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+The Project Gutenberg EBook of Resumo elementar de archeologia christã, by
+Joaquim Possidónio Narciso da Silva
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Resumo elementar de archeologia christã
+
+Author: Joaquim Possidónio Narciso da Silva
+
+Release Date: January 29, 2008 [EBook #24455]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ARCHEOLOGIA CHRISTÃ ***
+
+
+
+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
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+RESUMO ELEMENTAR
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+DE
+
+ARCHEOLOGIA CHRISTÃ
+
+POR
+
+POSSIDONIO DA SILVA
+
+1887
+
+
+
+Antigo edificio religioso de Santarem
+
+LISBOA--Museu de Archeologia do Carmo
+
+
+
+
+RESUMO ELEMENTAR
+
+DE
+
+ARCHEOLOGIA CHRISTÃ
+
+POR
+
+_Possidonio da Silva_
+
+
+
+MEDALHA CONFERIDA EM 1869
+
+
+LISBOA
+LALLEMANT FRÈRES, IMPRENSA
+1887
+
+
+
+
+
+MEMORIA DE MEU PAE
+
+Reinaldo José da Silva
+
+
+TESTEMUNHO DE RESPEITO E GRATIDÃO
+
+O Auctor
+
+
+
+
+AO LEITOR
+
+
+Inaugurando-se agora nos seminarios de algumas dioceses de Portugal
+cadeiras para o ensino de archeologia christã, estudo que ha muito era
+urgente crear-se no nosso paiz, proponho-me publicar os elementos
+principaes d'esta sciencia, afim de facilitar os estudos a quem desejar
+possuir esses conhecimentos indispensaveis para curar da conservação dos
+objectos do culto e evitar o ignorante modo de se restaurarem os
+edificios religiosos dos differentes estylos, que pertencem á nação;
+pois já é tempo de não se continuar a praticar nos edificios concertos
+mal pensados, que alteram o caracter respectivo da sua architectura, e
+causam tambem desdouro ao avaliar-se a nossa civilisação.
+
+Ainda que não façamos um compendio completo, comtudo, talvez possa ser
+de algum auxilio para se divulgarem as instrucções principaes d'esta
+natureza afim de pôr cobro aos vandalismos que têem destruido tantas
+antiguidades e objectos preciosos do culto.
+
+Muito embora não se consiga desde já o proficuo resultado d'este ensino,
+todavia ficará registado, no final do seculo XIX, o empenho que
+illustres Prelados têem tomado para obstar a serem illudidos os parochos
+nas substituições das alfaias, e para se opporem ás defeituosas
+restaurações dos monumentos religiosos do nosso paiz. Darei por bem
+empregada esta minha modesta publicação, se por ventura conseguir este
+empenho patriotico e artistico a que tenho constantemente dedicado a
+maior parte da minha existencia.
+
+Possidonio da Silva.
+
+
+
+
+INTRODUCÇÃO[1]
+
+
+Os monumentos historicos ou simplesmente artisticos são os marcos que
+assignalam os passos, mais ou menos firmes, vagarosos ou apressados, que
+os povos vão dando no caminho da civilisação. Porém não se pense que,
+relativamente a esses padrões, a cultura de uma nação deva ser avaliada
+sómente pela significação d'elles, por mais gloriosa que seja, ou por
+mais que se aprimorasse n'elles a arte, mas sim tambem pelo apreço e
+respeito com que essa nação vela pela sua conservação.
+
+Sobreleva Portugal a todas as nações na alta significação dos seus
+monumentos, porque não commemoram unicamente façanhas militares e
+virtudes christãs e civicas, communs a outros povos. Não recordam só mil
+acções de valor, de coragem e de abnegação, praticadas na defensa da
+patria, ou para alargamento das suas fronteiras, ou para honra e lustre
+do seu nome. Mas fallam tambem os nossos monumentos d'essas
+arrojadissimas emprezas de navegações e descobrimentos, com que os
+portuguezes abriram de par em par as portas á moderna civilisação,
+levando a luz do evangelho, atravez de mares ignotos, ás mais longinquas
+regiões do globo.
+
+Quasi todas essas glorias, que doiram as paginas da nossa historia,
+foram memoradas por nossos maiores com a fundação de um templo, acanhado
+e singelo, ou grandioso e opulento, segundo o permittiam a rudeza dos
+tempos, ou a florescencia da nação, bem como o animo e posses dos
+fundadores.
+
+As convulsões do sólo, a pouca illustração dos reedificadores, e
+modernamente a sanha brutal dos demolidores, têem destruido ou
+desfigurado muitas d'essas auctorisadas testemunhas dos tempos heroicos
+de Portugal. Este vandalismo, que nos degrada do gremio das nações
+cultas, não está, infelizmente, ainda de todo proscripto d'entre nós. Os
+poderes publicos ainda não prestam aos nossos monumentos toda a attenção
+e vigilante solicitude que, para a sua conservação, elles demandam, e a
+honra e bom nome do paiz com tanta justiça reclamam. E não basta que se
+attenda á conservação dos monumentos commemorativos dos grandes factos
+historicos, e ao mesmo tempo opulentos d'arte. Merecem o nosso apreço e
+cuidados todos os padrões que interessam, de qualquer maneira, aos
+annaes da nação e á historia da arte.
+
+Não obstante os differentes elementos de destruição, que tem actuado
+entre nós, ainda existem de pé n'este reino não poucas egrejas
+anteriores á fundação da monarchia, ou contemporaneas do nosso primeiro
+rei, ou construidas sob o sceptro dos seus immediatos successores. São
+pequenos e de construcção mesquinha todos esses templos, tendo por
+feição principal a mesma simplicidade e pobreza, que distinguiam n'essa
+epocha o viver da nação. Todavia, embora o acanhamento das proporções, e
+a simplicidade da architectura corram parelhas com a pobreza das
+memorias historicas, todas essas egrejas são exemplares de subido valor
+para a historia da arte em Portugal, tanto mais quanto é tristemente
+certo, que os grandes templos, levantados nos principios da monarchia,
+têem sido mascarados e desfigurados, por occasião das reedificações,
+como aconteceu ao de Alcobaça, á Sé de Lisboa, e a outros, ou
+desappareceram, como o de Santa Cruz de Coimbra e o de S. Vicente de
+Fóra, em Lisboa, para em seu logar se edificarem outros mais vastos e
+mais sumptuosos.
+
+Pois essas preciosas reliquias de tão remota antiguidade que têem
+resistido ao duro embate das tempestades no correr de tantos seculos,
+zombando até agora dos cataclysmos da natureza e dos furores do
+camartello, acham-se presentemente ameaçadas, pelo menos algumas
+d'ellas, de perderem, em reconstrucções dirigidas sem amor da arte, e
+sem respeito aos monumentos de remotas éras, as suas primitivas e
+venerandas feições.
+
+E ao mesmo passo vão desapparecendo das velhas parochias sertanêjas as
+suas antigas alfaias, vendidas por uma bagatella, a titulo de alcançar
+meios para reparação do edificio, e os seus vasos sagrados dos seculos
+anteriores ao XVIII, de muita belleza e primôr artistico, a troco de
+outros de fabrica moderna, mais luzentes e vistosos, porém destituidos
+da formosura e elegancia das fórmas, e da delicadeza e perfeição do
+trabalho esculptural, que dão fóros universaes de preeminencia á
+ourivesaria, principalmente dos seculos XV e XVI.
+
+Os compradores d'objectos d'arte e de industria, antigos, que vem a
+Lisboa todos os annos do estrangeiro, sobretudo de França e da
+Allemanha, percorrem as nossas provincias em todas as direcções;
+apparecem em todas as cidades, nas villas e nas proprias aldeias,
+tentando com dinheiro á vista os possuidores d'essas preciosidades, que
+não sabem aprecial-as, desconhecendo-lhes o valor.
+
+É mister por honra do paiz, e por exigencia imperiosa dos interesses
+publicos, que se trate de pôr algum côbro, quando não possa obstar-se
+inteiramente, á assolação ou deformação d'aquelles monumentos da
+antiguidade, e a esta continua expropriação das nossas riquezas
+artisticas, documentos irrecusaveis do alto grau de florescencia nas
+artes, e por conseguinte de civilisação, que Portugal attingiu n'esse
+glorioso passado.
+
+Um dos meios inquestionavelmente mais adequado, seria oppôr a essa
+torrente devastadora a illustração e o zelo dos parochos, illustração e
+zelo provenientes de conhecimentos especiaes para saberem apreciar
+aquelles objectos, ricos d'arte e de memorias piedosas, que os estranhos
+nos cobiçam, e que os nacionaes malbaratam por ignorancia.
+
+Se os parochos tivessem algumas noções de archeologia religiosa, não
+consentiriam, certamente, que as suas egrejas perdessem, com feições
+bastardas, o typo primitivo que as ennobrecia, nem haviam de tolerar,
+que fossem despojadas, por compra ou troca, dos seus vasos sagrados e
+alfaias antigas, que são nos templos verdadeiros brazões da sua nobreza,
+e testemunhas authenticas, eloquentes na sua propria mudez, do amor da
+religião dos nossos antepassados, que n'elles se casava com o amôr da
+patria. E não limitariam esses parochos a sua acção benefica, sem
+duvida, a salvaguardar as preciosidades artisticas das suas egrejas; mas
+não deixariam tambem, em casos identicos, de dispensarem aos parochianos
+os conselhos do seu saber e da sua experiencia.
+
+Foram estas considerações retemperadas pelo affecto que todos devemos á
+terra, que nos serviu de berço, e ás Santas Crenças, que recebemos dos
+maiores, que moveram a Real Associação dos Architectos e Archeologos a
+elevar ao esclarecido juizo dos Prelados Portuguezes o pedido de
+instituirem nos seus respectivos seminarios uma cadeira de archeologia
+religiosa.
+
+É uma sciencia muito complexa a archeologia, não ha duvida, pois que
+cada uma das partes, que a compõem, e que se subdividem, a seu turno, em
+outras partes de materia amplissima para o estudo, constitue um ramo
+importante dos conhecimentos humanos, que demanda muita applicação para
+ser bem sabido.
+
+Porém, no que diz respeito á archeologia religiosa é um estudo muito
+limitado, facil e agradavel, e que póde restringir-se, querendo
+abrevial-o, estabelecendo o ponto de partida da invasão dos povos
+septemtrionaes e destruição do imperio romano; ou dos tempos mais
+proximos da fundação da monarchia portugueza. O que é mister é que se dê
+nos seminarios aos futuros parochos a instrucção precisa para que
+conheçam os differentes estylos architectonicos, empregados nos templos
+do christianismo; a epocha da sua introducção em Portugal, e as
+modificações, que tiveram aqui, determinadas pelo estado da nossa
+civilisação e pelos habitos e costumes da sociedade. É indispensavel,
+tambem ministrar-lhes eguaes conhecimentos em relação á ourivesaria
+religiosa, e ás mais artes liberaes e mechanicas, que, no correr da éra
+christã, têem concorrido com os seus productos para o serviço dos
+altares, e para a ornamentação das egrejas.
+
+Os parochos assim instruidos não deixarão de apreciar devidamente, e de
+velar com verdadeiro zelo pela conservação dos edificios e dos objectos
+concernentes ao culto, venerandos pelas tradições religiosas e pela
+consagração dos seculos, e dignos de grande estima pelo seu valor
+artistico ou archeologico.
+
+Ignacio de Vilhena Barbosa.
+
+
+
+
+Resumo elementar de archeologia christã
+
+
+
+
+CAPITULO I
+
+Principios da arte christã no Occidente
+
+
+PRIMEIRO PERIODO
+
+
+
+
+CAPITULO II
+
+/#
+ *Summario.*--Descripcão das catacumbas de Roma--Principios
+ artisticos e classificações das pinturas das catacumbas--Symbolos
+ ou allegorias dos primitivos christãos--Representação de Jesus
+ Christo e de Nossa Senhora--Imagens dos Santos--Monogramma de
+ Christo--Lampadas--Sarcophagos christãos--Vasos de
+ sangue--Monumentos christãos fóra das catacumbas--Edificios
+ religiosos construidos nos tres primeiros seculos--Cemiterios á
+ superficie do solo--Alfaias e instrumentos do culto.
+#/
+
+
+Os mais numerosos monumentos christãos que se offerecem para o estudo da
+archeologia christã são os cemiterios subterraneos da cidade de Roma. Os
+christãos continuaram a escavar nas antigas pedreiras da cidade novas
+catacumbas depois do reinado de Constantino, e durante os quatro ou
+cinco seculos seguintes, transformaram as catacumbas em logares de
+peregrinação. Fizeram-se restaurações e embellezamentos n'estes
+sanctuarios até ao fim do seculo VIII.
+
+As catacumbas eram destinadas a tres fins: o primeiro e principal era
+servirem de cemiterio aos christãos. Os tumulos ficavam dispostos nas
+paredes uns por cima dos outros formando fileiras de tres a doze. Os
+corpos eram collocados em nichos oblongos, fechados por tampas de
+marmore, ou por tijolos ordinariamente em numero de tres, ajustados
+perfeitamente com cal.
+
+N'estas galerias veem terminar em muitos sitios camaras sepulchraes. São
+especies de covas funerarias, no fundo das quaes se encontra muitas
+vezes, debaixo de uma abobada, um tumulo encerrando os restos mortaes de
+algum martyr illustre. Estes tumulos serviam de altar no dia
+anniversario do martyr, em que os christãos vinham fazer as suas
+orações.
+
+A fórma dos sepulchros era variadissima: ha-os circulares,
+semi-circulares, octogonaes, hexagonaes e pentagonaes; comtudo a maior
+parte são quadrados.
+
+O segundo fim a que destinavam as catacumbas era servirem de logar de
+reunião para ahi celebrar as ceremonias do culto. Foi para fazerem as
+suas assembléas religiosas que os primitivos christãos construiram, nos
+seus cemiterios subterraneos, oratorios, compostos a maior parte das
+vezes de dois ou tres sepulchros contiguos, e que se designam pelo nome
+de _basilicas das catacumbas_.
+
+O terceiro fim das catacumbas era tambem servirem de retiro ao
+Pontifice, ao clero e aos fieis no tempo da perseguição.
+
+A historia das catacumbas póde dividir-se em tres periodos principaes: o
+periodo da formação, o periodo da restauração e de visitas piedosas, e o
+periodo de explorações scientificas.
+
+O primeiro periodo abraça os quatro primeiros seculos. No decurso do
+seculo IV viu-se diminuirem as sepulturas subterraneas pelo augmento dos
+tumulos á superficie do solo. Depois do anno 410 não se encontram
+sepulturas nas catacumbas.
+
+O segundo periodo estende-se desde os primitivos annos do seculo V até
+ao principio do seculo IX.
+
+Chamam-se cryptas historicas as camaras sepulchraes em que repousavam os
+restos de martyres illustres.
+
+O ultimo periodo, de explorações scientificas, data do anno de 1578.
+
+No mez de maio de 1578, uns trabalhadores que se occupavam em extrahir
+pozzolana n'uma vinha, a duas milhas da cidade de Roma, descobriram uma
+abertura que dava para um cemiterio christão decorado de pinturas, de
+sarcophagos e de inscripcões.
+
+Estas pinturas pertencem a epochas differentes, e algumas ao primeiro
+seculo da nossa éra. As do seculo II são mais numerosas, porém as do
+seculo III são ainda em muito maior numero.
+
+A maior parte das decorações das paredes das catacumbas foram executadas
+a fresco, sendo feitas algumas com mosaicos em limitado numero.
+
+Os antigos artistas contentavam-se em traçar a silhuêta dos personagens
+e dos objectos, enchiam em seguida o espaço comprehendido entre os
+contornos por côres lisas ou illuminuras, e indicavam convencionalmente
+as rugas dos fatos com traços cheios e as saliencias com traços finos.
+Faziam o contrario do que se praticava desde o seculo VI, desprezando,
+na representação dos assumptos, os accessorios.
+
+As pinturas dos tumulos, em fórma d'arco, apparecem sobre um fundo
+ornado,--um assumpto com muitas figuras traçadas dentro de molduras de
+fórma quadrada ou semicircular.
+
+Os ornatos são na maior parte imitações de objectos usuaes, açafates com
+fructos ou grinaldas de flores, sendo imitado este genero de decoração
+de pintura da arte pagã.
+
+Nas catacumbas representava-se ordinariamente Jesus Christo debaixo da
+fórma do Bom Pastor.
+
+As imagens do Redemptor não se encontravam isoladas, apresentando todos
+os caracteres das pinturas posteriores a muitos seculos á conversão de
+Constantino.
+
+A Santa Virgem é figurada nas pinturas das catacumbas sobre os vidros
+dourados e os sarcophagos dos seculos primitivos, estando sentada, com o
+Menino Jesus ao collo.
+
+A adoração dos Magos recordava aos fieis tres dogmas: a vocação dos
+infieis, a Divindade de Nosso Senhor, e a Maternidade Divina.
+
+Os primitivos christãos representavam tambem a Virgem com ou sem o
+Filho, debaixo da forma d'uma _orante_, isto é, em pé e levantando os
+braços n'uma attitude de supplica. Muitas imagens são anteriores ao
+seculo IV.
+
+_Jesus Christo multiplicando os pães_: figura a Santa Eucharistia, como
+sendo alimento das almas.
+
+O Salvador é representado em geral debaixo da figura d'um mancebo
+imberbe vestido com manto e tunica ornada com duas bandas de purpura.
+
+_O paralytico curado_ é representado no momento em que, deixando a
+piscina, leva a sua cama ás costas. Está vestido com uma tunica e cinta
+e uma especie de ceroulas.
+
+_Jesus resuscitando Lazaro_: é representado Lazaro debaixo da fórma
+d'uma pequena mumia envolvida em pequenas fitas e collocada na posição
+vertical á entrada do tumulo, que tem a fórma de um edificio ou pequeno
+templo.
+
+As representações de refeição dividem-se em duas classes conforme
+symbolisam a Eucharistia, ou a felicidade dos predestinados á
+bemaventurança.
+
+A felicidade dos predestinados é symbolisada por um banquete ao qual
+servem o Amor e a Paz, porque estes dois gosos eram tidos como os
+principaes do Paraiso.
+
+_Jesus Christo rodeado dos seus discipulos_: representa o ensino dado
+aos apostolos e a celebração da ultima ceia do Senhor.
+
+As imagens dos Santos encontram-se nas cryptas historicas, e todas em
+geral são posteriores á conversão de Constantino. Muitas são ornadas de
+resplendor, que só foi dado aos Santos no principio do seculo VI.
+
+A scena do Orpheu tocando lyra, tirada da mythologia, é muito commum nas
+pinturas das catacumbas e sobre os monumentos christãos dos primeiros
+seculos.
+
+Entre os primeiros christãos, Orpheu deleitando os animaes ferozes com
+os sons da sua lyra, era um symbolo de Jesus Christo domando as paixões
+dos homens e attrahindo-os com os encantos da sua doutrina.
+
+Os primeiros christãos reproduziam de differentes maneiras as quatro
+estações sobre as paredes das catacumbas e sobre os sarcophagos, porque
+as estações symbolisavam aos olhos dos christãos a futura resurreição.
+
+Os primitivos christãos serviam-se dos symbolos, em primeiro logar, para
+subtrahir á irrisão dos infieis as mais augustas verdades da religião, e
+em segundo logar, para se conhecerem entre si. Os mais antigos d'estes
+symbolos eram a pomba, o peixe, a barca, a lyra e a ancora.
+
+Durante os primeiros tres seculos da Egreja, o peixe era um dos symbolos
+mais divulgados entre os christãos para significarem Jesus Christo.
+Empregava-se de dois modos, como nome e como figura. A palavra _ichtus_,
+que significa peixe, fornece as iniciaes das palavras _Jesus Christo
+Filho de Deus_.
+
+O peixe representado sobre os monumentos pintados ou esculpidos tinha a
+mesma significação, era um signal hyerogliphico lembrando aos christãos
+a palavra grega e todas as verdades que ella symbolisava. Tanto o
+acrostico como o peixe symbolico, era principalmente gravado sobre as
+pedras e sobre os objectos portateis para o uso da piedade dos primeiros
+christãos.
+
+A Cruz que se encontra nos monumentos christãos dos quatro primeiros
+seculos apresenta-se com fórmas dissimuladas, de ancora, que era ao
+mesmo tempo o symbolo da esperança, e serve desde o primeiro seculo para
+recordar aos fieis o signal da Redempção.
+
+Empregou-se desde os primeiros seculos o cordeiro para representar Jesus
+Christo.
+
+Os primitivos christãos tinham por costume orar em pé, com os braços
+estendidos e levantados para o ceu. Na maior parte dos monumentos
+christãos primitivos vêem-se fieis dos dois sexos, e principalmente
+mulheres em attitude de _orantes_.
+
+A _orante_ symbolisa a alma christã admittida no ceu e considerada
+esposa de Jesus Christo. As duas arvores que em alguns monumentos se
+encontram aos lados, designam o paraiso ou a felicidade eterna.
+
+Encontra-se frequentemente nos primitivos monumentos christãos de toda a
+especie a pomba, e principalmente nos epitaphios dos seis primeiros
+seculos da nossa éra. Nos tumulos symbolisa ordinariamente a alma pura e
+innocente dos fieis. A oliveira que está ao seu lado ou o ramo d'esta
+arvore, que muitas vezes tem no bico, são o symbolo da paz que gosa a
+alma, e equivale á formula _in pace_, tantas vezes empregada nos
+epitaphios.
+
+A _palma_ tem sido em todos os tempos o symbolo do triumpho; os
+christãos primitivos collocaram-n'a nos seus tumulos para recordar a
+victoria ganha pelo defuncto aos inimigos da fé.
+
+O _monogramma de Constantino_ ou simplesmente _monogramma_ são as duas
+letras gregas X P ligadas da seguinte maneira:
+
+[Figura]
+
+Outro _monogramma cruciforme_ parece ter existido no Oriente e tem a
+letra X com a fórma d'uma cruz [Símbolo] onde está ligada na perpendicular
+superior a barriga da letra P:
+
+[Figura]
+
+As duas fórmas tambem se empregaram no Occidente.
+
+A partir do meado do seculo IV, o monogramma é muitas vezes acrescentado
+com mais duas letras gregas A e [Grego: Omega], a primeira e a ultima do
+seu alphabeto.
+
+O monogramma data da conversão de Constantino que mandou fazer o
+_lábaro_, que era encimado pelo monogramma.
+
+Durante os primeiros seculos da Egreja, o altar era apenas uma taboa de
+madeira, servindo de mesa aos apostolos para celebrar os divinos
+mysterios.
+
+As catacumbas forneceram-nos mais tarde o typo dos altares em fórma de
+tumulo. As tumbas _em arco_ tinham uma prateleira horisontal cobrindo os
+restos do santo martyr; sobre esta prateleira é que se dizia a missa.
+
+As lampadas que se encontraram nas catacumbas tinham a fórma das
+_lucerncae_ dos antigos. Assemelham-se a uma barquinha, que era um dos
+symbolos mais usados na Egreja primitiva. A maior parte são de argila;
+tambem se encontram algumas de bronze. Estas ultimas pertencendo a uma
+epocha menos remota, são quasi todas munidas de cadeias que serviam para
+as suspender nos tectos das capellas.
+
+Chama-se sarcophago (palavra derivada de _sarcos_ carne e _phagos_ eu
+como) um tumulo de marmore ou de porphyro mais ou menos ornado de
+esculpturas.
+
+Podemos classifical-os em _simples_, _mixtos_ e _ricos_.
+
+Os sarcophagos _simples_ apresentavam a fórma de um cofre rectangular
+sem ornamentação.
+
+Na maior parte os sarcophagos eram adornados de um ornato que se chamava
+_strigiles_.
+
+Os _strigiles_ são canneluras de fórma sinuosa, imitando o raspador,
+instrumento de que os antigos se serviam para tirar, na occasião de se
+banharem, a humidade e os corpos estranhos espalhados na superficie da
+pelle.
+
+Os sarcophagos _ricos_ têem as quatro faces, ou pelo menos tres, ornadas
+de esculpturas em baixo, ou em alto relevo. Quando se reproduzem sobre
+uma mesma face muitas scenas ou figuras, são justapostas simplesmente,
+ou separadas por columnas ornadas de pampanos e de pequenos genios
+colhendo fructos.
+
+Muitos sarcophagos têem, no centro da face principal, um medalhão
+circular, onde se vê em busto a figura do defuncto. Os tumulos que
+serviam de sepultura a dois esposos, têem dois bustos, e algumas vezes
+uma arcada central apresentando, com a mesma significação, dois
+personagens em pé dando a mão e chorando.
+
+Os sarcophagos _mixtos_ são ornados parte com strigiles e parte com
+figuras gravadas a traço ou esculpidas em relevo.
+
+Os sarcophagos dos tres primeiros seculos foram escolhidos nas officinas
+pagãs, ou esculpidos por artistas christãos, segundo modelos profanos.
+
+As scenas da Paixão propriamente dita, taes como a flagellação, o
+coroamento de espinhos e a crucificação, não se encontram representados
+em monumento algum do primitivo christianismo.
+
+Os christãos dos primeiros seculos punham muitas vezes nas sepulturas
+objectos que tinham pertencido ao defuncto.
+
+Encontram-se nos tumulos dos fieis: tecidos d'ouro, anneis, bracelêtes e
+bijoterias, brinquedos de creança, relicarios portateis, vasos de vidro
+ou d'argila collocados ordinariamente perto das cabeças dos cadaveres,
+instrumentos de supplicio.
+
+_Vasos de sangue_. Entre os signaes certos do martyr o principal é o
+vaso de vidro ou d'argila, que serviu para recolher _o sangue do
+martyr_, collocado dentro do tumulo, ou no exterior do nicho sepulchral.
+
+_Objectos collocados no exterior do tumulo_. Entre estes objectos, uns
+são executados pela mão do homem, outros não o são. Podem
+classificar-se, na primeira cathegoria, os _baixos relêvos_, as
+estatuetas, os pequenos _bustos_, e os fragmentos de esculpturas em
+pedra e em marmore, os cacos de louça, os fragmentos de _vasos_ de
+_crystal_ e de _vidro esmaltado_ e _dourado_, os prismas e as pequenas
+_placas_ de _mosaico_, os anneis, os collares, os bracelêtes, e um
+grande numero d'outros objectos de _toilette feminino_, d'ambar, ouro,
+marfim e nacar, os brinquedos de creança, as folhas de taboa de
+escrever, as placas de bronze, as guarnições e os ornamentos para portas
+e cadeiras, d'ouro, marfim, bronze e ferro, os camapheus, as moedas e as
+medalhas, os utensilios de cosinha; n'uma palavra, tudo desde o objecto
+mais ordinario até ás joias mais preciosas.
+
+Encontram-se tambem fragmentos brutos de toda a especie de substancias,
+os mais diversos objectos naturaes e os mais extravagantes; pedaços de
+tufo, estilhaços de pedra ou de tijôlo, caróços de fructos, folhas
+d'arvore ou de planta, dentes e ossos d'animaes, caracoes, cascas de
+mexilhão e d'ôstra, conchas, etc.
+
+Estes objectos fixos ao cimento, eram dispostos de maneira que podessem
+desenhar figuras de que facilmente se podesse fazer idéa.
+
+
+_Outros monumentos christãos dos tres primeiros seculos além das
+catacumbas_. Occupar-nos-hemos dos edificios religiosos construidos
+sobre a terra, dos cemiterios construidos ao ar livre, dos paramentos
+sagrados e dos instrumentos do culto, anteriores á abjuração de
+Constantino.
+
+Sabemos por documentos historicos que muitas pessoas abastadas tinham em
+seus palacios oratorios onde os soberanos Pontifices vinham celebrar os
+Santos Mysterios na presença da multidão dos fieis. Muitos d'estes
+oratorios foram substituidos, depois da abjuração de Constantino, por
+basilicas, ás quaes deram o nome das pessoas piedosas que haviam cedido
+á egreja o direito de propriedade; e se mais tarde estas pessoas ficavam
+consideradas no numero dos Santos, estas basilicas eram-lhes dedicadas.
+
+A mais remota menção d'um templo christão data do tempo de Alexandre
+Severo, que foi imperador desde 222 até 235.
+
+Não é conhecida a fórma nem a distribuição interior d'estas primitivas
+egrejas.
+
+Os unicos monumentos notaveis dos tres primeiros seculos, até hoje
+conhecidos, são as _cellas_ dos cemiterios, ás quaes se deu tambem o
+nome de _basilicas_, desde o principio do IV seculo.
+
+Estes pequenos edificios, construidos nos cemiterios, serviam para ponto
+de reunião dos fieis.
+
+_Cemiterios ao ar livre_. As sepulturas christãs foram estabelecidas,
+desde o principio, ao ar livre.
+
+Estes cemiterios, designados em geral pelo nome de _d'areae_[2] eram, do
+mesmo modo que as catacumbas, situados fóra das portas das cidades;
+porque as leis romanas prohibiam severamente as inhumações dentro dos
+muros.
+
+Depositavam-se os cadaveres, quer em simples fóssas, algumas vezes
+revestidas interiormente de tijólos e de lages, quer em pias de pedra,
+ou caixões de madeira mettidos debaixo da terra. As paredes dos tumulos
+mais ricos eram, dadas certas circumstancias, rebocadas de argamassa, ou
+estucadas e decoradas com pinturas _a frêsco_, semelhantes ás das
+galerias e capellas sepulchraes das catacumbas.
+
+_Paramentos e objectos do culto_. Parece certo que, durante os primeiros
+seculos, os paramentos sagrados não se differençavam dos fatos
+ordinarios, nem pela fórma nem pelo talhe.
+
+Do mesmo modo que aproveitavam para os sagrados paramentos as fórmas e
+os pannos dos fatos ordinarios, assim tambem aproveitavam para o serviço
+dos altares os vasos ricos e preciosos que haviam servido aos usos
+profanos.
+
+
+
+
+CAPITULO III
+
+/#
+ *Summario.*--Estylo Latino--Estylo Bysantino--Fórmas das
+ Basilicas--Origem da Basilica Christã--O Narthex--Orientação das
+ Basilicas e Egrejas Christãs--Egrejas cruciformes, circulares e
+ polygonaes--Cryptas--Baptisterios--Oratorios domesticos--Templos
+ pagãos e edificios profanos apropriados em Egrejas
+ Christãs--Systema e regras de construcção--Decoração
+ monumental--Narthex, fachadas e portaes das Basilicas--Janellas e a
+ maneira de as vedar.--Madeiramento do cume dos
+ edificios--Torres--Pinturas representadas em mosaico--Pavimento nos
+ edificios--Altares--Ciborium--_Ambon_, Tribuna para as leituras da
+ Biblia--Poltrona para os bispos e bancos para os
+ sacerdotes--Cemiterios--Monumentos funerarios--Sarcophagos--Tumulos
+ subterraneos--Objectos com symbolos christãos achados nas
+ sepulturas--Alfaias religiosas--Calices e
+ Patenas--Custodias--Relicarios--Pombas e torres--Accessorios do
+ altar--Corôas de metal precioso suspensas sobre o
+ altar--Dipticos--Encadernação dos livros dos Evangelhos--Estofos
+ religiosos--Paramentos sacerdotaes--Jesus Christo sob fórmas
+ symbolicas--Os Apostolos S. Pedro e S. Paulo.
+#/
+
+
+_Periodo Latino e Bysantino_. A architectura christã póde considerar-se
+dividida em dois ramos perfeitamente distinctos. O primeiro, que se
+poderá chamar o _Estylo Latino_, foi adoptado pela egreja Latina, isto
+é, na Italia, na Illyria, na Dalmacia e em toda a Europa Occidental. É
+caracterisado pela imitação mais ou menos correcta da architectura
+classica, greco-romana. O outro estylo, formado por elementos orientaes
+e romanos, nasceu em Constantinopla, e ahi se desenvolveu, formada sob a
+influencia Oriental, uma configuração inteiramente nova: deram-lhe o
+nome de _Bysantino_.
+
+O Estylo Latino predominou no Occidente até ao principio do seculo VIII;
+e o Estylo Bysantino no Oriente, até á tomada de Constantinopla pelos
+Musulmanos, em 1453.
+
+Chamou se _Latino_ o estylo do imperio do Occidente, em primeiro logar
+porque, derivando do Estylo Romano ou Classico, foi empregado nos paizes
+em que a lingua _latina_ era a lingua ecclesiastica e vulgar; em segundo
+logar, porque existiu tanto tempo como aquella lingua, approximadamente.
+
+O Estylo _Bysantino_ tem o nome derivado de Bysancio ou Constantinopla,
+capital do imperio do Oriente.
+
+_Estylo Latino_. A architectura greco-romana chegou ao seu apogêo
+durante os dois primeiros seculos da era christã. A sua decadencia
+começou no seculo III, afastando-se da nobre simplicidade do Estylo
+Classico.
+
+No seculo IV, ainda mais se pronunciou a sua degeneração.
+
+Começaram então a desmanchar os antigos monumentos para em seu logar
+construir e decorar mais facilmente os novos. Tal era o estado da
+architectura no Occidente, quando foram construidos os primeiros
+monumentos christãos do periodo _Latino_.
+
+_Fórma das basilicas_. As _basilicas profanas_ eram vastos edificios
+construidos no _Forum_, ou nos arredores das praças publicas. Serviam
+para ponto de reunião dos vendedores, assim como de outros individuos
+que se occupassem de negocios. Era n'ellas que os magistrados
+administravam Justiça.
+
+As _basilicas christãs_ foram construidas segundo o modêlo das basilicas
+profanas; sómente, em vez de se construirem ao longo das praças
+publicas, eram precedidas de um pateo quadrado, com o fim de as afastar
+do ruido e do tumulto da rua. Tinham, como as basilicas profanas, a
+fórma d'um rectangulo mais ou menos alongado e compunham-se de tres
+partes principaes--o _pateo_ ou o _atrium_; a _nave_ e o _Sanctuario_.
+
+O _narthex_ abria-se ao fundo do atrium. Era uma especie de vestibulo,
+propriamente dito, formado pelo portico transversal contiguo á fachada
+da basilica.
+
+Esta primeira parte da basilica era occupada, durante o officio, por
+aquelles a quem as leis ecclesiasticas prohibiam tomar parte nas
+assembléas dos fieis.
+
+Do _narthex_, entrava-se por uma, tres ou cinco portas para a basilica,
+que era ordinariamente dividida em tres naves por duas ordens de
+columnas.
+
+A da direita, reservada para os homens, e a da esquerda para as
+mulheres.
+
+Avançando pela nave dentro, encontravam-se os _ambons_, pulpitos
+destinados á leitura dos Santos Evangelhos para as prédicas, e á
+promulgação das leis ecclesiasticas.
+
+Entrava-se emfim na terceira parte da basilica, a parte mais Santa e
+mais veneranda, aquella onde os seculares não podiam penetrar, e que se
+chamava o _Sanctuario_.
+
+O altar occupava a parte central do Sanctuario, e tinha frente para uns
+poucos de lados.
+
+Atraz do altar desenvolvia-se o _abside_ de fórma semi-circular e
+coberto ordinariamente com uma meia cupula.
+
+A cadeira do Bispo era collocada ao fundo do _abside_, e para ella se
+subia por uns poucos de degraus. Aos lados da cadeira episcopal, se
+achavam, contiguos ao hemicyclo do abside, os assentos ou bancos
+destinados aos padres, que assistiam aos Officios Divinos.
+
+A alteração mais notavel, que a disposição interior das basilicas
+soffreu com o andar do tempo, foi o accrescentamento do cruzeiro ou nave
+transversal, entre o abside e a nave propriamente dita.
+
+_Orientação das basilicas e das egrejas christãs_. Chama-se _orientação_
+uma disposição particular, segundo a qual o eixo longitudinal d'um
+edificio, d'um tumulo, etc., se dirige do Occidente para Oriente.
+
+Desde a primitiva que a egreja christã adoptou o costume de orar
+voltando o rosto para o Oriente.
+
+O costume de orientar as egrejas foi dos primeiros seculos do
+Christianismo.
+
+Ha dois modos inteiramente oppostos d'orientar as egrejas. N'um, usado
+antigamente, a fachada principal forma a parte Oriental do edificio e a
+capella-mór do lado do Poente. N'outro, que preponderou mais tarde, a
+posição de todas as partes da egreja é completamente trocada, a fachada
+está voltada para o Occidente, e a capella-mór para o Oriente.
+
+O primeiro modo d'orientação não durou muito tempo. Nos seculos V e VI,
+a começar no V, se construiram muitas egrejas com a capella-mór voltada
+para o Oriente. No Occidente a mudança effectuou-se lentamente, pois só
+se completou durante o seculo XIII.
+
+_Cryptas_. A maior parte das basilicas foram edificadas nos mesmos
+sitios onde tinham sido sepultados os restos mortaes d'um Martyr, ou de
+qualquer Santo illustre.
+
+Nas primitivas basilicas, o altar era situado mesmo sobre a sepultura.
+
+As galerias e capellas subterraneas, que mais tarde foram substituidas,
+tiveram o nome de _cryptas_, da palavra grega que significa, _eu
+escondo_.
+
+Estas galerias abobadadas transformaram-se muito tarde em verdadeiras
+capellas, ou egrejas subterraneas, por debaixo de todo o _presbyterium_;
+bastante vastas para necessitarem o emprego de columnas que recebiam os
+arcos das abobadas, formando assim muitas naves.
+
+_Baptisterios_. Distinguem-se tres especies de baptismo: o baptismo por
+_immersão_, o baptismo por _aspersão_, e o baptismo por _infusão_ ou
+_affusão_.
+
+O primeiro ministra-se mergulhando na agua todo o corpo; no segundo e
+terceiro, o ministro, de longe ou de perto, lança a agua sobre a cabeça
+do neophito. O baptismo por immersão foi usado até ao seculo XII; a
+começar d'esta épocha, principiou a ser substituido, na egreja Latina,
+pelo baptismo por infusão, do qual até ali se não serviam, a não ser
+para os doentes em perigo de vida.
+
+Primitivamente era reservada aos Bispos a administração do Solemne
+Baptismo. O Bispo mergulhava tres vezes o neophito, invocando de cada
+vez uma das Pessoas da Santissima Trindade.
+
+Depois da abjuração de Constantino, quasi se generalisou por toda a
+christandade o baptismo ministrado nos edificios particulares situados
+ao lado das principaes egrejas, e especialmente das cathedraes.
+
+Os baptisterios tinham em geral a fórma circular ou octogona, mas alguns
+havia quadrados, e outros ainda em fórma de cruz grega. As pias
+baptismaes eram muito grandes, porque muitas vezes se ministrava a
+adultos o baptismo por immersão.
+
+_Templos pagãos e edificios profanos convertidos em egrejas christãs_.
+Os templos pagãos não se prestavam em geral para o culto christão, em
+consequencia das suas diminutas proporções.
+
+Entretanto alguns foram convertidos, com ligeiras modificações, em
+egrejas christãs, e outros foram-lhes encorporados.
+
+A maior parte d'estas transformações datam do reinado do imperador
+Theodosio (383-385), e dos seus successores immediatos.
+
+Tambem houve monumentos civis que foram transformados em egrejas
+christãs; taes como as thermas e os banhos, que entre os romanos
+excediam em magnificencia os proprios templos.
+
+_Caracteres do Estylo Latino_. As basilicas christãs foram muitas
+d'ellas construidas, aproveitando para isso monumentos mais antigos. Mas
+em consequencia das basilicas serem muito mais vastas do que os templos
+pagãos, tornava-se por isso não raras vezes necessario desmanchar muitos
+d'esses monumentos para construir uma só basilica.
+
+A architectura estava n'uma tal decadencia, que muitas vezes chegavam a
+reunir fragmentos de dimensões e estylos differentes, e ajustavam-nos o
+melhor que podiam.
+
+Se, por exemplo, se tratava de columnas provenientes de diversos
+monumentos, não pertenciam muitas vezes á mesma Ordem d'architectura;
+tendo portanto os fûstes e os capiteis de alturas differentes,
+enterravam os fustes, ou os collocavam sobre soccos. O desvio e a
+distancia relativa das columnas variavam dentro de limites excessivos.
+
+A unica innovação d'alguma importancia introduzida nas construcções, foi
+a substituição da _arcada_ pela architrave.
+
+Nas regiões onde escasseavam monumentos antigos, os edificios do periodo
+Latino eram em geral muito pequenos, baixos e pobremente decorados,
+muitos até de madeira.
+
+Apezar do que acabâmos de expôr, no seculo V e VI, construiram-se em
+Ravenna muitos monumentos importantes (dos quaes ainda alguns se
+conservam), sem que fôsse necessario recorrer á devastação que tiveram
+os anteriores; o que prova existir n'aquella epocha em Ravenna uma
+brilhante escola de habeis constructores.
+
+_Materiaes de construcção_. As basilicas e os monumentos do periodo
+Latino eram construidos com pedras d'alvenaria regulares, quasi sempre
+quadradas, de mediano preparo, e tambem com tijolos chatos, ficando
+separados por uma espessa camada de cimento. Muitas vezes tambem os
+muros eram formados por cordões de uma, duas ou muitas faxas de pedras
+d'alvenaria alternadas com outras compostas de uma ou duas fiadas de
+tijolos.
+
+_Decoração dos monumentos_. O periodo Latino não foi epocha de esplendor
+para a architectura ornamental.
+
+O _ábaco_ dos capiteis recebeu, durante o periodo Latino, dimensões e um
+esvasamento taes que muitas vezes parecia ser um capitel sobrepôsto
+sobre outro. A frente do ábaco era adornada, do lado da nave principal,
+com um symbolo, que algumas vezes era o monogramma do fundador, e em
+geral havia uma Cruz d'ordem Trina isolada, ou inscripta n'um circulo.
+Chama-se Cruz de Ordem Trina aquella cujos braços são mais largos nas
+extremidades do que no ponto de intersecção dos ramos. Esta cruz, quer
+só, ou entre dois cordeiros, ou entre dois passaros, com a frente um
+para o outro, foi um dos symbolos christãos mais usados durante o
+periodo Latino.
+
+_Narthex, fachadas e portaes das basilicas_. O narthex interior occupava
+o fundo do atrio, e era formado pelo portico contiguo á fachada
+principal da basilica. Communicava pelos extremos com as galerias que
+rodeavam o atrio; como se observa na egreja de Villarinho de S. Romão,
+na provincia do Douro.
+
+Nas basilicas latinas, quando a configuração do terreno não permittia
+estabelecer o atrio e o narthex, substituiam algumas vezes estes, por
+galerias altas collocadas no interior do edificio ao longo da nave.
+
+Os portaes das basilicas eram construidos segundo o modelo dos portaes
+ricos do estylo classico.
+
+As portas dos portaes das basilicas eram de bronze ou de madeira.
+Algumas das portas de bronze, das primeiras basilicas, provieram de
+monumentos pagãos. No seculo IX, a egreja de Santa Maria Maior, em Roma,
+tinha portas de prata.
+
+_Janellas e vidraças_. As janellas das basilicas eram rasgadas d'alto a
+baixo, e de volta inteira.
+
+Serviam de vidraças a estas janellas grandes laminas de marmore ou de
+pedra, atravessadas de buracos para por elles penetrar a luz no interior
+dos edificios. Mais tarde, estas laminas foram vasadas de maneira que
+offereciam á vista os mais complicados desenhos. Na Europa Occidental e
+Septemtrional, em que as laminas de pedra e de marmore escasseiavam,
+guarneciam as janellas com caixilhos de madeira.
+
+As clara-boias muitas vezes não tinham cobertura, principalmente nos
+paizes meridionaes; e n'outros eram vedadas com laminas de pedras
+translucidas ou de placas de alabastro.
+
+Desde o seculo VII que começou a haver vidraças com vidros brancos e
+esverdeados, e até mesmo com vidros de differentes côres. Não appareciam
+ainda figuras, nem ornatos alguns, pintados sobre os vidros; as vidraças
+com vidros de côr eram formadas por um grande numero de vidros
+coloridos, cortados de differentes modos e que se reuniam de certa
+maneira, a fim do conjuncto representar figuras de fórmas regulares.
+
+Desde o reinado de Constantino, os grandes edificios apenas se cobriam
+com madeira.
+
+A maior parte d'esta construcção ficava visivel no interior dos
+edificios. Em alguns, as naves tinham tectos de madeira com pinturas
+diversas, representando caixões ricamente adornados e dourados.
+
+Raras eram as basilicas que desde a sua fundação tinham possuido torres.
+Os campanarios que hoje se vêem proximo das antigas egrejas de Roma, são
+quasi todos posteriores ao seculo VIII. As torres do _periodo Latino_
+são na maior parte de fórma circular ou octogonal.
+
+Nas grandes basilicas as abobadas esphericas do abside e o Arco
+Triumphal, e algumas vezes tambem as paredes comprehendidas entre as
+janellas altas da nave e das arcadas que ligam as columnas, ficavam
+revestidas com vistosos mosaicos.
+
+Os materiaes mais ordinariamente empregados n'este genero de trabalho,
+eram folhas de marmore e pedaços de vidro.
+
+Em muitas basilicas de Roma, o abside abobadado em forma de esphera tem
+ao centro a imagem de Jesus Christo em pé ou sentado, com o braço
+direito erguido, ou lançando a benção, e com um rolo de papel ou um
+livro collocado á sua esquerda. Aos lados do Salvador estão
+representados os Apostolos, ou outros Santos. O sólo que pisam é o da
+Judeia, o que se conhece pela representação do rio Jordão, cujo nome é
+muitas vezes inscripto debaixo dos pés de Jesus Christo, e pela presença
+das palmeiras, que foram, desde o primeiro seculo da era christã, o
+symbolo da Terra promettida. Logo abaixo do abside se estende, em toda a
+largura, uma zona estreita, no centro da qual se vê o Cordeiro Divino
+coroado com ou sem a Cruz, collocado sobre um outeiro d'onde brotam os
+quatro rios do Paraíso: Geham, Phison, o Tigre e o Euphrates, symbolos
+dos Evangelistas. Doze cordeirinhos, seis de cada lado, se dirigem para
+o cordeiro symbolico, e parecem sahir das cidades Santas de Jerusalem e
+Bethlem, que occupam os extremos da composição, e se acham representadas
+por varias portas e muralhas com ameias. Estes cordeirinhos symbolisam
+os fieis.
+
+Alguns mosaicos representam o sonho de S. João, isto é, os quatro
+animaes, symbolos dos Evangelistas; e os vinte e quatro velhos, vestidos
+de mantos brancos, offerecendo coroas ao Cordeiro.
+
+Para piso das basilicas, os primitivos christãos serviam-se dos
+differentes processos de empedramento, como os romanos usavam. Mais
+tarde, estes processos foram substituidos por um trabalho de novo
+genero, chamado _opus alexandrinum_, assim designado por ter sido usado
+primeiramente na Alexandria. Estes empedramentos consistiam em um
+conjuncto de variados marmores em que predominavam os porphyros verdes e
+vermelhos; pareciam como um rico tapete estendido no sólo. O
+empedramento _alexandrino_ foi muito pouco empregado na Europa
+Occidental e Septemtrional.
+
+Havia tambem empedramentos em que sobresahia a prata e outros metaes
+preciosos.
+
+Parte do piso do Sanctuario da basilica do Vaticano é de palhetas de
+prata; mas o da capella de S. Pedro, da mesma basilica, é de palhetas de
+ouro.
+
+Nas catacumbas era mesmo sobre os tumulos dos martyres que se celebravam
+os Santos Mysterios; porém, a começar do seculo III, este uso foi
+approvado tambem pela Egreja.
+
+No Occidente, o altar era quasi sempre erigido sobre o tumulo d'um
+martyr. Os restos mortaes do Santo collocavam-se immediatamente debaixo
+do altar n'um sarcophago, e ainda, na maior parte dos casos, ficavam
+depositados n'uma crypta collocada debaixo do Sanctuario. Tanto na
+Grecia como no Oriente, nunca em tempo algum, e até mesmo em nossos
+dias, se fez d'um tumulo um altar, mas sim d'uma mesa, que recordava
+aquella sobre a qual o Salvador instituiu a Eucharistia. Um altar
+_nunca_ encerrava _reliquias_. Desde o tempo de Constantino, que data a
+maior parte dos altares das egrejas do Occidente. No principio do seculo
+VI (517) o concilio de Épona prescreveu, que todos os altares fossem de
+pedra, os quaes foram adoptados pela razão symbolica de ser considerado
+o Salvador a pedra angular.
+
+Os altares de pedra d'essa épocha eram sempre formados por uma especie
+de prateleira quadrada ou rectangular, para constituir a mesa do altar
+propriamente dito. Esta mesa, muitas vezes, cobre um sarcophago ou um
+tumulo de madeira; outras é sustentada por um pé central em forma de
+cippo e ainda outras posta em quatro, cinco e mesmo até seis
+columnellos.
+
+Havia altares formados de tres lages, das quaes duas se collocavam
+verticalmente, servindo de supporte á terceira, collocada
+horisontalmente, a fim de formar a mesa do altar. Encontram-se tambem
+altares formados de cinco placas, tendo, pelo seu conjuncto, a fórma de
+um cofre de pedra.
+
+A Auréola era formada de folhagens e sustentada por quatro anjos; Nosso
+Senhor Jesus Christo fica collocado entre dois Cherubins, que facilmente
+se reconhecem pelas suas asas abertas. Uma mão figurada no remate
+superior da Auréola, é para indicar a presença de Deus. É tambem
+adornada de flores, para indicar que o assumpto se passa no Céu.
+
+As esculpturas mostram que esta arte estava muito decahida no seculo
+VIII. Essas figuras com posições grotescas e forçadas, teem todas o
+rosto de frente, e os membros desproporcionados, sendo tudo d'uma
+imperfeição tal, que é difficil imaginar-se nada mais grosseiro e rude.
+
+A inscripção, muito mal escripta, e n'uma linguagem quasi
+inintelligivel, não é mais esmerada do que as esculpturas.
+
+Quando as faces dos altares das basilicas das grandes egrejas não tinham
+esculpturas, eram então revestidas de laminas de ouro e de prata, com
+engastes de pedras preciosas, ficando cobertas de colchas bordadas,
+representando algumas vezes assumptos sagrados.
+
+Desde o seculo IV até meiado do XII, que as mesas dos altares eram
+muitas d'ellas escavadas em fórma de bandeja em toda a extensão do plano
+superior, tendo um rebórdo de alguns centimetros de altura; às vezes
+tinham ornatos esculpidos. Muitas mesas eram furadas nos angulos, com um
+ou muitos buracos, cuja serventia ainda não foi possivel descobrir. O
+altar era encimado por um _ciborium_, especie de docel ou baldaquim,
+sustentado por quatro columnas de madeira ou de marmore e de metal.
+
+Entre as columnas do _ciborium_ havia umas cortinas ou reposteiros de
+corrediça, que se corriam para occultar o officiante e o altar durante a
+consagração.
+
+O _ciborium_, que data do seculo XII, tem uma fórma um tanto differente
+da que foi posta em uso durante o periodo Latino.
+
+As cortinas dos antigos _ciboriums_ eram em geral de preciosissimos
+damascos de seda e ouro, ou com ricos lavores, guarnecidos de perolas,
+pedrarias e mesmo laminas de ouro e de prata.
+
+Primitivamente, cada egreja apenas tinha um altar. Comtudo mais tarde
+houve egrejas no Occidente, que tinham muitos.
+
+Os gregos e os orientaes nunca tiveram senão um altar nas suas egrejas.
+
+Os _altares portateis_ antigos compunham-se, bem como os mais recentes,
+de uma prancha rectangular de madeira, de pedra ou de metal, algumas
+vezes munida de uma moldura de ouro ou de prata, e tendo no extremo um
+appendice para servir de punho. Não se acharam altares portateis do
+periodo Latino, não obstante parecer indubitavel que deveriam ser
+communs n'aquelle periodo.
+
+Uma tribuna, collocada no meio da nave principal das basilicas, era
+destinada á leitura dos Santos Evangelhos e aos sermões. Algumas egrejas
+possuiam tres: uma para o Evangelho, outra para a Epistola e outra para
+as prophecias.
+
+A tribuna do Evangelho tinha regularmente duas escadas. Perto d'ella
+havia um enorme candelabro que servia para supportar uma grande tocha
+chamada _o facho do Evangelho_.
+
+Nas basilicas christãs, o sanctuario e o côro eram separados da nave por
+uma divisão, umas vezes occultando o recinto, e outras ficando
+rendilhado, á altura de metro e meio a dois metros acima do chão. Esta
+divisão, chamada _cancello_, era muitas vezes de marmore.
+
+A cadeira episcopal ou _cathedra_ occupava o fundo do abside. Era de
+pedra de marmore precioso, e elevada tres degraus, pelo menos, acima do
+presbyterio.
+
+Havia tambem cadeiras de marfim.
+
+Aos lados da cadeira episcopal, e ao longo da parede do hemicyclo,
+achavam-se os bancos destinados aos padres, chamados algumas vezes
+_exedrae_, pelos auctores antigos. Eram muito simples, e durante o
+officio cobriam-se com almofadas.
+
+
+A partir do meado do IV seculo caíu a pouco e pouco em desuso o
+enterramento nas catacumbas; e no principio do seculo seguinte,
+desappareceu completamente. Os cemiterios estabeleciam-se á roda da
+capella-mór das egrejas e das basilicas, situadas fóra dos muros das
+cidades, com os seus tumulos quasi sempre orientados.
+
+N'estes cemiterios depositavam-se a maior parte das vezes os cadaveres
+em covas de pedra e cal. Entre duas paredes parallelas e distantes entre
+si 70 centimetros, pouco mais ou menos, abriam-se, por meio de lages ou
+simples tijolos, nichos de tamanho sufficiente para receber um cadaver.
+Estes nichos chegavam ás vezes a disporem-se em dez ordens, umas sobre
+as outras. Este systema foi o adoptado para as sepulturas dos cemiterios
+do IV, V e VI seculos.
+
+Algumas vezes tambem os cadaveres eram encerrados em sarcophagos, que em
+seguida se cobriam com terra, ou se collocavam tanto ao ar livre como
+debaixo de abobadas, no interior das egrejas e das basilicas.
+
+Foi sómente no VII seculo que a Egreja começou a permittir, ou antes a
+tolerar, as inhumações, não precisamente no interior, mas em redor dos
+templos situados dentro das cidades. Unicamente os bispos haviam até ali
+gosado do privilegio de serem enterrados nas suas egrejas Cathedraes.
+
+Durante o periodo Latino foram muito raros os edificios isolados que se
+construiram para servir de sepultura aos grandes personagens.
+
+As esculpturas dos sarcophagos começaram a modificarem-se no meiado do V
+seculo. Os assumptos biblicos desapparecem a pouco e pouco, e são
+substituidos por imagens de Santos. A Cruz da SS. Trindade ou o
+monogramma de Christo occupa, muitas vezes, o centro da face principal
+dos sarcophagos, destinada antes para o logar do Salvador, tendo aos
+lados pombas, pavões, palmeiras, parras e outros symbolos.
+
+As tampas são ornadas de Cruzes da SS. Trindade, formadas pelo
+entrelaçamento de Cruzes gregas e de Cruzes de Santo André, isto é, em
+fórma de X.
+
+O meio da face principal d'alguns sarcophagos é occupado pelo monogramma
+de Christo, que d'este modo preenche o logar do Salvador. Os pavões aos
+lados do monogramma são os emblemas dos Apostolos, e as pombas, bicando
+os cachos de uvas, symbolisam os fieis alimentando-se do vinho
+eucharistico. A maior parte dos sarcophagos eram de pedra ou de marmore;
+no entanto alguns havia de chumbo e até mesmo de gesso.
+
+Os _sarcophagos do IV seculo_ tinham todos a mesma largura e a mesma
+altura nas extremidades; do V seculo, apparecem muitos tendo o lado da
+cabeça mais largo que o dos pés.
+
+As _campas sepulchraes_ são em geral indicio de uma sepultura
+subterranea. O seu uso é muito remoto. As lages tumulares, assentes
+sobre os tumulos subterraneos ou nos nichos ao longo das paredes, eram
+já empregadas no V seculo, sendo muitas vezes esculpidas em relevo, e
+tambem algumas ornadas com desenhos só a traço. Por vezes ajustavam na
+parede, onde existia qualquer sepultura, uma placa de marmore ou de
+pedra, sobre a qual se gravavam symbolos, o nome do defuncto, a sua
+idade, ou tambem o dia do seu fallecimento.
+
+Os _tumulos_ dos cemiterios primitivos podem-se dividir em tres classes,
+segundo os objectos que n'elles se encontram. A primeira classe
+comprehende aquelles em que, além do esqueleto, se não encontra mais
+objecto algum, a não ser ás vezes uma pequena faca: estes tumulos são os
+dos servos ou pessoas de condição servil. Nos tumulos da segunda classe,
+o esqueleto é acompanhado do grande alfange de ferro, chamado
+_scramasaxe_: são estes os dos homens livres ou senhores feudaes. O
+homem livre gosava do privilegio de trazer á cintura este instrumento,
+que com elle era tambem depositado no tumulo. A terceira classe era
+constituida ordinariamente por um certo numero de tumulos ricos em
+coisas de toda a especie, principalmente em armas e objectos de toilette
+feminina: são esses os tumulos dos chefes militares, dos guerreiros e
+membros da sua familia.
+
+O homem de guerra era sepultado com todo o seu equipamento, e ao lado
+depositava-se a sua esposa, adornada com todas as joias que tinha usado
+durante a vida.
+
+As fivelas (fibules), que se encontram em tão grande numero n'essas
+sepulturas tinham duas serventias.
+
+As maiores serviam para fechar o boldrié de coiro onde se suspendia o
+_scramasaxe_. Quasi todas são de ferro, sendo algumas marchetadas de
+prata ou revestidas de laminas de prata, com lavores representando
+folhagens ou figuras. Encontram-se algumas de bronze, e são as mais
+bellas.
+
+Ha tambem umas fivelas de bronze e de menores dimensões, que serviam
+para ligar o vestuario á roda dos rins, para individuos dos dois sexos.
+Estas fivelas eram em geral menos lavradas que as do cinturão. Algumas
+havia tambem de ferro.
+
+Os alamares, broches ou _fibulas_, destinadas a unir sobre os hombros ou
+sobre o peito as duas extremidades do vestuario, são sem duvida os
+objectos mais interessantes que se encontram nas sepulturas dos
+cemiterios. Ha-os de ouro, de prata, de bronze, e encontram-se sobretudo
+nos tumulos de mulher.
+
+Encontram-se tambem frequentemente nos tumulos de mulher, pregos para
+segurar o cabello, com cabeças de aperfeiçoado trabalho. Ha-os de ouro,
+de prata e de bronze, com grandes comprimentos.
+
+Os brincos das orelhas são em geral, assim como os pregos para o
+cabello, pequenas obras primas de ourivesaria. Compõem-se quasi sempre
+de um annel de grande diametro, ao qual está ligado um pequeno botão de
+ouro cheio de filigranas e de vidrilhos embutidos. Os _collares_ que
+frequentemente se encontram nas sepulturas de mulher, compõem-se de
+contas, de fórmas e dimensões differentes, enfiadas n'um cordel. As
+contas são de vidro e de loiça de diversas côres, e de coral natural ou
+arredondado; tem-se tambem encontrado, mas raras vezes, contas de ouro
+massiço. As de vidro e de loiça são, em geral, pintadas com differentes
+camadas de côres juxtapostas, que adherem pela cozedura, reprezentando
+zig-zags, e outras muitas figuras estriadas. As côres que predominam,
+são o vermelho, o amarello, o verde, o pardo, o azul, o branco e o
+preto.
+
+As _vasilhas de barro_ constituem o complemento obrigado de todos os
+tumulos antigos. Encontram-se, quasi sempre, uma ou duas aos pés do
+esqueleto. Parece que estas vasilhas serviam aos pagãos para conterem
+agua lustral. Em seguida á sua crença na verdadeira fé, os convertidos
+ao Christianismo continuaram a encerrar vasilhas nos tumulos, porém
+mudaram a significação d'esta ceremonia funebre, substituindo a agua
+lustral pela agua benta.
+
+A maior parte d'estas vasilhas são de barro preto e vermelho. Muitas
+apresentam a fórma d'uma pequena urna, tendo na parte superior do bojo
+ornatos de estylo muito rudimentar, feitos em volta e por meio da ponta
+d'um instrumento cortante.
+
+As _vasilhas de vidro_, de fórmas elegantes e variadas, que se encontram
+nas sepulturas junto á cabeça ou aos pés do esqueleto, mostram que a
+arte de vidraceiro já tinha attingido um elevado gráu de perfeição. O
+maior numero são de vidro, d'um amarello esverdeado, soprado ou moldado;
+algumas têem como ornato riscas delgadas, brancas ou de côr, feitas
+depois da sopragem ou misturadas com a massa vitrea.
+
+A introducção do Christianismo entre os Francos data do fim do seculo V.
+Não é por isso para admirar o encontrarmos nos seus tumulos objectos
+ornados com symbolos christãos.
+
+O _calice_ occupa o primeiro logar entre os vasos sagrados. Já os
+Apostolos se serviam de calices para a celebração dos Santos Mysterios.
+
+Nos primeiros seculos da egreja, os calices eram de madeira, de vidro e
+até mesmo de chifre.
+
+Depois da conversão de Constantino, é que se começou a generalisar o uso
+dos calices de ouro e de prata. Muitas vezes eram tambem ornados de
+pedrarias.
+
+Existem calices de differentes especies. Os calices ordinarios, que se
+compõem, como os de todas as idades posteriores, de uma taça, um nó e um
+pé, tinham, em geral, a taça de fórma cylindrica, mais ou menos vasada,
+muito estreita e profunda. Os calices da segunda especie eram os calices
+ministeriaes, que serviam para distribuir aos fieis o precioso sangue,
+quando estava em uso a communhão de duas especies na Egreja. Este uso
+foi abolido no XIII seculo. Os calices ministeriaes, em geral, de
+grandes proporções, tinham duas asas.
+
+Havia ainda os calices das offerendas, _calices offertorii_, nos quaes
+os diaconos recebiam as oblações de vinho; os calices baptismaes, que
+serviam para dar aos novos baptisados uma mistura de leite e de mel; e
+os calices de adorno, que nos dias solemnes eram suspensos na egreja,
+nas proximidades do altar, ou collocados sobre a credencia.
+
+A _patena_, assim chamada do verbo latino _patere_, _estar aberto_, em
+consequencia da sua fórma larga e pouco profunda, é um prato de metal,
+de vidro, ou de qualquer outra substancia, no qual se colloca a Hostia,
+durante a Santa Missa. O seu uso é tão remoto como o do calice.
+
+As patenas eram redondas, quadradas ou polygonaes e munidas d'um
+rebórdo.
+
+O uso de reservar a Santa Eucharistia para os doentes e ausentes, provém
+desde a origem do Christianismo.
+
+Pouco depois, quando os _altares_ foram augmentados com o _ciborio_,
+suspendiam a reserva Eucharistica encerrada em vasos com a fórma de
+torres e pombas. Os vasos para as Sagradas Particulas tinham
+primitivamente a fórma de uma pomba. Quasi todos eram de ouro, de prata
+e de cobre dourado. A pomba Eucharistica encerrava-se geralmente em um
+Tabernaculo com fórma de torre.
+
+
+Durante o período _Latino-bysantino_, os corpos dos Santos eram
+cuidadosamente encerrados em sarcophagos, e depositados em cima d'um
+altar ou n'uma crypta subterranea.
+
+O Relicario para o Santo Lenho tem quasi sempre a fórma de pequenas
+Cruzes peitoraes, concavas interiormente, e abrindo-se em toda a sua
+altura, por meio d'uma dobradiça collocada no vertice superior da Cruz.
+
+As _chaves da confissão de S. Pedro_ são assim chamadas, porque se diz,
+que serviam para dar ingresso no tumulo do principe dos Apostolos, na
+crypta da basilica Vaticana. As chaves são grossas, ovaes, ôcas e de
+lavores rendilhados.
+
+Os Soberanos Pontifices dos primeiros seculos tinham por uso distribuir
+aos reis, aos principes e aos bispos, parcellas das cadeias de S. Pedro,
+dentro de anneis, cruzes, e principalmente em preciosas chaves.
+
+Desde o IV seculo que começaram a importar de Jerusalem os oleos
+provenientes das lampadas que ardiam de noite e de dia no Santo
+Sepulchro, e em outros logares Santos.
+
+Os Papas e os Bispos enviavam estes oleos ás egrejas, aos soberanos e ás
+pessoas de distincção. Eram conservados e remettidos em pequenos vasos
+de vidro ou de metal, circulares, e achatados, com gargallo.
+
+Durante os primeiros seculos, a Mesa do altar estava inteiramente livre
+e a descoberto, e só se punha em cima o pão, o vinho e os Vasos Sagrados
+necessarios para o Santo Sacrificio.
+
+_Os Crucifixos_ e os castiçaes _eram desconhecidos_ durante os primeiros
+seculos. N'essa épocha apenas algumas vezes se via uma cruz ao lado
+direito do altar.
+
+_Corôas de altar_, geralmente de _metal precioso_ e ornadas de pedrarias
+engastadas, constituiram, durante todo o periodo latino, o mais rico
+accessorio do altar.
+
+As mais notaveis corôas de altar, que foram descobertas em 1858 e 1860,
+em Toledo (Hespanha), são em numero de onze, todas de ouro e cravejadas
+de pedras.
+
+Algumas vezes, principalmente a partir do IX seculo, deu-se o nome de
+_regnum_ ás corôas votivas dos altares, para as distinguir das de
+illuminar. Tambem ás vezes se penduravam Cruzes proximo dos altares.
+
+As luzes que se empregavam com profusão, durante os Officios Divinos,
+eram collocadas proximo dos altares, quer sobre uma mesa, quer sobre
+candelabros, ou ainda mais vezes sobre lustres, em fórma de corôa,
+suspensos no côro, no Sanctuario e até mesmo no meio da egreja.
+
+Os _diptycos_ são de épocha muito remota. Ao principio eram formados de
+duas pequenas taboas de madeira ou de marfim, dobrando-se uma sobre a
+outra, e cuja parte interior continha uma camada de cera, sobre a qual
+se escrevia. Estas taboas eram rodeadas com uns fios de linho, sobre os
+quaes se deitava cêra que se imprimia com um sinete. Serviam assim para
+as missivas secretas.
+
+Desde a sua origem que a Egreja Christã teve diptycos. Eram tabellas ou
+catalogos, sobre os quaes se inscreviam certos nomes que deviam ser
+lembrados e lidos, pelo menos em parte, nas reuniões sagradas dos fieis.
+
+Podêmos pois, conforme a origem, distinguir duas especies de diptycos
+sagrados: os diptycos consulares adaptados á liturgia, e os diptycos
+puramente ecclesiasticos.
+
+Os diptycos puramente ecclesiasticos eram de marfim ou de metal. Tinham
+nas faces exteriores esculpidos ou cinzelados a imagem de Christo e a da
+Santa Virgem, ou assumptos tirados da historia do Velho e Novo
+Testamentos, e outros symbolos christãos.
+
+Quando a leitura dos diptycos começou a deixar de se usar nos officios
+sagrados, transformaram-se as taboas esculpidas ou cinzeladas, em capas
+para livros liturgicos.
+
+Desde o tempo de S. Jeronymo que começaram a ornamentar, o mais
+ricamente possivel, o livro dos Evangelhos; notava-se esta riqueza tanto
+no exterior como no interior do volume.
+
+Muitas vezes o texto sagrado era escripto com letras de ouro sobre
+membranas côr de purpura.
+
+Exteriormente os livros dos Evangelhos eram ornados com todo o esmero;
+nas capas abundavam o ouro, a prata, os vidrilhos, as pedrarias e as
+perolas, e durante muito tempo, foi costume encerral-os em estojos ou
+cofres, _capsae_, ricamente trabalhados.
+
+As capas dos Evangeliarios podem-se dividir em duas classes: as de
+laminas metallicas e as de marfim.
+
+Entre as primeiras, umas eram simples, sem figuras e até mesmo
+desprovidas de toda a ornamentação, outras cravejadas de pedras e
+esculpidas em relevo, representando assumptos religiosos.
+
+Os assumptos das capas dos Evangeliarios de marfim e de metal não
+differem dos que têem as dos diptycos. São symbolos ou scenas extrahidas
+do Novo Testamento e principalmente da vida e da paixão de Nosso Senhor.
+
+_Estofos preciosos_. Durante os primeiros seculos da era christã, os
+fatos ordinarios eram de tela, ou, na maior parte das vezes, de lã.
+Depois da conversão de Constantino, o uso dos tecidos de seda para as
+vestes liturgicas generalisou-se bastante, a ponto tal, que o Soberano
+Pontifice S. Silvestre, contemporaneo d'este imperador, foi obrigado a
+abolil-o nas roupas brancas de altar chamadas _corporaes_.
+
+Além dos tecidos unidos, ha outros ornados com figuras ordinariamente
+multicolores, obtidas umas pela applicação de variegadas côres depois da
+tecedura, outras durante a tecedura, por meio de certas combinações dos
+fios da cadeia e da trama.
+
+Durante o periodo Latino, o fabrico textil da seda era completamente
+desconhecido na Europa meridional e occidental. Provinham da Asia, do
+Egypto, da Grecia e de Constantinopla, os tecidos de seda. É por este
+motivo que muitas vezes se chamavam _estofos transmarinos_, e mais tarde
+tambem, estofos dos Sarracenos, porque os arabes mahometanos forneciam
+para o Occidente uma grande quantidade.
+
+Os estofos mais antigos não raras vezes eram decorados com medalhões
+circulares ou ovaes, no genero de _Maestricht_, obtidos ou pela
+tecedura, ou por bordados applicados posteriormente.
+
+A ornamentação dos tecidos, que vinham do Oriente e sobretudo da Persia,
+consistia em assumptos em que predominavam o reino animal e o vegetal, e
+até por vezes na propria mythologia d'este ultimo paiz. Em vão
+procurariamos o symbolismo christão n'estas representações tão variadas.
+Apenas ali se encontra o producto da imaginação dos artistas orientaes,
+que confeccionaram esses tecidos.
+
+Os symbolos e os assumptos christãos só excepcionalmente apparecem sobre
+alguns productos das fabricas gregas ou bysantinas, e isso mesmo em uma
+épocha relativamente recente; consistem em pequenas Cruzes Gregas da
+Trindade, inscriptas em circulos, animaes symbolicos, taes como o leão e
+o pavão, e raramente um personagem isolado. As scenas historicas do
+Velho e Novo Testamentos não começaram a representar-se sobre os estofos
+senão durante o VIII seculo.
+
+Desde o meiado do IV seculo, que a egreja começou a servir-se d'este
+meio, para representar, sobre os tecidos empregados nas ceremonias
+sagradas, assumptos religiosos extrahidos do Velho e do Novo
+Testamentos, ou da historia dos Santos.
+
+O ouro, a seda e as perolas, abundavam em todos estes bordados, que
+consistiam muitas vezes em medalhões circulares ou ovaes e que
+applicavam sobre tecidos preciosos, para lhes imprimir um caracter
+religioso.
+
+Desde o VI seculo que a arte de bordar foi, na Europa occidental, a
+principal occupação das mulheres nobres, e no seculo seguinte, esta arte
+elevou-se a um tal gráu de prosperidade, nas Ilhas Britannicas, que
+durante toda a idade media não deixou de florescer.
+
+Desde os primeiros seculos, que se ornavam com bordados de purpura, ou
+de qualquer outra côr brilhante, as vestes de lã branca dos padres e dos
+diaconos. Estes bordados foram mais tarde substituidos por brocados de
+seda. Serviam-se tambem dos pannos d'essa qualidade, para armação nas
+basilicas e nas egrejas.
+
+Estes ricos pannos tinham ainda outro uso. Antes de serem collocadas nos
+ataúdes, as ossadas dos Santos eram rodeadas de pelles de camello e
+envolvidas em tecidos os mais ricos, de linho, seda e ouro. A maior
+parte dos estofos antigos que se conservaram até aos nossos dias, foram
+tirados de sepulturas de Santos.
+
+_Paramentos Sacerdotaes_. A Egreja manteve escrupulosamente, para os
+ornamentos sagrados, as fórmas adoptadas pelos primeiros christãos,
+emquanto que a fórma e o talhe dos fatos profanos se modificaram
+invencivelmente.
+
+Em geral, os paramentos sagrados dos padres e dos ministros inferiores
+eram brancos. O uso das côres variadas manifestou-se primeiramente nas
+_casulas_ e nas _capas d'asperges_.
+
+As cinco côres liturgicas de que se servem hoje, foram estabelecidas
+pouco mais ou menos no IX seculo, e definitivamente consagradas dois
+seculos depois.
+
+Os paramentos dos padres são as casulas, a _capa d'asperges_, a
+_estóla_, o _manipulo_, o _cinto_, a _ópa_ e o _amicto_. As principaes
+vestimentas, proprias para os ministros inferiores, são a _dalmatica_ e
+a _tunicella_.
+
+A casula primitiva era uma vestimenta sem mangas, muito ampla,
+envolvendo todo o corpo desde o pescoço até aos pés, e formando uma
+especie de barraca, _casula_, em torno da pessoa que a vestia. Tinha
+apenas uma abertura para passar a cabeça.
+
+A _estóla_ deve o seu nome e origem ao vestuario que os romanos chamavam
+estola.
+
+A Egreja adoptou como paramento a _estóla_, de que se fazia uso por toda
+a parte, na occasião em que se estabeleceu o Christianismo.
+
+O _manipulo_ não se usava durante os primeiros seculos da Egreja. Foi S.
+Gregorio o Grande, (590-604) quem primeiro fallou, em seus escriptos, do
+manipulo como paramento sagrado.
+
+A _capa_ é um paramento commum ao padre e a alguns dos ministros
+inferiores. Primitivamente serviam-se da capa para se resguardarem da
+chuva nas procissões; é tambem por este motivo que ella se chama muitas
+vezes _pluvial_.
+
+A _alva_ e o _cinto_ devem a sua origem á _tunica talar_ dos antigos,
+que era um vestuario de linho, munido de mangas e apertado á roda do
+corpo com um cinto.
+
+A _alva_ era vestida nas funcções sagradas pelos bispos, padres e todos
+os ministros inferiores.
+
+O _amicto_ é uma espécie de téla de que os padres e os ministros se
+servem para cobrir o pescoço. A origem d'este vestuario não vae além do
+VIII seculo.
+
+Durante os tres primeiros seculos, os diaconos trajavam o _colobio_, que
+era uma especie de tunica longa e estreita, ordinariamente sem mangas.
+Foi no principio do IV seculo, que o Papa S. Silvestre substituiu o
+_colobio_ pela _dalmatica_.
+
+A _dalmatica_ era uma bluse comprida, feita de lã da Dalmacia.
+
+Até ao VII seculo, os sub-diaconos da Egreja do Occidente não eram
+vestidos senão com a alva, com o cinto e com o amicto.
+
+
+*Mosteiros Latinos*
+
+
+Foi no principio do VI seculo, que começaram a maior parte dos
+religiosos a reunir-se em communidade, e a viver juntos, debaixo do
+mesmo tecto. Vivia então S. Benedicto.
+
+
+*Iconographia do periodo Latino*
+
+
+Muitos monumentos do periodo Latino, sobre tudo os mais antigos
+mosaicos, conteem personagens em pé e attitude respeitosa, tendo nas
+mãos, envoltas nas rugas do manto, uma corôa em fórma de circulo, que
+offerecem ao Salvador. Este é representado sob a fórma symbolica do
+Cordeiro, do monogramma, da Cruz, e até mesmo d'um simples espaço vazio.
+
+Christo, debaixo da fórma symbolica do Cordeiro ou do monogramma, no
+meio de doze cordeirinhos ou de doze pombas, que os monumentos do
+periodo Latino nos offerecem frequentemente, symbolisa o Salvador
+rodeado dos seus discipulos, isto é, a Egreja triumphante no Céu,
+recebendo na terra o ensino do seu Divino Fundador.
+
+Tambem muitas vezes se encontra um cordeiro, uma Cruz Trina, ou o
+monogramma de Christo entre dois cordeiros, duas pombas, dois pavões ou
+dois veados; isto symbolisa o Salvador sob a fórma humana no meio dos
+Apostolos e d'outros Santos, ou sob a fórma symbolica do Cordeiro e do
+monogramma no meio de doze cordeirinhos ou doze pombas.
+
+Vê-se tambem uma taça ou um cacho de uvas no meio de dois pavões ou de
+duas pombas, o que nos parece uma allusão mais directa ao regosijo dos
+que vão para o Céu.
+
+Alguns monumentos do periodo Latino, principalmente os mosaicos do V e
+VI seculos, teem um throno, com ou sem docél, e em que ha uma almofada,
+um cortinado cahindo diante da cadeira e algumas vezes o livro dos
+Evangelhos. Um monogramma ou uma Cruz, geralmente da Trindade, occupa o
+meio do throno e domina toda a composição. Muitas vezes vê-se, ao lado
+do throno, os doze Apostolos em pé, ou sómente S. Pedro e S. Paulo. Em
+todos estes assumptos o throno representa o Salvador.
+
+Mais tarde, principalmente no Oriente, acrescentaram a esta
+representação novos signaes iconographicos: nas extremidades da almofada
+collocavam á direita da Cruz a lança, e á esquerda a esponja na
+extremidade d'uma lança; algumas vezes tambem se entrelaça a corôa de
+espinhos em torno da Cruz. A partir d'este momento, a _cathedra_ da
+doutrina torna-se o throno do julgamento final e a Cruz o signal do
+Filho do Homem.
+
+S. Pedro, collocado ao lado do Salvador, sustenta ordinariamente sobre o
+hombro esquerdo uma cruz de haste comprida; outras vezes recebe com a
+mão direita um volume desenrolado, que Nosso Senhor lhe apresenta. Desde
+a primeira metade do V seculo, que elle conserva as chaves na ponta do
+seu manto.
+
+S. Paulo é quasi sempre representado recebendo um ou dois rolos,
+symbolos da Lei Evangelica.
+
+Muitas vezes tambem collocavam uma phenix sobre uma palmeira. A Phenix é
+a figura da resurreição futura.
+
+
+*Caracteres do estylo Bysantino*
+
+
+O plano e a disposição das egrejas bysantinas apresenta-se com tres
+typos distinctos: 1.^o, com a basilica coberta de madeira, similhante á
+basilica Latina do Occidente; 2.^o, com a rotunda ou egreja circular;
+3.^o, com a basilica bysantina propriamente dita, abobadada e sobreposta
+d'uma ou de muitas cupulas. A basilica bysantina abobadada distingue-se
+perfeitamente de todos os monumentos dos tempos anteriores, pela cupula
+sobre abobadas pendentes, e construida ao meio d'uma nave, mais ou menos
+alongada.
+
+As fachadas das egrejas bysantinas differem das que têem as basilicas
+Latinas. Estas terminam em geral por um frontespicio triangular; as
+fachadas das egrejas orientaes, pelo contrario, terminam ou por uma
+fachada horisontal á maneira d'uma cornija, ou por uma serie de
+corôamentos semicirculares.
+
+O systema de construcção das egrejas bysantinas distingue-se pelos
+seguintes traços. O tijolo é geralmente empregado para todas as
+edificações. Mesmo nos paizes em que a pedra é abundante, os architectos
+bysantinos preferiam, a maior parte das vezes, o tijolo aos materiaes de
+grandes dimensões. O caracter distinctivo das egrejas bysantinas, sob o
+ponto de vista da construcção, consiste na presença de uma ou de muitas
+cupulas elevadas, sobre abobadas pendentes.
+
+Chamam-se _abobadas pendentes_ umas certas saliencias nas abobadas do
+cruzeiro, que pela sua fórma se approximam do sector espherico e que
+serve para fazer passar uma construcção de quadrado a octogono ou a
+plano circular.
+
+A decoração exterior das egrejas bysantinas, sobretudo no IV e V
+seculos, era pobre e simples. Do VII seculo ou do VIII seculo em diante,
+os ornamentos exteriores das paredes e archivoltas das janellas são
+bastantes vezes como os dos edificios Latinos, formados por fiadas de
+pedras alternadas com uma ou muitas fiadas de tijolos. As archivoltas
+ornadas de molduras ficam em resaltos umas sobre as outras, e
+representadas nas paredes por cordões feitos de tijolos de fórma e côr
+variaveis.
+
+A decoração _interna_ consiste em revestimentos de diversas naturezas,
+marchetados de marmores ou mosaicos, applicados sobre os pilares,
+paredes e abobadas. O caracter essencialmente superficial da esculptura
+bysantina consiste regularmente em folhagens lisas e angulares.
+
+Os ornatos que os bysantinos gostavam de esculpir nas almofadas de
+marmore com que decoravam o interior das egrejas, eram entrelaçamentos
+de linhas rectas e curvas, ás quaes juntavam cruzes da Trindade, florões
+e algumas vezes figuras de animaes tanto reaes como chimericos.
+
+A começar no VIII seculo, as pinturas a fresco das egrejas bysantinas
+foram muitas vezes substituidas por mosaicos e por embutidos em estuque;
+acabaram por ser completamente substituidas.
+
+A influencia bysantina fez-se sentir primeiramente no começo do IX
+seculo e mais tarde, no fim do X. Foram construidas muitas egrejas sob a
+influencia bysantina dos monumentos typos.
+
+No reinado de Justiniano (527-565) o estylo bysantino ficou
+definitivamente constituido com os caracteres acima definidos. Santa
+Sophia em Constantinopla constitue o seu typo por excellencia.
+
+Leão, o Isauriano, prohibiu, em 726, a reproducção de qualquer figura,
+quer pela esculptura, quer pela pintura nas paredes das egrejas, quer
+nos objectos do culto. Esta prohibição, confirmada em 754, por um
+conciliabulo heretico, subsistiu até 842. N'este ultimo anno, depois da
+morte de Theophilo, ultimo imperador iconoclasta, a imperatriz Theodora
+substituiu os editos de Leão o Isauriano e restabeleceu o culto das
+imagens.
+
+A épocha mais florescente da arte bysantina foi no X seculo e mais
+particularmente no reinado de Constantino Porphyrogeneta.
+
+No XI seculo, uma serie de graves acontecimentos precipitou a decadencia
+do imperio bysantino e trouxeram por consequencia o enfraquecimento das
+artes. No XIII, XIV e XV seculos, as artes continuaram a desfallecer,
+até que, em 1453, os turcos, apoderando-se de Constantinopla, causaram a
+decadencia da arte bysantina.
+
+
+
+
+CAPITULO IV
+
+/#
+ *Summario.*--O estylo Roman desde o VIII até ao seculo
+ X--Caracteres do estylo Lombardo--Planos das
+ Egrejas--Cryptas--Baptisterios--Systemas de
+ construcção--Abobadas--Pilares e
+ columnas--Bases--Capiteis--Fachadas--Cornijas--Decoração
+ monumental--Architectura, antes do seculo XI, nos outros estados
+ sem ser na Lombardia: Italia central e meridional, Belgica e
+ França--O estylo Roman durante o XI e o XII seculos--Caracter da
+ Architectura Roman--Plano e distribuição das
+ Egrejas--Cryptas--Baptisterios n'este seculo--Materiaes e modo de
+ construir--Sepultura monumental--Fachadas--Portico das
+ egrejas--Portaes--Portas e suas ferragens--Janellas e
+ rosaceas--Maneira de resguardar da chuva as janellas e as vidraças
+ pintadas--Absides--Pilares, columnas--Bases e capiteis--Arcadas e
+ arcarias menores--_Triforium_--Cornijas e
+ modilhões--Abobadas--Contrafortes--Madeiramentos--Torres--Modo de
+ se lagearem os edificios--Pinturas muraes--Inscripcões
+ lapidares--Altares--Piscinas--Tribunas--Cadeiras do côro e a
+ separação da capella mór do corpo da egreja--Capellas
+ funereas--Tumulos visiveis e occultos--Campas--Pias
+ Baptismaes--Gradamentos--Alfaias religiosas--Calices e
+ patenas--Custodias--Relicarios--Corôas suspensas nos
+ altares--Lustres de forma de corôas--Cruzes para os altares e
+ procissões--Castiçaes e tocheiros--Evangeliarios--Capas dos livros
+ do Evangelho--Thuribulos--Pias para agua benta--Pentes
+ liturgicos--Cadeiras para os sacerdotes--Baculos--Calçado
+ liturgico--Mitras--Tecidos bordados--Vestuarios sacerdotaes.
+#/
+
+
+*Periodo Roman*
+
+
+O periodo roman estende-se desde o VIII seculo até ao fim do XII. O
+estylo roman formou-se e desenvolveu-se debaixo da influencia combinada
+de tres elementos: 1.^o, o estylo classico e latino, cujos monumentos
+existiam espalhados pela Europa meridional; 2.^o, o estylo bysantino,
+cujos principios foram importados do Oriente; 3.^o, o genio particular
+dos povos barbaros que invadiram a Europa desde o V seculo.
+
+O estylo proveniente da influencia combinada d'estes tres elementos,
+chamou-se _roman_, porque a sua origem e duração coincidem pouco mais ou
+menos com a da lingua romanica. Por conseguinte a palavra _roman_
+indica, do mesmo modo que na lingua romanica, o elemento barbaro que
+contribuiu para a formação d'este estylo.
+
+
+*O estylo Roman desde o VIII até ao X seculo*
+
+
+A decadencia completa das bellas artes foi o effeito necessario dos
+movimentos politicos que a Europa soffreu durante tres seculos. Só os
+padres e os religiosos luctavam no meio d'este chaos, contra a barbarie
+e a força brutal dos invasores. O renascimento das artes foi lento, e do
+mesmo modo o das lettras, porque o solo da Europa occidental estava
+juncado de destroços amontoados, dos monumentos antigos; as tradições
+artisticas tinham-se perdido, e os principios haviam cahido em
+esquecimento.
+
+Para a architectura e para as artes, a Lombardia foi, desde o VII até ao
+fim do X seculo, o principal centro d'este renascimento. O estylo
+formou-se n'esta épocha, ao norte da Italia, e recebeu o nome de
+_Lombardo_.
+
+
+*Caracteres do estylo Lombardo*
+
+
+O estylo Lombardo, ou o estylo Roman do norte da Italia, reinou n'este
+paiz desde o VIII seculo até ao fim do XII.
+
+O plano da basilica Latina foi geralmente adoptado nas egrejas
+lombardas.
+
+Na maior parte das grandes egrejas lombardas, as paredes internas são
+construidas com galerias.
+
+As cryptas das egrejas lombardas estendem-se por baixo de todo o
+presbyterio, e formam verdadeiras capellas subterraneas, com muitas
+naves abobadadas.
+
+Os baptisterios isolados, geralmente octogonaes ou circulares, usaram-se
+durante o periodo lombardo.
+
+A maior parte dos edificios lombardos são construidos de tijolo.
+
+_Abobadas_. A abobada em fórma de _berço_ consiste n'um semi-cylindro
+concavo e sem penetração alguma.
+
+A abobada de _*aresta*_, assim chamada porque apresenta quatro arestas
+no intradoz, é formada pela intersecção ou penetração de duas abobadas
+de berço, com a mesma abertura e reunindo-se em angulo recto.
+
+Os architectos lombardos fizeram grandes progressos na construcção das
+abobadas. Antes do seu tempo não se conhecia além da cupula senão duas
+especies de abobadas: a abobada de berço, e a abobada de aresta romana.
+
+As abobadas lombardas apresentam todas uma elevação em fórma de
+zimborio, particularidade que pertence ao systema de construcção seguido
+pelos architectos lombardos. Esta elevação dá ás abobadas das egrejas
+lombardas um aspecto particular.
+
+Nas egrejas lombardas de tres naves, a principal tem sempre dobrada
+largura.
+
+Como dissémos, as abobadas da nave principal exercem sobre os seus
+pontos de apoio não sómente uma pressão vertical, mas tambem uma obliqua
+e lateral, que tende a fazer inclinar para fóra os pilares e as muralhas
+superiores. Nos edificios lombardos, esta pressão acha-se equilibrada
+pelo encontro opposto das abobadas altas e baixas das naves lateraes e
+em parte apoiada sobre os contrafortes exteriores, pelos arcos-butantes
+das naves lateraes e pelas porções de parede que supportam estes arcos.
+
+Nos edificios antigos e nas basilicas latinas serviam-se de columnas
+cylindricas, pouco espaçadas e recebendo directamente as pressões
+verticaes de entablamentos d'um peso relativamente pouco consideravel.
+Os constructores lombardos substituiram o pilar composto de columnas
+pelo simples supporte cylindrico da basilica coberta de madeira.
+
+Os caracteres dos pilares lombardos pódem resumir-se da seguinte
+maneira: 1.^o Os pilares apresentam uma secção rectangular ou quadrada e
+são ornados de pilastras ou de columnas envolvidas, recebendo as bases
+das nervuras e dos arcos-butantes. 2.^o Não têem todas a mesma grossura,
+umas são menos, outras mais fortes, segundo recebem ao mesmo tempo as
+bases de todas as abobadas, ou das naves lateraes sómente. Foi desde a
+primeira metade do seculo VIII que appareceram os pilares ornados de
+columna, desconhecidos na arte classica e empregados com profusão no
+Occidente pela arte na edade media. As columnas e as columnatas são
+ordinariamente construidas por fiadas de desigual altura de medio e
+pequeno apparelho; raramente são monolithas.
+
+Essas columnatas dos pilares, quasi sempre delgados e muito elevados,
+chegam muitas vezes sem interrupção até á origem das abobadas, e
+constituem um facto capital na historia da arte, porque são um dos
+elementos mais caracteristicos e fundamentaes de quasi toda a
+architectura da edade media.
+
+As bases lombardas approximam-se sensivelmente, pela sua fórma, da base
+attica propriamente dita.
+
+Estas bases são muitas vezes munidas d'um ornato destinado a ligar o
+tóro inferior com os angulos do plintho e a dar d'este modo uma
+apparencia de maior solidez dos angulos. Este ornato ou appendice
+recebeu o nome de _garra_ ou _pata_.
+
+As garras mais antigas são muito simples, as de data posterior
+representam ordinariamente cabeças d'animaes.
+
+Os capiteis lombardos, assim como os bysantinos, têem ordinariamente a
+fórma de açafate esvasado ou cubico.
+
+Uma transformação se opéra insensivelmente e a arte lombarda adquire uma
+certa originalidade. Os seus typos são variadissimos; o cinzel do
+esculptor dá ali provas de fecundidade. Mais tarde esta transformação
+continúa lentamente, e durante o X seculo, as esculpturas tornam-se mais
+salientes, as folhagens são augmentadas e as extremidades arredondadas.
+
+Em relação á esculptura d'ornato que cobre o açafate, podem
+distinguir-se duas especies de capiteis: os capiteis _ornados de
+folhagens_ e os capiteis historicos ou legendarios. Os capiteis
+historicos são muito communs nas egrejas lombardas que datam do VIII
+seculo.
+
+Chamam-se historicos e legendarios os capiteis que são ornados com
+esculpturas que representam scenas tiradas da historia ou da lenda e até
+mesmo algumas vezes têem animaes symbolicos ou phantasticos.
+
+O abaco enorme em fórma de capitel, que se encontra nos edificios
+Latinos, só raramente se vê nas egrejas Lombardas; é substituido por
+grosso abaco, mas pouco elevado, de profil muito acentuado e muitas
+vezes talhado em pedra differente do corpo do capitel.
+
+Em opposição ao principio geralmente admittido pela antiguidade e pela
+edade media, as fachadas das egrejas Lombardas não indicam exteriormente
+a fórma das naves lateraes.
+
+Compõem-se d'uma grande parede que chega até aos dois lados obliquos que
+a terminam, e na qual não apparece o resalto na nave principal por cima
+das naves lateraes.
+
+Os campanarios das egrejas Lombardas ficam ordinariamente separados do
+edificio da egreja, e compõem-se de uma serie d'andares quadrados, todos
+da mesma largura e pouco mais ou menos da mesma altura, separados uns
+dos outros por cornijas. Estes andares são ornados com faixas muraes e
+pequenas arcadas fingidas, cujos arcos se apoiam sobre modilhões.
+
+As cornijas dos edificios lombardos apenas apresentam uma pequena
+saliencia das faces das paredes. São quasi sempre collocadas sobre
+arcaduras fingidas, de volta inteira, assentando em modilhões de fórma
+muito simples.
+
+As arcaduras constituem uma das fórmas caracteristicas da architectura
+Lombarda; encontram-se, não só debaixo das cornijas dos telhados, mas
+tambem debaixo das outras cornijas das fachadas; e até mesmo nas
+platibandas horisontaes dos edificios.
+
+
+*Decoração monumental*
+
+
+Os bysantinos cobriam com marmores e mosaicos as paredes interiores das
+suas egrejas. Os lombardos, pelo contrario, mostram no seu systema
+decorativo uma certa preferencia quasi exclusiva pelas esculpturas, a
+qual derivando da bysantina, foi por algum tempo sua imitação; porém,
+mais tarde, a começar no IX seculo, principiou-se a abandonar esse modo
+de decorar.
+
+Nos primitivos edificios lombardos nota-se uma grande incorrecção nas
+esculpturas das figuras, quer verdadeiras, quer phantasticas. Mais
+tarde, encontram-se, em todo o periodo do estylo Lombardo, nos seus
+edificios, animaes chimericos, ora isolados ora em frente uns dos
+outros, e acompanhados, e tambem entrelaçados de folhagens.
+
+As esculpturas não cobrem só os capiteis, mas tambem as archivoltas e os
+tympanos, assim como as faces dos altares, dos doceis, etc.
+
+Os embutidos e os revestimentos de marmore são raros no interior dos
+edificios lombardos.
+
+Desde o IX seculo que se substituiram os embutidos em marmore pelas
+pinturas a fresco e por mosaicos de pequenos cubos.
+
+Em quanto o estylo Lombardo se desenvolvia no Norte da Italia, o Latino
+continuava a ser seguido na Italia central e meridional.
+
+A maior parte das egrejas do VII e do VIII seculos eram construidas de
+madeira, o que explica os frequentes incendios d'essas egrejas.
+
+No principio do seculo IX, o imperador Carlos-Magno tentou fazer reviver
+as bellas artes na Europa Occidental; quiz restabelecer o renascimento
+da arte romana.
+
+
+*O estylo Roman durante os seculos XI e XII*
+
+
+O estylo Lombardo, inteiramente constituido no Norte da Italia desde o
+seguinte seculo, exerceu uma grande influencia sobre a architectura
+roman dos paizes cisalpinos no XI e XII seculos. No fim do X seculo, e
+no principio do seguinte, os monges introduziram o estylo Lombardo na
+Allemanha, na Suissa, e nas provincias da França visinhas da Italia,
+d'onde irradiou para o Norte e Oeste.
+
+O estylo roman da Europa Central não é outra coisa mais que o estylo
+Lombardo transportado áquem dos Alpes e modificado occidentalmente pelo
+proprio genio dos differentes povos que occupavam esta região. O
+elemento Gaulo-romano tomou tambem grande parte na formação do estylo
+roman.
+
+O roman inglez recebeu o elemento Lombardo por intermedio dos Normandos,
+que, depois de terem conquistado a Inglaterra, para ali levaram o estylo
+do Occidente da França.
+
+A rapida propagação das ordens religiosas durante o seculo XI,
+contribuiu poderosamente para a diffusão e desenvolvimento da
+architectura Roman. Foi n'este seculo, que as ordens religiosas, graças
+a abundantes recursos, cobriram em pouco tempo a Europa Central e
+Occidental com um grande numero de egrejas e mosteiros. Estes
+monumentos, não obstante apresentarem todos os mesmos caracteres geraes,
+taes como o emprego das abobadas de volta inteira e d'um mesmo systema
+de construcção, differem comtudo entre si, em certos caracteres
+especiaes, proprios de cada região.
+
+O estylo roman do seculo XI differe do estylo do XII por uma
+ornamentação mais simples, contornos menos correctos e execução
+geralmente inferior.
+
+No seculo XII, abundam os ornatos tanto no interior como no exterior dos
+edificios. No final do seculo XI, estabeleceram-se, na Europa
+Occidental, duas escolas de architectura, animadas de diversas
+tendencias. Uma na ordem de S. Bento, que tinha o seu centro principal
+na abbadia de Cluny, desenvolvia uma magnificencia e um luxo quasi
+extraordinario na decoração dos edificios religiosos, cuja construcção
+lhe era incumbida; a outra, pelo contrario, procedente da Ordem de
+Cister, quasi que não admittia ornatos alguns e levava a singeleza até á
+severidade. Em todos os paizes em que existiam edificios romanos por
+occasião da formação do estylo roman, a sua existencia exerceu grande
+influencia na decoração dos edificios. Pelo contrario nos paizes em que
+escasseavam aquelles monumentos, diligenciaram imitar, a maior parte das
+vezes, na esculptura monumental os variados tecidos importados do
+Oriente.
+
+
+*Caracteres da architectura Roman*
+
+
+As egrejas romans apresentam ordinariamente em planta a forma d'uma Cruz
+Latina, cuja frente representada pelo côro é voltada para o Oriente.
+Têem geralmente tres naves formadas por duas ordens parallelas de
+pilares, e algumas vezes de cinco. Depois do seculo XI, o côro das
+egrejas cathedraes, abbaciaes (exceptuando as da Ordem Cistersiense e
+collegiaes), tem maiores dimensões que nas basilicas Latinas e
+Lombardas.
+
+Quando o côro não era rodeado de capellas, terminava por um abside
+semi-circular ou por uma parede recta. Encontram-se, nas margens do
+Rheno e em outras partes da Allemanha, egrejas Romans com dois absides
+semi-circulares, um a Leste e o outro a Oeste.
+
+Algumas das grandes egrejas Romans têem os lados do corpo da egreja
+divididos por galerias.
+
+Todas as egrejas Romans, sem excepção, são orientadas.
+
+Muitas das mesmas egrejas têem cryptas quasi sempre situadas debaixo do
+côro, e formando capellas subterraneas, com tres a cinco naves, cujas
+abobadas de barrete veem assentar sobre duas ou quatro ordens de pilares
+pouco elevados.
+
+Desce-se para a maior parte das cryptas por duas escadas collocadas aos
+lados da que do transepte conduz ao côro. Nas que não têem senão uma
+entrada, acha-se ordinariamente diante do côro mesmo no eixo da egreja.
+
+O uso de construir cryptas só deixou de existir desde o seculo XIII.
+
+Durante o periodo Roman, ainda se construiram, ao pé das cathedraes e
+das grandes Egrejas abbaciaes e parochiaes, baptisterios isolados, de
+fórma polygonal e circular.
+
+Todavia, logo que a solemne ministração do baptismo caiu em desuso, não
+se construiram mais baptisterios proximo das novas Egrejas parochiaes
+que se edificaram. A pia baptismal foi então transportada para a nave
+principal, proximo á porta de entrada da egreja nas naves lateraes, ou
+então em uma capella do lado occidental, proximo da porta principal.
+
+A natureza dos materiaes influe poderosamente sobre o modo de
+construcção adoptada; assim nos paizes em que a cantaria é resistente,
+construe-se com grandes dimensões, o apparelho é mais grandioso, as
+fiadas são altas; emquanto que, nas localidades em que os materiaes são
+menos resistentes, e em que o trabalho de preparar a cantaria é portanto
+mais facil, o apparelho tem menor dimensão.
+
+No seculo XI, a esculptura monumental toma repentinamente um
+desenvolvimento extraordinario pela influencia combinada do estylo
+Lombardo, dos monumentos Gaulo-Romanos; dos tecidos e outros objectos
+d'arte importados do Oriente pelos cruzados.
+
+Em cada paiz ou quasi que em cada provincia, a decoração Roman offerece
+caracteres particulares, devidos á aptidão dos habitantes, á variada
+natureza dos materiaes e a outras influencias locaes. Em geral, em todos
+os paizes onde se encontravam documentos romanos ricamente decorados, a
+influencia Lombarda se liga e se combina com a d'estes monumentos.
+
+No Noroeste da França, principalmente na Normandia, e até mesmo na
+Inglaterra, a decoração consiste principalmente em estrellas e outras
+figuras geometricas. A ornamentação Roman da Allemanha compõe-se
+sobretudo de galões entrelaçados, cujas extremidades acabam em folhas
+com tres a cinco lobulos. Estes galões, algumas vezes ornados de
+perolas, parecem ordinariamente ligados com fitas ou reunidos por
+anneis.
+
+Na Belgica, onde principalmente se manifestou a influencia da escola
+Cistersiense, os monumentos do periodo Roman não têem as decorações de
+trabalhos custosos e variados, que se encontram n'outros paizes.
+
+Assim como nas basilicas Latinas, as fachadas das egrejas Romans indicam
+em geral a forma transversal das naves; só no seculo XI, começaram a
+ornal-as com mais cuidado e esmero. A sua decoração architectural
+consiste nos portaes, ordinariamente tres, construidos em profundas
+arcadas de volta inteira mais ou menos carregadas de molduras de
+architectura; as galerias, verdadeiras ou fingidas, eram formadas por
+uma ou muitas ordens de arcadas fingidas ou rendilhadas; e emfim em
+grandes rosaceas vasadas, por cima da porta principal.
+
+Raras vezes se encontram fachadas romans decoradas com estatuas.
+
+Antes do seculo XI, os atrios que succederam aos narthex das basilicas,
+apresentavam-se d'ordinario sob a fórma d'um portico, geralmente pouco
+profundo e occupando toda a largura da fachada da egreja; havia alguns
+tambem, ainda que pouco numerosos, que eram construidos na fachada
+Occidental.
+
+Os atrios Romans dos seculos XI e XII dividem-se em fechados e abertos;
+os primeiros tomaram, em varios paizes, um desenvolvimento de tal modo
+importante, que formavam de alguma maneira uma nova egreja construida em
+frente das naves propriamente ditas, como havia na egreja de S.
+Francisco de Santarem.
+
+Nos grandes monumentos do seculo XI, e especialmente do XII, os portaes
+mais notaveis, e até mesmo algumas vezes os secundarios, são ornados
+profusamente de esculpturas de todo o genero.
+
+Quando as archivoltas dos portaes são cobertas com muitas esculpturas, o
+tympano é quasi sempre ornado d'um baixo relevo, representando Jesus
+Christo sentado e sob uma aureola. Em alguns casos o Redemptor offerece
+as mãos a dois Santos coroados e ajoelhados cada um do seu lado; em
+outros, lança a benção com a mão direita e segura um livro com a
+esquerda; n'este caso a aureola é muitas vezes cercada de animaes
+symbolicos representando os Evangelistas.
+
+Nos mais importantes monumentos, os batentes dos portaes eram
+ordinariamente de bronze ou de qualquer outro metal.
+
+As ferragens das portas, que a principio não serviam senão para
+consolidar todas as travessas da porta, forneceram desde o seculo XI, no
+estylo Roman, um dos mais bellos modelos de ornamentação.
+
+Encontram-se tambem, nos edificios de architectura Roman, portaes com
+batentes de madeira esculpidos em baixo relevo. As janellas d'estes
+edificios mais antigos são pequenas e quasi sem ornamentação alguma.
+
+No meado do seculo XI, augmentaram os vãos das janellas á proporção que
+mais se generalisava o uso do vidro. No final d'este seculo e durante
+todo o XII, as archivoltas exteriores das janellas dos grandes
+monumentos são executadas com o maior cuidado, e compostas de arcos com
+muitas ordens de pedras lavradas symetricas, varias vezes com o feitio
+de tóros, ficando assentes sobre grupos de pequenas columnas ou sobre
+pés direitos ornados de uma imposta com esculptura. Estes tóros têem
+tambem muitas vezes ornatos.
+
+No seculo XII, apparecem as janellas geminadas de dois vãos, separados
+por uma humbreira em fórma de columna, e servindo-lhe de moldura um arco
+commum de resalva. Vêem-se tambem janellas mesmo de tres vãos reunidos
+debaixo d'um unico arco. N'estas ultimas ou o vão do meio é mais alto
+que os dos lados, ou então é o tympano formado pelo grande arco, no qual
+ha um oculo, inteiramente aberto ou em fórma de trêvo, de quatro folhas
+e ás vezes com seis e mais lóbulos.
+
+Tambem se encontram nos edificios romans do seculo XIII, olhos-de-boi e
+que não servem de ornamento aos vãos de janellas. Chamam-se rosaes e são
+compostos de differentes maneiras.
+
+Nos paizes meridionaes continuaram a vedar os vãos das janellas com
+caixilhos rendilhados, de madeira ou de marmore. Os desenhos produzidos
+pelos recortes das travessas apresentam fórmas mais variadas e em
+harmonia com a ornamentação Roman; compõem-se quasi sempre de figuras
+geometricas. Os caixilhos recortados foram empregados até ao seculo XVI,
+na Grecia, Italia e Hespanha e ainda hoje no Oriente.
+
+Na Europa Occidental e Septentrional preferiam tapar as janellas com
+vidros pequenos assentes em caixilhos de madeira, mas, desde o seculo X,
+reunidos por meio de filetes de chumbo. Algumas vezes estes vidros,
+differentemente coloridos, formavam um mosaico transparente, no qual
+ainda não havia figuras nem ornatos pintados sobre o vidro.
+
+O emprego de vidraças com varios assumptos e personagens pintados,
+começou provavelmente no final do seculo X.
+
+Em muitas egrejas, o côro e mesmo algumas vezes os braços do transepto
+terminam por um abside semi-circular ou polygonal.
+
+O abside está ordinariamente ligado por um abside circular coberto d'um
+tecto quasi sempre mais baixo que o do côro.
+
+As paredes exteriores dos absides são a maior parte das vezes ornadas
+d'uma ou de muitas ordens de arcadas separadas por faixas de pequena
+saliencia; columnas ou pilastras envolvidas, ligadas entre si por arcos
+de volta inteira. As janellas, ordinariamente em numero impar, são
+abertas debaixo das arcadas.
+
+Os absides de quasi todas as egrejas Romans das margens do Rheno
+apresentam junto ao tecto uma galeria aberta, formada por uma serie de
+pequenas arcadas de volta inteira e sustentadas por pequenas columnas.
+Estes absides receberam o nome de absides _rhenanos_. Serviam outr'ora,
+e servem ainda hoje, em alguns sitios, para a exposição das reliquias.
+
+Os edificios construidos na Europa Central, no fim do seculo X e
+principio do XI, não apresentam, muitas vezes, mais do que pilares muito
+simples, de secção circular, quadrada ou rectangular. No seculo XI,
+tambem se introduziu, áquem dos Alpes, o uso dos pilares com angulos
+reintrantes para collocar duas ou quatro columnas envolvidas, de que os
+constructores Lombardos se serviam já no seculo VIII.
+
+As egrejas, parochias ruraes, de menor importancia teem muitissimas
+vezes pilares quadrados, curtos, sem base nem capitel, ou tendo por
+ornamento unicamente uma ou duas molduras pouco salientes que fazem
+parte do capitel.
+
+Durante o periodo Roman, principalmente no seculo XII, muitos dos fustes
+das columnas foram cobertos de esculpturas variadas, consistindo em
+figuras geometricas, espiraes, torçaes, galões, botões, folhagens,
+cordões, animaes e mesmo representações de assumptos historicos ou
+legendarios. Estes ornatos são communs principalmente no Sul da Europa.
+
+No fim do periodo Roman e no principio da época Ogival, as columnas são
+_anneladas_, isto é, formadas d'uma especie de tóro á roda do fuste.
+
+As columnas _anneladas_ constituem um dos caracteres dos monumentos da
+transição do estylo Roman para o estylo Ogival. Tambem se encontram
+d'estes anneis nas nervuras das abobadas. No seculo _XII_, as columnas
+são tambem ás vezes duplas ou enfeixadas.
+
+As bases das columnas são variadissimas.
+
+Muitas das que se encontram nos edificios mais antigos assimilham-se ás
+bases Lombardas, mas sem ter garras.
+
+As bases ornadas com esculpturas, muito communs no Sul da Europa, são
+raras nos paizes do Norte.
+
+Foi no meado do seculo XI que começou a apparecer, áquem dos Alpes, o
+ornato chamado _garra_, que os lombardos já tinham usado muito tempo
+antes.
+
+A garra Romã tem em geral a fórma d'uma folha applicada sobre o tóro
+inferior da base no angulo do plintho, e tambem ás vezes, a d'uma
+carranca ou d'um animal phantastico.
+
+Desde o principio do seculo XII, os constructores romans achatam a forma
+do tóro inferior, quando a base se approxima da forma Attica; um pouco
+mais tarde apparece entre os tóros das bases, a moldura concava,
+bastante profunda, que fórma um dos caracteres distinctivos dos
+monumentos do fim do seculo XII e da primeira metade do XIII.
+
+Os capiteis de architectura Roman são variadissimos. Ha uns que apenas
+se compõem de duas ou tres molduras curvas ou chanfradas, imitando o
+capitel toscano ou dorico.
+
+A cornija dos capiteis é umas vezes elevada e coroada com um ábaco
+saliente, e outras baixa, tendo um ábaco que não resalta o fuste da
+columna.
+
+Encontram-se, em muitos monumentos Romans, capiteis chamados _cubicos_,
+porque têem a configuração d'um cubo. Estes capiteis são algumas vezes
+chanfrados nos angulos inferiores e em geral arredondados na parte
+inferior.
+
+A parte inferior do capitel cubico _Rhenano_, do seculo XII, era muitas
+vezes dividida em quatro porções de esphera, formando assim um grupo de
+quatro capiteis reunidos debaixo de um mesmo ábaco, mas foi ainda
+augmentado o numero das subdivisões, produzindo d'este modo os capiteis
+cubicos _canellados_ ou com resaltos redondos, que se encontram
+principalmente na Inglaterra e no Noroeste da França.
+
+No tempo da formação do estylo Roman, a arte da esculptura estava quasi
+totalmente perdida áquem dos Alpes. Os que primeiro tentaram manejar o
+cinzel esforçaram-se em reproduzir, melhor ou peior, os antigos ornatos
+que tinham á vista; as producções d'estes artistas improvisados são
+imperfeitas e grosseiras.
+
+Encontram-se em muitos monumentos Belgas do seculo XII, capiteis cuja
+ornamentação, simples e rudimentar, consiste unicamente em folhas
+applicadas sobre o açafate, e algumas vezes contornadas em voluta
+debaixo dos angulos do ábaco.
+
+Os capiteis de quasi todos os grandes monumentos dos seculos XI e XII,
+são decorados de esculpturas ou de pinturas de côres carregadas. Os
+ornatos consistem em galões imitando perolas, folhagens encrespadas,
+florões artisticamente executados, animaes symbolicos, animaes
+phantasticos isolados ou em grupos, assumptos tirados da lenda ou da
+historia, principalmente do Velho e Novo Testamentos.
+
+O capitel de _crochets_ usou-se na Belgica e em algumas partes da
+Allemanha desde o fim do periodo Roman. Dá-se o nome de _crochets_ e
+algumas vezes tambem o de _baculo vegetal_, ás folhas mais ou menos
+compridas, recurvadas em voluta na sua extremidade.
+
+Chama-se _arcada_ toda a abertura, real ou simulada, contornada por uma
+archi-volta; e _arcadura_, uma arcada de pequenas dimensões.
+
+Até ao seculo XI serviam-se geralmente do arco de volta inteira ou
+formado por um semi-circulo para ligar duas columnas ou os dois pontos
+extremos d'uma arcada. Nos seculos XI e XII, começam a apparecer novas
+formas d'arcos: 1.^o, o arco _elevado_, cujos dois ramos descendentes se
+prolongam verticalmente abaixo do centro gerador; 2.^o, o arco em fórma
+de ferradura produzido por uma parte da circumferencia que excede o
+semi-circulo; 3.^o o arco de volta abatida ou em aza de cesto, formado
+por uma semi-ellypse cortada segundo a direcção do eixo maior; 4.^o, o
+arco de tres lóbulos cujo intradoz é composto de tres lóbulos.
+
+As paredes interiores lateraes das egrejas, as capellas, as casas
+capitulares são em geral ornadas, na sua parte inferior, com arcaduras
+sustentadas por pequenas columnas mais ou menos embebidas no pé-direito
+e firmadas sobre um sócco de pedra collocado em roda de todo o edificio.
+
+As arcaduras tambem são muitas vezes empregadas, no exterior dos
+edificios, para a decoração das fachadas. Encontram-se egualmente sobre
+as outras partes dos monumentos arcadas pouco salientes, cujas
+extremidades assentam sobre modilhões muitas vezes executados apenas de
+feitio chanfrado, e ainda ás vezes ornadas de esculpturas. Em alguns
+casos foram os modilhões substituidos por grupos de columnas embebidas.
+
+As arcaduras servem principalmente para ornamentar as partes lisas das
+paredes debaixo das cornijas, os parapeitos das janellas e as
+platibandas de que se servem para as ligar entre si pelas faixas muraes.
+
+Estas arcaduras foram imitadas do estylo Lombardo. Tambem se encontram
+principalmente nos edificios romans da Allemanha, da Inglaterra e
+d'algumas partes da França.
+
+Chamam-se _Triforiums_ as galerias mais ou menos largas, que ficam por
+cima das arcadas das naves lateraes das egrejas, ou simplesmente por
+cima das archivoltas das grandes arcadas que ligam dois pilares
+contiguos.
+
+Encontram-se _Triforiums_, que abrangem todo o comprimento do corpo da
+egreja, nos edificios Lombardos.
+
+Os _Triforiums_ estreitos são posteriores ao seculo XII, e só durante o
+periodo Ogival é que se generalisou o seu emprego.
+
+A cornija compõe-se d'uma pedra mais ou menos saliente sobre a face das
+paredes de maior ou menor grandeza, segundo a maior ou menor dureza dos
+materiaes de que dispomos.
+
+A cornija é sustentada por consólas ou modilhões collocados regularmente
+por baixo das juntas das pedras que formam as cornijas. Os modilhões
+têem a fórma d'um curvo ou d'um florão. Chama-se _curvo_ um modilhão
+simples, que fica saliente sobre a face d'uma parede ou d'um pilar e que
+tem as duas faces lateraes parallelas e perpendiculares á mesma parede;
+e com feitio de florão, é uma consóla que não tem as faces nem
+parallelas, nem perpendiculares á parede. Ás vezes são os curvos e esses
+florões ornados de esculpturas representando cabeças humanas, figuras
+grotêscas, carrancas, monstros, volutas, etc.
+
+A maior parte dos edificios do periodo roman não tinham abobadas senão
+no abside do côro, no pavimento inferior dos campanarios e algumas vezes
+ao de cima das naves lateraes. A nave central era ordinariamente coberta
+com um simples tecto de madeira. As abobadas que hoje se vêem em muitas
+egrejas do estylo roman foram construidas em epoca bem mais recente.
+
+Nos edificios religiosos que tinham a nave principal coberta d'abobadas,
+eram estas d'aresta geralmente em nervuras; e como succede nas egrejas
+lombardas, a cada arco da nave central correspondiam nas paredes
+lateraes dois arcos de menores dimensões. Para supportar a pressão
+obliqua, exercida sobre os pilares e sobre as altas paredes da nave pela
+abobada da nave central, os architectos romans seguiram dois systemas.
+
+Uns, imitando os constructores lombardos, construem as paredes lateraes
+quasi da altura da nave e dispõem as abobadas de maneira que supportem a
+curva da abobada central. Outros construem nas paredes lateraes abobadas
+semi-circulares ou de quarto de cylindro, cuja parte inferior assenta
+sobre as paredes mestras do edificio, e a parte superior vem apoiar-se
+contra a principal parede da nave central no logar onde começa a sua
+abobada.
+
+Até ao principio do seculo XII, os arcos duplos compõem-se de uma ou de
+duas ordens de cunhas de cantaria geralmente sem molduras nem ornatos, e
+apresentam uma secção quadrada ou rectangular. No fim do periodo roman,
+e mais tarde ainda, os angulos do intradoz do arco dobrado têem
+regularmente o feitio de tóros.
+
+As nervuras das abobadas d'aresta consistem em um simples tóro, algumas
+vezes acompanhado de dois ou quatro tóros de menor espessura. No fim da
+época Roman, e durante o periodo da transição, o tóro principal foi em
+certos paizes achatado e composto de uma aresta viva no intradoz. As
+nervuras das abobadas do estylo Roman são muito mais toscas que as das
+Ogivaes.
+
+Os architectos dos seculos XII, XIII e XIV decoravam algumas vezes o
+nascimento das nervuras das abobadas superiores ao capitel com molduras
+geometricas.
+
+Chamam-se _contrafortes_ aos pilares embebidos nas paredes exteriores
+dos edificios, e que servem para sustentar e diminuir a pressão das
+abobadas, ou supportar o peso do madeiramento do telhado. Estes apoios
+correspondem sempre exactamente (nos monumentos que não têem abobadas)
+aos pontos onde assentam as asnas do madeiramento, e nos edificios
+abobadados, aos pontos onde vem exercer-se a pressão combinada dos arcos
+duplos e das nervuras das abobadas.
+
+Nas construcções de architectura Roman, especialmente nas mais antigas,
+os contrafortes apresentam-se algumas vezes com a apparencia de uma
+pilastra semi-cylindrica.
+
+No XI, e principalmente no seculo XII, apresentam os contrafortes
+variadissimas fórmas. Uns são muito largos na base, e diminuem
+successivamente em cada um dos seus tres lados isolados; outros, mais
+delgados, têem sempre a mesma largura entre as duas faces lateraes e
+parallelas, e não diminuem senão na face exterior, em que essa
+diminuição se faz successivamente em diversas partes na sua total
+elevação. Alguns ha que têem sempre as mesmas dimensões em todas as
+faces, sem saliencia nem resalto algum, desde a base do edificio até á
+cornija.
+
+Os madeiramentos nos telhados dos edificios do estylo Roman são raros.
+
+Na Europa Occidental os telhados conservaram até ao seculo XII uma
+pequenissima inclinação.
+
+É só no meiado d'este seculo, e até mesmo mais tarde, que se encontram
+declives com excessiva correnteza nos telhados dos edificios da edade
+média.
+
+As _Torres_, tanto na Europa Central como na Occidental, anteriores ao
+seculo XI, são em geral quadradas, e sem nenhum ornamento, ou apenas
+ornadas com simples arcadas, e ordinariamente cobertas por um telhado de
+quatro abas de fórma concava, formando uma pyramide obtusa.
+
+Os campanarios do seculo XI, e sobretudo do XII, são mais elevados e
+ornamentados que os dos seculos precedentes. Compõem-se de dois e mais
+pavimentos, que se sobrepõem, e cujas dimensões vão muitas vezes
+diminuindo successivamente. A sua fórma e aspecto geral variam de um
+paiz para outro.
+
+Os campanarios isolados, que são quasi exclusivamente proprios da
+Italia, distinguem-se por mais duas especies.
+
+Ha uns construidos no ponto de intersecção do transepte com a nave
+principal, e ainda outros edificados ora sobre a fachada, ora sobre as
+extremidades do côro ou do transepte. Os primeiros assentam sobre quatro
+grossos pilares: os segundos erguem-se perpendiculares sobre os seus
+quatro lados; ou são sustentados por arcadas abertas sobre uma, duas e
+até mesmo tres das suas faces.
+
+Os campanarios centraes têem em geral differentes fórmas. Ha-os
+quadrados, octogonaes, e ainda com muito maior numero de lados; existem
+tambem alguns em fórma de cúpula.
+
+Os campanarios da fachada, e os construidos proximo do côro ou dos
+transeptes das egrejas, apresentam ainda fórmas mais variadas que os
+centraes. Os mais simples são quadrados e divididos tanto interior como
+exteriormente em dois ou mais pavimentos. Outros, elevando-se sobre uma
+base quadrada, tornam-se em polygonos de maior numero de lados logo no
+primeiro ou segundo andar, tendo em geral a fórma octogonal.
+
+No XI e no XII seculo eram os campanarios cobertos de madeira com feitio
+de flecha ou de pyramides construidas de pedra; quadrados ou octogonaes,
+eram pouco elevados e acachapados. Os angulos das pyramides de base
+quadrada eram ás vezes ornados com pequenos campanarios. Muitos remates
+de cantaria foram destruidos pelas chuvas e pelos gêlos, e depois
+substituidos nos seculos XIII e XIV pelas flechas esguias.
+
+Algumas torres tinham por cobertura um telhado apenas com duas abas,
+terminando por uma empêna em cada um dos lados. As torres cobertas por
+este modo só se usaram durante uma parte do periodo Ogival.
+
+Os pavimentos em _opus alexandrinum_ continuaram a usar-se na Italia e
+em todos os paizes aonde havia marmore. Na Allemanha, na França e na
+Belgica, por exemplo, serviam-se de tijolos de terra, cota esmaltada, ou
+de pedras gravadas e com embutidos de massa colorida. Até ao fim do
+seculo XII cada tijolo tinha a sua côr propria. As côres que se
+encontram nos pavimentos do fim do periodo Roman, são a preta, cinzenta,
+vermelha, e principalmente amarella e verde-escuro. As duas ultimas
+predominam em quasi todos os trabalhos d'este genero do seculo XII.
+
+No Oriente e no Sul da Europa, os edificios historicos, legendarios e
+symbolicos eram bastante communs no seculo XII; tambem se viam alguns na
+Europa Occidental.
+
+Se, na sua origem, a pintura das paredes imitou as mesmas fórmas que
+tinha o mosaico, e se inspirou dos principios d'esta arte, não podia
+tardar muito que ella tomasse mais livre desenvolvimento e adquirisse
+certos principios que lhe fossem especiaes em consequencia da propria
+natureza dos seus processos e da maneira por que estes satisfazem a
+vontade do artista.
+
+Com effeito, a pintura liga-se ás fórmas da architectura até nas mais
+delicadas molduras; e por conseguinte de um modo mais intimo que o
+mosaico. Desde os primeiros seculos até á época da Renascença, a pintura
+das paredes pôde, sem duvida, modificar o estylo do desenho, e variar o
+tom e a harmonia das côres empregadas, seguindo o progressivo
+desenvolvimento da arte de construir, mas ficou sempre subordinada á
+architectura.
+
+A pintura monumental differe muito da que se emprega ordinariamente n'um
+painel.
+
+Um painel, no sentido moderno da palavra, não é mais do que uma scena
+mostrada nos limites de um quadro, atravez de uma janella aberta. A
+pintura monumental, pelo contrario, é uma arte convencional na qual a
+imitação da natureza, a reproducção das suas fórmas e dos phenomenos
+atmosphericos que ella apresenta, quasi que por assim dizer não existem.
+
+A figura humana e as composições em que esta apparece em grupos são
+geralmente reservadas para as grandes superficies planas das paredes; só
+muito raramente se encontram nas pilastras e nas columnas. Por toda a
+parte o symbolismo ou a allegoria constitue um dos grandes caracteres
+tanto da pintura das paredes como de todas as artes em geral durante o
+periodo de que nos occupamos.
+
+As pinturas historicas eram tratadas da maneira mais simples. O artista
+apenas faz figurar o numero de figuras estrictamente necessario para a
+composição do assumpto de que trata. As côres são applicadas com tintas
+eguaes, sem indicar sombras nem os differentes accidentes da luz, de
+fórma que é muitas vezes impossivel determinar qual o lado por onde o
+artista teve em vista que a scena fosse illuminada. As partes salientes
+dos corpos são regularmente indicadas por traços finos, e os contornos
+são representados com linhas cheias.
+
+A pintura a _fresco_, que tem a vantagem de produzir tons agradaveis,
+foi a preferida para as pinturas historicas e legendarias. A
+_encaustica_ foi tambem escolhida para certos trabalhos. A intensidade e
+a harmonia dos tons que resultam do emprego da cêra, a possibilidade de
+nos occuparmos indefinidamente do trabalho já começado fizeram com que
+muitas vezes fosse adoptado este processo. Com effeito até mesmo a
+pintura a oleo é tambem muito antiga. Durante toda a edade média eram
+preferidos os outros processos, por meio dos quaes, obtendo-se tons
+baços, evitavam o reflexo tão desagradavel na pintura das paredes.
+
+Durante a edade média a primeira pedra do alicerce dos edificios
+religiosos era regularmente ornada com uma cruz e uma inscripção. A sua
+collocação era feita com grandes solemnidades: um prelado ou um
+dignitario ecclesiastico a benzia publicamente, e elle proprio a
+collocava na base de um dos principaes pontos de apoio da construcção.
+
+Tambem muitas vezes se serviam de inscripções lapidares para conservar a
+memoria da fundação do edificio e o nome do architecto ou do mestre da
+obra. Em algumas egrejas encontram-se pedras com dedicatorias indicando
+a data da consagração, os nomes dos santos cujas reliquias se acham
+depositadas no altar, e até mesmo o nome do orago da egreja.
+
+Os altares eram uns fixos e outros portateis.
+
+_Altares fixos_.--As mesas dos altares fixos, ordinariamente de marmore
+ou de pedra, e de fórma quadrada ou rectangular, continuaram até meiado
+do seculo XII a ser vasadas em fórma de bandeja, como já se usára no
+periodo Latino.
+
+O supporte da mesa do altar consiste, muitas vezes, em uma simples base
+cubica de alvenaria sem ornamentação alguma, e algumas vezes tendo em
+roda uma inscripção e um simples rebordo. Nos dias solemnes cobriam-se
+estes altares com alfaias de lã e seda ou de outros tecidos preciosos.
+
+Outras vezes o altar é sustentado por uma ou muitas pequenas columnas.
+
+Os altares de fórma cubica eram muitas vezes revestidos de oiro e de
+prata e esmaltados, tendo tambem pedrarias, ou ornados com esculpturas e
+pinturas.
+
+A face dos altares, com esculpturas, ou pintados, era em geral dividida
+em tres compartimentos com a fórma de arcadas mais ou menos ricamente
+decoradas. Jesus Christo lançando a benção, de pé ou sentado, occupa
+ordinariamente a parte central, que é muitas vezes a mais elevada, ou
+com a fórma de uma auréola oval ou de quatro lóbulos. Nas arcadas
+lateraes vêem-se figuras de santos e os symbolos dos evangelistas, que
+se acham dispostos ou em torno do compartimento do meio, ou nos fundos
+das arcadas.
+
+O altar principal das grandes egrejas era muitas vezes, como succedia no
+periodo Latino, encimado por um _ciborium_, e o mesmo acontecia com
+alguns dos altares lateraes.
+
+No final do XI seculo começou o uso dos retabulos, isto é, dos paineis
+ou quadros assentes verticalmente ao fundo dos altares propriamente
+ditos. O retabulo não constitue por si só uma parte essencial do altar,
+mas sim um accessorio. O seu primitivo e principal fim é promover a
+devoção entre o padre que offerece o santo sacrificio e os fieis que a
+elle assistem, fazendo-lhes ver assumptos religiosos produzidos pelo
+cinzel, esculptura, pintura, etc.
+
+A principio era pouco elevado, attingiu uma excessiva altura no fim do
+periodo ogival e na época da Renascença.
+
+Representavam-se nos retabulos os mesmos assumptos que nas alfaias:
+Christo, sentado ou em pé, occupava em geral o painel do centro, tendo
+imagens de Santos e assumptos tirados da Historia Sagrada, ou da lenda,
+em arcadas lateraes, ou em medalhões de diversas fórmas, collocados em
+redor da imagem do Salvador.
+
+A maior parte dos primitivos retabulos eram de oiro, prata ou cobre
+doirado e esmaltado: todavia alguns se encontravam, ainda que em menor
+numero, construidos de pedra e de madeira pintada ou esculpida. Estes
+ultimos só se generalisaram no fim do periodo roman e no principio da
+época ogival.
+
+A principio os retabulos serviam tambem para encerrar os relicarios
+quando elles não tinham mais ornamentos, ou para os emmoldurar quando os
+seus frontaes eram ricamente adornados. Parece ter sido nos mosteiros
+que este uso teve principio. Durante o XI seculo, a maior parte das
+abbadias da Europa Central e Occidental mudaram a disposição interior
+das egrejas no que diz respeito ao logar reservado aos religiosos
+durante a celebração do Santo Officio: as cadeiras ou bancos dos padres,
+que d'antes occupavam o proprio côro do abside, foram transportadas para
+o transepte, e desciam ordinariamente até á segunda ou terceira arcada
+da nave principal, como na egreja d'Alcobaça.
+
+Ao fundo do Sanctuario, proximo á curvatura do abside, elevava-se o
+altar das reliquias, atraz ou debaixo do qual eram expostos os restos
+mortaes dos Santos, que até ali se tinbam conservado religiosamente nas
+cryptas das egrejas.
+
+Algumas vezes as reliquias eram encerradas em caixas ou cofres e
+collocadas no interior do altar.
+
+Tambem se expunham mesmo sobre os altares, como succedia no IX seculo;
+mas não é facil actualmente determinar se esta exposição era permanente
+ou temporaria, isto é, durante certas solemnidades religiosas
+extraordinarias.
+
+Comtudo, está provado que existia em muitos paizes o costume de se
+conservarem os relicarios sobre os altares. Este costume pouco a pouco
+se foi generalisando, pelo menos em alguns d'elles. Quando esta
+exposição se realisava por detraz dos altares, o cofre era collocado
+pouco mais ou menos dois metros acima do piso e sustentava um dos lados
+triangulares sobre o proprio altar, ou então sobre um retabulo de pedra,
+collocado em cima d'aquelle, mas pouco elevado, e o outro sobre uma
+consola ou um grupo de columnas junto á parede absidal ou interior da
+egreja.
+
+Os fieis podiam circular em torno do altar e vir collocar-se
+directamente debaixo das reliquias. O uso de passar debaixo dos
+relicarios, quer de pé, quer de joelhos, ainda hoje existe em muitos
+paizes catholicos. Quando a parte superior da urna, que vinha assentar
+sobre o altar, era desprovida de qualquer ornato, cobria-se então com um
+retabulo de metal ou de pedra; se pelo contrario, como succedia com as
+urnas de oiro, de prata ou de cobre doirado e esmaltado, tinha figuras
+primorosamente executadas, ficava inteiramente livre e visivel por
+detraz do altar. Construia-se então por cima da urna uma especie de
+tabernaculo ou de baldaquino. Algumas vezes ornamentavam a parte central
+do lado triangular, com um retabulo de metal precioso.
+
+O altar-mór das cathedraes assim como das collegiaes que não possuiam
+grandes reliquias, só veiu a ter retabulo no XIV seculo. Tanto no XII
+como no XIII seculo, se collocavam n'estes edificios retabulos sobre os
+altares secundarios do transepte e das Capellas absidaes. Estes
+retabulos eram de pouca espessura, não se lhes podendo collocar em cima
+nem crucifixos, nem candeeiros.
+
+_Altares portateis_.--Apresentam ordinariamente, bem como os do periodo
+Latino, a fórma de um parallelogrammo rectangular, e são compostos de
+uma lagea de marmore ou de pedra mettida n'um caixilho de carvalho e
+guarnecida com bordados de oiro ou de prata, de modo a não tornar
+visivel senão a parte superior da placa.
+
+A lagea que constituia o altar propriamente dito era de porphyro, de
+jaspe, de onyx, de crystal de rocha, de pedra preta e até mesmo de
+ardosia. Tambem algumas vezes constava de uma pedra preciosa unicamente
+como recordação historica que a ella estava ligada, por exemplo, um
+fragmento das lageas tintas com o sangue de S. Thomaz de Cantorbery.
+
+As reliquias, cuja presença é de rigor em todo o altar, encontram-se
+entre a lagea de marmore ou de pedra e o caixilho de madeira: algumas
+vezes era este concavo em fórma de recipiente. Em geral os altares
+portateis são de pequena altura, apenas alguns têem a fórma de um
+pequeno cofre sustentado por pés pouco elevados. As laminas de metal que
+constituem os adornos são muitas vezes cobertas com filigranas, de
+pedrarias, de folhagens gravadas, ou de figuras esmaltadas.
+
+Usaram-se estes altares até ao final do seculo XIII.
+
+_Piscinas_.--A ablução das mãos, tanto antes como depois do sacrificio
+da missa, foi sempre um dos preceitos dos padres. Deitava-se nas
+piscinas não sò a agua de que o padre se servia para a ablução das mãos,
+mas até mesmo aquella de que os ministros se serviam para lavar tanto os
+calices ordinarios como os ministeriaes em seguida á communhão do padre
+e dos fieis.
+
+N'esta época o padre não tomava as abluções do mesmo modo que
+actualmente.
+
+Algumas piscinas, que são as mais antigas, têem apenas uma abertura ou
+concavidade para dar passagem á agua; ha porém outras que têem duas, uma
+para escoadouro das aguas ordinarias, e outra para receber as abluções
+das mãos.
+
+As primeiras chamam-se _piscinas simples_, e as segundas _duplas_. As
+mais antigas são de uma grande simplicidade, pois muitas vezes apenas
+constavam de uma bacia, ou escavada no proprio banco de pedra que havia
+junto á parte inferior das paredes, ou sustentada por uma pequena
+columna isolada, ou por muitas formando grupo. As piscinas que são
+sustentadas por columnas chamam-se _pediculadas_.
+
+No XII seculo começou-se a collocar _piscinas_ em nichos abertos nas
+paredes exteriores da egreja. As piscinas duplas só no fim do XII seculo
+appareceram.
+
+_Doceis_.--Foi durante o periodo roman que maior uso tiveram os doceis.
+Em geral consistem n'uma especie de cúpula quadrada ou polygonal, de
+marmore, de estuque, ou de pedra. Muitas vezes têem um leão sentado
+entre a base e o fuste das columnas. A face anterior da cúpula é quasi
+sempre munida de uma estante, sobre a qual o diácono ou o leitor
+collocava o livro sagrado.
+
+Esta estante assentava ordinariamente na cabeça de uma aguia, symbolo do
+Evangelista S. João; e algumas vezes na de um homem munido de azas,
+emblema de S. Matheus. Quando a estante assentava sobre a cabeça de
+aguia ou de homem com azas, os symbolos dos outros evangelistas estavam
+tambem, ás vezes, representados nos angulos da base da cúpula.
+
+Nas egrejas mais ricas havia mesmo doceis cuja cúpula era revestida de
+oiro, de prata, e de laminas esmaltadas, ou decorada com esculpturas
+sobre marfim.
+
+_Cadeiras episcopaes ou do clero_.--A cadeira episcopal nas cathedraes,
+ou do celebrante nas egrejas inferiores, achava-se regularmente, como no
+periodo Latino, no fundo do abside do côro, contiguo á muralha; e aos
+lados estendiam-se os bancos ou cadeiras destinadas ao clero. Esta
+disposição, que foi conservada até nossos dias em algumas egrejas
+romans, era a que havia em todas as egrejas seculares, tanto cathedraes,
+como collegiaes e parochiaes.
+
+Havia, já o dissemos, algumas excepções a esta regra, como succedia com
+certas collegiaes que possuiam um altar das reliquias no fundo do côro,
+e com as egrejas monasticas. N'estas ultimas cedo foram mudadas as
+cadeiras para o transepte, e mesmo para o corpo da nave; sem duvida por
+causa do grande numero de religiosos, que era impossivel collocar
+convenientemente na curvatura do côro.
+
+Durante a maior parte do periodo roman os bancos dos padres foram de
+marmore ou de pedra como anteriormente. As cadeiras ou _fórmas_,
+_formulae_, de madeira, foram raras até ao fim do XII seculo; apenas se
+encontram algumas que escaparam á destruição. Vê-se perfeitamente que
+estas cadeiras, apezar de bem feitas em madeira, imitam todavia
+exactamente as antigas de pedra.
+
+
+*Capellas funerarias, tumulos e pedras tumulares*
+
+
+_Capellas funerarias_.--Construiram-se algumas vezes, nos cemiterios e
+na proximidade das egrejas, capellas funebres, de fórma circular ou
+polygonal, á similhança da rotunda construida pelo imperador Constantino
+sobre o Santo Sepulchro, ou o mausoléu de Theodorico em Ravenna
+(Italia).
+
+_Tumulos_.--O costume de encerrar em sarcophagos os restos mortaes das
+pessoas ricas e poderosas existiu no Norte da Europa até ao XII seculo,
+e nos paizes meridionaes, isto é, no Sul da França, na Italia e na
+Hespanha existiu pelo menos até ao XIV. Estes sarcophagos constavam,
+como no periodo antecedente, de cofres oblongos, de pedra ou de marmore,
+muitas vezes mais estreitos para o lado dos pés, e fechados por uma
+tampa convexa ou em fórma de telhado de duas aguas. Eram esculpidos com
+ornatos e symbolos; florões, folhagens, monogrammas, cruzes e alguns
+assumptos allegoricos. Collocavam-nos habitualmente sobre pequenos
+pilares grossos, ou sobre columnas curtas só com o fim de os isolar do
+solo.
+
+Durante o periodo roman tambem foi adoptado o uso dos _cenotaphios_ que
+consistem em sócos de pedra, macissos d'alvenaria ou grupos de columnas,
+assentes sobre uma sepultura subterranea e sustentando ou um sarcophago
+simulado ou a effigie do defunto. Em tôrno do sóco ou do macisso
+d'alvenaria acha-se disposta uma serie de pequenas columnas. Umas vezes
+são unidas por meio d'arcos, outras, o rebordo da grande lage que corôa
+o sóco é apoiado sobre as columnas. No XII seculo, os cenotaphios
+começaram a ser encimados pela effigie do defunto, esculpida em relevo e
+ás vezes até mesmo gravada ao traço ou representada em esmalte. O
+personagem é geralmente collocado estendido sobre um leito e tem todas
+as insignias da sua dignidade; os bispos estão com a mitra e o báculo
+pastoral; os reis e os principes, com o sceptro e a corôa. Estas
+estatuas deitadas não apresentam o aspecto d'um morto; porque têem os
+olhos abertos, os gestos e attitudes de pessoas vivas.
+
+Alguns anjinhos fazem balancear thuribulos ou sustentam a almofada sobre
+que assenta a cabeça do personagem.
+
+_Tumulos não apparentes_. Consistem, como os do periodo anterior, em
+cofres de pedra ou de alvenaria mais largos do lado da cabeça que dos
+pés e fechados por uma tampa chata ou prismatica. No interior do cofre
+encontra-se algumas vezes, principalmente do XI até ao XIV seculo, um
+espaço circular destinado a receber a cabeça do cadaver. Alguns têem no
+fundo dois regos, no prolongamento dos quaes está feita uma abertura
+destinada a dar vasão ás materias viscosas.
+
+_Pedras tumulares_. O uso das pedras tumulares continuou durante o
+periodo roman. Em geral têem a fórma d'um trapezio; algumas tambem, as
+mais antigas, são rectangulares. A sua decoração em geral consiste em
+figuras geometricas, folhagens ou figuras symbolicas, e raras vezes se
+lê o nome do defuncto, e a causa e data do seu fallecimento.
+
+_Pias baptismaes_. As pias baptismaes eram de grandes dimensões durante
+todo o periodo roman, por isso que se continuou a administrar o baptismo
+por immersão até ao XII seculo. As pias eram em geral de pedra; comtudo
+algumas havia de bronze e outras de cobre. Em França e especialmente na
+Inglaterra tambem as havia de chumbo.
+
+As pias romans eram de variadissimas fórmas; sendo algumas similhantes a
+uma vasilha.
+
+O grande impulso que na Allemanha teve a arte da ourivesaria durante o
+XI seculo, longe de affrouxar no seculo seguinte, pôde conservar-se na
+vanguarda do movimento artistico da Europa Central e Occidental.
+
+Com a applicação do _esmalte_, os objectos d'ourivesaria mudaram
+completamente d'aspecto no XI e XII seculos. Até ali a accumulação das
+pedrarias ligadas por folhagens de filigranas constituia todo o segredo
+d'ornamentação dos ourives do Occidente; desde o fim do X seculo que as
+laminas duplas e lavradas alternam a maior parte das vezes com laminas
+esmaltadas. Estas encontram-se não só nas grandes peças d'ourivesaria,
+taes como as molduras e as alfaias dos altares, mas até nos menores
+objectos.
+
+Os primeiros esmaltes fabricados na Allemanha foram engastados em ouro e
+prata, semelhantes aos que os Bysantinos fabricavam durante a segunda
+metade do X seculo; mais tarde tambem se empregou o cobre com o qual se
+douravam as partes que ainda ficavam visiveis depois da incrustação do
+esmalte. Foi a começar no XI seculo que em algumas localidades
+substituiram o esmalte introduzido no rebaixo pelo dividido em
+separação.
+
+Até meado do seculo XII, a influencia Bysantina é apparente nos
+esmaltadores Rhenanos. Durante bastante tempo, com effeito, os
+esmaltadores allemães imitaram o estylo Oriental, reproduzindo mais ou
+menos fielmente typos bysantinos, modificando-os comtudo segundo o seu
+proprio engenho. Os seus processos technicos tambem se resentem da
+origem Bysantina da arte allemã: é assim, por exemplo, que, nos esmaltes
+em separação, e até mesmo nos mais antigos esmaltes executados em
+rebaixos, as carnações são substituidas pela pasta vitrea, a exemplo do
+que se praticava em Constantinopla. Com tudo isto, os esmaltadores das
+margens do Rheno não tardaram em gravar sobre metal reservado, as
+figuras de pequenas dimensões, emquanto que para as grandes, continuaram
+ainda, durante algum tempo, a esmaltar as roupas; e n'este caso só se
+serviam da gravura para as carnações. No final do XII seculo, para
+proceder sem duvida d'uma maneira mais expedita, começaram a gravar
+figuras inteiras, ainda mesmo que tivessem uma certa grandeza, e quasi
+que não era preciso gravar com esmaltes os entalhos, muitas vezes
+grandes e profundos da gravura.
+
+Em França, os ourives do XI seculo e dos primeiros annos do XII,
+continuaram a servir-se exclusivamente, para a decoração das suas obras,
+de placas cinzeladas ou até simplesmente estampadas, e d'applicações de
+pedrarias ligadas com filigranas. Até 1145 os ourives francezes
+ignoravam o modo de gravar do esmalte; tanto que, quando no principio
+d'esse anno, _Suger_, abbade do mosteiro de S. Diniz, proximo de Paris,
+quiz mandar fazer uma peanha e cobril-a de placas de esmalte engastadas
+sobre cobre, viu-se obrigado, segundo elle mesmo conta, a chamar em seu
+auxilio ourives da Lotharingia, em numero de cinco ou sete, que tiveram
+o trabalho de terminar esta obra em dois annos.
+
+As producções dos primeiros esmaltadores francezes apresentam grandes
+analogias com as dos allemães do Rheno, que vieram ensinar a arte de
+esmaltar, em França.
+
+Uma vez começado, o gosto pela ourivesaria esmaltada em breve foi
+augmentando em França, e deu logar a que, em 1160, se creasse uma
+celebre escola de esmaltadores em cobre cuja séde foi em Limoges.
+
+Nos primeiros ensaios, os ourives de Limoges procuraram dar aos seus
+esmaltes o aspecto do dos allemães; representavam as figuras inteiras,
+até as proprias carnações, com côres d'esmalte; só aproveitavam o metal
+para lhe fazer traçar as principaes linhas do desenho. Em pouco tempo,
+para mais rapida e mais barata producção, renunciaram a este processo e
+principiaram a gravar logo sobre o metal, todas as figuras e a esmaltar
+_apenas_ o fundo. Muitas vezes até substituiam as partes gravadas por
+figuras em alto relevo de bronze fundido e cinzelado. Os esmaltadores de
+Limoges cederam em parte a sua obra ao gravador, ao esculptor, ao
+fundidor e ao cinzelador, limitando assim o seu trabalho á simples
+decoração dos fundos, operação que se tornava pouco difficil.
+
+Pelo lado artistico o esmalte rhenano é muito superior ao de Limoges. Os
+esmaltes fabricados no XI e no XII seculo nas margens do Mósa, em Liêge,
+Maestricht, Stavelot, em Waulsort e em Gembloux têem os caracteres da
+escola rhenana, cujo principal centro de fabrico era em Colonia,
+constituindo por isso uma variedade dos esmaltes rhenanos. As
+differenças que se encontram entre os esmaltes com rebaixo de Limoges,
+os do Rheno e os do Mósa são estas: nos primeiros predominam as côres
+azul e verde claros, em quanto que nos outros são o verde e o azul
+carregados. Os esmaltadores do Rheno e os do Mósa servem-se d'algumas
+côres que lhes são proprias; o bello azul de torqueza, o branco de
+leite, o vermelho de purpura muito vivo e o preto. Os tons são mais
+harmonicos na Belgica e na Allemanha, e mais vivos e asperos na França.
+Os esmaltes do Rheno e do Mósa reproduzem scenas em que toma parte um
+grande numero de personagens, com inscripções latinas em verso, gravadas
+e encrustadas de esmalte; nos de Limoges não se encontram inscripções a
+não ser apenas um ou outro nome. Os differentes lavôres que os
+esmaltadores do Rheno e do Mósa executavam sobre o cobre e com as
+incrustações de esmalte, são notaveis pelo bom gosto e variedade de
+assumptos, qualidade que se não encontra entre os de Limoges.
+
+Os objectos, grandes ou pequenos, ornados com esmaltes do Mósa ou do
+Rheno apresentam geralmente uma particularidade que se não observa na
+ourivesaria franceza contemporanea. Têem, além das placas esmaltadas,
+filigranas e pedrarias, placas de cobre vermelho com ornatos e
+inscripções douradas sobre campo brunido ou vice-versa.
+
+_Calices e patênas_. Conservou-se, durante o periodo roman, o uso dos
+calices ordinarios e ministeriaes.
+
+Os calices ordinarios do VIII e do IX seculo, têem muitas vezes, como os
+do periodo Latino, a taça profunda e estreita, o pé pequeno e ligado á
+taça por um simples nó sem haste.
+
+No IX seculo começou a usar-se a taça maior, e ás vezes de fórma
+espherica e com azas. O pé conserva-se ainda n'este seculo com as mesmas
+dimensões que nos precedentes.
+
+Os calices do XI e do XII seculos têem a taça e o pé muito grandes, o nó
+bastante grosso e a haste curta quando a têem.
+
+Na Allemanha encontram-se calices do XII seculo que têem o exterior da
+taça inteiramente coberto de medalhões, de esmaltes, de pedrarias e de
+filigranas; estes ornatos são apenas interrompidos por um pequeno espaço
+semi-circular destinado para o padre applicar o labio inferior durante a
+communhão.
+
+Os mysterios da vida e da paixão do Salvador e principalmente a sua
+crucifixão, eram os assumptos que os artistas mais gostavam de
+reproduzir sobre os medalhões circulares ou ovaes com que decoravam a
+taça e o pé dos calices.
+
+Em geral compõem-se d'um reservatorio sustentado por um grosso fuste
+cylindrico, ou mesmo por um pilar quadrado, e tambem se encontram alguns
+cujos angulos se apoiam sobre quatro columnas.
+
+Estas pias baptismaes, exteriormente quadradas, são os reservatorios
+circulares e ovaes, tendo as faces externas esculpidas com florões,
+folhagens, arcos, animaes phantasticos, carrancas e até é facil vêrem-se
+assumptos legendarios ou historicos.
+
+_Grades_. Os romanos faziam muitas vezes grades fundidas em bronze. Na
+Italia e no Sul da Allemanha ainda se empregaram até ao XI seculo. estas
+grades.
+
+Carlos Magno empregou o bronze nas grades da egreja de Aix-la-Chapelle
+que foram, assim como o edificio de que fazem parte, uma importação
+meridional.
+
+Durante o XI e XII seculo, as grades eram compostas de montantes
+verticaes mettidos n'uma moldura e encerrando ornatos formados de
+barras, de secção quadrada ou rectangular; estes ornatos consistem em
+geral em curvas entrelaçadas.
+
+
+*Alfaias religiosas*
+
+
+No seculo VIII estavam as artes e as sciencias inteiramente decahidas no
+Occidente, em consequencia das continuas guerras provocadas pelas
+invasões dos barbaros. Os processos technicos das artes industriaes e
+mais faceis d'adoptar tinham quasi caído no esquecimento. No imperio do
+Oriente, pelo contrario, o culto das artes não cessou de prosperar desde
+Constantino Magno até ao XI seculo inclusivamente, graças á protecção
+generosa dos imperadores bysantinos. Tambem, logo que se seguiram os
+primeiros momentos de socego depois das tempestades politicas, pensou-se
+na Italia e no resto do Occidente em dotar d'alfaias convenientes as
+egrejas, e basilicas que se acabavam de construir ou de restaurar e para
+isso foram obrigados a dirigirem-se a Constantinopla tanto para procurar
+os objectos que desejavam como para obter artistas aptos que annuissem a
+vir trabalhar no Occidente.
+
+Durante muito tempo os artistas verdadeiramente dignos d'este nome,
+pintores, esculptores, ourives e outros, continuaram a vir de Bysancio,
+e quando no principio do IX seculo, Carlos Magno quiz decorar com
+mosaicos e enriquecer com vasos sagrados e outros objectos d'arte o
+edificio religioso que elle acabára de construir em Aix-la-Chapelle,
+teve que se dirigir a artistas gregos ou aos discipulos que se haviam
+formado na Italia, particularmente em Ravenna.
+
+Com os inferiores successores d'este principe, a arte cessou de ter
+desenvolvimento, retrocedendo tanto na Europa central como na
+Occidental, ao mesmo estado de barbaria em que se achava antes dos
+esforços empregados por Carlos Magno para restabelecer o seu progresso.
+
+No fim do X seculo, produziu-se no Occidente um movimento util nos
+estudos artisticos; os artistas gregos foram ainda aqui, como mais tarde
+na Italia, os iniciadores que presidiram a este movimento instructivo.
+
+A restauração artistica, começada sob a influencia dos artistas
+bysantinos, foi extremamente rapida na Allemanha. Desde o fim do X
+seculo, a escola de Trèves, dirigida pelo bispo Egberto, deu nascimento,
+no territorio germanico, a muitos outros centros artisticos creados
+pelos bispos nos seus palacios episcopaes, ou pelos abbades nos seus
+Mosteiros. Santo Henrique que governou o imperio do Occidente durante o
+primeiro quartel do XI seculo, foi tambem um dos grandes promotores da
+restauração artistica na Allemanha.
+
+Os _calices ministeriaes_ conservaram, durante o periodo roman, a mesma
+fórma que tinham tido anteriormente. A sua decoração é a mesma que a dos
+calices ordinarios. São munidos d'azas com a fórma de folhagens, ou de
+dragões e d'outros animaes phantasticos.
+
+Nos medalhões sobre a taça representavam-se scenas da vida do Salvador;
+nos do pé, as quatro virtudes Cardeaes e assumptos tirados da historia
+do Velho Testamento; e nos medalhões do nó mostravam-se as
+personificações dos quatro rios do Paraizo.
+
+As patênas, ordinariamente muito simples, tinham a configuração d'um
+pires com um esvasamento circular no meio. O fundo interior era liso,
+com adornos de buril; os bordos, por vezes lavrados em relevos ou
+gravados ao buril, eram de pequenas dimensões. Encontram-se comtudo
+algumas patênas da época roman, sobre as quaes abundavam os ornatos e as
+esculpturas.
+
+_Custodias eucharisticas: pyxides e ciborios_. Desde o XI seculo que as
+pombas eucharisticas foram substituidas em geral pelas pyxides, cuja
+origem alguns auctores reputam ser do V seculo. Dá-se o nome _pyxides_ a
+pequenas caixas de marfim, d'onyx, d'ouro, de prata ou de cobre
+esmaltado, nas quaes se guardavam as Sagradas particulas. Suspendiam-se,
+debaixo do docel do altar, n'uma bolsa de tecido precioso, ou então
+collocavam-se n'um pequeno nicho aberto em parede proxima do altar.
+
+Durante os primeiros seculos do periodo roman as pyxides de marfim
+empregavam-se em concorrencia com as pombas eucharisticas de metal.
+
+Consistiam regularmente em pequenas caixas cylindricas, tendo muitas
+vezes no exterior esculpturas em relevo.
+
+As pyxides do XII e do XIII seculo são ordinariamente de cobre dourado e
+esmaltado; compõem-se d'uma pequena caixa cylindrica encimada por uma
+tampa de fórma conica ligada ao cylindro por uma charneira. Muitas
+d'estas pyxides sairam das officinas dos esmaltadores de Limoges.
+
+As pyxides romans têem algumas vezes um pé, e são em geral tanto umas
+como outras de pequenas dimensões, por isso que apenas servem para
+guardar um pequeno numero d'hostias necessarias para dar o Sagrado
+Viatico aos doentes em perigo de vida.
+
+Todas as pyxides anteriores ao XVI seculo, com raras excepções, têem a
+tampa ligada ao cylindro por meio de charneira.
+
+_Relicarios_. Consideraram-se primeiramente como reliquias os restos
+mortaes dos Santos, porém, hoje têem um sentido mais lato;
+considerando-se tambem como taes os paramentos e outros objectos usados
+por elles durante a sua vida mortal. A Egreja professou sempre um grande
+respeito pelas reliquias, prestando-lhes um culto particular. Em vista
+d'isto não é para admirar que nos primeiros seculos se fabricasse um tão
+grande numero e diversidade de relicarios, afim de conservarem estes
+preciosos thesouros e expôl-os á veneração dos fieis.
+
+_Relicarios da verdadeira Cruz_. A maior parte dos relicarios que
+contéem parcellas da verdadeira Cruz foram trazidos do Oriente na época
+das Cruzadas, ou fabricados na Europa segundo os modêlos bysantinos. São
+ricamente cravejados de pedraria e d'esmaltes, e têem muitas vezes a
+fórma de uma dupla cruz chamada cruz do Santo Sepulchro, de Lorrena ou
+de Caravalla. Como a travessa superior d'esta cruz é menor que a
+inferior, leva isto a suppôr que o que parece uma repetição dos braços
+seja simplesmente o _titulo_ da cruz, pelo qual os Gregos e os Orientaes
+sempre tiveram especial veneração.
+
+Tambem muitas vezes se collocavam as reliquias da Sagrada madeira n'uma
+cruz com uma simples travessa.
+
+As reliquias da verdadeira Cruz, encerradas n'uma cruzeta, muitas vezes
+com duas travessas, eram tambem muitas vezes emmolduradas n'uma placa
+metallica ricamente ornada e fixa sobre um centro de madeira. Estes
+relicarios, com a fórma d'um pequeno quadro rectangular ou d'um
+triptyco, eram mettidos em ricos estojos guarnecidos d'esmaltes,
+filigranas e pedras preciosas.
+
+Não eram só os relicarios da madeira da verdadeira Cruz, que tinham a
+fórma d'uma cruz com duas travessas horisontaes; os proprios edíficios
+em que se conservavam estes relicarios eram muitas vezes encimados com
+uma cruz do mesmo genero. Nas parochias em que os campanarios tinham a
+dita cruz, eram collocadas sobre os tumulos n'ellas existentes, cruzes
+de madeira ou de pedra com a mesma fórma.
+
+_Urnas_. A urna é uma especie d'um cofre dentro do qual são guardadas as
+reliquias d'um Santo. O emprego das urnas vulgarisou-se desde o XI
+seculo. Ha-as _grandes_ e _pequenas_. As grandes urnas têem o feitio
+d'um pequeno edificio rectangular, com a fórma de telhado de duas
+vertentes; ha algumas, como a dos Reis Magos em Colonia, que imitam uma
+egreja com as suas paredes exteriores.
+
+Em geral são cobertas de placas de metal ornadas com filigranas,
+esmaltes e pedrarias. Christo lançando a benção, sentado ou em pé, só ou
+no meio de dois Santos, occupa ordinariamente uma das faces extremas, e
+na outra face a Santissima Virgem entre dois Santos cujas reliquias a
+urna encerra. As faces lateraes são divididas por arcadas de volta
+inteira ou abatida, debaixo das quaes se vêem as figuras dos Apostolos
+ou d'outros Santos; emfim, as vertentes da imitação de telhado são
+decoradas com baixos relevos. Os esmaltes servem de caixilhos aos
+differentes assumptos e cobrem tanto as archivoltas como as columnas das
+arcadas. Ha tambem urnas exclusivamente feitas de placas esmaltadas.
+
+As urnas pequenas, muito triviaes nos seculos XII e XIII, têem a fórma
+d'um cofre oblongo, coberto com uma tampa semelhante a um telhado de
+duas aguas. Compõem-se em geral de placas de cobre vermelho, esmaltadas
+segundo o processo do buril. Tanto as quatro faces da urna, como a tampa
+são adornadas de figuras e algumas vezes com assumptos completos.
+Merecem attenção as figuras pela gravura em relevo ou pelo seu modo de
+execução especial.
+
+Sobre muitas d'estas urnas se vêem em relevo as cabeças e as mãos ou
+sómente as cabeças; nas mais antigas, em vez de serem simplesmente
+gravadas, são incrustadas de esmalte.
+
+D'ordinario o trabalho é rude e barbaro e o desenho deixa muito a
+desejar com relação a correcção.
+
+A tampa é geralmente terminada por uma lamina de cobre recortada em
+fórma de crista.
+
+Pertencem em geral estas urnas ao trabalho dos esmaltadores de Limoges.
+
+Tambem se têem encontrado urnas romanas de pedra, marfim e mesmo de
+madeira.
+
+_Estatuêtas_, _bustos_, _braços_, _pés_, etc. No seculo X, começou-se a
+collocar as reliquias em estatuêtas, bustos, ou relicarios de metal
+ricamente ornamentados e imitando a fórma do corpo humano a que ellas
+haviam pertencido. Assim, quando queriam guardar os ossos d'um pé, ou
+d'um braço, dava-se ao relicario a fórma de qualquer d'estes dois
+modelos. Continuaram a usar-se estes relicarios durante os seculos
+seguintes, tornando-se bastante vulgares.
+
+_Urnas de marfim_. Encontram-se, com frequencia, nos thesouros das
+egrejas e nas collecções d'objectos antigos, cofres de marfim cobertos
+de esculpturas decorativas e legendarias. As que offerecem assumptos
+religiosos ou alguns signaes de symbolismo christão, e que por
+consequencia foram executadas para o serviço do culto, são extremamente
+raras. Isto prova que primitivamente eram destinadas aos usos profanos,
+por exemplo, para guarda joias. No entanto não é para admirar que se
+encontrem nas egrejas, pois que umas foram cedidas ás egrejas como obras
+artisticas offerecidas por bemfeitores generosos; outras, executadas no
+Oriente, serviram aos cavalleiros cruzados para trazerem as reliquias de
+Constantinopla e da Terra Santa. As reliquias vindas do Oriente, ficaram
+encerradas em pequenos cofres, adquiridos por alto preço no Egypto, na
+Syria e na Asia Menor. Estes pequenos cofres, que sahiam d'officinas
+musulmanas ou indianas, são regularmente cobertos de figuras
+geometricas, d'arabescos d'animaes phantasticos e algumas vezes
+d'inscripções Orientaes.
+
+_Frascos de crystal de rocha_. D'entre os varios objectos de que os
+cruzados se serviam como relicarios, para trazerem reliquias para o
+Occidente, devemos especialmente mencionar os pequenos frascos de
+crystal de rocha. Estes frascos, cuja altura raras vezes excedia dez
+centimetros, eram ou muito simples ou com fórmas d'animaes phantasticos.
+Muitos estiveram guardados, durante o periodo ogival, em ricos estojos
+de ouro ou de prata.
+
+_Diversos relicarios_. Ha-os com diversas fórmas architecturaes
+imitando, em metal ou em marfim, as principaes partes das egrejas
+romans, e até mesmo as dos edificios civis.
+
+_Corôas suspensas nos altares_. Estas corôas conhecidas com o nome de
+_votivas_ eram por devoção offerecidas a Deus e aos Santos, ou em
+cumprimento d'algum voto. Já existiam durante o periodo latino; como
+então, compunham-se de um circulo de metal precioso, muitas vezes
+adornado com o brilho de pedrarias e de esmaltes. Fabricou-se grande
+numero d'estas corôas directamente para o serviço dos altares; todavia
+os antigos chronistas designam-nas tambem muitos como offertas feitas
+por reis e principes, de corôas d'ouro e de prata e que elles
+precedentemente cingiam como insignia de realeza.
+
+_Corôas para luzes_. As corôas para luzes continuaram a usar-se durante
+o periodo roman e as mais bellas que a idade media nos legou são d'esta
+época.
+
+Todas estas corôas, guarnecidas de torres e ameias parecem alludir á
+visão de que falla S. João no capitulo XXI do Apocalypse. _Deus me
+mostrará a santa cidade de Jerusalem, que desceu do Ceu, mandada por
+Deus..._ representada por uma alta muralha, franqueada por dôze portas;
+vendo-se a estas portas dôze anjos, e tendo gravados os nomes das dôze
+tribus de Israel. As portas ficavam tres ao Oriente, tres ao Norte, tres
+ao Sul e tres ao Occidente. A muralha tinha dôze socalcos, em que se
+achavam gravados os nomes dos dôze Apostolos.
+
+Suspendiam-se estas corôas no côro proximo do altar e tambem no ponto de
+intersecção da nave com o transepte, quando eram muito grandes.
+
+A corôa para luzes de Aix-la-Chapelle tem oito metros de circumferencia;
+é composta de oito arcos de circulo unindo-se de maneira que formam
+angulos reintrantes. Estes angulos são guarnecidos de lanternas em fórma
+de torrinhas redondas havendo, no ponto medio de cada arco de circulo,
+uma torre quadrada maior. Entre cada torrinha podem ser collocadas tres
+vellas; como são dezeseis torres, oito quadradas e oito redondas, a
+corôa póde receber quarenta e oito luzes em todo o seu circuito. Duas
+inscripções latinas se lêem em tôrno do circulo metallico, indicando a
+data do XII seculo em que foi dada á egreja de Aix-la-Chapelle pelo
+imperador Frederico Barba-rôxa.
+
+_Cruzes d'altar e para as procissões_. Até ao final do XV seculo, não
+havia distincção alguma entre as cruzes do altar e as procissionarias ou
+estacionarias. A mesma cruz servia para ambos os fins; collocava-se
+sobre o altar fixando-a em uma peanha, trazia-se em procissão na
+extremidade d'uma vara comprida.
+
+As cruzes d'altar romans, ordinariamente de cobre, de prata, ou mesmo
+d'ouro, têem em geral apenas uma só cruzeta; as mais antigas são de
+fórma Trina, e cravejadas de perolas ou de variadas pedrarias. Mais
+tarde, no XI e no XII seculos, são então compostas com a imagem de
+Christo, sendo os ramos da cruz de desiguaes dimensões, isto é, deixam
+de ter a fórma Trina.
+
+Grande parte das cruzes d'altar romans são de cobre vermelho adornado
+com esmaltes entalhados ao buril, outras compõem-se de simples laminas
+de cobre sobre as quaes se reproduzem em esmalte a imagem do Divino
+crucificado ou outros symbolos religiosos. Muitas cruzes são formadas de
+madeira, tendo as duas faces ou só a principal revestidas com placas
+esmaltadas. A imagem de Christo era representada n'estas cruzes e em
+alto-relevo. O _perizonium_, que cobre os rins e a corôa que cinge a
+cabeça do Salvador, são ordinariamente esmaltados e os olhos
+representados por fragmentos de vidro azul.
+
+No fim do periodo roman, as peanhas em que se fixavam as cruzes para as
+collocar sobre o altar eram muitas vezes d'uma riqueza notavel; algumas
+eram de fórma triangular, a mais geral; e outras tinham quatro faces. Em
+cada um dos quatro angulos, d'estas ultimas, apresentam um Evangelista
+escrevendo textos relativos á vida ou á morte do Salvador. Queria-se
+d'este modo symbolisar a diffusão, pela prédica do Evangelho, da Fé em
+Jesus-Christo, Redemptor do genero humano.
+
+_Candelabros_. Os candelabros eram em geral pequenos e terminavam na sua
+parte superior por uma dirandella ponteaguda. A fórma d'estes
+candelabros do XII seculo, varía pouco; consta em geral de um pé assente
+sobre tres patas de leão ou em tres corpos de dragão; um nó de folhagens
+ou de dragões enroscados; e uma dirandella bastante concava, sustentada
+por tres ou quatro pequenos animaes phantasticos que se assimilham aos
+dragões ou aos lagartos com azas.
+
+O contraste que existe entre os pequenos candelabros d'outro tempo e os
+que actualmente se empregam de excessiva altura, explica-se da seguinte
+maneira: deram aos candelabros e ciriaes uma tão descommunal altura que
+obrigaram a substituir as antigas velas de cêra por um cirial simulado e
+accrescentado com uma vela. Não devemos esquecer que os ciriaes se
+accendem em homenagem ao Crucifixo ou ao Santissimo Sacramento, e que
+portanto não devem exceder em altura o tabernaculo. Comprehende-se,
+pois, a razão por que um candelabro d'altar é maior e mais monumental
+que outro qualquer de sala.
+
+_Candelabros para o Cirio Pascal_. Tinham uma altura bastante
+consideravel.
+
+A ornamentação d'estes candelabros, destinados a sustentar o Cirio
+Pascal, era analoga á dos candelabros d'altar. N'elles se encontram,
+tanto no pé como na dirandella, os dragões e os lagartos com azas
+(geralmente no numero de tres), as folhagens e os florões. Em alguns,
+tambem se representavam varios personagens e diversos outros assumptos
+nas facetas do pé.
+
+_Candelabros de sete braços_. Estes candelabros sempre de bronze,
+usavam-se desde o periodo roman, e talvez antes. Destinados, sem duvida,
+a fazer recordar o antigo candelabro dos israelitas, são tambem muito
+elevados. O pé, o nó e os ramos eram ordinariamente ornados.
+
+Os braços estão collocados, em geral, no mesmo plano, tres de cada lado
+da haste central e as dirandellas tambem se encontram ao mesmo nivel.
+
+_Evangeliarios_. Durante o periodo roman, trataram, como até ali, de
+reproduzir o mais correctamente possivel o texto Sagrado; e continuaram
+do mesmo modo a transcrever os exemplares de luxo com lettras de ouro
+sobre velino branco ou côr de purpura.
+
+As Biblias completas e os evangeliarios, isto é, os manuscriptos em que
+se encerra o texto dos quatro Evangelhos, são em geral ornados com um
+grande numero de miniaturas representando personagens e assumptos do
+Novo e Velho Testamentos, e até mesmo alguns factos legendarios.
+Todavia, nos mais antigos manuscriptos o numero das illustrações é
+geralmente muito menor que nos do XI e XII seculos. Encontra-se com
+frequencia, na parte superior de cada Evangelho, a figura do
+Evangelista, sentado e escrevendo o seu livro.
+
+Egualmente se encontram na parte superior de quasi todos os
+Evangeliarios, miniaturas que occupam muitas paginas, consistindo em
+arcadas sobre columnas, agrupadas ás tres e ás quatro, sob um arco
+commum que abrange toda a largura da pagina; em cada arcada lêem-se
+series de numeros collocados uns debaixo dos outros.
+
+Estas columnatas formam o que se chamam os _canhões d'Euzebio_ ou de
+_concordancia Evangelica_. Foram compostas por Euzebio de Cezaréa para
+facilitar o estudo comparativo dos Evangelhos, e consistem em quadros
+que indicam, por meio de algarismos escriptos na mesma linha horisontal
+em duas ou mais arcadas, as citações dos Evangelhos com relação ao mesmo
+objecto.
+
+São dez: o primeiro indica todos os logares communs aos quatro
+Evangelhos; o segundo, os que se não lêem senão em S. Matheus, S. Marcos
+e S. Lucas; o terceiro, o que é referido por S. Matheus, S. Lucas e S.
+João; o quarto, as passagens comparativas de S. Matheus, S. Marcos e S.
+João; o quinto, o accôrdo de S. Matheus com S. Lucas; o sexto, de S.
+Matheus com S. Marcos; o setimo, de S. Matheus com S. João; o oitavo, de
+S. Lucas com S. Marcos; o nôno, de S. Lucas com S. João; emfim o decimo,
+sob differentes series, o que cada evangelista escreveu de particular.
+
+Cada Evangelho tem á margem, com tinta preta por ordem numerica, a
+indicação de todos os versos que o compõem; e inferiormente a cada verso
+está notado a encarnado o numero do canhão a que se tem de recorrer para
+encontrar a concordancia.
+
+_Capas evangeliarias_. Durante o periodo roman as capas dos livros
+lithurgicos tinham ordinariamente um comprimento dobrado ou triplicado
+da largura. Comtudo já havia n'essa epoca encadernações que se
+approximavam sensivelmente da fórma quadrada, que foi a que mais tarde
+prevaleceu.
+
+As capas dos livros romans são de metal e tambem de marfim; acontecendo
+muitas vezes reunirem estas duas materias na mesma capa, ou servindo de
+caixilho a uma placa de marfim quadrada ou rectangular e com relevos
+metallicos.
+
+Os assumptos que mais trivialmente se encontram sobre as capas dos
+evangelhos são: 1.^o O Salvador, sentado ou de pé, lançando a benção e
+collocado n'uma aureola oval; 2.^o A crucificação de Christo; 3.^o A
+Santissima Virgem com o menino Jesus; 4.^o Scenas tiradas da historia do
+Novo Testamento.
+
+Os symbolos dos Evangelistas occupam quasi sempre os quatro angulos das
+capas.
+
+Para o fim do periodo roman, tambem frequentemente se empregaram, como
+capas de livros lithurgicos, placas esmaltadas, oblongas, rectangulares,
+fabricadas em Limoges, representando a crucificação do Senhor, com as
+figuras accessorias.
+
+_Thuribulos_. É provavel que nos primeiros seculos fossem simples vasos
+com grande diametro e um peso consideravel.
+
+Dos thuribulos anteriores ao XI seculo apenas temos conhecimento pelas
+pinturas das paredes e pelas miniaturas dos manuscriptos.
+
+São d'uma simplicidade notavel; têem, como todos os que se lhes
+seguiram, a fórma espheroidal.
+
+No XI e XII seculos apparecem thuribulos mais ricos.
+
+_Caldeirinhas d'agua benta portateis_. Estas caldeirinhas serviam para
+levar agua benta aos imperadores, aos reis e outros grandes personagens
+no momento em que entravam na egreja. Têem a fórma d'um cóne troncado e
+invertido.
+
+Geralmente são de pequenas dimensões, não excedendo 20 centimetros em
+altura.
+
+Tambem as ha de marfim e outras de metal. A maior parte tem
+exteriormente duas ordens sobrepostas de figuras em relevo,
+representando assumptos religiosos, figuras de Santos ou symbolos.
+
+_Pentes lithurgicos_. Os padres eram obrigados a pentear os cabellos e a
+barba antes de celebrar o Officio Divino. O uso dos pentes lithurgicos
+existiu até ao XVI seculo, e ainda nos nossos dias se emprega o pente na
+Sagração dos Bispos.
+
+_Os pentes lithurgicos_ são geralmente d'osso ou de marfim e tambem
+algumas vezes de madeira.
+
+Uns são maiores do que outros; os maiores são guarnecidos com duas
+ordens oppostas de dentes, tendo uma com mais finissimos dentes. O
+espaço comprehendido entre as duas ordens de dentes é em geral
+esculpido. Os pentes de menores dimensões têem apenas uma ordem de
+dentes, sendo egualmente mais ou menos ricamente esculpidos.
+
+_Cadeiras_. O uso da cadeira, _cathedra_, foi durante, muito tempo
+considerado como uma prerogativa dos Papas, dos Bispos e dos Soberanos
+temporaes.
+
+No fim do periodo Latino e no começo do Roman, as cadeiras, eram por
+vezes feitas á imitação da cadeira _curúl_ dos Romanos, a qual era
+formada de duas dobradiças em fórma de X, entre as quaes assentava um
+coxim. Os ramos das dobradiças d'esta especie de cadeiras romans são
+ordinariamente terminados, superiormente, por cabeças d'animaes e
+inferiormente por patas ou garras; como tambem succede com as cadeiras
+curúes mais ricamente esculpidas.
+
+As cadeiras romans têem d'ordinario a fórma d'um cofre rectangular, não
+tendo costas nem tão pouco braços. Adornavam-nas com incrustações de
+marfim, ouro, prata ou outros metaes; eram estofadas de preciosos
+brilhantes e damascos. As cadeiras de costas altas são raras.
+
+_Baculos pastoraes_. Desde os primeiros seculos que os Bispos empunhavam
+o bastão pastoral como insignia da sua dignidade. Mais tarde foi este
+privilegio extensivo aos abbades dos grandes mosteiros.
+
+Os bastões pastoraes mais antigos eram de duas fórmas diversas: havia o
+bastão em fórma de muleta e o bastão em _voluta_. O primeiro, pela sua
+similhança com a letra T (a que os gregos chamavam _tau_) é conhecido
+pelo nome de _bastão_ ou baculo em fórma de _tau_. O cabo ou travessa
+ordinariamente de marfim é todo esculpido.
+
+Os baculos de _voluta_ que ainda hoje existem, datam do XII seculo. A
+fórma que tinham antes d'esta epocha sabe-se pelas esculpturas, pinturas
+e miniaturas.
+
+Não nos parece que se encontrem Bispos empunhando o baculo em monumentos
+cuja data seja anterior ao ultimo quartel de X seculo.
+
+No seculo XII e até mesmo já durante a ultima metade do seculo XI, é que
+se começaram a usar os _baculos de voluta_. São tambem d'esta epocha os
+_bastões de metal_ ornados de pedrarias d'esmaltes e filigranas.
+
+A voluta de quasi todos os baculos do XII seculo termina por uma cabeça
+de serpente ou de dragão encimada por uma cruz, ou lutando com o Divino
+Cordeiro armado com o signal da redempção. As volutas terminando em
+florão são por emquanto raras n'esta epocha, assim como tambem aquellas
+que têem representadas scenas historicas.
+
+Attribue-se geralmente aos baculos pastoraes e a todas as suas
+differentes partes, uma significação symbolica. O baculo representa o
+bordão do Pastor espiritual; do Bispo na sua diocese e do abbade no seu
+mosteiro. A haste é recta para recordar ao Prelado a rectidão da
+governação; a ponteira de metal é o emblema da justa severidade com que
+deve reprimir os rebeldes, e a voluta recurvada symbolisa a bondade como
+as almas são attrahidas para o bem pelas consolações. A voluta do baculo
+voltada para o peito, indica a jurisdicção interna dos Abbades; voltada
+para fóra, mostra a auctoridade dos Prelados.
+
+_Sapatos lithurgicos_. Estes sapatos, que desde os primeiros seculos são
+considerados como uma das principaes insignias dos Bispos e dos Abbades,
+tinham o nome de sandalias, _sandalia_, e eram em geral de fórma
+identica. Constavam d'uma solla de coiro ordinario, d'uma gaspea e de
+dois quartos.
+
+A gaspea era de coiro e recortada muito profundamente a formar uma
+especie de lingueta, _lingua_, e quatro appendices, _ligulae_, em fórma
+de orelhas atravez das quaes passavam os cordões. As seis chanfraduras,
+formadas por estas orelhas, fizeram dar á gaspea o nome de _coiro
+fenestrado_, _corium fenestratum_, por affectarem a fórma de aberturas
+dos rotulos de janellas.
+
+Tanto a gaspea como os quartos tinham um grande numero de furos, os
+quaes bem como as chanfraduras da gaspea tinham uma significação
+symbolica.
+
+As sandalias são guarnecidas, inferiormente, por uma solla e
+superiormente por um pedaço de cabedal chanfrado ou fenestrado, porque
+os pés dos prégadores devem ser resguardados inferiormente para se não
+sujarem nas coisas terrestres conforme as palavras do Senhor--_Sacudi o
+pó de vossos pés_--; são descobertos pela parte superior para que lhes
+seja relevado o conhecimento dos celestiaes mysterios, segundo estas
+palavras do propheta: «Desvendae-me os olhos e considerarei as
+maravilhas da tua Lei».
+
+A gaspea e os quartos eram ordinariamente bordados a ouro e seda e até
+mesmo de pedras preciosas.
+
+_Mitras_. As mitras de dois bicos eram desconhecidas até ao fim do XI
+seculo. D'antes os Bispos usavam algumas vezes uma corôa ou grinalda de
+laminas de metal, cravejada de pedras, debaixo da qual elles punham um
+barrete pouco elevado ou um pedaço rectangular de seda ou de tela, cujas
+extremidades, ordinariamente bastante compridas, fluctuavam livremente
+sobre as costas.
+
+No fim do XI seculo, a cobertura collocada por debaixo da corôa
+tornou-se mais alta de maneira que formava ou uma especie de touca
+ponteaguda ou dois lobulos obtusos ou arredondados e pouco tempo depois
+duas agudas pontas. N'esta mesma epocha foi substituido o circulo de
+metal por fachas de pergaminho primorosamente pintadas e as extremidades
+fluctuantes do pedaço de tela por duas fachas compridas e estreitas, que
+se chamam _fanons_.
+
+_Alfaias preciosas_. _Tecidos_. Durante os primeiros seculos da éra
+christã, os tecidos de seda apenas se fabricavam no Oriente.
+
+Mas no periodo roman continuou a Europa a mandar vir todos os tecidos
+preciosos de Constantinopla, da Grecia, da Asia Menor e da Persia.
+
+Comtudo, no seculo IX, os Mouros introduziram a cultura do bicho de seda
+no Sul da Hespanha, e a começar do seculo seguinte, a pequena cidade de
+Almeria, situada a pequena distancia de Malaga sobre as costas do
+Mediterraneo, tornou-se um importante centro de industria de seda, cujos
+productos da Europa eram procurados.
+
+Em seguida á expulsão dos musulmanos no anno de 1146 ou 1147, as
+fabricas de seda tambem se desinvolveram muito na ilha da Sicilia, e o
+commercio de tecidos de seda tornou-se extremamente florescente e
+prospero, graças aos intelligentes esforços do rei normando Roger,
+secundado na sua empreza por operarios trazidos da Grecia na escolta
+d'uma expedição militar. Os tecidos d'ouro e seda, fabricados na celebre
+manufactura official de Palermo, e conhecida pelo nome de _Hotel de
+Tiraz_, foram os mais estimados durante toda a edade média.
+
+Os tecidos do periodo roman, geralmente encorpados e solidos, são uns
+lisos e outros ornados de desenhos representando animaes, plantas,
+flôres e fructos, empregados apenas como decoração, sem a menor intenção
+de symbolismo. Os estofos produzidos pelas fabricas musulmanas, tinham
+tambem ás vezes inscripções arabes; aquelles cujas decorações consistiam
+em assumptos biblicos ou symbolos christãos, fabricavam-se em
+Constantinopla, na Grecia e mais tarde egualmente na Sicilia.
+
+_Bordados_. Os bordados continuaram a usar-se para reproduzirem
+assumptos religiosos quer em medalhões quer sobre umas fitas que
+applicavam ás velas d'altar e aos paramentos sacerdotaes. A arte de
+bordar fez consideraveis progressos durante o periodo roman.
+Encontram-se um grande numero de passamanarias inteiramente executada á
+agulha «_acula pictae_» no XI e XII seculos.
+
+Os bordados executados durante o periodo roman eram geralmente feitos em
+seda ou lã fina sobre uma talagarça de tela fina.
+
+_Paramentos sacerdotaes_. No principio do periodo roman eram ainda
+desconhecidas as côres lithurgicas, e só se começaram a empregar no IX
+seculo tomando um certo desinvolvimento nos seculos seguintes, ao mesmo
+tempo que se fixou o seu symbolismo. A côr branca e a vermelha foram as
+primeiras adoptadas: aquella, como emblema da innocencia e da candura,
+servia nas festas do Salvador, da Santa Virgem, dos anjos, dos Santos
+que não morreram martyres e durante a Paschoa; o vermelho, symbolo da
+caridade e do heroismo, foi destinado aos martyres bem como ao
+Pentecostes, festas por excellencia do amor.
+
+No XII seculo duas novas côres vieram augmentar as que já se usavam: o
+verde, symbolo da esperança, foi empregado aos domingos e nos dias de
+semana em que se não celebrava festa alguma de Santo e durante o tempo
+que decorre entre a Epiphania e a septuagesima, entre o Pentecostes e o
+Advento, o preto, signal de luto, foi reservado para a sexta feira Santa
+e para os officios funebres.
+
+A principio, o uso d'estas differentes côres era facultativo; porém
+desde o final do XII seculo e ainda mais durante o seculo XIII,
+tornou-se obrigatorio.
+
+Mais tarde, tambem se introduziu o uso da côr violeta, symbolisando
+_penitencia_, para o Advento, quaresma, temporas e vigilias.
+
+A _casula_ conservou, durante o periodo roman a mesma fórma que até ali
+havia tido, isto é, a d'uma veste dupla, sem mangas, e caindo livremente
+á roda do corpo.
+
+As _casulas_ mais ricas eram de seda; cravejadas de pedras, de perolas e
+bordadas a ouro, prata, seda ou lã, reproduzindo figuras geometricas,
+flôres, animaes, symbolos e assumptos religiosos. Estes ornatos
+espalhavam-se muitas vezes por toda a casula; comtudo, d'ordinario,
+apenas occupavam as bandas verticaes longas e estreitas, chamadas
+_praetestae_, _listae_ ou _augusti clavi_; regularmente são duas, uma na
+frente e outra na parte posterior. Além do modo decorativo que ellas
+tinham, estas bandas serviam ainda a um fim util, a de tapar as duas
+costuras precisas para dar feitio ao paramento. Duas outras fachas,
+egualmente estreitas, passavam sobre os hombros e vinham terminar nas
+bandas verticaes do peito e ao meio das costas, figurando, adiante e
+atraz, uma Cruz em fórma de Y.
+
+Ha _casulas_ antigas que não têem as fachas de juncção que passam sobre
+os hombros e cuja decoração se resume nas duas fachas verticaes. Algumas
+vezes tambem estas fachas são substituidas por arvores ou plantas com
+muitas ramificações.
+
+As casulas de uso diario e as das egrejas mais modestas não eram de
+seda, materia de um preço excessivo n'essa época, mas sim de lã, tela ou
+outros tecidos mais baratos.
+
+A _estola_ consiste em uma facha comprida e estreita, de seda, de lã ou
+de tela, medindo em geral 2^{m},70 de comprimento sobre 6 a 7
+centimetros de largura. Foi a partir do IX seculo, que ella tomou esta
+fórma e estas dimensões, que se approximam muito das que ainda hoje tem.
+
+As estolas ricas eram ornadas de pedrarias bordadas, e placas de metal
+cinzeladas e esmaltadas, e terminavam nas pontas por longas franjas.
+
+O _manipulo_, que d'antes consistia n'uma especie de toalha, com a qual
+os padres limpavam as mãos e a cara ou purificavam os vasos sagrados, só
+perdeu a fórma e o destino primitivo, durante o IX seculo, quando se
+tornou um verdadeiro paramento similhante á estola na fórma, côr e
+decoração.
+
+A _capa_ conservou, durante o periodo roman, a mesma fórma que tinha
+antes; especialmente reservada aos chantres e clero inferior, era feita
+com um tecido ordinario. Os Bispos só raras vezes a vestiam e, por
+consequencia, não havia capas ricamente decoradas.
+
+A _alva_ era de linho mais ou menos fino e algumas vezes de seda branca.
+Havia duas especies de alva: as alvas sem ornatos, chamadas _albae
+purae_ ou _simplices_, e as alvas guarnecidas, _albae paratae_ ou
+_frisiatae_. As primeiras serviam nos dias ordinarios e nas egrejas de
+segunda ordem; as outras eram usadas pelos Bispos e pelo clero,
+especialmente nos grandes dias de festa.
+
+A decoração das alvas dos Bispos consistia apenas em certos ornatos em
+volta do pescoço, nas extremidades das mangas e no bordo inferior; além
+de duas orlas parallelas verticaes que lembram as _augusti clavi_ dos
+Romanos, e que descem do pescoço até aos pés, tanto na frente como nas
+costas.
+
+O _cinto_ era geralmente ornamentado com grande luxo.
+
+Muitos tecidos preciosos se fabricaram com fio d'ouro; tendo a fórma
+d'uma grande fita de largura entre tres e seis centimetros, podendo-se
+mui facilmente assentar, em toda a sua largura, perolas, pedrarias, e
+placas de metal cinzeladas e esmaltadas.
+
+O _amicto_ é composto d'um pedaço de panno quadrado ou rectangular, que
+o sacerdote põe na cabeça, quando começa a revestir-se, e que depois faz
+descer sobre o pescoço.
+
+Os amictos eram em geral de panno de linho. No periodo roman tambem os
+havia de seda, e de fio d'ouro.
+
+No IX seculo começaram os amictos a ter um ornamento, que se conservou
+em uso durante toda a edade média, e que recebeu o nome de--_parura
+plaga_--e tambem, ás vezes o de--_praetextae_. Este adorno consistia, no
+seu principio, em uma tira rectangular d'ouro, de renda ou tecido de côr
+brilhante, que se pregava no bordo superior do amicto, e que formava em
+torno do pescoço uma especie de rico collar, visivel mesmo depois do
+sacerdote e os ministros sagrados terem revestido a casula ou a
+dalmatica. Algumas vezes tambem tinham como adorno perolas e pedras
+preciosas.
+
+A _dalmatica_ é o paramento sacerdotal para vestir por cima, pertencente
+ao diacono e sub-diacono. Consistia, durante o periodo roman,
+regularmente n'uma especie de toga fechada muito comprida, com mangas e
+uma abertura para passar a cabeça. Duas faixas verticaes d'ouro ou de
+côr brilhante se applicavam, ás vezes, sobre a toga, prolongando-se até
+ao bordo inferior.
+
+Do seculo XI em diante appareceram dalmaticas abertas nos dois lados até
+uma certa altura. Eram muitas vezes guarnecidas de faixas douradas em
+volta do pescoço, e nos canhões das mangas.
+
+O _pallium_ constituia entre os antigos o principal paramento de vestir
+por cima.
+
+Deu-se com o pallio o mesmo que se havia dado com a estola; a parte
+principal, e primitivamente essencial, isto é, o manto foi supprimido, e
+apenas se conservou o ornato accessorio, as faixas que se lhe
+applicaram. Estas uniam sobre o peito e sobre as costas, em fórma de Y,
+da mesma maneira que as _listae_ em certas casulas.
+
+Durante o periodo Latino já se decoravam as faixas do _pallium_ com
+pequenas cruzes gregas. Estas cruzes, pouco numerosas a principio,
+foram-se multiplicando insensivelmente, e desde o XI que já se contavam
+muitas sobre toda a extensão das faixas.
+
+
+*Abbadias, Mosteiros e claustros dos Capitulos*
+
+
+Desde o VIII seculo que se começaram a levantar estabelecimentos
+religiosos, compostos de numerosas construcções edificadas e dispostas
+com arte. Havia já egrejas, edificios para alojamento e exercicios dos
+frades, enfermarias, escolas, bibliothecas, hospedarias para os
+estrangeiros, celleiros, jardins, edificações destinadas aos
+aprovisionamentos, emfim, habitações e officinas para as corporações
+d'artistas que as abbadias tinham sempre ao seu serviço.
+
+Todos estes antigos mosteiros foram destruidos ou inteiramente
+modificados com o correr dos seculos.
+
+Examinaremos as suas disposições interiores, quando tratarmos do plano
+das abbadias do periodo ogival.
+
+A principio os conegos das cathedraes e collegiaes viviam em communidade
+como os religiosos.
+
+Os claustros dos simples collegiaes eram ordinariamente, como os das
+abbadias, contiguos ás paredes meridionaes da egreja, porque a exposição
+ao sol do meio dia é a mais agradavel e a mais vantajosa para a saude.
+Por estas razões o lado sul nas cathedraes era occupado pelos palacios
+episcopaes, e os conegos viam-se obrigados a escolher o lado norte das
+egrejas, para edificarem os seus claustros.
+
+Todavia, esta regra não era geral: existem muitos exemplos de claustros
+tanto d'abbadias como de capitulos occupando outros logares. Estas
+excepções á regra geral são devidas a differentes causas, taes como a
+presença de ruas ou de construcções que era impossivel supprimir, e, nos
+paizes montanhosos, os accidentes do terreno que torneava a egreja.
+
+Os claustros das egrejas monasticas, cathedraes e collegiaes,
+compunham-se ordinariamente de um pateo quadrado ou rectangular, rodeado
+de galerias cobertas, que serviam de passeio aos religiosos e aos
+conegos.
+
+Estas galerias, abertas para o lado do pateo, eram comtudo d'elle
+separadas por meio de um apoio quasi continuo, sobre o qual vinham
+assentar as columnas com archivoltas, tornando a arcada toda contínua.
+Os mais antigos claustros apenas tinham uma especie de ornamentação com
+as galerias cobertas d'um simples alpendre de madeira, cujo madeiramento
+só era visivel no interior. Desde o fim do X seculo foram estes
+alpendres substituidos por abobadas de berço com aresta, por baixo das
+quaes muitas vezes tambem se construia um pavimento.
+
+Na maior parte dos claustros romans do XII seculo, as curvas
+descendentes das archivoltas são sustentadas por columnas duplas,
+cobertas por uma perna de telhado. Algumas vezes columnas isoladas
+alternam com columnas duplas.
+
+Os claustros das cathedraes e das collegiaes eram, como os das abbadias,
+rodeados de edificações indispensaveis para a vida commum dos conegos.
+
+Debaixo d'essas galerias se abriam as portas do refeitorio, do
+dormitorio, da escola, e da sala capitular e outros locaes affectos ao
+serviço da communidade. Mais tarde, quando a vida commum foi abandonada
+pelos capitulos, as habitações privadas dos conegos occuparam, em torno
+das galerias, o logar d'estes differentes edificios.
+
+A iconographia, isto é, a _sciencia das imagens_, occupa-se das
+representações figuradas devidas á esculptura e, em geral, a todas as
+outras artes de modelar.
+
+_A gloria, o nimbo e a auréola_. A gloria é um ornamento symbolisando
+uma nuvem luminosa, que os artistas da idade média põem em torno da
+cabeça ou do corpo d'um personagem, como attributo da santidade ou do
+poder. Quando ella não rodeia senão a cabeça, dá-se-lhe o nome de
+_nimbo_; quando rodeia o corpo inteiro, chama-se _auréola_.
+
+O nimbo derivado da palavra latina (_nimbus_) é um adorno circular, e
+tambem ás vezes quadrado, oblongo ou triangular com que se costumam
+adornar as cabeças das figuras que representam as pessoas divinas, os
+santos e os homens revestidos d'auctoridade suprema, quer civil, quer
+ecclesiastica. É costume collocal-o verticalmente na parte posterior da
+cabeça. Assim como a corôa é o signal da realeza, assim o nimbo é o da
+santidade ou da auctoridade.
+
+O nimbo circular ou em fórma de disco é o symbolo de Deus, dos anjos e
+dos Santos; comtudo, quando circumda a cabeça d'alguma das pessoas
+divinas, o disco é regularmente ornado com uma cruz grega, de que apenas
+se vêem tres ramos, pelo que se chama nimbo crucifero. A cruz do nimbo
+crucifero deve ser vertical, e não inclinada como a cruz de Santo André
+X. Muitos artistas, quando se servem do nimbo, commettem um erro, contra
+esta regra de iconographia. O nimbo crucifero é o symbolo caracteristico
+das pessoas divinas, mesmo quando apenas se representam por figuras
+symbolicas. Assim, por exemplo, a mão, symbolo do Pae Eterno, o
+cordeiro, symbolo do Filho Jesus Christo, e a pomba, symbolo do Espirito
+Santo, representam-se sempre com o nimbo crucifero.
+
+Os ramos do nimbo crucifero são geralmente bastante compridos e mais
+largos nas extremidades. O nimbo circular sem a cruz é o symbolo dos
+anjos e dos Santos do Novo Testamento. No Oriente tambem os Santos do
+Velho Testamento têem o nimbo, mas no Occidente não se segue essa
+pratica. As personificações das virtudes, das provincias e das cidades
+têem tambem o nimbo. Elle é egualmente concedido aos Papas, aos
+imperadores, aos reis, e aos padres quando são representados
+administrando o Sacramento do baptismo, por isso que elles se acham
+n'estes casos revestidos d'uma auctoridade suprema.
+
+Os personagens vivos depositarios da auctoridade suprema, eram tambem
+adornados com o nimbo quadrado ou rectangular. O nimbo é muitas vezes
+substituido pela corôa que se dá ás imagens esculpidas do Salvador
+crucificado ou da Virgem com seu Filho.
+
+_Origem do nimbo_. Os pagãos já faziam uso do nimbo, para ornamentar os
+seus deuses e imperadores.
+
+Assim se vê Trajano n'um baixo relevo do arco de Constantino e Antonio o
+Piedoso em uma moeda, confirmando o uso d'este emblema. Mas que época
+indicará a introducção do nimbo na iconographia christã? O nimbo parece
+só ter sido empregado pelos christãos depois da conversão de
+Constantino. Até este tempo não se conhece monumento algum authentico
+dos tres primeiros seculos, em que vejamos Christo ou os Santos
+adornados com o nimbo. Os mais antigos monumentos, de data determinada,
+em que este ornamento se acha empregado como signal iconographico, são
+os mosaicos de Roma e de Ravêna.
+
+Ora foi da comparação d'estes differentes monumentos entre si que se
+conheceu terem sido as imagens do Salvador as primeiras que tiveram
+nimbo, em segundo logar as dos anjos, depois as dos evangelistas e seus
+symbolos e emfim as dos Santos e dos soberanos. As imagens de Nosso
+Senhor começaram a ter nimbo desde o principio do IV seculo; até ao VI
+seculo se vê o nimbo umas vezes simples, outras crucifero. A Santissima
+Virgem e os anjos começaram a ter nimbo desde os primeiros annos do
+seculo V, os Evangelistas e os Apostolos no meado do mesmo seculo, os
+Santos e os personagens revestidos de auctoridade soberana no começo do
+seculo seguinte.
+
+Auréola (palavra derivada do latim _aura_, _vento suave_, _sôpro
+luminoso_) é uma especie de moldura que envolve todo o corpo como se
+fôsse o nimbo do corpo inteiro.
+
+Os artistas da edade média dão auréola ás tres Pessoas Divinas e á
+Santissima Virgem e tambem ás almas dos Santos e principalmente á do
+pobre Lazaro, figuradas por um pequeno corpo inteiramente nú. A alma é
+assim deificada no momento em que volta ao seio do Creador.
+
+Os Santos, por mais venerados que sejam, nunca têem auréola.
+
+Quando Deus Pae ou Deus Filho se representam sentados na auréola, os
+seus pés assentam em geral sobre um arco-iris, e sentados sobre um arco
+similhante.
+
+Estes arco-iris são muitas vezes substituidos, o primeiro por um
+escabello rendilhado, e o segundo por uma especie de poltrona. Sendo a
+auréola mais recente do que o nimbo, caíu comtudo em desuso
+primeiramente do que este ultimo.
+
+_Representações da Santissima Trindade_. Durante o periodo roman eram as
+pessoas da Santissima Trindade representadas de varios modos.
+
+1.^o--Para inculcar aos fieis o dogma da egualdade dos homens,
+representavam-se estes com fórmas inteiramente similhantes. Ás vezes
+tambem o Deus Filho se representa nos pés ou nas mãos, e o Espirito
+Santo é representado com a fórma d'uma pomba. As pessoas Divinas quando
+se representam com fórmas humanas, têem sempre nús os pés.
+
+2.^o--Tambem empregavam a representação do baptismo do Senhor nas aguas
+do Jordão, para figurar as pessoas da Santissima Trindade.
+
+3.^o--Nos ultimos annos do periodo roman representava-se a Santissima
+Trindade da maneira seguinte: Deus Pae, sentado n'um throno ou sobre um
+arco-iris, tendo nas mãos uma cruz na qual está crucificado o Salvador;
+o Espirito Santo, representado por uma pomba, apparece entre a bôca do
+Pae e a do Filho, para mostrar que o procede tanto d'um como do outro.
+Este typo foi conservado durante toda a idade e mesmo até aos XVI e XVII
+seculos.
+
+Comtudo, a partir do XV seculo, deixou de se symbolisar o dogma da
+procissão do Espirito Santo, e collocava-se a pomba ou no braço da cruz
+ou no hombro do Pae.
+
+_Representações das tres Pessoas Divinas_. _Deus Pae_. Até ao seculo XI,
+nunca se attribuiram a Deus Pae fórmas humanas. A sua presença era
+apenas indicada por uma mão saindo das nuvens. Esta mão symbolica,
+primeiramente sem nimbo, e mais tarde com o nimbo simples ou crucifero,
+encontra-se nos sarcophagos e nos antigos cofres. Foi pois no XI seculo
+que Deus Pae começou a ser representado sob fórmas humanas.
+
+_Deus Filho_. Quando tratámos da iconographia das catacumbas, dissémos
+que, durante os tres primeiros seculos, só se representava o Salvador,
+debaixo das fórmas symbolicas ou das scenas historicas. Já no IV seculo
+se encontram imagens isoladas do Salvador. Até ao X seculo, Christo
+representa-se muitas vezes com as feições d'um mancebo de quinze a vinte
+annos, sem barba, de figura agradavel e resplandecente d'uma mocidade
+Divina; só excepcionalmente Christo tem barba e parece não ter mais de
+vinte e cinco annos. No XI e XII seculos os artistas dão-lhe uma
+expressão mais severa; ordinariamente apresenta barba parecendo ter
+trinta a trinta e cinco annos.
+
+_Deus Espirito Santo_. Até meiado do X seculo foi sempre representado
+com a fórma d'uma pomba; mas no XI e XII seculos começou tambem a ser
+figurado com a fórma humana.
+
+
+*A cruz e a crucificação*
+
+
+_Considerações geraes_. A historia da representação da crucificação póde
+resumir-se dizendo que este assumpto não se encontra sobre os monumentos
+christãos e outros objectos do culto anteriores á conversão de
+Constantino; a cruz apresenta uma fórma dissimulada.
+
+No IV seculo, a cruz fez a sua apparição na iconographia christã. Desde
+a conversão de Constantino foi então que appareceu sobre um grande
+numero de monumentos; mas até ao VI seculo ainda não tinha a imagem de
+Christo: era no emtanto adornada com pedrarias e ás vezes circumdada por
+uma auréola.
+
+No VI seculo começam então alguns artistas christãos, ainda que
+timidamente, a representar o Salvador sobre a cruz. Primeiramente
+servem-se do Cordeiro symbolico, que elles representavam de differentes
+maneiras com o signal da redempção. Tambem se vêem cruzes tendo ao
+centro, e ás vezes nas extremidades dos braços, uns medalhões com o
+Divino Cordeiro ou com a imagem do Salvador Triumphante.
+
+Desde o VI até ao XI seculo representa-se o Salvador sobre a cruz com o
+fim manifesto de recordar o Seu Triumpho sem nunca indicar a minima idéa
+de soffrimento ou d'opprobrio.
+
+Do XI ao XII seculo representa-se Christo crucificado mas Glorioso e
+Triumphante, apesar de ser manifesta a idéa de soffrimento.
+
+Do XIII ao XV seculo, os artistas christãos, tendo mais ou menos em
+vista o symbolismo das épocas precedentes, esforçam-se por patentear
+realmente os soffrimentos do Divino Crucificado.
+
+Durante o periodo do renascimento, o culto da fórma e da realidade
+constitue por assim dizer a unica preoccupação do artista, que, dominado
+pela idéa de expressar uma dôr vulgar ou de representar um corpo morto
+ou moribundo, perde todo o sentimento de nobre symbolismo.
+
+A historia das representações da cruz e do crucifixo comprehende, pois,
+duas épocas distinctas: a primeira, que durou desde o IV ao XII seculo
+inclusive, tem por caracter distinctivo a representação glorificada do
+instrumento da Paixão e da Victima, sem signal de que se tivesse
+prestado voluntariamente; a segunda, que começa no XIII seculo e termina
+no XIX, é caracterisada pela expressão dos soffrimentos do Divino
+Salvador.
+
+A época do soffrimento corresponde ao periodo ogival e ao do
+renascimento.
+
+No IV seculo a cruz é frequentemente encimada por um monogramma
+inscripto em uma corôa. Quando não tem o referido monogramma, (o que se
+dá principalmente desde o V seculo) ou tem os braços eguaes e mais
+largos nos extremos, ou é ornada de perolas em renques, ou ornada de
+flôres e folhagens, ou rodeiada de auréola. Ha todo o cuidado de
+apresentar na cruz qualquer idéa d'opprobrio ou d'ignominia; a cruz não
+é o instrumento de supplicio, mas sim, a cruz glorificada, o instrumento
+da Redempção do genero humano.
+
+Estas diversas fórmas de cruz continuaram a usar-se até muito antes do
+periodo Roman.
+
+Datam do ultimo quartel do VI seculo as primeiras imagens conhecidas do
+Salvador crucificado. Porém, entre a cruz simples e o Cruxifixo
+encontra-se uma série de monumentos intermediarios, offerecendo a cruz
+associada ao Cordeiro symbolico.
+
+Estas cruzes intermediarias, partindo da cruz sem figuras animadas, ao
+crucifixo propriamente dito, ainda se encontram em alguns monumentos do
+VII seculo.
+
+Os mais antigos monumentos conhecidos que representam Christo pregado á
+cruz, pertencem ao ultimo quartel do seculo VI. Taes são a miniatura do
+celebre manuscripto syriaco de Florença, do anno 586, e muitos objectos
+enviados por S. Gregorio o Grande, a Theodolinda, rainha dos Longobardos
+e conservados hoje no thesouro de Monza. Alguns d'estes ultimos
+mostram-nos claramente Christo na cruz, ao passo que outros, taes como
+os frascos de chumbo, que continham liquidos recolhidos dos tumulos dos
+martyres, não fazem mais do que relacionar a imagem de Christo com a
+cruz, d'uma maneira muito mais sensivel do que a cruz do imperador
+Justino e outros objectos similhantes. Tres d'estes curiosos frascos
+têem ao meio da face principal, uma simples cruz folheada, acima da qual
+se acha o busto do Salvador entre as personificações do Sol e da Lua;
+aos lados da cruz vêem-se dois adoradores, os dois ladrões, a Santissima
+Virgem e S. João; inferiormente está figurado o Anjo e as Santas
+mulheres ao pé do tumulo de Christo.
+
+No reverso acha-se a Ascensão do Senhor, nos dois lados do gargalo uma
+cruz grega de braços eguaes debaixo d'um arco de triumpho e inscripto
+n'uma corôa folheada. Sobre o quarto frasco figuram scenas symbolicas
+analogas: está Nosso Senhor em pé entre os dois ladrões, tendo os braços
+estendidos em cruz. O instrumento do supplicio, que não se vê na face
+principal, é comtudo representado no reverso do frasco, debaixo d'um
+arco de triumpho, e cercado pelas cabeças dos Apostolos inscriptas em
+medalhões circulares e formando uma especie de corôa. Conclue-se, pois,
+que o artista christão foi obrigado primeiramente a não representar a
+menor idéa de opprobrio e de soffrimento; para isto elle transformou a
+cruz tornando-a de braços eguaes, ornando-a de folhagens e
+metamorphoseando-a em arvore da vida: quiz affirmar o triumpho alcançado
+com a morte, por Aquelle que morreu sobre a cruz, recordando a
+Resurreição e Ascensão do Salvador.
+
+Os crucifixos primitivos não têem quasi nunca Christo esculpido em alto
+relevo.
+
+Christo está vestido com um _colobium_ ou tunica, ordinariamente sem
+mangas, que chega até aos pés. O uso d'esta longa veste serviu
+exclusivamente durante o VII seculo e generalisou-se no IX seculo.
+N'esta época foi substituida por uma tunica larga cobrindo os rins do
+Salvador.
+
+Christo tem sempre a cabeça elevada ou ligeiramente inclinada para a
+direita e os braços estendidos e perfeitamente horisontaes. Os pés estão
+pregados separadamente á cruz por dois cravos e muitas vezes apoiados
+sobre um escabello, ou suppedaneum. Algumas vezes parece serem
+supprimidos os cravos com a intenção manifesta de significar que o
+Christo se offereceu voluntaria e espontaneamente sobre a cruz para a
+redempção dos homens.
+
+Desde o VI seculo até ao VIII, a scena da crucifixão é muitas vezes
+acompanhada de personagens e outros accessorios fundados na verdade
+historica, mas que se representam, bem como a imagem de Christo, de uma
+maneira symbolica. Assim vemos a Santissima Virgem e S. João, o phariseu
+que empunha a lança e o que segura a esponja, o Sol e a Lua, a
+resurreição do Salvador, o bom e o mau ladrão. Todos estes accessorios,
+com excepção do bom e do mau ladrão, se encontram ainda representados
+nos crucifixos do seculo VIII.
+
+O sacrificio da crucifixão e os crucifixos do seculo IX até ao XII,
+apresentam Christo na mesma attitude que nos seculos precedentes. Os pés
+conservam-se ainda com dois cravos, mas afastados um do outro e assentes
+geralmente em um--_suppedaneum_.
+
+Foi no XII seculo que appareceram os primeiros crucifixos apresentando
+Christo com os pés _sobre-postos_.
+
+Christo poucas vezes se encontra vestido com o _colobium_; apenas em
+geral tem á volta dos rins uma toalha de linho larga e comprida, que lhe
+cobre o corpo desde os quadris até aos joelhos. Nos seculos XI e XII,
+esta toalha tem muitas vezes a configuração d'uma pequena saia que se
+chama--_perizonium_.
+
+A Cruz tem geralmente quatro ramos.
+
+Algumas vezes teem um rotulo, mas sem inscripção alguma; outras, nem
+mesmo teem rotulo, que em geral consiste n'uma pequena travessa de
+madeira rectangular. As inscripções costumam ser variadissimas.
+
+Antes do seculo IX, os personagens e outros accessorios que acompanham a
+Cruz, são historicos, isto é, a sua presença é justificada pela narração
+dos proprios Evangelistas. No IX seculo começaram então a apparecer os
+crucifixos com figuras allegoricas, taes como a Egreja, a Synagoga e as
+personificações da Terra e do Oceano. Vamos, pois, tratar
+successivamente dos principaes typos do cyclo d'estas representações,
+começando pelos accessorios historicos, visto que elles se empregam
+desde o VI seculo.
+
+
+*Personagens e accessorios historicos*
+
+
+_A Santissima Virgem e S. João_.--Santa Maria está á direita e por
+debaixo da Cruz, e o Apostolo em posição analoga, mas á esquerda do
+Salvador. Só muito raramente se encontram ambos do lado direito, como
+succede na miniatura de Florença.
+
+Ordinariamente estão como que erguendo os braços ao Salvador ou occultam
+o rosto em signal de dôr com a mão núa ou escondida na ponta do manto. A
+Santissima Virgem tem a cabeça envolvida em um veu e os pés calçados, em
+quanto que S. João, de cabeça descoberta e com os pés descalços, tem nas
+mãos um livro.
+
+_O phariseu que empunha a lança e segura a esponja_.--Ha uma piedosa
+tradição, desde a idade media, em que se diz que o guarda que feriu o
+Salvador com uma lançada, era um pagão chamado _Longino_, que mais tarde
+se fizera christão, sendo depois venerado como Santo pela Egreja.
+
+Quasi todos os escriptores ecclesiasticos consideram Longino
+representado ao lado da Cruz com o typo dos gentios, em quanto que o
+phariseu que apresentou a Jesu-Christo a esponja embebida em vinagre
+parece ser um judeu.
+
+_O Sol e a Lua_.--No seculo VI, tambem estes astros começaram a ser
+representados no sacrificio da crucifixão, vendo-se o Sol á direita e a
+Lua á esquerda do Senhor.
+
+A presença do Sol e da Lua n'estes primitivos monumentos, parece ter por
+fim recordar o obscurecimento do Sol e as trevas que subitamente se
+deram em seguida á morte do Salvador.
+
+No seculo IX, a significação, ainda limitada e puramente historica
+d'este assumpto, foi amplificada com outra mais allegorica, desde esta
+epocha. O Sol e a Lua não alludem sómente á obscuridade que envolveu a
+terra por occasião da morte de Christo, simulam tambem o firmamento
+assistindo e tomando parte na morte e no triumpho do seu Creador.
+
+N'este mesmo seculo os dois astros são quasi sempre personificados e
+representados por um homem e uma mulher. A personificação do Sol tem
+regularmente a cabeça cingida de raios luminosos, a da Lua é em geral
+encimada por um crescente. Uma e outra teem ás vezes um facho.
+
+_As santas mulheres chegando ao tumulo do Salvador_.--Desde o VI até ao
+XII seculo, apparece muitas vezes, por debaixo do crucifixo, a
+approximação, ao tumulo, das tres santas mulheres, Maria Magdalena,
+Maria, mãe de S. Thiago, e Salomé. Ellas seguram jarros, thuribulos ou
+outros vasos, e estão diante do Anjo, sentadas, não dentro do sepulchro,
+como diz o Evangelho, mas diante d'elle. Muitas vezes figuram-se tambem
+soldados desfallecidos ou adormecidos.
+
+A reproducção d'esta scena na parte inferior da Cruz era para pôr em
+parallelo a humilhação e a glorificação do Salvador, a sua morte sobre a
+Cruz e a sua resurreição gloriosa.
+
+_A resurreição dos mortos e a sua sahida do tumulo_.--Durante o seculo
+IX figurava-se muitas vezes ao pé da Cruz a Resurreição dos mortos que
+se deu por occasião da morte de Jesus Christo, segundo narra o
+Evangelho.
+
+Os tumulos d'onde sahiram os resuscitados têem a forma de pequenos
+edificios, geralmente armados com uma capella, mais raramente d'um
+frontão triangular ou d'um telhado de duas aguas. Nada havia que mais se
+prestasse a proclamar a victoria alçada contra a morte de Nosso Senhor
+expirando sobre a Cruz, como a Resurreição dos mortos.
+
+
+*Personagens e accessorios allegoricos*
+
+
+_A Egreja e a Synagoga_. Desde o seculo IX até ao XII encontram-se,
+sobre a maior parte das representações do Sacrificio da Cruz,
+personificações da Egreja e da Synagoga. Tinham ellas por fim recordar
+aos Christãos a reproducção do povo d'Israel e a vocação dos infieis á
+Fé da Egreja Christã. A Egreja, quasi sempre á direita da Cruz, é
+representada por uma mulher com uma bandeira e aparando n'um calix o
+sangue que corre da chaga de Nosso Senhor feita no lado direito. A
+Synagoga é representada por uma mulher com uma bandeira e tambem ás
+vezes uma palma. Está collocada á esquerda do Salvador com as costas
+voltadas para o Senhor, e algumas vezes parece afastar-se lançando
+olhares d'insulto e de cólera.
+
+_O Oceano e a Terra_.--Os artistas romans collocavam frequentemente
+sobre o marfim e sobre as miniaturas dos manuscriptos, no pé da Cruz ou
+inferiormente a toda a composição, as personificações do Oceano e da
+Terra tiradas da mythologia.
+
+O Oceano, geralmente collocado á direita do Salvador, é representado por
+um homem barbado, sentado sobre um monstro marinho, ou despejando uma
+urna; tem na mão um remo, um peixe, uma cornucopia, ou o tridente de
+Neptuno, e na cabeça chavelhos em fórma de serpentes, e tambem, ás
+vezes, trazendo azas. Defronte do Oceano acha-se a Terra com a fórma
+d'uma mulher, semi-nua, segurando, e até amamentando creanças ou
+serpentes, muito proximo d'ella; ás vezes mesmo, n'uma das mãos, vê-se
+uma cornucopia.
+
+As personificações do Oceano e da Terra collocavam-se perto da Cruz,
+primitivamente, como acima dissemos, para exprimir a dôr que a Natureza
+soffreu com a morte do seu Creador; e mais tarde, para mostrar que todo
+o Universo partilhou da Redempção operada pela morte do Salvador.
+
+_A mão Divina e a pomba_. Muitas vezes vê-se na extremidade superior da
+Cruz uma mão, com ou sem nimbo crucifero, parecendo sair das nuvens e
+segurando uma corôa. Esta mão é o symbolo de Deus Pae, do mesmo modo que
+a pomba, que se vê sobre algumas Cruzes, symbolisa o Espirito Santo.
+
+_Os Anjos_. Superiormente á travessa horisontal da Cruz e proximo do Sol
+e da Lua vêem-se ás vezes dois, tres ou quatro anjos, em attitude de
+adoração. Algumas vezes suspendem sobre a cabeça do Salvador uma corôa.
+Nos monumentos mais remotos (os do IX seculo), onde mais frequentemente
+se vêem os anjos, são estes em numero de dois e designados pelos nomes
+de Miguel e Gabriel: representam a Natureza angelica assistindo á morte
+do Salvador.
+
+_Os Evangelistas_.--Anteriormente ao IX seculo, nunca se representavam
+os Evangelistas do lado principal aos crucifixos, mas sim nas quatro
+extremidades do reverso, tendo no centro a imagem da Santissima Virgem.
+A razão d'isto é porque n'esta epocha não se admittiam no sacrificio da
+Cruz senão accessorios puramente historicos.
+
+No VIII seculo, quando na iconographia da Cruz se introduziram as
+allegorias e os symbolos, tambem appareceram os Evangelistas.
+
+Encontram-se ora por cima dos braços horisontaes da Cruz, com os anjos e
+os astros, ora nos quatro angulos da cercadura, que forma a moldura da
+scena principal. Tambem ás vezes se encontram, tanto no IX como no XII
+seculo, no lado principal dos crucifixos, nas extremidades dos ramos.
+
+_O Calix_. Encontram-se crucifixos em que o _suppedaneum_ é substituido
+por um calix.
+
+É muito provavel que este calix não seja mais que o _Santo Graal_,[3]
+tão celebre na idade mèdia. O _Santo Graal_ diz-se que servira á Ceia;
+foi n'elle que Jesus-Christo transformou o vinho pelo seu proprio
+sangue.
+
+_Adão sahindo do tumulo_. Esta scena representa-se muitas vezes proximo
+da Cruz, para significar que a resurreição da carne é uma consequencia
+da morte de Christo.
+
+O sacrificio da Cruz, desde o IX até ao XII seculo, com os seus
+accessorios allegoricos e historicos, deve interpretar-se: a Natureza
+Angelica, Celeste e Terrestre assistindo ao sublime sacrificio do
+Homem-Deus sobre a Cruz, onde affronta os salutares affectos; a Synagoga
+reprovada, a Egreja formada, a cabeça da serpente infernal esmagada, o
+genero humano rehabilitado e recebendo o testemunho da Resurreição da
+Carne.
+
+_Os crucifixos dos seculos XI e XII_. Existem muitos d'estes crucifixos;
+apresentam os seguintes caracteres:
+
+A imagem de Christo é, em geral, de cobre vermelho; tem, quasi sempre,
+os olhos de vidro azul.
+
+_O perisonium_, ou a toalha que cobre o corpo de Christo desde os
+quadris até aos joelhos, toma ordinariamente a forma d'um saiote cujas
+orlas são ornadas de perolas. Os Christos dos seculos XI e XII, vestidos
+de tunica comprida com mangas ou com o _perisonium_ em forma de saiote,
+que lhe chega até aos pés, são extremamente raros.
+
+_Nos crucifixos do XI seculo_, Christo está muitas vezes coroado com uma
+especie de gorra ou corôa real. No XII seculo, já a gorra e a corôa se
+tornam raras desapparecendo completamente no fim d'elle.
+
+_Os braços das cruzes_ que teem imagens de Christo, são geralmente
+ornados com esmaltes e symbolos, tanto no reverso como na frente
+principal.
+
+_Cruzes da Paixão e Cruzes da Resurreição_. A Cruz da Paixão é formada
+por uma haste e uma ou duas travessas e representa ou imita as
+proporções das differentes partes da Cruz, instrumento de supplicio.
+
+_A Cruz da Resurreição_ é apenas um symbolo da Cruz Real ou da Paixão; é
+uma pequena cruz na extremidade d'uma haste como a que segura o Divino
+Cordeiro.
+
+_A Santissima Virgem_. Durante os doze primeiros seculos da nossa era
+representa-se a Virgem umas vezes sósinha e outras acompanhada do Divino
+Filho.
+
+_A Virgem sem o Menino Jesus_ tem ordinariamente os braços estendidos e
+erguidos parecendo orar e perto da cabeça está inscripta a sigla MPOY,
+isto é: Mãe de Deus. Este modo de representação, muito usado desde o IV
+até ao VII seculo, deixou comtudo de ser empregado nos seculos
+seguintes.
+
+_A Virgem com o Menino Jesus_. Ha duas maneiras de representar a Virgem
+com o Menino. Quando a scena é imaginada para prestar homenagem a Nossa
+Senhora, diz-se que ella é _poetica_.
+
+Quando os reis magos, por exemplo, vêem trazer os seus presentes a Jesus
+no collo da Santissima Mãe, a scena é puramente historica.
+
+Durante o periodo Latino e a primeira parte do periodo Roman, o grupo
+historico é o mais frequente. Vemol-o em differentes scenas da vida do
+Senhor, principalmente na adoração dos reis Magos.
+
+O grupo poetico póde reduzir-se a dois typos distinctos. O primeiro que
+chamaremos _grego_ ou _bysantino_, consiste em representar a imagem da
+Virgem com os braços erguidos como que orando, tendo diante de si o
+Menino Jesus, lançando a benção, ao modo Grego, com as duas mãos, ou só
+com a direita. Este typo já se encontra nas catacumbas.
+
+Os Bysantinos empregaram-se durante toda a idade media, e os Gregos
+ainda hoje se empregam.
+
+_O Guia da pintura_ (manual iconographico, adoptado pelos antigos
+pintores e ainda hoje seguido pelos Gregos), recommenda que se
+represente Nossa Senhora com as mãos erguidas e Christo lançando a
+benção para ambos os lados, com o evangelho sobre o peito.
+
+No outro typo do grupo _poetico_, a Santissima Virgem é representada
+umas vezes de pé com o Menino Jesus nos braços, outras sentada tendo-o
+sobre os joelhos.
+
+Dá-se a este typo o nome de Occidental, não porque elle fôsse
+desconhecido pelos Gregos, pois que o usavam conjuntamente com o typo
+_bysantino_, mas por que foi este o unico usado no Occidente durante
+toda a idade média. Foi introduzido ou pelo menos generalisado
+insensivelmente na iconographia christã depois da condemnação de
+Nestorio pelo Concilio de Épheso, celebrado em 431. Este heresiarcha
+negava que Nossa Senhora fôsse mãe de Deus.
+
+Para affirmar o dogma da maternidade divina de Nossa Senhora,
+representavam-n'a com o Menino Jesus nos braços, e muitas vezes
+acompanhada da inscripção [Grego: Ê AGIA OEOTOKO],isto é, _Santa
+Deipara_, ou a _Santa Mãe de Deus_.
+
+Em geral Nossa Senhora está sentada com o Menino Jesus sobre os joelhos,
+lançando a benção, pelo menos, com uma das mãos.
+
+Durante todo o periodo Roman estas representações de Nossa Senhora e do
+seu Divino Filho distinguem-se por uma magestade e nobreza de sentimento
+como quasi se não encontra nos seculos seguintes.
+
+A Santissima Virgem tem geralmente diante de si o Menino Jesus
+completamente vestido, não estando entretido com sua Divina Mãe, mas sim
+abençoando aquelles que lhe vêem prestar homenagem. Tem nas mãos uma
+esphera ou mais geralmente um livro, ou um rolo, _volumen_, symbolo da
+doutrina da nova Lei dada ao mundo.
+
+Na Grecia e no Oriente, os pintores e os esculptores cobrem
+ordinariamente a cabeça da Santissima Virgem com um veu; os artistas
+occidentaes tambem conservaram esta tradição durante algum tempo, mas, a
+começar do seculo IX, dão a Nossa Senhora uma corôa real e algumas vezes
+uma especie de gorra.
+
+_Os Anjos_. Os anjos têem figurado nos monumentos christãos desde o IV
+seculo. Os primeiros não tinham azas. Só do V seculo em diante é que
+começaram a tel-as bem como o nimbo. São representados com uma longa
+tunica, orlada por duas faixas em fórma de _clavi_, e têem algumas vezes
+na mão um longo sceptro ou _bastão_, terminado por um florão ou por uma
+cruz. Os archanjos Miguel, Gabriel e Raphael, tambem muitas vezes são
+representados.
+
+Os Anjos têem sempre os pés descalços. Symbolisava-se d'esta maneira a
+sua qualidade de mensageiros celestes.
+
+_Os Evangelistas e seus symbolos_. O uso de representar os Evangelistas
+sob a fórma humana ou por symbolos, data pelo menos do IV seculo.
+
+Sob a fórma humana encontrâmol-os primeiramente em alguns mosaicos
+antiquissimos e um pouco mais tarde tambem nas miniaturas dos
+evangeliarios. Estão regularmente sentados debaixo d'um portico, tendo
+na sua frente um pulpito chamado _scriptional_, sobre o qual está
+desenrolada uma folha de pergaminho, com o titulo ou as primeiras
+palavras do seu Evangelho. Apparecem sempre descalços e ás vezes
+acompanhados do animal que lhes serve de symbolo.
+
+Os symbolos mais usados dos evangelistas são os seguintes:
+
+_Os quatro rios do Paraizo_. O modo de symbolisar os evangelistas pelos
+quatro rios: Phisonte, Géhonte, Tigre e Euphrates, tem origem muito
+remota. Os mais antigos mosaicos e as proprias catacumbas nos offerecem
+já exemplos d'esta representação. O Salvador com a fórma humana ou com a
+do Divino Cordeiro, apparece sobre um outeiro d'onde brotam quatro rios,
+emblemas dos Evangelhos, os quaes, produzidos pela fonte da Vida Eterna,
+trouxeram ao Universo a fertil doutrina de Christo.
+
+_Os animaes symbolicos_. Os Evangelistas são muitas vezes symbolisados
+por quatro figuras com azas: um homem, uma aguia, um leão e um bezerro.
+Estes symbolos devem a sua origem ás visões do propheta Ezequiel e do
+Apostolo S. João. Eu vi (dizia este ultimo), em torno do throno do
+Cordeiro quatro animaes. O primeiro com o aspecto de um leão; o segundo,
+de um bezerro; o terceiro com rôsto humano e o ultimo semelhando-se a
+uma aguia em pleno vôo.
+
+Os santos Padres consideraram estas visões como os seguintes symbolos: o
+homem o de S. Matheus; a aguia o de S. João, o leão o de S. Marcos e o
+bezerro o de S. Lucas.
+
+Encontram-se os animaes symbolicos mais a miudo: 1.^o, sobre as capas
+dos evangeliarios; 2.^o, nas quatro extremidades das cruzes d'Altar;
+3.^o, nos quatro angulos da representação do Christo em sua Gloria, como
+elle existe sobre as frentes dos altares, e nos tympanos dos portaes
+d'egreja do XI e XII seculos.
+
+Os symbolos dos evangelistas reduzem-se a quatro sobre um unico objecto
+ou empregados conjunctamente n'uma pintura, ou esculptura; são
+regularmente acompanhados de Christo figurado com a fórma humana ou por
+um symbolo.
+
+É, finalmente, da doutrina de Christo que derivam, como d'uma fonte
+commum, os quatro Evangelhos.
+
+Quando se dá o caso dos animaes symbolicos ornarem os quatro angulos
+d'uma superficie quadrada, quadrangular ou redonda, taes como as capas
+dos livros, os tympanos dos portaes, as frentes d'altar ou a _flabella_,
+têem certos logares determinados pelo uso: o homem com azas (ao qual
+muitos auctores dão abusivamente o nome d'anjo) occupa o angulo superior
+direito (á esquerda do espectador); a aguia, o angulo superior esquerdo;
+o leão, o angulo inferior direito, e o bezerro, o angulo inferior da
+esquerda.
+
+Quando collocados nas extremidades dos quatro braços da Cruz, a aguia
+acha-se no vertice, o homem na extremidade inferior, o leão no braço
+direito e o bezerro no braço esquerdo da Cruz.
+
+_Os Apostolos_. S. Pedro e S. Paulo eram os unicos Apostolos que durante
+o periodo Roman se representavam com um typo uniforme.
+
+Desde os tempos mais remotos, que S. Pedro era representado trazendo uma
+Cruz, ou as chaves, e tem cabello na cabeça, emquanto que S. Paulo é
+calvo. Até ao XIII seculo não se encontra nos outros Apostolos nenhum
+attributo caracteristico. Representam-se todos do mesmo modo, com um
+rôlo ou livro na mão.
+
+Os Apostolos e mesmo Judas, têem os pés descalços.
+
+Os artistas da idade media symbolisavam com este signal iconographico a
+missão sublime, confiada aos Apostolos, de derramar por toda a terra a
+doutrina Evangelica.
+
+_Assumptos religiosos representados sobre os monumentos dos seculos XI e
+XII_. Estes assumptos tirados quasi todos da Biblia, não eram muito
+variados; tinham em geral um caracter uniforme e reconheciam-se bem ao
+primeiro golpe de vista. Eis pois os que mais frequentemente eram
+reproduzidos:
+
+1.^o, a tentação dos nossos primeiros paes; 2.^o, o sacrificio
+d'Abrahão; 3.^o, a Annunciação; 4.^o, a visitação da Santissima Virgem;
+5.^o, o Nascimento de Nosso Senhor, que já se representava sobre os
+sarcophagos e nas pinturas a fresco das catacumbas do seculo IV; 6.^o, a
+Adoração dos reis magos; 7.^o, a degolação dos innocentes; 8.^o, a
+fugida para o Egypto; 9.^o, a exposição do Menino Jesus no Templo;
+10.^o, o baptismo de Nosso Senhor; 11.^o, a sua entrada triumphal em
+Jerusalem; 12.^o, a transfiguração; 13.^o, a ultima ceia; 14.^o, a
+crucifixão; 15.^o, a descida da Cruz; 16.^o, a Resurreicão; 17.^o, as
+Santas mulheres no tumulo; 18.^o, a Ascensão de Nosso Senhor.
+
+_Representações symbolicas das virtudes e dos vicios_. Os artistas
+christãos da idade media estimavam muito symbolisar tanto as virtudes
+como os vicios. Durante o periodo Roman as virtudes representam-se sob a
+figura de mulheres tendo corôas, algumas vezes tambem azas, e na cabeça
+uma especie de gorra. O seu nome acha-se inscripto do seu lado, ou sobre
+qualquer objecto que conservam nas mãos; ás vezes teem mesmo um emblema.
+As quatro Virtudes Cardeaes;--prudencia, justiça, força e
+temperança--encontram-se frequentemente sobre os monumentos Romans de
+toda a especie.
+
+Os vicios são figurados, ou por monstros phantasticos, ou por homens e
+mulheres entregues aos excessos de suas paixões; encontram-se muitas
+vezes sobre o mesmo monumento em concorrencia com as virtudes que lhes
+são oppostas.
+
+_Animaes phantasticos_. Os monumentos do periodo Roman offerecem-nos a
+representação de numerosos animaes reaes e phantasticos.
+
+Indicaremos alguns d'estes ultimos.
+
+1.^o O _basilisco_ é um animal com a fórma d'um gallo, mas com a cauda
+semelhante á d'uma serpente. Reputa-se provir d'um ovo de gallinha
+chocado por um reptil. O basilisco symbolisava o demonio.
+
+2.^o A _aspide_ é uma especie de serpente que a lenda diz estar de
+guarda á arvore do balsamo. Se o homem quizer approximar-se d'esta
+arvore para lhe colher o fructo, torna-se necessario que elle primeiro
+adormeça a mesma serpente pelo encanto; mas esta, para se subtrahir ao
+encantamento, tapa uma das orelhas com a cauda e a outra com terra,
+espojando-se na lama. A _aspide_ representa os que voluntariamente
+deixam de attender aos mandamentos do Senhor.
+
+3.^o O _griffo_ é um quadrupede com azas e cabeça d'aguia. Symbolisa o
+demonio. Vê-se muitas vezes sobre os monumentos Romans dos seculos XI e
+XII.
+
+4.^o A _sereia_ é um monstro com o corpo metade mulher e metade peixe. A
+parte superior do corpo, que comprehende a cabeça, os braços e o corpo
+até á cintura, tem a fórma humana; e o resto inferior é a cauda d'um
+monstro marinho. Entre os Gregos e os Romanos as sereias terminavam em
+passaro e não em peixe; eram tres e habitavam uns rochedos escarpados
+entre a ilha de Capri e as costas d'Italia; os seus cantos tinham o
+poder de fazer esquecer aos navegadores o paiz d'onde vinham. Durante a
+idade media a sereia foi o symbolo da seducção causada pelos attractivos
+das pessoas.
+
+Tambem se encontram sobre muitos monumentos os doze signos do zodiaco,
+muitas vezes acompanhados com os trabalhos do anno que lhes
+correspondem. Eram frequentemente empregados para ornar as archivoltas
+dos portaes principaes das egrejas.
+
+_Doadores e doadoras_. Quando os doadores e as doadoras d'um monumento
+queriam conservar ás gerações futuras a lembrança do seu beneficio,
+faziam-se representar em pequenissimas proporções, humildemente
+prostrados aos pés de Jesus Christo, da Santissima Virgem ou d'outros
+Santos.
+
+Algumas vezes tambem os doadores se figuravam n'uma parte secundaria do
+monumento, apresentando a Deus ou tendo simplesmente nas mãos um modelo
+da egreja, do altar ou do objecto que haviam offerecido.
+
+
+
+
+CAPITULO V
+
+/#
+ *Summario.*--Noções preliminares--Diversas fórmas de ogiva--Origem
+ da ogiva e do estylo ogival--Periodo de transição do estylo Roman
+ ao estylo Ogival--Caracteres d'Architectura Ogival--Observações
+ geraes--Plano e disposição das egrejas--Systema de
+ construcção--Materiaes e apparelhos de construcção--Esculptura
+ monumental--Fachadas--Adros--Portaes--Pinturas--Janellas--Rosaes--Caixilhos
+ de janellas e vidros--Vidraças pintadas--Pilares, columnas e
+ columnasinhas--Bases de columnas--Capiteis--Caxorros e
+ misulas--Arcadas e
+ arcaduras--Triforium--Cornijas--Platibandas--Abobadas--Arcos
+ butantes--Contrafortes--Gargulhas--Nichos e
+ Docel--Madeiramentos--Telhados--Torres e
+ campanarios--Pavimentos--Labyrintho--Pinturas das paredes--Cruzes
+ de consagração--Altares--Tabernaculos--Cadeiras de côro--Separação
+ do Altar-mór--Pulpito e confissonarios--Capellas funereas, tumulos,
+ campas, Cruzes de Cemiterio--Pias Baptismaes--Pias de agua
+ benta--Engradamentos--Orgãos--Alfaias religiosas--Calices e
+ patenas--Custodias--Thuribulos--Relicarios--Corôas para
+ luzes--Cruzes de altar e de
+ procissão--Castiçaes--Estantes--Instrumentos de paz--Moldes para
+ Hostias--Baculos--Mitras--Vestimentas sacerdotaes--Abbadias e
+ Mosteiros--Egrejas--Claustros e Refeitorios--Sala de
+ Capitulo--Dormitorios--Casa para
+ hospedes--Celleiros--Prisão--Cartuxa--Hospitaes--Iconographia--O
+ Nimbo--O Crucificado--Os Apostolos e os Evangelistas--O Dia de
+ Juizo--Sibyllas.
+#/
+
+
+*Periodo Ogival*
+
+
+O estylo ogival, tambem chamado _gothico_, foi usado desde o meiado do
+XII seculo até ao principio do XIV. Chama-se ogival, porque differe de
+todos os outros estylos que o precederam, pelo emprego da _ogiva_. Os
+allemães chamam-lhe ás vezes--_estylo em arco bicudo_. As janellas, as
+arcadas, os vãos das portas, n'uma palavra, todas as aberturas são
+regularmente terminadas por arcos em fórma de ogiva. Devemos acrescentar
+que a denominação de _Gothico_, dada ao estylo da idade media, é uma
+especie de ironia da época da renascença, pois que o estylo ogival nada
+tem de commum com os _Gôdos_. Foi o italiano Vasari quem primeiro
+empregou este epitheto como synonimo de _barbaro_!
+
+_Diversas fórmas de ogiva_. Chama-se _ogiva_ toda a figura formada por
+dois ou mais arcos de circulo, cortando-se segundo um certo angulo.
+
+Expliquemos, segundo a ordem chronologica, as principaes fórmas da
+ogiva:
+
+_Ogiva obtusa_. Chamada tambem Roman, quando termina superiormente em
+bico, muitas vezes quasi se confunde com o arco de volta inteira. Os
+dois arcos que a formam, têem os centros muito proximos; algumas vezes
+mesmo tão perto um do outro que é necessario um attento exame para
+distinguir o bico pouco sensivel que o distingue do arco de volta
+inteira.
+
+A ogiva com esta fórma encontra-se muito frequentemente nos edificios do
+principio do periodo ogival, reapparecendo mais tarde, já no fim do
+mesmo periodo, nos monumentos dos ultimos annos dos seculos XV e XVI.
+
+_Ogiva aguda ou lanceta_. É formada por dois arcos cujos centros estão
+situados além da corda que une as suas duas extremidades inferiores da
+volta do berço.
+
+Tem o nome de _Lanceta_ pela sua semelhança com o instrumento de
+cirurgia d'este nome.
+
+_Ogiva equilatera_. É aquella cujos centros se acham nos dois extremos
+da corda, e na qual podemos por consequencia inscrever um triangulo
+equilatero. Tambem se dá a esta ogiva o nome de ogiva traçada de
+terceiro ponto.
+
+_A ogiva alteada_ é aquella cujos arcos se prolongam inferiormente,
+sendo formados por dois ramos verticaes e parallelos abaixo da linha dos
+centros. Encontra-se muitas vezes no fundo do côro das grandes egrejas.
+
+As tres fórmas de ogiva acima descriptas empregaram-se durante os
+seculos XII e XIII.
+
+_A ogiva de terceiro ponto_ é a que tem os centros dos arcos situados no
+terceiro ponto da linha dos centros ou corda, e está dividida em tres
+partes eguaes. Chama-se effectivamente ogiva de terceiro ponto, por isso
+que se colloca a ponta do compasso no terceiro dos pontos de divisão da
+corda.
+
+É para notar que muitos auctores, aliás muito recommendaveis, não
+mencionam a ogiva formada por arcos cujo centro se encontra a um terço
+da corda; a razão d'isto é porque consideram a ogiva equilateral como de
+terceiro ponto.
+
+Esta ogiva começou a apparecer no fim do XIII seculo e generalisou-se
+bastante nos seculos XIV e XV.
+
+_A ogiva inflexa_ descreve-se por meio de raios partindo de quatro
+pontos e produzindo duas curvas junto á corda e duas outras curvas em
+sentido inverso no vertice.
+
+O extradorso d'esta ogiva bem como o da fórma seguinte é convexo na
+parte inferior e concavo na superior.
+
+_A ogiva em fórma de chaveta_ apenas differe da precedente por ser mais
+achatada.
+
+Estas duas ultimas fórmas usaram-se durante os XV e XVI seculos.
+
+A ogiva inflexa serve muitas vezes de coroamento a um arco de terceiro
+ponto, durante a primeira metade do seculo XV, ou em chaveta, durante a
+segunda metade do seculo XV e principio do XVI.
+
+A ogiva formada meia convexa e meia concava é traçada como a ogiva em
+chaveta, com raios que partem de quatro centros differentes, mas
+inversamente; o extradorso do arco é concavo inferiormente e convexo no
+vertice. Encontra-se esta ogiva, ainda que raras vezes, em alguns
+monumentos dos seculos XV e XVI.
+
+_O arco Tudor_, assim chamado, porque tomou o nome dos reis, que estavam
+no throno de Inglaterra na epoca em que o seu uso se generalisou n'este
+paiz; é formado por quatro arcos cujos centros se acham todos dentro do
+espaço da ogiva. Ha uma fórma mais aguda, que é a que se vê em
+monumentos inglezes de uma grande parte do seculo XV; a outra forma mais
+abatida só foi empregada no fim do XV seculo, e no principio do XVI. Os
+inglezes chamam á primeira, arco de quatro centros, e á segunda arco
+abatido. Ha ainda muitas fórmas intermediarias entre estes dois
+extremos.
+
+_Origem da ogiva e do estylo ogival_. Os archeologos não concordam uns
+com outros sobre a origem da ogiva. A opinião que parece mais provavel,
+attendendo a que os monumentos do Oriente exerceram certa influencia
+sobre a introducção da ogiva na architectura da Europa no meiado do XII
+seculo, considera como um producto do genio Occidental a applicação
+logica e systematica da ogiva nas construcções executadas no Occidente
+desde essa epoca. A ogiva appareceu na Europa poucos annos depois da
+primeira cruzada.
+
+É possivel que esta forma architectonica fosse como outras muitas
+cousas, introduzida no Occidente pelos cavalleiros cruzados, quando
+regressaram das suas longiquas expedições. Empregada a ogiva no
+principio como pura phantasia e como um novo modo de ornamentação, quer
+para formar os vãos das portas e janellas, quer para decorar as arcadas,
+as paredes lisas e por baixo das cornijas, tornou-se mais tarde o ponto
+de partida para o bello estylo da architectura cujo nome se ligou ao
+XIII seculo e cujo desenvolvimento methodico pertence exclusivamente á
+Europa Occidental.
+
+Este estylo rapidamente attingiu um subido gráo de perfeição, devido ás
+numerosas egrejas parochiaes, collegiaes, monasticas e cathedraes, que
+foram fundadas, construidas ou reconstruidas e augmentadas nos seculos
+XIII e XIV.
+
+A palavra _ogiva_ nem sempre teve a mesma accepção, que nos nossos dias
+se lhe attribue. Outr'ora designava as nervuras salientes que se cruzam
+em uma abobada, seja qual for a curvatura em arco de circulo, em ogival,
+d'estas nervuras. Só depois do principio do seculo XIX é que este termo
+foi empregado para designar o arco terminando em ponta, conhecido agora
+pelo nome de ogiva.
+
+_Divisões do periodo ogival_. O periodo de treze seculos e tres
+quarteis, durante o qual reinou na Europa Occidental o estylo ogival,
+póde ser dividido em tres grandes epocas, tendo cada uma caracteres
+distinctos.
+
+As denominações francezas de estylo em _lancetas_, _radiante_, são
+tiradas da fórma das janellas, assim como o nome de _perpendicular_,
+dado em Inglaterra, no terciario do seculo XV.
+
+O estylo ogival não foi introduzido ao mesmo tempo em todos os paizes,
+nem mesmo em todas as partes do mesmo paiz. Nasceu e desenvolveu-se
+rapidamente, no meado do XII seculo, nos arredores de Paris.
+
+O primeiro monumento que appareceu do estylo ogival, foi a fachada
+occidental da abbadia de S. Diniz, perto de Paris, construida entre 1135
+e 1140. Foi introduzido em Inglaterra, Allemanha, Hespanha e mesmo
+n'algumas partes da Italia, por constructores formados em França.
+
+
+*Periodo de transição do estylo Roman para o Ogival*
+
+
+A substituição do estylo ogival pelo roman não se fez em um dia, foram
+precisos muitos annos para a operar. Foi esta epoca de transformação que
+recebeu o nome de _periodo de transição_ entre os dois estylos. A
+duração não foi a mesma em todos os paizes, elle começou mais cedo n'um
+paiz do que n'outro.
+
+Os monumentos do periodo de transição distinguem-se quasi todos pelo
+emprego simultaneo do arco de volta inteira e da ogiva. Esta combinação
+consegue-se por dois modos:
+
+1.^o Por simples _juxtaposição_, quando a ogiva isolada se acha n'um
+mesmo monumento ao lado d'um arco de volta inteira. Nos edificios de
+transição, vêem-se muitas vezes aberturas de forma circular nos
+pavimentos inferiores, que são os mais antigos, emquanto que, nos demais
+andares, se vêem aberturas ogivaes; porém mais raramente se vêem voltas
+inteiras nas divisões elevadas d'um monumento, tendo vãos ogivaes nas
+inferiores.
+
+2.^o Como decoração, quando duas ou muitas ogivas estão comprehendidas
+debaixo de uma só volta inteira. Este modo de reunir a ogiva ao arco
+circular encontra-se principalmente nas janellas e nas arcadas. Tambem
+se vêem ás vezes dois ou muitos vãos de volta inteira emmoldurados n'uma
+ogiva.
+
+3.^o Quando arcos de volta inteira produzem ogivas, entrecruzando-se
+reciprocamente.
+
+Uma outra particularidade que muitas vezes se observa nos edificios de
+transição, é a união da esculptura da ornamentação roman com a ogival.
+
+
+*Caracteres da architectura ogival*
+
+
+O estylo ogival seguiu principios até então desconhecidos e um methodo
+novo e constante nas suas deducções.
+
+A fórma dada a um objecto era conforme a construcção, resultante não
+d'um capricho ou d'uma phantasia, mas d'uma necessidade real.
+
+Segue-se que a ornamentação não se applica indifferentemente e sem razão
+sobre as differentes partes d'um monumento. D'ella nos servimos ou para
+chamar a attenção sobre uma principal parte da construcção, ou sobre um
+ponto importante d'um objecto, ou para dissimular um obstaculo.
+
+Um outro caracter distinctivo do estylo ogival é que os seus monumentos
+estão, como se diz em termos de architectura, _na escala do homem_, isto
+é: que em toda a construcção, grande ou pequena, ha certas partes em
+harmonia com a estatura humana e, por consequencia, tendo pouco mais ou
+menos sempre as mesmas dimensões.
+
+Os caracteres notaveis do estylo ogival, que nós acabamos de assignalar
+em poucas palavras, encontram-se principalmente nos edificios
+construidos na edade media, no Noroeste da Europa.
+
+Durante o periodo Roman os architectos e os operarios habilitavam-se nas
+grandes obras das abbadias.
+
+O clero secular, e até mesmo os particulares ficaram sob a direcção de
+Bispos protectores das artes, taes como Egberto de Tréves (977-993) e S.
+Bernardo de Hildesheim (993-1022) tomaram tambem uma grande parte na
+direcção dos movimentos artisticos.
+
+No XIII seculo as corporações seculares apoderaram-se da pratica da
+architectura, e desde este momento, todos os grandes monumentos, quer
+religiosos, quer profanos, foram construidos por mestres praticos.
+
+_Plano e disposição das egrejas_. Plano no rez-do-chão.--Grande parte
+das egrejas ogivaes apresentam, na planta, a fórma d'uma cruz latina,
+cujo vertice figurado pelo côro, é voltado para o Oriente. Em algumas,
+nota-se sensivelmente um desvio grande no eixo do côro com relação ao da
+nave principal. Este desvio, que em geral só tem logar no Norte e
+raramente no Sul, symbolisa provavelmente a inclinação da cabeça do
+Salvador sobre a Cruz no momento em que deu o ultimo suspiro.
+
+A orientação symbolica das egrejas, introduzida desde os primeiros
+seculos do Christianismo, foi observada escrupulosamente durante toda a
+edade media, e mesmo na epoca da renascença. Foi só nos primeiros annos
+do nosso seculo que a orientação começou a desapparecer.
+
+Um pequeno numero d'egrejas tem o plano quasi rectangular.
+
+No Sul e no Oeste da França muitas grandes egrejas do XIII seculo
+apresentam uma vasta nave unica sem naves lateraes, tendo contrafortes
+interiores para sustentar o esforço da abobada principal, que é d'aresta
+com nervuras.
+
+Encontram-se, principalmente na Allemanha, egrejas com duas naves. Quasi
+todas foram construidas por religiosos d'ordens mendicantes, taes como
+os Dominicanos e os Franciscanos. No seculo XIII tambem os Jacobinos ou
+Dominicanos construiram egrejas de duas naves em Paris e no Sul da
+França.
+
+As grandes egrejas do XIII seculo compõem-se de tres, de cinco e até
+mesmo de sete naves. Na Europa Central e Meridional, na França e na
+Belgica, o côro tem geralmente a fórma polygonal, emquanto que na
+Inglaterra elle é muitas vezes rectangular e terminado por uma parede
+liza. No continente, apenas excepcionalmente se encontra esta disposição
+no côro d'algumas grandes egrejas, a não ser nas extremidades do
+transepte.
+
+No final do periodo Roman, tinha-se começado em França a dispôr capellas
+absidaes no côro das grandes egrejas. Este uso manteve-se durante todo o
+periodo ogival, e as capellas tomaram grandes proporções. As primeiras
+que se chamam absidaes, irradiam em torno da capella-mór; as outras ao
+longo das paredes lateraes: exemplo a Sé de Lisboa.
+
+Notar-se-ha tambem que na cathedral d'Amiens, conforme o uso muito
+geralmente seguido em França e em outros paizes, a capella-mór é muito
+mais vasta do que as outras. Encontram-se egualmente, no côro das
+cathedraes inglezas do XIII seculo, capellas da Virgem, com a simples
+differença que são em geral muito maiores do que as do continente e
+construidas sobre plano rectangular.
+
+Na Belgica, os córos das grandes egrejas do XIII seculo estão ás vezes,
+como succede em França, rodeados de capellas collateraes, dando a volta
+completa ao côro, e limitadas por capellas construidas em parte sobre
+plano rectangular e em parte sobre o polygonal; mas em geral são
+pequenas e o seu numero mais restricto do que nas cathedraes francezas.
+
+Estas capellas constroem-se entre os contrafortes, que as dissimulam.
+
+O plano das egrejas do XIV e do XV seculos conserva pouco mais ou menos
+a mesma disposição que durante o precedente seculo. A unica mudança
+importante, que geralmente se nota, consiste na addição de pequenas
+capellas ao longo das paredes lateraes das naves.
+
+As capellas são estabelecidas sobre um plano rectangular entre os
+contrafortes, parecendo como que formar uma segunda nave collateral ao
+lado da primeira. Na mesma época, juntou-se muitas vezes, aos edificios
+do XIII seculo, ao longo das naves lateraes, capellas construidas fóra
+do primitivo plano.
+
+Estas addições tornavam-se precisas pelo grande numero de capellanias
+fundadas nos seculos XIV e no XV. Pelo mesmo motivo se acrescentaram
+altares entre as pilastras das egrejas.
+
+_Disposição acima do solo, e aspecto exterior das egrejas_. As egrejas
+_d'uma só nave_--apresentam sempre uma secção rectangular. Nos edificios
+abobadados os contrafortes têem muitas vezes uma grande importancia
+apresentando maior saliencia sobre a parede do edificio tanto no
+interior como no exterior. Quando os contrafortes estão construidos no
+interior, estabelecem-se regularmente, entre estes contrafortes,
+capellas fazendo corpo com a egreja: como na de S. Vicente em Lisboa.
+
+As egrejas que têem tres ou um numero impar de naves, podem dividir-se
+em duas classes conforme fôr a nave do meio mais elevada ou da mesma
+altura que as paredes lateraes.
+
+A primeira classe comprehende as egrejas cuja nave do meio é
+notavelmente mais elevada do que as paredes dos lados. As egrejas com
+esta fórma são as unicas conhecidas na Europa Occidental e Meridional,
+isto é, na Belgica, na França, na Inglaterra, na Hespanha, na Italia e
+em Portugal. A sua nave mais alta é coberta com telhado de duas aguas
+inteiramente independentes, emquanto que as paredes dos lados têem
+muitas vezes um terraço ou um telhado de fórma de alpendre e a sua
+inclinação approximando-se sensivelmente da linha horisontal; ás vezes
+tambem são cobertos com repetidos pequenos telhados de duas vertentes,
+ficando perpendiculares á nave e terminados por empenas.
+
+Abrem-se regularmente nas paredes lateraes da grande nave, janellas que
+deitam para cima dos telhados lateraes.
+
+A segunda classe compõe-se das egrejas cujas naves se elevam á mesma
+altura. Estas egrejas são proprias da Europa central; encontra-se um
+grande numero d'ellas, conjunctamente com alguns edificios da primeira
+classe, na Allemanha, Austria e Hungria.
+
+Os Allemães deram ás egrejas tendo nave de egual altura o nome de
+egrejas-mercado, sem duvida porque ellas parecem formar uma vasta salla,
+um _hall_ inglez, devido á elevação uniforme das suas naves. O seu
+aspecto exterior tambem differe sensivelmente do das egrejas belgas,
+francezas e inglezas; as tres naves são cobertas por um telhado unico de
+duas aguas, e, por conseguinte, a nave central não recebe luz
+directamente, como nas egrejas de primeira classe; a luz só lhe penetra
+pelas janellas lateraes; todavia estas, altissimas em consequencia da
+grande elevação das paredes, compensam bem a suppressão das janellas
+superiores introduzindo a luz na nave central.
+
+No fim do periodo ogival encontram-se, particularmente na Austria e
+Hungria, egrejas com esta fórma, cujas paredes lateraes são um pouco
+menos elevadas que a nave do meio.
+
+Tambem se construiram, na época do renascimento, egrejas com naves da
+mesma altura.
+
+_Egrejas da Flandres maritima_. Encontram-se em muitas cidades e aldeias
+da Flandres Occidental, egrejas cujas disposições differem notavelmente
+das que se construiram no resto da Europa. Apesar de se assimilharem ás
+precedentes, de tres naves da mesma altura, não se devem de modo algum
+confundir com as egrejas allemãs, com as quaes se parecem á primeira
+vista por terem as naves da mesma altura; não têem nada mais de commum
+entre si.
+
+Construidas em geral sobre um plano rectangular, compõem-se d'uma nave
+principal fechada por paredes d'egual extensão; não têem transepte ou,
+se o têem, não produz saliencia alguma no exterior das paredes.
+
+As abobadas de pedra ou de tijolo são substituidas, mesmo nos grandes
+edificios, por tectos curvos formados de madeira com divisões visiveis,
+pintados e até com obra de talha, e deixando vêr as peças do
+madeiramento.
+
+A cobertura das egrejas é formada por tres telhados de duas aguas da
+mesma altura pouco mais ou menos; resultando não ter a nave principal
+janellas altas e ser a fachada sempre terminada por tres empenas da
+mesma altura.
+
+_O plano das capellas_.--As capellas construidas durante o periodo
+ogival não têem ordinariamente transepte e são construidas sobre plano
+rectangular.
+
+O côro termina no lado Oriental por um abside polygonal ou uma parede
+lisa. As capellas das egrejas conventuaes compõem-se geralmente de tres
+naves, emquanto que as pequenas capellas não têem regularmente senão
+uma.
+
+As construcções ogivaes não apresentam em geral symetria, e o mesmo se
+nota no traçado do plano e nos caracteres architectonicos. Estas
+irregularidades provêem de duas causas principaes. Em primeiro logar os
+architectos d'esta época, sem desprezarem a symetria, não a consideraram
+propria das conveniencias, necessidades e harmonia geral.
+
+Algumas vezes tambem, vindo a faltar-lhes os recursos com que contavam
+no principio dos trabalhos, viam-se forçados a alterar o plano primitivo
+e supprimirem-lhe certas partes. Emfim, muitos monumentos foram
+construidos muito lentamente, o que deu logar a que as suas differentes
+partes fossem successivamente construidas, apresentando sempre por esse
+motivo cada uma d'ellas os caracteres architectonicos em voga na
+occasião da sua construcção.
+
+_Systema de construcção_.--Os grandes monumentos edificados pelos
+romanos no tempo da republica e sob os imperadores, formavam, pela
+estabilidade dos seus pontos d'apoio, condensação e cohesão perfeita dos
+seus materiaes, massas solidas capazes de resistir ao peso, e, em caso
+de necessidade, á pressão das abobadas, que eram formadas de peças
+homogeneas, concretas e sem elasticidade.
+
+Em substituição da abobada romana os architectos romans empregaram pouco
+a pouco a abobada de nervuras, cuja construcção assenta sobre o
+principio da elasticidade e do equilibrio das forças. O plano quadrado
+era o escolhido para as suas edificações; mas quando se tratava de
+neutralisar a pressão lateral exercida por esta abobada sobre os seus
+pontos d'apoio, ou quando era preciso construir uma abobada sobre um
+plano que não fosse quadrado, entregavam-se então a experiencias cujo
+resultado nem sempre correspondia á espectativa.
+
+Os architectos do periodo ogival realisam grandes progressos na
+construcção das abobadas. Primeiramente cobrem os edificios servindo-se
+das abobadas de nervuras, superficies cujos planos são parallelogrammos,
+trapesios, pentagonos e mesmo polygonos irregulares; depois, resolvem
+d'um modo completo o problema tão difficil da estabilidade das abobadas,
+pelo principio do equilibrio das forças. Empregam a abobada, não como
+uma crosta homogenea e inerte, mas como uma serie de paineis de
+superficies curvas ou de triangulos de enchimento independentes uns dos
+outros e limitados por nervuras apparelhadas e flexiveis. Ás pressões
+obliquas d'estas abobadas, oppõem resistencias activas, em vez de
+obstaculos passivos, e transportam a resultante de todas as pressões
+obliquas e contrarias para os contrafortes exteriores, que fazem rigidos
+e firmes, dando-lhes uma base muito ampla e carregando-os com um
+consideravel pezo.
+
+As nervuras das abobadas com os seus pontos d'apoio, isto é, as
+columnas, os contrafortes e algumas vezes os arco-butantes, compõem a
+ossada, o esqueleto de todo o grande edificio ogival. As outras partes
+da construcção, que formam o revestimento d'esta ossada, desempenham o
+logar de simples tabiques: as janellas occupam, entre os pontos d'apoio
+das abobadas, o maior espaço possivel, e as paredes pouco espessas são
+ornadas de arcadas que ainda as tornam mais delgadas. As janellas e as
+paredes podiam ser supprimidas sem que a construcção principal soffresse
+o menor prejuiso.
+
+_Materiaes e apparelhos de construcção_. Tanto durante o periodo roman,
+como durante o ogival, se procuravam os materiaes precisos o mais
+proximo possivel do logar em que se fazia a construcção. Com effeito o
+transporte, ainda n'este tempo, offerecia grandes difficuldades por
+causa da ausencia completa de estradas viaveis. Os materiaes empregados
+são em geral de pequenas dimensões, porque os instrumentos para os
+extraír, transportar e assentar eram insufficientes em comparação com as
+poderosas machinas de que dispomos em nossos dias.
+
+Quando não havia pedreiras para explorar, serviam-se de tijolos.
+
+_Esculptura monumental_. Durante o periodo roman, a esculptura d'ornato
+consistia em figuras geometricas, animaes monstruosos, e tambem ás vezes
+de imitação de vegetaes. Durante a segunda metade do seculo XII, teve
+logar uma revolução completa na esculptura ornamental; as palmas, as
+folhagens, os galões e as figuras geometricas, os cordões entrelaçados
+dão logar aos vegetaes indigenas; n'uma palavra, tudo o que não é
+inspirado pela flora do paiz desapparece.
+
+Os primeiros artistas que se entregam ao estudo das plantas indigenas
+para as reproduzir na esculptura d'ornato, não procuram imitar fielmente
+nas suas obras os vegetaes que têem á sua vista; mas antes os
+interpretam a seu modo, isto é, apoderam-se dos caracteres principaes
+com que se inspiram e compõem a largos traços a sua esculptura
+monumental.
+
+Os artistas entendem que a arte para ser bem apreciada não consiste na
+reproducção escrupulosa como se fôsse photographia da natureza real, mas
+sim na expressão do real idealisado e transformado pela imaginação do
+esculptor.
+
+Esses artistas introduziram no centro e no norte da França este novo
+estylo de esculptura monumental durante a segunda metade do seculo XII;
+e os seus imitadores nas outras partes da Europa, no principio do seculo
+seguinte, limitaram-se em principio a imitar nas suas obras as plantas
+mais humildes dos bosques e dos campos na occasião em que dão os seus
+primeiros rebentos, quando os botões apparecem apenas meio abertos ou
+n'uma palavra quando começam o seu primeiro desenvolvimento. Ha um
+exemplo bem conhecido d'esta ornamentação vegetal rudimentar nos mais
+antigos _crochetes_ de capiteis e nas rampas dos edificios que se usaram
+no final do seculo XII e principio do XIII.
+
+Estes _crochetes_ primitivos terminam enroscados de folhagem,
+semelhando-se bastante com os rebentos das plantas que brotam da terra.
+
+Entretanto os esculptores vão progredindo; depois de haverem applicado
+as suas inspirações ao estudo do primeiro desenvolvimento dos mais
+modestos vegetaes, abandonam estes humildes modelos, para em seu logar
+applicarem as folhas completamente formadas, as flores e os fructos das
+arvores, dos arbustos e das plantas herbaceas, mais graciosas.
+
+Procuram reproduzir a vinha, a hera, o acre, o azevinho, a roseira
+brava, a figueira, o carvalho, a pereira, o nenuphar, as campainhas, o
+rainunculo, o morangueiro, o trevo, o platano, a salsa, etc. Todavia
+esta transformação não se operou bruscamente, mas a pouco e pouco e por
+successivas transições: na flora monumental, bem como na flora natural,
+á maneira que os tempos passavam, os renovos abrem, as folhas
+desdobram-se, os botões tornam-se em flores e produzem fructos. Foi
+n'esta epoca que na França (no final do XII seculo, e até mais tarde) os
+roulamentos primitivos das _crochetes_ se abrem dando logar a florões e
+ramos de folhagens inteiramente desenvolvidos.
+
+Progredindo sempre, os esculptores do seculo XIV abandonavam pouco a
+pouco a nobre e graciosa simplicidade que os do seculo XIII costumavam
+imprimir a todas as suas obras; entregam-se apaixonadamente á imitação
+da natureza real e escolhem de preferencia as plantas d'um modelo
+exagerado; reproduzem-nas com uma rara perfeição, mas exageram-lhes as
+ondulações e contornos. Estas ondulações, que constituem um dos
+caracteres que distinguem a esculptura do seculo XIV, encontram-se já
+algumas vezes, ainda que poucas, durante a segunda metade do seculo
+XIII.
+
+As esculpturas do seculo XIV são muitas vezes inferiores ás do XIII,
+porque são menos francamente executadas e carecem de simplicidade nos
+contornos e no modelado; finalmente já visam muito a produzir effeito. O
+seculo XIV no entanto produziu obras esculpturaes de grande merito.
+
+A esculptura monumental no seculo XV caminha cada vez mais para o
+affectado. Toma as plantas com folhagens muito recortadas, taes como o
+cardo, a folha do repolho, etc. e para as imitar exagera-lhes as
+profundas chanfraduras e os lóbulos angulosos das folhas.
+
+Estas esculpturas são finas, delgadas e excessivamente vasadas.
+
+Um ornato muito frequente do XV seculo em diante e que principalmente se
+vê nas açafatas dos capiteís, é o que vulgarmente se chama folha de
+repolho por causa da sua semelhança mais ou menos com a sua folha
+enroscada.
+
+Tambem se vêem representados na esculptura decorativa do periodo ogival,
+assumptos historicos, legendarios e symbolicos bem como animaes reaes e
+phantasticos. Estes animaes e as figuras grotescas, algum tanto raras no
+interior dos edificios, encontram-se comtudo bastante na decoração
+exterior dos monumentos, como carrancas, modilhões e até algumas vezes
+ornatos em substituição dos _crochetes_ de rampa.
+
+Durante todo o periodo ogival, as esculpturas eram completamente
+concluidas antes de se collocarem.
+
+Os esculptores de imagens terminavam as suas obras na casa do trabalho,
+e eram collocadas no seu logar pelos alveneos. Um esculptor nunca subia
+a um andaime.
+
+_Fachadas_.--As faces exteriores dos monumentos da edade media são a
+expressão exacta das disposições interiores.
+
+Em consequencia d'este principio, as fachadas occidentaes das egrejas
+reproduzem no conjuncto o córte transversal das naves. Além d'isso, como
+a fórma d'este córte é pouco mais ou menos a mesma em quasi todas as
+egrejas ogivaes, resulta d'isso, que o aspecto geral de muitas fachadas
+é d'uma grande semelhança. Apezar d'esta semelhança no conjuncto geral e
+dos contornos exteriores, a disposição e a ornamentação das fachadas são
+extremamente variadas. As mais bellas fachadas ogivaes são sem duvida as
+das grandes cathedraes francezas. Compõem-se em geral de muitas zonas
+horisontaes e parallelas; o pavimento terreo tem tres portaes, que dão
+ingresso para as tres naves; o central, que é a porta principal, é mais
+largo e ornado mais ricamente que os outros dois.
+
+As fachadas das grandes egrejas inglezas e allemãs (excepto a de
+Colonia), não têem ornamentações tão vistosas como as cathedraes
+francezas. A disposição é menos regular e a ornamentação destituida ás
+vezes de bom gosto. Grande numero das egrejas allemãs têem só na fachada
+Occidental duas torres em cada lado.
+
+Na Belgica poucas egrejas têem tres portaes; geralmente na fachada
+principal ha apenas um. As rosaceas, que são tão vulgares nas fachadas
+francezas, raramente se vêem nas egrejas da Belgica.
+
+As fachadas das egrejas ruraes são sempre de uma grande simplicidade. Em
+geral tem um campanario, e apenas uma porta ao centro da fachada e uma
+ou tres janellas no frontispicio.
+
+_Alpendres_. Quasi todas as grandes egrejas ogivaes apresentam um ou
+muitos alpendres, collocados adiante da fachada Occidental, ou das
+entradas lateraes. Em muitas egrejas romans foi addicionado o alpendre
+na epocha ogival.
+
+Os alpendres contiguos á fachada principal das egrejas ogivaes ou os
+construidos debaixo do campanario, que limita esta fachada, quasi se não
+encontram em França desde o seculo XIII. Ainda são mais raros na
+Belgica, Allemanha e Inglaterra.
+
+Durante o periodo ogival, muitos alpendres se construiram adiante das
+entradas lateraes. Os mais bellos monumentos d'este genero são os
+alpendres ao Norte e ao Sul da Cathedral de Chartres, que datam dos
+primeiros annos do seculo XIII. Na Belgica tambem ha alguns alpendres
+lateraes notaveis, compostos d'um ou dois vãos na frente e vedados por
+tres lados, estando ornados no interior com estatuas collocadas sobre
+misulas e coroadas de doceis. Tambem se construiam, mas raramente,
+alpendres abertos em tres lados ou vedados por frestas nos dois lados.
+
+_Portaes_. Na França e mesmo em Colonia as cathedraes e as grandes
+egrejas ogivaes não têem geralmente alpendres adiante da fachada
+principal, mas os portaes formam de per si verdadeiros alpendres, que
+são cuidadosamente adornados.
+
+Os portaes principaes das grandes egrejas francezas do seculo XIII
+distinguem-se pela riqueza extraordinaria das esculpturas de todos os
+generos com que são adornados. Apresentam grandes vãos que se abrem do
+interior para o exterior e divididos em duas partes eguaes por uma
+parede.
+
+Na fachada de _Notre-Dâme_ de Paris vê-se, em frente d'essa parede e sob
+um docel, uma grande estatua representando o Salvador deitando a benção,
+a Santissima Virgem com o seu amado Filho, e tambem ás vezes o orago da
+Egreja. A base d'essa parede e os rodapés dos vãos são ornados com
+baixo-relevos.
+
+Os tympanos são regularmente divididos em tres partes horisontaes, onde
+se figuram em relevo assumptos religiosos, estatuas de grandes
+dimensões, que em numero consideravel guarnecem as paredes verticaes dos
+portaes, emquanto que as curvas das abobadas recebem muitas ordens
+parallelas de estatuetas collocadas debaixo de doceis.
+
+Todas estas esculpturas representam Santos e factos tirados da historia
+do Velho e Novo Testamento, da lenda e de certos dogmas da Fé.
+
+Os arcos dos portaes, das janellas e das empenas são, algumas vezes,
+ornados tambem interiormente, d'um appendice chamado _redente_; este
+ornato tambem ás vezes se encontra no intradorso das grandes arcadas,
+ligando as columnas que separam as naves das paredes lateraes das
+egrejas.
+
+Os _redentes_ são recortes em fórma de dente ou de bicos, que guarnecem
+o intradorso d'um arco. Tambem se applicou este mesmo nome a uns ornatos
+analogos, que se collocam sobre as prumadas das empenas.
+
+Nos edificios do seculo XIV, os portaes são ainda bem delineados,
+todavia já não têem a grandeza que caracterisa os do seculo XIII. Os
+perfis das molduras são agudos e muito multiplicados; a estatuaria,
+abandonando a nobre simplicidade, preoccupou-se em cogitar formas
+affectadas, e por isso mesmo a arte declina. Apesar d'estes defeitos, os
+grandes portaes das egrejas do seculo XIV têem ainda verdadeiro merito
+quanto á composição e outras qualidades que debalde se procuram nos
+monumentos dos seculos posteriores.
+
+Os grandes portaes dos seculos XIV e XV têem as mesmas disposições
+geraes que os do seculo precedente, com a simples differença de que as
+columnas cylindricas que formavam os vãos dos portaes e que sustentam as
+archivoltas são substituidas por molduras prismaticas, ordinariamente
+sem capitel, e que prolongando-se constituem por si só as archivoltas.
+Estes portaes occupam espaço profundo, porque são regularmente
+construidos entre dois contrafortes salientes da fachada.
+
+O pilar que separa o portal, e o tympano dos grandes portaes do XIV e XV
+seculos, tem sempre estatuas de Santos debaixo dos doceis e apoiando-se
+sobre misulas primorosamente esculpidas. Desapparecem as estatuas em
+muitos monumentos.
+
+Ordinariamente os vãos ogivaes dos portaes e muitas vezes os da entrada
+dos alpendres, são emmoldurados por um contorno em forma de empena.
+
+Nos seculos XIII e XIV, este feitio representa a extremidade d'um
+telhado de duas vertentes com a inclinação d'um angulo que varia entre
+45 e 90 gráos. No XV seculo, os vãos de todos os portaes grandes e
+pequenos, e algumas vezes tambem os das janellas, são formados por
+ogivas ou por contracurva.
+
+No seculo XII, as inclinações das empenas são quasi sempre ornadas de
+_colchetes_ enroscados; desde o principio do seculo XIII, os
+enroscamentos ou extremidades d'estes _colchetes_ desdobram-se e
+transformam-se em florões. Os _colchetes_ são substituidos, no seculo
+XIV, por folhas de extraordinaria grandeza, que muitas vezes se designam
+ainda pelo nome de colchetes, redentes ou animaes phantasticos; nos
+seculos XV e XVI apparecem as folhas de repolho.
+
+Estes ornamentos pouco numerosos e muito espaçados no XIII seculo,
+multiplicam-se e approximam-se á medida que a arte ogival vae em
+decadencia. O vertice das empenas ou das ogivas inflexas que substituem
+as empenas do XV seculo, termina ora por um florão, ora por uma estatua
+assente sobre uma quartella, em fórma de sóco.
+
+Os portaes de segunda e terceira ordem offerecem mais simplicidade do
+que os outros que acabamos de descrever. Não têem pilar de separação e
+por causa dos seus vãos geralmente pouco profundos, têem molduras
+menores que os portaes de primeira ordem.
+
+No XIII e XIV seculos, as empenas compõem-se de duas, tres ou quatro
+columnatas na rectaguarda umas das outras, e ligam-se com os extremos
+dos arcos superiores. Desde o final do XIV seculo, foram as columnatas
+substituidas por molduras prismaticas, quasi sempre sem divisão de
+capitel.
+
+Até meiado do seculo XV, ajuntava-se, muitas vezes, á archivolta dos
+portaes e tambem ás curvas das janellas, um rebordo exterior em fórma de
+goteira cujas extremidades assentam á altura da nascença da ogiva, sobre
+modilhões esculpidos, representando figuras, animaes phantasticos ou
+carrancas; este rebordo tambem ás vezes é ornado de _colchetes_ com
+folhas de grande lavor ou figuras grotescas.
+
+_Lemes das portas_. Os constructores romans tinham, como já explicámos,
+convertido em objecto de ornamentação os lemes e as ferragens que
+empregavam para reunir os frisos que compõem os batentes. As archivoltas
+do periodo ogival ultrapassaram os seus precedentes n'este genero de
+decoração.
+
+No seculo XIII e ainda mesmo no XIV, os lemes representam folhagens
+entrelaçadas, armadas de flores e fructos. As suas differentes partes
+são reunidas com uma arte e delicadeza notaveis, apesar de n'esta epoca
+os meios de fabrico serem muito simples. Um martello movido por uma
+corrente de agua constituía, por assim dizer, o unico recurso das
+fabricas da edade media. O ferro obtido em fragmentos de um peso
+mediocre, era entregue ao ferreiro, que á força de braço convertia estes
+fragmentos em barras ou peças mais ou menos delgadas. Não eram
+conhecidas, nem a lima, nem as cisalhas. Apezar da pobreza de meios de
+fabricação, os ferreiros da edade media produziram obras primas de
+serralheria. Podemos affirmar que em muitos paizes a arte de serralheria
+attingiu o seu apogeu no seculo XIII. Os lemes do principio do periodo
+ogival distinguem-se dos das epocas posteriores em que, ordinariamente,
+são _estampados_, isto é, trabalhados em relevo por meio de matriz. Foi
+pela estampagem que se obtiveram ramagens cheias de vigor e estes
+soberbos cachos que caracterisam os lemes dos portaes de todas as
+grandes egrejas do XIII seculo.
+
+Os lemes estampados começaram a desapparecer na França no principio do
+seculo XIV, ao passo que na Belgica foram muito empregados ainda n'este
+seculo e até mesmo no seculo XV.
+
+Nos fins do seculo XIII começaram a apparecer na França os lemes lisos,
+isto é, formados por uma peça de ferro batido, poucas vezes executados
+em relevo. Este uso generalisou-se desde os primeiros annos do seculo
+XIV; nos outros paizes e especialmente na Belgica eram empregados
+simultaneamente com as ferragens estampadas, tanto no seculo XIV, como
+no XV.
+
+Os serralheiros da edade média procuraram para objecto de ornamentação,
+não só os lemes, mas tambem todos os outros accessorios necessarios para
+os portaes, taes como os prégos, os fechos, as argolas das fechaduras.
+
+_Janellas_. Durante o periodo de transição e no principio da epoca
+ogival, os vãos das janellas eram estreitos, pouco elevados e fechados,
+na sua parte superior, por lancetas ou ogivas agudas. Estes vãos, em
+geral reunidos em dois ou tres, são separados por pequenos pilares em
+fórma de humbreira, estando muitas vezes como emmoldurados por um grande
+arco commum. Chamam-se prumos de cantaria os que dividem uma janella em
+humbreiras aos vãos ou compartimentos verticaes. A triplice lanceta da
+janella tem o vão do meio geralmente mais elevado que o dos lados.
+
+Em França, no principio do seculo XIII, e n'outros paizes alguns annos
+mais tarde, em vez de estreitarem os vãos das janellas, alargavam-nos e
+formavam por cima bandeira com construcção de cantaria compostas de
+humbreiras simples e ligeiras. Em geral existe uma abertura independente
+por cima dos vãos d'estas janellas primitivas. Nas construcções
+esmeradas e ricas, as humbreiras estão collocadas tanto no interior como
+no exterior, tendo uma columna com base e capitel, e o tympano da
+janella é ornado de redentes, com uma ou muitas vidraças compostas de
+tres, quatro, seis e algumas vezes oito vidros.
+
+As grandes egrejas do XIII seculo e um grande numero de edificios do XIV
+seculo teem as janellas muito grandes, divididas em muitos vãos.
+
+Estas janellas compõem-se de uma rosacea de grande diametro, que occupa
+a parte superior do tympano tendo uma columna que divide o vão em duas
+partes eguaes; em cada um d'estes vãos secundarios, apresenta uma
+abertura composta egualmente de uma columna central, porém, mais delgada
+que a primeira e d'um oculo circular do feitio de folha de trêvo, ou uma
+de quatro folhas. Se mesmo com estas sub-divisões (como succede nas
+janellas de grande largura), estas columnas não ficam sufficientemente
+proximas para a segurança das vidraças, estabelecem-se ainda entre si
+novas humbreiras divisorias, tendo por cima tambem rosaceas de menor
+grandeza.
+
+Na Belgica, Allemanha e Inglaterra, ha janellas do seculo XIII,
+divididas por duas humbreiras de menor importancia para formarem tres
+vãos. Ás vezes é o vão do meio mais estreito que os dos lados. Este
+feitio de janellas era muito raro na França, no principio do periodo
+ogival.
+
+Para diminuir o espaço vazio das rosaceas do tympano das grandes
+janellas, collocavam-se redentes de cantaria seguros por circulos de
+ferro. Ás vezes, no seculo XIV, se substituiam as rosaceas do tympano
+por folhas de trêvo, ou compostas de quatro folhas, e tambem com outras
+combinações de figuras geometricas.
+
+Durante os seculos XIV e XV, o numero dos vãos das janellas varia muito,
+mas em geral é de tres.
+
+No mesmo edificio, se vêem, conforme a largura dos vãos, janellas de
+dois, tres, quatro, cinco, seis, sete ou oito compartimentos.
+
+Em alguns monumentos belgas, inglezes e allemães, as grandes janellas
+das extremidades do transepte e da capella mór, quando esta termina por
+uma parede recta, ficam divididas em duas partes eguaes por uma columna
+central de grande grossura formando um verdadeiro pilar.
+
+As humbreiras das janellas dos seculos XIII e XIV são ás vezes formadas
+por uma só pedra inteiriça; comtudo geralmente são construidas por
+pedras pequenas. Em grande numero dos edificios francezes, ha, interior
+e exteriormente, ou n'um dos lados das janellas, uma columna embebida,
+com base e capitel.
+
+Na Belgica, Allemanha e Inglaterra as humbreiras das janellas de muitos
+monumentos não têem columnas, principalmente as do seculo XIV.
+
+As columnas servindo de humbreiras apparecem sempre collocadas junto dos
+pés direitos, no interior e no exterior da janella. Na Belgica vêem-se
+com frequencia essas columnas embebidas nos angulos das paredes
+pertencentes ás janellas nas quaes lhes faltam as humbreiras.
+
+Os capiteis das columnas que formam as humbreiras das janellas, são
+coroados por um ábaco _quadrado_, no principio do periodo ogival, mais
+tarde tornou-se _circular_, e no principio do XIV seculo, _hexagonal_.
+
+Os constructores dos seculos XIII e XIV, habituados a discorrer sobre
+todas as suas obras, facilmente comprehendiam que collocar um capitel
+nas columnas servindo de humbreiras, era ir ao encontro do principio
+fundamental da architectura ogival, que prescrevia desprezar todas as
+partes inuteis, todos os motivos de ornamentação que não resultassem
+d'uma necessidade de construcção. Effectivamente não parece
+sufficientemente justificada a necessidade d'este capitel, porque a
+parte superior da columna não serve de ponto de apoio a nenhum peso
+extraordinario, e tambem não serve de transição ás duas partes realmente
+distinctas, pois a moldura superior do capitel é em tudo semelhante á
+fórma do fuste da columna, porquanto o capitel apenas servia de ornato,
+sem outro fim verdadeiramente util. Tendo em vista o principio
+fundamental do estylo ogival e todas as consequencias logicas que elle
+encerra, os architectos da segunda metade do seculo XIV e do principio
+do XV não se detêem em reconsiderar, supprimem inteiramente o capitel e
+muitas vezes a propria columna, e dão a todas as humbreiras a mesma
+espessura. No fim do XIV seculo introduziram egualmente modificações
+importantes nos desenhos traçados pelas humbreiras dos tympanos das
+janellas. Os redentes que até aqui serviam para diminuir o espaço roto
+das grandes rosaceas foram primeiramente substituidos por combinações de
+figuras geometricas em que predominam as formas ogivaes com curvas
+compostas de duas em sentido oppostos e do feitio de chamma. É d'esta
+epocha que data o ornato conhecido pelo nome de _chamma_ e deu o nome de
+_flammejante_ ao estylo do seculo XV. Este ornato não só se encontra nos
+tympanos de janellas, mas tambem nas balaustradas, nos batentes das
+portas, fechos, mobilias, n'uma palavra, em tudo onde é possivel
+applical-o. Os allemães chamam-lhe Fischblase (bexiga de peixe).
+
+As janellas da _primeira metade_ do seculo XV têem ainda ás vezes alguma
+analogia com as dos seculos precedentes. Não é raro encontrar-se nos
+tympanos grandes rosaceas com figuras curvas ou chammas em vez de
+redentes. Todavia grande numero das rosaceas circulares dos tympanos,
+durante a primeira metade do seculo XV, foram substituidas com o feitio
+de triangulos e quadrilateros curvilineos ou por outras figuras
+geometricas regulares, nas quaes ha chammas representadas. No meado do
+seculo XV desapparecem do tympano as figuras regulares, e as humbreiras
+tomando direcções cada vez mais arbitrarias, dão logar aos mais variados
+desenhos flammejantes.
+
+No fim do XV seculo as archivoltas das janellas tornam-se mais obtusas e
+tomam no principio do seculo XVI a forma de arcos de volta abatida ou em
+aza de cesto; os desenhos dos tympanos são toscos e angulosos. A volta
+inteira ou de semicirculo, que começa a apparecer timidamente nos vãos
+entre as humbreiras, annuncia o proximo regresso dos typos de
+architectura classica.
+
+Do que acabamos de dizer resulta que os desenhos geometricos
+encontram-se principalmente nos tympanos das janellas durante a primeira
+metade do seculo XV, emquanto que os desenhos flammejantes propriamente
+ditos são da ultima metade do XV e do principio do XVI seculos.
+
+As archivoltas exteriores das janellas dos edificios de primeira ordem
+têem ás vezes alguns ornatos.
+
+O cavado mais largo e mais profundo do intradorso d'estas archivoltas é
+ornado de colchetes nos grandes monumentos francezes do seculo XIII; no
+seculo XIV é ornado de florões e de cachos, e no XV apparece a folha de
+repôlho.
+
+As archivoltas exteriores das janellas são do mesmo modo que as dos
+portaes e dos alpendres rodeadas por um rebordo saliente ou encimadas
+por uma galeria. Os rebordos que rodeiam as archivoltas das janellas
+têem o mesmo feitio que os dos portaes.
+
+Nos seculos XIII e XIV, têem a fórma d'uma goteira e são geralmente
+formados nos proprios fechos da archivolta; as extremidades vêem acabar
+á altura do nascimento da ogiva, ficando assentes sobre modilhões ou
+então na direcção horisontal sob a fórma de cordão, que liga entre si
+duas janellas proximas uma da outra.
+
+Nos edificios mais importantes, os rebordos são em geral decorados de
+distancia a distancia, com colchetes ou folhas ornamentaes. Nos seculos
+XV e XVI, os feitios das janellas têem a fórma de uma ogiva com curvas
+inversas, terminando por um florão. Os remates que coroam muitas vezes
+as janellas dos grandes monumentos, são similhantes aos dos portaes,
+tendo do mesmo modo a fórma da empena e os seus lados inclinados têem
+colchetes, redentes ou folhas de repolho encrispadas. O vertice, que em
+geral termina em florão, penetra muitas vezes na balaustrada prolongando
+a altura do tecto e fazendo corpo com elle.
+
+Os architectos do periodo ogival, e até mesmo os do periodo de
+transição, de ordinario reservaram nas grandes egrejas, galerias
+passando junto das janellas e que eram principalmente destinadas a
+facilitar a collocação e conservação das vidraças. Estas galerias são
+estabelecidas em toda a extensão do edificio, dando muitas vezes a volta
+completa em todo o monumento; são verdadeiros corredores de serviço. No
+rez-do-chão, isto é, nas paredes dos lados e no côro, quando este não
+tem capellas lateraes, são ellas estabelecidas no interior em quanto que
+no pavimento superior ficam sempre exteriores e atravessam os
+contrafortes. D'aqui resulta haver galerias em que as vidraças estão
+assentes por dentro nas janellas inferiores e por fóra nas altas.
+
+_Rosaceas_. As rosaceas são um dos mais bellos ornamentos dos grandes
+monumentos religiosos do periodo ogival.
+
+Apparecem tanto na fachada Occidental como nas empenas dos transeptes.
+Na França, as rosaceas são muito communs nos seculos XIII e XIV; pelo
+contrario na Belgica e na Inglaterra, são raras, mesmo nas maiores
+egrejas.
+
+As rosaceas e as janellas têem caixilhos de pedra destinados a fixar as
+vidraças. Estes caixilhos são muitas vezes dispostos em fórma de raios
+de roda.
+
+Durante a segunda metade do seculo XIII e todo o XIV, foram construidas
+grande numero de rosaceas em contacto umas das outras e dispostas em
+muitos renques concentricos á volta d'uma rosacea central, na qual são
+inseridos caixilhos do feitio de folhas de trêvo ou em quatro folhas.
+
+Foi a brilhante ornamentação d'estas rosaceas e dos tympanos das
+janellas que deu ao estylo ogival do XIV seculo a denominação de
+_radiante_.
+
+Os caixilhos das rosaceas do XV seculo descrevem em geral desenhos
+flammejantes, semelhantes aos que se vêem nos tympanos das janellas da
+mesma epoca. Ás vezes encontram-se: 1.^o nos monumentos do seculo XIII
+rosaceas que têem analogia com as dos edificios romans do seculo XII;
+2.^o nos edificios dos seculos XIV e XV, rosaceas compostas de folhas de
+feitio de trevo, e de quatro folhas, ou com figuras geometricas
+curvilineas.
+
+No seculo XV, e na Belgica já no XIV, os caixilhos das rosaceas, não
+têem como d'antes, columnas formando as divisões, mas têem os mesmos
+compartimentos que os caixilhos de janella d'esta epoca.
+
+_Vedações das janellas e vidraças_. Por causa da aspereza do clima nos
+paizes do Norte foram muito cêdo usadas as vidraças nas janellas.
+
+Os vidros, incolores ou pintados d'uma côr unica e de pequenas
+dimensões, eram antigamente collocados em caixilhos de madeira ou de
+cantaria. Depois do seculo X eram fixos por meio de pestanas de chumbo.
+Foi devido ao emprego do chumbo que conseguiram formar bellas vidraças
+pintadas, cuja historia vamos expôr succintamente.
+
+As vidraças dividem-se em duas classes: vidraças _incolores_ e
+_pintadas_.
+
+_Vidraças incolores_. As vidraças incolores dos seculos XII e XIII são
+compostas de pequenos pedaços de vidro, não excedendo doze a quinze
+centimetros, na sua maior dimensão, sendo de côr esverdeada escura,
+irregulares e um pouco convexas.
+
+O chumbo empregado antigamente era muito espesso, convexo nas suas faces
+e algumas vezes polido nas ranhuras; distingue-se facilmente dos
+modernos, fabricados depois do fim do seculo XVI, por se servirem de
+instrumento proprio para o reduzir a tiras, com uma especie de
+laminador.
+
+Em consequencia da maleabilidade e brandura do chumbo, as tiras que
+reunem os vidros das vidraças incolores dos periodos roman e ogival
+apresentam muitas vezes as mais curiosas figuras. N'este caso e em
+muitos outros a urgencia fornece um motivo d'ornamentação; era
+necessario vedar uma abertura relativamente alta e larga com pequenos
+fragmentos de vidro, porque as grandes chapas de vidro eram ainda então
+desconhecidas. Os vidraceiros da idade média resolveram este problema
+como verdadeiros artistas: em vez de adoptarem um systema de envidraçar
+vulgar, consistindo em quadrados ou rhombos, serviram-se das tiras de
+chumbo para produzir, nas janellas, os mais variados e vistosos
+desenhos.
+
+Na Belgica as vidraças incolores eram muito communs nos seculos XII e
+XIII; ha exemplos de vidraças, ainda existentes, que se podem referir
+com certeza a esta epoca. É verdade que se encontra aqui e ali algumas
+vidraças representando entrelaçamentos de fitas, anneis, circulos e
+figuras geometricas, que parecem muito antigas por causa da pequenez das
+aberturas destinadas a receber as chapas de vidro; mas não é possivel
+determinar-lhes uma data approximada.
+
+Estes entrelaçamentos de fitas e de figuras geometricas foram usados na
+Belgica durante todo o periodo ogival e conservaram-se com modificações
+mais ou menos consideraveis até ao presente.
+
+_Vidraças pintadas_. Ha uma grande differença entre colorir um vidro ou
+pintal-o, ou por outras palavras, entre os vidros coloridos e os
+pintados. Os primeiros, que tambem se chamam vidros de côr, obtêem-se
+misturando-lhes na massa vitrea em fusão oxydos metallicos, que dão a
+toda a pasta um colorido uniforme. Este colorido não é superficial; as
+materias que produzem as diversas côres penetram durante a fusão na
+massa vitrea e combinam-se inteiramente com ella. Para fazer vidros
+pintados toma-se uma chapa de vidro translucido e sobre uma das faces,
+ou em ambas, applica-se com o pincel os traços do desenho a côres
+vitrificaveis, que não são mais que pastas vitreas coloridas por meio
+d'oxydos metallicos, reduzidos a pó e diluidos n'um liquido como vinho,
+agua gommada e essencia de therebentina. A lamina de vidro, esmaltada, é
+em seguida submettida ao fogo; o pó corante entrando promptamente em
+fusão, fixa-se sobre a placa de vidro que a sustenta e que apenas está
+amollecida pela acção do calôr.
+
+No VII seculo, havia vidraças compostas de laminas de vidro diversamente
+coloridas; eram especies de mosaicos transparentes. Mas seria n'essa
+epoca que começaram a pintar a côres, sobre vidro branco ou colorido,
+personagens e assumptos historicos e legendarios? A opinião mais
+provavel colloca a invenção da pintura sobre vidro no fim do X seculo.
+Comtudo só no seguinte é que esta arte nasceu na Allemanha e se
+desenvolveu e espalhou pela Europa occidental. Logo que se inventou a
+pintura sobre vidro no meiado do seculo XIV, o pintor de vidros
+servia-se de laminas, cada uma de sua côr uniforme.
+
+No seculo XII e XIII, houve excepção a esta regra para o vidro vermelho,
+que, em geral era _duplicado_, isto é, composto de uma lamina delgada
+vermelha, applicada sobre uma lamina de vidro incolor.
+
+As differenças de espessura que têem os vidros antigos, differenças que
+resultam da imperfeição dos processos de fabríco do vidro, contribuem
+singularmente para augmentar o brilho das vidraças da idade média. Em
+primeiro logar, os pintores vidraceiros empregavam com muita pericia
+estes vidros desiguaes ou ondulados, cortando-os de fórma que a parte
+mais delgada se achasse do lado da luz; o que fazia augmentar
+consideravelmente o effeito da vidraça. Por consequencia, mesmo para os
+fundos fechados, estas differenças de espessura dão á coloração um
+aspecto scintillante, que a certa distancia augmenta consideravelmente a
+intensidade dos tons.
+
+As côres de que o pintor de vidros dispunha na idade média eram
+numerosas e variadas, porque a maior parte das operações chimicas
+empregadas para obter vidros de côr, eram empiricas e por consequencia,
+davam muitas vezes resultados imprevistos.
+
+Esta gamma de côres extensissima póde comtudo ser reduzida a cinco tons
+principaes: azul, vermelho, amarello, verde e côr de purpura.
+
+Para exprimir as carnações, isto é as partes apparentes das carnes, taes
+como as cabeças, as mãos e os pés, usavam nos seculos XII e XIII, d'um
+vidro d'uma leve côr de violeta, e mais tarde d'um vidro esbranquiçado;
+os traços sobre estes vidros eram d'uma côr parda, applicada com um
+pincel e em seguida fixada com a cozedura.
+
+Os pintores de vidros dos seculos XII e XIII occupavam-se
+principalmente, na composição do cartão, da harmonia das côres. Para o
+obter elles não hesitavam em sacrificar a verdade, dando aos objectos
+côres que a natureza lhes não deu; é assim que se encontram nas vidraças
+antigas, cavallos verdes e arvores com folhas de muitas côres
+diferentes. Como o vermelho, e sobre tudo o azul se prestam
+admiravelmente a uma collocação vigorosa e alliam-se admiravelmente com
+todos os outros tons, os fundos vermelhos e azues são sómente empregados
+nas vidraças de assumptos historicos ou legendarios.
+
+Os vidros coloridos das vidraças, vistos a distancia, tomam, graças á
+translucidez e á luz que os atravessa, um brilho que faz parecer a sua
+superficie maior do que na realidade é; este effeito chama-se
+_rayonnement_.
+
+As diversas côres translucidas têem _rayonnements_ de valôr muito
+differente; assim, para não fallar senão das tres côres fundamentaes do
+prisma; o azul é a mais brilhante, seguindo-se o vermelho e depois o
+amarello.
+
+O _rayonnement_ de certas côres translucidas, a distancia, é tal que não
+só faz parecer a sua superficie maior do que na realidade é, mas até
+modifica mesmo a qualidade d'estas côres e das que lhe ficam proximas.
+
+É d'este modo que um azul limpido, collocado ao lado d'um vermelho
+augmenta o brilho dos bordos d'este e torna-os côr de violeta. Além
+d'isso, este brilho faz ás vezes desapparecer totalmente os filetes de
+chumbo, que engastam os vidros, e altera as linhas do desenho fixado
+sobre os vidros por meio do esmalte escuro.
+
+Os principios artisticos que regem a pintura sobre vidro ou translucida
+differem notavelmente dos principios da pintura opaca. A luz
+atravessando côres translucidas actua sobre estas côres, e sobre as
+combinações d'estas côres entre si, de maneira differente do que se
+fossem opacas; a luz passando atravez d'um desenho modifica os contornos
+d'este, facto que se não dá quando actúa sobre uma superficie opaca
+desenhada.
+
+A pintura sobre vidro só póde ser uma pintura de convenção muito
+differente da pintura em quadro. N'esta procura-se illudir a vista do
+espectador servindo-se de todos os recursos das sombras, do claro escuro
+e da perspectiva linear e aérea. Na pintura sobre vidro, pelo contrario,
+assim como na pintura monumental, o artista deve respeitar e deixar
+parecer plana a superficie sobre que pinta; deve contentar-se em traçar
+a silhueta dos personagens e dos objectos que entram na composição do
+seu assumpto, fazer pouco caso da perspectiva, mesmo linear, traçar as
+sombras d'uma maneira convencional, indicando as partes salientes por
+claros e as rugas por tons opacos, e desprezar os accessorios ou, quando
+muito, represental-os hieroglyphicamente. Na pintura opaca o artista
+deve procurar grupar os personagens d'uma scena de modo que se destaquem
+uns dos outros afim de obter uma sèrie de planos, em quanto que na
+pintura translucida, evita-se, tanto quanto possivel, as agglomerações
+d'um grande numero de figuras, e esforçam-se por fazer apparecer o fundo
+em torno de cada uma d'ellas.
+
+As vidraças pintadas do XII seculo são sempre formadas de pequenos
+medalhões circulares, quadrados ou apresentando outras fórmas simples e
+regulares. Estes medalhões, nos quaes apparecem composições adornadas,
+ficam dispostos symetricamente sobre fundos formados de mosaicos de
+vidro simples ou differentemente coloridos.
+
+A côr _azul_ domina geralmente nos fundos das vidraças pintadas no XII
+seculo; pouco empregam a côr encarnada; algumas vezes tem tambem o fundo
+azul, ficando mais harmonico, tendo-se espalhado, sobre esse fundo,
+pequenos florões encarnados, ou pequenos traços que se encruzam e cobrem
+o fundo azul de um tecido encarnado com divisões quadradas ou rhombos.
+Em roda da vidraça e de cada medalhão ha cercaduras differentes, quasi
+sempre bastante longas e compostas de florões, palmetas, folhagens e
+enlaçadas com perolas.
+
+As composições representadas nos medalhões são tiradas da vida de Jesus
+Christo e de Nossa Senhora, ou da historia do antigo e novo Testamento;
+assim como da legenda dos Santos. A execução é d'uma grande simplicidade
+e com muita ingenuidade. O desenho accusa as tradições bysantinas: o
+emprego das figuras apparece, não obstante as roupas que o vestem, sendo
+as prégas da roupagem estreitas e parallelas.
+
+_As vidraças do XIII seculo_. As vidraças pintadas no XIII seculo têem
+grande similhança com as do XII, porque a maneira de sua execução ficou
+quasi a mesma. Nas janellas inferiores da capella mór e das naves
+lateraes, as vidraças compunham-se, como precedentemente, de medalhões
+historiados de differentes fórmas, dispostos uns por cima dos outros
+sobre uma ou muitas fileiras. Nas janellas superiores da capella mór e
+da nave principal, principiaram a representar, desde o final do XII
+seculo, grandes figuras em pé, figurando veneraveis personagens do
+antigo e novo Testamento.
+
+As côres de que mais uso se fez para os fundos das vidraças pintadas no
+XIII seculo foram o _azul_, o _encarnado_ e o _verde_; empregava-se
+tambem, em certos casos, porém com moderação, o _amarello_ e o _roxo_.
+Os fundos não são lisos, formam uma especie de pannos-de-raz sobre os
+quaes vem assentar a composição dos assumptos. Esta tapeçaria se compõe
+não sómente de _escamas_, _canniçal_ e de _xadrez_, mas, muitas vezes
+tambem, de enlaçados, festões e folhagens, enrolamento, sobre os quaes
+os assumptos se destacam perfeitamente. Do mesmo modo que nas
+composições com as grandes figuras, as tiras de chumbo indicam os
+contornos principaes d'estas ornamentações.
+
+No correr do XIII seculo, o estylo e o caracter do desenho mudaram
+completamente, porém por séries de transformações successivas. Desde a
+metade do XII seculo, os artistas de vidraças pintadas, da mesma fórma
+que os miniaturistas, os pintores, e os esculptores, tinham principiado
+a abandonar pouco a pouco as tradicções da arte Byzantina, e a
+manifestar uma direcção notavel para a imitação da natureza. Esta
+direcção augmenta e se affirma cada vez mais no XIII seculo. Os pintores
+das vidraças d'esta época não continuam a representar o nú das figuras
+em desdem da inclinação natural dos vestuarios, estudam a natureza e
+esforçam-se de a reproduzir tal qual se apresenta á sua vista:
+reconhece-se facilmente este novo methodo pela maneira por que são
+indicados os gestos das personagens, a physionomia das cabeças e as
+prégas dos vestuarios: os gestos perdem a sua expressão archaïca, as
+cabeças não são já desenhadas conforme os typos convencionaes, e os
+trajes são os da epoca, fielmente imitados. A composição dos assumptos é
+apresentada com animação; sendo evidente que os artistas do XIII seculo
+se preoccupavam de proposito em produzir no espectador um effeito
+subito.
+
+As vidraças pintadas do XIII seculo offerecem muito interesse para o
+estudo do vestuario da idade média. Conforme o uso adoptado n'esta epoca
+em todas as representações artisticas, sejam pintadas ou em esculptura,
+o artista vidraceiro tomava os seus modelos que lhe eram familiares; não
+se preoccupando de nenhuma maneira da fidelidade historica, trajava as
+suas figuras á moda do seu tempo.
+
+A arte da pintura das vidraças não se conservou por muito tempo no
+apogeu que havia alcançado no decurso de alguns annos. Desde o meiado do
+XIII seculo principiou a declinar pouco a pouco. Em consequencia da sua
+propensão notavel para os effeitos dramaticos, chega á affectação e ao
+exquisito, occupando-se mais dos detalhes, perdendo facilmente a nobre
+simplicidade que tanto caracterisava as suas obras no final do XII
+seculo e no principio do XIII seculo.
+
+Ao findar o XII seculo, as pinturas das janellas superiores da nave
+principal e quasi todas da capella mór foram ornadas com figuras em pé,
+representando santos do antigo ou do novo Testamento, não excedendo, em
+tamanho, a estatura geral do homem. No XIII seculo, dava-se a estas
+figuras proporções mais colossaes, porque ficavam collocadas a uma
+grande distancia do espectador. A disposição geral d'estas vidraças nas
+cathedraes e nas grandes egrejas do XIII seculo merece o exame
+reflectido da parte do archeologo. A pintura da vidraça superior do côro
+da capella mór, que attrahe sobretudo a vista e domina, de alguma
+maneira, o altar mór, era dedicada ao Salvador soffrendo pela redempção
+do genero humano; vê-se ahi quasi sempre Jesus Christo na Cruz entre a
+sua Divina Mãe e o discipulo querido, com os symbolos accessorios, que
+na idade média acompanham sempre a scena da crucifixação. Nas outras
+janellas superiores do côro estão em pé os Apostolos e os Santos
+venerados na basilica; as janellas altas da nave principal são pintadas
+com grandes imagens de outros Santos, taes como as dos patriarchas, reis
+e prophetas do antigo Testamento. As vidraças pintadas á roda da capella
+mór e das capellas da charola, formadas por medalhões, representam os
+principaes factos da vida de Jesus Christo e de Nossa Senhora, ou as
+legendas dos oragos da egreja; algumas vezes tambem, se representavam,
+sob fórmas symbolicas, os principaes dogmas da Fé. As vidraças pintadas
+das janellas lateraes da nave, e muitas vezes do transepte, eram
+dedicadas ás legendas de devoção da localidade, e aos Santos ou Santas
+de que a egreja possuia reliquias.
+
+Nas vidraças pintadas do XII e XIII seculo, ás vezes reproduziam os
+retratos dos doadores, mas sempre de tamanho menor.
+
+Passemos agora a fallar das vidraças com pinturas de _grisalha_. Dá-se
+este nome á composição do caixilho pintado de vidros brancos ou um pouco
+esverdinhados, sobre os quaes são traçados, por meio do _esmalte pardo_,
+desenhos e ornatos variados.
+
+Nas _grisalhas_ da primeira metade do XIII seculo, o desenho é
+desenvolvido com firmeza, vigorosamente modelado, e os vidros seguros
+por filetes de chumbo que indicam os traços mais fortes dos ornatos ou
+formam as principaes divisões do caixilho da vidraça pintada. Os vidros
+são quasi opacos e completamente sem nenhuma parte colorida. Estes
+vidros são geralmente grossos, esverdeados e muitas vezes apresentam
+bolhas na superficie.
+
+A começar da ultima metade do XIII seculo, as _grisalhas_ vieram a ser
+menos opacas, deixando penetrar uma claridade mais abundante no interior
+dos edificios; ás vezes não são estes vidros sem ter colorido, porque se
+lhe ajuntam vidros coloridos nos filetes que os dividem, ou nas pequenas
+rosetas espalhadas na superficie.
+
+
+*Vidraças pintadas do XIV seculo*
+
+
+_As vidraças pintadas do XIV seculo_ apresentam aspecto differente das
+dos seculos precedentes, posto que, durante toda a metade do seculo, o
+artista d'esta especialidade se servia ainda dos mesmos processos
+d'execução dos seus antecessores. Esta mudança total d'aspecto proveio
+de muitas causas: pelas novas disposições da armação de ferro, assim
+como pelo tom claro e brilhante que se deu ás vidraças, finalmente pelas
+propensões exageradas para a imitação servil da natureza real.
+
+Nas guarnições de ferro das vidraças do XII e do XIII seculo, desenhando
+os contornos tão variados dos medalhões legendarios, foram levados a
+seguir a fórma primitiva, consistindo em simples hastes verticaes
+divididas de distancia a distancia, por travessas horisontaes, formando
+angulo recto com essas hastes.
+
+As côres mais empregadas nas vidraças do XIV seculo, eram o _azul_, o
+_encarnado_ e o _amarello_; este ultimo tom, geralmente muito usado,
+produzia um brilhante effeito, que fazia desmerecer as grisalhas claras,
+frequentemente empregadas n'essa epoca. A côr _verde_ e o _roxo_ vão
+sendo menos usadas.
+
+O desenho continúa, durante o XIV seculo, a obter mais correcção; porém
+o pintor de vidraças, esquecendo cada vez mais a pintura transluzente
+que não é e não podia ser uma simples pintura de conservação, procura já
+produzir illusão para a vista do espectador; tenta de copiar a natureza,
+e consegue algumas vezes reproduzil-a com certa fidelidade.
+
+As vidraças _legendarias_ desapparecem quasi completamente no XIV
+seculo, e nos raros exemplos que se encontram, os medalhões são quasi
+sempre supprimidos e as representações das differentes scenas religiosas
+sobre-postas uma ás outras, ficam sem molduras e sem separação. As
+grandes figuras isoladas preferidas n'esta epoca, apparecem, não sómente
+nas vidraças altas, mas tambem nas outras dos lados da nave e á roda da
+capella-mór. Representam mais vezes Santos, e poucas vezes pessoas ainda
+existentes.
+
+As figuras estão sempre postas debaixo de doceis cheios de ornamentação
+tirada da architectura, taes como ridentes, pinaculos, clochetões,
+rosaceas e arcos-butantes. Estes doceis parecem ficar sustentados por
+pés-direitos com feitio de contrafortes ornados de arcadas e de nichos,
+nos quaes se collocam pequenas figuras d'anjos e de santos. As molduras
+e os doceis do remate das grandes figuras tomam ás vezes uma tão grande
+importancia que occupam tanto e mesmo maior espaço, que as figuras que
+elles adornam.
+
+No principio do XIV seculo os fundos das vidraças sobre os quaes
+sobresaem as grandes figuras são ás vezes lizos, outra de côr
+_encarnada_ ou _azul_; vindo a ser depois quasi sempre de feitio
+_adamascado_, isto é, cheias de desenhos differentes, similhantes aos
+que se vêem na seda chamada _damasco_.
+
+No XIV seculo, os brazões dos doadores apparecem muitas vezes nas
+vidraças pintadas. Vêem-se tambem nos bordados, nas rosaceas do tympano
+e nas almofadas inferiores das janellas, e inscripções que apparecem
+frequentemente.
+
+No meiado do XIV seculo, uma importante descoberta, do _amarello de
+prata_, fez obter aos pintores de vidraças um novo esmalte e
+proporcionou-lhes grande facilidade no trabalho da pintura. O _amarello
+de prata_, é um esmalte obtido por um composto d'ocre amarello com o
+sulphureto de prata. Depois de ter passado pelo lume os vidros cobertos
+d'este mixto, separa-se a demão secca d'ocre; ficando depois sobre o
+vidro um bellissimo tom amarello mais ou menos carregado e perfeitamente
+translucido.
+
+Os fabricantes dos vidros tornando-se mais habeis, conseguiram tambem,
+durante o curso do XIV seculo, produzir chapas de vidro muito maiores
+que nos seculos precedentes.
+
+A descoberta do amarello de prata e os progressos feitos no fabrico do
+vidro contribuiram poderosamente para modificar o aspecto das vidraças
+pintadas, porque fizeram diminuir o numero dos filetes de chumbo, e
+simplificaram, por conseguinte, a armação da vidraça.
+
+As grisalhas do XIV seculo parecem-se muito com as do final do seculo
+precedente. Todavia as grisalhas sem colorido são substituidas pouco a
+pouco pelas que apresentam algum colorido. Além d'isso, depois do meiado
+do XIV seculo, apparecem as grisalhas brancas, com o realce do amarello
+de prata.
+
+
+*Vidraças pintadas do XV seculo*
+
+
+_No XV seculo_ uma unica côr tem applicação, posto que, de pouca
+importancia, para servir de incarnação, vindo-se ajuntar á palheta do
+artista aos dois esmaltes já conhecidos. Esta fraca tinta, que servia
+para modelar as cabeças e as partes nuas do corpo humano, era provavel
+fôsse um composto d'oxydo de ferro e terra de sombra calcinada. O pintor
+de vidraças não tinha ainda á sua disposição senão tres côres para
+pintar sobre o vidro: o _pardo_, o _amarello de prata_ e a _côr_ para a
+incarnação; porém achou novo expediente para a sua arte no emprego de
+_vidros duplicados_. Já explicámos como, desde o XII seculo, o vidro
+encarnado era muitas vezes composto de duas laminas, uma sem côr e outra
+encarnada, ficando sobrepostas durante a sua fabricação. Depois no final
+do XIV seculo, o processo que tinha servido antes para se obter vidros
+encarnados, foi applicado ás outras côres. Sobrepondo duas ou mais
+demãos de differentes côres, obtinham-se vidros de tintas muito
+variadas. Os vidros duplos lhe davam certos tons d'um vigor desconhecido
+até então: obtinham-se vidros roxos sobrepondo o vidro encarnado ao azul
+claro; verdes, sobrepondo o branco, amarello e o azul.
+
+O colorifico que é resultado de se terem unido dois vidros de côres
+differentes não póde ser confundido com o que se obtem pela applicação
+d'uma côr d'esmalte sobre o vidro fabricado, e posto depois á recocção
+do fogo.
+
+Os pintores de vidraças do XV seculo, não empregavam sempre os recentes
+aperfeiçoamentos introduzidos na sua arte com bastante cuidado e
+intelligencia. É por isso que o emprego muito frequente e irracional da
+pintura em grizalha sobre vidro branco constitue um dos caracteres
+particulares das vidraças pintadas da ultima metade do XV seculo e do
+principio do XVI seculo. Muitas vezes as roupas superiores das grandes
+figuras em pé são brancas e o fôrro sómente de côr. Comprehende-se que
+este abuso das grizalhas, nas roupagens e na maior parte dos
+accessorios, dá necessariamente ás vidraças uma apparencia clara e
+scintillante. Muitas vezes os fundos azues e encarnados, adamascados
+superiormente, nos quaes sobresaem as figuras e os assumptos, offerecem
+ainda unicamente um tom real com bastante colorido.
+
+O maior numero d'estas vidraças tem emmoldurados de feitio
+architectural, consistindo em contrafortes cheios de pinaculos ou
+columnasinhas, com os fustes mais ou menos ornados. Estes emmoldurados
+parecem suster os docéis, cujos lados inclinados da empena, sempre de
+fórma ogival, são ornados de elegantes folhagens. Debaixo dos docéis
+estão figuras em pé separadas pelas molduras das hombreiras, seja por
+assumptos historicos ou legendarios, occupando toda a largura do vão.
+Nas vidraças com assumptos não apparecem os filetes de ferro na
+separação dos vidros. Quando se superpõem, como às vezes acontece,
+muitas figuras e muitos assumptos em um só vão da janella, ficam
+separados uns dos outros por sócos ornatados com decoração
+architectonica da época, e apoiando-se sobre os docéis que formam o
+remate do renque inferior.
+
+Os grandes progressos que foram realisados, no XV seculo, na pintura
+opaca ou de cavallete, e o estado prospero em que ella se achava desde a
+primeira metade do XV seculo, exerceram a mais funesta influencia sobre
+a pintura translucida. Os pintores de vidraças, que quasi sempre eram
+tambem, e mesmo principalmente, pintores de quadros, esqueciam
+diariamente, cada vez mais, que a pintura sobre o vidro é essencialmente
+uma pintura de convenção. Não se contentavam de introduzir nas vidraças
+pintadas um desenho mais correcto, procuravam ainda enganar a vista do
+espectador tão completamente quanto fosse possivel; por outras palavras,
+executavam sobre o vidro composições que só convinham para superficies
+opacas.
+
+No meiado do XV seculo, apparecem nas vidraças pintadas, como nos
+quadros de tela, pequenas paisagens em perspectiva longiqua; estas
+paisagens representavam vistas pittorescas de castellos cheios de
+ameias, edificios de toda qualidade e apresentações dos trabalhos
+agricolas.
+
+No XII e no XIII seculo, as vidraças das egrejas compunham-se de
+pinturas e esculpturas, eram um livro sempre patente, onde os ignorantes
+e bem assim os estudiosos podiam instruir-se nos principaes dogmas da
+Fé, na historia da religião e nos deveres do homem para com Deus e o
+proximo. Esta missão sublime da arte religiosa começou a ser esquecida
+durante o XIV seculo; em muitas vidraças d'esta época, as representações
+exemplares e instructivas são substituidas por brazões e retratos em pé
+dos doadores. No XV seculo, as propensões, cada vez mais profanas, se
+manifestam na escolha dos assumptos reproduzidos nas vidraças pintadas.
+Estas não serviam para instrucção do povo; muitas vezes os principaes
+dignitarios ecclesiasticos e os poderosos do mundo se faziam ahi
+representar sumptuosamente; quando muito, o santo orago apparece atraz
+no segundo plano da pintura, emquanto os brazões de armas se repetem,
+sob fórmas diversas, em todos os lados da vidraça.
+
+
+*Vidraças pintadas no XVI seculo*
+
+
+No XVI seculo, as vidraças pintadas apresentam um aspecto inteiramente
+novo. Todavia o primeiro terço do seculo se passou sem que os processos
+materiaes da pintura sobre o vidro se tivessem modificado; e se a
+_renascença_ não tivesse, desde este momento principiado a influir nas
+composições artisticas, seria difficil distinguir as vidraças dos
+primeiros annos do XVI seculo das do final do seculo precedente. Em
+1540, uma nova côr teve applicação, o _encarnado de ferro_, que se
+juntou na paleta do pintor de vidraças aos tres esmaltes conhecidos
+então: o pardo, o amarello de prata, e a côr para encarnação. Alguns
+annos depois, em 1550, achou-se o segredo de applicar todas as côres,
+preparando-as com um liquefactivo (que não era outra coisa que o pó
+vitreo), incorporando-os pela cozedura nas placas de vidro. Este genero
+de pintura sobre vidro, que teve o nome de _pintura_ ou _apprèt_, deu
+grandissimas facilidades para os pintores de vidraças, e fez mudar
+completamente os processos da arte. O artista preparava primeiramente a
+placa vitrea, pouco mais ou menos como a téla, para a pintura a oleo
+pela maneira de tintas geraes e sitios; sobre estes tons modelava depois
+as figuras e objectos; finalmente traçava as sombras e alcançava o
+effeito com os retoques de côres, emquanto fazia apparecer os pontos
+luminosos, desfazendo com promptidão a tinta opaca afim de deixar ao
+vidro toda a sua translucidez.
+
+Cerca da mesma época descobria-se a propriedade que tem o diamante de
+cortar o vidro, inventando-se o tira-chumbo, que facilitou a producção
+dos filetes de chumbo para segurar os vidros, conseguindo-se tambem
+executar placas de vidro de grande dimensão. Todos estes progressos nos
+processos materiaes produziram uma revolução completa na arte da pintura
+das vidraças, e tiveram por principal resultado o abandono quasi total
+dos vidros tintos na massa.
+
+O estylo das vidraças transforma-se inteiramente no XVI seculo sob a
+influencia artistica do renascimento. Nos edificios religiosos dos
+primeiros annos do XVI seculo, a volta inteira substituiu
+insensivelmente a ogiva. Depois d'esse momento tambem appareceram, sobre
+as vidraças pintadas, ornatos tirados do estylo classico, misturados com
+florões e outras decorações que recordavam ainda a época ogival. Pouco a
+pouco as idéas classicas fazem progressos e conseguem, depois de algum
+tempo, obter a preferencia. Não se vê mais então ovanos, volutas, folhas
+de acantho, festões de flores e fructas. O arco de triumpho ou portico,
+imitado da architectura pagã, forma de ora ávante o moldurado proprio
+das vidraças pintadas em que figuram as personagens e os assumptos. Até
+metade do XVI seculo, o artista se satisfaz em desenvolver, na parte
+inferior da vidraça o assumpto principal com o moldurado que o limita, e
+reserva a parte superior, assim como o tympano para collocar os brazões
+e os symbolos. Poucos annos depois da metade do XVI seculo, em 1560, o
+assumpto e o emmoldurado passam mesmo atravez dos enlaçamentos do
+tympano, se todavia os quizerem respeitar, e não fazel-os desapparecer.
+
+Os assumptos religiosos e symbolicos são raros sobre as vidraças
+pintadas do XVI seculo: vêem-se as mais das vezes os retratos dos
+doadores nas vidraças, onde apparecem representados geralmente de
+joelhos sobre um genuflexorio, quer só, quer rodeados das pessoas de
+suas familias. O orago do sanctuario os acompanha sempre, e os seus
+brazões repetem-se muitas vezes em differentes partes na pintura da
+vidraça.
+
+No XVI seculo, produziu-se uma certa predilecção pelas pequenas
+almofadas pintadas com que se ornavam antes, algumas vezes no final do
+seculo precedente, as vidraças dos edificios publicos, castellos,
+claustros e mesmo as habitações particulares. Essas bonitas pequenas
+almofadas, quer em grizalha retocada com amarello de prata, quer de
+côres differentes, são feitas com bastante tenuidade e delicadeza
+extrema. Ás vezes occupam toda a abertura, ou pelo menos uma das
+divisões principaes da vidraça, outras vezes consistem em simples
+medalhões circulares ou ovaes, circumdados de vidro colorido ou branco.
+As pequenas vidraças pintadas, designadas _vidraças suissas_, porque
+tiveram primeiramente uso na republica Helvetica, pertencem á mesma
+categoria. Estas vidraças, cujo uso se conservou durante os seculos
+seguintes, reproduziram para a nobreza os brazões de familias
+differentes moldurados; para os edificios municipaes, as armarias da
+cidade ou da provincia com figuras de porta-estandartes vestidos com os
+trajos e as armaduras da época; para as abbadias, as armas do mosteiro
+ou a figura em pé do fundador. Os burguezes e as pessoas de profissão
+eram ahi representados com os symbolos do seu officio sobre um escudo.
+Muitas vezes tambem os fidalgos, burguezes e operarios eram
+representados todos nos seus trajos com sua familia. A transparencia e o
+brilho do colorido são geralmente mais vistosos nas vidraças suissas,
+que nas maiores vidraças pintadas.
+
+
+*Vidraças pintadas do XVII seculo*
+
+
+No XVII seculo, a pintura com preparo ou com côres pegadas, continuou a
+ter voga, devido aos aperfeiçoamentos introduzidos na composição e no
+assentar os esmaltes, o que fez abandonar completamente o emprego dos
+vidros duplos e dos vidros tintos na massa. Este genero de pintura,
+muito apropriada para as vidraças pintadas dos aposentos, não convinha
+de maneira nenhuma para decoração das grandes vidraças pintadas, porque
+o artista querendo apresentar grandes sombras e tons fugitivos,
+servindo-se de meias-tintas e de tintas de bistre, tornava a sua pintura
+tão carregada, embaciada e confusa que, por vezes, era difficil
+distinguir os objectos.
+
+A representação de Arcos de Triumpho ou porticos constituia, como no
+seculo precedente, o moldurado forçoso de todas as composições, com esta
+differença, que esses arcos e esses porticos são agora vistos
+obliquamente ou de lado, isto é, em perspectiva, emquanto d'antes
+apresentavam a frente geometral.
+
+Os filetes de chumbo, que anteriormente seguravam tão vantajosamente os
+principaes contornos do desenho, foram considerados como inuteis e mesmo
+causando embaraço na execução da pintura. Não serviram mais que para
+reunir vidros eguaes e quadrados, formando uma especie de canniçado, por
+detraz do qual os artistas pintavam sobre os vidros como se fossem uma
+tela, não fazendo nenhum caso das juntas metallicas.
+
+
+*Vidraças pintadas do XVIII seculo*
+
+
+_No XVIII seculo_, os vidros tintos na massa foram pouco fabricados; seu
+preço era avultado, e sua falta muito grande. Quasi todas as vidraças
+d'esta época são com vidros esmaltados. O esmalte branco, já conhecído
+no XVI e XVII seculo, veiu a ser então de uso geral e formou as
+principaes côres empregadas. A decadencia da pintura das vidraças foi
+completa, e a arte perdeu a tal ponto que havia em Paris um _unico
+pintor d'esta especialidade_, o qual não podia subsistir por este seu
+trabalho.
+
+Finalisando a historia de pintura sobre o vidro, devemos notar uma
+tradição popular muito vulgar que considera, sem razão, a arte da
+pintura sobre o vidro, conforme era feita na edade média, como sendo um
+segredo que se perdeu desde muito tempo. Esta opinião não tem nenhum
+fundamento.
+
+
+*Pilares, columnas e columnasinhas*
+
+
+Na edade média, as designações de _pilar_ e de _columna_ se confundem
+muitas vezes; todavia a palavra _columna_ indica a idéa de um apoio com
+fuste cylindrico. Eucontram-se nos edificios do periodo ogival quatro
+especies principaes de pilares ou columnas: o pilar _quadrado_, a
+columna _monocylindrica_, a columna _cruciforme_ e a columna
+_enfeixada_. A columna monocylindrica dá em secção um _circulo_, e o
+pilar quadrado, um _quadrado_ ou um _rectangulo_; a columna cruciforme
+se compõe de um _pilar central_, tendo sobre _as faces quatro columnas_
+mais ou menos envolvidas; finalmente a columna _enfeixada_, como o nome
+indica, é o resultado da reunião em _mólho_, em roda de um massiço
+formando pilar, _muitas columnasinhas ou nervuras_.
+
+Os pilares quadrados são raros durante o periodo ogival; apparecem no
+começo, e ás vezes as suas arestas são chanfradas.
+
+Em quasi todos os monumentos belgas do XIII e XIV seculos, as columnas
+são monocylindricas. As columnas cruciformes, communs nas cathedraes
+francezas, servem na Belgica principalmente na intersecção da nave e do
+transepte nos grandes edificios.
+
+Os edificios do XV seculo teem as columnas monocylindricas ou
+enfeixadas. As primeiras apresentam ás vezes capiteis; outras vezes são
+inteiramente privadas d'elles. N'este ultimo caso os arcos-duplos e as
+nervuras das abobadas nascem directamente do fuste da columna, no logar
+onde se colloca o capitel. Este genero de columnas se encontra muitas
+vezes em todos os paizes da Europa central e occidental.
+
+No XV seculo, as columnas enfeixadas não são já formadas, como
+precedentemente, de columnasinhas com capitel, porém compostas de
+nervuras _prismaticas em grupo_, á roda de um pilar central. Estas
+nervuras saem da base da columna erguendo-se quasi sempre sem ter por
+intermedio o capitel até ás abobadas do edificio, afim de formar os
+_arcos-duplos_ e os arcos ogivaes; são sempre com a fórma angulosa e
+apresentam secções similhantes ao feitio de um seio. É por excepção que
+se encontram ainda, em certas partes dos monumentos do XV seculo,
+columnas enfeixadas formadas pela reunião de columnasinhas cylindricas
+com capitel.
+
+Os pilares e as columnas são construidas por _fiadas_ na Belgica, na
+Allemanha e no Norte da França. No meiodia da França e na Italia, as
+columnas cylindricas são quasi sempre monolithos.
+
+Durante o periodo ogival, os fustes das _columnasinhas_ não são, como
+muitas vezes no periodo _roman_, cobertas de diversas esculpturas.
+Todavia encontram-se, em alguns edificios dos primeiros annos da época
+ogival, como na cathedral de Chartres em França, e em muitos monumentos
+italianos, columnasinhas _terciaes_ em que o fuste é em espiral.
+
+As columnasinhas tiveram principalmente applicação no XIII e no XIV
+seculos. As que compõem os grandes pilares teem geralmente o seu fuste
+envolvido n'um quarto de circumferencia, os outros tres quartos ficam
+apparentes; algumas, não obstante, estão inteiramente separadas da
+parede ou da columna que fórma o pilar que ellas ornam, como existe nas
+cathedraes de Amiens, França, e de Salisbury, na Inglaterra. No XIII
+seculo, essas columnas são muitas vezes, como as do seculo precedente,
+_anneladas_, ou compostas de engrossamentos em fórma de bracelete.
+
+No XV seculo, estas columnasinhas são raras; ou então substituidas por
+nervuras prismaticas não sómente nas columnas enfeixadas, mas tambem em
+todas as outras partes dos edificios, taes como o molduramento das
+portas e das janellas. Estas nervuras teem base, mas sem capitel.
+
+No principio do XVI seculo tornam a apparecer as columnasinhas com o
+fuste coberto de esculpturas, representando figuras geometricas, festões
+e arabescos. Os fustes das columnasinhas d'esta época são regularmente
+cylindricos: algumas vezes polygonaes ou apresentando a forma de
+_balaustre_.
+
+
+*Bases das columnas*
+
+
+As bases das columnas do XIII seculo compõem-se de dois _tóros_
+separados por uma cavidade redonda (_scocia_) bastante profunda de
+maneira a formar uma calha na qual a agua da chuva se retem afim de não
+prejudicar o cimento da construcção. Algumas vezes o tóro inferior é
+achatado e sobresae bastante por cima do _plintho_; o tóro superior é
+quasi sempre cylindrico; por vezes todavia apresenta uma pequena
+depressão.
+
+Durante a primeira metade do XIII seculo, as bases das columnas estão
+ainda muitas vezes ligadas aos angulos dos seus plinthos _por garras_.
+As garras apparecem por vezes, porém excepcionalmente no final do
+periodo ogival.
+
+Depois do meiado do XIII seculo, a _scocia_ profunda, que indica um dos
+signaes caracteristicos das bases da ultima metade do XII seculo e do
+principio do XIII seculo, desapparece pouco a pouco, assim como o
+achatamento do tóro inferior. As bases passam depois successivamente
+pela fórma polygonal ou cylindrica; pertencendo a primeira d'este feitio
+ao XIII seculo, e a segunda ás bases do XVI seculo.
+
+Quando o tóro inferior da base desdobra muito sobre o plintho da
+columna, põe-se algumas vezes um pequeno apoio por baixo do t­óro. Esta
+particularidade, sem belleza, se encontra nos edificios francezes e da
+Belgica.
+
+O sóco sobre o qual vem assentar a base da columna do XIII e do XIV
+seculos, fórma, quasi sempre, um octogono regular; algumas vezes,
+comtudo, é quadrado (nos edificios dos primeiros annos do periodo
+ogival) ou cylindrico. Os _sócos cylindricos_ se encontram em muitos
+monumentos belgas do XIII e do XIV seculo: tambem são bastante communs
+na Inglaterra: em França servem na Normandia, na Bretanha e no Maine.
+
+No XV seculo, a base e plintho das columnas monocylindricas são
+extraordinariamente delgadas. A base é formada sempre por uma simples
+moldura do feitio de tóro. Muitas vezes esta moldura, que nos seculos
+precedentes era traçada sobre um plano circular, toma a fórma polygonal
+do sóco.
+
+Nas columnas enfeixadas do seculo XV, as pequenas bases parciaes das
+nervuras prismaticas ou cylindricas em grupo á roda do pilar central,
+formam, pela sua reunião e penetração, a base e o sóco da columna.
+Durante a primeira metade d'este seculo, as pequenas bases teem todas o
+mesmo perfil e ficam ao mesmo nivel. Mais tarde, os architectos
+costumaram perfilar as bases parciaes em niveis differentes, como para
+melhor fixar cada columnasinha e para evitar tantas compridas linhas
+horisontaes.
+
+_Capiteis_.--Durante todo tempo do periodo ogival, ornaram regularmente
+com bellas esculpturas os açafates dos capiteis. Houve comtudo excepções
+a esta regra, e por isso se encontram em alguns edificios religiosos de
+segunda e terceira ordem do XII e do XIII seculo, limitados por uma
+simples moldura.
+
+Os capiteis do XIII seculo distinguem-se com facilidade pela
+ornamentação vegetal de um caracter mui particular. O seu açafate
+compõe-se geralmente de um, de dois, e algumas vezes mesmo de tres
+renques de crochetes ou enroscamento de folhagens. Os crochetes de
+renque superior supportam quasi sempre os angulos do abaco, e
+substituem, de alguma maneira, o emprego dos modilhões. No final do XII
+seculo e no principio do XIII seculo, teem a sua extremidade enroscada e
+parecem rebentos de vegetaes. Em França desde o final do XII seculo, e
+na Belgica um pouco depois, as extremidades dos crochetes se desenrolam,
+e os rebentos se abrem em folhagens.
+
+Algumas vezes os crochetes, em logar de acabarem por folhagens
+enroscadas ou abertas, trazem no seu cume cabeças de homens e de animaes
+verdadeiros ou phantasticos.
+
+Os capiteis com crochetes enroscados, cujo emprego então estava
+abandonado em toda a parte no final do XIII seculo, continuou na
+Flandres maritima até ao fim do periodo ogival. Além d'isso, os
+crochetes teem, n'esta região, uma fórma especial; seus enroscados são
+muito mais chatos e mais largos.
+
+A ornamentação dos capiteis do XIV seculo consiste em ramos de
+folhagens, de flôres e de fructos, de fórma muito variada, nas quaes se
+acham todos os caracteres da esculptura ornamental do XIV seculo. Os
+crochetes, apropriadamente assim designados, não apparecem mais que
+excepcionalmente com os capiteis d'esta época: todavia os ramos de
+folhagens e de flores são geralmente collocados, nos angulos do abaco,
+de maneira a recordar pelo seu vulto os crochetes do XIII seculo, e
+servem para o mesmo fim. Muitas vezes estes ramos são dispostos sobre
+dois renques; esta maneira se nota sempre quando, como acontece
+repetidas vezes, o açafate é composto de duas peças sobrepostas, e mesmo
+algumas vezes, quando o capitel é formado de uma só pedra.
+
+As figuras de animaes reaes ou phantasticos se encontram poucas vezes
+sobre os capiteis do XIII e do XIV seculos.
+
+Os capiteis do XV seculo teem, como os dos seculos precedentes, o seu
+açafate coberto de folhagens; porém essas folhagens apresentam
+geralmente mais ou menos desenvolvimento; são delgadas, angulosas, muito
+recortadas, muito profundas e exaggeradas. Com o XV seculo, appareceu
+sobre os capiteis o ornato vulgarmente designado _folha de repolho_.
+
+Em muitos ornamentos do XV seculo, os architectos, levados pela
+applicação muito rigorosa do preceito que qualquer ornato deve ter ao
+mesmo tempo um emprego necessario, supprimiram o capitel. N'estes casos,
+os arcos-butantes e as nervuras das abobadas sobem, sem intermediario,
+do fuste cylindrico, ou então nascem na base mesmo da columna, seguindo
+toda a largura do fuste até ao nascimento das abobadas, e tomam, n'esse
+logar, as differentes direcções convenientes para a construcção das
+abobadas.
+
+As columnas cylindricas com capitel são usadas nos edificios belgas do
+XV seculo, mas são bastante raras em França.
+
+
+*Modilhões e misulas*
+
+
+É um apoio que faz saliencia sobre a face de uma parede ou de uma
+columna que se chama _modilhão_ quando tiver dois lados lateraes
+parallelos e perpendiculares á parede; e _misula_, quando apresentar uma
+outra differente posição.
+
+Depois do meiado do XIII seculo, os modilhões do feitio de curvas são
+raros.
+
+As misulas apresentam por vezes uma tal ou qual similhança com os
+capiteis, e são tambem sempre rematadas por um abaco; differençam-se
+comtudo, as mais das vezes, pelo seu genero de ornamentação. Na verdade,
+as esculpturas dos capiteis do periodo ogival reproduzem quasi sempre
+vegetaes: e sómente por excepção mostram figuras de homens ou de
+animaes. Sobre as misulas, pelo contrario, a ornamentação vegetal não
+apparece, por assim dizer, senão no XIII seculo, e mesmo é rara; durante
+os dois seculos seguintes desapparece, e então as misulas são
+constantemente formadas de personagens grotescas, acocoradas, de animaes
+reaes ou phantasticos, e algumas vezes tambem de cabeças humanas, ou
+figuras de anjo e de homem sustentando escudos, disticos e bandeirolas.
+
+Muitas vezes as misulas, collocadas quer no interior, quer no exterior
+dos edificios, são pintadas com côres vivas.
+
+
+*Arcadas e arcaduras*
+
+
+As grandes arcadas ou archivoltas ligando os pilares das naves e
+sustentando o peso das paredes superiores, compõem-se regularmente de
+dois ou tres renques de sobre-arcos nos edificios do periodo ogival. Os
+perfis variam nos differentes seculos.
+
+No XIII seculo, e mesmo ainda no XIV seculo, as arestas da archivolta
+são formadas por tóros inscriptos na face quadrada da peça do arco; no
+XIV seculo e durante uma grande parte do XV seculo, os tóros já não são
+completamente cylindricos, mas teem antes do termino a curva d'esta
+moldura, um filete destinado a deter a força do reflexo; no final do XV
+seculo e no principio do XVI, os tóros cylindricos tornam a apparecer.
+
+As _arcaduras_ são bastante vulgares nos monumentos do periodo ogival;
+servem para ornar o liso das paredes internas e exteriores dos
+edificios. Na parte interna apparecem principalmente no _triforium_ e
+por baixo dos peitorís das janellas das naves lateraes; na parte
+exterior, por baixo das cornijas e nos frontespicios, nos vasamentos dos
+grandes portaes e nas galerias dos claustros.
+
+As arcaduras que se vêem em baixo das janellas de quasi todos os grandes
+monumentos, compõem-se de uma serie de pequenas arcadas fingidas,
+collocadas entre os peitorís das janellas e o solo ou no sóco de
+cantaria que fórma, muitas vezes, uma especie de base ao longo das
+paredes das naves lateraes.
+
+No XIII seculo, as curvas das arcaduras assentam sobre columnellos mais
+ou menos embebidos na parede. No XIV e no XV seculos, os _columnellos_
+ficam substituidos por simples nervuras, ás vezes cylindricas; porém as
+mais das vezes a secção polygonal não differe muito da de uma
+semi-hombreira de janella. Estas nervuras teem remate junto do solo,
+sobre as bases que lhes pertencem. No final do periodo ogival,
+supprimem-se, por vezes, as nervuras, e então as _arcaduras_ assentam
+sobre modilhões.
+
+No XIV e no XV seculos, as arcaduras sobre os peitorís das janellas
+ligam-se inteiramente com as hombreiras das janellas e parecem, de
+alguma maneira, confundir-se com elles: parecendo que atravessam a
+cantaria do peitoril e descem até ao solo. As arcaduras não são mais do
+que a parte inferior da janella que está tapada, e na verdade, a parede
+necessitando de diminuir para dentro, ficando á face da vidraça, afim de
+deixar metade do peitoril apparente, conserva apenas uma pequena
+grossura, que equivale a uma simples divisão.
+
+Nos edificios mais esmerados, os _seguintes_, isto é, os lados
+triangulares comprehendidos entre os extradoz das archivoltas e de duas
+_arcaduras_, proximas uma da outra, estão geralmente ornatados com
+esculpturas, pinturas ou rendilhados, mostrando a fórma trilobada ou
+quadrilobada, e com vidros pintados, emquanto as paredes que separam os
+entre-columnios, apresentam pinturas decorativas.
+
+As esculpturas e as pinturas com as quaes se decoravam os _seguintes_
+das arcaduras, durante o periodo ogival, são ora legendarios ou
+satyricos, ora tirados do reino vegetal. Nos monumentos inglezes do XIII
+seculo, os _seguintes_ estão muitas vezes com ornatos similhantes a
+estofo cheio de relevo.
+
+Dentro das grandes egrejas do XV seculo existem como decoração as
+arcaduras e outras figuras por cima e por baixo do _triforium_, sobre o
+dorso das grandes arcadas e ao correr das janellas mais superiores; ás
+vezes mesmo sobre o liso das paredes e em outras partes do edificio.
+
+
+*Triforium*
+
+
+Os _triforiums_ comprehendem toda a largura das naves lateraes, não se
+vêem senão por acaso nos edificios do periodo ogival. Desde o final do
+XII seculo, lhes substituiram, nas egrejas da Europa occidental,
+galerias estreitas, abertas na grossura da parede, por baixo dos
+peitorís das janellas superiores da nave principal. Estas galerias
+estreitas offereciam commodidade: em primeiro logar facilitavam a
+circulação dentro da egreja quasi á altura das janellas superiores, e
+davam logar a collocarem-se as armações e outros adornos com que havia o
+costume de decorar as egrejas nos dias de festa; e em segundo logar,
+diminuindo a grossura das paredes superiores, alliviavam a pressão
+exercida sobre os pilares principaes dos edificios; finalmente,
+offereciam uma das mais importantes disposições para a decoração da nave
+principal.
+
+O triforium communica com o interior da egreja por series de arcaduras
+abertas, tendo o mesmo feitio que as arcaduras que havia sobre o liso
+das paredes, debaixo dos peitorís das janellas inferiores. Muitas vezes,
+principalmente no XV seculo, tapava-se a parte inferior da arcadura com
+um parapeito formando ornato de feitio de trêvo ou de quatro folhas.
+
+Nota-se que nos triforiums, assim como nas arcaduras com ornato, as
+archivoltas ficam assentes sobre columnatas com capitel pertencente ao
+estylo do XIII seculo, e sobre _nervuras das hombreiras_ dos seculos
+seguintes. A disposição das arcaduras do triforium apresenta ainda uma
+outra analogia muito parecida com as arcaduras de ornato, formando
+regularmente, desde o final do XIII seculo, a continuação das janellas
+das naves lateraes. Depois d'esta época tambem as arcaduras do triforium
+se assemelham ás janellas superiores da nave principal.
+
+No termo do periodo ogival, supprimem-se muitas vezes as arcaduras, não
+conservando mais do que um simples guarda-peito; o ornamento denominado
+_chama_ apparece regularmente nos desenhos que formam as hombreiras
+d'esses guarda-peitos. As janellas superiores ficam, n'este caso,
+collocadas a prumo sobre a parede exterior do triforium.
+
+Na Belgica, o triforium é geralmente tapado do lado exterior da nave por
+uma parede; é, por excepção, que esta parede tem abertura, e a um ou
+dois metros por cima do pavimento da galeria, pequenas aberturas
+circulares, _trilobadas_ ou _quadrilobadas_, cobertas de grisalhas ou
+com ornatos elevados. Nos edificios francezes do XIII e XIV seculos,
+pelo contrario, a galeria do triforium não fica, as mais das vezes,
+separada do exterior senão por uma simples lumieira, apresentando bellos
+vidros pintados, semelhantes aos que decoram as janellas.
+
+
+*Cornijas*
+
+
+As cornijas do estylo ogival têem geralmente pouca importancia. Nos
+edificios que pertencem ao periodo de transição, e mesmo, na Belgica, em
+algumas que são dos primeiros annos do periodo ogival, o _larmier_
+superior da cornija assenta ainda muitas vezes, de distancia em
+distancia, do mesmo modo que na época _roman_, sobre cachorros servindo
+de modilhões, com muita sacada, mas de grande simplicidade.
+
+Em França, as cornijas dos monumentos mais principaes compõem-se, quasi
+sempre, de duas fiadas de cantaria. A fiada inferior está ornada de
+crochetes vegetaes no XIII seculo, de folhagens ondeadas no XIV, e de
+folhas de repôlho encrespadas no XV. Algumas vezes vê-se tambem, entre
+estas esculpturas, modilhões formados por cabeças humanas ou por
+carrancas.
+
+As cornijas dos grandes edificios belgas apresentam as mesmas fórmas
+geraes que as cornijas francezas, porém não têem esculpturas, sendo
+substituidas por arcaduras simples, ogivaes, ou triboladas. Estas
+arcaduras apparecem principalmente nos paizes onde, durante o periodo
+Roman, as arcaduras serviam de decoração, imitando-se o estylo Lombardo,
+e foram usadas para ornar certas partes dos edificios.
+
+Desde o começo da ultima metade do XIII seculo até o final do XIV, os
+edificios de segunda ordem, e mesmo os de primeira ordem na Belgica,
+têem as cornijas compostas de simples perfis, formados por um pequeno
+numero de molduras pouco importantes.
+
+
+*Platibandas*
+
+
+As _platibandas_ que corôam as cornijas no exterior dos edificios
+principiaram nos primeiros annos do XIII seculo. Antes, a agua da chuva
+caía dos telhados directamente sobre o solo; até o meiado do XIII seculo
+sómente os edificios mais importantes tiveram canos de chumbo para dar
+vasão á agua da chuva e se assentaram platibandas sobre a beira do
+telhado. Estas platibandas encanavam a agua por gargúlas, que a lançavam
+para longe da face das paredes, e impediam por esta maneira que as aguas
+da chuva podessem prejudicar a base da construcção, introduzindo-se-lhe
+a humidade. As platibandas, cujo destino principal era evitar o perigo
+que apresentava passar sobre as gargúlas, facilitam além d'isso os
+concertos do telhado, e resguardam das telhas da beira quando cáem;
+permittindo aos architectos darem melhores decorações ao exterior dos
+monumentos.
+
+As mais antigas platibandas têem a fórma de arcaduras rendilhadas,
+compostas de columnatas, sobre as quaes vem assentar um remate vasado,
+na sua parte inferior, em arco ogival, _trilobado_. No final do XIII
+seculo substituiram-se as arcaduras pelas folhas de trêvo e de quatro
+folhas vasadas.
+
+A altura e o feitio das platibandas variam conforme os materiaes
+empregados. No XIV seculo as platibandas, as mais das vezes, tinham
+folhas de trêvo e de quatro folhas, vasadas e divididas de distancia em
+distancia, na prumada dos contra-fortes, por pinaculos. No XV seculo, as
+prumadas são compostas, umas vezes pela reunião de rhombos, de
+triangulos equilateraes curvilineos, ou por figuras geometricas
+angulares; outras vezes por desenhos flammejantes, parecidos com os que
+caracterisam os tympanos das janellas d'esta época. No final do XIV
+seculo apparecem, principalmente nos edificios civis, as platibandas com
+ameias, nas quaes se vêem os mesmos feitios que nas platibandas
+vulgares. O seu uso persistiu até ao final do periodo ogival.
+
+As platibandas com arcaduras verticaes apparecem ainda aqui ou acolá nos
+edificios do XIV, XV e mesmo do XVI seculo.
+
+_Abobadas_. As abobadas ogivaes distinguem-se ao mesmo tempo pela sua
+elegancia e leveza. Isto foi resultado da pouca grossura dos triangulos
+do enchimento que vedava a parte composta de arcos-duplos e de nervuras.
+Comtudo a leveza não excluia a solidez; pelo contrario, as abobadas
+ogivaes são mais solidas e mais resistentes que as dos periodos
+anteriores, posto que sejam muito menos massiças.
+
+_Estabilidade e plano das abobadas_. Já explicámos que a estabilidade
+das abobadas não depende do mesmo principio dos edificios antigos e do
+periodo ogival; e fizemos notar, em poucas palavras, os progressos tão
+importantes realisados pelos architectos do XII e XIII seculos nas
+construcções das abobadas.
+
+Fizemos tambem conhecer que as abobadas com o feitio das nervuras, como
+são construidas as abobadas ogivaes, causam um esforço lateral que tende
+a desviar para fóra dos seus pontos de apoio as columnas, contra-fortes
+ou paredes. Os constructores do periodo ogival evitavam esse esforço
+lateral, oppondo-lhe quer um esforço em sentido inverso, quer um
+obstaculo rigido que, impedindo de operar, resolveu-o empregando cargas
+verticaes. É caso particularmente para notar, porque constitue
+egualmente uma differença essencial do systema de construcção dos
+antigos, esses obstaculos apresentam as dimensões unicamente necessarias
+para preencher o fim ao qual são destinados.
+
+Esta neutralisação dos esforços lateraes não se obtem da mesma maneira
+nos edificios religiosos, cuja nave principal é notavelmente mais alta
+do que as naves lateraes, e n'aquelles em que todas as naves teem egual
+altura.
+
+_Egrejas que teem a sua nave central muito mais elevada do que as outras
+lateraes_. Foi o systema adoptado, desde o final do XII seculo, pelos
+constructores da Europa occidental, afim de conservar o equilibrio das
+differentes partes de que se compunham os seus monumentos; porque o
+arco-duplo da abobada principal á parede mestra, o arco butante, o
+contraforte e a columna que separavam a nave principal da nave lateral
+do seu arco-duplo, formavam um triplo esforço motivado pelo arco-duplo
+da abobada principal e os seus dois arcos ogivaes, que faziam pender
+para fóra a parede mestra do edificio. A este esforço, o constructor da
+edade média oppunha o arco butante, que vinha apoiar-se sobre a parede
+mestra, ficando collocado ao mesmo nivel. Por esta maneira o esforço
+triplo causado n'esse ponto era transferido sobre o contraforte, onde se
+quebrantava por causa da sua rigidez; e devido a essa rigidez, o seu
+peso juntando-se ao da parede mestra do edificio, que comprime sobre a
+columna que sepára as duas naves; por ambas as forças reunidas,
+tornava-se esta bastante fixa para aguentar e neutralisar o triplo
+esforço exercido pelo arco-duplo da nave lateral e pelas nervuras
+proximas da mesma nave. O esforço do arco-duplo d'esta nave e das duas
+nervuras ficam supprimidas pelo encontro do contraforte.
+
+_Egrejas em que as naves ficam na mesma altura_. N'estas egrejas os
+esforços lateraes que a abobada da nave principal opéra sobre os seus
+pontos de apoio ficam diminuidos pela pressão das abobadas exteriores
+d'estas mesmas naves lateraes, ficando supprimidos pelos contrafortes,
+geralmente bastante salientes, os quaes lhes oppõem um obstaculo rigido,
+que produz o equilibrio das abobadas.
+
+_Abobadas de feitio de tecido_. As abobadas sobre plano _quadrado
+longo_, formadas por arcos ogivaes que se entroncam uma só vez, foram
+geralmente abandonadas proximo do meiado do XV seculo. Apparecem então
+as abobadas em _tecido_, designadas tambem pelos archeologos, abobadas
+_com divisões prismaticas_. N'estas abobadas as nervuras bifurcam-se,
+ramificam-se e encruzam-se em todos os sentidos, de maneira a figurar um
+verdadeiro tecido, como está representado na surprehendente abobada do
+cruzeiro da egreja monumental dos Jeronymos em Belem. Todos os pontos de
+intersecção das nervuras estão regularmente ornados de esculpturas.
+
+_Perfis das nervuras nas abobadas ogivaes_. As nervuras ou arcos ogivaes
+das abobadas construidas no final do periodo Roman consistem muitas
+vezes em um grosso tóro, algumas vezes tendo dois ou quatro tóros de
+menos vulto. Os arcos-duplos da mesma época, muito mais massiços que as
+nervuras, apresentam secções quadradas ou rectangulares, e teem os
+angulos das partes concavas da abobada talhadas em tóro. Desde o
+principio do XIII seculo, os arcos-duplos tiveram, com raras excepções,
+os mesmos perfis que os arcos ogivaes.
+
+Durante os primeiros annos do periodo ogival, vê-se ainda arcos-duplos e
+arcos ogivaes muito grossos, semelhantes aos dos edificios romans.
+Todavia não tardou a adelgaçarem, a diminuirem de grossura. Pouco
+depois, a parte redonda do tóro principal apresenta uma aresta viva.
+Esta fórma teve logar em França desde o final do XII seculo, e na
+Belgica sómente no meiado do seculo seguinte. Mais tarde, em França ao
+principio, e na Belgica proximo do meiado do XIII seculo, a aresta viva
+é substituida por um filete, que ficou adoptado até ao final do periodo
+ogival. Nos edificios francezes apparece tambem o filete sobre os tóros
+secundarios desde o meiado do XIV seculo. No final do XV e no começo do
+XVI seculo, as nervuras apresentam muitas vezes o perfil composto de
+molduras concavas e redondas.
+
+Comparando-se os perfis mais antigos com os mais recentes, nota-se que
+os primeiros apresentam uma superficie mais larga e menos alta que as
+dos ultimos. Esta mudança na fórma dos perfis não se fez sem motivo: os
+constructores tinham aprendido por experiencia que a resistencia de um
+arco ou de uma nervura está em razão directa da altura da peça de voltas
+e não em razão da sua largura.
+
+_Fecho da abobada_. No XII seculo, tinham principiado a ornar com
+esculpturas os fechos da abobada. Estes primeiros fechos esculpidos
+representavam Jesus Christo deitando a benção, o Cordeiro Divino, Nossa
+Senhora, os anjos, os animaes symbolicos dos evangelistas, santos, e
+muitas vezes tambem carrancas ou animaes phantasticos. Nas abobadas dos
+edificios de segunda ordem contentavam-se algumas vezes de indicar um
+simples florão ou entrelaços.
+
+No XIII seculo o emprego dos fechos de abobadas com esculpturas veiu a
+ser geral, sendo representado nas abobadas do côro, Jesus Christo, o
+Cordeiro Divino, os symbolos dos evangelistas e outros objectos
+religiosos. Na nave principal e nas lateraes a ornamentação distingue-se
+por ser vegetal. Os fechos de abobada no XIV seculo, e tambem na
+primeira metade do XV seculo, apresentam bastantes vezes a mesma
+decoração que a do XIII seculo; todavia na sua esculptura vegetal ha os
+caracteres proprios da ornamentação de cada um d'estes seculos. No XV
+seculo, os brazões dos bemfeitores da egreja são esculpidos
+frequentemente sobre os fechos da abobada.
+
+No final do XV seculo, apparecem os fechos da abobada ornados de um
+appendice que recebeu o nome de _pendente_, que ficou em uso durante uma
+parte do XVI seculo, imitando stalactites que estão suspensas ás
+superficies superiores das grutas. Algumas vezes tem o feitio de um
+florão ou um ornamento extravagante; outras representa uma estatua
+pegada á abobada.
+
+Muitas vezes os fechos da abobada são furados por um buraco circular,
+para se poder içar os sinos e outros objectos acima das abobadas: como
+havia dois oculos na abobada da egreja de Belem, indicando não sómente
+essa applicação, mas que o edificio _deveria ter duas torres_: todavia,
+construiram modernamente um torreão colossal, que esmaga aquelle
+monumento, e não respeitaram o que fôra projectado na sua primitiva
+edificação!
+
+_Arcos butantes_. Chama-se _arcos butantes_ aos arcos destinados a
+transportar até aos contrafortes exteriores o esforço lateral das
+abobadas mais elevadas de um edificio. Nascem dos contrafortes e
+apoiam-se sobre as paredes da nave principal nos differentes pontos onde
+vão confinar os resultantes dos _encostes_ dos arcos ogivaes e dos
+arcos-duplos.
+
+Já explicámos os dois systemas empregados durante o periodo roman para
+contramurar o esforço lateral produzido pelas abobadas superiores sobre
+as paredes altas das egrejas em que a abobada principal é muito mais
+alta que as outras das naves inferiores, e notámos os inconvenientes que
+resultavam de uma e de outra applicação. Estes dois systemas foram em
+pouco tempo abandonados, primeiramente porque a nave principal ficava
+sem claridade, sobretudo nos edificios de maior largura, e em segundo
+logar porque, n'um como no outro systema, as abobadas das naves lateraes
+precisavam de ser muito altas para attingir o ponto onde se effectuava o
+encontro combinado das nervuras das abobadas altas. Raciocinadores
+dispostos a sujeitar tudo aos principios dos architectos do XII seculo e
+do XIII seculo, conheceram que os semicirculos das abobadas em berço
+contiguo, do qual alguns dos seus antecessores se tinham servido com o
+fim de neutralisar o esforço lateral das abobadas altas, não era
+necessario na sua fórma completa, e que se obtinha o mesmo resultado
+applicando sobre a parede exterior do edificio no ponto onde viesse dar
+a resultante dos encostes, um arco partindo de um contraforte exterior:
+foi esta combinação que deu origem aos arcos-butantes.
+
+Para que satisfaça á sua applicação deve o arco-butante: 1.^o, ter as
+juntas das peças de sua construcção _normaes_ ou perpendiculares á curva
+por elle descripta; 2.^o, ficar o seu vertice sobre a parede exterior no
+ponto onde passe a resultante do esforço da abobada. Esse ponto acha-se
+entre o nascimento das nervuras ou arcos ogivaes e perto da metade da
+altura da abobada. Em theoria esse ponto é um ponto geometrico; todavia
+na prática é preciso que a summidade ou cabeça do arco-butante seja
+larga; primeiro porque é impossivel, na execução, determinar de uma
+maneira exacta a direcção da resultante dos differentes esforços das
+abobadas; depois porque a direcção d'esta linha póde facilmente
+desviar-se em resultado de ter dado de si nos pontos de apoio verticaes,
+effeito que acontece frequentemente nas grandes construcções medievaes
+cujos pontos de apoio são delgados e supportam uma pesada carga.
+
+Os arcos-butantes são geralmente reforçados, no seu _extradoz_, por um
+encosto em linha recta, construido em cantaria. O espigão d'este encosto
+é muitas vezes ornatado de _crochets_.
+
+Desde o final do XII seculo e no principio do XIII seculo, os
+arcos-butantes vieram a ser de uso geral em todos os grandes monumentos
+religiosos, cuja nave principal era mais alta que as naves lateraes. Os
+mais antigos são geralmente formados por um quarto de circulo. Depois a
+curvatura veiu a ser menos curva, approximando-se da linha recta.
+
+Empregaram tambem desde os primeiros annos do XIII seculo,
+arcos-butantes _duplos_, isto é, dois arcos-butantes collocados um por
+cima do outro.
+
+Os arcos-butantes foram empregados durante todo periodo ogival; todavia
+eram menos usados durante a ultima metade do XV seculo. Em muitos
+monumentos d'esta época, mesmo os mais principaes, julgavam-se
+sufficientes os contrafortes muito massiços e salientes para diminuir o
+esforço das abobadas.
+
+Quando no principio do XIII seculo collocaram por baixo do madeiramento
+um canal para receber as aguas da chuva, dirigiam as aguas do telhado
+principal para os contrafortes exteriores por um canal de cantaria posto
+sobre o capello do arco-butante. As aguas passavam atravez no cimo dos
+contrafortes, e eram depois lançadas fóra por gargulas, caindo afastadas
+da base do monumento. As infiltrações causadas pela passagem das aguas
+sobre o capello dos arcos-butantes, e atravez dos contrafortes,
+produziram damnos tão consideraveis nas construcções que ficou em pouco
+tempo abandonado este systema de dar escoante ás aguas da chuva.
+
+_Contrafortes_. Durante os primeiros annos do periodo ogival, os
+contrafortes dos edificios de abobadas foram demasiadamente engrossados
+e tiveram bases bastante salientes; á proporção que se elevavam assim,
+iam diminuindo consideravelmente por grandes resaltos successivos sobre
+cada uma das faces.
+
+No meiado do XIII seculo, os contrafortes ficam mais regulares,
+erguem-se quasi verticalmente da base á extremidade superior, e não
+apresentam já por cima do envasamento um ou dois resaltos bastante
+pequenos e sómente sobre a face principal.
+
+Estes contrafortes terminavam por uma face chanfrada que ia ter até á
+cornija, e muitas vezes era de fórma abahulada, quando ficavam isolados
+ou excediam a base do madeiramento. Nos monumentos principaes
+limitavam-se algumas vezes a pôr pinaculos, e ornavam as suas faces
+lisas de arcaduras e estatuas postas sobre misula, tendo docel.
+
+No XIV seculo a fórma dos contrafortes ficou quasi a mesma que durante a
+ultima metade do seculo precedente. Tinham a sua extremidade, como
+d'antes, quer em pinaculos e fórma abahulada, quer ficando os pinaculos
+assentes sobre base quadrada ou octogona, terminando por agulhas
+pyramidaes, cujas arestas estão ornadas de cróchets.
+
+Os contrafortes do XV seculo semelham-se ainda muitas vezes aos dos dois
+seculos precedentes. Como estes, apresentam, de distancia em distancia,
+diminuição de grossura pouco apparente sobre a sua face anterior, e são
+ornados de arcaduras, nichos e doceis, ornamentação no gosto da época.
+Todavia, desde o fim do XIV seculo, principiaram a modificar algumas
+vezes a sua disposição; regularmente deixaram subsistir a base quadrada
+ou rectangular, tendo a face anterior parallela e as duas faces lateraes
+perpendiculares com o liso da parede; porém, a certa distancia acima do
+solo (ao primeiro ou segundo resalto), a face anterior, parallela á
+parede, passa a ser angular; mesmo ás vezes se vêem contrafortes cuja
+face anterior fica angular á parede desde a base do edificio. Estes
+contrafortes, com lados chanfrados, acabam como todos os outros, por um
+plano inclinado, platafórma ou espigão de feitio abahulado, ou por um
+pinaculo bastante ornado.
+
+No XIII e no XIV seculo, os contrafortes collocados no ponto de
+intersecção de paredes que se encontram em angulo recto, são sempre em
+numero de dois. No XV seculo, julgavam ás vezes ser sufficiente um unico
+contraforte collocado de maneira a fazer face ao angulo; sendo estes
+contrafortes angulares muito communs nos edificios d'esta época.
+
+Por causa do excessivo esforço lateral que produzem sobre os seus pontos
+de apoio, as abobadas ogivaes necessitavam o emprego de contrafortes com
+base de bastante largura. Nos monumentos dos primeiros annos do periodo
+ogival, esses contrafortes, que teem tres de suas faces inteiramente
+livres, apresentam saliencias grandes sobre as paredes exteriores dos
+edificios. Estas sacadas desagradaram em pouco tempo aos constructores,
+que cogitaram em as diminuir ou fazel-as desapparecer inteiramente
+disfarçando os contrafortes. Para esse fim recuáram até á parede mestra
+a divisoria que havia antes na nave lateral, aproveitando na parte
+interna do monumento o espaço de um rectangulo que communicava com a
+extremidade da nave lateral e servia ás vezes de capella.
+
+Nos edificios do periodo ogival, cobertos por simples fôrro do tecto, de
+madeira, os contrafortes tinham pequena sacada sobre o liso das paredes.
+
+_Gargulas_. Dá-se o nome de _gargulas_ aos canaes salientes pelos quaes
+as aguas da chuva sáem dos telhados e são lançadas longe da base das
+paredes dos edificios. Teem quasi sempre a configuração de animaes
+monstruosos e phantasticos, e raramente a figura humana. Admira-se,
+n'estas esculpturas, uma variedade prodigiosa, e seria difficil de achar
+duas do mesmo feitio, todavia a maior parte dos edificios ogivaes
+apresentam um grande numero. N'este genero ha duas no nosso paiz
+bastante exquisitas, uma no angulo da cimalha da egreja de Caminha, na
+capella mór, voltada para o norte da fronteira do paiz, estando a figura
+humana revirada, isto é, em posição dobrada, com a cabeça para o lado do
+telhado e a parte trazeira do corpo para fóra do edificio, e é pelo anus
+que sáem as aguas da chuva: no castello de Pombal ha outra com a figura
+de mulher na mesma attitude, saindo a agua da chuva pelo que distingue o
+seu sexo. Eram de proporções curtas e solidas no principio da sua
+applicação; vieram a ser mais compridas e com melhores fórmas desde o
+final do XIII seculo.
+
+_Nichos e doceis_. Dá-se o nome de _nicho_ a qualquer espaço aberto,
+mais ou menos profundo, feito na grossura de uma parede, pilar ou
+contraforte, para n'elle se collocar uma estatua, um grupo, um vaso, ou
+qualquer objecto de decoração. Os nichos apparecem poucas vezes nos
+monumentos do XIII e XIV seculos; n'essa época as estatuas, com as quaes
+ornavam ás vezes certas partes dos monumentos, eram postas sobre misulas
+salientes, tendo doceis egualmente salientes sobre a face das paredes.
+
+No XV seculo, o uso dos nichos vem a ser mais geral; vêem-se bastantes
+vezes no exterior dos monumentos, sobre as fachadas, nos contrafortes e
+nos tympanos dos portaes.
+
+Os doceis, isto é, os remates salientes, mais ou menos ornamentados de
+esculpturas, ficando collocados por cima da cabeça das estatuas, são
+muito geraes desde o final do periodo roman. No XII e no XIII seculos,
+esses doceis primitivos representam quasi sempre edificios, fortalezas,
+e mesmo algumas vezes cidades inteiras cercadas de muralhas. Não havia
+ainda n'esta época, por cima, pinaculos ou pyramides delgadas, posto que
+em certas partes do centro da França, as tiveram desde o meiado do XIII
+seculo, sendo terminadas por _clochetons_. As fórmas architectonicas dos
+edificios representadas pelos doceis são muitas vezes anteriores á época
+em que foram esculpidos; é por isso que no XIII seculo apparecem n'elles
+zimborios, arcos de volta inteira, etc., que todavia não se vêem já nos
+monumentos contemporaneos.
+
+No XIV seculo, os doceis mudam totalmente de aspecto, cobrem-se de
+arcaduras com ornamentação e com outros detalhes imitados da
+architectura; teem geralmente por cima vistosos pinaculos, muitas vezes
+vasados.
+
+No XV seculo, apresentam quasi as mesmas fórmas que no seculo
+precedente, porém exaggeradas; sendo os doceis contornados
+demasiadamente, e a sua ornamentação feita com muita delicadeza.
+
+_Madeiramentos_. Distinguem-se, nos edificios do periodo ogival, duas
+especies principaes de madeiramentos: os que não ficavam apparentes,
+porque não revestiam as construcções abobadadas, e os apparentes que se
+empregavam nos edificios que não tivessem abobadas, sendo estes que
+interessam sobretudo os archeologos.
+
+Quando os madeiramentos ficam apparentes, isto é, visiveis no interior
+do edificio, apresentam sempre o aspecto de uma abobada de fórma de
+berço. Este berço é algumas vezes semi-cylindrico, semelhante aos que se
+encontram em algumas egrejas romans; as mais das vezes, todavia, são
+traçados por tres centros. _Ripas_ de carvalho, ou de qualquer outra
+especie de madeira, tendo as juntas sobrepostas, são pregadas sobre as
+_cambotas_, circulares ou ogivaes, formadas pelas asnas e _varedo_.
+Tendo pinturas por decoração, e algumas vezes as extremidades das peças
+de madeira ficam visiveis, tendo esculpturas, que representam anjos com
+escudos ou phylacterias, cabeças de gente, figuras de cocoras com
+carranca, ou animaes phantasticos. Muitas vezes as nervuras ou as
+_franquias_ ficam parallelas ás nervuras das _asnas_, porém sendo mais
+estreitas, estão pregadas sobre o varedo e sustentam no seu logar as
+ripas. Estas nervuras são cobertas com vivas côres ou com elegantes
+entrelaçados.
+
+Algumas vezes tambem são assentes sobre as ripas, as nervuras que se
+encruzam do mesmo modo que os arcos diagonaes ou as ogivas das abobadas
+de cantaria.
+
+As abobadas cobertas de gesso, taes como as constroem os architectos
+modernos na maior parte das novas egrejas ruraes, eram inteiramente
+desconhecidas durante o periodo ogival. Quando a verba de que dispunham
+não lhes permittia o estabelecer abobada de alvenaria, serviam-se do
+madeiramento apparente, que se ornava tão artisticamente quanto fosse
+possivel. Nunca se empregavam pueris dissimulações, fingimentos
+architecturaes, onde as _ripas_ appareciam a imitar a cantaria com a
+capa desprezivel de gesso ou de argamassa! Não se esquecia n'esta época,
+que a verdade é a condição essencial da existencia da arte; esta deve
+engrandecer o espirito, encantar a vista, e não enganal-a.
+
+_Telhados_. No meiado do XII seculo, os telhados teem grandes
+inclinações nos edificios da Europa Central e Septentrional; emquanto
+nos paizes meridionaes conservam pequena correnteza, como se praticava
+nos telhados da antiguidade e no periodo roman.
+
+Cobriam-se os madeiramentos com chumbo, cobre, ardozia e telhas. Ás
+grandes cathedraes e aos edificios mais importantes punham chapas de
+chumbo ou de cobre, por tal maneira, que podiam, sem alterar a sua
+superficie, dilatar-se ou encolher-se, conforme fosse a temperatura.
+
+_Cumieira e cimeira_. Dá-se o nome de _cumieira_ ao remate do espigão de
+um edificio. Durante o periodo ogival este remate era de metal (quasi
+sempre de chumbo), de barro cozido ou de cantaria. As _cimeiras_ são
+telhas que formam uma cumieira; eram de barro de cozedura.
+
+O maior numero dos grandes monumentos da edade média tinham d'antes por
+remate cumieiras nos madeiramentos, egualmente recortadas, imitando
+quasi sempre folhagens. Infelizmente são poucos os edificios do XIII e
+XIV seculos que conservam esse ornato primitivo. De todas as cumieiras
+de chumbo anteriores ao XV seculo (e eram as mais em uso n'essa época)
+não ha já vestigios: a oxydação do metal e muitas outras causas de
+destruição as teem feito desapparecer.
+
+Nos paizes onde a telha foi empregada para cobrir os edificios, como,
+por exemplo, na Borgonha, as cumieiras dos madeiramentos compunham-se de
+uma continuação de cimeiras de barro de cozedura, mais ou menos ornado.
+Uma capa esmaltada e envernizada ao fogo tinham sempre estas cumieiras
+para se tornarem menos permeaveis á humidade.
+
+Desde o XI seculo, o emprego das cumieiras de pedra veiu a ser geral no
+meio dia de França. Encontra-se ainda hoje n'este paiz um grande numero
+de cumieiras dos periodos roman e ogival, as quaes escaparam á sua
+destruição. As mais antigas apresentam enlaçamentos e figuras
+geometricas; as que pertencem ao XIV e XV seculos são compostas de
+ornamentação com remate de folhagens, como ha na egreja de Belem.
+
+_Torres e campanarios_. Do mesmo modo que no periodo roman os
+campanarios da época ogival são compostos de dois ou mais andares
+sobrepostos. A separação dos differentes andares é indicada, no
+exterior, quer por um resalto saliente, quer por uma pequena diminuição
+de grossura do andar superior sobre o inferior. Estes andares não teem
+já, como precedentemente, a mesma altura: são baixos ou altos, conforme
+as disposições internas dos campanarios. O rez-do-chão das torres é
+geralmente construido sobre plano quadrado; mas no primeiro ou no
+segundo andar, e as mais das vezes sómente no principio da flecha o
+plano vem a ser octogono. Os espaços triangulares, que ficam livres nos
+angulos do quadrado, pela passagem da fórma de quadrado para octogono,
+apresentam quasi sempre quatro pinaculos ou clochetões.
+
+As frentes das torres teem aberturas nos differentes andares, janellas
+estreitas ogivaes, muitas vezes geminadas, sendo raro estarem separadas
+ou reunidas em tres vãos.
+
+Desde o principio do periodo ogival, os campanarios acabavam por flechas
+construidas de madeira ou de cantaria, com muita elevação, tendo a fórma
+de uma pyramide com oito lados eguaes. Já no XIII seculo, as arestas das
+flechas de pedra e os pinaculos collocados na base do octogono estão por
+vezes ornados, de distancia em distancia, por crochets vegetaes; no XIV
+seculo, principia-se a vasar os lados das flechas fazendo-se pequenas
+aberturas do feitio de flor de trevo, ou quatro folhas e com florão. No
+XV seculo, essas ornamentações são substituidas por feitios de chammas e
+por outras figuras geometricas vasadas. No final do XV seculo e no
+principio do seculo seguinte, construiram-se, em muita parte, os
+campanarios com flechas rendilhadas.
+
+Muitos campanarios mais importantes, de grandes proporções, ficaram por
+concluir desde a base da flecha projectada, e ás vezes ainda mais
+abaixo. Algumas vezes tambem, as flechas da primitiva construcção,
+depois de terem sido destruidas por uma tempestade ou incendio causado
+pelo raio, foram substituidas por corpos simples ou remates hybridos,
+que não teem nada de commum com as lindas pyramides da época ogival.
+
+No XIV e no XV seculos, muitos campanarios teem na base da flecha uma
+platibanda vasada, composta de arcaduras ou com feitios chammejantes.
+
+A maior parte das egrejas ogivaes de segunda e terceira ordem tinham
+campanarios de uma extraordinaria simplicidade, cujo effeito é agradavel
+e mesmo admiravel, se reflectirmos na pouca resistencia dos meios
+empregados para a execução. Estes campanarios, sem nenhum ornato,
+compunham-se de dois andares quadrados, dos quaes o superior só tinha as
+quatro frentes com janellas geminadas ou com tres aberturas, servindo
+para sair o som do sino. Uma flecha octogona limita a sua extremidade.
+
+Os constructores da edade média comprehendiam que, sobretudo nos
+edificios de menor importancia, as combinações geraes mais simples eram
+as unicas mais acertadas para produzirem um aspecto monumental.
+
+Em Flandres maritima tem-se conservado até ao presente um grande numero
+de campanarios ogivaes de segunda e terceira ordem, dignos de chamar a
+attenção dos archeologos e dos architectos; encontram-se alguns muito
+bellos até nas modestas freguezias do campo. Estes campanarios,
+construidos com tijolos, como todas as outras partes dos edificios
+d'este paiz, são geralmente terminados por uma flecha octogona tambem de
+tijolos, muitas vezes tendo quatro pinaculos nos angulos da sua base; as
+arestas da flecha e dos pinaculos são quasi sempre decoradas de crochets
+egualmente com tijolos. As platibandas que ligam entre si os pinaculos
+são cheias, pouco altas e ornadas com arcaduras fingidas. Uma outra
+particularidade que apresentam alguns campanarios de Flandres maritima,
+é inclinarem-se um pouco para o lado oeste, que se suppõe ser um facto
+intencional do architecto para fazer resistir melhor contra os ventos
+d'este quadrante que sopram com extrema violencia á beira mar.
+
+Muitas egrejas monasticas, e algumas vezes tambem as parochiaes, teem um
+campanario collocado quer na extremidade da capella mór, quer em um dos
+dois angulos formados pela intersecção da capella mór e o cruzeiro. Esta
+disposição é bastante geral nas egrejas ruraes na Baviera e na Austria.
+As abbadias preferiam esta collocação afim de que os frades incumbidos
+de darem signal pelos sinos para as ceremonias religiosas não fossem
+obrigados a afastar-se da egreja.
+
+Os constructores romans construíam muitas vezes um campanario no logar
+da intersecção da nave e do cruzeiro. Na Inglaterra e na Normandia,
+estes campanarios centraes conservam-se durante o periodo ogival; por
+toda parte, fóra d'isso, são raros desde o XIII seculo, e muitas vezes
+foram substituidos por simples campanariosinhos de madeira. Na Belgica,
+encontram-se por vezes campanarios centraes de cantaria, porém de
+resumida dimensão, nos edificios do periodo de transição.
+
+As _escadas dos campanarios_ e tambem as que servem em outras partes dos
+monumentos para subirem aos madeiramentos, são geralmente de caracol com
+centro cylindrico ou octogono. Estas caixas das escadas, collocadas no
+exterior do edificio nos angulos formados pela saliencia dos
+contrafortes, nunca são dissimuladas, mas visiveis, facilitando as
+seteiras que estão abertas darem luz á escada.
+
+Durante o periodo ogival, collocavam quasi sempre _cruzes de ferro
+batido_ no cimo das flechas dos campanarios, na extremidade do espigão
+do côro por cima da abside, e algumas vezes tambem sobre os espigões do
+cruzeiro. Estas cruzes distinguem-se geralmente por uma composição de
+bastante trabalho. As cruzes dos campanarios são quasi sempre encimadas
+por um gallo servindo de catavento. Primitivamente este adorno
+encontrava-se sobre as torres das egrejas parochiaes ou dos capitulos
+apenas. O gallo collocado no cimo da egreja symbolisa a imagem dos
+prégadores; pois o gallo vela durante a noite escura e assignala as
+horas pelo seu canto, faz despertar aquelles que dormem, e annuncia a
+aurora que se approxima; mas antes d'isso, elle se excita a si mesmo a
+cantar, dando ás azas.
+
+_Pavimentos_. Os pavimentos romans eram compostos com mosaicos. Nos
+paizes meridionaes esses mosaicos foram formados de marmores
+differentes. Tanto em França como na Belgica, Allemanha, Inglaterra e
+Portugal, eram compostos de ladrilhos esmaltados ou de lagedo gravado e
+com embutido egualmente de côres diversas. Os ladrilhos e os lagedos
+gravados continuaram a ser empregados nos pavimentos dos edificios
+ogivaes na Europa Occidental e Septentrional.
+
+Esses pavimentos eram ora de uma grande simplicidade, ora esplendidos.
+Poucas vezes o chão todo das egrejas estava coberto por bellos mosaicos;
+em geral, não se adoptou este genero de decoração senão para a capella
+mór e para as capellas do corpo da egreja, porque nas naves, onde todas
+as pessoas são admittidas indistinctamente, o roçar do calçado em pouco
+tempo teria destruido o verniz do ladrilho ou o lagedo com gravuras.
+
+Como já explicámos, o amarello e o verde-escuro são as côres preferidas
+no final do periodo roman, nos pavimentos de ladrilho do Norte e Oeste
+da Europa. No XIII seculo, substituiu-se muitas vezes a côr
+verde-escura, o encarnado e o avermelhado escuro, empregando-se o
+amarello para os embutidos. As côres carregadas e escuras deixaram de
+ser usadas nos pavimentos.
+
+Os ladrilhos esmaltados são geralmente de pequenas dimensões, como havia
+no cruzeiro da egreja monumental do convento de Alcobaça, cujos
+ladrilhos estão agora _escondidos por baixo de simples lagedo_, na
+profundidade de _0^{m},34 centimetros_!
+
+Quando os desenhos dos ladrilhos ficam completos sobre um só ladrilho,
+ou se completam em quatro e mesmo em maior numero de ladrilhos reunidos,
+formam regularmente figuras geometricas, brazões, florões, animaes
+existentes ou phantasticos. Circulos, flores de liz, veados, aguias com
+duas cabeças, é o que mais frequentemente se vê.
+
+No XIII e no XIV seculos, figuras de homens em pé foram algumas vezes
+representadas pela reunião de um certo numero de ladrilhos pintados.
+Estas effigies de personagens eram muitas vezes acompanhadas de
+letreiros, empregados nas campas de cantaria.
+
+Durante o XIV e o XV seculos, os desenhos dos ladrilhos conservam quasi
+o mesmo caracter precedente, mas são menos vistosos e não teem o vigor
+das côres e o desenvolvimento que apresentavam os do XIII seculo. No XIV
+seculo, as ornamentações são muitas vezes substituidas por firmas,
+letras, inscripções, escudos, e mesmo pequenas vistas. Pelo mesmo tempo
+apparecem os tons verdes e azues-claros.
+
+Nos edificios de segunda e terceira ordem, e tambem em algumas egrejas
+abbaciaes, principalmente da Ordem de Cister, fazia-se uso, durante o
+periodo ogival, de pavimentos compostos de ladrilhos de differentes
+côres, sem nenhum ornato.
+
+Em alguns sitios fabricavam-se tambem ladrilhos sem ser esmaltados,
+apresentando figuras em relevo. Estes ladrilhos são muito raros, porque
+não se podiam fazer senão com barro muito rijo, para que os relevos não
+ficassem em pouco tempo gastos.
+
+_Lages gravadas e com embutidos_. Desde o XII seculo, empregaram-se
+algumas vezes, para cobrir o chão das egrejas, lages de pedra e de
+marmore gravadas e com embutidos. Os desenhos dos ornatos eram indicados
+em parte pelos espaços conservados da propria lage, ou por um betume
+colorido que enchia as cavidades deixadas pela gravura. As lages d'este
+genero não foram muito communs, e um limitado numero escapou da sua
+destruição! Um dos mais bellos e mais completos é o que ornava a capella
+mór da cathedral de _Saint-Omer_ (França), e do qual bastantes
+fragmentos se têem conservado até ao presente. Os fundos dos arabescos
+são de côr castanho-escuro, assim como a inscripção; os traços do
+contorno das personagens e do cavallo são a encarnado, assim como está
+representado em gravura o nobre cavalheiro, no meio d'essa composição,
+que é do meiado do XIII seculo.
+
+_Labyrinthos_. Na antiguidade pagã designavam-se com o nome de
+_labyrinthos_, as galerias subterraneas ou os edificios construidos em
+cima do solo, com ramificações em grande numero e complicadas. Todos
+sabem da existencia do labyrintho de Creta, onde, conforme a mythologia,
+o Minotauro foi morto por Theseo. Durante a edade média o nome de
+labyrintho foi dado a uma disposição particular que se vê no pavimento
+de algumas egrejas dos periodos Latino, Roman e Ogival. A disposição,
+divisão e côr das lages, formam, pelas suas combinações, linhas sinuosas
+com bastantes voltas, todas para um ponto central. Os Romanos e os
+Gregos representavam já, por vezes, labyrinthos nos pavimentos em
+mosaico ou sobre as paredes de seus templos e de suas habitações. Os
+labyrinthos que existem desde os primeiros seculos nas egrejas christãs,
+por exemplo, na de S. João Vidal de Ravana (Italia), que é do VI seculo,
+acharam, sem nenhuma duvida, a sua origem nos labyrinthos dos edificios
+pagãos. A presença da figura de Theseo combatendo o Minotauro, que se vê
+no centro dos labyrinthos de alguns monumentos christãos, como em Pavia
+e em Luca, dão uma prova evidente d'esta affirmação. Os christãos
+introduzindo os labyrinthos nas egrejas, deram-lhes uma significação
+symbolica. Seria comtudo difficil, por não dizer impossivel, determinar
+de uma maneira irrefutavel o symbolismo dos labyrinthos nas antigas
+egrejas christãs.
+
+Na edade média, parece ter-se reputado os labyrinthos como emblema da
+viagem á terra Santa, ou, segundo outras opiniões, o transito doloroso
+de Jesus Christo desde a casa de Pilatos até ao Calvario. Indulgencias
+eram concedidas ás pessoas que os percorressem de joelhos, recitando as
+orações prescriptas. Os labyrinthos n'esta epoca eram tambem designados
+com o nome de _dedalo_, _meandro_, _caminhos de Jerusalem_.
+
+A fórma dos labyrinthos não é sempre a mesma, O de _Chartres_ é
+circular; o de _Saint-Quentin_, octogono; taes eram tambem os de
+_Arrhas_, _Amiens_ e _Reims_. Na egreja de _Saint-Bertin_ em
+_Saint-Omer_, tinha a fórma quadrada. Muitas vezes havia, ao centro e
+aos angulos do labyrintho, pedras com inscripção lembrando algum facto
+relativo á construcção do edificio. Em _Amiens_, por exemplo, a pedra
+central representava os architectos da egreja e o bispo _Évrard_, seu
+fundador, com os nomes dos personagens e a época da construcção,
+gravados sobre laminas de cobre embebidas na parede.
+
+_Pinturas das paredes_. Já descrevemos os caracteres da pintura mural na
+época roman. Esses caracteres e o systema do colorido modificam-se de
+uma maneira evidente seguindo o desenvolvimento da architectura ogival.
+
+Se o leitor tiver presente na memoria o que fizemos notar a respeito do
+estylo ogival, da sua decoração esculpida e do seu systema de
+construcção, comprehenderá facilmente que uma modificação notavel
+motivou tambem o colorido da decoração. Com effeito, nas construcções
+ogivaes os membros das paredes desapparecem, por assim dizer, e cedem o
+espaço para aberturas de janellas; os membros da architectura
+multiplicam-se e apresentam-se com grande evidencia; a vista examina sem
+custo a sua fórma e os seus fins, desde a base da columna até ao fecho
+da abobada que reune as nervuras da abobada. Além d'isso, as superficies
+das paredes, que não foi possivel supprimir, ficavam com esses espaços
+divididos. Como acontece nas paredes divisorias sobre os peitorís das
+janellas inferiores, as paredes são todas cheias de series de arcaduras
+estreitas, muitas vezes cheias parcialmente de esculpturas. Finalmente a
+multiplicidade dos detalhes e a vista de ornamentações esculpidas,
+diminuindo a escala dos elementos embellezadores para augmentar o espaço
+de união, modificaram a seu modo as condições da pintura, dando-lhe
+caracteres novos.
+
+O augmento extraordinario dos vãos das janellas e o aspecto grandioso
+que lhes deram nos edificios motivou que nas vidraças pintadas eram
+quasi todas as preoccupações do constructor do periodo ogival. Era ali,
+em certo modo, que devia apparecer o effeito da decoração. Os progressos
+da arte da pintura sobre o vidro corresponderam então ás exigencias que
+esta arte tinha a satisfazer, e a palheta abundante, vigorosa e variada
+do pintor vidraceiro impôz á coloração adoptada pelo pintor ornatista
+uma harmonia e combinações novas. Por outras palavras, a pintura
+historica e legendaria, não tendo mais do que um espaço limitado e
+parcimonioso medido sobre a superficie das paredes foi servir-se das
+vidraças para os seus trabalhos, e por este motivo as figuras mostram,
+onde apparecem, ainda umas proporções acanhadissimas. A intensidade da
+coloração das vidraças pede, pela logica dos preceitos da harmonia,
+maior energia na pintura ornamental das paredes. Todavia, não foi essa a
+unica consequencia do emprego das vidraças excessivamente coloridas: a
+luz não entrando já no interior da massa vitrea a qual atravessava como
+peneirada atravez d'um tecido multicolor, dava á pintura mural um
+aspecto differente d'aquelle que teria a luz natural do dia; havia pois
+a attender simultaneamente ao reflexo das côres translucidas com as da
+pintura mural que se devia harmonisar com a luz colorida e sombria que
+as vidraças pintadas projectam sobre as paredes e partes architecturaes.
+D'aqui veiu o emprego, principalmente no XIII seculo, de côres vivas sem
+ficarem separadas: encarnado, purpura, verde, azul carregado, realçado,
+ás vezes, por tons claros e ouro com bastante profusão quando os meios o
+permittiam. D'aqui ainda uma outra grande divisão dos elementos
+decorativos e desenho dos detalhes.
+
+Não é pois para estranhar que as _pinturas historicas e legendarias_
+tivessem tido muita voga durante o periodo roman, vindo a ser bastante
+raras nos edificios do estylo ogival. As arcaduras decorativas debaixo
+dos peitorís das janellas inferiores, são muitas vezes as unicas
+superficies convenientes para terem pinturas com assumptos, e mesmo esse
+espaço é muito limitado e regularmente dividido em pequenos
+compartimentos por columnadas ou nervuras, sobre as quaes assentam as
+archivoltas das arcaduras. As pinturas das arcaduras decorativas
+representam muitas vezes personagens isolados.
+
+A influencia das tradições byzantinas sobre a arte occidental é
+manifesta durante todo o tempo do periodo roman. Todavia, se desde o XII
+seculo se observa no _desenho_ uma tendencia a abandonar os typos
+byzantinos, não foi senão nos seculos seguintes que o caracter das
+pinturas mudou completamente no Occidente. Nas figuras das pinturas
+muraes, como nas outras que ornam as miniaturas dos manuscriptos, se
+observa uma transformação cada vez mais visivel no que respeita ao
+estylo do desenho. Este se desprende insensivelmente das formas
+tradicionaes afim de adquirir maior liberdade. As attitudes veem a ser
+mais variadas, o gesto mais natural, o caracter das cabeças mais
+individual, a expressão dos rostos mais viva ou mais serena conforme as
+situações. Uma tendencia ao naturalismo principia a apparecer desde o
+começo do XIII seculo, e torna-se mais notavel nos seculos seguintes.
+
+Na _colorisação_ succederam, tanto como no desenho, transformações
+successivas durante o periodo ogival. Nas pinturas muraes do periodo
+roman, os tons claros são frequentes, e seu aspecto é geralmente suave.
+
+No XIII seculo, a colorisação teve, na _pintura decorativa_, as mesmas
+transformações que na pintura historica e legendaria. Nos edificios
+romans, em que as janellas eram relativamente pequenas e envidraçadas as
+mais das vezes com vidros brancos ou muito claros, a luz diffusa e pouco
+dilatada dos fundos podia-se usar para a pintura decorativa, de tons
+brilhantes e brandos ao mesmo tempo; porém, quando, no XIII seculo, os
+vãos das janellas se alargaram e tiveram vidraças extremamente
+coloridas, esses tons suaves ficaram inteiramente sumidos pela
+intensidade da colorisação das novas vidraças. O azul e o encarnado,
+entrando com maior emprego na composição das vidraças pintadas, davam um
+aspecto turvo aos tons claros e terreos ás pinturas: os verdes, por
+exemplo, ficavam pardos e baços; os brancos, e em geral todos os tons
+claros, ficavam estriados. Com os vidros coloridos, foi preciso
+necessariamente mudar a gamma de colorisação das pinturas muraes,
+fazendo uso de tons brilhantes e fortes. Além d'isso, os tons, para
+terem toda a sua apparencia, devem ser acompanhados e contornados com
+traços pretos. É assim que se veem n'esta epocha as nervuras, os fechos
+das abobadas, e muitas vezes mesmo os tympanos das abobadas pintados com
+vivas côres. O uso de destacar o vertice das nervuras das abobadas
+servindo-se de côres vivas e com desenho chaveiroado continuou durante
+todo o tempo do periodo ogival.
+
+No XIV seculo e durante a primeira metade do XV seculo, as pinturas de
+decoração por baixo dos peitorís das janellas inferiores, muitas vezes
+representavam pannos de armações. No XV seculo, viam-se bastantes vezes
+sobre as paredes das capellas dedicadas a um santo, os attributos
+caracteristicos d'esse santo, dispostos symetricamente sobre um fundo
+colorido. Descobriram-se, ha pouco tempo, pinturas d'este genero n'uma
+egreja de Bruxellas.
+
+Motivos de economia e, nas egrejas dos monges de Cister, prescripções da
+regra monastica fizeram que por vezes tambem se empregasse um modo de
+pintura de decoração muito simples, consistindo na imitação das pedras
+de construcção: traçavam-se sobre fundo mais ou menos claro traços de
+côres differentes, pardos, encarnados ou amarellos, sobrepostos,
+representando as juntas dos apparelhos, e algumas vezes com
+ornamentação.
+
+Da mesma maneira que a pintura historica e legendaria, a pintura de
+decoração da idade media não se servia da perspectiva; nem conservava
+nos monumentos as paredes lisas e opacas, não procurando affastal-as,
+por assim dizer, do espectador pela illusão da perspectiva linear e
+aerea. São principalmente as pinturas representando as formas
+architectonicas, por exemplo as arcaduras e columnas, que mostram não
+ter o artista nenhuma intenção de disfarçar a ornamentação em relevo; o
+que elle pretende é sómente um effeito de decoração, não pensa por
+nenhum modo em produzir exactamente as dimensões relativas, o modelo,
+apparencia real com relevos, molduras, columnas, capiteis; contenta-se
+de apresentar essas formas para servirem a dar mais attractivo aos
+monumentos.
+
+Muito poucos monumentos do periodo ogival têem conservado as suas
+pinturas bastante completas para se poder formar uma idéa cabal do
+systema empregado e do resultado obtido. A mais notavel de todas pela
+esplendida decoração, e além d'isso pela sua restauração tão habil
+quanto perfeita, é a da Capella Santa de Paris.
+
+A estatuaria e a esculptura ornamental seguem o systema geral da
+decoração pictorica; tanto assim, que muitas estatuas e baixos relevos
+têem conservado até ao presente bastantes vestigios de dourados e
+polychromia, concorrendo para se harmonisarem com as vidraças pintadas e
+as pinturas a fresco das paredes.
+
+A decadencia da pintura monumental, decoração historica e legendaria,
+data da ultima metade do XV seculo; vindo a ser completa desde o
+principio do seculo seguinte. As pinturas das abobadas das egrejas não
+vão além do XVI seculo.
+
+_Cruz de consagração_. O Pontifical romano prescreve que, para a
+dedicação de uma egreja, doze cruzes serão pintadas ou esculpidas sobre
+as columnas ou paredes internas do edificio. Estas cruzes, que o Prelado
+consagrante unge com os Santos oleos, devem ficar apparentes. Desde o
+periodo roman, estabeleceu-se o uso de ornar essas cruzes, que
+geralmente eram pintadas. As cruzes de consagração datam do periodo
+roman e vieram a ser bastante raras; conservam-se muito singulares no
+oratorio carlovingiano de Nimégue. Encontraram-se em grande numero da
+epocha ogival debaixo de grossas _camadas de cal_ na parte interna das
+egrejas antigas, que ficaram escondidas na occasião do renascimento.
+Todas são executadas com grande esmero e esplendidamente coloridas.
+
+Acontece ás vezes que as doze cruzes de consagração do XIII e XIV
+seculos são sustentadas pelas figuras dos Apostolos pintados ou em
+esculptura.
+
+
+*Altares, tabernaculos, piscinas, cadeiras do côro, bancos para os
+celebrantes, tribunas e separações da capella-mór*
+
+
+_Altares_. Como já explicámos, o altar verdadeiramente designado é uma
+mesa de pedra sobre a qual o padre diz a missa. Sem esta mesa o altar
+não existe; ella e só ella, forma, todo o altar. Esta mesa é de pedra,
+porque o altar é a imagem e o symbolo de Jesus Christo em pessoa.
+Portanto, durante os oito primeiros seculos da nossa era, a egreja quiz,
+pela veneração por este famoso symbolismo, que o altar ficasse
+inteiramente independente; prohibiu severamente que n'elle se pozesse o
+mais simples objecto, salvo o livro dos Evangelhos, a custodia
+eucharistica com as divinas hostias. No correr do IX, o Papa Leão IV
+permittiu que se collocassem reliquarios contendo reliquias de santos.
+Quando o altar é formado de um corpo macisso cubico, o que tinha logar
+muitas vezes durante o periodo Latino e Roman, os seus lados eram
+cobertos com laminas de ouro, prata e de cobre dourado e esmaltado, ou
+ornados de esculpturas e de pinturas, ou ainda revestidos de estofos
+preciosos.
+
+Algumas vezes, principalmente nas grandes egrejas, o altar estava
+collocado debaixo de um baldaquino sustentado por quatro columnas, entre
+as quaes se suspendia, sobre varões, pannos cortinas, que se corriam
+durante certas partes da missa afim de occultar os sacerdotes da vista
+dos fieis. No final do XI seculo, introduziu-se tambem o uso dos
+_retabulos_.
+
+Devemos notar, que todos estes accessorios eram ideiados e dispostos de
+maneira a não obstar por nenhum modo ao symbolismo sublime do altar.
+
+Explicaremos successivamente, o _altar_ com _a sua verdadeira fórma_, os
+_frontaes_ dos altares, _baldaquino_, os _cortinados_ e os _retabulos_
+do periodo ogival.
+
+_O altar assim designado_. Como os do periodo roman, os altares da epoca
+ogival compunham-se as mais das vezes de um simples macisso de
+alvenaria, apresentando regularmente uma especie de ornamentação pintada
+ou esculpida. Estes macissos estavam rodeados de tapeçarias cujas côres
+mudavam nos diversos dias de festa. Algumas vezes, porém poucas, se
+decoravam os lados nús d'estes altares com arcaduras fingidas, cujos
+arcos assentavam sobre columnasinhas ou pilares embebidos na parede; as
+arcaduras tinham pinturas historiadas e decorativas, ou estatuas e
+baixos relevos.
+
+Nos altares cheios ou macissos, decorados de arcaduras, estas eram
+formadas no XIII e no XIV seculos por ogivas equilateraes ou arcos
+traçados por tres centros; no XV seculo por ogivas inflexas ou postas a
+pár, e no XVI por arcos abatidos ou de volta inteira.
+
+Na idade media os altares eram sempre de pedra, nunca de madeira.
+Consagravam-se ao mesmo tempo que a egreja ou a capella: não havia então
+as _pedras aras_, bentas, que se podiam assentar depois na meza de um
+altar sem estar benzido, e como presentemente se usa muitas vezes.
+
+O altar mór das egrejas cathedraes, conservou durante quasi todo o
+periodo ogival, uma fórma simples e positivamente symbolica. Em geral ou
+era sem retabulo, ou ficava-lhe por cima um retabulo de pouca altura.
+Tinha um crucifixo, o livro dos Evangelhos, dois castiçaes, e ás vezes
+um tabernaculo para a conservação da Eucharistia. Outra maneira de
+reservar o Santissimo Sacramento usada em certos paizes pelo menos desde
+o XIII seculo, foi aquella cuja recordação se conservou n'um curioso
+quadro do XIII seculo, representando o altar mór da antiga cathedral
+d'Arras com todos os seus accessorios. Uma hastea quadrada, collocada
+por detraz do altar, que se eleva em dois andares, a uma grande altura,
+tem por remate um pinaculo sobre o qual ha um crucifixo. Em meia altura
+da hastea ha um bello baculo ficando a sua voluta suspensa no meio de
+uma corrente, e a custodia eucharistica é formada com o feitio de
+torrinha.
+
+Nas egrejas, cathedraes e abbadias, havia, como em muitas egrejas
+romans, um altar para reliquias, ao fundo da capella mór, por detraz do
+altar proximo do abside oriental da egreja.
+
+Os grandes reliquarios costumavam a ficar expostos detraz do altar, de
+modo a deixar passar as pessoas por baixo; ás vezes tinham um docel.
+
+_Frontaes_. São cortinados de seda que cobrem tambem os lados verticaes
+de um altar, e algumas vezes o retabulo; como se usa ainda hoje em
+muitos paizes. Designam-se vulgarmente com o nome de _antependium_. Na
+idade media quasi todos os altares tinham frontaes. Esses frontaes eram
+cobertos com fazenda de custo; algumas vezes apresentavam laminas de
+ouro, prata e cobre dourado e esmaltado, ou almofadas de madeira
+cobertas de pinturas.
+
+Os frontaes metallicos, assaz communs durante os periodos Latino e
+Roman, vieram a ser mais raros a começar do final do XII seculo, e pouco
+a pouco o seu uso foi completamente abandonado. Durante a epocha ogival,
+os frontaes com estofo fôram, por assim dizer, os unicos empregados. A
+sua côr condizia com as vestimentas lithurgicas e mudava, por
+conseguinte, conforme os dias festivos. Havia de linho, seda e mesmo de
+veludo; os mais sumptuosos eram todos bordados e ornados de pedras
+preciosas. Representavam figuras de Santos e assumptos historicos e
+legendarios.
+
+_Baldaquino_. O uso do baldaquino cobrindo o altar em signal de
+veneração, foi bastante geral até ao XII seculo; mas ficou quasi
+abandonado na Belgica e França durante o periodo ogival; na Europa
+Occidental e Septentrional não se serviram mais do baldaquino n'esta
+epocha, como summidade dos reliquarios.
+
+Na Italia, em Roma, n'este paiz onde o estylo ogival nunca teve
+principio, vê-se ainda um grande numero de baldaquinos da epocha ogival.
+Os mais notaveis são os de S. Paulo fóra dos muros, os de S. João, de
+Santa Maria no Trastever, Santa Maria em Cosmedin e de Santa Cecilia.
+
+Na França e na Belgica suppriam algumas vezes a falta do baldaquino,
+suspendendo por cima do altar um docel esculpido ou forrado com estofo
+de custo.
+
+O baldaquino parece-nos apresentar a maneira mais adequada para inspirar
+aos fieis o respeito e a veneração devida ao altar, symbolo do Salvador.
+Muito melhor que todos os outros accessorios, sem exceptuar o retabulo,
+preenchia este fim resguardando o altar, sem todavia se confundir com
+elle, e conservando-lhe assim toda a sua significação symbolica. O
+retabulo, pelo contrario, liga de certo modo o altar fazendo parte
+d'elle, desvia a attenção das pessoas para o accessorio com grande perda
+do objecto principal, que é o altar apropriadamente assim chamado.
+
+_Cortinas_. Chamam-se cortinas a armação suspensa nos dois lados do
+altar, e por detraz do retabulo quando fôr pouco alto. Essas cortinas,
+da mesma maneira que os frontaes, eram geralmente muito simples; algumas
+vezes, todavia, representavam figuras, quer no tecido, quer nos
+bordados, ornamentação, figuras e objectos religiosos.
+
+Ficavam estas cortinas prezas por varões apoiados muitas vezes em quatro
+ou seis columnasinhas de cobre ou de madeira, encimadas de figuras de
+anjos, tendo na mão luzes ou differentes instrumentos da paixão. A côr
+das cortinas mudava conforme os dias de festa e as differentes occasiões
+do anno lithurgico.
+
+Além das cortinas do altar, serviam-se tambem, durante a idade media, de
+duas outras especies de armação lithurgica. Eram: 1.^o a grande cortina
+que se suspendia durante a quaresma na entrada da capella-mór ou do
+presbyterio, e que se designava _o véo do templo_; 2.^o os véos que
+serviam na mesma occasião nos crucifixos, retabulos e imagens, eram
+designados pelo nome _véos de quaresma_.
+
+_Retabulos_. Como já indicámos, o uso dos retabulos foi introduzido no
+final do XI seculo. No começo collocavam-os sobre os altares das
+reliquias e os altares de segunda classe; ficavam encostados á tribuna
+ou postos no cruzeiro e nas capellas ornando a capella-mór. Nas egrejas
+matrizes, collegiaes e monasticas de primeira ordem, o altar-mór ficava
+quasi sempre sem ter retabulo, pelo menos durante todo o seculo XIII. Em
+França, Belgica, Allemanha, Inglaterra e nos outros paizes
+septentrionaes da Europa, adoptou-se no XIV seculo, depois que a cadeira
+do bispo ou do abbade e as cadeiras do côro dos conegos ou dos frades,
+que até então ficavam por detraz do altar-mór ao correr da parede do
+hemicyclo obsial, foram mudados, para diante do sanctuario sobre os dois
+lados do côro, isto é, para o logar onde se vê presentemente nas egrejas
+do Norte.
+
+Durante o periodo ogival serviram-se de diversa qualidade de materiaes
+para os retabulos. O mais antigo era o metal; como n'aquelles do periodo
+roman a cantaria (excepcionalmente a madeira), substituiu o metal. Desde
+a ultima metade do XIII seculo, os retabulos de cantaria parece terem
+sido preferidos. No meiado do seculo seguinte, os retabulos de madeira
+com obra de talha foram mais adoptados, e no XV seculo, substituiram
+quasi completamenle os retabulos de cantaria. Principiaram, todavia, já
+n'essa epocha, a introduzir as almofadas pintadas, em fórma de
+_trypticos_, que, no meiado do XVI seculo supplantaram, para assim
+dizer, totalmente, os retabulos com obra de talha.
+
+As portas que os retabulos haviam tido muitas vezes desde o XIV seculo,
+tiveram no principio ornamentação de esculptura na face interior, e
+pinturas na exterior. Porém o peso das portas com ornatos compostos de
+estatuas ou baixo-relevos tornavam esse appendice muito difficil, e
+mesmo por vezes como perigoso, quando era preciso abrir ou fechar o
+retabulo; preferiram pois d'ali a pouco as pinturas para decoração
+d'essas duas frentes das portas.
+
+Os retabulos não apresentavam a mesma _fórma_ durante todo o periodo
+ogival. Quasi sempre com pouca altura no começo, tendo tambem pouca
+grossura. Os mais antigos eram muitas vezes rectangulares: algumas vezes
+comtudo a sua parte central tinha mais altura. Esta ultima fórma,
+principiaram-n'a a usar no meiado do XIII seculo; conservou-se em alguns
+paizes, até o meiado do XV seculo.
+
+O uso dos retabulos de madeira com obra de talha introduziu-se pouco a
+pouco no XIV seculo, principalmente na Belgica. Desde o principio,
+tiveram muitas vezes portas. Esta circumstancia lhe fez dar, como aos
+retabulos pintados tendo portas, o nome de _tryptycos_ ou _polyptycos_,
+conforme tinham tres ou maior numero d'esses appendices.
+
+Na Belgica, França, Inglaterra no XV seculo, e na Europa central e
+meridional já durante o seculo precedente, os retabulos perderam a bella
+e elegante simplicidade que os distinguiam antes. Os seus contornos e
+subdivisões se complicam cada vez mais, á proporção que se aproximam do
+final do periodo ogival. Tinham por remate, no XIII seculo e no XIV
+seculo, linhas horisontaes e sem nenhum adorno no cimo; os caixilhos dos
+retabulos do XV seculo passam depois por transições com mistura de
+linhas rectas e curvas para chegar por fim ás ogivas de requebro, arcos
+unidos de volta abatida e volta de sarapanel com curvas de todo o genero
+que ornavam muitas vezes no XVI seculo de crochetes e florões; chegando
+mesmo a rematar o retabulo com torrinhas e pinaculos, estatuas e
+enlaçamentos do feitio de firmas.
+
+Devemos todavia notar que as formas dos moldurados do XIII e XIV seculo
+se encontram ainda no XV e mesmo no XVI seculo, principalmente nos
+triptycos pintados. Os moldurados d'este ultimo seculo apresentam sempre
+maior simplicidade que os dos retabulos com obra de talha.
+
+_Os assumptos representados sobre os retabulos_, eram tirados da
+historia do antigo e novo testamento ou das lendas dos santos. No XII
+seculo e no XIII, ornavam-se os retabulos quer de baixos relevos, quer
+de estatuasinhas collocadas em arcaduras; um medalhão central de forma
+quadrilobada ou de aureola se via as mais das vezes no centro do
+retabulo, tendo a imagem de Jesus Christo na cruz ou assentado sobre o
+arco-iris. No XV seculo, as arcaduras não apparecem senão poucas vezes;
+quasi sempre, n'esta epoca, o retabulo esta dividido em muitas series
+verticaes e horizontaes com as divisões cheias de baixos relevos
+sobrepostos uns aos outros. A representação da cruxificação com a Virgem
+Nossa Senhora e S. José, com os dois ladrões e grupos de personagens,
+occupa bastantes vezes o compartimento central, commummente mais alto e
+por vezes tambem mais largo que os compartimentos inferiores.
+
+Os retabulos estavam cobertos, em certas occasiões, por frontaes
+similhantes aos dos altares. Muitos _retabulos pintados_ do periodo
+ogival se têem conservado até ao presente. Arrancados quasi todos ao
+logar que occupavam primitivamente detraz dos altares, apparecem agora
+como paineis nos museus de pinturas ou estão dependurados nas paredes
+internas das egrejas.
+
+As obras primas dos pintores do XIV, do XV e do principio do XVI seculo,
+não são como os antigos retabulos em forma de triptyco.
+
+_Os retabulos esculpidos_ foram usados simultaneamente com os retabulos
+pintados. Os que se fizeram na Belgica durante o XV seculo e os
+primeiros annos do XVI seculo compunham-se quasi sempre de um certo
+numero de grupos com mais ou menos alto relevo, em caixilhos ou
+collocados debaixo de docel delicadamente recortado; os dos outros
+paizes, pelo contrario, e particularmente os da Europa Oriental,
+compõem-se de estatuas perfiladas no compartimento central, e muitas
+vezes tambem sobre as portas. Ainda que entre os retabulos belgas do
+ultimo seculo do periodo ogival apparecem alguns de execução grosseira e
+sem nenhum merito, quasi todos, todavia apresentam bastante apreço
+artistico e testemunham o estado florescente da esculptura n'esse
+periodo.
+
+Os retabulos de madeira com talha eram muitas vezes dourados e pintados
+de côres. Convém advertir que as letras que, n'esses retabulos, se veem
+frequentemente sobre os bordados das vestimentas dos personagens, não
+apresentam commummente nenhuma significação, tendo sido ahi collocadas
+unicamente com o fim decorativo.
+
+No final do periodo ogival, o retabulo firma-se quasi sempre sobre um
+sóco de 20 a 30 centimetros de altura, e por este modo se liga ao altar.
+
+Esta base se designa _predella_, nome que se dá egualmente aos
+degrausinhos para os castiçaes do throno dos altares modernos. O lado
+superior, que corresponde á base do retabulo, é muitas vezes mais
+comprido que o lado interior; n'este caso a differença de tamanho é
+disfarçada por um arco de circulo saliente.
+
+A _predella_ (banqueta) é muitas vezes ornada do busto do Redemptor e
+dos doze apostolos.
+
+Das observações precedentes resulta que, não obstante as dimensões por
+vezes exageradas, o retabulo parte inteiramente accessoria, conservou
+até aos fins do periodo ogival, o seu caracter essencial. A maior parte
+dos artistas modernos que se encarregam de compor os altares no estylo
+ogival não se preoccupam de forma alguma com o primitivo destino do
+retabulo, a que dão impropriamente o nome de altar. Desconhecendo a
+verdadeira significação do retabulo, substituem-lhe tablados ridiculos,
+muitas vezes de _madeira_, com côr de _pedra!!!_ compostos de socos,
+arcaduras e pinaculos, onde os symbolos religiosos, as imagens, e os
+baixos relevos são inteiramente supprimidos ou estão mesquinhamente
+representados. Muitas vezes estes symbolos, estas imagens, e estes
+assumptos são executados apesar das regras da iconographia christã,
+regras das quaes os architectos, esculptores e pintores _não teem
+geralmente o incommodo de adquirir as noções as mais elementares_! É
+tambem para lastimar, que nas restaurações das antigas egrejas, não
+encarreguem os retabulos _triptycos_ ao talento dos pintores que se
+occupam de trabalhos religiosos.
+
+_Sacrarios_. Durante quasi todo o periodo ogival não se reservava,
+depois da celebração da missa, senão a quantidade de hostias consagradas
+e necessarias para levar o viatico aos enfermos em perigo de vida, e
+para expor o Santissimo Sacramento á veneração dos fieis.
+
+Quando as pessoas que assistiam aos officios divinos queriam commungar,
+approximavam-se da mesa da communhão durante a missa, e recebiam _uma
+parte das sacramentaes_ que o padre acabava de consagrar. Não se deve,
+pois, estranhar que os vasos sagrados destinados á veneração da Santa
+Eucharistia e o logar onde os depositavam tivessem pequenas dimensões
+durante o XIII e o XIV seculos.
+
+Conservavam a Santa Eucharistia de muitas maneiras:
+
+1.^o Nas egrejas dos paizes meridionaes, onde a pyxide se manteve em uso
+durante o periodo ogival, continuaram a ficar suspensos, como se fazia
+precedentemente, o calix e a pyxide com as hostias.
+
+2.^o Em França e na Belgica e nos paizes septentrionaes da Europa
+serviram-se muitas vezes durante o XIII e o XIV seculos, da maneira
+indicada na pag. 272. As hostias encerradas em uma pyxide ou dentro de
+uma pomba dourada e esmaltada, ficavam collocadas n'uma pequena torre ou
+pequena tenda (_tabernaculum_) em estofos custozos, que se suspendiam,
+por cima do altar, n'um baculo de bronze ou de prata.
+
+3.^o Algumas vezes conservam-se as hostias em cofres de forma de arca,
+relicario ou torre. Estes cofres eram transportados e depositados no
+sacrario, ou sacristia, ora collocados de vez sobre o altar.
+
+4.^o No maior numero de casos, principalmente nas egrejas de segunda e
+terceira ordem, a Santa Eucharistia ficava em armarios construidos
+detraz ou ao lado do altar. O uso de collocar as hostias nos
+tabernaculos em forma de armario, parece ter sido muito geral na
+Belgica, pelo menos depois do XIV seculo.
+
+5.^o No XIV e XV seculos, construiram tambem, para a reserva
+Eucharistica, tabernaculos de fórma de torre, inteiramente isolados e ao
+lado do Evangelho. Os tabernaculos d'este genero vieram a ser communs na
+Belgica e na Allemanha desde o XV seculo. Encontram-se muitos n'este
+ultimo paiz que são do XIV seculo.
+
+O maior numero dos tabernaculos com a fórma de torre são de pedra;
+encontram-se não obstante, mas excepcionalmente, de madeira ou mesmo de
+metal.
+
+Do lado da Epistola, defronte do tabernaculo, se faz muitas vezes na
+parede um armario imitando a fórma de tabernaculo, porém mais pequeno e
+muito menos ornado.
+
+Os armarios feitos na grossura da parede tinham a frente para o altar
+sendo destinados a guardar as alfayas e vestuario dos ecclesiasticos que
+deviam celebrar a missa; encontram-se algumas vezes, nas capellas que
+guarnecem os lados da capella-mór ou da nave.
+
+_Piscinas_. O uso das piscinas ou pias abertas na parede do lado da
+Epistola, que havia durante o periodo roman, foi conservado tambem na
+epocha ogival.
+
+No XIII seculo, a maior parte das piscinas eram _geminadas_, isto é
+compostas de duas pias ou orificios para passarem as aguas por uma bica,
+quer por baixo do pavimento da egreja, quer por fóra do pavimento do
+edificio. Uma d'essas pias era destinada a receber as aguas de uso, a
+outra, as oblações das mãos do sacerdote e mesmo as do calix; porque,
+ainda n'esta epocha, as oblações do calix eram lançadas nas piscinas, e
+não bebidas pelo padre. Encontram-se todavia ainda agora piscinas
+_simples_, isto é tendo um unico orificio para sahir a agua.
+
+As piscinas gemeas fingem geralmente a fórma de um duplo nicho, separado
+por uma columnasinha. Muitas vezes, nas egrejas ornadas de arcaduras
+fingidas debaixo do peitoril das janellas, a piscina occupa duas
+arcaduras proximas, e une-se a ellas; n'este caso, a columnasinha posta
+entre as duas arcaduras forma a divisão dos dois nichos da piscina.
+
+As piscinas do XIV seculo não differem muito das outras do seculo
+precedente senão pelo genero da ornamentação architectonica e
+esculptura, que harmonisa com o estylo da epocha. As mais das vezes são
+gemeas, posto que o ecclesiastico beba, desde então, a agua de que se
+serve para fazer a oblação do calix.
+
+No XV, e mesmo já no final do XIV seculo, as piscinas tornaram-se raras
+e acabaram proximo do fim do periodo ogival, para desapparecerem
+completamente.
+
+_Cadeiras de côro_. Estas cadeiras collocadas no côro das egrejas eram
+destinadas ás dignidades ecclesiasticas assistentes aos officios
+religiosos. Durante o periodo roman estas cadeiras eram geralmente de
+pedra; porém desde o fim do XV seculo, sempre se fizeram de madeira.
+
+As cadeiras de madeira compõem-se de differentes partes, tendo cada uma
+um nome para a designar.
+
+As separações de duas cadeiras são formadas por curvas elegantes com
+ornamentação de obra de talha na sua parte superior, que lhes dão graça
+e belleza. Os _arrimos_ são apoios horisontaes que limitam as cadeiras
+na parte superior; geralmente esta parte tem bastante largura com fórma
+inclinada, podendo as pessoas de pé encostarem-se facilmente.
+
+Alguns auctores dão impropriamente o nome de encosto á _rampa curva_ da
+divisão da cadeira, sobre o qual se apoia o cotovello, quando se está
+sentado. A taboa movediça servindo de assento gira sobre gonzos ou
+eixos, e póde-se abaixar e levantar como se quizer. Tem, por baixo uma
+misula que se chama _misericordia_ ou _paciencia_, sobre a qual se póde
+sentar, _fingindo estar a pessoa de pé_, quando a taboa que pertence ao
+assento está levantada.
+
+No côro das cathedraes, egrejas collegiaes e abbaciaes, estas cadeiras
+ficam collocadas á direita ou esquerda do fundo do côro em duplo renque
+e altura: cadeiras altas para os conegos e religiosos, cadeiras mais
+baixas para os ecclesiasticos de cathegoria inferior ou de congregação.
+O piso das cadeiras superiores fica alto com dois ou mais degraus acima
+do chão; em quanto as cadeiras inferiores assentam sobre o solo ou sobre
+um unico degrau. As pessoas sentadas em cima podem mais facilmente que
+as debaixo vêr o altar. As costas das cadeiras do primeiro renque ficam
+muito baixas e servem de genuflexorio aos conegos que estiverem nas
+cadeiras superiores; as costas d'estas são muitas vezes inteiramente
+semilhantes das cadeiras baixas, outras teem por cima obra de madeira
+bastante alta e limitada por um remate em sacada com a fórma de um
+docel. As pessoas que occupam as cadeiras baixas se ajoelham sobre o
+chão com o rosto virado para as costas de suas cadeiras. De distancia em
+distancia a fila das cadeiras baixas fica interrompida pela suppressão
+de uma cadeira para dar passagem aos que vão assentar-se nas cadeiras
+mais altas; estas aberturas chamam-se _entradas_. Encontram-se tambem
+cadeiras com genuflexorios.
+
+As cadeiras do côro do XIII seculo são notaveis tanto pela sua singeleza
+como pela sua elegancia. Duas columnasinhas, uma na parte inferior e
+outra na parte superior, ornam quasi sempre os lados de cada divisão
+d'estas cadeiras. As mais sumptuosas têem além d'isso, esculpturas sobre
+as _misericordias_ e nos remates, que no quarto de circulo. E reunem ás
+columnasinhas servindo de apoio aos braços das cadeiras. Estas
+ornamentações constam de folhagens, fructos e algumas vezes de figuras
+de animaes reaes ou phantasticos.
+
+As cadeiras do côro do XIV seculo apresentam o mesmo feitio que as do
+XIII seculo; só com a differença de maior ostentação na obra de talha.
+
+Muitas vezes no XIII seculo, e mesmo ainda no princípio do XIV seculo,
+estas cadeiras não tinham costas. Quando as apresentavam eram com uma
+almofada e arcaduras, tendo regularmente um tecto lavrado similhante a
+um docel, um pouco saliente na face interna e com poucas esculpturas. No
+XIV seculo, esse tecto lavrado apparece mais apparatoso; cada vez mais
+saliente, descança sobre reprezas, acabando em forma de curvatura. Nos
+dias de grandes festas, suspendiam-se em frente, no cimo do encosto,
+sedas de côres, bordados e pannos de raz.
+
+Na mesma epocha, os lados superiores das cadeiras do côro, mesmo quando
+não tenham alto encosto, cobrem-se de diversas esculpturas,
+representando estatuasinhas, animaes reaes ou phantasticos, e uma
+decoração vegetal muito vistosa.
+
+As cadeiras do côro do XV seculo distinguem-se geralmente das
+precedentes por uma abundancia extraordinaria no ornato esculptural. São
+cheias de bastante decoração e executadas com mais primor e delicadeza
+que nos seculos XIII e XIV. Os seus altos encostos compõem-se quasi
+sempre de baixo relevos dentro de arcaduras com redentes feitos
+delicadamente, e cada cadeira tem um docel em que um pinaculo vasado
+muito alto forma a extremidade. Os baixos relevos das costas representam
+assumptos tirados da Biblia, da historia ecclesiastica ou da legenda;
+successos da vida de Jesus Christo ou de Nossa Senhora são representados
+quasi sempre. As esculpturas dos lados internos das cadeiras e das
+misericordias apresentam muitas vezes figuras com carantonhas, animaes
+reaes ou phantasticos, symbolisando os vicios. Poucas vezes as
+esculpturas das cadeiras representam santos ou assumptos religiosos.
+
+Na Belgica ha um limitado numero de cadeiras do côro do XV e XVI
+seculos.
+
+Em França, as mais notaveis são as da cathedral d'Amiens (XV seculo), e
+d'Auch (principio do XVI seculo), e na Allemanha, as da cathedral d'Ulm,
+com esculpturas de Jorge Syrlino de 1474 a 1476; em Portugal as da Sé
+Velha de Coimbra.
+
+_Bancos e docéis dos celebrantes_. O banco dos officiantes era destinado
+para o celebrante, diacono e subdiacono se assentarem emquanto se canta
+o _Gloria_, _Credo_, e _Dies irae_; servia ao mesmo fim as poltronas que
+é costume collocar presentemente no côro proximo dos degraus do altar.
+Estes bancos, que havia na idade media em todas as egrejas de primeira e
+segunda ordem, estavam regularmente no _presbyterium_, do lado da
+Epistola defronte do tabernaculo, e apresentavam uma certa analogia com
+as cadeiras do côro. Conforme as prescripções lithurgicas, distinguia-se
+por uma grande simplicidade; eram lisos e sem subdivisões. Algumas
+vezes, todavia, se compunha de tres cadeiras mais ou menos similhantes
+ás do côro. Este banco, liso ou subdividido, tinha muitas vezes um docel
+cheio de esculpturas, formado por um nicho aberto na grossura da parede
+do côro, quando este não tinha naves lateraes ou sustentado por columnas
+e de paredes mestras quando o côro estava rodeado de naves lateraes.
+
+_Jubes, Screens[4] e Cruzes triumphales_. Antigamente chamava-se _Jube_
+á tribuna (em latim _doxale_) especie de barreira com tres e mais
+arcadas esplendidamente ornadas que nas egrejas separava o côro das
+naves; tinha por cima uma especie de galeria ou tribuna com
+_guarda-peito_, havendo na extremidade uma ou duas escadas em espiral,
+em cuja tribuna um abbade vinha lêr o Evangelho, depois de ter
+pronunciado a formula: _Jube, Domine, benedicere_.
+
+D'ahi vem o nome _Jube_.
+
+As escadas ficavam algumas vezes escondidas detraz dos pilares dentro de
+caixas rendilhadas com linda decoração.
+
+Durante a primeira parte do periodo ogival, a arcada do meio estava
+tapada por uma parede, as duas outras arcadas ficavam abertas, tendo
+portas ou grades. Mais tarde mudou-se em alguns paizes esta disposição
+primitiva; na Belgica, por exemplo, na França e em certas partes da
+Allemanha, a arcada central só ficou aberta com uma grade de pau ou de
+ferro servindo de porta; taparam com parede as duas outras lateraes
+encostando-lhe altares.
+
+Na primeira metade do XIII seculo, os _Jubes_ eram raros. Foi sómente no
+final d'este seculo, e principalmente durante os seculos seguintes que
+se fizeram geralmente nas cathedraes, collegiadas, e nas abbaciaes. No
+XV e no XVI seculo tambem, os collocaram nas egrejas parochiaes, mais
+importantes. Alguns se teem conservado na Belgica até ao presente: o
+mais antigo é da era 1490.
+
+O mais magestoso é o da cathedral de Milão.
+
+Os _jubes_ teem sempre proxima a _cruz triumphal_. Esta cruz, de grande
+dimensão, é geralmente de madeira e ornada de pinturas e dourados. Os
+seus quatro ramos com florões teem muitas vezes quadrilobos, nos quaes
+estavam do lado da nave os symbolos dos quatro evangelistas, e do lado
+do côro, os quatro doutores da egreja latina; S. Gregorio, S. Ambrosio,
+S. Agostinho e S. Jeronymo. Ao pé da cruz estão as imagens de Nossa
+Senhora, e do apostolo S. João; a primeira á direita, e a segunda á
+esquerda.
+
+Antes da introducção dos _jubes_ a cruz triumphal estava igualmente
+suspensa por tres correntes no meio do arco chamado _triumphal_, que
+occupa a entrada da capella-mór.
+
+Havia tambem antigamente nas egrejas do periodo Latino e Roman uma
+_haste_ (Tress). Era costume collocar nas basilicas entre o côro e a
+parte reservada para o publico uma viga atravez do côro, sobre o qual se
+punham luzes e tambem suspendiam lampadas, e tambem durante a quaresma,
+servia para pôr o véu chamado _velum templi_.
+
+_Separações do côro_. A disposição dos antigos bancos da clerezia ao
+comprimento da parede absidal do côro, ja descripto, não foi conservada
+durante o periodo ogival, sendo em Italia e tambem em Portugal, onde
+continua ainda, assim como em algumas egrejas da Allemanha,
+principalmente nas cathedraes de Spire e de Mayence.
+
+Desde o XI seculo, a maior parte das abbadias da _Europa central e
+occidental_ tinham, como já referimos, transferido para o cruzeiro, os
+bancos, alem das cadeiras dos ecclesiasticos, que occupavam antes a
+capella da abside. Mais tarde tambem a mesma mudança se introduziu pouco
+a pouco nas cathedraes e nas collegiadas d'essas mesmas regiões,
+principalmente depois da reunião das naves lateraes e capellas absides á
+roda da capella mór. Os bancos de pedra do periodo roman transformados
+em cadeiras do côro ou cadeiras de madeira, foram collocados diante do
+sanctuario, sobre o lado d'esta parte da egreja. O côro ficou separado
+das naves lateraes pelas barreiras, as mais das vezes de cantaria,
+bastante alta, vedado por detraz com as cadeiras do côro collocadas
+entre as columnas da capella-mór. A roda do sanctuario propriamente
+chamado, ás vezes, recortavam aberturas, de maneira que as pessoas que
+estivessem nas naves lateraes podessem vêr o altar, e outras vezes
+tambem substituiam as barreiras da porta circular da capella-mór por
+tumulos ou mausoléos. Nas grandes cathedraes, numerosas esculpturas em
+alto relevo ornavam as partes lizas das separações tanto no exterior
+como no interior da capella-mór. Alguns monumentos, por exemplo as
+cathedraes de Paris e de Amiens, teem conservado, por completo ou em
+parte, as suas antigas separações da capella-mór.
+
+
+*Pulpitos e confessionarios*
+
+
+_Pulpitos_. Durante os primeiros seculos da era christã, as tribunas do
+alto onde se fazia a leitura do Evangelho e da Epistola, serviam ao
+mesmo tempo de pulpito.
+
+Ao uso de prégar do alto da tribuna, veiu juntar-se o de um pulpito
+saliente que se conservou na Europa central e occidental até ao final do
+XV seculo. Por isso, os pulpitos anteriores ao meiado do XV seculo se
+encontram mui raras vezes. Foi sómente no começo d'esta epocha que se
+principiou a pôl-os isolados na nave principal das egrejas d'esta parte
+da Europa.
+
+Os mais antigos pulpitos são quasi todos de pedra; no XV e XVI seculos
+fizeram-se egualmente de madeira.
+
+O espaço dentro do pulpito, para o prégador, no periodo ogival é
+geralmente hexagono e ornatado no cimo dos lados, ficando o sexto lado
+reservado para a entrada n'elle; a decoração compõe-se de estatuas,
+baixos relevos, e algumas vezes tambem, de simples desenhos geometricos
+ou chammas. Vê-se com frequencia Jesus Christo e Nossa Senhora entre
+quatro evangelistas ou os quatro doutores da egreja do Occidente, S.
+Gregorio, Santo Ambrosio, Santo Agostinho e S. Jeronymo.
+
+Ha em Portugal um pulpito de pedra de admiravel composição, que pertence
+á egreja de Santa Cruz de Coimbra, de que tirámos o modelo e figurou na
+exposição universal de Paris em 1867; depois o museu de Londres quiz
+compral-o, ao que nos oppozemos.
+
+O pulpito apoia-se por vezes sobre uma curva em sacada, sobre um macisso
+de alvenaria ou sobre columnatas enfeixadas; as mais das vezes, todavia,
+está assente sobre uma columnata ou sobre um pedunculo. Esta ultima
+maneira foi mais commum no XV e no XVI seculo. Estes apoios eram ornados
+com esculpturas, muitas vezes muito intrincadas conforme o uso adoptado
+no final do periodo ogival. Na Allemanha haviam por vezes representado
+as figuras de Adão, Eva ou Moysés em alto relevo nas frentes do pulpito.
+
+O sobreceu dos pulpitos principiou a servir no final do periodo ogival,
+e mesmo não era muito imitado n'essa epocha. Veiu a ser de uso geral no
+fim do XVI seculo. Os sobreceus do XV seculo têem geralmente a forma
+d'uma pyramide, d'um coruchéo ou d'um campanariosinho. Na Inglaterra
+vêem-se sobreceus sómente com uma simples guarnição. Esta ultima forma
+nos parece a melhor, pois não causa a desagradavel vista do remate de
+tanto vulto, que parece abafar a voz. Ha poucos exemplares de pulpitos
+do periodo ogival.
+
+_Confessionarios_. Os confessionarios em que o confessor fica separado
+do penitente por uma rotula, foram desconhecidos durante o periodo
+ogival. N'essa epocha, o confessor collocava-se, para ouvir as
+confissões, em uma poltrona ou nas cadeiras do côro, e o penitente
+ajoelhava deante d'elle. A recordação d'esta maneira de se confessar foi
+conservada nas miniaturas, paineis e gravuras do XV seculo.
+
+Foi proximo do final do XVI seculo que os confessionarios com rotula
+foram introduzidos na Belgica.
+
+
+*Capellas funereas, tumulos, campas, lanternas dos defunctos e cruz de
+cemiterio*
+
+
+_Capellas funereas_. Estas capellas funereas eram construidas isoladas
+nos cemiterios durante o periodo ogival. São raras em quasi todos os
+paizes. Não ha nenhuma na Belgica nem em Inglaterra. Em França vêem-se
+algumas nos cemiterios bretões, e existe uma muito notavel, do XV
+seculo, em Avioth nas _Ardennes_ francezas. É na Austria que são mais
+communs.
+
+_Tumulos apparentes_. O uso de encerrar os cadaveres nos sarcophagos e
+pôl-os sobre o solo ficou completamente abandonado no norte da Europa
+desde o XIII seculo.
+
+Na Inglaterra, Belgica, Allemanha, e nas provincias septentrionaes da
+França, os tumulos apparentes do periodo ogival são cenotaphios,
+consistindo em socos de cantaria com massiços de alvenaria postos sobre
+uma sepultura subterranea, tendo a effigie do finado. Compõem-se
+geralmente, como no XIII seculo, de um sóco ou macisso coberto de uma
+grande lousa, sobre a qual está deitada a estatua do defuncto. Este
+estendido sobre uma cama ricamente disposta, apresentando todas as
+insignias de sua dígnidade: os bispos e os abbades trazendo mitra e
+baculo; os reis e principes, a corôa e o sceptro; os cavalleiros, o seu
+escudo e a sua armadura. Os pés dos bispos e dos ecclesiasticos, e em
+certos paizes tambem dos seculares, apoiam-se contra um dragão ou um
+monstro phantastico; os dos clericaes, principes e nobres, contra um
+leão, symbolo de coragem, e mesmo, ás vezes, como para as damas tendo os
+pés sobre um rafeiro, emblema da fidelidade conjugal. Pequenas figuras
+de anjos agitam thuribulos, sustentando tochas ou almofadas em que
+descança a cabeça do personagem. Depois do XIII seculo, os anjos com
+thuribulos tornaram-se raros. Durante muito tempo, a effigie do finado
+não apresenta nenhum dos caracteres da morte.
+
+No XIII seculo e ainda no principio do XIV seculo, as estatuas deitadas
+têem os olhos abertos e reproduzem os gestos e as attitudes dos
+personagens vivos. Sómente depois do XIV seculo o defuncto principia a
+ser representado morto ou adormecido, com os olhos fechados.
+
+Muitas vezes, columnatas reunidas por arcaduras são dispostas em roda do
+sóco, no qual estão assentes; algumas vezes, mas, raramente, as
+arcaduras são vasadas, e a estatua _deitada_ do finado occupa o _logar_
+do sóco supprimido.
+
+Os cenotaphios do periodo ogival são geralmente de pedra, poucas vezes
+de cobre ou de outro metal. Os tumulos de pedra têem quasi um metro de
+altura, em quanto que os sepulchros de metal, que se conservam até ao
+presente têem apenas 50 centimetros acima do solo; todavia o unico de
+metal que possue a Sé de Braga tem maior altura.
+
+Para evitar o estorvo nas egrejas, não se permittia, salvo raras vezes,
+erguer-se um cenotaphio. Na capella-mór admittia-se o tumulo do fundador
+ou de um bemfeitor distincto, collocando os dos outros personagens de
+distincção nas capellas que cercam os lados do côro e da nave principal.
+Estes monumentos apresentavam muitas vezes uma decoração de pinturas e
+dourados. Alguns ficavam encostados á parede e dentro de um grande nicho
+sob fórma de arcadura ogival; outros, e era o maior numero, ficavam
+separados em todos os seus lados.
+
+_As campas com gravuras a traço_ tornaram-se vulgares desde o XIV
+seculo. Muitas têem sido conservadas até ao presente, não obstante o
+grande numero de causas de destruição, ás quaes têem ficado expostas
+desde seis seculos. A maior parte estão ornadas de imagens do finado,
+debaixo de arcaduras trilobadas do feitio de docel, muito simples e
+sustentado por columnatas. Quasi sempre vê-se uma mão deitando a benção,
+symbolo de Deus, sahida do cimo da ogiva; e anjos agitando thuribulos
+occupam os _seguintes_ da arcadura. Sobre as campas dos bispos, dos
+abbades e dos padres, vê-se tambem, algumas vezes, aos dois lados do
+personagem, clerigos, ou anjos de pequeno tamanho, segurando em velas
+accesas.
+
+Muito antes do XIII seculo, as campas têem, bastantes vezes ainda, como
+durante o periodo roman, a forma de um trapezio, isto é, são mais
+estreitas do lado dos pés. A inscripção que quasi sempre têem, forma
+geralmente o contorno exterior da pedra, menos geral do que o
+emmoldurado de ogiva; principia por uma cruz a inscripção e quasi no fim
+do XIII seculo, ajuntam já por vezes, aos quatro angulos, os emblemas
+dos evangelistas collocados nos quadrilobos.
+
+As campas dos tumulos do XIII seculo que não têem um emblema, um symbolo
+ou um escudo com armarias, são bastante raras na Belgica.
+
+Sobre as campas do XIV seculo, a effigie do finado continua a ser
+collocada debaixo de uma arcadura, poucas vezes trilobada, porém não
+durante os primeiros annos. Sómente esta arcadura é muito mais carregada
+de detalhes architectonicos do que precedentemente, taes como ridentes,
+crochetes, florões, pinaculos e rosaes; além d'isso, as arcaduras
+principiam a não ser sustentadas por columnatas com base e capitel, mas
+sim por pés-direitos do feitio de contra-fortes ornados de pinaculos e
+nichos, nos quaes se vêem pequenas figuras de homens.
+
+Quando uma unica campa cobre uma sepultura dupla ou tripla, as arcaduras
+estão reunidas no numero de duas ou tres, e contéem, cada uma, sua
+effigie. O leão, o cão e os outros symbolos, que acompanham quasi sempre
+as estatuas deitadas dos cenotaphos, se vêem tambem sobre as campas do
+XIV seculo. Estas são geralmente de fórma rectangular, e não têem o
+feitio de um trapezio. Os anjos incensadores e ceroferários não se vêem
+excepcionalmente a começar do XVI seculo.
+
+As arcaduras e o contorno com curvas em rampa que formam o remate
+caracteristico dos moldurados do XIV e XV seculos, são regularmente
+substituidos no XV seculo por docéis, representados em perspectiva e
+muitas vezes compostos de ogivas inflexas com desenhos complicados; os
+pinaculos, os nichos, as rosaceas flammejantes se multiplicam sobre todo
+o moldurado; além d'isso, os arcos-butantes apparecem para ligar os
+docéis aos contrafortes.
+
+Será bom notar que os moldurados das campas do XIV e do XV seculos
+apresentam a maior similhança com as decorações do mesmo genero que se
+vêem nas vidraças pintadas contemporaneas.
+
+Como no XIII seculo, a inscripção apparece no XIV e no XV seculos sobre
+a borda da campa e está inscripta entre duas linhas parallelas. Nos
+angulos formados pela intersecção d'essas quatro linhas se vêem
+quadrilobos com os emblemas dos evangelistas, ou tambem algumas vezes,
+desde o começo do meiado do XIV seculo, as armarias; acontece mesmo que
+a inscripção está, além d'isso, interrompida pelo escudo da armaria
+sobre os seus lados mais compridos.
+
+Já explicámos que, quando são applicados para ornar os quatro angulos de
+um quadrado ou de um rectangulo, os symbolos dos evangelistas põem-se,
+pelo menos, até ao XIII seculo, da maneira seguinte: o homem alado no
+angulo superior á _esquerda_ do espectador; a aguia á _direita_, o leão
+no angulo inferior á _esquerda_ e o novilho á _direita_. No XIV seculo,
+houve uma mudança; desde esta epocha, vê-se quasi geralmente a aguia no
+_angulo superior esquerdo_, e o homem alado no _angulo superior
+direito_. É ali tambem o logar que estes symbolos occupam sobre as
+campas.
+
+Os caracteres das campas que acabamos de indicar por cada seculo do
+periodo ogival, não são de tal maneira proprios como os que são mais
+proximos da epocha indicada. Pelo contrario, acontece muitas vezes,
+principalmente na Belgica, que as campas do XV seculo apresentam ainda,
+por assim dizer, os caracteres que não se está acostumado a encontrar
+n'outra parte nas campas do seculo precedente. Não é raro tambem achar
+campas do XIII, XIV e XV seculos, nas quaes o ornamento architectural
+seja moderado de detalhes, ou inteiramente os supprimiram.
+
+Em França quasi sempre e algumas vezes na Belgica, as carnes, em vez de
+serem imitadas a traço, são represeutadas por embutidos de marmore ou de
+metal.
+
+_Tumulos chatos de cobre_. Durante o periodo ogival, introduziu-se o uso
+do cobre ou de laminas de latão sobre as quaes as linhas do desenho são
+feitas a traços gravados bastante fundos, estando cheios com uma
+substancia rezinosa de côr preta e de tom mate. Essas largas linhas
+pretas se destacam perfeitamente sobre a superficie brilhante do metal
+brunido ou adamascado, até mesmo dourado, cujo reflexo luzidio é muitas
+vezes realçado pela armaria colorida em esmalte da composição da campa,
+a qual fica solidamente fixa na grossura do cobre. Devido a estas
+qualidades, os tumulos lizos em cobre contribuiam admiravelmente, assim
+como o pavimento e as vidraças pintadas, para a decoração das egrejas. É
+na Inglaterra e Flandres que têem sido mais communs durante toda a idade
+media.
+
+Os tumulos chatos de cobre podem dividir-se em duas classes. A primeira,
+de maior numero, comprehende as laminas de cantaria, quer de marmore ou
+de gres, nas quaes a figura do finado fica recortada em _silhoeta_ na
+lamina de metal, assim como differentes ornatos; as armarias, emblemas,
+inscripções em feitio de fita, gravadas sobre tantas peças distinctas,
+ficam embutidas e arrebitadas separadamente nos entalhes correspondentes
+da pedra, designados _casements_ pelos auctores inglezes. A segunda
+classe parece ter sido menos numerosa, porém contém especimens mais
+bellos e preciosos. Acham-se comprehendidos n'ella os monumentos que
+apparecem debaixo do aspecto de grandes placas de cobre, d'uma só peça,
+mas que, na realidade, são muitas vezes compostas de muitas laminas
+ajustadas, das quaes com grande habilidade ficam disfarçadas as juntas
+na profundura dos traços. A figura do finado, geralmente de grandeza do
+natural, representa-se de pé ou deitada.
+
+Os tumulos de latão consistem em grandes laminas soltas, não destinadas
+a ser embutidas nas laminas de pedra, e que formam por si um todo
+completo; foram communs na Belgica durante todo o periodo ogival; o seu
+uso continuou, em certos sitios, até o XVII seculo. Na Allemanha e
+igualmente no Norte da França tiveram acceitação. Sobre as laminas, não
+sómente a figura do finado, como tambem os accessorios symbolicos e de
+decoração que lhe servem, foram executadas da mesma maneira que sobre as
+pedras das campas gravadas. Todavia, a composição do assumpto é
+regularmente mais superior, e a execução mais esmerada que das outras;
+os mais insignificantes detalhes do vestuario, os docéis do remate, as
+pequenas figuras dos anjos e dos santos que os ornam muitas vezes assim
+como os pés-direitos, todas as partes, em uma palavra, são feitas com
+fidelidade, com arte e com delicadeza. Além d'isso, o fundo sobre o qual
+se destaca a effigie do finado, em logar de ser lizo e sem ornato, como
+sobre as pedras das campas gravadas, é regularmente adamascado, isto é,
+coberto de ornatos differentes imitando os desenhos que apresentam
+certos estofos orientaes; esses desenhos assemelham-se aos que se vêem á
+roda dos personagens nas vidraças pintadas do XIV seculo. São compostos
+de folhas do trevo, de quatro folhas, folhagens, côres matizadas,
+figuras de animaes, gritos de guerra, ou com divisas muitas vezes
+repetidas. Parece mesmo por vezes no XV e no XVI seculo, que os detalhes
+architectonicos desapparecem completamente para dar logar aos fundos
+adamascados. Finalmente, uma particularidade que apresentam ainda as
+laminas de cobre funereas do XV e do XVI seculo, vem a ser que as
+_phylactéres_ se veem muito mais frequentemente que sobre as pedras das
+campas. Chama-se _phylactéres_ a bandeirolas compridas e estreitas,
+saindo da boca das personagens ou estão seguras nas suas mãos, e sobre
+as quaes está inscripta uma oração, uma divisa ou uma sentença.
+
+_Pequenos monumentos funereos do XV e do XVI seculo_. Além dos
+cénotaphos, das campas e dos tumulos chatos de latão, erigiam-se tambem,
+nos XV e XVI seculos, pequenos monumentos funereos de pedra ou latão,
+encaixados na face da parede proxima do logar da sepultara. Estes
+monumentos curiosos encontram-se, não só no interior das egrejas, mas
+tambem nos claustros das cathedraes, collegiaes e mosteiros. Compõe-se
+regularmente d'um epitaphio, por cima do qual se vê um assumpto
+religioso, por exemplo, a SS. Trindade, a flagellação, a crucificação ou
+qualquer scena da Paixão. Muitas vezes tambem se vê Nossa Senhora com o
+Menino Jesus. O finado está regularmente representado ao lado da scena
+principal, de joelhos em oração e por vezes acompanhado do santo da sua
+devoção, o qual fica em pé por detraz d'elle e parece recommendal-o á
+clemencia Divina; sobre a bandeirola saindo da boca na direcção da scena
+principal, lêem-se frequentemente as palavras que é natural dirigir a
+Deus ou aos santos, por exemplo: _Qui potes, oro, rei, Christe, mementa
+mei_, e _O mater Dei, memento mei_.
+
+A scena religiosa está esculpida em relevo ou gravada a traço. Quando
+feita em alto relevo, vê-se quasi sempre em um nicho ogival, aberto na
+grossura da parede, e o epitaphio inscripto na parte inferior do nicho,
+sobre uma pequena chapa de latão, de marmore ou de pedra.
+
+Nos baixos relevos e nas pedras gravadas a traço, o assumpto e o
+epitaphio são geralmente collocados sobre uma unica pedra; ora n'uma,
+ora n'outra occupa a maior parte. A scena é coberta por um docél
+servindo de remate; algumas vezes, comtudo este docel não apparece.
+
+Não obstante as mutilações lamentaveis que lhe causaram os iconoclastas,
+estes monumentos merecem chamar a attenção, não sómente dos archeologos,
+mas tambem dos artistas e sobretudo dos esculptores.
+
+Serviram-se tambem de monumentos similhantes para perpetuar a fundação
+praticada por generosos bemfeitores. Na parte superior d'uma pedra ou de
+uma placa de latão, vê-se uma scena religiosa, diante da qual está de
+joelhos o fundador muitas vezes acompanhado do santo da sua devoção. Uma
+inscripção commemorativa da fundação substitue o epitaphio, o qual nos
+monumentos funereos se vê por baixo da scena. Algumas vezes sómente
+apparece uma simples inscripção gravada sobre uma pedra ou lamina de
+cobre.
+
+_Lanternas dos defunctos_. Dá-se o nome de _lanternas dos defunctos_ e
+_pharol de cemiterio_, a columnas ou pyramides ôcas que se collocavam
+n'outro tempo nos cemiterios. Este pequeno monumento tinha no cimo um
+pavilhão vasado, no qual se suspendia de noite uma lampada accesa com o
+fim de lembrar aos caminhantes que orassem pelos defunctos e para lhes
+indicar a presença da casa de Deus.
+
+_Cruz de cemiterio_. Erguiam tambem, nos cemiterios, grandes cruzes de
+pedra durante o periodo Roman, ajuntavam-lhe, poucas vezes, a imagem de
+Christo; porém do começo do XIII seculo, essa imagem vê-se quasi sempre
+acompanhada de Nossa Senhora e do Menino Jesus, postos no revesso da
+cruz, ou encostados á columna que serve para a sustentar. Outras vezes,
+e isso é mais seguido, a cruz fica entre a imagem de Nossa Senhora sem o
+Menino e a de S. João. As hastes que forma a columna ou o pilar sobre os
+quaes está assente a cruz, são geralmente postas sobre um sóco mais ou
+menos alto, tendo na sua base um pequeno altar.
+
+As cruzes de pedra que se erigiam muitas vezes, na idade media, nas
+encruzilhadas das vias e no meio das praças publicas, apresentavam as
+mesmas fórmas que as cruzes de cemiterios; sómente não tinham altar na
+base do seu sustentaculo. Em Lisboa havia um excellente especimen no
+cruzeiro de Arroyos, estando presentemente guardadas as esculpturas na
+egreja d'esse bairro.
+
+As cruzes de cemiterio e dos cruzeiros não eram todas de cantaria;
+havia-as tambem de bronze, de ferro e madeira. Inutil é declarar que as
+cruzes de madeira ficaram destruidas já ha muito tempo. As de bronze
+têem desapparecido egualmente, para fundirem o metal! Mas ha ainda, em
+alguns paizes, as que foram feitas com ferro forjado.
+
+As cruzes de cemiterio continuaram a estar em uso durante a epocha do
+renascimento, e estão quasi sempre acompanhadas das imagens de Nossa
+Senhora e S. João, e algumas vezes d'uma pintura representando o
+purgatorio. Quando o cemiterio fica adjacente á egreja, a cruz
+colloca-se sobre um alpendre junto do coro, na parte interna. As cruzes
+triumphaes, que se viam durante o periodo ogival por cima do Jubé foram
+aproveitadas, em muitos logares, para servirem de cruzes de cemiterios.
+
+
+*Pias baptismaes*
+
+
+A pia de baptismo no periodo ogival é geralmente menos larga e profunda
+do que a em uso no periodo Roman. Esta differença foi motivada pelo
+abandono do baptismo por _immersão_ no XIII seculo. Como
+precedentemente, algumas das pias têem o feitio d'uma tina sem pé,
+redonda, quadrada ou com seis ou oito lados; outras assentam sobre um
+grosso pilar central acompanhado nos angulos da pia por quatro
+columnasinhas, mas o maior numero são monopediculados.
+
+As pias de feitio de tina sem pé encontravam-se ainda algumas vezes no
+periodo ogival, porém muito poucas durante o periodo Roman.
+
+_As pias monopediculadas_, isto é, firmadas sobre um só pilar, foram as
+mais communs na Belgica durante todo o tempo do periodo ogival. Estas
+pias baptismaes, em vez de serem como as Romans, circulares ou quadradas
+na parte externa, eram geralmente de seis ou oito lados. A pia continua
+a apresentar, como durante o periodo Roman, a fórma hemispherica ou
+oval; havendo muitas vezes, na parte mais baixa, um orificio servindo
+para vasar a pia.
+
+Na Allemanha e na Belgica desde o final do seculo XIV, e principalmente
+no XV seculo, havia pias monopediculadas em latão.
+
+O maior numero de pias Romans estavam cobertas de esculpturas
+decorativas, symbolicas ou historicas. Sobre as pias do periodo ogival,
+pelo contrario, os assumptos historicos e legendarios, assim como as
+figuras symbolicas e phantasticas são raras; por excepção se vê ainda
+n'ellas o baptismo de Jesus Christo e outras scenas biblicas ou tambem
+personagens isolados collocados debaixo de arcaduras.
+
+Os ornatos simplesmente decorativos, taes como folhagens e carrancas,
+são tambem bastante raros sobre as pias do XIV e XV seculo. Toda a
+decoração das pias ogivaes, principalmente no XV seculo, consiste as
+mais das vezes n'um certo numero de molduras que se vêem sobre a pia e
+sobre o pilar em que se fórmam.
+
+
+*Pias para agua benta*
+
+
+Ha duas qualidades de pias para agua benta: as _fixas_ e as _portateis_.
+
+As pias fixas são cylindricas ou polygonaes, com reservatorio
+hemispherico, collocadas junto da entrada da egreja, no interior ou
+exterior do edificio: umas isoladas e postas sobre um pé, outras sem
+terem apoio. Estas ultimas, que estão sempre unidas com as construcções,
+vê-se quer em nichos, quer em sacada sobre o liso da parede ou d'um
+pilar, no qual estão encaixadas.
+
+Posto que as pias para agua benta pediculadas estivessem já em uso no
+XIII seculo, e talvez ainda antes, foi todavia no XIV e XV seculos que
+vieram a ser mais communs. Em muitos paizes, apresentam bastante
+analogia com as pias baptismaes contemporaneas, de maneira que é muitas
+vezes difficil distinguir de repente, se o objecto que está presente
+serviria na primitiva de pia para agua benta ou de pia baptismal, pela
+sua grandeza. A capacidade limitada do reservatorio e a falta do
+orificio destinado para dar sahida ás aguas baptismaes, dão algumas
+vezes um indicio para designar que o objecto seja uma pia para agua
+benta e não uma pia baptismal.
+
+O maior numero das pias para agua benta fixas do periodo ogival que
+existem, ainda são de pedra. Havia tambem em outro tempo um certo numero
+d'ellas de bronze e de latão. A memoria de algumas d'estas pias de metal
+nos foi conservada, quer por desenhos e gravuras, quer por testemunhos
+de escriptores antigos. Encontram-se mesmo raros especimens que
+escaparam á destruição vandalica.
+
+As pias para agua benta _portateis_ são vasos com azas, destinados a
+conter a agua benta. Como já referimos, serviam durante o periodo Roman,
+para apresentar a agua benta aos imperadores, reis e outros distinctos
+personagens, na occasião da sua entrada na egreja. Serviam tambem n'esta
+epocha, para a agua com que se faziam as aspersões prescriptas pela
+liturgia. O costume de principiar a missa solemne do domingo por uma
+procissão dentro da egreja, durante a qual se aspergia o povo com agua
+benta, remonta aos primeiros seculos do christianismo. As capitulares de
+Carlos Magno confirmam já este costume, e no Concilio reunido em Nantes
+em 911 determina aos curas que benzam a agua ao domingo, em um vaso
+limpo e apropriado, para que o povo seja aspergido, e o sacerdote possa
+leval-a aos enfermos, aspergil-os e á sua habitação.
+
+As mais antigas pias para agua benta portateis são de marfim. As pias
+para agua benta em metal, já conhecidas durante o periodo Roman, vieram
+a ser muito communs no XIII e XIV seculos. Todas as pias para a agua
+benta portateis são, comparativamente ás em uso desde o XV seculo, de
+muito pequena dimensão: medem apenas 20 centimetros pouco mais ou menos
+de altura, com um diametro entre 10 e 13 centimetros.
+
+Quando, no XV seculo, as pias para a agua benta portateis de metal
+vieram a tornar-se de uso geral, deram-lhes dimensões maiores. Todavia
+encontram-se ainda muitas d'esta epocha, que são muito pequenas.
+
+Quasi todas as pias para agua benta antigas têem a fórma d'um balde;
+algumas apresentam um engrossamento consideravel sobre a borda superior,
+diminuindo sensivelmente para a base. Vêem-se com uma inscripção
+mostrando como as das pias fixas, assim como a allusão ao symbolismo de
+agua benta pelo baptismo de Jesus Christo.
+
+
+*Grades e barreiras*
+
+
+_Grades de ferro_. As grades do XIV seculo apresentam mais ou menos o
+aspecto geral que as do periodo Roman. Como antecedentemente, têem os
+prumos verticaes com um caixilho de ferro a que ficam reunidos por
+ornatos em fórma de _X_ composto por barrinhas de ferro com secção
+differente; e todavia, quando as grades são destinadas para as
+cathedraes ou para os edificios importantes, as barrinhas das
+extremidades simplesmente enroscadas não têem por ornato senão algumas
+hastes verticaes. A suppressão das couceiras póde ter logar sem
+inconveniente nos vãos de pequena largura, de pouco peso e fórmas
+delicadas, mas para grades maiores e expostas aos encontrões da
+multidão, o systema de almofadas com ornato entre as couceiras e as
+travessas é o unico modo que dará a solidez precisa sem obstar ao
+aspecto de leveza.
+
+Os cenotaphos erguidos nos logares frequentados da egreja, os
+reliquarios expostos publicamente á veneração dos fieis e os armarios
+dos thesouros eram muitas vezes resguardados por grades com importante
+trabalho de mão d'obra. Estas grades ornadas geralmente por barrinhas
+estampadas do lado externo sómente estão por vezes armadas com grandes
+pontas e ganchos de ferro que impossibilitam o assalto.
+
+Nas grades do XIV e XV seculo, os prumos servindo de couceiras e as
+travessas continúam a ser empregadas; porém as barrinhas torcidas e
+estampadas das grades do XIII seculo ficaram substituidas por ornatos
+obtidos, servindo-se de chapas de ferro batido, recortadas em florões ou
+folhagens. Depois, em logar de ficarem seguros como precedentemente os
+prumos por bracedeiras, não soldados, esses ornatos estão fixos por
+cavilhas arrebitadas. Os caixilhos de ferro são muitas vezes
+supprimidos, e a esses prumos depois de lhe assentar na extremidade
+remates mais ou menos vistosos, compostos de flôres de liz ou florões de
+folha de ferro soldadas.
+
+As grades que se não abrem, que assentam na frente das janellas, nos
+thesouros das egrejas, casas de capitulo, depositos do archivo, casas
+nobres e mesmo nas casas particulares, estão muitas vezes guarnecidas de
+pontas de ferro dispostas em espigas nas duas extremidades das
+couceiras. Algumas vezes as grades com espigas têem, álem d'isso, as
+suas couceiras e travessas reunidas de maneira impossivel para fazer
+mover as couceiras nos olhaes das travessas ou nos olhaes das couceiras;
+estes olhaes estão alternativamente feitos nas travessas e nas
+couceiras.
+
+_Barreiras de madeira_. Em logar de grades de ferro, tambem se serviam
+de barreiras de madeira, a fim de separar as capellas. Estas barreiras
+são geralmente tapadas até á altura quasi d'um metro, não ficando
+interrompida a vista na parte superior. Quasi todas são feitas com
+madeira de carvalho, devendo a sua duração não sómente ao bem feito da
+obra, como á excellente qualidade do material empregado. A começar do
+XIV seculo, a parte inferior tapada é formada de duas ou muitas ordens
+sobrepostas de almofadas encaixadas entre as couceiras e as travessas.
+Estas almofadas teem muitas vezes obra de talha figurando pinasios dos
+caixilhos, ou folhas de pergaminho dobradas. A parte superior d'estas
+barreiras compõe-se quasi sempre de arcaduras rotas, deixando passar a
+vista entre os prumos em que se dividem.
+
+
+*Orgãos e caixas para elles*
+
+
+Os primeiros orgãos de que os chronistas occidentaes fazem menção, são
+os que o rei Pepin recebeu de presente da côrte imperial de
+Constantinopla no meiado do VIII seculo, e que fez collocar no seu
+palacio de _Compiègne_. Carlos Magno tambem no principio do seculo
+seguinte mandou fabricar orgãos, conforme o modelo byzantino para ornar
+a sua egreja de _Aix-la-Chapelle_. Depois de Carlos Magno, o uso dos
+orgãos para o acompanhamento de certas partes cantadas do officio
+divino, introduziu-se pouco a pouco na egreja Latina. Desde o final do X
+seculo, a maior parte das egrejas cathedraes e abbaciaes de primeira
+ordem tinham-os adquirido, e durante os dois seculos seguintes
+continuaram a generalisar-se.
+
+Os orgãos primitivos eram muito defeituosos e d'uma grande singeleza,
+como vemos nas miniaturas dos manuscriptos contemporaneos.
+
+Durante o periodo ogival a predilecção pelos orgãos tomou novos
+desenvolvimentos, e, no final do XV seculo, todas as egrejas de alguma
+importancia e mesmo as capellas tinham o seu orgão. No XIII seculo,
+começaram já, em alguns logares, a multiplicar o numero dos orgãos em
+uma só e mesma egreja. Ao principio contentavam-se com dois d'estes
+instrumentos; porém no XIV e XV seculos tinham tres, quatro e até cinco.
+Na egreja do convento de Mafra, el-rei D. João V mandou collocar quatro
+grandiosos orgãos nos angulos do cruzeiro, no XVII seculo.
+
+_Até ao XV seculo_, diz o insigne architecto Violet-le-Duc, _não parece
+que os grandes orgãos estivessem em uso. Serviam-se apenas de
+instrumentos de mediocres dimensões e que podiam ficar dentro d'um movel
+assentes na capella-mór, nos jubés ou sobre tribunas mais ou menos
+espaçosas, destinadas não sómente aos orgãos, mas ainda aos cantores e
+musicos. Foi no final do XV e principio do XVI seculo que houve a ideia
+de dar aos orgãos, dimensões extraordinarias_ desconhecidas até então,
+tendo uma _grande força de som e exigindo, caixas collossaes_. Todavia
+esses orgãos não são nada em comparação com os instrumentos que se
+fizeram depois no XVII seculo.
+
+No fim do periodo ogival, a fórma das caixas dos orgãos era determinada
+pela disposição que tinha esse instrumento. A obra de entalhador para as
+caixas dos orgãos do XV e XVI seculos, e mesmo de alguns orgãos do XVII
+seculo era independente do instrumento e servia para o resguardar,
+cobrindo-o. O mechanismo e os folles ficam inteiramente mettidos entre
+as almofadas macissas dos sócos; as almofadas recortadas enchem os
+espaços rotos existentes entre a extremidade superior dos canudos e os
+tectos, afim de facilitar a emissão do som. A marceneria ornada de
+esculpturas e de polychromia e os canudos eram muitas vezes estampados e
+dourados. Tudo ficava encerrado por portas que o organista abria quando
+tocava; estas portas eram, as mais das vezes, ornadas, pelo menos na
+parte interna, com pinturas historicas que se viam quando servia o
+instrumento. Os orgãos e as caixas, anteriores ao XVI seculo, são
+muitissimo raros.
+
+
+*Alfaias religiosas*
+
+
+_Ourivesaria e esmaltadores_. No XIII seculo, a arte de ourives
+transformou-se completamente sob a influencia do novo estylo
+architectural. Durante o primeiro quartel e mesmo durante a primeira
+metade d'esse seculo, os vasos sagrados e os objectos do culto
+apresentavam ainda, é verdade, as mesmas fórmas geraes que durante o
+periodo Roman; porém o systema da decoração teve modificações
+importantes. O artista, fosse quem fosse, esculptor, pintor ou ourives,
+ia procurar as suas inspirações, jamais como precedentemente aos
+objectos byzantinos ou aos estofos orientaes, mas sim na flora do seu
+paiz; serviam-lhe de modelos os vegetaes indigenas e applicava-se
+interpretal-os artisticamente.
+
+As chapas esmaltadas e os engastes das joias, com algumas folhagens de
+filigrana, ficam geralmente em uso até ao meiado do XIII seculo;
+continuando a dar o principal modelo de decoração para os objectos de
+grandes dimensões, taes como os reliquarios e os frontaes dos altares.
+
+Todavia n'uma parte da Belgica, o uso dos esmaltes de côres desappareceu
+mais cedo que nas outras partes. Desde o primeiro quartel do seculo
+XIII, encontra-se, sobre as margens do _Lambre_, uma escola de ourives
+tendo em pratica principios inteiramente novos. Á frente d'esta escola e
+ao impulso artistico que produz, apparece o irmão Hugo, frade Agostinho
+do priorado de _Oignies_. Este humilde religioso executou durante o
+primeiro quartel do XIII seculo, (um dos seus trabalhos tem a data de
+1220), em alguns annos, uma serie de obras-primas que ainda não foram
+imitadas, algumas das quaes teem resistido aos estragos dos tempos, e
+guardam-se devotamente no thesouro das freiras de Nossa Senhora em
+_Nemours_, produzindo a admiração de todos os entendedores. Desprezando
+o emprego dos esmaltes com muitas côres, elle procurou o principal
+effeito de decoração n'um trabalho original, que consiste em cobrir os
+objectos, no todo ou em parte, com delicadas folhagens formadas de
+cachos, de flôrsinhas e pequenas folhas estampadas, reunidas pela
+soldadura a delicados pés. A estas folhagens ajuntava figuras de veados,
+cães e caçadores, tudo produzido da mesma maneira. O tecido muito unido
+que resultava d'estes trabalhos era depois arribitado ou soldado sobre
+as differentes partes do objecto do qual elle abrangia todos os
+contornos.
+
+Hugo empregou ainda as joias; mas ás vezes, em logar de dispôl-as sobre
+chapas rectangulares e ligal-as pela filigrana, as dispunha
+artisticamente entre as suas delicadas folhagens. Além d'isto, seguindo
+o exemplo dos seus antecessores, não empregava camafeus e com gravuras
+concavas á maneira antiga, todas as vezes que não tinha joias novas para
+o seu trabalho.
+
+Quanto ás massas coloridas embutidas no metal, Hugo não conserva quasi o
+negro do buril que serve para traçar as inscripções, ornamentos e tambem
+as figuras.
+
+Depois do meiado do XIII seculo, os objectos de ourivesaria principiaram
+pouco a pouco por imitar na sua fórma e aspecto geral os monumentos de
+architectura: os relicarios, que antes eram cofres, sarcophagos,
+remedando o feitio dos edificios religiosos, vieram a ser pequeninas
+egrejas em ouro e prata: os relicarios tinham enfeites, por vezes
+remates, torrinhas ladeadas de contra-fortes e bastantes arcos; em uma
+palavra, as fórmas elegantes e graciosas da architectura ogival foram
+copiadas nos objectos do culto. A cinzelura tambem faz cada vez mais
+progresso; e vê-se mesmo a maior parte das vezes pequenos objectos
+apresentarem as esculpturas e altos relevos, o que não se fazia antes,
+excepto nos grandes objectos de ourivesaria.
+
+Os objectos de ourivesaria propriamente chamados conservam, no XIV
+seculo, as fórmas que tinham precedentemente, isto é, imitam o aspecto
+dos monumentos de architectura, ou, pelo menos, são decorados com certos
+detalhes architectonicos. Todavia na França, e sem excesso na Belgica,
+os ourives executaram, para relicarios, estatuas pequenas de alto
+relevo, grupos e imitações de membros de corpo humano, ou outros
+objectos que se desejava encerrar dentro d'elles. Desde o XIV seculo, os
+vasos sagrados e os outros objectos do culto perdem a nobre simplicidade
+do estylo grave da época precedente.
+
+No XV seculo os trabalhos de ourivesaria correctos differençavam pouco,
+quanto ao aspecto geral, dos do seculo anterior. As suas fórmas
+patenteavam todavia as modificações successivas que teve a architectura
+n'esta época. Os ourives empregavam menos simplicidade nas suas
+composições, menos elegancia nas fórmas, porém o seu trabalho é
+geralmente mais apurado e mais delicado; levado por vezes até á
+exaggeração pelo acabamento e perfeição dos pequenos detalhes.
+
+Quando empregavam ainda algumas esmaltes para realçar o oiro e a prata,
+os ourives do XIII seculo, como os seus predecessores do XII seculo,
+indicavam sobre o liso do metal o contorno das figuras, e dispunham
+depois todas as partes internas do desenho, quer por um cinzelado
+produzindo um relevo pouco saliente, quer, mais simplesmente ainda, por
+uma delicada gravura, cujos traços refaziam o desenho dos contornos das
+figuras; emfim, abaixavam o fundo á roda das figuras e enchiam-no de um
+esmalte, geralmente escuro, adequado para fazer sobresair a composição.
+Até ao final do XIII seculo, os traços da gravura delicada ficavam
+geralmente vasios; era só excepcionalmente que os enchiam de preto. Mas,
+no começo d'esta época, enchiam-n'os quasi sempre de encarnado ou
+pardo-escuro.
+
+_Dinanderie_. Dá-se o nome de _dinanderie_ a um objecto de cobre ou
+latão coado e martellado, conforme o modo de fabricar esses objectos.
+Esta palavra tira a sua origem da cidade de _Dinant_ sobre o _Meuse_, a
+qual tinha adquirido, na edade média, uma grande fama pela execução de
+objectos de latão. Portanto, em virtude d'esta etymologia, alguns
+archeologos continuaram com o uso recebido, escrevendo--Dinan_te_rie, em
+logar de Dinan_de_rie.
+
+A arte de _dinanderie_ estava prospera desde o fim do XI seculo nos
+Paizes-Baixos, e durante os seculos seguintes, os bate-folhas de cobre
+obtiveram de differentes soberanos muitos privilegios, que facilitaram a
+exportação dos productos de sua industria para Allemanha, França,
+Inglaterra e todo o norte da Europa.
+
+As pias baptismaes executadas com este material, as primeiras de 1112, e
+as outras de 1149, ainda se conservam na Belgica.
+
+_Calices e Patenas_. A communhão sob a especie de vinho tendo sido
+abolida na Egreja Latina, proximo do XII seculo, os calices _ministraes_
+com aza cessaram de ser empregados no Occidente, e a sua fabricação
+ficou completamente abandonada. Assim, todos os calices ministraes de
+origem occidental são anteriores ao periodo ogival. Na Grecia e no
+Oriente, pelo contrario, onde a communhão se dava ainda aos seculares
+sob as especies de pão e vinho, o uso dos calices ministraes
+conservou-se até ao presente.
+
+_Os calices vulgares_, isto é, os de uso do sacerdote que celebra a
+missa, teem geralmente no XIII seculo, como nos dois seculos
+precedentes, a taça muito larga e pouco funda, o pé redondo e de grande
+diametro; a tige está ornada de um nó grosso, composto muitas vezes de
+arestas salientes, mas raramente de medalhões circulares.
+
+No XIV seculo, e mesmo no fim do XIII uma mudança notavel se deu na
+fórma dos calices. A taça estreitou-se, e de hemispherica, como era
+antes, veiu a ser conica ou enfundibuliforme, isto é, similhando-se a um
+funil. A fórma desegual, quasi desconhecida nos calices do XIII seculo,
+veiu a ser commum, sem todavia tomar uma grande importancia. A hastea,
+que durante a primeira metade do XIII seculo, era regularmente
+cylindrica, tornou-se angulosa e prismatica, tendo geralmente seis
+faces. Os lados do nó foram mudados para botões redondos, quadrados ou
+rhombos, egualmente em numero de seis, e quasi sempre embutidos de
+esmalte, gravuras ou joias. Sobre os seis botões estão algumas vezes
+inscriptas as seis letras do nome de Jesus, como ortographavam então:
+IHESUS. O pé está dividido em seis lobulos ornados de esmaltes e de
+gravuras a traço representando imagens, e mesmo composição completa;
+estes lobulos correspondem ás faces da hastea e aos botões do nó. O sóco
+do pé está recortado em folhas de trevo, quatro folhas ou arcaduras; seu
+diametro, sempre menor que o dos calices romans, conserva não obstante
+uma base bastante larga para evitar a quéda. Em resumo, os calices do
+XIV seculo, comparados com os dos seculos precedentes, tem mais altura,
+mas o diametro da taça e do pé é muito menor.
+
+A fórma geral dos calices do XV seculo é pouco mais ou menos a mesma dos
+calices do XIV seculo. Todavia, em certos paizes, por exemplo na
+Belgica, observa-se que os lobulos do pé, as faces das hasteas e os
+botões do nó teem muitas vezes o numero oito em logar de seis. Esta
+mudança foi introduzida proximo do meiado do XV seculo.
+
+A _patena_ do periodo ogival tem como a do periodo roman, a fórma de uma
+pequena salva, apresentando no meio uma cavidade circular. O fundo da
+salva traz muitas vezes, gravado a traço, um circulo ou um quadrilobo,
+circumdando quer o Cordeiro Divino, quer a Mão com aureola que symbolisa
+a Divindade, quer qualquer outro assumpto. Colloca-se algumas vezes uma
+pequena cruz sobre a borda da salva.
+
+_Galhetas_. Existem raros especimens de galhetas da época ogival.
+Havia-as de cobre esmaltado e em crystal de rocha com guarnição de prata
+cinzelada e algumas de prata dourada com guarnições gravadas.
+
+Durante a edade média serviram-se tambem mais frequentemente de galhetas
+de vidro, mas por causa da fragilidade da materia, muito poucos objectos
+d'esta especie escaparam da destruição.
+
+_Custodias Eucharisticas_. Em alguns paizes, particularmente em França,
+a Eucharistia continuou, durante o periodo ogival, a estar conservada,
+como anteriormente, nas pombas douradas e esmaltadas, collocada, a maior
+parte das vezes, em uma torresinha ou pequena tenda forradas de telas
+custosas, ficando suspensa por cima do altar, quer sob a pyxide, quer no
+baculo de metal.
+
+No XIII, no XIV, e mesmo ainda durante uma parte do XV seculo, as
+pyxides eram geralmente como as do periodo Roman, de muito pequeno
+tamanho, porque, até proximo do meiado do XV seculo, serviam sómente
+para conservar o numero necessario de hostias de que havia precisão para
+a communhão dos doentes em perigo de vida. Os fieis que podiam assistir
+aos officios religiosos, recebiam a Santa Eucharistia depois da
+communhão do sacerdote, com as especies consagradas durante a missa,
+sendo distribuidas servindo-se da patena.
+
+Quasi todas as pyxides do periodo ogival eram de metal; as de marfim e
+cobre não apparecem senão excepcionalmente.
+
+_As pyxides sem pé_, de cobre dourado e esmaltado, compostas de pequenas
+caixas cylindricas, tendo uma tampa de fórma de cone, ficaram em uso
+pelo menos até o XVI seculo; empregando-se principalmente para levar o
+Viatico aos enfermos.
+
+Encontram-se ainda presentemente muitas d'estas pyxides, mais ou menos
+valiosas e ornadas. Não poucas devem a sua conservação a esta
+circumstancia, que depois da introducção das grandes pyxides
+aproveitaram-nas para guardar as reliquias destinadas a ficar
+chancelladas no altar no momento da consagração: portanto, não é raro
+encontrarem-se nos desmanchos dos altares do XVI e XVII seculos.
+
+As pyxides _pediculares_, isto é, tendo um pé, que eram raras antes,
+vieram a ser as mais communs desde o XVIII seculo. Algumas destinadas a
+ficarem suspensas por cima do altar, sob o sacrario, ou na voluta do
+baculo, teem o pé muito pequeno, e a taça assim como a tampa bastante
+grandes e quasi hemisphericas, de maneira a formar reunidas uma bola
+ôca, geralmente um pouco achatada.
+
+No seculo XII, as pyxides, em logar de ficarem suspensas por cima do
+altar, foram postas nos sacrarios, deram-lhes regularmente um pé mais
+alto, similhante aos dos calices e dos relicarios. No principio, bastava
+collocar sobre um pé as pequenas pyxides de cobre dourado e esmaltado;
+depois fizeram tambem as pyxides em metal com cinzelados e rebatidos,
+vindo a ser unicamente usadas. As mais antigas da ultima especie teem a
+taça e o pé circular.
+
+No XIV seculo, a taça e a tampa tiveram a fórma hexagonal, isto é, seis
+faces, e o pé divide-se em seis lobulos.
+
+Durante a ultima metade do XIV seculo e todo o XV seculo, as pyxides
+pediculadas têem muitas vezes as arestas da tampa decorada de crochetes;
+os angulos formados pela intersecção dos seis lados da taça, sendo
+flanqueados de contra-fortes, e os lados tambem ornados de arcaduras com
+ou sem estatuasinhas.
+
+Quando no XV seculo, ficou introduzido o costume de conservar o maior
+numero de hostias consagradas, afim de poder dar a communhão aos fieis,
+mesmo sem ser na occasião da missa, as pyxides tiveram dimensões muito
+maiores. Continuou-se geralmente a dar-lhe fórmas architecturaes, porém
+essas fórmas vieram a ser, sobretudo na Allemanha, mais altas e mais
+complicadas ajuntando-se arcos-butantes aos contra-fortes e ás arcaduras
+com as quaes já as ornavam precedentemente. Em França e na Belgica,
+appareceram proximo do final do XV seculo as pyxides esphericas, cuja
+fórma faz lembrar a dos antigos ciborios suspensos. Não é raro, além
+d'isso, achar pyxides transformadas em relicarios.
+
+Não será inutil aqui repetir, que, salvo raras excepções, todas as
+pyxides anteriores ao XVI seculo teem a tampa presa á taça por um gonzo.
+
+_Custodias_. A solemnidade do _Corpus Domini_, ou festa do Corpo de
+Deus, instituida em Liège em 1246, e extensiva á Egreja Universal,
+dezoito annos mais tarde pelo pontifice Urbano IV, trouxe o uso de expôr
+publicamente o Santissimo Sacramento á veneração dos fieis. Foi este uso
+que deu origem ao vaso chamado _custodia_, ou _apresentação_ nome
+derivado dos verbos latinos _ostendere_ e _monstrare_, significam, um e
+outro, _mostrar_.
+
+No principio, parece que o _Santissimo Sacramento_, estava exposto
+publicamente nas pyxides _transparentes_ com cruzes e torrinhas cheias
+de aberturas; mas, dentro em pouco adoptaram-se, geralmente as
+custodias.
+
+Algumas d'estas custodias primitivas apresentam a maior analogia com os
+relicarios expostos contemporaneos. São pequenos edificios de metal, com
+recortes, tendo um pé e furados sobre dois ou muitos dos seus lados, com
+aberturas, as mais das vezes sob a fórma de janella ogival.
+
+As custodias mais communs durante todo o periodo ogival, foram as de
+_cylindro_, assim designadas porque são formadas d'um cylindro de
+crystal ou de vidro posto sobre um pé de metal. No XIV, XV e XVI
+seculos, o cylindro tem geralmente por cima um campanariosinho e nos
+flancos contra-fortes e arcos-butantes, igualmente de metal. Depois do
+XIII seculo, o campanariosinho e o pinaculo não são usados. A hostia
+colloca-se no interior do cylindro n'uma luneta sustentada por um ou
+mais anjos. O pé e o nó d'estas custodias apresentam a maior similhança
+com os calices e as pyxides contemporaneas; todavia, o diametro do pé é
+geralmente maior nas custodias que nas pyxides e calices.
+
+As custodias em que o cylindro de crystal é substituido por um _sol
+radiante_ vieram a ser geraes desde o XVI seculo. Antes d'esta epocha,
+eram extremamente raras, e sómente se conhecem pela noticia que se
+encontra nos inventarios dos thesouros das egrejas pertencentes ao XV
+seculo.
+
+_Relicarios_. Os relicarios do periodo ogival apresentam fórmas tão
+variadas como os da epocha Roman. Seria difficil descrevel-os todos;
+occupar-nos-hemos dos principaes.
+
+_Relicario da vera Cruz_. Como precedentemente dava-se muitas vezes a
+estes relicarios a fórma d'uma cruz com travessa dupla; porém
+empregavam-se os ornatos proprios da ourivesaria da epocha ogival. A
+maior parte d'estas _cruzes-relicarios_, sobretudo as mais bellas, são
+do XIII seculo.
+
+Depois d'essa epocha abandonou-se o costume de encaixilhar os relicarios
+da vera cruz, nas cruzes relicarias com travessa dupla, e serviram-se
+geralmente da cruz com uma unica travessa.
+
+Deu-se tambem algumas vezes a fórma de uma cruz aos relicarios contendo
+reliquias de santo; mas n'este caso a cruz tem sempre uma só travessa.
+
+No XIII seculo, os relicarios da vera cruz, collocados n'uma pequena
+cruz ou bocota, eram ainda ás vezes, como durante o periodo Roman,
+encaixilhados dentro de placas metallicas fixas sobre o meio da madeira
+e ornados de esmaltes, gravuras e cinzelados de maneira a formar uma
+especie de quadro com portas de metal ou madeira pintada.
+
+_Relicario da corôa com espinhos_. Os espinhos da corôa trazida pelo
+Redemptor durante a sua paixão, eram collocados regularmente em corôas
+de ouro ou de prata enriquecidas de joias. Algumas d'estas corôas,
+feitas no Oriente, foram enviadas para a Europa Occidental pelos
+imperadores que as conquistas dos cruzados tinham collocado sobre o
+throno de Constantinopla.
+
+A Santa Corôa de espinhos que tinha vindo em poder dos cavalleiros
+cruzados em seguida ás suas conquistas no Oriente, ficou conservada
+religiosamente no throno sagrado do novo imperio byzantino até 1237,
+epocha em que o imperador Bauduino II foi obrigado a dal-a em penhor aos
+commerciantes venezianos, os quaes lhe haviam feito um emprestimo da
+quantia de quatro mil marcos de prata para occorrer ás necessidades mais
+urgentes das finanças imperiaes.
+
+Pouco tempo depois, S. Luiz IX, rei de França, tendo tido a felicidade
+de occupar o logar dos emprestadores, ficando responsavel pela quantia
+entregue, pôde obter a preciosa reliquia, e a fez transportar para
+França por dois frades dominicanos.
+
+O santo rei mandou pôr muitos espinhos nas corôas do mesmo feitio que
+tinha a corôa real, e presenteou com ellas um certo numero de
+estabelecimentos religiosos.
+
+Os Santos Espinhos foram tambem por vezes encaixilhados em relicarios
+mais simples e d'um feitio differente.
+
+Os relicarios do periodo ogival apresentam o mesmo aspecto que os do XII
+seculo, isto é, teem a fórma d'um cofre oblongo, fechado por uma tampa
+imitando um telhado com duas aguas.
+
+Os grandes relicarios do XIII seculo são cofres de madeira coberta com
+chapas de metal esmaltado, cinzelado e por vezes simplesmente gravado.
+Quasi todos são rectangulares; ha todavia, por exemplo, a grande caixa
+das reliquias de Nossa Senhora de _Aix-la-Chapelle_, que se vê sobre os
+seus dois compridos lados, saliencias que a faz parecer com uma egreja
+tendo um cruzeiro. As suas faces verticaes são ornadas de estatuasinhas
+de ouro, prata ou de cobre dourado, ficando collocados debaixo de docéis
+ou arcaduras. Jesus Christo abençoando, sentado ou de pé, só ou entre
+dois santos, se vê, como nos relicarios Romans, sobre um dos dois
+pequenos lados formando empena, emquanto o outro lado fica occupado por
+Nossa Senhora, ou pelo Santo cujas reliquias se conservam no relicario,
+igualmente collocado entre dois santos.
+
+Os dois lados compridos estão divididos n'um certo numero de
+compartimentos tendo como remates frontões dentro dos quaes estão
+inscriptas ogivas quasi sempre trilobaes. Estes compartimentos formam
+docéis ou arcaduras, mostrando estatuasinhas dos apostolos ou de outros
+santos assentados.
+
+Sobre as abas da tampa ha figuras em pé ou baixos relevos representando
+os mysterios da vida de Jesus Christo e os principaes factos do corpo
+que encerra o relicario.
+
+Finalmente, algumas vezes a aresta superior do cofre, e mesmo os lados
+inclinados dos frontões, teem na summidade folhagens de esmerado lavor,
+interrompidas de distancia a distancia, por castões.
+
+As linhas inclinadas dos frontões, os docéis, os molduramentos e os
+fustes das columnasinhas que sustentam os docéis estão bastantes vezes
+cheios de esmaltes e filigranas como se fazia precedentemente.
+
+Desde o final do XIV seculo, os relicarios em metal perdem o aspecto de
+feretro ou cofre, como haviam tido até então; transformam-se pouco a
+pouco e tomam a apparencia de capellas e mesmo de pequenas egrejas.
+
+Alguns relicarios do XIV seculo fingem, d'uma maneira extremamente
+caracterisada as fórmas architectonicas: representando rosaceas,
+galerias, campanariosinhos e contrafortes; os seus docéis e frontões
+teem as inclinações dos contornos decorados de crochetes acabando no
+feitio d'um florão.
+
+O maior numero dos relicarios metallicos dos XV e XVI seculos imitam
+servilmente a maneira de se construirem os monumentos de cantaria; vindo
+a ser reproducções em pequeno das grandes egrejas ogivaes. Tendo
+egualmenle arcos-butantes, na summidade recortes, parapeitos vasados em
+trefles ou de quatro folhas, uma nave principal e as lateraes, etc., e
+ás vezes tambem uma torre se ergue no centro do espigão.
+
+Usaram tambem, durante o periodo ogival, de _relicarios de madeira_
+cobertos de pinturas representando assumptos religiosos que recordam
+geralmente os principaes factos da vida do santo que contém o relicario.
+
+O relicario de madeira mais notavel como objecto d'arte por causa de
+suas pinturas, é o de Santa Ursula, que está no hospital de S. João em
+Burges. Tem a data do XV seculo e constitue uma das obras primas do
+pintor Hans Memlinc.
+
+Ha tambem poucos exemplares de relicarios de pedraria do periodo ogival.
+
+Os relicarios não contém sempre os corpos inteiros dos santos, e são
+tambem destinados a conservar reliquias diversas.
+
+_Bustos, braços, pés, estatuasinhas_, etc. O uso de conservar as
+reliquias dos santos dentro de bustos ou nos relicarios preciosamente
+ornados imitando a fórma dos ornatos a que os relicarios pertenciam já
+no periodo roman, manteve-se durante toda a epocha ogival, e
+encontram-se ainda muitos exemplares do periodo do renascimento.
+
+O maior _busto-relicario_ conhecido, pois mede 1^{m},62 centimetros de
+altura e um dos mais magnificamente ornados, é o de S. Lamberto da
+cathedral de Liège, obra de 1506 a 1512. É de prata dourada e está posto
+sobre um plintho decagono decorado de seis baixos relevos representando
+differentes scenas da vida do santo bispo de Maestricht. O bispo está
+paramentado com as vestes pontificaes e todo coberto de joias e perolas.
+
+Os ossos dos braços e dos pés estão muitas vezes introduzidos nos
+relicarios apresentando a fórma d'esses membros do corpo humano. Nos
+relicarios de fórma de braço, a mão fica sempre representada _benzendo_
+á maneira Latina.
+
+No thesouro da egreja de Nossa Senhora de Tongres ha sete relicarios com
+a fórma de braços. Dois são do final do XIII ou principio do XIV seculo,
+estando compostos de chapas de prata com faxas de cobre dourado
+guarnecido de joias e filigranas; os outros cinco são de madeira
+pintados e dourados. Os tres mais admiraveis e preciosos, têem dois a
+fórma d'um pé, e no terceiro, com a fórma de meia lua, guarda-se uma
+costella do apostolo S. Pedro.
+
+Ha tambem relicarios apresentando o feitio de estatuasinhas. Geralmente
+as reliquias estão contidas em um pequeno cylindro de crystal,
+guarnecido de prata ou cobre dourado, fechado nas duas extremidades e
+posto ao lado da estatuasinha ou trazendo-o na mão. Algumas vezes, posto
+que raramente, estão fixos n'um medalhão ou pequena cruz, sobre o peito
+ou sobre outra qualquer parte da estatuasinha.
+
+_Mostrador-relicario_. Estes relicarios compõem-se de vasos de crystal
+ou de qualquer outra materia transparente, engastados em obra de
+ourivesaria, onde se mettem as reliquias, depois de as ter embrulhado em
+pellica, seda ou estofo, tecidos de ouro ou prata. Estes vasos,
+geralmente de fórma de cylindro ôco, põem-se muitas vezes n'uma posição
+vertical, e ficam limitados por um remate tambem conico. O maior numero
+dos mostradores-relicarios são postos sobre pés similhantes aos dos
+calices e das custodias; alguns são sustentados por anjos ou levitas;
+finalmente ha os que ficam postos sobre um sóco; por vezes acontece não
+terem essa base.
+
+No XIII seculo, e mesmo ainda ás vezes no seculo seguinte, os ourives, á
+imitação das obras dos esculptores contemporaneos, iam buscar os feitios
+de decoração para os mostradores-relicarios ás reliquias nos engastes
+das joias, ás filigranas e as folhagens imitando a flora indigena.
+
+Ao começar do XIV seculo, muitos relicarios fingem fórmas architecturaes
+e imitam mais ou menos certas partes dos edificios do estylo ogival. Os
+feitios da decoração tirados até ali ao reino vegetal, dão logar para
+formar pinaculos, contra-fortes, arcosbutantes e docéis, estando
+delicadamente lavrados e executados, não pela imitação servil dos
+edificios de cantaria, mas com uma intelligencia apurada que distingue
+todas as producções artisticas da idade media e que attendiam á natureza
+da materia que se punha em obra. O ourives, posto que conservasse as
+fórmas geraes da architectura, dava-lhes uma leveza que seria
+impossivel, se fosse executada na pedra.
+
+Quando o cylindro ficava na posição vertical, a fórma do
+mostrador-relicario confundia-se geralmente com a das custodias, como já
+referimos.
+
+Vêem-se tambem algumas vezes relicarios com cylindro vertical e feitio
+da decoração imitando a architectura, não tendo peanha.
+
+Quando, pelo contrario, o cylindro tem a posição horisontal, é
+geralmente executado em obra de ourivesaria de fórma de egreja com uma
+ou mais naves, encimado d'uma torresinha elevada e ligada por
+arcos-butantes sahindo do engaste que encerra o cylindro.
+
+_Phylacteras_. Não podemos deixar de mencionar uma outra fórma de
+relicarios que foi commum no XII e no XIII seculos. Estes objectos
+compõem-se de pequenos moldes de madeira cobertos de prata e cobre
+dourado e esmaltado, sobre os quaes estão traçadas, em esmalte ou
+relevo, imagens, scenas historicas e legendarias, emmolduradas n'uma
+cercadura de filigrana recamada de joias sem serem lapidadas. Muitas
+vezes mesmo as representações dos assumptos, das figuras e symbolos
+faltam inteiramente. As costas, formadas igualmente d'uma chapa de
+metal, são ornadas de lavores, gravuras ou pinturas. Têem sempre
+pequenas dimensões (o seu diametro não é de mais que dois a tres
+decimetros), e fórma redonda, ellyptica ou, as mais das vezes, com
+quatro folhas. Alguns archeologos lhes dão o nome especial de
+_phylacteras_, posto que, conforme a etymologia, este nome, derivado do
+grego, _guardar_, designa qualquer especie de custodia ou recipiente, e
+deveria por conseguinte applicar-se indistinctamente a todos os
+relicarios.
+
+Algumas vezes as phylacteras são, como os relicarios de cylindro de
+crystal, postas sobre um pé de metal com figuras de anjos ou de santos.
+
+_Cofres-relicarios_. Continuou-se, durante o periodo ogival, a encerrar
+as reliquias dos santos nos cofres de metal, madeira, marfim e couro com
+figuras em relevo. É bastante raro achar, sobre estes cofres, scenas
+historicas ou symbolos religiosos.
+
+No XV seculo principiou-se a fazer cofres de ferro, e o seu uso não se
+demorou a generalisar. Não devemos pois admirar-nos, se um grande numero
+d'estes objectos curiosos têem sido conservados até ao presente. A maior
+parte eram destinados a uso profano: guardavam joias e outros objectos
+preciosos. Ha todavia alguns que serviram de relicarios, principalmente
+os que têem inscripções religiosas, como--AVE MARIA GRATIA PLENA e O
+MATER DEI MEMENTO MEI.
+
+Ás vezes estes cofres eram inteiramente de ferro; sendo todavia formados
+d'uma caixa de carvalho ou de faia forrada de couro encarnado, sobre o
+qual assentava uma chapa de ferro recortada e segura por enfeites de
+ferro. O ferrolho tinha ás vezes a fórma d'um lagarto ou de salamandra.
+A maior parte d'estes cofres eram cobertos de florões scintillantes, o
+que faz vêr que no XV seculo os serralheiros como os ourives iam buscar
+á architectura as suas principaes fórmas de decoração.
+
+Os cofres de marfim, dos quaes se haviam servido muitas vezes para os
+relicarios durante o periodo Roman, ficaram em uso até á epocha ogival
+juntamente com os de madeira, de metal e de couro.
+
+_Trombetas-relicarios_. Não é raro achar, nos thesouros de egrejas,
+antigas trombetas de guerra e de caça transformadas em relicarios.
+Durante a idade media, os christãos não receiavam empregar no culto
+certos objectos profanos emquanto á sua origem e á sua ornamentação,
+mais preciosos como materia ou como obra d'arte. Já assignalamos esta
+pratica para os camafêos e pedras antigas gravadas concavamente, das
+quaes os ourives da idade media frequentemente faziam uso para dar mais
+brilho ao metal nos differentes objectos para o culto; encontrando-se
+tambem nas trombetas dos caçadores de que tratamos agora e dos esmoleres
+de que fallaremos depois.
+
+Quasi todas as trombetas-relicarios são de marfim e apresentam a mesma
+fórma, imitando a defeza do elephante de cuja materia eram fabricadas. É
+do nome d'este animal, que as trombetas de marfim têem tirado o de
+_olifante_, pelos quaes são geralmente conhecidos. Na idade media o
+_olifante_ era tanto se não fosse mais, um instrumento de guerra como
+para a caça; servia principalmente para dar signal de commando, reunir
+as tropas e annunciar a presença do inimigo.
+
+Os elephantes e as trombetas estão guarnecidos de aros de metal,
+floreado com florões ou redentados que facilitam suspendel-os em
+bandoleira. Estas virolas, algumas mostrando a cabeça de bezerro, estão
+fixas nas duas extremidades, e de distancia em distancia sobre o
+comprimento do objecto. Algumas vezes tambem ornam-se os elephantes de
+esculpturas em baixo-relevo, e então as virolas não têem ornatos.
+
+As principaes officinas para a esculptura dos oliphantes e guarnecel-as
+de metal existiam durante a idade media no Norte de França,
+principalmente em Abbeville e Paris.
+
+Encontram-se tambem trombetas relicarios em chifre de boi e de bufalo;
+posto que guarnecidas pela mesma maneira que os _oliphantes_, são
+todavia faceis de reconhecer, não sómente pela sua côr, mas ainda pela
+sua curva muito mais fechada, approximando-se geralmente d'um
+semi-circulo.
+
+_Esmoleres-relicarios_. Chama-se _esmoler_ a uma pequena bolsa com
+cordões ou fechos, que se traz suspenso á cintura para guardar o
+dinheiro e os objectos de serviço habitual. Estas bolsas, que formavam
+na idade media o complemento indispensavel do vestuario dos dois sexos,
+eram de couro ou estofos de preço. Dava-se-lhes tambem o nome de
+algibeira.
+
+A fórma mais antiga é d'uma pequena bolsinha com dois cordões de correr
+para fechar, e d'um outro cordão para suspender á cintura. Mais tarde
+supprimiram-se os cordões e dobraram na frente do bolsinho uma parte do
+estofo, que se levantava quando se queria introduzir a mão no esmoler.
+
+Não se tem conservado até ao presente esmoleres de estofo, e mesmo os de
+couro não se encontram senão casualmente. Entre estes estofos uns são de
+seda lavrada, outros têem bordados sobre linho ou seda com fios de ouro
+ou seda de differentes côres traçando simples ornamentos, symbolos e
+mesmo algumas vezes assumptos.
+
+Na idade media serviam-se, muitas vezes dos esmoleres para embrulhar as
+reliquias dos santos e deposital-as nos relicarios. É mesmo a esta
+circumstancia que deve ter-se conservado um grande numero d'esses
+curiosos objectos, o que serve tambem para se explicar acharem-se nos
+thesouros das egrejas. Poucas vezes esses esmoleres mostram symbolos ou
+assumptos religiosos; no maior numero vêem-se simples ornamentos;
+algumas vezes mesmo estão decorados com assumptos profanos.
+
+_Relicarios diversos_. Além dos relicarios que acabamos de descrever por
+classes, ha tambem outros de que seria impossivel formar grupo, havendo
+infinita variedade, e ao mesmo tempo um gosto singular, que os artistas
+de todo o periodo ogival empregaram no feitio d'esses objectos.
+
+_Custodias_ d'Agnus Dei. Chama-se _Agnus Dei_ a pequenos medalhões de
+cera branca, de fórma circular ou oval, ornados sobre as duas faces com
+a impressão d'um cordeiro deitado, uma cruz de resurreição, estandarte e
+tendo dois ou tres guiões fluctuantes. Por baixo do cordeiro ha n'um
+segmento de circulo, o nome do Pontifice que benzeu o objecto. N'uma
+epocha bastante recente, tem-se muitas vezes completado esta indicação,
+ajuntando-se-lhe o anno do pontificado; havendo-se substituido ao
+cordeiro collocado no reverso do medalhão, o brazão d'armas do papa ou
+uma imagem. Em exergo lê-se quasi sempre: AGNE DEI MISERERE MEI QUI
+CRIMINA TOLLIS.
+
+Desde o IV seculo é provavel se estabelecesse o uso de aproveitar, no
+domingo depois da Paschoa, os restos do cirio paschal do anno precedente
+para o dividir em pequenos fragmentos e distribuil-os depois aos fieis,
+os quaes os levavam comsigo para suas casas e serviam como objecto bento
+de devoção. É n'esta pratica ao presente conservado em algumas dioceses
+com as modificações accessorias, que se acha a origem da devoção dos
+_Agnus Dei_. Em Roma, principiaram cedo a ajuntar cera pura e oleo aos
+fragmentos do cirio paschal e com esta mistura, se moldavam medalhões em
+forma de distico, tendo a effigie do cordeiro Divino. Estes medalhões
+eram já conhecidos em Roma perto do fim do VI seculo. Mais tarde, e
+ainda presentemente, os restos do cirio paschal foram completamente
+excluidos da materia dos _Agnus Dei_, e serviram-se unicamente da cêra
+sem nenhuma addição de substancias estranhas, que o soberano Pontifice
+mergulha durante algum tempo em agua benta misturada dos Santos Oleos e
+de balsamo puro.
+
+Em todos os tempos os _Agnus Dei_ têem sido recebidos pelos fieis com
+grande veneração, e muitas vezes encerrados em pequenas bocetas de metal
+mais ou menos precioso, cuja forma e ornamentação apresentam a maior
+analogia com os dos relicarios. Estas bocetas têem geralmente uma argola
+para se suspender; são circulares como os antigos _Agnus Dei_, trazendo
+em exergo a legenda como está: AGNE, (ou mais vezes ainda AGNUS) DEI
+MISERERE MEI QUI CRIMINA TOLLIS, ou uma outra oração. São muitas vezes
+recortadas de maneira a mostrarem uma maior ou menor parte da cêra. Os
+espaços que occupam o metal são ora dispostos em simples cruz grega
+tendo na intersecção dos ramos, um medalhão cinzelado, gravado ou
+esmaltado, ora em relevo sob a fórma de cordeiro, imagens, ou simples
+florão.
+
+Os mais antigos _Agnus Dei_ conservados até ao presente não vão além do
+principio do XIV seculo; porém os d'uma epocha posterior encontram-se
+com bastante frequencia.
+
+_Armarios para reliquias_. Os relicarios, os vasos sagrados, os livros
+do Evangelho e outros objectos preciosos conservam-se regularmente em
+armarios ou tendo simples nichos feitos na grossura da parede; outras
+vezes formavam construcções de pedra encostadas a uma parede; todavia as
+mais das vezes eram moveis de madeira com mais ou menos obra de apurado
+trabalho.
+
+No XIII seculo, e mesmo ainda muitas vezes no XIV seculo, estes moveis,
+d'uma fórma sempre simples e adequada ao seu destino eram principalmente
+ornados com ferragens de feitio esmerado e com pinturas sobre as suas
+portas. As portas sem molduras compunham-se d'uma serie de taboas
+simplesmente juntas, duplas, consolidadas na parte interna, por
+travessas e no lado exterior ornadas com bellas pinturas.
+
+Desde o fim do XIII seculo e durante a primeira parte do XIV seculo, a
+pintura e a esculptura foram, em certas occasiões, empregadas
+simultaneamente na decoração dos armarios das reliquias; algumas vezes
+mesmo, as portas com esculpturas tinham dourados, e o lavor de estojo
+com ornamentos coloridos. Depois, a esculptura augmenta e pouco a pouco
+acaba, no fim do XIV seculo, para substituir completamente a
+polychromia. As portas dos armarios não apresentam já, a contar d'esta
+epocha, as superficies inteiramente lisas e cheias de pinturas.
+Compõe-se então de almofadas encaixilhadas e preparadas do mesmo modo
+que as partes lisas das portas. Entre estas almofadas, algumas têem em
+relevo molduras com desenhos imitando as travessas das almofadas das
+janellas, as outras estão cheias de folhagens ou ornatos de talha
+imitando folhas de pergaminho, como já explicámos. Uma cimeira recortada
+e vasada e na qual os prumos dos aros veem terminar em florão rematam
+muitas vezes o movel em todo o seu comprimento.
+
+_Vasos para os santos oleos_. Na quinta feira de cada anno, o bispo
+benze solemnemente, durante a missa que elle celebra na sua cathedral,
+tres especies de oleos, os quaes são depois distribuidos pelas egrejas
+da diocese. São: 1.^o oleos para os cathecumenos; 2.^o, oleo para os
+enfermos; e 3.^o, oleo para a chrisma.
+
+Acham-se ainda hoje em algumas cathedraes, grandes vasos do periodo
+ogival que serviram antigamente para benzer os santos oleos na ceremonia
+de Quinta Feira Santa.
+
+Além d'estes vasos de grandes dimensões, nos quaes o bispo benzia os
+oleos para toda uma diocese, ás vezes mesmo para muitas, havia
+recipientes mais pequenos, que continham sómente os santos oleos para o
+deão de uma grande cidade. Alguns eram cofresinhos rectangulares ou
+ovaes, de madeira forrada de couro, dividido interiormente em tres
+separações, podendo em cada uma caber um frasco. Outros em metal mais ou
+menos precioso, compõe-se de tres vasos, geralmente cylindricos reunidos
+estando soldados ou simplesmente unidos.
+
+Os vasos contendo os santos oleos para a occasião mesmo em que dar os
+sacramentos e nas differentes uncções de bençãos, são regularmente muito
+mais pequenos do que aquelles que fallamos, e podem ser divididos em
+duas classes. Os da primeira classe, destinados a conter ao mesmo tempo
+as tres especies de oleos, são triplicados como os dos deões, os quaes
+se differençam unicamente pela sua menor dimensão. Compõem-se quasi
+sempre de tres cylindros ôcos, com uma tampa conica, collocados em roda
+d'um nucleo, porém raras vezes postos em linha. Alguns não têem pés,
+outros mostram esse appendice.
+
+Para distinguir os differentes oleos, marcam-se os vasos com lettras
+differentes: I, designa o oleo para os enfermos, _oleum Infirmorum_; C,
+o santo oleo, _chrisma_. Para o oleo dos cathecumenos servem-se ora da
+lettra S, _oleum Sacrum_, ora da lettra O, _oleum_, ou mesmo da lettra
+E, do grego [Grego: Elaion], oleo. Como cada um d'estes oleos não serve
+sempre nas mesmas ceremonias, e se precisa levar longe o oleo para os
+doentes, cada um dos pequenos vasos pode-se separar do nó central que os
+reune.
+
+A segunda classe dos vasos para uso immediato de ungir comprehende
+aquelles que encerram uma unica especie, geralmente o oleo para os
+enfermos. Teem quasi sempre a forma cylindrica e estão tapados com uma
+tampa de fórma conica. Alguns teem pés, outros não.
+
+_Corôas suspensas sobre o altar_. Estas corôas chamadas _votivas_,
+estiveram em uso pelo menos durante uma parte do periodo ogival, e
+conservavam a fórma que tinham antes: a de um circulo de metal, cujo
+brilho era muitas vezes augmentado com joias e esmaltes. Algumas eram
+feitas de proposito para o serviço do altar; outras pertencentes aos
+soberanos como insignia de realeza, foram dadas ás egrejas pela
+generosidade dos principes.
+
+_Corôas com luzes_. As coroas de luzes do periodo ogival são ou
+_suspensas_ ou sustidas em um _pedicello_.
+
+As corôas _suspensas_, que estiveram em uso desde os primeiros seculos
+do christianismo, chegaram ao seu maior desenvolvimento no XI e XII
+seculos. Durante o periodo ogival, perderam muito da sua importancia, e
+as maiores d'esta epoca, encontram-se muito raro presentemente.
+
+No XV seculo apparecem os lustres, que quaes vieram a ser communs em
+pouco tempo, e ficaram a substituir as corôas desde o principio do
+periodo do renascimento.
+
+As corôas de luzes _pediculadas_ são geralmente de ferro forjado e
+compõe-se quasi sempre de uma tampa da qual se ergue uma hastea vertical
+ornada de um ou muitos nós. No alto d'esta haste estão postos em
+diversas alturas, dois ou mais numeros de circulos em fórma de polygonos
+de diametros differentes, compostas de espigas e dirandellas para terem
+vellas. Os circulos são movediços e podem girar em roda da hastea que os
+sustenta; esta disposição permitte aos devotos puxar para si as
+dirandellas sem vellas pôr-lhes outras vellas offerecidas por promessa.
+Estas corôas estavam em uso nas egrejas onde numerosos peregrinos vinham
+venerar as reliquias ou a imagem de algum santo. As mais remotas corôas
+tendo pé não vão além do XV seculo.
+
+_Cruz de altar e de procissão_. Já dissemos, que até o fim do XV seculo
+não houve distincção entre as cruzes do altar e as cruzes processionaes
+ou estacionarias. A mesma cruz servia para o mesmo uso: punham-a sobre o
+altar ficando firmada sobre uma base ou levavam-a em procissão no cimo
+de uma comprida hastea.
+
+No XIII seculo, as cruzes processionaes eram de uma grande simplicidade.
+Tinham geralmente a imagem de Jesus Christo, e nas extremidades dos
+braços havia os symbolos dos evangelistas collocados em um quadrilobo.
+
+No XIV e no XV seculo, ornam muitas vezes com as fórmas architecturaes,
+e mesmo tendo estatuasinhas debaixo de docel, o cabo era ôco servindo
+para fixar a cruz sobre a hastea ou sobre um pé.
+
+Quando no XIV, e principalmente no XV seculo, multiplicaram-se as
+capellas e os altares em uma mesma egreja por causa do augmento
+extraordinario da fundação de missas, introduziu-se o uso das cruzes do
+altar, isto é, assentes permanentemente sobre elle. A cruz do altar
+principal era a unica que ficava portatil, podendo servir no altar e nas
+procissões.
+
+_Castiçaes_. Havia, durante o periodo ogival, quatro especies principaes
+de castiçaes: os castiçaes do _altar_, os castiçaes de _elevação_, e os
+castiçaes _paschoaes_ aos quaes se podem ajuntar os _tocheiros_
+collocados aos lados dos catafalcos.
+
+_Castiçaes de altar_. O uso de collocar _dois castiçaes sobre o altar_
+foi introduzido, em certas partes, no fim do periodo roman, e veiu a ser
+geral no XIII seculo.
+
+Os castiçaes de altar do XIII seculo apresentam uma grande similhança
+com os do periodo roman. Do mesmo modo eram de metal e compunham-se
+regularmente de um pé descançando sobre tres garras, d'um nó e d'um
+prato com uma espiga; sendo todavia menos ornados. É por isso, que
+apparecem excepcionalmente animaes phantasticos de forma de lagarto ou
+dragão de azas que sustentam o prato de quasi todos os castiçaes romans.
+
+No XIII seculo, como precedentemente, os castiçaes teem pouca altura,
+sendo as mais das vezes de 15 a 25 centimetros. Algumas vezes todavia,
+porém muito raro, proximo do fim do XIII seculo, tinham a hastea com
+dois ou tres nós quasi 50 centimetros de alto.
+
+O uso de não pôr sobre o altar mais de dois castiçaes pequenos durou até
+ao XVII seculo.
+
+Nos XIV e XV seculos, os nós da hastea foram substituidos por virólas,
+sendo o numero de duas ou tres; ha todavia exemplos, principalmente no
+XIV seculo, onde a hastea tem uma unica viróla.
+
+No fim do XV seculo e no principio do XVI seculo, os castiçaes têem
+muitas vezes os nós, o pé e o prato com relevos do feitio de meias
+perolas e a hastea torcida em espiral.
+
+_Castiçaes de elevação_. Este nome foi dado aos castiçaes destinados
+para terem as vellas accesas antes da elevação da Hostia, e que se
+apagam depois da communhão do padre. Estes castiçaes, regularmente em
+numero de dois e collocados aos lados do altar, eram muito mais altos
+que os castiçaes do altar, tendo de altura muitas vezes um a dois metros
+de alto.
+
+_Castiçaes paschoaes_. Assenta-se geralmente a hastea do _castiçal
+paschoal_ n'uma estante vasada, onde se põe o livro para o canto do
+_Exultet_. Muitas vezes se collocam dois ou mais braços destinados a ter
+pequenas vellas; ha-os de latão e de ferro forjado.
+
+No XIII seculo, os castiçaes paschoaes são ornados muito simplesmente
+imitando na ornamentação o reino vegetal.
+
+No XIV seculo, os candelabros para a tocha paschoal estão ornados muito
+modestamente.
+
+Os castiçaes paschoaes do XV seculo são ainda muito mais simples.
+
+_Os castiçaes postos aos lados do catafalco_. Estes castiçaes geralmente
+muito simples são as mais das vezes de ferro forjado e ornados com
+polychromia. A sua altura varia entre um a dois metros. Um grande numero
+se têem conservado. Algumas vezes estes castiçaes eram tambem de
+madeira.
+
+Aos lados dos catafalcos, os tocheiros isolados eram muitas vezes
+substituidos por um _candieiro-triangular_ de pau ou metal composto de
+um certo numero de bicos ou de pratos e assente sobre um ou dois pés.
+Esta alfaia é tambem designada, principalmente nos antigos inventarios,
+_cabide_, _rastrum_ e _rastrellum_.
+
+Vestigios de apparato com luzes para os defuntos, se vêem ainda hoje em
+muitos monumentos funerarios do XIII seculo, nas egrejas de S. Diniz,
+proximo de Paris, mandados erigir por S. Luiz Rei de França, em memoria
+dos reis seus predecessores.
+
+_Braços com vellas e dirandellas_. Os candieiros com braços e as
+dirandellas vieram a ser de um uso geral no principio do XV seculo. Têem
+geralmente o mesmo feitio que os braços do candieiro paschoal com o
+prato adentado. São postos sobre as paredes, e mais vezes ficam defronte
+de uma imagem. O maior numero são de latão; os de ferro forjado
+encontram-se raras vezes.
+
+_Estantes para o côro_. Chama-se _estante do côro_ a uma estante de
+madeira ou de metal sobre a qual se põe os livros para facilitar as
+leituras lithurgicas.
+
+As estantes do côro fazem parte das alfaias religiosas; são de duas
+especies: estantes _fixas_, collocadas geralmente no meio da capella-mór
+e chumbadas no pavimento, ou com um pé tão pesado que se não poderia
+facilmente mudar para outra parte, e estantes _portateis_. As primeiras
+serviam para os chantres recitarem os officios; as outras para o diacono
+e subdiaconos cantarem o Evangelho, a Epistola ou as lições sagradas.
+
+_Observações preliminares_. Desde o VII e VIII seculos, e durante todo o
+periodo roman, fizeram algumas vezes as _estantes fixas_ independentes
+da tribuna. Estas estantes isoladas, estando destruidas presentemente,
+eram quasi sempre de metal, e compunham-se, como tambem as do principio
+do periodo ogival, d'uma aguia com as azas abertas, pousada sobre um
+sóco. Muitas vezes a aguia, attributo do evangelista S. João, era
+acompanhada de symbolos dos tres outros evangelistas.
+
+_Estantes fixas collocadas no meio do côro_. As estantes do côro
+destinadas aos chantres, são ordinariamente de latão e compõem-se d'uma
+aguia assente sobre um pé em fórma de pilar ou de columna. Este pé
+algumas vezes é consolidado por arcos-butantes, os quaes estão ornados
+de arcaduras vasadas com rosaceas e ornatos variados, similhantes aos
+que ornam as grinaldas dos tympanos das janellas ogivaes.
+
+Nos antigos documentos a estante do côro é designada _aguia_, em latim
+_aquila_, porque a maior parte das estantes, tanto do periodo ogival
+como da renascença, têem a forma d'uma aguia. Muitas _estantes-aguias_
+do XV seculo escaparam de serem destruidas, talvez pelo seu peso.
+Algumas vezes a aguia é substituida por outros animaes, ou por homens e
+anjos. As estantes de pelicanos, cujo uso foi introduzido no tempo do
+periodo ogival, veiu a ser bastante commum na epocha do renascimento.
+
+_As estantes moveis_. Estas estantes facilmente transportaveis, foram
+empregadas durante o periodo ogival, quer para a leitura do Evangelho e
+da Epistola, quer para as outras ceremonias do culto; eram geralmente de
+ferro e poucas vezes de madeira. Estas estantes eram regularmente
+formadas d'uma dupla dobradiça com o feitio d'um _X_, cujas extremidades
+superiores ficam ligadas entre si por uma cobertura de couro sobre a
+qual se põem os livros lithurgicos. Acontece todavia, principalmente nas
+estantes moveis de madeira, que elle não é formado d'uma cobertura de
+couro, mas sim de taboinhas postas no prolongamento de duas das quatro
+extremidades superiores da dobradiça da estante.
+
+_Livros do Evangelho e manuscriptos lithurgicos_. Continuou-se, durante
+o periodo ogival, a _illuminar_ os textos dos livros santos.
+
+No fim do XII seculo, isto é, no momento em que a ogiva tomou o logar da
+_volta inteira_, fez-se uma revolução completa na arte de pintura. Os
+miniaturistas da Europa Occidental do mesmo modo que os pintores das
+vidraças e esculptores libertaram-se das tradicções byzantinas e romans,
+para se applicarem principalmente á imitação da natureza. Este novo
+genero nascido em França, como o estylo ogival, generalisou-se por todos
+os paizes proximos.
+
+A escola dos _miniaturistas_ do XIII seculo dilatou a carreira de suas
+obras. Até esta epocha, as Biblias, os livros dos Evangelhos e os dos
+psalterios tinham sido as unicas obras ornadas de estampas illuminadas;
+depois as obras profanas da antiguidade classica, as dos padres, os
+romances dos cavalleiros e as chronicas tiveram tambem illustrações
+calligraphicas.
+
+Proximo do meiado do XIV seculo, uma nova mudança teve a pintura em
+geral, estendendo a sua influencia sobre todos os ramos d'esta arte. Ao
+primor do desenho que traça os principaes contornos, esforçou-se o
+pintor por ajuntar o modelado dos objectos no afrouxamento gradual dos
+tons e na opposição das sombras e da luz. A começar d'esta epocha, o
+colorido deu á figura, não sómente a côr, mas ainda a fórma e o relevo.
+
+No XV seculo, a arte da pintura e do miniaturista, subiu em Flandres ao
+mais alto grau de prosperidade, sob a influencia dos irmãos Hubert e
+João Van Dyck, Thierry, Streerbout, Roger von der Weyden e Haus Memling;
+em Portugal, Antonio e Francisco de Hollanda. Todos estes eximios
+mestres não desprezavam empregar o seu tempo na illuminura dos
+manuscriptos. O rei Filippe--o Bom--1419-1467--, tinha uma predilecção
+notavel pela ornamentação dos manuscriptos, como tambem em Portugal
+el-rei D. João II e D. Manuel[5], contribuiram singularmente para o
+desenvolvimento d'este genero de trabalho.
+
+Os pintores d'esta epocha applicam-se a reproduzir a belleza real que se
+colhe da natureza, mais agradavel que uma belleza ideal; substituem de
+alguma maneira, o realismo ao symbolismo dos seculos findos passados;
+diligenciando representar com toda a verdade os minimos detalhes da
+natureza, cogitam o modo de apresentar a mais exacta reproducção do
+feitio e côr dos objectos.
+
+_Capas dos livros dos Evangelhos_. Até ao IX seculo serviram-se
+bastantes vezes de capas de marfim; do IX seculo ao XII, o marfim estava
+misturado ao metal e ás pedras preciosas. Durante o periodo ogival,
+abandonaram geralmente o uso do marfim, e o metal só ornado com riqueza,
+sobretudo no XIII seculo, de esmaltes e joias, foi empregado nas capas
+das Biblias, nos livros dos Evangelhos e nos lithurgicos. Salvo raras
+excepções, eram cobertos de estofos, de couro, e algumas vezes de
+madeira com esculpturas ou de chapas de prata em relevo[6].
+
+_Thuribulos e naveta para incenso_. Os thuribulos do XIII seculo
+compõem-se geralmente, como os dos seculos antecedentes, de duas
+semi-espheras ôcas, as quaes juntas formam uma bola. A semi-esphera
+inferior tem um pé que lhe serve de apoio, no qual se põe as brazas e o
+incenso; vem a ser o verdadeiro perfumador. A semi-esphera superior, que
+serve de tampa, está crivada de muitos orificíos para sahir o fumo do
+incenso. Esta tampa que tem como remate muitas vezes uma torrinha com a
+figura de homem ou de animal, é movediça: sóbe e desce ao correr de tres
+ou quatro correntes prezas por uma extremidade do thuribulo e por outra
+parte da mesma tampa atravez da qual passa uma cadeia que fixa o remate,
+e facilita levantal-a ou abaixal-a como se quizer.
+
+A fórma geral dos thuribulos do XIII seculo é conhecida, não sómente
+pelos raros especimens em metal conservados até ao presente, mas tambem
+pelas esculpturas e miniaturas contemporaneas, nas quaes se vêem anjos
+ou clerigos thuriferarios.
+
+Nos seculos XIV e XV, os thuribulos mudam de aspecto, apresentam poucas
+vezes a fórma espherica e têem geralmente o feitio de diversas curvas;
+tomando a fórma de torrinhas com telhado, janellas recortadas, etc. O
+metal de que geralmente se serviam, era o latão; para os de melhor
+qualidade empregavam a prata.
+
+_Gomís_ ou _aquamaniles_. Os gomís designados tambem _aquamaniles_ (de
+_aqua_, agua, e _manile_, vaso para deitar agua nas mãos) faziam parte
+das alfaias ecclesiasticas e continham agua para as abluções das mãos,
+durante as ceremonias religiosas. Empregavam-se tambem no uso civil para
+a lavagem das mãos antes e depois das refeições. No fim do periodo roman
+e durante todo o período ogival tinham as mais caprichosas e mais varias
+fórmas. A maior parte apresentam a d'um animal real ou phantastico; a
+agua é geralmente introduzida no gomíl pelo cimo, na cabeça do animal,
+servindo de gargalo; a bocca ou o bico finalmente a aza é formada, quer
+pela cauda do animal revirada sobre o lombo, quer por um lagarto ou um
+dragão alado; algumas vezes mesmo a torneira está posta diante da
+figura. Os animaes representados mais vezes são o leão, o cavallo, o
+veado, o gallo, o dragão, a sereia e differentes passaros. Quasi todos
+os _aquamaniles_ são de latão ou de cobre.
+
+Alguns gomís de metal têem a fórma do busto de homem, de mulher e de
+creança. Devemos tambem mencionar os gomis do XIII seculo apresentando a
+fórma d'um prato côvo, não sendo diverso da bacia que servia senão para
+pela existencia, sobre a borda d'um bico para sahir a agua sobre as
+mãos.
+
+No XI seculo principiou o uso de lavatorios collocados no meio das
+sacristias. Havia-os de fórmas architectonicas, imitando mais ou menos
+uma fortaleza ou uma torre; outros (e eram os mais communs),
+compunham-se de vasos de bronze ou latão, de pequenas dimensões, tendo
+uma grande aza e dois gargalos oppostos; para se lavar as mãos,
+abaixava-se, empurrando de cima para baixo, um dos gargalos. O seu uso
+durou até ao XV seculo.
+
+_Pratos para offerendas_. Encontram-se em muitas egrejas grandes pratos
+ou bacias de latão estampado, cinzelado e gravado, ornados de assumptos,
+symbolos, brasões, folhagens e figuras geometricas. Estes pratos
+designados _bacias de offerenda_, porque serviam e servem ainda para
+receber as offertas dos fieis, principalmente as que se fazem durante as
+missas para os defuntos, eram feitos no XV e XVI seculo nas officinas
+dos fundidores de cobre em Augsbourg, Nuremberg e Brunswick. É preciso
+advertir, que as bacias do XV seculo e do principio do XVI seculo,
+apresentam os caracteres da decoração ogival, e que as do XVI e XVII
+seculos apresentam ornatos do estylo da renascença.
+
+Os assumptos e os symbolos, representados geralmente no centro do prato,
+mais raramente sobre a borda do prato, são quasi sempre religiosos:
+todavia vê-se tambem algumas vezes com o busto de _Cicero_, de sereias,
+veados, cães, escudos com brazões, etc.
+
+Inscripções ou legendas estão gravadas dentro d'um ou dois circulos
+concentricos proximo da borda do prato, e repetem-se geralmente cinco
+vezes. Entre essas legendas ha um grande numero que apresentam um
+sentido facil de interpretar, por exemplo: _Got sei met vus, hiff Got
+aves not, hiff Th_ (esu) _vnd Maria, van allen schriftvren het slodt myt
+sonder Gost, eh wart_ (ou _gich wart_) _der in fridt, ch_ (ou _ich_)
+_bart et zeit gelvek, gi seal recorden, gustate et benedicite Deus_;
+outros pelo contrario (e estes são os que se encontram mais vezes)
+compõem-se de lettras, as quaes reunidas não apresentam nenhum sentido;
+taes são as seguintes: _rahe wishnbi et vrmtlife, vrmtielf_ ou
+_lifevrmto_.
+
+Parece bastante provavel que estas legendas, até ao presente
+indecifraveis, foram os signaes ou as primeiras lettras de muitas
+palavras formando uma divisa conhecida geralmente na epocha em que se
+executavam estas bacias para offerendas.
+
+_Representação da patena_. Em vez de se beijar a patena, recommendava o
+apostolo S. Paulo aos primeiros christãos, um abraço fraternal. No XIII
+seculo, por motivo de decencia e de respeito foi substituido em muitas
+partes, pelo uso d'um _osculatorium_ o abraço porque julgaram então não
+se poder praticar sem detrimento para a moral e distincção das
+dignidades.
+
+As regras lithurgicas fallam da patena, mas não determinam nem a fórma
+nem a representação. Serviram-se pois para este fim indifferentemente da
+cruz, relicarios, capas dos evangelhos, etc. Todavia a fórma que
+prevaleceu, foi a d'um pequeno painel, feito com materias de estimação,
+taes como ouro, prata, madeira rija ou marfim cinzelado, gravado,
+esmaltado ou pintado, representando um assumpto religioso ou santo. Este
+pequeno painel tem geralmente um cabo no lado posterior.
+
+_Moldes ou ferros para hostias_. Serviam-se desde muito tempo, e
+servem-se ainda hoje de ferros para coser o pão que symbolisa a
+Eucharistia, imprimindo-se-lhe figuras e lettras. Estas hostias teem
+regularmente a fórma circular. Muitas vezes os moldes representam
+crucificação, o Cordeiro Divino, a simples cruz, o signal I H S, imagens
+de santos e symbolos.
+
+_Insignias e medalhas dos peregrinos_. As insignias de _romaria_
+compõem-se, durante toda a idade média, de pequenas chapas
+rectangulares, quadradas ou circulares, muitas vezes de chumbo fundido e
+de obra vasada, outras de cobre ou prata impressa e aperfeiçoada ao
+buril. Apresentam geralmente em relevo a imagem do santo para quem ella
+foi feita. Distinguem-se de duas sortes: umas (e eram em maior numero),
+cosiam-se sobre o ornato pertencente á cabeça e sobre o vestuario; as
+outras, bastante raras, fixavam-se na extremidade do bordão ou arrimo do
+peregrino.
+
+Havia-as egualmente apresentando a fórma de medalhas ornadas, nas duas
+faces, com imagem de santos e inscripções; muitas vezes são acompanhadas
+de um carneiro ou argola servindo para se trazer ao collo, ou pegadas
+quer no vestuario, quer nos objectos de devoção, como são os rosarios,
+etc.
+
+_Pequenos altares domesticos_. Encontram-se muitas vezes, nos museus
+publicos e nas collecções particulares, pequenos _triptycos_ e
+_polyptycos_ de marfim, metal ou madeira, esculpidos, pintados ou
+esmaltados. Estes objectos, os fieis se serviam antigamente nas suas
+habitações para satisfazer a sua devoção, teem muitas vezes a fórma de
+um retabulo com portas, porém, de grandes proporções; sendo como os
+outros retabulos, ornados de baixo-relevos, estatuas e pinturas.
+
+_Baculos_. Como já explicamos, a voluta do maior numero dos baculos
+romans era terminado por uma cabeça de serpente ou de dragão;
+completava-os uma cruz com o Cordeiro Divino. Esta scena, symbolo do
+triumpho de Redemptor alcançado sobre o demonio pelo sacrificio do
+Calvario, veiu a ser raro desde o XIII seculo. Algumas volutas, sem
+duvida, trazem ainda n'esse tempo na extremidade, uma cabeça de dragão
+ou serpente, mas essa cabeça fica inteiramente separada ou invez já não
+ao Cordeiro nem sobre uma personagem ou sobre uma scena religiosa. Em um
+grande numero de baculos a cabeça da serpente é substituida por um ramo
+de folhagens ou por uma flôr aberta.
+
+Quando, proximo ao fim do XIII seculo, os detalhes de architectura
+substituiram-se as peças de ourivesaria, e a decoração foi buscar aos
+reinos animal e vegetal, real ou phantastico, os baculos mudaram
+egualmente de aspecto. Ornaram-se então de nichos, estatuasinhas,
+flechas e pinaculos. O nó principalmente, e tambem a hostia, ficaram
+sobrecarregados com estes ornatos.
+
+_Estofos preciosos_. Durante o periodo ogival, serviram-se muitas vezes,
+para os vestuarios sagrados, de estofos preciosos, nos quaes os desenhos
+da decoração eram feitos, _juntamente_ com o tecido mesmo, por meio de
+uma trama de differentes côres, sendo depois urdido pela applicação de
+bordados feitos com agulha. O uso dos pannos de raz para a decoração das
+egrejas generalisou-se cada vez mais durante o periodo.
+
+_Tecidos_. A arte de fabricar os tecidos de seda foi trazida da Italia
+no XIII seculo. Os desenhos embellezadores que ornam bastantes vezes os
+tecidos no XIII seculo e durante uma parte do XIV são geralmente
+copiados sobre os estofos orientaes. As figuras symbolicas e os
+assumptos pertencentes á historia do antigo e novo Testamento, que se
+acham excepcionalmente nos tecidos sicilianos ou italianos antes do
+meado do XIV seculo, apparecem frequentemente depois d'esta epocha, com
+cercadura, ou não tendo este enfeite.
+
+No XV seculo, a industria do tecido da seda desenvolveu-se cada vez mais
+a Oeste e Norte da Europa. A Suissa, França e a Belgica, que possuíam,
+depois do XIII seculo, alguns teares isolados para a fabricação da seda,
+do veludo, e do setim, viram então os seus teares a multiplicar-se e
+tomar consideravel incremento.
+
+Em Flandres tambem se tinha alcançado, desde o XIII seculo, bastante
+fama pelos tecidos preciosos, para os quaes os primeiros aprestos foram
+fornecidos pela Inglaterra. De todos os estofos o mais estimado e de
+preço fabricado em Flandres era o setim de _Bruges_.
+
+_Bordados_. Nas bordaduras do XIII seculo, como nas pinturas e
+esculpturas contemporaneas, o desenhador abandonou pouco a pouco as
+tradicções byzantinas. Os gestos dos personagens perdem a sua expressão
+archaica, as cabeças não são delineadas conforme typos convencionaes, as
+pregas dos vestidos, em logar de serem comprimidas e paralellas, são
+executadas com fidelidade; finalmente, as figuras teem muitas vezes a
+presença curvada.
+
+Desde o fim do XIII seculo, a arte de bordar, designada muito
+distinctamente na idade média _pintura com a agulha, acupictura_,
+attingiu a um subido gráo de prosperidade; desenvolvendo-se cada vez
+mais durante o XIV seculo, e chegou ao seu apogeu no principio do XV
+seculo. N'esta ultima epocha, tres paizes se distinguiram sobretudo pelo
+talento e habilidade no acabamento dos bordados: foram a _Belgica_, a
+_Prussia rhenal_ e a _Bourgogne_. Os dois principaes centros de
+manufactura para os estofos bordados encontravam-se em Arrhas, em
+_Flandres_ e em _Cologne_; a estas duas cidades se póde ajuntar em
+segundo logar _Malines_, _Liége_, _Tournai_ e _Reims_.
+
+_Pannos de Raz_. Chama-se panno de raz a _um tecido no qual os fios de
+côr, enrolados sobre uma urdidura fixa vertical ou horisontalmente, faz
+corpo juntamente, e produz combinações de linhas e tons similhantes aos
+de pintura que se obtem com o pincel, e o mosaista com os cubos de
+marmore ou de esmalte_. O panno de raz distingue-se do bordado em que as
+figuras fazem parte integrante do tecido, em quanto os bordados são
+simplesmente sobrepostos sobre um tecido já feito. Distingue-se por
+outro modo, dos estofos tecidos de ouro e seda, porque constitue sempre
+um trabalho manual, e não é obtido por um mechanismo representando sem
+fim o mesmo padrão. Cada uma das producções do _panno de raz_ é uma obra
+original.
+
+Os fios com que o tecelão delinea as sua composições, seus symbolos e
+ornatos, são o ouro, prata, seda e lã.
+
+A arte dos pannos de raz era já conhecida no XI seculo. Antes do anno
+1025, havia, em _Potiers_, uma fabrica de pannos de raz, cujos trabalhos
+tinham sido muito apreciados, mesmo fóra de França. Os productos d'estas
+officinas eram ornados de retratos dos reis, de imperadores, de figuras
+de animaes, assim como de assumptos da biblia.
+
+No XII seculo a Allemanha toma egualmente uma parte activa no
+desenvolvimento do fabrico dos pannos de raz.
+
+No XIV seculo, a arte do tapisseiro, posto que continuando a empregar o
+mesmo fabrico technico do seculo precedente, progride como todas as
+outras artes.
+
+Desde o principio do XIV seculo a manufactura dos pannos de raz de
+alto-liço prosperou em Paris, Bruxellas e Arrhas; depois foi introduzida
+em muitas outras cidades de Flandres e do Brabante. No fim do XIV seculo
+os pannos de raz de Arrhas principiaram a ter a primazia; devendo a sua
+reputação á perfeição dos seus tecidos e á sua tintura. Desde esta
+epocha, os pannos de raz de alto-liço foram designados, principalmente
+pelos Italianos e Inglezes, sendo da fabrica de Arrhas, pelo nome de
+_finos pontos de Arrhaz, e arazzi_.
+
+O XV seculo foi a idade de ouro para os pannos de raz. Realisaram-se
+então notaveis progressos na execução material. Os fios vieram a ser
+cada vez mais finos, a proporção da seda e do ouro augmentaram
+consideravelmente, os tintureiros inventaram graduação de côres novas,
+emfim os tecelões aprenderam a combinar as côres com tal habilidade que
+não podia ser nunca excedida. N'esta epocha os pannos de Arrhas eram os
+mais estimados e por isso muito procurados.
+
+_Vestimentas sagradas_. Durante toda a idade média, as vestimentas
+sagradas, das quaes se serviam nos dias ordinarios, eram feitas de
+tecido de lã, ou algumas vezes tambem de linho. Os estofos de seda
+empregavam-se nas vestimentas ricas e preciosas.
+
+A _casula_ conserva, até ao meado do XV seculo, a fórma que tinha
+durante o periodo Roman, isto é, de um vestuario largo, comprimido á
+roda do collo, cobrindo inteiramente os braços e caindo negligentemente
+de todos os lados á roda do corpo. Da mesma maneira que precedentemente,
+quasi sempre as estolas com bordaduras são comprimidas e estreitas,
+representando assumptos religiosos. Na Italia, nos paizes meridionaes e
+no meio dia de França, estas estolas são geralmente em numero de duas
+postas verticalmente, uma por diante e a outra por detraz do peito; a de
+diante fica com o feitio de um _tau_ T. Na Belgica, na Hollanda, na
+Allemanha, e em Inglaterra, duas outras pequenas faxas saindo do peito
+passam sobre os hombros e vão ter ao meio das costas, formando assim,
+pela sua combinação com as estolas verticaes, duas cruzes cujos braços
+ficam levantados com o feitio de Y.
+
+As casulas com dupla cruz entraram em uso no norte da Europa até ao XV
+seculo, epocha na qual uma mudança notavel se operou na fórma e
+disposição das estolas. Primeiramente, estas ficavam com muito mais
+largura; depois em toda a parte onde a dupla cruz com braços levantados
+havia tido uso precedentemente, pozeram sobre o lado opposto da casula,
+uma cruz latina [Símbolo], e sobre a frente uma columna.
+
+No XIII e XIV seculos, sendo sempre estreitas, eram regularmente ornadas
+com figuras geometricas ou pequenas folhagens simplesmente de decoração.
+Quando no XV seculo se fizeram mais largas, representavam muitas vezes
+imagens ou assumptos religiosos.
+
+_A estola e o manipulo_ consistiam, durante o periodo ogival, em faxas
+compridas e estreitas, quasi sempre ficando as extremidades um pouco
+mais largas.
+
+As estolas e os manipulos, geralmente de uma grande simplicidade, eram
+feitos de linho, de lã ou de seda, acabando n'um bordado e franjas. Os
+de ornamentos ricos eram por vezes bordados e apresentavam uma certa
+analogia com as faxas de recamo d'ouro das casulas, que lhes pertenciam.
+As suas extremidades não tinham ornatos com bordados symbolicos, que só
+se usaram depois da primeira metade do XV seculo.
+
+No principio o _pluvial_, em latim _coppa_, isto é, capote para
+resguardo da chuva (_pluvia_) era usado sómente pelo clero inferior,
+principalmente pelos chantres e mesmo por vezes pelos seculares, tomando
+uma parte na celebração do culto. Foi sómente no XIII seculo que veiu a
+ser commum para todas as ordens da hierarchia ecclesiastica, incluindo
+mesmo o pontifice.
+
+Serviam-se do pluvial, como se pratíca ainda hoje, nas procissões e em
+todos os outros officios da missa; por exemplo, no canto solemne de
+vesperas. O seu feitio é o mesmo da casula; sómente, em logar de ser,
+como esta, inteiramente fechada de maneira a esconder todo o corpo, é
+aberto na frente desde os pés até ao collo.
+
+O pluvial da idade media tinha, sobre as costas, um capuz de ponta muito
+comprida, com a qual se podia cobrir a cabeça. Nos pluviaes ricos as
+orlas da abertura de diante, e tambem a orla inferior, estão cobertas de
+faxas de estofo colorido, bastante estreitas e ornadas, principalmente
+no principio do XIV seculo, sendo os assumptos religiosos feitos com
+bordados. No XIV seculo as faxas veem a ser mais largas, e proximo da
+mesma época, o capuz augmenta, ficando a sua extremidade redonda, e como
+as faxas, ornada.
+
+_Colchete do pluvial_. Prendia-se o pluvial sobre o peito com um grande
+colchete coberto de medalhões em metal precioso, ornado de esmaltes ou
+delicadamente cinzelado. Estes _medalhões colchetes_, em latim
+_fibulae_, _morsus_, _monilia_ ou _pectoralia_, teem muitas vezes a
+fórma de quatro folhas; ha tambem circulares, ovaes, e mesmo quadrados.
+São geralmente ornados com assumptos religiosos ou com estatuasinhas de
+santos. Acompanham-os, principalmente no XV seculo, a figura ajoelhada e
+os brazões do doador.
+
+A _alva_ e o _amicto_ conservaram as fórmas primitivas durante o periodo
+ogival. Eram geralmente de linho, algumas vezes tambem de seda ou
+brocado. Continuou-se a guarnecel-os de faxas rectangulares com recamo
+de oiro, bordados ou tecidos vistosos. Estas vestimentas prendiam-se no
+meio da orla superior do amicto; e sobre a alva nas extremidades das
+mangas á roda do punho, por diante e detraz sobre a orla inferior
+proximo dos pés, e algumas vezes tambem sobre o peito.
+
+A _cintura_, da qual o sacerdote se serve para arregaçar a alva,
+prende-se á estola em cruz sobre o peito; não teve nunca na idade média
+a fórma de cordão que apresenta actualmente. N'essa época geralmente
+consistia em um comprido cinto, especie de fita comprida de dois metros
+e meio, com a largura de cinco a seis centimetros. Dá-se-lhe algumas
+vezes o comprimento symbolico, por exemplo, do tumulo de Jesus Christo.
+
+A _dalmatica_ é a vestimenta decima do diacono, a _tunicella_, a do
+sub-diacono. Não existe, ha muito differença entre estas duas
+vestimentas, posto que n'outro tempo a tunicella teve mangas mais curtas
+e era mais comprida, porém menos ornada que a dalmatica.
+
+Durante o periodo Roman e no principio do ogival, a dalmatica consistia
+em um comprido vestido inteiramente fechado, com mangas e uma abertura
+para passar a cabeça. Era enfeitada diante e detraz por duas faxas
+verticaes com recamo de ouro ou de côr, descendo até a orla inferior.
+Estas faxas, muito estreitas no XIII seculo, vieram a ser cada vez mais
+largas desde o XIV seculo.
+
+No XIII seculo, a dalmatica não era ainda aberta nos dois lados da orla
+inferior até quasi á quarta parte do seu comprimento. No XIV e XV
+seculos, estas aberturas augmentaram até meia altura do vestuario; tendo
+então, do mesmo modo, toda a parte inferior da dalmatica, bordados de
+faxas de côr ou as superiores de recamo de ouro.
+
+_Mitras_. As mitras com dois bicos, o uso das quaes se tinha
+generalisado no XII seculo, foram definitivamente adoptadas no XIII
+seculo, como um ornamento episcopal e abbacial. Comparadas com as mitras
+modernas, as primitivas eram muito baixas, a sua altura variava entre
+0,20 a 0,25 centimetros.
+
+As differentes partes de que se compõem as mitras são: 1.^o as peças
+triangulares formando pela sua reunião o barrete; 2.^o as duas fitas
+pendentes da mitra mais largas nas extremidades inferiores, ficando
+prezas por detraz da mitra.
+
+Havia na idade média duas qualidades de mitras: simples ou lisas, e com
+bordaduras recamadas de oiro, designadas na latinidade da idade media
+pelo nome _mitrae auriphry giatae_. Sobre estas ultimas as bordaduras
+recamadas de oiro dispunham-se por tres maneiras: 1.^o verticalmente ou,
+como dizem os livros lithurgicos, _en titre in titulo_; 2.^o
+horisontalmente ou _in circulo_; 3.^o em titulo e em circulo juntamente.
+
+No meiado do XIV seculo, os bicos da mitra são maiores. A maior parte
+das mitras da ultima metade d'este seculo medem de 32 a 35 centimetros
+de altura. Esta altura chega regularmente a 40 centimetros no seguinte.
+N'esta ultima época tambem as orlas dos bicos são algumas vezes
+guarnecidas com bordaduras recamadas de oiro, ou tendo uma especie de
+renda de prata dourada similhando-se a folhas de repolho ou de crochetes
+vegetaes.
+
+
+*Abbadias e Mosteiros*
+
+
+_Observações preliminares_. As partes principaes de que se compõem as
+abbadias e os mosteiros da idade media são a egreja, o claustro, o
+refeitorio, a sala do capitulo, o dormitorio, o aposento para o abbade e
+para os hospedes, o celleiro, o palheiro, a prisão e as casas de
+arrecadações. Estas differentes partes ficavam geralmente da mesma
+maneira, principalmente nos conventos que observavam a mesma regra.
+
+A egreja era sempre _orientada_, isto é, ficando a capella mór voltada
+para o Oriente. No lado meridional da nave fica encostado o claustro, do
+qual se entra para a egreja por duas portas collocadas nas extremidades
+da galeria encostada á parede lateral da egreja: uma junto do alpendre,
+outra na proximidade do cruzeiro. A galeria opposta, que fórma o lado
+meridional do claustro, dá entrada para o refeitorio. A sala do capitulo
+e o parlatorio occupam o rez-do-chão ao longo da galeria oriental, que
+se liga por uma extremidade com o cruzeiro; no andar por cima está o
+dormitorio, o qual communica com a egreja por uma escada conduzindo do
+dormitorio ao transepte. As construcções do occidente do claustro
+serviram primitivamente aos irmãos conversos, os quaes eram em grande
+numero nas grandes abbadias do XII e XIII seculos. Porém, quando mais
+tarde se supprimiu esta instituição, e se limitaram os irmãos conversos
+ao numero estrictamente necessario para o serviço dos religiosos, ellas
+foram destinadas para outros usos. Muitas vezes serviram para aposentos
+dos hospedes, e uma parte foi transformada em celleiros e armazens.
+
+As differentes Ordens religiosas distinguem-se na escolha do local;
+quando pretendiam fundar uma nova abbadia, cada uma dava preferencia aos
+sitios de mais predilecção. Os Benedictinos escolhiam geralmente os
+sitios altos e as montanhas; os Bernardos, pelo contrario, gostavam de
+se estabelecer nos valles sobre as margens dos ribeiros, como exprimem
+estes dois versos:
+
+ _Bernardus valles, montes Benedictus amabat,
+ Oppida Franciscus, magnas Ignatius urbes_.
+
+A similhança que apresentam a maior parte das abbadias cistercienses na
+disposição das suas differentes fórmas é bastante notavel; quasi todas,
+quando o accidentado do terreno o permittia, reproduziam, por assim
+dizer, servilmente o plano das abbadias primitivas da Ordem de Cister;
+plano typo adoptado para a construcção d'estas abbadias na Europa
+occidental do XII e XIII seculos.
+
+A egreja era muito vasta; a sua nave meridional ficava encostada ao
+claustro, com as suas galerias para passeiar; a Leste do claustro está a
+casa do capitulo; o parlatorio era o grande recinto onde se reuniam os
+monges; no andar sobre este lado ficava o dormitorio e o refeitorio, e a
+cozinha do lado da galeria meridional do claustro. O rez-do-chão era
+destinado para reuniões durante o dia, e o andar superior para as de
+noite; como se dizia na idade média, _domus conversorum_. O rio ou
+ribeiro passava por baixo do refeitorio ou cozinha para levar o lixo de
+toda a qualidade. Defronte dos aposentos dos irmãos conversos, havia um
+grande pateo murado, no qual estava, na direcção de sudoeste, a porta da
+entrada principal da abbadia. Temos em Portugal um famoso modelo na
+antiga abbadia de Alcobaça.
+
+As outras grandes ordens religiosas adoptaram muitas vezes, para os seus
+mosteiros, disposições analogas.
+
+As ordens de S. Domingos e S. Francisco, fundadas ambas no principio do
+XIII seculo, estabeleciam-se regularmente nos grandes centros da
+povoação, onde não achavam sempre espaço bastante vasto para se poderem
+desenvolver á vontade e dispôr as differentes partes dos seus mosteiros
+seguindo dados uniformes. É por esta razão que, em muitos casos, o plano
+dos seus conventos differe sensivelmente da disposição tradicional
+observada escrupulosamente pelos monges de Cister, mesmo, porém, com
+mais liberdade pelos Benedictinos.
+
+_Egrejas_. A planta das egrejas monasticas apresenta geralmente, como a
+das cathedraes e das collegiadas, a fórma de uma cruz Latina. Muitas
+vezes a capella-mór não é muito comprida. Foi então no XIII seculo que
+na Europa occidental e central se pozeram as cadeiras no côro para os
+frades, não sómente na capella-mór, mas tambem no cruzeiro, e mesmo em
+uma parte da nave principal, como existia na egreja de Alcobaça.
+
+As egrejas dos frades Dominicanos e dos Franciscanos não tinham
+ordinariamente nem cruzeiro nem torre. No XIII seculo, os Dominicanos,
+construiram em Paris, Augsbourg, Dresde e outras muitas cidades, egrejas
+com esta disposição excepcional, ficando divididas por duas naves com um
+unico renque de columnas. Encontra-se tambem esta disposição, porém,
+raramente, nas egrejas das outras Ordens religiosas.
+
+_Claustros_. Durante o periodo ogival, os claustros eram geralmente
+construidos de abobada de barrete com nervuras, e communicando com o
+pateo do convento por arcadas ogivaes, vasadas e separadas umas das
+outras por contrafortes. Nas arcadas collocavam nos XIII, XIV e XV
+seculos, trabalhos rendilhados em cantaria, similhantes aos feitios que
+se viam nas janellas contemporaneas; e de que temos exemplos nos
+edificios religiosos da Batalha e de Belem. Muitas vezes esses caixilhos
+de pedra não tinham vidros; todavia, principalmente no Norte e Oeste da
+Europa, vedavam os tympanos com vidros brancos ou de côres, a fim de dar
+abrigo contra os rigores da temperatura a quem passeasse pelas galerias
+do claustro.
+
+Desde o XIV seculo algumas vezes, e bastantes no XV seculo, substituiram
+nos claustros, as arcadas ogivaes pelo feitio de janellas com pinasios
+de pedra similhantes aos das arcaduras ornadas, que se veem nos peitoris
+das janellas inferiores nas egrejas do ultimo periodo ogival.
+
+Fizemos notar, que as egrejas cathedraes e collegiaes tinham antigamente
+um claustro, porque, do mesmo modo que os frades, os conegos viviam a
+principio em communidade. Este uso, que principiou a não se seguir desde
+o XIII seculo, persistiu não obstante em muitas partes até ao fim do
+periodo ogival.
+
+Quasi todos os claustros, grandes e pequenos, construidos na idade
+média, possuiam um _lavabo_, _lavadouro_, tendo uma pia com uma fonte. A
+fonte occupava, no principio, o centro do pateo do convento. Mais tarde
+approximaram-a da galeria do refeitorio; ficando então collocada em
+frente da entrada do refeitorio, ou em um dos angulos da galeria ao
+longo d'elle. Os frades voltando do trabalho da lavoura, lavavam ahi as
+mãos antes de se pôrem á mesa ou ir ás rezas.
+
+_Refeitorio_. O refeitorio estava geralmente situado ao correr da
+galeria meridional do claustro. Como já referimos, compunha-se d'uma
+vasta sala traçada sobre um plano rectangular, abobadada em geral ou por
+vãos descançando sobre um fuste de columnas. Por cima do claustro, havia
+muitas vezes um andar pouco alto, servindo de celleiro para
+abastecimento no inverno, com alimentos e fructas passadas.
+
+Nos conventos dos Cistercienses, o refeitorio era sempre dividido em
+duas naves por um renque de columnas, collocadas ao meio longitudinal;
+além d'isto, ficava este renque perpendicular á galeria proxima do
+claustro. No refeitorio dos frades de S. Bento, e em geral, em todas as
+outras abbadias, o grande eixo corria parallelo á galeria do claustro, e
+o renque das columnas muitas vezes não é representado.
+
+Ao lado do grande refeitorio, quasi sempre a oeste d'elle, ficava a
+cosinha, geralmente com uma grande chaminé quadrada.
+
+_Casa do Capitulo_. No rez-do-chão ao correr da galeria oriental do
+claustro era a casa do Capitulo, a casa para as visitas e a sala dos
+frades. O dormitorio occupava o andar d'este lado uma escada conduzindo
+directamente do andar superior ao cruzeiro do lado do sul, facilitava
+aos frades descerem á egreja para os officios nocturnos sem se expôrem
+ao ar exterior.
+
+A casa do Capitulo, isto é, o logar onde os frades se reuniam sob a
+presidencia do abbade, afim de tratarem dos negocios espirituaes e
+temporaes do mosteiro, era edificado sobre um plano quadrado ou
+rectangular com um ou muitos renques de pilares sustentando as abobadas
+e as suas nervuras, dividindo-se em duas ou mais naves. Bancos de pedra
+guarneciam as paredes em roda. Na Inglaterra dá-se frequentemente ao
+plano das casas de capitulo a fórma circular ou polygona; e n'este caso,
+uma unica columna central sustenta a abobada e as suas nervuras, como ha
+em Westminster e em Lincoln.
+
+_Parlatorio_. O parlatorio, _collocutorium_, era uma pequena casa entre
+a do capitulo e a escada conduzindo ao dormitorio. Ali os frades tinham
+licença de conversarem em voz baixa, quando relações indispensaveis da
+vida commum o exigissem. Em todas as outras partes do mosteiro se devia
+guardar o maior silencio.
+
+Ao lado da escada proxima do parlatorio, havia um corredor pelo qual se
+podia passar para o grande claustro e annexos da abbadia perto do côro
+da egreja.
+
+_Casa e dormitório dos frades_. A casa onde os frades passavam o dia,
+que os _antigos_ designavam _domus fratrum_ e que os inglezes designam
+ainda sob o nome de _fratres_, isto é, logar onde vivem os frades,
+consistia n'um vasto espaço abobadado e occupava sempre o rez-do-chão,
+na extremidade Sul do lado Oriental do mosteiro.
+
+No andar da casa de que acabamos de fallar, encontrava-se o dormitorio
+commum dos frades, pois a regra de S. Bento determinava que os frades
+dormissem n'uma só casa, mas em camas separadas: _Monachi singuli, per
+singula lecta dormiant; si potest fieri, omnes in uno loco dormiant_.
+
+O uso das cellas, que havia em alguns raros mosteiros desde o XII
+seculo, não veiu a ser commum senão na epocha do renascimento.
+
+_Aposento dos irmãos leigos_. Todas as grandes abbadias benedictinas e
+cistercienses tinham, no XII e no XIII seculos, um numero consideravel,
+chegando a ter 300 a 400 leigos, designados nos necrologios com o nome
+de _conversi_ ou _fratres ad succurrendum_. Estes irmãos, que não
+entravam nas ordens sagradas, mas faziam profissão de religiosos,
+destinavam-se, sob a direcção dos frades, aos trabalhos da agricultura e
+ao exercicio de diversos officios. Habitavam o lado occidental dos
+edificios monasticos, designados por esta razão casa dos leigos, _domus
+conversorum_, e prolongava-se muitas vezes desde o portico da egreja até
+muito álem do grande refeitorio.
+
+Nos edificios cistercienses, a habitação dos leigos compunha-se
+regularmente, no rez-do-chão, d'uma só e vasta casa abobadada, dividida
+em duas naves por um renque de columnas; e no andar por cima, de uma
+casa do mesmo tamanho da inferior, coberta as mais das vezes por um
+telhado tendo o madeiramento visivel na parte interna.
+
+_Casa abbacial_. Originariamente o aposento do padre abbade consistia
+n'uma simples cella. D'ahi a pouco, todavia, o aposento do chefe do
+mosteiro veiu a ser uma construcção importante; e viam-se muito
+raramente, na idade média, os abbades contentarem-se com o dormitorio
+commum ou uma simples cella. A começar do XIV seculo, e principalmente
+na epocha do renascimento, as casas abbaciaes vieram a ser muitas vezes
+verdadeiros palacios, constando d'uma capella particular, grandes salas,
+pateos, cavallariças, jardins com terraços, etc.
+
+_Aposentos para hospedes_. Todas as abbadias tinham uma habitação
+reservada ou uma parte do proprio edificio para hospedar as pessoas que
+visitavam os frades. No principio, esta habitação estava sempre a pouca
+distancia da porta principal afim de evitar distracção para os frades do
+convento: como ha um bello exemplo no extincto mosteiro de Alcobaça.
+
+As abbadias, que foram em todos os tempos casas de caridade, possuiam
+tambem suas esmolerias destinadas a dar habitação e sustento aos pobres
+e peregrinos. Eram situadas na visinhança da entrada do convento.
+
+_Celleiros_. Nos seculos XI e XII, as abbadias applicaram-se activamente
+ao surribamento dos terrenos incultos; os trabalhos campestres eram de
+certo modo, a sua occupação principal. Foram as Ordens de Cister e de S.
+Bernardo que prestaram assignalados serviços á agricultura.
+
+As abbadias não faziam colheita sómente do producto das suas proprias
+explorações agricolas; cobravam tambem o dizimo em muitos sitios e
+recebiam em genero o pagamento dos rendeiros. Precisavam portanto vastos
+celleiros e armazens muito grandes para recolher, no tempo da ceifa, os
+cereaes que recebiam por esses differentes titulos.
+
+Nos conventos cistercienses o celleiro formava, no principio do periodo
+ogival, um edificio muito vasto, edificado sob um plano rectangular. Era
+algumas vezes abobadado e dividia-se em duas naves por um renque de
+columnas para maior solidez, servindo o andar para os cereaes. Outras
+vezes compunha-se de tres naves separadas por dois renques de pilares ou
+prumos de madeira para sustentar o madeiramento sem precisão de
+abobadas.
+
+_Officinas_. Nos XII e XIII seculos havia em cada abbadia, alguns leigos
+ajudados muitas vezes por seculares exercendo os officios necessarios
+para a conservação do edificio e para o fabríco dos pannos, couros e
+instrumentos aratorios. Empregavam um certo numero de alveneos,
+ferreiros, carpinteiros, fabricantes de pannos, tanoeiros, etc.; as
+officinas estavam geralmente collocadas aos dois lados do pateo situado
+entre a porta da entrada principal do convento e a habitação dos leigos.
+
+A maior parte das abbadias possuiam tambem seu moinho e fabrica de
+cerveja.
+
+O desenvolvimento extraordinario dos estabelecimentos religiosos durante
+as suas culturas e explorações ruraes motivou a construcção de curraes
+espaçosos. Encontravam-se tambem em todas as abbadias pateos para aves.
+
+Em propriedades importantes situadas a alguma distancia da abbadia,
+estabeleciam-se muitas vezes grandes herdades, sendo a sua exploração
+confiada a alguns leigos sob a direcção d'um frade. Compunham-se d'um
+corpo de casas situadas em roda d'um pateo quadrado, as quaes tinham
+communicação só do lado d'elle. Além d'esta habitação, curraes, celleiro
+e outros edificios necessarios para o serviço da exploração, havia
+n'estas herdades, uma capella onde os leigos assistiam aos officios
+religiosos.
+
+_Celleiros_. Dá-se o nome de celleiro aos armazens onde se conservam os
+mantimentos de todo o genero. O frade encarregado de vigiar o
+abastecimento tinha o nome de _celleiro_, _cellerarius_ e _collarius_,
+mudado mais tarde, por algumas ordens religiosas, no de _procurador_,
+_procurator_. Este logar passava por um dos mais importantes nas
+abbadias.
+
+_Prisões_. Na idade média, as abbadias, universidades e algumas vezes os
+cabidos possuiam prisões para encarcerar os membros da communidade que
+se tivessem tornado criminosos de delictos ou insubordinação para com os
+superiores.
+
+Na qualidade de soberania, as abbadias, universidades e cabidos gosavam,
+nos territorios que lhe pertenciam, o poder superior de justiça, e
+tinham prisões para encarcerar os seus subditos seculares criminosos. As
+prisões das abbadias ficavam a uma certa distancia dos edificios da
+habitação dos religiosos.
+
+_Cartuchas_. As cartuchas, cuja origem vem dos ultimos annos do XI
+seculo, apresentam disposições notavelmente differentes das cellas das
+abbadias. As principaes differenças que se observam, são: grandissimo
+comprimento dos claustros; numerosas habitações inteiramente separadas,
+para uso dos religiosos, as quaes se compunham sempre de dois ou tres
+quartos e d'um pequeno jardim, com uma porta dando entrada para a
+galeria do claustro.
+
+Quasí todas as cartuchas tinham dois claustros unidos.
+
+_Mosteiros para mulheres_. As disposições das differentes partes dos
+mosteiros para mulheres apresentam a maior analogia com os das abbadias
+para homens. Á roda do claustro ergue-se a egreja, a casa do capitulo
+com dormitorio no andar superior, o refeitorio e os outros aposentos. As
+escolas exteriores, que havia ás vezes nos conventos de homens, como por
+exemplo dos frades Agostinhos, as casas para hospedes, peregrinos e
+viajantes, faltavam nos conventos das mulheres, porque toda a relação
+com o exterior lhe era prohibida.
+
+_Os conventos de recolhidas_ consistiam em casas particulares e communs,
+situadas em um recinto inteiramente fechado, á roda de uma egreja
+isolada de todos os lados. Sectarias de _Bégard_, partidistas de uma
+perfeição extrema que permittia todos os excessos de devoção e que fôra
+adoptada no III seculo. As recolhidas tinham o nome de Beatas.
+
+_Hospitaes_. Os hospitaes da idade média differem absolutamente dos
+hospitaes modernos. Os do XII e do XIII seculos compunham-se sempre, de
+uma extensa casa onde estavam as camas para os doentes, de uma egreja ou
+capella contigua a esta casa e communicando com ella, de um aposento
+para os enfermeiros, e de algumas casas para serviço. Por causa da
+hygiene ficavam geralmente situados nas proximidades da porta da cidade
+ou sobre a margem de um rio.
+
+
+*Iconographia do periodo ogival*
+
+
+_Observações preliminares_. As representações iconographicas tão
+variadas e tão abundantes de symbolismo, que se encontram em grande
+numero sobre os monumentos e alfaias religiosas das epochas Roman e
+Ogival, eram geralmente projectadas e imaginadas, não pelo obreiro ou
+artista que executava o objecto, porém, por um padre, frade ou secular
+litterato.
+
+_A aureola_. A aureola ficou em uso como signal iconographico durante
+todo o periodo ogival. _Crucifera_ pertence exclusivamente ás pessoas da
+Santissima Trindade; simplesmente _circular_ é attributo caracteristico
+dos Santos. A sua fórma manteve-se geralmente a mesma que era antes,
+salvas algumas modificações em certos paizes, mas apenas no termo do
+periodo ogival.
+
+No fim do XIV seculo, não sómente os Santos, os Apostolos e Nossa
+Senhora, mas tambem os anjos, assim como o Padre Eterno e Jesus Christo
+ficaram privados d'este attributo caracteristico. Se a aureola por acaso
+apparece ainda resplandecendo alguma imagem, foi porque o artista,
+luctando contra a moda, commetteu archaismo. Um sem numero de monumentos
+que datam d'esta epocha e chegaram até á nossa, apresentam _sem aureola_
+as imagens divinas, angelicas ou sanctificadas.
+
+
+*Representação da Santissima Trindade*
+
+
+Na epocha ogival, serviam-se ainda algumas vezes do baptismo de Jesus
+Christo para representar a Santissima Trindade. Como no periodo Roman,
+dava-se ainda, durante o periodo ogival, a fórma humana ás tres pessoas
+Divinas, ou pelo menos ás duas primeiras, pois o Espirito Santo
+continuou a ser frequentemente symbolisado por uma pomba. As tres
+pessoas Divinas continúam a ser representadas da mesma fórma até ao fim
+do XIV seculo. Mais tarde o Padre Eterno teve a figura de um ancião, o
+Filho de Deus a de um homem de trinta a trinta e cinco annos, e o
+Espirito Santo a de um adolescente de doze a dezoito annos. Ao Padre
+Eterno dá-se então o distinctivo de um globo, uma Cruz de resurreição ao
+Filho, e um livro ao Espirito Santo. Finalmente, ainda perto da mesma
+epocha, representa-se o Padre Eterno, e mesmo algumas vezes o seu Filho,
+de papa ou de imperador, com a pretensão de expressar, por assim dizer
+materialmente, o seu supremo poder, achando-os revestidos das insignias
+das duas maiores auctoridades conhecidas sobre a terra.
+
+Encontram-se tambem, no fim do periodo ogival, dois symbolos da
+Santissima Trindade, consistindo em figuras geometricas, o triangulo e
+tres circulos entrelaçados. Na epocha do renascimento, costumavam muito
+a inscrever n'um triangulo algumas vezes um olho, outras o nome de
+Jehovah.
+
+
+*O crucifixo e a crucificação*
+
+
+No XIII seculo, epocha designada _do soffrimento_, ou da _realidade_,
+principia-se a representar Jesus Christo na Cruz. O corpo do Redemptor
+curva-se ou mais depressa retorce-se de uma maneira bastante
+desagradavel; os braços não ficam na sua posição horisontal, pois as
+espaduas descem sensivelmente abaixo do ponto de união das mãos, de modo
+a figurar os esforços naturaes produzidos por um corpo humano suspenso
+por meio de cravos; os pés sobrepostos afastam-se de pessima posição,
+muitas vezes mesmo fazem encruzar as pernas; finalmente a cabeça de
+Christo, moribundo ou sem vida, está quasi sempre inclinada sobre o
+hombro direito, isto é, para o logar onde se vê a Mãe de Jesus e tambem
+algumas vezes a personificação da Egreja.
+
+Nas crucificações pintadas e esculpidas do XV e XVI seculo, a cruz do
+Redemptor e as dos ladrões, muitas vezes bastante altas e de diminuta
+grossura; assim como a travessa horisontal da cruz do Christo tem um
+grande comprimento, em quanto que a extremidade que tem o titulo, sobe
+apenas ao ponto de intersecção das duas travessas.
+
+Desde os primeiros annos do XIII seculo, principiou-se com timidez
+primeiramente a supprimir o _suppedaneum_ e a pregar á cruz, por meio de
+um unico cravo, os dois pés sobrepostos do Redemptor; porém, depois de
+algum tempo, o emprego de tres cravos veiu a ser quasi tão commum como o
+de quatro; e nos seculos XIV XV foi o unico empregado.
+
+O Christo crucificado traz ainda a aureola no XIII seculo. A corôa de
+espinhos, quasí desconhecida antes, apparece de tempos a tempos no XIV
+seculo. No seculo seguinte encontra-se frequentemente.
+
+No XIII seculo, a representação da crucificação foi ainda algumas vezes
+reproduzida com todas as personagens e accessorios historicos e
+allegoricos que acompanhavam precedentemente e que já temos descripto; o
+mais das vezes, todavia, não se conservam senão alguns. Os que se vêem
+geralmente são Nossa Senhora e S. João, o sol e a lua. Os dois ladrões,
+a egreja e a synagoga raro apparecem.
+
+_Nossa Senhora e S. João_. Durante o periodo roman, Nossa Senhora e o
+discipulo mais amado são representados com uma attitude de paz, erguendo
+geralmente os braços para o Redemptor ou occultam o rosto em signal de
+pezar. No XIII seculo, e mesmo durante uma parte do XIV seculo,
+conservam esta attitude estavel e digna. Mais tarde, o gesto que se lhe
+attribue exprime já uma dôr vulgar e natural.
+
+No XV seculo, e algumas vezes já no XIV seculo, os artistas christãos
+procuram produzir, na alma do espectador, sentimentos de ternura e de
+compaixão.
+
+Para este effeito representam Nossa Senhora desmaiada nos braços das
+duas santas mulheres que a amparam. Os exemplos d'este _deliquio_,
+encontram-se na Italia desde o XIII seculo.
+
+_O Sol e a Lua_. Durante o periodo ogival, o Sol é figurado geralmente
+por um disco radiante, e a Lua por um simples quarto crescente.
+
+_A Egreja e a Synagoga_. Como já explicámos, a Egreja e a Synagoga eram
+personificadas, durante o periodo roman, por simples mulheres trazendo
+os respectivos attributos. Depois do meiado do XII seculo, essas
+mulheres representavam rainhas. A que symbolisava a Egreja, sempre
+collocada á direita de Jesus Christo, traz uma corôa, e levanta a cabeça
+com uma expressão de orgulho; as mais das vezes, tem n'uma das mãos o
+calix, e na outra uma cruz de haste comprida ou um pequeno modelo de uma
+egreja.
+
+A Synagoga, pelo contrario, tem uma corôa que lhe pende da cabeça e um
+estandarte cuja haste se quebrou entre as suas mãos; deixando escapar as
+taboas da Lei, e tendo os olhos vendados por uma faxa ou por um dragão
+que se lhe enrosca á roda da testa.
+
+_Os dois ladrões_. Os ladrões nas mais antigas crucificações, apparecem
+de tempos a tempos durante o periodo ogival; teem os musculos encolhidos
+até a contorsão, e as mãos, não pregadas sobre a cruz, mas ligadas ás
+costas de maneira a deixar passar, pelo centro, a travessa horisontal do
+instrumento do seu supplicio. No fim do periodo ogival, encontram-se de
+novo representados os ladrões, principalmente nos retabulos de madeira
+de obra de talha da escola hollandeza.
+
+_Imagem de Nossa Senhora_. _Nossa Senhora com o Menino Jesus_. Durante o
+periodo ogival, o _grupo historico_ de adoração dos reis magos, que se
+vê sobre alguns pequenos _diptycos_ ou _triptycos_, de marfim, onde se
+vê, ao mesmo tempo, a crucificação e outras scenas tiradas da vida de
+Jesus Christo. N'esta representação os reis magos trazem sempre na
+cabeça a coroa real.
+
+No XIII seculo, encontra-se ainda frequentemente Nossa Senhora
+_assentada_ em uma cadeira ou throno, tendo sobre os joelhos o Menino
+Jesus, o qual deita a benção com a mão direita e na esquerda tem um
+livro ou o globo terraqueo.
+
+Já muitas vezes no XIII seculo, e mais tarde quasi sempre, Nossa Senhora
+está de pé e com o Menino Jesus no braço esquerdo. Durante a primeira
+parte do periodo ogival, a sua posição é mais ou menos curvada.
+
+Em quanto aos caracteres que apresentam as imagens de Nossa Senhora
+assentada ou de pé nos differentes monumentos do periodo ogival,
+pódem-se resumir nos termos seguintes. Nunca o grupo de Nossa Senhora
+com o Menino Jesus foi mais ideal que no XIII seculo; mal se approxima o
+XIV seculo, descuida a sua bella composição poetica para adoptar a
+realidade primeiramente e depois descahir na vulgaridade até á rudeza.
+
+No fim do XII e no principio do XIII seculo, póde-se dizer que Nossa
+Senhora não apparece já com o Menino Jesus: esta representação seria
+muito vulgar e Nossa Senhora assemelhar-se-hia a qualquer mãe que
+tivesse o seu filho ao collo; mas então a Santa imagem o tem _junto de
+si_. O Menino Jesus traz o globo do mundo na mão esquerda e deita a
+benção com a mão direita; além d'isso está completamente vestido, é já
+crescido, posto que ainda menino; é o Deus-Homem, mais depressa que
+Homem-Deus. No fim do XIII seculo, Nossa Senhora principia a ser mais do
+que a guarda de seu Filho como fazem todas as mães mortaes! Jesus está
+ainda vestido, abençôa trazendo um livro ou um globo; porém o vestuario
+é menos largo e mais curto, o livro menos volumoso, o globo mais
+pequeno.
+
+_Scenas tiradas da vida de Nossa Senhora_. Mencionaremos as tres
+principaes:
+
+A _Annunciação_ é quasi sempre representada da mesma maneira. Nossa
+Senhora está de joelhos sobre um genuflexorio no momento em que apparece
+o Anjo. Entre a imagem e o Anjo está um vaso com a flôr de liz aberta.
+Muitas vezes S. Gabriel tem n'uma haste esta flôr ou um sceptro; por
+vezes traz na mão uma bandeirola com a inscripção: _Ave Maria_. Um raio
+luminoso cae sobre a cabeça de Nossa Senhora, ou então, o Espirito
+Santo, sob a fórma d'uma pomba, descança sobre a imagem da Virgem Maria.
+
+_A morte de Nossa Senhora_ é quasi sempre representada da maneira
+seguinte: Nossa Senhora está deitada sobre um leito rodeada pelo seu
+Divino Filho e pelos apostolos. Jesus traz no braço a alma de Nossa
+Senhora, representada por uma creancinha. Os apostolos trazem muitas
+vezes um livro com figura iconographica.
+
+_A coroação de Nossa Senhora_ faz-se umas vezes por Jesus só, outras por
+tres pessoas da Santissima Trindade; outras ainda vê-se Nossa Senhora
+com a corôa na cabeça, sentada sobre o mesmo throno em que está o seu
+Divino Filho, o qual se lhe abraça ao peito.
+
+Deixariamos incompleta a historia iconographica de Nossa Senhora, não
+mencionando aqui a _Arvore de Jessé_, que se vê tantas vezes desde o XII
+seculo. Jessé adormecido serve de alguma maneira de raiz ao tronco
+mysterioso, o qual sáe quer do seu peito, quer de sua bocca, quer do seu
+cerebro. Os ramos d'este tronco separando-se, trazem na extremidade um
+dos antepassados do Redemptor; no cimo, uma flôr desabrocha e serve de
+apoio a Nossa Senhora, algumas vezes só, outras tendo nos braços o seu
+Divino Filho. As mais das vezes a arvore de Jessé complica-se, entre
+cada ramo está collocado um propheta com um phylateria mostrando a
+prophecia de que é auctor, e que se refere á vínda de Jesus Christo.
+Olhando para a extremidade d'esta arvore, mostra com o dedo onde deve
+repousar o Espirito Santo. No Oriente, não se limitam unicamente a
+intercalar os prophetas no meio dos ramos, ajuntam-lhe o divino
+_Balaam_, e os sabios da Grecia com as suas maximas. O XV e XVI seculos
+produziram um grande numero de arvores de Jessé.
+
+_Os Apostolos e os Evangelistas_.--_Apostolos_. Jesus Christo escolheu
+doze apostolos á frente dos quaes collocou S. Pedro. Depois da morte do
+Redemptor, o traidor Judas ficou substituido por S. Mathias. Além
+d'estes doze apostolos, que constituem a congregação apostolica assim
+chamada, deu-se tambem o nome de apostolos a alguns outros santos que
+haviam tomado uma parte activa e vasta na fundação da Egreja christã.
+Tal foi S. Paulo, convertido milagrosamente no caminho de Damasco, elle
+o grande promotor da conversão dos pagãos e appellidado, por esta razão,
+o apostolo dos gentios; taes foram ainda S. Barnabé, S. Lucas e S.
+Marcos, unicos discipulos, os quaes pelas suas prédicas, e, os dois
+ultimos tambem, pelos Evangelhos que compozeram, poderosamente
+contribuiram para a propagação da doutrina de Christo.
+
+Como S. Paulo figura quasi sempre entre os apostolos quando se
+representam reunidos em numero de onze, resulta que se supprime
+geralmente um; as mais das vezes é S. Mathias, o successor do traidor
+Judas, algumas vezes tambem S. Judas ou qualquer outro apostolo.
+
+Até ao XIII seculo, os apostolos, á excepção de S. Pedro e S. Paulo, não
+tinham nenhum attributo caracteristico pelo qual se podessem distinguir
+uns dos outros. Representavam-se todos de uma maneira uniforme, com um
+livro ou um rolo de papel na mão. Depois do XIII seculo, ficam
+geralmente caracterisados pelos instrumentos presumidos do seu martyrio;
+porém, como o genero do supplicio que soffreram não é muito bem
+determinado para todos, torna-se por vezes difficil designar com certeza
+o nome de alguns d'elles: todavia o que os caracterisa ordinariamente é
+o seguinte:
+
+S. Pedro traz as chaves ou por vezes a Cruz abatida, instrumento do seu
+supplicio; S. Paulo, a espada com que lhe cortaram a cabeça; S. João, o
+calix envenenado do qual saiu a morte sob a fórma de um dragão; Santo
+André, com a Cruz em fórma de X, e que tem o seu nome; S. Jeronymo, a
+espada, ou as mais vezes, o bordão e o vestido de peregrino guarnecido
+de conchas; S. Filippe, a cruz com haste comprida; S. Bartholomeu, um
+grande cutello do qual se serviram para o esfollar, e algumas vezes
+tambem uma cruz; S. Matheus, um machado, uma espada ou uma lança; S.
+Simão, uma serra; S. Judas, uma cruz ou um livro; S. Thiago, um bordão;
+S. Thomaz, uma grande pedra e por vezes ao mesmo tempo uma lança;
+finalmente S. Marçal, uma picareta ou um alfange.
+
+_Evangelistas_. Os Evangelistas continuaram a ser representados da mesma
+maneira que precedentemente, quer seja com a fórma humana, quer seja
+pelos symbolos dos quatro rios do Paraizo, quer seja por quatro figuras
+aladas.
+
+Já indicámos o logar respectivo que devem sempre occupar os animaes
+symbolicos nos quatro angulos de um quadrado ou nas extremidades dos
+quatro braços da Cruz. Esta regra ficou em vigor durante o periodo
+ogival.
+
+_Scenas diversas_. Seria impossivel indicar, mesmo resumidamente, todas
+as scenas representadas pelos pintores e esculptores christãos da idade
+média. Mencionaremos sómente as quatro principaes, e que se veem mais
+vezes.
+
+_O Dia de Juizo_. Esta scena encontra-se principalmente: 1.^o _no
+principio do periodo ogival_, esculpida nos tympanos dos portaes
+principaes das abbadias, cathedraes, egrejas das parochias e mesmo nas
+capellas; 2.^o _no fim do mesmo periodo_, pintada na nave principal das
+egrejas por cima do arco triumphal.
+
+Para dar uma ideia exacta da maneira como esta scena é representada nas
+principaes cathedraes francezas, faremos a descripção do Dia de Juizo,
+que se vê no portal central da Sé de Paris. Este assumpto é um dos mais
+bem compostos. A verga da porta está inteiramente occupada por figuras
+representando diversos misteres saindo dos seus tumulos, despertadas por
+dois anjos, os quaes, de cada lado, tangem trombeta. Todas estas
+personagens estão vestidas; ahi está um papa, um rei, guerreiros,
+mulheres e um preto. Na zona superior, está ao centro um anjo que peza
+as almas; dois demonios tentam fazer pender um dos pratos para o seu
+lado. Á direita de Jesus Christo estão os escolhidos, todos vestidos de
+compridas vestimentas e coroados. Estes escolhidos são representados sem
+barba, jovens e risonhos, olhando para Jesus. Á esquerda o demonio
+empurra uma multidão d'almas agrilhoadas vestidas com os fatos do seu
+mister. As expressões d'estas figuras são indicadas com superior
+talento: o terror, o desespero assignalam-se nas suas feições. Na parte
+superior está, ao centro Jesus Christo, representado semi nu, que mostra
+as suas chagas; dois anjos em pé, á direita e á esquerda, têem os
+instrumentos da Paixão; depois, estão de joelhos, implorando o
+Redemptor, Nossa Senhora e S. João. As curvaturas do portal do lado dos
+condemnados estão occupadas, na parte inferior, por vistas do inferno, e
+do lado dos escolhidos, por anjos e patriarchas, entre os quaes se vê
+Abrahão colhendo as almas no seu regaço; depois os escolhidos em grupos.
+Esta esculptura tão notavel é da era de 1210 a 1215, e estava
+inteiramente pintada e dourada. Ha a mesma representação nas cathedraes
+de Chartres, Amiens, Reims e Bordeus.
+
+O inferno é quasi sempre figurado por uma bocca enorme de monstro
+lançando chammas, no meio das quaes os démos, armados de grandissimos
+harpeos, abysmam os condemnados. Por vezes tambem é representado o
+inferno por uma grande caldeira na qual os démos precipitam as almas dos
+perversos; e, n'este caso, um demonio armado de um folle activa o fogo
+da caldeira.
+
+A scena _de se pezar as almas_ faz geralmente parte do Juizo final, e é
+quasi sempre representada da mesma maneira. O archanjo S. Miguel segura
+a balança: em um dos pratos está uma alma humana figurada por uma
+creança nua; emquanto ao outro, com o pezo que deve ter a alma do
+innocente, afim de ser admittido no paraizo, Satanaz procura que elle se
+incline para o seu lado. Esta scena, cujo fim era evidentemente inculcar
+aos ignorantes a ideia de dar conta a Deus depois da nossa morte, está
+representada nas miniaturas dos manuscriptos, e mesmo nas gravuras em
+madeira que ornam alguns livros impressos no fim do XV e no principio do
+XVI seculo.
+
+_Missa designada de S. Gregorio_. Este assumpto encontra-se muitas vezes
+nos paineis e nas miniaturas do XV seculo. O Santo papa diz a missa, e
+Jesus Christo apparece-lhe em vida, em pé sobre o altar, e á roda estão
+os instrumentos da Paixão. Traz os estigmates nos pés e nas mãos, e
+deixa saír do lado o sangue da chaga.
+
+_Alma humana_. Quando os artistas da idade média representam uma pessoa
+moribunda, indicam sempre a alma do justo que acaba de saír do corpo,
+por uma creancinha nua trazida nos braços de Nosso Senhor.
+
+_Sibyllas_. A representação dos prophetas tem-se ás vezes ajuntado ás
+sibyllas, que se reputa haverem predito o nascimento, a vida, a morte, e
+a resurreição de Jesus Christo. No XIII seculo, começou-se a fazer
+figurar em alguns monumentos, principalmente a sibylla do _Dies irae_.
+
+As doze sibyllas são: 1.^a A Sibylla da Persia, _percicae_, que tem na
+mão uma lanterna, porque ella annunciou a vinda do Messias; bastantes
+vezes o sol brilha por cima da sua cabeça. 2.^a A de Libya, _libicae_,
+que tem um brandão acceso e prediz o Redemptor como a luz do mundo. 3.^a
+A de Delphos, _delphicae_, que tem na mão uma corôa de espinhos, porque
+prophetisou as mortificações de Jesus Christo. 4.^a A do Mar Vermelho ou
+de Erythrea, _erythracae_, uma das mais celebres, que havia predito a
+ruina de Troyes; era a prophetisa das vinganças divinas; traz uma espada
+nua. 5.^a A de Cumas, _cumana_, egualmente muito citada, tem um
+presepio, porque annunciou o nascimento de Christo em uma manjadoura.
+6.^a A de Samos, _samia_, traz uma corôa de espinhos como a de Delphos,
+e um caniço, porque prophetisou a Paixão. 7.^a A Cimmerianna,
+_cimmeria_, prophetisou a crucificação, e por esta razão traz uma cruz
+da paixão. 8.^a A de Tivoli, _tiburtina_, tem na mão uma vara, por haver
+annunciado a flagellação do Redemptor. 9.^a A de Phrygia, _phrygia_,
+traz uma cruz de resurreição, no cimo da qual fluctuam tres bandeirolas
+encarnadas. 10.^a A de Hellesponto, _hellespontica_, tem por attributo
+uma rozeira florida, ou então uma cruz, porque annunciou algumas
+circumstancias da Paixão. 11.^a A Europa, _europaea_, tem um alfange,
+porque predisse a degolação dos innocentes. 12.^a Finalmente, a Sibylla
+Agrippa tem a vara como a de Tivoli.
+
+
+
+
+CAPITULO VI
+
+Periodo da Renascença
+
+
+_NOÇÕES PRELIMINARES_
+
+
+Não nos demoramos muito sobre as differentes phases da arte na epoca da
+renascença, mais apropriadamente moderna do que antiga; e que, por
+conseguinte, não pertence ao dominio da archeologia.
+
+Chama-se _renascença das artes e das lettras_ ao retrocesso para a arte
+classica antiga e para as litteraturas grega e latina. A renascença das
+artes estendeu-se não sómente á architectura, mas a todas as artes de
+desenho. A reacção favoravel para a architectura grega, romana ou
+classica, produziu-se primeiramente na Italia, onde nunca o estylo
+ogival tinha vigorado summamente, nem dominado só com poder absoluto.
+
+Proximo ao principio do XVI seculo, a architectura néo-classica transpoz
+os Alpes, e passou successivamente á França, Hespanha, Portugal,
+Belgica, Allemanha e Inglaterra. Os paizes mais afastados do
+renascimento, foram tambem os ultimos a adoptarem os seus principios
+architectonicos.
+
+Na França como na Belgica o progresso do novo estylo foi rapido, tendo
+apparecido quasi ao mesmo tempo.
+
+O retrocesso tão rapido e tão universal para as fórmas da arte classica,
+foi motivado em grande parte por um desejo de novidade, e por uma
+reacção contra a architectura ogival. Nota-se, realmente, que em
+architectura, mais que em qualquer outra arte, o gosto é sempre movido
+para a variedade; e é isto que explica como se póde dizer com verdade,
+que a historia da architectura offerece uma continuação de transições
+sem repouso. A esta causa principal vieram ajuntar-se muitissimas causas
+secundarias, taes como a reacção que se operou nos XV e XVI seculos, a
+protecção aos estudos gregos e latinos, e a invenção da imprensa, que
+concorreu tão admiravelmente para a diffusão das obras primas da
+litteratura e da arte antiga, pelas quaes se tinham apaixonado.
+
+Até ao meiado do XVIII seculo, a renovação das fórmas antigas fez-se
+exclusivamente conforme os modelos antigos de Roma e de Italia, modelos
+quasi todos não satisfazendo a respeito da conformidade artistica. Foi
+sómente n'esta epocha que se principiou a estudar os monumentos da
+melhor epocha ainda conservados em Athenas e na Grecia.
+
+Houve, entre o estylo ogival e o do renascimento, um periodo de
+transição, durante o qual se notou muitas vezes, no mesmo monumento, uma
+mistura, uma fusão de fórmas particulares a cada estylo. Portanto
+encontram-se edificios, os quaes, entre os detalhes melhor
+caracterisados do estylo ogival do XVI seculo, apresentam ornatos, taes
+como medalhões, folhagens e arabescos, copiados dos monumentos da Roma
+antiga. Outras vezes, janellas em ogiva são compostas de pinasios com os
+perfis no gosto da renascença. Finalmente, ás vezes as abobadas
+pendentes, os pinaculos e os campanariosinhos estão cheios de ornatos
+imitados dos edificios da antiguidade.
+
+
+*Caracteres da architectura da Renascença*
+
+
+_Comêço_. A architectura da renascença seguiu os mesmos principios
+fundamentaes que a architectura classica, isto é, as cinco ordens
+greco-romanas.
+
+Os primeiros architectos da renascença inspiram-se unicamente dos
+monumentos de Roma e da Italia. Ora, n'um grande numero d'estes
+monumentos, o _entablamento_, isto é, a parte superior da Ordem,
+composto do _friso_, da _architrava_ e da _cornija_, membros que, nas
+Ordens Gregas, servem sempre para ligar duas columnas proximas, tinha
+sido supprimido e substituido por arcos, os quaes vinham firmar-se nos
+capiteis d'essas columnas. Quando procuram empregar materiaes de pequena
+dimensão, a substituição do arco pelo entablamento é perfeitamente
+logica; porém esta não é a pratica seguida na epocha da _decadencia_
+romana, de interpôr ao fecho inferior do arco e ao açafate do capitel,
+um simulacro de entablamento da Ordem, entablamento que ficava
+completamente inutil, visto que o seu emprego está preenchido pelo
+_arco_. Na época da renascença, esta prática pouco racional e pouco
+reflectida foi geralmente adoptada, principalmente d'áquem dos Alpes.
+Além de que, foram buscar aos mesmos edificios da decadencia romana
+outros defeitos tambem notaveis no que diz respeito ás cornijas: em
+primeiro logar, quando muitas Ordens estão sobrepostas na altura de um
+monumento, como acontece frequentemente nas fachadas, põem-se _tantas
+cornijas_ quantas são as _Ordens_; depois, coisa mais singular ainda, a
+Ordem collocada _no interior_ de um monumento _conserva_ a sua cornija,
+isto é, o _remate do edificio_ destinado a ter _um telhado_ e um algeroz
+para dar saída ás aguas da chuva!
+
+A architectura do renascimento, todavia, não é uma simples mescla, uma
+copia servil da architectura greco-romana. Serve-se ella, na verdade,
+das cinco Ordens, mas ajustou-as para outros usos e para outros climas,
+aproveitando os progressos obtidos pela arte de edificar durante o
+estylo ogival. Os edificios que executou conforme os principios de
+construcção d'este ultimo estylo, foram enfeitados á maneira antiga,
+ornamentado superficialmente, ou desfigurados, como em S. Paulo de
+Londres, por paredes isoladas que encobrem a configuração architectonica
+do monumento; emquanto na Belgica, nas egrejas do renascimento, o
+systema do apparelho das abobadas ogivaes foi em toda a parte
+conservado, porém dissimulado com arte. As paredes exteriores das naves
+lateraes, muito grossas, preenchem o fim dos contrafortes, e muitas
+vezes esses arcos-butantes ficam revirados (isto é, collocados de
+maneira que a sua curva convexa fica posta na direcção do telhado
+d'essas naves), e apoiados nos arcos duplos d'elles.
+
+_Decoração_. Sob o ponto de vista da decoração pintada e esculpida,
+muito mais que sob o ponto de vista architectonico, o periodo da
+renascença, no sentido mais lato, póde-se dividir em muitos estylos,
+apresentando cada um caracteres distinctos. Estas sub-divisões se
+applicam particularmente ás producções da arte Franceza. 1.^o o estylo
+da renascença propriamente chamado, o qual comprehende o XVI seculo e a
+primeira metade proximo do XVII seculo; todavia sepára-se algumas vezes
+d'esta época nos annos 1610 a 1642, para lhe constituir o estylo Luiz
+XIII; 2.^o o estylo Luiz XIV (1643 a 1715); 3.^o o estylo Luiz XV (1715
+a 1774); 4.^o o estylo Luiz XVI (1774 a 1796); 5.^o finalmente o estylo,
+designado do imperio (primeiros annos do XIX seculo).
+
+Na origem da _renascença_, os ornamentos foram, como na architectura
+imitados quasi servilmente dos monumentos da antiguidade. As almofadas,
+frizos, pilastras e um grande numero de outros trabalhos architectonicos
+se revestiram, nos edificios os mais sumptuosos, de assumptos de
+decoração proveniente da arte greco-romana. As palmetas, folhas de
+acantho e triglyphos tornaram a apparecer em todo o logar. Viam-se
+tambem, genios alados, figuras naturaes e phantasticas de toda a especie
+enlaçadas nas grinaldas e em espiraes formando desenhos os mais
+caprichosos. Estes ultimos ornamentos, compostos principalmente conforme
+os modelos antigos achados em Roma nas _grutas_ ou ruinas do palacio de
+Titus, tiveram no principio o nome de _grotescos_, denominação mais
+propria do que a de _arabescos_, a qual lhe foi dada depois, porque os
+Arabes proscreviam severamente da sua decoração qualquer representação
+da natureza animada.
+
+O estylo da renascença não se conservou intacto senão até o principio do
+XVI seculo.
+
+Os ornamentos do estylo Luiz XIV consistem principalmente em grandes
+espiraes, palmas muito desenvolvidas, separadas ou envolvidas com os
+elementos de ordem architectural, medalhões, trophéus, etc.
+
+O estylo Luiz XV, que prima antes de tudo pela elegancia exaggerada nos
+pequenos detalhes, desce á affectação na lindeza. A esculptura
+decorativa abunda nas espiraes com folhagens myrrhadas e subtilmente
+contornadas; faz com frequencia uso de conchas ou embrechado,
+misturando-as em todas as suas composições. A linha recta cede o logar á
+linha curva, e sobretudo a symetria não é observada. No principio do
+XVIII seculo, o gosto se corrompeu de novo; volta-se no traçado do plano
+e nas fachadas dos edificios ás fórmas torcidas e ás linhas quebradas.
+Nos ornamentos dos maiores e soberbos contornos, as plantas vistosas do
+estylo Luiz XIV transformam-se em definhados filetes, torcendo-se e
+entrelaçando-se uns nos outros da maneira a mais singular, e
+acompanhados de abundantes obras de conchas e de grande numero de
+cupidos; o que fez dar a este _estylo exquisito e todo affectado_ o
+appellido de estylo _embrechado_ e estylo _Pompadour_.
+
+A affectação e o grande exaggero que caracterisam o estylo de Luiz XV
+motivaram cedo uma reacção. No reinado de Luiz XVI voltaram a empregar
+menos entrelaçados e menos entalhaduras. A descoberta de Herculanum e a
+publicação das _Antiguidades de Athenas_ contribuiram a levar o
+entendimento para o gosto mais serio, uma decoração menos contrafeita;
+fizeram vigorar as fórmas classicas da arte grega e romana, cujas
+investigações recentes vieram a descobrir os especimens importantes e
+notaveis.
+
+A época da revolução franceza e do directorio causou um extraordinario
+prejuizo á industria artistica. Quando, no principio do actual seculo,
+um novo estado politico ficou definitivamente constituido, o seu novo
+soberano, vencedor na Italia e no Egypto, cuidou em conservar junto de
+si as coisas que lhe recordassem as suas victorias gloriosas.
+
+No _estylo do imperio_ viu-se apparecer os gryphos, as sphinges, os
+feixes consulares, victorias com palmas e corôas de carvalho. Pouco
+tempo depois, esses assumptos foram quasi os unicos empregados na
+decoração tanto de architectura, como na mobilia.
+
+_Plano das egrejas_. A maior parte das egrejas da renascença têem a
+fórma da cruz Latina. As capellas que havia ao correr das naves lateraes
+e na nave principal das egrejas ogivaes, ficaram supprimidas em França,
+na Belgica e na Allemanha, porém conservaram-se na Italia. A capella mór
+e o cruzeiro terminavam geralmente por uma abside semicircular ou
+polygonal, apresentando no interior uma disposição de pilastras
+corinthias ou compositas, entre as quaes ha janellas e nichos. Arcadas
+de volta inteira, descançando sobre columnas ou pilares põem a nave
+principal em communicação com as naves lateraes. As portas, as janellas
+e todas as aberturas estão tapadas na sua parte superior por um arco de
+volta inteira.
+
+Os _triforiuns_ das egrejas ogivaes não se construiram na renascença.
+Primeiramente substituiu-os, durante algum tempo, uma galeria em sacada,
+tendo parapeito de cantaria vasado ou de obra de ferro; todavia pouco
+depois esse logar foi occupado por uma simples cornija com sacada
+bastante solida para servir como galeria, podendo-se andar á roda da
+nave principal, ficando na altura das janellas superiores.
+
+O monumento mais gigantesco e grandioso que tem produzido a architectura
+do renascimento é, sem duvida, a basilica de S. Pedro do Vaticano em
+Roma, cuja construcção foi dirigida pelos mais celebres architectos,
+Bramante, Raphael, os dois S. Gallo, Peruzzi, Miguel Anjo, Vignola,
+Maderno e finalmente Bernini, este artista de quem infelizmente o seu
+mau gosto em bellas-artes veiu a ser proverbial, sendo originado pela
+inveja dos seus emulos, que pretendiam tirar a fama ao seu superior
+talento: imaginando dar formas novas e as mais extravagantes ás suas
+composições architectonicas afim de supplantar os seus rivaes, morreu
+_desesperado_ por nada ter conseguido; posto que fosse dotado de
+talento, o seu desmarcado amor proprio veiu a causar-lhe o descredito do
+seu nome. N'esta colossal construcção da Basilica de S. Pedro
+consumiu-se mais de seculo e meio.
+
+_Fachadas das egrejas_. As fachadas compõem-se regularmente de duas, e
+algumas vezes de _tres Ordens de columnas sobrepostas_. A ordem inferior
+abrangendo ao mesmo tempo a nave principal e as lateraes, é mais larga
+que a ordem superior; essa corresponde á unica nave central, pois que o
+madeiramento das naves lateraes não sóbe nunca até o entablamento da
+primeira ordem. A ordem mais superior sempre terminada por uma attica ou
+um frontão triangular, tendo no vertice uma cruz ornatada nos angulos,
+acrotéros com vasos, fogaréos e tocheiros. Duas misulas deitadas de cada
+lado da ordem superior, preenchem os espaços dos angulos rectos
+produzidos pela superposição das duas ordens tendo desigual largura. As
+columnas da fachada estão geralmente embebidas um terço ou metade do seu
+diametro. Um ou tres portaes, conforme a importancia do edificio, dão
+ingresso nas naves.
+
+Os jesuitas, cuja Ordem se fundou no XVI seculo, vindo a ser muito rica
+e poderosa no XVII seculo, adoptaram em toda a parte esta composição
+para as fachadas de suas egrejas; por isso dá-se o nome do _estylo dos
+Jesuitas_ á architectura religiosa d'esta época. A maior parte das
+egrejas que estes religiosos construiram distinguem-se pela abundancia
+dos seus ornamentos, principalmente as edificadas na Belgica.
+
+_Abobadas_. As abobadas têem, como as da época antecedente, nervuras
+encruzadas, as quaes, em logar da fórma da ogiva, descrevem uma curva de
+volta inteira ou um arco de volta abatida. Os arcos duplos são largos e
+muitas vezes formados por almofadas pouco fundas. No XVI seculo, as
+abobadas tinham ás vezes decorações pintadas, e os seus fechos sustentam
+abobadas pendentes com muitas sacadas de bastante peso. Depois
+abandonou-se, além dos Alpes, a decoração pintada, substituindo-lhe os
+ornatos em relevo.
+
+_Torres_. As torres, geralmente construidas sobre plano quadrado, e
+compostas de dois, tres ou quatro andares sobrepostos e ornados de
+pilastras ou de columnas embebidas, têem muitas d'ellas uma balaustrada
+á bôca da flecha, com as fórmas mais variadas; campanulada, piriforme,
+pyramidal ou uma fórma mais complicada ainda.
+
+
+*Mobilia religiosa*
+
+
+_Altares_. Durante algum tempo continuou o uso dos retabulos com
+divisões multiplices, no genero d'aquelles dos ultimos annos do periodo
+ogival, porém tendo as molduras das almofadas em detalhes no gosto do
+renascimento.
+
+Foi proximo do XVI seculo que uma mudança radical appareceu na fórma e
+disposição dos altares. Os retabulos foram então substituidos pelos
+porticos copiados dos arcos de triumpho da antiguidade, encimados com
+frontões de fórmas muito variadas. Serviram-se quasi sempre de marmores
+raros e preciosos, sobretudo para as columnas, adquirindo-os com grande
+despeza, dos paizes os mais distantes. A arcada imitando o _arco de
+triumpho_ foi ornada, no principio, de estatuas e de altos e
+baixo-relevos, depois por retabulos de grandes dimensões; e estes mesmos
+acabaram em pouco tempo para serem substituidos geralmente por
+esculpturas.
+
+Quando no XVII e no XVIII seculos, as fórmas extravagantes (_rocôcó_)
+prevaleceram no systema da decoração, os altares tambem ficaram
+sobrecarregados de ornamentos de pessimo gosto, e appareceram as
+columnas _torcidas_, em _espiral_ e em _saca-rolhas_!
+
+_Tabernaculos_. O uso de collocar tabernaculos para conservar a
+eucharistia sobre os altares principaes e secundarios, generalisou-se no
+fim do XVI seculo. Até essa época as particulas se conservaram, como
+durante o periodo ogival, nos tabernaculos isolados em fórma de torre ou
+em armarios abertos na parede, por detraz ou á ilharga do altar. Houve
+mesmo paizes onde o antigo costume não ficou abandonado inteiramente só
+muito depois do XVII seculo.
+
+Os tabernaculos de marmore e de madeira que se collocavam sobre o altar
+desde a época do renascimento, compõem-se geralmente de um cylindro ôco
+ornado com riqueza e reunido a _predella_ ou throno, no qual se põem
+castiçaes sobre misulas reviradas. O cylindro fechado no seu cume por
+uma tampa de fórma hemispherica tem por remate um crucifixo, dividido
+por um, dois ou tres compartimentos com separação, e girando sobre um
+eixo vertical.
+
+_Cadeiras do côro, obra de talha e confissionarios_. As obras de
+entalhador que ornam muitas egrejas do XVII seculo, são as principaes
+obras deixadas pela época da renascença.
+
+As costas das cadeiras do côro compõem-se sempre de almofadas de
+marcenaria ornadas de baixos-relevos ou de pinturas, separadas umas das
+outras por columnasinhas da Ordem Corinthia ou Composita, sustentadas em
+sacadas por misulas com bella obra de talha. Os fustes d'essas
+columnasinhas, rectos ou torcidos, estão cheios de lindos arabescos e
+delicadas folhagens. A obra de talha e dos confissionarios apresentam na
+sua decoração de esculptura bastante similhança com as das cadeiras do
+côro.
+
+_Jubéos e balaustradas_. Os _jubéos_ da renascença compõem-se geralmente
+de tres arcadas de volta inteira, que descançam sobre columnas ou
+pilastras imitadas das Ordens classicas.
+
+Collocam-se os jubéos á entrada da capella mór nas grandes egrejas até
+proximo do meiado do XVII seculo.
+
+No meiado do XV seculo, uma grande reacção se fez contra os jubéos,
+porque, dizia-se então, destruiam o aspecto architectonico e impediam os
+fieis de vêr o sacerdote no altar. Muitos foram desmanchados n'esta
+época, outros transportados proximo da fachada Occidental da egreja, a
+fim de servirem de tribunas para collocar os orgãos.
+
+As _balaustradas_ destinadas a vedar a capella mór e a separar das naves
+lateraes as capellas, ou resguardar certas partes da mobilia religiosa,
+foram poucas vezes feitas de ferro ou de madeira, faziam-se de
+preferencia de marmore ou latão. A sua composição era de repetidas
+columnasinhas de fórma classica, quer com balaustres em pé ou
+_revirados_, o que lhe fez dar o nome de _balaustrada_.
+
+Muitas vezes assentavam extraordinarios monumentos funerarios entre
+essas separações da capella mór e as naves nas cathedraes e nas egrejas
+importantes.
+
+_Caixas de orgão_. Na época do renascimento, deu-se ás caixas dos orgãos
+as maiores dimensões. Collocaram-se, primeiramente, nas egrejas ogivaes,
+do lado do Evangelho, na parte inferior do _triforium_, no primeiro ou
+segundo vão da nave principal. Depois, isto é, perto do meiado do XVI
+seculo, foram assentes proximo do cruzeiro, á entrada dos lados lateraes
+da capella mór. Finalmente, quando as dimensões dos orgãos se foram
+desenvolvendo desmedidamente, estabeleceram-se tribunas especiaes na
+nave central, proximo da frente Occidental da egreja. As mais antigas
+caixas dos orgãos estão cobertas de obra de talha.
+
+_Pulpitos_. Durante o periodo da renascença, o pulpito teve dimensões
+muito maiores que precedentemente. No XVI e XVII seculos foram
+construidos geralmente de madeira; porém desde o meiado do seculo
+seguinte, ajunta-se algumas vezes o marmore á madeira. Os pulpitos das
+egrejas de primeira ordem compõem-se muitas vezes de grupos de estatuas
+acompanhadas de arvores, rochedos e outros detalhes pittorescos
+representando factos da historia sagrada ou ecclesiastica.
+
+_Tumulos e campas_. No XVI seculo os cenotaphios eram compostos ainda
+como durante o periodo ogival, d'um sóco ou macisso de alvenaria,
+coberto por uma grande lousa, sobre a qual se vê a estatua do finado. Á
+roda do sóco acham-se por vezes estatuasinhas debaixo de arcaduras de
+volta inteira descançando sobre columnelos jonicos, corinthios e
+compositos, outras vezes, as arcaduras e as estatuasinhas estão
+substituidas por uma ordem de brazões. A figura do finado vê-se umas
+vezes deitada, outras de joelhos sobre uma almofada ou genuflexorio.
+Esta ultima attitude foi a mais commum no fim do periodo: todavia no
+XVII seculo, os monumentos sepulchraes veem a ter uma composição muito
+mais complicada; os sarcophagos tiveram as mais variadas fórmas, e as
+estatuas dos finados foram acompanhadas de outras estatuas allegoricas,
+como a morte tendo uma foice, figuras de anjos, a Fé, Esperança,
+Caridade, etc.
+
+No XVII seculo, os mausoleus encontram-se muitas vezes collocados por
+baixo de uma arcada muito ornada no estylo do renascimento. Esta
+decoração architectonica applicada sobre as paredes de uma capella ou
+das naves lateraes, da nave principal e capella mór conservou-se nos
+XVII e XVIII seculos, mas disposta com acerto, com as modificações
+introduzidas successivamente na architectura. Na segunda metade do XVII
+seculo, e muito mais frequentemente no seculo seguinte, rematavam os
+tumulos com pyramides e obeliscos em meio relevo, ornados de bustos, em
+medalhão, do finado. Os cyprestes, as columnas quebradas, as urnas
+funereas, genios com fachos derribados, todas as reminiscencias pagãs
+vieram a ser tambem uma decoração mais seguida n'esta ultima época.
+
+O uso das _campas_ continuou durante o periodo do renascimento, e o seu
+numero augmentou muito relativamente á época precedente. No XVI e no
+XVII seculos eram postas no pavimento das egrejas e dos claustros;
+tambem ás vezes se assentavam na grossura da parede, junto do logar em
+que fôra sepultado o finado. As mais antigas, especialmente as da
+segunda classe, estão cobertas em parte por figuras em alto e baixo
+relevo, em parte com inscripções. Mais tarde limitaram-se a uma simples
+inscripção acompanhada de um symbolo ou de um brazão.
+
+A maior parte das campas são de calcareo azul ou de marmore preto, e
+muitas vezes têem as inscripções embutidas com marmore branco. Acham-se
+tambem algumas lousas funerarias de latão, cujos traços gravados estão
+cheios de um esmalte encarnado ou preto, posto a frio.
+
+Desde o começo do XVII seculo, as inscripções funereas principiam
+frequentemente pela fórma pagã D (_eo_) O (_ptimo_) M (_aximo_), ou com
+as letras P. M. interpretadas PIAE MEMORIAE, mas isso tem o
+inconveniente de fazer directamente allusão ao P (_iis_) M (_anibus_)
+dos antigos romanos.
+
+_Pias baptismaes_. As pias baptismaes apresentam pouca importancia; a
+iconographia tão esplendida e tão abundante de symbolismo que se notava
+sobre as pias romãs, e algumas vezes ainda sobre as do periodo ogival,
+desapparece de todo. Ellas foram então formadas de simples pias de
+marmore, circulares ou polygonaes, tendo a fórma de uma semi-esphera ôca
+e achatada, ás vezes ornadas com molduras de fórma de perolas e assentes
+sobre um pedunculo com molduras. As tampas são de latão ou de madeira.
+
+_Obras de ourivesaria e de esmaltador_. Durante o periodo da renascença,
+os ourives serviram-se princípalmente do trabalho de estampar em relevo,
+da cinzelura e da gravura para ornar os objectos de ourivesaria. Os
+esmaltes de côres, cujo uso havia sido introduzido no fim do XV seculo,
+concorreram egualmente ás officinas de Limoges, Augsbourg e de
+Nuremberg. Os _Limousinos_ cobriam quasi sempre com pintura esmaltada as
+peças metallicas, grandes e pequenas, transformando-as assim em paineis
+ou medalhões: os _Allemães_ empregaram os esmaltes, não sómente como
+faziam os Limousinos, para pintar pequenos modilhões, muitas vezes
+camafeus côr de rosa, e os applicavam sobre os pés dos calices, das
+custodias e sobre outros logares das suas obras, mas serviam-se tambem
+para fazer realçar, pelo emprego do colorido superficial, certos
+detalhes das suas peças de ourivesaria, por exemplo, as figuras,
+folhagens, flôres e grinaldas.
+
+O gosto pelos assumptos mythologicos, que dominava nas artes como na
+litteratura, exerceu a sua influencia na ourivesaria religiosa. Os
+deuses, os semi-deuses e os monstros da antiguidade pagã foram
+resuscitados. Ainda mais, apparecendo nos assumptos da historia da
+Biblia ou das legendas dos Santos, os artistas curavam muitas vezes na
+reproducção dos heroes do paganismo: representavam o Padre Eterno com as
+feições de Jupiter antigo; suppunham exaltar Nossa Senhora
+assemelhando-a ás deusas mythologicas; os anjos vieram a ser genios nús,
+e as tres Graças serviram para personificarem as virtudes theologaes.
+Entre os arabescos via-se reproduzir os Centauros, Pans, Sylvanos,
+Tritões, Nereidas; representações onde a natureza humana e a natureza
+animal se reunem da maneira a mais singular. Os objectos do culto
+revestem-se com todas as excentricidades, e teem muitas vezes dimensões
+fóra de toda a proporção.
+
+_Calices_. Os ourives do XVI seculo abandonam pouco a pouco as tradições
+da edade média, e, posto que a fórma antiga da taça se conserve ainda
+algum tempo mais ou menos primitiva, o calix vem a ser cada vez maior. A
+principiar do meiado do XVII seculo, os artistas deixam-se levar pela
+sua imaginação, esquecendo completamente as boas tradições dos tempos
+anteriores. O calix chega, e mesmo vae além muitas vezes, á altura
+desmedida de 35 centimetros; a taça estreita-se muitas vezes de maneira
+que na communhão o padre é obrigado a curvar a cabeça para traz; o nó
+não se distingue já da hastea, e o diametro do pé do calix diminue a tal
+ponto que ao menor choque o calix está arriscado a cair.
+
+A patena é uma simples chapa redonda, não tendo nenhuma cavidade.
+
+_Pyxide_. As pyxides distinguem-se das que havia nas épocas precedentes
+pelas suas muito grandes taças; sendo raramente ornadas de lavor
+representando assumptos religiosos. A começar do XVII seculo, a sua
+tampa não fica ligada á taça por um gonzo.
+
+_Custodia_. As custodias de fórma radiante, foram, póde-se dizer, as
+unicas conhecidas da época do renascimento; teem geralmente as dimensões
+muito exaggeradas. As custodias com cylindro de crystal apparecem apenas
+no XVI seculo. Muitas vezes mesmo mudaram mais tarde estes ultimos,
+substituindo o cylindro de crystal por um sol radiante. Nas custodias
+ricas, o oculo com sol radiante é algumas vezes ornado de grupos, scenas
+em alto relevo e estatuasinhas, que não convém, por fórma alguma, junto
+ao Santissimo Sacramento. Essas extravagancias notam-se mais vezes ainda
+nas custodias modernas.
+
+_Relicarios_. Os grandes relicarios do renascimento eram as mais das
+vezes de madeira pintada e dourada. Faziam-se ainda algumas vezes os
+relicarios de madeira, apresentando a imitação de egrejas
+contemporaneas, com columnas, entablamento, frontão, etc. Muitas vezes
+tambem serviam-se de bustos de Santos de madeira pintada e dourada, que
+se collocavam sobre uma base ornada com molduras com ovanos.
+Encaixilhavam-se as reliquias no meio da face anterior d'essa base,
+mettendo-as debaixo de vidro, ou em um pequeno. relicario de metal.
+
+_Estofos preciosos_. _Tecidos_. No XVI seculo, os estofos de que se
+serviam para as vestimentas, os mais ricos eram tecidos com oiro ou
+prata, brocado e velludos de Genova e de Utrecht.
+
+_O estofo com oiro ou prata_ é um tecido feito com fios cobertos de
+qualquer d'estes metaes. Quando os desenhos são tecidos servindo-se dos
+mesmos fios ou fios de seda, designam-se _brocado_. Finalmente, se em
+logar de fios de seda se servem de velludo, chama-se _velludo de
+Genova_.
+
+Antes do XVII seculo não se conhecia o _velludo lavrado_: da sua
+superficie tiravam-se servindo-se da thesoura, certas partes do pello
+para formar desenhos de flôres e grinaldas. Mais tarde conseguiram obter
+um resultado analogo comprimindo os velludos com uma poderosa machina
+movida a braços ou pela agua; foi este o processo que forneceu, durante
+muitos seculos, o _velludo batido_. O _velludo_ dito de _Utrecht_ tem
+geralmente o pello mais comprido que as outras qualidades de velludos, e
+distingue-se por uma consistencia mais forte.
+
+_Bordados_. Os _bordados_ da época do renascimento podem-se dividir em
+duas grandes classes. A primeira comprehende os estofos bordados, tendo
+conservado a sua flexibilidade, e consistindo o seu apreço na disposição
+artistica dos fios de oiro, prata, seda ou lã de differentes côres,
+empregadas pelo bordador. Os bordados de segunda classe apresentam em
+estofo um aspecto esculptural, devidos aos effeitos das grinaldas,
+flôres, fructos e figuras com as quaes estão ornados; podia-se suppôr
+que o bordador, esquecendo o seu proprio officio, foi pedir auxilio a
+uma arte estranha, que não é nem póde ser a que lhe pertence! Inutil
+seria accrescentar, suppomos, que a logica pedia que o bordador
+empregasse os processos de execução dos quaes legitimamente elle dispõe
+pela natureza mesmo do seu officio, áquelle que empregou da arte da
+esculptura, arte da qual os effeitos nos parecem incompativeis com os do
+bordado inconvenientemente produzido.
+
+_Pannos de raz_. Os pannos de raz continuaram em uso, e obtiveram mesmo
+maior acceitação durante o periodo do renascimento. Nunca os teáres de
+alta e baixa trama foram nem mais numerosos, nem tiveram maior uso que
+no XVI seculo. O centro de fabrico de mais importancia n'esta época foi
+Bruxellas, cujos productos alcançaram primazia não sómente pela
+habilidade dos operarios, mas tambem pelos cuidados constantes que se
+empregavam na preparação e applicação do tabalho das materias de que se
+serviam na sua execução. O magistrado communal da cidade não desprezava
+nenhum meio para conservar a merecida reputação das officinas de
+Bruxellas, que contribuiam com uma tão grande parte para a prosperidade
+nacional. Finalmente, para conseguir pannos de raz perfeitos, elle
+prohibiu, por um edital, de 24 de abril de 1425, que se pintassem ou
+retocassem com pincel as encarnações dos tecidos de uma certa dimensão;
+pelo mesmo edital promettia, além d'isso, aos fabricantes a propriedade
+artistica de seus grandes modelos de desenhos, estabelecendo punições
+muito severas contra os falsificadores. Tres annos depois, isto é, em
+maio de 1528, promulgou um outro edital mais notavel ainda, ordenando
+que toda a peça fabricada na cidade e medindo mais de seis varas devia
+trazer d'alli em diante na ourela inferior: de um lado uma das tres
+marcas dos fabricantes, Bruxellas, Antuerpia e Tournay, e do outro um
+pequeno escudo entre dois BB, iniciaes da palavra Bruxellas.
+
+Em 1544, a obrigação de ter a marca foi extensiva pelo governo a todas
+as cidades dos Paizes-Baixos.
+
+Na marca de Bruxellas algumas vezes o B está voltado, ficando os dois
+anneis do B virados para o escudo. A marca de Antuerpia é formada por
+uma mão acompanhada de uma flor de liz; a de Tournay mostra uma torre.
+
+Durante o periodo ogival os pannos de raz reproduziram assumptos
+religiosos e, algumas vezes tambem, figuras allegoricas ou contos de
+cavallaria. Á proporção do adiantamento no XVI seculo, os assumptos
+religiosos tornam-se mais raros; ficando preferidas as representações
+que se referissem á mythologia pagã ou á historia antiga da Grecia e dos
+Romanos.
+
+A fabricação dos pannos de raz de Bruxellas declinou sensivelmente
+durante a ultima metade do seculo XVI, por causa das perturbações
+religiosas que assolaram a Belgica.
+
+A Antuerpia era mais um deposito commercial que um centro de producção.
+Desde o XV seculo, os commerciantes expediam os pannos de raz para toda
+parte; tomando no XVI seculo este commercio uma extensão maior.
+
+No principio do XVII seculo, a concorrencia de muitos paizes
+estrangeiros estabeleceu manufacturas officiaes, fazendo declinar a
+industria da Belgica. Todavia os novos estabelecimentos foram fundados
+com o concurso dos mestres e operarios vindos de Bruxellas.
+
+Durante a segunda metade do XVII seculo o fabrico dos pannos de raz
+bruxellezes principiaram a affrouxar, tanto pela sua qualidade, pois não
+empregavam as boas tradições artisticas, como principalmente pela
+fundação, em França, da manufactura real dos Gobelins, estabelecida em
+1662 por Luiz XIV. A direcção d'este estabelecimento foi entregue ao
+pintor O'Brun, que tinha um pessoal numeroso, á frente do qual estava,
+entre outros, officiaes, João Jans, habil tapeceiro, oriundo de
+Oudenarde, que foi residir para Paris, depois de 1650, com grande numero
+de operarios flamengos. A concorrencia da fabrica dos Gobelins causou a
+ruina das officinas de Bruxellas.
+
+A cidade de Oudenarde, que já tinha officinas de tapeçaria no seculo XV,
+produziu nos seculos XVII e XVIII tapeçarias de um genero especial,
+designado sob o nome de _Verduras_. Representavam, não assumptos
+historicos, mas paisagens animadas por algumas pequenas figuras de
+homens e animaes, assim como vistas de castellos ao longe. O seu nome
+deriva da circumstancia dos tons de verde-carregado que predominam
+geralmente n'estas composições. A industria da tapeçaria acabou em
+Oudenarde em 1772.
+
+No XVIII seculo, a illusão da manufactura dos Gobelins foi tão grande na
+Allemanha, que a palavra Gobelin veiu a ser synonimo de tapeçaria de
+alta e baixa lissa, e tem conservado até hoje esta significação.
+
+
+*Iconographia*
+
+
+Uma revolução se effectuou na época do renascimento, na representação da
+natureza humana. Até ao XV seculo, a nudez das figuras não era
+admittida, não sómente na architectura religiosa, como na architectura
+civil. Dissimulavam-se mesmo de proposito as fórmas dos corpos debaixo
+da roupagem do vestuario, com receio de despertar as paixões sensuaes;
+os esculptores do renascimento _fizeram tudo ao contrario_: tomaram a
+taxa de executar sem disfarce a natureza, e dar ao seio, aos hombros, ao
+corpo um desenvolvimento de fórmas que na edade média se tinha
+dissimulado debaixo da roupagem. O retrocesso do genio para os estudos
+classicos levou, por um mesmo estimulo, os artistas ao estudo da
+anatomia do corpo humano: vieram a ser pagãos sem comtudo deixarem de
+ser christãos, e principiaram a representar, até no sanctuario das
+egrejas, a imagem núa da mulher, faunos, etc., nas attitudes as mais
+lascivas: foi esta a propensão da arte desde o XVI seculo. A começar
+d'esse momento, foi a sensualidade e a nudez que dominaram na maior
+parte das pinturas e esculpturas mesmo as religiosas. Muitas vezes nas
+egrejas, os assumptos legendarios ficam substituidos por scenas tiradas
+da mythologia. Estas mesmas com figuras núas se vêem sobre os vasos
+sagrados. Os anjos, que abundam nos edificios religiosos, são genios,
+cupidos com azas, dispostos para entrarem no banho.
+
+Entre as representações proprias do periodo do renascimento,
+mencionaremos uma unica: _A deposição de Jesus Christo no tumulo_, que
+se representa em grande numero de egrejas com figuras de grandeza
+natural. Além do corpo inanimado de Christo, vêem-se mais sete
+personagens. Nicodémos e José de Arimathéa pegando nas extremidades da
+mortalha sobre a qual descança o corpo do Redemptor; Nossa Senhora, o
+apostolo S. João e as tres Marias, Maria Magdalena, Maria Cleóphas e
+Maria Salomé, estão em fileira, entre as duas primeiras por detraz de
+Christo.
+
+Concluiremos estas considerações pelas palavras de um douto archeologo
+que estygmatisa o sensualismo:
+
+Podemos todavia ponderar que o estylo da architectura da Renascença,
+querendo adoptar as formas da architectura classica, não produziu
+progresso nenhum na arte architectural, pelo contrario a fez
+_retrogradar_; se os artistas antigos tivessem conhecido essas ousadias
+engenhosas dos periodos em que a architectura apresentou as suas novas
+idéas artisticas, não teriam espontaneamente renunciado ao grande numero
+de fórmas que a Renascença se lembrou de avivar; em uma palavra, não se
+teriam adoptado modos differentes antigos, que não significavam ser o
+resultado de symptoma de progresso, sendo pelo contrario uma retroacção
+da arte, pois não tinham progredido nas bellezas essenciaes no estylo
+antigo, tendo apenas alterado ao mesmo tempo a perfeição mechanica e a
+belleza racional da arte classica.
+
+
+FIM
+
+
+
+
+Nomes dos Rev.^{os} Parochos
+
+_QUE FORAM ASSIGNANTES D'ESTA PUBLICAÇAO_
+
+
+Alexandre de Faria e Silva--Beneficiado da Sé d'Evora--Correio do
+Collegio.
+
+Alexandre Ramos Cid--Santa Maria da Feira--Beja.
+
+Alfredo Elviro dos Santos--Secretario do Patriarchado--Lisboa.
+
+Antonio d'Almeida Estrella--Rua do Bomjardim, 187--Porto.
+
+Antonio Ferreira da Gama--Alfarellos--Alfarellos.
+
+Antonio Luiz Pinto de Carvalho--Cartaxo--Cartaxo.
+
+Antonio Luiz Thiago Mesquita--S. Miguel--Villa Franca do Campo.
+
+Antonio Narcizo Pereira--Rua da Borragem--Almada.
+
+Antonio Roza de Carvalho--Nossa Senhora da Conceição--Torres Novas
+(Alqueidão do Sena).
+
+Antonio dos Santos Figueiredo--Seminario de Portalegre.
+
+Antonio dos Santos Silva--Santa Catharina da Fonte do Bispo--Tavira.
+
+Caetano Xavier d'Almeida da Camara Manuel--Evora.
+
+Caetano Honorio da Graça e Sousa--Seminario de Portalegre.
+
+Domingos José Alves Almeida--S. João Baptista--Vieira (Mosteiros).
+
+Eugenio de Freitas Cavalleiro de Sousa--Rua da Bella Vista, á Lapa, 7,
+2.^o--Lisboa.
+
+Faustino Antonio de Moraes--S. Saturnino--Fanhões.
+
+Francisco da Conceição Costa--S. Pedro--Elvas.
+
+Francisco Ferreira Flôres--Nossa Senhora da Visitação--Ourem.
+
+Francisco José Monteiro--Nossa Senhora da Encarnação--Mirandella.
+
+Francisco Lourenço Cardoso--Nossa Senhora da Assumpção--Caminha.
+
+Francisco Maria de Vasconcellos--Nossa Senhora do Milagre--Leiria
+(Vieira).
+
+João Baptista de Mendoça--Nossa Senhora da Graça--Olhão (Moncarapacho).
+
+João David d'Azevedo Barros--Rua do Bonjardim, 158--Porto.
+
+João José de Mattos Ferreira--Santa Maria e S. Miguel--Cintra.
+
+João Maria de Mendoça Vasques--Nossa Senhora da Conceição--Silves
+(Alcantarilha).
+
+João Nepomuceno da Costa--S. Pedro de Penaferrim--Cintra.
+
+Joaquim Antonio dos Reis--S. Domingos de Bemfica.
+
+Joaquim Antonio Teixeira--Algarve--Loulé.
+
+Joaquim Bernardo das Dôres--Cacella--Villa Real de Santo Antonio.
+
+Joaquim José d'Ánova--Povoa de Varzim--Povoa de Varzim.
+
+Joaquim Maria Duarte Dias.
+
+Joaquim Martins de Carvalho--Coimbra.
+
+Joaquim Pereira de Moraes (Abb.)--Santa Maria--Taboaço (Sendim).
+
+Joaquim Rodrigues Barroso--Nossa Senhora dos Prazeres--Vizeu
+(Abravezes).
+
+Joaquim dos Santos Sequeira--Seminario de Portalegre.
+
+José Alves de Mattos (Dr.)--Reitor do Seminario de Santarem.
+
+José Baptista Pereira--Senhor Jesus--Obidos Sanguinhal.
+
+José Bernardo dos Santos--Borba.
+
+José David d'Azevedo Barros.
+
+José Diogo Ribeiro--Vimieiro--Correio de Alcobaça.
+
+José Farinha Martins--Seminario de Portalegre.
+
+José da Luz Capella--S. Miguel do Pinheiro--Mertola.
+
+José Maria Tavares Portugal--Nossa Senhora d'Assumpção--Vianna do
+Castello (Gaveão).
+
+José Ribeiro da Silva--Seminario de Portalegre.
+
+José Victorino de Carvalho--Reitor de Marcello--Santa Cruz de Villa
+Aleã.
+
+Luiz José Nunes (Abb.)--S. Miguel--Bouças (Leça da Palmeira).
+
+Manuel Branco de Lemos--Salvador--Ilhalvo.
+
+Manuel Francisco dos Santos Peixoto--Val de S. Sebastião--Ilha Terceira.
+
+Manuel Ferreira Peixoto de Sousa--Vera Cruz--Aveiro.
+
+Manuel Henrique de Sousa Machado--S. Martinho de Bornes.
+
+Manuel José Bernardo Coelho--S. Thiago--Tavira.
+
+Manuel Maria da Costa--S. Matheus da Calheta--Ilha Terceira.
+
+Manuel Marques Monteiro--Nossa Senhora da Conceição--Nellas.
+
+Manuel Ribeiro de Mello--Valladares--Correio de Gaia.
+
+Manuel dos Santos Lourenço--S. João Baptista--Feira (S. João de Vêz).
+
+Mathias M. Grave--Seminario de Portalegre.
+
+Miguel Antonio da Fonseca e Sousa--S. Faustino--Pezo da Regoa.
+
+Paulo da Costa--Rua do Infante D. Augusto--Coimbra.
+
+Prior da Freguezia de Cezimbra.
+
+Prior da Freguezia de S. Miguel--Vagos (Sôza).
+
+Thomaz Joaquim d'Almeida (Dr.)--Santo André--Mafra.
+
+Vice-Reitor do Seminario de Faro.
+
+Victorino da Silva Araujo--Leiria.
+
+Zephyrino José Pinto.
+
+
+
+
+INDICE
+
+
+
+Ao leitor. 5
+
+Introducção. 7
+
+*Capitulo I*--Principios da arte christã no Occidente.
+
+_Primeiro periodo_. 13
+
+*Capitulo II*--Descripção das catacumbas de Roma; 1.^o periodo. 14
+
+Symbolos ou allegorias dos primitivos christãos. 16
+
+Monogramma de Christo. 18
+
+Sarcophagos. 21
+
+Edificios religiosos construidos nos tres primeiros seculos. 23
+
+Cemiterios. 24
+
+Paramentos e objectos do culto. 25
+
+*Capitulo III*--Estylo latino. 25
+
+Caracteres d'este estylo. 31
+
+Decoração dos monumentos do periodo latino. 32
+
+Narthex, fachadas e portaes das basilicas. 33
+
+Janellas e vidraças. 33
+
+Altar nas egrejas do Occidente. 36
+
+O _ciborium_ durante o periodo latino. 39
+
+Cemiterios--sarcophagos--campas e tumulos. 42
+
+Os calices e patena. 45
+
+Os crucifixos e os castiçaes. 48
+
+Diptycos. 49
+
+Estofos preciosos. 50
+
+Paramentos sacerdotaes. 53
+
+Mosteiros latinos. 55
+
+Iconographia do periodo latino. 55
+
+Caracteres do estylo bysantino. 57
+
+Systema de construcção. 58
+
+Duração exterior e interna das egrejas. 58
+
+*Capitulo IV*--Periodo Roman. 60
+
+Caracteres do estylo lombardo. 62
+
+Duração monumental. 66
+
+Estylo roman durante os seculos XI e XII. 67
+
+Caracteres da architectura roman. 69
+
+Esculptura monumental no seculo XI. 71
+
+Atrios e portaes romans. 73
+
+Caixilhos rendilhados e vidraças pintadas. 75
+
+Columnas anneladas--ornato designado--garra. 77
+
+Capiteis da architectura roman. 78
+
+Arcadas e arcaduras nos seculos XI e XII. 79
+
+_Triforiums_ e cornijas. 81
+
+Contrafortes e telhados. 83
+
+Torres e campanarios. 84
+
+Pintura das paredes e pintura historica. 86
+
+Altares fixos, retabulos e relicarios. 89
+
+Piscinas. 93
+
+Doceis--Cadeiras episcopaes. 95
+
+Capellas funerarias--tumulos--pedras tumulares. 96
+
+Pias baptismaes. 98
+
+Esmaltes. 99
+
+Ourives de Limoges. 101
+
+Calices e patênas. 102
+
+Grades. 103
+
+Alfaias religiosas. 104
+
+Restauração artistica. 105
+
+Custodias--pyxides e ciborios. 106
+
+Relicarios e urnas. 108
+
+Corôas suspensas nos altares. 112
+
+Cruzes d'altar e para procissões e candelabros. 113
+
+Evangeliarios e suas capas. 116
+
+Baculos pastoraes e sapatos lithurgicos. 120
+
+Mitras. 122
+
+Alfaias preciosas e paramentos sacerdotaes e suas côres. 123
+
+Abbadias--Mosteiros--Claustros dos capitulos. 129
+
+Iconographia, _a sciencia das imagens_. 132
+
+A cruz e a crucificação. 137
+
+Personagens e accessorios historicos e allegoricos. 143
+
+Evangelistas e seus symbolos. 152
+
+Assumptos religiosos representados sobre os monumentos dos seculos XI e
+XII. 155
+
+*Capitulo V*--Periodo ogival. 159
+
+Diversas fórmas de ogiva. 160
+
+Origem da ogiva e do estylo ogival. 162
+
+Periodo de transição do estylo roman para o ogival. 164
+
+Caracteres da architectura ogival. 165
+
+Plano das egrejas do XIV e do XV seculos e aspecto exterior das egrejas.
+ 169
+
+Systema de construcção. 172
+
+Esculptura monumental. 175
+
+Fachadas--Alpendres--Postaes. 179
+
+Janellas no periodo de transição. 185
+
+Rosaceas--Vidraças incolores. 192
+
+Vidraças pintadas. 195
+
+Idem do XIII seculo. 200
+
+Idem pintadas do XIV seculo. 204
+
+Amarello de prata. 206
+
+Vidraças pintadas do XV seculo. 207
+
+Idem pintadas do XVI seculo. 211
+
+Idem do XVII seculo. 214
+
+Idem do XVIII seculo. 216
+
+Pilares--Columnas. 216
+
+Bases e columnas. 219
+
+Capiteis. 221
+
+Modilhões--misulas. 223
+
+Arcadas--arcaduras. 224
+
+Cornijas--platibandas. 228
+
+Estabilidade e plano das abobadas. 231
+
+Egrejas que teem a sua nave central muito mais elevada que as outras
+naves lateraes e aquellas tendo igual altura. 232
+
+Perfis das nervuras--fecho da abobada. 234
+
+Arcos butantes--contrafortes. 236
+
+Gargulas. 242
+
+Nichos e doceis. 243
+
+Torres--campanarios. 247
+
+Pavimentos. 251
+
+Lages gravadas com embutidos. 253
+
+Labyrinthos. 254
+
+Pinturas das paredes. 256
+
+Cruz da consagração. 262
+
+Altares--tabernaculos--piscinas. 263
+
+Frontaes--baldaquinos. 265
+
+Retabulos--banqueta. 268
+
+Sacrarios. 274
+
+Cadeiras de côro. 277
+
+Jubes--cruzes triumphaes. 281
+
+Pulpitos--confessionarios. 284
+
+Capellas funereas--tumulos--campas. 286
+
+Pequenos monumentos funereos do XV e do XVI seculo. 294
+
+Pias baptismaes--pias para agua benta. 298
+
+Grades--barreiras de metal e de madeira. 301
+
+Orgãos e caixas para elles. 304
+
+Alfaias religiosas--esmaltes. 306
+
+Calices--patenas. 310
+
+Custodias--pyxides sem pé. 313
+
+Relicarios--braços--pés. 317
+
+Esmoleres--relicarios--diversos. 327
+
+Vasos para os Santos Oleos. 331
+
+Corôas com luzes--castiçaes. 333
+
+Estantes para o côro. 338
+
+Livros do Evangelho--manuscriptos lithurgicos--miniaturistas. 339
+
+Thuribulos--gomis--pratas para offerendas. 342
+
+Insignias--medalhas dos peregrinos. 346
+
+Estofos preciosos. 348
+
+Pannos de raz. 350
+
+Vestimentas sagradas. 351
+
+Mitras. 356
+
+Abbadias--mosteiros. 357
+
+Egrejas--claustros--casa do capitulo. 359
+
+Aposento dos irmãos leigos--aposentos para hospedes. 363
+
+Celleiros--officinas--prisões. 365
+
+Cartuchas. 367
+
+Mosteiros para mulheres--conventos do recolhidas. 368
+
+Hospitaes. 368
+
+Iconographia do periodo ogival. 369
+
+Representação da Santissima Trindade. 370
+
+O crucifixo--a crucificação. 371
+
+O sol--a lua. 373
+
+Imagem de Nossa Senhora--o Menino Jesus. 374
+
+A Annunciação--a morte de Nossa Senhora. 376
+
+Os apostolos--os evangelistas. 377
+
+Scenas diversas. 379
+
+Sibyllas. 382
+
+*Capitulo VI*--Periodo da renascença. 383
+
+Caracteres da architectura da renascença. 385
+
+Começo. 385
+
+Decoração. 387
+
+Plano das egrejas. 389
+
+Fachadas das egrejas. 391
+
+Abobadas. 392
+
+Torres. 392
+
+Altares. 392
+
+Tabernaculos. 393
+
+Cadeiras do côro, obra de talha e confessionario. 394
+
+Jubéos e balaustradas. 394
+
+Caixas de orgão. 395
+
+Pulpitos. 396
+
+Tumulos e campas. 396
+
+Pias baptismaes. 398
+
+Obras de ourivesaria e de esmalte. 398
+
+Calices. 399
+
+Custodias. 400
+
+Relicarios. 400
+
+Estofos preciosos. Tecidos. 401
+
+Bordados. 402
+
+Pannos de Raz. 402
+
+Iconographia. 403
+
+Lista dos assignantes. 409
+
+
+
+
+Notas:
+
+
+[1] Extraido do _Boletim de Architectura e Archeologia_, n.^o 2, Tomo V,
+pag. 20 a 22, anno 1886.
+
+[2] Tinha a mesma designação que coemeteria e criptae.
+
+[3] Era um calix mystico que continha o vinho que bebeu Jesus Christo na
+sua ultima ceia. Este calix tinha sido conservado por José de Arimathêa
+e transportado por elle para a Bretanha. (Inglaterra).
+
+[4] Termo em inglez admittido pelos archeologos.
+
+[5] Havia no paiz dois magnificos livros do côro, um do convento de
+Christo, em Thomar, e outro do convento de Belem. Este foi retalhado
+pelos orphãos da casa pia de Lisboa, que fizeram d'elle _barretinas_ e
+_talabartes_. Ao outro livro foram cortadas as folhas de pergaminho,
+tendo vistosos arabescos e lettras floreteadas, coloridas e douradas,
+cujos preciosos fragmentos comprámos avulso aos poucos no anno de 1835.
+
+[6] Ha um muito curioso no cabido da Sé de Vizeu, do qual tirámos o
+molde em 1869. Está exposto no museu do Carmo em Lisboa.
+
+
+
+
+Lista de erros corrigidos
+
+
+Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:
+
+ +----------+---------------------+----------------------+
+ | | Original | Correcção |
+ +----------+---------------------+----------------------+
+ |#pág. 25| das das | das |
+ |#pág. 88| indefinidamenie | indefinidamente |
+ |#pág. 102| quaiidade | qualidade |
+ |#pág. 142| seseculo | seculo |
+ |#pág. 209| da da época | da época |
+ |#pág. 301| asperpergil-os | aspergil-os |
+ |#pág. 350| representanto | representando |
+ |#pág. 352| nma cruz | uma cruz |
+ |#pág. 397| XVII e XXIII seculos| XVII e XVIII seculos |
+ |#pág. 410| Varzlm | Varzim |
+ |#pág. 411| Conceiceição | Conceição |
+ |#pág. 415| dos imagens | das imagens |
+ +----------+---------------------+----------------------+
+
+* correcções feitas com base na errata do próprio livro.
+
+Foi adicionada a indicação do capítulo II (pág. 14) e corrigida a
+entrada do capítulo III (pág. 25).
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Resumo elementar de archeologia christã, by
+Joaquim Possidónio Narciso da Silva
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ARCHEOLOGIA CHRISTÃ ***
+
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+
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+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
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+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
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