summaryrefslogtreecommitdiff
path: root/24164-8.txt
diff options
context:
space:
mode:
authorRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-15 02:12:36 -0700
committerRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-15 02:12:36 -0700
commit241fad4d4b64eed6e28d7906e37b619a82e04b18 (patch)
tree3663c4b150125090a64451be7f783b7e8357dd17 /24164-8.txt
initial commit of ebook 24164HEADmain
Diffstat (limited to '24164-8.txt')
-rw-r--r--24164-8.txt6049
1 files changed, 6049 insertions, 0 deletions
diff --git a/24164-8.txt b/24164-8.txt
new file mode 100644
index 0000000..5dc2ae7
--- /dev/null
+++ b/24164-8.txt
@@ -0,0 +1,6049 @@
+The Project Gutenberg EBook of Viagens na Minha Terra, by Almeida Garrett
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Viagens na Minha Terra
+ (Volume I)
+
+Author: Almeida Garrett
+
+Release Date: January 4, 2008 [EBook #24164]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VIAGENS NA MINHA TERRA ***
+
+
+
+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
+
+
+
+
+
+
+ *Nota de editor:* Devido à quantidade de erros tipográficos
+ existentes neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à
+ versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com
+ o original. No final deste livro encontrará a lista de erros
+ corrigidos.
+
+ Rita Farinha (Jan. 2008)
+
+
+
+
+OBRAS
+
+DE
+
+J. B. DE A. GARRETT.
+
+VIII.
+
+(PRIMEIRO DAS VIAGENS)
+
+
+
+
+VIAGENS NA MINHA TERRA
+
+
+POR J. B. DE ALMEIDA-GARRETT.
+
+
+I
+
+
+LISBOA
+NA TYPOGRAPHIA DA GAZETA DOS TRIBUNAIS.
+1846.
+
+
+
+
+Os editores d'esta obra, vendo a popularidade extraordinaria que ella
+tinha publicada em fragmentos na _Revista_, intenderam fazer um serviço
+ás lettras e á gloria do seu paiz, imprimindo-a agora reunida em um
+livro, para melhor se podêr avaliar a variedade, a riqueza e a
+originalidade de seu stylo inimitavel, da philosophia profunda que
+incerra, e sôbre tudo o grande e transcendente pensamento moral a que
+sempre tende, ja quando folga e ri com as mais graves coisas da vida, ja
+quando seriamente discute por suas leviandades e pequenezas.
+
+As _Viagens na minha terra_, são um d'aquelles livros raros que so
+podiam ser escriptos por quem, como o auctor de _Camões_ e de _Catão_,
+de _D. Branca_ e do _Portugal na Balança da Europa_, do _Auto de
+Gil-Vicente_ e do _Tractado de Educação_, do _Alfageme_ e de _Fr. Luiz
+de Souza_, do _Arco de Sanct'Anna_ e da _Historia Litteraria de
+Portugal_, de _Adozinda_ e das _Leituras Historicas_ e de tantas
+producções de tam variado genero, possue todos os stylos e, dominando
+uma lingua de immenso podêr, a costumou a servir-lhe e
+obedecer-lhe;--por quem com a mesma facilidade sobe a orar na tribuna,
+entra no gabinete nas graves discussões e demonstrações da sciencia--voa
+ás mais altas regiões da lyrica, da epopeia e da tragedia, lida com as
+fortes paixões do drama, e baixa ás não menos difficeis trivialidades da
+comedia;--por quem ao mesmo tempo, e como que mudando de natureza, póde
+dar-se todo ás mais aridas e materiaes ponderações da administração e da
+politica, e redigir com admiravel precisão, com uma exacção ideologica
+que talvez ninguem mais tenha entre nós, uma lei administrativa ou de
+instrucção pública, uma constituição politica, ou um tractado de
+commercio.
+
+Orador e poeta, historiador e philosopho, crítico e artista,
+jurisconsulto e administrador, erudito e homem d'Estado, religioso
+cultor da sua lingua e falando correctamente as extranhas--educado na
+pureza classica da antiguidade, e versado depois em todas as outras
+litteraturas--da meia-edade, da renascença e contemporanea--o auctor das
+Viagens Na Minha Terra é egualmente familiar com Homero e com o Dante,
+com Platão e com Rousseau, com Thucidides e com Thiers, com Guizot e com
+Xenophonte, com Horacio e com Lamartine, com Machiavel e com
+Chateaubriand, com Shakspeare e Euripedes, com Camões e Calderon, com
+Goethe e Virgilio, Schiller e Sá-de-Miranda, Sterne e Cervantes, Fenelon
+e Vieira, Rabelais e Gil-Vicente, Addison e Bayle, Kant e Voltaire,
+Herder e Smith, Bentham e Cormenin, com os Encyclopedistas e com os
+Sanctos-Padres, com a Biblia e com as tradicções sanscritas, com tudo o
+que a arte e a sciencia antiga, com tudo o que a arte emfim e a sciencia
+moderna teem produzido. Ve-se isto dos seus escriptos, e especialmente
+se ve d'este que agora publicâmos apezar de composto bem claramente ao
+correr da penna.
+
+Mas ainda assim, e com isto somente, elle não faria o que faz se não
+junctasse a tudo isso o profundo conhecimento dos homens e das coisas,
+do coração humano e da razão humana; se não fosse, além de tudo o mais,
+um verdadeiro homem do mundo, que tem vivido nas côrtes com os
+principes, no campo com os homens de guerra, no gabinete com os
+diplomaticos e homens d'Estado, no parlamento, nos tribunaes, nas
+academias, com todas as notabilidades de muitos paizes--e nos salões
+emfim com as mulheres e com os frivolos do mundo, com as elegancias e
+com as falsidades do seculo.
+
+De tantas obras de tam variado genero com que, em sua vida ainda tam
+curta, este fecundo escriptor tem inriquecido a nossa lingua, é ésta
+talvez, tornâmos a dizer, a que elle mais descuidadamente escreveu: mas
+é tambem a que, em nossa opinião, mais mostra os seus immensos podêres
+intellectuaes, a sua erudição vastíssima, a sua flexibilidade de stylo
+espantosa, uma philosophia transcendente, e por fim de tudo, o natural
+indulgente e bom de um coração recto, puro, amigo da justiça, adorador
+da verdade, e inimigo declarado de todo o sophisma.
+
+Tem sido accusado de sceptico: é a accusação mais absurda e que so
+denuncia, em quem a faz, ou grande ignorancia ou grande má fe. Quando o
+nosso auctor lança mão da cortante e destruidora arma do sarcasmo, que
+elle maneja com tanta fôrça e dexteridade, e que talvez por isso mesmo,
+conscio de seu podêr, elle rara vez toma nas mãos--veja-se que é sempre
+contra a hypocrisia, contra os sophismas, e contra os hypocritas e
+shopistas de _todas as côres_, que elle o faz. Crenças, opiniões,
+sentimentos, respeita-os sempre. As mesmas suas ironias que tanto ferem,
+não as dirige nunca sôbre individuos; ve-se que despreza a facil
+vingança que, com tam poderosas armas, podia tomar de inimigos que o não
+poupam, de invejosos que o calumniam, e a quem, por cada dicterio
+insulso e ephemero com que o teem pretendido injuriar, elle podia
+condemnar ao eterno oppróbrio de um pelourinho immortal como as suas
+obras. Ainda bem que o não faz! mais immortaes são as suas obras, e
+quanto a nós, mais punidas ficam os seus emulos com esse desprêzo do
+homem superior que se não appercebe de sua malignidade insulsa e
+insignificante.
+
+Voltando á accusação de septicismo, ainda dizemos que não póde ser
+septico o espirito que concebeu, e em si achou côres com que pintar tam
+vivos, characteres de crenças tam fortes como o de Catão, de Camões, de
+Fr. Luiz de Sousa,--e aqui n'esta nossa obra, os de Fr. Diniz, de
+Joanninha, da Irman Francisca.
+
+Não analysâmos agora as Viagens Na Minha Terra: a obra não está ainda
+completa e não podia completar-se portanto o juizo; dizemos somente o
+que todos dizem e o que todos podem julgar ja.
+
+A nosso rôgo, e por fazer mais digna da sua reputação ésta segunda
+publicação da obra, o auctor prestou-se a dirigi-la elle mesmo,
+corrigiu-a, additou-a, alterou-a em muitas partes, e a illustrou com as
+notas mais indispensaveis para a geral intelligencia do texto: de modo
+que sahirá muito melhorada agora do que primeiro se imprimiu.
+
+
+
+
+VIAGENS NA MINHA TERRA.
+
+
+ Qu' il est glorieux d'ouvrir une nouvelle carrière, et de paraitre
+ tout-à-coup dans le monde savant un livre de découvertes à la main,
+ comme une cométe inattendue étincelle dans l'espace!
+
+ X. DE MAISTRE.
+
+
+
+
+CAPITULO I.
+
+
+ De como o auctor d'este erudito livro se resolveu a viajar na sua
+ terra, depois de ter viajado no seu quarto; e como resolveu
+ immortalizar-se escrevendo éstas suas viagens. Parte para Santarem.
+ Chega ao Terreiro-do-Paço, imbarca no vapor de Villa-Nova; e o que
+ ahi lhe succede. A Deducção-Chronologica e a Baixa de Lisboa. Lord
+ Byron e um bom charuto. Travam-se de razões os Ilhavos e os
+ Bordas-d'agua: os da calça larga levam a melhor.
+
+
+Que viage á roda do seu quarto quem está á beira dos Alpes, de hynverno,
+em Turim, que é quasi tam frio como San'Petersburgo--intende-se. Mas com
+este clima, com este ar que Deus nos deu, onde a laranjeira cresce na
+horta, e o mato é de murta, o proprio _Xavier de Maistre_, que aqui
+escrevesse, ao menos ia até o quintal.
+
+Eu muitas vezes, n'estas suffocadas noites d'estio, viajo até á minha
+janella para ver uma nesguita de Tejo que está no fim da rua, e me
+inganar com uns verdes de árvores que alli vegetam sua laboriosa
+infancia nos intulhos do Caes-do-Sodré. E nunca escrevi éstas minhas
+viagens nem as suas impressões: pois tinham muito que ver! Foi sempre
+ambiciosa a minha penna: pobre e suberba, quer assumpto mais largo. Pois
+hei de dar-lh'o. Vou nada menos que a Santarem: e protesto que de quanto
+vir e ouvir, de quanto eu pensar e sentir se hade fazer chronica.
+
+Era uma idea vaga, mais desejo que tenção, que eu tinha ha muito de ir
+conhecer as riccas varzeas d'esse Ribatejo, e saudar em seu alto cume a
+mais historica e monumental das nossas villas. Aballam-me as instancias
+de um amigo, decidem-se as tonterias de um jornal, que por mexeriquice
+quiz incabeçar em designio politico determinado a minha visita.
+
+Pois por isso mesmo vou:--_pronunciei-me_.
+
+São 17 d'este mez de julho, anno de graça de 1843, uma segunda-feira,
+dia sem nota e de boa estrea. Seis horas da manham a dar em San'Paulo, e
+eu a caminhar para o Terreiro-do-Paço. Chego muito a horas, invergonhei
+os meus madrugadores dos meus companheiros de viagem, que todos se
+prezam de mais matutinos homens que eu. Ja vou quasi no fim da praça,
+quando oiço o rodar grave mas pressuroso de uma carroça _d'ancien
+règime_: é o nosso chefe e commandante, o capitão da impreza, o Sr. C.
+da T. que chega em estado.
+
+Tambem são chegados os outros companheiros: o sino dá o último rebate.
+Partimos.
+
+N'uma _regata_ de vapores o nosso barco não ganhava decerto o premio. E
+se, no andar do progresso, se chegarem a instituir alguns isthmicos ou
+olympicos para este genero de carreiras--e se para ellas houver algum
+Pindaro ancioso de correr, em strophes e antistrophes, atraz do vencedor
+que vai coroar de seus hymnos immortaes--não cabe nem um triste minguado
+epodo a este cançado corredor de Villa-nova. É um barco serio e sizudo
+que se não mette n'essas andanças.
+
+Assim vamos de todo o nosso vagar contemplando este majestoso e
+pittoresco amphitheatro de Lisboa oriental, que é, vista de fóra, a mais
+bella e grandiosa parte da cidade, a mais characteristica, e onde, aqui
+e alli, algumas raras feições se percebem, ou mais exactamente se
+adivinham, da nossa velha e boa Lisboa das chronicas. Da Fundição para
+baixo tudo é prosaico e burguez, chato, vulgar e semsabor como um
+periodo da _Deducção Chronologica_, aqui e alli assoprado n'uma
+tentativa ao grandioso do mau gôsto, como alguma oitava menos rasteira
+do _Oriente_.
+
+Assim o povo, que tem sempre melhor gôsto e mais puro do que essa escuma
+descórada que anda ao decima das populações, e que se chama a si mesma
+por excellencia a _Sociedade_, os seus passeios favoritos são a
+Madre-de-Deus e o Beato e Xabregas e Marvilla e as hortas de Chellas. A
+um lado a immensa majestade do Tejo em sua maior extensão e podêr, que
+alli mais parece um pequeno mar mediterraneo; do outro a frescura das
+hortas e a sombra das árvores, palacios, mosteiros, sitios consagrados
+todos a recordações grandes ou queridas. Que outra sahida tem Lisboa que
+se compare em belleza com ésta? Tirado Bellem, nenhuma. E ainda assim,
+Bellem é mais arido.
+
+Já saudámos Alhandra, a toireira; Villa-franca, a que foi de Xira, e
+depois da Restauração, e depois outra vez de Xira, quando a tal
+restauração cahiu, como a todas as restaurações sempre succede e hade
+succeder, em odio e execração tal que nem uma pobre villa a quiz para
+sobrenome.
+
+--'A questão não era de restaurar nem de não restaurar, mas de se livrar
+a gente de um govérno de patuscos, que é o mais odioso e ingulhoso dos
+governos possiveis.'
+
+É a reflexão com que um dos nossos companheiros de viajem accudiu ao
+princípio de ponderação que eu ia involuntariamente fazendo a respeito
+de Villa-franca.
+
+Mas eu não tenho odio nenhum a Villa-franca, nem a esse famoso cirio que
+lá foi fazer à velha monarchia. Era uma coisa que estava na ordem das
+coisas, e que por fôrça havia de succeder. Este necessario e inevitavel
+reviramento por que vai passando o mundo, hade levar muito tempo, hade
+ser contrastado por muita reacção antes de completar-se...
+
+No entretanto vamos accender os nossos charutos, e deixemos os precintos
+aristocraticos da ré: á proa, que é paiz de cigarro livre!
+
+Não me lembra que lord Byron celebrasse nunca o prazer de fummar a
+bórdo. È notavel esquecimento no poeta mais imbarcadiço, mais marujo que
+ainda houve, e que até cantou o injôo, a mais prosaica e nauseante das
+miserias da vida! Pois n'um dia d'estes, sentir na face e nos cabellos a
+brisa refrigerante que passou por cima da agua, em quanto se aspiram
+mollemente as narcoticas exhalações de um bom cigarro da Havana, é uma
+das poucas coisas sinceramente boas que ha n'este mundo.
+
+Fummemos!
+
+Aqui está um campino fummando gravemente o seu cigarro de papel, que me
+vai imprestar lume.
+
+'Dou-lh'o eu, senhor...' accode cortezmente outra figura mui diversa,
+cujas feições, trajo e modos singularmente contrastam com os do
+_musarabe_ ribatejano.
+
+Accenderam-se os charutos, e attentámos mais de vagar na companhia em
+que estavamos.
+
+Era com effeito notavel e interessante o grupo a que nos tinhamos
+chegado, e destacava pittorescamente do resto dos passageiros, mistura
+hybrida de trajos e feições descharacterizadas e vulgares--que abunda
+nos arredores de uma grande cidade maritima e commercial.--Não assim
+este grupo mais separado com que fomos topar. Constava elle de uns dôze
+homens; cinco eram d'esses famosos athletas da Alhandra que vão todos os
+domingos colher o _pulverem olympicum_ da praça de Sanct'Anna, e que, á
+voz soberana e irresistivel de: _á unha, á unha, á cernelha!_.... correm
+a arcar com mais generosos, não mais possantes, animaes que elles, ao
+som das immensas palmas, e a trôco dos raros pintos por que se manifesta
+o sempre clamoroso e sempre vazio enthusiasmo das multidões. Voltavam á
+sua terra os meus cinco luctadores ainda em trajo de praça, ainda
+esmurrados e cheios de glória da contenda da vespera. Mas aopé d'estes
+cinco e de altercação com elles--ja direi porquê--estavam seis ou sette
+homens que em tudo pareciam os seus antipodas.
+
+Emvez do calção amarello e da jaqueta de ramagem que caracterizam o
+homem do forcado, estes vestiam o amplo saiote grego dos varinos, e o
+tabardo arrequifado siciliano de panno de varas. O campino, assim como o
+saloio, tem o cunho da raça africana; estes são da familia pelasga:
+feições regulares e moveis, a fórma agil.
+
+Ora os homens do norte estavam disputando com os homens do sul: a
+questão fôra interrompida com a nossa chegada á proa do barco. Mas um
+dos Ilhavos--bella e poetica figura de homem--voltando-se para nós,
+disse n'aquelle seu tom accentuado:--'Ora aqui está quem hade decidir:
+vejam-n'os senhores. Elles, por agarrar um toiro, cuidam que são mais
+que ninguem, que não ha quem lhes chegue. E os senhores, a serem ca de
+Lisboa, hãode dizer que sim. Mas nós...'
+
+--Nenhum de nós é de Lisboa: so este senhor que aqui vem agora.
+
+Era o C. da T. que chegava.
+
+--'Este conheço eu; este é dos nossos (bradou um homem de forcado, assim
+que o viu). Isto é um fidalgo como se quer. Nunca o vi n'uma ferra, isso
+é verdade; mas aqui de Vallada a Almeirim ninguem corre mais do que elle
+por sol e por chuva, e hade saber o que é um boi de lei, e o que é lidar
+com gado.'
+
+--'Pois oiçamos lá a questão.'
+
+--'Não é questão'--tornou o Ilhavo: 'mas se este senhor fidalgo anda por
+Almeirim, para Almeirim vamos nós, que era uma charneca o outro dia, e
+hoje é um jardim, benza-o Deus!--mas não foram os campinos que o
+fizeram, foi a nossa gente que o sachou e plantou, e o fez o que é, e
+fez terra das areas da charneca.'
+
+--'Lá isso é verdade'.
+
+--'Não, não é! Que está forte habilidade fazer dar trigo aqui aos
+nateiros do Tejo, que é como quem semeia em manteiga. É uma lavoira que
+a faz Deus por sua mão, regar e adubar e tudo: e o que Deus não faz, não
+fazem elles, que nem sabem ter mão n'esses monchões c'o plantio das
+arvores: so lá por cima é que algumas teem mettido, e é bem pouco para o
+rio que é, e as riccas terras que lhes levam as inchentes.--Mas nós, pe
+no barco pe na terra, tam depressa estamos a sachar o milho na charneca,
+como vimos por ahi abaixo com a vara no peito, e o saveiro a pegar
+n'area por não haver agua... mas sempre labutando pela vida'.
+
+--'A fôrça é que se falla'--tornou o campino para estabelecer a questão
+em terreno que lhe convinha.--'A fôrça é que se falla: um homem do campo
+que se deita alli á cernelha de um toiro que uma companha inteira de
+varinos lhe não pegava, com perdão dos senhores pelo rabo!..'
+
+E reforçou o argumento com uma gargalhada triumphante, que achou echo
+nos interessados circumstantes que ja se tinham apinhado a ouvir os
+debates.
+
+Os Ilhavos ficaram um tanto abatidos; sem perderem a consciencia da sua
+superioridade, mas acanhados pela algazarra.
+
+Parecia a esquerda de um parlamento quando ve sumir-se, no borburinho
+acintoso das turbas ministeriaes, as melhores phrases e as mais fortes
+razões dos seus oradores.
+
+Mas o orador ilhavo não era homem de se dar assim por derrotado. Olhou
+para os seus, como quem os consultava e animava, com um gesto
+expressivo, e voltando-se a nós, com a direita estendida aos seus
+antagonistas:
+
+--'Então agora como é de fôrça, quero eu saber, e estes senhores que
+digam, qual é que tem mais fôrça, se é um toiro ou se é o mar'.
+
+--'Essa agora!..'
+
+--'Queriamos saber'.
+
+--'É o mar'.
+
+--'Pois nós que brigâmos com o mar, oito e dez dias a fio n'uma
+tormenta, de Aveiro a Lisboa, e estes que brigam uma tarde com um toiro,
+qual é que tem mais fôrça?'
+
+Os campinos ficaram cabisbaixos; o publico imparcial applaudiu por ésta
+vez a opposição, e o Vouga triumphou do Tejo.
+
+
+
+
+CAPITULO II.
+
+
+ Declaram-se typicas, symbolicas e mythicas éstas viagens. Faz o A.
+ modestamente o seu proprio elogio. Da marcha da civilização; e
+ mostra-se como ella é dirigida pelo cavalleiro da Mancha D.
+ Quixote, e por seu escudeiro Sancho Pança.--Chegada a
+ Villa-Nova-da-Rainha, Supplicio de Tantalo.--A virtude galardão de
+ si mesma; e sophisma de Jeremias Bentham.--Azambuja.
+
+
+Éstas minhas interessantes viagens hãode ser uma obra prima, erudita,
+brilhante de pensamentos novos, uma coisa digna do seculo. Preciso de o
+dizer ao leitor, paraque elle esteja previnido; não cuide que são
+quaesquer d'essas rabiscaduras da moda que, com o titulo de _Impressões
+de Viagem_, ou outro que tal, fatigam as imprensas da Europa sem nenhum
+proveito da sciencia e do adiantamento da especie.
+
+Primeiro que tudo, a minha obra é um symbolo... é um mytho, palavra
+grega, e de moda germanica, que se mette hoje em tudo e com que se
+explica tudo... quanto se não sabe explicar.
+
+É um mytho porque--porque... Ja agora rasgo o veo, e declaro abertamente
+ao benevolo leitor a profunda idea que está occulta debaixo d'esta
+ligeira apparencia de uma viagemzita que parece feita a brincar, e no
+fim de contas é uma coisa séria, grave, pensada com um livro novo da
+feira de Leipsick, não das taes brochurinhas dos _boulevards_ de Paris.
+
+Houve aqui ha annos um profundo e cavo philosopho d'alêm Rheno, que
+escreveu uma obra sôbre a marcha da civilização, do intellecto--o que
+diriamos, para nos intenderem todos melhor, _o Progresso_. Descobriu
+elle que ha dois principios no mundo: o _espiritualista_, que marcha sem
+attender á parte material e terrena d'esta vida, com os olhos fittos em
+suas grandes e abstractas theorias, hirto, sêcco, duro, inflexivel, e
+que póde bem personalizar-se, symbolizar-se pelo famoso mytho do
+cavalleiro da Mancha, D. Quixote;--o _materialista_, que, sem fazer caso
+nem cabedal d'essas theorias, em que não crè, e cujas impossiveis
+applicações declara todas utopias, póde bem representar-se pela rotunda
+e anafada presença do nosso amigo velho, Sancho Pança.
+
+Mas, como na historia do malicioso Cervantes, estes dois principios tam
+avessos, tam desincontrados, andam comtudo junctos sempre; ora um mais
+atraz, ora outro mais adiante, impecendo-se muitas vezes, coadjuvando-se
+poucas, mas _progredindo_ sempre.
+
+E aqui está o que é possivel ao progresso humano.
+
+E eisaqui a chronica do passado, a historia do presente, o programma do
+futuro.
+
+Hoje o mundo é uma vasta Barataria, em que domina elrei Sancho.
+
+Depois hade vir D. Quixote.
+
+O senso commum virá para o millenio: reinado dos filhos de Deus! Está
+promettido nas divinas promessas... como elrei de Prussia prometteu uma
+constituição; e não faltou ainda, porque--porque o contracto não tem
+dia; prometteu mas não disse para quando.
+
+Ora n'esta minha viagem Tejo-a-riba está symbolizada a marcha do nosso
+progresso social: espero que o leitor intendesse agora. Tomarei cuidado
+de lh'o lembrar de vez em quando, porque receio muito que se esqueça.
+
+Somos chegados ao triste desimbarcadoiro de Villa-Nova-da-Rainha, que é
+o mais feio pedaço de terra alluvial em que ainda poisei os meus pés. O
+sol arde como ainda não ardeu este anno.
+
+Um immenso arraial de caleças, de machinhos, de burros e arrieiros, nos
+espera n'aquelle descampado africano. É forçoso optar entre os dois
+martyrios da caleça ou do macho. Do mal o menos... seja este.
+
+E acolá--oh supplício de Tantalo!--vejo duas possantes e nedeas mulas
+castelhanas jungidas a um vehiculo que, n'estas paragens e ao pé
+d'aquell'outros, me parece mais esplendido do que um landaw de
+Hyde-Park, mais elegante que um caleche de Long-champs, mais commodo e
+elastico do que o mais acrio briska da princeza Hellena. E com tudo--oh
+magico podêr das situações!--elle não é senão, uma substancial e bem
+apessoada traquitana de cortinas.
+
+Togados manes dos antigos desimbargadores, venerandas cabelleiras de
+anneis e castanhola, que direis, ó respeitadas sombras, se d'esse limbo
+onde estais esperando pela resurreição do Pêgas... e do livro
+quinto--vêdes este degenerado e espurio successor vosso, em calças
+largas, frak verde, chapeu branco, gravata de côr, chicotinho de
+caoutchouc na mão, prompto a cavalgar em mulinha de Palito-Metrico como
+um garraio estudantinho do segundo anno, e deitando olhos invejosos para
+esse natural, proprio e adscripticio modo de conducção desimbargatoria?
+Oh que direis vós! Com que justo desprêzo não olhareis para tanta
+degradação e derogação!
+
+Eu commungava silenciosamente commigo n'estas graves meditações, e
+revolvia incertamente no ânimo a ponderosa dúvida:--se o administrar
+justiça direita aos povos valia a pena de andar um desimbargador a
+pé!... Luctava no meu ser o Sancho Pança da carne com o D. Quixote do
+espirito--quando a Providencia, que nos maiores apertos e tentações nos
+não abandona nunca, me trouxe a generosa offerta de um amigo e
+companheiro do vapor, o Sr. L. S.: era sua a invejada carroça, e n'ella
+me deu logar até á Azambuja.
+
+A virtude é o galardão de si mesma, disse um philosopho antigo; e eu não
+creio no famoso ditto de Bentham, que sabedoria antiga seja um sophisma.
+O mais moderno é o mais velho, não ha dúvida; mas o antigo que dura
+ainda, é porque tem achado na experiencia a confirmação que o moderno
+não tem. Jeremias Bentham tambem fazia o seu sophisma como qualquer
+outro.
+
+Vamos percorrendo lentamente aquelle mal-composto marachão que poucos
+palmos se eleva do nivel baixo e salgadiço do solo: de hynverno não se
+passará sem perigo; ainda agora se não anda sem incómmodo e receio.
+Estamos em Villa-Nova e ás portas do nojento caravanseray, unico asylo
+do viajante n'esta, hoje, a mais frequentada das estradas do reino.
+
+Parece-me estar mais deserto e sujo, mais abandonado e em ruinas este
+asqueroso logarejo, desde que alli aopé tem a estação dos vapôres, que
+são a commodidade, a vida, a alma do Ribatéjo. Imagino que uma aldeia de
+Alarves nas faldas do Atlas deve ser mais limpa e commoda.
+
+Oh! Sancho, Sancho, nem siquer tu reinarás entre nós! Cahiu o carunchoso
+throno de teu predecessor, antagonista e ás vezes amo; açoitaram-te
+essas nadegas para desincantar a formosa _del Toboso_, proclamaram-te
+depois rei em _Barataria_, e n'esta tua provincia lusitana nem o
+paternal govêrno de teu estupido materialismo póde estabelecer-se para
+commodo e salvação do corpo; ja que a alma... oh! a alma...
+
+Fallemos n'outra coisa.
+
+Fujamos depressa d'este monturo.--É monótona, arida e sem frescura de
+árvores a estrada: apenas alguma rara oliveira mal-medrada, a longos e
+desiguaes espaços, mostra o seu tronco rachitico e braços contorcidos,
+ornados de ramusculos doentes, em que o natural verde-alvo das folhas é
+mais alvacento e desbotado que o costume. O solo porêm, com raras
+excepções, é optimo, e a trôco de pouco trabalho e insignificante
+despeza, daria uma estrada tam boa como as melhores da Europa.
+
+Dizia um secretario d'Estado meu amigo que para se repartir com
+egualdade o melhoramento das ruas por toda Lisboa, deviam ser obrigados
+os ministros a mudar de rua e bairro todos os tres mezes. Quando se
+fizer a lei de responsabilidade ministerial, para as kalendas gregas, eu
+heide propor que cada ministro seja obrigado a viajar por este seu reino
+de Portugal ao menos uma vez cada anno, como a desobriga.
+
+Ahi está a Azambuja, pequena mas não triste povoação, com visiveis
+signaes de vida, aceadas e com ar de confôrto as suas casas. É a
+primeira povoação que dá indicio de estarmos nas ferteis margens do Nilo
+portuguez.
+
+Corrémos a apear-nos no elegante estabelecimento que ao mesmo tempo
+cumulla as tres distinctas funcções, de _hotel, de restaurant e de café_
+da terra.
+
+Sancto Deus! que bruxa que está á porta! que antro lá dentro!... Cai-me
+a penna da mão.
+
+
+
+
+CAPITULO III.
+
+
+ Acha-se desappontado o leitor com a prosaica sinceridade do A.
+ d'estas viagens. O que devia ser uma estalagem nas nossas eras de
+ litteratura romantica?--Suspende-se o exame d'esta grave questão
+ para tractar, em prosa e verso, um mui difficil ponto de
+ economia-politica e de moral social.--Quantas almas é preciso dar
+ ao diabo, e quantos corpos se teem de intregar no cemiterio para
+ fazer um ricco n'este mundo.--Como se veio a descobrir que a
+ sciencia d'este seculo era uma grandessissima tola.--Rei de facto,
+ e rei de direito.--Belleza e mentira não cabem n'um sacco.--Põe-se
+ o A. a caminho para o pinhal da Azambuja.
+
+
+Vou _desappontar_ decerto o leitor benevolo; vou perder, pela minha
+fatal sinceridade, quanto em seu conceito tinha adquirido nos dois
+primeiros capitulos d'esta interessante viagem.
+
+Pois que esperava elle de mim agora, de mim que ousei declarar-me
+escriptor n'estas eras de romantismo, seculo das fortes sensações, das
+descripções a traços largos e _incisivos_ que se intalham n'alma e
+entram com sangue no coração?
+
+No fim do capitulo precedente parámos á porta de uma estalagem: que
+estalagem deve ser ésta, hoje no anno de 1843, ás barbas de Victor Hugo,
+com o Doutor Fausto a trotar na cabeça da gente, com os _Mysterios de
+Paris_ nas mãos de todo o mundo?
+
+Ha paladar que supporte hoje a classica _posada_ do Cervantes com o seu
+_mesonero_ gordo e grave, as pulhas dos seus arrieiros, e o mantear de
+algum pobre lorpa de algum Sancho! Sancho, o invisivel rei do seculo,
+aquelle _por quem hoje os reis reinam e os fazedores de leis decretam e
+afferem o justo!_ Sancho manteado por vis muleteiros! Não é da epocha.
+
+ Eu coroarei de trevo a minha espada,
+ De cenoiras, luzerna e betarrava,
+ Para cantar Harmódios e Aristógilons,
+ Que do tyranno jugo vos livraram
+ Da sciencia velha, inutil carunchosa,
+ Que elevava da terra, erguia, alçava
+ O que no homem ha de Ser divino,
+ E para os grandes feitos e virtudes
+ Lhe despegava o espirito da carne...
+
+Não: plantae batatas, ó geração de vapor e de pó de pedra, macadamisae
+estradas, fazei caminhos de ferro, construí passarolas de Icaro, para
+andar a qual mais depressa, éstas horas contadas de uma vida toda
+material, massuda e grossa como tendes feito ésta que Deus nos deu tam
+differente do que a hoje vivemos. Andae, ganha-pães, andae; reduzi tudo
+a cifras, todas as considerações d'este mundo a equações de interêsse
+corporal, comprae, vendei, agiotae.--No fim de tudo isto, o que lucrou a
+especie humana? Que ha mais umas poucas de duzias de homens riccos. E eu
+pergunto aos economistas-politicos, aos moralistas, se ja calcularam o
+número de individuos que é forçoso condemnar á miseria, ao trabalho
+desproporcionado, á desmoralização, á infamia, á ignorancia crapulosa, á
+desgraça invencivel, á penuria absoluta, para produzir um ricco?--Que
+lh'o digam no Parlamento inglez, onde, depois de tantas commissões de
+inquérito, ja deve de andar orçado o número de almas que é preciso
+vender ao diabo, o número de corpos que se tem de intregar antes do
+tempo ao cemiterio para fazer um tecelão ricco e fidalgo como Sir Robert
+Peel, um mineiro, um banqueiro, um grangeeiro--seja o que for: cada
+homem ricco, abastado, custa centos de infelizes, de miseraveis.
+
+Logo a nação mais feliz não é a mais ricca. Logo o princípio utilitario
+é a _mamona_ da injustiça e da reprovação. Logo...
+
+ There are more things in heaven and earth, Horatio,
+ Than are dreamt of in your philosophy.
+
+A sciencia d'este seculo é uma grandessissima tola.
+
+E como tal, presumpçosa e cheia do orgulho dos nescios.
+
+...........................................................................
+...........................................................................
+...........................................................................
+
+Vamos á descripção da estalagem. Não póde ser classica; assoviam-me
+todos esses rapazes de pera, bigode e charuto, que fazem litteratura
+cava e funda desde a porta do Marrare até ao café de Moscow...
+
+Mas aqui é que me apparece uma incoherencia inexplicavel. A sociedade é
+materialista; e a litteratura, que é a expressão da sociedade, é toda
+excessivamente e absurdamente e despropositadamente espiritualista!
+Sancho rei de facto, Quixote rei de direito!
+
+Pois é assim; e explica-se.--É a litteratura que é uma hypocrita: tem
+religião nos versos, charidade nos romances, fé nos artigos de
+jornal--como os que dão esmolas para pôr no _Diario_, que amparam
+orphans na _Gazeta_, e sustentam viuvas nos cartazes dos theatros.
+
+E fallam no Evangelho! Deve ser por escarneo. Se o leem, hãode ver lá
+que nem a esquerda deve saber o que faz a direita...
+
+Vamos á descripção da estalagem; e acabemos com tanta digressão.
+
+Não póde ser classica, está visto, a tal descripção.--Seja
+romantica.--Tambem não póde ser. Porque não? É pôr-lhe lá um
+_Chourineur_ a amolar um facão de palmo e meio para espatifar rez e
+homem, quanto incontrar,--uma _Fleur-de-Marie_ para dizer e fazer
+pieguices com uma rozeirinha pequenina, bonitinha, que morreu,
+coitadinha!--e um principe allemão incoberto, forte no sôcco britannico,
+immenso em libras sterlinas, profundo em gyria de cegos e ladrões... e
+ahi fica a Azambuja com uma estalagem que não tem que invejar á mais
+pintada e da moda n'este seculo elegante, delicado, verdadeiro, natural!
+
+É como eu devia fazer a descripção: bem o sei. Mas ha um impedimento
+fatal, invencivel--egual ao d'aquella famosa salva que se não deu... é
+que nada d'isso lá havia.
+
+E eu não quero calumniar a boa gente da Azambuja. Que me não leam os
+taes, porque eu heide viver e morrer na fé de Boileau:
+
+ Rien n'est beau que le vrai.
+
+Ja se diz ha muito anno que honra e proveito não cabem n'um sacco; eu
+digo que belleza e mentira tambem lá não cabem: e é a mais portugueza
+traducção que creio que se possa fazer d'aquelle ímmortal e evangelico
+hemystichio. A maior parte das bellezas da litteratura actual fazem-me
+lembrar aquellas formosuras que tentavam os sanctos eremitas na
+Thebaida. O pobre de Sancto Antão ou de S. Pacomio (Pacomio é melhor
+aqui) ficavam imbasbacados ao princípio; mas dava-lhe o coração uma
+pancada, olhavam-lhe para os pés...--Cruzes maldicto! Os pés não podia
+elle incobrir. E ao primeiro _abrenuntio_ do sancto, dissipava-se a
+belleza em muito fummo de inxofre, e ficava o diabo negro feio e cabrum
+como quem é, e sempre foi o pae da mentira.
+
+Nada, nada, verdade e mais verdade. Na estalagem da Azambuja o que havia
+era uma pobre velha a quem eu chamei bruxa, porque emfim que havia de eu
+chamar á velha suja e maltrapida que estava á porta d'aquella asquerosa
+casa?
+
+Havia lá ésta velha, com a sua môça mais môça mas não menos nojenta de
+ver que ella, e um velho meio paralytico meio demente que alli estava
+para um canto com todo o geito e traça de quem vem folgar agora na
+taberna porque ja bebeu o que havia de beber n'ella.
+
+Matava-nos a sêde; mas a agua alli é beber quartans. O vinho era atroz.
+Limonada? Não ha limões nem assucar.--Mandou-se um proprio á tenda no
+fim da villa. Vieram tres limões que me pareceram de uns que pendiam,
+quando eu vinha a férias, á porta do famoso botequim de Leiria.
+
+O assucar podia servir na última scena de M. de Pourceaugnac muito
+melhor que n'uma limonada. Mas misturou-se tudo com a agua das sezões,
+bebémos, pozemo-nos em marcha, e até agora não nos fez mal, com ser a
+mais abominavel, antipathica e suja beberagem que se póde imaginar.
+
+Caminhámos na mesma ordem até chegar ao famoso pinhal da Azambuja.
+
+
+
+
+CAPITULO IV.
+
+
+ De como o A. foi pensando e divagando, e em que pensava e divagava
+ elle, no caminho da villa da Azambuja até o famoso pinhal do mesmo
+ nome.--Do poeta grego e philosopho Démades, e do poeta e philosopho
+ inglez Addison, da casaca de penneiros e do palio atheniense, e de
+ outros importantes assumptos em que o A. quiz mostrar a sua
+ profunda erudição.--Discute-se a materia gravissima se é necessario
+ que um ministro d'estado seja ignorante e leigarraz.--Admiraveis
+ reflexões de zigzag em que se tracta de _re politica_ e de _re
+ amatoria_.--Descobre-se porfim que o A. estivera a sonhar em todo
+ este capitulo, e pede-se ao leitor benevolo que volte a folha e
+ passe ao seguinte.
+
+
+Eu darei sempre o primeiro logar á modestia entre todas as bellas
+qualidades.--Ainda sôbre a innocencia?--Ainda sim. A innocencia basta
+uma falta para a perder, da modestia so culpas graves, so crimes
+verdadeiros podem privar. Um accidente, um acaso podem destruir aquella,
+a ésta so uma acção propria, determinada e voluntaria.
+
+Bem me lembram ainda os dois versos do poeta Démades que são forte
+argumento de auctoridade contra a minha theoria; cuidei que tinha mais
+infeliz memoria. Heide pô-los aqui para que não falte a ésta grande obra
+das minhas viagens o merito da erudição, e lhe não chamem livrinho da
+moda: estou resolvido a fazer a minha reputação com este livro.
+
+ Aid ôs te kalle ka aretês polis,
+ Prôtoê sgathis hamartia deuteron de ais chunê.
+
+ Da belleza e virtude é a cidadella
+ A innocencia primeiro--e depois ella.
+
+Mas a auctoridade responde-se com auctoridade, e a texto com texto. E eu
+trago aqui na algibeira o meu Addison--um dos poucos livros que não
+largo nunca--e atiro com o philosopho inglez ao philosopho grego e fico
+triumphante: porque Addison não põe nada acima da modestia; e Addison,
+apezar da sua casaca de penneiros, é muito maior philosopho do que foi
+Démades com a sua tunica e o seu palio atheniense.
+
+O erudito e amavel leitor escapará d'ésta vez a mais citações: compre um
+_Spectator_, que é livro sem que se não póde estar, e veja _passim_.
+
+Eu gósto, bem se ve, de ir ao incôntro das objecções que me podem fazer;
+lembro-as eu mesmo paraque depois me não digam:--'Ah, ah! vinha a ver se
+pegava!'--Não senhor, não é o meu genero esse.
+
+Francamente pois... eis-ahi o que poderão dizer:--'Addison foi
+secretario d'Estado, e então...'--Então o quê? Não concebem um
+secretario d'Estado philosopho, um ministro poeta, escriptor elegante,
+cheio de graça e de talento? Não, bem vejo que não: teem a idea fixa de
+que um ministro d'Estado hade ser por fôrça algum semsaborão, malcriado
+e petulante. Mas isto é nos paizes adiantados em que ja é indifferente
+para a coisa-pública, em que povo nem principe lhes não importa ja, em
+que mãos se intregam, a que cabeças se confiam. Em Inglaterra não é
+assim, nem era assim no tempo de Addison. Fossem lá á rainha Anna que
+deixasse entrar no seu gabinete quatro calças de coiro sem criação nem
+instrucção, e não mais senão so porque este sabía jogar nos fundos,
+aquelle tinha boas tretas para o _canvassing_ de umas eleições, o outro
+era figura importante no _Freemasson's-hall_!
+
+Ja se ve que em nada d'isto ha a minima allusão ao feliz systema que nos
+rege: estou fallando de modestia, e nós vivemos em Portugal.
+
+A modestia comtudo quando é excessiva e se aproxima do acanhamento, do
+que no mundo se chama _falta de uso_--póde ser n'um homem quasi defeito
+inteiro. Na mulher é sempre virtude, realce de belleza ás formosas,
+disfarce de fealdade ás que o não são.
+
+Por mim, não conheço objecto mais lindo em toda a natureza, mais
+feiticeiro, mais capaz de arrebatar o espirito e inflammar o coração do
+que é uma joven donzella quando a modestia lhe faz subir o rubor ás
+faces, e o pejo lhe carrega brandamente nas palpebras... Pouco lume que
+tenha nos olhos, pouco regular que seja o semblante, menos airosa que
+seja a figura, parecer-vos-ha n'esse momento um anjo. E anjo é a virgem
+modesta, que traz no rosto debuxado sempre um ceo de virtudes...--De
+alguma belleza sei eu cujos olhos _côr da noite_ ou de _saphyra_
+(_dialec. poet. vet._), cujas faces de _leite e rosas_, dentes de
+_pérolas_, collo de _marfim_, transas de _ebano_ (a allusão é surtida,
+ha onde escolher) davam larga materia a boas grozas de sonetos--no
+antigo regimen dos sonetos, e hoje inspirariam myriadas de canções
+descabelladas e vaporosas, choradas na harpa ou gemidas no alahude.
+Comtanto que não seja lyra, que é classico, todo o instrumento,
+inclusivamente a bandurra, é egual deante da lei romantica.
+
+Ora pois, mas a tal belleza, por certo ar ala-moda, certo não-sei-quê de
+atrevido nos olhos, de deslavado na cara, e de descomposto nos ademanes,
+perde toda a graça e quasi a propria formosura de que a dotára a
+natureza...
+
+Vêde-me aquelles labios de carmim. Ha maio florido que tam lindo botão
+de rosa apresente ao alvorecer da madrugada?... Mas olhae agora como o
+riso da malicia lh'o desfolha tam feiamente n'uma desconcertada
+risada...
+
+Desvaneceu-se o prestigio.
+
+Não havia moço nem velho, homem do mundo ou sabio de gabinete que não
+désse metade dos seus prazeres, dos seus livros, da sua vida por um so
+beijo d'aquella bôcca... Agora talvez nem repetidos _avances_ lhe façam
+obter um namorante de profissão e officio... E hade pagá-lo adeantado, e
+porque preço!...
+
+...........................................................................
+...........................................................................
+
+Mas o que terá tudo isto com a jornada da Azambuja ao Cartaxo? A mais
+íntima e verdadeira relação que é possivel. É que a pensar ou a sonhar
+n'estas coisas fui eu todo o caminho, até me achar no meio do pinhal da
+Azambuja.
+
+Ahi parámos, e acordei eu.
+
+Sou sujeito a éstas distracções, a este sonhar acordado. Que lhe heide
+eu fazer? Andando, escrevendo, sonho e ando, sonho e fallo, sonho e
+escrevo. Francamente me confesso de somnambulo, de somniloquo, de...
+Não, fica melhor com seu ar de grego (tenho hoje a bossa hellenica n'um
+estado de tumescencia pasmosa!); digamos somnilogo, somnigrapho...
+
+A minha opinião sincera e _conscienciosa_ é que o leitor deve saltar
+éstas folhas, e passar ao capitulo seguinte, que é outra casta de
+capitulo.
+
+
+
+
+CAPITULO V.
+
+
+ Chega o A. ao pinhal da Azambuja, e não o acha. Trabalha-se por
+ explicar este phenomeno pasmoso. Bello rasgo de stylo
+ romantico.--Receita para fazer litteratura original com pouco
+ trabalho.--Transição classica: Orpheu e o bosque do Ménalo.--Desce
+ o A. d'estas grandes e sublimes considerações para as realidades
+ materiaes da vida: é desamparado pela hospitaleira traquitana e tem
+ de cavalgar na triste mula de arrieiro.--Admiravel choito do
+ animal. Memorias do marquez do F. que adorava o choito.
+
+
+Este é que é o pinhal da Azambuja?
+
+Não póde ser.
+
+Ésta, aquella antiga selva, temida quasi religiosamente como um bosque
+druidico! E eu que, em pequeno, nunca ouvia contar historia de Pedro de
+Mallas-artes, que logo, em imaginação, lhe não pozesse a scena aqui
+perto!... Eu que esperava topar a cada passo com a cova do capitão
+Roldão e da dama Leonarda!... Oh! que ainda me faltava perder mais ésta
+illusão...
+
+Por quantas maldicções e infernos adornam o stylo d'um verdadeiro
+escriptor romantico, digam-me, digam-me: onde estão os arvoredos
+fechados, os sitios medonhos d'esta espessura. Pois isto é possivel,
+pois o pinhal da Azambuja é isto?... Eu que os trazia _promptos e
+recortados_ para os collocar aqui todos os amaveis salteadores de
+Schiller, e os elegantes facinorosos do _Auberge-des-Adrets_, eu heide
+perder os meus chefes-d'obra! Que é perdê-los isto--não ter onde os
+pôr!..
+
+Sim, leitor benevolo, e por ésta occasião te vou explicar como nós hoje
+em dia fazemos a nossa litteratura. Ja me não importa guardar segredo,
+depois d'esta desgraça não me importa ja nada. Saberás pois, ó leitor,
+como nós outros fazemos o que te fazemos ler.
+
+Tracta-se de um romance, de um drama--cuidas que vamos estudar a
+historia, a natureza, os monumentos, as pinturas, os sepulchros, os
+edificios, as memorias da epocha? Não seja pateta, senhor leitor, nem
+cuide que nós o somos. Desenhar characteres e situações do _vivo_ da
+natureza, collori-los das côres verdadeiras da historia... isso é
+trabalho difficil, longo, delicado, exige um estudo, um talento, e
+sôbretudo um tacto!... Não senhor: a coisa faz-se muito mais facilmente.
+Eu lhe explico.
+
+Todo o drama e todo o romance precisa de:
+
+Uma ou duas damas,
+
+Um pae,
+
+Dois ou tres filhos, de dezanove a trinta annos,
+
+Um criado velho,
+
+Um monstro, incarregado de fazer as maldades,
+
+Varios tractantes, e algumas pessoas capazes para intermedios.
+
+Ora bem; vai-se aos figurinos francezes de Dumas, de Eug. Sue, de
+Victor-Hugo, e _recorta_ a gente, de cadaum d'elles, as figuras que
+precisa, gruda-as sôbre uma folha de papel da côr da moda, verde, pardo,
+azul--como fazem as raparigas inglezas aos seus albums e scrapbooks;
+fórma com ellas os grupos e situações que lhe parece; não importa que
+sejam mais ou menos disparatados. Depois vai-se ás chronicas, tiram-se
+uns poucos de nomes e de palavrões velhos; com os nomes chrismam-se os
+figurões, com os palavrões _illuminam-se_... (stylo de pintor
+pinta-monos).--E aqui está como nós fazemos a nossa litteratura
+original.
+
+E aqui está o precioso trabalho que eu agora perdi!
+
+Isto não póde ser! Uns poucos de pinheiros raros e infezados atravez dos
+quaes se estão quasi vendo as vinhas e olivedos circumstantes!.. É o
+desapontamento mais chapado e solemne que nunca tive na minha vida--uma
+verdadeira logração em boa e antiga phrase portugueza.
+
+E comtudo aqui é que devia ser, aqui é que é, geographica e
+topographicamente fallando, o bem conhecido e confrontado sitio do
+pinhal da Azambuja...
+
+Passaria por aqui algum Orpheu que, pelos magicos podêres da sua lyra,
+levasse atraz de si as árvores d'este antigo e classico Menalo dos
+salteadores lusitanos?
+
+Eu não sou muito difficil em admittir prodigios quando não sei explicar
+os phenomenos por outro modo. O pinhal da Azambuja mudou-se. Qual, de
+entre tantos Orpheus que a gente por ahi ve e ouve, foi o que obrou a
+maravilha, isso é mais difficil de dizer. Elles são tantos, e cantam
+todos tão bem! Quem sabe? Juntar-se-hiam, fariam uma companhia por
+acções, e negociariam um emprestimo harmonico com que facilmente se
+obraria então o milagre. É como hoje se faz tudo; é como se passou o
+thesoiro para o banco, o banco para as companhias de confiança... porque
+se não faria o mesmo com o pinhal da Azambuja?
+
+Mas aonde está elle então? faz favor de me dizer...
+
+Sim senhor, digo: _está consolidado_. E se não sabe o que isto quer
+dizer, leia os orçamentos, veja a lista dos tributos, passe pelos olhos
+os votos de confiança; e se depois d'isto, não souber aonde e como _se
+consolidou_ o pinhal d'Azambuja, abandone a geographia que visivelmente
+não é a sua especialidade, e deite-se a finança, que tem
+_bossa_;--fazemo-lo eleger ahi por Arcozello ou pela cidade eterna--é o
+mesmo--vai para a commissão de fazenda--depois lord do thesoiro,
+ministro: é _escalla_, não offendia nem a rabujenta constituição de 38,
+quanto mais a carta........................................................
+...........................................................................
+
+O peior é que no meio d'estes campos onde Troia fôra, no meio d'estas
+areias onde se acoitavam d'antes os pallidos medos do pinhal da
+Azambuja, a minha querida e bemfazeja traquitana abandonou-me; fiquei
+como o bom _Xavier de Maistre_ quando, a meia jornada do seu quarto, lhe
+perdeu a cadeira o equilibrio, e elle cahiu--ou ia caindo, ja me não
+lembro bem--estatellado no chão.
+
+Ao chão estive eu para me atirar, como criança amuada, quando vi voltar
+para a Azambuja o nosso commodo vehiculo, e deante de mim a infezada
+mulinha asneira que--ai triste!--tinha de ser o meu transporte d'alli
+até Santarem.
+
+Emfim o que hade ser, hade ser, e tem muita fôrça. Consolado com este
+tam verdadeiro quanto _elegante_ proverbio, levantei o ânimo á altura da
+situação e resolvi fazer próva de homem forte e supportador de
+trabalhos. Bifurquei-me resignadamente sôbre o cilicio do esfarrapado
+albardão, tomei na esquerda as impermeaveis redeas de coiro cru, e
+lancei o animalejo ao seu mais largo trote, que era um confortavel e
+amenissimo choito, digno de fazer as delicias do meu respeitavel e
+excentrico amigo, o marquez do F.
+
+Tinha a bossa, a paixão, a mania, a furia de choitar aquelle notavel
+fidalgo--o último fidalgo homem de lettras que deu ésta terra. Mas
+adorava o choito o nobre marquez. Conheci-o em París nos ultimos tempos
+da sua vida, ja octogenario ou perto d'isso: deixava a sua carruagem
+ingleza toda mollas e confortos para ir passear n'um certo cabriolet de
+praça que elle tinha marcado pelo sêcco e duro movimento vertical com
+que sacudia a gente. Obrigou-me um dia a experimenta-lo: era admiravel.
+Communicava-se da velha horsa normanda aos varaes, e dos varaes á concha
+do carro, tam inteiro e tam sem diminuição, o choito do execravel
+Babiéca! Nunca vi coisa assim. O marquez achava-lhe propriedades
+toni-purgativos, eu classifiquei-o de violentissimo drastico.
+
+Foi um dos homens mais extraordinarios e o portuguez mais notavel que
+tenho conhecido, aquelle fidalgo.
+
+Era feio como o peccado, elegante como um bugio, e as mulheres
+adoravam-n'o. Filho segundo, vivia de seus ordenados nas missões por que
+sempre andou, tractava-se grandiosamente, e legou valores consideraveis
+por sua morte. Imprimia uma obra sua, mandava tirar um unico exemplar,
+guardava-o e desmanchava as fòrmas....--Não acabo se coméço a contar
+historias do marquez do F.
+
+Piquemos para o Cartaxo, que são horas.
+
+
+
+
+CAPITULO VI.
+
+
+ Próva-se como o velho Camões não teve outro remedio senão misturar
+ o maravilhoso da mythologia com o do christianismo.--Da-se razão, e
+ tira-se depois, ao padre José Agostinho.--No meio d'estas
+ disceptações academico-litterarias vem o A. a descobrir que para
+ tudo é preciso ter fé n'este mundo. Diz-se _n'este mundo_, porque,
+ quanto ao outro ja era sabido.--Os Lusíadas, Fausto e a
+ Divina-Comedia.--Desgraça do Camões em ter nascido antes do
+ romantismo.--Mostra-se como a Styge e o Cocyto sempre são melhores
+ sitios que o Inferno e o Purgatorio.--Vai o A. em procura do
+ marquez de Pombal, e dá com elle nas ilhas Beatas do poeta
+ Alceu.--Partida de Whist entre os illustres finados.--Compaixão do
+ marquez pelos pobres homens de Ricardo Smith e J. B. Say.--Resposta
+ d'elle e da sua luneta ás perguntas peralvilhas do A.--Chegada a
+ este mundo e ao Cartaxo.
+
+
+O mais notavel, e não sei se diga, se continuarei aomenos a dizer, o
+mais indesculpavel defeito que até aqui esgravataram criticos e zoilos
+na Iliada dos povos modernos, os immortaes _Lusiadas_, é sem-dúvida a
+heterogenea e heterodoxa mistura da theologia com a mythologia, do
+maravilhoso allegorico do paganismo, com os graves symbolos do
+christianismo. A fallar a verdade, e por mais figas que a gente queira
+fazer ao padre José Agustinho--ainda assim! ver o padre Baccho revestido
+_in pontificalibus_ deante de um retabulo, não me lembra de que sancto,
+dizendo o seu _dominus vobiscum_ provavelmente a algum acholyto
+bacchante ou corybante, que lhe responde o _et cum spiritu tuo!_.. não
+se póde; é uma que realmente... E então aquelle famoso conceito com que
+elle acaba, digno da Phenix-Renascida:
+
+ O falso deus adora o verdadeiro!
+
+Desde que me intendo, que leio, que admiro os Lusiadas; interneço-me,
+chóro, insuberbeço-me com a maior obra de ingenho que ainda appareceu no
+mundo, desde a _Divina-Comedia_ até ao _Fausto_...
+
+O italiano tinha fé em Deus, o allemão no scepticismo, o portuguez na
+sua patria. É preciso crer em alguma coisa para ser grande--não so
+poeta--grande seja no que for. Uma Brizida velha que eu tive, quando era
+pequeno, era famosa chronista de historias da carochinha, porque
+sinceramente cria em bruxas. Napoleão cria na sua estrella, Lafayette
+creu na republica-rei de Luiz-Philippe; e, para que ousemos tambem
+_celebrare domestica facta_, todos os nossos grandes homens ainda hoje
+creem, um na juncta do crédito, outro nas classes inactivas, outro no
+mestre Adonirão, outro finalmente na belleza e realidade do systema
+constitucional que felizmente nos rege.
+
+Mas essas crenças são para os que se fizeram grandes com ellas. A um
+pobre homem o que lhe fica para crer? Eu, apezar dos criticos, ainda
+creio no nosso Camões: sempre cri.
+
+E comtudo, desde a edade da innocencia em que tanto me divertiam
+aquellas batalhas, aquellas aventuras, aquellas historias d'amores,
+aquellas scenas todas, tam naturaes, tam bem pintadas--até ésta fatal
+edade da experiencia, edade prosaica em que as mais bellas creações do
+espirito parecem macaquices deante das realidades do mundo, e os nobres
+movimentos do coração chymeras de enthusiastas--até ésta edade de
+saudades do passado e esperanças no futuro, mas sem gosos no
+presente--em que o amor da patria (tambem isto será phantasmagoria?), e
+o sentimento intimo do _bello_ me dão na leitura dos Lusiadas outro
+deleite diverso, mas não inferior ao que n'outro tempo me deram--eu
+senti sempre aquelle grande defeito do nosso grande poema: e nunca pude,
+por mais que buscasse, achar-lhe, justificação não digo--nem siquer
+desculpa.
+
+Mas até morrer aprender, diz o adagio: e assim é. E tambem é aphorismo
+de moral, applicavel outrosim a coisas litterarias: que para a gente
+achar a desculpa aos defeitos alheios, é considerar--é pôr-se uma pessoa
+nas mesmas circumstancias, ver-se involvido nas mesmas difficuldades.
+
+Aqui estou eu agora dando toda a desculpa ao pobre Camões, com vontade
+de o justificar, e prompto (assim são as charidades d'este mundo) a
+sahir a campo de lança em reste e a quebrá-la com todo o antagonista que
+por aquelle fraco o atacar.--E porque será isto? Porque chegou a minha
+hora; e--_si parva licet componnere magnis_ (a bossa proeminente hoje é
+a latina), aqui me acho eu com este meu capitulo nas mesmas
+difficuldades em que o nosso bardo se viu com o seu poema.
+
+Ja preveni as observações com o texto acima: bem sei quem era Camões, e
+quem sou eu; mas tracta-se da _intalação_, que é a mesma apezar da
+differença dos intalados. O auctor dos Lusiadas viu-se intalado entre a
+crença do seu paiz e as brilhantes tradições da poesia classica que
+tinha por mestra e modêlo.
+
+Não havia ainda então romanticos nem romantismo, o seculo estava muito
+atrazado. As odes de Victor-Hugo não tinham ainda desbancado as de
+Horacio; achavam-se mais lyricos e mais poeticos os esconjurios de
+Canidia, do que os pesadelos de um inforcado no oratorio; chorava-se com
+os _Tristes_ de Ovidio, porque se não lagrimejava com as meditações de
+Lamartine. Andromacha despedindo-se de Heitor ás portas de Troia, Priamo
+supplicante aos pés do matador do seu filho, Helena luctando entre o
+remorso do seu crime e o amor de Páris, não tinham ainda sido eclipsados
+pelas declamações da mãe Eva ás grades do paraizo terreal. O combate de
+Achilles e Heitor, das hostes argivas com as troianas, não tinha sido
+mettido n'um chinello pelas batalhas campaes dos anjos bons e dos anjos
+maus á metralhada por essas nuvens. Dido chorando por Eneas não tinha
+sido reduzida a donzella choramigas d'Alfama carpindo pelo seu _Manel_
+que vae para a India...
+
+Realmente o seculo estava muito atrazado: Milton não se tinha ainda
+sentado no logar de Homero, Shakspeare no de Euripedes, e lord Byron
+acima de todos: emfim não estava ainda anglizado o mundo, portanto _a
+marcha do intellecto_ no mesmo terreno, é tudo uma miseria.
+
+Ora pois, o nosso Camões, creador da epopea, e--depois do Dante--da
+poesia moderna, viu-se atrapalhado; misturou a sua crença religiosa com
+o seu credo poetico e fez, _tranchons le mot_, uma semsaboria.
+
+E aqui direi eu com o vate Elmano:
+
+ Camões, grande Camões, quam similhante
+ Acho teu fado ao meu quando os cotejo!
+
+Vou fazer outra semsaboria eu, n'este bello capitulo da minha
+obra-prima. Que remedio! Preciso fallar com um illustre finado, preciso
+de evocar a sombra de um grande genio que hoje habita com os mortos. E
+onde irei eu? Ao inferno? Espero que a divina justiça se apiedasse
+d'elle na hora dos ultimos arrependimentos. Ao purgatorio, ao empyreo?
+Apezar do exemplo da _Divina Comedia_, não me atrevo a fazer comedias
+com taes logares de scena,--e não sei, não gósto de brincar com essas
+coisas.
+
+Não lhe vejo remedio senão recorrer ao bem parado dos Elysios, da Styge,
+do Cocyto e seu termo: são terrenos neutros em que se póde parlamentar
+com os mortos sem compromettimento serio, e....
+
+Eis-me ahi no êrro de Camões--e nas unhas dos criticos; e as zagunchadas
+a ferver em cima de mim, que fiz, que aconteci....
+
+Mas, senhores, ponderem, venham ca: o que hade um homem fazer? O Dante
+não sei que gyria teve que baptisou Publio Virgilio Marão para lhe
+servir de cicerone nas regiões do inferno, do paraizo e do purgatorio
+christão, e teve tam boa fortuna que nem o queimou a Inquisição nem o
+descompoz a Crusca, nem siquer o mutilaram os censores, nem o
+perseguiram delegados por abuso de liberdade de imprensa, nem o mandaram
+para os dignos pares... Não se tinham ainda descoberto as mangações
+liberaes que se usam hoje: e as cartas que o povo tinha era a liberdade
+ganha e sustentada á ponta da espada, com muito coração e poucas
+palavras, muito patriotismo, poucas leis... e menos relatorios. Não
+havia em Florença nem gazeta para louvar as tolices dos ministros, nem
+ministros para pagar as tolices da gazeta.
+
+O Dante foi proscripto e exilado, mas não se ficou a escrever, deu
+catanada que se regallou nos inimigos da liberdade da sua patria.
+
+Quem dera ca um batalhão de poetas como aquelle!
+
+Que fosse porêm um triste vate de hoje escrever no seculo das luzes o
+que escrevia o Dante no seculo das trevas! Os proprios philosophos
+gritavam: Que escandalo! Atheus professos clamavam contra a
+irreverencia; gentes que não teem religião, nem a de Mafoma, bradavam
+pela religião: entravam a pôr carapuças nas cabeças uns dos outros,
+cahiam depois todos sôbre o poeta, e--se o não podessem inforcar, pelo
+menos declaravam-n'o republicano, que dizem elles que é uma injúria
+muito grande.
+
+Nada! viva o nosso Camões e o seu maravilhoso mistiforio; é a mais
+commoda invenção d'este mundo: vou-me com ella, e ralhe a crítica quanto
+quizer.
+
+Quero procurar no reino das sombras não menor pessoa que o marquez de
+Pombal: tenho que lhe fazer uma pergunta séria antes de chegar ao
+Cartaxo. E nós ja vamos por entre as riccas vinhas que o circundam com
+uma zona de verdura e alegria. Depressa o ramo de oiro que me abra ao
+pensamento as portas fataes--depressa a unctuosa sopetarra com que heide
+atirar ás tres gargantas do canzarrão. Vamos...
+
+Mas em que districto d'aquellas regiões acharei eu o primeiro ministro
+d'elrei D. José? Por onde está Ixion e Tantalo, por onde demora Sysipho
+e outros maganões que taes? Não; esse é um bairro muito triste, e
+arrisca-se a ter por administrador algum escandecido que me atice as
+orelhas.
+
+Nos Elysios com o pae Anchises e outros barbaças classicos do mesmo
+jaez? Eu sei? tambem isso não. Hade ser n'aquellas ilhas bemaventuradas
+de que falla o poeta Alceu e onde elle poz a passear, por eternas
+verduras, as almas tyrannicidas de Harmódio e Aristógiton...
+
+Oh! ésta agora!... Sebastião José de Carvalho e Mello, conde de Oeiras,
+marquez de Pombal, de companhia com os seus inimigos politicos!... Ahi é
+que se ingánam; não ha amigos nem inimigos politicos em se largando o
+mando e as pretenções a elle. Ora, passados os umbraes da eternidade, é
+de fé que se não pensa mais n'isso. C. J. X., que morreu a assignar uma
+portaria, ja tinha largado a penna quando chegou alli pelos _Prazeres_;
+quanto mais!...
+
+O homem hade estar nas ilhas _beatas_. Vamos lá...
+
+E ei-lo alli: lá está o bom do marquez a jogar o whist com o barão de
+Bidefeld, com o imperador Leopoldo e com o poeta Diniz. A partida deve
+de ser interessante, talvez aposta essa gente toda--esses manes todos
+que estão á roda. Que cara que fez o marquez a um finadinho que lhe foi
+metter o nariz nas cartas! Quem havia de ser! O intromettido de M. de
+Talleyrand. Estava-lhe cahindo. Mas não viu nada: o nobre marquez sempre
+soube esconder o seu jôgo.
+
+A mim é que elle ja me viu. 'Que diz? Ah!.. Sim senhor, sou portuguez; e
+venho fazer uma pergunta a V. Exa., esclarecer-me sôbre um ponto
+importante.'
+
+Deitou-me a tremenda luneta.
+
+--'Para que mandou V. Exa. arrancar as vinhas do Ribatejo?'
+
+Apertou a luneta no sobrôlho e sorriu-se.
+
+--'Ellas ahi estão centuplicadas, que até ja invadiram o pinhal de
+Azambuja. Fez V. Exa. um despotismo inutil; e agora...'
+
+'Agora quem bebe por lá todo esse vinho?'
+
+Não sabía o que lhe havia de responder. Elle sacudiu a cabelleira de
+anneis, virou-me as costas, deu o braço a Colbert, passou por-pé de
+Ricardo Smith e de J. Baptista Say, que estavam a disputar, incolheu os
+hombros em ar de compaixão, e foi-se por uma alameda muito viçosa que ia
+por aquelles deliciosos jardins dentro, e sumiu-se da nossa vista.
+
+Eu surdi ca n'este mundo, e achei-me emcima da azemola, aopé do grande
+café do Cartaxo.
+
+
+
+
+CAPITULO VII.
+
+
+ Reflexões importantes sôbre o Bois-de-Boulogne, as carruagens de
+ mollas, Tortoni, e o café do Cartaxo.--Dos cafés em geral, e de
+ como são o characteristico da civilização de um paiz.--O
+ Alfageme.--Hecatombe involuntaria immolada pelo A.--Historia do
+ Cartaxo.--Demonstra-se como a Gran'-Bretanha deveu sempre toda a
+ sua fôrça e toda a sua glória a Portugal.--Shakspeare e Laffitte,
+ Milton e Chateaumargot, Nelson e o principe de Joinville.--Próva-se
+ evidentemente que M. Guizot é a ruina de Albion e do Cartaxo.
+
+
+Voltar á meia-noite do _Bois-de-Boulogne_--o bosque por excellencia,
+descer, entre nuvens de poeira, o longo stadio dos Campos-Elysios,
+entrever, na rapida carreira, o obelisco de Luxor, as árvores das
+Tulherias, a columna da praça Vandomma, a magnificencia heteroclyta da
+'Magdalena', e emfim sentir parar, de uma soffreada magistral, os dois
+possantes inglezes que nos trouxeram quasi de um folego até ao
+'boulevard de Gand'; ahi entreabrir mollemente os olhos, levantando meio
+corpo dos regallados cochins de seda, e dizer: 'Ah! estamos em
+Tortoni... que delicia um sorvete com este calor!'--é seguramente, é dos
+prazeres maiores d'este mundo, sente-se a gente viver; é meia hora de
+existencia que vale dez annos de ser rei em qualquer outra parte do
+mundo.
+
+Pois acredite-me o leitor amigo, que sei alguma coisa dos sabores e
+dissabores d'este mundo, fie-se na minha palavra, que é de homem
+experimentado: o prazer de chegar por aquelle modo a Tortoni, o apear da
+elegante caleche balançada nas mais suaves mollas que fabricasse arte
+ingleza do puro aço de Suecia, não alcança, não se compara ao prazer e
+consolação de alma e corpo que eu senti ao apear-me de minha choiteira
+mula á porta do grande café do Cartaxo.
+
+Fazem idea do que é o café do Cartaxo? Não fazem. Se não viajam, se não
+sahem, se não vêem mundo ésta gente de Lisboa! E passam a sua vida entre
+o Chiado, a rua do Oiro e o theatro de San'Carlos, como hãode alargar a
+esphera de seus conhecimentos, desinvolver o espirito, chegar á altura
+do seculo?
+
+Coroae-vos de alface, e ide jogar o bilhar, ou fazer sonetos á dama
+nova, ide, que não prestais para mais nada, meus queridos Lisboetas; ou
+discuti os deslavados horrores de algum mellodrama velho que fugiu
+assoviado da 'Porte-Saint Martin' e veio esconder-se na Rua-dos-Condes.
+Tambem podeis ir aos Toiros--estão imbolados, não ha perigo...
+
+Viajar?.. qual viajar! até á Cova-da-Piedade, quando muito, em dia que
+lá haja cavallinhos. Pois ficareis alfacinhas para sempre, cuidando que
+todas as praças d'este mundo são como a do Terreiro-do-Paço, todas as
+ruas como a rua Augusta, todos os cafés como o do Marrare.
+
+Pois não são, não: e o do Cartaxo menos que nenhum.
+
+O café é uma das feições mais characteristicas de uma terra. O viajante
+experimentado e fino chega a qualquer parte, entra no café, observa-o,
+examina-o, estuda-o, e tem conhecido o paiz em que está, o seu govêrno,
+as suas leis, os seus costumes, a sua religião.
+
+Levem-me de olhos tapados onde quizerem, não me desvendem senão no café;
+e protesto-lhe que em menos de dez minutos lhe digo a terra em que estou
+se for paiz sublunar.
+
+Nós entrámos no café do Cartaxo, o grande café do Cartaxo; e nunca se
+incruzou turco em divan de seda do mais splendido harem de
+Constantinopla com tanto gôso de alma e satisfacção de corpo, como nós
+nos sentámos nas duras e asperas tábuas das esguias banquetas mal
+sarapintadas que ornam o magnífico estabelecimento bordalengo.
+
+Em poucas linhas se descreve a sua simplicidade classica: será um
+parallelogrammo pouco maior que a minha alcova; á esquerda duas mezas de
+pinho, á direita o mostrador invidraçado onde campeam as garrafas
+obrigadas de liquor de amendoa, de canella, de cravo. Pendem do tecto,
+laboriosamente arrendados por não vulgar tesoira, os pingentes de papel,
+convidando a lascivo repouso a inquieta raça das moscas. Reina uma
+frescura admiravel n'aquelle recinto.
+
+Sentámo-nos, respirámos largo, e entrámos em conversa com o dono da
+casa, homem de trinta a quarenta annos, de physionomia experta e
+sympathica, e sem nada do repugnante villão-ruim que é tam usual de
+incontrar por similhantes logares da nossa terra.
+
+--'Então que novidades ha por ca pelo Cartaxo, patrão?'
+
+--'Novidades! Por aqui não temos senão o que vem de Lisboa.--Ahi está a
+'Revolução' de hontem...'
+
+--'Jornaes, meu caro amigo! Vimos fartos d'isso. Diga-nos alguma coisa
+da terra. Que faz por ca o...'
+
+--'O mestre J. P., o 'Alfageme?''
+
+--'Como assim o Alfageme?'
+
+--'Chamam-lhe o Alfageme ao mestre J. P.: pois então! Uns senhores de
+Lisboa que ahi estiveram em casa do Sr. D. poseram-lhe esse nome, que a
+gente bem sabe o que é; e ficou-lhe, que agora ja ninguem lhe chama
+senão o Alfageme. Mas quanto a mim, ou elle não é Alfageme, ou não o
+hade ser muito tempo. Não é aquelle, não. Eu bem me intendo.'
+
+A conversação tornava-se interessante, especialmente para mim: quizemos
+profundar o caso.
+
+--'Muito me conta, Sr. patrão! Com que isto de ser Alfageme, parece-lhe
+que é coisa de?..
+
+--'Parece-me o que é, e o que hade parecer a todo o mundo. E alguma
+coisa sabemos, ca no Cartaxo, do que vai por elle. O verdadeiro Alfageme
+diz que era um espadeiro ou armeiro, cutileiro ou coisa que o valha, na
+Ribeira de Santarem; e que foi um homem capaz, e que tinha pelo povo, e
+que não queria saber de partidos, e que dizia elle: 'Rei que nos
+inforque, e papa que nos excommungue, nunca hade faltar. Assim, deixar
+os outros brigar, trabalhemos nós e ganhemos a nossa vida.' Mas que
+extrangeiros que não queria, que ésta terra que era nossa e co'a nossa
+gente se devia de governar. E mais coisas assim: e que porfim o deram
+por traidor e lhe tiraram quanto tinha.--Mas que lhe valeu o Condestavel
+e o não deixou arrazar, por que era homem de bem e fidalgo ás direitas.
+Pois não é assim que foi?'
+
+--'É, sim, meu amigo. Mas então d'ahi?'
+
+--'Então d'ahi o que se tira, é que quando havia fidalgos como o sancto
+Condestavel tambem havia Alfagemes como o de Santarem. E mais nada.'
+
+--'Perfeitamente. Mas porque chamaram ao mestre P. o Alfageme do
+Cartaxo?'
+
+--'Eu lhe digo aos senhores: o homem nem era assim nem era assado.
+Fallava bem, tinha sua labia com o povo. D'ahi fez-se juiz, pôs por ahi
+suas coisas a direito--Deus sabe as que elle intortou tambem!.. ganhou
+nome no povo, e agora faz d'elle o que quer. Se lhe der sempre para bem,
+bom será.--Os senhores não tomam nada?'
+
+O bom do homem visivelmente não queria fallar mais: e não deviamos
+importuná-lo. Fizemos o sacrificio de bom número de limões que
+expremémos em profundas taças--vulgo, copos de canada--e com agua e
+assucar, offerecemos as devidas libações ao genio do logar.
+
+Infelizmente o sacrificio não foi detodo incruento. Muitas hecatombes de
+myrmidões cahiram no holocausto, e lhe deram um cheiro e sabor que não
+sei se agradou á divindade, mas que injoou terrivelmente aos sacerdotes.
+
+Sahimos a visitar o nosso bom amigo, o velho D., a honra e a alegria do
+Ribatejo. Ja elle sabía da nossa chegada, e vinha no caminho para nos
+abraçar.
+
+Fomos dar, junctos, uma volta pela terra.
+
+É das povoações mais bonitas de Portugal, o Cartaxo, aceada, alegre;
+parece o bairro suburbano de uma cidade.
+
+Não ha aqui monumentos, não ha historia antiga: a terra é nova, e a sua
+prosperidade e crescimento datam de trinta ou quarenta annos, desde que
+o seu vinho começou a ter fama. Ja descahida do que foi, pela estagnação
+d'aquelle commercio, ainda é comtudo a melhor coisa da Borda-d'agua.
+
+Não tem historia antiga, disse; mas tem-n'a moderna e importantissima.
+
+Que memorias aqui não ficaram da guerra peninsular! Que espantosas
+borracheiras aqui não tomaram os mais famosos generaes, os mais
+distinctos militares da nossa _antiga e fiel_ alliada, que ainda então,
+ao menos, nos bebia o vinho!
+
+Hoje nem isso!.. hoje bebe a jacobina zurrapa de Bordeos, e as acerbas
+limonadas de Borgonha. Quem tal diria da conservativa Albion! Como póde
+uma leal goella britannica, rascada pelos acidos anarchicos d'aquellas
+vinagretas francezas, intoar devidamente o God-save-the-King em um
+_toast_ nacional! Como, sem Porto ou Madeira, sem Lisboa, sem Cartaxo,
+ousa um subdito britannico erguer a voz, n'aquella harmoniosa
+desafinação insular que lhe é propria e que faz parte de seu respeitavel
+character nacional--faz; não se riam: o inglez não canta senão quando
+bebe... alias quando está BEBIDO. _Nisi potus ad arma ruisse._ Inverta:
+_Nisi potus in cantum prorumpisse_... E pois, como hade elle assim
+_bebido_ erguer a voz n'aquelle sublime e tremendo hymno popular
+Rulle-Britannia!
+
+Bebei, bebei bem zurrapa franceza, meus amigos inglezes; bebei, bebei a
+pêso de oiro, essas limonadas dos burgraves e margraves de Allemanha;
+chamae-lhe, para vos illudir, chamae-lhe _hoc_, chamae-lhe _hic_,
+chamae-lhe o _hic haec hoc_ todo, se vos dá gôsto... que em poucos annos
+veremos o estado de _acetato_ a que hade ficar reduzido o vosso
+character nacional.
+
+Oh gente cega a quem Deus quer perder! pois não vêdes que não sois nada
+sem nós, que sem o nosso alchool, d'onde vos vinha espirito, sciencia,
+valor, ides cahir infallivelmente na antiga e priguiçosa rudeza saxonia!
+
+D'essas traidoras praias da França donde vos vai hoje o veneno corrosivo
+da vossa indole e da vossa fôrça, não tardará que tambem vos chegue
+outro Guilherme bastardo que vos conquiste e vos castigue, que vos faça
+arrepender, mas tarde, do criminoso êrro que hoje commetteis, ó
+insulares sem fe, em abandonar a nossa alliança. A nossa alliança sim, a
+nossa poderosa alliança, sem a qual não sois nada.
+
+O que é um inglez sem Porto ou Madeira... sem Carcavellos ou Cartaxo?
+
+Que se inspirasse Shakspeare com Lafitte, Milton com Chateaumargot--o
+chanceller Bacon que se dilluisse no melhor Borgonha... e veriamos os
+acidulos versinhos, os destemperados raciocininhos que faziam.
+
+Com todas as suas dietas, Newton nunca se lembrou de beber Johannisberg;
+Byron antes beberia _gin_, antes agua do Thamisa, ou do Pamiso, do que
+essas escorreduras das areias de Bordeos.
+
+Tirae-lhe o Porto aos vossos almirantes, e ninguem mais teme que torneis
+a ter outro Nelson. Entra nos planos do principe de Joinville fazer-vos
+beber da sua zurrapa: são tantos pontos de partido que lhe dais no seu
+jôgo.
+
+É M. Guizot quem perde a Inglaterra com a sua alliança; e tambem perde o
+Cartaxo. Por isso eu ja não quero nada com os doutrinarios.
+
+...........................................................................
+
+Ha dôze annos tornou o Cartaxo a figurar conspicuamente na historia de
+Portugal. Aqui, nas longas e terriveis luctas da última guerra de
+_successão_, esteve muito tempo o quartel-general do marquez de
+Saldanha.
+
+Alguns dythirambos se fizeram; alguns echos das antigas canções
+bacchicas do tempo da guerra peninsular ainda acordaram ao som dos
+hymnos constitucionaes.
+
+Mas o systema liberal, tirada a epocha das eleições, não é grande coisa
+para a indústria vinhateira, dizem. Eu não o creio porém; e tenho minhas
+boas razões, que ficam para outra vez.
+
+
+
+
+CAPITULO VIII.
+
+
+ Sahida do Cartaxo--A charneca. Perigo imminente em que o A. se acha
+ de dar em poeta e fazer versos.--Ultima revista do imperador D.
+ Pedro ao exército liberal.--Batalha de
+ Almoster.--Waterloo.--Declara o A. solemnemente que não é
+ philosopho e chega á ponte da Asseca.
+
+
+Eram dadas cinco da tarde, a calma declinava; montámos a cavallo, e
+cortámos por entre os viçosos pampanos que são a glória e a e tomado
+ânimo; breve, nos achámos em plena charneca.
+
+Bella e vasta planicie! Desafogada dos raios do sol, como ella se
+desenha ahi no horisonte tam suavemente! que delicioso aroma selvagem
+que exhalam éstas plantas, acres e tenazes de vida, que a cobrem, e que
+resistem verdes e viçosas a um sol portugez de julho!
+
+A doçura que mette n'alma a vista refrigerante de uma joven seara do
+Ribatejo nos primeiros dias de abril, ondulando lascivamente com a brisa
+temperada da primavera,--a amenidade bucolica de um campo minhoto de
+milho, á hora da rega, por meados de agosto, a ver-se-lhe pullar os
+caules com a agua que lhe anda por pé, e á roda as carvalheiras
+classicamente desposadas com a vide cuberta de racimos pretos--são ambos
+esses quadros de uma poesia tam graciosa e cheia de mimo, que nunca a
+dei por bem traduzida nos melhores versos de Theocrito ou de Virgilio,
+nas melhores prosas de Gesner ou de Rodrigues-Lobo.
+
+A majestade sombria o solemne de um bosque antigo e copado, o silencio e
+escuridão de suas moitas mais fechadas, o abrigo solitario de suas
+clareiras, tudo é grandioso, sublime, inspirador de elevados
+pensamentos. Medita-se alli por fôrça; isola-se a alma dos sentidos pelo
+suave adormecimento em que elles cahem... e Deus, a eternidade--as
+primitivas e innatas ideas do homem--ficam unicas no seu pensamento...
+
+É assim. Mas um rochedo em que me eu sente ao pôr do sol na gandra erma
+e selvagem, vestida apenas de pastio bravo, baixo, e tosqueado rente da
+bôcca do gado--diz-me coisas da terra e do ceo que nenhum outro
+espectaculo me diz na natureza. Ha um vago, um indeciso, um vaporoso
+n'aquelle quadro que não tem nenhum outro.
+
+Não é o sublime da montanha, nem o augusto do bosque, nem o ameno do
+valle. Não ha ahi nada que se determine bem, que se possa definir
+positivamente. Ha a solidão que é uma idea negativa...
+
+Eu amo a charneca.
+
+E não sou romanesco. Romantico, Deus me livre de o ser--ao menos, o que
+na algaravia de hoje se intende por essa palavra.
+
+Ora a charneca d'entre Cartaxo e Santarem, áquella hora que a passámos,
+começava a ter esse tom, e a achar-lhe eu esse incanto indefinivel.
+
+Sentia-me disposto a fazer versos... a quê? Não sei.
+
+Felizmente que não estava so; e escapei de mais essa caturrice.
+
+Mas foi como se os fizesse, os versos, como se os estivesse fazendo,
+porque me deixei cahir n'um verdadeiro estado poetico de distracção, de
+mudez--cessou-me a vida toda de _relação_, e não me sentia existir senão
+por dentro.
+
+Derepente acordou-me do lethargo uma voz que bradou:--'Foi aqui!... aqui
+é que foi, não ha dúvida'.
+
+--'Foi aqui o quê?'
+
+--'A última revista do imperador'.
+
+--'A última revista! Como assim a última revista! Quando? Pois?...'
+
+Então cahi completamente em mim, e recordei-me, com amargura e
+desconsolação, dos tremendos sacrificios a que foi condemnada ésta
+geração, Deus sabe para quê--Deus sabe se para expiar as faltas de
+nossos passados, se para comprar a felicidade de nossos vindouros...
+
+O certo é que alli comeffeito passára o imperador D. Pedro a sua última
+revista ao exército liberal. Foi depois da batalha d'Almoster, uma das
+mais lidadas e das mais insanguentadas d'aquella triste guerra.
+
+Toda a guerra civil é triste.
+
+E é difficil dizer para quem mais triste, se para o vencedor ou para o
+vencido.
+
+Ponham de parte questões individuaes, e examinem de boa fé: verão que,
+na totalidade de cada facção em que a nação se dividiu, os ganhos, se os
+houve para quem venceu, não balançam os padecimentos, os sacrificios do
+passado, e menos que tudo, a responsabilidade pelo futuro...
+
+Eu não sou philosopho. Aos olhos do philosopho, a guerra civil e a
+guerra extrangeira, tudo são guerras que elle condemna--e não mais uma
+do que a outra... a não ser Hobbes o ditto philosopho, o que é coisa
+muito differente.
+
+Mas não sou philosopho, eu: estive no campo de Waterloo, sentei-me aopé
+do Leão de bronze sôbre aquelle monte de terra amassado com o sangue de
+tantos mil, vi--e eram passados vinte annos--vi luzir ainda pela campina
+os ossos brancos das victimas que alli se immolaram a não sei quê... Os
+povos disseram que á liberdade, os reis que á realeza... Nenhuma d'ellas
+ganhou muito, nem para muito tempo com a tal victoria...
+
+Mas deixemos isso. Estive alli, e senti bater-me o coração com essas
+recordações, com essas memorias dos grandes feitos e gentilezas que alli
+se obraram.
+
+Porque será que aqui não sinto senão tristeza?
+
+Porque luctas fratricidas não podem inspirar outro sentimento e
+porque...
+
+Eu moía comigo so éstas amargas reflexões, e toda a belleza da charneca
+desappareceu deante de mim.
+
+N'esta desagradavel disposição de ânimo chegámos á ponte d'Asseca.
+
+
+
+
+CAPITULO IX.
+
+
+ Prologomenos dramatico-litterarios, que muito naturalmente levam,
+ apezar de alguns rodeios, ao retrospecto e reconsideração do
+ capitulo antecedente.--Livros que não deviam ter titulo, e titulos
+ que não deviam ter livro.--Dos poetas d'este seculo. Bonaparte,
+ Rotchild e Silvio-Péllico.--Chega-se ao fim d'estas reflexões e á
+ ponte da Asseca.--Traducção portugueza de um grande poeta.--Origem
+ de um dictado.--Junot na ponte da Asseca.--De como o A. d'este
+ livro foi jacobino desde pequeno.--Inguiço que lhe deram.--A
+ duqueza de Abrantes.--Chega-se emfim ao val de Santarem.
+
+
+Vivia aqui ha coisa de cinquenta para sessenta annos, n'esta boa terra
+de Portugal, um figurão exquisitissimo que tinha inquestionavelmente o
+instincto de descobrir assumptos dramaticos nacionaes--ainda, ás vezes,
+a arte de desenhar bem o seu quadro, de lhe grupar, não sem mérito, as
+figuras: mas ao pô-las em acção, ao collori-las, ao fazê-las fallar...
+boas noites! era semsaboria irremediavel.
+
+Deixou uma collecção immensa de peças de theatro que ninguem conhece, ou
+quasi ninguem, e que nenhuma soffreria, talvez, representação; mas rara
+é a que não poderia ser arranjada e appropriada á scena.
+
+Que mina tam ricca e fertil para qualquer mediano talento dramatico! Que
+bellas e portuguezas coisas se não podem extrahir dos treze volumes--são
+treze volumes e grandes!--do theatro de Ennio-Manuel de Figueiredo!
+Algumas d'essas peças, com bem pouco trabalho, com um dialogo mais vivo,
+um stylo mais animado, fariam comedias excelentes.
+
+Estão-me a lembrar éstas:
+
+'O Casamento da Cadea'--ou talvez se chame outra coisa, mas o assumpto é
+este; comedia cujos characteres são habilmente esboçados, funda-se
+n'aquella nossa antiga lei que fazia casar da prisão os que assim se
+suppunha podêrem reparar certos damnos de reputação feminina.
+
+'O fidalgo de sua casa', satyra mui graciosa de um tam commum ridiculo
+nosso.
+
+'As duas educações', bello quadro de costumes: são dois rapazes, ambos
+extrangeiramente educados, um francez, outro inglez, nenhum portuguez. É
+eminentemente comico, frisante, ou, segundo agora se diz á moda,
+'palpitante de actualidade.'
+
+'O cioso', comedia ja remoçada da antiga comedia de Ferreira e que em si
+tem os germens todos da mais ricca e original composição.
+
+'O avaro dissipador', cujo so titulo mostra o ingenho e invenção de quem
+tal assumpto concebeu: assumpto ainda não tractado por nenhum de tantos
+escriptores dramaticos de nação alguma, e que é todavia um vulgar
+ridiculo, todos os dias incontrado no mundo.
+
+São muitas mais, não fica n'estas, as composições do fertilissimo
+escriptor que, passadas pelo crivo de melhor gôsto, e animadas sôbretudo
+no stylo, fariam um razoavel repertorio para acudir á mingua dos nossos
+theatros.
+
+Uma das mais semsabores porêm, a que vulgarmente se haverá talvez pela
+mais semsabor, mas que a mim mais me diverte pela ingenuidade familiar e
+sympathica de seu tom magoado e melancholicamento chocho, é a que tem
+por titulo 'Poeta em annos de prosa'.
+
+E foi por ésta, foi por amor d'esta que me eu deixei descahir na
+digressão dramatico-litteraria do princípio d'este capitulo; pegou-se-me
+á penna porque se me tinha pregado na cabeça; e ou o capitulo não sabia,
+ou ella havia de sahir primeiro.
+
+Poeta em annos de prosa! Oh Figueiredo, Figueiredo, que grande homem não
+foste tu, pois imaginaste este titulo que so elle em si é um volume! Ha
+livros, e conheço muitos, que não deviam ter titulo, nem o titulo é nada
+n'elles.
+
+Faz favor de me dizer o de que serve, o que significa o 'Judeu errante'
+pôsto no frontispicio d'esse interminavel e mercatorio romance que ahi
+anda pelo mundo, mais errante, mais sem fim, mais immorredoiro que o seu
+prototypo?
+
+E ha titulos tambem que não deviam ter livro, porque nenhum livro é
+possivel escrever que os desimpenhe como elles merecem.
+
+'Poeta em annos de prosa' é um d'esses.
+
+Eu não leio nenhuma das raras coisas que hoje se escrevem
+verdadeiramente bellas, isto é, simples, verdadeiras, e por consequencia
+sublimes, que não exclame com sincero pesadume ca de dentro: 'Poeta em
+annos de prosa!'
+
+Pois este é seculo para poetas? ou temos nós poetas para este seculo?..
+
+Temos sim, eu conheço tres: Bonaparte, Silvio-Péllico e o barão de
+Rotchild.
+
+O primeiro fez a sua Iliada com a espada, o segundo com a paciencia, o
+último com o dinheiro.
+
+São os tres agentes, as tres entidades, as tres divindades da epocha.
+
+Ou cortar com Bonaparte, ou comprar com Rotchild, ou soffrer e ter
+paciencia com Silvio-Péllico.
+
+Todo o que fizer d'outra poesia--e d'outra prosa tambem--é tolo...
+
+Vieram-me éstas mui judiciosas reflexões a proposito do capitulo
+antecedente d'esta minha obra prima; e lancei-as aqui para instrucção e
+edificação do leitor benevolo.
+
+Acabei com ellas quando chegámos á ponte da Asseca.
+
+Esquecia-me dizer que d'aquelles tres grandes poetas so um está
+traduzido em portuguez--o Rotchild: não é litteral a traducção,
+agallegou-se e ficou muito suja de erros de imprensa mas como não ha
+outra...
+
+Ora d'onde veio este nome da Asseca? Algures aqui perto deve de haver
+sitio, logar ou coisa que o valha, com o nome de Meca; e d'ahi talvez o
+admiravel rifão portuguez que ainda não foi bem examinado como devia
+ser, e que decerto incerra algum grande dictame de moral primitiva:
+'andou por Secca (Asseca?) e Meca e olivaes de Santarem.'--Os taes
+olivaes ficam logo adiante. É uma ethymologia como qualquer outra.
+
+A ponte da Asseca corta uma varzea immensa que hade ser um vasto pahul
+de hynverno: ainda agora está a desangrar-se em agua por toda a parte.
+
+É notavel na historia moderna este sítio. Aqui n'um recontro com os
+nossos, foi Junot gravemente ferido, ferido na cara. _'Il ne sera plus
+beau garçon'_ disse o parlamentario francez que veio, depois da acção,
+tractar, creio eu, de troca de prisioneiros ou de coisa similhante. Mas
+inganou-se o parlamentario; Junot ainda ficou muito guapo e gentil homem
+depois d'isso.
+
+Tenho pena de nunca ter visto o Junot nem o Maneta,[1] as duas primeiras
+notabilidades que ouvi aclamar como taes e cujos nomes conhecí...
+Ingano-me: conheci primeiro o nome de Bonaparte. E lembra-me muito bem
+que nunca me persuadi que elle fossa o monstro disforme e horroroso que
+nos pintavam frades e velhas n'aquelle tempo. Imaginei sempre que, para
+excitar tantos odios e malquerenças, era necessario que fosse um bem
+grande homem.
+
+Desde pequeno que fui jacobino; ja se ve: e de pequeno me custou caro.
+Levei bons puchões de orelhas de meu pae por comprar na feira de
+San'Lazaro, no Porto, em vez das gaitinhas ou dos registos de sanctos,
+ou das outras bogigangas que os mais rapazes compravam... não imaginam o
+quê... um retrato de Bonaparte.
+
+Foi 'inguiço'--diria uma senhora do meu conhecimento que accredita
+n'elles: foi inguiço que aínda se não desfez e que toda a vida me tem
+perseguido.
+
+Quem me diria quando, por esse primeiro peccado politico da minha
+infancia, por esse primeiro tractamento duro, e--perdoe-me a respeitada
+memoria de meu sancto pae!--injustissimo, que me trouxe o mero instincto
+das ideas liberaes, quem me diria que eu havia de ser perseguido por
+ellas toda a vida! que apenas sahido da puberdade havia de ir a essa
+mesma França, á patria d'esses homens e d'essas ideas com quem a minha
+natureza sympathysava sem saber porquê, buscar asylo e guarida?
+
+Não vi ja quasi nenhum d'aquelles que tanto desejára conhecer; as ruinas
+do grande imperio estavam dispersas; os seus generaes mortos,
+desterrados, ou trajavam interesseiros e covardes as librés do
+vencedor...
+
+De todas as grandes figuras d'essa epocha, a que melhor conheci e
+tractei foi uma senhora, typo de graça, de amabilidade e de talento.
+Pouco foi o nosso tracto, mas quanto bastou para me incantar, para me
+formar no espirito um modêllo de valor e merecimento feminino que me
+veio a fazer muito mal.
+
+Custa depois a encher aquella altura que se marcou...
+
+Eis aqui como eu fiz esse conhecimento.
+
+Inda o estou vendo, coitado! o pobre C. do S., nobre, espirituoso,
+cavalheiro, fazendo-se perdoar todos os seus prejuizos de casta, que
+tinha como ninguem, por aquella polidez superior e affabilidade elegante
+que distingue o verdadeiro fidalgo (stylo antigo); inda o estou vendo,
+ja sexagenario, ja mais que 'ci-devant jeun'homme', o pescoço intallado
+na inflexivel gravata, os pés pegando-se-lhe, como os de Ovidio, ao
+limiar da porta--não que lh'os prendessem saudades, senão que lh'os
+paralysava a cakexia incipiente--mas o espirito joven a reagir e a
+teimar.
+
+--'Vamos!' disse elle 'hoje estou bom, sinto-me outro: quero
+apresentá-lo a madame de Abrantes. Está tam velha! Isto de mulheres não
+são como nós, passam muito depressa.'
+
+E o desgraçado tremiam-lhe as pernas, e suffocava-o a tosse.
+
+Tomámos uma 'citadine', e fomos comeffeito á nova e elegante rua chamada
+não impropriamente a rua de Londres, onde achámos rodeada de todo o
+esplendor do seu occaso aquella formosa estrella do imperio.
+
+Não quero dizer que era uma belleza; longe d'isso. Nem bella nem môça,
+nem airosa de faser impressão era a duqueza d'Abrantes. Mas em meia hora
+de conversação, de tracto, descubriam-se-lhe tantas graças, tanto
+natural, tanta amabilidade, um complexo tam verdadeiro e perfeito da
+mulher franceza, a mulher mais seductora do mundo, que involuntariamente
+se dizia a gente no seu coração: 'Como se está bem aqui!'
+
+Fallámos de Portugal, de Lisboa, do imperio--da restauração, da
+revolução de julho (isto era em 1831), de M. de Lafayette, de
+Luiz-Philippe, de Chateaubriand--o seu grande amigo d'ella--do
+_Sacré-Coeur_ e das suas elegantes devotas--fallámos artes, poesia,
+politica... e eu não tinha ânimo para acabar de conversar...
+
+Benevolo e paciente leitor, o que eu tenho decerto ainda é consciencia,
+um resto de consciencia: acabemos com éstas digressões e perennaes
+divagações minhas. Bem vejo que te deixei parado á minha espera no meio
+da ponte d'Asseca. Perdoa-me por quem es, dêmos d'espora ás mulinhas, e
+vamos que são horas.
+
+Ca estâmos n'um dos mais lindos e deliciosos sitios da terra: o valle de
+Santarem, patria dos rouxinoes e das madresilvas, cincta de faias bellas
+e de loureiros viçosos. D'isto é que não tem París, nem França nem terra
+alguma do occidente senão a nossa terra, e vale bem por tantas, tantas
+coisas que nos faltam.
+
+
+
+
+CAPITULO X.
+
+
+ Valle de Santarem--Namora-se o A. de uma janella que ve por entre
+ umas árvores.--Conjecturas várias a respeito da ditta
+ janella.--Similhança do poeta com a mulher namorada, e
+ inquestionavel inferioridade do homem que não é poeta.--Os
+ rouxinoes. Reminiscencia de Bernardim Ribeiro e das suas
+ saudades.--De como o A. tinha quasi completo o seu romance, menos
+ um vestido branco e uns olhos pretos.--Sahem verdes os olhos com
+ grande admiração e pasmo seu.--Verificam-se as conjecturas sôbre a
+ mysteriosa janella.--A menina dos rouxinoes.--Censura das damas
+ muito para temer, crítica dos elegantes muito para rir.--Começa o
+ primeiro episodio d'esta Odyssea.
+
+
+O valle de Santarem é um d'estes logares privilegiados pela natureza,
+sitios amenos e deleitosos em que as plantas, o ar, a situação, tudo
+está n'uma harmonia suavissima e perfeita: não ha alli nada grandioso
+nem sublime, mas ha uma como symetria de côres, de sons, de disposição
+em tudo quanto se ve e se sente, que não parece senão que a paz, a
+saude, o socêgo do espirito e o repouso do coração devem viver alli,
+reinar alli um reinado de amor e benevolencia. As paixões más, os
+pensamentos mesquinhos, os pezares e as villezas da vida não podem senão
+fugir para longe. Imagina-se por aqui o Eden que o primeiro homem
+habitou com a sua innocencia e com a virgindade do seu coração.
+
+Á esquerda do valle, e abrigado do norte pela montanha que alli se corta
+quasi a pique, está um masisso de verdura do mais bello viço e
+variedade. A faia, o freixo, o alamo enterlaçam os ramos amigos; a
+madresilva, a musqueta penduram de um a outro suas grinaldas e festões;
+a congossa, os fettos, a malva-rosa do vallado vestem e alcatifam o
+chão.
+
+Para mais realçar a belleza do quadro, ve-se por entre um claro das
+árvores a janella meia aberta de uma habitação antiga mas não
+dilapidada--com certo ar de confôrto grosseiro, e carregada na côr pelo
+tempo e pelos vendavais do sul a que está exposta. A janella é larga e
+baixa; parece mais ornada e tambem mais antiga que o resto do edificio
+que todavia mal se ve...
+
+Interessou-me aquella janella.
+
+Quem terá o bom gôsto e a fortuna de morar alli?
+
+Parei e puz-me a namorar a janella.
+
+Incantava-me, tinha-me alli como n'um feitiço.
+
+Pareceu-me entrever uma cortina branca... e um vulto por de traz...
+Imaginarão decerto! Se o vulto fosse feminino!.. era completo o romance.
+
+Como hade ser bello ver pôr o sol d'aquella janella!..
+
+E ouvir cantar os rouxinoes!..
+
+E ver raiar uma alvorada de maio!..
+
+Se haverá alli quem a aproveite, a deliciosa janella?.. quem apprecie e
+saiba gosar todo o prazer tranquillo, todos os sanctos gosos de alma que
+parece que lhe andam esvoaçando em tôrno?
+
+Se fôr homem é poeta; se é mulher está namorada.
+
+São os dois entes mais parecidos da natureza, o poeta e a mulher
+namorada: vêem, sentem, pensam, fallam como a outra gente não ve, não
+sente, não pensa nem falla.
+
+Na maior paixão, no mais acrysolado affecto do homem que não é poeta,
+entra sempre o seu tanto da vil prosa humana: é liga sem que se não
+lavra o mais fino de seu oiro. A mulher não; a mulher apaixonada devéras
+sublima-se, idealiza-se logo, toda ella é poesia; e não ha dor physica,
+interêsse material, nem deleites sensuaes que a façam descer ao positivo
+da existencia prosaica.
+
+Estava eu n'estas meditações, começou um rouxinol a mais linda e
+desgarrada cantiga que ha muito tempo me lembra de ouvir.
+
+Era aope da ditta janella!
+
+E respondeu-lhe logo outro do lado opposto; e travou-se entre ambos um
+desafio tam regular, em strophes alternadas tam bem medidas, tam
+accentuadas e perfeitas, que eu fiquei todo dentro do meu romance,
+esqueci-me de tudo o mais.
+
+Lembrou-me o rouxinol de Bernardim-Ribeiro, o que se deixou cahir n'agua
+de cançado.
+
+O arvoredo, a janella, os rouxinoes... áquella hora, o fim da tarde...
+que faltava para completar o romance?
+
+Um vulto feminino que viesse sentar-se áquele balcão--vestido de
+branco--oh! branco por fôrça... a frente descahida sôbre a mão esquerda,
+o braço direito pendente, os olhos alçados ao ceo... De que côr os
+olhos? Não sei, que importa! é amiudar muito demais a pintura, que deve
+ser a grandes e largos traços para ser romantica, vaporosa, desenhar-se
+no vago da idealidade poetica...
+
+--'Os olhos, os olhos...' disse eu pensando ja alto, e todo no meu
+extasi, 'os olhos... pretos.'
+
+--'Pois eram verdes!'
+
+--'Verdes os olhos... d'ella, do vulto da janella?'
+
+--'Verdes como duas esmeraldas orientaes, transparentes, brilhantes, sem
+preço.'
+
+--'Quê! pois realmente?.. É gracejo isso, ou realmente ha alli uma
+mulher, bonita, e?..'
+
+--'Alli não ha ninguem--ninguem que se nomeie hoje, mas houve... oh!
+houve um anjo, um anjo, que deve de estar no ceo.'
+
+<tb>
+
+--'Bem dizia eu que aquella janella...'
+
+--'É a janella dos rouxinoes.'
+
+--'Que lá estão a cantar.'
+
+--'Estão, esses lá estão ainda como ha dez annos--os mesmos ou outros,
+mas a _menina dos rouxinoes_ foi-se e não voltou.'
+
+--'A menina dos rouxinoes! que historia é essa? Pois devéras tem uma
+historia aquella janella?'
+
+--'É um romance todo inteiro, _todo feito_ como dizem os francezes e
+conta-se em duas palavras.'
+
+--'Vamos a elle. A menina dos rouxinoes, menina com olhos verdes! Deve
+ser interessantissimo. Vamos á historia ja.'
+
+--'Pois vamos. Apeemo'-nos e descancemos um bocado.'
+
+Ja se ve que este dialogo passava entre mim e outro dos nossos
+companheiros de viagem.
+
+Apeámo'-nos comeffeito; sentamo'-nos; e eisaqui a historia da _menina
+dos rouxinoes_ como ella se contou.
+
+É o primeiro episodio da minha Odyssea: estou com medo de entrar n'elle
+porque dizem as damas e os elegantes da nossa terra que o portuguez não
+é bom para isto, que em francez que ha outro não-sei-quê...
+
+Eu creio que as damas que estão mal informadas, e sei que os elegantes
+que são uns tolos; mas sempre tenho meu receio, porque emfim, enfim,
+d'elles me rio eu, mas poesia ou romance, musica ou drama de que as
+mulheres não gostem, é porque não presta.
+
+Ainda assim, bellas e amaveis leitoras, intendamo'nos: o que eu vou
+contar não é um romance, não tem aventuras inredadas, peripecias,
+situações e incidentes raros; é uma historia simples e singella,
+sinceramente contada e sem pretenção.
+
+Acabemos aqui o capitulo em fórma de prologo, e a materia do meu conto
+para o seguinte.
+
+
+
+
+CAPITULO XI.
+
+
+ Tracta-se do unico privilegio dos poetas que tambem os philosophos
+ quizeram tirar, mas não lhes foi concedido; aos romancistas
+ sim.--Exemplo de Aristoteles e Anacreonte.--O A., tendo declarado
+ no capitulo nono d'esta obra que não era philosopho, agora
+ confessa, quasi solemnemente, que é poeta, e pretende manter-se,
+ como tal, em seu direito.--De como S. M. elrei de Dinamarca tinha
+ menos juizo do que Yorick, seu bobo.--Doutrina d'este. Funda n'ella
+ o A. o seu admiravel systema de physiologia e pathologia
+ transcendente do coração. Por uma deducção appertada e cerrada da
+ mais constrangente logica vem a dar-se no motivo porque foi
+ concedido aos poetas o direito indefinido de andarem sempre
+ namorados.--Applicam-se todas éstas grandes theorias á posição
+ actual do A. no momento de entrar no episodio promettido no
+ capitulo antecedente.--Modestia e reserva delicada o obrigam a
+ duvidar da sua qualificação para o desimpenho: pede votos ás
+ amaveis leitoras. Decide-se que a votação não seja nominal, e
+ porquê.--Dido e a mana Annica.--Entra-se emfim na prometida
+ historia.--De como a velha estava á porta a dobar, e
+ imbaraçando-se-lhe a meada, chamou por Joaninha, sua neta.
+
+
+Este é o unico privilegio dos poetas: que até morrer podem estar
+namorados. Tambem não lhes conheço outro. A mais gente tem as suas
+epochas na vida, fóra das quaes lhes não é permittido apaixonarem-se.
+Pretenderam accolher-se ao mesmo beneficio os philosophos, mas não lhes
+foi consentido pela rainha Opinião, que é soberana absoluta e juiz
+supremo de que se não appella nem aggrava ninguem.
+
+Anacreonte cantou, de cabellos brancos, os seus amores, e não se
+extranhou. Aristoteles mal teria a barba russa quando foi d'aquelle seu
+último namôro porque ainda hoje lhe apouquentam a fama.
+
+Ora eu philosopho, seguramente não sou, ja o disse; de poeta tenho o meu
+pouco, padeci, a fallar a verdade, meus ataques assás agudos d'essa
+molestia, e bem podéra desculpar-me com elles de certas fragilidades de
+coração... Mas não senhor, não quero desculpar-me como quem tem culpa
+senão defender-me como quem tem razão e justiça por si.
+
+Estou, com o meu amigo Yorick, o ajuizadissimo bobo d'elrei de
+Dinamarca, o que alguns annos depois ressuscitou em Sterne com tam
+elegante penna, estou sim. 'Toda a minha vida' diz elle 'tenho andado
+apaixonado ja por esta ja por aquella princeza, e assim heide ir,
+espero, até morrer, firmemente persuadido que se algum dia fizer uma
+acção baixa, mesquinha, nunca hade ser senão no intervallo de uma paixão
+á outra: n'esses interregnos sinto fechar-se-me o coração, esfria-me o
+sentimento, não acho dez reis que dar a um pobre... por isso fujo ás
+carreiras de similhante estado; e mal me sinto acceso de novo, sou todo
+generosidade e benevolencia outra vez.'
+
+Yorick tem rasão, tinha muito mais razão e juizo que seu augusto amo,
+elrei de Dinamarca. Por pouco mais que se generalize o principio, fica
+indisputavel, inexcepcionavel para sempre e para tudo. O coração humano
+é como o estomago humano, não pode estar vazio, preciza de alimento
+sempre: são e generoso so as affeições lh'o podem dar; o odio, a inveja
+e toda a outra paixão má é estímulo que so irrita mas não sustenta. Se a
+razão e a moral nos mandam abster d'estas paixões, se as chymeras
+philosophicas, ou outras, nos vedarem aquellas, que alimento dareis ao
+coração, que hade elle fazer? Gastar-se sôbre si mesmo, consummir-se...
+Altera-se a vida, appressa-se a dissolução moral da existencia, a saude
+d'alma é impossivel.
+
+O que póde viver assim, vive para fazer mal ou para não fazer nada.
+
+Ora o que não ama, que não ama apaixonadamente, seu filho se o tem, sua
+mãe se a conserva, ou a mulher que prefere a todas, esse homem é o tal,
+e Deus me livre d'elle.
+
+Sôbretudo que não escreva: hade ser um massador terrivel. Talvez seja
+este o motivo da indefinida permissão que é dada aos poetas de andarem
+namorados sempre.
+
+O romancista gosa do mesmo fôro e tem as mesmas obrigações. É como o
+privilegio de desimbargador que tiravam d'antes os fidalgos, quando ser
+desimbargador valia alguma coisa... e tanta coisa!
+
+Como heide eu então, eu que n'esta grave Odyssea das minhas viagens
+tenho de inserir o mais interessante e mysterioso episodio d'amor que
+ainda foi contado ou cantado, como heide eu fazê-lo, eu que ja não tenho
+que amar n'este mundo senão uma saudade e uma esperança--um filho no
+berço e uma mulher na cova?..
+
+Será isto bastante? Dizei-o vós, ó benevolas leitoras, póde com isto so
+alimentar-se a vida do coração?
+
+--Póde sim.
+
+--Não póde, não.
+
+--Estão divididos os suffragios: peço votação.
+
+--Nominal?
+
+--Não, não.
+
+--Porquê?
+
+--Porque ha muita coisa que a gente pensa, e crê e diz assim a
+conversar, mas que não ousa confessar publicamente, professar aberta e
+nomeadamente no mundo...
+
+Ah! sim... elle é isso? Bem as intendo, minhas senhoras: reservemos
+sempre uma sahida para os casos difficeis, para as circumstancias
+extraordinarias. Não é assim?
+
+Pois o mesmo farei eu.
+
+E pôsto que hoje, faz hoje um mez, em tal dia como hoje, dia para sempre
+assignalado na minha vida, me apparecesse uma visão, uma visão celeste
+que me surpreendeu a alma por um modo novo e extranho, e do qual não
+podia dizer decerto como a rainha Dido á mana Annica:
+
+ Reconheço o queimar da chamma antiga,
+ Agnosco veteris vestigia flammae;
+
+pôsto que a visão passou e desappareceu... mas deixou gravada n'alma a
+certeza de que... Pôsto que seja assim tudo isto, a confidencia não
+passará d'aqui, minhas senhoras: tanto basta para se saber que estou
+sufficientemente habilitado para chronista da minha historia, e a minha
+historia é ésta.
+
+Era no anno de 1832, uma tarde de verão como hoje calmosa, sêcca, mas o
+ceo puro e desabafado. Á porta d'essa casa entre o arvoredo, estaca
+sentada uma velhinha bem passante dos settenta, mas que o não mostrava.
+Vestia uma especie de tunica rosa que apertava na cintura com um largo
+cinto de coiro preto, e que fazia resahir a alvura da cara e das mãos
+longas, descarnadas, mas não ossudas como usam de ser mãos de velhas;
+toucava-se com um lenço da mais escrupulosa brancura, e pôsto de um
+geito particular a modo de toalha de freira; um mandil da mesma
+brancura, que tinha no peito e que affectava, não menos, a fórma de um
+escapulario de monja, completava o extranho vestuario da velha. Estava
+sentada n'uma cadeira baixa do mais classico feitio: textualmente
+parecia a que serviu de modêllo a Raphael para o seu bello quadro da
+_Madonna della Sedia_.
+
+Como nota historica e illustração artistica, seja-me permittido juntar
+aqui em parenthesis que, não ha muito, vi em casa de um sapateiro
+remendão, em Lisboa, no Bairro-alto, um cadeira tal e qual; torneados
+pyramidaes, simples, sem nobreza, mas elegantes.
+
+Tornemos á velhinha.
+
+Estava ella alli sentada na ditta cadeira, e deante de si tinha uma
+dobadoira, que se movia regularmente com o tirar do fio que lhe vinha
+ter ás mãos a inrollar-se no ja crescido novello.
+
+Era o unico signal de vida que havia em todo esse quadro. Sem isso,
+velha, cadeira, dobadoira, tudo pareceria uma graciosa sculptura de
+Antonio Ferreira ou um d'aquelles quadros tam verdadeiros do morgado de
+Setubal.
+
+O movimento bem visivel da dobadoira era regular, e respondía ao
+movimento quasi imperceptivel das mãos da velha. Era regular o
+movimento, mas durava um minuto e parava, depois ia seguido outros dous,
+tres minutos, tornava a parar: e n'esta regularidade de intermitencias
+se ia alternando como o pulso de um que treme sesões.
+
+Mas o velha não tremia, antes se tinha muito direita e aprumada: o parar
+do seu lavor era porque o trabalho interior do espirito dobrava, de vez
+em quando, de intensidade, e lhe suspendia todo o movimento externo. Mas
+a suspensão era curta e mesurada; reagia a vontade, e a dobadoira
+tornava a andar.
+
+Os olhos da velha é que tinham uma expressão singular: voltada para o
+poente, não os tirou d'essa direcção nem os inclinava de modo algum para
+a dobadoira que lhe ficava um pouco mais á esquerda. Não pestanejavam, e
+o azul de suas pupillas, que devia de ter sido brilhante como o das
+saphyras, parecia desbotado e sem lume.
+
+O movimento da dobadoira estacou agora de repente, a velha poisou
+tranquillamente as mãos e o novello no regaço, e chamou para dentro da
+casa:
+
+--'Joanninha?'
+
+Uma voz doce, pura, mas vibrante, d'estas vozes que se ouvem rara vez,
+que retinem dentro d'alma e que não esquecem nunca mais, respondeu de
+dentro:
+
+--'Senhora? Eu vou, minha avó, eu vou.'
+
+--'Querida filha!.. Como ella me ouviu logo! Deixa, deixa: vem quando
+podéres. É a meada que se me imbaraçou.'
+
+A velha era cega, cega de gotta-serena, e paciente, resignada como a
+providencia misericordiosa de Deus permitte quasi sempre que sejam os
+que n'este mundo destinou á dura provança de tam desconsolado martyrio.
+
+
+
+
+CAPITULO XII.
+
+
+ De como Joanninha desimbaraçou a meada da avó, e do mais que
+ aconteceu.--Que casta de rapariga era Joanninha.--Dá o A. insigne
+ próva de ingenuidade e boa fe confessando um grave senão do seu
+ Ideal. Insiste porém que é um adoravel deffeito.--Em que se parece
+ uma mulher desannellada com um Sansão tosquiado.--Pasmosas
+ monstruosidades da natureza que desmentem o credo velho dos
+ peralvilhos.--Os olhos verdes de Joanninha.--Religião dos olhos
+ pretos strenuamente professada pelo A. Perigo em que ella se acha á
+ vista de uns olhos verdes.--De como estando a avó e a neta a
+ conversar muito de mano a mano, chega Frei Diniz e se interrompe a
+ conversação.--Quem era Frei Diniz.
+
+
+--'Aqui estou, minha avó: é a sua meada?.. eu lh'a indireito:'--disse
+Joanninha sahindo de dentro, e com os braços abertos para a velha.
+Apertou-a n'elles com innefavel ternura, beijou-a muitas vezes, e
+tomando-lhe o novello das mãos n'um instante desimbaraçou o fio e lh'o
+tornou a intregar.
+
+A velha surria com aquelle surriso satisfeito que exprime os tranquillos
+gosos de alma, e que parecia dizer: 'Como eu sou feliz ainda, apezar de
+velha e de cega! Bemdito sejais, meu Deus.'
+
+Ésta última phrase, ésta bençam de um coração agradecido, que spira
+suavemente para o ceo como sobe do altar o fummo do incenso consagrado,
+ésta última phrase trasbordou-lhe e sahiu articulada dos labios:
+
+--'Bemditto seja Deus' minha filha, minha Joanninha, minha querida neta!
+E Elle te abençoe tambem, filha!'
+
+--'Sabe que mais, minha avó? Basta de trabalhar hoje, são horas de
+merendar'.
+
+--'Pois merendemos'.
+
+Joannninha foi dentro da casa, trouxe uma banquinha redonda, cubriu-a
+com uma toalha alvissima, pôs em cima fructa, pão, queijo, vinho,
+chegou-a para aopé da velha, tirou-lhe o novello da mão, e arredou a
+dobadoira. A velha comeu alguns bagos de um cacho doirado que a neta lhe
+escolheu e pôs nas mãos, bebeu um trago de vinho, e ficou callada e
+quieta, mas ja sem a mesma expressão de felicidade e contentamento
+socegado que ainda agora lhe luzia no rosto.
+
+As animadas feições de Joanninha reflectiam sympathicamente a mesma
+alteração.
+
+Joanninha não era bella, talvez nem galante siquer no sentido popular e
+expressivo que a palavra tem em portuguez, mas era o typo da gentileza,
+o ideal da spiritualidade. N'aquelle rosto, n'aquelle corpo de dezeseis
+annos, havia por dom natural e por uma admiravel symetria de proporções
+toda a elegancia nobre, todo o desimbaraço modesto, toda a flexibilidade
+graciosa que a arte, o uso e a conversação da côrte e da mais escolhida
+companhia vêem a dar a algumas raras e privilegiadas creaturas no mundo.
+
+Mas n'esta foi a natureza que fez tudo, ou quasi tudo, e a educação nada
+ou quasi nada.
+
+Poucas mulheres são muito mais baixas, e ella parecia alta: tam
+delicada, tam _elancée_ era a fórma airosa de seu corpo.
+
+E não era o garbo teso e aprumado da perpendicular _miss_ ingleza que
+parece fundida de uma so peça; não, mas flexivel e ondulante como a
+hástea joven da árvore que é direita mas dobradiça, forte da vida de
+toda a seiva com que nasceu, e tenra que a estalla qualquer vento forte.
+
+Era branca, mas não d'esse branco importuno das loiras, nem do branco
+terso, duro, marmoreo das ruivas--sim d'aquella modesta alvura da cera
+que se illumina de um pallido reflexo de rosa de Bengalla.
+
+E d'outras rosas, d'estas rosas-rosas que denunciam toda a franqueza de
+um sangue que passa livre pelo coração e corre á sua vontade por
+artérias em que os nervos não dominam, d'essas não as havia n'aquelle
+rosto: rosto sereno como é sereno o mar em dia de calma, porque dorme o
+vento... Alli dormiam as paixões.
+
+Que se levante a mais ligeira brisa, basta o seu macio bafejo para
+increspar a superficie espelhada do mar.
+
+Sussurre o mais ingenuo e suave movimento d'alma no primeiro acordar das
+paixões, e verão como se sobresaltam os musculos agora tam quietos
+d'aquella face tranquilla.
+
+O nariz ligeiramente aquilino: a bôcca pequena e delgada não cortejava
+nem desdenhava o surriso, mas a sua expressão natural e habitual era uma
+gravidade singela que não tinha a menor aspereza nem doutorice.
+
+Ha umas certas boquinhas gravesinhas e espremidinhas pela doutorice que
+são a mais abhorrecidinha coisa e a mais pequinha que Deus permitte
+fazer ás suas creaturas femeas.
+
+Em perfeita harmonia de côr, de fórma e de tom com a fina gentileza
+d'estas feições, os cabellos de um castanho tam escuro que tocava em
+preto, cahiam de um lado e outro da face, em tres longos, deseguaes e
+mal inrolados canudos, cuja ondada spiral se ia relaxando e diminuindo
+para a extremidade, até lhe tocarem no collo quasi lisos.
+
+Em stylo de arte--no stylo da primeira e da mais bella das bellas artes,
+a _toilete_--este é um defeito; bem sei.
+
+Que votos, que novenas se não fazem a San'Barometro nas vésperas de um
+baile para lhe pedir uma atmosphera sêcca e benigna que deixe conservar,
+até á quarta contradança ao menos, a preciosa obra de carrapito e ferro
+quente, de macassar e mandolina que tanto trabalho e tanto tempo, tantos
+sustos e cuidados custou!
+
+Bem sei pois que é defeito, é, será... mas que adoravel defeito! Que
+deliciosas imagens que excita de abandôno--passe o gallicismo--de
+confiança, de absoluta e generosa renúncia a todo o caprixo, de perfeita
+e completa abdicação de toda a vontade propria!
+
+Em geral, as mulheres parecem ter no cabello a mesma fé que tinha
+Sansão: o que n'elle se ia em lh'os cortando, cuidam ellas que se lhes
+vai em lh'os desannellando? Talvez; e eu não estou longe de o crer:
+canudo inflexivel, mulher inflexivel.
+
+Os peralvilhos negam a existencia do tal canudo _in rerum natura_, dizem
+que é como a ave phenix que nasceu de nossos avós não saberem grego. Eu
+não digo tal, porque tenho visto descuidar-se a natureza em pasmosas
+monstruosidades.
+
+Emfim suspendâmos, sem o terminar, o exame d'esta profunda e
+interessante questão. Fica addiada para um capitulo _ad hoc_, e voltemos
+á minha Joanninha.
+
+Cahiam d'um lado e de outro da sua face gentil aquelles graciosos
+anneis; e o resto do cabello, que era muito, ia intrançar-se, e
+inrolar-se com singela elegancia abaixo da coroa de uma cabeça pequena,
+estreita e do mais perfeito modêlo.
+
+As sobrancelhas, quasi pretas tambem, desenhavam-se n'uma curva de
+extrema pureza; a as pestanas longas e assedadas faziam sombra na alvura
+da face.
+
+Os olhos porêm--singular capricho da naturesa, que no meio de toda esta
+harmonia quiz lançar uma nota de admiravel discordancia! Como poderoso e
+ousado _maestro_ que, no meio das pbrases mais classicas e deduzidas da
+sua composição, atira derepente com um som agudo e stridulo que ninguem
+espera e que parece lançar a anarchia no meio do rythmo musical... os
+dillettantes arripiam-se, os professores benzem-se; mas aquelles cujos
+ouvidos lhes levam ao coração a musica, e não á cabeça, esses estremecem
+de admiração e enthusiasmo... Os olhos de Joanninha eram verdes... não
+d'aquelle verde descorado e traidor da raça felina, não d'aquelle verde
+mau e destingido que não é senão azul imperfeito, não; eram
+verdes-verdes, puros e brilhantes como esmeraldas do mais subido
+quilate.
+
+São os mais raros e os mais fascinantes olhos que ha.
+
+Eu, que professo a religião dos olhos pretos, que n'ella nasci e n'ella
+espero morrer... que alguma rara vez que me deixei inclinar para a
+heretica pravidade do ôlho azul, soffri o que é muito bem feito que
+soffra todo o renegado... eu firme e inabalavel, hoje mais que nunca,
+nos meus principios, sinceramente persuadido que fóra d'elles não ha
+salvação, eu confesso todavia que uma vez, uma unica vez que vi dos taes
+olhos verdes, fiquei halucinado, senti abalar-se pelos fundamentos o meu
+catholicismo, fugi escandalizado de mim mesmo, e fui retemperar a minha
+fé vacillante na contemplação das eternas verdades, que so e unicamente
+se incontram aonde está toda a fé e toda a crença... n'uns olhos sincera
+e lealmente pretos.
+
+Joanninha porêm tinha os olhos verdes; e o effeito d'esta rara feição
+n'aquella physionomia á primeira vista tam discordante--era em verdade
+pasmosa. Primeiro fascinava, halucinava, depois fazia uma sensação
+inexplicavel e indecisa que doía e dava prazer ao mesmo tempo: porfim
+pouco o pouco, estabelecia-se a corrente magnetica tam poderosa, tam
+carregada, tam incapaz de solução-de-continuidade, que toda a lembrança
+de outra coisa desapparecia, e toda a intelligencia e toda a vontade
+eram absorvidas.
+
+Resta so accrescentar--e fica o retrato completo, um simples vestido
+azul escuro, cinto e avental preto, e uns sapatinhos com as fitas
+traçadas em cothurno. O pé breve e estreito; o que se adivinhava da
+perna admiravel.
+
+Tal era a ideal e espiritualissima figura que em pé, incostada á banca
+onde acabava de comer a boa da velha, contemplava, n'aquelle rosto
+macerado e apagado, a indicivel expressão de tristeza que elle pouco a
+pouco ía tomando e que toda se reflectia, como disse, no semblante da
+contempladora.
+
+A velha suspirou profundamente, e fazendo como um esfôrço para se
+distrahir de pensamentos que a affligiam, buscou incertamente com as
+mãos o novêllo da sua meada:
+
+--'O meu novêllo, filha: não posso estar sem fazer nada, faz-me mal.'
+
+--'Conversemos, avó.'
+
+--'Pois conversemos; mas dá-me o meu novêllo. Não sei o que é, mas
+quando não trabalho eu, trabalha não sei o que em mim que me cansa ainda
+mais. Bem dizem que a ociosidade é o peior lavor.'
+
+Joanninha deu-lhe o novêllo e pôs-lhe a dobadoira a geito.
+
+A velha sentiu o que quer que fosse na mão, levou-a á bôcca e pareceu
+beija-la, depois disse:
+
+--'Bem vi, Joanninha!'
+
+--'O quê, minha avó? que viu?'
+
+--'Vi, filha, vi.., sem ser com os olhos que Deus me cerrou para
+sempre--louvado seja Elle por tudo!--vi, sentindo, ésta lagryma tua que
+me cahiu na mão, e que ja ca está no peito por que a bebi, Joanna. Oh
+filha, ja! é muito cedo para começar, deixa isso para mim que estou
+costumada: mas tu, tu com deseseis annos e nenhum desgôsto!'
+
+--'Nenhum, avó! E estamos sosinhas nós duas n'este mundo, minha avó
+n'esse estado, eu n'esta edade, e...'
+
+--'E Deus no ceu para tomar conta em nós... Mas que é? olha, Joanna: eu
+sinto passos na estrada vê o que é.'
+
+--'Não vejo ninguem.'
+
+--'Mas oiço eu... Espera... é Fr. Diniz; conheço-lhe os passos.'
+
+Mal a velha acabava de pronunciar este nome, surdiu, de traz de umas
+oliveiras que ficam na volta da estrada, da banda de Santarem, a figura
+sêcca, alta e um tanto curvada de um religioso franciscano que abordoado
+em seu pau tosco, arrastando as suas sandalias amarellas e tremendo-lhe
+na cabeça o seu chapeo alvadio, vinha em direcção para ellas.
+
+Era Fr. Diniz comeffeito, o austero guardião de San'Francisco de
+Santarem.
+
+
+
+
+CAPITULO XIII.
+
+
+ Dos frades em geral.--O frade moralmente considerado, socialmente e
+ artisticamente.--Próva-se que é muito mais poetico o frade do que o
+ barão.--Outra vez D. Quixote e Sancho-Pansa.--Do que seja o barão,
+ sua classificação e descripção linneana.--Historia do castello do
+ Chucherumello.--Erro palmar de Eugenio Sue: mostra-se que os
+ jesuitas não são a cholera-morbus, e que é preciso refazer o 'Judeu
+ errante'--De como o frade não intendeu o nosso seculo nem o nosso
+ seculo ao frade.--De como o barão ficou em logar do frade, e do
+ muito que n'isso perdémos.--Unica voz que se ouve no actual deserto
+ da sociedade: os barões a gritar contos de reis.--Como se contam e
+ como se pagam os taes contos.--Predilecção artistica do A. pelo
+ frade: confessa-se e explica-se ésta predilecção.
+
+
+Frades... frades... Eu não gósto de frades. Como nós os vimos ainda os
+d'este seculo, como nós os intendêmos hoje, não gósto d'elles, não os
+quero para nada, moral e socialmente fallando.
+
+No ponto de vista artistico porêm o frade faz muita falta.
+
+Nas cidades, aquellas figuras graves e sérias com os seus habitos
+tallares, quasi todos picturescos e alguns elegantes, atravessando as
+multidões de macacos e bonecas de casaquinha esguia e chapelinho de
+alcatruz que distinguem a peralvilha raça europea--cortavam a monotonia
+do ridiculo e davam physionomia á população.
+
+Nos campos o effeito era ainda muito maior: elles characterizavam a
+payzagem, poetisavam a situação mais prosaica de monte ou de valle; e
+tam necessarias tam obrigadas figuras eram em muitos d'esses quadros,
+que sem ellas o painel não é ja o mesmo.
+
+Alêm d'isso o convento no povoado e o mosteiro no êrmo animavam,
+amenizavam, davam alma e grandeza a tudo: elles protegiam as árvores,
+sanctificavam as fontes, enchiam a terra de poesia e de solemnidade.
+
+O que não sabem nem podem fazer os agiotas barões que os substituiram.
+
+É muito mais poetico o frade que o barão.
+
+O frade era, até certo ponto, o Dom Quixote da sociedade velha.
+
+O barão é, em quasi todos os pontos, o Sancho-Pansa da sociedade nova.
+
+Menos na graça...
+
+Porque o barão é o mais desgracioso e estupido animal da creação.
+
+Sem exceptuar a familia asinina que se illustra com individualidades tam
+distinctas como o Ruço do nosso amigo Sancho, o asno da Poncella de
+Orleans e outros.
+
+O barão (_onagros-baronius_ de Linn., _l'ânne-baron_ de Buf.) é uma
+variedade monstruosa ingendrada na burra de Balaham, pela parte
+essencialmente judaica e usuraria de sua natureza, em coito damnado com
+o urso Martinho do Jardim das Plantas[2], pela parte franchinotica e
+sordidamente revolucionaria de seu character.
+
+O barão é pois usurariamente revolucionario, e revolucionariamente
+usurario.
+
+Por isso é _zebrado_ de riscas monarchico-democraticas por todo o pêllo.
+
+Este é o barão verdadeiro e puro-sangue: o que não tem estes characteres
+é especie differente, de que aqui se não tracta.
+
+Ora, sem sahir dos barões e tornando aos frades, eu digo: que nem elles
+comprehenderam o nosso seculo nem nós os comprehendémos a elles..
+
+Por isso brigámos muito tempo, a final vencêmos nós, e mandámos os
+barões a expulsá-los da terra. No que fizemos uma sandice como nunca se
+fez outra. O barão mordeu no frade, devorou-o... e escouceou-nos a nós
+depois.
+
+Com que havemos nós agora de matar o barão?
+
+Porque este mundo e a sua historia é a historia do 'castello do
+Chucherumello'. Aqui está o cão que mordeu no gato, que matou o rato,
+que roeu a corda etc. etc.: vai sempre assim seguindo.
+
+Mas o frade não nos comprehendeu a nós, por isso morreu, e nós não
+comprehendemos o frade, por isso fizemos os barões de que havemos de
+morrer.
+
+São a molestia d'este seculo; são elles, não os jesuitas, a
+cholera-morbus da sociedade actual, os barões. O nosso amigo Eugenio Sue
+errou de meio a meio no 'Judeu errante' que precisa refeito.
+
+Ora o frade foi quem errou primeiro em nos não comprehender, a nós, ao
+nosso seculo, ás nossas inspirações e aspirações: com o que falsificou a
+sua posição, isolou-se da vida social, fez da sua morte uma necessidade,
+uma coisa infallivel e sem remedio. Assustou-se com a liberdade que era
+sua amiga, mas que o havia de reformar, e uniu-se ao despotismo que o
+não amava senão relaxado e vicioso, porque de outro modo lhe não servia
+nem o servia.
+
+Nós tambem errámos em não intender o desculpavel êrro do frade, em lhe
+não dar outra direcção social; e evitar assim os barões, que é muito
+mais damninho bicho e mais roedor.
+
+Porque, desinganem-se, o mundo sempre assim foi e hade ser. Por mais
+bellas theorias que se façam, por mais perfeitas constituições com que
+se comece, o _status in statu_ forma-se logo: ou com frades ou com
+barões ou com pedreiros livres se vai pouco a pouco organizando uma
+influencia distincta, quando não contraria, ás influencias manifestas e
+apparentes do grande corpo social. Esta é a opposição natural do
+Progresso, o qual tem a sua opposição como todas as coisas sublunares e
+superlunares; ésta corrige saudavelmente, ás vezes, e modera sua
+velocidade, outras, a impece com demazia e abuso: mas emfim é uma
+necessidade.
+
+Ora eu, que sou ministerial do Progresso, antes queria a opposição dos
+frades que a dos barões. O caso estava em a saber conter e approveitar.
+
+O Progresso e a liberdade perdeu, não ganhou.
+
+Quando me lembra tudo isto, quando vejo os conventos em ruinas, os
+egressos a pedir esmola e os barões de berlinda, tenho saudades dos
+frades--não dos frades que foram, mas dos frades que podiam ser.
+
+E sei que me não inganam poesias; que eu reajo fortemente com uma logica
+inflexivel contra as illusões poeticas em se tractando de coisas graves.
+
+E sei que me não namóro de paradoxos, nem sou d'estes espiritos de
+contradicção desinquieta que suspiram sempre pelo que foi, e nunca estão
+contentes com o que é.
+
+Não, senhor: o frade, que é patriota e liberal na Irlanda, na Polonia,
+no Brazil, podia e devia sê-lo entre nós; e nós ficavamos muito melhor
+do que estamos com meia duzia de clerigos de requiem para nos dizer
+missa; e com duas grozas de barões, não para a tal opposição salutar,
+mas para exercer toda a influencia moral e intellectual da
+sociedade--porque não ha de outra ca.
+
+E se não digam-me: onde estão as universidades, e o que faz essa que ha
+senão dar o seu grausito de bacharel em leis e em medicina? O que
+escreve ella, o que discute, que príncipios tem, que doutrinas professa,
+quem sabe ou ouve d'ella senão algum echo timido e acanhado do que
+n'outra parte se faz ou diz?
+
+Onde estão as academias?
+
+Que palavra poderosa retine nos pulpitos?
+
+Onde está a fôrça da tribuna?
+
+Que poeta canta tam alto que o oiçam as pedras brutas e os robres duros
+d'esta selva materialista a que os utilitarios nos reduziram?
+
+Se exceptuarmos o debil clamor da imprensa liberal ja meio-esganada da
+policia, não se ouve no vasto silencio d'este ermo senão a voz dos
+barões gritando contos de réis.
+
+Dez contos de réis por um eleitor!
+
+Mais duzentos contos pelo tabaco!
+
+Três mil contos para a conversão de um amphigouri!
+
+Cinco mil contos para as estradas dos areonautas!
+
+Seis mil contos para isto, dez mil contos para aquillo!
+
+Não tardam o contar por centenas de milhares.
+
+Contar a elles não lhes custa nada.
+
+A quem custa é a quem paga para todos esses balões de papel--a terra e a
+indústria..................................................................
+...........................................................................
+...........................................................................
+
+Este capítulo deve ser considerado como introducção ao capítulo
+seguinte, em que entra em scena Fr. Diniz, o guardião do San' Francisco
+de Santarem.
+
+Ja me disseram que eu tinha o genio frade, que não podia fazer conto,
+drama, romance sem lhe metter o meu fradinho.
+
+O 'Camões' tem um frade, Frei José Indio;
+
+A 'Dona Branca' tres, Frei Soeiro, Frei Lopo e San'-Frei Gil--faz
+quatro;
+
+A 'Adozinda' tem um ermitão, especie de frade--cinco;
+
+'Gil-Vicente' tem outro--isto é, verdadeiramente não tem senão meio
+frade, que é André de Rezende, demais a mais, pessoa muda--cinco e meio;
+
+O 'Alfageme' tres quartos do frade, Froilão-Dias, chibato da ordem de
+Malta--seis frades e um quarto;
+
+Em 'Frei Luiz de Sousa' tudo são frades: vale bem n'esta computação, os
+seus tres, quatro, meia duzia de frades--são já dôze e quarto:
+
+Alguns, não eu, querem metter n'esta conta o 'Arco-de-Sanct'Anna', em
+que ha bem dous frades e um leigo:
+
+E aqui tenho eu ás costas nada menos de quinze frades e quarto.
+
+Com este Frei Diniz é um convento inteiro.
+
+Pois, senhores, não sei que lhes faça: a culpa não é minha. Desde mil
+cento e tantos que começou Portugal, até mil oitocentos trinta e tantos
+que uns dizem que elle se restaurou, outros que o levou a breca, não sei
+que se passasse ou podesse passar n'esta terra coisa alguma pública ou
+particular, em que frade não entrasse.
+
+Para evitar isto não ha senão usar da receita que vem formulada no
+capitulo V[3] d'esta obra.
+
+Faça-o quem gostar; eu não, que não quero nem sei.
+
+
+
+
+CAPITULO XIV.
+
+
+ Emendado emfim de suas distracções e divagações, prosegue o A.
+ direitamente com a historia promettida.--De como Fr. Diniz deu a
+ manga a beijar á avó e á neta, e do mais que entre elles se
+ passou.--Ralha o frade com a velha, e começa a descobrir-se onde a
+ historia vai ter.
+
+
+Este capitulo não tem divagações, nem reflexões, nem considerações de
+nenhuma especie, vai direito e sem se distrahir, pela sua historia
+adeante.
+
+Fr. Diniz chegava aopé das duas mulheres e disse:
+
+--'Louvado seja Nosso Senhor Jesus Christo!'
+
+Joanna adeantou-se alguns passos a beijar-lhe a manga. Elle
+accrescentou:
+
+--'A benção de Deus te cubra, filha, e a de nosso padre San'Francisco!'
+
+--'Benedicite, padre guardião:' disse a velha inclinando-se meia
+levantada da cadeira.
+
+--'Em nome do Senhor! amen'.--respondeu o frade aproximando-se, e
+chegando o braço a alcance de lh'o ella beijar:
+
+--'Ora aqui estou, minha irman; que me quer? E como vai isto por cá?
+Vamo-nos confortando, tendo paciencia, e soffrendo com os olhos no
+Senhor?'
+
+--'Ja os não tenho senão para elle, padre.'
+
+--'Ah, ah! irman Francisca, sempre esse pensamento, sempre essa queixa!
+Tenho-a reprehendido tanta vez e não se emenda.'
+
+--'Eu não me queixei, meu padre. Deus sabe que me não queixo... ao menos
+por mim.'
+
+--'Pois por quem?'
+
+--'Oh padre!'
+
+--'Irman Francisca, tenho medo de a intender. Eu não conheço as
+affeições da carne nem lido com os fracos pensamentos do mundo. Sou
+frade, minha irman, sou um que ja não é do número dos vivos, que vestiu
+ésta mortalha para não ser d'elles, que a vestiu n'um tempo em que a
+mofa e o desprêzo são o unico patrimonio do frade, em que o escarneo, a
+derisão, o insulto--o peior e o mais cruel de todos os martyrios--são a
+nossa unica esperança. Eu quiz ser frade, fiz-me frade, sabendo e vendo
+tudo isto, fiz-me frade no meio de tudo isto, já velho e experimentado
+no mundo, farto de o conhecer, e certo do que me espera--a mim e á
+profissão que abraçei. Que quer de um homem que assim se resolveu a
+cortar por quanto prende a humanidade a ésta miseravel vida da terra,
+para não viver senão das esperanças da outra? Eu vesti este hábito para
+isso. O seu, irman, o seu para que o vestiu? É um divertimento, é um
+capricho, é uma comedia com Deus? Rasgue-o depressa, vista-se das galas
+do mundo, não apperte com a paciencia divina, trajando por fóra o sacco
+da penitencia e trazendo o coração pordentro desappertado de todo o
+cilicio e mortificação.'
+
+A velha com as mãos postas, a face alevantada e os apagados olhos para o
+ceo, offerecia a Deus todo o amargor d'aquella austeridade que não
+cuidava merecer nem lhe parecia intender. Joanninha, que insensivelmente
+se fôra approximando da avó, e a tinha como amparada portraz com um de
+seus braços, firmava a outra mão nas costas da cadeira e cravava fita no
+frade a vista penetrante e cheia de luz. A expressão do seu rosto era
+indefinivel: irisava-lh'o, distincta mas promiscuamente, um mixto
+inextricavel de enthusiasmo e desanimação, de fé e de incredulidade, de
+sympathia e de aversão.
+
+Disseras que n'aquelles olhos verdes e n'aquelle rosto mal córado estava
+o typo e o symbolo das vascillações do seculo.
+
+--'Padre!' tornou a velha com sincera humildade na voz e no gesto:--'se
+o mereci, castigae-me. Deus, que me vê e me ouve, bem sabe que o digo em
+toda a verdade do meu coração, e hade perdoar-me porque eu sou fraca e
+mulher.'
+
+--'Pois aos fracos não é que Elle disse: _Toma a tua cruz e segue-me_.
+Quem a obrigou a fazer os votos que fez?'
+
+--'É verdade, padre, é verdade: bem sei o que prometti, que me votei a
+Deus d'alma e corpo, que me não pertenço, que nem das minhas affeições
+posso dispor, mas...'
+
+--'Mas o quê? Irman Francisca, a Deus não se ingana. Os seus votos não
+foram feitos n'um mosteiro, nem proferidos n'um altar no meio das
+solemnidades da egreja. Mas ja lh'o tenho ditto, no fôro da consciencia,
+na presença de Deus, ligam-n'a tanto ou mais do que se o fossem.
+Abjure-os se quizer; nenhuma lei, nenhuma fôrça humana a constrange.
+Diga-m'o por uma vez, desingane-me, e eu não torno aqui.'
+
+--'Oh, por compaixão, padre! pelas chagas de Christo! Mas uma pergunta
+so, uma so, e eu prometto não pensar, não fallar mais em... Onde está
+elle?'
+
+--'Joanna, retire-se.'
+
+Joanninha appertou a avó com ambos os braços; e sem dizer uma palavra,
+sem fazer um so gesto, lentamente e silenciosamente se retirou para
+dentro de casa.
+
+--'E ésta, padre?' disse a velha sem esperar a resposta á primeira
+pergunta que com tanta ancia fizera--'e ésta, tambem d'ella me heide
+separar, tambem heide renunciar a ella?'
+
+--'Esta é uma innocente, e emquanto o for'...
+
+--'Em quanto o for! A minha Joanna é um anjo.'
+
+--'Blasphemia, blasphemia! E o Senhor a não castigue por ella. Joanna é
+boa e temente a Deus: esperemos que Elle a conserve da sua mão. O
+outro...'
+
+--'Que é feito d'elle padre? Oh! diga-m'o, e eu prometto...'
+
+--'Não prometta senão o que póde cumprir. Seu neto está com esses
+desgraçados que vieram das ilhas, é dos que desimbarcaram no Porto...'
+
+--'Oh filho da minha alma! que não tórno a abraçar-te...'
+
+--'Não decerto; vencedores ou vencidos, toda a communhão, toda a
+possibilidade de união acabou entre nós e estes homens. Nós temos
+obrigação de os destruir, elles o seu unico desejo é exterminar-nos.'
+
+--'Meu Deus meu Deus! pois a isto somos chegados! Pois ja não ha
+misericordia no ceo nem na terra!'
+
+--'A misericordia de Deus cansou-se; a da terra não sei onde está nem
+onde esteve nunca. Os fracos dão sacrilegamente esse nome á sua
+relaxação.'
+
+--'Pois é relaxação desejar a paz, querer a união, supplicar a
+indulgencia? Não nos manda Deus perdoar as nossas dividas, amar os
+nossos inimigos?'
+
+--'Os nossos sim, os d'Elle não.'
+
+--'Tende compaixão de mim, Senhor!'
+
+--'Se as suas afflicções são as da carne e do sangue, se são pensamentos
+da terra como desgraçadamente vejo que são, mulher fraca e de pouco
+ânimo, console-se, que para mim é claro e seguro que estes homens hãode
+vencer.'
+
+--'Quaes homens?'
+
+--'Esses inimigos do altar e da verdade, esses homens desvairados pelas
+speciosas doutrinas do seculo. Esperam muito, promettem muito, estão em
+todo o vigor das suas illusões. E nós, nós carregâmos com o desingano de
+muitos seculos, com os peccados de trinta gerações que passaram, e com a
+inaudita corrupção da presente... nós havemos de succumbir. Os templos
+hãode ser destruidos, os seus ministros proscriptos, o nome de Deus
+blasphemado á vontade n'esta terra malditta.'
+
+--'Pois tam perdidos, tam abandonados da mão de Deus são elles todos...
+todos?'
+
+--'Todos. E que cuida, irman? que são melhores os nossos, esses que se
+dizem nossos? que ha mais fé na sua crença, mais verdade em sua
+religião? Oh sancto Deus!'
+
+--'Faz-me tremer, padre!'
+
+--'E para tremer é. A impiedade e a cubiça entraram em todos os
+corações. _Duvidar_ é o unico princípio, _inriquecer_ o unico objecto de
+toda essa gente. Liberaes e realistas, nenhum tem fé: os liberaes ainda
+teem esperança; não lhe hade durar muito. Deixem-n'os vencer e verão.'
+
+--'E hãode vencer elles?'
+
+--'Decerto.'
+
+--'Ninguem mais diz isso.'
+
+--'Digo-o eu.'
+
+--'Tantos mil soldados que o govêrno tem por si!'
+
+--'E tantos milhões de peccados contra. Não póde ser, não póde ser: a
+misericordia divina está exhausta, e o dia desejado dos impios vem a
+chegar. A sua missão é facil e prompta; não sabem, não podem senão
+destruir. Edificar não é para elles, não teem com quê, não creem em
+nada. O symbolo christão não é so uma verdade religiosa é um princípio
+eterno e universal. _Fe, esperança e charidade_. Sem crer, sem
+esperar...'
+
+--'E sem amar!'
+
+--'Mulher, mulher! o amor é a última virtude...'
+
+--'Mas por ella, por ella se chega ás outras.'
+
+--'Não, mulher fraca, não. E de uma vez para sempre, irman Francisca,
+desinganemo'-nos. Entre mim, entre o Deus que eu sirvo, não ha
+transacção com os seus inimigos. Indulgencia n'esse ponto não sei o que
+é. Vejo a sorte que me espera n'este mundo, e não tremo deante d'ella.
+Quem teme, siga outro caminho; eu nunca.'
+
+--'Padre eu não temo nem receio por mim. Sou fraca e mulher, e em toda a
+tribulação e desgraça heide glorificar o meu Deus e dar testimunho da
+minha fé. Mas... mas o meu neto é o meu sangue, a minha vida, é o filho
+querido da minha unica e tam amada filha, elle não conheceu outra mãe
+senão a mim, quero-lhe por elle e por ella. Abandoná-lo não posso, tirar
+d'elle o pensamento não sei. A vontade de Deus...'
+
+--'A vontade de Deus é que o justo se aparte do impio, é que os
+cordeiros da benção vão para um lado, e os cabritos da maldicção para
+outro. Esse rapaz... oh! minha irman, eu não sou de pedra, não, não sou,
+e tambem o coração se me parte de o dizer... mas esse rapaz é malditto,
+e entre nós e elle está o abysmo todo do inferno.'
+
+--'Misericordia, meu Deus!'
+
+Pallido, infiado, mais descorado e mais amarello do que era sempre
+aquelle rosto, Fr. Diniz pronunciou, tremendo mas com fôrça, as suas
+últimas e terriveis palavras. Os olhos, habitualmente sumidos e cavos,
+recuaram-lhe ainda mais para dentro das orbitas descarnadas; o bordão
+tremia-lhe na esquerda; e a direita suspensa no ar parecia intimar ao
+culpado a terrivel imprecação que lhe sahia dos labios.
+
+--'Malditto! malditto sejas tu!' proseguiu o frade, 'filho ingrato,
+coração derrancado e perverso!'
+
+--'Meu Deus, não o escuteis!' bradou a velha cahindo de joelhos no chão
+e prostrando-se na terra dura 'Meu Deus, não confirmeis aquellas
+palavras tremendas. Não o ouçais, Senhor, e valha o sangue precioso de
+vosso filho, as dores bemdittas de sua mãe, oh meu Deus! para arredar da
+cabeça do meu pobre filho as crueis palavras d'este homem sem piedade,
+sem amor!..'
+
+A velha queria dizer mais; as angústias que se tinham estado juntando
+n'aquella alma, que porfim não podia mais e transbordava, queriam sahir
+todas, queriam derramar-se alli em lagrymas e soluços na presença do seu
+Deus que ella via sempre no throno das misericordias, que não podia
+acabar comsigo que o visse o inflexivel, o terrivel Deus das vinganças
+que lhe annunciava o frade. Mas a carne não pôde com o espirito, as
+fôrças do corpo cederam: tomou-a um mortal deliquio, immudeceu, e...
+suspendeu-se-lhe a vida.
+
+Fr. Diniz contemplou-a alguns momentos n'esse estado e pareceu
+commover-se; mas aquelles nervos eram fios de ferro temperado que não
+vibravam a nenhuma suave percussão: deu dous passos para a porta da
+casa, bateu com o bordão e disse com voz firme e segura:
+
+--'Joanna, acuda a sua avó que não está boa.'
+
+D'ahi tomou por onde viera, e, sem voltar uma vez a cabeça, caminhou
+ápressado; breve se escondeu para lá das oliveiras da estrada.
+
+
+
+
+CAPITULO XV.
+
+
+ Retratto de um frade franciscano que não foi para o depósito da
+ Terra-sancta, nem consta que esteja na Academia das
+ Bellas-artes.--Ve-se que a logica de Fr. Diniz se não parecia nada
+ com a de Condillac.--Suas opiniões sôbre o liberalismo e os
+ liberaes.--Que o podêr vem de Deus, mas como e paraquê.--Que os
+ liberaes não intendem o que é liberdade e egualdade; e o para que
+ eram os frades, se fossem.--Próva-se, pelo texto, que o homem não
+ vive so de pão, e pergunta-se o de que vivia então Fr. Diniz.
+
+
+Quem era Frei Diniz?
+
+Disse-o elle:--um homem que se fizera frade, ja velho e cançado do
+mundo, que vestíra o hábito n'um tempo em que a mofa, o escarneo e o
+desprêzo seguiam aquella profissão; que o sabía, que o conhecia e que
+por isso mesmo o affrontára.
+
+D'estes raros e fortes characteres apparecem sempre na agonia das
+grandes instituições para que nenhuma pereça sem protesto, paraque de
+nenhum pensamento duravel e consagrado pelo tempo se possa dizer que lhe
+faltou quem o honrasse na hora derradeira por uma devoção nobre,
+gloriosa e digna do alto espirito do homem:--que o homem é uma grande e
+sublime creatura por mais que digam philosophos.
+
+Tal era Fr. Diniz, homem de principios austeros, de crenças rigidas, e
+de uma logica inflexivel e teimosa: logica porêm que regeitava toda a
+anályse, e que forte nas grandes verdades intellectuaes e moraes em que
+fixára o seu espirito, descia d'ellas com o tremendo pêso de uma
+synthese asperrima e oppressora que esmagava todo o argumento, destruía
+todo o raciocinio que se lhe punha de deante.
+
+Condillac chamou á synthese methodo de trevas: Fr. Diniz ria-se de
+Condillac... e eu parece-me que tenho vontade de fazer o mesmo.
+
+O despotismo, detestava-o como nenhum liberal é capaz de o abhorrecer;
+mas as theorias philosophicas dos liberaes, escarnecia-as como absurdas,
+regeitava-as como perversoras de toda a idea san, de todo o sentimento
+justo, de toda a bondade praticavel. Para o homem em qualquer estado,
+para a sociedade em qualquer fórma não havia mais leis que as do
+decalogo, nem se precisavam mais constituições que o Evangelho: dizia
+elle. Reforçá-las é superfluo, melhorá-las impossivel, desviar d'ellas
+monstruoso. Desde o mais alto da perfeição evangelica, que é o estado
+monastico, ha regras para todos alli; e não falta senão observá-las.
+
+Não sei se ésta doutrina não tem o quer que seja de um certo sabor
+independente e livre, se não cheira o seu tanto á confiança heretica dos
+reformistas evangelicos. O que sei é que Fr. Diniz a professava de
+boafé, que era catholico sincero, e frade no coração.
+
+Segundo os seus principios, podêr de homem sôbre homem, era usurpação
+sempre e de qualquer modo que fosse constituido. Todo o podêr estava em
+Deus--que o delegava ao pae sôbre o filho, d'ahi ao chefe da familia
+sôbre a familia, d'ahi a um d'esses sôbre todo o Estado; mas para o
+reger segundo o Evangelho e em toda a austeridade republicana dos
+primitivos principios christãos.
+
+Assim fôra ungido Saul, e n'elle todos os reis da terra--sem o quê, não
+eram reis.
+
+Tudo o mais, anarchia, usurpação, tyrannia, peccado--absurdo
+insustentavel e impossivel.
+
+E sôbre isto tambem não disputava, que não concebia como: era dogma.
+
+Nas applicações sim questionava, ou antes, arguía, com sua logica de
+ferro. As antigas leis, os antigos usos, os antigos homens, não os
+poupava mais do que aos novos. A tyrannia dos reis, a cubiça e a suberba
+dos grandes, a corrupção e a ignorancia dos sacerdotes, nunca houve
+tribuno popular que as açoitasse mais sem dó nem caridade.
+
+O princípio porêm da monarchia antiga, defendia-o, ja se ve, por
+verdadeiro, embora fossem mentirosos e hypocritas os que o invocavam.
+
+Quanto ás doutrinas constitucionaes, não as intendia, e protestava que
+os seus mais zelosos apostolos as não intendiam tam pouco: não tinham
+senso-commum, eram abstracções d'eschola.
+
+Agora, do frade é que me eu queria rir... mas não sei como.
+
+O chamado liberalismo, esse intendia elle. 'Reduz-se' dizia 'a duas
+cousas, _duvidar e destruir_ por principio, _adquirir e inriquecer_ por
+fim: é uma seita toda material em que a carne domina e o espirito serve;
+tem muita fôrça para o mal; bem verdadeiro, real e perduravel, não o
+póde fazer. Curar com uma revolução liberal um paiz estragado, como são
+todos os da Europa, é sangrar um tysico: a falta de sangue diminue as
+ancias do pulmão por algum tempo, mas as fôrças vão-se, e a morte é mais
+certa.'
+
+Dos grandes e eternos principios da Egualdade e da Liberdade dizia: 'Em
+elles os practicando devéras, os liberaes, faço-me eu liberal tambem.
+Mas não ha perigo: se os não intendem! Para intender a liberdade é
+preciso crer em Deus, para acreditar na egualdade é preciso ter o
+Evangelho no coração.'
+
+As instituições monasticas eram, no seu intender e no seu systema,
+condicção essencial de existencia para a sociedade civil--para uma
+sociedade normal. Não paliava os abusos dos conventos, não cubria os
+defeitos dos monges, accusava mais severamente que ninguem a sua
+relaxação; mas sustentava que, removido aquelle typo da perfeição
+evangelica, toda a vida christan ficava sem norma, toda a harmonia se
+destruía, e a sociedade ia, mais depressa e mais sem remedio,
+precipitar-se no golpham do materialismo estupido e brutal em que todos
+os vinculos sociaes apodreciam e cahiam, e em que mais e mais se isolava
+e estreitava o individualismo egoista--última phase da civilização
+exaggerada que vai tocar no outro extrêmo da vida selvagem.
+
+Taes eram os principios d'este homem extraordinario que junctava a uma
+erudição immensa o profundo conhecimento dos homens e do mundo em que
+tinha vivido até a edade de cinquenta annos.
+
+Como e porque deixára elle o mundo? Como e porquê, um espirito tam
+activo e superior se occupava apenas do obscuro incargo de guardião do
+seu convento--cargo que acceitára por obediencia--e quasi que limitava
+as suas relações fóra do claustro áquella casa do valle onde não havia
+senão aquella velha e aquella criança?
+
+Apezar de sua rigidez ascetica, prendia esse espirito por alguma coisa a
+este mundo? Aquelle coração macerado do cilicio dos pensamentos austeros
+e terriveis do eterno futuro, consummido na abstinencia de todo o gôso,
+detodo o desejo no presente, teria acaso viva ainda bastante alguma
+fibra que vibrasse com recordações, com saudades, com remorsos do
+passado?
+
+No seu convento elle não tinha senão uma cella nua com um cruxifixo por
+todo adôrno, um breviario por unico livro. N'aquella so familia que
+conversava, havia, ja o disse, a velha cega e decrepita, Joanninha com
+quem apenas fallava, e um ausente, um rapaz de quem ha dous annos quasi
+que se não sabia. Em intrigas politicas, em negocios ecclesiasticos, em
+coisa mais nenhuma d'este mundo não tinha parte. De que vivia pois este
+homem--homem que certo não era d'aquelles que vivem so de pão?
+
+E este era dos poucos textos latinos que elle repettia, este o thema
+predilecto dos raros sermões que prégava: _Non in solo pane vivit homo_,
+Nem so de pão vive o homem.
+
+Vivia então de alguma outra coisa este homem; e a meditação e a oração
+não lhe bastavam, porque elle sahia do seu convento e não ia prégar nem
+rezar... todas as sextas feiras era certo na casa do valle á mesma hora,
+do mesmo modo...
+
+Alli estava pois alguma parto da vida do frade que de todo se não
+desprendêra da terra, e que, por mais que elle diga, lhe faltava
+_castrar_ ainda por amor do ceo.
+
+É que meio seculo de viver no mundo deixa muita raiz que não morre
+assim. E talvez é uma so a raiz, mas funda, e rija de fevra e de seiva,
+que as folhas morrem, os ramos seccam, o tronco apodrece, e ella teima a
+viver.
+
+Saibamos alguma coisa d'essa vida.
+
+
+
+
+CAPITULO XVI.
+
+
+ Saibâmos da vida do frade.--Era franciscano porquê?--Dos antigos e
+ dos novos martyres.--Alguns particulares de Fr. Diniz antes e
+ depois de ser frade.--Emigração.--Explicação incompleta.--De como a
+ velha tinha perdido a vista e Joanninha o riso.--Sexta feira dia
+ aziago.
+
+
+Saibamos alguma coisa da vida do frade, da sua vida no seculo, porque a
+do claustro era nua e nulla, monotona e singela como a temos visto.
+
+Chamava-se elle no seculo Diniz de Atahide, e seguira a carreira das
+armas primeiro, depois a das lettras. Com distincção, e quasi com
+paixão, tomára parte na campanha da Peninsula e a fizera quasi toda; mas
+desgostoso do serviço ou despreoccupado da glória militar, entrou na
+magistratura para que estava habilitado, e em 1825, do logar de
+corregedor do Ribatejo, em que ja fôra reconduzido, devia passar á casa
+do Porto.
+
+Foi a Lisboa receber o seu despacho, beijou a mão a elrei, e d'ahi tomou
+um dia o caminho de Santarem, chegou áquella villa, deixou criados e
+cavallos na estalagem, e foi tocar á campa da portaria de San'Francisco.
+
+Os criados esperaram em vão muitos dias: elle não voltou.
+
+Desappareceu do mundo Diniz de Atahide, e d'alli a dous annos appareceu
+Fr. Diniz da Cruz, o frade mais austero e o prégador mais eloquente
+d'aquelle tempo. Raro prégava, e so de doutrina; mas era uma torrente de
+vehemencia, uma uncção, uma fôrça!..
+
+Dos institutos monasticos, ja então bem decahidos todos de esplendor e
+reputação, a ordem de San'Francisco era talvez a que mais descêra no
+conceito público. Quanto mais austera é a regra, tanto mais se nota
+qualquer relaxação nos que a professam: a dos franciscanos tinha-se
+feito proverbial e popular. Elles eram tantos por toda a parte, e tam
+conversantes com todas as classes; familiarizára-se por tal modo o povo
+com o aspecto d'aquellas mortalhas negras--aspecto ja não severo, e
+apenas deixou de o ser... ridículo--e ellas appareciam em taes logares,
+a taes horas, por tal modo... que todo o respeito, toda a estima, toda a
+consideração se lhe perdera. Escriptores, ja os não tinham, prégadores
+poucos e sem reputação, era em todo o sentido a religião mais humilhada
+na geral decadencia das ordens.
+
+Fr. Diniz procurou-a por isso mesmo. Queria ser frade, o frade
+desprezado e apupado do seculo dezenove.
+
+Em certos animos é preciso muito mais valor e enthusiasmo para affrontar
+este martyrio, do que fôra nos antigos tempos para ir ao incôntro das
+nobres perseguições do sangue e do fogo.
+
+Luctava-se com honra então, cahia-se com glória, vencia-se muitas vezos
+morrendo...
+
+Agora é soffrer so.
+
+O mundo applaudia aquelles grandes sacrificios, e assistia com
+interêsse, com admiração, com espanto áquelles combates gigantescos. E o
+tyranno tremia diante da sua victima... quando lhe não cahia aos pés
+vencido, convertido e penitente...
+
+Hoje o povo passa e ri, os reis cuidam de outra coisa, e a mesma Egreja
+não sabe que tem martyres.
+
+'Pois tem-n'os' dizia Fr. Diniz 'e precisa mais d'elles para se
+regenerar, do que ja precisou para fundar-se.'
+
+Eis aqui porque Diniz d'Atahide não quiz ser bento, nem jeronymo, nem
+cartucho, e se foi metter frade franciscano.
+
+De todos os seus bens, que eram consideraveis, tirou apenas a modica
+somma de dinheiro que era necessaria para pagar o dote e piso de sua
+entrada no convento. Do resto fez doação inteira a D. Francisca
+Joanna--a velha hoje cega e decrepita que no princípio d'esta historia
+incontrámos dobando á sua porta na casa do valle.
+
+A velha não tinha mais familia que um neto e uma neta.
+
+A neta era Joanninha, filha unica de seu unico filho varão, e ja orphan
+de pae e de mãe.
+
+O neto, orpham tambem, nascêra posthumo, e custára a vida a sua mãe,
+filha querida e predilecta da velha.
+
+Antes da splendida doação de Fr. Diniz, a familia, que era de boa e
+honrada descendencia, podia dizer-se pobre; depois viviam
+remediadamente. Mas a velha não quiz nunca sahir do modesto estado em
+que atélli vivêra. Tinham fartura de pão, azeite e vinho de suas lavras;
+corria-lhe com ellas um criado velho de confiança; trajavam e
+tractavam-se como gente mean, mas independente.
+
+Em tempos mais antigos e em vida dos dous filhos de D. Francisca, Fr.
+Diniz, então Diniz d'Atahide e corregedor da commarca, frequentára
+bastante aquella casa. Desde a morte do filho e do genro, que ambos
+pereceram desastradamente n'um dia cruzando o Tejo n'um saveiro em
+occasião de grande cheia, elle nunca mais lá tornára.
+
+Até que se metteu frade, e que passaram annos e que o fizeram guardião
+do seu convento.
+
+Ja a nora e a filha da velha tinham morrido tambem.
+
+E foi notavel que na mesma hora em que Fr. Diniz professava em
+San'Francisco de Santarem, vestia D. Francisca aquella tunica roxa que
+nunca mais largou.
+
+Mas um dia, chegou Fr. Diniz á porta da casa do valle e disse:
+
+--'Deus seja n'esta casa!'
+
+A velha estremeceu, mas tornou logo a si, fez sahir as crianças que
+brincavam aopé d'ella, fechou-se com o frade, e fallaram baixo um dia
+inteiro. Rezaram e choraram, que tudo se ouviu; mas o que disseram e
+conversaram nunca se soube.
+
+O frade foi-se ao anoitecer, a velha ficou rezando e chorando, e rezou e
+chorou toda a noite.
+
+Isto fôra n'uma sexta-feira; d'ahi por deante em todas as sexta-feiras
+de cada semana, Fr. Diniz vinha passar algumas horas com a velha.
+
+Não era seu confessor, mas dirigia-a como se o fosse, em tudo e por
+tudo, menos no que respeitava a Joanninha.
+
+Havia no frade uma affectação visivel, um systema premeditado e
+inalteravel de se abster completamente de tudo o que podesse intervir,
+por mais remotamente que fosse, com aquella interessante criança.
+
+Joanninha não lhe tinha medo, mas o respeito que lhe elle inspirava era
+misturado de uma aversão instinctiva, que, por contradicção inaudita e
+inexplicavel, a deixava sympathizar com tudo quanto elle dizia e
+professava: doutrinas, opiniões, sentimentos, tudo lhe agradava no
+frade, menos a pessoa.
+
+Não assim Carlos, o primo, o companheiro, o unico amigo da nossa
+Joanninha, o outro neto da velha por sua filha. Andava elle ja no último
+anno de Coimbra e ia formar-se em leis, quando Fr. Diniz da Cruz começou
+de novo a frequentar a casa que Diniz de Atahide tinha abandonado.
+
+Sôbre esse a inspecção do frade era minuciosa, vigilante, inquieta. Os
+livros que elle lia, os amigos com quem vivia, as ideas que abraçava, as
+inclinações para que pendia--de tudo se occupava Fr. Diniz, tudo lhe
+dava cuidado. A elle directamente pouco lhe dizia, mas com a avó tinha
+longas conferencias a esse respeito.
+
+Ultimamente parecia satisfazer-se com o geito que o mancebo indicava
+tomar.
+
+--'É temente a Deus, não tem o ânimo cubiçoso nem servil, não é
+hypocrita, o mania do liberalismo não o mordeu ainda... hade ser um
+homem de prestimo:' dizia o frade a D. Francisca com verdadeira
+satisfacção e interêsse.
+
+Passára porêm de seu meio o memoraval anno de 1830, e Carlos, que se
+formára no princípio d'aquelle verão, tinha ficado por Coimbra e por
+Lisboa, e so por fins d'agosto voltára para a sua familia. E veio
+triste, melancholico, pensativo, inteiramente outro do que sempre fôra,
+porque era de genio alegre e naturalmente amigo de folgar, o mancebo.
+
+O dia em que elle chegou era uma sexta-feira, dia de Fr. Diniz vir ao
+valle.
+
+Passaram as primeiras saudações e abraços, ficaram sos os dous, e:
+
+--'Não gósto de te ver:' disse o frade.
+
+--'Pois quê? que tenho eu?'
+
+--'Tens que vens outro do que foste, Carlos.'
+
+--'Outro venho, é verdade; mas não se infadem de me ver, que o infado
+hade durar pouco.'
+
+--'Que queres tu dizer?'
+
+--'Que estou resolvido a emigrar.'
+
+--'A emigrar, tu!... Porquê, paraquê? Que loucura é essa?'
+
+--'Nunca estive tanto em meu juizo.'
+
+--'Carlos, Carlos! nem mais uma palavra a similhante respeito. Em que
+más companhias andaste tu, que maus livros lêste, tu que eras um
+rapaz?.. Carlos, prohibo-te de pensar n'esses desvarios.'
+
+--'Prohibe-me... a mim... de pensar!... Ora, senhor...'
+
+--'Prohibo de pensar, sim. Le no teu Horacio se estás cançado das
+pandectas. Vai para a eira com o teu Virgilio... ou passeia, caça, monta
+a cavallo, faze o que quizeres, mas não penses. Ca estou eu para pensar
+por ti.'
+
+--'Porquê? eu heide ser sempre criança? a minha vida hade ser ésta?
+Horacio! tenho bom ânimo para ler Horacio agora... e a bella occupação
+para um homem de vinteeum annos, scandar jambos e trocheus.'
+
+--'Pois le na tua biblia, que é poesia medida n'alma e que repasce o
+espirito e o coração.'
+
+--'Eu não quero ser frade: sabe?'
+
+--'Nem te eu quero para frade.'
+
+--'Graças a Deus! Cuidei que... Mas em fim no seculo em que estamos...'
+
+--'O seculo em que estamos é o da presumpção e o da immoralidade: e eu
+quero-te livrar de uma e de outra, Carlos. Tua avó sabe as minhas
+tenções a teu respeito, approva-as...'
+
+--'Minha avó... approva muita coisa que eu reprovo.'
+
+--'Como assim, Carlos! que queres tu dizer?'
+
+--'Isto mesmo, senhor;--e que ámanhan que vou para Lisboa, imbarcar para
+Inglaterra.'
+
+--'Carlos!'
+
+--'É uma resolução meditada e inalteravel. Não quero nada com ésta terra
+nem com ésta...'
+
+--'Com ésta o quê, Carlos?..'
+
+--'Pois quer ouvi-lo, digo-lh'o: com ésta casa.'
+
+O frade suffocava, e balbuciou entre cholerico e aterrado:
+
+--'Dir-me-has porquê?..'
+
+--'Porque me abhorrece e me humilha este mando de um extranho aqui...
+porque sempre desconfiei, porque sei emfim...'
+
+--'Sabes o quê?'
+
+--'Sei, padre Fr. Diniz, mas não me pergunte o que eu sei.'
+
+Amarello, roxo, pallido, negro, o frade tremia; sumiram-se-lhe mais os
+olhos e faiscavam lá de dentro como duas brazas; fez um esfôrço sôbre si
+mesmo para fallar, e disse com uma voz cava e cavernosa como de
+sepulchro:
+
+--'Pois pergunto, sim; e permitta Deus!..'
+
+--'Padre, não jure nem pragueje' interrompeu Carlos com firmeza e
+serenidade 'as suas intenções serão boas talvez... creio que são boas,
+filhas de um remorso salutar...'
+
+--'Que dizes tu, Carlos... que disseste?.. Oh, meu Deus!'
+
+As scenas tinham mudado: Fr. Diniz parecia o pupillo, a sua voz tinha o
+som da súpplica, ja não tremia de íra mas de anciedade; Carlos, pelo
+contrario, fallava no tom austero e grave de um homem que está forte na
+sua razão e que é generoso com a sua offensa. As palavras do mancebo
+eram agras, via-se que elle o sentia e que procurava adoçá-las na
+inflexão, que lhes dava.
+
+--'O que eu digo, padre Fr. Diniz, o que eu sou obrigado a dizer-lhe é
+isto. Minha avó consentiu, por fraqueza de mulher, no que eu não posso
+nem devo consentir. O que ha n'ésta casa não é... não é meu; o pão que
+aqui se come... é comprado por um preço... Padre! ja ve que não podêmos
+fallar mais n'este assumpto. Eu parto ámanhan para Lisboa.--Minha avó!'
+acrescentou Carlos, mudando de voz e chamando para dentro 'minha avó!'
+
+A velha acudiu, elle disse-lhe a sua tenção, motivou-a em opiniões
+politicas, declamou contra D. Miguel, mostrou-se enthusiasta da causa
+liberal, e protestou que, n'aquelle anno, de tal modo se tinha
+pronunciado em Coimbra e ainda em Lisboa, que só uma prompta fuga o
+podia salvar...'
+
+A velha chorou, pediu, rogou... inutilmente, em vão.
+
+Fr. Diniz assistiu a tudo isto sem dizer palavra.
+
+E aquella tarde voltou mais cedo para o convento.
+
+No outro dia de manhan muito cedo, abraçado com a avó e com a priminha
+que se desfaziam em lagrymas, Carlos dizia o último adeus áquella
+querida casa, áquelle amado valle em que fôra criado... N'essa noite
+estava em Lisboa, d'ahi a poucos dias em Inglaterra, e d'ahi a alguns
+meses na ilha Terceira.
+
+Na sexta-feira depois da partida de Carlos, Fr. Diniz veio ao valle e
+teve larga conferencia com a avó.
+
+Os tres dias seguintes a velha levou fechada no seu quarto a chorar...
+no fim do terceiro dia estava cega.
+
+Joanninha era uma criança a esse tempo, parecia não intender nada do que
+se passava. Mas quem a observasse com attenção, veria que ella dobrou de
+carinho e de amor para com a avó, e que se não tornou a rir para o
+frade...
+
+Elle, o frade, invelheceu de dez annos n'aquelle dia. Os olhos sumidos,
+que era a feição dominante n'aquelle rosto ascetico, sumiram-se mais e
+mais; a estatura alta e erecta curvou-se-lhe; o tremor nervoso, que o
+tomava por accessos, tornou-se-lhe habitual; os tendões enrijaram-lhe,
+os musculos da cara descarnaram-se, e a pelle ja sulcada de fundos
+cuidados, arrugou-se e franziu-se toda em rugas cruzadas e confusas como
+que se lh'a torrassem n'uma grelha.
+
+Nunca mais houve um dia de alegria no valle. A sexta-feira porêm era o
+dia fatal e aziago. Fr. Diniz ja não vinha senão no fim da tarde e
+demorava-se pouco; mas tanto bastava. Suspirava-se por aquella hora e
+tremia-se d'ella. As notícias que consolavam, e os terrores que matavam,
+o frade é que os trazia. O resto da semana levava-se a chorar e a
+esperar.
+
+E assim se tinham passado dous annos até á sexta-feira em que primeiro
+vimos junctas á porta da casa aquellas tres criaturas; assim se passou
+até d'ahi a oito dias que a nossa historia volta a incontrá-los.
+
+
+
+
+CAPITULO XVII.
+
+
+ De como, chegando outra sexta-feira e estando a avó e a neta á
+ espera do frade, este lhe appareceu, contra o seu costume, da banda
+ de Lisboa.--Porque razão muitas vezes a mais animada conversação é
+ a que mais facilmente pára e quebra derepente.--Nova demonstração
+ de dous grandes axiomas dos nossos velhos, a saber: Que o hábito
+ não faz o monge; e que ralhando as commadres, se descobrem as
+ verdades.--No ralhar da velha com o frade, levanta-se uma ponta do
+ veo que cobre os mysterios da nossa historia.
+
+
+Passaram-se aquelles oito dias no valle, não ja como se tinham passado
+tantas outras semanas em vagas tristezas, em desconsolação e
+desconfôrto, mas em positiva anciedade e aguda afflicção pela certeza
+que trouxera o frade de se achar Carlos no Porto fazendo parte do
+pequeno exército do D. Pedro.
+
+Incertos rumores, d'aquelles que percorrem um paiz em tempos similhantes
+e que augmentam e exaggeram, confundem todos os successos tinham chegado
+até ás pacificas solidões do valle com as notícias de combates
+sanguinarios, de commoções violentas, de desacatos sacrilegos, de
+vinganças e reprezalias atrozes tomadas pelos aggressores, retribuídas
+pelos que se defendiam.
+
+Chegou a sexta-feira; e as horas d'esse dia, sempre desejado e sempre
+temido, foram contadas minuto a minuto--a qual mais longo, a qual mais
+pezado e lento de volver, quanto mais se approximava o derradeiro.
+
+O sol declinava ja... e Fr. Diniz sem apparecer!
+
+No seu poiso ordinario aopé da porta da casa, Joanninha com os olhos
+extendidos, a velha com os ouvidos álerta, devoravam o espaço na
+direcção de nascente, esperando a cada momento, temendo a cada instante
+ver apparecer o conhecido vulto, ouvir o som familiar dos passos do
+frade.
+
+E tam intentas, tam absortas estavam ainda n'este cuidado, que não deram
+fe d'um religioso que pelo lado opposto, isto é, da banda de Lisboa,
+para alli se incaminhava a passos arrastados mas presurosos.
+
+Chegou rente d'ellas sem o sentirem; e uma voz conhecida, porêm mais
+cava e funda do que nunca a ouviram, pronunciou a fórmula de saudação
+costumada:
+
+--'Deus seja n'esta casa!'
+
+--'Amen!' responderam ambas machinalmente, com um estremeção
+involuntario; e voltando derepente a cara para o lado d'onde vinha a
+voz.
+
+--'Jesus!' disse depois a velha tornando a si, 'Padre Fr. Diniz, de
+d'onde vem tam tarde?'
+
+--'Chego de Lisboa.'
+
+--'De Lisboa? Deus lh'o pague!... Foi saber?..'
+
+--'Fui, fui saber novas d'esta horrivel guerra, d'esta tremenda
+visitação do Senhor á condemnada terra de Portugal...'
+
+--'E então, diga'...
+
+--'Boas novas, boas novas trago!'
+
+--'Sente-se, padre, sente-se. Joanninha, chega uma cadeira: descanse.'
+
+--'Não é tempo de descansar este, mas de vigiar e de orar.'
+
+--'Pois que succedeu, padre? Não me tenha n'esta horrivel suspensão.
+Diga: onde está elle? Alguma desgraça grande lhe aconteceu, oh meu
+Deus!..
+
+--'E que me importa a mim o que aconteceu ou podia acontecer a mais um
+de tantos perdidos? Encherá a sua medida, irá após dos outros... caminha
+nas trevas com elles, e como elles, so hade parar no abysmo.'
+
+A éstas derradeiras palavras do frade asperamente pronunciadas e em tom
+de indifferença e desprêzo, seguiu-se aquelle silencio comprimido,
+aquella pausa de toda a conversação grave e íntima em que os pensamentos
+são tantos que se atropellam e não acham sahida na voz.
+
+Fr. Diniz mentia... na dureza d'aquellas expressões mentia ao seu
+coração--não mentia ao seu espirito. Como o caustico se applica á
+epiderme para deslocar a inflammação interior, elle roçava o peito com
+as asperidões de sua doutrina e de seus principios rigidos para
+amortecer dentro a viva dor d'alma que o consummia.
+
+O frade estava por fóra, o homem por dentro.
+
+O observador vulgar não via senão o burel e a corda que amortalhavam e
+cadaver. O que attentasse bem n'aquelles olhos, o que reparasse bem nas
+inflexões d'aquella voz, diria: 'Frade, tu mentes; mentes sem saberes
+que mentes: es sincero na tua fe, na tua austeridade, na tua abnegação;
+mas o teu sacrificio é como o de Abraham na montanha, e Deus sabe que tu
+não tens fôrça para o cumprir.'
+
+Não o percebeu assim a pobre velha aquem os rigores de Fr. Diniz faziam
+tremer, e que para toda a affeição, para todo o sentimento humano
+julgava morto o coração do cenobita.
+
+Ella que no silencio de suas noites sempre veladas, na perpétua
+escuridão de seus dias sempre tristes luctava ha tanto tempo, luctava
+debalde para desprender das affeições do mundo, aquelle seu pobre
+coração que queria immollar ao Senhor, ella via com sancta inveja e
+admiração as sobrehumanas fôrças que imaginava no frade; e desanimada de
+o podêr seguir n'essas alturas da perfeição evangelica, recahia, mais
+desalentada e mais miseravel que nunca, em toda a sua fraqueza de mulher
+e de mãe.
+
+Oh! não sabe o que é tormento, o que é inferno n'este mundo, o que não
+soffreu destas angústias!
+
+Mas permitte Deus que as padeça quem não tem grandes culpas, grandes e
+irreparaveis erros que expiar n'este mundo?
+
+Eu creio firmemente que não.
+
+...........................................................................
+...........................................................................
+
+Cansada e exhausta ja de tam porfiada lucta, a velha perdeu de todo a
+razão com as derradeiras palavras do frade, e n'um paroxismo de chôro
+exclamou:
+
+--'Diniz!.. Fr. Diniz, por aquelle pinhor sagrado que eu tenho em meu
+podêr, por aquella preciosa cruz sôbre a qual se derramaram as últimas
+lagrymas da minha desgraçada filha, Diniz!...'
+
+--'Silencio!' bradou o frade, arrancando um brado de dentro do peito que
+fez gemer os echos todos do valle: 'Silencio, mulher! não conjure o
+demonio que eu trago incarcerado n'este seio, que á fôrça de penitencias
+mal pude domar ainda... que so a morte poderá talvez expellir. Mulher,
+mulher! este cadaver que ja morreu que ja apodreceu em tudo o mais, que
+ja o comem, sem o elle sentir, os bichos todos da destruição... este
+cadaver tem um unico ponto vivo no coração... e o dedo do teu egoismo
+ahi foi tocar, oh mulher!.. Peccado que estás sempre contra mim! Justiça
+eterna de Deus quando serás satisfeita?'
+
+Rompêra na maior violencia a voz do frade, mas descahiu n'um tom baixo e
+medonho ao fazer ésta última imprecação mysteriosa. As derradeiras
+syllabas quasi que lhe morreram nos beiços convulsos, e ao balbuciá-las
+deixou-se cahir, exhausto e como quem mais não podia, na cadeira que
+Joanninha lhe chegára.
+
+A velha aterrada e confusa tremia do que fizera, como deante do espirito
+immundo que seus maleficios evocaram, treme a maga assustada de seu
+proprio podêr.
+
+Passaram alguns segundos que nenhumas palavras podem descrever.
+
+O frade levantou o rosto, olhou para ella, olhou para Joanninha... e,
+como quem emerge, por grande esfôrço, de um pêso enorme d'aguas que o
+submergiam, sacudiu a cabeça, sorveu um longo trago de ar, e disse na
+sua voz ordinario, so mais debil:
+
+--'Carlos, senhora... minha irman, Carlos está vivo; e exaqui, vinda
+pelo consul de França, uma carta d'elle.'
+
+Tirou uma carta da manga e a intregou a Joanninha.
+
+
+
+
+CAPITULO XVIII.
+
+
+ Descobre-se que ha grandes e espantosos segredos entre o frade e a
+ velha.--Piedosa fraude de Joanninha.--Lucta entre o hábito e o
+ monge.
+
+
+O frade intregou a carta a Joanninha, que, lançando os olhos ao
+sobrescripto, ficou indecisa e inquieta como quem receia e deseja e teme
+de saber alguma coisa. Elle com voz trémula e sobresaltada accrescentou:
+
+--'Adeus, que são horas!.. Leiam, e sexta-feira que vem... me dirão...'
+
+--'Poisquê' disse timidamente a velha 'não quer ouvir o que elle nos
+escreve?'
+
+--'Sexta-feira que vem' continuou Fr. Diniz, sem ouvir ou sem attender a
+pergunta 'sexta-feira que vem eu tomarei conta da resposta, e lh'a farei
+chegar pela mesma via... So uma coisa! nem palavra a meu respeito: eu
+para Carlos... morri.'
+
+--'Diniz!' exclamou a velha fóra de si 'Diniz!..'
+
+O frade tornou derepente ao seu tom austero, e respondeu gravemente: 'O
+quê, minha irman?'
+
+--'Era' disse ella timida e submissa outra vez 'era se, era que... Pois
+não hade ouvir ler a carta d'elle?'
+
+Fr. Diniz não respondeu, mas ficou sentado: descahiu-lhe a cabeça sôbre
+o peito, e abraçando-se com o bordão, não deu mais signal de si.
+
+A velha escutou em silencio alguns segundos, e com aquelle ouvido
+agudissimo--penetrante vista dos cegos--percebeu sem dúvida o que se
+passava, e com mais confôrto e serenidade na voz disse:
+
+--'Abre, Joanna, lê, minha filha.'
+
+Joanninha abriu a carta, e percorreu com avidez as poucas linhas que
+ella incerrava.
+
+--'Não les?' acudiu a avó com impaciencia: 'Lê, lê alto, Joanna.'
+
+--'É para mim so a carta' disse ella friamente.
+
+--'Para ti so, como?' tornou a outra.
+
+--'É para mim so ésta carta... não diz nada que...'
+
+--'Não diz nada!' replicou a avó 'Pois!... Lê, lê alto; seja como for,
+lê, e oiçamos.'
+
+Joanninha parecia hesitar ainda; lançou os olhos ao frade, achou-o na
+mesma attitude impassivel; voltou-se para a avó, viu-a anciada e
+anxiosa... leu.
+
+A carta era com effeito para ella so, e carta bem singela, não continha
+senão as ingenuas expressões de um amor fraterno nunca esquecido, longas
+saudades do passado, poucas esperanças no futuro, quasi nenhumas de se
+tornarem a ver tam cedo. Tudo isto porém era com a prima: para a
+desconsolada avó, para ninguem mais... nem uma palavra.
+
+Joanninha ia lendo, lendo... e a voz a descahir-lhe: no fim ajunctou uns
+abraços, umas saudosas lembranças, e não sei que phrase incompleta e mal
+articulada em que se pedia a bençam da avó.
+
+A velha abanou a cabeça tristemente e disse: 'Ora pois... bemditto seja
+Deus!'
+
+Joanninha córou até o branco dos olhos... Inda bem que a não podia ver a
+avó! Mas viu-a Fr. Diniz, e com a mão trémula e os olhos arrazados
+d'agua lhe fez um mudo e expressivo signal de approvação e
+agradecimento. Joanninha córou outra vez, e logo se fez pallida como a
+morte: era a primeira vez que mentia... e Fr. Diniz, o austéro Fr. Diniz
+apprová-la!
+
+O frade levantou-se, e sem dizer palavra, tomou o caminho de Santarem.
+
+Ouvia-se ao longe o arquejar de uns soluços suffocados... Seriam d'elle?
+
+A avó e a neta abraçaram-se e choraram.
+
+Nenhuma d'ellas disse palavra sôbre a carta: a velha tinha percebido a
+piedosa fraude de Joanninha...
+
+Oh! que existencias que eram aquellas quatro! Esse frade, essa velha e
+essas duas crianças! E a maior parte da gente que é _gente_, vive
+assim... E querem, querem-n'a assim mesmo, a vida, teem-lhe appêgo! Oh
+que enigma é o homem!
+
+Tornou a passar outra semana, e o frade tornou a vir no praso costumado,
+e levou a resposta da carta--resposta que Joanninha so escreveu e so
+viu--e dirigiu-a em Lisboa pela via segura que indicára.
+
+Soube-se que fôra intregue; mas semanas e semanas decorreram, os meses
+passaram de anno... e outra carta não veio.
+
+No entretanto a guerra civil progredia; e depois de suas tremendas
+peripecias, o grande drama da Restauração chegava rapidamente ao fim.
+Eram meiados do anno de 33, a operação do Algarve succedêra
+milagrosamente aos constitucionaes, a esquadra de D. Miguel fôra tomada,
+Lisboa estava em podêr d'elles. Os tardios e inuteis esforços dos
+realistas para retomar a capital tinham occupado o resto do verão. Ja
+outubro se descoroava de seus ultimos fructos, e as folhas começavam a
+impallidecer e a cahir, quando uma sexta-feira, ao pôr do sol, Fr. Diniz
+apparecia no valle mais curvado e mais trémulo que nunca. Vinha do
+exército realista que então cercava Lisboa.
+
+Joanninha não era alli, a velha estava so.
+
+--'Que nos traz, padre?' clamou ella mal que o sentiu: 'Soube d'elle?
+Tem escapado a éstas desgraças, a esses combates mortaes?'
+
+--'Não sei nada, minha irman: ha tres dias que de Lisboa se não póde
+obter a menor informação. As linhas estão fechadas e guarnecidas como
+nunca: tudo indíca havermos de ter cedo algum combate decisivo.'
+
+--'Deus seja com!..'
+
+--'Com quem, minha irman?'
+
+--'Com quem tiver justiça.'
+
+--'Nenhum a tem. De um lado e de outro está a ambição e a cubiça, de um
+lado e de outro a immoralidade, a perdição e o desprêzo da palavra de
+Deus. Por isso, vença quem vencer, nenhum hade triumphar.'
+
+--'Ai, o meu pobre filho, o meu Carlos!'
+
+--'Isso, irman Francisca, isso! Peça a Deus que dê a victoria a seu
+neto, e á impiedade por que elle combate. Peça a Deus que vençam os
+inimigos declarados do seu nome, os destruidores de seus altares, os
+profanadores de seus templos... Oh! que dia bello e grande não hade ser
+esse, quando Carlos... o seu Carlos, vier expulsar, ás baionetadas, do
+pobre convento de San'Francisco, o velho guardião--que lhe não hade
+fugir, minha irman!.. d'elle menos que de nenhum outro... que ajoelhado
+deante do altar inclinará a cabeça como os antigos martyres para cahir
+na presença do seu Deus ás mãos do seu...'
+
+--'Diniz!.. Padre!.. Padre Frei Diniz, que horrorosas palavras sahem da
+sua bôcca!.. Meu neto, o meu Carlos não é capaz... oh meu Deus!..'
+
+--'Seu neto detesta-me... e tem... tem razão.'
+
+--'Não sabe a verdade elle... Carlos está inganado, cuida... não sabe
+senão meia verdade: e eu, eu heide--custe o que me custar--eu heide...'
+
+--'Hade o quê?'
+
+--'Heide desinganá-lo, heide-lhe dizer a verdade toda. Heide prostrar-me
+na sua presença, heide humilhar-me deante do filho de minha filha, heide
+arrastar na poeira de seus pés éstas cans e éstas rugas... morrerei de
+vergonha e de remorsos deante do meu filho, mas elle hade saber a
+verdade.'
+
+Sahiam com tal impeto e com tam desacostumada energia éstas mysteriosas
+e tremendas palavras da bôcca da velha, que Fr. Diniz não ousou
+contê-la; ouviu até ao fim, deixou quebrar o impeto da torrente, e
+erguendo então a sua voz austera mas pousada, disse n'aquelle tom
+friamente decisivo que tanto impõe aos animos apaixonados:
+
+--'Se tal fizesse, mulher, a minha maldicção, a maldicção eterna de Deus
+sôbre a sua cabeça para sempre!... Oh mulher, pois não lhe basta que
+elle me abhorreça--não lhe basta que seu neto lhe perdesse o amor...
+quer... quer tambem que nos despreze?'
+
+A velha gemeu profundamente, e, por um geito de antiga reminiscencia,
+levou as mãos aos olhos como se os tapasse para não ver. Então disse com
+desconsoladas lagrymas na voz:
+
+--'A vontade de Deus seja feita!'
+
+
+
+
+CAPITULO XIX.
+
+
+ Guerra de postos avançados. Joanninha no bivac--De como os
+ rouxinoes do valle se disciplinaram a ponto de tocar a alvorada e a
+ retreta.--Quem era a 'menina dos rouxinoes,' e porque lhe poseram
+ este nome.--A sentinella perdida e achada.
+
+
+A velha disse aquellas últimas palavras com uma expressão de dor tam
+resignada, mas tam desconsolada, que o frade olhou para ella commovido,
+e sentiu as lagrymas escurecerem-lhe a vista.
+
+N'este momento Joanninha, que passeiava a alguma distancia da casa na
+direcção de Lisboa, acudiu sobresaltada bradando:
+
+--'Avó, avó!.. tanta gente que ahi vem! soldados e povo... homens e
+mulheres... tanta gente!'
+
+Era a retirada de 11 de outubro.
+
+--'Deus tenha compaixão de nós!' disse a velha: 'O que será padre?'
+
+--'O que hade ser!' respondeu Fr. Diniz: 'o meu presentimento que se
+verifica; o combate foi decisivo, os constitucionaes vencem.'
+
+Comeffeito foram apparecendo as tropas que se retiravam, as gentes que
+fugiam, e todo aquelle confuso e doloroso espectaculo de uma retirada em
+guerra civil...
+
+Alguns feridos, que não podiam mais, ficaram na casa do valle intregues
+á piedosa guarda e cuidado de Joanninha; dos outros tomou conta Fr.
+Diniz e os acompanhou a Santarem.
+
+As tropas constitucionaes vinham em seguimento dos realistas, e d'alli a
+poucos dias tinham o seu quartel-general no Cartaxo; D. Miguel
+fortificava-se em Santarem, e a casa da velha era o último posto militar
+occupado pelo seu exército.
+
+Não tardou muito que a fôrça toda, todo o interêsse da guerra se não
+concentrasse n'aquelle, ja tam pacífico e ameno, agora tam desolado e
+turbulento valle.
+
+Eram os derradeiros dias do outomno, a natureza parecia tomar dó pelo
+homem--dar triste e lugubre decoração de scena ao sanguento drama de
+destruição e de miseria que alli se ía concluir. As últimas folhas das
+árvores cahiam, o ceo nublado e negro vertia sôbre a terra apaulada
+torrentes grossas d'agua, a cheia alagava os baixos, e as terras altas
+cobriam-se de hervas maninhas, os trabalhos da lavoira cessavam, o gado
+e os pastores fugiam, e os soldados de um e de outro campo cortavam as
+oliveiras seculares...
+
+Tudo estava feio e torpe, tudo era ruina, desolação e morte emtôrno da
+casa do valle, agora transformada em quartel e redutto militar.
+
+E que era feito, no meio d'ésta desordem, que era feito da nossa pobre
+velha, da nossa interessante Joanninha?
+
+Apenas se estabeleceu a posição dos dous exercitos, Fr. Diniz queria
+levá-las para Santarem; mas não foi possivel. Instancias, rogos, ordem
+positiva, tudo foi em vão. Pela primeira vez na sua vida, aquella mulher
+tímida, fraca e irresoluta, soube ter vontade firme e propria.
+
+--'Aqui nasci,' dizia ella, 'aqui vivi, aqui heide morrer. Que importa
+como?.. Aqui as curtas alegrias, aqui as longas dores da minha vida teem
+passado: onde heide eu ir que possa viver ou morrer senão aqui? Ésta
+casa sei-a de cór, éstas árvores conhecem-me, estes sitios são os
+ultimos que vi, os unicos de que me lembra: como heide eu, velha e cega,
+ir fazer conhecimento com outros para viver n'elles?..'
+
+--'E Joanninha n'essa edade... no meio d'essa soldadesca!' suggeria o
+frade.
+
+--'Joanninha' tornava ella 'Joanninha é uma criança, e tem mais juizo,
+mais energia d'alma, mais saude e mais fôrça do que--mulheres não
+fallemos--do que a maior parte dos homens. Ficaremos aqui, padre,
+ficaremos aqui melhor do que em Santarem podêmos estar. Deus nos
+defenderá...'
+
+Fr. Diniz cedeu: a mesma vaga e indeterminada esperança que animava a
+velha, e que a prendia tam fortemente alli, não era extranha ao coração
+do frade. Ella não ousava nem alludir de longe a essa esperança, mas
+sentia-se que lá a tinha anninhada e escondida a um canto d'alma...
+Aquelle neto, aquelle filho da filha querida havia de vir ter á casa em
+que nascêra... por alli havia de passar, e mais dia menos dia... A
+velha, repitto, nem alludia a tal esperança, mas sentia-se que a tinha:
+percebeu-lh'a Fr. Diniz, e ou a partilhasse tambem ou não se atrevesse a
+contrariar razões que lhe não davam, cedeu e callou-se.
+
+O seu principal temor era a licenciosa soltura dos costumes militares;
+mas estava Joanninha menos exposta por se accolher a uma praça de guerra
+como Santarem era agora?
+
+Brevemente se viu que a avó tinha accertado. A franca e ingenua
+dignidade de Joanninha, o ar grave, a melancholia serena e bondosa da
+velha impozeram tal respeito aos soldados, que--graças tambem á
+cooperação efficaz do commandante do pôsto, um bom e honrado cavalheiro
+transmontano--ellas viviam tam seguras e quietas na pequena porção da
+casa que para si reservaram, quanto em taes circumstancias era possivel
+viver. Fr. Diniz vinha regularmente ao valle todas as sexta-feiras, e
+nenhum outro hábito de suas vidas se interrompeu.
+
+E pouco a pouco, os combates, as escaramuças, o som e a vista do fogo, o
+aspecto do sangue, os ais dos feridos, o semblante desfigurado dos
+mortos--a guerra emfim em todas as suas fórmas, com todo o seu
+palpitante interêsse, com todos os terrores, com todas as esperanças que
+a accompanham, se lhes tornou uma coisa familiar, ordinaria...
+
+A tudo se habitua o homem, a todo o estado se affaz; e não ha vida, por
+mais extranha, que o tempo e a repettição dos actos lhe não faça
+natural.
+
+Todavia de Carlos nem mais uma linha... Pobre velha!
+
+Assim passaram meses, assim correu o hynverno quasi todo, e ja as
+amendoeiras se toucavam de suas alvissimas flores de esperança, ja uma
+depois de outra, íam renascendo as plantas, íam abrolhando as árvores;
+logo vieram as aves trinando seus amores pelos ramos... insensivelmente
+era chegado o meio d'Abril, estavamos em plena e bella primavera.
+
+A guerra parecia cançada, o furor dos combatentes quebrado; rumores de
+intentadas transacções gyravam por toda a parte.
+
+No nosso valle as sentinellas dos dous campos oppostos, costumadas ja a
+ver-se todos os dias, começavam a ver-se sem odio: principiaram por se
+dizer dos pesados gracejos de guerra, acabaram por conversar quasi
+amigavelmente. Muíta vez foi curioso ouvi-los, os soldados, discorrer
+sôbre as altas questões d'Estado que dividiam o reino e o traziam
+revôlto ha tantos annos. Se as tractavam melhor os do conselho em seus
+gabinetes!
+
+Joanninha que, pouco a pouco, se habituára áquelle viver de perigos e
+incertezas, de dia para dia lhe ia crescendo o ânimo, aguerrindo-se.
+Tudo se affazia áquelle estado: até os rouxinoes tinham voltado aos
+loureiros d'aopé da casa, e como que disciplinados obedeciam aos toques
+d'alvorada e de retreta, accompanhando-os de seu cantar animado e
+vibrante.
+
+A essas horas Joanninha era certa em sua janella--n'aquella antiga e
+elegante janella _renascença_ de que primeiro nos namorámos, leitor
+amigo, ainda antes de a conhecer a ella. Alli a viam as vedetas de ambos
+os exercitos, alli se acostumaram a vê-la com o nascer e o pôr do sol:
+alli, muda e quêda horas esquecidas, escutava ella o vago cantar dos
+seus rouxinoes, talvez absorta em mais vagos pensamentos ainda...
+
+E d'alli lhe pozeram o nome da 'menina dos rouxinoes', pelo qual era
+conhecida em ambos os campos: significante e poetico appellido com que a
+saudavam os soldados de ambas as bandeiras!
+
+E uns e outros respeitavam e adoravam a menina dos rouxinoes. Entre uns
+e outros por tacita convenção parecia stipulado que aquella suave e
+angelica figura podesse andar livremente no meio das armas inimigas,
+como a pomba doméstica e valida a que nenhum caçador se lembra de mirar.
+
+Os costumes de guerra são menos soltos do que se cuida; no ânimo do
+soldado ha mais sentimentos delicados, nas suas fórmas ha menos rudeza
+do que se pensa. A farda é sim vaidosa e presumida, crê muito nos seus
+podêres de seducção, mas não é brutal senão no primeiro impeto.
+
+Joanninha pençava os feridos, velava os infermos, tinha palavras de
+consolação para todos, e em tudo quanto dizia e fazia era tam senhora,
+tinha tam grave gentileza, um donaire tam nobre, que a amavam todos
+muito, mas respeitavam-n'a ainda mais.
+
+Fiada ja n'este respeito e estima geral, Joanninha fôra extendendo, de
+dia a dia, as suas excursões pelo valle. Ultimamente costumava ir, pelo
+fim da tarde, até um pequeno grupo de alamos e oliveiras que ficava mais
+para o sul e perto do logar donde, á noite, se collocavam as derradeiras
+vedetas dos constitucionaes.
+
+Um dia, ja quasi pôsto o sol, a tarde quente e serena,--ou fosse que
+adormeceu ou que suas meditações a distrahiram--o certo é que os
+rouxinoes gorjeavam ha muito nos loureiros da janella, e Joanninha não
+voltava.
+
+Estabeleceram-se as vedetas de um lado e outro, deram-se todas as
+disposições costumadas para a noite.
+
+O official dos constitucionaes que andava collocando as suas
+sentinellas, tinha vindo essa mesma tarde de Lisboa com um refôrço de
+tropa. Pôs-se elle em marcha com a sua gente, foi-a dispondo nos logares
+convenientes, e chegava emfim aopé d'aquelle grupo de árvores:
+
+--'Silencio!' disse elle 'Alto! alli está um vulto.'
+
+--'Não é ninguem,' respondeu um soldado que era dos antigos no pôsto:
+'ninguem que importe; é a menina dos rouxinões. Estou vendo que
+adormeceu no seu poiso costumado.'
+
+--'A menina dos rouxinões! Que cantiga é essa que me cantas tu lá?'
+
+O soldado deu a explicação popular do seu ditto, mostrou a casa do
+valle, e continuava incarecendo sôbre os meritos e virtudes de
+Joanninha...
+
+O official não o deixou acabar:
+
+--'Para a rettaguarda, e silencio!'
+
+Foi rapidamente postar, a alguma distancia d'alli, as duas sentinellas
+que lhe faltavam; e elle entrou so no pequeno grupo d'árvores.
+
+Era Joanninha que estava alli, Joanninha que effectivamente dormia a
+somno sôlto.
+
+
+
+
+CAPITULO XX.
+
+
+ Joanninha adormecida--O demi-jour da coquette.--Poesia do
+ Flos-sanctorum.--De como os rouxinoes acompanhavam sempre a menina
+ do seu nome; e do bem que um d'elles cantava no bivac.--Retratto
+ esquissado á pressa para satisfazer ás amaveis
+ leitoras.--Pondera-se o triste e pessimo gôsto dos nossos
+ governantes em tirarem as honras militares ao mais elegante e mais
+ nacional uniforme do exército portuguez.--Em que se parece o auctor
+ da presente obra com um pintor da edade-média.--De como os abraços,
+ por mais apertados que sejam, e os beijos, por mais interminaveis
+ que pareçam, sempre teem de acabar porfim.
+
+
+Sôbre uma especie de banco rustico de verdura, tapeçado de grammas e de
+macella brava, Joanninha, meio recostada, meio deitada, dormia
+profundamente.
+
+A luz baça do crepusculo, coada ainda pelos ramos das árvores,
+illuminava tibiamente as expressivas feições da donzella; e as fórmas
+graciosas de seu corpo se desenhavam molle e voluptuosamente no fundo
+vaporoso e vago das exhalações da terra, com uma incerteza e indecisão
+de contornos que redobrava o incanto do quadro, e permittia á imaginação
+exaltada percorrer toda a escalla d'harmonia das graças femininas.
+
+Era um ideal do demi-jour da coquette parisiense: sem arte nem estudo,
+lh'o preparára a natureza em seu boudoir de folhagem perfumado da brisa
+recendente dos prados.
+
+Como n'essas poeticas e populares legendas de um dos mais poeticos
+livros que se tem escripto, o Flos-sanctorum, em que a ave querida e
+fadada accompanha sempre a amavel sancta de sua affeição--Joanninha não
+estava alli sem o seu mavioso companheiro. Do mais espêsso da ramagem,
+que fazia sobreceo áquelle leito de verdura, sahia uma torrente de
+melodias, vagas e ondulantes como a selva com o vento, fortes, bravas, e
+admiraveis de irregularidade e invenção, como as barbaras endeixas de um
+poeta selvagem das montanhas... Era um rouxinol, um dos queridos
+rouxinoes do valle que alli ficára de vela e companhia á sua protectora,
+á menina do seu nome.
+
+Com o approximar dos soldados, e o cochichar do curto dialogo que no fim
+do último capitulo se referiu, cessára por alguns momentos o delicioso
+canto da avezinha; mas quando o official, postadas as sentinellas a
+distancia, voltou pé ante pé e entrou cautellosamente para debaixo das
+árvores, ja o rouxinol tinha tornado ao seu canto, e não o suspendeu
+outra vez agora, antes redobrou de trillos e gorgeios, e do mais alto de
+sua voz agudissima veio descahindo depois em uns suspiros tam magoados,
+tam sentidos, que não disseras senão que preludiava á mais terna e
+maviosa scena d'amor que esse valle tivesse visto.
+
+O official...--Mas certo que as amaveis leitoras querem saber com quem
+trattam, e exigem, pelo menos, uma esquissa rapida e a largos traços do
+novo actor que lhes vou appresentar em scena.
+
+Teem razão as amaveis leitoras, é um dever de romancista a que se não
+póde faltar.
+
+O official era môço, talvez não tinha trinta annos; pôsto que o tratto
+das armas, o rigor das estações, e o sêllo visivel dos cuidados que
+trazia estampado no rosto, accentuassem ja mais fortemente, em feições
+de homem feito, as que ainda devia arredondar a juventude.
+
+A sua estatura era mediana, o corpo delgado, mas o peito largo e forte
+como precisa um coração de homem para pulsar livre; seu porte gentil e
+decidido de homem de guerra desenhava-se perfeitamente sob o espesso e
+largo sobretudo militar--especie de great-coat inglez que a imitação das
+modas britannicas tinha tornado familiar nos nossos bivacs. Trazia-o
+desabotoado e descahido para traz, porque a noite não era fria; e viu-se
+por baixo elegantemente cingida ao corpo a fardeta parda dos caçadores,
+realçada de seus characteristicos alamares pretos e avivada de
+incarnado...
+
+Uniforme tam militar, tam nacional, tam caro a nossas recordações--que
+essas gentes, prostituidoras de quanto havia nobre, popular e respeitado
+n'esta terra, proscreveram do exército... por muito portuguez demais
+talvez! deram-lhe baixa para os beleguins da alfandega, reformaram-n'o
+em uniforme da bicha!
+
+Não pude resistir a esta reflexão: as amaveis leitoras me perdoem por
+interromper com ella o meu retratto.
+
+Mas quando pinto, quando vou riscando e collorindo as minhas figuras,
+sou como aquelles pintores da edade-média que interlaçavam, nos seus
+paineis, distichos de sentenças; fittas lavradas de moralidades e
+conceitos... talvez porque não sabiam dar aos gestos e attitudes
+expressão bastante para dizer por elles o que assim escreviam, e servia
+a penna de supplemento e illustração ao pincel... Talvez: e talvez pelo
+mesmo motivo caio eu no mesmo defeito...
+
+Será; mas em mim é irremediavel, não sei pintar de outro modo.
+
+Voltemos ao nosso retratto.
+
+Os olhos pardos e não muito grandes, mas de uma luz e viveza ímmensa,
+denunciavam o talento, a mobilidade do espirito--talvez a irreflexão...
+mas tambem a nobre singeleza de um character franco, leal e generoso,
+facil na íra, facil no perdão, incapaz de se offender de leve, mas
+impossivel de esquecer uma injúria verdadeira.
+
+A bôcca, pequena e desdenhosa, não indicava comtudo suberba, e muito
+menos vaidade, mas surria na consciencia de uma superioridade
+inquestionavel e não disputada.
+
+O rosto, mais pallido que trigueiro, parecia comprido pela barba preta e
+longa que trazia ao uso do tempo. Tambem o cabello era preto; a testa
+alta e desaffogada.
+
+Quando callado e serio, aquella physionomia podia-se dizer dura; a mais
+piquena animação, o mais leve sorriso a fazia alegre e prazenteira,
+porque a mobilidade e a gravidade eram os dous pollos d'esse character
+pouco vulgar e difficilmente bem intendido.
+
+D'aquelle busto classico e verdadeiramente moldado pelos typos da arte
+antiga, podia o statuario fazer um philosopho, um poeta, um homem
+d'estado ou um homem do mundo, segundo as leves inflexões d'expressão
+que lhe désse.
+
+N'este momento agora, e ao entrar na pequena espessura d'aquellas
+árvores, animava-o uma viva e inquieta expressão de interêsse--quebrado
+comtudo, sustido, e, para assim dizer, _soffreado_ de um temor occulto,
+de um pensamento reservado e doloroso que lhe ia e vinha resumbrando na
+face, como a antiga e desbotada côr de um estôfo que se tingiu de
+novo--que é outro agora mas que não deixou de ser inteiramente o que
+era...
+
+Alegra-se assim um triste dia de novembro com o raio de sol transiente e
+inesperado que lhe rompeu a cerração n'um canto do ceo...
+
+Tal era, e tal estava deante de Joanninha adormecida, o que não direi
+mancebo porque o não parecia--o homem singular a quem o nome, a historia
+e as circumstancias da donzella pareciam ter feito tamanha impressão.
+
+--'Joanninha!' murmurou elle apenas a viu á luz ainda bastante do
+crepusculo. 'Joanninha!' disse outra vez, contendo a violencia da
+exclamação: 'É ella sem dúvida. Mas que differente!... quem tal diria!
+Que graça, que gentileza! Será possível que a criança que ha dois
+annos?..'
+
+Dizendo isto, por um movimento quasi involuntario lhe tomou a mão
+adormecida e a levou aos labios.
+
+Joanninha estremeceu e acordou.
+
+--'Carlos, Carlos!'--balbuciou ella com os olhos ainda meio-fechados,
+Carlos, meu primo... meu irmão! era falso, dize: era falso? Foi um
+sonho, não foi, meu Carlos?..'
+
+E progressivamente abria os olhos mais e mais até se lhe espantarem e os
+cravar n'elle arregalados de pasmo e de alegria.
+
+--'Foi, foi' continuou ella 'foi sonho, foi um sonho mau que eu tive. Tu
+não morreste... Falla á tua irman, á tua Joanna; dize-lhe que estás
+vivo, que não es a sombra d'elle... Não es, não, que eu sinto a tua mão
+quente na minha que queima, sinto-a estremecer como a minha... Carlos,
+meu Carlos! dize, falla-me: tu estás vivo e são? E es... es o meu
+Carlos? Tu proprio, não é ja o sonho, es tu?...'
+
+--'Pois tu sonhavas? tu, Joanna, tu sonhavas commigo?'
+
+--'Sonhava como sonho sempre que durmo... e o mais do tempo que estou
+acordada... sonhava com aquillo em que so penso... em ti.'
+
+--'Joanna!... prima... minha irman!'
+
+E cahiu nos braços d'ella; e abraçaram-se n'um longo, longo abraço--com
+um longo, interminavel beijo..! longo, longo e interminavel como um
+primeiro beijo d'amantes...
+
+O abraço desfez-se; e o beijo terminou em fim, porque os reflexos do ceo
+na terra são limitados e imperfeitos como as incompletas existencias que
+a habitam.
+
+Senão... invejariam os anjos a vida da terra.
+
+Joanninha, tornada a si d'aquelle quasi paroximo, abria e fechava os
+olhos para se affirmar se estava bem acordada, tocava com as mãos o
+rosto, o peito, os braços do primo, palpava-se depois a si mesma como
+quem duvidava de sua propria existencia, e dizia em palavras cortadas e
+sem nexo:
+
+--'É Carlos... Carlos: foi falso. É meu primo... Minha avó tambem sonhou
+o mesmo sonho, mas foi falso. Fr. Diniz não é o que disse, nem ninguem:
+eu e a avó é que o sonhámos. Mas elle aqui está, vivo... vivo! e nosso,
+nosso todo outra vez!... Mas como vieste tu aqui, Carlos? Como estava eu
+aqui comtigo?... E sos, sosinhos aqui a ésta hora! Não deve ser isto...
+Valha-me Deus! E que dirão? E Jesus!--Lá isso não me importa; deixá-los
+dizer: mas não deve ser. Vamos, Carlos, vamos ter com ella, vamos para a
+avó!... Que n'isto não ha mal nenhum... Meu primo!.. um primo com quem
+eu fui criada!.. Mas quem não souber, póde dizer... Vamos, Carlos.--Oh!
+minha avó morre de alegria, coitada!.. É verdade: vou adeante
+preveni-la, prepará-la... heide-lhe ir assim dizendo pouco a pouco...
+Segue-me tu, Carlos, e vamos.--Mas, oh meu Deus! não é preciso: paraquê?
+Ella é cega, coitadinha, não sabes?'
+
+--'Cega, que dizes? minha avó está cega?'
+
+--'Pois não sabías? Ai! é verdade, não sabías. Tantas coisas que tu não
+sabes, meu Carlos! Mas eu te contarei tudo, tudo. Olha: cegou quando...
+Mas não fallemos agora n'essas tristezas que ja la vão. Em ella te
+sentindo aopé de si, é o mesmo que tornar-lhe a vista. Tem-m'o ella
+ditto muitas vezes, e eu bem sei que é assim. Mas ouve: um dia havemos
+de fallar--nós dois sos--á vontade: tenho tanto que te dizer... nem tu
+sabes... Agora vamos, Carlos.'
+
+E fallando assim, tomou-o pela mão e sahiu para o valle aberto,
+froixamente acclarado ja de myríadas de estrellas scintillantes no ceo
+azul.
+
+
+
+
+CAPITULO XXI.
+
+
+ Quem vem lá?--Como entre dous litigantes nem sempre gosa o
+ terceiro.--Carlos e Joanninha n'uma especie de situação _ordeira_,
+ a mais perigosa e falsa das situações.
+
+
+As estrellas luziam no ceo azul e diaphano, a brisa temperada da
+primavera suspirava brandamente; na larga solidão e no vasto silencio do
+valle distinctamente se ouvia o doce murmúrio da voz de Joanninha,
+claramente se via o vulto da sua figura e da do companheiro que ella
+levava pelo mão e que machinalmente a seguia como sem vontade propria,
+obedecendo ao podêr de um magnetismo superior e irresistivel.
+
+Passavam, sem as ver e sem reflectir onde estavam, por entre as vedetas
+de ambos os campos... e ao mesmo tempo de umas e outras lhes bradou o
+voz breve e stridente das sentinellas: 'Quem vem lá?'
+
+Estremeceram involuntariamente ambos com o som repentino de guerra e de
+allarma que os chamava á esquecida realidade do sítio, da hora, das
+circumstancias em que se achavam... D'aquelle sonho incantado que os
+transportára ao Éden querido de sua infancia, accordaram
+sobresaltados... viram-se na terra erma e bruta, viram a espada
+flammejante da guerra civil que os perseguia, que os desunia, que os
+expulsava para sempre do paraizo de delicias em que tinham nascido...
+
+Oh! que imagem eram esses dous, no meio d'aquelle valle nu e aberto, á
+luz das estrellas scintillantes, entre duas linhas de vultos negros,
+aqui alli dispersos e luzindo acaso do tranziente reflexo que fazia
+brilhar uma baioneta, um fuzil... que imagem não eram dos verdadeiros e
+mais sanctos sentimentos da natureza expostos e sacrificados sempre no
+meio das luctas barbaras e estupidas, no conflicto de falsos principios
+em que se estorce continuamente o que os homens chamaram _sociedade_!
+
+Joanninha abraçou-se com o primo; elle parou derepente e foi com a mão
+ao punho da espada.
+
+--'Quem vem lá?' tornaram a bradar as sentinellas.
+
+--'Ouves, Joanna?' disse Carlos em voz baixa e sentida: 'Ouves estes
+brados?' É o grito da guerra que nos manda separar; é o clamor cioso e
+vigilante dos partidos que não tolera a nossa intimidade, que separa o
+irmão da irman, o pae do filho!..'
+
+--'Quem vem lá?' bradaram ainda mais forte as sentinellas; e ouviu-se
+aquelle stridor baço e breve que tam froixo é e tam forte impressão faz
+nos mais bravos animos... era o som dos gatilhos que se armavam nas
+espingardas.
+
+O momento era supremo, o perigo imminente e ja inevitavel... alli podiam
+ficar ambos, traspassados das ballas oppostas dos dous campos
+contendores.
+
+Como esses que, fiados em sua innocencia e abnegação, cuidam podêr
+passar por entre as discordias civis sem tomar parte n'ellas, e que são,
+por isso mesmo, objecto de todas as desconfianças, alvo de todos os
+tiros--assim estavam alli os dous primos na mais arriscada e falsa
+posição que têem as revoluções.
+
+Joanninha conheceu o perigo que os ameaçava; e com aquella rapidez de
+resolução que a mulher tem mais prompta e segura nas grandes occasiões,
+disse para Carlos:
+
+--'Falla aos teus, faze-te conhecer e põe-te a salvo. Ámanhan nos
+tornaremos a ver: eu te avisarei. Adeus!'
+
+--'E tu, tu?.. E as sentinellas dos realistas?..'
+
+--'Não tenhas cuidado em mim. D'esta banda todos me conhecem'.
+
+Deu alguns passos para o lado da sua casa e levantou a voz:
+
+--'Joanninha! Sou eu, camaradas, sou eu!'
+
+Immediatamente se ouviu o som retinido das coronhas no chão, e o riso
+contente dos soldados que reconheciam a bemquista e bem vinda voz de
+Joanninha... da 'menina dos rouxinoes.'
+
+--'Ves, Carlos?.. Adeus! até ámanhan.' disse ella baixo.
+
+--'Até amanhan se...'
+
+--'Se!.. Pois tu?..'
+
+--'Ouve: não digas a tua avó que me viste, que estou aqui: é forçoso, é
+indispensavel, exijo-o de ti...'
+
+--'E ámanhan me dirás?..'
+
+--'Sim.'
+
+--'Prometto: não direi nada... Mas, oh! Carlos...'
+
+--'Adeus!'
+
+Carlos deu dous passos para a banda das suas vedetas, Joanna correu para
+o lado opposto. Mas elle parou e não tirou os olhos d'aquella fórma
+gentil que deslizava como uma sombra pelo horisonte do valle, até que
+desappareceu de todo.
+
+E elle immovel ainda!
+
+Faíscaram derepente como relampagos um, dous, tres... e as detonações
+que os seguiram, e o assovio das ballas que vinham depós ellas... Eram
+as sentinellas constitucionaes que faziam fogo sôbre o seu commandante
+que não conheciam, cujo silencio e immobilidade o fazia suspeito.
+
+Uma das ballas ainda o feriu levemente no braço esquerdo.
+
+--'Bem, camaradas!' bradou Carlos caminhando rapidamente para elles, e
+erguendo a voz forte e cheia que tam conhecida era nas fileiras: 'Bem!
+Fizeram a sua obrigação. Um de vocês que me aperte aqui o braço com este
+lenço.'
+
+--'Carlos!' gritou ao longe uma voz fina, aguda, vibrante de terror pelo
+espaço 'Carlos! falla-me, responde: não te succedeu nada?'
+
+--'Nada, nada! Socega.'
+
+E tornou a cahir tudo no silencio. Carlos retirou-se ao seu quartel
+n'uma choupana proxima. Os soldados olharam-se entre si e surriram.
+
+Um mais doutor disse para os outros:
+
+--'O nosso capitão não se descuida: ainda hoje chegou, e já nós lá
+vamos, hem?'
+
+--'O nosso capitão é d'aqui: não sabes?'
+
+--'Hum! tenho percebido. E ainda lhe dura? O home' é capaz!'
+
+--'Silencio! Eu te direi logo a historia toda: é uma prima.'
+
+--'Ah! prima. Então não ha nada que dizer.'
+
+--'É a que elles chamam aqui...'
+
+--'A menina dos rouxinoes? Essa é maluca.'
+
+--'Gosta d'ellas assim, que elle tambem o é.'
+
+--'Pois a freira de San Gonsallo, na Terceira?'
+
+--'Maluca.'
+
+--'E a Lady ingleza que?..'
+
+--'Maluquissima essa! Não me hade admirar se a vir cahir do ar um dia
+por ahi como bomba. E não hade dar mau estallo!'
+
+--'Podéra! E incontrando-se com a prima então!..'
+
+--'Mas elle é prima ou é irman?'
+
+--'É uma tal parentella inrevezada a d'essa gente da casa do valle!..
+dizem coisas por ahi, que se eu as intendo!.. E ha um frade no caso, ja
+se sabe...'
+
+--'Oh! elle ha frade no caso?'
+
+--'Ha, e que frade! Um apostolico ás direitas! Tam feio, tão magro!
+apparece por ahi ás vezes. Eu já o lombriguei um dia: e que famoso tiro
+que era! Quasi que me arrependo de não ter...'
+
+--'Isso! hoje iamos matando o nosso capitão por instantes. Olha agora se
+lhe matas o tio, ou pae, ou o que quer que é...'
+
+--'Um frade!'
+
+--'Um frade não é gente?'
+
+--'Não senhor.'
+
+--'Está bom: basta de conversar por hoje. O que me eu parece é que nós
+temos cedo muita pancada rija.'
+
+--'Venha ella, que isto ja abhorrece.'
+
+Accenderam os cigarros e fumaram.
+
+Com o mesmo socêgo d'espirito... sancto Deus! accendem os homens a
+guerra civil, que altera e confunde por este modo todas as ideas, todos
+os sentimentos da natureza.
+
+
+
+
+CAPITULO XXII.
+
+
+ Bilhete de manhan da prima ao primo. Inganam a pobre da
+ velha.--Noite mal dormida.--Da conversa que teve Carlos com os seus
+ botões.--A Joanninha que elle deixára e a Joanninha que
+ achou.--Obrigações d'amor, triste palavra.--A mulher que elle
+ amava, e se elle a amava ainda.--Quesitos do A. aos seus benevolos
+ leitores. Declara que com os hypocritas não falla.--Quem hade
+ levantar a primeira pedra?--Dous modos differentes de accudir uma
+ coisa ao pensamento.
+
+
+No dia seguinte, mal rompia a manhan, um paizano que dizia trazer
+communicações importantes para o commandante do pôsto avançado, foi
+conduzido á presença de Carlos e lhe intregou uma carta: era de
+Joanninha.
+
+Fiel á sua promessa, ella não tinha ditto nada do incôntro da véspera:
+dizia a carta. E que a avó estava doente e afflicta; que para a animar e
+consolar, lhe dera notícias do primo, como vindas por pessoa que o víra
+e estivera com elle. Que ficava mais contente e socegada: mas que
+aquelle estado de anciedade não podia prolongar-se. Que a saude da pobre
+velha declinava de dia a dia; que se lhe ia a vida, que era matá-la não
+lhe dizer a verdade... Joanninha concluia com mil affectos e saudades; e
+aprazava por fim o mesmo sítio da véspera para se tornarem a ver, e para
+concertarem o que havia de fazer. Todas as precauções estavam tomadas, e
+o consentimento dado pelo commandante do pôsto contrário para haver toda
+a segurança n'aquella entrevista.
+
+Carlos tinha velado toda a noite; uma excitação extraordinaria lhe
+amotinára o sangue, lhe desaffinára os nervos. Bem tinha desejado vir
+para aquelle pôsto, bem contava, bem esperava elle, estando alli, saber
+de mais perto da sua familia, vê-los talvez, mais dia menos dia,
+incontrar-se com alguns d'elles... e de todos elles, a innocente e
+graciosa criança com quem vivêra como irmão desde os seus primeiros
+annos, era quem elle mais esperava, mais desejava ver decerto.
+
+Mas uma criança era a que elle tinha deixado, uma criança a brincar, a
+colhêr as boninas, a correr atraz das borboletas do valle... uma criança
+que sim o amava ternamente, cuja suave imagem o não tinha deixado nunca
+em sua longa peregrinação, cuja saudade o accompanhára sempre, de quem
+se não esquecêra um momento, nem nos mais alegres nem nos mais
+occupados, nem nos mais difficeis nem nos mais perigosos da sua vida...
+
+Mas era uma criança!.. era a imagem d'uma criança.
+
+É certo, sim: e nas batalhas, em presença da morte... no longo cêrco do
+Porto entre os flagellos da cholera e da fome, nas horas de mais viva
+esperança, no descoroçoamento dos mais tristes dias, a doce imagem de
+Joanninha, d'aquella Joanninha com quem elle andava ao colo, que
+levantava em seus hombros para ella chegar aos ninhos dos passaros no
+verão, aos medronhos maduros no outomno, que elle suspendia nos braços
+para passar no hynverno os alagadiços do valle,--essa querida imagem não
+o abandonára nunca.
+
+Nunca!.. nem quando as pennas d'amor, nem quando as suas glórias--mais
+esquecidiças ainda!--pareciam absorver-lhe todos os sentidos, e todo o
+sentimento de seu coração.
+
+A saudade, a memoria de Joanninha, suavemente impressa no mais puro e no
+mais sancto de sua alma, resplandecia no meio de todas as sombras que
+lh'a obscurecessem, sobreluzia no meio de qualquer fogo que lh'a
+allumiasse.
+
+Uma luz quieta, limpida, serena como a tocha na mão do anjo que ajoelha
+em innocencia e piedade deante do throno do Eterno!
+
+Mas, no mesmo dia em que chegou ao valle, quasi na mesma hora, cheio
+d'aquella luz, mais viva e animada agora pela proximidade do foco d'onde
+sahia... n'essa mesma hora, ir incontrar alli, n'aquella solidão, entre
+aquellas árvores, á tibia e seductora claridade do crepusculo... a quem,
+sancto Deus! Não ja a mesma Joanninha de ha tres annos, não a mesma
+imagem que elle trazia, como a levára, no coração; mas uma gentil e
+airosa donzella, uma mulher feita e perfeita, e que nada perdêra,
+comtudo, da graça, do incanto, do suave e delicioso perfume da
+innocencia infantil em que a deixára!
+
+Não esperava, não estava preparado para a impressão que recebeu, foi uma
+surpreza, um choque, um reviramento confuso de todas as suas ideas e
+sentimentos.
+
+Qual fosse porêm a precisa e verdadeira impressão que recebeu, nem elle
+a si proprio o podéra explicar: era de um genero novo, unico na historia
+de suas sensações: não a conhecia, extranhava-a, e quasi que tinha medo
+de a analysar.
+
+Sería annúncio d'amor?
+
+Mas elle tinha amado, amado muito e devéras... e cuidava amar ainda, e
+devia amar; por quanto ha sagrado e sancto nos deveres do coração, era
+obrigado a amar ainda.
+
+Oh obrigações d'amor, obrigações d'amor! se vós não sois, se vós ja não
+sois senão obrigações!..
+
+Não o pensava Carlos, não o cria elle assim: leal e sincero tinha
+intregue o seu coração á mulher que o amava, que tantas próvas lhe dera
+d'amor e devoção; que descançava em sua fé, que não existia senão para
+elle: mulher môça, bella, cheia de prendas e de incantos, mulher de um
+espirito, de uma educação superior, que atravessára, desprezando-as,
+turbas de adoradores nobres, riccos, poderosos, para descer até elle,
+para se intregar ao foragido, pobre, extrangeiro, desprezado.
+
+Quem era essa mulher?
+
+Aonde, como obtivera elle a posse d'essa joia, d'esse talisman com o
+qual se tinha por tam seguro para não ver na graciosa prima senão?..
+
+Senão o quê?
+
+A innocente criança que alli deixára?
+
+Mas não é verdade isso: outra era a impressão que Joanninha lhe fizera,
+fosse ella qual fosse.
+
+O que era então?
+
+E sôbre tudo, quem era ess'outra mulher que elle amava?
+
+E amava-a elle ainda?
+
+Amava.
+
+E Joanninha?
+
+Joanninha era... nem eu sei o que lhe era Joanninha... o que lhe estava
+sendo n'aquelle momento.
+
+O que lhe ella fôra, assas t'o tenho explicado, leitor amigo e benevolo:
+o que lhe ella será... Pódes tu, leitor candido e sincero,--aos
+hypocritas não fallo eu--pódes tu dizer-me o que hade ser ámanhan no teu
+coração a mulher que hoje somente achas bella, ou gentil, ou
+interessante?
+
+Pódes responder-me da parte que tomará ámanhan na tua existencia a
+imagem da donzella que hoje contemplas apenas com olhos de artista, e
+lhe estás notando, como em quadro gracioso, os finos contornos; a pureza
+das linhas, a expressão verdadeira e animada?
+
+E quando vier, se vier, esse fatal dia de ámanhan, responder-me-has
+tambem da parte que ficará tendo em tua alma ess'outra imagem que lá
+estava d'antes e que, ao reflexo d'esta agora, d'aqui observo que vai
+impallidecendo, descórando... ja lhe não vejo senão os lineamentos
+vagos... ja é uma sombra do que foi... Ai! o que será ella ámanhan?
+
+Leitor amigo e benevolo, caro leitor meu indulgente, não accuses, não
+julgues á pressa o meu pobre Carlos; e lembra-te d'aquella pedra que o
+Filho da Deus mandou levantar á primeira mão que se achasse innocente...
+A adultera foi-se em paz, e ninguem a apedrejou.
+
+Pois é verdade: Carlos tinha amado, amado muito, e amava ainda a mulher
+a quem promettêra, a quem estava resolvido a guardar fé. E essa mulher
+era bella, nobre, ricca, admirada, occupava uma alta posição no mundo...
+e tudo lhe sacrificára a elle exilado, desconhecido.
+
+E Carlos estava seguro que nenhuma mulher o havia de amar como ella; que
+os longos e ondados anneis de loiro cendrado, que os languidos olhos de
+gazella, que o ar majestoso e altivo, que a tez d'uma alvura celeste,
+que o espirito, o talento, a delicadeza de Georgina... Chamava-se
+Georgina; e é tudo quanto por agora póde dizer-vos, ó curiosas leitoras,
+o discreto historiador d'este mui veridico successo: não lhe pergunteis
+mais, por quem sois. Carlos estava seguro, dizia eu, que todas essas
+perfeições, que o seu amor sem limites, que a sua confiança sem reserva,
+não podiam ter rival, nem a haviam de ter.
+
+Mas aquelle beijo, aquelle abraço de Joanninha... oh! que lhe tinha elle
+feito? Como o sentíra elle? Como lhe guardára o seu talisman o coração e
+a alma?..
+
+Não, Carlos estava certo de si, certo do seu antigo amor, lembrado de
+quanto lhe devia: e n'isso reflectiu toda aquella noite que se fôra em
+claro.
+
+A imagem de Joanninha lá apparecia, de vez em quando, como um raio de
+luz transiente e magica, no meio d'ess'outras visões do passado que a
+reflexão lhe acordava. Ai! essas era a reflexão que as acordava...
+aquella vinha espontanea; era repellida, e tornava, e tornava...
+
+Ha sua notavel differença n'estes dois modos de accudir ao pensamento.
+
+A manhan veio em fim; Carlos respirou o ar puro e vivo da madrugada,
+sentiu-se outro.
+
+Quando chegou a carta de Joanninha, leu-a e reflectiu n'ella sem
+sobresalto. Certo e seguro de si, resolveu ir ao prazo dado para a
+tarde.
+
+
+
+
+CAPITULO XXIII.
+
+
+ Continúa a accudir muita coisa vaga e incontrada ao pensamento de
+ Carlos.--Dança de fadas e duendes.--Fr. Diniz o fado-mau da
+ familia.--Veremos, é a grande resolução nas grandes
+ difficuldades.--Carlos poeta romantico.--Olhos verdes.--Desafio a
+ todos os poetas moyen-ages do nosso tempo.
+
+
+Não ha nada como tomar uma resolução.
+
+Mas hade tomar-se e executar-se: aliás, se o caso é difficil e
+complicado, pouco a pouco as dúvidas solvidas começam a inliar-se outra
+vez, a inredar-se... a surgir outras novas, a appresentarem-se faces
+ainda não vistas da questão... em fim, se o intervallo é largo, quando a
+resolução tomada chega a executar-se, a maior parte das vezes ja não é
+por fôrça de razão e convicção que se faz, mas por capricho, ponto
+d'honra, teima.
+
+Carlos tinha resolvido ir ao prazo dado, no fim do dia. Mas o dia era
+longo, custou-lhe a passar. Todas as ponderações da noite lhe recorreram
+ao pensamento, todas as imagens que lhe tinham fluctuado no espirito se
+avivaram, se animaram, e lhe começaram a dançar n'alma aquella dança de
+fadas e duendes que faz a delicia e os tormentos d'estes sonhadores
+acordados que andam pelo mundo e a quem a douta faculdade chama
+_nervosos_; em stylo de romance _sensiveis_, na phrase popular
+_malucos_.
+
+Carlos era tudo isso: para que o heide eu negar?
+
+Entre aquellas imagens que assim lhe bailavam no pensamento, vinha uma
+agora... talvez a que elle via mais distincta entre todas, a da avó que
+tanto amára, em cujo maternal coração elle bem sabía que tinha a
+primeira, a maior parte... da avó que tam carinhosa mãe lhe tinha sido!
+Pobre velhinha, hoje decrepita e cega... Cega, coitada! Como e porque
+cegaria ella?
+
+Havia ahi mysterio que Joanninha indicára, mas que não explicou.
+
+Atraz da paciente e humilhada figura d'aquella mulher de dores e
+desgraças, se erguia um vulto austero e duro, um homem armado da cabeça
+aos pés de ascetica insensibilidade, um homem que parecia o fado-mau
+d'aquella velha, de toda a sua familia... o cumplice e o verdugo de um
+grande crime... um ser de mysterio e de terror.
+
+Era Fr. Diniz aquelle homem; homem que elle desejava, que elle cuidava
+detestar, mas por quem, no fundo d'alma, lhe clamava uma voz mystica e
+íntima, uma voz que lhe dizia: 'Assim será tudo, mas tu não pódes
+abhorrecer esse homem.'
+
+Sim, mas sôbre Fr. Diniz pesava uma accusação tremenda, que o fizera, a
+elle Carlos, abandonar a casa de seus paes! Accusação horrivel que
+tambem comprehendia a pobre velha, aquella avó que o adorava, e que
+elle, ainda criminosa como a suppunha, não podia deixar de amar...
+
+E d'estes medonhos segredos sabía Joanninha alguma coisa?
+
+Esperava em Deus que não.
+
+Desconfiaria alguma coisa?... O quê?
+
+E iria elle polluir o pensamento, desflorar os ouvidos, corromper os
+labios da innocente criança com o esclarecimento de taes horrores?
+
+Havia de lhe fallar na infamia dos seus? Havia de lhe explicar o motivo
+porque fugira da casa paterna?
+
+Havia de?..
+
+Não.--Se Joanninha tivesse suspeitas, havia de destrui-las antes; se
+ella soubesse alguma coisa, negar-lh'a.
+
+Mentiria, juraria falso se fosse preciso.
+
+E não havia de ir ver a avó, não havia de entrar na casa dos seus a
+consolar a infeliz que só vivia d'uma esperança, a de ver o filho de sua
+filha?
+
+Não, nunca... O limiar d'aquella porta, que elle julgava contaminado,
+infame, manchado de sangue e cuspido de opprobrios e deshonras, tinha-o
+passado sacudindo o po de seus sapatos, promettendo a Deus e á sua honra
+de o não tornar a cruzar mais.
+
+Mas que diria então elle a Joanninha? Como havia de explicar-lhe um
+proceder tam extranho, e apparentemente tam cruel, tam ingrato?
+
+Por emquanto as impossibilidades materiaes da guerra serviriam de
+desculpa, depois o tempo daria conselho.
+
+_Veremos_!--é a grande resolução que se toma nas grandes difficuldades
+da vida, sempre que é possivel espaçá-las.
+
+Carlos disse: '_Veremos!_'
+
+Tomou todas as disposições para podêr estar seguro e socegado no sítio
+onde ia incontrar a prima: e o resto do dia, ancioso mas contente,
+occupou-se de seus deveres militares, fatigou o corpo para descançar o
+espirito, e em parte e por bastantes horas o conseguiu.
+
+Mas um dia de abril é immenso, interminavel. E as últimas horas pareciam
+as mais compridas. Nunca houve horas tammanhas! Carlos ja não tinha que
+inventar para fazer: pôz-se a pensar.
+
+Que remedio!
+
+Pensou n'isto, pensou n'aquillo... uma idea lhe vinha, outra se lhe ia.
+A imaginação, tanto tempo comprimida, tomava o freio nos dentes e corria
+á redea sôlta pelo espaço...
+
+Anneis dourados, transas de ebano, faces de leite e rosas como de
+cherubins, outras pallidas, transparentes, diaphanas como de princezas
+incantadas, olhos pretos, azues, verdes... os de Joanninha em fim...
+todas éstas feições, confusas e indistinctas mas de estremada belleza
+todas, lhe passavam deante da vista, e todas o infeitiçavam. O
+desgraçado...--Porque não heide eu dizer a verdade?--o desgraçado era
+poeta.
+
+Inda assim! não me esconjurem ja o rapaz... Poeta, intendamo'-nos; não é
+que fizesse versos: n'essa não cahiu elle nunca, mas tinha aquelle fino
+sentimento d'arte, aquelle sexto sentido do _bello_, do _ideal_ que so
+teem certas organizações privilegiadas de que se fazem os poetas e os
+artistas.
+
+Eis aqui um fragmento de suas aspirações poeticas. Vejam as amaveis
+leitoras que não teem metro, nem rhyma--nem razão... Mas emfim versos
+não são.
+
+
+'Olhos verdes!..
+
+'Joanninha tem os olhos verdes...
+
+'Não se reflecte n'elles a pura luz do ceo, como nos olhos azues.
+
+'Nem o fogo--e o fummo das paixões, como nos pretos.
+
+'Mas o viço do prado, a frescura e animação do bosque, a fluctuação e a
+transparencia do mar...
+
+'Tudo está n'aquelles olhos verdes.
+
+'Joanninha, porque tens tu os olhos verdes?
+
+'Nos olhos azues de Georgina arde, em sereno e modesto brilho, a luz
+tranquilla de um amor provado, seguro, que deu quanto havia de dar,
+quanto tinha que dar.
+
+'Os olhos azues de Georgina não dizem senão uma so phrase d'amor, sempre
+a mesma e sempre bella: _Amo-te, sou tua!_
+
+'Nos olhos negros e inquietos de Soledade nunca li mais que éstas
+palavras: _Ama-me, que es meu!_
+
+'Os olhos de Joanninha são um livro immenso, escripto em characteres
+moveis, cujas combinações infinitas excedem a minha comprehensão.
+
+'Que querem dizer os teus olhos, Joanninha?
+
+'Que lingua fallam eles?
+
+'Oh! paraque tens tu os olhos verdes, Joanninha?
+
+'A assucena e o jasmim são brancos, a rosa vermelha, o alecrim azul...
+
+'Roxa é a violeta, e o junquilho côr de ouro.
+
+'Mas todas as côres da natureza vêem de uma so, o verde.
+
+'No verde está a origem e o primeiro typo de toda a belleza.
+
+'As outras côres são parte d'ella; no verde está o todo, a unidade da
+formosura creada.
+
+'Os olhos do primeiro homem deviam de ser verdes.
+
+'O ceo é azul...
+
+'A noite é negra...
+
+'A terra e o mar são verdes...
+
+'A noite é negra mas bella: e os teus olhos, Soledade, eram negros e
+bellos como a noite.
+
+'Nas trevas da noite luzem as estrellas que são tam lindas... mas no fim
+de uma longa noite quem não suspira pelo dia?
+
+'E que se vão... oh! que se vão emfim as estrellas!..
+
+'Vem o dia... o ceo é azul e formoso: mas a vista fatiga-se de olhar
+para elle.
+
+'Oh! o ceo é azul como os teus olhos, Georgina...
+
+'Mas a terra é verde: e a vista repousa-se n'ella, e não se cança na
+variedade infinita de seus matizes tam suaves.
+
+'O mar é verde e fluctuante... Mas oh! esse é triste como a terra é
+alegre.
+
+'A vida compõe-se de alegrias e tristezas...
+
+'O verde é triste e alegre como as felicidades da vida.
+
+'Joanninha, Joanninha, porque tens tu os olhos verdes?..'
+
+
+Ja se vê que o nosso doutor de bivac, o soldado que lhe chamou _maluco_
+ao pensador de taes extravagancias, tinha razão e sabía o que dizia.
+
+Infelizmente não se formulavam em palavras estes pensamentos poeticos
+tam sublimes. Por um processo milagroso de photographia mental, apenas
+se pôde obter o fragmento que deixo transcripto.
+
+Que honra e glória para a eschola romantica se podessemos ter a
+collecção completa!
+
+Fazia-se-lhe um prefacio incisivo, palpitante, _britante_....
+
+Punha-se-lhe um titulo vaporoso, phosphorescente... por exemplo:--Echos
+surdos do coração--ou--Reflexos d'alma--ou--Hymnos
+invisiveis--ou--Pesadellos poeticos--ou qualquer outro d'este genero,
+que se não soubesse bem o que era nem tivesse senso commum.
+
+E que viesse ca algum menestrel de frak e chapeu redondo, algum trovador
+renascença de collete á Joinville, luctar com o meu Carlos em pontos de
+romantismo vago, descabellado, vaporoso, e nebuloso!
+
+Se algum d'elles era capaz de escrever com menos logica,--(com menos
+grammatica, sim) e com mais triumphante desprêzo das absurdas e
+escravizantes regras d'essa paleta d'essa eschola classica que não
+produziu nunca senão Homero e Virgilio, Sophocles e Horacio, Camões e o
+Tasso, Corneille e Racine, Pope e Moliere, e mais algumas duzias de
+outros nomes tam obscuros como estes?
+
+
+
+
+CAPITULO XXIV.
+
+
+ Novo Génesis.--O Adam social muito differente do Adam
+ natural.--Carlos sempre um por seus bons instinctos, sempre outro
+ por suas más reflexões.--De como Joanninha recebeu o primo com os
+ braços abertos, e do mais que entre elles se passou.--Dor meia dor,
+ meia prazer.
+
+
+Formou Deus o homem, e o pôs n'um paraizo de delicias; tornou a formá-lo
+a sociedade, e o pôs n'um inferno de tolices.
+
+O homem--não o homem que Deus fez, mas o homem que a sociedade tem
+contrafeito, appertando e forçando em seus moldes de ferro aquella pasta
+de limo que no paraizo terreal se affeiçoára a imagem da divindade--o
+homem, assim aleijado como nós o conhecêmos, é o animal mais absurdo, o
+mais disparatado e incongruente que habita na terra.
+
+Rei nascido de todo o creado, perdeu a realeza; principe desherdado e
+proscripto, hoje vaga foragido no meio de seus antigos estados; altivo
+ainda e suberbo com as recordações do passado, baixo vil e miseravel
+pela desgraça do presente.
+
+D'estas duas tam oppostas actuações constantes, que ja per si sos o
+tornariam ridiculo, formou a sociedade, em sua van sabedoria, um systema
+chymerico, desarrazoado e impossivel, complicado de regras a qual mais
+desvairada, incontrado de repugnancias a qual mais opposta. E vazado
+este perfeito modêlo de sua arte pretenciosa, metteu dentro d'elle o
+homem, desfigurou-o, contorceu-o, fê-lo o tal ente absurdo e
+disparatado, doente, fraco, rachitico; collocou-o no meio do Eden
+phantastico de sua creação,--verdadeiro inferno de tolices--e disse-lhe,
+invertendo com blasphêmo arremêdo as palavras de Deus Creador:
+
+'De nenhuma árvore da horta comendo comerás;
+
+'Porêm da árvore da sciencia do bem e do mal, d'ella so comerás se
+quizeres viver.'
+
+Indigestão de sciencia que não commutou seu mau estomago, presumpção e
+vaidade que d'ella se originaram--tal foi o resultado d'aquele preceito
+a que o homem não desobedeceu como ao outro: tal é o seu estado
+habitual.
+
+E quando as memorias da primeira existencia lhe fazem nascer o desejo de
+sahir d'esta outra, lhe influem alguma aspiração de voltar á natureza e
+a Deus, a sociedade, armada de suas barras de ferro, vem sôbre elle, e o
+prende, e o esmaga, e o contorce de novo, e o apperta no equuleo
+doloroso de suas fôrmas.
+
+Ou hade morrer ou ficar monstruoso e aleijão.
+
+...........................................................................
+...........................................................................
+
+Poucos filhos do Adam social tinham tantas reminiscencias da outra
+patria mais antiga, e tendiam tanto a aproximar-se do primitivo typo que
+sahíra das mãos do Eterno, forcejavam tanto por sacudir de si o pesado
+appêrto das constricções sociaes, e regenerar-se na sancta liberdade da
+natureza, como era o nosso Carlos.
+
+Mas o melhor e o mais generoso dos homens segundo a sociedade, é ainda
+fraco, falso e acanhado.
+
+Demais, cada tentativa nobre, cada aspiração elevada de sua alma lhe
+tinha custado duros castigos, severas e injustas condemnações d'esse
+grande juiz hypocrita, mentiroso e venal... o mundo.
+
+Carlos estava quasi como os mais homens... ainda era bom e verdadeiro no
+primeiro impulso de sua natureza excepcional; mas a reflexão descia-o á
+vulgaridade da fraqueza, da hypocrisia, da mentira commum.
+
+Dos melhores era, mas era homem.
+
+Os seus pensamentos, as suas considerações em toda aquella noite, em
+todo o dia que a seguíra, na hora mesma em que ia incontrar-se com o
+objecto que mais lhe prendia agora o espírito, senão é que tambem o
+coração, todas participavam d'aquella fluctuação inquieta e doentia de
+seu ser d'homem social, em quem o tibio reflexo do homem natural apenas
+relampejava por acaso.
+
+Dúvida, incerteza, vaidade, mentira deslocavam e annullavam a bella
+organização d'aquella alma.
+
+Assim chegou aopé de Joanninha que o esperava de braços abertos, que o
+appertou n'elles, que o beijou sem nenhum falso recato de maliciosa
+modestia, e com o riso da alegria no coração e na bôcca lhe disse:
+
+--'Ora pois, meu Carlos, sentemo-nos aqui bem junctos aopé um do outro e
+conversemos, que temos muito que fallar. Dá ca a tua mão. Aqui na
+minha... Está fria a tua mão hoje! E hontem tam quente estava!.. Oh!
+agora vai aquecendo... tanto tanto... é demais! Terás tu febre?'
+
+--'Não tenho.'
+
+--'Não tens, não: a cara é de saude. E como tu estás forte, grande, um
+homem como eu sempre imaginei que um homem devia ser, como sempre te via
+nos meus sonhos!.. Que é extranho isto, Carlos: quando sonhava comtigo,
+não te via como tu d'aqui foste, magro, triste e doente; via-te como
+vens agora, forte, são, alegre. Mas tu não estás alegre hoje, como
+hontem; não estás... Que tens tu?'
+
+--'Nada, querida Joanninha, não tenho nada. Pensava...'
+
+--'Em que pensas tu? dize-me.'
+
+--'Pensava na differença dos nossos sonhos: que eu tambem sonhava
+comtigo.'
+
+--'Sonhavas, Carlos! E como sonhavas tu? como me vias nos teus sonhos?'
+
+--'Tudo pelo contrario do que tu. Via-te aquella Joanninha piquena,
+desinquieta, travêssa, correndo por essas terras, saltando essas vallas,
+trepando a essas árvores... aquella Joanninha com quem eu andava ao
+collo, que trazia ás cavalleiras, que me fazia ser tam doido e tam
+criança como ella, apezar de eu ter quinze annos mais. Via-te alegre,
+cantando...'
+
+--'Sonhos de homem! Creiam n'elles! Eu que nunca mais ri nem brinquei
+desde o dia que tu partiste... E oh que dia, Carlos!.. E os que vieram
+depois! Não houve nunca mais um so dia de alegria n'ésta casa. Oh!..
+deixa-me te dizer: Fr. Diniz... Sabes que não gósto d'elle?'
+
+--'Não gostas?'
+
+--'Nada: tenho-lhe aversão. E Deus me perdoe! parece-me que é injusta a
+minha antipathia.'
+
+--'Porquê?'
+
+--'Porque elle é teu amigo devéras. Um pae, Carlos, um pae não tem maior
+ternura e desvellos por seu filho, do que elle tem por ti.'
+
+--'Deus lhe perdoe!'
+
+--'Deus lhe perdoe a quem...e que lhe hade perdoar? O amor que te tem?'
+
+--'Não, mas...'
+
+--'Bem sei o que queres dizer: e tens razão.'
+
+--'Tenho razão!'
+
+--'Tens: o que elle bem precisa que Deus lhe perdoe é um grande
+peccado.'
+
+--'Que dizes tu, Joanna! E como sabes?'
+
+--'Sei, sei tudo.'
+
+--'Tu!'
+
+--'Eu. Sei que foi elle quem fez cegar minha avó... a nossa boa, a nossa
+sancta avó, Carlos!.. quem a cegou á fôrça de lagrymas que lhe fez
+chorar áquelles pobres olhos que, de puro cançados, se apagaram para
+sempre... Minha ricca avó!--E porquê, meus Deus, porquê!'
+
+--'Porquê?'
+
+--'Por amor de ti, por escrupulos que lhe metteu na cabeça de tu seres
+mau christão, inimigo de Deus, que te não podias salvar... tu meu
+Carlos! Vê que cegueira a do triste frade.'
+
+--'Bem triste!'
+
+--'Mas olha que o diz de boa-fé e pelo muito amor que te tem... que é um
+amor que eu não intendo: e o mesmo é com minha avó, que treme deante
+d'elle. E mais elle estima-a, estou certa que dava a vida por ella... e
+por nós todos... por mim não tanto, mas por ti e por ella, dava decerto.
+Mas o seu amor é dos que rallam, que, apoquentam... quasi que estou em
+dizer que matam.'
+
+--'Matam, matam!'
+
+--'Nossa avó é elle que a mata decerto. Sempre a metter-lhe medos,
+sempre escrupulos! O seu Deus d'elle é um Deus de terrores, de
+vinganças, de castigos, e sem nenhuma misericordia. Oh! que homem! para
+elle tudo é peccado, maldade... Não o posso ver.'
+
+Carlos respirava como desopprimido de um grande pêso, ouvindo as
+explicações da prima que bem claro lhe mostravam a sua perfeita
+ignorancia dos fataes segredos da familia.
+
+--'E comtigo' disse elle ja n'outra voz mais desaffogada 'comtigo,
+Joanninha, como se avêm elle, como te tracta?'
+
+--'Commigo não se mette, e rara vez me falla. Mas oh, se elle soubesse
+que eu estava aqui comtigo, sancto Deus! o que ouviria a pobre da minha
+avó! Inda bem que hoje não é sexta-feira, senão não vinha eu ca.'
+
+--'Porquê? Ainda vem todas as sexta-feiras?'
+
+--'Sempre o mesmo. Ámanhan ca o temos por peccado, que é sexta-feira.'
+
+--'Não te vejo então ámanhan aqui?'
+
+--'Não decerto, aqui. Mas vamos, que a isso é que eu venho ca hoje, para
+te fallar n'isso... e para te ver, para fallar comtigo, para estar com o
+meu Carlos... e ao mesmo tempo tambem para ajustarmos como isto hade
+ser. Quando has-de tu ir ver a avó?.. a nossa mãe; que ella é nossa mãe,
+Carlos, não conhecémos nunca outra, nem eu nem tu. Quando lhe heide eu
+dizer que estás aqui? A pobre velhinha está tam doente! Ha quinze dias
+que se não levanta da cama.'
+
+--'Coitada da minha pobre mãe!.. Oh! se não fosse!.. Deixa estar,
+Joanninha; um dia será. Por agora, não póde ser: bem vês. Como heide eu
+atravessar as sentinellas dos realistas, ir a um pôsto inimigo?--A minha
+vida... isso pouco importa, mas a minha honra ficava em perigo: por
+todos os modos a perdia, e talvez...'
+
+--'Não senhor, Sr. Carlos, essa desculpa não basta. Vai n'um anno que
+aqui temos a guerra á porta de casa, e ja sabemos como isso é e como as
+coisas se fazem. O commandante do nosso pôsto é um homem de bem, um
+cavalheiro perfeito. Em lhe eu dizendo quem tu es e a que ca vens...
+elle sabe o estado da minha avó, e tem-lhe muita amizade, da-nos decerto
+licença para tu vires em toda a segurança. Pensas que elle não sabe que
+estou comtigo aqui? Pois disse-lh'o eu; só lhe não expliquei quem tu
+eras; disse-lhe que eras um parente nosso que nos trazia notícias de
+outros, e que precisava fallar-te. Não pôs dificuldade alguma: é uma
+pessoa excellente, bom, bom devéras.'
+
+--'É môço o teu commandante?'
+
+--'Môço elle? coitado! Tem bons cinquenta annos, e creio que outros
+tantos filhos. Mas por que perguntas tu isso? E arqueaste as
+sobrancelhas com aquelle teu ar de antes quando te zangavas! Porque foi
+isso, Carlos?'
+
+--'Nada, criança, foi uma pergunta á toa.'
+
+--'Pois será; mas não me franzas nunca mais a testa assim, que te
+pareces todo... é que nunca vi tal parecença...'
+
+--'Com quem?'
+
+--'Com Fr. Diniz.'
+
+--'Eu com elle!'
+
+--'Tal e qual quando fazes essa cara. Olha: ahi estás tu na mesma.
+Vamos! ria-se e esteja contente se se quer parecer commigo, que todos
+dizem que nos parecemos tanto.'
+
+--'Querida innocente!'
+
+E beijou-lhe a mão que tinha appertada na sua, beijou-lh'a uma e muitas
+vezes com um sentimento de ternura misturado de não sei que vaga
+compaixão, vindo de lá de dentro d'alma com não sei que dor, meia dor
+meia prazer, que entre ambos se communicou e a ambos humedeceu os olhos.
+
+
+
+
+CAPITULO XXV.
+
+
+ O excesso da felicidade que aterra e confunde tambem.--Pasmosa
+ contradicção da nossa natureza.--De como os olhos verdes de
+ Joanninha se inturvaram e perderam todo o brilho.--Que o coração da
+ mulher que ama, sempre adivinha certo.
+
+
+Carlos tinha a mão de Joanninha appertada na sua; e os olhos humidos de
+lagrymas cravados nos olhos d'ella, de cujo verde transparente e
+diaphano sahiam raios de ineffavel ternura.
+
+Dizer tudo o que elle sentia é impossivel: tam incontrados lhe andavam
+os pensamentos, em tam confuso tumulto se lhe alvorotavam todos os
+sentidos.
+
+Por muito tempo não proferiram palavra, nem um nem outro; mas fallaram
+assim longos discursos.
+
+Emfim, Joanninha voltou á sua primeira insistencia e disse para o primo:
+
+--'Olha, Carlos, ámanhan é sexta-feira, ja te disse, vem Fr. Diniz:
+quando haja a menor difficuldade do commandante, a elle não lhe recusa
+nada...'
+
+--'Por quanto ha no ceo, Joanninha, pela tua vida, pela de nossa avó,
+nem uma palavra ao frade da minha estada aqui! A elle, oh! a elle jurei
+eu não tornar a ver. E se minha avó...'
+
+--'Basta: não lhe direi nada. Mas á nossa avó quando lh'o heide dizer, e
+quando hasde tu ir ve-la?'
+
+--'Porora não: preciso licença de Lisboa, ou do quartel-general quando
+menos, para fazer uma coisa que todas as leis da guerra prohibem, que
+nas actuaes circumstancias e em similhante guerra ainda é mais defesa. E
+sem isso--tu bem sabes que as minhas resoluções não se mudam--sem isso
+não o faço. Em todo o caso, que Fr. Diniz nem sonhe!..'
+
+--'E quanto tempo, quantos dias se hãode passar?'
+
+--'Eu sei? oito, quinze dias talvez, talvez mais.'
+
+--'E a minha pobre avó, coitadinha! a morrer de saudades...'
+
+--'Consola-a tu, Joanninha: dize-lhe que tiveste novas minhas, que estou
+bom, que me não falta nada, que tenho esperanças de vos ver muito cedo.'
+
+--'E eu... eu posso, eu heide ver-te todos os dias: não, Carlos?'
+
+--'Ámanhan é sexta-feira...'
+
+--'Ámanhan é o dia negro... nem eu queria: ámanhan não póde ser, bem
+sei. Mas, tirado ámanhan, meu Carlos, oh! todos os dias!'
+
+--'Sim, querido anjo, sim.'
+
+--'Promettes?'
+
+--'Juro-t'o.'
+
+--'Succeda o que succeder?'
+
+--'Succeda o que... So ha uma coisa que... Mas essa não... não é
+possivel.'
+
+--'O que é, Carlos? que póde haver, que póde succeder que te impeça
+de?..'
+
+Carlos estremeceu... hesitou, corou, fez-se pallido... quiz dizer-lhe a
+verdade e não ousou...
+
+Porquê?.. E que verdade era essa? Não a direi eu, ja que elle a não
+disse: fiel e discreto historiador, imitarei a discrição do meu heroe.
+
+Pois era discrição a d'elle?
+
+Não... em verdade, era outra coisa.
+
+Era um pensamento reservado?
+
+Não.
+
+Era tenção má, ingano premeditado, era?..
+
+Não, tambem não.
+
+O que era pois?
+
+Era a dúvida, era a fraqueza, era a vaidade, a mentira congenial e
+obrigada, a necessaria falsidade do homem social.
+
+Carlos mentiu e disse:
+
+--'Só se m'o prohibirem expressamente... os meus chefes.'
+
+Mas não era isso o que elle receiava; não era esse aquelle motivo unico
+e superior que elle temia podesse vir um dia derepente cortar as doces
+relações de convivencia a que tam prestes se habituára, que ja lhe
+pareciam parte necessaria, indispensavel da sua vida. Não era, não; e
+Carlos tinha mentido...
+
+Joanninha olhou para elle fixa... Carlos corou de novo. Ella fez-se
+pallida... d'ahi corou tambem.
+
+--'Carlos, tu não es capaz de mentir...'
+
+--'Joanninha!'
+
+--'Tu es o meu Carlos... tu queres-me como me querias d'antes...'
+
+--'Sou... oh! sou. E amo-te...'
+
+--'Como d'antes?'
+
+--'Mais.'
+
+--'Pois olha, Carlos: eu nunca amei, nunca heide amar a nenhum homem
+senão a ti.'
+
+--'Joanna!'
+
+--'Carlos!'
+
+Iam a cahir nos braços um do outro... A singela confissão da innocencia
+ia ser acceita por quem e como, sancto Deus! Aquella palavra de oiro,
+aquella doce palavra que tanto custa a pronunciar á mulher menos
+arteira; que adivinhada, sabida, ouvida ha muito pelo coração, ditta mil
+vezes com os olhos, nenhum homem descança nem se tem por feliz, por
+certo de sua felicidade, em quanto a não ouve proferir pelos
+labios--essa palavra celeste que explica o passado, que responde do
+futuro, que é a última e irrevocavel sentença de um longo pleito de
+anciedades, de incertezas e de sustos--essa final e fatal palavra
+_amo-te_, Joanninha a pronunciára tam naturalmente, tam sincera, tam sem
+difficuldades nem hesitações, como se aquelle fosse--e era decerto--como
+se aquelle tivesse sido sempre o pensamento unico, a idea constante e
+habitual de sua vida.
+
+O excesso da felicidade aterra e confunde tambem. Um momento antes,
+Carlos dera a sua vida por ouvir aquella palavra... um momento
+depois--oh pasmosa contradicção de nossa dupplice natureza! um momento
+depois dera a vida pela não ter ouvido. No primeiro instante ia
+lançar-se nos braços da innocente que lh'os abria n'um sancto extasi do
+mais apaixonado amor; no segundo, tremeu e teve horror da sua
+felicidade.
+
+--'Joanna' exclamou elle 'Joanna, querida, sabes tu se eu mereço...
+sabes tu se deves?..'
+
+--'Sei. Desde que me intendo, não pensei n'outra coisa; desde que d'aqui
+foste, comecei a intender o que pensava... disse-o a minha avó, e
+ella...'
+
+--'E ella?..'
+
+--'Ella abençoou-me, chamou-me a sua querida filha, abraçou-me,
+beijou-me, e disse-me que aquella era a primeira hora de felicidade e de
+alegria que ha muitos annos tinha tido.'
+
+Carlos não respondeu nada e olhou para Joanninha com uma indicivel
+expressão de affecto e de tristeza. Os raios de alegria que
+resplandeciam n'aquelle semblante--agora bello de toda a belleza com que
+um verdadeiro amor illumina as mais desgraciosas feições--os raios
+d'essa alegria começaram a amortecer, a apagar-se. A lucida
+transparencia d'aquelles olhos verdes turvou-se: nem a clara luz da
+agua-marinha, nem o brilho fundo da esmeralda resplandecia ja n'elles;
+tinham o lustro baço e morto, o polido mate e silicioso de uma d'essas
+pedras sem agua nem brilho que a arte antiga ingastava nos collares de
+suas estátuas.
+
+--'Adeus Joanna!' disse Carlos perturbado e confuso.
+
+--'Adeus, Carlos!' respondeu ella machinalmente.
+
+--'Até depois de ámanhan, Joanna.'
+
+--'Pois sim.'
+
+--'Depois de ámanhan te direi...'
+
+--'Não digas.'
+
+--'Porquê?'
+
+--'Porque é excusado: ja sei tudo.'
+
+--'Sabes!'
+
+--'Sei.'
+
+--'O quê?'
+
+--'O que tu não tens ânimo para me dizer, Carlos; mas que o meu coração
+adivinhou. Tu não me amas, Carlos.'
+
+--'Não te amo! eu!.. Sancto Deus! eu não a amo...'
+
+--'Não. Tu amas outra mulher.'
+
+--'Eu! Joanna, oh! se tu soubesses...'
+
+--'Sei tudo.'
+
+--'Não sabes.'
+
+--'Sei: amas outra mulher, outra mulher que te ama, que tu não pódes,
+que tu não deves abandonar, e que eu...'
+
+--'Tu?'
+
+--'Eu sei que é bella, prendada, cheia de graças e de incantos,
+porque... porque tu, meu Carlos, porque o teu amor não era para se dar
+por menos.'
+
+--'Joanna, Joanninha!'
+
+--'Não digas nada, não me digas nada hoje... hoje sobretudo, não me
+digas nada. Ámanhan...'
+
+--'Ámanhan é sexta-feira.'
+
+--'Inda bem! terei mais tempo para reflectir, para considerar antes de
+tornar a ver-te. Adeus Carlos!'
+
+--'Uma palavra so, Joanna. Cuidas que sou capaz de te inganar?'
+
+--'Não; estou certa que não.'
+
+--'Até ámanhan... até depois de ámanhan.'
+
+--'Adeus!'
+
+Abraçaram-se, e d'esta vez froixamente; beijaram-se de um osculo timido
+e recatado... os beiços de ambos estavam frios, as mãos trémulas; e o
+coração comprimido batia, batia-lhes forte que se ouvia.
+
+Retirou-se cadaum por seu lado. A noite estava pura e serena como na
+vespera, as estrellas luziam no ceo azul com o mesmo brilho; o silencio,
+a majestade, a belleza toda da natureza era a mesma... so elles eram
+outros... outros, tam outros e differentes do que foram!
+
+Tinham-se dado cuidadosamente as providencias; ambos chegaram, sem
+nenhum accidente, ao seu destino.
+
+
+
+
+NOTAS
+
+
+
+
+NOTAS
+
+AO LIVRO PRIMEIRO.
+
+
+*Nota A.*
+
+
+ Que viage á roda do seu quarto, quem está a beira dos Alpes
+
+ pag. 1.
+
+
+É visivel allusão ao popular e inimitavel opusculo de Xavier de Maistre,
+_Voyage autour de ma chambre_, que decerto foi principiado a escrever em
+Turim, e que muitos suppoem que fôsse concluido em San'Petersburgo.
+
+
+*Nota B.*
+
+
+ Designio politico determinado a minha visita (a Santarem)
+
+ pag. 2.
+
+
+É puramente historico isto; e tambem é verdade que em grande parte
+d'aqui se originou a persiguição brutal que soffreu o A. d'ahi a poucos
+meses.
+
+
+*Nota C.*
+
+
+ N'uma _regata_ de vapores
+
+ pag. 3.
+
+
+_Regata_ chamavam, e não sei se chamam ainda, em Veneza ás carreiras de
+barcos appostados ao desafio. A palavra e a coisa introduziu-se em
+Inglaterra, onde é moda e popularissima.
+
+
+*Nota D.*
+
+
+ Eu coroarei de trevo a minha espada
+
+ pag. 24.
+
+
+Estes versos são uma especie de parodia dos famosos fragmentos de Alceu
+de que so existe memoria nos scholios que nos conservou Eustathio. Nas
+_Flores sem fructo_, pag. 56 a traducção d'aquelle bello fragmento.
+
+
+*Nota E.*
+
+
+ Depois de tantas commissões de inquerito, deve de andar orçado o
+ número de almas
+
+ pag. 25.
+
+
+Os protocollos das commissões de inquerito de ha oito para dez annos a
+ésta parte, sôbre o estado das classes trabalhadoras e indigentes em
+Inglaterra, é a próva real dos grandes calculos da economia politica,
+sciencia que eu espero em Deus se hade desacreditar muito cedo.
+
+
+*Nota F.*
+
+
+ There are more things etc.
+
+ pag. 26.
+
+
+A traducção chegada d'estes memoraveis versos de Shakspeare é:
+
+ Ha mais coisas no ceo, ha mais na terra
+ Do que sonha a tua van philosophia.
+
+
+*Nota G.*
+
+
+ Um _Chourineur_... uma _Fleur-de-Marie_
+
+ pag. 28.
+
+
+Personagens, bem conhecidos geralmente, do romance tam popular de Eug.
+Sue, _Os Mysterios de París_.
+
+
+*Nota H.*
+
+
+ Fossem lá á rainha Anna
+
+ pag. 34.
+
+
+Addison, o poeta, foi ministro da rainha Anna de Inglaterra, e membro do
+célebre gabinete chamado de _All-wits_.
+
+
+*Nota J.*
+
+
+ Quando chegou alli pelos Prazeres
+
+ pag. 56.
+
+
+Um dos dois cemiterios de Lisboa--seja ditto para intelligencia do
+leitor provinciano--chama-se _Dos Prazeres_, por uma ermida de N. S.^a
+que alli existia com ésta invocação desde antes do terreno ter o
+presente destino. É notavel a coincidencia do nome.
+
+
+*Nota K.*
+
+
+ O verdadeiro alfageme... tinha pelo povo e não queria saber de
+ partidos
+
+ pag. 64.
+
+
+É facil de ver que o interlocutor d'este dialogo conhecia esse curioso
+personagem da historia do Condestavel, não pelas chronicas mas pelo
+drama que tem o seu nome.
+
+
+*Nota L.*
+
+
+ Do _Sacré-Coeur_ e das suas elegantes devotas
+
+ pag. 89.
+
+
+O convento que tem este nome em París, é casa de educação de meninas
+nobres, e recolhimento de senhoras tambem.
+
+
+*Nota M.*
+
+
+ Graciosa sculptura de Antonio Ferreira
+
+ pag. 106.
+
+
+Antonio Ferreira, que viveu no fim do seculo passado, princípio d'este,
+modelava em barro com a mesma graça e naturalidade flamenga, com que
+pintava o morgado de Setubal: as suas piquenas figurinhas são tam
+estimadas pelos intendedores como os melhores biscoitos de Sevres e de
+Saxonia antiga.
+
+
+*Nota N.*
+
+
+ Ave phenix que nasceu de nossos avós não saberem grego
+
+ pag. 115.
+
+
+A fábula daquella ave immortal teve origem nas edades obscuras da Europa
+quando o grego era ignorado. O que os antigos diziam da _phenix_,
+palmeira em grego, tomaram nossos barbaros avós por ditto de uma
+passarolla com que os outros nunca sonharam.
+
+
+
+
+INDICE.
+
+
+Prologo dos editores. pag. v
+
+Capitulo I.--De como o auctor d'este erudito livro se resolveu a viajar
+na sua terra, depois de ter viajado no seu quarto; e como resolveu
+immortalizar-se escrevendo éstas suas viagens. Parte para Santarem.
+Chega ao Terreiro do Paço; imbarca no vapor de Villa-Nova; e o que ahi
+lhe succede. A Deducção-Chronologica e a baixa de Lisboa. Lord Byron e
+um bom charuto. Travam-se de razões os ilhavos e os bordas-d'agua, e os
+da calça larga levam a melhor. 1
+
+Capitulo II.--Declaram-se typicas, symbolicas e mythicas éstas viagens.
+Faz o A. modestamente o seu proprio elogio. Da marcha da civilização; e
+mostra-se como ella é dirigida pelo cavalleiro da Mancha, D. Quixote e
+por seu escudeiro, Sancho Pança.--Chegada a Villa-Nova-da-Rainha.
+Supplicio de Tantalo.--A virtude galardão de si mesma; e sophisma de
+Jeremias-Bentham.--Azambuja. 13
+
+Capitulo III.--Acha-se desappontado o leitor com a prosaica sinceridade
+do A. d'estas viagens.--O que devia ser uma estalagem n'estas nossas
+eras de litteratura romantica?--Suspende-se o exame d'esta grave questão
+para tractar, em prosa e verso, um muito difficil ponto de
+economia-politica e de moral social.--Quantas almas é preciso dar ao
+diabo, e quantos corpos se teem de intregar no cemiterio para fazer um
+ricco n'este mundo.--Como se veio a descobrir que a sciencia d'este
+seculo era uma grandecissima tola.--Rei de facto, e rei de
+direito.--Belleza e mentira não cabem n'um sacco.--Põe-se o A. a caminho
+para o pinhal da Azambuja. 23
+
+Capitulo IV.--De como o A. foi pensando e divagando; e em que pensava e
+divagava elle, no caminho da villa da Azambuja até o famoso pinhal do
+mesmo nome.--Do poeta grego e philosopho Démades e do poeta e philosopho
+ingles Addison: da casaca de penneiros e do palio atheniense, e de
+outros importantes assumptos em que o A. quiz mostrar sua profunda
+erudição.--Discute-se a materia gravissima se é necessario que um
+ministro d'estado seja ignorante e leigarraz.--Admiraveis reflexões de
+zigzag em que se tracta de _re politica_ e de _re
+amatoria_.--Descobre-se porfim que o A. estivera a sonhar em todo este
+capitulo, e pede-se ao leitor benevolo que volte a folha e passe ao
+seguinte. 31
+
+Capitulo V.--Chega o A. ao pinhal da Azambuja, e não o acha. Trabalha-se
+por explicar este phenomeno pasmoso. Bello rasgo de stylo
+romantico.--Receita para fazer litteratura original com pouco
+trabalho.--Transição classica;--Orpheu e o bosque do Ménalo. Desce o A.
+d'estas grandes e sublimes considerações para as realidades materiaes da
+vida: é desamparado pela hospitaleira traquitana e tem de cavalgar na
+triste mula de arrieiro.--Admiravel choito do animal. Memorias do
+marquez do F. que adorava o choito. 39
+
+Capitulo VI.--Próva-se como o velho Camões não teve outro remedio senão
+misturar o maravilhoso da mylhologia com o do christianismo.--Da-se
+razão, e tira-se depois ao padre José Agostinho.--No meio d'estas
+disceptações academico-litterarias vem o A. a descobrir que para tudo é
+preciso ter fé n'este mundo. Diz-se _n'este mundo_, porque, quanto ao
+outro ja era sabido.--Os Lusiadas, Fausto e a Divina-Comedia.--Desgraça
+de Camões em ter nascido antes do romantismo.--Mostra-se como a Styge e
+o Cocyto sempre são melhores sitios que o Inferno e o Purgatorio.--Vai o
+A. em procura do marquez de Pombal, e dá com elle nas ilhas Beatas do
+poeta Alceu.--Partida de Wist entre os illustres finados.--Compaixão do
+marquez pelos pobres homens de Ricardo Smith e J. B. Say.--Resposta
+d'elle e da sua luneta ás perguntas peralvilhas do A.--Chegada a este
+mundo e ao Cartaxo. 47
+
+Capitulo VII.--Reflexões importantes sôbre o Bois-de-Boulogne, as
+carruagens de mollas, Tortoni, e o café do Cartaxo.--Dos cafés em geral,
+e de como são o characteristico da civilização de um paiz.--O
+Alfageme.--Hecatombe involuntaria immolada pelo A.--Historia do
+Cartaxo.--Demonstra-se como a Gran' Bretanha deveu sempre toda a sua
+fôrça e toda a sua glória a Portugal.--Shakspeare e Laffitte, Milton e
+Chateaumargot.--Nelson e o principe de Joinville.--Próva-se
+evidentemente que M. Guizot é a ruina de Albion e do Cartaxo. 59
+
+Capitulo VIII.--Sahida do Cartaxo.--A charneca.--Perigo imminente em que
+o A. se acha de dar em poeta e fazer versos.--Ultima revista do
+imperador D. Pedro ao exército liberal. Batalha de
+Almoster.--Waterloo.--Declara o A. solemnemente que não é philosopho e
+chega á ponte de Asseca. 71
+
+Capitulo IX.--Prologomenos dramatico-litterarios, que muito naturalmente
+levam, apezar de alguns rodeios, ao retrospecto e reconsideração do
+capitulo antecedente.--Livros que não deviam ter titulo, e titulos que
+não deviam ter livro.--Dos poetas d'este seculo: Bonaparte, Rotchild e
+Silvio-Péllico.--Chega-se ao fim d'estas reflexões e á Ponte da
+Assecca.--Traducção portugueza de um grande poeta.--Origem de um
+dictado.--Junot na ponte da Assecca.--De como o A. d'este livro foi
+jacobino desde piqueno.--Inguiço que lhe deram.--A duqueza de
+Abrantes.--Chega-se emfim ao val de Santarem. 79
+
+Capitulo X.--Valle de Santarem--Namora-se o A. de uma janella que ve por
+entre umas árvores.--Conjecturas várias a respeito da ditta
+janella.--Similhança do poeta com a mulher namorada, e inquestionavel
+inferioridade do homem que não é poeta.--Os rouxinoes. Reminiscencia de
+Bernardim Ribeiro e das suas saudades.--De como o A. tinha quasi
+completo o seu romance, menos um vestido branco e uns olhos
+pretos.--Sahem verdes os olhos com grande admiração e pasmo
+seu.--Verificam-se as conjecturas sôbre a mysteriosa janella.--A menina
+dos rouxinoes.--Censura das damas muito para temer, crítica dos
+elegantes muito para rir.--Começa o primeiro episodio d'esta Odyssea. 91
+
+Capitulo XI.--Tracta-se do unico privilegio dos poeetas que tambem os
+philosophos quizeram tirar, mas não lhes foi concedido; aos romancistas
+sim.--Applicação d'estes principios a Aristoteles e Anacreonte.--O A.,
+tendo declarado no capítulo nono d'esta obra que não era philosopho,
+agora confessa, quasi solemnemente. que é poeta, e pretende manter-se
+como tal, em seu direito.--De como S. M. elrei de Dinamarca tinha menos
+juizo do que Yorick, seu bobo.--Doutrina d'este. Funda n'ella o A. o seo
+admiravel systema de physiologia e pathologia transcendente do coração.
+Por uma deducção appertada e cerrada da mais constrangente logica vem a
+dar-se no motivo porque foi concedido aos poetas esse direito indefinido
+de andarem sempre namorados.--Applicam-se todas éstas grandes theorias á
+posição actual do A. no momento de entrar no episodio promettido no
+capítulo antecedente.--Uma modestia e reserva delicada o obrigam a
+duvidar da sua qualificação para o desimpenhar: pede votos ás amaveis
+leitoras. Decide-se que a votação não seja nominal, e porquê.--Dido e a
+mana Annica.--Entra-se emfim na promettida historia.--De como a velha
+estava á porta a dobar, e imbaraçando-se-lhe a meada, chamou por
+Joanninha, sua neta. 99
+
+Capitulo XII.--De como Joanninha desimbaraçou a meada da avó, e do mais
+que aconteceu.--Que casta de rapariga era Joanninha. Dá o A. insigne
+prôva de ingenuidade e boa fé confessando um grave senão do seu Ideal.
+Insiste porém que é um adoravel deffeito.--Em que se parece uma mulher
+desannellada com um Sansão tosquiado.--Pasmosas monstruosidades da
+natureza que desmentem o credo velho dos peralvilhos.--Os olhos verdes
+de Joanninha.--Religião dos olhos pretos strenuamente professada pelo A.
+Perigo em que ella se acha á vista de uns olhos verdes.--De como estando
+a avó e a neta a conversar muito de mano a mano, chega Frei Diniz e se
+interrompe a conversação.--Quem era Frei Diniz. 109
+
+Capitulo XIII.--Dos frades em geral.--O frade moralmente considerado,
+socialmente e artisticamente.--Próva-se que é muito mais poetico o frade
+do que o barão.--Outra vez D. Quixote e Sancho Pansa.--Do que seja o
+barão, sua clasificação e descripção linneana.--Historia do castello do
+Chucherumello.--Erro palmar de Eugenio Sue: mostra-se que os jesuitas
+não são a cholera-morbus, e que é preciso refazer o 'Judeu errante'--De
+como o frade não intendeu o nosso seculo nem o nosso seculo ao
+frade.--De como o barão ficou em logar do frade, e do muito que n'isso
+perdémos.--Unica voz que se ouve no actual deserto da sociedade: os
+barões a gritar contos de réis.--Como se contam e como se pagam os taes
+contos.--Predilecção artistica do A. pelo frade: confessa-se e
+explica-se ésta predilecção. 121
+
+Capitulo XIV.--Emendado emfim de suas distracções e divagações, prosegue
+o A. direitamente com a historia promettida.--De como Fr. Diniz deu a
+manga a beijar a avó e á neta, e do mais que entre elles se
+passou.--Ralha o frade com a velha, e começa a descubrir-se onde a
+historia vai ter. 133
+
+Capitulo XV.--Retrato de um frade franciscano que não foi para o
+depósito da Terra-sancta, nem consta que esteja na Academia das
+Bellas-Artes.--Ve-se que a logica de Fr. Diniz se não parecia nada com a
+de Condillac.--Suas opiniões sôbre o liberalismo e os liberaes.--Que o
+podêr vem de Deus, mas como e paraquê.--Que os liberaes não intendem o
+que é liberdade e egualdade; e o para que eram os frades, se
+fossem.--Próva-se, pelo texto, que o homem não vive so de pão, e
+pergunta-se o de que vivia então Fr. Diniz. 147
+
+Capitulo XVI.--Saibamos da vida do frade.--Era franciscano porquê?--Dos
+antigos e dos novos martyres.--Alguns particulares de Fr. Diniz antes e
+depois de ser frade.--Emigração.--Explicação incompleta.--De como a
+velha tinha perdido a vista, e Joanninha o riso.--Sexta feira dia
+aziago. 155
+
+Capitulo XVII.--De como, chegando outra sexta-feira e estando a avó e a
+neta á espera do frade, este lhe appareceu, contra o seu costume, da
+banda de Lisboa.--Por que razão muitas vezes a mais animada conversação
+é a que mais facilmente pára e quebra de repente.--Nova demonstração de
+dois grandes axiomas dos nossos velhos, a saber: Que o hábito não faz o
+monge; e que ralhando as comadres se descobrem as verdades.--No ralhar
+da velha com o frade, levanta-se uma ponta do véo que cobre os mysterios
+da nossa historia. 171
+
+Capitulo XVIII.--Descobre-se que ha grandes e espantosos segredos entre
+o frade e a velha--Piedosa fraude de Joanninha.---Lucta entre o hábito e
+o monge. 181
+
+Capitulo XIX.--Guerra de postos avançados, Joanninha no bivac.--De como
+os rouxinoes do valle se disciplinaram a ponto de tocar a alvorada e a
+retreta.--Quem era a 'menina dos rouxinoes,' e porque lhe poseram este
+nome.--A sentinella perdida e achada. 191
+
+Capitulo XX.--Joanninha adormecida--O demi-jour da coquette.--Poesia do
+Flos-sanctorum.--De como os rouxinoes accompanhavam sempre a menina do
+seu nome; e do bem que um d'elles cantava no bivac.--Retratto esquissado
+á pressa para satisfazer ás amaveis leitoras.--Pondera-se o triste e
+pessimo gôsto dos nossos governantes em tirarem as honras militares ao
+mais elegante e mais nacional uniforme do exército portuguez.--Em que se
+parece o auctor da presente obra com um pintor da edade-média.--De como
+os abraços, por mais apertados que sejam, e os beijos, por mais
+interminaveis que pareçam, sempre teem de acabar por fim. 203
+
+Capitulo XXI.--Quem vem lá?--Como entre dous litigantes nem sempre gosa
+o terceiro.--Carlos e Joanninha n'uma especie de situação _ordeira_, a
+mais perigosa e falsa das situações. 215
+
+Capitulo XXII.--Bilhete de manhan da prima ao primo. Inganam a pobre da
+velha.--Noite mal dormida.--Da conversa que teve Carlos com os seus
+botões.--A Joanninha que elle deixára e a Joanninha que
+achou.--Obrigações d'amor, triste palavra.--A mulher que elle amava, e
+se elle a amava ainda.--Quesitos do A. aos seus benevolos leitores.
+Declara que com os hypocritas não falla.--Quem hade levantar a primeira
+pedra?--Dous modos differentes de acudir uma coisa ao pensamento. 225.
+
+Capitulo XXIII.--Continúa a accudir muita coisa vaga e incontrada ao
+pensamento de Carlos.--Dança de fadas e duendes.--Fr. Diniz o fado-mau
+da familia.--Veremos, é a grande resolução nas grandes
+difficuldades.--Carlos poeta romantico.--Olhos verdes--Desafio a todos
+os poetas moyen-ages do nosso tempo. 235.
+
+Capitulo XXIV.--Novo Génesis.--O Adam social muito differente do Adam
+natural.--Carlos sempre um por seus bons instinctos, sempre outro por
+suas más reflexões.--De como Joanninha recebeu o primo com os braços
+abertos, e do mais que entre elles se passou.--Dor meia dor, meia
+prazer. 247.
+
+Capitulo XXV.--O excesso da felicidade que aterra e confunde
+tambem.--Pasmosa contradicção da nossa natureza.--De como os olhos
+verdes de Joanninha se inturvaram e perderam todo o brilho.--Que o
+coração da mulher que ama, sempre advinha certo. 261.
+
+Notas. 275.
+
+
+
+
+Notas:
+
+[1] Chamavam assim por escarneo, em Portugal, ao general Loison a quem
+faltava um braço.
+
+[2] Célebre urso do Jardim das Plantas em París.
+
+[3] Pag. 40, 41, 42.
+
+
+
+
+Lista de erros corrigidos
+
+
+Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:
+
+
+ +----------+--------------------+--------------------+
+ | | Original | Correcção |
+ +----------+--------------------+--------------------+
+ |#pág. 3| venceder | vencedor* |
+ |#pág. 15| Cervantos | Cervantes |
+ |#pág. 18| morachão | marachão* |
+ |#pág. 40| esperavava | esperava |
+ |#pág. 41| maldadades | maldades |
+ |#pág. 62| café | harem* |
+ |#pág. 89| tinha-ânimo | tinha ânimo |
+ |#pág. 95| esquerlo | esquerda |
+ |#pág. 97| um historia | uma historia |
+ |#pág. 106| toda o movimento | todo o movimento |
+ |#pág. 118| trababalho | trabalho |
+ |#pág. 126| conte | conter* |
+ |#pág. 129| aeronantas | aeronautas* |
+ |#pág. 134| paasos | passos |
+ |#pág. 163| memoraval | memoravel |
+ |#pág. 203| demij-our | demi-jour* |
+ |#pág. 223| didireitas | direitas |
+ |#pág. 228| as alagadiços | os alagadiços |
+ |#pág. 240| infeitavam | infeitiçavam* |
+ |#pág. 276| viagem | visita |
+ |#pág. 286| em em logar frade | em logar do frade |
+ |#pág. 288| d'ad'mor | d'amor |
+ +----------+--------------------+--------------------+
+
+
+* correcções feitas com base na errata do próprio livro.
+
+Shakespeare e Rotschild surgem neste livro como Shakspeare e Rotchild
+respectivamente. Dada a repetitividade constante, decidi manter de
+acordo com o original.
+
+Foram adicionados travessões onde a sua falta foi notada.
+
+As indicações dos números de páginas que se mencionaram na secção de
+"Notas do Primeiro Livro" e "Índice", foram corrigidas para corresponder
+ao local correcto.
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's Viagens na Minha Terra, by Almeida Garrett
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VIAGENS NA MINHA TERRA ***
+
+***** This file should be named 24164-8.txt or 24164-8.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ http://www.gutenberg.org/2/4/1/6/24164/
+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
+
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
+
+
+
+*** START: FULL LICENSE ***
+
+THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
+PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK
+
+To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
+distribution of electronic works, by using or distributing this work
+(or any other work associated in any way with the phrase "Project
+Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
+Gutenberg-tm License (available with this file or online at
+http://gutenberg.org/license).
+
+
+Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
+electronic works
+
+1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
+electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
+and accept all the terms of this license and intellectual property
+(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all
+the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
+all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
+If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
+terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
+entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.
+
+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
+Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
+freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
+this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
+the work. You can easily comply with the terms of this agreement by
+keeping this work in the same format with its attached full Project
+Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.
+
+1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
+what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in
+a constant state of change. If you are outside the United States, check
+the laws of your country in addition to the terms of this agreement
+before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
+creating derivative works based on this work or any other Project
+Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning
+the copyright status of any work in any country outside the United
+States.
+
+1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg:
+
+1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate
+access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
+whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
+phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
+Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
+copied or distributed:
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
+from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
+posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
+and distributed to anyone in the United States without paying any fees
+or charges. If you are redistributing or providing access to a work
+with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
+work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
+through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
+Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
+1.E.9.
+
+1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
+with the permission of the copyright holder, your use and distribution
+must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
+terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked
+to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
+permission of the copyright holder found at the beginning of this work.
+
+1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
+License terms from this work, or any files containing a part of this
+work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.
+
+1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
+electronic work, or any part of this electronic work, without
+prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
+active links or immediate access to the full terms of the Project
+Gutenberg-tm License.
+
+1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary,
+compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
+word processing or hypertext form. However, if you provide access to or
+distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
+"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
+posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
+you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
+copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
+request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
+form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
+License as specified in paragraph 1.E.1.
+
+1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
+performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
+unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.
+
+1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
+access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
+that
+
+- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
+ the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
+ owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
+- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
+ does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
+ Project Gutenberg-tm works.
+
+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
+
+1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
+effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
+public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
+collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
+works, and the medium on which they may be stored, may contain
+"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
+corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
+property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
+computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
+your equipment.
+
+1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
+of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
+Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
+Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
+liability to you for damages, costs and expenses, including legal
+fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
+LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
+PROVIDED IN PARAGRAPH F3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
+TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
+LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
+INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
+DAMAGE.
+
+1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
+defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
+receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
+written explanation to the person you received the work from. If you
+received the work on a physical medium, you must return the medium with
+your written explanation. The person or entity that provided you with
+the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
+refund. If you received the work electronically, the person or entity
+providing it to you may choose to give you a second opportunity to
+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.