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+Project Gutenberg's No Paiz dos Yankees, by Adolpho Ferreira Caminha
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: No Paiz dos Yankees
+
+Author: Adolpho Ferreira Caminha
+
+Release Date: January 7, 2008 [EBook #24190]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NO PAIZ DOS YANKEES ***
+
+
+
+
+Produced by Ricardo F. Diogo, Rita Farinha and the Online
+Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This
+file was produced from images generously made available
+by The Internet Archive)
+
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+ *Nota de editor:* Devido à quantidade de erros tipográficos
+ existentes neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à
+ versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com
+ o original. No final deste livro encontrará a lista de erros
+ corrigidos.
+
+ Rita Farinha (Jan. 2008)
+
+
+
+
+ADOLPHO CAMINHA
+
+
+NO PAIZ DOS YANKEES
+
+
+DOMINGOS DE MAGALHÃES--EDITOR
+54 RUA DO OUVIDOR 54
+LIVRARIA MODERNA
+
+
+
+RIO DE JANEIRO
+
+*1894*
+
+
+
+
+NO PAIZ DOS YANKEES
+
+
+
+
+[Figura: CRUZADOR "ALMIRANTE BARROSO"]
+
+
+
+
+ADOLPHO CAMINHA
+
+
+NO PAIZ DOS YANKEES
+
+
+RIO DE JANEIRO
+Domingos de Magalhães--editor
+54 Rua do Ouvidor 54
+LIVRARIA MODERNA
+
+*1894*
+
+
+
+
+DO MESMO AUTOR:
+
+
+*A NORMALISTA*
+
+I vol. broc. 3$. cnc. 5000
+
+
+EM PREPARAÇÃO:
+
+BOM--CRIOULO
+
+
+
+
+Typ. da Empreza Democratica Editora--Rua do Hospicio n. 11
+
+
+
+
+Taine, o glorioso Taine, o querido philosopho, cuja obra admiravel tem
+sido uma especie de bussola para os que se iniciam na complicada arte da
+palavra; Taine, o mestre, aconselhava sabiamente, com aquella profundeza
+de vista e com aquelle raro e superior criterio de artista e
+pensador:--«Que chacun dise ce qu'il a vu, et seulement ce qu'il a vu;
+les observations, pourvu qu'elles soient personnelles et faites de bonne
+foi, sont toujours utiles.»
+
+Devo a estas palavras a lembrança de escrever as multiplas impressões,
+os successivos transportes de admiração, de jubilo e tristeza por que
+passou meu espirito durante alguns mezes de viagem nos Estados-Unídos.
+
+A principio afigurou-se-me obra de alevantado alcance e de extrema
+coragem traçar, ainda que ligeiramente, o plano de um livro sobre a
+grande nação americana, tão singular em seus costumes, em sua vida
+agitada e tumultuosa, em seus variadissimos aspectos...
+
+E de facto, esse trabalho, essa difficil tarefa demandaria,
+incontestavelmente, muito mais que uma somma de notas mais ou menos
+verdadeiras e algum estylo. Era preciso, antes de tudo, um elevado
+criterio historico e scientifico, grande cópia de conhecimentos e
+profundo espirito analytico.
+
+Não se escreve a historia de um paiz,--a vida inteira de um povo--sem
+demorar-se em largo e paciente estudo sobre as suas origens, seus
+habitantes primitivos, sua evolução politica e social, suas luctas
+intestinas e sobre os elementos que mais directamente influíram para sua
+independencia.
+
+A elles, os historiadores e analystas da sciencia, tão arriscada
+empreza.
+
+Os poucos mezes que passei nos Estados-Unidos apenas me proporcionaram
+ensejo de admirar, atravéz de um prisma todo pessoal, o progresso
+assombroso d'esse extraordinario paíz.
+
+Comprehendem-se, pois, os meus intuitos: nada mais que reproduzir, com a
+possível exactidão, _o que vi_, somente _o que vi_ nessa interessante
+viagem ao paiz dos _yankees_.
+
+Procurei ser espontaneo e simples, natural e logico, evitando exageros
+de observação e o estylo rebuscado e palavroso dos que, á fina força,
+pretendem transformar a litteratura n'uma simples arte mecanica de
+construir phrases ôcas e coloridas.
+
+Escriptas em 1890, as paginas que se vão ler podem não ter a importancia
+de um estudo completo, mas de algum modo têm seu valor intrinseco.
+
+Rio, 1^o de Agosto de 1893.
+
+ _Ad. Caminha_
+
+
+
+
+NO PAIZ DOS YANKEES
+
+
+
+
+I
+
+
+...Tinha cessado a faina geral de suspender ancora. Os marinheiros
+estavam todos em seus postos, alerta á primeira voz, silenciosos,
+enfileirados a bombordo e á boréste, alguns convenientemente
+distribuidos na pôpa, na prôa e nas cobertas do cruzador.
+
+Noite escura e chuvosa, cheia de nevoeiro e tristeza, fria, sem
+estrellas, cortada de clarões longinquos. Tão escura que se não
+distinguia um palmo diante do nariz, tão feia que os bicos de gaz da
+cidade, soturna e quieta, bruxoleavam pallidamente com a sua luz tremula
+e vacillante...
+
+E comtudo estavamos a 19 de Fevereiro, em plena estação calmosa, no
+rigor do verão.
+
+Chuvera todo o dia. O céo conservava-se coberto de nuvens bojudas e côr
+de chumbo, velando uns restos de lua.
+
+Um grande silencio de alto mar alastrava-se por toda a bahia do Rio de
+Janeiro. Sómente ao longe, para os lados da cidade, badalava o sino
+d'uma egreja, compassado e lugubre.
+
+De vez em quando passava rente com a pôpa do _Barrozo_ o vulto sombrio e
+largo de uma barca Ferry, com o seu pharól de côr, dezerta, indistincta,
+e que desapparecia logo na escuridão.
+
+Seria meia noite quando o navio começou a mover-se lentamente, caminho
+da barra, cheio da silenciosa melancolia dos que partiam, e uma hora
+depois a cidade, as praias, e as montanhas sumiam-se na distancia, como
+si o mar as fosse engolindo com a voracidade de um monstro.
+
+Restava apenas um ponto luminoso, uma visão microscopica da terra
+fluminense; era o pharol da ilha Rasa tremeluzindo, como palpebra
+somnolenta, atravéz da noite.
+
+E todos a bordo, todos silenciosamente, egoistas na sua dôr concentrada
+e incommunicavel, mandaram ainda um--adeus--profundamente saudoso á vida
+alegre e ruidosa do Rio.
+
+Dizem que o homem do mar é insensivel aquelles que nunca viram esta
+realidade: a lagryma da saudade brilhar na face de um marinheiro.
+
+Lá fomos mar afóra...
+
+Pernambuco foi o primeiro porto da nossa escala.
+
+Viagem monotona, sem accidentes notaveis, essa do Rio ao Recife. As
+horas succediam-se n'uma uniformidade tediosa e imperturbavel. Sempre o
+mar, sempre o céo, ora sombrios, ora azues...
+
+Durante o dia 21 avistámos, e isso nos consolou, uma vela que bordejava,
+muito branca, triste garça erradia no horisonte luminoso.
+
+Para quem viaja no mar uma vela que se avista é sempre motivo de
+innocente alegria O marinheiro com especialidade gosta de seguil-a com o
+olhar nostalgico até perdel-a completamente. É como ao avistar-se terra
+depois de longa travessia: sente-se a mesma impressão bôa e indefinivel.
+
+Na manhã de 26--léste-oeste com o pharol de S. Agostinho, e ás onze
+horas recebiamos o pratico.
+
+Impossivel entrar nesse dia, por falta de maré: passámos a noite fóra,
+no Lamarão, aos solavancos, vendo, por um oculo, a cidade do Recife,
+illuminada e bella, hombro a hombro com a legendaria Olinda dos
+hollandezes e dos banhos de mar.
+
+Na falta de outro assumpto falou se de historia patria.
+
+Pela manhã de 27 o _Barrozo_ sulcava as aguas do Lamarão, lento e
+magestoso, crivado de olhares. O povo saudava-o do cáes da Lingueta.
+Espalhou-se logo que o principe D. Augusto, neto do imperador, vinha a
+bordo, e toda a gente correu a recebel-o com essa avidez instinctiva das
+massas populares. O povo pernambucano, tradicionalmente inimigo dos
+imperadores, lembrava-se do tempo em que o Sr. D. Pedro de Alcantara
+dava-se ao luxo de visitar o norte.
+
+Mais tarde, ao desembarcar a turma de guardas-marinha, de que fazia
+parte o principe, subiu de ponto a curiosidade publica.
+
+--Oh! o principe!--Que é d'elle?--É um ruivo?--É aquelle barbado?
+
+O pobre moço viu-se em apuros, e mudava de côres, e fazia-se escarlate,
+e vociferava contra a plebe, occultando-se entre os collegas,
+desapontado. Um preto velho teve a lembrança de ajoelhar-se aos pés de
+S. A. e supplicar-lhe uma esmola. Aconteceu, porém, que errou o alvo e
+foi direito a um outro rapaz, louro e rubro, como o principe, que se
+apressou em desfazer o engano.
+
+O imperial senhor achava-se ridiculo no meio de toda aquella multidão
+servil e anonyma que o acompanhava, «como si visse n'elle um animal
+selvagem...»
+
+É assim o povo--ingenuo, pueril.
+
+Visitámos, em romaria, os principaes edificios publicos: a
+Penitenciaria, a Assembléa Provincial, o Gymnasio, o Theatro.
+
+A nova Penitenciaria do Recife é um bello edificio no genero.
+
+Impressiona tristemente esse casarão sombrio com escadarias de ferro,
+onde mal penetra a claridade meridiana.
+
+Ha criminosos de toda a especie, em cujos semblantes retratam-se
+delictos tenebrosos. Nada, porém, nos commoveu tanto como a historia do
+preso Gustavo Adolpho, que, ha quasi vinte annos, cumpria a terrivel
+sentença a que fôra condemnado. Era um d'esses sentenciados sympathicos
+que inspiram compaixão a quem os observa de perto.
+
+Um dos nossos companheiros desejou saber a historia do seu crime e pediu
+ao infeliz que lh'a contasse elle proprio.
+
+--Não queira, disse o condemnado, não queira obrigar-me a fazer minha
+propria autopsia moral... Narral-a, essa historia, seria um supplicio
+muito maior do que estar eu aqui, n'este carcere, ha vinte annos...
+
+Gustavo Adolpho parecia-nos um regenedo, tal o aspecto humilde de sua
+physionomia e o tom commovente de sua voz. O isolamento transformara-lhe
+a alma. A dôr tem isto de bom--purifica o espirito, é como um crysol.
+Esse infame, esse assassino, Gustavo Adolpho, era um martyr. Aquelle
+semblante abatido pelas insomnias, aquelle rosto descarnado, aquelles
+olhos cansados de chorar, aquelles labios lividos de defunto, cansados
+de repetir a palavra--perdão, lembravam a figura resignada de um
+moribundo que nada mais espera senão a eterna liberdade--a morte...
+
+Vimol-o na casa dos condemnados, entre as quatro paredes de um miseravel
+cubiculo, vestido de preto, barba crescida, macilento, arrependido e só.
+
+Poucos iam incommodal-o ali, n'aquella pavorosa solidão, e no emtanto
+elle não odiava ninguem e desejava falar a todos.
+
+Tinha dezenove annos quando a fatalidade o arremessou a Fernando de
+Noronha. A justiça humana o havia condemnado a esta pena
+infamante--galés perpetuas.
+
+Perdoar a um arrependido nas condições de Gustavo Adolpho, me parece a
+mais nobre acção de um rei. Todavia elle continuava, mendigo de
+liberdade, a pedir, a pedir...
+
+Por diversas vezes a academia de direito, pelo orgão de seus
+representantes, exorara a piedade imperial, mas o imperador nunca
+estendeu o seu _magnanimo_ olhar até aos carceres senão em certos dias
+de gala natalicia para indultar os escolhidos da politica dominante.
+
+--Console-se, disse eu ao desventurado moço. E citei Lamartine:--_Vivre
+c'est attendre..._
+
+Retirámo-nos commentando aquella catastrophe desastrada.
+
+A historia tragica d'esse preso foi-nos contada por um empregado do
+estabelecimento. Eu podia resumil-a em duas palavras:--_cherchez la
+femme_, si não fosse o prurido de registrar, ainda que brevemente, um
+caso curioso de processo crime. Cada um tire as illações que lhe
+aprouverem.
+
+Gustavo Adolpho nasceu no Pará onde iniciou seus estudos como
+seminarista.
+
+Muito cedo seu espirito mostrou-se refractario á educação ecclesiastica,
+e desviou-se dos livros sagrados para outro genero de leituras e estudos
+mais concentaneos com as suas aspirações.
+
+Os paes do nubil seminarista desgostaram-se com o procedimento do filho
+revolucionario e ardente apologista de Martinho Luthero, que não
+occultava-lhes suas tendencias anti-catholicas. Elle, porém, o apostata,
+o hereje, sentia-se instinctivamente arrebatado pelas idéas do seculo e
+tratou de trocar a sotaina de noviço pelo frak á ultima moda. Ninguem
+põe peias á fatalidade. Não contente com ir de encontro á vontade de
+seus paes e preceptores, o ex-seminarista tomou o primeiro vapor, e,
+subito, vio-se na capital do Brazil, sem um amigo que o guiasse n'esse
+labyrintho de ruas suspeitas onde o vicio assentou praça. A rua do
+Ouvidor e os theatros sempre eram mais agradaveis que o claustro e as
+impertinencias do reitor,--muito mais...
+
+Pobre Gustavo Adolpho! Salvara-se de um abysmo para precipitar-se
+imprudentemente, como creança inexperta, n'outro abysmo talvez mais
+perigoso.
+
+Sem amigos, sem protecção, longe de sua terra e de seus paes,--que podia
+esperar o joven desconhecido n'aquelle turbilhão de vis interesses?
+
+Imbert-Galloix, um italiano, tambem adolescente e cheio de esperanças,
+intelligente e trabalhador, morreu de miseria n'uma rua de Pariz, por
+ter trocado sua patria natal por um paiz que só conhecia de nome. Fôra
+em busca de glorias e encontrou a miseria, o frio, a fome, e a morte por
+fim.
+
+Esses sonhadores como Imbert-Galloix são sempre victimas da propria
+imaginação.
+
+A sorte de Gustavo Adolpho foi mais cruel.
+
+Custa a crêr que um insignificante par de brincos leve um homem á cadeia
+e depois ao exilio perpetuo!
+
+Uma vez sem meios de subsistencia, luctando com a má vontade de uns e a
+indifferença de outros, Gustavo Adolpho, que tinha certa dóse de
+espirito, d'esse espirito fino que caracterisa o homem de talento,
+fez-se _bohemio_, isto é, indifferente á vida, nomade a quem tanto faz
+dormir sobre flacido colxão, como ao relento e sobre a lage das
+calçadas. Ora, os bohemios são umas creaturas sympathicas. Quando um
+bohemio tem espirito acha sempre quem lhe estenda a mão. Gustavo Adolpho
+preferiu a mão leve, alva e setinosa, de uma cortezã pela qual
+apaixonou-se devéras.
+
+A mulher, sempre essa creatura profundamente seductora e mysteriosa!
+
+E, parece incrivel! quando na primeira noite, após as ineffaveis
+caricias do amor, a misera Manon, adormecida ao lado do amante, sonhava,
+talvez, n'algum banquete sumptuoso, á sombra d'alamos frondosos, talvez
+n'alguma de suas passadas orgias, á luz de candelabros deslumbrantes,
+elle, o malaventurado moço, cujo olhar fitava na meia sombra da alcova o
+rosto sereno de sua amante, antepensava um crime e um crime excepcional,
+monstruoso, inqualificavel.
+
+--Estes brincos, estes brincos... pensava elle fitando as joias, duas
+grandes lagrimas de diamante pendentes das orelhas da rapariga. Seu
+espirito oscillava como um pendulo na duvida terrivel, aguçado por um
+desejo louco.
+
+Eil-o que se levanta de um impeto, pisando devagar, surrateiramente, tão
+de leve que dir-se-ia uma sombra; eil-o que se encaminha para a porta da
+rua, tacteando, encostando-se as paredes, pé ante pé, sem respirar,
+olhando sempre para traz, para o leito da amante (lembra-me a scena da
+«Cymbelina» de Shakspeare).
+
+Meia noite... Eil-o ainda que volta e se approxima do leito onde ha
+pouco boiara em mar de volupia. Traz na mão um objecto reluzente, uma
+cousa disforme... uma machadinha.
+
+Que irá elle fazer?!...
+
+Approxima-se mais, rastejando quasi, mansamente, subtilmente.
+
+De repente sôa uma pancada surda, e um grito estrangulado:--Soc...corro!
+Sôa outra pancada surda, outra, outra, muitas pancadas, e sobre os
+brancos lençóes d'aquelle malfadado leito palpitam as carnes sangrentas,
+moribundas, de um corpo de mulher que ainda ha pouco sentia e pensava...
+
+Obseccado pela idéa do roubo, o assassino arranca brutalmente as joias
+do cadaver, e, á luz do combustor de crystal, reconhece que são falsas!
+
+Foge rua fóra, como um possesso, enfia num becco, sae por outra rua, e
+desapparece na escuridão da noite.
+
+No dia seguinte seu nome lá estava estampado em letras garrafaes no
+livro dos réos: «Gustavo Adolpho... preso pelo duplo crime de
+assassinato e roubo.»
+
+Mais tarde, annos depois, o joven criminoso tentou fugir de Fernando de
+Noronha onde fôra recolhido. Prenderam-no em flagrante. E ha poucos
+mezes, no anno passado, a princeza Isabel, então regente do Brazil,
+abriu-lhe as portas da prisão.
+
+Gustavo Adolpho publicou, no degredo, um livro de versos intitulado
+_Risos e Lagrimas_, uma collecção de poesias sentimentaes e amorosos que
+pouco valem pela fórma e onde se acham crystalisadas as dôres do infeliz
+poeta, cuja imaginação cantava entre lagrimas.
+
+Penalisou-nos a sorte d'esse rapaz sympathico e intelligente.
+
+Havia, alem de Gustavo Adolpho, outro preso não menos interessante e que
+nos excitou a curiosidade. Indigitado autor de não sei que roubo, fôra
+condemnado igualmente a galés perpetuas.
+
+Interrogado, disse-nos contar oitenta (!) annos de idade e possuir
+familia numerosa:--mulher e 30 filhos!
+
+--Qual foi o seu crime? perguntámos.
+
+O velhinho todo tremulo, a cabeça muito branca; uma nevoa humida no
+olhar, sem forças quasi para dar um passo, murmurou tristemente:
+
+--Nenhum, meus caros senhores... Supponho que houve engano da justiça...
+
+--E si lhe dessem liberdade agora?...
+
+--De que me servia? Mal me tenho em pé e já não sei de minha mulher e de
+meus filhos, Estou muito velho, preciso morrer descansado aqui mesmo na
+prisão.
+
+O edificio da Penitenciaria tem, logo á entrada, a seguinte inscripção
+em marmore:
+
+ No dia 23 de abril de 1885 sendo presidente da provincia o Illm.
+ Sr. Conselheiro Dr. José Bento da C. Figueiredo foram removidos os
+ presos para este edificio organisado sob a direcção do engenheiro
+ José Mamede Alves Pereira.
+
+Contava, portanto, trinta e cinco annos.
+
+Foi a mais interessante de todas as nossas visitas em Pernambuco.
+
+
+
+
+II
+
+
+No dia 27 deixámos o Recife em direcção ás Antilhas.
+
+Como até ahi, a viagem continuou a vapor,--uma verdadeira viagem de
+recreio si não fosse a exiguidade dos commodos a bordo do cruzador.
+
+O commandante levava ordem para chegar a Nova Orleans em tempo de
+assistirmos a abertura da exposição internacional americana, onde o
+_Almirante Barroso_ devia figurar como legitimo e admiravel producto da
+industria naval brazileira tão pouco conhecida no extrangeiro.
+
+Adoptavamos, sempre que o vento permittia, a navegação mixta, e deste
+modo, á vela e a vapor, arrastados pelas correntes maritimas que puxam
+para o norte, alcançámos, a 2 de Março, a linha equatorial, onde
+apanhámos alguns chuviscos debaixo d'uma athmosphera ardentissima.
+
+Reinava «calmaria pôdre». Ferraram-se as velas á mingua da mais leve
+aragem, armaram-se os toldos para que podessemos supportar o calor na
+tólda, e os banhos salgados de ducha foram recebidos com especialissimo
+agrado. Suava-se a valer. Imagine-se: embaixo, no porão, as fornalhas
+accesas, e em cima o sol ardente, o medonho sol do equador, cahindo como
+um caustico sobre o navio.
+
+Á tardinha incendiavam-se os horisontes de um colorido rubro,
+ensanguentado, de magica, reflectindo-se no espelho do mar tranquillo
+como num grande lago de crystal...
+
+Demos graças a Deus quando nos vimos fóra de tão desagradaveis regiões.
+
+No dia 11 avistámos terra de Barbados, uma das mais prosperas colonias
+inglezas das Antilhas. Era o primeiro porto extrangeiro do intinerario.
+
+O Capitão do Porto foi o primeiro personagem que pisou a bordo: um
+inglez de aspecto duro como em geral o de todo inglez, olhando atravéz
+de uns grandes oculos azues e ostentando fleugmaticamente um par de
+soiças ruivas. Trajava _dolman_ branco, muito justo ao corpo, calças de
+panno preto e chapéo de cortiça branco, de grandes abas, tombado para a
+nuca.
+
+Fez a visita sacramental e poz-se ao fresco em menos de dois minutos,
+depois de um fortissimo _shake-hand_.
+
+A ilha de Barbados vista de bordo é de uma nudez quasi completa: nenhuma
+vegetação cobre as vastas planicies que primeiro ferem a retina do
+observador. Ao approximar-se-lhe, porém, novas paisagens de effeitos
+cambiantes vão-se desenrolando á maneira de cosmorama. Moinhos rodam ao
+sopro do vento que ordinariamente é fresco ahi, casas de campo
+confortaveis, arvores, chaminés fumegantes, tudo isso vai apparecendo á
+medida que nos approximamos, até que, com verdadeira surpresa, surge-nos
+toda a cidade de Bridgetown e então basta um golpe de vista largo para
+abrangel-a.
+
+Á distancia Bridgetown semelha uma pobre cidade deshabitada, sem indicio
+de civilisação. A surpreza que experimenta o viajante é completa depois.
+Alguem que ahi esteve annos antes admirou-se da enorme quantidade de
+embarcações inglezas surtas no porto. Entre estas contavam-se quatro
+encouraçados, bonitos vasos que honram a Inglaterra affirmando o grande
+poder maritimo desse paiz, cuja esquadra ainda hoje não tem rival no
+mundo.
+
+Um dia e meio--eis todo o tempo de nossa demora em Barbados, tempo
+sufficiente para conhecermos a ilha a _vol d'oiseau_.
+
+A população, na maior parte negra, é composta de gente de baixa classe e
+geralmente intratavel.
+
+Abundam os _ciceroni_, especie curiosissima de especuladores, que
+perseguem os viajantes de uma maneira barbara. Querem, á fina força,
+ensinar-lhes as ruas, os hoteis, e não os largam emquanto não satisfazem
+a sua ambição, cobrando, no fim de contas, certo numero de _shillings_.
+
+Falam um _patois_ detestavel; ninguem os entende com facilidade.
+Imagine-se um pobre diabo acompanhado d'uma multidão que grita e fala
+idioma desconhecido a repetir-lhe alto aos ouvidos:--_Came hear! came
+hear!_ discutindo, altercando-se de cacete em punho. O misero julga-se
+por um momento transportado, como por encanto, ás costas d'Africa, fecha
+ouvidos á grita dos importunos _ciceroni_, brada mil vezes _no, no,
+no_..., e não tem remedio senão deitar a correr como um possesso,
+perseguido sempre pela turba multa de vadios, até que, depois de uma
+lucta incrivel, esguedelhado, offegante, pallido, embarafusta pela porta
+d'um hotel escorrendo suor, esfalfado, morto de cansaço!
+
+E ainda por cima vociféra a legião faminta dos negros!
+
+Nao exagéro. Parece realmente um paiz semi-barbaro aquelle, e ai! de nós
+si não fossem os _policemen_, activos e energicos guardas da vigilancia
+publica, que a um simples franzir de sobr'olhos fazem desapparecer a
+medonha horda de capadocios, ou que melhor nome tenham esses turbulentos
+demonios.
+
+É espantosa a ambição do povo por dinheiro.
+
+Ao tilintar do _money_ surgem de repente vinte, trinta cabeças negras,
+cada qual mais negra, disputando a posse do precioso metal.
+
+Basta dizer que ainda não tinhamos fundeado e já grande numero de
+pequenas embarcações á vela e a remos,--_fly boats_,--approximavam-se do
+navio, cortando-lhe a prôa com risco de serem espedaçadas. Ouvia-se,
+então, de todos os lados vozes que gritavam:--_I am pilot! I am pilot!_
+
+Embalde procuravamos persuadir áquelles esfaimados de dinheiro que não
+precisavamos de pratico, pois a bahia de Bridgetown é bastante espaçosa
+e offerece entrada franca.
+
+Davamos com o lenço, mandando-os embóra--que não! mas os gritos
+repetiam-se:--_I am pilot! I am pilot!_
+
+Todos queriam, a troco de dinheiro, conduzir o navio extrangeiro ao
+ancoradouro e para isso exigiam um preço fabuloso.
+
+Formidaveis importunos os taes negros de Barbados!
+
+A edificação de Bridgetown, puramente ingleza, é curiosa, pittoresca
+mesmo, si bem que uniforme.
+
+As casas, baixas quasi todas, geometricamente dispostas, alpendradas na
+frente, simples e elegantes na sua architectura, são confortaveis e
+convidam ao _far-niente_.
+
+As ruas, porém, estreitas e mal calçadas, são, por assim dizer,
+intransitaveis, em consequencia do poeiral que sobe, como fumaça, ao
+rosto dos transeuntes.
+
+No que respeita a estabelecimentos importantes, vimos a--_St. Leonard's
+School_ e uma igreja-cemiterio.
+
+A estatua de Nelson, o heroe de Trafalgar, ergue-se, em bronze massiço,
+n'uma das melhores praças do logar--_Nelson's square_, si me não engano.
+
+Os poucos hoteis que existem na ilha são vastos e offerecem o necessario
+conforto ao viajante: boa mesa, bons petiscos, magnifico vinho,
+deliciosos sorvetes--_ice-cream_--e, finalmente, boas camas e muito
+aceio.
+
+O brazileiro que viaja, com raras excepções, tem necessidade
+imprescindivel de duas cousas que elle julga essenciaes ao seu bem
+estar: café e cigarros.
+
+_Spleen_ e charutos--são cousas inseparaveis de um inglez da Inglaterra;
+café e cigarros--eis o que um brazileiro não dispensa.
+
+Infelizmente para nós, o café, tal qual se prepara em Barbados, é um
+licor detestavel composto de muito pó e pouca agua, que os naturaes
+mixturam á guisa de chocolate, mas de um sabor desagradavel, repugnante.
+
+Duas linhas de bonds percorrem a capital d'um extremo a outro.
+
+A ilha é circumdada por uma via-ferrea.
+
+De resto, é admiravel senão assombroso o progresso d'essa colonia,
+relativamente pequena e tão longe da metropole.
+
+E, note-se, de vez em quando atravessam aquellas regiões terriveis
+cyclones produzindo estragos incalculaveis em toda a extensão da ilha.
+Innumeras embarcações, algumas de grande porte, têm sido arrojadas á
+costa por esses formidaveis meteóros. O ultimo cahiu em 1851 e figura
+nos annaes da navegação como um dos grandes desastres maritimos do
+Atlantico.
+
+
+
+
+III
+
+
+Na manhã do dia 13 suspendemos ancora em direcção á ilha da Jamaica,
+fundeando no mesmo dia na bahia de Port-Royal.
+
+Denso nevoeiro envolvia, como uma gaze alvissima, as altas montanhas que
+orlam magestosamente a antiga colonia hespanhola.
+
+Ao approximarmo-nos da pequena e elegante cidade de Port-Royal, pedimos
+pratico o qual nos levou á Kingston.
+
+O brazileiro que, depois de longa ausencia do Brazil, chega á Jamaica
+sente logo um prazer especial, um fremito de patriotismo, ao contemplar
+as soberbas montanhas da ilha, tanto ellas lembram a natureza do nosso
+paiz. A bahia, salpicada de interessantes ilhotas de verduras,
+verdadeiras ilhas fluctuantes, em cujas aguas immoveis bandos de aves
+ribeirinhas ostentam sua plumagem garrída e multicolor, voando d'uma
+margem á outra n'uma contradansa animada, offerece aspectos lindissimos.
+Jamaica parece um pedaço do Brazil transplantado para as Antilhas, tal a
+opulencia da sua natureza.
+
+É a maior e a mais florescente das colonias inglezas da America depois
+de Barbados. Mede approximadamente quarenta leguas de comprimento.
+
+Kingston não é uma cidade como Bridgetown, onde a cada passo depara-se
+com uma prova de adiantamento material. É, por assim dizer, uma capital
+morta, quasi sem commercio, mas, em compensação, muito mais pittoresca
+que a capital de Barbados. Os habitantes são morigerados, e uma paz
+religiosa parece reinar no seio de cada familia.
+
+Ha mais pobresa, é certo, mas incomparavelmente o povo é mais educado,
+mais pronunciado o instincto de civilisação.
+
+Muitas estatuas. Vimos as de Lewis Quier Bower Bonk, nascido em 1815,
+Edward Jordon, um dos principaes fundadores da--_Jamaica Mutual Life
+Assurance Society_, Sir Charles Theophilus Metcaf, governador em
+1845--todas ao redor de um parque. Isso prova quanto respeito infunde ao
+inglez o nome de um compatriota celebre.
+
+Um brazileiro estabelecido em Kingston disse-nos ser o _Almirante
+Barroso_ o primeiro navio brazileiro que ahi aportava desde 1871.
+
+Nossa demora em Jamaica foi rapida como em Barbados. Telegrammas
+officiaes do Rio apressavam-nos cada vez mais. Já se havia inaugurado a
+Exposição de Nova Orleans; era-nos forçoso assistir ao menos o
+encerramento. Estavamos convictos de que o cruzador brazileiro ia
+figurar com brilho no importante certamen americano. Tanto em Bridgetown
+como em Kingston não lhe faltaram elogios de pessoas competentes.
+
+Todos anceavamos pela chegada ao paiz maravilhoso dos _yankees_, ao
+berço da electricidade, todos queriamos conhecer _de visu_ o celebrado
+paiz das descobertas engenhosas.
+
+Desde logo entrámos, de combinação, em «serios» estudos do idioma inglez
+praticando uns com os outros, compulsando manuaes de conversação,
+decorando significados, preparando-nos, emfim, da melhor forma, para
+retribuir gentilezas, captar amizades, responder a todas as perguntas
+que nos fossem feitas á queima roupa. Sim, porque tudo quanto haviamos
+aprendido theorica e praticamente na Escola, não era bastante.
+Faltava-nos a facilidade, o traquejo da palavra extrangeira, que
+haviamos de adquirir á força de vontade e applicação assidua.
+
+Alguns officiaes, entre os quaes o commandante, riam-se do nosso apuro,
+e, de vez em quando, atiravam-nos de surpreza uma pergunta em inglez.
+Quanto disparate, quanta tolice a principio! O certo é que depois, com o
+tempo, já nos entendiamos soffrivelmente. _Noblesse oblige_...
+
+
+
+
+IV
+
+
+A hospitaleira sociedade de Jamaica havia-nos conquistado a sympathia.
+Todos sentimos deixar tão cedo aquella encantadora ilha, cujos
+habitantes nos tinham prodigalisado tão generoso acolhimento. Lenços
+ascenavam para bordo ao deixarmos o ancoradouro ás 5 horas da tarde de
+21, despedindo-nos talvez para sempre d'essa boa gente.
+
+Durante os dias 22 e 23, mar e vento rebellaram-se contra o navio.
+
+Navegavamos á bolina, sempre á vela e a vapor, amurados por bombordo.
+
+Grandes rajadas frias sopravam do norte, cantando nos cabos da
+mastreação, sacudindo-os com violencia.
+
+O thermometro baixara sensivelmente, e a columna barometrica punha-nos
+calefrios...
+
+O mar quebrava-se de encontro ás bochechas do cruzador desafiando-lhe a
+resistencia colossal.
+
+Sabiamos que a latitude em que navegavamos, nas Antilhas, era muito
+frequentada pelos cyclones, esses terriveis inimigos dos navegantes, que
+arrastam em sua cauda milhares de vidas. Receiavamos esses phenomenos
+tanto mais porque os seus effeitos fazem-se sentir a grandes distancias.
+
+Os symptomas visiveis, si não eram evidentes, approximavam-se das
+descripções de navegantes experimentados. O céo estendia-se limpo, como
+um largo pallio azul esbranquiçado; apenas no horisonte fluctuavam
+pequenos _stratus_ em fórma de rabo de gallo e algumas estrias
+avermelhadas, escarlates, despertavam-nos a attenção.
+
+Ao meio-dia o sol tinha uma côr baça, com um disco azulado ao redor.
+
+E crescia o mar em vagalhões medonhos e esfusiava o vento no cordame.
+
+O navio caturrava e arfava morosamente; ouvia-se o barulho do helice
+trabalhando fóra d'agua.
+
+Pela madrugada de 24 lobrigámos por boréste o pharol da ilha de Cuba, de
+luz muito branca, e no dia seguinte sulcavamos o golfo do Mexico.
+
+Poucos dias restavam para alcançarmos Nova-Orleans.
+
+E nada do supposto cyclone!
+
+Por via de duvidas, como o tempo continuasse borrascoso, ferrámos a
+maior parte do panno, conservando apenas as gaveas risadas nos
+_terceiros_ e a mezena de capa.
+
+Capeámos tres dias consecutivos, sem que apparecesse o medonho
+visitante.
+
+No quinto dia o vento amainou rondando para nordeste e o mar, por força
+das circumstancias, tambem acalmou-se. Ferrámos o resto do panno,
+navegando só a vapor.
+
+A idéa da chegada preoccupava todos os espiritos. Os Estados-Unidos eram
+o assumpto de todas as conversações.
+
+Cedo tratou-se da limpeza do navio.
+
+Cada qual tratou de si, de sua roupa, de seus objectos que o mar
+sacudira de um lado a outro dos camarotes. Os alojamentos apresentavam o
+curioso aspecto de um campo de batalha; malas confundiam-se umas sobre
+outras formando empilhamentos, a roupa branca usada andava de mixtura
+com os fatos novos de panno; livros, papeis--tudo quanto era de uso
+quotidiano estava espalhado no convéz, como si andasse por ali alguma
+creança traquinas.
+
+Guerra ao môfo! Roupas ao sol! Ninguem se fez esperar. Começaram as
+arrumações, uma faina açodada, durante a qual soaram boas gargalhadas
+filhas de inalteravel bom humor.
+
+Os guardas-marinha alojavam-se á pôpa n'um acanhadissimo compartimento
+que mal os comportava. Ahi tinham suas camas, suas malas, seus livros.
+
+Quantos prejuizos! Quantas decepções!
+
+E todos acocorados, arrumando e desarrumando, n'uma confusão burlesca,
+maldiziam o mar e apostrophavam o vento. Neptuno e Eolo nunca receberam
+tantas manifestações desairosas. Pois não! Ninguem tem suas cousas para
+vel-as de um dia para outro arruinadas, inutilisadas pelos caprichos
+incoerciveis do mar e do vento.
+
+Finalmente, como nada ha melhor que um dia depois de outro, veio o dia
+29 de Março em que dos váos do joanete de prôa o gageiro
+annunciou--terra!
+
+Continuava, entretanto, incessantemente, a asáfama. A guarnição da
+bateria occupava-se da limpeza das peças, collocando-as em posição,
+abrindo e fechando culatras, lixando-as, lubrificando-as emquanto o fiel
+ia distribuindo o cartuxame.
+
+Havia uma alegria geral a bordo e sentia-se um vago odor de tintas, como
+ao entrar-se n'uma casa nova, pintada de fresco.
+
+Já era tempo de repousarmos das fadigas da viagem.
+
+
+
+
+V
+
+
+Ninguem póde imaginar o que é a chegada de um navio de guerra a porto
+extrangeiro depois de uma tempestade ou mesmo depois d'uma ameaça de
+temporal. A faina tor-na-se geral e o ruido inevitavel. É de ver-se a
+promptidão, a rapidez com que se executam as ordens. Como que ha mais
+vontade para o trabalho, desenvolve-se logo um contagioso bem estar,
+ninguem foge ao serviço.
+
+Tezar cabos de laborar, baldear o convez a ficar alvo e polido, como uma
+sala de visitas, limpar, areiar os metaes amarellos até ficarem
+relusentes como ouro de lei, ferrar o panno a capricho, cuidadosamente,
+de modo a confundil-o com as vergas e os mastros, preparar os
+escaleres--tudo isso é cousa d'um abrir e fechar d'olhos.
+
+A guarnição do _Almirante Barroso_, disciplinada e obediente como todas
+as que serviam sob as ordens do commandante Saldanha, primava pelo
+aceio, pela ordem, pela destreza e pela actividade. Não se lhe póde
+fazer maior elogio. Cada marinheiro era como uma machina prompta sempre
+ao menor impulso.
+
+A chibata era n'esse tempo, como ainda hoje o terror das guarnições da
+armada.
+
+Sempre manifestei-me contra esse barbaro castigo que avilta e corrompe
+em vez de corrigir. Um castigo de chibata é a cousa mais revoltante que
+já tenho visto, mormente quando é mandado applicar por authoridade
+deshumana, sem noções do legitimo direito que a cada homem assiste, quem
+quer que elle seja soldado ou pariá.
+
+O meu primeiro passo ao deixar a Escola e envergar a farda de
+guarda-marinha foi publicar um protesto contra essa pena infamante, e
+fil-o desassombradamente, convicto mesmo de que sobre mim ia cahir a
+odiosidade de meus superiores em geral apologistas da chibata.
+
+A primeira vez que minha posição official obrigou-me a assistir um
+desses castigos, tive impetos de bradar com toda a força dos pulmões
+contra semelhante attentado á natureza humana.
+
+Quem já assistiu uma d'essas pavorosas scenas do eito, magistralmente
+descriptas por Julio Ribeiro na sua obra _A Carne_, póde fazer idéa do
+que seja o castigo da chibata.
+
+Despir-se a meio corpo um pobre homem, um servidor da patria, pés e mãos
+algemados, muita vez depois de trez dias de _solitaria_ a pão e agua, e
+descarregar-se-lhe sobre a espinha, sobre as espaduas, sobre o peito,
+sobre o ventre, na cara mesmo, em todo o corpo cincoenta, cem, duzentas
+chibatadas, em presença de todos os seus companheiros, me parece indigno
+d'uma geração que se préza, de uma sociedade de homens civilisados, de
+cidadãos, de cavalheiros que ostentam triumphalmente galões dourados na
+farda--na farda, que significa a nobreza, a coragem, o patriotismo e a
+honra d'uma nação.
+
+Revoltei-me contra semelhante barbaridade inquisitorial, como quem tem
+consciencia de que está praticando uma acção justa e honrosa. Doía-me
+por um lado pertencer a uma classe nobre por tantos titulos, é certo,
+mas em cujo seio era permittido a chibata e, o que é mais, o seu abuso.
+
+A esse tempo a _Gazeta de Noticias_ do Rio de Janeiro publicava
+semanalmente um boletim litterario no louvavel intuito de estimular os
+incipientes das letras. Offerecia-se-me opportunidade para um conto
+maritimo, cujo assumpto fosse a chibata.
+
+Escusado é dizer que o meu artigo provocou o despeito dos culpados
+indirectamente feridos no seu amor proprio. Embora! Fiquei satisfeito,
+como si tivesse sacudido para longe um fardo pesadissimo; e, é preciso
+dizer, não hesitei em declarar-me autor do conto que vinha firmado por
+meu nome, então desconhecido na armada.
+
+Alguns de meus companheiros taxaram-me de imprudente e «indiscreto».
+Outros levaram seus conselhos até á minha _inexperiencia de adolescente
+indisciplinado_.
+
+Todo o mundo julgou-se com direito a censurar meu procedimento: «que
+roupa suja deixa-se ficar em casa; que a chibata era um castigo
+imprescindivel», e outros arrasoados soffrivelmente banaes.
+
+Meu consolo é que d'entre aquelles que preconisavam os effeitos
+prodigiosos da chibata n'outros tempos, muitos concorreram em demasia
+para a sua extincção.
+
+Dei parabens á patria e á humanidade.
+
+
+
+
+VI
+
+
+Como militar e disciplinador o commandante Saldanha da Gama
+distinguia-se por sua inflexibilidade porventura exagerada,
+especialmente para com as guarnições sob seu zeloso commando.
+Temperamento atrabiliario, sanguineo-nervoso, sujeito a transições
+bruscas, inesperadas, impetuosas e violentas, o illustre marinheiro,
+espirito eminentemente illustrado, não sabia, entretanto, guardar a
+necessaria calma quando devia applicar as penas do codigo. Essas penas,
+como se sabe, acham-se perfeitamente explicitas, precisamente formuladas
+de modo a não deixar duvida nos espiritos rectos e amigos da lei. Entre
+os artigos que constituem o codigo penal militar existe um que limita o
+numero de chibatadas, o qual não deve, em caso algum, exceder de vinte e
+cinco por dia.
+
+Pois bem, o commandante Saldanha pouquissimas vezes castigava conforme a
+lei. Collocava acima d'ella seus caprichos inexplicaveis, sua natureza
+rancorosa, sua vontade suprema. Nao trepidava, e isto é sabido, em
+mandar açoitar com duzentas chibatadas uma praça qualquer, tal fosse o
+delicto commettido. A um simples olhar seu as guarnições tremiam como
+caniços. A qualidade caracteristica d'esse illustre official era ser
+arbitrario e prepotente. Por isso a guarnição do _Almirante Barroso_
+corria a seus postos, em occasião de manobra, com a velocidade d'uma
+setta.
+
+Estavamos quasi á entrada do Mississipe, a grande arteria fluvial da
+America do Norte, que nós imaginavamos um colosso talvez superior em
+volume d'agua ao Amazonas,--o Mississipe, decantado pelo autor dos
+_Natchez_, e em cujas margens fica a cidade de Nova Orleans nosso ponto
+de chegada.
+
+Ninguem pensava mais no Rio de Janeiro para só se lembrar de Nova
+Orleans, a _Cidade Crescente_, como a denominam os americanos.
+
+Trez horas da tarde, mais ou menos. Embarcações á vela e vapores
+bordejavam fóra da barra á espera de pratico, sem o qual era impossivel
+a entrada. Mar calmo, com uma côr esbranquiçada, lembrando na sua
+quietação dormente um vasto lago estagnado. Em frente, muito longe
+ainda, mal distinguiamos com o binoculo o pharol, microscopica torre
+branca, invisivel quasi.
+
+Envolvidos em grossas capas de lã, abotoados até o pescoço ao abrigo do
+frio que se tornava insupportavel para nós da zona torrida, de pé no
+tombadilho, machina a um quarto de força, bandeira nacional desfraldada
+na carangueja do mastro de ré, esperavamos tambem o _pilot_ que nos
+devia conduzir á Nova Orleans, 110 milhas da foz do Mississipe.
+
+O Mississipe! Dentro em pouco sulcavamos a grande corrente.
+
+Não tardou muito o pratico, por cujo intermedio tivemos noticia da
+estrondosa manifestação com que os habitantes da cidade americana
+aguardavam a chegada do cruzador brazileiro.
+
+Bella surpreza essa! Cresceu o enthusiasmo entre os noveis officiaes.
+
+Entrámos. Durante o nosso trajecto pelo Mississipe a anciedade a bordo
+tocou o seu auge. Queriamos, todos a um tempo, avistar as embarcações
+que, dizia-se, vinham nos receber.
+
+O autor d'estas simples notas de viagem, que admira os Estados-Unidos
+como uma segunda patria, porque ali moram juntas todas as liberdades e
+florescem prodigiosamente todas as nobres idéas civilisadas, de braços
+cruzados estendia o olhar cheio de admiração, cheio de deslumbramento
+por cima das extensas planicies das margens do grande rio.
+
+O pôr do sol entre a neblina que cobria os horisontes fazia lembrar as
+paginas de Chateaubriand na sua _Voyage en Amérique_, paginas
+esculpturaes e cheias da commovida nostalgia dos que se vão da patria...
+
+Quanta verdade nas sumptuosas descripções do poeta! Quanta poesia
+n'aquellas paragens desertas da foz do Mississipe,--Sahara de neve
+estendendo-se a perder de vista nos horisontes sem fim! Que de
+maravilhas occultavam-se por traz d'aquellas planicies, lá onde o olhar
+não attingia!
+
+Eram Ave-Marias. Lembrei-me do Brazil, dos sertões de minha terra natal,
+da torresinha branca do Senhor do Bomfim badalando o _terço_ das almas,
+justamente aquella hora, quando as boiadas recolhiam mugindo, pesadas e
+melancolicas...
+
+Ave-Marias!... Mesmo quando não se é crente, áquella hora da tarde o
+coração fica cheio de não sei que terna e piedosa uncção mystica...
+
+Fundeámos no ponto em que o rio se divide em dois braços ou pequenos
+confluentes, e ahi passámos a noite inteira, essa longa e tristissima
+noite de inverno.
+
+Frio de rachar. As aguas do rio, pardas e barrentas, estavam quasi
+geladas.
+
+As margens do Mississipe, em varios pontos, são, no inverno, verdadeiras
+planicies, onde apenas medra a herva rasteira. Á distancia, pobre alma
+perdida no descampado, ergue-se ás vezes uma arvore muito esguia, como
+um phantasma de braços abertos para o céo. De quando em quando atravessa
+a solidão uma ave desconhecida batendo as azas, como um agouro.
+
+N'outros logares, porém, vêm-se rebanhos pastando silenciosamente,
+plantações verdejantes, casas de campo, postes de correio, em cujas
+portas destacam-se em caracteres maiusculos as palavras--_Post office_.
+
+O povo parece viver satisfeito no meio de suas plantações e de seu gado,
+entregue á cultura e á creação.
+
+Nuvens de mosquitos atordoaram-nos toda a noite. «--Caramba! exclamava o
+barbeiro de bordo, um estimavel hespanhol que traziamos do Rio de
+Janeiro. Caramba! Mosquitos por mosquitos me gustam mas los del Brasil!»
+E tinha razão o nosso companheiro. Os mosquitos do Mississipe são muito
+capazes de dar cabo d'um pobre homem. E que medonha orchestração nos
+ouvidos da gente?
+
+Felizmente na manhã do dia seguinte levantámos ferro.
+
+O navio estava completamente prompto a fazer sua entrada em Nova
+Orleans. Durante quasi toda a noite a guarnição occupara-se em colher
+cabos, esfregar a amurada e baldear o costado.
+
+Como passatempo liamos os jornaes que o pratico trouxera, os quaes
+noticiavam a recepção popular e official que se nos preparava.
+
+Dois hiates a vapor--o _Cora_ e o _Pansy_--propriedade de Mr. Morris,
+largariam de Nova Orleans a nosso encontro, embandeirados, com bandas de
+musica, commissões de senhoras, representantes do commercio e d'outras
+classes sociaes.
+
+Ou fosse a natural affinidade que existe entre as duas nações
+americanas, ou fosse o facto de ir a bordo do cruzador brazileiro um
+representante da familia imperial do Brazil, o certo é que durante nossa
+travessia da foz do Mississipe á cidade fomos constantemente saudados de
+ambas as margens do rio a tiros de espingarda e a lenços que nos
+acenavam de longe.
+
+E o _Almirante_ seguia devagar, alvo de mil olhares curiosos.
+
+Ao meio-dia ouvimos as notas de uma musica alegre que se approximava, e
+em breve surgiram n'uma curva do rio os dois magnificos hiates--o _Cora_
+e o _Pancy_--apinhados de gente, enfeitados de galhardetes de côres
+variadas, em cujos mastros tremulavam as duas bandeiras amigas.
+
+De ambos os lados, no cruzador e nos hiates, hurrahs confundiam-se no
+ar.
+
+Em viva effusão de inexprimivel jubilo patriotico estreitavam-se as duas
+grandes potencias da America; a mesma brisa balouçava simultaneamente os
+dois gloriosos pavilhões.
+
+A gente do _Barroso_ subiu ás vergas accelerada, e, acenando com os
+lenços e os bonés, saudava com vivas estrepitosos e delirantes
+acclamações aos Estados-Unidos, ao mesmo tempo que das duas embarcações
+partiam ruidosas manifestações ao Brazil.
+
+Fardada em segundo uniforme, espada e dragonas, a officialidade do
+cruzador brazileiro, em pé no tombadilho, vivamente commovida,
+descobria-se a todo instante risonha e feliz.
+
+Sentiamos a falta de uma banda de musica bem organisada, que n'aquelle
+momento, verdadeiramente solemne, entoasse o hymno da republica a bordo.
+
+Passado o primeiro momento de delirio, approximaram-se os dois hiates
+que nos acompanhavam e o cruzador diminuiu a marcha. Ficámos borda á
+borda. N'um instante toda aquella gente que vinha nos vaporesinhos,
+passou para o _Barroso_.
+
+Houve um silencio respeitoso de parte a parte e começaram os abraços.
+
+O consul geral brazileiro, Sr. Dr. Salvador de Mendonça, tão conhecido
+entre nós por seu talento e por sua illustração, como homem de letras e
+diplomata, juntamente com Mr. Eustis, consul em Nova-Orleans, foram
+recebidos no portaló pelo commandante e officiaes com todas as honras
+que lhes eram devidas. Seguiram-se os representantes da imprensa, do
+commercio, etc.
+
+Conduzidos á camara, desde logo estabeleceu-se entre brazileiros e
+americanos uma camaradagem franca, uma corrente communicativa de
+affabilidades, como si já fossemos conhecidos velhos. As taças de
+_champagne_ chocavam-se, vivas succediam-se, levantavam-se _toasts_ ás
+duas nações, trocavam-se os mais espontaneos comprimentos.
+
+A viagem continuou ao som da musica do _Cora_ e do _Pansy_.
+
+Ás 4 horas da tarde largámos ferro defronte da antiga capital da
+Luiziania.
+
+
+
+
+VII
+
+
+Nova-Orleans é, talvez, a cidade mais importante do sul dos
+Estados-Unidos.
+
+Nosso primeiro cuidado, como era natural foi desembarcar, «ir á terra»,
+ceiar bem e dormir tranquillamente um somno bom e reparador. Nao nos
+faltariam esplendidos hoteis e magnificos _rooms_ onde podessemos, á
+vontade, descansar dos trabalhos da viagem.
+
+Nossa demora devia prolongar-se ahi mais do que em qualquer outro porto,
+por causa da Exposição e a instancias dos habitantes da cidade, que nos
+preparavam deliciosas surprezas.
+
+Tinhamos tempo bastante para ver Nova-Orleans, para observar os costumes
+americanos e fazer um juizo mais ou menos approximado d'aquelle bello
+povo.
+
+O porto estava atulhado de barcas de commercio--vastas embarcações de
+dois e trez pavimentos, duas e trez chaminés negras a deitar fumaça
+n'uma actividade constante, rodas na pôpa, muito mais amplas que as
+nossas barcas Ferry do Rio de Janeiro. Atopetadas de saccas de algodão e
+outros generos do paiz, esperavam o momento preciso e regulamentar de se
+fazerem ao largo.
+
+Emquanto esperavamos, vivamente anciosos, o escaler que nos devia
+conduzir ao caes, assestavamos o oculo para a cidade quasi silenciosa
+áquella hora, e cujas ruas não tardariamos a conhecer. Accendiam-se os
+primeiros bicos de gaz. Ao longe, n'alguma egreja remota, badalava um
+sino triste. Já não se ouvia quasi o brouhaha quotidiano. Numerosas
+embarcações cruzavam-se no rio. Ouviamos guinchos de locomotivas e o
+surdo ruido de carros que ainda labutavam.
+
+Alguns officiaes deixaram-se ficar aguardando o dia immediato para mais
+commodamente satisfazerem sua curiosidade de viajantes em terra
+extrangeira.
+
+[Figura: ENTRADA DE NOVA-ORLÉANS]
+
+Era fim de inverno. Ameaçava chover. O frio continuava bastante forte
+ainda e os camarotes do _Barroso_ offereciam, nessas condições, agasalho
+confortavel aos mais friorentos.
+
+Na manhã seguinte, grupos de officiaes brazileiros, uns fardados, outros
+á paisana, percorriam Nova-Orleans.
+
+O _St. Charles Hotel_, um dos melhores estabelecimentos da cidade, e o
+_Royal Hotel_--primeiro em luxo e ornamentação--eram procurados
+avidamente.
+
+Os jornaes davam noticias circumstanciadas de nossa chegada e
+annunciavam festas em homenagem ao Brazil.
+
+Uma vez installados nos hoteis, cada um de nós em seu vasto aposento,
+onde nada faltava, tão differente dos estreitos camarotes de bordo,
+dividimo-nos em grupos.
+
+Quanto a mim, o meu primeiro cuidado foi munir-me de um guia da cidade,
+especie de _pocket-book_ muito commodo, registrando indicações uteis de
+estabelecimentos e logares principaes.
+
+Meu quarto ficava no segundo andar do _St. Charles Hotel_ com frente
+para a rua do mesmo nome--uma saleta mobiliada com a maxima sobriedade,
+sem luxuosas decorações, contendo apenas os moveis indispensaveis a um
+rapaz solteiro, e o fogão a um canto.
+
+Depois de magnifico banho morno em bacia de marmore (perdôem-se-me estas
+innocentes confidencias, aliás de bom gosto) seguido de um valente
+almoço de ostras crúas, as melhores que eu tenho provado, regadas á
+Sauterne, mastigando (é o termo, porque não sou lá muito admirador de
+charutos) mastigando um charuto, que não sei bem si era de Havana, sahi
+a fazer meu primeiro passeio, minha _promenade_ matinal, começando pela
+Canal Street, a rua mais importante de Nova Orleans, que a divide em
+dois grandes bairros--o francez e o hespanhol.
+
+No cruzamento das ruas de St. Charles e Canal erguia-se a estatua de
+Clay. É esse o ponto principal da cidade e o de maior movimento nos dias
+uteis.
+
+Parei defronte do monumento e consultei meu alcorão, quero dizer meu
+guia manual.
+
+«_Estatua de Clay_--Inaugurada solemnemente no dia 12 de Abril de 1860.
+Joêl T. Harl, de Kentucky, o artista que deu forma e proporções á
+estatua, assistiu ao acto. O orador official foi Wen H. Hemt.».
+
+Maldito laconismo! Pouco adiantei com as explicações do livrinho.
+
+A estatua é de bronze, sobre pedestal de marmore, e mede,
+approximadamente, quinze pés inglezes de altura.
+
+--Continuam as estatuas! exclamei recordando as que vira em Barbados e
+Jamaica. Felizmente até agora não vira a de nenhum monarcha. Veio-me
+então á memoria aquella colossal massa de bronze que se ergue no largo
+do Rocio, no Rio de Janeiro, em fórma de um monarcha escanchado n'um
+bello cavallo.
+
+Tive pena de não ser aquelle bronze aproveitado para outra cousa mais
+digna e util.
+
+--Que diabo! Aquillo é uma pagina de historia patria, reflecti.--E
+continuei o meu _tour_.
+
+A Canal Street é o centro commercial de Nova-Orleans, é a rua do Ouvidor
+d'aquella cidade, sem os grandes inconvenientes do nosso querido becco.
+
+Larga, bastante espaçosa e comprida, offerece transitos especiaes para a
+população, para trens, bondes e carruagens.
+
+As ruas, na maior parte são mal calçadas, principalmente para o interior
+da cidade.
+
+É, sem duvida, admiravel semelhante incuria em se tratando de americanos
+do norte, entretanto, é uma verdade que não deve ser esquecida, para
+consolo de nossas municipalidades.
+
+Na Canal se acham os melhores e mais solidos edificios, as mais fortes
+casas commerciaes, os mais importantes armazens da cidade, cafés,
+restaurantes, clubs, etc.
+
+Convenci-me desde logo que os principaes productos industriaes de
+exportação eram--assucar e algodão, como bem presumira ao desembarcar,
+no caes, onde era enorme a accumulação de fardos desses dois generos.
+
+De vitrine em vitrine, observando sempre, escrupulosamente,
+curiosamente, á cata de novidades extrangeiras, posso affirmar que nada
+vi, surprehendente... Ah! sim, vi umas graciosas caixeiras accudirem
+pressurosas e desenvoltas, com o desembaraço proprio de sua raça, aos
+compradores, cousa aliás muito simples, muitissimo natural, mas não no
+Brazil, onde as senhoras estão eternamente prohibidas de competir com o
+outro sexo na vida publica.
+
+Parece-me que só n'este paiz ainda não se observa nem se permitte esse
+costume tão natural, tão proprio, tão efficaz mesmo, das senhoras pobres
+empregarem-se no commercio a retalho. Na Inglaterra, em Franca, na
+Allemanha, na Italia e nos Estados-Unidos é habito velho, ao que me
+consta, as senhoras servirem nos balcões, e é de notar que cumprem seus
+deveres com assombrosa pericia. Ás nove horas da manhã, que digo eu! ás
+seis horas, depois de ligeira refeição, encaminham-se para o trabalho
+quotidiano, felizes, satisfeitas, envolvidas em grossas capas de lã no
+inverno, a bolsa de um lado, sem siquer fazerem-se acompanhar. Vão
+direitinhas de casa para a loja ou escriptorio, sem que ninguem lhes
+dirija uma pilheria, sem que ninguem as desrespeite, e, á noite,
+recolhem-se da mesma fórma, sempre alegres, transpirando saúde, a face
+rubra.
+
+Muitas vezes sahem das lojas, mudam a _toilette_, fazem seu penteado,
+perfeitamente dispostas, e d'ahi a pouco estão nos bailes, nos
+concertos, nos theatros.
+
+Rara a casa de modas, o armarinho, a livraria onde se não encontra uma
+senhora exercendo as funcções de simples caxeira, ou como guarda-livros,
+silenciosa na sua carteira, escripturando cuidadosamente o Caixa.
+
+Em alguns estabelecimentos publicos, no Correio, por exemplo, grande
+parte do serviço é feito por senhoras. Esse edificio, digamol-o de
+passagem, na rua Canal, é de apparencia extraordinariamente simples e
+desgraciosa. O serviço, porém, como em toda estação americana é correcto
+e sem demora.
+
+Individuos de muitas nacionalidades acotovellam-se na grande rua.
+
+Em Nova Orleans, como em quasi toda a a Luiziania, fala-se mais o
+francez que outro idioma qualquer, não sendo raro ouvirem-se
+negociantes, mesmo senhoras de elevada hierarchia falar, embora
+mediocremente, o hespanhol.
+
+Havia chegado o momento fatal, inevitavel, de nos exhibirmos tambem em
+lingua alheia.
+
+Pouco a pouco, nos iamos familiarisando com a população e com o ídioma
+d'esse adoravel canto da terra que o Mississipe banha.
+
+O dia seguinte ao de nossa chegada á Nova Orleans (31 de Março) estava
+designado para o encerramento da Exposição das Trez Americas. Avisados
+d'esta solemnidade, deviamos comparecer a ella em grande uniforme,
+encorporados.
+
+Foi um dia essencialmente brazileiro esse. Nos convites para a
+festividade lia-se esta impagavel gentilesa: _Brasilian day_.
+
+Todas as attenções convergiam para o _Almirante Barroso (brazilian man
+of war)_.
+
+O palacio da Exposição estava situado a alguns kilometros fóra da
+cidade, n'um de seus pontos mais pittorescos, o Upper City Park, á
+margem do Mississipe--largo edificio vistosamente adornado e do alto do
+qual se avistava toda a cidade e immediações.
+
+Na manhã d'esse dia, por signal chuvoso e coberto de nevoeiro,
+embarcámos em trem especial, que nos fôra destinado pelo presidente da
+Exposição, Mr. Ed. Richardson, um _yankee_ muito amavel, todo cortesia,
+sempre com um bello e espontaneo sorriso a captivar a gente, correcto
+sempre, irreprehensivelmente correcto.
+
+Embarcámos na Canal street, defronte do _Pickwick Club_, em companhia de
+muitos officiaes da Guarda Nacional, de Mr. Richardson e de officiaes da
+corveta franceza _l'Étoile_, que se achava no porto de Nova Orleans, dos
+consules e outras summidades do paiz.
+
+O trem abalou como um raio, todo enfeitado de bandeirolas americanas,
+brazileiras e d'outras nações, ao som de musicas e acclamações
+delirantes, rasgando, na sua marcha vertiginosa, o nevoeiro que cahia
+sem cessar penetrando os wagons escancarados ao ar frio da manhã,
+soltando guinchos medonhos...
+
+Durante o trajecto não me cansei de observar os sitios que o trem
+atravessava.
+
+De um lado e d'outro da linha estendiam-se vastas plantações de
+algodoeiros desfolhados pelo rigor do inverno, amontoados de neve,
+immoveis phantasmas brancos no silencio infinito dos descampados; casas
+de campo deliciosas para se passar o verão, trancadas á neve, muito
+brancas e desoladas, riam, como saudando a nossa passagem, e
+desappareciam rapidamente no horisonte esfumado.
+
+É de vêr a simplicidade reunida á graça que apresentam essas habitações:
+vêr uma é vêr cem, tal a uniformidade de sua architectura. Em geral são
+de madeira, pintadas de branco e cinzento, com seu terraço para as
+calidas noites de verão, jardim e horta arranjados com admiravel cuidado
+e bom gosto.
+
+Absorvido completamente pelo aspecto variado da paisagem, sem prestar
+attenção ao circulo ruidoso dos collegas, eu (lembro-me bem) formava
+planos de vida socegada, n'algum eremiterio entre a eterna frescura das
+plantas e o amor eterno d'uma creatura querida.
+
+Invejava os simples, os sertanejos, os homens dos campo--esses para quem
+a vida corre sempre calma, porque seu coração não conhece outro amor
+senão o da esposa e o dos filhos, esses de quem Boileau dizia
+
+ _Heureux est le mortel qui du mond ignoré
+ Vit content de soi même en un coin retiré..._
+
+E eu me transportava outra vez ao Brazil, outra vez eu tinha a nostalgia
+da patria, a saudade vaga e inexplicavel de minha terra natal.
+
+Parecerá uma phantasia de poeta adolescente isto que acabo de dizer, mas
+é a verdade, a expressão sincera do que eu sentia ao atravessar a região
+que ia ter lá, ao palacio da Exposição.
+
+A tristeza da neve communicava-se ao meu espirito imprimindo n'elle não
+sei que despretenciosas ambições de silencio e recolhimento. Alguem já
+procurou explicar a influencia que exerce o estado hygrometrico da
+atmosphera no estado psychologico do individuo.
+
+Eu de mim só sei que o patriotismo, longe da patria, dupplica.
+
+E fechemos esta especie de parenthesis.
+
+Uma commissão de cavalheiros, competentemente encasacados, veio
+receber-nos ao desembarque.
+
+Entrámos. Nossa entrada foi verdadeiramente triumphal.
+
+Dentro e fóra do edificio era grande a agitação. Ondas de povo entravam
+e sahiam percorrendo o pittoresco _Upper City Park_.
+
+Felizmente «levantou o tempo», como se costuma dizer.
+
+Ao assomar á porta do grande salão de honra o primeiro official
+brazileiro, o commandante do _Barroso_, ao lado do consul e do
+presidente da Exposição, a orchestra de professores, brilhantemente
+organisada, rompeu lá dentro o hymno nacional americano (não conheciam o
+nosso hymno aliás tão vulgarisado), os espectadores que enchiam o vasto
+recinto ergueram-se, e uma salva estrepitosa de palmas acolheu o resto
+da officialidade.
+
+Houve um momento de verdadeiro delirio, em que todos batiam palmas sem
+interrupção levantando vivas ao Brazil.
+
+Serenado o enthusiasmo, um enthusiasmo indescriptivel, apopletico, tomou
+a palavra Mr. Richardson, que proferio o discurso de encerramento,
+saudando a armada brazileira.
+
+Seguiu-se na tribuna o orador official, que, n'um improviso
+eloquentissimo, patenteou a necessidade de uma união entre todas as
+nações americanas, desenvolvendo largamente as vantagens que d'ahi
+proveriam a todas elas.
+
+Falou tambem o governador da Luiziania, e, finalmente, os Srs. Salvador
+de Mendonça e Saldanha da Gama, cujas palavras foram cobertas dos mais
+significativos applausos.
+
+Terminada a ceremonia oratoria, foi-nos franqueado o edificio da
+Exposição, que percorremos examinando com interesse os differentes
+pavilhões industriaes.
+
+O Brazil--é triste dizel-o--fizera-se representar de modo bem
+insignificante.
+
+Brilhariamos pela ausencia, si o Governo não tivesse a lembrança de
+mandar o _Almirante Barroso_.
+
+Amostras de madeiras, café em grão, fumo, artigos de borracha,
+constituiam os principaes productos brazileiros expostos á curiosidade
+dos visitantes de quasi todas as partes do mundo civilisado. O pavilhão
+do Brazil deixava-se ficar em plano inferior aos das outras nações, como
+si fossemos um pobre paiz, cujos productos não valessem a pena de ser
+expostos n'um certamen internacional!
+
+D'ahi, talvez, o assombro dos americanos ao verem o _Almirante Barroso_,
+esse esplendido vaso de guerra de envergadura possante, capaz de
+resistir aos mais fortes temporaes e que elles, os extrangeiros,
+duvidavam fosse obra nossa.
+
+--Como? Pois no Brazil tambem se fabricam navios de guerra? Está muito
+adiantado o Brazil!
+
+E repetiam com um ar de duvida e de ironia medindo d'alto a baixo e de
+pôpa á prôa o magestoso cruzador, que balouçava de leve sobre o
+Mississipe:
+
+--Está muito adiantado o Brazil!
+
+Entretanto o Mexico, a America Central e as republicas sul-americanas,
+sem os recursos invejaveis da grande nação, sobresahiam admiravelmente.
+O pavilhão do Mexico, sobretudo, desafiava a maior parte dos outros não
+só em abundancia de artigos, mas, principalmente, em belleza e bom
+gosto, em elegancia e riqueza.
+
+Escusado, parece, falar do importante logar que coube aos
+Estados-Unidos. Que profusão de machinas e instrumentos industriaes de
+invenção puramente americana! Ali mesmo, á vista do observador,
+fabricavam-se os mais curiosos objectos de fantasia e de uso domestico;
+o linho, o algodão, a sêda--eram tecidos rapidamente aos olhos de todos.
+
+Imagine-se agora o ruido, a algazarra, a movimentação que devia reinar
+ali dentro d'aquelle immenso edificio, certamente muito longe de ser
+comparado aos palacios de exposições universaes, mas ainda assim um dos
+maiores que se tem levantado n'esse genero.
+
+Para dar uma idéa de suas dimensões--não o chamaremos vaticano da
+industria para não exagerar--basta dizer que o salão de musica--_music
+hall_--accommodava 11.000 pessoas, inclusive uma vasta área para 600
+figuras.
+
+Impossivel descrever as amabilidades, as gentilezas que nos foram
+prodigalisadas largamente pelas adoraveis americanas de Nova Orleans
+nessa festa democratica de confraternisação internacional; recordar as
+phrases deliciosas, os galanteios irresistiveis...
+
+O que posso affirmar é que o _brazilian day_ ha de perdurar por muito
+tempo no coração d'aquelles que tiveram a felicidade de assistir essa
+bellissima festa.
+
+Dias depois voltei ao palacio da Exposição, sosinho, como simples
+curioso que não tivera tempo bastante para examinar tudo no pequeno
+espaço de doze horas.
+
+Nada mais restava senão o esqueleto nú do edificio em via de demolição.
+Todos os objectos tinham sido retirados com assombrosa rapidez.
+Operarios em mangas de camisa martellavam grandes caixões, assobiando
+monotonamente, emquanto outros carregavam pesados volumes contendo os
+ultimos especimens da industria americana.
+
+Voltei immediatamente com um ar compungido de quem acaba de acompanhar
+um enterro, lamentando o tempo perdido e exclamando de mim para mim:
+
+--Ah! americanos d'uma figa, sois um povo excepcional!
+
+Agora uma pergunta ingenua: Porque é que o Brazil, com os numerosos
+recursos que tem á mão, timbra em occupar logar segundario em quasi
+todas as Exposições a que concorre?
+
+Indifferença, talvez, simples indifferença de nossos governos.
+
+Na celebre Exposição de Philadelphia não sabiamos á ultima hora como e
+onde accomodar os productos deste paiz, em consequencia de não ter o
+governo mandado construir um pavilhão especial.
+
+Contentamo-nos em enviar objectos bastante conhecidos, não fazemos
+selecção na escolha d'elles, não nos importa o modo como devam ser
+acondicionados.
+
+Na Exposição de Vienna ainda o Brazil teve de occupar logar pouco
+lisongeiro, e si alguns de seus productos principaes tiveram a
+felicidade de ser premiados foi isso devido, não ao governo, mas tão
+somente a esforços de muitos negociantes do Rio de Janeiro e do Pará.
+
+Annuncia-se para o anno vindouro uma _Universal Great Exhibition_, nos
+Estados-Unidos, cujo successo irá rivalisar, talvez, com o da Exposição
+Universal realisada ha mezes em Pariz e notavel pela colossal e tão
+celebre torre Eiffel. Nenhuma razão assiste para que a grande nação da
+America do Sul, o Brazil, não se faça representar com todo o brilho de
+sua incontestavel riqueza.
+
+Agora que somos republica, torna-se dupplamente preciso que patenteemos
+ao mundo inteiro a infinita variedade de nossas produções agricolas, a
+opulencia invejavel da flora brazileira e da industria já bastante
+adiantada d'este bellissimo paiz, cuja natureza extasiou Humboldt,
+Agassiz e tantos outros sabios da Europa.
+
+Si cada Estado souber cumprir seu dever não poupando esforços para esse
+nobilissimo fim, certo d'esta vez não teremos que corar perante as
+outras nações como nos tempos do anachronico imperio do Sr. D. Pedro II.
+
+
+
+
+VIII
+
+
+A grande Exposição Industrial de Nova Orleans prolongou-se até ao
+_Almirante Barroso_. O bello cruzador brazileiro começou desde logo a
+ser o alvo dos curiosos de todas as nações ali representadas.
+
+Comprehende-se o vivo interesse do povo em assumptos d'esta ordem.
+
+Não havia na cidade quem não soubesse que estava no porto um navio de
+guerra do Brazil, e este facto por si só era bastante para que toda a
+gente ardesse em desejo de vel-o de perto, de o percorrer d'um extremo a
+outro.
+
+--Quantos canhões traz? perguntava-se. A machina quantas milhas vence
+por hora? Quantas rotações por minuto?
+
+E quando affirmavamos que a machina do _Barroso_ era de ferro Ipanema e
+d'outros metaes brazileiros, que todo o navio, da pôpa á prôa, era
+construcção inteiramente nacional, subia de ponto a surpreza dos nossos
+visinhos.
+
+O quê! No Brazil já se constroem navios de guerra?--_It is
+impossible!..._ E toda a população, tomada de um quasi espanto,
+duvidando, talvez, da nossa habilidade, affluía ao caes.
+
+Todo o cruzador, desde a camara do commandante até ao alojamento dos
+marinheiros, desde o tombadilho até ao porão, foi exposto á curiosidade
+publica.
+
+O sexo gentil, com especialidade, repetia suas visitas.
+
+Desde ás oito horas da manhã, ao içar-se a bandeira, começavam a atracar
+lanchas a vapor e escaleres cheios de visitantes de ambos os sexos.
+
+Grandes lanchas iam e vinham do caes para o cruzador e do cruzador para
+o caes, continuamente, incessantemente, apinhadas de passageiros, que
+pagavam 5 centimos de ida e volta. Cada uma trazia á prôa, em letras
+esparramadas e vivas, a senha:--_Brazilian man of war_.
+
+Á tarde, depois d'uma faina acabrunhadora de receber familias e
+percorrer duas, tres e mais vezes o navio, dando explicações,
+descrevendo apparelhos e machinismos com uma paciencia de pedagogos,
+iamos á terra, distrahir nos cafés, nos theatros, nos bailes, tanto mais
+quanto multiplicavam-se os convites para todas as diversões publicas e
+familiares.
+
+As familias com que iamos entretendo relações de amizade exigiam que
+fossemos quotidianamente a suas casas, como si nos sobrasse tempo para
+isso; e, força é confessar, dispensavam-nos um tratamento quasi
+paternal.
+
+A melhor de todas as recepções que tivemos, não obstante o caracter
+official que a revestia, foi a do Governador da Luiziania, esplendido
+baile no _Royal Hotel_, no dia 8 de Abril, ao qual compareceram todas as
+autoridades civis e militares da cidade em uniforme de gala.
+
+A casaca, o clak, a gravata de sêda branca, o vestido decotado até aonde
+permitte a decencia, confundiam-se nos salões do hotel ricamente
+adornados, cheios de luz, escancarados de par em par como um palacio em
+festa.
+
+A joven officialidade brazileira, eximia em _cotillons_, expandiu-se a
+valer n'essa magnifica _soirée_ de inverno, fria e clara, constellada de
+botões d'ouro e brilhante, longe da patria, longe de suas familias, mas
+no seio d'um povo que nos amava devéras.
+
+Saráo principesco esse de que ainda sinto o saibo exquisito ao traçar as
+reminiscencias da minha primeira ausencia do Brazil.
+
+Mesa abundantissima e franca, desde a deliciosa sôpa d'ostras com molho
+inglez á mais fina champagne Clicot, com escala pela _mayonnaise_ de
+lagosta, fresca e picante, pelo succulento _poisson à l'itallienne_,
+rubro e apettitoso... e tantos, meu Deus, e tantissimos outros pratos
+maravilhosos inventados pela gula epicurista de todas as gerações desde
+Luculo até á nossa.
+
+Volvemos para bordo seria madrugadinha, tropegos, cansados e
+somnolentos, palpebras cahidas, supplicando a frescura d'um travesseiro,
+dentro de nossas inviolaveis capas da Bretanha.
+
+Uma noite brazileira com todos os excessos da nossa educação e do nosso
+caracter; saudosa noite, a primeira de minha vida em que me enfronhei
+n'uma casaca irreprehensivelmente bem feita...
+
+O _Barroso_, diluído na escuridão da noite, aproado á correnteza que
+descia rio abaixo cantando uma melopéa de lenda, o _Barroso_--pedaço da
+patria longinqua--acenava-nos com a sua luzinha amarella palpitando ás
+rajadas do vento frio.
+
+... E os bailes repetiam-se e nós viviamos cercados da alegria
+communicativa d'esse povo americano eternamente jovial!
+
+Falemos ainda das mulheres de Nova Orleans.
+
+Bellas quasi todas, amaveis e insinuantes, cheias d'uma inexcedivel
+graça que arrebata e seduz voluptuosamente.
+
+As _créoles_, ah! as _créoles_... ninguem as vê que não as fique
+desejando.
+
+Caracteres principaes: tez morena, com uns tons de rosa na face, olhos
+muito negros, criminosos até ao homicidio flagrante, pequenas,
+delicadas, flexiveis, aereas quasi, conjuncto meigo e melancolico, muito
+sensiveis... A vaga expressão de seu olhar avelludado derrama não sei
+que mysterioso fluido, cujos effeitos traduzem-se em voluptuosas
+sensações, secretos desejos de posse absoluta...
+
+Como differem as chamadas _créoles_ das verdadeiras americanas!
+
+Estas--muito rubras, cabello côr de ouro, olhos azues--são frias, quasi
+indifferentes ao amor, egoistas de sua belleza de estatua, vivendo para
+o trabalho e para a familia; aquellas--adoraveis com as suas linhas
+ideaes, com a vaga e communicativa melancolia de seu olhar
+voluptuoso--fazem lembrar um povo mystico e cheio de bondade d'algum
+paiz nebuloso e desconhecido...
+
+É curiosa a origem da população _créole_ de Nova Orleans. Ella descende
+na maior parte de aventureiros canadaenses e _courreurs des bois_--gente
+ousada e valente, que emigrou do norte para o sul da America
+septentrional, por terra, atravéz de inhospitos desertos povoados de
+selvagens perigosissimos. Esses aventureiros chegaram a Luiziania sem
+familias, depois de uma viagem cheia de trabalhos e fadigas,
+descansando, por fim, ás margens do Mississipe. A Luiziania era então
+colonia franceza, e o rei, apiedando-se da sorte dos infelizes
+immigrantes, que viviam solteiros, longe de sua patria natal, sujeitos a
+uma castidade quasi absoluta, quiz aproveital-os para a colonisação.
+N'esse intuito mandou vir de Paris um _carregamento_ de mulheres,
+prisioneiras da Salpetrière, que chegaram a Nova-Orleans em ferros, e
+onde foram postas em liberdade e entregues á concupiscencia da população
+masculina.
+
+Isso, porem, não trazia vantagens á colonia, que precisava de gente. Os
+canadaenses satisfaziam seus apetites carnaes sem que augmentasse o
+numero de habitantes--facto este que não passou despercebido ao
+directorio da Companhia da Luiziania, cujo principal interesse era a
+multiplicação das almas.
+
+N'estas condições foram dadas outras providencias, e, em 1728, chegou a
+Nova-Orleans um grupo de raparigas, conhecidas na Luiziania historica
+pelas _filles de la cassette_ ou _casket girls_, mandadas pelo rei para
+o convento das Ursulinas afim de se casarem licitamente. A experiencia
+foi coroada de successos. Em breve tempo começou a crescer a colonia e
+os descendentes da _cassette_ tinham orgulho em o serem.
+
+Tal foi a origem humilde dos primeiros filhos nativos da Luiziania.
+
+Seu sangue é uma mixtura de sangue canadaense e sangue francez.
+
+A mulher americana do norte é geralmente bem educada. Muitas vimos em
+Nova-Orleans, que conheciam e falavam dois, tres idiomas, alem do
+vernaculo.
+
+Preoccupam-se pouco com bailes e modas, trajam com simplicidade e
+elegancia, sem affectação, sem a natural _coquetterie_ da mulher
+parisiense. Seu divertimento predilecto é a musica.
+
+O proverbial desembaraço das americanas manifesta-se a todo instante.
+Promptas sempre a repellir com dignidade um ataque á sua honestidade,
+ellas se dirigem aos homens em qualquer parte, na rua ou nos salões, com
+a mesma simplicidade com que o fazem ás amigas. O respeito entre os dois
+sexos, nas classes superiores, é um dos principaes caracteres do povo
+americano. Habituados, homens e mulheres, a uma educação livre, vivendo
+uns e outros em commun desde creança, as americanas não se confundem
+nunca diante dos homens.
+
+Nos Estados-Unidos o bello sexo é respeitado como em parte alguma.
+
+Os paes depositam confiança illimitada nas filhas. Deixam, sem
+escrupulo, que ellas saiam a passeio, de carro ou a pé, só ou em
+companhia de um amigo da casa, na certeza de que ellas saberão zelar a
+sua castidade.
+
+Os raptos e os defloramentos são raros, não sei si devido ao
+temperamento da raça ou si á inflexibilidade da Lei. O que sei é que, si
+um rapaz gosta de uma rapariga de familia reconhecidamente honesta, não
+tem mais do que namoral-a escandalosamente ás barbas de quem quer que
+seja, á vista do mundo inteiro, beijal-a sem ceremonia, como si fossem
+irmãos, e, d'ahi a pouco, eil-os casadinhos de fresco, _bras dessus,
+bras dessous_.
+
+E ai! d'aquelle que violar os preceitos decretados pelo governo!
+Immediatamente vê-se dentro d'este triangulo medonho: o casamento, o
+dote, ou a cadeia. A Lei é inexoravel e a policia exerce uma vigilancia
+sem igual.
+
+Informados de taes particularidades do caracter americano, nós,
+brazileiros, pusemos um dique ao nosso temperamento de meridionaes,
+evitando o mais possivel os compromissos amorosos, as manifestações de
+sympathia por essas adoraveis _ladies_, que, a falar verdade,
+inflingiam-nos os maiores supplicios com o maravilhoso poder de suas
+qualidades physicas.
+
+Tantalos do coração, eramos obrigados a conter os impetos ferozes da
+carne que nos aguilhoava implacavelmente no delicioso convivio das
+louras _miss_ e das ternas _créoles_.
+
+_Estão verdes, não prestam_--era a nossa divisa e d'est'arte escapavamos
+sempre aos ataques de tão perigoso inimigo...
+
+
+
+
+IX
+
+
+O dia 14 de Abril (deixem passar a precisão chronologica) estava
+destinado pelo commandante do _Barroso_ para uma excursão fluvial,
+scientifica, á foz do Mississipe, onde iriamos observar _de visu_ os
+importantes trabalhos hydraulicos, que ahi se procediam sob a
+intelligente direcção do notavel engenheiro americano Mr. Jas. B. Eads,
+um velho respeitavel, encanecido no serviço da engenharia, e cujo nome
+está ligado a muitas obras notaveis de seu paiz.
+
+Ás onze horas da noite a barca de passeio _Keokuk_ largou de Nova
+Orleans, rio abaixo, conduzindo a turma de guardas-marinha, alguns
+officiaes e o commandante, com destino ás _Jetties_.
+
+Uma excellente embarcação a _Keokuk_, especie de pequena cidade
+fluctuante, muito larga e espaçosa, avantajando-se em dimensões aos
+vapores da Companhia Brazileira. Tres pavimentos: o superior, coberto
+por um grande toldo, onde os passageiros podiam fumar á vontade; o do
+meio formando um salão-refeitorio, ao lado do qual ficavam os camarotes
+e o porão, para mercadorias; rodas á pôpa, systema de locomoção que não
+conheciamos; duas chaminés, e machina possante. Em semelhantes condições
+eramos capazes de fazer a _volta do mundo em oitenta dias_...
+
+Passámos a noite sobre o rio, navegando á meia força, ao sabor da
+correnteza.
+
+Lá iamos outra vez para a região dos mosquitos! Preparámo-nos para dar
+quixotesca batalha, apezar da falta impreenchivel do nosso querido
+companheiro, o barbeiro de Sevilha, quero dizer o barbeiro de bordo, o
+impagavel hespanhol que tanto nos divertira na caça aos mosquitos.
+
+Pela manhã, cedinho, estavamos em Port-Eads, defronte do escriptorio
+central do respeitavel engenheiro.
+
+Café, biscoitos..., e desembarcámos.
+
+O bom velho já nos esperava com o seu bello ar de urso domestico, barba
+muito branca, de barrete e oculos, entre os seus mappas coloridos e os
+seus prospectos representando _steamers_ e as _jetties_.
+
+--Folgo bastante em lhes poder mostrar o plano da empreza ha tantos
+annos iniciada sob minha direcção, disse elle com um amavel sorriso de
+bonhomia patriarchal.
+
+E começou a desenrolar diante de nossos olhos uma serie infindavel de
+cartas hydrographicas, mappas, desenhos...
+
+Vale a pena se admirar essa obra monumental.
+
+Tratava-se de cavar o leito do rio, n'um dos braços de sua foz, por modo
+a effectuar-se a navegação livremente, na linha da correnteza, e terem
+entrada embarcações de grande calado, desenvolvendo-se assim o já
+notavel commercio de Nova-Orleans. Com esses trabalhos o porto irá
+melhorando consideravelmente, sendo para notar o grande movimento de
+navios que entram e sahem durante o dia.
+
+O rio tem pelo menos 16.000 milhas navegaveis que os americanos dia a
+dia tratam de aproveitar dando sahida a innumeros productos do
+fertilissimo valle do Mississipe, o qual abrange cerca de 768.000.000
+geiras _das mais ricas terras do mundo_, como elles lá dizem. Sua
+emboccadura é, portanto, a passagem natural de todos aquelles productos.
+
+Desde 1726 têm sido empregados esforços inauditos a fim de se aprofundar
+essa parte do famoso rio; mas, foi em 1875 que o governo dos Estados
+Unidos contratou definitivamente esse serviço com Mr. Eads, e é bem
+provavel que em futuro não muito remoto esteja o porto franqueado a
+todos os navios do mundo, graças á perseverança e aos esforços de habeis
+engenheiros.
+
+A visita foi curta, mas proveitosa.
+
+Tomámos novamente a barca, e ás cinco horas da tarde atracavamos no
+forte Jackson, velha fortaleza abandonada, á margem direita do rio. Lá
+estava ainda, immovel e muda, a descommunal artilharia que Farragut, o
+velho almirante, commandara na guerra sanguinolenta dos separatistas,
+que terminou com a tomada de Nova-Orleans.
+
+Os velhos canhões dormiam seu somno de bronze, lá dentro, nos corredores
+escuros como os de uma Bastilha, e a nós, estudantes de historia naval,
+inspiravam não sei que respeito sagrado. Perante elles falavamos baixo,
+como para não os acordar...
+
+A fortaleza é grande, mas só tem a importancia archeologica que a
+historia lhe empresta; não resistiria, talvez, ás modernas baterias.
+Opulenta vegetação rasteira cresce-lhe em derredor. O seu aspecto é
+sombrio como o de um cemiterio: as grossas paredes denegridas e o
+silencio que a cerca dão-lhe um cunho mysterioso de crypta subterranea e
+produzem no visitante uma incommoda sensação de abandono e tristeza. Em
+cada canto parece surgir a sombra de um confederado clamando vingança.
+
+Retirámo-nos em marcha funebre, calados e supersticiosos...
+
+Dormimos ainda essa noite sobre o rio para amanhecermos em Nova-Orleans.
+Já estavamos com saudade do _Barroso_.
+
+Continuaram as manifestações de amisade ao Brazil.
+
+O neto do imperador, jovem e irrequieto, embalde procurava fugir ás
+insistencias da aristocracia local e por diversas vezes desejou ter
+nascido simples burguezinho, como qualquer de seus collegas.
+
+E digamos aqui, muito a discreção, Sua Alteza podia ser um bello moço,
+um digno cavalheiro, um excellente amigo e camarada, mas... Sua Alteza
+era um pessimo principe. A sua grande aspiração era a vida livre, sem
+peias, essa vida alegre e bohemia que se exgota depressa nos
+_cafés-concertos_ e nos _restaurants_.
+
+Não gostava de continencias e despresava o juizo imbecil dos que lhe
+apodavam de estroina. O certo é que esse juizo em nada o compromettia
+perante o _high-life_ americano que o estimava sufficientemente. Elle
+era o representante immediato da familia imperial, era o alvo predilecto
+de todas as manifestações ao Brazil na grande festa internacional.
+
+Seria ocioso, senão monotono e fatigante, descrever, uma por uma, em
+todos os seus detalhes, com todas as suas côres mirabolantes, essas
+manifestações, profundamente fraternaes e democraticas, com que nos
+recebeu a distincta sociedade de Nova-Orleans. Bailes, regatas, passeios
+improvisados, concertos, brindes,--e não raro a tolda do nosso bello
+cruzador converteu-se em esplendido salão de baile, acordando a sons de
+orchestra e gritos de alegria o silencio agreste das margens do
+Mississipe.
+
+É este o unico consolo d'aquelles que andam no mar em serviço da
+patria--o repousar em terra amiga. Vão-se as saudades para dar logar á
+franca expansão dos corações: a alma do marinheiro transforma-se, como
+por encanto, n'um hostiario de alegrias de uma ingenuidade incomparavel,
+e elle ri com os outros, canta e sente-se tão bem como si estivesse em
+seu proprio paiz, no meio de seus amigos e de seus parentes. Encantadora
+illusão, que só dura emquanto elle não abre as velas mar em fóra nessa
+interminavel derrota de argonautas que vão atraz do bezerro de ouro da
+felicidade...
+
+Não direi, não, o que nos divertimos, as multiplas sensações por que
+passou o nosso espirito n'essa Luiziania que o Mississipe embala com o
+rithmo nostalgico de suas aguas côr de barro. Seria desdobrar a natureza
+humana tão complexa e mysteriosa.
+
+Vamos adiante, consultemos o caderno de notas.
+
+_25 de Abril_...--Estavamos na Paschoa, a festa risonha e popular da
+ressurreição do Christo. Até então nenhum desgosto, nenhuma tristeza,
+nenhuma magoa toldara o céo purissimo de nossas alegrias. Vagavamos em
+mar de rosa, egoistas de felicidade, sereno o espirito, aberto o coração
+a todos os influxos bons. Boa vida, por um lado, essa de quem viaja sem
+grandes preoccupações, no bojo de um navio patricio.
+
+Eis que, de repente, uma nota dissonante e sombria chamou-nos á
+realidade pungente da vida humana: morrera um nosso companheiro de
+bordo, o Leocadio..., que digo eu? um d'esses heróes anonymos que usam
+gola ao pescoço, um pobre marinheiro que a fatalidade arrebatou de sua
+terra natal para morrer tysico em paiz estranho.
+
+Ninguem imagina a dolorosa impressão que produz a morte de um
+companheiro de viagem longe da patria, n'um hospital desconhecido.
+
+Fez-se o enterro com todas as honras devidas ao obscuro soldado e velho
+marinheiro, nascido, por assim dizer, sobre o mar e educado na escola
+das tempestades. Tinha sessenta annos. Era o «cosinheiro da prôa». Sobre
+o seu corpo foi estendido a bandeira nacional brazileira como symbolo da
+patria reconhecida.
+
+N'esse dia, conforme já estava assentado, toda a guarnição do _Barroso_
+desembarcou a fim de assistir á missa solemne da Paschoa na cathedral de
+S. Luiz, o mais importante dos templos catholicos da cidade, situado na
+rua Chartres.
+
+Bem que antiga, essa egreja parece resistir ainda por muito tempo. Foi o
+primeiro edificio catholico erigido em Nova-Orleans pelos capuchinhos,
+em 1718, ao tempo da fundação da cidade. Tomou o nome de S. Luiz em
+homenagem ao rei da França.
+
+Mais tarde, em Setembro de 1723, desabou sobre a nascente cidade, cuja
+população elevava-se a 200 almas, formidavel cyclone, que arrasou todos
+os edificios, causando uma mortandade incalculavel. Narram os chronistas
+que foram arrojados á costa trez navios que se achavam fundeados no
+porto. Em breve, porem, a cidade foi reedificada, sendo em 1724
+reconstruida a egreja, essa mesma que ainda hoje ergue seus torreões
+vetustos na rua Chartres.
+
+Naquelle anno o territorio de Nova-Orleans foi dividido em tres grandes
+districtos sob a administração dos capuchinhos, dos carmelítas e dos
+jesuitas. De então em diante multiplicaram-se os edificios religiosos,
+egrejas palacios episcopaes, conventos, etc.
+
+O convento das Ursulinas data egualmente da fundação da cidade e é um
+estabelecimento catholico á maneira do de Ruão conhecido por esse mesmo
+nome.
+
+É um dos ultimos conventos que ainda existem nos Estados-Unidos. Consta
+de trez andares e ergue-se á margem do rio, para onde abre suas
+janellinhas atravéz das quaes se vê passar a sombra phantastica das
+religiosas.
+
+
+
+
+X
+
+
+Um bello povo, o de Nova-Orleans--jovial, communicativo, hospitaleiro e
+sincero. A elle devemos os melhores dias dessa longa viagem ao paiz
+suggestivo e excepcional dos _yankees_, universalmente querido e
+respeitado por sua grandeza industrial e por suas bellas tradições de
+energia e patriotismo.
+
+E emtanto approximava-se o dia da partida: iamos embora rumo de norte,
+levando comnosco a immorredoura lembrança do Meschasebé, «le roi des
+fleuves», e das legendarias terras que Chateaubriand poetisara nas suas
+inimitaveis _viagens_. Restava-nos, porem, o consolo de que ainda
+iriamos á sonhada Nova-York dos trens aereos e das emprezas colossaes.
+
+Corações á larga, rapazes! Um homem é um homem!...
+
+A saudade, porem, não é uma simples figura de rethorica, pelo amor de
+Deus! É um estado d'alma como a nostalgia, como o amor, como a tristeza,
+como a dôr...
+
+A saudade existe, é um phenomeno perfeitamente real e determinado na
+ordem dos factos psychologicos. Não nos venham dizer outra cousa os
+senhores neologistas _fin de siècle_. Por ter sido cantada em prosa e
+verso, nem por isso a saudade deixa de ser o que é na verdade--uma
+commoção nervosa interessando o mais delicado e sensivel do coração
+humano, uma dolencia vaga, fluctuante n'alma, intraduzivel como um sonho
+nebuloso, tocada de doçura e ungida de tristeza...
+
+Por que uma pessoa tem barba no rosto e já passou dos vinte annos,
+segue-se que não deve ter mais saudade, que deve ser um insensivel, uma
+massa inabalavel?
+
+Absolutamente não. A lagrima, expliquem-na como quizerem os doutores da
+sciencia, hade existir emquanto palpitar em nós esse musculo que se
+chama coração, emquanto a humanidade soffrer e houver um motivo
+sentimental para commover os seres dotados de intelligencia. É talvez
+uma questão de mais ou menos intensidade nervosa. Por que tudo é egoismo
+neste seculo essencialmente palavroso e mercantil, deve-se concluir que,
+em futuro não muito longe, a raça humana se transforme n'uma como
+esphynge, sem affectividade possivel, ou que o systema nervoso passe a
+exercer funcções negativas na physiologia do porvir? Não o
+acreditamos...
+
+A lagrima hade existir _per omnia secula_, e a saudade terá sempre a sua
+lagrima, como sentimento superior ás nossas forças.
+
+Chorar sobre o tumulo de um amigo é tão natural, tão humano como chorar
+porque nos separamos de um ente querido. Não desejo agora, por um
+velleidade de rabiscador sentimentalista, fazer a psychologia da
+lagrima. O que eu quero é confessar, embora d'isso me advenha o
+qualificativo de _piégas_, que não podiamos--eu e a maior parte dos meus
+collegas--pensar em deixar Nova-Orleans sem um demorado fremito de
+palpebras e uma nevoa humida no olhar triste...
+
+E, dizendo isto, está dito o que nos merecia a hospitaleira população
+d'aquella cidade.
+
+Entretanto, ainda não estavam satisfeitos os luizianenses. Como ultima
+prova de verdadeira estima o _Luiziania Jockey-Club_ deu-nos um
+magnifico baile na vespera da partida.
+
+Tenho ainda na memoria essa derradeira impressão que me ficou de
+Nova-Orleans. Fazia um luar soberbo, um luar tropical, um luar de
+legenda, tão limpido e tão claro que se não viam as estrellas... O
+_Jockey-Club_, em baixo, fazia um effeito surprehendente com a sua
+illuminação de mil côres rodeando a grande raia das corridas, com o seu
+aspecto phantastico de kermesse nocturna, salpicado de pontos luminosos
+e galhardetes em miniatura, immoveis na calmaria da noite.
+
+Em derredor a mudez solemne da floresta acordada de instante a instante
+pelo echo da musica cortando o ar calmo.
+
+Perto do _Club_ tinha-se armado um grande estrado para a dansa ao ar
+livre, sem tecto, sem toldo, sob o luar.
+
+Cruzavam-se os pares, n'um turbilhão impetuoso, ao som das walsas
+americanas e dos galopes á brazileira.
+
+N'essa noite, e pela primeira vez, conversei longamente com uma
+_créole_, Mlle... já me não lembra o nome, um typo ideal de Walkyria de
+olhos negros com um extraordinario brilho nas pupillas,--microscopica,
+delgada, flexivel, cintura extremamente fina, certo geito adoravel de
+pender a cabeça para os lados, n'um abandono irresistivel... Toda de
+preto.
+
+Dansámos uma quadrilha e ella convidou-me a passeiar no Prado.
+
+Lá fomos, braço dado, eu muito circumspecto, teso dentro da minha farda
+de guarda-marinha, levado quasi que machinalmente por essa formosa dama
+d'olhos negos e seductores, arranjando a custo umas phrases de effeito,
+que eu não teria coragem de reproduzir; ella, desenvolta e pequenina,
+muito leve na sua _toilette_ escura, conduzindo-me n'aquella esplendida
+_promenade au clair de la lune_, para onde... não sei eu...
+
+Perguntou-me si as brazileiras eram bonitas e ricas, si no Brazil
+dansava-se muito, e que tal nós tinhamos achado as americanas.
+Explicou-me então a differença entre _créoles_ e americanas propriamente
+ditas.
+
+Respondi-lhe como pude, exaltando as nossas patricias, «bellas e ricas,
+como não ha eguaes no mundo...»
+
+Parámos. Tinhamos andado seguramente dois kilometros e não viamos agora
+senão a parte superior do _Club_, por traz do arvoredo, toda illuminada
+ao longe, como uma cousa phantastica.
+
+Á proporção que nos afastavamos dos nossos companheiros a conversa
+tornava-se menos animada, e, por fim, já seguiamos calados, como dois
+somnanbulos, no silencio da noite enluarada...
+
+Depois é que vimos a distancia que nos separava do centro da festa.
+
+Na volta encontrámos outros pares em doce confabulação, como nós, longe
+do ruido.
+
+Despedi-me para tomar o trem, e ella, a dama dos olhos negros, disse-me
+um _Good bye_ tão sentido e tão suggestivo que eu não tive geito senão
+perder o trem.
+
+_Good bye!_ Nada mais doce e expressivo que estas simples palavras em
+bocca de americana. Uma ingleza talvez que as não pronuncie com tanta
+suavidade, com tão sonora flexão, com tanto sentimento. _Good bye_... Ha
+qualquer cousa de avelludado no timbre cantante com que ellas, as _miss_
+da Nova-Inglaterra dizem a sua phrase sacramental de despedida. O nosso
+_adeus_, aliás tão laconico e singelo não exprime tanto, não caracterisa
+tão bem esse estado d'alma que se denomina--saudade.
+
+E, a proposito de--_Good bye_, vem-me a memoria um episodio de uma
+simplicidade primitiva e commovente que a minha indiscrição de
+observador tagarella não deixa calar.
+
+Esqueçamos a rapariga d'olhos negros e narremol-o em toda a sua verdade.
+
+Entre os nossos companheiros de viagem havia um, cuja vida estava cheia
+das mais interessantes aventuras amorosas. Chamava-se Manoel..., o
+apellido de familia não nos interessa. O joven official de marinha, moço
+de bella apparencia e excellente coração, apaixonara-se por uma Eva
+Smith muito conhecida nos cafés-concertos de Nova-Orleans. Até aqui nada
+mais natural. Ella vira-o uma vez diante de um _bock_, seus olhos se
+encontraram, e, desde logo, Manoel ficou sendo a menina dos olhos de
+Eva. Amaram-se por muitos dias, gosaram todas as delicias imaginaveis,
+elle prohibiu-a de andar nos cafés, ella prohibiu-o de olhar para outras
+raparigas, e assim corresponderam-se de commum accordo, sem que nunca
+houvesse entre elles a menor desavença.
+
+--Leva-me para o Brazil, Manoel... (ella só o tratava por Manoel).
+
+--Sim, filha, depois havemos de ver isso...
+
+--I love you very much...
+
+--Oh! yess... I think so...
+
+Viviam felizes como um casal de noivos, longe da cidade, n'um quarto
+d'hotel, onde havia do melhor vinho e da melhor sôpa.
+
+Um bello dia:
+
+_Elle_--Olha, sabes? O _Barroso_ suspende ferro amanhã.?.
+
+_Ella_ (surprehendida)--What do you say?!
+
+_Elle_ (trincando um rabanete)--É o que estou lhe dizendo. Amanhã, por
+estas horas, o Manoel vai sulcando o golfo do Mexico.
+
+_Ella_ (cruzando o talher)--Impossivel! Por que já não me disseste?
+
+--Para te poupar o desgosto...
+
+--Oh! não, meu querido Manoel, é historia, tu não vás amanhã...
+
+--Assim é preciso. São cousas da vida...
+
+--Não, não, meu amor (_my love_) tu não vás, porque eu não quero, do
+contrario faço escandalo, estás ouvindo?
+
+E, ao dizer estas palavras, a pobre Eva deixou cahir uma lagrima...
+
+Silencio. Manoel continuou a jantar sem interrupção, muito calmo, com
+uma fleugma verdadeiramente britannica. Eva, coitada, abriu a soluçar
+baixinho, fungando a mais não poder, sem se aperceber de que estava
+fazendo de um guardanapo um lenço.
+
+...........................................................................
+
+Ultimo acto, e aqui é que está o aproposito.
+
+Scenario: O Mississipe pardo e murmurejante sob a luz moribunda do
+crepusculo.
+
+O _Almirante Barroso_, immovel sobre o rio, com a sua mastreação muito
+alta, fuméga. Ouve-se barulho de cabrestante e de amarras cahindo no
+convéz. Tremúla a bandeira brazileira na carangueija da mezena...
+Ultimos preparos.
+
+No cáes agita-se uma multidão compacta.
+
+De repente surge á tona d'agua o cepo da ancora enlameada, pingando um
+lodo cinzento, e o navio começa a andar vagarosamente.
+
+A guarnição sóbe ás vergas, alastrando-se de um bordo e d'outro, e acena
+para terra ao som de--vivas!
+
+Agitam-se lenços na praia, correspondendo ás saudações de bordo. Um
+fremito percorre os que estão no cruzador...
+
+É o momento decisivo.
+
+Um grande rebocador, _Theo Warriar_, vistoso e arquejante, acompanha as
+manobras do _Barroso_, á distancia de uma amarra, solitario e sombrio,
+envolto n'uma nuvem de fumaça, e em cuja tolda assoma a figura
+desgrenhada de uma mulher.
+
+O cruzador segue á vante, magestoso e lento, descrevendo uma bella curva
+no espelho da agua, e torna a passar defronte da cidade, apressando a
+marcha.
+
+As religiosas das Ursulinas lá cima, nas janellinhas do convento, acenam
+tambem com os seus lenços brancos.
+
+E, no silencio da tarde que a nevoa melancolisa, repercutem estas
+palavras tocadas de saudade:
+
+--_Good bye!_
+
+--_Good bye!_ repete a mesma voz avelludada como um carinho...
+
+Olhámos uns para os outros commovidos.
+
+Quem seria que se lembrara de levar tão perto sua despedida aos
+brazileiros?
+
+A voz era de mulher, não restava duvida...
+
+Com effeito, reconhecemos na figura desgrenhada que viamos a bordo do
+rebocador Eva Smith, a amante de Manoel..., a apaixonada rapariga muito
+conhecida nos cafés cantantes de Nova-Orleans, cujo enthusiasmo pelo
+nosso companheiro tinha chegado a seu auge.
+
+E quando o _Barroso_ desappareceu na primeira curva do rio, ainda
+ouviamos, tomados de uma tristeza infinita, a mesma voz cheia de
+desespero, agora abafada pela distancia, soluçada e plangente:
+
+--_Good bye_, Manoel! _Good bye!_...
+
+E dizer que a _Dama das Camelias_ é uma excepção na vida sentimental das
+filhas de Eva!...
+
+O nosso Armando, que aliás nunca pretendeu regenerar ninguem, deixou se
+cahir n'uma saudade profunda, n'um longo adormecimento d'alma, de que só
+accordou no alto mar, quando já não se avistava um ponto siquer da costa
+americana.
+
+
+
+
+XI
+
+
+Abençoada ilha de Cuba, direi muito pouco de teus aspectos, de teus
+costumes, de tua gente, de tua civilisação, mesmo porque a nossa demora
+em tua bizarra capital, foi curta como um sonho bom. Um epicurista diria
+que apenas tivemos tempo de mastigar um _havana_, d'esses que fabrícas
+aos milheiros e que fazem a delicia dos consumidores do bom tabaco.
+
+Bellas cubanas d'olhos rasgados e sensuaes, acreditamos piamente nas
+coloridas descripções em que viajantes de todas as nacionalidades gabam
+as vossas preciosas qualidades physicas, os vossos olhos ardentes, os
+vossos cabellos negros, a vossa graça incomparavel e seductora... Nos
+oito curtos dias que passámos em vossa patria não tivemos a felicidade,
+a gostosa satisfação de vos contemplar senão de relance, por um acaso
+verdadeiramente providencial.
+
+Dizem outros que sois bellas e irresistiveis, que dansais divinamente o
+_salero_, que possuís todos os encantos possiveis, e isto é quanto basta
+para que dispenseis o desmaiado elogio dos que não tiveram a fortuna de
+confabular comvosco.
+
+E o leitor, por sua vez, contente-se em saber que Havana, com suas
+_calles_ irregulares, estreitas e pacatas, é uma pequena capital sem
+_capitaes_, sobriissima de diversões populares, quasi monotona, mas
+relativamente adiantada.
+
+Não se lhe póde negar certo progresso material e mesmo uma ponta de
+civilisação européa.
+
+Encontram-se nella importantes estabelecimentos commerciaes, grandes
+tabacarias que fornecem fumo e seus preparados a quasi todos os mercados
+do globo; excellentes botequins, poucos hoteis.
+
+O celebre professor Agassiz, no roteiro de uma de suas excursões á
+America, disse que toda a architectura brazileira é _pesada e sombria_;
+eu accrescentarei que no mesmo genero são as edificações de Havana, o
+que não é para surprehender n'uma cidade antiga, onde se observa ainda o
+cunho tradicional da velha metropole hespanhola.
+
+Entre os monumentos archeologicos notámos a secular cathedral onde
+(refere a chronica) estão sepultados os ossos de Christovão Colombo.
+
+Vimos uma estatua--a de Izabel a Catholica, n'um grande largo que tem o
+nome da santa rainha.
+
+Particularidade interessante: a população dá a vida por gelados, em
+consequencia do calor excessivo e constante a que vive sujeita.
+
+Visitámos tambem (ia-me esquecendo) os aqueductos que fornecem agua á
+população da cidade. Todos elles vão despejar n'um immenso reservatorio
+de pedra inteiriça (como os nossos diques da ilha das Cobras), cavado no
+sólo, formando uma especie de tanque de grande capacidade para comportar
+muitos e muitos metros cubicos d'agua crystalina. O sitio onde se acha
+essa importante obra de engenharia, lembra, de relance, a Tijuca com as
+suas cascatas despejadas do alto de rochedos inaccessiveis, com a
+extrema frescura de suas montanhas verde-escuras, debaixo de um céo
+límpido e azul. É um dos melhores passeios de Havana. A viagem até ahi
+se faz em diligencias puxadas á mulas, arriscando-se o _touriste_ a
+chegar sem bofes ao fim da jornada longa e sem o attractivo das bellas
+paisagens claras do Brazil.
+
+O sol é ardentissimo em Cuba, e, entretanto, as diligencias partem da
+cidade pela manhã e chegam ás onze horas ao reservatorio, onde não se
+encontram hoteis nem botequins. Sua-se por todos os póros e, no fim de
+contas, volta-se fatigado, com a curiosidade satisfeita, mas o corpo
+moido.
+
+O Passeio Publico... Oh! não falemos de cousas tristes. Quem já viu o
+Passeio Publico da Bahia pode imaginar o de Havana: o mesmissimo
+cemiterio dezerto e sombrio, o mesmissimo abandono criminoso; arvores
+colossaes, meia duzia de castanheiros decrepitos, e um silencio, um
+silencio absoluto de arripiar cabellos. Aos domingos costuma ir chorar
+p'r'ali uma banda militar. Só então é que a gente se lembra que existe
+um Passeio Publico em Havana.
+
+_La Havana_, de resto, é o que se póde chamar uma cidade pacifica,
+socegada e sem attractivos. A impressão que ella deixa no espirito de
+quem a viu exteriormente é de uma velha capital decadente, muito cheia
+de sol e poeira.
+
+Mas, para que não fosse de todo ociosa e inutil a nossa visita á Cuba,
+aproveitámos o ensejo de ver uma de suas mais pittorescas e curiosas
+cidades--Matanzas, onde chegámos depois de algumas horas de viagem
+costeira. Ahi nos esperava o vice-consul do Brazil, excellente
+cavalheiro, cujo primeiro cuidado foi pôr á nossa disposição vinte e
+tantos carros de praça a fim de que não perdessemos opportunidade de
+contemplar o magestoso panorama do valle de Yumiri, um dos mais bellos
+do mundo, cerca de uma legua distante da cidade.
+
+--Os senhores vão vêr um bellissimo trecho da natureza americana, como
+talvez não haja igual no Brazil, preveniu-nos o consul. É uma maravilha!
+
+E lá fomos, subindo e descendo morros, completamente alheios á
+topographia do paiz, cheia d'altibaixos, lá fomos caminho de Monserrate,
+n'uma disparada unica por montes e valles, aos solavancos.
+
+Era quasi noite quando parou o ultimo carro, e corremos logo á tal
+«maravilha» que o diplomata recommendara.
+
+Aqui têm os aguarellistas _motivo sensacional_ para uma téla
+rembrannesca:
+
+Crepusculo... Céo pardo com uns tons de azinhavre muito vagos, aqui,
+ali, bordando nuvens... Embaixo a longa extensão concava do valle
+afundando-se como o leito de um grande mar, que tivesse desapparecido,
+verde escuro, indistincto quasi a essa hora do dia.
+
+Defronte, no segundo plano, a sombra opaca de uma cordilheira,--larga
+faixa de velludo cinzento--limita o scenario, confundindo-se com as
+tintas indecisas da planura sideral. E, sobre tudo isso, uma tristeza
+religiosa, um vago silencio de abysmo...
+
+Vê-se muito ao longe, de um lado da paísagem, rasgando o fundo nebuloso
+do quadro, uma nodoa escarlate, ao comprido, muito desenhada, muito
+escandalosa mesmo em meio de toda essa harmonia de côres esmaecidas...
+
+Ha muito que o sol tombou na sua eterna circumvolução diurna. A sombra
+que se alastra, a pleiada phosphorecente dos pyrilampos, o silencio
+absoluto que nos cerca--tudo inspira respeito: e a gente esquece
+preconceitos e doutrinas para, instinctamente, levantar uma prece á
+mysteriosa Força que rege o Universo...
+
+Existe no alto da montanha a modesta capella de N. S. de Monserrate,
+sempre aberta aos crentes, muito branca na sua despretenção de nicho
+d'aldeia, com a sua torresinha triangular onde vão fazer ninho, no
+inverno, as andorinhas do valle.
+
+Cahio de todo a noite, e, no silencio da estrada que descia em broncas
+sinuosidades, regressámos para o hotel, cujo salão príncipal tinha agora
+o aspecto sumptuoso (dados os devidos descontos...) d'um refeitorio de
+convento em dia de festa paschoal: meza lauta, vinte variedades de vinho
+excellentes e tudo mais que se faz mister n'um banquete finamente
+organisado á moderna.
+
+O resto é facil de imaginar: brindes, hurrahs, charutos finissimos... e
+um somno reparador obrigado a pezadelos...
+
+Na manhã seguinte acordámos para outro passeio não menos agradavel. Era
+preciso aproveitar o tempo do melhor modo possivel. Cometteriamos
+indisculpavel falta si não fossemos ver as _Cuevas de Bella-mar_, essas
+caprichosas grutas subterraneas, verdadeiros palacios de crystal
+puríssimo, que se abrem terra dentro em toda a opulencia de suas
+maravilhosas stalagmites e stalactites. Era mais uma deliciosa surpreza
+que nos estava reservada. Ir á Matanzas e não ver as _Cuevas_ equivale a
+ir a Roma e não ver o Papa. Cumprimos o nosso dever de viajantes, que
+não se contentam com a vaidade infantil de pisar solo extrangeiro.
+
+_Cuevas de Bella-mar_... Entre os numerosos phenomenos que a geologia
+registra muitos ha que ainda estão por ser lucidamente explicados, por
+sua propria natureza complexa e profundamente scientifica.
+
+No terreno da geologia subterranea, com especialidade, innumeros são os
+problemas a destrinçar, e um dos mais curiosos e interessantes é, sem
+duvida, a formação das cavernas, as excavações produzidas por agentes
+externos, pela infiltração natural da agua no solo calcareo, formando
+essas caprichosas pyramides de crystal, que a sciencia denomina
+_stalagmites_ e _statactites_.
+
+As _Cuevas de Bella-mar_ formam um dos mais bellos panoramas que se
+podem imaginar.
+
+Figure-se um grande tunel aberto no subsolo e de cuja abobada pendem
+crystaes multiformes, cada qual o mais surprehendente, alguns de tamanho
+admiravel, emquanto do chão constantemente humido sobem outros de egual
+estructura, ponteagudos quasi sempre, formando, ás vezes, columnatas
+brilhantes, esplendidos capiteis, tão caprichosamente dispostos que
+dir-se-iam architectados por mãos humanas. A caverna prolonga-se a
+perder de vista, deslumbrante como um palacio encantado, á luz dos
+archotes, porque é impossivel percorrel-a sem luz, e a cada passo uma
+nova exclamação de surpreza irrompe da bocca do observador, espontanea e
+enthusiastica.
+
+É, com effeito, encantador o aspecto das _Cuevas_.
+
+A athmosphera é quasi insupportavel, apezar da humidade que se reflecte
+das paredes da gruta: um calor medonho de fornalha acceza!
+
+É expressamente prohibido tocar nos crystaes. Um guarda, empunhando um
+archote, acompanha o visitante, recommendando-lhe de espaço a espaço,
+todo cuidado, toda cautela para que não dê alguma cabeçada...
+
+Desta vez tinhamos sabido preencher o tempo utilmente, compensando as
+horas perdidas em Havana.
+
+N'esse mesmo dia o _Barroso_ fez-se de marcha para o _paiz dos yankees_,
+para Nova-York, a bella e maravilhosa cidade que o consenso universal
+alcunhou de Londres americana.
+
+E... foi um dia a ilha de Cuba...
+
+
+
+
+XII
+
+
+...Manhã de inverno, fria e nebulosa, sem uma restea de luz confortavel.
+Estava interdicta a nossa curiosidade, pois que amanhecemos defronte da
+bahia de Hampton Road, a essa hora coberta de cerração, cheia de
+nevoeiro, impenetravel. Não podiamos, que pena! ver Nova-York de fóra,
+do mar, abrangel-a toda com um golpe de vista, stereotypal-a na
+imaginação para todo o resto da nossa vida. A grande cidade cosmopolita
+dos trens elevados e das pontes colossaes dormia o somno beatifico da
+madrugada, envolvida n'um largo capuz de neve atravéz do qual apenas se
+podia ouvir a sineta de invisiveis embarcações que bordejavam demandando
+o porto. Adivinhavamos que muitos vapores transatlanticos aguardavam,
+como nós, o momento azado para fazerem sua entrada.
+
+Felizmente não durou muito esse estado quasi afflictivo. Por traz do
+nevoeiro compacto e lugubre os primeiros clarões da manhã surgiram como
+uma apparição bemdita, rompendo a monotonia branca da atmosphera, e
+pouco a pouco, á proporção que a neve ia se rarefazendo, o _Barroso_
+tomava chegada muito lento, e Nova-York destoucava-se n'um fundo
+luminoso, batida pelas primeiras irradiações do sol, ruidosa e
+alviçareira, toda cheia de brilhos, como um quadro de malacacheta.
+
+Onze horas. Céo limpo e mar chão--como se diz nos diarios nauticos. Nem
+mais um floco de neve, tudo luz agora, e já podemos ver cheios da mais
+intima satisfação, com uma surpreza ingenua no olhar, o aspecto risonho
+da bahia cortada de embarcações á vela e á vapor, com os seus longes de
+verdura matizando perfis de montanhas indistinctas, muito descoberta,
+sem o sombrio magestoso das paisagens americanas do sul, bella na sua
+simplicidade natural, e, sobretudo, muito clara áquella hora.
+
+Á direita destacava, á bocca do Hudson, a grande, a enorme, a colossal
+ponte que liga Brooklin á Nova-York lembrando-nos que realmente tinhamos
+chegado outra vez á terra feliz dos _yankees_, e d'outro lado erguia-se,
+_illuminando o mundo_, a estatua da liberdade, bello symbolo de bronze,
+cujo pedestal occupa toda a ilha de Bedloe.
+
+Era um dia de domingo, um desses dias de expansão popular, em que, no
+mar como em terra, ha quasi sempre uma alegria nova entre os que
+passaram a semana a trabalhar, a lutar pela vida incansavelmente com a
+consciencia tranquilla de quem vive honestamente á custa do proprio
+esforço. A bahia de Nova-York tinha o festivo aspecto de um dia de
+regatas. Esquadrilhas de hiates, com suas velas quadrangulares, muito
+elegantes e asseiados, cruzavam na barra, aproveitando a fresca do mar.
+Passavam barcas de recreio, embandeiradas, conduzindo bandas de musica,
+que tocavam alegremente o _Yankee doodle_. Á cerração matinal succedera
+um sol frio d'inverno, que dava vontade a gente improvisar pic-nics á
+beira-mar, fóra da cidade, longe dos botequins e das _brasseries_,
+nalgum verde recanto onde houvesse bastante quietação e muita agua, n'um
+logarejo calmo de suburbio d'onde se podesse ver ao longe, mas muito ao
+longe, a miniatura da cidade soturna e cansada...
+
+O _Barroso_ tinha fundeado em frente á Battery Square e com pouco
+recebia a visita official do Consul brazileiro e d'outras autoridades do
+paiz, sendo para notar que uma das primeiras pessoas que pizaram a bordo
+foi o reporter do _New-York Herald_, a importante folha americana
+tradicionalmente conhecida no mundo jornalistico. Um cavalheiro
+_irreprochable_, de cartola e sobrecasaca de panno, bem apessoado,
+bigode louro e olhos azues, verdadeiro typo de _yankee_, amavel e
+expansivo. É escusado dizer, n'um parenthesis, que no dia seguinte a
+kilometrica folha descrevia, com uma precisão photographica, o cruzador
+brazileiro, sem esquecer mesmo um carneiro de estima que traziamos e que
+o espirituoso noticiarista incluia na lotação do navio, emprestando-lhe
+qualidades invejaveis. Creio até que o pobre lanigero figurou na folha
+_yankee_ entre os heróes de Humaytá!
+
+Satisfeitas as formalidades officiaes da chegada, trocadas as salvas do
+estylo, nada mais nos restava senão ver de perto a bella cidade.
+
+Nova-York estava quieta, muitissimo quieta, com as suas praças dezertas,
+com os seus parques silenciosos, fechado o commercio a ponto de não se
+encontrar aberta uma só tabacaria, siquer um botequim. Isso, porém, não
+nos causou estranheza. Sabiamos que o domingo nos Estados-Unidos é um
+dia completamente inutil, um dia triste para os centros populosos. Toda
+a gente dezerta para os arrabaldes em seus trajes domingueiros. As ruas,
+muito largas e compridas, permanecem ermas e cheias de silencio,
+entregues á vigilancia dos _policimen_. Todas as casas commerciaes,
+todos os armazens, todas as fabricas, todos os estabelecimentos publicos
+conservam-se fechados e taciturnos, como n'uma cidade abandonada.
+
+Nova-York, a opulenta e alegre cidade cosmopolíta, tinha esguichado para
+New-Jersey, para Brooklin e para Conney-Island. Toda aquella multidão
+laboriosa e ourisedenta, que nos dias de trabalho se atropella na
+Broadway, bebia e cantava nos arrabaldes, expandia-se largamente nos
+hoteis ambulantes e nas cervejarias suburbanas, folgava e ria com
+desespero, sem pensar na segunda-feira, sem se inquietar com o futuro.
+
+Por isso é que não se deparava ninguem nas ruas, por isso não se ouvia o
+barulho infernal das carroças e das carruagens.
+
+O domingo no paiz dos _yankees_ é para se divertir, para se descansar,
+para se jogar o _criket_, para se passeiar a cavallo, para se apostar
+regatas, de modo que o protestantismo americano nada tem de commum com o
+protestantismo britannico.
+
+Emquanto nos domingos (a dar credito na chronica) o inglez reza a Biblia
+no interior de seu _home_, em companhia de sua mulher e de seus filhos,
+o americano, ou melhor o _yankee_ exercita os musculos e bebe cerveja
+fóra da cidade.
+
+Não admira semelhante discordancia, quando é sabido que a religião
+protestante subdivide-se em milhares de seitas. A este respeito leiam-se
+os bellos capitulos em que Mr. Laboulaye (Ed. Lefèvre), estuda, com uma
+graça especial e encantadora, cheia de humorismo e de senso critico, as
+instituições religiosas na America do Norte. _Paris en Amérique_ é um
+dos livros mais curiosos e originaes que eu tenho lido sobre os
+Estados-Unidos.
+
+Em taes condições, extrangeiros no meio de uma cidade dezerta,
+imagine-se o nosso embaraço, a triste situação em que nos collocava a
+curiosidade.
+
+Os rarissimos transeuntes que porventura encontravamos, marinheiros ou
+vagabundos que desciam para o caes da Battery, olhavam-nos com um ar de
+surpreza, embasbacados, medindo-nos d'alto a baixo, com si fossemos uns
+verdadeiros botocudos de tanga e cocar.
+
+Entretanto, não perdemos a precisa calma, e, sem mais tirte nem guarte,
+saltámos dentro do primeiro vehiculo que passava, uma velha carruagem de
+aluguel, cujo boleeiro custou devéras a comprehender que desejavamos
+fazer um passeio ao redor da cidade.
+
+--Oh! yess! Yess!...
+
+E disparou a trote largo por aquellas ruas fóra.
+
+De modo que n'esse dia vimos Nova-York _à vol d'oiseau_ e por um prisma
+de tristeza e monotonia.
+
+Em compensação a nossa demora n'aquella cidade ia ser mais longa que em
+qualquer dos outros portos do intinerario.
+
+No dia immediato, uma segunda-feira, recomeçámos, sem perda de tempo, a
+nossa tarefa de extrangeiros em paiz desconhecido.
+
+Eu, por mim, confesso que Nova-York produzia-me vertigens. O desejo
+immoderado de tudo vêr, de tudo observar, de tudo saber, trazia-me n'uma
+inquietação continua, tirava-me o somno, arrebatava-me á todas as
+commodidades, torturava-me o espirito de analyse. Uma cousa, porem, devo
+dizer: raro é o official de marinha, mormente da marinha brazileira, que
+sabe aproveitar o tempo n'essas viagens ao extrangeiro. Aproveitar o
+tempo, entendamo-nos, as horas de folga. Preferiamos a convivencia dos
+cafés-cantantes aos passeios uteis e ao mesmo tempo agradaveis. Um
+extrangeiro já teve a coragem de dizer que os officiaes de marinha
+brazíleiros levavam o tempo, na Europa, a frequentar os _conventilhos_ e
+os cafés-cantantes. Até certo ponto isso é verdade.
+
+Em geral elles pouco conhecem dos paizes que têm visitado, a não ser em
+assumptos de sua profissão, e as suas narrativas entre amigos limitam-se
+quasi sempre a recordações de aventuras amorosas.
+
+Tambem são tão curtas e tão raras essas viagens...
+
+Quando se tem a felicidade relativa de viajar sob o commando de um
+official illustrado e curioso como o Sr. Saldanha da Gama, cujos
+conhecimentos não se restringem á navegação e á artilharia, o
+aproveitamento é certo. Elle não é sómente um superior
+hierarchico--faz-se mestre e sabe proporcionar aos seus subalternos a
+maior somma possivel de excursões uteis e proveitosas.
+
+Uma das nossas primeiras visitas foi á estatua da Liberdade, na ilha de
+Bedloe.
+
+O importante monumento ainda não estava completamente prompto, mas já se
+podia fazer uma idéa do que seria elle depois de concluido. O pedestal,
+de granito, occupa quasi toda a ilhota e mede, approximadamente, 15 a 20
+metros de altura, 154 pés, desde o nivel do mar, formando uma especie de
+casamata cuja utilidade não souberam nos dizer. Sobre o pedestal
+ergue-se a estatua, em bronze, armada por meio de vigamentos de ferro,
+pois que não é inteiriça.
+
+Conta-se que dentro d'ella realisara-se, em Pariz, um magnifico banquete
+de 12 talheres, presidido por V. Hugo.
+
+Como se sabe, a estatua foi offerecida aos Estados-Unidos pela França em
+agradecimento dos serviços prestados por esta nação á sua amiga na
+guerra franco-prussiana.
+
+O pedestal foi mandado construir á custa de subscripções populares, que
+em pouco tempo attingiram a uma somma elevadissima.
+
+Não ha por ahi quem não tenha ouvido falar na famosa ponte de Brooklin
+(_Brooklin Bridge_), uma das maravilhas da engenharia moderna, que liga
+a ilha de Brooklin á Nova York.
+
+Esta cidade, incontestavelmente o primeiro emporio commercial da America
+e uma das mais populosas do mundo, fica situada n'uma grande ilha
+formada por dois braços do rio Hudson. De um lado, á direita de quem
+olha para o mar, um dos deltas, o North River, separa-a de New-Jersey, e
+á esquerda o East River separa-a de Brooklin. A travessia para qualquer
+desses pontos faz-se rapidamente, em barcas que a todo instante largam
+de Nova-York, e por preço assaz diminuto.
+
+A principio, quando se projectou levantar a grande ponte, surgiram mil
+difficuldades.
+
+Parecia impossivel que se podesse levar a effeito obra tão arriscada e
+dispendiosa. Como assentar as bases do colosso n'uma profundidade de mil
+e seiscentos pés, que é esta a altura do rio na sua parte mais estreita?
+
+Demais era preciso não prejudicar a navegação, construindo a ponte muito
+acima do nivel do mar de modo a dar passagem livre ás embarcações de
+commercio.
+
+Com tudo isso os americanos metteram mãos á obra e dentro de alguns
+annos de trabalho assiduo os Estados-Unidos contavam mais uma gloria.
+
+O comprimento total d'essa magnifica ponte é de uma milha pouco mais ou
+menos. As torres onde ella está suspensa erguem-se a 268 pés acima da
+prêa-mar, de forma que as maiores embarcações de commercio têm passagem
+facil por baixo.
+
+O _Barroso_, cuja guinda era uma das mais altas que se tem visto em
+navio de guerra, apenas foi obrigado a «acachapar» os mastaréos de
+joanetes.
+
+Atravessa-se a ponte em vagons movidos á electricidade, em carros de
+praça ou mesmo a pé. Paga-se um centimo para atravessal-a a pé!
+
+O movimento é espantoso. Cruzam-se diariamente as duas populações de
+Nova-York e de Brooklin, em carros em wagons e a pé, sem risco de se
+atropellar, por que a cada especie de vehiculos corresponde uma passagem
+independente e adequada. Os que transitam á pé têm tambem o seu caminho
+livre e, por consequencia, não correm o perigo de ser pisados pelos
+carros.
+
+Á noite o aspecto da ponte é feerico. Logo ás seis horas da tarde começa
+a illuminação em toda ella, de um lado e d'outro, destacando-se em
+alguns pontos fócos de luz electrica, enormes botões de brilhante que
+encandeiam a vista.
+
+Vista do mar, então, o effeito é deslumbrante! Lembra as lendarias
+pontes de Veneza cortando canaes, projectando n'agua seus reflexos
+luminosos.
+
+Um dos meus divertimentos predilectos era contemplar Nova-York do alto.
+Muitas vezes punha-me lá de cima da ponte de Brooklin, braços cruzados,
+n'um extase de fetiche, a olhar para um e outro lado, acompanhado com a
+vista a vela das embarcações que singravam no rio, pequeninos,
+microscopicas.
+
+E punha-me, nessa embriaguez do grandioso a pensar no progresso dos
+Estados-Unidos, d'esse paiz modelo, onde tudo move-se por meio de
+electricidade e vapor, onde tudo é feito ás carreiras, n'um abrir e
+fechar d'olhos, sem a menor perda de tempo; vinham-me a imaginação
+escandecida as descobertas de Franklin, de Fulton e de Edison, as
+maravilhosas experiencias sobre o telegrapho, sobre o telephone e sobre
+o phonographo, e eu repetia com os meus botões, mergulhando o olhar na
+distancia, abarcando a cidade inteira:--Grande paiz! Grande povo, gente
+feliz, que sabe comprehender a vida e amar a patria!
+
+Como era pequeno o meu paiz, com toda a grandeza de suas montanhas e de
+seus rios, diante do colosso americano do norte!
+
+Cahia-me n'alma uma tristeza de desterrado, uma profunda e
+incomprehensivel melancolia, feita ao mesmo tempo de saudade e
+descrença...
+
+Incansaveis os americanos! Nenhum povo os excede em temeridade e
+perseverança. Sequiosos de glorias para o seu paiz, ávidos de
+emprehendimentos que causem assombro ao mundo, elles tem uma grande
+qualidade--o amor á sua terra, o nativismo instinctivo, o _chauvinismo_
+(deixem passar o termo) incondicional, absoluto, e é força confessar
+que, sem essa qualidade, sem esse egoismo patriotico, as nações vivem,
+mas não progridem.
+
+Ainda ultimamente a camara do Estado de Nova-York approvou, por
+unanimidade, o _bill_ que propoz a construcção de uma nova ponte de
+ferro sobre o East River, passando sobre a ilha de Blackorel, que ligue
+Nova-York á Long-Island, e que terá seis mil metros de comprimento e 46
+de altura, com uma resistencia de 65 kilometros de velocidade para os
+trens que a devem atravessar.
+
+É o caso de dizer, parodiando o outro: si eu não fosse brazileiro,
+desejaria ser americano do norte...
+
+
+
+
+XIII
+
+
+Nunca fui a Londres, apezar do grande e impaciente desejo que tenho de
+visitar a sombria capital britannica, mas estou bem certo de que
+Nova-York em muitos respeitos pode ser denominada a Londres americana.
+
+Toda nova, toda alegre e pittoresca, sem os bairros immundos que o
+Tamisa lambe com as suas aguas putridas, onde boiam cadaveres em
+decomposição, illuminada por um sol que dá vida e confórta, a nova
+Londres tem um cunho especial de cidade latina. Como em Londres, tudo
+n'ella é grandioso e opulento, desde a edificação igual, solida e
+elegante, até ás festividades publicas e ás instituições nacionaes.
+
+As ruas, longas e direitas, cruzam-se geometricamente e distinguem-se
+pela numeração (_Fourteen street_, _Fifteen street_ etc).
+
+A Broadway é o centro commercial, a rua de maior movimento
+quotidiano,--equivale á City de Londres.
+
+Ahi é que os carros se atropellam, que os transeuntes se abalroam n'uma
+confusão burlesca e indescriptivel de que a nossa rua do Ouvidor não dá
+siquer a menor idéa. Negociantes, capitalistas, banqueiros, correctores,
+operarios e vagabundos, acotovelam-se, empurram-se, pisam-se os callos e
+vão seguindo adiante, sem olhar p'ra traz, carregados de embrulhos,
+suando no verão, que costuma ser muito forte em Nova-York. A gente vê-se
+abarbada para romper aquella multidão cerrada, compacta e egoista.
+
+Um cosmopolitismo sem igual em parte alguma.
+
+Americanos, inglezes, hespanhoes, francezes, italianos, allemães, gente
+de todas as nacionalidades, até turcos com os seus costumes exquisitos,
+confundem-se nas ruas de Nova York, enchendo-as em ondas successivas e
+tumultuosas, como em dias de carnaval no Rio. Parece mesmo, á primeira
+vista, que o elemento extrangeiro absorve o nacional, tão numeroso é
+aquelle. Custa, porém, a encontrar-se um portuguez ou um brazileiro. Em
+compensação a raça latina é abundantemente representada por hespanhoes
+da Europa e da America. Os mexicanos, apezar da natural e occulta
+ogerisa que têm aos americanos dos Estados-Unidos, encontram-se a cada
+passo e distinguem-se logo pelo seu typo original: estatura média, rosto
+anguloso e abolachado, moreno, cabello duro, olhos pequenos; amaveis.
+Não perdem occasião de dizer mal dos americanos, que, entretanto,
+dedicam-lhes uma affeição especial.
+
+Uma das cousas mais curiosas de Nova-York são os trens elevados
+(_elevated rail road_), a complicada rêde de linhas ferreas que rodeia a
+cidade passando em muitos pontos por cima da casaria, atravessando ruas
+inteiras sobre grandes columnas resistentes de ferro. Partem todas da
+Battrey Square, ponto mais meridional da ilha de Manhattan (onde fica a
+cidade) e vão terminar na sua extremidade septentrional, em Barlem
+River. Segundo o relatorio apresentado pela _New-York Elevated_, o
+numero de viajantes transportados em 1878 por essa linha foi de
+107.079.625. (Sempre a estatistica como base fundamental do progresso
+entre os americanos!). A linha inteira, que tem seguramente trinta
+milhas, estava concluida até Harlem. Os moradores das margens d'essas
+estradas de ferro aereas queixavam-se continuamente da visinhança.
+
+Podéra! Ruido, fumo e fagulhas a toda hora sobre a cabeça, não são
+cousas que agradem a ninguem. A pobre gente fica em risco de perder o
+juizo, pois não!
+
+Felizmente, o que aliás é muito admiravel, os desastres reproduzem-se
+rarissimas vezes. É que o serviço faz-se com inexcedivel perfeição e as
+posturas municipaes verificam-se enexoravelmente.
+
+As estações são numeradas, como as ruas: _Primeira Estação_, _Segunda
+Estação_, etc.
+
+Os passageiros desembarcam em plataformas de ferro gradeadas, que
+communicam com as estações.
+
+O espirito inventivo dos americanos revela-se a cada passo nas grandes
+cidades dos Estados-Unidos. Em todos os estabelecimentos, em todos os
+ramos da actividade publica se encontra uma applicação nova de mecanica
+industrial, um artificio de utilidade pratica, economico e curioso, uma
+invenção engenhosa...
+
+Aproveitar o tempo e economisar os _dollars_--tal é o principio
+fundamental da sabedoria _yankee_.
+
+Um domingo em Coney-Island: nada mais pittoresco e hilariante, nada mais
+suggestivo...
+
+Coney-Island aos domingos é para os americanos o que o Bois é para os
+francezes e Hyde Park é para os inglezes--um interessantissimo
+microcosmo de incrivel bizarraria, cheio do vago rumor de uma multidão
+que passeia, que canta, que ri e que bebe ao ar livre, n'um _pêle-mêle_
+vertiginoso, com as suas _toilettes_ claras, com o seu bello ar
+despretencioso, com os seus gestos largos de quem respira uma atmosphera
+leve e pura.
+
+Essa pequena ilha constitue a principal diversão domingueira dos
+habitantes de Nova York.
+
+Familias inteiras, burguezes de todas as castas, _cocottes_, affluem
+para ali n'esses dias. Pela manhã, cedo, largam da Fulton Station
+grandes barcas embandeiradas conduzindo musicas, cheias de passageiros.
+Muita gente prefere ir por terra, em trens que partem de Brooklin.
+
+Não ha logar para todos nos hoteis. Improvisam-se _pic-nics_ defronte do
+mar, na beira da praia, formam-se pagodeiras, e muitas pessoas ha que
+não se lembram de comer--preferem a cerveja, o _bock_ a qualquer especie
+de alimento solido.
+
+Vimos dois grandes hoteis--o _Great Hotel_ e o _Gigantic Elephant_.
+
+Aquelle é um magnifico estabelecimento, todo construido de madeira de
+lei sobre enorme plataforma que se move em trilhos proprios. Novo genero
+de hoteis até então desconhecido para nós. N'um dado momento podem ser
+conduzidos, como qualquer _tramway_ d'um logar para outro.
+
+O _Gigantic Elephant (the monarch of the architectural world_, como lá
+dizem...) mede 175 pés inglezes de altura, é dividido em 31
+compartimentos, ventilados por 63 janellas, e illuminado, á noite, por
+25 fócos de luz electrica. Figura um elephante colossal, de madeira, em
+pé, no meio de um jardim. Em cima, no dorso do monstro, existe um
+terraço d'onde se descortina uma esplendida paisagem rasa e calma.
+
+Quer n'um, quer n'outro, o _promeneur_ encontra abundante variedade de
+petiscos e bebidas.
+
+As creanças, com especialidade, fazem de Coney-Island um céo aberto.
+Ellas, sim, não perdem os cavallinhos que andam á roda ao som de um
+classico realejo seboso, os passeios aereos, na ponte russa, nas
+barquinhas, nos trens elevados...
+
+Por toda a parte musica, realejos, pregoeiros de _cousas maravilhosas_,
+gritos, gargalhadas...
+
+Tiram-se retratos instantaneos, apostam-se corridas, sobem-se elevadores
+de duzentos metros acima do solo, pesca-se, alugam-se cavallos de
+passeio... Emfim, Coney-Island é uma miniatura da vida tumultuosa das
+grandes cidades.
+
+O pobre diabo que não fôr esperto e economico arisca-se a voltar com as
+algibeiras cheias de vento...
+
+Á noite enchem-se novamente os trens e as barcas. Em uns e outros a
+algazarra torna-se insupportavel. Canta-se a _Marselheza_ em vozes
+detestaveis, grita-se, bate-se com a ponteira da bengala no chão,
+assovia-se, imitam-se animaes de toda a especie... Uma loucura!
+
+Entretanto, abençoado paiz! em todas essas pagoderias não se distingue
+siquer um bonné policial. Não ha conflictos, nem desastres.
+
+Tudo corre na maior harmonia, sem intervenção da guarda civica. Os
+_policemen_ podem cochilar á vontade: a população americana é
+naturalmente pacata e respeitadora da ordem.
+
+Coney-Island é o complemento necessario e indispensavel de Nova-York.
+
+Pelo verão reunem-se ali cerca de 5.000 pessoas, segundo o calculo
+approximado do consul brasileiro.
+
+
+Dias depois da nossa chegada, o _Barroso_ entrou para o dique de
+Brooklin, a fim de soffrer alguns reparos no casco.
+
+Emquanto isto se dava, emquanto a guarnição occupava-se da limpeza
+externa do cruzador, com o cuidado, com o desvelo e com o carinho mesmo
+de amigos dedicados, iamos visitando outras cidades americanas,
+ligeiramente, de relance.
+
+Não nos foi dado, porem, diga-se em parenthesis, ver o mais grandioso
+espectaculo dos Estados-Unidos--a celebre cascata do Niagara, que
+Chateaubriand pinta com as maravilhosas côres de sua palheta de artista
+inimitavel.
+
+Não tivemos mesmo a felicidade de ver Washington, a bonita capital
+americana, e tão pouco o presidente Cleveland.
+
+Esse previlegio coube quasi que exclusivamente ao ex-principe D.
+Augusto, que aliás não revelou grande admiração pela Niagara, nem pelo
+presidente Cleveland.
+
+Sua Alteza não era para que digamos muito amigo da natureza, e menos
+aínda de personagens illustres.
+
+Quanto a mim continuei a ver a famosa cascata por um oculo, nos livros
+do poeta, e o Sr. Cleveland, vi-o casualmente no _Daily News_, no acto
+do seu casamento realisado a esse tempo. Pareceu-me um bello typo de
+_yankee_: cheio de corpo, cabello penteado p'ra traz, olhar firme,
+bigode grosso...
+
+Assim, contentámo-nos com visitar algumas cidades de importancia e tão
+depressa que era impossivel apanhar com precisão todos os caracteres por
+meio dos quaes se pode apreciar a vida de uma população.
+
+Vejamos:
+
+BALTIMORE--Cídade aristocratica, pequena, mas extremamente bella na
+simplicidade, no gosto sobrio de sua edificação, muito asseiada, muito
+clara, semelhando toda ella, no seu conjuncto gracioso, uma confortavel
+habitação de outomno, fresca e risonha, boa para se gozar o socego de
+uma villegiatura sem preoccupaçães mercantis e utilitarias.
+
+A gente de Baltimore parece viver uma vida tranquilla e descuidada no
+calmo interior de seu _home_, longe da mentira social, longe de todo o
+ruido, beatificamente, n'uma paz invejavel, respirando uma atmosphera
+livre do microbio daminho das civilisações tumultuosas.
+
+Baltimore é uma cidade por excellencia aristocratica e hygienica, onde
+os temperamentos requintadamente pacificos encontrariam o desejado
+repouso trespassado da incomparavel doçura de um clima raro.
+
+Na melhor de suas praças e no mais elevado de seus pontos ergue-se a
+estatua em marmore do grande Washington, geralmente considerada «um dos
+mais interessantes monumentos da America» e inaugurada em 1809. Mede 60
+pés quadrados na base e 15 de altura. Sobre o pedestal foi levantada uma
+elegante columna dorica de 20 pés de diametro na base e 15 no cimo, onde
+branqueja a estatua do primeiro presidente dos Estados-Unidos,
+representando-o no momento de renunciar a sua commissão de general em
+chefe dos exercitos de seu paiz.
+
+Para subir até essa galeria fui obrigado a vencer duzentos degráos
+(contados) de uma estreita escadaria de pedra, em espiral. De cima
+vê-se, a olho nú, todo o panorama, realmente bello, da cidade, que
+lembra uma d'essas paisagens hollandezas, muito claras e suggestivas,
+taes como descreve Ramalho Ortigão, e onde destacam, n'um fundo de
+aguarella, linhas de arvoredo e reverberos d'agua parada...
+
+Ouvi dizer algures que as mulheres mais bonítas dos Estados-Unidos são
+as de Baltimore. Durante as poucas horas que ahi nos demorámos vimos
+alguns rostos femininos na verdade encantadores. É possivel que vissemos
+com olhos protectores de hospedes em terra estranha...
+
+Era nosso consul n'aquella cidade Fontoura Xavier, o conhecido autor das
+_Opalas_, bom poeta e pessimo republicano, que se apressou em nos
+proporcionar todas as commodidades possiveis, franqueando-nos os quartos
+e os salões do melhor hotel do logar. Fez mais: offereceu gentilmente á
+officialidade brazileira um delicadissimo almoço ao qual compareceram
+diversos estudantes nossos patricios.
+
+Guardamos bellas recordações de Baltimore.
+
+PHILADELPHIA--Grande centro de industria e commercio. Altas chaminés
+caracteristicas. Céo encoberto de fumaça, pesado e lugubre a certas
+horas do dia. Aqueductos, casas colossaes, ruas largas e atulhadas de
+barricas e caixotes. Continuo movimento de carros e tramways. Immensa e
+grandiosa, a cidade vista de qualquer ponto elevado. A lembrança que
+fica é a de um grande edificio em construcção, cheio de rumor de
+machinas e de operarios em actividade permanente.--Jardim
+Zoologico.--Universidade importantissima, onde vão estudar moços de
+todas as nacionalidades.--City Hall, edificio monumental, vasto e muito
+alto, onde funccionam as repartições publicas: dizem ser o maior dos
+Estados-Unidos.
+
+Não ha tempo a perder. Temos apenas trez horas a nossa disposição, pois
+que o trem deve partir para Annapolis ás cinco da tarde e já são duas...
+
+Leio na taboleta de um bond: _Zoological Garden_... Oh! sim, vamos ao
+Jardim Zoologico, a mais completa collecção de animaes, que já se
+conseguiu formar. O meu companheiro, que conhece o Jardim Zoologico de
+Londres e o de Philadelphia, opta por este. Vejo, de passagem ruas
+bellissimas, esplendidas filas de casas luxuosas, magnificos jardins
+particulares, templos em estylo gothico; descampados...
+
+Mas, a viagem é longa, o tempo escorre sem a gente perceber, e é preciso
+contar com a volta, a fim de apanhar o trem.
+
+Trabalho perdido! Voltámos no mesmo bonde, sem ter visto o appetecido
+Jardim... Zoologico.
+
+Mal tivemos tempo de chegar, embarafustar por entre os passageiros que
+se accumulavam na _gare_, e saltar para dentro do vagon.
+
+E eu fiz o resto da viagem pensando no assombroso progresso d'aquella
+cidade enorme, que ainda em 1791 não era mais que uma simples colonia a
+respeito da qual Chateaubriand exprimia-se d'este modo:--_L'aspect de
+Philadelphie est froid et monotone_...
+
+Não foi preciso mais de um seculo para que os americanos fizessem d'ella
+uma das principaes cidades industriaes do mundo.
+
+Em Philadelphia tive occasião de ver, pela primeira vez, bondes
+electricos funccionando com a maxima regularidade.
+
+O que será a grande cidade americana d'aqui a cem annos?
+
+
+
+
+XIV
+
+
+Abramos capitulo especial para Annapolis, não que esta cidade, a mais
+antiga dos Estados-Unidos, mereça-nos mais que qualquer das outras,
+absolutamente não, mas por uma deferencia bem entendida, por um
+recolhido sentimento de gratidão para com a joven officialidade da
+marinha norte-americana, que ali recebeu as primeiras lições de
+disciplina militar e dever civico, e que soube nos acolher em seu seio
+como verdadeiros irmãos de armas que eramos.
+
+A nossa visita coincidía com a festa de formatura dos guardas-marinha,
+uma das bellas solemnidades annuaes dos Estados-Unidos á qual concorrem
+centenas de pessoas da mais elevada sociedade--a fina flor da
+aristocracia d'aquelle paiz--movidas pelo nobre enthusiasmo de apertar a
+mão á mocidade que se despede da escola para entregar-se ás duras lidas
+do mar.
+
+Antes, porem, de dizer o que foi essa festa descrevamos, rapidamente, a
+cidade.
+
+Annapolis é como uma nota dissonante na civilisação americana.
+Imagine-se um quilombo africano, uma grande aldeia cortada de ruas
+desiguaes, estreitas e desalinhadas, com um aspecto sombrio e detestavel
+de velho burgo colonial, onde se move uma população na maior parte negra
+e atrazadissima--e ter-se-ha essa antithese da cidade moderna.
+Bridgetown, a capital de Barbados, avantaja-se-lhe mil vezes com toda
+sua poeira, com toda a imprudencia e mizeria de sua baixa população.
+
+Vê-se que os americanos têm-lhe certo respeito e conservam-na esquecida
+e retrograda por uma especie de devoção archeologica, sacrificando por
+esse modo o seu bom gosto caracteristico e o seu tradicional amor ao
+progresso.
+
+Insipida, monotona e triste como um cemiterio de pagãos--Annapolis é um
+protesto, um anathema contra a evolução natural das cousas, uma nodoa
+antipathica em pleno mappa da Confederação americana. Nada ha ali que
+interesse e desperte a curiosidade senão a Escola Naval (_Naval
+Academy_) situada n'uma das extremidades da cidade, á beira-mar.
+
+De anno em anno enche-se de povo; seu unico hotel, um pardieiro,
+extravasa, e então sente-se um fremito de vida nova percorrer aquellas
+ruas habitualmente socegadas e tristes. Passeiam bandas de musica,
+fluctuam bandeiras na frontaria das casas, por toda a parte ouve-se uma
+vozeria estranha de gente que bebe e canta nos cafés (arremedo de cafés)
+e todas as janellas abrem-se como para receber o desinfectante da
+alegria, importado das grandes cidades circumvisinhas.
+
+Annapolis accorda, então, de seu pesado somno tumbal para saudar os
+estudantes que saem da academia para a vida publica.
+
+O grande acto, a que assistimos, da distribuição de titulos, realisou-se
+n'um dos vastos salões da Escola, presente numerosissimo auditorio:
+familias em grandes trajos de luxo, altos funccionarios, estudantes...
+
+Ao receberem seus diplomas os noveis officiaes de marinha foram
+vivamente applaudidos pelos seus companheiros, cahindo sobre elles uma
+chuva imprevista de flores, no meio de palmas e gritos de enthusiasmo.
+E, começaram os abraços, as felicitações, os conselhos e as lagrimas de
+commoção...
+
+Abrem-se de par em par as portas do estabelecimento e a multidão de
+espectadores precipita-se por todos os lados, feliz, alegre, desafogada
+como si acabasse de assistir a uma festa de amor e justiça.
+
+Ainda não estava concluido o programma.
+
+Em seguida á solemnidade official,--a festa intima, a festa de despedida
+que os _naval cadets_ (aspirantes) offereciam aos seus companheiros.
+
+Noite clara e constellada. O largo edificio da Escola de Marinha
+regorgita de convidados que se cruzam em todos os sentidos no salão do
+baile, nos corredores, nos _bouffets_, nas ante-salas...
+
+Nota-se em todas as caras certo ar de intimidade, certo bem estar
+flagrante, um quer que é communicativo e bom.
+
+Uma ou outra casaca solitaria, destoando da linha geral das _toilettes_
+largas e frescas. Observo curiosamente o apuro de um official japonez
+que franze as sobrancelhas n'um gesto de enfado.--Por que será?... Julgo
+de mim para mim que o pobre camarada não se sente á vontade dentro de
+suas calças de panno com largos galões dourados. A casaca o incommóda
+visivelmente. O chapéo armado, elle já não sabe como o tenha--si na mão,
+si debaixo do braço ou mesmo si na cabeça...
+
+Desabotoam-se risos gentis em boccas purpurinas. Derramam-se essencias
+preciosas no ambiente luminoso. Conversa-se alto. Bellas _miss_ de face
+escarlate abanam-se com os leques de ricas plumas de edredon. Os leques
+e as joias são as unicas riquezas que conduzem n'um contraste frizante
+com os vestidos leves e claros.
+
+Em um dos lados do enorme quadrilatero, onde reluziam panoplias
+arranjadas á capricho, estava levantado um pavilhão de aspecto risonho,
+em cujo frontespicio destacavam em letras de luz
+
+
+ 1887 TO 1886
+
+ FARWELL
+
+
+Era o logar do director da escola.
+
+Começou a dança...
+
+...E á meia noite a musica fazia signal para a ultima valsa.
+
+Ficamos sabendo que todas as festas nocturnas terminam invariavelmente á
+meia noite, nos Estados-Unidos. É uma velha praxe que os americanos
+poucas vezes transgridem.
+
+Annapolis, _blak city_--como te chamam teus proprios patricios, tu não
+poderás saber nunca a saudade que levámos de tí n'essa esplendida noite
+clara e constellada!...
+
+
+
+
+XV
+
+
+O _Barroso_ continuava no dique, em Brooklin.
+
+Logo ao regressarmos de nossa viagem á Annapolis tivemos aviso para uma
+outra excursão não menos interessante e agradavel.
+
+West Point era agora o principal objecto de nossa curiosidade,--West
+Point, a bella povoação á margem do Hudson, onde funcciona a Escola
+Militar. Estavamos convidados para assistir a outra festividade
+academica--um combate simulado entre os alumnos do
+estabelecimento,--manejos d'armas, exercicios de esgrima, assaltos.
+
+Comprehende-se a grande utilidade que necessariamente nos adveria
+d'essas visitas aos estabelecimentos militares no extrangeiro. Sem nos
+aperceber, iamos conhecendo, _de visu_, os diversos processos de ensino
+pratico, os methodos mais modernos de educação physica, e, quando mais
+não fosse, lucravamos com a vista de objectos novos e de novas
+paisagens.
+
+O viajar é uma necessidade quasi imprescindivel para o espirito e para o
+organismo. A alma como que se dilata em presença de estranhas
+combinações de côr e de luz. A monotonia da vida urbana cansa o
+espirito, fatiga-o, consome-o lentamente: é preciso o grande ar, o ar
+livre e temperado dos campos, a natureza em toda sua belleza original,
+para que não se morra de tédio e desanimo. O tempo é limitadissimo e
+inapreciavel para quem viaja com desejo de ver e saber.
+
+Muitos ha que preferem morar eternamente em Paris ou em Londres, no
+centro da cidade, asphyxíado pela poeira dos _boulevards_, a gastar
+economicamente o seu rico dinheirinho vendo a natureza de perto, gosando
+as inaffaveis delicias do campo e das praias, saboreando o clima das
+montanhas, deliciando a vista com o espectaculo das fontes mumurejantes,
+dos frescos arvoredos trespassados de luz...
+
+Eu preferirei sempre a paz absoluta e invejavel dos suburbios.
+
+E é por isso que, a cada nova excursão fóra da cidade, eu sentia-me bem
+commigo e bem com o resto da humanidade. Voltava sempre mais consolado e
+mais leve, como si sahisse de um quarto muito escuro e abafado para a
+claridade larga e bella do dia...
+
+Foi assim que recebi a noticia do passeio a West-Point.
+
+Como devia ser magnifico o Hudson lá para as bandas de sua nascente, a
+qualquer hora do dia, iluminado pelo sol, calmo e radiante, ou coberto
+de nevoa, pela manhãsinha, ou no silencio da noite, vago e sombrio como
+um pantano dormente!...
+
+Era o que iamos vêr.
+
+
+Seis horas da manhã...
+
+Cahia uma neve friissima, transparente, e aggressiva como alfinetadas.
+
+O _Express_, pequeno e elegante cruzador americano, especie de
+transporte de guerra, esperava-nos de «fogos accezas», deitando fumo
+pela chaminé.
+
+Remos n'agua e toca p'r'adiante! Pontualidade no caso.
+
+Estamos á bordo.
+
+O _Express_ offerece o bello aspecto de uma galeota imperial que vai
+suspender ferro...
+
+Fazia gosto ver a ordem e o asseio que apresentavam o convéz e a camara.
+
+Tinha-se acabado de fazer a baldeação matinal. Marinheiros,
+perfeitamente uniformisados, occupavam-se em limpar as chapas de metal;
+outros colhiam cabos á prôa; outros lá cima, nas vergas, atavam ou
+desatavam andarivelos, muíto rubros, com os seus bonnés de panno azul
+marinho onde se lia o nome do navio, em letras cor de ouro:--_Express_.
+
+A camara--uma sala espaçosa e clara, elegantemente adornada--occupava um
+terço do pontal, a ré, na primeira coberta. Em baixo, na segunda
+coberta, ficavam os camarotes e a praça de armas.
+
+Servido o _fine cognac_, que os americanos de bom tratamento não
+dispensam nos dias invernosos, o _captain_ subio ao passadiço e deu a
+voz de suspender. A machina tocou adiante e o _Express_ começou a
+singrar o Hudson.
+
+Variadissimo o aspecto da paisagem. Ora o rio se estreita em curvas
+caprichosas, ora vai-se alargando, sempre manso, banhando cidades e
+aldeias, limpido ás vezes, outras vezes toldado e sombrio.
+
+West Point fica á duzentas milhas de Brooklin.
+
+Passámos o dia inteiro e a noite em viagem para amanhecermos em nosso
+destino.
+
+Novas manifestações de sympathia. Officiaes e alumnos da Escola Militar
+esperavam-nos com aquelle sorriso affavel de gente hospitaleira, que
+logo se traduz em franca e sincera camaradagem.
+
+A Escola estava acampada perto do estabelecimento, em exercicios
+praticos.
+
+Innumeras barraquinhas de lona, alinhadas em symetria, alvejavam, como
+um acampamento de beduinos, guardadas por sentinellas que rondavam de
+arma ao hombro, perfilando-se de vez em quando em continencia a um
+official que passava.
+
+Cada barraca abrigava cinco a seis alumnos que se rendiam pontualmente
+na sentinella.
+
+Emquanto um rondava, grave e silencioso, de mochila ás costas e
+espingarda ao hombro, os outros divertiam-se a trocar sôcos, a jogar o
+dominó, a apostar corridas, até que o tambor ou a corneta os chamasse á
+fórma. Então, com uma rapidez extraordinaria, lestos, vivos e fortes,
+corriam todos a seus postos, e, em menos de um minuto, estava formada a
+companhia.
+
+Cada alumno era um verdadeiro soldado.
+
+Alegres, o sangue a pular-lhes no rosto, cheios de saúde, tesos,
+empinados, quadris largos, espaduas amplas, todos se pareciam em
+robustez physica.
+
+Uns rapagões sadios!
+
+Notei mesmo certa propensão dos americanos para o militarismo. Parece
+que a educação militar, a adapção de principios rigorosos na disciplina
+do corpo, é o unico meio de obterem-se homens robustos e cumpridores do
+dever. A Escola de West Point é, sem exagero, um exemplo raro de
+estabelecimentos d'esse genero. E não era sem uma ponta de tristeza que
+nós, brazileiros,--raça degenerada e lymphatica--viamos crear-se assim
+uma raça forte e alegre com todos os caracteres de virilidade e
+independencia.
+
+Tive occasião de assistir a uma lucta corporal entre dois alumnos,
+competentemente armados de luvas de camurça, rosto a descoberto.
+Pegaram-se a sôcos, um defronte do outro, calmos e convictos, como si
+estivessem commettendo uma nobre acção.
+
+No fim de alguns minutos, o aggressor estava com o rosto inchado,
+escorrendo sangue, os olhos vermelhos, injectados, e a lucta acabava com
+um abraço entre os dois contendores. O mais forte foi acclamado pelos
+companheiros, teve o prémio de sua robustez.
+
+É talvez um duro systhema de educação esse, mas incontestavelmente o
+mais acertado e efficaz.
+
+Simples questão de raça...
+
+
+
+
+XVI
+
+
+Estava terminada a nossa estação de quasi dois mezes em Nova-York.
+
+No dia 30 de Julho o _Barroso_ deixou aquelle porto em direcção a
+New-Port, outra cidade dos Estados-Unidos, refugio da população
+aristocratica nos quentes días de verão. Uma perfeita cidade balnearia,
+muito fresca e saudavel, á beira-mar, olhando para o largo oceano e
+recebendo-lhe as emanações salinas, com um Cassino e um Passeio Publico.
+
+Os banqueiros e a gente rica de Nova-York costumam fazer ahi o seu ninho
+de verão, e, de vez em vez, para amenisar a vida monotona que se leva
+n'esse pequeno mundo de simplicidade e conforto, promovem regatas na
+esplendida enseada que orla a cidade e que n'esses dias de festa
+maritima toma uma feição ridente e caracteristica de aguarella ingleza,
+com os seus _cutters_ á vela, com os seus hiates de recreio bordejando
+ao largo como um bando de gaivotas pousadas n'agua...
+
+Apostam-se milhões de libras. De França e de Inglaterra principes e
+lords vêm assistir e tomar parte no jogo.
+
+A regata é um dos divertimentos predilectos dos americanos. Todas as
+cidades maritimas e fluviaes dos Estados-Unidos têm pelo menos um club
+de regatas.
+
+Nota curiosa: em New-Port não se bebe alcool. É prohibida a importação
+de bebidas que contenham espirito, ou qualquer outra substancia nociva.
+Não se encontra um só botequim na cidade. Para tomarmos um refrigerante,
+uma simples limonada, fomos bater a uma pharmacia! Garantiram-nos que
+esse preceito contra o alcool é escrupulosamente observado n'aquella
+cidade. Custavamos a acreditar, mas, emfim, não havia geito senão ser
+delicados...
+
+De resto, uma cidadesinha elegante e socegada, New-Port. O commercio ahi
+é quasi nullo.
+
+No fim de oito dias o _Barroso_ deixava de uma vez o paiz dos _yankees_,
+fazendo-se de vela para os Açores.
+
+Já agora não nos doía muito a saudade desse bello e prodigioso paiz. O
+regresso á patria, depois de uma ausencia de quasi um anno, enchia-nos o
+coração de alegria.
+
+Não fôra a perda de um companheiro em Nova-Orleans e voltariamos todos,
+sem faltar ninguem, sadios e fortes, cheios de impressões novas e cheios
+de esperança.
+
+Voltavamos, sim, mas tinhamos deixado atraz, em terra extrangeira, n'um
+cemiterio de Nova-Orleans, um dos nossos camaradas.
+
+Traziamos uma convicção, e é que nenhum povo sabe comprehender tão bem o
+problema da vida humana como os americanos dos Estados-Unidos. A idéa da
+morte não os preoccupa: um _yankee_ triste é cousa rara e toma
+proporções de phenomeno.
+
+Elles, os americanos, são geralmente alegres, bem dispostos, amigos do
+trabalho, compenetrados de seus deveres, e, acima de tudo, amam a sua
+patria mais do que qualquer outro povo.
+
+A patria e a familia são os seus principaes objectivos. Menos egoistas
+que os inglezes, energicos e resolutos, sobra-lhes tempo e dinheiro para
+se divertirem.
+
+Esse povo verdadeiramente democratico não pede licções a paiz nenhum:
+engrandeceu a custa de seus proprios esforços e dia a dia prospéra,
+assombrando o mundo com as suas emprezas colossaes.
+
+Si a Allemanha representa no seculo XIX a patria das sciencias moraes,
+aos Estados-Unidos compete o primeiro logar na ordem dos paizes que tem
+concorrido grandemente para o aperfeiçoamento e bem estar humanos.
+
+Emquanto as nações da Europa degladiam-se n'uma lucta continua, perdendo
+na guerra o que difficilmente accumularam em poucos annos de paz, a
+grande nação americana deixa-se estar quieta e desarmada, sem exercito e
+sem marinha, confiada no seu proprio valor, no patriotismo de seus
+filhos, certa de que, n'um dado momento, cada cidadão, cada americano
+saberá cumprir com heroismo o seu dever e honrar as suas tradições de
+povo independente e forte.
+
+_Go ahead! never mind; help yourself!_--eis a maxima de todo _yankee_.
+Elles não a esquecem nunca e marcham desassombradamente na vida, como
+quem tem absoluta confiança no proprio valor.
+
+CEARÁ--1890.
+
+
+
+
+EDIÇÕES DA LIVRARIA MODERNA
+
+
+DOMINGOS DE MAGALHÃES--Editor
+
+
+
+
+*Affonso Celso*
+
+
+Vultos e Factos, 1 vol. broc. 3$000, enc. 5$000
+
+Minha Filha, 1 vol. broc. 3$000, enc. 5$000
+
+Minha Filha, ed. do luxo em 4^o com o retrato do autor, broc. 10$000
+
+Imperador no Exilio, 1 vol. broc. com o retrato do Sr. D. Pedro II,
+3$000, enc. 5$000
+
+Imperador no Exilio, ed. deluxe broc. 5$000
+
+Lupe, scenas da vida do Mexico, 1 vol. broc. 2$500
+
+Rimas de Outr'ora, 1 vol. broc. 3$000, enc. 5$000
+
+Notas e Ficções, 1 vol, broc. 3$000, enc. 5$000
+
+Philosophia do Direito, 1 vol. (no prelo).
+
+
+*Adolpho Caminha*
+
+
+A Normalista, scenas do Ceará, 1 vol. broc. com capa ill., 3$000, enc.
+5$000, ed. de luxo. 8$000
+
+No Paiz dos Yankees, 1 vol. broc. 3$000, enc. 5$000
+
+
+*Aluizio Azevedo*
+
+
+Livro de uma Sogra, 1 vol. broc. 3$000, enc. 5$000
+
+Casa de Pensão, 2 vols. [no prelo]
+
+
+*Arthur Azevedo*
+
+
+Contos fóra da Moda, 1 vol. broc. 3$000, enc. 5$000
+
+
+*Cruz e Souza*
+
+
+Missal, artistico livro de contos, 1 vol. broc. 3$000, enc. 4$000
+
+Broqueis, mimoso livro de versos, 1 vol. broc. 3$000 enc. 4$000
+
+
+*Delia*
+
+
+Celeste, scenas da vida fluminense, 1 vol. broc. 3$000, enc. 5$000
+
+Celeste, ed. de luxo enc. 8$000
+
+Angelina, 1 vol. [no prelo].
+
+
+*F. Fajardo (Dr.)*
+
+
+Tratado de Hypnotismo, 2 vols. ill. por Manoel Gaspar, [no prelo].
+
+
+*Heitor Malheiros*
+
+
+O Encilhamento, scenas da Bolsa de 90 a 92, 1^o vol. à venda o 2^o para
+Julho, 2 vols. broc. 6$000
+
+
+*Isaias de Oliveira*
+
+
+Blocos, phantasias, 1 vol. broc. 3$000
+
+
+*Luiz Rosa*
+
+
+Imagens e Visões, elegante livro de versos, 1 vol. broc. 3$000
+
+
+*Anselmo Ribas*
+
+
+Capital Federal, impressões de um sertanejo, 1 vol. broc. 3$000, enc.
+ 5$000
+
+Bilhetes postaes, livro elegante e livre [no prelo, para Julho].
+
+
+*Medeiros e Albuquerque*
+
+
+Um Homem Pratico, 1 vol. broc. 3$000, enc. 5$000
+
+Hypnotismo, Magnetismo e phenomenos analogos, 1 vol. (no prelo).
+
+
+*V. Nogueira da Gama*
+
+
+Minhas Memorias, 1 vol. broc. 3$000, enc. 5$000
+
+
+*Sylvinio Junior*
+
+
+A Dona de Casa, para as Sras. brazileiras, 1 vol. cartonado. 5$000
+
+
+*Viveiros de Castro (Dr.)*
+
+
+A Nova Escola Penal, 1 gr. vol. broc. 8$000 enc. 10$000
+
+
+*Verediano de Carvalho*
+
+
+Correspondencia Commercial, 1 vol. broc. 8$000, enc. 10$000
+
+
+*Zola*
+
+
+Doutor Pascal, versão brazileira de C. de Albuquerque, 2 vols. broc.
+5$000, enc. 7$000
+
+O Dinheiro, versão do mesmo, [no prelo].
+
+Mysterios de Marselha, [no prelo].
+
+A Derrocada, 2 vols. broc. 5$000, enc. 7$000
+
+
+*Papus e Borja Reis*
+
+
+A Buena-Dicha, arte de lêr o futuro nas linhas da mão, 1 vol. broc.
+2$500, cart. 3$000
+
+
+*Carlos de Moraes*
+
+
+Amor Fatal, scenas fluminenses, 1 vol. broc. 2$500 enc. 4$000
+
+
+*Coelho Netto*
+
+
+Balladilhas, admiravel livro de contos para senhoras e meninos, 1 vol.
+broc. 3$000, enc. 5$000, enc. de luxo. 8$000
+
+Rhapsodia, 1 vol. broc. 3$000, enc. 5$000
+
+Rei Phantasma, romance oriental 2 vols. [no prelo, para fins de
+Setembro].
+
+Contos do Natal, 1 bello vol. para festas [no prelo, para Dezembro].
+
+
+*J. Guerra*
+
+
+Humorismos, 2 vol. broc. 6$000, enc. 10$000
+
+
+*Valentim de Magalhães*
+
+
+Escriptores e Escriptos, 2^a edição 1 vol. broc. 3$000, enc. 5$000
+
+
+*José de Alencar*
+
+
+Encarnação. 2^a edição 1 vol. broc. 3$000, enc. 5$000
+
+Como e porque sou romancista, 1 vol. broc. 1$500
+
+
+*Virgilio Varzea*
+
+
+Rose-Castle, mimoso romance, 1 vol. broc. capa ill. 2$500
+
+
+*Eduardo de Borja Reis*
+
+
+O Grito de Guerra, 1 vol. broc. $500
+
+
+*Eduardo Garrido*
+
+
+Barbeirinho de Sevilha, edição de luxo, 1 vol. broc. 2$000
+
+Joven Telemaco, edição de luxo, 1 vol. broc. 2$000
+
+
+*Julia Lopes de Almeida*
+
+
+A Familia Medeiros, 2^a edição 1 gr. vol. broc. 3$000, enc. 5$000
+
+Memorias de Martha, 1 gr. vol. broc. 3$000, enc. 5$000
+
+
+*Montépin*
+
+
+A Hedionda, versão de Ferreira da Rosa, 3 vols. broc. 9$000, enc. 15$000
+
+
+*Em preparo:*
+
+
+Manual do Cartomante, por C. de Albuquerque, 1 vol. ill. com 130 grs.
+cartonado.
+
+Arte de fazer-se amar por seu marido por Pradel tr. de Braulio Cordeiro
+Junior, 1 vol. broc.
+
+Mestre Sala Moderno, [danças modernas] 1 gr. vol. ill. cartonado.
+
+Satan nas salas [livro dos magicos] versao de Felix de Figueiredo, 1
+vol. ill. cartonado.
+
+Photographo Amador, por C. de Albuquerque 1 vol. ill. cartonado.
+
+
+
+
+Lista de erros corrigidos
+
+
+Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:
+
+
+ +----------+---------------------+----------------------+
+ | | Original | Correcção |
+ +----------+---------------------+----------------------+
+ |#pág. 13| umas | uma |
+ |#pág. 79| Esposição | Exposição |
+ |#pág. 84| para caes | para o caes |
+ |#pág. 86| inventado | inventados |
+ |#pág. 87| viviamos cercado | viviamos cercados |
+ |#pág. 94| nom eestá | nome está |
+ |#pág. 112| nossos companheiras | nossos companheiros |
+ |#pág. 124| mesmoem | mesmo em |
+ |#pág. 126| esplendidoscapiteis | esplendidos capiteis |
+ |#pág. 132| Satisfeitos as | Satisfeitas as |
+ |#pág. 137| nive | nivel |
+ |#pág. 150| Broeklin | Brooklin |
+ |#pág. 156| podestal | pedestal |
+ |#pág. 170| o seus | os seus |
+ +----------+---------------------+----------------------+
+
+
+Neste livro surgem variantes da mesma palavra: "Pancy" e "Pansy", ou
+"Conney-Island" e "Coney-Island", ou "Battrey Square" e "Battery
+Square".
+
+As variantes foram preservadas de acordo com o original.
+
+Registaram-se duas páginas identificadas como sendo a 96ª, uma das quais
+foi corrigida para corresponder à 95ª.
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's No Paiz dos Yankees, by Adolpho Ferreira Caminha
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NO PAIZ DOS YANKEES ***
+
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+ http://www.gutenberg.org/2/4/1/9/24190/
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+Produced by Ricardo F. Diogo, Rita Farinha and the Online
+Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This
+file was produced from images generously made available
+by The Internet Archive)
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+Creating the works from public domain print editions means that no
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+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
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+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
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+works. See paragraph 1.E below.
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+collection are in the public domain in the United States. If an
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+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
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+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
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+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
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+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
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+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
+ Project Gutenberg-tm works.
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+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
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+ of receipt of the work.
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+- You comply with all other terms of this agreement for free
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+Foundation as set forth in Section 3 below.
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+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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+Project Gutenberg's No Paiz dos Yankees, by Adolpho Ferreira Caminha
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+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
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+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+Title: No Paiz dos Yankees
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+Author: Adolpho Ferreira Caminha
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+Release Date: January 7, 2008 [EBook #24190]
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+Language: Portuguese
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NO PAIZ DOS YANKEES ***
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+Devido &agrave;
+quantidade de erros tipogr&aacute;ficos existentes neste texto,
+foram tomadas v&aacute;rias decis&otilde;es quanto &agrave;
+vers&atilde;o final. Em caso de d&uacute;vida, a grafia foi
+mantida de acordo com o original. No final deste livro
+encontrar&aacute; a lista de erros corrigidos.<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: right; font-style: italic;">Rita
+Farinha (Jan. 2008)
+</div>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="bbox"><br />
+
+<h2>ADOLPHO CAMINHA
+</h2>
+
+<br />
+
+<div class="breaks"><br />
+
+</div>
+
+<h1>NO PAIZ<br />
+
+DOS<br />
+
+YANKEES
+</h1>
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 100px; height: 83px;" alt="" src="images/fig01.png" /><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>DOMINGOS DE MAGALH&Atilde;ES&#8213;EDITOR<br />
+
+54 RUA DO OUVIDOR 54<br />
+
+LIVRARIA MODERNA
+</h4>
+
+<br />
+
+<div class="breaks"><br />
+
+</div>
+
+<h4>
+RIO DE JANEIRO<br />
+
+<b>1894</b></h4>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h1>NO PAIZ DOS YANKEES</h1>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 500px; height: 330px;" alt="" src="images/fig02.png" /><br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">cruzador "almirante barroso"</span></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>
+ADOLPHO CAMINHA
+</h2>
+
+<br />
+
+<hr />
+<br />
+
+<h1>
+NO PAIZ<br />
+
+DOS<br />
+
+YANKEES
+</h1>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 100px; height: 83px;" alt="" src="images/fig01.png" />
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>RIO DE JANEIRO<br />
+
+<span class="smallcaps">Domingos de
+Magalh&atilde;es&#8213;editor</span><br />
+
+<span class="smallcaps">54 rua do ouvidor 54</span><br />
+
+LIVRARIA MODERNA<br />
+
+</h4>
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<h4><b>1894</b></h4>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps poetry">Do mesmo autor:</span>
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;">
+<b>A NORMALISTA</b><br />
+
+<br />
+
+I vol. broc. 3$. cnc. 5000<br />
+
+<br />
+
+</div>
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps poetry">Em
+prepara&ccedil;&atilde;o:</span><br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;">
+<b>BOM&#8213;CRIOULO</b>
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="dots"></div>
+
+<br />
+
+<div class="smallcaps" style="text-align: center;">Typ.
+da Empreza Democratica
+Editora&#8213;Rua do Hospicio n. 11</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Taine, o glorioso Taine, o querido
+philosopho, cuja obra admiravel
+tem sido uma especie de bussola para
+os que se iniciam na complicada arte
+da palavra; Taine, o mestre, aconselhava
+sabiamente, com aquella profundeza
+de vista e com aquelle raro e
+superior criterio de artista e pensador:&#8213;&laquo;Que
+chacun dise ce qu'il a
+vu, et seulement ce qu'il a vu; les
+observations, pourvu qu'elles soient
+personnelles et faites de bonne foi,
+sont toujours utiles.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[6]</span>
+Devo a estas palavras a lembran&ccedil;a
+de escrever as multiplas impress&otilde;es,
+os successivos transportes
+de admira&ccedil;&atilde;o, de jubilo e tristeza
+por que passou meu espirito durante
+alguns mezes de viagem nos Estados-Un&iacute;dos.
+<br />
+
+<br />
+
+A principio afigurou-se-me obra
+de alevantado alcance e de extrema
+coragem tra&ccedil;ar, ainda que ligeiramente,
+o plano de um livro sobre a
+grande na&ccedil;&atilde;o americana, t&atilde;o singular
+em seus costumes, em sua vida
+<span class="pagenum">[7]</span>
+agitada e tumultuosa, em seus variadissimos
+aspectos...
+<br />
+
+<br />
+
+E de facto, esse trabalho, essa
+difficil tarefa demandaria, incontestavelmente,
+muito mais que uma
+somma de notas mais ou menos verdadeiras
+e algum estylo. Era preciso, antes
+de tudo, um elevado criterio
+historico e scientifico, grande c&oacute;pia
+de conhecimentos e profundo espirito
+analytico.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o se escreve a historia de um
+paiz,&#8213;a vida inteira de um povo&#8213;sem
+<span class="pagenum">[8]</span>
+demorar-se em largo e paciente
+estudo sobre as suas origens, seus
+habitantes primitivos, sua evolu&ccedil;&atilde;o
+politica e social, suas luctas intestinas
+e sobre os elementos que mais
+directamente influ&iacute;ram para sua independencia.
+<br />
+
+<br />
+
+A elles, os historiadores e analystas da
+sciencia, t&atilde;o arriscada empreza.
+<br />
+
+<br />
+
+Os poucos mezes que passei nos
+Estados-Unidos apenas me proporcionaram
+ensejo de admirar, atrav&eacute;z
+de um prisma todo pessoal, o progresso <span class="pagenum">[9]</span>assombroso
+d'esse extraordinario
+pa&iacute;z.
+<br />
+
+<br />
+
+Comprehendem-se, pois, os meus
+intuitos: nada mais que reproduzir,
+com a poss&iacute;vel exactid&atilde;o, <em>o que
+vi</em>,
+somente <em>o que vi</em> nessa interessante
+viagem ao paiz dos <em>yankees</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Procurei ser espontaneo e simples,
+natural e logico, evitando
+exageros de observa&ccedil;&atilde;o e o estylo
+rebuscado e palavroso dos que, &aacute; fina
+for&ccedil;a, pretendem transformar a litteratura
+n'uma simples arte mecanica <span class="pagenum">[10]</span>de
+construir phrases &ocirc;cas e coloridas.
+<br />
+
+<br />
+
+Escriptas em 1890, as paginas
+que se v&atilde;o ler podem n&atilde;o ter a importancia
+de um estudo completo, mas
+de algum modo t&ecirc;m seu valor intrinseco.<br />
+
+<br />
+
+<div class="quote">
+Rio, 1&ordm; de Agosto de 1893.</div>
+
+<br />
+
+<div class="signature"><em>Ad. Caminha</em>
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>NO PAIZ DOS YANKEES
+</h2>
+
+<br />
+
+<h3>I
+</h3>
+
+<br />
+
+...Tinha cessado a faina geral de suspender
+ancora. Os marinheiros estavam todos em
+seus postos, alerta &aacute; primeira voz, silenciosos,
+enfileirados a bombordo e &aacute; bor&eacute;ste, alguns
+convenientemente distribuidos na p&ocirc;pa, na
+pr&ocirc;a e nas cobertas do cruzador.
+<br />
+
+<br />
+
+Noite escura e chuvosa, cheia de nevoeiro
+e tristeza, fria, sem estrellas, cortada de clar&otilde;es
+longinquos. T&atilde;o escura que se n&atilde;o distinguia
+um palmo diante do nariz, t&atilde;o feia que
+os bicos de gaz da cidade, soturna e quieta,
+bruxoleavam pallidamente com a sua luz tremula
+e vacillante...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[12]</span>
+E comtudo estavamos a 19 de Fevereiro,
+em plena esta&ccedil;&atilde;o calmosa, no rigor do
+ver&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Chuvera todo o dia. O c&eacute;o conservava-se
+coberto de nuvens bojudas e c&ocirc;r de chumbo,
+velando uns restos de lua.
+<br />
+
+<br />
+
+Um grande silencio de alto mar alastrava-se
+por toda a bahia do Rio de Janeiro.
+S&oacute;mente ao longe, para os lados da cidade,
+badalava o sino d'uma egreja, compassado e
+lugubre.
+<br />
+
+<br />
+
+De vez em quando passava rente com a
+p&ocirc;pa do <em>Barrozo</em> o vulto
+sombrio e largo de
+uma barca Ferry, com o seu phar&oacute;l de c&ocirc;r,
+dezerta, indistincta, e que desapparecia logo
+na escurid&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Seria meia noite quando o navio come&ccedil;ou
+a mover-se lentamente, caminho da barra,
+cheio da silenciosa melancolia dos que partiam,
+e uma hora depois a cidade, as praias, e as
+montanhas sumiam-se na distancia, como si o
+mar as fosse engolindo com a voracidade de
+um monstro.
+<br />
+
+<br />
+
+Restava apenas um ponto luminoso, uma
+vis&atilde;o microscopica da terra fluminense; era o
+<span class="pagenum"><a name="p13">[13]</a></span>
+pharol da ilha Rasa tremeluzindo, como palpebra
+somnolenta, atrav&eacute;z da noite.
+<br />
+
+<br />
+
+E todos a bordo, todos silenciosamente,
+egoistas na sua d&ocirc;r concentrada e incommunicavel,
+mandaram ainda um&#8213;adeus&#8213;profundamente saudoso
+&aacute; vida alegre e ruidosa do Rio.
+<br />
+
+<br />
+
+Dizem que o homem do mar &eacute; insensivel
+aquelles que nunca viram esta realidade: a
+lagryma da saudade brilhar na face de um
+marinheiro.
+<br />
+
+<br />
+
+L&aacute; fomos mar af&oacute;ra...
+<br />
+
+<br />
+
+Pernambuco foi o primeiro porto da nossa
+escala.
+<br />
+
+<br />
+
+Viagem monotona, sem accidentes notaveis,
+essa do Rio ao Recife. As horas succediam-se
+n'uma uniformidade tediosa e imperturbavel.
+Sempre o mar, sempre o c&eacute;o, ora
+sombrios, ora azues...
+<br />
+
+<br />
+
+Durante o dia 21 avist&aacute;mos, e isso nos
+consolou, <a href="#e1">uma</a> vela que bordejava,
+muito
+branca, triste gar&ccedil;a erradia no horisonte
+luminoso.
+<br />
+
+<br />
+
+Para quem viaja no mar uma vela que se
+avista &eacute; sempre motivo de innocente alegria
+<span class="pagenum">[14]</span>
+O marinheiro com especialidade gosta de
+seguil-a com o olhar nostalgico at&eacute; perdel-a
+completamente. &Eacute; como ao avistar-se terra
+depois de longa travessia: sente-se a mesma
+impress&atilde;o b&ocirc;a e indefinivel.
+<br />
+
+<br />
+
+Na manh&atilde; de 26&#8213;l&eacute;ste-oeste com o pharol
+de S. Agostinho, e &aacute;s onze horas recebiamos
+o pratico.
+<br />
+
+<br />
+
+Impossivel entrar nesse dia, por falta de
+mar&eacute;: pass&aacute;mos a noite f&oacute;ra, no
+Lamar&atilde;o, aos
+solavancos, vendo, por um oculo, a cidade do
+Recife, illuminada e bella, hombro a hombro
+com a legendaria Olinda dos hollandezes e
+dos banhos de mar.
+<br />
+
+<br />
+
+Na falta de outro assumpto falou se de
+historia patria.
+<br />
+
+<br />
+
+Pela manh&atilde; de 27 o
+<em>Barrozo</em> sulcava
+as aguas do Lamar&atilde;o, lento e magestoso,
+crivado de olhares. O povo saudava-o do
+c&aacute;es da Lingueta. Espalhou-se logo que o
+principe D. Augusto, neto do imperador,
+vinha a bordo, e toda a gente correu a recebel-o
+com essa avidez instinctiva das massas
+populares. O povo pernambucano, tradicionalmente
+<span class="pagenum">[15]</span>inimigo dos
+imperadores, lembrava-se
+do tempo em que o Sr. D. Pedro de
+Alcantara dava-se ao luxo de visitar o
+norte.
+<br />
+
+<br />
+
+Mais tarde, ao desembarcar a turma de
+guardas-marinha, de que fazia parte o principe,
+subiu de ponto a curiosidade publica.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! o principe!&#8213;Que &eacute; d'elle?&#8213;&Eacute;
+um ruivo?&#8213;&Eacute; aquelle barbado?
+<br />
+
+<br />
+
+O pobre mo&ccedil;o viu-se em apuros, e mudava
+de c&ocirc;res, e fazia-se escarlate, e vociferava
+contra a plebe, occultando-se entre os
+collegas, desapontado. Um preto velho teve
+a lembran&ccedil;a de ajoelhar-se aos p&eacute;s de S. A.
+e supplicar-lhe uma esmola. Aconteceu,
+por&eacute;m, que errou o alvo e foi direito a
+um outro rapaz, louro e rubro, como o principe,
+que se apressou em desfazer o engano.
+<br />
+
+<br />
+
+O imperial senhor achava-se ridiculo no
+meio de toda aquella multid&atilde;o servil e anonyma
+que o acompanhava, &laquo;como si visse
+n'elle um animal selvagem...&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; assim o povo&#8213;ingenuo, pueril.
+<br />
+
+<br />
+
+Visit&aacute;mos, em romaria, os principaes edificios <span class="pagenum">[16]</span>publicos: a Penitenciaria,
+a Assembl&eacute;a
+Provincial, o Gymnasio, o Theatro.
+<br />
+
+<br />
+
+A nova Penitenciaria do Recife &eacute; um
+bello edificio no genero.
+<br />
+
+<br />
+
+Impressiona tristemente esse casar&atilde;o sombrio
+com escadarias de ferro, onde mal penetra
+a claridade meridiana.
+<br />
+
+<br />
+
+Ha criminosos de toda a especie, em
+cujos semblantes retratam-se delictos tenebrosos.
+Nada, por&eacute;m, nos commoveu tanto como
+a historia do preso Gustavo Adolpho, que, ha
+quasi vinte annos, cumpria a terrivel senten&ccedil;a
+a que f&ocirc;ra condemnado. Era um d'esses sentenciados
+sympathicos que inspiram compaix&atilde;o
+a quem os observa de perto.
+<br />
+
+<br />
+
+Um dos nossos companheiros desejou
+saber a historia do seu crime e pediu ao infeliz
+que lh'a contasse elle proprio.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o queira, disse o condemnado, n&atilde;o
+queira obrigar-me a fazer minha propria
+autopsia moral... Narral-a, essa historia,
+seria um supplicio muito maior do que estar eu
+aqui, n'este carcere, ha vinte annos...
+<br />
+
+<br />
+
+Gustavo Adolpho parecia-nos um regenedo,
+<span class="pagenum">[17]</span>
+tal o aspecto humilde de sua
+physionomia
+e o tom commovente de sua voz. O isolamento
+transformara-lhe a alma. A d&ocirc;r tem
+isto de bom&#8213;purifica o espirito, &eacute; como um
+crysol. Esse infame, esse assassino, Gustavo
+Adolpho, era um martyr. Aquelle semblante
+abatido pelas insomnias, aquelle rosto descarnado,
+aquelles olhos cansados de chorar,
+aquelles labios lividos de defunto, cansados de
+repetir a palavra&#8213;perd&atilde;o, lembravam a figura
+resignada de um moribundo que nada mais
+espera sen&atilde;o a eterna liberdade&#8213;a morte...
+<br />
+
+<br />
+
+Vimol-o na casa dos condemnados, entre
+as quatro paredes de um miseravel cubiculo,
+vestido de preto, barba crescida, macilento,
+arrependido e s&oacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+Poucos iam incommodal-o ali, n'aquella
+pavorosa solid&atilde;o, e no emtanto elle n&atilde;o odiava
+ninguem e desejava falar a todos.
+<br />
+
+<br />
+
+Tinha dezenove annos quando a fatalidade
+o arremessou a Fernando de Noronha.
+A justi&ccedil;a humana o havia condemnado a esta
+pena infamante&#8213;gal&eacute;s perpetuas.
+<br />
+
+<br />
+
+Perdoar a um arrependido nas condi&ccedil;&otilde;es
+<span class="pagenum">[18]</span>
+de Gustavo Adolpho, me parece a mais
+nobre ac&ccedil;&atilde;o de um rei. Todavia elle continuava,
+mendigo de liberdade, a pedir, a pedir...
+<br />
+
+<br />
+
+Por diversas vezes a academia de direito,
+pelo org&atilde;o de seus representantes, exorara
+a piedade imperial, mas o imperador nunca
+estendeu o seu <em>magnanimo</em> olhar
+at&eacute; aos carceres
+sen&atilde;o em certos dias de gala natalicia
+para indultar os escolhidos da politica dominante.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Console-se, disse eu ao desventurado
+mo&ccedil;o. E citei Lamartine:&#8213;<em>Vivre c'est
+attendre...</em>
+<br />
+
+<br />
+
+Retir&aacute;mo-nos commentando aquella catastrophe
+desastrada.
+<br />
+
+<br />
+
+A historia tragica d'esse preso foi-nos
+contada por um empregado do estabelecimento.
+Eu podia resumil-a em duas palavras:&#8213;<em>cherchez
+la femme</em>, si n&atilde;o fosse o prurido
+de registrar, ainda que brevemente, um caso
+curioso de processo crime. Cada um tire as
+illa&ccedil;&otilde;es que lhe aprouverem.
+<br />
+
+<br />
+
+Gustavo Adolpho nasceu no Par&aacute; onde
+iniciou seus estudos como seminarista.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[19]</span>
+Muito cedo seu espirito mostrou-se refractario
+&aacute; educa&ccedil;&atilde;o ecclesiastica, e desviou-se
+dos livros sagrados para outro genero de
+leituras e estudos mais concentaneos com as
+suas aspira&ccedil;&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+Os paes do nubil seminarista desgostaram-se
+com o procedimento do filho revolucionario
+e ardente apologista de Martinho Luthero, que
+n&atilde;o occultava-lhes suas tendencias anti-catholicas.
+Elle, por&eacute;m, o apostata, o hereje, sentia-se
+instinctivamente arrebatado pelas id&eacute;as
+do seculo e tratou de trocar a sotaina de
+novi&ccedil;o pelo frak &aacute; ultima moda. Ninguem
+p&otilde;e peias &aacute; fatalidade. N&atilde;o contente
+com ir
+de encontro &aacute; vontade de seus paes e preceptores,
+o ex-seminarista tomou o primeiro vapor,
+e, subito, vio-se na capital do Brazil, sem
+um amigo que o guiasse n'esse labyrintho de
+ruas suspeitas onde o vicio assentou pra&ccedil;a. A
+rua do Ouvidor e os theatros sempre eram
+mais agradaveis que o claustro e as impertinencias
+do reitor,&#8213;muito mais...
+<br />
+
+<br />
+
+Pobre Gustavo Adolpho! Salvara-se de
+um abysmo para precipitar-se imprudentemente, <span class="pagenum">[20]</span>como
+crean&ccedil;a inexperta, n'outro abysmo
+talvez mais perigoso.
+<br />
+
+<br />
+
+Sem amigos, sem protec&ccedil;&atilde;o, longe de sua
+terra e de seus paes,&#8213;que podia esperar o
+joven desconhecido n'aquelle turbilh&atilde;o de vis
+interesses?
+<br />
+
+<br />
+
+Imbert-Galloix, um italiano, tambem adolescente
+e cheio de esperan&ccedil;as, intelligente e
+trabalhador, morreu de miseria n'uma rua de
+Pariz, por ter trocado sua patria natal por
+um paiz que s&oacute; conhecia de nome. F&ocirc;ra em
+busca de glorias e encontrou a miseria, o frio,
+a fome, e a morte por fim.
+<br />
+
+<br />
+
+Esses sonhadores como Imbert-Galloix
+s&atilde;o sempre victimas da propria
+imagina&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+A sorte de Gustavo Adolpho foi mais
+cruel.
+<br />
+
+<br />
+
+Custa a cr&ecirc;r que um insignificante par
+de brincos leve um homem &aacute; cadeia e depois
+ao exilio perpetuo!
+<br />
+
+<br />
+
+Uma vez sem meios de subsistencia,
+luctando com a m&aacute; vontade de uns e a indifferen&ccedil;a
+de outros, Gustavo Adolpho, que
+tinha certa d&oacute;se de espirito, d'esse espirito
+<span class="pagenum">[21]</span>
+fino que caracterisa o homem de talento,
+fez-se <em>bohemio</em>, isto &eacute;,
+indifferente &aacute; vida,
+nomade a quem tanto faz dormir sobre flacido
+colx&atilde;o, como ao relento e sobre a lage das
+cal&ccedil;adas. Ora, os bohemios s&atilde;o umas creaturas
+sympathicas. Quando um bohemio
+tem espirito acha sempre quem lhe estenda
+a m&atilde;o. Gustavo Adolpho preferiu a m&atilde;o
+leve, alva e setinosa, de uma cortez&atilde; pela
+qual apaixonou-se dev&eacute;ras.
+<br />
+
+<br />
+
+A mulher, sempre essa creatura profundamente
+seductora e mysteriosa!
+<br />
+
+<br />
+
+E, parece incrivel! quando na primeira
+noite, ap&oacute;s as ineffaveis caricias do amor, a
+misera Manon, adormecida ao lado do amante,
+sonhava, talvez, n'algum banquete sumptuoso,
+&aacute; sombra d'alamos frondosos, talvez n'alguma
+de suas passadas orgias, &aacute; luz de candelabros
+deslumbrantes, elle, o malaventurado
+mo&ccedil;o, cujo olhar fitava na meia sombra da alcova
+o rosto sereno de sua amante, antepensava
+um crime e um crime excepcional, monstruoso,
+inqualificavel.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estes brincos, estes brincos... pensava
+<span class="pagenum">[22]</span>
+elle fitando as joias, duas grandes lagrimas
+de diamante pendentes das orelhas da rapariga.
+Seu espirito oscillava como um pendulo
+na duvida terrivel, agu&ccedil;ado por um desejo
+louco.
+<br />
+
+<br />
+
+Eil-o que se levanta de um impeto,
+pisando devagar, surrateiramente, t&atilde;o de leve
+que dir-se-ia uma sombra; eil-o que se encaminha
+para a porta da rua, tacteando, encostando-se
+as paredes, p&eacute; ante p&eacute;, sem respirar,
+olhando sempre para traz, para o leito da
+amante (lembra-me a scena da &laquo;Cymbelina&raquo; de
+Shakspeare).
+<br />
+
+<br />
+
+Meia noite... Eil-o ainda que volta e se
+approxima do leito onde ha pouco boiara em
+mar de volupia. Traz na m&atilde;o um objecto
+reluzente, uma cousa disforme... uma machadinha.
+<br />
+
+<br />
+
+Que ir&aacute; elle fazer?!...
+<br />
+
+<br />
+
+Approxima-se mais, rastejando quasi,
+mansamente, subtilmente.
+<br />
+
+<br />
+
+De repente s&ocirc;a uma pancada surda, e um
+grito estrangulado:&#8213;Soc...corro! S&ocirc;a outra
+pancada surda, outra, outra, muitas pancadas,
+<span class="pagenum">[23]</span> e sobre os brancos
+len&ccedil;&oacute;es d'aquelle
+malfadado
+leito palpitam as carnes sangrentas,
+moribundas, de um corpo de mulher que
+ainda ha pouco sentia e pensava...
+<br />
+
+<br />
+
+Obseccado pela id&eacute;a do roubo, o assassino
+arranca brutalmente as joias do cadaver,
+e, &aacute; luz do combustor de crystal, reconhece
+que s&atilde;o falsas!
+<br />
+
+<br />
+
+Foge rua f&oacute;ra, como um possesso, enfia
+num becco, sae por outra rua, e desapparece
+na escurid&atilde;o da noite.
+<br />
+
+<br />
+
+No dia seguinte seu nome l&aacute; estava estampado
+em letras garrafaes no livro dos r&eacute;os:
+&laquo;Gustavo Adolpho... preso pelo duplo crime
+de assassinato e roubo.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Mais tarde, annos depois, o joven criminoso
+tentou fugir de Fernando de Noronha
+onde f&ocirc;ra recolhido. Prenderam-no em flagrante.
+E ha poucos mezes, no anno passado,
+a princeza Isabel, ent&atilde;o regente do Brazil,
+abriu-lhe as portas da pris&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Gustavo Adolpho publicou, no degredo,
+um livro de versos intitulado <em>Risos e
+Lagrimas</em>,
+uma collec&ccedil;&atilde;o de poesias sentimentaes
+<span class="pagenum">[24]</span>
+e amorosos que pouco valem pela f&oacute;rma e
+onde se acham crystalisadas as d&ocirc;res do infeliz
+poeta, cuja imagina&ccedil;&atilde;o cantava entre lagrimas.
+<br />
+
+<br />
+
+Penalisou-nos a sorte d'esse rapaz sympathico
+e intelligente.
+<br />
+
+<br />
+
+Havia, alem de Gustavo Adolpho, outro
+preso n&atilde;o menos interessante e que nos excitou
+a curiosidade. Indigitado autor de n&atilde;o sei
+que roubo, f&ocirc;ra condemnado igualmente a
+gal&eacute;s perpetuas.
+<br />
+
+<br />
+
+Interrogado, disse-nos contar oitenta (!)
+annos de idade e possuir familia numerosa:&#8213;mulher
+e 30 filhos!
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Qual foi o seu crime? pergunt&aacute;mos.
+<br />
+
+<br />
+
+O velhinho todo tremulo, a cabe&ccedil;a muito
+branca; uma nevoa humida no olhar, sem
+for&ccedil;as quasi para dar um passo, murmurou
+tristemente:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nenhum, meus caros senhores... Supponho
+que houve engano da justi&ccedil;a...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E si lhe dessem liberdade agora?...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;De que me servia? Mal me tenho em p&eacute;
+e j&aacute; n&atilde;o sei de minha mulher e de meus filhos,
+<span class="pagenum">[25]</span>
+Estou muito velho, preciso morrer descansado
+aqui mesmo na pris&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+O edificio da Penitenciaria tem, logo &aacute;
+entrada, a seguinte inscrip&ccedil;&atilde;o em marmore:
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="quote"><span class="smallcaps">No
+dia 23 de abril de 1885 sendo
+presidente da provincia o Illm. Sr.
+Conselheiro Dr. Jos&eacute; Bento da C.
+Figueiredo foram removidos os presos
+para este edificio organisado
+sob a direc&ccedil;&atilde;o do engenheiro Jos&eacute;
+Mamede Alves Pereira</span>.
+</div>
+
+<br />
+
+Contava, portanto, trinta e cinco annos.
+<br />
+
+<br />
+
+Foi a mais interessante de todas as nossas
+visitas em Pernambuco.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>
+II
+</h3>
+
+<br />
+
+No dia 27 deix&aacute;mos o Recife em
+direc&ccedil;&atilde;o
+&aacute;s Antilhas.
+<br />
+
+<br />
+
+Como at&eacute; ahi, a viagem continuou a
+vapor,&#8213;uma verdadeira viagem de recreio si
+n&atilde;o fosse a exiguidade dos commodos a bordo
+do cruzador.
+<br />
+
+<br />
+
+O commandante levava ordem para chegar a
+Nova Orleans em tempo de assistirmos a
+abertura da exposi&ccedil;&atilde;o internacional americana,
+onde o <em>Almirante Barroso</em> devia
+figurar
+como legitimo e admiravel producto da industria
+naval brazileira t&atilde;o pouco conhecida no
+extrangeiro.
+<br />
+
+<br />
+
+Adoptavamos, sempre que o vento permittia,
+a navega&ccedil;&atilde;o mixta, e deste modo, &aacute;
+vela
+<span class="pagenum">[28]</span>
+e a vapor, arrastados pelas correntes maritimas
+que puxam para o norte, alcan&ccedil;&aacute;mos, a 2 de
+Mar&ccedil;o, a linha equatorial, onde apanh&aacute;mos
+alguns chuviscos debaixo d'uma athmosphera
+ardentissima.
+<br />
+
+<br />
+
+Reinava &laquo;calmaria p&ocirc;dre&raquo;. Ferraram-se as
+velas &aacute; mingua da mais leve aragem, armaram-se
+os toldos para que podessemos supportar
+o calor na t&oacute;lda, e os banhos salgados
+de ducha foram recebidos com especialissimo
+agrado. Suava-se a valer. Imagine-se:
+embaixo, no por&atilde;o, as fornalhas accesas,
+e em cima o sol ardente, o medonho sol do equador,
+cahindo como um caustico sobre o navio.
+<br />
+
+<br />
+
+&Aacute; tardinha incendiavam-se os horisontes
+de um colorido rubro, ensanguentado, de
+magica, reflectindo-se no espelho do mar
+tranquillo como num grande lago de crystal...
+<br />
+
+<br />
+
+Demos gra&ccedil;as a Deus quando nos vimos
+f&oacute;ra de t&atilde;o desagradaveis regi&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+No dia 11 avist&aacute;mos terra de Barbados,
+uma das mais prosperas colonias inglezas das
+Antilhas. Era o primeiro porto extrangeiro
+do intinerario.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[29]</span>
+O Capit&atilde;o do Porto foi o primeiro personagem
+que pisou a bordo: um inglez de
+aspecto duro como em geral o de todo inglez,
+olhando atrav&eacute;z de uns grandes oculos azues
+e ostentando fleugmaticamente um par de
+soi&ccedil;as ruivas. Trajava
+<em>dolman</em> branco, muito
+justo ao corpo, cal&ccedil;as de panno preto e chap&eacute;o
+de corti&ccedil;a branco, de grandes abas, tombado
+para a nuca.
+<br />
+
+<br />
+
+Fez a visita sacramental e poz-se ao
+fresco em menos de dois minutos, depois de
+um fortissimo <em>shake-hand</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+A ilha de Barbados vista de bordo &eacute; de
+uma nudez quasi completa: nenhuma vegeta&ccedil;&atilde;o
+cobre as vastas planicies que primeiro
+ferem a retina do observador. Ao approximar-se-lhe,
+por&eacute;m, novas paisagens de effeitos
+cambiantes v&atilde;o-se desenrolando &aacute; maneira de
+cosmorama. Moinhos rodam ao sopro do
+vento que ordinariamente &eacute; fresco ahi, casas
+de campo confortaveis, arvores, chamin&eacute;s
+fumegantes, tudo isso vai apparecendo &aacute; medida
+que nos approximamos, at&eacute; que, com
+verdadeira surpresa, surge-nos toda a cidade
+<span class="pagenum">[30]</span>
+de Bridgetown e ent&atilde;o basta um golpe de vista
+largo para abrangel-a.
+<br />
+
+<br />
+
+&Aacute; distancia Bridgetown semelha uma
+pobre cidade deshabitada, sem indicio de
+civilisa&ccedil;&atilde;o.
+A surpreza que experimenta o viajante
+&eacute; completa depois. Alguem que ahi
+esteve annos antes admirou-se da enorme
+quantidade de embarca&ccedil;&otilde;es inglezas surtas no
+porto. Entre estas contavam-se quatro encoura&ccedil;ados,
+bonitos vasos que honram a Inglaterra
+affirmando o grande poder maritimo desse paiz,
+cuja esquadra ainda hoje n&atilde;o tem rival no
+mundo.
+<br />
+
+<br />
+
+Um dia e meio&#8213;eis todo o tempo de
+nossa demora em Barbados, tempo sufficiente
+para conhecermos a ilha a <em>vol
+d'oiseau</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+A popula&ccedil;&atilde;o, na maior parte negra, &eacute;
+composta de gente de baixa classe e geralmente
+intratavel.
+<br />
+
+<br />
+
+Abundam os <em>ciceroni</em>, especie
+curiosissima
+de especuladores, que perseguem os
+viajantes de uma maneira barbara. Querem,
+&aacute; fina for&ccedil;a, ensinar-lhes as ruas, os hoteis, e
+n&atilde;o os largam emquanto n&atilde;o satisfazem a sua
+<span class="pagenum">[31]</span>
+ambi&ccedil;&atilde;o, cobrando, no fim de contas, certo
+numero de <em>shillings</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Falam um <em>patois</em> detestavel; ninguem
+os
+entende com facilidade. Imagine-se um pobre
+diabo acompanhado d'uma multid&atilde;o que grita
+e fala idioma desconhecido a repetir-lhe alto
+aos ouvidos:&#8213;<em>Came hear! came hear!</em>
+discutindo,
+altercando-se de cacete em punho.
+O misero julga-se por um momento transportado,
+como por encanto, &aacute;s costas d'Africa,
+fecha ouvidos &aacute; grita dos importunos
+<em>ciceroni</em>,
+brada mil vezes <em>no, no, no</em>..., e
+n&atilde;o tem remedio
+sen&atilde;o deitar a correr como um possesso,
+perseguido sempre pela turba multa de vadios,
+at&eacute; que, depois de uma lucta incrivel, esguedelhado,
+offegante, pallido, embarafusta pela
+porta d'um hotel escorrendo suor, esfalfado,
+morto de cansa&ccedil;o!
+<br />
+
+<br />
+
+E ainda por cima vocif&eacute;ra a legi&atilde;o faminta
+dos negros!
+<br />
+
+<br />
+
+Nao exag&eacute;ro. Parece realmente um paiz
+semi-barbaro aquelle, e ai! de n&oacute;s si n&atilde;o
+fossem os <em>policemen</em>, a, activos e
+energicos guardas
+da vigilancia publica, que a um simples
+<span class="pagenum">[32]</span>
+franzir de sobr'olhos fazem desapparecer a
+medonha horda de capadocios, ou que melhor
+nome tenham esses turbulentos demonios.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; espantosa a ambi&ccedil;&atilde;o do povo por
+dinheiro.
+<br />
+
+<br />
+
+Ao tilintar do <em>money</em> surgem de
+repente
+vinte, trinta cabe&ccedil;as negras, cada qual
+mais negra, disputando a posse do precioso
+metal.
+<br />
+
+<br />
+
+Basta dizer que ainda n&atilde;o tinhamos fundeado
+e j&aacute; grande numero de pequenas
+embarca&ccedil;&otilde;es
+&aacute; vela e a remos,&#8213;<em>fly
+boats</em>,&#8213;approximavam-se
+do navio, cortando-lhe a pr&ocirc;a com
+risco de serem espeda&ccedil;adas. Ouvia-se, ent&atilde;o,
+de todos os lados vozes que gritavam:&#8213;<em>I am
+pilot! I am pilot!</em>
+<br />
+
+<br />
+
+Embalde procuravamos persuadir &aacute;quelles
+esfaimados de dinheiro que n&atilde;o precisavamos
+de pratico, pois a bahia de Bridgetown &eacute;
+bastante espa&ccedil;osa e offerece entrada franca.
+<br />
+
+<br />
+
+Davamos com o len&ccedil;o, mandando-os emb&oacute;ra&#8213;que
+n&atilde;o! mas os gritos repetiam-se:&#8213;<em>I
+am pilot! I am pilot!</em>
+<br />
+
+<br />
+
+Todos queriam, a troco de dinheiro, conduzir
+<span class="pagenum">[33]</span>o navio extrangeiro
+ao ancoradouro e
+para isso exigiam um pre&ccedil;o fabuloso.
+<br />
+
+<br />
+
+Formidaveis importunos os taes negros de
+Barbados!
+<br />
+
+<br />
+
+A edifica&ccedil;&atilde;o de Bridgetown, puramente
+ingleza, &eacute; curiosa, pittoresca mesmo, si bem
+que uniforme.
+<br />
+
+<br />
+
+As casas, baixas quasi todas, geometricamente
+dispostas, alpendradas na frente,
+simples e elegantes na sua architectura, s&atilde;o
+confortaveis e convidam ao
+<em>far-niente</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+As ruas, por&eacute;m, estreitas e mal cal&ccedil;adas,
+s&atilde;o, por assim dizer, intransitaveis, em consequencia
+do poeiral que sobe, como fuma&ccedil;a, ao
+rosto dos transeuntes.
+<br />
+
+<br />
+
+No que respeita a estabelecimentos importantes,
+vimos a&#8213;<em>St. Leonard's School</em> e uma
+igreja-cemiterio.
+<br />
+
+<br />
+
+A estatua de Nelson, o heroe de Trafalgar,
+ergue-se, em bronze massi&ccedil;o, n'uma das melhores
+pra&ccedil;as do logar&#8213;<em>Nelson's
+square</em>, si
+me n&atilde;o engano.
+<br />
+
+<br />
+
+Os poucos hoteis que existem na ilha s&atilde;o
+vastos e offerecem o necessario conforto ao
+<span class="pagenum">[34]</span>
+viajante: boa mesa, bons petiscos, magnifico
+vinho, deliciosos
+sorvetes&#8213;<em>ice-cream</em>&#8213;e,
+finalmente, boas camas e muito aceio.
+<br />
+
+<br />
+
+O brazileiro que viaja, com raras excep&ccedil;&otilde;es,
+tem necessidade imprescindivel de duas
+cousas que elle julga essenciaes ao seu bem
+estar: caf&eacute; e cigarros.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Spleen</em> e charutos&#8213;s&atilde;o
+cousas inseparaveis
+de um inglez da Inglaterra; caf&eacute; e cigarros&#8213;eis
+o que um brazileiro n&atilde;o dispensa.
+<br />
+
+<br />
+
+Infelizmente para n&oacute;s, o caf&eacute;, tal qual se
+prepara em Barbados, &eacute; um licor detestavel
+composto de muito p&oacute; e pouca agua, que os
+naturaes mixturam &aacute; guisa de chocolate, mas
+de um sabor desagradavel, repugnante.
+<br />
+
+<br />
+
+Duas linhas de bonds percorrem a capital
+d'um extremo a outro.
+<br />
+
+<br />
+
+A ilha &eacute; circumdada por uma via-ferrea.
+<br />
+
+<br />
+
+De resto, &eacute; admiravel sen&atilde;o assombroso
+o progresso d'essa colonia, relativamente
+pequena e t&atilde;o longe da metropole.
+<br />
+
+<br />
+
+E, note-se, de vez em quando atravessam
+aquellas regi&otilde;es terriveis cyclones produzindo
+estragos incalculaveis em toda a extens&atilde;o da
+<span class="pagenum">[35]</span>
+ilha. Innumeras embarca&ccedil;&otilde;es, algumas de
+grande porte, t&ecirc;m sido arrojadas &aacute; costa por
+esses formidaveis mete&oacute;ros. O ultimo cahiu
+em 1851 e figura nos annaes da navega&ccedil;&atilde;o
+como um dos grandes desastres maritimos
+do Atlantico.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>III
+</h3>
+
+<br />
+
+Na manh&atilde; do dia 13 suspendemos ancora
+em direc&ccedil;&atilde;o &aacute; ilha da Jamaica,
+fundeando no
+mesmo dia na bahia de Port-Royal.
+<br />
+
+<br />
+
+Denso nevoeiro envolvia, como uma gaze
+alvissima, as altas montanhas que orlam magestosamente
+a antiga colonia hespanhola.
+<br />
+
+<br />
+
+Ao approximarmo-nos da pequena e elegante
+cidade de Port-Royal, pedimos pratico
+o qual nos levou &aacute; Kingston.
+<br />
+
+<br />
+
+O brazileiro que, depois de longa ausencia
+do Brazil, chega &aacute; Jamaica sente logo um
+prazer especial, um fremito de patriotismo, ao
+contemplar as soberbas montanhas da ilha,
+tanto ellas lembram a natureza do nosso paiz.
+A bahia, salpicada de interessantes ilhotas de
+<span class="pagenum">[38]</span>
+verduras, verdadeiras ilhas fluctuantes, em
+cujas aguas immoveis bandos de aves ribeirinhas
+ostentam sua plumagem garr&iacute;da e multicolor,
+voando d'uma margem &aacute; outra n'uma
+contradansa animada, offerece aspectos lindissimos.
+Jamaica parece um peda&ccedil;o do Brazil
+transplantado para as Antilhas, tal a opulencia
+da sua natureza.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; a maior e a mais florescente das colonias
+inglezas da America depois de Barbados.
+Mede approximadamente quarenta leguas de
+comprimento.
+<br />
+
+<br />
+
+Kingston n&atilde;o &eacute; uma cidade como Bridgetown,
+onde a cada passo depara-se com uma
+prova de adiantamento material. &Eacute;, por assim
+dizer, uma capital morta, quasi sem commercio,
+mas, em compensa&ccedil;&atilde;o, muito mais
+pittoresca que a capital de Barbados. Os
+habitantes s&atilde;o morigerados, e uma paz religiosa
+parece reinar no seio de cada familia.
+<br />
+
+<br />
+
+Ha mais pobresa, &eacute; certo, mas incomparavelmente
+o povo &eacute; mais educado, mais
+pronunciado o instincto de civilisa&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Muitas estatuas. Vimos as de Lewis Quier
+<span class="pagenum">[39]</span>
+Bower Bonk, nascido em 1815, Edward Jordon,
+um dos principaes fundadores da&#8213;<em>Jamaica
+Mutual Life Assurance Society</em>, Sir Charles
+Theophilus Metcaf, governador em 1845&#8213;todas
+ao redor de um parque. Isso prova
+quanto respeito infunde ao inglez o nome de
+um compatriota celebre.
+<br />
+
+<br />
+
+Um brazileiro estabelecido em Kingston
+disse-nos ser o <em>Almirante Barroso</em> o
+primeiro
+navio brazileiro que ahi aportava desde 1871.
+<br />
+
+<br />
+
+Nossa demora em Jamaica foi rapida como
+em Barbados. Telegrammas officiaes do Rio
+apressavam-nos cada vez mais. J&aacute; se havia
+inaugurado a Exposi&ccedil;&atilde;o de Nova Orleans;
+era-nos for&ccedil;oso assistir ao menos o encerramento.
+Estavamos convictos de que o cruzador
+brazileiro ia figurar com brilho no importante
+certamen americano. Tanto em Bridgetown
+como em Kingston n&atilde;o lhe faltaram
+elogios de pessoas competentes.
+<br />
+
+<br />
+
+Todos anceavamos pela chegada ao paiz
+maravilhoso dos <em>yankees</em>, ao
+ber&ccedil;o da electricidade,
+todos queriamos conhecer <em>de visu</em> o
+celebrado paiz das descobertas engenhosas.
+<span class="pagenum">[40]</span>
+Desde logo entr&aacute;mos, de combina&ccedil;&atilde;o, em
+&laquo;serios&raquo; estudos do idioma inglez praticando
+uns com os outros, compulsando manuaes de
+conversa&ccedil;&atilde;o, decorando significados,
+preparando-nos,
+emfim, da melhor forma, para retribuir
+gentilezas, captar amizades, responder a
+todas as perguntas que nos fossem feitas &aacute;
+queima roupa. Sim, porque tudo quanto
+haviamos aprendido theorica e praticamente
+na Escola, n&atilde;o era bastante. Faltava-nos a
+facilidade, o traquejo da palavra extrangeira,
+que haviamos de adquirir &aacute; for&ccedil;a de vontade
+e applica&ccedil;&atilde;o assidua.
+<br />
+
+<br />
+
+Alguns officiaes, entre os quaes o commandante,
+riam-se do nosso apuro, e, de vez
+em quando, atiravam-nos de surpreza uma pergunta
+em inglez. Quanto disparate, quanta
+tolice a principio! O certo &eacute; que depois, com
+o tempo, j&aacute; nos entendiamos soffrivelmente.
+<em>Noblesse oblige</em>...<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>IV
+</h3>
+
+<br />
+
+A hospitaleira sociedade de Jamaica havia-nos
+conquistado a sympathia. Todos sentimos
+deixar t&atilde;o cedo aquella encantadora ilha, cujos
+habitantes nos tinham prodigalisado t&atilde;o generoso
+acolhimento. Len&ccedil;os ascenavam para
+bordo ao deixarmos o ancoradouro &aacute;s 5 horas
+da tarde de 21, despedindo-nos talvez para
+sempre d'essa boa gente.
+<br />
+
+<br />
+
+Durante os dias 22 e 23, mar e vento
+rebellaram-se contra o navio.
+<br />
+
+<br />
+
+Navegavamos &aacute; bolina, sempre &aacute; vela e a
+vapor, amurados por bombordo.
+<br />
+
+<br />
+
+Grandes rajadas frias sopravam do norte,
+cantando nos cabos da mastrea&ccedil;&atilde;o, sacudindo-os
+com violencia.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[42]</span>
+O thermometro baixara sensivelmente, e
+a columna barometrica punha-nos calefrios...
+<br />
+
+<br />
+
+O mar quebrava-se de encontro &aacute;s bochechas
+do cruzador desafiando-lhe a resistencia
+colossal.
+<br />
+
+<br />
+
+Sabiamos que a latitude em que navegavamos,
+nas Antilhas, era muito frequentada
+pelos cyclones, esses terriveis inimigos dos
+navegantes, que arrastam em sua cauda milhares
+de vidas. Receiavamos esses phenomenos
+tanto mais porque os seus effeitos fazem-se
+sentir a grandes distancias.
+<br />
+
+<br />
+
+Os symptomas visiveis, si n&atilde;o eram evidentes,
+approximavam-se das descrip&ccedil;&otilde;es de
+navegantes experimentados. O c&eacute;o estendia-se
+limpo, como um largo pallio azul esbranqui&ccedil;ado;
+apenas no horisonte fluctuavam pequenos
+<em>stratus</em> em f&oacute;rma de rabo
+de gallo e
+algumas estrias avermelhadas, escarlates, despertavam-nos
+a atten&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Ao meio-dia o sol tinha uma c&ocirc;r ba&ccedil;a,
+com um disco azulado ao redor.
+<br />
+
+<br />
+
+E crescia o mar em vagalh&otilde;es medonhos
+e esfusiava o vento no cordame.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[43]</span>
+O navio caturrava e arfava morosamente;
+ouvia-se o barulho do helice trabalhando f&oacute;ra
+d'agua.
+<br />
+
+<br />
+
+Pela madrugada de 24 lobrig&aacute;mos por
+bor&eacute;ste o pharol da ilha de Cuba, de luz muito
+branca, e no dia seguinte sulcavamos o golfo
+do Mexico.
+<br />
+
+<br />
+
+Poucos dias restavam para alcan&ccedil;armos
+Nova-Orleans.
+<br />
+
+<br />
+
+E nada do supposto cyclone!
+<br />
+
+<br />
+
+Por via de duvidas, como o tempo continuasse
+borrascoso, ferr&aacute;mos a maior parte do
+panno, conservando apenas as gaveas risadas
+nos <em>terceiros</em> e a mezena de capa.
+<br />
+
+<br />
+
+Cape&aacute;mos tres dias consecutivos, sem que
+apparecesse o medonho visitante.
+<br />
+
+<br />
+
+No quinto dia o vento amainou rondando
+para nordeste e o mar, por for&ccedil;a das circumstancias,
+tambem acalmou-se. Ferr&aacute;mos o
+resto do panno, navegando s&oacute; a vapor.
+<br />
+
+<br />
+
+A id&eacute;a da chegada preoccupava todos os
+espiritos. Os Estados-Unidos eram o assumpto
+de todas as conversa&ccedil;&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+Cedo tratou-se da limpeza do navio.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[44]</span>
+Cada qual tratou de si, de sua roupa, de
+seus objectos que o mar sacudira de um lado a
+outro dos camarotes. Os alojamentos apresentavam
+o curioso aspecto de um campo de batalha;
+malas confundiam-se umas sobre outras
+formando empilhamentos, a roupa branca
+usada andava de mixtura com os fatos novos
+de panno; livros, papeis&#8213;tudo quanto era de
+uso quotidiano estava espalhado no conv&eacute;z,
+como si andasse por ali alguma crean&ccedil;a traquinas.
+<br />
+
+<br />
+
+Guerra ao m&ocirc;fo! Roupas ao sol! Ninguem
+se fez esperar. Come&ccedil;aram as
+arruma&ccedil;&otilde;es,
+uma faina a&ccedil;odada, durante a qual soaram boas
+gargalhadas filhas de inalteravel bom humor.
+<br />
+
+<br />
+
+Os guardas-marinha alojavam-se &aacute; p&ocirc;pa
+n'um acanhadissimo compartimento que mal
+os comportava. Ahi tinham suas camas, suas
+malas, seus livros.
+<br />
+
+<br />
+
+Quantos prejuizos! Quantas decep&ccedil;&otilde;es!
+<br />
+
+<br />
+
+E todos acocorados, arrumando e desarrumando,
+n'uma confus&atilde;o burlesca, maldiziam
+o mar e apostrophavam o vento. Neptuno e
+Eolo nunca receberam tantas manifesta&ccedil;&otilde;es
+<span class="pagenum">[45]</span>
+desairosas. Pois n&atilde;o! Ninguem tem suas
+cousas para vel-as de um dia para outro arruinadas,
+inutilisadas pelos caprichos incoerciveis
+do mar e do vento.
+<br />
+
+<br />
+
+Finalmente, como nada ha melhor que um
+dia depois de outro, veio o dia 29 de Mar&ccedil;o
+em que dos v&aacute;os do joanete de pr&ocirc;a o gageiro
+annunciou&#8213;terra!
+<br />
+
+<br />
+
+Continuava, entretanto, incessantemente,
+a as&aacute;fama. A guarni&ccedil;&atilde;o da bateria
+occupava-se
+da limpeza das pe&ccedil;as, collocando-as em
+posi&ccedil;&atilde;o, abrindo e fechando culatras, lixando-as,
+lubrificando-as emquanto o fiel ia distribuindo
+o cartuxame.
+<br />
+
+<br />
+
+Havia uma alegria geral a bordo e sentia-se
+um vago odor de tintas, como ao entrar-se
+n'uma casa nova, pintada de fresco.
+<br />
+
+<br />
+
+J&aacute; era tempo de repousarmos das fadigas
+da viagem.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>V
+</h3>
+
+<br />
+
+Ninguem p&oacute;de imaginar o que &eacute; a chegada
+de um navio de guerra a porto extrangeiro
+depois de uma tempestade ou mesmo
+depois d'uma amea&ccedil;a de temporal. A faina
+tor-na-se geral e o ruido inevitavel. &Eacute;
+de
+ver-se a promptid&atilde;o, a rapidez com que se
+executam as ordens. Como que ha mais vontade
+para o trabalho, desenvolve-se logo um
+contagioso bem estar, ninguem foge ao servi&ccedil;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Tezar cabos de laborar, baldear o convez
+a ficar alvo e polido, como uma sala de visitas,
+limpar, areiar os metaes amarellos at&eacute; ficarem
+relusentes como ouro de lei, ferrar o panno a
+capricho, cuidadosamente, de modo a confundil-o
+com as vergas e os mastros, preparar os
+<span class="pagenum">[48]</span>
+escaleres&#8213;tudo isso &eacute; cousa d'um abrir e
+fechar d'olhos.
+<br />
+
+<br />
+
+A guarni&ccedil;&atilde;o do <em>Almirante
+Barroso</em>, disciplinada
+e obediente como todas as que serviam
+sob as ordens do commandante Saldanha, primava
+pelo aceio, pela ordem, pela destreza e
+pela actividade. N&atilde;o se lhe p&oacute;de fazer maior
+elogio. Cada marinheiro era como uma machina
+prompta sempre ao menor impulso.
+<br />
+
+<br />
+
+A chibata era n'esse tempo, como ainda
+hoje o terror das guarni&ccedil;&otilde;es da armada.
+<br />
+
+<br />
+
+Sempre manifestei-me contra esse barbaro
+castigo que avilta e corrompe em vez de corrigir.
+Um castigo de chibata &eacute; a cousa mais
+revoltante que j&aacute; tenho visto, mormente
+quando &eacute; mandado applicar por authoridade
+deshumana, sem no&ccedil;&otilde;es do legitimo direito
+que a cada homem assiste, quem quer que elle
+seja soldado ou pari&aacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+O meu primeiro passo ao deixar a Escola e
+envergar a farda de guarda-marinha foi publicar
+um protesto contra essa pena infamante,
+e fil-o desassombradamente, convicto mesmo
+de que sobre mim ia cahir a odiosidade
+<span class="pagenum">[49]</span>
+de meus superiores em geral apologistas da
+chibata.
+<br />
+
+<br />
+
+A primeira vez que minha posi&ccedil;&atilde;o official
+obrigou-me a assistir um desses castigos, tive
+impetos de bradar com toda a for&ccedil;a dos pulm&otilde;es
+contra semelhante attentado &aacute; natureza
+humana.
+<br />
+
+<br />
+
+Quem j&aacute; assistiu uma d'essas pavorosas
+scenas do eito, magistralmente descriptas por
+Julio Ribeiro na sua obra <em>A Carne</em>,
+p&oacute;de fazer
+id&eacute;a do que seja o castigo da chibata.
+<br />
+
+<br />
+
+Despir-se a meio corpo um pobre homem,
+um servidor da patria, p&eacute;s e m&atilde;os algemados,
+muita vez depois de trez dias de
+<em>solitaria</em> a
+p&atilde;o e agua, e descarregar-se-lhe sobre a
+espinha, sobre as espaduas, sobre o peito,
+sobre o ventre, na cara mesmo, em todo o
+corpo cincoenta, cem, duzentas chibatadas, em
+presen&ccedil;a de todos os seus companheiros, me
+parece indigno d'uma gera&ccedil;&atilde;o que se
+pr&eacute;za,
+de uma sociedade de homens civilisados, de
+cidad&atilde;os, de cavalheiros que ostentam triumphalmente
+gal&otilde;es dourados na farda&#8213;na farda,
+<span class="pagenum">[50]</span>
+que significa a nobreza, a coragem, o patriotismo
+e a honra d'uma na&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Revoltei-me contra semelhante barbaridade
+inquisitorial, como quem tem consciencia
+de que est&aacute; praticando uma ac&ccedil;&atilde;o justa
+e honrosa.
+Do&iacute;a-me por um lado pertencer a uma
+classe nobre por tantos titulos, &eacute; certo, mas em
+cujo seio era permittido a chibata e, o que &eacute;
+mais, o seu abuso.
+<br />
+
+<br />
+
+A esse tempo a <em>Gazeta de Noticias</em> do
+Rio de Janeiro publicava semanalmente um
+boletim litterario no louvavel intuito de estimular
+os incipientes das letras. Offerecia-se-me
+opportunidade para um conto maritimo,
+cujo assumpto fosse a chibata.
+<br />
+
+<br />
+
+Escusado &eacute; dizer que o meu artigo provocou
+o despeito dos culpados indirectamente
+feridos no seu amor proprio. Embora! Fiquei
+satisfeito, como si tivesse sacudido para longe
+um fardo pesadissimo; e, &eacute; preciso dizer, n&atilde;o
+hesitei em declarar-me autor do conto que
+vinha firmado por meu nome, ent&atilde;o desconhecido
+na armada.
+<br />
+
+<br />
+
+Alguns de meus companheiros taxaram-me
+<span class="pagenum">[51]</span>de imprudente e
+&laquo;indiscreto&raquo;. Outros levaram
+seus conselhos at&eacute; &aacute; minha
+<em>inexperiencia
+de adolescente indisciplinado</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Todo o mundo julgou-se com direito a
+censurar meu procedimento: &laquo;que roupa suja
+deixa-se ficar em casa; que a chibata era um
+castigo imprescindivel&raquo;, e outros arrasoados
+soffrivelmente banaes.
+<br />
+
+<br />
+
+Meu consolo &eacute; que d'entre aquelles que
+preconisavam os effeitos prodigiosos da chibata
+n'outros tempos, muitos concorreram em
+demasia para a sua extinc&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Dei parabens &aacute; patria e &aacute; humanidade.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>
+VI
+</h3>
+
+<br />
+
+Como militar e disciplinador o commandante
+Saldanha da Gama distinguia-se por sua
+inflexibilidade porventura exagerada, especialmente
+para com as guarni&ccedil;&otilde;es sob seu zeloso
+commando. Temperamento atrabiliario, sanguineo-nervoso,
+sujeito a transi&ccedil;&otilde;es bruscas,
+inesperadas, impetuosas e violentas, o illustre
+marinheiro, espirito eminentemente illustrado,
+n&atilde;o sabia, entretanto, guardar a necessaria
+calma quando devia applicar as penas do
+codigo. Essas penas, como se sabe, acham-se
+perfeitamente explicitas, precisamente formuladas
+de modo a n&atilde;o deixar duvida nos espiritos
+rectos e amigos da lei. Entre os artigos
+que constituem o codigo penal militar existe
+<span class="pagenum">[54]</span>
+um que limita o numero de chibatadas, o qual
+n&atilde;o deve, em caso algum, exceder de vinte e
+cinco por dia.
+<br />
+
+<br />
+
+Pois bem, o commandante Saldanha pouquissimas
+vezes castigava conforme a lei.
+Collocava acima d'ella seus caprichos inexplicaveis,
+sua natureza rancorosa, sua vontade
+suprema. Nao trepidava, e isto &eacute; sabido, em
+mandar a&ccedil;oitar com duzentas chibatadas uma
+pra&ccedil;a qualquer, tal fosse o delicto commettido.
+A um simples olhar seu as guarni&ccedil;&otilde;es tremiam
+como cani&ccedil;os. A qualidade caracteristica
+d'esse illustre official era ser arbitrario e
+prepotente. Por isso a guarni&ccedil;&atilde;o do
+<em>Almirante
+Barroso</em> corria a seus postos, em occasi&atilde;o
+de manobra, com a velocidade d'uma
+setta.
+<br />
+
+<br />
+
+Estavamos quasi &aacute; entrada do Mississipe,
+a grande arteria fluvial da America do Norte,
+que n&oacute;s imaginavamos um colosso talvez superior
+em volume d'agua ao Amazonas,&#8213;o Mississipe,
+decantado pelo autor dos <em>Natchez</em>, e
+em cujas margens fica a cidade de Nova
+Orleans nosso ponto de chegada.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[55]</span>
+Ninguem pensava mais no Rio de Janeiro
+para s&oacute; se lembrar de Nova Orleans, a
+<em>Cidade
+Crescente</em>, como a denominam os americanos.
+<br />
+
+<br />
+
+Trez horas da tarde, mais ou menos. Embarca&ccedil;&otilde;es
+&aacute; vela e vapores bordejavam f&oacute;ra
+da barra &aacute; espera de pratico, sem o qual era
+impossivel a entrada. Mar calmo, com uma
+c&ocirc;r esbranqui&ccedil;ada, lembrando na sua
+quieta&ccedil;&atilde;o
+dormente um vasto lago estagnado. Em
+frente, muito longe ainda, mal distinguiamos
+com o binoculo o pharol, microscopica torre
+branca, invisivel quasi.
+<br />
+
+<br />
+
+Envolvidos em grossas capas de l&atilde;, abotoados
+at&eacute; o pesco&ccedil;o ao abrigo do frio que se
+tornava insupportavel para n&oacute;s da zona torrida,
+de p&eacute; no tombadilho, machina a um quarto de
+for&ccedil;a, bandeira nacional desfraldada na carangueja
+do mastro de r&eacute;, esperavamos tambem o
+<em>pilot</em> que nos devia conduzir
+&aacute; Nova Orleans,
+110 milhas da foz do Mississipe.
+<br />
+
+<br />
+
+O Mississipe! Dentro em pouco sulcavamos
+a grande corrente.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o tardou muito o pratico, por cujo
+intermedio tivemos noticia da estrondosa
+manifesta&ccedil;&atilde;o
+<span class="pagenum">[56]</span>com que os
+habitantes da cidade
+americana aguardavam a chegada do cruzador
+brazileiro.
+<br />
+
+<br />
+
+Bella surpreza essa! Cresceu o enthusiasmo
+entre os noveis officiaes.
+<br />
+
+<br />
+
+Entr&aacute;mos. Durante o nosso trajecto pelo
+Mississipe a anciedade a bordo tocou o seu
+auge. Queriamos, todos a um tempo, avistar
+as embarca&ccedil;&otilde;es que, dizia-se, vinham nos
+receber.
+<br />
+
+<br />
+
+O autor d'estas simples notas de viagem,
+que admira os Estados-Unidos como uma
+segunda patria, porque ali moram juntas todas
+as liberdades e florescem prodigiosamente
+todas as nobres id&eacute;as civilisadas, de bra&ccedil;os
+cruzados estendia o olhar cheio de admira&ccedil;&atilde;o,
+cheio de deslumbramento por cima das extensas
+planicies das margens do grande rio.
+<br />
+
+<br />
+
+O p&ocirc;r do sol entre a neblina que cobria
+os horisontes fazia lembrar as paginas de
+Chateaubriand na sua <em>Voyage en
+Am&eacute;rique</em>,
+paginas esculpturaes e cheias da commovida
+nostalgia dos que se v&atilde;o da patria...
+<br />
+
+<br />
+
+Quanta verdade nas sumptuosas descrip&ccedil;&otilde;es
+<span class="pagenum">[57]</span>do poeta! Quanta
+poesia n'aquellas
+paragens desertas da foz do Mississipe,&#8213;Sahara
+de neve estendendo-se a perder de vista nos
+horisontes sem fim! Que de maravilhas occultavam-se
+por traz d'aquellas planicies, l&aacute; onde
+o olhar n&atilde;o attingia!
+<br />
+
+<br />
+
+Eram Ave-Marias. Lembrei-me do Brazil,
+dos sert&otilde;es de minha terra natal, da torresinha
+branca do Senhor do Bomfim badalando o
+<em>ter&ccedil;o</em>
+das almas, justamente aquella hora, quando as
+boiadas recolhiam mugindo, pesadas e melancolicas...
+<br />
+
+<br />
+
+Ave-Marias!... Mesmo quando n&atilde;o se &eacute;
+crente, &aacute;quella hora da tarde o
+cora&ccedil;&atilde;o fica
+cheio de n&atilde;o sei que terna e piedosa
+unc&ccedil;&atilde;o
+mystica...
+<br />
+
+<br />
+
+Funde&aacute;mos no ponto em que o rio se
+divide em dois bra&ccedil;os ou pequenos confluentes,
+e ahi pass&aacute;mos a noite inteira, essa longa
+e tristissima noite de inverno.
+<br />
+
+<br />
+
+Frio de rachar. As aguas do rio, pardas
+e barrentas, estavam quasi geladas.
+<br />
+
+<br />
+
+As margens do Mississipe, em varios pontos,
+s&atilde;o, no inverno, verdadeiras planicies, onde
+<span class="pagenum">[58]</span>
+apenas medra a herva rasteira. &Aacute; distancia,
+pobre alma perdida no descampado, ergue-se
+&aacute;s vezes uma arvore muito esguia, como um
+phantasma de bra&ccedil;os abertos para o c&eacute;o. De
+quando em quando atravessa a solid&atilde;o uma
+ave desconhecida batendo as azas, como um
+agouro.
+<br />
+
+<br />
+
+N'outros logares, por&eacute;m, v&ecirc;m-se rebanhos
+pastando silenciosamente, planta&ccedil;&otilde;es verdejantes,
+casas de campo, postes de correio, em
+cujas portas destacam-se em caracteres maiusculos
+as palavras&#8213;<em>Post office</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+O povo parece viver satisfeito no meio
+de suas planta&ccedil;&otilde;es e de seu gado, entregue
+&aacute;
+cultura e &aacute; crea&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Nuvens de mosquitos atordoaram-nos toda
+a noite. &laquo;&#8213;Caramba! exclamava o barbeiro de
+bordo, um estimavel hespanhol que traziamos
+do Rio de Janeiro. Caramba! Mosquitos por
+mosquitos me gustam mas los del Brasil!&raquo;
+E tinha raz&atilde;o o nosso companheiro. Os mosquitos
+do Mississipe s&atilde;o muito capazes de dar
+cabo d'um pobre homem. E que medonha
+orchestra&ccedil;&atilde;o nos ouvidos da gente?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[59]</span>
+Felizmente na manh&atilde; do dia seguinte
+levant&aacute;mos ferro.
+<br />
+
+<br />
+
+O navio estava completamente prompto a
+fazer sua entrada em Nova Orleans. Durante
+quasi toda a noite a guarni&ccedil;&atilde;o occupara-se em
+colher cabos, esfregar a amurada e baldear o
+costado.
+<br />
+
+<br />
+
+Como passatempo liamos os jornaes que
+o pratico trouxera, os quaes noticiavam a
+recep&ccedil;&atilde;o
+popular e official que se nos preparava.
+<br />
+
+<br />
+
+Dois hiates a vapor&#8213;o <em>Cora</em> e o
+<em>Pansy</em>&#8213;propriedade
+de Mr. Morris, largariam de Nova
+Orleans a nosso encontro, embandeirados,
+com bandas de musica, commiss&otilde;es de senhoras,
+representantes do commercio e d'outras
+classes sociaes.
+<br />
+
+<br />
+
+Ou fosse a natural affinidade que existe
+entre as duas na&ccedil;&otilde;es americanas, ou fosse o
+facto de ir a bordo do cruzador brazileiro um
+representante da familia imperial do Brazil, o
+certo &eacute; que durante nossa travessia da foz do
+Mississipe &aacute; cidade fomos con
+Ou fosse a natural affinidade que existe
+entre as duas na&ccedil;&otilde;es americanas, ou fosse o
+facto de ir a bordo do cruzador brazileiro um
+representante da familia imperial do Brazil, o
+certo &eacute; que durante nossa travessia da foz do
+Mississipe &aacute; cidade fomos constantemente saudados
+de ambas as margens do rio a tiros de
+<span class="pagenum">[60]</span>
+espingarda e a len&ccedil;os que nos acenavam de
+longe.
+<br />
+
+<br />
+
+E o <em>Almirante</em> seguia devagar, alvo
+de
+mil olhares curiosos.
+<br />
+
+<br />
+
+Ao meio-dia ouvimos as notas de uma
+musica alegre que se approximava, e em breve
+surgiram n'uma curva do rio os dois magnificos
+hiates&#8213;o <em>Cora</em> e o
+<em>Pancy</em>&#8213;apinhados
+de gente, enfeitados de galhardetes de c&ocirc;res
+variadas, em cujos mastros tremulavam as duas
+bandeiras amigas.
+<br />
+
+<br />
+
+De ambos os lados, no cruzador e nos
+hiates, hurrahs confundiam-se no ar.
+<br />
+
+<br />
+
+Em viva effus&atilde;o de inexprimivel jubilo
+patriotico estreitavam-se as duas grandes potencias
+da America; a mesma brisa balou&ccedil;ava
+simultaneamente os dois gloriosos pavilh&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+A gente do <em>Barroso</em> subiu
+&aacute;s vergas accelerada,
+e, acenando com os len&ccedil;os e os bon&eacute;s,
+saudava com vivas estrepitosos e delirantes
+acclama&ccedil;&otilde;es aos Estados-Unidos, ao mesmo
+tempo que das duas embarca&ccedil;&otilde;es partiam
+ruidosas manifesta&ccedil;&otilde;es ao Brazil.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[61]</span>
+Fardada em segundo uniforme, espada
+e dragonas, a officialidade do cruzador brazileiro,
+em p&eacute; no tombadilho, vivamente commovida,
+descobria-se a todo instante risonha e
+feliz.
+<br />
+
+<br />
+
+Sentiamos a falta de uma banda de musica
+bem organisada, que n'aquelle momento, verdadeiramente
+solemne, entoasse o hymno da
+republica a bordo.
+<br />
+
+<br />
+
+Passado o primeiro momento de delirio,
+approximaram-se os dois hiates que nos acompanhavam
+e o cruzador diminuiu a marcha.
+Fic&aacute;mos borda &aacute; borda. N'um instante toda
+aquella gente que vinha nos vaporesinhos,
+passou para o <em>Barroso</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Houve um silencio respeitoso de parte a
+parte e come&ccedil;aram os abra&ccedil;os.
+<br />
+
+<br />
+
+O consul geral brazileiro, Sr. Dr. Salvador
+de Mendon&ccedil;a, t&atilde;o conhecido entre n&oacute;s
+por seu
+talento e por sua illustra&ccedil;&atilde;o, como homem de
+letras e diplomata, juntamente com Mr. Eustis,
+consul em Nova-Orleans, foram recebidos no
+portal&oacute; pelo commandante e officiaes com
+todas as honras que lhes eram devidas. Seguiram-se
+<span class="pagenum">[62]</span>os representantes
+da imprensa, do
+commercio, etc.
+<br />
+
+<br />
+
+Conduzidos &aacute; camara, desde logo estabeleceu-se
+entre brazileiros e americanos uma
+camaradagem franca, uma corrente communicativa
+de affabilidades, como si j&aacute; fossemos
+conhecidos velhos. As ta&ccedil;as de
+<em>champagne</em>
+chocavam-se, vivas succediam-se, levantavam-se
+<em>toasts</em> &aacute;s duas
+na&ccedil;&otilde;es, trocavam-se os
+mais espontaneos comprimentos.
+<br />
+
+<br />
+
+A viagem continuou ao som da musica do
+<em>Cora</em> e do
+<em>Pansy</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+&Aacute;s 4 horas da tarde larg&aacute;mos ferro
+defronte da antiga capital da Luiziania.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>
+VII
+</h3>
+
+<br />
+
+Nova-Orleans &eacute;, talvez, a cidade mais importante
+do sul dos Estados-Unidos.
+<br />
+
+<br />
+
+Nosso primeiro cuidado, como era natural
+foi desembarcar, &laquo;ir &aacute; terra&raquo;, ceiar bem
+e
+dormir tranquillamente um somno bom e reparador.
+Nao nos faltariam esplendidos hoteis
+e magnificos <em>rooms</em> onde podessemos,
+&aacute; vontade,
+descansar dos trabalhos da viagem.
+<br />
+
+<br />
+
+Nossa demora devia prolongar-se ahi mais
+do que em qualquer outro porto, por causa
+da Exposi&ccedil;&atilde;o e a instancias dos habitantes
+da cidade, que nos preparavam deliciosas
+surprezas.
+<br />
+
+<br />
+
+Tinhamos tempo bastante para ver Nova-Orleans,
+para observar os costumes americanos
+<span class="pagenum">[64]</span>
+e fazer um juizo mais ou menos approximado
+d'aquelle bello povo.
+<br />
+
+<br />
+
+O porto estava atulhado de barcas de
+commercio&#8213;vastas embarca&ccedil;&otilde;es de dois e trez
+pavimentos, duas e trez chamin&eacute;s negras a
+deitar fuma&ccedil;a n'uma actividade constante,
+rodas na p&ocirc;pa, muito mais amplas que as
+nossas barcas Ferry do Rio de Janeiro. Atopetadas
+de saccas de algod&atilde;o e outros generos
+do paiz, esperavam o momento preciso e regulamentar
+de se fazerem ao largo.
+<br />
+
+<br />
+
+Emquanto esperavamos, vivamente anciosos,
+o escaler que nos devia conduzir ao caes,
+assestavamos o oculo para a cidade quasi
+silenciosa &aacute;quella hora, e cujas ruas n&atilde;o
+tardariamos
+a conhecer. Accendiam-se os primeiros
+bicos de gaz. Ao longe, n'alguma egreja
+remota, badalava um sino triste. J&aacute; n&atilde;o
+se ouvia quasi o brouhaha quotidiano. Numerosas
+embarca&ccedil;&otilde;es cruzavam-se no rio. Ouviamos
+guinchos de locomotivas e o surdo ruido
+de carros que ainda labutavam.
+<br />
+
+<br />
+
+Alguns officiaes deixaram-se ficar aguardando
+o dia immediato para mais commodamente satisfazerem sua curiosidade de
+viajantes em terra extrangeira.<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 300px; height: 445px;" alt="" src="images/fig03.png" /><br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">entrada
+de nova-orl&eacute;ans</span><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[65]</span>
+Era fim de inverno. Amea&ccedil;ava chover.
+O frio continuava bastante forte ainda e os
+camarotes do <em>Barroso</em> offereciam,
+nessas condi&ccedil;&otilde;es,
+agasalho confortavel aos mais friorentos.
+<br />
+
+<br />
+
+Na manh&atilde; seguinte, grupos de officiaes
+brazileiros, uns fardados, outros &aacute; paisana,
+percorriam Nova-Orleans.
+<br />
+
+<br />
+
+O <em>St. Charles Hotel</em>, um dos melhores
+estabelecimentos da cidade, e o <em>Royal
+Hotel</em>&#8213;primeiro
+em luxo e ornamenta&ccedil;&atilde;o&#8213;eram procurados
+avidamente.
+<br />
+
+<br />
+
+Os jornaes davam noticias circumstanciadas
+de nossa chegada e annunciavam festas
+em homenagem ao Brazil.
+<br />
+
+<br />
+
+Uma vez installados nos hoteis, cada um
+de n&oacute;s em seu vasto aposento, onde nada faltava,
+t&atilde;o differente dos estreitos camarotes de
+bordo, dividimo-nos em grupos.
+<br />
+
+<br />
+
+Quanto a mim, o meu primeiro cuidado
+foi munir-me de um guia da cidade, especie
+de <em>pocket-book</em> muito commodo,
+registrando
+<span class="pagenum">[66]</span>
+indica&ccedil;&otilde;es uteis de estabelecimentos e logares
+principaes.
+<br />
+
+<br />
+
+Meu quarto ficava no segundo andar do
+<em>St. Charles Hotel</em> com frente para a
+rua do
+mesmo nome&#8213;uma saleta mobiliada com
+a maxima sobriedade, sem luxuosas decora&ccedil;&otilde;es,
+contendo apenas os moveis indispensaveis
+a um rapaz solteiro, e o fog&atilde;o a um
+canto.
+<br />
+
+<br />
+
+Depois de magnifico banho morno em
+bacia de marmore (perd&ocirc;em-se-me estas innocentes
+confidencias, ali&aacute;s de bom gosto)
+seguido de um valente almo&ccedil;o de ostras cr&uacute;as,
+as melhores que eu tenho provado, regadas &aacute;
+Sauterne, mastigando (&eacute; o termo, porque n&atilde;o
+sou l&aacute; muito admirador de charutos) mastigando
+um charuto, que n&atilde;o sei bem si era de
+Havana, sahi a fazer meu primeiro passeio,
+minha <em>promenade</em> matinal,
+come&ccedil;ando pela
+Canal Street, a rua mais importante de Nova
+Orleans, que a divide em dois grandes bairros&#8213;o
+francez e o hespanhol.
+<br />
+
+<br />
+
+No cruzamento das ruas de St.
+No cruzamento das ruas de St. Charles e
+Canal erguia-se a estatua de Clay. &Eacute; esse o
+<span class="pagenum">[67]</span>
+ponto principal da cidade e o de maior movimento
+nos dias uteis.
+<br />
+
+<br />
+
+Parei defronte do monumento e consultei
+meu alcor&atilde;o, quero dizer meu guia manual.
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;<em>Estatua de
+Clay</em>&#8213;Inaugurada solemnemente
+no dia 12 de Abril de 1860. Jo&ecirc;l T.
+Harl, de Kentucky, o artista que deu forma e
+propor&ccedil;&otilde;es &aacute; estatua, assistiu ao
+acto. O
+orador official foi Wen H. Hemt.&raquo;.
+<br />
+
+<br />
+
+Maldito laconismo! Pouco adiantei com
+as explica&ccedil;&otilde;es do livrinho.
+<br />
+
+<br />
+
+A estatua &eacute; de bronze, sobre pedestal de
+marmore, e mede, approximadamente, quinze
+p&eacute;s inglezes de altura.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Continuam as estatuas! exclamei recordando
+as que vira em Barbados e Jamaica.
+Felizmente at&eacute; agora n&atilde;o vira a de nenhum
+monarcha. Veio-me ent&atilde;o &aacute; memoria aquella
+colossal massa de bronze que se ergue no largo
+do Rocio, no Rio de Janeiro, em f&oacute;rma de um
+monarcha escanchado n'um bello cavallo.
+<br />
+
+<br />
+
+Tive pena de n&atilde;o ser aquelle bronze
+aproveitado para outra cousa mais digna e
+util.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[68]</span> &#8213;Que diabo!
+Aquillo &eacute; uma pagina de
+historia patria, reflecti.&#8213;E continuei o meu
+<em>tour</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+A Canal Street &eacute; o centro commercial de
+Nova-Orleans, &eacute; a rua do Ouvidor d'aquella
+cidade, sem os grandes inconvenientes do nosso
+querido becco.
+<br />
+
+<br />
+
+Larga, bastante espa&ccedil;osa e comprida,
+offerece transitos especiaes para a popula&ccedil;&atilde;o,
+para trens, bondes e carruagens.
+<br />
+
+<br />
+
+As ruas, na maior parte s&atilde;o mal cal&ccedil;adas,
+principalmente para o interior da cidade.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute;, sem duvida, admiravel semelhante incuria
+em se tratando de americanos do norte,
+entretanto, &eacute; uma verdade que n&atilde;o deve ser
+esquecida,
+para consolo de nossas municipalidades.
+<br />
+
+<br />
+
+Na Canal se acham os melhores e mais
+solidos edificios, as mais fortes casas commerciaes,
+os mais importantes armazens da cidade,
+caf&eacute;s, restaurantes, clubs, etc.
+<br />
+
+<br />
+
+Convenci-me desde logo que os principaes
+productos industriaes de exporta&ccedil;&atilde;o
+eram&#8213;assucar e algod&atilde;o, como bem presumira
+<span class="pagenum">[69]</span>ao desembarcar, no
+caes, onde era enorme
+a accumula&ccedil;&atilde;o de fardos desses dois generos.
+<br />
+
+<br />
+
+De vitrine em vitrine, observando sempre,
+escrupulosamente, curiosamente, &aacute; cata de novidades
+extrangeiras, posso affirmar que nada
+vi, surprehendente... Ah! sim, vi umas graciosas
+caixeiras accudirem pressurosas e desenvoltas,
+com o desembara&ccedil;o proprio de sua ra&ccedil;a,
+aos compradores, cousa ali&aacute;s muito simples,
+muitissimo natural, mas n&atilde;o no Brazil, onde
+as senhoras est&atilde;o eternamente prohibidas de
+competir com o outro sexo na vida publica.
+<br />
+
+<br />
+
+Parece-me que s&oacute; n'este paiz ainda n&atilde;o se
+observa nem se permitte esse costume t&atilde;o natural,
+t&atilde;o proprio, t&atilde;o efficaz mesmo, das senhoras
+pobres empregarem-se no commercio
+a retalho. Na Inglaterra, em Franca, na Allemanha,
+na Italia e nos Estados-Unidos &eacute; habito
+velho, ao que me consta, as senhoras servirem
+nos balc&otilde;es, e &eacute; de notar que cumprem seus
+deveres com assombrosa pericia. &Aacute;s nove
+horas da manh&atilde;, que digo eu! &aacute;s seis horas,
+depois de ligeira refei&ccedil;&atilde;o, encaminham-se para
+o trabalho quotidiano, felizes, satisfeitas, envolvidas <span class="pagenum">[70]</span>em grossas capas de
+l&atilde; no inverno, a
+bolsa de um lado, sem siquer fazerem-se acompanhar.
+V&atilde;o direitinhas de casa para a loja ou
+escriptorio, sem que ninguem lhes dirija uma
+pilheria, sem que ninguem as desrespeite, e, &aacute;
+noite, recolhem-se da mesma f&oacute;rma, sempre
+alegres, transpirando sa&uacute;de, a face rubra.
+<br />
+
+<br />
+
+Muitas vezes sahem das lojas, mudam a
+<em>toilette</em>, fazem seu penteado,
+perfeitamente
+dispostas, e d'ahi a pouco est&atilde;o nos bailes, nos
+concertos, nos theatros.
+<br />
+
+<br />
+
+Rara a casa de modas, o armarinho, a livraria
+onde se n&atilde;o encontra uma senhora
+exercendo as func&ccedil;&otilde;es de simples caxeira,
+ou como guarda-livros, silenciosa na sua
+carteira, escripturando cuidadosamente o
+Caixa.
+<br />
+
+<br />
+
+Em alguns estabelecimentos publicos, no
+Correio, por exemplo, grande parte do servi&ccedil;o
+&eacute; feito por senhoras. Esse edificio, digamol-o
+de passagem, na rua Canal, &eacute; de apparencia
+extraordinariamente simples e desgraciosa. O
+servi&ccedil;o, por&eacute;m, como em toda
+esta&ccedil;&atilde;o americana
+&eacute; correcto e sem demora.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[71]</span>
+Individuos de muitas nacionalidades acotovellam-se
+na grande rua.
+<br />
+
+<br />
+
+Em Nova Orleans, como em quasi toda a
+a Luiziania, fala-se mais o francez que outro
+idioma qualquer, n&atilde;o sendo raro ouvirem-se
+negociantes, mesmo senhoras de elevada hierarchia
+falar, embora mediocremente, o hespanhol.
+<br />
+
+<br />
+
+Havia chegado o momento fatal, inevitavel,
+de nos exhibirmos tambem em lingua alheia.
+<br />
+
+<br />
+
+Pouco a pouco, nos iamos familiarisando
+com a popula&ccedil;&atilde;o e com o &iacute;dioma d'esse
+adoravel
+canto da terra que o Mississipe banha.
+<br />
+
+<br />
+
+O dia seguinte ao de nossa chegada &aacute;
+Nova Orleans (31 de Mar&ccedil;o) estava designado
+para o encerramento da Exposi&ccedil;&atilde;o das Trez
+Americas. Avisados d'esta solemnidade, deviamos
+comparecer a ella em grande uniforme,
+encorporados.
+<br />
+
+<br />
+
+Foi um dia essencialmente brazileiro esse.
+Nos convites para a festividade lia-se esta
+impagavel gentilesa: <em>Brasilian day</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Todas as atten&ccedil;&otilde;es convergiam para o
+<em>Almirante Barroso (brazilian man of
+war)</em>.
+br /&gt;
+<br />
+
+<span class="pagenum">[72]</span>
+O palacio da Exposi&ccedil;&atilde;o estava situado a
+alguns kilometros f&oacute;ra da cidade, n'um de seus
+pontos mais pittorescos, o Upper City Park,
+&aacute; margem do Mississipe&#8213;largo edificio vistosamente
+adornado e do alto do qual se avistava
+toda a cidade e immedia&ccedil;&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+Na manh&atilde; d'esse dia, por signal chuvoso
+e coberto de nevoeiro, embarc&aacute;mos em trem
+especial, que nos f&ocirc;ra destinado pelo presidente
+da Exposi&ccedil;&atilde;o, Mr. Ed. Richardson, um
+<em>yankee</em> muito amavel, todo cortesia,
+sempre
+com um bello e espontaneo sorriso a captivar a
+gente, correcto sempre, irreprehensivelmente
+correcto.
+<br />
+
+<br />
+
+Embarc&aacute;mos na Canal street, defronte do
+<em>Pickwick Club</em>, em companhia de
+muitos officiaes
+da Guarda Nacional, de Mr. Richardson
+e de officiaes da corveta franceza
+<em>l'&Eacute;toile</em>, que
+se achava no porto de Nova Orleans, dos
+consules e outras summidades do paiz.
+<br />
+
+<br />
+
+O trem abalou como um raio, todo enfeitado
+de bandeirolas americanas, brazileiras e
+d'outras na&ccedil;&otilde;es, ao som de musicas e
+acclama&ccedil;&otilde;es
+delirantes, rasgando, na sua marcha
+<span class="pagenum">[73]</span>
+vertiginosa, o nevoeiro que cahia sem cessar
+penetrando os wagons escancarados ao ar frio
+da manh&atilde;, soltando guinchos medonhos...
+<br />
+
+<br />
+
+Durante o trajecto n&atilde;o me cansei de
+observar os sitios que o trem atravessava.
+<br />
+
+<br />
+
+De um lado e d'outro da linha estendiam-se
+vastas planta&ccedil;&otilde;es de algodoeiros desfolhados
+pelo rigor do inverno, amontoados
+de neve, immoveis phantasmas brancos no
+silencio infinito dos descampados; casas de
+campo deliciosas para se passar o ver&atilde;o, trancadas
+&aacute; neve, muito brancas e desoladas, riam,
+como saudando a nossa passagem, e desappareciam
+rapidamente no horisonte esfumado.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; de v&ecirc;r a simplicidade reunida &aacute;
+gra&ccedil;a
+que apresentam essas habita&ccedil;&otilde;es: v&ecirc;r
+uma &eacute;
+v&ecirc;r cem, tal a uniformidade de sua architectura.
+Em geral s&atilde;o de madeira, pintadas de
+branco e cinzento, com seu terra&ccedil;o para as
+calidas noites de ver&atilde;o, jardim e horta arranjados
+com admiravel cuidado e bom gosto.
+<br />
+
+<br />
+
+Absorvido completamente pelo aspecto
+variado da paisagem, sem prestar atten&ccedil;&atilde;o ao
+circulo ruidoso dos collegas, eu (lembro-me
+<span class="pagenum">[74]</span>
+bem) formava planos de vida socegada, n'algum
+eremiterio entre a eterna frescura das plantas
+e o amor eterno d'uma creatura querida.
+<br />
+
+<br />
+
+Invejava os simples, os sertanejos, os homens
+dos campo&#8213;esses para quem a vida
+corre sempre calma, porque seu cora&ccedil;&atilde;o
+n&atilde;o
+conhece outro amor sen&atilde;o o da esposa e o dos
+filhos, esses de quem Boileau dizia
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry"><em>Heureux est le mortel qui du
+mond ignor&eacute;<br />
+
+Vit content de soi m&ecirc;me en un coin
+retir&eacute;...</em>
+</div>
+
+<br />
+
+E eu me transportava outra vez ao Brazil,
+outra vez eu tinha a nostalgia da patria, a
+saudade vaga e inexplicavel de minha terra
+natal.
+<br />
+
+<br />
+
+Parecer&aacute; uma phantasia de poeta adolescente
+isto que acabo de dizer, mas &eacute; a verdade,
+a express&atilde;o sincera do que eu sentia ao atravessar
+a regi&atilde;o que ia ter l&aacute;, ao palacio da
+Exposi&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+A tristeza da neve communicava-se ao meu
+espirito imprimindo n'elle n&atilde;o sei que despretenciosas
+ambi&ccedil;&otilde;es de silencio e recolhimento.
+<span class="pagenum">[75]</span>
+Alguem j&aacute; procurou explicar a influencia que
+exerce o estado hygrometrico da atmosphera
+no estado psychologico do individuo.
+<br />
+
+<br />
+
+Eu de mim s&oacute; sei que o patriotismo, longe
+da patria, dupplica.
+<br />
+
+<br />
+
+E fechemos esta especie de parenthesis.
+<br />
+
+<br />
+
+Uma commiss&atilde;o de cavalheiros, competentemente
+encasacados, veio receber-nos ao
+desembarque.
+<br />
+
+<br />
+
+Entr&aacute;mos. Nossa entrada foi verdadeiramente
+triumphal.
+<br />
+
+<br />
+
+Dentro e f&oacute;ra do edificio era grande a
+agita&ccedil;&atilde;o.
+Ondas de povo entravam e sahiam
+percorrendo o pittoresco <em>Upper City
+Park</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Felizmente &laquo;levantou o tempo&raquo;, como se
+costuma dizer.
+<br />
+
+<br />
+
+Ao assomar &aacute; porta do grande sal&atilde;o de
+honra o primeiro official brazileiro, o commandante
+do <em>Barroso</em>, ao lado do consul e do
+presidente da Exposi&ccedil;&atilde;o, a orchestra de
+professores,
+brilhantemente organisada, rompeu l&aacute;
+dentro o hymno nacional americano (n&atilde;o conheciam
+o nosso hymno ali&aacute;s t&atilde;o vulgarisado),
+os espectadores que enchiam o vasto recinto
+<span class="pagenum">[76]</span>
+ergueram-se, e uma salva estrepitosa de palmas
+acolheu o resto da officialidade.
+<br />
+
+<br />
+
+Houve um momento de verdadeiro delirio,
+em que todos batiam palmas sem interrup&ccedil;&atilde;o
+levantando vivas ao Brazil.
+<br />
+
+<br />
+
+Serenado o enthusiasmo, um enthusiasmo
+indescriptivel, apopletico, tomou a palavra
+Mr. Richardson, que proferio o discurso de
+encerramento, saudando a armada brazileira.
+<br />
+
+<br />
+
+Seguiu-se na tribuna o orador official,
+que, n'um improviso eloquentissimo, patenteou
+a necessidade de uma uni&atilde;o entre todas as
+na&ccedil;&otilde;es americanas, desenvolvendo largamente
+as vantagens que d'ahi proveriam a todas elas.
+<br />
+
+<br />
+
+Falou tambem o governador da Luiziania,
+e, finalmente, os Srs. Salvador de Mendon&ccedil;a
+e Saldanha da Gama, cujas palavras foram
+cobertas dos mais significativos applausos.
+<br />
+
+<br />
+
+Terminada a ceremonia oratoria, foi-nos
+franqueado o edificio da Exposi&ccedil;&atilde;o, que
+percorremos
+examinando com interesse os differentes
+pavilh&otilde;es industriaes.
+<br />
+
+<br />
+
+O Brazil&#8213;&eacute; triste dizel-o&#8213;fizera-se representar
+de modo bem insignificante.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[77]</span>
+Brilhariamos pela ausencia, si o Governo
+n&atilde;o tivesse a lembran&ccedil;a de mandar o
+<em>Almirante
+Barroso</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Amostras de madeiras, caf&eacute; em gr&atilde;o,
+fumo, artigos de borracha, constituiam os principaes
+productos brazileiros expostos &aacute; curiosidade
+dos visitantes de quasi todas as
+partes do mundo civilisado. O pavilh&atilde;o do
+Brazil deixava-se ficar em plano inferior aos
+das outras na&ccedil;&otilde;es, como si fossemos um
+pobre paiz, cujos productos n&atilde;o valessem a
+pena de ser expostos n'um certamen internacional!
+<br />
+
+<br />
+
+D'ahi, talvez, o assombro dos americanos
+ao verem o <em>Almirante Barroso</em>, esse
+esplendido
+vaso de guerra de envergadura possante,
+capaz de resistir aos mais fortes temporaes e
+que elles, os extrangeiros, duvidavam fosse
+obra nossa.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Como? Pois no Brazil tambem se fabricam
+navios de guerra? Est&aacute; muito adiantado
+o Brazil!
+<br />
+
+<br />
+
+E repetiam com um ar de duvida e de
+ironia medindo d'alto a baixo e de p&ocirc;pa &aacute;
+pr&ocirc;a
+<span class="pagenum">[78]</span>
+o magestoso cruzador, que balou&ccedil;ava de leve
+sobre o Mississipe:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; muito adiantado o Brazil!
+<br />
+
+<br />
+
+Entretanto o Mexico, a America Central
+e as republicas sul-americanas, sem os recursos
+invejaveis da grande na&ccedil;&atilde;o, sobresahiam
+admiravelmente. O pavilh&atilde;o do Mexico,
+sobretudo, desafiava a maior parte dos outros
+n&atilde;o s&oacute; em abundancia de artigos, mas,
+principalmente,
+em belleza e bom gosto, em elegancia
+e riqueza.
+<br />
+
+<br />
+
+Escusado, parece, falar do importante logar
+que coube aos Estados-Unidos. Que profus&atilde;o
+de machinas e instrumentos industriaes de
+inven&ccedil;&atilde;o
+puramente americana! Ali mesmo, &aacute;
+vista do observador, fabricavam-se os mais curiosos
+objectos de fantasia e de uso domestico;
+o linho, o algod&atilde;o, a s&ecirc;da&#8213;eram tecidos
+rapidamente
+aos olhos de todos.
+<br />
+
+<br />
+
+Imagine-se agora o ruido, a algazarra, a
+movimenta&ccedil;&atilde;o que devia reinar ali dentro
+d'aquelle immenso edificio, certamente muito
+longe de ser comparado aos palacios de
+exposi&ccedil;&otilde;es universaes, mas ainda assim um
+<span class="pagenum"><a name="p79">[79]</a></span>
+dos maiores que se tem levantado n'esse
+genero.
+<br />
+
+<br />
+
+Para dar uma id&eacute;a de suas
+dimens&otilde;es&#8213;n&atilde;o
+o chamaremos vaticano da industria para
+n&atilde;o exagerar&#8213;basta dizer que o sal&atilde;o de
+musica&#8213;<em>music hall</em>&#8213;accommodava
+11.000
+pessoas, inclusive uma vasta &aacute;rea para 600
+figuras.
+<br />
+
+<br />
+
+Impossivel descrever as amabilidades, as
+gentilezas que nos foram prodigalisadas largamente
+pelas adoraveis americanas de Nova
+Orleans nessa festa democratica de
+confraternisa&ccedil;&atilde;o
+internacional; recordar as phrases
+deliciosas, os galanteios irresistiveis...
+<br />
+
+<br />
+
+O que posso affirmar &eacute; que o <em>brazilian
+day</em>
+ha de perdurar por muito tempo no cora&ccedil;&atilde;o
+d'aquelles que tiveram a felicidade de assistir
+essa bellissima festa.
+<br />
+
+<br />
+
+Dias depois voltei ao palacio da <a href="#e2">Exposi&ccedil;&atilde;o</a>,
+sosinho, como simples curioso que n&atilde;o tivera
+tempo bastante para examinar tudo no pequeno
+espa&ccedil;o de doze horas.
+<br />
+
+<br />
+
+Nada mais restava sen&atilde;o o esqueleto n&uacute; do
+edificio em via de demoli&ccedil;&atilde;o. Todos os objectos
+<span class="pagenum">[80]</span>
+tinham sido retirados com assombrosa rapidez.
+Operarios em mangas de camisa martellavam
+grandes caix&otilde;es, assobiando monotonamente,
+emquanto outros carregavam pesados volumes
+contendo os ultimos especimens da industria
+americana.
+<br />
+
+<br />
+
+Voltei immediatamente com um ar compungido
+de quem acaba de acompanhar um
+enterro, lamentando o tempo perdido e exclamando
+de mim para mim:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! americanos d'uma figa, sois um
+povo excepcional!
+<br />
+
+<br />
+
+Agora uma pergunta ingenua: Porque &eacute;
+que o Brazil, com os numerosos recursos que
+tem &aacute; m&atilde;o, timbra em occupar logar segundario
+em quasi todas as Exposi&ccedil;&otilde;es a que concorre?
+<br />
+
+<br />
+
+Indifferen&ccedil;a, talvez, simples indifferen&ccedil;a
+de nossos governos.
+<br />
+
+<br />
+
+Na celebre Exposi&ccedil;&atilde;o de Philadelphia
+n&atilde;o
+sabiamos &aacute; ultima hora como e onde accomodar
+os productos deste paiz, em consequencia
+de n&atilde;o ter o governo mandado construir um
+pavilh&atilde;o especial.
+<br />
+
+<br />
+
+Contentamo-nos em enviar objectos bastante
+<span class="pagenum">[81]</span>conhecidos,
+n&atilde;o fazemos
+selec&ccedil;&atilde;o na
+escolha d'elles, n&atilde;o nos importa o modo como
+devam ser acondicionados.
+<br />
+
+<br />
+
+Na Exposi&ccedil;&atilde;o de Vienna ainda o Brazil
+teve de occupar logar pouco lisongeiro, e si
+alguns de seus productos principaes tiveram
+a felicidade de ser premiados foi isso devido,
+n&atilde;o ao governo, mas t&atilde;o somente a
+esfor&ccedil;os
+de muitos negociantes do Rio de Janeiro e do
+Par&aacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+Annuncia-se para o anno vindouro uma
+<em>Universal Great Exhibition</em>, nos
+Estados-Unidos,
+cujo successo ir&aacute; rivalisar, talvez, com o
+da Exposi&ccedil;&atilde;o Universal realisada ha mezes em
+Pariz e notavel pela colossal e t&atilde;o celebre
+torre Eiffel. Nenhuma raz&atilde;o assiste para que
+a grande na&ccedil;&atilde;o da America do Sul, o Brazil,
+n&atilde;o se fa&ccedil;a representar com todo o brilho de
+sua incontestavel riqueza.
+<br />
+
+<br />
+
+Agora que somos republica, torna-se dupplamente
+preciso que patenteemos ao mundo
+inteiro a infinita variedade de nossas produ&ccedil;&otilde;es
+agricolas, a opulencia invejavel da
+flora brazileira e da industria j&aacute; bastante adiantada
+<span class="pagenum">[82]</span>d'este bellissimo
+paiz, cuja natureza
+extasiou Humboldt, Agassiz e tantos outros
+sabios da Europa.
+<br />
+
+<br />
+
+Si cada Estado souber cumprir seu dever
+n&atilde;o poupando esfor&ccedil;os para esse nobilissimo
+fim, certo d'esta vez n&atilde;o teremos que corar
+perante as outras na&ccedil;&otilde;es como nos tempos do
+anachronico imperio do Sr. D. Pedro II.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>
+VIII
+</h3>
+
+<br />
+
+A grande Exposi&ccedil;&atilde;o Industrial de Nova
+Orleans prolongou-se at&eacute; ao <em>Almirante
+Barroso</em>.
+O bello cruzador brazileiro come&ccedil;ou
+desde logo a ser o alvo dos curiosos de
+todas as na&ccedil;&otilde;es ali representadas.
+<br />
+
+<br />
+
+Comprehende-se o vivo interesse do povo
+em assumptos d'esta ordem.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o havia na cidade quem n&atilde;o soubesse
+que estava no porto um navio de guerra do
+Brazil, e este facto por si s&oacute; era bastante para
+que toda a gente ardesse em desejo de vel-o de
+perto, de o percorrer d'um extremo a outro.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Quantos canh&otilde;es traz? perguntava-se.
+A machina quantas milhas vence por hora?
+Quantas rota&ccedil;&otilde;es por minuto?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p84">[84]</a></span>
+E quando affirmavamos que a machina do
+<em>Barroso</em> era de ferro Ipanema e
+d'outros
+metaes brazileiros, que todo o navio, da p&ocirc;pa
+&aacute; pr&ocirc;a, era construc&ccedil;&atilde;o
+inteiramente nacional,
+subia de ponto a surpreza dos nossos visinhos.
+<br />
+
+<br />
+
+O qu&ecirc;! No Brazil j&aacute; se constroem navios
+de guerra?&#8213;<em>It is impossible!...</em> E
+toda a popula&ccedil;&atilde;o,
+tomada de um quasi espanto, duvidando,
+talvez, da nossa habilidade, afflu&iacute;a ao caes.
+<br />
+
+<br />
+
+Todo o cruzador, desde a camara do commandante
+at&eacute; ao alojamento dos marinheiros,
+desde o tombadilho at&eacute; ao por&atilde;o, foi exposto
+&aacute;
+curiosidade publica.
+<br />
+
+<br />
+
+O sexo gentil, com especialidade, repetia
+suas visitas.
+<br />
+
+<br />
+
+Desde &aacute;s oito horas da manh&atilde;, ao
+i&ccedil;ar-se
+a bandeira, come&ccedil;avam a atracar lanchas a
+vapor e escaleres cheios de visitantes de ambos
+os sexos.
+<br />
+
+<br />
+
+Grandes lanchas iam e vinham do caes
+para o cruzador e do cruzador <a href="#e3">para o caes</a>,
+continuamente, incessantemente, apinhadas de
+passageiros, que pagavam 5 centimos de ida e
+volta. Cada uma trazia &aacute; pr&ocirc;a, em letras
+<span class="pagenum">[85]</span>
+esparramadas e vivas, a senha:&#8213;<em>Brazilian
+man of war</em>.<br />
+
+<br />
+
+&Aacute; tarde, depois d'uma faina acabrunhadora
+de receber familias e percorrer duas, tres
+e mais vezes o navio, dando explica&ccedil;&otilde;es,
+descrevendo
+apparelhos e machinismos com uma
+paciencia de pedagogos, iamos &aacute; terra, distrahir
+nos caf&eacute;s, nos theatros, nos bailes,
+tanto mais quanto multiplicavam-se os convites
+para todas as divers&otilde;es publicas e familiares.
+<br />
+
+<br />
+
+As familias com que iamos entretendo
+rela&ccedil;&otilde;es de amizade exigiam que fossemos
+quotidianamente a suas casas, como si nos
+sobrasse tempo para isso; e, for&ccedil;a &eacute; confessar,
+dispensavam-nos um tratamento quasi paternal.
+<br />
+
+<br />
+
+A melhor de todas as recep&ccedil;&otilde;es que tivemos,
+n&atilde;o obstante o caracter official que a
+revestia, foi a do Governador da Luiziania,
+esplendido baile no <em>Royal Hotel</em>, no
+dia 8 de, no
+dia 8 de
+Abril, ao qual compareceram todas as autoridades
+civis e militares da cidade em uniforme
+de gala.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p86">[86]</a></span>
+A casaca, o clak, a gravata de s&ecirc;da
+branca, o vestido decotado at&eacute; aonde permitte
+a decencia, confundiam-se nos sal&otilde;es
+do hotel ricamente adornados, cheios de luz,
+escancarados de par em par como um palacio
+em festa.
+<br />
+
+<br />
+
+A joven officialidade brazileira, eximia
+em <em>cotillons</em>, expandiu-se a valer
+n'essa magnifica
+<em>soir&eacute;e</em> de inverno, fria e
+clara, constellada
+de bot&otilde;es d'ouro e brilhante, longe da
+patria, longe de suas familias, mas no seio
+d'um povo que nos amava dev&eacute;ras.
+<br />
+
+<br />
+
+Sar&aacute;o principesco esse de que ainda sinto
+o saibo exquisito ao tra&ccedil;ar as reminiscencias
+da minha primeira ausencia do Brazil.
+<br />
+
+<br />
+
+Mesa abundantissima e franca, desde a
+deliciosa s&ocirc;pa d'ostras com molho inglez &aacute;
+mais fina champagne Clicot, com escala pela
+<em>mayonnaise</em> de lagosta, fresca e
+picante, pelo
+succulento <em>poisson &agrave;
+l'itallienne</em>, rubro e apettitoso...
+e tantos, meu Deus, e tantissimos
+outros pratos maravilhosos <a href="#e4">inventados</a>
+pela
+gula epicurista de todas as gera&ccedil;&otilde;es desde
+Luculo at&eacute; &aacute; nossa.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p87">[87]</a></span>
+Volvemos para bordo seria madrugadinha,
+tropegos, cansados e somnolentos, palpebras
+cahidas, supplicando a frescura d'um travesseiro,
+dentro de nossas inviolaveis capas da
+Bretanha.
+<br />
+
+<br />
+
+Uma noite brazileira com todos os excessos
+da nossa educa&ccedil;&atilde;o e do nosso caracter;
+saudosa noite, a primeira de minha vida em
+que me enfronhei n'uma casaca irreprehensivelmente
+bem feita...
+<br />
+
+<br />
+
+O <em>Barroso</em>, dilu&iacute;do na
+escurid&atilde;o da noite,
+aproado &aacute; correnteza que descia rio abaixo
+cantando uma melop&eacute;a de lenda, o
+<em>Barroso</em>&#8213;peda&ccedil;o
+da patria longinqua&#8213;acenava-nos
+com a sua luzinha amarella palpitando &aacute;s rajadas
+do vento frio.
+<br />
+
+<br />
+
+... E os bailes repetiam-se e n&oacute;s <a href="#e5">viviamos
+cercados</a> da alegria communicativa d'esse povo
+americano eternamente jovial!
+<br />
+
+<br />
+
+Falemos ainda das mulheres de Nova
+Orleans.
+<br />
+
+<br />
+
+Bellas quasi todas, amaveis e insinuantes,
+cheias d'uma inexcedivel gra&ccedil;a que arrebata e
+seduz voluptuosamente.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[88]</span>
+As <em>cr&eacute;oles</em>, ah! as
+<em>cr&eacute;oles</em>... ninguem as
+v&ecirc; que n&atilde;o as fique desejando.
+<br />
+
+<br />
+
+Caracteres principaes: tez morena, com
+uns tons de rosa na face, olhos muito negros,
+criminosos at&eacute; ao homicidio flagrante, pequenas,
+delicadas, flexiveis, aereas quasi, conjuncto
+meigo e melancolico, muito sensiveis...
+A vaga express&atilde;o de seu olhar avelludado
+derrama n&atilde;o sei que mysterioso fluido, cujos
+effeitos traduzem-se em voluptuosas sensa&ccedil;&otilde;es,
+secretos desejos de posse absoluta...
+<br />
+
+<br />
+
+Como differem as chamadas
+<em>cr&eacute;oles</em> das
+verdadeiras americanas!
+<br />
+
+<br />
+
+Estas&#8213;muito rubras, cabello c&ocirc;r de ouro,
+olhos azues&#8213;s&atilde;o frias, quasi indifferentes
+ao amor, egoistas de sua belleza de estatua,
+vivendo para o trabalho e para a familia;
+aquellas&#8213;adoraveis com as suas linhas ideaes,
+com a vaga e communicativa melancolia de
+seu olhar voluptuoso&#8213;fazem lembrar um povo
+mystico e cheio de bondade d'algum paiz
+nebuloso e desconhecido...
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; curiosa a origem da popula&ccedil;&atilde;o
+<em>cr&eacute;ole</em>
+de Nova Orleans. Ella descende na maior
+<span class="pagenum">[89]</span>
+parte de aventureiros canadaenses e <em>courreurs
+des bois</em>&#8213;gente ousada e valente, que emigrou
+do norte para o sul da America septentrional,
+por terra, atrav&eacute;z de inhospitos desertos povoados
+de selvagens perigosissimos. Esses
+aventureiros chegaram a Luiziania sem familias,
+depois de uma viagem cheia de trabalhos
+e fadigas, descansando, por fim, &aacute;s margens do
+Mississipe. A Luiziania era ent&atilde;o colonia
+franceza, e o rei, apiedando-se da sorte dos
+infelizes immigrantes, que viviam solteiros,
+longe de sua patria natal, sujeitos a uma
+castidade quasi absoluta, quiz aproveital-os
+para a colonisa&ccedil;&atilde;o. N'esse intuito mandou
+vir de Paris um <em>carregamento</em> de
+mulheres,
+prisioneiras da Salpetri&egrave;re, que chegaram a
+Nova-Orleans em ferros, e onde foram postas
+em liberdade e entregues &aacute; concupiscencia
+da popula&ccedil;&atilde;o masculina.
+<br />
+
+<br />
+
+Isso, porem, n&atilde;o trazia vantagens &aacute;
+colonia, que precisava de gente. Os canadaenses
+satisfaziam seus apetites carnaes
+sem que augmentasse o numero de habitantes&#8213;facto
+este que n&atilde;o passou despercebido ao
+<span class="pagenum">[90]</span>
+directorio da Companhia da Luiziania, cujo
+principal interesse era a multiplica&ccedil;&atilde;o das
+almas.
+<br />
+
+<br />
+
+N'estas condi&ccedil;&otilde;es foram dadas outras
+providencias,
+e, em 1728, chegou a Nova-Orleans
+um grupo de raparigas, conhecidas na Luiziania
+historica pelas <em>filles de la
+cassette</em> ou
+<em>casket girls</em>, mandadas pelo rei para
+o convento
+das Ursulinas afim de se casarem licitamente.
+A experiencia foi coroada de successos. Em
+breve tempo come&ccedil;ou a crescer a colonia e os
+descendentes da <em>cassette</em> tinham
+orgulho em
+o serem.
+<br />
+
+<br />
+
+Tal foi a origem humilde dos primeiros
+filhos nativos da Luiziania.
+<br />
+
+<br />
+
+Seu sangue &eacute; uma mixtura de sangue canadaense
+e sangue francez.
+<br />
+
+<br />
+
+A mulher americana do norte &eacute; geralmente
+bem educada. Muitas vimos em Nova-Orleans,
+que conheciam e falavam dois, tres idiomas,
+alem do vernaculo.
+<br />
+
+<br />
+
+Preoccupam-se pouco com bailes e modas,
+trajam com simplicidade e elegancia, sem
+affecta&ccedil;&atilde;o, sem a natural
+<em>coquetterie</em> da mulher
+<span class="pagenum">[91]</span>
+parisiense. Seu divertimento predilecto &eacute; a
+musica.
+<br />
+
+<br />
+
+O proverbial desembara&ccedil;o das americanas
+manifesta-se a todo instante. Promptas sempre
+a repellir com dignidade um ataque &aacute; sua
+honestidade, ellas se dirigem aos homens em
+qualquer parte, na rua ou nos sal&otilde;es, com a
+mesma simplicidade com que o fazem &aacute;s amigas.
+O respeito entre os dois sexos, nas
+classes superiores, &eacute; um dos principaes caracteres
+do povo americano. Habituados, homens
+e mulheres, a uma educa&ccedil;&atilde;o livre, vivendo uns
+e outros em commun desde crean&ccedil;a, as americanas
+n&atilde;o se confundem nunca diante dos
+homens.
+<br />
+
+<br />
+
+Nos Estados-Unidos o bello sexo &eacute; respeitado
+como em parte alguma.
+<br />
+
+<br />
+
+Os paes depositam confian&ccedil;a illimitada
+nas filhas. Deixam, sem escrupulo, que
+ellas saiam a passeio, de carro ou a p&eacute;, s&oacute;
+ou em companhia de um amigo da casa, na
+certeza de que ellas saber&atilde;o zelar a sua castidade.
+<br />
+
+<br />
+
+Os raptos e os defloramentos s&atilde;o raros, n&atilde;o
+<span class="pagenum">[92]</span>
+sei si devido ao temperamento da ra&ccedil;a ou si &aacute;
+inflexibilidade da Lei. O que sei &eacute; que, si um
+rapaz gosta de uma rapariga de familia reconhecidamente
+honesta, n&atilde;o tem mais do que
+namoral-a escandalosamente &aacute;s barbas de quem
+quer que seja, &aacute; vista do mundo inteiro, beijal-a
+sem ceremonia, como si fossem irm&atilde;os, e, d'ahi
+a pouco, eil-os casadinhos de fresco, <em>bras
+dessus, bras dessous</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+E ai! d'aquelle que violar os preceitos
+decretados pelo governo! Immediatamente
+v&ecirc;-se dentro d'este triangulo medonho: o
+casamento, o dote, ou a cadeia. A Lei &eacute; inexoravel
+e a policia exerce uma vigilancia sem
+igual.
+<br />
+
+<br />
+
+Informados de taes particularidades do
+caracter americano, n&oacute;s, brazileiros, pusemos
+um dique ao nosso temperamento de meridionaes,
+evitando o mais possivel os compromissos
+amorosos, as manifesta&ccedil;&otilde;es de sympathia
+por essas adoraveis <em>ladies</em>, que, a
+falar
+verdade, inflingiam-nos os maiores supplicios
+com o maravilhoso poder de suas qualidades
+physicas.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[93]</span>
+Tantalos do cora&ccedil;&atilde;o, eramos obrigados a
+conter os impetos ferozes da carne que nos
+aguilhoava implacavelmente no delicioso convivio
+das louras <em>miss</em> e das ternas
+<em>cr&eacute;oles</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Est&atilde;o verdes, n&atilde;o
+prestam</em>&#8213;era a nossa
+divisa e d'est'arte escapavamos sempre aos
+ataques de t&atilde;o perigoso inimigo...<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c9"></a>IX
+</h3>
+
+<br />
+
+O dia 14 de Abril (deixem passar a precis&atilde;o
+chronologica) estava destinado pelo commandante
+do <em>Barroso</em> para uma
+excurs&atilde;o fluvial,
+scientifica, &aacute; foz do Mississipe, onde iriamos
+observar <em>de visu</em> os importantes
+trabalhos
+hydraulicos, que ahi se procediam sob a intelligente
+direc&ccedil;&atilde;o do notavel engenheiro americano
+Mr. Jas. B. Eads, um velho respeitavel, encanecido
+no servi&ccedil;o da engenharia, e cujo <a href="#e6">nome
+est&aacute;</a> ligado a muitas obras notaveis de seu paiz.
+<br />
+
+<br />
+
+&Aacute;s onze horas da noite a barca de passeio
+<em>Keokuk</em> largou de Nova Orleans, rio
+abaixo,
+conduzindo a turma de guardas-marinha,
+alguns officiaes e o commandante, com destino
+&aacute;s <em>Jetties</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[95]</span>
+Uma excellente embarca&ccedil;&atilde;o a
+<em>Keokuk</em>,
+especie de pequena cidade fluctuante, muito
+larga e espa&ccedil;osa, avantajando-se em dimens&otilde;es
+aos vapores da Companhia Brazileira.
+Tres pavimentos: o superior, coberto por um
+grande toldo, onde os passageiros podiam
+fumar &aacute; vontade; o do meio formando um
+sal&atilde;o-refeitorio, ao lado do qual ficavam os
+camarotes e o por&atilde;o, para mercadorias; rodas
+&aacute; p&ocirc;pa, systema de locomo&ccedil;&atilde;o
+que n&atilde;o conheciamos;
+duas chamin&eacute;s, e machina possante.
+Em semelhantes condi&ccedil;&otilde;es eramos
+capazes de fazer a <em>volta do mundo em oitenta
+dias</em>...
+<br />
+
+<br />
+
+Pass&aacute;mos a noite sobre o rio, navegando
+&aacute; meia for&ccedil;a, ao sabor da correnteza.
+<br />
+
+<br />
+
+L&aacute; iamos outra vez para a regi&atilde;o dos mosquitos!
+Prepar&aacute;mo-nos para dar quixotesca
+batalha, apezar da falta impreenchivel do nosso
+querido companheiro, o barbeiro de Sevilha,
+quero dizer o barbeiro de bordo, o impagavel
+hespanhol que tanto nos divertira na ca&ccedil;a aos
+mosquitos.
+<br />
+
+<br />
+
+Pela manh&atilde;, cedinho, estavamos em Port-Eads,
+<span class="pagenum">[96]</span>defronte do
+escriptorio central do respeitavel
+engenheiro.
+<br />
+
+<br />
+
+Caf&eacute;, biscoitos..., e desembarc&aacute;mos.
+<br />
+
+<br />
+
+O bom velho j&aacute; nos esperava com o seu
+bello ar de urso domestico, barba muito
+branca, de barrete e oculos, entre os seus
+mappas coloridos e os seus prospectos representando
+<em>steamers</em> e as
+<em>jetties</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Folgo bastante em lhes poder mostrar
+o plano da empreza ha tantos annos iniciada
+sob minha direc&ccedil;&atilde;o, disse elle com um amavel
+sorriso de bonhomia patriarchal.
+<br />
+
+<br />
+
+E come&ccedil;ou a desenrolar diante de nossos
+olhos uma serie infindavel de cartas hydrographicas,
+mappas, desenhos...
+<br />
+
+<br />
+
+Vale a pena se admirar essa obra monumental.
+<br />
+
+<br />
+
+Tratava-se de cavar o leito do rio, n'um dos
+bra&ccedil;os de sua foz, por modo a effectuar-se a
+navega&ccedil;&atilde;o livremente, na linha da correnteza,
+e terem entrada embarca&ccedil;&otilde;es de grande calado,
+desenvolvendo-se assim o j&aacute; notavel commercio
+de Nova-Orleans. Com esses trabalhos
+o porto ir&aacute; melhorando consideravelmente,
+<span class="pagenum">[97]</span>
+sendo para notar o grande movimento de
+navios que entram e sahem durante o dia.
+<br />
+
+<br />
+
+O rio tem pelo menos 16.000 milhas navegaveis
+que os americanos dia a dia tratam de
+aproveitar dando sahida a innumeros productos
+do fertilissimo valle do Mississipe, o qual
+abrange cerca de 768.000.000 geiras <em>das mais
+ricas terras do mundo</em>, como elles l&aacute;
+dizem.
+Sua emboccadura &eacute;, portanto, a passagem
+natural de todos aquelles productos.
+<br />
+
+<br />
+
+Desde 1726 t&ecirc;m sido empregados esfor&ccedil;os
+inauditos a fim de se aprofundar essa parte do
+famoso rio; mas, foi em 1875 que o governo
+dos Estados Unidos contratou definitivamente
+esse servi&ccedil;o com Mr. Eads, e &eacute; bem provavel
+que em futuro n&atilde;o muito remoto esteja o porto
+franqueado a todos os navios do mundo,
+gra&ccedil;as &aacute; perseveran&ccedil;a e aos
+esfor&ccedil;os de habeis
+engenheiros.
+<br />
+
+<br />
+
+A visita foi curta, mas proveitosa.
+<br />
+
+<br />
+
+Tom&aacute;mos novamente a barca, e &aacute;s cinco
+horas da tarde atracavamos no forte Jackson,
+velha fortaleza abandonada, &aacute; margem direita
+do rio. L&aacute; estava ainda, immovel e muda, a
+<span class="pagenum">[98]</span>
+descommunal artilharia que Farragut, o velho
+almirante, commandara na guerra sanguinolenta
+dos separatistas, que terminou com a
+tomada de Nova-Orleans.
+<br />
+
+<br />
+
+Os velhos canh&otilde;es dormiam seu somno
+de bronze, l&aacute; dentro, nos corredores escuros
+como os de uma Bastilha, e a n&oacute;s, estudantes
+de historia naval, inspiravam n&atilde;o sei que respeito
+sagrado. Perante elles falavamos baixo,
+como para n&atilde;o os acordar...
+<br />
+
+<br />
+
+A fortaleza &eacute; grande, mas s&oacute; tem a importancia
+archeologica que a historia lhe empresta;
+n&atilde;o resistiria, talvez, &aacute;s modernas baterias.
+Opulenta vegeta&ccedil;&atilde;o rasteira cresce-lhe em
+derredor.
+O seu aspecto &eacute; sombrio como o de um
+cemiterio: as grossas paredes denegridas e o
+silencio que a cerca d&atilde;o-lhe um cunho mysterioso
+de crypta subterranea e produzem no
+visitante uma incommoda sensa&ccedil;&atilde;o de abandono
+e tristeza. Em cada canto parece surgir
+a sombra de um confederado clamando vingan&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+Retir&aacute;mo-nos em marcha funebre, calados
+e supersticiosos...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[99]</span>
+Dormimos ainda essa noite sobre o rio
+para amanhecermos em Nova-Orleans. J&aacute;
+estavamos com saudade do <em>Barroso</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Continuaram as manifesta&ccedil;&otilde;es de amisade
+ao Brazil.
+<br />
+
+<br />
+
+O neto do imperador, jovem e irrequieto,
+embalde procurava fugir &aacute;s insistencias da
+aristocracia local e por diversas vezes desejou
+ter nascido simples burguezinho, como
+qualquer de seus collegas.
+<br />
+
+<br />
+
+E digamos aqui, muito a discre&ccedil;&atilde;o, Sua
+Alteza podia ser um bello mo&ccedil;o, um digno
+cavalheiro, um excellente amigo e camarada,
+mas... Sua Alteza era um pessimo principe.
+A sua grande aspira&ccedil;&atilde;o era a vida livre, sem
+peias, essa vida alegre e bohemia que se exgota
+depressa nos
+<em>caf&eacute;s-concertos</em> e nos
+<em>restaurants</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o gostava de continencias e despresava
+o juizo imbecil dos que lhe apodavam de estroina.
+O certo &eacute; que esse juizo em nada o
+compromettia perante o <em>high-life</em>
+americano
+que o estimava sufficientemente. Elle era o
+representante immediato da familia imperial,
+<span class="pagenum">[100]</span>
+era o alvo predilecto de todas as manifesta&ccedil;&otilde;es
+ao Brazil na grande festa internacional.
+<br />
+
+<br />
+
+Seria ocioso, sen&atilde;o monotono e fatigante,
+descrever, uma por uma, em todos os seus detalhes,
+com todas as suas c&ocirc;res mirabolantes,
+essas manifesta&ccedil;&otilde;es, profundamente fraternaes
+e democraticas, com que nos recebeu a distincta
+sociedade de Nova-Orleans. Bailes, regatas,
+passeios improvisados, concertos, brindes,&#8213;e
+n&atilde;o raro a tolda do nosso bello cruzador converteu-se
+em esplendido sal&atilde;o de baile, acordando
+a sons de orchestra e gritos de alegria o
+silencio agreste das margens do Mississipe.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; este o unico consolo d'aquelles que
+andam no mar em servi&ccedil;o da patria&#8213;o repousar
+em terra amiga. V&atilde;o-se as saudades para
+dar logar &aacute; franca expans&atilde;o dos
+cora&ccedil;&otilde;es:
+a alma do marinheiro transforma-se, como por
+encanto, n'um hostiario de alegrias de uma
+ingenuidade incomparavel, e elle ri com os
+outros, canta e sente-se t&atilde;o bem como si estivesse
+em seu proprio paiz, no meio de seus
+amigos e de seus parentes. Encantadora
+illus&atilde;o, que s&oacute; dura emquanto elle n&atilde;o
+abre
+<span class="pagenum">[101]</span>
+as velas mar em f&oacute;ra nessa interminavel derrota
+de argonautas que v&atilde;o atraz do bezerro
+de ouro da felicidade...
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o direi, n&atilde;o, o que nos divertimos, as
+multiplas sensa&ccedil;&otilde;es por que passou o nosso
+espirito n'essa Luiziania que o Mississipe
+embala com o rithmo nostalgico de suas aguas
+c&ocirc;r de barro. Seria desdobrar a natureza
+humana t&atilde;o complexa e mysteriosa.
+<br />
+
+<br />
+
+Vamos adiante, consultemos o caderno de
+notas.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>25 de Abril</em>...&#8213;Estavamos na
+Paschoa,
+a festa risonha e popular da ressurrei&ccedil;&atilde;o do
+Christo. At&eacute; ent&atilde;o nenhum desgosto, nenhuma
+tristeza, nenhuma magoa toldara o c&eacute;o
+purissimo de nossas alegrias. Vagavamos em
+mar de rosa, egoistas de felicidade, sereno
+o espirito, aberto o cora&ccedil;&atilde;o a todos os influxos
+bons. Boa vida, por um lado, essa de quem
+viaja sem grandes preoccupa&ccedil;&otilde;es, no bojo de
+um navio patricio.
+<br />
+
+<br />
+
+Eis que, de repente, uma nota dissonante
+e sombria chamou-nos &aacute; realidade pungente
+da vida humana: morrera um nosso companheiro
+<span class="pagenum">[102]</span>de bordo, o
+Leocadio..., que digo eu?
+um d'esses her&oacute;es anonymos que usam gola ao
+pesco&ccedil;o, um pobre marinheiro que a fatalidade
+arrebatou de sua terra natal para morrer tysico
+em paiz estranho.
+<br />
+
+<br />
+
+Ninguem imagina a dolorosa impress&atilde;o
+que produz a morte de um companheiro de
+viagem longe da patria, n'um hospital desconhecido.
+<br />
+
+<br />
+
+Fez-se o enterro com todas as honras devidas
+ao obscuro soldado e velho marinheiro,
+nascido, por assim dizer, sobre o mar e educado
+na escola das tempestades. Tinha sessenta
+annos. Era o &laquo;cosinheiro da pr&ocirc;a&raquo;. Sobre
+o
+seu corpo foi estendido a bandeira nacional brazileira
+como symbolo da patria reconhecida.
+<br />
+
+<br />
+
+N'esse dia, conforme j&aacute; estava assentado,
+toda a guarni&ccedil;&atilde;o do
+<em>Barroso</em> desembarcou
+a fim de assistir &aacute; missa solemne da Paschoa na
+cathedral de S. Luiz, o mais importante dos
+templos catholicos da cidade, situado na rua
+Chartres.
+<br />
+
+<br />
+
+Bem que antiga, essa egreja parece resistir
+ainda por muito tempo. Foi o primeiro edificio
+<span class="pagenum">[103]</span>catholico erigido
+em Nova-Orleans pelos
+capuchinhos, em 1718, ao tempo da funda&ccedil;&atilde;o
+da cidade. Tomou o nome de S. Luiz em
+homenagem ao rei da Fran&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+Mais tarde, em Setembro de 1723, desabou
+sobre a nascente cidade, cuja popula&ccedil;&atilde;o
+elevava-se a 200 almas, formidavel cyclone, que
+arrasou todos os edificios, causando uma mortandade
+incalculavel. Narram os chronistas que
+foram arrojados &aacute; costa trez navios que se achavam
+fundeados no porto. Em breve, porem,
+a cidade foi reedificada, sendo em 1724 reconstruida
+a egreja, essa mesma que ainda hoje
+ergue seus torre&otilde;es vetustos na rua Chartres.
+<br />
+
+<br />
+
+Naquelle anno o territorio de Nova-Orleans
+foi dividido em tres grandes districtos
+sob a administra&ccedil;&atilde;o dos capuchinhos, dos
+carmel&iacute;tas e dos jesuitas. De ent&atilde;o em diante
+multiplicaram-se os edificios religiosos, egrejas
+palacios episcopaes, conventos, etc.
+<br />
+
+<br />
+
+O convento das Ursulinas data egualmente
+da funda&ccedil;&atilde;o da cidade e &eacute; um
+estabelecimento
+catholico &aacute; maneira do de Ru&atilde;o conhecido
+por esse mesmo nome.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[104]</span>
+&Eacute; um dos ultimos conventos que ainda
+existem nos Estados-Unidos. Consta de trez
+andares e ergue-se &aacute; margem do rio, para onde
+abre suas janellinhas atrav&eacute;z das quaes se v&ecirc;
+passar a sombra phantastica das religiosas.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>
+X
+</h3>
+
+<br />
+
+Um bello povo, o de Nova-Orleans&#8213;jovial,
+communicativo, hospitaleiro e sincero. A elle
+devemos os melhores dias dessa longa viagem
+ao paiz suggestivo e excepcional dos
+<em>yankees</em>,
+universalmente querido e respeitado por sua
+grandeza industrial e por suas bellas tradi&ccedil;&otilde;es
+de energia e patriotismo.
+<br />
+
+<br />
+
+E emtanto approximava-se o dia da partida:
+iamos embora rumo de norte, levando
+comnosco a immorredoura lembran&ccedil;a do Meschaseb&eacute;,
+&laquo;le roi des fleuves&raquo;, e das legendarias
+terras que Chateaubriand poetisara nas suas
+inimitaveis <em>viagens</em>. Restava-nos,
+porem, o
+consolo de que ainda iriamos &aacute; sonhada Nova-York
+dos trens aere. Restava-nos,
+porem, o
+consolo de que ainda iriamos &aacute; sonhada Nova-York
+dos trens aereos e das emprezas colossaes.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[107]</span>
+Cora&ccedil;&otilde;es &aacute; larga, rapazes! Um homem
+&eacute;
+um homem!...
+<br />
+
+<br />
+
+A saudade, porem, n&atilde;o &eacute; uma simples figura
+de rethorica, pelo amor de Deus! &Eacute; um estado
+d'alma como a nostalgia, como o amor, como
+a tristeza, como a d&ocirc;r...
+<br />
+
+<br />
+
+A saudade existe, &eacute; um phenomeno perfeitamente
+real e determinado na ordem dos
+factos psychologicos. N&atilde;o nos venham dizer
+outra cousa os senhores neologistas <em>fin de
+si&egrave;cle</em>.
+Por ter sido cantada em prosa e verso, nem por
+isso a saudade deixa de ser o que &eacute; na verdade&#8213;uma
+commo&ccedil;&atilde;o nervosa interessando o mais
+delicado e sensivel do cora&ccedil;&atilde;o humano, uma
+dolencia vaga, fluctuante n'alma, intraduzivel
+como um sonho nebuloso, tocada de do&ccedil;ura e
+ungida de tristeza...
+<br />
+
+<br />
+
+Por que uma pessoa tem barba no rosto e j&aacute;
+passou dos vinte annos, segue-se que n&atilde;o deve
+ter mais saudade, que deve ser um insensivel,
+uma massa inabalavel?
+<br />
+
+<br />
+
+Absolutamente n&atilde;o. A lagrima, expliquem-na
+como quizerem os doutores da sciencia,
+hade existir emquanto palpitar em n&oacute;s
+<span class="pagenum">[108]</span>
+esse musculo que se chama cora&ccedil;&atilde;o, emquanto
+a humanidade soffrer e houver um motivo sentimental
+para commover os seres dotados de
+intelligencia. &Eacute; talvez uma quest&atilde;o de mais ou
+menos intensidade nervosa. Por que tudo &eacute;
+egoismo neste seculo essencialmente palavroso
+e mercantil, deve-se concluir que, em futuro n&atilde;o
+muito longe, a ra&ccedil;a humana se transforme
+n'uma como esphynge, sem affectividade possivel,
+ou que o systema nervoso passe a exercer
+func&ccedil;&otilde;es negativas na physiologia do porvir?
+N&atilde;o o acreditamos...
+<br />
+
+<br />
+
+A lagrima hade existir <em>per omnia
+secula</em>,
+e a saudade ter&aacute; sempre a sua lagrima, como
+sentimento superior &aacute;s nossas for&ccedil;as.
+<br />
+
+<br />
+
+Chorar sobre o tumulo de um amigo &eacute; t&atilde;o
+natural, t&atilde;o humano como chorar porque nos
+separamos de um ente querido. N&atilde;o desejo
+agora, por um velleidade de rabiscador sentimentalista,
+fazer a psychologia da lagrima. O
+que eu quero &eacute; confessar, embora d'isso me
+advenha o qualificativo de
+<em>pi&eacute;gas</em>, que
+n&atilde;o podiamos&#8213;eu
+e a maior parte dos meus collegas&#8213;pensar
+em deixar Nova-Orleans sem um demorado
+<span class="pagenum">[109]</span>fremito de
+palpebras e uma nevoa
+humida no olhar triste...
+<br />
+
+<br />
+
+E, dizendo isto, est&aacute; dito o que nos merecia
+a hospitaleira popula&ccedil;&atilde;o d'aquella cidade.
+<br />
+
+<br />
+
+Entretanto, ainda n&atilde;o estavam satisfeitos
+os luizianenses. Como ultima prova de verdadeira
+estima o <em>Luiziania Jockey-Club</em>
+deu-nos
+um magnifico baile na vespera da partida.
+<br />
+
+<br />
+
+Tenho ainda na memoria essa derradeira
+impress&atilde;o que me ficou de Nova-Orleans.
+Fazia um luar soberbo, um luar tropical,
+um luar de legenda, t&atilde;o limpido e t&atilde;o claro
+que se n&atilde;o viam as estrellas... O
+<em>Jockey-Club</em>,
+em baixo, fazia um effeito surprehendente
+com a sua illumina&ccedil;&atilde;o de mil c&ocirc;res
+rodeando a grande raia das corridas, com o
+seu aspecto phantastico de kermesse nocturna,
+salpicado de pontos luminosos e galhardetes
+em miniatura, immoveis na calmaria da
+noite.
+<br />
+
+<br />
+
+Em derredor a mudez solemne da floresta
+acordada de instante a instante pelo echo da
+musica cortando o ar calmo.
+<br />
+
+<br />
+
+Perto do <em>Club</em> tinha-se armado um
+grande
+<span class="pagenum">[110]</span>
+estrado para a dansa ao ar livre, sem tecto,
+sem toldo, sob o luar.
+<br />
+
+<br />
+
+Cruzavam-se os pares, n'um turbilh&atilde;o impetuoso,
+ao som das walsas americanas e dos
+galopes &aacute; brazileira.
+<br />
+
+<br />
+
+N'essa noite, e pela primeira vez, conversei
+longamente com uma
+<em>cr&eacute;ole</em>, Mlle...
+j&aacute; me n&atilde;o lembra o nome, um typo ideal de
+Walkyria de olhos negros com um extraordinario
+brilho nas pupillas,&#8213;microscopica, delgada,
+flexivel, cintura extremamente fina, certo
+geito adoravel de pender a cabe&ccedil;a para os
+lados, n'um abandono irresistivel... Toda de
+preto.
+<br />
+
+<br />
+
+Dans&aacute;mos uma quadrilha e ella convidou-me
+a passeiar no Prado.
+<br />
+
+<br />
+
+L&aacute; fomos, bra&ccedil;o dado, eu muito circumspecto,
+teso dentro da minha farda de guarda-marinha,
+levado quasi que machinalmente por
+essa formosa dama d'olhos negos e seductores,
+arranjando a custo umas phrases de effeito,
+que eu n&atilde;o teria coragem de reproduzir; ella,
+desenvolta e pequenina, muito leve na sua
+<em>toilette</em> escura, conduzindo-me
+n'aquella esplendida
+<span class="pagenum">[111]</span><em>promenade
+au clair de la
+lune</em>, para
+onde... n&atilde;o sei eu...
+<br />
+
+<br />
+
+Perguntou-me si as brazileiras eram bonitas
+e ricas, si no Brazil dansava-se muito, e
+que tal n&oacute;s tinhamos achado as americanas.
+Explicou-me ent&atilde;o a differen&ccedil;a entre
+<em>cr&eacute;oles</em>
+e americanas propriamente ditas.
+<br />
+
+<br />
+
+Respondi-lhe como pude, exaltando as
+nossas patricias, &laquo;bellas e ricas, como n&atilde;o ha
+eguaes no mundo...&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Par&aacute;mos. Tinhamos andado seguramente
+dois kilometros e n&atilde;o viamos agora sen&atilde;o
+a parte superior do <em>Club</em>, por traz
+do arvoredo,
+toda illuminada ao longe, como uma
+cousa phantastica.
+<br />
+
+<br />
+
+&Aacute; propor&ccedil;&atilde;o que nos afastavamos dos
+nossos companheiros a conversa tornava-se
+menos animada, e, por fim, j&aacute; seguiamos calados,
+como dois somnanbulos, no silencio da
+noite enluarada...
+<br />
+
+<br />
+
+Depois &eacute; que vimos a distancia que nos
+separava do centro da festa.
+<br />
+
+<br />
+
+Na volta encontr&aacute;mos outros pares em
+doce confabula&ccedil;&atilde;o, como n&oacute;s, longe do
+ruido.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p112">[112]</a></span>
+Despedi-me para tomar o trem, e ella, a
+dama dos olhos negros, disse-me um <em>Good
+bye</em>
+t&atilde;o sentido e t&atilde;o suggestivo que eu
+n&atilde;o tive
+geito sen&atilde;o perder o trem.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Good bye!</em> Nada mais doce e
+expressivo
+que estas simples palavras em bocca de americana.
+Uma ingleza talvez que as n&atilde;o pronuncie
+com tanta suavidade, com t&atilde;o sonora
+flex&atilde;o, com tanto sentimento. <em>Good
+bye</em>... Ha
+qualquer cousa de avelludado no timbre cantante
+com que ellas, as <em>miss</em> da
+Nova-Inglaterra
+dizem a sua phrase sacramental de
+despedida. O nosso <em>adeus</em>,
+ali&aacute;s t&atilde;o laconico e
+singelo n&atilde;o exprime tanto, n&atilde;o caracterisa
+t&atilde;o
+bem esse estado d'alma que se denomina&#8213;saudade.
+<br />
+
+<br />
+
+E, a proposito de&#8213;<em>Good bye</em>, vem-me
+a memoria
+um episodio de uma simplicidade primitiva
+e commovente que a minha indiscri&ccedil;&atilde;o
+de observador tagarella n&atilde;o deixa calar.
+<br />
+
+<br />
+
+Esque&ccedil;amos a rapariga d'olhos negros e
+narremol-o em toda a sua verdade.
+<br />
+
+<br />
+
+Entre os <a href="#e7">nossos companheiros</a> de
+viagem
+havia um, cuja vida estava cheia das mais interessantes
+<span class="pagenum">[113]</span>aventuras
+amorosas. Chamava-se
+Manoel..., o apellido de familia n&atilde;o nos interessa.
+O joven official de marinha, mo&ccedil;o de
+bella apparencia e excellente cora&ccedil;&atilde;o,
+apaixonara-se
+por uma Eva Smith muito conhecida
+nos caf&eacute;s-concertos de Nova-Orleans. At&eacute; aqui
+nada mais natural. Ella vira-o uma vez diante
+de um <em>bock</em>, seus olhos se
+encontraram, e,
+desde logo, Manoel ficou sendo a menina dos
+olhos de Eva. Amaram-se por muitos dias,
+gosaram todas as delicias imaginaveis, elle
+prohibiu-a de andar nos caf&eacute;s, ella prohibiu-o
+de olhar para outras raparigas, e assim corresponderam-se
+de commum accordo, sem que
+nunca houvesse entre elles a menor desaven&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Leva-me para o Brazil, Manoel... (ella
+s&oacute; o tratava por Manoel).
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim, filha, depois havemos de ver
+isso...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;I love you very much...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! yess... I think so...
+<br />
+
+<br />
+
+Viviam felizes como um casal de noivos,
+longe da cidade, n'um quarto d'hotel, onde
+havia do melhor vinho e da melhor s&ocirc;pa.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[114]</span>
+Um bello dia:
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Elle</em>&#8213;Olha, sabes? O
+<em>Barroso</em> suspende
+ferro amanh&atilde;.?.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Ella</em> (surprehendida)&#8213;What do you
+say?!
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Elle</em> (trincando um
+rabanete)&#8213;&Eacute; o que
+estou lhe dizendo. Amanh&atilde;, por estas horas,
+o Manoel vai sulcando o golfo do Mexico.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Ella</em> (cruzando o
+talher)&#8213;Impossivel!
+Por que j&aacute; n&atilde;o me disseste?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para te poupar o desgosto...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! n&atilde;o, meu querido Manoel, &eacute; historia,
+tu n&atilde;o v&aacute;s amanh&atilde;...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Assim &eacute; preciso. S&atilde;o cousas da vida...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, n&atilde;o, meu amor (<em>my
+love</em>) tu n&atilde;o
+v&aacute;s, porque eu n&atilde;o quero, do contrario
+fa&ccedil;o
+escandalo, est&aacute;s ouvindo?
+<br />
+
+<br />
+
+E, ao dizer estas palavras, a pobre Eva
+deixou cahir uma lagrima...
+<br />
+
+<br />
+
+Silencio. Manoel continuou a jantar sem
+interrup&ccedil;&atilde;o, muito calmo, com uma fleugma
+verdadeiramente britannica. Eva, coitada, abriu
+a solu&ccedil;ar baixinho, fungando a mais n&atilde;o
+poder, sem se aperceber de que estava fazendo
+de um guardanapo um len&ccedil;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[115]</span>
+<div class="dots"></div>
+
+<br />
+
+Ultimo acto, e aqui &eacute; que est&aacute; o aproposito.
+<br />
+
+<br />
+
+Scenario: O Mississipe pardo e murmurejante
+sob a luz moribunda do crepusculo.
+<br />
+
+<br />
+
+O <em>Almirante Barroso</em>, immovel sobre o
+rio, com a sua mastrea&ccedil;&atilde;o muito alta,
+fum&eacute;ga.
+Ouve-se barulho de cabrestante e de amarras
+cahindo no conv&eacute;z. Trem&uacute;la a bandeira brazileira
+na carangueija da mezena... Ultimos
+preparos.
+<br />
+
+<br />
+
+No c&aacute;es agita-se uma multid&atilde;o compacta.
+<br />
+
+<br />
+
+De repente surge &aacute; tona d'agua o cepo da
+ancora enlameada, pingando um lodo cinzento,
+e o navio come&ccedil;a a andar vagarosamente.
+<br />
+
+<br />
+
+A guarni&ccedil;&atilde;o s&oacute;be &aacute;s vergas,
+alastrando-se
+de um bordo e d'outro, e acena para terra ao
+som de&#8213;vivas!
+<br />
+
+<br />
+
+Agitam-se len&ccedil;os na praia, correspondendo
+&aacute;s sauda&ccedil;&otilde;es de bordo. Um fremito
+percorre os que est&atilde;o no cruzador...
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; o momento decisivo.
+<br />
+
+<br />
+
+Um grande rebocador, <em>The
+Warriaro</em>, vistoso
+e arquejante, acompanha as manobras do
+<span class="pagenum">[116]</span>
+<em>Barroso</em>, &aacute; distancia de
+uma amarra, solitario
+e sombrio, envolto n'uma nuvem de fuma&ccedil;a, e
+em cuja tolda assoma a figura desgrenhada de
+uma mulher.
+<br />
+
+<br />
+
+O cruzador segue &aacute; vante, magestoso e
+lento, descrevendo uma bella curva no espelho
+da agua, e torna a passar defronte da cidade,
+apressando a marcha.
+<br />
+
+<br />
+
+As religiosas das Ursulinas l&aacute; cima, nas
+janellinhas do convento, acenam tambem com
+os seus len&ccedil;os brancos.
+<br />
+
+<br />
+
+E, no silencio da tarde que a nevoa melancolisa,
+repercutem estas palavras tocadas de
+saudade:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;<em>Good bye!</em>
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;<em>Good bye!</em> repete a mesma voz
+avelludada
+como um carinho...
+<br />
+
+<br />
+
+Olh&aacute;mos uns para os outros commovidos.
+<br />
+
+<br />
+
+Quem seria que se lembrara de levar t&atilde;o
+perto sua despedida aos brazileiros?
+<br />
+
+<br />
+
+A voz era de mulher, n&atilde;o restava duvida...
+<br />
+
+<br />
+
+Com effeito, reconhecemos na figura desgrenhada
+que viamos a bordo do rebocador
+Eva Smith, a amante de Manoel..., a apaixonada
+<span class="pagenum">[117]</span>rapariga muito
+conhecida nos caf&eacute;s
+cantantes de Nova-Orleans, cujo enthusiasmo
+pelo nosso companheiro tinha chegado a seu
+auge.
+<br />
+
+<br />
+
+E quando o <em>Barroso</em> desappareceu na
+primeira
+curva do rio, ainda ouviamos, tomados
+de uma tristeza infinita, a mesma voz cheia de
+desespero, agora abafada pela distancia, solu&ccedil;ada
+e plangente:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;<em>Good bye</em>, Manoel!
+<em>Good bye!</em>...
+<br />
+
+<br />
+
+E dizer que a <em>Dama das Camelias</em>
+&eacute; uma
+excep&ccedil;&atilde;o na vida sentimental das filhas de
+Eva!...
+<br />
+
+<br />
+
+O nosso Armando, que ali&aacute;s nunca pretendeu
+regenerar ninguem, deixou se cahir
+n'uma saudade profunda, n'um longo adormecimento
+d'alma, de que s&oacute; accordou no alto
+mar, quando j&aacute; n&atilde;o se avistava um ponto siquer
+da costa americana.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>XI
+</h3>
+
+<br />
+
+Aben&ccedil;oada ilha de Cuba, direi muito
+pouco de teus aspectos, de teus costumes, de
+tua gente, de tua civilisa&ccedil;&atilde;o, mesmo porque a
+nossa demora em tua bizarra capital, foi curta
+como um sonho bom. Um epicurista diria que
+apenas tivemos tempo de mastigar um
+<em>havana</em>,
+d'esses que fabr&iacute;cas aos milheiros e que fazem
+a delicia dos consumidores do bom tabaco.
+<br />
+
+<br />
+
+Bellas cubanas d'olhos rasgados e sensuaes,
+acreditamos piamente nas coloridas
+descrip&ccedil;&otilde;es em que viajantes de todas as
+nacionalidades
+gabam as vossas preciosas qualidades
+physicas, os vossos olhos ardentes, os
+vossos cabellos negros, a vossa gra&ccedil;a incomparavel
+e seductora... Nos oito curtos dias que
+<span class="pagenum">[119]</span>
+pass&aacute;mos em vossa patria n&atilde;o tivemos a
+felicidade,
+a gostosa satisfa&ccedil;&atilde;o de vos contemplar
+sen&atilde;o de relance, por um acaso
+verdadeiramente providencial.
+<br />
+
+<br />
+
+Dizem outros que sois bellas e irresistiveis,
+que dansais divinamente o <em>salero</em>,
+que
+possu&iacute;s todos os encantos possiveis, e isto &eacute;
+quanto basta para que dispenseis o desmaiado
+elogio dos que n&atilde;o tiveram a fortuna de confabular
+comvosco.
+<br />
+
+<br />
+
+E o leitor, por sua vez, contente-se em
+saber que Havana, com suas <em>calles</em>
+irregulares,
+estreitas e pacatas, &eacute; uma pequena capital sem
+<em>capitaes</em>, sobriissima de
+divers&otilde;es populares,
+quasi monotona, mas relativamente adiantada.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o se lhe p&oacute;de negar certo progresso
+material e mesmo uma ponta de civilisa&ccedil;&atilde;o
+europ&eacute;a.
+<br />
+
+<br />
+
+Encontram-se nella importantes estabelecimentos
+commerciaes, grandes tabacarias que
+fornecem fumo e seus preparados a quasi
+todos os mercados do globo; excellentes botequins,
+poucos hoteis.
+<br />
+
+<br />
+
+O celebre professor Agassiz, no roteiro de
+<span class="pagenum">[120]</span>
+uma de suas excurs&otilde;es &aacute; America, disse que
+toda a architectura brazileira &eacute; <em>pesada e
+sombria</em>; eu accrescentarei que no mesmo
+genero s&atilde;o as edifica&ccedil;&otilde;es de Havana, o
+que
+n&atilde;o &eacute; para surprehender n'uma cidade antiga,
+onde se observa ainda o cunho tradicional
+da velha metropole hespanhola.
+<br />
+
+<br />
+
+Entre os monumentos archeologicos not&aacute;mos
+a secular cathedral onde (refere a chronica)
+est&atilde;o sepultados os ossos de Christov&atilde;o
+Colombo.
+<br />
+
+<br />
+
+Vimos uma estatua&#8213;a de Izabel a Catholica,
+n'um grande largo que tem o nome
+da santa rainha.
+<br />
+
+<br />
+
+Particularidade interessante: a popula&ccedil;&atilde;o
+d&aacute; a vida por gelados, em consequencia do
+calor excessivo e constante a que vive sujeita.
+<br />
+
+<br />
+
+Visit&aacute;mos tambem (ia-me esquecendo) os
+aqueductos que fornecem agua &aacute;
+popula&ccedil;&atilde;o da
+cidade. Todos elles v&atilde;o despejar n'um immenso
+reservatorio de pedra inteiri&ccedil;a (como
+os nossos diques da ilha das Cobras), cavado
+no s&oacute;lo, formando uma especie de tanque de
+grande capacidade para comportar muitos e
+<span class="pagenum">[121]</span>
+muitos metros cubicos d'agua crystalina. O
+sitio onde se acha essa importante obra de
+engenharia, lembra, de relance, a Tijuca com
+as suas cascatas despejadas do alto de rochedos
+inaccessiveis, com a extrema frescura de
+suas montanhas verde-escuras, debaixo de um
+c&eacute;o l&iacute;mpido e azul. &Eacute; um dos melhores
+passeios de Havana. A viagem at&eacute; ahi se faz
+em diligencias puxadas &aacute; mulas, arriscando-se
+o <em>touriste</em> a chegar sem bofes ao fim
+da jornada
+longa e sem o attractivo das bellas paisagens
+claras do Brazil.
+<br />
+
+<br />
+
+O sol &eacute; ardentissimo em Cuba, e, entretanto,
+as diligencias partem da cidade pela
+manh&atilde; e chegam &aacute;s onze horas ao reservatorio,
+onde n&atilde;o se encontram hoteis nem botequins.
+Sua-se por todos os p&oacute;ros e, no fim de contas,
+volta-se fatigado, com a curiosidade satisfeita,
+mas o corpo moido.
+<br />
+
+<br />
+
+O Passeio Publico... Oh! n&atilde;o falemos
+de cousas tristes. Quem j&aacute; viu o Passeio Publico
+da Bahia pode imaginar o de Havana:
+o mesmissimo cemiterio dezerto e sombrio, o
+mesmissimo abandono criminoso; arvores colossaes,
+<span class="pagenum">[122]</span>meia duzia de
+castanheiros decrepitos,
+e um silencio, um silencio absoluto de arripiar
+cabellos. Aos domingos costuma ir chorar
+p'r'ali uma banda militar. S&oacute; ent&atilde;o &eacute;
+que a
+gente se lembra que existe um Passeio Publico
+em Havana.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>La Havana</em>, de resto, &eacute; o
+que se p&oacute;de
+chamar uma cidade pacifica, socegada e sem
+attractivos. A impress&atilde;o que ella deixa no espirito
+de quem a viu exteriormente &eacute; de uma
+velha capital decadente, muito cheia de sol e
+poeira.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas, para que n&atilde;o fosse de todo ociosa e
+inutil a nossa visita &aacute; Cuba, aproveit&aacute;mos o
+ensejo de ver uma de suas mais pittorescas e
+curiosas cidades&#8213;Matanzas, onde cheg&aacute;mos
+depois de algumas horas de viagem costeira.
+Ahi nos esperava o vice-consul do Brazil,
+excellente cavalheiro, cujo primeiro cuidado
+foi p&ocirc;r &aacute; nossa disposi&ccedil;&atilde;o
+vinte e tantos carros
+de pra&ccedil;a a fim de que n&atilde;o perdessemos
+opportunidade
+de contemplar o magestoso panorama
+do valle de Yumiri, um dos mais bellos do
+mundo, cerca de uma legua distante da cidade.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[123]</span> &#8213;Os senhores
+v&atilde;o v&ecirc;r um bellissimo
+trecho da natureza americana, como talvez
+n&atilde;o haja igual no Brazil, preveniu-nos o
+consul. &Eacute; uma maravilha!
+<br />
+
+<br />
+
+E l&aacute; fomos, subindo e descendo morros,
+completamente alheios &aacute; topographia do paiz,
+cheia d'altibaixos, l&aacute; fomos caminho de Monserrate,
+n'uma disparada unica por montes e
+valles, aos solavancos.
+<br />
+
+<br />
+
+Era quasi noite quando parou o ultimo
+carro, e corremos logo &aacute; tal &laquo;maravilha&raquo;
+que
+o diplomata recommendara.
+<br />
+
+<br />
+
+Aqui t&ecirc;m os aguarellistas <em>motivo
+sensacional</em>
+para uma t&eacute;la rembrannesca:
+<br />
+
+<br />
+
+Crepusculo... C&eacute;o pardo com uns tons de
+azinhavre muito vagos, aqui, ali, bordando
+nuvens... Embaixo a longa extens&atilde;o concava
+do valle afundando-se como o leito de um
+grande mar, que tivesse desapparecido, verde
+escuro, indistincto quasi a essa hora do dia.
+<br />
+
+<br />
+
+Defronte, no segundo plano, a sombra
+opaca de uma cordilheira,&#8213;larga faixa de
+velludo cinzento&#8213;limita o scenario, confundindo-se
+com as tintas indecisas da planura
+<span class="pagenum"><a name="p124">[124]</a></span>
+sideral. E, sobre tudo isso, uma tristeza religiosa,
+um vago silencio de abysmo...
+<br />
+
+<br />
+
+V&ecirc;-se muito ao longe, de um lado da pa&iacute;sagem,
+rasgando o fundo nebuloso do quadro,
+uma nodoa escarlate, ao comprido, muito desenhada,
+muito escandalosa <a href="#e8">mesmo em</a> meio
+de
+toda essa harmonia de c&ocirc;res esmaecidas...
+<br />
+
+<br />
+
+Ha muito que o sol tombou na sua eterna
+circumvolu&ccedil;&atilde;o diurna. A sombra que se
+alastra, a pleiada phosphorecente dos pyrilampos,
+o silencio absoluto que nos cerca&#8213;tudo
+inspira respeito: e a gente esquece preconceitos
+e doutrinas para, instinctamente,
+levantar uma prece &aacute; mysteriosa For&ccedil;a que rege
+o Universo...
+<br />
+
+<br />
+
+Existe no alto da montanha a modesta
+capella de N. S. de Monserrate, sempre
+aberta aos crentes, muito branca na sua
+despreten&ccedil;&atilde;o
+de nicho d'aldeia, com a sua torresinha
+triangular onde v&atilde;o fazer ninho, no inverno,
+as andorinhas do valle.
+<br />
+
+<br />
+
+Cahio de todo a noite, e, no silencio da
+estrada que descia em broncas sinuosidades,
+regress&aacute;mos para o hotel, cujo sal&atilde;o
+pr&iacute;ncipal
+<span class="pagenum">[125]</span>
+tinha agora o aspecto sumptuoso (dados os
+devidos descontos...) d'um refeitorio de convento
+em dia de festa paschoal: meza lauta,
+vinte variedades de vinho excellentes e tudo
+mais que se faz mister n'um banquete finamente
+organisado &aacute; moderna.
+<br />
+
+<br />
+
+O resto &eacute; facil de imaginar: brindes,
+hurrahs, charutos finissimos... e um somno
+reparador obrigado a pezadelos...
+<br />
+
+<br />
+
+Na manh&atilde; seguinte acord&aacute;mos para outro
+passeio n&atilde;o menos agradavel. Era preciso
+aproveitar o tempo do melhor modo possivel.
+Cometteriamos indisculpavel falta si n&atilde;o fossemos
+ver as <em>Cuevas de Bella-mar</em>, essas
+caprichosas
+grutas subterraneas, verdadeiros
+palacios de crystal pur&iacute;ssimo, que se abrem terra
+dentro em toda a opulencia de suas maravilhosas
+stalagmites e stalactites. Era mais uma
+deliciosa surpreza que nos estava reservada.
+Ir &aacute; Matanzas e n&atilde;o ver as
+<em>Cuevas</em> equivale a ir
+a Roma e n&atilde;o ver o Papa. Cumprimos o nosso
+dever de viajantes, que n&atilde;o se contentam com
+a vaidade infantil de pisar solo extrangeiro.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Cuevas de Bella-mar</em>... Entre os
+numerosos
+<span class="pagenum"><a name="p126">[126]</a></span>
+phenomenos que a geologia registra muitos
+ha que ainda est&atilde;o por ser lucidamente explicados,
+por sua propria natureza complexa e
+profundamente scientifica.
+<br />
+
+<br />
+
+No terreno da geologia subterranea, com
+especialidade, innumeros s&atilde;o os problemas a
+destrin&ccedil;ar, e um dos mais curiosos e interessantes
+&eacute;, sem duvida, a forma&ccedil;&atilde;o das
+cavernas,
+as excava&ccedil;&otilde;es produzidas por agentes externos,
+pela infiltra&ccedil;&atilde;o natural da agua no solo
+calcareo, formando essas caprichosas pyramides
+de crystal, que a sciencia denomina
+<em>stalagmites</em> e
+<em>statactites</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+As <em>Cuevas de Bella-mar</em> formam um dos
+mais bellos panoramas que se podem imaginar.
+<br />
+
+<br />
+
+Figure-se um grande tunel aberto no subsolo
+e de cuja abobada pendem crystaes multiformes,
+cada qual o mais surprehendente, alguns
+de tamanho admiravel, emquanto do ch&atilde;o
+constantemente humido sobem outros de egual
+estructura, ponteagudos quasi sempre, formando,
+&aacute;s vezes, columnatas brilhantes, <a href="#e9">esplendidos
+capiteis</a>, t&atilde;o caprichosamente dispostos
+que dir-se-iam architectados por m&atilde;os humanas.
+<span class="pagenum">[127]</span>A caverna
+prolonga-se a perder de vista,
+deslumbrante como um palacio encantado, &aacute;
+luz dos archotes, porque &eacute; impossivel percorrel-a
+sem luz, e a cada passo uma nova exclama&ccedil;&atilde;o
+de surpreza irrompe da bocca do observador,
+espontanea e enthusiastica.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute;, com effeito, encantador o aspecto das
+<em>Cuevas</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+A athmosphera &eacute; quasi insupportavel,
+apezar da humidade que se reflecte das paredes
+da gruta: um calor medonho de fornalha acceza!
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; expressamente prohibido tocar nos
+crystaes. Um guarda, empunhando um archote,
+acompanha o visitante, recommendando-lhe
+de espa&ccedil;o a espa&ccedil;o, todo cuidado, toda
+cautela para que n&atilde;o d&ecirc; alguma
+cabe&ccedil;ada...
+<br />
+
+<br />
+
+Desta vez tinhamos sabido preencher o
+tempo utilmente, compensando as horas perdidas
+em Havana.
+<br />
+
+<br />
+
+N'esse mesmo dia o <em>Barroso</em> fez-se de
+marcha
+para o <em>paiz dos yankees</em>, para
+Nova-York,
+a bella e maravilhosa cidade que o consenso
+universal alcunhou de Londres americana.
+<br />
+
+<br />
+
+E... foi um dia a ilha de Cuba...<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>XII
+</h3>
+
+<br />
+
+...Manh&atilde; de inverno, fria e nebulosa,
+sem uma restea de luz confortavel. Estava
+interdicta a nossa curiosidade, pois que amanhecemos
+defronte da bahia de Hampton
+Road, a essa hora coberta de cerra&ccedil;&atilde;o, cheia
+de nevoeiro, impenetravel. N&atilde;o podiamos,
+que pena! ver Nova-York de f&oacute;ra, do mar,
+abrangel-a toda com um golpe de vista,
+stereotypal-a na imagina&ccedil;&atilde;o para todo o resto
+da nossa vida. A grande cidade cosmopolita
+dos trens elevados e das pontes colossaes
+dormia o somno beatifico da madrugada, envolvida
+n'um largo capuz de neve atrav&eacute;z do
+qual apenas se podia ouvir a sineta de invisiveis
+embarca&ccedil;&otilde;es que bordejavam demandando
+<span class="pagenum">[129]</span>
+o porto. Adivinhavamos que muitos vapores
+transatlanticos aguardavam, como n&oacute;s, o momento
+azado para fazerem sua entrada.
+<br />
+
+<br />
+
+Felizmente n&atilde;o durou muito esse estado
+quasi afflictivo. Por traz do nevoeiro compacto
+e lugubre os primeiros clar&otilde;es da
+manh&atilde; surgiram como uma appari&ccedil;&atilde;o
+bemdita,
+rompendo a monotonia branca da atmosphera,
+e pouco a pouco, &aacute; propor&ccedil;&atilde;o que a
+neve ia
+se rarefazendo, o <em>Barroso</em> tomava
+chegada
+muito lento, e Nova-York destoucava-se n'um
+fundo luminoso, batida pelas primeiras
+irradia&ccedil;&otilde;es
+do sol, ruidosa e alvi&ccedil;areira, toda
+cheia de brilhos, como um quadro de malacacheta.
+<br />
+
+<br />
+
+Onze horas. C&eacute;o limpo e mar ch&atilde;o&#8213;como
+se diz nos diarios nauticos. Nem mais
+um floco de neve, tudo luz agora, e j&aacute; podemos
+ver cheios da mais intima satisfa&ccedil;&atilde;o, com uma
+surpreza ingenua no olhar, o aspecto risonho
+da bahia cortada de embarca&ccedil;&otilde;es &aacute; vela
+e &aacute;
+vapor, com os seus longes de verdura matizando
+perfis de montanhas indistinctas, muito
+descoberta, sem o sombrio magestoso das
+<span class="pagenum">[130]</span>
+paisagens americanas do sul, bella na sua
+simplicidade natural, e, sobretudo, muito clara
+&aacute;quella hora.
+<br />
+
+<br />
+
+&Aacute; direita destacava, &aacute; bocca do Hudson,
+a grande, a enorme, a colossal ponte que liga
+Brooklin &aacute; Nova-York lembrando-nos que
+realmente tinhamos chegado outra vez &aacute; terra
+feliz dos <em>yankees</em>, e d'outro lado
+erguia-se,
+<em>illuminando o mundo</em>, a estatua da
+liberdade,
+bello symbolo de bronze, cujo pedestal occupa
+toda a ilha de Bedloe.
+<br />
+
+<br />
+
+Era um dia de domingo, um desses dias
+de expans&atilde;o popular, em que, no mar como
+em terra, ha quasi sempre uma alegria nova
+entre os que passaram a semana a trabalhar,
+a lutar pela vida incansavelmente com a consciencia
+tranquilla de quem vive honestamente
+&aacute; custa do proprio esfor&ccedil;o. A bahia de Nova-York
+tinha o festivo aspecto de um dia de regatas.
+Esquadrilhas de hiates, com suas velas
+quadrangulares, muito elegantes e asseiados,
+cruzavam na barra, aproveitando a fresca do
+mar. Passavam barcas de recreio, embandeiradas,
+conduzindo bandas de musica, que tocavam
+<span class="pagenum">[131]</span>alegremente o <em>Yankee
+doodle</em>.
+&Aacute; cerra&ccedil;&atilde;o
+matinal succedera um sol frio d'inverno, que
+dava vontade a gente improvisar pic-nics &aacute;
+beira-mar, f&oacute;ra da cidade, longe dos botequins
+e das <em>brasseries</em>, nalgum verde
+recanto onde
+houvesse bastante quieta&ccedil;&atilde;o e muita agua,
+n'um logarejo calmo de suburbio d'onde se
+podesse ver ao longe, mas muito ao longe, a
+miniatura da cidade soturna e cansada...
+<br />
+
+<br />
+
+O <em>Barroso</em> tinha fundeado em frente
+&aacute;
+Battery Square e com pouco recebia a visita
+official do Consul brazileiro e d'outras autoridades
+do paiz, sendo para notar que uma das
+primeiras pessoas que pizaram a bordo foi o
+reporter do <em>New-York Herald</em>, a
+importante
+folha americana tradicionalmente conhecida
+no mundo jornalistico. Um cavalheiro
+<em>irreprochable</em>,
+de cartola e sobrecasaca de panno,
+bem apessoado, bigode louro e olhos azues,
+verdadeiro typo de <em>yankee</em>, amavel e
+expansivo.
+&Eacute; escusado dizer, n'um parenthesis, que no
+dia seguinte a kilometrica folha descrevia,
+com uma precis&atilde;o photographica, o cruzador
+brazileiro, sem esquecer mesmo um carneiro
+<span class="pagenum"><a name="p132">[132]</a></span>
+de estima que traziamos e que o espirituoso
+noticiarista incluia na lota&ccedil;&atilde;o do navio,
+emprestando-lhe
+qualidades invejaveis. Creio at&eacute;
+que o pobre lanigero figurou na folha
+<em>yankee</em>
+entre os her&oacute;es de Humayt&aacute;!
+<br />
+
+<br />
+
+<a href="#e10">Satisfeitas as</a> formalidades
+officiaes da
+chegada, trocadas as salvas do estylo, nada
+mais nos restava sen&atilde;o ver de perto a bella
+cidade.
+<br />
+
+<br />
+
+Nova-York estava quieta, muitissimo
+quieta, com as suas pra&ccedil;as dezertas, com os
+seus parques silenciosos, fechado o commercio
+a ponto de n&atilde;o se encontrar aberta uma s&oacute;
+tabacaria, siquer um botequim. Isso, por&eacute;m,
+n&atilde;o nos causou estranheza. Sabiamos que o
+domingo nos Estados-Unidos &eacute; um dia completamente
+inutil, um dia triste para os centros
+populosos. Toda a gente dezerta para os arrabaldes
+em seus trajes domingueiros. As ruas,
+muito largas e compridas, permanecem ermas
+e cheias de silencio, entregues &aacute; vigilancia
+dos <em>policimen</em>.
+Todas as casas commerciaes,
+todos os armazens, todas as fabricas, todos
+os estabelecimentos publicos conservam-se fechados
+<span class="pagenum">[133]</span>e taciturnos, como
+n'uma cidade abandonada.
+<br />
+
+<br />
+
+Nova-York, a opulenta e alegre cidade cosmopol&iacute;ta,
+tinha esguichado para New-Jersey,
+para Brooklin e para Conney-Island. Toda
+aquella multid&atilde;o laboriosa e ourisedenta, que
+nos dias de trabalho se atropella na Broadway,
+bebia e cantava nos arrabaldes, expandia-se
+largamente nos hoteis ambulantes e nas
+cervejarias suburbanas, folgava e ria com
+desespero, sem pensar na segunda-feira, sem
+se inquietar com o futuro.
+<br />
+
+<br />
+
+Por isso &eacute; que n&atilde;o se deparava ninguem
+nas ruas, por isso n&atilde;o se ouvia o barulho
+infernal das carro&ccedil;as e das carruagens.
+<br />
+
+<br />
+
+O domingo no paiz dos <em>yankees</em>
+&eacute; para
+se divertir, para se descansar, para se jogar
+o <em>criket</em>, para se passeiar a
+cavallo, para se
+apostar regatas, de modo que o protestantismo
+americano nada tem de commum com o protestantismo
+britannico.
+<br />
+
+<br />
+
+Emquanto nos domingos (a dar credito
+na chronica) o inglez reza a Biblia no interior
+de seu <em>home</em>, em companhia de sua
+mulher e
+<span class="pagenum">[134]</span>
+de seus filhos, o americano, ou melhor o
+<em>yankee</em>
+exercita os musculos e bebe cerveja f&oacute;ra da
+cidade.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o admira semelhante
+discordancia,
+quando &eacute; sabido que a religi&atilde;o protestante
+subdivide-se em milhares de seitas. A este
+respeito leiam-se os bellos capitulos em que
+Mr. Laboulaye (Ed. Lef&egrave;vre), estuda, com uma
+gra&ccedil;a especial e encantadora, cheia de humorismo
+e de senso critico, as institui&ccedil;&otilde;es religiosas
+na America do Norte. <em>Paris en
+Am&eacute;rique</em>
+&eacute; um dos livros mais curiosos e originaes
+que eu tenho lido sobre os Estados-Unidos.
+<br />
+
+<br />
+
+Em taes condi&ccedil;&otilde;es, extrangeiros no meio
+de uma cidade dezerta, imagine-se o nosso
+embara&ccedil;o, a triste situa&ccedil;&atilde;o em que nos
+collocava
+a curiosidade.
+<br />
+
+<br />
+
+Os rarissimos transeuntes que porventura
+encontravamos, marinheiros ou vagabundos
+que desciam para o caes da Battery, olhavam-nos
+com um ar de surpreza, embasbacados,
+medindo-nos d'alto a baixo, com si fossemos
+uns verdadeiros botocudos de tanga e cocar.
+<br />
+
+<br />
+
+Entretanto, n&atilde;o perdemos a precisa calma,
+<span class="pagenum">[135]</span>
+e, sem mais tirte nem guarte, salt&aacute;mos dentro
+do primeiro vehiculo que passava, uma velha
+carruagem de aluguel, cujo boleeiro custou
+dev&eacute;ras a comprehender que desejavamos fazer
+um passeio ao redor da cidade.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! yess! Yess!...
+<br />
+
+<br />
+
+E disparou a trote largo por aquellas ruas
+f&oacute;ra.
+<br />
+
+<br />
+
+De modo que n'esse dia vimos Nova-York
+<em>&agrave; vol d'oiseau</em> e por um
+prisma de tristeza e
+monotonia.
+<br />
+
+<br />
+
+Em compensa&ccedil;&atilde;o a nossa demora n'aquella
+cidade ia ser mais longa que em qualquer dos
+outros portos do intinerario.
+<br />
+
+<br />
+
+No dia immediato, uma segunda-feira,
+recome&ccedil;&aacute;mos, sem perda de tempo, a nossa
+tarefa de extrangeiros em paiz desconhecido.
+<br />
+
+<br />
+
+Eu, por mim, confesso que Nova-York
+produzia-me vertigens. O desejo immoderado
+de tudo v&ecirc;r, de tudo observar, de tudo saber,
+trazia-me n'uma inquieta&ccedil;&atilde;o continua, tirava-me
+o somno, arrebatava-me &aacute; todas as
+commodidades, torturava-me o espirito de
+analyse. Uma cousa, porem, devo dizer: raro
+<span class="pagenum">[136]</span>
+&eacute; o official de marinha, mormente da marinha
+brazileira, que sabe aproveitar o tempo n'essas
+viagens ao extrangeiro. Aproveitar o tempo,
+entendamo-nos, as horas de folga. Preferiamos
+a convivencia dos caf&eacute;s-cantantes aos passeios
+uteis e ao mesmo tempo agradaveis. Um extrangeiro
+j&aacute; teve a coragem de dizer que os
+officiaes de marinha braz&iacute;leiros levavam o
+tempo, na Europa, a frequentar os
+<em>conventilhos</em>
+e os caf&eacute;s-cantantes. At&eacute; certo ponto
+isso &eacute; verdade.
+<br />
+
+<br />
+
+Em geral elles pouco conhecem dos paizes
+que t&ecirc;m visitado, a n&atilde;o ser em assumptos de
+sua profiss&atilde;o, e as suas narrativas entre amigos
+limitam-se quasi sempre a recorda&ccedil;&otilde;es de
+aventuras amorosas.
+<br />
+
+<br />
+
+Tambem s&atilde;o t&atilde;o curtas e t&atilde;o raras
+essas
+viagens...
+<br />
+
+<br />
+
+Quando se tem a felicidade relativa de
+viajar sob o commando de um official illustrado
+e curioso como o Sr. Saldanha da Gama, cujos
+conhecimentos n&atilde;o se restringem &aacute;
+navega&ccedil;&atilde;o
+e &aacute; artilharia, o aproveitamento &eacute; certo. Elle
+n&atilde;o &eacute; s&oacute;mente um superior
+hierarchico&#8213;faz-se <span class="pagenum"><a name="p137">[137]</a></span>mestre
+e sabe proporcionar aos seus
+subalternos a maior somma possivel de excurs&otilde;es
+uteis e proveitosas.
+<br />
+
+<br />
+
+Uma das nossas primeiras visitas foi &aacute;
+estatua da Liberdade, na ilha de Bedloe.
+<br />
+
+<br />
+
+O importante monumento ainda n&atilde;o estava
+completamente prompto, mas j&aacute; se podia
+fazer uma id&eacute;a do que seria elle depois de
+concluido. O pedestal, de granito, occupa
+quasi toda a ilhota e mede, approximadamente,
+15 a 20 metros de altura, 154 p&eacute;s, desde o <a href="#e11">nivel</a>
+do mar, formando uma especie de casamata
+cuja utilidade n&atilde;o souberam nos dizer. Sobre
+o pedestal ergue-se a estatua, em bronze, armada
+por meio de vigamentos de ferro, pois
+que n&atilde;o &eacute; inteiri&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+Conta-se que dentro d'ella realisara-se,
+em Pariz, um magnifico banquete de 12 talheres,
+presidido por V. Hugo.
+<br />
+
+<br />
+
+Como se sabe, a estatua foi offerecida aos
+Estados-Unidos pela Fran&ccedil;a em agradecimento
+dos servi&ccedil;os prestados por esta na&ccedil;&atilde;o
+&aacute; sua
+amiga na guerra franco-prussiana.
+<br />
+
+<br />
+
+O pedestal foi mandado construir &aacute; custa
+<span class="pagenum">[138]</span>
+de subscrip&ccedil;&otilde;es populares, que em pouco
+tempo attingiram a uma somma elevadissima.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o ha por ahi quem n&atilde;o tenha ouvido
+falar na famosa ponte de Brooklin (<em>Brooklin
+Bridge</em>), uma das maravilhas da engenharia
+moderna, que liga a ilha de Brooklin &aacute; Nova
+York.
+<br />
+
+<br />
+
+Esta cidade, incontestavelmente o primeiro
+emporio commercial da America e uma
+das mais populosas do mundo, fica situada
+n'uma grande ilha formada por dois bra&ccedil;os do
+rio Hudson. De um lado, &aacute; direita de quem
+olha para o mar, um dos deltas, o North River,
+separa-a de New-Jersey, e &aacute; esquerda o East
+River separa-a de Brooklin. A travessia para
+qualquer desses pontos faz-se rapidamente, em
+barcas que a todo instante largam de Nova-York,
+e por pre&ccedil;o assaz diminuto.
+<br />
+
+<br />
+
+A principio, quando se projectou levantar
+a grande ponte, surgiram mil difficuldades.
+<br />
+
+<br />
+
+Parecia impossivel que se podesse levar a
+effeito obra t&atilde;o arriscada e dispendiosa. Como
+assentar as bases do colosso n'uma profundidade
+<span class="pagenum">[139]</span>de mil e
+seiscentos p&eacute;s, que &eacute; esta a
+altura do rio na sua parte mais estreita?
+<br />
+
+<br />
+
+Demais era preciso n&atilde;o prejudicar a
+navega&ccedil;&atilde;o,
+construindo a ponte muito acima do
+nivel do mar de modo a dar passagem livre &aacute;s
+embarca&ccedil;&otilde;es de commercio.
+<br />
+
+<br />
+
+Com tudo isso os americanos metteram
+m&atilde;os &aacute; obra e dentro de alguns annos de trabalho
+assiduo os Estados-Unidos contavam
+mais uma gloria.
+<br />
+
+<br />
+
+O comprimento total d'essa magnifica
+ponte &eacute; de uma milha pouco mais ou menos.
+As torres onde ella est&aacute; suspensa erguem-se a
+268 p&eacute;s acima da pr&ecirc;a-mar, de forma que as
+maiores embarca&ccedil;&otilde;es de commercio t&ecirc;m
+passagem
+facil por baixo.
+<br />
+
+<br />
+
+O <em>Barroso</em>, cuja guinda era uma das
+mais
+altas que se tem visto em navio de guerra,
+apenas foi obrigado a &laquo;acachapar&raquo; os
+mastar&eacute;os
+de joanetes.
+<br />
+
+<br />
+
+Atravessa-se a ponte em vagons movidos
+&aacute; electricidade, em carros de pra&ccedil;a ou mesmo
+a p&eacute;. Paga-se um centimo para atravessal-a
+a p&eacute;!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[140]</span>
+O movimento &eacute; espantoso. Cruzam-se
+diariamente as duas popula&ccedil;&otilde;es de Nova-York
+e de Brooklin, em carros em wagons e a p&eacute;,
+sem risco de se atropellar, por que a cada
+especie de vehiculos corresponde uma passagem
+independente e adequada. Os que transitam
+&aacute; p&eacute; t&ecirc;m tambem o seu caminho livre e,
+por consequencia, n&atilde;o correm o perigo de
+ser pisados pelos carros.
+<br />
+
+<br />
+
+&Aacute; noite o aspecto da ponte &eacute; feerico.
+Logo &aacute;s seis horas da tarde come&ccedil;a a
+illumina&ccedil;&atilde;o
+em toda ella, de um lado e d'outro,
+destacando-se em alguns pontos f&oacute;cos de luz
+electrica, enormes bot&otilde;es de brilhante que
+encandeiam a vista.
+<br />
+
+<br />
+
+Vista do mar, ent&atilde;o, o effeito &eacute; deslumbrante!
+Lembra as lendarias pontes de Veneza
+cortando canaes, projectando n'agua seus
+reflexos luminosos.
+<br />
+
+<br />
+
+Um dos meus divertimentos predilectos
+era contemplar Nova-York do alto. Muitas
+vezes punha-me l&aacute; de cima da ponte de
+Brooklin, bra&ccedil;os cruzados, n'um extase de
+fetiche, a olhar para um e outro lado, acompanhando <span class="pagenum">[141]</span>com a vista a vela das
+embarca&ccedil;&otilde;es
+que singravam no rio, pequeninos, microscopicas.
+<br />
+
+<br />
+
+E punha-me, nessa embriaguez do grandioso
+a pensar no progresso dos Estados-Unidos,
+d'esse paiz modelo, onde tudo move-se
+por meio de electricidade e vapor, onde tudo
+&eacute; feito &aacute;s carreiras, n'um abrir e fechar
+d'olhos,
+sem a menor perda de tempo; vinham-me a
+imagina&ccedil;&atilde;o escandecida as descobertas de
+Franklin, de Fulton e de Edison, as maravilhosas
+experiencias sobre o telegrapho, sobre
+o telephone e sobre o phonographo, e eu
+repetia com os meus bot&otilde;es, mergulhando o
+olhar na distancia, abarcando a cidade inteira:&#8213;Grande
+paiz! Grande povo, gente feliz,
+que sabe comprehender a vida e amar a patria!
+<br />
+
+<br />
+
+Como era pequeno o meu paiz, com toda a
+grandeza de suas montanhas e de seus rios,
+diante do colosso americano do norte!
+<br />
+
+<br />
+
+Cahia-me n'alma uma tristeza de desterrado,
+uma profunda e incomprehensivel melancolia,
+feita ao mesmo tempo de saudade e
+descren&ccedil;a...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[142]</span>
+Incansaveis os americanos! Nenhum povo
+os excede em temeridade e perseveran&ccedil;a. Sequiosos
+de glorias para o seu paiz, &aacute;vidos de
+emprehendimentos que causem assombro ao
+mundo, elles tem uma grande qualidade&#8213;o
+amor &aacute; sua terra, o nativismo instinctivo, o
+<em>chauvinismo</em> (deixem passar o termo)
+incondicional,
+absoluto, e &eacute; for&ccedil;a confessar que,
+sem essa qualidade, sem esse egoismo patriotico,
+as na&ccedil;&otilde;es vivem, mas n&atilde;o progridem.
+<br />
+
+<br />
+
+Ainda ultimamente a camara do Estado
+de Nova-York approvou, por unanimidade, o
+<em>bill</em> que propoz a
+construc&ccedil;&atilde;o de uma nova
+ponte de ferro sobre o East River, passando
+sobre a ilha de Blackorel, que ligue Nova-York
+&aacute; Long-Island, e que ter&aacute; seis mil
+metros de comprimento e 46 de altura, com
+uma resistencia de 65 kilometros de velocidade
+para os trens que a devem atravessar.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; o caso de dizer, parodiando o outro: si
+eu n&atilde;o fosse brazileiro, desejaria ser americano
+do norte...<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>XIII
+</h3>
+
+<br />
+
+Nunca fui a Londres, apezar do grande e
+impaciente desejo que tenho de visitar a sombria
+capital britannica, mas estou bem certo
+de que Nova-York em muitos respeitos pode
+ser denominada a Londres americana.
+<br />
+
+<br />
+
+Toda nova, toda alegre e pittoresca, sem
+os bairros immundos que o Tamisa lambe com
+as suas aguas putridas, onde boiam cadaveres
+em decomposi&ccedil;&atilde;o, illuminada por um sol que
+d&aacute; vida e conf&oacute;rta, a nova Londres tem um
+cunho especial de cidade latina. Como em
+Londres, tudo n'ella &eacute; grandioso e opulento,
+desde a edifica&ccedil;&atilde;o igual, solida e elegante,
+at&eacute;
+&aacute;s festividades publicas e &aacute;s
+institui&ccedil;&otilde;es nacionaes.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[146]</span>
+As ruas, longas e direitas, cruzam-se geometricamente
+e distinguem-se pela numera&ccedil;&atilde;o
+(<em>Fourteen street</em>,
+<em>Fifteen street</em> etc).
+<br />
+
+<br />
+
+A Broadway &eacute; o centro commercial, a rua
+de maior movimento quotidiano,&#8213;equivale &aacute;
+City de Londres.
+<br />
+
+<br />
+
+Ahi &eacute; que os carros se atropellam, que os
+transeuntes se abalroam n'uma confus&atilde;o burlesca
+e indescriptivel de que a nossa rua do
+Ouvidor n&atilde;o d&aacute; siquer a menor id&eacute;a.
+Negociantes,
+capitalistas, banqueiros, correctores,
+operarios e vagabundos, acotovelam-se, empurram-se,
+pisam-se os callos e v&atilde;o seguindo
+adiante, sem olhar p'ra traz, carregados de embrulhos,
+suando no ver&atilde;o, que costuma ser
+muito forte em Nova-York. A gente v&ecirc;-se
+abarbada para romper aquella multid&atilde;o cerrada,
+compacta e egoista.
+<br />
+
+<br />
+
+Um cosmopolitismo sem igual em parte
+alguma.
+<br />
+
+<br />
+
+Americanos, inglezes, hespanhoes, francezes,
+italianos, allem&atilde;es, gente de todas as
+nacionalidades, at&eacute; turcos com os seus costumes
+exquisitos, confundem-se nas ruas de Nova
+<span class="pagenum">[147]</span>
+York, enchendo-as em ondas successivas e
+tumultuosas, como em dias de carnaval no Rio.
+Parece mesmo, &aacute; primeira vista, que o elemento
+extrangeiro absorve o nacional, t&atilde;o
+numeroso &eacute; aquelle. Custa, por&eacute;m, a encontrar-se
+um portuguez ou um brazileiro. Em
+compensa&ccedil;&atilde;o a ra&ccedil;a latina &eacute;
+abundantemente
+representada por hespanhoes da Europa e da
+America. Os mexicanos, apezar da natural
+e occulta ogerisa que t&ecirc;m aos americanos
+dos Estados-Unidos, encontram-se a cada
+passo e distinguem-se logo pelo seu typo original:
+estatura m&eacute;dia, rosto anguloso e abolachado,
+moreno, cabello duro, olhos pequenos;
+amaveis. N&atilde;o perdem occasi&atilde;o de dizer mal
+dos americanos, que, entretanto, dedicam-lhes
+uma affei&ccedil;&atilde;o especial.
+<br />
+
+<br />
+
+Uma das cousas mais curiosas de Nova-York
+s&atilde;o os trens elevados (<em>elevated rail
+road</em>), a complicada r&ecirc;de de linhas ferreas
+que rodeia a cidade passando em muitos
+pontos por cima da casaria, atravessando ruas
+inteiras sobre grandes columnas resistentes de
+ferro. Partem todas da Battrey Square, ponto
+<span class="pagenum">[148]</span>
+mais meridional da ilha de Manhattan (onde
+fica a cidade) e v&atilde;o terminar na sua extremidade
+septentrional, em Barlem River. Segundo
+o relatorio apresentado pela <em>New-York
+Elevated</em>,
+o numero de viajantes transportados em
+1878 por essa linha foi de 107.079.625. (Sempre
+a estatistica como base fundamental do progresso
+entre os americanos!). A linha inteira,
+que tem seguramente trinta milhas, estava
+concluida at&eacute; Harlem. Os moradores das
+margens d'essas estradas de ferro aereas queixavam-se
+continuamente da visinhan&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+Pod&eacute;ra! Ruido, fumo e fagulhas a toda
+hora sobre a cabe&ccedil;a, n&atilde;o s&atilde;o cousas
+que
+agradem a ninguem. A pobre gente fica em
+risco de perder o juizo, pois n&atilde;o!
+<br />
+
+<br />
+
+Felizmente, o que ali&aacute;s &eacute; muito admiravel,
+os desastres reproduzem-se rarissimas vezes.
+&Eacute; que o servi&ccedil;o faz-se com inexcedivel
+perfei&ccedil;&atilde;o
+e as posturas municipaes verificam-se
+enexoravelmente.
+<br />
+
+<br />
+
+As esta&ccedil;&otilde;es s&atilde;o numeradas, como as
+ruas:
+<em>Primeira
+Esta&ccedil;&atilde;o</em>,
+<em>Segunda
+Esta&ccedil;&atilde;o</em>, etc.
+<br />
+
+<br />
+
+Os passageiros desembarcam em plataformas
+<span class="pagenum">[149]</span>
+de ferro gradeadas, que communicam
+com as esta&ccedil;&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+O espirito inventivo dos americanos revela-se
+a cada passo nas grandes cidades dos
+Estados-Unidos. Em todos os estabelecimentos,
+em todos os ramos da actividade
+publica se encontra uma applica&ccedil;&atilde;o nova de
+mecanica industrial, um artificio de utilidade
+pratica, economico e curioso, uma inven&ccedil;&atilde;o
+engenhosa...
+<br />
+
+<br />
+
+Aproveitar o tempo e economisar os
+<em>dollars</em>&#8213;tal
+&eacute; o principio fundamental da sabedoria
+<em>yankee</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Um domingo em Coney-Island: nada
+mais pittoresco e hilariante, nada mais suggestivo...
+<br />
+
+<br />
+
+Coney-Island aos domingos &eacute; para os
+americanos o que o Bois &eacute; para os francezes e
+Hyde Park &eacute; para os inglezes&#8213;um interessantissimo
+microcosmo de incrivel bizarraria, cheio
+do vago rumor de uma multid&atilde;o que passeia,
+que canta, que ri e que bebe ao ar
+livre, n'um
+<em>p&ecirc;le-m&ecirc;le</em>
+vertiginoso, com as suas
+<span class="pagenum"><a name="p150">[150]</a></span>
+<em>toilettes</em> claras, com o seu bello ar
+despretencioso,
+com os seus gestos largos de quem
+respira uma atmosphera leve e pura.
+<br />
+
+<br />
+
+Essa pequena ilha constitue a principal
+divers&atilde;o domingueira dos habitantes de Nova
+York.
+<br />
+
+<br />
+
+Familias inteiras, burguezes de todas as
+castas, <em>cocottes</em>, affluem para ali
+n'esses dias.
+Pela manh&atilde;, cedo, largam da Fulton Station
+grandes barcas embandeiradas conduzindo
+musicas, cheias de passageiros. Muita gente
+prefere ir por terra, em trens que partem de
+<a href="#e12">Brooklin</a>.<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o ha logar para todos nos hoteis. Improvisam-se
+<em>pic-nics</em> defronte do mar, na beira
+da praia, formam-se pagodeiras, e muitas pessoas
+ha que n&atilde;o se lembram de comer&#8213;preferem
+a cerveja, o <em>bock</em> a qualquer especie
+de alimento solido.
+<br />
+
+<br />
+
+Vimos dois grandes hoteis&#8213;o <em>Great
+Hotel</em>
+e o <em>Gigantic Elephant</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Aquelle &eacute; um magnifico estabelecimento,
+todo construido de madeira de lei sobre
+enorme plataforma que se move em trilhos
+<span class="pagenum">[151]</span>
+proprios. Novo genero de hoteis at&eacute; ent&atilde;o
+desconhecido para n&oacute;s. N'um dado momento
+podem ser conduzidos, como qualquer
+<em>tramway</em>
+d'um logar para outro.
+<br />
+
+<br />
+
+O <em>Gigantic Elephant (the monarch of the
+architectural world</em>, como l&aacute; dizem...)
+mede
+175 p&eacute;s inglezes de altura, &eacute; dividido em 31
+compartimentos, ventilados por 63 janellas, e
+illuminado, &aacute; noite, por 25 f&oacute;cos de luz
+electrica.
+Figura um elephante colossal, de madeira, em
+p&eacute;, no meio de um jardim. Em cima, no
+dorso do monstro, existe um terra&ccedil;o d'onde
+se descortina uma esplendida paisagem rasa
+e calma.
+<br />
+
+<br />
+
+Quer n'um, quer n'outro, o <em>promeneur</em>
+encontra abundante variedade de petiscos e
+bebidas.
+<br />
+
+<br />
+
+As crean&ccedil;as, com especialidade, fazem de
+Coney-Island um c&eacute;o aberto. Ellas, sim, n&atilde;o
+perdem os cavallinhos que andam &aacute; roda ao
+som de um classico realejo seboso, os passeios
+aereos, na ponte russa, nas barquinhas, nos
+trens elevados...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[152]</span>
+Por toda a parte musica, realejos, pregoeiros
+de <em>cousas maravilhosas</em>, gritos,
+gargalhadas...
+<br />
+
+<br />
+
+Tiram-se retratos instantaneos, apostam-se
+corridas, sobem-se elevadores de duzentos
+metros acima do solo, pesca-se, alugam-se
+cavallos de passeio... Emfim, Coney-Island
+&eacute; uma miniatura da vida tumultuosa das grandes
+cidades.
+<br />
+
+<br />
+
+O pobre diabo que n&atilde;o f&ocirc;r esperto e
+economico arisca-se a voltar com as algibeiras
+cheias de vento...
+<br />
+
+<br />
+
+&Aacute; noite enchem-se novamente os trens e
+as barcas. Em uns e outros a algazarra torna-se
+insupportavel. Canta-se a <em>Marselheza</em>
+em
+vozes detestaveis, grita-se, bate-se com a ponteira
+da bengala no ch&atilde;o, assovia-se, imitam-se
+animaes de toda a especie... Uma loucura!
+<br />
+
+<br />
+
+Entretanto, aben&ccedil;oado paiz! em todas
+essas pagoderias n&atilde;o se distingue siquer um
+bonn&eacute; policial. N&atilde;o ha conflictos, nem desastres.
+<br />
+
+<br />
+
+Tudo corre na maior harmonia, sem interven&ccedil;&atilde;o
+da guarda civica. Os <em>policemen</em> podem
+<span class="pagenum">[153]</span>
+cochilar &aacute; vontade: a popula&ccedil;&atilde;o
+americana &eacute;
+naturalmente pacata e respeitadora da ordem.
+<br />
+
+<br />
+
+Coney-Island &eacute; o complemento necessario
+e indispensavel de Nova-York.
+<br />
+
+<br />
+
+Pelo ver&atilde;o reunem-se ali cerca de 5.000
+pessoas, segundo o calculo approximado do
+consul brasileiro.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Dias depois da nossa chegada, o
+<em>Barroso</em>
+entrou para o dique de Brooklin, a fim de soffrer
+alguns reparos no casco.
+<br />
+
+<br />
+
+Emquanto isto se dava, emquanto a guarni&ccedil;&atilde;o
+occupava-se da limpeza externa do
+cruzador, com o cuidado, com o desvelo e com
+o carinho mesmo de amigos dedicados, iamos
+visitando outras cidades americanas, ligeiramente,
+de relance.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o nos foi dado, porem, diga-se em
+parenthesis, ver o mais grandioso espectaculo
+dos Estados-Unidos&#8213;a celebre cascata do
+Niagara, que Chateaubriand pinta com as
+maravilhosas c&ocirc;res de sua palheta de artista
+inimitavel.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o tivemos mesmo a felicidade de ver
+<span class="pagenum">[154]</span>
+Washington, a bonita capital americana, e t&atilde;o
+pouco o presidente Cleveland.
+<br />
+
+<br />
+
+Esse previlegio coube quasi que exclusivamente
+ao ex-principe D. Augusto, que ali&aacute;s
+n&atilde;o revelou grande admira&ccedil;&atilde;o pela
+Niagara,
+nem pelo presidente Cleveland.
+<br />
+
+<br />
+
+Sua Alteza n&atilde;o era para que digamos
+muito amigo da natureza, e menos a&iacute;nda de
+personagens illustres.
+<br />
+
+<br />
+
+Quanto a mim continuei a ver a famosa
+cascata por um oculo, nos livros do poeta, e o
+Sr. Cleveland, vi-o casualmente no <em>Daily
+News</em>,
+no acto do seu casamento realisado a esse
+tempo. Pareceu-me um bello typo de
+<em>yankee</em>:
+cheio de corpo, cabello penteado p'ra traz,
+olhar firme, bigode grosso...
+<br />
+
+<br />
+
+Assim, content&aacute;mo-nos com visitar algumas
+cidades de importancia e t&atilde;o depressa que
+era impossivel apanhar com precis&atilde;o todos os
+caracteres por meio dos quaes se pode apreciar
+a vida de uma popula&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Vejamos:
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Baltimore</span>&#8213;C&iacute;dade
+aristocratica, pequena,
+mas extremamente bella na simplicidade,
+<span class="pagenum">[155]</span>
+no gosto sobrio de sua edifica&ccedil;&atilde;o, muito
+asseiada, muito clara, semelhando toda ella,
+no seu conjuncto gracioso, uma confortavel
+habita&ccedil;&atilde;o de outomno, fresca e risonha, boa
+para se gozar o socego de uma villegiatura sem
+preoccupa&ccedil;&atilde;es mercantis e utilitarias.
+<br />
+
+<br />
+
+A gente de Baltimore parece viver uma
+vida tranquilla e descuidada no calmo interior
+de seu <em>home</em>, longe da mentira
+social, longe
+de todo o ruido, beatificamente, n'uma paz
+invejavel, respirando uma atmosphera livre do
+microbio daminho das
+civilisa&ccedil;&otilde;es tumultuosas.
+<br />
+
+<br />
+
+Baltimore &eacute; uma cidade por excellencia
+aristocratica e hygienica, onde os temperamentos
+requintadamente pacificos encontrariam
+o desejado repouso trespassado da incomparavel
+do&ccedil;ura de um clima raro.
+<br />
+
+<br />
+
+Na melhor de suas pra&ccedil;as e no mais
+elevado de seus pontos ergue-se a estatua
+em marmore do grande Washington, geralmente
+considerada &laquo;um dos mais interessantes
+monumentos da America&raquo; e inaugurada em
+1809. Mede 60 p&eacute;s quadrados na base e 15
+<span class="pagenum"><a name="p156">[156]</a></span>
+de altura. Sobre o <a href="#e13">pedestal</a> foi
+levantada uma
+elegante columna dorica de 20 p&eacute;s de diametro
+na base e 15 no cimo, onde branqueja a
+estatua do primeiro presidente dos Estados-Unidos,
+representando-o no momento de
+renunciar a sua commiss&atilde;o de general em
+chefe dos exercitos de seu paiz.
+<br />
+
+<br />
+
+Para subir at&eacute; essa galeria fui obrigado a
+vencer duzentos degr&aacute;os (contados) de uma
+estreita escadaria de pedra, em espiral. De
+cima v&ecirc;-se, a olho n&uacute;, todo o panorama, realmente
+bello, da cidade, que lembra uma d'essas
+paisagens hollandezas, muito claras e suggestivas,
+taes como descreve Ramalho Ortig&atilde;o,
+e onde destacam, n'um fundo de aguarella,
+linhas de arvoredo e reverberos d'agua
+parada...
+<br />
+
+<br />
+
+Ouvi dizer algures que as mulheres mais
+bon&iacute;tas dos Estados-Unidos
+s&atilde;o as de Baltimore.
+Durante as poucas horas que ahi nos
+demor&aacute;mos vimos alguns rostos femininos na
+verdade encantadores. &Eacute; possivel que vissemos
+com olhos protectores de hospedes
+em
+Ouvi dizer algures que as mulheres mais
+bon&iacute;tas dos Estados-Unidos
+s&atilde;o as de Baltimore.
+Durante as poucas horas que ahi nos
+demor&aacute;mos vimos alguns rostos femininos na
+verdade encantadores. &Eacute; possivel que vissemos
+com olhos protectores de hospedes
+em terra estranha...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[157]</span>
+Era nosso consul n'aquella cidade Fontoura
+Xavier, o conhecido autor das
+<em>Opalas</em>,
+bom poeta e pessimo republicano, que se
+apressou em nos proporcionar todas as commodidades
+possiveis, franqueando-nos os quartos
+e os sal&otilde;es do melhor hotel do logar.
+Fez mais: offereceu gentilmente &aacute; officialidade
+brazileira um delicadissimo almo&ccedil;o ao
+qual compareceram diversos estudantes nossos
+patricios.
+<br />
+
+<br />
+
+Guardamos bellas recorda&ccedil;&otilde;es de Baltimore.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">Philadelphia</span>&#8213;Grande
+centro de
+industria
+e commercio. Altas chamin&eacute;s caracteristicas.
+C&eacute;o encoberto de fuma&ccedil;a, pesado e
+lugubre a certas horas do dia. Aqueductos,
+casas colossaes, ruas largas e atulhadas de
+barricas e caixotes. Continuo movimento de
+carros e tramways. Immensa e grandiosa, a
+cidade vista de qualquer ponto elevado. A
+lembran&ccedil;a que fica &eacute; a de um grande edificio
+em construc&ccedil;&atilde;o, cheio de rumor de machinas
+e de operarios em actividade permanente.&#8213;Jardim
+<span class="pagenum">[158]</span>
+Zoologico.&#8213;Universidade importantissima,
+onde v&atilde;o estudar mo&ccedil;os de todas as
+nacionalidades.&#8213;City Hall, edificio monumental,
+vasto e muito alto, onde funccionam
+as reparti&ccedil;&otilde;es publicas: dizem ser o maior dos
+Estados-Unidos.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o ha tempo a perder. Temos apenas
+trez horas a nossa disposi&ccedil;&atilde;o, pois que o trem
+deve partir para Annapolis &aacute;s cinco da tarde
+e j&aacute; s&atilde;o duas...
+<br />
+
+<br />
+
+Leio na taboleta de um bond: <em>Zoological
+Garden</em>... Oh! sim, vamos ao Jardim Zoologico,
+a mais completa collec&ccedil;&atilde;o de animaes,
+que j&aacute; se conseguiu formar. O meu companheiro,
+que conhece o Jardim Zoologico de
+Londres e o de Philadelphia, opta por este.
+Vejo, de passagem ruas bellissimas, esplendidas
+filas de casas luxuosas, magnificos jardins
+particulares, templos em estylo gothico; descampados...
+<br />
+
+<br />
+
+Mas, a viagem &eacute; longa, o tempo escorre
+sem a gente perceber, e &eacute; preciso contar com a
+volta, a fim de apanhar o trem.
+<br />
+
+<br />
+
+Trabalho perdido! Volt&aacute;mos no mesmo
+<span class="pagenum">[159]</span>
+bonde, sem ter visto o appetecido Jardim... Zoologico.
+<br />
+
+<br />
+
+Mal tivemos tempo de chegar, embarafustar
+por entre os passageiros que se accumulavam
+na <em>gare</em>, e saltar para dentro do
+vagon.
+<br />
+
+<br />
+
+E eu fiz o resto da viagem pensando no
+assombroso progresso d'aquella cidade enorme,
+que ainda em 1791 n&atilde;o era mais que uma
+simples colonia a respeito da qual Chateaubriand
+exprimia-se d'este modo:&#8213;<em>L'aspect
+de Philadelphie est froid et monotone</em>...
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o foi preciso mais de um seculo para que
+os americanos fizessem d'ella uma das principaes
+cidades industriaes do mundo.
+<br />
+
+<br />
+
+Em Philadelphia tive occasi&atilde;o de ver, pela
+primeira vez, bondes electricos funccionando
+com a maxima regularidade.
+<br />
+
+<br />
+
+O que ser&aacute; a grande cidade americana
+d'aqui a cem annos?
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>XIV
+</h3>
+
+<br />
+
+Abramos capitulo especial para Annapolis,
+n&atilde;o que esta cidade, a mais antiga dos
+Estados-Unidos, mere&ccedil;a-nos mais que qualquer
+das outras, absolutamente n&atilde;o, mas
+por uma deferencia bem entendida, por um
+recolhido sentimento de gratid&atilde;o para com a
+joven officialidade da marinha norte-americana,
+que ali recebeu as primeiras li&ccedil;&otilde;es de
+disciplina militar e dever civico, e que soube
+nos acolher em seu seio como verdadeiros
+irm&atilde;os de armas que eramos.
+<br />
+
+<br />
+
+A nossa visita coincid&iacute;a com a festa de
+formatura dos guardas-marinha, uma das
+bellas solemnidades annuaes dos Estados-Unidos
+&aacute; qual concorrem centenas de pessoas da
+<span class="pagenum">[162]</span>
+mais elevada sociedade&#8213;a fina flor da aristocracia
+d'aquelle paiz&#8213;movidas pelo nobre
+enthusiasmo de apertar a m&atilde;o &aacute; mocidade que
+se despede da escola para entregar-se &aacute;s duras
+lidas do mar.
+<br />
+
+<br />
+
+Antes, porem, de dizer o que foi essa festa
+descrevamos, rapidamente, a cidade.
+<br />
+
+<br />
+
+Annapolis &eacute; como uma nota dissonante
+na civilisa&ccedil;&atilde;o americana. Imagine-se um quilombo
+africano, uma grande aldeia cortada de
+ruas desiguaes, estreitas e desalinhadas, com
+um aspecto sombrio e detestavel de velho
+burgo colonial, onde se move uma popula&ccedil;&atilde;o
+na maior parte negra e atrazadissima&#8213;e ter-se-ha
+essa antithese da cidade moderna. Bridgetown,
+a capital de Barbados, avantaja-se-lhe
+mil vezes com toda sua poeira, com toda a
+imprudencia e mizeria de sua baixa popula&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+V&ecirc;-se que os americanos t&ecirc;m-lhe certo
+respeito e conservam-na esquecida e retrograda
+por uma especie de devo&ccedil;&atilde;o archeologica,
+sacrificando
+por esse modo o seu bom gosto
+caracteristico e o seu tradicional amor ao progresso.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[163]</span>
+Insipida, monotona e triste como um cemiterio
+de pag&atilde;os&#8213;Annapolis &eacute; um protesto,
+um anathema contra a evolu&ccedil;&atilde;o natural das
+cousas, uma nodoa antipathica em pleno
+mappa da Confedera&ccedil;&atilde;o americana. Nada ha
+ali que interesse e desperte a curiosidade sen&atilde;o
+a Escola Naval (<em>Naval Academy</em>) situada
+n'uma das extremidades da cidade, &aacute; beira-mar.
+<br />
+
+<br />
+
+De anno em anno enche-se de povo; seu
+unico hotel, um pardieiro, extravasa, e ent&atilde;o
+sente-se um fremito de vida nova percorrer
+aquellas ruas habitualmente socegadas e tristes.
+Passeiam bandas de musica, fluctuam bandeiras
+na frontaria das casas, por toda a parte
+ouve-se uma vozeria estranha de gente que
+bebe e canta nos caf&eacute;s (arremedo de caf&eacute;s) e
+todas as janellas abrem-se como para receber
+o desinfectante da alegria, importado das
+grandes cidades circumvisinhas.
+<br />
+
+<br />
+
+Annapolis accorda, ent&atilde;o, de seu pesado
+somno tumbal para saudar os estudantes que
+saem da academia para a vida publica.
+<br />
+
+<br />
+
+O grande acto, a que assistimos, da distribui&ccedil;&atilde;o
+<span class="pagenum">[164]</span>
+de titulos, realisou-se n'um dos vastos
+sal&otilde;es da Escola, presente numerosissimo auditorio:
+familias em grandes trajos de luxo,
+altos funccionarios, estudantes...
+<br />
+
+<br />
+
+Ao receberem seus diplomas os noveis
+officiaes de marinha foram vivamente applaudidos
+pelos seus companheiros, cahindo
+sobre elles uma chuva imprevista de flores, no
+meio de palmas e gritos de enthusiasmo. E,
+come&ccedil;aram os abra&ccedil;os, as
+felicita&ccedil;&otilde;es, os conselhos
+e as lagrimas de commo&ccedil;&atilde;o...
+<br />
+
+<br />
+
+Abrem-se de par em par as portas do estabelecimento
+e a multid&atilde;o de espectadores precipita-se
+por todos os lados, feliz, alegre,
+desafogada como si acabasse de assistir a uma
+festa de amor e justi&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+Ainda n&atilde;o estava concluido o programma.
+<br />
+
+<br />
+
+Em seguida &aacute; solemnidade official,&#8213;a
+festa intima, a festa de despedida que os <em>naval
+cadets</em> (aspirantes) offereciam aos seus companheiros.
+<br />
+
+<br />
+
+Noite clara e constellada. O largo edificio
+da Escola de Marinha regorgita de convidados
+que se cruzam em todos os sentidos no
+<span class="pagenum">[165]</span>
+sal&atilde;o do baile, nos corredores, nos
+<em>bouffets</em>,
+nas ante-salas...
+<br />
+
+<br />
+
+Nota-se em todas as caras certo ar de intimidade,
+certo bem estar flagrante, um quer
+que &eacute; communicativo e bom.
+<br />
+
+<br />
+
+Uma ou outra casaca solitaria, destoando
+da linha geral das <em>toilettes</em> largas
+e frescas.
+Observo curiosamente o apuro de um official
+japonez que franze as sobrancelhas n'um gesto
+de enfado.&#8213;Por que ser&aacute;?... Julgo de mim
+para mim que o pobre camarada n&atilde;o se sente
+&aacute; vontade dentro de suas cal&ccedil;as de panno com
+largos gal&otilde;es dourados. A casaca o incomm&oacute;da
+visivelmente. O chap&eacute;o armado, elle j&aacute;
+n&atilde;o sabe como o tenha&#8213;si na m&atilde;o, si debaixo
+do bra&ccedil;o ou mesmo si na cabe&ccedil;a...
+<br />
+
+<br />
+
+Desabotoam-se risos gentis em boccas
+purpurinas. Derramam-se essencias preciosas
+no ambiente luminoso. Conversa-se alto.
+Bellas <em>miss</em> de face escarlate
+abanam-se com os
+leques de ricas plumas de edredon. Os leques
+e as joias s&atilde;o as unicas riquezas que conduzem
+n'um contraste frizante com os vestidos
+leves e claros.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[166]</span>
+Em um dos lados do enorme quadrilatero,
+onde reluziam panoplias arranjadas &aacute; capricho,
+estava levantado um pavilh&atilde;o de aspecto risonho,
+em cujo frontespicio destacavam em
+letras de luz<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;" class="smallcaps">1887
+to 1886
+<br />
+
+<br />
+
+farwell</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Era o logar do director da escola.
+<br />
+
+<br />
+
+Come&ccedil;ou a dan&ccedil;a...
+<br />
+
+<br />
+
+...E &aacute; meia noite a musica fazia signal
+para a ultima valsa.
+<br />
+
+<br />
+
+Ficamos sabendo que todas as festas
+nocturnas terminam invariavelmente &aacute; meia
+noite, nos Estados-Unidos. &Eacute; uma velha
+praxe que os americanos poucas vezes transgridem.
+<br />
+
+<br />
+
+Annapolis, <em>blak city</em>&#8213;como
+te chamam
+teus proprios patricios, tu n&atilde;o poder&aacute;s saber
+nunca a saudade que lev&aacute;mos de t&iacute; n'essa
+esplendida noite clara e constellada!...<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>XV
+</h3>
+
+<br />
+
+O <em>Barroso</em> continuava no dique, em
+Brooklin.
+<br />
+
+<br />
+
+Logo ao regressarmos de nossa viagem &aacute;
+Annapolis tivemos aviso para uma outra excurs&atilde;o
+n&atilde;o menos interessante e agradavel.
+<br />
+
+<br />
+
+West Point era agora o principal objecto
+de nossa curiosidade,&#8213;West Point, a bella
+povoa&ccedil;&atilde;o &aacute; margem do Hudson, onde
+funcciona
+a Escola Militar. Estavamos convidados
+para assistir a outra festividade academica&#8213;um
+combate simulado entre os alumnos do
+estabelecimento,&#8213;manejos d'armas, exercicios
+de esgrima, assaltos.
+<br />
+
+<br />
+
+Comprehende-se a grande utilidade que
+necessariamente nos adveria d'essas visitas aos
+<span class="pagenum">[168]</span>
+estabelecimentos militares no extrangeiro.
+Sem nos aperceber, iamos conhecendo, <em>de
+visu</em>,
+os diversos processos de ensino pratico, os
+methodos mais modernos de educa&ccedil;&atilde;o physica,
+e, quando mais n&atilde;o fosse, lucravamos com a
+vista de objectos novos e de novas paisagens.
+<br />
+
+<br />
+
+O viajar &eacute; uma necessidade quasi imprescindivel
+para o espirito e para o organismo.
+A alma como que se dilata em presen&ccedil;a de
+estranhas combina&ccedil;&otilde;es de c&ocirc;r e de luz.
+A
+monotonia da vida urbana cansa o espirito,
+fatiga-o, consome-o lentamente: &eacute; preciso o
+grande ar, o ar livre e temperado dos campos,
+a natureza em toda sua belleza original, para
+que n&atilde;o se morra de t&eacute;dio e desanimo. O
+tempo &eacute; limitadissimo e inapreciavel para
+quem viaja com desejo de ver e saber.
+<br />
+
+<br />
+
+Muitos ha que preferem morar eternamente
+em Paris ou em Londres, no centro da
+cidade, asphyx&iacute;ado pela poeira dos
+<em>boulevards</em>,
+a gastar economicamente o seu rico dinheirinho
+vendo a natureza de perto, gosando as
+inaffaveis delicias do ca,
+a gastar economicamente o seu rico dinheirinho
+vendo a natureza de perto, gosando as
+inaffaveis delicias do campo e das praias,
+saboreando o clima das montanhas, deliciando
+<span class="pagenum">[169]</span>
+a vista com o espectaculo das fontes mumurejantes,
+dos frescos arvoredos trespassados de
+luz...
+<br />
+
+<br />
+
+Eu preferirei sempre a paz absoluta e
+invejavel dos suburbios.
+<br />
+
+<br />
+
+E &eacute; por isso que, a cada nova excurs&atilde;o
+f&oacute;ra da cidade, eu sentia-me bem commigo e
+bem com o resto da humanidade. Voltava
+sempre mais consolado e mais leve, como si
+sahisse de um quarto muito escuro e abafado
+para a claridade larga e bella do dia...
+<br />
+
+<br />
+
+Foi assim que recebi a noticia do passeio
+a West-Point.
+<br />
+
+<br />
+
+Como devia ser magnifico o Hudson l&aacute;
+para as bandas de sua nascente, a qualquer
+hora do dia, iluminado pelo sol, calmo e radiante,
+ou coberto de nevoa, pela manh&atilde;sinha,
+ou no silencio da noite, vago e sombrio como
+um pantano dormente!...
+<br />
+
+<br />
+
+Era o que iamos v&ecirc;r.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Seis horas da manh&atilde;...
+<br />
+
+<br />
+
+Cahia uma neve friissima, transparente, e
+aggressiva como alfinetadas.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p170">[170]</a></span>
+O <em>Express</em>, pequeno e elegante
+cruzador
+americano, especie de transporte de guerra,
+esperava-nos de &laquo;fogos accezas&raquo;, deitando
+fumo pela chamin&eacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+Remos n'agua e toca p'r'adiante! Pontualidade
+no caso.
+<br />
+
+<br />
+
+Estamos &aacute; bordo.
+<br />
+
+<br />
+
+O <em>Express</em> offerece o bello aspecto
+de uma
+galeota imperial que vai suspender ferro...
+<br />
+
+<br />
+
+Fazia gosto ver a ordem e o asseio que apresentavam
+o conv&eacute;z e a camara.
+<br />
+
+<br />
+
+Tinha-se acabado de fazer a baldea&ccedil;&atilde;o
+matinal. Marinheiros, perfeitamente uniformisados,
+occupavam-se em limpar as chapas
+de metal; outros colhiam cabos &aacute; pr&ocirc;a; outros
+l&aacute; cima, nas vergas, atavam ou desatavam
+andarivelos, mu&iacute;to rubros, com <a href="#e14">os
+seus</a>
+bonn&eacute;s
+de panno azul marinho onde se lia o nome do
+navio, em letras cor de
+ouro:&#8213;<em>Express</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+A camara&#8213;uma sala espa&ccedil;osa e clara,
+elegantemente adornada&#8213;occupava um ter&ccedil;o
+do pontal, a r&eacute;, na primeira coberta. Em baixo,
+na segunda coberta, ficavam os camarotes e a
+pra&ccedil;a de armas.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[171]</span>
+Servido o <em>fine cognac</em>, que os
+americanos
+de bom tratamento n&atilde;o dispensam nos dias
+invernosos, o <em>captain</em> subio ao
+passadi&ccedil;o e deu
+a voz de suspender. A machina tocou adiante
+e o <em>Express</em> come&ccedil;ou a
+singrar o Hudson.
+<br />
+
+<br />
+
+Variadissimo o aspecto da paisagem. Ora
+o rio se estreita em curvas caprichosas, ora
+vai-se alargando, sempre manso, banhando
+cidades e aldeias, limpido &aacute;s vezes, outras
+vezes toldado e sombrio.
+<br />
+
+<br />
+
+West Point fica &aacute; duzentas milhas de
+Brooklin.
+<br />
+
+<br />
+
+Pass&aacute;mos o dia inteiro e a noite em viagem
+para amanhecermos em nosso destino.
+<br />
+
+<br />
+
+Novas manifesta&ccedil;&otilde;es de sympathia. Officiaes
+e alumnos da Escola Militar esperavam-nos
+com aquelle sorriso affavel de gente hospitaleira,
+que logo se traduz em franca e sincera
+camaradagem.
+<br />
+
+<br />
+
+A Escola estava acampada perto do estabelecimento,
+em exercicios praticos.
+<br />
+
+<br />
+
+Innumeras barraquinhas de lona, alinhadas
+em symetria, alvejavam, como um acampamento
+de beduinos, guardadas por sentinellas
+<span class="pagenum">[172]</span>
+que rondavam de arma ao hombro, perfilando-se
+de vez em quando em continencia a um
+official que passava.
+<br />
+
+<br />
+
+Cada barraca abrigava cinco a seis alumnos
+que se rendiam pontualmente na sentinella.
+<br />
+
+<br />
+
+Emquanto um rondava, grave e silencioso,
+de mochila &aacute;s costas e espingarda ao hombro,
+os outros divertiam-se a trocar s&ocirc;cos, a jogar
+o domin&oacute;, a apostar corridas, at&eacute; que o tambor
+ou a corneta os chamasse &aacute; f&oacute;rma.
+Ent&atilde;o, com
+uma rapidez extraordinaria, lestos, vivos e fortes,
+corriam todos a seus postos, e, em menos de
+um minuto, estava formada a companhia.
+<br />
+
+<br />
+
+Cada alumno era um verdadeiro soldado.
+<br />
+
+<br />
+
+Alegres, o sangue a pular-lhes no rosto,
+cheios de sa&uacute;de, tesos, empinados, quadris
+largos, espaduas amplas, todos se pareciam em
+robustez physica.
+<br />
+
+<br />
+
+Uns rapag&otilde;es sadios!
+<br />
+
+<br />
+
+Notei mesmo certa propens&atilde;o dos americanos
+para o militarismo. Parece que a educa&ccedil;&atilde;o
+militar, a adap&ccedil;&atilde;o de principios rigorosos
+na disciplina do corpo, &eacute; o unico meio de
+obterem-se homens robustos e cumpridores do
+<span class="pagenum">[173]</span>
+dever. A Escola de West Point &eacute;, sem exagero,
+um exemplo raro de estabelecimentos d'esse
+genero. E n&atilde;o era sem uma ponta de tristeza
+que n&oacute;s, brazileiros,&#8213;ra&ccedil;a degenerada e
+lymphatica&#8213;viamos
+crear-se assim uma ra&ccedil;a forte
+e alegre com todos os caracteres de virilidade
+e independencia.
+<br />
+
+<br />
+
+Tive occasi&atilde;o de assistir a uma lucta corporal
+entre dois alumnos, competentemente
+armados de luvas de camur&ccedil;a, rosto a descoberto.
+Pegaram-se a s&ocirc;cos, um defronte do
+outro, calmos e convictos, como si estivessem
+commettendo uma nobre ac&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+No fim de alguns minutos, o aggressor
+estava com o rosto inchado, escorrendo sangue,
+os olhos vermelhos, injectados, e a lucta acabava
+com um abra&ccedil;o entre os dois contendores.
+O mais forte foi acclamado pelos companheiros,
+teve o pr&eacute;mio de sua robustez.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; talvez um duro systhema de educa&ccedil;&atilde;o
+esse, mas incontestavelmente o mais acertado
+e efficaz.
+<br />
+
+<br />
+
+Simples quest&atilde;o de ra&ccedil;a...<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>
+XVI
+</h3>
+
+<br />
+
+Estava terminada a nossa esta&ccedil;&atilde;o de quasi
+dois mezes em Nova-York.
+<br />
+
+<br />
+
+No dia 30 de Julho o <em>Barroso</em> deixou
+aquelle porto em direc&ccedil;&atilde;o a New-Port, outra
+cidade dos Estados-Unidos, refugio da popula&ccedil;&atilde;o
+aristocratica nos quentes d&iacute;as de
+ver&atilde;o.
+Uma perfeita cidade balnearia, muito fresca e
+saudavel, &aacute; beira-mar, olhando para o largo
+oceano e recebendo-lhe as emana&ccedil;&otilde;es salinas,
+com um Cassino e um Passeio Publico.
+<br />
+
+<br />
+
+Os banqueiros e a gente rica de Nova-York
+costumam fazer ahi o seu ninho de ver&atilde;o,
+e, de vez em vez, para amenisar a vida monotona
+que se leva n'esse pequeno mundo de
+simplicidade e conforto, promovem regatas na
+<span class="pagenum">[176]</span>
+esplendida enseada que orla a cidade e que
+n'esses dias de festa maritima toma uma fei&ccedil;&atilde;o
+ridente e caracteristica de aguarella ingleza,
+com os seus <em>cutters</em> &aacute;
+vela, com os seus hiates
+de recreio bordejando ao largo como um bando
+de gaivotas pousadas n'agua...
+<br />
+
+<br />
+
+Apostam-se milh&otilde;es de libras. De Fran&ccedil;a
+e de Inglaterra principes e lords v&ecirc;m assistir
+e tomar parte no jogo.
+<br />
+
+<br />
+
+A regata &eacute; um dos divertimentos predilectos
+dos americanos. Todas as cidades maritimas
+e fluviaes dos Estados-Unidos t&ecirc;m pelo
+menos um club de regatas.
+<br />
+
+<br />
+
+Nota curiosa: em New-Port n&atilde;o se bebe
+alcool. &Eacute; prohibida a importa&ccedil;&atilde;o de
+bebidas
+que contenham espirito, ou qualquer outra
+substancia nociva. N&atilde;o se encontra um s&oacute;
+botequim na cidade. Para tomarmos um refrigerante,
+uma simples limonada, fomos bater
+a uma pharmacia! Garantiram-nos que esse
+preceito contra o alcool &eacute; escrupulosamente
+observado n'aquella cidade. Custavamos a
+acreditar, mas, emfim, n&atilde;o havia geito sen&atilde;o
+ser delicados...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[177]</span>
+De resto, uma cidadesinha elegante e socegada,
+New-Port. O commercio ahi &eacute; quasi
+nullo.
+<br />
+
+<br />
+
+No fim de oito dias o <em>Barroso</em>
+deixava de
+uma vez o paiz dos <em>yankees</em>,
+fazendo-se de vela
+para os A&ccedil;ores.
+<br />
+
+<br />
+
+J&aacute; agora n&atilde;o nos do&iacute;a muito a saudade
+desse bello e prodigioso paiz. O regresso &aacute;
+patria, depois de uma ausencia de quasi um
+anno, enchia-nos o cora&ccedil;&atilde;o de alegria.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o f&ocirc;ra a perda de um companheiro em
+Nova-Orleans e voltariamos todos, sem faltar
+ninguem, sadios e fortes, cheios de impress&otilde;es
+novas e cheios de esperan&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+Voltavamos, sim, mas tinhamos deixado
+atraz, em terra extrangeira, n'um cemiterio de
+Nova-Orleans, um dos nossos camaradas.
+<br />
+
+<br />
+
+Traziamos uma convic&ccedil;&atilde;o, e &eacute; que
+nenhum
+povo sabe comprehender t&atilde;o bem o problema
+da vida humana como os americanos dos Estados-Unidos.
+A id&eacute;a da morte n&atilde;o os preoccupa:
+um <em>yankee</em> triste &eacute; cousa
+rara e toma
+propor&ccedil;&otilde;es de phenomeno.
+<br />
+
+<br />
+
+Elles, os americanos, s&atilde;o geralmente alegres,
+<span class="pagenum">[178]</span>
+bem dispostos, amigos do trabalho, compenetrados
+de seus deveres, e, acima de tudo,
+amam a sua patria mais do que qualquer
+outro povo.
+<br />
+
+<br />
+
+A patria e a familia s&atilde;o os seus principaes
+objectivos. Menos egoistas que os inglezes,
+energicos e resolutos, sobra-lhes tempo e
+dinheiro para se divertirem.
+<br />
+
+<br />
+
+Esse povo verdadeiramente democratico
+n&atilde;o pede lic&ccedil;&otilde;es a paiz nenhum:
+engrandeceu
+a custa de seus proprios esfor&ccedil;os e dia a dia
+prosp&eacute;ra, assombrando o mundo com as suas
+emprezas colossaes.
+<br />
+
+<br />
+
+Si a Allemanha representa no seculo XIX
+a patria das sciencias moraes, aos Estados-Unidos
+compete o primeiro logar na ordem
+dos paizes que tem concorrido grandemente
+para o aperfei&ccedil;oamento e bem estar humanos.
+<br />
+
+<br />
+
+Emquanto as na&ccedil;&otilde;es da Europa degladiam-se
+n'uma lucta continua, perdendo na
+guerra o que difficilmente accumularam em
+poucos annos de paz, a grande na&ccedil;&atilde;o americana
+deixa-se estar quieta e desarmada, sem
+exercito e sem marinha, confiada no seu proprio
+<span class="pagenum">[179]</span>
+valor, no patriotismo de seus filhos, certa
+de que, n'um dado momento, cada cidad&atilde;o,
+cada americano saber&aacute; cumprir com heroismo
+o seu dever e honrar as suas tradi&ccedil;&otilde;es de povo
+independente e forte.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Go ahead! never mind; help
+yourself!</em>&#8213;eis
+a maxima de todo <em>yankee</em>. Elles
+n&atilde;o a
+esquecem nunca e marcham desassombradamente
+na vida, como quem tem absoluta confian&ccedil;a
+no proprio valor.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="quote smallcaps">cear&aacute;&#8213;1890.</div>
+
+<br />
+
+<h2><br />
+
+EDI&Ccedil;&Otilde;ES DA LIVRARIA MODERNA
+</h2>
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<h3>DOMINGOS DE
+MAGALH&Atilde;ES&#8213;<span class="smallcaps">Editor</span>
+</h3>
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 532px;"><b>Affonso Celso</b></td>
+
+ <td style="width: 60px;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 532px;"></td>
+
+ <td style="width: 60px;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 532px; text-align: justify;">Vultos
+e Factos, 1 vol.
+broc. 3$000,
+enc.</td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 60px; vertical-align: bottom;">5$000</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 532px; text-align: justify;">Minha
+Filha, 1 vol. broc.
+3$000,
+enc.</td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 60px; vertical-align: bottom;">5$000</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 532px; text-align: justify;">Minha
+Filha, ed. do luxo
+em 4&ordm; com o retrato
+do
+autor, broc.</td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 60px; vertical-align: bottom;">10$000</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 532px; text-align: justify;">Imperador
+no Exilio, 1
+vol. broc. com o retrato
+do Sr. D. Pedro II, 3$000,
+enc.</td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 60px; vertical-align: bottom;">5$000</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 532px; text-align: justify;">Imperador
+no Exilio, ed.
+deluxe
+broc.</td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 60px; vertical-align: bottom;">5$000</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 532px; text-align: justify;">Lupe,
+scenas da vida do
+Mexico, 1 vol.
+broc.</td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 60px; vertical-align: bottom;">2$500</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 532px; text-align: justify;">Rimas
+de Outr'ora, 1 vol.
+broc. 3$000,
+enc.</td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 60px; vertical-align: bottom;">5$000
+ </td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 532px; text-align: justify;">Notas
+e
+Fic&ccedil;&otilde;es, 1 vol, broc.
+3$000,
+enc.</td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 60px; vertical-align: bottom;">5$000
+ </td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 532px; text-align: justify;">Philosophia
+do Direito, 1
+vol. (no prelo).</td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 60px;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 532px;"></td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 60px;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 532px;"><b>Adolpho Caminha</b></td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 60px;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 532px;"></td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 60px;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 532px; text-align: justify;">A
+Normalista, scenas do
+Cear&aacute;, 1 vol. broc.
+com
+capa ill., 3$000, enc. 5$000, ed. de
+luxo.</td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom; width: 60px;">8$000
+ </td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 532px; text-align: justify;">No
+Paiz dos Yankees, 1
+vol. broc. 3$000,
+enc.</td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 60px;">5$000</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 532px;"></td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 60px;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 532px;"><b>Aluizio Azevedo</b></td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 60px;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 532px;"></td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 60px;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 532px; text-align: justify;">Livro
+de uma Sogra, 1 vol.
+broc. 3$000,
+enc.</td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 60px; vertical-align: bottom;">5$000
+ </td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 532px; text-align: justify;">Casa
+de Pens&atilde;o,
+2 vols. [no prelo]</td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 60px;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 532px;"></td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 60px;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 532px;"><b>Arthur Azevedo</b></td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 60px;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 532px;"></td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 60px;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 532px; text-align: justify;">Contos
+f&oacute;ra da
+Moda, 1 vol. broc. 3$000,
+enc.</td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 60px; vertical-align: bottom;">5$000</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 532px;"></td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 60px;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 532px;"><b>Cruz e Souza</b></td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 60px;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 532px;"></td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 60px;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 532px; text-align: justify;">Missal,
+artistico livro de
+contos, 1 vol. broc. 3$000,
+enc.</td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 60px; vertical-align: bottom;">4$000</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 532px; text-align: justify;">Broqueis,
+mimoso livro de
+versos, 1 vol. broc.
+3$000 enc.</td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 60px; vertical-align: bottom;">4$000</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<span class="pagenum">[182]</span>
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 532px;"><b>Delia</b></td>
+
+ <td style="width: 60px;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 532px;"></td>
+
+ <td style="width: 60px;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 532px; text-align: justify;">Celeste,
+scenas da vida
+fluminense, 1 vol. broc.
+3$000, enc.</td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 60px; vertical-align: bottom;">5$000</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 532px; text-align: justify;">Celeste,
+ed. de luxo
+enc.</td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 60px; vertical-align: bottom;">8$000
+ </td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 532px; text-align: justify;">Angelina,
+1 vol. [no
+prelo].</td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 60px;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 532px;"></td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 60px;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 532px;"><b>F. Fajardo (Dr.)</b></td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 60px;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 532px;"></td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 60px;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 532px; text-align: justify;">Tratado
+de Hypnotismo, 2
+vols. ill. por Manoel
+Gaspar, [no prelo]. </td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 60px;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 532px;"></td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 60px;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 532px;"><b>Heitor Malheiros</b></td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 60px;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 532px;"></td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 60px;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 532px; text-align: justify;">O
+Encilhamento, scenas da
+Bolsa de 90 a 92, 1&ordm;
+vol. &agrave; venda o 2&ordm; para Julho, 2 vols.
+broc.</td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom; width: 60px;">6$000</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 532px;"></td>
+
+ <td style="width: 60px; text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 532px;"><b>Isaias de Oliveira</b></td>
+
+ <td style="width: 60px; text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 532px;"></td>
+
+ <td style="width: 60px; text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 532px; text-align: justify;">Blocos,
+phantasias, 1 vol.
+broc.</td>
+
+ <td style="width: 60px; text-align: right; vertical-align: bottom;">3$000</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td><b>Luiz Rosa</b></td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Imagens e
+Vis&otilde;es, elegante livro de versos,
+1
+vol. broc.</td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">3$000</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td><b>Anselmo Ribas</b></td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Capital Federal,
+impress&otilde;es de um sertanejo,
+1
+vol. broc. 3$000,
+enc.</td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">5$000
+ </td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Bilhetes postaes,
+livro elegante e livre [no prelo,
+para Julho].
+ </td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 532px;"></td>
+
+ <td style="width: 60px; text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td><b>Medeiros e Albuquerque</b></td>
+
+ <td></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Um Homem Pratico, 1
+vol. broc. 3$000,
+enc.&nbsp;</td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">5$000</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Hypnotismo,
+Magnetismo e phenomenos analogos,
+1 vol. (no prelo).
+ </td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td><b>V. Nogueira da Gama</b></td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Minhas Memorias, 1
+vol. broc. 3$000,
+enc.</td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">
+5$000
+ </td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td><b>Sylvinio Junior</b></td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">A Dona de Casa,
+para as Sras. brazileiras, 1 vol.
+cartonado.</td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">5$000</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<span class="pagenum">[183]</span>
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 520px;"></td>
+
+ <td style="width: 60px; text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 520px;"><b>Viveiros de
+Castro (Dr.)</b></td>
+
+ <td style="width: 60px; text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 520px;"></td>
+
+ <td style="width: 60px; text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 520px; text-align: justify;">A
+Nova Escola Penal, 1 gr.
+vol. broc. 8$000
+enc.</td>
+
+ <td style="width: 60px; text-align: right; vertical-align: bottom;">10$000
+ </td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 520px;"></td>
+
+ <td style="width: 60px; text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 520px;"><b>Verediano de
+Carvalho</b></td>
+
+ <td style="width: 60px; text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Correspondencia
+Commercial, 1 vol. broc. 8$000,
+enc.
+ </td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">10$000</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td><b>Zola</b></td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Doutor Pascal,
+vers&atilde;o brazileira de C. de
+Albuquerque,
+2 vols. broc. 5$000,
+enc.</td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">7$000
+ </td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">O Dinheiro,
+vers&atilde;o do mesmo, [no prelo].
+ </td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Mysterios de
+Marselha, [no prelo].
+ </td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">A Derrocada, 2
+vols. broc. 5$000,
+enc.</td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">7$000</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td><b>Papus e Borja Reis</b></td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">A Buena-Dicha, arte
+de l&ecirc;r o futuro nas
+linhas da
+m&atilde;o, 1 vol. broc. 2$500,
+cart.</td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">3$000</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td><b>Carlos de Moraes</b></td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Amor Fatal, scenas
+fluminenses, 1 vol. broc. 2$500
+enc.</td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">4$000</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td><b>Coelho Netto</b></td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Balladilhas,
+admiravel livro de contos para senhoras
+e meninos, 1 vol. broc. 3$000, enc.
+5$000, enc. de luxo.&nbsp;</td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">8$000</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Rhapsodia, 1 vol.
+broc. 3$000,
+enc.</td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">5$000
+ </td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Rei Phantasma,
+romance oriental 2 vols.&nbsp;[no
+prelo, para fins de Setembro].</td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Contos do Natal, 1
+bello vol. para festas [no
+prelo, para Dezembro].</td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td><b>J. Guerra</b></td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>Humorismos, 2 vol. broc. 6$000,
+enc.</td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">10$000
+ </td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td><b>Valentim de Magalh&atilde;es</b></td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Escriptores e
+Escriptos, 2&ordf;
+edi&ccedil;&atilde;o 1 vol. broc.
+3$000, enc.</td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">5$000</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<span class="pagenum">[184]</span>
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 532px;"></td>
+
+ <td style="width: 60px; text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 532px;"><b>Jos&eacute;
+de Alencar</b></td>
+
+ <td style="width: 60px; text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 532px;"></td>
+
+ <td style="width: 60px; text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 532px; text-align: justify;">Encarna&ccedil;&atilde;o.
+2&ordf;
+edi&ccedil;&atilde;o 1
+vol. broc. 3$000,
+enc.</td>
+
+ <td style="width: 60px; text-align: right; vertical-align: bottom;">5$000</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 532px; text-align: justify;">Como
+e porque sou
+romancista, 1 vol.
+broc.&nbsp;</td>
+
+ <td style="width: 60px; text-align: right; vertical-align: bottom;">
+1$500
+ </td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td><b>Virgilio Varzea</b></td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Rose-Castle, mimoso
+romance, 1 vol. broc. capa
+ill.</td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">2$500</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td><b>Eduardo de Borja Reis</b></td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">O Grito de Guerra,
+1 vol.
+broc.</td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">$500</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td><b>Eduardo Garrido</b></td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Barbeirinho de
+Sevilha, edi&ccedil;&atilde;o de
+luxo, 1 vol.
+broc.</td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">2$000
+ </td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Joven Telemaco,
+edi&ccedil;&atilde;o de luxo, 1
+vol.
+broc.</td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">2$000
+ </td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td><b>Julia Lopes de Almeida</b></td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">A Familia Medeiros,
+2&ordf;
+edi&ccedil;&atilde;o 1 gr. vol.
+broc.
+3$000, enc.</td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">5$000
+ </td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">Memorias de Martha,
+1 gr. vol. broc. 3$000,
+enc.</td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">5$000
+ </td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td><b>Mont&eacute;pin</b></td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;">A Hedionda,
+vers&atilde;o de Ferreira da Rosa, 3
+vols.
+broc. 9$000, enc.</td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">15$000
+ </td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td><b>Em preparo:</b></td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right;"></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;" colspan="2" rowspan="1">Manual do
+Cartomante, por C. de Albuquerque, 1 vol. ill.
+com 130 grs. cartonado.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;" colspan="2" rowspan="1">Arte de fazer-se
+amar por seu marido por Pradel tr. de Braulio
+Cordeiro Junior, 1 vol. broc.
+ </td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1" style="width: 532px;">Mestre
+Sala Moderno, [dan&ccedil;as modernas] 1 gr. vol. ill.
+cartonado.
+ </td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: justify;" colspan="2" rowspan="1">Satan nas salas
+[livro dos magicos] versao de Felix de Figueiredo,
+1 vol. ill. cartonado.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td colspan="2" rowspan="1">Photographo
+Amador, por C. de Albuquerque 1 vol. ill. cartonado.</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><img style="width: 100px; height: 83px;" alt="" src="images/fig01.png" /><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="fbox">
+<h2>Lista de erros corrigidos</h2>
+
+<div style="text-align: center;">Aqui encontram-se
+listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="width: 449px; height: 432px; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4">
+
+ <tbody>
+
+ <tr align="right">
+
+ <td style="width: 99px;"></td>
+
+ <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 148px;">Original</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 0px;"></td>
+
+ <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 158px;">Correc&ccedil;&atilde;o</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 99px;"><a name="e1"></a><a href="#p13">#p&aacute;g.
+13</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 148px;">umas</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 0px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 158px;">uma</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 99px;"><a name="e2"></a><a href="#p79">#p&aacute;g.
+79</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 148px;">Esposi&ccedil;&atilde;o</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 0px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 158px;">Exposi&ccedil;&atilde;o</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 99px;"><a name="e3"></a><a href="#p84">#p&aacute;g.
+84</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 148px;">para
+caes</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 0px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 158px;">para o
+caes</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 99px;"><a name="e4"></a><a href="#p86">#p&aacute;g.
+86</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 148px;">inventado</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 0px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 158px;">inventados</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 99px;"><a name="e5"></a><a href="#p87">#p&aacute;g.
+87</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 148px;">viviamos
+cercado</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 0px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 158px;">viviamos
+cercados</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 99px;"><a name="e6"></a><a href="#c9">#p&aacute;g.
+94</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 148px;">nom
+eest&aacute;</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 0px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 158px;">nome
+est&aacute;</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: middle; width: 99px;"><a name="e7"></a><a href="#p112">#p&aacute;g.
+112</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 148px;">nossos
+companheiras</td>
+
+ <td style="text-align: center; vertical-align: middle; width: 0px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 158px;">nossos
+companheiros</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 99px;"><a name="e8"></a><a href="#p124">#p&aacute;g.
+124</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 148px;">mesmoem</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 0px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 158px;">mesmo
+em</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 99px;"><a name="e9"></a><a href="#p126">#p&aacute;g.
+126</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 148px;">esplendidoscapiteis</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 0px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 158px;">esplendidos
+capiteis</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 99px;"><a name="e10"></a><a href="#p132">#p&aacute;g.
+132</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 148px;">Satisfeitos
+as</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 0px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 158px;">Satisfeitas
+as</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 99px;"><a name="e11"></a><a href="#p137">#p&aacute;g.
+137</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 148px;">nive</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 0px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 158px;">nivel</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 99px;"><a name="e12"></a><a href="#p150">#p&aacute;g.
+150</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 148px;">Broeklin</td>
+
+ <td style="text-align: center; vertical-align: top; width: 0px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 158px;">Brooklin</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e13"></a><a href="#p156">#p&aacute;g. 156</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">podestal</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">pedestal</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e14"></a><a href="#p170">#p&aacute;g. 170</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">o seus</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">os seus</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;">Neste livro surgem
+variantes da mesma palavra: <em>"Pancy"</em>
+e <em>"Pansy"</em>, ou
+<em>"Conney-Island"</em> e <em>"Coney-Island"</em>,
+ou
+<em>"Battrey Square"</em>
+e <em>"Battery Square"</em>.<br />
+
+<br />
+
+As variantes foram preservadas de acordo com o original.<br />
+
+<br />
+
+Registaram-se duas p&aacute;ginas identificadas como sendo a
+96&ordf;,<br />
+
+uma das quais foi corrigida para corresponder &agrave; 95&ordf;.<br />
+
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+</div>
+
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's No Paiz dos Yankees, by Adolpho Ferreira Caminha
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NO PAIZ DOS YANKEES ***
+
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+
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+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
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+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
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+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
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+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
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+information can be found at the Foundation's web site and official
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+
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+
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+
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+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
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+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
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+approach us with offers to donate.
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+any statements concerning tax treatment of donations received from
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+
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+
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+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
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+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
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