diff options
| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 02:13:23 -0700 |
|---|---|---|
| committer | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 02:13:23 -0700 |
| commit | 3661ad2a5931d88e579ef06a2d704ea32c094751 (patch) | |
| tree | dbffe75f080a8acbc263172ce1205cc466ccaf54 /24455-8.txt | |
Diffstat (limited to '24455-8.txt')
| -rw-r--r-- | 24455-8.txt | 11525 |
1 files changed, 11525 insertions, 0 deletions
diff --git a/24455-8.txt b/24455-8.txt new file mode 100644 index 0000000..e110318 --- /dev/null +++ b/24455-8.txt @@ -0,0 +1,11525 @@ +The Project Gutenberg EBook of Resumo elementar de archeologia christã, by +Joaquim Possidónio Narciso da Silva + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Resumo elementar de archeologia christã + +Author: Joaquim Possidónio Narciso da Silva + +Release Date: January 29, 2008 [EBook #24455] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ARCHEOLOGIA CHRISTÃ *** + + + + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + + + + + + + + +RESUMO ELEMENTAR + +DE + +ARCHEOLOGIA CHRISTÃ + +POR + +POSSIDONIO DA SILVA + +1887 + + + +Antigo edificio religioso de Santarem + +LISBOA--Museu de Archeologia do Carmo + + + + +RESUMO ELEMENTAR + +DE + +ARCHEOLOGIA CHRISTÃ + +POR + +_Possidonio da Silva_ + + + +MEDALHA CONFERIDA EM 1869 + + +LISBOA +LALLEMANT FRÈRES, IMPRENSA +1887 + + + + +Á + +MEMORIA DE MEU PAE + +Reinaldo José da Silva + + +TESTEMUNHO DE RESPEITO E GRATIDÃO + +O Auctor + + + + +AO LEITOR + + +Inaugurando-se agora nos seminarios de algumas dioceses de Portugal +cadeiras para o ensino de archeologia christã, estudo que ha muito era +urgente crear-se no nosso paiz, proponho-me publicar os elementos +principaes d'esta sciencia, afim de facilitar os estudos a quem desejar +possuir esses conhecimentos indispensaveis para curar da conservação dos +objectos do culto e evitar o ignorante modo de se restaurarem os +edificios religiosos dos differentes estylos, que pertencem á nação; +pois já é tempo de não se continuar a praticar nos edificios concertos +mal pensados, que alteram o caracter respectivo da sua architectura, e +causam tambem desdouro ao avaliar-se a nossa civilisação. + +Ainda que não façamos um compendio completo, comtudo, talvez possa ser +de algum auxilio para se divulgarem as instrucções principaes d'esta +natureza afim de pôr cobro aos vandalismos que têem destruido tantas +antiguidades e objectos preciosos do culto. + +Muito embora não se consiga desde já o proficuo resultado d'este ensino, +todavia ficará registado, no final do seculo XIX, o empenho que +illustres Prelados têem tomado para obstar a serem illudidos os parochos +nas substituições das alfaias, e para se opporem ás defeituosas +restaurações dos monumentos religiosos do nosso paiz. Darei por bem +empregada esta minha modesta publicação, se por ventura conseguir este +empenho patriotico e artistico a que tenho constantemente dedicado a +maior parte da minha existencia. + +Possidonio da Silva. + + + + +INTRODUCÇÃO[1] + + +Os monumentos historicos ou simplesmente artisticos são os marcos que +assignalam os passos, mais ou menos firmes, vagarosos ou apressados, que +os povos vão dando no caminho da civilisação. Porém não se pense que, +relativamente a esses padrões, a cultura de uma nação deva ser avaliada +sómente pela significação d'elles, por mais gloriosa que seja, ou por +mais que se aprimorasse n'elles a arte, mas sim tambem pelo apreço e +respeito com que essa nação vela pela sua conservação. + +Sobreleva Portugal a todas as nações na alta significação dos seus +monumentos, porque não commemoram unicamente façanhas militares e +virtudes christãs e civicas, communs a outros povos. Não recordam só mil +acções de valor, de coragem e de abnegação, praticadas na defensa da +patria, ou para alargamento das suas fronteiras, ou para honra e lustre +do seu nome. Mas fallam tambem os nossos monumentos d'essas +arrojadissimas emprezas de navegações e descobrimentos, com que os +portuguezes abriram de par em par as portas á moderna civilisação, +levando a luz do evangelho, atravez de mares ignotos, ás mais longinquas +regiões do globo. + +Quasi todas essas glorias, que doiram as paginas da nossa historia, +foram memoradas por nossos maiores com a fundação de um templo, acanhado +e singelo, ou grandioso e opulento, segundo o permittiam a rudeza dos +tempos, ou a florescencia da nação, bem como o animo e posses dos +fundadores. + +As convulsões do sólo, a pouca illustração dos reedificadores, e +modernamente a sanha brutal dos demolidores, têem destruido ou +desfigurado muitas d'essas auctorisadas testemunhas dos tempos heroicos +de Portugal. Este vandalismo, que nos degrada do gremio das nações +cultas, não está, infelizmente, ainda de todo proscripto d'entre nós. Os +poderes publicos ainda não prestam aos nossos monumentos toda a attenção +e vigilante solicitude que, para a sua conservação, elles demandam, e a +honra e bom nome do paiz com tanta justiça reclamam. E não basta que se +attenda á conservação dos monumentos commemorativos dos grandes factos +historicos, e ao mesmo tempo opulentos d'arte. Merecem o nosso apreço e +cuidados todos os padrões que interessam, de qualquer maneira, aos +annaes da nação e á historia da arte. + +Não obstante os differentes elementos de destruição, que tem actuado +entre nós, ainda existem de pé n'este reino não poucas egrejas +anteriores á fundação da monarchia, ou contemporaneas do nosso primeiro +rei, ou construidas sob o sceptro dos seus immediatos successores. São +pequenos e de construcção mesquinha todos esses templos, tendo por +feição principal a mesma simplicidade e pobreza, que distinguiam n'essa +epocha o viver da nação. Todavia, embora o acanhamento das proporções, e +a simplicidade da architectura corram parelhas com a pobreza das +memorias historicas, todas essas egrejas são exemplares de subido valor +para a historia da arte em Portugal, tanto mais quanto é tristemente +certo, que os grandes templos, levantados nos principios da monarchia, +têem sido mascarados e desfigurados, por occasião das reedificações, +como aconteceu ao de Alcobaça, á Sé de Lisboa, e a outros, ou +desappareceram, como o de Santa Cruz de Coimbra e o de S. Vicente de +Fóra, em Lisboa, para em seu logar se edificarem outros mais vastos e +mais sumptuosos. + +Pois essas preciosas reliquias de tão remota antiguidade que têem +resistido ao duro embate das tempestades no correr de tantos seculos, +zombando até agora dos cataclysmos da natureza e dos furores do +camartello, acham-se presentemente ameaçadas, pelo menos algumas +d'ellas, de perderem, em reconstrucções dirigidas sem amor da arte, e +sem respeito aos monumentos de remotas éras, as suas primitivas e +venerandas feições. + +E ao mesmo passo vão desapparecendo das velhas parochias sertanêjas as +suas antigas alfaias, vendidas por uma bagatella, a titulo de alcançar +meios para reparação do edificio, e os seus vasos sagrados dos seculos +anteriores ao XVIII, de muita belleza e primôr artistico, a troco de +outros de fabrica moderna, mais luzentes e vistosos, porém destituidos +da formosura e elegancia das fórmas, e da delicadeza e perfeição do +trabalho esculptural, que dão fóros universaes de preeminencia á +ourivesaria, principalmente dos seculos XV e XVI. + +Os compradores d'objectos d'arte e de industria, antigos, que vem a +Lisboa todos os annos do estrangeiro, sobretudo de França e da +Allemanha, percorrem as nossas provincias em todas as direcções; +apparecem em todas as cidades, nas villas e nas proprias aldeias, +tentando com dinheiro á vista os possuidores d'essas preciosidades, que +não sabem aprecial-as, desconhecendo-lhes o valor. + +É mister por honra do paiz, e por exigencia imperiosa dos interesses +publicos, que se trate de pôr algum côbro, quando não possa obstar-se +inteiramente, á assolação ou deformação d'aquelles monumentos da +antiguidade, e a esta continua expropriação das nossas riquezas +artisticas, documentos irrecusaveis do alto grau de florescencia nas +artes, e por conseguinte de civilisação, que Portugal attingiu n'esse +glorioso passado. + +Um dos meios inquestionavelmente mais adequado, seria oppôr a essa +torrente devastadora a illustração e o zelo dos parochos, illustração e +zelo provenientes de conhecimentos especiaes para saberem apreciar +aquelles objectos, ricos d'arte e de memorias piedosas, que os estranhos +nos cobiçam, e que os nacionaes malbaratam por ignorancia. + +Se os parochos tivessem algumas noções de archeologia religiosa, não +consentiriam, certamente, que as suas egrejas perdessem, com feições +bastardas, o typo primitivo que as ennobrecia, nem haviam de tolerar, +que fossem despojadas, por compra ou troca, dos seus vasos sagrados e +alfaias antigas, que são nos templos verdadeiros brazões da sua nobreza, +e testemunhas authenticas, eloquentes na sua propria mudez, do amor da +religião dos nossos antepassados, que n'elles se casava com o amôr da +patria. E não limitariam esses parochos a sua acção benefica, sem +duvida, a salvaguardar as preciosidades artisticas das suas egrejas; mas +não deixariam tambem, em casos identicos, de dispensarem aos parochianos +os conselhos do seu saber e da sua experiencia. + +Foram estas considerações retemperadas pelo affecto que todos devemos á +terra, que nos serviu de berço, e ás Santas Crenças, que recebemos dos +maiores, que moveram a Real Associação dos Architectos e Archeologos a +elevar ao esclarecido juizo dos Prelados Portuguezes o pedido de +instituirem nos seus respectivos seminarios uma cadeira de archeologia +religiosa. + +É uma sciencia muito complexa a archeologia, não ha duvida, pois que +cada uma das partes, que a compõem, e que se subdividem, a seu turno, em +outras partes de materia amplissima para o estudo, constitue um ramo +importante dos conhecimentos humanos, que demanda muita applicação para +ser bem sabido. + +Porém, no que diz respeito á archeologia religiosa é um estudo muito +limitado, facil e agradavel, e que póde restringir-se, querendo +abrevial-o, estabelecendo o ponto de partida da invasão dos povos +septemtrionaes e destruição do imperio romano; ou dos tempos mais +proximos da fundação da monarchia portugueza. O que é mister é que se dê +nos seminarios aos futuros parochos a instrucção precisa para que +conheçam os differentes estylos architectonicos, empregados nos templos +do christianismo; a epocha da sua introducção em Portugal, e as +modificações, que tiveram aqui, determinadas pelo estado da nossa +civilisação e pelos habitos e costumes da sociedade. É indispensavel, +tambem ministrar-lhes eguaes conhecimentos em relação á ourivesaria +religiosa, e ás mais artes liberaes e mechanicas, que, no correr da éra +christã, têem concorrido com os seus productos para o serviço dos +altares, e para a ornamentação das egrejas. + +Os parochos assim instruidos não deixarão de apreciar devidamente, e de +velar com verdadeiro zelo pela conservação dos edificios e dos objectos +concernentes ao culto, venerandos pelas tradições religiosas e pela +consagração dos seculos, e dignos de grande estima pelo seu valor +artistico ou archeologico. + +Ignacio de Vilhena Barbosa. + + + + +Resumo elementar de archeologia christã + + + + +CAPITULO I + +Principios da arte christã no Occidente + + +PRIMEIRO PERIODO + + + + +CAPITULO II + +/# + *Summario.*--Descripcão das catacumbas de Roma--Principios + artisticos e classificações das pinturas das catacumbas--Symbolos + ou allegorias dos primitivos christãos--Representação de Jesus + Christo e de Nossa Senhora--Imagens dos Santos--Monogramma de + Christo--Lampadas--Sarcophagos christãos--Vasos de + sangue--Monumentos christãos fóra das catacumbas--Edificios + religiosos construidos nos tres primeiros seculos--Cemiterios á + superficie do solo--Alfaias e instrumentos do culto. +#/ + + +Os mais numerosos monumentos christãos que se offerecem para o estudo da +archeologia christã são os cemiterios subterraneos da cidade de Roma. Os +christãos continuaram a escavar nas antigas pedreiras da cidade novas +catacumbas depois do reinado de Constantino, e durante os quatro ou +cinco seculos seguintes, transformaram as catacumbas em logares de +peregrinação. Fizeram-se restaurações e embellezamentos n'estes +sanctuarios até ao fim do seculo VIII. + +As catacumbas eram destinadas a tres fins: o primeiro e principal era +servirem de cemiterio aos christãos. Os tumulos ficavam dispostos nas +paredes uns por cima dos outros formando fileiras de tres a doze. Os +corpos eram collocados em nichos oblongos, fechados por tampas de +marmore, ou por tijolos ordinariamente em numero de tres, ajustados +perfeitamente com cal. + +N'estas galerias veem terminar em muitos sitios camaras sepulchraes. São +especies de covas funerarias, no fundo das quaes se encontra muitas +vezes, debaixo de uma abobada, um tumulo encerrando os restos mortaes de +algum martyr illustre. Estes tumulos serviam de altar no dia +anniversario do martyr, em que os christãos vinham fazer as suas +orações. + +A fórma dos sepulchros era variadissima: ha-os circulares, +semi-circulares, octogonaes, hexagonaes e pentagonaes; comtudo a maior +parte são quadrados. + +O segundo fim a que destinavam as catacumbas era servirem de logar de +reunião para ahi celebrar as ceremonias do culto. Foi para fazerem as +suas assembléas religiosas que os primitivos christãos construiram, nos +seus cemiterios subterraneos, oratorios, compostos a maior parte das +vezes de dois ou tres sepulchros contiguos, e que se designam pelo nome +de _basilicas das catacumbas_. + +O terceiro fim das catacumbas era tambem servirem de retiro ao +Pontifice, ao clero e aos fieis no tempo da perseguição. + +A historia das catacumbas póde dividir-se em tres periodos principaes: o +periodo da formação, o periodo da restauração e de visitas piedosas, e o +periodo de explorações scientificas. + +O primeiro periodo abraça os quatro primeiros seculos. No decurso do +seculo IV viu-se diminuirem as sepulturas subterraneas pelo augmento dos +tumulos á superficie do solo. Depois do anno 410 não se encontram +sepulturas nas catacumbas. + +O segundo periodo estende-se desde os primitivos annos do seculo V até +ao principio do seculo IX. + +Chamam-se cryptas historicas as camaras sepulchraes em que repousavam os +restos de martyres illustres. + +O ultimo periodo, de explorações scientificas, data do anno de 1578. + +No mez de maio de 1578, uns trabalhadores que se occupavam em extrahir +pozzolana n'uma vinha, a duas milhas da cidade de Roma, descobriram uma +abertura que dava para um cemiterio christão decorado de pinturas, de +sarcophagos e de inscripcões. + +Estas pinturas pertencem a epochas differentes, e algumas ao primeiro +seculo da nossa éra. As do seculo II são mais numerosas, porém as do +seculo III são ainda em muito maior numero. + +A maior parte das decorações das paredes das catacumbas foram executadas +a fresco, sendo feitas algumas com mosaicos em limitado numero. + +Os antigos artistas contentavam-se em traçar a silhuêta dos personagens +e dos objectos, enchiam em seguida o espaço comprehendido entre os +contornos por côres lisas ou illuminuras, e indicavam convencionalmente +as rugas dos fatos com traços cheios e as saliencias com traços finos. +Faziam o contrario do que se praticava desde o seculo VI, desprezando, +na representação dos assumptos, os accessorios. + +As pinturas dos tumulos, em fórma d'arco, apparecem sobre um fundo +ornado,--um assumpto com muitas figuras traçadas dentro de molduras de +fórma quadrada ou semicircular. + +Os ornatos são na maior parte imitações de objectos usuaes, açafates com +fructos ou grinaldas de flores, sendo imitado este genero de decoração +de pintura da arte pagã. + +Nas catacumbas representava-se ordinariamente Jesus Christo debaixo da +fórma do Bom Pastor. + +As imagens do Redemptor não se encontravam isoladas, apresentando todos +os caracteres das pinturas posteriores a muitos seculos á conversão de +Constantino. + +A Santa Virgem é figurada nas pinturas das catacumbas sobre os vidros +dourados e os sarcophagos dos seculos primitivos, estando sentada, com o +Menino Jesus ao collo. + +A adoração dos Magos recordava aos fieis tres dogmas: a vocação dos +infieis, a Divindade de Nosso Senhor, e a Maternidade Divina. + +Os primitivos christãos representavam tambem a Virgem com ou sem o +Filho, debaixo da forma d'uma _orante_, isto é, em pé e levantando os +braços n'uma attitude de supplica. Muitas imagens são anteriores ao +seculo IV. + +_Jesus Christo multiplicando os pães_: figura a Santa Eucharistia, como +sendo alimento das almas. + +O Salvador é representado em geral debaixo da figura d'um mancebo +imberbe vestido com manto e tunica ornada com duas bandas de purpura. + +_O paralytico curado_ é representado no momento em que, deixando a +piscina, leva a sua cama ás costas. Está vestido com uma tunica e cinta +e uma especie de ceroulas. + +_Jesus resuscitando Lazaro_: é representado Lazaro debaixo da fórma +d'uma pequena mumia envolvida em pequenas fitas e collocada na posição +vertical á entrada do tumulo, que tem a fórma de um edificio ou pequeno +templo. + +As representações de refeição dividem-se em duas classes conforme +symbolisam a Eucharistia, ou a felicidade dos predestinados á +bemaventurança. + +A felicidade dos predestinados é symbolisada por um banquete ao qual +servem o Amor e a Paz, porque estes dois gosos eram tidos como os +principaes do Paraiso. + +_Jesus Christo rodeado dos seus discipulos_: representa o ensino dado +aos apostolos e a celebração da ultima ceia do Senhor. + +As imagens dos Santos encontram-se nas cryptas historicas, e todas em +geral são posteriores á conversão de Constantino. Muitas são ornadas de +resplendor, que só foi dado aos Santos no principio do seculo VI. + +A scena do Orpheu tocando lyra, tirada da mythologia, é muito commum nas +pinturas das catacumbas e sobre os monumentos christãos dos primeiros +seculos. + +Entre os primeiros christãos, Orpheu deleitando os animaes ferozes com +os sons da sua lyra, era um symbolo de Jesus Christo domando as paixões +dos homens e attrahindo-os com os encantos da sua doutrina. + +Os primeiros christãos reproduziam de differentes maneiras as quatro +estações sobre as paredes das catacumbas e sobre os sarcophagos, porque +as estações symbolisavam aos olhos dos christãos a futura resurreição. + +Os primitivos christãos serviam-se dos symbolos, em primeiro logar, para +subtrahir á irrisão dos infieis as mais augustas verdades da religião, e +em segundo logar, para se conhecerem entre si. Os mais antigos d'estes +symbolos eram a pomba, o peixe, a barca, a lyra e a ancora. + +Durante os primeiros tres seculos da Egreja, o peixe era um dos symbolos +mais divulgados entre os christãos para significarem Jesus Christo. +Empregava-se de dois modos, como nome e como figura. A palavra _ichtus_, +que significa peixe, fornece as iniciaes das palavras _Jesus Christo +Filho de Deus_. + +O peixe representado sobre os monumentos pintados ou esculpidos tinha a +mesma significação, era um signal hyerogliphico lembrando aos christãos +a palavra grega e todas as verdades que ella symbolisava. Tanto o +acrostico como o peixe symbolico, era principalmente gravado sobre as +pedras e sobre os objectos portateis para o uso da piedade dos primeiros +christãos. + +A Cruz que se encontra nos monumentos christãos dos quatro primeiros +seculos apresenta-se com fórmas dissimuladas, de ancora, que era ao +mesmo tempo o symbolo da esperança, e serve desde o primeiro seculo para +recordar aos fieis o signal da Redempção. + +Empregou-se desde os primeiros seculos o cordeiro para representar Jesus +Christo. + +Os primitivos christãos tinham por costume orar em pé, com os braços +estendidos e levantados para o ceu. Na maior parte dos monumentos +christãos primitivos vêem-se fieis dos dois sexos, e principalmente +mulheres em attitude de _orantes_. + +A _orante_ symbolisa a alma christã admittida no ceu e considerada +esposa de Jesus Christo. As duas arvores que em alguns monumentos se +encontram aos lados, designam o paraiso ou a felicidade eterna. + +Encontra-se frequentemente nos primitivos monumentos christãos de toda a +especie a pomba, e principalmente nos epitaphios dos seis primeiros +seculos da nossa éra. Nos tumulos symbolisa ordinariamente a alma pura e +innocente dos fieis. A oliveira que está ao seu lado ou o ramo d'esta +arvore, que muitas vezes tem no bico, são o symbolo da paz que gosa a +alma, e equivale á formula _in pace_, tantas vezes empregada nos +epitaphios. + +A _palma_ tem sido em todos os tempos o symbolo do triumpho; os +christãos primitivos collocaram-n'a nos seus tumulos para recordar a +victoria ganha pelo defuncto aos inimigos da fé. + +O _monogramma de Constantino_ ou simplesmente _monogramma_ são as duas +letras gregas X P ligadas da seguinte maneira: + +[Figura] + +Outro _monogramma cruciforme_ parece ter existido no Oriente e tem a +letra X com a fórma d'uma cruz [Símbolo] onde está ligada na perpendicular +superior a barriga da letra P: + +[Figura] + +As duas fórmas tambem se empregaram no Occidente. + +A partir do meado do seculo IV, o monogramma é muitas vezes acrescentado +com mais duas letras gregas A e [Grego: Omega], a primeira e a ultima do +seu alphabeto. + +O monogramma data da conversão de Constantino que mandou fazer o +_lábaro_, que era encimado pelo monogramma. + +Durante os primeiros seculos da Egreja, o altar era apenas uma taboa de +madeira, servindo de mesa aos apostolos para celebrar os divinos +mysterios. + +As catacumbas forneceram-nos mais tarde o typo dos altares em fórma de +tumulo. As tumbas _em arco_ tinham uma prateleira horisontal cobrindo os +restos do santo martyr; sobre esta prateleira é que se dizia a missa. + +As lampadas que se encontraram nas catacumbas tinham a fórma das +_lucerncae_ dos antigos. Assemelham-se a uma barquinha, que era um dos +symbolos mais usados na Egreja primitiva. A maior parte são de argila; +tambem se encontram algumas de bronze. Estas ultimas pertencendo a uma +epocha menos remota, são quasi todas munidas de cadeias que serviam para +as suspender nos tectos das capellas. + +Chama-se sarcophago (palavra derivada de _sarcos_ carne e _phagos_ eu +como) um tumulo de marmore ou de porphyro mais ou menos ornado de +esculpturas. + +Podemos classifical-os em _simples_, _mixtos_ e _ricos_. + +Os sarcophagos _simples_ apresentavam a fórma de um cofre rectangular +sem ornamentação. + +Na maior parte os sarcophagos eram adornados de um ornato que se chamava +_strigiles_. + +Os _strigiles_ são canneluras de fórma sinuosa, imitando o raspador, +instrumento de que os antigos se serviam para tirar, na occasião de se +banharem, a humidade e os corpos estranhos espalhados na superficie da +pelle. + +Os sarcophagos _ricos_ têem as quatro faces, ou pelo menos tres, ornadas +de esculpturas em baixo, ou em alto relevo. Quando se reproduzem sobre +uma mesma face muitas scenas ou figuras, são justapostas simplesmente, +ou separadas por columnas ornadas de pampanos e de pequenos genios +colhendo fructos. + +Muitos sarcophagos têem, no centro da face principal, um medalhão +circular, onde se vê em busto a figura do defuncto. Os tumulos que +serviam de sepultura a dois esposos, têem dois bustos, e algumas vezes +uma arcada central apresentando, com a mesma significação, dois +personagens em pé dando a mão e chorando. + +Os sarcophagos _mixtos_ são ornados parte com strigiles e parte com +figuras gravadas a traço ou esculpidas em relevo. + +Os sarcophagos dos tres primeiros seculos foram escolhidos nas officinas +pagãs, ou esculpidos por artistas christãos, segundo modelos profanos. + +As scenas da Paixão propriamente dita, taes como a flagellação, o +coroamento de espinhos e a crucificação, não se encontram representados +em monumento algum do primitivo christianismo. + +Os christãos dos primeiros seculos punham muitas vezes nas sepulturas +objectos que tinham pertencido ao defuncto. + +Encontram-se nos tumulos dos fieis: tecidos d'ouro, anneis, bracelêtes e +bijoterias, brinquedos de creança, relicarios portateis, vasos de vidro +ou d'argila collocados ordinariamente perto das cabeças dos cadaveres, +instrumentos de supplicio. + +_Vasos de sangue_. Entre os signaes certos do martyr o principal é o +vaso de vidro ou d'argila, que serviu para recolher _o sangue do +martyr_, collocado dentro do tumulo, ou no exterior do nicho sepulchral. + +_Objectos collocados no exterior do tumulo_. Entre estes objectos, uns +são executados pela mão do homem, outros não o são. Podem +classificar-se, na primeira cathegoria, os _baixos relêvos_, as +estatuetas, os pequenos _bustos_, e os fragmentos de esculpturas em +pedra e em marmore, os cacos de louça, os fragmentos de _vasos_ de +_crystal_ e de _vidro esmaltado_ e _dourado_, os prismas e as pequenas +_placas_ de _mosaico_, os anneis, os collares, os bracelêtes, e um +grande numero d'outros objectos de _toilette feminino_, d'ambar, ouro, +marfim e nacar, os brinquedos de creança, as folhas de taboa de +escrever, as placas de bronze, as guarnições e os ornamentos para portas +e cadeiras, d'ouro, marfim, bronze e ferro, os camapheus, as moedas e as +medalhas, os utensilios de cosinha; n'uma palavra, tudo desde o objecto +mais ordinario até ás joias mais preciosas. + +Encontram-se tambem fragmentos brutos de toda a especie de substancias, +os mais diversos objectos naturaes e os mais extravagantes; pedaços de +tufo, estilhaços de pedra ou de tijôlo, caróços de fructos, folhas +d'arvore ou de planta, dentes e ossos d'animaes, caracoes, cascas de +mexilhão e d'ôstra, conchas, etc. + +Estes objectos fixos ao cimento, eram dispostos de maneira que podessem +desenhar figuras de que facilmente se podesse fazer idéa. + + +_Outros monumentos christãos dos tres primeiros seculos além das +catacumbas_. Occupar-nos-hemos dos edificios religiosos construidos +sobre a terra, dos cemiterios construidos ao ar livre, dos paramentos +sagrados e dos instrumentos do culto, anteriores á abjuração de +Constantino. + +Sabemos por documentos historicos que muitas pessoas abastadas tinham em +seus palacios oratorios onde os soberanos Pontifices vinham celebrar os +Santos Mysterios na presença da multidão dos fieis. Muitos d'estes +oratorios foram substituidos, depois da abjuração de Constantino, por +basilicas, ás quaes deram o nome das pessoas piedosas que haviam cedido +á egreja o direito de propriedade; e se mais tarde estas pessoas ficavam +consideradas no numero dos Santos, estas basilicas eram-lhes dedicadas. + +A mais remota menção d'um templo christão data do tempo de Alexandre +Severo, que foi imperador desde 222 até 235. + +Não é conhecida a fórma nem a distribuição interior d'estas primitivas +egrejas. + +Os unicos monumentos notaveis dos tres primeiros seculos, até hoje +conhecidos, são as _cellas_ dos cemiterios, ás quaes se deu tambem o +nome de _basilicas_, desde o principio do IV seculo. + +Estes pequenos edificios, construidos nos cemiterios, serviam para ponto +de reunião dos fieis. + +_Cemiterios ao ar livre_. As sepulturas christãs foram estabelecidas, +desde o principio, ao ar livre. + +Estes cemiterios, designados em geral pelo nome de _d'areae_[2] eram, do +mesmo modo que as catacumbas, situados fóra das portas das cidades; +porque as leis romanas prohibiam severamente as inhumações dentro dos +muros. + +Depositavam-se os cadaveres, quer em simples fóssas, algumas vezes +revestidas interiormente de tijólos e de lages, quer em pias de pedra, +ou caixões de madeira mettidos debaixo da terra. As paredes dos tumulos +mais ricos eram, dadas certas circumstancias, rebocadas de argamassa, ou +estucadas e decoradas com pinturas _a frêsco_, semelhantes ás das +galerias e capellas sepulchraes das catacumbas. + +_Paramentos e objectos do culto_. Parece certo que, durante os primeiros +seculos, os paramentos sagrados não se differençavam dos fatos +ordinarios, nem pela fórma nem pelo talhe. + +Do mesmo modo que aproveitavam para os sagrados paramentos as fórmas e +os pannos dos fatos ordinarios, assim tambem aproveitavam para o serviço +dos altares os vasos ricos e preciosos que haviam servido aos usos +profanos. + + + + +CAPITULO III + +/# + *Summario.*--Estylo Latino--Estylo Bysantino--Fórmas das + Basilicas--Origem da Basilica Christã--O Narthex--Orientação das + Basilicas e Egrejas Christãs--Egrejas cruciformes, circulares e + polygonaes--Cryptas--Baptisterios--Oratorios domesticos--Templos + pagãos e edificios profanos apropriados em Egrejas + Christãs--Systema e regras de construcção--Decoração + monumental--Narthex, fachadas e portaes das Basilicas--Janellas e a + maneira de as vedar.--Madeiramento do cume dos + edificios--Torres--Pinturas representadas em mosaico--Pavimento nos + edificios--Altares--Ciborium--_Ambon_, Tribuna para as leituras da + Biblia--Poltrona para os bispos e bancos para os + sacerdotes--Cemiterios--Monumentos funerarios--Sarcophagos--Tumulos + subterraneos--Objectos com symbolos christãos achados nas + sepulturas--Alfaias religiosas--Calices e + Patenas--Custodias--Relicarios--Pombas e torres--Accessorios do + altar--Corôas de metal precioso suspensas sobre o + altar--Dipticos--Encadernação dos livros dos Evangelhos--Estofos + religiosos--Paramentos sacerdotaes--Jesus Christo sob fórmas + symbolicas--Os Apostolos S. Pedro e S. Paulo. +#/ + + +_Periodo Latino e Bysantino_. A architectura christã póde considerar-se +dividida em dois ramos perfeitamente distinctos. O primeiro, que se +poderá chamar o _Estylo Latino_, foi adoptado pela egreja Latina, isto +é, na Italia, na Illyria, na Dalmacia e em toda a Europa Occidental. É +caracterisado pela imitação mais ou menos correcta da architectura +classica, greco-romana. O outro estylo, formado por elementos orientaes +e romanos, nasceu em Constantinopla, e ahi se desenvolveu, formada sob a +influencia Oriental, uma configuração inteiramente nova: deram-lhe o +nome de _Bysantino_. + +O Estylo Latino predominou no Occidente até ao principio do seculo VIII; +e o Estylo Bysantino no Oriente, até á tomada de Constantinopla pelos +Musulmanos, em 1453. + +Chamou se _Latino_ o estylo do imperio do Occidente, em primeiro logar +porque, derivando do Estylo Romano ou Classico, foi empregado nos paizes +em que a lingua _latina_ era a lingua ecclesiastica e vulgar; em segundo +logar, porque existiu tanto tempo como aquella lingua, approximadamente. + +O Estylo _Bysantino_ tem o nome derivado de Bysancio ou Constantinopla, +capital do imperio do Oriente. + +_Estylo Latino_. A architectura greco-romana chegou ao seu apogêo +durante os dois primeiros seculos da era christã. A sua decadencia +começou no seculo III, afastando-se da nobre simplicidade do Estylo +Classico. + +No seculo IV, ainda mais se pronunciou a sua degeneração. + +Começaram então a desmanchar os antigos monumentos para em seu logar +construir e decorar mais facilmente os novos. Tal era o estado da +architectura no Occidente, quando foram construidos os primeiros +monumentos christãos do periodo _Latino_. + +_Fórma das basilicas_. As _basilicas profanas_ eram vastos edificios +construidos no _Forum_, ou nos arredores das praças publicas. Serviam +para ponto de reunião dos vendedores, assim como de outros individuos +que se occupassem de negocios. Era n'ellas que os magistrados +administravam Justiça. + +As _basilicas christãs_ foram construidas segundo o modêlo das basilicas +profanas; sómente, em vez de se construirem ao longo das praças +publicas, eram precedidas de um pateo quadrado, com o fim de as afastar +do ruido e do tumulto da rua. Tinham, como as basilicas profanas, a +fórma d'um rectangulo mais ou menos alongado e compunham-se de tres +partes principaes--o _pateo_ ou o _atrium_; a _nave_ e o _Sanctuario_. + +O _narthex_ abria-se ao fundo do atrium. Era uma especie de vestibulo, +propriamente dito, formado pelo portico transversal contiguo á fachada +da basilica. + +Esta primeira parte da basilica era occupada, durante o officio, por +aquelles a quem as leis ecclesiasticas prohibiam tomar parte nas +assembléas dos fieis. + +Do _narthex_, entrava-se por uma, tres ou cinco portas para a basilica, +que era ordinariamente dividida em tres naves por duas ordens de +columnas. + +A da direita, reservada para os homens, e a da esquerda para as +mulheres. + +Avançando pela nave dentro, encontravam-se os _ambons_, pulpitos +destinados á leitura dos Santos Evangelhos para as prédicas, e á +promulgação das leis ecclesiasticas. + +Entrava-se emfim na terceira parte da basilica, a parte mais Santa e +mais veneranda, aquella onde os seculares não podiam penetrar, e que se +chamava o _Sanctuario_. + +O altar occupava a parte central do Sanctuario, e tinha frente para uns +poucos de lados. + +Atraz do altar desenvolvia-se o _abside_ de fórma semi-circular e +coberto ordinariamente com uma meia cupula. + +A cadeira do Bispo era collocada ao fundo do _abside_, e para ella se +subia por uns poucos de degraus. Aos lados da cadeira episcopal, se +achavam, contiguos ao hemicyclo do abside, os assentos ou bancos +destinados aos padres, que assistiam aos Officios Divinos. + +A alteração mais notavel, que a disposição interior das basilicas +soffreu com o andar do tempo, foi o accrescentamento do cruzeiro ou nave +transversal, entre o abside e a nave propriamente dita. + +_Orientação das basilicas e das egrejas christãs_. Chama-se _orientação_ +uma disposição particular, segundo a qual o eixo longitudinal d'um +edificio, d'um tumulo, etc., se dirige do Occidente para Oriente. + +Desde a primitiva que a egreja christã adoptou o costume de orar +voltando o rosto para o Oriente. + +O costume de orientar as egrejas foi dos primeiros seculos do +Christianismo. + +Ha dois modos inteiramente oppostos d'orientar as egrejas. N'um, usado +antigamente, a fachada principal forma a parte Oriental do edificio e a +capella-mór do lado do Poente. N'outro, que preponderou mais tarde, a +posição de todas as partes da egreja é completamente trocada, a fachada +está voltada para o Occidente, e a capella-mór para o Oriente. + +O primeiro modo d'orientação não durou muito tempo. Nos seculos V e VI, +a começar no V, se construiram muitas egrejas com a capella-mór voltada +para o Oriente. No Occidente a mudança effectuou-se lentamente, pois só +se completou durante o seculo XIII. + +_Cryptas_. A maior parte das basilicas foram edificadas nos mesmos +sitios onde tinham sido sepultados os restos mortaes d'um Martyr, ou de +qualquer Santo illustre. + +Nas primitivas basilicas, o altar era situado mesmo sobre a sepultura. + +As galerias e capellas subterraneas, que mais tarde foram substituidas, +tiveram o nome de _cryptas_, da palavra grega que significa, _eu +escondo_. + +Estas galerias abobadadas transformaram-se muito tarde em verdadeiras +capellas, ou egrejas subterraneas, por debaixo de todo o _presbyterium_; +bastante vastas para necessitarem o emprego de columnas que recebiam os +arcos das abobadas, formando assim muitas naves. + +_Baptisterios_. Distinguem-se tres especies de baptismo: o baptismo por +_immersão_, o baptismo por _aspersão_, e o baptismo por _infusão_ ou +_affusão_. + +O primeiro ministra-se mergulhando na agua todo o corpo; no segundo e +terceiro, o ministro, de longe ou de perto, lança a agua sobre a cabeça +do neophito. O baptismo por immersão foi usado até ao seculo XII; a +começar d'esta épocha, principiou a ser substituido, na egreja Latina, +pelo baptismo por infusão, do qual até ali se não serviam, a não ser +para os doentes em perigo de vida. + +Primitivamente era reservada aos Bispos a administração do Solemne +Baptismo. O Bispo mergulhava tres vezes o neophito, invocando de cada +vez uma das Pessoas da Santissima Trindade. + +Depois da abjuração de Constantino, quasi se generalisou por toda a +christandade o baptismo ministrado nos edificios particulares situados +ao lado das principaes egrejas, e especialmente das cathedraes. + +Os baptisterios tinham em geral a fórma circular ou octogona, mas alguns +havia quadrados, e outros ainda em fórma de cruz grega. As pias +baptismaes eram muito grandes, porque muitas vezes se ministrava a +adultos o baptismo por immersão. + +_Templos pagãos e edificios profanos convertidos em egrejas christãs_. +Os templos pagãos não se prestavam em geral para o culto christão, em +consequencia das suas diminutas proporções. + +Entretanto alguns foram convertidos, com ligeiras modificações, em +egrejas christãs, e outros foram-lhes encorporados. + +A maior parte d'estas transformações datam do reinado do imperador +Theodosio (383-385), e dos seus successores immediatos. + +Tambem houve monumentos civis que foram transformados em egrejas +christãs; taes como as thermas e os banhos, que entre os romanos +excediam em magnificencia os proprios templos. + +_Caracteres do Estylo Latino_. As basilicas christãs foram muitas +d'ellas construidas, aproveitando para isso monumentos mais antigos. Mas +em consequencia das basilicas serem muito mais vastas do que os templos +pagãos, tornava-se por isso não raras vezes necessario desmanchar muitos +d'esses monumentos para construir uma só basilica. + +A architectura estava n'uma tal decadencia, que muitas vezes chegavam a +reunir fragmentos de dimensões e estylos differentes, e ajustavam-nos o +melhor que podiam. + +Se, por exemplo, se tratava de columnas provenientes de diversos +monumentos, não pertenciam muitas vezes á mesma Ordem d'architectura; +tendo portanto os fûstes e os capiteis de alturas differentes, +enterravam os fustes, ou os collocavam sobre soccos. O desvio e a +distancia relativa das columnas variavam dentro de limites excessivos. + +A unica innovação d'alguma importancia introduzida nas construcções, foi +a substituição da _arcada_ pela architrave. + +Nas regiões onde escasseavam monumentos antigos, os edificios do periodo +Latino eram em geral muito pequenos, baixos e pobremente decorados, +muitos até de madeira. + +Apezar do que acabâmos de expôr, no seculo V e VI, construiram-se em +Ravenna muitos monumentos importantes (dos quaes ainda alguns se +conservam), sem que fôsse necessario recorrer á devastação que tiveram +os anteriores; o que prova existir n'aquella epocha em Ravenna uma +brilhante escola de habeis constructores. + +_Materiaes de construcção_. As basilicas e os monumentos do periodo +Latino eram construidos com pedras d'alvenaria regulares, quasi sempre +quadradas, de mediano preparo, e tambem com tijolos chatos, ficando +separados por uma espessa camada de cimento. Muitas vezes tambem os +muros eram formados por cordões de uma, duas ou muitas faxas de pedras +d'alvenaria alternadas com outras compostas de uma ou duas fiadas de +tijolos. + +_Decoração dos monumentos_. O periodo Latino não foi epocha de esplendor +para a architectura ornamental. + +O _ábaco_ dos capiteis recebeu, durante o periodo Latino, dimensões e um +esvasamento taes que muitas vezes parecia ser um capitel sobrepôsto +sobre outro. A frente do ábaco era adornada, do lado da nave principal, +com um symbolo, que algumas vezes era o monogramma do fundador, e em +geral havia uma Cruz d'ordem Trina isolada, ou inscripta n'um circulo. +Chama-se Cruz de Ordem Trina aquella cujos braços são mais largos nas +extremidades do que no ponto de intersecção dos ramos. Esta cruz, quer +só, ou entre dois cordeiros, ou entre dois passaros, com a frente um +para o outro, foi um dos symbolos christãos mais usados durante o +periodo Latino. + +_Narthex, fachadas e portaes das basilicas_. O narthex interior occupava +o fundo do atrio, e era formado pelo portico contiguo á fachada +principal da basilica. Communicava pelos extremos com as galerias que +rodeavam o atrio; como se observa na egreja de Villarinho de S. Romão, +na provincia do Douro. + +Nas basilicas latinas, quando a configuração do terreno não permittia +estabelecer o atrio e o narthex, substituiam algumas vezes estes, por +galerias altas collocadas no interior do edificio ao longo da nave. + +Os portaes das basilicas eram construidos segundo o modelo dos portaes +ricos do estylo classico. + +As portas dos portaes das basilicas eram de bronze ou de madeira. +Algumas das portas de bronze, das primeiras basilicas, provieram de +monumentos pagãos. No seculo IX, a egreja de Santa Maria Maior, em Roma, +tinha portas de prata. + +_Janellas e vidraças_. As janellas das basilicas eram rasgadas d'alto a +baixo, e de volta inteira. + +Serviam de vidraças a estas janellas grandes laminas de marmore ou de +pedra, atravessadas de buracos para por elles penetrar a luz no interior +dos edificios. Mais tarde, estas laminas foram vasadas de maneira que +offereciam á vista os mais complicados desenhos. Na Europa Occidental e +Septemtrional, em que as laminas de pedra e de marmore escasseiavam, +guarneciam as janellas com caixilhos de madeira. + +As clara-boias muitas vezes não tinham cobertura, principalmente nos +paizes meridionaes; e n'outros eram vedadas com laminas de pedras +translucidas ou de placas de alabastro. + +Desde o seculo VII que começou a haver vidraças com vidros brancos e +esverdeados, e até mesmo com vidros de differentes côres. Não appareciam +ainda figuras, nem ornatos alguns, pintados sobre os vidros; as vidraças +com vidros de côr eram formadas por um grande numero de vidros +coloridos, cortados de differentes modos e que se reuniam de certa +maneira, a fim do conjuncto representar figuras de fórmas regulares. + +Desde o reinado de Constantino, os grandes edificios apenas se cobriam +com madeira. + +A maior parte d'esta construcção ficava visivel no interior dos +edificios. Em alguns, as naves tinham tectos de madeira com pinturas +diversas, representando caixões ricamente adornados e dourados. + +Raras eram as basilicas que desde a sua fundação tinham possuido torres. +Os campanarios que hoje se vêem proximo das antigas egrejas de Roma, são +quasi todos posteriores ao seculo VIII. As torres do _periodo Latino_ +são na maior parte de fórma circular ou octogonal. + +Nas grandes basilicas as abobadas esphericas do abside e o Arco +Triumphal, e algumas vezes tambem as paredes comprehendidas entre as +janellas altas da nave e das arcadas que ligam as columnas, ficavam +revestidas com vistosos mosaicos. + +Os materiaes mais ordinariamente empregados n'este genero de trabalho, +eram folhas de marmore e pedaços de vidro. + +Em muitas basilicas de Roma, o abside abobadado em forma de esphera tem +ao centro a imagem de Jesus Christo em pé ou sentado, com o braço +direito erguido, ou lançando a benção, e com um rolo de papel ou um +livro collocado á sua esquerda. Aos lados do Salvador estão +representados os Apostolos, ou outros Santos. O sólo que pisam é o da +Judeia, o que se conhece pela representação do rio Jordão, cujo nome é +muitas vezes inscripto debaixo dos pés de Jesus Christo, e pela presença +das palmeiras, que foram, desde o primeiro seculo da era christã, o +symbolo da Terra promettida. Logo abaixo do abside se estende, em toda a +largura, uma zona estreita, no centro da qual se vê o Cordeiro Divino +coroado com ou sem a Cruz, collocado sobre um outeiro d'onde brotam os +quatro rios do Paraíso: Geham, Phison, o Tigre e o Euphrates, symbolos +dos Evangelistas. Doze cordeirinhos, seis de cada lado, se dirigem para +o cordeiro symbolico, e parecem sahir das cidades Santas de Jerusalem e +Bethlem, que occupam os extremos da composição, e se acham representadas +por varias portas e muralhas com ameias. Estes cordeirinhos symbolisam +os fieis. + +Alguns mosaicos representam o sonho de S. João, isto é, os quatro +animaes, symbolos dos Evangelistas; e os vinte e quatro velhos, vestidos +de mantos brancos, offerecendo coroas ao Cordeiro. + +Para piso das basilicas, os primitivos christãos serviam-se dos +differentes processos de empedramento, como os romanos usavam. Mais +tarde, estes processos foram substituidos por um trabalho de novo +genero, chamado _opus alexandrinum_, assim designado por ter sido usado +primeiramente na Alexandria. Estes empedramentos consistiam em um +conjuncto de variados marmores em que predominavam os porphyros verdes e +vermelhos; pareciam como um rico tapete estendido no sólo. O +empedramento _alexandrino_ foi muito pouco empregado na Europa +Occidental e Septemtrional. + +Havia tambem empedramentos em que sobresahia a prata e outros metaes +preciosos. + +Parte do piso do Sanctuario da basilica do Vaticano é de palhetas de +prata; mas o da capella de S. Pedro, da mesma basilica, é de palhetas de +ouro. + +Nas catacumbas era mesmo sobre os tumulos dos martyres que se celebravam +os Santos Mysterios; porém, a começar do seculo III, este uso foi +approvado tambem pela Egreja. + +No Occidente, o altar era quasi sempre erigido sobre o tumulo d'um +martyr. Os restos mortaes do Santo collocavam-se immediatamente debaixo +do altar n'um sarcophago, e ainda, na maior parte dos casos, ficavam +depositados n'uma crypta collocada debaixo do Sanctuario. Tanto na +Grecia como no Oriente, nunca em tempo algum, e até mesmo em nossos +dias, se fez d'um tumulo um altar, mas sim d'uma mesa, que recordava +aquella sobre a qual o Salvador instituiu a Eucharistia. Um altar +_nunca_ encerrava _reliquias_. Desde o tempo de Constantino, que data a +maior parte dos altares das egrejas do Occidente. No principio do seculo +VI (517) o concilio de Épona prescreveu, que todos os altares fossem de +pedra, os quaes foram adoptados pela razão symbolica de ser considerado +o Salvador a pedra angular. + +Os altares de pedra d'essa épocha eram sempre formados por uma especie +de prateleira quadrada ou rectangular, para constituir a mesa do altar +propriamente dito. Esta mesa, muitas vezes, cobre um sarcophago ou um +tumulo de madeira; outras é sustentada por um pé central em forma de +cippo e ainda outras posta em quatro, cinco e mesmo até seis +columnellos. + +Havia altares formados de tres lages, das quaes duas se collocavam +verticalmente, servindo de supporte á terceira, collocada +horisontalmente, a fim de formar a mesa do altar. Encontram-se tambem +altares formados de cinco placas, tendo, pelo seu conjuncto, a fórma de +um cofre de pedra. + +A Auréola era formada de folhagens e sustentada por quatro anjos; Nosso +Senhor Jesus Christo fica collocado entre dois Cherubins, que facilmente +se reconhecem pelas suas asas abertas. Uma mão figurada no remate +superior da Auréola, é para indicar a presença de Deus. É tambem +adornada de flores, para indicar que o assumpto se passa no Céu. + +As esculpturas mostram que esta arte estava muito decahida no seculo +VIII. Essas figuras com posições grotescas e forçadas, teem todas o +rosto de frente, e os membros desproporcionados, sendo tudo d'uma +imperfeição tal, que é difficil imaginar-se nada mais grosseiro e rude. + +A inscripção, muito mal escripta, e n'uma linguagem quasi +inintelligivel, não é mais esmerada do que as esculpturas. + +Quando as faces dos altares das basilicas das grandes egrejas não tinham +esculpturas, eram então revestidas de laminas de ouro e de prata, com +engastes de pedras preciosas, ficando cobertas de colchas bordadas, +representando algumas vezes assumptos sagrados. + +Desde o seculo IV até meiado do XII, que as mesas dos altares eram +muitas d'ellas escavadas em fórma de bandeja em toda a extensão do plano +superior, tendo um rebórdo de alguns centimetros de altura; às vezes +tinham ornatos esculpidos. Muitas mesas eram furadas nos angulos, com um +ou muitos buracos, cuja serventia ainda não foi possivel descobrir. O +altar era encimado por um _ciborium_, especie de docel ou baldaquim, +sustentado por quatro columnas de madeira ou de marmore e de metal. + +Entre as columnas do _ciborium_ havia umas cortinas ou reposteiros de +corrediça, que se corriam para occultar o officiante e o altar durante a +consagração. + +O _ciborium_, que data do seculo XII, tem uma fórma um tanto differente +da que foi posta em uso durante o periodo Latino. + +As cortinas dos antigos _ciboriums_ eram em geral de preciosissimos +damascos de seda e ouro, ou com ricos lavores, guarnecidos de perolas, +pedrarias e mesmo laminas de ouro e de prata. + +Primitivamente, cada egreja apenas tinha um altar. Comtudo mais tarde +houve egrejas no Occidente, que tinham muitos. + +Os gregos e os orientaes nunca tiveram senão um altar nas suas egrejas. + +Os _altares portateis_ antigos compunham-se, bem como os mais recentes, +de uma prancha rectangular de madeira, de pedra ou de metal, algumas +vezes munida de uma moldura de ouro ou de prata, e tendo no extremo um +appendice para servir de punho. Não se acharam altares portateis do +periodo Latino, não obstante parecer indubitavel que deveriam ser +communs n'aquelle periodo. + +Uma tribuna, collocada no meio da nave principal das basilicas, era +destinada á leitura dos Santos Evangelhos e aos sermões. Algumas egrejas +possuiam tres: uma para o Evangelho, outra para a Epistola e outra para +as prophecias. + +A tribuna do Evangelho tinha regularmente duas escadas. Perto d'ella +havia um enorme candelabro que servia para supportar uma grande tocha +chamada _o facho do Evangelho_. + +Nas basilicas christãs, o sanctuario e o côro eram separados da nave por +uma divisão, umas vezes occultando o recinto, e outras ficando +rendilhado, á altura de metro e meio a dois metros acima do chão. Esta +divisão, chamada _cancello_, era muitas vezes de marmore. + +A cadeira episcopal ou _cathedra_ occupava o fundo do abside. Era de +pedra de marmore precioso, e elevada tres degraus, pelo menos, acima do +presbyterio. + +Havia tambem cadeiras de marfim. + +Aos lados da cadeira episcopal, e ao longo da parede do hemicyclo, +achavam-se os bancos destinados aos padres, chamados algumas vezes +_exedrae_, pelos auctores antigos. Eram muito simples, e durante o +officio cobriam-se com almofadas. + + +A partir do meado do IV seculo caíu a pouco e pouco em desuso o +enterramento nas catacumbas; e no principio do seculo seguinte, +desappareceu completamente. Os cemiterios estabeleciam-se á roda da +capella-mór das egrejas e das basilicas, situadas fóra dos muros das +cidades, com os seus tumulos quasi sempre orientados. + +N'estes cemiterios depositavam-se a maior parte das vezes os cadaveres +em covas de pedra e cal. Entre duas paredes parallelas e distantes entre +si 70 centimetros, pouco mais ou menos, abriam-se, por meio de lages ou +simples tijolos, nichos de tamanho sufficiente para receber um cadaver. +Estes nichos chegavam ás vezes a disporem-se em dez ordens, umas sobre +as outras. Este systema foi o adoptado para as sepulturas dos cemiterios +do IV, V e VI seculos. + +Algumas vezes tambem os cadaveres eram encerrados em sarcophagos, que em +seguida se cobriam com terra, ou se collocavam tanto ao ar livre como +debaixo de abobadas, no interior das egrejas e das basilicas. + +Foi sómente no VII seculo que a Egreja começou a permittir, ou antes a +tolerar, as inhumações, não precisamente no interior, mas em redor dos +templos situados dentro das cidades. Unicamente os bispos haviam até ali +gosado do privilegio de serem enterrados nas suas egrejas Cathedraes. + +Durante o periodo Latino foram muito raros os edificios isolados que se +construiram para servir de sepultura aos grandes personagens. + +As esculpturas dos sarcophagos começaram a modificarem-se no meiado do V +seculo. Os assumptos biblicos desapparecem a pouco e pouco, e são +substituidos por imagens de Santos. A Cruz da SS. Trindade ou o +monogramma de Christo occupa, muitas vezes, o centro da face principal +dos sarcophagos, destinada antes para o logar do Salvador, tendo aos +lados pombas, pavões, palmeiras, parras e outros symbolos. + +As tampas são ornadas de Cruzes da SS. Trindade, formadas pelo +entrelaçamento de Cruzes gregas e de Cruzes de Santo André, isto é, em +fórma de X. + +O meio da face principal d'alguns sarcophagos é occupado pelo monogramma +de Christo, que d'este modo preenche o logar do Salvador. Os pavões aos +lados do monogramma são os emblemas dos Apostolos, e as pombas, bicando +os cachos de uvas, symbolisam os fieis alimentando-se do vinho +eucharistico. A maior parte dos sarcophagos eram de pedra ou de marmore; +no entanto alguns havia de chumbo e até mesmo de gesso. + +Os _sarcophagos do IV seculo_ tinham todos a mesma largura e a mesma +altura nas extremidades; do V seculo, apparecem muitos tendo o lado da +cabeça mais largo que o dos pés. + +As _campas sepulchraes_ são em geral indicio de uma sepultura +subterranea. O seu uso é muito remoto. As lages tumulares, assentes +sobre os tumulos subterraneos ou nos nichos ao longo das paredes, eram +já empregadas no V seculo, sendo muitas vezes esculpidas em relevo, e +tambem algumas ornadas com desenhos só a traço. Por vezes ajustavam na +parede, onde existia qualquer sepultura, uma placa de marmore ou de +pedra, sobre a qual se gravavam symbolos, o nome do defuncto, a sua +idade, ou tambem o dia do seu fallecimento. + +Os _tumulos_ dos cemiterios primitivos podem-se dividir em tres classes, +segundo os objectos que n'elles se encontram. A primeira classe +comprehende aquelles em que, além do esqueleto, se não encontra mais +objecto algum, a não ser ás vezes uma pequena faca: estes tumulos são os +dos servos ou pessoas de condição servil. Nos tumulos da segunda classe, +o esqueleto é acompanhado do grande alfange de ferro, chamado +_scramasaxe_: são estes os dos homens livres ou senhores feudaes. O +homem livre gosava do privilegio de trazer á cintura este instrumento, +que com elle era tambem depositado no tumulo. A terceira classe era +constituida ordinariamente por um certo numero de tumulos ricos em +coisas de toda a especie, principalmente em armas e objectos de toilette +feminina: são esses os tumulos dos chefes militares, dos guerreiros e +membros da sua familia. + +O homem de guerra era sepultado com todo o seu equipamento, e ao lado +depositava-se a sua esposa, adornada com todas as joias que tinha usado +durante a vida. + +As fivelas (fibules), que se encontram em tão grande numero n'essas +sepulturas tinham duas serventias. + +As maiores serviam para fechar o boldrié de coiro onde se suspendia o +_scramasaxe_. Quasi todas são de ferro, sendo algumas marchetadas de +prata ou revestidas de laminas de prata, com lavores representando +folhagens ou figuras. Encontram-se algumas de bronze, e são as mais +bellas. + +Ha tambem umas fivelas de bronze e de menores dimensões, que serviam +para ligar o vestuario á roda dos rins, para individuos dos dois sexos. +Estas fivelas eram em geral menos lavradas que as do cinturão. Algumas +havia tambem de ferro. + +Os alamares, broches ou _fibulas_, destinadas a unir sobre os hombros ou +sobre o peito as duas extremidades do vestuario, são sem duvida os +objectos mais interessantes que se encontram nas sepulturas dos +cemiterios. Ha-os de ouro, de prata, de bronze, e encontram-se sobretudo +nos tumulos de mulher. + +Encontram-se tambem frequentemente nos tumulos de mulher, pregos para +segurar o cabello, com cabeças de aperfeiçoado trabalho. Ha-os de ouro, +de prata e de bronze, com grandes comprimentos. + +Os brincos das orelhas são em geral, assim como os pregos para o +cabello, pequenas obras primas de ourivesaria. Compõem-se quasi sempre +de um annel de grande diametro, ao qual está ligado um pequeno botão de +ouro cheio de filigranas e de vidrilhos embutidos. Os _collares_ que +frequentemente se encontram nas sepulturas de mulher, compõem-se de +contas, de fórmas e dimensões differentes, enfiadas n'um cordel. As +contas são de vidro e de loiça de diversas côres, e de coral natural ou +arredondado; tem-se tambem encontrado, mas raras vezes, contas de ouro +massiço. As de vidro e de loiça são, em geral, pintadas com differentes +camadas de côres juxtapostas, que adherem pela cozedura, reprezentando +zig-zags, e outras muitas figuras estriadas. As côres que predominam, +são o vermelho, o amarello, o verde, o pardo, o azul, o branco e o +preto. + +As _vasilhas de barro_ constituem o complemento obrigado de todos os +tumulos antigos. Encontram-se, quasi sempre, uma ou duas aos pés do +esqueleto. Parece que estas vasilhas serviam aos pagãos para conterem +agua lustral. Em seguida á sua crença na verdadeira fé, os convertidos +ao Christianismo continuaram a encerrar vasilhas nos tumulos, porém +mudaram a significação d'esta ceremonia funebre, substituindo a agua +lustral pela agua benta. + +A maior parte d'estas vasilhas são de barro preto e vermelho. Muitas +apresentam a fórma d'uma pequena urna, tendo na parte superior do bojo +ornatos de estylo muito rudimentar, feitos em volta e por meio da ponta +d'um instrumento cortante. + +As _vasilhas de vidro_, de fórmas elegantes e variadas, que se encontram +nas sepulturas junto á cabeça ou aos pés do esqueleto, mostram que a +arte de vidraceiro já tinha attingido um elevado gráu de perfeição. O +maior numero são de vidro, d'um amarello esverdeado, soprado ou moldado; +algumas têem como ornato riscas delgadas, brancas ou de côr, feitas +depois da sopragem ou misturadas com a massa vitrea. + +A introducção do Christianismo entre os Francos data do fim do seculo V. +Não é por isso para admirar o encontrarmos nos seus tumulos objectos +ornados com symbolos christãos. + +O _calice_ occupa o primeiro logar entre os vasos sagrados. Já os +Apostolos se serviam de calices para a celebração dos Santos Mysterios. + +Nos primeiros seculos da egreja, os calices eram de madeira, de vidro e +até mesmo de chifre. + +Depois da conversão de Constantino, é que se começou a generalisar o uso +dos calices de ouro e de prata. Muitas vezes eram tambem ornados de +pedrarias. + +Existem calices de differentes especies. Os calices ordinarios, que se +compõem, como os de todas as idades posteriores, de uma taça, um nó e um +pé, tinham, em geral, a taça de fórma cylindrica, mais ou menos vasada, +muito estreita e profunda. Os calices da segunda especie eram os calices +ministeriaes, que serviam para distribuir aos fieis o precioso sangue, +quando estava em uso a communhão de duas especies na Egreja. Este uso +foi abolido no XIII seculo. Os calices ministeriaes, em geral, de +grandes proporções, tinham duas asas. + +Havia ainda os calices das offerendas, _calices offertorii_, nos quaes +os diaconos recebiam as oblações de vinho; os calices baptismaes, que +serviam para dar aos novos baptisados uma mistura de leite e de mel; e +os calices de adorno, que nos dias solemnes eram suspensos na egreja, +nas proximidades do altar, ou collocados sobre a credencia. + +A _patena_, assim chamada do verbo latino _patere_, _estar aberto_, em +consequencia da sua fórma larga e pouco profunda, é um prato de metal, +de vidro, ou de qualquer outra substancia, no qual se colloca a Hostia, +durante a Santa Missa. O seu uso é tão remoto como o do calice. + +As patenas eram redondas, quadradas ou polygonaes e munidas d'um +rebórdo. + +O uso de reservar a Santa Eucharistia para os doentes e ausentes, provém +desde a origem do Christianismo. + +Pouco depois, quando os _altares_ foram augmentados com o _ciborio_, +suspendiam a reserva Eucharistica encerrada em vasos com a fórma de +torres e pombas. Os vasos para as Sagradas Particulas tinham +primitivamente a fórma de uma pomba. Quasi todos eram de ouro, de prata +e de cobre dourado. A pomba Eucharistica encerrava-se geralmente em um +Tabernaculo com fórma de torre. + + +Durante o período _Latino-bysantino_, os corpos dos Santos eram +cuidadosamente encerrados em sarcophagos, e depositados em cima d'um +altar ou n'uma crypta subterranea. + +O Relicario para o Santo Lenho tem quasi sempre a fórma de pequenas +Cruzes peitoraes, concavas interiormente, e abrindo-se em toda a sua +altura, por meio d'uma dobradiça collocada no vertice superior da Cruz. + +As _chaves da confissão de S. Pedro_ são assim chamadas, porque se diz, +que serviam para dar ingresso no tumulo do principe dos Apostolos, na +crypta da basilica Vaticana. As chaves são grossas, ovaes, ôcas e de +lavores rendilhados. + +Os Soberanos Pontifices dos primeiros seculos tinham por uso distribuir +aos reis, aos principes e aos bispos, parcellas das cadeias de S. Pedro, +dentro de anneis, cruzes, e principalmente em preciosas chaves. + +Desde o IV seculo que começaram a importar de Jerusalem os oleos +provenientes das lampadas que ardiam de noite e de dia no Santo +Sepulchro, e em outros logares Santos. + +Os Papas e os Bispos enviavam estes oleos ás egrejas, aos soberanos e ás +pessoas de distincção. Eram conservados e remettidos em pequenos vasos +de vidro ou de metal, circulares, e achatados, com gargallo. + +Durante os primeiros seculos, a Mesa do altar estava inteiramente livre +e a descoberto, e só se punha em cima o pão, o vinho e os Vasos Sagrados +necessarios para o Santo Sacrificio. + +_Os Crucifixos_ e os castiçaes _eram desconhecidos_ durante os primeiros +seculos. N'essa épocha apenas algumas vezes se via uma cruz ao lado +direito do altar. + +_Corôas de altar_, geralmente de _metal precioso_ e ornadas de pedrarias +engastadas, constituiram, durante todo o periodo latino, o mais rico +accessorio do altar. + +As mais notaveis corôas de altar, que foram descobertas em 1858 e 1860, +em Toledo (Hespanha), são em numero de onze, todas de ouro e cravejadas +de pedras. + +Algumas vezes, principalmente a partir do IX seculo, deu-se o nome de +_regnum_ ás corôas votivas dos altares, para as distinguir das de +illuminar. Tambem ás vezes se penduravam Cruzes proximo dos altares. + +As luzes que se empregavam com profusão, durante os Officios Divinos, +eram collocadas proximo dos altares, quer sobre uma mesa, quer sobre +candelabros, ou ainda mais vezes sobre lustres, em fórma de corôa, +suspensos no côro, no Sanctuario e até mesmo no meio da egreja. + +Os _diptycos_ são de épocha muito remota. Ao principio eram formados de +duas pequenas taboas de madeira ou de marfim, dobrando-se uma sobre a +outra, e cuja parte interior continha uma camada de cera, sobre a qual +se escrevia. Estas taboas eram rodeadas com uns fios de linho, sobre os +quaes se deitava cêra que se imprimia com um sinete. Serviam assim para +as missivas secretas. + +Desde a sua origem que a Egreja Christã teve diptycos. Eram tabellas ou +catalogos, sobre os quaes se inscreviam certos nomes que deviam ser +lembrados e lidos, pelo menos em parte, nas reuniões sagradas dos fieis. + +Podêmos pois, conforme a origem, distinguir duas especies de diptycos +sagrados: os diptycos consulares adaptados á liturgia, e os diptycos +puramente ecclesiasticos. + +Os diptycos puramente ecclesiasticos eram de marfim ou de metal. Tinham +nas faces exteriores esculpidos ou cinzelados a imagem de Christo e a da +Santa Virgem, ou assumptos tirados da historia do Velho e Novo +Testamentos, e outros symbolos christãos. + +Quando a leitura dos diptycos começou a deixar de se usar nos officios +sagrados, transformaram-se as taboas esculpidas ou cinzeladas, em capas +para livros liturgicos. + +Desde o tempo de S. Jeronymo que começaram a ornamentar, o mais +ricamente possivel, o livro dos Evangelhos; notava-se esta riqueza tanto +no exterior como no interior do volume. + +Muitas vezes o texto sagrado era escripto com letras de ouro sobre +membranas côr de purpura. + +Exteriormente os livros dos Evangelhos eram ornados com todo o esmero; +nas capas abundavam o ouro, a prata, os vidrilhos, as pedrarias e as +perolas, e durante muito tempo, foi costume encerral-os em estojos ou +cofres, _capsae_, ricamente trabalhados. + +As capas dos Evangeliarios podem-se dividir em duas classes: as de +laminas metallicas e as de marfim. + +Entre as primeiras, umas eram simples, sem figuras e até mesmo +desprovidas de toda a ornamentação, outras cravejadas de pedras e +esculpidas em relevo, representando assumptos religiosos. + +Os assumptos das capas dos Evangeliarios de marfim e de metal não +differem dos que têem as dos diptycos. São symbolos ou scenas extrahidas +do Novo Testamento e principalmente da vida e da paixão de Nosso Senhor. + +_Estofos preciosos_. Durante os primeiros seculos da era christã, os +fatos ordinarios eram de tela, ou, na maior parte das vezes, de lã. +Depois da conversão de Constantino, o uso dos tecidos de seda para as +vestes liturgicas generalisou-se bastante, a ponto tal, que o Soberano +Pontifice S. Silvestre, contemporaneo d'este imperador, foi obrigado a +abolil-o nas roupas brancas de altar chamadas _corporaes_. + +Além dos tecidos unidos, ha outros ornados com figuras ordinariamente +multicolores, obtidas umas pela applicação de variegadas côres depois da +tecedura, outras durante a tecedura, por meio de certas combinações dos +fios da cadeia e da trama. + +Durante o periodo Latino, o fabrico textil da seda era completamente +desconhecido na Europa meridional e occidental. Provinham da Asia, do +Egypto, da Grecia e de Constantinopla, os tecidos de seda. É por este +motivo que muitas vezes se chamavam _estofos transmarinos_, e mais tarde +tambem, estofos dos Sarracenos, porque os arabes mahometanos forneciam +para o Occidente uma grande quantidade. + +Os estofos mais antigos não raras vezes eram decorados com medalhões +circulares ou ovaes, no genero de _Maestricht_, obtidos ou pela +tecedura, ou por bordados applicados posteriormente. + +A ornamentação dos tecidos, que vinham do Oriente e sobretudo da Persia, +consistia em assumptos em que predominavam o reino animal e o vegetal, e +até por vezes na propria mythologia d'este ultimo paiz. Em vão +procurariamos o symbolismo christão n'estas representações tão variadas. +Apenas ali se encontra o producto da imaginação dos artistas orientaes, +que confeccionaram esses tecidos. + +Os symbolos e os assumptos christãos só excepcionalmente apparecem sobre +alguns productos das fabricas gregas ou bysantinas, e isso mesmo em uma +épocha relativamente recente; consistem em pequenas Cruzes Gregas da +Trindade, inscriptas em circulos, animaes symbolicos, taes como o leão e +o pavão, e raramente um personagem isolado. As scenas historicas do +Velho e Novo Testamentos não começaram a representar-se sobre os estofos +senão durante o VIII seculo. + +Desde o meiado do IV seculo, que a egreja começou a servir-se d'este +meio, para representar, sobre os tecidos empregados nas ceremonias +sagradas, assumptos religiosos extrahidos do Velho e do Novo +Testamentos, ou da historia dos Santos. + +O ouro, a seda e as perolas, abundavam em todos estes bordados, que +consistiam muitas vezes em medalhões circulares ou ovaes e que +applicavam sobre tecidos preciosos, para lhes imprimir um caracter +religioso. + +Desde o VI seculo que a arte de bordar foi, na Europa occidental, a +principal occupação das mulheres nobres, e no seculo seguinte, esta arte +elevou-se a um tal gráu de prosperidade, nas Ilhas Britannicas, que +durante toda a idade media não deixou de florescer. + +Desde os primeiros seculos, que se ornavam com bordados de purpura, ou +de qualquer outra côr brilhante, as vestes de lã branca dos padres e dos +diaconos. Estes bordados foram mais tarde substituidos por brocados de +seda. Serviam-se tambem dos pannos d'essa qualidade, para armação nas +basilicas e nas egrejas. + +Estes ricos pannos tinham ainda outro uso. Antes de serem collocadas nos +ataúdes, as ossadas dos Santos eram rodeadas de pelles de camello e +envolvidas em tecidos os mais ricos, de linho, seda e ouro. A maior +parte dos estofos antigos que se conservaram até aos nossos dias, foram +tirados de sepulturas de Santos. + +_Paramentos Sacerdotaes_. A Egreja manteve escrupulosamente, para os +ornamentos sagrados, as fórmas adoptadas pelos primeiros christãos, +emquanto que a fórma e o talhe dos fatos profanos se modificaram +invencivelmente. + +Em geral, os paramentos sagrados dos padres e dos ministros inferiores +eram brancos. O uso das côres variadas manifestou-se primeiramente nas +_casulas_ e nas _capas d'asperges_. + +As cinco côres liturgicas de que se servem hoje, foram estabelecidas +pouco mais ou menos no IX seculo, e definitivamente consagradas dois +seculos depois. + +Os paramentos dos padres são as casulas, a _capa d'asperges_, a +_estóla_, o _manipulo_, o _cinto_, a _ópa_ e o _amicto_. As principaes +vestimentas, proprias para os ministros inferiores, são a _dalmatica_ e +a _tunicella_. + +A casula primitiva era uma vestimenta sem mangas, muito ampla, +envolvendo todo o corpo desde o pescoço até aos pés, e formando uma +especie de barraca, _casula_, em torno da pessoa que a vestia. Tinha +apenas uma abertura para passar a cabeça. + +A _estóla_ deve o seu nome e origem ao vestuario que os romanos chamavam +estola. + +A Egreja adoptou como paramento a _estóla_, de que se fazia uso por toda +a parte, na occasião em que se estabeleceu o Christianismo. + +O _manipulo_ não se usava durante os primeiros seculos da Egreja. Foi S. +Gregorio o Grande, (590-604) quem primeiro fallou, em seus escriptos, do +manipulo como paramento sagrado. + +A _capa_ é um paramento commum ao padre e a alguns dos ministros +inferiores. Primitivamente serviam-se da capa para se resguardarem da +chuva nas procissões; é tambem por este motivo que ella se chama muitas +vezes _pluvial_. + +A _alva_ e o _cinto_ devem a sua origem á _tunica talar_ dos antigos, +que era um vestuario de linho, munido de mangas e apertado á roda do +corpo com um cinto. + +A _alva_ era vestida nas funcções sagradas pelos bispos, padres e todos +os ministros inferiores. + +O _amicto_ é uma espécie de téla de que os padres e os ministros se +servem para cobrir o pescoço. A origem d'este vestuario não vae além do +VIII seculo. + +Durante os tres primeiros seculos, os diaconos trajavam o _colobio_, que +era uma especie de tunica longa e estreita, ordinariamente sem mangas. +Foi no principio do IV seculo, que o Papa S. Silvestre substituiu o +_colobio_ pela _dalmatica_. + +A _dalmatica_ era uma bluse comprida, feita de lã da Dalmacia. + +Até ao VII seculo, os sub-diaconos da Egreja do Occidente não eram +vestidos senão com a alva, com o cinto e com o amicto. + + +*Mosteiros Latinos* + + +Foi no principio do VI seculo, que começaram a maior parte dos +religiosos a reunir-se em communidade, e a viver juntos, debaixo do +mesmo tecto. Vivia então S. Benedicto. + + +*Iconographia do periodo Latino* + + +Muitos monumentos do periodo Latino, sobre tudo os mais antigos +mosaicos, conteem personagens em pé e attitude respeitosa, tendo nas +mãos, envoltas nas rugas do manto, uma corôa em fórma de circulo, que +offerecem ao Salvador. Este é representado sob a fórma symbolica do +Cordeiro, do monogramma, da Cruz, e até mesmo d'um simples espaço vazio. + +Christo, debaixo da fórma symbolica do Cordeiro ou do monogramma, no +meio de doze cordeirinhos ou de doze pombas, que os monumentos do +periodo Latino nos offerecem frequentemente, symbolisa o Salvador +rodeado dos seus discipulos, isto é, a Egreja triumphante no Céu, +recebendo na terra o ensino do seu Divino Fundador. + +Tambem muitas vezes se encontra um cordeiro, uma Cruz Trina, ou o +monogramma de Christo entre dois cordeiros, duas pombas, dois pavões ou +dois veados; isto symbolisa o Salvador sob a fórma humana no meio dos +Apostolos e d'outros Santos, ou sob a fórma symbolica do Cordeiro e do +monogramma no meio de doze cordeirinhos ou doze pombas. + +Vê-se tambem uma taça ou um cacho de uvas no meio de dois pavões ou de +duas pombas, o que nos parece uma allusão mais directa ao regosijo dos +que vão para o Céu. + +Alguns monumentos do periodo Latino, principalmente os mosaicos do V e +VI seculos, teem um throno, com ou sem docél, e em que ha uma almofada, +um cortinado cahindo diante da cadeira e algumas vezes o livro dos +Evangelhos. Um monogramma ou uma Cruz, geralmente da Trindade, occupa o +meio do throno e domina toda a composição. Muitas vezes vê-se, ao lado +do throno, os doze Apostolos em pé, ou sómente S. Pedro e S. Paulo. Em +todos estes assumptos o throno representa o Salvador. + +Mais tarde, principalmente no Oriente, acrescentaram a esta +representação novos signaes iconographicos: nas extremidades da almofada +collocavam á direita da Cruz a lança, e á esquerda a esponja na +extremidade d'uma lança; algumas vezes tambem se entrelaça a corôa de +espinhos em torno da Cruz. A partir d'este momento, a _cathedra_ da +doutrina torna-se o throno do julgamento final e a Cruz o signal do +Filho do Homem. + +S. Pedro, collocado ao lado do Salvador, sustenta ordinariamente sobre o +hombro esquerdo uma cruz de haste comprida; outras vezes recebe com a +mão direita um volume desenrolado, que Nosso Senhor lhe apresenta. Desde +a primeira metade do V seculo, que elle conserva as chaves na ponta do +seu manto. + +S. Paulo é quasi sempre representado recebendo um ou dois rolos, +symbolos da Lei Evangelica. + +Muitas vezes tambem collocavam uma phenix sobre uma palmeira. A Phenix é +a figura da resurreição futura. + + +*Caracteres do estylo Bysantino* + + +O plano e a disposição das egrejas bysantinas apresenta-se com tres +typos distinctos: 1.^o, com a basilica coberta de madeira, similhante á +basilica Latina do Occidente; 2.^o, com a rotunda ou egreja circular; +3.^o, com a basilica bysantina propriamente dita, abobadada e sobreposta +d'uma ou de muitas cupulas. A basilica bysantina abobadada distingue-se +perfeitamente de todos os monumentos dos tempos anteriores, pela cupula +sobre abobadas pendentes, e construida ao meio d'uma nave, mais ou menos +alongada. + +As fachadas das egrejas bysantinas differem das que têem as basilicas +Latinas. Estas terminam em geral por um frontespicio triangular; as +fachadas das egrejas orientaes, pelo contrario, terminam ou por uma +fachada horisontal á maneira d'uma cornija, ou por uma serie de +corôamentos semicirculares. + +O systema de construcção das egrejas bysantinas distingue-se pelos +seguintes traços. O tijolo é geralmente empregado para todas as +edificações. Mesmo nos paizes em que a pedra é abundante, os architectos +bysantinos preferiam, a maior parte das vezes, o tijolo aos materiaes de +grandes dimensões. O caracter distinctivo das egrejas bysantinas, sob o +ponto de vista da construcção, consiste na presença de uma ou de muitas +cupulas elevadas, sobre abobadas pendentes. + +Chamam-se _abobadas pendentes_ umas certas saliencias nas abobadas do +cruzeiro, que pela sua fórma se approximam do sector espherico e que +serve para fazer passar uma construcção de quadrado a octogono ou a +plano circular. + +A decoração exterior das egrejas bysantinas, sobretudo no IV e V +seculos, era pobre e simples. Do VII seculo ou do VIII seculo em diante, +os ornamentos exteriores das paredes e archivoltas das janellas são +bastantes vezes como os dos edificios Latinos, formados por fiadas de +pedras alternadas com uma ou muitas fiadas de tijolos. As archivoltas +ornadas de molduras ficam em resaltos umas sobre as outras, e +representadas nas paredes por cordões feitos de tijolos de fórma e côr +variaveis. + +A decoração _interna_ consiste em revestimentos de diversas naturezas, +marchetados de marmores ou mosaicos, applicados sobre os pilares, +paredes e abobadas. O caracter essencialmente superficial da esculptura +bysantina consiste regularmente em folhagens lisas e angulares. + +Os ornatos que os bysantinos gostavam de esculpir nas almofadas de +marmore com que decoravam o interior das egrejas, eram entrelaçamentos +de linhas rectas e curvas, ás quaes juntavam cruzes da Trindade, florões +e algumas vezes figuras de animaes tanto reaes como chimericos. + +A começar no VIII seculo, as pinturas a fresco das egrejas bysantinas +foram muitas vezes substituidas por mosaicos e por embutidos em estuque; +acabaram por ser completamente substituidas. + +A influencia bysantina fez-se sentir primeiramente no começo do IX +seculo e mais tarde, no fim do X. Foram construidas muitas egrejas sob a +influencia bysantina dos monumentos typos. + +No reinado de Justiniano (527-565) o estylo bysantino ficou +definitivamente constituido com os caracteres acima definidos. Santa +Sophia em Constantinopla constitue o seu typo por excellencia. + +Leão, o Isauriano, prohibiu, em 726, a reproducção de qualquer figura, +quer pela esculptura, quer pela pintura nas paredes das egrejas, quer +nos objectos do culto. Esta prohibição, confirmada em 754, por um +conciliabulo heretico, subsistiu até 842. N'este ultimo anno, depois da +morte de Theophilo, ultimo imperador iconoclasta, a imperatriz Theodora +substituiu os editos de Leão o Isauriano e restabeleceu o culto das +imagens. + +A épocha mais florescente da arte bysantina foi no X seculo e mais +particularmente no reinado de Constantino Porphyrogeneta. + +No XI seculo, uma serie de graves acontecimentos precipitou a decadencia +do imperio bysantino e trouxeram por consequencia o enfraquecimento das +artes. No XIII, XIV e XV seculos, as artes continuaram a desfallecer, +até que, em 1453, os turcos, apoderando-se de Constantinopla, causaram a +decadencia da arte bysantina. + + + + +CAPITULO IV + +/# + *Summario.*--O estylo Roman desde o VIII até ao seculo + X--Caracteres do estylo Lombardo--Planos das + Egrejas--Cryptas--Baptisterios--Systemas de + construcção--Abobadas--Pilares e + columnas--Bases--Capiteis--Fachadas--Cornijas--Decoração + monumental--Architectura, antes do seculo XI, nos outros estados + sem ser na Lombardia: Italia central e meridional, Belgica e + França--O estylo Roman durante o XI e o XII seculos--Caracter da + Architectura Roman--Plano e distribuição das + Egrejas--Cryptas--Baptisterios n'este seculo--Materiaes e modo de + construir--Sepultura monumental--Fachadas--Portico das + egrejas--Portaes--Portas e suas ferragens--Janellas e + rosaceas--Maneira de resguardar da chuva as janellas e as vidraças + pintadas--Absides--Pilares, columnas--Bases e capiteis--Arcadas e + arcarias menores--_Triforium_--Cornijas e + modilhões--Abobadas--Contrafortes--Madeiramentos--Torres--Modo de + se lagearem os edificios--Pinturas muraes--Inscripcões + lapidares--Altares--Piscinas--Tribunas--Cadeiras do côro e a + separação da capella mór do corpo da egreja--Capellas + funereas--Tumulos visiveis e occultos--Campas--Pias + Baptismaes--Gradamentos--Alfaias religiosas--Calices e + patenas--Custodias--Relicarios--Corôas suspensas nos + altares--Lustres de forma de corôas--Cruzes para os altares e + procissões--Castiçaes e tocheiros--Evangeliarios--Capas dos livros + do Evangelho--Thuribulos--Pias para agua benta--Pentes + liturgicos--Cadeiras para os sacerdotes--Baculos--Calçado + liturgico--Mitras--Tecidos bordados--Vestuarios sacerdotaes. +#/ + + +*Periodo Roman* + + +O periodo roman estende-se desde o VIII seculo até ao fim do XII. O +estylo roman formou-se e desenvolveu-se debaixo da influencia combinada +de tres elementos: 1.^o, o estylo classico e latino, cujos monumentos +existiam espalhados pela Europa meridional; 2.^o, o estylo bysantino, +cujos principios foram importados do Oriente; 3.^o, o genio particular +dos povos barbaros que invadiram a Europa desde o V seculo. + +O estylo proveniente da influencia combinada d'estes tres elementos, +chamou-se _roman_, porque a sua origem e duração coincidem pouco mais ou +menos com a da lingua romanica. Por conseguinte a palavra _roman_ +indica, do mesmo modo que na lingua romanica, o elemento barbaro que +contribuiu para a formação d'este estylo. + + +*O estylo Roman desde o VIII até ao X seculo* + + +A decadencia completa das bellas artes foi o effeito necessario dos +movimentos politicos que a Europa soffreu durante tres seculos. Só os +padres e os religiosos luctavam no meio d'este chaos, contra a barbarie +e a força brutal dos invasores. O renascimento das artes foi lento, e do +mesmo modo o das lettras, porque o solo da Europa occidental estava +juncado de destroços amontoados, dos monumentos antigos; as tradições +artisticas tinham-se perdido, e os principios haviam cahido em +esquecimento. + +Para a architectura e para as artes, a Lombardia foi, desde o VII até ao +fim do X seculo, o principal centro d'este renascimento. O estylo +formou-se n'esta épocha, ao norte da Italia, e recebeu o nome de +_Lombardo_. + + +*Caracteres do estylo Lombardo* + + +O estylo Lombardo, ou o estylo Roman do norte da Italia, reinou n'este +paiz desde o VIII seculo até ao fim do XII. + +O plano da basilica Latina foi geralmente adoptado nas egrejas +lombardas. + +Na maior parte das grandes egrejas lombardas, as paredes internas são +construidas com galerias. + +As cryptas das egrejas lombardas estendem-se por baixo de todo o +presbyterio, e formam verdadeiras capellas subterraneas, com muitas +naves abobadadas. + +Os baptisterios isolados, geralmente octogonaes ou circulares, usaram-se +durante o periodo lombardo. + +A maior parte dos edificios lombardos são construidos de tijolo. + +_Abobadas_. A abobada em fórma de _berço_ consiste n'um semi-cylindro +concavo e sem penetração alguma. + +A abobada de _*aresta*_, assim chamada porque apresenta quatro arestas +no intradoz, é formada pela intersecção ou penetração de duas abobadas +de berço, com a mesma abertura e reunindo-se em angulo recto. + +Os architectos lombardos fizeram grandes progressos na construcção das +abobadas. Antes do seu tempo não se conhecia além da cupula senão duas +especies de abobadas: a abobada de berço, e a abobada de aresta romana. + +As abobadas lombardas apresentam todas uma elevação em fórma de +zimborio, particularidade que pertence ao systema de construcção seguido +pelos architectos lombardos. Esta elevação dá ás abobadas das egrejas +lombardas um aspecto particular. + +Nas egrejas lombardas de tres naves, a principal tem sempre dobrada +largura. + +Como dissémos, as abobadas da nave principal exercem sobre os seus +pontos de apoio não sómente uma pressão vertical, mas tambem uma obliqua +e lateral, que tende a fazer inclinar para fóra os pilares e as muralhas +superiores. Nos edificios lombardos, esta pressão acha-se equilibrada +pelo encontro opposto das abobadas altas e baixas das naves lateraes e +em parte apoiada sobre os contrafortes exteriores, pelos arcos-butantes +das naves lateraes e pelas porções de parede que supportam estes arcos. + +Nos edificios antigos e nas basilicas latinas serviam-se de columnas +cylindricas, pouco espaçadas e recebendo directamente as pressões +verticaes de entablamentos d'um peso relativamente pouco consideravel. +Os constructores lombardos substituiram o pilar composto de columnas +pelo simples supporte cylindrico da basilica coberta de madeira. + +Os caracteres dos pilares lombardos pódem resumir-se da seguinte +maneira: 1.^o Os pilares apresentam uma secção rectangular ou quadrada e +são ornados de pilastras ou de columnas envolvidas, recebendo as bases +das nervuras e dos arcos-butantes. 2.^o Não têem todas a mesma grossura, +umas são menos, outras mais fortes, segundo recebem ao mesmo tempo as +bases de todas as abobadas, ou das naves lateraes sómente. Foi desde a +primeira metade do seculo VIII que appareceram os pilares ornados de +columna, desconhecidos na arte classica e empregados com profusão no +Occidente pela arte na edade media. As columnas e as columnatas são +ordinariamente construidas por fiadas de desigual altura de medio e +pequeno apparelho; raramente são monolithas. + +Essas columnatas dos pilares, quasi sempre delgados e muito elevados, +chegam muitas vezes sem interrupção até á origem das abobadas, e +constituem um facto capital na historia da arte, porque são um dos +elementos mais caracteristicos e fundamentaes de quasi toda a +architectura da edade media. + +As bases lombardas approximam-se sensivelmente, pela sua fórma, da base +attica propriamente dita. + +Estas bases são muitas vezes munidas d'um ornato destinado a ligar o +tóro inferior com os angulos do plintho e a dar d'este modo uma +apparencia de maior solidez dos angulos. Este ornato ou appendice +recebeu o nome de _garra_ ou _pata_. + +As garras mais antigas são muito simples, as de data posterior +representam ordinariamente cabeças d'animaes. + +Os capiteis lombardos, assim como os bysantinos, têem ordinariamente a +fórma de açafate esvasado ou cubico. + +Uma transformação se opéra insensivelmente e a arte lombarda adquire uma +certa originalidade. Os seus typos são variadissimos; o cinzel do +esculptor dá ali provas de fecundidade. Mais tarde esta transformação +continúa lentamente, e durante o X seculo, as esculpturas tornam-se mais +salientes, as folhagens são augmentadas e as extremidades arredondadas. + +Em relação á esculptura d'ornato que cobre o açafate, podem +distinguir-se duas especies de capiteis: os capiteis _ornados de +folhagens_ e os capiteis historicos ou legendarios. Os capiteis +historicos são muito communs nas egrejas lombardas que datam do VIII +seculo. + +Chamam-se historicos e legendarios os capiteis que são ornados com +esculpturas que representam scenas tiradas da historia ou da lenda e até +mesmo algumas vezes têem animaes symbolicos ou phantasticos. + +O abaco enorme em fórma de capitel, que se encontra nos edificios +Latinos, só raramente se vê nas egrejas Lombardas; é substituido por +grosso abaco, mas pouco elevado, de profil muito acentuado e muitas +vezes talhado em pedra differente do corpo do capitel. + +Em opposição ao principio geralmente admittido pela antiguidade e pela +edade media, as fachadas das egrejas Lombardas não indicam exteriormente +a fórma das naves lateraes. + +Compõem-se d'uma grande parede que chega até aos dois lados obliquos que +a terminam, e na qual não apparece o resalto na nave principal por cima +das naves lateraes. + +Os campanarios das egrejas Lombardas ficam ordinariamente separados do +edificio da egreja, e compõem-se de uma serie d'andares quadrados, todos +da mesma largura e pouco mais ou menos da mesma altura, separados uns +dos outros por cornijas. Estes andares são ornados com faixas muraes e +pequenas arcadas fingidas, cujos arcos se apoiam sobre modilhões. + +As cornijas dos edificios lombardos apenas apresentam uma pequena +saliencia das faces das paredes. São quasi sempre collocadas sobre +arcaduras fingidas, de volta inteira, assentando em modilhões de fórma +muito simples. + +As arcaduras constituem uma das fórmas caracteristicas da architectura +Lombarda; encontram-se, não só debaixo das cornijas dos telhados, mas +tambem debaixo das outras cornijas das fachadas; e até mesmo nas +platibandas horisontaes dos edificios. + + +*Decoração monumental* + + +Os bysantinos cobriam com marmores e mosaicos as paredes interiores das +suas egrejas. Os lombardos, pelo contrario, mostram no seu systema +decorativo uma certa preferencia quasi exclusiva pelas esculpturas, a +qual derivando da bysantina, foi por algum tempo sua imitação; porém, +mais tarde, a começar no IX seculo, principiou-se a abandonar esse modo +de decorar. + +Nos primitivos edificios lombardos nota-se uma grande incorrecção nas +esculpturas das figuras, quer verdadeiras, quer phantasticas. Mais +tarde, encontram-se, em todo o periodo do estylo Lombardo, nos seus +edificios, animaes chimericos, ora isolados ora em frente uns dos +outros, e acompanhados, e tambem entrelaçados de folhagens. + +As esculpturas não cobrem só os capiteis, mas tambem as archivoltas e os +tympanos, assim como as faces dos altares, dos doceis, etc. + +Os embutidos e os revestimentos de marmore são raros no interior dos +edificios lombardos. + +Desde o IX seculo que se substituiram os embutidos em marmore pelas +pinturas a fresco e por mosaicos de pequenos cubos. + +Em quanto o estylo Lombardo se desenvolvia no Norte da Italia, o Latino +continuava a ser seguido na Italia central e meridional. + +A maior parte das egrejas do VII e do VIII seculos eram construidas de +madeira, o que explica os frequentes incendios d'essas egrejas. + +No principio do seculo IX, o imperador Carlos-Magno tentou fazer reviver +as bellas artes na Europa Occidental; quiz restabelecer o renascimento +da arte romana. + + +*O estylo Roman durante os seculos XI e XII* + + +O estylo Lombardo, inteiramente constituido no Norte da Italia desde o +seguinte seculo, exerceu uma grande influencia sobre a architectura +roman dos paizes cisalpinos no XI e XII seculos. No fim do X seculo, e +no principio do seguinte, os monges introduziram o estylo Lombardo na +Allemanha, na Suissa, e nas provincias da França visinhas da Italia, +d'onde irradiou para o Norte e Oeste. + +O estylo roman da Europa Central não é outra coisa mais que o estylo +Lombardo transportado áquem dos Alpes e modificado occidentalmente pelo +proprio genio dos differentes povos que occupavam esta região. O +elemento Gaulo-romano tomou tambem grande parte na formação do estylo +roman. + +O roman inglez recebeu o elemento Lombardo por intermedio dos Normandos, +que, depois de terem conquistado a Inglaterra, para ali levaram o estylo +do Occidente da França. + +A rapida propagação das ordens religiosas durante o seculo XI, +contribuiu poderosamente para a diffusão e desenvolvimento da +architectura Roman. Foi n'este seculo, que as ordens religiosas, graças +a abundantes recursos, cobriram em pouco tempo a Europa Central e +Occidental com um grande numero de egrejas e mosteiros. Estes +monumentos, não obstante apresentarem todos os mesmos caracteres geraes, +taes como o emprego das abobadas de volta inteira e d'um mesmo systema +de construcção, differem comtudo entre si, em certos caracteres +especiaes, proprios de cada região. + +O estylo roman do seculo XI differe do estylo do XII por uma +ornamentação mais simples, contornos menos correctos e execução +geralmente inferior. + +No seculo XII, abundam os ornatos tanto no interior como no exterior dos +edificios. No final do seculo XI, estabeleceram-se, na Europa +Occidental, duas escolas de architectura, animadas de diversas +tendencias. Uma na ordem de S. Bento, que tinha o seu centro principal +na abbadia de Cluny, desenvolvia uma magnificencia e um luxo quasi +extraordinario na decoração dos edificios religiosos, cuja construcção +lhe era incumbida; a outra, pelo contrario, procedente da Ordem de +Cister, quasi que não admittia ornatos alguns e levava a singeleza até á +severidade. Em todos os paizes em que existiam edificios romanos por +occasião da formação do estylo roman, a sua existencia exerceu grande +influencia na decoração dos edificios. Pelo contrario nos paizes em que +escasseavam aquelles monumentos, diligenciaram imitar, a maior parte das +vezes, na esculptura monumental os variados tecidos importados do +Oriente. + + +*Caracteres da architectura Roman* + + +As egrejas romans apresentam ordinariamente em planta a forma d'uma Cruz +Latina, cuja frente representada pelo côro é voltada para o Oriente. +Têem geralmente tres naves formadas por duas ordens parallelas de +pilares, e algumas vezes de cinco. Depois do seculo XI, o côro das +egrejas cathedraes, abbaciaes (exceptuando as da Ordem Cistersiense e +collegiaes), tem maiores dimensões que nas basilicas Latinas e +Lombardas. + +Quando o côro não era rodeado de capellas, terminava por um abside +semi-circular ou por uma parede recta. Encontram-se, nas margens do +Rheno e em outras partes da Allemanha, egrejas Romans com dois absides +semi-circulares, um a Leste e o outro a Oeste. + +Algumas das grandes egrejas Romans têem os lados do corpo da egreja +divididos por galerias. + +Todas as egrejas Romans, sem excepção, são orientadas. + +Muitas das mesmas egrejas têem cryptas quasi sempre situadas debaixo do +côro, e formando capellas subterraneas, com tres a cinco naves, cujas +abobadas de barrete veem assentar sobre duas ou quatro ordens de pilares +pouco elevados. + +Desce-se para a maior parte das cryptas por duas escadas collocadas aos +lados da que do transepte conduz ao côro. Nas que não têem senão uma +entrada, acha-se ordinariamente diante do côro mesmo no eixo da egreja. + +O uso de construir cryptas só deixou de existir desde o seculo XIII. + +Durante o periodo Roman, ainda se construiram, ao pé das cathedraes e +das grandes Egrejas abbaciaes e parochiaes, baptisterios isolados, de +fórma polygonal e circular. + +Todavia, logo que a solemne ministração do baptismo caiu em desuso, não +se construiram mais baptisterios proximo das novas Egrejas parochiaes +que se edificaram. A pia baptismal foi então transportada para a nave +principal, proximo á porta de entrada da egreja nas naves lateraes, ou +então em uma capella do lado occidental, proximo da porta principal. + +A natureza dos materiaes influe poderosamente sobre o modo de +construcção adoptada; assim nos paizes em que a cantaria é resistente, +construe-se com grandes dimensões, o apparelho é mais grandioso, as +fiadas são altas; emquanto que, nas localidades em que os materiaes são +menos resistentes, e em que o trabalho de preparar a cantaria é portanto +mais facil, o apparelho tem menor dimensão. + +No seculo XI, a esculptura monumental toma repentinamente um +desenvolvimento extraordinario pela influencia combinada do estylo +Lombardo, dos monumentos Gaulo-Romanos; dos tecidos e outros objectos +d'arte importados do Oriente pelos cruzados. + +Em cada paiz ou quasi que em cada provincia, a decoração Roman offerece +caracteres particulares, devidos á aptidão dos habitantes, á variada +natureza dos materiaes e a outras influencias locaes. Em geral, em todos +os paizes onde se encontravam documentos romanos ricamente decorados, a +influencia Lombarda se liga e se combina com a d'estes monumentos. + +No Noroeste da França, principalmente na Normandia, e até mesmo na +Inglaterra, a decoração consiste principalmente em estrellas e outras +figuras geometricas. A ornamentação Roman da Allemanha compõe-se +sobretudo de galões entrelaçados, cujas extremidades acabam em folhas +com tres a cinco lobulos. Estes galões, algumas vezes ornados de +perolas, parecem ordinariamente ligados com fitas ou reunidos por +anneis. + +Na Belgica, onde principalmente se manifestou a influencia da escola +Cistersiense, os monumentos do periodo Roman não têem as decorações de +trabalhos custosos e variados, que se encontram n'outros paizes. + +Assim como nas basilicas Latinas, as fachadas das egrejas Romans indicam +em geral a forma transversal das naves; só no seculo XI, começaram a +ornal-as com mais cuidado e esmero. A sua decoração architectural +consiste nos portaes, ordinariamente tres, construidos em profundas +arcadas de volta inteira mais ou menos carregadas de molduras de +architectura; as galerias, verdadeiras ou fingidas, eram formadas por +uma ou muitas ordens de arcadas fingidas ou rendilhadas; e emfim em +grandes rosaceas vasadas, por cima da porta principal. + +Raras vezes se encontram fachadas romans decoradas com estatuas. + +Antes do seculo XI, os atrios que succederam aos narthex das basilicas, +apresentavam-se d'ordinario sob a fórma d'um portico, geralmente pouco +profundo e occupando toda a largura da fachada da egreja; havia alguns +tambem, ainda que pouco numerosos, que eram construidos na fachada +Occidental. + +Os atrios Romans dos seculos XI e XII dividem-se em fechados e abertos; +os primeiros tomaram, em varios paizes, um desenvolvimento de tal modo +importante, que formavam de alguma maneira uma nova egreja construida em +frente das naves propriamente ditas, como havia na egreja de S. +Francisco de Santarem. + +Nos grandes monumentos do seculo XI, e especialmente do XII, os portaes +mais notaveis, e até mesmo algumas vezes os secundarios, são ornados +profusamente de esculpturas de todo o genero. + +Quando as archivoltas dos portaes são cobertas com muitas esculpturas, o +tympano é quasi sempre ornado d'um baixo relevo, representando Jesus +Christo sentado e sob uma aureola. Em alguns casos o Redemptor offerece +as mãos a dois Santos coroados e ajoelhados cada um do seu lado; em +outros, lança a benção com a mão direita e segura um livro com a +esquerda; n'este caso a aureola é muitas vezes cercada de animaes +symbolicos representando os Evangelistas. + +Nos mais importantes monumentos, os batentes dos portaes eram +ordinariamente de bronze ou de qualquer outro metal. + +As ferragens das portas, que a principio não serviam senão para +consolidar todas as travessas da porta, forneceram desde o seculo XI, no +estylo Roman, um dos mais bellos modelos de ornamentação. + +Encontram-se tambem, nos edificios de architectura Roman, portaes com +batentes de madeira esculpidos em baixo relevo. As janellas d'estes +edificios mais antigos são pequenas e quasi sem ornamentação alguma. + +No meado do seculo XI, augmentaram os vãos das janellas á proporção que +mais se generalisava o uso do vidro. No final d'este seculo e durante +todo o XII, as archivoltas exteriores das janellas dos grandes +monumentos são executadas com o maior cuidado, e compostas de arcos com +muitas ordens de pedras lavradas symetricas, varias vezes com o feitio +de tóros, ficando assentes sobre grupos de pequenas columnas ou sobre +pés direitos ornados de uma imposta com esculptura. Estes tóros têem +tambem muitas vezes ornatos. + +No seculo XII, apparecem as janellas geminadas de dois vãos, separados +por uma humbreira em fórma de columna, e servindo-lhe de moldura um arco +commum de resalva. Vêem-se tambem janellas mesmo de tres vãos reunidos +debaixo d'um unico arco. N'estas ultimas ou o vão do meio é mais alto +que os dos lados, ou então é o tympano formado pelo grande arco, no qual +ha um oculo, inteiramente aberto ou em fórma de trêvo, de quatro folhas +e ás vezes com seis e mais lóbulos. + +Tambem se encontram nos edificios romans do seculo XIII, olhos-de-boi e +que não servem de ornamento aos vãos de janellas. Chamam-se rosaes e são +compostos de differentes maneiras. + +Nos paizes meridionaes continuaram a vedar os vãos das janellas com +caixilhos rendilhados, de madeira ou de marmore. Os desenhos produzidos +pelos recortes das travessas apresentam fórmas mais variadas e em +harmonia com a ornamentação Roman; compõem-se quasi sempre de figuras +geometricas. Os caixilhos recortados foram empregados até ao seculo XVI, +na Grecia, Italia e Hespanha e ainda hoje no Oriente. + +Na Europa Occidental e Septentrional preferiam tapar as janellas com +vidros pequenos assentes em caixilhos de madeira, mas, desde o seculo X, +reunidos por meio de filetes de chumbo. Algumas vezes estes vidros, +differentemente coloridos, formavam um mosaico transparente, no qual +ainda não havia figuras nem ornatos pintados sobre o vidro. + +O emprego de vidraças com varios assumptos e personagens pintados, +começou provavelmente no final do seculo X. + +Em muitas egrejas, o côro e mesmo algumas vezes os braços do transepto +terminam por um abside semi-circular ou polygonal. + +O abside está ordinariamente ligado por um abside circular coberto d'um +tecto quasi sempre mais baixo que o do côro. + +As paredes exteriores dos absides são a maior parte das vezes ornadas +d'uma ou de muitas ordens de arcadas separadas por faixas de pequena +saliencia; columnas ou pilastras envolvidas, ligadas entre si por arcos +de volta inteira. As janellas, ordinariamente em numero impar, são +abertas debaixo das arcadas. + +Os absides de quasi todas as egrejas Romans das margens do Rheno +apresentam junto ao tecto uma galeria aberta, formada por uma serie de +pequenas arcadas de volta inteira e sustentadas por pequenas columnas. +Estes absides receberam o nome de absides _rhenanos_. Serviam outr'ora, +e servem ainda hoje, em alguns sitios, para a exposição das reliquias. + +Os edificios construidos na Europa Central, no fim do seculo X e +principio do XI, não apresentam, muitas vezes, mais do que pilares muito +simples, de secção circular, quadrada ou rectangular. No seculo XI, +tambem se introduziu, áquem dos Alpes, o uso dos pilares com angulos +reintrantes para collocar duas ou quatro columnas envolvidas, de que os +constructores Lombardos se serviam já no seculo VIII. + +As egrejas, parochias ruraes, de menor importancia teem muitissimas +vezes pilares quadrados, curtos, sem base nem capitel, ou tendo por +ornamento unicamente uma ou duas molduras pouco salientes que fazem +parte do capitel. + +Durante o periodo Roman, principalmente no seculo XII, muitos dos fustes +das columnas foram cobertos de esculpturas variadas, consistindo em +figuras geometricas, espiraes, torçaes, galões, botões, folhagens, +cordões, animaes e mesmo representações de assumptos historicos ou +legendarios. Estes ornatos são communs principalmente no Sul da Europa. + +No fim do periodo Roman e no principio da época Ogival, as columnas são +_anneladas_, isto é, formadas d'uma especie de tóro á roda do fuste. + +As columnas _anneladas_ constituem um dos caracteres dos monumentos da +transição do estylo Roman para o estylo Ogival. Tambem se encontram +d'estes anneis nas nervuras das abobadas. No seculo _XII_, as columnas +são tambem ás vezes duplas ou enfeixadas. + +As bases das columnas são variadissimas. + +Muitas das que se encontram nos edificios mais antigos assimilham-se ás +bases Lombardas, mas sem ter garras. + +As bases ornadas com esculpturas, muito communs no Sul da Europa, são +raras nos paizes do Norte. + +Foi no meado do seculo XI que começou a apparecer, áquem dos Alpes, o +ornato chamado _garra_, que os lombardos já tinham usado muito tempo +antes. + +A garra Romã tem em geral a fórma d'uma folha applicada sobre o tóro +inferior da base no angulo do plintho, e tambem ás vezes, a d'uma +carranca ou d'um animal phantastico. + +Desde o principio do seculo XII, os constructores romans achatam a forma +do tóro inferior, quando a base se approxima da forma Attica; um pouco +mais tarde apparece entre os tóros das bases, a moldura concava, +bastante profunda, que fórma um dos caracteres distinctivos dos +monumentos do fim do seculo XII e da primeira metade do XIII. + +Os capiteis de architectura Roman são variadissimos. Ha uns que apenas +se compõem de duas ou tres molduras curvas ou chanfradas, imitando o +capitel toscano ou dorico. + +A cornija dos capiteis é umas vezes elevada e coroada com um ábaco +saliente, e outras baixa, tendo um ábaco que não resalta o fuste da +columna. + +Encontram-se, em muitos monumentos Romans, capiteis chamados _cubicos_, +porque têem a configuração d'um cubo. Estes capiteis são algumas vezes +chanfrados nos angulos inferiores e em geral arredondados na parte +inferior. + +A parte inferior do capitel cubico _Rhenano_, do seculo XII, era muitas +vezes dividida em quatro porções de esphera, formando assim um grupo de +quatro capiteis reunidos debaixo de um mesmo ábaco, mas foi ainda +augmentado o numero das subdivisões, produzindo d'este modo os capiteis +cubicos _canellados_ ou com resaltos redondos, que se encontram +principalmente na Inglaterra e no Noroeste da França. + +No tempo da formação do estylo Roman, a arte da esculptura estava quasi +totalmente perdida áquem dos Alpes. Os que primeiro tentaram manejar o +cinzel esforçaram-se em reproduzir, melhor ou peior, os antigos ornatos +que tinham á vista; as producções d'estes artistas improvisados são +imperfeitas e grosseiras. + +Encontram-se em muitos monumentos Belgas do seculo XII, capiteis cuja +ornamentação, simples e rudimentar, consiste unicamente em folhas +applicadas sobre o açafate, e algumas vezes contornadas em voluta +debaixo dos angulos do ábaco. + +Os capiteis de quasi todos os grandes monumentos dos seculos XI e XII, +são decorados de esculpturas ou de pinturas de côres carregadas. Os +ornatos consistem em galões imitando perolas, folhagens encrespadas, +florões artisticamente executados, animaes symbolicos, animaes +phantasticos isolados ou em grupos, assumptos tirados da lenda ou da +historia, principalmente do Velho e Novo Testamentos. + +O capitel de _crochets_ usou-se na Belgica e em algumas partes da +Allemanha desde o fim do periodo Roman. Dá-se o nome de _crochets_ e +algumas vezes tambem o de _baculo vegetal_, ás folhas mais ou menos +compridas, recurvadas em voluta na sua extremidade. + +Chama-se _arcada_ toda a abertura, real ou simulada, contornada por uma +archi-volta; e _arcadura_, uma arcada de pequenas dimensões. + +Até ao seculo XI serviam-se geralmente do arco de volta inteira ou +formado por um semi-circulo para ligar duas columnas ou os dois pontos +extremos d'uma arcada. Nos seculos XI e XII, começam a apparecer novas +formas d'arcos: 1.^o, o arco _elevado_, cujos dois ramos descendentes se +prolongam verticalmente abaixo do centro gerador; 2.^o, o arco em fórma +de ferradura produzido por uma parte da circumferencia que excede o +semi-circulo; 3.^o o arco de volta abatida ou em aza de cesto, formado +por uma semi-ellypse cortada segundo a direcção do eixo maior; 4.^o, o +arco de tres lóbulos cujo intradoz é composto de tres lóbulos. + +As paredes interiores lateraes das egrejas, as capellas, as casas +capitulares são em geral ornadas, na sua parte inferior, com arcaduras +sustentadas por pequenas columnas mais ou menos embebidas no pé-direito +e firmadas sobre um sócco de pedra collocado em roda de todo o edificio. + +As arcaduras tambem são muitas vezes empregadas, no exterior dos +edificios, para a decoração das fachadas. Encontram-se egualmente sobre +as outras partes dos monumentos arcadas pouco salientes, cujas +extremidades assentam sobre modilhões muitas vezes executados apenas de +feitio chanfrado, e ainda ás vezes ornadas de esculpturas. Em alguns +casos foram os modilhões substituidos por grupos de columnas embebidas. + +As arcaduras servem principalmente para ornamentar as partes lisas das +paredes debaixo das cornijas, os parapeitos das janellas e as +platibandas de que se servem para as ligar entre si pelas faixas muraes. + +Estas arcaduras foram imitadas do estylo Lombardo. Tambem se encontram +principalmente nos edificios romans da Allemanha, da Inglaterra e +d'algumas partes da França. + +Chamam-se _Triforiums_ as galerias mais ou menos largas, que ficam por +cima das arcadas das naves lateraes das egrejas, ou simplesmente por +cima das archivoltas das grandes arcadas que ligam dois pilares +contiguos. + +Encontram-se _Triforiums_, que abrangem todo o comprimento do corpo da +egreja, nos edificios Lombardos. + +Os _Triforiums_ estreitos são posteriores ao seculo XII, e só durante o +periodo Ogival é que se generalisou o seu emprego. + +A cornija compõe-se d'uma pedra mais ou menos saliente sobre a face das +paredes de maior ou menor grandeza, segundo a maior ou menor dureza dos +materiaes de que dispomos. + +A cornija é sustentada por consólas ou modilhões collocados regularmente +por baixo das juntas das pedras que formam as cornijas. Os modilhões +têem a fórma d'um curvo ou d'um florão. Chama-se _curvo_ um modilhão +simples, que fica saliente sobre a face d'uma parede ou d'um pilar e que +tem as duas faces lateraes parallelas e perpendiculares á mesma parede; +e com feitio de florão, é uma consóla que não tem as faces nem +parallelas, nem perpendiculares á parede. Ás vezes são os curvos e esses +florões ornados de esculpturas representando cabeças humanas, figuras +grotêscas, carrancas, monstros, volutas, etc. + +A maior parte dos edificios do periodo roman não tinham abobadas senão +no abside do côro, no pavimento inferior dos campanarios e algumas vezes +ao de cima das naves lateraes. A nave central era ordinariamente coberta +com um simples tecto de madeira. As abobadas que hoje se vêem em muitas +egrejas do estylo roman foram construidas em epoca bem mais recente. + +Nos edificios religiosos que tinham a nave principal coberta d'abobadas, +eram estas d'aresta geralmente em nervuras; e como succede nas egrejas +lombardas, a cada arco da nave central correspondiam nas paredes +lateraes dois arcos de menores dimensões. Para supportar a pressão +obliqua, exercida sobre os pilares e sobre as altas paredes da nave pela +abobada da nave central, os architectos romans seguiram dois systemas. + +Uns, imitando os constructores lombardos, construem as paredes lateraes +quasi da altura da nave e dispõem as abobadas de maneira que supportem a +curva da abobada central. Outros construem nas paredes lateraes abobadas +semi-circulares ou de quarto de cylindro, cuja parte inferior assenta +sobre as paredes mestras do edificio, e a parte superior vem apoiar-se +contra a principal parede da nave central no logar onde começa a sua +abobada. + +Até ao principio do seculo XII, os arcos duplos compõem-se de uma ou de +duas ordens de cunhas de cantaria geralmente sem molduras nem ornatos, e +apresentam uma secção quadrada ou rectangular. No fim do periodo roman, +e mais tarde ainda, os angulos do intradoz do arco dobrado têem +regularmente o feitio de tóros. + +As nervuras das abobadas d'aresta consistem em um simples tóro, algumas +vezes acompanhado de dois ou quatro tóros de menor espessura. No fim da +época Roman, e durante o periodo da transição, o tóro principal foi em +certos paizes achatado e composto de uma aresta viva no intradoz. As +nervuras das abobadas do estylo Roman são muito mais toscas que as das +Ogivaes. + +Os architectos dos seculos XII, XIII e XIV decoravam algumas vezes o +nascimento das nervuras das abobadas superiores ao capitel com molduras +geometricas. + +Chamam-se _contrafortes_ aos pilares embebidos nas paredes exteriores +dos edificios, e que servem para sustentar e diminuir a pressão das +abobadas, ou supportar o peso do madeiramento do telhado. Estes apoios +correspondem sempre exactamente (nos monumentos que não têem abobadas) +aos pontos onde assentam as asnas do madeiramento, e nos edificios +abobadados, aos pontos onde vem exercer-se a pressão combinada dos arcos +duplos e das nervuras das abobadas. + +Nas construcções de architectura Roman, especialmente nas mais antigas, +os contrafortes apresentam-se algumas vezes com a apparencia de uma +pilastra semi-cylindrica. + +No XI, e principalmente no seculo XII, apresentam os contrafortes +variadissimas fórmas. Uns são muito largos na base, e diminuem +successivamente em cada um dos seus tres lados isolados; outros, mais +delgados, têem sempre a mesma largura entre as duas faces lateraes e +parallelas, e não diminuem senão na face exterior, em que essa +diminuição se faz successivamente em diversas partes na sua total +elevação. Alguns ha que têem sempre as mesmas dimensões em todas as +faces, sem saliencia nem resalto algum, desde a base do edificio até á +cornija. + +Os madeiramentos nos telhados dos edificios do estylo Roman são raros. + +Na Europa Occidental os telhados conservaram até ao seculo XII uma +pequenissima inclinação. + +É só no meiado d'este seculo, e até mesmo mais tarde, que se encontram +declives com excessiva correnteza nos telhados dos edificios da edade +média. + +As _Torres_, tanto na Europa Central como na Occidental, anteriores ao +seculo XI, são em geral quadradas, e sem nenhum ornamento, ou apenas +ornadas com simples arcadas, e ordinariamente cobertas por um telhado de +quatro abas de fórma concava, formando uma pyramide obtusa. + +Os campanarios do seculo XI, e sobretudo do XII, são mais elevados e +ornamentados que os dos seculos precedentes. Compõem-se de dois e mais +pavimentos, que se sobrepõem, e cujas dimensões vão muitas vezes +diminuindo successivamente. A sua fórma e aspecto geral variam de um +paiz para outro. + +Os campanarios isolados, que são quasi exclusivamente proprios da +Italia, distinguem-se por mais duas especies. + +Ha uns construidos no ponto de intersecção do transepte com a nave +principal, e ainda outros edificados ora sobre a fachada, ora sobre as +extremidades do côro ou do transepte. Os primeiros assentam sobre quatro +grossos pilares: os segundos erguem-se perpendiculares sobre os seus +quatro lados; ou são sustentados por arcadas abertas sobre uma, duas e +até mesmo tres das suas faces. + +Os campanarios centraes têem em geral differentes fórmas. Ha-os +quadrados, octogonaes, e ainda com muito maior numero de lados; existem +tambem alguns em fórma de cúpula. + +Os campanarios da fachada, e os construidos proximo do côro ou dos +transeptes das egrejas, apresentam ainda fórmas mais variadas que os +centraes. Os mais simples são quadrados e divididos tanto interior como +exteriormente em dois ou mais pavimentos. Outros, elevando-se sobre uma +base quadrada, tornam-se em polygonos de maior numero de lados logo no +primeiro ou segundo andar, tendo em geral a fórma octogonal. + +No XI e no XII seculo eram os campanarios cobertos de madeira com feitio +de flecha ou de pyramides construidas de pedra; quadrados ou octogonaes, +eram pouco elevados e acachapados. Os angulos das pyramides de base +quadrada eram ás vezes ornados com pequenos campanarios. Muitos remates +de cantaria foram destruidos pelas chuvas e pelos gêlos, e depois +substituidos nos seculos XIII e XIV pelas flechas esguias. + +Algumas torres tinham por cobertura um telhado apenas com duas abas, +terminando por uma empêna em cada um dos lados. As torres cobertas por +este modo só se usaram durante uma parte do periodo Ogival. + +Os pavimentos em _opus alexandrinum_ continuaram a usar-se na Italia e +em todos os paizes aonde havia marmore. Na Allemanha, na França e na +Belgica, por exemplo, serviam-se de tijolos de terra, cota esmaltada, ou +de pedras gravadas e com embutidos de massa colorida. Até ao fim do +seculo XII cada tijolo tinha a sua côr propria. As côres que se +encontram nos pavimentos do fim do periodo Roman, são a preta, cinzenta, +vermelha, e principalmente amarella e verde-escuro. As duas ultimas +predominam em quasi todos os trabalhos d'este genero do seculo XII. + +No Oriente e no Sul da Europa, os edificios historicos, legendarios e +symbolicos eram bastante communs no seculo XII; tambem se viam alguns na +Europa Occidental. + +Se, na sua origem, a pintura das paredes imitou as mesmas fórmas que +tinha o mosaico, e se inspirou dos principios d'esta arte, não podia +tardar muito que ella tomasse mais livre desenvolvimento e adquirisse +certos principios que lhe fossem especiaes em consequencia da propria +natureza dos seus processos e da maneira por que estes satisfazem a +vontade do artista. + +Com effeito, a pintura liga-se ás fórmas da architectura até nas mais +delicadas molduras; e por conseguinte de um modo mais intimo que o +mosaico. Desde os primeiros seculos até á época da Renascença, a pintura +das paredes pôde, sem duvida, modificar o estylo do desenho, e variar o +tom e a harmonia das côres empregadas, seguindo o progressivo +desenvolvimento da arte de construir, mas ficou sempre subordinada á +architectura. + +A pintura monumental differe muito da que se emprega ordinariamente n'um +painel. + +Um painel, no sentido moderno da palavra, não é mais do que uma scena +mostrada nos limites de um quadro, atravez de uma janella aberta. A +pintura monumental, pelo contrario, é uma arte convencional na qual a +imitação da natureza, a reproducção das suas fórmas e dos phenomenos +atmosphericos que ella apresenta, quasi que por assim dizer não existem. + +A figura humana e as composições em que esta apparece em grupos são +geralmente reservadas para as grandes superficies planas das paredes; só +muito raramente se encontram nas pilastras e nas columnas. Por toda a +parte o symbolismo ou a allegoria constitue um dos grandes caracteres +tanto da pintura das paredes como de todas as artes em geral durante o +periodo de que nos occupamos. + +As pinturas historicas eram tratadas da maneira mais simples. O artista +apenas faz figurar o numero de figuras estrictamente necessario para a +composição do assumpto de que trata. As côres são applicadas com tintas +eguaes, sem indicar sombras nem os differentes accidentes da luz, de +fórma que é muitas vezes impossivel determinar qual o lado por onde o +artista teve em vista que a scena fosse illuminada. As partes salientes +dos corpos são regularmente indicadas por traços finos, e os contornos +são representados com linhas cheias. + +A pintura a _fresco_, que tem a vantagem de produzir tons agradaveis, +foi a preferida para as pinturas historicas e legendarias. A +_encaustica_ foi tambem escolhida para certos trabalhos. A intensidade e +a harmonia dos tons que resultam do emprego da cêra, a possibilidade de +nos occuparmos indefinidamente do trabalho já começado fizeram com que +muitas vezes fosse adoptado este processo. Com effeito até mesmo a +pintura a oleo é tambem muito antiga. Durante toda a edade média eram +preferidos os outros processos, por meio dos quaes, obtendo-se tons +baços, evitavam o reflexo tão desagradavel na pintura das paredes. + +Durante a edade média a primeira pedra do alicerce dos edificios +religiosos era regularmente ornada com uma cruz e uma inscripção. A sua +collocação era feita com grandes solemnidades: um prelado ou um +dignitario ecclesiastico a benzia publicamente, e elle proprio a +collocava na base de um dos principaes pontos de apoio da construcção. + +Tambem muitas vezes se serviam de inscripções lapidares para conservar a +memoria da fundação do edificio e o nome do architecto ou do mestre da +obra. Em algumas egrejas encontram-se pedras com dedicatorias indicando +a data da consagração, os nomes dos santos cujas reliquias se acham +depositadas no altar, e até mesmo o nome do orago da egreja. + +Os altares eram uns fixos e outros portateis. + +_Altares fixos_.--As mesas dos altares fixos, ordinariamente de marmore +ou de pedra, e de fórma quadrada ou rectangular, continuaram até meiado +do seculo XII a ser vasadas em fórma de bandeja, como já se usára no +periodo Latino. + +O supporte da mesa do altar consiste, muitas vezes, em uma simples base +cubica de alvenaria sem ornamentação alguma, e algumas vezes tendo em +roda uma inscripção e um simples rebordo. Nos dias solemnes cobriam-se +estes altares com alfaias de lã e seda ou de outros tecidos preciosos. + +Outras vezes o altar é sustentado por uma ou muitas pequenas columnas. + +Os altares de fórma cubica eram muitas vezes revestidos de oiro e de +prata e esmaltados, tendo tambem pedrarias, ou ornados com esculpturas e +pinturas. + +A face dos altares, com esculpturas, ou pintados, era em geral dividida +em tres compartimentos com a fórma de arcadas mais ou menos ricamente +decoradas. Jesus Christo lançando a benção, de pé ou sentado, occupa +ordinariamente a parte central, que é muitas vezes a mais elevada, ou +com a fórma de uma auréola oval ou de quatro lóbulos. Nas arcadas +lateraes vêem-se figuras de santos e os symbolos dos evangelistas, que +se acham dispostos ou em torno do compartimento do meio, ou nos fundos +das arcadas. + +O altar principal das grandes egrejas era muitas vezes, como succedia no +periodo Latino, encimado por um _ciborium_, e o mesmo acontecia com +alguns dos altares lateraes. + +No final do XI seculo começou o uso dos retabulos, isto é, dos paineis +ou quadros assentes verticalmente ao fundo dos altares propriamente +ditos. O retabulo não constitue por si só uma parte essencial do altar, +mas sim um accessorio. O seu primitivo e principal fim é promover a +devoção entre o padre que offerece o santo sacrificio e os fieis que a +elle assistem, fazendo-lhes ver assumptos religiosos produzidos pelo +cinzel, esculptura, pintura, etc. + +A principio era pouco elevado, attingiu uma excessiva altura no fim do +periodo ogival e na época da Renascença. + +Representavam-se nos retabulos os mesmos assumptos que nas alfaias: +Christo, sentado ou em pé, occupava em geral o painel do centro, tendo +imagens de Santos e assumptos tirados da Historia Sagrada, ou da lenda, +em arcadas lateraes, ou em medalhões de diversas fórmas, collocados em +redor da imagem do Salvador. + +A maior parte dos primitivos retabulos eram de oiro, prata ou cobre +doirado e esmaltado: todavia alguns se encontravam, ainda que em menor +numero, construidos de pedra e de madeira pintada ou esculpida. Estes +ultimos só se generalisaram no fim do periodo roman e no principio da +época ogival. + +A principio os retabulos serviam tambem para encerrar os relicarios +quando elles não tinham mais ornamentos, ou para os emmoldurar quando os +seus frontaes eram ricamente adornados. Parece ter sido nos mosteiros +que este uso teve principio. Durante o XI seculo, a maior parte das +abbadias da Europa Central e Occidental mudaram a disposição interior +das egrejas no que diz respeito ao logar reservado aos religiosos +durante a celebração do Santo Officio: as cadeiras ou bancos dos padres, +que d'antes occupavam o proprio côro do abside, foram transportadas para +o transepte, e desciam ordinariamente até á segunda ou terceira arcada +da nave principal, como na egreja d'Alcobaça. + +Ao fundo do Sanctuario, proximo á curvatura do abside, elevava-se o +altar das reliquias, atraz ou debaixo do qual eram expostos os restos +mortaes dos Santos, que até ali se tinbam conservado religiosamente nas +cryptas das egrejas. + +Algumas vezes as reliquias eram encerradas em caixas ou cofres e +collocadas no interior do altar. + +Tambem se expunham mesmo sobre os altares, como succedia no IX seculo; +mas não é facil actualmente determinar se esta exposição era permanente +ou temporaria, isto é, durante certas solemnidades religiosas +extraordinarias. + +Comtudo, está provado que existia em muitos paizes o costume de se +conservarem os relicarios sobre os altares. Este costume pouco a pouco +se foi generalisando, pelo menos em alguns d'elles. Quando esta +exposição se realisava por detraz dos altares, o cofre era collocado +pouco mais ou menos dois metros acima do piso e sustentava um dos lados +triangulares sobre o proprio altar, ou então sobre um retabulo de pedra, +collocado em cima d'aquelle, mas pouco elevado, e o outro sobre uma +consola ou um grupo de columnas junto á parede absidal ou interior da +egreja. + +Os fieis podiam circular em torno do altar e vir collocar-se +directamente debaixo das reliquias. O uso de passar debaixo dos +relicarios, quer de pé, quer de joelhos, ainda hoje existe em muitos +paizes catholicos. Quando a parte superior da urna, que vinha assentar +sobre o altar, era desprovida de qualquer ornato, cobria-se então com um +retabulo de metal ou de pedra; se pelo contrario, como succedia com as +urnas de oiro, de prata ou de cobre doirado e esmaltado, tinha figuras +primorosamente executadas, ficava inteiramente livre e visivel por +detraz do altar. Construia-se então por cima da urna uma especie de +tabernaculo ou de baldaquino. Algumas vezes ornamentavam a parte central +do lado triangular, com um retabulo de metal precioso. + +O altar-mór das cathedraes assim como das collegiaes que não possuiam +grandes reliquias, só veiu a ter retabulo no XIV seculo. Tanto no XII +como no XIII seculo, se collocavam n'estes edificios retabulos sobre os +altares secundarios do transepte e das Capellas absidaes. Estes +retabulos eram de pouca espessura, não se lhes podendo collocar em cima +nem crucifixos, nem candeeiros. + +_Altares portateis_.--Apresentam ordinariamente, bem como os do periodo +Latino, a fórma de um parallelogrammo rectangular, e são compostos de +uma lagea de marmore ou de pedra mettida n'um caixilho de carvalho e +guarnecida com bordados de oiro ou de prata, de modo a não tornar +visivel senão a parte superior da placa. + +A lagea que constituia o altar propriamente dito era de porphyro, de +jaspe, de onyx, de crystal de rocha, de pedra preta e até mesmo de +ardosia. Tambem algumas vezes constava de uma pedra preciosa unicamente +como recordação historica que a ella estava ligada, por exemplo, um +fragmento das lageas tintas com o sangue de S. Thomaz de Cantorbery. + +As reliquias, cuja presença é de rigor em todo o altar, encontram-se +entre a lagea de marmore ou de pedra e o caixilho de madeira: algumas +vezes era este concavo em fórma de recipiente. Em geral os altares +portateis são de pequena altura, apenas alguns têem a fórma de um +pequeno cofre sustentado por pés pouco elevados. As laminas de metal que +constituem os adornos são muitas vezes cobertas com filigranas, de +pedrarias, de folhagens gravadas, ou de figuras esmaltadas. + +Usaram-se estes altares até ao final do seculo XIII. + +_Piscinas_.--A ablução das mãos, tanto antes como depois do sacrificio +da missa, foi sempre um dos preceitos dos padres. Deitava-se nas +piscinas não sò a agua de que o padre se servia para a ablução das mãos, +mas até mesmo aquella de que os ministros se serviam para lavar tanto os +calices ordinarios como os ministeriaes em seguida á communhão do padre +e dos fieis. + +N'esta época o padre não tomava as abluções do mesmo modo que +actualmente. + +Algumas piscinas, que são as mais antigas, têem apenas uma abertura ou +concavidade para dar passagem á agua; ha porém outras que têem duas, uma +para escoadouro das aguas ordinarias, e outra para receber as abluções +das mãos. + +As primeiras chamam-se _piscinas simples_, e as segundas _duplas_. As +mais antigas são de uma grande simplicidade, pois muitas vezes apenas +constavam de uma bacia, ou escavada no proprio banco de pedra que havia +junto á parte inferior das paredes, ou sustentada por uma pequena +columna isolada, ou por muitas formando grupo. As piscinas que são +sustentadas por columnas chamam-se _pediculadas_. + +No XII seculo começou-se a collocar _piscinas_ em nichos abertos nas +paredes exteriores da egreja. As piscinas duplas só no fim do XII seculo +appareceram. + +_Doceis_.--Foi durante o periodo roman que maior uso tiveram os doceis. +Em geral consistem n'uma especie de cúpula quadrada ou polygonal, de +marmore, de estuque, ou de pedra. Muitas vezes têem um leão sentado +entre a base e o fuste das columnas. A face anterior da cúpula é quasi +sempre munida de uma estante, sobre a qual o diácono ou o leitor +collocava o livro sagrado. + +Esta estante assentava ordinariamente na cabeça de uma aguia, symbolo do +Evangelista S. João; e algumas vezes na de um homem munido de azas, +emblema de S. Matheus. Quando a estante assentava sobre a cabeça de +aguia ou de homem com azas, os symbolos dos outros evangelistas estavam +tambem, ás vezes, representados nos angulos da base da cúpula. + +Nas egrejas mais ricas havia mesmo doceis cuja cúpula era revestida de +oiro, de prata, e de laminas esmaltadas, ou decorada com esculpturas +sobre marfim. + +_Cadeiras episcopaes ou do clero_.--A cadeira episcopal nas cathedraes, +ou do celebrante nas egrejas inferiores, achava-se regularmente, como no +periodo Latino, no fundo do abside do côro, contiguo á muralha; e aos +lados estendiam-se os bancos ou cadeiras destinadas ao clero. Esta +disposição, que foi conservada até nossos dias em algumas egrejas +romans, era a que havia em todas as egrejas seculares, tanto cathedraes, +como collegiaes e parochiaes. + +Havia, já o dissemos, algumas excepções a esta regra, como succedia com +certas collegiaes que possuiam um altar das reliquias no fundo do côro, +e com as egrejas monasticas. N'estas ultimas cedo foram mudadas as +cadeiras para o transepte, e mesmo para o corpo da nave; sem duvida por +causa do grande numero de religiosos, que era impossivel collocar +convenientemente na curvatura do côro. + +Durante a maior parte do periodo roman os bancos dos padres foram de +marmore ou de pedra como anteriormente. As cadeiras ou _fórmas_, +_formulae_, de madeira, foram raras até ao fim do XII seculo; apenas se +encontram algumas que escaparam á destruição. Vê-se perfeitamente que +estas cadeiras, apezar de bem feitas em madeira, imitam todavia +exactamente as antigas de pedra. + + +*Capellas funerarias, tumulos e pedras tumulares* + + +_Capellas funerarias_.--Construiram-se algumas vezes, nos cemiterios e +na proximidade das egrejas, capellas funebres, de fórma circular ou +polygonal, á similhança da rotunda construida pelo imperador Constantino +sobre o Santo Sepulchro, ou o mausoléu de Theodorico em Ravenna +(Italia). + +_Tumulos_.--O costume de encerrar em sarcophagos os restos mortaes das +pessoas ricas e poderosas existiu no Norte da Europa até ao XII seculo, +e nos paizes meridionaes, isto é, no Sul da França, na Italia e na +Hespanha existiu pelo menos até ao XIV. Estes sarcophagos constavam, +como no periodo antecedente, de cofres oblongos, de pedra ou de marmore, +muitas vezes mais estreitos para o lado dos pés, e fechados por uma +tampa convexa ou em fórma de telhado de duas aguas. Eram esculpidos com +ornatos e symbolos; florões, folhagens, monogrammas, cruzes e alguns +assumptos allegoricos. Collocavam-nos habitualmente sobre pequenos +pilares grossos, ou sobre columnas curtas só com o fim de os isolar do +solo. + +Durante o periodo roman tambem foi adoptado o uso dos _cenotaphios_ que +consistem em sócos de pedra, macissos d'alvenaria ou grupos de columnas, +assentes sobre uma sepultura subterranea e sustentando ou um sarcophago +simulado ou a effigie do defunto. Em tôrno do sóco ou do macisso +d'alvenaria acha-se disposta uma serie de pequenas columnas. Umas vezes +são unidas por meio d'arcos, outras, o rebordo da grande lage que corôa +o sóco é apoiado sobre as columnas. No XII seculo, os cenotaphios +começaram a ser encimados pela effigie do defunto, esculpida em relevo e +ás vezes até mesmo gravada ao traço ou representada em esmalte. O +personagem é geralmente collocado estendido sobre um leito e tem todas +as insignias da sua dignidade; os bispos estão com a mitra e o báculo +pastoral; os reis e os principes, com o sceptro e a corôa. Estas +estatuas deitadas não apresentam o aspecto d'um morto; porque têem os +olhos abertos, os gestos e attitudes de pessoas vivas. + +Alguns anjinhos fazem balancear thuribulos ou sustentam a almofada sobre +que assenta a cabeça do personagem. + +_Tumulos não apparentes_. Consistem, como os do periodo anterior, em +cofres de pedra ou de alvenaria mais largos do lado da cabeça que dos +pés e fechados por uma tampa chata ou prismatica. No interior do cofre +encontra-se algumas vezes, principalmente do XI até ao XIV seculo, um +espaço circular destinado a receber a cabeça do cadaver. Alguns têem no +fundo dois regos, no prolongamento dos quaes está feita uma abertura +destinada a dar vasão ás materias viscosas. + +_Pedras tumulares_. O uso das pedras tumulares continuou durante o +periodo roman. Em geral têem a fórma d'um trapezio; algumas tambem, as +mais antigas, são rectangulares. A sua decoração em geral consiste em +figuras geometricas, folhagens ou figuras symbolicas, e raras vezes se +lê o nome do defuncto, e a causa e data do seu fallecimento. + +_Pias baptismaes_. As pias baptismaes eram de grandes dimensões durante +todo o periodo roman, por isso que se continuou a administrar o baptismo +por immersão até ao XII seculo. As pias eram em geral de pedra; comtudo +algumas havia de bronze e outras de cobre. Em França e especialmente na +Inglaterra tambem as havia de chumbo. + +As pias romans eram de variadissimas fórmas; sendo algumas similhantes a +uma vasilha. + +O grande impulso que na Allemanha teve a arte da ourivesaria durante o +XI seculo, longe de affrouxar no seculo seguinte, pôde conservar-se na +vanguarda do movimento artistico da Europa Central e Occidental. + +Com a applicação do _esmalte_, os objectos d'ourivesaria mudaram +completamente d'aspecto no XI e XII seculos. Até ali a accumulação das +pedrarias ligadas por folhagens de filigranas constituia todo o segredo +d'ornamentação dos ourives do Occidente; desde o fim do X seculo que as +laminas duplas e lavradas alternam a maior parte das vezes com laminas +esmaltadas. Estas encontram-se não só nas grandes peças d'ourivesaria, +taes como as molduras e as alfaias dos altares, mas até nos menores +objectos. + +Os primeiros esmaltes fabricados na Allemanha foram engastados em ouro e +prata, semelhantes aos que os Bysantinos fabricavam durante a segunda +metade do X seculo; mais tarde tambem se empregou o cobre com o qual se +douravam as partes que ainda ficavam visiveis depois da incrustação do +esmalte. Foi a começar no XI seculo que em algumas localidades +substituiram o esmalte introduzido no rebaixo pelo dividido em +separação. + +Até meado do seculo XII, a influencia Bysantina é apparente nos +esmaltadores Rhenanos. Durante bastante tempo, com effeito, os +esmaltadores allemães imitaram o estylo Oriental, reproduzindo mais ou +menos fielmente typos bysantinos, modificando-os comtudo segundo o seu +proprio engenho. Os seus processos technicos tambem se resentem da +origem Bysantina da arte allemã: é assim, por exemplo, que, nos esmaltes +em separação, e até mesmo nos mais antigos esmaltes executados em +rebaixos, as carnações são substituidas pela pasta vitrea, a exemplo do +que se praticava em Constantinopla. Com tudo isto, os esmaltadores das +margens do Rheno não tardaram em gravar sobre metal reservado, as +figuras de pequenas dimensões, emquanto que para as grandes, continuaram +ainda, durante algum tempo, a esmaltar as roupas; e n'este caso só se +serviam da gravura para as carnações. No final do XII seculo, para +proceder sem duvida d'uma maneira mais expedita, começaram a gravar +figuras inteiras, ainda mesmo que tivessem uma certa grandeza, e quasi +que não era preciso gravar com esmaltes os entalhos, muitas vezes +grandes e profundos da gravura. + +Em França, os ourives do XI seculo e dos primeiros annos do XII, +continuaram a servir-se exclusivamente, para a decoração das suas obras, +de placas cinzeladas ou até simplesmente estampadas, e d'applicações de +pedrarias ligadas com filigranas. Até 1145 os ourives francezes +ignoravam o modo de gravar do esmalte; tanto que, quando no principio +d'esse anno, _Suger_, abbade do mosteiro de S. Diniz, proximo de Paris, +quiz mandar fazer uma peanha e cobril-a de placas de esmalte engastadas +sobre cobre, viu-se obrigado, segundo elle mesmo conta, a chamar em seu +auxilio ourives da Lotharingia, em numero de cinco ou sete, que tiveram +o trabalho de terminar esta obra em dois annos. + +As producções dos primeiros esmaltadores francezes apresentam grandes +analogias com as dos allemães do Rheno, que vieram ensinar a arte de +esmaltar, em França. + +Uma vez começado, o gosto pela ourivesaria esmaltada em breve foi +augmentando em França, e deu logar a que, em 1160, se creasse uma +celebre escola de esmaltadores em cobre cuja séde foi em Limoges. + +Nos primeiros ensaios, os ourives de Limoges procuraram dar aos seus +esmaltes o aspecto do dos allemães; representavam as figuras inteiras, +até as proprias carnações, com côres d'esmalte; só aproveitavam o metal +para lhe fazer traçar as principaes linhas do desenho. Em pouco tempo, +para mais rapida e mais barata producção, renunciaram a este processo e +principiaram a gravar logo sobre o metal, todas as figuras e a esmaltar +_apenas_ o fundo. Muitas vezes até substituiam as partes gravadas por +figuras em alto relevo de bronze fundido e cinzelado. Os esmaltadores de +Limoges cederam em parte a sua obra ao gravador, ao esculptor, ao +fundidor e ao cinzelador, limitando assim o seu trabalho á simples +decoração dos fundos, operação que se tornava pouco difficil. + +Pelo lado artistico o esmalte rhenano é muito superior ao de Limoges. Os +esmaltes fabricados no XI e no XII seculo nas margens do Mósa, em Liêge, +Maestricht, Stavelot, em Waulsort e em Gembloux têem os caracteres da +escola rhenana, cujo principal centro de fabrico era em Colonia, +constituindo por isso uma variedade dos esmaltes rhenanos. As +differenças que se encontram entre os esmaltes com rebaixo de Limoges, +os do Rheno e os do Mósa são estas: nos primeiros predominam as côres +azul e verde claros, em quanto que nos outros são o verde e o azul +carregados. Os esmaltadores do Rheno e os do Mósa servem-se d'algumas +côres que lhes são proprias; o bello azul de torqueza, o branco de +leite, o vermelho de purpura muito vivo e o preto. Os tons são mais +harmonicos na Belgica e na Allemanha, e mais vivos e asperos na França. +Os esmaltes do Rheno e do Mósa reproduzem scenas em que toma parte um +grande numero de personagens, com inscripções latinas em verso, gravadas +e encrustadas de esmalte; nos de Limoges não se encontram inscripções a +não ser apenas um ou outro nome. Os differentes lavôres que os +esmaltadores do Rheno e do Mósa executavam sobre o cobre e com as +incrustações de esmalte, são notaveis pelo bom gosto e variedade de +assumptos, qualidade que se não encontra entre os de Limoges. + +Os objectos, grandes ou pequenos, ornados com esmaltes do Mósa ou do +Rheno apresentam geralmente uma particularidade que se não observa na +ourivesaria franceza contemporanea. Têem, além das placas esmaltadas, +filigranas e pedrarias, placas de cobre vermelho com ornatos e +inscripções douradas sobre campo brunido ou vice-versa. + +_Calices e patênas_. Conservou-se, durante o periodo roman, o uso dos +calices ordinarios e ministeriaes. + +Os calices ordinarios do VIII e do IX seculo, têem muitas vezes, como os +do periodo Latino, a taça profunda e estreita, o pé pequeno e ligado á +taça por um simples nó sem haste. + +No IX seculo começou a usar-se a taça maior, e ás vezes de fórma +espherica e com azas. O pé conserva-se ainda n'este seculo com as mesmas +dimensões que nos precedentes. + +Os calices do XI e do XII seculos têem a taça e o pé muito grandes, o nó +bastante grosso e a haste curta quando a têem. + +Na Allemanha encontram-se calices do XII seculo que têem o exterior da +taça inteiramente coberto de medalhões, de esmaltes, de pedrarias e de +filigranas; estes ornatos são apenas interrompidos por um pequeno espaço +semi-circular destinado para o padre applicar o labio inferior durante a +communhão. + +Os mysterios da vida e da paixão do Salvador e principalmente a sua +crucifixão, eram os assumptos que os artistas mais gostavam de +reproduzir sobre os medalhões circulares ou ovaes com que decoravam a +taça e o pé dos calices. + +Em geral compõem-se d'um reservatorio sustentado por um grosso fuste +cylindrico, ou mesmo por um pilar quadrado, e tambem se encontram alguns +cujos angulos se apoiam sobre quatro columnas. + +Estas pias baptismaes, exteriormente quadradas, são os reservatorios +circulares e ovaes, tendo as faces externas esculpidas com florões, +folhagens, arcos, animaes phantasticos, carrancas e até é facil vêrem-se +assumptos legendarios ou historicos. + +_Grades_. Os romanos faziam muitas vezes grades fundidas em bronze. Na +Italia e no Sul da Allemanha ainda se empregaram até ao XI seculo. estas +grades. + +Carlos Magno empregou o bronze nas grades da egreja de Aix-la-Chapelle +que foram, assim como o edificio de que fazem parte, uma importação +meridional. + +Durante o XI e XII seculo, as grades eram compostas de montantes +verticaes mettidos n'uma moldura e encerrando ornatos formados de +barras, de secção quadrada ou rectangular; estes ornatos consistem em +geral em curvas entrelaçadas. + + +*Alfaias religiosas* + + +No seculo VIII estavam as artes e as sciencias inteiramente decahidas no +Occidente, em consequencia das continuas guerras provocadas pelas +invasões dos barbaros. Os processos technicos das artes industriaes e +mais faceis d'adoptar tinham quasi caído no esquecimento. No imperio do +Oriente, pelo contrario, o culto das artes não cessou de prosperar desde +Constantino Magno até ao XI seculo inclusivamente, graças á protecção +generosa dos imperadores bysantinos. Tambem, logo que se seguiram os +primeiros momentos de socego depois das tempestades politicas, pensou-se +na Italia e no resto do Occidente em dotar d'alfaias convenientes as +egrejas, e basilicas que se acabavam de construir ou de restaurar e para +isso foram obrigados a dirigirem-se a Constantinopla tanto para procurar +os objectos que desejavam como para obter artistas aptos que annuissem a +vir trabalhar no Occidente. + +Durante muito tempo os artistas verdadeiramente dignos d'este nome, +pintores, esculptores, ourives e outros, continuaram a vir de Bysancio, +e quando no principio do IX seculo, Carlos Magno quiz decorar com +mosaicos e enriquecer com vasos sagrados e outros objectos d'arte o +edificio religioso que elle acabára de construir em Aix-la-Chapelle, +teve que se dirigir a artistas gregos ou aos discipulos que se haviam +formado na Italia, particularmente em Ravenna. + +Com os inferiores successores d'este principe, a arte cessou de ter +desenvolvimento, retrocedendo tanto na Europa central como na +Occidental, ao mesmo estado de barbaria em que se achava antes dos +esforços empregados por Carlos Magno para restabelecer o seu progresso. + +No fim do X seculo, produziu-se no Occidente um movimento util nos +estudos artisticos; os artistas gregos foram ainda aqui, como mais tarde +na Italia, os iniciadores que presidiram a este movimento instructivo. + +A restauração artistica, começada sob a influencia dos artistas +bysantinos, foi extremamente rapida na Allemanha. Desde o fim do X +seculo, a escola de Trèves, dirigida pelo bispo Egberto, deu nascimento, +no territorio germanico, a muitos outros centros artisticos creados +pelos bispos nos seus palacios episcopaes, ou pelos abbades nos seus +Mosteiros. Santo Henrique que governou o imperio do Occidente durante o +primeiro quartel do XI seculo, foi tambem um dos grandes promotores da +restauração artistica na Allemanha. + +Os _calices ministeriaes_ conservaram, durante o periodo roman, a mesma +fórma que tinham tido anteriormente. A sua decoração é a mesma que a dos +calices ordinarios. São munidos d'azas com a fórma de folhagens, ou de +dragões e d'outros animaes phantasticos. + +Nos medalhões sobre a taça representavam-se scenas da vida do Salvador; +nos do pé, as quatro virtudes Cardeaes e assumptos tirados da historia +do Velho Testamento; e nos medalhões do nó mostravam-se as +personificações dos quatro rios do Paraizo. + +As patênas, ordinariamente muito simples, tinham a configuração d'um +pires com um esvasamento circular no meio. O fundo interior era liso, +com adornos de buril; os bordos, por vezes lavrados em relevos ou +gravados ao buril, eram de pequenas dimensões. Encontram-se comtudo +algumas patênas da época roman, sobre as quaes abundavam os ornatos e as +esculpturas. + +_Custodias eucharisticas: pyxides e ciborios_. Desde o XI seculo que as +pombas eucharisticas foram substituidas em geral pelas pyxides, cuja +origem alguns auctores reputam ser do V seculo. Dá-se o nome _pyxides_ a +pequenas caixas de marfim, d'onyx, d'ouro, de prata ou de cobre +esmaltado, nas quaes se guardavam as Sagradas particulas. Suspendiam-se, +debaixo do docel do altar, n'uma bolsa de tecido precioso, ou então +collocavam-se n'um pequeno nicho aberto em parede proxima do altar. + +Durante os primeiros seculos do periodo roman as pyxides de marfim +empregavam-se em concorrencia com as pombas eucharisticas de metal. + +Consistiam regularmente em pequenas caixas cylindricas, tendo muitas +vezes no exterior esculpturas em relevo. + +As pyxides do XII e do XIII seculo são ordinariamente de cobre dourado e +esmaltado; compõem-se d'uma pequena caixa cylindrica encimada por uma +tampa de fórma conica ligada ao cylindro por uma charneira. Muitas +d'estas pyxides sairam das officinas dos esmaltadores de Limoges. + +As pyxides romans têem algumas vezes um pé, e são em geral tanto umas +como outras de pequenas dimensões, por isso que apenas servem para +guardar um pequeno numero d'hostias necessarias para dar o Sagrado +Viatico aos doentes em perigo de vida. + +Todas as pyxides anteriores ao XVI seculo, com raras excepções, têem a +tampa ligada ao cylindro por meio de charneira. + +_Relicarios_. Consideraram-se primeiramente como reliquias os restos +mortaes dos Santos, porém, hoje têem um sentido mais lato; +considerando-se tambem como taes os paramentos e outros objectos usados +por elles durante a sua vida mortal. A Egreja professou sempre um grande +respeito pelas reliquias, prestando-lhes um culto particular. Em vista +d'isto não é para admirar que nos primeiros seculos se fabricasse um tão +grande numero e diversidade de relicarios, afim de conservarem estes +preciosos thesouros e expôl-os á veneração dos fieis. + +_Relicarios da verdadeira Cruz_. A maior parte dos relicarios que +contéem parcellas da verdadeira Cruz foram trazidos do Oriente na época +das Cruzadas, ou fabricados na Europa segundo os modêlos bysantinos. São +ricamente cravejados de pedraria e d'esmaltes, e têem muitas vezes a +fórma de uma dupla cruz chamada cruz do Santo Sepulchro, de Lorrena ou +de Caravalla. Como a travessa superior d'esta cruz é menor que a +inferior, leva isto a suppôr que o que parece uma repetição dos braços +seja simplesmente o _titulo_ da cruz, pelo qual os Gregos e os Orientaes +sempre tiveram especial veneração. + +Tambem muitas vezes se collocavam as reliquias da Sagrada madeira n'uma +cruz com uma simples travessa. + +As reliquias da verdadeira Cruz, encerradas n'uma cruzeta, muitas vezes +com duas travessas, eram tambem muitas vezes emmolduradas n'uma placa +metallica ricamente ornada e fixa sobre um centro de madeira. Estes +relicarios, com a fórma d'um pequeno quadro rectangular ou d'um +triptyco, eram mettidos em ricos estojos guarnecidos d'esmaltes, +filigranas e pedras preciosas. + +Não eram só os relicarios da madeira da verdadeira Cruz, que tinham a +fórma d'uma cruz com duas travessas horisontaes; os proprios edíficios +em que se conservavam estes relicarios eram muitas vezes encimados com +uma cruz do mesmo genero. Nas parochias em que os campanarios tinham a +dita cruz, eram collocadas sobre os tumulos n'ellas existentes, cruzes +de madeira ou de pedra com a mesma fórma. + +_Urnas_. A urna é uma especie d'um cofre dentro do qual são guardadas as +reliquias d'um Santo. O emprego das urnas vulgarisou-se desde o XI +seculo. Ha-as _grandes_ e _pequenas_. As grandes urnas têem o feitio +d'um pequeno edificio rectangular, com a fórma de telhado de duas +vertentes; ha algumas, como a dos Reis Magos em Colonia, que imitam uma +egreja com as suas paredes exteriores. + +Em geral são cobertas de placas de metal ornadas com filigranas, +esmaltes e pedrarias. Christo lançando a benção, sentado ou em pé, só ou +no meio de dois Santos, occupa ordinariamente uma das faces extremas, e +na outra face a Santissima Virgem entre dois Santos cujas reliquias a +urna encerra. As faces lateraes são divididas por arcadas de volta +inteira ou abatida, debaixo das quaes se vêem as figuras dos Apostolos +ou d'outros Santos; emfim, as vertentes da imitação de telhado são +decoradas com baixos relevos. Os esmaltes servem de caixilhos aos +differentes assumptos e cobrem tanto as archivoltas como as columnas das +arcadas. Ha tambem urnas exclusivamente feitas de placas esmaltadas. + +As urnas pequenas, muito triviaes nos seculos XII e XIII, têem a fórma +d'um cofre oblongo, coberto com uma tampa semelhante a um telhado de +duas aguas. Compõem-se em geral de placas de cobre vermelho, esmaltadas +segundo o processo do buril. Tanto as quatro faces da urna, como a tampa +são adornadas de figuras e algumas vezes com assumptos completos. +Merecem attenção as figuras pela gravura em relevo ou pelo seu modo de +execução especial. + +Sobre muitas d'estas urnas se vêem em relevo as cabeças e as mãos ou +sómente as cabeças; nas mais antigas, em vez de serem simplesmente +gravadas, são incrustadas de esmalte. + +D'ordinario o trabalho é rude e barbaro e o desenho deixa muito a +desejar com relação a correcção. + +A tampa é geralmente terminada por uma lamina de cobre recortada em +fórma de crista. + +Pertencem em geral estas urnas ao trabalho dos esmaltadores de Limoges. + +Tambem se têem encontrado urnas romanas de pedra, marfim e mesmo de +madeira. + +_Estatuêtas_, _bustos_, _braços_, _pés_, etc. No seculo X, começou-se a +collocar as reliquias em estatuêtas, bustos, ou relicarios de metal +ricamente ornamentados e imitando a fórma do corpo humano a que ellas +haviam pertencido. Assim, quando queriam guardar os ossos d'um pé, ou +d'um braço, dava-se ao relicario a fórma de qualquer d'estes dois +modelos. Continuaram a usar-se estes relicarios durante os seculos +seguintes, tornando-se bastante vulgares. + +_Urnas de marfim_. Encontram-se, com frequencia, nos thesouros das +egrejas e nas collecções d'objectos antigos, cofres de marfim cobertos +de esculpturas decorativas e legendarias. As que offerecem assumptos +religiosos ou alguns signaes de symbolismo christão, e que por +consequencia foram executadas para o serviço do culto, são extremamente +raras. Isto prova que primitivamente eram destinadas aos usos profanos, +por exemplo, para guarda joias. No entanto não é para admirar que se +encontrem nas egrejas, pois que umas foram cedidas ás egrejas como obras +artisticas offerecidas por bemfeitores generosos; outras, executadas no +Oriente, serviram aos cavalleiros cruzados para trazerem as reliquias de +Constantinopla e da Terra Santa. As reliquias vindas do Oriente, ficaram +encerradas em pequenos cofres, adquiridos por alto preço no Egypto, na +Syria e na Asia Menor. Estes pequenos cofres, que sahiam d'officinas +musulmanas ou indianas, são regularmente cobertos de figuras +geometricas, d'arabescos d'animaes phantasticos e algumas vezes +d'inscripções Orientaes. + +_Frascos de crystal de rocha_. D'entre os varios objectos de que os +cruzados se serviam como relicarios, para trazerem reliquias para o +Occidente, devemos especialmente mencionar os pequenos frascos de +crystal de rocha. Estes frascos, cuja altura raras vezes excedia dez +centimetros, eram ou muito simples ou com fórmas d'animaes phantasticos. +Muitos estiveram guardados, durante o periodo ogival, em ricos estojos +de ouro ou de prata. + +_Diversos relicarios_. Ha-os com diversas fórmas architecturaes +imitando, em metal ou em marfim, as principaes partes das egrejas +romans, e até mesmo as dos edificios civis. + +_Corôas suspensas nos altares_. Estas corôas conhecidas com o nome de +_votivas_ eram por devoção offerecidas a Deus e aos Santos, ou em +cumprimento d'algum voto. Já existiam durante o periodo latino; como +então, compunham-se de um circulo de metal precioso, muitas vezes +adornado com o brilho de pedrarias e de esmaltes. Fabricou-se grande +numero d'estas corôas directamente para o serviço dos altares; todavia +os antigos chronistas designam-nas tambem muitos como offertas feitas +por reis e principes, de corôas d'ouro e de prata e que elles +precedentemente cingiam como insignia de realeza. + +_Corôas para luzes_. As corôas para luzes continuaram a usar-se durante +o periodo roman e as mais bellas que a idade media nos legou são d'esta +época. + +Todas estas corôas, guarnecidas de torres e ameias parecem alludir á +visão de que falla S. João no capitulo XXI do Apocalypse. _Deus me +mostrará a santa cidade de Jerusalem, que desceu do Ceu, mandada por +Deus..._ representada por uma alta muralha, franqueada por dôze portas; +vendo-se a estas portas dôze anjos, e tendo gravados os nomes das dôze +tribus de Israel. As portas ficavam tres ao Oriente, tres ao Norte, tres +ao Sul e tres ao Occidente. A muralha tinha dôze socalcos, em que se +achavam gravados os nomes dos dôze Apostolos. + +Suspendiam-se estas corôas no côro proximo do altar e tambem no ponto de +intersecção da nave com o transepte, quando eram muito grandes. + +A corôa para luzes de Aix-la-Chapelle tem oito metros de circumferencia; +é composta de oito arcos de circulo unindo-se de maneira que formam +angulos reintrantes. Estes angulos são guarnecidos de lanternas em fórma +de torrinhas redondas havendo, no ponto medio de cada arco de circulo, +uma torre quadrada maior. Entre cada torrinha podem ser collocadas tres +vellas; como são dezeseis torres, oito quadradas e oito redondas, a +corôa póde receber quarenta e oito luzes em todo o seu circuito. Duas +inscripções latinas se lêem em tôrno do circulo metallico, indicando a +data do XII seculo em que foi dada á egreja de Aix-la-Chapelle pelo +imperador Frederico Barba-rôxa. + +_Cruzes d'altar e para as procissões_. Até ao final do XV seculo, não +havia distincção alguma entre as cruzes do altar e as procissionarias ou +estacionarias. A mesma cruz servia para ambos os fins; collocava-se +sobre o altar fixando-a em uma peanha, trazia-se em procissão na +extremidade d'uma vara comprida. + +As cruzes d'altar romans, ordinariamente de cobre, de prata, ou mesmo +d'ouro, têem em geral apenas uma só cruzeta; as mais antigas são de +fórma Trina, e cravejadas de perolas ou de variadas pedrarias. Mais +tarde, no XI e no XII seculos, são então compostas com a imagem de +Christo, sendo os ramos da cruz de desiguaes dimensões, isto é, deixam +de ter a fórma Trina. + +Grande parte das cruzes d'altar romans são de cobre vermelho adornado +com esmaltes entalhados ao buril, outras compõem-se de simples laminas +de cobre sobre as quaes se reproduzem em esmalte a imagem do Divino +crucificado ou outros symbolos religiosos. Muitas cruzes são formadas de +madeira, tendo as duas faces ou só a principal revestidas com placas +esmaltadas. A imagem de Christo era representada n'estas cruzes e em +alto-relevo. O _perizonium_, que cobre os rins e a corôa que cinge a +cabeça do Salvador, são ordinariamente esmaltados e os olhos +representados por fragmentos de vidro azul. + +No fim do periodo roman, as peanhas em que se fixavam as cruzes para as +collocar sobre o altar eram muitas vezes d'uma riqueza notavel; algumas +eram de fórma triangular, a mais geral; e outras tinham quatro faces. Em +cada um dos quatro angulos, d'estas ultimas, apresentam um Evangelista +escrevendo textos relativos á vida ou á morte do Salvador. Queria-se +d'este modo symbolisar a diffusão, pela prédica do Evangelho, da Fé em +Jesus-Christo, Redemptor do genero humano. + +_Candelabros_. Os candelabros eram em geral pequenos e terminavam na sua +parte superior por uma dirandella ponteaguda. A fórma d'estes +candelabros do XII seculo, varía pouco; consta em geral de um pé assente +sobre tres patas de leão ou em tres corpos de dragão; um nó de folhagens +ou de dragões enroscados; e uma dirandella bastante concava, sustentada +por tres ou quatro pequenos animaes phantasticos que se assimilham aos +dragões ou aos lagartos com azas. + +O contraste que existe entre os pequenos candelabros d'outro tempo e os +que actualmente se empregam de excessiva altura, explica-se da seguinte +maneira: deram aos candelabros e ciriaes uma tão descommunal altura que +obrigaram a substituir as antigas velas de cêra por um cirial simulado e +accrescentado com uma vela. Não devemos esquecer que os ciriaes se +accendem em homenagem ao Crucifixo ou ao Santissimo Sacramento, e que +portanto não devem exceder em altura o tabernaculo. Comprehende-se, +pois, a razão por que um candelabro d'altar é maior e mais monumental +que outro qualquer de sala. + +_Candelabros para o Cirio Pascal_. Tinham uma altura bastante +consideravel. + +A ornamentação d'estes candelabros, destinados a sustentar o Cirio +Pascal, era analoga á dos candelabros d'altar. N'elles se encontram, +tanto no pé como na dirandella, os dragões e os lagartos com azas +(geralmente no numero de tres), as folhagens e os florões. Em alguns, +tambem se representavam varios personagens e diversos outros assumptos +nas facetas do pé. + +_Candelabros de sete braços_. Estes candelabros sempre de bronze, +usavam-se desde o periodo roman, e talvez antes. Destinados, sem duvida, +a fazer recordar o antigo candelabro dos israelitas, são tambem muito +elevados. O pé, o nó e os ramos eram ordinariamente ornados. + +Os braços estão collocados, em geral, no mesmo plano, tres de cada lado +da haste central e as dirandellas tambem se encontram ao mesmo nivel. + +_Evangeliarios_. Durante o periodo roman, trataram, como até ali, de +reproduzir o mais correctamente possivel o texto Sagrado; e continuaram +do mesmo modo a transcrever os exemplares de luxo com lettras de ouro +sobre velino branco ou côr de purpura. + +As Biblias completas e os evangeliarios, isto é, os manuscriptos em que +se encerra o texto dos quatro Evangelhos, são em geral ornados com um +grande numero de miniaturas representando personagens e assumptos do +Novo e Velho Testamentos, e até mesmo alguns factos legendarios. +Todavia, nos mais antigos manuscriptos o numero das illustrações é +geralmente muito menor que nos do XI e XII seculos. Encontra-se com +frequencia, na parte superior de cada Evangelho, a figura do +Evangelista, sentado e escrevendo o seu livro. + +Egualmente se encontram na parte superior de quasi todos os +Evangeliarios, miniaturas que occupam muitas paginas, consistindo em +arcadas sobre columnas, agrupadas ás tres e ás quatro, sob um arco +commum que abrange toda a largura da pagina; em cada arcada lêem-se +series de numeros collocados uns debaixo dos outros. + +Estas columnatas formam o que se chamam os _canhões d'Euzebio_ ou de +_concordancia Evangelica_. Foram compostas por Euzebio de Cezaréa para +facilitar o estudo comparativo dos Evangelhos, e consistem em quadros +que indicam, por meio de algarismos escriptos na mesma linha horisontal +em duas ou mais arcadas, as citações dos Evangelhos com relação ao mesmo +objecto. + +São dez: o primeiro indica todos os logares communs aos quatro +Evangelhos; o segundo, os que se não lêem senão em S. Matheus, S. Marcos +e S. Lucas; o terceiro, o que é referido por S. Matheus, S. Lucas e S. +João; o quarto, as passagens comparativas de S. Matheus, S. Marcos e S. +João; o quinto, o accôrdo de S. Matheus com S. Lucas; o sexto, de S. +Matheus com S. Marcos; o setimo, de S. Matheus com S. João; o oitavo, de +S. Lucas com S. Marcos; o nôno, de S. Lucas com S. João; emfim o decimo, +sob differentes series, o que cada evangelista escreveu de particular. + +Cada Evangelho tem á margem, com tinta preta por ordem numerica, a +indicação de todos os versos que o compõem; e inferiormente a cada verso +está notado a encarnado o numero do canhão a que se tem de recorrer para +encontrar a concordancia. + +_Capas evangeliarias_. Durante o periodo roman as capas dos livros +lithurgicos tinham ordinariamente um comprimento dobrado ou triplicado +da largura. Comtudo já havia n'essa epoca encadernações que se +approximavam sensivelmente da fórma quadrada, que foi a que mais tarde +prevaleceu. + +As capas dos livros romans são de metal e tambem de marfim; acontecendo +muitas vezes reunirem estas duas materias na mesma capa, ou servindo de +caixilho a uma placa de marfim quadrada ou rectangular e com relevos +metallicos. + +Os assumptos que mais trivialmente se encontram sobre as capas dos +evangelhos são: 1.^o O Salvador, sentado ou de pé, lançando a benção e +collocado n'uma aureola oval; 2.^o A crucificação de Christo; 3.^o A +Santissima Virgem com o menino Jesus; 4.^o Scenas tiradas da historia do +Novo Testamento. + +Os symbolos dos Evangelistas occupam quasi sempre os quatro angulos das +capas. + +Para o fim do periodo roman, tambem frequentemente se empregaram, como +capas de livros lithurgicos, placas esmaltadas, oblongas, rectangulares, +fabricadas em Limoges, representando a crucificação do Senhor, com as +figuras accessorias. + +_Thuribulos_. É provavel que nos primeiros seculos fossem simples vasos +com grande diametro e um peso consideravel. + +Dos thuribulos anteriores ao XI seculo apenas temos conhecimento pelas +pinturas das paredes e pelas miniaturas dos manuscriptos. + +São d'uma simplicidade notavel; têem, como todos os que se lhes +seguiram, a fórma espheroidal. + +No XI e XII seculos apparecem thuribulos mais ricos. + +_Caldeirinhas d'agua benta portateis_. Estas caldeirinhas serviam para +levar agua benta aos imperadores, aos reis e outros grandes personagens +no momento em que entravam na egreja. Têem a fórma d'um cóne troncado e +invertido. + +Geralmente são de pequenas dimensões, não excedendo 20 centimetros em +altura. + +Tambem as ha de marfim e outras de metal. A maior parte tem +exteriormente duas ordens sobrepostas de figuras em relevo, +representando assumptos religiosos, figuras de Santos ou symbolos. + +_Pentes lithurgicos_. Os padres eram obrigados a pentear os cabellos e a +barba antes de celebrar o Officio Divino. O uso dos pentes lithurgicos +existiu até ao XVI seculo, e ainda nos nossos dias se emprega o pente na +Sagração dos Bispos. + +_Os pentes lithurgicos_ são geralmente d'osso ou de marfim e tambem +algumas vezes de madeira. + +Uns são maiores do que outros; os maiores são guarnecidos com duas +ordens oppostas de dentes, tendo uma com mais finissimos dentes. O +espaço comprehendido entre as duas ordens de dentes é em geral +esculpido. Os pentes de menores dimensões têem apenas uma ordem de +dentes, sendo egualmente mais ou menos ricamente esculpidos. + +_Cadeiras_. O uso da cadeira, _cathedra_, foi durante, muito tempo +considerado como uma prerogativa dos Papas, dos Bispos e dos Soberanos +temporaes. + +No fim do periodo Latino e no começo do Roman, as cadeiras, eram por +vezes feitas á imitação da cadeira _curúl_ dos Romanos, a qual era +formada de duas dobradiças em fórma de X, entre as quaes assentava um +coxim. Os ramos das dobradiças d'esta especie de cadeiras romans são +ordinariamente terminados, superiormente, por cabeças d'animaes e +inferiormente por patas ou garras; como tambem succede com as cadeiras +curúes mais ricamente esculpidas. + +As cadeiras romans têem d'ordinario a fórma d'um cofre rectangular, não +tendo costas nem tão pouco braços. Adornavam-nas com incrustações de +marfim, ouro, prata ou outros metaes; eram estofadas de preciosos +brilhantes e damascos. As cadeiras de costas altas são raras. + +_Baculos pastoraes_. Desde os primeiros seculos que os Bispos empunhavam +o bastão pastoral como insignia da sua dignidade. Mais tarde foi este +privilegio extensivo aos abbades dos grandes mosteiros. + +Os bastões pastoraes mais antigos eram de duas fórmas diversas: havia o +bastão em fórma de muleta e o bastão em _voluta_. O primeiro, pela sua +similhança com a letra T (a que os gregos chamavam _tau_) é conhecido +pelo nome de _bastão_ ou baculo em fórma de _tau_. O cabo ou travessa +ordinariamente de marfim é todo esculpido. + +Os baculos de _voluta_ que ainda hoje existem, datam do XII seculo. A +fórma que tinham antes d'esta epocha sabe-se pelas esculpturas, pinturas +e miniaturas. + +Não nos parece que se encontrem Bispos empunhando o baculo em monumentos +cuja data seja anterior ao ultimo quartel de X seculo. + +No seculo XII e até mesmo já durante a ultima metade do seculo XI, é que +se começaram a usar os _baculos de voluta_. São tambem d'esta epocha os +_bastões de metal_ ornados de pedrarias d'esmaltes e filigranas. + +A voluta de quasi todos os baculos do XII seculo termina por uma cabeça +de serpente ou de dragão encimada por uma cruz, ou lutando com o Divino +Cordeiro armado com o signal da redempção. As volutas terminando em +florão são por emquanto raras n'esta epocha, assim como tambem aquellas +que têem representadas scenas historicas. + +Attribue-se geralmente aos baculos pastoraes e a todas as suas +differentes partes, uma significação symbolica. O baculo representa o +bordão do Pastor espiritual; do Bispo na sua diocese e do abbade no seu +mosteiro. A haste é recta para recordar ao Prelado a rectidão da +governação; a ponteira de metal é o emblema da justa severidade com que +deve reprimir os rebeldes, e a voluta recurvada symbolisa a bondade como +as almas são attrahidas para o bem pelas consolações. A voluta do baculo +voltada para o peito, indica a jurisdicção interna dos Abbades; voltada +para fóra, mostra a auctoridade dos Prelados. + +_Sapatos lithurgicos_. Estes sapatos, que desde os primeiros seculos são +considerados como uma das principaes insignias dos Bispos e dos Abbades, +tinham o nome de sandalias, _sandalia_, e eram em geral de fórma +identica. Constavam d'uma solla de coiro ordinario, d'uma gaspea e de +dois quartos. + +A gaspea era de coiro e recortada muito profundamente a formar uma +especie de lingueta, _lingua_, e quatro appendices, _ligulae_, em fórma +de orelhas atravez das quaes passavam os cordões. As seis chanfraduras, +formadas por estas orelhas, fizeram dar á gaspea o nome de _coiro +fenestrado_, _corium fenestratum_, por affectarem a fórma de aberturas +dos rotulos de janellas. + +Tanto a gaspea como os quartos tinham um grande numero de furos, os +quaes bem como as chanfraduras da gaspea tinham uma significação +symbolica. + +As sandalias são guarnecidas, inferiormente, por uma solla e +superiormente por um pedaço de cabedal chanfrado ou fenestrado, porque +os pés dos prégadores devem ser resguardados inferiormente para se não +sujarem nas coisas terrestres conforme as palavras do Senhor--_Sacudi o +pó de vossos pés_--; são descobertos pela parte superior para que lhes +seja relevado o conhecimento dos celestiaes mysterios, segundo estas +palavras do propheta: «Desvendae-me os olhos e considerarei as +maravilhas da tua Lei». + +A gaspea e os quartos eram ordinariamente bordados a ouro e seda e até +mesmo de pedras preciosas. + +_Mitras_. As mitras de dois bicos eram desconhecidas até ao fim do XI +seculo. D'antes os Bispos usavam algumas vezes uma corôa ou grinalda de +laminas de metal, cravejada de pedras, debaixo da qual elles punham um +barrete pouco elevado ou um pedaço rectangular de seda ou de tela, cujas +extremidades, ordinariamente bastante compridas, fluctuavam livremente +sobre as costas. + +No fim do XI seculo, a cobertura collocada por debaixo da corôa +tornou-se mais alta de maneira que formava ou uma especie de touca +ponteaguda ou dois lobulos obtusos ou arredondados e pouco tempo depois +duas agudas pontas. N'esta mesma epocha foi substituido o circulo de +metal por fachas de pergaminho primorosamente pintadas e as extremidades +fluctuantes do pedaço de tela por duas fachas compridas e estreitas, que +se chamam _fanons_. + +_Alfaias preciosas_. _Tecidos_. Durante os primeiros seculos da éra +christã, os tecidos de seda apenas se fabricavam no Oriente. + +Mas no periodo roman continuou a Europa a mandar vir todos os tecidos +preciosos de Constantinopla, da Grecia, da Asia Menor e da Persia. + +Comtudo, no seculo IX, os Mouros introduziram a cultura do bicho de seda +no Sul da Hespanha, e a começar do seculo seguinte, a pequena cidade de +Almeria, situada a pequena distancia de Malaga sobre as costas do +Mediterraneo, tornou-se um importante centro de industria de seda, cujos +productos da Europa eram procurados. + +Em seguida á expulsão dos musulmanos no anno de 1146 ou 1147, as +fabricas de seda tambem se desinvolveram muito na ilha da Sicilia, e o +commercio de tecidos de seda tornou-se extremamente florescente e +prospero, graças aos intelligentes esforços do rei normando Roger, +secundado na sua empreza por operarios trazidos da Grecia na escolta +d'uma expedição militar. Os tecidos d'ouro e seda, fabricados na celebre +manufactura official de Palermo, e conhecida pelo nome de _Hotel de +Tiraz_, foram os mais estimados durante toda a edade média. + +Os tecidos do periodo roman, geralmente encorpados e solidos, são uns +lisos e outros ornados de desenhos representando animaes, plantas, +flôres e fructos, empregados apenas como decoração, sem a menor intenção +de symbolismo. Os estofos produzidos pelas fabricas musulmanas, tinham +tambem ás vezes inscripções arabes; aquelles cujas decorações consistiam +em assumptos biblicos ou symbolos christãos, fabricavam-se em +Constantinopla, na Grecia e mais tarde egualmente na Sicilia. + +_Bordados_. Os bordados continuaram a usar-se para reproduzirem +assumptos religiosos quer em medalhões quer sobre umas fitas que +applicavam ás velas d'altar e aos paramentos sacerdotaes. A arte de +bordar fez consideraveis progressos durante o periodo roman. +Encontram-se um grande numero de passamanarias inteiramente executada á +agulha «_acula pictae_» no XI e XII seculos. + +Os bordados executados durante o periodo roman eram geralmente feitos em +seda ou lã fina sobre uma talagarça de tela fina. + +_Paramentos sacerdotaes_. No principio do periodo roman eram ainda +desconhecidas as côres lithurgicas, e só se começaram a empregar no IX +seculo tomando um certo desinvolvimento nos seculos seguintes, ao mesmo +tempo que se fixou o seu symbolismo. A côr branca e a vermelha foram as +primeiras adoptadas: aquella, como emblema da innocencia e da candura, +servia nas festas do Salvador, da Santa Virgem, dos anjos, dos Santos +que não morreram martyres e durante a Paschoa; o vermelho, symbolo da +caridade e do heroismo, foi destinado aos martyres bem como ao +Pentecostes, festas por excellencia do amor. + +No XII seculo duas novas côres vieram augmentar as que já se usavam: o +verde, symbolo da esperança, foi empregado aos domingos e nos dias de +semana em que se não celebrava festa alguma de Santo e durante o tempo +que decorre entre a Epiphania e a septuagesima, entre o Pentecostes e o +Advento, o preto, signal de luto, foi reservado para a sexta feira Santa +e para os officios funebres. + +A principio, o uso d'estas differentes côres era facultativo; porém +desde o final do XII seculo e ainda mais durante o seculo XIII, +tornou-se obrigatorio. + +Mais tarde, tambem se introduziu o uso da côr violeta, symbolisando +_penitencia_, para o Advento, quaresma, temporas e vigilias. + +A _casula_ conservou, durante o periodo roman a mesma fórma que até ali +havia tido, isto é, a d'uma veste dupla, sem mangas, e caindo livremente +á roda do corpo. + +As _casulas_ mais ricas eram de seda; cravejadas de pedras, de perolas e +bordadas a ouro, prata, seda ou lã, reproduzindo figuras geometricas, +flôres, animaes, symbolos e assumptos religiosos. Estes ornatos +espalhavam-se muitas vezes por toda a casula; comtudo, d'ordinario, +apenas occupavam as bandas verticaes longas e estreitas, chamadas +_praetestae_, _listae_ ou _augusti clavi_; regularmente são duas, uma na +frente e outra na parte posterior. Além do modo decorativo que ellas +tinham, estas bandas serviam ainda a um fim util, a de tapar as duas +costuras precisas para dar feitio ao paramento. Duas outras fachas, +egualmente estreitas, passavam sobre os hombros e vinham terminar nas +bandas verticaes do peito e ao meio das costas, figurando, adiante e +atraz, uma Cruz em fórma de Y. + +Ha _casulas_ antigas que não têem as fachas de juncção que passam sobre +os hombros e cuja decoração se resume nas duas fachas verticaes. Algumas +vezes tambem estas fachas são substituidas por arvores ou plantas com +muitas ramificações. + +As casulas de uso diario e as das egrejas mais modestas não eram de +seda, materia de um preço excessivo n'essa época, mas sim de lã, tela ou +outros tecidos mais baratos. + +A _estola_ consiste em uma facha comprida e estreita, de seda, de lã ou +de tela, medindo em geral 2^{m},70 de comprimento sobre 6 a 7 +centimetros de largura. Foi a partir do IX seculo, que ella tomou esta +fórma e estas dimensões, que se approximam muito das que ainda hoje tem. + +As estolas ricas eram ornadas de pedrarias bordadas, e placas de metal +cinzeladas e esmaltadas, e terminavam nas pontas por longas franjas. + +O _manipulo_, que d'antes consistia n'uma especie de toalha, com a qual +os padres limpavam as mãos e a cara ou purificavam os vasos sagrados, só +perdeu a fórma e o destino primitivo, durante o IX seculo, quando se +tornou um verdadeiro paramento similhante á estola na fórma, côr e +decoração. + +A _capa_ conservou, durante o periodo roman, a mesma fórma que tinha +antes; especialmente reservada aos chantres e clero inferior, era feita +com um tecido ordinario. Os Bispos só raras vezes a vestiam e, por +consequencia, não havia capas ricamente decoradas. + +A _alva_ era de linho mais ou menos fino e algumas vezes de seda branca. +Havia duas especies de alva: as alvas sem ornatos, chamadas _albae +purae_ ou _simplices_, e as alvas guarnecidas, _albae paratae_ ou +_frisiatae_. As primeiras serviam nos dias ordinarios e nas egrejas de +segunda ordem; as outras eram usadas pelos Bispos e pelo clero, +especialmente nos grandes dias de festa. + +A decoração das alvas dos Bispos consistia apenas em certos ornatos em +volta do pescoço, nas extremidades das mangas e no bordo inferior; além +de duas orlas parallelas verticaes que lembram as _augusti clavi_ dos +Romanos, e que descem do pescoço até aos pés, tanto na frente como nas +costas. + +O _cinto_ era geralmente ornamentado com grande luxo. + +Muitos tecidos preciosos se fabricaram com fio d'ouro; tendo a fórma +d'uma grande fita de largura entre tres e seis centimetros, podendo-se +mui facilmente assentar, em toda a sua largura, perolas, pedrarias, e +placas de metal cinzeladas e esmaltadas. + +O _amicto_ é composto d'um pedaço de panno quadrado ou rectangular, que +o sacerdote põe na cabeça, quando começa a revestir-se, e que depois faz +descer sobre o pescoço. + +Os amictos eram em geral de panno de linho. No periodo roman tambem os +havia de seda, e de fio d'ouro. + +No IX seculo começaram os amictos a ter um ornamento, que se conservou +em uso durante toda a edade média, e que recebeu o nome de--_parura +plaga_--e tambem, ás vezes o de--_praetextae_. Este adorno consistia, no +seu principio, em uma tira rectangular d'ouro, de renda ou tecido de côr +brilhante, que se pregava no bordo superior do amicto, e que formava em +torno do pescoço uma especie de rico collar, visivel mesmo depois do +sacerdote e os ministros sagrados terem revestido a casula ou a +dalmatica. Algumas vezes tambem tinham como adorno perolas e pedras +preciosas. + +A _dalmatica_ é o paramento sacerdotal para vestir por cima, pertencente +ao diacono e sub-diacono. Consistia, durante o periodo roman, +regularmente n'uma especie de toga fechada muito comprida, com mangas e +uma abertura para passar a cabeça. Duas faixas verticaes d'ouro ou de +côr brilhante se applicavam, ás vezes, sobre a toga, prolongando-se até +ao bordo inferior. + +Do seculo XI em diante appareceram dalmaticas abertas nos dois lados até +uma certa altura. Eram muitas vezes guarnecidas de faixas douradas em +volta do pescoço, e nos canhões das mangas. + +O _pallium_ constituia entre os antigos o principal paramento de vestir +por cima. + +Deu-se com o pallio o mesmo que se havia dado com a estola; a parte +principal, e primitivamente essencial, isto é, o manto foi supprimido, e +apenas se conservou o ornato accessorio, as faixas que se lhe +applicaram. Estas uniam sobre o peito e sobre as costas, em fórma de Y, +da mesma maneira que as _listae_ em certas casulas. + +Durante o periodo Latino já se decoravam as faixas do _pallium_ com +pequenas cruzes gregas. Estas cruzes, pouco numerosas a principio, +foram-se multiplicando insensivelmente, e desde o XI que já se contavam +muitas sobre toda a extensão das faixas. + + +*Abbadias, Mosteiros e claustros dos Capitulos* + + +Desde o VIII seculo que se começaram a levantar estabelecimentos +religiosos, compostos de numerosas construcções edificadas e dispostas +com arte. Havia já egrejas, edificios para alojamento e exercicios dos +frades, enfermarias, escolas, bibliothecas, hospedarias para os +estrangeiros, celleiros, jardins, edificações destinadas aos +aprovisionamentos, emfim, habitações e officinas para as corporações +d'artistas que as abbadias tinham sempre ao seu serviço. + +Todos estes antigos mosteiros foram destruidos ou inteiramente +modificados com o correr dos seculos. + +Examinaremos as suas disposições interiores, quando tratarmos do plano +das abbadias do periodo ogival. + +A principio os conegos das cathedraes e collegiaes viviam em communidade +como os religiosos. + +Os claustros dos simples collegiaes eram ordinariamente, como os das +abbadias, contiguos ás paredes meridionaes da egreja, porque a exposição +ao sol do meio dia é a mais agradavel e a mais vantajosa para a saude. +Por estas razões o lado sul nas cathedraes era occupado pelos palacios +episcopaes, e os conegos viam-se obrigados a escolher o lado norte das +egrejas, para edificarem os seus claustros. + +Todavia, esta regra não era geral: existem muitos exemplos de claustros +tanto d'abbadias como de capitulos occupando outros logares. Estas +excepções á regra geral são devidas a differentes causas, taes como a +presença de ruas ou de construcções que era impossivel supprimir, e, nos +paizes montanhosos, os accidentes do terreno que torneava a egreja. + +Os claustros das egrejas monasticas, cathedraes e collegiaes, +compunham-se ordinariamente de um pateo quadrado ou rectangular, rodeado +de galerias cobertas, que serviam de passeio aos religiosos e aos +conegos. + +Estas galerias, abertas para o lado do pateo, eram comtudo d'elle +separadas por meio de um apoio quasi continuo, sobre o qual vinham +assentar as columnas com archivoltas, tornando a arcada toda contínua. +Os mais antigos claustros apenas tinham uma especie de ornamentação com +as galerias cobertas d'um simples alpendre de madeira, cujo madeiramento +só era visivel no interior. Desde o fim do X seculo foram estes +alpendres substituidos por abobadas de berço com aresta, por baixo das +quaes muitas vezes tambem se construia um pavimento. + +Na maior parte dos claustros romans do XII seculo, as curvas +descendentes das archivoltas são sustentadas por columnas duplas, +cobertas por uma perna de telhado. Algumas vezes columnas isoladas +alternam com columnas duplas. + +Os claustros das cathedraes e das collegiaes eram, como os das abbadias, +rodeados de edificações indispensaveis para a vida commum dos conegos. + +Debaixo d'essas galerias se abriam as portas do refeitorio, do +dormitorio, da escola, e da sala capitular e outros locaes affectos ao +serviço da communidade. Mais tarde, quando a vida commum foi abandonada +pelos capitulos, as habitações privadas dos conegos occuparam, em torno +das galerias, o logar d'estes differentes edificios. + +A iconographia, isto é, a _sciencia das imagens_, occupa-se das +representações figuradas devidas á esculptura e, em geral, a todas as +outras artes de modelar. + +_A gloria, o nimbo e a auréola_. A gloria é um ornamento symbolisando +uma nuvem luminosa, que os artistas da idade média põem em torno da +cabeça ou do corpo d'um personagem, como attributo da santidade ou do +poder. Quando ella não rodeia senão a cabeça, dá-se-lhe o nome de +_nimbo_; quando rodeia o corpo inteiro, chama-se _auréola_. + +O nimbo derivado da palavra latina (_nimbus_) é um adorno circular, e +tambem ás vezes quadrado, oblongo ou triangular com que se costumam +adornar as cabeças das figuras que representam as pessoas divinas, os +santos e os homens revestidos d'auctoridade suprema, quer civil, quer +ecclesiastica. É costume collocal-o verticalmente na parte posterior da +cabeça. Assim como a corôa é o signal da realeza, assim o nimbo é o da +santidade ou da auctoridade. + +O nimbo circular ou em fórma de disco é o symbolo de Deus, dos anjos e +dos Santos; comtudo, quando circumda a cabeça d'alguma das pessoas +divinas, o disco é regularmente ornado com uma cruz grega, de que apenas +se vêem tres ramos, pelo que se chama nimbo crucifero. A cruz do nimbo +crucifero deve ser vertical, e não inclinada como a cruz de Santo André +X. Muitos artistas, quando se servem do nimbo, commettem um erro, contra +esta regra de iconographia. O nimbo crucifero é o symbolo caracteristico +das pessoas divinas, mesmo quando apenas se representam por figuras +symbolicas. Assim, por exemplo, a mão, symbolo do Pae Eterno, o +cordeiro, symbolo do Filho Jesus Christo, e a pomba, symbolo do Espirito +Santo, representam-se sempre com o nimbo crucifero. + +Os ramos do nimbo crucifero são geralmente bastante compridos e mais +largos nas extremidades. O nimbo circular sem a cruz é o symbolo dos +anjos e dos Santos do Novo Testamento. No Oriente tambem os Santos do +Velho Testamento têem o nimbo, mas no Occidente não se segue essa +pratica. As personificações das virtudes, das provincias e das cidades +têem tambem o nimbo. Elle é egualmente concedido aos Papas, aos +imperadores, aos reis, e aos padres quando são representados +administrando o Sacramento do baptismo, por isso que elles se acham +n'estes casos revestidos d'uma auctoridade suprema. + +Os personagens vivos depositarios da auctoridade suprema, eram tambem +adornados com o nimbo quadrado ou rectangular. O nimbo é muitas vezes +substituido pela corôa que se dá ás imagens esculpidas do Salvador +crucificado ou da Virgem com seu Filho. + +_Origem do nimbo_. Os pagãos já faziam uso do nimbo, para ornamentar os +seus deuses e imperadores. + +Assim se vê Trajano n'um baixo relevo do arco de Constantino e Antonio o +Piedoso em uma moeda, confirmando o uso d'este emblema. Mas que época +indicará a introducção do nimbo na iconographia christã? O nimbo parece +só ter sido empregado pelos christãos depois da conversão de +Constantino. Até este tempo não se conhece monumento algum authentico +dos tres primeiros seculos, em que vejamos Christo ou os Santos +adornados com o nimbo. Os mais antigos monumentos, de data determinada, +em que este ornamento se acha empregado como signal iconographico, são +os mosaicos de Roma e de Ravêna. + +Ora foi da comparação d'estes differentes monumentos entre si que se +conheceu terem sido as imagens do Salvador as primeiras que tiveram +nimbo, em segundo logar as dos anjos, depois as dos evangelistas e seus +symbolos e emfim as dos Santos e dos soberanos. As imagens de Nosso +Senhor começaram a ter nimbo desde o principio do IV seculo; até ao VI +seculo se vê o nimbo umas vezes simples, outras crucifero. A Santissima +Virgem e os anjos começaram a ter nimbo desde os primeiros annos do +seculo V, os Evangelistas e os Apostolos no meado do mesmo seculo, os +Santos e os personagens revestidos de auctoridade soberana no começo do +seculo seguinte. + +Auréola (palavra derivada do latim _aura_, _vento suave_, _sôpro +luminoso_) é uma especie de moldura que envolve todo o corpo como se +fôsse o nimbo do corpo inteiro. + +Os artistas da edade média dão auréola ás tres Pessoas Divinas e á +Santissima Virgem e tambem ás almas dos Santos e principalmente á do +pobre Lazaro, figuradas por um pequeno corpo inteiramente nú. A alma é +assim deificada no momento em que volta ao seio do Creador. + +Os Santos, por mais venerados que sejam, nunca têem auréola. + +Quando Deus Pae ou Deus Filho se representam sentados na auréola, os +seus pés assentam em geral sobre um arco-iris, e sentados sobre um arco +similhante. + +Estes arco-iris são muitas vezes substituidos, o primeiro por um +escabello rendilhado, e o segundo por uma especie de poltrona. Sendo a +auréola mais recente do que o nimbo, caíu comtudo em desuso +primeiramente do que este ultimo. + +_Representações da Santissima Trindade_. Durante o periodo roman eram as +pessoas da Santissima Trindade representadas de varios modos. + +1.^o--Para inculcar aos fieis o dogma da egualdade dos homens, +representavam-se estes com fórmas inteiramente similhantes. Ás vezes +tambem o Deus Filho se representa nos pés ou nas mãos, e o Espirito +Santo é representado com a fórma d'uma pomba. As pessoas Divinas quando +se representam com fórmas humanas, têem sempre nús os pés. + +2.^o--Tambem empregavam a representação do baptismo do Senhor nas aguas +do Jordão, para figurar as pessoas da Santissima Trindade. + +3.^o--Nos ultimos annos do periodo roman representava-se a Santissima +Trindade da maneira seguinte: Deus Pae, sentado n'um throno ou sobre um +arco-iris, tendo nas mãos uma cruz na qual está crucificado o Salvador; +o Espirito Santo, representado por uma pomba, apparece entre a bôca do +Pae e a do Filho, para mostrar que o procede tanto d'um como do outro. +Este typo foi conservado durante toda a idade e mesmo até aos XVI e XVII +seculos. + +Comtudo, a partir do XV seculo, deixou de se symbolisar o dogma da +procissão do Espirito Santo, e collocava-se a pomba ou no braço da cruz +ou no hombro do Pae. + +_Representações das tres Pessoas Divinas_. _Deus Pae_. Até ao seculo XI, +nunca se attribuiram a Deus Pae fórmas humanas. A sua presença era +apenas indicada por uma mão saindo das nuvens. Esta mão symbolica, +primeiramente sem nimbo, e mais tarde com o nimbo simples ou crucifero, +encontra-se nos sarcophagos e nos antigos cofres. Foi pois no XI seculo +que Deus Pae começou a ser representado sob fórmas humanas. + +_Deus Filho_. Quando tratámos da iconographia das catacumbas, dissémos +que, durante os tres primeiros seculos, só se representava o Salvador, +debaixo das fórmas symbolicas ou das scenas historicas. Já no IV seculo +se encontram imagens isoladas do Salvador. Até ao X seculo, Christo +representa-se muitas vezes com as feições d'um mancebo de quinze a vinte +annos, sem barba, de figura agradavel e resplandecente d'uma mocidade +Divina; só excepcionalmente Christo tem barba e parece não ter mais de +vinte e cinco annos. No XI e XII seculos os artistas dão-lhe uma +expressão mais severa; ordinariamente apresenta barba parecendo ter +trinta a trinta e cinco annos. + +_Deus Espirito Santo_. Até meiado do X seculo foi sempre representado +com a fórma d'uma pomba; mas no XI e XII seculos começou tambem a ser +figurado com a fórma humana. + + +*A cruz e a crucificação* + + +_Considerações geraes_. A historia da representação da crucificação póde +resumir-se dizendo que este assumpto não se encontra sobre os monumentos +christãos e outros objectos do culto anteriores á conversão de +Constantino; a cruz apresenta uma fórma dissimulada. + +No IV seculo, a cruz fez a sua apparição na iconographia christã. Desde +a conversão de Constantino foi então que appareceu sobre um grande +numero de monumentos; mas até ao VI seculo ainda não tinha a imagem de +Christo: era no emtanto adornada com pedrarias e ás vezes circumdada por +uma auréola. + +No VI seculo começam então alguns artistas christãos, ainda que +timidamente, a representar o Salvador sobre a cruz. Primeiramente +servem-se do Cordeiro symbolico, que elles representavam de differentes +maneiras com o signal da redempção. Tambem se vêem cruzes tendo ao +centro, e ás vezes nas extremidades dos braços, uns medalhões com o +Divino Cordeiro ou com a imagem do Salvador Triumphante. + +Desde o VI até ao XI seculo representa-se o Salvador sobre a cruz com o +fim manifesto de recordar o Seu Triumpho sem nunca indicar a minima idéa +de soffrimento ou d'opprobrio. + +Do XI ao XII seculo representa-se Christo crucificado mas Glorioso e +Triumphante, apesar de ser manifesta a idéa de soffrimento. + +Do XIII ao XV seculo, os artistas christãos, tendo mais ou menos em +vista o symbolismo das épocas precedentes, esforçam-se por patentear +realmente os soffrimentos do Divino Crucificado. + +Durante o periodo do renascimento, o culto da fórma e da realidade +constitue por assim dizer a unica preoccupação do artista, que, dominado +pela idéa de expressar uma dôr vulgar ou de representar um corpo morto +ou moribundo, perde todo o sentimento de nobre symbolismo. + +A historia das representações da cruz e do crucifixo comprehende, pois, +duas épocas distinctas: a primeira, que durou desde o IV ao XII seculo +inclusive, tem por caracter distinctivo a representação glorificada do +instrumento da Paixão e da Victima, sem signal de que se tivesse +prestado voluntariamente; a segunda, que começa no XIII seculo e termina +no XIX, é caracterisada pela expressão dos soffrimentos do Divino +Salvador. + +A época do soffrimento corresponde ao periodo ogival e ao do +renascimento. + +No IV seculo a cruz é frequentemente encimada por um monogramma +inscripto em uma corôa. Quando não tem o referido monogramma, (o que se +dá principalmente desde o V seculo) ou tem os braços eguaes e mais +largos nos extremos, ou é ornada de perolas em renques, ou ornada de +flôres e folhagens, ou rodeiada de auréola. Ha todo o cuidado de +apresentar na cruz qualquer idéa d'opprobrio ou d'ignominia; a cruz não +é o instrumento de supplicio, mas sim, a cruz glorificada, o instrumento +da Redempção do genero humano. + +Estas diversas fórmas de cruz continuaram a usar-se até muito antes do +periodo Roman. + +Datam do ultimo quartel do VI seculo as primeiras imagens conhecidas do +Salvador crucificado. Porém, entre a cruz simples e o Cruxifixo +encontra-se uma série de monumentos intermediarios, offerecendo a cruz +associada ao Cordeiro symbolico. + +Estas cruzes intermediarias, partindo da cruz sem figuras animadas, ao +crucifixo propriamente dito, ainda se encontram em alguns monumentos do +VII seculo. + +Os mais antigos monumentos conhecidos que representam Christo pregado á +cruz, pertencem ao ultimo quartel do seculo VI. Taes são a miniatura do +celebre manuscripto syriaco de Florença, do anno 586, e muitos objectos +enviados por S. Gregorio o Grande, a Theodolinda, rainha dos Longobardos +e conservados hoje no thesouro de Monza. Alguns d'estes ultimos +mostram-nos claramente Christo na cruz, ao passo que outros, taes como +os frascos de chumbo, que continham liquidos recolhidos dos tumulos dos +martyres, não fazem mais do que relacionar a imagem de Christo com a +cruz, d'uma maneira muito mais sensivel do que a cruz do imperador +Justino e outros objectos similhantes. Tres d'estes curiosos frascos +têem ao meio da face principal, uma simples cruz folheada, acima da qual +se acha o busto do Salvador entre as personificações do Sol e da Lua; +aos lados da cruz vêem-se dois adoradores, os dois ladrões, a Santissima +Virgem e S. João; inferiormente está figurado o Anjo e as Santas +mulheres ao pé do tumulo de Christo. + +No reverso acha-se a Ascensão do Senhor, nos dois lados do gargalo uma +cruz grega de braços eguaes debaixo d'um arco de triumpho e inscripto +n'uma corôa folheada. Sobre o quarto frasco figuram scenas symbolicas +analogas: está Nosso Senhor em pé entre os dois ladrões, tendo os braços +estendidos em cruz. O instrumento do supplicio, que não se vê na face +principal, é comtudo representado no reverso do frasco, debaixo d'um +arco de triumpho, e cercado pelas cabeças dos Apostolos inscriptas em +medalhões circulares e formando uma especie de corôa. Conclue-se, pois, +que o artista christão foi obrigado primeiramente a não representar a +menor idéa de opprobrio e de soffrimento; para isto elle transformou a +cruz tornando-a de braços eguaes, ornando-a de folhagens e +metamorphoseando-a em arvore da vida: quiz affirmar o triumpho alcançado +com a morte, por Aquelle que morreu sobre a cruz, recordando a +Resurreição e Ascensão do Salvador. + +Os crucifixos primitivos não têem quasi nunca Christo esculpido em alto +relevo. + +Christo está vestido com um _colobium_ ou tunica, ordinariamente sem +mangas, que chega até aos pés. O uso d'esta longa veste serviu +exclusivamente durante o VII seculo e generalisou-se no IX seculo. +N'esta época foi substituida por uma tunica larga cobrindo os rins do +Salvador. + +Christo tem sempre a cabeça elevada ou ligeiramente inclinada para a +direita e os braços estendidos e perfeitamente horisontaes. Os pés estão +pregados separadamente á cruz por dois cravos e muitas vezes apoiados +sobre um escabello, ou suppedaneum. Algumas vezes parece serem +supprimidos os cravos com a intenção manifesta de significar que o +Christo se offereceu voluntaria e espontaneamente sobre a cruz para a +redempção dos homens. + +Desde o VI seculo até ao VIII, a scena da crucifixão é muitas vezes +acompanhada de personagens e outros accessorios fundados na verdade +historica, mas que se representam, bem como a imagem de Christo, de uma +maneira symbolica. Assim vemos a Santissima Virgem e S. João, o phariseu +que empunha a lança e o que segura a esponja, o Sol e a Lua, a +resurreição do Salvador, o bom e o mau ladrão. Todos estes accessorios, +com excepção do bom e do mau ladrão, se encontram ainda representados +nos crucifixos do seculo VIII. + +O sacrificio da crucifixão e os crucifixos do seculo IX até ao XII, +apresentam Christo na mesma attitude que nos seculos precedentes. Os pés +conservam-se ainda com dois cravos, mas afastados um do outro e assentes +geralmente em um--_suppedaneum_. + +Foi no XII seculo que appareceram os primeiros crucifixos apresentando +Christo com os pés _sobre-postos_. + +Christo poucas vezes se encontra vestido com o _colobium_; apenas em +geral tem á volta dos rins uma toalha de linho larga e comprida, que lhe +cobre o corpo desde os quadris até aos joelhos. Nos seculos XI e XII, +esta toalha tem muitas vezes a configuração d'uma pequena saia que se +chama--_perizonium_. + +A Cruz tem geralmente quatro ramos. + +Algumas vezes teem um rotulo, mas sem inscripção alguma; outras, nem +mesmo teem rotulo, que em geral consiste n'uma pequena travessa de +madeira rectangular. As inscripções costumam ser variadissimas. + +Antes do seculo IX, os personagens e outros accessorios que acompanham a +Cruz, são historicos, isto é, a sua presença é justificada pela narração +dos proprios Evangelistas. No IX seculo começaram então a apparecer os +crucifixos com figuras allegoricas, taes como a Egreja, a Synagoga e as +personificações da Terra e do Oceano. Vamos, pois, tratar +successivamente dos principaes typos do cyclo d'estas representações, +começando pelos accessorios historicos, visto que elles se empregam +desde o VI seculo. + + +*Personagens e accessorios historicos* + + +_A Santissima Virgem e S. João_.--Santa Maria está á direita e por +debaixo da Cruz, e o Apostolo em posição analoga, mas á esquerda do +Salvador. Só muito raramente se encontram ambos do lado direito, como +succede na miniatura de Florença. + +Ordinariamente estão como que erguendo os braços ao Salvador ou occultam +o rosto em signal de dôr com a mão núa ou escondida na ponta do manto. A +Santissima Virgem tem a cabeça envolvida em um veu e os pés calçados, em +quanto que S. João, de cabeça descoberta e com os pés descalços, tem nas +mãos um livro. + +_O phariseu que empunha a lança e segura a esponja_.--Ha uma piedosa +tradição, desde a idade media, em que se diz que o guarda que feriu o +Salvador com uma lançada, era um pagão chamado _Longino_, que mais tarde +se fizera christão, sendo depois venerado como Santo pela Egreja. + +Quasi todos os escriptores ecclesiasticos consideram Longino +representado ao lado da Cruz com o typo dos gentios, em quanto que o +phariseu que apresentou a Jesu-Christo a esponja embebida em vinagre +parece ser um judeu. + +_O Sol e a Lua_.--No seculo VI, tambem estes astros começaram a ser +representados no sacrificio da crucifixão, vendo-se o Sol á direita e a +Lua á esquerda do Senhor. + +A presença do Sol e da Lua n'estes primitivos monumentos, parece ter por +fim recordar o obscurecimento do Sol e as trevas que subitamente se +deram em seguida á morte do Salvador. + +No seculo IX, a significação, ainda limitada e puramente historica +d'este assumpto, foi amplificada com outra mais allegorica, desde esta +epocha. O Sol e a Lua não alludem sómente á obscuridade que envolveu a +terra por occasião da morte de Christo, simulam tambem o firmamento +assistindo e tomando parte na morte e no triumpho do seu Creador. + +N'este mesmo seculo os dois astros são quasi sempre personificados e +representados por um homem e uma mulher. A personificação do Sol tem +regularmente a cabeça cingida de raios luminosos, a da Lua é em geral +encimada por um crescente. Uma e outra teem ás vezes um facho. + +_As santas mulheres chegando ao tumulo do Salvador_.--Desde o VI até ao +XII seculo, apparece muitas vezes, por debaixo do crucifixo, a +approximação, ao tumulo, das tres santas mulheres, Maria Magdalena, +Maria, mãe de S. Thiago, e Salomé. Ellas seguram jarros, thuribulos ou +outros vasos, e estão diante do Anjo, sentadas, não dentro do sepulchro, +como diz o Evangelho, mas diante d'elle. Muitas vezes figuram-se tambem +soldados desfallecidos ou adormecidos. + +A reproducção d'esta scena na parte inferior da Cruz era para pôr em +parallelo a humilhação e a glorificação do Salvador, a sua morte sobre a +Cruz e a sua resurreição gloriosa. + +_A resurreição dos mortos e a sua sahida do tumulo_.--Durante o seculo +IX figurava-se muitas vezes ao pé da Cruz a Resurreição dos mortos que +se deu por occasião da morte de Jesus Christo, segundo narra o +Evangelho. + +Os tumulos d'onde sahiram os resuscitados têem a forma de pequenos +edificios, geralmente armados com uma capella, mais raramente d'um +frontão triangular ou d'um telhado de duas aguas. Nada havia que mais se +prestasse a proclamar a victoria alçada contra a morte de Nosso Senhor +expirando sobre a Cruz, como a Resurreição dos mortos. + + +*Personagens e accessorios allegoricos* + + +_A Egreja e a Synagoga_. Desde o seculo IX até ao XII encontram-se, +sobre a maior parte das representações do Sacrificio da Cruz, +personificações da Egreja e da Synagoga. Tinham ellas por fim recordar +aos Christãos a reproducção do povo d'Israel e a vocação dos infieis á +Fé da Egreja Christã. A Egreja, quasi sempre á direita da Cruz, é +representada por uma mulher com uma bandeira e aparando n'um calix o +sangue que corre da chaga de Nosso Senhor feita no lado direito. A +Synagoga é representada por uma mulher com uma bandeira e tambem ás +vezes uma palma. Está collocada á esquerda do Salvador com as costas +voltadas para o Senhor, e algumas vezes parece afastar-se lançando +olhares d'insulto e de cólera. + +_O Oceano e a Terra_.--Os artistas romans collocavam frequentemente +sobre o marfim e sobre as miniaturas dos manuscriptos, no pé da Cruz ou +inferiormente a toda a composição, as personificações do Oceano e da +Terra tiradas da mythologia. + +O Oceano, geralmente collocado á direita do Salvador, é representado por +um homem barbado, sentado sobre um monstro marinho, ou despejando uma +urna; tem na mão um remo, um peixe, uma cornucopia, ou o tridente de +Neptuno, e na cabeça chavelhos em fórma de serpentes, e tambem, ás +vezes, trazendo azas. Defronte do Oceano acha-se a Terra com a fórma +d'uma mulher, semi-nua, segurando, e até amamentando creanças ou +serpentes, muito proximo d'ella; ás vezes mesmo, n'uma das mãos, vê-se +uma cornucopia. + +As personificações do Oceano e da Terra collocavam-se perto da Cruz, +primitivamente, como acima dissemos, para exprimir a dôr que a Natureza +soffreu com a morte do seu Creador; e mais tarde, para mostrar que todo +o Universo partilhou da Redempção operada pela morte do Salvador. + +_A mão Divina e a pomba_. Muitas vezes vê-se na extremidade superior da +Cruz uma mão, com ou sem nimbo crucifero, parecendo sair das nuvens e +segurando uma corôa. Esta mão é o symbolo de Deus Pae, do mesmo modo que +a pomba, que se vê sobre algumas Cruzes, symbolisa o Espirito Santo. + +_Os Anjos_. Superiormente á travessa horisontal da Cruz e proximo do Sol +e da Lua vêem-se ás vezes dois, tres ou quatro anjos, em attitude de +adoração. Algumas vezes suspendem sobre a cabeça do Salvador uma corôa. +Nos monumentos mais remotos (os do IX seculo), onde mais frequentemente +se vêem os anjos, são estes em numero de dois e designados pelos nomes +de Miguel e Gabriel: representam a Natureza angelica assistindo á morte +do Salvador. + +_Os Evangelistas_.--Anteriormente ao IX seculo, nunca se representavam +os Evangelistas do lado principal aos crucifixos, mas sim nas quatro +extremidades do reverso, tendo no centro a imagem da Santissima Virgem. +A razão d'isto é porque n'esta epocha não se admittiam no sacrificio da +Cruz senão accessorios puramente historicos. + +No VIII seculo, quando na iconographia da Cruz se introduziram as +allegorias e os symbolos, tambem appareceram os Evangelistas. + +Encontram-se ora por cima dos braços horisontaes da Cruz, com os anjos e +os astros, ora nos quatro angulos da cercadura, que forma a moldura da +scena principal. Tambem ás vezes se encontram, tanto no IX como no XII +seculo, no lado principal dos crucifixos, nas extremidades dos ramos. + +_O Calix_. Encontram-se crucifixos em que o _suppedaneum_ é substituido +por um calix. + +É muito provavel que este calix não seja mais que o _Santo Graal_,[3] +tão celebre na idade mèdia. O _Santo Graal_ diz-se que servira á Ceia; +foi n'elle que Jesus-Christo transformou o vinho pelo seu proprio +sangue. + +_Adão sahindo do tumulo_. Esta scena representa-se muitas vezes proximo +da Cruz, para significar que a resurreição da carne é uma consequencia +da morte de Christo. + +O sacrificio da Cruz, desde o IX até ao XII seculo, com os seus +accessorios allegoricos e historicos, deve interpretar-se: a Natureza +Angelica, Celeste e Terrestre assistindo ao sublime sacrificio do +Homem-Deus sobre a Cruz, onde affronta os salutares affectos; a Synagoga +reprovada, a Egreja formada, a cabeça da serpente infernal esmagada, o +genero humano rehabilitado e recebendo o testemunho da Resurreição da +Carne. + +_Os crucifixos dos seculos XI e XII_. Existem muitos d'estes crucifixos; +apresentam os seguintes caracteres: + +A imagem de Christo é, em geral, de cobre vermelho; tem, quasi sempre, +os olhos de vidro azul. + +_O perisonium_, ou a toalha que cobre o corpo de Christo desde os +quadris até aos joelhos, toma ordinariamente a forma d'um saiote cujas +orlas são ornadas de perolas. Os Christos dos seculos XI e XII, vestidos +de tunica comprida com mangas ou com o _perisonium_ em forma de saiote, +que lhe chega até aos pés, são extremamente raros. + +_Nos crucifixos do XI seculo_, Christo está muitas vezes coroado com uma +especie de gorra ou corôa real. No XII seculo, já a gorra e a corôa se +tornam raras desapparecendo completamente no fim d'elle. + +_Os braços das cruzes_ que teem imagens de Christo, são geralmente +ornados com esmaltes e symbolos, tanto no reverso como na frente +principal. + +_Cruzes da Paixão e Cruzes da Resurreição_. A Cruz da Paixão é formada +por uma haste e uma ou duas travessas e representa ou imita as +proporções das differentes partes da Cruz, instrumento de supplicio. + +_A Cruz da Resurreição_ é apenas um symbolo da Cruz Real ou da Paixão; é +uma pequena cruz na extremidade d'uma haste como a que segura o Divino +Cordeiro. + +_A Santissima Virgem_. Durante os doze primeiros seculos da nossa era +representa-se a Virgem umas vezes sósinha e outras acompanhada do Divino +Filho. + +_A Virgem sem o Menino Jesus_ tem ordinariamente os braços estendidos e +erguidos parecendo orar e perto da cabeça está inscripta a sigla MPOY, +isto é: Mãe de Deus. Este modo de representação, muito usado desde o IV +até ao VII seculo, deixou comtudo de ser empregado nos seculos +seguintes. + +_A Virgem com o Menino Jesus_. Ha duas maneiras de representar a Virgem +com o Menino. Quando a scena é imaginada para prestar homenagem a Nossa +Senhora, diz-se que ella é _poetica_. + +Quando os reis magos, por exemplo, vêem trazer os seus presentes a Jesus +no collo da Santissima Mãe, a scena é puramente historica. + +Durante o periodo Latino e a primeira parte do periodo Roman, o grupo +historico é o mais frequente. Vemol-o em differentes scenas da vida do +Senhor, principalmente na adoração dos reis Magos. + +O grupo poetico póde reduzir-se a dois typos distinctos. O primeiro que +chamaremos _grego_ ou _bysantino_, consiste em representar a imagem da +Virgem com os braços erguidos como que orando, tendo diante de si o +Menino Jesus, lançando a benção, ao modo Grego, com as duas mãos, ou só +com a direita. Este typo já se encontra nas catacumbas. + +Os Bysantinos empregaram-se durante toda a idade media, e os Gregos +ainda hoje se empregam. + +_O Guia da pintura_ (manual iconographico, adoptado pelos antigos +pintores e ainda hoje seguido pelos Gregos), recommenda que se +represente Nossa Senhora com as mãos erguidas e Christo lançando a +benção para ambos os lados, com o evangelho sobre o peito. + +No outro typo do grupo _poetico_, a Santissima Virgem é representada +umas vezes de pé com o Menino Jesus nos braços, outras sentada tendo-o +sobre os joelhos. + +Dá-se a este typo o nome de Occidental, não porque elle fôsse +desconhecido pelos Gregos, pois que o usavam conjuntamente com o typo +_bysantino_, mas por que foi este o unico usado no Occidente durante +toda a idade média. Foi introduzido ou pelo menos generalisado +insensivelmente na iconographia christã depois da condemnação de +Nestorio pelo Concilio de Épheso, celebrado em 431. Este heresiarcha +negava que Nossa Senhora fôsse mãe de Deus. + +Para affirmar o dogma da maternidade divina de Nossa Senhora, +representavam-n'a com o Menino Jesus nos braços, e muitas vezes +acompanhada da inscripção [Grego: Ê AGIA OEOTOKO],isto é, _Santa +Deipara_, ou a _Santa Mãe de Deus_. + +Em geral Nossa Senhora está sentada com o Menino Jesus sobre os joelhos, +lançando a benção, pelo menos, com uma das mãos. + +Durante todo o periodo Roman estas representações de Nossa Senhora e do +seu Divino Filho distinguem-se por uma magestade e nobreza de sentimento +como quasi se não encontra nos seculos seguintes. + +A Santissima Virgem tem geralmente diante de si o Menino Jesus +completamente vestido, não estando entretido com sua Divina Mãe, mas sim +abençoando aquelles que lhe vêem prestar homenagem. Tem nas mãos uma +esphera ou mais geralmente um livro, ou um rolo, _volumen_, symbolo da +doutrina da nova Lei dada ao mundo. + +Na Grecia e no Oriente, os pintores e os esculptores cobrem +ordinariamente a cabeça da Santissima Virgem com um veu; os artistas +occidentaes tambem conservaram esta tradição durante algum tempo, mas, a +começar do seculo IX, dão a Nossa Senhora uma corôa real e algumas vezes +uma especie de gorra. + +_Os Anjos_. Os anjos têem figurado nos monumentos christãos desde o IV +seculo. Os primeiros não tinham azas. Só do V seculo em diante é que +começaram a tel-as bem como o nimbo. São representados com uma longa +tunica, orlada por duas faixas em fórma de _clavi_, e têem algumas vezes +na mão um longo sceptro ou _bastão_, terminado por um florão ou por uma +cruz. Os archanjos Miguel, Gabriel e Raphael, tambem muitas vezes são +representados. + +Os Anjos têem sempre os pés descalços. Symbolisava-se d'esta maneira a +sua qualidade de mensageiros celestes. + +_Os Evangelistas e seus symbolos_. O uso de representar os Evangelistas +sob a fórma humana ou por symbolos, data pelo menos do IV seculo. + +Sob a fórma humana encontrâmol-os primeiramente em alguns mosaicos +antiquissimos e um pouco mais tarde tambem nas miniaturas dos +evangeliarios. Estão regularmente sentados debaixo d'um portico, tendo +na sua frente um pulpito chamado _scriptional_, sobre o qual está +desenrolada uma folha de pergaminho, com o titulo ou as primeiras +palavras do seu Evangelho. Apparecem sempre descalços e ás vezes +acompanhados do animal que lhes serve de symbolo. + +Os symbolos mais usados dos evangelistas são os seguintes: + +_Os quatro rios do Paraizo_. O modo de symbolisar os evangelistas pelos +quatro rios: Phisonte, Géhonte, Tigre e Euphrates, tem origem muito +remota. Os mais antigos mosaicos e as proprias catacumbas nos offerecem +já exemplos d'esta representação. O Salvador com a fórma humana ou com a +do Divino Cordeiro, apparece sobre um outeiro d'onde brotam quatro rios, +emblemas dos Evangelhos, os quaes, produzidos pela fonte da Vida Eterna, +trouxeram ao Universo a fertil doutrina de Christo. + +_Os animaes symbolicos_. Os Evangelistas são muitas vezes symbolisados +por quatro figuras com azas: um homem, uma aguia, um leão e um bezerro. +Estes symbolos devem a sua origem ás visões do propheta Ezequiel e do +Apostolo S. João. Eu vi (dizia este ultimo), em torno do throno do +Cordeiro quatro animaes. O primeiro com o aspecto de um leão; o segundo, +de um bezerro; o terceiro com rôsto humano e o ultimo semelhando-se a +uma aguia em pleno vôo. + +Os santos Padres consideraram estas visões como os seguintes symbolos: o +homem o de S. Matheus; a aguia o de S. João, o leão o de S. Marcos e o +bezerro o de S. Lucas. + +Encontram-se os animaes symbolicos mais a miudo: 1.^o, sobre as capas +dos evangeliarios; 2.^o, nas quatro extremidades das cruzes d'Altar; +3.^o, nos quatro angulos da representação do Christo em sua Gloria, como +elle existe sobre as frentes dos altares, e nos tympanos dos portaes +d'egreja do XI e XII seculos. + +Os symbolos dos evangelistas reduzem-se a quatro sobre um unico objecto +ou empregados conjunctamente n'uma pintura, ou esculptura; são +regularmente acompanhados de Christo figurado com a fórma humana ou por +um symbolo. + +É, finalmente, da doutrina de Christo que derivam, como d'uma fonte +commum, os quatro Evangelhos. + +Quando se dá o caso dos animaes symbolicos ornarem os quatro angulos +d'uma superficie quadrada, quadrangular ou redonda, taes como as capas +dos livros, os tympanos dos portaes, as frentes d'altar ou a _flabella_, +têem certos logares determinados pelo uso: o homem com azas (ao qual +muitos auctores dão abusivamente o nome d'anjo) occupa o angulo superior +direito (á esquerda do espectador); a aguia, o angulo superior esquerdo; +o leão, o angulo inferior direito, e o bezerro, o angulo inferior da +esquerda. + +Quando collocados nas extremidades dos quatro braços da Cruz, a aguia +acha-se no vertice, o homem na extremidade inferior, o leão no braço +direito e o bezerro no braço esquerdo da Cruz. + +_Os Apostolos_. S. Pedro e S. Paulo eram os unicos Apostolos que durante +o periodo Roman se representavam com um typo uniforme. + +Desde os tempos mais remotos, que S. Pedro era representado trazendo uma +Cruz, ou as chaves, e tem cabello na cabeça, emquanto que S. Paulo é +calvo. Até ao XIII seculo não se encontra nos outros Apostolos nenhum +attributo caracteristico. Representam-se todos do mesmo modo, com um +rôlo ou livro na mão. + +Os Apostolos e mesmo Judas, têem os pés descalços. + +Os artistas da idade media symbolisavam com este signal iconographico a +missão sublime, confiada aos Apostolos, de derramar por toda a terra a +doutrina Evangelica. + +_Assumptos religiosos representados sobre os monumentos dos seculos XI e +XII_. Estes assumptos tirados quasi todos da Biblia, não eram muito +variados; tinham em geral um caracter uniforme e reconheciam-se bem ao +primeiro golpe de vista. Eis pois os que mais frequentemente eram +reproduzidos: + +1.^o, a tentação dos nossos primeiros paes; 2.^o, o sacrificio +d'Abrahão; 3.^o, a Annunciação; 4.^o, a visitação da Santissima Virgem; +5.^o, o Nascimento de Nosso Senhor, que já se representava sobre os +sarcophagos e nas pinturas a fresco das catacumbas do seculo IV; 6.^o, a +Adoração dos reis magos; 7.^o, a degolação dos innocentes; 8.^o, a +fugida para o Egypto; 9.^o, a exposição do Menino Jesus no Templo; +10.^o, o baptismo de Nosso Senhor; 11.^o, a sua entrada triumphal em +Jerusalem; 12.^o, a transfiguração; 13.^o, a ultima ceia; 14.^o, a +crucifixão; 15.^o, a descida da Cruz; 16.^o, a Resurreicão; 17.^o, as +Santas mulheres no tumulo; 18.^o, a Ascensão de Nosso Senhor. + +_Representações symbolicas das virtudes e dos vicios_. Os artistas +christãos da idade media estimavam muito symbolisar tanto as virtudes +como os vicios. Durante o periodo Roman as virtudes representam-se sob a +figura de mulheres tendo corôas, algumas vezes tambem azas, e na cabeça +uma especie de gorra. O seu nome acha-se inscripto do seu lado, ou sobre +qualquer objecto que conservam nas mãos; ás vezes teem mesmo um emblema. +As quatro Virtudes Cardeaes;--prudencia, justiça, força e +temperança--encontram-se frequentemente sobre os monumentos Romans de +toda a especie. + +Os vicios são figurados, ou por monstros phantasticos, ou por homens e +mulheres entregues aos excessos de suas paixões; encontram-se muitas +vezes sobre o mesmo monumento em concorrencia com as virtudes que lhes +são oppostas. + +_Animaes phantasticos_. Os monumentos do periodo Roman offerecem-nos a +representação de numerosos animaes reaes e phantasticos. + +Indicaremos alguns d'estes ultimos. + +1.^o O _basilisco_ é um animal com a fórma d'um gallo, mas com a cauda +semelhante á d'uma serpente. Reputa-se provir d'um ovo de gallinha +chocado por um reptil. O basilisco symbolisava o demonio. + +2.^o A _aspide_ é uma especie de serpente que a lenda diz estar de +guarda á arvore do balsamo. Se o homem quizer approximar-se d'esta +arvore para lhe colher o fructo, torna-se necessario que elle primeiro +adormeça a mesma serpente pelo encanto; mas esta, para se subtrahir ao +encantamento, tapa uma das orelhas com a cauda e a outra com terra, +espojando-se na lama. A _aspide_ representa os que voluntariamente +deixam de attender aos mandamentos do Senhor. + +3.^o O _griffo_ é um quadrupede com azas e cabeça d'aguia. Symbolisa o +demonio. Vê-se muitas vezes sobre os monumentos Romans dos seculos XI e +XII. + +4.^o A _sereia_ é um monstro com o corpo metade mulher e metade peixe. A +parte superior do corpo, que comprehende a cabeça, os braços e o corpo +até á cintura, tem a fórma humana; e o resto inferior é a cauda d'um +monstro marinho. Entre os Gregos e os Romanos as sereias terminavam em +passaro e não em peixe; eram tres e habitavam uns rochedos escarpados +entre a ilha de Capri e as costas d'Italia; os seus cantos tinham o +poder de fazer esquecer aos navegadores o paiz d'onde vinham. Durante a +idade media a sereia foi o symbolo da seducção causada pelos attractivos +das pessoas. + +Tambem se encontram sobre muitos monumentos os doze signos do zodiaco, +muitas vezes acompanhados com os trabalhos do anno que lhes +correspondem. Eram frequentemente empregados para ornar as archivoltas +dos portaes principaes das egrejas. + +_Doadores e doadoras_. Quando os doadores e as doadoras d'um monumento +queriam conservar ás gerações futuras a lembrança do seu beneficio, +faziam-se representar em pequenissimas proporções, humildemente +prostrados aos pés de Jesus Christo, da Santissima Virgem ou d'outros +Santos. + +Algumas vezes tambem os doadores se figuravam n'uma parte secundaria do +monumento, apresentando a Deus ou tendo simplesmente nas mãos um modelo +da egreja, do altar ou do objecto que haviam offerecido. + + + + +CAPITULO V + +/# + *Summario.*--Noções preliminares--Diversas fórmas de ogiva--Origem + da ogiva e do estylo ogival--Periodo de transição do estylo Roman + ao estylo Ogival--Caracteres d'Architectura Ogival--Observações + geraes--Plano e disposição das egrejas--Systema de + construcção--Materiaes e apparelhos de construcção--Esculptura + monumental--Fachadas--Adros--Portaes--Pinturas--Janellas--Rosaes--Caixilhos + de janellas e vidros--Vidraças pintadas--Pilares, columnas e + columnasinhas--Bases de columnas--Capiteis--Caxorros e + misulas--Arcadas e + arcaduras--Triforium--Cornijas--Platibandas--Abobadas--Arcos + butantes--Contrafortes--Gargulhas--Nichos e + Docel--Madeiramentos--Telhados--Torres e + campanarios--Pavimentos--Labyrintho--Pinturas das paredes--Cruzes + de consagração--Altares--Tabernaculos--Cadeiras de côro--Separação + do Altar-mór--Pulpito e confissonarios--Capellas funereas, tumulos, + campas, Cruzes de Cemiterio--Pias Baptismaes--Pias de agua + benta--Engradamentos--Orgãos--Alfaias religiosas--Calices e + patenas--Custodias--Thuribulos--Relicarios--Corôas para + luzes--Cruzes de altar e de + procissão--Castiçaes--Estantes--Instrumentos de paz--Moldes para + Hostias--Baculos--Mitras--Vestimentas sacerdotaes--Abbadias e + Mosteiros--Egrejas--Claustros e Refeitorios--Sala de + Capitulo--Dormitorios--Casa para + hospedes--Celleiros--Prisão--Cartuxa--Hospitaes--Iconographia--O + Nimbo--O Crucificado--Os Apostolos e os Evangelistas--O Dia de + Juizo--Sibyllas. +#/ + + +*Periodo Ogival* + + +O estylo ogival, tambem chamado _gothico_, foi usado desde o meiado do +XII seculo até ao principio do XIV. Chama-se ogival, porque differe de +todos os outros estylos que o precederam, pelo emprego da _ogiva_. Os +allemães chamam-lhe ás vezes--_estylo em arco bicudo_. As janellas, as +arcadas, os vãos das portas, n'uma palavra, todas as aberturas são +regularmente terminadas por arcos em fórma de ogiva. Devemos acrescentar +que a denominação de _Gothico_, dada ao estylo da idade media, é uma +especie de ironia da época da renascença, pois que o estylo ogival nada +tem de commum com os _Gôdos_. Foi o italiano Vasari quem primeiro +empregou este epitheto como synonimo de _barbaro_! + +_Diversas fórmas de ogiva_. Chama-se _ogiva_ toda a figura formada por +dois ou mais arcos de circulo, cortando-se segundo um certo angulo. + +Expliquemos, segundo a ordem chronologica, as principaes fórmas da +ogiva: + +_Ogiva obtusa_. Chamada tambem Roman, quando termina superiormente em +bico, muitas vezes quasi se confunde com o arco de volta inteira. Os +dois arcos que a formam, têem os centros muito proximos; algumas vezes +mesmo tão perto um do outro que é necessario um attento exame para +distinguir o bico pouco sensivel que o distingue do arco de volta +inteira. + +A ogiva com esta fórma encontra-se muito frequentemente nos edificios do +principio do periodo ogival, reapparecendo mais tarde, já no fim do +mesmo periodo, nos monumentos dos ultimos annos dos seculos XV e XVI. + +_Ogiva aguda ou lanceta_. É formada por dois arcos cujos centros estão +situados além da corda que une as suas duas extremidades inferiores da +volta do berço. + +Tem o nome de _Lanceta_ pela sua semelhança com o instrumento de +cirurgia d'este nome. + +_Ogiva equilatera_. É aquella cujos centros se acham nos dois extremos +da corda, e na qual podemos por consequencia inscrever um triangulo +equilatero. Tambem se dá a esta ogiva o nome de ogiva traçada de +terceiro ponto. + +_A ogiva alteada_ é aquella cujos arcos se prolongam inferiormente, +sendo formados por dois ramos verticaes e parallelos abaixo da linha dos +centros. Encontra-se muitas vezes no fundo do côro das grandes egrejas. + +As tres fórmas de ogiva acima descriptas empregaram-se durante os +seculos XII e XIII. + +_A ogiva de terceiro ponto_ é a que tem os centros dos arcos situados no +terceiro ponto da linha dos centros ou corda, e está dividida em tres +partes eguaes. Chama-se effectivamente ogiva de terceiro ponto, por isso +que se colloca a ponta do compasso no terceiro dos pontos de divisão da +corda. + +É para notar que muitos auctores, aliás muito recommendaveis, não +mencionam a ogiva formada por arcos cujo centro se encontra a um terço +da corda; a razão d'isto é porque consideram a ogiva equilateral como de +terceiro ponto. + +Esta ogiva começou a apparecer no fim do XIII seculo e generalisou-se +bastante nos seculos XIV e XV. + +_A ogiva inflexa_ descreve-se por meio de raios partindo de quatro +pontos e produzindo duas curvas junto á corda e duas outras curvas em +sentido inverso no vertice. + +O extradorso d'esta ogiva bem como o da fórma seguinte é convexo na +parte inferior e concavo na superior. + +_A ogiva em fórma de chaveta_ apenas differe da precedente por ser mais +achatada. + +Estas duas ultimas fórmas usaram-se durante os XV e XVI seculos. + +A ogiva inflexa serve muitas vezes de coroamento a um arco de terceiro +ponto, durante a primeira metade do seculo XV, ou em chaveta, durante a +segunda metade do seculo XV e principio do XVI. + +A ogiva formada meia convexa e meia concava é traçada como a ogiva em +chaveta, com raios que partem de quatro centros differentes, mas +inversamente; o extradorso do arco é concavo inferiormente e convexo no +vertice. Encontra-se esta ogiva, ainda que raras vezes, em alguns +monumentos dos seculos XV e XVI. + +_O arco Tudor_, assim chamado, porque tomou o nome dos reis, que estavam +no throno de Inglaterra na epoca em que o seu uso se generalisou n'este +paiz; é formado por quatro arcos cujos centros se acham todos dentro do +espaço da ogiva. Ha uma fórma mais aguda, que é a que se vê em +monumentos inglezes de uma grande parte do seculo XV; a outra forma mais +abatida só foi empregada no fim do XV seculo, e no principio do XVI. Os +inglezes chamam á primeira, arco de quatro centros, e á segunda arco +abatido. Ha ainda muitas fórmas intermediarias entre estes dois +extremos. + +_Origem da ogiva e do estylo ogival_. Os archeologos não concordam uns +com outros sobre a origem da ogiva. A opinião que parece mais provavel, +attendendo a que os monumentos do Oriente exerceram certa influencia +sobre a introducção da ogiva na architectura da Europa no meiado do XII +seculo, considera como um producto do genio Occidental a applicação +logica e systematica da ogiva nas construcções executadas no Occidente +desde essa epoca. A ogiva appareceu na Europa poucos annos depois da +primeira cruzada. + +É possivel que esta forma architectonica fosse como outras muitas +cousas, introduzida no Occidente pelos cavalleiros cruzados, quando +regressaram das suas longiquas expedições. Empregada a ogiva no +principio como pura phantasia e como um novo modo de ornamentação, quer +para formar os vãos das portas e janellas, quer para decorar as arcadas, +as paredes lisas e por baixo das cornijas, tornou-se mais tarde o ponto +de partida para o bello estylo da architectura cujo nome se ligou ao +XIII seculo e cujo desenvolvimento methodico pertence exclusivamente á +Europa Occidental. + +Este estylo rapidamente attingiu um subido gráo de perfeição, devido ás +numerosas egrejas parochiaes, collegiaes, monasticas e cathedraes, que +foram fundadas, construidas ou reconstruidas e augmentadas nos seculos +XIII e XIV. + +A palavra _ogiva_ nem sempre teve a mesma accepção, que nos nossos dias +se lhe attribue. Outr'ora designava as nervuras salientes que se cruzam +em uma abobada, seja qual for a curvatura em arco de circulo, em ogival, +d'estas nervuras. Só depois do principio do seculo XIX é que este termo +foi empregado para designar o arco terminando em ponta, conhecido agora +pelo nome de ogiva. + +_Divisões do periodo ogival_. O periodo de treze seculos e tres +quarteis, durante o qual reinou na Europa Occidental o estylo ogival, +póde ser dividido em tres grandes epocas, tendo cada uma caracteres +distinctos. + +As denominações francezas de estylo em _lancetas_, _radiante_, são +tiradas da fórma das janellas, assim como o nome de _perpendicular_, +dado em Inglaterra, no terciario do seculo XV. + +O estylo ogival não foi introduzido ao mesmo tempo em todos os paizes, +nem mesmo em todas as partes do mesmo paiz. Nasceu e desenvolveu-se +rapidamente, no meado do XII seculo, nos arredores de Paris. + +O primeiro monumento que appareceu do estylo ogival, foi a fachada +occidental da abbadia de S. Diniz, perto de Paris, construida entre 1135 +e 1140. Foi introduzido em Inglaterra, Allemanha, Hespanha e mesmo +n'algumas partes da Italia, por constructores formados em França. + + +*Periodo de transição do estylo Roman para o Ogival* + + +A substituição do estylo ogival pelo roman não se fez em um dia, foram +precisos muitos annos para a operar. Foi esta epoca de transformação que +recebeu o nome de _periodo de transição_ entre os dois estylos. A +duração não foi a mesma em todos os paizes, elle começou mais cedo n'um +paiz do que n'outro. + +Os monumentos do periodo de transição distinguem-se quasi todos pelo +emprego simultaneo do arco de volta inteira e da ogiva. Esta combinação +consegue-se por dois modos: + +1.^o Por simples _juxtaposição_, quando a ogiva isolada se acha n'um +mesmo monumento ao lado d'um arco de volta inteira. Nos edificios de +transição, vêem-se muitas vezes aberturas de forma circular nos +pavimentos inferiores, que são os mais antigos, emquanto que, nos demais +andares, se vêem aberturas ogivaes; porém mais raramente se vêem voltas +inteiras nas divisões elevadas d'um monumento, tendo vãos ogivaes nas +inferiores. + +2.^o Como decoração, quando duas ou muitas ogivas estão comprehendidas +debaixo de uma só volta inteira. Este modo de reunir a ogiva ao arco +circular encontra-se principalmente nas janellas e nas arcadas. Tambem +se vêem ás vezes dois ou muitos vãos de volta inteira emmoldurados n'uma +ogiva. + +3.^o Quando arcos de volta inteira produzem ogivas, entrecruzando-se +reciprocamente. + +Uma outra particularidade que muitas vezes se observa nos edificios de +transição, é a união da esculptura da ornamentação roman com a ogival. + + +*Caracteres da architectura ogival* + + +O estylo ogival seguiu principios até então desconhecidos e um methodo +novo e constante nas suas deducções. + +A fórma dada a um objecto era conforme a construcção, resultante não +d'um capricho ou d'uma phantasia, mas d'uma necessidade real. + +Segue-se que a ornamentação não se applica indifferentemente e sem razão +sobre as differentes partes d'um monumento. D'ella nos servimos ou para +chamar a attenção sobre uma principal parte da construcção, ou sobre um +ponto importante d'um objecto, ou para dissimular um obstaculo. + +Um outro caracter distinctivo do estylo ogival é que os seus monumentos +estão, como se diz em termos de architectura, _na escala do homem_, isto +é: que em toda a construcção, grande ou pequena, ha certas partes em +harmonia com a estatura humana e, por consequencia, tendo pouco mais ou +menos sempre as mesmas dimensões. + +Os caracteres notaveis do estylo ogival, que nós acabamos de assignalar +em poucas palavras, encontram-se principalmente nos edificios +construidos na edade media, no Noroeste da Europa. + +Durante o periodo Roman os architectos e os operarios habilitavam-se nas +grandes obras das abbadias. + +O clero secular, e até mesmo os particulares ficaram sob a direcção de +Bispos protectores das artes, taes como Egberto de Tréves (977-993) e S. +Bernardo de Hildesheim (993-1022) tomaram tambem uma grande parte na +direcção dos movimentos artisticos. + +No XIII seculo as corporações seculares apoderaram-se da pratica da +architectura, e desde este momento, todos os grandes monumentos, quer +religiosos, quer profanos, foram construidos por mestres praticos. + +_Plano e disposição das egrejas_. Plano no rez-do-chão.--Grande parte +das egrejas ogivaes apresentam, na planta, a fórma d'uma cruz latina, +cujo vertice figurado pelo côro, é voltado para o Oriente. Em algumas, +nota-se sensivelmente um desvio grande no eixo do côro com relação ao da +nave principal. Este desvio, que em geral só tem logar no Norte e +raramente no Sul, symbolisa provavelmente a inclinação da cabeça do +Salvador sobre a Cruz no momento em que deu o ultimo suspiro. + +A orientação symbolica das egrejas, introduzida desde os primeiros +seculos do Christianismo, foi observada escrupulosamente durante toda a +edade media, e mesmo na epoca da renascença. Foi só nos primeiros annos +do nosso seculo que a orientação começou a desapparecer. + +Um pequeno numero d'egrejas tem o plano quasi rectangular. + +No Sul e no Oeste da França muitas grandes egrejas do XIII seculo +apresentam uma vasta nave unica sem naves lateraes, tendo contrafortes +interiores para sustentar o esforço da abobada principal, que é d'aresta +com nervuras. + +Encontram-se, principalmente na Allemanha, egrejas com duas naves. Quasi +todas foram construidas por religiosos d'ordens mendicantes, taes como +os Dominicanos e os Franciscanos. No seculo XIII tambem os Jacobinos ou +Dominicanos construiram egrejas de duas naves em Paris e no Sul da +França. + +As grandes egrejas do XIII seculo compõem-se de tres, de cinco e até +mesmo de sete naves. Na Europa Central e Meridional, na França e na +Belgica, o côro tem geralmente a fórma polygonal, emquanto que na +Inglaterra elle é muitas vezes rectangular e terminado por uma parede +liza. No continente, apenas excepcionalmente se encontra esta disposição +no côro d'algumas grandes egrejas, a não ser nas extremidades do +transepte. + +No final do periodo Roman, tinha-se começado em França a dispôr capellas +absidaes no côro das grandes egrejas. Este uso manteve-se durante todo o +periodo ogival, e as capellas tomaram grandes proporções. As primeiras +que se chamam absidaes, irradiam em torno da capella-mór; as outras ao +longo das paredes lateraes: exemplo a Sé de Lisboa. + +Notar-se-ha tambem que na cathedral d'Amiens, conforme o uso muito +geralmente seguido em França e em outros paizes, a capella-mór é muito +mais vasta do que as outras. Encontram-se egualmente, no côro das +cathedraes inglezas do XIII seculo, capellas da Virgem, com a simples +differença que são em geral muito maiores do que as do continente e +construidas sobre plano rectangular. + +Na Belgica, os córos das grandes egrejas do XIII seculo estão ás vezes, +como succede em França, rodeados de capellas collateraes, dando a volta +completa ao côro, e limitadas por capellas construidas em parte sobre +plano rectangular e em parte sobre o polygonal; mas em geral são +pequenas e o seu numero mais restricto do que nas cathedraes francezas. + +Estas capellas constroem-se entre os contrafortes, que as dissimulam. + +O plano das egrejas do XIV e do XV seculos conserva pouco mais ou menos +a mesma disposição que durante o precedente seculo. A unica mudança +importante, que geralmente se nota, consiste na addição de pequenas +capellas ao longo das paredes lateraes das naves. + +As capellas são estabelecidas sobre um plano rectangular entre os +contrafortes, parecendo como que formar uma segunda nave collateral ao +lado da primeira. Na mesma época, juntou-se muitas vezes, aos edificios +do XIII seculo, ao longo das naves lateraes, capellas construidas fóra +do primitivo plano. + +Estas addições tornavam-se precisas pelo grande numero de capellanias +fundadas nos seculos XIV e no XV. Pelo mesmo motivo se acrescentaram +altares entre as pilastras das egrejas. + +_Disposição acima do solo, e aspecto exterior das egrejas_. As egrejas +_d'uma só nave_--apresentam sempre uma secção rectangular. Nos edificios +abobadados os contrafortes têem muitas vezes uma grande importancia +apresentando maior saliencia sobre a parede do edificio tanto no +interior como no exterior. Quando os contrafortes estão construidos no +interior, estabelecem-se regularmente, entre estes contrafortes, +capellas fazendo corpo com a egreja: como na de S. Vicente em Lisboa. + +As egrejas que têem tres ou um numero impar de naves, podem dividir-se +em duas classes conforme fôr a nave do meio mais elevada ou da mesma +altura que as paredes lateraes. + +A primeira classe comprehende as egrejas cuja nave do meio é +notavelmente mais elevada do que as paredes dos lados. As egrejas com +esta fórma são as unicas conhecidas na Europa Occidental e Meridional, +isto é, na Belgica, na França, na Inglaterra, na Hespanha, na Italia e +em Portugal. A sua nave mais alta é coberta com telhado de duas aguas +inteiramente independentes, emquanto que as paredes dos lados têem +muitas vezes um terraço ou um telhado de fórma de alpendre e a sua +inclinação approximando-se sensivelmente da linha horisontal; ás vezes +tambem são cobertos com repetidos pequenos telhados de duas vertentes, +ficando perpendiculares á nave e terminados por empenas. + +Abrem-se regularmente nas paredes lateraes da grande nave, janellas que +deitam para cima dos telhados lateraes. + +A segunda classe compõe-se das egrejas cujas naves se elevam á mesma +altura. Estas egrejas são proprias da Europa central; encontra-se um +grande numero d'ellas, conjunctamente com alguns edificios da primeira +classe, na Allemanha, Austria e Hungria. + +Os Allemães deram ás egrejas tendo nave de egual altura o nome de +egrejas-mercado, sem duvida porque ellas parecem formar uma vasta salla, +um _hall_ inglez, devido á elevação uniforme das suas naves. O seu +aspecto exterior tambem differe sensivelmente do das egrejas belgas, +francezas e inglezas; as tres naves são cobertas por um telhado unico de +duas aguas, e, por conseguinte, a nave central não recebe luz +directamente, como nas egrejas de primeira classe; a luz só lhe penetra +pelas janellas lateraes; todavia estas, altissimas em consequencia da +grande elevação das paredes, compensam bem a suppressão das janellas +superiores introduzindo a luz na nave central. + +No fim do periodo ogival encontram-se, particularmente na Austria e +Hungria, egrejas com esta fórma, cujas paredes lateraes são um pouco +menos elevadas que a nave do meio. + +Tambem se construiram, na época do renascimento, egrejas com naves da +mesma altura. + +_Egrejas da Flandres maritima_. Encontram-se em muitas cidades e aldeias +da Flandres Occidental, egrejas cujas disposições differem notavelmente +das que se construiram no resto da Europa. Apesar de se assimilharem ás +precedentes, de tres naves da mesma altura, não se devem de modo algum +confundir com as egrejas allemãs, com as quaes se parecem á primeira +vista por terem as naves da mesma altura; não têem nada mais de commum +entre si. + +Construidas em geral sobre um plano rectangular, compõem-se d'uma nave +principal fechada por paredes d'egual extensão; não têem transepte ou, +se o têem, não produz saliencia alguma no exterior das paredes. + +As abobadas de pedra ou de tijolo são substituidas, mesmo nos grandes +edificios, por tectos curvos formados de madeira com divisões visiveis, +pintados e até com obra de talha, e deixando vêr as peças do +madeiramento. + +A cobertura das egrejas é formada por tres telhados de duas aguas da +mesma altura pouco mais ou menos; resultando não ter a nave principal +janellas altas e ser a fachada sempre terminada por tres empenas da +mesma altura. + +_O plano das capellas_.--As capellas construidas durante o periodo +ogival não têem ordinariamente transepte e são construidas sobre plano +rectangular. + +O côro termina no lado Oriental por um abside polygonal ou uma parede +lisa. As capellas das egrejas conventuaes compõem-se geralmente de tres +naves, emquanto que as pequenas capellas não têem regularmente senão +uma. + +As construcções ogivaes não apresentam em geral symetria, e o mesmo se +nota no traçado do plano e nos caracteres architectonicos. Estas +irregularidades provêem de duas causas principaes. Em primeiro logar os +architectos d'esta época, sem desprezarem a symetria, não a consideraram +propria das conveniencias, necessidades e harmonia geral. + +Algumas vezes tambem, vindo a faltar-lhes os recursos com que contavam +no principio dos trabalhos, viam-se forçados a alterar o plano primitivo +e supprimirem-lhe certas partes. Emfim, muitos monumentos foram +construidos muito lentamente, o que deu logar a que as suas differentes +partes fossem successivamente construidas, apresentando sempre por esse +motivo cada uma d'ellas os caracteres architectonicos em voga na +occasião da sua construcção. + +_Systema de construcção_.--Os grandes monumentos edificados pelos +romanos no tempo da republica e sob os imperadores, formavam, pela +estabilidade dos seus pontos d'apoio, condensação e cohesão perfeita dos +seus materiaes, massas solidas capazes de resistir ao peso, e, em caso +de necessidade, á pressão das abobadas, que eram formadas de peças +homogeneas, concretas e sem elasticidade. + +Em substituição da abobada romana os architectos romans empregaram pouco +a pouco a abobada de nervuras, cuja construcção assenta sobre o +principio da elasticidade e do equilibrio das forças. O plano quadrado +era o escolhido para as suas edificações; mas quando se tratava de +neutralisar a pressão lateral exercida por esta abobada sobre os seus +pontos d'apoio, ou quando era preciso construir uma abobada sobre um +plano que não fosse quadrado, entregavam-se então a experiencias cujo +resultado nem sempre correspondia á espectativa. + +Os architectos do periodo ogival realisam grandes progressos na +construcção das abobadas. Primeiramente cobrem os edificios servindo-se +das abobadas de nervuras, superficies cujos planos são parallelogrammos, +trapesios, pentagonos e mesmo polygonos irregulares; depois, resolvem +d'um modo completo o problema tão difficil da estabilidade das abobadas, +pelo principio do equilibrio das forças. Empregam a abobada, não como +uma crosta homogenea e inerte, mas como uma serie de paineis de +superficies curvas ou de triangulos de enchimento independentes uns dos +outros e limitados por nervuras apparelhadas e flexiveis. Ás pressões +obliquas d'estas abobadas, oppõem resistencias activas, em vez de +obstaculos passivos, e transportam a resultante de todas as pressões +obliquas e contrarias para os contrafortes exteriores, que fazem rigidos +e firmes, dando-lhes uma base muito ampla e carregando-os com um +consideravel pezo. + +As nervuras das abobadas com os seus pontos d'apoio, isto é, as +columnas, os contrafortes e algumas vezes os arco-butantes, compõem a +ossada, o esqueleto de todo o grande edificio ogival. As outras partes +da construcção, que formam o revestimento d'esta ossada, desempenham o +logar de simples tabiques: as janellas occupam, entre os pontos d'apoio +das abobadas, o maior espaço possivel, e as paredes pouco espessas são +ornadas de arcadas que ainda as tornam mais delgadas. As janellas e as +paredes podiam ser supprimidas sem que a construcção principal soffresse +o menor prejuiso. + +_Materiaes e apparelhos de construcção_. Tanto durante o periodo roman, +como durante o ogival, se procuravam os materiaes precisos o mais +proximo possivel do logar em que se fazia a construcção. Com effeito o +transporte, ainda n'este tempo, offerecia grandes difficuldades por +causa da ausencia completa de estradas viaveis. Os materiaes empregados +são em geral de pequenas dimensões, porque os instrumentos para os +extraír, transportar e assentar eram insufficientes em comparação com as +poderosas machinas de que dispomos em nossos dias. + +Quando não havia pedreiras para explorar, serviam-se de tijolos. + +_Esculptura monumental_. Durante o periodo roman, a esculptura d'ornato +consistia em figuras geometricas, animaes monstruosos, e tambem ás vezes +de imitação de vegetaes. Durante a segunda metade do seculo XII, teve +logar uma revolução completa na esculptura ornamental; as palmas, as +folhagens, os galões e as figuras geometricas, os cordões entrelaçados +dão logar aos vegetaes indigenas; n'uma palavra, tudo o que não é +inspirado pela flora do paiz desapparece. + +Os primeiros artistas que se entregam ao estudo das plantas indigenas +para as reproduzir na esculptura d'ornato, não procuram imitar fielmente +nas suas obras os vegetaes que têem á sua vista; mas antes os +interpretam a seu modo, isto é, apoderam-se dos caracteres principaes +com que se inspiram e compõem a largos traços a sua esculptura +monumental. + +Os artistas entendem que a arte para ser bem apreciada não consiste na +reproducção escrupulosa como se fôsse photographia da natureza real, mas +sim na expressão do real idealisado e transformado pela imaginação do +esculptor. + +Esses artistas introduziram no centro e no norte da França este novo +estylo de esculptura monumental durante a segunda metade do seculo XII; +e os seus imitadores nas outras partes da Europa, no principio do seculo +seguinte, limitaram-se em principio a imitar nas suas obras as plantas +mais humildes dos bosques e dos campos na occasião em que dão os seus +primeiros rebentos, quando os botões apparecem apenas meio abertos ou +n'uma palavra quando começam o seu primeiro desenvolvimento. Ha um +exemplo bem conhecido d'esta ornamentação vegetal rudimentar nos mais +antigos _crochetes_ de capiteis e nas rampas dos edificios que se usaram +no final do seculo XII e principio do XIII. + +Estes _crochetes_ primitivos terminam enroscados de folhagem, +semelhando-se bastante com os rebentos das plantas que brotam da terra. + +Entretanto os esculptores vão progredindo; depois de haverem applicado +as suas inspirações ao estudo do primeiro desenvolvimento dos mais +modestos vegetaes, abandonam estes humildes modelos, para em seu logar +applicarem as folhas completamente formadas, as flores e os fructos das +arvores, dos arbustos e das plantas herbaceas, mais graciosas. + +Procuram reproduzir a vinha, a hera, o acre, o azevinho, a roseira +brava, a figueira, o carvalho, a pereira, o nenuphar, as campainhas, o +rainunculo, o morangueiro, o trevo, o platano, a salsa, etc. Todavia +esta transformação não se operou bruscamente, mas a pouco e pouco e por +successivas transições: na flora monumental, bem como na flora natural, +á maneira que os tempos passavam, os renovos abrem, as folhas +desdobram-se, os botões tornam-se em flores e produzem fructos. Foi +n'esta epoca que na França (no final do XII seculo, e até mais tarde) os +roulamentos primitivos das _crochetes_ se abrem dando logar a florões e +ramos de folhagens inteiramente desenvolvidos. + +Progredindo sempre, os esculptores do seculo XIV abandonavam pouco a +pouco a nobre e graciosa simplicidade que os do seculo XIII costumavam +imprimir a todas as suas obras; entregam-se apaixonadamente á imitação +da natureza real e escolhem de preferencia as plantas d'um modelo +exagerado; reproduzem-nas com uma rara perfeição, mas exageram-lhes as +ondulações e contornos. Estas ondulações, que constituem um dos +caracteres que distinguem a esculptura do seculo XIV, encontram-se já +algumas vezes, ainda que poucas, durante a segunda metade do seculo +XIII. + +As esculpturas do seculo XIV são muitas vezes inferiores ás do XIII, +porque são menos francamente executadas e carecem de simplicidade nos +contornos e no modelado; finalmente já visam muito a produzir effeito. O +seculo XIV no entanto produziu obras esculpturaes de grande merito. + +A esculptura monumental no seculo XV caminha cada vez mais para o +affectado. Toma as plantas com folhagens muito recortadas, taes como o +cardo, a folha do repolho, etc. e para as imitar exagera-lhes as +profundas chanfraduras e os lóbulos angulosos das folhas. + +Estas esculpturas são finas, delgadas e excessivamente vasadas. + +Um ornato muito frequente do XV seculo em diante e que principalmente se +vê nas açafatas dos capiteís, é o que vulgarmente se chama folha de +repolho por causa da sua semelhança mais ou menos com a sua folha +enroscada. + +Tambem se vêem representados na esculptura decorativa do periodo ogival, +assumptos historicos, legendarios e symbolicos bem como animaes reaes e +phantasticos. Estes animaes e as figuras grotescas, algum tanto raras no +interior dos edificios, encontram-se comtudo bastante na decoração +exterior dos monumentos, como carrancas, modilhões e até algumas vezes +ornatos em substituição dos _crochetes_ de rampa. + +Durante todo o periodo ogival, as esculpturas eram completamente +concluidas antes de se collocarem. + +Os esculptores de imagens terminavam as suas obras na casa do trabalho, +e eram collocadas no seu logar pelos alveneos. Um esculptor nunca subia +a um andaime. + +_Fachadas_.--As faces exteriores dos monumentos da edade media são a +expressão exacta das disposições interiores. + +Em consequencia d'este principio, as fachadas occidentaes das egrejas +reproduzem no conjuncto o córte transversal das naves. Além d'isso, como +a fórma d'este córte é pouco mais ou menos a mesma em quasi todas as +egrejas ogivaes, resulta d'isso, que o aspecto geral de muitas fachadas +é d'uma grande semelhança. Apezar d'esta semelhança no conjuncto geral e +dos contornos exteriores, a disposição e a ornamentação das fachadas são +extremamente variadas. As mais bellas fachadas ogivaes são sem duvida as +das grandes cathedraes francezas. Compõem-se em geral de muitas zonas +horisontaes e parallelas; o pavimento terreo tem tres portaes, que dão +ingresso para as tres naves; o central, que é a porta principal, é mais +largo e ornado mais ricamente que os outros dois. + +As fachadas das grandes egrejas inglezas e allemãs (excepto a de +Colonia), não têem ornamentações tão vistosas como as cathedraes +francezas. A disposição é menos regular e a ornamentação destituida ás +vezes de bom gosto. Grande numero das egrejas allemãs têem só na fachada +Occidental duas torres em cada lado. + +Na Belgica poucas egrejas têem tres portaes; geralmente na fachada +principal ha apenas um. As rosaceas, que são tão vulgares nas fachadas +francezas, raramente se vêem nas egrejas da Belgica. + +As fachadas das egrejas ruraes são sempre de uma grande simplicidade. Em +geral tem um campanario, e apenas uma porta ao centro da fachada e uma +ou tres janellas no frontispicio. + +_Alpendres_. Quasi todas as grandes egrejas ogivaes apresentam um ou +muitos alpendres, collocados adiante da fachada Occidental, ou das +entradas lateraes. Em muitas egrejas romans foi addicionado o alpendre +na epocha ogival. + +Os alpendres contiguos á fachada principal das egrejas ogivaes ou os +construidos debaixo do campanario, que limita esta fachada, quasi se não +encontram em França desde o seculo XIII. Ainda são mais raros na +Belgica, Allemanha e Inglaterra. + +Durante o periodo ogival, muitos alpendres se construiram adiante das +entradas lateraes. Os mais bellos monumentos d'este genero são os +alpendres ao Norte e ao Sul da Cathedral de Chartres, que datam dos +primeiros annos do seculo XIII. Na Belgica tambem ha alguns alpendres +lateraes notaveis, compostos d'um ou dois vãos na frente e vedados por +tres lados, estando ornados no interior com estatuas collocadas sobre +misulas e coroadas de doceis. Tambem se construiam, mas raramente, +alpendres abertos em tres lados ou vedados por frestas nos dois lados. + +_Portaes_. Na França e mesmo em Colonia as cathedraes e as grandes +egrejas ogivaes não têem geralmente alpendres adiante da fachada +principal, mas os portaes formam de per si verdadeiros alpendres, que +são cuidadosamente adornados. + +Os portaes principaes das grandes egrejas francezas do seculo XIII +distinguem-se pela riqueza extraordinaria das esculpturas de todos os +generos com que são adornados. Apresentam grandes vãos que se abrem do +interior para o exterior e divididos em duas partes eguaes por uma +parede. + +Na fachada de _Notre-Dâme_ de Paris vê-se, em frente d'essa parede e sob +um docel, uma grande estatua representando o Salvador deitando a benção, +a Santissima Virgem com o seu amado Filho, e tambem ás vezes o orago da +Egreja. A base d'essa parede e os rodapés dos vãos são ornados com +baixo-relevos. + +Os tympanos são regularmente divididos em tres partes horisontaes, onde +se figuram em relevo assumptos religiosos, estatuas de grandes +dimensões, que em numero consideravel guarnecem as paredes verticaes dos +portaes, emquanto que as curvas das abobadas recebem muitas ordens +parallelas de estatuetas collocadas debaixo de doceis. + +Todas estas esculpturas representam Santos e factos tirados da historia +do Velho e Novo Testamento, da lenda e de certos dogmas da Fé. + +Os arcos dos portaes, das janellas e das empenas são, algumas vezes, +ornados tambem interiormente, d'um appendice chamado _redente_; este +ornato tambem ás vezes se encontra no intradorso das grandes arcadas, +ligando as columnas que separam as naves das paredes lateraes das +egrejas. + +Os _redentes_ são recortes em fórma de dente ou de bicos, que guarnecem +o intradorso d'um arco. Tambem se applicou este mesmo nome a uns ornatos +analogos, que se collocam sobre as prumadas das empenas. + +Nos edificios do seculo XIV, os portaes são ainda bem delineados, +todavia já não têem a grandeza que caracterisa os do seculo XIII. Os +perfis das molduras são agudos e muito multiplicados; a estatuaria, +abandonando a nobre simplicidade, preoccupou-se em cogitar formas +affectadas, e por isso mesmo a arte declina. Apesar d'estes defeitos, os +grandes portaes das egrejas do seculo XIV têem ainda verdadeiro merito +quanto á composição e outras qualidades que debalde se procuram nos +monumentos dos seculos posteriores. + +Os grandes portaes dos seculos XIV e XV têem as mesmas disposições +geraes que os do seculo precedente, com a simples differença de que as +columnas cylindricas que formavam os vãos dos portaes e que sustentam as +archivoltas são substituidas por molduras prismaticas, ordinariamente +sem capitel, e que prolongando-se constituem por si só as archivoltas. +Estes portaes occupam espaço profundo, porque são regularmente +construidos entre dois contrafortes salientes da fachada. + +O pilar que separa o portal, e o tympano dos grandes portaes do XIV e XV +seculos, tem sempre estatuas de Santos debaixo dos doceis e apoiando-se +sobre misulas primorosamente esculpidas. Desapparecem as estatuas em +muitos monumentos. + +Ordinariamente os vãos ogivaes dos portaes e muitas vezes os da entrada +dos alpendres, são emmoldurados por um contorno em forma de empena. + +Nos seculos XIII e XIV, este feitio representa a extremidade d'um +telhado de duas vertentes com a inclinação d'um angulo que varia entre +45 e 90 gráos. No XV seculo, os vãos de todos os portaes grandes e +pequenos, e algumas vezes tambem os das janellas, são formados por +ogivas ou por contracurva. + +No seculo XII, as inclinações das empenas são quasi sempre ornadas de +_colchetes_ enroscados; desde o principio do seculo XIII, os +enroscamentos ou extremidades d'estes _colchetes_ desdobram-se e +transformam-se em florões. Os _colchetes_ são substituidos, no seculo +XIV, por folhas de extraordinaria grandeza, que muitas vezes se designam +ainda pelo nome de colchetes, redentes ou animaes phantasticos; nos +seculos XV e XVI apparecem as folhas de repolho. + +Estes ornamentos pouco numerosos e muito espaçados no XIII seculo, +multiplicam-se e approximam-se á medida que a arte ogival vae em +decadencia. O vertice das empenas ou das ogivas inflexas que substituem +as empenas do XV seculo, termina ora por um florão, ora por uma estatua +assente sobre uma quartella, em fórma de sóco. + +Os portaes de segunda e terceira ordem offerecem mais simplicidade do +que os outros que acabamos de descrever. Não têem pilar de separação e +por causa dos seus vãos geralmente pouco profundos, têem molduras +menores que os portaes de primeira ordem. + +No XIII e XIV seculos, as empenas compõem-se de duas, tres ou quatro +columnatas na rectaguarda umas das outras, e ligam-se com os extremos +dos arcos superiores. Desde o final do XIV seculo, foram as columnatas +substituidas por molduras prismaticas, quasi sempre sem divisão de +capitel. + +Até meiado do seculo XV, ajuntava-se, muitas vezes, á archivolta dos +portaes e tambem ás curvas das janellas, um rebordo exterior em fórma de +goteira cujas extremidades assentam á altura da nascença da ogiva, sobre +modilhões esculpidos, representando figuras, animaes phantasticos ou +carrancas; este rebordo tambem ás vezes é ornado de _colchetes_ com +folhas de grande lavor ou figuras grotescas. + +_Lemes das portas_. Os constructores romans tinham, como já explicámos, +convertido em objecto de ornamentação os lemes e as ferragens que +empregavam para reunir os frisos que compõem os batentes. As archivoltas +do periodo ogival ultrapassaram os seus precedentes n'este genero de +decoração. + +No seculo XIII e ainda mesmo no XIV, os lemes representam folhagens +entrelaçadas, armadas de flores e fructos. As suas differentes partes +são reunidas com uma arte e delicadeza notaveis, apesar de n'esta epoca +os meios de fabrico serem muito simples. Um martello movido por uma +corrente de agua constituía, por assim dizer, o unico recurso das +fabricas da edade media. O ferro obtido em fragmentos de um peso +mediocre, era entregue ao ferreiro, que á força de braço convertia estes +fragmentos em barras ou peças mais ou menos delgadas. Não eram +conhecidas, nem a lima, nem as cisalhas. Apezar da pobreza de meios de +fabricação, os ferreiros da edade media produziram obras primas de +serralheria. Podemos affirmar que em muitos paizes a arte de serralheria +attingiu o seu apogeu no seculo XIII. Os lemes do principio do periodo +ogival distinguem-se dos das epocas posteriores em que, ordinariamente, +são _estampados_, isto é, trabalhados em relevo por meio de matriz. Foi +pela estampagem que se obtiveram ramagens cheias de vigor e estes +soberbos cachos que caracterisam os lemes dos portaes de todas as +grandes egrejas do XIII seculo. + +Os lemes estampados começaram a desapparecer na França no principio do +seculo XIV, ao passo que na Belgica foram muito empregados ainda n'este +seculo e até mesmo no seculo XV. + +Nos fins do seculo XIII começaram a apparecer na França os lemes lisos, +isto é, formados por uma peça de ferro batido, poucas vezes executados +em relevo. Este uso generalisou-se desde os primeiros annos do seculo +XIV; nos outros paizes e especialmente na Belgica eram empregados +simultaneamente com as ferragens estampadas, tanto no seculo XIV, como +no XV. + +Os serralheiros da edade média procuraram para objecto de ornamentação, +não só os lemes, mas tambem todos os outros accessorios necessarios para +os portaes, taes como os prégos, os fechos, as argolas das fechaduras. + +_Janellas_. Durante o periodo de transição e no principio da epoca +ogival, os vãos das janellas eram estreitos, pouco elevados e fechados, +na sua parte superior, por lancetas ou ogivas agudas. Estes vãos, em +geral reunidos em dois ou tres, são separados por pequenos pilares em +fórma de humbreira, estando muitas vezes como emmoldurados por um grande +arco commum. Chamam-se prumos de cantaria os que dividem uma janella em +humbreiras aos vãos ou compartimentos verticaes. A triplice lanceta da +janella tem o vão do meio geralmente mais elevado que o dos lados. + +Em França, no principio do seculo XIII, e n'outros paizes alguns annos +mais tarde, em vez de estreitarem os vãos das janellas, alargavam-nos e +formavam por cima bandeira com construcção de cantaria compostas de +humbreiras simples e ligeiras. Em geral existe uma abertura independente +por cima dos vãos d'estas janellas primitivas. Nas construcções +esmeradas e ricas, as humbreiras estão collocadas tanto no interior como +no exterior, tendo uma columna com base e capitel, e o tympano da +janella é ornado de redentes, com uma ou muitas vidraças compostas de +tres, quatro, seis e algumas vezes oito vidros. + +As grandes egrejas do XIII seculo e um grande numero de edificios do XIV +seculo teem as janellas muito grandes, divididas em muitos vãos. + +Estas janellas compõem-se de uma rosacea de grande diametro, que occupa +a parte superior do tympano tendo uma columna que divide o vão em duas +partes eguaes; em cada um d'estes vãos secundarios, apresenta uma +abertura composta egualmente de uma columna central, porém, mais delgada +que a primeira e d'um oculo circular do feitio de folha de trêvo, ou uma +de quatro folhas. Se mesmo com estas sub-divisões (como succede nas +janellas de grande largura), estas columnas não ficam sufficientemente +proximas para a segurança das vidraças, estabelecem-se ainda entre si +novas humbreiras divisorias, tendo por cima tambem rosaceas de menor +grandeza. + +Na Belgica, Allemanha e Inglaterra, ha janellas do seculo XIII, +divididas por duas humbreiras de menor importancia para formarem tres +vãos. Ás vezes é o vão do meio mais estreito que os dos lados. Este +feitio de janellas era muito raro na França, no principio do periodo +ogival. + +Para diminuir o espaço vazio das rosaceas do tympano das grandes +janellas, collocavam-se redentes de cantaria seguros por circulos de +ferro. Ás vezes, no seculo XIV, se substituiam as rosaceas do tympano +por folhas de trêvo, ou compostas de quatro folhas, e tambem com outras +combinações de figuras geometricas. + +Durante os seculos XIV e XV, o numero dos vãos das janellas varia muito, +mas em geral é de tres. + +No mesmo edificio, se vêem, conforme a largura dos vãos, janellas de +dois, tres, quatro, cinco, seis, sete ou oito compartimentos. + +Em alguns monumentos belgas, inglezes e allemães, as grandes janellas +das extremidades do transepte e da capella mór, quando esta termina por +uma parede recta, ficam divididas em duas partes eguaes por uma columna +central de grande grossura formando um verdadeiro pilar. + +As humbreiras das janellas dos seculos XIII e XIV são ás vezes formadas +por uma só pedra inteiriça; comtudo geralmente são construidas por +pedras pequenas. Em grande numero dos edificios francezes, ha, interior +e exteriormente, ou n'um dos lados das janellas, uma columna embebida, +com base e capitel. + +Na Belgica, Allemanha e Inglaterra as humbreiras das janellas de muitos +monumentos não têem columnas, principalmente as do seculo XIV. + +As columnas servindo de humbreiras apparecem sempre collocadas junto dos +pés direitos, no interior e no exterior da janella. Na Belgica vêem-se +com frequencia essas columnas embebidas nos angulos das paredes +pertencentes ás janellas nas quaes lhes faltam as humbreiras. + +Os capiteis das columnas que formam as humbreiras das janellas, são +coroados por um ábaco _quadrado_, no principio do periodo ogival, mais +tarde tornou-se _circular_, e no principio do XIV seculo, _hexagonal_. + +Os constructores dos seculos XIII e XIV, habituados a discorrer sobre +todas as suas obras, facilmente comprehendiam que collocar um capitel +nas columnas servindo de humbreiras, era ir ao encontro do principio +fundamental da architectura ogival, que prescrevia desprezar todas as +partes inuteis, todos os motivos de ornamentação que não resultassem +d'uma necessidade de construcção. Effectivamente não parece +sufficientemente justificada a necessidade d'este capitel, porque a +parte superior da columna não serve de ponto de apoio a nenhum peso +extraordinario, e tambem não serve de transição ás duas partes realmente +distinctas, pois a moldura superior do capitel é em tudo semelhante á +fórma do fuste da columna, porquanto o capitel apenas servia de ornato, +sem outro fim verdadeiramente util. Tendo em vista o principio +fundamental do estylo ogival e todas as consequencias logicas que elle +encerra, os architectos da segunda metade do seculo XIV e do principio +do XV não se detêem em reconsiderar, supprimem inteiramente o capitel e +muitas vezes a propria columna, e dão a todas as humbreiras a mesma +espessura. No fim do XIV seculo introduziram egualmente modificações +importantes nos desenhos traçados pelas humbreiras dos tympanos das +janellas. Os redentes que até aqui serviam para diminuir o espaço roto +das grandes rosaceas foram primeiramente substituidos por combinações de +figuras geometricas em que predominam as formas ogivaes com curvas +compostas de duas em sentido oppostos e do feitio de chamma. É d'esta +epocha que data o ornato conhecido pelo nome de _chamma_ e deu o nome de +_flammejante_ ao estylo do seculo XV. Este ornato não só se encontra nos +tympanos de janellas, mas tambem nas balaustradas, nos batentes das +portas, fechos, mobilias, n'uma palavra, em tudo onde é possivel +applical-o. Os allemães chamam-lhe Fischblase (bexiga de peixe). + +As janellas da _primeira metade_ do seculo XV têem ainda ás vezes alguma +analogia com as dos seculos precedentes. Não é raro encontrar-se nos +tympanos grandes rosaceas com figuras curvas ou chammas em vez de +redentes. Todavia grande numero das rosaceas circulares dos tympanos, +durante a primeira metade do seculo XV, foram substituidas com o feitio +de triangulos e quadrilateros curvilineos ou por outras figuras +geometricas regulares, nas quaes ha chammas representadas. No meado do +seculo XV desapparecem do tympano as figuras regulares, e as humbreiras +tomando direcções cada vez mais arbitrarias, dão logar aos mais variados +desenhos flammejantes. + +No fim do XV seculo as archivoltas das janellas tornam-se mais obtusas e +tomam no principio do seculo XVI a forma de arcos de volta abatida ou em +aza de cesto; os desenhos dos tympanos são toscos e angulosos. A volta +inteira ou de semicirculo, que começa a apparecer timidamente nos vãos +entre as humbreiras, annuncia o proximo regresso dos typos de +architectura classica. + +Do que acabamos de dizer resulta que os desenhos geometricos +encontram-se principalmente nos tympanos das janellas durante a primeira +metade do seculo XV, emquanto que os desenhos flammejantes propriamente +ditos são da ultima metade do XV e do principio do XVI seculos. + +As archivoltas exteriores das janellas dos edificios de primeira ordem +têem ás vezes alguns ornatos. + +O cavado mais largo e mais profundo do intradorso d'estas archivoltas é +ornado de colchetes nos grandes monumentos francezes do seculo XIII; no +seculo XIV é ornado de florões e de cachos, e no XV apparece a folha de +repôlho. + +As archivoltas exteriores das janellas são do mesmo modo que as dos +portaes e dos alpendres rodeadas por um rebordo saliente ou encimadas +por uma galeria. Os rebordos que rodeiam as archivoltas das janellas +têem o mesmo feitio que os dos portaes. + +Nos seculos XIII e XIV, têem a fórma d'uma goteira e são geralmente +formados nos proprios fechos da archivolta; as extremidades vêem acabar +á altura do nascimento da ogiva, ficando assentes sobre modilhões ou +então na direcção horisontal sob a fórma de cordão, que liga entre si +duas janellas proximas uma da outra. + +Nos edificios mais importantes, os rebordos são em geral decorados de +distancia a distancia, com colchetes ou folhas ornamentaes. Nos seculos +XV e XVI, os feitios das janellas têem a fórma de uma ogiva com curvas +inversas, terminando por um florão. Os remates que coroam muitas vezes +as janellas dos grandes monumentos, são similhantes aos dos portaes, +tendo do mesmo modo a fórma da empena e os seus lados inclinados têem +colchetes, redentes ou folhas de repolho encrispadas. O vertice, que em +geral termina em florão, penetra muitas vezes na balaustrada prolongando +a altura do tecto e fazendo corpo com elle. + +Os architectos do periodo ogival, e até mesmo os do periodo de +transição, de ordinario reservaram nas grandes egrejas, galerias +passando junto das janellas e que eram principalmente destinadas a +facilitar a collocação e conservação das vidraças. Estas galerias são +estabelecidas em toda a extensão do edificio, dando muitas vezes a volta +completa em todo o monumento; são verdadeiros corredores de serviço. No +rez-do-chão, isto é, nas paredes dos lados e no côro, quando este não +tem capellas lateraes, são ellas estabelecidas no interior em quanto que +no pavimento superior ficam sempre exteriores e atravessam os +contrafortes. D'aqui resulta haver galerias em que as vidraças estão +assentes por dentro nas janellas inferiores e por fóra nas altas. + +_Rosaceas_. As rosaceas são um dos mais bellos ornamentos dos grandes +monumentos religiosos do periodo ogival. + +Apparecem tanto na fachada Occidental como nas empenas dos transeptes. +Na França, as rosaceas são muito communs nos seculos XIII e XIV; pelo +contrario na Belgica e na Inglaterra, são raras, mesmo nas maiores +egrejas. + +As rosaceas e as janellas têem caixilhos de pedra destinados a fixar as +vidraças. Estes caixilhos são muitas vezes dispostos em fórma de raios +de roda. + +Durante a segunda metade do seculo XIII e todo o XIV, foram construidas +grande numero de rosaceas em contacto umas das outras e dispostas em +muitos renques concentricos á volta d'uma rosacea central, na qual são +inseridos caixilhos do feitio de folhas de trêvo ou em quatro folhas. + +Foi a brilhante ornamentação d'estas rosaceas e dos tympanos das +janellas que deu ao estylo ogival do XIV seculo a denominação de +_radiante_. + +Os caixilhos das rosaceas do XV seculo descrevem em geral desenhos +flammejantes, semelhantes aos que se vêem nos tympanos das janellas da +mesma epoca. Ás vezes encontram-se: 1.^o nos monumentos do seculo XIII +rosaceas que têem analogia com as dos edificios romans do seculo XII; +2.^o nos edificios dos seculos XIV e XV, rosaceas compostas de folhas de +feitio de trevo, e de quatro folhas, ou com figuras geometricas +curvilineas. + +No seculo XV, e na Belgica já no XIV, os caixilhos das rosaceas, não +têem como d'antes, columnas formando as divisões, mas têem os mesmos +compartimentos que os caixilhos de janella d'esta epoca. + +_Vedações das janellas e vidraças_. Por causa da aspereza do clima nos +paizes do Norte foram muito cêdo usadas as vidraças nas janellas. + +Os vidros, incolores ou pintados d'uma côr unica e de pequenas +dimensões, eram antigamente collocados em caixilhos de madeira ou de +cantaria. Depois do seculo X eram fixos por meio de pestanas de chumbo. +Foi devido ao emprego do chumbo que conseguiram formar bellas vidraças +pintadas, cuja historia vamos expôr succintamente. + +As vidraças dividem-se em duas classes: vidraças _incolores_ e +_pintadas_. + +_Vidraças incolores_. As vidraças incolores dos seculos XII e XIII são +compostas de pequenos pedaços de vidro, não excedendo doze a quinze +centimetros, na sua maior dimensão, sendo de côr esverdeada escura, +irregulares e um pouco convexas. + +O chumbo empregado antigamente era muito espesso, convexo nas suas faces +e algumas vezes polido nas ranhuras; distingue-se facilmente dos +modernos, fabricados depois do fim do seculo XVI, por se servirem de +instrumento proprio para o reduzir a tiras, com uma especie de +laminador. + +Em consequencia da maleabilidade e brandura do chumbo, as tiras que +reunem os vidros das vidraças incolores dos periodos roman e ogival +apresentam muitas vezes as mais curiosas figuras. N'este caso e em +muitos outros a urgencia fornece um motivo d'ornamentação; era +necessario vedar uma abertura relativamente alta e larga com pequenos +fragmentos de vidro, porque as grandes chapas de vidro eram ainda então +desconhecidas. Os vidraceiros da idade média resolveram este problema +como verdadeiros artistas: em vez de adoptarem um systema de envidraçar +vulgar, consistindo em quadrados ou rhombos, serviram-se das tiras de +chumbo para produzir, nas janellas, os mais variados e vistosos +desenhos. + +Na Belgica as vidraças incolores eram muito communs nos seculos XII e +XIII; ha exemplos de vidraças, ainda existentes, que se podem referir +com certeza a esta epoca. É verdade que se encontra aqui e ali algumas +vidraças representando entrelaçamentos de fitas, anneis, circulos e +figuras geometricas, que parecem muito antigas por causa da pequenez das +aberturas destinadas a receber as chapas de vidro; mas não é possivel +determinar-lhes uma data approximada. + +Estes entrelaçamentos de fitas e de figuras geometricas foram usados na +Belgica durante todo o periodo ogival e conservaram-se com modificações +mais ou menos consideraveis até ao presente. + +_Vidraças pintadas_. Ha uma grande differença entre colorir um vidro ou +pintal-o, ou por outras palavras, entre os vidros coloridos e os +pintados. Os primeiros, que tambem se chamam vidros de côr, obtêem-se +misturando-lhes na massa vitrea em fusão oxydos metallicos, que dão a +toda a pasta um colorido uniforme. Este colorido não é superficial; as +materias que produzem as diversas côres penetram durante a fusão na +massa vitrea e combinam-se inteiramente com ella. Para fazer vidros +pintados toma-se uma chapa de vidro translucido e sobre uma das faces, +ou em ambas, applica-se com o pincel os traços do desenho a côres +vitrificaveis, que não são mais que pastas vitreas coloridas por meio +d'oxydos metallicos, reduzidos a pó e diluidos n'um liquido como vinho, +agua gommada e essencia de therebentina. A lamina de vidro, esmaltada, é +em seguida submettida ao fogo; o pó corante entrando promptamente em +fusão, fixa-se sobre a placa de vidro que a sustenta e que apenas está +amollecida pela acção do calôr. + +No VII seculo, havia vidraças compostas de laminas de vidro diversamente +coloridas; eram especies de mosaicos transparentes. Mas seria n'essa +epoca que começaram a pintar a côres, sobre vidro branco ou colorido, +personagens e assumptos historicos e legendarios? A opinião mais +provavel colloca a invenção da pintura sobre vidro no fim do X seculo. +Comtudo só no seguinte é que esta arte nasceu na Allemanha e se +desenvolveu e espalhou pela Europa occidental. Logo que se inventou a +pintura sobre vidro no meiado do seculo XIV, o pintor de vidros +servia-se de laminas, cada uma de sua côr uniforme. + +No seculo XII e XIII, houve excepção a esta regra para o vidro vermelho, +que, em geral era _duplicado_, isto é, composto de uma lamina delgada +vermelha, applicada sobre uma lamina de vidro incolor. + +As differenças de espessura que têem os vidros antigos, differenças que +resultam da imperfeição dos processos de fabríco do vidro, contribuem +singularmente para augmentar o brilho das vidraças da idade média. Em +primeiro logar, os pintores vidraceiros empregavam com muita pericia +estes vidros desiguaes ou ondulados, cortando-os de fórma que a parte +mais delgada se achasse do lado da luz; o que fazia augmentar +consideravelmente o effeito da vidraça. Por consequencia, mesmo para os +fundos fechados, estas differenças de espessura dão á coloração um +aspecto scintillante, que a certa distancia augmenta consideravelmente a +intensidade dos tons. + +As côres de que o pintor de vidros dispunha na idade média eram +numerosas e variadas, porque a maior parte das operações chimicas +empregadas para obter vidros de côr, eram empiricas e por consequencia, +davam muitas vezes resultados imprevistos. + +Esta gamma de côres extensissima póde comtudo ser reduzida a cinco tons +principaes: azul, vermelho, amarello, verde e côr de purpura. + +Para exprimir as carnações, isto é as partes apparentes das carnes, taes +como as cabeças, as mãos e os pés, usavam nos seculos XII e XIII, d'um +vidro d'uma leve côr de violeta, e mais tarde d'um vidro esbranquiçado; +os traços sobre estes vidros eram d'uma côr parda, applicada com um +pincel e em seguida fixada com a cozedura. + +Os pintores de vidros dos seculos XII e XIII occupavam-se +principalmente, na composição do cartão, da harmonia das côres. Para o +obter elles não hesitavam em sacrificar a verdade, dando aos objectos +côres que a natureza lhes não deu; é assim que se encontram nas vidraças +antigas, cavallos verdes e arvores com folhas de muitas côres +diferentes. Como o vermelho, e sobre tudo o azul se prestam +admiravelmente a uma collocação vigorosa e alliam-se admiravelmente com +todos os outros tons, os fundos vermelhos e azues são sómente empregados +nas vidraças de assumptos historicos ou legendarios. + +Os vidros coloridos das vidraças, vistos a distancia, tomam, graças á +translucidez e á luz que os atravessa, um brilho que faz parecer a sua +superficie maior do que na realidade é; este effeito chama-se +_rayonnement_. + +As diversas côres translucidas têem _rayonnements_ de valôr muito +differente; assim, para não fallar senão das tres côres fundamentaes do +prisma; o azul é a mais brilhante, seguindo-se o vermelho e depois o +amarello. + +O _rayonnement_ de certas côres translucidas, a distancia, é tal que não +só faz parecer a sua superficie maior do que na realidade é, mas até +modifica mesmo a qualidade d'estas côres e das que lhe ficam proximas. + +É d'este modo que um azul limpido, collocado ao lado d'um vermelho +augmenta o brilho dos bordos d'este e torna-os côr de violeta. Além +d'isso, este brilho faz ás vezes desapparecer totalmente os filetes de +chumbo, que engastam os vidros, e altera as linhas do desenho fixado +sobre os vidros por meio do esmalte escuro. + +Os principios artisticos que regem a pintura sobre vidro ou translucida +differem notavelmente dos principios da pintura opaca. A luz +atravessando côres translucidas actua sobre estas côres, e sobre as +combinações d'estas côres entre si, de maneira differente do que se +fossem opacas; a luz passando atravez d'um desenho modifica os contornos +d'este, facto que se não dá quando actúa sobre uma superficie opaca +desenhada. + +A pintura sobre vidro só póde ser uma pintura de convenção muito +differente da pintura em quadro. N'esta procura-se illudir a vista do +espectador servindo-se de todos os recursos das sombras, do claro escuro +e da perspectiva linear e aérea. Na pintura sobre vidro, pelo contrario, +assim como na pintura monumental, o artista deve respeitar e deixar +parecer plana a superficie sobre que pinta; deve contentar-se em traçar +a silhueta dos personagens e dos objectos que entram na composição do +seu assumpto, fazer pouco caso da perspectiva, mesmo linear, traçar as +sombras d'uma maneira convencional, indicando as partes salientes por +claros e as rugas por tons opacos, e desprezar os accessorios ou, quando +muito, represental-os hieroglyphicamente. Na pintura opaca o artista +deve procurar grupar os personagens d'uma scena de modo que se destaquem +uns dos outros afim de obter uma sèrie de planos, em quanto que na +pintura translucida, evita-se, tanto quanto possivel, as agglomerações +d'um grande numero de figuras, e esforçam-se por fazer apparecer o fundo +em torno de cada uma d'ellas. + +As vidraças pintadas do XII seculo são sempre formadas de pequenos +medalhões circulares, quadrados ou apresentando outras fórmas simples e +regulares. Estes medalhões, nos quaes apparecem composições adornadas, +ficam dispostos symetricamente sobre fundos formados de mosaicos de +vidro simples ou differentemente coloridos. + +A côr _azul_ domina geralmente nos fundos das vidraças pintadas no XII +seculo; pouco empregam a côr encarnada; algumas vezes tem tambem o fundo +azul, ficando mais harmonico, tendo-se espalhado, sobre esse fundo, +pequenos florões encarnados, ou pequenos traços que se encruzam e cobrem +o fundo azul de um tecido encarnado com divisões quadradas ou rhombos. +Em roda da vidraça e de cada medalhão ha cercaduras differentes, quasi +sempre bastante longas e compostas de florões, palmetas, folhagens e +enlaçadas com perolas. + +As composições representadas nos medalhões são tiradas da vida de Jesus +Christo e de Nossa Senhora, ou da historia do antigo e novo Testamento; +assim como da legenda dos Santos. A execução é d'uma grande simplicidade +e com muita ingenuidade. O desenho accusa as tradições bysantinas: o +emprego das figuras apparece, não obstante as roupas que o vestem, sendo +as prégas da roupagem estreitas e parallelas. + +_As vidraças do XIII seculo_. As vidraças pintadas no XIII seculo têem +grande similhança com as do XII, porque a maneira de sua execução ficou +quasi a mesma. Nas janellas inferiores da capella mór e das naves +lateraes, as vidraças compunham-se, como precedentemente, de medalhões +historiados de differentes fórmas, dispostos uns por cima dos outros +sobre uma ou muitas fileiras. Nas janellas superiores da capella mór e +da nave principal, principiaram a representar, desde o final do XII +seculo, grandes figuras em pé, figurando veneraveis personagens do +antigo e novo Testamento. + +As côres de que mais uso se fez para os fundos das vidraças pintadas no +XIII seculo foram o _azul_, o _encarnado_ e o _verde_; empregava-se +tambem, em certos casos, porém com moderação, o _amarello_ e o _roxo_. +Os fundos não são lisos, formam uma especie de pannos-de-raz sobre os +quaes vem assentar a composição dos assumptos. Esta tapeçaria se compõe +não sómente de _escamas_, _canniçal_ e de _xadrez_, mas, muitas vezes +tambem, de enlaçados, festões e folhagens, enrolamento, sobre os quaes +os assumptos se destacam perfeitamente. Do mesmo modo que nas +composições com as grandes figuras, as tiras de chumbo indicam os +contornos principaes d'estas ornamentações. + +No correr do XIII seculo, o estylo e o caracter do desenho mudaram +completamente, porém por séries de transformações successivas. Desde a +metade do XII seculo, os artistas de vidraças pintadas, da mesma fórma +que os miniaturistas, os pintores, e os esculptores, tinham principiado +a abandonar pouco a pouco as tradicções da arte Byzantina, e a +manifestar uma direcção notavel para a imitação da natureza. Esta +direcção augmenta e se affirma cada vez mais no XIII seculo. Os pintores +das vidraças d'esta época não continuam a representar o nú das figuras +em desdem da inclinação natural dos vestuarios, estudam a natureza e +esforçam-se de a reproduzir tal qual se apresenta á sua vista: +reconhece-se facilmente este novo methodo pela maneira por que são +indicados os gestos das personagens, a physionomia das cabeças e as +prégas dos vestuarios: os gestos perdem a sua expressão archaïca, as +cabeças não são já desenhadas conforme os typos convencionaes, e os +trajes são os da epoca, fielmente imitados. A composição dos assumptos é +apresentada com animação; sendo evidente que os artistas do XIII seculo +se preoccupavam de proposito em produzir no espectador um effeito +subito. + +As vidraças pintadas do XIII seculo offerecem muito interesse para o +estudo do vestuario da idade média. Conforme o uso adoptado n'esta epoca +em todas as representações artisticas, sejam pintadas ou em esculptura, +o artista vidraceiro tomava os seus modelos que lhe eram familiares; não +se preoccupando de nenhuma maneira da fidelidade historica, trajava as +suas figuras á moda do seu tempo. + +A arte da pintura das vidraças não se conservou por muito tempo no +apogeu que havia alcançado no decurso de alguns annos. Desde o meiado do +XIII seculo principiou a declinar pouco a pouco. Em consequencia da sua +propensão notavel para os effeitos dramaticos, chega á affectação e ao +exquisito, occupando-se mais dos detalhes, perdendo facilmente a nobre +simplicidade que tanto caracterisava as suas obras no final do XII +seculo e no principio do XIII seculo. + +Ao findar o XII seculo, as pinturas das janellas superiores da nave +principal e quasi todas da capella mór foram ornadas com figuras em pé, +representando santos do antigo ou do novo Testamento, não excedendo, em +tamanho, a estatura geral do homem. No XIII seculo, dava-se a estas +figuras proporções mais colossaes, porque ficavam collocadas a uma +grande distancia do espectador. A disposição geral d'estas vidraças nas +cathedraes e nas grandes egrejas do XIII seculo merece o exame +reflectido da parte do archeologo. A pintura da vidraça superior do côro +da capella mór, que attrahe sobretudo a vista e domina, de alguma +maneira, o altar mór, era dedicada ao Salvador soffrendo pela redempção +do genero humano; vê-se ahi quasi sempre Jesus Christo na Cruz entre a +sua Divina Mãe e o discipulo querido, com os symbolos accessorios, que +na idade média acompanham sempre a scena da crucifixação. Nas outras +janellas superiores do côro estão em pé os Apostolos e os Santos +venerados na basilica; as janellas altas da nave principal são pintadas +com grandes imagens de outros Santos, taes como as dos patriarchas, reis +e prophetas do antigo Testamento. As vidraças pintadas á roda da capella +mór e das capellas da charola, formadas por medalhões, representam os +principaes factos da vida de Jesus Christo e de Nossa Senhora, ou as +legendas dos oragos da egreja; algumas vezes tambem, se representavam, +sob fórmas symbolicas, os principaes dogmas da Fé. As vidraças pintadas +das janellas lateraes da nave, e muitas vezes do transepte, eram +dedicadas ás legendas de devoção da localidade, e aos Santos ou Santas +de que a egreja possuia reliquias. + +Nas vidraças pintadas do XII e XIII seculo, ás vezes reproduziam os +retratos dos doadores, mas sempre de tamanho menor. + +Passemos agora a fallar das vidraças com pinturas de _grisalha_. Dá-se +este nome á composição do caixilho pintado de vidros brancos ou um pouco +esverdinhados, sobre os quaes são traçados, por meio do _esmalte pardo_, +desenhos e ornatos variados. + +Nas _grisalhas_ da primeira metade do XIII seculo, o desenho é +desenvolvido com firmeza, vigorosamente modelado, e os vidros seguros +por filetes de chumbo que indicam os traços mais fortes dos ornatos ou +formam as principaes divisões do caixilho da vidraça pintada. Os vidros +são quasi opacos e completamente sem nenhuma parte colorida. Estes +vidros são geralmente grossos, esverdeados e muitas vezes apresentam +bolhas na superficie. + +A começar da ultima metade do XIII seculo, as _grisalhas_ vieram a ser +menos opacas, deixando penetrar uma claridade mais abundante no interior +dos edificios; ás vezes não são estes vidros sem ter colorido, porque se +lhe ajuntam vidros coloridos nos filetes que os dividem, ou nas pequenas +rosetas espalhadas na superficie. + + +*Vidraças pintadas do XIV seculo* + + +_As vidraças pintadas do XIV seculo_ apresentam aspecto differente das +dos seculos precedentes, posto que, durante toda a metade do seculo, o +artista d'esta especialidade se servia ainda dos mesmos processos +d'execução dos seus antecessores. Esta mudança total d'aspecto proveio +de muitas causas: pelas novas disposições da armação de ferro, assim +como pelo tom claro e brilhante que se deu ás vidraças, finalmente pelas +propensões exageradas para a imitação servil da natureza real. + +Nas guarnições de ferro das vidraças do XII e do XIII seculo, desenhando +os contornos tão variados dos medalhões legendarios, foram levados a +seguir a fórma primitiva, consistindo em simples hastes verticaes +divididas de distancia a distancia, por travessas horisontaes, formando +angulo recto com essas hastes. + +As côres mais empregadas nas vidraças do XIV seculo, eram o _azul_, o +_encarnado_ e o _amarello_; este ultimo tom, geralmente muito usado, +produzia um brilhante effeito, que fazia desmerecer as grisalhas claras, +frequentemente empregadas n'essa epoca. A côr _verde_ e o _roxo_ vão +sendo menos usadas. + +O desenho continúa, durante o XIV seculo, a obter mais correcção; porém +o pintor de vidraças, esquecendo cada vez mais a pintura transluzente +que não é e não podia ser uma simples pintura de conservação, procura já +produzir illusão para a vista do espectador; tenta de copiar a natureza, +e consegue algumas vezes reproduzil-a com certa fidelidade. + +As vidraças _legendarias_ desapparecem quasi completamente no XIV +seculo, e nos raros exemplos que se encontram, os medalhões são quasi +sempre supprimidos e as representações das differentes scenas religiosas +sobre-postas uma ás outras, ficam sem molduras e sem separação. As +grandes figuras isoladas preferidas n'esta epoca, apparecem, não sómente +nas vidraças altas, mas tambem nas outras dos lados da nave e á roda da +capella-mór. Representam mais vezes Santos, e poucas vezes pessoas ainda +existentes. + +As figuras estão sempre postas debaixo de doceis cheios de ornamentação +tirada da architectura, taes como ridentes, pinaculos, clochetões, +rosaceas e arcos-butantes. Estes doceis parecem ficar sustentados por +pés-direitos com feitio de contrafortes ornados de arcadas e de nichos, +nos quaes se collocam pequenas figuras d'anjos e de santos. As molduras +e os doceis do remate das grandes figuras tomam ás vezes uma tão grande +importancia que occupam tanto e mesmo maior espaço, que as figuras que +elles adornam. + +No principio do XIV seculo os fundos das vidraças sobre os quaes +sobresaem as grandes figuras são ás vezes lizos, outra de côr +_encarnada_ ou _azul_; vindo a ser depois quasi sempre de feitio +_adamascado_, isto é, cheias de desenhos differentes, similhantes aos +que se vêem na seda chamada _damasco_. + +No XIV seculo, os brazões dos doadores apparecem muitas vezes nas +vidraças pintadas. Vêem-se tambem nos bordados, nas rosaceas do tympano +e nas almofadas inferiores das janellas, e inscripções que apparecem +frequentemente. + +No meiado do XIV seculo, uma importante descoberta, do _amarello de +prata_, fez obter aos pintores de vidraças um novo esmalte e +proporcionou-lhes grande facilidade no trabalho da pintura. O _amarello +de prata_, é um esmalte obtido por um composto d'ocre amarello com o +sulphureto de prata. Depois de ter passado pelo lume os vidros cobertos +d'este mixto, separa-se a demão secca d'ocre; ficando depois sobre o +vidro um bellissimo tom amarello mais ou menos carregado e perfeitamente +translucido. + +Os fabricantes dos vidros tornando-se mais habeis, conseguiram tambem, +durante o curso do XIV seculo, produzir chapas de vidro muito maiores +que nos seculos precedentes. + +A descoberta do amarello de prata e os progressos feitos no fabrico do +vidro contribuiram poderosamente para modificar o aspecto das vidraças +pintadas, porque fizeram diminuir o numero dos filetes de chumbo, e +simplificaram, por conseguinte, a armação da vidraça. + +As grisalhas do XIV seculo parecem-se muito com as do final do seculo +precedente. Todavia as grisalhas sem colorido são substituidas pouco a +pouco pelas que apresentam algum colorido. Além d'isso, depois do meiado +do XIV seculo, apparecem as grisalhas brancas, com o realce do amarello +de prata. + + +*Vidraças pintadas do XV seculo* + + +_No XV seculo_ uma unica côr tem applicação, posto que, de pouca +importancia, para servir de incarnação, vindo-se ajuntar á palheta do +artista aos dois esmaltes já conhecidos. Esta fraca tinta, que servia +para modelar as cabeças e as partes nuas do corpo humano, era provavel +fôsse um composto d'oxydo de ferro e terra de sombra calcinada. O pintor +de vidraças não tinha ainda á sua disposição senão tres côres para +pintar sobre o vidro: o _pardo_, o _amarello de prata_ e a _côr_ para a +incarnação; porém achou novo expediente para a sua arte no emprego de +_vidros duplicados_. Já explicámos como, desde o XII seculo, o vidro +encarnado era muitas vezes composto de duas laminas, uma sem côr e outra +encarnada, ficando sobrepostas durante a sua fabricação. Depois no final +do XIV seculo, o processo que tinha servido antes para se obter vidros +encarnados, foi applicado ás outras côres. Sobrepondo duas ou mais +demãos de differentes côres, obtinham-se vidros de tintas muito +variadas. Os vidros duplos lhe davam certos tons d'um vigor desconhecido +até então: obtinham-se vidros roxos sobrepondo o vidro encarnado ao azul +claro; verdes, sobrepondo o branco, amarello e o azul. + +O colorifico que é resultado de se terem unido dois vidros de côres +differentes não póde ser confundido com o que se obtem pela applicação +d'uma côr d'esmalte sobre o vidro fabricado, e posto depois á recocção +do fogo. + +Os pintores de vidraças do XV seculo, não empregavam sempre os recentes +aperfeiçoamentos introduzidos na sua arte com bastante cuidado e +intelligencia. É por isso que o emprego muito frequente e irracional da +pintura em grizalha sobre vidro branco constitue um dos caracteres +particulares das vidraças pintadas da ultima metade do XV seculo e do +principio do XVI seculo. Muitas vezes as roupas superiores das grandes +figuras em pé são brancas e o fôrro sómente de côr. Comprehende-se que +este abuso das grizalhas, nas roupagens e na maior parte dos +accessorios, dá necessariamente ás vidraças uma apparencia clara e +scintillante. Muitas vezes os fundos azues e encarnados, adamascados +superiormente, nos quaes sobresaem as figuras e os assumptos, offerecem +ainda unicamente um tom real com bastante colorido. + +O maior numero d'estas vidraças tem emmoldurados de feitio +architectural, consistindo em contrafortes cheios de pinaculos ou +columnasinhas, com os fustes mais ou menos ornados. Estes emmoldurados +parecem suster os docéis, cujos lados inclinados da empena, sempre de +fórma ogival, são ornados de elegantes folhagens. Debaixo dos docéis +estão figuras em pé separadas pelas molduras das hombreiras, seja por +assumptos historicos ou legendarios, occupando toda a largura do vão. +Nas vidraças com assumptos não apparecem os filetes de ferro na +separação dos vidros. Quando se superpõem, como às vezes acontece, +muitas figuras e muitos assumptos em um só vão da janella, ficam +separados uns dos outros por sócos ornatados com decoração +architectonica da época, e apoiando-se sobre os docéis que formam o +remate do renque inferior. + +Os grandes progressos que foram realisados, no XV seculo, na pintura +opaca ou de cavallete, e o estado prospero em que ella se achava desde a +primeira metade do XV seculo, exerceram a mais funesta influencia sobre +a pintura translucida. Os pintores de vidraças, que quasi sempre eram +tambem, e mesmo principalmente, pintores de quadros, esqueciam +diariamente, cada vez mais, que a pintura sobre o vidro é essencialmente +uma pintura de convenção. Não se contentavam de introduzir nas vidraças +pintadas um desenho mais correcto, procuravam ainda enganar a vista do +espectador tão completamente quanto fosse possivel; por outras palavras, +executavam sobre o vidro composições que só convinham para superficies +opacas. + +No meiado do XV seculo, apparecem nas vidraças pintadas, como nos +quadros de tela, pequenas paisagens em perspectiva longiqua; estas +paisagens representavam vistas pittorescas de castellos cheios de +ameias, edificios de toda qualidade e apresentações dos trabalhos +agricolas. + +No XII e no XIII seculo, as vidraças das egrejas compunham-se de +pinturas e esculpturas, eram um livro sempre patente, onde os ignorantes +e bem assim os estudiosos podiam instruir-se nos principaes dogmas da +Fé, na historia da religião e nos deveres do homem para com Deus e o +proximo. Esta missão sublime da arte religiosa começou a ser esquecida +durante o XIV seculo; em muitas vidraças d'esta época, as representações +exemplares e instructivas são substituidas por brazões e retratos em pé +dos doadores. No XV seculo, as propensões, cada vez mais profanas, se +manifestam na escolha dos assumptos reproduzidos nas vidraças pintadas. +Estas não serviam para instrucção do povo; muitas vezes os principaes +dignitarios ecclesiasticos e os poderosos do mundo se faziam ahi +representar sumptuosamente; quando muito, o santo orago apparece atraz +no segundo plano da pintura, emquanto os brazões de armas se repetem, +sob fórmas diversas, em todos os lados da vidraça. + + +*Vidraças pintadas no XVI seculo* + + +No XVI seculo, as vidraças pintadas apresentam um aspecto inteiramente +novo. Todavia o primeiro terço do seculo se passou sem que os processos +materiaes da pintura sobre o vidro se tivessem modificado; e se a +_renascença_ não tivesse, desde este momento principiado a influir nas +composições artisticas, seria difficil distinguir as vidraças dos +primeiros annos do XVI seculo das do final do seculo precedente. Em +1540, uma nova côr teve applicação, o _encarnado de ferro_, que se +juntou na paleta do pintor de vidraças aos tres esmaltes conhecidos +então: o pardo, o amarello de prata, e a côr para encarnação. Alguns +annos depois, em 1550, achou-se o segredo de applicar todas as côres, +preparando-as com um liquefactivo (que não era outra coisa que o pó +vitreo), incorporando-os pela cozedura nas placas de vidro. Este genero +de pintura sobre vidro, que teve o nome de _pintura_ ou _apprèt_, deu +grandissimas facilidades para os pintores de vidraças, e fez mudar +completamente os processos da arte. O artista preparava primeiramente a +placa vitrea, pouco mais ou menos como a téla, para a pintura a oleo +pela maneira de tintas geraes e sitios; sobre estes tons modelava depois +as figuras e objectos; finalmente traçava as sombras e alcançava o +effeito com os retoques de côres, emquanto fazia apparecer os pontos +luminosos, desfazendo com promptidão a tinta opaca afim de deixar ao +vidro toda a sua translucidez. + +Cerca da mesma época descobria-se a propriedade que tem o diamante de +cortar o vidro, inventando-se o tira-chumbo, que facilitou a producção +dos filetes de chumbo para segurar os vidros, conseguindo-se tambem +executar placas de vidro de grande dimensão. Todos estes progressos nos +processos materiaes produziram uma revolução completa na arte da pintura +das vidraças, e tiveram por principal resultado o abandono quasi total +dos vidros tintos na massa. + +O estylo das vidraças transforma-se inteiramente no XVI seculo sob a +influencia artistica do renascimento. Nos edificios religiosos dos +primeiros annos do XVI seculo, a volta inteira substituiu +insensivelmente a ogiva. Depois d'esse momento tambem appareceram, sobre +as vidraças pintadas, ornatos tirados do estylo classico, misturados com +florões e outras decorações que recordavam ainda a época ogival. Pouco a +pouco as idéas classicas fazem progressos e conseguem, depois de algum +tempo, obter a preferencia. Não se vê mais então ovanos, volutas, folhas +de acantho, festões de flores e fructas. O arco de triumpho ou portico, +imitado da architectura pagã, forma de ora ávante o moldurado proprio +das vidraças pintadas em que figuram as personagens e os assumptos. Até +metade do XVI seculo, o artista se satisfaz em desenvolver, na parte +inferior da vidraça o assumpto principal com o moldurado que o limita, e +reserva a parte superior, assim como o tympano para collocar os brazões +e os symbolos. Poucos annos depois da metade do XVI seculo, em 1560, o +assumpto e o emmoldurado passam mesmo atravez dos enlaçamentos do +tympano, se todavia os quizerem respeitar, e não fazel-os desapparecer. + +Os assumptos religiosos e symbolicos são raros sobre as vidraças +pintadas do XVI seculo: vêem-se as mais das vezes os retratos dos +doadores nas vidraças, onde apparecem representados geralmente de +joelhos sobre um genuflexorio, quer só, quer rodeados das pessoas de +suas familias. O orago do sanctuario os acompanha sempre, e os seus +brazões repetem-se muitas vezes em differentes partes na pintura da +vidraça. + +No XVI seculo, produziu-se uma certa predilecção pelas pequenas +almofadas pintadas com que se ornavam antes, algumas vezes no final do +seculo precedente, as vidraças dos edificios publicos, castellos, +claustros e mesmo as habitações particulares. Essas bonitas pequenas +almofadas, quer em grizalha retocada com amarello de prata, quer de +côres differentes, são feitas com bastante tenuidade e delicadeza +extrema. Ás vezes occupam toda a abertura, ou pelo menos uma das +divisões principaes da vidraça, outras vezes consistem em simples +medalhões circulares ou ovaes, circumdados de vidro colorido ou branco. +As pequenas vidraças pintadas, designadas _vidraças suissas_, porque +tiveram primeiramente uso na republica Helvetica, pertencem á mesma +categoria. Estas vidraças, cujo uso se conservou durante os seculos +seguintes, reproduziram para a nobreza os brazões de familias +differentes moldurados; para os edificios municipaes, as armarias da +cidade ou da provincia com figuras de porta-estandartes vestidos com os +trajos e as armaduras da época; para as abbadias, as armas do mosteiro +ou a figura em pé do fundador. Os burguezes e as pessoas de profissão +eram ahi representados com os symbolos do seu officio sobre um escudo. +Muitas vezes tambem os fidalgos, burguezes e operarios eram +representados todos nos seus trajos com sua familia. A transparencia e o +brilho do colorido são geralmente mais vistosos nas vidraças suissas, +que nas maiores vidraças pintadas. + + +*Vidraças pintadas do XVII seculo* + + +No XVII seculo, a pintura com preparo ou com côres pegadas, continuou a +ter voga, devido aos aperfeiçoamentos introduzidos na composição e no +assentar os esmaltes, o que fez abandonar completamente o emprego dos +vidros duplos e dos vidros tintos na massa. Este genero de pintura, +muito apropriada para as vidraças pintadas dos aposentos, não convinha +de maneira nenhuma para decoração das grandes vidraças pintadas, porque +o artista querendo apresentar grandes sombras e tons fugitivos, +servindo-se de meias-tintas e de tintas de bistre, tornava a sua pintura +tão carregada, embaciada e confusa que, por vezes, era difficil +distinguir os objectos. + +A representação de Arcos de Triumpho ou porticos constituia, como no +seculo precedente, o moldurado forçoso de todas as composições, com esta +differença, que esses arcos e esses porticos são agora vistos +obliquamente ou de lado, isto é, em perspectiva, emquanto d'antes +apresentavam a frente geometral. + +Os filetes de chumbo, que anteriormente seguravam tão vantajosamente os +principaes contornos do desenho, foram considerados como inuteis e mesmo +causando embaraço na execução da pintura. Não serviram mais que para +reunir vidros eguaes e quadrados, formando uma especie de canniçado, por +detraz do qual os artistas pintavam sobre os vidros como se fossem uma +tela, não fazendo nenhum caso das juntas metallicas. + + +*Vidraças pintadas do XVIII seculo* + + +_No XVIII seculo_, os vidros tintos na massa foram pouco fabricados; seu +preço era avultado, e sua falta muito grande. Quasi todas as vidraças +d'esta época são com vidros esmaltados. O esmalte branco, já conhecído +no XVI e XVII seculo, veiu a ser então de uso geral e formou as +principaes côres empregadas. A decadencia da pintura das vidraças foi +completa, e a arte perdeu a tal ponto que havia em Paris um _unico +pintor d'esta especialidade_, o qual não podia subsistir por este seu +trabalho. + +Finalisando a historia de pintura sobre o vidro, devemos notar uma +tradição popular muito vulgar que considera, sem razão, a arte da +pintura sobre o vidro, conforme era feita na edade média, como sendo um +segredo que se perdeu desde muito tempo. Esta opinião não tem nenhum +fundamento. + + +*Pilares, columnas e columnasinhas* + + +Na edade média, as designações de _pilar_ e de _columna_ se confundem +muitas vezes; todavia a palavra _columna_ indica a idéa de um apoio com +fuste cylindrico. Eucontram-se nos edificios do periodo ogival quatro +especies principaes de pilares ou columnas: o pilar _quadrado_, a +columna _monocylindrica_, a columna _cruciforme_ e a columna +_enfeixada_. A columna monocylindrica dá em secção um _circulo_, e o +pilar quadrado, um _quadrado_ ou um _rectangulo_; a columna cruciforme +se compõe de um _pilar central_, tendo sobre _as faces quatro columnas_ +mais ou menos envolvidas; finalmente a columna _enfeixada_, como o nome +indica, é o resultado da reunião em _mólho_, em roda de um massiço +formando pilar, _muitas columnasinhas ou nervuras_. + +Os pilares quadrados são raros durante o periodo ogival; apparecem no +começo, e ás vezes as suas arestas são chanfradas. + +Em quasi todos os monumentos belgas do XIII e XIV seculos, as columnas +são monocylindricas. As columnas cruciformes, communs nas cathedraes +francezas, servem na Belgica principalmente na intersecção da nave e do +transepte nos grandes edificios. + +Os edificios do XV seculo teem as columnas monocylindricas ou +enfeixadas. As primeiras apresentam ás vezes capiteis; outras vezes são +inteiramente privadas d'elles. N'este ultimo caso os arcos-duplos e as +nervuras das abobadas nascem directamente do fuste da columna, no logar +onde se colloca o capitel. Este genero de columnas se encontra muitas +vezes em todos os paizes da Europa central e occidental. + +No XV seculo, as columnas enfeixadas não são já formadas, como +precedentemente, de columnasinhas com capitel, porém compostas de +nervuras _prismaticas em grupo_, á roda de um pilar central. Estas +nervuras saem da base da columna erguendo-se quasi sempre sem ter por +intermedio o capitel até ás abobadas do edificio, afim de formar os +_arcos-duplos_ e os arcos ogivaes; são sempre com a fórma angulosa e +apresentam secções similhantes ao feitio de um seio. É por excepção que +se encontram ainda, em certas partes dos monumentos do XV seculo, +columnas enfeixadas formadas pela reunião de columnasinhas cylindricas +com capitel. + +Os pilares e as columnas são construidas por _fiadas_ na Belgica, na +Allemanha e no Norte da França. No meiodia da França e na Italia, as +columnas cylindricas são quasi sempre monolithos. + +Durante o periodo ogival, os fustes das _columnasinhas_ não são, como +muitas vezes no periodo _roman_, cobertas de diversas esculpturas. +Todavia encontram-se, em alguns edificios dos primeiros annos da época +ogival, como na cathedral de Chartres em França, e em muitos monumentos +italianos, columnasinhas _terciaes_ em que o fuste é em espiral. + +As columnasinhas tiveram principalmente applicação no XIII e no XIV +seculos. As que compõem os grandes pilares teem geralmente o seu fuste +envolvido n'um quarto de circumferencia, os outros tres quartos ficam +apparentes; algumas, não obstante, estão inteiramente separadas da +parede ou da columna que fórma o pilar que ellas ornam, como existe nas +cathedraes de Amiens, França, e de Salisbury, na Inglaterra. No XIII +seculo, essas columnas são muitas vezes, como as do seculo precedente, +_anneladas_, ou compostas de engrossamentos em fórma de bracelete. + +No XV seculo, estas columnasinhas são raras; ou então substituidas por +nervuras prismaticas não sómente nas columnas enfeixadas, mas tambem em +todas as outras partes dos edificios, taes como o molduramento das +portas e das janellas. Estas nervuras teem base, mas sem capitel. + +No principio do XVI seculo tornam a apparecer as columnasinhas com o +fuste coberto de esculpturas, representando figuras geometricas, festões +e arabescos. Os fustes das columnasinhas d'esta época são regularmente +cylindricos: algumas vezes polygonaes ou apresentando a forma de +_balaustre_. + + +*Bases das columnas* + + +As bases das columnas do XIII seculo compõem-se de dois _tóros_ +separados por uma cavidade redonda (_scocia_) bastante profunda de +maneira a formar uma calha na qual a agua da chuva se retem afim de não +prejudicar o cimento da construcção. Algumas vezes o tóro inferior é +achatado e sobresae bastante por cima do _plintho_; o tóro superior é +quasi sempre cylindrico; por vezes todavia apresenta uma pequena +depressão. + +Durante a primeira metade do XIII seculo, as bases das columnas estão +ainda muitas vezes ligadas aos angulos dos seus plinthos _por garras_. +As garras apparecem por vezes, porém excepcionalmente no final do +periodo ogival. + +Depois do meiado do XIII seculo, a _scocia_ profunda, que indica um dos +signaes caracteristicos das bases da ultima metade do XII seculo e do +principio do XIII seculo, desapparece pouco a pouco, assim como o +achatamento do tóro inferior. As bases passam depois successivamente +pela fórma polygonal ou cylindrica; pertencendo a primeira d'este feitio +ao XIII seculo, e a segunda ás bases do XVI seculo. + +Quando o tóro inferior da base desdobra muito sobre o plintho da +columna, põe-se algumas vezes um pequeno apoio por baixo do tóro. Esta +particularidade, sem belleza, se encontra nos edificios francezes e da +Belgica. + +O sóco sobre o qual vem assentar a base da columna do XIII e do XIV +seculos, fórma, quasi sempre, um octogono regular; algumas vezes, +comtudo, é quadrado (nos edificios dos primeiros annos do periodo +ogival) ou cylindrico. Os _sócos cylindricos_ se encontram em muitos +monumentos belgas do XIII e do XIV seculo: tambem são bastante communs +na Inglaterra: em França servem na Normandia, na Bretanha e no Maine. + +No XV seculo, a base e plintho das columnas monocylindricas são +extraordinariamente delgadas. A base é formada sempre por uma simples +moldura do feitio de tóro. Muitas vezes esta moldura, que nos seculos +precedentes era traçada sobre um plano circular, toma a fórma polygonal +do sóco. + +Nas columnas enfeixadas do seculo XV, as pequenas bases parciaes das +nervuras prismaticas ou cylindricas em grupo á roda do pilar central, +formam, pela sua reunião e penetração, a base e o sóco da columna. +Durante a primeira metade d'este seculo, as pequenas bases teem todas o +mesmo perfil e ficam ao mesmo nivel. Mais tarde, os architectos +costumaram perfilar as bases parciaes em niveis differentes, como para +melhor fixar cada columnasinha e para evitar tantas compridas linhas +horisontaes. + +_Capiteis_.--Durante todo tempo do periodo ogival, ornaram regularmente +com bellas esculpturas os açafates dos capiteis. Houve comtudo excepções +a esta regra, e por isso se encontram em alguns edificios religiosos de +segunda e terceira ordem do XII e do XIII seculo, limitados por uma +simples moldura. + +Os capiteis do XIII seculo distinguem-se com facilidade pela +ornamentação vegetal de um caracter mui particular. O seu açafate +compõe-se geralmente de um, de dois, e algumas vezes mesmo de tres +renques de crochetes ou enroscamento de folhagens. Os crochetes de +renque superior supportam quasi sempre os angulos do abaco, e +substituem, de alguma maneira, o emprego dos modilhões. No final do XII +seculo e no principio do XIII seculo, teem a sua extremidade enroscada e +parecem rebentos de vegetaes. Em França desde o final do XII seculo, e +na Belgica um pouco depois, as extremidades dos crochetes se desenrolam, +e os rebentos se abrem em folhagens. + +Algumas vezes os crochetes, em logar de acabarem por folhagens +enroscadas ou abertas, trazem no seu cume cabeças de homens e de animaes +verdadeiros ou phantasticos. + +Os capiteis com crochetes enroscados, cujo emprego então estava +abandonado em toda a parte no final do XIII seculo, continuou na +Flandres maritima até ao fim do periodo ogival. Além d'isso, os +crochetes teem, n'esta região, uma fórma especial; seus enroscados são +muito mais chatos e mais largos. + +A ornamentação dos capiteis do XIV seculo consiste em ramos de +folhagens, de flôres e de fructos, de fórma muito variada, nas quaes se +acham todos os caracteres da esculptura ornamental do XIV seculo. Os +crochetes, apropriadamente assim designados, não apparecem mais que +excepcionalmente com os capiteis d'esta época: todavia os ramos de +folhagens e de flores são geralmente collocados, nos angulos do abaco, +de maneira a recordar pelo seu vulto os crochetes do XIII seculo, e +servem para o mesmo fim. Muitas vezes estes ramos são dispostos sobre +dois renques; esta maneira se nota sempre quando, como acontece +repetidas vezes, o açafate é composto de duas peças sobrepostas, e mesmo +algumas vezes, quando o capitel é formado de uma só pedra. + +As figuras de animaes reaes ou phantasticos se encontram poucas vezes +sobre os capiteis do XIII e do XIV seculos. + +Os capiteis do XV seculo teem, como os dos seculos precedentes, o seu +açafate coberto de folhagens; porém essas folhagens apresentam +geralmente mais ou menos desenvolvimento; são delgadas, angulosas, muito +recortadas, muito profundas e exaggeradas. Com o XV seculo, appareceu +sobre os capiteis o ornato vulgarmente designado _folha de repolho_. + +Em muitos ornamentos do XV seculo, os architectos, levados pela +applicação muito rigorosa do preceito que qualquer ornato deve ter ao +mesmo tempo um emprego necessario, supprimiram o capitel. N'estes casos, +os arcos-butantes e as nervuras das abobadas sobem, sem intermediario, +do fuste cylindrico, ou então nascem na base mesmo da columna, seguindo +toda a largura do fuste até ao nascimento das abobadas, e tomam, n'esse +logar, as differentes direcções convenientes para a construcção das +abobadas. + +As columnas cylindricas com capitel são usadas nos edificios belgas do +XV seculo, mas são bastante raras em França. + + +*Modilhões e misulas* + + +É um apoio que faz saliencia sobre a face de uma parede ou de uma +columna que se chama _modilhão_ quando tiver dois lados lateraes +parallelos e perpendiculares á parede; e _misula_, quando apresentar uma +outra differente posição. + +Depois do meiado do XIII seculo, os modilhões do feitio de curvas são +raros. + +As misulas apresentam por vezes uma tal ou qual similhança com os +capiteis, e são tambem sempre rematadas por um abaco; differençam-se +comtudo, as mais das vezes, pelo seu genero de ornamentação. Na verdade, +as esculpturas dos capiteis do periodo ogival reproduzem quasi sempre +vegetaes: e sómente por excepção mostram figuras de homens ou de +animaes. Sobre as misulas, pelo contrario, a ornamentação vegetal não +apparece, por assim dizer, senão no XIII seculo, e mesmo é rara; durante +os dois seculos seguintes desapparece, e então as misulas são +constantemente formadas de personagens grotescas, acocoradas, de animaes +reaes ou phantasticos, e algumas vezes tambem de cabeças humanas, ou +figuras de anjo e de homem sustentando escudos, disticos e bandeirolas. + +Muitas vezes as misulas, collocadas quer no interior, quer no exterior +dos edificios, são pintadas com côres vivas. + + +*Arcadas e arcaduras* + + +As grandes arcadas ou archivoltas ligando os pilares das naves e +sustentando o peso das paredes superiores, compõem-se regularmente de +dois ou tres renques de sobre-arcos nos edificios do periodo ogival. Os +perfis variam nos differentes seculos. + +No XIII seculo, e mesmo ainda no XIV seculo, as arestas da archivolta +são formadas por tóros inscriptos na face quadrada da peça do arco; no +XIV seculo e durante uma grande parte do XV seculo, os tóros já não são +completamente cylindricos, mas teem antes do termino a curva d'esta +moldura, um filete destinado a deter a força do reflexo; no final do XV +seculo e no principio do XVI, os tóros cylindricos tornam a apparecer. + +As _arcaduras_ são bastante vulgares nos monumentos do periodo ogival; +servem para ornar o liso das paredes internas e exteriores dos +edificios. Na parte interna apparecem principalmente no _triforium_ e +por baixo dos peitorís das janellas das naves lateraes; na parte +exterior, por baixo das cornijas e nos frontespicios, nos vasamentos dos +grandes portaes e nas galerias dos claustros. + +As arcaduras que se vêem em baixo das janellas de quasi todos os grandes +monumentos, compõem-se de uma serie de pequenas arcadas fingidas, +collocadas entre os peitorís das janellas e o solo ou no sóco de +cantaria que fórma, muitas vezes, uma especie de base ao longo das +paredes das naves lateraes. + +No XIII seculo, as curvas das arcaduras assentam sobre columnellos mais +ou menos embebidos na parede. No XIV e no XV seculos, os _columnellos_ +ficam substituidos por simples nervuras, ás vezes cylindricas; porém as +mais das vezes a secção polygonal não differe muito da de uma +semi-hombreira de janella. Estas nervuras teem remate junto do solo, +sobre as bases que lhes pertencem. No final do periodo ogival, +supprimem-se, por vezes, as nervuras, e então as _arcaduras_ assentam +sobre modilhões. + +No XIV e no XV seculos, as arcaduras sobre os peitorís das janellas +ligam-se inteiramente com as hombreiras das janellas e parecem, de +alguma maneira, confundir-se com elles: parecendo que atravessam a +cantaria do peitoril e descem até ao solo. As arcaduras não são mais do +que a parte inferior da janella que está tapada, e na verdade, a parede +necessitando de diminuir para dentro, ficando á face da vidraça, afim de +deixar metade do peitoril apparente, conserva apenas uma pequena +grossura, que equivale a uma simples divisão. + +Nos edificios mais esmerados, os _seguintes_, isto é, os lados +triangulares comprehendidos entre os extradoz das archivoltas e de duas +_arcaduras_, proximas uma da outra, estão geralmente ornatados com +esculpturas, pinturas ou rendilhados, mostrando a fórma trilobada ou +quadrilobada, e com vidros pintados, emquanto as paredes que separam os +entre-columnios, apresentam pinturas decorativas. + +As esculpturas e as pinturas com as quaes se decoravam os _seguintes_ +das arcaduras, durante o periodo ogival, são ora legendarios ou +satyricos, ora tirados do reino vegetal. Nos monumentos inglezes do XIII +seculo, os _seguintes_ estão muitas vezes com ornatos similhantes a +estofo cheio de relevo. + +Dentro das grandes egrejas do XV seculo existem como decoração as +arcaduras e outras figuras por cima e por baixo do _triforium_, sobre o +dorso das grandes arcadas e ao correr das janellas mais superiores; ás +vezes mesmo sobre o liso das paredes e em outras partes do edificio. + + +*Triforium* + + +Os _triforiums_ comprehendem toda a largura das naves lateraes, não se +vêem senão por acaso nos edificios do periodo ogival. Desde o final do +XII seculo, lhes substituiram, nas egrejas da Europa occidental, +galerias estreitas, abertas na grossura da parede, por baixo dos +peitorís das janellas superiores da nave principal. Estas galerias +estreitas offereciam commodidade: em primeiro logar facilitavam a +circulação dentro da egreja quasi á altura das janellas superiores, e +davam logar a collocarem-se as armações e outros adornos com que havia o +costume de decorar as egrejas nos dias de festa; e em segundo logar, +diminuindo a grossura das paredes superiores, alliviavam a pressão +exercida sobre os pilares principaes dos edificios; finalmente, +offereciam uma das mais importantes disposições para a decoração da nave +principal. + +O triforium communica com o interior da egreja por series de arcaduras +abertas, tendo o mesmo feitio que as arcaduras que havia sobre o liso +das paredes, debaixo dos peitorís das janellas inferiores. Muitas vezes, +principalmente no XV seculo, tapava-se a parte inferior da arcadura com +um parapeito formando ornato de feitio de trêvo ou de quatro folhas. + +Nota-se que nos triforiums, assim como nas arcaduras com ornato, as +archivoltas ficam assentes sobre columnatas com capitel pertencente ao +estylo do XIII seculo, e sobre _nervuras das hombreiras_ dos seculos +seguintes. A disposição das arcaduras do triforium apresenta ainda uma +outra analogia muito parecida com as arcaduras de ornato, formando +regularmente, desde o final do XIII seculo, a continuação das janellas +das naves lateraes. Depois d'esta época tambem as arcaduras do triforium +se assemelham ás janellas superiores da nave principal. + +No termo do periodo ogival, supprimem-se muitas vezes as arcaduras, não +conservando mais do que um simples guarda-peito; o ornamento denominado +_chama_ apparece regularmente nos desenhos que formam as hombreiras +d'esses guarda-peitos. As janellas superiores ficam, n'este caso, +collocadas a prumo sobre a parede exterior do triforium. + +Na Belgica, o triforium é geralmente tapado do lado exterior da nave por +uma parede; é, por excepção, que esta parede tem abertura, e a um ou +dois metros por cima do pavimento da galeria, pequenas aberturas +circulares, _trilobadas_ ou _quadrilobadas_, cobertas de grisalhas ou +com ornatos elevados. Nos edificios francezes do XIII e XIV seculos, +pelo contrario, a galeria do triforium não fica, as mais das vezes, +separada do exterior senão por uma simples lumieira, apresentando bellos +vidros pintados, semelhantes aos que decoram as janellas. + + +*Cornijas* + + +As cornijas do estylo ogival têem geralmente pouca importancia. Nos +edificios que pertencem ao periodo de transição, e mesmo, na Belgica, em +algumas que são dos primeiros annos do periodo ogival, o _larmier_ +superior da cornija assenta ainda muitas vezes, de distancia em +distancia, do mesmo modo que na época _roman_, sobre cachorros servindo +de modilhões, com muita sacada, mas de grande simplicidade. + +Em França, as cornijas dos monumentos mais principaes compõem-se, quasi +sempre, de duas fiadas de cantaria. A fiada inferior está ornada de +crochetes vegetaes no XIII seculo, de folhagens ondeadas no XIV, e de +folhas de repôlho encrespadas no XV. Algumas vezes vê-se tambem, entre +estas esculpturas, modilhões formados por cabeças humanas ou por +carrancas. + +As cornijas dos grandes edificios belgas apresentam as mesmas fórmas +geraes que as cornijas francezas, porém não têem esculpturas, sendo +substituidas por arcaduras simples, ogivaes, ou triboladas. Estas +arcaduras apparecem principalmente nos paizes onde, durante o periodo +Roman, as arcaduras serviam de decoração, imitando-se o estylo Lombardo, +e foram usadas para ornar certas partes dos edificios. + +Desde o começo da ultima metade do XIII seculo até o final do XIV, os +edificios de segunda ordem, e mesmo os de primeira ordem na Belgica, +têem as cornijas compostas de simples perfis, formados por um pequeno +numero de molduras pouco importantes. + + +*Platibandas* + + +As _platibandas_ que corôam as cornijas no exterior dos edificios +principiaram nos primeiros annos do XIII seculo. Antes, a agua da chuva +caía dos telhados directamente sobre o solo; até o meiado do XIII seculo +sómente os edificios mais importantes tiveram canos de chumbo para dar +vasão á agua da chuva e se assentaram platibandas sobre a beira do +telhado. Estas platibandas encanavam a agua por gargúlas, que a lançavam +para longe da face das paredes, e impediam por esta maneira que as aguas +da chuva podessem prejudicar a base da construcção, introduzindo-se-lhe +a humidade. As platibandas, cujo destino principal era evitar o perigo +que apresentava passar sobre as gargúlas, facilitam além d'isso os +concertos do telhado, e resguardam das telhas da beira quando cáem; +permittindo aos architectos darem melhores decorações ao exterior dos +monumentos. + +As mais antigas platibandas têem a fórma de arcaduras rendilhadas, +compostas de columnatas, sobre as quaes vem assentar um remate vasado, +na sua parte inferior, em arco ogival, _trilobado_. No final do XIII +seculo substituiram-se as arcaduras pelas folhas de trêvo e de quatro +folhas vasadas. + +A altura e o feitio das platibandas variam conforme os materiaes +empregados. No XIV seculo as platibandas, as mais das vezes, tinham +folhas de trêvo e de quatro folhas, vasadas e divididas de distancia em +distancia, na prumada dos contra-fortes, por pinaculos. No XV seculo, as +prumadas são compostas, umas vezes pela reunião de rhombos, de +triangulos equilateraes curvilineos, ou por figuras geometricas +angulares; outras vezes por desenhos flammejantes, parecidos com os que +caracterisam os tympanos das janellas d'esta época. No final do XIV +seculo apparecem, principalmente nos edificios civis, as platibandas com +ameias, nas quaes se vêem os mesmos feitios que nas platibandas +vulgares. O seu uso persistiu até ao final do periodo ogival. + +As platibandas com arcaduras verticaes apparecem ainda aqui ou acolá nos +edificios do XIV, XV e mesmo do XVI seculo. + +_Abobadas_. As abobadas ogivaes distinguem-se ao mesmo tempo pela sua +elegancia e leveza. Isto foi resultado da pouca grossura dos triangulos +do enchimento que vedava a parte composta de arcos-duplos e de nervuras. +Comtudo a leveza não excluia a solidez; pelo contrario, as abobadas +ogivaes são mais solidas e mais resistentes que as dos periodos +anteriores, posto que sejam muito menos massiças. + +_Estabilidade e plano das abobadas_. Já explicámos que a estabilidade +das abobadas não depende do mesmo principio dos edificios antigos e do +periodo ogival; e fizemos notar, em poucas palavras, os progressos tão +importantes realisados pelos architectos do XII e XIII seculos nas +construcções das abobadas. + +Fizemos tambem conhecer que as abobadas com o feitio das nervuras, como +são construidas as abobadas ogivaes, causam um esforço lateral que tende +a desviar para fóra dos seus pontos de apoio as columnas, contra-fortes +ou paredes. Os constructores do periodo ogival evitavam esse esforço +lateral, oppondo-lhe quer um esforço em sentido inverso, quer um +obstaculo rigido que, impedindo de operar, resolveu-o empregando cargas +verticaes. É caso particularmente para notar, porque constitue +egualmente uma differença essencial do systema de construcção dos +antigos, esses obstaculos apresentam as dimensões unicamente necessarias +para preencher o fim ao qual são destinados. + +Esta neutralisação dos esforços lateraes não se obtem da mesma maneira +nos edificios religiosos, cuja nave principal é notavelmente mais alta +do que as naves lateraes, e n'aquelles em que todas as naves teem egual +altura. + +_Egrejas que teem a sua nave central muito mais elevada do que as outras +lateraes_. Foi o systema adoptado, desde o final do XII seculo, pelos +constructores da Europa occidental, afim de conservar o equilibrio das +differentes partes de que se compunham os seus monumentos; porque o +arco-duplo da abobada principal á parede mestra, o arco butante, o +contraforte e a columna que separavam a nave principal da nave lateral +do seu arco-duplo, formavam um triplo esforço motivado pelo arco-duplo +da abobada principal e os seus dois arcos ogivaes, que faziam pender +para fóra a parede mestra do edificio. A este esforço, o constructor da +edade média oppunha o arco butante, que vinha apoiar-se sobre a parede +mestra, ficando collocado ao mesmo nivel. Por esta maneira o esforço +triplo causado n'esse ponto era transferido sobre o contraforte, onde se +quebrantava por causa da sua rigidez; e devido a essa rigidez, o seu +peso juntando-se ao da parede mestra do edificio, que comprime sobre a +columna que sepára as duas naves; por ambas as forças reunidas, +tornava-se esta bastante fixa para aguentar e neutralisar o triplo +esforço exercido pelo arco-duplo da nave lateral e pelas nervuras +proximas da mesma nave. O esforço do arco-duplo d'esta nave e das duas +nervuras ficam supprimidas pelo encontro do contraforte. + +_Egrejas em que as naves ficam na mesma altura_. N'estas egrejas os +esforços lateraes que a abobada da nave principal opéra sobre os seus +pontos de apoio ficam diminuidos pela pressão das abobadas exteriores +d'estas mesmas naves lateraes, ficando supprimidos pelos contrafortes, +geralmente bastante salientes, os quaes lhes oppõem um obstaculo rigido, +que produz o equilibrio das abobadas. + +_Abobadas de feitio de tecido_. As abobadas sobre plano _quadrado +longo_, formadas por arcos ogivaes que se entroncam uma só vez, foram +geralmente abandonadas proximo do meiado do XV seculo. Apparecem então +as abobadas em _tecido_, designadas tambem pelos archeologos, abobadas +_com divisões prismaticas_. N'estas abobadas as nervuras bifurcam-se, +ramificam-se e encruzam-se em todos os sentidos, de maneira a figurar um +verdadeiro tecido, como está representado na surprehendente abobada do +cruzeiro da egreja monumental dos Jeronymos em Belem. Todos os pontos de +intersecção das nervuras estão regularmente ornados de esculpturas. + +_Perfis das nervuras nas abobadas ogivaes_. As nervuras ou arcos ogivaes +das abobadas construidas no final do periodo Roman consistem muitas +vezes em um grosso tóro, algumas vezes tendo dois ou quatro tóros de +menos vulto. Os arcos-duplos da mesma época, muito mais massiços que as +nervuras, apresentam secções quadradas ou rectangulares, e teem os +angulos das partes concavas da abobada talhadas em tóro. Desde o +principio do XIII seculo, os arcos-duplos tiveram, com raras excepções, +os mesmos perfis que os arcos ogivaes. + +Durante os primeiros annos do periodo ogival, vê-se ainda arcos-duplos e +arcos ogivaes muito grossos, semelhantes aos dos edificios romans. +Todavia não tardou a adelgaçarem, a diminuirem de grossura. Pouco +depois, a parte redonda do tóro principal apresenta uma aresta viva. +Esta fórma teve logar em França desde o final do XII seculo, e na +Belgica sómente no meiado do seculo seguinte. Mais tarde, em França ao +principio, e na Belgica proximo do meiado do XIII seculo, a aresta viva +é substituida por um filete, que ficou adoptado até ao final do periodo +ogival. Nos edificios francezes apparece tambem o filete sobre os tóros +secundarios desde o meiado do XIV seculo. No final do XV e no começo do +XVI seculo, as nervuras apresentam muitas vezes o perfil composto de +molduras concavas e redondas. + +Comparando-se os perfis mais antigos com os mais recentes, nota-se que +os primeiros apresentam uma superficie mais larga e menos alta que as +dos ultimos. Esta mudança na fórma dos perfis não se fez sem motivo: os +constructores tinham aprendido por experiencia que a resistencia de um +arco ou de uma nervura está em razão directa da altura da peça de voltas +e não em razão da sua largura. + +_Fecho da abobada_. No XII seculo, tinham principiado a ornar com +esculpturas os fechos da abobada. Estes primeiros fechos esculpidos +representavam Jesus Christo deitando a benção, o Cordeiro Divino, Nossa +Senhora, os anjos, os animaes symbolicos dos evangelistas, santos, e +muitas vezes tambem carrancas ou animaes phantasticos. Nas abobadas dos +edificios de segunda ordem contentavam-se algumas vezes de indicar um +simples florão ou entrelaços. + +No XIII seculo o emprego dos fechos de abobadas com esculpturas veiu a +ser geral, sendo representado nas abobadas do côro, Jesus Christo, o +Cordeiro Divino, os symbolos dos evangelistas e outros objectos +religiosos. Na nave principal e nas lateraes a ornamentação distingue-se +por ser vegetal. Os fechos de abobada no XIV seculo, e tambem na +primeira metade do XV seculo, apresentam bastantes vezes a mesma +decoração que a do XIII seculo; todavia na sua esculptura vegetal ha os +caracteres proprios da ornamentação de cada um d'estes seculos. No XV +seculo, os brazões dos bemfeitores da egreja são esculpidos +frequentemente sobre os fechos da abobada. + +No final do XV seculo, apparecem os fechos da abobada ornados de um +appendice que recebeu o nome de _pendente_, que ficou em uso durante uma +parte do XVI seculo, imitando stalactites que estão suspensas ás +superficies superiores das grutas. Algumas vezes tem o feitio de um +florão ou um ornamento extravagante; outras representa uma estatua +pegada á abobada. + +Muitas vezes os fechos da abobada são furados por um buraco circular, +para se poder içar os sinos e outros objectos acima das abobadas: como +havia dois oculos na abobada da egreja de Belem, indicando não sómente +essa applicação, mas que o edificio _deveria ter duas torres_: todavia, +construiram modernamente um torreão colossal, que esmaga aquelle +monumento, e não respeitaram o que fôra projectado na sua primitiva +edificação! + +_Arcos butantes_. Chama-se _arcos butantes_ aos arcos destinados a +transportar até aos contrafortes exteriores o esforço lateral das +abobadas mais elevadas de um edificio. Nascem dos contrafortes e +apoiam-se sobre as paredes da nave principal nos differentes pontos onde +vão confinar os resultantes dos _encostes_ dos arcos ogivaes e dos +arcos-duplos. + +Já explicámos os dois systemas empregados durante o periodo roman para +contramurar o esforço lateral produzido pelas abobadas superiores sobre +as paredes altas das egrejas em que a abobada principal é muito mais +alta que as outras das naves inferiores, e notámos os inconvenientes que +resultavam de uma e de outra applicação. Estes dois systemas foram em +pouco tempo abandonados, primeiramente porque a nave principal ficava +sem claridade, sobretudo nos edificios de maior largura, e em segundo +logar porque, n'um como no outro systema, as abobadas das naves lateraes +precisavam de ser muito altas para attingir o ponto onde se effectuava o +encontro combinado das nervuras das abobadas altas. Raciocinadores +dispostos a sujeitar tudo aos principios dos architectos do XII seculo e +do XIII seculo, conheceram que os semicirculos das abobadas em berço +contiguo, do qual alguns dos seus antecessores se tinham servido com o +fim de neutralisar o esforço lateral das abobadas altas, não era +necessario na sua fórma completa, e que se obtinha o mesmo resultado +applicando sobre a parede exterior do edificio no ponto onde viesse dar +a resultante dos encostes, um arco partindo de um contraforte exterior: +foi esta combinação que deu origem aos arcos-butantes. + +Para que satisfaça á sua applicação deve o arco-butante: 1.^o, ter as +juntas das peças de sua construcção _normaes_ ou perpendiculares á curva +por elle descripta; 2.^o, ficar o seu vertice sobre a parede exterior no +ponto onde passe a resultante do esforço da abobada. Esse ponto acha-se +entre o nascimento das nervuras ou arcos ogivaes e perto da metade da +altura da abobada. Em theoria esse ponto é um ponto geometrico; todavia +na prática é preciso que a summidade ou cabeça do arco-butante seja +larga; primeiro porque é impossivel, na execução, determinar de uma +maneira exacta a direcção da resultante dos differentes esforços das +abobadas; depois porque a direcção d'esta linha póde facilmente +desviar-se em resultado de ter dado de si nos pontos de apoio verticaes, +effeito que acontece frequentemente nas grandes construcções medievaes +cujos pontos de apoio são delgados e supportam uma pesada carga. + +Os arcos-butantes são geralmente reforçados, no seu _extradoz_, por um +encosto em linha recta, construido em cantaria. O espigão d'este encosto +é muitas vezes ornatado de _crochets_. + +Desde o final do XII seculo e no principio do XIII seculo, os +arcos-butantes vieram a ser de uso geral em todos os grandes monumentos +religiosos, cuja nave principal era mais alta que as naves lateraes. Os +mais antigos são geralmente formados por um quarto de circulo. Depois a +curvatura veiu a ser menos curva, approximando-se da linha recta. + +Empregaram tambem desde os primeiros annos do XIII seculo, +arcos-butantes _duplos_, isto é, dois arcos-butantes collocados um por +cima do outro. + +Os arcos-butantes foram empregados durante todo periodo ogival; todavia +eram menos usados durante a ultima metade do XV seculo. Em muitos +monumentos d'esta época, mesmo os mais principaes, julgavam-se +sufficientes os contrafortes muito massiços e salientes para diminuir o +esforço das abobadas. + +Quando no principio do XIII seculo collocaram por baixo do madeiramento +um canal para receber as aguas da chuva, dirigiam as aguas do telhado +principal para os contrafortes exteriores por um canal de cantaria posto +sobre o capello do arco-butante. As aguas passavam atravez no cimo dos +contrafortes, e eram depois lançadas fóra por gargulas, caindo afastadas +da base do monumento. As infiltrações causadas pela passagem das aguas +sobre o capello dos arcos-butantes, e atravez dos contrafortes, +produziram damnos tão consideraveis nas construcções que ficou em pouco +tempo abandonado este systema de dar escoante ás aguas da chuva. + +_Contrafortes_. Durante os primeiros annos do periodo ogival, os +contrafortes dos edificios de abobadas foram demasiadamente engrossados +e tiveram bases bastante salientes; á proporção que se elevavam assim, +iam diminuindo consideravelmente por grandes resaltos successivos sobre +cada uma das faces. + +No meiado do XIII seculo, os contrafortes ficam mais regulares, +erguem-se quasi verticalmente da base á extremidade superior, e não +apresentam já por cima do envasamento um ou dois resaltos bastante +pequenos e sómente sobre a face principal. + +Estes contrafortes terminavam por uma face chanfrada que ia ter até á +cornija, e muitas vezes era de fórma abahulada, quando ficavam isolados +ou excediam a base do madeiramento. Nos monumentos principaes +limitavam-se algumas vezes a pôr pinaculos, e ornavam as suas faces +lisas de arcaduras e estatuas postas sobre misula, tendo docel. + +No XIV seculo a fórma dos contrafortes ficou quasi a mesma que durante a +ultima metade do seculo precedente. Tinham a sua extremidade, como +d'antes, quer em pinaculos e fórma abahulada, quer ficando os pinaculos +assentes sobre base quadrada ou octogona, terminando por agulhas +pyramidaes, cujas arestas estão ornadas de cróchets. + +Os contrafortes do XV seculo semelham-se ainda muitas vezes aos dos dois +seculos precedentes. Como estes, apresentam, de distancia em distancia, +diminuição de grossura pouco apparente sobre a sua face anterior, e são +ornados de arcaduras, nichos e doceis, ornamentação no gosto da época. +Todavia, desde o fim do XIV seculo, principiaram a modificar algumas +vezes a sua disposição; regularmente deixaram subsistir a base quadrada +ou rectangular, tendo a face anterior parallela e as duas faces lateraes +perpendiculares com o liso da parede; porém, a certa distancia acima do +solo (ao primeiro ou segundo resalto), a face anterior, parallela á +parede, passa a ser angular; mesmo ás vezes se vêem contrafortes cuja +face anterior fica angular á parede desde a base do edificio. Estes +contrafortes, com lados chanfrados, acabam como todos os outros, por um +plano inclinado, platafórma ou espigão de feitio abahulado, ou por um +pinaculo bastante ornado. + +No XIII e no XIV seculo, os contrafortes collocados no ponto de +intersecção de paredes que se encontram em angulo recto, são sempre em +numero de dois. No XV seculo, julgavam ás vezes ser sufficiente um unico +contraforte collocado de maneira a fazer face ao angulo; sendo estes +contrafortes angulares muito communs nos edificios d'esta época. + +Por causa do excessivo esforço lateral que produzem sobre os seus pontos +de apoio, as abobadas ogivaes necessitavam o emprego de contrafortes com +base de bastante largura. Nos monumentos dos primeiros annos do periodo +ogival, esses contrafortes, que teem tres de suas faces inteiramente +livres, apresentam saliencias grandes sobre as paredes exteriores dos +edificios. Estas sacadas desagradaram em pouco tempo aos constructores, +que cogitaram em as diminuir ou fazel-as desapparecer inteiramente +disfarçando os contrafortes. Para esse fim recuáram até á parede mestra +a divisoria que havia antes na nave lateral, aproveitando na parte +interna do monumento o espaço de um rectangulo que communicava com a +extremidade da nave lateral e servia ás vezes de capella. + +Nos edificios do periodo ogival, cobertos por simples fôrro do tecto, de +madeira, os contrafortes tinham pequena sacada sobre o liso das paredes. + +_Gargulas_. Dá-se o nome de _gargulas_ aos canaes salientes pelos quaes +as aguas da chuva sáem dos telhados e são lançadas longe da base das +paredes dos edificios. Teem quasi sempre a configuração de animaes +monstruosos e phantasticos, e raramente a figura humana. Admira-se, +n'estas esculpturas, uma variedade prodigiosa, e seria difficil de achar +duas do mesmo feitio, todavia a maior parte dos edificios ogivaes +apresentam um grande numero. N'este genero ha duas no nosso paiz +bastante exquisitas, uma no angulo da cimalha da egreja de Caminha, na +capella mór, voltada para o norte da fronteira do paiz, estando a figura +humana revirada, isto é, em posição dobrada, com a cabeça para o lado do +telhado e a parte trazeira do corpo para fóra do edificio, e é pelo anus +que sáem as aguas da chuva: no castello de Pombal ha outra com a figura +de mulher na mesma attitude, saindo a agua da chuva pelo que distingue o +seu sexo. Eram de proporções curtas e solidas no principio da sua +applicação; vieram a ser mais compridas e com melhores fórmas desde o +final do XIII seculo. + +_Nichos e doceis_. Dá-se o nome de _nicho_ a qualquer espaço aberto, +mais ou menos profundo, feito na grossura de uma parede, pilar ou +contraforte, para n'elle se collocar uma estatua, um grupo, um vaso, ou +qualquer objecto de decoração. Os nichos apparecem poucas vezes nos +monumentos do XIII e XIV seculos; n'essa época as estatuas, com as quaes +ornavam ás vezes certas partes dos monumentos, eram postas sobre misulas +salientes, tendo doceis egualmente salientes sobre a face das paredes. + +No XV seculo, o uso dos nichos vem a ser mais geral; vêem-se bastantes +vezes no exterior dos monumentos, sobre as fachadas, nos contrafortes e +nos tympanos dos portaes. + +Os doceis, isto é, os remates salientes, mais ou menos ornamentados de +esculpturas, ficando collocados por cima da cabeça das estatuas, são +muito geraes desde o final do periodo roman. No XII e no XIII seculos, +esses doceis primitivos representam quasi sempre edificios, fortalezas, +e mesmo algumas vezes cidades inteiras cercadas de muralhas. Não havia +ainda n'esta época, por cima, pinaculos ou pyramides delgadas, posto que +em certas partes do centro da França, as tiveram desde o meiado do XIII +seculo, sendo terminadas por _clochetons_. As fórmas architectonicas dos +edificios representadas pelos doceis são muitas vezes anteriores á época +em que foram esculpidos; é por isso que no XIII seculo apparecem n'elles +zimborios, arcos de volta inteira, etc., que todavia não se vêem já nos +monumentos contemporaneos. + +No XIV seculo, os doceis mudam totalmente de aspecto, cobrem-se de +arcaduras com ornamentação e com outros detalhes imitados da +architectura; teem geralmente por cima vistosos pinaculos, muitas vezes +vasados. + +No XV seculo, apresentam quasi as mesmas fórmas que no seculo +precedente, porém exaggeradas; sendo os doceis contornados +demasiadamente, e a sua ornamentação feita com muita delicadeza. + +_Madeiramentos_. Distinguem-se, nos edificios do periodo ogival, duas +especies principaes de madeiramentos: os que não ficavam apparentes, +porque não revestiam as construcções abobadadas, e os apparentes que se +empregavam nos edificios que não tivessem abobadas, sendo estes que +interessam sobretudo os archeologos. + +Quando os madeiramentos ficam apparentes, isto é, visiveis no interior +do edificio, apresentam sempre o aspecto de uma abobada de fórma de +berço. Este berço é algumas vezes semi-cylindrico, semelhante aos que se +encontram em algumas egrejas romans; as mais das vezes, todavia, são +traçados por tres centros. _Ripas_ de carvalho, ou de qualquer outra +especie de madeira, tendo as juntas sobrepostas, são pregadas sobre as +_cambotas_, circulares ou ogivaes, formadas pelas asnas e _varedo_. +Tendo pinturas por decoração, e algumas vezes as extremidades das peças +de madeira ficam visiveis, tendo esculpturas, que representam anjos com +escudos ou phylacterias, cabeças de gente, figuras de cocoras com +carranca, ou animaes phantasticos. Muitas vezes as nervuras ou as +_franquias_ ficam parallelas ás nervuras das _asnas_, porém sendo mais +estreitas, estão pregadas sobre o varedo e sustentam no seu logar as +ripas. Estas nervuras são cobertas com vivas côres ou com elegantes +entrelaçados. + +Algumas vezes tambem são assentes sobre as ripas, as nervuras que se +encruzam do mesmo modo que os arcos diagonaes ou as ogivas das abobadas +de cantaria. + +As abobadas cobertas de gesso, taes como as constroem os architectos +modernos na maior parte das novas egrejas ruraes, eram inteiramente +desconhecidas durante o periodo ogival. Quando a verba de que dispunham +não lhes permittia o estabelecer abobada de alvenaria, serviam-se do +madeiramento apparente, que se ornava tão artisticamente quanto fosse +possivel. Nunca se empregavam pueris dissimulações, fingimentos +architecturaes, onde as _ripas_ appareciam a imitar a cantaria com a +capa desprezivel de gesso ou de argamassa! Não se esquecia n'esta época, +que a verdade é a condição essencial da existencia da arte; esta deve +engrandecer o espirito, encantar a vista, e não enganal-a. + +_Telhados_. No meiado do XII seculo, os telhados teem grandes +inclinações nos edificios da Europa Central e Septentrional; emquanto +nos paizes meridionaes conservam pequena correnteza, como se praticava +nos telhados da antiguidade e no periodo roman. + +Cobriam-se os madeiramentos com chumbo, cobre, ardozia e telhas. Ás +grandes cathedraes e aos edificios mais importantes punham chapas de +chumbo ou de cobre, por tal maneira, que podiam, sem alterar a sua +superficie, dilatar-se ou encolher-se, conforme fosse a temperatura. + +_Cumieira e cimeira_. Dá-se o nome de _cumieira_ ao remate do espigão de +um edificio. Durante o periodo ogival este remate era de metal (quasi +sempre de chumbo), de barro cozido ou de cantaria. As _cimeiras_ são +telhas que formam uma cumieira; eram de barro de cozedura. + +O maior numero dos grandes monumentos da edade média tinham d'antes por +remate cumieiras nos madeiramentos, egualmente recortadas, imitando +quasi sempre folhagens. Infelizmente são poucos os edificios do XIII e +XIV seculos que conservam esse ornato primitivo. De todas as cumieiras +de chumbo anteriores ao XV seculo (e eram as mais em uso n'essa época) +não ha já vestigios: a oxydação do metal e muitas outras causas de +destruição as teem feito desapparecer. + +Nos paizes onde a telha foi empregada para cobrir os edificios, como, +por exemplo, na Borgonha, as cumieiras dos madeiramentos compunham-se de +uma continuação de cimeiras de barro de cozedura, mais ou menos ornado. +Uma capa esmaltada e envernizada ao fogo tinham sempre estas cumieiras +para se tornarem menos permeaveis á humidade. + +Desde o XI seculo, o emprego das cumieiras de pedra veiu a ser geral no +meio dia de França. Encontra-se ainda hoje n'este paiz um grande numero +de cumieiras dos periodos roman e ogival, as quaes escaparam á sua +destruição. As mais antigas apresentam enlaçamentos e figuras +geometricas; as que pertencem ao XIV e XV seculos são compostas de +ornamentação com remate de folhagens, como ha na egreja de Belem. + +_Torres e campanarios_. Do mesmo modo que no periodo roman os +campanarios da época ogival são compostos de dois ou mais andares +sobrepostos. A separação dos differentes andares é indicada, no +exterior, quer por um resalto saliente, quer por uma pequena diminuição +de grossura do andar superior sobre o inferior. Estes andares não teem +já, como precedentemente, a mesma altura: são baixos ou altos, conforme +as disposições internas dos campanarios. O rez-do-chão das torres é +geralmente construido sobre plano quadrado; mas no primeiro ou no +segundo andar, e as mais das vezes sómente no principio da flecha o +plano vem a ser octogono. Os espaços triangulares, que ficam livres nos +angulos do quadrado, pela passagem da fórma de quadrado para octogono, +apresentam quasi sempre quatro pinaculos ou clochetões. + +As frentes das torres teem aberturas nos differentes andares, janellas +estreitas ogivaes, muitas vezes geminadas, sendo raro estarem separadas +ou reunidas em tres vãos. + +Desde o principio do periodo ogival, os campanarios acabavam por flechas +construidas de madeira ou de cantaria, com muita elevação, tendo a fórma +de uma pyramide com oito lados eguaes. Já no XIII seculo, as arestas das +flechas de pedra e os pinaculos collocados na base do octogono estão por +vezes ornados, de distancia em distancia, por crochets vegetaes; no XIV +seculo, principia-se a vasar os lados das flechas fazendo-se pequenas +aberturas do feitio de flor de trevo, ou quatro folhas e com florão. No +XV seculo, essas ornamentações são substituidas por feitios de chammas e +por outras figuras geometricas vasadas. No final do XV seculo e no +principio do seculo seguinte, construiram-se, em muita parte, os +campanarios com flechas rendilhadas. + +Muitos campanarios mais importantes, de grandes proporções, ficaram por +concluir desde a base da flecha projectada, e ás vezes ainda mais +abaixo. Algumas vezes tambem, as flechas da primitiva construcção, +depois de terem sido destruidas por uma tempestade ou incendio causado +pelo raio, foram substituidas por corpos simples ou remates hybridos, +que não teem nada de commum com as lindas pyramides da época ogival. + +No XIV e no XV seculos, muitos campanarios teem na base da flecha uma +platibanda vasada, composta de arcaduras ou com feitios chammejantes. + +A maior parte das egrejas ogivaes de segunda e terceira ordem tinham +campanarios de uma extraordinaria simplicidade, cujo effeito é agradavel +e mesmo admiravel, se reflectirmos na pouca resistencia dos meios +empregados para a execução. Estes campanarios, sem nenhum ornato, +compunham-se de dois andares quadrados, dos quaes o superior só tinha as +quatro frentes com janellas geminadas ou com tres aberturas, servindo +para sair o som do sino. Uma flecha octogona limita a sua extremidade. + +Os constructores da edade média comprehendiam que, sobretudo nos +edificios de menor importancia, as combinações geraes mais simples eram +as unicas mais acertadas para produzirem um aspecto monumental. + +Em Flandres maritima tem-se conservado até ao presente um grande numero +de campanarios ogivaes de segunda e terceira ordem, dignos de chamar a +attenção dos archeologos e dos architectos; encontram-se alguns muito +bellos até nas modestas freguezias do campo. Estes campanarios, +construidos com tijolos, como todas as outras partes dos edificios +d'este paiz, são geralmente terminados por uma flecha octogona tambem de +tijolos, muitas vezes tendo quatro pinaculos nos angulos da sua base; as +arestas da flecha e dos pinaculos são quasi sempre decoradas de crochets +egualmente com tijolos. As platibandas que ligam entre si os pinaculos +são cheias, pouco altas e ornadas com arcaduras fingidas. Uma outra +particularidade que apresentam alguns campanarios de Flandres maritima, +é inclinarem-se um pouco para o lado oeste, que se suppõe ser um facto +intencional do architecto para fazer resistir melhor contra os ventos +d'este quadrante que sopram com extrema violencia á beira mar. + +Muitas egrejas monasticas, e algumas vezes tambem as parochiaes, teem um +campanario collocado quer na extremidade da capella mór, quer em um dos +dois angulos formados pela intersecção da capella mór e o cruzeiro. Esta +disposição é bastante geral nas egrejas ruraes na Baviera e na Austria. +As abbadias preferiam esta collocação afim de que os frades incumbidos +de darem signal pelos sinos para as ceremonias religiosas não fossem +obrigados a afastar-se da egreja. + +Os constructores romans construíam muitas vezes um campanario no logar +da intersecção da nave e do cruzeiro. Na Inglaterra e na Normandia, +estes campanarios centraes conservam-se durante o periodo ogival; por +toda parte, fóra d'isso, são raros desde o XIII seculo, e muitas vezes +foram substituidos por simples campanariosinhos de madeira. Na Belgica, +encontram-se por vezes campanarios centraes de cantaria, porém de +resumida dimensão, nos edificios do periodo de transição. + +As _escadas dos campanarios_ e tambem as que servem em outras partes dos +monumentos para subirem aos madeiramentos, são geralmente de caracol com +centro cylindrico ou octogono. Estas caixas das escadas, collocadas no +exterior do edificio nos angulos formados pela saliencia dos +contrafortes, nunca são dissimuladas, mas visiveis, facilitando as +seteiras que estão abertas darem luz á escada. + +Durante o periodo ogival, collocavam quasi sempre _cruzes de ferro +batido_ no cimo das flechas dos campanarios, na extremidade do espigão +do côro por cima da abside, e algumas vezes tambem sobre os espigões do +cruzeiro. Estas cruzes distinguem-se geralmente por uma composição de +bastante trabalho. As cruzes dos campanarios são quasi sempre encimadas +por um gallo servindo de catavento. Primitivamente este adorno +encontrava-se sobre as torres das egrejas parochiaes ou dos capitulos +apenas. O gallo collocado no cimo da egreja symbolisa a imagem dos +prégadores; pois o gallo vela durante a noite escura e assignala as +horas pelo seu canto, faz despertar aquelles que dormem, e annuncia a +aurora que se approxima; mas antes d'isso, elle se excita a si mesmo a +cantar, dando ás azas. + +_Pavimentos_. Os pavimentos romans eram compostos com mosaicos. Nos +paizes meridionaes esses mosaicos foram formados de marmores +differentes. Tanto em França como na Belgica, Allemanha, Inglaterra e +Portugal, eram compostos de ladrilhos esmaltados ou de lagedo gravado e +com embutido egualmente de côres diversas. Os ladrilhos e os lagedos +gravados continuaram a ser empregados nos pavimentos dos edificios +ogivaes na Europa Occidental e Septentrional. + +Esses pavimentos eram ora de uma grande simplicidade, ora esplendidos. +Poucas vezes o chão todo das egrejas estava coberto por bellos mosaicos; +em geral, não se adoptou este genero de decoração senão para a capella +mór e para as capellas do corpo da egreja, porque nas naves, onde todas +as pessoas são admittidas indistinctamente, o roçar do calçado em pouco +tempo teria destruido o verniz do ladrilho ou o lagedo com gravuras. + +Como já explicámos, o amarello e o verde-escuro são as côres preferidas +no final do periodo roman, nos pavimentos de ladrilho do Norte e Oeste +da Europa. No XIII seculo, substituiu-se muitas vezes a côr +verde-escura, o encarnado e o avermelhado escuro, empregando-se o +amarello para os embutidos. As côres carregadas e escuras deixaram de +ser usadas nos pavimentos. + +Os ladrilhos esmaltados são geralmente de pequenas dimensões, como havia +no cruzeiro da egreja monumental do convento de Alcobaça, cujos +ladrilhos estão agora _escondidos por baixo de simples lagedo_, na +profundidade de _0^{m},34 centimetros_! + +Quando os desenhos dos ladrilhos ficam completos sobre um só ladrilho, +ou se completam em quatro e mesmo em maior numero de ladrilhos reunidos, +formam regularmente figuras geometricas, brazões, florões, animaes +existentes ou phantasticos. Circulos, flores de liz, veados, aguias com +duas cabeças, é o que mais frequentemente se vê. + +No XIII e no XIV seculos, figuras de homens em pé foram algumas vezes +representadas pela reunião de um certo numero de ladrilhos pintados. +Estas effigies de personagens eram muitas vezes acompanhadas de +letreiros, empregados nas campas de cantaria. + +Durante o XIV e o XV seculos, os desenhos dos ladrilhos conservam quasi +o mesmo caracter precedente, mas são menos vistosos e não teem o vigor +das côres e o desenvolvimento que apresentavam os do XIII seculo. No XIV +seculo, as ornamentações são muitas vezes substituidas por firmas, +letras, inscripções, escudos, e mesmo pequenas vistas. Pelo mesmo tempo +apparecem os tons verdes e azues-claros. + +Nos edificios de segunda e terceira ordem, e tambem em algumas egrejas +abbaciaes, principalmente da Ordem de Cister, fazia-se uso, durante o +periodo ogival, de pavimentos compostos de ladrilhos de differentes +côres, sem nenhum ornato. + +Em alguns sitios fabricavam-se tambem ladrilhos sem ser esmaltados, +apresentando figuras em relevo. Estes ladrilhos são muito raros, porque +não se podiam fazer senão com barro muito rijo, para que os relevos não +ficassem em pouco tempo gastos. + +_Lages gravadas e com embutidos_. Desde o XII seculo, empregaram-se +algumas vezes, para cobrir o chão das egrejas, lages de pedra e de +marmore gravadas e com embutidos. Os desenhos dos ornatos eram indicados +em parte pelos espaços conservados da propria lage, ou por um betume +colorido que enchia as cavidades deixadas pela gravura. As lages d'este +genero não foram muito communs, e um limitado numero escapou da sua +destruição! Um dos mais bellos e mais completos é o que ornava a capella +mór da cathedral de _Saint-Omer_ (França), e do qual bastantes +fragmentos se têem conservado até ao presente. Os fundos dos arabescos +são de côr castanho-escuro, assim como a inscripção; os traços do +contorno das personagens e do cavallo são a encarnado, assim como está +representado em gravura o nobre cavalheiro, no meio d'essa composição, +que é do meiado do XIII seculo. + +_Labyrinthos_. Na antiguidade pagã designavam-se com o nome de +_labyrinthos_, as galerias subterraneas ou os edificios construidos em +cima do solo, com ramificações em grande numero e complicadas. Todos +sabem da existencia do labyrintho de Creta, onde, conforme a mythologia, +o Minotauro foi morto por Theseo. Durante a edade média o nome de +labyrintho foi dado a uma disposição particular que se vê no pavimento +de algumas egrejas dos periodos Latino, Roman e Ogival. A disposição, +divisão e côr das lages, formam, pelas suas combinações, linhas sinuosas +com bastantes voltas, todas para um ponto central. Os Romanos e os +Gregos representavam já, por vezes, labyrinthos nos pavimentos em +mosaico ou sobre as paredes de seus templos e de suas habitações. Os +labyrinthos que existem desde os primeiros seculos nas egrejas christãs, +por exemplo, na de S. João Vidal de Ravana (Italia), que é do VI seculo, +acharam, sem nenhuma duvida, a sua origem nos labyrinthos dos edificios +pagãos. A presença da figura de Theseo combatendo o Minotauro, que se vê +no centro dos labyrinthos de alguns monumentos christãos, como em Pavia +e em Luca, dão uma prova evidente d'esta affirmação. Os christãos +introduzindo os labyrinthos nas egrejas, deram-lhes uma significação +symbolica. Seria comtudo difficil, por não dizer impossivel, determinar +de uma maneira irrefutavel o symbolismo dos labyrinthos nas antigas +egrejas christãs. + +Na edade média, parece ter-se reputado os labyrinthos como emblema da +viagem á terra Santa, ou, segundo outras opiniões, o transito doloroso +de Jesus Christo desde a casa de Pilatos até ao Calvario. Indulgencias +eram concedidas ás pessoas que os percorressem de joelhos, recitando as +orações prescriptas. Os labyrinthos n'esta epoca eram tambem designados +com o nome de _dedalo_, _meandro_, _caminhos de Jerusalem_. + +A fórma dos labyrinthos não é sempre a mesma, O de _Chartres_ é +circular; o de _Saint-Quentin_, octogono; taes eram tambem os de +_Arrhas_, _Amiens_ e _Reims_. Na egreja de _Saint-Bertin_ em +_Saint-Omer_, tinha a fórma quadrada. Muitas vezes havia, ao centro e +aos angulos do labyrintho, pedras com inscripção lembrando algum facto +relativo á construcção do edificio. Em _Amiens_, por exemplo, a pedra +central representava os architectos da egreja e o bispo _Évrard_, seu +fundador, com os nomes dos personagens e a época da construcção, +gravados sobre laminas de cobre embebidas na parede. + +_Pinturas das paredes_. Já descrevemos os caracteres da pintura mural na +época roman. Esses caracteres e o systema do colorido modificam-se de +uma maneira evidente seguindo o desenvolvimento da architectura ogival. + +Se o leitor tiver presente na memoria o que fizemos notar a respeito do +estylo ogival, da sua decoração esculpida e do seu systema de +construcção, comprehenderá facilmente que uma modificação notavel +motivou tambem o colorido da decoração. Com effeito, nas construcções +ogivaes os membros das paredes desapparecem, por assim dizer, e cedem o +espaço para aberturas de janellas; os membros da architectura +multiplicam-se e apresentam-se com grande evidencia; a vista examina sem +custo a sua fórma e os seus fins, desde a base da columna até ao fecho +da abobada que reune as nervuras da abobada. Além d'isso, as superficies +das paredes, que não foi possivel supprimir, ficavam com esses espaços +divididos. Como acontece nas paredes divisorias sobre os peitorís das +janellas inferiores, as paredes são todas cheias de series de arcaduras +estreitas, muitas vezes cheias parcialmente de esculpturas. Finalmente a +multiplicidade dos detalhes e a vista de ornamentações esculpidas, +diminuindo a escala dos elementos embellezadores para augmentar o espaço +de união, modificaram a seu modo as condições da pintura, dando-lhe +caracteres novos. + +O augmento extraordinario dos vãos das janellas e o aspecto grandioso +que lhes deram nos edificios motivou que nas vidraças pintadas eram +quasi todas as preoccupações do constructor do periodo ogival. Era ali, +em certo modo, que devia apparecer o effeito da decoração. Os progressos +da arte da pintura sobre o vidro corresponderam então ás exigencias que +esta arte tinha a satisfazer, e a palheta abundante, vigorosa e variada +do pintor vidraceiro impôz á coloração adoptada pelo pintor ornatista +uma harmonia e combinações novas. Por outras palavras, a pintura +historica e legendaria, não tendo mais do que um espaço limitado e +parcimonioso medido sobre a superficie das paredes foi servir-se das +vidraças para os seus trabalhos, e por este motivo as figuras mostram, +onde apparecem, ainda umas proporções acanhadissimas. A intensidade da +coloração das vidraças pede, pela logica dos preceitos da harmonia, +maior energia na pintura ornamental das paredes. Todavia, não foi essa a +unica consequencia do emprego das vidraças excessivamente coloridas: a +luz não entrando já no interior da massa vitrea a qual atravessava como +peneirada atravez d'um tecido multicolor, dava á pintura mural um +aspecto differente d'aquelle que teria a luz natural do dia; havia pois +a attender simultaneamente ao reflexo das côres translucidas com as da +pintura mural que se devia harmonisar com a luz colorida e sombria que +as vidraças pintadas projectam sobre as paredes e partes architecturaes. +D'aqui veiu o emprego, principalmente no XIII seculo, de côres vivas sem +ficarem separadas: encarnado, purpura, verde, azul carregado, realçado, +ás vezes, por tons claros e ouro com bastante profusão quando os meios o +permittiam. D'aqui ainda uma outra grande divisão dos elementos +decorativos e desenho dos detalhes. + +Não é pois para estranhar que as _pinturas historicas e legendarias_ +tivessem tido muita voga durante o periodo roman, vindo a ser bastante +raras nos edificios do estylo ogival. As arcaduras decorativas debaixo +dos peitorís das janellas inferiores, são muitas vezes as unicas +superficies convenientes para terem pinturas com assumptos, e mesmo esse +espaço é muito limitado e regularmente dividido em pequenos +compartimentos por columnadas ou nervuras, sobre as quaes assentam as +archivoltas das arcaduras. As pinturas das arcaduras decorativas +representam muitas vezes personagens isolados. + +A influencia das tradições byzantinas sobre a arte occidental é +manifesta durante todo o tempo do periodo roman. Todavia, se desde o XII +seculo se observa no _desenho_ uma tendencia a abandonar os typos +byzantinos, não foi senão nos seculos seguintes que o caracter das +pinturas mudou completamente no Occidente. Nas figuras das pinturas +muraes, como nas outras que ornam as miniaturas dos manuscriptos, se +observa uma transformação cada vez mais visivel no que respeita ao +estylo do desenho. Este se desprende insensivelmente das formas +tradicionaes afim de adquirir maior liberdade. As attitudes veem a ser +mais variadas, o gesto mais natural, o caracter das cabeças mais +individual, a expressão dos rostos mais viva ou mais serena conforme as +situações. Uma tendencia ao naturalismo principia a apparecer desde o +começo do XIII seculo, e torna-se mais notavel nos seculos seguintes. + +Na _colorisação_ succederam, tanto como no desenho, transformações +successivas durante o periodo ogival. Nas pinturas muraes do periodo +roman, os tons claros são frequentes, e seu aspecto é geralmente suave. + +No XIII seculo, a colorisação teve, na _pintura decorativa_, as mesmas +transformações que na pintura historica e legendaria. Nos edificios +romans, em que as janellas eram relativamente pequenas e envidraçadas as +mais das vezes com vidros brancos ou muito claros, a luz diffusa e pouco +dilatada dos fundos podia-se usar para a pintura decorativa, de tons +brilhantes e brandos ao mesmo tempo; porém, quando, no XIII seculo, os +vãos das janellas se alargaram e tiveram vidraças extremamente +coloridas, esses tons suaves ficaram inteiramente sumidos pela +intensidade da colorisação das novas vidraças. O azul e o encarnado, +entrando com maior emprego na composição das vidraças pintadas, davam um +aspecto turvo aos tons claros e terreos ás pinturas: os verdes, por +exemplo, ficavam pardos e baços; os brancos, e em geral todos os tons +claros, ficavam estriados. Com os vidros coloridos, foi preciso +necessariamente mudar a gamma de colorisação das pinturas muraes, +fazendo uso de tons brilhantes e fortes. Além d'isso, os tons, para +terem toda a sua apparencia, devem ser acompanhados e contornados com +traços pretos. É assim que se veem n'esta epocha as nervuras, os fechos +das abobadas, e muitas vezes mesmo os tympanos das abobadas pintados com +vivas côres. O uso de destacar o vertice das nervuras das abobadas +servindo-se de côres vivas e com desenho chaveiroado continuou durante +todo o tempo do periodo ogival. + +No XIV seculo e durante a primeira metade do XV seculo, as pinturas de +decoração por baixo dos peitorís das janellas inferiores, muitas vezes +representavam pannos de armações. No XV seculo, viam-se bastantes vezes +sobre as paredes das capellas dedicadas a um santo, os attributos +caracteristicos d'esse santo, dispostos symetricamente sobre um fundo +colorido. Descobriram-se, ha pouco tempo, pinturas d'este genero n'uma +egreja de Bruxellas. + +Motivos de economia e, nas egrejas dos monges de Cister, prescripções da +regra monastica fizeram que por vezes tambem se empregasse um modo de +pintura de decoração muito simples, consistindo na imitação das pedras +de construcção: traçavam-se sobre fundo mais ou menos claro traços de +côres differentes, pardos, encarnados ou amarellos, sobrepostos, +representando as juntas dos apparelhos, e algumas vezes com +ornamentação. + +Da mesma maneira que a pintura historica e legendaria, a pintura de +decoração da idade media não se servia da perspectiva; nem conservava +nos monumentos as paredes lisas e opacas, não procurando affastal-as, +por assim dizer, do espectador pela illusão da perspectiva linear e +aerea. São principalmente as pinturas representando as formas +architectonicas, por exemplo as arcaduras e columnas, que mostram não +ter o artista nenhuma intenção de disfarçar a ornamentação em relevo; o +que elle pretende é sómente um effeito de decoração, não pensa por +nenhum modo em produzir exactamente as dimensões relativas, o modelo, +apparencia real com relevos, molduras, columnas, capiteis; contenta-se +de apresentar essas formas para servirem a dar mais attractivo aos +monumentos. + +Muito poucos monumentos do periodo ogival têem conservado as suas +pinturas bastante completas para se poder formar uma idéa cabal do +systema empregado e do resultado obtido. A mais notavel de todas pela +esplendida decoração, e além d'isso pela sua restauração tão habil +quanto perfeita, é a da Capella Santa de Paris. + +A estatuaria e a esculptura ornamental seguem o systema geral da +decoração pictorica; tanto assim, que muitas estatuas e baixos relevos +têem conservado até ao presente bastantes vestigios de dourados e +polychromia, concorrendo para se harmonisarem com as vidraças pintadas e +as pinturas a fresco das paredes. + +A decadencia da pintura monumental, decoração historica e legendaria, +data da ultima metade do XV seculo; vindo a ser completa desde o +principio do seculo seguinte. As pinturas das abobadas das egrejas não +vão além do XVI seculo. + +_Cruz de consagração_. O Pontifical romano prescreve que, para a +dedicação de uma egreja, doze cruzes serão pintadas ou esculpidas sobre +as columnas ou paredes internas do edificio. Estas cruzes, que o Prelado +consagrante unge com os Santos oleos, devem ficar apparentes. Desde o +periodo roman, estabeleceu-se o uso de ornar essas cruzes, que +geralmente eram pintadas. As cruzes de consagração datam do periodo +roman e vieram a ser bastante raras; conservam-se muito singulares no +oratorio carlovingiano de Nimégue. Encontraram-se em grande numero da +epocha ogival debaixo de grossas _camadas de cal_ na parte interna das +egrejas antigas, que ficaram escondidas na occasião do renascimento. +Todas são executadas com grande esmero e esplendidamente coloridas. + +Acontece ás vezes que as doze cruzes de consagração do XIII e XIV +seculos são sustentadas pelas figuras dos Apostolos pintados ou em +esculptura. + + +*Altares, tabernaculos, piscinas, cadeiras do côro, bancos para os +celebrantes, tribunas e separações da capella-mór* + + +_Altares_. Como já explicámos, o altar verdadeiramente designado é uma +mesa de pedra sobre a qual o padre diz a missa. Sem esta mesa o altar +não existe; ella e só ella, forma, todo o altar. Esta mesa é de pedra, +porque o altar é a imagem e o symbolo de Jesus Christo em pessoa. +Portanto, durante os oito primeiros seculos da nossa era, a egreja quiz, +pela veneração por este famoso symbolismo, que o altar ficasse +inteiramente independente; prohibiu severamente que n'elle se pozesse o +mais simples objecto, salvo o livro dos Evangelhos, a custodia +eucharistica com as divinas hostias. No correr do IX, o Papa Leão IV +permittiu que se collocassem reliquarios contendo reliquias de santos. +Quando o altar é formado de um corpo macisso cubico, o que tinha logar +muitas vezes durante o periodo Latino e Roman, os seus lados eram +cobertos com laminas de ouro, prata e de cobre dourado e esmaltado, ou +ornados de esculpturas e de pinturas, ou ainda revestidos de estofos +preciosos. + +Algumas vezes, principalmente nas grandes egrejas, o altar estava +collocado debaixo de um baldaquino sustentado por quatro columnas, entre +as quaes se suspendia, sobre varões, pannos cortinas, que se corriam +durante certas partes da missa afim de occultar os sacerdotes da vista +dos fieis. No final do XI seculo, introduziu-se tambem o uso dos +_retabulos_. + +Devemos notar, que todos estes accessorios eram ideiados e dispostos de +maneira a não obstar por nenhum modo ao symbolismo sublime do altar. + +Explicaremos successivamente, o _altar_ com _a sua verdadeira fórma_, os +_frontaes_ dos altares, _baldaquino_, os _cortinados_ e os _retabulos_ +do periodo ogival. + +_O altar assim designado_. Como os do periodo roman, os altares da epoca +ogival compunham-se as mais das vezes de um simples macisso de +alvenaria, apresentando regularmente uma especie de ornamentação pintada +ou esculpida. Estes macissos estavam rodeados de tapeçarias cujas côres +mudavam nos diversos dias de festa. Algumas vezes, porém poucas, se +decoravam os lados nús d'estes altares com arcaduras fingidas, cujos +arcos assentavam sobre columnasinhas ou pilares embebidos na parede; as +arcaduras tinham pinturas historiadas e decorativas, ou estatuas e +baixos relevos. + +Nos altares cheios ou macissos, decorados de arcaduras, estas eram +formadas no XIII e no XIV seculos por ogivas equilateraes ou arcos +traçados por tres centros; no XV seculo por ogivas inflexas ou postas a +pár, e no XVI por arcos abatidos ou de volta inteira. + +Na idade media os altares eram sempre de pedra, nunca de madeira. +Consagravam-se ao mesmo tempo que a egreja ou a capella: não havia então +as _pedras aras_, bentas, que se podiam assentar depois na meza de um +altar sem estar benzido, e como presentemente se usa muitas vezes. + +O altar mór das egrejas cathedraes, conservou durante quasi todo o +periodo ogival, uma fórma simples e positivamente symbolica. Em geral ou +era sem retabulo, ou ficava-lhe por cima um retabulo de pouca altura. +Tinha um crucifixo, o livro dos Evangelhos, dois castiçaes, e ás vezes +um tabernaculo para a conservação da Eucharistia. Outra maneira de +reservar o Santissimo Sacramento usada em certos paizes pelo menos desde +o XIII seculo, foi aquella cuja recordação se conservou n'um curioso +quadro do XIII seculo, representando o altar mór da antiga cathedral +d'Arras com todos os seus accessorios. Uma hastea quadrada, collocada +por detraz do altar, que se eleva em dois andares, a uma grande altura, +tem por remate um pinaculo sobre o qual ha um crucifixo. Em meia altura +da hastea ha um bello baculo ficando a sua voluta suspensa no meio de +uma corrente, e a custodia eucharistica é formada com o feitio de +torrinha. + +Nas egrejas, cathedraes e abbadias, havia, como em muitas egrejas +romans, um altar para reliquias, ao fundo da capella mór, por detraz do +altar proximo do abside oriental da egreja. + +Os grandes reliquarios costumavam a ficar expostos detraz do altar, de +modo a deixar passar as pessoas por baixo; ás vezes tinham um docel. + +_Frontaes_. São cortinados de seda que cobrem tambem os lados verticaes +de um altar, e algumas vezes o retabulo; como se usa ainda hoje em +muitos paizes. Designam-se vulgarmente com o nome de _antependium_. Na +idade media quasi todos os altares tinham frontaes. Esses frontaes eram +cobertos com fazenda de custo; algumas vezes apresentavam laminas de +ouro, prata e cobre dourado e esmaltado, ou almofadas de madeira +cobertas de pinturas. + +Os frontaes metallicos, assaz communs durante os periodos Latino e +Roman, vieram a ser mais raros a começar do final do XII seculo, e pouco +a pouco o seu uso foi completamente abandonado. Durante a epocha ogival, +os frontaes com estofo fôram, por assim dizer, os unicos empregados. A +sua côr condizia com as vestimentas lithurgicas e mudava, por +conseguinte, conforme os dias festivos. Havia de linho, seda e mesmo de +veludo; os mais sumptuosos eram todos bordados e ornados de pedras +preciosas. Representavam figuras de Santos e assumptos historicos e +legendarios. + +_Baldaquino_. O uso do baldaquino cobrindo o altar em signal de +veneração, foi bastante geral até ao XII seculo; mas ficou quasi +abandonado na Belgica e França durante o periodo ogival; na Europa +Occidental e Septentrional não se serviram mais do baldaquino n'esta +epocha, como summidade dos reliquarios. + +Na Italia, em Roma, n'este paiz onde o estylo ogival nunca teve +principio, vê-se ainda um grande numero de baldaquinos da epocha ogival. +Os mais notaveis são os de S. Paulo fóra dos muros, os de S. João, de +Santa Maria no Trastever, Santa Maria em Cosmedin e de Santa Cecilia. + +Na França e na Belgica suppriam algumas vezes a falta do baldaquino, +suspendendo por cima do altar um docel esculpido ou forrado com estofo +de custo. + +O baldaquino parece-nos apresentar a maneira mais adequada para inspirar +aos fieis o respeito e a veneração devida ao altar, symbolo do Salvador. +Muito melhor que todos os outros accessorios, sem exceptuar o retabulo, +preenchia este fim resguardando o altar, sem todavia se confundir com +elle, e conservando-lhe assim toda a sua significação symbolica. O +retabulo, pelo contrario, liga de certo modo o altar fazendo parte +d'elle, desvia a attenção das pessoas para o accessorio com grande perda +do objecto principal, que é o altar apropriadamente assim chamado. + +_Cortinas_. Chamam-se cortinas a armação suspensa nos dois lados do +altar, e por detraz do retabulo quando fôr pouco alto. Essas cortinas, +da mesma maneira que os frontaes, eram geralmente muito simples; algumas +vezes, todavia, representavam figuras, quer no tecido, quer nos +bordados, ornamentação, figuras e objectos religiosos. + +Ficavam estas cortinas prezas por varões apoiados muitas vezes em quatro +ou seis columnasinhas de cobre ou de madeira, encimadas de figuras de +anjos, tendo na mão luzes ou differentes instrumentos da paixão. A côr +das cortinas mudava conforme os dias de festa e as differentes occasiões +do anno lithurgico. + +Além das cortinas do altar, serviam-se tambem, durante a idade media, de +duas outras especies de armação lithurgica. Eram: 1.^o a grande cortina +que se suspendia durante a quaresma na entrada da capella-mór ou do +presbyterio, e que se designava _o véo do templo_; 2.^o os véos que +serviam na mesma occasião nos crucifixos, retabulos e imagens, eram +designados pelo nome _véos de quaresma_. + +_Retabulos_. Como já indicámos, o uso dos retabulos foi introduzido no +final do XI seculo. No começo collocavam-os sobre os altares das +reliquias e os altares de segunda classe; ficavam encostados á tribuna +ou postos no cruzeiro e nas capellas ornando a capella-mór. Nas egrejas +matrizes, collegiaes e monasticas de primeira ordem, o altar-mór ficava +quasi sempre sem ter retabulo, pelo menos durante todo o seculo XIII. Em +França, Belgica, Allemanha, Inglaterra e nos outros paizes +septentrionaes da Europa, adoptou-se no XIV seculo, depois que a cadeira +do bispo ou do abbade e as cadeiras do côro dos conegos ou dos frades, +que até então ficavam por detraz do altar-mór ao correr da parede do +hemicyclo obsial, foram mudados, para diante do sanctuario sobre os dois +lados do côro, isto é, para o logar onde se vê presentemente nas egrejas +do Norte. + +Durante o periodo ogival serviram-se de diversa qualidade de materiaes +para os retabulos. O mais antigo era o metal; como n'aquelles do periodo +roman a cantaria (excepcionalmente a madeira), substituiu o metal. Desde +a ultima metade do XIII seculo, os retabulos de cantaria parece terem +sido preferidos. No meiado do seculo seguinte, os retabulos de madeira +com obra de talha foram mais adoptados, e no XV seculo, substituiram +quasi completamenle os retabulos de cantaria. Principiaram, todavia, já +n'essa epocha, a introduzir as almofadas pintadas, em fórma de +_trypticos_, que, no meiado do XVI seculo supplantaram, para assim +dizer, totalmente, os retabulos com obra de talha. + +As portas que os retabulos haviam tido muitas vezes desde o XIV seculo, +tiveram no principio ornamentação de esculptura na face interior, e +pinturas na exterior. Porém o peso das portas com ornatos compostos de +estatuas ou baixo-relevos tornavam esse appendice muito difficil, e +mesmo por vezes como perigoso, quando era preciso abrir ou fechar o +retabulo; preferiram pois d'ali a pouco as pinturas para decoração +d'essas duas frentes das portas. + +Os retabulos não apresentavam a mesma _fórma_ durante todo o periodo +ogival. Quasi sempre com pouca altura no começo, tendo tambem pouca +grossura. Os mais antigos eram muitas vezes rectangulares: algumas vezes +comtudo a sua parte central tinha mais altura. Esta ultima fórma, +principiaram-n'a a usar no meiado do XIII seculo; conservou-se em alguns +paizes, até o meiado do XV seculo. + +O uso dos retabulos de madeira com obra de talha introduziu-se pouco a +pouco no XIV seculo, principalmente na Belgica. Desde o principio, +tiveram muitas vezes portas. Esta circumstancia lhe fez dar, como aos +retabulos pintados tendo portas, o nome de _tryptycos_ ou _polyptycos_, +conforme tinham tres ou maior numero d'esses appendices. + +Na Belgica, França, Inglaterra no XV seculo, e na Europa central e +meridional já durante o seculo precedente, os retabulos perderam a bella +e elegante simplicidade que os distinguiam antes. Os seus contornos e +subdivisões se complicam cada vez mais, á proporção que se aproximam do +final do periodo ogival. Tinham por remate, no XIII seculo e no XIV +seculo, linhas horisontaes e sem nenhum adorno no cimo; os caixilhos dos +retabulos do XV seculo passam depois por transições com mistura de +linhas rectas e curvas para chegar por fim ás ogivas de requebro, arcos +unidos de volta abatida e volta de sarapanel com curvas de todo o genero +que ornavam muitas vezes no XVI seculo de crochetes e florões; chegando +mesmo a rematar o retabulo com torrinhas e pinaculos, estatuas e +enlaçamentos do feitio de firmas. + +Devemos todavia notar que as formas dos moldurados do XIII e XIV seculo +se encontram ainda no XV e mesmo no XVI seculo, principalmente nos +triptycos pintados. Os moldurados d'este ultimo seculo apresentam sempre +maior simplicidade que os dos retabulos com obra de talha. + +_Os assumptos representados sobre os retabulos_, eram tirados da +historia do antigo e novo testamento ou das lendas dos santos. No XII +seculo e no XIII, ornavam-se os retabulos quer de baixos relevos, quer +de estatuasinhas collocadas em arcaduras; um medalhão central de forma +quadrilobada ou de aureola se via as mais das vezes no centro do +retabulo, tendo a imagem de Jesus Christo na cruz ou assentado sobre o +arco-iris. No XV seculo, as arcaduras não apparecem senão poucas vezes; +quasi sempre, n'esta epoca, o retabulo esta dividido em muitas series +verticaes e horizontaes com as divisões cheias de baixos relevos +sobrepostos uns aos outros. A representação da cruxificação com a Virgem +Nossa Senhora e S. José, com os dois ladrões e grupos de personagens, +occupa bastantes vezes o compartimento central, commummente mais alto e +por vezes tambem mais largo que os compartimentos inferiores. + +Os retabulos estavam cobertos, em certas occasiões, por frontaes +similhantes aos dos altares. Muitos _retabulos pintados_ do periodo +ogival se têem conservado até ao presente. Arrancados quasi todos ao +logar que occupavam primitivamente detraz dos altares, apparecem agora +como paineis nos museus de pinturas ou estão dependurados nas paredes +internas das egrejas. + +As obras primas dos pintores do XIV, do XV e do principio do XVI seculo, +não são como os antigos retabulos em forma de triptyco. + +_Os retabulos esculpidos_ foram usados simultaneamente com os retabulos +pintados. Os que se fizeram na Belgica durante o XV seculo e os +primeiros annos do XVI seculo compunham-se quasi sempre de um certo +numero de grupos com mais ou menos alto relevo, em caixilhos ou +collocados debaixo de docel delicadamente recortado; os dos outros +paizes, pelo contrario, e particularmente os da Europa Oriental, +compõem-se de estatuas perfiladas no compartimento central, e muitas +vezes tambem sobre as portas. Ainda que entre os retabulos belgas do +ultimo seculo do periodo ogival apparecem alguns de execução grosseira e +sem nenhum merito, quasi todos, todavia apresentam bastante apreço +artistico e testemunham o estado florescente da esculptura n'esse +periodo. + +Os retabulos de madeira com talha eram muitas vezes dourados e pintados +de côres. Convém advertir que as letras que, n'esses retabulos, se veem +frequentemente sobre os bordados das vestimentas dos personagens, não +apresentam commummente nenhuma significação, tendo sido ahi collocadas +unicamente com o fim decorativo. + +No final do periodo ogival, o retabulo firma-se quasi sempre sobre um +sóco de 20 a 30 centimetros de altura, e por este modo se liga ao altar. + +Esta base se designa _predella_, nome que se dá egualmente aos +degrausinhos para os castiçaes do throno dos altares modernos. O lado +superior, que corresponde á base do retabulo, é muitas vezes mais +comprido que o lado interior; n'este caso a differença de tamanho é +disfarçada por um arco de circulo saliente. + +A _predella_ (banqueta) é muitas vezes ornada do busto do Redemptor e +dos doze apostolos. + +Das observações precedentes resulta que, não obstante as dimensões por +vezes exageradas, o retabulo parte inteiramente accessoria, conservou +até aos fins do periodo ogival, o seu caracter essencial. A maior parte +dos artistas modernos que se encarregam de compor os altares no estylo +ogival não se preoccupam de forma alguma com o primitivo destino do +retabulo, a que dão impropriamente o nome de altar. Desconhecendo a +verdadeira significação do retabulo, substituem-lhe tablados ridiculos, +muitas vezes de _madeira_, com côr de _pedra!!!_ compostos de socos, +arcaduras e pinaculos, onde os symbolos religiosos, as imagens, e os +baixos relevos são inteiramente supprimidos ou estão mesquinhamente +representados. Muitas vezes estes symbolos, estas imagens, e estes +assumptos são executados apesar das regras da iconographia christã, +regras das quaes os architectos, esculptores e pintores _não teem +geralmente o incommodo de adquirir as noções as mais elementares_! É +tambem para lastimar, que nas restaurações das antigas egrejas, não +encarreguem os retabulos _triptycos_ ao talento dos pintores que se +occupam de trabalhos religiosos. + +_Sacrarios_. Durante quasi todo o periodo ogival não se reservava, +depois da celebração da missa, senão a quantidade de hostias consagradas +e necessarias para levar o viatico aos enfermos em perigo de vida, e +para expor o Santissimo Sacramento á veneração dos fieis. + +Quando as pessoas que assistiam aos officios divinos queriam commungar, +approximavam-se da mesa da communhão durante a missa, e recebiam _uma +parte das sacramentaes_ que o padre acabava de consagrar. Não se deve, +pois, estranhar que os vasos sagrados destinados á veneração da Santa +Eucharistia e o logar onde os depositavam tivessem pequenas dimensões +durante o XIII e o XIV seculos. + +Conservavam a Santa Eucharistia de muitas maneiras: + +1.^o Nas egrejas dos paizes meridionaes, onde a pyxide se manteve em uso +durante o periodo ogival, continuaram a ficar suspensos, como se fazia +precedentemente, o calix e a pyxide com as hostias. + +2.^o Em França e na Belgica e nos paizes septentrionaes da Europa +serviram-se muitas vezes durante o XIII e o XIV seculos, da maneira +indicada na pag. 272. As hostias encerradas em uma pyxide ou dentro de +uma pomba dourada e esmaltada, ficavam collocadas n'uma pequena torre ou +pequena tenda (_tabernaculum_) em estofos custozos, que se suspendiam, +por cima do altar, n'um baculo de bronze ou de prata. + +3.^o Algumas vezes conservam-se as hostias em cofres de forma de arca, +relicario ou torre. Estes cofres eram transportados e depositados no +sacrario, ou sacristia, ora collocados de vez sobre o altar. + +4.^o No maior numero de casos, principalmente nas egrejas de segunda e +terceira ordem, a Santa Eucharistia ficava em armarios construidos +detraz ou ao lado do altar. O uso de collocar as hostias nos +tabernaculos em forma de armario, parece ter sido muito geral na +Belgica, pelo menos depois do XIV seculo. + +5.^o No XIV e XV seculos, construiram tambem, para a reserva +Eucharistica, tabernaculos de fórma de torre, inteiramente isolados e ao +lado do Evangelho. Os tabernaculos d'este genero vieram a ser communs na +Belgica e na Allemanha desde o XV seculo. Encontram-se muitos n'este +ultimo paiz que são do XIV seculo. + +O maior numero dos tabernaculos com a fórma de torre são de pedra; +encontram-se não obstante, mas excepcionalmente, de madeira ou mesmo de +metal. + +Do lado da Epistola, defronte do tabernaculo, se faz muitas vezes na +parede um armario imitando a fórma de tabernaculo, porém mais pequeno e +muito menos ornado. + +Os armarios feitos na grossura da parede tinham a frente para o altar +sendo destinados a guardar as alfayas e vestuario dos ecclesiasticos que +deviam celebrar a missa; encontram-se algumas vezes, nas capellas que +guarnecem os lados da capella-mór ou da nave. + +_Piscinas_. O uso das piscinas ou pias abertas na parede do lado da +Epistola, que havia durante o periodo roman, foi conservado tambem na +epocha ogival. + +No XIII seculo, a maior parte das piscinas eram _geminadas_, isto é +compostas de duas pias ou orificios para passarem as aguas por uma bica, +quer por baixo do pavimento da egreja, quer por fóra do pavimento do +edificio. Uma d'essas pias era destinada a receber as aguas de uso, a +outra, as oblações das mãos do sacerdote e mesmo as do calix; porque, +ainda n'esta epocha, as oblações do calix eram lançadas nas piscinas, e +não bebidas pelo padre. Encontram-se todavia ainda agora piscinas +_simples_, isto é tendo um unico orificio para sahir a agua. + +As piscinas gemeas fingem geralmente a fórma de um duplo nicho, separado +por uma columnasinha. Muitas vezes, nas egrejas ornadas de arcaduras +fingidas debaixo do peitoril das janellas, a piscina occupa duas +arcaduras proximas, e une-se a ellas; n'este caso, a columnasinha posta +entre as duas arcaduras forma a divisão dos dois nichos da piscina. + +As piscinas do XIV seculo não differem muito das outras do seculo +precedente senão pelo genero da ornamentação architectonica e +esculptura, que harmonisa com o estylo da epocha. As mais das vezes são +gemeas, posto que o ecclesiastico beba, desde então, a agua de que se +serve para fazer a oblação do calix. + +No XV, e mesmo já no final do XIV seculo, as piscinas tornaram-se raras +e acabaram proximo do fim do periodo ogival, para desapparecerem +completamente. + +_Cadeiras de côro_. Estas cadeiras collocadas no côro das egrejas eram +destinadas ás dignidades ecclesiasticas assistentes aos officios +religiosos. Durante o periodo roman estas cadeiras eram geralmente de +pedra; porém desde o fim do XV seculo, sempre se fizeram de madeira. + +As cadeiras de madeira compõem-se de differentes partes, tendo cada uma +um nome para a designar. + +As separações de duas cadeiras são formadas por curvas elegantes com +ornamentação de obra de talha na sua parte superior, que lhes dão graça +e belleza. Os _arrimos_ são apoios horisontaes que limitam as cadeiras +na parte superior; geralmente esta parte tem bastante largura com fórma +inclinada, podendo as pessoas de pé encostarem-se facilmente. + +Alguns auctores dão impropriamente o nome de encosto á _rampa curva_ da +divisão da cadeira, sobre o qual se apoia o cotovello, quando se está +sentado. A taboa movediça servindo de assento gira sobre gonzos ou +eixos, e póde-se abaixar e levantar como se quizer. Tem, por baixo uma +misula que se chama _misericordia_ ou _paciencia_, sobre a qual se póde +sentar, _fingindo estar a pessoa de pé_, quando a taboa que pertence ao +assento está levantada. + +No côro das cathedraes, egrejas collegiaes e abbaciaes, estas cadeiras +ficam collocadas á direita ou esquerda do fundo do côro em duplo renque +e altura: cadeiras altas para os conegos e religiosos, cadeiras mais +baixas para os ecclesiasticos de cathegoria inferior ou de congregação. +O piso das cadeiras superiores fica alto com dois ou mais degraus acima +do chão; em quanto as cadeiras inferiores assentam sobre o solo ou sobre +um unico degrau. As pessoas sentadas em cima podem mais facilmente que +as debaixo vêr o altar. As costas das cadeiras do primeiro renque ficam +muito baixas e servem de genuflexorio aos conegos que estiverem nas +cadeiras superiores; as costas d'estas são muitas vezes inteiramente +semilhantes das cadeiras baixas, outras teem por cima obra de madeira +bastante alta e limitada por um remate em sacada com a fórma de um +docel. As pessoas que occupam as cadeiras baixas se ajoelham sobre o +chão com o rosto virado para as costas de suas cadeiras. De distancia em +distancia a fila das cadeiras baixas fica interrompida pela suppressão +de uma cadeira para dar passagem aos que vão assentar-se nas cadeiras +mais altas; estas aberturas chamam-se _entradas_. Encontram-se tambem +cadeiras com genuflexorios. + +As cadeiras do côro do XIII seculo são notaveis tanto pela sua singeleza +como pela sua elegancia. Duas columnasinhas, uma na parte inferior e +outra na parte superior, ornam quasi sempre os lados de cada divisão +d'estas cadeiras. As mais sumptuosas têem além d'isso, esculpturas sobre +as _misericordias_ e nos remates, que no quarto de circulo. E reunem ás +columnasinhas servindo de apoio aos braços das cadeiras. Estas +ornamentações constam de folhagens, fructos e algumas vezes de figuras +de animaes reaes ou phantasticos. + +As cadeiras do côro do XIV seculo apresentam o mesmo feitio que as do +XIII seculo; só com a differença de maior ostentação na obra de talha. + +Muitas vezes no XIII seculo, e mesmo ainda no princípio do XIV seculo, +estas cadeiras não tinham costas. Quando as apresentavam eram com uma +almofada e arcaduras, tendo regularmente um tecto lavrado similhante a +um docel, um pouco saliente na face interna e com poucas esculpturas. No +XIV seculo, esse tecto lavrado apparece mais apparatoso; cada vez mais +saliente, descança sobre reprezas, acabando em forma de curvatura. Nos +dias de grandes festas, suspendiam-se em frente, no cimo do encosto, +sedas de côres, bordados e pannos de raz. + +Na mesma epocha, os lados superiores das cadeiras do côro, mesmo quando +não tenham alto encosto, cobrem-se de diversas esculpturas, +representando estatuasinhas, animaes reaes ou phantasticos, e uma +decoração vegetal muito vistosa. + +As cadeiras do côro do XV seculo distinguem-se geralmente das +precedentes por uma abundancia extraordinaria no ornato esculptural. São +cheias de bastante decoração e executadas com mais primor e delicadeza +que nos seculos XIII e XIV. Os seus altos encostos compõem-se quasi +sempre de baixo relevos dentro de arcaduras com redentes feitos +delicadamente, e cada cadeira tem um docel em que um pinaculo vasado +muito alto forma a extremidade. Os baixos relevos das costas representam +assumptos tirados da Biblia, da historia ecclesiastica ou da legenda; +successos da vida de Jesus Christo ou de Nossa Senhora são representados +quasi sempre. As esculpturas dos lados internos das cadeiras e das +misericordias apresentam muitas vezes figuras com carantonhas, animaes +reaes ou phantasticos, symbolisando os vicios. Poucas vezes as +esculpturas das cadeiras representam santos ou assumptos religiosos. + +Na Belgica ha um limitado numero de cadeiras do côro do XV e XVI +seculos. + +Em França, as mais notaveis são as da cathedral d'Amiens (XV seculo), e +d'Auch (principio do XVI seculo), e na Allemanha, as da cathedral d'Ulm, +com esculpturas de Jorge Syrlino de 1474 a 1476; em Portugal as da Sé +Velha de Coimbra. + +_Bancos e docéis dos celebrantes_. O banco dos officiantes era destinado +para o celebrante, diacono e subdiacono se assentarem emquanto se canta +o _Gloria_, _Credo_, e _Dies irae_; servia ao mesmo fim as poltronas que +é costume collocar presentemente no côro proximo dos degraus do altar. +Estes bancos, que havia na idade media em todas as egrejas de primeira e +segunda ordem, estavam regularmente no _presbyterium_, do lado da +Epistola defronte do tabernaculo, e apresentavam uma certa analogia com +as cadeiras do côro. Conforme as prescripções lithurgicas, distinguia-se +por uma grande simplicidade; eram lisos e sem subdivisões. Algumas +vezes, todavia, se compunha de tres cadeiras mais ou menos similhantes +ás do côro. Este banco, liso ou subdividido, tinha muitas vezes um docel +cheio de esculpturas, formado por um nicho aberto na grossura da parede +do côro, quando este não tinha naves lateraes ou sustentado por columnas +e de paredes mestras quando o côro estava rodeado de naves lateraes. + +_Jubes, Screens[4] e Cruzes triumphales_. Antigamente chamava-se _Jube_ +á tribuna (em latim _doxale_) especie de barreira com tres e mais +arcadas esplendidamente ornadas que nas egrejas separava o côro das +naves; tinha por cima uma especie de galeria ou tribuna com +_guarda-peito_, havendo na extremidade uma ou duas escadas em espiral, +em cuja tribuna um abbade vinha lêr o Evangelho, depois de ter +pronunciado a formula: _Jube, Domine, benedicere_. + +D'ahi vem o nome _Jube_. + +As escadas ficavam algumas vezes escondidas detraz dos pilares dentro de +caixas rendilhadas com linda decoração. + +Durante a primeira parte do periodo ogival, a arcada do meio estava +tapada por uma parede, as duas outras arcadas ficavam abertas, tendo +portas ou grades. Mais tarde mudou-se em alguns paizes esta disposição +primitiva; na Belgica, por exemplo, na França e em certas partes da +Allemanha, a arcada central só ficou aberta com uma grade de pau ou de +ferro servindo de porta; taparam com parede as duas outras lateraes +encostando-lhe altares. + +Na primeira metade do XIII seculo, os _Jubes_ eram raros. Foi sómente no +final d'este seculo, e principalmente durante os seculos seguintes que +se fizeram geralmente nas cathedraes, collegiadas, e nas abbaciaes. No +XV e no XVI seculo tambem, os collocaram nas egrejas parochiaes, mais +importantes. Alguns se teem conservado na Belgica até ao presente: o +mais antigo é da era 1490. + +O mais magestoso é o da cathedral de Milão. + +Os _jubes_ teem sempre proxima a _cruz triumphal_. Esta cruz, de grande +dimensão, é geralmente de madeira e ornada de pinturas e dourados. Os +seus quatro ramos com florões teem muitas vezes quadrilobos, nos quaes +estavam do lado da nave os symbolos dos quatro evangelistas, e do lado +do côro, os quatro doutores da egreja latina; S. Gregorio, S. Ambrosio, +S. Agostinho e S. Jeronymo. Ao pé da cruz estão as imagens de Nossa +Senhora, e do apostolo S. João; a primeira á direita, e a segunda á +esquerda. + +Antes da introducção dos _jubes_ a cruz triumphal estava igualmente +suspensa por tres correntes no meio do arco chamado _triumphal_, que +occupa a entrada da capella-mór. + +Havia tambem antigamente nas egrejas do periodo Latino e Roman uma +_haste_ (Tress). Era costume collocar nas basilicas entre o côro e a +parte reservada para o publico uma viga atravez do côro, sobre o qual se +punham luzes e tambem suspendiam lampadas, e tambem durante a quaresma, +servia para pôr o véu chamado _velum templi_. + +_Separações do côro_. A disposição dos antigos bancos da clerezia ao +comprimento da parede absidal do côro, ja descripto, não foi conservada +durante o periodo ogival, sendo em Italia e tambem em Portugal, onde +continua ainda, assim como em algumas egrejas da Allemanha, +principalmente nas cathedraes de Spire e de Mayence. + +Desde o XI seculo, a maior parte das abbadias da _Europa central e +occidental_ tinham, como já referimos, transferido para o cruzeiro, os +bancos, alem das cadeiras dos ecclesiasticos, que occupavam antes a +capella da abside. Mais tarde tambem a mesma mudança se introduziu pouco +a pouco nas cathedraes e nas collegiadas d'essas mesmas regiões, +principalmente depois da reunião das naves lateraes e capellas absides á +roda da capella mór. Os bancos de pedra do periodo roman transformados +em cadeiras do côro ou cadeiras de madeira, foram collocados diante do +sanctuario, sobre o lado d'esta parte da egreja. O côro ficou separado +das naves lateraes pelas barreiras, as mais das vezes de cantaria, +bastante alta, vedado por detraz com as cadeiras do côro collocadas +entre as columnas da capella-mór. A roda do sanctuario propriamente +chamado, ás vezes, recortavam aberturas, de maneira que as pessoas que +estivessem nas naves lateraes podessem vêr o altar, e outras vezes +tambem substituiam as barreiras da porta circular da capella-mór por +tumulos ou mausoléos. Nas grandes cathedraes, numerosas esculpturas em +alto relevo ornavam as partes lizas das separações tanto no exterior +como no interior da capella-mór. Alguns monumentos, por exemplo as +cathedraes de Paris e de Amiens, teem conservado, por completo ou em +parte, as suas antigas separações da capella-mór. + + +*Pulpitos e confessionarios* + + +_Pulpitos_. Durante os primeiros seculos da era christã, as tribunas do +alto onde se fazia a leitura do Evangelho e da Epistola, serviam ao +mesmo tempo de pulpito. + +Ao uso de prégar do alto da tribuna, veiu juntar-se o de um pulpito +saliente que se conservou na Europa central e occidental até ao final do +XV seculo. Por isso, os pulpitos anteriores ao meiado do XV seculo se +encontram mui raras vezes. Foi sómente no começo d'esta epocha que se +principiou a pôl-os isolados na nave principal das egrejas d'esta parte +da Europa. + +Os mais antigos pulpitos são quasi todos de pedra; no XV e XVI seculos +fizeram-se egualmente de madeira. + +O espaço dentro do pulpito, para o prégador, no periodo ogival é +geralmente hexagono e ornatado no cimo dos lados, ficando o sexto lado +reservado para a entrada n'elle; a decoração compõe-se de estatuas, +baixos relevos, e algumas vezes tambem, de simples desenhos geometricos +ou chammas. Vê-se com frequencia Jesus Christo e Nossa Senhora entre +quatro evangelistas ou os quatro doutores da egreja do Occidente, S. +Gregorio, Santo Ambrosio, Santo Agostinho e S. Jeronymo. + +Ha em Portugal um pulpito de pedra de admiravel composição, que pertence +á egreja de Santa Cruz de Coimbra, de que tirámos o modelo e figurou na +exposição universal de Paris em 1867; depois o museu de Londres quiz +compral-o, ao que nos oppozemos. + +O pulpito apoia-se por vezes sobre uma curva em sacada, sobre um macisso +de alvenaria ou sobre columnatas enfeixadas; as mais das vezes, todavia, +está assente sobre uma columnata ou sobre um pedunculo. Esta ultima +maneira foi mais commum no XV e no XVI seculo. Estes apoios eram ornados +com esculpturas, muitas vezes muito intrincadas conforme o uso adoptado +no final do periodo ogival. Na Allemanha haviam por vezes representado +as figuras de Adão, Eva ou Moysés em alto relevo nas frentes do pulpito. + +O sobreceu dos pulpitos principiou a servir no final do periodo ogival, +e mesmo não era muito imitado n'essa epocha. Veiu a ser de uso geral no +fim do XVI seculo. Os sobreceus do XV seculo têem geralmente a forma +d'uma pyramide, d'um coruchéo ou d'um campanariosinho. Na Inglaterra +vêem-se sobreceus sómente com uma simples guarnição. Esta ultima forma +nos parece a melhor, pois não causa a desagradavel vista do remate de +tanto vulto, que parece abafar a voz. Ha poucos exemplares de pulpitos +do periodo ogival. + +_Confessionarios_. Os confessionarios em que o confessor fica separado +do penitente por uma rotula, foram desconhecidos durante o periodo +ogival. N'essa epocha, o confessor collocava-se, para ouvir as +confissões, em uma poltrona ou nas cadeiras do côro, e o penitente +ajoelhava deante d'elle. A recordação d'esta maneira de se confessar foi +conservada nas miniaturas, paineis e gravuras do XV seculo. + +Foi proximo do final do XVI seculo que os confessionarios com rotula +foram introduzidos na Belgica. + + +*Capellas funereas, tumulos, campas, lanternas dos defunctos e cruz de +cemiterio* + + +_Capellas funereas_. Estas capellas funereas eram construidas isoladas +nos cemiterios durante o periodo ogival. São raras em quasi todos os +paizes. Não ha nenhuma na Belgica nem em Inglaterra. Em França vêem-se +algumas nos cemiterios bretões, e existe uma muito notavel, do XV +seculo, em Avioth nas _Ardennes_ francezas. É na Austria que são mais +communs. + +_Tumulos apparentes_. O uso de encerrar os cadaveres nos sarcophagos e +pôl-os sobre o solo ficou completamente abandonado no norte da Europa +desde o XIII seculo. + +Na Inglaterra, Belgica, Allemanha, e nas provincias septentrionaes da +França, os tumulos apparentes do periodo ogival são cenotaphios, +consistindo em socos de cantaria com massiços de alvenaria postos sobre +uma sepultura subterranea, tendo a effigie do finado. Compõem-se +geralmente, como no XIII seculo, de um sóco ou macisso coberto de uma +grande lousa, sobre a qual está deitada a estatua do defuncto. Este +estendido sobre uma cama ricamente disposta, apresentando todas as +insignias de sua dígnidade: os bispos e os abbades trazendo mitra e +baculo; os reis e principes, a corôa e o sceptro; os cavalleiros, o seu +escudo e a sua armadura. Os pés dos bispos e dos ecclesiasticos, e em +certos paizes tambem dos seculares, apoiam-se contra um dragão ou um +monstro phantastico; os dos clericaes, principes e nobres, contra um +leão, symbolo de coragem, e mesmo, ás vezes, como para as damas tendo os +pés sobre um rafeiro, emblema da fidelidade conjugal. Pequenas figuras +de anjos agitam thuribulos, sustentando tochas ou almofadas em que +descança a cabeça do personagem. Depois do XIII seculo, os anjos com +thuribulos tornaram-se raros. Durante muito tempo, a effigie do finado +não apresenta nenhum dos caracteres da morte. + +No XIII seculo e ainda no principio do XIV seculo, as estatuas deitadas +têem os olhos abertos e reproduzem os gestos e as attitudes dos +personagens vivos. Sómente depois do XIV seculo o defuncto principia a +ser representado morto ou adormecido, com os olhos fechados. + +Muitas vezes, columnatas reunidas por arcaduras são dispostas em roda do +sóco, no qual estão assentes; algumas vezes, mas, raramente, as +arcaduras são vasadas, e a estatua _deitada_ do finado occupa o _logar_ +do sóco supprimido. + +Os cenotaphios do periodo ogival são geralmente de pedra, poucas vezes +de cobre ou de outro metal. Os tumulos de pedra têem quasi um metro de +altura, em quanto que os sepulchros de metal, que se conservam até ao +presente têem apenas 50 centimetros acima do solo; todavia o unico de +metal que possue a Sé de Braga tem maior altura. + +Para evitar o estorvo nas egrejas, não se permittia, salvo raras vezes, +erguer-se um cenotaphio. Na capella-mór admittia-se o tumulo do fundador +ou de um bemfeitor distincto, collocando os dos outros personagens de +distincção nas capellas que cercam os lados do côro e da nave principal. +Estes monumentos apresentavam muitas vezes uma decoração de pinturas e +dourados. Alguns ficavam encostados á parede e dentro de um grande nicho +sob fórma de arcadura ogival; outros, e era o maior numero, ficavam +separados em todos os seus lados. + +_As campas com gravuras a traço_ tornaram-se vulgares desde o XIV +seculo. Muitas têem sido conservadas até ao presente, não obstante o +grande numero de causas de destruição, ás quaes têem ficado expostas +desde seis seculos. A maior parte estão ornadas de imagens do finado, +debaixo de arcaduras trilobadas do feitio de docel, muito simples e +sustentado por columnatas. Quasi sempre vê-se uma mão deitando a benção, +symbolo de Deus, sahida do cimo da ogiva; e anjos agitando thuribulos +occupam os _seguintes_ da arcadura. Sobre as campas dos bispos, dos +abbades e dos padres, vê-se tambem, algumas vezes, aos dois lados do +personagem, clerigos, ou anjos de pequeno tamanho, segurando em velas +accesas. + +Muito antes do XIII seculo, as campas têem, bastantes vezes ainda, como +durante o periodo roman, a forma de um trapezio, isto é, são mais +estreitas do lado dos pés. A inscripção que quasi sempre têem, forma +geralmente o contorno exterior da pedra, menos geral do que o +emmoldurado de ogiva; principia por uma cruz a inscripção e quasi no fim +do XIII seculo, ajuntam já por vezes, aos quatro angulos, os emblemas +dos evangelistas collocados nos quadrilobos. + +As campas dos tumulos do XIII seculo que não têem um emblema, um symbolo +ou um escudo com armarias, são bastante raras na Belgica. + +Sobre as campas do XIV seculo, a effigie do finado continua a ser +collocada debaixo de uma arcadura, poucas vezes trilobada, porém não +durante os primeiros annos. Sómente esta arcadura é muito mais carregada +de detalhes architectonicos do que precedentemente, taes como ridentes, +crochetes, florões, pinaculos e rosaes; além d'isso, as arcaduras +principiam a não ser sustentadas por columnatas com base e capitel, mas +sim por pés-direitos do feitio de contra-fortes ornados de pinaculos e +nichos, nos quaes se vêem pequenas figuras de homens. + +Quando uma unica campa cobre uma sepultura dupla ou tripla, as arcaduras +estão reunidas no numero de duas ou tres, e contéem, cada uma, sua +effigie. O leão, o cão e os outros symbolos, que acompanham quasi sempre +as estatuas deitadas dos cenotaphos, se vêem tambem sobre as campas do +XIV seculo. Estas são geralmente de fórma rectangular, e não têem o +feitio de um trapezio. Os anjos incensadores e ceroferários não se vêem +excepcionalmente a começar do XVI seculo. + +As arcaduras e o contorno com curvas em rampa que formam o remate +caracteristico dos moldurados do XIV e XV seculos, são regularmente +substituidos no XV seculo por docéis, representados em perspectiva e +muitas vezes compostos de ogivas inflexas com desenhos complicados; os +pinaculos, os nichos, as rosaceas flammejantes se multiplicam sobre todo +o moldurado; além d'isso, os arcos-butantes apparecem para ligar os +docéis aos contrafortes. + +Será bom notar que os moldurados das campas do XIV e do XV seculos +apresentam a maior similhança com as decorações do mesmo genero que se +vêem nas vidraças pintadas contemporaneas. + +Como no XIII seculo, a inscripção apparece no XIV e no XV seculos sobre +a borda da campa e está inscripta entre duas linhas parallelas. Nos +angulos formados pela intersecção d'essas quatro linhas se vêem +quadrilobos com os emblemas dos evangelistas, ou tambem algumas vezes, +desde o começo do meiado do XIV seculo, as armarias; acontece mesmo que +a inscripção está, além d'isso, interrompida pelo escudo da armaria +sobre os seus lados mais compridos. + +Já explicámos que, quando são applicados para ornar os quatro angulos de +um quadrado ou de um rectangulo, os symbolos dos evangelistas põem-se, +pelo menos, até ao XIII seculo, da maneira seguinte: o homem alado no +angulo superior á _esquerda_ do espectador; a aguia á _direita_, o leão +no angulo inferior á _esquerda_ e o novilho á _direita_. No XIV seculo, +houve uma mudança; desde esta epocha, vê-se quasi geralmente a aguia no +_angulo superior esquerdo_, e o homem alado no _angulo superior +direito_. É ali tambem o logar que estes symbolos occupam sobre as +campas. + +Os caracteres das campas que acabamos de indicar por cada seculo do +periodo ogival, não são de tal maneira proprios como os que são mais +proximos da epocha indicada. Pelo contrario, acontece muitas vezes, +principalmente na Belgica, que as campas do XV seculo apresentam ainda, +por assim dizer, os caracteres que não se está acostumado a encontrar +n'outra parte nas campas do seculo precedente. Não é raro tambem achar +campas do XIII, XIV e XV seculos, nas quaes o ornamento architectural +seja moderado de detalhes, ou inteiramente os supprimiram. + +Em França quasi sempre e algumas vezes na Belgica, as carnes, em vez de +serem imitadas a traço, são represeutadas por embutidos de marmore ou de +metal. + +_Tumulos chatos de cobre_. Durante o periodo ogival, introduziu-se o uso +do cobre ou de laminas de latão sobre as quaes as linhas do desenho são +feitas a traços gravados bastante fundos, estando cheios com uma +substancia rezinosa de côr preta e de tom mate. Essas largas linhas +pretas se destacam perfeitamente sobre a superficie brilhante do metal +brunido ou adamascado, até mesmo dourado, cujo reflexo luzidio é muitas +vezes realçado pela armaria colorida em esmalte da composição da campa, +a qual fica solidamente fixa na grossura do cobre. Devido a estas +qualidades, os tumulos lizos em cobre contribuiam admiravelmente, assim +como o pavimento e as vidraças pintadas, para a decoração das egrejas. É +na Inglaterra e Flandres que têem sido mais communs durante toda a idade +media. + +Os tumulos chatos de cobre podem dividir-se em duas classes. A primeira, +de maior numero, comprehende as laminas de cantaria, quer de marmore ou +de gres, nas quaes a figura do finado fica recortada em _silhoeta_ na +lamina de metal, assim como differentes ornatos; as armarias, emblemas, +inscripções em feitio de fita, gravadas sobre tantas peças distinctas, +ficam embutidas e arrebitadas separadamente nos entalhes correspondentes +da pedra, designados _casements_ pelos auctores inglezes. A segunda +classe parece ter sido menos numerosa, porém contém especimens mais +bellos e preciosos. Acham-se comprehendidos n'ella os monumentos que +apparecem debaixo do aspecto de grandes placas de cobre, d'uma só peça, +mas que, na realidade, são muitas vezes compostas de muitas laminas +ajustadas, das quaes com grande habilidade ficam disfarçadas as juntas +na profundura dos traços. A figura do finado, geralmente de grandeza do +natural, representa-se de pé ou deitada. + +Os tumulos de latão consistem em grandes laminas soltas, não destinadas +a ser embutidas nas laminas de pedra, e que formam por si um todo +completo; foram communs na Belgica durante todo o periodo ogival; o seu +uso continuou, em certos sitios, até o XVII seculo. Na Allemanha e +igualmente no Norte da França tiveram acceitação. Sobre as laminas, não +sómente a figura do finado, como tambem os accessorios symbolicos e de +decoração que lhe servem, foram executadas da mesma maneira que sobre as +pedras das campas gravadas. Todavia, a composição do assumpto é +regularmente mais superior, e a execução mais esmerada que das outras; +os mais insignificantes detalhes do vestuario, os docéis do remate, as +pequenas figuras dos anjos e dos santos que os ornam muitas vezes assim +como os pés-direitos, todas as partes, em uma palavra, são feitas com +fidelidade, com arte e com delicadeza. Além d'isso, o fundo sobre o qual +se destaca a effigie do finado, em logar de ser lizo e sem ornato, como +sobre as pedras das campas gravadas, é regularmente adamascado, isto é, +coberto de ornatos differentes imitando os desenhos que apresentam +certos estofos orientaes; esses desenhos assemelham-se aos que se vêem á +roda dos personagens nas vidraças pintadas do XIV seculo. São compostos +de folhas do trevo, de quatro folhas, folhagens, côres matizadas, +figuras de animaes, gritos de guerra, ou com divisas muitas vezes +repetidas. Parece mesmo por vezes no XV e no XVI seculo, que os detalhes +architectonicos desapparecem completamente para dar logar aos fundos +adamascados. Finalmente, uma particularidade que apresentam ainda as +laminas de cobre funereas do XV e do XVI seculo, vem a ser que as +_phylactéres_ se veem muito mais frequentemente que sobre as pedras das +campas. Chama-se _phylactéres_ a bandeirolas compridas e estreitas, +saindo da boca das personagens ou estão seguras nas suas mãos, e sobre +as quaes está inscripta uma oração, uma divisa ou uma sentença. + +_Pequenos monumentos funereos do XV e do XVI seculo_. Além dos +cénotaphos, das campas e dos tumulos chatos de latão, erigiam-se tambem, +nos XV e XVI seculos, pequenos monumentos funereos de pedra ou latão, +encaixados na face da parede proxima do logar da sepultara. Estes +monumentos curiosos encontram-se, não só no interior das egrejas, mas +tambem nos claustros das cathedraes, collegiaes e mosteiros. Compõe-se +regularmente d'um epitaphio, por cima do qual se vê um assumpto +religioso, por exemplo, a SS. Trindade, a flagellação, a crucificação ou +qualquer scena da Paixão. Muitas vezes tambem se vê Nossa Senhora com o +Menino Jesus. O finado está regularmente representado ao lado da scena +principal, de joelhos em oração e por vezes acompanhado do santo da sua +devoção, o qual fica em pé por detraz d'elle e parece recommendal-o á +clemencia Divina; sobre a bandeirola saindo da boca na direcção da scena +principal, lêem-se frequentemente as palavras que é natural dirigir a +Deus ou aos santos, por exemplo: _Qui potes, oro, rei, Christe, mementa +mei_, e _O mater Dei, memento mei_. + +A scena religiosa está esculpida em relevo ou gravada a traço. Quando +feita em alto relevo, vê-se quasi sempre em um nicho ogival, aberto na +grossura da parede, e o epitaphio inscripto na parte inferior do nicho, +sobre uma pequena chapa de latão, de marmore ou de pedra. + +Nos baixos relevos e nas pedras gravadas a traço, o assumpto e o +epitaphio são geralmente collocados sobre uma unica pedra; ora n'uma, +ora n'outra occupa a maior parte. A scena é coberta por um docél +servindo de remate; algumas vezes, comtudo este docel não apparece. + +Não obstante as mutilações lamentaveis que lhe causaram os iconoclastas, +estes monumentos merecem chamar a attenção, não sómente dos archeologos, +mas tambem dos artistas e sobretudo dos esculptores. + +Serviram-se tambem de monumentos similhantes para perpetuar a fundação +praticada por generosos bemfeitores. Na parte superior d'uma pedra ou de +uma placa de latão, vê-se uma scena religiosa, diante da qual está de +joelhos o fundador muitas vezes acompanhado do santo da sua devoção. Uma +inscripção commemorativa da fundação substitue o epitaphio, o qual nos +monumentos funereos se vê por baixo da scena. Algumas vezes sómente +apparece uma simples inscripção gravada sobre uma pedra ou lamina de +cobre. + +_Lanternas dos defunctos_. Dá-se o nome de _lanternas dos defunctos_ e +_pharol de cemiterio_, a columnas ou pyramides ôcas que se collocavam +n'outro tempo nos cemiterios. Este pequeno monumento tinha no cimo um +pavilhão vasado, no qual se suspendia de noite uma lampada accesa com o +fim de lembrar aos caminhantes que orassem pelos defunctos e para lhes +indicar a presença da casa de Deus. + +_Cruz de cemiterio_. Erguiam tambem, nos cemiterios, grandes cruzes de +pedra durante o periodo Roman, ajuntavam-lhe, poucas vezes, a imagem de +Christo; porém do começo do XIII seculo, essa imagem vê-se quasi sempre +acompanhada de Nossa Senhora e do Menino Jesus, postos no revesso da +cruz, ou encostados á columna que serve para a sustentar. Outras vezes, +e isso é mais seguido, a cruz fica entre a imagem de Nossa Senhora sem o +Menino e a de S. João. As hastes que forma a columna ou o pilar sobre os +quaes está assente a cruz, são geralmente postas sobre um sóco mais ou +menos alto, tendo na sua base um pequeno altar. + +As cruzes de pedra que se erigiam muitas vezes, na idade media, nas +encruzilhadas das vias e no meio das praças publicas, apresentavam as +mesmas fórmas que as cruzes de cemiterios; sómente não tinham altar na +base do seu sustentaculo. Em Lisboa havia um excellente especimen no +cruzeiro de Arroyos, estando presentemente guardadas as esculpturas na +egreja d'esse bairro. + +As cruzes de cemiterio e dos cruzeiros não eram todas de cantaria; +havia-as tambem de bronze, de ferro e madeira. Inutil é declarar que as +cruzes de madeira ficaram destruidas já ha muito tempo. As de bronze +têem desapparecido egualmente, para fundirem o metal! Mas ha ainda, em +alguns paizes, as que foram feitas com ferro forjado. + +As cruzes de cemiterio continuaram a estar em uso durante a epocha do +renascimento, e estão quasi sempre acompanhadas das imagens de Nossa +Senhora e S. João, e algumas vezes d'uma pintura representando o +purgatorio. Quando o cemiterio fica adjacente á egreja, a cruz +colloca-se sobre um alpendre junto do coro, na parte interna. As cruzes +triumphaes, que se viam durante o periodo ogival por cima do Jubé foram +aproveitadas, em muitos logares, para servirem de cruzes de cemiterios. + + +*Pias baptismaes* + + +A pia de baptismo no periodo ogival é geralmente menos larga e profunda +do que a em uso no periodo Roman. Esta differença foi motivada pelo +abandono do baptismo por _immersão_ no XIII seculo. Como +precedentemente, algumas das pias têem o feitio d'uma tina sem pé, +redonda, quadrada ou com seis ou oito lados; outras assentam sobre um +grosso pilar central acompanhado nos angulos da pia por quatro +columnasinhas, mas o maior numero são monopediculados. + +As pias de feitio de tina sem pé encontravam-se ainda algumas vezes no +periodo ogival, porém muito poucas durante o periodo Roman. + +_As pias monopediculadas_, isto é, firmadas sobre um só pilar, foram as +mais communs na Belgica durante todo o tempo do periodo ogival. Estas +pias baptismaes, em vez de serem como as Romans, circulares ou quadradas +na parte externa, eram geralmente de seis ou oito lados. A pia continua +a apresentar, como durante o periodo Roman, a fórma hemispherica ou +oval; havendo muitas vezes, na parte mais baixa, um orificio servindo +para vasar a pia. + +Na Allemanha e na Belgica desde o final do seculo XIV, e principalmente +no XV seculo, havia pias monopediculadas em latão. + +O maior numero de pias Romans estavam cobertas de esculpturas +decorativas, symbolicas ou historicas. Sobre as pias do periodo ogival, +pelo contrario, os assumptos historicos e legendarios, assim como as +figuras symbolicas e phantasticas são raras; por excepção se vê ainda +n'ellas o baptismo de Jesus Christo e outras scenas biblicas ou tambem +personagens isolados collocados debaixo de arcaduras. + +Os ornatos simplesmente decorativos, taes como folhagens e carrancas, +são tambem bastante raros sobre as pias do XIV e XV seculo. Toda a +decoração das pias ogivaes, principalmente no XV seculo, consiste as +mais das vezes n'um certo numero de molduras que se vêem sobre a pia e +sobre o pilar em que se fórmam. + + +*Pias para agua benta* + + +Ha duas qualidades de pias para agua benta: as _fixas_ e as _portateis_. + +As pias fixas são cylindricas ou polygonaes, com reservatorio +hemispherico, collocadas junto da entrada da egreja, no interior ou +exterior do edificio: umas isoladas e postas sobre um pé, outras sem +terem apoio. Estas ultimas, que estão sempre unidas com as construcções, +vê-se quer em nichos, quer em sacada sobre o liso da parede ou d'um +pilar, no qual estão encaixadas. + +Posto que as pias para agua benta pediculadas estivessem já em uso no +XIII seculo, e talvez ainda antes, foi todavia no XIV e XV seculos que +vieram a ser mais communs. Em muitos paizes, apresentam bastante +analogia com as pias baptismaes contemporaneas, de maneira que é muitas +vezes difficil distinguir de repente, se o objecto que está presente +serviria na primitiva de pia para agua benta ou de pia baptismal, pela +sua grandeza. A capacidade limitada do reservatorio e a falta do +orificio destinado para dar sahida ás aguas baptismaes, dão algumas +vezes um indicio para designar que o objecto seja uma pia para agua +benta e não uma pia baptismal. + +O maior numero das pias para agua benta fixas do periodo ogival que +existem, ainda são de pedra. Havia tambem em outro tempo um certo numero +d'ellas de bronze e de latão. A memoria de algumas d'estas pias de metal +nos foi conservada, quer por desenhos e gravuras, quer por testemunhos +de escriptores antigos. Encontram-se mesmo raros especimens que +escaparam á destruição vandalica. + +As pias para agua benta _portateis_ são vasos com azas, destinados a +conter a agua benta. Como já referimos, serviam durante o periodo Roman, +para apresentar a agua benta aos imperadores, reis e outros distinctos +personagens, na occasião da sua entrada na egreja. Serviam tambem n'esta +epocha, para a agua com que se faziam as aspersões prescriptas pela +liturgia. O costume de principiar a missa solemne do domingo por uma +procissão dentro da egreja, durante a qual se aspergia o povo com agua +benta, remonta aos primeiros seculos do christianismo. As capitulares de +Carlos Magno confirmam já este costume, e no Concilio reunido em Nantes +em 911 determina aos curas que benzam a agua ao domingo, em um vaso +limpo e apropriado, para que o povo seja aspergido, e o sacerdote possa +leval-a aos enfermos, aspergil-os e á sua habitação. + +As mais antigas pias para agua benta portateis são de marfim. As pias +para agua benta em metal, já conhecidas durante o periodo Roman, vieram +a ser muito communs no XIII e XIV seculos. Todas as pias para a agua +benta portateis são, comparativamente ás em uso desde o XV seculo, de +muito pequena dimensão: medem apenas 20 centimetros pouco mais ou menos +de altura, com um diametro entre 10 e 13 centimetros. + +Quando, no XV seculo, as pias para a agua benta portateis de metal +vieram a tornar-se de uso geral, deram-lhes dimensões maiores. Todavia +encontram-se ainda muitas d'esta epocha, que são muito pequenas. + +Quasi todas as pias para agua benta antigas têem a fórma d'um balde; +algumas apresentam um engrossamento consideravel sobre a borda superior, +diminuindo sensivelmente para a base. Vêem-se com uma inscripção +mostrando como as das pias fixas, assim como a allusão ao symbolismo de +agua benta pelo baptismo de Jesus Christo. + + +*Grades e barreiras* + + +_Grades de ferro_. As grades do XIV seculo apresentam mais ou menos o +aspecto geral que as do periodo Roman. Como antecedentemente, têem os +prumos verticaes com um caixilho de ferro a que ficam reunidos por +ornatos em fórma de _X_ composto por barrinhas de ferro com secção +differente; e todavia, quando as grades são destinadas para as +cathedraes ou para os edificios importantes, as barrinhas das +extremidades simplesmente enroscadas não têem por ornato senão algumas +hastes verticaes. A suppressão das couceiras póde ter logar sem +inconveniente nos vãos de pequena largura, de pouco peso e fórmas +delicadas, mas para grades maiores e expostas aos encontrões da +multidão, o systema de almofadas com ornato entre as couceiras e as +travessas é o unico modo que dará a solidez precisa sem obstar ao +aspecto de leveza. + +Os cenotaphos erguidos nos logares frequentados da egreja, os +reliquarios expostos publicamente á veneração dos fieis e os armarios +dos thesouros eram muitas vezes resguardados por grades com importante +trabalho de mão d'obra. Estas grades ornadas geralmente por barrinhas +estampadas do lado externo sómente estão por vezes armadas com grandes +pontas e ganchos de ferro que impossibilitam o assalto. + +Nas grades do XIV e XV seculo, os prumos servindo de couceiras e as +travessas continúam a ser empregadas; porém as barrinhas torcidas e +estampadas das grades do XIII seculo ficaram substituidas por ornatos +obtidos, servindo-se de chapas de ferro batido, recortadas em florões ou +folhagens. Depois, em logar de ficarem seguros como precedentemente os +prumos por bracedeiras, não soldados, esses ornatos estão fixos por +cavilhas arrebitadas. Os caixilhos de ferro são muitas vezes +supprimidos, e a esses prumos depois de lhe assentar na extremidade +remates mais ou menos vistosos, compostos de flôres de liz ou florões de +folha de ferro soldadas. + +As grades que se não abrem, que assentam na frente das janellas, nos +thesouros das egrejas, casas de capitulo, depositos do archivo, casas +nobres e mesmo nas casas particulares, estão muitas vezes guarnecidas de +pontas de ferro dispostas em espigas nas duas extremidades das +couceiras. Algumas vezes as grades com espigas têem, álem d'isso, as +suas couceiras e travessas reunidas de maneira impossivel para fazer +mover as couceiras nos olhaes das travessas ou nos olhaes das couceiras; +estes olhaes estão alternativamente feitos nas travessas e nas +couceiras. + +_Barreiras de madeira_. Em logar de grades de ferro, tambem se serviam +de barreiras de madeira, a fim de separar as capellas. Estas barreiras +são geralmente tapadas até á altura quasi d'um metro, não ficando +interrompida a vista na parte superior. Quasi todas são feitas com +madeira de carvalho, devendo a sua duração não sómente ao bem feito da +obra, como á excellente qualidade do material empregado. A começar do +XIV seculo, a parte inferior tapada é formada de duas ou muitas ordens +sobrepostas de almofadas encaixadas entre as couceiras e as travessas. +Estas almofadas teem muitas vezes obra de talha figurando pinasios dos +caixilhos, ou folhas de pergaminho dobradas. A parte superior d'estas +barreiras compõe-se quasi sempre de arcaduras rotas, deixando passar a +vista entre os prumos em que se dividem. + + +*Orgãos e caixas para elles* + + +Os primeiros orgãos de que os chronistas occidentaes fazem menção, são +os que o rei Pepin recebeu de presente da côrte imperial de +Constantinopla no meiado do VIII seculo, e que fez collocar no seu +palacio de _Compiègne_. Carlos Magno tambem no principio do seculo +seguinte mandou fabricar orgãos, conforme o modelo byzantino para ornar +a sua egreja de _Aix-la-Chapelle_. Depois de Carlos Magno, o uso dos +orgãos para o acompanhamento de certas partes cantadas do officio +divino, introduziu-se pouco a pouco na egreja Latina. Desde o final do X +seculo, a maior parte das egrejas cathedraes e abbaciaes de primeira +ordem tinham-os adquirido, e durante os dois seculos seguintes +continuaram a generalisar-se. + +Os orgãos primitivos eram muito defeituosos e d'uma grande singeleza, +como vemos nas miniaturas dos manuscriptos contemporaneos. + +Durante o periodo ogival a predilecção pelos orgãos tomou novos +desenvolvimentos, e, no final do XV seculo, todas as egrejas de alguma +importancia e mesmo as capellas tinham o seu orgão. No XIII seculo, +começaram já, em alguns logares, a multiplicar o numero dos orgãos em +uma só e mesma egreja. Ao principio contentavam-se com dois d'estes +instrumentos; porém no XIV e XV seculos tinham tres, quatro e até cinco. +Na egreja do convento de Mafra, el-rei D. João V mandou collocar quatro +grandiosos orgãos nos angulos do cruzeiro, no XVII seculo. + +_Até ao XV seculo_, diz o insigne architecto Violet-le-Duc, _não parece +que os grandes orgãos estivessem em uso. Serviam-se apenas de +instrumentos de mediocres dimensões e que podiam ficar dentro d'um movel +assentes na capella-mór, nos jubés ou sobre tribunas mais ou menos +espaçosas, destinadas não sómente aos orgãos, mas ainda aos cantores e +musicos. Foi no final do XV e principio do XVI seculo que houve a ideia +de dar aos orgãos, dimensões extraordinarias_ desconhecidas até então, +tendo uma _grande força de som e exigindo, caixas collossaes_. Todavia +esses orgãos não são nada em comparação com os instrumentos que se +fizeram depois no XVII seculo. + +No fim do periodo ogival, a fórma das caixas dos orgãos era determinada +pela disposição que tinha esse instrumento. A obra de entalhador para as +caixas dos orgãos do XV e XVI seculos, e mesmo de alguns orgãos do XVII +seculo era independente do instrumento e servia para o resguardar, +cobrindo-o. O mechanismo e os folles ficam inteiramente mettidos entre +as almofadas macissas dos sócos; as almofadas recortadas enchem os +espaços rotos existentes entre a extremidade superior dos canudos e os +tectos, afim de facilitar a emissão do som. A marceneria ornada de +esculpturas e de polychromia e os canudos eram muitas vezes estampados e +dourados. Tudo ficava encerrado por portas que o organista abria quando +tocava; estas portas eram, as mais das vezes, ornadas, pelo menos na +parte interna, com pinturas historicas que se viam quando servia o +instrumento. Os orgãos e as caixas, anteriores ao XVI seculo, são +muitissimo raros. + + +*Alfaias religiosas* + + +_Ourivesaria e esmaltadores_. No XIII seculo, a arte de ourives +transformou-se completamente sob a influencia do novo estylo +architectural. Durante o primeiro quartel e mesmo durante a primeira +metade d'esse seculo, os vasos sagrados e os objectos do culto +apresentavam ainda, é verdade, as mesmas fórmas geraes que durante o +periodo Roman; porém o systema da decoração teve modificações +importantes. O artista, fosse quem fosse, esculptor, pintor ou ourives, +ia procurar as suas inspirações, jamais como precedentemente aos +objectos byzantinos ou aos estofos orientaes, mas sim na flora do seu +paiz; serviam-lhe de modelos os vegetaes indigenas e applicava-se +interpretal-os artisticamente. + +As chapas esmaltadas e os engastes das joias, com algumas folhagens de +filigrana, ficam geralmente em uso até ao meiado do XIII seculo; +continuando a dar o principal modelo de decoração para os objectos de +grandes dimensões, taes como os reliquarios e os frontaes dos altares. + +Todavia n'uma parte da Belgica, o uso dos esmaltes de côres desappareceu +mais cedo que nas outras partes. Desde o primeiro quartel do seculo +XIII, encontra-se, sobre as margens do _Lambre_, uma escola de ourives +tendo em pratica principios inteiramente novos. Á frente d'esta escola e +ao impulso artistico que produz, apparece o irmão Hugo, frade Agostinho +do priorado de _Oignies_. Este humilde religioso executou durante o +primeiro quartel do XIII seculo, (um dos seus trabalhos tem a data de +1220), em alguns annos, uma serie de obras-primas que ainda não foram +imitadas, algumas das quaes teem resistido aos estragos dos tempos, e +guardam-se devotamente no thesouro das freiras de Nossa Senhora em +_Nemours_, produzindo a admiração de todos os entendedores. Desprezando +o emprego dos esmaltes com muitas côres, elle procurou o principal +effeito de decoração n'um trabalho original, que consiste em cobrir os +objectos, no todo ou em parte, com delicadas folhagens formadas de +cachos, de flôrsinhas e pequenas folhas estampadas, reunidas pela +soldadura a delicados pés. A estas folhagens ajuntava figuras de veados, +cães e caçadores, tudo produzido da mesma maneira. O tecido muito unido +que resultava d'estes trabalhos era depois arribitado ou soldado sobre +as differentes partes do objecto do qual elle abrangia todos os +contornos. + +Hugo empregou ainda as joias; mas ás vezes, em logar de dispôl-as sobre +chapas rectangulares e ligal-as pela filigrana, as dispunha +artisticamente entre as suas delicadas folhagens. Além d'isto, seguindo +o exemplo dos seus antecessores, não empregava camafeus e com gravuras +concavas á maneira antiga, todas as vezes que não tinha joias novas para +o seu trabalho. + +Quanto ás massas coloridas embutidas no metal, Hugo não conserva quasi o +negro do buril que serve para traçar as inscripções, ornamentos e tambem +as figuras. + +Depois do meiado do XIII seculo, os objectos de ourivesaria principiaram +pouco a pouco por imitar na sua fórma e aspecto geral os monumentos de +architectura: os relicarios, que antes eram cofres, sarcophagos, +remedando o feitio dos edificios religiosos, vieram a ser pequeninas +egrejas em ouro e prata: os relicarios tinham enfeites, por vezes +remates, torrinhas ladeadas de contra-fortes e bastantes arcos; em uma +palavra, as fórmas elegantes e graciosas da architectura ogival foram +copiadas nos objectos do culto. A cinzelura tambem faz cada vez mais +progresso; e vê-se mesmo a maior parte das vezes pequenos objectos +apresentarem as esculpturas e altos relevos, o que não se fazia antes, +excepto nos grandes objectos de ourivesaria. + +Os objectos de ourivesaria propriamente chamados conservam, no XIV +seculo, as fórmas que tinham precedentemente, isto é, imitam o aspecto +dos monumentos de architectura, ou, pelo menos, são decorados com certos +detalhes architectonicos. Todavia na França, e sem excesso na Belgica, +os ourives executaram, para relicarios, estatuas pequenas de alto +relevo, grupos e imitações de membros de corpo humano, ou outros +objectos que se desejava encerrar dentro d'elles. Desde o XIV seculo, os +vasos sagrados e os outros objectos do culto perdem a nobre simplicidade +do estylo grave da época precedente. + +No XV seculo os trabalhos de ourivesaria correctos differençavam pouco, +quanto ao aspecto geral, dos do seculo anterior. As suas fórmas +patenteavam todavia as modificações successivas que teve a architectura +n'esta época. Os ourives empregavam menos simplicidade nas suas +composições, menos elegancia nas fórmas, porém o seu trabalho é +geralmente mais apurado e mais delicado; levado por vezes até á +exaggeração pelo acabamento e perfeição dos pequenos detalhes. + +Quando empregavam ainda algumas esmaltes para realçar o oiro e a prata, +os ourives do XIII seculo, como os seus predecessores do XII seculo, +indicavam sobre o liso do metal o contorno das figuras, e dispunham +depois todas as partes internas do desenho, quer por um cinzelado +produzindo um relevo pouco saliente, quer, mais simplesmente ainda, por +uma delicada gravura, cujos traços refaziam o desenho dos contornos das +figuras; emfim, abaixavam o fundo á roda das figuras e enchiam-no de um +esmalte, geralmente escuro, adequado para fazer sobresair a composição. +Até ao final do XIII seculo, os traços da gravura delicada ficavam +geralmente vasios; era só excepcionalmente que os enchiam de preto. Mas, +no começo d'esta época, enchiam-n'os quasi sempre de encarnado ou +pardo-escuro. + +_Dinanderie_. Dá-se o nome de _dinanderie_ a um objecto de cobre ou +latão coado e martellado, conforme o modo de fabricar esses objectos. +Esta palavra tira a sua origem da cidade de _Dinant_ sobre o _Meuse_, a +qual tinha adquirido, na edade média, uma grande fama pela execução de +objectos de latão. Portanto, em virtude d'esta etymologia, alguns +archeologos continuaram com o uso recebido, escrevendo--Dinan_te_rie, em +logar de Dinan_de_rie. + +A arte de _dinanderie_ estava prospera desde o fim do XI seculo nos +Paizes-Baixos, e durante os seculos seguintes, os bate-folhas de cobre +obtiveram de differentes soberanos muitos privilegios, que facilitaram a +exportação dos productos de sua industria para Allemanha, França, +Inglaterra e todo o norte da Europa. + +As pias baptismaes executadas com este material, as primeiras de 1112, e +as outras de 1149, ainda se conservam na Belgica. + +_Calices e Patenas_. A communhão sob a especie de vinho tendo sido +abolida na Egreja Latina, proximo do XII seculo, os calices _ministraes_ +com aza cessaram de ser empregados no Occidente, e a sua fabricação +ficou completamente abandonada. Assim, todos os calices ministraes de +origem occidental são anteriores ao periodo ogival. Na Grecia e no +Oriente, pelo contrario, onde a communhão se dava ainda aos seculares +sob as especies de pão e vinho, o uso dos calices ministraes +conservou-se até ao presente. + +_Os calices vulgares_, isto é, os de uso do sacerdote que celebra a +missa, teem geralmente no XIII seculo, como nos dois seculos +precedentes, a taça muito larga e pouco funda, o pé redondo e de grande +diametro; a tige está ornada de um nó grosso, composto muitas vezes de +arestas salientes, mas raramente de medalhões circulares. + +No XIV seculo, e mesmo no fim do XIII uma mudança notavel se deu na +fórma dos calices. A taça estreitou-se, e de hemispherica, como era +antes, veiu a ser conica ou enfundibuliforme, isto é, similhando-se a um +funil. A fórma desegual, quasi desconhecida nos calices do XIII seculo, +veiu a ser commum, sem todavia tomar uma grande importancia. A hastea, +que durante a primeira metade do XIII seculo, era regularmente +cylindrica, tornou-se angulosa e prismatica, tendo geralmente seis +faces. Os lados do nó foram mudados para botões redondos, quadrados ou +rhombos, egualmente em numero de seis, e quasi sempre embutidos de +esmalte, gravuras ou joias. Sobre os seis botões estão algumas vezes +inscriptas as seis letras do nome de Jesus, como ortographavam então: +IHESUS. O pé está dividido em seis lobulos ornados de esmaltes e de +gravuras a traço representando imagens, e mesmo composição completa; +estes lobulos correspondem ás faces da hastea e aos botões do nó. O sóco +do pé está recortado em folhas de trevo, quatro folhas ou arcaduras; seu +diametro, sempre menor que o dos calices romans, conserva não obstante +uma base bastante larga para evitar a quéda. Em resumo, os calices do +XIV seculo, comparados com os dos seculos precedentes, tem mais altura, +mas o diametro da taça e do pé é muito menor. + +A fórma geral dos calices do XV seculo é pouco mais ou menos a mesma dos +calices do XIV seculo. Todavia, em certos paizes, por exemplo na +Belgica, observa-se que os lobulos do pé, as faces das hasteas e os +botões do nó teem muitas vezes o numero oito em logar de seis. Esta +mudança foi introduzida proximo do meiado do XV seculo. + +A _patena_ do periodo ogival tem como a do periodo roman, a fórma de uma +pequena salva, apresentando no meio uma cavidade circular. O fundo da +salva traz muitas vezes, gravado a traço, um circulo ou um quadrilobo, +circumdando quer o Cordeiro Divino, quer a Mão com aureola que symbolisa +a Divindade, quer qualquer outro assumpto. Colloca-se algumas vezes uma +pequena cruz sobre a borda da salva. + +_Galhetas_. Existem raros especimens de galhetas da época ogival. +Havia-as de cobre esmaltado e em crystal de rocha com guarnição de prata +cinzelada e algumas de prata dourada com guarnições gravadas. + +Durante a edade média serviram-se tambem mais frequentemente de galhetas +de vidro, mas por causa da fragilidade da materia, muito poucos objectos +d'esta especie escaparam da destruição. + +_Custodias Eucharisticas_. Em alguns paizes, particularmente em França, +a Eucharistia continuou, durante o periodo ogival, a estar conservada, +como anteriormente, nas pombas douradas e esmaltadas, collocada, a maior +parte das vezes, em uma torresinha ou pequena tenda forradas de telas +custosas, ficando suspensa por cima do altar, quer sob a pyxide, quer no +baculo de metal. + +No XIII, no XIV, e mesmo ainda durante uma parte do XV seculo, as +pyxides eram geralmente como as do periodo Roman, de muito pequeno +tamanho, porque, até proximo do meiado do XV seculo, serviam sómente +para conservar o numero necessario de hostias de que havia precisão para +a communhão dos doentes em perigo de vida. Os fieis que podiam assistir +aos officios religiosos, recebiam a Santa Eucharistia depois da +communhão do sacerdote, com as especies consagradas durante a missa, +sendo distribuidas servindo-se da patena. + +Quasi todas as pyxides do periodo ogival eram de metal; as de marfim e +cobre não apparecem senão excepcionalmente. + +_As pyxides sem pé_, de cobre dourado e esmaltado, compostas de pequenas +caixas cylindricas, tendo uma tampa de fórma de cone, ficaram em uso +pelo menos até o XVI seculo; empregando-se principalmente para levar o +Viatico aos enfermos. + +Encontram-se ainda presentemente muitas d'estas pyxides, mais ou menos +valiosas e ornadas. Não poucas devem a sua conservação a esta +circumstancia, que depois da introducção das grandes pyxides +aproveitaram-nas para guardar as reliquias destinadas a ficar +chancelladas no altar no momento da consagração: portanto, não é raro +encontrarem-se nos desmanchos dos altares do XVI e XVII seculos. + +As pyxides _pediculares_, isto é, tendo um pé, que eram raras antes, +vieram a ser as mais communs desde o XVIII seculo. Algumas destinadas a +ficarem suspensas por cima do altar, sob o sacrario, ou na voluta do +baculo, teem o pé muito pequeno, e a taça assim como a tampa bastante +grandes e quasi hemisphericas, de maneira a formar reunidas uma bola +ôca, geralmente um pouco achatada. + +No seculo XII, as pyxides, em logar de ficarem suspensas por cima do +altar, foram postas nos sacrarios, deram-lhes regularmente um pé mais +alto, similhante aos dos calices e dos relicarios. No principio, bastava +collocar sobre um pé as pequenas pyxides de cobre dourado e esmaltado; +depois fizeram tambem as pyxides em metal com cinzelados e rebatidos, +vindo a ser unicamente usadas. As mais antigas da ultima especie teem a +taça e o pé circular. + +No XIV seculo, a taça e a tampa tiveram a fórma hexagonal, isto é, seis +faces, e o pé divide-se em seis lobulos. + +Durante a ultima metade do XIV seculo e todo o XV seculo, as pyxides +pediculadas têem muitas vezes as arestas da tampa decorada de crochetes; +os angulos formados pela intersecção dos seis lados da taça, sendo +flanqueados de contra-fortes, e os lados tambem ornados de arcaduras com +ou sem estatuasinhas. + +Quando no XV seculo, ficou introduzido o costume de conservar o maior +numero de hostias consagradas, afim de poder dar a communhão aos fieis, +mesmo sem ser na occasião da missa, as pyxides tiveram dimensões muito +maiores. Continuou-se geralmente a dar-lhe fórmas architecturaes, porém +essas fórmas vieram a ser, sobretudo na Allemanha, mais altas e mais +complicadas ajuntando-se arcos-butantes aos contra-fortes e ás arcaduras +com as quaes já as ornavam precedentemente. Em França e na Belgica, +appareceram proximo do final do XV seculo as pyxides esphericas, cuja +fórma faz lembrar a dos antigos ciborios suspensos. Não é raro, além +d'isso, achar pyxides transformadas em relicarios. + +Não será inutil aqui repetir, que, salvo raras excepções, todas as +pyxides anteriores ao XVI seculo teem a tampa presa á taça por um gonzo. + +_Custodias_. A solemnidade do _Corpus Domini_, ou festa do Corpo de +Deus, instituida em Liège em 1246, e extensiva á Egreja Universal, +dezoito annos mais tarde pelo pontifice Urbano IV, trouxe o uso de expôr +publicamente o Santissimo Sacramento á veneração dos fieis. Foi este uso +que deu origem ao vaso chamado _custodia_, ou _apresentação_ nome +derivado dos verbos latinos _ostendere_ e _monstrare_, significam, um e +outro, _mostrar_. + +No principio, parece que o _Santissimo Sacramento_, estava exposto +publicamente nas pyxides _transparentes_ com cruzes e torrinhas cheias +de aberturas; mas, dentro em pouco adoptaram-se, geralmente as +custodias. + +Algumas d'estas custodias primitivas apresentam a maior analogia com os +relicarios expostos contemporaneos. São pequenos edificios de metal, com +recortes, tendo um pé e furados sobre dois ou muitos dos seus lados, com +aberturas, as mais das vezes sob a fórma de janella ogival. + +As custodias mais communs durante todo o periodo ogival, foram as de +_cylindro_, assim designadas porque são formadas d'um cylindro de +crystal ou de vidro posto sobre um pé de metal. No XIV, XV e XVI +seculos, o cylindro tem geralmente por cima um campanariosinho e nos +flancos contra-fortes e arcos-butantes, igualmente de metal. Depois do +XIII seculo, o campanariosinho e o pinaculo não são usados. A hostia +colloca-se no interior do cylindro n'uma luneta sustentada por um ou +mais anjos. O pé e o nó d'estas custodias apresentam a maior similhança +com os calices e as pyxides contemporaneas; todavia, o diametro do pé é +geralmente maior nas custodias que nas pyxides e calices. + +As custodias em que o cylindro de crystal é substituido por um _sol +radiante_ vieram a ser geraes desde o XVI seculo. Antes d'esta epocha, +eram extremamente raras, e sómente se conhecem pela noticia que se +encontra nos inventarios dos thesouros das egrejas pertencentes ao XV +seculo. + +_Relicarios_. Os relicarios do periodo ogival apresentam fórmas tão +variadas como os da epocha Roman. Seria difficil descrevel-os todos; +occupar-nos-hemos dos principaes. + +_Relicario da vera Cruz_. Como precedentemente dava-se muitas vezes a +estes relicarios a fórma d'uma cruz com travessa dupla; porém +empregavam-se os ornatos proprios da ourivesaria da epocha ogival. A +maior parte d'estas _cruzes-relicarios_, sobretudo as mais bellas, são +do XIII seculo. + +Depois d'essa epocha abandonou-se o costume de encaixilhar os relicarios +da vera cruz, nas cruzes relicarias com travessa dupla, e serviram-se +geralmente da cruz com uma unica travessa. + +Deu-se tambem algumas vezes a fórma de uma cruz aos relicarios contendo +reliquias de santo; mas n'este caso a cruz tem sempre uma só travessa. + +No XIII seculo, os relicarios da vera cruz, collocados n'uma pequena +cruz ou bocota, eram ainda ás vezes, como durante o periodo Roman, +encaixilhados dentro de placas metallicas fixas sobre o meio da madeira +e ornados de esmaltes, gravuras e cinzelados de maneira a formar uma +especie de quadro com portas de metal ou madeira pintada. + +_Relicario da corôa com espinhos_. Os espinhos da corôa trazida pelo +Redemptor durante a sua paixão, eram collocados regularmente em corôas +de ouro ou de prata enriquecidas de joias. Algumas d'estas corôas, +feitas no Oriente, foram enviadas para a Europa Occidental pelos +imperadores que as conquistas dos cruzados tinham collocado sobre o +throno de Constantinopla. + +A Santa Corôa de espinhos que tinha vindo em poder dos cavalleiros +cruzados em seguida ás suas conquistas no Oriente, ficou conservada +religiosamente no throno sagrado do novo imperio byzantino até 1237, +epocha em que o imperador Bauduino II foi obrigado a dal-a em penhor aos +commerciantes venezianos, os quaes lhe haviam feito um emprestimo da +quantia de quatro mil marcos de prata para occorrer ás necessidades mais +urgentes das finanças imperiaes. + +Pouco tempo depois, S. Luiz IX, rei de França, tendo tido a felicidade +de occupar o logar dos emprestadores, ficando responsavel pela quantia +entregue, pôde obter a preciosa reliquia, e a fez transportar para +França por dois frades dominicanos. + +O santo rei mandou pôr muitos espinhos nas corôas do mesmo feitio que +tinha a corôa real, e presenteou com ellas um certo numero de +estabelecimentos religiosos. + +Os Santos Espinhos foram tambem por vezes encaixilhados em relicarios +mais simples e d'um feitio differente. + +Os relicarios do periodo ogival apresentam o mesmo aspecto que os do XII +seculo, isto é, teem a fórma d'um cofre oblongo, fechado por uma tampa +imitando um telhado com duas aguas. + +Os grandes relicarios do XIII seculo são cofres de madeira coberta com +chapas de metal esmaltado, cinzelado e por vezes simplesmente gravado. +Quasi todos são rectangulares; ha todavia, por exemplo, a grande caixa +das reliquias de Nossa Senhora de _Aix-la-Chapelle_, que se vê sobre os +seus dois compridos lados, saliencias que a faz parecer com uma egreja +tendo um cruzeiro. As suas faces verticaes são ornadas de estatuasinhas +de ouro, prata ou de cobre dourado, ficando collocados debaixo de docéis +ou arcaduras. Jesus Christo abençoando, sentado ou de pé, só ou entre +dois santos, se vê, como nos relicarios Romans, sobre um dos dois +pequenos lados formando empena, emquanto o outro lado fica occupado por +Nossa Senhora, ou pelo Santo cujas reliquias se conservam no relicario, +igualmente collocado entre dois santos. + +Os dois lados compridos estão divididos n'um certo numero de +compartimentos tendo como remates frontões dentro dos quaes estão +inscriptas ogivas quasi sempre trilobaes. Estes compartimentos formam +docéis ou arcaduras, mostrando estatuasinhas dos apostolos ou de outros +santos assentados. + +Sobre as abas da tampa ha figuras em pé ou baixos relevos representando +os mysterios da vida de Jesus Christo e os principaes factos do corpo +que encerra o relicario. + +Finalmente, algumas vezes a aresta superior do cofre, e mesmo os lados +inclinados dos frontões, teem na summidade folhagens de esmerado lavor, +interrompidas de distancia a distancia, por castões. + +As linhas inclinadas dos frontões, os docéis, os molduramentos e os +fustes das columnasinhas que sustentam os docéis estão bastantes vezes +cheios de esmaltes e filigranas como se fazia precedentemente. + +Desde o final do XIV seculo, os relicarios em metal perdem o aspecto de +feretro ou cofre, como haviam tido até então; transformam-se pouco a +pouco e tomam a apparencia de capellas e mesmo de pequenas egrejas. + +Alguns relicarios do XIV seculo fingem, d'uma maneira extremamente +caracterisada as fórmas architectonicas: representando rosaceas, +galerias, campanariosinhos e contrafortes; os seus docéis e frontões +teem as inclinações dos contornos decorados de crochetes acabando no +feitio d'um florão. + +O maior numero dos relicarios metallicos dos XV e XVI seculos imitam +servilmente a maneira de se construirem os monumentos de cantaria; vindo +a ser reproducções em pequeno das grandes egrejas ogivaes. Tendo +egualmenle arcos-butantes, na summidade recortes, parapeitos vasados em +trefles ou de quatro folhas, uma nave principal e as lateraes, etc., e +ás vezes tambem uma torre se ergue no centro do espigão. + +Usaram tambem, durante o periodo ogival, de _relicarios de madeira_ +cobertos de pinturas representando assumptos religiosos que recordam +geralmente os principaes factos da vida do santo que contém o relicario. + +O relicario de madeira mais notavel como objecto d'arte por causa de +suas pinturas, é o de Santa Ursula, que está no hospital de S. João em +Burges. Tem a data do XV seculo e constitue uma das obras primas do +pintor Hans Memlinc. + +Ha tambem poucos exemplares de relicarios de pedraria do periodo ogival. + +Os relicarios não contém sempre os corpos inteiros dos santos, e são +tambem destinados a conservar reliquias diversas. + +_Bustos, braços, pés, estatuasinhas_, etc. O uso de conservar as +reliquias dos santos dentro de bustos ou nos relicarios preciosamente +ornados imitando a fórma dos ornatos a que os relicarios pertenciam já +no periodo roman, manteve-se durante toda a epocha ogival, e +encontram-se ainda muitos exemplares do periodo do renascimento. + +O maior _busto-relicario_ conhecido, pois mede 1^{m},62 centimetros de +altura e um dos mais magnificamente ornados, é o de S. Lamberto da +cathedral de Liège, obra de 1506 a 1512. É de prata dourada e está posto +sobre um plintho decagono decorado de seis baixos relevos representando +differentes scenas da vida do santo bispo de Maestricht. O bispo está +paramentado com as vestes pontificaes e todo coberto de joias e perolas. + +Os ossos dos braços e dos pés estão muitas vezes introduzidos nos +relicarios apresentando a fórma d'esses membros do corpo humano. Nos +relicarios de fórma de braço, a mão fica sempre representada _benzendo_ +á maneira Latina. + +No thesouro da egreja de Nossa Senhora de Tongres ha sete relicarios com +a fórma de braços. Dois são do final do XIII ou principio do XIV seculo, +estando compostos de chapas de prata com faxas de cobre dourado +guarnecido de joias e filigranas; os outros cinco são de madeira +pintados e dourados. Os tres mais admiraveis e preciosos, têem dois a +fórma d'um pé, e no terceiro, com a fórma de meia lua, guarda-se uma +costella do apostolo S. Pedro. + +Ha tambem relicarios apresentando o feitio de estatuasinhas. Geralmente +as reliquias estão contidas em um pequeno cylindro de crystal, +guarnecido de prata ou cobre dourado, fechado nas duas extremidades e +posto ao lado da estatuasinha ou trazendo-o na mão. Algumas vezes, posto +que raramente, estão fixos n'um medalhão ou pequena cruz, sobre o peito +ou sobre outra qualquer parte da estatuasinha. + +_Mostrador-relicario_. Estes relicarios compõem-se de vasos de crystal +ou de qualquer outra materia transparente, engastados em obra de +ourivesaria, onde se mettem as reliquias, depois de as ter embrulhado em +pellica, seda ou estofo, tecidos de ouro ou prata. Estes vasos, +geralmente de fórma de cylindro ôco, põem-se muitas vezes n'uma posição +vertical, e ficam limitados por um remate tambem conico. O maior numero +dos mostradores-relicarios são postos sobre pés similhantes aos dos +calices e das custodias; alguns são sustentados por anjos ou levitas; +finalmente ha os que ficam postos sobre um sóco; por vezes acontece não +terem essa base. + +No XIII seculo, e mesmo ainda ás vezes no seculo seguinte, os ourives, á +imitação das obras dos esculptores contemporaneos, iam buscar os feitios +de decoração para os mostradores-relicarios ás reliquias nos engastes +das joias, ás filigranas e as folhagens imitando a flora indigena. + +Ao começar do XIV seculo, muitos relicarios fingem fórmas architecturaes +e imitam mais ou menos certas partes dos edificios do estylo ogival. Os +feitios da decoração tirados até ali ao reino vegetal, dão logar para +formar pinaculos, contra-fortes, arcosbutantes e docéis, estando +delicadamente lavrados e executados, não pela imitação servil dos +edificios de cantaria, mas com uma intelligencia apurada que distingue +todas as producções artisticas da idade media e que attendiam á natureza +da materia que se punha em obra. O ourives, posto que conservasse as +fórmas geraes da architectura, dava-lhes uma leveza que seria +impossivel, se fosse executada na pedra. + +Quando o cylindro ficava na posição vertical, a fórma do +mostrador-relicario confundia-se geralmente com a das custodias, como já +referimos. + +Vêem-se tambem algumas vezes relicarios com cylindro vertical e feitio +da decoração imitando a architectura, não tendo peanha. + +Quando, pelo contrario, o cylindro tem a posição horisontal, é +geralmente executado em obra de ourivesaria de fórma de egreja com uma +ou mais naves, encimado d'uma torresinha elevada e ligada por +arcos-butantes sahindo do engaste que encerra o cylindro. + +_Phylacteras_. Não podemos deixar de mencionar uma outra fórma de +relicarios que foi commum no XII e no XIII seculos. Estes objectos +compõem-se de pequenos moldes de madeira cobertos de prata e cobre +dourado e esmaltado, sobre os quaes estão traçadas, em esmalte ou +relevo, imagens, scenas historicas e legendarias, emmolduradas n'uma +cercadura de filigrana recamada de joias sem serem lapidadas. Muitas +vezes mesmo as representações dos assumptos, das figuras e symbolos +faltam inteiramente. As costas, formadas igualmente d'uma chapa de +metal, são ornadas de lavores, gravuras ou pinturas. Têem sempre +pequenas dimensões (o seu diametro não é de mais que dois a tres +decimetros), e fórma redonda, ellyptica ou, as mais das vezes, com +quatro folhas. Alguns archeologos lhes dão o nome especial de +_phylacteras_, posto que, conforme a etymologia, este nome, derivado do +grego, _guardar_, designa qualquer especie de custodia ou recipiente, e +deveria por conseguinte applicar-se indistinctamente a todos os +relicarios. + +Algumas vezes as phylacteras são, como os relicarios de cylindro de +crystal, postas sobre um pé de metal com figuras de anjos ou de santos. + +_Cofres-relicarios_. Continuou-se, durante o periodo ogival, a encerrar +as reliquias dos santos nos cofres de metal, madeira, marfim e couro com +figuras em relevo. É bastante raro achar, sobre estes cofres, scenas +historicas ou symbolos religiosos. + +No XV seculo principiou-se a fazer cofres de ferro, e o seu uso não se +demorou a generalisar. Não devemos pois admirar-nos, se um grande numero +d'estes objectos curiosos têem sido conservados até ao presente. A maior +parte eram destinados a uso profano: guardavam joias e outros objectos +preciosos. Ha todavia alguns que serviram de relicarios, principalmente +os que têem inscripções religiosas, como--AVE MARIA GRATIA PLENA e O +MATER DEI MEMENTO MEI. + +Ás vezes estes cofres eram inteiramente de ferro; sendo todavia formados +d'uma caixa de carvalho ou de faia forrada de couro encarnado, sobre o +qual assentava uma chapa de ferro recortada e segura por enfeites de +ferro. O ferrolho tinha ás vezes a fórma d'um lagarto ou de salamandra. +A maior parte d'estes cofres eram cobertos de florões scintillantes, o +que faz vêr que no XV seculo os serralheiros como os ourives iam buscar +á architectura as suas principaes fórmas de decoração. + +Os cofres de marfim, dos quaes se haviam servido muitas vezes para os +relicarios durante o periodo Roman, ficaram em uso até á epocha ogival +juntamente com os de madeira, de metal e de couro. + +_Trombetas-relicarios_. Não é raro achar, nos thesouros de egrejas, +antigas trombetas de guerra e de caça transformadas em relicarios. +Durante a idade media, os christãos não receiavam empregar no culto +certos objectos profanos emquanto á sua origem e á sua ornamentação, +mais preciosos como materia ou como obra d'arte. Já assignalamos esta +pratica para os camafêos e pedras antigas gravadas concavamente, das +quaes os ourives da idade media frequentemente faziam uso para dar mais +brilho ao metal nos differentes objectos para o culto; encontrando-se +tambem nas trombetas dos caçadores de que tratamos agora e dos esmoleres +de que fallaremos depois. + +Quasi todas as trombetas-relicarios são de marfim e apresentam a mesma +fórma, imitando a defeza do elephante de cuja materia eram fabricadas. É +do nome d'este animal, que as trombetas de marfim têem tirado o de +_olifante_, pelos quaes são geralmente conhecidos. Na idade media o +_olifante_ era tanto se não fosse mais, um instrumento de guerra como +para a caça; servia principalmente para dar signal de commando, reunir +as tropas e annunciar a presença do inimigo. + +Os elephantes e as trombetas estão guarnecidos de aros de metal, +floreado com florões ou redentados que facilitam suspendel-os em +bandoleira. Estas virolas, algumas mostrando a cabeça de bezerro, estão +fixas nas duas extremidades, e de distancia em distancia sobre o +comprimento do objecto. Algumas vezes tambem ornam-se os elephantes de +esculpturas em baixo-relevo, e então as virolas não têem ornatos. + +As principaes officinas para a esculptura dos oliphantes e guarnecel-as +de metal existiam durante a idade media no Norte de França, +principalmente em Abbeville e Paris. + +Encontram-se tambem trombetas relicarios em chifre de boi e de bufalo; +posto que guarnecidas pela mesma maneira que os _oliphantes_, são +todavia faceis de reconhecer, não sómente pela sua côr, mas ainda pela +sua curva muito mais fechada, approximando-se geralmente d'um +semi-circulo. + +_Esmoleres-relicarios_. Chama-se _esmoler_ a uma pequena bolsa com +cordões ou fechos, que se traz suspenso á cintura para guardar o +dinheiro e os objectos de serviço habitual. Estas bolsas, que formavam +na idade media o complemento indispensavel do vestuario dos dois sexos, +eram de couro ou estofos de preço. Dava-se-lhes tambem o nome de +algibeira. + +A fórma mais antiga é d'uma pequena bolsinha com dois cordões de correr +para fechar, e d'um outro cordão para suspender á cintura. Mais tarde +supprimiram-se os cordões e dobraram na frente do bolsinho uma parte do +estofo, que se levantava quando se queria introduzir a mão no esmoler. + +Não se tem conservado até ao presente esmoleres de estofo, e mesmo os de +couro não se encontram senão casualmente. Entre estes estofos uns são de +seda lavrada, outros têem bordados sobre linho ou seda com fios de ouro +ou seda de differentes côres traçando simples ornamentos, symbolos e +mesmo algumas vezes assumptos. + +Na idade media serviam-se, muitas vezes dos esmoleres para embrulhar as +reliquias dos santos e deposital-as nos relicarios. É mesmo a esta +circumstancia que deve ter-se conservado um grande numero d'esses +curiosos objectos, o que serve tambem para se explicar acharem-se nos +thesouros das egrejas. Poucas vezes esses esmoleres mostram symbolos ou +assumptos religiosos; no maior numero vêem-se simples ornamentos; +algumas vezes mesmo estão decorados com assumptos profanos. + +_Relicarios diversos_. Além dos relicarios que acabamos de descrever por +classes, ha tambem outros de que seria impossivel formar grupo, havendo +infinita variedade, e ao mesmo tempo um gosto singular, que os artistas +de todo o periodo ogival empregaram no feitio d'esses objectos. + +_Custodias_ d'Agnus Dei. Chama-se _Agnus Dei_ a pequenos medalhões de +cera branca, de fórma circular ou oval, ornados sobre as duas faces com +a impressão d'um cordeiro deitado, uma cruz de resurreição, estandarte e +tendo dois ou tres guiões fluctuantes. Por baixo do cordeiro ha n'um +segmento de circulo, o nome do Pontifice que benzeu o objecto. N'uma +epocha bastante recente, tem-se muitas vezes completado esta indicação, +ajuntando-se-lhe o anno do pontificado; havendo-se substituido ao +cordeiro collocado no reverso do medalhão, o brazão d'armas do papa ou +uma imagem. Em exergo lê-se quasi sempre: AGNE DEI MISERERE MEI QUI +CRIMINA TOLLIS. + +Desde o IV seculo é provavel se estabelecesse o uso de aproveitar, no +domingo depois da Paschoa, os restos do cirio paschal do anno precedente +para o dividir em pequenos fragmentos e distribuil-os depois aos fieis, +os quaes os levavam comsigo para suas casas e serviam como objecto bento +de devoção. É n'esta pratica ao presente conservado em algumas dioceses +com as modificações accessorias, que se acha a origem da devoção dos +_Agnus Dei_. Em Roma, principiaram cedo a ajuntar cera pura e oleo aos +fragmentos do cirio paschal e com esta mistura, se moldavam medalhões em +forma de distico, tendo a effigie do cordeiro Divino. Estes medalhões +eram já conhecidos em Roma perto do fim do VI seculo. Mais tarde, e +ainda presentemente, os restos do cirio paschal foram completamente +excluidos da materia dos _Agnus Dei_, e serviram-se unicamente da cêra +sem nenhuma addição de substancias estranhas, que o soberano Pontifice +mergulha durante algum tempo em agua benta misturada dos Santos Oleos e +de balsamo puro. + +Em todos os tempos os _Agnus Dei_ têem sido recebidos pelos fieis com +grande veneração, e muitas vezes encerrados em pequenas bocetas de metal +mais ou menos precioso, cuja forma e ornamentação apresentam a maior +analogia com os dos relicarios. Estas bocetas têem geralmente uma argola +para se suspender; são circulares como os antigos _Agnus Dei_, trazendo +em exergo a legenda como está: AGNE, (ou mais vezes ainda AGNUS) DEI +MISERERE MEI QUI CRIMINA TOLLIS, ou uma outra oração. São muitas vezes +recortadas de maneira a mostrarem uma maior ou menor parte da cêra. Os +espaços que occupam o metal são ora dispostos em simples cruz grega +tendo na intersecção dos ramos, um medalhão cinzelado, gravado ou +esmaltado, ora em relevo sob a fórma de cordeiro, imagens, ou simples +florão. + +Os mais antigos _Agnus Dei_ conservados até ao presente não vão além do +principio do XIV seculo; porém os d'uma epocha posterior encontram-se +com bastante frequencia. + +_Armarios para reliquias_. Os relicarios, os vasos sagrados, os livros +do Evangelho e outros objectos preciosos conservam-se regularmente em +armarios ou tendo simples nichos feitos na grossura da parede; outras +vezes formavam construcções de pedra encostadas a uma parede; todavia as +mais das vezes eram moveis de madeira com mais ou menos obra de apurado +trabalho. + +No XIII seculo, e mesmo ainda muitas vezes no XIV seculo, estes moveis, +d'uma fórma sempre simples e adequada ao seu destino eram principalmente +ornados com ferragens de feitio esmerado e com pinturas sobre as suas +portas. As portas sem molduras compunham-se d'uma serie de taboas +simplesmente juntas, duplas, consolidadas na parte interna, por +travessas e no lado exterior ornadas com bellas pinturas. + +Desde o fim do XIII seculo e durante a primeira parte do XIV seculo, a +pintura e a esculptura foram, em certas occasiões, empregadas +simultaneamente na decoração dos armarios das reliquias; algumas vezes +mesmo, as portas com esculpturas tinham dourados, e o lavor de estojo +com ornamentos coloridos. Depois, a esculptura augmenta e pouco a pouco +acaba, no fim do XIV seculo, para substituir completamente a +polychromia. As portas dos armarios não apresentam já, a contar d'esta +epocha, as superficies inteiramente lisas e cheias de pinturas. +Compõe-se então de almofadas encaixilhadas e preparadas do mesmo modo +que as partes lisas das portas. Entre estas almofadas, algumas têem em +relevo molduras com desenhos imitando as travessas das almofadas das +janellas, as outras estão cheias de folhagens ou ornatos de talha +imitando folhas de pergaminho, como já explicámos. Uma cimeira recortada +e vasada e na qual os prumos dos aros veem terminar em florão rematam +muitas vezes o movel em todo o seu comprimento. + +_Vasos para os santos oleos_. Na quinta feira de cada anno, o bispo +benze solemnemente, durante a missa que elle celebra na sua cathedral, +tres especies de oleos, os quaes são depois distribuidos pelas egrejas +da diocese. São: 1.^o oleos para os cathecumenos; 2.^o, oleo para os +enfermos; e 3.^o, oleo para a chrisma. + +Acham-se ainda hoje em algumas cathedraes, grandes vasos do periodo +ogival que serviram antigamente para benzer os santos oleos na ceremonia +de Quinta Feira Santa. + +Além d'estes vasos de grandes dimensões, nos quaes o bispo benzia os +oleos para toda uma diocese, ás vezes mesmo para muitas, havia +recipientes mais pequenos, que continham sómente os santos oleos para o +deão de uma grande cidade. Alguns eram cofresinhos rectangulares ou +ovaes, de madeira forrada de couro, dividido interiormente em tres +separações, podendo em cada uma caber um frasco. Outros em metal mais ou +menos precioso, compõe-se de tres vasos, geralmente cylindricos reunidos +estando soldados ou simplesmente unidos. + +Os vasos contendo os santos oleos para a occasião mesmo em que dar os +sacramentos e nas differentes uncções de bençãos, são regularmente muito +mais pequenos do que aquelles que fallamos, e podem ser divididos em +duas classes. Os da primeira classe, destinados a conter ao mesmo tempo +as tres especies de oleos, são triplicados como os dos deões, os quaes +se differençam unicamente pela sua menor dimensão. Compõem-se quasi +sempre de tres cylindros ôcos, com uma tampa conica, collocados em roda +d'um nucleo, porém raras vezes postos em linha. Alguns não têem pés, +outros mostram esse appendice. + +Para distinguir os differentes oleos, marcam-se os vasos com lettras +differentes: I, designa o oleo para os enfermos, _oleum Infirmorum_; C, +o santo oleo, _chrisma_. Para o oleo dos cathecumenos servem-se ora da +lettra S, _oleum Sacrum_, ora da lettra O, _oleum_, ou mesmo da lettra +E, do grego [Grego: Elaion], oleo. Como cada um d'estes oleos não serve +sempre nas mesmas ceremonias, e se precisa levar longe o oleo para os +doentes, cada um dos pequenos vasos pode-se separar do nó central que os +reune. + +A segunda classe dos vasos para uso immediato de ungir comprehende +aquelles que encerram uma unica especie, geralmente o oleo para os +enfermos. Teem quasi sempre a forma cylindrica e estão tapados com uma +tampa de fórma conica. Alguns teem pés, outros não. + +_Corôas suspensas sobre o altar_. Estas corôas chamadas _votivas_, +estiveram em uso pelo menos durante uma parte do periodo ogival, e +conservavam a fórma que tinham antes: a de um circulo de metal, cujo +brilho era muitas vezes augmentado com joias e esmaltes. Algumas eram +feitas de proposito para o serviço do altar; outras pertencentes aos +soberanos como insignia de realeza, foram dadas ás egrejas pela +generosidade dos principes. + +_Corôas com luzes_. As coroas de luzes do periodo ogival são ou +_suspensas_ ou sustidas em um _pedicello_. + +As corôas _suspensas_, que estiveram em uso desde os primeiros seculos +do christianismo, chegaram ao seu maior desenvolvimento no XI e XII +seculos. Durante o periodo ogival, perderam muito da sua importancia, e +as maiores d'esta epoca, encontram-se muito raro presentemente. + +No XV seculo apparecem os lustres, que quaes vieram a ser communs em +pouco tempo, e ficaram a substituir as corôas desde o principio do +periodo do renascimento. + +As corôas de luzes _pediculadas_ são geralmente de ferro forjado e +compõe-se quasi sempre de uma tampa da qual se ergue uma hastea vertical +ornada de um ou muitos nós. No alto d'esta haste estão postos em +diversas alturas, dois ou mais numeros de circulos em fórma de polygonos +de diametros differentes, compostas de espigas e dirandellas para terem +vellas. Os circulos são movediços e podem girar em roda da hastea que os +sustenta; esta disposição permitte aos devotos puxar para si as +dirandellas sem vellas pôr-lhes outras vellas offerecidas por promessa. +Estas corôas estavam em uso nas egrejas onde numerosos peregrinos vinham +venerar as reliquias ou a imagem de algum santo. As mais remotas corôas +tendo pé não vão além do XV seculo. + +_Cruz de altar e de procissão_. Já dissemos, que até o fim do XV seculo +não houve distincção entre as cruzes do altar e as cruzes processionaes +ou estacionarias. A mesma cruz servia para o mesmo uso: punham-a sobre o +altar ficando firmada sobre uma base ou levavam-a em procissão no cimo +de uma comprida hastea. + +No XIII seculo, as cruzes processionaes eram de uma grande simplicidade. +Tinham geralmente a imagem de Jesus Christo, e nas extremidades dos +braços havia os symbolos dos evangelistas collocados em um quadrilobo. + +No XIV e no XV seculo, ornam muitas vezes com as fórmas architecturaes, +e mesmo tendo estatuasinhas debaixo de docel, o cabo era ôco servindo +para fixar a cruz sobre a hastea ou sobre um pé. + +Quando no XIV, e principalmente no XV seculo, multiplicaram-se as +capellas e os altares em uma mesma egreja por causa do augmento +extraordinario da fundação de missas, introduziu-se o uso das cruzes do +altar, isto é, assentes permanentemente sobre elle. A cruz do altar +principal era a unica que ficava portatil, podendo servir no altar e nas +procissões. + +_Castiçaes_. Havia, durante o periodo ogival, quatro especies principaes +de castiçaes: os castiçaes do _altar_, os castiçaes de _elevação_, e os +castiçaes _paschoaes_ aos quaes se podem ajuntar os _tocheiros_ +collocados aos lados dos catafalcos. + +_Castiçaes de altar_. O uso de collocar _dois castiçaes sobre o altar_ +foi introduzido, em certas partes, no fim do periodo roman, e veiu a ser +geral no XIII seculo. + +Os castiçaes de altar do XIII seculo apresentam uma grande similhança +com os do periodo roman. Do mesmo modo eram de metal e compunham-se +regularmente de um pé descançando sobre tres garras, d'um nó e d'um +prato com uma espiga; sendo todavia menos ornados. É por isso, que +apparecem excepcionalmente animaes phantasticos de forma de lagarto ou +dragão de azas que sustentam o prato de quasi todos os castiçaes romans. + +No XIII seculo, como precedentemente, os castiçaes teem pouca altura, +sendo as mais das vezes de 15 a 25 centimetros. Algumas vezes todavia, +porém muito raro, proximo do fim do XIII seculo, tinham a hastea com +dois ou tres nós quasi 50 centimetros de alto. + +O uso de não pôr sobre o altar mais de dois castiçaes pequenos durou até +ao XVII seculo. + +Nos XIV e XV seculos, os nós da hastea foram substituidos por virólas, +sendo o numero de duas ou tres; ha todavia exemplos, principalmente no +XIV seculo, onde a hastea tem uma unica viróla. + +No fim do XV seculo e no principio do XVI seculo, os castiçaes têem +muitas vezes os nós, o pé e o prato com relevos do feitio de meias +perolas e a hastea torcida em espiral. + +_Castiçaes de elevação_. Este nome foi dado aos castiçaes destinados +para terem as vellas accesas antes da elevação da Hostia, e que se +apagam depois da communhão do padre. Estes castiçaes, regularmente em +numero de dois e collocados aos lados do altar, eram muito mais altos +que os castiçaes do altar, tendo de altura muitas vezes um a dois metros +de alto. + +_Castiçaes paschoaes_. Assenta-se geralmente a hastea do _castiçal +paschoal_ n'uma estante vasada, onde se põe o livro para o canto do +_Exultet_. Muitas vezes se collocam dois ou mais braços destinados a ter +pequenas vellas; ha-os de latão e de ferro forjado. + +No XIII seculo, os castiçaes paschoaes são ornados muito simplesmente +imitando na ornamentação o reino vegetal. + +No XIV seculo, os candelabros para a tocha paschoal estão ornados muito +modestamente. + +Os castiçaes paschoaes do XV seculo são ainda muito mais simples. + +_Os castiçaes postos aos lados do catafalco_. Estes castiçaes geralmente +muito simples são as mais das vezes de ferro forjado e ornados com +polychromia. A sua altura varia entre um a dois metros. Um grande numero +se têem conservado. Algumas vezes estes castiçaes eram tambem de +madeira. + +Aos lados dos catafalcos, os tocheiros isolados eram muitas vezes +substituidos por um _candieiro-triangular_ de pau ou metal composto de +um certo numero de bicos ou de pratos e assente sobre um ou dois pés. +Esta alfaia é tambem designada, principalmente nos antigos inventarios, +_cabide_, _rastrum_ e _rastrellum_. + +Vestigios de apparato com luzes para os defuntos, se vêem ainda hoje em +muitos monumentos funerarios do XIII seculo, nas egrejas de S. Diniz, +proximo de Paris, mandados erigir por S. Luiz Rei de França, em memoria +dos reis seus predecessores. + +_Braços com vellas e dirandellas_. Os candieiros com braços e as +dirandellas vieram a ser de um uso geral no principio do XV seculo. Têem +geralmente o mesmo feitio que os braços do candieiro paschoal com o +prato adentado. São postos sobre as paredes, e mais vezes ficam defronte +de uma imagem. O maior numero são de latão; os de ferro forjado +encontram-se raras vezes. + +_Estantes para o côro_. Chama-se _estante do côro_ a uma estante de +madeira ou de metal sobre a qual se põe os livros para facilitar as +leituras lithurgicas. + +As estantes do côro fazem parte das alfaias religiosas; são de duas +especies: estantes _fixas_, collocadas geralmente no meio da capella-mór +e chumbadas no pavimento, ou com um pé tão pesado que se não poderia +facilmente mudar para outra parte, e estantes _portateis_. As primeiras +serviam para os chantres recitarem os officios; as outras para o diacono +e subdiaconos cantarem o Evangelho, a Epistola ou as lições sagradas. + +_Observações preliminares_. Desde o VII e VIII seculos, e durante todo o +periodo roman, fizeram algumas vezes as _estantes fixas_ independentes +da tribuna. Estas estantes isoladas, estando destruidas presentemente, +eram quasi sempre de metal, e compunham-se, como tambem as do principio +do periodo ogival, d'uma aguia com as azas abertas, pousada sobre um +sóco. Muitas vezes a aguia, attributo do evangelista S. João, era +acompanhada de symbolos dos tres outros evangelistas. + +_Estantes fixas collocadas no meio do côro_. As estantes do côro +destinadas aos chantres, são ordinariamente de latão e compõem-se d'uma +aguia assente sobre um pé em fórma de pilar ou de columna. Este pé +algumas vezes é consolidado por arcos-butantes, os quaes estão ornados +de arcaduras vasadas com rosaceas e ornatos variados, similhantes aos +que ornam as grinaldas dos tympanos das janellas ogivaes. + +Nos antigos documentos a estante do côro é designada _aguia_, em latim +_aquila_, porque a maior parte das estantes, tanto do periodo ogival +como da renascença, têem a forma d'uma aguia. Muitas _estantes-aguias_ +do XV seculo escaparam de serem destruidas, talvez pelo seu peso. +Algumas vezes a aguia é substituida por outros animaes, ou por homens e +anjos. As estantes de pelicanos, cujo uso foi introduzido no tempo do +periodo ogival, veiu a ser bastante commum na epocha do renascimento. + +_As estantes moveis_. Estas estantes facilmente transportaveis, foram +empregadas durante o periodo ogival, quer para a leitura do Evangelho e +da Epistola, quer para as outras ceremonias do culto; eram geralmente de +ferro e poucas vezes de madeira. Estas estantes eram regularmente +formadas d'uma dupla dobradiça com o feitio d'um _X_, cujas extremidades +superiores ficam ligadas entre si por uma cobertura de couro sobre a +qual se põem os livros lithurgicos. Acontece todavia, principalmente nas +estantes moveis de madeira, que elle não é formado d'uma cobertura de +couro, mas sim de taboinhas postas no prolongamento de duas das quatro +extremidades superiores da dobradiça da estante. + +_Livros do Evangelho e manuscriptos lithurgicos_. Continuou-se, durante +o periodo ogival, a _illuminar_ os textos dos livros santos. + +No fim do XII seculo, isto é, no momento em que a ogiva tomou o logar da +_volta inteira_, fez-se uma revolução completa na arte de pintura. Os +miniaturistas da Europa Occidental do mesmo modo que os pintores das +vidraças e esculptores libertaram-se das tradicções byzantinas e romans, +para se applicarem principalmente á imitação da natureza. Este novo +genero nascido em França, como o estylo ogival, generalisou-se por todos +os paizes proximos. + +A escola dos _miniaturistas_ do XIII seculo dilatou a carreira de suas +obras. Até esta epocha, as Biblias, os livros dos Evangelhos e os dos +psalterios tinham sido as unicas obras ornadas de estampas illuminadas; +depois as obras profanas da antiguidade classica, as dos padres, os +romances dos cavalleiros e as chronicas tiveram tambem illustrações +calligraphicas. + +Proximo do meiado do XIV seculo, uma nova mudança teve a pintura em +geral, estendendo a sua influencia sobre todos os ramos d'esta arte. Ao +primor do desenho que traça os principaes contornos, esforçou-se o +pintor por ajuntar o modelado dos objectos no afrouxamento gradual dos +tons e na opposição das sombras e da luz. A começar d'esta epocha, o +colorido deu á figura, não sómente a côr, mas ainda a fórma e o relevo. + +No XV seculo, a arte da pintura e do miniaturista, subiu em Flandres ao +mais alto grau de prosperidade, sob a influencia dos irmãos Hubert e +João Van Dyck, Thierry, Streerbout, Roger von der Weyden e Haus Memling; +em Portugal, Antonio e Francisco de Hollanda. Todos estes eximios +mestres não desprezavam empregar o seu tempo na illuminura dos +manuscriptos. O rei Filippe--o Bom--1419-1467--, tinha uma predilecção +notavel pela ornamentação dos manuscriptos, como tambem em Portugal +el-rei D. João II e D. Manuel[5], contribuiram singularmente para o +desenvolvimento d'este genero de trabalho. + +Os pintores d'esta epocha applicam-se a reproduzir a belleza real que se +colhe da natureza, mais agradavel que uma belleza ideal; substituem de +alguma maneira, o realismo ao symbolismo dos seculos findos passados; +diligenciando representar com toda a verdade os minimos detalhes da +natureza, cogitam o modo de apresentar a mais exacta reproducção do +feitio e côr dos objectos. + +_Capas dos livros dos Evangelhos_. Até ao IX seculo serviram-se +bastantes vezes de capas de marfim; do IX seculo ao XII, o marfim estava +misturado ao metal e ás pedras preciosas. Durante o periodo ogival, +abandonaram geralmente o uso do marfim, e o metal só ornado com riqueza, +sobretudo no XIII seculo, de esmaltes e joias, foi empregado nas capas +das Biblias, nos livros dos Evangelhos e nos lithurgicos. Salvo raras +excepções, eram cobertos de estofos, de couro, e algumas vezes de +madeira com esculpturas ou de chapas de prata em relevo[6]. + +_Thuribulos e naveta para incenso_. Os thuribulos do XIII seculo +compõem-se geralmente, como os dos seculos antecedentes, de duas +semi-espheras ôcas, as quaes juntas formam uma bola. A semi-esphera +inferior tem um pé que lhe serve de apoio, no qual se põe as brazas e o +incenso; vem a ser o verdadeiro perfumador. A semi-esphera superior, que +serve de tampa, está crivada de muitos orificíos para sahir o fumo do +incenso. Esta tampa que tem como remate muitas vezes uma torrinha com a +figura de homem ou de animal, é movediça: sóbe e desce ao correr de tres +ou quatro correntes prezas por uma extremidade do thuribulo e por outra +parte da mesma tampa atravez da qual passa uma cadeia que fixa o remate, +e facilita levantal-a ou abaixal-a como se quizer. + +A fórma geral dos thuribulos do XIII seculo é conhecida, não sómente +pelos raros especimens em metal conservados até ao presente, mas tambem +pelas esculpturas e miniaturas contemporaneas, nas quaes se vêem anjos +ou clerigos thuriferarios. + +Nos seculos XIV e XV, os thuribulos mudam de aspecto, apresentam poucas +vezes a fórma espherica e têem geralmente o feitio de diversas curvas; +tomando a fórma de torrinhas com telhado, janellas recortadas, etc. O +metal de que geralmente se serviam, era o latão; para os de melhor +qualidade empregavam a prata. + +_Gomís_ ou _aquamaniles_. Os gomís designados tambem _aquamaniles_ (de +_aqua_, agua, e _manile_, vaso para deitar agua nas mãos) faziam parte +das alfaias ecclesiasticas e continham agua para as abluções das mãos, +durante as ceremonias religiosas. Empregavam-se tambem no uso civil para +a lavagem das mãos antes e depois das refeições. No fim do periodo roman +e durante todo o período ogival tinham as mais caprichosas e mais varias +fórmas. A maior parte apresentam a d'um animal real ou phantastico; a +agua é geralmente introduzida no gomíl pelo cimo, na cabeça do animal, +servindo de gargalo; a bocca ou o bico finalmente a aza é formada, quer +pela cauda do animal revirada sobre o lombo, quer por um lagarto ou um +dragão alado; algumas vezes mesmo a torneira está posta diante da +figura. Os animaes representados mais vezes são o leão, o cavallo, o +veado, o gallo, o dragão, a sereia e differentes passaros. Quasi todos +os _aquamaniles_ são de latão ou de cobre. + +Alguns gomís de metal têem a fórma do busto de homem, de mulher e de +creança. Devemos tambem mencionar os gomis do XIII seculo apresentando a +fórma d'um prato côvo, não sendo diverso da bacia que servia senão para +pela existencia, sobre a borda d'um bico para sahir a agua sobre as +mãos. + +No XI seculo principiou o uso de lavatorios collocados no meio das +sacristias. Havia-os de fórmas architectonicas, imitando mais ou menos +uma fortaleza ou uma torre; outros (e eram os mais communs), +compunham-se de vasos de bronze ou latão, de pequenas dimensões, tendo +uma grande aza e dois gargalos oppostos; para se lavar as mãos, +abaixava-se, empurrando de cima para baixo, um dos gargalos. O seu uso +durou até ao XV seculo. + +_Pratos para offerendas_. Encontram-se em muitas egrejas grandes pratos +ou bacias de latão estampado, cinzelado e gravado, ornados de assumptos, +symbolos, brasões, folhagens e figuras geometricas. Estes pratos +designados _bacias de offerenda_, porque serviam e servem ainda para +receber as offertas dos fieis, principalmente as que se fazem durante as +missas para os defuntos, eram feitos no XV e XVI seculo nas officinas +dos fundidores de cobre em Augsbourg, Nuremberg e Brunswick. É preciso +advertir, que as bacias do XV seculo e do principio do XVI seculo, +apresentam os caracteres da decoração ogival, e que as do XVI e XVII +seculos apresentam ornatos do estylo da renascença. + +Os assumptos e os symbolos, representados geralmente no centro do prato, +mais raramente sobre a borda do prato, são quasi sempre religiosos: +todavia vê-se tambem algumas vezes com o busto de _Cicero_, de sereias, +veados, cães, escudos com brazões, etc. + +Inscripções ou legendas estão gravadas dentro d'um ou dois circulos +concentricos proximo da borda do prato, e repetem-se geralmente cinco +vezes. Entre essas legendas ha um grande numero que apresentam um +sentido facil de interpretar, por exemplo: _Got sei met vus, hiff Got +aves not, hiff Th_ (esu) _vnd Maria, van allen schriftvren het slodt myt +sonder Gost, eh wart_ (ou _gich wart_) _der in fridt, ch_ (ou _ich_) +_bart et zeit gelvek, gi seal recorden, gustate et benedicite Deus_; +outros pelo contrario (e estes são os que se encontram mais vezes) +compõem-se de lettras, as quaes reunidas não apresentam nenhum sentido; +taes são as seguintes: _rahe wishnbi et vrmtlife, vrmtielf_ ou +_lifevrmto_. + +Parece bastante provavel que estas legendas, até ao presente +indecifraveis, foram os signaes ou as primeiras lettras de muitas +palavras formando uma divisa conhecida geralmente na epocha em que se +executavam estas bacias para offerendas. + +_Representação da patena_. Em vez de se beijar a patena, recommendava o +apostolo S. Paulo aos primeiros christãos, um abraço fraternal. No XIII +seculo, por motivo de decencia e de respeito foi substituido em muitas +partes, pelo uso d'um _osculatorium_ o abraço porque julgaram então não +se poder praticar sem detrimento para a moral e distincção das +dignidades. + +As regras lithurgicas fallam da patena, mas não determinam nem a fórma +nem a representação. Serviram-se pois para este fim indifferentemente da +cruz, relicarios, capas dos evangelhos, etc. Todavia a fórma que +prevaleceu, foi a d'um pequeno painel, feito com materias de estimação, +taes como ouro, prata, madeira rija ou marfim cinzelado, gravado, +esmaltado ou pintado, representando um assumpto religioso ou santo. Este +pequeno painel tem geralmente um cabo no lado posterior. + +_Moldes ou ferros para hostias_. Serviam-se desde muito tempo, e +servem-se ainda hoje de ferros para coser o pão que symbolisa a +Eucharistia, imprimindo-se-lhe figuras e lettras. Estas hostias teem +regularmente a fórma circular. Muitas vezes os moldes representam +crucificação, o Cordeiro Divino, a simples cruz, o signal I H S, imagens +de santos e symbolos. + +_Insignias e medalhas dos peregrinos_. As insignias de _romaria_ +compõem-se, durante toda a idade média, de pequenas chapas +rectangulares, quadradas ou circulares, muitas vezes de chumbo fundido e +de obra vasada, outras de cobre ou prata impressa e aperfeiçoada ao +buril. Apresentam geralmente em relevo a imagem do santo para quem ella +foi feita. Distinguem-se de duas sortes: umas (e eram em maior numero), +cosiam-se sobre o ornato pertencente á cabeça e sobre o vestuario; as +outras, bastante raras, fixavam-se na extremidade do bordão ou arrimo do +peregrino. + +Havia-as egualmente apresentando a fórma de medalhas ornadas, nas duas +faces, com imagem de santos e inscripções; muitas vezes são acompanhadas +de um carneiro ou argola servindo para se trazer ao collo, ou pegadas +quer no vestuario, quer nos objectos de devoção, como são os rosarios, +etc. + +_Pequenos altares domesticos_. Encontram-se muitas vezes, nos museus +publicos e nas collecções particulares, pequenos _triptycos_ e +_polyptycos_ de marfim, metal ou madeira, esculpidos, pintados ou +esmaltados. Estes objectos, os fieis se serviam antigamente nas suas +habitações para satisfazer a sua devoção, teem muitas vezes a fórma de +um retabulo com portas, porém, de grandes proporções; sendo como os +outros retabulos, ornados de baixo-relevos, estatuas e pinturas. + +_Baculos_. Como já explicamos, a voluta do maior numero dos baculos +romans era terminado por uma cabeça de serpente ou de dragão; +completava-os uma cruz com o Cordeiro Divino. Esta scena, symbolo do +triumpho de Redemptor alcançado sobre o demonio pelo sacrificio do +Calvario, veiu a ser raro desde o XIII seculo. Algumas volutas, sem +duvida, trazem ainda n'esse tempo na extremidade, uma cabeça de dragão +ou serpente, mas essa cabeça fica inteiramente separada ou invez já não +ao Cordeiro nem sobre uma personagem ou sobre uma scena religiosa. Em um +grande numero de baculos a cabeça da serpente é substituida por um ramo +de folhagens ou por uma flôr aberta. + +Quando, proximo ao fim do XIII seculo, os detalhes de architectura +substituiram-se as peças de ourivesaria, e a decoração foi buscar aos +reinos animal e vegetal, real ou phantastico, os baculos mudaram +egualmente de aspecto. Ornaram-se então de nichos, estatuasinhas, +flechas e pinaculos. O nó principalmente, e tambem a hostia, ficaram +sobrecarregados com estes ornatos. + +_Estofos preciosos_. Durante o periodo ogival, serviram-se muitas vezes, +para os vestuarios sagrados, de estofos preciosos, nos quaes os desenhos +da decoração eram feitos, _juntamente_ com o tecido mesmo, por meio de +uma trama de differentes côres, sendo depois urdido pela applicação de +bordados feitos com agulha. O uso dos pannos de raz para a decoração das +egrejas generalisou-se cada vez mais durante o periodo. + +_Tecidos_. A arte de fabricar os tecidos de seda foi trazida da Italia +no XIII seculo. Os desenhos embellezadores que ornam bastantes vezes os +tecidos no XIII seculo e durante uma parte do XIV são geralmente +copiados sobre os estofos orientaes. As figuras symbolicas e os +assumptos pertencentes á historia do antigo e novo Testamento, que se +acham excepcionalmente nos tecidos sicilianos ou italianos antes do +meado do XIV seculo, apparecem frequentemente depois d'esta epocha, com +cercadura, ou não tendo este enfeite. + +No XV seculo, a industria do tecido da seda desenvolveu-se cada vez mais +a Oeste e Norte da Europa. A Suissa, França e a Belgica, que possuíam, +depois do XIII seculo, alguns teares isolados para a fabricação da seda, +do veludo, e do setim, viram então os seus teares a multiplicar-se e +tomar consideravel incremento. + +Em Flandres tambem se tinha alcançado, desde o XIII seculo, bastante +fama pelos tecidos preciosos, para os quaes os primeiros aprestos foram +fornecidos pela Inglaterra. De todos os estofos o mais estimado e de +preço fabricado em Flandres era o setim de _Bruges_. + +_Bordados_. Nas bordaduras do XIII seculo, como nas pinturas e +esculpturas contemporaneas, o desenhador abandonou pouco a pouco as +tradicções byzantinas. Os gestos dos personagens perdem a sua expressão +archaica, as cabeças não são delineadas conforme typos convencionaes, as +pregas dos vestidos, em logar de serem comprimidas e paralellas, são +executadas com fidelidade; finalmente, as figuras teem muitas vezes a +presença curvada. + +Desde o fim do XIII seculo, a arte de bordar, designada muito +distinctamente na idade média _pintura com a agulha, acupictura_, +attingiu a um subido gráo de prosperidade; desenvolvendo-se cada vez +mais durante o XIV seculo, e chegou ao seu apogeu no principio do XV +seculo. N'esta ultima epocha, tres paizes se distinguiram sobretudo pelo +talento e habilidade no acabamento dos bordados: foram a _Belgica_, a +_Prussia rhenal_ e a _Bourgogne_. Os dois principaes centros de +manufactura para os estofos bordados encontravam-se em Arrhas, em +_Flandres_ e em _Cologne_; a estas duas cidades se póde ajuntar em +segundo logar _Malines_, _Liége_, _Tournai_ e _Reims_. + +_Pannos de Raz_. Chama-se panno de raz a _um tecido no qual os fios de +côr, enrolados sobre uma urdidura fixa vertical ou horisontalmente, faz +corpo juntamente, e produz combinações de linhas e tons similhantes aos +de pintura que se obtem com o pincel, e o mosaista com os cubos de +marmore ou de esmalte_. O panno de raz distingue-se do bordado em que as +figuras fazem parte integrante do tecido, em quanto os bordados são +simplesmente sobrepostos sobre um tecido já feito. Distingue-se por +outro modo, dos estofos tecidos de ouro e seda, porque constitue sempre +um trabalho manual, e não é obtido por um mechanismo representando sem +fim o mesmo padrão. Cada uma das producções do _panno de raz_ é uma obra +original. + +Os fios com que o tecelão delinea as sua composições, seus symbolos e +ornatos, são o ouro, prata, seda e lã. + +A arte dos pannos de raz era já conhecida no XI seculo. Antes do anno +1025, havia, em _Potiers_, uma fabrica de pannos de raz, cujos trabalhos +tinham sido muito apreciados, mesmo fóra de França. Os productos d'estas +officinas eram ornados de retratos dos reis, de imperadores, de figuras +de animaes, assim como de assumptos da biblia. + +No XII seculo a Allemanha toma egualmente uma parte activa no +desenvolvimento do fabrico dos pannos de raz. + +No XIV seculo, a arte do tapisseiro, posto que continuando a empregar o +mesmo fabrico technico do seculo precedente, progride como todas as +outras artes. + +Desde o principio do XIV seculo a manufactura dos pannos de raz de +alto-liço prosperou em Paris, Bruxellas e Arrhas; depois foi introduzida +em muitas outras cidades de Flandres e do Brabante. No fim do XIV seculo +os pannos de raz de Arrhas principiaram a ter a primazia; devendo a sua +reputação á perfeição dos seus tecidos e á sua tintura. Desde esta +epocha, os pannos de raz de alto-liço foram designados, principalmente +pelos Italianos e Inglezes, sendo da fabrica de Arrhas, pelo nome de +_finos pontos de Arrhaz, e arazzi_. + +O XV seculo foi a idade de ouro para os pannos de raz. Realisaram-se +então notaveis progressos na execução material. Os fios vieram a ser +cada vez mais finos, a proporção da seda e do ouro augmentaram +consideravelmente, os tintureiros inventaram graduação de côres novas, +emfim os tecelões aprenderam a combinar as côres com tal habilidade que +não podia ser nunca excedida. N'esta epocha os pannos de Arrhas eram os +mais estimados e por isso muito procurados. + +_Vestimentas sagradas_. Durante toda a idade média, as vestimentas +sagradas, das quaes se serviam nos dias ordinarios, eram feitas de +tecido de lã, ou algumas vezes tambem de linho. Os estofos de seda +empregavam-se nas vestimentas ricas e preciosas. + +A _casula_ conserva, até ao meado do XV seculo, a fórma que tinha +durante o periodo Roman, isto é, de um vestuario largo, comprimido á +roda do collo, cobrindo inteiramente os braços e caindo negligentemente +de todos os lados á roda do corpo. Da mesma maneira que precedentemente, +quasi sempre as estolas com bordaduras são comprimidas e estreitas, +representando assumptos religiosos. Na Italia, nos paizes meridionaes e +no meio dia de França, estas estolas são geralmente em numero de duas +postas verticalmente, uma por diante e a outra por detraz do peito; a de +diante fica com o feitio de um _tau_ T. Na Belgica, na Hollanda, na +Allemanha, e em Inglaterra, duas outras pequenas faxas saindo do peito +passam sobre os hombros e vão ter ao meio das costas, formando assim, +pela sua combinação com as estolas verticaes, duas cruzes cujos braços +ficam levantados com o feitio de Y. + +As casulas com dupla cruz entraram em uso no norte da Europa até ao XV +seculo, epocha na qual uma mudança notavel se operou na fórma e +disposição das estolas. Primeiramente, estas ficavam com muito mais +largura; depois em toda a parte onde a dupla cruz com braços levantados +havia tido uso precedentemente, pozeram sobre o lado opposto da casula, +uma cruz latina [Símbolo], e sobre a frente uma columna. + +No XIII e XIV seculos, sendo sempre estreitas, eram regularmente ornadas +com figuras geometricas ou pequenas folhagens simplesmente de decoração. +Quando no XV seculo se fizeram mais largas, representavam muitas vezes +imagens ou assumptos religiosos. + +_A estola e o manipulo_ consistiam, durante o periodo ogival, em faxas +compridas e estreitas, quasi sempre ficando as extremidades um pouco +mais largas. + +As estolas e os manipulos, geralmente de uma grande simplicidade, eram +feitos de linho, de lã ou de seda, acabando n'um bordado e franjas. Os +de ornamentos ricos eram por vezes bordados e apresentavam uma certa +analogia com as faxas de recamo d'ouro das casulas, que lhes pertenciam. +As suas extremidades não tinham ornatos com bordados symbolicos, que só +se usaram depois da primeira metade do XV seculo. + +No principio o _pluvial_, em latim _coppa_, isto é, capote para +resguardo da chuva (_pluvia_) era usado sómente pelo clero inferior, +principalmente pelos chantres e mesmo por vezes pelos seculares, tomando +uma parte na celebração do culto. Foi sómente no XIII seculo que veiu a +ser commum para todas as ordens da hierarchia ecclesiastica, incluindo +mesmo o pontifice. + +Serviam-se do pluvial, como se pratíca ainda hoje, nas procissões e em +todos os outros officios da missa; por exemplo, no canto solemne de +vesperas. O seu feitio é o mesmo da casula; sómente, em logar de ser, +como esta, inteiramente fechada de maneira a esconder todo o corpo, é +aberto na frente desde os pés até ao collo. + +O pluvial da idade media tinha, sobre as costas, um capuz de ponta muito +comprida, com a qual se podia cobrir a cabeça. Nos pluviaes ricos as +orlas da abertura de diante, e tambem a orla inferior, estão cobertas de +faxas de estofo colorido, bastante estreitas e ornadas, principalmente +no principio do XIV seculo, sendo os assumptos religiosos feitos com +bordados. No XIV seculo as faxas veem a ser mais largas, e proximo da +mesma época, o capuz augmenta, ficando a sua extremidade redonda, e como +as faxas, ornada. + +_Colchete do pluvial_. Prendia-se o pluvial sobre o peito com um grande +colchete coberto de medalhões em metal precioso, ornado de esmaltes ou +delicadamente cinzelado. Estes _medalhões colchetes_, em latim +_fibulae_, _morsus_, _monilia_ ou _pectoralia_, teem muitas vezes a +fórma de quatro folhas; ha tambem circulares, ovaes, e mesmo quadrados. +São geralmente ornados com assumptos religiosos ou com estatuasinhas de +santos. Acompanham-os, principalmente no XV seculo, a figura ajoelhada e +os brazões do doador. + +A _alva_ e o _amicto_ conservaram as fórmas primitivas durante o periodo +ogival. Eram geralmente de linho, algumas vezes tambem de seda ou +brocado. Continuou-se a guarnecel-os de faxas rectangulares com recamo +de oiro, bordados ou tecidos vistosos. Estas vestimentas prendiam-se no +meio da orla superior do amicto; e sobre a alva nas extremidades das +mangas á roda do punho, por diante e detraz sobre a orla inferior +proximo dos pés, e algumas vezes tambem sobre o peito. + +A _cintura_, da qual o sacerdote se serve para arregaçar a alva, +prende-se á estola em cruz sobre o peito; não teve nunca na idade média +a fórma de cordão que apresenta actualmente. N'essa época geralmente +consistia em um comprido cinto, especie de fita comprida de dois metros +e meio, com a largura de cinco a seis centimetros. Dá-se-lhe algumas +vezes o comprimento symbolico, por exemplo, do tumulo de Jesus Christo. + +A _dalmatica_ é a vestimenta decima do diacono, a _tunicella_, a do +sub-diacono. Não existe, ha muito differença entre estas duas +vestimentas, posto que n'outro tempo a tunicella teve mangas mais curtas +e era mais comprida, porém menos ornada que a dalmatica. + +Durante o periodo Roman e no principio do ogival, a dalmatica consistia +em um comprido vestido inteiramente fechado, com mangas e uma abertura +para passar a cabeça. Era enfeitada diante e detraz por duas faxas +verticaes com recamo de ouro ou de côr, descendo até a orla inferior. +Estas faxas, muito estreitas no XIII seculo, vieram a ser cada vez mais +largas desde o XIV seculo. + +No XIII seculo, a dalmatica não era ainda aberta nos dois lados da orla +inferior até quasi á quarta parte do seu comprimento. No XIV e XV +seculos, estas aberturas augmentaram até meia altura do vestuario; tendo +então, do mesmo modo, toda a parte inferior da dalmatica, bordados de +faxas de côr ou as superiores de recamo de ouro. + +_Mitras_. As mitras com dois bicos, o uso das quaes se tinha +generalisado no XII seculo, foram definitivamente adoptadas no XIII +seculo, como um ornamento episcopal e abbacial. Comparadas com as mitras +modernas, as primitivas eram muito baixas, a sua altura variava entre +0,20 a 0,25 centimetros. + +As differentes partes de que se compõem as mitras são: 1.^o as peças +triangulares formando pela sua reunião o barrete; 2.^o as duas fitas +pendentes da mitra mais largas nas extremidades inferiores, ficando +prezas por detraz da mitra. + +Havia na idade média duas qualidades de mitras: simples ou lisas, e com +bordaduras recamadas de oiro, designadas na latinidade da idade media +pelo nome _mitrae auriphry giatae_. Sobre estas ultimas as bordaduras +recamadas de oiro dispunham-se por tres maneiras: 1.^o verticalmente ou, +como dizem os livros lithurgicos, _en titre in titulo_; 2.^o +horisontalmente ou _in circulo_; 3.^o em titulo e em circulo juntamente. + +No meiado do XIV seculo, os bicos da mitra são maiores. A maior parte +das mitras da ultima metade d'este seculo medem de 32 a 35 centimetros +de altura. Esta altura chega regularmente a 40 centimetros no seguinte. +N'esta ultima época tambem as orlas dos bicos são algumas vezes +guarnecidas com bordaduras recamadas de oiro, ou tendo uma especie de +renda de prata dourada similhando-se a folhas de repolho ou de crochetes +vegetaes. + + +*Abbadias e Mosteiros* + + +_Observações preliminares_. As partes principaes de que se compõem as +abbadias e os mosteiros da idade media são a egreja, o claustro, o +refeitorio, a sala do capitulo, o dormitorio, o aposento para o abbade e +para os hospedes, o celleiro, o palheiro, a prisão e as casas de +arrecadações. Estas differentes partes ficavam geralmente da mesma +maneira, principalmente nos conventos que observavam a mesma regra. + +A egreja era sempre _orientada_, isto é, ficando a capella mór voltada +para o Oriente. No lado meridional da nave fica encostado o claustro, do +qual se entra para a egreja por duas portas collocadas nas extremidades +da galeria encostada á parede lateral da egreja: uma junto do alpendre, +outra na proximidade do cruzeiro. A galeria opposta, que fórma o lado +meridional do claustro, dá entrada para o refeitorio. A sala do capitulo +e o parlatorio occupam o rez-do-chão ao longo da galeria oriental, que +se liga por uma extremidade com o cruzeiro; no andar por cima está o +dormitorio, o qual communica com a egreja por uma escada conduzindo do +dormitorio ao transepte. As construcções do occidente do claustro +serviram primitivamente aos irmãos conversos, os quaes eram em grande +numero nas grandes abbadias do XII e XIII seculos. Porém, quando mais +tarde se supprimiu esta instituição, e se limitaram os irmãos conversos +ao numero estrictamente necessario para o serviço dos religiosos, ellas +foram destinadas para outros usos. Muitas vezes serviram para aposentos +dos hospedes, e uma parte foi transformada em celleiros e armazens. + +As differentes Ordens religiosas distinguem-se na escolha do local; +quando pretendiam fundar uma nova abbadia, cada uma dava preferencia aos +sitios de mais predilecção. Os Benedictinos escolhiam geralmente os +sitios altos e as montanhas; os Bernardos, pelo contrario, gostavam de +se estabelecer nos valles sobre as margens dos ribeiros, como exprimem +estes dois versos: + + _Bernardus valles, montes Benedictus amabat, + Oppida Franciscus, magnas Ignatius urbes_. + +A similhança que apresentam a maior parte das abbadias cistercienses na +disposição das suas differentes fórmas é bastante notavel; quasi todas, +quando o accidentado do terreno o permittia, reproduziam, por assim +dizer, servilmente o plano das abbadias primitivas da Ordem de Cister; +plano typo adoptado para a construcção d'estas abbadias na Europa +occidental do XII e XIII seculos. + +A egreja era muito vasta; a sua nave meridional ficava encostada ao +claustro, com as suas galerias para passeiar; a Leste do claustro está a +casa do capitulo; o parlatorio era o grande recinto onde se reuniam os +monges; no andar sobre este lado ficava o dormitorio e o refeitorio, e a +cozinha do lado da galeria meridional do claustro. O rez-do-chão era +destinado para reuniões durante o dia, e o andar superior para as de +noite; como se dizia na idade média, _domus conversorum_. O rio ou +ribeiro passava por baixo do refeitorio ou cozinha para levar o lixo de +toda a qualidade. Defronte dos aposentos dos irmãos conversos, havia um +grande pateo murado, no qual estava, na direcção de sudoeste, a porta da +entrada principal da abbadia. Temos em Portugal um famoso modelo na +antiga abbadia de Alcobaça. + +As outras grandes ordens religiosas adoptaram muitas vezes, para os seus +mosteiros, disposições analogas. + +As ordens de S. Domingos e S. Francisco, fundadas ambas no principio do +XIII seculo, estabeleciam-se regularmente nos grandes centros da +povoação, onde não achavam sempre espaço bastante vasto para se poderem +desenvolver á vontade e dispôr as differentes partes dos seus mosteiros +seguindo dados uniformes. É por esta razão que, em muitos casos, o plano +dos seus conventos differe sensivelmente da disposição tradicional +observada escrupulosamente pelos monges de Cister, mesmo, porém, com +mais liberdade pelos Benedictinos. + +_Egrejas_. A planta das egrejas monasticas apresenta geralmente, como a +das cathedraes e das collegiadas, a fórma de uma cruz Latina. Muitas +vezes a capella-mór não é muito comprida. Foi então no XIII seculo que +na Europa occidental e central se pozeram as cadeiras no côro para os +frades, não sómente na capella-mór, mas tambem no cruzeiro, e mesmo em +uma parte da nave principal, como existia na egreja de Alcobaça. + +As egrejas dos frades Dominicanos e dos Franciscanos não tinham +ordinariamente nem cruzeiro nem torre. No XIII seculo, os Dominicanos, +construiram em Paris, Augsbourg, Dresde e outras muitas cidades, egrejas +com esta disposição excepcional, ficando divididas por duas naves com um +unico renque de columnas. Encontra-se tambem esta disposição, porém, +raramente, nas egrejas das outras Ordens religiosas. + +_Claustros_. Durante o periodo ogival, os claustros eram geralmente +construidos de abobada de barrete com nervuras, e communicando com o +pateo do convento por arcadas ogivaes, vasadas e separadas umas das +outras por contrafortes. Nas arcadas collocavam nos XIII, XIV e XV +seculos, trabalhos rendilhados em cantaria, similhantes aos feitios que +se viam nas janellas contemporaneas; e de que temos exemplos nos +edificios religiosos da Batalha e de Belem. Muitas vezes esses caixilhos +de pedra não tinham vidros; todavia, principalmente no Norte e Oeste da +Europa, vedavam os tympanos com vidros brancos ou de côres, a fim de dar +abrigo contra os rigores da temperatura a quem passeasse pelas galerias +do claustro. + +Desde o XIV seculo algumas vezes, e bastantes no XV seculo, substituiram +nos claustros, as arcadas ogivaes pelo feitio de janellas com pinasios +de pedra similhantes aos das arcaduras ornadas, que se veem nos peitoris +das janellas inferiores nas egrejas do ultimo periodo ogival. + +Fizemos notar, que as egrejas cathedraes e collegiaes tinham antigamente +um claustro, porque, do mesmo modo que os frades, os conegos viviam a +principio em communidade. Este uso, que principiou a não se seguir desde +o XIII seculo, persistiu não obstante em muitas partes até ao fim do +periodo ogival. + +Quasi todos os claustros, grandes e pequenos, construidos na idade +média, possuiam um _lavabo_, _lavadouro_, tendo uma pia com uma fonte. A +fonte occupava, no principio, o centro do pateo do convento. Mais tarde +approximaram-a da galeria do refeitorio; ficando então collocada em +frente da entrada do refeitorio, ou em um dos angulos da galeria ao +longo d'elle. Os frades voltando do trabalho da lavoura, lavavam ahi as +mãos antes de se pôrem á mesa ou ir ás rezas. + +_Refeitorio_. O refeitorio estava geralmente situado ao correr da +galeria meridional do claustro. Como já referimos, compunha-se d'uma +vasta sala traçada sobre um plano rectangular, abobadada em geral ou por +vãos descançando sobre um fuste de columnas. Por cima do claustro, havia +muitas vezes um andar pouco alto, servindo de celleiro para +abastecimento no inverno, com alimentos e fructas passadas. + +Nos conventos dos Cistercienses, o refeitorio era sempre dividido em +duas naves por um renque de columnas, collocadas ao meio longitudinal; +além d'isto, ficava este renque perpendicular á galeria proxima do +claustro. No refeitorio dos frades de S. Bento, e em geral, em todas as +outras abbadias, o grande eixo corria parallelo á galeria do claustro, e +o renque das columnas muitas vezes não é representado. + +Ao lado do grande refeitorio, quasi sempre a oeste d'elle, ficava a +cosinha, geralmente com uma grande chaminé quadrada. + +_Casa do Capitulo_. No rez-do-chão ao correr da galeria oriental do +claustro era a casa do Capitulo, a casa para as visitas e a sala dos +frades. O dormitorio occupava o andar d'este lado uma escada conduzindo +directamente do andar superior ao cruzeiro do lado do sul, facilitava +aos frades descerem á egreja para os officios nocturnos sem se expôrem +ao ar exterior. + +A casa do Capitulo, isto é, o logar onde os frades se reuniam sob a +presidencia do abbade, afim de tratarem dos negocios espirituaes e +temporaes do mosteiro, era edificado sobre um plano quadrado ou +rectangular com um ou muitos renques de pilares sustentando as abobadas +e as suas nervuras, dividindo-se em duas ou mais naves. Bancos de pedra +guarneciam as paredes em roda. Na Inglaterra dá-se frequentemente ao +plano das casas de capitulo a fórma circular ou polygona; e n'este caso, +uma unica columna central sustenta a abobada e as suas nervuras, como ha +em Westminster e em Lincoln. + +_Parlatorio_. O parlatorio, _collocutorium_, era uma pequena casa entre +a do capitulo e a escada conduzindo ao dormitorio. Ali os frades tinham +licença de conversarem em voz baixa, quando relações indispensaveis da +vida commum o exigissem. Em todas as outras partes do mosteiro se devia +guardar o maior silencio. + +Ao lado da escada proxima do parlatorio, havia um corredor pelo qual se +podia passar para o grande claustro e annexos da abbadia perto do côro +da egreja. + +_Casa e dormitório dos frades_. A casa onde os frades passavam o dia, +que os _antigos_ designavam _domus fratrum_ e que os inglezes designam +ainda sob o nome de _fratres_, isto é, logar onde vivem os frades, +consistia n'um vasto espaço abobadado e occupava sempre o rez-do-chão, +na extremidade Sul do lado Oriental do mosteiro. + +No andar da casa de que acabamos de fallar, encontrava-se o dormitorio +commum dos frades, pois a regra de S. Bento determinava que os frades +dormissem n'uma só casa, mas em camas separadas: _Monachi singuli, per +singula lecta dormiant; si potest fieri, omnes in uno loco dormiant_. + +O uso das cellas, que havia em alguns raros mosteiros desde o XII +seculo, não veiu a ser commum senão na epocha do renascimento. + +_Aposento dos irmãos leigos_. Todas as grandes abbadias benedictinas e +cistercienses tinham, no XII e no XIII seculos, um numero consideravel, +chegando a ter 300 a 400 leigos, designados nos necrologios com o nome +de _conversi_ ou _fratres ad succurrendum_. Estes irmãos, que não +entravam nas ordens sagradas, mas faziam profissão de religiosos, +destinavam-se, sob a direcção dos frades, aos trabalhos da agricultura e +ao exercicio de diversos officios. Habitavam o lado occidental dos +edificios monasticos, designados por esta razão casa dos leigos, _domus +conversorum_, e prolongava-se muitas vezes desde o portico da egreja até +muito álem do grande refeitorio. + +Nos edificios cistercienses, a habitação dos leigos compunha-se +regularmente, no rez-do-chão, d'uma só e vasta casa abobadada, dividida +em duas naves por um renque de columnas; e no andar por cima, de uma +casa do mesmo tamanho da inferior, coberta as mais das vezes por um +telhado tendo o madeiramento visivel na parte interna. + +_Casa abbacial_. Originariamente o aposento do padre abbade consistia +n'uma simples cella. D'ahi a pouco, todavia, o aposento do chefe do +mosteiro veiu a ser uma construcção importante; e viam-se muito +raramente, na idade média, os abbades contentarem-se com o dormitorio +commum ou uma simples cella. A começar do XIV seculo, e principalmente +na epocha do renascimento, as casas abbaciaes vieram a ser muitas vezes +verdadeiros palacios, constando d'uma capella particular, grandes salas, +pateos, cavallariças, jardins com terraços, etc. + +_Aposentos para hospedes_. Todas as abbadias tinham uma habitação +reservada ou uma parte do proprio edificio para hospedar as pessoas que +visitavam os frades. No principio, esta habitação estava sempre a pouca +distancia da porta principal afim de evitar distracção para os frades do +convento: como ha um bello exemplo no extincto mosteiro de Alcobaça. + +As abbadias, que foram em todos os tempos casas de caridade, possuiam +tambem suas esmolerias destinadas a dar habitação e sustento aos pobres +e peregrinos. Eram situadas na visinhança da entrada do convento. + +_Celleiros_. Nos seculos XI e XII, as abbadias applicaram-se activamente +ao surribamento dos terrenos incultos; os trabalhos campestres eram de +certo modo, a sua occupação principal. Foram as Ordens de Cister e de S. +Bernardo que prestaram assignalados serviços á agricultura. + +As abbadias não faziam colheita sómente do producto das suas proprias +explorações agricolas; cobravam tambem o dizimo em muitos sitios e +recebiam em genero o pagamento dos rendeiros. Precisavam portanto vastos +celleiros e armazens muito grandes para recolher, no tempo da ceifa, os +cereaes que recebiam por esses differentes titulos. + +Nos conventos cistercienses o celleiro formava, no principio do periodo +ogival, um edificio muito vasto, edificado sob um plano rectangular. Era +algumas vezes abobadado e dividia-se em duas naves por um renque de +columnas para maior solidez, servindo o andar para os cereaes. Outras +vezes compunha-se de tres naves separadas por dois renques de pilares ou +prumos de madeira para sustentar o madeiramento sem precisão de +abobadas. + +_Officinas_. Nos XII e XIII seculos havia em cada abbadia, alguns leigos +ajudados muitas vezes por seculares exercendo os officios necessarios +para a conservação do edificio e para o fabríco dos pannos, couros e +instrumentos aratorios. Empregavam um certo numero de alveneos, +ferreiros, carpinteiros, fabricantes de pannos, tanoeiros, etc.; as +officinas estavam geralmente collocadas aos dois lados do pateo situado +entre a porta da entrada principal do convento e a habitação dos leigos. + +A maior parte das abbadias possuiam tambem seu moinho e fabrica de +cerveja. + +O desenvolvimento extraordinario dos estabelecimentos religiosos durante +as suas culturas e explorações ruraes motivou a construcção de curraes +espaçosos. Encontravam-se tambem em todas as abbadias pateos para aves. + +Em propriedades importantes situadas a alguma distancia da abbadia, +estabeleciam-se muitas vezes grandes herdades, sendo a sua exploração +confiada a alguns leigos sob a direcção d'um frade. Compunham-se d'um +corpo de casas situadas em roda d'um pateo quadrado, as quaes tinham +communicação só do lado d'elle. Além d'esta habitação, curraes, celleiro +e outros edificios necessarios para o serviço da exploração, havia +n'estas herdades, uma capella onde os leigos assistiam aos officios +religiosos. + +_Celleiros_. Dá-se o nome de celleiro aos armazens onde se conservam os +mantimentos de todo o genero. O frade encarregado de vigiar o +abastecimento tinha o nome de _celleiro_, _cellerarius_ e _collarius_, +mudado mais tarde, por algumas ordens religiosas, no de _procurador_, +_procurator_. Este logar passava por um dos mais importantes nas +abbadias. + +_Prisões_. Na idade média, as abbadias, universidades e algumas vezes os +cabidos possuiam prisões para encarcerar os membros da communidade que +se tivessem tornado criminosos de delictos ou insubordinação para com os +superiores. + +Na qualidade de soberania, as abbadias, universidades e cabidos gosavam, +nos territorios que lhe pertenciam, o poder superior de justiça, e +tinham prisões para encarcerar os seus subditos seculares criminosos. As +prisões das abbadias ficavam a uma certa distancia dos edificios da +habitação dos religiosos. + +_Cartuchas_. As cartuchas, cuja origem vem dos ultimos annos do XI +seculo, apresentam disposições notavelmente differentes das cellas das +abbadias. As principaes differenças que se observam, são: grandissimo +comprimento dos claustros; numerosas habitações inteiramente separadas, +para uso dos religiosos, as quaes se compunham sempre de dois ou tres +quartos e d'um pequeno jardim, com uma porta dando entrada para a +galeria do claustro. + +Quasí todas as cartuchas tinham dois claustros unidos. + +_Mosteiros para mulheres_. As disposições das differentes partes dos +mosteiros para mulheres apresentam a maior analogia com os das abbadias +para homens. Á roda do claustro ergue-se a egreja, a casa do capitulo +com dormitorio no andar superior, o refeitorio e os outros aposentos. As +escolas exteriores, que havia ás vezes nos conventos de homens, como por +exemplo dos frades Agostinhos, as casas para hospedes, peregrinos e +viajantes, faltavam nos conventos das mulheres, porque toda a relação +com o exterior lhe era prohibida. + +_Os conventos de recolhidas_ consistiam em casas particulares e communs, +situadas em um recinto inteiramente fechado, á roda de uma egreja +isolada de todos os lados. Sectarias de _Bégard_, partidistas de uma +perfeição extrema que permittia todos os excessos de devoção e que fôra +adoptada no III seculo. As recolhidas tinham o nome de Beatas. + +_Hospitaes_. Os hospitaes da idade média differem absolutamente dos +hospitaes modernos. Os do XII e do XIII seculos compunham-se sempre, de +uma extensa casa onde estavam as camas para os doentes, de uma egreja ou +capella contigua a esta casa e communicando com ella, de um aposento +para os enfermeiros, e de algumas casas para serviço. Por causa da +hygiene ficavam geralmente situados nas proximidades da porta da cidade +ou sobre a margem de um rio. + + +*Iconographia do periodo ogival* + + +_Observações preliminares_. As representações iconographicas tão +variadas e tão abundantes de symbolismo, que se encontram em grande +numero sobre os monumentos e alfaias religiosas das epochas Roman e +Ogival, eram geralmente projectadas e imaginadas, não pelo obreiro ou +artista que executava o objecto, porém, por um padre, frade ou secular +litterato. + +_A aureola_. A aureola ficou em uso como signal iconographico durante +todo o periodo ogival. _Crucifera_ pertence exclusivamente ás pessoas da +Santissima Trindade; simplesmente _circular_ é attributo caracteristico +dos Santos. A sua fórma manteve-se geralmente a mesma que era antes, +salvas algumas modificações em certos paizes, mas apenas no termo do +periodo ogival. + +No fim do XIV seculo, não sómente os Santos, os Apostolos e Nossa +Senhora, mas tambem os anjos, assim como o Padre Eterno e Jesus Christo +ficaram privados d'este attributo caracteristico. Se a aureola por acaso +apparece ainda resplandecendo alguma imagem, foi porque o artista, +luctando contra a moda, commetteu archaismo. Um sem numero de monumentos +que datam d'esta epocha e chegaram até á nossa, apresentam _sem aureola_ +as imagens divinas, angelicas ou sanctificadas. + + +*Representação da Santissima Trindade* + + +Na epocha ogival, serviam-se ainda algumas vezes do baptismo de Jesus +Christo para representar a Santissima Trindade. Como no periodo Roman, +dava-se ainda, durante o periodo ogival, a fórma humana ás tres pessoas +Divinas, ou pelo menos ás duas primeiras, pois o Espirito Santo +continuou a ser frequentemente symbolisado por uma pomba. As tres +pessoas Divinas continúam a ser representadas da mesma fórma até ao fim +do XIV seculo. Mais tarde o Padre Eterno teve a figura de um ancião, o +Filho de Deus a de um homem de trinta a trinta e cinco annos, e o +Espirito Santo a de um adolescente de doze a dezoito annos. Ao Padre +Eterno dá-se então o distinctivo de um globo, uma Cruz de resurreição ao +Filho, e um livro ao Espirito Santo. Finalmente, ainda perto da mesma +epocha, representa-se o Padre Eterno, e mesmo algumas vezes o seu Filho, +de papa ou de imperador, com a pretensão de expressar, por assim dizer +materialmente, o seu supremo poder, achando-os revestidos das insignias +das duas maiores auctoridades conhecidas sobre a terra. + +Encontram-se tambem, no fim do periodo ogival, dois symbolos da +Santissima Trindade, consistindo em figuras geometricas, o triangulo e +tres circulos entrelaçados. Na epocha do renascimento, costumavam muito +a inscrever n'um triangulo algumas vezes um olho, outras o nome de +Jehovah. + + +*O crucifixo e a crucificação* + + +No XIII seculo, epocha designada _do soffrimento_, ou da _realidade_, +principia-se a representar Jesus Christo na Cruz. O corpo do Redemptor +curva-se ou mais depressa retorce-se de uma maneira bastante +desagradavel; os braços não ficam na sua posição horisontal, pois as +espaduas descem sensivelmente abaixo do ponto de união das mãos, de modo +a figurar os esforços naturaes produzidos por um corpo humano suspenso +por meio de cravos; os pés sobrepostos afastam-se de pessima posição, +muitas vezes mesmo fazem encruzar as pernas; finalmente a cabeça de +Christo, moribundo ou sem vida, está quasi sempre inclinada sobre o +hombro direito, isto é, para o logar onde se vê a Mãe de Jesus e tambem +algumas vezes a personificação da Egreja. + +Nas crucificações pintadas e esculpidas do XV e XVI seculo, a cruz do +Redemptor e as dos ladrões, muitas vezes bastante altas e de diminuta +grossura; assim como a travessa horisontal da cruz do Christo tem um +grande comprimento, em quanto que a extremidade que tem o titulo, sobe +apenas ao ponto de intersecção das duas travessas. + +Desde os primeiros annos do XIII seculo, principiou-se com timidez +primeiramente a supprimir o _suppedaneum_ e a pregar á cruz, por meio de +um unico cravo, os dois pés sobrepostos do Redemptor; porém, depois de +algum tempo, o emprego de tres cravos veiu a ser quasi tão commum como o +de quatro; e nos seculos XIV XV foi o unico empregado. + +O Christo crucificado traz ainda a aureola no XIII seculo. A corôa de +espinhos, quasí desconhecida antes, apparece de tempos a tempos no XIV +seculo. No seculo seguinte encontra-se frequentemente. + +No XIII seculo, a representação da crucificação foi ainda algumas vezes +reproduzida com todas as personagens e accessorios historicos e +allegoricos que acompanhavam precedentemente e que já temos descripto; o +mais das vezes, todavia, não se conservam senão alguns. Os que se vêem +geralmente são Nossa Senhora e S. João, o sol e a lua. Os dois ladrões, +a egreja e a synagoga raro apparecem. + +_Nossa Senhora e S. João_. Durante o periodo roman, Nossa Senhora e o +discipulo mais amado são representados com uma attitude de paz, erguendo +geralmente os braços para o Redemptor ou occultam o rosto em signal de +pezar. No XIII seculo, e mesmo durante uma parte do XIV seculo, +conservam esta attitude estavel e digna. Mais tarde, o gesto que se lhe +attribue exprime já uma dôr vulgar e natural. + +No XV seculo, e algumas vezes já no XIV seculo, os artistas christãos +procuram produzir, na alma do espectador, sentimentos de ternura e de +compaixão. + +Para este effeito representam Nossa Senhora desmaiada nos braços das +duas santas mulheres que a amparam. Os exemplos d'este _deliquio_, +encontram-se na Italia desde o XIII seculo. + +_O Sol e a Lua_. Durante o periodo ogival, o Sol é figurado geralmente +por um disco radiante, e a Lua por um simples quarto crescente. + +_A Egreja e a Synagoga_. Como já explicámos, a Egreja e a Synagoga eram +personificadas, durante o periodo roman, por simples mulheres trazendo +os respectivos attributos. Depois do meiado do XII seculo, essas +mulheres representavam rainhas. A que symbolisava a Egreja, sempre +collocada á direita de Jesus Christo, traz uma corôa, e levanta a cabeça +com uma expressão de orgulho; as mais das vezes, tem n'uma das mãos o +calix, e na outra uma cruz de haste comprida ou um pequeno modelo de uma +egreja. + +A Synagoga, pelo contrario, tem uma corôa que lhe pende da cabeça e um +estandarte cuja haste se quebrou entre as suas mãos; deixando escapar as +taboas da Lei, e tendo os olhos vendados por uma faxa ou por um dragão +que se lhe enrosca á roda da testa. + +_Os dois ladrões_. Os ladrões nas mais antigas crucificações, apparecem +de tempos a tempos durante o periodo ogival; teem os musculos encolhidos +até a contorsão, e as mãos, não pregadas sobre a cruz, mas ligadas ás +costas de maneira a deixar passar, pelo centro, a travessa horisontal do +instrumento do seu supplicio. No fim do periodo ogival, encontram-se de +novo representados os ladrões, principalmente nos retabulos de madeira +de obra de talha da escola hollandeza. + +_Imagem de Nossa Senhora_. _Nossa Senhora com o Menino Jesus_. Durante o +periodo ogival, o _grupo historico_ de adoração dos reis magos, que se +vê sobre alguns pequenos _diptycos_ ou _triptycos_, de marfim, onde se +vê, ao mesmo tempo, a crucificação e outras scenas tiradas da vida de +Jesus Christo. N'esta representação os reis magos trazem sempre na +cabeça a coroa real. + +No XIII seculo, encontra-se ainda frequentemente Nossa Senhora +_assentada_ em uma cadeira ou throno, tendo sobre os joelhos o Menino +Jesus, o qual deita a benção com a mão direita e na esquerda tem um +livro ou o globo terraqueo. + +Já muitas vezes no XIII seculo, e mais tarde quasi sempre, Nossa Senhora +está de pé e com o Menino Jesus no braço esquerdo. Durante a primeira +parte do periodo ogival, a sua posição é mais ou menos curvada. + +Em quanto aos caracteres que apresentam as imagens de Nossa Senhora +assentada ou de pé nos differentes monumentos do periodo ogival, +pódem-se resumir nos termos seguintes. Nunca o grupo de Nossa Senhora +com o Menino Jesus foi mais ideal que no XIII seculo; mal se approxima o +XIV seculo, descuida a sua bella composição poetica para adoptar a +realidade primeiramente e depois descahir na vulgaridade até á rudeza. + +No fim do XII e no principio do XIII seculo, póde-se dizer que Nossa +Senhora não apparece já com o Menino Jesus: esta representação seria +muito vulgar e Nossa Senhora assemelhar-se-hia a qualquer mãe que +tivesse o seu filho ao collo; mas então a Santa imagem o tem _junto de +si_. O Menino Jesus traz o globo do mundo na mão esquerda e deita a +benção com a mão direita; além d'isso está completamente vestido, é já +crescido, posto que ainda menino; é o Deus-Homem, mais depressa que +Homem-Deus. No fim do XIII seculo, Nossa Senhora principia a ser mais do +que a guarda de seu Filho como fazem todas as mães mortaes! Jesus está +ainda vestido, abençôa trazendo um livro ou um globo; porém o vestuario +é menos largo e mais curto, o livro menos volumoso, o globo mais +pequeno. + +_Scenas tiradas da vida de Nossa Senhora_. Mencionaremos as tres +principaes: + +A _Annunciação_ é quasi sempre representada da mesma maneira. Nossa +Senhora está de joelhos sobre um genuflexorio no momento em que apparece +o Anjo. Entre a imagem e o Anjo está um vaso com a flôr de liz aberta. +Muitas vezes S. Gabriel tem n'uma haste esta flôr ou um sceptro; por +vezes traz na mão uma bandeirola com a inscripção: _Ave Maria_. Um raio +luminoso cae sobre a cabeça de Nossa Senhora, ou então, o Espirito +Santo, sob a fórma d'uma pomba, descança sobre a imagem da Virgem Maria. + +_A morte de Nossa Senhora_ é quasi sempre representada da maneira +seguinte: Nossa Senhora está deitada sobre um leito rodeada pelo seu +Divino Filho e pelos apostolos. Jesus traz no braço a alma de Nossa +Senhora, representada por uma creancinha. Os apostolos trazem muitas +vezes um livro com figura iconographica. + +_A coroação de Nossa Senhora_ faz-se umas vezes por Jesus só, outras por +tres pessoas da Santissima Trindade; outras ainda vê-se Nossa Senhora +com a corôa na cabeça, sentada sobre o mesmo throno em que está o seu +Divino Filho, o qual se lhe abraça ao peito. + +Deixariamos incompleta a historia iconographica de Nossa Senhora, não +mencionando aqui a _Arvore de Jessé_, que se vê tantas vezes desde o XII +seculo. Jessé adormecido serve de alguma maneira de raiz ao tronco +mysterioso, o qual sáe quer do seu peito, quer de sua bocca, quer do seu +cerebro. Os ramos d'este tronco separando-se, trazem na extremidade um +dos antepassados do Redemptor; no cimo, uma flôr desabrocha e serve de +apoio a Nossa Senhora, algumas vezes só, outras tendo nos braços o seu +Divino Filho. As mais das vezes a arvore de Jessé complica-se, entre +cada ramo está collocado um propheta com um phylateria mostrando a +prophecia de que é auctor, e que se refere á vínda de Jesus Christo. +Olhando para a extremidade d'esta arvore, mostra com o dedo onde deve +repousar o Espirito Santo. No Oriente, não se limitam unicamente a +intercalar os prophetas no meio dos ramos, ajuntam-lhe o divino +_Balaam_, e os sabios da Grecia com as suas maximas. O XV e XVI seculos +produziram um grande numero de arvores de Jessé. + +_Os Apostolos e os Evangelistas_.--_Apostolos_. Jesus Christo escolheu +doze apostolos á frente dos quaes collocou S. Pedro. Depois da morte do +Redemptor, o traidor Judas ficou substituido por S. Mathias. Além +d'estes doze apostolos, que constituem a congregação apostolica assim +chamada, deu-se tambem o nome de apostolos a alguns outros santos que +haviam tomado uma parte activa e vasta na fundação da Egreja christã. +Tal foi S. Paulo, convertido milagrosamente no caminho de Damasco, elle +o grande promotor da conversão dos pagãos e appellidado, por esta razão, +o apostolo dos gentios; taes foram ainda S. Barnabé, S. Lucas e S. +Marcos, unicos discipulos, os quaes pelas suas prédicas, e, os dois +ultimos tambem, pelos Evangelhos que compozeram, poderosamente +contribuiram para a propagação da doutrina de Christo. + +Como S. Paulo figura quasi sempre entre os apostolos quando se +representam reunidos em numero de onze, resulta que se supprime +geralmente um; as mais das vezes é S. Mathias, o successor do traidor +Judas, algumas vezes tambem S. Judas ou qualquer outro apostolo. + +Até ao XIII seculo, os apostolos, á excepção de S. Pedro e S. Paulo, não +tinham nenhum attributo caracteristico pelo qual se podessem distinguir +uns dos outros. Representavam-se todos de uma maneira uniforme, com um +livro ou um rolo de papel na mão. Depois do XIII seculo, ficam +geralmente caracterisados pelos instrumentos presumidos do seu martyrio; +porém, como o genero do supplicio que soffreram não é muito bem +determinado para todos, torna-se por vezes difficil designar com certeza +o nome de alguns d'elles: todavia o que os caracterisa ordinariamente é +o seguinte: + +S. Pedro traz as chaves ou por vezes a Cruz abatida, instrumento do seu +supplicio; S. Paulo, a espada com que lhe cortaram a cabeça; S. João, o +calix envenenado do qual saiu a morte sob a fórma de um dragão; Santo +André, com a Cruz em fórma de X, e que tem o seu nome; S. Jeronymo, a +espada, ou as mais vezes, o bordão e o vestido de peregrino guarnecido +de conchas; S. Filippe, a cruz com haste comprida; S. Bartholomeu, um +grande cutello do qual se serviram para o esfollar, e algumas vezes +tambem uma cruz; S. Matheus, um machado, uma espada ou uma lança; S. +Simão, uma serra; S. Judas, uma cruz ou um livro; S. Thiago, um bordão; +S. Thomaz, uma grande pedra e por vezes ao mesmo tempo uma lança; +finalmente S. Marçal, uma picareta ou um alfange. + +_Evangelistas_. Os Evangelistas continuaram a ser representados da mesma +maneira que precedentemente, quer seja com a fórma humana, quer seja +pelos symbolos dos quatro rios do Paraizo, quer seja por quatro figuras +aladas. + +Já indicámos o logar respectivo que devem sempre occupar os animaes +symbolicos nos quatro angulos de um quadrado ou nas extremidades dos +quatro braços da Cruz. Esta regra ficou em vigor durante o periodo +ogival. + +_Scenas diversas_. Seria impossivel indicar, mesmo resumidamente, todas +as scenas representadas pelos pintores e esculptores christãos da idade +média. Mencionaremos sómente as quatro principaes, e que se veem mais +vezes. + +_O Dia de Juizo_. Esta scena encontra-se principalmente: 1.^o _no +principio do periodo ogival_, esculpida nos tympanos dos portaes +principaes das abbadias, cathedraes, egrejas das parochias e mesmo nas +capellas; 2.^o _no fim do mesmo periodo_, pintada na nave principal das +egrejas por cima do arco triumphal. + +Para dar uma ideia exacta da maneira como esta scena é representada nas +principaes cathedraes francezas, faremos a descripção do Dia de Juizo, +que se vê no portal central da Sé de Paris. Este assumpto é um dos mais +bem compostos. A verga da porta está inteiramente occupada por figuras +representando diversos misteres saindo dos seus tumulos, despertadas por +dois anjos, os quaes, de cada lado, tangem trombeta. Todas estas +personagens estão vestidas; ahi está um papa, um rei, guerreiros, +mulheres e um preto. Na zona superior, está ao centro um anjo que peza +as almas; dois demonios tentam fazer pender um dos pratos para o seu +lado. Á direita de Jesus Christo estão os escolhidos, todos vestidos de +compridas vestimentas e coroados. Estes escolhidos são representados sem +barba, jovens e risonhos, olhando para Jesus. Á esquerda o demonio +empurra uma multidão d'almas agrilhoadas vestidas com os fatos do seu +mister. As expressões d'estas figuras são indicadas com superior +talento: o terror, o desespero assignalam-se nas suas feições. Na parte +superior está, ao centro Jesus Christo, representado semi nu, que mostra +as suas chagas; dois anjos em pé, á direita e á esquerda, têem os +instrumentos da Paixão; depois, estão de joelhos, implorando o +Redemptor, Nossa Senhora e S. João. As curvaturas do portal do lado dos +condemnados estão occupadas, na parte inferior, por vistas do inferno, e +do lado dos escolhidos, por anjos e patriarchas, entre os quaes se vê +Abrahão colhendo as almas no seu regaço; depois os escolhidos em grupos. +Esta esculptura tão notavel é da era de 1210 a 1215, e estava +inteiramente pintada e dourada. Ha a mesma representação nas cathedraes +de Chartres, Amiens, Reims e Bordeus. + +O inferno é quasi sempre figurado por uma bocca enorme de monstro +lançando chammas, no meio das quaes os démos, armados de grandissimos +harpeos, abysmam os condemnados. Por vezes tambem é representado o +inferno por uma grande caldeira na qual os démos precipitam as almas dos +perversos; e, n'este caso, um demonio armado de um folle activa o fogo +da caldeira. + +A scena _de se pezar as almas_ faz geralmente parte do Juizo final, e é +quasi sempre representada da mesma maneira. O archanjo S. Miguel segura +a balança: em um dos pratos está uma alma humana figurada por uma +creança nua; emquanto ao outro, com o pezo que deve ter a alma do +innocente, afim de ser admittido no paraizo, Satanaz procura que elle se +incline para o seu lado. Esta scena, cujo fim era evidentemente inculcar +aos ignorantes a ideia de dar conta a Deus depois da nossa morte, está +representada nas miniaturas dos manuscriptos, e mesmo nas gravuras em +madeira que ornam alguns livros impressos no fim do XV e no principio do +XVI seculo. + +_Missa designada de S. Gregorio_. Este assumpto encontra-se muitas vezes +nos paineis e nas miniaturas do XV seculo. O Santo papa diz a missa, e +Jesus Christo apparece-lhe em vida, em pé sobre o altar, e á roda estão +os instrumentos da Paixão. Traz os estigmates nos pés e nas mãos, e +deixa saír do lado o sangue da chaga. + +_Alma humana_. Quando os artistas da idade média representam uma pessoa +moribunda, indicam sempre a alma do justo que acaba de saír do corpo, +por uma creancinha nua trazida nos braços de Nosso Senhor. + +_Sibyllas_. A representação dos prophetas tem-se ás vezes ajuntado ás +sibyllas, que se reputa haverem predito o nascimento, a vida, a morte, e +a resurreição de Jesus Christo. No XIII seculo, começou-se a fazer +figurar em alguns monumentos, principalmente a sibylla do _Dies irae_. + +As doze sibyllas são: 1.^a A Sibylla da Persia, _percicae_, que tem na +mão uma lanterna, porque ella annunciou a vinda do Messias; bastantes +vezes o sol brilha por cima da sua cabeça. 2.^a A de Libya, _libicae_, +que tem um brandão acceso e prediz o Redemptor como a luz do mundo. 3.^a +A de Delphos, _delphicae_, que tem na mão uma corôa de espinhos, porque +prophetisou as mortificações de Jesus Christo. 4.^a A do Mar Vermelho ou +de Erythrea, _erythracae_, uma das mais celebres, que havia predito a +ruina de Troyes; era a prophetisa das vinganças divinas; traz uma espada +nua. 5.^a A de Cumas, _cumana_, egualmente muito citada, tem um +presepio, porque annunciou o nascimento de Christo em uma manjadoura. +6.^a A de Samos, _samia_, traz uma corôa de espinhos como a de Delphos, +e um caniço, porque prophetisou a Paixão. 7.^a A Cimmerianna, +_cimmeria_, prophetisou a crucificação, e por esta razão traz uma cruz +da paixão. 8.^a A de Tivoli, _tiburtina_, tem na mão uma vara, por haver +annunciado a flagellação do Redemptor. 9.^a A de Phrygia, _phrygia_, +traz uma cruz de resurreição, no cimo da qual fluctuam tres bandeirolas +encarnadas. 10.^a A de Hellesponto, _hellespontica_, tem por attributo +uma rozeira florida, ou então uma cruz, porque annunciou algumas +circumstancias da Paixão. 11.^a A Europa, _europaea_, tem um alfange, +porque predisse a degolação dos innocentes. 12.^a Finalmente, a Sibylla +Agrippa tem a vara como a de Tivoli. + + + + +CAPITULO VI + +Periodo da Renascença + + +_NOÇÕES PRELIMINARES_ + + +Não nos demoramos muito sobre as differentes phases da arte na epoca da +renascença, mais apropriadamente moderna do que antiga; e que, por +conseguinte, não pertence ao dominio da archeologia. + +Chama-se _renascença das artes e das lettras_ ao retrocesso para a arte +classica antiga e para as litteraturas grega e latina. A renascença das +artes estendeu-se não sómente á architectura, mas a todas as artes de +desenho. A reacção favoravel para a architectura grega, romana ou +classica, produziu-se primeiramente na Italia, onde nunca o estylo +ogival tinha vigorado summamente, nem dominado só com poder absoluto. + +Proximo ao principio do XVI seculo, a architectura néo-classica transpoz +os Alpes, e passou successivamente á França, Hespanha, Portugal, +Belgica, Allemanha e Inglaterra. Os paizes mais afastados do +renascimento, foram tambem os ultimos a adoptarem os seus principios +architectonicos. + +Na França como na Belgica o progresso do novo estylo foi rapido, tendo +apparecido quasi ao mesmo tempo. + +O retrocesso tão rapido e tão universal para as fórmas da arte classica, +foi motivado em grande parte por um desejo de novidade, e por uma +reacção contra a architectura ogival. Nota-se, realmente, que em +architectura, mais que em qualquer outra arte, o gosto é sempre movido +para a variedade; e é isto que explica como se póde dizer com verdade, +que a historia da architectura offerece uma continuação de transições +sem repouso. A esta causa principal vieram ajuntar-se muitissimas causas +secundarias, taes como a reacção que se operou nos XV e XVI seculos, a +protecção aos estudos gregos e latinos, e a invenção da imprensa, que +concorreu tão admiravelmente para a diffusão das obras primas da +litteratura e da arte antiga, pelas quaes se tinham apaixonado. + +Até ao meiado do XVIII seculo, a renovação das fórmas antigas fez-se +exclusivamente conforme os modelos antigos de Roma e de Italia, modelos +quasi todos não satisfazendo a respeito da conformidade artistica. Foi +sómente n'esta epocha que se principiou a estudar os monumentos da +melhor epocha ainda conservados em Athenas e na Grecia. + +Houve, entre o estylo ogival e o do renascimento, um periodo de +transição, durante o qual se notou muitas vezes, no mesmo monumento, uma +mistura, uma fusão de fórmas particulares a cada estylo. Portanto +encontram-se edificios, os quaes, entre os detalhes melhor +caracterisados do estylo ogival do XVI seculo, apresentam ornatos, taes +como medalhões, folhagens e arabescos, copiados dos monumentos da Roma +antiga. Outras vezes, janellas em ogiva são compostas de pinasios com os +perfis no gosto da renascença. Finalmente, ás vezes as abobadas +pendentes, os pinaculos e os campanariosinhos estão cheios de ornatos +imitados dos edificios da antiguidade. + + +*Caracteres da architectura da Renascença* + + +_Comêço_. A architectura da renascença seguiu os mesmos principios +fundamentaes que a architectura classica, isto é, as cinco ordens +greco-romanas. + +Os primeiros architectos da renascença inspiram-se unicamente dos +monumentos de Roma e da Italia. Ora, n'um grande numero d'estes +monumentos, o _entablamento_, isto é, a parte superior da Ordem, +composto do _friso_, da _architrava_ e da _cornija_, membros que, nas +Ordens Gregas, servem sempre para ligar duas columnas proximas, tinha +sido supprimido e substituido por arcos, os quaes vinham firmar-se nos +capiteis d'essas columnas. Quando procuram empregar materiaes de pequena +dimensão, a substituição do arco pelo entablamento é perfeitamente +logica; porém esta não é a pratica seguida na epocha da _decadencia_ +romana, de interpôr ao fecho inferior do arco e ao açafate do capitel, +um simulacro de entablamento da Ordem, entablamento que ficava +completamente inutil, visto que o seu emprego está preenchido pelo +_arco_. Na época da renascença, esta prática pouco racional e pouco +reflectida foi geralmente adoptada, principalmente d'áquem dos Alpes. +Além de que, foram buscar aos mesmos edificios da decadencia romana +outros defeitos tambem notaveis no que diz respeito ás cornijas: em +primeiro logar, quando muitas Ordens estão sobrepostas na altura de um +monumento, como acontece frequentemente nas fachadas, põem-se _tantas +cornijas_ quantas são as _Ordens_; depois, coisa mais singular ainda, a +Ordem collocada _no interior_ de um monumento _conserva_ a sua cornija, +isto é, o _remate do edificio_ destinado a ter _um telhado_ e um algeroz +para dar saída ás aguas da chuva! + +A architectura do renascimento, todavia, não é uma simples mescla, uma +copia servil da architectura greco-romana. Serve-se ella, na verdade, +das cinco Ordens, mas ajustou-as para outros usos e para outros climas, +aproveitando os progressos obtidos pela arte de edificar durante o +estylo ogival. Os edificios que executou conforme os principios de +construcção d'este ultimo estylo, foram enfeitados á maneira antiga, +ornamentado superficialmente, ou desfigurados, como em S. Paulo de +Londres, por paredes isoladas que encobrem a configuração architectonica +do monumento; emquanto na Belgica, nas egrejas do renascimento, o +systema do apparelho das abobadas ogivaes foi em toda a parte +conservado, porém dissimulado com arte. As paredes exteriores das naves +lateraes, muito grossas, preenchem o fim dos contrafortes, e muitas +vezes esses arcos-butantes ficam revirados (isto é, collocados de +maneira que a sua curva convexa fica posta na direcção do telhado +d'essas naves), e apoiados nos arcos duplos d'elles. + +_Decoração_. Sob o ponto de vista da decoração pintada e esculpida, +muito mais que sob o ponto de vista architectonico, o periodo da +renascença, no sentido mais lato, póde-se dividir em muitos estylos, +apresentando cada um caracteres distinctos. Estas sub-divisões se +applicam particularmente ás producções da arte Franceza. 1.^o o estylo +da renascença propriamente chamado, o qual comprehende o XVI seculo e a +primeira metade proximo do XVII seculo; todavia sepára-se algumas vezes +d'esta época nos annos 1610 a 1642, para lhe constituir o estylo Luiz +XIII; 2.^o o estylo Luiz XIV (1643 a 1715); 3.^o o estylo Luiz XV (1715 +a 1774); 4.^o o estylo Luiz XVI (1774 a 1796); 5.^o finalmente o estylo, +designado do imperio (primeiros annos do XIX seculo). + +Na origem da _renascença_, os ornamentos foram, como na architectura +imitados quasi servilmente dos monumentos da antiguidade. As almofadas, +frizos, pilastras e um grande numero de outros trabalhos architectonicos +se revestiram, nos edificios os mais sumptuosos, de assumptos de +decoração proveniente da arte greco-romana. As palmetas, folhas de +acantho e triglyphos tornaram a apparecer em todo o logar. Viam-se +tambem, genios alados, figuras naturaes e phantasticas de toda a especie +enlaçadas nas grinaldas e em espiraes formando desenhos os mais +caprichosos. Estes ultimos ornamentos, compostos principalmente conforme +os modelos antigos achados em Roma nas _grutas_ ou ruinas do palacio de +Titus, tiveram no principio o nome de _grotescos_, denominação mais +propria do que a de _arabescos_, a qual lhe foi dada depois, porque os +Arabes proscreviam severamente da sua decoração qualquer representação +da natureza animada. + +O estylo da renascença não se conservou intacto senão até o principio do +XVI seculo. + +Os ornamentos do estylo Luiz XIV consistem principalmente em grandes +espiraes, palmas muito desenvolvidas, separadas ou envolvidas com os +elementos de ordem architectural, medalhões, trophéus, etc. + +O estylo Luiz XV, que prima antes de tudo pela elegancia exaggerada nos +pequenos detalhes, desce á affectação na lindeza. A esculptura +decorativa abunda nas espiraes com folhagens myrrhadas e subtilmente +contornadas; faz com frequencia uso de conchas ou embrechado, +misturando-as em todas as suas composições. A linha recta cede o logar á +linha curva, e sobretudo a symetria não é observada. No principio do +XVIII seculo, o gosto se corrompeu de novo; volta-se no traçado do plano +e nas fachadas dos edificios ás fórmas torcidas e ás linhas quebradas. +Nos ornamentos dos maiores e soberbos contornos, as plantas vistosas do +estylo Luiz XIV transformam-se em definhados filetes, torcendo-se e +entrelaçando-se uns nos outros da maneira a mais singular, e +acompanhados de abundantes obras de conchas e de grande numero de +cupidos; o que fez dar a este _estylo exquisito e todo affectado_ o +appellido de estylo _embrechado_ e estylo _Pompadour_. + +A affectação e o grande exaggero que caracterisam o estylo de Luiz XV +motivaram cedo uma reacção. No reinado de Luiz XVI voltaram a empregar +menos entrelaçados e menos entalhaduras. A descoberta de Herculanum e a +publicação das _Antiguidades de Athenas_ contribuiram a levar o +entendimento para o gosto mais serio, uma decoração menos contrafeita; +fizeram vigorar as fórmas classicas da arte grega e romana, cujas +investigações recentes vieram a descobrir os especimens importantes e +notaveis. + +A época da revolução franceza e do directorio causou um extraordinario +prejuizo á industria artistica. Quando, no principio do actual seculo, +um novo estado politico ficou definitivamente constituido, o seu novo +soberano, vencedor na Italia e no Egypto, cuidou em conservar junto de +si as coisas que lhe recordassem as suas victorias gloriosas. + +No _estylo do imperio_ viu-se apparecer os gryphos, as sphinges, os +feixes consulares, victorias com palmas e corôas de carvalho. Pouco +tempo depois, esses assumptos foram quasi os unicos empregados na +decoração tanto de architectura, como na mobilia. + +_Plano das egrejas_. A maior parte das egrejas da renascença têem a +fórma da cruz Latina. As capellas que havia ao correr das naves lateraes +e na nave principal das egrejas ogivaes, ficaram supprimidas em França, +na Belgica e na Allemanha, porém conservaram-se na Italia. A capella mór +e o cruzeiro terminavam geralmente por uma abside semicircular ou +polygonal, apresentando no interior uma disposição de pilastras +corinthias ou compositas, entre as quaes ha janellas e nichos. Arcadas +de volta inteira, descançando sobre columnas ou pilares põem a nave +principal em communicação com as naves lateraes. As portas, as janellas +e todas as aberturas estão tapadas na sua parte superior por um arco de +volta inteira. + +Os _triforiuns_ das egrejas ogivaes não se construiram na renascença. +Primeiramente substituiu-os, durante algum tempo, uma galeria em sacada, +tendo parapeito de cantaria vasado ou de obra de ferro; todavia pouco +depois esse logar foi occupado por uma simples cornija com sacada +bastante solida para servir como galeria, podendo-se andar á roda da +nave principal, ficando na altura das janellas superiores. + +O monumento mais gigantesco e grandioso que tem produzido a architectura +do renascimento é, sem duvida, a basilica de S. Pedro do Vaticano em +Roma, cuja construcção foi dirigida pelos mais celebres architectos, +Bramante, Raphael, os dois S. Gallo, Peruzzi, Miguel Anjo, Vignola, +Maderno e finalmente Bernini, este artista de quem infelizmente o seu +mau gosto em bellas-artes veiu a ser proverbial, sendo originado pela +inveja dos seus emulos, que pretendiam tirar a fama ao seu superior +talento: imaginando dar formas novas e as mais extravagantes ás suas +composições architectonicas afim de supplantar os seus rivaes, morreu +_desesperado_ por nada ter conseguido; posto que fosse dotado de +talento, o seu desmarcado amor proprio veiu a causar-lhe o descredito do +seu nome. N'esta colossal construcção da Basilica de S. Pedro +consumiu-se mais de seculo e meio. + +_Fachadas das egrejas_. As fachadas compõem-se regularmente de duas, e +algumas vezes de _tres Ordens de columnas sobrepostas_. A ordem inferior +abrangendo ao mesmo tempo a nave principal e as lateraes, é mais larga +que a ordem superior; essa corresponde á unica nave central, pois que o +madeiramento das naves lateraes não sóbe nunca até o entablamento da +primeira ordem. A ordem mais superior sempre terminada por uma attica ou +um frontão triangular, tendo no vertice uma cruz ornatada nos angulos, +acrotéros com vasos, fogaréos e tocheiros. Duas misulas deitadas de cada +lado da ordem superior, preenchem os espaços dos angulos rectos +produzidos pela superposição das duas ordens tendo desigual largura. As +columnas da fachada estão geralmente embebidas um terço ou metade do seu +diametro. Um ou tres portaes, conforme a importancia do edificio, dão +ingresso nas naves. + +Os jesuitas, cuja Ordem se fundou no XVI seculo, vindo a ser muito rica +e poderosa no XVII seculo, adoptaram em toda a parte esta composição +para as fachadas de suas egrejas; por isso dá-se o nome do _estylo dos +Jesuitas_ á architectura religiosa d'esta época. A maior parte das +egrejas que estes religiosos construiram distinguem-se pela abundancia +dos seus ornamentos, principalmente as edificadas na Belgica. + +_Abobadas_. As abobadas têem, como as da época antecedente, nervuras +encruzadas, as quaes, em logar da fórma da ogiva, descrevem uma curva de +volta inteira ou um arco de volta abatida. Os arcos duplos são largos e +muitas vezes formados por almofadas pouco fundas. No XVI seculo, as +abobadas tinham ás vezes decorações pintadas, e os seus fechos sustentam +abobadas pendentes com muitas sacadas de bastante peso. Depois +abandonou-se, além dos Alpes, a decoração pintada, substituindo-lhe os +ornatos em relevo. + +_Torres_. As torres, geralmente construidas sobre plano quadrado, e +compostas de dois, tres ou quatro andares sobrepostos e ornados de +pilastras ou de columnas embebidas, têem muitas d'ellas uma balaustrada +á bôca da flecha, com as fórmas mais variadas; campanulada, piriforme, +pyramidal ou uma fórma mais complicada ainda. + + +*Mobilia religiosa* + + +_Altares_. Durante algum tempo continuou o uso dos retabulos com +divisões multiplices, no genero d'aquelles dos ultimos annos do periodo +ogival, porém tendo as molduras das almofadas em detalhes no gosto do +renascimento. + +Foi proximo do XVI seculo que uma mudança radical appareceu na fórma e +disposição dos altares. Os retabulos foram então substituidos pelos +porticos copiados dos arcos de triumpho da antiguidade, encimados com +frontões de fórmas muito variadas. Serviram-se quasi sempre de marmores +raros e preciosos, sobretudo para as columnas, adquirindo-os com grande +despeza, dos paizes os mais distantes. A arcada imitando o _arco de +triumpho_ foi ornada, no principio, de estatuas e de altos e +baixo-relevos, depois por retabulos de grandes dimensões; e estes mesmos +acabaram em pouco tempo para serem substituidos geralmente por +esculpturas. + +Quando no XVII e no XVIII seculos, as fórmas extravagantes (_rocôcó_) +prevaleceram no systema da decoração, os altares tambem ficaram +sobrecarregados de ornamentos de pessimo gosto, e appareceram as +columnas _torcidas_, em _espiral_ e em _saca-rolhas_! + +_Tabernaculos_. O uso de collocar tabernaculos para conservar a +eucharistia sobre os altares principaes e secundarios, generalisou-se no +fim do XVI seculo. Até essa época as particulas se conservaram, como +durante o periodo ogival, nos tabernaculos isolados em fórma de torre ou +em armarios abertos na parede, por detraz ou á ilharga do altar. Houve +mesmo paizes onde o antigo costume não ficou abandonado inteiramente só +muito depois do XVII seculo. + +Os tabernaculos de marmore e de madeira que se collocavam sobre o altar +desde a época do renascimento, compõem-se geralmente de um cylindro ôco +ornado com riqueza e reunido a _predella_ ou throno, no qual se põem +castiçaes sobre misulas reviradas. O cylindro fechado no seu cume por +uma tampa de fórma hemispherica tem por remate um crucifixo, dividido +por um, dois ou tres compartimentos com separação, e girando sobre um +eixo vertical. + +_Cadeiras do côro, obra de talha e confissionarios_. As obras de +entalhador que ornam muitas egrejas do XVII seculo, são as principaes +obras deixadas pela época da renascença. + +As costas das cadeiras do côro compõem-se sempre de almofadas de +marcenaria ornadas de baixos-relevos ou de pinturas, separadas umas das +outras por columnasinhas da Ordem Corinthia ou Composita, sustentadas em +sacadas por misulas com bella obra de talha. Os fustes d'essas +columnasinhas, rectos ou torcidos, estão cheios de lindos arabescos e +delicadas folhagens. A obra de talha e dos confissionarios apresentam na +sua decoração de esculptura bastante similhança com as das cadeiras do +côro. + +_Jubéos e balaustradas_. Os _jubéos_ da renascença compõem-se geralmente +de tres arcadas de volta inteira, que descançam sobre columnas ou +pilastras imitadas das Ordens classicas. + +Collocam-se os jubéos á entrada da capella mór nas grandes egrejas até +proximo do meiado do XVII seculo. + +No meiado do XV seculo, uma grande reacção se fez contra os jubéos, +porque, dizia-se então, destruiam o aspecto architectonico e impediam os +fieis de vêr o sacerdote no altar. Muitos foram desmanchados n'esta +época, outros transportados proximo da fachada Occidental da egreja, a +fim de servirem de tribunas para collocar os orgãos. + +As _balaustradas_ destinadas a vedar a capella mór e a separar das naves +lateraes as capellas, ou resguardar certas partes da mobilia religiosa, +foram poucas vezes feitas de ferro ou de madeira, faziam-se de +preferencia de marmore ou latão. A sua composição era de repetidas +columnasinhas de fórma classica, quer com balaustres em pé ou +_revirados_, o que lhe fez dar o nome de _balaustrada_. + +Muitas vezes assentavam extraordinarios monumentos funerarios entre +essas separações da capella mór e as naves nas cathedraes e nas egrejas +importantes. + +_Caixas de orgão_. Na época do renascimento, deu-se ás caixas dos orgãos +as maiores dimensões. Collocaram-se, primeiramente, nas egrejas ogivaes, +do lado do Evangelho, na parte inferior do _triforium_, no primeiro ou +segundo vão da nave principal. Depois, isto é, perto do meiado do XVI +seculo, foram assentes proximo do cruzeiro, á entrada dos lados lateraes +da capella mór. Finalmente, quando as dimensões dos orgãos se foram +desenvolvendo desmedidamente, estabeleceram-se tribunas especiaes na +nave central, proximo da frente Occidental da egreja. As mais antigas +caixas dos orgãos estão cobertas de obra de talha. + +_Pulpitos_. Durante o periodo da renascença, o pulpito teve dimensões +muito maiores que precedentemente. No XVI e XVII seculos foram +construidos geralmente de madeira; porém desde o meiado do seculo +seguinte, ajunta-se algumas vezes o marmore á madeira. Os pulpitos das +egrejas de primeira ordem compõem-se muitas vezes de grupos de estatuas +acompanhadas de arvores, rochedos e outros detalhes pittorescos +representando factos da historia sagrada ou ecclesiastica. + +_Tumulos e campas_. No XVI seculo os cenotaphios eram compostos ainda +como durante o periodo ogival, d'um sóco ou macisso de alvenaria, +coberto por uma grande lousa, sobre a qual se vê a estatua do finado. Á +roda do sóco acham-se por vezes estatuasinhas debaixo de arcaduras de +volta inteira descançando sobre columnelos jonicos, corinthios e +compositos, outras vezes, as arcaduras e as estatuasinhas estão +substituidas por uma ordem de brazões. A figura do finado vê-se umas +vezes deitada, outras de joelhos sobre uma almofada ou genuflexorio. +Esta ultima attitude foi a mais commum no fim do periodo: todavia no +XVII seculo, os monumentos sepulchraes veem a ter uma composição muito +mais complicada; os sarcophagos tiveram as mais variadas fórmas, e as +estatuas dos finados foram acompanhadas de outras estatuas allegoricas, +como a morte tendo uma foice, figuras de anjos, a Fé, Esperança, +Caridade, etc. + +No XVII seculo, os mausoleus encontram-se muitas vezes collocados por +baixo de uma arcada muito ornada no estylo do renascimento. Esta +decoração architectonica applicada sobre as paredes de uma capella ou +das naves lateraes, da nave principal e capella mór conservou-se nos +XVII e XVIII seculos, mas disposta com acerto, com as modificações +introduzidas successivamente na architectura. Na segunda metade do XVII +seculo, e muito mais frequentemente no seculo seguinte, rematavam os +tumulos com pyramides e obeliscos em meio relevo, ornados de bustos, em +medalhão, do finado. Os cyprestes, as columnas quebradas, as urnas +funereas, genios com fachos derribados, todas as reminiscencias pagãs +vieram a ser tambem uma decoração mais seguida n'esta ultima época. + +O uso das _campas_ continuou durante o periodo do renascimento, e o seu +numero augmentou muito relativamente á época precedente. No XVI e no +XVII seculos eram postas no pavimento das egrejas e dos claustros; +tambem ás vezes se assentavam na grossura da parede, junto do logar em +que fôra sepultado o finado. As mais antigas, especialmente as da +segunda classe, estão cobertas em parte por figuras em alto e baixo +relevo, em parte com inscripções. Mais tarde limitaram-se a uma simples +inscripção acompanhada de um symbolo ou de um brazão. + +A maior parte das campas são de calcareo azul ou de marmore preto, e +muitas vezes têem as inscripções embutidas com marmore branco. Acham-se +tambem algumas lousas funerarias de latão, cujos traços gravados estão +cheios de um esmalte encarnado ou preto, posto a frio. + +Desde o começo do XVII seculo, as inscripções funereas principiam +frequentemente pela fórma pagã D (_eo_) O (_ptimo_) M (_aximo_), ou com +as letras P. M. interpretadas PIAE MEMORIAE, mas isso tem o +inconveniente de fazer directamente allusão ao P (_iis_) M (_anibus_) +dos antigos romanos. + +_Pias baptismaes_. As pias baptismaes apresentam pouca importancia; a +iconographia tão esplendida e tão abundante de symbolismo que se notava +sobre as pias romãs, e algumas vezes ainda sobre as do periodo ogival, +desapparece de todo. Ellas foram então formadas de simples pias de +marmore, circulares ou polygonaes, tendo a fórma de uma semi-esphera ôca +e achatada, ás vezes ornadas com molduras de fórma de perolas e assentes +sobre um pedunculo com molduras. As tampas são de latão ou de madeira. + +_Obras de ourivesaria e de esmaltador_. Durante o periodo da renascença, +os ourives serviram-se princípalmente do trabalho de estampar em relevo, +da cinzelura e da gravura para ornar os objectos de ourivesaria. Os +esmaltes de côres, cujo uso havia sido introduzido no fim do XV seculo, +concorreram egualmente ás officinas de Limoges, Augsbourg e de +Nuremberg. Os _Limousinos_ cobriam quasi sempre com pintura esmaltada as +peças metallicas, grandes e pequenas, transformando-as assim em paineis +ou medalhões: os _Allemães_ empregaram os esmaltes, não sómente como +faziam os Limousinos, para pintar pequenos modilhões, muitas vezes +camafeus côr de rosa, e os applicavam sobre os pés dos calices, das +custodias e sobre outros logares das suas obras, mas serviam-se tambem +para fazer realçar, pelo emprego do colorido superficial, certos +detalhes das suas peças de ourivesaria, por exemplo, as figuras, +folhagens, flôres e grinaldas. + +O gosto pelos assumptos mythologicos, que dominava nas artes como na +litteratura, exerceu a sua influencia na ourivesaria religiosa. Os +deuses, os semi-deuses e os monstros da antiguidade pagã foram +resuscitados. Ainda mais, apparecendo nos assumptos da historia da +Biblia ou das legendas dos Santos, os artistas curavam muitas vezes na +reproducção dos heroes do paganismo: representavam o Padre Eterno com as +feições de Jupiter antigo; suppunham exaltar Nossa Senhora +assemelhando-a ás deusas mythologicas; os anjos vieram a ser genios nús, +e as tres Graças serviram para personificarem as virtudes theologaes. +Entre os arabescos via-se reproduzir os Centauros, Pans, Sylvanos, +Tritões, Nereidas; representações onde a natureza humana e a natureza +animal se reunem da maneira a mais singular. Os objectos do culto +revestem-se com todas as excentricidades, e teem muitas vezes dimensões +fóra de toda a proporção. + +_Calices_. Os ourives do XVI seculo abandonam pouco a pouco as tradições +da edade média, e, posto que a fórma antiga da taça se conserve ainda +algum tempo mais ou menos primitiva, o calix vem a ser cada vez maior. A +principiar do meiado do XVII seculo, os artistas deixam-se levar pela +sua imaginação, esquecendo completamente as boas tradições dos tempos +anteriores. O calix chega, e mesmo vae além muitas vezes, á altura +desmedida de 35 centimetros; a taça estreita-se muitas vezes de maneira +que na communhão o padre é obrigado a curvar a cabeça para traz; o nó +não se distingue já da hastea, e o diametro do pé do calix diminue a tal +ponto que ao menor choque o calix está arriscado a cair. + +A patena é uma simples chapa redonda, não tendo nenhuma cavidade. + +_Pyxide_. As pyxides distinguem-se das que havia nas épocas precedentes +pelas suas muito grandes taças; sendo raramente ornadas de lavor +representando assumptos religiosos. A começar do XVII seculo, a sua +tampa não fica ligada á taça por um gonzo. + +_Custodia_. As custodias de fórma radiante, foram, póde-se dizer, as +unicas conhecidas da época do renascimento; teem geralmente as dimensões +muito exaggeradas. As custodias com cylindro de crystal apparecem apenas +no XVI seculo. Muitas vezes mesmo mudaram mais tarde estes ultimos, +substituindo o cylindro de crystal por um sol radiante. Nas custodias +ricas, o oculo com sol radiante é algumas vezes ornado de grupos, scenas +em alto relevo e estatuasinhas, que não convém, por fórma alguma, junto +ao Santissimo Sacramento. Essas extravagancias notam-se mais vezes ainda +nas custodias modernas. + +_Relicarios_. Os grandes relicarios do renascimento eram as mais das +vezes de madeira pintada e dourada. Faziam-se ainda algumas vezes os +relicarios de madeira, apresentando a imitação de egrejas +contemporaneas, com columnas, entablamento, frontão, etc. Muitas vezes +tambem serviam-se de bustos de Santos de madeira pintada e dourada, que +se collocavam sobre uma base ornada com molduras com ovanos. +Encaixilhavam-se as reliquias no meio da face anterior d'essa base, +mettendo-as debaixo de vidro, ou em um pequeno. relicario de metal. + +_Estofos preciosos_. _Tecidos_. No XVI seculo, os estofos de que se +serviam para as vestimentas, os mais ricos eram tecidos com oiro ou +prata, brocado e velludos de Genova e de Utrecht. + +_O estofo com oiro ou prata_ é um tecido feito com fios cobertos de +qualquer d'estes metaes. Quando os desenhos são tecidos servindo-se dos +mesmos fios ou fios de seda, designam-se _brocado_. Finalmente, se em +logar de fios de seda se servem de velludo, chama-se _velludo de +Genova_. + +Antes do XVII seculo não se conhecia o _velludo lavrado_: da sua +superficie tiravam-se servindo-se da thesoura, certas partes do pello +para formar desenhos de flôres e grinaldas. Mais tarde conseguiram obter +um resultado analogo comprimindo os velludos com uma poderosa machina +movida a braços ou pela agua; foi este o processo que forneceu, durante +muitos seculos, o _velludo batido_. O _velludo_ dito de _Utrecht_ tem +geralmente o pello mais comprido que as outras qualidades de velludos, e +distingue-se por uma consistencia mais forte. + +_Bordados_. Os _bordados_ da época do renascimento podem-se dividir em +duas grandes classes. A primeira comprehende os estofos bordados, tendo +conservado a sua flexibilidade, e consistindo o seu apreço na disposição +artistica dos fios de oiro, prata, seda ou lã de differentes côres, +empregadas pelo bordador. Os bordados de segunda classe apresentam em +estofo um aspecto esculptural, devidos aos effeitos das grinaldas, +flôres, fructos e figuras com as quaes estão ornados; podia-se suppôr +que o bordador, esquecendo o seu proprio officio, foi pedir auxilio a +uma arte estranha, que não é nem póde ser a que lhe pertence! Inutil +seria accrescentar, suppomos, que a logica pedia que o bordador +empregasse os processos de execução dos quaes legitimamente elle dispõe +pela natureza mesmo do seu officio, áquelle que empregou da arte da +esculptura, arte da qual os effeitos nos parecem incompativeis com os do +bordado inconvenientemente produzido. + +_Pannos de raz_. Os pannos de raz continuaram em uso, e obtiveram mesmo +maior acceitação durante o periodo do renascimento. Nunca os teáres de +alta e baixa trama foram nem mais numerosos, nem tiveram maior uso que +no XVI seculo. O centro de fabrico de mais importancia n'esta época foi +Bruxellas, cujos productos alcançaram primazia não sómente pela +habilidade dos operarios, mas tambem pelos cuidados constantes que se +empregavam na preparação e applicação do tabalho das materias de que se +serviam na sua execução. O magistrado communal da cidade não desprezava +nenhum meio para conservar a merecida reputação das officinas de +Bruxellas, que contribuiam com uma tão grande parte para a prosperidade +nacional. Finalmente, para conseguir pannos de raz perfeitos, elle +prohibiu, por um edital, de 24 de abril de 1425, que se pintassem ou +retocassem com pincel as encarnações dos tecidos de uma certa dimensão; +pelo mesmo edital promettia, além d'isso, aos fabricantes a propriedade +artistica de seus grandes modelos de desenhos, estabelecendo punições +muito severas contra os falsificadores. Tres annos depois, isto é, em +maio de 1528, promulgou um outro edital mais notavel ainda, ordenando +que toda a peça fabricada na cidade e medindo mais de seis varas devia +trazer d'alli em diante na ourela inferior: de um lado uma das tres +marcas dos fabricantes, Bruxellas, Antuerpia e Tournay, e do outro um +pequeno escudo entre dois BB, iniciaes da palavra Bruxellas. + +Em 1544, a obrigação de ter a marca foi extensiva pelo governo a todas +as cidades dos Paizes-Baixos. + +Na marca de Bruxellas algumas vezes o B está voltado, ficando os dois +anneis do B virados para o escudo. A marca de Antuerpia é formada por +uma mão acompanhada de uma flor de liz; a de Tournay mostra uma torre. + +Durante o periodo ogival os pannos de raz reproduziram assumptos +religiosos e, algumas vezes tambem, figuras allegoricas ou contos de +cavallaria. Á proporção do adiantamento no XVI seculo, os assumptos +religiosos tornam-se mais raros; ficando preferidas as representações +que se referissem á mythologia pagã ou á historia antiga da Grecia e dos +Romanos. + +A fabricação dos pannos de raz de Bruxellas declinou sensivelmente +durante a ultima metade do seculo XVI, por causa das perturbações +religiosas que assolaram a Belgica. + +A Antuerpia era mais um deposito commercial que um centro de producção. +Desde o XV seculo, os commerciantes expediam os pannos de raz para toda +parte; tomando no XVI seculo este commercio uma extensão maior. + +No principio do XVII seculo, a concorrencia de muitos paizes +estrangeiros estabeleceu manufacturas officiaes, fazendo declinar a +industria da Belgica. Todavia os novos estabelecimentos foram fundados +com o concurso dos mestres e operarios vindos de Bruxellas. + +Durante a segunda metade do XVII seculo o fabrico dos pannos de raz +bruxellezes principiaram a affrouxar, tanto pela sua qualidade, pois não +empregavam as boas tradições artisticas, como principalmente pela +fundação, em França, da manufactura real dos Gobelins, estabelecida em +1662 por Luiz XIV. A direcção d'este estabelecimento foi entregue ao +pintor O'Brun, que tinha um pessoal numeroso, á frente do qual estava, +entre outros, officiaes, João Jans, habil tapeceiro, oriundo de +Oudenarde, que foi residir para Paris, depois de 1650, com grande numero +de operarios flamengos. A concorrencia da fabrica dos Gobelins causou a +ruina das officinas de Bruxellas. + +A cidade de Oudenarde, que já tinha officinas de tapeçaria no seculo XV, +produziu nos seculos XVII e XVIII tapeçarias de um genero especial, +designado sob o nome de _Verduras_. Representavam, não assumptos +historicos, mas paisagens animadas por algumas pequenas figuras de +homens e animaes, assim como vistas de castellos ao longe. O seu nome +deriva da circumstancia dos tons de verde-carregado que predominam +geralmente n'estas composições. A industria da tapeçaria acabou em +Oudenarde em 1772. + +No XVIII seculo, a illusão da manufactura dos Gobelins foi tão grande na +Allemanha, que a palavra Gobelin veiu a ser synonimo de tapeçaria de +alta e baixa lissa, e tem conservado até hoje esta significação. + + +*Iconographia* + + +Uma revolução se effectuou na época do renascimento, na representação da +natureza humana. Até ao XV seculo, a nudez das figuras não era +admittida, não sómente na architectura religiosa, como na architectura +civil. Dissimulavam-se mesmo de proposito as fórmas dos corpos debaixo +da roupagem do vestuario, com receio de despertar as paixões sensuaes; +os esculptores do renascimento _fizeram tudo ao contrario_: tomaram a +taxa de executar sem disfarce a natureza, e dar ao seio, aos hombros, ao +corpo um desenvolvimento de fórmas que na edade média se tinha +dissimulado debaixo da roupagem. O retrocesso do genio para os estudos +classicos levou, por um mesmo estimulo, os artistas ao estudo da +anatomia do corpo humano: vieram a ser pagãos sem comtudo deixarem de +ser christãos, e principiaram a representar, até no sanctuario das +egrejas, a imagem núa da mulher, faunos, etc., nas attitudes as mais +lascivas: foi esta a propensão da arte desde o XVI seculo. A começar +d'esse momento, foi a sensualidade e a nudez que dominaram na maior +parte das pinturas e esculpturas mesmo as religiosas. Muitas vezes nas +egrejas, os assumptos legendarios ficam substituidos por scenas tiradas +da mythologia. Estas mesmas com figuras núas se vêem sobre os vasos +sagrados. Os anjos, que abundam nos edificios religiosos, são genios, +cupidos com azas, dispostos para entrarem no banho. + +Entre as representações proprias do periodo do renascimento, +mencionaremos uma unica: _A deposição de Jesus Christo no tumulo_, que +se representa em grande numero de egrejas com figuras de grandeza +natural. Além do corpo inanimado de Christo, vêem-se mais sete +personagens. Nicodémos e José de Arimathéa pegando nas extremidades da +mortalha sobre a qual descança o corpo do Redemptor; Nossa Senhora, o +apostolo S. João e as tres Marias, Maria Magdalena, Maria Cleóphas e +Maria Salomé, estão em fileira, entre as duas primeiras por detraz de +Christo. + +Concluiremos estas considerações pelas palavras de um douto archeologo +que estygmatisa o sensualismo: + +Podemos todavia ponderar que o estylo da architectura da Renascença, +querendo adoptar as formas da architectura classica, não produziu +progresso nenhum na arte architectural, pelo contrario a fez +_retrogradar_; se os artistas antigos tivessem conhecido essas ousadias +engenhosas dos periodos em que a architectura apresentou as suas novas +idéas artisticas, não teriam espontaneamente renunciado ao grande numero +de fórmas que a Renascença se lembrou de avivar; em uma palavra, não se +teriam adoptado modos differentes antigos, que não significavam ser o +resultado de symptoma de progresso, sendo pelo contrario uma retroacção +da arte, pois não tinham progredido nas bellezas essenciaes no estylo +antigo, tendo apenas alterado ao mesmo tempo a perfeição mechanica e a +belleza racional da arte classica. + + +FIM + + + + +Nomes dos Rev.^{os} Parochos + +_QUE FORAM ASSIGNANTES D'ESTA PUBLICAÇAO_ + + +Alexandre de Faria e Silva--Beneficiado da Sé d'Evora--Correio do +Collegio. + +Alexandre Ramos Cid--Santa Maria da Feira--Beja. + +Alfredo Elviro dos Santos--Secretario do Patriarchado--Lisboa. + +Antonio d'Almeida Estrella--Rua do Bomjardim, 187--Porto. + +Antonio Ferreira da Gama--Alfarellos--Alfarellos. + +Antonio Luiz Pinto de Carvalho--Cartaxo--Cartaxo. + +Antonio Luiz Thiago Mesquita--S. Miguel--Villa Franca do Campo. + +Antonio Narcizo Pereira--Rua da Borragem--Almada. + +Antonio Roza de Carvalho--Nossa Senhora da Conceição--Torres Novas +(Alqueidão do Sena). + +Antonio dos Santos Figueiredo--Seminario de Portalegre. + +Antonio dos Santos Silva--Santa Catharina da Fonte do Bispo--Tavira. + +Caetano Xavier d'Almeida da Camara Manuel--Evora. + +Caetano Honorio da Graça e Sousa--Seminario de Portalegre. + +Domingos José Alves Almeida--S. João Baptista--Vieira (Mosteiros). + +Eugenio de Freitas Cavalleiro de Sousa--Rua da Bella Vista, á Lapa, 7, +2.^o--Lisboa. + +Faustino Antonio de Moraes--S. Saturnino--Fanhões. + +Francisco da Conceição Costa--S. Pedro--Elvas. + +Francisco Ferreira Flôres--Nossa Senhora da Visitação--Ourem. + +Francisco José Monteiro--Nossa Senhora da Encarnação--Mirandella. + +Francisco Lourenço Cardoso--Nossa Senhora da Assumpção--Caminha. + +Francisco Maria de Vasconcellos--Nossa Senhora do Milagre--Leiria +(Vieira). + +João Baptista de Mendoça--Nossa Senhora da Graça--Olhão (Moncarapacho). + +João David d'Azevedo Barros--Rua do Bonjardim, 158--Porto. + +João José de Mattos Ferreira--Santa Maria e S. Miguel--Cintra. + +João Maria de Mendoça Vasques--Nossa Senhora da Conceição--Silves +(Alcantarilha). + +João Nepomuceno da Costa--S. Pedro de Penaferrim--Cintra. + +Joaquim Antonio dos Reis--S. Domingos de Bemfica. + +Joaquim Antonio Teixeira--Algarve--Loulé. + +Joaquim Bernardo das Dôres--Cacella--Villa Real de Santo Antonio. + +Joaquim José d'Ánova--Povoa de Varzim--Povoa de Varzim. + +Joaquim Maria Duarte Dias. + +Joaquim Martins de Carvalho--Coimbra. + +Joaquim Pereira de Moraes (Abb.)--Santa Maria--Taboaço (Sendim). + +Joaquim Rodrigues Barroso--Nossa Senhora dos Prazeres--Vizeu +(Abravezes). + +Joaquim dos Santos Sequeira--Seminario de Portalegre. + +José Alves de Mattos (Dr.)--Reitor do Seminario de Santarem. + +José Baptista Pereira--Senhor Jesus--Obidos Sanguinhal. + +José Bernardo dos Santos--Borba. + +José David d'Azevedo Barros. + +José Diogo Ribeiro--Vimieiro--Correio de Alcobaça. + +José Farinha Martins--Seminario de Portalegre. + +José da Luz Capella--S. Miguel do Pinheiro--Mertola. + +José Maria Tavares Portugal--Nossa Senhora d'Assumpção--Vianna do +Castello (Gaveão). + +José Ribeiro da Silva--Seminario de Portalegre. + +José Victorino de Carvalho--Reitor de Marcello--Santa Cruz de Villa +Aleã. + +Luiz José Nunes (Abb.)--S. Miguel--Bouças (Leça da Palmeira). + +Manuel Branco de Lemos--Salvador--Ilhalvo. + +Manuel Francisco dos Santos Peixoto--Val de S. Sebastião--Ilha Terceira. + +Manuel Ferreira Peixoto de Sousa--Vera Cruz--Aveiro. + +Manuel Henrique de Sousa Machado--S. Martinho de Bornes. + +Manuel José Bernardo Coelho--S. Thiago--Tavira. + +Manuel Maria da Costa--S. Matheus da Calheta--Ilha Terceira. + +Manuel Marques Monteiro--Nossa Senhora da Conceição--Nellas. + +Manuel Ribeiro de Mello--Valladares--Correio de Gaia. + +Manuel dos Santos Lourenço--S. João Baptista--Feira (S. João de Vêz). + +Mathias M. Grave--Seminario de Portalegre. + +Miguel Antonio da Fonseca e Sousa--S. Faustino--Pezo da Regoa. + +Paulo da Costa--Rua do Infante D. Augusto--Coimbra. + +Prior da Freguezia de Cezimbra. + +Prior da Freguezia de S. Miguel--Vagos (Sôza). + +Thomaz Joaquim d'Almeida (Dr.)--Santo André--Mafra. + +Vice-Reitor do Seminario de Faro. + +Victorino da Silva Araujo--Leiria. + +Zephyrino José Pinto. + + + + +INDICE + + + +Ao leitor. 5 + +Introducção. 7 + +*Capitulo I*--Principios da arte christã no Occidente. + +_Primeiro periodo_. 13 + +*Capitulo II*--Descripção das catacumbas de Roma; 1.^o periodo. 14 + +Symbolos ou allegorias dos primitivos christãos. 16 + +Monogramma de Christo. 18 + +Sarcophagos. 21 + +Edificios religiosos construidos nos tres primeiros seculos. 23 + +Cemiterios. 24 + +Paramentos e objectos do culto. 25 + +*Capitulo III*--Estylo latino. 25 + +Caracteres d'este estylo. 31 + +Decoração dos monumentos do periodo latino. 32 + +Narthex, fachadas e portaes das basilicas. 33 + +Janellas e vidraças. 33 + +Altar nas egrejas do Occidente. 36 + +O _ciborium_ durante o periodo latino. 39 + +Cemiterios--sarcophagos--campas e tumulos. 42 + +Os calices e patena. 45 + +Os crucifixos e os castiçaes. 48 + +Diptycos. 49 + +Estofos preciosos. 50 + +Paramentos sacerdotaes. 53 + +Mosteiros latinos. 55 + +Iconographia do periodo latino. 55 + +Caracteres do estylo bysantino. 57 + +Systema de construcção. 58 + +Duração exterior e interna das egrejas. 58 + +*Capitulo IV*--Periodo Roman. 60 + +Caracteres do estylo lombardo. 62 + +Duração monumental. 66 + +Estylo roman durante os seculos XI e XII. 67 + +Caracteres da architectura roman. 69 + +Esculptura monumental no seculo XI. 71 + +Atrios e portaes romans. 73 + +Caixilhos rendilhados e vidraças pintadas. 75 + +Columnas anneladas--ornato designado--garra. 77 + +Capiteis da architectura roman. 78 + +Arcadas e arcaduras nos seculos XI e XII. 79 + +_Triforiums_ e cornijas. 81 + +Contrafortes e telhados. 83 + +Torres e campanarios. 84 + +Pintura das paredes e pintura historica. 86 + +Altares fixos, retabulos e relicarios. 89 + +Piscinas. 93 + +Doceis--Cadeiras episcopaes. 95 + +Capellas funerarias--tumulos--pedras tumulares. 96 + +Pias baptismaes. 98 + +Esmaltes. 99 + +Ourives de Limoges. 101 + +Calices e patênas. 102 + +Grades. 103 + +Alfaias religiosas. 104 + +Restauração artistica. 105 + +Custodias--pyxides e ciborios. 106 + +Relicarios e urnas. 108 + +Corôas suspensas nos altares. 112 + +Cruzes d'altar e para procissões e candelabros. 113 + +Evangeliarios e suas capas. 116 + +Baculos pastoraes e sapatos lithurgicos. 120 + +Mitras. 122 + +Alfaias preciosas e paramentos sacerdotaes e suas côres. 123 + +Abbadias--Mosteiros--Claustros dos capitulos. 129 + +Iconographia, _a sciencia das imagens_. 132 + +A cruz e a crucificação. 137 + +Personagens e accessorios historicos e allegoricos. 143 + +Evangelistas e seus symbolos. 152 + +Assumptos religiosos representados sobre os monumentos dos seculos XI e +XII. 155 + +*Capitulo V*--Periodo ogival. 159 + +Diversas fórmas de ogiva. 160 + +Origem da ogiva e do estylo ogival. 162 + +Periodo de transição do estylo roman para o ogival. 164 + +Caracteres da architectura ogival. 165 + +Plano das egrejas do XIV e do XV seculos e aspecto exterior das egrejas. + 169 + +Systema de construcção. 172 + +Esculptura monumental. 175 + +Fachadas--Alpendres--Postaes. 179 + +Janellas no periodo de transição. 185 + +Rosaceas--Vidraças incolores. 192 + +Vidraças pintadas. 195 + +Idem do XIII seculo. 200 + +Idem pintadas do XIV seculo. 204 + +Amarello de prata. 206 + +Vidraças pintadas do XV seculo. 207 + +Idem pintadas do XVI seculo. 211 + +Idem do XVII seculo. 214 + +Idem do XVIII seculo. 216 + +Pilares--Columnas. 216 + +Bases e columnas. 219 + +Capiteis. 221 + +Modilhões--misulas. 223 + +Arcadas--arcaduras. 224 + +Cornijas--platibandas. 228 + +Estabilidade e plano das abobadas. 231 + +Egrejas que teem a sua nave central muito mais elevada que as outras +naves lateraes e aquellas tendo igual altura. 232 + +Perfis das nervuras--fecho da abobada. 234 + +Arcos butantes--contrafortes. 236 + +Gargulas. 242 + +Nichos e doceis. 243 + +Torres--campanarios. 247 + +Pavimentos. 251 + +Lages gravadas com embutidos. 253 + +Labyrinthos. 254 + +Pinturas das paredes. 256 + +Cruz da consagração. 262 + +Altares--tabernaculos--piscinas. 263 + +Frontaes--baldaquinos. 265 + +Retabulos--banqueta. 268 + +Sacrarios. 274 + +Cadeiras de côro. 277 + +Jubes--cruzes triumphaes. 281 + +Pulpitos--confessionarios. 284 + +Capellas funereas--tumulos--campas. 286 + +Pequenos monumentos funereos do XV e do XVI seculo. 294 + +Pias baptismaes--pias para agua benta. 298 + +Grades--barreiras de metal e de madeira. 301 + +Orgãos e caixas para elles. 304 + +Alfaias religiosas--esmaltes. 306 + +Calices--patenas. 310 + +Custodias--pyxides sem pé. 313 + +Relicarios--braços--pés. 317 + +Esmoleres--relicarios--diversos. 327 + +Vasos para os Santos Oleos. 331 + +Corôas com luzes--castiçaes. 333 + +Estantes para o côro. 338 + +Livros do Evangelho--manuscriptos lithurgicos--miniaturistas. 339 + +Thuribulos--gomis--pratas para offerendas. 342 + +Insignias--medalhas dos peregrinos. 346 + +Estofos preciosos. 348 + +Pannos de raz. 350 + +Vestimentas sagradas. 351 + +Mitras. 356 + +Abbadias--mosteiros. 357 + +Egrejas--claustros--casa do capitulo. 359 + +Aposento dos irmãos leigos--aposentos para hospedes. 363 + +Celleiros--officinas--prisões. 365 + +Cartuchas. 367 + +Mosteiros para mulheres--conventos do recolhidas. 368 + +Hospitaes. 368 + +Iconographia do periodo ogival. 369 + +Representação da Santissima Trindade. 370 + +O crucifixo--a crucificação. 371 + +O sol--a lua. 373 + +Imagem de Nossa Senhora--o Menino Jesus. 374 + +A Annunciação--a morte de Nossa Senhora. 376 + +Os apostolos--os evangelistas. 377 + +Scenas diversas. 379 + +Sibyllas. 382 + +*Capitulo VI*--Periodo da renascença. 383 + +Caracteres da architectura da renascença. 385 + +Começo. 385 + +Decoração. 387 + +Plano das egrejas. 389 + +Fachadas das egrejas. 391 + +Abobadas. 392 + +Torres. 392 + +Altares. 392 + +Tabernaculos. 393 + +Cadeiras do côro, obra de talha e confessionario. 394 + +Jubéos e balaustradas. 394 + +Caixas de orgão. 395 + +Pulpitos. 396 + +Tumulos e campas. 396 + +Pias baptismaes. 398 + +Obras de ourivesaria e de esmalte. 398 + +Calices. 399 + +Custodias. 400 + +Relicarios. 400 + +Estofos preciosos. Tecidos. 401 + +Bordados. 402 + +Pannos de Raz. 402 + +Iconographia. 403 + +Lista dos assignantes. 409 + + + + +Notas: + + +[1] Extraido do _Boletim de Architectura e Archeologia_, n.^o 2, Tomo V, +pag. 20 a 22, anno 1886. + +[2] Tinha a mesma designação que coemeteria e criptae. + +[3] Era um calix mystico que continha o vinho que bebeu Jesus Christo na +sua ultima ceia. Este calix tinha sido conservado por José de Arimathêa +e transportado por elle para a Bretanha. (Inglaterra). + +[4] Termo em inglez admittido pelos archeologos. + +[5] Havia no paiz dois magnificos livros do côro, um do convento de +Christo, em Thomar, e outro do convento de Belem. Este foi retalhado +pelos orphãos da casa pia de Lisboa, que fizeram d'elle _barretinas_ e +_talabartes_. Ao outro livro foram cortadas as folhas de pergaminho, +tendo vistosos arabescos e lettras floreteadas, coloridas e douradas, +cujos preciosos fragmentos comprámos avulso aos poucos no anno de 1835. + +[6] Ha um muito curioso no cabido da Sé de Vizeu, do qual tirámos o +molde em 1869. Está exposto no museu do Carmo em Lisboa. + + + + +Lista de erros corrigidos + + +Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos: + + +----------+---------------------+----------------------+ + | | Original | Correcção | + +----------+---------------------+----------------------+ + |#pág. 25| das das | das | + |#pág. 88| indefinidamenie | indefinidamente | + |#pág. 102| quaiidade | qualidade | + |#pág. 142| seseculo | seculo | + |#pág. 209| da da época | da época | + |#pág. 301| asperpergil-os | aspergil-os | + |#pág. 350| representanto | representando | + |#pág. 352| nma cruz | uma cruz | + |#pág. 397| XVII e XXIII seculos| XVII e XVIII seculos | + |#pág. 410| Varzlm | Varzim | + |#pág. 411| Conceiceição | Conceição | + |#pág. 415| dos imagens | das imagens | + +----------+---------------------+----------------------+ + +* correcções feitas com base na errata do próprio livro. + +Foi adicionada a indicação do capítulo II (pág. 14) e corrigida a +entrada do capítulo III (pág. 25). + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Resumo elementar de archeologia christã, by +Joaquim Possidónio Narciso da Silva + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ARCHEOLOGIA CHRISTÃ *** + +***** This file should be named 24455-8.txt or 24455-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/4/4/5/24455/ + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose +such as creation of derivative works, reports, performances and +research. They may be modified and printed and given away--you may do +practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +http://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all +the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy +all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession. +If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project +Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the +terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or +entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. + +1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be +used on or associated in any way with an electronic work by people who +agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few +things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works +even without complying with the full terms of this agreement. See +paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project +Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement +and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic +works. See paragraph 1.E below. + +1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation" +or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project +Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the +collection are in the public domain in the United States. If an +individual work is in the public domain in the United States and you are +located in the United States, we do not claim a right to prevent you from +copying, distributing, performing, displaying or creating derivative +works based on the work as long as all references to Project Gutenberg +are removed. Of course, we hope that you will support the Project +Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by +freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of +this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with +the work. You can easily comply with the terms of this agreement by +keeping this work in the same format with its attached full Project +Gutenberg-tm License when you share it without charge with others. + +1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern +what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in +a constant state of change. If you are outside the United States, check +the laws of your country in addition to the terms of this agreement +before downloading, copying, displaying, performing, distributing or +creating derivative works based on this work or any other Project +Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning +the copyright status of any work in any country outside the United +States. + +1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg: + +1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate +access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently +whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the +phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project +Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed, +copied or distributed: + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + +1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived +from the public domain (does not contain a notice indicating that it is +posted with permission of the copyright holder), the work can be copied +and distributed to anyone in the United States without paying any fees +or charges. If you are redistributing or providing access to a work +with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the +work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1 +through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the +Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or +1.E.9. + +1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted +with the permission of the copyright holder, your use and distribution +must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional +terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked +to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the +permission of the copyright holder found at the beginning of this work. + +1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm +License terms from this work, or any files containing a part of this +work or any other work associated with Project Gutenberg-tm. + +1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this +electronic work, or any part of this electronic work, without +prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with +active links or immediate access to the full terms of the Project +Gutenberg-tm License. + +1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary, +compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any +word processing or hypertext form. However, if you provide access to or +distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than +"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version +posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org), +you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a +copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon +request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other +form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm +License as specified in paragraph 1.E.1. + +1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying, +performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works +unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9. + +1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing +access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided +that + +- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from + the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method + you already use to calculate your applicable taxes. The fee is + owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he + has agreed to donate royalties under this paragraph to the + Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments + must be paid within 60 days following each date on which you + prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax + returns. Royalty payments should be clearly marked as such and + sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the + address specified in Section 4, "Information about donations to + the Project Gutenberg Literary Archive Foundation." + +- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies + you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he + does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm + License. You must require such a user to return or + destroy all copies of the works possessed in a physical medium + and discontinue all use of and all access to other copies of + Project Gutenberg-tm works. + +- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any + money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the + electronic work is discovered and reported to you within 90 days + of receipt of the work. + +- You comply with all other terms of this agreement for free + distribution of Project Gutenberg-tm works. + +1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm +electronic work or group of works on different terms than are set +forth in this agreement, you must obtain permission in writing from +both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael +Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the +Foundation as set forth in Section 3 below. + +1.F. + +1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable +effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread +public domain works in creating the Project Gutenberg-tm +collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic +works, and the medium on which they may be stored, may contain +"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or +corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual +property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a +computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by +your equipment. + +1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right +of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project +Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project +Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all +liability to you for damages, costs and expenses, including legal +fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT +LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE +PROVIDED IN PARAGRAPH F3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE +TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE +LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR +INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH +DAMAGE. + +1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a +defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can +receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a +written explanation to the person you received the work from. If you +received the work on a physical medium, you must return the medium with +your written explanation. The person or entity that provided you with +the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a +refund. If you received the work electronically, the person or entity +providing it to you may choose to give you a second opportunity to +receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy +is also defective, you may demand a refund in writing without further +opportunities to fix the problem. + +1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth +in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER +WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO +WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE. + +1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied +warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages. +If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the +law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be +interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by +the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any +provision of this agreement shall not void the remaining provisions. + +1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the +trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone +providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance +with this agreement, and any volunteers associated with the production, +promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works, +harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees, +that arise directly or indirectly from any of the following which you do +or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm +work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any +Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause. + + +Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm + +Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of +electronic works in formats readable by the widest variety of computers +including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at http://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. Compliance requirements are not uniform and it takes a +considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up +with these requirements. We do not solicit donations in locations +where we have not received written confirmation of compliance. To +SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any +particular state visit http://pglaf.org + +While we cannot and do not solicit contributions from states where we +have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition +against accepting unsolicited donations from donors in such states who +approach us with offers to donate. + +International donations are gratefully accepted, but we cannot make +any statements concerning tax treatment of donations received from +outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. + +Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation +methods and addresses. Donations are accepted in a number of other +ways including checks, online payments and credit card donations. +To donate, please visit: http://pglaf.org/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + http://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. |
