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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 02:12:40 -0700 |
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Diogo, Rita Farinha and the Online +Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This +file was produced from images generously made available +by The Internet Archive) + + + + + + + *Nota de editor:* Devido à quantidade de erros tipográficos + existentes neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à + versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com + o original. No final deste livro encontrará a lista de erros + corrigidos. + + Rita Farinha (Jan. 2008) + + + + +ADOLPHO CAMINHA + + +NO PAIZ DOS YANKEES + + +DOMINGOS DE MAGALHÃES--EDITOR +54 RUA DO OUVIDOR 54 +LIVRARIA MODERNA + + + +RIO DE JANEIRO + +*1894* + + + + +NO PAIZ DOS YANKEES + + + + +[Figura: CRUZADOR "ALMIRANTE BARROSO"] + + + + +ADOLPHO CAMINHA + + +NO PAIZ DOS YANKEES + + +RIO DE JANEIRO +Domingos de Magalhães--editor +54 Rua do Ouvidor 54 +LIVRARIA MODERNA + +*1894* + + + + +DO MESMO AUTOR: + + +*A NORMALISTA* + +I vol. broc. 3$. cnc. 5000 + + +EM PREPARAÇÃO: + +BOM--CRIOULO + + + + +Typ. da Empreza Democratica Editora--Rua do Hospicio n. 11 + + + + +Taine, o glorioso Taine, o querido philosopho, cuja obra admiravel tem +sido uma especie de bussola para os que se iniciam na complicada arte da +palavra; Taine, o mestre, aconselhava sabiamente, com aquella profundeza +de vista e com aquelle raro e superior criterio de artista e +pensador:--«Que chacun dise ce qu'il a vu, et seulement ce qu'il a vu; +les observations, pourvu qu'elles soient personnelles et faites de bonne +foi, sont toujours utiles.» + +Devo a estas palavras a lembrança de escrever as multiplas impressões, +os successivos transportes de admiração, de jubilo e tristeza por que +passou meu espirito durante alguns mezes de viagem nos Estados-Unídos. + +A principio afigurou-se-me obra de alevantado alcance e de extrema +coragem traçar, ainda que ligeiramente, o plano de um livro sobre a +grande nação americana, tão singular em seus costumes, em sua vida +agitada e tumultuosa, em seus variadissimos aspectos... + +E de facto, esse trabalho, essa difficil tarefa demandaria, +incontestavelmente, muito mais que uma somma de notas mais ou menos +verdadeiras e algum estylo. Era preciso, antes de tudo, um elevado +criterio historico e scientifico, grande cópia de conhecimentos e +profundo espirito analytico. + +Não se escreve a historia de um paiz,--a vida inteira de um povo--sem +demorar-se em largo e paciente estudo sobre as suas origens, seus +habitantes primitivos, sua evolução politica e social, suas luctas +intestinas e sobre os elementos que mais directamente influíram para sua +independencia. + +A elles, os historiadores e analystas da sciencia, tão arriscada +empreza. + +Os poucos mezes que passei nos Estados-Unidos apenas me proporcionaram +ensejo de admirar, atravéz de um prisma todo pessoal, o progresso +assombroso d'esse extraordinario paíz. + +Comprehendem-se, pois, os meus intuitos: nada mais que reproduzir, com a +possível exactidão, _o que vi_, somente _o que vi_ nessa interessante +viagem ao paiz dos _yankees_. + +Procurei ser espontaneo e simples, natural e logico, evitando exageros +de observação e o estylo rebuscado e palavroso dos que, á fina força, +pretendem transformar a litteratura n'uma simples arte mecanica de +construir phrases ôcas e coloridas. + +Escriptas em 1890, as paginas que se vão ler podem não ter a importancia +de um estudo completo, mas de algum modo têm seu valor intrinseco. + +Rio, 1^o de Agosto de 1893. + + _Ad. Caminha_ + + + + +NO PAIZ DOS YANKEES + + + + +I + + +...Tinha cessado a faina geral de suspender ancora. Os marinheiros +estavam todos em seus postos, alerta á primeira voz, silenciosos, +enfileirados a bombordo e á boréste, alguns convenientemente +distribuidos na pôpa, na prôa e nas cobertas do cruzador. + +Noite escura e chuvosa, cheia de nevoeiro e tristeza, fria, sem +estrellas, cortada de clarões longinquos. Tão escura que se não +distinguia um palmo diante do nariz, tão feia que os bicos de gaz da +cidade, soturna e quieta, bruxoleavam pallidamente com a sua luz tremula +e vacillante... + +E comtudo estavamos a 19 de Fevereiro, em plena estação calmosa, no +rigor do verão. + +Chuvera todo o dia. O céo conservava-se coberto de nuvens bojudas e côr +de chumbo, velando uns restos de lua. + +Um grande silencio de alto mar alastrava-se por toda a bahia do Rio de +Janeiro. Sómente ao longe, para os lados da cidade, badalava o sino +d'uma egreja, compassado e lugubre. + +De vez em quando passava rente com a pôpa do _Barrozo_ o vulto sombrio e +largo de uma barca Ferry, com o seu pharól de côr, dezerta, indistincta, +e que desapparecia logo na escuridão. + +Seria meia noite quando o navio começou a mover-se lentamente, caminho +da barra, cheio da silenciosa melancolia dos que partiam, e uma hora +depois a cidade, as praias, e as montanhas sumiam-se na distancia, como +si o mar as fosse engolindo com a voracidade de um monstro. + +Restava apenas um ponto luminoso, uma visão microscopica da terra +fluminense; era o pharol da ilha Rasa tremeluzindo, como palpebra +somnolenta, atravéz da noite. + +E todos a bordo, todos silenciosamente, egoistas na sua dôr concentrada +e incommunicavel, mandaram ainda um--adeus--profundamente saudoso á vida +alegre e ruidosa do Rio. + +Dizem que o homem do mar é insensivel aquelles que nunca viram esta +realidade: a lagryma da saudade brilhar na face de um marinheiro. + +Lá fomos mar afóra... + +Pernambuco foi o primeiro porto da nossa escala. + +Viagem monotona, sem accidentes notaveis, essa do Rio ao Recife. As +horas succediam-se n'uma uniformidade tediosa e imperturbavel. Sempre o +mar, sempre o céo, ora sombrios, ora azues... + +Durante o dia 21 avistámos, e isso nos consolou, uma vela que bordejava, +muito branca, triste garça erradia no horisonte luminoso. + +Para quem viaja no mar uma vela que se avista é sempre motivo de +innocente alegria O marinheiro com especialidade gosta de seguil-a com o +olhar nostalgico até perdel-a completamente. É como ao avistar-se terra +depois de longa travessia: sente-se a mesma impressão bôa e indefinivel. + +Na manhã de 26--léste-oeste com o pharol de S. Agostinho, e ás onze +horas recebiamos o pratico. + +Impossivel entrar nesse dia, por falta de maré: passámos a noite fóra, +no Lamarão, aos solavancos, vendo, por um oculo, a cidade do Recife, +illuminada e bella, hombro a hombro com a legendaria Olinda dos +hollandezes e dos banhos de mar. + +Na falta de outro assumpto falou se de historia patria. + +Pela manhã de 27 o _Barrozo_ sulcava as aguas do Lamarão, lento e +magestoso, crivado de olhares. O povo saudava-o do cáes da Lingueta. +Espalhou-se logo que o principe D. Augusto, neto do imperador, vinha a +bordo, e toda a gente correu a recebel-o com essa avidez instinctiva das +massas populares. O povo pernambucano, tradicionalmente inimigo dos +imperadores, lembrava-se do tempo em que o Sr. D. Pedro de Alcantara +dava-se ao luxo de visitar o norte. + +Mais tarde, ao desembarcar a turma de guardas-marinha, de que fazia +parte o principe, subiu de ponto a curiosidade publica. + +--Oh! o principe!--Que é d'elle?--É um ruivo?--É aquelle barbado? + +O pobre moço viu-se em apuros, e mudava de côres, e fazia-se escarlate, +e vociferava contra a plebe, occultando-se entre os collegas, +desapontado. Um preto velho teve a lembrança de ajoelhar-se aos pés de +S. A. e supplicar-lhe uma esmola. Aconteceu, porém, que errou o alvo e +foi direito a um outro rapaz, louro e rubro, como o principe, que se +apressou em desfazer o engano. + +O imperial senhor achava-se ridiculo no meio de toda aquella multidão +servil e anonyma que o acompanhava, «como si visse n'elle um animal +selvagem...» + +É assim o povo--ingenuo, pueril. + +Visitámos, em romaria, os principaes edificios publicos: a +Penitenciaria, a Assembléa Provincial, o Gymnasio, o Theatro. + +A nova Penitenciaria do Recife é um bello edificio no genero. + +Impressiona tristemente esse casarão sombrio com escadarias de ferro, +onde mal penetra a claridade meridiana. + +Ha criminosos de toda a especie, em cujos semblantes retratam-se +delictos tenebrosos. Nada, porém, nos commoveu tanto como a historia do +preso Gustavo Adolpho, que, ha quasi vinte annos, cumpria a terrivel +sentença a que fôra condemnado. Era um d'esses sentenciados sympathicos +que inspiram compaixão a quem os observa de perto. + +Um dos nossos companheiros desejou saber a historia do seu crime e pediu +ao infeliz que lh'a contasse elle proprio. + +--Não queira, disse o condemnado, não queira obrigar-me a fazer minha +propria autopsia moral... Narral-a, essa historia, seria um supplicio +muito maior do que estar eu aqui, n'este carcere, ha vinte annos... + +Gustavo Adolpho parecia-nos um regenedo, tal o aspecto humilde de sua +physionomia e o tom commovente de sua voz. O isolamento transformara-lhe +a alma. A dôr tem isto de bom--purifica o espirito, é como um crysol. +Esse infame, esse assassino, Gustavo Adolpho, era um martyr. Aquelle +semblante abatido pelas insomnias, aquelle rosto descarnado, aquelles +olhos cansados de chorar, aquelles labios lividos de defunto, cansados +de repetir a palavra--perdão, lembravam a figura resignada de um +moribundo que nada mais espera senão a eterna liberdade--a morte... + +Vimol-o na casa dos condemnados, entre as quatro paredes de um miseravel +cubiculo, vestido de preto, barba crescida, macilento, arrependido e só. + +Poucos iam incommodal-o ali, n'aquella pavorosa solidão, e no emtanto +elle não odiava ninguem e desejava falar a todos. + +Tinha dezenove annos quando a fatalidade o arremessou a Fernando de +Noronha. A justiça humana o havia condemnado a esta pena +infamante--galés perpetuas. + +Perdoar a um arrependido nas condições de Gustavo Adolpho, me parece a +mais nobre acção de um rei. Todavia elle continuava, mendigo de +liberdade, a pedir, a pedir... + +Por diversas vezes a academia de direito, pelo orgão de seus +representantes, exorara a piedade imperial, mas o imperador nunca +estendeu o seu _magnanimo_ olhar até aos carceres senão em certos dias +de gala natalicia para indultar os escolhidos da politica dominante. + +--Console-se, disse eu ao desventurado moço. E citei Lamartine:--_Vivre +c'est attendre..._ + +Retirámo-nos commentando aquella catastrophe desastrada. + +A historia tragica d'esse preso foi-nos contada por um empregado do +estabelecimento. Eu podia resumil-a em duas palavras:--_cherchez la +femme_, si não fosse o prurido de registrar, ainda que brevemente, um +caso curioso de processo crime. Cada um tire as illações que lhe +aprouverem. + +Gustavo Adolpho nasceu no Pará onde iniciou seus estudos como +seminarista. + +Muito cedo seu espirito mostrou-se refractario á educação ecclesiastica, +e desviou-se dos livros sagrados para outro genero de leituras e estudos +mais concentaneos com as suas aspirações. + +Os paes do nubil seminarista desgostaram-se com o procedimento do filho +revolucionario e ardente apologista de Martinho Luthero, que não +occultava-lhes suas tendencias anti-catholicas. Elle, porém, o apostata, +o hereje, sentia-se instinctivamente arrebatado pelas idéas do seculo e +tratou de trocar a sotaina de noviço pelo frak á ultima moda. Ninguem +põe peias á fatalidade. Não contente com ir de encontro á vontade de +seus paes e preceptores, o ex-seminarista tomou o primeiro vapor, e, +subito, vio-se na capital do Brazil, sem um amigo que o guiasse n'esse +labyrintho de ruas suspeitas onde o vicio assentou praça. A rua do +Ouvidor e os theatros sempre eram mais agradaveis que o claustro e as +impertinencias do reitor,--muito mais... + +Pobre Gustavo Adolpho! Salvara-se de um abysmo para precipitar-se +imprudentemente, como creança inexperta, n'outro abysmo talvez mais +perigoso. + +Sem amigos, sem protecção, longe de sua terra e de seus paes,--que podia +esperar o joven desconhecido n'aquelle turbilhão de vis interesses? + +Imbert-Galloix, um italiano, tambem adolescente e cheio de esperanças, +intelligente e trabalhador, morreu de miseria n'uma rua de Pariz, por +ter trocado sua patria natal por um paiz que só conhecia de nome. Fôra +em busca de glorias e encontrou a miseria, o frio, a fome, e a morte por +fim. + +Esses sonhadores como Imbert-Galloix são sempre victimas da propria +imaginação. + +A sorte de Gustavo Adolpho foi mais cruel. + +Custa a crêr que um insignificante par de brincos leve um homem á cadeia +e depois ao exilio perpetuo! + +Uma vez sem meios de subsistencia, luctando com a má vontade de uns e a +indifferença de outros, Gustavo Adolpho, que tinha certa dóse de +espirito, d'esse espirito fino que caracterisa o homem de talento, +fez-se _bohemio_, isto é, indifferente á vida, nomade a quem tanto faz +dormir sobre flacido colxão, como ao relento e sobre a lage das +calçadas. Ora, os bohemios são umas creaturas sympathicas. Quando um +bohemio tem espirito acha sempre quem lhe estenda a mão. Gustavo Adolpho +preferiu a mão leve, alva e setinosa, de uma cortezã pela qual +apaixonou-se devéras. + +A mulher, sempre essa creatura profundamente seductora e mysteriosa! + +E, parece incrivel! quando na primeira noite, após as ineffaveis +caricias do amor, a misera Manon, adormecida ao lado do amante, sonhava, +talvez, n'algum banquete sumptuoso, á sombra d'alamos frondosos, talvez +n'alguma de suas passadas orgias, á luz de candelabros deslumbrantes, +elle, o malaventurado moço, cujo olhar fitava na meia sombra da alcova o +rosto sereno de sua amante, antepensava um crime e um crime excepcional, +monstruoso, inqualificavel. + +--Estes brincos, estes brincos... pensava elle fitando as joias, duas +grandes lagrimas de diamante pendentes das orelhas da rapariga. Seu +espirito oscillava como um pendulo na duvida terrivel, aguçado por um +desejo louco. + +Eil-o que se levanta de um impeto, pisando devagar, surrateiramente, tão +de leve que dir-se-ia uma sombra; eil-o que se encaminha para a porta da +rua, tacteando, encostando-se as paredes, pé ante pé, sem respirar, +olhando sempre para traz, para o leito da amante (lembra-me a scena da +«Cymbelina» de Shakspeare). + +Meia noite... Eil-o ainda que volta e se approxima do leito onde ha +pouco boiara em mar de volupia. Traz na mão um objecto reluzente, uma +cousa disforme... uma machadinha. + +Que irá elle fazer?!... + +Approxima-se mais, rastejando quasi, mansamente, subtilmente. + +De repente sôa uma pancada surda, e um grito estrangulado:--Soc...corro! +Sôa outra pancada surda, outra, outra, muitas pancadas, e sobre os +brancos lençóes d'aquelle malfadado leito palpitam as carnes sangrentas, +moribundas, de um corpo de mulher que ainda ha pouco sentia e pensava... + +Obseccado pela idéa do roubo, o assassino arranca brutalmente as joias +do cadaver, e, á luz do combustor de crystal, reconhece que são falsas! + +Foge rua fóra, como um possesso, enfia num becco, sae por outra rua, e +desapparece na escuridão da noite. + +No dia seguinte seu nome lá estava estampado em letras garrafaes no +livro dos réos: «Gustavo Adolpho... preso pelo duplo crime de +assassinato e roubo.» + +Mais tarde, annos depois, o joven criminoso tentou fugir de Fernando de +Noronha onde fôra recolhido. Prenderam-no em flagrante. E ha poucos +mezes, no anno passado, a princeza Isabel, então regente do Brazil, +abriu-lhe as portas da prisão. + +Gustavo Adolpho publicou, no degredo, um livro de versos intitulado +_Risos e Lagrimas_, uma collecção de poesias sentimentaes e amorosos que +pouco valem pela fórma e onde se acham crystalisadas as dôres do infeliz +poeta, cuja imaginação cantava entre lagrimas. + +Penalisou-nos a sorte d'esse rapaz sympathico e intelligente. + +Havia, alem de Gustavo Adolpho, outro preso não menos interessante e que +nos excitou a curiosidade. Indigitado autor de não sei que roubo, fôra +condemnado igualmente a galés perpetuas. + +Interrogado, disse-nos contar oitenta (!) annos de idade e possuir +familia numerosa:--mulher e 30 filhos! + +--Qual foi o seu crime? perguntámos. + +O velhinho todo tremulo, a cabeça muito branca; uma nevoa humida no +olhar, sem forças quasi para dar um passo, murmurou tristemente: + +--Nenhum, meus caros senhores... Supponho que houve engano da justiça... + +--E si lhe dessem liberdade agora?... + +--De que me servia? Mal me tenho em pé e já não sei de minha mulher e de +meus filhos, Estou muito velho, preciso morrer descansado aqui mesmo na +prisão. + +O edificio da Penitenciaria tem, logo á entrada, a seguinte inscripção +em marmore: + + No dia 23 de abril de 1885 sendo presidente da provincia o Illm. + Sr. Conselheiro Dr. José Bento da C. Figueiredo foram removidos os + presos para este edificio organisado sob a direcção do engenheiro + José Mamede Alves Pereira. + +Contava, portanto, trinta e cinco annos. + +Foi a mais interessante de todas as nossas visitas em Pernambuco. + + + + +II + + +No dia 27 deixámos o Recife em direcção ás Antilhas. + +Como até ahi, a viagem continuou a vapor,--uma verdadeira viagem de +recreio si não fosse a exiguidade dos commodos a bordo do cruzador. + +O commandante levava ordem para chegar a Nova Orleans em tempo de +assistirmos a abertura da exposição internacional americana, onde o +_Almirante Barroso_ devia figurar como legitimo e admiravel producto da +industria naval brazileira tão pouco conhecida no extrangeiro. + +Adoptavamos, sempre que o vento permittia, a navegação mixta, e deste +modo, á vela e a vapor, arrastados pelas correntes maritimas que puxam +para o norte, alcançámos, a 2 de Março, a linha equatorial, onde +apanhámos alguns chuviscos debaixo d'uma athmosphera ardentissima. + +Reinava «calmaria pôdre». Ferraram-se as velas á mingua da mais leve +aragem, armaram-se os toldos para que podessemos supportar o calor na +tólda, e os banhos salgados de ducha foram recebidos com especialissimo +agrado. Suava-se a valer. Imagine-se: embaixo, no porão, as fornalhas +accesas, e em cima o sol ardente, o medonho sol do equador, cahindo como +um caustico sobre o navio. + +Á tardinha incendiavam-se os horisontes de um colorido rubro, +ensanguentado, de magica, reflectindo-se no espelho do mar tranquillo +como num grande lago de crystal... + +Demos graças a Deus quando nos vimos fóra de tão desagradaveis regiões. + +No dia 11 avistámos terra de Barbados, uma das mais prosperas colonias +inglezas das Antilhas. Era o primeiro porto extrangeiro do intinerario. + +O Capitão do Porto foi o primeiro personagem que pisou a bordo: um +inglez de aspecto duro como em geral o de todo inglez, olhando atravéz +de uns grandes oculos azues e ostentando fleugmaticamente um par de +soiças ruivas. Trajava _dolman_ branco, muito justo ao corpo, calças de +panno preto e chapéo de cortiça branco, de grandes abas, tombado para a +nuca. + +Fez a visita sacramental e poz-se ao fresco em menos de dois minutos, +depois de um fortissimo _shake-hand_. + +A ilha de Barbados vista de bordo é de uma nudez quasi completa: nenhuma +vegetação cobre as vastas planicies que primeiro ferem a retina do +observador. Ao approximar-se-lhe, porém, novas paisagens de effeitos +cambiantes vão-se desenrolando á maneira de cosmorama. Moinhos rodam ao +sopro do vento que ordinariamente é fresco ahi, casas de campo +confortaveis, arvores, chaminés fumegantes, tudo isso vai apparecendo á +medida que nos approximamos, até que, com verdadeira surpresa, surge-nos +toda a cidade de Bridgetown e então basta um golpe de vista largo para +abrangel-a. + +Á distancia Bridgetown semelha uma pobre cidade deshabitada, sem indicio +de civilisação. A surpreza que experimenta o viajante é completa depois. +Alguem que ahi esteve annos antes admirou-se da enorme quantidade de +embarcações inglezas surtas no porto. Entre estas contavam-se quatro +encouraçados, bonitos vasos que honram a Inglaterra affirmando o grande +poder maritimo desse paiz, cuja esquadra ainda hoje não tem rival no +mundo. + +Um dia e meio--eis todo o tempo de nossa demora em Barbados, tempo +sufficiente para conhecermos a ilha a _vol d'oiseau_. + +A população, na maior parte negra, é composta de gente de baixa classe e +geralmente intratavel. + +Abundam os _ciceroni_, especie curiosissima de especuladores, que +perseguem os viajantes de uma maneira barbara. Querem, á fina força, +ensinar-lhes as ruas, os hoteis, e não os largam emquanto não satisfazem +a sua ambição, cobrando, no fim de contas, certo numero de _shillings_. + +Falam um _patois_ detestavel; ninguem os entende com facilidade. +Imagine-se um pobre diabo acompanhado d'uma multidão que grita e fala +idioma desconhecido a repetir-lhe alto aos ouvidos:--_Came hear! came +hear!_ discutindo, altercando-se de cacete em punho. O misero julga-se +por um momento transportado, como por encanto, ás costas d'Africa, fecha +ouvidos á grita dos importunos _ciceroni_, brada mil vezes _no, no, +no_..., e não tem remedio senão deitar a correr como um possesso, +perseguido sempre pela turba multa de vadios, até que, depois de uma +lucta incrivel, esguedelhado, offegante, pallido, embarafusta pela porta +d'um hotel escorrendo suor, esfalfado, morto de cansaço! + +E ainda por cima vociféra a legião faminta dos negros! + +Nao exagéro. Parece realmente um paiz semi-barbaro aquelle, e ai! de nós +si não fossem os _policemen_, activos e energicos guardas da vigilancia +publica, que a um simples franzir de sobr'olhos fazem desapparecer a +medonha horda de capadocios, ou que melhor nome tenham esses turbulentos +demonios. + +É espantosa a ambição do povo por dinheiro. + +Ao tilintar do _money_ surgem de repente vinte, trinta cabeças negras, +cada qual mais negra, disputando a posse do precioso metal. + +Basta dizer que ainda não tinhamos fundeado e já grande numero de +pequenas embarcações á vela e a remos,--_fly boats_,--approximavam-se do +navio, cortando-lhe a prôa com risco de serem espedaçadas. Ouvia-se, +então, de todos os lados vozes que gritavam:--_I am pilot! I am pilot!_ + +Embalde procuravamos persuadir áquelles esfaimados de dinheiro que não +precisavamos de pratico, pois a bahia de Bridgetown é bastante espaçosa +e offerece entrada franca. + +Davamos com o lenço, mandando-os embóra--que não! mas os gritos +repetiam-se:--_I am pilot! I am pilot!_ + +Todos queriam, a troco de dinheiro, conduzir o navio extrangeiro ao +ancoradouro e para isso exigiam um preço fabuloso. + +Formidaveis importunos os taes negros de Barbados! + +A edificação de Bridgetown, puramente ingleza, é curiosa, pittoresca +mesmo, si bem que uniforme. + +As casas, baixas quasi todas, geometricamente dispostas, alpendradas na +frente, simples e elegantes na sua architectura, são confortaveis e +convidam ao _far-niente_. + +As ruas, porém, estreitas e mal calçadas, são, por assim dizer, +intransitaveis, em consequencia do poeiral que sobe, como fumaça, ao +rosto dos transeuntes. + +No que respeita a estabelecimentos importantes, vimos a--_St. Leonard's +School_ e uma igreja-cemiterio. + +A estatua de Nelson, o heroe de Trafalgar, ergue-se, em bronze massiço, +n'uma das melhores praças do logar--_Nelson's square_, si me não engano. + +Os poucos hoteis que existem na ilha são vastos e offerecem o necessario +conforto ao viajante: boa mesa, bons petiscos, magnifico vinho, +deliciosos sorvetes--_ice-cream_--e, finalmente, boas camas e muito +aceio. + +O brazileiro que viaja, com raras excepções, tem necessidade +imprescindivel de duas cousas que elle julga essenciaes ao seu bem +estar: café e cigarros. + +_Spleen_ e charutos--são cousas inseparaveis de um inglez da Inglaterra; +café e cigarros--eis o que um brazileiro não dispensa. + +Infelizmente para nós, o café, tal qual se prepara em Barbados, é um +licor detestavel composto de muito pó e pouca agua, que os naturaes +mixturam á guisa de chocolate, mas de um sabor desagradavel, repugnante. + +Duas linhas de bonds percorrem a capital d'um extremo a outro. + +A ilha é circumdada por uma via-ferrea. + +De resto, é admiravel senão assombroso o progresso d'essa colonia, +relativamente pequena e tão longe da metropole. + +E, note-se, de vez em quando atravessam aquellas regiões terriveis +cyclones produzindo estragos incalculaveis em toda a extensão da ilha. +Innumeras embarcações, algumas de grande porte, têm sido arrojadas á +costa por esses formidaveis meteóros. O ultimo cahiu em 1851 e figura +nos annaes da navegação como um dos grandes desastres maritimos do +Atlantico. + + + + +III + + +Na manhã do dia 13 suspendemos ancora em direcção á ilha da Jamaica, +fundeando no mesmo dia na bahia de Port-Royal. + +Denso nevoeiro envolvia, como uma gaze alvissima, as altas montanhas que +orlam magestosamente a antiga colonia hespanhola. + +Ao approximarmo-nos da pequena e elegante cidade de Port-Royal, pedimos +pratico o qual nos levou á Kingston. + +O brazileiro que, depois de longa ausencia do Brazil, chega á Jamaica +sente logo um prazer especial, um fremito de patriotismo, ao contemplar +as soberbas montanhas da ilha, tanto ellas lembram a natureza do nosso +paiz. A bahia, salpicada de interessantes ilhotas de verduras, +verdadeiras ilhas fluctuantes, em cujas aguas immoveis bandos de aves +ribeirinhas ostentam sua plumagem garrída e multicolor, voando d'uma +margem á outra n'uma contradansa animada, offerece aspectos lindissimos. +Jamaica parece um pedaço do Brazil transplantado para as Antilhas, tal a +opulencia da sua natureza. + +É a maior e a mais florescente das colonias inglezas da America depois +de Barbados. Mede approximadamente quarenta leguas de comprimento. + +Kingston não é uma cidade como Bridgetown, onde a cada passo depara-se +com uma prova de adiantamento material. É, por assim dizer, uma capital +morta, quasi sem commercio, mas, em compensação, muito mais pittoresca +que a capital de Barbados. Os habitantes são morigerados, e uma paz +religiosa parece reinar no seio de cada familia. + +Ha mais pobresa, é certo, mas incomparavelmente o povo é mais educado, +mais pronunciado o instincto de civilisação. + +Muitas estatuas. Vimos as de Lewis Quier Bower Bonk, nascido em 1815, +Edward Jordon, um dos principaes fundadores da--_Jamaica Mutual Life +Assurance Society_, Sir Charles Theophilus Metcaf, governador em +1845--todas ao redor de um parque. Isso prova quanto respeito infunde ao +inglez o nome de um compatriota celebre. + +Um brazileiro estabelecido em Kingston disse-nos ser o _Almirante +Barroso_ o primeiro navio brazileiro que ahi aportava desde 1871. + +Nossa demora em Jamaica foi rapida como em Barbados. Telegrammas +officiaes do Rio apressavam-nos cada vez mais. Já se havia inaugurado a +Exposição de Nova Orleans; era-nos forçoso assistir ao menos o +encerramento. Estavamos convictos de que o cruzador brazileiro ia +figurar com brilho no importante certamen americano. Tanto em Bridgetown +como em Kingston não lhe faltaram elogios de pessoas competentes. + +Todos anceavamos pela chegada ao paiz maravilhoso dos _yankees_, ao +berço da electricidade, todos queriamos conhecer _de visu_ o celebrado +paiz das descobertas engenhosas. + +Desde logo entrámos, de combinação, em «serios» estudos do idioma inglez +praticando uns com os outros, compulsando manuaes de conversação, +decorando significados, preparando-nos, emfim, da melhor forma, para +retribuir gentilezas, captar amizades, responder a todas as perguntas +que nos fossem feitas á queima roupa. Sim, porque tudo quanto haviamos +aprendido theorica e praticamente na Escola, não era bastante. +Faltava-nos a facilidade, o traquejo da palavra extrangeira, que +haviamos de adquirir á força de vontade e applicação assidua. + +Alguns officiaes, entre os quaes o commandante, riam-se do nosso apuro, +e, de vez em quando, atiravam-nos de surpreza uma pergunta em inglez. +Quanto disparate, quanta tolice a principio! O certo é que depois, com o +tempo, já nos entendiamos soffrivelmente. _Noblesse oblige_... + + + + +IV + + +A hospitaleira sociedade de Jamaica havia-nos conquistado a sympathia. +Todos sentimos deixar tão cedo aquella encantadora ilha, cujos +habitantes nos tinham prodigalisado tão generoso acolhimento. Lenços +ascenavam para bordo ao deixarmos o ancoradouro ás 5 horas da tarde de +21, despedindo-nos talvez para sempre d'essa boa gente. + +Durante os dias 22 e 23, mar e vento rebellaram-se contra o navio. + +Navegavamos á bolina, sempre á vela e a vapor, amurados por bombordo. + +Grandes rajadas frias sopravam do norte, cantando nos cabos da +mastreação, sacudindo-os com violencia. + +O thermometro baixara sensivelmente, e a columna barometrica punha-nos +calefrios... + +O mar quebrava-se de encontro ás bochechas do cruzador desafiando-lhe a +resistencia colossal. + +Sabiamos que a latitude em que navegavamos, nas Antilhas, era muito +frequentada pelos cyclones, esses terriveis inimigos dos navegantes, que +arrastam em sua cauda milhares de vidas. Receiavamos esses phenomenos +tanto mais porque os seus effeitos fazem-se sentir a grandes distancias. + +Os symptomas visiveis, si não eram evidentes, approximavam-se das +descripções de navegantes experimentados. O céo estendia-se limpo, como +um largo pallio azul esbranquiçado; apenas no horisonte fluctuavam +pequenos _stratus_ em fórma de rabo de gallo e algumas estrias +avermelhadas, escarlates, despertavam-nos a attenção. + +Ao meio-dia o sol tinha uma côr baça, com um disco azulado ao redor. + +E crescia o mar em vagalhões medonhos e esfusiava o vento no cordame. + +O navio caturrava e arfava morosamente; ouvia-se o barulho do helice +trabalhando fóra d'agua. + +Pela madrugada de 24 lobrigámos por boréste o pharol da ilha de Cuba, de +luz muito branca, e no dia seguinte sulcavamos o golfo do Mexico. + +Poucos dias restavam para alcançarmos Nova-Orleans. + +E nada do supposto cyclone! + +Por via de duvidas, como o tempo continuasse borrascoso, ferrámos a +maior parte do panno, conservando apenas as gaveas risadas nos +_terceiros_ e a mezena de capa. + +Capeámos tres dias consecutivos, sem que apparecesse o medonho +visitante. + +No quinto dia o vento amainou rondando para nordeste e o mar, por força +das circumstancias, tambem acalmou-se. Ferrámos o resto do panno, +navegando só a vapor. + +A idéa da chegada preoccupava todos os espiritos. Os Estados-Unidos eram +o assumpto de todas as conversações. + +Cedo tratou-se da limpeza do navio. + +Cada qual tratou de si, de sua roupa, de seus objectos que o mar +sacudira de um lado a outro dos camarotes. Os alojamentos apresentavam o +curioso aspecto de um campo de batalha; malas confundiam-se umas sobre +outras formando empilhamentos, a roupa branca usada andava de mixtura +com os fatos novos de panno; livros, papeis--tudo quanto era de uso +quotidiano estava espalhado no convéz, como si andasse por ali alguma +creança traquinas. + +Guerra ao môfo! Roupas ao sol! Ninguem se fez esperar. Começaram as +arrumações, uma faina açodada, durante a qual soaram boas gargalhadas +filhas de inalteravel bom humor. + +Os guardas-marinha alojavam-se á pôpa n'um acanhadissimo compartimento +que mal os comportava. Ahi tinham suas camas, suas malas, seus livros. + +Quantos prejuizos! Quantas decepções! + +E todos acocorados, arrumando e desarrumando, n'uma confusão burlesca, +maldiziam o mar e apostrophavam o vento. Neptuno e Eolo nunca receberam +tantas manifestações desairosas. Pois não! Ninguem tem suas cousas para +vel-as de um dia para outro arruinadas, inutilisadas pelos caprichos +incoerciveis do mar e do vento. + +Finalmente, como nada ha melhor que um dia depois de outro, veio o dia +29 de Março em que dos váos do joanete de prôa o gageiro +annunciou--terra! + +Continuava, entretanto, incessantemente, a asáfama. A guarnição da +bateria occupava-se da limpeza das peças, collocando-as em posição, +abrindo e fechando culatras, lixando-as, lubrificando-as emquanto o fiel +ia distribuindo o cartuxame. + +Havia uma alegria geral a bordo e sentia-se um vago odor de tintas, como +ao entrar-se n'uma casa nova, pintada de fresco. + +Já era tempo de repousarmos das fadigas da viagem. + + + + +V + + +Ninguem póde imaginar o que é a chegada de um navio de guerra a porto +extrangeiro depois de uma tempestade ou mesmo depois d'uma ameaça de +temporal. A faina tor-na-se geral e o ruido inevitavel. É de ver-se a +promptidão, a rapidez com que se executam as ordens. Como que ha mais +vontade para o trabalho, desenvolve-se logo um contagioso bem estar, +ninguem foge ao serviço. + +Tezar cabos de laborar, baldear o convez a ficar alvo e polido, como uma +sala de visitas, limpar, areiar os metaes amarellos até ficarem +relusentes como ouro de lei, ferrar o panno a capricho, cuidadosamente, +de modo a confundil-o com as vergas e os mastros, preparar os +escaleres--tudo isso é cousa d'um abrir e fechar d'olhos. + +A guarnição do _Almirante Barroso_, disciplinada e obediente como todas +as que serviam sob as ordens do commandante Saldanha, primava pelo +aceio, pela ordem, pela destreza e pela actividade. Não se lhe póde +fazer maior elogio. Cada marinheiro era como uma machina prompta sempre +ao menor impulso. + +A chibata era n'esse tempo, como ainda hoje o terror das guarnições da +armada. + +Sempre manifestei-me contra esse barbaro castigo que avilta e corrompe +em vez de corrigir. Um castigo de chibata é a cousa mais revoltante que +já tenho visto, mormente quando é mandado applicar por authoridade +deshumana, sem noções do legitimo direito que a cada homem assiste, quem +quer que elle seja soldado ou pariá. + +O meu primeiro passo ao deixar a Escola e envergar a farda de +guarda-marinha foi publicar um protesto contra essa pena infamante, e +fil-o desassombradamente, convicto mesmo de que sobre mim ia cahir a +odiosidade de meus superiores em geral apologistas da chibata. + +A primeira vez que minha posição official obrigou-me a assistir um +desses castigos, tive impetos de bradar com toda a força dos pulmões +contra semelhante attentado á natureza humana. + +Quem já assistiu uma d'essas pavorosas scenas do eito, magistralmente +descriptas por Julio Ribeiro na sua obra _A Carne_, póde fazer idéa do +que seja o castigo da chibata. + +Despir-se a meio corpo um pobre homem, um servidor da patria, pés e mãos +algemados, muita vez depois de trez dias de _solitaria_ a pão e agua, e +descarregar-se-lhe sobre a espinha, sobre as espaduas, sobre o peito, +sobre o ventre, na cara mesmo, em todo o corpo cincoenta, cem, duzentas +chibatadas, em presença de todos os seus companheiros, me parece indigno +d'uma geração que se préza, de uma sociedade de homens civilisados, de +cidadãos, de cavalheiros que ostentam triumphalmente galões dourados na +farda--na farda, que significa a nobreza, a coragem, o patriotismo e a +honra d'uma nação. + +Revoltei-me contra semelhante barbaridade inquisitorial, como quem tem +consciencia de que está praticando uma acção justa e honrosa. Doía-me +por um lado pertencer a uma classe nobre por tantos titulos, é certo, +mas em cujo seio era permittido a chibata e, o que é mais, o seu abuso. + +A esse tempo a _Gazeta de Noticias_ do Rio de Janeiro publicava +semanalmente um boletim litterario no louvavel intuito de estimular os +incipientes das letras. Offerecia-se-me opportunidade para um conto +maritimo, cujo assumpto fosse a chibata. + +Escusado é dizer que o meu artigo provocou o despeito dos culpados +indirectamente feridos no seu amor proprio. Embora! Fiquei satisfeito, +como si tivesse sacudido para longe um fardo pesadissimo; e, é preciso +dizer, não hesitei em declarar-me autor do conto que vinha firmado por +meu nome, então desconhecido na armada. + +Alguns de meus companheiros taxaram-me de imprudente e «indiscreto». +Outros levaram seus conselhos até á minha _inexperiencia de adolescente +indisciplinado_. + +Todo o mundo julgou-se com direito a censurar meu procedimento: «que +roupa suja deixa-se ficar em casa; que a chibata era um castigo +imprescindivel», e outros arrasoados soffrivelmente banaes. + +Meu consolo é que d'entre aquelles que preconisavam os effeitos +prodigiosos da chibata n'outros tempos, muitos concorreram em demasia +para a sua extincção. + +Dei parabens á patria e á humanidade. + + + + +VI + + +Como militar e disciplinador o commandante Saldanha da Gama +distinguia-se por sua inflexibilidade porventura exagerada, +especialmente para com as guarnições sob seu zeloso commando. +Temperamento atrabiliario, sanguineo-nervoso, sujeito a transições +bruscas, inesperadas, impetuosas e violentas, o illustre marinheiro, +espirito eminentemente illustrado, não sabia, entretanto, guardar a +necessaria calma quando devia applicar as penas do codigo. Essas penas, +como se sabe, acham-se perfeitamente explicitas, precisamente formuladas +de modo a não deixar duvida nos espiritos rectos e amigos da lei. Entre +os artigos que constituem o codigo penal militar existe um que limita o +numero de chibatadas, o qual não deve, em caso algum, exceder de vinte e +cinco por dia. + +Pois bem, o commandante Saldanha pouquissimas vezes castigava conforme a +lei. Collocava acima d'ella seus caprichos inexplicaveis, sua natureza +rancorosa, sua vontade suprema. Nao trepidava, e isto é sabido, em +mandar açoitar com duzentas chibatadas uma praça qualquer, tal fosse o +delicto commettido. A um simples olhar seu as guarnições tremiam como +caniços. A qualidade caracteristica d'esse illustre official era ser +arbitrario e prepotente. Por isso a guarnição do _Almirante Barroso_ +corria a seus postos, em occasião de manobra, com a velocidade d'uma +setta. + +Estavamos quasi á entrada do Mississipe, a grande arteria fluvial da +America do Norte, que nós imaginavamos um colosso talvez superior em +volume d'agua ao Amazonas,--o Mississipe, decantado pelo autor dos +_Natchez_, e em cujas margens fica a cidade de Nova Orleans nosso ponto +de chegada. + +Ninguem pensava mais no Rio de Janeiro para só se lembrar de Nova +Orleans, a _Cidade Crescente_, como a denominam os americanos. + +Trez horas da tarde, mais ou menos. Embarcações á vela e vapores +bordejavam fóra da barra á espera de pratico, sem o qual era impossivel +a entrada. Mar calmo, com uma côr esbranquiçada, lembrando na sua +quietação dormente um vasto lago estagnado. Em frente, muito longe +ainda, mal distinguiamos com o binoculo o pharol, microscopica torre +branca, invisivel quasi. + +Envolvidos em grossas capas de lã, abotoados até o pescoço ao abrigo do +frio que se tornava insupportavel para nós da zona torrida, de pé no +tombadilho, machina a um quarto de força, bandeira nacional desfraldada +na carangueja do mastro de ré, esperavamos tambem o _pilot_ que nos +devia conduzir á Nova Orleans, 110 milhas da foz do Mississipe. + +O Mississipe! Dentro em pouco sulcavamos a grande corrente. + +Não tardou muito o pratico, por cujo intermedio tivemos noticia da +estrondosa manifestação com que os habitantes da cidade americana +aguardavam a chegada do cruzador brazileiro. + +Bella surpreza essa! Cresceu o enthusiasmo entre os noveis officiaes. + +Entrámos. Durante o nosso trajecto pelo Mississipe a anciedade a bordo +tocou o seu auge. Queriamos, todos a um tempo, avistar as embarcações +que, dizia-se, vinham nos receber. + +O autor d'estas simples notas de viagem, que admira os Estados-Unidos +como uma segunda patria, porque ali moram juntas todas as liberdades e +florescem prodigiosamente todas as nobres idéas civilisadas, de braços +cruzados estendia o olhar cheio de admiração, cheio de deslumbramento +por cima das extensas planicies das margens do grande rio. + +O pôr do sol entre a neblina que cobria os horisontes fazia lembrar as +paginas de Chateaubriand na sua _Voyage en Amérique_, paginas +esculpturaes e cheias da commovida nostalgia dos que se vão da patria... + +Quanta verdade nas sumptuosas descripções do poeta! Quanta poesia +n'aquellas paragens desertas da foz do Mississipe,--Sahara de neve +estendendo-se a perder de vista nos horisontes sem fim! Que de +maravilhas occultavam-se por traz d'aquellas planicies, lá onde o olhar +não attingia! + +Eram Ave-Marias. Lembrei-me do Brazil, dos sertões de minha terra natal, +da torresinha branca do Senhor do Bomfim badalando o _terço_ das almas, +justamente aquella hora, quando as boiadas recolhiam mugindo, pesadas e +melancolicas... + +Ave-Marias!... Mesmo quando não se é crente, áquella hora da tarde o +coração fica cheio de não sei que terna e piedosa uncção mystica... + +Fundeámos no ponto em que o rio se divide em dois braços ou pequenos +confluentes, e ahi passámos a noite inteira, essa longa e tristissima +noite de inverno. + +Frio de rachar. As aguas do rio, pardas e barrentas, estavam quasi +geladas. + +As margens do Mississipe, em varios pontos, são, no inverno, verdadeiras +planicies, onde apenas medra a herva rasteira. Á distancia, pobre alma +perdida no descampado, ergue-se ás vezes uma arvore muito esguia, como +um phantasma de braços abertos para o céo. De quando em quando atravessa +a solidão uma ave desconhecida batendo as azas, como um agouro. + +N'outros logares, porém, vêm-se rebanhos pastando silenciosamente, +plantações verdejantes, casas de campo, postes de correio, em cujas +portas destacam-se em caracteres maiusculos as palavras--_Post office_. + +O povo parece viver satisfeito no meio de suas plantações e de seu gado, +entregue á cultura e á creação. + +Nuvens de mosquitos atordoaram-nos toda a noite. «--Caramba! exclamava o +barbeiro de bordo, um estimavel hespanhol que traziamos do Rio de +Janeiro. Caramba! Mosquitos por mosquitos me gustam mas los del Brasil!» +E tinha razão o nosso companheiro. Os mosquitos do Mississipe são muito +capazes de dar cabo d'um pobre homem. E que medonha orchestração nos +ouvidos da gente? + +Felizmente na manhã do dia seguinte levantámos ferro. + +O navio estava completamente prompto a fazer sua entrada em Nova +Orleans. Durante quasi toda a noite a guarnição occupara-se em colher +cabos, esfregar a amurada e baldear o costado. + +Como passatempo liamos os jornaes que o pratico trouxera, os quaes +noticiavam a recepção popular e official que se nos preparava. + +Dois hiates a vapor--o _Cora_ e o _Pansy_--propriedade de Mr. Morris, +largariam de Nova Orleans a nosso encontro, embandeirados, com bandas de +musica, commissões de senhoras, representantes do commercio e d'outras +classes sociaes. + +Ou fosse a natural affinidade que existe entre as duas nações +americanas, ou fosse o facto de ir a bordo do cruzador brazileiro um +representante da familia imperial do Brazil, o certo é que durante nossa +travessia da foz do Mississipe á cidade fomos constantemente saudados de +ambas as margens do rio a tiros de espingarda e a lenços que nos +acenavam de longe. + +E o _Almirante_ seguia devagar, alvo de mil olhares curiosos. + +Ao meio-dia ouvimos as notas de uma musica alegre que se approximava, e +em breve surgiram n'uma curva do rio os dois magnificos hiates--o _Cora_ +e o _Pancy_--apinhados de gente, enfeitados de galhardetes de côres +variadas, em cujos mastros tremulavam as duas bandeiras amigas. + +De ambos os lados, no cruzador e nos hiates, hurrahs confundiam-se no +ar. + +Em viva effusão de inexprimivel jubilo patriotico estreitavam-se as duas +grandes potencias da America; a mesma brisa balouçava simultaneamente os +dois gloriosos pavilhões. + +A gente do _Barroso_ subiu ás vergas accelerada, e, acenando com os +lenços e os bonés, saudava com vivas estrepitosos e delirantes +acclamações aos Estados-Unidos, ao mesmo tempo que das duas embarcações +partiam ruidosas manifestações ao Brazil. + +Fardada em segundo uniforme, espada e dragonas, a officialidade do +cruzador brazileiro, em pé no tombadilho, vivamente commovida, +descobria-se a todo instante risonha e feliz. + +Sentiamos a falta de uma banda de musica bem organisada, que n'aquelle +momento, verdadeiramente solemne, entoasse o hymno da republica a bordo. + +Passado o primeiro momento de delirio, approximaram-se os dois hiates +que nos acompanhavam e o cruzador diminuiu a marcha. Ficámos borda á +borda. N'um instante toda aquella gente que vinha nos vaporesinhos, +passou para o _Barroso_. + +Houve um silencio respeitoso de parte a parte e começaram os abraços. + +O consul geral brazileiro, Sr. Dr. Salvador de Mendonça, tão conhecido +entre nós por seu talento e por sua illustração, como homem de letras e +diplomata, juntamente com Mr. Eustis, consul em Nova-Orleans, foram +recebidos no portaló pelo commandante e officiaes com todas as honras +que lhes eram devidas. Seguiram-se os representantes da imprensa, do +commercio, etc. + +Conduzidos á camara, desde logo estabeleceu-se entre brazileiros e +americanos uma camaradagem franca, uma corrente communicativa de +affabilidades, como si já fossemos conhecidos velhos. As taças de +_champagne_ chocavam-se, vivas succediam-se, levantavam-se _toasts_ ás +duas nações, trocavam-se os mais espontaneos comprimentos. + +A viagem continuou ao som da musica do _Cora_ e do _Pansy_. + +Ás 4 horas da tarde largámos ferro defronte da antiga capital da +Luiziania. + + + + +VII + + +Nova-Orleans é, talvez, a cidade mais importante do sul dos +Estados-Unidos. + +Nosso primeiro cuidado, como era natural foi desembarcar, «ir á terra», +ceiar bem e dormir tranquillamente um somno bom e reparador. Nao nos +faltariam esplendidos hoteis e magnificos _rooms_ onde podessemos, á +vontade, descansar dos trabalhos da viagem. + +Nossa demora devia prolongar-se ahi mais do que em qualquer outro porto, +por causa da Exposição e a instancias dos habitantes da cidade, que nos +preparavam deliciosas surprezas. + +Tinhamos tempo bastante para ver Nova-Orleans, para observar os costumes +americanos e fazer um juizo mais ou menos approximado d'aquelle bello +povo. + +O porto estava atulhado de barcas de commercio--vastas embarcações de +dois e trez pavimentos, duas e trez chaminés negras a deitar fumaça +n'uma actividade constante, rodas na pôpa, muito mais amplas que as +nossas barcas Ferry do Rio de Janeiro. Atopetadas de saccas de algodão e +outros generos do paiz, esperavam o momento preciso e regulamentar de se +fazerem ao largo. + +Emquanto esperavamos, vivamente anciosos, o escaler que nos devia +conduzir ao caes, assestavamos o oculo para a cidade quasi silenciosa +áquella hora, e cujas ruas não tardariamos a conhecer. Accendiam-se os +primeiros bicos de gaz. Ao longe, n'alguma egreja remota, badalava um +sino triste. Já não se ouvia quasi o brouhaha quotidiano. Numerosas +embarcações cruzavam-se no rio. Ouviamos guinchos de locomotivas e o +surdo ruido de carros que ainda labutavam. + +Alguns officiaes deixaram-se ficar aguardando o dia immediato para mais +commodamente satisfazerem sua curiosidade de viajantes em terra +extrangeira. + +[Figura: ENTRADA DE NOVA-ORLÉANS] + +Era fim de inverno. Ameaçava chover. O frio continuava bastante forte +ainda e os camarotes do _Barroso_ offereciam, nessas condições, agasalho +confortavel aos mais friorentos. + +Na manhã seguinte, grupos de officiaes brazileiros, uns fardados, outros +á paisana, percorriam Nova-Orleans. + +O _St. Charles Hotel_, um dos melhores estabelecimentos da cidade, e o +_Royal Hotel_--primeiro em luxo e ornamentação--eram procurados +avidamente. + +Os jornaes davam noticias circumstanciadas de nossa chegada e +annunciavam festas em homenagem ao Brazil. + +Uma vez installados nos hoteis, cada um de nós em seu vasto aposento, +onde nada faltava, tão differente dos estreitos camarotes de bordo, +dividimo-nos em grupos. + +Quanto a mim, o meu primeiro cuidado foi munir-me de um guia da cidade, +especie de _pocket-book_ muito commodo, registrando indicações uteis de +estabelecimentos e logares principaes. + +Meu quarto ficava no segundo andar do _St. Charles Hotel_ com frente +para a rua do mesmo nome--uma saleta mobiliada com a maxima sobriedade, +sem luxuosas decorações, contendo apenas os moveis indispensaveis a um +rapaz solteiro, e o fogão a um canto. + +Depois de magnifico banho morno em bacia de marmore (perdôem-se-me estas +innocentes confidencias, aliás de bom gosto) seguido de um valente +almoço de ostras crúas, as melhores que eu tenho provado, regadas á +Sauterne, mastigando (é o termo, porque não sou lá muito admirador de +charutos) mastigando um charuto, que não sei bem si era de Havana, sahi +a fazer meu primeiro passeio, minha _promenade_ matinal, começando pela +Canal Street, a rua mais importante de Nova Orleans, que a divide em +dois grandes bairros--o francez e o hespanhol. + +No cruzamento das ruas de St. Charles e Canal erguia-se a estatua de +Clay. É esse o ponto principal da cidade e o de maior movimento nos dias +uteis. + +Parei defronte do monumento e consultei meu alcorão, quero dizer meu +guia manual. + +«_Estatua de Clay_--Inaugurada solemnemente no dia 12 de Abril de 1860. +Joêl T. Harl, de Kentucky, o artista que deu forma e proporções á +estatua, assistiu ao acto. O orador official foi Wen H. Hemt.». + +Maldito laconismo! Pouco adiantei com as explicações do livrinho. + +A estatua é de bronze, sobre pedestal de marmore, e mede, +approximadamente, quinze pés inglezes de altura. + +--Continuam as estatuas! exclamei recordando as que vira em Barbados e +Jamaica. Felizmente até agora não vira a de nenhum monarcha. Veio-me +então á memoria aquella colossal massa de bronze que se ergue no largo +do Rocio, no Rio de Janeiro, em fórma de um monarcha escanchado n'um +bello cavallo. + +Tive pena de não ser aquelle bronze aproveitado para outra cousa mais +digna e util. + +--Que diabo! Aquillo é uma pagina de historia patria, reflecti.--E +continuei o meu _tour_. + +A Canal Street é o centro commercial de Nova-Orleans, é a rua do Ouvidor +d'aquella cidade, sem os grandes inconvenientes do nosso querido becco. + +Larga, bastante espaçosa e comprida, offerece transitos especiaes para a +população, para trens, bondes e carruagens. + +As ruas, na maior parte são mal calçadas, principalmente para o interior +da cidade. + +É, sem duvida, admiravel semelhante incuria em se tratando de americanos +do norte, entretanto, é uma verdade que não deve ser esquecida, para +consolo de nossas municipalidades. + +Na Canal se acham os melhores e mais solidos edificios, as mais fortes +casas commerciaes, os mais importantes armazens da cidade, cafés, +restaurantes, clubs, etc. + +Convenci-me desde logo que os principaes productos industriaes de +exportação eram--assucar e algodão, como bem presumira ao desembarcar, +no caes, onde era enorme a accumulação de fardos desses dois generos. + +De vitrine em vitrine, observando sempre, escrupulosamente, +curiosamente, á cata de novidades extrangeiras, posso affirmar que nada +vi, surprehendente... Ah! sim, vi umas graciosas caixeiras accudirem +pressurosas e desenvoltas, com o desembaraço proprio de sua raça, aos +compradores, cousa aliás muito simples, muitissimo natural, mas não no +Brazil, onde as senhoras estão eternamente prohibidas de competir com o +outro sexo na vida publica. + +Parece-me que só n'este paiz ainda não se observa nem se permitte esse +costume tão natural, tão proprio, tão efficaz mesmo, das senhoras pobres +empregarem-se no commercio a retalho. Na Inglaterra, em Franca, na +Allemanha, na Italia e nos Estados-Unidos é habito velho, ao que me +consta, as senhoras servirem nos balcões, e é de notar que cumprem seus +deveres com assombrosa pericia. Ás nove horas da manhã, que digo eu! ás +seis horas, depois de ligeira refeição, encaminham-se para o trabalho +quotidiano, felizes, satisfeitas, envolvidas em grossas capas de lã no +inverno, a bolsa de um lado, sem siquer fazerem-se acompanhar. Vão +direitinhas de casa para a loja ou escriptorio, sem que ninguem lhes +dirija uma pilheria, sem que ninguem as desrespeite, e, á noite, +recolhem-se da mesma fórma, sempre alegres, transpirando saúde, a face +rubra. + +Muitas vezes sahem das lojas, mudam a _toilette_, fazem seu penteado, +perfeitamente dispostas, e d'ahi a pouco estão nos bailes, nos +concertos, nos theatros. + +Rara a casa de modas, o armarinho, a livraria onde se não encontra uma +senhora exercendo as funcções de simples caxeira, ou como guarda-livros, +silenciosa na sua carteira, escripturando cuidadosamente o Caixa. + +Em alguns estabelecimentos publicos, no Correio, por exemplo, grande +parte do serviço é feito por senhoras. Esse edificio, digamol-o de +passagem, na rua Canal, é de apparencia extraordinariamente simples e +desgraciosa. O serviço, porém, como em toda estação americana é correcto +e sem demora. + +Individuos de muitas nacionalidades acotovellam-se na grande rua. + +Em Nova Orleans, como em quasi toda a a Luiziania, fala-se mais o +francez que outro idioma qualquer, não sendo raro ouvirem-se +negociantes, mesmo senhoras de elevada hierarchia falar, embora +mediocremente, o hespanhol. + +Havia chegado o momento fatal, inevitavel, de nos exhibirmos tambem em +lingua alheia. + +Pouco a pouco, nos iamos familiarisando com a população e com o ídioma +d'esse adoravel canto da terra que o Mississipe banha. + +O dia seguinte ao de nossa chegada á Nova Orleans (31 de Março) estava +designado para o encerramento da Exposição das Trez Americas. Avisados +d'esta solemnidade, deviamos comparecer a ella em grande uniforme, +encorporados. + +Foi um dia essencialmente brazileiro esse. Nos convites para a +festividade lia-se esta impagavel gentilesa: _Brasilian day_. + +Todas as attenções convergiam para o _Almirante Barroso (brazilian man +of war)_. + +O palacio da Exposição estava situado a alguns kilometros fóra da +cidade, n'um de seus pontos mais pittorescos, o Upper City Park, á +margem do Mississipe--largo edificio vistosamente adornado e do alto do +qual se avistava toda a cidade e immediações. + +Na manhã d'esse dia, por signal chuvoso e coberto de nevoeiro, +embarcámos em trem especial, que nos fôra destinado pelo presidente da +Exposição, Mr. Ed. Richardson, um _yankee_ muito amavel, todo cortesia, +sempre com um bello e espontaneo sorriso a captivar a gente, correcto +sempre, irreprehensivelmente correcto. + +Embarcámos na Canal street, defronte do _Pickwick Club_, em companhia de +muitos officiaes da Guarda Nacional, de Mr. Richardson e de officiaes da +corveta franceza _l'Étoile_, que se achava no porto de Nova Orleans, dos +consules e outras summidades do paiz. + +O trem abalou como um raio, todo enfeitado de bandeirolas americanas, +brazileiras e d'outras nações, ao som de musicas e acclamações +delirantes, rasgando, na sua marcha vertiginosa, o nevoeiro que cahia +sem cessar penetrando os wagons escancarados ao ar frio da manhã, +soltando guinchos medonhos... + +Durante o trajecto não me cansei de observar os sitios que o trem +atravessava. + +De um lado e d'outro da linha estendiam-se vastas plantações de +algodoeiros desfolhados pelo rigor do inverno, amontoados de neve, +immoveis phantasmas brancos no silencio infinito dos descampados; casas +de campo deliciosas para se passar o verão, trancadas á neve, muito +brancas e desoladas, riam, como saudando a nossa passagem, e +desappareciam rapidamente no horisonte esfumado. + +É de vêr a simplicidade reunida á graça que apresentam essas habitações: +vêr uma é vêr cem, tal a uniformidade de sua architectura. Em geral são +de madeira, pintadas de branco e cinzento, com seu terraço para as +calidas noites de verão, jardim e horta arranjados com admiravel cuidado +e bom gosto. + +Absorvido completamente pelo aspecto variado da paisagem, sem prestar +attenção ao circulo ruidoso dos collegas, eu (lembro-me bem) formava +planos de vida socegada, n'algum eremiterio entre a eterna frescura das +plantas e o amor eterno d'uma creatura querida. + +Invejava os simples, os sertanejos, os homens dos campo--esses para quem +a vida corre sempre calma, porque seu coração não conhece outro amor +senão o da esposa e o dos filhos, esses de quem Boileau dizia + + _Heureux est le mortel qui du mond ignoré + Vit content de soi même en un coin retiré..._ + +E eu me transportava outra vez ao Brazil, outra vez eu tinha a nostalgia +da patria, a saudade vaga e inexplicavel de minha terra natal. + +Parecerá uma phantasia de poeta adolescente isto que acabo de dizer, mas +é a verdade, a expressão sincera do que eu sentia ao atravessar a região +que ia ter lá, ao palacio da Exposição. + +A tristeza da neve communicava-se ao meu espirito imprimindo n'elle não +sei que despretenciosas ambições de silencio e recolhimento. Alguem já +procurou explicar a influencia que exerce o estado hygrometrico da +atmosphera no estado psychologico do individuo. + +Eu de mim só sei que o patriotismo, longe da patria, dupplica. + +E fechemos esta especie de parenthesis. + +Uma commissão de cavalheiros, competentemente encasacados, veio +receber-nos ao desembarque. + +Entrámos. Nossa entrada foi verdadeiramente triumphal. + +Dentro e fóra do edificio era grande a agitação. Ondas de povo entravam +e sahiam percorrendo o pittoresco _Upper City Park_. + +Felizmente «levantou o tempo», como se costuma dizer. + +Ao assomar á porta do grande salão de honra o primeiro official +brazileiro, o commandante do _Barroso_, ao lado do consul e do +presidente da Exposição, a orchestra de professores, brilhantemente +organisada, rompeu lá dentro o hymno nacional americano (não conheciam o +nosso hymno aliás tão vulgarisado), os espectadores que enchiam o vasto +recinto ergueram-se, e uma salva estrepitosa de palmas acolheu o resto +da officialidade. + +Houve um momento de verdadeiro delirio, em que todos batiam palmas sem +interrupção levantando vivas ao Brazil. + +Serenado o enthusiasmo, um enthusiasmo indescriptivel, apopletico, tomou +a palavra Mr. Richardson, que proferio o discurso de encerramento, +saudando a armada brazileira. + +Seguiu-se na tribuna o orador official, que, n'um improviso +eloquentissimo, patenteou a necessidade de uma união entre todas as +nações americanas, desenvolvendo largamente as vantagens que d'ahi +proveriam a todas elas. + +Falou tambem o governador da Luiziania, e, finalmente, os Srs. Salvador +de Mendonça e Saldanha da Gama, cujas palavras foram cobertas dos mais +significativos applausos. + +Terminada a ceremonia oratoria, foi-nos franqueado o edificio da +Exposição, que percorremos examinando com interesse os differentes +pavilhões industriaes. + +O Brazil--é triste dizel-o--fizera-se representar de modo bem +insignificante. + +Brilhariamos pela ausencia, si o Governo não tivesse a lembrança de +mandar o _Almirante Barroso_. + +Amostras de madeiras, café em grão, fumo, artigos de borracha, +constituiam os principaes productos brazileiros expostos á curiosidade +dos visitantes de quasi todas as partes do mundo civilisado. O pavilhão +do Brazil deixava-se ficar em plano inferior aos das outras nações, como +si fossemos um pobre paiz, cujos productos não valessem a pena de ser +expostos n'um certamen internacional! + +D'ahi, talvez, o assombro dos americanos ao verem o _Almirante Barroso_, +esse esplendido vaso de guerra de envergadura possante, capaz de +resistir aos mais fortes temporaes e que elles, os extrangeiros, +duvidavam fosse obra nossa. + +--Como? Pois no Brazil tambem se fabricam navios de guerra? Está muito +adiantado o Brazil! + +E repetiam com um ar de duvida e de ironia medindo d'alto a baixo e de +pôpa á prôa o magestoso cruzador, que balouçava de leve sobre o +Mississipe: + +--Está muito adiantado o Brazil! + +Entretanto o Mexico, a America Central e as republicas sul-americanas, +sem os recursos invejaveis da grande nação, sobresahiam admiravelmente. +O pavilhão do Mexico, sobretudo, desafiava a maior parte dos outros não +só em abundancia de artigos, mas, principalmente, em belleza e bom +gosto, em elegancia e riqueza. + +Escusado, parece, falar do importante logar que coube aos +Estados-Unidos. Que profusão de machinas e instrumentos industriaes de +invenção puramente americana! Ali mesmo, á vista do observador, +fabricavam-se os mais curiosos objectos de fantasia e de uso domestico; +o linho, o algodão, a sêda--eram tecidos rapidamente aos olhos de todos. + +Imagine-se agora o ruido, a algazarra, a movimentação que devia reinar +ali dentro d'aquelle immenso edificio, certamente muito longe de ser +comparado aos palacios de exposições universaes, mas ainda assim um dos +maiores que se tem levantado n'esse genero. + +Para dar uma idéa de suas dimensões--não o chamaremos vaticano da +industria para não exagerar--basta dizer que o salão de musica--_music +hall_--accommodava 11.000 pessoas, inclusive uma vasta área para 600 +figuras. + +Impossivel descrever as amabilidades, as gentilezas que nos foram +prodigalisadas largamente pelas adoraveis americanas de Nova Orleans +nessa festa democratica de confraternisação internacional; recordar as +phrases deliciosas, os galanteios irresistiveis... + +O que posso affirmar é que o _brazilian day_ ha de perdurar por muito +tempo no coração d'aquelles que tiveram a felicidade de assistir essa +bellissima festa. + +Dias depois voltei ao palacio da Exposição, sosinho, como simples +curioso que não tivera tempo bastante para examinar tudo no pequeno +espaço de doze horas. + +Nada mais restava senão o esqueleto nú do edificio em via de demolição. +Todos os objectos tinham sido retirados com assombrosa rapidez. +Operarios em mangas de camisa martellavam grandes caixões, assobiando +monotonamente, emquanto outros carregavam pesados volumes contendo os +ultimos especimens da industria americana. + +Voltei immediatamente com um ar compungido de quem acaba de acompanhar +um enterro, lamentando o tempo perdido e exclamando de mim para mim: + +--Ah! americanos d'uma figa, sois um povo excepcional! + +Agora uma pergunta ingenua: Porque é que o Brazil, com os numerosos +recursos que tem á mão, timbra em occupar logar segundario em quasi +todas as Exposições a que concorre? + +Indifferença, talvez, simples indifferença de nossos governos. + +Na celebre Exposição de Philadelphia não sabiamos á ultima hora como e +onde accomodar os productos deste paiz, em consequencia de não ter o +governo mandado construir um pavilhão especial. + +Contentamo-nos em enviar objectos bastante conhecidos, não fazemos +selecção na escolha d'elles, não nos importa o modo como devam ser +acondicionados. + +Na Exposição de Vienna ainda o Brazil teve de occupar logar pouco +lisongeiro, e si alguns de seus productos principaes tiveram a +felicidade de ser premiados foi isso devido, não ao governo, mas tão +somente a esforços de muitos negociantes do Rio de Janeiro e do Pará. + +Annuncia-se para o anno vindouro uma _Universal Great Exhibition_, nos +Estados-Unidos, cujo successo irá rivalisar, talvez, com o da Exposição +Universal realisada ha mezes em Pariz e notavel pela colossal e tão +celebre torre Eiffel. Nenhuma razão assiste para que a grande nação da +America do Sul, o Brazil, não se faça representar com todo o brilho de +sua incontestavel riqueza. + +Agora que somos republica, torna-se dupplamente preciso que patenteemos +ao mundo inteiro a infinita variedade de nossas produções agricolas, a +opulencia invejavel da flora brazileira e da industria já bastante +adiantada d'este bellissimo paiz, cuja natureza extasiou Humboldt, +Agassiz e tantos outros sabios da Europa. + +Si cada Estado souber cumprir seu dever não poupando esforços para esse +nobilissimo fim, certo d'esta vez não teremos que corar perante as +outras nações como nos tempos do anachronico imperio do Sr. D. Pedro II. + + + + +VIII + + +A grande Exposição Industrial de Nova Orleans prolongou-se até ao +_Almirante Barroso_. O bello cruzador brazileiro começou desde logo a +ser o alvo dos curiosos de todas as nações ali representadas. + +Comprehende-se o vivo interesse do povo em assumptos d'esta ordem. + +Não havia na cidade quem não soubesse que estava no porto um navio de +guerra do Brazil, e este facto por si só era bastante para que toda a +gente ardesse em desejo de vel-o de perto, de o percorrer d'um extremo a +outro. + +--Quantos canhões traz? perguntava-se. A machina quantas milhas vence +por hora? Quantas rotações por minuto? + +E quando affirmavamos que a machina do _Barroso_ era de ferro Ipanema e +d'outros metaes brazileiros, que todo o navio, da pôpa á prôa, era +construcção inteiramente nacional, subia de ponto a surpreza dos nossos +visinhos. + +O quê! No Brazil já se constroem navios de guerra?--_It is +impossible!..._ E toda a população, tomada de um quasi espanto, +duvidando, talvez, da nossa habilidade, affluía ao caes. + +Todo o cruzador, desde a camara do commandante até ao alojamento dos +marinheiros, desde o tombadilho até ao porão, foi exposto á curiosidade +publica. + +O sexo gentil, com especialidade, repetia suas visitas. + +Desde ás oito horas da manhã, ao içar-se a bandeira, começavam a atracar +lanchas a vapor e escaleres cheios de visitantes de ambos os sexos. + +Grandes lanchas iam e vinham do caes para o cruzador e do cruzador para +o caes, continuamente, incessantemente, apinhadas de passageiros, que +pagavam 5 centimos de ida e volta. Cada uma trazia á prôa, em letras +esparramadas e vivas, a senha:--_Brazilian man of war_. + +Á tarde, depois d'uma faina acabrunhadora de receber familias e +percorrer duas, tres e mais vezes o navio, dando explicações, +descrevendo apparelhos e machinismos com uma paciencia de pedagogos, +iamos á terra, distrahir nos cafés, nos theatros, nos bailes, tanto mais +quanto multiplicavam-se os convites para todas as diversões publicas e +familiares. + +As familias com que iamos entretendo relações de amizade exigiam que +fossemos quotidianamente a suas casas, como si nos sobrasse tempo para +isso; e, força é confessar, dispensavam-nos um tratamento quasi +paternal. + +A melhor de todas as recepções que tivemos, não obstante o caracter +official que a revestia, foi a do Governador da Luiziania, esplendido +baile no _Royal Hotel_, no dia 8 de Abril, ao qual compareceram todas as +autoridades civis e militares da cidade em uniforme de gala. + +A casaca, o clak, a gravata de sêda branca, o vestido decotado até aonde +permitte a decencia, confundiam-se nos salões do hotel ricamente +adornados, cheios de luz, escancarados de par em par como um palacio em +festa. + +A joven officialidade brazileira, eximia em _cotillons_, expandiu-se a +valer n'essa magnifica _soirée_ de inverno, fria e clara, constellada de +botões d'ouro e brilhante, longe da patria, longe de suas familias, mas +no seio d'um povo que nos amava devéras. + +Saráo principesco esse de que ainda sinto o saibo exquisito ao traçar as +reminiscencias da minha primeira ausencia do Brazil. + +Mesa abundantissima e franca, desde a deliciosa sôpa d'ostras com molho +inglez á mais fina champagne Clicot, com escala pela _mayonnaise_ de +lagosta, fresca e picante, pelo succulento _poisson à l'itallienne_, +rubro e apettitoso... e tantos, meu Deus, e tantissimos outros pratos +maravilhosos inventados pela gula epicurista de todas as gerações desde +Luculo até á nossa. + +Volvemos para bordo seria madrugadinha, tropegos, cansados e +somnolentos, palpebras cahidas, supplicando a frescura d'um travesseiro, +dentro de nossas inviolaveis capas da Bretanha. + +Uma noite brazileira com todos os excessos da nossa educação e do nosso +caracter; saudosa noite, a primeira de minha vida em que me enfronhei +n'uma casaca irreprehensivelmente bem feita... + +O _Barroso_, diluído na escuridão da noite, aproado á correnteza que +descia rio abaixo cantando uma melopéa de lenda, o _Barroso_--pedaço da +patria longinqua--acenava-nos com a sua luzinha amarella palpitando ás +rajadas do vento frio. + +... E os bailes repetiam-se e nós viviamos cercados da alegria +communicativa d'esse povo americano eternamente jovial! + +Falemos ainda das mulheres de Nova Orleans. + +Bellas quasi todas, amaveis e insinuantes, cheias d'uma inexcedivel +graça que arrebata e seduz voluptuosamente. + +As _créoles_, ah! as _créoles_... ninguem as vê que não as fique +desejando. + +Caracteres principaes: tez morena, com uns tons de rosa na face, olhos +muito negros, criminosos até ao homicidio flagrante, pequenas, +delicadas, flexiveis, aereas quasi, conjuncto meigo e melancolico, muito +sensiveis... A vaga expressão de seu olhar avelludado derrama não sei +que mysterioso fluido, cujos effeitos traduzem-se em voluptuosas +sensações, secretos desejos de posse absoluta... + +Como differem as chamadas _créoles_ das verdadeiras americanas! + +Estas--muito rubras, cabello côr de ouro, olhos azues--são frias, quasi +indifferentes ao amor, egoistas de sua belleza de estatua, vivendo para +o trabalho e para a familia; aquellas--adoraveis com as suas linhas +ideaes, com a vaga e communicativa melancolia de seu olhar +voluptuoso--fazem lembrar um povo mystico e cheio de bondade d'algum +paiz nebuloso e desconhecido... + +É curiosa a origem da população _créole_ de Nova Orleans. Ella descende +na maior parte de aventureiros canadaenses e _courreurs des bois_--gente +ousada e valente, que emigrou do norte para o sul da America +septentrional, por terra, atravéz de inhospitos desertos povoados de +selvagens perigosissimos. Esses aventureiros chegaram a Luiziania sem +familias, depois de uma viagem cheia de trabalhos e fadigas, +descansando, por fim, ás margens do Mississipe. A Luiziania era então +colonia franceza, e o rei, apiedando-se da sorte dos infelizes +immigrantes, que viviam solteiros, longe de sua patria natal, sujeitos a +uma castidade quasi absoluta, quiz aproveital-os para a colonisação. +N'esse intuito mandou vir de Paris um _carregamento_ de mulheres, +prisioneiras da Salpetrière, que chegaram a Nova-Orleans em ferros, e +onde foram postas em liberdade e entregues á concupiscencia da população +masculina. + +Isso, porem, não trazia vantagens á colonia, que precisava de gente. Os +canadaenses satisfaziam seus apetites carnaes sem que augmentasse o +numero de habitantes--facto este que não passou despercebido ao +directorio da Companhia da Luiziania, cujo principal interesse era a +multiplicação das almas. + +N'estas condições foram dadas outras providencias, e, em 1728, chegou a +Nova-Orleans um grupo de raparigas, conhecidas na Luiziania historica +pelas _filles de la cassette_ ou _casket girls_, mandadas pelo rei para +o convento das Ursulinas afim de se casarem licitamente. A experiencia +foi coroada de successos. Em breve tempo começou a crescer a colonia e +os descendentes da _cassette_ tinham orgulho em o serem. + +Tal foi a origem humilde dos primeiros filhos nativos da Luiziania. + +Seu sangue é uma mixtura de sangue canadaense e sangue francez. + +A mulher americana do norte é geralmente bem educada. Muitas vimos em +Nova-Orleans, que conheciam e falavam dois, tres idiomas, alem do +vernaculo. + +Preoccupam-se pouco com bailes e modas, trajam com simplicidade e +elegancia, sem affectação, sem a natural _coquetterie_ da mulher +parisiense. Seu divertimento predilecto é a musica. + +O proverbial desembaraço das americanas manifesta-se a todo instante. +Promptas sempre a repellir com dignidade um ataque á sua honestidade, +ellas se dirigem aos homens em qualquer parte, na rua ou nos salões, com +a mesma simplicidade com que o fazem ás amigas. O respeito entre os dois +sexos, nas classes superiores, é um dos principaes caracteres do povo +americano. Habituados, homens e mulheres, a uma educação livre, vivendo +uns e outros em commun desde creança, as americanas não se confundem +nunca diante dos homens. + +Nos Estados-Unidos o bello sexo é respeitado como em parte alguma. + +Os paes depositam confiança illimitada nas filhas. Deixam, sem +escrupulo, que ellas saiam a passeio, de carro ou a pé, só ou em +companhia de um amigo da casa, na certeza de que ellas saberão zelar a +sua castidade. + +Os raptos e os defloramentos são raros, não sei si devido ao +temperamento da raça ou si á inflexibilidade da Lei. O que sei é que, si +um rapaz gosta de uma rapariga de familia reconhecidamente honesta, não +tem mais do que namoral-a escandalosamente ás barbas de quem quer que +seja, á vista do mundo inteiro, beijal-a sem ceremonia, como si fossem +irmãos, e, d'ahi a pouco, eil-os casadinhos de fresco, _bras dessus, +bras dessous_. + +E ai! d'aquelle que violar os preceitos decretados pelo governo! +Immediatamente vê-se dentro d'este triangulo medonho: o casamento, o +dote, ou a cadeia. A Lei é inexoravel e a policia exerce uma vigilancia +sem igual. + +Informados de taes particularidades do caracter americano, nós, +brazileiros, pusemos um dique ao nosso temperamento de meridionaes, +evitando o mais possivel os compromissos amorosos, as manifestações de +sympathia por essas adoraveis _ladies_, que, a falar verdade, +inflingiam-nos os maiores supplicios com o maravilhoso poder de suas +qualidades physicas. + +Tantalos do coração, eramos obrigados a conter os impetos ferozes da +carne que nos aguilhoava implacavelmente no delicioso convivio das +louras _miss_ e das ternas _créoles_. + +_Estão verdes, não prestam_--era a nossa divisa e d'est'arte escapavamos +sempre aos ataques de tão perigoso inimigo... + + + + +IX + + +O dia 14 de Abril (deixem passar a precisão chronologica) estava +destinado pelo commandante do _Barroso_ para uma excursão fluvial, +scientifica, á foz do Mississipe, onde iriamos observar _de visu_ os +importantes trabalhos hydraulicos, que ahi se procediam sob a +intelligente direcção do notavel engenheiro americano Mr. Jas. B. Eads, +um velho respeitavel, encanecido no serviço da engenharia, e cujo nome +está ligado a muitas obras notaveis de seu paiz. + +Ás onze horas da noite a barca de passeio _Keokuk_ largou de Nova +Orleans, rio abaixo, conduzindo a turma de guardas-marinha, alguns +officiaes e o commandante, com destino ás _Jetties_. + +Uma excellente embarcação a _Keokuk_, especie de pequena cidade +fluctuante, muito larga e espaçosa, avantajando-se em dimensões aos +vapores da Companhia Brazileira. Tres pavimentos: o superior, coberto +por um grande toldo, onde os passageiros podiam fumar á vontade; o do +meio formando um salão-refeitorio, ao lado do qual ficavam os camarotes +e o porão, para mercadorias; rodas á pôpa, systema de locomoção que não +conheciamos; duas chaminés, e machina possante. Em semelhantes condições +eramos capazes de fazer a _volta do mundo em oitenta dias_... + +Passámos a noite sobre o rio, navegando á meia força, ao sabor da +correnteza. + +Lá iamos outra vez para a região dos mosquitos! Preparámo-nos para dar +quixotesca batalha, apezar da falta impreenchivel do nosso querido +companheiro, o barbeiro de Sevilha, quero dizer o barbeiro de bordo, o +impagavel hespanhol que tanto nos divertira na caça aos mosquitos. + +Pela manhã, cedinho, estavamos em Port-Eads, defronte do escriptorio +central do respeitavel engenheiro. + +Café, biscoitos..., e desembarcámos. + +O bom velho já nos esperava com o seu bello ar de urso domestico, barba +muito branca, de barrete e oculos, entre os seus mappas coloridos e os +seus prospectos representando _steamers_ e as _jetties_. + +--Folgo bastante em lhes poder mostrar o plano da empreza ha tantos +annos iniciada sob minha direcção, disse elle com um amavel sorriso de +bonhomia patriarchal. + +E começou a desenrolar diante de nossos olhos uma serie infindavel de +cartas hydrographicas, mappas, desenhos... + +Vale a pena se admirar essa obra monumental. + +Tratava-se de cavar o leito do rio, n'um dos braços de sua foz, por modo +a effectuar-se a navegação livremente, na linha da correnteza, e terem +entrada embarcações de grande calado, desenvolvendo-se assim o já +notavel commercio de Nova-Orleans. Com esses trabalhos o porto irá +melhorando consideravelmente, sendo para notar o grande movimento de +navios que entram e sahem durante o dia. + +O rio tem pelo menos 16.000 milhas navegaveis que os americanos dia a +dia tratam de aproveitar dando sahida a innumeros productos do +fertilissimo valle do Mississipe, o qual abrange cerca de 768.000.000 +geiras _das mais ricas terras do mundo_, como elles lá dizem. Sua +emboccadura é, portanto, a passagem natural de todos aquelles productos. + +Desde 1726 têm sido empregados esforços inauditos a fim de se aprofundar +essa parte do famoso rio; mas, foi em 1875 que o governo dos Estados +Unidos contratou definitivamente esse serviço com Mr. Eads, e é bem +provavel que em futuro não muito remoto esteja o porto franqueado a +todos os navios do mundo, graças á perseverança e aos esforços de habeis +engenheiros. + +A visita foi curta, mas proveitosa. + +Tomámos novamente a barca, e ás cinco horas da tarde atracavamos no +forte Jackson, velha fortaleza abandonada, á margem direita do rio. Lá +estava ainda, immovel e muda, a descommunal artilharia que Farragut, o +velho almirante, commandara na guerra sanguinolenta dos separatistas, +que terminou com a tomada de Nova-Orleans. + +Os velhos canhões dormiam seu somno de bronze, lá dentro, nos corredores +escuros como os de uma Bastilha, e a nós, estudantes de historia naval, +inspiravam não sei que respeito sagrado. Perante elles falavamos baixo, +como para não os acordar... + +A fortaleza é grande, mas só tem a importancia archeologica que a +historia lhe empresta; não resistiria, talvez, ás modernas baterias. +Opulenta vegetação rasteira cresce-lhe em derredor. O seu aspecto é +sombrio como o de um cemiterio: as grossas paredes denegridas e o +silencio que a cerca dão-lhe um cunho mysterioso de crypta subterranea e +produzem no visitante uma incommoda sensação de abandono e tristeza. Em +cada canto parece surgir a sombra de um confederado clamando vingança. + +Retirámo-nos em marcha funebre, calados e supersticiosos... + +Dormimos ainda essa noite sobre o rio para amanhecermos em Nova-Orleans. +Já estavamos com saudade do _Barroso_. + +Continuaram as manifestações de amisade ao Brazil. + +O neto do imperador, jovem e irrequieto, embalde procurava fugir ás +insistencias da aristocracia local e por diversas vezes desejou ter +nascido simples burguezinho, como qualquer de seus collegas. + +E digamos aqui, muito a discreção, Sua Alteza podia ser um bello moço, +um digno cavalheiro, um excellente amigo e camarada, mas... Sua Alteza +era um pessimo principe. A sua grande aspiração era a vida livre, sem +peias, essa vida alegre e bohemia que se exgota depressa nos +_cafés-concertos_ e nos _restaurants_. + +Não gostava de continencias e despresava o juizo imbecil dos que lhe +apodavam de estroina. O certo é que esse juizo em nada o compromettia +perante o _high-life_ americano que o estimava sufficientemente. Elle +era o representante immediato da familia imperial, era o alvo predilecto +de todas as manifestações ao Brazil na grande festa internacional. + +Seria ocioso, senão monotono e fatigante, descrever, uma por uma, em +todos os seus detalhes, com todas as suas côres mirabolantes, essas +manifestações, profundamente fraternaes e democraticas, com que nos +recebeu a distincta sociedade de Nova-Orleans. Bailes, regatas, passeios +improvisados, concertos, brindes,--e não raro a tolda do nosso bello +cruzador converteu-se em esplendido salão de baile, acordando a sons de +orchestra e gritos de alegria o silencio agreste das margens do +Mississipe. + +É este o unico consolo d'aquelles que andam no mar em serviço da +patria--o repousar em terra amiga. Vão-se as saudades para dar logar á +franca expansão dos corações: a alma do marinheiro transforma-se, como +por encanto, n'um hostiario de alegrias de uma ingenuidade incomparavel, +e elle ri com os outros, canta e sente-se tão bem como si estivesse em +seu proprio paiz, no meio de seus amigos e de seus parentes. Encantadora +illusão, que só dura emquanto elle não abre as velas mar em fóra nessa +interminavel derrota de argonautas que vão atraz do bezerro de ouro da +felicidade... + +Não direi, não, o que nos divertimos, as multiplas sensações por que +passou o nosso espirito n'essa Luiziania que o Mississipe embala com o +rithmo nostalgico de suas aguas côr de barro. Seria desdobrar a natureza +humana tão complexa e mysteriosa. + +Vamos adiante, consultemos o caderno de notas. + +_25 de Abril_...--Estavamos na Paschoa, a festa risonha e popular da +ressurreição do Christo. Até então nenhum desgosto, nenhuma tristeza, +nenhuma magoa toldara o céo purissimo de nossas alegrias. Vagavamos em +mar de rosa, egoistas de felicidade, sereno o espirito, aberto o coração +a todos os influxos bons. Boa vida, por um lado, essa de quem viaja sem +grandes preoccupações, no bojo de um navio patricio. + +Eis que, de repente, uma nota dissonante e sombria chamou-nos á +realidade pungente da vida humana: morrera um nosso companheiro de +bordo, o Leocadio..., que digo eu? um d'esses heróes anonymos que usam +gola ao pescoço, um pobre marinheiro que a fatalidade arrebatou de sua +terra natal para morrer tysico em paiz estranho. + +Ninguem imagina a dolorosa impressão que produz a morte de um +companheiro de viagem longe da patria, n'um hospital desconhecido. + +Fez-se o enterro com todas as honras devidas ao obscuro soldado e velho +marinheiro, nascido, por assim dizer, sobre o mar e educado na escola +das tempestades. Tinha sessenta annos. Era o «cosinheiro da prôa». Sobre +o seu corpo foi estendido a bandeira nacional brazileira como symbolo da +patria reconhecida. + +N'esse dia, conforme já estava assentado, toda a guarnição do _Barroso_ +desembarcou a fim de assistir á missa solemne da Paschoa na cathedral de +S. Luiz, o mais importante dos templos catholicos da cidade, situado na +rua Chartres. + +Bem que antiga, essa egreja parece resistir ainda por muito tempo. Foi o +primeiro edificio catholico erigido em Nova-Orleans pelos capuchinhos, +em 1718, ao tempo da fundação da cidade. Tomou o nome de S. Luiz em +homenagem ao rei da França. + +Mais tarde, em Setembro de 1723, desabou sobre a nascente cidade, cuja +população elevava-se a 200 almas, formidavel cyclone, que arrasou todos +os edificios, causando uma mortandade incalculavel. Narram os chronistas +que foram arrojados á costa trez navios que se achavam fundeados no +porto. Em breve, porem, a cidade foi reedificada, sendo em 1724 +reconstruida a egreja, essa mesma que ainda hoje ergue seus torreões +vetustos na rua Chartres. + +Naquelle anno o territorio de Nova-Orleans foi dividido em tres grandes +districtos sob a administração dos capuchinhos, dos carmelítas e dos +jesuitas. De então em diante multiplicaram-se os edificios religiosos, +egrejas palacios episcopaes, conventos, etc. + +O convento das Ursulinas data egualmente da fundação da cidade e é um +estabelecimento catholico á maneira do de Ruão conhecido por esse mesmo +nome. + +É um dos ultimos conventos que ainda existem nos Estados-Unidos. Consta +de trez andares e ergue-se á margem do rio, para onde abre suas +janellinhas atravéz das quaes se vê passar a sombra phantastica das +religiosas. + + + + +X + + +Um bello povo, o de Nova-Orleans--jovial, communicativo, hospitaleiro e +sincero. A elle devemos os melhores dias dessa longa viagem ao paiz +suggestivo e excepcional dos _yankees_, universalmente querido e +respeitado por sua grandeza industrial e por suas bellas tradições de +energia e patriotismo. + +E emtanto approximava-se o dia da partida: iamos embora rumo de norte, +levando comnosco a immorredoura lembrança do Meschasebé, «le roi des +fleuves», e das legendarias terras que Chateaubriand poetisara nas suas +inimitaveis _viagens_. Restava-nos, porem, o consolo de que ainda +iriamos á sonhada Nova-York dos trens aereos e das emprezas colossaes. + +Corações á larga, rapazes! Um homem é um homem!... + +A saudade, porem, não é uma simples figura de rethorica, pelo amor de +Deus! É um estado d'alma como a nostalgia, como o amor, como a tristeza, +como a dôr... + +A saudade existe, é um phenomeno perfeitamente real e determinado na +ordem dos factos psychologicos. Não nos venham dizer outra cousa os +senhores neologistas _fin de siècle_. Por ter sido cantada em prosa e +verso, nem por isso a saudade deixa de ser o que é na verdade--uma +commoção nervosa interessando o mais delicado e sensivel do coração +humano, uma dolencia vaga, fluctuante n'alma, intraduzivel como um sonho +nebuloso, tocada de doçura e ungida de tristeza... + +Por que uma pessoa tem barba no rosto e já passou dos vinte annos, +segue-se que não deve ter mais saudade, que deve ser um insensivel, uma +massa inabalavel? + +Absolutamente não. A lagrima, expliquem-na como quizerem os doutores da +sciencia, hade existir emquanto palpitar em nós esse musculo que se +chama coração, emquanto a humanidade soffrer e houver um motivo +sentimental para commover os seres dotados de intelligencia. É talvez +uma questão de mais ou menos intensidade nervosa. Por que tudo é egoismo +neste seculo essencialmente palavroso e mercantil, deve-se concluir que, +em futuro não muito longe, a raça humana se transforme n'uma como +esphynge, sem affectividade possivel, ou que o systema nervoso passe a +exercer funcções negativas na physiologia do porvir? Não o +acreditamos... + +A lagrima hade existir _per omnia secula_, e a saudade terá sempre a sua +lagrima, como sentimento superior ás nossas forças. + +Chorar sobre o tumulo de um amigo é tão natural, tão humano como chorar +porque nos separamos de um ente querido. Não desejo agora, por um +velleidade de rabiscador sentimentalista, fazer a psychologia da +lagrima. O que eu quero é confessar, embora d'isso me advenha o +qualificativo de _piégas_, que não podiamos--eu e a maior parte dos meus +collegas--pensar em deixar Nova-Orleans sem um demorado fremito de +palpebras e uma nevoa humida no olhar triste... + +E, dizendo isto, está dito o que nos merecia a hospitaleira população +d'aquella cidade. + +Entretanto, ainda não estavam satisfeitos os luizianenses. Como ultima +prova de verdadeira estima o _Luiziania Jockey-Club_ deu-nos um +magnifico baile na vespera da partida. + +Tenho ainda na memoria essa derradeira impressão que me ficou de +Nova-Orleans. Fazia um luar soberbo, um luar tropical, um luar de +legenda, tão limpido e tão claro que se não viam as estrellas... O +_Jockey-Club_, em baixo, fazia um effeito surprehendente com a sua +illuminação de mil côres rodeando a grande raia das corridas, com o seu +aspecto phantastico de kermesse nocturna, salpicado de pontos luminosos +e galhardetes em miniatura, immoveis na calmaria da noite. + +Em derredor a mudez solemne da floresta acordada de instante a instante +pelo echo da musica cortando o ar calmo. + +Perto do _Club_ tinha-se armado um grande estrado para a dansa ao ar +livre, sem tecto, sem toldo, sob o luar. + +Cruzavam-se os pares, n'um turbilhão impetuoso, ao som das walsas +americanas e dos galopes á brazileira. + +N'essa noite, e pela primeira vez, conversei longamente com uma +_créole_, Mlle... já me não lembra o nome, um typo ideal de Walkyria de +olhos negros com um extraordinario brilho nas pupillas,--microscopica, +delgada, flexivel, cintura extremamente fina, certo geito adoravel de +pender a cabeça para os lados, n'um abandono irresistivel... Toda de +preto. + +Dansámos uma quadrilha e ella convidou-me a passeiar no Prado. + +Lá fomos, braço dado, eu muito circumspecto, teso dentro da minha farda +de guarda-marinha, levado quasi que machinalmente por essa formosa dama +d'olhos negos e seductores, arranjando a custo umas phrases de effeito, +que eu não teria coragem de reproduzir; ella, desenvolta e pequenina, +muito leve na sua _toilette_ escura, conduzindo-me n'aquella esplendida +_promenade au clair de la lune_, para onde... não sei eu... + +Perguntou-me si as brazileiras eram bonitas e ricas, si no Brazil +dansava-se muito, e que tal nós tinhamos achado as americanas. +Explicou-me então a differença entre _créoles_ e americanas propriamente +ditas. + +Respondi-lhe como pude, exaltando as nossas patricias, «bellas e ricas, +como não ha eguaes no mundo...» + +Parámos. Tinhamos andado seguramente dois kilometros e não viamos agora +senão a parte superior do _Club_, por traz do arvoredo, toda illuminada +ao longe, como uma cousa phantastica. + +Á proporção que nos afastavamos dos nossos companheiros a conversa +tornava-se menos animada, e, por fim, já seguiamos calados, como dois +somnanbulos, no silencio da noite enluarada... + +Depois é que vimos a distancia que nos separava do centro da festa. + +Na volta encontrámos outros pares em doce confabulação, como nós, longe +do ruido. + +Despedi-me para tomar o trem, e ella, a dama dos olhos negros, disse-me +um _Good bye_ tão sentido e tão suggestivo que eu não tive geito senão +perder o trem. + +_Good bye!_ Nada mais doce e expressivo que estas simples palavras em +bocca de americana. Uma ingleza talvez que as não pronuncie com tanta +suavidade, com tão sonora flexão, com tanto sentimento. _Good bye_... Ha +qualquer cousa de avelludado no timbre cantante com que ellas, as _miss_ +da Nova-Inglaterra dizem a sua phrase sacramental de despedida. O nosso +_adeus_, aliás tão laconico e singelo não exprime tanto, não caracterisa +tão bem esse estado d'alma que se denomina--saudade. + +E, a proposito de--_Good bye_, vem-me a memoria um episodio de uma +simplicidade primitiva e commovente que a minha indiscrição de +observador tagarella não deixa calar. + +Esqueçamos a rapariga d'olhos negros e narremol-o em toda a sua verdade. + +Entre os nossos companheiros de viagem havia um, cuja vida estava cheia +das mais interessantes aventuras amorosas. Chamava-se Manoel..., o +apellido de familia não nos interessa. O joven official de marinha, moço +de bella apparencia e excellente coração, apaixonara-se por uma Eva +Smith muito conhecida nos cafés-concertos de Nova-Orleans. Até aqui nada +mais natural. Ella vira-o uma vez diante de um _bock_, seus olhos se +encontraram, e, desde logo, Manoel ficou sendo a menina dos olhos de +Eva. Amaram-se por muitos dias, gosaram todas as delicias imaginaveis, +elle prohibiu-a de andar nos cafés, ella prohibiu-o de olhar para outras +raparigas, e assim corresponderam-se de commum accordo, sem que nunca +houvesse entre elles a menor desavença. + +--Leva-me para o Brazil, Manoel... (ella só o tratava por Manoel). + +--Sim, filha, depois havemos de ver isso... + +--I love you very much... + +--Oh! yess... I think so... + +Viviam felizes como um casal de noivos, longe da cidade, n'um quarto +d'hotel, onde havia do melhor vinho e da melhor sôpa. + +Um bello dia: + +_Elle_--Olha, sabes? O _Barroso_ suspende ferro amanhã.?. + +_Ella_ (surprehendida)--What do you say?! + +_Elle_ (trincando um rabanete)--É o que estou lhe dizendo. Amanhã, por +estas horas, o Manoel vai sulcando o golfo do Mexico. + +_Ella_ (cruzando o talher)--Impossivel! Por que já não me disseste? + +--Para te poupar o desgosto... + +--Oh! não, meu querido Manoel, é historia, tu não vás amanhã... + +--Assim é preciso. São cousas da vida... + +--Não, não, meu amor (_my love_) tu não vás, porque eu não quero, do +contrario faço escandalo, estás ouvindo? + +E, ao dizer estas palavras, a pobre Eva deixou cahir uma lagrima... + +Silencio. Manoel continuou a jantar sem interrupção, muito calmo, com +uma fleugma verdadeiramente britannica. Eva, coitada, abriu a soluçar +baixinho, fungando a mais não poder, sem se aperceber de que estava +fazendo de um guardanapo um lenço. + +........................................................................... + +Ultimo acto, e aqui é que está o aproposito. + +Scenario: O Mississipe pardo e murmurejante sob a luz moribunda do +crepusculo. + +O _Almirante Barroso_, immovel sobre o rio, com a sua mastreação muito +alta, fuméga. Ouve-se barulho de cabrestante e de amarras cahindo no +convéz. Tremúla a bandeira brazileira na carangueija da mezena... +Ultimos preparos. + +No cáes agita-se uma multidão compacta. + +De repente surge á tona d'agua o cepo da ancora enlameada, pingando um +lodo cinzento, e o navio começa a andar vagarosamente. + +A guarnição sóbe ás vergas, alastrando-se de um bordo e d'outro, e acena +para terra ao som de--vivas! + +Agitam-se lenços na praia, correspondendo ás saudações de bordo. Um +fremito percorre os que estão no cruzador... + +É o momento decisivo. + +Um grande rebocador, _Theo Warriar_, vistoso e arquejante, acompanha as +manobras do _Barroso_, á distancia de uma amarra, solitario e sombrio, +envolto n'uma nuvem de fumaça, e em cuja tolda assoma a figura +desgrenhada de uma mulher. + +O cruzador segue á vante, magestoso e lento, descrevendo uma bella curva +no espelho da agua, e torna a passar defronte da cidade, apressando a +marcha. + +As religiosas das Ursulinas lá cima, nas janellinhas do convento, acenam +tambem com os seus lenços brancos. + +E, no silencio da tarde que a nevoa melancolisa, repercutem estas +palavras tocadas de saudade: + +--_Good bye!_ + +--_Good bye!_ repete a mesma voz avelludada como um carinho... + +Olhámos uns para os outros commovidos. + +Quem seria que se lembrara de levar tão perto sua despedida aos +brazileiros? + +A voz era de mulher, não restava duvida... + +Com effeito, reconhecemos na figura desgrenhada que viamos a bordo do +rebocador Eva Smith, a amante de Manoel..., a apaixonada rapariga muito +conhecida nos cafés cantantes de Nova-Orleans, cujo enthusiasmo pelo +nosso companheiro tinha chegado a seu auge. + +E quando o _Barroso_ desappareceu na primeira curva do rio, ainda +ouviamos, tomados de uma tristeza infinita, a mesma voz cheia de +desespero, agora abafada pela distancia, soluçada e plangente: + +--_Good bye_, Manoel! _Good bye!_... + +E dizer que a _Dama das Camelias_ é uma excepção na vida sentimental das +filhas de Eva!... + +O nosso Armando, que aliás nunca pretendeu regenerar ninguem, deixou se +cahir n'uma saudade profunda, n'um longo adormecimento d'alma, de que só +accordou no alto mar, quando já não se avistava um ponto siquer da costa +americana. + + + + +XI + + +Abençoada ilha de Cuba, direi muito pouco de teus aspectos, de teus +costumes, de tua gente, de tua civilisação, mesmo porque a nossa demora +em tua bizarra capital, foi curta como um sonho bom. Um epicurista diria +que apenas tivemos tempo de mastigar um _havana_, d'esses que fabrícas +aos milheiros e que fazem a delicia dos consumidores do bom tabaco. + +Bellas cubanas d'olhos rasgados e sensuaes, acreditamos piamente nas +coloridas descripções em que viajantes de todas as nacionalidades gabam +as vossas preciosas qualidades physicas, os vossos olhos ardentes, os +vossos cabellos negros, a vossa graça incomparavel e seductora... Nos +oito curtos dias que passámos em vossa patria não tivemos a felicidade, +a gostosa satisfação de vos contemplar senão de relance, por um acaso +verdadeiramente providencial. + +Dizem outros que sois bellas e irresistiveis, que dansais divinamente o +_salero_, que possuís todos os encantos possiveis, e isto é quanto basta +para que dispenseis o desmaiado elogio dos que não tiveram a fortuna de +confabular comvosco. + +E o leitor, por sua vez, contente-se em saber que Havana, com suas +_calles_ irregulares, estreitas e pacatas, é uma pequena capital sem +_capitaes_, sobriissima de diversões populares, quasi monotona, mas +relativamente adiantada. + +Não se lhe póde negar certo progresso material e mesmo uma ponta de +civilisação européa. + +Encontram-se nella importantes estabelecimentos commerciaes, grandes +tabacarias que fornecem fumo e seus preparados a quasi todos os mercados +do globo; excellentes botequins, poucos hoteis. + +O celebre professor Agassiz, no roteiro de uma de suas excursões á +America, disse que toda a architectura brazileira é _pesada e sombria_; +eu accrescentarei que no mesmo genero são as edificações de Havana, o +que não é para surprehender n'uma cidade antiga, onde se observa ainda o +cunho tradicional da velha metropole hespanhola. + +Entre os monumentos archeologicos notámos a secular cathedral onde +(refere a chronica) estão sepultados os ossos de Christovão Colombo. + +Vimos uma estatua--a de Izabel a Catholica, n'um grande largo que tem o +nome da santa rainha. + +Particularidade interessante: a população dá a vida por gelados, em +consequencia do calor excessivo e constante a que vive sujeita. + +Visitámos tambem (ia-me esquecendo) os aqueductos que fornecem agua á +população da cidade. Todos elles vão despejar n'um immenso reservatorio +de pedra inteiriça (como os nossos diques da ilha das Cobras), cavado no +sólo, formando uma especie de tanque de grande capacidade para comportar +muitos e muitos metros cubicos d'agua crystalina. O sitio onde se acha +essa importante obra de engenharia, lembra, de relance, a Tijuca com as +suas cascatas despejadas do alto de rochedos inaccessiveis, com a +extrema frescura de suas montanhas verde-escuras, debaixo de um céo +límpido e azul. É um dos melhores passeios de Havana. A viagem até ahi +se faz em diligencias puxadas á mulas, arriscando-se o _touriste_ a +chegar sem bofes ao fim da jornada longa e sem o attractivo das bellas +paisagens claras do Brazil. + +O sol é ardentissimo em Cuba, e, entretanto, as diligencias partem da +cidade pela manhã e chegam ás onze horas ao reservatorio, onde não se +encontram hoteis nem botequins. Sua-se por todos os póros e, no fim de +contas, volta-se fatigado, com a curiosidade satisfeita, mas o corpo +moido. + +O Passeio Publico... Oh! não falemos de cousas tristes. Quem já viu o +Passeio Publico da Bahia pode imaginar o de Havana: o mesmissimo +cemiterio dezerto e sombrio, o mesmissimo abandono criminoso; arvores +colossaes, meia duzia de castanheiros decrepitos, e um silencio, um +silencio absoluto de arripiar cabellos. Aos domingos costuma ir chorar +p'r'ali uma banda militar. Só então é que a gente se lembra que existe +um Passeio Publico em Havana. + +_La Havana_, de resto, é o que se póde chamar uma cidade pacifica, +socegada e sem attractivos. A impressão que ella deixa no espirito de +quem a viu exteriormente é de uma velha capital decadente, muito cheia +de sol e poeira. + +Mas, para que não fosse de todo ociosa e inutil a nossa visita á Cuba, +aproveitámos o ensejo de ver uma de suas mais pittorescas e curiosas +cidades--Matanzas, onde chegámos depois de algumas horas de viagem +costeira. Ahi nos esperava o vice-consul do Brazil, excellente +cavalheiro, cujo primeiro cuidado foi pôr á nossa disposição vinte e +tantos carros de praça a fim de que não perdessemos opportunidade de +contemplar o magestoso panorama do valle de Yumiri, um dos mais bellos +do mundo, cerca de uma legua distante da cidade. + +--Os senhores vão vêr um bellissimo trecho da natureza americana, como +talvez não haja igual no Brazil, preveniu-nos o consul. É uma maravilha! + +E lá fomos, subindo e descendo morros, completamente alheios á +topographia do paiz, cheia d'altibaixos, lá fomos caminho de Monserrate, +n'uma disparada unica por montes e valles, aos solavancos. + +Era quasi noite quando parou o ultimo carro, e corremos logo á tal +«maravilha» que o diplomata recommendara. + +Aqui têm os aguarellistas _motivo sensacional_ para uma téla +rembrannesca: + +Crepusculo... Céo pardo com uns tons de azinhavre muito vagos, aqui, +ali, bordando nuvens... Embaixo a longa extensão concava do valle +afundando-se como o leito de um grande mar, que tivesse desapparecido, +verde escuro, indistincto quasi a essa hora do dia. + +Defronte, no segundo plano, a sombra opaca de uma cordilheira,--larga +faixa de velludo cinzento--limita o scenario, confundindo-se com as +tintas indecisas da planura sideral. E, sobre tudo isso, uma tristeza +religiosa, um vago silencio de abysmo... + +Vê-se muito ao longe, de um lado da paísagem, rasgando o fundo nebuloso +do quadro, uma nodoa escarlate, ao comprido, muito desenhada, muito +escandalosa mesmo em meio de toda essa harmonia de côres esmaecidas... + +Ha muito que o sol tombou na sua eterna circumvolução diurna. A sombra +que se alastra, a pleiada phosphorecente dos pyrilampos, o silencio +absoluto que nos cerca--tudo inspira respeito: e a gente esquece +preconceitos e doutrinas para, instinctamente, levantar uma prece á +mysteriosa Força que rege o Universo... + +Existe no alto da montanha a modesta capella de N. S. de Monserrate, +sempre aberta aos crentes, muito branca na sua despretenção de nicho +d'aldeia, com a sua torresinha triangular onde vão fazer ninho, no +inverno, as andorinhas do valle. + +Cahio de todo a noite, e, no silencio da estrada que descia em broncas +sinuosidades, regressámos para o hotel, cujo salão príncipal tinha agora +o aspecto sumptuoso (dados os devidos descontos...) d'um refeitorio de +convento em dia de festa paschoal: meza lauta, vinte variedades de vinho +excellentes e tudo mais que se faz mister n'um banquete finamente +organisado á moderna. + +O resto é facil de imaginar: brindes, hurrahs, charutos finissimos... e +um somno reparador obrigado a pezadelos... + +Na manhã seguinte acordámos para outro passeio não menos agradavel. Era +preciso aproveitar o tempo do melhor modo possivel. Cometteriamos +indisculpavel falta si não fossemos ver as _Cuevas de Bella-mar_, essas +caprichosas grutas subterraneas, verdadeiros palacios de crystal +puríssimo, que se abrem terra dentro em toda a opulencia de suas +maravilhosas stalagmites e stalactites. Era mais uma deliciosa surpreza +que nos estava reservada. Ir á Matanzas e não ver as _Cuevas_ equivale a +ir a Roma e não ver o Papa. Cumprimos o nosso dever de viajantes, que +não se contentam com a vaidade infantil de pisar solo extrangeiro. + +_Cuevas de Bella-mar_... Entre os numerosos phenomenos que a geologia +registra muitos ha que ainda estão por ser lucidamente explicados, por +sua propria natureza complexa e profundamente scientifica. + +No terreno da geologia subterranea, com especialidade, innumeros são os +problemas a destrinçar, e um dos mais curiosos e interessantes é, sem +duvida, a formação das cavernas, as excavações produzidas por agentes +externos, pela infiltração natural da agua no solo calcareo, formando +essas caprichosas pyramides de crystal, que a sciencia denomina +_stalagmites_ e _statactites_. + +As _Cuevas de Bella-mar_ formam um dos mais bellos panoramas que se +podem imaginar. + +Figure-se um grande tunel aberto no subsolo e de cuja abobada pendem +crystaes multiformes, cada qual o mais surprehendente, alguns de tamanho +admiravel, emquanto do chão constantemente humido sobem outros de egual +estructura, ponteagudos quasi sempre, formando, ás vezes, columnatas +brilhantes, esplendidos capiteis, tão caprichosamente dispostos que +dir-se-iam architectados por mãos humanas. A caverna prolonga-se a +perder de vista, deslumbrante como um palacio encantado, á luz dos +archotes, porque é impossivel percorrel-a sem luz, e a cada passo uma +nova exclamação de surpreza irrompe da bocca do observador, espontanea e +enthusiastica. + +É, com effeito, encantador o aspecto das _Cuevas_. + +A athmosphera é quasi insupportavel, apezar da humidade que se reflecte +das paredes da gruta: um calor medonho de fornalha acceza! + +É expressamente prohibido tocar nos crystaes. Um guarda, empunhando um +archote, acompanha o visitante, recommendando-lhe de espaço a espaço, +todo cuidado, toda cautela para que não dê alguma cabeçada... + +Desta vez tinhamos sabido preencher o tempo utilmente, compensando as +horas perdidas em Havana. + +N'esse mesmo dia o _Barroso_ fez-se de marcha para o _paiz dos yankees_, +para Nova-York, a bella e maravilhosa cidade que o consenso universal +alcunhou de Londres americana. + +E... foi um dia a ilha de Cuba... + + + + +XII + + +...Manhã de inverno, fria e nebulosa, sem uma restea de luz confortavel. +Estava interdicta a nossa curiosidade, pois que amanhecemos defronte da +bahia de Hampton Road, a essa hora coberta de cerração, cheia de +nevoeiro, impenetravel. Não podiamos, que pena! ver Nova-York de fóra, +do mar, abrangel-a toda com um golpe de vista, stereotypal-a na +imaginação para todo o resto da nossa vida. A grande cidade cosmopolita +dos trens elevados e das pontes colossaes dormia o somno beatifico da +madrugada, envolvida n'um largo capuz de neve atravéz do qual apenas se +podia ouvir a sineta de invisiveis embarcações que bordejavam demandando +o porto. Adivinhavamos que muitos vapores transatlanticos aguardavam, +como nós, o momento azado para fazerem sua entrada. + +Felizmente não durou muito esse estado quasi afflictivo. Por traz do +nevoeiro compacto e lugubre os primeiros clarões da manhã surgiram como +uma apparição bemdita, rompendo a monotonia branca da atmosphera, e +pouco a pouco, á proporção que a neve ia se rarefazendo, o _Barroso_ +tomava chegada muito lento, e Nova-York destoucava-se n'um fundo +luminoso, batida pelas primeiras irradiações do sol, ruidosa e +alviçareira, toda cheia de brilhos, como um quadro de malacacheta. + +Onze horas. Céo limpo e mar chão--como se diz nos diarios nauticos. Nem +mais um floco de neve, tudo luz agora, e já podemos ver cheios da mais +intima satisfação, com uma surpreza ingenua no olhar, o aspecto risonho +da bahia cortada de embarcações á vela e á vapor, com os seus longes de +verdura matizando perfis de montanhas indistinctas, muito descoberta, +sem o sombrio magestoso das paisagens americanas do sul, bella na sua +simplicidade natural, e, sobretudo, muito clara áquella hora. + +Á direita destacava, á bocca do Hudson, a grande, a enorme, a colossal +ponte que liga Brooklin á Nova-York lembrando-nos que realmente tinhamos +chegado outra vez á terra feliz dos _yankees_, e d'outro lado erguia-se, +_illuminando o mundo_, a estatua da liberdade, bello symbolo de bronze, +cujo pedestal occupa toda a ilha de Bedloe. + +Era um dia de domingo, um desses dias de expansão popular, em que, no +mar como em terra, ha quasi sempre uma alegria nova entre os que +passaram a semana a trabalhar, a lutar pela vida incansavelmente com a +consciencia tranquilla de quem vive honestamente á custa do proprio +esforço. A bahia de Nova-York tinha o festivo aspecto de um dia de +regatas. Esquadrilhas de hiates, com suas velas quadrangulares, muito +elegantes e asseiados, cruzavam na barra, aproveitando a fresca do mar. +Passavam barcas de recreio, embandeiradas, conduzindo bandas de musica, +que tocavam alegremente o _Yankee doodle_. Á cerração matinal succedera +um sol frio d'inverno, que dava vontade a gente improvisar pic-nics á +beira-mar, fóra da cidade, longe dos botequins e das _brasseries_, +nalgum verde recanto onde houvesse bastante quietação e muita agua, n'um +logarejo calmo de suburbio d'onde se podesse ver ao longe, mas muito ao +longe, a miniatura da cidade soturna e cansada... + +O _Barroso_ tinha fundeado em frente á Battery Square e com pouco +recebia a visita official do Consul brazileiro e d'outras autoridades do +paiz, sendo para notar que uma das primeiras pessoas que pizaram a bordo +foi o reporter do _New-York Herald_, a importante folha americana +tradicionalmente conhecida no mundo jornalistico. Um cavalheiro +_irreprochable_, de cartola e sobrecasaca de panno, bem apessoado, +bigode louro e olhos azues, verdadeiro typo de _yankee_, amavel e +expansivo. É escusado dizer, n'um parenthesis, que no dia seguinte a +kilometrica folha descrevia, com uma precisão photographica, o cruzador +brazileiro, sem esquecer mesmo um carneiro de estima que traziamos e que +o espirituoso noticiarista incluia na lotação do navio, emprestando-lhe +qualidades invejaveis. Creio até que o pobre lanigero figurou na folha +_yankee_ entre os heróes de Humaytá! + +Satisfeitas as formalidades officiaes da chegada, trocadas as salvas do +estylo, nada mais nos restava senão ver de perto a bella cidade. + +Nova-York estava quieta, muitissimo quieta, com as suas praças dezertas, +com os seus parques silenciosos, fechado o commercio a ponto de não se +encontrar aberta uma só tabacaria, siquer um botequim. Isso, porém, não +nos causou estranheza. Sabiamos que o domingo nos Estados-Unidos é um +dia completamente inutil, um dia triste para os centros populosos. Toda +a gente dezerta para os arrabaldes em seus trajes domingueiros. As ruas, +muito largas e compridas, permanecem ermas e cheias de silencio, +entregues á vigilancia dos _policimen_. Todas as casas commerciaes, +todos os armazens, todas as fabricas, todos os estabelecimentos publicos +conservam-se fechados e taciturnos, como n'uma cidade abandonada. + +Nova-York, a opulenta e alegre cidade cosmopolíta, tinha esguichado para +New-Jersey, para Brooklin e para Conney-Island. Toda aquella multidão +laboriosa e ourisedenta, que nos dias de trabalho se atropella na +Broadway, bebia e cantava nos arrabaldes, expandia-se largamente nos +hoteis ambulantes e nas cervejarias suburbanas, folgava e ria com +desespero, sem pensar na segunda-feira, sem se inquietar com o futuro. + +Por isso é que não se deparava ninguem nas ruas, por isso não se ouvia o +barulho infernal das carroças e das carruagens. + +O domingo no paiz dos _yankees_ é para se divertir, para se descansar, +para se jogar o _criket_, para se passeiar a cavallo, para se apostar +regatas, de modo que o protestantismo americano nada tem de commum com o +protestantismo britannico. + +Emquanto nos domingos (a dar credito na chronica) o inglez reza a Biblia +no interior de seu _home_, em companhia de sua mulher e de seus filhos, +o americano, ou melhor o _yankee_ exercita os musculos e bebe cerveja +fóra da cidade. + +Não admira semelhante discordancia, quando é sabido que a religião +protestante subdivide-se em milhares de seitas. A este respeito leiam-se +os bellos capitulos em que Mr. Laboulaye (Ed. Lefèvre), estuda, com uma +graça especial e encantadora, cheia de humorismo e de senso critico, as +instituições religiosas na America do Norte. _Paris en Amérique_ é um +dos livros mais curiosos e originaes que eu tenho lido sobre os +Estados-Unidos. + +Em taes condições, extrangeiros no meio de uma cidade dezerta, +imagine-se o nosso embaraço, a triste situação em que nos collocava a +curiosidade. + +Os rarissimos transeuntes que porventura encontravamos, marinheiros ou +vagabundos que desciam para o caes da Battery, olhavam-nos com um ar de +surpreza, embasbacados, medindo-nos d'alto a baixo, com si fossemos uns +verdadeiros botocudos de tanga e cocar. + +Entretanto, não perdemos a precisa calma, e, sem mais tirte nem guarte, +saltámos dentro do primeiro vehiculo que passava, uma velha carruagem de +aluguel, cujo boleeiro custou devéras a comprehender que desejavamos +fazer um passeio ao redor da cidade. + +--Oh! yess! Yess!... + +E disparou a trote largo por aquellas ruas fóra. + +De modo que n'esse dia vimos Nova-York _à vol d'oiseau_ e por um prisma +de tristeza e monotonia. + +Em compensação a nossa demora n'aquella cidade ia ser mais longa que em +qualquer dos outros portos do intinerario. + +No dia immediato, uma segunda-feira, recomeçámos, sem perda de tempo, a +nossa tarefa de extrangeiros em paiz desconhecido. + +Eu, por mim, confesso que Nova-York produzia-me vertigens. O desejo +immoderado de tudo vêr, de tudo observar, de tudo saber, trazia-me n'uma +inquietação continua, tirava-me o somno, arrebatava-me á todas as +commodidades, torturava-me o espirito de analyse. Uma cousa, porem, devo +dizer: raro é o official de marinha, mormente da marinha brazileira, que +sabe aproveitar o tempo n'essas viagens ao extrangeiro. Aproveitar o +tempo, entendamo-nos, as horas de folga. Preferiamos a convivencia dos +cafés-cantantes aos passeios uteis e ao mesmo tempo agradaveis. Um +extrangeiro já teve a coragem de dizer que os officiaes de marinha +brazíleiros levavam o tempo, na Europa, a frequentar os _conventilhos_ e +os cafés-cantantes. Até certo ponto isso é verdade. + +Em geral elles pouco conhecem dos paizes que têm visitado, a não ser em +assumptos de sua profissão, e as suas narrativas entre amigos limitam-se +quasi sempre a recordações de aventuras amorosas. + +Tambem são tão curtas e tão raras essas viagens... + +Quando se tem a felicidade relativa de viajar sob o commando de um +official illustrado e curioso como o Sr. Saldanha da Gama, cujos +conhecimentos não se restringem á navegação e á artilharia, o +aproveitamento é certo. Elle não é sómente um superior +hierarchico--faz-se mestre e sabe proporcionar aos seus subalternos a +maior somma possivel de excursões uteis e proveitosas. + +Uma das nossas primeiras visitas foi á estatua da Liberdade, na ilha de +Bedloe. + +O importante monumento ainda não estava completamente prompto, mas já se +podia fazer uma idéa do que seria elle depois de concluido. O pedestal, +de granito, occupa quasi toda a ilhota e mede, approximadamente, 15 a 20 +metros de altura, 154 pés, desde o nivel do mar, formando uma especie de +casamata cuja utilidade não souberam nos dizer. Sobre o pedestal +ergue-se a estatua, em bronze, armada por meio de vigamentos de ferro, +pois que não é inteiriça. + +Conta-se que dentro d'ella realisara-se, em Pariz, um magnifico banquete +de 12 talheres, presidido por V. Hugo. + +Como se sabe, a estatua foi offerecida aos Estados-Unidos pela França em +agradecimento dos serviços prestados por esta nação á sua amiga na +guerra franco-prussiana. + +O pedestal foi mandado construir á custa de subscripções populares, que +em pouco tempo attingiram a uma somma elevadissima. + +Não ha por ahi quem não tenha ouvido falar na famosa ponte de Brooklin +(_Brooklin Bridge_), uma das maravilhas da engenharia moderna, que liga +a ilha de Brooklin á Nova York. + +Esta cidade, incontestavelmente o primeiro emporio commercial da America +e uma das mais populosas do mundo, fica situada n'uma grande ilha +formada por dois braços do rio Hudson. De um lado, á direita de quem +olha para o mar, um dos deltas, o North River, separa-a de New-Jersey, e +á esquerda o East River separa-a de Brooklin. A travessia para qualquer +desses pontos faz-se rapidamente, em barcas que a todo instante largam +de Nova-York, e por preço assaz diminuto. + +A principio, quando se projectou levantar a grande ponte, surgiram mil +difficuldades. + +Parecia impossivel que se podesse levar a effeito obra tão arriscada e +dispendiosa. Como assentar as bases do colosso n'uma profundidade de mil +e seiscentos pés, que é esta a altura do rio na sua parte mais estreita? + +Demais era preciso não prejudicar a navegação, construindo a ponte muito +acima do nivel do mar de modo a dar passagem livre ás embarcações de +commercio. + +Com tudo isso os americanos metteram mãos á obra e dentro de alguns +annos de trabalho assiduo os Estados-Unidos contavam mais uma gloria. + +O comprimento total d'essa magnifica ponte é de uma milha pouco mais ou +menos. As torres onde ella está suspensa erguem-se a 268 pés acima da +prêa-mar, de forma que as maiores embarcações de commercio têm passagem +facil por baixo. + +O _Barroso_, cuja guinda era uma das mais altas que se tem visto em +navio de guerra, apenas foi obrigado a «acachapar» os mastaréos de +joanetes. + +Atravessa-se a ponte em vagons movidos á electricidade, em carros de +praça ou mesmo a pé. Paga-se um centimo para atravessal-a a pé! + +O movimento é espantoso. Cruzam-se diariamente as duas populações de +Nova-York e de Brooklin, em carros em wagons e a pé, sem risco de se +atropellar, por que a cada especie de vehiculos corresponde uma passagem +independente e adequada. Os que transitam á pé têm tambem o seu caminho +livre e, por consequencia, não correm o perigo de ser pisados pelos +carros. + +Á noite o aspecto da ponte é feerico. Logo ás seis horas da tarde começa +a illuminação em toda ella, de um lado e d'outro, destacando-se em +alguns pontos fócos de luz electrica, enormes botões de brilhante que +encandeiam a vista. + +Vista do mar, então, o effeito é deslumbrante! Lembra as lendarias +pontes de Veneza cortando canaes, projectando n'agua seus reflexos +luminosos. + +Um dos meus divertimentos predilectos era contemplar Nova-York do alto. +Muitas vezes punha-me lá de cima da ponte de Brooklin, braços cruzados, +n'um extase de fetiche, a olhar para um e outro lado, acompanhado com a +vista a vela das embarcações que singravam no rio, pequeninos, +microscopicas. + +E punha-me, nessa embriaguez do grandioso a pensar no progresso dos +Estados-Unidos, d'esse paiz modelo, onde tudo move-se por meio de +electricidade e vapor, onde tudo é feito ás carreiras, n'um abrir e +fechar d'olhos, sem a menor perda de tempo; vinham-me a imaginação +escandecida as descobertas de Franklin, de Fulton e de Edison, as +maravilhosas experiencias sobre o telegrapho, sobre o telephone e sobre +o phonographo, e eu repetia com os meus botões, mergulhando o olhar na +distancia, abarcando a cidade inteira:--Grande paiz! Grande povo, gente +feliz, que sabe comprehender a vida e amar a patria! + +Como era pequeno o meu paiz, com toda a grandeza de suas montanhas e de +seus rios, diante do colosso americano do norte! + +Cahia-me n'alma uma tristeza de desterrado, uma profunda e +incomprehensivel melancolia, feita ao mesmo tempo de saudade e +descrença... + +Incansaveis os americanos! Nenhum povo os excede em temeridade e +perseverança. Sequiosos de glorias para o seu paiz, ávidos de +emprehendimentos que causem assombro ao mundo, elles tem uma grande +qualidade--o amor á sua terra, o nativismo instinctivo, o _chauvinismo_ +(deixem passar o termo) incondicional, absoluto, e é força confessar +que, sem essa qualidade, sem esse egoismo patriotico, as nações vivem, +mas não progridem. + +Ainda ultimamente a camara do Estado de Nova-York approvou, por +unanimidade, o _bill_ que propoz a construcção de uma nova ponte de +ferro sobre o East River, passando sobre a ilha de Blackorel, que ligue +Nova-York á Long-Island, e que terá seis mil metros de comprimento e 46 +de altura, com uma resistencia de 65 kilometros de velocidade para os +trens que a devem atravessar. + +É o caso de dizer, parodiando o outro: si eu não fosse brazileiro, +desejaria ser americano do norte... + + + + +XIII + + +Nunca fui a Londres, apezar do grande e impaciente desejo que tenho de +visitar a sombria capital britannica, mas estou bem certo de que +Nova-York em muitos respeitos pode ser denominada a Londres americana. + +Toda nova, toda alegre e pittoresca, sem os bairros immundos que o +Tamisa lambe com as suas aguas putridas, onde boiam cadaveres em +decomposição, illuminada por um sol que dá vida e confórta, a nova +Londres tem um cunho especial de cidade latina. Como em Londres, tudo +n'ella é grandioso e opulento, desde a edificação igual, solida e +elegante, até ás festividades publicas e ás instituições nacionaes. + +As ruas, longas e direitas, cruzam-se geometricamente e distinguem-se +pela numeração (_Fourteen street_, _Fifteen street_ etc). + +A Broadway é o centro commercial, a rua de maior movimento +quotidiano,--equivale á City de Londres. + +Ahi é que os carros se atropellam, que os transeuntes se abalroam n'uma +confusão burlesca e indescriptivel de que a nossa rua do Ouvidor não dá +siquer a menor idéa. Negociantes, capitalistas, banqueiros, correctores, +operarios e vagabundos, acotovelam-se, empurram-se, pisam-se os callos e +vão seguindo adiante, sem olhar p'ra traz, carregados de embrulhos, +suando no verão, que costuma ser muito forte em Nova-York. A gente vê-se +abarbada para romper aquella multidão cerrada, compacta e egoista. + +Um cosmopolitismo sem igual em parte alguma. + +Americanos, inglezes, hespanhoes, francezes, italianos, allemães, gente +de todas as nacionalidades, até turcos com os seus costumes exquisitos, +confundem-se nas ruas de Nova York, enchendo-as em ondas successivas e +tumultuosas, como em dias de carnaval no Rio. Parece mesmo, á primeira +vista, que o elemento extrangeiro absorve o nacional, tão numeroso é +aquelle. Custa, porém, a encontrar-se um portuguez ou um brazileiro. Em +compensação a raça latina é abundantemente representada por hespanhoes +da Europa e da America. Os mexicanos, apezar da natural e occulta +ogerisa que têm aos americanos dos Estados-Unidos, encontram-se a cada +passo e distinguem-se logo pelo seu typo original: estatura média, rosto +anguloso e abolachado, moreno, cabello duro, olhos pequenos; amaveis. +Não perdem occasião de dizer mal dos americanos, que, entretanto, +dedicam-lhes uma affeição especial. + +Uma das cousas mais curiosas de Nova-York são os trens elevados +(_elevated rail road_), a complicada rêde de linhas ferreas que rodeia a +cidade passando em muitos pontos por cima da casaria, atravessando ruas +inteiras sobre grandes columnas resistentes de ferro. Partem todas da +Battrey Square, ponto mais meridional da ilha de Manhattan (onde fica a +cidade) e vão terminar na sua extremidade septentrional, em Barlem +River. Segundo o relatorio apresentado pela _New-York Elevated_, o +numero de viajantes transportados em 1878 por essa linha foi de +107.079.625. (Sempre a estatistica como base fundamental do progresso +entre os americanos!). A linha inteira, que tem seguramente trinta +milhas, estava concluida até Harlem. Os moradores das margens d'essas +estradas de ferro aereas queixavam-se continuamente da visinhança. + +Podéra! Ruido, fumo e fagulhas a toda hora sobre a cabeça, não são +cousas que agradem a ninguem. A pobre gente fica em risco de perder o +juizo, pois não! + +Felizmente, o que aliás é muito admiravel, os desastres reproduzem-se +rarissimas vezes. É que o serviço faz-se com inexcedivel perfeição e as +posturas municipaes verificam-se enexoravelmente. + +As estações são numeradas, como as ruas: _Primeira Estação_, _Segunda +Estação_, etc. + +Os passageiros desembarcam em plataformas de ferro gradeadas, que +communicam com as estações. + +O espirito inventivo dos americanos revela-se a cada passo nas grandes +cidades dos Estados-Unidos. Em todos os estabelecimentos, em todos os +ramos da actividade publica se encontra uma applicação nova de mecanica +industrial, um artificio de utilidade pratica, economico e curioso, uma +invenção engenhosa... + +Aproveitar o tempo e economisar os _dollars_--tal é o principio +fundamental da sabedoria _yankee_. + +Um domingo em Coney-Island: nada mais pittoresco e hilariante, nada mais +suggestivo... + +Coney-Island aos domingos é para os americanos o que o Bois é para os +francezes e Hyde Park é para os inglezes--um interessantissimo +microcosmo de incrivel bizarraria, cheio do vago rumor de uma multidão +que passeia, que canta, que ri e que bebe ao ar livre, n'um _pêle-mêle_ +vertiginoso, com as suas _toilettes_ claras, com o seu bello ar +despretencioso, com os seus gestos largos de quem respira uma atmosphera +leve e pura. + +Essa pequena ilha constitue a principal diversão domingueira dos +habitantes de Nova York. + +Familias inteiras, burguezes de todas as castas, _cocottes_, affluem +para ali n'esses dias. Pela manhã, cedo, largam da Fulton Station +grandes barcas embandeiradas conduzindo musicas, cheias de passageiros. +Muita gente prefere ir por terra, em trens que partem de Brooklin. + +Não ha logar para todos nos hoteis. Improvisam-se _pic-nics_ defronte do +mar, na beira da praia, formam-se pagodeiras, e muitas pessoas ha que +não se lembram de comer--preferem a cerveja, o _bock_ a qualquer especie +de alimento solido. + +Vimos dois grandes hoteis--o _Great Hotel_ e o _Gigantic Elephant_. + +Aquelle é um magnifico estabelecimento, todo construido de madeira de +lei sobre enorme plataforma que se move em trilhos proprios. Novo genero +de hoteis até então desconhecido para nós. N'um dado momento podem ser +conduzidos, como qualquer _tramway_ d'um logar para outro. + +O _Gigantic Elephant (the monarch of the architectural world_, como lá +dizem...) mede 175 pés inglezes de altura, é dividido em 31 +compartimentos, ventilados por 63 janellas, e illuminado, á noite, por +25 fócos de luz electrica. Figura um elephante colossal, de madeira, em +pé, no meio de um jardim. Em cima, no dorso do monstro, existe um +terraço d'onde se descortina uma esplendida paisagem rasa e calma. + +Quer n'um, quer n'outro, o _promeneur_ encontra abundante variedade de +petiscos e bebidas. + +As creanças, com especialidade, fazem de Coney-Island um céo aberto. +Ellas, sim, não perdem os cavallinhos que andam á roda ao som de um +classico realejo seboso, os passeios aereos, na ponte russa, nas +barquinhas, nos trens elevados... + +Por toda a parte musica, realejos, pregoeiros de _cousas maravilhosas_, +gritos, gargalhadas... + +Tiram-se retratos instantaneos, apostam-se corridas, sobem-se elevadores +de duzentos metros acima do solo, pesca-se, alugam-se cavallos de +passeio... Emfim, Coney-Island é uma miniatura da vida tumultuosa das +grandes cidades. + +O pobre diabo que não fôr esperto e economico arisca-se a voltar com as +algibeiras cheias de vento... + +Á noite enchem-se novamente os trens e as barcas. Em uns e outros a +algazarra torna-se insupportavel. Canta-se a _Marselheza_ em vozes +detestaveis, grita-se, bate-se com a ponteira da bengala no chão, +assovia-se, imitam-se animaes de toda a especie... Uma loucura! + +Entretanto, abençoado paiz! em todas essas pagoderias não se distingue +siquer um bonné policial. Não ha conflictos, nem desastres. + +Tudo corre na maior harmonia, sem intervenção da guarda civica. Os +_policemen_ podem cochilar á vontade: a população americana é +naturalmente pacata e respeitadora da ordem. + +Coney-Island é o complemento necessario e indispensavel de Nova-York. + +Pelo verão reunem-se ali cerca de 5.000 pessoas, segundo o calculo +approximado do consul brasileiro. + + +Dias depois da nossa chegada, o _Barroso_ entrou para o dique de +Brooklin, a fim de soffrer alguns reparos no casco. + +Emquanto isto se dava, emquanto a guarnição occupava-se da limpeza +externa do cruzador, com o cuidado, com o desvelo e com o carinho mesmo +de amigos dedicados, iamos visitando outras cidades americanas, +ligeiramente, de relance. + +Não nos foi dado, porem, diga-se em parenthesis, ver o mais grandioso +espectaculo dos Estados-Unidos--a celebre cascata do Niagara, que +Chateaubriand pinta com as maravilhosas côres de sua palheta de artista +inimitavel. + +Não tivemos mesmo a felicidade de ver Washington, a bonita capital +americana, e tão pouco o presidente Cleveland. + +Esse previlegio coube quasi que exclusivamente ao ex-principe D. +Augusto, que aliás não revelou grande admiração pela Niagara, nem pelo +presidente Cleveland. + +Sua Alteza não era para que digamos muito amigo da natureza, e menos +aínda de personagens illustres. + +Quanto a mim continuei a ver a famosa cascata por um oculo, nos livros +do poeta, e o Sr. Cleveland, vi-o casualmente no _Daily News_, no acto +do seu casamento realisado a esse tempo. Pareceu-me um bello typo de +_yankee_: cheio de corpo, cabello penteado p'ra traz, olhar firme, +bigode grosso... + +Assim, contentámo-nos com visitar algumas cidades de importancia e tão +depressa que era impossivel apanhar com precisão todos os caracteres por +meio dos quaes se pode apreciar a vida de uma população. + +Vejamos: + +BALTIMORE--Cídade aristocratica, pequena, mas extremamente bella na +simplicidade, no gosto sobrio de sua edificação, muito asseiada, muito +clara, semelhando toda ella, no seu conjuncto gracioso, uma confortavel +habitação de outomno, fresca e risonha, boa para se gozar o socego de +uma villegiatura sem preoccupaçães mercantis e utilitarias. + +A gente de Baltimore parece viver uma vida tranquilla e descuidada no +calmo interior de seu _home_, longe da mentira social, longe de todo o +ruido, beatificamente, n'uma paz invejavel, respirando uma atmosphera +livre do microbio daminho das civilisações tumultuosas. + +Baltimore é uma cidade por excellencia aristocratica e hygienica, onde +os temperamentos requintadamente pacificos encontrariam o desejado +repouso trespassado da incomparavel doçura de um clima raro. + +Na melhor de suas praças e no mais elevado de seus pontos ergue-se a +estatua em marmore do grande Washington, geralmente considerada «um dos +mais interessantes monumentos da America» e inaugurada em 1809. Mede 60 +pés quadrados na base e 15 de altura. Sobre o pedestal foi levantada uma +elegante columna dorica de 20 pés de diametro na base e 15 no cimo, onde +branqueja a estatua do primeiro presidente dos Estados-Unidos, +representando-o no momento de renunciar a sua commissão de general em +chefe dos exercitos de seu paiz. + +Para subir até essa galeria fui obrigado a vencer duzentos degráos +(contados) de uma estreita escadaria de pedra, em espiral. De cima +vê-se, a olho nú, todo o panorama, realmente bello, da cidade, que +lembra uma d'essas paisagens hollandezas, muito claras e suggestivas, +taes como descreve Ramalho Ortigão, e onde destacam, n'um fundo de +aguarella, linhas de arvoredo e reverberos d'agua parada... + +Ouvi dizer algures que as mulheres mais bonítas dos Estados-Unidos são +as de Baltimore. Durante as poucas horas que ahi nos demorámos vimos +alguns rostos femininos na verdade encantadores. É possivel que vissemos +com olhos protectores de hospedes em terra estranha... + +Era nosso consul n'aquella cidade Fontoura Xavier, o conhecido autor das +_Opalas_, bom poeta e pessimo republicano, que se apressou em nos +proporcionar todas as commodidades possiveis, franqueando-nos os quartos +e os salões do melhor hotel do logar. Fez mais: offereceu gentilmente á +officialidade brazileira um delicadissimo almoço ao qual compareceram +diversos estudantes nossos patricios. + +Guardamos bellas recordações de Baltimore. + +PHILADELPHIA--Grande centro de industria e commercio. Altas chaminés +caracteristicas. Céo encoberto de fumaça, pesado e lugubre a certas +horas do dia. Aqueductos, casas colossaes, ruas largas e atulhadas de +barricas e caixotes. Continuo movimento de carros e tramways. Immensa e +grandiosa, a cidade vista de qualquer ponto elevado. A lembrança que +fica é a de um grande edificio em construcção, cheio de rumor de +machinas e de operarios em actividade permanente.--Jardim +Zoologico.--Universidade importantissima, onde vão estudar moços de +todas as nacionalidades.--City Hall, edificio monumental, vasto e muito +alto, onde funccionam as repartições publicas: dizem ser o maior dos +Estados-Unidos. + +Não ha tempo a perder. Temos apenas trez horas a nossa disposição, pois +que o trem deve partir para Annapolis ás cinco da tarde e já são duas... + +Leio na taboleta de um bond: _Zoological Garden_... Oh! sim, vamos ao +Jardim Zoologico, a mais completa collecção de animaes, que já se +conseguiu formar. O meu companheiro, que conhece o Jardim Zoologico de +Londres e o de Philadelphia, opta por este. Vejo, de passagem ruas +bellissimas, esplendidas filas de casas luxuosas, magnificos jardins +particulares, templos em estylo gothico; descampados... + +Mas, a viagem é longa, o tempo escorre sem a gente perceber, e é preciso +contar com a volta, a fim de apanhar o trem. + +Trabalho perdido! Voltámos no mesmo bonde, sem ter visto o appetecido +Jardim... Zoologico. + +Mal tivemos tempo de chegar, embarafustar por entre os passageiros que +se accumulavam na _gare_, e saltar para dentro do vagon. + +E eu fiz o resto da viagem pensando no assombroso progresso d'aquella +cidade enorme, que ainda em 1791 não era mais que uma simples colonia a +respeito da qual Chateaubriand exprimia-se d'este modo:--_L'aspect de +Philadelphie est froid et monotone_... + +Não foi preciso mais de um seculo para que os americanos fizessem d'ella +uma das principaes cidades industriaes do mundo. + +Em Philadelphia tive occasião de ver, pela primeira vez, bondes +electricos funccionando com a maxima regularidade. + +O que será a grande cidade americana d'aqui a cem annos? + + + + +XIV + + +Abramos capitulo especial para Annapolis, não que esta cidade, a mais +antiga dos Estados-Unidos, mereça-nos mais que qualquer das outras, +absolutamente não, mas por uma deferencia bem entendida, por um +recolhido sentimento de gratidão para com a joven officialidade da +marinha norte-americana, que ali recebeu as primeiras lições de +disciplina militar e dever civico, e que soube nos acolher em seu seio +como verdadeiros irmãos de armas que eramos. + +A nossa visita coincidía com a festa de formatura dos guardas-marinha, +uma das bellas solemnidades annuaes dos Estados-Unidos á qual concorrem +centenas de pessoas da mais elevada sociedade--a fina flor da +aristocracia d'aquelle paiz--movidas pelo nobre enthusiasmo de apertar a +mão á mocidade que se despede da escola para entregar-se ás duras lidas +do mar. + +Antes, porem, de dizer o que foi essa festa descrevamos, rapidamente, a +cidade. + +Annapolis é como uma nota dissonante na civilisação americana. +Imagine-se um quilombo africano, uma grande aldeia cortada de ruas +desiguaes, estreitas e desalinhadas, com um aspecto sombrio e detestavel +de velho burgo colonial, onde se move uma população na maior parte negra +e atrazadissima--e ter-se-ha essa antithese da cidade moderna. +Bridgetown, a capital de Barbados, avantaja-se-lhe mil vezes com toda +sua poeira, com toda a imprudencia e mizeria de sua baixa população. + +Vê-se que os americanos têm-lhe certo respeito e conservam-na esquecida +e retrograda por uma especie de devoção archeologica, sacrificando por +esse modo o seu bom gosto caracteristico e o seu tradicional amor ao +progresso. + +Insipida, monotona e triste como um cemiterio de pagãos--Annapolis é um +protesto, um anathema contra a evolução natural das cousas, uma nodoa +antipathica em pleno mappa da Confederação americana. Nada ha ali que +interesse e desperte a curiosidade senão a Escola Naval (_Naval +Academy_) situada n'uma das extremidades da cidade, á beira-mar. + +De anno em anno enche-se de povo; seu unico hotel, um pardieiro, +extravasa, e então sente-se um fremito de vida nova percorrer aquellas +ruas habitualmente socegadas e tristes. Passeiam bandas de musica, +fluctuam bandeiras na frontaria das casas, por toda a parte ouve-se uma +vozeria estranha de gente que bebe e canta nos cafés (arremedo de cafés) +e todas as janellas abrem-se como para receber o desinfectante da +alegria, importado das grandes cidades circumvisinhas. + +Annapolis accorda, então, de seu pesado somno tumbal para saudar os +estudantes que saem da academia para a vida publica. + +O grande acto, a que assistimos, da distribuição de titulos, realisou-se +n'um dos vastos salões da Escola, presente numerosissimo auditorio: +familias em grandes trajos de luxo, altos funccionarios, estudantes... + +Ao receberem seus diplomas os noveis officiaes de marinha foram +vivamente applaudidos pelos seus companheiros, cahindo sobre elles uma +chuva imprevista de flores, no meio de palmas e gritos de enthusiasmo. +E, começaram os abraços, as felicitações, os conselhos e as lagrimas de +commoção... + +Abrem-se de par em par as portas do estabelecimento e a multidão de +espectadores precipita-se por todos os lados, feliz, alegre, desafogada +como si acabasse de assistir a uma festa de amor e justiça. + +Ainda não estava concluido o programma. + +Em seguida á solemnidade official,--a festa intima, a festa de despedida +que os _naval cadets_ (aspirantes) offereciam aos seus companheiros. + +Noite clara e constellada. O largo edificio da Escola de Marinha +regorgita de convidados que se cruzam em todos os sentidos no salão do +baile, nos corredores, nos _bouffets_, nas ante-salas... + +Nota-se em todas as caras certo ar de intimidade, certo bem estar +flagrante, um quer que é communicativo e bom. + +Uma ou outra casaca solitaria, destoando da linha geral das _toilettes_ +largas e frescas. Observo curiosamente o apuro de um official japonez +que franze as sobrancelhas n'um gesto de enfado.--Por que será?... Julgo +de mim para mim que o pobre camarada não se sente á vontade dentro de +suas calças de panno com largos galões dourados. A casaca o incommóda +visivelmente. O chapéo armado, elle já não sabe como o tenha--si na mão, +si debaixo do braço ou mesmo si na cabeça... + +Desabotoam-se risos gentis em boccas purpurinas. Derramam-se essencias +preciosas no ambiente luminoso. Conversa-se alto. Bellas _miss_ de face +escarlate abanam-se com os leques de ricas plumas de edredon. Os leques +e as joias são as unicas riquezas que conduzem n'um contraste frizante +com os vestidos leves e claros. + +Em um dos lados do enorme quadrilatero, onde reluziam panoplias +arranjadas á capricho, estava levantado um pavilhão de aspecto risonho, +em cujo frontespicio destacavam em letras de luz + + + 1887 TO 1886 + + FARWELL + + +Era o logar do director da escola. + +Começou a dança... + +...E á meia noite a musica fazia signal para a ultima valsa. + +Ficamos sabendo que todas as festas nocturnas terminam invariavelmente á +meia noite, nos Estados-Unidos. É uma velha praxe que os americanos +poucas vezes transgridem. + +Annapolis, _blak city_--como te chamam teus proprios patricios, tu não +poderás saber nunca a saudade que levámos de tí n'essa esplendida noite +clara e constellada!... + + + + +XV + + +O _Barroso_ continuava no dique, em Brooklin. + +Logo ao regressarmos de nossa viagem á Annapolis tivemos aviso para uma +outra excursão não menos interessante e agradavel. + +West Point era agora o principal objecto de nossa curiosidade,--West +Point, a bella povoação á margem do Hudson, onde funcciona a Escola +Militar. Estavamos convidados para assistir a outra festividade +academica--um combate simulado entre os alumnos do +estabelecimento,--manejos d'armas, exercicios de esgrima, assaltos. + +Comprehende-se a grande utilidade que necessariamente nos adveria +d'essas visitas aos estabelecimentos militares no extrangeiro. Sem nos +aperceber, iamos conhecendo, _de visu_, os diversos processos de ensino +pratico, os methodos mais modernos de educação physica, e, quando mais +não fosse, lucravamos com a vista de objectos novos e de novas +paisagens. + +O viajar é uma necessidade quasi imprescindivel para o espirito e para o +organismo. A alma como que se dilata em presença de estranhas +combinações de côr e de luz. A monotonia da vida urbana cansa o +espirito, fatiga-o, consome-o lentamente: é preciso o grande ar, o ar +livre e temperado dos campos, a natureza em toda sua belleza original, +para que não se morra de tédio e desanimo. O tempo é limitadissimo e +inapreciavel para quem viaja com desejo de ver e saber. + +Muitos ha que preferem morar eternamente em Paris ou em Londres, no +centro da cidade, asphyxíado pela poeira dos _boulevards_, a gastar +economicamente o seu rico dinheirinho vendo a natureza de perto, gosando +as inaffaveis delicias do campo e das praias, saboreando o clima das +montanhas, deliciando a vista com o espectaculo das fontes mumurejantes, +dos frescos arvoredos trespassados de luz... + +Eu preferirei sempre a paz absoluta e invejavel dos suburbios. + +E é por isso que, a cada nova excursão fóra da cidade, eu sentia-me bem +commigo e bem com o resto da humanidade. Voltava sempre mais consolado e +mais leve, como si sahisse de um quarto muito escuro e abafado para a +claridade larga e bella do dia... + +Foi assim que recebi a noticia do passeio a West-Point. + +Como devia ser magnifico o Hudson lá para as bandas de sua nascente, a +qualquer hora do dia, iluminado pelo sol, calmo e radiante, ou coberto +de nevoa, pela manhãsinha, ou no silencio da noite, vago e sombrio como +um pantano dormente!... + +Era o que iamos vêr. + + +Seis horas da manhã... + +Cahia uma neve friissima, transparente, e aggressiva como alfinetadas. + +O _Express_, pequeno e elegante cruzador americano, especie de +transporte de guerra, esperava-nos de «fogos accezas», deitando fumo +pela chaminé. + +Remos n'agua e toca p'r'adiante! Pontualidade no caso. + +Estamos á bordo. + +O _Express_ offerece o bello aspecto de uma galeota imperial que vai +suspender ferro... + +Fazia gosto ver a ordem e o asseio que apresentavam o convéz e a camara. + +Tinha-se acabado de fazer a baldeação matinal. Marinheiros, +perfeitamente uniformisados, occupavam-se em limpar as chapas de metal; +outros colhiam cabos á prôa; outros lá cima, nas vergas, atavam ou +desatavam andarivelos, muíto rubros, com os seus bonnés de panno azul +marinho onde se lia o nome do navio, em letras cor de ouro:--_Express_. + +A camara--uma sala espaçosa e clara, elegantemente adornada--occupava um +terço do pontal, a ré, na primeira coberta. Em baixo, na segunda +coberta, ficavam os camarotes e a praça de armas. + +Servido o _fine cognac_, que os americanos de bom tratamento não +dispensam nos dias invernosos, o _captain_ subio ao passadiço e deu a +voz de suspender. A machina tocou adiante e o _Express_ começou a +singrar o Hudson. + +Variadissimo o aspecto da paisagem. Ora o rio se estreita em curvas +caprichosas, ora vai-se alargando, sempre manso, banhando cidades e +aldeias, limpido ás vezes, outras vezes toldado e sombrio. + +West Point fica á duzentas milhas de Brooklin. + +Passámos o dia inteiro e a noite em viagem para amanhecermos em nosso +destino. + +Novas manifestações de sympathia. Officiaes e alumnos da Escola Militar +esperavam-nos com aquelle sorriso affavel de gente hospitaleira, que +logo se traduz em franca e sincera camaradagem. + +A Escola estava acampada perto do estabelecimento, em exercicios +praticos. + +Innumeras barraquinhas de lona, alinhadas em symetria, alvejavam, como +um acampamento de beduinos, guardadas por sentinellas que rondavam de +arma ao hombro, perfilando-se de vez em quando em continencia a um +official que passava. + +Cada barraca abrigava cinco a seis alumnos que se rendiam pontualmente +na sentinella. + +Emquanto um rondava, grave e silencioso, de mochila ás costas e +espingarda ao hombro, os outros divertiam-se a trocar sôcos, a jogar o +dominó, a apostar corridas, até que o tambor ou a corneta os chamasse á +fórma. Então, com uma rapidez extraordinaria, lestos, vivos e fortes, +corriam todos a seus postos, e, em menos de um minuto, estava formada a +companhia. + +Cada alumno era um verdadeiro soldado. + +Alegres, o sangue a pular-lhes no rosto, cheios de saúde, tesos, +empinados, quadris largos, espaduas amplas, todos se pareciam em +robustez physica. + +Uns rapagões sadios! + +Notei mesmo certa propensão dos americanos para o militarismo. Parece +que a educação militar, a adapção de principios rigorosos na disciplina +do corpo, é o unico meio de obterem-se homens robustos e cumpridores do +dever. A Escola de West Point é, sem exagero, um exemplo raro de +estabelecimentos d'esse genero. E não era sem uma ponta de tristeza que +nós, brazileiros,--raça degenerada e lymphatica--viamos crear-se assim +uma raça forte e alegre com todos os caracteres de virilidade e +independencia. + +Tive occasião de assistir a uma lucta corporal entre dois alumnos, +competentemente armados de luvas de camurça, rosto a descoberto. +Pegaram-se a sôcos, um defronte do outro, calmos e convictos, como si +estivessem commettendo uma nobre acção. + +No fim de alguns minutos, o aggressor estava com o rosto inchado, +escorrendo sangue, os olhos vermelhos, injectados, e a lucta acabava com +um abraço entre os dois contendores. O mais forte foi acclamado pelos +companheiros, teve o prémio de sua robustez. + +É talvez um duro systhema de educação esse, mas incontestavelmente o +mais acertado e efficaz. + +Simples questão de raça... + + + + +XVI + + +Estava terminada a nossa estação de quasi dois mezes em Nova-York. + +No dia 30 de Julho o _Barroso_ deixou aquelle porto em direcção a +New-Port, outra cidade dos Estados-Unidos, refugio da população +aristocratica nos quentes días de verão. Uma perfeita cidade balnearia, +muito fresca e saudavel, á beira-mar, olhando para o largo oceano e +recebendo-lhe as emanações salinas, com um Cassino e um Passeio Publico. + +Os banqueiros e a gente rica de Nova-York costumam fazer ahi o seu ninho +de verão, e, de vez em vez, para amenisar a vida monotona que se leva +n'esse pequeno mundo de simplicidade e conforto, promovem regatas na +esplendida enseada que orla a cidade e que n'esses dias de festa +maritima toma uma feição ridente e caracteristica de aguarella ingleza, +com os seus _cutters_ á vela, com os seus hiates de recreio bordejando +ao largo como um bando de gaivotas pousadas n'agua... + +Apostam-se milhões de libras. De França e de Inglaterra principes e +lords vêm assistir e tomar parte no jogo. + +A regata é um dos divertimentos predilectos dos americanos. Todas as +cidades maritimas e fluviaes dos Estados-Unidos têm pelo menos um club +de regatas. + +Nota curiosa: em New-Port não se bebe alcool. É prohibida a importação +de bebidas que contenham espirito, ou qualquer outra substancia nociva. +Não se encontra um só botequim na cidade. Para tomarmos um refrigerante, +uma simples limonada, fomos bater a uma pharmacia! Garantiram-nos que +esse preceito contra o alcool é escrupulosamente observado n'aquella +cidade. Custavamos a acreditar, mas, emfim, não havia geito senão ser +delicados... + +De resto, uma cidadesinha elegante e socegada, New-Port. O commercio ahi +é quasi nullo. + +No fim de oito dias o _Barroso_ deixava de uma vez o paiz dos _yankees_, +fazendo-se de vela para os Açores. + +Já agora não nos doía muito a saudade desse bello e prodigioso paiz. O +regresso á patria, depois de uma ausencia de quasi um anno, enchia-nos o +coração de alegria. + +Não fôra a perda de um companheiro em Nova-Orleans e voltariamos todos, +sem faltar ninguem, sadios e fortes, cheios de impressões novas e cheios +de esperança. + +Voltavamos, sim, mas tinhamos deixado atraz, em terra extrangeira, n'um +cemiterio de Nova-Orleans, um dos nossos camaradas. + +Traziamos uma convicção, e é que nenhum povo sabe comprehender tão bem o +problema da vida humana como os americanos dos Estados-Unidos. A idéa da +morte não os preoccupa: um _yankee_ triste é cousa rara e toma +proporções de phenomeno. + +Elles, os americanos, são geralmente alegres, bem dispostos, amigos do +trabalho, compenetrados de seus deveres, e, acima de tudo, amam a sua +patria mais do que qualquer outro povo. + +A patria e a familia são os seus principaes objectivos. Menos egoistas +que os inglezes, energicos e resolutos, sobra-lhes tempo e dinheiro para +se divertirem. + +Esse povo verdadeiramente democratico não pede licções a paiz nenhum: +engrandeceu a custa de seus proprios esforços e dia a dia prospéra, +assombrando o mundo com as suas emprezas colossaes. + +Si a Allemanha representa no seculo XIX a patria das sciencias moraes, +aos Estados-Unidos compete o primeiro logar na ordem dos paizes que tem +concorrido grandemente para o aperfeiçoamento e bem estar humanos. + +Emquanto as nações da Europa degladiam-se n'uma lucta continua, perdendo +na guerra o que difficilmente accumularam em poucos annos de paz, a +grande nação americana deixa-se estar quieta e desarmada, sem exercito e +sem marinha, confiada no seu proprio valor, no patriotismo de seus +filhos, certa de que, n'um dado momento, cada cidadão, cada americano +saberá cumprir com heroismo o seu dever e honrar as suas tradições de +povo independente e forte. + +_Go ahead! never mind; help yourself!_--eis a maxima de todo _yankee_. +Elles não a esquecem nunca e marcham desassombradamente na vida, como +quem tem absoluta confiança no proprio valor. + +CEARÁ--1890. + + + + +EDIÇÕES DA LIVRARIA MODERNA + + +DOMINGOS DE MAGALHÃES--Editor + + + + +*Affonso Celso* + + +Vultos e Factos, 1 vol. broc. 3$000, enc. 5$000 + +Minha Filha, 1 vol. broc. 3$000, enc. 5$000 + +Minha Filha, ed. do luxo em 4^o com o retrato do autor, broc. 10$000 + +Imperador no Exilio, 1 vol. broc. com o retrato do Sr. D. Pedro II, +3$000, enc. 5$000 + +Imperador no Exilio, ed. deluxe broc. 5$000 + +Lupe, scenas da vida do Mexico, 1 vol. broc. 2$500 + +Rimas de Outr'ora, 1 vol. broc. 3$000, enc. 5$000 + +Notas e Ficções, 1 vol, broc. 3$000, enc. 5$000 + +Philosophia do Direito, 1 vol. (no prelo). + + +*Adolpho Caminha* + + +A Normalista, scenas do Ceará, 1 vol. broc. com capa ill., 3$000, enc. +5$000, ed. de luxo. 8$000 + +No Paiz dos Yankees, 1 vol. broc. 3$000, enc. 5$000 + + +*Aluizio Azevedo* + + +Livro de uma Sogra, 1 vol. broc. 3$000, enc. 5$000 + +Casa de Pensão, 2 vols. [no prelo] + + +*Arthur Azevedo* + + +Contos fóra da Moda, 1 vol. broc. 3$000, enc. 5$000 + + +*Cruz e Souza* + + +Missal, artistico livro de contos, 1 vol. broc. 3$000, enc. 4$000 + +Broqueis, mimoso livro de versos, 1 vol. broc. 3$000 enc. 4$000 + + +*Delia* + + +Celeste, scenas da vida fluminense, 1 vol. broc. 3$000, enc. 5$000 + +Celeste, ed. de luxo enc. 8$000 + +Angelina, 1 vol. [no prelo]. + + +*F. Fajardo (Dr.)* + + +Tratado de Hypnotismo, 2 vols. ill. por Manoel Gaspar, [no prelo]. + + +*Heitor Malheiros* + + +O Encilhamento, scenas da Bolsa de 90 a 92, 1^o vol. à venda o 2^o para +Julho, 2 vols. broc. 6$000 + + +*Isaias de Oliveira* + + +Blocos, phantasias, 1 vol. broc. 3$000 + + +*Luiz Rosa* + + +Imagens e Visões, elegante livro de versos, 1 vol. broc. 3$000 + + +*Anselmo Ribas* + + +Capital Federal, impressões de um sertanejo, 1 vol. broc. 3$000, enc. + 5$000 + +Bilhetes postaes, livro elegante e livre [no prelo, para Julho]. + + +*Medeiros e Albuquerque* + + +Um Homem Pratico, 1 vol. broc. 3$000, enc. 5$000 + +Hypnotismo, Magnetismo e phenomenos analogos, 1 vol. (no prelo). + + +*V. Nogueira da Gama* + + +Minhas Memorias, 1 vol. broc. 3$000, enc. 5$000 + + +*Sylvinio Junior* + + +A Dona de Casa, para as Sras. brazileiras, 1 vol. cartonado. 5$000 + + +*Viveiros de Castro (Dr.)* + + +A Nova Escola Penal, 1 gr. vol. broc. 8$000 enc. 10$000 + + +*Verediano de Carvalho* + + +Correspondencia Commercial, 1 vol. broc. 8$000, enc. 10$000 + + +*Zola* + + +Doutor Pascal, versão brazileira de C. de Albuquerque, 2 vols. broc. +5$000, enc. 7$000 + +O Dinheiro, versão do mesmo, [no prelo]. + +Mysterios de Marselha, [no prelo]. + +A Derrocada, 2 vols. broc. 5$000, enc. 7$000 + + +*Papus e Borja Reis* + + +A Buena-Dicha, arte de lêr o futuro nas linhas da mão, 1 vol. broc. +2$500, cart. 3$000 + + +*Carlos de Moraes* + + +Amor Fatal, scenas fluminenses, 1 vol. broc. 2$500 enc. 4$000 + + +*Coelho Netto* + + +Balladilhas, admiravel livro de contos para senhoras e meninos, 1 vol. +broc. 3$000, enc. 5$000, enc. de luxo. 8$000 + +Rhapsodia, 1 vol. broc. 3$000, enc. 5$000 + +Rei Phantasma, romance oriental 2 vols. [no prelo, para fins de +Setembro]. + +Contos do Natal, 1 bello vol. para festas [no prelo, para Dezembro]. + + +*J. Guerra* + + +Humorismos, 2 vol. broc. 6$000, enc. 10$000 + + +*Valentim de Magalhães* + + +Escriptores e Escriptos, 2^a edição 1 vol. broc. 3$000, enc. 5$000 + + +*José de Alencar* + + +Encarnação. 2^a edição 1 vol. broc. 3$000, enc. 5$000 + +Como e porque sou romancista, 1 vol. broc. 1$500 + + +*Virgilio Varzea* + + +Rose-Castle, mimoso romance, 1 vol. broc. capa ill. 2$500 + + +*Eduardo de Borja Reis* + + +O Grito de Guerra, 1 vol. broc. $500 + + +*Eduardo Garrido* + + +Barbeirinho de Sevilha, edição de luxo, 1 vol. broc. 2$000 + +Joven Telemaco, edição de luxo, 1 vol. broc. 2$000 + + +*Julia Lopes de Almeida* + + +A Familia Medeiros, 2^a edição 1 gr. vol. broc. 3$000, enc. 5$000 + +Memorias de Martha, 1 gr. vol. broc. 3$000, enc. 5$000 + + +*Montépin* + + +A Hedionda, versão de Ferreira da Rosa, 3 vols. broc. 9$000, enc. 15$000 + + +*Em preparo:* + + +Manual do Cartomante, por C. de Albuquerque, 1 vol. ill. com 130 grs. +cartonado. + +Arte de fazer-se amar por seu marido por Pradel tr. de Braulio Cordeiro +Junior, 1 vol. broc. + +Mestre Sala Moderno, [danças modernas] 1 gr. vol. ill. cartonado. + +Satan nas salas [livro dos magicos] versao de Felix de Figueiredo, 1 +vol. ill. cartonado. + +Photographo Amador, por C. de Albuquerque 1 vol. ill. cartonado. + + + + +Lista de erros corrigidos + + +Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos: + + + +----------+---------------------+----------------------+ + | | Original | Correcção | + +----------+---------------------+----------------------+ + |#pág. 13| umas | uma | + |#pág. 79| Esposição | Exposição | + |#pág. 84| para caes | para o caes | + |#pág. 86| inventado | inventados | + |#pág. 87| viviamos cercado | viviamos cercados | + |#pág. 94| nom eestá | nome está | + |#pág. 112| nossos companheiras | nossos companheiros | + |#pág. 124| mesmoem | mesmo em | + |#pág. 126| esplendidoscapiteis | esplendidos capiteis | + |#pág. 132| Satisfeitos as | Satisfeitas as | + |#pág. 137| nive | nivel | + |#pág. 150| Broeklin | Brooklin | + |#pág. 156| podestal | pedestal | + |#pág. 170| o seus | os seus | + +----------+---------------------+----------------------+ + + +Neste livro surgem variantes da mesma palavra: "Pancy" e "Pansy", ou +"Conney-Island" e "Coney-Island", ou "Battrey Square" e "Battery +Square". + +As variantes foram preservadas de acordo com o original. + +Registaram-se duas páginas identificadas como sendo a 96ª, uma das quais +foi corrigida para corresponder à 95ª. + + + + + +End of Project Gutenberg's No Paiz dos Yankees, by Adolpho Ferreira Caminha + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NO PAIZ DOS YANKEES *** + +***** This file should be named 24190-8.txt or 24190-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/4/1/9/24190/ + +Produced by Ricardo F. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at http://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + http://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/24190-8.zip b/24190-8.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..00050cc --- /dev/null +++ b/24190-8.zip diff --git a/24190-h.zip b/24190-h.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..2bdee46 --- /dev/null +++ b/24190-h.zip diff --git a/24190-h/24190-h.htm b/24190-h/24190-h.htm new file mode 100644 index 0000000..299b87d --- /dev/null +++ b/24190-h/24190-h.htm @@ -0,0 +1,9308 @@ +<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Strict//EN" "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-strict.dtd"> +<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml"> +<head> + <title>No Paiz dos Yankees</title> + + + <meta content="Adolpho Caminha" name="AUTHOR" /> + + <meta content="text/html; charset=ISO-8859-1" http-equiv="Content-Type" /> + + <style type="text/css"> +body {width: 50%; margin-left:10%; text-align: justify;} +h1, h2, h3, h4 { text-align: center;} +h1 {margin: 2em; text-align: center;} +h2, h4 {margin-top: 2em;} +.bbox {border: solid black 1px; margin-left: 5%; margin-right: 5%;} +.fbox {border: solid black 1px; background-color: #FFFFCC; font-size: 75%; margin-left: 10%; margin-right: 10%;} +.signature { +margin-right: 5%; +text-align: right;} +.smallcaps {font-variant: small-caps;} +.quote {margin-left:5%; margin-right:5%;} +.breaks { +border: 6px; +border-style: double;} +.sbreak { +width: 20%; +margin-left:40%;} +.dots {color: #fff; background-color: inherit; border: 3px dotted #555; border-style: none none dotted;} +.poetry {margin-left:20%;} +.pagenum { position: absolute; right: 35%; +font-size: 75%; +text-align: right; +text-indent: 0em; +font-style: normal; +font-weight: normal; +color: silver; background-color: inherit; +font-variant: normal;} + </style> +</head> + + +<body> + + +<pre> + +Project Gutenberg's No Paiz dos Yankees, by Adolpho Ferreira Caminha + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: No Paiz dos Yankees + +Author: Adolpho Ferreira Caminha + +Release Date: January 7, 2008 [EBook #24190] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NO PAIZ DOS YANKEES *** + + + + +Produced by Ricardo F. Diogo, Rita Farinha and the Online +Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This +file was produced from images generously made available +by The Internet Archive) + + + + + + +</pre> + + +<div> +<div class="fbox"><b>Nota de editor:</b> +Devido à +quantidade de erros tipográficos existentes neste texto, +foram tomadas várias decisões quanto à +versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi +mantida de acordo com o original. No final deste livro +encontrará a lista de erros corrigidos.<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: right; font-style: italic;">Rita +Farinha (Jan. 2008) +</div> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="bbox"><br /> + +<h2>ADOLPHO CAMINHA +</h2> + +<br /> + +<div class="breaks"><br /> + +</div> + +<h1>NO PAIZ<br /> + +DOS<br /> + +YANKEES +</h1> + +<div style="text-align: center;"><img style="width: 100px; height: 83px;" alt="" src="images/fig01.png" /><br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h4>DOMINGOS DE MAGALHÃES―EDITOR<br /> + +54 RUA DO OUVIDOR 54<br /> + +LIVRARIA MODERNA +</h4> + +<br /> + +<div class="breaks"><br /> + +</div> + +<h4> +RIO DE JANEIRO<br /> + +<b>1894</b></h4> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h1>NO PAIZ DOS YANKEES</h1> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><img style="width: 500px; height: 330px;" alt="" src="images/fig02.png" /><br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">cruzador "almirante barroso"</span></div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2> +ADOLPHO CAMINHA +</h2> + +<br /> + +<hr /> +<br /> + +<h1> +NO PAIZ<br /> + +DOS<br /> + +YANKEES +</h1> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><img style="width: 100px; height: 83px;" alt="" src="images/fig01.png" /> +</div> + +<br /> + +<br /> + +<h4>RIO DE JANEIRO<br /> + +<span class="smallcaps">Domingos de +Magalhães―editor</span><br /> + +<span class="smallcaps">54 rua do ouvidor 54</span><br /> + +LIVRARIA MODERNA<br /> + +</h4> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<h4><b>1894</b></h4> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps poetry">Do mesmo autor:</span> +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"> +<b>A NORMALISTA</b><br /> + +<br /> + +I vol. broc. 3$. cnc. 5000<br /> + +<br /> + +</div> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<span class="smallcaps poetry">Em +preparação:</span><br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"> +<b>BOM―CRIOULO</b> +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="dots"></div> + +<br /> + +<div class="smallcaps" style="text-align: center;">Typ. +da Empreza Democratica +Editora―Rua do Hospicio n. 11</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Taine, o glorioso Taine, o querido +philosopho, cuja obra admiravel +tem sido uma especie de bussola para +os que se iniciam na complicada arte +da palavra; Taine, o mestre, aconselhava +sabiamente, com aquella profundeza +de vista e com aquelle raro e +superior criterio de artista e pensador:―«Que +chacun dise ce qu'il a +vu, et seulement ce qu'il a vu; les +observations, pourvu qu'elles soient +personnelles et faites de bonne foi, +sont toujours utiles.» +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[6]</span> +Devo a estas palavras a lembrança +de escrever as multiplas impressões, +os successivos transportes +de admiração, de jubilo e tristeza +por que passou meu espirito durante +alguns mezes de viagem nos Estados-Unídos. +<br /> + +<br /> + +A principio afigurou-se-me obra +de alevantado alcance e de extrema +coragem traçar, ainda que ligeiramente, +o plano de um livro sobre a +grande nação americana, tão singular +em seus costumes, em sua vida +<span class="pagenum">[7]</span> +agitada e tumultuosa, em seus variadissimos +aspectos... +<br /> + +<br /> + +E de facto, esse trabalho, essa +difficil tarefa demandaria, incontestavelmente, +muito mais que uma +somma de notas mais ou menos verdadeiras +e algum estylo. Era preciso, antes +de tudo, um elevado criterio +historico e scientifico, grande cópia +de conhecimentos e profundo espirito +analytico. +<br /> + +<br /> + +Não se escreve a historia de um +paiz,―a vida inteira de um povo―sem +<span class="pagenum">[8]</span> +demorar-se em largo e paciente +estudo sobre as suas origens, seus +habitantes primitivos, sua evolução +politica e social, suas luctas intestinas +e sobre os elementos que mais +directamente influíram para sua independencia. +<br /> + +<br /> + +A elles, os historiadores e analystas da +sciencia, tão arriscada empreza. +<br /> + +<br /> + +Os poucos mezes que passei nos +Estados-Unidos apenas me proporcionaram +ensejo de admirar, atravéz +de um prisma todo pessoal, o progresso <span class="pagenum">[9]</span>assombroso +d'esse extraordinario +paíz. +<br /> + +<br /> + +Comprehendem-se, pois, os meus +intuitos: nada mais que reproduzir, +com a possível exactidão, <em>o que +vi</em>, +somente <em>o que vi</em> nessa interessante +viagem ao paiz dos <em>yankees</em>. +<br /> + +<br /> + +Procurei ser espontaneo e simples, +natural e logico, evitando +exageros de observação e o estylo +rebuscado e palavroso dos que, á fina +força, pretendem transformar a litteratura +n'uma simples arte mecanica <span class="pagenum">[10]</span>de +construir phrases ôcas e coloridas. +<br /> + +<br /> + +Escriptas em 1890, as paginas +que se vão ler podem não ter a importancia +de um estudo completo, mas +de algum modo têm seu valor intrinseco.<br /> + +<br /> + +<div class="quote"> +Rio, 1º de Agosto de 1893.</div> + +<br /> + +<div class="signature"><em>Ad. Caminha</em> +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2>NO PAIZ DOS YANKEES +</h2> + +<br /> + +<h3>I +</h3> + +<br /> + +...Tinha cessado a faina geral de suspender +ancora. Os marinheiros estavam todos em +seus postos, alerta á primeira voz, silenciosos, +enfileirados a bombordo e á boréste, alguns +convenientemente distribuidos na pôpa, na +prôa e nas cobertas do cruzador. +<br /> + +<br /> + +Noite escura e chuvosa, cheia de nevoeiro +e tristeza, fria, sem estrellas, cortada de clarões +longinquos. Tão escura que se não distinguia +um palmo diante do nariz, tão feia que +os bicos de gaz da cidade, soturna e quieta, +bruxoleavam pallidamente com a sua luz tremula +e vacillante... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[12]</span> +E comtudo estavamos a 19 de Fevereiro, +em plena estação calmosa, no rigor do +verão. +<br /> + +<br /> + +Chuvera todo o dia. O céo conservava-se +coberto de nuvens bojudas e côr de chumbo, +velando uns restos de lua. +<br /> + +<br /> + +Um grande silencio de alto mar alastrava-se +por toda a bahia do Rio de Janeiro. +Sómente ao longe, para os lados da cidade, +badalava o sino d'uma egreja, compassado e +lugubre. +<br /> + +<br /> + +De vez em quando passava rente com a +pôpa do <em>Barrozo</em> o vulto +sombrio e largo de +uma barca Ferry, com o seu pharól de côr, +dezerta, indistincta, e que desapparecia logo +na escuridão. +<br /> + +<br /> + +Seria meia noite quando o navio começou +a mover-se lentamente, caminho da barra, +cheio da silenciosa melancolia dos que partiam, +e uma hora depois a cidade, as praias, e as +montanhas sumiam-se na distancia, como si o +mar as fosse engolindo com a voracidade de +um monstro. +<br /> + +<br /> + +Restava apenas um ponto luminoso, uma +visão microscopica da terra fluminense; era o +<span class="pagenum"><a name="p13">[13]</a></span> +pharol da ilha Rasa tremeluzindo, como palpebra +somnolenta, atravéz da noite. +<br /> + +<br /> + +E todos a bordo, todos silenciosamente, +egoistas na sua dôr concentrada e incommunicavel, +mandaram ainda um―adeus―profundamente saudoso +á vida alegre e ruidosa do Rio. +<br /> + +<br /> + +Dizem que o homem do mar é insensivel +aquelles que nunca viram esta realidade: a +lagryma da saudade brilhar na face de um +marinheiro. +<br /> + +<br /> + +Lá fomos mar afóra... +<br /> + +<br /> + +Pernambuco foi o primeiro porto da nossa +escala. +<br /> + +<br /> + +Viagem monotona, sem accidentes notaveis, +essa do Rio ao Recife. As horas succediam-se +n'uma uniformidade tediosa e imperturbavel. +Sempre o mar, sempre o céo, ora +sombrios, ora azues... +<br /> + +<br /> + +Durante o dia 21 avistámos, e isso nos +consolou, <a href="#e1">uma</a> vela que bordejava, +muito +branca, triste garça erradia no horisonte +luminoso. +<br /> + +<br /> + +Para quem viaja no mar uma vela que se +avista é sempre motivo de innocente alegria +<span class="pagenum">[14]</span> +O marinheiro com especialidade gosta de +seguil-a com o olhar nostalgico até perdel-a +completamente. É como ao avistar-se terra +depois de longa travessia: sente-se a mesma +impressão bôa e indefinivel. +<br /> + +<br /> + +Na manhã de 26―léste-oeste com o pharol +de S. Agostinho, e ás onze horas recebiamos +o pratico. +<br /> + +<br /> + +Impossivel entrar nesse dia, por falta de +maré: passámos a noite fóra, no +Lamarão, aos +solavancos, vendo, por um oculo, a cidade do +Recife, illuminada e bella, hombro a hombro +com a legendaria Olinda dos hollandezes e +dos banhos de mar. +<br /> + +<br /> + +Na falta de outro assumpto falou se de +historia patria. +<br /> + +<br /> + +Pela manhã de 27 o +<em>Barrozo</em> sulcava +as aguas do Lamarão, lento e magestoso, +crivado de olhares. O povo saudava-o do +cáes da Lingueta. Espalhou-se logo que o +principe D. Augusto, neto do imperador, +vinha a bordo, e toda a gente correu a recebel-o +com essa avidez instinctiva das massas +populares. O povo pernambucano, tradicionalmente +<span class="pagenum">[15]</span>inimigo dos +imperadores, lembrava-se +do tempo em que o Sr. D. Pedro de +Alcantara dava-se ao luxo de visitar o +norte. +<br /> + +<br /> + +Mais tarde, ao desembarcar a turma de +guardas-marinha, de que fazia parte o principe, +subiu de ponto a curiosidade publica. +<br /> + +<br /> + +―Oh! o principe!―Que é d'elle?―É +um ruivo?―É aquelle barbado? +<br /> + +<br /> + +O pobre moço viu-se em apuros, e mudava +de côres, e fazia-se escarlate, e vociferava +contra a plebe, occultando-se entre os +collegas, desapontado. Um preto velho teve +a lembrança de ajoelhar-se aos pés de S. A. +e supplicar-lhe uma esmola. Aconteceu, +porém, que errou o alvo e foi direito a +um outro rapaz, louro e rubro, como o principe, +que se apressou em desfazer o engano. +<br /> + +<br /> + +O imperial senhor achava-se ridiculo no +meio de toda aquella multidão servil e anonyma +que o acompanhava, «como si visse +n'elle um animal selvagem...» +<br /> + +<br /> + +É assim o povo―ingenuo, pueril. +<br /> + +<br /> + +Visitámos, em romaria, os principaes edificios <span class="pagenum">[16]</span>publicos: a Penitenciaria, +a Assembléa +Provincial, o Gymnasio, o Theatro. +<br /> + +<br /> + +A nova Penitenciaria do Recife é um +bello edificio no genero. +<br /> + +<br /> + +Impressiona tristemente esse casarão sombrio +com escadarias de ferro, onde mal penetra +a claridade meridiana. +<br /> + +<br /> + +Ha criminosos de toda a especie, em +cujos semblantes retratam-se delictos tenebrosos. +Nada, porém, nos commoveu tanto como +a historia do preso Gustavo Adolpho, que, ha +quasi vinte annos, cumpria a terrivel sentença +a que fôra condemnado. Era um d'esses sentenciados +sympathicos que inspiram compaixão +a quem os observa de perto. +<br /> + +<br /> + +Um dos nossos companheiros desejou +saber a historia do seu crime e pediu ao infeliz +que lh'a contasse elle proprio. +<br /> + +<br /> + +―Não queira, disse o condemnado, não +queira obrigar-me a fazer minha propria +autopsia moral... Narral-a, essa historia, +seria um supplicio muito maior do que estar eu +aqui, n'este carcere, ha vinte annos... +<br /> + +<br /> + +Gustavo Adolpho parecia-nos um regenedo, +<span class="pagenum">[17]</span> +tal o aspecto humilde de sua +physionomia +e o tom commovente de sua voz. O isolamento +transformara-lhe a alma. A dôr tem +isto de bom―purifica o espirito, é como um +crysol. Esse infame, esse assassino, Gustavo +Adolpho, era um martyr. Aquelle semblante +abatido pelas insomnias, aquelle rosto descarnado, +aquelles olhos cansados de chorar, +aquelles labios lividos de defunto, cansados de +repetir a palavra―perdão, lembravam a figura +resignada de um moribundo que nada mais +espera senão a eterna liberdade―a morte... +<br /> + +<br /> + +Vimol-o na casa dos condemnados, entre +as quatro paredes de um miseravel cubiculo, +vestido de preto, barba crescida, macilento, +arrependido e só. +<br /> + +<br /> + +Poucos iam incommodal-o ali, n'aquella +pavorosa solidão, e no emtanto elle não odiava +ninguem e desejava falar a todos. +<br /> + +<br /> + +Tinha dezenove annos quando a fatalidade +o arremessou a Fernando de Noronha. +A justiça humana o havia condemnado a esta +pena infamante―galés perpetuas. +<br /> + +<br /> + +Perdoar a um arrependido nas condições +<span class="pagenum">[18]</span> +de Gustavo Adolpho, me parece a mais +nobre acção de um rei. Todavia elle continuava, +mendigo de liberdade, a pedir, a pedir... +<br /> + +<br /> + +Por diversas vezes a academia de direito, +pelo orgão de seus representantes, exorara +a piedade imperial, mas o imperador nunca +estendeu o seu <em>magnanimo</em> olhar +até aos carceres +senão em certos dias de gala natalicia +para indultar os escolhidos da politica dominante. +<br /> + +<br /> + +―Console-se, disse eu ao desventurado +moço. E citei Lamartine:―<em>Vivre c'est +attendre...</em> +<br /> + +<br /> + +Retirámo-nos commentando aquella catastrophe +desastrada. +<br /> + +<br /> + +A historia tragica d'esse preso foi-nos +contada por um empregado do estabelecimento. +Eu podia resumil-a em duas palavras:―<em>cherchez +la femme</em>, si não fosse o prurido +de registrar, ainda que brevemente, um caso +curioso de processo crime. Cada um tire as +illações que lhe aprouverem. +<br /> + +<br /> + +Gustavo Adolpho nasceu no Pará onde +iniciou seus estudos como seminarista. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[19]</span> +Muito cedo seu espirito mostrou-se refractario +á educação ecclesiastica, e desviou-se +dos livros sagrados para outro genero de +leituras e estudos mais concentaneos com as +suas aspirações. +<br /> + +<br /> + +Os paes do nubil seminarista desgostaram-se +com o procedimento do filho revolucionario +e ardente apologista de Martinho Luthero, que +não occultava-lhes suas tendencias anti-catholicas. +Elle, porém, o apostata, o hereje, sentia-se +instinctivamente arrebatado pelas idéas +do seculo e tratou de trocar a sotaina de +noviço pelo frak á ultima moda. Ninguem +põe peias á fatalidade. Não contente +com ir +de encontro á vontade de seus paes e preceptores, +o ex-seminarista tomou o primeiro vapor, +e, subito, vio-se na capital do Brazil, sem +um amigo que o guiasse n'esse labyrintho de +ruas suspeitas onde o vicio assentou praça. A +rua do Ouvidor e os theatros sempre eram +mais agradaveis que o claustro e as impertinencias +do reitor,―muito mais... +<br /> + +<br /> + +Pobre Gustavo Adolpho! Salvara-se de +um abysmo para precipitar-se imprudentemente, <span class="pagenum">[20]</span>como +creança inexperta, n'outro abysmo +talvez mais perigoso. +<br /> + +<br /> + +Sem amigos, sem protecção, longe de sua +terra e de seus paes,―que podia esperar o +joven desconhecido n'aquelle turbilhão de vis +interesses? +<br /> + +<br /> + +Imbert-Galloix, um italiano, tambem adolescente +e cheio de esperanças, intelligente e +trabalhador, morreu de miseria n'uma rua de +Pariz, por ter trocado sua patria natal por +um paiz que só conhecia de nome. Fôra em +busca de glorias e encontrou a miseria, o frio, +a fome, e a morte por fim. +<br /> + +<br /> + +Esses sonhadores como Imbert-Galloix +são sempre victimas da propria +imaginação. +<br /> + +<br /> + +A sorte de Gustavo Adolpho foi mais +cruel. +<br /> + +<br /> + +Custa a crêr que um insignificante par +de brincos leve um homem á cadeia e depois +ao exilio perpetuo! +<br /> + +<br /> + +Uma vez sem meios de subsistencia, +luctando com a má vontade de uns e a indifferença +de outros, Gustavo Adolpho, que +tinha certa dóse de espirito, d'esse espirito +<span class="pagenum">[21]</span> +fino que caracterisa o homem de talento, +fez-se <em>bohemio</em>, isto é, +indifferente á vida, +nomade a quem tanto faz dormir sobre flacido +colxão, como ao relento e sobre a lage das +calçadas. Ora, os bohemios são umas creaturas +sympathicas. Quando um bohemio +tem espirito acha sempre quem lhe estenda +a mão. Gustavo Adolpho preferiu a mão +leve, alva e setinosa, de uma cortezã pela +qual apaixonou-se devéras. +<br /> + +<br /> + +A mulher, sempre essa creatura profundamente +seductora e mysteriosa! +<br /> + +<br /> + +E, parece incrivel! quando na primeira +noite, após as ineffaveis caricias do amor, a +misera Manon, adormecida ao lado do amante, +sonhava, talvez, n'algum banquete sumptuoso, +á sombra d'alamos frondosos, talvez n'alguma +de suas passadas orgias, á luz de candelabros +deslumbrantes, elle, o malaventurado +moço, cujo olhar fitava na meia sombra da alcova +o rosto sereno de sua amante, antepensava +um crime e um crime excepcional, monstruoso, +inqualificavel. +<br /> + +<br /> + +―Estes brincos, estes brincos... pensava +<span class="pagenum">[22]</span> +elle fitando as joias, duas grandes lagrimas +de diamante pendentes das orelhas da rapariga. +Seu espirito oscillava como um pendulo +na duvida terrivel, aguçado por um desejo +louco. +<br /> + +<br /> + +Eil-o que se levanta de um impeto, +pisando devagar, surrateiramente, tão de leve +que dir-se-ia uma sombra; eil-o que se encaminha +para a porta da rua, tacteando, encostando-se +as paredes, pé ante pé, sem respirar, +olhando sempre para traz, para o leito da +amante (lembra-me a scena da «Cymbelina» de +Shakspeare). +<br /> + +<br /> + +Meia noite... Eil-o ainda que volta e se +approxima do leito onde ha pouco boiara em +mar de volupia. Traz na mão um objecto +reluzente, uma cousa disforme... uma machadinha. +<br /> + +<br /> + +Que irá elle fazer?!... +<br /> + +<br /> + +Approxima-se mais, rastejando quasi, +mansamente, subtilmente. +<br /> + +<br /> + +De repente sôa uma pancada surda, e um +grito estrangulado:―Soc...corro! Sôa outra +pancada surda, outra, outra, muitas pancadas, +<span class="pagenum">[23]</span> e sobre os brancos +lençóes d'aquelle +malfadado +leito palpitam as carnes sangrentas, +moribundas, de um corpo de mulher que +ainda ha pouco sentia e pensava... +<br /> + +<br /> + +Obseccado pela idéa do roubo, o assassino +arranca brutalmente as joias do cadaver, +e, á luz do combustor de crystal, reconhece +que são falsas! +<br /> + +<br /> + +Foge rua fóra, como um possesso, enfia +num becco, sae por outra rua, e desapparece +na escuridão da noite. +<br /> + +<br /> + +No dia seguinte seu nome lá estava estampado +em letras garrafaes no livro dos réos: +«Gustavo Adolpho... preso pelo duplo crime +de assassinato e roubo.» +<br /> + +<br /> + +Mais tarde, annos depois, o joven criminoso +tentou fugir de Fernando de Noronha +onde fôra recolhido. Prenderam-no em flagrante. +E ha poucos mezes, no anno passado, +a princeza Isabel, então regente do Brazil, +abriu-lhe as portas da prisão. +<br /> + +<br /> + +Gustavo Adolpho publicou, no degredo, +um livro de versos intitulado <em>Risos e +Lagrimas</em>, +uma collecção de poesias sentimentaes +<span class="pagenum">[24]</span> +e amorosos que pouco valem pela fórma e +onde se acham crystalisadas as dôres do infeliz +poeta, cuja imaginação cantava entre lagrimas. +<br /> + +<br /> + +Penalisou-nos a sorte d'esse rapaz sympathico +e intelligente. +<br /> + +<br /> + +Havia, alem de Gustavo Adolpho, outro +preso não menos interessante e que nos excitou +a curiosidade. Indigitado autor de não sei +que roubo, fôra condemnado igualmente a +galés perpetuas. +<br /> + +<br /> + +Interrogado, disse-nos contar oitenta (!) +annos de idade e possuir familia numerosa:―mulher +e 30 filhos! +<br /> + +<br /> + +―Qual foi o seu crime? perguntámos. +<br /> + +<br /> + +O velhinho todo tremulo, a cabeça muito +branca; uma nevoa humida no olhar, sem +forças quasi para dar um passo, murmurou +tristemente: +<br /> + +<br /> + +―Nenhum, meus caros senhores... Supponho +que houve engano da justiça... +<br /> + +<br /> + +―E si lhe dessem liberdade agora?... +<br /> + +<br /> + +―De que me servia? Mal me tenho em pé +e já não sei de minha mulher e de meus filhos, +<span class="pagenum">[25]</span> +Estou muito velho, preciso morrer descansado +aqui mesmo na prisão. +<br /> + +<br /> + +O edificio da Penitenciaria tem, logo á +entrada, a seguinte inscripção em marmore: +<br /> + +<br /> + +<div class="quote"><span class="smallcaps">No +dia 23 de abril de 1885 sendo +presidente da provincia o Illm. Sr. +Conselheiro Dr. José Bento da C. +Figueiredo foram removidos os presos +para este edificio organisado +sob a direcção do engenheiro José +Mamede Alves Pereira</span>. +</div> + +<br /> + +Contava, portanto, trinta e cinco annos. +<br /> + +<br /> + +Foi a mais interessante de todas as nossas +visitas em Pernambuco.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3> +II +</h3> + +<br /> + +No dia 27 deixámos o Recife em +direcção +ás Antilhas. +<br /> + +<br /> + +Como até ahi, a viagem continuou a +vapor,―uma verdadeira viagem de recreio si +não fosse a exiguidade dos commodos a bordo +do cruzador. +<br /> + +<br /> + +O commandante levava ordem para chegar a +Nova Orleans em tempo de assistirmos a +abertura da exposição internacional americana, +onde o <em>Almirante Barroso</em> devia +figurar +como legitimo e admiravel producto da industria +naval brazileira tão pouco conhecida no +extrangeiro. +<br /> + +<br /> + +Adoptavamos, sempre que o vento permittia, +a navegação mixta, e deste modo, á +vela +<span class="pagenum">[28]</span> +e a vapor, arrastados pelas correntes maritimas +que puxam para o norte, alcançámos, a 2 de +Março, a linha equatorial, onde apanhámos +alguns chuviscos debaixo d'uma athmosphera +ardentissima. +<br /> + +<br /> + +Reinava «calmaria pôdre». Ferraram-se as +velas á mingua da mais leve aragem, armaram-se +os toldos para que podessemos supportar +o calor na tólda, e os banhos salgados +de ducha foram recebidos com especialissimo +agrado. Suava-se a valer. Imagine-se: +embaixo, no porão, as fornalhas accesas, +e em cima o sol ardente, o medonho sol do equador, +cahindo como um caustico sobre o navio. +<br /> + +<br /> + +Á tardinha incendiavam-se os horisontes +de um colorido rubro, ensanguentado, de +magica, reflectindo-se no espelho do mar +tranquillo como num grande lago de crystal... +<br /> + +<br /> + +Demos graças a Deus quando nos vimos +fóra de tão desagradaveis regiões. +<br /> + +<br /> + +No dia 11 avistámos terra de Barbados, +uma das mais prosperas colonias inglezas das +Antilhas. Era o primeiro porto extrangeiro +do intinerario. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[29]</span> +O Capitão do Porto foi o primeiro personagem +que pisou a bordo: um inglez de +aspecto duro como em geral o de todo inglez, +olhando atravéz de uns grandes oculos azues +e ostentando fleugmaticamente um par de +soiças ruivas. Trajava +<em>dolman</em> branco, muito +justo ao corpo, calças de panno preto e chapéo +de cortiça branco, de grandes abas, tombado +para a nuca. +<br /> + +<br /> + +Fez a visita sacramental e poz-se ao +fresco em menos de dois minutos, depois de +um fortissimo <em>shake-hand</em>. +<br /> + +<br /> + +A ilha de Barbados vista de bordo é de +uma nudez quasi completa: nenhuma vegetação +cobre as vastas planicies que primeiro +ferem a retina do observador. Ao approximar-se-lhe, +porém, novas paisagens de effeitos +cambiantes vão-se desenrolando á maneira de +cosmorama. Moinhos rodam ao sopro do +vento que ordinariamente é fresco ahi, casas +de campo confortaveis, arvores, chaminés +fumegantes, tudo isso vai apparecendo á medida +que nos approximamos, até que, com +verdadeira surpresa, surge-nos toda a cidade +<span class="pagenum">[30]</span> +de Bridgetown e então basta um golpe de vista +largo para abrangel-a. +<br /> + +<br /> + +Á distancia Bridgetown semelha uma +pobre cidade deshabitada, sem indicio de +civilisação. +A surpreza que experimenta o viajante +é completa depois. Alguem que ahi +esteve annos antes admirou-se da enorme +quantidade de embarcações inglezas surtas no +porto. Entre estas contavam-se quatro encouraçados, +bonitos vasos que honram a Inglaterra +affirmando o grande poder maritimo desse paiz, +cuja esquadra ainda hoje não tem rival no +mundo. +<br /> + +<br /> + +Um dia e meio―eis todo o tempo de +nossa demora em Barbados, tempo sufficiente +para conhecermos a ilha a <em>vol +d'oiseau</em>. +<br /> + +<br /> + +A população, na maior parte negra, é +composta de gente de baixa classe e geralmente +intratavel. +<br /> + +<br /> + +Abundam os <em>ciceroni</em>, especie +curiosissima +de especuladores, que perseguem os +viajantes de uma maneira barbara. Querem, +á fina força, ensinar-lhes as ruas, os hoteis, e +não os largam emquanto não satisfazem a sua +<span class="pagenum">[31]</span> +ambição, cobrando, no fim de contas, certo +numero de <em>shillings</em>. +<br /> + +<br /> + +Falam um <em>patois</em> detestavel; ninguem +os +entende com facilidade. Imagine-se um pobre +diabo acompanhado d'uma multidão que grita +e fala idioma desconhecido a repetir-lhe alto +aos ouvidos:―<em>Came hear! came hear!</em> +discutindo, +altercando-se de cacete em punho. +O misero julga-se por um momento transportado, +como por encanto, ás costas d'Africa, +fecha ouvidos á grita dos importunos +<em>ciceroni</em>, +brada mil vezes <em>no, no, no</em>..., e +não tem remedio +senão deitar a correr como um possesso, +perseguido sempre pela turba multa de vadios, +até que, depois de uma lucta incrivel, esguedelhado, +offegante, pallido, embarafusta pela +porta d'um hotel escorrendo suor, esfalfado, +morto de cansaço! +<br /> + +<br /> + +E ainda por cima vociféra a legião faminta +dos negros! +<br /> + +<br /> + +Nao exagéro. Parece realmente um paiz +semi-barbaro aquelle, e ai! de nós si não +fossem os <em>policemen</em>, a, activos e +energicos guardas +da vigilancia publica, que a um simples +<span class="pagenum">[32]</span> +franzir de sobr'olhos fazem desapparecer a +medonha horda de capadocios, ou que melhor +nome tenham esses turbulentos demonios. +<br /> + +<br /> + +É espantosa a ambição do povo por +dinheiro. +<br /> + +<br /> + +Ao tilintar do <em>money</em> surgem de +repente +vinte, trinta cabeças negras, cada qual +mais negra, disputando a posse do precioso +metal. +<br /> + +<br /> + +Basta dizer que ainda não tinhamos fundeado +e já grande numero de pequenas +embarcações +á vela e a remos,―<em>fly +boats</em>,―approximavam-se +do navio, cortando-lhe a prôa com +risco de serem espedaçadas. Ouvia-se, então, +de todos os lados vozes que gritavam:―<em>I am +pilot! I am pilot!</em> +<br /> + +<br /> + +Embalde procuravamos persuadir áquelles +esfaimados de dinheiro que não precisavamos +de pratico, pois a bahia de Bridgetown é +bastante espaçosa e offerece entrada franca. +<br /> + +<br /> + +Davamos com o lenço, mandando-os embóra―que +não! mas os gritos repetiam-se:―<em>I +am pilot! I am pilot!</em> +<br /> + +<br /> + +Todos queriam, a troco de dinheiro, conduzir +<span class="pagenum">[33]</span>o navio extrangeiro +ao ancoradouro e +para isso exigiam um preço fabuloso. +<br /> + +<br /> + +Formidaveis importunos os taes negros de +Barbados! +<br /> + +<br /> + +A edificação de Bridgetown, puramente +ingleza, é curiosa, pittoresca mesmo, si bem +que uniforme. +<br /> + +<br /> + +As casas, baixas quasi todas, geometricamente +dispostas, alpendradas na frente, +simples e elegantes na sua architectura, são +confortaveis e convidam ao +<em>far-niente</em>. +<br /> + +<br /> + +As ruas, porém, estreitas e mal calçadas, +são, por assim dizer, intransitaveis, em consequencia +do poeiral que sobe, como fumaça, ao +rosto dos transeuntes. +<br /> + +<br /> + +No que respeita a estabelecimentos importantes, +vimos a―<em>St. Leonard's School</em> e uma +igreja-cemiterio. +<br /> + +<br /> + +A estatua de Nelson, o heroe de Trafalgar, +ergue-se, em bronze massiço, n'uma das melhores +praças do logar―<em>Nelson's +square</em>, si +me não engano. +<br /> + +<br /> + +Os poucos hoteis que existem na ilha são +vastos e offerecem o necessario conforto ao +<span class="pagenum">[34]</span> +viajante: boa mesa, bons petiscos, magnifico +vinho, deliciosos +sorvetes―<em>ice-cream</em>―e, +finalmente, boas camas e muito aceio. +<br /> + +<br /> + +O brazileiro que viaja, com raras excepções, +tem necessidade imprescindivel de duas +cousas que elle julga essenciaes ao seu bem +estar: café e cigarros. +<br /> + +<br /> + +<em>Spleen</em> e charutos―são +cousas inseparaveis +de um inglez da Inglaterra; café e cigarros―eis +o que um brazileiro não dispensa. +<br /> + +<br /> + +Infelizmente para nós, o café, tal qual se +prepara em Barbados, é um licor detestavel +composto de muito pó e pouca agua, que os +naturaes mixturam á guisa de chocolate, mas +de um sabor desagradavel, repugnante. +<br /> + +<br /> + +Duas linhas de bonds percorrem a capital +d'um extremo a outro. +<br /> + +<br /> + +A ilha é circumdada por uma via-ferrea. +<br /> + +<br /> + +De resto, é admiravel senão assombroso +o progresso d'essa colonia, relativamente +pequena e tão longe da metropole. +<br /> + +<br /> + +E, note-se, de vez em quando atravessam +aquellas regiões terriveis cyclones produzindo +estragos incalculaveis em toda a extensão da +<span class="pagenum">[35]</span> +ilha. Innumeras embarcações, algumas de +grande porte, têm sido arrojadas á costa por +esses formidaveis meteóros. O ultimo cahiu +em 1851 e figura nos annaes da navegação +como um dos grandes desastres maritimos +do Atlantico.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>III +</h3> + +<br /> + +Na manhã do dia 13 suspendemos ancora +em direcção á ilha da Jamaica, +fundeando no +mesmo dia na bahia de Port-Royal. +<br /> + +<br /> + +Denso nevoeiro envolvia, como uma gaze +alvissima, as altas montanhas que orlam magestosamente +a antiga colonia hespanhola. +<br /> + +<br /> + +Ao approximarmo-nos da pequena e elegante +cidade de Port-Royal, pedimos pratico +o qual nos levou á Kingston. +<br /> + +<br /> + +O brazileiro que, depois de longa ausencia +do Brazil, chega á Jamaica sente logo um +prazer especial, um fremito de patriotismo, ao +contemplar as soberbas montanhas da ilha, +tanto ellas lembram a natureza do nosso paiz. +A bahia, salpicada de interessantes ilhotas de +<span class="pagenum">[38]</span> +verduras, verdadeiras ilhas fluctuantes, em +cujas aguas immoveis bandos de aves ribeirinhas +ostentam sua plumagem garrída e multicolor, +voando d'uma margem á outra n'uma +contradansa animada, offerece aspectos lindissimos. +Jamaica parece um pedaço do Brazil +transplantado para as Antilhas, tal a opulencia +da sua natureza. +<br /> + +<br /> + +É a maior e a mais florescente das colonias +inglezas da America depois de Barbados. +Mede approximadamente quarenta leguas de +comprimento. +<br /> + +<br /> + +Kingston não é uma cidade como Bridgetown, +onde a cada passo depara-se com uma +prova de adiantamento material. É, por assim +dizer, uma capital morta, quasi sem commercio, +mas, em compensação, muito mais +pittoresca que a capital de Barbados. Os +habitantes são morigerados, e uma paz religiosa +parece reinar no seio de cada familia. +<br /> + +<br /> + +Ha mais pobresa, é certo, mas incomparavelmente +o povo é mais educado, mais +pronunciado o instincto de civilisação. +<br /> + +<br /> + +Muitas estatuas. Vimos as de Lewis Quier +<span class="pagenum">[39]</span> +Bower Bonk, nascido em 1815, Edward Jordon, +um dos principaes fundadores da―<em>Jamaica +Mutual Life Assurance Society</em>, Sir Charles +Theophilus Metcaf, governador em 1845―todas +ao redor de um parque. Isso prova +quanto respeito infunde ao inglez o nome de +um compatriota celebre. +<br /> + +<br /> + +Um brazileiro estabelecido em Kingston +disse-nos ser o <em>Almirante Barroso</em> o +primeiro +navio brazileiro que ahi aportava desde 1871. +<br /> + +<br /> + +Nossa demora em Jamaica foi rapida como +em Barbados. Telegrammas officiaes do Rio +apressavam-nos cada vez mais. Já se havia +inaugurado a Exposição de Nova Orleans; +era-nos forçoso assistir ao menos o encerramento. +Estavamos convictos de que o cruzador +brazileiro ia figurar com brilho no importante +certamen americano. Tanto em Bridgetown +como em Kingston não lhe faltaram +elogios de pessoas competentes. +<br /> + +<br /> + +Todos anceavamos pela chegada ao paiz +maravilhoso dos <em>yankees</em>, ao +berço da electricidade, +todos queriamos conhecer <em>de visu</em> o +celebrado paiz das descobertas engenhosas. +<span class="pagenum">[40]</span> +Desde logo entrámos, de combinação, em +«serios» estudos do idioma inglez praticando +uns com os outros, compulsando manuaes de +conversação, decorando significados, +preparando-nos, +emfim, da melhor forma, para retribuir +gentilezas, captar amizades, responder a +todas as perguntas que nos fossem feitas á +queima roupa. Sim, porque tudo quanto +haviamos aprendido theorica e praticamente +na Escola, não era bastante. Faltava-nos a +facilidade, o traquejo da palavra extrangeira, +que haviamos de adquirir á força de vontade +e applicação assidua. +<br /> + +<br /> + +Alguns officiaes, entre os quaes o commandante, +riam-se do nosso apuro, e, de vez +em quando, atiravam-nos de surpreza uma pergunta +em inglez. Quanto disparate, quanta +tolice a principio! O certo é que depois, com +o tempo, já nos entendiamos soffrivelmente. +<em>Noblesse oblige</em>...<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>IV +</h3> + +<br /> + +A hospitaleira sociedade de Jamaica havia-nos +conquistado a sympathia. Todos sentimos +deixar tão cedo aquella encantadora ilha, cujos +habitantes nos tinham prodigalisado tão generoso +acolhimento. Lenços ascenavam para +bordo ao deixarmos o ancoradouro ás 5 horas +da tarde de 21, despedindo-nos talvez para +sempre d'essa boa gente. +<br /> + +<br /> + +Durante os dias 22 e 23, mar e vento +rebellaram-se contra o navio. +<br /> + +<br /> + +Navegavamos á bolina, sempre á vela e a +vapor, amurados por bombordo. +<br /> + +<br /> + +Grandes rajadas frias sopravam do norte, +cantando nos cabos da mastreação, sacudindo-os +com violencia. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[42]</span> +O thermometro baixara sensivelmente, e +a columna barometrica punha-nos calefrios... +<br /> + +<br /> + +O mar quebrava-se de encontro ás bochechas +do cruzador desafiando-lhe a resistencia +colossal. +<br /> + +<br /> + +Sabiamos que a latitude em que navegavamos, +nas Antilhas, era muito frequentada +pelos cyclones, esses terriveis inimigos dos +navegantes, que arrastam em sua cauda milhares +de vidas. Receiavamos esses phenomenos +tanto mais porque os seus effeitos fazem-se +sentir a grandes distancias. +<br /> + +<br /> + +Os symptomas visiveis, si não eram evidentes, +approximavam-se das descripções de +navegantes experimentados. O céo estendia-se +limpo, como um largo pallio azul esbranquiçado; +apenas no horisonte fluctuavam pequenos +<em>stratus</em> em fórma de rabo +de gallo e +algumas estrias avermelhadas, escarlates, despertavam-nos +a attenção. +<br /> + +<br /> + +Ao meio-dia o sol tinha uma côr baça, +com um disco azulado ao redor. +<br /> + +<br /> + +E crescia o mar em vagalhões medonhos +e esfusiava o vento no cordame. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[43]</span> +O navio caturrava e arfava morosamente; +ouvia-se o barulho do helice trabalhando fóra +d'agua. +<br /> + +<br /> + +Pela madrugada de 24 lobrigámos por +boréste o pharol da ilha de Cuba, de luz muito +branca, e no dia seguinte sulcavamos o golfo +do Mexico. +<br /> + +<br /> + +Poucos dias restavam para alcançarmos +Nova-Orleans. +<br /> + +<br /> + +E nada do supposto cyclone! +<br /> + +<br /> + +Por via de duvidas, como o tempo continuasse +borrascoso, ferrámos a maior parte do +panno, conservando apenas as gaveas risadas +nos <em>terceiros</em> e a mezena de capa. +<br /> + +<br /> + +Capeámos tres dias consecutivos, sem que +apparecesse o medonho visitante. +<br /> + +<br /> + +No quinto dia o vento amainou rondando +para nordeste e o mar, por força das circumstancias, +tambem acalmou-se. Ferrámos o +resto do panno, navegando só a vapor. +<br /> + +<br /> + +A idéa da chegada preoccupava todos os +espiritos. Os Estados-Unidos eram o assumpto +de todas as conversações. +<br /> + +<br /> + +Cedo tratou-se da limpeza do navio. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[44]</span> +Cada qual tratou de si, de sua roupa, de +seus objectos que o mar sacudira de um lado a +outro dos camarotes. Os alojamentos apresentavam +o curioso aspecto de um campo de batalha; +malas confundiam-se umas sobre outras +formando empilhamentos, a roupa branca +usada andava de mixtura com os fatos novos +de panno; livros, papeis―tudo quanto era de +uso quotidiano estava espalhado no convéz, +como si andasse por ali alguma creança traquinas. +<br /> + +<br /> + +Guerra ao môfo! Roupas ao sol! Ninguem +se fez esperar. Começaram as +arrumações, +uma faina açodada, durante a qual soaram boas +gargalhadas filhas de inalteravel bom humor. +<br /> + +<br /> + +Os guardas-marinha alojavam-se á pôpa +n'um acanhadissimo compartimento que mal +os comportava. Ahi tinham suas camas, suas +malas, seus livros. +<br /> + +<br /> + +Quantos prejuizos! Quantas decepções! +<br /> + +<br /> + +E todos acocorados, arrumando e desarrumando, +n'uma confusão burlesca, maldiziam +o mar e apostrophavam o vento. Neptuno e +Eolo nunca receberam tantas manifestações +<span class="pagenum">[45]</span> +desairosas. Pois não! Ninguem tem suas +cousas para vel-as de um dia para outro arruinadas, +inutilisadas pelos caprichos incoerciveis +do mar e do vento. +<br /> + +<br /> + +Finalmente, como nada ha melhor que um +dia depois de outro, veio o dia 29 de Março +em que dos váos do joanete de prôa o gageiro +annunciou―terra! +<br /> + +<br /> + +Continuava, entretanto, incessantemente, +a asáfama. A guarnição da bateria +occupava-se +da limpeza das peças, collocando-as em +posição, abrindo e fechando culatras, lixando-as, +lubrificando-as emquanto o fiel ia distribuindo +o cartuxame. +<br /> + +<br /> + +Havia uma alegria geral a bordo e sentia-se +um vago odor de tintas, como ao entrar-se +n'uma casa nova, pintada de fresco. +<br /> + +<br /> + +Já era tempo de repousarmos das fadigas +da viagem.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>V +</h3> + +<br /> + +Ninguem póde imaginar o que é a chegada +de um navio de guerra a porto extrangeiro +depois de uma tempestade ou mesmo +depois d'uma ameaça de temporal. A faina +tor-na-se geral e o ruido inevitavel. É +de +ver-se a promptidão, a rapidez com que se +executam as ordens. Como que ha mais vontade +para o trabalho, desenvolve-se logo um +contagioso bem estar, ninguem foge ao serviço. +<br /> + +<br /> + +Tezar cabos de laborar, baldear o convez +a ficar alvo e polido, como uma sala de visitas, +limpar, areiar os metaes amarellos até ficarem +relusentes como ouro de lei, ferrar o panno a +capricho, cuidadosamente, de modo a confundil-o +com as vergas e os mastros, preparar os +<span class="pagenum">[48]</span> +escaleres―tudo isso é cousa d'um abrir e +fechar d'olhos. +<br /> + +<br /> + +A guarnição do <em>Almirante +Barroso</em>, disciplinada +e obediente como todas as que serviam +sob as ordens do commandante Saldanha, primava +pelo aceio, pela ordem, pela destreza e +pela actividade. Não se lhe póde fazer maior +elogio. Cada marinheiro era como uma machina +prompta sempre ao menor impulso. +<br /> + +<br /> + +A chibata era n'esse tempo, como ainda +hoje o terror das guarnições da armada. +<br /> + +<br /> + +Sempre manifestei-me contra esse barbaro +castigo que avilta e corrompe em vez de corrigir. +Um castigo de chibata é a cousa mais +revoltante que já tenho visto, mormente +quando é mandado applicar por authoridade +deshumana, sem noções do legitimo direito +que a cada homem assiste, quem quer que elle +seja soldado ou pariá. +<br /> + +<br /> + +O meu primeiro passo ao deixar a Escola e +envergar a farda de guarda-marinha foi publicar +um protesto contra essa pena infamante, +e fil-o desassombradamente, convicto mesmo +de que sobre mim ia cahir a odiosidade +<span class="pagenum">[49]</span> +de meus superiores em geral apologistas da +chibata. +<br /> + +<br /> + +A primeira vez que minha posição official +obrigou-me a assistir um desses castigos, tive +impetos de bradar com toda a força dos pulmões +contra semelhante attentado á natureza +humana. +<br /> + +<br /> + +Quem já assistiu uma d'essas pavorosas +scenas do eito, magistralmente descriptas por +Julio Ribeiro na sua obra <em>A Carne</em>, +póde fazer +idéa do que seja o castigo da chibata. +<br /> + +<br /> + +Despir-se a meio corpo um pobre homem, +um servidor da patria, pés e mãos algemados, +muita vez depois de trez dias de +<em>solitaria</em> a +pão e agua, e descarregar-se-lhe sobre a +espinha, sobre as espaduas, sobre o peito, +sobre o ventre, na cara mesmo, em todo o +corpo cincoenta, cem, duzentas chibatadas, em +presença de todos os seus companheiros, me +parece indigno d'uma geração que se +préza, +de uma sociedade de homens civilisados, de +cidadãos, de cavalheiros que ostentam triumphalmente +galões dourados na farda―na farda, +<span class="pagenum">[50]</span> +que significa a nobreza, a coragem, o patriotismo +e a honra d'uma nação. +<br /> + +<br /> + +Revoltei-me contra semelhante barbaridade +inquisitorial, como quem tem consciencia +de que está praticando uma acção justa +e honrosa. +Doía-me por um lado pertencer a uma +classe nobre por tantos titulos, é certo, mas em +cujo seio era permittido a chibata e, o que é +mais, o seu abuso. +<br /> + +<br /> + +A esse tempo a <em>Gazeta de Noticias</em> do +Rio de Janeiro publicava semanalmente um +boletim litterario no louvavel intuito de estimular +os incipientes das letras. Offerecia-se-me +opportunidade para um conto maritimo, +cujo assumpto fosse a chibata. +<br /> + +<br /> + +Escusado é dizer que o meu artigo provocou +o despeito dos culpados indirectamente +feridos no seu amor proprio. Embora! Fiquei +satisfeito, como si tivesse sacudido para longe +um fardo pesadissimo; e, é preciso dizer, não +hesitei em declarar-me autor do conto que +vinha firmado por meu nome, então desconhecido +na armada. +<br /> + +<br /> + +Alguns de meus companheiros taxaram-me +<span class="pagenum">[51]</span>de imprudente e +«indiscreto». Outros levaram +seus conselhos até á minha +<em>inexperiencia +de adolescente indisciplinado</em>. +<br /> + +<br /> + +Todo o mundo julgou-se com direito a +censurar meu procedimento: «que roupa suja +deixa-se ficar em casa; que a chibata era um +castigo imprescindivel», e outros arrasoados +soffrivelmente banaes. +<br /> + +<br /> + +Meu consolo é que d'entre aquelles que +preconisavam os effeitos prodigiosos da chibata +n'outros tempos, muitos concorreram em +demasia para a sua extincção. +<br /> + +<br /> + +Dei parabens á patria e á humanidade.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3> +VI +</h3> + +<br /> + +Como militar e disciplinador o commandante +Saldanha da Gama distinguia-se por sua +inflexibilidade porventura exagerada, especialmente +para com as guarnições sob seu zeloso +commando. Temperamento atrabiliario, sanguineo-nervoso, +sujeito a transições bruscas, +inesperadas, impetuosas e violentas, o illustre +marinheiro, espirito eminentemente illustrado, +não sabia, entretanto, guardar a necessaria +calma quando devia applicar as penas do +codigo. Essas penas, como se sabe, acham-se +perfeitamente explicitas, precisamente formuladas +de modo a não deixar duvida nos espiritos +rectos e amigos da lei. Entre os artigos +que constituem o codigo penal militar existe +<span class="pagenum">[54]</span> +um que limita o numero de chibatadas, o qual +não deve, em caso algum, exceder de vinte e +cinco por dia. +<br /> + +<br /> + +Pois bem, o commandante Saldanha pouquissimas +vezes castigava conforme a lei. +Collocava acima d'ella seus caprichos inexplicaveis, +sua natureza rancorosa, sua vontade +suprema. Nao trepidava, e isto é sabido, em +mandar açoitar com duzentas chibatadas uma +praça qualquer, tal fosse o delicto commettido. +A um simples olhar seu as guarnições tremiam +como caniços. A qualidade caracteristica +d'esse illustre official era ser arbitrario e +prepotente. Por isso a guarnição do +<em>Almirante +Barroso</em> corria a seus postos, em occasião +de manobra, com a velocidade d'uma +setta. +<br /> + +<br /> + +Estavamos quasi á entrada do Mississipe, +a grande arteria fluvial da America do Norte, +que nós imaginavamos um colosso talvez superior +em volume d'agua ao Amazonas,―o Mississipe, +decantado pelo autor dos <em>Natchez</em>, e +em cujas margens fica a cidade de Nova +Orleans nosso ponto de chegada. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[55]</span> +Ninguem pensava mais no Rio de Janeiro +para só se lembrar de Nova Orleans, a +<em>Cidade +Crescente</em>, como a denominam os americanos. +<br /> + +<br /> + +Trez horas da tarde, mais ou menos. Embarcações +á vela e vapores bordejavam fóra +da barra á espera de pratico, sem o qual era +impossivel a entrada. Mar calmo, com uma +côr esbranquiçada, lembrando na sua +quietação +dormente um vasto lago estagnado. Em +frente, muito longe ainda, mal distinguiamos +com o binoculo o pharol, microscopica torre +branca, invisivel quasi. +<br /> + +<br /> + +Envolvidos em grossas capas de lã, abotoados +até o pescoço ao abrigo do frio que se +tornava insupportavel para nós da zona torrida, +de pé no tombadilho, machina a um quarto de +força, bandeira nacional desfraldada na carangueja +do mastro de ré, esperavamos tambem o +<em>pilot</em> que nos devia conduzir +á Nova Orleans, +110 milhas da foz do Mississipe. +<br /> + +<br /> + +O Mississipe! Dentro em pouco sulcavamos +a grande corrente. +<br /> + +<br /> + +Não tardou muito o pratico, por cujo +intermedio tivemos noticia da estrondosa +manifestação +<span class="pagenum">[56]</span>com que os +habitantes da cidade +americana aguardavam a chegada do cruzador +brazileiro. +<br /> + +<br /> + +Bella surpreza essa! Cresceu o enthusiasmo +entre os noveis officiaes. +<br /> + +<br /> + +Entrámos. Durante o nosso trajecto pelo +Mississipe a anciedade a bordo tocou o seu +auge. Queriamos, todos a um tempo, avistar +as embarcações que, dizia-se, vinham nos +receber. +<br /> + +<br /> + +O autor d'estas simples notas de viagem, +que admira os Estados-Unidos como uma +segunda patria, porque ali moram juntas todas +as liberdades e florescem prodigiosamente +todas as nobres idéas civilisadas, de braços +cruzados estendia o olhar cheio de admiração, +cheio de deslumbramento por cima das extensas +planicies das margens do grande rio. +<br /> + +<br /> + +O pôr do sol entre a neblina que cobria +os horisontes fazia lembrar as paginas de +Chateaubriand na sua <em>Voyage en +Amérique</em>, +paginas esculpturaes e cheias da commovida +nostalgia dos que se vão da patria... +<br /> + +<br /> + +Quanta verdade nas sumptuosas descripções +<span class="pagenum">[57]</span>do poeta! Quanta +poesia n'aquellas +paragens desertas da foz do Mississipe,―Sahara +de neve estendendo-se a perder de vista nos +horisontes sem fim! Que de maravilhas occultavam-se +por traz d'aquellas planicies, lá onde +o olhar não attingia! +<br /> + +<br /> + +Eram Ave-Marias. Lembrei-me do Brazil, +dos sertões de minha terra natal, da torresinha +branca do Senhor do Bomfim badalando o +<em>terço</em> +das almas, justamente aquella hora, quando as +boiadas recolhiam mugindo, pesadas e melancolicas... +<br /> + +<br /> + +Ave-Marias!... Mesmo quando não se é +crente, áquella hora da tarde o +coração fica +cheio de não sei que terna e piedosa +uncção +mystica... +<br /> + +<br /> + +Fundeámos no ponto em que o rio se +divide em dois braços ou pequenos confluentes, +e ahi passámos a noite inteira, essa longa +e tristissima noite de inverno. +<br /> + +<br /> + +Frio de rachar. As aguas do rio, pardas +e barrentas, estavam quasi geladas. +<br /> + +<br /> + +As margens do Mississipe, em varios pontos, +são, no inverno, verdadeiras planicies, onde +<span class="pagenum">[58]</span> +apenas medra a herva rasteira. Á distancia, +pobre alma perdida no descampado, ergue-se +ás vezes uma arvore muito esguia, como um +phantasma de braços abertos para o céo. De +quando em quando atravessa a solidão uma +ave desconhecida batendo as azas, como um +agouro. +<br /> + +<br /> + +N'outros logares, porém, vêm-se rebanhos +pastando silenciosamente, plantações verdejantes, +casas de campo, postes de correio, em +cujas portas destacam-se em caracteres maiusculos +as palavras―<em>Post office</em>. +<br /> + +<br /> + +O povo parece viver satisfeito no meio +de suas plantações e de seu gado, entregue +á +cultura e á creação. +<br /> + +<br /> + +Nuvens de mosquitos atordoaram-nos toda +a noite. «―Caramba! exclamava o barbeiro de +bordo, um estimavel hespanhol que traziamos +do Rio de Janeiro. Caramba! Mosquitos por +mosquitos me gustam mas los del Brasil!» +E tinha razão o nosso companheiro. Os mosquitos +do Mississipe são muito capazes de dar +cabo d'um pobre homem. E que medonha +orchestração nos ouvidos da gente? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[59]</span> +Felizmente na manhã do dia seguinte +levantámos ferro. +<br /> + +<br /> + +O navio estava completamente prompto a +fazer sua entrada em Nova Orleans. Durante +quasi toda a noite a guarnição occupara-se em +colher cabos, esfregar a amurada e baldear o +costado. +<br /> + +<br /> + +Como passatempo liamos os jornaes que +o pratico trouxera, os quaes noticiavam a +recepção +popular e official que se nos preparava. +<br /> + +<br /> + +Dois hiates a vapor―o <em>Cora</em> e o +<em>Pansy</em>―propriedade +de Mr. Morris, largariam de Nova +Orleans a nosso encontro, embandeirados, +com bandas de musica, commissões de senhoras, +representantes do commercio e d'outras +classes sociaes. +<br /> + +<br /> + +Ou fosse a natural affinidade que existe +entre as duas nações americanas, ou fosse o +facto de ir a bordo do cruzador brazileiro um +representante da familia imperial do Brazil, o +certo é que durante nossa travessia da foz do +Mississipe á cidade fomos con +Ou fosse a natural affinidade que existe +entre as duas nações americanas, ou fosse o +facto de ir a bordo do cruzador brazileiro um +representante da familia imperial do Brazil, o +certo é que durante nossa travessia da foz do +Mississipe á cidade fomos constantemente saudados +de ambas as margens do rio a tiros de +<span class="pagenum">[60]</span> +espingarda e a lenços que nos acenavam de +longe. +<br /> + +<br /> + +E o <em>Almirante</em> seguia devagar, alvo +de +mil olhares curiosos. +<br /> + +<br /> + +Ao meio-dia ouvimos as notas de uma +musica alegre que se approximava, e em breve +surgiram n'uma curva do rio os dois magnificos +hiates―o <em>Cora</em> e o +<em>Pancy</em>―apinhados +de gente, enfeitados de galhardetes de côres +variadas, em cujos mastros tremulavam as duas +bandeiras amigas. +<br /> + +<br /> + +De ambos os lados, no cruzador e nos +hiates, hurrahs confundiam-se no ar. +<br /> + +<br /> + +Em viva effusão de inexprimivel jubilo +patriotico estreitavam-se as duas grandes potencias +da America; a mesma brisa balouçava +simultaneamente os dois gloriosos pavilhões. +<br /> + +<br /> + +A gente do <em>Barroso</em> subiu +ás vergas accelerada, +e, acenando com os lenços e os bonés, +saudava com vivas estrepitosos e delirantes +acclamações aos Estados-Unidos, ao mesmo +tempo que das duas embarcações partiam +ruidosas manifestações ao Brazil. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[61]</span> +Fardada em segundo uniforme, espada +e dragonas, a officialidade do cruzador brazileiro, +em pé no tombadilho, vivamente commovida, +descobria-se a todo instante risonha e +feliz. +<br /> + +<br /> + +Sentiamos a falta de uma banda de musica +bem organisada, que n'aquelle momento, verdadeiramente +solemne, entoasse o hymno da +republica a bordo. +<br /> + +<br /> + +Passado o primeiro momento de delirio, +approximaram-se os dois hiates que nos acompanhavam +e o cruzador diminuiu a marcha. +Ficámos borda á borda. N'um instante toda +aquella gente que vinha nos vaporesinhos, +passou para o <em>Barroso</em>. +<br /> + +<br /> + +Houve um silencio respeitoso de parte a +parte e começaram os abraços. +<br /> + +<br /> + +O consul geral brazileiro, Sr. Dr. Salvador +de Mendonça, tão conhecido entre nós +por seu +talento e por sua illustração, como homem de +letras e diplomata, juntamente com Mr. Eustis, +consul em Nova-Orleans, foram recebidos no +portaló pelo commandante e officiaes com +todas as honras que lhes eram devidas. Seguiram-se +<span class="pagenum">[62]</span>os representantes +da imprensa, do +commercio, etc. +<br /> + +<br /> + +Conduzidos á camara, desde logo estabeleceu-se +entre brazileiros e americanos uma +camaradagem franca, uma corrente communicativa +de affabilidades, como si já fossemos +conhecidos velhos. As taças de +<em>champagne</em> +chocavam-se, vivas succediam-se, levantavam-se +<em>toasts</em> ás duas +nações, trocavam-se os +mais espontaneos comprimentos. +<br /> + +<br /> + +A viagem continuou ao som da musica do +<em>Cora</em> e do +<em>Pansy</em>. +<br /> + +<br /> + +Ás 4 horas da tarde largámos ferro +defronte da antiga capital da Luiziania. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3> +VII +</h3> + +<br /> + +Nova-Orleans é, talvez, a cidade mais importante +do sul dos Estados-Unidos. +<br /> + +<br /> + +Nosso primeiro cuidado, como era natural +foi desembarcar, «ir á terra», ceiar bem +e +dormir tranquillamente um somno bom e reparador. +Nao nos faltariam esplendidos hoteis +e magnificos <em>rooms</em> onde podessemos, +á vontade, +descansar dos trabalhos da viagem. +<br /> + +<br /> + +Nossa demora devia prolongar-se ahi mais +do que em qualquer outro porto, por causa +da Exposição e a instancias dos habitantes +da cidade, que nos preparavam deliciosas +surprezas. +<br /> + +<br /> + +Tinhamos tempo bastante para ver Nova-Orleans, +para observar os costumes americanos +<span class="pagenum">[64]</span> +e fazer um juizo mais ou menos approximado +d'aquelle bello povo. +<br /> + +<br /> + +O porto estava atulhado de barcas de +commercio―vastas embarcações de dois e trez +pavimentos, duas e trez chaminés negras a +deitar fumaça n'uma actividade constante, +rodas na pôpa, muito mais amplas que as +nossas barcas Ferry do Rio de Janeiro. Atopetadas +de saccas de algodão e outros generos +do paiz, esperavam o momento preciso e regulamentar +de se fazerem ao largo. +<br /> + +<br /> + +Emquanto esperavamos, vivamente anciosos, +o escaler que nos devia conduzir ao caes, +assestavamos o oculo para a cidade quasi +silenciosa áquella hora, e cujas ruas não +tardariamos +a conhecer. Accendiam-se os primeiros +bicos de gaz. Ao longe, n'alguma egreja +remota, badalava um sino triste. Já não +se ouvia quasi o brouhaha quotidiano. Numerosas +embarcações cruzavam-se no rio. Ouviamos +guinchos de locomotivas e o surdo ruido +de carros que ainda labutavam. +<br /> + +<br /> + +Alguns officiaes deixaram-se ficar aguardando +o dia immediato para mais commodamente satisfazerem sua curiosidade de +viajantes em terra extrangeira.<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><img style="width: 300px; height: 445px;" alt="" src="images/fig03.png" /><br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">entrada +de nova-orléans</span><br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[65]</span> +Era fim de inverno. Ameaçava chover. +O frio continuava bastante forte ainda e os +camarotes do <em>Barroso</em> offereciam, +nessas condições, +agasalho confortavel aos mais friorentos. +<br /> + +<br /> + +Na manhã seguinte, grupos de officiaes +brazileiros, uns fardados, outros á paisana, +percorriam Nova-Orleans. +<br /> + +<br /> + +O <em>St. Charles Hotel</em>, um dos melhores +estabelecimentos da cidade, e o <em>Royal +Hotel</em>―primeiro +em luxo e ornamentação―eram procurados +avidamente. +<br /> + +<br /> + +Os jornaes davam noticias circumstanciadas +de nossa chegada e annunciavam festas +em homenagem ao Brazil. +<br /> + +<br /> + +Uma vez installados nos hoteis, cada um +de nós em seu vasto aposento, onde nada faltava, +tão differente dos estreitos camarotes de +bordo, dividimo-nos em grupos. +<br /> + +<br /> + +Quanto a mim, o meu primeiro cuidado +foi munir-me de um guia da cidade, especie +de <em>pocket-book</em> muito commodo, +registrando +<span class="pagenum">[66]</span> +indicações uteis de estabelecimentos e logares +principaes. +<br /> + +<br /> + +Meu quarto ficava no segundo andar do +<em>St. Charles Hotel</em> com frente para a +rua do +mesmo nome―uma saleta mobiliada com +a maxima sobriedade, sem luxuosas decorações, +contendo apenas os moveis indispensaveis +a um rapaz solteiro, e o fogão a um +canto. +<br /> + +<br /> + +Depois de magnifico banho morno em +bacia de marmore (perdôem-se-me estas innocentes +confidencias, aliás de bom gosto) +seguido de um valente almoço de ostras crúas, +as melhores que eu tenho provado, regadas á +Sauterne, mastigando (é o termo, porque não +sou lá muito admirador de charutos) mastigando +um charuto, que não sei bem si era de +Havana, sahi a fazer meu primeiro passeio, +minha <em>promenade</em> matinal, +começando pela +Canal Street, a rua mais importante de Nova +Orleans, que a divide em dois grandes bairros―o +francez e o hespanhol. +<br /> + +<br /> + +No cruzamento das ruas de St. +No cruzamento das ruas de St. Charles e +Canal erguia-se a estatua de Clay. É esse o +<span class="pagenum">[67]</span> +ponto principal da cidade e o de maior movimento +nos dias uteis. +<br /> + +<br /> + +Parei defronte do monumento e consultei +meu alcorão, quero dizer meu guia manual. +<br /> + +<br /> + +«<em>Estatua de +Clay</em>―Inaugurada solemnemente +no dia 12 de Abril de 1860. Joêl T. +Harl, de Kentucky, o artista que deu forma e +proporções á estatua, assistiu ao +acto. O +orador official foi Wen H. Hemt.». +<br /> + +<br /> + +Maldito laconismo! Pouco adiantei com +as explicações do livrinho. +<br /> + +<br /> + +A estatua é de bronze, sobre pedestal de +marmore, e mede, approximadamente, quinze +pés inglezes de altura. +<br /> + +<br /> + +―Continuam as estatuas! exclamei recordando +as que vira em Barbados e Jamaica. +Felizmente até agora não vira a de nenhum +monarcha. Veio-me então á memoria aquella +colossal massa de bronze que se ergue no largo +do Rocio, no Rio de Janeiro, em fórma de um +monarcha escanchado n'um bello cavallo. +<br /> + +<br /> + +Tive pena de não ser aquelle bronze +aproveitado para outra cousa mais digna e +util. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[68]</span> ―Que diabo! +Aquillo é uma pagina de +historia patria, reflecti.―E continuei o meu +<em>tour</em>. +<br /> + +<br /> + +A Canal Street é o centro commercial de +Nova-Orleans, é a rua do Ouvidor d'aquella +cidade, sem os grandes inconvenientes do nosso +querido becco. +<br /> + +<br /> + +Larga, bastante espaçosa e comprida, +offerece transitos especiaes para a população, +para trens, bondes e carruagens. +<br /> + +<br /> + +As ruas, na maior parte são mal calçadas, +principalmente para o interior da cidade. +<br /> + +<br /> + +É, sem duvida, admiravel semelhante incuria +em se tratando de americanos do norte, +entretanto, é uma verdade que não deve ser +esquecida, +para consolo de nossas municipalidades. +<br /> + +<br /> + +Na Canal se acham os melhores e mais +solidos edificios, as mais fortes casas commerciaes, +os mais importantes armazens da cidade, +cafés, restaurantes, clubs, etc. +<br /> + +<br /> + +Convenci-me desde logo que os principaes +productos industriaes de exportação +eram―assucar e algodão, como bem presumira +<span class="pagenum">[69]</span>ao desembarcar, no +caes, onde era enorme +a accumulação de fardos desses dois generos. +<br /> + +<br /> + +De vitrine em vitrine, observando sempre, +escrupulosamente, curiosamente, á cata de novidades +extrangeiras, posso affirmar que nada +vi, surprehendente... Ah! sim, vi umas graciosas +caixeiras accudirem pressurosas e desenvoltas, +com o desembaraço proprio de sua raça, +aos compradores, cousa aliás muito simples, +muitissimo natural, mas não no Brazil, onde +as senhoras estão eternamente prohibidas de +competir com o outro sexo na vida publica. +<br /> + +<br /> + +Parece-me que só n'este paiz ainda não se +observa nem se permitte esse costume tão natural, +tão proprio, tão efficaz mesmo, das senhoras +pobres empregarem-se no commercio +a retalho. Na Inglaterra, em Franca, na Allemanha, +na Italia e nos Estados-Unidos é habito +velho, ao que me consta, as senhoras servirem +nos balcões, e é de notar que cumprem seus +deveres com assombrosa pericia. Ás nove +horas da manhã, que digo eu! ás seis horas, +depois de ligeira refeição, encaminham-se para +o trabalho quotidiano, felizes, satisfeitas, envolvidas <span class="pagenum">[70]</span>em grossas capas de +lã no inverno, a +bolsa de um lado, sem siquer fazerem-se acompanhar. +Vão direitinhas de casa para a loja ou +escriptorio, sem que ninguem lhes dirija uma +pilheria, sem que ninguem as desrespeite, e, á +noite, recolhem-se da mesma fórma, sempre +alegres, transpirando saúde, a face rubra. +<br /> + +<br /> + +Muitas vezes sahem das lojas, mudam a +<em>toilette</em>, fazem seu penteado, +perfeitamente +dispostas, e d'ahi a pouco estão nos bailes, nos +concertos, nos theatros. +<br /> + +<br /> + +Rara a casa de modas, o armarinho, a livraria +onde se não encontra uma senhora +exercendo as funcções de simples caxeira, +ou como guarda-livros, silenciosa na sua +carteira, escripturando cuidadosamente o +Caixa. +<br /> + +<br /> + +Em alguns estabelecimentos publicos, no +Correio, por exemplo, grande parte do serviço +é feito por senhoras. Esse edificio, digamol-o +de passagem, na rua Canal, é de apparencia +extraordinariamente simples e desgraciosa. O +serviço, porém, como em toda +estação americana +é correcto e sem demora. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[71]</span> +Individuos de muitas nacionalidades acotovellam-se +na grande rua. +<br /> + +<br /> + +Em Nova Orleans, como em quasi toda a +a Luiziania, fala-se mais o francez que outro +idioma qualquer, não sendo raro ouvirem-se +negociantes, mesmo senhoras de elevada hierarchia +falar, embora mediocremente, o hespanhol. +<br /> + +<br /> + +Havia chegado o momento fatal, inevitavel, +de nos exhibirmos tambem em lingua alheia. +<br /> + +<br /> + +Pouco a pouco, nos iamos familiarisando +com a população e com o ídioma d'esse +adoravel +canto da terra que o Mississipe banha. +<br /> + +<br /> + +O dia seguinte ao de nossa chegada á +Nova Orleans (31 de Março) estava designado +para o encerramento da Exposição das Trez +Americas. Avisados d'esta solemnidade, deviamos +comparecer a ella em grande uniforme, +encorporados. +<br /> + +<br /> + +Foi um dia essencialmente brazileiro esse. +Nos convites para a festividade lia-se esta +impagavel gentilesa: <em>Brasilian day</em>. +<br /> + +<br /> + +Todas as attenções convergiam para o +<em>Almirante Barroso (brazilian man of +war)</em>. +br /> +<br /> + +<span class="pagenum">[72]</span> +O palacio da Exposição estava situado a +alguns kilometros fóra da cidade, n'um de seus +pontos mais pittorescos, o Upper City Park, +á margem do Mississipe―largo edificio vistosamente +adornado e do alto do qual se avistava +toda a cidade e immediações. +<br /> + +<br /> + +Na manhã d'esse dia, por signal chuvoso +e coberto de nevoeiro, embarcámos em trem +especial, que nos fôra destinado pelo presidente +da Exposição, Mr. Ed. Richardson, um +<em>yankee</em> muito amavel, todo cortesia, +sempre +com um bello e espontaneo sorriso a captivar a +gente, correcto sempre, irreprehensivelmente +correcto. +<br /> + +<br /> + +Embarcámos na Canal street, defronte do +<em>Pickwick Club</em>, em companhia de +muitos officiaes +da Guarda Nacional, de Mr. Richardson +e de officiaes da corveta franceza +<em>l'Étoile</em>, que +se achava no porto de Nova Orleans, dos +consules e outras summidades do paiz. +<br /> + +<br /> + +O trem abalou como um raio, todo enfeitado +de bandeirolas americanas, brazileiras e +d'outras nações, ao som de musicas e +acclamações +delirantes, rasgando, na sua marcha +<span class="pagenum">[73]</span> +vertiginosa, o nevoeiro que cahia sem cessar +penetrando os wagons escancarados ao ar frio +da manhã, soltando guinchos medonhos... +<br /> + +<br /> + +Durante o trajecto não me cansei de +observar os sitios que o trem atravessava. +<br /> + +<br /> + +De um lado e d'outro da linha estendiam-se +vastas plantações de algodoeiros desfolhados +pelo rigor do inverno, amontoados +de neve, immoveis phantasmas brancos no +silencio infinito dos descampados; casas de +campo deliciosas para se passar o verão, trancadas +á neve, muito brancas e desoladas, riam, +como saudando a nossa passagem, e desappareciam +rapidamente no horisonte esfumado. +<br /> + +<br /> + +É de vêr a simplicidade reunida á +graça +que apresentam essas habitações: vêr +uma é +vêr cem, tal a uniformidade de sua architectura. +Em geral são de madeira, pintadas de +branco e cinzento, com seu terraço para as +calidas noites de verão, jardim e horta arranjados +com admiravel cuidado e bom gosto. +<br /> + +<br /> + +Absorvido completamente pelo aspecto +variado da paisagem, sem prestar attenção ao +circulo ruidoso dos collegas, eu (lembro-me +<span class="pagenum">[74]</span> +bem) formava planos de vida socegada, n'algum +eremiterio entre a eterna frescura das plantas +e o amor eterno d'uma creatura querida. +<br /> + +<br /> + +Invejava os simples, os sertanejos, os homens +dos campo―esses para quem a vida +corre sempre calma, porque seu coração +não +conhece outro amor senão o da esposa e o dos +filhos, esses de quem Boileau dizia +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry"><em>Heureux est le mortel qui du +mond ignoré<br /> + +Vit content de soi même en un coin +retiré...</em> +</div> + +<br /> + +E eu me transportava outra vez ao Brazil, +outra vez eu tinha a nostalgia da patria, a +saudade vaga e inexplicavel de minha terra +natal. +<br /> + +<br /> + +Parecerá uma phantasia de poeta adolescente +isto que acabo de dizer, mas é a verdade, +a expressão sincera do que eu sentia ao atravessar +a região que ia ter lá, ao palacio da +Exposição. +<br /> + +<br /> + +A tristeza da neve communicava-se ao meu +espirito imprimindo n'elle não sei que despretenciosas +ambições de silencio e recolhimento. +<span class="pagenum">[75]</span> +Alguem já procurou explicar a influencia que +exerce o estado hygrometrico da atmosphera +no estado psychologico do individuo. +<br /> + +<br /> + +Eu de mim só sei que o patriotismo, longe +da patria, dupplica. +<br /> + +<br /> + +E fechemos esta especie de parenthesis. +<br /> + +<br /> + +Uma commissão de cavalheiros, competentemente +encasacados, veio receber-nos ao +desembarque. +<br /> + +<br /> + +Entrámos. Nossa entrada foi verdadeiramente +triumphal. +<br /> + +<br /> + +Dentro e fóra do edificio era grande a +agitação. +Ondas de povo entravam e sahiam +percorrendo o pittoresco <em>Upper City +Park</em>. +<br /> + +<br /> + +Felizmente «levantou o tempo», como se +costuma dizer. +<br /> + +<br /> + +Ao assomar á porta do grande salão de +honra o primeiro official brazileiro, o commandante +do <em>Barroso</em>, ao lado do consul e do +presidente da Exposição, a orchestra de +professores, +brilhantemente organisada, rompeu lá +dentro o hymno nacional americano (não conheciam +o nosso hymno aliás tão vulgarisado), +os espectadores que enchiam o vasto recinto +<span class="pagenum">[76]</span> +ergueram-se, e uma salva estrepitosa de palmas +acolheu o resto da officialidade. +<br /> + +<br /> + +Houve um momento de verdadeiro delirio, +em que todos batiam palmas sem interrupção +levantando vivas ao Brazil. +<br /> + +<br /> + +Serenado o enthusiasmo, um enthusiasmo +indescriptivel, apopletico, tomou a palavra +Mr. Richardson, que proferio o discurso de +encerramento, saudando a armada brazileira. +<br /> + +<br /> + +Seguiu-se na tribuna o orador official, +que, n'um improviso eloquentissimo, patenteou +a necessidade de uma união entre todas as +nações americanas, desenvolvendo largamente +as vantagens que d'ahi proveriam a todas elas. +<br /> + +<br /> + +Falou tambem o governador da Luiziania, +e, finalmente, os Srs. Salvador de Mendonça +e Saldanha da Gama, cujas palavras foram +cobertas dos mais significativos applausos. +<br /> + +<br /> + +Terminada a ceremonia oratoria, foi-nos +franqueado o edificio da Exposição, que +percorremos +examinando com interesse os differentes +pavilhões industriaes. +<br /> + +<br /> + +O Brazil―é triste dizel-o―fizera-se representar +de modo bem insignificante. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[77]</span> +Brilhariamos pela ausencia, si o Governo +não tivesse a lembrança de mandar o +<em>Almirante +Barroso</em>. +<br /> + +<br /> + +Amostras de madeiras, café em grão, +fumo, artigos de borracha, constituiam os principaes +productos brazileiros expostos á curiosidade +dos visitantes de quasi todas as +partes do mundo civilisado. O pavilhão do +Brazil deixava-se ficar em plano inferior aos +das outras nações, como si fossemos um +pobre paiz, cujos productos não valessem a +pena de ser expostos n'um certamen internacional! +<br /> + +<br /> + +D'ahi, talvez, o assombro dos americanos +ao verem o <em>Almirante Barroso</em>, esse +esplendido +vaso de guerra de envergadura possante, +capaz de resistir aos mais fortes temporaes e +que elles, os extrangeiros, duvidavam fosse +obra nossa. +<br /> + +<br /> + +―Como? Pois no Brazil tambem se fabricam +navios de guerra? Está muito adiantado +o Brazil! +<br /> + +<br /> + +E repetiam com um ar de duvida e de +ironia medindo d'alto a baixo e de pôpa á +prôa +<span class="pagenum">[78]</span> +o magestoso cruzador, que balouçava de leve +sobre o Mississipe: +<br /> + +<br /> + +―Está muito adiantado o Brazil! +<br /> + +<br /> + +Entretanto o Mexico, a America Central +e as republicas sul-americanas, sem os recursos +invejaveis da grande nação, sobresahiam +admiravelmente. O pavilhão do Mexico, +sobretudo, desafiava a maior parte dos outros +não só em abundancia de artigos, mas, +principalmente, +em belleza e bom gosto, em elegancia +e riqueza. +<br /> + +<br /> + +Escusado, parece, falar do importante logar +que coube aos Estados-Unidos. Que profusão +de machinas e instrumentos industriaes de +invenção +puramente americana! Ali mesmo, á +vista do observador, fabricavam-se os mais curiosos +objectos de fantasia e de uso domestico; +o linho, o algodão, a sêda―eram tecidos +rapidamente +aos olhos de todos. +<br /> + +<br /> + +Imagine-se agora o ruido, a algazarra, a +movimentação que devia reinar ali dentro +d'aquelle immenso edificio, certamente muito +longe de ser comparado aos palacios de +exposições universaes, mas ainda assim um +<span class="pagenum"><a name="p79">[79]</a></span> +dos maiores que se tem levantado n'esse +genero. +<br /> + +<br /> + +Para dar uma idéa de suas +dimensões―não +o chamaremos vaticano da industria para +não exagerar―basta dizer que o salão de +musica―<em>music hall</em>―accommodava +11.000 +pessoas, inclusive uma vasta área para 600 +figuras. +<br /> + +<br /> + +Impossivel descrever as amabilidades, as +gentilezas que nos foram prodigalisadas largamente +pelas adoraveis americanas de Nova +Orleans nessa festa democratica de +confraternisação +internacional; recordar as phrases +deliciosas, os galanteios irresistiveis... +<br /> + +<br /> + +O que posso affirmar é que o <em>brazilian +day</em> +ha de perdurar por muito tempo no coração +d'aquelles que tiveram a felicidade de assistir +essa bellissima festa. +<br /> + +<br /> + +Dias depois voltei ao palacio da <a href="#e2">Exposição</a>, +sosinho, como simples curioso que não tivera +tempo bastante para examinar tudo no pequeno +espaço de doze horas. +<br /> + +<br /> + +Nada mais restava senão o esqueleto nú do +edificio em via de demolição. Todos os objectos +<span class="pagenum">[80]</span> +tinham sido retirados com assombrosa rapidez. +Operarios em mangas de camisa martellavam +grandes caixões, assobiando monotonamente, +emquanto outros carregavam pesados volumes +contendo os ultimos especimens da industria +americana. +<br /> + +<br /> + +Voltei immediatamente com um ar compungido +de quem acaba de acompanhar um +enterro, lamentando o tempo perdido e exclamando +de mim para mim: +<br /> + +<br /> + +―Ah! americanos d'uma figa, sois um +povo excepcional! +<br /> + +<br /> + +Agora uma pergunta ingenua: Porque é +que o Brazil, com os numerosos recursos que +tem á mão, timbra em occupar logar segundario +em quasi todas as Exposições a que concorre? +<br /> + +<br /> + +Indifferença, talvez, simples indifferença +de nossos governos. +<br /> + +<br /> + +Na celebre Exposição de Philadelphia +não +sabiamos á ultima hora como e onde accomodar +os productos deste paiz, em consequencia +de não ter o governo mandado construir um +pavilhão especial. +<br /> + +<br /> + +Contentamo-nos em enviar objectos bastante +<span class="pagenum">[81]</span>conhecidos, +não fazemos +selecção na +escolha d'elles, não nos importa o modo como +devam ser acondicionados. +<br /> + +<br /> + +Na Exposição de Vienna ainda o Brazil +teve de occupar logar pouco lisongeiro, e si +alguns de seus productos principaes tiveram +a felicidade de ser premiados foi isso devido, +não ao governo, mas tão somente a +esforços +de muitos negociantes do Rio de Janeiro e do +Pará. +<br /> + +<br /> + +Annuncia-se para o anno vindouro uma +<em>Universal Great Exhibition</em>, nos +Estados-Unidos, +cujo successo irá rivalisar, talvez, com o +da Exposição Universal realisada ha mezes em +Pariz e notavel pela colossal e tão celebre +torre Eiffel. Nenhuma razão assiste para que +a grande nação da America do Sul, o Brazil, +não se faça representar com todo o brilho de +sua incontestavel riqueza. +<br /> + +<br /> + +Agora que somos republica, torna-se dupplamente +preciso que patenteemos ao mundo +inteiro a infinita variedade de nossas produções +agricolas, a opulencia invejavel da +flora brazileira e da industria já bastante adiantada +<span class="pagenum">[82]</span>d'este bellissimo +paiz, cuja natureza +extasiou Humboldt, Agassiz e tantos outros +sabios da Europa. +<br /> + +<br /> + +Si cada Estado souber cumprir seu dever +não poupando esforços para esse nobilissimo +fim, certo d'esta vez não teremos que corar +perante as outras nações como nos tempos do +anachronico imperio do Sr. D. Pedro II.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3> +VIII +</h3> + +<br /> + +A grande Exposição Industrial de Nova +Orleans prolongou-se até ao <em>Almirante +Barroso</em>. +O bello cruzador brazileiro começou +desde logo a ser o alvo dos curiosos de +todas as nações ali representadas. +<br /> + +<br /> + +Comprehende-se o vivo interesse do povo +em assumptos d'esta ordem. +<br /> + +<br /> + +Não havia na cidade quem não soubesse +que estava no porto um navio de guerra do +Brazil, e este facto por si só era bastante para +que toda a gente ardesse em desejo de vel-o de +perto, de o percorrer d'um extremo a outro. +<br /> + +<br /> + +―Quantos canhões traz? perguntava-se. +A machina quantas milhas vence por hora? +Quantas rotações por minuto? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p84">[84]</a></span> +E quando affirmavamos que a machina do +<em>Barroso</em> era de ferro Ipanema e +d'outros +metaes brazileiros, que todo o navio, da pôpa +á prôa, era construcção +inteiramente nacional, +subia de ponto a surpreza dos nossos visinhos. +<br /> + +<br /> + +O quê! No Brazil já se constroem navios +de guerra?―<em>It is impossible!...</em> E +toda a população, +tomada de um quasi espanto, duvidando, +talvez, da nossa habilidade, affluía ao caes. +<br /> + +<br /> + +Todo o cruzador, desde a camara do commandante +até ao alojamento dos marinheiros, +desde o tombadilho até ao porão, foi exposto +á +curiosidade publica. +<br /> + +<br /> + +O sexo gentil, com especialidade, repetia +suas visitas. +<br /> + +<br /> + +Desde ás oito horas da manhã, ao +içar-se +a bandeira, começavam a atracar lanchas a +vapor e escaleres cheios de visitantes de ambos +os sexos. +<br /> + +<br /> + +Grandes lanchas iam e vinham do caes +para o cruzador e do cruzador <a href="#e3">para o caes</a>, +continuamente, incessantemente, apinhadas de +passageiros, que pagavam 5 centimos de ida e +volta. Cada uma trazia á prôa, em letras +<span class="pagenum">[85]</span> +esparramadas e vivas, a senha:―<em>Brazilian +man of war</em>.<br /> + +<br /> + +Á tarde, depois d'uma faina acabrunhadora +de receber familias e percorrer duas, tres +e mais vezes o navio, dando explicações, +descrevendo +apparelhos e machinismos com uma +paciencia de pedagogos, iamos á terra, distrahir +nos cafés, nos theatros, nos bailes, +tanto mais quanto multiplicavam-se os convites +para todas as diversões publicas e familiares. +<br /> + +<br /> + +As familias com que iamos entretendo +relações de amizade exigiam que fossemos +quotidianamente a suas casas, como si nos +sobrasse tempo para isso; e, força é confessar, +dispensavam-nos um tratamento quasi paternal. +<br /> + +<br /> + +A melhor de todas as recepções que tivemos, +não obstante o caracter official que a +revestia, foi a do Governador da Luiziania, +esplendido baile no <em>Royal Hotel</em>, no +dia 8 de, no +dia 8 de +Abril, ao qual compareceram todas as autoridades +civis e militares da cidade em uniforme +de gala. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p86">[86]</a></span> +A casaca, o clak, a gravata de sêda +branca, o vestido decotado até aonde permitte +a decencia, confundiam-se nos salões +do hotel ricamente adornados, cheios de luz, +escancarados de par em par como um palacio +em festa. +<br /> + +<br /> + +A joven officialidade brazileira, eximia +em <em>cotillons</em>, expandiu-se a valer +n'essa magnifica +<em>soirée</em> de inverno, fria e +clara, constellada +de botões d'ouro e brilhante, longe da +patria, longe de suas familias, mas no seio +d'um povo que nos amava devéras. +<br /> + +<br /> + +Saráo principesco esse de que ainda sinto +o saibo exquisito ao traçar as reminiscencias +da minha primeira ausencia do Brazil. +<br /> + +<br /> + +Mesa abundantissima e franca, desde a +deliciosa sôpa d'ostras com molho inglez á +mais fina champagne Clicot, com escala pela +<em>mayonnaise</em> de lagosta, fresca e +picante, pelo +succulento <em>poisson à +l'itallienne</em>, rubro e apettitoso... +e tantos, meu Deus, e tantissimos +outros pratos maravilhosos <a href="#e4">inventados</a> +pela +gula epicurista de todas as gerações desde +Luculo até á nossa. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p87">[87]</a></span> +Volvemos para bordo seria madrugadinha, +tropegos, cansados e somnolentos, palpebras +cahidas, supplicando a frescura d'um travesseiro, +dentro de nossas inviolaveis capas da +Bretanha. +<br /> + +<br /> + +Uma noite brazileira com todos os excessos +da nossa educação e do nosso caracter; +saudosa noite, a primeira de minha vida em +que me enfronhei n'uma casaca irreprehensivelmente +bem feita... +<br /> + +<br /> + +O <em>Barroso</em>, diluído na +escuridão da noite, +aproado á correnteza que descia rio abaixo +cantando uma melopéa de lenda, o +<em>Barroso</em>―pedaço +da patria longinqua―acenava-nos +com a sua luzinha amarella palpitando ás rajadas +do vento frio. +<br /> + +<br /> + +... E os bailes repetiam-se e nós <a href="#e5">viviamos +cercados</a> da alegria communicativa d'esse povo +americano eternamente jovial! +<br /> + +<br /> + +Falemos ainda das mulheres de Nova +Orleans. +<br /> + +<br /> + +Bellas quasi todas, amaveis e insinuantes, +cheias d'uma inexcedivel graça que arrebata e +seduz voluptuosamente. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[88]</span> +As <em>créoles</em>, ah! as +<em>créoles</em>... ninguem as +vê que não as fique desejando. +<br /> + +<br /> + +Caracteres principaes: tez morena, com +uns tons de rosa na face, olhos muito negros, +criminosos até ao homicidio flagrante, pequenas, +delicadas, flexiveis, aereas quasi, conjuncto +meigo e melancolico, muito sensiveis... +A vaga expressão de seu olhar avelludado +derrama não sei que mysterioso fluido, cujos +effeitos traduzem-se em voluptuosas sensações, +secretos desejos de posse absoluta... +<br /> + +<br /> + +Como differem as chamadas +<em>créoles</em> das +verdadeiras americanas! +<br /> + +<br /> + +Estas―muito rubras, cabello côr de ouro, +olhos azues―são frias, quasi indifferentes +ao amor, egoistas de sua belleza de estatua, +vivendo para o trabalho e para a familia; +aquellas―adoraveis com as suas linhas ideaes, +com a vaga e communicativa melancolia de +seu olhar voluptuoso―fazem lembrar um povo +mystico e cheio de bondade d'algum paiz +nebuloso e desconhecido... +<br /> + +<br /> + +É curiosa a origem da população +<em>créole</em> +de Nova Orleans. Ella descende na maior +<span class="pagenum">[89]</span> +parte de aventureiros canadaenses e <em>courreurs +des bois</em>―gente ousada e valente, que emigrou +do norte para o sul da America septentrional, +por terra, atravéz de inhospitos desertos povoados +de selvagens perigosissimos. Esses +aventureiros chegaram a Luiziania sem familias, +depois de uma viagem cheia de trabalhos +e fadigas, descansando, por fim, ás margens do +Mississipe. A Luiziania era então colonia +franceza, e o rei, apiedando-se da sorte dos +infelizes immigrantes, que viviam solteiros, +longe de sua patria natal, sujeitos a uma +castidade quasi absoluta, quiz aproveital-os +para a colonisação. N'esse intuito mandou +vir de Paris um <em>carregamento</em> de +mulheres, +prisioneiras da Salpetrière, que chegaram a +Nova-Orleans em ferros, e onde foram postas +em liberdade e entregues á concupiscencia +da população masculina. +<br /> + +<br /> + +Isso, porem, não trazia vantagens á +colonia, que precisava de gente. Os canadaenses +satisfaziam seus apetites carnaes +sem que augmentasse o numero de habitantes―facto +este que não passou despercebido ao +<span class="pagenum">[90]</span> +directorio da Companhia da Luiziania, cujo +principal interesse era a multiplicação das +almas. +<br /> + +<br /> + +N'estas condições foram dadas outras +providencias, +e, em 1728, chegou a Nova-Orleans +um grupo de raparigas, conhecidas na Luiziania +historica pelas <em>filles de la +cassette</em> ou +<em>casket girls</em>, mandadas pelo rei para +o convento +das Ursulinas afim de se casarem licitamente. +A experiencia foi coroada de successos. Em +breve tempo começou a crescer a colonia e os +descendentes da <em>cassette</em> tinham +orgulho em +o serem. +<br /> + +<br /> + +Tal foi a origem humilde dos primeiros +filhos nativos da Luiziania. +<br /> + +<br /> + +Seu sangue é uma mixtura de sangue canadaense +e sangue francez. +<br /> + +<br /> + +A mulher americana do norte é geralmente +bem educada. Muitas vimos em Nova-Orleans, +que conheciam e falavam dois, tres idiomas, +alem do vernaculo. +<br /> + +<br /> + +Preoccupam-se pouco com bailes e modas, +trajam com simplicidade e elegancia, sem +affectação, sem a natural +<em>coquetterie</em> da mulher +<span class="pagenum">[91]</span> +parisiense. Seu divertimento predilecto é a +musica. +<br /> + +<br /> + +O proverbial desembaraço das americanas +manifesta-se a todo instante. Promptas sempre +a repellir com dignidade um ataque á sua +honestidade, ellas se dirigem aos homens em +qualquer parte, na rua ou nos salões, com a +mesma simplicidade com que o fazem ás amigas. +O respeito entre os dois sexos, nas +classes superiores, é um dos principaes caracteres +do povo americano. Habituados, homens +e mulheres, a uma educação livre, vivendo uns +e outros em commun desde creança, as americanas +não se confundem nunca diante dos +homens. +<br /> + +<br /> + +Nos Estados-Unidos o bello sexo é respeitado +como em parte alguma. +<br /> + +<br /> + +Os paes depositam confiança illimitada +nas filhas. Deixam, sem escrupulo, que +ellas saiam a passeio, de carro ou a pé, só +ou em companhia de um amigo da casa, na +certeza de que ellas saberão zelar a sua castidade. +<br /> + +<br /> + +Os raptos e os defloramentos são raros, não +<span class="pagenum">[92]</span> +sei si devido ao temperamento da raça ou si á +inflexibilidade da Lei. O que sei é que, si um +rapaz gosta de uma rapariga de familia reconhecidamente +honesta, não tem mais do que +namoral-a escandalosamente ás barbas de quem +quer que seja, á vista do mundo inteiro, beijal-a +sem ceremonia, como si fossem irmãos, e, d'ahi +a pouco, eil-os casadinhos de fresco, <em>bras +dessus, bras dessous</em>. +<br /> + +<br /> + +E ai! d'aquelle que violar os preceitos +decretados pelo governo! Immediatamente +vê-se dentro d'este triangulo medonho: o +casamento, o dote, ou a cadeia. A Lei é inexoravel +e a policia exerce uma vigilancia sem +igual. +<br /> + +<br /> + +Informados de taes particularidades do +caracter americano, nós, brazileiros, pusemos +um dique ao nosso temperamento de meridionaes, +evitando o mais possivel os compromissos +amorosos, as manifestações de sympathia +por essas adoraveis <em>ladies</em>, que, a +falar +verdade, inflingiam-nos os maiores supplicios +com o maravilhoso poder de suas qualidades +physicas. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[93]</span> +Tantalos do coração, eramos obrigados a +conter os impetos ferozes da carne que nos +aguilhoava implacavelmente no delicioso convivio +das louras <em>miss</em> e das ternas +<em>créoles</em>. +<br /> + +<br /> + +<em>Estão verdes, não +prestam</em>―era a nossa +divisa e d'est'arte escapavamos sempre aos +ataques de tão perigoso inimigo...<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c9"></a>IX +</h3> + +<br /> + +O dia 14 de Abril (deixem passar a precisão +chronologica) estava destinado pelo commandante +do <em>Barroso</em> para uma +excursão fluvial, +scientifica, á foz do Mississipe, onde iriamos +observar <em>de visu</em> os importantes +trabalhos +hydraulicos, que ahi se procediam sob a intelligente +direcção do notavel engenheiro americano +Mr. Jas. B. Eads, um velho respeitavel, encanecido +no serviço da engenharia, e cujo <a href="#e6">nome +está</a> ligado a muitas obras notaveis de seu paiz. +<br /> + +<br /> + +Ás onze horas da noite a barca de passeio +<em>Keokuk</em> largou de Nova Orleans, rio +abaixo, +conduzindo a turma de guardas-marinha, +alguns officiaes e o commandante, com destino +ás <em>Jetties</em>. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[95]</span> +Uma excellente embarcação a +<em>Keokuk</em>, +especie de pequena cidade fluctuante, muito +larga e espaçosa, avantajando-se em dimensões +aos vapores da Companhia Brazileira. +Tres pavimentos: o superior, coberto por um +grande toldo, onde os passageiros podiam +fumar á vontade; o do meio formando um +salão-refeitorio, ao lado do qual ficavam os +camarotes e o porão, para mercadorias; rodas +á pôpa, systema de locomoção +que não conheciamos; +duas chaminés, e machina possante. +Em semelhantes condições eramos +capazes de fazer a <em>volta do mundo em oitenta +dias</em>... +<br /> + +<br /> + +Passámos a noite sobre o rio, navegando +á meia força, ao sabor da correnteza. +<br /> + +<br /> + +Lá iamos outra vez para a região dos mosquitos! +Preparámo-nos para dar quixotesca +batalha, apezar da falta impreenchivel do nosso +querido companheiro, o barbeiro de Sevilha, +quero dizer o barbeiro de bordo, o impagavel +hespanhol que tanto nos divertira na caça aos +mosquitos. +<br /> + +<br /> + +Pela manhã, cedinho, estavamos em Port-Eads, +<span class="pagenum">[96]</span>defronte do +escriptorio central do respeitavel +engenheiro. +<br /> + +<br /> + +Café, biscoitos..., e desembarcámos. +<br /> + +<br /> + +O bom velho já nos esperava com o seu +bello ar de urso domestico, barba muito +branca, de barrete e oculos, entre os seus +mappas coloridos e os seus prospectos representando +<em>steamers</em> e as +<em>jetties</em>. +<br /> + +<br /> + +―Folgo bastante em lhes poder mostrar +o plano da empreza ha tantos annos iniciada +sob minha direcção, disse elle com um amavel +sorriso de bonhomia patriarchal. +<br /> + +<br /> + +E começou a desenrolar diante de nossos +olhos uma serie infindavel de cartas hydrographicas, +mappas, desenhos... +<br /> + +<br /> + +Vale a pena se admirar essa obra monumental. +<br /> + +<br /> + +Tratava-se de cavar o leito do rio, n'um dos +braços de sua foz, por modo a effectuar-se a +navegação livremente, na linha da correnteza, +e terem entrada embarcações de grande calado, +desenvolvendo-se assim o já notavel commercio +de Nova-Orleans. Com esses trabalhos +o porto irá melhorando consideravelmente, +<span class="pagenum">[97]</span> +sendo para notar o grande movimento de +navios que entram e sahem durante o dia. +<br /> + +<br /> + +O rio tem pelo menos 16.000 milhas navegaveis +que os americanos dia a dia tratam de +aproveitar dando sahida a innumeros productos +do fertilissimo valle do Mississipe, o qual +abrange cerca de 768.000.000 geiras <em>das mais +ricas terras do mundo</em>, como elles lá +dizem. +Sua emboccadura é, portanto, a passagem +natural de todos aquelles productos. +<br /> + +<br /> + +Desde 1726 têm sido empregados esforços +inauditos a fim de se aprofundar essa parte do +famoso rio; mas, foi em 1875 que o governo +dos Estados Unidos contratou definitivamente +esse serviço com Mr. Eads, e é bem provavel +que em futuro não muito remoto esteja o porto +franqueado a todos os navios do mundo, +graças á perseverança e aos +esforços de habeis +engenheiros. +<br /> + +<br /> + +A visita foi curta, mas proveitosa. +<br /> + +<br /> + +Tomámos novamente a barca, e ás cinco +horas da tarde atracavamos no forte Jackson, +velha fortaleza abandonada, á margem direita +do rio. Lá estava ainda, immovel e muda, a +<span class="pagenum">[98]</span> +descommunal artilharia que Farragut, o velho +almirante, commandara na guerra sanguinolenta +dos separatistas, que terminou com a +tomada de Nova-Orleans. +<br /> + +<br /> + +Os velhos canhões dormiam seu somno +de bronze, lá dentro, nos corredores escuros +como os de uma Bastilha, e a nós, estudantes +de historia naval, inspiravam não sei que respeito +sagrado. Perante elles falavamos baixo, +como para não os acordar... +<br /> + +<br /> + +A fortaleza é grande, mas só tem a importancia +archeologica que a historia lhe empresta; +não resistiria, talvez, ás modernas baterias. +Opulenta vegetação rasteira cresce-lhe em +derredor. +O seu aspecto é sombrio como o de um +cemiterio: as grossas paredes denegridas e o +silencio que a cerca dão-lhe um cunho mysterioso +de crypta subterranea e produzem no +visitante uma incommoda sensação de abandono +e tristeza. Em cada canto parece surgir +a sombra de um confederado clamando vingança. +<br /> + +<br /> + +Retirámo-nos em marcha funebre, calados +e supersticiosos... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[99]</span> +Dormimos ainda essa noite sobre o rio +para amanhecermos em Nova-Orleans. Já +estavamos com saudade do <em>Barroso</em>. +<br /> + +<br /> + +Continuaram as manifestações de amisade +ao Brazil. +<br /> + +<br /> + +O neto do imperador, jovem e irrequieto, +embalde procurava fugir ás insistencias da +aristocracia local e por diversas vezes desejou +ter nascido simples burguezinho, como +qualquer de seus collegas. +<br /> + +<br /> + +E digamos aqui, muito a discreção, Sua +Alteza podia ser um bello moço, um digno +cavalheiro, um excellente amigo e camarada, +mas... Sua Alteza era um pessimo principe. +A sua grande aspiração era a vida livre, sem +peias, essa vida alegre e bohemia que se exgota +depressa nos +<em>cafés-concertos</em> e nos +<em>restaurants</em>. +<br /> + +<br /> + +Não gostava de continencias e despresava +o juizo imbecil dos que lhe apodavam de estroina. +O certo é que esse juizo em nada o +compromettia perante o <em>high-life</em> +americano +que o estimava sufficientemente. Elle era o +representante immediato da familia imperial, +<span class="pagenum">[100]</span> +era o alvo predilecto de todas as manifestações +ao Brazil na grande festa internacional. +<br /> + +<br /> + +Seria ocioso, senão monotono e fatigante, +descrever, uma por uma, em todos os seus detalhes, +com todas as suas côres mirabolantes, +essas manifestações, profundamente fraternaes +e democraticas, com que nos recebeu a distincta +sociedade de Nova-Orleans. Bailes, regatas, +passeios improvisados, concertos, brindes,―e +não raro a tolda do nosso bello cruzador converteu-se +em esplendido salão de baile, acordando +a sons de orchestra e gritos de alegria o +silencio agreste das margens do Mississipe. +<br /> + +<br /> + +É este o unico consolo d'aquelles que +andam no mar em serviço da patria―o repousar +em terra amiga. Vão-se as saudades para +dar logar á franca expansão dos +corações: +a alma do marinheiro transforma-se, como por +encanto, n'um hostiario de alegrias de uma +ingenuidade incomparavel, e elle ri com os +outros, canta e sente-se tão bem como si estivesse +em seu proprio paiz, no meio de seus +amigos e de seus parentes. Encantadora +illusão, que só dura emquanto elle não +abre +<span class="pagenum">[101]</span> +as velas mar em fóra nessa interminavel derrota +de argonautas que vão atraz do bezerro +de ouro da felicidade... +<br /> + +<br /> + +Não direi, não, o que nos divertimos, as +multiplas sensações por que passou o nosso +espirito n'essa Luiziania que o Mississipe +embala com o rithmo nostalgico de suas aguas +côr de barro. Seria desdobrar a natureza +humana tão complexa e mysteriosa. +<br /> + +<br /> + +Vamos adiante, consultemos o caderno de +notas. +<br /> + +<br /> + +<em>25 de Abril</em>...―Estavamos na +Paschoa, +a festa risonha e popular da ressurreição do +Christo. Até então nenhum desgosto, nenhuma +tristeza, nenhuma magoa toldara o céo +purissimo de nossas alegrias. Vagavamos em +mar de rosa, egoistas de felicidade, sereno +o espirito, aberto o coração a todos os influxos +bons. Boa vida, por um lado, essa de quem +viaja sem grandes preoccupações, no bojo de +um navio patricio. +<br /> + +<br /> + +Eis que, de repente, uma nota dissonante +e sombria chamou-nos á realidade pungente +da vida humana: morrera um nosso companheiro +<span class="pagenum">[102]</span>de bordo, o +Leocadio..., que digo eu? +um d'esses heróes anonymos que usam gola ao +pescoço, um pobre marinheiro que a fatalidade +arrebatou de sua terra natal para morrer tysico +em paiz estranho. +<br /> + +<br /> + +Ninguem imagina a dolorosa impressão +que produz a morte de um companheiro de +viagem longe da patria, n'um hospital desconhecido. +<br /> + +<br /> + +Fez-se o enterro com todas as honras devidas +ao obscuro soldado e velho marinheiro, +nascido, por assim dizer, sobre o mar e educado +na escola das tempestades. Tinha sessenta +annos. Era o «cosinheiro da prôa». Sobre +o +seu corpo foi estendido a bandeira nacional brazileira +como symbolo da patria reconhecida. +<br /> + +<br /> + +N'esse dia, conforme já estava assentado, +toda a guarnição do +<em>Barroso</em> desembarcou +a fim de assistir á missa solemne da Paschoa na +cathedral de S. Luiz, o mais importante dos +templos catholicos da cidade, situado na rua +Chartres. +<br /> + +<br /> + +Bem que antiga, essa egreja parece resistir +ainda por muito tempo. Foi o primeiro edificio +<span class="pagenum">[103]</span>catholico erigido +em Nova-Orleans pelos +capuchinhos, em 1718, ao tempo da fundação +da cidade. Tomou o nome de S. Luiz em +homenagem ao rei da França. +<br /> + +<br /> + +Mais tarde, em Setembro de 1723, desabou +sobre a nascente cidade, cuja população +elevava-se a 200 almas, formidavel cyclone, que +arrasou todos os edificios, causando uma mortandade +incalculavel. Narram os chronistas que +foram arrojados á costa trez navios que se achavam +fundeados no porto. Em breve, porem, +a cidade foi reedificada, sendo em 1724 reconstruida +a egreja, essa mesma que ainda hoje +ergue seus torreões vetustos na rua Chartres. +<br /> + +<br /> + +Naquelle anno o territorio de Nova-Orleans +foi dividido em tres grandes districtos +sob a administração dos capuchinhos, dos +carmelítas e dos jesuitas. De então em diante +multiplicaram-se os edificios religiosos, egrejas +palacios episcopaes, conventos, etc. +<br /> + +<br /> + +O convento das Ursulinas data egualmente +da fundação da cidade e é um +estabelecimento +catholico á maneira do de Ruão conhecido +por esse mesmo nome. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[104]</span> +É um dos ultimos conventos que ainda +existem nos Estados-Unidos. Consta de trez +andares e ergue-se á margem do rio, para onde +abre suas janellinhas atravéz das quaes se vê +passar a sombra phantastica das religiosas.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3> +X +</h3> + +<br /> + +Um bello povo, o de Nova-Orleans―jovial, +communicativo, hospitaleiro e sincero. A elle +devemos os melhores dias dessa longa viagem +ao paiz suggestivo e excepcional dos +<em>yankees</em>, +universalmente querido e respeitado por sua +grandeza industrial e por suas bellas tradições +de energia e patriotismo. +<br /> + +<br /> + +E emtanto approximava-se o dia da partida: +iamos embora rumo de norte, levando +comnosco a immorredoura lembrança do Meschasebé, +«le roi des fleuves», e das legendarias +terras que Chateaubriand poetisara nas suas +inimitaveis <em>viagens</em>. Restava-nos, +porem, o +consolo de que ainda iriamos á sonhada Nova-York +dos trens aere. Restava-nos, +porem, o +consolo de que ainda iriamos á sonhada Nova-York +dos trens aereos e das emprezas colossaes. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[107]</span> +Corações á larga, rapazes! Um homem +é +um homem!... +<br /> + +<br /> + +A saudade, porem, não é uma simples figura +de rethorica, pelo amor de Deus! É um estado +d'alma como a nostalgia, como o amor, como +a tristeza, como a dôr... +<br /> + +<br /> + +A saudade existe, é um phenomeno perfeitamente +real e determinado na ordem dos +factos psychologicos. Não nos venham dizer +outra cousa os senhores neologistas <em>fin de +siècle</em>. +Por ter sido cantada em prosa e verso, nem por +isso a saudade deixa de ser o que é na verdade―uma +commoção nervosa interessando o mais +delicado e sensivel do coração humano, uma +dolencia vaga, fluctuante n'alma, intraduzivel +como um sonho nebuloso, tocada de doçura e +ungida de tristeza... +<br /> + +<br /> + +Por que uma pessoa tem barba no rosto e já +passou dos vinte annos, segue-se que não deve +ter mais saudade, que deve ser um insensivel, +uma massa inabalavel? +<br /> + +<br /> + +Absolutamente não. A lagrima, expliquem-na +como quizerem os doutores da sciencia, +hade existir emquanto palpitar em nós +<span class="pagenum">[108]</span> +esse musculo que se chama coração, emquanto +a humanidade soffrer e houver um motivo sentimental +para commover os seres dotados de +intelligencia. É talvez uma questão de mais ou +menos intensidade nervosa. Por que tudo é +egoismo neste seculo essencialmente palavroso +e mercantil, deve-se concluir que, em futuro não +muito longe, a raça humana se transforme +n'uma como esphynge, sem affectividade possivel, +ou que o systema nervoso passe a exercer +funcções negativas na physiologia do porvir? +Não o acreditamos... +<br /> + +<br /> + +A lagrima hade existir <em>per omnia +secula</em>, +e a saudade terá sempre a sua lagrima, como +sentimento superior ás nossas forças. +<br /> + +<br /> + +Chorar sobre o tumulo de um amigo é tão +natural, tão humano como chorar porque nos +separamos de um ente querido. Não desejo +agora, por um velleidade de rabiscador sentimentalista, +fazer a psychologia da lagrima. O +que eu quero é confessar, embora d'isso me +advenha o qualificativo de +<em>piégas</em>, que +não podiamos―eu +e a maior parte dos meus collegas―pensar +em deixar Nova-Orleans sem um demorado +<span class="pagenum">[109]</span>fremito de +palpebras e uma nevoa +humida no olhar triste... +<br /> + +<br /> + +E, dizendo isto, está dito o que nos merecia +a hospitaleira população d'aquella cidade. +<br /> + +<br /> + +Entretanto, ainda não estavam satisfeitos +os luizianenses. Como ultima prova de verdadeira +estima o <em>Luiziania Jockey-Club</em> +deu-nos +um magnifico baile na vespera da partida. +<br /> + +<br /> + +Tenho ainda na memoria essa derradeira +impressão que me ficou de Nova-Orleans. +Fazia um luar soberbo, um luar tropical, +um luar de legenda, tão limpido e tão claro +que se não viam as estrellas... O +<em>Jockey-Club</em>, +em baixo, fazia um effeito surprehendente +com a sua illuminação de mil côres +rodeando a grande raia das corridas, com o +seu aspecto phantastico de kermesse nocturna, +salpicado de pontos luminosos e galhardetes +em miniatura, immoveis na calmaria da +noite. +<br /> + +<br /> + +Em derredor a mudez solemne da floresta +acordada de instante a instante pelo echo da +musica cortando o ar calmo. +<br /> + +<br /> + +Perto do <em>Club</em> tinha-se armado um +grande +<span class="pagenum">[110]</span> +estrado para a dansa ao ar livre, sem tecto, +sem toldo, sob o luar. +<br /> + +<br /> + +Cruzavam-se os pares, n'um turbilhão impetuoso, +ao som das walsas americanas e dos +galopes á brazileira. +<br /> + +<br /> + +N'essa noite, e pela primeira vez, conversei +longamente com uma +<em>créole</em>, Mlle... +já me não lembra o nome, um typo ideal de +Walkyria de olhos negros com um extraordinario +brilho nas pupillas,―microscopica, delgada, +flexivel, cintura extremamente fina, certo +geito adoravel de pender a cabeça para os +lados, n'um abandono irresistivel... Toda de +preto. +<br /> + +<br /> + +Dansámos uma quadrilha e ella convidou-me +a passeiar no Prado. +<br /> + +<br /> + +Lá fomos, braço dado, eu muito circumspecto, +teso dentro da minha farda de guarda-marinha, +levado quasi que machinalmente por +essa formosa dama d'olhos negos e seductores, +arranjando a custo umas phrases de effeito, +que eu não teria coragem de reproduzir; ella, +desenvolta e pequenina, muito leve na sua +<em>toilette</em> escura, conduzindo-me +n'aquella esplendida +<span class="pagenum">[111]</span><em>promenade +au clair de la +lune</em>, para +onde... não sei eu... +<br /> + +<br /> + +Perguntou-me si as brazileiras eram bonitas +e ricas, si no Brazil dansava-se muito, e +que tal nós tinhamos achado as americanas. +Explicou-me então a differença entre +<em>créoles</em> +e americanas propriamente ditas. +<br /> + +<br /> + +Respondi-lhe como pude, exaltando as +nossas patricias, «bellas e ricas, como não ha +eguaes no mundo...» +<br /> + +<br /> + +Parámos. Tinhamos andado seguramente +dois kilometros e não viamos agora senão +a parte superior do <em>Club</em>, por traz +do arvoredo, +toda illuminada ao longe, como uma +cousa phantastica. +<br /> + +<br /> + +Á proporção que nos afastavamos dos +nossos companheiros a conversa tornava-se +menos animada, e, por fim, já seguiamos calados, +como dois somnanbulos, no silencio da +noite enluarada... +<br /> + +<br /> + +Depois é que vimos a distancia que nos +separava do centro da festa. +<br /> + +<br /> + +Na volta encontrámos outros pares em +doce confabulação, como nós, longe do +ruido. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p112">[112]</a></span> +Despedi-me para tomar o trem, e ella, a +dama dos olhos negros, disse-me um <em>Good +bye</em> +tão sentido e tão suggestivo que eu +não tive +geito senão perder o trem. +<br /> + +<br /> + +<em>Good bye!</em> Nada mais doce e +expressivo +que estas simples palavras em bocca de americana. +Uma ingleza talvez que as não pronuncie +com tanta suavidade, com tão sonora +flexão, com tanto sentimento. <em>Good +bye</em>... Ha +qualquer cousa de avelludado no timbre cantante +com que ellas, as <em>miss</em> da +Nova-Inglaterra +dizem a sua phrase sacramental de +despedida. O nosso <em>adeus</em>, +aliás tão laconico e +singelo não exprime tanto, não caracterisa +tão +bem esse estado d'alma que se denomina―saudade. +<br /> + +<br /> + +E, a proposito de―<em>Good bye</em>, vem-me +a memoria +um episodio de uma simplicidade primitiva +e commovente que a minha indiscrição +de observador tagarella não deixa calar. +<br /> + +<br /> + +Esqueçamos a rapariga d'olhos negros e +narremol-o em toda a sua verdade. +<br /> + +<br /> + +Entre os <a href="#e7">nossos companheiros</a> de +viagem +havia um, cuja vida estava cheia das mais interessantes +<span class="pagenum">[113]</span>aventuras +amorosas. Chamava-se +Manoel..., o apellido de familia não nos interessa. +O joven official de marinha, moço de +bella apparencia e excellente coração, +apaixonara-se +por uma Eva Smith muito conhecida +nos cafés-concertos de Nova-Orleans. Até aqui +nada mais natural. Ella vira-o uma vez diante +de um <em>bock</em>, seus olhos se +encontraram, e, +desde logo, Manoel ficou sendo a menina dos +olhos de Eva. Amaram-se por muitos dias, +gosaram todas as delicias imaginaveis, elle +prohibiu-a de andar nos cafés, ella prohibiu-o +de olhar para outras raparigas, e assim corresponderam-se +de commum accordo, sem que +nunca houvesse entre elles a menor desavença. +<br /> + +<br /> + +―Leva-me para o Brazil, Manoel... (ella +só o tratava por Manoel). +<br /> + +<br /> + +―Sim, filha, depois havemos de ver +isso... +<br /> + +<br /> + +―I love you very much... +<br /> + +<br /> + +―Oh! yess... I think so... +<br /> + +<br /> + +Viviam felizes como um casal de noivos, +longe da cidade, n'um quarto d'hotel, onde +havia do melhor vinho e da melhor sôpa. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[114]</span> +Um bello dia: +<br /> + +<br /> + +<em>Elle</em>―Olha, sabes? O +<em>Barroso</em> suspende +ferro amanhã.?. +<br /> + +<br /> + +<em>Ella</em> (surprehendida)―What do you +say?! +<br /> + +<br /> + +<em>Elle</em> (trincando um +rabanete)―É o que +estou lhe dizendo. Amanhã, por estas horas, +o Manoel vai sulcando o golfo do Mexico. +<br /> + +<br /> + +<em>Ella</em> (cruzando o +talher)―Impossivel! +Por que já não me disseste? +<br /> + +<br /> + +―Para te poupar o desgosto... +<br /> + +<br /> + +―Oh! não, meu querido Manoel, é historia, +tu não vás amanhã... +<br /> + +<br /> + +―Assim é preciso. São cousas da vida... +<br /> + +<br /> + +―Não, não, meu amor (<em>my +love</em>) tu não +vás, porque eu não quero, do contrario +faço +escandalo, estás ouvindo? +<br /> + +<br /> + +E, ao dizer estas palavras, a pobre Eva +deixou cahir uma lagrima... +<br /> + +<br /> + +Silencio. Manoel continuou a jantar sem +interrupção, muito calmo, com uma fleugma +verdadeiramente britannica. Eva, coitada, abriu +a soluçar baixinho, fungando a mais não +poder, sem se aperceber de que estava fazendo +de um guardanapo um lenço. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[115]</span> +<div class="dots"></div> + +<br /> + +Ultimo acto, e aqui é que está o aproposito. +<br /> + +<br /> + +Scenario: O Mississipe pardo e murmurejante +sob a luz moribunda do crepusculo. +<br /> + +<br /> + +O <em>Almirante Barroso</em>, immovel sobre o +rio, com a sua mastreação muito alta, +fuméga. +Ouve-se barulho de cabrestante e de amarras +cahindo no convéz. Tremúla a bandeira brazileira +na carangueija da mezena... Ultimos +preparos. +<br /> + +<br /> + +No cáes agita-se uma multidão compacta. +<br /> + +<br /> + +De repente surge á tona d'agua o cepo da +ancora enlameada, pingando um lodo cinzento, +e o navio começa a andar vagarosamente. +<br /> + +<br /> + +A guarnição sóbe ás vergas, +alastrando-se +de um bordo e d'outro, e acena para terra ao +som de―vivas! +<br /> + +<br /> + +Agitam-se lenços na praia, correspondendo +ás saudações de bordo. Um fremito +percorre os que estão no cruzador... +<br /> + +<br /> + +É o momento decisivo. +<br /> + +<br /> + +Um grande rebocador, <em>The +Warriaro</em>, vistoso +e arquejante, acompanha as manobras do +<span class="pagenum">[116]</span> +<em>Barroso</em>, á distancia de +uma amarra, solitario +e sombrio, envolto n'uma nuvem de fumaça, e +em cuja tolda assoma a figura desgrenhada de +uma mulher. +<br /> + +<br /> + +O cruzador segue á vante, magestoso e +lento, descrevendo uma bella curva no espelho +da agua, e torna a passar defronte da cidade, +apressando a marcha. +<br /> + +<br /> + +As religiosas das Ursulinas lá cima, nas +janellinhas do convento, acenam tambem com +os seus lenços brancos. +<br /> + +<br /> + +E, no silencio da tarde que a nevoa melancolisa, +repercutem estas palavras tocadas de +saudade: +<br /> + +<br /> + +―<em>Good bye!</em> +<br /> + +<br /> + +―<em>Good bye!</em> repete a mesma voz +avelludada +como um carinho... +<br /> + +<br /> + +Olhámos uns para os outros commovidos. +<br /> + +<br /> + +Quem seria que se lembrara de levar tão +perto sua despedida aos brazileiros? +<br /> + +<br /> + +A voz era de mulher, não restava duvida... +<br /> + +<br /> + +Com effeito, reconhecemos na figura desgrenhada +que viamos a bordo do rebocador +Eva Smith, a amante de Manoel..., a apaixonada +<span class="pagenum">[117]</span>rapariga muito +conhecida nos cafés +cantantes de Nova-Orleans, cujo enthusiasmo +pelo nosso companheiro tinha chegado a seu +auge. +<br /> + +<br /> + +E quando o <em>Barroso</em> desappareceu na +primeira +curva do rio, ainda ouviamos, tomados +de uma tristeza infinita, a mesma voz cheia de +desespero, agora abafada pela distancia, soluçada +e plangente: +<br /> + +<br /> + +―<em>Good bye</em>, Manoel! +<em>Good bye!</em>... +<br /> + +<br /> + +E dizer que a <em>Dama das Camelias</em> +é uma +excepção na vida sentimental das filhas de +Eva!... +<br /> + +<br /> + +O nosso Armando, que aliás nunca pretendeu +regenerar ninguem, deixou se cahir +n'uma saudade profunda, n'um longo adormecimento +d'alma, de que só accordou no alto +mar, quando já não se avistava um ponto siquer +da costa americana.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>XI +</h3> + +<br /> + +Abençoada ilha de Cuba, direi muito +pouco de teus aspectos, de teus costumes, de +tua gente, de tua civilisação, mesmo porque a +nossa demora em tua bizarra capital, foi curta +como um sonho bom. Um epicurista diria que +apenas tivemos tempo de mastigar um +<em>havana</em>, +d'esses que fabrícas aos milheiros e que fazem +a delicia dos consumidores do bom tabaco. +<br /> + +<br /> + +Bellas cubanas d'olhos rasgados e sensuaes, +acreditamos piamente nas coloridas +descripções em que viajantes de todas as +nacionalidades +gabam as vossas preciosas qualidades +physicas, os vossos olhos ardentes, os +vossos cabellos negros, a vossa graça incomparavel +e seductora... Nos oito curtos dias que +<span class="pagenum">[119]</span> +passámos em vossa patria não tivemos a +felicidade, +a gostosa satisfação de vos contemplar +senão de relance, por um acaso +verdadeiramente providencial. +<br /> + +<br /> + +Dizem outros que sois bellas e irresistiveis, +que dansais divinamente o <em>salero</em>, +que +possuís todos os encantos possiveis, e isto é +quanto basta para que dispenseis o desmaiado +elogio dos que não tiveram a fortuna de confabular +comvosco. +<br /> + +<br /> + +E o leitor, por sua vez, contente-se em +saber que Havana, com suas <em>calles</em> +irregulares, +estreitas e pacatas, é uma pequena capital sem +<em>capitaes</em>, sobriissima de +diversões populares, +quasi monotona, mas relativamente adiantada. +<br /> + +<br /> + +Não se lhe póde negar certo progresso +material e mesmo uma ponta de civilisação +européa. +<br /> + +<br /> + +Encontram-se nella importantes estabelecimentos +commerciaes, grandes tabacarias que +fornecem fumo e seus preparados a quasi +todos os mercados do globo; excellentes botequins, +poucos hoteis. +<br /> + +<br /> + +O celebre professor Agassiz, no roteiro de +<span class="pagenum">[120]</span> +uma de suas excursões á America, disse que +toda a architectura brazileira é <em>pesada e +sombria</em>; eu accrescentarei que no mesmo +genero são as edificações de Havana, o +que +não é para surprehender n'uma cidade antiga, +onde se observa ainda o cunho tradicional +da velha metropole hespanhola. +<br /> + +<br /> + +Entre os monumentos archeologicos notámos +a secular cathedral onde (refere a chronica) +estão sepultados os ossos de Christovão +Colombo. +<br /> + +<br /> + +Vimos uma estatua―a de Izabel a Catholica, +n'um grande largo que tem o nome +da santa rainha. +<br /> + +<br /> + +Particularidade interessante: a população +dá a vida por gelados, em consequencia do +calor excessivo e constante a que vive sujeita. +<br /> + +<br /> + +Visitámos tambem (ia-me esquecendo) os +aqueductos que fornecem agua á +população da +cidade. Todos elles vão despejar n'um immenso +reservatorio de pedra inteiriça (como +os nossos diques da ilha das Cobras), cavado +no sólo, formando uma especie de tanque de +grande capacidade para comportar muitos e +<span class="pagenum">[121]</span> +muitos metros cubicos d'agua crystalina. O +sitio onde se acha essa importante obra de +engenharia, lembra, de relance, a Tijuca com +as suas cascatas despejadas do alto de rochedos +inaccessiveis, com a extrema frescura de +suas montanhas verde-escuras, debaixo de um +céo límpido e azul. É um dos melhores +passeios de Havana. A viagem até ahi se faz +em diligencias puxadas á mulas, arriscando-se +o <em>touriste</em> a chegar sem bofes ao fim +da jornada +longa e sem o attractivo das bellas paisagens +claras do Brazil. +<br /> + +<br /> + +O sol é ardentissimo em Cuba, e, entretanto, +as diligencias partem da cidade pela +manhã e chegam ás onze horas ao reservatorio, +onde não se encontram hoteis nem botequins. +Sua-se por todos os póros e, no fim de contas, +volta-se fatigado, com a curiosidade satisfeita, +mas o corpo moido. +<br /> + +<br /> + +O Passeio Publico... Oh! não falemos +de cousas tristes. Quem já viu o Passeio Publico +da Bahia pode imaginar o de Havana: +o mesmissimo cemiterio dezerto e sombrio, o +mesmissimo abandono criminoso; arvores colossaes, +<span class="pagenum">[122]</span>meia duzia de +castanheiros decrepitos, +e um silencio, um silencio absoluto de arripiar +cabellos. Aos domingos costuma ir chorar +p'r'ali uma banda militar. Só então é +que a +gente se lembra que existe um Passeio Publico +em Havana. +<br /> + +<br /> + +<em>La Havana</em>, de resto, é o +que se póde +chamar uma cidade pacifica, socegada e sem +attractivos. A impressão que ella deixa no espirito +de quem a viu exteriormente é de uma +velha capital decadente, muito cheia de sol e +poeira. +<br /> + +<br /> + +Mas, para que não fosse de todo ociosa e +inutil a nossa visita á Cuba, aproveitámos o +ensejo de ver uma de suas mais pittorescas e +curiosas cidades―Matanzas, onde chegámos +depois de algumas horas de viagem costeira. +Ahi nos esperava o vice-consul do Brazil, +excellente cavalheiro, cujo primeiro cuidado +foi pôr á nossa disposição +vinte e tantos carros +de praça a fim de que não perdessemos +opportunidade +de contemplar o magestoso panorama +do valle de Yumiri, um dos mais bellos do +mundo, cerca de uma legua distante da cidade. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[123]</span> ―Os senhores +vão vêr um bellissimo +trecho da natureza americana, como talvez +não haja igual no Brazil, preveniu-nos o +consul. É uma maravilha! +<br /> + +<br /> + +E lá fomos, subindo e descendo morros, +completamente alheios á topographia do paiz, +cheia d'altibaixos, lá fomos caminho de Monserrate, +n'uma disparada unica por montes e +valles, aos solavancos. +<br /> + +<br /> + +Era quasi noite quando parou o ultimo +carro, e corremos logo á tal «maravilha» +que +o diplomata recommendara. +<br /> + +<br /> + +Aqui têm os aguarellistas <em>motivo +sensacional</em> +para uma téla rembrannesca: +<br /> + +<br /> + +Crepusculo... Céo pardo com uns tons de +azinhavre muito vagos, aqui, ali, bordando +nuvens... Embaixo a longa extensão concava +do valle afundando-se como o leito de um +grande mar, que tivesse desapparecido, verde +escuro, indistincto quasi a essa hora do dia. +<br /> + +<br /> + +Defronte, no segundo plano, a sombra +opaca de uma cordilheira,―larga faixa de +velludo cinzento―limita o scenario, confundindo-se +com as tintas indecisas da planura +<span class="pagenum"><a name="p124">[124]</a></span> +sideral. E, sobre tudo isso, uma tristeza religiosa, +um vago silencio de abysmo... +<br /> + +<br /> + +Vê-se muito ao longe, de um lado da paísagem, +rasgando o fundo nebuloso do quadro, +uma nodoa escarlate, ao comprido, muito desenhada, +muito escandalosa <a href="#e8">mesmo em</a> meio +de +toda essa harmonia de côres esmaecidas... +<br /> + +<br /> + +Ha muito que o sol tombou na sua eterna +circumvolução diurna. A sombra que se +alastra, a pleiada phosphorecente dos pyrilampos, +o silencio absoluto que nos cerca―tudo +inspira respeito: e a gente esquece preconceitos +e doutrinas para, instinctamente, +levantar uma prece á mysteriosa Força que rege +o Universo... +<br /> + +<br /> + +Existe no alto da montanha a modesta +capella de N. S. de Monserrate, sempre +aberta aos crentes, muito branca na sua +despretenção +de nicho d'aldeia, com a sua torresinha +triangular onde vão fazer ninho, no inverno, +as andorinhas do valle. +<br /> + +<br /> + +Cahio de todo a noite, e, no silencio da +estrada que descia em broncas sinuosidades, +regressámos para o hotel, cujo salão +príncipal +<span class="pagenum">[125]</span> +tinha agora o aspecto sumptuoso (dados os +devidos descontos...) d'um refeitorio de convento +em dia de festa paschoal: meza lauta, +vinte variedades de vinho excellentes e tudo +mais que se faz mister n'um banquete finamente +organisado á moderna. +<br /> + +<br /> + +O resto é facil de imaginar: brindes, +hurrahs, charutos finissimos... e um somno +reparador obrigado a pezadelos... +<br /> + +<br /> + +Na manhã seguinte acordámos para outro +passeio não menos agradavel. Era preciso +aproveitar o tempo do melhor modo possivel. +Cometteriamos indisculpavel falta si não fossemos +ver as <em>Cuevas de Bella-mar</em>, essas +caprichosas +grutas subterraneas, verdadeiros +palacios de crystal puríssimo, que se abrem terra +dentro em toda a opulencia de suas maravilhosas +stalagmites e stalactites. Era mais uma +deliciosa surpreza que nos estava reservada. +Ir á Matanzas e não ver as +<em>Cuevas</em> equivale a ir +a Roma e não ver o Papa. Cumprimos o nosso +dever de viajantes, que não se contentam com +a vaidade infantil de pisar solo extrangeiro. +<br /> + +<br /> + +<em>Cuevas de Bella-mar</em>... Entre os +numerosos +<span class="pagenum"><a name="p126">[126]</a></span> +phenomenos que a geologia registra muitos +ha que ainda estão por ser lucidamente explicados, +por sua propria natureza complexa e +profundamente scientifica. +<br /> + +<br /> + +No terreno da geologia subterranea, com +especialidade, innumeros são os problemas a +destrinçar, e um dos mais curiosos e interessantes +é, sem duvida, a formação das +cavernas, +as excavações produzidas por agentes externos, +pela infiltração natural da agua no solo +calcareo, formando essas caprichosas pyramides +de crystal, que a sciencia denomina +<em>stalagmites</em> e +<em>statactites</em>. +<br /> + +<br /> + +As <em>Cuevas de Bella-mar</em> formam um dos +mais bellos panoramas que se podem imaginar. +<br /> + +<br /> + +Figure-se um grande tunel aberto no subsolo +e de cuja abobada pendem crystaes multiformes, +cada qual o mais surprehendente, alguns +de tamanho admiravel, emquanto do chão +constantemente humido sobem outros de egual +estructura, ponteagudos quasi sempre, formando, +ás vezes, columnatas brilhantes, <a href="#e9">esplendidos +capiteis</a>, tão caprichosamente dispostos +que dir-se-iam architectados por mãos humanas. +<span class="pagenum">[127]</span>A caverna +prolonga-se a perder de vista, +deslumbrante como um palacio encantado, á +luz dos archotes, porque é impossivel percorrel-a +sem luz, e a cada passo uma nova exclamação +de surpreza irrompe da bocca do observador, +espontanea e enthusiastica. +<br /> + +<br /> + +É, com effeito, encantador o aspecto das +<em>Cuevas</em>. +<br /> + +<br /> + +A athmosphera é quasi insupportavel, +apezar da humidade que se reflecte das paredes +da gruta: um calor medonho de fornalha acceza! +<br /> + +<br /> + +É expressamente prohibido tocar nos +crystaes. Um guarda, empunhando um archote, +acompanha o visitante, recommendando-lhe +de espaço a espaço, todo cuidado, toda +cautela para que não dê alguma +cabeçada... +<br /> + +<br /> + +Desta vez tinhamos sabido preencher o +tempo utilmente, compensando as horas perdidas +em Havana. +<br /> + +<br /> + +N'esse mesmo dia o <em>Barroso</em> fez-se de +marcha +para o <em>paiz dos yankees</em>, para +Nova-York, +a bella e maravilhosa cidade que o consenso +universal alcunhou de Londres americana. +<br /> + +<br /> + +E... foi um dia a ilha de Cuba...<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>XII +</h3> + +<br /> + +...Manhã de inverno, fria e nebulosa, +sem uma restea de luz confortavel. Estava +interdicta a nossa curiosidade, pois que amanhecemos +defronte da bahia de Hampton +Road, a essa hora coberta de cerração, cheia +de nevoeiro, impenetravel. Não podiamos, +que pena! ver Nova-York de fóra, do mar, +abrangel-a toda com um golpe de vista, +stereotypal-a na imaginação para todo o resto +da nossa vida. A grande cidade cosmopolita +dos trens elevados e das pontes colossaes +dormia o somno beatifico da madrugada, envolvida +n'um largo capuz de neve atravéz do +qual apenas se podia ouvir a sineta de invisiveis +embarcações que bordejavam demandando +<span class="pagenum">[129]</span> +o porto. Adivinhavamos que muitos vapores +transatlanticos aguardavam, como nós, o momento +azado para fazerem sua entrada. +<br /> + +<br /> + +Felizmente não durou muito esse estado +quasi afflictivo. Por traz do nevoeiro compacto +e lugubre os primeiros clarões da +manhã surgiram como uma apparição +bemdita, +rompendo a monotonia branca da atmosphera, +e pouco a pouco, á proporção que a +neve ia +se rarefazendo, o <em>Barroso</em> tomava +chegada +muito lento, e Nova-York destoucava-se n'um +fundo luminoso, batida pelas primeiras +irradiações +do sol, ruidosa e alviçareira, toda +cheia de brilhos, como um quadro de malacacheta. +<br /> + +<br /> + +Onze horas. Céo limpo e mar chão―como +se diz nos diarios nauticos. Nem mais +um floco de neve, tudo luz agora, e já podemos +ver cheios da mais intima satisfação, com uma +surpreza ingenua no olhar, o aspecto risonho +da bahia cortada de embarcações á vela +e á +vapor, com os seus longes de verdura matizando +perfis de montanhas indistinctas, muito +descoberta, sem o sombrio magestoso das +<span class="pagenum">[130]</span> +paisagens americanas do sul, bella na sua +simplicidade natural, e, sobretudo, muito clara +áquella hora. +<br /> + +<br /> + +Á direita destacava, á bocca do Hudson, +a grande, a enorme, a colossal ponte que liga +Brooklin á Nova-York lembrando-nos que +realmente tinhamos chegado outra vez á terra +feliz dos <em>yankees</em>, e d'outro lado +erguia-se, +<em>illuminando o mundo</em>, a estatua da +liberdade, +bello symbolo de bronze, cujo pedestal occupa +toda a ilha de Bedloe. +<br /> + +<br /> + +Era um dia de domingo, um desses dias +de expansão popular, em que, no mar como +em terra, ha quasi sempre uma alegria nova +entre os que passaram a semana a trabalhar, +a lutar pela vida incansavelmente com a consciencia +tranquilla de quem vive honestamente +á custa do proprio esforço. A bahia de Nova-York +tinha o festivo aspecto de um dia de regatas. +Esquadrilhas de hiates, com suas velas +quadrangulares, muito elegantes e asseiados, +cruzavam na barra, aproveitando a fresca do +mar. Passavam barcas de recreio, embandeiradas, +conduzindo bandas de musica, que tocavam +<span class="pagenum">[131]</span>alegremente o <em>Yankee +doodle</em>. +Á cerração +matinal succedera um sol frio d'inverno, que +dava vontade a gente improvisar pic-nics á +beira-mar, fóra da cidade, longe dos botequins +e das <em>brasseries</em>, nalgum verde +recanto onde +houvesse bastante quietação e muita agua, +n'um logarejo calmo de suburbio d'onde se +podesse ver ao longe, mas muito ao longe, a +miniatura da cidade soturna e cansada... +<br /> + +<br /> + +O <em>Barroso</em> tinha fundeado em frente +á +Battery Square e com pouco recebia a visita +official do Consul brazileiro e d'outras autoridades +do paiz, sendo para notar que uma das +primeiras pessoas que pizaram a bordo foi o +reporter do <em>New-York Herald</em>, a +importante +folha americana tradicionalmente conhecida +no mundo jornalistico. Um cavalheiro +<em>irreprochable</em>, +de cartola e sobrecasaca de panno, +bem apessoado, bigode louro e olhos azues, +verdadeiro typo de <em>yankee</em>, amavel e +expansivo. +É escusado dizer, n'um parenthesis, que no +dia seguinte a kilometrica folha descrevia, +com uma precisão photographica, o cruzador +brazileiro, sem esquecer mesmo um carneiro +<span class="pagenum"><a name="p132">[132]</a></span> +de estima que traziamos e que o espirituoso +noticiarista incluia na lotação do navio, +emprestando-lhe +qualidades invejaveis. Creio até +que o pobre lanigero figurou na folha +<em>yankee</em> +entre os heróes de Humaytá! +<br /> + +<br /> + +<a href="#e10">Satisfeitas as</a> formalidades +officiaes da +chegada, trocadas as salvas do estylo, nada +mais nos restava senão ver de perto a bella +cidade. +<br /> + +<br /> + +Nova-York estava quieta, muitissimo +quieta, com as suas praças dezertas, com os +seus parques silenciosos, fechado o commercio +a ponto de não se encontrar aberta uma só +tabacaria, siquer um botequim. Isso, porém, +não nos causou estranheza. Sabiamos que o +domingo nos Estados-Unidos é um dia completamente +inutil, um dia triste para os centros +populosos. Toda a gente dezerta para os arrabaldes +em seus trajes domingueiros. As ruas, +muito largas e compridas, permanecem ermas +e cheias de silencio, entregues á vigilancia +dos <em>policimen</em>. +Todas as casas commerciaes, +todos os armazens, todas as fabricas, todos +os estabelecimentos publicos conservam-se fechados +<span class="pagenum">[133]</span>e taciturnos, como +n'uma cidade abandonada. +<br /> + +<br /> + +Nova-York, a opulenta e alegre cidade cosmopolíta, +tinha esguichado para New-Jersey, +para Brooklin e para Conney-Island. Toda +aquella multidão laboriosa e ourisedenta, que +nos dias de trabalho se atropella na Broadway, +bebia e cantava nos arrabaldes, expandia-se +largamente nos hoteis ambulantes e nas +cervejarias suburbanas, folgava e ria com +desespero, sem pensar na segunda-feira, sem +se inquietar com o futuro. +<br /> + +<br /> + +Por isso é que não se deparava ninguem +nas ruas, por isso não se ouvia o barulho +infernal das carroças e das carruagens. +<br /> + +<br /> + +O domingo no paiz dos <em>yankees</em> +é para +se divertir, para se descansar, para se jogar +o <em>criket</em>, para se passeiar a +cavallo, para se +apostar regatas, de modo que o protestantismo +americano nada tem de commum com o protestantismo +britannico. +<br /> + +<br /> + +Emquanto nos domingos (a dar credito +na chronica) o inglez reza a Biblia no interior +de seu <em>home</em>, em companhia de sua +mulher e +<span class="pagenum">[134]</span> +de seus filhos, o americano, ou melhor o +<em>yankee</em> +exercita os musculos e bebe cerveja fóra da +cidade. +<br /> + +<br /> + +Não admira semelhante +discordancia, +quando é sabido que a religião protestante +subdivide-se em milhares de seitas. A este +respeito leiam-se os bellos capitulos em que +Mr. Laboulaye (Ed. Lefèvre), estuda, com uma +graça especial e encantadora, cheia de humorismo +e de senso critico, as instituições religiosas +na America do Norte. <em>Paris en +Amérique</em> +é um dos livros mais curiosos e originaes +que eu tenho lido sobre os Estados-Unidos. +<br /> + +<br /> + +Em taes condições, extrangeiros no meio +de uma cidade dezerta, imagine-se o nosso +embaraço, a triste situação em que nos +collocava +a curiosidade. +<br /> + +<br /> + +Os rarissimos transeuntes que porventura +encontravamos, marinheiros ou vagabundos +que desciam para o caes da Battery, olhavam-nos +com um ar de surpreza, embasbacados, +medindo-nos d'alto a baixo, com si fossemos +uns verdadeiros botocudos de tanga e cocar. +<br /> + +<br /> + +Entretanto, não perdemos a precisa calma, +<span class="pagenum">[135]</span> +e, sem mais tirte nem guarte, saltámos dentro +do primeiro vehiculo que passava, uma velha +carruagem de aluguel, cujo boleeiro custou +devéras a comprehender que desejavamos fazer +um passeio ao redor da cidade. +<br /> + +<br /> + +―Oh! yess! Yess!... +<br /> + +<br /> + +E disparou a trote largo por aquellas ruas +fóra. +<br /> + +<br /> + +De modo que n'esse dia vimos Nova-York +<em>à vol d'oiseau</em> e por um +prisma de tristeza e +monotonia. +<br /> + +<br /> + +Em compensação a nossa demora n'aquella +cidade ia ser mais longa que em qualquer dos +outros portos do intinerario. +<br /> + +<br /> + +No dia immediato, uma segunda-feira, +recomeçámos, sem perda de tempo, a nossa +tarefa de extrangeiros em paiz desconhecido. +<br /> + +<br /> + +Eu, por mim, confesso que Nova-York +produzia-me vertigens. O desejo immoderado +de tudo vêr, de tudo observar, de tudo saber, +trazia-me n'uma inquietação continua, tirava-me +o somno, arrebatava-me á todas as +commodidades, torturava-me o espirito de +analyse. Uma cousa, porem, devo dizer: raro +<span class="pagenum">[136]</span> +é o official de marinha, mormente da marinha +brazileira, que sabe aproveitar o tempo n'essas +viagens ao extrangeiro. Aproveitar o tempo, +entendamo-nos, as horas de folga. Preferiamos +a convivencia dos cafés-cantantes aos passeios +uteis e ao mesmo tempo agradaveis. Um extrangeiro +já teve a coragem de dizer que os +officiaes de marinha brazíleiros levavam o +tempo, na Europa, a frequentar os +<em>conventilhos</em> +e os cafés-cantantes. Até certo ponto +isso é verdade. +<br /> + +<br /> + +Em geral elles pouco conhecem dos paizes +que têm visitado, a não ser em assumptos de +sua profissão, e as suas narrativas entre amigos +limitam-se quasi sempre a recordações de +aventuras amorosas. +<br /> + +<br /> + +Tambem são tão curtas e tão raras +essas +viagens... +<br /> + +<br /> + +Quando se tem a felicidade relativa de +viajar sob o commando de um official illustrado +e curioso como o Sr. Saldanha da Gama, cujos +conhecimentos não se restringem á +navegação +e á artilharia, o aproveitamento é certo. Elle +não é sómente um superior +hierarchico―faz-se <span class="pagenum"><a name="p137">[137]</a></span>mestre +e sabe proporcionar aos seus +subalternos a maior somma possivel de excursões +uteis e proveitosas. +<br /> + +<br /> + +Uma das nossas primeiras visitas foi á +estatua da Liberdade, na ilha de Bedloe. +<br /> + +<br /> + +O importante monumento ainda não estava +completamente prompto, mas já se podia +fazer uma idéa do que seria elle depois de +concluido. O pedestal, de granito, occupa +quasi toda a ilhota e mede, approximadamente, +15 a 20 metros de altura, 154 pés, desde o <a href="#e11">nivel</a> +do mar, formando uma especie de casamata +cuja utilidade não souberam nos dizer. Sobre +o pedestal ergue-se a estatua, em bronze, armada +por meio de vigamentos de ferro, pois +que não é inteiriça. +<br /> + +<br /> + +Conta-se que dentro d'ella realisara-se, +em Pariz, um magnifico banquete de 12 talheres, +presidido por V. Hugo. +<br /> + +<br /> + +Como se sabe, a estatua foi offerecida aos +Estados-Unidos pela França em agradecimento +dos serviços prestados por esta nação +á sua +amiga na guerra franco-prussiana. +<br /> + +<br /> + +O pedestal foi mandado construir á custa +<span class="pagenum">[138]</span> +de subscripções populares, que em pouco +tempo attingiram a uma somma elevadissima. +<br /> + +<br /> + +Não ha por ahi quem não tenha ouvido +falar na famosa ponte de Brooklin (<em>Brooklin +Bridge</em>), uma das maravilhas da engenharia +moderna, que liga a ilha de Brooklin á Nova +York. +<br /> + +<br /> + +Esta cidade, incontestavelmente o primeiro +emporio commercial da America e uma +das mais populosas do mundo, fica situada +n'uma grande ilha formada por dois braços do +rio Hudson. De um lado, á direita de quem +olha para o mar, um dos deltas, o North River, +separa-a de New-Jersey, e á esquerda o East +River separa-a de Brooklin. A travessia para +qualquer desses pontos faz-se rapidamente, em +barcas que a todo instante largam de Nova-York, +e por preço assaz diminuto. +<br /> + +<br /> + +A principio, quando se projectou levantar +a grande ponte, surgiram mil difficuldades. +<br /> + +<br /> + +Parecia impossivel que se podesse levar a +effeito obra tão arriscada e dispendiosa. Como +assentar as bases do colosso n'uma profundidade +<span class="pagenum">[139]</span>de mil e +seiscentos pés, que é esta a +altura do rio na sua parte mais estreita? +<br /> + +<br /> + +Demais era preciso não prejudicar a +navegação, +construindo a ponte muito acima do +nivel do mar de modo a dar passagem livre ás +embarcações de commercio. +<br /> + +<br /> + +Com tudo isso os americanos metteram +mãos á obra e dentro de alguns annos de trabalho +assiduo os Estados-Unidos contavam +mais uma gloria. +<br /> + +<br /> + +O comprimento total d'essa magnifica +ponte é de uma milha pouco mais ou menos. +As torres onde ella está suspensa erguem-se a +268 pés acima da prêa-mar, de forma que as +maiores embarcações de commercio têm +passagem +facil por baixo. +<br /> + +<br /> + +O <em>Barroso</em>, cuja guinda era uma das +mais +altas que se tem visto em navio de guerra, +apenas foi obrigado a «acachapar» os +mastaréos +de joanetes. +<br /> + +<br /> + +Atravessa-se a ponte em vagons movidos +á electricidade, em carros de praça ou mesmo +a pé. Paga-se um centimo para atravessal-a +a pé! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[140]</span> +O movimento é espantoso. Cruzam-se +diariamente as duas populações de Nova-York +e de Brooklin, em carros em wagons e a pé, +sem risco de se atropellar, por que a cada +especie de vehiculos corresponde uma passagem +independente e adequada. Os que transitam +á pé têm tambem o seu caminho livre e, +por consequencia, não correm o perigo de +ser pisados pelos carros. +<br /> + +<br /> + +Á noite o aspecto da ponte é feerico. +Logo ás seis horas da tarde começa a +illuminação +em toda ella, de um lado e d'outro, +destacando-se em alguns pontos fócos de luz +electrica, enormes botões de brilhante que +encandeiam a vista. +<br /> + +<br /> + +Vista do mar, então, o effeito é deslumbrante! +Lembra as lendarias pontes de Veneza +cortando canaes, projectando n'agua seus +reflexos luminosos. +<br /> + +<br /> + +Um dos meus divertimentos predilectos +era contemplar Nova-York do alto. Muitas +vezes punha-me lá de cima da ponte de +Brooklin, braços cruzados, n'um extase de +fetiche, a olhar para um e outro lado, acompanhando <span class="pagenum">[141]</span>com a vista a vela das +embarcações +que singravam no rio, pequeninos, microscopicas. +<br /> + +<br /> + +E punha-me, nessa embriaguez do grandioso +a pensar no progresso dos Estados-Unidos, +d'esse paiz modelo, onde tudo move-se +por meio de electricidade e vapor, onde tudo +é feito ás carreiras, n'um abrir e fechar +d'olhos, +sem a menor perda de tempo; vinham-me a +imaginação escandecida as descobertas de +Franklin, de Fulton e de Edison, as maravilhosas +experiencias sobre o telegrapho, sobre +o telephone e sobre o phonographo, e eu +repetia com os meus botões, mergulhando o +olhar na distancia, abarcando a cidade inteira:―Grande +paiz! Grande povo, gente feliz, +que sabe comprehender a vida e amar a patria! +<br /> + +<br /> + +Como era pequeno o meu paiz, com toda a +grandeza de suas montanhas e de seus rios, +diante do colosso americano do norte! +<br /> + +<br /> + +Cahia-me n'alma uma tristeza de desterrado, +uma profunda e incomprehensivel melancolia, +feita ao mesmo tempo de saudade e +descrença... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[142]</span> +Incansaveis os americanos! Nenhum povo +os excede em temeridade e perseverança. Sequiosos +de glorias para o seu paiz, ávidos de +emprehendimentos que causem assombro ao +mundo, elles tem uma grande qualidade―o +amor á sua terra, o nativismo instinctivo, o +<em>chauvinismo</em> (deixem passar o termo) +incondicional, +absoluto, e é força confessar que, +sem essa qualidade, sem esse egoismo patriotico, +as nações vivem, mas não progridem. +<br /> + +<br /> + +Ainda ultimamente a camara do Estado +de Nova-York approvou, por unanimidade, o +<em>bill</em> que propoz a +construcção de uma nova +ponte de ferro sobre o East River, passando +sobre a ilha de Blackorel, que ligue Nova-York +á Long-Island, e que terá seis mil +metros de comprimento e 46 de altura, com +uma resistencia de 65 kilometros de velocidade +para os trens que a devem atravessar. +<br /> + +<br /> + +É o caso de dizer, parodiando o outro: si +eu não fosse brazileiro, desejaria ser americano +do norte...<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>XIII +</h3> + +<br /> + +Nunca fui a Londres, apezar do grande e +impaciente desejo que tenho de visitar a sombria +capital britannica, mas estou bem certo +de que Nova-York em muitos respeitos pode +ser denominada a Londres americana. +<br /> + +<br /> + +Toda nova, toda alegre e pittoresca, sem +os bairros immundos que o Tamisa lambe com +as suas aguas putridas, onde boiam cadaveres +em decomposição, illuminada por um sol que +dá vida e confórta, a nova Londres tem um +cunho especial de cidade latina. Como em +Londres, tudo n'ella é grandioso e opulento, +desde a edificação igual, solida e elegante, +até +ás festividades publicas e ás +instituições nacionaes. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[146]</span> +As ruas, longas e direitas, cruzam-se geometricamente +e distinguem-se pela numeração +(<em>Fourteen street</em>, +<em>Fifteen street</em> etc). +<br /> + +<br /> + +A Broadway é o centro commercial, a rua +de maior movimento quotidiano,―equivale á +City de Londres. +<br /> + +<br /> + +Ahi é que os carros se atropellam, que os +transeuntes se abalroam n'uma confusão burlesca +e indescriptivel de que a nossa rua do +Ouvidor não dá siquer a menor idéa. +Negociantes, +capitalistas, banqueiros, correctores, +operarios e vagabundos, acotovelam-se, empurram-se, +pisam-se os callos e vão seguindo +adiante, sem olhar p'ra traz, carregados de embrulhos, +suando no verão, que costuma ser +muito forte em Nova-York. A gente vê-se +abarbada para romper aquella multidão cerrada, +compacta e egoista. +<br /> + +<br /> + +Um cosmopolitismo sem igual em parte +alguma. +<br /> + +<br /> + +Americanos, inglezes, hespanhoes, francezes, +italianos, allemães, gente de todas as +nacionalidades, até turcos com os seus costumes +exquisitos, confundem-se nas ruas de Nova +<span class="pagenum">[147]</span> +York, enchendo-as em ondas successivas e +tumultuosas, como em dias de carnaval no Rio. +Parece mesmo, á primeira vista, que o elemento +extrangeiro absorve o nacional, tão +numeroso é aquelle. Custa, porém, a encontrar-se +um portuguez ou um brazileiro. Em +compensação a raça latina é +abundantemente +representada por hespanhoes da Europa e da +America. Os mexicanos, apezar da natural +e occulta ogerisa que têm aos americanos +dos Estados-Unidos, encontram-se a cada +passo e distinguem-se logo pelo seu typo original: +estatura média, rosto anguloso e abolachado, +moreno, cabello duro, olhos pequenos; +amaveis. Não perdem occasião de dizer mal +dos americanos, que, entretanto, dedicam-lhes +uma affeição especial. +<br /> + +<br /> + +Uma das cousas mais curiosas de Nova-York +são os trens elevados (<em>elevated rail +road</em>), a complicada rêde de linhas ferreas +que rodeia a cidade passando em muitos +pontos por cima da casaria, atravessando ruas +inteiras sobre grandes columnas resistentes de +ferro. Partem todas da Battrey Square, ponto +<span class="pagenum">[148]</span> +mais meridional da ilha de Manhattan (onde +fica a cidade) e vão terminar na sua extremidade +septentrional, em Barlem River. Segundo +o relatorio apresentado pela <em>New-York +Elevated</em>, +o numero de viajantes transportados em +1878 por essa linha foi de 107.079.625. (Sempre +a estatistica como base fundamental do progresso +entre os americanos!). A linha inteira, +que tem seguramente trinta milhas, estava +concluida até Harlem. Os moradores das +margens d'essas estradas de ferro aereas queixavam-se +continuamente da visinhança. +<br /> + +<br /> + +Podéra! Ruido, fumo e fagulhas a toda +hora sobre a cabeça, não são cousas +que +agradem a ninguem. A pobre gente fica em +risco de perder o juizo, pois não! +<br /> + +<br /> + +Felizmente, o que aliás é muito admiravel, +os desastres reproduzem-se rarissimas vezes. +É que o serviço faz-se com inexcedivel +perfeição +e as posturas municipaes verificam-se +enexoravelmente. +<br /> + +<br /> + +As estações são numeradas, como as +ruas: +<em>Primeira +Estação</em>, +<em>Segunda +Estação</em>, etc. +<br /> + +<br /> + +Os passageiros desembarcam em plataformas +<span class="pagenum">[149]</span> +de ferro gradeadas, que communicam +com as estações. +<br /> + +<br /> + +O espirito inventivo dos americanos revela-se +a cada passo nas grandes cidades dos +Estados-Unidos. Em todos os estabelecimentos, +em todos os ramos da actividade +publica se encontra uma applicação nova de +mecanica industrial, um artificio de utilidade +pratica, economico e curioso, uma invenção +engenhosa... +<br /> + +<br /> + +Aproveitar o tempo e economisar os +<em>dollars</em>―tal +é o principio fundamental da sabedoria +<em>yankee</em>. +<br /> + +<br /> + +Um domingo em Coney-Island: nada +mais pittoresco e hilariante, nada mais suggestivo... +<br /> + +<br /> + +Coney-Island aos domingos é para os +americanos o que o Bois é para os francezes e +Hyde Park é para os inglezes―um interessantissimo +microcosmo de incrivel bizarraria, cheio +do vago rumor de uma multidão que passeia, +que canta, que ri e que bebe ao ar +livre, n'um +<em>pêle-mêle</em> +vertiginoso, com as suas +<span class="pagenum"><a name="p150">[150]</a></span> +<em>toilettes</em> claras, com o seu bello ar +despretencioso, +com os seus gestos largos de quem +respira uma atmosphera leve e pura. +<br /> + +<br /> + +Essa pequena ilha constitue a principal +diversão domingueira dos habitantes de Nova +York. +<br /> + +<br /> + +Familias inteiras, burguezes de todas as +castas, <em>cocottes</em>, affluem para ali +n'esses dias. +Pela manhã, cedo, largam da Fulton Station +grandes barcas embandeiradas conduzindo +musicas, cheias de passageiros. Muita gente +prefere ir por terra, em trens que partem de +<a href="#e12">Brooklin</a>.<br /> + +<br /> + +Não ha logar para todos nos hoteis. Improvisam-se +<em>pic-nics</em> defronte do mar, na beira +da praia, formam-se pagodeiras, e muitas pessoas +ha que não se lembram de comer―preferem +a cerveja, o <em>bock</em> a qualquer especie +de alimento solido. +<br /> + +<br /> + +Vimos dois grandes hoteis―o <em>Great +Hotel</em> +e o <em>Gigantic Elephant</em>. +<br /> + +<br /> + +Aquelle é um magnifico estabelecimento, +todo construido de madeira de lei sobre +enorme plataforma que se move em trilhos +<span class="pagenum">[151]</span> +proprios. Novo genero de hoteis até então +desconhecido para nós. N'um dado momento +podem ser conduzidos, como qualquer +<em>tramway</em> +d'um logar para outro. +<br /> + +<br /> + +O <em>Gigantic Elephant (the monarch of the +architectural world</em>, como lá dizem...) +mede +175 pés inglezes de altura, é dividido em 31 +compartimentos, ventilados por 63 janellas, e +illuminado, á noite, por 25 fócos de luz +electrica. +Figura um elephante colossal, de madeira, em +pé, no meio de um jardim. Em cima, no +dorso do monstro, existe um terraço d'onde +se descortina uma esplendida paisagem rasa +e calma. +<br /> + +<br /> + +Quer n'um, quer n'outro, o <em>promeneur</em> +encontra abundante variedade de petiscos e +bebidas. +<br /> + +<br /> + +As creanças, com especialidade, fazem de +Coney-Island um céo aberto. Ellas, sim, não +perdem os cavallinhos que andam á roda ao +som de um classico realejo seboso, os passeios +aereos, na ponte russa, nas barquinhas, nos +trens elevados... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[152]</span> +Por toda a parte musica, realejos, pregoeiros +de <em>cousas maravilhosas</em>, gritos, +gargalhadas... +<br /> + +<br /> + +Tiram-se retratos instantaneos, apostam-se +corridas, sobem-se elevadores de duzentos +metros acima do solo, pesca-se, alugam-se +cavallos de passeio... Emfim, Coney-Island +é uma miniatura da vida tumultuosa das grandes +cidades. +<br /> + +<br /> + +O pobre diabo que não fôr esperto e +economico arisca-se a voltar com as algibeiras +cheias de vento... +<br /> + +<br /> + +Á noite enchem-se novamente os trens e +as barcas. Em uns e outros a algazarra torna-se +insupportavel. Canta-se a <em>Marselheza</em> +em +vozes detestaveis, grita-se, bate-se com a ponteira +da bengala no chão, assovia-se, imitam-se +animaes de toda a especie... Uma loucura! +<br /> + +<br /> + +Entretanto, abençoado paiz! em todas +essas pagoderias não se distingue siquer um +bonné policial. Não ha conflictos, nem desastres. +<br /> + +<br /> + +Tudo corre na maior harmonia, sem intervenção +da guarda civica. Os <em>policemen</em> podem +<span class="pagenum">[153]</span> +cochilar á vontade: a população +americana é +naturalmente pacata e respeitadora da ordem. +<br /> + +<br /> + +Coney-Island é o complemento necessario +e indispensavel de Nova-York. +<br /> + +<br /> + +Pelo verão reunem-se ali cerca de 5.000 +pessoas, segundo o calculo approximado do +consul brasileiro. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Dias depois da nossa chegada, o +<em>Barroso</em> +entrou para o dique de Brooklin, a fim de soffrer +alguns reparos no casco. +<br /> + +<br /> + +Emquanto isto se dava, emquanto a guarnição +occupava-se da limpeza externa do +cruzador, com o cuidado, com o desvelo e com +o carinho mesmo de amigos dedicados, iamos +visitando outras cidades americanas, ligeiramente, +de relance. +<br /> + +<br /> + +Não nos foi dado, porem, diga-se em +parenthesis, ver o mais grandioso espectaculo +dos Estados-Unidos―a celebre cascata do +Niagara, que Chateaubriand pinta com as +maravilhosas côres de sua palheta de artista +inimitavel. +<br /> + +<br /> + +Não tivemos mesmo a felicidade de ver +<span class="pagenum">[154]</span> +Washington, a bonita capital americana, e tão +pouco o presidente Cleveland. +<br /> + +<br /> + +Esse previlegio coube quasi que exclusivamente +ao ex-principe D. Augusto, que aliás +não revelou grande admiração pela +Niagara, +nem pelo presidente Cleveland. +<br /> + +<br /> + +Sua Alteza não era para que digamos +muito amigo da natureza, e menos aínda de +personagens illustres. +<br /> + +<br /> + +Quanto a mim continuei a ver a famosa +cascata por um oculo, nos livros do poeta, e o +Sr. Cleveland, vi-o casualmente no <em>Daily +News</em>, +no acto do seu casamento realisado a esse +tempo. Pareceu-me um bello typo de +<em>yankee</em>: +cheio de corpo, cabello penteado p'ra traz, +olhar firme, bigode grosso... +<br /> + +<br /> + +Assim, contentámo-nos com visitar algumas +cidades de importancia e tão depressa que +era impossivel apanhar com precisão todos os +caracteres por meio dos quaes se pode apreciar +a vida de uma população. +<br /> + +<br /> + +Vejamos: +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Baltimore</span>―Cídade +aristocratica, pequena, +mas extremamente bella na simplicidade, +<span class="pagenum">[155]</span> +no gosto sobrio de sua edificação, muito +asseiada, muito clara, semelhando toda ella, +no seu conjuncto gracioso, uma confortavel +habitação de outomno, fresca e risonha, boa +para se gozar o socego de uma villegiatura sem +preoccupaçães mercantis e utilitarias. +<br /> + +<br /> + +A gente de Baltimore parece viver uma +vida tranquilla e descuidada no calmo interior +de seu <em>home</em>, longe da mentira +social, longe +de todo o ruido, beatificamente, n'uma paz +invejavel, respirando uma atmosphera livre do +microbio daminho das +civilisações tumultuosas. +<br /> + +<br /> + +Baltimore é uma cidade por excellencia +aristocratica e hygienica, onde os temperamentos +requintadamente pacificos encontrariam +o desejado repouso trespassado da incomparavel +doçura de um clima raro. +<br /> + +<br /> + +Na melhor de suas praças e no mais +elevado de seus pontos ergue-se a estatua +em marmore do grande Washington, geralmente +considerada «um dos mais interessantes +monumentos da America» e inaugurada em +1809. Mede 60 pés quadrados na base e 15 +<span class="pagenum"><a name="p156">[156]</a></span> +de altura. Sobre o <a href="#e13">pedestal</a> foi +levantada uma +elegante columna dorica de 20 pés de diametro +na base e 15 no cimo, onde branqueja a +estatua do primeiro presidente dos Estados-Unidos, +representando-o no momento de +renunciar a sua commissão de general em +chefe dos exercitos de seu paiz. +<br /> + +<br /> + +Para subir até essa galeria fui obrigado a +vencer duzentos degráos (contados) de uma +estreita escadaria de pedra, em espiral. De +cima vê-se, a olho nú, todo o panorama, realmente +bello, da cidade, que lembra uma d'essas +paisagens hollandezas, muito claras e suggestivas, +taes como descreve Ramalho Ortigão, +e onde destacam, n'um fundo de aguarella, +linhas de arvoredo e reverberos d'agua +parada... +<br /> + +<br /> + +Ouvi dizer algures que as mulheres mais +bonítas dos Estados-Unidos +são as de Baltimore. +Durante as poucas horas que ahi nos +demorámos vimos alguns rostos femininos na +verdade encantadores. É possivel que vissemos +com olhos protectores de hospedes +em +Ouvi dizer algures que as mulheres mais +bonítas dos Estados-Unidos +são as de Baltimore. +Durante as poucas horas que ahi nos +demorámos vimos alguns rostos femininos na +verdade encantadores. É possivel que vissemos +com olhos protectores de hospedes +em terra estranha... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[157]</span> +Era nosso consul n'aquella cidade Fontoura +Xavier, o conhecido autor das +<em>Opalas</em>, +bom poeta e pessimo republicano, que se +apressou em nos proporcionar todas as commodidades +possiveis, franqueando-nos os quartos +e os salões do melhor hotel do logar. +Fez mais: offereceu gentilmente á officialidade +brazileira um delicadissimo almoço ao +qual compareceram diversos estudantes nossos +patricios. +<br /> + +<br /> + +Guardamos bellas recordações de Baltimore. +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Philadelphia</span>―Grande +centro de +industria +e commercio. Altas chaminés caracteristicas. +Céo encoberto de fumaça, pesado e +lugubre a certas horas do dia. Aqueductos, +casas colossaes, ruas largas e atulhadas de +barricas e caixotes. Continuo movimento de +carros e tramways. Immensa e grandiosa, a +cidade vista de qualquer ponto elevado. A +lembrança que fica é a de um grande edificio +em construcção, cheio de rumor de machinas +e de operarios em actividade permanente.―Jardim +<span class="pagenum">[158]</span> +Zoologico.―Universidade importantissima, +onde vão estudar moços de todas as +nacionalidades.―City Hall, edificio monumental, +vasto e muito alto, onde funccionam +as repartições publicas: dizem ser o maior dos +Estados-Unidos. +<br /> + +<br /> + +Não ha tempo a perder. Temos apenas +trez horas a nossa disposição, pois que o trem +deve partir para Annapolis ás cinco da tarde +e já são duas... +<br /> + +<br /> + +Leio na taboleta de um bond: <em>Zoological +Garden</em>... Oh! sim, vamos ao Jardim Zoologico, +a mais completa collecção de animaes, +que já se conseguiu formar. O meu companheiro, +que conhece o Jardim Zoologico de +Londres e o de Philadelphia, opta por este. +Vejo, de passagem ruas bellissimas, esplendidas +filas de casas luxuosas, magnificos jardins +particulares, templos em estylo gothico; descampados... +<br /> + +<br /> + +Mas, a viagem é longa, o tempo escorre +sem a gente perceber, e é preciso contar com a +volta, a fim de apanhar o trem. +<br /> + +<br /> + +Trabalho perdido! Voltámos no mesmo +<span class="pagenum">[159]</span> +bonde, sem ter visto o appetecido Jardim... Zoologico. +<br /> + +<br /> + +Mal tivemos tempo de chegar, embarafustar +por entre os passageiros que se accumulavam +na <em>gare</em>, e saltar para dentro do +vagon. +<br /> + +<br /> + +E eu fiz o resto da viagem pensando no +assombroso progresso d'aquella cidade enorme, +que ainda em 1791 não era mais que uma +simples colonia a respeito da qual Chateaubriand +exprimia-se d'este modo:―<em>L'aspect +de Philadelphie est froid et monotone</em>... +<br /> + +<br /> + +Não foi preciso mais de um seculo para que +os americanos fizessem d'ella uma das principaes +cidades industriaes do mundo. +<br /> + +<br /> + +Em Philadelphia tive occasião de ver, pela +primeira vez, bondes electricos funccionando +com a maxima regularidade. +<br /> + +<br /> + +O que será a grande cidade americana +d'aqui a cem annos? +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>XIV +</h3> + +<br /> + +Abramos capitulo especial para Annapolis, +não que esta cidade, a mais antiga dos +Estados-Unidos, mereça-nos mais que qualquer +das outras, absolutamente não, mas +por uma deferencia bem entendida, por um +recolhido sentimento de gratidão para com a +joven officialidade da marinha norte-americana, +que ali recebeu as primeiras lições de +disciplina militar e dever civico, e que soube +nos acolher em seu seio como verdadeiros +irmãos de armas que eramos. +<br /> + +<br /> + +A nossa visita coincidía com a festa de +formatura dos guardas-marinha, uma das +bellas solemnidades annuaes dos Estados-Unidos +á qual concorrem centenas de pessoas da +<span class="pagenum">[162]</span> +mais elevada sociedade―a fina flor da aristocracia +d'aquelle paiz―movidas pelo nobre +enthusiasmo de apertar a mão á mocidade que +se despede da escola para entregar-se ás duras +lidas do mar. +<br /> + +<br /> + +Antes, porem, de dizer o que foi essa festa +descrevamos, rapidamente, a cidade. +<br /> + +<br /> + +Annapolis é como uma nota dissonante +na civilisação americana. Imagine-se um quilombo +africano, uma grande aldeia cortada de +ruas desiguaes, estreitas e desalinhadas, com +um aspecto sombrio e detestavel de velho +burgo colonial, onde se move uma população +na maior parte negra e atrazadissima―e ter-se-ha +essa antithese da cidade moderna. Bridgetown, +a capital de Barbados, avantaja-se-lhe +mil vezes com toda sua poeira, com toda a +imprudencia e mizeria de sua baixa população. +<br /> + +<br /> + +Vê-se que os americanos têm-lhe certo +respeito e conservam-na esquecida e retrograda +por uma especie de devoção archeologica, +sacrificando +por esse modo o seu bom gosto +caracteristico e o seu tradicional amor ao progresso. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[163]</span> +Insipida, monotona e triste como um cemiterio +de pagãos―Annapolis é um protesto, +um anathema contra a evolução natural das +cousas, uma nodoa antipathica em pleno +mappa da Confederação americana. Nada ha +ali que interesse e desperte a curiosidade senão +a Escola Naval (<em>Naval Academy</em>) situada +n'uma das extremidades da cidade, á beira-mar. +<br /> + +<br /> + +De anno em anno enche-se de povo; seu +unico hotel, um pardieiro, extravasa, e então +sente-se um fremito de vida nova percorrer +aquellas ruas habitualmente socegadas e tristes. +Passeiam bandas de musica, fluctuam bandeiras +na frontaria das casas, por toda a parte +ouve-se uma vozeria estranha de gente que +bebe e canta nos cafés (arremedo de cafés) e +todas as janellas abrem-se como para receber +o desinfectante da alegria, importado das +grandes cidades circumvisinhas. +<br /> + +<br /> + +Annapolis accorda, então, de seu pesado +somno tumbal para saudar os estudantes que +saem da academia para a vida publica. +<br /> + +<br /> + +O grande acto, a que assistimos, da distribuição +<span class="pagenum">[164]</span> +de titulos, realisou-se n'um dos vastos +salões da Escola, presente numerosissimo auditorio: +familias em grandes trajos de luxo, +altos funccionarios, estudantes... +<br /> + +<br /> + +Ao receberem seus diplomas os noveis +officiaes de marinha foram vivamente applaudidos +pelos seus companheiros, cahindo +sobre elles uma chuva imprevista de flores, no +meio de palmas e gritos de enthusiasmo. E, +começaram os abraços, as +felicitações, os conselhos +e as lagrimas de commoção... +<br /> + +<br /> + +Abrem-se de par em par as portas do estabelecimento +e a multidão de espectadores precipita-se +por todos os lados, feliz, alegre, +desafogada como si acabasse de assistir a uma +festa de amor e justiça. +<br /> + +<br /> + +Ainda não estava concluido o programma. +<br /> + +<br /> + +Em seguida á solemnidade official,―a +festa intima, a festa de despedida que os <em>naval +cadets</em> (aspirantes) offereciam aos seus companheiros. +<br /> + +<br /> + +Noite clara e constellada. O largo edificio +da Escola de Marinha regorgita de convidados +que se cruzam em todos os sentidos no +<span class="pagenum">[165]</span> +salão do baile, nos corredores, nos +<em>bouffets</em>, +nas ante-salas... +<br /> + +<br /> + +Nota-se em todas as caras certo ar de intimidade, +certo bem estar flagrante, um quer +que é communicativo e bom. +<br /> + +<br /> + +Uma ou outra casaca solitaria, destoando +da linha geral das <em>toilettes</em> largas +e frescas. +Observo curiosamente o apuro de um official +japonez que franze as sobrancelhas n'um gesto +de enfado.―Por que será?... Julgo de mim +para mim que o pobre camarada não se sente +á vontade dentro de suas calças de panno com +largos galões dourados. A casaca o incommóda +visivelmente. O chapéo armado, elle já +não sabe como o tenha―si na mão, si debaixo +do braço ou mesmo si na cabeça... +<br /> + +<br /> + +Desabotoam-se risos gentis em boccas +purpurinas. Derramam-se essencias preciosas +no ambiente luminoso. Conversa-se alto. +Bellas <em>miss</em> de face escarlate +abanam-se com os +leques de ricas plumas de edredon. Os leques +e as joias são as unicas riquezas que conduzem +n'um contraste frizante com os vestidos +leves e claros. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[166]</span> +Em um dos lados do enorme quadrilatero, +onde reluziam panoplias arranjadas á capricho, +estava levantado um pavilhão de aspecto risonho, +em cujo frontespicio destacavam em +letras de luz<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;" class="smallcaps">1887 +to 1886 +<br /> + +<br /> + +farwell</div> + +<br /> + +<br /> + +Era o logar do director da escola. +<br /> + +<br /> + +Começou a dança... +<br /> + +<br /> + +...E á meia noite a musica fazia signal +para a ultima valsa. +<br /> + +<br /> + +Ficamos sabendo que todas as festas +nocturnas terminam invariavelmente á meia +noite, nos Estados-Unidos. É uma velha +praxe que os americanos poucas vezes transgridem. +<br /> + +<br /> + +Annapolis, <em>blak city</em>―como +te chamam +teus proprios patricios, tu não poderás saber +nunca a saudade que levámos de tí n'essa +esplendida noite clara e constellada!...<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>XV +</h3> + +<br /> + +O <em>Barroso</em> continuava no dique, em +Brooklin. +<br /> + +<br /> + +Logo ao regressarmos de nossa viagem á +Annapolis tivemos aviso para uma outra excursão +não menos interessante e agradavel. +<br /> + +<br /> + +West Point era agora o principal objecto +de nossa curiosidade,―West Point, a bella +povoação á margem do Hudson, onde +funcciona +a Escola Militar. Estavamos convidados +para assistir a outra festividade academica―um +combate simulado entre os alumnos do +estabelecimento,―manejos d'armas, exercicios +de esgrima, assaltos. +<br /> + +<br /> + +Comprehende-se a grande utilidade que +necessariamente nos adveria d'essas visitas aos +<span class="pagenum">[168]</span> +estabelecimentos militares no extrangeiro. +Sem nos aperceber, iamos conhecendo, <em>de +visu</em>, +os diversos processos de ensino pratico, os +methodos mais modernos de educação physica, +e, quando mais não fosse, lucravamos com a +vista de objectos novos e de novas paisagens. +<br /> + +<br /> + +O viajar é uma necessidade quasi imprescindivel +para o espirito e para o organismo. +A alma como que se dilata em presença de +estranhas combinações de côr e de luz. +A +monotonia da vida urbana cansa o espirito, +fatiga-o, consome-o lentamente: é preciso o +grande ar, o ar livre e temperado dos campos, +a natureza em toda sua belleza original, para +que não se morra de tédio e desanimo. O +tempo é limitadissimo e inapreciavel para +quem viaja com desejo de ver e saber. +<br /> + +<br /> + +Muitos ha que preferem morar eternamente +em Paris ou em Londres, no centro da +cidade, asphyxíado pela poeira dos +<em>boulevards</em>, +a gastar economicamente o seu rico dinheirinho +vendo a natureza de perto, gosando as +inaffaveis delicias do ca, +a gastar economicamente o seu rico dinheirinho +vendo a natureza de perto, gosando as +inaffaveis delicias do campo e das praias, +saboreando o clima das montanhas, deliciando +<span class="pagenum">[169]</span> +a vista com o espectaculo das fontes mumurejantes, +dos frescos arvoredos trespassados de +luz... +<br /> + +<br /> + +Eu preferirei sempre a paz absoluta e +invejavel dos suburbios. +<br /> + +<br /> + +E é por isso que, a cada nova excursão +fóra da cidade, eu sentia-me bem commigo e +bem com o resto da humanidade. Voltava +sempre mais consolado e mais leve, como si +sahisse de um quarto muito escuro e abafado +para a claridade larga e bella do dia... +<br /> + +<br /> + +Foi assim que recebi a noticia do passeio +a West-Point. +<br /> + +<br /> + +Como devia ser magnifico o Hudson lá +para as bandas de sua nascente, a qualquer +hora do dia, iluminado pelo sol, calmo e radiante, +ou coberto de nevoa, pela manhãsinha, +ou no silencio da noite, vago e sombrio como +um pantano dormente!... +<br /> + +<br /> + +Era o que iamos vêr. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Seis horas da manhã... +<br /> + +<br /> + +Cahia uma neve friissima, transparente, e +aggressiva como alfinetadas. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p170">[170]</a></span> +O <em>Express</em>, pequeno e elegante +cruzador +americano, especie de transporte de guerra, +esperava-nos de «fogos accezas», deitando +fumo pela chaminé. +<br /> + +<br /> + +Remos n'agua e toca p'r'adiante! Pontualidade +no caso. +<br /> + +<br /> + +Estamos á bordo. +<br /> + +<br /> + +O <em>Express</em> offerece o bello aspecto +de uma +galeota imperial que vai suspender ferro... +<br /> + +<br /> + +Fazia gosto ver a ordem e o asseio que apresentavam +o convéz e a camara. +<br /> + +<br /> + +Tinha-se acabado de fazer a baldeação +matinal. Marinheiros, perfeitamente uniformisados, +occupavam-se em limpar as chapas +de metal; outros colhiam cabos á prôa; outros +lá cima, nas vergas, atavam ou desatavam +andarivelos, muíto rubros, com <a href="#e14">os +seus</a> +bonnés +de panno azul marinho onde se lia o nome do +navio, em letras cor de +ouro:―<em>Express</em>. +<br /> + +<br /> + +A camara―uma sala espaçosa e clara, +elegantemente adornada―occupava um terço +do pontal, a ré, na primeira coberta. Em baixo, +na segunda coberta, ficavam os camarotes e a +praça de armas. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[171]</span> +Servido o <em>fine cognac</em>, que os +americanos +de bom tratamento não dispensam nos dias +invernosos, o <em>captain</em> subio ao +passadiço e deu +a voz de suspender. A machina tocou adiante +e o <em>Express</em> começou a +singrar o Hudson. +<br /> + +<br /> + +Variadissimo o aspecto da paisagem. Ora +o rio se estreita em curvas caprichosas, ora +vai-se alargando, sempre manso, banhando +cidades e aldeias, limpido ás vezes, outras +vezes toldado e sombrio. +<br /> + +<br /> + +West Point fica á duzentas milhas de +Brooklin. +<br /> + +<br /> + +Passámos o dia inteiro e a noite em viagem +para amanhecermos em nosso destino. +<br /> + +<br /> + +Novas manifestações de sympathia. Officiaes +e alumnos da Escola Militar esperavam-nos +com aquelle sorriso affavel de gente hospitaleira, +que logo se traduz em franca e sincera +camaradagem. +<br /> + +<br /> + +A Escola estava acampada perto do estabelecimento, +em exercicios praticos. +<br /> + +<br /> + +Innumeras barraquinhas de lona, alinhadas +em symetria, alvejavam, como um acampamento +de beduinos, guardadas por sentinellas +<span class="pagenum">[172]</span> +que rondavam de arma ao hombro, perfilando-se +de vez em quando em continencia a um +official que passava. +<br /> + +<br /> + +Cada barraca abrigava cinco a seis alumnos +que se rendiam pontualmente na sentinella. +<br /> + +<br /> + +Emquanto um rondava, grave e silencioso, +de mochila ás costas e espingarda ao hombro, +os outros divertiam-se a trocar sôcos, a jogar +o dominó, a apostar corridas, até que o tambor +ou a corneta os chamasse á fórma. +Então, com +uma rapidez extraordinaria, lestos, vivos e fortes, +corriam todos a seus postos, e, em menos de +um minuto, estava formada a companhia. +<br /> + +<br /> + +Cada alumno era um verdadeiro soldado. +<br /> + +<br /> + +Alegres, o sangue a pular-lhes no rosto, +cheios de saúde, tesos, empinados, quadris +largos, espaduas amplas, todos se pareciam em +robustez physica. +<br /> + +<br /> + +Uns rapagões sadios! +<br /> + +<br /> + +Notei mesmo certa propensão dos americanos +para o militarismo. Parece que a educação +militar, a adapção de principios rigorosos +na disciplina do corpo, é o unico meio de +obterem-se homens robustos e cumpridores do +<span class="pagenum">[173]</span> +dever. A Escola de West Point é, sem exagero, +um exemplo raro de estabelecimentos d'esse +genero. E não era sem uma ponta de tristeza +que nós, brazileiros,―raça degenerada e +lymphatica―viamos +crear-se assim uma raça forte +e alegre com todos os caracteres de virilidade +e independencia. +<br /> + +<br /> + +Tive occasião de assistir a uma lucta corporal +entre dois alumnos, competentemente +armados de luvas de camurça, rosto a descoberto. +Pegaram-se a sôcos, um defronte do +outro, calmos e convictos, como si estivessem +commettendo uma nobre acção. +<br /> + +<br /> + +No fim de alguns minutos, o aggressor +estava com o rosto inchado, escorrendo sangue, +os olhos vermelhos, injectados, e a lucta acabava +com um abraço entre os dois contendores. +O mais forte foi acclamado pelos companheiros, +teve o prémio de sua robustez. +<br /> + +<br /> + +É talvez um duro systhema de educação +esse, mas incontestavelmente o mais acertado +e efficaz. +<br /> + +<br /> + +Simples questão de raça...<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3> +XVI +</h3> + +<br /> + +Estava terminada a nossa estação de quasi +dois mezes em Nova-York. +<br /> + +<br /> + +No dia 30 de Julho o <em>Barroso</em> deixou +aquelle porto em direcção a New-Port, outra +cidade dos Estados-Unidos, refugio da população +aristocratica nos quentes días de +verão. +Uma perfeita cidade balnearia, muito fresca e +saudavel, á beira-mar, olhando para o largo +oceano e recebendo-lhe as emanações salinas, +com um Cassino e um Passeio Publico. +<br /> + +<br /> + +Os banqueiros e a gente rica de Nova-York +costumam fazer ahi o seu ninho de verão, +e, de vez em vez, para amenisar a vida monotona +que se leva n'esse pequeno mundo de +simplicidade e conforto, promovem regatas na +<span class="pagenum">[176]</span> +esplendida enseada que orla a cidade e que +n'esses dias de festa maritima toma uma feição +ridente e caracteristica de aguarella ingleza, +com os seus <em>cutters</em> á +vela, com os seus hiates +de recreio bordejando ao largo como um bando +de gaivotas pousadas n'agua... +<br /> + +<br /> + +Apostam-se milhões de libras. De França +e de Inglaterra principes e lords vêm assistir +e tomar parte no jogo. +<br /> + +<br /> + +A regata é um dos divertimentos predilectos +dos americanos. Todas as cidades maritimas +e fluviaes dos Estados-Unidos têm pelo +menos um club de regatas. +<br /> + +<br /> + +Nota curiosa: em New-Port não se bebe +alcool. É prohibida a importação de +bebidas +que contenham espirito, ou qualquer outra +substancia nociva. Não se encontra um só +botequim na cidade. Para tomarmos um refrigerante, +uma simples limonada, fomos bater +a uma pharmacia! Garantiram-nos que esse +preceito contra o alcool é escrupulosamente +observado n'aquella cidade. Custavamos a +acreditar, mas, emfim, não havia geito senão +ser delicados... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[177]</span> +De resto, uma cidadesinha elegante e socegada, +New-Port. O commercio ahi é quasi +nullo. +<br /> + +<br /> + +No fim de oito dias o <em>Barroso</em> +deixava de +uma vez o paiz dos <em>yankees</em>, +fazendo-se de vela +para os Açores. +<br /> + +<br /> + +Já agora não nos doía muito a saudade +desse bello e prodigioso paiz. O regresso á +patria, depois de uma ausencia de quasi um +anno, enchia-nos o coração de alegria. +<br /> + +<br /> + +Não fôra a perda de um companheiro em +Nova-Orleans e voltariamos todos, sem faltar +ninguem, sadios e fortes, cheios de impressões +novas e cheios de esperança. +<br /> + +<br /> + +Voltavamos, sim, mas tinhamos deixado +atraz, em terra extrangeira, n'um cemiterio de +Nova-Orleans, um dos nossos camaradas. +<br /> + +<br /> + +Traziamos uma convicção, e é que +nenhum +povo sabe comprehender tão bem o problema +da vida humana como os americanos dos Estados-Unidos. +A idéa da morte não os preoccupa: +um <em>yankee</em> triste é cousa +rara e toma +proporções de phenomeno. +<br /> + +<br /> + +Elles, os americanos, são geralmente alegres, +<span class="pagenum">[178]</span> +bem dispostos, amigos do trabalho, compenetrados +de seus deveres, e, acima de tudo, +amam a sua patria mais do que qualquer +outro povo. +<br /> + +<br /> + +A patria e a familia são os seus principaes +objectivos. Menos egoistas que os inglezes, +energicos e resolutos, sobra-lhes tempo e +dinheiro para se divertirem. +<br /> + +<br /> + +Esse povo verdadeiramente democratico +não pede licções a paiz nenhum: +engrandeceu +a custa de seus proprios esforços e dia a dia +prospéra, assombrando o mundo com as suas +emprezas colossaes. +<br /> + +<br /> + +Si a Allemanha representa no seculo XIX +a patria das sciencias moraes, aos Estados-Unidos +compete o primeiro logar na ordem +dos paizes que tem concorrido grandemente +para o aperfeiçoamento e bem estar humanos. +<br /> + +<br /> + +Emquanto as nações da Europa degladiam-se +n'uma lucta continua, perdendo na +guerra o que difficilmente accumularam em +poucos annos de paz, a grande nação americana +deixa-se estar quieta e desarmada, sem +exercito e sem marinha, confiada no seu proprio +<span class="pagenum">[179]</span> +valor, no patriotismo de seus filhos, certa +de que, n'um dado momento, cada cidadão, +cada americano saberá cumprir com heroismo +o seu dever e honrar as suas tradições de povo +independente e forte. +<br /> + +<br /> + +<em>Go ahead! never mind; help +yourself!</em>―eis +a maxima de todo <em>yankee</em>. Elles +não a +esquecem nunca e marcham desassombradamente +na vida, como quem tem absoluta confiança +no proprio valor. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="quote smallcaps">ceará―1890.</div> + +<br /> + +<h2><br /> + +EDIÇÕES DA LIVRARIA MODERNA +</h2> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<h3>DOMINGOS DE +MAGALHÃES―<span class="smallcaps">Editor</span> +</h3> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6"> + + <tbody> + + <tr> + + <td style="width: 532px;"><b>Affonso Celso</b></td> + + <td style="width: 60px;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 532px;"></td> + + <td style="width: 60px;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 532px; text-align: justify;">Vultos +e Factos, 1 vol. +broc. 3$000, +enc.</td> + + <td style="text-align: right; width: 60px; vertical-align: bottom;">5$000</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 532px; text-align: justify;">Minha +Filha, 1 vol. broc. +3$000, +enc.</td> + + <td style="text-align: right; width: 60px; vertical-align: bottom;">5$000</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 532px; text-align: justify;">Minha +Filha, ed. do luxo +em 4º com o retrato +do +autor, broc.</td> + + <td style="text-align: right; width: 60px; vertical-align: bottom;">10$000</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 532px; text-align: justify;">Imperador +no Exilio, 1 +vol. broc. com o retrato +do Sr. D. Pedro II, 3$000, +enc.</td> + + <td style="text-align: right; width: 60px; vertical-align: bottom;">5$000</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 532px; text-align: justify;">Imperador +no Exilio, ed. +deluxe +broc.</td> + + <td style="text-align: right; width: 60px; vertical-align: bottom;">5$000</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 532px; text-align: justify;">Lupe, +scenas da vida do +Mexico, 1 vol. +broc.</td> + + <td style="text-align: right; width: 60px; vertical-align: bottom;">2$500</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 532px; text-align: justify;">Rimas +de Outr'ora, 1 vol. +broc. 3$000, +enc.</td> + + <td style="text-align: right; width: 60px; vertical-align: bottom;">5$000 + </td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 532px; text-align: justify;">Notas +e +Ficções, 1 vol, broc. +3$000, +enc.</td> + + <td style="text-align: right; width: 60px; vertical-align: bottom;">5$000 + </td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 532px; text-align: justify;">Philosophia +do Direito, 1 +vol. (no prelo).</td> + + <td style="text-align: right; width: 60px;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 532px;"></td> + + <td style="text-align: right; width: 60px;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 532px;"><b>Adolpho Caminha</b></td> + + <td style="text-align: right; width: 60px;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 532px;"></td> + + <td style="text-align: right; width: 60px;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 532px; text-align: justify;">A +Normalista, scenas do +Ceará, 1 vol. broc. +com +capa ill., 3$000, enc. 5$000, ed. de +luxo.</td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom; width: 60px;">8$000 + </td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 532px; text-align: justify;">No +Paiz dos Yankees, 1 +vol. broc. 3$000, +enc.</td> + + <td style="text-align: right; width: 60px;">5$000</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 532px;"></td> + + <td style="text-align: right; width: 60px;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 532px;"><b>Aluizio Azevedo</b></td> + + <td style="text-align: right; width: 60px;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 532px;"></td> + + <td style="text-align: right; width: 60px;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 532px; text-align: justify;">Livro +de uma Sogra, 1 vol. +broc. 3$000, +enc.</td> + + <td style="text-align: right; width: 60px; vertical-align: bottom;">5$000 + </td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 532px; text-align: justify;">Casa +de Pensão, +2 vols. [no prelo]</td> + + <td style="text-align: right; width: 60px;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 532px;"></td> + + <td style="text-align: right; width: 60px;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 532px;"><b>Arthur Azevedo</b></td> + + <td style="text-align: right; width: 60px;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 532px;"></td> + + <td style="text-align: right; width: 60px;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 532px; text-align: justify;">Contos +fóra da +Moda, 1 vol. broc. 3$000, +enc.</td> + + <td style="text-align: right; width: 60px; vertical-align: bottom;">5$000</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 532px;"></td> + + <td style="text-align: right; width: 60px;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 532px;"><b>Cruz e Souza</b></td> + + <td style="text-align: right; width: 60px;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 532px;"></td> + + <td style="text-align: right; width: 60px;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 532px; text-align: justify;">Missal, +artistico livro de +contos, 1 vol. broc. 3$000, +enc.</td> + + <td style="text-align: right; width: 60px; vertical-align: bottom;">4$000</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 532px; text-align: justify;">Broqueis, +mimoso livro de +versos, 1 vol. broc. +3$000 enc.</td> + + <td style="text-align: right; width: 60px; vertical-align: bottom;">4$000</td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<span class="pagenum">[182]</span> +<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6"> + + <tbody> + + <tr> + + <td></td> + + <td></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 532px;"><b>Delia</b></td> + + <td style="width: 60px;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 532px;"></td> + + <td style="width: 60px;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 532px; text-align: justify;">Celeste, +scenas da vida +fluminense, 1 vol. broc. +3$000, enc.</td> + + <td style="text-align: right; width: 60px; vertical-align: bottom;">5$000</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 532px; text-align: justify;">Celeste, +ed. de luxo +enc.</td> + + <td style="text-align: right; width: 60px; vertical-align: bottom;">8$000 + </td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 532px; text-align: justify;">Angelina, +1 vol. [no +prelo].</td> + + <td style="text-align: right; width: 60px;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 532px;"></td> + + <td style="text-align: right; width: 60px;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 532px;"><b>F. Fajardo (Dr.)</b></td> + + <td style="text-align: right; width: 60px;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 532px;"></td> + + <td style="text-align: right; width: 60px;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 532px; text-align: justify;">Tratado +de Hypnotismo, 2 +vols. ill. por Manoel +Gaspar, [no prelo]. </td> + + <td style="text-align: right; width: 60px;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 532px;"></td> + + <td style="text-align: right; width: 60px;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 532px;"><b>Heitor Malheiros</b></td> + + <td style="text-align: right; width: 60px;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 532px;"></td> + + <td style="text-align: right; width: 60px;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 532px; text-align: justify;">O +Encilhamento, scenas da +Bolsa de 90 a 92, 1º +vol. à venda o 2º para Julho, 2 vols. +broc.</td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom; width: 60px;">6$000</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 532px;"></td> + + <td style="width: 60px; text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 532px;"><b>Isaias de Oliveira</b></td> + + <td style="width: 60px; text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 532px;"></td> + + <td style="width: 60px; text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 532px; text-align: justify;">Blocos, +phantasias, 1 vol. +broc.</td> + + <td style="width: 60px; text-align: right; vertical-align: bottom;">3$000</td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td><b>Luiz Rosa</b></td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Imagens e +Visões, elegante livro de versos, +1 +vol. broc.</td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">3$000</td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td><b>Anselmo Ribas</b></td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Capital Federal, +impressões de um sertanejo, +1 +vol. broc. 3$000, +enc.</td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">5$000 + </td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Bilhetes postaes, +livro elegante e livre [no prelo, +para Julho]. + </td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 532px;"></td> + + <td style="width: 60px; text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td><b>Medeiros e Albuquerque</b></td> + + <td></td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Um Homem Pratico, 1 +vol. broc. 3$000, +enc. </td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">5$000</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Hypnotismo, +Magnetismo e phenomenos analogos, +1 vol. (no prelo). + </td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td><b>V. Nogueira da Gama</b></td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Minhas Memorias, 1 +vol. broc. 3$000, +enc.</td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;"> +5$000 + </td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td><b>Sylvinio Junior</b></td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">A Dona de Casa, +para as Sras. brazileiras, 1 vol. +cartonado.</td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">5$000</td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<span class="pagenum">[183]</span> +<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6"> + + <tbody> + + <tr> + + <td style="width: 520px;"></td> + + <td style="width: 60px; text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 520px;"><b>Viveiros de +Castro (Dr.)</b></td> + + <td style="width: 60px; text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 520px;"></td> + + <td style="width: 60px; text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 520px; text-align: justify;">A +Nova Escola Penal, 1 gr. +vol. broc. 8$000 +enc.</td> + + <td style="width: 60px; text-align: right; vertical-align: bottom;">10$000 + </td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 520px;"></td> + + <td style="width: 60px; text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 520px;"><b>Verediano de +Carvalho</b></td> + + <td style="width: 60px; text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Correspondencia +Commercial, 1 vol. broc. 8$000, +enc. + </td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">10$000</td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td><b>Zola</b></td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Doutor Pascal, +versão brazileira de C. de +Albuquerque, +2 vols. broc. 5$000, +enc.</td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">7$000 + </td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">O Dinheiro, +versão do mesmo, [no prelo]. + </td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Mysterios de +Marselha, [no prelo]. + </td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">A Derrocada, 2 +vols. broc. 5$000, +enc.</td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">7$000</td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td><b>Papus e Borja Reis</b></td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">A Buena-Dicha, arte +de lêr o futuro nas +linhas da +mão, 1 vol. broc. 2$500, +cart.</td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">3$000</td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td></td> + + </tr> + + <tr> + + <td><b>Carlos de Moraes</b></td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Amor Fatal, scenas +fluminenses, 1 vol. broc. 2$500 +enc.</td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">4$000</td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td><b>Coelho Netto</b></td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Balladilhas, +admiravel livro de contos para senhoras +e meninos, 1 vol. broc. 3$000, enc. +5$000, enc. de luxo. </td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">8$000</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Rhapsodia, 1 vol. +broc. 3$000, +enc.</td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">5$000 + </td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Rei Phantasma, +romance oriental 2 vols. [no +prelo, para fins de Setembro].</td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Contos do Natal, 1 +bello vol. para festas [no +prelo, para Dezembro].</td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td><b>J. Guerra</b></td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td></td> + + </tr> + + <tr> + + <td>Humorismos, 2 vol. broc. 6$000, +enc.</td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">10$000 + </td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td><b>Valentim de Magalhães</b></td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Escriptores e +Escriptos, 2ª +edição 1 vol. broc. +3$000, enc.</td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">5$000</td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<span class="pagenum">[184]</span> +<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6"> + + <tbody> + + <tr> + + <td style="width: 532px;"></td> + + <td style="width: 60px; text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 532px;"><b>José +de Alencar</b></td> + + <td style="width: 60px; text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 532px;"></td> + + <td style="width: 60px; text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 532px; text-align: justify;">Encarnação. +2ª +edição 1 +vol. broc. 3$000, +enc.</td> + + <td style="width: 60px; text-align: right; vertical-align: bottom;">5$000</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 532px; text-align: justify;">Como +e porque sou +romancista, 1 vol. +broc. </td> + + <td style="width: 60px; text-align: right; vertical-align: bottom;"> +1$500 + </td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td><b>Virgilio Varzea</b></td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Rose-Castle, mimoso +romance, 1 vol. broc. capa +ill.</td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">2$500</td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td><b>Eduardo de Borja Reis</b></td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">O Grito de Guerra, +1 vol. +broc.</td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">$500</td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td><b>Eduardo Garrido</b></td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Barbeirinho de +Sevilha, edição de +luxo, 1 vol. +broc.</td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">2$000 + </td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Joven Telemaco, +edição de luxo, 1 +vol. +broc.</td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">2$000 + </td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td><b>Julia Lopes de Almeida</b></td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">A Familia Medeiros, +2ª +edição 1 gr. vol. +broc. +3$000, enc.</td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">5$000 + </td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">Memorias de Martha, +1 gr. vol. broc. 3$000, +enc.</td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">5$000 + </td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td><b>Montépin</b></td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;">A Hedionda, +versão de Ferreira da Rosa, 3 +vols. +broc. 9$000, enc.</td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom;">15$000 + </td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td><b>Em preparo:</b></td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td></td> + + <td style="text-align: right;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;" colspan="2" rowspan="1">Manual do +Cartomante, por C. de Albuquerque, 1 vol. ill. +com 130 grs. cartonado.</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;" colspan="2" rowspan="1">Arte de fazer-se +amar por seu marido por Pradel tr. de Braulio +Cordeiro Junior, 1 vol. broc. + </td> + + </tr> + + <tr> + + <td colspan="2" rowspan="1" style="width: 532px;">Mestre +Sala Moderno, [danças modernas] 1 gr. vol. ill. +cartonado. + </td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: justify;" colspan="2" rowspan="1">Satan nas salas +[livro dos magicos] versao de Felix de Figueiredo, +1 vol. ill. cartonado.</td> + + </tr> + + <tr> + + <td colspan="2" rowspan="1">Photographo +Amador, por C. de Albuquerque 1 vol. ill. cartonado.</td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><img style="width: 100px; height: 83px;" alt="" src="images/fig01.png" /><br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="fbox"> +<h2>Lista de erros corrigidos</h2> + +<div style="text-align: center;">Aqui encontram-se +listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div> + +<br /> + +<br /> + +<table style="width: 449px; height: 432px; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4"> + + <tbody> + + <tr align="right"> + + <td style="width: 99px;"></td> + + <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 148px;">Original</td> + + <td style="text-align: center; width: 0px;"></td> + + <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 158px;">Correcção</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 99px;"><a name="e1"></a><a href="#p13">#pág. +13</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 148px;">umas</td> + + <td style="text-align: center; width: 0px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 158px;">uma</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 99px;"><a name="e2"></a><a href="#p79">#pág. +79</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 148px;">Esposição</td> + + <td style="text-align: center; width: 0px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 158px;">Exposição</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 99px;"><a name="e3"></a><a href="#p84">#pág. +84</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 148px;">para +caes</td> + + <td style="text-align: center; width: 0px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 158px;">para o +caes</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 99px;"><a name="e4"></a><a href="#p86">#pág. +86</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 148px;">inventado</td> + + <td style="text-align: center; width: 0px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 158px;">inventados</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 99px;"><a name="e5"></a><a href="#p87">#pág. +87</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 148px;">viviamos +cercado</td> + + <td style="text-align: center; width: 0px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 158px;">viviamos +cercados</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 99px;"><a name="e6"></a><a href="#c9">#pág. +94</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 148px;">nom +eestá</td> + + <td style="text-align: center; width: 0px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 158px;">nome +está</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; vertical-align: middle; width: 99px;"><a name="e7"></a><a href="#p112">#pág. +112</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 148px;">nossos +companheiras</td> + + <td style="text-align: center; vertical-align: middle; width: 0px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 158px;">nossos +companheiros</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 99px;"><a name="e8"></a><a href="#p124">#pág. +124</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 148px;">mesmoem</td> + + <td style="text-align: center; width: 0px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 158px;">mesmo +em</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 99px;"><a name="e9"></a><a href="#p126">#pág. +126</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 148px;">esplendidoscapiteis</td> + + <td style="text-align: center; width: 0px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 158px;">esplendidos +capiteis</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 99px;"><a name="e10"></a><a href="#p132">#pág. +132</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 148px;">Satisfeitos +as</td> + + <td style="text-align: center; width: 0px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 158px;">Satisfeitas +as</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 99px;"><a name="e11"></a><a href="#p137">#pág. +137</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 148px;">nive</td> + + <td style="text-align: center; width: 0px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 158px;">nivel</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 99px;"><a name="e12"></a><a href="#p150">#pág. +150</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 148px;">Broeklin</td> + + <td style="text-align: center; vertical-align: top; width: 0px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 158px;">Brooklin</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e13"></a><a href="#p156">#pág. 156</a></td> + + <td style="text-align: center;">podestal</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">pedestal</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e14"></a><a href="#p170">#pág. 170</a></td> + + <td style="text-align: center;">o seus</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">os seus</td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;">Neste livro surgem +variantes da mesma palavra: <em>"Pancy"</em> +e <em>"Pansy"</em>, ou +<em>"Conney-Island"</em> e <em>"Coney-Island"</em>, +ou +<em>"Battrey Square"</em> +e <em>"Battery Square"</em>.<br /> + +<br /> + +As variantes foram preservadas de acordo com o original.<br /> + +<br /> + +Registaram-se duas páginas identificadas como sendo a +96ª,<br /> + +uma das quais foi corrigida para corresponder à 95ª.<br /> + +<br /> + +</div> + +<br /> + +</div> + +</div> + + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of Project Gutenberg's No Paiz dos Yankees, by Adolpho Ferreira Caminha + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NO PAIZ DOS YANKEES *** + +***** This file should be named 24190-h.htm or 24190-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/4/1/9/24190/ + +Produced by Ricardo F. Diogo, Rita Farinha and the Online +Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This +file was produced from images generously made available +by The Internet Archive) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose +such as creation of derivative works, reports, performances and +research. They may be modified and printed and given away--you may do +practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +http://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all +the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy +all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession. +If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project +Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the +terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or +entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. + +1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be +used on or associated in any way with an electronic work by people who +agree to be bound by the terms of this agreement. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at http://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + http://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + + +</pre> + +</body> +</html> diff --git a/24190-h/images/fig01.png b/24190-h/images/fig01.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..7536851 --- /dev/null +++ b/24190-h/images/fig01.png diff --git a/24190-h/images/fig02.png b/24190-h/images/fig02.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..8efbc89 --- /dev/null +++ b/24190-h/images/fig02.png diff --git a/24190-h/images/fig03.png b/24190-h/images/fig03.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..e2bc0ca --- /dev/null +++ b/24190-h/images/fig03.png diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. 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