primeira vista
+por terem as naves da mesma altura; n&atilde;o t&ecirc;em nada
+mais de commum entre si.<br />
+
+<br />
+
+Construidas em geral sobre um plano rectangular, comp&otilde;em-se
+d'uma nave principal fechada por paredes d'egual extens&atilde;o;
+n&atilde;o t&ecirc;em
+transepte ou, se o t&ecirc;em, n&atilde;o produz saliencia
+alguma no exterior das paredes.<br />
+
+<br />
+
+As abobadas de pedra ou de tijolo s&atilde;o substituidas, mesmo
+nos grandes edificios, por tectos
+<span class="pagenum"><a name="p172">[172]</a></span>
+curvos formados de madeira com divis&otilde;es visiveis, pintados e
+at&eacute; com obra de talha, e deixando v&ecirc;r as
+pe&ccedil;as do madeiramento.<br />
+
+<br />
+
+A cobertura das egrejas &eacute; formada por tres telhados de duas
+aguas da mesma altura pouco mais ou menos; resultando n&atilde;o
+ter a nave principal janellas altas e ser a fachada sempre terminada
+por tres empenas da mesma altura.<br />
+
+<br />
+
+<em>O plano das capellas</em>.&#8213;As capellas
+construidas durante o periodo ogival n&atilde;o t&ecirc;em
+ordinariamente transepte
+e s&atilde;o construidas sobre plano rectangular.<br />
+
+<br />
+
+O c&ocirc;ro termina no lado Oriental por um abside polygonal ou
+uma parede lisa. As capellas das egrejas conventuaes
+comp&otilde;em-se geralmente de tres naves, emquanto que as
+pequenas capellas n&atilde;o t&ecirc;em regularmente
+sen&atilde;o uma.<br />
+
+<br />
+
+As construc&ccedil;&otilde;es ogivaes n&atilde;o apresentam
+em geral symetria, e o mesmo se nota no tra&ccedil;ado do plano e
+nos caracteres architectonicos. Estas irregularidades prov&ecirc;em
+de duas causas principaes. Em primeiro logar os architectos d'esta
+&eacute;poca, sem desprezarem a symetria, n&atilde;o a
+consideraram propria das conveniencias, necessidades e harmonia geral.<br />
+
+<br />
+
+Algumas vezes tambem, vindo a faltar-lhes os recursos com que contavam
+no principio dos trabalhos, viam-se for&ccedil;ados a alterar o
+plano primitivo e supprimirem-lhe certas partes. Emfim, muitos
+monumentos foram construidos muito lentamente, o que deu logar a que as
+suas differentes partes fossem successivamente construidas,
+apresentando
+<span class="pagenum">[173]</span>
+sempre por esse motivo
+cada uma d'ellas os caracteres architectonicos em voga na
+occasi&atilde;o da sua construc&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+<em>Systema de
+construc&ccedil;&atilde;o</em>.&#8213;Os grandes
+monumentos edificados pelos romanos no tempo da republica e sob os
+imperadores, formavam, pela estabilidade dos seus pontos d'apoio,
+condensa&ccedil;&atilde;o e cohes&atilde;o perfeita dos
+seus materiaes, massas solidas capazes de resistir ao peso, e, em caso
+de necessidade, &aacute; press&atilde;o das abobadas, que eram
+formadas de pe&ccedil;as homogeneas, concretas e sem elasticidade.<br />
+
+<br />
+
+Em substitui&ccedil;&atilde;o da abobada romana os architectos
+romans empregaram pouco a pouco a abobada de nervuras, cuja
+construc&ccedil;&atilde;o assenta sobre o principio da
+elasticidade e do equilibrio das for&ccedil;as. O plano quadrado
+era o escolhido para as suas edifica&ccedil;&otilde;es; mas
+quando se tratava de
+neutralisar a press&atilde;o lateral exercida por esta abobada
+sobre os seus pontos d'apoio, ou quando era preciso construir uma
+abobada sobre um plano que n&atilde;o fosse quadrado, entregavam-se
+ent&atilde;o a experiencias cujo resultado nem sempre correspondia
+&aacute; espectativa.<br />
+
+<br />
+
+Os architectos do periodo ogival realisam grandes progressos na
+construc&ccedil;&atilde;o das abobadas.
+Primeiramente cobrem os edificios servindo-se das abobadas de nervuras,
+superficies cujos planos s&atilde;o parallelogrammos, trapesios,
+pentagonos e mesmo polygonos irregulares; depois, resolvem d'um modo
+completo o problema t&atilde;o difficil da estabilidade
+<span class="pagenum">[174]</span>
+das abobadas, pelo principio do
+equilibrio das for&ccedil;as. Empregam a abobada, n&atilde;o
+como uma crosta homogenea e inerte, mas como uma serie de paineis de
+superficies curvas ou de triangulos de enchimento independentes uns dos
+outros e limitados por nervuras apparelhadas e flexiveis. &Aacute;s
+press&otilde;es obliquas d'estas abobadas, opp&otilde;em
+resistencias activas, em vez de obstaculos passivos, e transportam a
+resultante de todas as press&otilde;es obliquas e contrarias para
+os contrafortes exteriores, que fazem rigidos e firmes, dando-lhes uma
+base muito ampla e carregando-os com um consideravel pezo.<br />
+
+<br />
+
+As nervuras das abobadas com os seus pontos d'apoio, isto &eacute;,
+as columnas, os contrafortes e algumas vezes os arco-butantes,
+comp&otilde;em a ossada, o esqueleto de todo o grande edificio
+ogival. As outras partes da construc&ccedil;&atilde;o, que
+formam o
+revestimento d'esta ossada, desempenham o logar de simples tabiques: as
+janellas occupam, entre os pontos d'apoio das abobadas, o maior
+espa&ccedil;o possivel, e as paredes pouco espessas s&atilde;o
+ornadas de arcadas que ainda as tornam mais delgadas. As janellas e as
+paredes podiam ser supprimidas sem que a
+construc&ccedil;&atilde;o principal soffresse o menor
+prejuiso.<br />
+
+<br />
+
+<em>Materiaes e apparelhos de
+construc&ccedil;&atilde;o</em>. Tanto durante o periodo
+roman, como durante o ogival, se procuravam os materiaes precisos o
+mais proximo possivel do logar em que se fazia a
+construc&ccedil;&atilde;o. Com effeito o transporte, ainda
+n'este tempo, offerecia
+<span class="pagenum"><a name="p175">[175]</a></span>
+grandes difficuldades por causa da ausencia completa de estradas
+viaveis. Os materiaes empregados s&atilde;o em geral de pequenas
+dimens&otilde;es, porque os instrumentos para os
+extra&iacute;r,
+transportar e assentar eram insufficientes em
+compara&ccedil;&atilde;o com as
+poderosas machinas de que dispomos em nossos dias.<br />
+
+<br />
+
+Quando n&atilde;o havia pedreiras para explorar, serviam-se de
+tijolos.<br />
+
+<br />
+
+<em>Esculptura monumental</em>. Durante o
+periodo roman, a esculptura d'ornato consistia em figuras geometricas,
+animaes monstruosos, e tambem &aacute;s vezes de
+imita&ccedil;&atilde;o de vegetaes. Durante a segunda metade do
+seculo XII, teve logar uma revolu&ccedil;&atilde;o completa na
+esculptura ornamental; as palmas, as folhagens, os gal&otilde;es e
+as figuras geometricas, os cord&otilde;es entrela&ccedil;ados
+d&atilde;o logar aos
+vegetaes indigenas; n'uma palavra, tudo o que n&atilde;o
+&eacute; inspirado pela flora do paiz desapparece.<br />
+
+<br />
+
+Os primeiros artistas que se entregam ao estudo das plantas indigenas
+para as reproduzir na esculptura d'ornato, n&atilde;o procuram
+imitar fielmente nas suas obras os vegetaes que t&ecirc;em
+&aacute; sua vista; mas antes os interpretam a seu modo, isto
+&eacute;, apoderam-se dos caracteres principaes com que se inspiram
+e comp&otilde;em a largos tra&ccedil;os a sua esculptura
+monumental.<br />
+
+<br />
+
+Os artistas entendem que a arte para ser bem apreciada n&atilde;o
+consiste na reproduc&ccedil;&atilde;o
+escrupulosa como se f&ocirc;sse photographia da natureza real, mas
+sim na express&atilde;o do real idealisado e transformado pela
+imagina&ccedil;&atilde;o do esculptor.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[176]</span>
+Esses artistas introduziram no centro e no norte da Fran&ccedil;a
+este novo estylo de esculptura monumental durante a segunda metade do
+seculo XII; e os seus imitadores nas outras partes da Europa, no
+principio do seculo seguinte, limitaram-se em principio a imitar nas
+suas obras as plantas mais humildes dos bosques e dos campos na
+occasi&atilde;o em que d&atilde;o os seus primeiros rebentos,
+quando os bot&otilde;es apparecem apenas meio abertos ou n'uma
+palavra quando come&ccedil;am o seu primeiro desenvolvimento. Ha um
+exemplo bem conhecido d'esta ornamenta&ccedil;&atilde;o vegetal
+rudimentar nos mais antigos <em>crochetes</em> de capiteis
+e nas rampas
+dos edificios que se usaram no final do seculo XII e principio do XIII.
+<br />
+
+<br />
+
+Estes <em>crochetes</em> primitivos terminam
+enroscados de folhagem, semelhando-se bastante com os rebentos das
+plantas que brotam da terra.<br />
+
+<br />
+
+Entretanto os esculptores v&atilde;o progredindo; depois de haverem
+applicado as suas inspira&ccedil;&otilde;es ao estudo do
+primeiro desenvolvimento dos mais modestos vegetaes, abandonam estes
+humildes modelos, para em seu logar applicarem as folhas completamente
+formadas, as flores e os fructos das arvores, dos arbustos e das
+plantas herbaceas, mais graciosas.<br />
+
+<br />
+
+Procuram reproduzir a vinha, a hera, o acre, o azevinho, a roseira
+brava, a figueira, o carvalho, a pereira, o nenuphar, as campainhas, o
+rainunculo, o morangueiro, o trevo, o platano, a salsa, etc. Todavia
+esta transforma&ccedil;&atilde;o n&atilde;o se
+operou bruscamente,
+<span class="pagenum">[177]</span>
+mas a
+pouco e pouco e por successivas transi&ccedil;&otilde;es: na
+flora monumental, bem como na
+flora natural, &aacute; maneira que os tempos passavam, os renovos
+abrem, as folhas desdobram-se, os bot&otilde;es tornam-se em flores
+e produzem fructos. Foi n'esta epoca que na Fran&ccedil;a (no final
+do XII seculo, e
+at&eacute; mais tarde) os roulamentos primitivos das
+<em>crochetes</em> se abrem dando logar a
+flor&otilde;es e ramos de folhagens inteiramente desenvolvidos.<br />
+
+<br />
+
+Progredindo sempre, os esculptores do seculo XIV abandonavam pouco a
+pouco a nobre e graciosa simplicidade que os do seculo XIII costumavam
+imprimir a todas as suas obras; entregam-se apaixonadamente
+&aacute; imita&ccedil;&atilde;o da natureza real e escolhem
+de preferencia as plantas d'um modelo exagerado; reproduzem-nas com uma
+rara perfei&ccedil;&atilde;o, mas exageram-lhes as
+ondula&ccedil;&otilde;es e contornos.
+Estas ondula&ccedil;&otilde;es, que constituem um dos
+caracteres que distinguem a esculptura do seculo XIV, encontram-se
+j&aacute; algumas vezes, ainda que poucas, durante a segunda metade
+do seculo XIII.<br />
+
+<br />
+
+As esculpturas do seculo XIV s&atilde;o muitas vezes inferiores
+&aacute;s do XIII, porque s&atilde;o menos
+francamente executadas e carecem de simplicidade nos contornos e no
+modelado; finalmente j&aacute; visam muito a produzir effeito. O
+seculo XIV no entanto produziu obras esculpturaes de grande merito.<br />
+
+<br />
+
+A esculptura monumental no seculo XV caminha cada vez mais para o
+affectado. Toma as plantas com folhagens m
+A esculptura monumental no seculo XV caminha cada vez mais para o
+affectado. Toma as plantas com folhagens muito recortadas, taes como o
+cardo, a folha do repolho, etc. e para as imitar
+exagera-lhes
+<span class="pagenum">[178]</span>
+as profundas
+chanfraduras e os l&oacute;bulos angulosos das folhas.<br />
+
+<br />
+
+Estas esculpturas s&atilde;o finas, delgadas e excessivamente
+vasadas.<br />
+
+<br />
+
+Um ornato muito frequente do XV seculo em diante e que principalmente
+se v&ecirc; nas a&ccedil;afatas dos
+capite&iacute;s, &eacute; o que vulgarmente se chama folha de
+repolho por causa da sua semelhan&ccedil;a mais ou menos com a sua
+folha enroscada.<br />
+
+<br />
+
+Tambem se v&ecirc;em representados na esculptura decorativa do
+periodo ogival, assumptos historicos, legendarios e symbolicos bem como
+animaes reaes e phantasticos. Estes animaes e as figuras grotescas,
+algum tanto raras no interior dos edificios, encontram-se comtudo
+bastante na decora&ccedil;&atilde;o
+exterior dos monumentos, como carrancas, modilh&otilde;es e
+at&eacute; algumas vezes ornatos em
+substitui&ccedil;&atilde;o dos <em>crochetes</em>
+de rampa.<br />
+
+<br />
+
+Durante todo o periodo ogival, as esculpturas eram completamente
+concluidas antes de se collocarem.<br />
+
+<br />
+
+Os esculptores de imagens terminavam as suas obras na casa do trabalho,
+e eram collocadas no seu logar pelos alveneos. Um esculptor nunca subia
+a um andaime.<br />
+
+<br />
+
+<em>Fachadas</em>.&#8213;As faces exteriores dos
+monumentos da edade media s&atilde;o a express&atilde;o exacta
+das disposi&ccedil;&otilde;es interiores.<br />
+
+<br />
+
+Em consequencia d'este principio, as fachadas occidentaes das egrejas
+reproduzem no conjuncto o c&oacute;rte transversal das naves.
+Al&eacute;m d'isso, como
+<span class="pagenum"><a name="p179">[179]</a></span>
+a
+f&oacute;rma d'este c&oacute;rte &eacute; pouco mais ou
+menos a mesma em quasi todas as egrejas ogivaes, resulta d'isso, que o
+aspecto geral de muitas fachadas &eacute; d'uma grande
+semelhan&ccedil;a. Apezar d'esta semelhan&ccedil;a
+no conjuncto geral e dos contornos exteriores, a
+disposi&ccedil;&atilde;o e a
+ornamenta&ccedil;&atilde;o das fachadas s&atilde;o
+extremamente variadas. As mais bellas fachadas ogivaes s&atilde;o
+sem duvida as das grandes cathedraes francezas. Comp&otilde;em-se
+em geral de muitas zonas horisontaes e parallelas; o pavimento terreo
+tem tres portaes, que d&atilde;o ingresso para as tres naves; o
+central, que &eacute; a porta principal, &eacute; mais largo e
+ornado mais ricamente que os outros dois.<br />
+
+<br />
+
+As fachadas das grandes egrejas inglezas e allem&atilde;s (excepto
+a de Colonia), n&atilde;o t&ecirc;em
+ornamenta&ccedil;&otilde;es t&atilde;o vistosas como as
+cathedraes francezas. A disposi&ccedil;&atilde;o &eacute;
+menos regular e a
+ornamenta&ccedil;&atilde;o destituida &aacute;s vezes de
+bom gosto. Grande numero das egrejas allem&atilde;s t&ecirc;em
+s&oacute; na fachada
+Occidental duas torres em cada lado.<br />
+
+<br />
+
+Na Belgica poucas egrejas t&ecirc;em tres portaes; geralmente na
+fachada principal ha apenas um. As rosaceas, que s&atilde;o
+t&atilde;o vulgares nas fachadas
+francezas, raramente se v&ecirc;em nas egrejas da Belgica.<br />
+
+<br />
+
+As fachadas das egrejas ruraes s&atilde;o sempre de uma grande
+simplicidade. Em geral tem um campanario, e apenas uma porta ao centro
+da fachada e uma ou tres janellas no frontispicio.<br />
+
+<br />
+
+<em>Alpendres</em>. Quasi todas as grandes
+egrejas ogivaes apresentam um ou muitos alpendres, collocados adiante
+da fachada Occidental, ou das entradas
+<span class="pagenum">[180]</span>
+lateraes. Em muitas egrejas
+romans foi addicionado o alpendre na epocha ogival.<br />
+
+<br />
+
+Os alpendres contiguos &aacute; fachada principal das egrejas
+ogivaes ou os construidos debaixo do campanario, que limita esta
+fachada, quasi se n&atilde;o encontram em Fran&ccedil;a desde o
+seculo XIII. Ainda s&atilde;o mais raros na Belgica, Allemanha e
+Inglaterra.<br />
+
+<br />
+
+Durante o periodo ogival, muitos alpendres se construiram adiante das
+entradas lateraes. Os mais bellos monumentos d'este genero
+s&atilde;o os alpendres ao Norte e ao Sul da Cathedral de Chartres,
+que datam dos primeiros annos do seculo XIII. Na Belgica tambem ha
+alguns alpendres lateraes notaveis, compostos d'um ou dois
+v&atilde;os na frente e vedados por tres lados, estando ornados no
+interior com estatuas collocadas sobre misulas e coroadas de doceis.
+Tambem se construiam, mas raramente, alpendres abertos em tres lados ou
+vedados por frestas nos dois lados.<br />
+
+<br />
+
+<em>Portaes</em>. Na Fran&ccedil;a e
+mesmo em Colonia as cathedraes e as grandes egrejas ogivaes
+n&atilde;o t&ecirc;em geralmente alpendres adiante da fachada
+principal, mas os portaes formam de per si verdadeiros alpendres, que
+s&atilde;o cuidadosamente adornados.<br />
+
+<br />
+
+Os portaes principaes das grandes egrejas francezas do seculo XIII
+distinguem-se pela riqueza extraordinaria das esculpturas de todos os
+generos com que s&atilde;o adornados. Apresentam grandes
+v&atilde;os que se abrem do interior para o exterior e divididos em
+duas partes eguaes por uma parede.<br />
+
+<br />
+
+Na fachada de <em>Notre-D&acirc;me</em>
+de Paris v&ecirc;-se, em
+<span class="pagenum">[181]</span>
+frente d'essa parede e sob um docel, uma grande estatua representando o
+Salvador deitando a
+ben&ccedil;&atilde;o, a Santissima Virgem com o seu amado
+Filho, e tambem &aacute;s vezes o orago da Egreja. A base d'essa
+parede e os rodap&eacute;s dos v&atilde;os
+s&atilde;o ornados com baixo-relevos.<br />
+
+<br />
+
+Os tympanos s&atilde;o regularmente divididos em tres partes
+horisontaes, onde se figuram em relevo assumptos religiosos, estatuas
+de grandes dimens&otilde;es, que em numero consideravel guarnecem
+as paredes verticaes dos portaes, emquanto que as curvas das abobadas
+recebem muitas ordens parallelas de estatuetas collocadas debaixo de
+doceis.<br />
+
+<br />
+
+Todas estas esculpturas representam Santos e factos tirados da historia
+do Velho e Novo Testamento, da lenda e de certos dogmas da
+F&eacute;.<br />
+
+<br />
+
+Os arcos dos portaes, das janellas e das empenas s&atilde;o,
+algumas vezes, ornados tambem interiormente, d'um appendice chamado <em>redente</em>;
+este ornato tambem &aacute;s vezes se encontra no intradorso das
+grandes arcadas, ligando as columnas que separam as naves das paredes
+lateraes das egrejas.<br />
+
+<br />
+
+Os <em>redentes</em> s&atilde;o recortes
+em f&oacute;rma de dente ou de bicos, que guarnecem o intradorso
+d'um arco. Tambem se applicou este mesmo nome a uns ornatos analogos,
+que se collocam sobre as prumadas das empenas.<br />
+
+<br />
+
+Nos edificios do seculo XIV, os portaes s&atilde;o ainda bem
+delineados, todavia j&aacute; n&atilde;o t&ecirc;em a
+grandeza que caracterisa os do seculo XIII. Os perfis das
+<span class="pagenum">[182]</span>
+molduras s&atilde;o agudos e muito
+multiplicados; a estatuaria, abandonando a nobre simplicidade,
+preoccupou-se em cogitar formas affectadas, e por isso mesmo a arte
+declina. Apesar d'estes defeitos, os grandes portaes das egrejas do
+seculo XIV t&ecirc;em
+ainda verdadeiro merito quanto &aacute;
+composi&ccedil;&atilde;o e outras qualidades que debalde se
+procuram nos monumentos dos seculos posteriores.<br />
+
+<br />
+
+Os grandes portaes dos seculos XIV
+e XV t&ecirc;em
+as mesmas disposi&ccedil;&otilde;es geraes que os do seculo
+precedente, com a simples differen&ccedil;a de que as columnas
+cylindricas que formavam os v&atilde;os dos portaes e que sustentam
+as archivoltas s&atilde;o substituidas por molduras prismaticas,
+ordinariamente sem capitel, e que prolongando-se constituem por si
+s&oacute; as archivoltas. Estes portaes occupam
+espa&ccedil;o profundo, porque s&atilde;o regularmente
+construidos entre dois contrafortes salientes da fachada.<br />
+
+<br />
+
+O pilar que separa o portal, e o tympano dos grandes portaes do XIV e
+XV seculos, tem
+sempre estatuas de Santos debaixo dos doceis e apoiando-se sobre
+misulas primorosamente esculpidas. Desapparecem as estatuas em muitos
+monumentos.<br />
+
+<br />
+
+Ordinariamente os v&atilde;os ogivaes dos portaes e muitas vezes os
+da entrada dos alpendres, s&atilde;o emmoldurados por um contorno
+em forma de empena.<br />
+
+<br />
+
+Nos seculos XIII e XIV, este feitio
+representa a extremidade d'um telhado de duas vertentes com a
+inclina&ccedil;&atilde;o d'um angulo que varia entre 45 e 90
+gr&aacute;os. No XV
+seculo, os
+v&atilde;os de todos os portaes grandes e pequenos, e algumas vezes
+tambem os
+<span class="pagenum">[183]</span>
+das janellas,
+s&atilde;o formados por ogivas ou por contracurva.<br />
+
+<br />
+
+No seculo XII, as inclina&ccedil;&otilde;es das empenas
+s&atilde;o quasi sempre ornadas de <em>colchetes</em>
+enroscados; desde o principio do seculo XIII, os enroscamentos ou
+extremidades d'estes <em>colchetes</em>
+desdobram-se e transformam-se em flor&otilde;es. Os
+<em>colchetes</em> s&atilde;o
+substituidos, no seculo XIV, por folhas de extraordinaria grandeza, que
+muitas vezes se designam ainda pelo nome de colchetes, redentes ou
+animaes phantasticos; nos seculos XV e XVI apparecem as folhas de
+repolho.<br />
+
+<br />
+
+Estes ornamentos pouco numerosos e muito espa&ccedil;ados no XIII
+seculo, multiplicam-se e approximam-se &aacute; medida que a arte
+ogival vae em decadencia. O vertice das empenas ou das ogivas inflexas
+que substituem as empenas do XV seculo, termina ora por um
+flor&atilde;o, ora por uma estatua assente sobre uma quartella, em
+f&oacute;rma de s&oacute;co.<br />
+
+<br />
+
+Os portaes de segunda e terceira ordem offerecem mais simplicidade do
+que os outros que acabamos de descrever. N&atilde;o t&ecirc;em
+pilar de
+separa&ccedil;&atilde;o e por causa dos seus v&atilde;os
+geralmente pouco profundos, t&ecirc;em molduras menores que os
+portaes de primeira ordem.<br />
+
+<br />
+
+No XIII e XIV seculos, as empenas comp&otilde;em-se de duas, tres
+ou quatro columnatas na rectaguarda umas das outras, e ligam-se com os
+extremos dos arcos superiores. Desde o final do XIV seculo, foram as
+columnatas substituidas por molduras prismaticas, quasi sempre sem
+divis&atilde;o de capitel.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[184]</span>
+At&eacute; meiado do seculo XV, ajuntava-se, muitas vezes,
+&aacute; archivolta dos portaes e tambem &aacute;s
+curvas das janellas, um rebordo exterior em f&oacute;rma de goteira
+cujas extremidades assentam &aacute; altura da nascen&ccedil;a
+da ogiva, sobre modilh&otilde;es esculpidos,
+representando figuras, animaes phantasticos ou carrancas; este rebordo
+tambem &aacute;s vezes &eacute; ornado de <em>colchetes</em>
+com folhas de grande
+lavor ou figuras grotescas.<br />
+
+<br />
+
+<em>Lemes das portas</em>. Os constructores
+romans tinham, como j&aacute; explic&aacute;mos, convertido em
+objecto de ornamenta&ccedil;&atilde;o os lemes e as ferragens
+que
+empregavam para reunir os frisos que comp&otilde;em os batentes. As
+archivoltas do periodo ogival ultrapassaram os seus precedentes n'este
+genero de decora&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+No seculo XIII e ainda mesmo no XIV, os lemes representam folhagens
+entrela&ccedil;adas, armadas de flores e fructos. As suas
+differentes partes s&atilde;o reunidas com uma arte e delicadeza
+notaveis, apesar de n'esta epoca os meios de fabrico serem muito
+simples. Um martello movido por uma corrente de agua
+constitu&iacute;a, por assim dizer, o unico recurso das
+fabricas da edade media. O ferro obtido em fragmentos de um peso
+mediocre, era entregue ao ferreiro, que &aacute; for&ccedil;a
+de bra&ccedil;o
+convertia estes fragmentos em barras ou pe&ccedil;as mais ou menos
+delgadas. N&atilde;o eram conhecidas, nem a lima, nem as cisalhas.
+Apezar da pobreza de meios de
+fabrica&ccedil;&atilde;o, os ferreiros da edade media
+produziram obras primas de serralheria. Podemos affirmar que em
+<span class="pagenum"><a name="p185">[185]</a></span>
+muitos paizes a arte de
+serralheria attingiu o seu apogeu no seculo XIII. Os lemes do principio
+do periodo ogival distinguem-se dos das epocas posteriores em que,
+ordinariamente, s&atilde;o
+<em>estampados</em>, isto &eacute;, trabalhados em
+relevo por meio de matriz. Foi pela estampagem que se obtiveram
+ramagens cheias de vigor e estes soberbos cachos que caracterisam os
+lemes dos portaes de todas as grandes egrejas do XIII seculo.<br />
+
+<br />
+
+Os lemes estampados come&ccedil;aram a desapparecer na
+Fran&ccedil;a no principio do seculo XIV, ao passo que na Belgica
+foram muito empregados ainda n'este seculo e at&eacute; mesmo no
+seculo XV.<br />
+
+<br />
+
+Nos fins do seculo XIII come&ccedil;aram a apparecer na
+Fran&ccedil;a os lemes lisos, isto &eacute;, formados por uma
+pe&ccedil;a de ferro batido, poucas vezes executados em relevo.
+Este uso generalisou-se desde os primeiros annos do seculo XIV; nos
+outros paizes e especialmente na Belgica eram empregados
+simultaneamente com as ferragens estampadas, tanto no seculo XIV, como
+no XV.<br />
+
+<br />
+
+Os serralheiros da edade m&eacute;dia procuraram para objecto de
+ornamenta&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o
+s&oacute; os lemes, mas tambem todos os outros accessorios
+necessarios para os portaes, taes como os pr&eacute;gos, os fechos,
+as argolas das fechaduras.<br />
+
+<br />
+
+<em>Janellas</em>. Durante o periodo de
+transi&ccedil;&atilde;o e no principio da epoca ogival, os
+v&atilde;os das janellas eram estreitos, pouco elevados e fechados,
+na sua parte superior, por lancetas ou ogivas agudas. Estes
+v&atilde;os, em geral reunidos em dois ou tres, s&atilde;o
+<span class="pagenum">[186]</span>
+separados por pequenos pilares em
+f&oacute;rma de humbreira, estando muitas vezes como emmoldurados
+por um grande arco commum. Chamam-se prumos de cantaria os que dividem
+uma janella em humbreiras aos v&atilde;os ou compartimentos
+verticaes. A triplice lanceta da janella tem o v&atilde;o do meio
+geralmente mais elevado que o dos lados.<br />
+
+<br />
+
+Em Fran&ccedil;a, no principio do seculo XIII, e n'outros paizes
+alguns annos mais tarde, em vez de estreitarem os v&atilde;os das
+janellas, alargavam-nos e formavam por cima bandeira com
+construc&ccedil;&atilde;o de cantaria compostas de humbreiras
+simples e ligeiras. Em geral existe uma abertura independente por cima
+dos v&atilde;os d'estas janellas primitivas. Nas
+construc&ccedil;&otilde;es esmeradas e ricas, as humbreiras
+est&atilde;o collocadas tanto no interior como no exterior, tendo
+uma columna com base e capitel, e o tympano da janella &eacute;
+ornado de redentes, com uma ou muitas vidra&ccedil;as compostas de
+tres, quatro, seis e algumas vezes oito vidros.<br />
+
+<br />
+
+As grandes egrejas do XIII seculo e um grande numero de edificios do
+XIV seculo teem as janellas muito grandes, divididas em muitos
+v&atilde;os.<br />
+
+<br />
+
+Estas janellas comp&otilde;em-se de uma rosacea de grande diametro,
+que occupa a parte superior do tympano tendo uma columna que divide o
+v&atilde;o em duas partes eguaes; em cada um d'estes
+v&atilde;os secundarios, apresenta uma abertura composta egualmente
+de uma columna central, por&eacute;m, mais delgada que a primeira e
+d'um oculo circular do feitio de folha de tr&ecirc;vo, ou uma de
+quatro folhas. Se mesmo
+<span class="pagenum">[187]</span>
+com
+estas sub-divis&otilde;es (como succede nas janellas de grande
+largura), estas columnas n&atilde;o ficam
+sufficientemente proximas para a seguran&ccedil;a das
+vidra&ccedil;as, estabelecem-se ainda entre si novas humbreiras
+divisorias, tendo por cima tambem rosaceas de menor grandeza.<br />
+
+<br />
+
+Na Belgica, Allemanha e Inglaterra, ha janellas do seculo XIII,
+divididas por duas humbreiras de menor importancia para formarem tres
+v&atilde;os. &Aacute;s vezes &eacute; o v&atilde;o do
+meio mais estreito que os dos lados. Este feitio de janellas era muito
+raro na Fran&ccedil;a, no principio do periodo ogival.<br />
+
+<br />
+
+Para diminuir o espa&ccedil;o vazio das rosaceas do tympano das
+grandes janellas, collocavam-se redentes de cantaria seguros por
+circulos de ferro. &Aacute;s vezes, no seculo XIV, se substituiam
+as rosaceas do tympano por folhas de tr&ecirc;vo, ou compostas de
+quatro folhas, e tambem com outras combina&ccedil;&otilde;es
+de figuras geometricas.<br />
+
+<br />
+
+Durante os seculos XIV e XV, o numero dos v&atilde;os das janellas
+varia muito, mas em geral &eacute; de tres.<br />
+
+<br />
+
+No mesmo edificio, se v&ecirc;em, conforme a largura dos
+v&atilde;os, janellas de dois, tres, quatro, cinco, seis, sete ou
+oito compartimentos.<br />
+
+<br />
+
+Em alguns monumentos belgas, inglezes e allem&atilde;es, as grandes
+janellas das extremidades do transepte e da capella m&oacute;r,
+quando esta termina por uma parede recta, ficam divididas em duas
+partes eguaes por uma columna central de grande grossura formando um
+verdadeiro pilar.<br />
+
+<br />
+
+As humbreiras das janellas dos seculos XIII e XIV
+<span class="pagenum">[188]</span>
+s&atilde;o &aacute;s vezes
+formadas por uma s&oacute; pedra
+inteiri&ccedil;a; comtudo geralmente s&atilde;o construidas por
+pedras pequenas. Em grande numero dos edificios francezes, ha, interior
+e exteriormente, ou n'um dos lados das janellas, uma columna embebida,
+com base e capitel.<br />
+
+<br />
+
+Na Belgica, Allemanha e Inglaterra as humbreiras das janellas de muitos
+monumentos n&atilde;o t&ecirc;em columnas, principalmente as do
+seculo XIV.<br />
+
+<br />
+
+As columnas servindo de humbreiras apparecem sempre collocadas junto
+dos p&eacute;s direitos, no interior e no exterior da janella. Na
+Belgica v&ecirc;em-se com frequencia essas columnas embebidas nos
+angulos das paredes pertencentes &aacute;s janellas nas quaes lhes
+faltam as humbreiras.<br />
+
+<br />
+
+Os capiteis das columnas que formam as humbreiras das janellas,
+s&atilde;o coroados por um &aacute;baco <em>quadrado</em>,
+no principio do periodo
+ogival, mais tarde tornou-se <em>circular</em>, e no
+principio do XIV seculo, <em>hexagonal</em>.<br />
+
+<br />
+
+Os constructores dos seculos XIII e XIV, habituados a discorrer sobre
+todas as suas obras, facilmente comprehendiam que collocar um capitel
+nas columnas servindo de humbreiras, era ir ao encontro do principio
+fundamental da architectura ogival, que prescrevia desprezar todas as
+partes inuteis, todos os motivos de ornamenta&ccedil;&atilde;o
+que
+n&atilde;o resultassem d'uma necessidade de
+construc&ccedil;&atilde;o. Effectivamente n&atilde;o parece
+sufficientemente justificada a necessidade d'este capitel, porque a
+parte superior da columna n&atilde;o serve de ponto de apoio a
+nenhum
+<span class="pagenum">[189]</span>
+peso extraordinario, e
+tambem n&atilde;o serve de
+transi&ccedil;&atilde;o &aacute;s duas partes realmente
+distinctas, pois a moldura superior do capitel &eacute; em tudo
+semelhante &aacute; f&oacute;rma do fuste da columna, porquanto
+o capitel apenas servia de ornato, sem outro fim verdadeiramente util.
+Tendo em vista o principio fundamental do estylo ogival e todas as
+consequencias logicas que elle encerra, os architectos da segunda
+metade do seculo XIV e do principio do XV n&atilde;o se
+det&ecirc;em em reconsiderar, supprimem inteiramente o capitel e
+muitas vezes a propria columna, e d&atilde;o a todas as humbreiras
+a mesma espessura. No fim do XIV seculo introduziram egualmente
+modifica&ccedil;&otilde;es importantes nos desenhos
+tra&ccedil;ados pelas humbreiras dos tympanos das janellas. Os
+redentes que at&eacute; aqui serviam para diminuir o
+espa&ccedil;o roto das grandes rosaceas foram primeiramente
+substituidos por combina&ccedil;&otilde;es de figuras
+geometricas em que predominam as formas ogivaes com curvas compostas de
+duas em sentido oppostos e do feitio de chamma. &Eacute; d'esta
+epocha que data o ornato conhecido pelo nome de <em>chamma</em>
+e deu
+o nome de <em>flammejante</em> ao estylo do seculo XV.
+Este ornato n&atilde;o s&oacute; se encontra nos tympanos de
+janellas, mas tambem nas balaustradas, nos batentes das portas, fechos,
+mobilias, n'uma palavra, em tudo onde &eacute; possivel applical-o.
+Os allem&atilde;es chamam-lhe&nbsp;Fischblase (bexiga de
+peixe).<br />
+
+<br />
+
+As janellas da <em>primeira metade</em> do
+seculo XV t&ecirc;em ainda &aacute;s vezes alguma analogia com
+as dos seculos precedentes. N&atilde;o &eacute; raro
+encontrar-se nos
+<span class="pagenum">[190]</span>
+tympanos
+grandes rosaceas com figuras curvas ou chammas em vez de redentes.
+Todavia grande numero das rosaceas circulares dos tympanos, durante a
+primeira metade do seculo XV, foram substituidas com o feitio de
+triangulos e quadrilateros curvilineos ou por outras figuras
+geometricas regulares, nas quaes ha chammas representadas. No meado do
+seculo XV desapparecem do tympano as figuras regulares, e as humbreiras
+tomando
+direc&ccedil;&otilde;es cada vez mais arbitrarias,
+d&atilde;o logar aos mais variados desenhos flammejantes.<br />
+
+<br />
+
+No fim do XV seculo as archivoltas das janellas tornam-se mais obtusas
+e tomam no principio do seculo XVI a forma de arcos de volta abatida ou
+em aza de cesto; os desenhos dos tympanos s&atilde;o toscos e
+angulosos. A volta inteira ou de semicirculo, que come&ccedil;a a
+apparecer timidamente nos v&atilde;os entre as humbreiras, annuncia
+o proximo regresso dos typos de architectura classica.<br />
+
+<br />
+
+Do que acabamos de dizer resulta que os desenhos geometricos
+encontram-se principalmente nos tympanos das janellas durante a
+primeira metade do seculo XV, emquanto que os desenhos flammejantes
+propriamente ditos s&atilde;o da ultima metade do XV e do principio
+do XVI seculos.<br />
+
+<br />
+
+As archivoltas exteriores das janellas dos edificios de primeira ordem
+t&ecirc;em &aacute;s vezes alguns ornatos.<br />
+
+<br />
+
+O cavado mais largo e mais profundo do intradorso d'estas archivoltas
+&eacute; ornado de colchetes nos grandes monumentos francezes do
+seculo XIII; no
+<span class="pagenum">[191]</span>
+seculo XIV
+&eacute; ornado de flor&otilde;es e de cachos, e no XV apparece
+a folha de rep&ocirc;lho.<br />
+
+<br />
+
+As archivoltas exteriores das janellas s&atilde;o do mesmo modo que
+as dos portaes e dos alpendres rodeadas por um rebordo saliente ou
+encimadas por uma galeria. Os rebordos que rodeiam as archivoltas das
+janellas t&ecirc;em o mesmo feitio que os dos portaes.<br />
+
+<br />
+
+Nos seculos XIII e XIV, t&ecirc;em a f&oacute;rma d'uma goteira
+e s&atilde;o geralmente formados nos proprios fechos da archivolta;
+as extremidades v&ecirc;em acabar &aacute; altura do nascimento
+da ogiva, ficando assentes sobre modilh&otilde;es ou
+ent&atilde;o na
+direc&ccedil;&atilde;o horisontal sob a f&oacute;rma de
+cord&atilde;o, que liga entre si duas
+janellas proximas uma da outra.<br />
+
+<br />
+
+Nos edificios mais importantes, os rebordos s&atilde;o em geral
+decorados de distancia a distancia, com colchetes ou folhas
+ornamentaes. Nos seculos XV e XVI, os feitios das janellas
+t&ecirc;em a f&oacute;rma de uma ogiva com curvas inversas,
+terminando por um flor&atilde;o. Os remates que coroam muitas vezes
+as janellas dos grandes monumentos, s&atilde;o similhantes aos dos
+portaes, tendo do mesmo modo a f&oacute;rma da empena e os seus
+lados inclinados t&ecirc;em colchetes, redentes ou folhas de
+repolho encrispadas. O vertice, que em geral termina em
+flor&atilde;o, penetra muitas vezes na balaustrada prolongando a
+altura do tecto e fazendo corpo com elle.<br />
+
+<br />
+
+Os architectos do periodo ogival, e at&eacute; mesmo os do periodo
+de transi&ccedil;&atilde;o, de ordinario
+reservaram nas grandes egrejas, galerias passando junto
+<span class="pagenum"><a name="p192">[192]</a></span>
+das janellas e que eram principalmente
+destinadas a facilitar a colloca&ccedil;&atilde;o e
+conserva&ccedil;&atilde;o das vidra&ccedil;as. Estas
+galerias s&atilde;o estabelecidas em toda a extens&atilde;o do
+edificio, dando muitas vezes a volta completa em todo o monumento;
+s&atilde;o verdadeiros corredores de servi&ccedil;o. No
+rez-do-ch&atilde;o, isto
+&eacute;, nas paredes dos lados e no c&ocirc;ro, quando este
+n&atilde;o tem capellas lateraes, s&atilde;o ellas
+estabelecidas no interior em quanto que no pavimento superior ficam
+sempre exteriores e atravessam os contrafortes. D'aqui resulta haver
+galerias em que as vidra&ccedil;as est&atilde;o assentes por
+dentro nas janellas inferiores e por f&oacute;ra nas altas.<br />
+
+<br />
+
+<em>Rosaceas</em>. As rosaceas s&atilde;o
+um dos mais bellos ornamentos dos grandes monumentos religiosos do
+periodo ogival.<br />
+
+<br />
+
+Apparecem tanto na fachada Occidental como nas empenas dos transeptes.
+Na Fran&ccedil;a, as rosaceas s&atilde;o muito communs nos
+seculos XIII e XIV; pelo contrario na Belgica e na Inglaterra,
+s&atilde;o raras, mesmo nas maiores egrejas.<br />
+
+<br />
+
+As rosaceas e as janellas t&ecirc;em caixilhos de pedra destinados
+a fixar as vidra&ccedil;as. Estes caixilhos
+s&atilde;o muitas vezes dispostos em f&oacute;rma de raios de
+roda.<br />
+
+<br />
+
+Durante a segunda metade do seculo XIII e todo o XIV, foram construidas
+grande numero de rosaceas em contacto umas das outras e dispostas em
+muitos renques concentricos &aacute; volta d'uma rosacea central,
+na qual s&atilde;o inseridos caixilhos do feitio de folhas de
+tr&ecirc;vo ou em quatro folhas.<br />
+
+<br />
+
+Foi a brilhante ornamenta&ccedil;&atilde;o d'estas rosaceas e
+<span class="pagenum">[193]</span>
+dos tympanos das janellas que deu
+ao estylo ogival do XIV seculo a denomina&ccedil;&atilde;o de
+<em>radiante</em>.<br />
+
+<br />
+
+Os caixilhos das rosaceas do XV seculo descrevem em geral desenhos
+flammejantes, semelhantes aos que se v&ecirc;em nos tympanos das
+janellas da mesma epoca. &Aacute;s vezes encontram-se: 1.&ordm;
+nos
+monumentos do seculo XIII rosaceas que t&ecirc;em analogia com as
+dos edificios romans do seculo XII; 2.&ordm; nos edificios dos
+seculos XIV
+e XV, rosaceas compostas de folhas de feitio de trevo, e de quatro
+folhas, ou com figuras geometricas curvilineas.<br />
+
+<br />
+
+No seculo XV, e na Belgica j&aacute; no XIV, os caixilhos das
+rosaceas, n&atilde;o t&ecirc;em como d'antes, columnas formando
+as divis&otilde;es, mas t&ecirc;em os mesmos
+compartimentos que os caixilhos de janella d'esta epoca.<br />
+
+<br />
+
+<em>Veda&ccedil;&otilde;es das janellas e
+vidra&ccedil;as</em>. Por causa da aspereza do clima nos
+paizes do Norte foram muito c&ecirc;do usadas as
+vidra&ccedil;as nas janellas.<br />
+
+<br />
+
+Os vidros, incolores ou pintados d'uma c&ocirc;r unica e de
+pequenas dimens&otilde;es, eram antigamente collocados em caixilhos
+de madeira ou de cantaria. Depois do seculo X eram fixos por meio de
+pestanas de chumbo. Foi devido ao emprego do chumbo que conseguiram
+formar bellas vidra&ccedil;as pintadas, cuja historia vamos
+exp&ocirc;r succintamente.<br />
+
+<br />
+
+As vidra&ccedil;as dividem-se em duas classes: vidra&ccedil;as <em>incolores</em>
+e
+<em>pintadas</em>.<br />
+
+<br />
+
+<em>Vidra&ccedil;as incolores</em>. As
+vidra&ccedil;as incolores dos seculos XII e XIII s&atilde;o
+compostas de pequenos peda&ccedil;os de vidro, n&atilde;o
+excedendo doze a quinze centimetros, na sua maior dimens&atilde;o,
+sendo de c&ocirc;r esverdeada
+<span class="pagenum">[194]</span>
+escura, irregulares e um pouco convexas.<br />
+
+<br />
+
+O chumbo empregado antigamente era muito espesso, convexo nas suas
+faces e algumas vezes polido nas ranhuras; distingue-se facilmente dos
+modernos, fabricados depois do fim do seculo XVI, por se servirem de
+instrumento proprio para o reduzir a tiras, com uma especie de
+laminador.<br />
+
+<br />
+
+Em consequencia da maleabilidade e brandura do chumbo, as tiras que
+reunem os vidros das vidra&ccedil;as incolores dos periodos roman e
+ogival apresentam muitas vezes as mais curiosas figuras. N'este caso e
+em muitos outros a urgencia fornece um motivo
+d'ornamenta&ccedil;&atilde;o; era necessario vedar uma abertura
+relativamente alta e larga com pequenos fragmentos de vidro, porque as
+grandes chapas de vidro eram ainda ent&atilde;o desconhecidas. Os
+vidraceiros da idade m&eacute;dia resolveram este problema como
+verdadeiros artistas: em vez de adoptarem um systema de
+envidra&ccedil;ar vulgar, consistindo em quadrados ou rhombos,
+serviram-se das tiras de chumbo para produzir, nas janellas, os mais
+variados e vistosos desenhos.<br />
+
+<br />
+
+Na Belgica as vidra&ccedil;as incolores eram muito communs nos
+seculos XII e XIII; ha exemplos de vidra&ccedil;as, ainda
+existentes, que se podem referir com certeza a esta epoca. &Eacute;
+verdade que se encontra aqui e ali algumas vidra&ccedil;as
+representando
+entrela&ccedil;amentos de fitas, anneis, circulos e figuras
+geometricas, que parecem muito antigas por causa da pequenez das
+aberturas destinadas a receber as
+<span class="pagenum"><a name="p195">[195]</a></span>
+chapas de vidro; mas n&atilde;o &eacute; possivel
+determinar-lhes uma data approximada.<br />
+
+<br />
+
+Estes entrela&ccedil;amentos de fitas e de figuras geometricas
+foram usados na Belgica durante todo o periodo ogival e conservaram-se
+com modifica&ccedil;&otilde;es mais ou menos consideraveis
+at&eacute; ao presente.<br />
+
+<br />
+
+<em>Vidra&ccedil;as pintadas</em>. Ha uma
+grande differen&ccedil;a entre colorir um vidro ou pintal-o, ou por
+outras palavras, entre os vidros coloridos e os pintados. Os primeiros,
+que tambem se chamam vidros de c&ocirc;r, obt&ecirc;em-se
+misturando-lhes na massa vitrea em fus&atilde;o oxydos metallicos,
+que d&atilde;o a toda a
+pasta um colorido uniforme. Este colorido n&atilde;o &eacute;
+superficial; as materias que produzem as diversas
+c&ocirc;res penetram durante a fus&atilde;o na massa vitrea e
+combinam-se inteiramente com ella. Para fazer vidros pintados toma-se
+uma chapa de vidro translucido e sobre uma das faces, ou em ambas,
+applica-se com o pincel os tra&ccedil;os do desenho a
+c&ocirc;res vitrificaveis, que n&atilde;o s&atilde;o mais
+que pastas
+vitreas coloridas por meio d'oxydos metallicos, reduzidos a
+p&oacute; e diluidos n'um liquido como vinho, agua gommada e
+essencia de therebentina. A lamina de vidro, esmaltada, &eacute; em
+seguida submettida ao fogo; o p&oacute; corante entrando
+promptamente em fus&atilde;o, fixa-se sobre a placa de vidro que a
+sustenta e que apenas est&aacute; amollecida pela
+ac&ccedil;&atilde;o
+do cal&ocirc;r.<br />
+
+<br />
+
+No VII seculo, havia vidra&ccedil;as compostas de laminas de vidro
+diversamente coloridas; eram especies de mosaicos transparentes. Mas
+seria n'essa epoca que come&ccedil;aram a pintar a c&ocirc;res,
+sobre vidro
+<span class="pagenum">[196]</span>
+branco ou
+colorido, personagens e assumptos historicos e legendarios? A
+opini&atilde;o mais provavel colloca a
+inven&ccedil;&atilde;o da pintura sobre vidro no fim do X
+seculo. Comtudo s&oacute; no seguinte &eacute; que esta arte
+nasceu na Allemanha e se desenvolveu e espalhou pela Europa occidental.
+Logo que se inventou a pintura sobre vidro no meiado do seculo XIV, o
+pintor de vidros servia-se de laminas, cada uma de sua c&ocirc;r
+uniforme.<br />
+
+<br />
+
+No seculo XII e XIII, houve excep&ccedil;&atilde;o a esta regra
+para o vidro vermelho, que, em geral era
+<em>duplicado</em>, isto &eacute;, composto de uma
+lamina delgada vermelha, applicada sobre uma lamina de vidro incolor.<br />
+
+<br />
+
+As differen&ccedil;as de espessura que t&ecirc;em os vidros
+antigos, differen&ccedil;as que resultam da
+imperfei&ccedil;&atilde;o dos processos de fabr&iacute;co
+do vidro, contribuem singularmente para augmentar o brilho das
+vidra&ccedil;as da idade m&eacute;dia. Em primeiro logar, os
+pintores vidraceiros empregavam com muita pericia estes vidros
+desiguaes ou ondulados, cortando-os de f&oacute;rma que a parte
+mais delgada se achasse do lado da luz; o que fazia augmentar
+consideravelmente o effeito da vidra&ccedil;a. Por consequencia,
+mesmo para os fundos fechados, estas differen&ccedil;as de
+espessura d&atilde;o &aacute; colora&ccedil;&atilde;o
+um aspecto
+scintillante, que a certa distancia augmenta consideravelmente a
+intensidade dos tons.<br />
+
+<br />
+
+As c&ocirc;res de que o pintor de vidros dispunha na idade
+m&eacute;dia eram numerosas e variadas, porque a maior parte das
+opera&ccedil;&otilde;es chimicas empregadas
+<span class="pagenum">[197]</span>
+para obter vidros de c&ocirc;r, eram
+empiricas e por consequencia, davam muitas vezes resultados
+imprevistos.<br />
+
+<br />
+
+Esta gamma de c&ocirc;res extensissima p&oacute;de comtudo ser
+reduzida a cinco tons principaes: azul, vermelho, amarello, verde e
+c&ocirc;r de purpura.<br />
+
+<br />
+
+Para exprimir as carna&ccedil;&otilde;es, isto &eacute; as
+partes apparentes das carnes, taes como as cabe&ccedil;as, as
+m&atilde;os e os p&eacute;s, usavam nos seculos XII e XIII,
+d'um vidro d'uma leve c&ocirc;r de violeta, e mais tarde d'um vidro
+esbranqui&ccedil;ado; os tra&ccedil;os sobre estes vidros
+eram d'uma c&ocirc;r parda, applicada com um pincel e em seguida
+fixada com a cozedura.<br />
+
+<br />
+
+Os pintores de vidros dos seculos XII e XIII occupavam-se
+principalmente, na composi&ccedil;&atilde;o do
+cart&atilde;o, da harmonia das c&ocirc;res. Para o obter elles
+n&atilde;o hesitavam em sacrificar a verdade, dando aos objectos
+c&ocirc;res que a natureza lhes n&atilde;o deu; &eacute;
+assim que se encontram nas vidra&ccedil;as antigas, cavallos verdes
+e arvores com folhas de muitas c&ocirc;res diferentes. Como o
+vermelho, e sobre tudo o azul se prestam admiravelmente a uma
+colloca&ccedil;&atilde;o vigorosa e alliam-se admiravelmente
+com todos os outros tons, os fundos vermelhos e azues s&atilde;o
+s&oacute;mente empregados nas vidra&ccedil;as de assumptos
+historicos ou legendarios.<br />
+
+<br />
+
+Os vidros coloridos das vidra&ccedil;as, vistos a distancia, tomam,
+gra&ccedil;as &aacute; translucidez e &aacute; luz
+que os atravessa, um brilho que faz parecer a sua superficie maior do
+que na realidade &eacute;; este effeito chama-se <em>rayonnement</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[198]</span>
+As diversas c&ocirc;res translucidas t&ecirc;em
+<em>rayonnements</em> de val&ocirc;r muito differente;
+assim, para n&atilde;o fallar sen&atilde;o das tres
+c&ocirc;res fundamentaes do
+prisma; o azul &eacute; a mais brilhante, seguindo-se o vermelho e
+depois o amarello.<br />
+
+<br />
+
+O <em>rayonnement</em> de certas
+c&ocirc;res translucidas, a distancia, &eacute; tal que
+n&atilde;o s&oacute; faz
+parecer a sua superficie maior do que na realidade &eacute;, mas
+at&eacute; modifica mesmo a qualidade d'estas c&ocirc;res e das
+que lhe ficam proximas.<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; d'este modo que um azul limpido, collocado ao lado d'um
+vermelho augmenta o brilho dos bordos d'este e torna-os c&ocirc;r
+de violeta. Al&eacute;m
+d'isso, este brilho faz &aacute;s vezes desapparecer totalmente os
+filetes de chumbo, que engastam os vidros, e altera as linhas do
+desenho fixado sobre os vidros por meio do esmalte escuro.<br />
+
+<br />
+
+Os principios artisticos que regem a pintura sobre vidro ou translucida
+differem notavelmente dos principios da pintura opaca. A luz
+atravessando c&ocirc;res translucidas actua sobre estas
+c&ocirc;res, e sobre
+as combina&ccedil;&otilde;es d'estas c&ocirc;res entre si,
+de maneira differente do que se fossem opacas; a luz passando atravez
+d'um desenho modifica os contornos d'este, facto que se n&atilde;o
+d&aacute; quando act&uacute;a sobre uma superficie opaca
+desenhada.<br />
+
+<br />
+
+A pintura sobre vidro s&oacute; p&oacute;de ser uma pintura de
+conven&ccedil;&atilde;o muito differente da pintura em
+quadro. N'esta procura-se illudir a vista do espectador servindo-se de
+todos os recursos das sombras, do claro escuro e da perspectiva linear
+e a&eacute;rea.
+<span class="pagenum">[199]</span>
+Na pintura
+sobre vidro, pelo contrario, assim como na pintura monumental, o
+artista deve respeitar e deixar parecer plana a superficie sobre que
+pinta; deve contentar-se em tra&ccedil;ar a silhueta dos
+personagens e dos objectos que entram na
+composi&ccedil;&atilde;o do seu assumpto, fazer pouco caso da
+perspectiva, mesmo linear, tra&ccedil;ar as sombras d'uma maneira
+convencional, indicando as partes salientes por claros e as rugas por
+tons opacos, e desprezar os accessorios ou, quando muito,
+represental-os
+hieroglyphicamente. Na pintura opaca o artista deve procurar
+grupar os personagens d'uma scena de modo que se destaquem uns dos
+outros afim de obter uma s&egrave;rie de planos, em quanto que na
+pintura translucida, evita-se, tanto quanto possivel, as
+agglomera&ccedil;&otilde;es d'um grande numero de figuras, e
+esfor&ccedil;am-se por fazer apparecer o fundo em torno de cada uma
+d'ellas.<br />
+
+<br />
+
+As vidra&ccedil;as pintadas do XII seculo s&atilde;o sempre
+formadas de pequenos medalh&otilde;es circulares, quadrados ou
+apresentando outras f&oacute;rmas simples e regulares. Estes
+medalh&otilde;es, nos quaes apparecem
+composi&ccedil;&otilde;es adornadas, ficam dispostos
+symetricamente sobre fundos formados de mosaicos de vidro simples ou
+differentemente coloridos.<br />
+
+<br />
+
+A c&ocirc;r <em>azul</em> domina
+geralmente nos fundos das vidra&ccedil;as pintadas no XII seculo;
+pouco empregam a c&ocirc;r encarnada; algumas vezes tem tambem o
+fundo azul, ficando mais harmonico, tendo-se espalhado, sobre esse
+fundo, pequenos flor&otilde;es encarnados, ou pequenos
+tra&ccedil;os que se encruzam e
+<span class="pagenum"><a name="p200">[200]</a></span>
+cobrem o fundo azul de um tecido encarnado
+com divis&otilde;es quadradas ou rhombos. Em roda da
+vidra&ccedil;a
+e de cada medalh&atilde;o ha cercaduras differentes, quasi sempre
+bastante longas e compostas de flor&otilde;es, palmetas, folhagens
+e enla&ccedil;adas com
+perolas.<br />
+
+<br />
+
+As composi&ccedil;&otilde;es representadas nos
+medalh&otilde;es s&atilde;o tiradas da vida de Jesus Christo e
+de Nossa Senhora, ou da historia do antigo e novo Testamento; assim
+como da legenda dos Santos. A execu&ccedil;&atilde;o
+&eacute; d'uma grande simplicidade e com muita ingenuidade. O
+desenho accusa as tradi&ccedil;&otilde;es
+bysantinas: o emprego das figuras apparece, n&atilde;o obstante as
+roupas que o vestem, sendo as pr&eacute;gas da roupagem estreitas e
+parallelas.<br />
+
+<br />
+
+<em>As vidra&ccedil;as do XIII
+seculo</em>. As vidra&ccedil;as pintadas no XIII seculo
+t&ecirc;em grande similhan&ccedil;a com as do XII, porque a
+maneira de sua execu&ccedil;&atilde;o ficou quasi
+a mesma. Nas janellas inferiores da capella m&oacute;r e das naves
+lateraes, as vidra&ccedil;as compunham-se, como precedentemente, de
+medalh&otilde;es historiados de differentes f&oacute;rmas,
+dispostos uns por cima dos outros sobre uma ou muitas fileiras. Nas
+janellas superiores da capella m&oacute;r e da nave principal,
+principiaram a representar, desde o final do XII seculo, grandes
+figuras em p&eacute;, figurando veneraveis personagens do antigo e
+novo Testamento.<br />
+
+<br />
+
+As c&ocirc;res de que mais uso se fez para os fundos das
+vidra&ccedil;as pintadas no XIII seculo foram o
+<em>azul</em>, o <em>encarnado</em> e o
+<em>verde</em>; empregava-se tambem, em certos casos,
+por&eacute;m com modera&ccedil;&atilde;o, o
+<em>amarello</em>
+<span class="pagenum">[201]</span>
+e o
+<em>roxo</em>. Os fundos n&atilde;o
+s&atilde;o lisos, formam uma especie de pannos-de-raz sobre os
+quaes vem assentar a composi&ccedil;&atilde;o dos assumptos.
+Esta
+tape&ccedil;aria se comp&otilde;e n&atilde;o
+s&oacute;mente de
+<em>escamas</em>,
+<em>canni&ccedil;al</em> e de <em>xadrez</em>,
+mas, muitas vezes
+tambem, de enla&ccedil;ados, fest&otilde;es e folhagens,
+enrolamento,
+sobre os quaes os assumptos se destacam perfeitamente. Do mesmo modo
+que nas composi&ccedil;&otilde;es com as grandes figuras, as
+tiras de chumbo indicam os contornos principaes d'estas
+ornamenta&ccedil;&otilde;es.<br />
+
+<br />
+
+No correr do XIII seculo, o estylo e o caracter do desenho mudaram
+completamente, por&eacute;m por s&eacute;ries de
+transforma&ccedil;&otilde;es successivas.
+Desde a metade do XII seculo, os artistas de vidra&ccedil;as
+pintadas, da mesma f&oacute;rma que os miniaturistas, os pintores,
+e os esculptores, tinham principiado a abandonar pouco a pouco as
+tradic&ccedil;&otilde;es da arte Byzantina, e a manifestar uma
+direc&ccedil;&atilde;o notavel para a
+imita&ccedil;&atilde;o da natureza. Esta
+direc&ccedil;&atilde;o augmenta e se affirma cada vez mais no
+XIII seculo. Os pintores das vidra&ccedil;as d'esta
+&eacute;poca n&atilde;o
+continuam a representar o n&uacute; das figuras em desdem da
+inclina&ccedil;&atilde;o natural dos vestuarios, estudam a
+natureza e esfor&ccedil;am-se de a reproduzir tal qual se apresenta
+&aacute; sua vista: reconhece-se facilmente este novo methodo pela
+maneira por que s&atilde;o indicados os gestos das personagens, a
+physionomia das cabe&ccedil;as e as pr&eacute;gas dos
+vestuarios: os gestos perdem a sua
+express&atilde;o archa&iuml;ca, as cabe&ccedil;as
+n&atilde;o s&atilde;o
+j&aacute; desenhadas conforme os typos convencionaes, e os trajes
+s&atilde;o os da epoca, fielmente imitados. A
+composi&ccedil;&atilde;o
+<span class="pagenum">[202]</span>
+dos assumptos
+&eacute; apresentada com
+anima&ccedil;&atilde;o; sendo evidente que os artistas do XIII
+seculo se preoccupavam de proposito em produzir no espectador um
+effeito subito.<br />
+
+<br />
+
+As vidra&ccedil;as pintadas do XIII seculo offerecem muito
+interesse para o estudo do vestuario da idade m&eacute;dia.
+Conforme o uso adoptado n'esta epoca em todas as
+representa&ccedil;&otilde;es artisticas, sejam pintadas ou em
+esculptura, o artista vidraceiro tomava os seus modelos que lhe eram
+familiares; n&atilde;o se preoccupando de nenhuma maneira da
+fidelidade historica, trajava as suas figuras &aacute; moda do seu
+tempo.<br />
+
+<br />
+
+A arte da pintura das vidra&ccedil;as n&atilde;o se conservou
+por muito tempo no apogeu que havia alcan&ccedil;ado no decurso de
+alguns annos. Desde o meiado do XIII seculo principiou a declinar pouco
+a pouco. Em consequencia da sua propens&atilde;o notavel para os
+effeitos dramaticos, chega &aacute;
+affecta&ccedil;&atilde;o e ao exquisito, occupando-se mais dos
+detalhes, perdendo facilmente a nobre simplicidade que tanto
+caracterisava as suas obras no final do XII seculo e no principio do
+XIII seculo.<br />
+
+<br />
+
+Ao findar o XII seculo, as pinturas das janellas superiores da nave
+principal e quasi todas da capella m&oacute;r foram ornadas com
+figuras em p&eacute;,
+representando santos do antigo ou do novo Testamento, n&atilde;o
+excedendo, em tamanho, a estatura geral do homem. No XIII seculo,
+dava-se a estas figuras propor&ccedil;&otilde;es mais
+colossaes, porque ficavam
+collocadas a uma grande distancia do espectador.
+<span class="pagenum">[203]</span>
+A disposi&ccedil;&atilde;o geral
+d'estas vidra&ccedil;as
+nas cathedraes e nas grandes egrejas do XIII seculo merece o exame
+reflectido da parte do archeologo. A pintura da vidra&ccedil;a
+superior do c&ocirc;ro da capella
+m&oacute;r, que attrahe sobretudo a vista e domina, de alguma
+maneira, o altar m&oacute;r, era dedicada ao Salvador soffrendo
+pela redemp&ccedil;&atilde;o do genero humano;
+v&ecirc;-se ahi quasi sempre Jesus Christo na Cruz entre a sua
+Divina M&atilde;e e o discipulo querido, com os symbolos
+accessorios, que na idade m&eacute;dia acompanham sempre a scena da
+crucifixa&ccedil;&atilde;o. Nas outras janellas superiores do
+c&ocirc;ro est&atilde;o em p&eacute;
+os Apostolos e os Santos venerados na basilica; as janellas altas da
+nave principal s&atilde;o pintadas com grandes imagens de outros
+Santos, taes como as dos patriarchas, reis e prophetas do antigo
+Testamento. As vidra&ccedil;as pintadas &aacute; roda da
+capella m&oacute;r e das capellas da charola, formadas por
+medalh&otilde;es, representam os principaes factos da vida de Jesus
+Christo e de Nossa Senhora, ou as legendas dos oragos da egreja;
+algumas vezes tambem, se representavam, sob f&oacute;rmas
+symbolicas, os principaes dogmas da F&eacute;. As
+vidra&ccedil;as pintadas das
+janellas lateraes da nave, e muitas vezes do transepte, eram dedicadas
+&aacute;s legendas de devo&ccedil;&atilde;o
+da localidade, e aos Santos ou Santas de que a egreja possuia
+reliquias.<br />
+
+<br />
+
+Nas vidra&ccedil;as pintadas do XII e XIII seculo, &aacute;s
+vezes reproduziam os retratos dos doadores, mas sempre de tamanho
+menor.<br />
+
+<br />
+
+Passemos agora a fallar das vidra&ccedil;as com pinturas
+<span class="pagenum"><a name="p204">[204]</a></span>
+de <em>grisalha</em>.
+D&aacute;-se
+este nome &aacute; composi&ccedil;&atilde;o do caixilho
+pintado de vidros brancos ou um pouco esverdinhados, sobre os quaes
+s&atilde;o tra&ccedil;ados, por meio do <em>esmalte pardo</em>,
+desenhos e
+ornatos variados.<br />
+
+<br />
+
+Nas <em>grisalhas</em> da primeira metade do
+XIII seculo, o desenho &eacute; desenvolvido com firmeza,
+vigorosamente modelado, e os vidros seguros por filetes de chumbo que
+indicam os tra&ccedil;os mais fortes dos ornatos ou formam as
+principaes divis&otilde;es do caixilho da vidra&ccedil;a
+pintada. Os vidros s&atilde;o quasi opacos e completamente sem
+nenhuma parte colorida. Estes vidros s&atilde;o geralmente grossos,
+esverdeados e muitas vezes apresentam bolhas na superficie.<br />
+
+<br />
+
+A come&ccedil;ar da ultima metade do XIII seculo, as <em>grisalhas</em>
+vieram a ser menos opacas,
+deixando penetrar uma claridade mais abundante no interior dos
+edificios; &aacute;s vezes n&atilde;o s&atilde;o estes
+vidros sem ter colorido, porque se lhe ajuntam vidros coloridos nos
+filetes que os dividem, ou nas pequenas rosetas espalhadas na
+superficie.<br />
+
+<br />
+
+<h4>Vidra&ccedil;as pintadas do XIV seculo</h4>
+
+<br />
+
+<em>As vidra&ccedil;as pintadas do XIV
+seculo</em> apresentam aspecto differente das dos seculos
+precedentes, posto que, durante toda a metade do seculo, o artista
+d'esta especialidade se servia ainda dos mesmos processos
+d'execu&ccedil;&atilde;o dos seus antecessores. Esta
+mudan&ccedil;a total d'aspecto proveio de muitas causas: pelas
+novas disposi&ccedil;&otilde;es da
+arma&ccedil;&atilde;o de
+<span class="pagenum">[205]</span>
+ferro, assim como pelo tom claro e brilhante que se deu &aacute;s
+vidra&ccedil;as, finalmente pelas
+propens&otilde;es exageradas para a imita&ccedil;&atilde;o
+servil da natureza real.<br />
+
+<br />
+
+Nas guarni&ccedil;&otilde;es de ferro das vidra&ccedil;as
+do XII e do XIII seculo, desenhando os contornos t&atilde;o
+variados dos medalh&otilde;es legendarios, foram levados a seguir a
+f&oacute;rma primitiva, consistindo em simples hastes verticaes
+divididas de distancia a distancia, por travessas horisontaes, formando
+angulo recto com essas hastes.<br />
+
+<br />
+
+As c&ocirc;res mais empregadas nas vidra&ccedil;as do XIV
+seculo, eram o <em>azul</em>, o
+<em>encarnado</em> e o
+<em>amarello</em>; este ultimo tom, geralmente muito usado,
+produzia um brilhante effeito, que fazia desmerecer as grisalhas
+claras, frequentemente empregadas n'essa epoca. A c&ocirc;r <em>verde</em>
+e o
+<em>roxo</em> v&atilde;o sendo menos usadas.<br />
+
+<br />
+
+O desenho contin&uacute;a, durante o XIV seculo, a obter mais
+correc&ccedil;&atilde;o; por&eacute;m o pintor de
+vidra&ccedil;as, esquecendo cada vez mais a pintura transluzente
+que n&atilde;o &eacute; e n&atilde;o podia ser uma simples
+pintura de conserva&ccedil;&atilde;o, procura j&aacute;
+produzir
+illus&atilde;o para a vista do espectador; tenta de copiar a
+natureza, e consegue algumas vezes reproduzil-a com certa fidelidade.<br />
+
+<br />
+
+As vidra&ccedil;as <em>legendarias</em>
+desapparecem quasi completamente no XIV seculo, e nos raros exemplos
+que se encontram, os medalh&otilde;es s&atilde;o quasi sempre
+supprimidos e as representa&ccedil;&otilde;es das differentes
+scenas religiosas sobre-postas uma &aacute;s outras, ficam
+<span class="pagenum"><a name="p206">[206]</a></span>
+sem molduras e sem
+separa&ccedil;&atilde;o. As grandes figuras isoladas preferidas
+n'esta epoca, apparecem, n&atilde;o s&oacute;mente nas
+vidra&ccedil;as altas, mas
+tambem nas outras dos lados da nave e &aacute; roda da
+capella-m&oacute;r. Representam mais vezes Santos, e poucas vezes
+pessoas ainda existentes.<br />
+
+<br />
+
+As figuras est&atilde;o sempre postas debaixo de doceis cheios de
+ornamenta&ccedil;&atilde;o tirada da architectura, taes como
+ridentes, pinaculos, clochet&otilde;es, rosaceas e arcos-butantes.
+Estes doceis parecem ficar sustentados por p&eacute;s-direitos com
+feitio de contrafortes ornados de arcadas e de nichos, nos quaes se
+collocam pequenas figuras d'anjos e de santos. As molduras e os doceis
+do remate das grandes figuras tomam &aacute;s vezes uma
+t&atilde;o grande importancia
+que occupam tanto e mesmo maior espa&ccedil;o, que as figuras que
+elles adornam.<br />
+
+<br />
+
+No principio do XIV seculo os fundos das vidra&ccedil;as sobre os
+quaes sobresaem as grandes figuras s&atilde;o &aacute;s vezes
+lizos, outra de c&ocirc;r
+<em>encarnada</em> ou <em>azul</em>; vindo a
+ser depois quasi
+sempre de feitio <em>adamascado</em>, isto &eacute;,
+cheias de desenhos differentes, similhantes aos que se v&ecirc;em
+na seda chamada <em>damasco</em>.<br />
+
+<br />
+
+No XIV seculo, os braz&otilde;es dos doadores apparecem muitas
+vezes nas vidra&ccedil;as pintadas. V&ecirc;em-se tambem nos
+bordados, nas rosaceas do tympano e nas almofadas inferiores das
+janellas, e
+inscrip&ccedil;&otilde;es que apparecem frequentemente.<br />
+
+<br />
+
+No meiado do XIV seculo, uma importante descoberta, do <em>amarello
+de prata</em>, fez obter aos
+pintores
+<span class="pagenum"><a name="p207">[207]</a></span>
+de
+vidra&ccedil;as um novo esmalte e proporcionou-lhes grande
+facilidade no trabalho da pintura. O <em>amarello de prata</em>,
+&eacute; um
+esmalte obtido por um composto d'ocre amarello com o sulphureto de
+prata. Depois de ter passado pelo lume os vidros cobertos d'este mixto,
+separa-se a dem&atilde;o secca d'ocre; ficando depois sobre o vidro
+um bellissimo tom amarello mais ou menos carregado e perfeitamente
+translucido.<br />
+
+<br />
+
+Os fabricantes dos vidros tornando-se mais habeis, conseguiram tambem,
+durante o curso do XIV seculo, produzir chapas de vidro muito maiores
+que nos seculos precedentes.<br />
+
+<br />
+
+A descoberta do amarello de prata e os progressos feitos no fabrico do
+vidro contribuiram poderosamente para modificar o aspecto das
+vidra&ccedil;as pintadas, porque fizeram diminuir o numero dos
+filetes de chumbo, e simplificaram, por conseguinte, a
+arma&ccedil;&atilde;o da vidra&ccedil;a.<br />
+
+<br />
+
+As grisalhas do XIV seculo parecem-se muito com as do final do seculo
+precedente. Todavia as grisalhas sem colorido s&atilde;o
+substituidas pouco a pouco pelas que apresentam algum colorido.
+Al&eacute;m d'isso, depois do meiado do XIV seculo, apparecem as
+grisalhas brancas, com o realce do amarello de prata.<br />
+
+<br />
+
+<h4>Vidra&ccedil;as pintadas do XV
+seculo</h4>
+
+<br />
+
+<em>No XV seculo</em> uma unica c&ocirc;r
+tem applica&ccedil;&atilde;o, posto que, de pouca importancia,
+para servir de
+incarna&ccedil;&atilde;o, vindo-se ajuntar &aacute; palheta
+do artista aos dois
+<span class="pagenum">[208]</span>
+esmaltes
+j&aacute; conhecidos. Esta fraca tinta, que servia para modelar as
+cabe&ccedil;as e as partes nuas do corpo humano, era provavel
+f&ocirc;sse um composto d'oxydo de ferro e terra de sombra
+calcinada. O pintor de vidra&ccedil;as n&atilde;o tinha ainda
+&aacute;
+sua disposi&ccedil;&atilde;o sen&atilde;o tres
+c&ocirc;res para pintar sobre o vidro: o <em>pardo</em>,
+o <em>amarello
+de prata</em> e a
+<em>c&ocirc;r</em> para a
+incarna&ccedil;&atilde;o; por&eacute;m achou novo
+expediente para a sua arte no emprego de <em>vidros
+duplicados</em>. J&aacute; explic&aacute;mos como, desde
+o XII seculo, o vidro encarnado era muitas vezes composto de duas
+laminas, uma sem c&ocirc;r e outra encarnada, ficando sobrepostas
+durante a sua fabrica&ccedil;&atilde;o. Depois no final do XIV
+seculo, o processo que tinha servido antes para se obter vidros
+encarnados, foi applicado &aacute;s outras c&ocirc;res.
+Sobrepondo duas ou mais dem&atilde;os de differentes
+c&ocirc;res, obtinham-se vidros de
+tintas muito variadas. Os vidros duplos lhe davam certos tons d'um
+vigor desconhecido at&eacute; ent&atilde;o: obtinham-se vidros
+roxos sobrepondo o vidro encarnado ao azul claro; verdes, sobrepondo o
+branco, amarello e o azul.<br />
+
+<br />
+
+O colorifico que &eacute; resultado de se terem unido dois vidros
+de c&ocirc;res differentes n&atilde;o
+p&oacute;de ser confundido com o que se obtem pela
+applica&ccedil;&atilde;o d'uma c&ocirc;r d'esmalte sobre o
+vidro fabricado, e posto depois &aacute;
+recoc&ccedil;&atilde;o do fogo.<br />
+
+<br />
+
+Os pintores de vidra&ccedil;as do XV seculo, n&atilde;o
+empregavam sempre os recentes aperfei&ccedil;oamentos introduzidos
+na sua arte com bastante cuidado e intelligencia. &Eacute; por isso
+que o emprego muito frequente
+<span class="pagenum"><a name="p209">[209]</a></span>
+e irracional da pintura em grizalha sobre vidro branco
+constitue um dos caracteres particulares das vidra&ccedil;as
+pintadas da ultima metade do XV seculo e do principio do XVI seculo.
+Muitas vezes as roupas superiores das grandes figuras em p&eacute;
+s&atilde;o brancas e o f&ocirc;rro s&oacute;mente de
+c&ocirc;r. Comprehende-se que este abuso das grizalhas, nas
+roupagens e na maior parte dos accessorios, d&aacute;
+necessariamente &aacute;s vidra&ccedil;as uma apparencia clara
+e scintillante. Muitas vezes os fundos azues e encarnados, adamascados
+superiormente, nos quaes sobresaem as figuras e os assumptos, offerecem
+ainda unicamente um tom real com bastante colorido.<br />
+
+<br />
+
+O maior numero d'estas vidra&ccedil;as tem emmoldurados de feitio
+architectural, consistindo em contrafortes cheios de pinaculos ou
+columnasinhas, com os fustes mais ou menos ornados. Estes emmoldurados
+parecem suster os doc&eacute;is, cujos lados inclinados da empena,
+sempre de f&oacute;rma ogival, s&atilde;o ornados de elegantes
+folhagens. Debaixo dos doc&eacute;is est&atilde;o figuras em
+p&eacute;
+separadas pelas molduras das hombreiras, seja por assumptos historicos
+ou legendarios, occupando toda a largura do v&atilde;o. Nas
+vidra&ccedil;as com assumptos n&atilde;o
+apparecem os filetes de ferro na separa&ccedil;&atilde;o dos
+vidros. Quando se superp&otilde;em, como &agrave;s vezes
+acontece, muitas figuras e muitos assumptos em um s&oacute;
+v&atilde;o da janella, ficam separados uns dos outros por
+s&oacute;cos ornatados com decora&ccedil;&atilde;o
+architectonica <a href="#e5">da &eacute;poca</a>,
+e
+apoiando-se sobre os
+doc&eacute;is que formam o remate do renque inferior.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[210]</span>
+Os grandes progressos que foram realisados, no XV seculo, na pintura
+opaca ou de cavallete, e o estado prospero em que ella se achava desde
+a primeira metade do XV seculo, exerceram a mais funesta influencia
+sobre a pintura translucida. Os pintores de vidra&ccedil;as, que
+quasi sempre eram tambem, e mesmo principalmente, pintores de quadros,
+esqueciam diariamente, cada vez mais, que a pintura sobre o vidro
+&eacute; essencialmente uma pintura de
+conven&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o se contentavam de
+introduzir nas vidra&ccedil;as pintadas um desenho mais correcto,
+procuravam ainda enganar a vista do espectador t&atilde;o
+completamente quanto fosse possivel; por outras palavras, executavam
+sobre o vidro composi&ccedil;&otilde;es que s&oacute;
+convinham para
+superficies opacas.<br />
+
+<br />
+
+No meiado do XV seculo, apparecem nas vidra&ccedil;as pintadas,
+como nos quadros de tela, pequenas paisagens em perspectiva longiqua;
+estas paisagens representavam vistas pittorescas de castellos cheios de
+ameias, edificios de toda qualidade e
+apresenta&ccedil;&otilde;es dos trabalhos agricolas.<br />
+
+<br />
+
+No XII e no XIII seculo, as vidra&ccedil;as das egrejas
+compunham-se de pinturas e esculpturas, eram um livro sempre patente,
+onde os ignorantes e bem assim os estudiosos podiam instruir-se nos
+principaes dogmas da F&eacute;, na historia da religi&atilde;o
+e nos deveres do homem para com Deus e o proximo. Esta
+miss&atilde;o sublime da arte religiosa come&ccedil;ou a ser
+esquecida durante o XIV seculo; em muitas vidra&ccedil;as d'esta
+&eacute;poca, as
+representa&ccedil;&otilde;es exemplares
+<span class="pagenum"><a name="p211">[211]</a></span>
+e instructivas s&atilde;o
+substituidas por braz&otilde;es
+e retratos em p&eacute; dos doadores. No XV seculo, as
+propens&otilde;es, cada vez mais profanas, se manifestam na escolha
+dos assumptos reproduzidos nas vidra&ccedil;as pintadas. Estas
+n&atilde;o serviam para
+instruc&ccedil;&atilde;o do povo; muitas vezes os principaes
+dignitarios ecclesiasticos e os poderosos do mundo se faziam ahi
+representar sumptuosamente; quando muito, o santo orago apparece atraz
+no segundo plano da pintura, emquanto os braz&otilde;es de armas se
+repetem, sob f&oacute;rmas diversas, em todos os lados da
+vidra&ccedil;a.<br />
+
+<br />
+
+<h4>Vidra&ccedil;as pintadas no XVI
+seculo</h4>
+
+<br />
+
+No XVI seculo, as vidra&ccedil;as pintadas apresentam um aspecto
+inteiramente novo. Todavia o primeiro ter&ccedil;o do seculo se
+passou sem que os processos materiaes da pintura sobre o vidro se
+tivessem modificado; e se a <em>renascen&ccedil;a</em>
+n&atilde;o tivesse, desde este momento principiado a influir nas
+composi&ccedil;&otilde;es
+artisticas, seria difficil distinguir as vidra&ccedil;as dos
+primeiros annos do XVI seculo das do final do seculo precedente. Em
+1540, uma nova c&ocirc;r teve applica&ccedil;&atilde;o, o <em>encarnado
+de
+ferro</em>, que se juntou na paleta do pintor de
+vidra&ccedil;as aos tres esmaltes conhecidos ent&atilde;o: o
+pardo, o amarello de prata, e a c&ocirc;r para
+encarna&ccedil;&atilde;o. Alguns annos
+depois, em 1550, achou-se o segredo de applicar todas as
+c&ocirc;res, preparando-as com um liquefactivo (que n&atilde;o
+era outra coisa que o p&oacute; vitreo),
+incorporando-os pela cozedura nas placas de vidro. Este
+<span class="pagenum">[212]</span>
+genero de pintura sobre vidro, que teve o
+nome de <em>pintura</em> ou
+<em>appr&egrave;t</em>, deu grandissimas facilidades
+para os pintores de
+vidra&ccedil;as, e fez mudar completamente os processos da arte. O
+artista preparava primeiramente a placa vitrea, pouco mais ou menos
+como a t&eacute;la, para a pintura a oleo pela maneira de tintas
+geraes e sitios; sobre estes tons modelava depois as figuras e
+objectos; finalmente tra&ccedil;ava as sombras e
+alcan&ccedil;ava o effeito com os
+retoques de c&ocirc;res, emquanto fazia apparecer os pontos
+luminosos, desfazendo com promptid&atilde;o a tinta opaca afim de
+deixar ao vidro toda a sua translucidez.<br />
+
+<br />
+
+Cerca da mesma &eacute;poca descobria-se a propriedade que tem o
+diamante de cortar o vidro, inventando-se o tira-chumbo, que facilitou
+a produc&ccedil;&atilde;o dos filetes de chumbo para segurar os
+vidros, conseguindo-se tambem executar placas de vidro de grande
+dimens&atilde;o. Todos estes progressos nos processos materiaes
+produziram uma revolu&ccedil;&atilde;o completa na arte da
+pintura das vidra&ccedil;as, e tiveram por principal resultado o
+abandono quasi total dos vidros tintos na massa.<br />
+
+<br />
+
+O estylo das vidra&ccedil;as transforma-se inteiramente no XVI
+seculo sob a influencia artistica do renascimento. Nos edificios
+religiosos dos primeiros annos do XVI seculo, a volta inteira
+substituiu insensivelmente a ogiva. Depois d'esse momento tambem
+appareceram, sobre as vidra&ccedil;as pintadas, ornatos tirados do
+estylo classico, misturados com flor&otilde;es e outras
+decora&ccedil;&otilde;es que recordavam ainda a
+&eacute;poca
+<span class="pagenum">[213]</span>
+ogival. Pouco a
+pouco as id&eacute;as classicas fazem progressos e conseguem,
+depois de algum tempo, obter a preferencia. N&atilde;o se
+v&ecirc; mais ent&atilde;o
+ovanos, volutas, folhas de acantho, fest&otilde;es de flores e
+fructas. O arco de triumpho ou portico, imitado da architectura
+pag&atilde;, forma de ora &aacute;vante o
+moldurado proprio das vidra&ccedil;as pintadas em que figuram as
+personagens e os assumptos. At&eacute; metade do XVI seculo, o
+artista se satisfaz em desenvolver, na parte inferior da
+vidra&ccedil;a o assumpto principal com o moldurado que o limita, e
+reserva a parte superior, assim como o tympano para collocar os
+braz&otilde;es e os symbolos. Poucos annos depois da metade do XVI
+seculo, em 1560, o assumpto e o emmoldurado passam mesmo atravez dos
+enla&ccedil;amentos do tympano, se todavia os quizerem respeitar, e
+n&atilde;o fazel-os desapparecer.<br />
+
+<br />
+
+Os assumptos religiosos e symbolicos s&atilde;o raros sobre as
+vidra&ccedil;as pintadas do XVI seculo: v&ecirc;em-se as mais
+das vezes os retratos dos doadores nas vidra&ccedil;as, onde
+apparecem representados geralmente de joelhos sobre um genuflexorio,
+quer s&oacute;, quer rodeados das pessoas de suas familias. O orago
+do sanctuario os acompanha sempre, e os seus braz&otilde;es
+repetem-se muitas vezes em differentes partes na pintura da
+vidra&ccedil;a.<br />
+
+<br />
+
+No XVI seculo, produziu-se uma certa predilec&ccedil;&atilde;o
+pelas pequenas almofadas pintadas com que se ornavam antes, algumas
+vezes no final do seculo precedente, as vidra&ccedil;as dos
+edificios publicos, castellos, claustros e mesmo as
+habita&ccedil;&otilde;es particulares.
+<span class="pagenum"><a name="p214">[214]</a></span>
+Essas bonitas pequenas almofadas,
+quer em grizalha retocada com amarello de prata, quer de
+c&ocirc;res differentes, s&atilde;o feitas com bastante
+tenuidade e delicadeza extrema. &Aacute;s vezes occupam toda a
+abertura, ou pelo menos uma das divis&otilde;es principaes da
+vidra&ccedil;a, outras vezes consistem em simples
+medalh&otilde;es circulares ou ovaes, circumdados de vidro colorido
+ou branco. As pequenas vidra&ccedil;as pintadas, designadas <em>vidra&ccedil;as
+suissas</em>, porque tiveram primeiramente uso na republica
+Helvetica, pertencem &aacute; mesma categoria. Estas
+vidra&ccedil;as, cujo uso se conservou durante os seculos
+seguintes, reproduziram para a nobreza os braz&otilde;es de
+familias differentes moldurados; para os edificios municipaes, as
+armarias da cidade ou da provincia com figuras de porta-estandartes
+vestidos com os trajos e as armaduras da &eacute;poca; para as
+abbadias, as armas do mosteiro ou a figura em p&eacute; do
+fundador. Os burguezes e as pessoas de profiss&atilde;o eram ahi
+representados com os symbolos do seu officio sobre um escudo. Muitas
+vezes tambem os fidalgos, burguezes e operarios eram representados
+todos nos seus trajos com sua familia. A transparencia e o brilho do
+colorido s&atilde;o geralmente mais vistosos nas
+vidra&ccedil;as suissas, que nas maiores vidra&ccedil;as
+pintadas.<br />
+
+<br />
+
+<h4>Vidra&ccedil;as pintadas do XVII
+seculo</h4>
+
+<br />
+
+No XVII seculo, a pintura com preparo ou com c&ocirc;res pegadas,
+continuou a ter voga, devido aos aperfei&ccedil;oamentos
+introduzidos na
+composi&ccedil;&atilde;o e no
+<span class="pagenum">[215]</span>
+assentar os esmaltes, o que fez
+abandonar completamente o emprego dos vidros duplos e dos vidros tintos
+na massa. Este genero de pintura, muito apropriada para as
+vidra&ccedil;as pintadas dos aposentos, n&atilde;o convinha de
+maneira nenhuma para
+decora&ccedil;&atilde;o das grandes vidra&ccedil;as
+pintadas, porque o artista querendo apresentar grandes sombras e tons
+fugitivos, servindo-se de meias-tintas e de tintas de bistre, tornava a
+sua pintura t&atilde;o carregada, embaciada e confusa que, por
+vezes, era difficil distinguir os objectos.<br />
+
+<br />
+
+A representa&ccedil;&atilde;o de Arcos de Triumpho ou porticos
+constituia, como no seculo precedente, o moldurado for&ccedil;oso
+de todas as composi&ccedil;&otilde;es, com
+esta differen&ccedil;a, que esses arcos e esses porticos
+s&atilde;o agora vistos obliquamente ou de lado, isto &eacute;,
+em perspectiva, emquanto d'antes apresentavam a frente geometral.<br />
+
+<br />
+
+Os filetes de chumbo, que anteriormente seguravam t&atilde;o
+vantajosamente os principaes contornos do desenho, foram considerados
+como inuteis e mesmo causando embara&ccedil;o na
+execu&ccedil;&atilde;o da
+pintura. N&atilde;o serviram mais que para reunir vidros eguaes e
+quadrados, formando uma especie de canni&ccedil;ado, por detraz do
+qual os artistas pintavam sobre os vidros como se fossem uma tela,
+n&atilde;o fazendo nenhum
+Os filetes de chumbo, que anteriormente seguravam t&atilde;o
+vantajosamente os principaes contornos do desenho, foram considerados
+como inuteis e mesmo causando embara&ccedil;o na
+execu&ccedil;&atilde;o da
+pintura. N&atilde;o serviram mais que para reunir vidros eguaes e
+quadrados, formando uma especie de canni&ccedil;ado, por detraz do
+qual os artistas pintavam sobre os vidros como se fossem uma tela,
+n&atilde;o fazendo nenhum caso das juntas metallicas.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p216">[216]</a></span>
+<h4>Vidra&ccedil;as pintadas do XVIII
+seculo</h4>
+
+<br />
+
+<em>No XVIII seculo</em>, os vidros tintos na
+massa foram pouco fabricados; seu pre&ccedil;o era avultado, e sua
+falta muito grande. Quasi todas as vidra&ccedil;as d'esta
+&eacute;poca s&atilde;o com vidros esmaltados. O esmalte
+branco, j&aacute; conhec&iacute;do no XVI e XVII seculo, veiu
+a ser
+ent&atilde;o de uso geral e formou as principaes c&ocirc;res
+empregadas. A decadencia da pintura das vidra&ccedil;as foi
+completa, e a arte perdeu a tal ponto que havia em Paris um <em>unico
+pintor d'esta
+especialidade</em>, o qual n&atilde;o podia subsistir por
+este seu trabalho.<br />
+
+<br />
+
+Finalisando a historia de pintura sobre o vidro, devemos notar uma
+tradi&ccedil;&atilde;o popular muito vulgar que considera, sem
+raz&atilde;o, a arte da pintura sobre o vidro, conforme era feita
+na edade m&eacute;dia, como sendo um segredo que se perdeu desde
+muito tempo. Esta opini&atilde;o n&atilde;o tem nenhum
+fundamento.<br />
+
+<br />
+
+<h4>Pilares, columnas e columnasinhas</h4>
+
+<br />
+
+Na edade m&eacute;dia, as designa&ccedil;&otilde;es de
+<em>pilar</em> e de <em>columna</em> se
+confundem muitas vezes;
+todavia a palavra <em>columna</em> indica a
+id&eacute;a de
+um apoio com fuste cylindrico. Eucontram-se nos edificios do periodo
+ogival quatro especies principaes de pilares ou columnas: o pilar <em>quadrado</em>,
+a columna
+<em>monocylindrica</em>, a columna <em>cruciforme</em>
+e a columna
+<em>enfeixada</em>. A columna monocylindrica d&aacute;
+em sec&ccedil;&atilde;o
+um <em>circulo</em>, e o pilar quadrado, um <em>quadrado</em>
+ou
+um <em>rectangulo</em>; a columna cruciforme se
+comp&otilde;e de um <em>pilar central</em>, tendo
+sobre
+<em>as faces quatro columnas</em>
+<span class="pagenum">[217]</span>
+mais ou menos
+envolvidas; finalmente a columna <em>enfeixada</em>, como
+o nome indica,
+&eacute; o resultado da reuni&atilde;o em
+<em>m&oacute;lho</em>, em roda de um
+massi&ccedil;o formando pilar, <em>muitas columnasinhas ou
+nervuras</em>.<br />
+
+<br />
+
+Os pilares quadrados s&atilde;o raros durante o periodo ogival;
+apparecem no come&ccedil;o, e &aacute;s vezes as suas arestas
+s&atilde;o chanfradas.<br />
+
+<br />
+
+Em quasi todos os monumentos belgas do XIII e XIV seculos, as columnas
+s&atilde;o monocylindricas. As columnas cruciformes, communs nas
+cathedraes francezas, servem na Belgica principalmente na
+intersec&ccedil;&atilde;o da nave e do transepte nos grandes
+edificios.<br />
+
+<br />
+
+Os edificios do XV seculo teem as columnas monocylindricas ou
+enfeixadas. As primeiras apresentam &aacute;s vezes capiteis;
+outras vezes s&atilde;o inteiramente privadas d'elles. N'este
+ultimo caso os arcos-duplos e as nervuras das abobadas nascem
+directamente do fuste da columna, no logar onde se colloca o capitel.
+Este genero de columnas se encontra muitas vezes em todos os paizes da
+Europa central e occidental.<br />
+
+<br />
+
+No XV seculo, as columnas enfeixadas n&atilde;o s&atilde;o
+j&aacute; formadas, como precedentemente, de columnasinhas com
+capitel, por&eacute;m compostas de nervuras <em>prismaticas
+em grupo</em>, &aacute;
+roda de um pilar central. Estas nervuras saem da base da columna
+erguendo-se quasi sempre sem ter por intermedio o capitel
+at&eacute; &aacute;s abobadas do edificio, afim de
+formar os <em>arcos-duplos</em> e os arcos ogivaes;
+s&atilde;o sempre
+<span class="pagenum">[218]</span>
+com a
+f&oacute;rma angulosa e apresentam
+sec&ccedil;&otilde;es similhantes ao feitio de um seio.
+&Eacute; por
+excep&ccedil;&atilde;o que se encontram ainda, em certas partes
+dos monumentos do XV seculo, columnas enfeixadas formadas pela
+reuni&atilde;o de columnasinhas cylindricas com capitel.<br />
+
+<br />
+
+Os pilares e as columnas s&atilde;o construidas por
+<em>fiadas</em> na Belgica, na Allemanha e no Norte da
+Fran&ccedil;a. No meiodia da Fran&ccedil;a e na Italia, as
+columnas cylindricas s&atilde;o quasi sempre monolithos.<br />
+
+<br />
+
+Durante o periodo ogival, os fustes das
+<em>columnasinhas</em> n&atilde;o s&atilde;o, como
+muitas vezes no periodo <em>roman</em>, cobertas de
+diversas
+esculpturas. Todavia encontram-se, em alguns edificios dos primeiros
+annos da &eacute;poca ogival, como na cathedral de Chartres em
+Fran&ccedil;a, e em muitos monumentos italianos, columnasinhas <em>terciaes</em>
+em que o
+fuste &eacute; em espiral.<br />
+
+<br />
+
+As columnasinhas tiveram principalmente
+applica&ccedil;&atilde;o no XIII e no XIV seculos. As que
+comp&otilde;em os grandes pilares teem geralmente o seu fuste
+envolvido n'um quarto de circumferencia, os outros tres quartos ficam
+apparentes; algumas, n&atilde;o obstante, est&atilde;o
+inteiramente separadas da parede ou da columna que f&oacute;rma o
+pilar que ellas ornam, como existe nas cathedraes de Amiens,
+Fran&ccedil;a, e de Salisbury, na Inglaterra. No XIII seculo, essas
+columnas s&atilde;o muitas vezes, como as do seculo precedente, <em>anneladas</em>,
+ou compostas de
+engrossamentos em f&oacute;rma de bracelete.<br />
+
+<br />
+
+No XV seculo, estas columnasinhas s&atilde;o raras;
+<span class="pagenum"><a name="p219">[219]</a></span>
+ou ent&atilde;o substituidas por
+nervuras prismaticas n&atilde;o s&oacute;mente nas columnas
+enfeixadas, mas tambem em todas as outras partes dos edificios, taes
+como o molduramento das portas e das janellas. Estas nervuras teem
+base, mas sem capitel.<br />
+
+<br />
+
+No principio do XVI seculo tornam a apparecer as columnasinhas com o
+fuste coberto de esculpturas, representando figuras geometricas,
+fest&otilde;es e arabescos. Os fustes das columnasinhas d'esta
+&eacute;poca s&atilde;o regularmente cylindricos: algumas vezes
+polygonaes ou apresentando a forma de
+<em>balaustre</em>.<br />
+
+<br />
+
+<h4>Bases das columnas</h4>
+
+<br />
+
+As bases das columnas do XIII seculo comp&otilde;em-se de dois <em>t&oacute;ros</em>
+separados
+por uma cavidade redonda (<em>scocia</em>) bastante
+profunda
+de maneira a formar uma calha na qual a agua da chuva se retem afim de
+n&atilde;o prejudicar o cimento da
+construc&ccedil;&atilde;o. Algumas vezes o t&oacute;ro
+inferior &eacute; achatado e sobresae bastante por cima do
+<em>plintho</em>; o t&oacute;ro superior &eacute;
+quasi sempre cylindrico; por vezes todavia apresenta uma pequena
+depress&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+Durante a primeira metade do XIII seculo, as bases das columnas
+est&atilde;o ainda muitas vezes ligadas aos angulos dos seus
+plinthos <em>por
+garras</em>. As garras apparecem por vezes, por&eacute;m
+excepcionalmente no final do periodo ogival.<br />
+
+<br />
+
+Depois do meiado do XIII seculo, a
+<em>scocia</em> profunda, que indica um dos signaes
+caracteristicos das bases da ultima metade do XII seculo e do principio
+do XIII seculo, desapparece pouco a pouco,
+<span class="pagenum">[220]</span>
+assim como o achatamento do t&oacute;ro
+inferior. As bases passam depois successivamente pela f&oacute;rma
+polygonal ou cylindrica; pertencendo a primeira d'este feitio ao XIII
+seculo, e a segunda &aacute;s bases do XVI seculo.<br />
+
+<br />
+
+Quando o t&oacute;ro inferior da base desdobra muito sobre o
+plintho da columna, p&otilde;e-se algumas vezes um pequeno apoio
+por baixo do t&shy;&oacute;ro. Esta particularidade, sem
+belleza, se encontra nos edificios francezes e da Belgica.<br />
+
+<br />
+
+O s&oacute;co sobre o qual vem assentar a base da columna do XIII e
+do XIV seculos, f&oacute;rma, quasi sempre, um octogono regular;
+algumas vezes, comtudo, &eacute; quadrado (nos edificios dos
+primeiros annos do periodo ogival) ou cylindrico. Os <em>s&oacute;cos
+cylindricos</em> se encontram em muitos monumentos belgas do XIII
+e do XIV seculo: tambem s&atilde;o bastante communs na Inglaterra:
+em Fran&ccedil;a servem na Normandia, na Bretanha e no Maine.<br />
+
+<br />
+
+No XV seculo, a base e plintho das columnas monocylindricas
+s&atilde;o extraordinariamente delgadas. A base &eacute;
+formada sempre por uma simples moldura do feitio de t&oacute;ro.
+Muitas vezes esta moldura, que nos seculos precedentes era
+tra&ccedil;ada sobre um plano circular, toma a f&oacute;rma
+polygonal do s&oacute;co.<br />
+
+<br />
+
+Nas columnas enfeixadas do seculo XV, as pequenas bases parciaes das
+nervuras prismaticas ou cylindricas em grupo &aacute; roda do pilar
+central, formam, pela sua reuni&atilde;o e
+penetra&ccedil;&atilde;o,
+a base e o s&oacute;co da columna. Durante a primeira metade
+<span class="pagenum"><a name="p221">[221]</a></span>
+d'este seculo, as pequenas bases
+teem todas o mesmo perfil e ficam ao mesmo nivel. Mais tarde, os
+architectos costumaram perfilar as bases parciaes em niveis
+differentes, como para melhor fixar cada columnasinha e para evitar
+tantas compridas linhas horisontaes.<br />
+
+<br />
+
+<em>Capiteis</em>.&#8213;Durante todo tempo do
+periodo ogival, ornaram regularmente com bellas esculpturas os
+a&ccedil;afates dos capiteis. Houve comtudo
+excep&ccedil;&otilde;es a esta regra, e por isso se encontram
+em alguns edificios religiosos de segunda e terceira ordem do XII
+e do XIII seculo, limitados por uma simples moldura.<br />
+
+<br />
+
+Os capiteis do XIII seculo distinguem-se com facilidade pela
+ornamenta&ccedil;&atilde;o vegetal de um caracter mui
+particular. O seu a&ccedil;afate comp&otilde;e-se
+geralmente de um, de dois, e algumas vezes mesmo de tres renques de
+crochetes ou enroscamento de folhagens. Os crochetes de renque superior
+supportam quasi sempre os angulos do abaco, e substituem, de alguma
+maneira, o emprego dos modilh&otilde;es. No final do XII seculo e
+no principio do XIII seculo, teem a sua extremidade enroscada e parecem
+rebentos de vegetaes. Em Fran&ccedil;a desde o final do XII seculo,
+e na Belgica um pouco depois, as extremidades dos crochetes se
+desenrolam, e os rebentos se abrem em folhagens.<br />
+
+<br />
+
+Algumas vezes os crochetes, em logar de acabarem por folhagens
+enroscadas ou abertas, trazem no seu cume cabe&ccedil;as de homens
+e de animaes verdadeiros ou phantasticos.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[222]</span>
+Os capiteis com crochetes enroscados, cujo emprego ent&atilde;o
+estava abandonado em toda a parte no final do XIII seculo, continuou na
+Flandres maritima at&eacute; ao fim do periodo ogival.
+Al&eacute;m d'isso, os crochetes teem, n'esta regi&atilde;o,
+uma f&oacute;rma
+especial; seus enroscados s&atilde;o muito mais chatos e mais
+largos.<br />
+
+<br />
+
+A ornamenta&ccedil;&atilde;o dos capiteis do XIV seculo
+consiste em ramos de folhagens, de fl&ocirc;res e de fructos, de
+f&oacute;rma muito variada, nas quaes se acham todos os caracteres
+da esculptura ornamental do XIV seculo. Os crochetes, apropriadamente
+assim designados, n&atilde;o apparecem mais que excepcionalmente
+com os capiteis d'esta &eacute;poca: todavia os ramos de folhagens
+e de flores s&atilde;o geralmente collocados, nos angulos do abaco,
+de maneira a recordar pelo seu vulto os crochetes do XIII seculo, e
+servem para o mesmo fim. Muitas vezes estes ramos s&atilde;o
+dispostos sobre dois renques; esta maneira se nota sempre quando, como
+acontece repetidas vezes, o a&ccedil;afate &eacute; composto de
+duas
+pe&ccedil;as sobrepostas, e mesmo algumas vezes, quando o capitel
+&eacute; formado de uma s&oacute; pedra.<br />
+
+<br />
+
+As figuras de animaes reaes ou phantasticos se encontram poucas vezes
+sobre os capiteis do XIII e do XIV seculos.<br />
+
+<br />
+
+Os capiteis do XV seculo teem, como os dos seculos precedentes, o seu
+a&ccedil;afate coberto de folhagens; por&eacute;m essas
+folhagens apresentam geralmente mais ou menos desenvolvimento;
+s&atilde;o delgadas, angulosas, muito recortadas, muito profundas
+<span class="pagenum"><a name="p223">[223]</a></span>
+e exaggeradas. Com o XV
+seculo, appareceu sobre os capiteis o ornato vulgarmente designado <em>folha
+de repolho</em>.<br />
+
+<br />
+
+Em muitos ornamentos do XV seculo, os architectos, levados pela
+applica&ccedil;&atilde;o muito rigorosa do preceito que
+qualquer ornato deve ter ao mesmo tempo um emprego necessario,
+supprimiram o capitel. N'estes casos, os arcos-butantes e as nervuras
+das abobadas sobem, sem intermediario, do fuste cylindrico, ou
+ent&atilde;o nascem na base mesmo da columna, seguindo toda a
+largura do fuste at&eacute; ao nascimento das abobadas, e tomam,
+n'esse logar, as differentes direc&ccedil;&otilde;es
+convenientes para a construc&ccedil;&atilde;o das abobadas.<br />
+
+<br />
+
+As columnas cylindricas com capitel s&atilde;o usadas nos edificios
+belgas do XV seculo, mas s&atilde;o bastante raras em
+Fran&ccedil;a.<br />
+
+<br />
+
+<h4>Modilh&otilde;es e misulas</h4>
+
+<br />
+
+&Eacute; um apoio que faz saliencia sobre a face de uma parede ou
+de uma columna que se chama
+<em>modilh&atilde;o</em> quando tiver dois lados
+lateraes parallelos e perpendiculares &aacute; parede; e
+<em>misula</em>, quando apresentar uma outra differente
+posi&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+Depois do meiado do XIII seculo, os modilh&otilde;es do feitio de
+curvas s&atilde;o raros.<br />
+
+<br />
+
+As misulas apresentam por vezes uma tal ou qual similhan&ccedil;a
+com os capiteis, e s&atilde;o tambem
+sempre rematadas por um abaco; differen&ccedil;am-se comtudo, as
+mais das vezes, pelo seu genero de
+ornamenta&ccedil;&atilde;o. Na verdade, as esculpturas dos
+capiteis
+<span class="pagenum"><a name="p224">[224]</a></span>
+do periodo ogival
+reproduzem quasi sempre vegetaes: e s&oacute;mente por
+excep&ccedil;&atilde;o mostram figuras
+de homens ou de animaes. Sobre as misulas, pelo contrario, a
+ornamenta&ccedil;&atilde;o vegetal n&atilde;o apparece,
+por assim dizer, sen&atilde;o no XIII seculo, e mesmo &eacute;
+rara; durante os dois seculos seguintes desapparece, e ent&atilde;o
+as misulas s&atilde;o constantemente formadas de personagens
+grotescas, acocoradas, de animaes reaes ou phantasticos, e algumas
+vezes tambem de cabe&ccedil;as humanas, ou figuras de anjo e de
+homem sustentando escudos, disticos e bandeirolas.<br />
+
+<br />
+
+Muitas vezes as misulas, collocadas quer no interior, quer no exterior
+dos edificios, s&atilde;o pintadas com c&ocirc;res vivas.
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>Arcadas e arcaduras</h4>
+
+<br />
+
+As grandes arcadas ou archivoltas ligando os pilares das naves e
+sustentando o peso das paredes superiores, comp&otilde;em-se
+regularmente de dois ou tres renques de sobre-arcos nos edificios do
+periodo ogival. Os perfis variam nos differentes seculos.<br />
+
+<br />
+
+No XIII seculo, e mesmo ainda no XIV seculo, as arestas da archivolta
+s&atilde;o formadas por t&oacute;ros inscriptos na face
+quadrada da pe&ccedil;a do arco; no XIV seculo e durante uma grande
+parte do XV seculo, os t&oacute;ros j&aacute; n&atilde;o
+s&atilde;o
+completamente cylindricos, mas teem antes do termino a curva d'esta
+moldura, um filete destinado a deter a for&ccedil;a do reflexo; no
+final do XV seculo e no principio do XVI, os t&oacute;ros
+cylindricos tornam a apparecer.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[225]</span>
+As <em>arcaduras</em> s&atilde;o bastante
+vulgares nos monumentos do periodo ogival; servem para ornar o liso das
+paredes internas e exteriores dos edificios. Na parte interna apparecem
+principalmente no <em>triforium</em> e por baixo dos
+peitor&iacute;s das janellas das naves lateraes; na parte exterior,
+por baixo das cornijas e nos frontespicios, nos vasamentos dos grandes
+portaes e nas galerias dos claustros.<br />
+
+<br />
+
+As arcaduras que se v&ecirc;em em baixo das janellas de quasi todos
+os grandes monumentos, comp&otilde;em-se de uma serie de pequenas
+arcadas fingidas, collocadas entre os peitor&iacute;s das janellas
+e o solo ou no s&oacute;co de cantaria que f&oacute;rma, muitas
+vezes, uma especie de base ao longo das paredes das naves lateraes.<br />
+
+<br />
+
+No XIII seculo, as curvas das arcaduras assentam sobre columnellos mais
+ou menos embebidos na parede. No XIV e no XV seculos, os
+<em>columnellos</em> ficam substituidos por simples
+nervuras, &aacute;s vezes cylindricas; por&eacute;m as mais das
+vezes a
+sec&ccedil;&atilde;o polygonal n&atilde;o differe muito da
+de uma semi-hombreira de janella. Estas nervuras teem remate junto do
+solo, sobre as bases que lhes pertencem. No final do periodo ogival,
+supprimem-se, por vezes, as nervuras, e ent&atilde;o as
+<em>arcaduras</em> assentam sobre modilh&otilde;es.<br />
+
+<br />
+
+No XIV e no XV seculos, as arcaduras sobre os peitor&iacute;s das
+janellas ligam-se inteiramente com as hombreiras das janellas e
+parecem, de alguma maneira, confundir-se com elles: parecendo que
+atravessam a cantaria do peitoril e descem at&eacute; ao solo.
+<span class="pagenum">[226]</span>
+As arcaduras n&atilde;o
+s&atilde;o mais do que a parte inferior
+da janella que est&aacute; tapada, e na verdade, a parede
+necessitando de diminuir para dentro, ficando &aacute; face da
+vidra&ccedil;a, afim de deixar metade do peitoril apparente,
+conserva apenas uma pequena
+grossura, que equivale a uma simples divis&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+Nos edificios mais esmerados, os
+<em>seguintes</em>, isto &eacute;, os lados
+triangulares comprehendidos entre os extradoz das archivoltas e de duas
+<em>arcaduras</em>, proximas uma da outra, est&atilde;o
+geralmente ornatados com esculpturas, pinturas ou rendilhados,
+mostrando a f&oacute;rma trilobada ou quadrilobada, e com vidros
+pintados, emquanto as paredes que separam os entre-columnios,
+apresentam pinturas decorativas.<br />
+
+<br />
+
+As esculpturas e as pinturas com as quaes se decoravam os <em>seguintes</em>
+das
+arcaduras, durante o periodo ogival, s&atilde;o ora legendarios ou
+satyricos, ora tirados do reino vegetal. Nos monumentos inglezes do
+XIII seculo, os <em>seguintes</em>
+est&atilde;o muitas vezes com ornatos similhantes a estofo cheio de
+relevo.<br />
+
+<br />
+
+Dentro das grandes egrejas do XV seculo existem como
+decora&ccedil;&atilde;o as arcaduras e outras figuras por cima
+e por baixo do <em>triforium</em>,
+sobre o dorso das grandes arcadas e ao correr das janellas mais
+superiores; &aacute;s vezes mesmo sobre o liso das paredes e em
+outras partes do edificio.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[227]</span>
+<h4>Triforium</h4>
+
+<br />
+
+Os <em>triforiums</em> comprehendem toda a
+largura das naves lateraes, n&atilde;o se v&ecirc;em
+sen&atilde;o por
+acaso nos edificios do periodo ogival. Desde o final do XII seculo,
+lhes substituiram, nas egrejas da Europa occidental, galerias
+estreitas, abertas na grossura da parede, por baixo dos
+peitor&iacute;s das janellas superiores da nave principal. Estas
+galerias estreitas offereciam commodidade: em primeiro logar
+facilitavam a circula&ccedil;&atilde;o dentro da egreja quasi
+&aacute;
+altura das janellas superiores, e davam logar a collocarem-se as
+arma&ccedil;&otilde;es e outros adornos com que havia o costume
+de decorar as egrejas nos dias de festa; e em segundo logar, diminuindo
+a grossura das paredes superiores, alliviavam a press&atilde;o
+exercida sobre os pilares principaes dos edificios; finalmente,
+offereciam uma das mais importantes disposi&ccedil;&otilde;es
+para a
+decora&ccedil;&atilde;o da nave principal.<br />
+
+<br />
+
+O triforium communica com o interior da egreja por series de arcaduras
+abertas, tendo o mesmo feitio que as arcaduras que havia sobre o liso
+das paredes, debaixo dos peitor&iacute;s das janellas
+inferiores.
+Muitas vezes, principalmente no XV seculo, tapava-se a parte inferior
+da arcadura com um parapeito formando ornato de feitio de
+tr&ecirc;vo ou de quatro folhas.<br />
+
+<br />
+
+Nota-se que nos triforiums, assim como nas arcaduras com ornato, as
+archivoltas ficam assentes sobre columnatas com
+capitel pertencente ao estylo do XIII seculo, e sobre <em>nervuras
+das
+hombreiras</em>
+<span class="pagenum"><a name="p228">[228]</a></span>
+dos seculos seguintes. A
+disposi&ccedil;&atilde;o das arcaduras do triforium apresenta
+ainda uma outra analogia muito parecida com as arcaduras de ornato,
+formando regularmente, desde o final do XIII seculo, a
+continua&ccedil;&atilde;o das janellas das naves lateraes.
+Depois d'esta &eacute;poca tambem as arcaduras do triforium se
+assemelham &aacute;s janellas superiores da nave principal.<br />
+
+<br />
+
+No termo do periodo ogival, supprimem-se muitas vezes as arcaduras,
+n&atilde;o conservando mais do que um simples guarda-peito; o
+ornamento denominado <em>chama</em> apparece regularmente
+nos
+desenhos que formam as hombreiras d'esses guarda-peitos. As janellas
+superiores ficam, n'este caso, collocadas a prumo sobre a parede
+exterior do triforium.<br />
+
+<br />
+
+Na Belgica, o triforium &eacute; geralmente tapado do lado exterior
+da nave por uma parede; &eacute;, por
+excep&ccedil;&atilde;o, que esta parede tem abertura, e a um ou
+dois metros por cima do pavimento da galeria, pequenas aberturas
+circulares, <em>trilobadas</em> ou
+<em>quadrilobadas</em>, cobertas de grisalhas ou com
+ornatos elevados. Nos edificios francezes do XIII e XIV seculos, pelo
+contrario, a galeria do triforium n&atilde;o fica, as mais das
+vezes, separada do exterior sen&atilde;o por uma simples lumieira,
+apresentando bellos vidros pintados, semelhantes aos que decoram as
+janellas.
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>Cornijas</h4>
+
+<br />
+
+As cornijas do estylo ogival t&ecirc;em geralmente pouca
+importancia. Nos edificios que pertencem ao periodo de
+transi&ccedil;&atilde;o, e mesmo, na Belgica, em
+<span class="pagenum">[229]</span>
+algumas que s&atilde;o dos primeiros
+annos do periodo ogival, o <em>larmier</em> superior da
+cornija assenta ainda muitas vezes, de distancia em distancia, do mesmo
+modo que na &eacute;poca <em>roman</em>,
+sobre cachorros servindo de modilh&otilde;es, com muita sacada, mas
+de grande simplicidade.<br />
+
+<br />
+
+Em Fran&ccedil;a, as cornijas dos monumentos mais principaes
+comp&otilde;em-se, quasi sempre, de duas fiadas de cantaria. A
+fiada inferior est&aacute; ornada de crochetes vegetaes no XIII
+seculo, de folhagens ondeadas no XIV, e de folhas de rep&ocirc;lho
+encrespadas no XV. Algumas vezes v&ecirc;-se tambem, entre estas
+esculpturas, modilh&otilde;es formados por cabe&ccedil;as
+humanas ou por carrancas.<br />
+
+<br />
+
+As cornijas dos grandes edificios belgas apresentam as mesmas
+f&oacute;rmas geraes que as cornijas francezas, por&eacute;m
+n&atilde;o t&ecirc;em esculpturas,
+sendo substituidas por arcaduras simples, ogivaes, ou triboladas. Estas
+arcaduras apparecem principalmente nos paizes onde, durante o periodo
+Roman, as arcaduras serviam de decora&ccedil;&atilde;o,
+imitando-se o estylo Lombardo, e foram usadas para ornar certas partes
+dos edificios.<br />
+
+<br />
+
+Desde o come&ccedil;o da ultima metade do XIII seculo
+at&eacute; o final do XIV, os edificios de segunda ordem, e mesmo
+os de primeira ordem na Belgica, t&ecirc;em as cornijas compostas
+de simples perfis, formados por um pequeno numero de molduras pouco
+importantes.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[230]</span>
+<h4>Platibandas</h4>
+
+<br />
+
+As <em>platibandas</em> que cor&ocirc;am
+as cornijas no exterior dos edificios principiaram nos primeiros annos
+do XIII seculo. Antes, a agua da chuva ca&iacute;a dos telhados
+directamente sobre o solo; at&eacute; o meiado do XIII seculo
+s&oacute;mente os edificios mais importantes tiveram canos de
+chumbo para dar vas&atilde;o &aacute; agua da chuva e se
+assentaram platibandas sobre a beira do telhado. Estas platibandas
+encanavam a agua por garg&uacute;las, que a lan&ccedil;avam
+para longe da face das paredes, e impediam por esta maneira que as
+aguas da chuva podessem prejudicar a base da
+construc&ccedil;&atilde;o, introduzindo-se-lhe a humidade. As
+platibandas, cujo destino principal era evitar o perigo que apresentava
+passar sobre as garg&uacute;las, facilitam al&eacute;m d'isso
+os concertos do telhado, e resguardam das telhas da beira quando
+c&aacute;em; permittindo aos architectos darem melhores
+decora&ccedil;&otilde;es ao exterior dos monumentos.<br />
+
+<br />
+
+As mais antigas platibandas t&ecirc;em a f&oacute;rma de
+arcaduras rendilhadas, compostas de columnatas, sobre as quaes vem
+assentar um remate vasado, na sua parte inferior, em arco ogival,
+<em>trilobado</em>. No final do XIII seculo substituiram-se
+as arcaduras pelas folhas de tr&ecirc;vo e de quatro folhas
+vasadas.<br />
+
+<br />
+
+A altura e o feitio das platibandas variam conforme os materiaes
+empregados. No XIV seculo as platibandas, as mais das vezes, tinham
+folhas de tr&ecirc;vo e de quatro folhas, vasadas e divididas de
+<span class="pagenum"><a name="p231">[231]</a></span>
+distancia em distancia, na
+prumada dos contra-fortes, por pinaculos. No XV seculo, as prumadas
+s&atilde;o compostas, umas vezes pela reuni&atilde;o de
+rhombos, de triangulos equilateraes curvilineos, ou por figuras
+geometricas angulares; outras vezes por desenhos flammejantes,
+parecidos com os que caracterisam os tympanos das janellas d'esta
+&eacute;poca. No final do XIV seculo apparecem, principalmente nos
+edificios civis, as platibandas com ameias, nas quaes se v&ecirc;em
+os mesmos feitios que nas platibandas vulgares. O seu uso persistiu
+at&eacute; ao final do periodo ogival.<br />
+
+<br />
+
+As platibandas com arcaduras verticaes apparecem ainda aqui ou
+acol&aacute; nos edificios do XIV, XV e mesmo do XVI seculo.<br />
+
+<br />
+
+<em>Abobadas</em>. As abobadas ogivaes
+distinguem-se ao mesmo tempo pela sua elegancia e leveza. Isto foi
+resultado da pouca grossura dos triangulos do enchimento que vedava a
+parte composta de arcos-duplos e de nervuras. Comtudo a leveza
+n&atilde;o excluia a solidez; pelo contrario, as abobadas ogivaes
+s&atilde;o mais solidas e mais resistentes que as dos periodos
+anteriores, posto que sejam muito menos massi&ccedil;as.<br />
+
+<br />
+
+<em>Estabilidade e plano das abobadas</em>. J&aacute;
+explic&aacute;mos que a estabilidade das abobadas
+n&atilde;o depende do mesmo principio dos edificios antigos e do
+periodo ogival; e fizemos notar, em poucas palavras, os progressos
+t&atilde;o importantes realisados pelos architectos do XII e XIII
+seculos nas
+construc&ccedil;&otilde;es das abobadas.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p232">[232]</a></span>
+Fizemos tambem conhecer que as abobadas com o feitio das nervuras, como
+s&atilde;o construidas as abobadas ogivaes, causam um
+esfor&ccedil;o lateral que tende a desviar para f&oacute;ra dos
+seus pontos de apoio as columnas, contra-fortes ou paredes. Os
+constructores do periodo ogival evitavam esse esfor&ccedil;o
+lateral, oppondo-lhe quer um esfor&ccedil;o em sentido inverso,
+quer um obstaculo rigido que, impedindo de operar, resolveu-o
+empregando cargas verticaes. &Eacute; caso particularmente para
+notar, porque constitue egualmente uma differen&ccedil;a essencial
+do systema de construc&ccedil;&atilde;o dos antigos, esses
+obstaculos apresentam as dimens&otilde;es unicamente necessarias
+para preencher o fim ao qual s&atilde;o destinados.<br />
+
+<br />
+
+Esta neutralisa&ccedil;&atilde;o dos esfor&ccedil;os
+lateraes n&atilde;o se obtem da mesma maneira nos edificios
+religiosos, cuja nave principal &eacute; notavelmente mais alta do
+que as naves lateraes, e n'aquelles em que todas as naves teem egual
+altura.<br />
+
+<br />
+
+<em>Egrejas que teem a sua nave central muito mais elevada do que
+as outras lateraes</em>. Foi o systema adoptado, desde o final do
+XII seculo, pelos constructores da Europa occidental, afim de conservar
+o equilibrio das differentes partes de que se compunham os seus
+monumentos; porque o arco-duplo da abobada principal &aacute;
+parede mestra, o arco butante, o contraforte e a columna que separavam
+a nave principal da nave lateral do seu arco-duplo, formavam um triplo
+esfor&ccedil;o motivado pelo arco-duplo da abobada principal e os
+seus dois arcos
+<span class="pagenum">[233]</span>
+ogivaes, que
+faziam pender para f&oacute;ra a parede mestra do edificio. A este
+esfor&ccedil;o, o constructor da edade m&eacute;dia oppunha o
+arco butante, que vinha apoiar-se sobre a parede mestra, ficando
+collocado ao mesmo nivel. Por esta maneira o esfor&ccedil;o triplo
+causado n'esse ponto era transferido sobre o contraforte, onde se
+quebrantava por causa da sua rigidez; e devido a essa rigidez, o seu
+peso juntando-se ao da parede mestra do edificio, que comprime sobre a
+columna que sep&aacute;ra as duas naves; por ambas as
+for&ccedil;as reunidas, tornava-se esta bastante fixa para aguentar
+e neutralisar o triplo esfor&ccedil;o exercido pelo arco-duplo da
+nave lateral e pelas nervuras proximas da mesma nave. O
+esfor&ccedil;o do arco-duplo d'esta nave e das duas nervuras ficam
+supprimidas pelo encontro do contraforte.<br />
+
+<br />
+
+<em>Egrejas em que as naves ficam na mesma
+altura</em>. N'estas egrejas os esfor&ccedil;os lateraes que
+a abobada da nave principal op&eacute;ra sobre os seus pontos de
+apoio ficam diminuidos pela press&atilde;o das abobadas exteriores
+d'estas mesmas naves lateraes, ficando supprimidos pelos contrafortes,
+geralmente bastante salientes, os quaes lhes opp&otilde;em um
+obstaculo rigido, que produz o equilibrio das abobadas.<br />
+
+<br />
+
+<em>Abobadas de feitio de tecido</em>. As
+abobadas sobre plano <em>quadrado longo</em>, formadas por
+arcos ogivaes que se entroncam uma s&oacute; vez, foram geralmente
+abandonadas proximo do meiado do XV seculo. Apparecem ent&atilde;o
+as abobadas em
+<em>tecido</em>, designadas
+<span class="pagenum"><a name="p234">[234]</a></span>
+tambem pelos archeologos, abobadas <em>com
+divis&otilde;es prismaticas</em>. N'estas abobadas as
+nervuras
+bifurcam-se, ramificam-se e encruzam-se em todos os sentidos, de
+maneira a figurar um verdadeiro tecido, como est&aacute;
+representado na surprehendente abobada do cruzeiro da egreja monumental
+dos Jeronymos em Belem. Todos os pontos de
+intersec&ccedil;&atilde;o das nervuras est&atilde;o
+regularmente ornados de esculpturas.<br />
+
+<br />
+
+<em>Perfis das nervuras nas abobadas
+ogivaes</em>. As nervuras ou arcos ogivaes das abobadas
+construidas no final do periodo Roman consistem muitas vezes em um
+grosso t&oacute;ro, algumas vezes tendo dois ou quatro
+t&oacute;ros de menos vulto. Os arcos-duplos da mesma
+&eacute;poca, muito mais massi&ccedil;os que as nervuras,
+apresentam sec&ccedil;&otilde;es quadradas ou
+rectangulares, e teem os angulos das partes concavas da abobada
+talhadas em t&oacute;ro. Desde o principio do XIII seculo, os
+arcos-duplos tiveram, com raras excep&ccedil;&otilde;es, os
+mesmos perfis que os arcos ogivaes.<br />
+
+<br />
+
+Durante os primeiros annos do periodo ogival, v&ecirc;-se ainda
+arcos-duplos e arcos ogivaes muito grossos, semelhantes aos dos
+edificios romans. Todavia n&atilde;o tardou a
+adelga&ccedil;arem, a diminuirem de grossura. Pouco depois, a parte
+redonda do t&oacute;ro principal apresenta uma aresta viva. Esta
+f&oacute;rma teve logar em Fran&ccedil;a desde o final do XII
+seculo, e na Belgica s&oacute;mente no meiado do seculo seguinte.
+Mais tarde, em Fran&ccedil;a ao principio, e na Belgica proximo do
+meiado do XIII seculo, a aresta viva &eacute;
+<span class="pagenum">[235]</span>
+substituida por um filete, que ficou
+adoptado at&eacute; ao final do periodo ogival. Nos edificios
+francezes apparece tambem o filete sobre os t&oacute;ros
+secundarios desde o meiado do XIV seculo. No final do XV e no
+come&ccedil;o do XVI seculo, as nervuras apresentam muitas vezes o
+perfil composto de molduras concavas e redondas.<br />
+
+<br />
+
+Comparando-se os perfis mais antigos com os mais recentes, nota-se que
+os primeiros apresentam uma superficie mais larga e menos alta que as
+dos ultimos. Esta mudan&ccedil;a na f&oacute;rma dos perfis
+n&atilde;o se fez sem motivo: os constructores tinham aprendido por
+experiencia que a resistencia de um arco ou de uma nervura
+est&aacute; em raz&atilde;o directa da altura da
+pe&ccedil;a de voltas e n&atilde;o em
+raz&atilde;o da sua largura.<br />
+
+<br />
+
+<em>Fecho da abobada</em>. No XII seculo,
+tinham principiado a ornar com esculpturas os fechos da abobada. Estes
+primeiros fechos esculpidos representavam Jesus Christo deitando a
+ben&ccedil;&atilde;o, o Cordeiro Divino, Nossa Senhora, os
+anjos, os animaes symbolicos dos evangelistas, santos, e muitas vezes
+tambem carrancas ou animaes phantasticos. Nas abobadas dos edificios de
+segunda ordem contentavam-se algumas vezes de indicar um simples
+flor&atilde;o ou entrela&ccedil;os.<br />
+
+<br />
+
+No XIII seculo o emprego dos fechos de abobadas com esculpturas veiu a
+ser geral, sendo representado nas abobadas do c&ocirc;ro, Jesus
+Christo, o Cordeiro Divino, os symbolos dos evangelistas e outros
+objectos religiosos. Na nave principal e nas
+<span class="pagenum"><a name="p236">[236]</a></span>
+lateraes a
+ornamenta&ccedil;&atilde;o distingue-se por ser
+vegetal. Os fechos de abobada no XIV seculo, e tambem na primeira
+metade do XV seculo, apresentam bastantes vezes a mesma
+decora&ccedil;&atilde;o que a do XIII seculo; todavia na sua
+esculptura vegetal ha os caracteres proprios da
+ornamenta&ccedil;&atilde;o de cada um d'estes seculos. No XV
+seculo, os braz&otilde;es dos bemfeitores da egreja s&atilde;o
+esculpidos frequentemente sobre os fechos da abobada.<br />
+
+<br />
+
+No final do XV seculo, apparecem os fechos da abobada ornados de um
+appendice que recebeu o nome de <em>pendente</em>, que
+ficou em uso
+durante uma parte do XVI seculo, imitando stalactites que
+est&atilde;o suspensas &aacute;s superficies superiores das
+grutas. Algumas vezes tem o feitio de um flor&atilde;o ou um
+ornamento extravagante; outras representa uma estatua pegada
+&aacute; abobada.<br />
+
+<br />
+
+Muitas vezes os fechos da abobada s&atilde;o furados por um buraco
+circular, para se poder i&ccedil;ar os sinos e outros objectos
+acima das abobadas: como havia dois oculos na abobada da egreja de
+Belem, indicando n&atilde;o s&oacute;mente essa
+applica&ccedil;&atilde;o, mas que o edificio <em>deveria
+ter duas
+torres</em>: todavia, construiram modernamente um
+torre&atilde;o colossal, que esmaga aquelle monumento, e
+n&atilde;o respeitaram o que f&ocirc;ra projectado na sua
+primitiva
+edifica&ccedil;&atilde;o!<br />
+
+<br />
+
+<em>Arcos butantes</em>. Chama-se
+<em>arcos butantes</em> aos arcos destinados a transportar
+at&eacute; aos contrafortes exteriores o esfor&ccedil;o lateral
+das abobadas mais elevadas de um edificio. Nascem dos contrafortes e
+<span class="pagenum">[237]</span>
+apoiam-se sobre as paredes da
+nave principal nos differentes pontos onde v&atilde;o confinar os
+resultantes dos <em>encostes</em> dos arcos ogivaes e dos
+arcos-duplos.<br />
+
+<br />
+
+J&aacute; explic&aacute;mos os dois systemas empregados durante
+o periodo roman para contramurar o esfor&ccedil;o lateral produzido
+pelas abobadas superiores sobre as paredes altas das egrejas em que a
+abobada principal &eacute; muito mais alta que as outras das naves
+inferiores, e not&aacute;mos os inconvenientes que resultavam de
+uma e de outra applica&ccedil;&atilde;o. Estes dois systemas
+foram em pouco tempo abandonados, primeiramente porque a nave principal
+ficava sem claridade, sobretudo nos edificios de maior largura, e em
+segundo logar porque, n'um como no outro systema, as abobadas das naves
+lateraes precisavam de ser muito altas para attingir o ponto onde se
+effectuava o encontro combinado das nervuras das abobadas altas.
+Raciocinadores dispostos a sujeitar tudo aos principios dos architectos
+do XII seculo e do XIII seculo, conheceram que os semicirculos das
+abobadas em ber&ccedil;o contiguo, do qual alguns dos seus
+antecessores se tinham servido com o fim de neutralisar o
+esfor&ccedil;o lateral das abobadas altas, n&atilde;o era
+necessario na sua f&oacute;rma completa, e que se obtinha o mesmo
+resultado applicando sobre a parede exterior do edificio no ponto onde
+viesse dar a resultante dos encostes, um arco partindo de um
+contraforte exterior: foi esta combina&ccedil;&atilde;o que deu
+origem aos arcos-butantes.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[238]</span>
+Para que satisfa&ccedil;a &aacute; sua
+applica&ccedil;&atilde;o deve o arco-butante: 1.&ordm;, ter
+as
+juntas das pe&ccedil;as de sua construc&ccedil;&atilde;o
+<em>normaes</em> ou perpendiculares
+&aacute; curva por elle descripta; 2.&ordm;, ficar o seu
+vertice sobre
+a parede exterior no ponto onde passe a resultante do
+esfor&ccedil;o da abobada. Esse ponto acha-se entre o nascimento
+das nervuras ou arcos ogivaes e perto da metade da altura da abobada.
+Em theoria esse ponto &eacute; um ponto geometrico; todavia na
+pr&aacute;tica &eacute; preciso que a summidade ou
+cabe&ccedil;a do
+arco-butante seja larga; primeiro porque &eacute; impossivel, na
+execu&ccedil;&atilde;o, determinar de uma maneira exacta a
+direc&ccedil;&atilde;o da resultante dos differentes
+esfor&ccedil;os das abobadas; depois porque a
+direc&ccedil;&atilde;o d'esta linha p&oacute;de facilmente
+desviar-se em resultado de ter dado de si nos pontos de apoio
+verticaes, effeito que acontece frequentemente nas grandes
+construc&ccedil;&otilde;es medievaes cujos pontos de apoio
+s&atilde;o delgados e supportam uma pesada carga.<br />
+
+<br />
+
+Os arcos-butantes s&atilde;o geralmente refor&ccedil;ados, no
+seu <em>extradoz</em>, por um encosto em
+linha recta, construido em cantaria. O espig&atilde;o d'este
+encosto &eacute; muitas vezes ornatado de <em>crochets</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Desde o final do XII seculo e no principio do XIII seculo, os
+arcos-butantes vieram a ser de uso geral em todos os grandes monumentos
+religiosos, cuja nave principal era mais alta que as naves lateraes. Os
+mais antigos s&atilde;o geralmente formados por um quarto de
+circulo. Depois a curvatura veiu a ser menos curva, approximando-se da
+linha recta.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[239]</span>
+Empregaram tambem desde os primeiros annos do XIII seculo,
+arcos-butantes
+<em>duplos</em>, isto &eacute;, dois arcos-butantes
+collocados um por cima do outro.<br />
+
+<br />
+
+Os arcos-butantes foram empregados durante todo periodo ogival; todavia
+eram menos usados durante a ultima metade do XV seculo. Em muitos
+monumentos d'esta &eacute;poca, mesmo os mais principaes,
+julgavam-se sufficientes os contrafortes muito massi&ccedil;os e
+salientes para diminuir o esfor&ccedil;o das abobadas.<br />
+
+<br />
+
+Quando no principio do XIII seculo collocaram por baixo do madeiramento
+um canal para receber as aguas da chuva, dirigiam as aguas do telhado
+principal para os contrafortes exteriores por um canal de cantaria
+posto sobre o capello do arco-butante. As aguas passavam atravez no
+cimo dos contrafortes, e eram depois lan&ccedil;adas
+f&oacute;ra por gargulas, caindo afastadas da base do monumento. As
+infiltra&ccedil;&otilde;es causadas pela passagem das aguas
+sobre o capello dos arcos-butantes, e atravez dos contrafortes,
+produziram damnos t&atilde;o consideraveis nas
+construc&ccedil;&otilde;es que ficou em pouco tempo abandonado
+este systema de dar escoante &aacute;s aguas da chuva.<br />
+
+<br />
+
+<em>Contrafortes</em>. Durante os primeiros
+annos do periodo ogival, os contrafortes dos edificios de abobadas
+foram demasiadamente engrossados e tiveram bases bastante salientes;
+&aacute; propor&ccedil;&atilde;o
+que se elevavam assim, iam diminuindo consideravelmente por grandes
+resaltos successivos sobre cada uma das faces.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[240]</span>
+No meiado do XIII seculo, os contrafortes ficam mais regulares,
+erguem-se quasi verticalmente da base &aacute; extremidade
+superior, e n&atilde;o apresentam j&aacute; por cima do
+envasamento um ou dois resaltos bastante pequenos e s&oacute;mente
+sobre a face principal.<br />
+
+<br />
+
+Estes contrafortes terminavam por uma face chanfrada que ia ter
+at&eacute; &aacute; cornija, e muitas
+vezes era de f&oacute;rma abahulada, quando ficavam isolados ou
+excediam a base do madeiramento. Nos monumentos principaes limitavam-se
+algumas vezes a p&ocirc;r pinaculos, e ornavam as suas faces lisas
+de arcaduras e estatuas postas sobre misula, tendo docel.<br />
+
+<br />
+
+No XIV seculo a f&oacute;rma dos contrafortes ficou quasi a mesma
+que durante a ultima metade do seculo precedente. Tinham a sua
+extremidade, como d'antes, quer em pinaculos e f&oacute;rma
+abahulada, quer ficando os pinaculos assentes sobre base quadrada ou
+octogona, terminando por agulhas pyramidaes, cujas arestas
+est&atilde;o ornadas de
+cr&oacute;chets.<br />
+
+<br />
+
+Os contrafortes do XV seculo semelham-se ainda muitas vezes aos dos
+dois seculos precedentes. Como estes, apresentam, de distancia em
+distancia, diminui&ccedil;&atilde;o de grossura pouco apparente
+sobre a sua face anterior, e s&atilde;o ornados de arcaduras,
+nichos e doceis, ornamenta&ccedil;&atilde;o no gosto da
+&eacute;poca. Todavia, desde o fim do XIV seculo, principiaram a
+modificar algumas vezes a sua
+disposi&ccedil;&atilde;o; regularmente deixaram subsistir a
+base
+<span class="pagenum">[241]</span>
+quadrada ou rectangular,
+tendo a face anterior parallela e as duas faces lateraes
+perpendiculares com o liso da parede; por&eacute;m, a certa
+distancia acima do solo (ao primeiro ou segundo resalto), a face
+anterior, parallela &aacute; parede, passa a ser angular; mesmo
+&aacute;s vezes se v&ecirc;em contrafortes cuja face anterior
+fica angular &aacute; parede desde a base do edificio. Estes
+contrafortes, com lados chanfrados, acabam como todos os outros, por um
+plano inclinado, plataf&oacute;rma ou espig&atilde;o de
+feitio abahulado, ou por um pinaculo bastante ornado.<br />
+
+<br />
+
+No XIII e no XIV seculo, os contrafortes collocados no ponto de
+intersec&ccedil;&atilde;o de paredes que se
+encontram em angulo recto, s&atilde;o sempre em numero de dois. No
+XV seculo, julgavam &aacute;s vezes ser sufficiente um unico
+contraforte collocado de maneira a fazer face ao angulo; sendo estes
+contrafortes angulares muito communs nos edificios d'esta
+&eacute;poca.<br />
+
+<br />
+
+Por causa do excessivo esfor&ccedil;o lateral que produzem sobre os
+seus pontos de apoio, as abobadas ogivaes necessitavam o emprego de
+contrafortes com base de bastante largura. Nos monumentos dos primeiros
+annos do periodo ogival, esses contrafortes, que teem tres de suas
+faces inteiramente livres, apresentam saliencias grandes sobre as
+paredes exteriores dos edificios. Estas sacadas desagradaram em pouco
+tempo aos constructores, que cogitaram em as diminuir ou fazel-as
+desapparecer inteiramente disfar&ccedil;ando os contrafortes.
+<span class="pagenum"><a name="p242">[242]</a></span>
+Para esse fim recu&aacute;ram
+at&eacute; &aacute; parede
+mestra a divisoria que havia antes na nave lateral, aproveitando na
+parte interna do monumento o espa&ccedil;o de um rectangulo que
+communicava com a extremidade da nave lateral e servia &aacute;s
+vezes de capella.<br />
+
+<br />
+
+Nos edificios do periodo ogival, cobertos por simples f&ocirc;rro
+do tecto, de madeira, os contrafortes tinham pequena sacada sobre o
+liso das paredes.<br />
+
+<br />
+
+<em>Gargulas</em>. D&aacute;-se o nome de
+<em>gargulas</em> aos canaes salientes pelos quaes as aguas
+da chuva s&aacute;em dos telhados e s&atilde;o
+lan&ccedil;adas longe da base das
+paredes dos edificios. Teem quasi sempre a
+configura&ccedil;&atilde;o de animaes monstruosos e
+phantasticos, e raramente a figura humana. Admira-se, n'estas
+esculpturas, uma variedade prodigiosa, e seria difficil de achar duas
+do mesmo feitio, todavia a maior parte dos edificios ogivaes apresentam
+um grande numero. N'este genero ha duas no nosso paiz bastante
+exquisitas, uma no angulo da cimalha da egreja de Caminha, na capella
+m&oacute;r, voltada para o norte da fronteira do paiz, estando a
+figura humana revirada, isto &eacute;, em
+posi&ccedil;&atilde;o
+dobrada, com a cabe&ccedil;a para o lado do telhado e a parte
+trazeira do corpo para f&oacute;ra do edificio, e &eacute; pelo
+anus que s&aacute;em as aguas da chuva: no castello de Pombal ha
+outra com a figura de mulher na mesma attitude, saindo aos canaes
+salientes pelos quaes as aguas
+da chuva s&aacute;em dos telhados e s&atilde;o
+lan&ccedil;adas longe da base das
+paredes dos edificios. Teem quasi sempre a
+configura&ccedil;&atilde;o de animaes monstruosos e
+phantasticos, e raramente a figura humana. Admira-se, n'estas
+esculpturas, uma variedade prodigiosa, e seria difficil de achar duas
+do mesmo feitio, todavia a maior parte dos edificios ogivaes apresentam
+um grande numero. N'este genero ha duas no nosso paiz bastante
+exquisitas, uma no angulo da cimalha da egreja de Caminha, na capella
+m&oacute;r, voltada para o norte da fronteira do paiz, estando a
+figura humana revirada, isto &eacute;, em
+posi&ccedil;&atilde;o
+dobrada, com a cabe&ccedil;a para o lado do telhado e a parte
+trazeira do corpo para f&oacute;ra do edificio, e &eacute; pelo
+anus que s&aacute;em as aguas da chuva: no castello de Pombal ha
+outra com a figura de mulher na mesma attitude, saindo a agua da chuva
+pelo que distingue o seu sexo. Eram de propor&ccedil;&otilde;es
+curtas e solidas no principio da sua applica&ccedil;&atilde;o;
+vieram a
+<span class="pagenum"><a name="p243">[243]</a></span>
+ser mais compridas e com
+melhores f&oacute;rmas desde o final do XIII seculo.<br />
+
+<br />
+
+<em>Nichos e doceis</em>. D&aacute;-se o
+nome de <em>nicho</em> a qualquer espa&ccedil;o
+aberto, mais ou menos profundo, feito na grossura de uma parede, pilar
+ou contraforte, para n'elle se collocar uma estatua, um grupo, um vaso,
+ou qualquer objecto de decora&ccedil;&atilde;o. Os nichos
+apparecem poucas vezes nos monumentos do XIII e XIV seculos; n'essa
+&eacute;poca as estatuas, com as quaes ornavam &aacute;s vezes
+certas partes dos monumentos, eram postas sobre misulas salientes,
+tendo doceis egualmente salientes sobre a face das paredes.<br />
+
+<br />
+
+No XV seculo, o uso dos nichos vem a ser mais geral; v&ecirc;em-se
+bastantes vezes no exterior dos monumentos, sobre as fachadas, nos
+contrafortes e nos tympanos dos portaes.<br />
+
+<br />
+
+Os doceis, isto &eacute;, os remates salientes, mais ou menos
+ornamentados de esculpturas, ficando collocados por cima da
+cabe&ccedil;a das estatuas, s&atilde;o muito geraes desde o
+final do periodo roman. No XII e no XIII seculos, esses doceis
+primitivos representam quasi sempre edificios, fortalezas, e mesmo
+algumas vezes cidades inteiras cercadas de muralhas. N&atilde;o
+havia ainda n'esta &eacute;poca, por cima, pinaculos
+ou pyramides delgadas, posto que em certas partes do centro da
+Fran&ccedil;a, as tiveram desde o meiado do XIII seculo, sendo
+terminadas por <em>clochetons</em>. As f&oacute;rmas
+architectonicas dos edificios representadas pelos doceis s&atilde;o
+muitas vezes anteriores &aacute; &eacute;poca em que foram
+esculpidos;
+<span class="pagenum">[244]</span>
+&eacute; por
+isso que no XIII
+seculo apparecem n'elles zimborios, arcos de volta inteira, etc., que
+todavia n&atilde;o se v&ecirc;em j&aacute; nos monumentos
+contemporaneos.<br />
+
+<br />
+
+No XIV seculo, os doceis mudam totalmente de aspecto, cobrem-se de
+arcaduras com ornamenta&ccedil;&atilde;o e com outros detalhes
+imitados da architectura; teem geralmente por cima vistosos pinaculos,
+muitas vezes vasados.<br />
+
+<br />
+
+No XV seculo, apresentam quasi as mesmas f&oacute;rmas que no
+seculo precedente, por&eacute;m exaggeradas; sendo os doceis
+contornados demasiadamente, e a sua ornamenta&ccedil;&atilde;o
+feita com muita delicadeza.<br />
+
+<br />
+
+<em>Madeiramentos</em>. Distinguem-se, nos
+edificios do periodo ogival, duas especies principaes de madeiramentos:
+os que n&atilde;o ficavam apparentes, porque n&atilde;o
+revestiam as construc&ccedil;&otilde;es
+abobadadas, e os apparentes que se empregavam nos edificios que
+n&atilde;o tivessem abobadas, sendo estes que interessam sobretudo
+os archeologos.<br />
+
+<br />
+
+Quando os madeiramentos ficam apparentes, isto &eacute;, visiveis
+no interior do edificio, apresentam sempre o aspecto de uma abobada de
+f&oacute;rma de ber&ccedil;o. Este ber&ccedil;o
+&eacute; algumas vezes semi-cylindrico,
+semelhante aos que se encontram em algumas egrejas romans; as mais das
+vezes, todavia, s&atilde;o tra&ccedil;ados por tres centros. <em>Ripas</em>
+de carvalho,
+ou de qualquer outra especie de madeira, tendo as juntas sobrepostas,
+s&atilde;o pregadas sobre as
+<em>cambotas</em>, circulares ou ogivaes, formadas pelas
+asnas e
+<em>varedo</em>. Tendo
+<span class="pagenum">[245]</span>
+pinturas por
+decora&ccedil;&atilde;o, e algumas vezes as
+extremidades das pe&ccedil;as de madeira ficam visiveis, tendo
+esculpturas, que representam anjos com escudos ou phylacterias,
+cabe&ccedil;as de gente, figuras de cocoras com carranca, ou
+animaes phantasticos. Muitas vezes as nervuras ou as <em>franquias</em>
+ficam parallelas &aacute;s nervuras das <em>asnas</em>,
+por&eacute;m sendo mais estreitas, est&atilde;o pregadas sobre
+o varedo e sustentam no seu logar as ripas. Estas nervuras
+s&atilde;o cobertas com vivas c&ocirc;res ou com elegantes
+entrela&ccedil;ados.<br />
+
+<br />
+
+Algumas vezes tambem s&atilde;o assentes sobre as ripas, as
+nervuras que se encruzam do mesmo modo que os arcos diagonaes ou as
+ogivas das abobadas de cantaria.<br />
+
+<br />
+
+As abobadas cobertas de gesso, taes como as constroem os architectos
+modernos na maior parte das novas egrejas ruraes, eram inteiramente
+desconhecidas durante o periodo ogival. Quando a verba de que dispunham
+n&atilde;o lhes permittia o estabelecer abobada de alvenaria,
+serviam-se do madeiramento apparente, que se ornava t&atilde;o
+artisticamente quanto fosse possivel. Nunca se empregavam pueris
+dissimula&ccedil;&otilde;es, fingimentos architecturaes,
+onde as <em>ripas</em> appareciam a imitar a
+cantaria com a capa desprezivel de gesso ou de argamassa!
+N&atilde;o se esquecia n'esta &eacute;poca, que a verdade
+&eacute; a condi&ccedil;&atilde;o essencial da existencia
+da arte; esta deve engrandecer o espirito, encantar a vista, e
+n&atilde;o enganal-a.<br />
+
+<br />
+
+<em>Telhados</em>. No meiado do XII seculo,
+os telhados
+<span class="pagenum">[246]</span>
+teem grandes
+inclina&ccedil;&otilde;es nos edificios da Europa Central e
+Septentrional; emquanto nos paizes meridionaes conservam pequena
+correnteza, como se praticava nos telhados da antiguidade e no periodo
+roman.<br />
+
+<br />
+
+Cobriam-se os madeiramentos com chumbo, cobre, ardozia e telhas.
+&Aacute;s grandes cathedraes e aos edificios mais importantes
+punham chapas de chumbo ou de cobre, por tal maneira, que podiam, sem
+alterar a sua superficie, dilatar-se ou encolher-se, conforme fosse a
+temperatura.<br />
+
+<br />
+
+<em>Cumieira e cimeira.</em> D&aacute;-se
+o nome de <em>cumieira</em> ao remate do
+espig&atilde;o de um edificio. Durante o periodo ogival este remate
+era de metal (quasi sempre de chumbo), de barro cozido ou de cantaria.
+As <em>cimeiras</em> s&atilde;o telhas
+que formam uma cumieira; eram de barro de cozedura.<br />
+
+<br />
+
+O maior numero dos grandes monumentos da edade m&eacute;dia tinham
+d'antes por remate cumieiras nos madeiramentos, egualmente recortadas,
+imitando quasi sempre folhagens. Infelizmente s&atilde;o poucos os
+edificios do XIII e XIV seculos que conservam esse ornato primitivo. De
+todas as cumieiras de chumbo anteriores ao XV seculo (e eram as mais em
+uso n'essa &eacute;poca) n&atilde;o ha j&aacute;
+vestigios: a oxyda&ccedil;&atilde;o do metal e muitas outras
+causas de destrui&ccedil;&atilde;o as teem feito desapparecer.<br />
+
+<br />
+
+Nos paizes onde a telha foi empregada para cobrir os edificios, como,
+por exemplo, na Borgonha, as cumieiras dos madeiramentos compunham-se
+de uma continua&ccedil;&atilde;o de cimeiras de barro
+<span class="pagenum"><a name="p247">[247]</a></span>
+de cozedura, mais ou menos
+ornado. Uma capa esmaltada e envernizada ao fogo tinham sempre estas
+cumieiras para se tornarem menos permeaveis &aacute; humidade.<br />
+
+<br />
+
+Desde o XI seculo, o emprego das cumieiras de pedra veiu a ser geral no
+meio dia de Fran&ccedil;a. Encontra-se ainda hoje n'este paiz um
+grande numero de cumieiras dos periodos roman e ogival, as quaes
+escaparam &aacute; sua destrui&ccedil;&atilde;o. As mais
+antigas apresentam enla&ccedil;amentos e figuras geometricas; as
+que pertencem ao XIV e XV seculos s&atilde;o compostas de
+ornamenta&ccedil;&atilde;o com remate de folhagens, como ha na
+egreja de Belem.<br />
+
+<br />
+
+<em>Torres e campanarios</em>. Do mesmo modo
+que no periodo roman os campanarios da &eacute;poca ogival
+s&atilde;o compostos de dois ou mais andares sobrepostos. A
+separa&ccedil;&atilde;o dos differentes andares &eacute;
+indicada, no exterior, quer por um resalto saliente, quer por uma
+pequena diminui&ccedil;&atilde;o de grossura do andar
+superior sobre o inferior. Estes andares n&atilde;o teem
+j&aacute;, como precedentemente, a mesma altura: s&atilde;o
+baixos ou altos, conforme as disposi&ccedil;&otilde;es internas
+dos campanarios. O rez-do-ch&atilde;o das torres &eacute;
+geralmente construido sobre plano quadrado; mas no primeiro ou no
+segundo andar, e as mais das vezes s&oacute;mente no principio da
+flecha o plano vem a ser octogono. Os espa&ccedil;os triangulares,
+que ficam livres nos angulos do quadrado, pela passagem da
+f&oacute;rma de quadrado para octogono, apresentam quasi sempre
+quatro pinaculos ou clochet&otilde;es.<br />
+
+<br />
+
+As frentes das torres teem aberturas nos differentes
+<span class="pagenum">[248]</span>
+andares, janellas estreitas
+ogivaes, muitas vezes geminadas, sendo raro estarem separadas ou
+reunidas em tres v&atilde;os.<br />
+
+<br />
+
+Desde o principio do periodo ogival, os campanarios acabavam por
+flechas construidas de madeira ou de cantaria, com muita
+eleva&ccedil;&atilde;o, tendo a f&oacute;rma de uma
+pyramide com oito lados eguaes. J&aacute; no XIII seculo, as
+arestas das flechas de pedra e os pinaculos collocados na base do
+octogono est&atilde;o por vezes ornados, de distancia em distancia,
+por crochets vegetaes; no XIV seculo, principia-se a vasar os lados das
+flechas fazendo-se pequenas aberturas do feitio de flor de trevo, ou
+quatro folhas e com flor&atilde;o. No XV seculo, essas
+ornamenta&ccedil;&otilde;es s&atilde;o substituidas por
+feitios de chammas e por outras figuras geometricas vasadas. No final
+do XV seculo e no principio do seculo seguinte, construiram-se, em
+muita parte, os campanarios com flechas rendilhadas.<br />
+
+<br />
+
+Muitos campanarios mais importantes, de grandes
+propor&ccedil;&otilde;es, ficaram por concluir desde a base da
+flecha projectada, e &aacute;s vezes ainda mais abaixo. Algumas
+vezes tambem, as flechas da primitiva
+construc&ccedil;&atilde;o, depois de terem sido destruidas por
+uma tempestade ou incendio causado pelo raio, foram substituidas por
+corpos simples ou remates hybridos, que n&atilde;o teem nada de
+commum com as lindas pyramides da &eacute;poca ogival.<br />
+
+<br />
+
+No XIV e no XV seculos, muitos campanarios teem na base da flecha uma
+platibanda vasada, composta de arcaduras ou com feitios chammejantes.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[249]</span>
+A maior parte das egrejas ogivaes de segunda e terceira ordem tinham
+campanarios de uma extraordinaria simplicidade, cujo effeito
+&eacute; agradavel e mesmo admiravel, se reflectirmos na pouca
+resistencia dos meios empregados para a execu&ccedil;&atilde;o.
+Estes campanarios, sem nenhum ornato, compunham-se de dois andares
+quadrados, dos quaes o superior s&oacute; tinha as quatro frentes
+com janellas geminadas ou com tres aberturas, servindo para sair o som
+do sino. Uma flecha octogona limita a sua extremidade.<br />
+
+<br />
+
+Os constructores da edade m&eacute;dia comprehendiam que, sobretudo
+nos edificios de menor importancia, as
+combina&ccedil;&otilde;es geraes mais simples eram as unicas
+mais acertadas para produzirem um aspecto monumental.<br />
+
+<br />
+
+Em Flandres maritima tem-se conservado at&eacute; ao presente um
+grande numero de campanarios ogivaes de segunda e terceira ordem,
+dignos de chamar a atten&ccedil;&atilde;o dos archeologos e dos
+architectos;
+encontram-se alguns muito bellos at&eacute; nas modestas freguezias
+do campo. Estes campanarios, construidos com tijolos, como todas as
+outras partes dos edificios d'este paiz, s&atilde;o geralmente
+terminados por uma flecha octogona tambem de tijolos, muitas vezes
+tendo quatro pinaculos nos angulos da sua base; as arestas da flecha e
+dos pinaculos s&atilde;o quasi sempre decoradas de crochets
+egualmente com tijolos. As platibandas que ligam entre si os pinaculos
+s&atilde;o cheias, pouco altas e ornadas com arcaduras fingidas.
+Uma outra particularidade que
+<span class="pagenum">[250]</span>
+apresentam alguns campanarios de Flandres maritima, &eacute;
+inclinarem-se um pouco para o lado oeste, que se supp&otilde;e ser
+um facto intencional do architecto para fazer resistir melhor contra os
+ventos d'este quadrante que sopram com extrema violencia &aacute;
+beira mar.<br />
+
+<br />
+
+Muitas egrejas monasticas, e algumas vezes tambem as parochiaes, teem
+um campanario collocado quer na extremidade da capella m&oacute;r,
+quer em um dos dois angulos formados pela
+intersec&ccedil;&atilde;o da capella m&oacute;r e o
+cruzeiro. Esta
+disposi&ccedil;&atilde;o &eacute; bastante geral nas
+egrejas ruraes na Baviera e na Austria. As abbadias preferiam esta
+colloca&ccedil;&atilde;o afim de que os frades incumbidos de
+darem signal pelos sinos para as ceremonias religiosas n&atilde;o
+fossem obrigados a afastar-se da egreja.<br />
+
+<br />
+
+Os constructores romans constru&iacute;am muitas vezes um
+campanario no logar da intersec&ccedil;&atilde;o da nave e do
+cruzeiro. Na Inglaterra e na Normandia, estes campanarios centraes
+conservam-se durante o periodo ogival; por toda parte, f&oacute;ra
+d'isso, s&atilde;o raros desde o XIII seculo, e muitas vezes foram
+substituidos por simples campanariosinhos de madeira. Na Belgica,
+encontram-se por vezes campanarios centraes de cantaria,
+por&eacute;m de resumida dimens&atilde;o, nos edificios do
+periodo de
+transi&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+As <em>escadas dos campanarios</em> e tambem
+as que servem em outras partes dos monumentos para subirem aos
+madeiramentos, s&atilde;o geralmente de caracol com centro
+cylindrico ou octogono. Estas caixas das escadas, collocadas no
+exterior do edificio
+<span class="pagenum"><a name="p251">[251]</a></span>
+nos
+angulos formados pela saliencia dos contrafortes, nunca s&atilde;o
+dissimuladas, mas visiveis, facilitando as seteiras que
+est&atilde;o abertas darem luz &aacute; escada.<br />
+
+<br />
+
+Durante o periodo ogival, collocavam quasi sempre <em>cruzes de
+ferro batido</em> no cimo das
+flechas dos campanarios, na extremidade do espig&atilde;o do
+c&ocirc;ro por cima da abside, e algumas vezes tambem sobre os
+espig&otilde;es do cruzeiro. Estas cruzes distinguem-se geralmente
+por uma composi&ccedil;&atilde;o de bastante trabalho. As
+cruzes dos campanarios s&atilde;o quasi sempre encimadas por um
+gallo servindo de catavento. Primitivamente este adorno encontrava-se
+sobre as torres das egrejas parochiaes ou dos capitulos apenas. O gallo
+collocado no cimo da egreja symbolisa a imagem dos
+pr&eacute;gadores; pois o gallo vela durante a noite escura e
+assignala as horas pelo seu canto, faz despertar aquelles que dormem, e
+annuncia a aurora que se approxima; mas antes d'isso, elle se excita a
+si mesmo a cantar, dando &aacute;s azas.<br />
+
+<br />
+
+<em>Pavimentos</em>. Os pavimentos romans
+eram compostos com mosaicos. Nos paizes meridionaes esses mosaicos
+foram formados de marmores differentes. Tanto em Fran&ccedil;a como
+na Belgica, Allemanha, Inglaterra e Portugal, eram compostos de
+ladrilhos esmaltados ou de lagedo gravado e com embutido egualmente de
+c&ocirc;res diversas. Os ladrilhos e os lagedos gravados
+continuaram a ser empregados nos pavimentos dos edificios ogivaes na
+Europa Occidental e Septentrional.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[252]</span>
+Esses pavimentos eram ora de uma grande simplicidade, ora esplendidos.
+Poucas vezes o ch&atilde;o todo das egrejas estava coberto por
+bellos mosaicos; em geral, n&atilde;o se adoptou este genero de
+decora&ccedil;&atilde;o sen&atilde;o para a capella
+m&oacute;r e para as capellas do corpo da egreja, porque nas naves,
+onde todas as pessoas s&atilde;o admittidas indistinctamente, o
+ro&ccedil;ar do cal&ccedil;ado em pouco tempo teria destruido o
+verniz do ladrilho ou o lagedo com gravuras.<br />
+
+<br />
+
+Como j&aacute; explic&aacute;mos, o amarello e o verde-escuro
+s&atilde;o as c&ocirc;res preferidas no final do periodo roman,
+nos pavimentos de ladrilho do Norte e Oeste da Europa. No XIII seculo,
+substituiu-se muitas vezes a c&ocirc;r verde-escura, o encarnado e
+o avermelhado escuro, empregando-se o amarello para os embutidos. As
+c&ocirc;res carregadas e escuras deixaram de ser usadas nos
+pavimentos.<br />
+
+<br />
+
+Os ladrilhos esmaltados s&atilde;o geralmente de pequenas
+dimens&otilde;es, como havia no cruzeiro da egreja monumental do
+convento de Alcoba&ccedil;a, cujos ladrilhos est&atilde;o agora
+<em>escondidos por baixo
+de simples lagedo</em>, na profundidade de <em>0<sup>m</sup>,34
+centimetros</em>!<br />
+
+<br />
+
+Quando os desenhos dos ladrilhos ficam completos sobre um s&oacute;
+ladrilho, ou se completam em quatro e mesmo em maior numero de
+ladrilhos reunidos, formam regularmente figuras geometricas,
+braz&otilde;es, flor&otilde;es, animaes existentes ou
+phantasticos. Circulos, flores de liz, veados, aguias com duas
+cabe&ccedil;as, &eacute; o que mais frequentemente se
+v&ecirc;.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p253">[253]</a></span>
+No XIII e no XIV seculos, figuras de homens em p&eacute; foram
+algumas vezes representadas pela reuni&atilde;o
+de um certo numero de ladrilhos pintados. Estas effigies de personagens
+eram muitas vezes acompanhadas de letreiros, empregados nas campas de
+cantaria.<br />
+
+<br />
+
+Durante o XIV e o XV seculos, os desenhos dos ladrilhos conservam quasi
+o mesmo caracter precedente, mas s&atilde;o menos vistosos e
+n&atilde;o teem o vigor das c&ocirc;res e o desenvolvimento que
+apresentavam os do XIII seculo. No XIV seculo, as
+ornamenta&ccedil;&otilde;es s&atilde;o muitas vezes
+substituidas por firmas, letras, inscrip&ccedil;&otilde;es,
+escudos, e mesmo pequenas vistas. Pelo mesmo tempo apparecem os tons
+verdes e azues-claros.<br />
+
+<br />
+
+Nos edificios de segunda e terceira ordem, e tambem em algumas egrejas
+abbaciaes, principalmente da Ordem de Cister, fazia-se uso, durante o
+periodo ogival, de pavimentos compostos de ladrilhos de differentes
+c&ocirc;res, sem nenhum ornato.<br />
+
+<br />
+
+Em alguns sitios fabricavam-se tambem ladrilhos sem ser esmaltados,
+apresentando figuras em relevo. Estes ladrilhos s&atilde;o muito
+raros, porque
+n&atilde;o se podiam fazer sen&atilde;o com barro muito rijo,
+para que os relevos n&atilde;o ficassem em pouco tempo gastos.<br />
+
+<br />
+
+<em>Lages gravadas e com embutidos</em>. Desde o XII
+seculo, empregaram-se algumas vezes, para cobrir o
+ch&atilde;o das egrejas, lages de pedra e de marmore gravadas e com
+embutidos. Os desenhos dos ornatos eram indicados em parte pelos
+espa&ccedil;os conservados
+<span class="pagenum"><a name="p254">[254]</a></span>
+da propria lage, ou por um betume colorido que enchia as
+cavidades deixadas pela gravura. As lages d'este genero n&atilde;o
+foram muito communs, e um limitado numero escapou da sua
+destrui&ccedil;&atilde;o! Um dos mais bellos e mais completos
+&eacute; o que ornava a capella m&oacute;r da cathedral de <em>Saint-Omer</em>
+(Fran&ccedil;a), e
+do qual bastantes fragmentos se t&ecirc;em conservado
+at&eacute; ao presente. Os fundos dos arabescos s&atilde;o de
+c&ocirc;r castanho-escuro, assim como a
+inscrip&ccedil;&atilde;o; os tra&ccedil;os do
+contorno das personagens e do cavallo s&atilde;o a encarnado, assim
+como est&aacute; representado em gravura o nobre cavalheiro, no
+meio d'essa composi&ccedil;&atilde;o, que
+&eacute; do meiado do XIII seculo.<br />
+
+<br />
+
+<em>Labyrinthos</em>. Na antiguidade
+pag&atilde; designavam-se com o nome de <em>labyrinthos</em>,
+as
+galerias subterraneas ou os edificios construidos em cima do solo, com
+ramifica&ccedil;&otilde;es em grande numero e complicadas.
+Todos sabem da existencia do labyrintho de Creta, onde, conforme a
+mythologia, o Minotauro foi morto por Theseo. Durante a edade
+m&eacute;dia o nome de labyrintho foi dado a uma
+disposi&ccedil;&atilde;o
+particular que se v&ecirc; no pavimento de algumas egrejas dos
+periodos Latino, Roman e Ogival. A
+disposi&ccedil;&atilde;o, divis&atilde;o e c&ocirc;r
+das lages, formam, pelas suas
+combina&ccedil;&otilde;es, linhas sinuosas com bastantes
+voltas, todas para um ponto central. Os Romanos e os Gregos
+representavam j&aacute;, por vezes, labyrinthos nos pavimentos em
+mosaico ou sobre as paredes de seus templos e de suas
+habita&ccedil;&otilde;es. Os labyrinthos que existem desde os
+primeiros seculos nas egrejas
+<span class="pagenum">[255]</span>
+christ&atilde;s, por exemplo, na de S. Jo&atilde;o Vidal de
+Ravana (Italia), que &eacute; do VI seculo, acharam, sem nenhuma
+duvida, a sua origem nos labyrinthos dos edificios pag&atilde;os. A
+presen&ccedil;a da figura de
+Theseo combatendo o Minotauro, que se v&ecirc; no centro dos
+labyrinthos de alguns monumentos christ&atilde;os, como em Pavia e
+em Luca, d&atilde;o uma prova evidente d'esta
+affirma&ccedil;&atilde;o. Os christ&atilde;os
+introduzindo os labyrinthos nas egrejas, deram-lhes uma
+significa&ccedil;&atilde;o symbolica. Seria comtudo difficil,
+por n&atilde;o dizer impossivel, determinar de uma maneira
+irrefutavel o symbolismo dos labyrinthos nas antigas egrejas
+christ&atilde;s.<br />
+
+<br />
+
+Na edade m&eacute;dia, parece ter-se reputado os labyrinthos como
+emblema da viagem &aacute; terra Santa, ou, segundo outras
+opini&otilde;es, o transito doloroso de Jesus Christo desde a casa
+de Pilatos at&eacute; ao Calvario. Indulgencias eram concedidas
+&aacute;s pessoas que os percorressem de joelhos, recitando as
+ora&ccedil;&otilde;es prescriptas. Os labyrinthos n'esta epoca
+eram tambem designados com o nome de
+<em>dedalo</em>,
+<em>meandro</em>, <em>caminhos de Jerusalem</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+A f&oacute;rma dos labyrinthos n&atilde;o &eacute; sempre a
+mesma, O de <em>Chartres</em> &eacute; circular;
+o de <em>Saint-Quentin</em>, octogono; taes eram tambem os
+de <em>Arrhas</em>,
+<em>Amiens</em> e <em>Reims</em>. Na egreja de
+<em>Saint-Bertin</em> em
+<em>Saint-Omer</em>, tinha a f&oacute;rma quadrada.
+Muitas vezes havia, ao centro e aos angulos do labyrintho, pedras com
+inscrip&ccedil;&atilde;o lembrando algum facto relativo
+&aacute; construc&ccedil;&atilde;o do edificio. Em
+<em>Amiens</em>, por exemplo, a pedra central representava
+os architectos
+<span class="pagenum"><a name="p256">[256]</a></span>
+da egreja
+e
+o bispo
+<em>&Eacute;vrard</em>, seu fundador, com os nomes dos
+personagens e a &eacute;poca da
+construc&ccedil;&atilde;o, gravados sobre laminas de cobre
+embebidas na parede.<br />
+
+<br />
+
+<em>Pinturas das paredes</em>. J&aacute;
+descrevemos os caracteres da pintura mural na &eacute;poca roman.
+Esses caracteres e o systema do colorido modificam-se de uma maneira
+evidente seguindo o desenvolvimento da architectura ogival.<br />
+
+<br />
+
+Se o leitor tiver presente na memoria o que fizemos notar a respeito do
+estylo ogival, da sua decora&ccedil;&atilde;o esculpida e do
+seu systema de
+construc&ccedil;&atilde;o, comprehender&aacute; facilmente
+que uma
+modifica&ccedil;&atilde;o notavel motivou tambem o colorido da
+decora&ccedil;&atilde;o. Com effeito, nas
+construc&ccedil;&otilde;es ogivaes os membros das paredes
+desapparecem, por assim dizer, e cedem o espa&ccedil;o para
+aberturas de janellas; os membros da architectura multiplicam-se e
+apresentam-se com grande evidencia; a vista examina sem custo a sua
+f&oacute;rma e os seus fins, desde a base da columna at&eacute;
+ao fecho da abobada que reune as nervuras da abobada. Al&eacute;m
+d'isso, as superficies das paredes, que n&atilde;o foi possivel
+supprimir, ficavam com esses espa&ccedil;os divididos. Como
+acontece nas paredes divisorias sobre os peitor&iacute;s das
+janellas inferiores, as paredes s&atilde;o todas cheias de series
+de arcaduras estreitas, muitas vezes cheias parcialmente de
+esculpturas. Finalmente a multiplicidade dos detalhes e a vista de
+ornamenta&ccedil;&otilde;es esculpidas, diminuindo a escala dos
+elementos embellezadores para augmentar o
+<span class="pagenum">[257]</span>
+espa&ccedil;o de uni&atilde;o,
+modificaram a seu modo as
+condi&ccedil;&otilde;es da pintura, dando-lhe caracteres novos.
+<br />
+
+<br />
+
+O augmento extraordinario dos v&atilde;os das janellas e o aspecto
+grandioso que lhes deram nos edificios motivou que nas
+vidra&ccedil;as pintadas eram quasi todas as
+preoccupa&ccedil;&otilde;es do constructor do periodo ogival.
+Era ali, em certo modo, que devia apparecer o effeito da
+decora&ccedil;&atilde;o. Os progressos da arte da pintura sobre
+o vidro corresponderam ent&atilde;o &aacute;s exigencias que
+esta arte tinha a satisfazer, e a palheta abundante, vigorosa e variada
+do pintor vidraceiro imp&ocirc;z &aacute;
+colora&ccedil;&atilde;o adoptada
+pelo pintor ornatista uma harmonia e combina&ccedil;&otilde;es
+novas. Por outras palavras, a pintura historica e legendaria,
+n&atilde;o tendo mais do que um espa&ccedil;o limitado e
+parcimonioso medido sobre a superficie das paredes foi servir-se das
+vidra&ccedil;as para os seus trabalhos, e por este motivo as
+figuras mostram, onde apparecem, ainda&nbsp;umas
+propor&ccedil;&otilde;es
+acanhadissimas. A intensidade da colora&ccedil;&atilde;o das
+vidra&ccedil;as pede, pela logica dos preceitos da harmonia, maior
+energia na pintura ornamental das paredes. Todavia, n&atilde;o foi
+essa a unica consequencia do emprego das vidra&ccedil;as
+excessivamente coloridas: a luz n&atilde;o entrando j&aacute;
+no interior da massa vitrea a qual atravessava como peneirada atravez
+d'um tecido multicolor, dava &aacute; pintura mural um aspecto
+differente d'aquelle que teria a luz natural do dia; havia pois a
+attender simultaneamente ao reflexo das c&ocirc;res translucidas
+com as da pintura mural que se devia harmonisar com a luz colorida e
+sombria
+<span class="pagenum">[258]</span>
+que as
+vidra&ccedil;as pintadas projectam sobre as paredes e partes
+architecturaes. D'aqui veiu o emprego, principalmente no XIII seculo,
+de c&ocirc;res vivas sem ficarem separadas: encarnado, purpura,
+verde, azul carregado, real&ccedil;ado, &aacute;s vezes, por
+tons claros e ouro com bastante profus&atilde;o quando os meios o
+permittiam. D'aqui ainda uma outra grande divis&atilde;o dos
+elementos decorativos e desenho dos detalhes.<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o &eacute; pois para estranhar que as
+<em>pinturas historicas e legendarias</em> tivessem tido
+muita voga durante o periodo roman, vindo a ser bastante raras nos
+edificios do estylo ogival. As arcaduras decorativas debaixo dos
+peitor&iacute;s das janellas inferiores, s&atilde;o muitas
+vezes as unicas
+superficies convenientes para terem pinturas com assumptos, e mesmo
+esse espa&ccedil;o &eacute; muito limitado e regularmente
+dividido em pequenos compartimentos por columnadas ou nervuras, sobre
+as quaes assentam as archivoltas das arcaduras. As pinturas das
+arcaduras decorativas representam muitas vezes personagens isolados.<br />
+
+<br />
+
+A influencia das tradi&ccedil;&otilde;es byzantinas sobre a
+arte occidental &eacute; manifesta durante todo o tempo do periodo
+roman. Todavia, se desde o XII seculo se observa no <em>desenho</em>
+uma tendencia a
+abandonar os typos byzantinos, n&atilde;o foi sen&atilde;o nos
+seculos
+seguintes que o caracter das pinturas mudou completamente no Occidente.
+Nas figuras das pinturas muraes, como nas outras que ornam as
+miniaturas dos manuscriptos, se observa uma
+transforma&ccedil;&atilde;o
+<span class="pagenum">[259]</span>
+cada vez mais
+visivel no que respeita ao estylo do desenho. Este se desprende
+insensivelmente das formas tradicionaes afim de adquirir maior
+liberdade. As attitudes veem a ser mais variadas, o gesto mais natural,
+o caracter das cabe&ccedil;as mais individual, a
+express&atilde;o dos rostos mais viva ou mais serena conforme as
+situa&ccedil;&otilde;es. Uma tendencia ao naturalismo principia
+a apparecer desde o come&ccedil;o do XIII seculo, e torna-se mais
+notavel nos seculos seguintes.<br />
+
+<br />
+
+Na <em>colorisa&ccedil;&atilde;o</em>
+succederam, tanto como no desenho, transforma&ccedil;&otilde;es
+successivas durante o periodo ogival. Nas pinturas muraes do periodo
+roman, os tons claros s&atilde;o frequentes, e seu aspecto
+&eacute; geralmente suave.<br />
+
+<br />
+
+No XIII seculo, a colorisa&ccedil;&atilde;o teve, na
+<em>pintura decorativa</em>, as mesmas
+transforma&ccedil;&otilde;es que na pintura historica e
+legendaria. Nos edificios romans, em que as janellas eram relativamente
+pequenas e envidra&ccedil;adas as mais das vezes com vidros brancos
+ou muito claros, a luz diffusa e pouco dilatada dos fundos podia-se
+usar para a pintura decorativa, de tons brilhantes e brandos ao mesmo
+tempo; por&eacute;m, quando, no XIII seculo, os v&atilde;os das
+janellas se alargaram e tiveram vidra&ccedil;as extremamente
+coloridas, esses tons suaves ficaram inteiramente sumidos pela
+intensidade da colorisa&ccedil;&atilde;o das novas
+vidra&ccedil;as. O azul e o encarnado, entrando com maior emprego
+na composi&ccedil;&atilde;o das
+vidra&ccedil;as pintadas, davam um aspecto turvo aos tons claros e
+terreos &aacute;s pinturas: os verdes, por exemplo,
+<span class="pagenum">[260]</span>
+ficavam pardos e ba&ccedil;os; os
+brancos, e em geral todos os tons claros, ficavam estriados. Com os
+vidros coloridos, foi preciso necessariamente mudar a gamma de
+colorisa&ccedil;&atilde;o das pinturas muraes, fazendo uso de
+tons brilhantes e fortes. Al&eacute;m d'isso, os tons, para terem
+toda a sua apparencia, devem ser acompanhados e contornados com
+tra&ccedil;os pretos. &Eacute; assim que se veem n'esta epocha
+as nervuras, os fechos das abobadas, e muitas vezes mesmo os tympanos
+das abobadas pintados com vivas c&ocirc;res. O uso de destacar o
+vertice das nervuras das abobadas servindo-se de c&ocirc;res vivas
+e com desenho chaveiroado continuou durante todo o tempo do periodo
+ogival.<br />
+
+<br />
+
+No XIV seculo e durante a primeira metade do XV seculo, as pinturas de
+decora&ccedil;&atilde;o por baixo dos
+peitor&iacute;s das janellas inferiores, muitas vezes representavam
+pannos de arma&ccedil;&otilde;es. No XV seculo, viam-se
+bastantes vezes sobre as paredes das capellas dedicadas a um santo, os
+attributos caracteristicos d'esse santo, dispostos symetricamente sobre
+um fundo colorido. Descobriram-se, ha pouco tempo, pinturas d'este
+genero n'uma egreja de Bruxellas.<br />
+
+<br />
+
+Motivos de economia e, nas egrejas dos monges de Cister,
+prescrip&ccedil;&otilde;es da regra monastica fizeram que por
+vezes tambem se empregasse um modo de pintura de
+decora&ccedil;&atilde;o muito simples, consistindo na
+imita&ccedil;&atilde;o das pedras de
+construc&ccedil;&atilde;o: tra&ccedil;avam-se sobre fundo
+mais ou menos claro
+tra&ccedil;os de c&ocirc;res differentes, pardos, encarnados ou
+amarellos,
+<span class="pagenum">[261]</span>
+sobrepostos,
+representando as juntas dos apparelhos, e algumas vezes com
+ornamenta&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+Da mesma maneira que a pintura historica e legendaria, a pintura de
+decora&ccedil;&atilde;o da idade media n&atilde;o se servia
+da perspectiva; nem conservava nos monumentos as paredes lisas e
+opacas, n&atilde;o procurando affastal-as, por assim dizer, do
+espectador pela illus&atilde;o da perspectiva linear e aerea.
+S&atilde;o principalmente as pinturas representando as formas
+architectonicas, por exemplo as arcaduras e columnas, que mostram
+n&atilde;o ter o artista nenhuma inten&ccedil;&atilde;o de
+disfar&ccedil;ar a
+ornamenta&ccedil;&atilde;o em relevo; o que elle pretende
+&eacute; s&oacute;mente um effeito de
+decora&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o pensa por nenhum modo
+em produzir exactamente as dimens&otilde;es relativas, o modelo,
+apparencia real com relevos, molduras, columnas, capiteis; contenta-se
+de apresentar essas formas para servirem a dar mais attractivo aos
+monumentos.<br />
+
+<br />
+
+Muito poucos monumentos do periodo ogival t&ecirc;em conservado as
+suas pinturas bastante completas para se poder formar uma
+id&eacute;a cabal do systema empregado e do resultado obtido. A
+mais notavel de todas pela esplendida decora&ccedil;&atilde;o,
+e al&eacute;m d'isso pela sua restaura&ccedil;&atilde;o
+t&atilde;o habil quanto perfeita, &eacute; a da Capella Santa
+de Paris.<br />
+
+<br />
+
+A estatuaria e a esculptura ornamental seguem o systema geral da
+decora&ccedil;&atilde;o pictorica; tanto assim, que muitas
+estatuas e baixos relevos t&ecirc;em conservado at&eacute; ao
+presente bastantes vestigios de
+<span class="pagenum"><a name="p262">[262]</a></span>
+dourados e polychromia, concorrendo para se harmonisarem com as
+vidra&ccedil;as pintadas e as pinturas a fresco das paredes.<br />
+
+<br />
+
+A decadencia da pintura monumental, decora&ccedil;&atilde;o
+historica e legendaria, data da ultima metade do XV seculo; vindo a ser
+completa desde o principio do seculo seguinte. As pinturas das abobadas
+das egrejas n&atilde;o v&atilde;o al&eacute;m do XVI
+seculo.<br />
+
+<br />
+
+<em>Cruz de
+consagra&ccedil;&atilde;o</em>. O Pontifical
+romano prescreve que, para a dedica&ccedil;&atilde;o de uma
+egreja, doze cruzes ser&atilde;o pintadas ou esculpidas sobre as
+columnas ou paredes internas do edificio. Estas cruzes, que o Prelado
+consagrante unge com os Santos oleos, devem ficar apparentes. Desde o
+periodo roman, estabeleceu-se o uso de ornar essas cruzes, que
+geralmente eram pintadas. As cruzes de
+consagra&ccedil;&atilde;o datam do periodo roman e vieram a ser
+bastante raras; conservam-se muito singulares no oratorio carlovingiano
+de Nim&eacute;gue. Encontraram-se em grande numero da epocha ogival
+debaixo de grossas <em>camadas de cal</em> na
+parte interna das egrejas antigas, que ficaram escondidas na
+occasi&atilde;o do renascimento. Todas s&atilde;o executadas
+com grande esmero e esplendidamente coloridas.<br />
+
+<br />
+
+Acontece &aacute;s vezes que as doze cruzes de
+consagra&ccedil;&atilde;o do XIII e XIV seculos s&atilde;o
+sustentadas pelas figuras dos Apostolos pintados ou em esculptura.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p263">[263]</a></span>
+<h4>Altares, tabernaculos, piscinas<br />
+
+cadeiras do
+c&ocirc;ro, bancos para os celebrantes,<br />
+
+tribunas e
+separa&ccedil;&otilde;es da
+capella-m&oacute;r</h4>
+
+<br />
+
+<em>Altares</em>. Como j&aacute;
+explic&aacute;mos, o altar verdadeiramente designado &eacute;
+uma mesa de pedra sobre a qual o padre diz a missa. Sem esta mesa o
+altar n&atilde;o existe; ella e s&oacute; ella, forma, todo o
+altar.
+Esta mesa &eacute; de pedra, porque o altar &eacute; a imagem e
+o symbolo de Jesus Christo em pessoa. Portanto, durante os oito
+primeiros seculos da nossa era, a egreja quiz, pela
+venera&ccedil;&atilde;o por este famoso
+symbolismo, que o altar ficasse inteiramente independente; prohibiu
+severamente que n'elle se pozesse o mais simples objecto, salvo o livro
+dos Evangelhos, a custodia eucharistica com as divinas hostias. No
+correr do IX, o Papa Le&atilde;o IV permittiu que se collocassem
+reliquarios contendo reliquias de santos. Quando o altar &eacute;
+formado de um corpo macisso cubico, o que tinha logar muitas vezes
+durante o periodo Latino e Roman, os seus lados eram cobertos com
+laminas de ouro, prata e de cobre dourado e esmaltado, ou ornados de
+esculpturas e de pinturas, ou ainda revestidos de estofos preciosos.<br />
+
+<br />
+
+Algumas vezes, principalmente nas grandes egrejas, o altar estava
+collocado debaixo de um baldaquino sustentado por quatro columnas,
+entre as quaes se suspendia, sobre var&otilde;es, pannos cortinas,
+que se corriam durante certas partes da missa afim de occultar os
+sacerdotes da vista dos fieis. No final do XI seculo, introduziu-se
+tambem o uso dos
+<em>retabulos</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[264]</span>
+Devemos notar, que todos estes accessorios eram ideiados e dispostos de
+maneira a n&atilde;o obstar por nenhum modo ao symbolismo sublime
+do altar.<br />
+
+<br />
+
+Explicaremos successivamente, o
+<em>altar</em> com <em>a sua verdadeira
+f&oacute;rma</em>, os
+<em>frontaes</em> dos altares,
+<em>baldaquino</em>, os <em>cortinados</em> e
+os
+<em>retabulos</em> do periodo ogival.<br />
+
+<br />
+
+<em>O altar assim designado</em>. Como os do
+periodo roman, os altares da epoca ogival compunham-se as mais das
+vezes de um simples macisso de alvenaria, apresentando regularmente uma
+especie de ornamenta&ccedil;&atilde;o pintada ou esculpida.
+Estes macissos estavam rodeados de tape&ccedil;arias cujas
+c&ocirc;res mudavam nos diversos dias de festa. Algumas vezes,
+por&eacute;m poucas, se decoravam os lados n&uacute;s d'estes
+altares com arcaduras fingidas, cujos arcos assentavam sobre
+columnasinhas ou pilares embebidos na parede; as arcaduras tinham
+pinturas historiadas e decorativas, ou estatuas e baixos relevos.<br />
+
+<br />
+
+Nos altares cheios ou macissos, decorados de arcaduras, estas eram
+formadas no XIII e no XIV seculos por ogivas equilateraes ou arcos
+tra&ccedil;ados por tres centros; no XV seculo por ogivas inflexas
+ou postas a p&aacute;r, e no XVI por arcos abatidos ou de volta
+inteira.<br />
+
+<br />
+
+Na idade media os altares eram sempre de pedra, nunca de madeira.
+Consagravam-se ao mesmo tempo que a egreja ou a capella: n&atilde;o
+havia ent&atilde;o as <em>pedras aras</em>, bentas,
+que se
+podiam assentar
+<span class="pagenum"><a name="p265">[265]</a></span>
+depois na meza de
+um altar sem estar benzido, e como presentemente se usa muitas vezes.<br />
+
+<br />
+
+O altar m&oacute;r das egrejas cathedraes, conservou durante quasi
+todo o periodo ogival, uma f&oacute;rma simples e positivamente
+symbolica. Em geral ou era sem retabulo, ou ficava-lhe por cima um
+retabulo de pouca altura. Tinha um crucifixo, o livro dos Evangelhos,
+dois casti&ccedil;aes, e &aacute;s vezes um
+tabernaculo para a conserva&ccedil;&atilde;o da Eucharistia.
+Outra maneira de reservar o Santissimo Sacramento usada em certos
+paizes pelo menos desde o XIII seculo, foi aquella cuja
+recorda&ccedil;&atilde;o se conservou n'um curioso quadro do
+XIII seculo, representando o altar m&oacute;r da antiga cathedral
+d'Arras com todos os seus accessorios. Uma hastea quadrada, collocada
+por detraz do altar, que se eleva em dois andares, a uma grande altura,
+tem por remate um pinaculo sobre o qual ha um crucifixo. Em meia altura
+da hastea ha um bello baculo ficando a sua voluta suspensa no meio de
+uma corrente, e a custodia eucharistica &eacute; formada com o
+feitio de torrinha.<br />
+
+<br />
+
+Nas egrejas, cathedraes e abbadias, havia, como em muitas egrejas
+romans, um altar para reliquias, ao fundo da capella m&oacute;r,
+por detraz do altar proximo do abside oriental da egreja.<br />
+
+<br />
+
+Os grandes reliquarios costumavam a ficar expostos detraz do altar, de
+modo a deixar passar as pessoas por baixo; &aacute;s vezes tinham
+um docel.<br />
+
+<br />
+
+<em>Frontaes</em>. S&atilde;o cortinados
+de seda que cobrem
+<span class="pagenum">[266]</span>
+tambem os
+lados verticaes de um altar, e algumas vezes o retabulo; como se usa
+ainda hoje em muitos paizes. Designam-se vulgarmente com o nome de <em>antependium</em>.
+Na idade media
+quasi todos os altares tinham frontaes. Esses frontaes eram cobertos
+com fazenda de custo; algumas vezes apresentavam laminas de ouro, prata
+e cobre dourado e esmaltado, ou almofadas de madeira cobertas de
+pinturas.<br />
+
+<br />
+
+Os frontaes metallicos, assaz communs durante os periodos Latino e
+Roman, vieram a ser mais raros a come&ccedil;ar do final do XII
+seculo, e pouco a pouco o seu uso foi completamente abandonado. Durante
+a epocha ogival, os frontaes com estofo f&ocirc;ram, por assim
+dizer, os unicos empregados. A sua c&ocirc;r condizia com as
+vestimentas lithurgicas e mudava, por conseguinte, conforme os dias
+festivos. Havia de linho, seda e mesmo de veludo; os mais sumptuosos
+eram todos bordados e ornados de pedras preciosas. Representavam
+figuras de Santos e assumptos historicos e legendarios.<br />
+
+<br />
+
+<em>Baldaquino</em>. O uso do baldaquino
+cobrindo o altar em signal de venera&ccedil;&atilde;o, foi
+bastante geral
+at&eacute; ao XII seculo; mas ficou quasi abandonado na Belgica e
+Fran&ccedil;a durante o periodo ogival; na Europa Occidental e
+Septentrional n&atilde;o se serviram mais do baldaquino n'esta
+epocha, como summidade dos reliquarios.<br />
+
+<br />
+
+Na Italia, em Roma, n'este paiz onde o estylo ogival nunca teve
+principio, v&ecirc;-se ainda um grande numero de baldaquinos da
+epocha ogival.
+<span class="pagenum">[267]</span>
+Os mais
+notaveis s&atilde;o os de S. Paulo f&oacute;ra
+dos muros, os de S. Jo&atilde;o, de Santa Maria no Trastever, Santa
+Maria em Cosmedin e de Santa Cecilia.<br />
+
+<br />
+
+Na Fran&ccedil;a e na Belgica suppriam algumas vezes a falta do
+baldaquino, suspendendo por cima do altar um docel esculpido ou forrado
+com estofo de custo.<br />
+
+<br />
+
+O baldaquino parece-nos apresentar a maneira mais adequada para
+inspirar aos fieis o respeito e a venera&ccedil;&atilde;o
+devida ao altar, symbolo do
+Salvador. Muito melhor que todos os outros accessorios, sem exceptuar o
+retabulo, preenchia este fim resguardando o altar, sem todavia se
+confundir com elle, e conservando-lhe assim toda a sua
+significa&ccedil;&atilde;o symbolica. O retabulo, pelo
+contrario, liga de certo modo o altar fazendo parte d'elle, desvia a
+atten&ccedil;&atilde;o das pessoas para o accessorio com grande
+perda do objecto principal, que &eacute; o altar apropriadamente
+assim chamado.<br />
+
+<br />
+
+<em>Cortinas</em>. Chamam-se cortinas a
+arma&ccedil;&atilde;o suspensa nos dois lados do altar, e por
+detraz do retabulo quando f&ocirc;r pouco alto. Essas cortinas, da
+mesma maneira que os frontaes, eram geralmente muito simples; algumas
+vezes, todavia, representavam figuras, quer no tecido, quer nos
+bordados, ornamenta&ccedil;&atilde;o, figuras e objectos
+religiosos.<br />
+
+<br />
+
+Ficavam estas cortinas prezas por var&otilde;es apoiados muitas
+vezes em quatro ou seis columnasinhas de cobre ou de madeira, encimadas
+de figuras de anjos, tendo na m&atilde;o luzes ou differentes
+<span class="pagenum"><a name="p268">[268]</a></span>
+instrumentos da
+paix&atilde;o. A c&ocirc;r das cortinas
+mudava conforme os dias de festa e as differentes occasi&otilde;es
+do anno lithurgico.<br />
+
+<br />
+
+Al&eacute;m das cortinas do altar, serviam-se tambem, durante a
+idade media, de duas outras especies de arma&ccedil;&atilde;o
+lithurgica. Eram: 1.&ordm; a grande
+cortina que se suspendia durante a quaresma na entrada da
+capella-m&oacute;r ou do presbyterio, e que se designava <em>o
+v&eacute;o do templo</em>; 2.&ordm; os
+v&eacute;os que serviam na mesma occasi&atilde;o nos
+crucifixos, retabulos e imagens, eram designados pelo nome <em>v&eacute;os
+de quaresma</em>.<br />
+
+<br />
+
+<em>Retabulos</em>. Como j&aacute;
+indic&aacute;mos, o uso dos retabulos foi introduzido no final do
+XI seculo. No come&ccedil;o collocavam-os sobre os altares das
+reliquias e os altares de segunda classe; ficavam encostados
+&aacute; tribuna ou postos no cruzeiro e nas capellas ornando a
+capella-m&oacute;r. Nas egrejas matrizes, collegiaes e monasticas
+de primeira ordem, o altar-m&oacute;r ficava quasi sempre sem ter
+retabulo, pelo menos durante todo o seculo XIII. Em Fran&ccedil;a,
+Belgica, Allemanha, Inglaterra e nos outros paizes septentrionaes da
+Europa, adoptou-se no XIV seculo, depois que a cadeira do bispo ou do
+abbade e as cadeiras do c&ocirc;ro dos conegos ou dos frades, que
+at&eacute; ent&atilde;o ficavam por detraz do
+altar-m&oacute;r ao correr
+da parede do hemicyclo obsial, foram mudados, para diante do sanctuario
+sobre os dois lados do c&ocirc;ro, isto &eacute;, para o logar
+onde se v&ecirc; presentemente nas egrejas do Norte.<br />
+
+<br />
+
+Durante o periodo ogival serviram-se de diversa
+<span class="pagenum">[269]</span>
+qualidade de materiaes para os retabulos.
+O mais antigo era o metal; como n'aquelles do periodo roman a cantaria
+(excepcionalmente a madeira), substituiu o metal. Desde a ultima metade
+do XIII seculo, os retabulos de cantaria parece terem sido preferidos.
+No meiado do seculo seguinte, os retabulos de madeira com obra de talha
+foram mais adoptados, e no XV seculo, substituiram quasi completamenle
+os retabulos de cantaria. Principiaram, todavia, j&aacute; n'essa
+epocha, a introduzir as almofadas pintadas, em f&oacute;rma de
+<em>trypticos</em>, que, no meiado do XVI seculo
+supplantaram, para assim dizer, totalmente, os retabulos com obra de
+talha.<br />
+
+<br />
+
+As portas que os retabulos haviam tido muitas vezes desde o XIV seculo,
+tiveram no principio
+ornamenta&ccedil;&atilde;o de esculptura na face interior, e
+pinturas na exterior. Por&eacute;m o peso das portas com ornatos
+compostos de estatuas ou baixo-relevos tornavam esse appendice muito
+difficil, e mesmo por vezes como perigoso, quando era preciso abrir ou
+fechar o retabulo; preferiram pois d'ali a pouco as pinturas para
+decora&ccedil;&atilde;o d'essas duas frentes
+das portas.<br />
+
+<br />
+
+Os retabulos n&atilde;o apresentavam a mesma
+<em>f&oacute;rma</em> durante todo o periodo ogival.
+Quasi sempre com pouca altura no come&ccedil;o, tendo tambem pouca
+grossura. Os mais antigos eram muitas vezes rectangulares: algumas
+vezes comtudo a sua parte central tinha mais altura. Esta ultima
+f&oacute;rma,
+principiaram-n'a a usar no meiado do XIII seculo; conservou-se
+<span class="pagenum">[270]</span>
+em alguns paizes,
+at&eacute; o meiado do XV seculo.<br />
+
+<br />
+
+O uso dos retabulos de madeira com obra de talha introduziu-se pouco a
+pouco no XIV seculo, principalmente na Belgica. Desde o principio,
+tiveram muitas vezes portas. Esta circumstancia lhe fez dar, como aos
+retabulos pintados tendo portas, o nome de <em>tryptycos</em>
+ou
+<em>polyptycos</em>, conforme tinham tres ou maior numero
+d'esses appendices.<br />
+
+<br />
+
+Na Belgica, Fran&ccedil;a, Inglaterra no XV seculo, e na Europa
+central e meridional j&aacute; durante o seculo precedente, os
+retabulos perderam a bella e elegante simplicidade que os distinguiam
+antes. Os seus contornos e subdivis&otilde;es se complicam cada vez
+mais, &aacute; propor&ccedil;&atilde;o que se aproximam
+do final do periodo ogival. Tinham por remate, no XIII seculo e no XIV
+seculo, linhas horisontaes e sem nenhum adorno no cimo; os caixilhos
+dos retabulos do XV seculo passam depois por
+transi&ccedil;&otilde;es com mistura de linhas rectas e curvas
+para chegar por fim &aacute;s ogivas de requebro, arcos unidos de
+volta abatida e volta de sarapanel com curvas de todo o genero que
+ornavam muitas vezes no XVI seculo de crochetes e flor&otilde;es;
+chegando mesmo a rematar o retabulo com torrinhas e pinaculos, estatuas
+e enla&ccedil;amentos do feitio de firmas.<br />
+
+<br />
+
+Devemos todavia notar que as formas dos moldurados do XIII e XIV seculo
+se encontram ainda no XV e mesmo no XVI seculo, principalmente nos
+triptycos pintados. Os moldurados d'este u
+Devemos todavia notar que as formas dos moldurados do XIII e XIV seculo
+se encontram ainda no XV e mesmo no XVI seculo, principalmente nos
+triptycos pintados. Os moldurados d'este ultimo
+<span class="pagenum">[271]</span>
+seculo apresentam sempre maior simplicidade
+que os dos retabulos com obra de talha.<br />
+
+<br />
+
+<em>Os assumptos representados sobre os
+retabulos</em>, eram tirados da historia do antigo e novo
+testamento ou das lendas dos santos. No XII seculo e no XIII,
+ornavam-se os retabulos quer de baixos relevos, quer de estatuasinhas
+collocadas em arcaduras; um medalh&atilde;o central de forma
+quadrilobada ou de aureola se via as mais das vezes no centro do
+retabulo, tendo a imagem de Jesus Christo na cruz ou assentado sobre o
+arco-iris. No XV seculo, as arcaduras n&atilde;o apparecem
+sen&atilde;o poucas vezes; quasi sempre, n'esta epoca, o retabulo
+esta dividido em muitas series verticaes e horizontaes com as
+divis&otilde;es cheias de baixos relevos sobrepostos uns aos
+outros. A representa&ccedil;&atilde;o da
+cruxifica&ccedil;&atilde;o com a Virgem Nossa Senhora e S.
+Jos&eacute;, com os dois ladr&otilde;es e grupos de
+personagens, occupa bastantes vezes o compartimento central,
+commummente mais alto e por vezes tambem mais largo que os
+compartimentos inferiores.<br />
+
+<br />
+
+Os retabulos estavam cobertos, em certas occasi&otilde;es, por
+frontaes similhantes aos dos altares. Muitos <em>retabulos
+pintados</em> do periodo
+ogival se t&ecirc;em conservado at&eacute; ao presente.
+Arrancados quasi todos ao logar que occupavam primitivamente detraz dos
+altares, apparecem agora como paineis nos museus de pinturas ou
+est&atilde;o dependurados nas paredes internas das egrejas.<br />
+
+<br />
+
+As obras primas dos pintores do XIV, do XV e do
+<span class="pagenum"><a name="p272">[272]</a></span>
+principio do XVI seculo, n&atilde;o
+s&atilde;o como os antigos
+retabulos em forma de triptyco.<br />
+
+<br />
+
+<em>Os retabulos esculpidos</em> foram usados
+simultaneamente com os retabulos pintados. Os que se fizeram na Belgica
+durante o XV seculo e os primeiros annos do XVI seculo compunham-se
+quasi sempre de um certo numero de grupos com mais ou menos alto
+relevo, em caixilhos ou collocados debaixo de docel delicadamente
+recortado; os dos outros paizes, pelo contrario, e particularmente os
+da Europa Oriental, comp&otilde;em-se de estatuas perfiladas no
+compartimento central, e muitas vezes tambem sobre as portas. Ainda que
+entre os retabulos belgas do ultimo seculo do periodo ogival apparecem
+alguns de execu&ccedil;&atilde;o grosseira e sem nenhum merito,
+quasi todos, todavia apresentam bastante apre&ccedil;o artistico e
+testemunham o estado florescente da esculptura n'esse periodo.<br />
+
+<br />
+
+Os retabulos de madeira com talha eram muitas vezes dourados e pintados
+de c&ocirc;res. Conv&eacute;m
+advertir que as letras que, n'esses retabulos, se veem frequentemente
+sobre os bordados das vestimentas dos personagens, n&atilde;o
+apresentam commummente nenhuma significa&ccedil;&atilde;o,
+tendo sido ahi collocadas unicamente com o fim decorativo.<br />
+
+<br />
+
+No final do periodo ogival, o retabulo firma-se quasi sempre sobre um
+s&oacute;co de 20 a 30 centimetros de altura, e por este modo se
+liga ao altar.<br />
+
+<br />
+
+Esta base se designa <em>predella</em>, nome
+que se d&aacute; egualmente aos degrausinhos para os
+casti&ccedil;aes do
+<span class="pagenum">[273]</span>
+throno
+dos altares modernos. O lado superior, que corresponde &aacute;
+base do retabulo, &eacute; muitas vezes mais comprido que o lado
+interior; n'este caso a differen&ccedil;a de tamanho &eacute;
+disfar&ccedil;ada
+por um arco de circulo saliente.<br />
+
+<br />
+
+A <em>predella</em> (banqueta) &eacute;
+muitas vezes ornada do busto do Redemptor e dos doze apostolos.<br />
+
+<br />
+
+Das observa&ccedil;&otilde;es precedentes resulta que,
+n&atilde;o obstante as dimens&otilde;es por vezes exageradas, o
+retabulo parte inteiramente accessoria, conservou at&eacute; aos
+fins do periodo ogival, o seu caracter essencial. A maior parte dos
+artistas modernos que se encarregam de compor os altares no estylo
+ogival n&atilde;o se preoccupam de forma alguma com o primitivo
+destino do retabulo, a que d&atilde;o impropriamente o nome de
+altar. Desconhecendo a verdadeira significa&ccedil;&atilde;o do
+retabulo, substituem-lhe tablados
+ridiculos, muitas vezes de <em>madeira</em>,
+com c&ocirc;r de <em>pedra!!!</em> compostos de socos,
+arcaduras e pinaculos, onde os symbolos religiosos, as imagens, e os
+baixos relevos s&atilde;o inteiramente supprimidos ou
+est&atilde;o mesquinhamente representados. Muitas vezes estes
+symbolos, estas imagens, e estes assumptos s&atilde;o executados
+apesar das regras da iconographia christ&atilde;, regras das quaes
+os architectos, esculptores e pintores <em>n&atilde;o teem
+geralmente o incommodo
+de adquirir as no&ccedil;&otilde;es as mais
+elementares</em>! &Eacute; tambem para lastimar, que nas
+restaura&ccedil;&otilde;es das antigas egrejas, n&atilde;o
+encarreguem os retabulos
+<em>triptycos</em> ao talento dos pinto ao talento dos
+pintores que se occupam
+de trabalhos religiosos.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p274">[274]</a></span>
+<em>Sacrarios</em>. Durante quasi todo o
+periodo ogival n&atilde;o se reservava, depois da
+celebra&ccedil;&atilde;o
+da missa, sen&atilde;o a quantidade de hostias consagradas e
+necessarias para levar o viatico aos enfermos em perigo de vida, e para
+expor o Santissimo Sacramento &aacute;
+venera&ccedil;&atilde;o dos fieis.<br />
+
+<br />
+
+Quando as pessoas que assistiam aos officios divinos queriam commungar,
+approximavam-se da mesa da communh&atilde;o durante a missa, e
+recebiam <em>uma parte das sacramentaes</em> que o
+padre acabava de consagrar. N&atilde;o se deve, pois, estranhar que
+os vasos sagrados destinados &aacute;
+venera&ccedil;&atilde;o
+da Santa Eucharistia e o logar onde os depositavam tivessem pequenas
+dimens&otilde;es durante o XIII e o XIV seculos.<br />
+
+<br />
+
+Conservavam a Santa Eucharistia de muitas maneiras:<br />
+
+<br />
+
+1.&ordm; Nas egrejas dos paizes meridionaes, onde a pyxide se
+manteve em
+uso durante o periodo ogival, continuaram a ficar suspensos, como se
+fazia precedentemente, o calix e a pyxide com as hostias.<br />
+
+<br />
+
+2.&ordm; Em Fran&ccedil;a e na Belgica e nos paizes
+septentrionaes da
+Europa serviram-se muitas vezes durante o XIII e o XIV seculos, da
+maneira indicada na <a href="#p272">pag. 272</a>.
+As hostias encerradas
+em uma pyxide ou dentro de uma pomba dourada e esmaltada, ficavam
+collocadas n'uma pequena torre ou pequena tenda (<em>tabernaculum</em>)
+em estofos custozos,
+que se suspendiam, por cima do altar, n'um baculo de bronze ou de
+prata.<br />
+
+<br />
+
+3.&ordm; Algumas vezes conservam-se as hostias em
+<span class="pagenum">[275]</span>
+cofres de forma de arca, relicario ou torre.
+Estes cofres eram transportados e depositados no sacrario, ou
+sacristia, ora collocados de vez sobre o altar.<br />
+
+<br />
+
+4.&ordm; No maior numero de casos, principalmente nas egrejas de
+segunda e
+terceira ordem, a Santa Eucharistia ficava em armarios construidos
+detraz ou ao lado do altar. O uso de collocar as hostias nos
+tabernaculos em forma de armario, parece ter sido muito geral na
+Belgica, pelo menos depois do XIV seculo.<br />
+
+<br />
+
+5.&ordm; No XIV e XV seculos, construiram tambem, para a reserva
+Eucharistica, tabernaculos de f&oacute;rma de torre, inteiramente
+isolados e ao lado do Evangelho. Os tabernaculos d'este genero vieram a
+ser communs na Belgica e na Allemanha desde o XV seculo. Encontram-se
+muitos n'este ultimo paiz que s&atilde;o do XIV seculo.<br />
+
+<br />
+
+O maior numero dos tabernaculos com a f&oacute;rma de torre
+s&atilde;o de pedra; encontram-se n&atilde;o obstante,
+mas excepcionalmente, de madeira ou mesmo de metal.<br />
+
+<br />
+
+Do lado da Epistola, defronte do tabernaculo, se faz muitas vezes na
+parede um armario imitando a f&oacute;rma de tabernaculo,
+por&eacute;m mais pequeno e muito menos ornado.<br />
+
+<br />
+
+Os armarios feitos na grossura da parede tinham a frente para o altar
+sendo destinados a guardar as alfayas e vestuario dos ecclesiasticos
+que deviam celebrar a missa; encontram-se algumas vezes, nas capellas
+que guarnecem os lados da capella-m&oacute;r ou da nave.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[276]</span>
+<em>Piscinas</em>. O uso das piscinas ou pias
+abertas na parede do lado da Epistola, que havia durante o periodo
+roman, foi conservado tambem na epocha ogival.<br />
+
+<br />
+
+No XIII seculo, a maior parte das piscinas eram <em>geminadas</em>,
+isto &eacute;
+compostas de duas pias ou orificios para passarem as aguas por uma
+bica, quer por baixo do pavimento da egreja, quer por f&oacute;ra
+do pavimento do edificio. Uma d'essas pias era destinada a receber as
+aguas de uso, a outra, as obla&ccedil;&otilde;es das
+m&atilde;os do sacerdote e mesmo as do calix; porque, ainda n'esta
+epocha, as obla&ccedil;&otilde;es do calix
+eram lan&ccedil;adas nas piscinas, e n&atilde;o bebidas pelo
+padre. Encontram-se todavia ainda agora piscinas
+<em>simples</em>, isto &eacute; tendo um unico orificio
+para sahir a agua.<br />
+
+<br />
+
+As piscinas gemeas fingem geralmente a f&oacute;rma de um duplo
+nicho, separado por uma columnasinha. Muitas vezes, nas egrejas ornadas
+de arcaduras fingidas debaixo do peitoril das janellas, a piscina
+occupa duas arcaduras proximas, e une-se a ellas; n'este caso, a
+columnasinha posta entre as duas arcaduras forma a divis&atilde;o
+dos dois nichos da piscina.<br />
+
+<br />
+
+As piscinas do XIV seculo n&atilde;o differem muito das outras do
+seculo precedente sen&atilde;o pelo genero da
+ornamenta&ccedil;&atilde;o architectonica e esculptura, que
+harmonisa com o estylo da epocha. As mais das vezes s&atilde;o
+gemeas, posto que o ecclesiastico beba, desde ent&atilde;o, a agua
+de que se serve para fazer a
+obla&ccedil;&atilde;o do calix.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p277">[277]</a></span>
+No XV, e mesmo j&aacute; no final do XIV seculo, as piscinas
+tornaram-se raras e acabaram proximo do fim do periodo ogival, para
+desapparecerem completamente.<br />
+
+<br />
+
+<em>Cadeiras de c&ocirc;ro</em>. Estas
+cadeiras collocadas no c&ocirc;ro das egrejas eram destinadas
+&aacute;s dignidades ecclesiasticas assistentes aos officios
+religiosos. Durante o periodo roman estas cadeiras eram geralmente de
+pedra; por&eacute;m desde o fim do XV seculo, sempre se fizeram de
+madeira.<br />
+
+<br />
+
+As cadeiras de madeira comp&otilde;em-se de differentes partes,
+tendo cada uma um nome para a designar.<br />
+
+<br />
+
+As separa&ccedil;&otilde;es de duas cadeiras s&atilde;o
+formadas por curvas elegantes com ornamenta&ccedil;&atilde;o de
+obra de talha na sua parte superior, que lhes d&atilde;o
+gra&ccedil;a e belleza. Os <em>arrimos</em>
+s&atilde;o
+apoios horisontaes que limitam as cadeiras na parte superior;
+geralmente esta parte tem bastante largura com f&oacute;rma
+inclinada, podendo as pessoas de p&eacute; encostarem-se
+facilmente.<br />
+
+<br />
+
+Alguns auctores d&atilde;o impropriamente o nome de encosto
+&aacute; <em>rampa curva</em> da
+divis&atilde;o da cadeira, sobre o qual se apoia o cotovello,
+quando se est&aacute; sentado. A taboa movedi&ccedil;a servindo
+de assento gira sobre gonzos ou eixos, e p&oacute;de-se abaixar e
+levantar como se quizer. Tem, por baixo uma misula que se chama <em>misericordia</em>
+ou
+<em>paciencia</em>, sobre a qual se p&oacute;de sentar,
+<em>fingindo estar a
+pessoa de p&eacute;</em>, quando a taboa que pertence ao
+assento
+est&aacute; levantada.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[278]</span>
+No c&ocirc;ro das cathedraes, egrejas collegiaes e abbaciaes, estas
+cadeiras ficam collocadas &aacute; direita ou esquerda do fundo do
+c&ocirc;ro em duplo renque e altura: cadeiras altas para os conegos
+e religiosos, cadeiras mais baixas para os ecclesiasticos de cathegoria
+inferior ou de congrega&ccedil;&atilde;o. O piso das cadeiras
+superiores fica alto com dois ou mais degraus acima do ch&atilde;o;
+em quanto as cadeiras inferiores assentam sobre o solo ou sobre um
+unico degrau. As pessoas sentadas em cima podem mais facilmente que as
+debaixo v&ecirc;r o altar. As costas das cadeiras do primeiro
+renque ficam muito baixas e servem de genuflexorio aos conegos que
+estiverem nas cadeiras superiores; as costas d'estas s&atilde;o
+muitas vezes inteiramente semilhantes das cadeiras baixas, outras teem
+por cima obra de madeira bastante alta e limitada por um remate em
+sacada com a f&oacute;rma de um docel. As pessoas que occupam as
+cadeiras baixas se ajoelham sobre o ch&atilde;o com o rosto virado
+para as costas de suas cadeiras. De distancia em distancia a fila das
+cadeiras baixas fica interrompida pela suppress&atilde;o de uma
+cadeira para dar passagem aos que v&atilde;o assentar-se nas
+cadeiras mais altas; estas aberturas chamam-se <em>entradas</em>.
+Encontram-se tambem cadeiras com genuflexorios.<br />
+
+<br />
+
+As cadeiras do c&ocirc;ro do XIII seculo s&atilde;o notaveis
+tanto pela sua singeleza como pela sua elegancia. Duas columnasinhas,
+uma na parte inferior e outra na parte superior, ornam quasi sempre os
+lados de cada divis&atilde;o d'estas cadeiras. As mais sumptuosas
+<span class="pagenum">[279]</span>
+t&ecirc;em
+al&eacute;m d'isso, esculpturas sobre as
+<em>misericordias</em> e nos remates, que no quarto de
+circulo. E reunem &aacute;s columnasinhas servindo de apoio aos
+bra&ccedil;os das cadeiras. Estas
+ornamenta&ccedil;&otilde;es constam de folhagens, fructos e
+algumas vezes de figuras de animaes reaes ou phantasticos.<br />
+
+<br />
+
+As cadeiras do c&ocirc;ro do XIV seculo apresentam o mesmo feitio
+que as do XIII seculo; s&oacute; com a
+differen&ccedil;a de maior ostenta&ccedil;&atilde;o na obra
+de talha.<br />
+
+<br />
+
+Muitas vezes no XIII seculo, e mesmo ainda no princ&iacute;pio do
+XIV seculo,
+estas cadeiras n&atilde;o tinham costas. Quando as apresentavam
+eram com uma almofada e arcaduras, tendo regularmente um tecto lavrado
+similhante a um docel, um pouco saliente na face interna e com poucas
+esculpturas. No XIV seculo, esse tecto lavrado apparece mais
+apparatoso; cada vez mais saliente, descan&ccedil;a sobre reprezas,
+acabando em forma de curvatura. Nos dias de grandes festas,
+suspendiam-se em frente, no cimo do encosto, sedas de c&ocirc;res,
+bordados e pannos de raz.<br />
+
+<br />
+
+Na mesma epocha, os lados superiores das cadeiras do c&ocirc;ro,
+mesmo quando n&atilde;o tenham alto encosto, cobrem-se de diversas
+esculpturas, representando estatuasinhas, animaes reaes ou
+phantasticos, e uma decora&ccedil;&atilde;o vegetal muito
+vistosa.<br />
+
+<br />
+
+As cadeiras do c&ocirc;ro do XV seculo distinguem-se geralmente das
+precedentes por uma abundancia extraordinaria no ornato esculptural.
+S&atilde;o cheias de bastante decora&ccedil;&atilde;o e
+executadas com mais primor e delicadeza que nos seculos XIII e XIV. Os
+<span class="pagenum">[280]</span>
+seus altos encostos
+comp&otilde;em-se quasi sempre de baixo relevos dentro de arcaduras
+com redentes feitos delicadamente, e cada cadeira tem um docel em que
+um pinaculo vasado muito alto forma a extremidade. Os baixos relevos
+das costas representam assumptos tirados da Biblia, da historia
+ecclesiastica ou da legenda; successos da vida de Jesus Christo ou de
+Nossa Senhora s&atilde;o representados quasi sempre. As esculpturas
+dos lados internos das cadeiras e das misericordias apresentam muitas
+vezes figuras com carantonhas, animaes reaes ou phantasticos,
+symbolisando os vicios. Poucas vezes as esculpturas das cadeiras
+representam santos ou assumptos religiosos.<br />
+
+<br />
+
+Na Belgica ha um limitado numero de cadeiras do c&ocirc;ro do XV e
+XVI seculos.<br />
+
+<br />
+
+Em Fran&ccedil;a, as mais notaveis s&atilde;o as da cathedral
+d'Amiens (XV seculo), e d'Auch (principio do XVI seculo), e na
+Allemanha, as da cathedral d'Ulm, com esculpturas de Jorge Syrlino de
+1474 a 1476; em Portugal as da S&eacute; Velha de Coimbra.<br />
+
+<br />
+
+<em>Bancos e doc&eacute;is dos
+celebrantes</em>. O banco dos officiantes era destinado para o
+celebrante, diacono e subdiacono se assentarem emquanto se canta o <em>Gloria</em>,
+<em>Credo</em>, e <em>Dies
+irae</em>; servia ao mesmo fim as poltronas que &eacute;
+costume collocar presentemente no c&ocirc;ro proximo dos degraus do
+altar. Estes bancos, que havia na idade media em todas as egrejas de
+primeira e segunda ordem, estavam regularmente no <em>presbyterium</em>,
+do lado da Epistola
+defronte do tabernaculo, e apresentavam uma certa
+<span class="pagenum"><a name="p281">[281]</a></span>
+analogia com as cadeiras do c&ocirc;ro.
+Conforme as prescrip&ccedil;&otilde;es lithurgicas,
+distinguia-se por uma grande simplicidade; eram lisos e sem
+subdivis&otilde;es. Algumas vezes, todavia, se compunha de tres
+cadeiras mais ou menos similhantes &aacute;s do c&ocirc;ro.
+Este banco, liso ou subdividido, tinha muitas vezes um docel cheio de
+esculpturas, formado por um nicho aberto na grossura da parede do
+c&ocirc;ro, quando este n&atilde;o tinha naves lateraes ou
+sustentado por columnas e de paredes mestras quando o c&ocirc;ro
+estava rodeado de naves lateraes.<br />
+
+<br />
+
+<em>Jubes, Screens</em><sup><a href="#4">[4]</a></sup>
+<em>e Cruzes
+triumphales</em>. Antigamente chamava-se <em>Jube</em>
+&aacute; tribuna
+(em latim <em>doxale</em>) especie de barreira com tres e
+mais arcadas esplendidamente ornadas que nas egrejas separava o
+c&ocirc;ro das naves; tinha por cima uma especie de galeria ou
+tribuna com <em>guarda-peito</em>,
+havendo na extremidade uma ou duas escadas em espiral, em cuja tribuna
+um abbade vinha l&ecirc;r o Evangelho, depois de ter pronunciado a
+formula: <em>Jube, Domine, benedicere</em>.<br />
+
+<br />
+
+D'ahi vem o nome <em>Jube</em>.<br />
+
+<br />
+
+As escadas ficavam algumas vezes escondidas detraz dos pilares dentro
+de caixas rendilhadas com linda decora&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+Durante a primeira parte do periodo ogival, a arcada do meio estava
+tapada por uma parede, as duas outras arcadas ficavam abertas, tendo
+portas
+<span class="pagenum">[282]</span>
+ou grades. Mais tarde mudou-se em alguns
+paizes esta disposi&ccedil;&atilde;o primitiva; na Belgica, por
+exemplo, na Fran&ccedil;a e em certas partes da Allemanha, a arcada
+central s&oacute; ficou aberta com uma grade de pau ou de ferro
+servindo de porta; taparam com parede as duas outras lateraes
+encostando-lhe altares.<br />
+
+<br />
+
+Na primeira metade do XIII seculo, os
+<em>Jubes</em> eram raros. Foi s&oacute;mente no final
+d'este seculo, e principalmente durante os seculos seguintes que se
+fizeram geralmente nas cathedraes, collegiadas, e nas abbaciaes. No XV
+e no XVI seculo tambem, os collocaram nas egrejas parochiaes, mais
+importantes. Alguns se teem conservado na Belgica at&eacute; ao
+presente: o mais antigo &eacute; da era 1490.<br />
+
+<br />
+
+O mais magestoso &eacute; o da cathedral de Mil&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+Os <em>jubes</em> teem sempre proxima a
+<em>cruz triumphal</em>. Esta cruz, de grande
+dimens&atilde;o, &eacute; geralmente de madeira e ornada de
+pinturas e dourados. Os seus quatro ramos com flor&otilde;es teem
+muitas vezes quadrilobos, nos quaes estavam do lado da nave os symbolos
+dos quatro evangelistas, e do lado do c&ocirc;ro, os quatro
+doutores da egreja latina; S. Gregorio, S. Ambrosio, S. Agostinho e S.
+Jeronymo. Ao p&eacute; da cruz est&atilde;o as imagens de Nossa
+Senhora, e do apostolo S. Jo&atilde;o; a primeira &aacute;
+direita, e a segunda &aacute; esquerda.<br />
+
+<br />
+
+Antes da introduc&ccedil;&atilde;o dos
+<em>jubes</em> a cruz triumphal estava igualmente suspensa
+por tres correntes no meio do arco chamado <em>triumphal</em>,
+que occupa a entrada da capella-m&oacute;r.<br />
+
+<br />
+
+Havia tambem antigamente nas egrejas do periodo
+<span class="pagenum">[283]</span>
+Latino e Roman uma <em>haste</em>
+(Tress). Era costume collocar nas basilicas entre o c&ocirc;ro e a
+parte reservada para o publico uma viga atravez do c&ocirc;ro,
+sobre o qual se punham luzes e tambem suspendiam lampadas, e tambem
+durante a quaresma, servia para p&ocirc;r o v&eacute;u chamado
+<em>velum templi</em>.<br />
+
+<br />
+
+<em>Separa&ccedil;&otilde;es do
+c&ocirc;ro</em>. A disposi&ccedil;&atilde;o
+dos antigos bancos da clerezia ao comprimento da parede absidal do
+c&ocirc;ro, ja descripto,
+n&atilde;o foi conservada durante o periodo ogival, sendo em Italia
+e tambem em Portugal, onde continua ainda, assim como em algumas
+egrejas da Allemanha, principalmente nas cathedraes de Spire e de
+Mayence.<br />
+
+<br />
+
+Desde o XI seculo, a maior parte das abbadias da <em>Europa
+central e occidental</em>
+tinham, como j&aacute; referimos, transferido para o cruzeiro, os
+bancos, alem das cadeiras dos ecclesiasticos, que occupavam antes a
+capella da abside. Mais tarde tambem a mesma mudan&ccedil;a se
+introduziu pouco a pouco nas cathedraes e nas collegiadas d'essas
+mesmas regi&otilde;es, principalmente depois da reuni&atilde;o
+das
+naves lateraes e capellas absides &aacute; roda da capella
+m&oacute;r. Os bancos de pedra do periodo roman transformados em
+cadeiras do c&ocirc;ro ou cadeiras de madeira, foram collocados
+diante do sanctuario, sobre o lado d'esta parte da egreja. O
+c&ocirc;ro ficou separado das naves lateraes pelas barreiras, as
+mais das vezes de cantaria, bastante alta, vedado por detraz com as
+cadeiras do c&ocirc;ro collocadas entre as columnas da
+capella-m&oacute;r. A roda do sanctuario
+<span class="pagenum"><a name="p284">[284]</a></span>
+propriamente chamado, &aacute;s vezes,
+recortavam aberturas, de maneira que as pessoas que estivessem nas
+naves lateraes podessem v&ecirc;r o altar, e outras vezes tambem
+substituiam as barreiras da porta circular da capella-m&oacute;r
+por tumulos ou mausol&eacute;os.
+Nas grandes cathedraes, numerosas esculpturas em alto relevo ornavam as
+partes lizas das
+separa&ccedil;&otilde;es tanto no exterior como no interior da
+capella-m&oacute;r. Alguns monumentos, por exemplo as cathedraes de
+Paris e de Amiens, teem conservado, por completo ou em parte, as suas
+antigas separa&ccedil;&otilde;es da capella-m&oacute;r.<br />
+
+<br />
+
+<h4>Pulpitos e confessionarios</h4>
+
+<br />
+
+<em>Pulpitos</em>. Durante os primeiros
+seculos da era christ&atilde;, as tribunas do alto onde se fazia a
+leitura do Evangelho e da Epistola, serviam ao mesmo tempo de pulpito.<br />
+
+<br />
+
+Ao uso de pr&eacute;gar do alto da tribuna, veiu juntar-se o de um
+pulpito saliente que se conservou na Europa central e occidental
+at&eacute; ao final do XV seculo. Por isso, os pulpitos anteriores
+ao meiado do XV seculo se encontram mui raras vezes. Foi
+s&oacute;mente no come&ccedil;o d'esta epocha que se principiou
+a p&ocirc;l-os isolados na nave principal das egrejas d'esta parte
+da Europa.<br />
+
+<br />
+
+Os mais antigos pulpitos s&atilde;o quasi todos de pedra; no XV e
+XVI seculos fizeram-se egualmente de madeira.<br />
+
+<br />
+
+O espa&ccedil;o dentro do pulpito, para o pr&eacute;gador,
+<span class="pagenum">[285]</span>
+no periodo ogival &eacute;
+geralmente hexagono e ornatado no cimo dos lados, ficando o sexto lado
+reservado para a entrada n'elle; a decora&ccedil;&atilde;o
+comp&otilde;e-se de estatuas, baixos relevos, e algumas vezes
+tambem, de simples desenhos geometricos ou chammas. V&ecirc;-se com
+frequencia Jesus Christo e Nossa Senhora entre quatro evangelistas ou
+os quatro doutores da egreja do Occidente, S. Gregorio, Santo Ambrosio,
+Santo Agostinho e S. Jeronymo.<br />
+
+<br />
+
+Ha em Portugal um pulpito de pedra de admiravel
+composi&ccedil;&atilde;o, que pertence &aacute; egreja de
+Santa Cruz de Coimbra, de que tir&aacute;mos o modelo e figurou na
+exposi&ccedil;&atilde;o universal de Paris em 1867; depois o
+museu de Londres quiz compral-o, ao que nos oppozemos.<br />
+
+<br />
+
+O pulpito apoia-se por vezes sobre uma curva em sacada, sobre um
+macisso de alvenaria ou sobre columnatas enfeixadas; as mais das vezes,
+todavia, est&aacute; assente sobre uma columnata ou sobre um
+pedunculo. Esta ultima maneira foi mais commum no XV e no XVI seculo.
+Estes apoios eram ornados com esculpturas, muitas vezes muito
+intrincadas conforme o uso adoptado no final do periodo ogival. Na
+Allemanha haviam por vezes representado as figuras de Ad&atilde;o,
+Eva ou Moys&eacute;s em alto relevo nas frentes do pulpito.<br />
+
+<br />
+
+O sobreceu dos pulpitos principiou a servir no final do periodo ogival,
+e mesmo n&atilde;o era muito imitado n'essa epocha. Veiu a ser de
+uso geral no fim do XVI seculo. Os sobreceus do XV seculo
+t&ecirc;em geralmente a forma d'uma pyramide, d'um
+<span class="pagenum"><a name="p286">[286]</a></span>
+coruch&eacute;o ou d'um
+campanariosinho. Na Inglaterra v&ecirc;em-se sobreceus
+s&oacute;mente com uma simples
+guarni&ccedil;&atilde;o. Esta ultima forma nos parece a melhor,
+pois n&atilde;o causa a desagradavel vista do remate de tanto
+vulto, que parece abafar a voz. Ha poucos exemplares de pulpitos do
+periodo ogival.<br />
+
+<br />
+
+<em>Confessionarios</em>. Os confessionarios
+em que o confessor fica separado do penitente por uma rotula, foram
+desconhecidos durante o periodo ogival. N'essa epocha, o confessor
+collocava-se, para ouvir as confiss&otilde;es, em uma poltrona ou
+nas cadeiras do c&ocirc;ro, e o penitente ajoelhava deante d'elle.
+A recorda&ccedil;&atilde;o d'esta maneira de se confessar foi
+conservada nas miniaturas, paineis e gravuras do XV seculo.<br />
+
+<br />
+
+Foi proximo do final do XVI seculo que os confessionarios com rotula
+foram introduzidos na Belgica.<br />
+
+<br />
+
+<h4>Capellas funereas, tumulos, campas,<br />
+
+lanternas dos
+defunctos e cruz de cemiterio</h4>
+
+<br />
+
+<em>Capellas funereas</em>. Estas capellas
+funereas eram construidas isoladas nos cemiterios durante o periodo
+ogival. S&atilde;o raras em quasi todos os paizes. N&atilde;o
+ha nenhuma na Belgica nem em Inglaterra. Em Fran&ccedil;a
+v&ecirc;em-se algumas nos cemiterios
+bret&otilde;es, e existe uma muito notavel, do XV seculo, em Avioth
+nas <em>Ardennes</em> francezas.
+&Eacute; na Austria que s&atilde;o mais communs.<br />
+
+<br />
+
+<em>Tumulos apparentes</em>. O uso de
+encerrar os cadaveres nos sarcophagos e p&ocirc;l-os sobre o solo
+ficou
+<span class="pagenum">[287]</span>
+completamente abandonado no
+norte da Europa desde o XIII seculo.<br />
+
+<br />
+
+Na Inglaterra, Belgica, Allemanha, e nas provincias septentrionaes da
+Fran&ccedil;a, os tumulos apparentes do periodo ogival
+s&atilde;o cenotaphios, consistindo em socos de cantaria com
+massi&ccedil;os de alvenaria postos sobre uma sepultura
+subterranea, tendo a effigie do finado. Comp&otilde;em-se
+geralmente, como no XIII seculo, de um s&oacute;co ou macisso
+coberto de uma grande lousa, sobre a qual est&aacute; deitada a
+estatua do defuncto. Este estendido sobre uma cama ricamente disposta,
+apresentando todas as insignias de sua d&iacute;gnidade: os
+bispos e os abbades trazendo mitra e baculo; os reis e principes, a
+cor&ocirc;a e o sceptro; os cavalleiros, o seu escudo e a sua
+armadura. Os p&eacute;s dos bispos e dos ecclesiasticos, e em
+certos paizes tambem dos seculares, apoiam-se contra um
+drag&atilde;o ou um monstro phantastico; os dos clericaes,
+principes e nobres, contra um le&atilde;o, symbolo de coragem, e
+mesmo, &aacute;s vezes, como para as damas tendo os p&eacute;s
+sobre um rafeiro, emblema da fidelidade conjugal. Pequenas figuras de
+anjos agitam thuribulos, sustentando tochas ou almofadas em que
+descan&ccedil;a a cabe&ccedil;a do personagem. Depois do XIII
+seculo, os anjos com thuribulos tornaram-se raros. Durante muito tempo,
+a effigie do finado n&atilde;o apresenta nenhum dos caracteres da
+morte.<br />
+
+<br />
+
+No XIII seculo e ainda no principio do XIV seculo, as estatuas deitadas
+t&ecirc;em os olhos abertos e reproduzem os gestos e as attitudes
+dos personagens
+<span class="pagenum">[288]</span>
+vivos.
+S&oacute;mente depois do XIV seculo o defuncto principia a ser
+representado morto ou adormecido, com os olhos fechados.<br />
+
+<br />
+
+Muitas vezes, columnatas reunidas por arcaduras s&atilde;o
+dispostas em roda do s&oacute;co, no qual
+est&atilde;o assentes; algumas vezes, mas, raramente, as arcaduras
+s&atilde;o vasadas, e a estatua
+<em>deitada</em> do finado occupa o <em>logar</em>
+do s&oacute;co
+supprimido.<br />
+
+<br />
+
+Os cenotaphios do periodo ogival s&atilde;o geralmente de pedra,
+poucas vezes de cobre ou de outro metal. Os tumulos de pedra
+t&ecirc;em quasi um metro de altura, em quanto que os sepulchros de
+metal, que se conservam at&eacute; ao presente t&ecirc;em
+apenas 50 centimetros acima do solo; todavia o unico de metal que
+possue a S&eacute; de Braga tem maior altura.<br />
+
+<br />
+
+Para evitar o estorvo nas egrejas, n&atilde;o se permittia, salvo
+raras vezes, erguer-se um cenotaphio. Na capella-m&oacute;r
+admittia-se o tumulo do fundador ou de um bemfeitor distincto,
+collocando os dos outros personagens de
+distinc&ccedil;&atilde;o nas capellas
+que cercam os lados do c&ocirc;ro e da nave principal. Estes
+monumentos apresentavam muitas vezes uma
+decora&ccedil;&atilde;o de pinturas e dourados. Alguns ficavam
+encostados &aacute; parede e dentro de um grande nicho sob
+f&oacute;rma de arcadura ogival; outros, e era o maior numero,
+ficavam separados em todos os seus lados.<br />
+
+<br />
+
+<em>As campas com gravuras a
+tra&ccedil;o</em> tornaram-se vulgares desde o XIV seculo.
+Muitas t&ecirc;em sido conservadas at&eacute; ao presente,
+n&atilde;o obstante o grande
+<span class="pagenum">[289]</span>
+numero de causas de
+destrui&ccedil;&atilde;o, &aacute;s
+quaes t&ecirc;em ficado expostas desde seis seculos. A maior parte
+est&atilde;o ornadas de imagens do finado, debaixo de arcaduras
+trilobadas do feitio de docel, muito simples e sustentado por
+columnatas. Quasi sempre v&ecirc;-se uma m&atilde;o deitando a
+ben&ccedil;&atilde;o, symbolo de Deus, sahida do cimo da ogiva;
+e anjos agitando thuribulos occupam os <em>seguintes</em>
+da
+arcadura. Sobre as campas dos bispos, dos abbades e dos padres,
+v&ecirc;-se tambem, algumas vezes, aos dois lados do personagem,
+clerigos, ou anjos de pequeno tamanho, segurando em velas accesas.<br />
+
+<br />
+
+Muito antes do XIII seculo, as campas t&ecirc;em, bastantes vezes
+ainda, como durante o periodo roman, a forma de um trapezio, isto
+&eacute;, s&atilde;o mais
+estreitas do lado dos p&eacute;s. A
+inscrip&ccedil;&atilde;o que
+quasi sempre t&ecirc;em, forma geralmente o contorno exterior da
+pedra, menos geral do que o emmoldurado de ogiva; principia por uma
+cruz a inscrip&ccedil;&atilde;o e
+quasi no fim do XIII seculo, ajuntam j&aacute; por vezes, aos
+quatro angulos, os emblemas dos evangelistas collocados nos
+quadrilobos.<br />
+
+<br />
+
+As campas dos tumulos do XIII seculo que n&atilde;o t&ecirc;em
+um emblema, um symbolo ou um escudo com armarias, s&atilde;o
+bastante raras na Belgica.<br />
+
+<br />
+
+Sobre as campas do XIV seculo, a effigie do finado continua a ser
+collocada debaixo de uma arcadura, poucas vezes trilobada,
+por&eacute;m n&atilde;o durante os primeiros annos.
+S&oacute;mente esta arcadura &eacute; muito mais carregada de
+detalhes architectonicos do que precedentemente, taes como ridentes,
+crochetes,
+<span class="pagenum">[290]</span>
+flor&otilde;es, pinaculos e rosaes; al&eacute;m
+d'isso, as arcaduras principiam a n&atilde;o ser sustentadas por
+columnatas com base e capitel, mas sim por p&eacute;s-direitos do
+feitio de contra-fortes ornados de pinaculos e nichos, nos quaes se
+v&ecirc;em pequenas figuras de homens.<br />
+
+<br />
+
+Quando uma unica campa cobre uma sepultura dupla ou tripla, as
+arcaduras est&atilde;o reunidas no numero de duas ou tres, e
+cont&eacute;em, cada uma, sua effigie. O le&atilde;o, o
+c&atilde;o e os outros symbolos, que acompanham quasi sempre as
+estatuas deitadas dos cenotaphos, se v&ecirc;em tambem sobre as
+campas do XIV seculo. Estas s&atilde;o geralmente de
+f&oacute;rma rectangular, e n&atilde;o t&ecirc;em o feitio
+de um trapezio. Os anjos incensadores e cerofer&aacute;rios
+n&atilde;o se
+v&ecirc;em excepcionalmente a come&ccedil;ar do XVI seculo.<br />
+
+<br />
+
+As arcaduras e o contorno com curvas em rampa que formam o remate
+caracteristico dos moldurados do XIV e XV seculos, s&atilde;o
+regularmente substituidos no XV seculo por doc&eacute;is,
+representados em perspectiva e muitas vezes compostos de ogivas
+inflexas com desenhos complicados; os pinaculos, os nichos, as rosaceas
+flammejantes se multiplicam sobre todo o moldurado; al&eacute;m
+d'isso, os arcos-butantes apparecem para ligar os doc&eacute;is aos
+contrafortes.<br />
+
+<br />
+
+Ser&aacute; bom notar que os moldurados das campas do XIV e do XV
+seculos apresentam a maior similhan&ccedil;a com as
+decora&ccedil;&otilde;es do mesmo genero que se v&ecirc;em
+nas vidra&ccedil;as pintadas contemporaneas.<br />
+
+<br />
+
+Como no XIII seculo, a inscrip&ccedil;&atilde;o apparece no
+<span class="pagenum">[291]</span>
+XIV e no XV seculos sobre a
+borda da campa e est&aacute; inscripta entre duas linhas
+parallelas. Nos angulos formados pela intersec&ccedil;&atilde;o
+d'essas quatro linhas
+se v&ecirc;em quadrilobos com os emblemas dos evangelistas, ou
+tambem algumas vezes, desde o come&ccedil;o do meiado do XIV
+seculo, as armarias; acontece mesmo que a
+inscrip&ccedil;&atilde;o est&aacute;, al&eacute;m
+d'isso, interrompida pelo escudo da armaria sobre os seus lados mais
+compridos.<br />
+
+<br />
+
+J&aacute; explic&aacute;mos que, quando s&atilde;o
+applicados para ornar os quatro angulos de um quadrado ou de um
+rectangulo, os symbolos dos evangelistas p&otilde;em-se, pelo
+menos, at&eacute; ao XIII seculo, da
+maneira seguinte: o homem alado no angulo superior &aacute; <em>esquerda</em>
+do espectador;
+a aguia &aacute; <em>direita</em>, o le&atilde;o
+no angulo inferior &aacute;
+<em>esquerda</em> e o novilho &aacute; <em>direita</em>.
+No XIV seculo, houve uma
+mudan&ccedil;a; desde esta epocha, v&ecirc;-se quasi geralmente
+a aguia no <em>angulo superior esquerdo</em>, e o homem
+alado no <em>angulo superior direito</em>. &Eacute;
+ali tambem o logar que
+estes symbolos occupam sobre as campas.<br />
+
+<br />
+
+Os caracteres das campas que acabamos de indicar por cada seculo do
+periodo ogival, n&atilde;o s&atilde;o de tal maneira proprios
+como os que s&atilde;o mais proximos da epocha indicada. Pelo
+contrario, acontece muitas vezes, principalmente na Belgica, que as
+campas do XV seculo apresentam ainda, por assim dizer, os caracteres
+que n&atilde;o se est&aacute; acostumado a encontrar n'outra
+parte nas campas do seculo precedente. N&atilde;o &eacute; raro
+tambem achar campas do XIII, XIV e XV seculos, nas quaes
+<span class="pagenum">[292]</span>
+o ornamento architectural seja moderado de
+detalhes, ou inteiramente os supprimiram.<br />
+
+<br />
+
+Em Fran&ccedil;a quasi sempre e algumas vezes na Belgica, as
+carnes, em vez de serem imitadas a tra&ccedil;o, s&atilde;o
+represeutadas por embutidos de marmore
+ou de metal.<br />
+
+<br />
+
+<em>Tumulos chatos de cobre</em>. Durante o
+periodo ogival, introduziu-se o uso do cobre ou de laminas de
+lat&atilde;o sobre as quaes as linhas do desenho s&atilde;o
+feitas a tra&ccedil;os gravados bastante fundos, estando cheios com
+uma substancia rezinosa de c&ocirc;r preta e de tom mate. Essas
+largas linhas pretas se destacam perfeitamente sobre a superficie
+brilhante do metal brunido ou adamascado, at&eacute; mesmo dourado,
+cujo reflexo luzidio &eacute; muitas vezes real&ccedil;ado pela
+armaria colorida em esmalte da composi&ccedil;&atilde;o da
+campa, a qual fica solidamente fixa na grossura do cobre. Devido a
+estas qualidades, os tumulos lizos em cobre contribuiam admiravelmente,
+assim como o pavimento e as vidra&ccedil;as pintadas, para a
+decora&ccedil;&atilde;o das egrejas. &Eacute; na Inglaterra
+e Flandres que t&ecirc;em sido mais communs durante toda a idade
+media.<br />
+
+<br />
+
+Os tumulos chatos de cobre podem dividir-se em duas classes. A
+primeira, de maior numero, comprehende as laminas de cantaria, quer de
+marmore ou de gres, nas quaes a figura do finado fica recortada em <em>silhoeta</em>
+na lamina
+de metal, assim como differentes ornatos; as armarias, emblemas,
+inscrip&ccedil;&otilde;es em feitio de fita, gravadas sobre
+tantas pe&ccedil;as distinctas, ficam embutidas e arrebitadas
+<span class="pagenum">[293]</span>
+separadamente nos
+entalhes correspondentes da pedra, designados <em>casements</em>
+pelos
+auctores inglezes. A segunda classe parece ter sido menos numerosa,
+por&eacute;m cont&eacute;m especimens mais bellos e preciosos.
+Acham-se comprehendidos n'ella os monumentos que apparecem debaixo do
+aspecto de grandes placas de cobre, d'uma s&oacute;
+pe&ccedil;a, mas que, na realidade, s&atilde;o muitas vezes
+compostas de muitas laminas ajustadas, das quaes com grande habilidade
+ficam disfar&ccedil;adas as juntas na profundura dos
+tra&ccedil;os. A figura do finado, geralmente de grandeza do
+natural, representa-se de p&eacute; ou deitada.<br />
+
+<br />
+
+Os tumulos de lat&atilde;o consistem em grandes laminas soltas,
+n&atilde;o destinadas a ser embutidas nas laminas de pedra, e que
+formam por si um todo completo; foram communs na Belgica durante todo o
+periodo ogival; o seu uso continuou, em certos sitios, at&eacute; o
+XVII seculo. Na Allemanha e igualmente no Norte da Fran&ccedil;a
+tiveram
+acceita&ccedil;&atilde;o. Sobre as laminas, n&atilde;o
+s&oacute;mente a figura do finado, como tambem os accessorios
+symbolicos e de decora&ccedil;&atilde;o que lhe servem, foram
+executadas da mesma maneira que sobre as pedras das campas gravadas.
+Todavia, a composi&ccedil;&atilde;o do assumpto &eacute;
+regularmente mais superior, e a
+execu&ccedil;&atilde;o mais esmerada que das outras; os mais
+insignificantes detalhes do vestuario, os doc&eacute;is do remate,
+as pequenas figuras dos anjos e dos santos que os ornam muitas vezes
+assim como os p&eacute;s-direitos, todas as partes, em uma palavra,
+s&atilde;o feitas com fidelidade,
+<span class="pagenum"><a name="p294">[294]</a></span>
+com arte e com delicadeza. Al&eacute;m d'isso, o fundo
+sobre o qual se destaca a effigie do finado, em logar de ser lizo e sem
+ornato, como sobre as pedras das campas gravadas, &eacute;
+regularmente adamascado, isto &eacute;, coberto de ornatos
+differentes imitando os desenhos que apresentam certos estofos
+orientaes; esses desenhos assemelham-se aos que se v&ecirc;em
+&aacute; roda dos personagens nas vidra&ccedil;as pintadas do
+XIV seculo. S&atilde;o compostos de
+folhas do trevo, de quatro folhas, folhagens, c&ocirc;res
+matizadas, figuras de animaes, gritos de guerra, ou com divisas muitas
+vezes repetidas. Parece mesmo por vezes no XV e no XVI seculo, que os
+detalhes architectonicos desapparecem completamente para dar logar aos
+fundos adamascados. Finalmente, uma particularidade que apresentam
+ainda as laminas de cobre funereas do XV e do XVI seculo, vem a ser que
+as
+<em>phylact&eacute;res</em> se
+veem muito mais frequentemente que sobre as pedras das
+campas. Chama-se <em>phylact&eacute;res</em> a
+bandeirolas compridas e estreitas, saindo da boca das personagens ou
+est&atilde;o seguras nas suas m&atilde;os, e sobre as quaes
+est&aacute; inscripta uma ora&ccedil;&atilde;o, uma divisa
+ou uma
+senten&ccedil;a.<br />
+
+<br />
+
+<em>Pequenos monumentos funereos do XV e do XVI
+seculo</em>. Al&eacute;m dos c&eacute;notaphos, das
+campas e dos tumulos chatos de lat&atilde;o, erigiam-se tambem, nos
+XV e XVI seculos, pequenos monumentos funereos de pedra ou
+lat&atilde;o, encaixados na face da parede proxima do logar da
+sepultara. Estes monumentos curiosos encontram-se, n&atilde;o
+s&oacute; no interior das egrejas, mas
+<span class="pagenum">[295]</span>
+tambem nos claustros das cathedraes,
+collegiaes e mosteiros. Comp&otilde;e-se regularmente d'um
+epitaphio, por cima do qual se v&ecirc; um assumpto religioso, por
+exemplo, a SS. Trindade, a flagella&ccedil;&atilde;o, a
+crucifica&ccedil;&atilde;o ou qualquer scena da
+Paix&atilde;o. Muitas vezes tambem se v&ecirc; Nossa Senhora
+com o Menino Jesus. O finado est&aacute; regularmente representado
+ao lado da scena principal, de joelhos em ora&ccedil;&atilde;o
+e por vezes acompanhado do santo da sua devo&ccedil;&atilde;o,
+o qual fica em p&eacute; por detraz
+d'elle e parece recommendal-o &aacute; clemencia Divina; sobre a
+bandeirola saindo da boca na direc&ccedil;&atilde;o da scena
+principal, l&ecirc;em-se frequentemente as palavras que
+&eacute; natural dirigir a Deus ou aos santos, por exemplo: <em>Qui
+potes, oro, rei, Christe, mementa
+mei</em>, e <em>O mater Dei, memento mei</em>.<br />
+
+<br />
+
+A scena religiosa est&aacute; esculpida em relevo ou gravada a
+tra&ccedil;o. Quando feita em alto relevo, v&ecirc;-se quasi
+sempre em um nicho ogival, aberto na grossura da parede, e o epitaphio
+inscripto na parte inferior do nicho, sobre uma pequena chapa de
+lat&atilde;o, de marmore ou de pedra.<br />
+
+<br />
+
+Nos baixos relevos e nas pedras gravadas a tra&ccedil;o, o assumpto
+e o epitaphio s&atilde;o geralmente collocados sobre uma unica
+pedra; ora n'uma, ora n'outra occupa a maior parte. A scena
+&eacute; coberta por um doc&eacute;l servindo de remate;
+algumas vezes, comtudo este docel n&atilde;o apparece.<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o obstante as mutila&ccedil;&otilde;
+N&atilde;o obstante as mutila&ccedil;&otilde;es lamentaveis
+que lhe causaram os iconoclastas, estes monumentos merecem chamar a
+atten&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o
+s&oacute;mente dos archeologos,
+<span class="pagenum">[296]</span>
+mas tambem dos artistas e sobretudo dos esculptores.<br />
+
+<br />
+
+Serviram-se tambem de monumentos similhantes para perpetuar a
+funda&ccedil;&atilde;o praticada por generosos
+bemfeitores. Na parte superior d'uma pedra ou de uma placa de
+lat&atilde;o, v&ecirc;-se uma scena
+religiosa, diante da qual est&aacute; de joelhos o fundador muitas
+vezes acompanhado do santo da sua devo&ccedil;&atilde;o.
+Uma inscrip&ccedil;&atilde;o commemorativa da
+funda&ccedil;&atilde;o substitue o epitaphio, o qual nos
+monumentos funereos se v&ecirc; por baixo da scena. Algumas vezes
+s&oacute;mente apparece uma simples
+inscrip&ccedil;&atilde;o gravada sobre uma pedra ou lamina de
+cobre.<br />
+
+<br />
+
+<em>Lanternas dos defunctos</em>. D&aacute;-se o nome
+de <em>lanternas dos defunctos</em>
+e <em>pharol de
+cemiterio</em>, a columnas ou pyramides &ocirc;cas que se
+collocavam n'outro tempo nos cemiterios. Este pequeno monumento tinha
+no cimo um pavilh&atilde;o vasado, no qual se suspendia de noite
+uma lampada accesa com o fim de lembrar aos caminhantes que orassem
+pelos defunctos e para lhes indicar a presen&ccedil;a da casa de
+Deus.<br />
+
+<br />
+
+<em>Cruz de cemiterio</em>. Erguiam tambem,
+nos cemiterios, grandes cruzes de pedra durante o periodo Roman,
+ajuntavam-lhe, poucas vezes, a imagem de Christo; por&eacute;m do
+come&ccedil;o do XIII seculo, essa imagem v&ecirc;-se quasi
+sempre acompanhada de Nossa Senhora e do Menino Jesus, postos no
+revesso da cruz, ou encostados &aacute; columna que serve para a
+sustentar. Outras vezes, e isso &eacute; mais seguido, a cruz fica
+entre a imagem de Nossa Senhora sem
+<span class="pagenum">[297]</span>
+o Menino e a de S. Jo&atilde;o. As
+hastes que forma a columna ou o pilar sobre os quaes est&aacute;
+assente a cruz, s&atilde;o geralmente postas sobre um
+s&oacute;co mais ou menos alto, tendo na sua base um pequeno altar.
+<br />
+
+<br />
+
+As cruzes de pedra que se erigiam muitas vezes, na idade media, nas
+encruzilhadas das vias e no meio das pra&ccedil;as publicas,
+apresentavam as mesmas f&oacute;rmas que as cruzes de cemiterios;
+s&oacute;mente n&atilde;o tinham altar na base do seu
+sustentaculo. Em Lisboa havia um excellente especimen no cruzeiro de
+Arroyos, estando presentemente guardadas as esculpturas na egreja
+d'esse bairro.<br />
+
+<br />
+
+As cruzes de cemiterio e dos cruzeiros n&atilde;o eram todas de
+cantaria; havia-as tambem de bronze, de ferro e madeira. Inutil
+&eacute; declarar que as cruzes de madeira ficaram destruidas
+j&aacute; ha muito tempo. As de bronze t&ecirc;em desapparecido
+egualmente, para fundirem o metal! Mas ha ainda, em alguns paizes, as
+que foram feitas com ferro forjado.<br />
+
+<br />
+
+As cruzes de cemiterio continuaram a estar em uso durante a epocha do
+renascimento, e est&atilde;o quasi sempre acompanhadas das imagens
+de Nossa Senhora e S. Jo&atilde;o, e algumas vezes d'uma pintura
+representando o purgatorio. Quando o cemiterio fica adjacente
+&aacute; egreja, a cruz colloca-se sobre um alpendre junto do coro,
+na parte interna. As cruzes triumphaes, que se viam durante o periodo
+ogival por cima do Jub&eacute; foram aproveitadas, em muitos
+logares, para servirem de cruzes de cemiterios.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p298">[298]</a></span>
+<h4>Pias baptismaes</h4>
+
+<br />
+
+A pia de baptismo no periodo ogival &eacute; geralmente menos larga
+e profunda do que a em uso no periodo Roman. Esta differen&ccedil;a
+foi motivada pelo abandono do baptismo por
+<em>immers&atilde;o</em> no XIII seculo. Como
+precedentemente, algumas das pias t&ecirc;em o feitio d'uma tina
+sem p&eacute;, redonda, quadrada
+ou com seis ou oito lados; outras assentam sobre um grosso pilar
+central acompanhado nos angulos da pia por quatro columnasinhas, mas o
+maior numero s&atilde;o monopediculados.<br />
+
+<br />
+
+As pias de feitio de tina sem p&eacute; encontravam-se ainda
+algumas vezes no periodo ogival, por&eacute;m muito poucas durante
+o periodo Roman.<br />
+
+<br />
+
+<em>As pias monopediculadas</em>, isto
+&eacute;, firmadas sobre um s&oacute; pilar, foram as mais
+communs na Belgica durante todo o tempo do periodo ogival. Estas pias
+baptismaes, em vez de serem como as Romans, circulares ou quadradas na
+parte externa, eram geralmente de seis ou oito lados. A pia continua a
+apresentar, como durante o periodo Roman, a f&oacute;rma
+hemispherica ou oval; havendo muitas vezes, na parte mais baixa, um
+orificio servindo para vasar a pia.<br />
+
+<br />
+
+Na Allemanha e na Belgica desde o final do seculo XIV, e principalmente
+no XV seculo, havia pias monopediculadas em lat&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+O maior numero de pias Romans estavam cobertas de esculpturas
+decorativas, symbolicas ou historicas. Sobre as pias do periodo ogival,
+pelo contrario,
+<span class="pagenum">[299]</span>
+os
+assumptos historicos e legendarios, assim como as figuras symbolicas e
+phantasticas s&atilde;o raras; por excep&ccedil;&atilde;o
+se v&ecirc; ainda n'ellas
+o baptismo de Jesus Christo e outras scenas biblicas ou tambem
+personagens isolados collocados debaixo de arcaduras.<br />
+
+<br />
+
+Os ornatos simplesmente decorativos, taes como folhagens e carrancas,
+s&atilde;o tambem bastante raros sobre as pias do XIV e XV seculo.
+Toda a
+decora&ccedil;&atilde;o das pias ogivaes, principalmente no XV
+seculo, consiste as mais das vezes n'um certo numero de molduras que se
+v&ecirc;em sobre a pia e sobre o pilar em que se f&oacute;rmam.
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>Pias para agua benta</h4>
+
+<br />
+
+Ha duas qualidades de pias para agua benta: as <em>fixas</em>
+e as
+<em>portateis</em>.<br />
+
+<br />
+
+As pias fixas s&atilde;o cylindricas ou polygonaes, com
+reservatorio hemispherico, collocadas junto da entrada da egreja, no
+interior ou exterior do edificio: umas isoladas e postas sobre um
+p&eacute;, outras sem terem apoio. Estas ultimas, que
+est&atilde;o sempre unidas com as
+construc&ccedil;&otilde;es, v&ecirc;-se quer
+em nichos, quer em sacada sobre o liso da parede ou d'um pilar, no qual
+est&atilde;o encaixadas.<br />
+
+<br />
+
+Posto que as pias para agua benta pediculadas estivessem j&aacute;
+em uso no XIII seculo, e talvez ainda antes, foi todavia no XIV e XV
+seculos que vieram a ser mais communs. Em muitos paizes, apresentam
+bastante analogia com as pias baptismaes contemporaneas, de maneira que
+&eacute; muitas vezes difficil
+<span class="pagenum">[300]</span>
+distinguir de repente, se o
+objecto que est&aacute; presente serviria na primitiva de pia para
+agua benta ou de pia baptismal, pela sua grandeza. A capacidade
+limitada do reservatorio e a falta do orificio destinado para dar
+sahida &aacute;s aguas baptismaes, d&atilde;o algumas vezes um
+indicio para designar que o objecto seja uma pia para agua benta e
+n&atilde;o uma pia baptismal.<br />
+
+<br />
+
+O maior numero das pias para agua benta fixas do periodo ogival que
+existem, ainda s&atilde;o de pedra. Havia tambem em outro tempo um
+certo numero d'ellas de bronze e de lat&atilde;o. A memoria de
+algumas d'estas pias de metal nos foi conservada, quer por desenhos e
+gravuras, quer por testemunhos de escriptores antigos. Encontram-se
+mesmo raros especimens que escaparam &aacute;
+destrui&ccedil;&atilde;o vandalica.<br />
+
+<br />
+
+As pias para agua benta <em>portateis</em>
+s&atilde;o vasos com azas, destinados a conter a agua benta. Como
+j&aacute; referimos, serviam durante o periodo Roman, para
+apresentar a agua benta aos imperadores, reis e outros distinctos
+personagens, na occasi&atilde;o da sua entrada na egreja. Serviam
+tambem n'esta epocha, para a agua com que se faziam as
+aspers&otilde;es prescriptas pela liturgia. O costume de principiar
+a missa solemne do domingo por uma prociss&atilde;o dentro da
+egreja, durante a qual se aspergia o povo com agua benta, remonta aos
+primeiros seculos do christianismo. As capitulares de Carlos Magno
+confirmam j&aacute; este costume, e no Concilio reunido em Nantes
+em 911 determina aos curas
+<span class="pagenum"><a name="p301">[301]</a></span>
+que
+benzam a agua ao domingo, em um vaso limpo e apropriado, para que o
+povo seja aspergido, e o sacerdote possa leval-a aos enfermos,
+<a href="#e6">aspergil-os</a> e &aacute; sua
+habita&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+As mais antigas pias para agua benta portateis s&atilde;o de
+marfim. As pias para agua benta em metal, j&aacute; conhecidas
+durante o periodo Roman, vieram a ser muito communs no XIII e XIV
+seculos. Todas as pias para a agua benta portateis s&atilde;o,
+comparativamente &aacute;s em uso desde o XV seculo, de muito
+pequena dimens&atilde;o: medem apenas 20 centimetros pouco mais ou
+menos de altura, com um diametro entre 10 e 13 centimetros.<br />
+
+<br />
+
+Quando, no XV seculo, as pias para a agua benta portateis de metal
+vieram a tornar-se de uso geral, deram-lhes dimens&otilde;es
+maiores. Todavia encontram-se ainda muitas d'esta epocha, que
+s&atilde;o muito pequenas.<br />
+
+<br />
+
+Quasi todas as pias para agua benta antigas t&ecirc;em a
+f&oacute;rma d'um balde; algumas apresentam um engrossamento
+consideravel sobre a borda superior, diminuindo sensivelmente para a
+base. V&ecirc;em-se com uma inscrip&ccedil;&atilde;o
+mostrando
+como as das pias fixas, assim como a allus&atilde;o ao symbolismo
+de agua benta pelo baptismo de Jesus Christo.<br />
+
+<br />
+
+<h4>Grades e barreiras</h4>
+
+<br />
+
+<em>Grades de ferro</em>. As grades do XIV
+seculo apresentam mais ou menos o aspecto geral que as do periodo
+Roman. Como antecedentemente, t&ecirc;em os prumos verticaes com um
+caixilho de ferro a
+<span class="pagenum">[302]</span>
+que ficam
+reunidos por ornatos em f&oacute;rma de
+<em>X</em> composto por barrinhas de ferro com
+sec&ccedil;&atilde;o
+differente; e todavia, quando as grades s&atilde;o destinadas para
+as cathedraes ou para os edificios importantes, as barrinhas das
+extremidades simplesmente enroscadas n&atilde;o t&ecirc;em por
+ornato sen&atilde;o algumas hastes verticaes. A
+suppress&atilde;o das couceiras p&oacute;de ter logar sem
+inconveniente nos v&atilde;os de pequena largura, de pouco peso e
+f&oacute;rmas delicadas, mas para grades maiores e expostas aos
+encontr&otilde;es da multid&atilde;o, o systema de
+almofadas com ornato entre as couceiras e as travessas &eacute; o
+unico modo que dar&aacute; a solidez precisa sem obstar ao aspecto
+de leveza.<br />
+
+<br />
+
+Os cenotaphos erguidos nos logares frequentados da egreja, os
+reliquarios expostos publicamente &aacute;
+venera&ccedil;&atilde;o dos fieis e os armarios
+dos thesouros eram muitas vezes resguardados por grades com importante
+trabalho de m&atilde;o d'obra. Estas grades ornadas geralmente por
+barrinhas estampadas do lado externo s&oacute;mente
+est&atilde;o por
+vezes armadas com grandes pontas e ganchos de ferro que impossibilitam
+o assalto.<br />
+
+<br />
+
+Nas grades do XIV e XV seculo, os prumos servindo de couceiras e as
+travessas contin&uacute;am a ser empregadas; por&eacute;m as
+barrinhas torcidas e estampadas das grades do XIII seculo ficaram
+substituidas por ornatos obtidos, servindo-se de chapas de ferro
+batido, recortadas em flor&otilde;es ou folhagens. Depois, em logar
+de ficarem seguros como precedentemente os prumos por bracedeiras,
+n&atilde;o soldados,
+<span class="pagenum">[303]</span>
+esses ornatos est&atilde;o fixos por cavilhas arrebitadas. Os
+caixilhos de ferro s&atilde;o muitas vezes supprimidos, e a esses
+prumos depois de lhe assentar na extremidade remates mais ou menos
+vistosos, compostos de fl&ocirc;res de liz ou flor&otilde;es de
+folha de ferro soldadas.<br />
+
+<br />
+
+As grades que se n&atilde;o abrem, que assentam na frente das
+janellas, nos thesouros das egrejas, casas de capitulo, depositos do
+archivo, casas nobres e mesmo nas casas particulares, est&atilde;o
+muitas vezes guarnecidas de pontas de ferro dispostas em espigas nas
+duas extremidades das couceiras. Algumas vezes as grades com espigas
+t&ecirc;em, &aacute;lem d'isso, as suas couceiras e travessas
+reunidas de maneira impossivel para fazer mover as couceiras nos olhaes
+das travessas ou nos olhaes das couceiras; estes olhaes
+est&atilde;o alternativamente feitos nas travessas e nas couceiras.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Barreiras de madeira</em>. Em logar de
+grades de ferro, tambem se serviam de barreiras de madeira, a fim de
+separar as capellas. Estas barreiras s&atilde;o geralmente tapadas
+at&eacute; &aacute; altura
+quasi d'um metro, n&atilde;o ficando interrompida a vista na parte
+superior. Quasi todas s&atilde;o feitas com madeira de carvalho,
+devendo a sua dura&ccedil;&atilde;o n&atilde;o
+s&oacute;mente ao bem feito da obra, como &aacute; excellente
+qualidade do material empregado. A come&ccedil;ar do XIV seculo, a
+parte inferior tapada &eacute; formada de duas ou muitas ordens
+sobrepostas de almofadas encaixadas entre as couceiras e as travessas.
+Estas almofadas teem muitas vezes obra de talha figurando
+<span class="pagenum"><a name="p304">[304]</a></span>
+pinasios dos caixilhos, ou folhas de
+pergaminho dobradas. A parte superior d'estas barreiras
+comp&otilde;e-se quasi sempre de arcaduras rotas, deixando passar a
+vista entre os prumos em que se dividem.<br />
+
+<br />
+
+<h4>Org&atilde;os e caixas para
+elles</h4>
+
+<br />
+
+Os primeiros org&atilde;os de que os chronistas occidentaes fazem
+men&ccedil;&atilde;o, s&atilde;o os que o rei Pepin recebeu
+de presente da c&ocirc;rte imperial de Constantinopla no meiado do
+VIII seculo, e que fez collocar no seu palacio de
+<em>Compi&egrave;gne</em>. Carlos Magno tambem no
+principio do seculo seguinte mandou fabricar org&atilde;os,
+conforme o modelo byzantino para ornar a sua egreja de
+<em>Aix-la-Chapelle</em>. Depois de Carlos Magno, o uso dos
+org&atilde;os para o acompanhamento de certas partes cantadas do
+officio divino, introduziu-se pouco a pouco na egreja Latina. Desde o
+final do X seculo, a maior parte das egrejas cathedraes e abbaciaes de
+primeira ordem tinham-os adquirido, e durante os dois seculos seguintes
+continuaram a generalisar-se.<br />
+
+<br />
+
+Os org&atilde;os primitivos eram muito defeituosos e d'uma grande
+singeleza, como vemos nas miniaturas dos manuscriptos contemporaneos.<br />
+
+<br />
+
+Durante o periodo ogival a predilec&ccedil;&atilde;o pelos
+org&atilde;os tomou novos desenvolvimentos, e, no final do XV
+seculo, todas as egrejas de alguma importancia e mesmo as capellas
+tinham o seu org&atilde;o. No XIII seculo, come&ccedil;aram
+j&aacute;, em alguns logares,
+<span class="pagenum">[305]</span>
+a multiplicar o numero dos
+org&atilde;os em uma s&oacute; e mesma egreja. Ao principio
+contentavam-se com dois d'estes instrumentos; por&eacute;m no XIV e
+XV seculos tinham tres, quatro e at&eacute; cinco. Na egreja do
+convento de Mafra, el-rei D. Jo&atilde;o V mandou collocar quatro
+grandiosos org&atilde;os nos angulos do cruzeiro, no XVII seculo.<br />
+
+<br />
+
+<em>At&eacute; ao XV seculo</em>, diz o
+insigne architecto Violet-le-Duc, <em>n&atilde;o parece que
+os grandes org&atilde;os
+estivessem em uso. Serviam-se apenas de instrumentos de mediocres
+dimens&otilde;es e que podiam ficar dentro d'um movel assentes na
+capella-m&oacute;r, nos jub&eacute;s ou sobre tribunas mais ou
+menos espa&ccedil;osas, destinadas n&atilde;o
+s&oacute;mente aos org&atilde;os, mas
+ainda aos cantores e musicos. Foi no final do XV e principio do XVI
+seculo que houve a ideia de dar aos org&atilde;os,
+dimens&otilde;es
+extraordinarias</em> desconhecidas at&eacute;
+ent&atilde;o, tendo uma <em>grande
+for&ccedil;a de som e exigindo, caixas collossaes</em>.
+Todavia esses org&atilde;os
+n&atilde;o s&atilde;o nada em compara&ccedil;&atilde;o
+com os
+instrumentos que se fizeram depois no XVII seculo.<br />
+
+<br />
+
+No fim do periodo ogival, a f&oacute;rma das caixas dos
+org&atilde;os era determinada pela
+disposi&ccedil;&atilde;o que tinha esse instrumento. A obra de
+entalhador para as caixas dos org&atilde;os do XV e XVI seculos, e
+mesmo de alguns org&atilde;os do XVII seculo era independente do
+instrumento e servia para o resguardar, cobrindo-o. O mechanismo e os
+folles ficam inteiramente mettidos entre as almofadas macissas dos
+s&oacute;cos; as almofadas recortadas enchem os espa&ccedil;os
+rotos existentes entre a extremidade superior
+<span class="pagenum"><a name="p306">[306]</a></span>
+dos canudos e os tectos, afim de
+facilitar a emiss&atilde;o do som. A marceneria ornada de
+esculpturas e de polychromia e os canudos eram muitas vezes estampados
+e dourados. Tudo ficava encerrado por portas que o organista abria
+quando tocava; estas portas eram, as mais das vezes, ornadas, pelo
+menos na parte interna, com pinturas historicas que se viam quando
+servia o instrumento. Os org&atilde;os e as caixas, anteriores ao
+XVI seculo, s&atilde;o muitissimo raros.<br />
+
+<br />
+
+<h4>Alfaias religiosas</h4>
+
+<br />
+
+<em>Ourivesaria e esmaltadores</em>. No XIII
+seculo, a arte de ourives transformou-se completamente sob a influencia
+do novo estylo architectural. Durante o primeiro quartel e mesmo
+durante a primeira metade d'esse seculo, os vasos sagrados e os
+objectos do culto apresentavam ainda, &eacute; verdade, as mesmas
+f&oacute;rmas geraes que durante o periodo Roman; por&eacute;m
+o systema da decora&ccedil;&atilde;o teve
+modifica&ccedil;&otilde;es importantes. O artista, fosse quem
+fosse, esculptor, pintor ou ourives, ia procurar as suas
+inspira&ccedil;&otilde;es, jamais como precedentemente aos
+objectos byzantinos ou aos estofos orientaes, mas sim na flora do seu
+paiz; serviam-lhe de modelos os vegetaes indigenas e applicava-se
+interpretal-os artisticamente.<br />
+
+<br />
+
+As chapas esmaltadas e os engastes das joias, com algumas folhagens de
+filigrana, ficam geralmente em uso at&eacute; ao meiado do XIII
+seculo; continuando a dar o principal modelo de
+decora&ccedil;&atilde;o
+<span class="pagenum">[307]</span>
+para os objectos de grandes
+dimens&otilde;es, taes como os reliquarios e os frontaes dos
+altares.<br />
+
+<br />
+
+Todavia n'uma parte da Belgica, o uso dos esmaltes de c&ocirc;res
+desappareceu mais cedo que nas outras partes. Desde o primeiro quartel
+do seculo XIII, encontra-se, sobre as margens do
+<em>Lambre</em>, uma escola de ourives tendo em pratica
+principios inteiramente novos. &Aacute; frente d'esta escola e ao
+impulso artistico que produz, apparece o irm&atilde;o Hugo, frade
+Agostinho do priorado de
+<em>Oignies</em>. Este humilde religioso executou durante o
+primeiro quartel do XIII seculo, (um dos seus trabalhos tem a data de
+1220), em alguns annos, uma serie de obras-primas que ainda
+n&atilde;o foram imitadas, algumas das quaes teem resistido aos
+estragos dos tempos, e guardam-se devotamente no thesouro das freiras
+de Nossa Senhora em <em>Nemours</em>, produzindo a
+admira&ccedil;&atilde;o de todos os entendedores. Desprezando o
+emprego dos esmaltes com muitas c&ocirc;res, elle procurou o
+principal effeito de decora&ccedil;&atilde;o n'um trabalho
+original, que consiste
+em cobrir os objectos, no todo ou em parte, com delicadas folhagens
+formadas de cachos, de fl&ocirc;rsinhas e pequenas folhas
+estampadas, reunidas pela soldadura a delicados p&eacute;s. A estas
+folhagens ajuntava figuras de veados, c&atilde;es e
+ca&ccedil;adores, tudo produzido da mesma maneira. O tecido muito
+unido que resultava d'estes trabalhos era depois arribitado ou soldado
+sobre as differentes partes do objecto do qual elle abrangia todos os
+contornos.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[308]</span>
+Hugo empregou ainda as joias; mas &aacute;s vezes, em logar de
+disp&ocirc;l-as sobre chapas rectangulares e ligal-as pela
+filigrana, as dispunha artisticamente entre as suas delicadas
+folhagens. Al&eacute;m d'isto, seguindo o exemplo dos seus
+antecessores, n&atilde;o empregava camafeus e com gravuras concavas
+&aacute; maneira antiga, todas as vezes que n&atilde;o tinha
+joias novas para o seu trabalho.<br />
+
+<br />
+
+Quanto &aacute;s massas coloridas embutidas no metal, Hugo
+n&atilde;o conserva quasi o negro do buril que serve para
+tra&ccedil;ar as inscrip&ccedil;&otilde;es,
+ornamentos e tambem as figuras.<br />
+
+<br />
+
+Depois do meiado do XIII seculo, os objectos de ourivesaria
+principiaram pouco a pouco por imitar na sua f&oacute;rma e aspecto
+geral os monumentos de architectura: os relicarios, que antes eram
+cofres, sarcophagos, remedando o feitio dos edificios religiosos,
+vieram a ser pequeninas egrejas em ouro e prata: os relicarios tinham
+enfeites, por vezes remates, torrinhas ladeadas de contra-fortes e
+bastantes arcos; em uma palavra, as f&oacute;rmas elegantes e
+graciosas da architectura ogival foram copiadas nos objectos do culto.
+A cinzelura tambem faz cada vez mais progresso; e v&ecirc;-se mesmo
+a maior parte das vezes pequenos objectos apresentarem as esculpturas e
+altos relevos, o que n&atilde;o se fazia antes, excepto nos grandes
+objectos de ourivesaria.<br />
+
+<br />
+
+Os objectos de ourivesaria propriamente chamados conservam, no XIV
+seculo, as f&oacute;rmas que tinham precedentemente, isto
+&eacute;, imitam o aspecto
+<span class="pagenum">[309]</span>
+dos monumentos de architectura, ou,
+pelo menos, s&atilde;o decorados com certos detalhes
+architectonicos. Todavia na Fran&ccedil;a, e sem excesso na
+Belgica, os ourives executaram, para relicarios, estatuas pequenas de
+alto relevo, grupos e imita&ccedil;&otilde;es de membros de
+corpo humano, ou outros objectos que se desejava encerrar dentro
+d'elles. Desde o XIV seculo, os vasos sagrados e os outros objectos do
+culto perdem a nobre simplicidade do estylo grave da &eacute;poca
+precedente.<br />
+
+<br />
+
+No XV seculo os trabalhos de ourivesaria correctos
+differen&ccedil;avam pouco, quanto ao aspecto geral, dos do seculo
+anterior. As suas f&oacute;rmas patenteavam todavia as
+modifica&ccedil;&otilde;es successivas que teve a architectura
+n'esta &eacute;poca. Os ourives empregavam menos simplicidade nas
+suas composi&ccedil;&otilde;es, menos elegancia nas
+f&oacute;rmas, por&eacute;m o seu trabalho &eacute;
+geralmente mais apurado e mais delicado; levado por vezes
+at&eacute; &aacute;
+exaggera&ccedil;&atilde;o pelo acabamento e
+perfei&ccedil;&atilde;o dos pequenos detalhes.<br />
+
+<br />
+
+Quando empregavam ainda algumas esmaltes para real&ccedil;ar o oiro
+e a prata, os ourives do XIII seculo, como os seus predecessores do XII
+seculo, indicavam sobre o liso do metal o contorno das figuras, e
+dispunham depois todas as partes internas do desenho, quer por um
+cinzelado produzindo um relevo pouco saliente, quer, mais simplesmente
+ainda, por uma delicada gravura, cujos tra&ccedil;os refaziam o
+desenho dos contornos das figuras; emfim, abaixavam o fundo
+&aacute; roda das figuras e enchiam-no de um esmalte, geralmente
+escuro,
+<span class="pagenum"><a name="p310">[310]</a></span>
+adequado para fazer
+sobresair a composi&ccedil;&atilde;o.
+At&eacute; ao final do XIII seculo, os tra&ccedil;os da gravura
+delicada ficavam geralmente vasios; era s&oacute; excepcionalmente
+que os enchiam de preto. Mas, no come&ccedil;o d'esta
+&eacute;poca, enchiam-n'os quasi sempre de encarnado ou
+pardo-escuro.<br />
+
+<br />
+
+<em>Dinanderie</em>. D&aacute;-se o nome
+de <em>dinanderie</em> a um objecto de cobre ou
+lat&atilde;o coado e martellado, conforme o modo de fabricar esses
+objectos. Esta palavra tira a sua origem da cidade de
+<em>Dinant</em> sobre o <em>Meuse</em>, a qual
+tinha adquirido, na
+edade m&eacute;dia, uma grande fama pela
+execu&ccedil;&atilde;o de objectos de
+lat&atilde;o. Portanto, em virtude d'esta etymologia, alguns
+archeologos continuaram com o uso recebido,
+escrevendo&#8213;Dinan<em>te</em>rie, em logar de Dinan<em>de</em>rie.
+<br />
+
+<br />
+
+A arte de <em>dinanderie</em> estava prospera
+desde o fim do XI seculo nos Paizes-Baixos, e durante os seculos
+seguintes, os bate-folhas de cobre obtiveram de differentes soberanos
+muitos privilegios, que facilitaram a exporta&ccedil;&atilde;o
+dos productos de sua
+industria para Allemanha, Fran&ccedil;a, Inglaterra e todo o norte
+da Europa.<br />
+
+<br />
+
+As pias baptismaes executadas com este material, as primeiras de 1112,
+e as outras de 1149, ainda se conservam na Belgica.<br />
+
+<br />
+
+<em>Calices e Patenas</em>. A
+communh&atilde;o sob a especie de vinho tendo sido abolida na
+Egreja Latina, proximo do XII seculo, os calices
+<em>ministraes</em> com aza cessaram de ser empregados no
+Occidente, e a sua fabrica&ccedil;&atilde;o ficou completamente
+abandonada. Assim, todos os calices ministraes de origem occidental
+<span class="pagenum">[311]</span>
+s&atilde;o
+anteriores ao periodo ogival. Na Grecia e no Oriente, pelo contrario,
+onde a communh&atilde;o se dava ainda aos seculares sob as especies
+de p&atilde;o e vinho, o uso dos calices ministraes conservou-se
+at&eacute; ao presente.<br />
+
+<br />
+
+<em>Os calices vulgares</em>, isto
+&eacute;, os de uso do sacerdote que celebra a missa, teem
+geralmente no XIII seculo, como nos dois seculos precedentes, a
+ta&ccedil;a muito larga e pouco funda, o p&eacute; redondo e de
+grande diametro; a tige est&aacute; ornada de um n&oacute;
+grosso, composto muitas vezes de arestas salientes, mas raramente de
+medalh&otilde;es circulares.<br />
+
+<br />
+
+No XIV seculo, e mesmo no fim do XIII uma mudan&ccedil;a notavel se
+deu na f&oacute;rma dos calices. A ta&ccedil;a estreitou-se, e
+de hemispherica, como era antes, veiu a ser conica ou enfundibuliforme,
+isto &eacute;, similhando-se a um funil. A f&oacute;rma
+desegual, quasi desconhecida nos calices do XIII seculo, veiu a ser
+commum, sem todavia tomar uma grande importancia. A hastea, que durante
+a primeira metade do XIII seculo, era regularmente cylindrica,
+tornou-se angulosa e prismatica, tendo geralmente seis faces. Os lados
+do n&oacute; foram mudados para
+bot&otilde;es redondos, quadrados ou rhombos, egualmente em numero
+de seis, e quasi sempre embutidos de esmalte, gravuras ou joias. Sobre
+os seis bot&otilde;es est&atilde;o algumas vezes inscriptas as
+seis letras do nome de Jesus, como ortographavam ent&atilde;o:
+IHESUS. O p&eacute; est&aacute; dividido em seis lobulos
+ornados de esmaltes e de gravuras a tra&ccedil;o representando
+imagens, e mesmo composi&ccedil;&atilde;o completa; estes
+lobulos
+<span class="pagenum">[312]</span>
+correspondem
+&aacute;s faces da hastea e aos
+bot&otilde;es do n&oacute;. O s&oacute;co do p&eacute;
+est&aacute;
+recortado em folhas de trevo, quatro folhas ou arcaduras; seu diametro,
+sempre menor que o dos calices romans, conserva n&atilde;o obstante
+uma base bastante larga para evitar a qu&eacute;da. Em resumo, os
+calices do XIV seculo, comparados com os dos seculos precedentes, tem
+mais altura, mas o diametro da ta&ccedil;a e do p&eacute;
+&eacute; muito menor.<br />
+
+<br />
+
+A f&oacute;rma geral dos calices do XV seculo &eacute; pouco
+mais ou menos a mesma dos calices do XIV seculo. Todavia, em certos
+paizes, por exemplo na Belgica, observa-se que os lobulos do
+p&eacute;, as faces das hasteas e os bot&otilde;es do
+n&oacute; teem muitas vezes o numero oito em logar de seis. Esta
+mudan&ccedil;a foi introduzida proximo do meiado do XV seculo.<br />
+
+<br />
+
+A <em>patena</em> do periodo ogival tem como
+a do periodo roman, a f&oacute;rma de uma pequena salva,
+apresentando no meio uma cavidade circular. O fundo da salva traz
+muitas vezes, gravado a tra&ccedil;o, um circulo ou um quadrilobo,
+circumdando quer o Cordeiro Divino, quer a M&atilde;o com aureola
+que symbolisa a Divindade, quer qualquer outro assumpto. Colloca-se
+algumas vezes uma pequena cruz sobre a borda da salva.<br />
+
+<br />
+
+<em>Galhetas</em>. Existem raros especimens
+de galhetas da &eacute;poca ogival. Havia-as de cobre esmaltado e
+em crystal de rocha com guarni&ccedil;&atilde;o de prata
+cinzelada
+e algumas de prata dourada com guarni&ccedil;&otilde;es
+gravadas.<br />
+
+<br />
+
+Durante a edade m&eacute;dia serviram-se tambem
+<span class="pagenum"><a name="p313">[313]</a></span>
+mais frequentemente de galhetas de
+vidro, mas por causa da fragilidade da materia, muito poucos objectos
+d'esta especie escaparam da destrui&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+<em>Custodias Eucharisticas</em>. Em alguns
+paizes, particularmente em Fran&ccedil;a, a Eucharistia continuou,
+durante o periodo ogival, a estar conservada, como anteriormente, nas
+pombas douradas e esmaltadas, collocada, a maior parte das vezes, em
+uma torresinha ou pequena tenda forradas de telas custosas, ficando
+suspensa por cima do altar, quer sob a pyxide, quer no baculo de metal.
+<br />
+
+<br />
+
+No XIII, no XIV, e mesmo ainda durante uma parte do XV seculo, as
+pyxides eram geralmente como as do periodo Roman, de muito pequeno
+tamanho, porque, at&eacute; proximo do meiado do XV seculo, serviam
+s&oacute;mente para conservar o numero necessario de hostias de que
+havia precis&atilde;o para a communh&atilde;o dos doentes em
+perigo de vida. Os fieis que podiam assistir aos officios religiosos,
+recebiam a Santa Eucharistia depois da communh&atilde;o do
+sacerdote, com as especies consagradas durante a missa, sendo
+distribuidas servindo-se da patena.<br />
+
+<br />
+
+Quasi todas as pyxides do periodo ogival eram de metal; as de marfim e
+cobre n&atilde;o apparecem sen&atilde;o excepcionalmente.<br />
+
+<br />
+
+<em>As pyxides sem p&eacute;</em>, de
+cobre dourado e esmaltado, compostas de pequenas caixas cylindricas,
+tendo uma tampa de f&oacute;rma de cone, ficaram em uso pelo menos
+at&eacute; o XVI seculo; empregando-se principalmente para levar o
+Viatico aos enfermos.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[314]</span>
+Encontram-se ainda presentemente muitas d'estas pyxides, mais ou menos
+valiosas e ornadas. N&atilde;o poucas devem a sua
+conserva&ccedil;&atilde;o a
+esta circumstancia, que depois da introduc&ccedil;&atilde;o das
+grandes pyxides aproveitaram-nas para guardar as reliquias destinadas a
+ficar chancelladas no altar no momento da
+consagra&ccedil;&atilde;o: portanto, n&atilde;o
+&eacute; raro encontrarem-se nos desmanchos dos altares do XVI e
+XVII seculos.<br />
+
+<br />
+
+As pyxides <em>pediculares</em>, isto
+&eacute;, tendo um p&eacute;, que eram raras antes, vieram a
+ser as mais communs desde o XVIII seculo. Algumas destinadas a ficarem
+suspensas por cima do altar, sob o sacrario, ou na voluta do baculo,
+teem o p&eacute; muito pequeno, e a ta&ccedil;a assim como a
+tampa bastante grandes e quasi hemisphericas, de maneira a formar
+reunidas uma bola &ocirc;ca, geralmente um pouco achatada.<br />
+
+<br />
+
+No seculo XII, as pyxides, em logar de ficarem suspensas por cima do
+altar, foram postas nos sacrarios, deram-lhes regularmente um
+p&eacute; mais alto, similhante aos dos calices e dos relicarios.
+No principio, bastava collocar sobre um p&eacute; as pequenas
+pyxides de cobre dourado e esmaltado; depois fizeram tambem as pyxides
+em metal com cinzelados e rebatidos, vindo a ser unicamente usadas. As
+mais antigas da ultima especie teem a ta&ccedil;a e o p&eacute;
+circular.<br />
+
+<br />
+
+No XIV seculo, a ta&ccedil;a e a tampa tiveram a f&oacute;rma
+hexagonal, isto &eacute;, seis faces, e o p&eacute; divide-se
+em seis lobulos.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[315]</span>
+Durante a ultima metade do XIV seculo e todo o XV seculo, as pyxides
+pediculadas t&ecirc;em muitas vezes as arestas da tampa decorada de
+crochetes; os angulos formados pela intersec&ccedil;&atilde;o
+dos seis
+lados da ta&ccedil;a, sendo flanqueados de contra-fortes, e os
+lados tambem ornados de arcaduras com ou sem estatuasinhas.<br />
+
+<br />
+
+Quando no XV seculo, ficou introduzido o costume de conservar o maior
+numero de hostias consagradas, afim de poder dar a communh&atilde;o
+aos fieis, mesmo sem ser na occasi&atilde;o da missa, as pyxides
+tiveram dimens&otilde;es muito maiores. Continuou-se geralmente a
+dar-lhe f&oacute;rmas architecturaes, por&eacute;m essas
+f&oacute;rmas vieram a ser, sobretudo na Allemanha, mais altas e
+mais complicadas ajuntando-se arcos-butantes aos contra-fortes e
+&aacute;s arcaduras com as quaes j&aacute; as ornavam
+precedentemente. Em Fran&ccedil;a e na Belgica, appareceram proximo
+do final do XV seculo as pyxides esphericas, cuja f&oacute;rma faz
+lembrar a dos antigos ciborios suspensos. N&atilde;o &eacute;
+raro, al&eacute;m d'isso, achar pyxides
+transformadas em relicarios.<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o ser&aacute; inutil aqui repetir, que, salvo raras
+excep&ccedil;&otilde;es, todas as pyxides anteriores ao XVI
+seculo teem a tampa presa &aacute; ta&ccedil;a por um gonzo.<br />
+
+<br />
+
+<em>Custodias</em>. A solemnidade do
+<em>Corpus Domini</em>, ou festa do Corpo de Deus,
+instituida em Li&egrave;ge em 1246, e extensiva &aacute; Egreja
+Universal, dezoito annos mais tarde pelo pontifice Urbano IV, trouxe o
+uso de exp&ocirc;r publicamente o Santissimo Sacramento
+&aacute; venera&ccedil;&atilde;o dos fieis. Foi este uso
+que
+<span class="pagenum">[316]</span>
+deu origem ao vaso
+chamado <em>custodia</em>,
+ou
+<em>apresenta&ccedil;&atilde;o</em> nome derivado
+dos verbos latinos
+<em>ostendere</em> e <em>monstrare</em>,
+significam, um e outro,
+<em>mostrar</em>.<br />
+
+<br />
+
+No principio, parece que o <em>Santissimo
+Sacramento</em>, estava exposto publicamente nas pyxides
+<em>transparentes</em> com cruzes e torrinhas cheias de
+aberturas; mas, dentro em pouco adoptaram-se, geralmente as custodias.<br />
+
+<br />
+
+Algumas d'estas custodias primitivas apresentam a maior analogia com os
+relicarios expostos contemporaneos. S&atilde;o pequenos edificios
+de metal, com recortes, tendo um p&eacute; e furados sobre dois ou
+muitos dos seus lados, com aberturas, as mais das vezes sob a
+f&oacute;rma de janella ogival.<br />
+
+<br />
+
+As custodias mais communs durante todo o periodo ogival, foram as de <em>cylindro</em>,
+assim
+designadas porque s&atilde;o formadas d'um cylindro de crystal ou
+de vidro posto sobre um p&eacute; de metal. No XIV, XV e XVI
+seculos, o cylindro tem geralmente por cima um campanariosinho e nos
+flancos contra-fortes e arcos-butantes, igualmente de metal. Depois do
+XIII seculo, o campanariosinho e o pinaculo n&atilde;o
+s&atilde;o usados. A hostia colloca-se no interior do cylindro
+n'uma luneta sustentada por um ou mais anjos. O p&eacute; e o
+n&oacute; d'estas custodias
+apresentam a maior similhan&ccedil;a com os calices e as pyxides
+contemporaneas; todavia, o diametro do p&eacute; &eacute;
+geralmente maior nas custodias que nas pyxides e calices.<br />
+
+<br />
+
+As custodias em que o cylindro de crystal &eacute; substituido por
+um <em>sol radiante</em>
+vieram a ser geraes
+<span class="pagenum"><a name="p317">[317]</a></span>
+desde o
+XVI seculo. Antes d'esta epocha, eram extremamente raras, e
+s&oacute;mente se conhecem pela noticia que se encontra nos
+inventarios dos thesouros das egrejas pertencentes ao XV seculo.<br />
+
+<br />
+
+<em>Relicarios</em>. Os relicarios do periodo
+ogival apresentam f&oacute;rmas t&atilde;o variadas como os da
+epocha Roman. Seria difficil descrevel-os todos; occupar-nos-hemos dos
+principaes.<br />
+
+<br />
+
+<em>Relicario da vera Cruz</em>. Como
+precedentemente dava-se muitas vezes a estes relicarios a
+f&oacute;rma d'uma cruz com travessa dupla; por&eacute;m
+empregavam-se os ornatos proprios da ourivesaria da epocha ogival. A
+maior parte d'estas
+<em>cruzes-relicarios</em>, sobretudo as mais bellas,
+s&atilde;o do XIII seculo.<br />
+
+<br />
+
+Depois d'essa epocha abandonou-se o costume de encaixilhar os
+relicarios da vera cruz, nas cruzes relicarias com travessa dupla, e
+serviram-se geralmente da cruz com uma unica travessa.<br />
+
+<br />
+
+Deu-se tambem algumas vezes a f&oacute;rma de uma cruz aos
+relicarios contendo reliquias de santo; mas n'este caso a cruz tem
+sempre uma s&oacute; travessa.<br />
+
+<br />
+
+No XIII seculo, os relicarios da vera cruz, collocados n'uma pequena
+cruz ou bocota, eram ainda &aacute;s vezes, como durante o periodo
+Roman, encaixilhados dentro de placas metallicas fixas sobre o meio da
+madeira e ornados de esmaltes, gravuras e cinzelados de maneira a
+formar uma especie de quadro com portas de metal ou madeira pintada.<br />
+
+<br />
+
+<em>Relicario da cor&ocirc;a com
+espinhos</em>. Os espinhos
+<span class="pagenum">[318]</span>
+da cor&ocirc;a trazida pelo
+Redemptor durante a sua
+paix&atilde;o, eram collocados regularmente em cor&ocirc;as de
+ouro ou de prata enriquecidas de joias. Algumas d'estas
+cor&ocirc;as, feitas no Oriente, foram enviadas para a Europa
+Occidental pelos imperadores que as conquistas dos cruzados tinham
+collocado sobre o throno de Constantinopla.<br />
+
+<br />
+
+A Santa Cor&ocirc;a de espinhos que tinha vindo em poder dos
+cavalleiros cruzados em seguida &aacute;s suas conquistas no
+Oriente, ficou conservada religiosamente no throno sagrado do novo
+imperio byzantino at&eacute; 1237, epocha em que o imperador
+Bauduino II foi obrigado a dal-a em penhor aos commerciantes
+venezianos, os quaes lhe haviam feito um emprestimo da quantia de
+quatro mil marcos de prata para occorrer &aacute;s necessidades
+mais urgentes das finan&ccedil;as imperiaes.<br />
+
+<br />
+
+Pouco tempo depois, S. Luiz IX, rei de Fran&ccedil;a, tendo tido a
+felicidade de occupar o logar dos emprestadores, ficando responsavel
+pela quantia entregue, p&ocirc;de obter a preciosa reliquia, e a
+fez transportar para Fran&ccedil;a por dois frades dominicanos.<br />
+
+<br />
+
+O santo rei mandou p&ocirc;r muitos espinhos nas cor&ocirc;as
+do mesmo feitio que tinha a cor&ocirc;a real, e presenteou com
+ellas um certo numero de estabelecimentos religiosos.<br />
+
+<br />
+
+Os Santos Espinhos foram tambem por vezes encaixilhados em relicarios
+mais simples e d'um feitio differente.<br />
+
+<br />
+
+Os relicarios do periodo ogival apresentam o mesmo aspecto que os do
+XII seculo, isto &eacute;, teem
+<span class="pagenum">[319]</span>
+a f&oacute;rma d'um cofre oblongo,
+fechado por uma tampa imitando um telhado com duas aguas.<br />
+
+<br />
+
+Os grandes relicarios do XIII seculo s&atilde;o cofres de madeira
+coberta com chapas de metal esmaltado, cinzelado e por vezes
+simplesmente gravado. Quasi todos s&atilde;o rectangulares; ha
+todavia, por exemplo, a grande caixa das reliquias de Nossa Senhora de <em>Aix-la-Chapelle</em>,
+que se
+v&ecirc; sobre os seus dois compridos lados, saliencias que a faz
+parecer com uma egreja tendo um cruzeiro. As suas faces verticaes
+s&atilde;o ornadas de estatuasinhas de ouro, prata ou de cobre
+dourado, ficando collocados debaixo de doc&eacute;is ou arcaduras.
+Jesus Christo aben&ccedil;oando, sentado ou de p&eacute;,
+s&oacute; ou
+entre dois santos, se v&ecirc;, como nos relicarios Romans, sobre
+um dos dois pequenos lados formando empena, emquanto o outro lado fica
+occupado por Nossa Senhora, ou pelo Santo cujas reliquias se conservam
+no relicario, igualmente collocado entre dois santos.<br />
+
+<br />
+
+Os dois lados compridos est&atilde;o divididos n'um certo numero de
+compartimentos tendo como remates front&otilde;es dentro dos quaes
+est&atilde;o inscriptas ogivas quasi sempre trilobaes. Estes
+compartimentos formam doc&eacute;is ou arcaduras, mostrando
+estatuasinhas dos apostolos ou de outros santos assentados.<br />
+
+<br />
+
+Sobre as abas da tampa ha figuras em p&eacute; ou baixos relevos
+representando os mysterios da vida de Jesus Christo e os principaes
+factos do corpo que encerra o relicario.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[320]</span>
+Finalmente, algumas vezes a aresta superior do cofre, e mesmo os lados
+inclinados dos front&otilde;es, teem na summidade folhagens de
+esmerado lavor, interrompidas de distancia a distancia, por
+cast&otilde;es.<br />
+
+<br />
+
+As linhas inclinadas dos front&otilde;es, os doc&eacute;is, os
+molduramentos e os fustes das columnasinhas que sustentam os
+doc&eacute;is est&atilde;o bastantes vezes cheios de esmaltes e
+filigranas como se fazia precedentemente.<br />
+
+<br />
+
+Desde o final do XIV seculo, os relicarios em metal perdem o aspecto de
+feretro ou cofre, como haviam tido at&eacute; ent&atilde;o;
+transformam-se pouco a pouco e tomam a apparencia de capellas e mesmo
+de pequenas egrejas.<br />
+
+<br />
+
+Alguns relicarios do XIV seculo fingem, d'uma maneira extremamente
+caracterisada as f&oacute;rmas
+architectonicas: representando rosaceas, galerias, campanariosinhos e
+contrafortes; os seus doc&eacute;is e front&otilde;es teem as
+inclina&ccedil;&otilde;es dos
+contornos decorados de crochetes acabando no feitio d'um
+flor&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+O maior numero dos relicarios metallicos dos XV e XVI seculos imitam
+servilmente a maneira de se construirem os monumentos de cantaria;
+vindo a ser reproduc&ccedil;&otilde;es em pequeno das grandes
+egrejas
+ogivaes. Tendo egualmenle arcos-butantes, na summidade recortes,
+parapeitos vasados em trefles ou de quatro folhas, uma nave principal e
+as lateraes, etc., e &aacute;s vezes tambem uma torre se ergue no
+centro do espig&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+Usaram tambem, durante o periodo ogival, de
+<span class="pagenum">[321]</span>
+<em>relicarios de madeira</em>
+cobertos de
+pinturas representando assumptos religiosos que recordam geralmente os
+principaes factos da vida do santo que cont&eacute;m o relicario.<br />
+
+<br />
+
+O relicario de madeira mais notavel como objecto d'arte por causa de
+suas pinturas, &eacute; o de Santa Ursula, que est&aacute; no
+hospital de S. Jo&atilde;o em Burges. Tem a data do XV seculo e
+constitue uma das obras primas do pintor Hans Memlinc.<br />
+
+<br />
+
+Ha tambem poucos exemplares de relicarios de pedraria do periodo
+ogival.<br />
+
+<br />
+
+Os relicarios n&atilde;o cont&eacute;m sempre os corpos
+inteiros dos santos, e s&atilde;o tambem destinados a
+conservar reliquias diversas.<br />
+
+<br />
+
+<em>Bustos, bra&ccedil;os, p&eacute;s,
+estatuasinhas</em>, etc. O uso de conservar as reliquias dos
+santos dentro de bustos ou nos relicarios preciosamente ornados
+imitando a f&oacute;rma dos ornatos a que os relicarios pertenciam
+j&aacute; no periodo roman, manteve-se durante toda a epocha
+ogival, e encontram-se ainda muitos exemplares do periodo do
+renascimento.<br />
+
+<br />
+
+O maior <em>busto-relicario</em> conhecido,
+pois mede 1<sup>m</sup>,62 centimetros de altura e um dos
+mais magnificamente
+ornados, &eacute; o de S. Lamberto da cathedral de
+Li&egrave;ge, obra de 1506 a 1512. &Eacute; de prata dourada e
+est&aacute; posto sobre um plintho decagono decorado de seis baixos
+relevos representando differentes scenas da vida do santo bispo de
+Maestricht. O bispo est&aacute; paramentado com as vestes
+pontificaes e todo coberto de joias e perolas.<br />
+
+<br />
+
+Os ossos dos bra&ccedil;os e dos p&eacute;s est&atilde;o
+muitas vezes
+<span class="pagenum">[322]</span>
+introduzidos nos relicarios apresentando a f&oacute;rma d'esses
+membros do corpo humano. Nos relicarios de f&oacute;rma de
+bra&ccedil;o, a m&atilde;o fica sempre
+representada <em>benzendo</em> &aacute; maneira
+Latina.<br />
+
+<br />
+
+No thesouro da egreja de Nossa Senhora de Tongres ha sete relicarios
+com a f&oacute;rma de bra&ccedil;os. Dois s&atilde;o do
+final do XIII ou principio do XIV seculo, estando compostos de chapas
+de prata com faxas de cobre dourado guarnecido de joias e filigranas;
+os outros cinco s&atilde;o de madeira pintados e dourados. Os tres
+mais admiraveis e preciosos, t&ecirc;em dois a f&oacute;rma
+d'um p&eacute;, e no terceiro, com a
+f&oacute;rma de meia lua, guarda-se uma costella do apostolo S.
+Pedro.<br />
+
+<br />
+
+Ha tambem relicarios apresentando o feitio de estatuasinhas. Geralmente
+as reliquias est&atilde;o contidas em um pequeno cylindro de
+crystal, guarnecido de prata ou cobre dourado, fechado nas duas
+extremidades e posto ao lado da estatuasinha ou trazendo-o na
+m&atilde;o. Algumas vezes, posto que raramente, est&atilde;o
+fixos n'um medalh&atilde;o ou pequena cruz, sobre o peito ou sobre
+outra qualquer parte da estatuasinha.<br />
+
+<br />
+
+<em>Mostrador-relicario</em>. Estes
+relicarios comp&otilde;em-se de vasos de crystal ou de qualquer
+outra materia transparente, engastados em obra de ourivesaria, onde se
+mettem as reliquias, depois de as ter embrulhado em pellica, seda ou
+estofo, tecidos de ouro ou prata. Estes vasos, geralmente de
+f&oacute;rma de cylindro &ocirc;co, p&otilde;em-se muitas
+vezes n'uma
+posi&ccedil;&atilde;o vertical, e ficam limitados por um remate
+tambem conico. O maior numero dos mostradores-relicarios
+<span class="pagenum">[323]</span>
+s&atilde;o postos sobre
+p&eacute;s similhantes aos
+dos calices e das custodias; alguns s&atilde;o sustentados por
+anjos ou levitas; finalmente ha os que ficam postos sobre um
+s&oacute;co; por vezes acontece n&atilde;o
+terem essa base.<br />
+
+<br />
+
+No XIII seculo, e mesmo ainda &aacute;s vezes no seculo seguinte,
+os ourives, &aacute; imita&ccedil;&atilde;o das
+obras dos esculptores contemporaneos, iam buscar os feitios de
+decora&ccedil;&atilde;o para os mostradores-relicarios
+&aacute;s reliquias nos engastes das joias, &aacute;s
+filigranas e as folhagens imitando a flora indigena.<br />
+
+<br />
+
+Ao come&ccedil;ar do XIV seculo, muitos relicarios fingem
+f&oacute;rmas architecturaes e imitam mais ou menos certas partes
+dos edificios do estylo ogival. Os feitios da
+decora&ccedil;&atilde;o tirados at&eacute; ali
+ao reino vegetal, d&atilde;o logar para formar pinaculos,
+contra-fortes, arcosbutantes e doc&eacute;is, estando delicadamente
+lavrados e executados, n&atilde;o pela
+imita&ccedil;&atilde;o servil dos edificios de cantaria, mas
+com uma intelligencia apurada que distingue todas as
+produc&ccedil;&otilde;es artisticas da idade media e que
+attendiam &aacute; natureza da materia que se punha em obra. O
+ourives, posto que conservasse as f&oacute;rmas geraes da
+architectura, dava-lhes uma leveza que seria impossivel, se fosse
+executada na pedra.<br />
+
+<br />
+
+Quando o cylindro ficava na posi&ccedil;&atilde;o vertical, a
+f&oacute;rma do mostrador-relicario confundia-se geralmente com a
+das custodias, como j&aacute; referimos.<br />
+
+<br />
+
+V&ecirc;em-se tambem algumas veze
+V&ecirc;em-se tambem algumas vezes relicarios com cylindro vertical
+e feitio da decora&ccedil;&atilde;o imitando
+a architectura, n&atilde;o tendo peanha.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[324]</span>
+Quando, pelo contrario, o cylindro tem a posi&ccedil;&atilde;o
+horisontal, &eacute; geralmente executado em obra de ourivesaria de
+f&oacute;rma de egreja com uma ou mais naves, encimado d'uma
+torresinha elevada e ligada por arcos-butantes sahindo do engaste que
+encerra o cylindro.<br />
+
+<br />
+
+<em>Phylacteras</em>. N&atilde;o podemos
+deixar de mencionar uma outra f&oacute;rma de relicarios que foi
+commum no XII e no XIII seculos. Estes objectos comp&otilde;em-se
+de pequenos moldes de madeira cobertos de prata e cobre dourado e
+esmaltado, sobre os quaes est&atilde;o tra&ccedil;adas, em
+esmalte ou relevo, imagens, scenas historicas e legendarias,
+emmolduradas n'uma cercadura de filigrana recamada de joias sem serem
+lapidadas. Muitas vezes mesmo as representa&ccedil;&otilde;es
+dos assumptos, das figuras e symbolos faltam inteiramente. As costas,
+formadas igualmente d'uma chapa de metal, s&atilde;o ornadas de
+lavores, gravuras ou pinturas. T&ecirc;em sempre pequenas
+dimens&otilde;es (o seu diametro n&atilde;o &eacute; de
+mais que dois a tres decimetros), e f&oacute;rma redonda, ellyptica
+ou, as mais das vezes, com quatro folhas. Alguns archeologos lhes
+d&atilde;o o nome especial de
+<em>phylacteras</em>, posto que, conforme a etymologia,
+este nome, derivado do grego, <em>guardar</em>, designa
+qualquer
+especie de custodia ou recipiente, e deveria por conseguinte
+applicar-se indistinctamente a todos os relicarios.<br />
+
+<br />
+
+Algumas vezes as phylacteras s&atilde;o, como os relicarios de
+cylindro de crystal, postas sobre um p&eacute; de metal com figuras
+de anjos ou de santos.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[325]</span>
+<em>Cofres-relicarios</em>. Continuou-se,
+durante o periodo ogival, a encerrar as reliquias dos santos nos cofres
+de metal, madeira, marfim e couro com figuras em relevo. &Eacute;
+bastante raro achar, sobre estes cofres, scenas historicas ou symbolos
+religiosos.<br />
+
+<br />
+
+No XV seculo principiou-se a fazer cofres de ferro, e o seu uso
+n&atilde;o se demorou a generalisar. N&atilde;o devemos pois
+admirar-nos, se um grande numero d'estes objectos curiosos
+t&ecirc;em sido conservados at&eacute; ao presente. A maior
+parte eram destinados a uso profano: guardavam joias e outros objectos
+preciosos. Ha todavia alguns que serviram de relicarios, principalmente
+os que t&ecirc;em
+inscrip&ccedil;&otilde;es religiosas, como&#8213;AVE MARIA GRATIA
+PLENA e O MATER DEI MEMENTO MEI.<br />
+
+<br />
+
+&Aacute;s vezes estes cofres eram inteiramente de ferro; sendo
+todavia formados d'uma caixa de carvalho ou de faia forrada de couro
+encarnado, sobre o qual assentava uma chapa de ferro recortada e segura
+por enfeites de ferro. O ferrolho tinha &aacute;s vezes a
+f&oacute;rma d'um lagarto ou de salamandra. A maior parte d'estes
+cofres eram cobertos de flor&otilde;es scintillantes, o que faz
+v&ecirc;r que no XV seculo os serralheiros como os ourives iam
+buscar &aacute; architectura as suas principaes f&oacute;rmas
+de
+decora&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+Os cofres de marfim, dos quaes se haviam servido muitas vezes para os
+relicarios durante o periodo Roman, ficaram em uso at&eacute;
+&aacute; epocha ogival juntamente com os de madeira, de metal e de
+couro.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[326]</span>
+<em>Trombetas-relicarios</em>. N&atilde;o
+&eacute; raro achar, nos thesouros de egrejas, antigas trombetas de
+guerra e de ca&ccedil;a transformadas em relicarios. Durante a
+idade media, os christ&atilde;os n&atilde;o receiavam empregar
+no culto certos objectos profanos emquanto &aacute; sua origem e
+&aacute; sua
+ornamenta&ccedil;&atilde;o, mais preciosos como materia ou como
+obra d'arte. J&aacute; assignalamos esta pratica para os
+camaf&ecirc;os e pedras antigas gravadas concavamente, das quaes os
+ourives da idade media frequentemente faziam uso para dar mais brilho
+ao metal nos differentes objectos para o culto; encontrando-se tambem
+nas trombetas dos ca&ccedil;adores de que tratamos agora e dos
+esmoleres de que fallaremos depois.<br />
+
+<br />
+
+Quasi todas as trombetas-relicarios s&atilde;o de marfim e
+apresentam a mesma f&oacute;rma, imitando a defeza do elephante de
+cuja materia eram fabricadas. &Eacute; do nome d'este animal, que
+as trombetas de marfim t&ecirc;em tirado o de
+<em>olifante</em>, pelos quaes s&atilde;o geralmente
+conhecidos. Na idade media o
+<em>olifante</em> era tanto se n&atilde;o fosse mais,
+um instrumento de guerra como para a ca&ccedil;a; servia
+principalmente para dar signal de commando, reunir as tropas e
+annunciar a presen&ccedil;a do inimigo.<br />
+
+<br />
+
+Os elephantes e as trombetas est&atilde;o guarnecidos de aros de
+metal, floreado com flor&otilde;es ou redentados que facilitam
+suspendel-os em bandoleira. Estas virolas, algumas mostrando a
+cabe&ccedil;a de bezerro, est&atilde;o fixas nas duas
+extremidades, e de distancia em distancia sobre o comprimento do
+objecto. Algumas vezes tambem ornam-se os elephantes
+<span class="pagenum"><a name="p327">[327]</a></span>
+de esculpturas em baixo-relevo, e
+ent&atilde;o as virolas n&atilde;o t&ecirc;em ornatos.<br />
+
+<br />
+
+As principaes officinas para a esculptura dos oliphantes e guarnecel-as
+de metal existiam durante a idade media no Norte de Fran&ccedil;a,
+principalmente em Abbeville e Paris.<br />
+
+<br />
+
+Encontram-se tambem trombetas relicarios em chifre de boi e de bufalo;
+posto que guarnecidas pela mesma maneira que os
+<em>oliphantes</em>, s&atilde;o todavia faceis de
+reconhecer, n&atilde;o s&oacute;mente pela sua c&ocirc;r,
+mas ainda
+pela sua curva muito mais fechada, approximando-se geralmente d'um
+semi-circulo.<br />
+
+<br />
+
+<em>Esmoleres-relicarios</em>. Chama-se
+<em>esmoler</em> a uma pequena bolsa com cord&otilde;es
+ou fechos, que se traz suspenso &aacute; cintura para guardar o
+dinheiro e os objectos de servi&ccedil;o habitual. Estas bolsas,
+que formavam na idade media o complemento indispensavel do vestuario
+dos dois sexos, eram de couro ou estofos de pre&ccedil;o.
+Dava-se-lhes tambem o nome de algibeira.<br />
+
+<br />
+
+A f&oacute;rma mais antiga &eacute; d'uma pequena bolsinha com
+dois cord&otilde;es de correr para fechar, e d'um outro
+cord&atilde;o para suspender &aacute; cintura. Mais tarde
+supprimiram-se os cord&otilde;es e dobraram na frente do bolsinho
+uma parte do estofo, que se levantava quando se queria introduzir a
+m&atilde;o no esmoler.<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o se tem conservado at&eacute; ao presente esmoleres
+de estofo, e mesmo os de couro n&atilde;o se encontram
+sen&atilde;o casualmente. Entre estes estofos uns s&atilde;o de
+seda lavrada, outros t&ecirc;em bordados
+sobre linho ou seda com fios de ouro ou seda de differentes
+<span class="pagenum">[328]</span>
+c&ocirc;res
+tra&ccedil;ando simples ornamentos,
+symbolos e mesmo algumas vezes assumptos.<br />
+
+<br />
+
+Na idade media serviam-se, muitas vezes dos esmoleres para embrulhar as
+reliquias dos santos e deposital-as nos relicarios. &Eacute; mesmo
+a esta circumstancia que deve ter-se conservado um grande numero
+d'esses curiosos objectos, o que serve tambem para se explicar
+acharem-se nos thesouros das egrejas. Poucas vezes esses esmoleres
+mostram symbolos ou assumptos religiosos; no maior numero
+v&ecirc;em-se simples ornamentos; algumas vezes mesmo
+est&atilde;o decorados com assumptos profanos.<br />
+
+<br />
+
+<em>Relicarios diversos</em>. Al&eacute;m
+dos relicarios que acabamos de descrever por classes, ha tambem outros
+de que seria impossivel formar grupo, havendo infinita variedade, e ao
+mesmo tempo um gosto singular, que os artistas de todo o periodo ogival
+empregaram no feitio d'esses objectos.<br />
+
+<br />
+
+<em>Custodias</em> <span class="smallcaps">d'Agnus
+Dei</span>. Chama-se <em>Agnus
+Dei</em> a pequenos medalh&otilde;es de cera branca, de
+f&oacute;rma
+circular ou oval, ornados sobre as duas faces com a
+impress&atilde;o d'um cordeiro deitado, uma cruz de
+resurrei&ccedil;&atilde;o, estandarte e tendo dois ou tres
+gui&otilde;es fluctuantes. Por baixo do cordeiro ha n'um segmento
+de circulo, o nome do Pontifice que benzeu o objecto. N'uma epocha
+bastante recente, tem-se muitas vezes completado esta
+indica&ccedil;&atilde;o, ajuntando-se-lhe o anno do
+pontificado; havendo-se substituido ao cordeiro collocado no reverso do
+medalh&atilde;o, o braz&atilde;o d'armas do papa ou uma
+<span class="pagenum">[329]</span>
+imagem. Em exergo
+l&ecirc;-se quasi sempre: AGNE DEI MISERERE MEI QUI CRIMINA TOLLIS.
+<br />
+
+<br />
+
+Desde o IV seculo &eacute; provavel se estabelecesse o uso de
+aproveitar, no domingo depois da Paschoa, os restos do cirio paschal do
+anno precedente para o dividir em pequenos fragmentos e distribuil-os
+depois aos fieis, os quaes os levavam comsigo para suas casas e serviam
+como objecto bento de devo&ccedil;&atilde;o. &Eacute;
+n'esta pratica ao
+presente conservado em algumas dioceses com as
+modifica&ccedil;&otilde;es accessorias, que se acha a origem da
+devo&ccedil;&atilde;o dos <em>Agnus Dei</em>. Em
+Roma, principiaram
+cedo a ajuntar cera pura e oleo aos fragmentos do cirio paschal e com
+esta mistura, se moldavam medalh&otilde;es em forma de distico,
+tendo a effigie do cordeiro Divino. Estes medalh&otilde;es eram
+j&aacute; conhecidos em Roma perto do fim do VI seculo. Mais tarde,
+e ainda presentemente, os restos do cirio paschal foram completamente
+excluidos da materia dos <em>Agnus Dei</em>, e serviram-se
+unicamente da c&ecirc;ra sem nenhuma addi&ccedil;&atilde;o
+de
+substancias estranhas, que o soberano Pontifice mergulha durante algum
+tempo em agua benta misturada dos Santos Oleos e de balsamo puro.<br />
+
+<br />
+
+Em todos os tempos os <em>Agnus Dei</em>
+t&ecirc;em sido recebidos pelos fieis com grande
+venera&ccedil;&atilde;o, e muitas vezes encerrados em pequenas
+bocetas de metal mais ou menos precioso, cuja forma e
+ornamenta&ccedil;&atilde;o
+apresentam a maior analogia com os dos relicarios. Estas bocetas
+t&ecirc;em geralmente uma argola para se suspender; s&atilde;o
+circulares
+<span class="pagenum">[330]</span>
+como os antigos <em>Agnus
+Dei</em>, trazendo
+em exergo a legenda como est&aacute;: AGNE, (ou mais vezes ainda
+AGNUS) DEI MISERERE MEI QUI CRIMINA TOLLIS, ou uma outra
+ora&ccedil;&atilde;o. S&atilde;o
+muitas vezes recortadas de maneira a mostrarem uma maior ou menor parte
+da c&ecirc;ra. Os espa&ccedil;os que occupam o metal
+s&atilde;o ora dispostos em simples cruz grega tendo na
+intersec&ccedil;&atilde;o dos ramos, um
+medalh&atilde;o cinzelado, gravado ou esmaltado, ora em relevo sob
+a f&oacute;rma de cordeiro, imagens, ou simples flor&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+Os mais antigos <em>Agnus Dei</em>
+conservados at&eacute; ao presente n&atilde;o v&atilde;o
+al&eacute;m do principio do
+XIV seculo; por&eacute;m os d'uma epocha posterior encontram-se com
+bastante frequencia.<br />
+
+<br />
+
+<em>Armarios para reliquias</em>. Os
+relicarios, os vasos sagrados, os livros do Evangelho e outros objectos
+preciosos conservam-se regularmente em armarios ou tendo simples nichos
+feitos na grossura da parede; outras vezes formavam
+construc&ccedil;&otilde;es de pedra encostadas a uma parede;
+todavia as mais das vezes eram moveis de madeira com mais ou menos obra
+de apurado trabalho.<br />
+
+<br />
+
+No XIII seculo, e mesmo ainda muitas vezes no XIV seculo, estes moveis,
+d'uma f&oacute;rma sempre simples e adequada ao seu destino eram
+principalmente ornados com ferragens de feitio esmerado e com pinturas
+sobre as suas portas. As portas sem molduras compunham-se d'uma serie
+de taboas simplesmente juntas, duplas, consolidadas na parte interna,
+por travessas e no lado exterior ornadas com bellas pinturas.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p331">[331]</a></span>
+Desde o fim do XIII seculo e durante a primeira parte do XIV seculo, a
+pintura e a esculptura foram, em certas occasi&otilde;es,
+empregadas simultaneamente na decora&ccedil;&atilde;o dos
+armarios das reliquias; algumas vezes mesmo, as portas com esculpturas
+tinham dourados, e o lavor de estojo com ornamentos coloridos. Depois,
+a esculptura augmenta e pouco a pouco acaba, no fim do XIV seculo, para
+substituir completamente a polychromia. As portas dos armarios
+n&atilde;o apresentam j&aacute;, a
+contar d'esta epocha, as superficies inteiramente lisas e cheias de
+pinturas. Comp&otilde;e-se ent&atilde;o de
+almofadas encaixilhadas e preparadas do mesmo modo que as partes lisas
+das portas. Entre estas almofadas, algumas t&ecirc;em em relevo
+molduras com desenhos imitando as travessas das almofadas das janellas,
+as outras est&atilde;o cheias de folhagens ou ornatos de talha
+imitando folhas de pergaminho, como j&aacute;
+explic&aacute;mos. Uma cimeira recortada e
+vasada e na qual os prumos dos aros veem terminar em flor&atilde;o
+rematam muitas vezes o movel em todo o seu comprimento.<br />
+
+<br />
+
+<em>Vasos para os santos oleos</em>. Na
+quinta feira de cada anno, o bispo benze solemnemente, durante a missa
+que elle celebra na sua cathedral, tres especies de oleos, os quaes
+s&atilde;o depois distribuidos pelas egrejas da diocese.
+S&atilde;o: 1.&ordm; oleos para os cathecumenos; 2.&ordm;,
+oleo para os
+enfermos; e 3.&ordm;, oleo para a chrisma.<br />
+
+<br />
+
+Acham-se ainda hoje em algumas cathedraes, grandes vasos do periodo
+ogival que serviram antigamente
+<span class="pagenum">[332]</span>
+para benzer os santos oleos na ceremonia de Quinta Feira
+Santa.<br />
+
+<br />
+
+Al&eacute;m d'estes vasos de grandes dimens&otilde;es, nos
+quaes o bispo benzia os oleos para toda uma diocese, &aacute;s
+vezes mesmo para muitas, havia recipientes mais pequenos, que continham
+s&oacute;mente os santos oleos para o de&atilde;o de uma grande
+cidade. Alguns eram cofresinhos rectangulares ou ovaes, de madeira
+forrada de couro, dividido interiormente em tres
+separa&ccedil;&otilde;es, podendo em cada uma caber um frasco.
+Outros em metal mais ou menos precioso, comp&otilde;e-se de tres
+vasos, geralmente cylindricos reunidos estando soldados ou simplesmente
+unidos.<br />
+
+<br />
+
+Os vasos contendo os santos oleos para a occasi&atilde;o mesmo em
+que dar os sacramentos e nas differentes unc&ccedil;&otilde;es
+de
+ben&ccedil;&atilde;os, s&atilde;o regularmente muito mais
+pequenos do que aquelles que fallamos, e podem ser divididos em duas
+classes. Os da primeira classe, destinados a conter ao mesmo tempo as
+tres especies de oleos, s&atilde;o triplicados como os dos
+de&otilde;es, os quaes se differen&ccedil;am unicamente pela
+sua menor dimens&atilde;o. Comp&otilde;em-se quasi sempre de
+tres cylindros &ocirc;cos, com uma tampa conica, collocados em roda
+d'um nucleo, por&eacute;m raras vezes postos em linha. Alguns
+n&atilde;o t&ecirc;em p&eacute;s, outros mostram esse
+appendice.<br />
+
+<br />
+
+Para distinguir os differentes oleos, marcam-se os vasos com lettras
+differentes: I, designa o oleo para os enfermos, <em>oleum
+Infirmorum</em>;
+C, o santo oleo, <em>chrisma</em>. Para o oleo dos
+cathecumenos servem-se
+<span class="pagenum"><a name="p333">[333]</a></span>
+ora da
+lettra S, <em>oleum
+Sacrum</em>, ora da lettra O, <em>oleum</em>, ou
+mesmo da lettra
+E, do grego
+&Epsilon;&lambda;&chi;&iota;&omicron;&nu;,
+oleo. Como cada um d'estes oleos
+n&atilde;o serve sempre nas mesmas ceremonias, e se precisa levar
+longe o oleo para os doentes, cada um dos pequenos vasos pode-se
+separar do n&oacute; central que os reune.<br />
+
+<br />
+
+A segunda classe dos vasos para uso immediato de ungir comprehende
+aquelles que encerram uma unica especie, geralmente o oleo para os
+enfermos. Teem quasi sempre a forma
+cylindrica e est&atilde;o tapados com uma tampa de f&oacute;rma
+conica. Alguns teem p&eacute;s, outros n&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+<em>Cor&ocirc;as suspensas sobre o
+altar</em>. Estas cor&ocirc;as chamadas <em>votivas</em>,
+estiveram em uso pelo menos
+durante uma parte do periodo ogival, e conservavam a f&oacute;rma
+que tinham antes: a de um circulo de metal, cujo brilho era muitas
+vezes augmentado com joias e esmaltes. Algumas eram feitas de proposito
+para o servi&ccedil;o do altar; outras pertencentes aos soberanos
+como insignia de realeza, foram dadas &aacute;s egrejas pela
+generosidade dos principes.<br />
+
+<br />
+
+<em>Cor&ocirc;as com luzes</em>. As
+coroas de luzes do periodo
+ogival s&atilde;o ou <em>suspensas</em>
+ou sustidas em um <em>pedicello</em>.<br />
+
+<br />
+
+As cor&ocirc;as <em>suspensas</em>, que
+estiveram em uso desde os primeiros seculos do christianismo, chegaram
+ao seu maior desenvolvimento no XI e XII seculos. Durante o periodo
+ogival, perderam muito da sua importancia, e as maiores d'esta epoca,
+encontram-se muito raro presentemente.<br />
+
+<br />
+
+No XV seculo apparecem os lustres, que quaes
+<span class="pagenum">[334]</span>
+vieram a ser communs em pouco tempo, e
+ficaram a substituir as cor&ocirc;as desde o principio do periodo
+do renascimento.<br />
+
+<br />
+
+As cor&ocirc;as de luzes
+<em>pediculadas</em> s&atilde;o
+geralmente de ferro forjado e comp&otilde;e-se quasi sempre de uma
+tampa da qual se ergue uma hastea vertical ornada de um ou muitos
+n&oacute;s. No alto d'esta haste est&atilde;o postos em
+diversas alturas, dois ou mais numeros de circulos em f&oacute;rma
+de polygonos de diametros differentes, compostas de espigas e
+dirandellas para terem vellas. Os circulos s&atilde;o
+movedi&ccedil;os e
+podem girar em roda da hastea que os sustenta; esta
+disposi&ccedil;&atilde;o permitte aos devotos puxar para si as
+dirandellas sem vellas p&ocirc;r-lhes outras vellas offerecidas por
+promessa. Estas cor&ocirc;as estavam em uso nas egrejas onde
+numerosos peregrinos vinham venerar as reliquias ou a imagem de algum
+santo. As mais remotas cor&ocirc;as tendo p&eacute;
+n&atilde;o
+v&atilde;o al&eacute;m do XV seculo.<br />
+
+<br />
+
+<em>Cruz de altar e de
+prociss&atilde;o</em>. J&aacute; dissemos, que
+at&eacute; o fim do XV seculo n&atilde;o houve
+distinc&ccedil;&atilde;o entre as cruzes do altar e as cruzes
+processionaes ou estacionarias. A mesma cruz servia para o mesmo uso:
+punham-a sobre o altar ficando firmada sobre uma base ou levavam-a em
+prociss&atilde;o no cimo de uma comprida hastea.<br />
+
+<br />
+
+No XIII seculo, as cruzes processionaes eram de uma grande
+simplicidade. Tinham geralmente a imagem de Jesus Christo, e nas
+extremidades dos bra&ccedil;os havia os symbolos dos evangelistas
+collocados em um quadrilobo.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[335]</span>
+No XIV e no XV seculo, ornam muitas vezes com as f&oacute;rmas
+architecturaes, e mesmo tendo estatuasinhas debaixo de docel, o cabo
+era &ocirc;co servindo para fixar a cruz sobre a hastea ou sobre um
+p&eacute;.<br />
+
+<br />
+
+Quando no XIV, e principalmente no XV seculo, multiplicaram-se as
+capellas e os altares em uma mesma egreja por causa do augmento
+extraordinario da funda&ccedil;&atilde;o de missas,
+introduziu-se o uso das cruzes do altar, isto &eacute;, assentes
+permanentemente sobre elle. A cruz do altar principal era a unica que
+ficava portatil, podendo servir no altar e nas prociss&otilde;es.<br />
+
+<br />
+
+<em>Casti&ccedil;aes</em>. Havia, durante
+o periodo ogival, quatro especies principaes de casti&ccedil;aes:
+os casti&ccedil;aes do <em>altar</em>, os
+casti&ccedil;aes de
+<em>eleva&ccedil;&atilde;o</em>, e os
+casti&ccedil;aes <em>paschoaes</em> aos quaes se podem
+ajuntar
+os <em>tocheiros</em> collocados aos lados dos catafalcos.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Casti&ccedil;aes de altar</em>. O uso
+de collocar <em>dois casti&ccedil;aes sobre o altar</em>
+foi introduzido, em certas partes, no fim do periodo roman, e veiu a
+ser geral no XIII seculo.<br />
+
+<br />
+
+Os casti&ccedil;aes de altar do XIII seculo apresentam uma grande
+similhan&ccedil;a com os do periodo roman. Do mesmo modo eram de
+metal e compunham-se regularmente de um p&eacute;
+descan&ccedil;ando sobre tres garras, d'um n&oacute; e d'um
+prato com uma espiga; sendo todavia menos ornados. &Eacute; por
+isso, que apparecem excepcionalmente animaes phantasticos de forma de
+lagarto ou drag&atilde;o de azas que sustentam o prato de quasi
+todos os casti&ccedil;aes romans.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[336]</span>
+No XIII seculo, como precedentemente, os casti&ccedil;aes teem
+pouca altura, sendo as mais das vezes de 15 a 25 centimetros. Algumas
+vezes todavia, por&eacute;m muito raro, proximo do fim do XIII
+seculo, tinham a hastea com dois ou tres n&oacute;s quasi 50
+centimetros de alto.<br />
+
+<br />
+
+O uso de n&atilde;o p&ocirc;r sobre o altar mais de dois
+casti&ccedil;aes pequenos durou at&eacute; ao XVII seculo.<br />
+
+<br />
+
+Nos XIV e XV seculos, os n&oacute;s da hastea foram substituidos
+por vir&oacute;las, sendo o numero de duas ou tres; ha todavia
+exemplos, principalmente no XIV seculo, onde a hastea tem uma unica
+vir&oacute;la.<br />
+
+<br />
+
+No fim do XV seculo e no principio do XVI seculo, os
+casti&ccedil;aes t&ecirc;em muitas vezes os n&oacute;s,
+o p&eacute; e o prato com relevos do feitio de meias perolas e a
+hastea torcida em espiral.<br />
+
+<br />
+
+<em>Casti&ccedil;aes de
+eleva&ccedil;&atilde;o</em>. Este nome foi dado
+aos casti&ccedil;aes destinados para terem as vellas accesas antes
+da eleva&ccedil;&atilde;o da Hostia, e que se apagam
+depois da communh&atilde;o do padre. Estes casti&ccedil;aes,
+regularmente em numero de dois e collocados aos lados do altar, eram
+muito mais altos que os casti&ccedil;aes do altar, tendo de altura
+muitas vezes um a dois metros de alto.<br />
+
+<br />
+
+<em>Casti&ccedil;aes paschoaes</em>. Assenta-se
+geralmente a hastea do <em>casti&ccedil;al
+paschoal</em> n'uma estante vasada, onde se p&otilde;e o
+livro para o canto do
+<em>Exultet</em>. Muitas vezes se collocam dois ou mais
+bra&ccedil;os destinados a ter pequenas vellas; ha-os de
+lat&atilde;o e de ferro forjado.<br />
+
+<br />
+
+No XIII seculo, o
+No XIII seculo, os casti&ccedil;aes paschoaes s&atilde;o
+ornados
+<span class="pagenum">[337]</span>
+muito simplesmente imitando
+na ornamenta&ccedil;&atilde;o o reino vegetal.<br />
+
+<br />
+
+No XIV seculo, os candelabros para a tocha paschoal est&atilde;o
+ornados muito modestamente.<br />
+
+<br />
+
+Os casti&ccedil;aes paschoaes do XV seculo s&atilde;o ainda
+muito mais simples.<br />
+
+<br />
+
+<em>Os casti&ccedil;aes postos aos lados do
+catafalco</em>. Estes casti&ccedil;aes geralmente muito
+simples s&atilde;o as mais das vezes de ferro forjado e ornados com
+polychromia. A sua altura varia entre um a dois metros. Um grande
+numero se t&ecirc;em conservado. Algumas vezes estes
+casti&ccedil;aes eram tambem de madeira.<br />
+
+<br />
+
+Aos lados dos catafalcos, os tocheiros isolados eram muitas vezes
+substituidos por um
+<em>candieiro-triangular</em> de pau ou metal composto de
+um certo numero de bicos ou de pratos e assente sobre um ou dois
+p&eacute;s. Esta alfaia &eacute; tambem designada,
+principalmente nos antigos inventarios, <em>cabide</em>,
+<em>rastrum</em> e <em>rastrellum</em>.<br />
+
+<br />
+
+Vestigios de apparato com luzes para os defuntos, se v&ecirc;em
+ainda hoje em muitos monumentos funerarios do XIII seculo, nas egrejas
+de S. Diniz, proximo de Paris, mandados erigir por S. Luiz Rei de
+Fran&ccedil;a, em memoria dos reis seus predecessores.<br />
+
+<br />
+
+<em>Bra&ccedil;os com vellas e
+dirandellas</em>. Os candieiros com bra&ccedil;os e as
+dirandellas vieram a ser de um uso geral no principio do XV seculo.
+T&ecirc;em geralmente o mesmo feitio que os bra&ccedil;os do
+candieiro paschoal com o prato adentado. S&atilde;o postos sobre
+<span class="pagenum"><a name="p338">[338]</a></span>
+as paredes, e mais vezes ficam
+defronte de uma imagem. O maior numero s&atilde;o de
+lat&atilde;o; os de ferro forjado encontram-se raras vezes.<br />
+
+<br />
+
+<em>Estantes para o c&ocirc;ro</em>.
+Chama-se <em>estante do c&ocirc;ro</em> a uma estante
+de madeira ou de metal sobre a qual se p&otilde;e os livros para
+facilitar as leituras
+lithurgicas.<br />
+
+<br />
+
+As estantes do c&ocirc;ro fazem parte das alfaias religiosas;
+s&atilde;o de duas especies: estantes
+<em>fixas</em>, collocadas geralmente no meio da
+capella-m&oacute;r e chumbadas no pavimento, ou com um
+p&eacute; t&atilde;o pesado que se n&atilde;o poderia
+facilmente mudar para outra parte, e estantes <em>portateis</em>.
+As
+primeiras serviam para os chantres recitarem os officios; as outras
+para o diacono e subdiaconos cantarem o Evangelho, a Epistola ou as
+li&ccedil;&otilde;es sagradas.<br />
+
+<br />
+
+<em>Observa&ccedil;&otilde;es
+preliminares</em>. Desde o VII e VIII seculos, e durante todo o
+periodo roman, fizeram algumas vezes as <em>estantes fixas</em>
+independentes da tribuna. Estas estantes isoladas, estando destruidas
+presentemente, eram quasi sempre de metal, e compunham-se, como tambem
+as do principio do periodo ogival, d'uma aguia com as azas abertas,
+pousada sobre um s&oacute;co. Muitas vezes a aguia, attributo do
+evangelista S. Jo&atilde;o, era acompanhada de symbolos dos tres
+outros evangelistas.<br />
+
+<br />
+
+<em>Estantes fixas collocadas no meio do
+c&ocirc;ro</em>. As estantes do c&ocirc;ro destinadas aos
+chantres, s&atilde;o
+ordinariamente de lat&atilde;o e comp&otilde;em-se d'uma aguia
+assente sobre um p&eacute; em f&oacute;rma de pilar ou de
+columna. Este p&eacute; algumas vezes &eacute; consolidado por
+<span class="pagenum"><a name="p339">[339]</a></span>
+arcos-butantes, os quaes
+est&atilde;o ornados de arcaduras vasadas com rosaceas e ornatos
+variados, similhantes aos que ornam as grinaldas dos tympanos das
+janellas ogivaes.<br />
+
+<br />
+
+Nos antigos documentos a estante do c&ocirc;ro &eacute;
+designada <em>aguia</em>, em latim
+<em>aquila</em>, porque a maior parte das estantes, tanto
+do periodo ogival como da renascen&ccedil;a, t&ecirc;em a forma
+d'uma aguia. Muitas <em>estantes-aguias</em> do XV seculo
+escaparam de serem destruidas, talvez pelo seu peso. Algumas vezes a
+aguia &eacute; substituida por outros animaes, ou por homens e
+anjos. As estantes de pelicanos, cujo uso foi introduzido no tempo do
+periodo ogival, veiu a ser bastante commum na epocha do renascimento.<br />
+
+<br />
+
+<em>As estantes moveis</em>. Estas estantes
+facilmente transportaveis, foram empregadas durante o periodo ogival,
+quer para a leitura do Evangelho e da Epistola, quer para as outras
+ceremonias do culto; eram geralmente de ferro e poucas vezes de
+madeira. Estas estantes eram regularmente formadas d'uma dupla
+dobradi&ccedil;a com o feitio d'um <em>X</em>, cujas
+extremidades superiores
+ficam ligadas entre si por uma cobertura de couro sobre a qual se
+p&otilde;em os livros lithurgicos. Acontece todavia, principalmente
+nas estantes moveis de madeira, que elle n&atilde;o &eacute;
+formado d'uma cobertura de couro, mas sim de taboinhas postas no
+prolongamento de duas das quatro extremidades superiores da
+dobradi&ccedil;a da estante.<br />
+
+<br />
+
+<em>Livros do Evangelho e manuscriptos
+lithurgicos</em>.
+<span class="pagenum">[340]</span>
+Continuou-se, durante o periodo ogival, a
+<em>illuminar</em> os textos dos livros santos.<br />
+
+<br />
+
+No fim do XII seculo, isto &eacute;, no momento em que a ogiva
+tomou o logar da <em>volta
+inteira</em>, fez-se uma revolu&ccedil;&atilde;o completa
+na arte de pintura. Os
+miniaturistas da Europa Occidental do mesmo modo que os pintores das
+vidra&ccedil;as e esculptores libertaram-se das
+tradic&ccedil;&otilde;es byzantinas e romans, para se
+applicarem principalmente &aacute;
+imita&ccedil;&atilde;o da natureza. Este novo genero nascido em
+Fran&ccedil;a, como o estylo ogival, generalisou-se por todos os
+paizes proximos.<br />
+
+<br />
+
+A escola dos <em>miniaturistas</em> do XIII
+seculo dilatou a carreira de suas obras. At&eacute; esta epocha, as
+Biblias, os livros dos Evangelhos e os dos psalterios tinham sido as
+unicas obras ornadas de estampas illuminadas; depois as obras profanas
+da antiguidade classica, as dos padres, os romances dos cavalleiros e
+as chronicas tiveram tambem illustra&ccedil;&otilde;es
+calligraphicas.<br />
+
+<br />
+
+Proximo do meiado do XIV seculo, uma nova mudan&ccedil;a teve a
+pintura em geral, estendendo a sua influencia sobre todos os ramos
+d'esta arte. Ao primor do desenho que tra&ccedil;a os principaes
+contornos, esfor&ccedil;ou-se o pintor por ajuntar o modelado dos
+objectos no afrouxamento gradual dos tons e na
+opposi&ccedil;&atilde;o das sombras e da luz. A
+come&ccedil;ar d'esta epocha, o colorido deu &aacute; figura,
+n&atilde;o
+s&oacute;mente a c&ocirc;r, mas ainda a f&oacute;rma e o
+relevo.<br />
+
+<br />
+
+No XV seculo, a arte da pintura e do miniaturista, subiu em Flandres ao
+mais alto grau de prosperidade,
+<span class="pagenum">[341]</span>
+sob a influencia dos irm&atilde;os Hubert e
+Jo&atilde;o Van Dyck, Thierry, Streerbout, Roger von der Weyden e
+Haus Memling; em Portugal, Antonio e Francisco de Hollanda. Todos estes
+eximios mestres n&atilde;o desprezavam empregar o seu tempo na
+illuminura dos manuscriptos. O rei Filippe&#8213;o Bom&#8213;1419-1467&#8213;, tinha
+uma predilec&ccedil;&atilde;o notavel pela
+ornamenta&ccedil;&atilde;o dos manuscriptos, como tambem em
+Portugal el-rei D. Jo&atilde;o II e D. Manuel<sup><a href="#5">[5]</a></sup>, contribuiram
+singularmente para o desenvolvimento d'este genero de trabalho.<br />
+
+<br />
+
+Os pintores d'esta epocha applicam-se a reproduzir a belleza real que
+se colhe da natureza, mais agradavel que uma belleza ideal; substituem
+de alguma maneira, o realismo ao symbolismo dos seculos findos
+passados; diligenciando representar com toda a verdade os minimos
+detalhes da natureza, cogitam o modo de apresentar a mais exacta
+reproduc&ccedil;&atilde;o do feitio e c&ocirc;r dos
+objectos.<br />
+
+<br />
+
+<em>Capas dos livros dos Evangelhos</em>. At&eacute; ao
+IX seculo serviram-se bastantes vezes de capas de
+marfim; do IX seculo ao XII, o marfim estava misturado ao metal e
+&aacute;s pedras preciosas. Durante o periodo
+<span class="pagenum"><a name="p342">[342]</a></span>
+ogival, abandonaram geralmente o uso do
+marfim, e o metal s&oacute; ornado com riqueza, sobretudo no XIII
+seculo, de esmaltes e joias, foi empregado nas capas das Biblias, nos
+livros dos Evangelhos e nos lithurgicos. Salvo raras
+excep&ccedil;&otilde;es, eram cobertos de estofos, de couro, e
+algumas vezes de madeira com esculpturas ou de chapas de prata em
+relevo<sup><a href="#6">[6]</a></sup>.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Thuribulos e naveta para incenso</em>. Os
+thuribulos do XIII seculo comp&otilde;em-se geralmente, como os dos
+seculos antecedentes, de duas semi-espheras &ocirc;cas, as quaes
+juntas formam uma bola. A semi-esphera inferior tem um p&eacute;
+que lhe serve de apoio, no qual se p&otilde;e as brazas e o
+incenso; vem a ser o verdadeiro perfumador. A semi-esphera superior,
+que serve de tampa, est&aacute; crivada de muitos
+orific&iacute;os para
+sahir o fumo do incenso. Esta tampa que tem como remate muitas vezes
+uma torrinha com a figura de homem ou de animal, &eacute;
+movedi&ccedil;a: s&oacute;be e desce ao correr de tres ou
+quatro correntes prezas por uma extremidade do thuribulo e por outra
+parte da mesma tampa atravez da qual passa uma cadeia que fixa o
+remate, e facilita levantal-a ou abaixal-a como se quizer.<br />
+
+<br />
+
+A f&oacute;rma geral dos thuribulos do XIII seculo &eacute;
+conhecida, n&atilde;o s&oacute;mente pelos raros
+especimens em metal conservados at&eacute; ao presente, mas tambem
+<span class="pagenum">[343]</span>
+pelas esculpturas e miniaturas contemporaneas, nas quaes se
+v&ecirc;em anjos ou clerigos thuriferarios.<br />
+
+<br />
+
+Nos seculos XIV e XV, os thuribulos mudam de aspecto, apresentam poucas
+vezes a f&oacute;rma espherica e t&ecirc;em geralmente o feitio
+de diversas curvas; tomando a f&oacute;rma de torrinhas com
+telhado, janellas recortadas, etc. O metal de que geralmente se
+serviam, era o lat&atilde;o; para os de melhor qualidade empregavam
+a prata.<br />
+
+<br />
+
+<em>Gom&iacute;s</em> ou
+<em>aquamaniles</em>. Os gom&iacute;s
+designados tambem <em>aquamaniles</em> (de
+<em>aqua</em>, agua, e
+<em>manile</em>, vaso para deitar agua nas m&atilde;os)
+faziam parte das alfaias ecclesiasticas e continham agua para as
+ablu&ccedil;&otilde;es das m&atilde;os, durante as
+ceremonias religiosas. Empregavam-se tambem no uso civil para a lavagem
+das m&atilde;os antes e depois das
+refei&ccedil;&otilde;es. No fim do periodo roman e durante todo
+o per&iacute;odo ogival tinham as mais caprichosas e mais varias
+f&oacute;rmas. A maior parte apresentam a d'um animal real ou
+phantastico; a agua &eacute; geralmente introduzida no
+gom&iacute;l pelo cimo, na cabe&ccedil;a do animal, servindo de
+gargalo; a bocca ou o bico finalmente a aza &eacute; formada, quer
+pela cauda do animal revirada sobre o lombo, quer por um lagarto ou um
+drag&atilde;o alado; algumas vezes mesmo a torneira est&aacute;
+posta diante da figura. Os animaes representados mais vezes
+s&atilde;o o le&atilde;o, o cavallo, o veado, o gallo, o
+drag&atilde;o, a sereia e differentes passaros. Quasi todos os <em>aquamaniles</em>
+s&atilde;o de lat&atilde;o ou de cobre.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[344]</span>
+Alguns gom&iacute;s de metal t&ecirc;em a f&oacute;rma do
+busto de homem, de mulher e de crean&ccedil;a. Devemos tambem
+mencionar os gomis do XIII seculo apresentando a f&oacute;rma d'um
+prato c&ocirc;vo, n&atilde;o sendo
+diverso da bacia que servia sen&atilde;o para pela existencia,
+sobre a borda d'um bico para sahir a agua sobre as m&atilde;os.<br />
+
+<br />
+
+No XI seculo principiou o uso de lavatorios collocados no meio das
+sacristias. Havia-os de f&oacute;rmas architectonicas, imitando
+mais ou menos uma fortaleza ou uma torre; outros (e eram os mais
+communs), compunham-se de vasos de bronze ou lat&atilde;o, de
+pequenas dimens&otilde;es, tendo uma grande aza e dois gargalos
+oppostos; para se lavar as m&atilde;os, abaixava-se, empurrando de
+cima para baixo, um dos gargalos. O seu uso durou at&eacute; ao XV
+seculo.<br />
+
+<br />
+
+<em>Pratos para offerendas</em>. Encontram-se
+em muitas egrejas grandes pratos ou bacias de lat&atilde;o
+estampado, cinzelado e gravado, ornados de assumptos, symbolos,
+bras&otilde;es, folhagens e figuras geometricas. Estes pratos
+designados <em>bacias de
+offerenda</em>, porque serviam e servem ainda para receber as
+offertas dos fieis, principalmente as que se fazem durante as missas
+para os defuntos, eram feitos no XV e XVI seculo nas officinas dos
+fundidores de cobre em Augsbourg, Nuremberg e Brunswick. &Eacute;
+preciso advertir, que as bacias do XV seculo e do principio do XVI
+seculo, apresentam os caracteres da decora&ccedil;&atilde;o
+ogival, e que as do XVI e XVII
+seculos apresentam ornatos do estylo da renascen&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[345]</span>
+Os assumptos e os symbolos, representados geralmente no centro do
+prato, mais raramente sobre a borda do prato, s&atilde;o quasi
+sempre religiosos: todavia v&ecirc;-se tambem algumas vezes com o
+busto de <em>Cicero</em>, de sereias, veados,
+c&atilde;es, escudos com braz&otilde;es, etc.<br />
+
+<br />
+
+Inscrip&ccedil;&otilde;es ou legendas est&atilde;o gravadas
+dentro d'um ou dois circulos concentricos proximo da borda do prato, e
+repetem-se geralmente cinco vezes. Entre essas legendas ha um grande
+numero que apresentam um sentido facil de interpretar, por exemplo: <em>Got
+sei met vus, hiff Got aves not, hiff Th</em>
+(esu) <em>vnd Maria, van allen
+schriftvren het slodt myt sonder Gost, eh wart</em>
+(ou <em>gich wart</em>) <em>der in fridt, ch</em>
+(ou <em>ich</em>)
+<em>bart et zeit
+gelvek, gi seal recorden, gustate et benedicite Deus</em>; outros
+pelo contrario (e estes s&atilde;o os que se encontram mais vezes)
+comp&otilde;em-se de lettras, as quaes reunidas n&atilde;o
+apresentam nenhum sentido; taes s&atilde;o as
+seguintes: <em>rahe wishnbi et vrmtlife, vrmtielf</em>
+ou <em>lifevrmto</em>.<br />
+
+<br />
+
+Parece bastante provavel que estas legendas, at&eacute; ao presente
+indecifraveis, foram os signaes ou as primeiras lettras de muitas
+palavras formando uma divisa conhecida geralmente na epocha em que se
+executavam estas bacias para offerendas.<br />
+
+<br />
+
+<em>Representa&ccedil;&atilde;o da
+patena</em>. Em vez de se beijar a patena, recommendava o
+apostolo S. Paulo aos primeiros christ&atilde;os, um
+abra&ccedil;o fraternal. No XIII
+seculo, por motivo de decencia e de respeito foi substituido em muitas
+partes, pelo uso d'um <em>osculatorium</em>
+<span class="pagenum"><a name="p346">[346]</a></span>
+o abra&ccedil;o
+porque julgaram
+ent&atilde;o n&atilde;o se poder praticar sem detrimento para a
+moral e distinc&ccedil;&atilde;o das dignidades.<br />
+
+<br />
+
+As regras lithurgicas fallam da patena, mas n&atilde;o determinam
+nem a f&oacute;rma nem a
+representa&ccedil;&atilde;o. Serviram-se pois para este fim
+indifferentemente da cruz, relicarios, capas dos evangelhos, etc.
+Todavia a f&oacute;rma que prevaleceu, foi a d'um pequeno painel,
+feito com materias de estima&ccedil;&atilde;o, taes
+como ouro, prata, madeira rija ou marfim cinzelado, gravado, esmaltado
+ou pintado, representando um assumpto religioso ou santo. Este pequeno
+painel tem geralmente um cabo no lado posterior.<br />
+
+<br />
+
+<em>Moldes ou ferros para hostias</em>. Serviam-se desde
+muito tempo, e servem-se ainda hoje de ferros para
+coser o p&atilde;o que symbolisa a Eucharistia, imprimindo-se-lhe
+figuras e lettras. Estas hostias teem regularmente a f&oacute;rma
+circular. Muitas vezes os moldes representam
+crucifica&ccedil;&atilde;o, o Cordeiro Divino, a simples cruz,
+o signal I H S, imagens de santos e symbolos.<br />
+
+<br />
+
+<em>Insignias e medalhas dos peregrinos</em>.
+As insignias de <em>romaria</em> comp&otilde;em-se,
+durante toda a idade m&eacute;dia, de pequenas chapas
+rectangulares, quadradas ou circulares, muitas vezes de chumbo fundido
+e de obra vasada, outras de cobre ou prata impressa e
+aperfei&ccedil;oada ao buril. Apresentam geralmente em relevo a
+imagem do santo para quem ella foi feita. Distinguem-se de duas sortes:
+umas (e eram em maior numero), cosiam-se sobre o ornato pertencente
+&aacute; cabe&ccedil;a e sobre o
+vestuario;
+<span class="pagenum">[347]</span>
+as outras, bastante
+raras, fixavam-se na extremidade do bord&atilde;o ou arrimo do
+peregrino.<br />
+
+<br />
+
+Havia-as egualmente apresentando a f&oacute;rma de medalhas
+ornadas, nas duas faces, com imagem de santos e
+inscrip&ccedil;&otilde;es; muitas vezes
+s&atilde;o acompanhadas de um carneiro ou argola servindo para se
+trazer ao collo, ou pegadas quer no vestuario, quer nos objectos de
+devo&ccedil;&atilde;o, como s&atilde;o
+os rosarios, etc.<br />
+
+<br />
+
+<em>Pequenos altares domesticos</em>. Encontram-se muitas
+vezes, nos museus publicos e nas
+collec&ccedil;&otilde;es particulares, pequenos <em>triptycos</em>
+e
+<em>polyptycos</em> de marfim, metal ou madeira,
+esculpidos, pintados ou esmaltados. Estes objectos, os fieis se serviam
+antigamente nas suas habita&ccedil;&otilde;es para satisfazer a
+sua devo&ccedil;&atilde;o, teem muitas vezes a f&oacute;rma
+de
+um retabulo com portas, por&eacute;m, de grandes
+propor&ccedil;&otilde;es; sendo como os outros retabulos,
+ornados de baixo-relevos, estatuas e pinturas.<br />
+
+<br />
+
+<em>Baculos</em>. Como j&aacute;
+explicamos, a voluta do maior numero dos baculos romans era terminado
+por uma cabe&ccedil;a de serpente ou de drag&atilde;o;
+completava-os uma cruz com o Cordeiro Divino. Esta scena, symbolo do
+triumpho de Redemptor alcan&ccedil;ado sobre o demonio pelo
+sacrificio do Calvario, veiu a ser raro desde o XIII seculo. Algumas
+volutas, sem duvida, trazem ainda n'esse tempo na extremidade, uma
+cabe&ccedil;a de drag&atilde;o ou serpente, mas essa
+cabe&ccedil;a fica inteiramente separada ou invez j&aacute;
+n&atilde;o ao Cordeiro nem sobre uma personagem ou sobre uma scena
+religiosa. Em um grande
+<span class="pagenum"><a name="p348">[348]</a></span>
+numero
+de baculos a cabe&ccedil;a da serpente &eacute;
+substituida por um ramo de folhagens ou por uma fl&ocirc;r aberta.<br />
+
+<br />
+
+Quando, proximo ao fim do XIII seculo, os detalhes de architectura
+substituiram-se as pe&ccedil;as de ourivesaria, e a
+decora&ccedil;&atilde;o foi buscar aos reinos animal e vegetal,
+real ou phantastico, os baculos mudaram egualmente de aspecto.
+Ornaram-se ent&atilde;o de nichos, estatuasinhas, flechas e
+pinaculos. O n&oacute; principalmente, e tambem a hostia, ficaram
+sobrecarregados com estes ornatos.<br />
+
+<br />
+
+<em>Estofos preciosos</em>. Durante o periodo
+ogival, serviram-se muitas vezes, para os vestuarios sagrados, de
+estofos preciosos, nos quaes os desenhos da
+decora&ccedil;&atilde;o eram feitos,
+<em>juntamente</em> com o tecido mesmo, por meio de uma
+trama de differentes c&ocirc;res, sendo depois urdido pela
+applica&ccedil;&atilde;o de bordados feitos com agulha. O uso
+dos pannos de raz para a decora&ccedil;&atilde;o das egrejas
+generalisou-se cada vez mais durante o periodo.<br />
+
+<br />
+
+<em>Tecidos</em>. A arte de fabricar os
+tecidos de seda foi trazida da Italia no XIII seculo. Os desenhos
+embellezadores que ornam bastantes vezes os tecidos no XIII seculo e
+durante uma parte do XIV s&atilde;o geralmente copiados sobre os
+estofos orientaes. As figuras symbolicas e os assumptos pertencentes
+&aacute; historia do antigo e novo Testamento, que se acham
+excepcionalmente nos tecidos sicilianos ou italianos antes do meado do
+XIV seculo, apparecem frequentemente depois d'esta epocha, com
+cercadura, ou n&atilde;o tendo este enfeite.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[349]</span>
+No XV seculo, a industria do tecido da seda desenvolveu-se cada vez
+mais a Oeste e Norte da Europa. A Suissa, Fran&ccedil;a e a
+Belgica, que possu&iacute;am, depois do XIII seculo, alguns teares
+isolados
+para a fabrica&ccedil;&atilde;o da seda, do veludo, e do setim,
+viram ent&atilde;o os seus teares a multiplicar-se e tomar
+consideravel incremento.<br />
+
+<br />
+
+Em Flandres tambem se tinha alcan&ccedil;ado, desde o XIII seculo,
+bastante fama pelos tecidos preciosos, para os quaes os primeiros
+aprestos foram fornecidos pela Inglaterra. De todos os estofos o mais
+estimado e de pre&ccedil;o fabricado em Flandres era o setim de <em>Bruges</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Bordados</em>. Nas
+bordaduras do XIII
+seculo, como nas pinturas e esculpturas contemporaneas, o desenhador
+abandonou pouco a pouco as tradic&ccedil;&otilde;es byzantinas.
+Os gestos dos personagens perdem a sua express&atilde;o archaica,
+as cabe&ccedil;as
+n&atilde;o s&atilde;o delineadas conforme typos convencionaes,
+as pregas dos vestidos, em logar de serem comprimidas e paralellas,
+s&atilde;o executadas com fidelidade; finalmente, as figuras teem
+muitas vezes a presen&ccedil;a curvada.<br />
+
+<br />
+
+Desde o fim do XIII seculo, a arte de bordar, designada muito
+distinctamente na idade m&eacute;dia
+<em>pintura com a agulha, acupictura</em>, attingiu a um
+subido gr&aacute;o de prosperidade; desenvolvendo-se cada vez mais
+durante o XIV seculo, e chegou ao seu apogeu no principio do XV seculo.
+N'esta ultima epocha, tres paizes se distinguiram sobretudo pelo
+talento e habilidade no acabamento dos bordados:
+<span class="pagenum"><a name="p350">[350]</a></span>
+foram a <em>Belgica</em>, a
+<em>Prussia rhenal</em> e a
+<em>Bourgogne</em>. Os dois principaes centros de
+manufactura para os estofos bordados encontravam-se em Arrhas, em <em>Flandres</em>
+e em
+<em>Cologne</em>; a estas duas cidades se p&oacute;de
+ajuntar em segundo logar
+<em>Malines</em>,
+<em>Li&eacute;ge</em>, <em>Tournai</em> e
+<em>Reims</em>.<br />
+
+<br />
+
+<em>Pannos de Raz</em>. Chama-se panno de raz
+a <em>um tecido no qual os fios de c&ocirc;r, enrolados
+sobre uma urdidura fixa vertical ou horisontalmente, faz corpo
+juntamente, e produz combina&ccedil;&otilde;es de linhas e tons
+similhantes aos de pintura que se obtem com o pincel, e o mosaista com
+os cubos de marmore ou de esmalte</em>. O panno de raz
+distingue-se do bordado em que as figuras fazem parte integrante do
+tecido, em quanto os bordados s&atilde;o simplesmente sobrepostos
+sobre um tecido j&aacute; feito. Distingue-se por outro modo, dos
+estofos tecidos de ouro e seda, porque constitue sempre um trabalho
+manual, e n&atilde;o &eacute; obtido por um mechanismo
+<a href="#e7">representando</a> sem fim o mesmo
+padr&atilde;o.
+Cada uma das produc&ccedil;&otilde;es do <em>panno de
+raz</em> &eacute; uma obra original.<br />
+
+<br />
+
+Os fios com que o tecel&atilde;o delinea as sua
+composi&ccedil;&otilde;es, seus symbolos e ornatos,
+s&atilde;o o ouro, prata, seda e l&atilde;.<br />
+
+<br />
+
+A arte dos pannos de raz era j&aacute; conhecida no XI seculo.
+Antes do anno 1025, havia, em
+<em>Potiers</em>, uma fabrica de pannos de raz, cujos
+trabalhos tinham sido muito apreciados, mesmo f&oacute;ra de
+Fran&ccedil;a. Os productos d'estas officinas eram ornados de
+retratos dos reis, de imperadores, de figuras de animaes, assim como de
+assumptos da biblia.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p351">[351]</a></span>
+No XII seculo a Allemanha toma egualmente uma parte activa no
+desenvolvimento do fabrico dos pannos de raz.<br />
+
+<br />
+
+No XIV seculo, a arte do tapisseiro, posto que continuando a empregar o
+mesmo fabrico technico do seculo precedente, progride como todas as
+outras artes.<br />
+
+<br />
+
+Desde o principio do XIV seculo a manufactura dos pannos de raz de
+alto-li&ccedil;o prosperou em Paris, Bruxellas e Arrhas; depois foi
+introduzida em muitas outras cidades de Flandres e do Brabante. No fim
+do XIV seculo os pannos de raz de Arrhas principiaram a ter a primazia;
+devendo a sua reputa&ccedil;&atilde;o &aacute;
+perfei&ccedil;&atilde;o dos seus tecidos e &aacute; sua
+tintura. Desde esta epocha, os pannos de raz de alto-li&ccedil;o
+foram designados, principalmente pelos Italianos e Inglezes, sendo da
+fabrica de Arrhas, pelo nome de <em>finos pontos de Arrhaz, e
+arazzi</em>.<br />
+
+<br />
+
+O XV seculo foi a idade de ouro para os pannos de raz. Realisaram-se
+ent&atilde;o notaveis progressos na execu&ccedil;&atilde;o
+material. Os fios vieram a ser cada vez mais finos, a
+propor&ccedil;&atilde;o da seda e do ouro augmentaram
+consideravelmente, os tintureiros inventaram
+gradua&ccedil;&atilde;o de c&ocirc;res novas,
+emfim os tecel&otilde;es aprenderam a combinar as c&ocirc;res
+com tal habilidade que n&atilde;o podia ser nunca excedida. N'esta
+epocha os pannos de Arrhas eram os mais estimados e por isso muito
+procurados.<br />
+
+<br />
+
+<em>Vestimentas sagradas</em>. Durante toda a
+idade m&eacute;dia, as vestimentas sagradas, das quaes se serviam
+nos dias ordinarios, eram feitas de tecido de
+<span class="pagenum"><a name="p352">[352]</a></span>l&atilde;,
+ou algumas vezes tambem de
+linho. Os estofos de seda empregavam-se nas vestimentas ricas e
+preciosas.<br />
+
+<br />
+
+A <em>casula</em> conserva, at&eacute; ao
+meado do XV seculo, a f&oacute;rma que tinha durante o periodo
+Roman, isto &eacute;, de um vestuario largo, comprimido
+&aacute; roda do collo, cobrindo inteiramente os bra&ccedil;os
+e caindo negligentemente de todos os lados &aacute; roda do corpo.
+Da mesma maneira que precedentemente, quasi sempre as estolas com
+bordaduras s&atilde;o comprimidas e estreitas, representando
+assumptos religiosos. Na Italia, nos paizes meridionaes e no meio dia
+de Fran&ccedil;a, estas estolas s&atilde;o geralmente em numero
+de duas postas verticalmente, uma por diante e a outra por detraz do
+peito; a de diante fica com o feitio de um <em>tau</em> T.
+Na Belgica, na Hollanda, na Allemanha, e em Inglaterra,
+duas outras pequenas faxas saindo do peito passam sobre os hombros e
+v&atilde;o ter ao meio das costas, formando assim, pela sua
+combina&ccedil;&atilde;o com as
+estolas verticaes, duas cruzes cujos bra&ccedil;os ficam levantados
+com o feitio de Y.<br />
+
+<br />
+
+As casulas com dupla cruz entraram em uso no norte da Europa
+at&eacute; ao XV seculo, epocha na qual uma mudan&ccedil;a
+notavel se operou na f&oacute;rma e
+disposi&ccedil;&atilde;o das estolas. Primeiramente, estas
+ficavam com muito mais largura; depois em toda a parte onde a dupla
+cruz com bra&ccedil;os levantados havia tido uso precedentemente,
+pozeram sobre o lado opposto da casula, <a href="#e8">uma
+cruz</a> latina &dagger;, e sobre a
+frente uma columna.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[353]</span>
+No XIII e XIV seculos, sendo sempre estreitas,
+eram regularmente ornadas com figuras geometricas
+ou pequenas folhagens simplesmente de decora&ccedil;&atilde;o.
+Quando no XV seculo se fizeram mais
+largas, representavam muitas vezes imagens ou
+assumptos religiosos.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>A estola e o manipulo</em> consistiam, durante o
+periodo
+ogival, em faxas compridas e estreitas, quasi
+sempre ficando as extremidades um pouco mais
+largas.
+<br />
+
+<br />
+
+As estolas e os manipulos, geralmente de uma
+grande simplicidade, eram feitos de linho, de l&atilde;
+ou de seda, acabando n'um bordado e franjas.
+Os de ornamentos ricos eram por vezes bordados
+e apresentavam uma certa analogia com as faxas
+de recamo d'ouro das casulas, que lhes pertenciam.
+As suas extremidades n&atilde;o tinham ornatos
+com bordados symbolicos, que s&oacute; se usaram depois
+da primeira metade do XV seculo.
+<br />
+
+<br />
+
+No principio o <em>pluvial</em>, em latim <em>coppa</em>,
+isto &eacute;,
+capote para resguardo da chuva (<em>pluvia</em>) era usado
+s&oacute;mente pelo clero inferior, principalmente pelos
+chantres e mesmo por vezes pelos seculares, tomando
+uma parte na celebra&ccedil;&atilde;o do culto. Foi
+s&oacute;mente
+no XIII seculo que veiu a ser commum para
+todas as ordens da hierarchia ecclesiastica, incluindo
+mesmo o pontifice.
+<br />
+
+<br />
+
+Serviam-se do pluvial, como se prat&iacute;ca ainda
+hoje, nas prociss&otilde;es e em todos os outros officios
+da missa; por exemplo, no canto solemne
+de vesperas. O seu feitio &eacute; o mesmo da casula;
+<span class="pagenum">[354]</span>
+s&oacute;mente, em logar de ser, como esta, inteiramente
+fechada de maneira a esconder todo o
+corpo, &eacute; aberto na frente desde os p&eacute;s
+at&eacute; ao collo.
+<br />
+
+<br />
+
+O pluvial da idade media tinha, sobre as costas,
+um capuz de ponta muito comprida, com a
+qual se podia cobrir a cabe&ccedil;a. Nos pluviaes ricos
+as orlas da abertura de diante, e tambem a orla
+inferior, est&atilde;o cobertas de faxas de estofo colorido,
+bastante estreitas e ornadas, principalmente
+no principio do XIV seculo, sendo os assumptos religiosos
+feitos com bordados. No XIV seculo as faxas
+veem a ser mais largas, e proximo da mesma
+&eacute;poca, o capuz augmenta, ficando a sua extremidade
+redonda, e como as faxas, ornada.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Colchete do pluvial</em>. Prendia-se o pluvial sobre
+o peito com um grande colchete coberto de medalh&otilde;es
+em metal precioso, ornado de esmaltes ou
+delicadamente cinzelado. Estes <em>medalh&otilde;es colchetes</em>,
+em latim <em>fibulae</em>, <em>morsus</em>, <em>monilia</em>
+ou <em>pectoralia</em>,
+teem muitas vezes a f&oacute;rma de quatro folhas; ha
+tambem circulares, ovaes, e mesmo quadrados.
+S&atilde;o geralmente ornados com assumptos religiosos
+ou com estatuasinhas de santos. Acompanham-os,
+principalmente no XV seculo, a figura ajoelhada e
+os braz&otilde;es do doador.
+<br />
+
+<br />
+
+A <em>alva</em> e o <em>amicto</em>
+conservaram as f&oacute;rmas primitivas
+durante o periodo ogival. Eram geralmente
+de linho, algumas vezes tambem de seda
+ou brocado. Continuou-se a guarnecel-os de faxas
+rectangulares com recamo de oiro, bordados ou
+tecidos vistosos. Estas vestimentas prendiam-se no
+<span class="pagenum">[355]</span>
+meio da orla superior do amicto; e sobre a alva
+nas extremidades das mangas &aacute; roda do punho,
+por diante e detraz sobre a orla inferior proximo
+dos p&eacute;s, e algumas vezes tambem sobre o peito.
+<br />
+
+<br />
+
+A <em>cintura</em>, da qual o sacerdote se serve para
+arrega&ccedil;ar a alva, prende-se &aacute; estola em cruz
+sobre
+o peito; n&atilde;o teve nunca na idade m&eacute;dia a
+f&oacute;rma de cord&atilde;o que apresenta actualmente. N'essa
+&eacute;poca geralmente consistia em um comprido cinto,
+especie de fita comprida de dois metros e
+meio, com a largura de cinco a seis centimetros.
+D&aacute;-se-lhe algumas vezes o comprimento symbolico,
+por exemplo, do tumulo de Jesus Christo.
+<br />
+
+<br />
+
+A <em>dalmatica</em> &eacute; a vestimenta decima do
+diacono,
+a <em>tunicella</em>, a do sub-diacono. N&atilde;o
+existe, ha muito
+differen&ccedil;a entre estas duas vestimentas, posto que
+n'outro tempo a tunicella teve mangas mais curtas
+e era mais comprida, por&eacute;m menos ornada que a
+dalmatica.
+<br />
+
+<br />
+
+Durante o periodo Roman e no principio do ogival,
+a dalmatica consistia em um comprido vestido
+inteiramente fechado, com mangas e uma abertura
+para passar a cabe&ccedil;a. Era enfeitada diante
+e detraz por duas faxas verticaes com recamo de
+ouro ou de c&ocirc;r, descendo at&eacute; a orla inferior.
+Estas
+faxas, muito estreitas no XIII seculo, vieram a ser
+cada vez mais largas desde o XIV seculo.
+<br />
+
+<br />
+
+No XIII seculo, a dalmatica n&atilde;o era ainda aberta
+nos dois lados da orla inferior at&eacute; quasi &aacute;
+quarta
+parte do seu comprimento. No XIV e XV seculos,
+estas aberturas augmentaram at&eacute; meia altura do
+<span class="pagenum"><a name="p356">[356]</a></span>
+vestuario; tendo ent&atilde;o, do mesmo modo, toda a
+parte inferior da dalmatica, bordados de faxas de
+c&ocirc;r ou as superiores de recamo de ouro.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Mitras</em>. As mitras com dois bicos, o uso das quaes
+se tinha generalisado no XII seculo, foram definitivamente
+adoptadas no XIII seculo, como um ornamento
+episcopal e abbacial. Comparadas com as
+mitras modernas, as primitivas eram muito baixas,
+a sua altura variava entre 0,20 a 0,25 centimetros.
+<br />
+
+<br />
+
+As differentes partes de que se comp&otilde;em as mitras
+s&atilde;o: 1.&ordm; as pe&ccedil;as triangulares formando
+pela
+sua reuni&atilde;o o barrete; 2.&ordm; as duas fitas pendentes
+da mitra mais largas nas extremidades inferiores,
+ficando prezas por detraz da mitra.
+<br />
+
+<br />
+
+Havia na idade m&eacute;dia duas qualidades de mitras:
+simples ou lisas, e com bordaduras recamadas
+de oiro, designadas na latinidade da idade
+media pelo nome <em>mitrae auriphry giatae</em>. Sobre
+estas ultimas as bordaduras recamadas de oiro
+dispunham-se por tres maneiras: 1.&ordm; verticalmente
+ou, como dizem os livros lithurgicos, <em>en titre in
+titulo</em>; 2.&ordm; horisontalmente ou <em>in circulo</em>;
+3.&ordm; em
+titulo e em circulo juntamente.
+<br />
+
+<br />
+
+No meiado do XIV seculo, os bicos da mitra
+s&atilde;o maiores. A maior parte das mitras da ultima
+metade d'este seculo medem de 32 a 35 centimetros
+de altura. Esta altura chega regularmente
+a 40 centimetros no seguinte. N'esta ultima &eacute;poca
+tambem as orlas dos bicos s&atilde;o algumas vezes guarnecidas
+com bordaduras recamadas de oiro, ou
+tendo uma especie de renda de prata dourada similhando-se
+<span class="pagenum"><a name="p357">[357]</a></span>
+a folhas de repolho ou de crochetes
+vegetaes.
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>Abbadias e Mosteiros
+</h4>
+
+<br />
+
+<em>Observa&ccedil;&otilde;es preliminares</em>. As
+partes principaes
+de que se comp&otilde;em as abbadias e os mosteiros
+da idade media s&atilde;o a egreja, o claustro, o refeitorio,
+a sala do capitulo, o dormitorio, o aposento para o
+abbade e para os hospedes, o celleiro, o palheiro, a
+pris&atilde;o e as casas de arrecada&ccedil;&otilde;es.
+Estas differentes
+partes ficavam geralmente da mesma maneira,
+principalmente nos conventos que observavam a
+mesma regra.
+<br />
+
+<br />
+
+A egreja era sempre <em>orientada</em>, isto &eacute;,
+ficando
+a capella m&oacute;r voltada para o Oriente. No lado meridional
+da nave fica encostado o claustro, do qual
+se entra para a egreja por duas portas collocadas
+nas extremidades da galeria encostada &aacute; parede
+lateral da egreja: uma junto do alpendre, outra na
+proximidade do cruzeiro. A galeria opposta, que
+f&oacute;rma o lado meridional do claustro, d&aacute; entrada
+para
+o refeitorio. A sala do capitulo e o parlatorio occupam
+o rez-do-ch&atilde;o ao longo da galeria oriental,
+que se liga por uma extremidade com o cruzeiro;
+no andar por cima est&aacute; o dormitorio, o qual communica
+com a egreja por uma escada conduzindo
+do dormitorio ao transepte. As construc&ccedil;&otilde;es do
+occidente do claustro serviram primitivamente aos
+irm&atilde;os conversos, os quaes eram em grande numero
+nas grandes abbadias do XII e XIII seculos.
+Por&eacute;m, quando mais tarde se supprimiu esta
+institui&ccedil;&atilde;o,
+<span class="pagenum">[358]</span>
+e se limitaram os irm&atilde;os
+conversos ao
+numero estrictamente necessario para o servi&ccedil;o
+dos religiosos, ellas foram destinadas para outros
+usos. Muitas vezes serviram para aposentos
+dos hospedes, e uma parte foi transformada em
+celleiros e armazens.
+<br />
+
+<br />
+
+As differentes Ordens religiosas distinguem-se
+na escolha do local; quando pretendiam fundar
+uma nova abbadia, cada uma dava preferencia aos
+sitios de mais predilec&ccedil;&atilde;o. Os Benedictinos
+escolhiam
+geralmente os sitios altos e as montanhas;
+os Bernardos, pelo contrario, gostavam de se estabelecer
+nos valles sobre as margens dos ribeiros,
+como exprimem estes dois versos:
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry"><em>Bernardus valles, montes
+Benedictus amabat,<br />
+
+Oppida Franciscus, magnas Ignatius urbes.</em>
+</div>
+
+<br />
+
+A similhan&ccedil;a que apresentam a maior parte das
+abbadias cistercienses na disposi&ccedil;&atilde;o das suas
+differentes
+f&oacute;rmas &eacute; bastante notavel; quasi todas,
+quando o accidentado do terreno o permittia, reproduziam,
+por assim dizer, servilmente o plano
+das abbadias primitivas da Ordem de Cister; plano
+typo adoptado para a construc&ccedil;&atilde;o d'estas abbadias
+na Europa occidental do XII e XIII seculos.
+<br />
+
+<br />
+
+A egreja era muito vasta; a sua nave meridional
+ficava encostada ao claustro, com as suas galerias
+para passeiar; a Leste do claustro est&aacute; a
+casa do capitulo; o parlatorio era o grande recinto
+onde se reuniam os monges; no andar sobre este
+lado ficava o dormitorio e o refeitorio, e a cozinha
+<span class="pagenum"><a name="p359">[359]</a></span>
+do lado da galeria meridional do claustro. O rez-do-ch&atilde;o
+era destinado para reuni&otilde;es durante o
+dia, e o andar superior para as de noite; como
+se dizia na idade m&eacute;dia, <em>domus conversorum</em>.
+O
+rio ou ribeiro passava por baixo do refeitorio ou
+cozinha para levar o lixo de toda a qualidade.
+Defronte dos aposentos dos irm&atilde;os conversos, havia
+um grande pateo murado, no qual estava, na
+direc&ccedil;&atilde;o de sudoeste, a porta da entrada
+principal
+da abbadia. Temos em Portugal um famoso modelo
+na antiga abbadia de Alcoba&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+As outras grandes ordens religiosas adoptaram
+muitas vezes, para os seus mosteiros, disposi&ccedil;&otilde;es
+analogas.
+<br />
+
+<br />
+
+As ordens de S. Domingos e S. Francisco, fundadas
+ambas no principio do XIII seculo, estabeleciam-se
+regularmente nos grandes centros da povoa&ccedil;&atilde;o,
+onde n&atilde;o achavam sempre espa&ccedil;o bastante
+vasto para se poderem desenvolver &aacute; vontade e
+disp&ocirc;r as differentes partes dos seus mosteiros
+seguindo dados uniformes. &Eacute; por esta raz&atilde;o que,
+em muitos casos, o plano dos seus conventos differe
+sensivelmente da disposi&ccedil;&atilde;o tradicional observada
+escrupulosamente pelos monges de Cister,
+mesmo, por&eacute;m, com mais liberdade pelos Benedictinos.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Egrejas</em>. A planta das egrejas monasticas apresenta
+geralmente, como a das cathedraes e das
+collegiadas, a f&oacute;rma de uma cruz Latina. Muitas
+vezes a capella-m&oacute;r n&atilde;o &eacute; muito
+comprida. Foi
+ent&atilde;o no XIII seculo que na Europa occidental e
+<span class="pagenum">[360]</span>
+central se pozeram as cadeiras no c&ocirc;ro para os
+frades, n&atilde;o s&oacute;mente na capella-m&oacute;r,
+mas tambem
+no cruzeiro, e mesmo em uma parte da nave principal,
+como existia na egreja de Alcoba&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+As egrejas dos frades Dominicanos e dos Franciscanos
+n&atilde;o tinham ordinariamente nem cruzeiro
+nem torre. No XIII seculo, os Dominicanos, construiram
+em Paris, Augsbourg, Dresde e outras
+muitas cidades, egrejas com esta disposi&ccedil;&atilde;o
+excepcional,
+ficando divididas por duas naves com um
+unico renque de columnas. Encontra-se tambem
+esta disposi&ccedil;&atilde;o, por&eacute;m, raramente, nas
+egrejas das
+outras Ordens religiosas.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Claustros</em>. Durante o periodo ogival, os claustros
+eram geralmente construidos de abobada de
+barrete com nervuras, e communicando com o
+pateo do convento por arcadas ogivaes, vasadas e
+separadas umas das outras por contrafortes. Nas
+arcadas collocavam nos XIII, XIV e XV seculos, trabalhos
+rendilhados em cantaria, similhantes aos
+feitios que se viam nas janellas contemporaneas; e
+de que temos exemplos nos edificios religiosos da
+Batalha e de Belem. Muitas vezes esses caixilhos
+de pedra n&atilde;o tinham vidros; todavia, principalmente
+no Norte e Oeste da Europa, vedavam os tympanos
+com vidros brancos ou de c&ocirc;res, a fim de
+dar abrigo contra os rigores da temperatura a
+quem passeasse pelas galerias do claustro.
+<br />
+
+<br />
+
+Desde o XIV seculo algumas vezes, e bastantes
+no XV seculo, substituiram nos claustros, as arcadas
+ogivaes pelo feitio de janellas com pinasios de
+<span class="pagenum">[361]</span>
+pedra similhantes aos das arcaduras ornadas, que
+se veem nos peitoris das janellas inferiores nas
+egrejas do ultimo periodo ogival.
+<br />
+
+<br />
+
+Fizemos notar, que as egrejas cathedraes e collegiaes
+tinham antigamente um claustro, porque, do
+mesmo modo que os frades, os conegos viviam a
+principio em communidade. Este uso, que principiou
+a n&atilde;o se seguir desde o XIII seculo, persistiu
+n&atilde;o obstante
+em muitas partes at&eacute; ao fim do periodo ogival.
+<br />
+
+<br />
+
+Quasi todos os claustros, grandes e pequenos,
+construidos na idade m&eacute;dia, possuiam um <em>lavabo</em>,
+<em>lavadouro</em>, tendo uma pia com uma fonte. A fonte
+occupava, no principio, o centro do pateo do convento.
+Mais tarde approximaram-a da galeria do
+refeitorio; ficando ent&atilde;o collocada em frente da
+entrada do refeitorio, ou em um dos angulos da
+galeria ao longo d'elle. Os frades voltando do trabalho
+da lavoura, lavavam ahi as m&atilde;os antes de
+se p&ocirc;rem &aacute; mesa ou ir &aacute;s rezas.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Refeitorio</em>. O refeitorio estava geralmente situado
+ao correr da galeria meridional do claustro. Como
+j&aacute; referimos, compunha-se d'uma vasta sala
+tra&ccedil;ada
+sobre um plano rectangular, abobadada em
+geral ou por v&atilde;os descan&ccedil;ando sobre um fuste de
+columnas. Por cima do claustro, havia muitas vezes
+um andar pouco alto, servindo de celleiro para
+abastecimento no inverno, com alimentos e fructas
+passadas.
+<br />
+
+<br />
+
+Nos conventos dos Cistercienses, o refeitorio era
+sempre dividido em duas naves por um renque de
+columnas, collocadas ao meio longitudinal; al&eacute;m
+<span class="pagenum">[362]</span>
+d'isto, ficava este renque perpendicular &aacute; galeria
+proxima do claustro. No refeitorio dos frades de
+S. Bento, e em geral, em todas as outras abbadias,
+o grande eixo corria parallelo &aacute; galeria do
+claustro, e o renque das columnas muitas vezes
+n&atilde;o &eacute; representado.
+<br />
+
+<br />
+
+Ao lado do grande refeitorio, quasi sempre a
+oeste d'elle, ficava a cosinha, geralmente com
+uma grande chamin&eacute; quadrada.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Casa do Capitulo</em>. No rez-do-ch&atilde;o ao
+correr da
+galeria oriental do claustro era a casa do Capitulo,
+a casa para as visitas e a sala dos frades. O
+dormitorio occupava o andar d'este lado uma escada
+conduzindo directamente do andar superior ao
+cruzeiro do lado do sul, facilitava aos frades descerem
+&aacute; egreja para os officios nocturnos sem se
+exp&ocirc;rem ao ar exterior.
+<br />
+
+<br />
+
+A casa do Capitulo, isto &eacute;, o logar onde os frades
+se reuniam sob a presidencia do abbade, afim
+de tratarem dos negocios espirituaes e temporaes
+do mosteiro, era edificado sobre um plano quadrado
+ou rectangular com um ou muitos renques de pilares
+sustentando as abobadas e as suas nervuras,
+dividindo-se em duas ou mais naves. Bancos de pedra
+guarneciam as paredes em roda. Na Inglaterra
+d&aacute;-se frequentemente ao plano das casas de capitulo
+a f&oacute;rma circular ou polygona; e n'este caso,
+uma unica columna central sustenta a abobada e
+as suas nervuras, como ha em Westminster e em
+Lincoln.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Parlatorio</em>. O parlatorio, <em>collocutorium</em>,
+era uma
+<span class="pagenum"><a name="p363">[363]</a></span>
+pequena casa entre a do capitulo e a escada conduzindo
+ao dormitorio. Ali os frades tinham licen&ccedil;a
+de conversarem em voz baixa, quando rela&ccedil;&otilde;es
+indispensaveis da vida commum o exigissem. Em
+todas as outras partes do mosteiro se devia guardar
+o maior silencio.
+<br />
+
+<br />
+
+Ao lado da escada proxima do parlatorio, havia
+um corredor pelo qual se podia passar para o
+grande claustro e annexos da abbadia perto do
+c&ocirc;ro da egreja.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Casa e dormit&oacute;rio dos frades</em>. A casa
+onde os
+frades passavam o dia, que os <em>antigos</em> designavam
+<em>domus fratrum</em> e que os inglezes designam ainda
+sob o nome de <em>fratres</em>, isto &eacute;, logar
+onde vivem
+os frades, consistia n'um vasto espa&ccedil;o abobadado
+e occupava sempre o rez-do-ch&atilde;o, na extremidade
+Sul do lado Oriental do mosteiro.
+<br />
+
+<br />
+
+No andar da casa de que acabamos de fallar,
+encontrava-se o dormitorio commum dos frades,
+pois a regra de S. Bento determinava que os frades
+dormissem n'uma s&oacute; casa, mas em camas separadas:
+<em>Monachi singuli, per singula lecta dormiant;
+si potest fieri, omnes in uno loco dormiant</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+O uso das cellas, que havia em alguns raros mosteiros
+desde o XII seculo, n&atilde;o veiu a ser commum
+sen&atilde;o na epocha do renascimento.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Aposento dos irm&atilde;os leigos</em>. Todas as
+grandes
+abbadias benedictinas e cistercienses tinham, no
+XII e no XIII seculos, um numero consideravel,
+chegando a ter 300 a 400 leigos, designados
+nos necrologios com o nome de <em>conversi</em> ou <em>fratres
+<span class="pagenum">[364]</span>
+ad succurrendum</em>. Estes irm&atilde;os, que
+n&atilde;o entravam
+nas ordens sagradas, mas faziam profiss&atilde;o
+de religiosos, destinavam-se, sob a direc&ccedil;&atilde;o dos
+frades, aos trabalhos da agricultura e ao exercicio
+de diversos officios. Habitavam o lado occidental
+dos edificios monasticos, designados por esta raz&atilde;o
+casa dos leigos, <em>domus conversorum</em>, e
+prolongava-se
+muitas vezes desde o portico da egreja
+at&eacute; muito &aacute;lem do grande refeitorio.
+<br />
+
+<br />
+
+Nos edificios cistercienses, a habita&ccedil;&atilde;o dos
+leigos
+compunha-se regularmente, no rez-do-ch&atilde;o,
+d'uma s&oacute; e vasta casa abobadada, dividida em duas
+naves por um renque de columnas; e no andar
+por cima, de uma casa do mesmo tamanho da inferior,
+coberta as mais das vezes por um telhado
+tendo o madeiramento visivel na parte interna.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Casa abbacial</em>. Originariamente o aposento do
+padre abbade consistia n'uma simples cella. D'ahi
+a pouco, todavia, o aposento do chefe do mosteiro
+veiu a ser uma construc&ccedil;&atilde;o importante; e viam-se
+muito raramente, na idade m&eacute;dia, os abbades contentarem-se
+com o dormitorio commum ou uma
+simples cella. A come&ccedil;ar do XIV seculo, e principalmente
+na epocha do renascimento, as casas
+abbaciaes vieram a ser muitas vezes verdadeiros
+palacios, constando d'uma capella particular, grandes
+salas, pateos, cavallari&ccedil;as, jardins com
+terra&ccedil;os,
+etc.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Aposentos para hospedes.</em> Todas as abbadias tinham
+uma habita&ccedil;&atilde;o reservada ou uma parte do
+proprio edificio para hospedar as pessoas que visitavam
+<span class="pagenum"><a name="p365">[365]</a></span>
+os frades. No principio, esta habita&ccedil;&atilde;o
+estava
+sempre a pouca distancia da porta principal
+afim de evitar distrac&ccedil;&atilde;o para os frades do
+convento:
+como ha um bello exemplo no extincto
+mosteiro de Alcoba&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+As abbadias, que foram em todos os tempos casas
+de caridade, possuiam tambem suas esmolerias
+destinadas a dar habita&ccedil;&atilde;o e sustento aos pobres
+e peregrinos. Eram situadas na visinhan&ccedil;a
+da entrada do convento.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Celleiros.</em> Nos seculos XI e XII, as abbadias
+applicaram-se
+activamente ao surribamento dos terrenos
+incultos; os trabalhos campestres eram de
+certo modo, a sua occupa&ccedil;&atilde;o principal. Foram as
+Ordens de Cister e de S. Bernardo que prestaram
+assignalados servi&ccedil;os &aacute; agricultura.
+<br />
+
+<br />
+
+As abbadias n&atilde;o faziam colheita s&oacute;mente do
+producto
+das suas proprias explora&ccedil;&otilde;es agricolas;
+cobravam tambem o dizimo em muitos sitios e
+recebiam em genero o pagamento dos rendeiros.
+Precisavam portanto vastos celleiros e armazens
+muito grandes para recolher, no tempo da ceifa,
+os cereaes que recebiam por esses differentes titulos.
+<br />
+
+<br />
+
+Nos conventos cistercienses o celleiro formava,
+no principio do periodo ogival, um edificio muito
+vasto, edificado sob um plano rectangular. Era algumas
+vezes abobadado e dividia-se em duas naves
+por um renque de columnas para maior solidez,
+servindo o andar para os cereaes. Outras vezes
+compunha-se de tres naves separadas por dois
+<span class="pagenum">[366]</span>
+renques de pilares ou prumos de madeira para
+sustentar o madeiramento sem precis&atilde;o de abobadas.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Officinas</em>. Nos XII e XIII seculos havia em cada
+abbadia, alguns leigos ajudados muitas vezes por
+seculares exercendo os officios necessarios para a
+conserva&ccedil;&atilde;o do edificio e para o
+fabr&iacute;co dos pannos,
+couros e instrumentos aratorios. Empregavam
+um certo numero de alveneos, ferreiros, carpinteiros,
+fabricantes de pannos, tanoeiros, etc.; as
+officinas estavam geralmente collocadas aos dois
+lados do pateo situado entre a porta da entrada
+principal do convento e a habita&ccedil;&atilde;o dos leigos.
+<br />
+
+<br />
+
+A maior parte das abbadias possuiam tambem
+seu moinho e fabrica de cerveja.
+<br />
+
+<br />
+
+O desenvolvimento extraordinario dos estabelecimentos
+religiosos durante as suas culturas e
+explora&ccedil;&otilde;es ruraes motivou a
+construc&ccedil;&atilde;o de curraes
+espa&ccedil;osos. Encontravam-se tambem em todas
+as abbadias pateos para aves.
+<br />
+
+<br />
+
+Em propriedades importantes situadas a alguma
+distancia da abbadia, estabeleciam-se muitas vezes
+grandes herdades, sendo a sua explora&ccedil;&atilde;o confiada
+a alguns leigos sob a direc&ccedil;&atilde;o d'um frade.
+Compunham-se d'um corpo de casas situadas em
+roda d'um pateo quadrado, as quaes tinham
+communica&ccedil;&atilde;o
+s&oacute; do lado d'elle. Al&eacute;m d'esta
+habita&ccedil;&atilde;o,
+curraes, celleiro e outros edificios necessarios
+para o servi&ccedil;o da explora&ccedil;&atilde;o, havia
+n'estas
+herdades, uma capella onde os leigos assistiam aos
+officios religiosos.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p367">[367]</a></span>
+<em>Celleiros</em>. D&aacute;-se o nome de celleiro aos
+armazens
+onde se conservam os mantimentos de todo o
+genero. O frade encarregado de vigiar o abastecimento
+tinha o nome de <em>celleiro</em>, <em>cellerarius</em>
+e <em>collarius</em>,
+mudado mais tarde, por algumas ordens religiosas,
+no de <em>procurador</em>, <em>procurator</em>.
+Este logar
+passava por um dos mais importantes nas abbadias.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Pris&otilde;es</em>. Na idade m&eacute;dia, as
+abbadias, universidades
+e algumas vezes os cabidos possuiam pris&otilde;es
+para encarcerar os membros da communidade
+que se tivessem tornado criminosos de delictos
+ou insubordina&ccedil;&atilde;o para com os superiores.
+<br />
+
+<br />
+
+Na qualidade de soberania, as abbadias, universidades
+e cabidos gosavam, nos territorios que
+lhe pertenciam, o poder superior de justi&ccedil;a, e
+tinham pris&otilde;es para encarcerar os seus subditos
+seculares criminosos. As pris&otilde;es das abbadias
+ficavam a uma certa distancia dos edificios da
+habita&ccedil;&atilde;o
+dos religiosos.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Cartuchas</em>. As cartuchas, cuja origem vem dos
+ultimos annos do XI seculo, apresentam
+disposi&ccedil;&otilde;es
+notavelmente differentes das cellas das abbadias.
+As principaes differen&ccedil;as que se observam,
+s&atilde;o: grandissimo comprimento dos claustros; numerosas
+habita&ccedil;&otilde;es inteiramente separadas, para
+uso dos religiosos, as quaes se compunham sempre
+de dois ou tres quartos e d'um pequeno jardim,
+com uma porta dando entrada para a galeria
+do claustro.
+<br />
+
+<br />
+
+Quas&iacute; todas as cartuchas tinham dois claustros
+unidos.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p368">[368]</a></span>
+<em>Mosteiros para mulheres</em>. As
+disposi&ccedil;&otilde;es das
+differentes partes dos mosteiros para mulheres
+apresentam a maior analogia com os das abbadias
+para homens. &Aacute; roda do claustro ergue-se a
+egreja, a casa do capitulo com dormitorio no andar
+superior, o refeitorio e os outros aposentos.
+As escolas exteriores, que havia &aacute;s vezes nos
+conventos de homens, como por exemplo dos frades
+Agostinhos, as casas para hospedes, peregrinos
+e viajantes, faltavam nos conventos das mulheres,
+porque toda a rela&ccedil;&atilde;o com o exterior lhe era
+prohibida.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Os conventos de recolhidas</em> consistiam em casas
+particulares e communs, situadas em um recinto
+inteiramente fechado, &aacute; roda de uma egreja isolada
+de todos os lados. Sectarias de <em>B&eacute;gard</em>,
+partidistas
+de uma perfei&ccedil;&atilde;o extrema que permittia todos os
+excessos de devo&ccedil;&atilde;o e que f&ocirc;ra adoptada
+no III
+seculo. As recolhidas tinham o nome de Beatas.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Hospitaes</em>. Os hospitaes da idade m&eacute;dia
+differem
+absolutamente dos hospitaes modernos. Os do XII
+e do XIII seculos compunham-se sempre, de uma
+extensa casa onde estavam as camas para os doentes,
+de uma egreja ou capella contigua a esta
+casa e communicando com ella, de um aposento
+para os enfermeiros, e de algumas casas para servi&ccedil;o.
+Por causa da hygiene ficavam geralmente
+situados nas proximidades da porta da cidade ou
+sobre a margem de um rio.
+<br />
+
+<br />
+
+<h4><span class="pagenum"><a name="p369">[369]</a></span>Iconographia
+do periodo ogival
+</h4>
+
+<br />
+
+<em>Observa&ccedil;&otilde;es preliminares</em>. As
+representa&ccedil;&otilde;es iconographicas
+t&atilde;o variadas e t&atilde;o abundantes de
+symbolismo, que se encontram em grande numero
+sobre os monumentos e alfaias religiosas das epochas
+Roman e Ogival, eram geralmente projectadas
+e imaginadas, n&atilde;o pelo obreiro ou artista que
+executava o objecto, por&eacute;m, por um padre, frade
+ou secular litterato.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>A aureola</em>. A aureola ficou em uso como signal
+iconographico durante todo o periodo ogival. <em>Crucifera</em>
+pertence exclusivamente &aacute;s pessoas da Santissima
+Trindade; simplesmente <em>circular</em> &eacute;
+attributo
+caracteristico dos Santos. A sua f&oacute;rma manteve-se
+geralmente a mesma que era antes, salvas
+algumas modifica&ccedil;&otilde;es em certos paizes, mas apenas
+no termo do periodo ogival.
+<br />
+
+<br />
+
+No fim do XIV seculo, n&atilde;o s&oacute;mente os Santos,
+os Apostolos e Nossa Senhora, mas tambem os
+anjos, assim como o Padre Eterno e Jesus Christo
+ficaram privados d'este attributo caracteristico.
+Se a aureola por acaso apparece ainda resplandecendo
+alguma imagem, foi porque o artista, luctando
+contra a moda, commetteu archaismo. Um
+sem numero de monumentos que datam d'esta
+epocha e chegaram at&eacute; &aacute; nossa, apresentam <em>sem
+aureola</em> as imagens divinas, as imagens divinas, angelicas ou
+sanctificadas.
+<br />
+
+<br />
+
+<h4><span class="pagenum"><a name="p370">[370]</a></span>
+Representa&ccedil;&atilde;o da Santissima Trindade
+</h4>
+
+<br />
+
+Na epocha ogival, serviam-se ainda algumas
+vezes do baptismo de Jesus Christo para representar
+a Santissima Trindade. Como no periodo
+Roman, dava-se ainda, durante o periodo ogival,
+a f&oacute;rma humana &aacute;s tres pessoas Divinas, ou pelo
+menos &aacute;s duas primeiras, pois o Espirito Santo
+continuou a ser frequentemente symbolisado por
+uma pomba. As tres pessoas Divinas contin&uacute;am a
+ser representadas da mesma f&oacute;rma at&eacute; ao fim do
+XIV seculo. Mais tarde o Padre Eterno teve a figura
+de um anci&atilde;o, o Filho de Deus a de um homem de
+trinta a trinta e cinco annos, e o Espirito Santo a
+de um adolescente de doze a dezoito annos. Ao
+Padre Eterno d&aacute;-se ent&atilde;o o distinctivo de um
+globo,
+uma Cruz de resurrei&ccedil;&atilde;o ao Filho, e um livro ao
+Espirito Santo. Finalmente, ainda perto da mesma
+epocha, representa-se o Padre Eterno, e mesmo
+algumas vezes o seu Filho, de papa ou de imperador,
+com a pretens&atilde;o de expressar, por assim
+dizer materialmente, o seu supremo poder, achando-os
+revestidos das insignias das duas maiores
+auctoridades conhecidas sobre a terra.
+<br />
+
+<br />
+
+Encontram-se tambem, no fim do periodo ogival,
+dois symbolos da Santissima Trindade, consistindo
+em figuras geometricas, o triangulo e tres circulos
+entrela&ccedil;ados. Na epocha do renascimento, costumavam
+muito a inscrever n'um triangulo algumas vezes
+um olho, outras o nome de Jehovah.
+<br />
+
+<br />
+
+<h4><span class="pagenum"><a name="p371">[371]</a></span>
+O crucifixo e a crucifica&ccedil;&atilde;o</h4>
+
+<br />
+
+No XIII seculo, epocha designada <em>do soffrimento</em>,
+ou da <em>realidade</em>, principia-se a representar Jesus
+Christo na Cruz. O corpo do Redemptor curva-se
+ou mais depressa retorce-se de uma maneira bastante
+desagradavel; os bra&ccedil;os n&atilde;o ficam na sua
+posi&ccedil;&atilde;o
+horisontal, pois as espaduas descem sensivelmente
+abaixo do ponto de uni&atilde;o das m&atilde;os, de modo
+a figurar os esfor&ccedil;os naturaes produzidos por um
+corpo humano suspenso por meio de cravos; os
+p&eacute;s sobrepostos afastam-se de pessima
+posi&ccedil;&atilde;o,
+muitas vezes mesmo fazem encruzar as pernas;
+finalmente a cabe&ccedil;a de Christo, moribundo ou sem
+vida, est&aacute; quasi sempre inclinada sobre o hombro
+direito, isto &eacute;, para o logar onde se v&ecirc; a
+M&atilde;e de
+Jesus e tambem algumas vezes a personifica&ccedil;&atilde;o
+da Egreja.
+<br />
+
+<br />
+
+Nas crucifica&ccedil;&otilde;es pintadas e esculpidas do XV e
+XVI seculo, a cruz do Redemptor e as dos ladr&otilde;es,
+muitas vezes bastante altas e de diminuta grossura;
+assim como a travessa horisontal da cruz do
+Christo tem um grande comprimento, em quanto
+que a extremidade que tem o titulo, sobe apenas
+ao ponto de intersec&ccedil;&atilde;o das duas travessas.
+<br />
+
+<br />
+
+Desde os primeiros annos do XIII seculo, principiou-se
+com timidez primeiramente a supprimir
+o <em>suppedaneum</em> e a pregar &aacute; cruz, por
+meio de
+um unico cravo, os dois p&eacute;s sobrepostos do Redemptor;
+por&eacute;m, depois de algum tempo, o empreg e a pregar
+&aacute; cruz, por
+meio de
+um unico cravo, os dois p&eacute;s sobrepostos do Redemptor;
+por&eacute;m, depois de algum tempo, o emprego
+de tres cravos veiu a ser quasi t&atilde;o commum
+<span class="pagenum">[372]</span>
+como o de quatro; e nos seculos XIV XV foi o unico
+empregado.
+<br />
+
+<br />
+
+O Christo crucificado traz ainda a aureola no XIII
+seculo. A cor&ocirc;a de espinhos, quas&iacute; desconhecida
+antes, apparece de tempos a tempos no XIV seculo.
+No seculo seguinte encontra-se frequentemente.
+<br />
+
+<br />
+
+No XIII seculo, a representa&ccedil;&atilde;o da
+crucifica&ccedil;&atilde;o
+foi ainda algumas vezes reproduzida com todas as
+personagens e accessorios historicos e allegoricos
+que acompanhavam precedentemente e que j&aacute; temos
+descripto; o mais das vezes, todavia, n&atilde;o se
+conservam sen&atilde;o alguns. Os que se v&ecirc;em geralmente
+s&atilde;o Nossa Senhora e S. Jo&atilde;o, o sol e a lua.
+Os dois ladr&otilde;es, a egreja e a synagoga raro apparecem.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Nossa Senhora e S. Jo&atilde;o</em>. Durante o
+periodo
+roman, Nossa Senhora e o discipulo mais amado
+s&atilde;o representados com uma attitude de paz, erguendo
+geralmente os bra&ccedil;os para o Redemptor
+ou occultam o rosto em signal de pezar. No XIII
+seculo, e mesmo durante uma parte do XIV seculo,
+conservam esta attitude estavel e digna. Mais tarde,
+o gesto que se lhe attribue exprime j&aacute; uma d&ocirc;r
+vulgar e natural.
+<br />
+
+<br />
+
+No XV seculo, e algumas vezes j&aacute; no XIV seculo,
+os artistas christ&atilde;os procuram produzir, na alma do
+espectador, sentimentos de ternura e de compaix&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Para este effeito representam Nossa Senhora
+desmaiada nos bra&ccedil;os das duas santas mulheres
+que a amparam. Os exemplos d'este <em>deliquio</em>,
+encontram-se
+na Italia desde o XIII seculo.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p373">[373]</a></span>
+<em>O Sol e a Lua</em>. Durante o periodo ogival, o Sol
+&eacute; figurado geralmente por um disco radiante, e a
+Lua por um simples quarto crescente.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>A Egreja e a Synagoga</em>. Como j&aacute;
+explic&aacute;mos,
+a Egreja e a Synagoga eram personificadas, durante
+o periodo roman, por simples mulheres trazendo
+os respectivos attributos. Depois do meiado do XII
+seculo, essas mulheres representavam rainhas. A
+que symbolisava a Egreja, sempre collocada &aacute; direita
+de Jesus Christo, traz uma cor&ocirc;a, e levanta
+a cabe&ccedil;a com uma express&atilde;o de orgulho; as mais
+das vezes, tem n'uma das m&atilde;os o calix, e na outra
+uma cruz de haste comprida ou um pequeno modelo
+de uma egreja.
+<br />
+
+<br />
+
+A Synagoga, pelo contrario, tem uma cor&ocirc;a que
+lhe pende da cabe&ccedil;a e um estandarte cuja haste
+se quebrou entre as suas m&atilde;os; deixando escapar
+as taboas da Lei, e tendo os olhos vendados por
+uma faxa ou por um drag&atilde;o que se lhe enrosca &aacute;
+roda da testa.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Os dois ladr&otilde;es</em>. Os ladr&otilde;es
+nas mais antigas crucifica&ccedil;&otilde;es,
+apparecem de tempos a tempos durante
+o periodo ogival; teem os musculos encolhidos at&eacute;
+a contors&atilde;o, e as m&atilde;os, n&atilde;o pregadas
+sobre a cruz,
+mas ligadas &aacute;s costas de maneira a deixar passar,
+pelo centro, a travessa horisontal do instrumento
+do seu supplicio. No fim do periodo ogival, encontram-se
+de novo representados os ladr&otilde;es, principalmente
+nos retabulos de madeira de obra de talha
+da escola hollandeza.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Imagem de Nossa Senhora</em>. <em>Nossa Senhora
+com
+<span class="pagenum"><a name="p374">[374]</a></span>
+o Menino Jesus</em>. Durante o periodo ogival, o <em>grupo
+historico</em> de adora&ccedil;&atilde;o dos reis magos,
+que se v&ecirc;
+sobre alguns pequenos <em>diptycos</em> ou <em>triptycos</em>,
+de
+marfim, onde se v&ecirc;, ao mesmo tempo, a
+crucifica&ccedil;&atilde;o
+e outras scenas tiradas da vida de Jesus
+Christo. N'esta representa&ccedil;&atilde;o os reis magos
+trazem
+sempre na cabe&ccedil;a a coroa real.<br />
+
+<br />
+
+No XIII seculo, encontra-se ainda frequentemente
+Nossa Senhora <em>assentada</em> em uma cadeira ou throno,
+tendo sobre os joelhos o Menino Jesus, o qual deita
+a ben&ccedil;&atilde;o com a m&atilde;o direita e na
+esquerda tem um
+livro ou o globo terraqueo.
+<br />
+
+<br />
+
+J&aacute; muitas vezes no XIII seculo, e mais tarde
+quasi sempre, Nossa Senhora est&aacute; de p&eacute; e com
+o Menino Jesus no bra&ccedil;o esquerdo. Durante a primeira
+parte do periodo ogival, a sua posi&ccedil;&atilde;o
+&eacute; mais
+ou menos curvada.
+<br />
+
+<br />
+
+Em quanto aos caracteres que apresentam as
+imagens de Nossa Senhora assentada ou de p&eacute;
+nos differentes monumentos do periodo ogival, p&oacute;dem-se
+resumir nos termos seguintes. Nunca o
+grupo de Nossa Senhora com o Menino Jesus foi
+mais ideal que no XIII seculo; mal se approxima
+o XIV seculo, descuida a sua bella composi&ccedil;&atilde;o
+poetica
+para adoptar a realidade primeiramente e depois
+descahir na vulgaridade at&eacute; &aacute; rudeza.
+<br />
+
+<br />
+
+No fim do XII e no principio do XIII seculo, p&oacute;de-se
+dizer que Nossa Senhora n&atilde;o apparece j&aacute; com
+o Menino Jesus: esta representa&ccedil;&atilde;o seria muito
+vulgar e Nossa Senhora assemelhar-se-hia a qualquer
+m&atilde;e que tivesse o seu filho ao collo; mas ent&atilde;o
+<span class="pagenum">[375]</span>
+a Santa imagem o tem <em>junto de si</em>.
+O Menino
+Jesus traz o globo do mundo na m&atilde;o esquerda e
+deita a ben&ccedil;&atilde;o com a m&atilde;o direita;
+al&eacute;m d'isso est&aacute;
+completamente vestido, &eacute; j&aacute; crescido, posto que
+ainda menino; &eacute; o Deus-Homem, mais depressa
+que Homem-Deus. No fim do XIII seculo, Nossa
+Senhora principia a ser mais do que a guarda de
+seu Filho como fazem todas as m&atilde;es mortaes! Jesus
+est&aacute; ainda vestido, aben&ccedil;&ocirc;a trazendo um
+livro ou
+um globo; por&eacute;m o vestuario &eacute; menos largo e mais
+curto, o livro menos volumoso, o globo mais pequeno.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Scenas tiradas da vida de Nossa Senhora</em>.
+Mencionaremos
+as tres principaes:
+<br />
+
+<br />
+
+A <em>Annuncia&ccedil;&atilde;o</em> &eacute;
+quasi sempre representada da
+mesma maneira. Nossa Senhora est&aacute; de joelhos sobre
+um genuflexorio no momento em que apparece
+o Anjo. Entre a imagem e o Anjo est&aacute; um vaso
+com a fl&ocirc;r de liz aberta. Muitas vezes S. Gabriel
+tem n'uma haste esta fl&ocirc;r ou um sceptro; por vezes
+traz na m&atilde;o uma bandeirola com a
+inscrip&ccedil;&atilde;o:
+<em>Ave Maria</em>. Um raio luminoso cae sobre a
+cabe&ccedil;a
+de Nossa Senhora, ou ent&atilde;o, o Espirito Santo, sob
+a f&oacute;rma d'uma pomba, descan&ccedil;a sobre a imagem
+da Virgem Maria.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>A morte de Nossa Senhora</em> &eacute; quasi sempre
+representada
+da maneira seguinte: Nossa Senhora
+est&aacute; deitada sobre um leito rodeada pelo seu Divino
+Filho e pelos apostolos. Jesus traz no bra&ccedil;o
+a alma de Nossa Senhora, representada por uma
+creancinha. Os apostolos trazem muitas vezes um
+livro com figura iconographica.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p376">[376]</a></span>
+<em>A coroa&ccedil;&atilde;o de Nossa Senhora</em>
+faz-se umas vezes
+por Jesus s&oacute;, outras por tres pessoas da Santissima
+Trindade; outras ainda v&ecirc;-se Nossa Senhora
+com a cor&ocirc;a na cabe&ccedil;a, sentada sobre o mesmo
+throno em que est&aacute; o seu Divino Filho, o qual se
+lhe abra&ccedil;a ao peito.
+<br />
+
+<br />
+
+Deixariamos incompleta a historia iconographica
+de Nossa Senhora, n&atilde;o mencionando aqui a <em>Arvore
+de Jess&eacute;</em>, que se v&ecirc; tantas vezes desde
+o XII seculo.
+Jess&eacute; adormecido serve de alguma maneira de raiz
+ao tronco mysterioso, o qual s&aacute;e quer do seu peito,
+quer de sua bocca, quer do seu cerebro. Os ramos
+d'este tronco separando-se, trazem na extremidade
+um dos antepassados do Redemptor; no
+cimo, uma fl&ocirc;r desabrocha e serve de apoio a Nossa
+Senhora, algumas vezes s&oacute;, outras tendo nos
+bra&ccedil;os
+o seu Divino Filho. As mais das vezes a arvore
+de Jess&eacute; complica-se, entre cada ramo est&aacute;
+collocado
+um propheta com um phylateria mostrando
+a prophecia de que &eacute; auctor, e que se refere &aacute;
+v&iacute;nda de Jesus Christo. Olhando para a extremidade
+d'esta arvore, mostra com o dedo onde deve
+repousar o Espirito Santo. No Oriente, n&atilde;o se limitam
+unicamente a intercalar os prophetas no
+meio dos ramos, ajuntam-lhe o divino <em>Balaam</em>,
+e os sabios da Grecia com as suas maximas. O XV
+e XVI seculos produziram um grande numero de
+arvores de Jess&eacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Os Apostolos e os Evangelistas</em>.&#8213;<em>Apostolos</em>.
+Jesus
+Christo escolheu doze apostolos &aacute; frente dos
+quaes collocou S. Pedro. Depois da morte do Redemptor,
+<span class="pagenum"><a name="p377">[377]</a></span>
+o traidor Judas ficou substituido por S.
+Mathias. Al&eacute;m d'estes doze apostolos, que constituem
+a congrega&ccedil;&atilde;o apostolica assim chamada,
+deu-se tambem o nome de apostolos a alguns outros
+santos que haviam tomado uma parte activa
+e vasta na funda&ccedil;&atilde;o da Egreja christ&atilde;.
+Tal foi
+S. Paulo, convertido milagrosamente no caminho
+de Damasco, elle o grande promotor da convers&atilde;o
+dos pag&atilde;os e appellidado, por esta raz&atilde;o, o
+apostolo dos gentios; taes foram ainda S. Barnab&eacute;,
+S. Lucas e S. Marcos, unicos discipulos, os quaes
+pelas suas pr&eacute;dicas, e, os dois ultimos tambem,
+pelos Evangelhos que compozeram, poderosamente
+contribuiram para a propaga&ccedil;&atilde;o da doutrina de
+Christo.
+<br />
+
+<br />
+
+Como S. Paulo figura quasi sempre entre os
+apostolos quando se representam reunidos em
+numero de onze, resulta que se supprime geralmente
+um; as mais das vezes &eacute; S. Mathias, o
+successor do traidor Judas, algumas vezes tambem
+S. Judas ou qualquer outro apostolo.
+<br />
+
+<br />
+
+At&eacute; ao XIII seculo, os apostolos, &aacute;
+excep&ccedil;&atilde;o de
+S. Pedro e S. Paulo, n&atilde;o tinham nenhum attributo
+caracteristico pelo qual se podessem distinguir uns
+dos outros. Representavam-se todos de uma maneira
+uniforme, com um livro ou um rolo de papel
+na m&atilde;o. Depois do XIII seculo, ficam geralmente
+caracterisados pelos instrumentos presumidos do
+seu martyrio; por&eacute;m, como o genero do supplicio
+que soffreram n&atilde;o &eacute; muito bem determinado para
+todos, torna-se por vezes difficil designar com
+<span class="pagenum">[378]</span>
+certeza o nome de alguns d'elles: todavia o que
+os caracterisa ordinariamente &eacute; o seguinte:
+<br />
+
+<br />
+
+S. Pedro traz as chaves ou por vezes a Cruz
+abatida, instrumento do seu supplicio; S. Paulo,
+a espada com que lhe cortaram a cabe&ccedil;a; S.
+Jo&atilde;o, o calix envenenado do qual saiu a morte
+sob a f&oacute;rma de um drag&atilde;o; Santo Andr&eacute;,
+com a
+Cruz em f&oacute;rma de X, e que tem o seu nome; S.
+Jeronymo, a espada, ou as mais vezes, o bord&atilde;o e o
+vestido de peregrino guarnecido de conchas; S.
+Filippe, a cruz com haste comprida; S. Bartholomeu,
+um grande cutello do qual se serviram para
+o esfollar, e algumas vezes tambem uma cruz;
+S. Matheus, um machado, uma espada ou uma
+lan&ccedil;a; S. Sim&atilde;o, uma serra; S. Judas, uma cruz
+ou um livro; S. Thiago, um bord&atilde;o; S. Thomaz,
+uma grande pedra e por vezes ao mesmo tempo
+uma lan&ccedil;a; finalmente S. Mar&ccedil;al, uma picareta
+ou um alfange.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Evangelistas</em>. Os Evangelistas continuaram a ser
+representados da mesma maneira que precedentemente,
+quer seja com a f&oacute;rma humana, quer seja
+pelos symbolos dos quatro rios do Paraizo, quer
+seja por quatro figuras aladas.
+<br />
+
+<br />
+
+J&aacute; indic&aacute;mos o logar respectivo que devem
+sempre occupar os animaes symbolicos nos quatro
+angulos de um quadrado ou nas extremidades
+dos quatro bra&ccedil;os da Cruz. Esta regra ficou em
+vigor durante o periodo ogival.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Scenas diversas</em>. Seria impossivel indicar, mesmo
+resumidamente, todas as scenas representadas pelos
+<span class="pagenum"><a name="p379">[379]</a></span>
+pintores e esculptores christ&atilde;os da idade
+m&eacute;dia.
+Mencionaremos s&oacute;mente as quatro principaes, e
+que se veem mais vezes.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>O Dia de Juizo.</em> Esta scena encontra-se
+principalmente:
+1.&ordm; <em>no principio do periodo ogival</em>,
+esculpida
+nos tympanos dos portaes principaes das
+abbadias, cathedraes, egrejas das parochias e
+mesmo nas capellas; 2.&ordm; <em>no fim do mesmo periodo</em>,
+pintada na nave principal das egrejas por cima do
+arco triumphal.
+<br />
+
+<br />
+
+Para dar uma ideia exacta da maneira como esta
+scena &eacute; representada nas principaes cathedraes
+francezas, faremos a descrip&ccedil;&atilde;o do Dia de Juizo,
+que
+se v&ecirc; no portal central da S&eacute; de Paris. Este
+assumpto
+&eacute; um dos mais bem compostos. A verga da
+porta est&aacute; inteiramente occupada por figuras representando
+diversos misteres saindo dos seus
+tumulos, despertadas por dois anjos, os quaes, de
+cada lado, tangem trombeta. Todas estas personagens
+est&atilde;o vestidas; ahi est&aacute; um papa, um rei,
+guerreiros, mulheres e um preto. Na zona superior,
+est&aacute; ao centro um anjo que peza as almas;
+dois demonios tentam fazer pender um dos pratos
+para o seu lado. &Aacute; direita de Jesus Christo est&atilde;o
+os escolhidos, todos vestidos de compridas vestimentas
+e coroados. Estes escolhidos s&atilde;o representados
+sem barba, jovens e risonhos, olhando
+para Jesus. &Aacute; esquerda o demonio empurra uma
+multid&atilde;o d'almas agrilhoadas vestidas com os fatos
+do seu mister. As express&otilde;es d'estas figuras
+s&atilde;o indicadas com superior talento: o terror,
+<span class="pagenum">[380]</span>
+o desespero assignalam-se nas suas fei&ccedil;&otilde;es. Na
+parte superior est&aacute;, ao centro Jesus Christo, representado
+semi nu, que mostra as suas chagas;
+dois anjos em p&eacute;, &aacute; direita e &aacute;
+esquerda, t&ecirc;em
+os instrumentos da Paix&atilde;o; depois, est&atilde;o de
+joelhos, implorando o Redemptor, Nossa Senhora
+e S. Jo&atilde;o. As curvaturas do portal do lado dos
+condemnados est&atilde;o occupadas, na parte inferior,
+por vistas do inferno, e do lado dos escolhidos,
+por anjos e patriarchas, entre os quaes se v&ecirc;
+Abrah&atilde;o colhendo as almas no seu rega&ccedil;o; depois
+os escolhidos em grupos. Esta esculptura t&atilde;o notavel
+&eacute; da era de 1210 a 1215, e estava inteiramente
+pintada e dourada. Ha a mesma representa&ccedil;&atilde;o
+nas cathedraes de Chartres, Amiens, Reims
+e Bordeus.
+<br />
+
+<br />
+
+O inferno &eacute; quasi sempre figurado por uma
+bocca enorme de monstro lan&ccedil;ando chammas, no
+meio das quaes os d&eacute;mos, armados de grandissimos
+harpeos, abysmam os condemnados. Por vezes
+tambem &eacute; representado o inferno por uma grande
+caldeira na qual os d&eacute;mos precipitam as almas
+dos perversos; e, n'este caso, um demonio armado
+de um folle activa o fogo da caldeira.
+<br />
+
+<br />
+
+A scena <em>de se pezar as almas</em> faz geralmente
+parte do Juizo final, e &eacute; quasi sempre representada
+da mesma maneira. O archanjo S. Miguel segura
+a balan&ccedil;a: em um dos pratos est&aacute; uma alma humana
+figurada por uma crean&ccedil;a nua; emquanto
+ao outro, com o pezo que deve ter a alma do innocente,
+afim de ser admittido no paraizo, Satanaz
+<span class="pagenum">[381]</span>
+procura que elle se incline para o seu lado.
+Esta scena, cujo fim era evidentemente inculcar aos
+ignorantes a ideia de dar conta a Deus depois da
+nossa morte, est&aacute; representada nas miniaturas dos
+manuscriptos, e mesmo nas gravuras em madeira
+que ornam alguns livros impressos no fim do XV
+e no principio do XVI seculo.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Missa designada de S. Gregorio</em>. Este assumpto
+encontra-se muitas vezes nos paineis e nas miniaturas
+do XV seculo. O Santo papa diz a missa, e
+Jesus Christo apparece-lhe em vida, em p&eacute; sobre
+o altar, e &aacute; roda est&atilde;o os instrumentos da
+Paix&atilde;o.
+Traz os estigmates nos p&eacute;s e nas m&atilde;os, e
+deixa sa&iacute;r do lado o sangue da chaga.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Alma humana</em>. Quando os artistas da idade
+m&eacute;dia representam uma pessoa moribunda, indicam
+sempre a alma do justo que acaba de sa&iacute;r
+do corpo, por uma creancinha nua trazida nos
+bra&ccedil;os de Nosso Senhor.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Sibyllas</em>. A representa&ccedil;&atilde;o
+dos prophetas tem-se
+&aacute;s vezes ajuntado &aacute;s sibyllas, que se reputa
+haverem
+predito o nascimento, a vida, a morte, e a
+resurrei&ccedil;&atilde;o de Jesus Christo. No XIII seculo,
+come&ccedil;ou-se
+a fazer figurar em alguns monumentos,
+principalmente a sibylla do <em>Dies irae</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+As doze sibyllas s&atilde;o: 1.&ordf; A Sibylla da Persia,
+<em>percicae</em>, que tem na m&atilde;o uma lanterna,
+porque
+ella annunciou a vinda do Messias; bastantes vezes
+o sol brilha por cima da sua cabe&ccedil;a. 2.&ordf; A de
+Libya,
+<em>libicae</em>, que tem um brand&atilde;o acceso e
+prediz
+o Redemptor como a luz do mundo. 3.&ordf; A de Delphos,
+<span class="pagenum"><a name="p382">[382]</a></span>
+<em>delphicae</em>, que tem na m&atilde;o uma
+cor&ocirc;a de espinhos,
+porque prophetisou as mortifica&ccedil;&otilde;es de Jesus
+Christo. 4.&ordf; A do Mar Vermelho ou de Erythrea,
+<em>erythracae</em>, uma das mais celebres, que havia
+predito
+a ruina de Troyes; era a prophetisa das vingan&ccedil;as
+divinas; traz uma espada nua. 5.&ordf; A de Cumas,
+<em>cumana</em>, egualmente muito citada, tem um presepio,
+porque annunciou o nascimento de Christo em
+uma manjadoura. 6.&ordf; A de Samos, <em>samia</em>,
+traz uma
+cor&ocirc;a de espinhos como a de Delphos, e um cani&ccedil;o,
+porque prophetisou a Paix&atilde;o. 7.&ordf; A Cimmerianna,
+<em>cimmeria</em>, prophetisou a
+crucifica&ccedil;&atilde;o, e por
+esta raz&atilde;o traz uma cruz da paix&atilde;o. 8.&ordf;
+A de
+Tivoli,
+<em>tiburtina</em>, tem na m&atilde;o uma vara, por
+haver
+annunciado a flagella&ccedil;&atilde;o do Redemptor.
+9.&ordf; A de
+Phrygia, <em>phrygia</em>, traz uma cruz de
+resurrei&ccedil;&atilde;o,
+no cimo da qual fluctuam tres bandeirolas encarnadas.
+10.&ordf; A de Hellesponto, <em>hellespontica</em>,
+tem
+por attributo uma rozeira florida, ou ent&atilde;o uma
+cruz, porque annunciou algumas circumstancias da
+Paix&atilde;o. 11.&ordf; A Europa, <em>europaea</em>,
+tem u, tem um alfange,
+porque predisse a degola&ccedil;&atilde;o dos innocentes.
+12.&ordf;
+Finalmente, a Sibylla Agrippa tem a vara como a
+de Tivoli.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p383">[383]</a></span>
+<h3><a name="c6"></a>CAPITULO VI
+</h3>
+
+<h3>
+Periodo da Renascen&ccedil;a
+</h3>
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<h4><em>NO&Ccedil;&Otilde;ES PRELIMINARES</em></h4>
+
+<br />
+
+N&atilde;o nos demoramos muito sobre as differentes
+phases da arte na epoca da renascen&ccedil;a, mais apropriadamente
+moderna do que antiga; e que, por
+conseguinte, n&atilde;o pertence ao dominio da archeologia.
+<br />
+
+<br />
+
+Chama-se <em>renascen&ccedil;a das artes e das lettras</em>
+ao
+retrocesso para a arte classica antiga e para as
+litteraturas grega e latina. A renascen&ccedil;a das artes
+estendeu-se n&atilde;o s&oacute;mente &aacute;
+architectura, mas a
+todas as artes de desenho. A reac&ccedil;&atilde;o favoravel
+para a architectura grega, romana ou classica,
+produziu-se primeiramente na Italia, onde nunca
+o estylo ogival tinha vigorado summamente, nem
+dominado s&oacute; com poder absoluto.
+<br />
+
+<br />
+
+Proximo ao principio do XVI seculo, a architectura
+n&eacute;o-classica transpoz os Alpes, e passou
+successivamente &aacute; Fran&ccedil;a, Hespanha, Portugal,
+Belgica, Allemanha e Inglaterra. Os paizes mais
+afastados do renascimento, foram tambem os ultimos
+a adoptarem os seus principios architectonicos.
+<br />
+
+<br />
+
+Na Fran&ccedil;a como na Belgica o progresso do novo
+estylo foi rapido, tendo apparecido quasi ao mesmo
+tempo.
+<br />
+
+<br />
+
+O retrocesso t&atilde;o rapido e t&atilde;o universal para as
+<span class="pagenum">[384]</span>
+f&oacute;rmas da arte classica, foi motivado em grande
+parte por um desejo de novidade, e por uma
+reac&ccedil;&atilde;o
+contra a architectura ogival. Nota-se, realmente,
+que em architectura, mais que em qualquer outra
+arte, o gosto &eacute; sempre movido para a variedade;
+e &eacute; isto que explica como se p&oacute;de dizer
+com verdade, que a historia da architectura offerece
+uma continua&ccedil;&atilde;o de
+transi&ccedil;&otilde;es sem repouso.
+A esta causa principal vieram ajuntar-se muitissimas
+causas secundarias, taes como a reac&ccedil;&atilde;o
+que se operou nos XV e XVI seculos, a protec&ccedil;&atilde;o
+aos estudos gregos e latinos, e a inven&ccedil;&atilde;o da
+imprensa,
+que concorreu t&atilde;o admiravelmente para a
+diffus&atilde;o das obras primas da litteratura e da arte
+antiga, pelas quaes se tinham apaixonado.
+<br />
+
+<br />
+
+At&eacute; ao meiado do XVIII seculo, a
+renova&ccedil;&atilde;o das
+f&oacute;rmas antigas fez-se exclusivamente conforme
+os modelos antigos de Roma e de Italia, modelos
+quasi todos n&atilde;o satisfazendo a respeito da conformidade
+artistica. Foi s&oacute;mente n'esta epocha que
+se principiou a estudar os monumentos da melhor
+epocha ainda conservados em Athenas e na Grecia.
+<br />
+
+<br />
+
+Houve, entre o estylo ogival e o do renascimento,
+um periodo de transi&ccedil;&atilde;o, durante o qual se notou
+muitas vezes, no mesmo monumento, uma
+mistura, uma fus&atilde;o de f&oacute;rmas particulares a cada
+estylo. Portanto encontram-se edificios, os quaes,
+entre os detalhes melhor caracterisados do estylo
+ogival do XVI seculo, apresentam ornatos, taes
+como medalh&otilde;es, folhagens e arabescos, copiados
+dos monumentos da Roma antiga. Outras vezes,
+<span class="pagenum"><a name="p385">[385]</a></span>
+janellas em ogiva s&atilde;o compostas de pinasios com
+os perfis no gosto da renascen&ccedil;a. Finalmente, &aacute;s
+vezes as abobadas pendentes, os pinaculos e os
+campanariosinhos est&atilde;o cheios de ornatos imitados
+dos edificios da antiguidade.
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>Caracteres da architectura da Renascen&ccedil;a</h4>
+
+<br />
+
+<em>Com&ecirc;&ccedil;o</em>. A architectura da
+renascen&ccedil;a seguiu
+os mesmos principios fundamentaes que a architectura
+classica, isto &eacute;, as cinco ordens greco-romanas.
+<br />
+
+<br />
+
+Os primeiros architectos da renascen&ccedil;a inspiram-se
+unicamente dos monumentos de Roma e da
+Italia. Ora, n'um grande numero d'estes monumentos,
+o <em>entablamento</em>, isto &eacute;, a parte
+superior
+da Ordem, composto do <em>friso</em>, da <em>architrava</em>
+e da
+<em>cornija</em>, membros que, nas Ordens Gregas, servem
+sempre para ligar duas columnas proximas, tinha
+sido supprimido e substituido por arcos, os quaes
+vinham firmar-se nos capiteis d'essas columnas.
+Quando procuram empregar materiaes de pequena
+dimens&atilde;o, a substitui&ccedil;&atilde;o do arco pelo
+entablamento
+&eacute; perfeitamente logica; por&eacute;m esta n&atilde;o
+&eacute;
+a pratica seguida na epocha da <em>decadencia</em> romana,
+de interp&ocirc;r ao fecho inferior do arco e ao a&ccedil;afate
+do capitel, um simulacro de entablamento da
+Ordem, entablamento que ficava completamente
+inutil, visto que o seu emprego est&aacute; preenchido
+pelo <em>arco</em>. Na &eacute;poca da
+renascen&ccedil;a, esta pr&aacute;tica
+pouco racional e pouco reflectida foi geralmente
+<span class="pagenum">[386]</span>
+adoptada, principalmente d'&aacute;quem dos Alpes. Al&eacute;m
+de que, foram buscar aos mesmos edificios da decadencia
+romana outros defeitos tambem notaveis
+no que diz respeito &aacute;s cornijas: em primeiro logar,
+quando muitas Ordens est&atilde;o sobrepostas na
+altura de um monumento, como acontece frequentemente
+nas fachadas, p&otilde;em-se <em>tantas cornijas</em>
+quantas
+s&atilde;o as <em>Ordens</em>; depois, coisa mais
+singular
+ainda, a Ordem collocada <em>no interior</em> de um
+monumento
+<em>conserva</em> a sua cornija, isto &eacute;, o <em>remate
+do
+edificio</em> destinado a ter <em>um telhado</em> e
+um algeroz
+para dar sa&iacute;da &aacute;s aguas da chuva!
+<br />
+
+<br />
+
+A architectura do renascimento, todavia, n&atilde;o &eacute;
+uma simples mescla, uma copia servil da architectura
+greco-romana. Serve-se ella, na verdade,
+das cinco Ordens, mas ajustou-as para outros usos
+e para outros climas, aproveitando os progressos
+obtidos pela arte de edificar durante o estylo ogival.
+Os edificios que executou conforme os principios
+de construc&ccedil;&atilde;o d'este ultimo estylo, foram
+enfeitados &aacute; maneira antiga, ornamentado superficialmente,
+ou desfigurados, como em S. Paulo
+de Londres, por paredes isoladas que encobrem a
+configura&ccedil;&atilde;o architectonica do monumento;
+emquanto
+na Belgica, nas egrejas do renascimento, o
+systema do apparelho das abobadas ogivaes foi em
+toda a parte conservado, por&eacute;m dissimulado com
+arte. As paredes exteriores das naves lateraes,
+muito grossas, preenchem o fim dos contrafortes,
+e muitas vezes esses arcos-butantes ficam revirados
+(isto &eacute;, collocados de maneira que a sua curva
+<span class="pagenum"><a name="p387">[387]</a></span>
+convexa fica posta na direc&ccedil;&atilde;o do telhado d'essas
+naves), e apoiados nos arcos duplos d'elles.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Decora&ccedil;&atilde;o</em>. Sob o ponto de
+vista da decora&ccedil;&atilde;o
+pintada e esculpida, muito mais que sob o ponto
+de vista architectonico, o periodo da renascen&ccedil;a,
+no sentido mais lato, p&oacute;de-se dividir em muitos
+estylos, apresentando cada um caracteres distinctos.
+Estas sub-divis&otilde;es se applicam particularmente
+&aacute;s produc&ccedil;&otilde;es da arte Franceza.
+1.&ordm; o estylo
+da renascen&ccedil;a propriamente chamado, o qual comprehende
+o XVI seculo e a primeira metade proximo
+do XVII seculo; todavia sep&aacute;ra-se algumas
+vezes d'esta &eacute;poca nos annos 1610 a 1642, para
+lhe constituir o estylo Luiz XIII; 2.&ordm; o estylo
+Luiz XIV (1643 a 1715); 3.&ordm; o estylo Luiz XV
+(1715 a 1774); 4.&ordm; o estylo Luiz XVI (1774 a 1796);
+5.&ordm; finalmente o estylo, designado do imperio (primeiros
+annos do XIX seculo).
+<br />
+
+<br />
+
+Na origem da <em>renascen&ccedil;a</em>, os ornamentos
+foram,
+como na architectura imitados quasi servilmente
+dos monumentos da antiguidade. As almofadas,
+frizos, pilastras e um grande numero de outros
+trabalhos architectonicos se revestiram, nos edificios
+os mais sumptuosos, de assumptos de decora&ccedil;&atilde;o
+proveniente da arte greco-romana. As palmetas,
+folhas de acantho e triglyphos tornaram a
+apparecer em todo o logar. Viam-se tambem, genios
+alados, figuras naturaes e phantasticas de toda
+a especie enla&ccedil;adas nas grinaldas e em espiraes
+formando desenhos os mais caprichosos. Estes
+ultimos ornamentos, compostos principalmente conforme
+<span class="pagenum">[388]</span>
+os modelos antigos achados em Roma nas
+<em>grutas</em> ou ruinas do palacio de Titus, tiveram no
+principio o nome de <em>grotescos</em>,
+denomina&ccedil;&atilde;o mais
+propria do que a de <em>arabescos</em>, a qual lhe foi
+dada
+depois, porque os Arabes proscreviam severamente
+da sua decora&ccedil;&atilde;o qualquer
+representa&ccedil;&atilde;o da natureza
+animada.
+<br />
+
+<br />
+
+O estylo da renascen&ccedil;a n&atilde;o se conservou intacto
+sen&atilde;o at&eacute; o principio do XVI seculo.
+<br />
+
+<br />
+
+Os ornamentos do estylo Luiz XIV consistem principalmente
+em grandes espiraes, palmas muito
+desenvolvidas, separadas ou envolvidas com os elementos
+de ordem architectural, medalh&otilde;es, troph&eacute;us,
+etc.
+<br />
+
+<br />
+
+O estylo Luiz XV, que prima antes de tudo pela
+elegancia exaggerada nos pequenos detalhes, desce
+&aacute; affecta&ccedil;&atilde;o na lindeza. A esculptura
+decorativa
+abunda nas espiraes com folhagens myrrhadas e
+subtilmente contornadas; faz com frequencia uso
+de conchas ou embrechado, misturando-as em todas
+as suas composi&ccedil;&otilde;es. A linha recta cede o logar
+&aacute;
+linha curva, e sobretudo a symetria n&atilde;o &eacute;
+observada.
+No principio do XVIII seculo, o gosto se corrompeu
+de novo; volta-se no tra&ccedil;ado do plano e
+nas fachadas dos edificios &aacute;s f&oacute;rmas torcidas e
+&aacute;s
+linhas quebradas. Nos ornamentos dos maiores e
+soberbos contornos, as plantas vistosas do estylo
+Luiz XIV transformam-se em definhados filetes, torcendo-se
+e entrela&ccedil;ando-se uns nos outros da maneira
+a mais singular, e acompanhados de abundantes
+obras de conchas e de grande numero de
+<span class="pagenum"><a name="p389">[389]</a></span>
+cupidos; o que fez dar a este <em>estylo exquisito e
+todo affectado</em> o appellido de estylo <em>embrechado</em>
+e
+estylo <em>Pompadour</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+A affecta&ccedil;&atilde;o e o grande exaggero que caracterisam
+o estylo de Luiz XV motivaram cedo uma
+reac&ccedil;&atilde;o. No reinado de Luiz XVI voltaram a
+empregar
+menos entrela&ccedil;ados e menos entalhaduras.
+A descoberta de Herculanum e a publica&ccedil;&atilde;o das
+<em>Antiguidades de Athenas</em> contribuiram a levar o
+entendimento
+para o gosto mais serio, uma decora&ccedil;&atilde;o
+menos contrafeita; fizeram vigorar as f&oacute;rmas
+classicas da arte grega e romana, cujas
+investiga&ccedil;&otilde;es
+recentes vieram a descobrir os especimens
+importantes e notaveis.
+<br />
+
+<br />
+
+A &eacute;poca da revolu&ccedil;&atilde;o franceza e do
+directorio
+causou um extraordinario prejuizo &aacute; industria artistica.
+Quando, no principio do actual seculo, um
+novo estado politico ficou definitivamente constituido,
+o seu novo soberano, vencedor na Italia e
+no Egypto, cuidou em conservar junto de si as coisas
+que lhe recordassem as suas victorias gloriosas.
+<br />
+
+<br />
+
+No <em>estylo do imperio</em> viu-se apparecer os gryphos,
+as sphinges, os feixes consulares, victorias
+com palmas e cor&ocirc;as de carvalho. Pouco tempo
+depois, esses assumptos foram quasi os unicos
+empregados na decora&ccedil;&atilde;o tanto de architectura,
+como na mobilia.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Plano das egrejas</em>. A maior parte das egrejas da
+renascen&ccedil;a t&ecirc;em a f&oacute;rma da cruz Latina.
+As capellas
+que havia ao correr das naves lateraes e na
+nave principal das egrejas ogivaes, ficaram supprimidas
+<span class="pagenum">[390]</span>
+em Fran&ccedil;a, na Belgica e na Allemanha,
+por&eacute;m conservaram-se na Italia. A capella m&oacute;r e o
+cruzeiro terminavam geralmente por uma abside
+semicircular ou polygonal, apresentando no interior
+uma disposi&ccedil;&atilde;o de pilastras corinthias ou
+compositas,
+entre as quaes ha janellas e nichos. Arcadas
+de volta inteira, descan&ccedil;ando sobre columnas ou
+pilares p&otilde;em a nave principal em
+communica&ccedil;&atilde;o
+com as naves lateraes. As portas, as janellas e todas
+as aberturas est&atilde;o tapadas na sua parte superior
+por um arco de volta inteira.
+<br />
+
+<br />
+
+Os <em>triforiuns</em> das egrejas ogivaes n&atilde;o
+se construiram
+na renascen&ccedil;a. Primeiramente substituiu-os,
+durante algum tempo, uma galeria em
+sacada, tendo parapeito de cantaria vasado ou de
+obra de ferro; todavia pouco depois esse logar
+foi occupado por uma simples cornija com sacada
+bastante solida para servir como galeria, podendo-se
+andar &aacute; roda da nave principal, ficando na
+altura das janellas superiores.
+<br />
+
+<br />
+
+O monumento mais gigantesco e grandioso que
+tem produzido a architectura do renascimento &eacute;,
+sem duvida, a basilica de S. Pedro do Vaticano
+em Roma, cuja construc&ccedil;&atilde;o foi dirigida pelos mais
+celebres architectos, Bramante, Raphael, os dois
+S. Gallo, Peruzzi, Miguel Anjo, Vignola, Maderno
+e finalmente Bernini, este artista de quem infelizmente
+o seu mau gosto em bellas-artes veiu a
+ser proverbial, sendo originado pela inveja dos
+seus emulos, que pretendiam tirar a fama ao seu
+superior talento: imaginando dar formas novas e as
+<span class="pagenum"><a name="p391">[391]</a></span>
+mais extravagantes &aacute;s suas composi&ccedil;&otilde;es
+architectonicas
+afim de supplantar os seus rivaes, morreu
+<em>desesperado</em> por nada ter conseguido; posto que
+fosse dotado de talento, o seu desmarcado amor proprio
+veiu a causar-lhe o descredito do seu nome.
+N'esta colossal construc&ccedil;&atilde;o da Basilica de S.
+Pedro
+consumiu-se mais de seculo e meio.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Fachadas das egrejas</em>. As fachadas
+comp&otilde;em-se
+regularmente de duas, e algumas vezes de <em>tres
+Ordens de columnas sobrepostas</em>. A ordem inferior
+abrangendo ao mesmo tempo a nave principal e as
+lateraes, &eacute; mais larga que a ordem superior; essa
+corresponde &aacute; unica nave central, pois que o madeiramento
+das naves lateraes n&atilde;o s&oacute;be nunca at&eacute;
+o entablamento da primeira ordem. A ordem mais
+superior sempre terminada por uma attica ou um
+front&atilde;o triangular, tendo no vertice uma cruz ornatada
+nos angulos, acrot&eacute;ros com vasos, fogar&eacute;os
+e tocheiros. Duas misulas deitadas de cada lado da
+ordem superior, preenchem os espa&ccedil;os dos angulos
+rectos produzidos pela superposi&ccedil;&atilde;o das duas
+ordens tendo desigual largura. As columnas da fachada
+est&atilde;o geralmente embebidas um ter&ccedil;o ou
+metade do seu diametro. Um ou tres portaes, conforme
+a importancia do edificio, d&atilde;o ingresso nas
+naves.
+<br />
+
+<br />
+
+Os jesuitas, cuja Ordem se fundou no XVI seculo,
+vindo a ser muito rica e poderosa no XVII seculo,
+adoptaram em toda a parte esta composi&ccedil;&atilde;o para
+as fachadas de suas egrejas; por isso d&aacute;-se o
+nome do <em>estylo dos Jesuitas</em> &aacute;
+architectura religiosa
+<span class="pagenum"><a name="p392">[392]</a></span>
+d'esta &eacute;poca. A maior parte das egrejas que estes
+religiosos construiram distinguem-se pela abundancia
+dos seus ornamentos, principalmente as edificadas
+na Belgica.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Abobadas</em>. As abobadas t&ecirc;em, como as da
+&eacute;poca
+antecedente, nervuras encruzadas, as quaes, em
+logar da f&oacute;rma da ogiva, descrevem uma curva de
+volta inteira ou um arco de volta abatida. Os arcos
+duplos s&atilde;o largos e muitas vezes formados por almofadas
+pouco fundas. No XVI seculo, as abobadas
+tinham &aacute;s vezes decora&ccedil;&otilde;es pintadas, e
+os seus fechos
+sustentam abobadas pendentes com muitas sacadas
+de bastante peso. Depois abandonou-se, al&eacute;m
+dos Alpes, a decora&ccedil;&atilde;o pintada, substituindo-lhe
+os
+ornatos em relevo.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Torres</em>. As torres, geralmente construidas sobre
+plano quadrado, e compostas de dois, tres ou quatro
+andares sobrepostos e ornados de pilastras ou
+de columnas embebidas, t&ecirc;em muitas d'ellas uma
+balaustrada &aacute; b&ocirc;ca da flecha, com as
+f&oacute;rmas mais
+variadas; campanulada, piriforme, pyramidal ou
+uma f&oacute;rma mais complicada ainda.
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>Mobilia religiosa</h4>
+
+<br />
+
+<em>Altares</em>. Durante algum tempo continuou o uso
+dos retabulos com divis&otilde;es multiplices, no genero
+d'aquelles dos ultimos annos do periodo ogival, por&eacute;m
+tendo as molduras das almofadas em detalhes
+no gosto do renascimento.
+<br />
+
+<br />
+
+Foi proximo do XVI seculo que uma mudan&ccedil;a
+radical appareceu na f&oacute;rma e
+disposi&ccedil;&atilde;o dos altares.
+<span class="pagenum"><a name="p393">[393]</a></span>
+Os retabulos foram ent&atilde;o substituidos pelos
+porticos copiados dos arcos de triumpho da antiguidade,
+encimados com front&otilde;es de f&oacute;rmas muito
+variadas. Serviram-se quasi sempre de marmores
+raros e preciosos, sobretudo para as columnas,
+adquirindo-os com grande despeza, dos paizes os
+mais distantes. A arcada imitando o <em>arco de triumpho</em>
+foi ornada, no principio, de estatuas e de altos e
+baixo-relevos, depois por retabulos de grandes dimens&otilde;es;
+e estes mesmos acabaram em pouco
+tempo para serem substituidos geralmente por esculpturas.
+<br />
+
+<br />
+
+Quando no XVII e no XVIII seculos, as f&oacute;rmas
+extravagantes (<em>roc&ocirc;c&oacute;</em>)
+prevaleceram no systema
+da decora&ccedil;&atilde;o, os altares tambem ficaram
+sobrecarregados
+de ornamentos de pessimo gosto, e appareceram
+as columnas <em>torcidas</em>, em <em>espiral</em>
+e em
+<em>saca-rolhas</em>!
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Tabernaculos</em>. O uso de collocar tabernaculos
+para conservar a eucharistia sobre os altares principaes
+e secundarios, generalisou-se no fim do XVI
+seculo. At&eacute; essa &eacute;poca as particulas se
+conservaram,
+como durante o periodo ogival, nos tabernaculos
+isolados em f&oacute;rma de torre ou em armarios
+abertos na parede, por detraz ou &aacute; ilharga do altar.
+Houve mesmo paizes onde o antigo costume
+n&atilde;o ficou abandonado inteiramente s&oacute; muito depois
+do XVII seculo.
+<br />
+
+<br />
+
+Os tabernaculos de marmore e de madeira que
+se collocavam sobre o altar desde a &eacute;poca do renascimento,
+comp&otilde;em-se geralmente de um cylindro
+<span class="pagenum"><a name="p394">[394]</a></span>
+&ocirc;co ornado com riqueza e reunido a <em>predella</em>
+ou throno, no qual se p&otilde;em casti&ccedil;aes sobre
+misulas
+reviradas. O cylindro fechado no seu cume por uma
+tampa de f&oacute;rma hemispherica tem por remate
+um crucifixo, dividido por um, dois ou tres compartimentos
+com separa&ccedil;&atilde;o, e girando sobre um
+eixo vertical.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Cadeiras do c&ocirc;ro, obra de talha e confissionarios</em>.
+As obras de entalhador que ornam muitas egrejas
+do XVII seculo, s&atilde;o as principaes obras deixadas
+pela &eacute;poca da renascen&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+As costas das cadeiras do c&ocirc;ro comp&otilde;em-se sempre
+de almofadas de marcenaria ornadas de baixos-relevos
+ou de pinturas, separadas umas das
+outras por columnasinhas da Ordem Corinthia ou
+Composita, sustentadas em sacadas por misulas com
+bella obra de talha. Os fustes d'essas columnasinhas,
+rectos ou torcidos, est&atilde;o cheios de lindos arabescos
+e delicadas folhagens. A obra de talha e dos
+confissionarios apresentam na sua decora&ccedil;&atilde;o de
+esculptura bastante similhan&ccedil;a com as das cadeiras
+do c&ocirc;ro.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Jub&eacute;os e balaustradas</em>. Os <em>jub&eacute;os</em>
+da renascen&ccedil;a
+comp&otilde;em-se geralmente de tres arcadas de volta
+inteira, que descan&ccedil;am sobre columnas ou pilastras
+imitadas das Ordens classicas.
+<br />
+
+<br />
+
+Collocam-se os jub&eacute;os &aacute; entrada da capella
+m&oacute;r
+nas grandes egrejas at&eacute; proximo do meiado do
+XVII seculo.
+<br />
+
+<br />
+
+No meiado do XV seculo, uma grande reac&ccedil;&atilde;o
+se fez contra os jub&eacute;os, porque, dizia-se ent&atilde;o,
+<span class="pagenum"><a name="p395">[395]</a></span>
+destruiam o aspecto architectonico e impediam os
+fieis de v&ecirc;r o sacerdote no altar. Muitos foram
+desmanchados n'esta &eacute;poca, outros transportados
+proximo da fachada Occidental da egreja, a fim
+de servirem de tribunas para collocar os org&atilde;os.
+<br />
+
+<br />
+
+As <em>balaustradas</em> destinadas a vedar a capella
+m&oacute;r e a separar das naves lateraes as capellas, ou
+resguardar certas partes da mobilia religiosa, foram
+poucas vezes feitas de ferro ou de madeira,
+faziam-se de preferencia de marmore ou lat&atilde;o. A
+sua composi&ccedil;&atilde;o era de repetidas columnasinhas de
+f&oacute;rma classica, quer com balaustres em p&eacute; ou
+<em>revirados</em>,
+o que lhe fez dar o nome de <em>balaustrada</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Muitas vezes assentavam extraordinarios monumentos
+funerarios entre essas separa&ccedil;&otilde;es da capella
+m&oacute;r e as naves nas cathedraes e nas egrejas
+importantes.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Caixas de org&atilde;o</em>. Na &eacute;poca do
+renascimento,
+deu-se &aacute;s caixas dos org&atilde;os as maiores
+dimens&otilde;es.
+Collocaram-se, primeiramente, nas egrejas ogivaes,
+do lado do Evangelho, na parte inferior do <em>triforium</em>,
+no primeiro ou segundo v&atilde;o da nave principal.
+Depois, isto &eacute;, perto do meiado do XVI seculo,
+foram assentes proximo do cruzeiro, &aacute; entrada
+dos lados lateraes da capella m&oacute;r. Finalmente,
+quando as dimens&otilde;es dos org&atilde;os se foram
+desenvolvendo desmedidamente, estabeleceram-se
+tribunas especiaes na nave central, proximo da
+frente Occidental da egreja. As mais antigas caixas
+dos org&atilde;os est&atilde;o cobertas de obra de talha.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Pulpitos</em>. Durante o periodo da
+renascen&ccedil;a, o
+<span class="pagenum"><a name="p396">[396]</a></span>
+pulpito teve dimens&otilde;es muito maiores que precedentemente.
+No XVI e XVII seculos foram construidos
+geralmente de madeira; por&eacute;m desde o meiado
+do seculo seguinte, ajunta-se algumas vezes o marmore
+&aacute; madeira. Os pulpitos das egrejas de primeira
+ordem comp&otilde;em-se muitas vezes de grupos
+de estatuas acompanhadas de arvores, rochedos e
+outros detalhes pittorescos representando factos da
+historia sagrada ou ecclesiastica.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Tumulos e campas</em>. No XVI seculo os cenotaphios
+eram compostos ainda como durante o periodo
+ogival, d'um s&oacute;co ou macisso de alvenaria, coberto
+por uma grande lousa, sobre a qual se v&ecirc; a estatua
+do finado. &Aacute; roda do s&oacute;co acham-se por vezes
+estatuasinhas debaixo de arcaduras de volta inteira
+descan&ccedil;ando sobre columnelos jonicos, corinthios e
+compositos, outras vezes, as arcaduras e as estatuasinhas
+est&atilde;o substituidas por uma ordem de
+braz&otilde;es. A figura do finado v&ecirc;-se umas vezes
+deitada,
+outras de joelhos sobre uma almofada ou genuflexorio.
+Esta ultima attitude foi a mais commum
+no fim do periodo: todavia no XVII seculo, os monumentos
+sepulchraes veem a ter uma composi&ccedil;&atilde;o
+muito mais complicada; os sarcophagos tiveram as
+mais variadas f&oacute;rmas, e as estatuas dos finados
+foram acompanhadas de outras estatuas allegoricas,
+como a morte tendo uma foice, figuras de anjos,
+a F&eacute;, Esperan&ccedil;a, Caridade, etc.<br />
+
+<br />
+
+No XVII seculo, os mausoleus encontram-se muitas
+vezes collocados por baixo de uma arcada muito
+ornada no estylo do renascimento. Esta decora&ccedil;&atilde;o
+<span class="pagenum"><a name="p397">[397]</a></span>
+architectonica applicada sobre as paredes de uma
+capella ou das naves lateraes, da nave principal e
+capella m&oacute;r conservou-se nos <a href="#e9">XVII
+e XVIII seculos</a>,
+mas disposta com acerto, com as modifica&ccedil;&otilde;es
+introduzidas
+successivamente na architectura. Na segunda
+metade do XVII seculo, e muito mais frequentemente
+no seculo seguinte, rematavam os tumulos
+com pyramides e obeliscos em meio relevo,
+ornados de bustos, em medalh&atilde;o, do finado. Os cyprestes,
+as columnas quebradas, as urnas funereas,
+genios com fachos derribados, todas as reminiscencias
+pag&atilde;s vieram a ser tambem uma
+decora&ccedil;&atilde;o
+mais seguida n'esta ultima &eacute;poca.
+<br />
+
+<br />
+
+O uso das <em>campas</em> continuou durante o
+periodo do renascimento, e o seu numero augmentou muito relativamente
+&aacute; &eacute;poca precedente. No XVI e no
+XVII seculos eram postas no pavimento das egrejas e dos claustros;
+tambem &aacute;s vezes se assentavam na grossura da parede, junto
+do logar em que f&ocirc;ra sepultado o finado. As mais antigas,
+especialmente as da segunda classe, est&atilde;o cobertas em parte
+por figuras em alto e baixo relevo, em parte com
+inscrip&ccedil;&otilde;es. Mais tarde limitaram-se a uma
+simples inscrip&ccedil;&atilde;o acompanhada de um symbolo ou
+de um braz&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+A maior parte das campas s&atilde;o de calcareo azul ou de marmore
+preto, e muitas vezes t&ecirc;em as
+inscrip&ccedil;&otilde;es embutidas com marmore branco.
+Acham-se tambem algumas lousas funerarias de lat&atilde;o, cujos
+tra&ccedil;os gravados est&atilde;o cheios de um esmalte
+encarnado ou preto, posto a frio.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p398">[398]</a></span>
+Desde o come&ccedil;o do XVII seculo, as
+inscrip&ccedil;&otilde;es funereas principiam frequentemente
+pela f&oacute;rma pag&atilde; D (<em>eo</em>) O
+(<em>ptimo</em>) M
+(<em>aximo</em>), ou com as letras P. M. interpretadas PIAE
+MEMORIAE, mas isso tem o inconveniente de fazer directamente
+allus&atilde;o ao P (<em>iis</em>) M
+(<em>anibus</em>) dos antigos romanos.<br />
+
+<br />
+
+<em>Pias baptismaes.</em> As pias baptismaes
+apresentam pouca importancia; a iconographia t&atilde;o esplendida
+e t&atilde;o abundante de symbolismo que se notava sobre as pias
+rom&atilde;s, e algumas vezes ainda sobre as do periodo ogival,
+desapparece de todo. Ellas foram ent&atilde;o formadas de simples
+pias de marmore, circulares ou polygonaes, tendo a f&oacute;rma de
+uma semi-esphera &ocirc;ca e achatada, &aacute;s vezes ornadas
+com molduras de f&oacute;rma de perolas e assentes sobre um
+pedunculo com molduras. As tampas s&atilde;o de lat&atilde;o ou
+de madeira.<br />
+
+<br />
+
+<em>Obras de ourivesaria e de
+esmaltador</em>. Durante o periodo da renascen&ccedil;a, os
+ourives serviram-se princ&iacute;palmente do trabalho de estampar
+em relevo, da cinzelura e da gravura para ornar os objectos de
+ourivesaria. Os esmaltes de c&ocirc;res, cujo uso havia sido
+introduzido no fim do XV seculo, concorreram egualmente &aacute;s
+officinas de Limoges, Augsbourg e de Nuremberg. Os <em>Limousinos</em>
+cobriam quasi sempre com pintura esmaltada as pe&ccedil;as
+metallicas, grandes e pequenas, transformando-as assim em paineis ou
+medalh&otilde;es: os
+<em>Allem&atilde;es</em> empregaram os esmaltes,
+n&atilde;o s&oacute;mente como faziam os Limousinos, para
+pintar pequenos modilh&otilde;es, muitas vezes camafeus
+c&ocirc;r de rosa, e os applicavam sobre os p&eacute;s
+<span class="pagenum"><a name="p399">[399]</a></span>
+dos calices, das custodias e
+sobre outros logares das suas obras, mas serviam-se tambem para fazer
+real&ccedil;ar, pelo emprego do colorido superficial, certos
+detalhes das suas pe&ccedil;as de ourivesaria, por exemplo, as
+figuras, folhagens, fl&ocirc;res e grinaldas.<br />
+
+<br />
+
+O gosto pelos assumptos mythologicos, que dominava nas artes como na
+litteratura, exerceu a sua influencia na ourivesaria religiosa. Os
+deuses, os semi-deuses e os monstros da antiguidade pag&atilde;
+foram resuscitados. Ainda mais, apparecendo nos assumptos da historia
+da Biblia ou das legendas dos Santos, os artistas curavam muitas vezes
+na
+reproduc&ccedil;&atilde;o dos heroes do paganismo:
+representavam o Padre Eterno com as fei&ccedil;&otilde;es de
+Jupiter antigo; suppunham exaltar Nossa Senhora assemelhando-a
+&aacute;s deusas mythologicas; os anjos vieram a ser genios
+n&uacute;s, e as tres Gra&ccedil;as serviram para
+personificarem as virtudes theologaes. Entre os arabescos via-se
+reproduzir os Centauros, Pans, Sylvanos, Trit&otilde;es, Nereidas;
+representa&ccedil;&otilde;es onde a natureza humana e a
+natureza animal se reunem da maneira a mais singular. Os objectos do
+culto revestem-se com todas as excentricidades, e teem muitas vezes
+dimens&otilde;es f&oacute;ra de toda a
+propor&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+<em>Calices</em>. Os ourives do XVI seculo
+abandonam pouco a pouco as tradi&ccedil;&otilde;es da edade
+m&eacute;dia, e, posto que a f&oacute;rma antiga da
+ta&ccedil;a se conserve
+ainda algum tempo mais ou menos primitiva, o calix vem a ser cada vez
+maior. A principiar do meiado do XVII seculo, os artistas deixam-se
+levar pela sua imagina&ccedil;&atilde;o, esquecendo
+completamente as boas
+<span class="pagenum"><a name="p400">[400]</a></span>
+tradi&ccedil;&otilde;es dos tempos anteriores. O calix chega, e
+mesmo vae al&eacute;m muitas vezes, &aacute; altura desmedida
+de 35 centimetros; a ta&ccedil;a estreita-se muitas vezes de
+maneira que na communh&atilde;o o padre &eacute; obrigado a
+curvar a cabe&ccedil;a para traz; o n&oacute; n&atilde;o
+se distingue j&aacute; da hastea, e o diametro do p&eacute; do
+calix diminue a tal ponto que ao menor choque o calix est&aacute;
+arriscado a cair.<br />
+
+<br />
+
+A patena &eacute; uma simples chapa redonda, n&atilde;o tendo
+nenhuma cavidade.<br />
+
+<br />
+
+<em>Pyxide</em>. As pyxides distinguem-se das
+que havia nas &eacute;pocas precedentes pelas suas muito grandes
+ta&ccedil;as; sendo raramente ornadas de lavor representando
+assumptos religiosos. A come&ccedil;ar do XVII seculo, a sua tampa
+n&atilde;o fica ligada &aacute; ta&ccedil;a por
+um gonzo.<br />
+
+<br />
+
+<em>Custodia</em>. As custodias de
+f&oacute;rma radiante, foram, p&oacute;de-se dizer, as unicas
+conhecidas da &eacute;poca do renascimento; teem geralmente as
+dimens&otilde;es muito exaggeradas. As custodias com cylindro de
+crystal apparecem apenas no XVI seculo. Muitas vezes mesmo mudaram mais
+tarde estes ultimos, substituindo o cylindro de crystal por um sol
+radiante. Nas custodias ricas, o oculo com sol radiante &eacute;
+algumas vezes ornado de grupos, scenas em alto relevo e estatuasinhas,
+que n&atilde;o conv&eacute;m, por f&oacute;rma alguma,
+junto ao Santissimo Sacramento. Essas extravagancias notam-se mais
+vezes ainda nas custodias modernas.<br />
+
+<br />
+
+<em>Relicarios</em>. Os grandes relicarios do
+renascimento eram as mais das vezes de madeira pintada
+<span class="pagenum"><a name="p401">[401]</a></span>
+e dourada. Faziam-se ainda algumas
+vezes os relicarios de madeira, apresentando a
+imita&ccedil;&atilde;o de egrejas contemporaneas, com columnas,
+entablamento, front&atilde;o, etc. Muitas vezes tambem serviam-se
+de bustos de Santos de madeira pintada e dourada, que se collocavam
+sobre uma base ornada com molduras com ovanos. Encaixilhavam-se as
+reliquias no meio da face anterior d'essa base, mettendo-as debaixo de
+vidro, ou em um pequeno. relicario de metal.<br />
+
+<br />
+
+<em>Estofos preciosos</em>. <em>Tecidos</em>.
+No XVI
+seculo, os estofos de que se serviam para as vestimentas, os mais ricos
+eram tecidos com oiro ou prata, brocado e velludos de Genova e de
+Utrecht.<br />
+
+<br />
+
+<em>O estofo com oiro ou prata</em>
+&eacute; um tecido feito com fios cobertos de qualquer d'estes
+metaes. Quando os desenhos s&atilde;o tecidos servindo-se dos
+mesmos fios ou fios de seda, designam-se
+<em>brocado</em>. Finalmente, se em logar de fios de seda
+se servem de velludo, chama-se <em>velludo de
+Genova</em>.<br />
+
+<br />
+
+Antes do XVII seculo n&atilde;o se conhecia o
+<em>velludo lavrado</em>: da sua superficie tiravam-se
+servindo-se da thesoura, certas partes do pello para formar desenhos de
+fl&ocirc;res e grinaldas. Mais tarde conseguiram obter um resultado
+analogo comprimindo os velludos com uma poderosa machina movida a
+bra&ccedil;os ou pela agua; foi este o processo que forneceu,
+durante muitos seculos, o <em>velludo
+batido</em>. O <em>velludo</em> dito de
+<em>Utrecht</em> tem geralmente o pello mais comprido que
+as outras qualidades de velludos, e distingue-se por uma consistencia
+mais forte.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p402">[402]</a></span>
+<em>Bordados</em>. Os
+<em>bordados</em> da &eacute;poca do
+renascimento podem-se dividir em duas grandes classes. A primeira
+comprehende os estofos bordados, tendo conservado a sua flexibilidade,
+e consistindo o seu apre&ccedil;o na
+disposi&ccedil;&atilde;o artistica
+dos fios de oiro, prata, seda ou l&atilde; de differentes
+c&ocirc;res,
+empregadas pelo bordador. Os bordados de segunda classe apresentam em
+estofo um aspecto esculptural, devidos aos effeitos das grinaldas,
+fl&ocirc;res, fructos e figuras com as quaes est&atilde;o
+ornados; podia-se supp&ocirc;r que o bordador, esquecendo o seu
+proprio officio, foi pedir auxilio a uma arte estranha, que
+n&atilde;o &eacute; nem p&oacute;de ser a que lhe
+pertence! Inutil seria accrescentar, suppomos, que a logica pedia que o
+bordador empregasse os processos de execu&ccedil;&atilde;o dos
+quaes legitimamente elle
+disp&otilde;e pela natureza mesmo do seu officio,
+&aacute;quelle que empregou da arte da esculptura, arte da qual os
+effeitos nos parecem incompativeis com os do bordado inconvenientemente
+produzido.<br />
+
+<br />
+
+<em>Pannos de raz</em>. Os pannos de raz
+continuaram em uso, e obtiveram mesmo maior
+acceita&ccedil;&atilde;o
+durante o periodo do renascimento. Nunca os te&aacute;res de alta e
+baixa trama foram nem mais numerosos, nem tiveram maior uso que no XVI
+seculo. O centro de fabrico de mais importancia n'esta &eacute;poca
+foi Bruxellas, cujos productos alcan&ccedil;aram primazia
+n&atilde;o s&oacute;mente pela habilidade dos operarios, mas
+tambem pelos cuidados constantes que se empregavam na
+prepara&ccedil;&atilde;o e applica&ccedil;&atilde;o
+do tabalho das materias de que se serviam na sua
+execu&ccedil;&atilde;o.
+<span class="pagenum"><a name="p403">[403]</a></span>
+O magistrado communal da cidade
+n&atilde;o desprezava nenhum meio para conservar a merecida
+reputa&ccedil;&atilde;o das officinas de Bruxellas, que
+contribuiam com uma t&atilde;o grande parte para a prosperidade
+nacional. Finalmente, para conseguir pannos de raz perfeitos, elle
+prohibiu, por um edital, de 24 de abril de 1425, que se pintassem ou
+retocassem com pincel as encarna&ccedil;&otilde;es dos tecidos
+de uma
+certa dimens&atilde;o; pelo mesmo edital promettia, al&eacute;m
+d'isso, aos fabricantes a propriedade artistica de seus grandes modelos
+de desenhos, estabelecendo puni&ccedil;&otilde;es muito severas
+contra os falsificadores.
+Tres annos depois, isto &eacute;, em maio de 1528, promulgou um
+outro edital mais notavel ainda, ordenando que toda a pe&ccedil;a
+fabricada na cidade e medindo mais de seis varas devia trazer d'alli em
+diante na ourela inferior: de um lado uma das tres marcas dos
+fabricantes, Bruxellas, Antuerpia e Tournay, e do outro um pequeno
+escudo entre dois BB, iniciaes da palavra Bruxellas.<br />
+
+<br />
+
+Em 1544, a obriga&ccedil;&atilde;o de ter a marca foi extensiva
+pelo governo a todas as cidades dos Paizes-Baixos.<br />
+
+<br />
+
+Na marca de Bruxellas algumas vezes o B est&aacute; voltado,
+ficando os dois anneis do B virados para o escudo. A marca de Antuerpia
+&eacute; formada por uma m&atilde;o acompanhada de uma flor de
+liz; a de Tournay mostra uma torre.<br />
+
+<br />
+
+Durante o periodo ogival os pannos de raz reproduziram assumptos
+religiosos e, algumas vezes tambem, figuras allegoricas ou contos de
+cavallaria.
+<span class="pagenum">[404]</span>
+&Aacute;
+propor&ccedil;&atilde;o do adiantamento no
+XVI seculo, os assumptos religiosos tornam-se mais raros; ficando
+preferidas as representa&ccedil;&otilde;es que se referissem
+&aacute; mythologia pag&atilde; ou &aacute; historia antiga
+da Grecia e dos Romanos.<br />
+
+<br />
+
+A fabrica&ccedil;&atilde;o dos pannos de raz de Bruxellas
+declinou sensivelmente durante a ultima metade do seculo XVI, por causa
+das perturba&ccedil;&otilde;es religiosas
+que assolaram a Belgica.<br />
+
+<br />
+
+A Antuerpia era mais um deposito commercial que um centro de
+produc&ccedil;&atilde;o. Desde o XV seculo, os commerciantes
+expediam os pannos de raz para toda parte; tomando no XVI seculo este
+commercio uma extens&atilde;o maior.<br />
+
+<br />
+
+No principio do XVII seculo, a concorrencia de muitos paizes
+estrangeiros estabeleceu manufacturas officiaes, fazendo declinar a
+industria da Belgica. Todavia os novos estabelecimentos foram fundados
+com o concurso dos mestres e operarios vindos de Bruxellas.<br />
+
+<br />
+
+Durante a segunda metade do XVII seculo o fabrico dos pannos de raz
+bruxellezes principiaram a affrouxar, tanto pela sua qualidade, pois
+n&atilde;o empregavam as boas tradi&ccedil;&otilde;es
+artisticas, como principalmente
+pela funda&ccedil;&atilde;o, em Fran&ccedil;a, da
+manufactura real dos Gobelins, estabelecida em 1662 por Luiz XIV. A
+direc&ccedil;&atilde;o d'este estabelecimento foi
+entregue ao pintor O'Brun, que tinha um pessoal numeroso, &aacute;
+frente do qual estava, entre outros, officiaes, Jo&atilde;o Jans,
+habil tapeceiro, oriundo de Oudenarde, que foi residir para Paris,
+depois
+<span class="pagenum">[405]</span>
+de 1650, com grande
+numero de operarios flamengos. A concorrencia da fabrica dos Gobelins
+causou a ruina das officinas de Bruxellas.<br />
+
+<br />
+
+A cidade de Oudenarde, que j&aacute; tinha officinas de
+tape&ccedil;aria no seculo XV, produziu nos seculos XVII e XVIII
+tape&ccedil;arias de um genero especial, designado sob o nome de <em>Verduras</em>.
+Representavam, n&atilde;o assumptos historicos, mas paisagens
+animadas por algumas pequenas figuras de homens e animaes, assim como
+vistas de castellos ao longe. O seu nome deriva da circumstancia dos
+tons de verde-carregado que predominam geralmente n'estas
+composi&ccedil;&otilde;es. A industria da tape&ccedil;aria
+acabou em Oudenarde em 1772.<br />
+
+<br />
+
+No XVIII seculo, a illus&atilde;o da manufactura dos Gobelins foi
+t&atilde;o grande na Allemanha, que a palavra Gobelin veiu a ser
+synonimo de tape&ccedil;aria de alta e baixa lissa, e tem
+conservado at&eacute; hoje esta significa&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>Iconographia</h4>
+
+<br />
+
+Uma revolu&ccedil;&atilde;o se effectuou na &eacute;poca do
+renascimento, na representa&ccedil;&atilde;o da natureza
+humana.
+At&eacute; ao XV seculo, a nudez das figuras n&atilde;o era
+admittida, n&atilde;o s&oacute;mente na architectura religiosa,
+como na architectura civil. Dissimulavam-se mesmo de proposito as
+f&oacute;rmas dos corpos debaixo da roupagem do vestuario, com
+receio de despertar as paix&otilde;es sensuaes; os esculptores do
+renascimento <em>fizeram tudo ao contrario</em>: tomaram a
+taxa de executar sem disfarce a natureza, e dar ao seio, aos
+<span class="pagenum">[406]</span>
+hombros, ao corpo um desenvolvimento de
+f&oacute;rmas que na edade m&eacute;dia se tinha dissimulado
+debaixo da roupagem. O retrocesso do genio para os estudos classicos
+levou, por um mesmo estimulo, os artistas ao estudo da anatomia do
+corpo humano: vieram a ser pag&atilde;os sem comtudo deixarem de
+ser christ&atilde;os, e principiaram a representar, at&eacute;
+no sanctuario das egrejas, a imagem n&uacute;a da mulher, faunos,
+etc., nas attitudes as mais lascivas: foi esta a propens&atilde;o
+da arte desde o XVI seculo. A come&ccedil;ar
+d'esse momento, foi a sensualidade e a nudez que dominaram na maior
+parte das pinturas e esculpturas mesmo as religiosas. Muitas vezes nas
+egrejas, os assumptos legendarios ficam substituidos por scenas tiradas
+da mythologia. Estas mesmas com figuras n&uacute;as se
+v&ecirc;em sobre os vasos sagrados. Os anjos, que abundam nos
+edificios religiosos, s&atilde;o genios, cupidos com azas,
+dispostos para entrarem no banho.<br />
+
+<br />
+
+Entre as representa&ccedil;&otilde;es proprias do periodo do
+renascimento, mencionaremos uma unica: <em>A
+deposi&ccedil;&atilde;o de Jesus Christo no tumulo</em>,
+que se representa em grande numero de egrejas com figuras de grandeza
+natural. Al&eacute;m do corpo inanimado de Christo,
+v&ecirc;em-se mais sete personagens. Nicod&eacute;mos e
+Jos&eacute; de Arimath&eacute;a pegando nas extremidades da
+mortalha sobre a qual descan&ccedil;a o corpo do Redemptor; Nossa
+Senhora, o apostolo S. Jo&atilde;o e as tres Marias, Maria
+Magdalena, Maria Cle&oacute;phas e Maria Salom&eacute;,
+est&atilde;o em fileira, entre as duas primeiras por detraz de
+Christo.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[407]</span>
+Concluiremos estas considera&ccedil;&otilde;es pelas palavras
+de um douto archeologo que estygmatisa o sensualismo:<br />
+
+<br />
+
+Podemos todavia ponderar que o estylo da architectura da
+Renascen&ccedil;a, querendo adoptar as formas da architectura
+classica, n&atilde;o produziu progresso nenhum na arte
+architectural, pelo contrario a fez <em>retrogradar</em>;
+se os artistas
+antigos tivessem conhecido essas ousadias engenhosas dos periodos em
+que a architectura apresentou as suas novas id&eacute;as
+artisticas, n&atilde;o teriam espontaneamente
+renunciado ao grande numero de f&oacute;rmas que a
+Renascen&ccedil;a se lembrou de avivar; em uma palavra,
+n&atilde;o se teriam adoptado modos differentes antigos, que
+n&atilde;o significavam ser o resultado de symptoma de progresso,
+sendo pelo contrario uma retroac&ccedil;&atilde;o
+da arte, pois n&atilde;o tinham progredido nas bellezas essenciaes
+no estylo antigo, tendo apenas alterado ao mesmo tempo a
+perfei&ccedil;&atilde;o mechanica e a belleza racional da arte
+classica.<br />
+
+<br />
+
+<h4>FIM</h4>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2><a name="c7"></a>Nomes dos Rev.<sup>os</sup>
+Parochos</h2>
+
+<h3><em>QUE FORAM ASSIGNANTES D'ESTA PUBLICA&Ccedil;AO</em></h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Alexandre de Faria e Silva&#8213;Beneficiado da S&eacute;
+d'Evora&#8213;Correio do Collegio.<br />
+
+<br />
+
+Alexandre Ramos Cid&#8213;Santa Maria da Feira&#8213;Beja.<br />
+
+<br />
+
+Alfredo Elviro dos Santos&#8213;Secretario do Patriarchado&#8213;Lisboa.<br />
+
+<br />
+
+Antonio d'Almeida Estrella&#8213;Rua do Bomjardim, 187&#8213;Porto.<br />
+
+<br />
+
+Antonio Ferreira da Gama&#8213;Alfarellos&#8213;Alfarellos.<br />
+
+<br />
+
+Antonio Luiz Pinto de Carvalho&#8213;Cartaxo&#8213;Cartaxo.<br />
+
+<br />
+
+Antonio Luiz Thiago Mesquita&#8213;S. Miguel&#8213;Villa Franca do Campo.<br />
+
+<br />
+
+Antonio Narcizo Pereira&#8213;Rua da Borragem&#8213;Almada.<br />
+
+<br />
+
+Antonio Roza de Carvalho&#8213;Nossa Senhora da
+Concei&ccedil;&atilde;o&#8213;Torres Novas (Alqueid&atilde;o do
+Sena).<br />
+
+<br />
+
+Antonio dos Santos Figueiredo&#8213;Seminario de Portalegre.<br />
+
+<br />
+
+Antonio dos Santos Silva&#8213;Santa Catharina da Fonte do Bispo&#8213;Tavira.<br />
+
+<br />
+
+Caetano Xavier d'Almeida da Camara Manuel&#8213;Evora.<br />
+
+<br />
+
+Caetano Honorio da Gra&ccedil;a e Sousa&#8213;Seminario de Portalegre.<br />
+
+<br />
+
+Domingos Jos&eacute; Alves Almeida&#8213;S. Jo&atilde;o
+Baptista&#8213;Vieira (Mosteiros).
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p410">[410]</a></span>
+Eugenio de Freitas Cavalleiro de Sousa&#8213;Rua da Bella Vista,
+&aacute; Lapa, 7, 2.&ordm;&#8213;Lisboa.<br />
+
+<br />
+
+Faustino Antonio de Moraes&#8213;S. Saturnino&#8213;Fanh&otilde;es.<br />
+
+<br />
+
+Francisco da Concei&ccedil;&atilde;o Costa&#8213;S. Pedro&#8213;Elvas.<br />
+
+<br />
+
+Francisco Ferreira Fl&ocirc;res&#8213;Nossa Senhora da
+Visita&ccedil;&atilde;o&#8213;Ourem.<br />
+
+<br />
+
+Francisco Jos&eacute; Monteiro&#8213;Nossa Senhora da
+Encarna&ccedil;&atilde;o&#8213;Mirandella.<br />
+
+<br />
+
+Francisco Louren&ccedil;o Cardoso&#8213;Nossa Senhora da
+Assump&ccedil;&atilde;o&#8213;Caminha.<br />
+
+<br />
+
+Francisco Maria de Vasconcellos&#8213;Nossa Senhora do Milagre&#8213;Leiria
+(Vieira).<br />
+
+<br />
+
+Jo&atilde;o Baptista de Mendo&ccedil;a&#8213;Nossa Senhora da
+Gra&ccedil;a&#8213;Olh&atilde;o (Moncarapacho).<br />
+
+<br />
+
+Jo&atilde;o David d'Azevedo Barros&#8213;Rua do Bonjardim, 158&#8213;Porto.<br />
+
+<br />
+
+Jo&atilde;o Jos&eacute; de Mattos Ferreira&#8213;Santa Maria e S.
+Miguel&#8213;Cintra.<br />
+
+<br />
+
+Jo&atilde;o Maria de Mendo&ccedil;a Vasques&#8213;Nossa Senhora da
+Concei&ccedil;&atilde;o&#8213;Silves (Alcantarilha).<br />
+
+<br />
+
+Jo&atilde;o Nepomuceno da Costa&#8213;S. Pedro de Penaferrim&#8213;Cintra.<br />
+
+<br />
+
+Joaquim Antonio dos Reis&#8213;S. Domingos de Bemfica.<br />
+
+<br />
+
+Joaquim Antonio Teixeira&#8213;Algarve&#8213;Loul&eacute;.<br />
+
+<br />
+
+Joaquim Bernardo das D&ocirc;res&#8213;Cacella&#8213;Villa Real de Santo
+Antonio.<br />
+
+<br />
+
+Joaquim Jos&eacute; d'&Aacute;nova&#8213;Povoa de <a href="#e10">Varzim</a>&#8213;Povoa
+de Varzim.<br />
+
+<br />
+
+Joaquim Maria Duarte Dias.<br />
+
+<br />
+
+Joaquim Martins de Carvalho&#8213;Coimbra.<br />
+
+<br />
+
+Joaquim Pereira de Moraes (Abb.)&#8213;Santa Maria&#8213;Taboa&ccedil;o
+(Sendim).<br />
+
+<br />
+
+Joaquim Rodrigues Barroso&#8213;Nossa Senhora dos Prazeres&#8213;Vizeu
+(Abravezes).
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p411">[411]</a></span>
+Joaquim dos Santos Sequeira&#8213;Seminario de Portalegre.<br />
+
+<br />
+
+Jos&eacute; Alves de Mattos (Dr.)&#8213;Reitor do Seminario de Santarem.
+<br />
+
+<br />
+
+Jos&eacute; Baptista Pereira&#8213;Senhor Jesus&#8213;Obidos Sanguinhal.<br />
+
+<br />
+
+Jos&eacute; Bernardo dos Santos&#8213;Borba.<br />
+
+<br />
+
+Jos&eacute; David d'Azevedo Barros.<br />
+
+<br />
+
+Jos&eacute; Diogo Ribeiro&#8213;Vimieiro&#8213;Correio de
+Alcoba&ccedil;a.<br />
+
+<br />
+
+Jos&eacute; Farinha Martins&#8213;Seminario de Portalegre.<br />
+
+<br />
+
+Jos&eacute; da Luz Capella&#8213;S. Miguel do Pinheiro&#8213;Mertola.<br />
+
+<br />
+
+Jos&eacute; Maria Tavares Portugal&#8213;Nossa Senhora
+d'Assump&ccedil;&atilde;o&#8213;Vianna do Castello
+(Gave&atilde;o).<br />
+
+<br />
+
+Jos&eacute; Ribeiro da Silva&#8213;Seminario de Portalegre.<br />
+
+<br />
+
+Jos&eacute; Victorino de Carvalho&#8213;Reitor de Marcello&#8213;Santa Cruz
+de Villa Ale&atilde;.<br />
+
+<br />
+
+Luiz Jos&eacute; Nunes (Abb.)&#8213;S. Miguel&#8213;Bou&ccedil;as
+(Le&ccedil;a da Palmeira).<br />
+
+<br />
+
+Manuel Branco de Lemos&#8213;Salvador&#8213;Ilhalvo.<br />
+
+<br />
+
+Manuel Francisco dos Santos Peixoto&#8213;Val de S.
+Sebasti&atilde;o&#8213;Ilha Terceira.<br />
+
+<br />
+
+Manuel Ferreira Peixoto de Sousa&#8213;Vera Cruz&#8213;Aveiro.<br />
+
+<br />
+
+Manuel Henrique de Sousa Machado&#8213;S. Martinho de Bornes.<br />
+
+<br />
+
+Manuel Jos&eacute; Bernardo Coelho&#8213;S. Thiago&#8213;Tavira.<br />
+
+<br />
+
+Manuel Maria da Costa&#8213;S. Matheus da Calheta&#8213;Ilha Terceira.<br />
+
+<br />
+
+Manuel Marques Monteiro&#8213;Nossa Senhora da
+<a href="#e11">Concei&ccedil;&atilde;o</a>&#8213;Nellas.<br />
+
+<br />
+
+Manuel Ribeiro de Mello&#8213;Valladares&#8213;Correio de Gaia.<br />
+
+<br />
+
+Manuel dos Santos Louren&ccedil;o&#8213;S. Jo&atilde;o
+Baptista&#8213;Feira (S. Jo&atilde;o de V&ecirc;z).<br />
+
+<br />
+
+Mathias M. Grave&#8213;Seminario de Portalegre.<br />
+
+<br />
+
+Miguel Antonio da Fonseca e Sousa&#8213;S. Faustino&#8213;Pezo da Regoa.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[412]</span>
+Paulo da Costa&#8213;Rua do Infante D. Augusto&#8213;Coimbra.<br />
+
+<br />
+
+Prior da Freguezia de Cezimbra.<br />
+
+<br />
+
+Prior da Freguezia de S. Miguel&#8213;Vagos (S&ocirc;za).<br />
+
+<br />
+
+Thomaz Joaquim d'Almeida (Dr.)&#8213;Santo Andr&eacute;&#8213;Mafra.<br />
+
+<br />
+
+Vice-Reitor do Seminario de Faro.<br />
+
+<br />
+
+Victorino da Silva Araujo&#8213;Leiria.<br />
+
+<br />
+
+Zephyrino Jos&eacute; Pinto.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>INDICE</h2>
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;">Pag.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Ao
+leitor.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c">5</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Introduc&ccedil;&atilde;o.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c0">7</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo I</span>&#8213;Principios
+da arte
+christ&atilde; no Occidente.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;"><em>Primeiro
+periodo.</em></td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c1">13</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo
+II</span>&#8213;Descrip&ccedil;&atilde;o
+das catacumbas
+de Roma; 1.&ordm;
+periodo.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c2">14</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Symbolos ou
+allegorias dos primitivos
+christ&atilde;os.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p16">16</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Monogramma de
+Christo.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p18">18</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Sarcophagos.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p21">21</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Edificios
+religiosos construidos nos tres primeiros
+seculos.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p23">23</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Cemiterios.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p24">24</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Paramentos e
+objectos do
+culto.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p25">25</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo III</span>&#8213;Estylo
+latino.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c3">25</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Caracteres d'este
+estylo.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p31">31</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Decora&ccedil;&atilde;o
+dos monumentos do
+periodo
+latino.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p32">32</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Narthex, fachadas e
+portaes das
+basilicas.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p33">33</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Janellas e
+vidra&ccedil;as.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p33">33</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Altar nas egrejas
+do
+Occidente.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p36">36</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">O <em>ciborium</em>
+durante o periodo
+latino.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p39">39</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Cemiterios&#8213;sarcophagos&#8213;campas
+e
+tumulos.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p42">42</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Os calices e
+patena.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p45">45</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Os crucifixos e os
+casti&ccedil;aes.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p48">48</a></td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<span class="pagenum">[414]</span>
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 540px; text-align: justify;">Diptycos.</td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 40px;"><a href="#p49">49</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 540px; text-align: justify;">Estofos
+preciosos.</td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 40px;"><a href="#p50">50</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 540px; text-align: justify;">Paramentos
+sacerdotaes.</td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 40px;"><a href="#p53">53</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 540px; text-align: justify;">Mosteiros
+latinos.</td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 40px;"><a href="#p55">55</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 540px; text-align: justify;">Iconographia
+do periodo
+latino.</td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 40px;"><a href="#p55">55</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Caracteres do
+estylo
+bysantino.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p57">57</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Systema de
+construc&ccedil;&atilde;o.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p58">58</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Dura&ccedil;&atilde;o
+exterior e interna das
+egrejas.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p58">58</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo IV</span>&#8213;Periodo
+Roman.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c4">60</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Caracteres do
+estylo
+lombardo.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p62">62</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Dura&ccedil;&atilde;o
+monumental.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p66">66</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Estylo roman
+durante os seculos XI e
+XII.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p67">67</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Caracteres da
+architectura
+roman.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p69">69</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Esculptura
+monumental no seculo
+XI.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p71">71</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Atrios e portaes
+romans.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p73">73</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Caixilhos
+rendilhados e vidra&ccedil;as
+pintadas.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p75">75</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Columnas
+anneladas&#8213;ornato
+designado&#8213;garra.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p77">77</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Capiteis da
+architectura
+roman.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p78">78</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Arcadas e arcaduras
+nos seculos XI e
+XII.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p79">79</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;"><em>Triforiums</em>
+e
+cornijas.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p81">81</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Contrafortes e
+telhados.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p83">83</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Torres e
+campanarios.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p84">84</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Pintura das paredes
+e pintura
+historica.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p86">86</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Altares fixos,
+retabulos e
+relicarios.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p89">89</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Piscinas.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p93">93</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Doceis&#8213;Cadeiras
+episcopaes.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p95">95</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Capellas
+funerarias&#8213;tumulos&#8213;pedras
+tumulares.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p96">96</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Pias
+baptismaes.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p98">98</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Esmaltes.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p99">99</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Ourives de
+Limoges.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p101">101</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Calices e
+pat&ecirc;nas.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p102">102</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Grades.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p103">103</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Alfaias
+religiosas.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p104">104</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 540px; text-align: justify;">Restaura&ccedil;&atilde;o
+artistica.</td>
+
+ <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p105">105</a></td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<span class="pagenum"><a name="p415">[415]</a></span>
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 540px; text-align: justify;">Custodias&#8213;pyxides
+e
+ciborios.</td>
+
+ <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p106">106</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 540px; text-align: justify;">Relicarios
+e
+urnas.</td>
+
+ <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p108">108</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 540px; text-align: justify;">Cor&ocirc;as
+suspensas
+nos
+altares.</td>
+
+ <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p112">112</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 540px; text-align: justify;">Cruzes
+d'altar e para
+prociss&otilde;es e
+candelabros.</td>
+
+ <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p113">113</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 540px; text-align: justify;">Evangeliarios
+e suas
+capas.</td>
+
+ <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p116">116</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 540px; text-align: justify;">Baculos
+pastoraes e
+sapatos
+lithurgicos.</td>
+
+ <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p120">120</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 540px; text-align: justify;">Mitras.</td>
+
+ <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p122">122</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 540px; text-align: justify;">Alfaias
+preciosas e
+paramentos sacerdotaes e suas
+c&ocirc;res.</td>
+
+ <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p123">123</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 540px; text-align: justify;">Abbadias&#8213;Mosteiros&#8213;Claustros
+dos
+capitulos.</td>
+
+ <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p129">129</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 540px; text-align: justify;">Iconographia,
+ <em>a
+sciencia <a href="#e12">das
+imagens</a></em>.</td>
+
+ <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p132">132</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 540px; text-align: justify;">A
+cruz e a
+crucifica&ccedil;&atilde;o.</td>
+
+ <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p137">137</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 540px; text-align: justify;">Personagens
+e accessorios
+historicos e
+allegoricos.</td>
+
+ <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p143">143</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Evangelistas e seus
+symbolos.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p152">152</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Assumptos
+religiosos representados sobre os monumentos
+dos seculos XI e
+XII.</td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p155">155</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo V</span>&#8213;Periodo
+ogival.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#c5">159</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Diversas
+f&oacute;rmas de
+ogiva.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p160">160</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Origem da ogiva e
+do estylo
+ogival.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p162">162</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Periodo de
+transi&ccedil;&atilde;o do estylo
+roman para o
+ogival.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p164">164</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Caracteres da
+architectura
+ogival.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p165">165</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Plano das egrejas
+do XIV e do XV seculos e aspecto
+exterior das
+egrejas.</td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p169">169</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Systema de
+construc&ccedil;&atilde;o.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p172">172</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Esculptura
+monumental.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p175">175</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Fachadas&#8213;Alpendres&#8213;Postaes.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p179">179</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Janellas no periodo
+de
+transi&ccedil;&atilde;o.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p185">185</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Rosaceas&#8213;Vidra&ccedil;as
+incolores.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p192">192</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Vidra&ccedil;as
+pintadas.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p195">195</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Idem do XIII
+seculo.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p200">200</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Idem pintadas do
+XIV
+seculo.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p204">204</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Amarello de
+prata.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p206">206</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Vidra&ccedil;as
+pintadas do XV
+seculo.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p207">207</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 540px; text-align: justify;">Idem
+pintadas do XVI
+seculo.</td>
+
+ <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p211">211</a></td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<span class="pagenum">[416]</span>
+<span class="smallcaps"></span>
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 540px; text-align: justify;">Idem
+do XVII
+seculo.</td>
+
+ <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p214">214</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 540px; text-align: justify;">Idem
+do XVIII
+seculo.</td>
+
+ <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p216">216</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 540px; text-align: justify;">Pilares&#8213;Columnas.</td>
+
+ <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p216">216</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 540px; text-align: justify;">Bases
+e
+columnas.</td>
+
+ <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p219">219</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 540px; text-align: justify;">Capiteis.</td>
+
+ <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p221">221</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Modilh&otilde;es&#8213;misulas.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p223">223</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Arcadas&#8213;arcaduras.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p224">224</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Cornijas&#8213;platibandas.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p228">228</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Estabilidade e
+plano das
+abobadas.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p231">231</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Egrejas que teem a
+sua nave central muito mais elevada
+que as outras
+naves lateraes e aquellas tendo igual
+altura.</td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#p232">232</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Perfis das
+nervuras&#8213;fecho da
+abobada.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p234">234</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Arcos
+butantes&#8213;contrafortes.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p236">236</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Gargulas.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p242">242</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 540px; text-align: justify;">Nichos
+e
+doceis.</td>
+
+ <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p243">243</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Torres&#8213;campanarios.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p247">247</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Pavimentos.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p251">251</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Lages gravadas com
+embutidos.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p253">253</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Labyrinthos.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p254">254</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Pinturas das
+paredes.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p256">256</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Cruz da
+consagra&ccedil;&atilde;o.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p262">262</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Altares&#8213;tabernaculos&#8213;piscinas.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p263">263</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Frontaes&#8213;baldaquinos.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p265">265</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Retabulos&#8213;banqueta.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p268">268</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Sacrarios.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p274">274</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Cadeiras de
+c&ocirc;ro.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p277">277</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Jubes&#8213;cruzes
+triumphaes.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p281">281</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Pulpitos&#8213;confessionarios.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p284">284</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Capellas
+funereas&#8213;tumulos&#8213;campas.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p286">286</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Pequenos monumentos
+funereos do XV e do XVI
+seculo.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p294">294</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Pias
+baptismaes&#8213;pias para agua
+benta.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p298">298</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Grades&#8213;barreiras
+de metal e de
+madeira.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p301">301</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Org&atilde;os e
+caixas para
+elles.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p304">304</a></td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<span class="pagenum">[417]</span>
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 540px; text-align: justify;">Alfaias
+religiosas&#8213;esmaltes.</td>
+
+ <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p306">306</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 540px; text-align: justify;">Calices&#8213;patenas.</td>
+
+ <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p310">310</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 540px; text-align: justify;">Custodias&#8213;pyxides
+sem
+p&eacute;.</td>
+
+ <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p313">313</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 540px; text-align: justify;">Relicarios&#8213;bra&ccedil;os&#8213;p&eacute;s.</td>
+
+ <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p317">317</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 540px; text-align: justify;">Esmoleres&#8213;relicarios&#8213;diversos.</td>
+
+ <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p327">327</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 540px; text-align: justify;">Vasos
+para os Santos
+Oleos.</td>
+
+ <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p331">331</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 540px; text-align: justify;">Cor&ocirc;as
+com
+luzes&#8213;casti&ccedil;aes.</td>
+
+ <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p333">333</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 540px; text-align: justify;">Estantes
+para o
+c&ocirc;ro.</td>
+
+ <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p338">338</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 540px; text-align: justify;">Livros
+do
+Evangelho&#8213;manuscriptos
+lithurgicos&#8213;miniaturistas.</td>
+
+ <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p339">339</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 540px; text-align: justify;">Thuribulos&#8213;gomis&#8213;pratas
+para
+offerendas.</td>
+
+ <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p342">342</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 540px; text-align: justify;">Insignias&#8213;medalhas
+dos
+peregrinos.</td>
+
+ <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p346">346</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 540px; text-align: justify;">Estofos
+preciosos.</td>
+
+ <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p348">348</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 540px; text-align: justify;">Pannos
+de
+raz.</td>
+
+ <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p350">350</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 540px; text-align: justify;">Vestimentas
+sagradas.</td>
+
+ <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p351">351</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 540px; text-align: justify;">Mitras.</td>
+
+ <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p356">356</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 540px; text-align: justify;">Abbadias&#8213;mosteiros.</td>
+
+ <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p357">357</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 540px; text-align: justify;">Egrejas&#8213;claustros&#8213;casa
+do
+capitulo.</td>
+
+ <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p359">359</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 540px; text-align: justify;">Aposento
+dos
+irm&atilde;os leigos&#8213;aposentos para
+hospedes.</td>
+
+ <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p363">363</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 540px; text-align: justify;">Celleiros&#8213;officinas&#8213;pris&otilde;es.</td>
+
+ <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p365">365</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 540px; text-align: justify;">Cartuchas.</td>
+
+ <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p367">367</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 540px; text-align: justify;">Mosteiros
+para
+mulheres&#8213;conventos do
+recolhidas.</td>
+
+ <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p368">368</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 540px; text-align: justify;">Hospitaes.</td>
+
+ <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p368">368</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Iconographia do
+periodo
+ogival.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p369">369</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Representa&ccedil;&atilde;o
+da Santissima
+Trindade.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p370">370</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">O crucifixo&#8213;a
+crucifica&ccedil;&atilde;o.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p371">371</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">O sol&#8213;a
+lua.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p373">373</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Imagem de Nossa
+Senhora&#8213;o Menino
+Jesus.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p374">374</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">A
+Annuncia&ccedil;&atilde;o&#8213;a morte de Nossa
+Senhora.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p376">376</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Os apostolos&#8213;os
+evangelistas.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p377">377</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Scenas
+diversas.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p379">379</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 540px; text-align: justify;">Sibyllas.</td>
+
+ <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p382">382</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 540px; text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo
+VI</span>&#8213;Periodo
+da
+renascen&ccedil;a.</td>
+
+ <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#c6">383</a></td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<span class="pagenum">[418]</span>
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 540px; text-align: justify;">Caracteres
+da architectura
+da
+renascen&ccedil;a.</td>
+
+ <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p385">385</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 540px; text-align: justify;">Come&ccedil;o.</td>
+
+ <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p385">385</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 540px; text-align: justify;">Decora&ccedil;&atilde;o.</td>
+
+ <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p387">387</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 540px; text-align: justify;">Plano
+das
+egrejas.</td>
+
+ <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p389">389</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 540px; text-align: justify;">Fachadas
+das
+egrejas.</td>
+
+ <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p391">391</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 540px; text-align: justify;">Abobadas.</td>
+
+ <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p392">392</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 540px; text-align: justify;">Torres.</td>
+
+ <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p392">392</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 540px; text-align: justify;">Altares.</td>
+
+ <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p392">392</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 540px; text-align: justify;">Tabernaculos.</td>
+
+ <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p393">393</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 540px; text-align: justify;">Cadeiras
+do
+c&ocirc;ro, obra de talha e
+confessionario.</td>
+
+ <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p394">394</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 540px; text-align: justify;">Jub&eacute;os
+e
+balaustradas.</td>
+
+ <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p394">394</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 540px; text-align: justify;">Caixas
+de
+org&atilde;o.</td>
+
+ <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p395">395</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 540px; text-align: justify;">Pulpitos.</td>
+
+ <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p396">396</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Tumulos e
+campas.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p396">396</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Pias
+baptismaes.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p398">398</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Obras de
+ourivesaria e de
+esmalte.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p398">398</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Calices.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p399">399</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Custodias.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p400">400</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Relicarios.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p400">400</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Estofos preciosos.
+Tecidos.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p401">401</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Bordados.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p402">402</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Pannos de
+Raz.</td>
+
+ <td style="text-align: right;"><a href="#p402">402</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 540px; text-align: justify;">Iconographia.</td>
+
+ <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#p403">403</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 540px; text-align: justify;">Lista
+dos
+assignantes.</td>
+
+ <td style="width: 40px; text-align: right;"><a href="#c7">409</a></td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span style="font-weight: bold;">Notas:</span><br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<sup><a name="1">[1]</a></sup>
+Extraido
+do <em>Boletim de Architectura e
+Archeologia</em>, n.&ordm; 2, Tomo V, pag. 20 a 22, anno
+1886.<br />
+
+<br />
+
+<sup><a name="2">[2]</a></sup> Tinha a
+mesma designa&ccedil;&atilde;o que
+coemeteria e criptae.<br />
+
+<br />
+
+<sup><a name="3">[3]</a></sup> Era um
+calix mystico que continha o vinho que bebeu Jesus
+Christo na sua ultima ceia. Este calix tinha sido conservado por
+Jos&eacute; de Arimath&ecirc;a e transportado por elle para a
+Bretanha. (Inglaterra).<br />
+
+<br />
+
+<sup><a name="4">[4]</a></sup> Termo em
+inglez admittido pelos archeologos.<br />
+
+<br />
+
+<sup><a name="5">[5]</a></sup>&nbsp;Havia
+no paiz dois magnificos livros do c&ocirc;ro, um
+do convento de Christo, em Thomar, e outro do convento de Belem. Este
+foi retalhado pelos orph&atilde;os da casa pia de Lisboa, que
+fizeram d'elle
+<em>barretinas</em> e
+<em>talabartes</em>. Ao outro livro foram cortadas as
+folhas de pergaminho, tendo vistosos arabescos e lettras floreteadas,
+coloridas e douradas, cujos preciosos fragmentos compr&aacute;mos
+avulso aos poucos no anno de 1835.<br />
+
+<br />
+
+<sup><a name="6">[6]</a></sup>&nbsp;Ha
+um muito curioso no cabido da S&eacute; de Vizeu,
+do qual tir&aacute;mos o molde em 1869. Est&aacute; exposto no
+museu do Carmo em Lisboa.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="fbox">
+<h2>Lista de erros corrigidos</h2>
+
+<div style="text-align: center;">Aqui
+encontram-se
+listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="width: 80%; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4">
+
+ <tbody>
+
+ <tr align="right">
+
+ <td style="width: 64px;"></td>
+
+ <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 135px;">Original</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 7px;"></td>
+
+ <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 123px;">Correc&ccedil;&atilde;o</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e1"></a><a href="#p25">#p&aacute;g.
+25</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">das das</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 7px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 123px;">das</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e2"></a><a href="#p88">#p&aacute;g.
+88</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">indefinidamenie</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 7px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 123px;">indefinidamente</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e3"></a><a href="#p102">#p&aacute;g.
+102</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">quaiidade</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 7px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 123px;">qualidade</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e4"></a><a href="#p142">#p&aacute;g.
+142</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">seseculo</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 7px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 123px;">seculo</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e5"></a><a href="#p209">#p&aacute;g.
+209</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">da da
+&eacute;poca</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 7px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 123px;">da
+&eacute;poca</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e6"></a><a href="#p301">#p&aacute;g.
+301</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">asperpergil-os</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 7px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 123px;">aspergil-os</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e7"></a><a href="#p350">#p&aacute;g.
+350</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">representanto</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 7px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 123px;">representando</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e8"></a><a href="#p352">#p&aacute;g.
+352</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">nma
+cruz</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 7px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 123px;">uma
+cruz</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 64px; vertical-align: top;"><a name="e9"></a><a href="#p397">#p&aacute;g.
+397</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px; vertical-align: top;">XVII
+e XXIII seculos</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 7px; vertical-align: top;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 123px; vertical-align: top;">XVII
+e XVIII seculos</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e10"></a><a href="#p410">#p&aacute;g.
+410</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">Varzlm</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 7px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 123px;">Varzim</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e11"></a><a href="#p411">#p&aacute;g.
+411</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">Conceicei&ccedil;&atilde;o</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 7px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 123px;">Concei&ccedil;&atilde;o</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 64px;"><a name="e12"></a><a href="#p415">#p&aacute;g.
+415</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">dos
+imagens</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 7px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 123px;">das
+imagens</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;">*
+correc&ccedil;&otilde;es feitas com base na errata do
+pr&oacute;prio livro.<br />
+
+<br />
+
+Foi adicionada a indica&ccedil;&atilde;o do cap&iacute;tulo
+II (<a href="#c2">p&aacute;g. 14</a>) e
+corrigida a entrada do cap&iacute;tulo III (<a href="#c3">p&aacute;g.
+25</a>).<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+</div>
+
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Resumo elementar de archeologia christã, by
+Joaquim Possidónio Narciso da Silva
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ARCHEOLOGIA CHRISTÃ ***
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+works. See paragraph 1.E below.
+
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+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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