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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 02:12:36 -0700 |
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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Viagens na Minha Terra + (Volume I) + +Author: Almeida Garrett + +Release Date: January 4, 2008 [EBook #24164] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VIAGENS NA MINHA TERRA *** + + + + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + + + + + + *Nota de editor:* Devido à quantidade de erros tipográficos + existentes neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à + versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com + o original. No final deste livro encontrará a lista de erros + corrigidos. + + Rita Farinha (Jan. 2008) + + + + +OBRAS + +DE + +J. B. DE A. GARRETT. + +VIII. + +(PRIMEIRO DAS VIAGENS) + + + + +VIAGENS NA MINHA TERRA + + +POR J. B. DE ALMEIDA-GARRETT. + + +I + + +LISBOA +NA TYPOGRAPHIA DA GAZETA DOS TRIBUNAIS. +1846. + + + + +Os editores d'esta obra, vendo a popularidade extraordinaria que ella +tinha publicada em fragmentos na _Revista_, intenderam fazer um serviço +ás lettras e á gloria do seu paiz, imprimindo-a agora reunida em um +livro, para melhor se podêr avaliar a variedade, a riqueza e a +originalidade de seu stylo inimitavel, da philosophia profunda que +incerra, e sôbre tudo o grande e transcendente pensamento moral a que +sempre tende, ja quando folga e ri com as mais graves coisas da vida, ja +quando seriamente discute por suas leviandades e pequenezas. + +As _Viagens na minha terra_, são um d'aquelles livros raros que so +podiam ser escriptos por quem, como o auctor de _Camões_ e de _Catão_, +de _D. Branca_ e do _Portugal na Balança da Europa_, do _Auto de +Gil-Vicente_ e do _Tractado de Educação_, do _Alfageme_ e de _Fr. Luiz +de Souza_, do _Arco de Sanct'Anna_ e da _Historia Litteraria de +Portugal_, de _Adozinda_ e das _Leituras Historicas_ e de tantas +producções de tam variado genero, possue todos os stylos e, dominando +uma lingua de immenso podêr, a costumou a servir-lhe e +obedecer-lhe;--por quem com a mesma facilidade sobe a orar na tribuna, +entra no gabinete nas graves discussões e demonstrações da sciencia--voa +ás mais altas regiões da lyrica, da epopeia e da tragedia, lida com as +fortes paixões do drama, e baixa ás não menos difficeis trivialidades da +comedia;--por quem ao mesmo tempo, e como que mudando de natureza, póde +dar-se todo ás mais aridas e materiaes ponderações da administração e da +politica, e redigir com admiravel precisão, com uma exacção ideologica +que talvez ninguem mais tenha entre nós, uma lei administrativa ou de +instrucção pública, uma constituição politica, ou um tractado de +commercio. + +Orador e poeta, historiador e philosopho, crítico e artista, +jurisconsulto e administrador, erudito e homem d'Estado, religioso +cultor da sua lingua e falando correctamente as extranhas--educado na +pureza classica da antiguidade, e versado depois em todas as outras +litteraturas--da meia-edade, da renascença e contemporanea--o auctor das +Viagens Na Minha Terra é egualmente familiar com Homero e com o Dante, +com Platão e com Rousseau, com Thucidides e com Thiers, com Guizot e com +Xenophonte, com Horacio e com Lamartine, com Machiavel e com +Chateaubriand, com Shakspeare e Euripedes, com Camões e Calderon, com +Goethe e Virgilio, Schiller e Sá-de-Miranda, Sterne e Cervantes, Fenelon +e Vieira, Rabelais e Gil-Vicente, Addison e Bayle, Kant e Voltaire, +Herder e Smith, Bentham e Cormenin, com os Encyclopedistas e com os +Sanctos-Padres, com a Biblia e com as tradicções sanscritas, com tudo o +que a arte e a sciencia antiga, com tudo o que a arte emfim e a sciencia +moderna teem produzido. Ve-se isto dos seus escriptos, e especialmente +se ve d'este que agora publicâmos apezar de composto bem claramente ao +correr da penna. + +Mas ainda assim, e com isto somente, elle não faria o que faz se não +junctasse a tudo isso o profundo conhecimento dos homens e das coisas, +do coração humano e da razão humana; se não fosse, além de tudo o mais, +um verdadeiro homem do mundo, que tem vivido nas côrtes com os +principes, no campo com os homens de guerra, no gabinete com os +diplomaticos e homens d'Estado, no parlamento, nos tribunaes, nas +academias, com todas as notabilidades de muitos paizes--e nos salões +emfim com as mulheres e com os frivolos do mundo, com as elegancias e +com as falsidades do seculo. + +De tantas obras de tam variado genero com que, em sua vida ainda tam +curta, este fecundo escriptor tem inriquecido a nossa lingua, é ésta +talvez, tornâmos a dizer, a que elle mais descuidadamente escreveu: mas +é tambem a que, em nossa opinião, mais mostra os seus immensos podêres +intellectuaes, a sua erudição vastíssima, a sua flexibilidade de stylo +espantosa, uma philosophia transcendente, e por fim de tudo, o natural +indulgente e bom de um coração recto, puro, amigo da justiça, adorador +da verdade, e inimigo declarado de todo o sophisma. + +Tem sido accusado de sceptico: é a accusação mais absurda e que so +denuncia, em quem a faz, ou grande ignorancia ou grande má fe. Quando o +nosso auctor lança mão da cortante e destruidora arma do sarcasmo, que +elle maneja com tanta fôrça e dexteridade, e que talvez por isso mesmo, +conscio de seu podêr, elle rara vez toma nas mãos--veja-se que é sempre +contra a hypocrisia, contra os sophismas, e contra os hypocritas e +shopistas de _todas as côres_, que elle o faz. Crenças, opiniões, +sentimentos, respeita-os sempre. As mesmas suas ironias que tanto ferem, +não as dirige nunca sôbre individuos; ve-se que despreza a facil +vingança que, com tam poderosas armas, podia tomar de inimigos que o não +poupam, de invejosos que o calumniam, e a quem, por cada dicterio +insulso e ephemero com que o teem pretendido injuriar, elle podia +condemnar ao eterno oppróbrio de um pelourinho immortal como as suas +obras. Ainda bem que o não faz! mais immortaes são as suas obras, e +quanto a nós, mais punidas ficam os seus emulos com esse desprêzo do +homem superior que se não appercebe de sua malignidade insulsa e +insignificante. + +Voltando á accusação de septicismo, ainda dizemos que não póde ser +septico o espirito que concebeu, e em si achou côres com que pintar tam +vivos, characteres de crenças tam fortes como o de Catão, de Camões, de +Fr. Luiz de Sousa,--e aqui n'esta nossa obra, os de Fr. Diniz, de +Joanninha, da Irman Francisca. + +Não analysâmos agora as Viagens Na Minha Terra: a obra não está ainda +completa e não podia completar-se portanto o juizo; dizemos somente o +que todos dizem e o que todos podem julgar ja. + +A nosso rôgo, e por fazer mais digna da sua reputação ésta segunda +publicação da obra, o auctor prestou-se a dirigi-la elle mesmo, +corrigiu-a, additou-a, alterou-a em muitas partes, e a illustrou com as +notas mais indispensaveis para a geral intelligencia do texto: de modo +que sahirá muito melhorada agora do que primeiro se imprimiu. + + + + +VIAGENS NA MINHA TERRA. + + + Qu' il est glorieux d'ouvrir une nouvelle carrière, et de paraitre + tout-à-coup dans le monde savant un livre de découvertes à la main, + comme une cométe inattendue étincelle dans l'espace! + + X. DE MAISTRE. + + + + +CAPITULO I. + + + De como o auctor d'este erudito livro se resolveu a viajar na sua + terra, depois de ter viajado no seu quarto; e como resolveu + immortalizar-se escrevendo éstas suas viagens. Parte para Santarem. + Chega ao Terreiro-do-Paço, imbarca no vapor de Villa-Nova; e o que + ahi lhe succede. A Deducção-Chronologica e a Baixa de Lisboa. Lord + Byron e um bom charuto. Travam-se de razões os Ilhavos e os + Bordas-d'agua: os da calça larga levam a melhor. + + +Que viage á roda do seu quarto quem está á beira dos Alpes, de hynverno, +em Turim, que é quasi tam frio como San'Petersburgo--intende-se. Mas com +este clima, com este ar que Deus nos deu, onde a laranjeira cresce na +horta, e o mato é de murta, o proprio _Xavier de Maistre_, que aqui +escrevesse, ao menos ia até o quintal. + +Eu muitas vezes, n'estas suffocadas noites d'estio, viajo até á minha +janella para ver uma nesguita de Tejo que está no fim da rua, e me +inganar com uns verdes de árvores que alli vegetam sua laboriosa +infancia nos intulhos do Caes-do-Sodré. E nunca escrevi éstas minhas +viagens nem as suas impressões: pois tinham muito que ver! Foi sempre +ambiciosa a minha penna: pobre e suberba, quer assumpto mais largo. Pois +hei de dar-lh'o. Vou nada menos que a Santarem: e protesto que de quanto +vir e ouvir, de quanto eu pensar e sentir se hade fazer chronica. + +Era uma idea vaga, mais desejo que tenção, que eu tinha ha muito de ir +conhecer as riccas varzeas d'esse Ribatejo, e saudar em seu alto cume a +mais historica e monumental das nossas villas. Aballam-me as instancias +de um amigo, decidem-se as tonterias de um jornal, que por mexeriquice +quiz incabeçar em designio politico determinado a minha visita. + +Pois por isso mesmo vou:--_pronunciei-me_. + +São 17 d'este mez de julho, anno de graça de 1843, uma segunda-feira, +dia sem nota e de boa estrea. Seis horas da manham a dar em San'Paulo, e +eu a caminhar para o Terreiro-do-Paço. Chego muito a horas, invergonhei +os meus madrugadores dos meus companheiros de viagem, que todos se +prezam de mais matutinos homens que eu. Ja vou quasi no fim da praça, +quando oiço o rodar grave mas pressuroso de uma carroça _d'ancien +règime_: é o nosso chefe e commandante, o capitão da impreza, o Sr. C. +da T. que chega em estado. + +Tambem são chegados os outros companheiros: o sino dá o último rebate. +Partimos. + +N'uma _regata_ de vapores o nosso barco não ganhava decerto o premio. E +se, no andar do progresso, se chegarem a instituir alguns isthmicos ou +olympicos para este genero de carreiras--e se para ellas houver algum +Pindaro ancioso de correr, em strophes e antistrophes, atraz do vencedor +que vai coroar de seus hymnos immortaes--não cabe nem um triste minguado +epodo a este cançado corredor de Villa-nova. É um barco serio e sizudo +que se não mette n'essas andanças. + +Assim vamos de todo o nosso vagar contemplando este majestoso e +pittoresco amphitheatro de Lisboa oriental, que é, vista de fóra, a mais +bella e grandiosa parte da cidade, a mais characteristica, e onde, aqui +e alli, algumas raras feições se percebem, ou mais exactamente se +adivinham, da nossa velha e boa Lisboa das chronicas. Da Fundição para +baixo tudo é prosaico e burguez, chato, vulgar e semsabor como um +periodo da _Deducção Chronologica_, aqui e alli assoprado n'uma +tentativa ao grandioso do mau gôsto, como alguma oitava menos rasteira +do _Oriente_. + +Assim o povo, que tem sempre melhor gôsto e mais puro do que essa escuma +descórada que anda ao decima das populações, e que se chama a si mesma +por excellencia a _Sociedade_, os seus passeios favoritos são a +Madre-de-Deus e o Beato e Xabregas e Marvilla e as hortas de Chellas. A +um lado a immensa majestade do Tejo em sua maior extensão e podêr, que +alli mais parece um pequeno mar mediterraneo; do outro a frescura das +hortas e a sombra das árvores, palacios, mosteiros, sitios consagrados +todos a recordações grandes ou queridas. Que outra sahida tem Lisboa que +se compare em belleza com ésta? Tirado Bellem, nenhuma. E ainda assim, +Bellem é mais arido. + +Já saudámos Alhandra, a toireira; Villa-franca, a que foi de Xira, e +depois da Restauração, e depois outra vez de Xira, quando a tal +restauração cahiu, como a todas as restaurações sempre succede e hade +succeder, em odio e execração tal que nem uma pobre villa a quiz para +sobrenome. + +--'A questão não era de restaurar nem de não restaurar, mas de se livrar +a gente de um govérno de patuscos, que é o mais odioso e ingulhoso dos +governos possiveis.' + +É a reflexão com que um dos nossos companheiros de viajem accudiu ao +princípio de ponderação que eu ia involuntariamente fazendo a respeito +de Villa-franca. + +Mas eu não tenho odio nenhum a Villa-franca, nem a esse famoso cirio que +lá foi fazer à velha monarchia. Era uma coisa que estava na ordem das +coisas, e que por fôrça havia de succeder. Este necessario e inevitavel +reviramento por que vai passando o mundo, hade levar muito tempo, hade +ser contrastado por muita reacção antes de completar-se... + +No entretanto vamos accender os nossos charutos, e deixemos os precintos +aristocraticos da ré: á proa, que é paiz de cigarro livre! + +Não me lembra que lord Byron celebrasse nunca o prazer de fummar a +bórdo. È notavel esquecimento no poeta mais imbarcadiço, mais marujo que +ainda houve, e que até cantou o injôo, a mais prosaica e nauseante das +miserias da vida! Pois n'um dia d'estes, sentir na face e nos cabellos a +brisa refrigerante que passou por cima da agua, em quanto se aspiram +mollemente as narcoticas exhalações de um bom cigarro da Havana, é uma +das poucas coisas sinceramente boas que ha n'este mundo. + +Fummemos! + +Aqui está um campino fummando gravemente o seu cigarro de papel, que me +vai imprestar lume. + +'Dou-lh'o eu, senhor...' accode cortezmente outra figura mui diversa, +cujas feições, trajo e modos singularmente contrastam com os do +_musarabe_ ribatejano. + +Accenderam-se os charutos, e attentámos mais de vagar na companhia em +que estavamos. + +Era com effeito notavel e interessante o grupo a que nos tinhamos +chegado, e destacava pittorescamente do resto dos passageiros, mistura +hybrida de trajos e feições descharacterizadas e vulgares--que abunda +nos arredores de uma grande cidade maritima e commercial.--Não assim +este grupo mais separado com que fomos topar. Constava elle de uns dôze +homens; cinco eram d'esses famosos athletas da Alhandra que vão todos os +domingos colher o _pulverem olympicum_ da praça de Sanct'Anna, e que, á +voz soberana e irresistivel de: _á unha, á unha, á cernelha!_.... correm +a arcar com mais generosos, não mais possantes, animaes que elles, ao +som das immensas palmas, e a trôco dos raros pintos por que se manifesta +o sempre clamoroso e sempre vazio enthusiasmo das multidões. Voltavam á +sua terra os meus cinco luctadores ainda em trajo de praça, ainda +esmurrados e cheios de glória da contenda da vespera. Mas aopé d'estes +cinco e de altercação com elles--ja direi porquê--estavam seis ou sette +homens que em tudo pareciam os seus antipodas. + +Emvez do calção amarello e da jaqueta de ramagem que caracterizam o +homem do forcado, estes vestiam o amplo saiote grego dos varinos, e o +tabardo arrequifado siciliano de panno de varas. O campino, assim como o +saloio, tem o cunho da raça africana; estes são da familia pelasga: +feições regulares e moveis, a fórma agil. + +Ora os homens do norte estavam disputando com os homens do sul: a +questão fôra interrompida com a nossa chegada á proa do barco. Mas um +dos Ilhavos--bella e poetica figura de homem--voltando-se para nós, +disse n'aquelle seu tom accentuado:--'Ora aqui está quem hade decidir: +vejam-n'os senhores. Elles, por agarrar um toiro, cuidam que são mais +que ninguem, que não ha quem lhes chegue. E os senhores, a serem ca de +Lisboa, hãode dizer que sim. Mas nós...' + +--Nenhum de nós é de Lisboa: so este senhor que aqui vem agora. + +Era o C. da T. que chegava. + +--'Este conheço eu; este é dos nossos (bradou um homem de forcado, assim +que o viu). Isto é um fidalgo como se quer. Nunca o vi n'uma ferra, isso +é verdade; mas aqui de Vallada a Almeirim ninguem corre mais do que elle +por sol e por chuva, e hade saber o que é um boi de lei, e o que é lidar +com gado.' + +--'Pois oiçamos lá a questão.' + +--'Não é questão'--tornou o Ilhavo: 'mas se este senhor fidalgo anda por +Almeirim, para Almeirim vamos nós, que era uma charneca o outro dia, e +hoje é um jardim, benza-o Deus!--mas não foram os campinos que o +fizeram, foi a nossa gente que o sachou e plantou, e o fez o que é, e +fez terra das areas da charneca.' + +--'Lá isso é verdade'. + +--'Não, não é! Que está forte habilidade fazer dar trigo aqui aos +nateiros do Tejo, que é como quem semeia em manteiga. É uma lavoira que +a faz Deus por sua mão, regar e adubar e tudo: e o que Deus não faz, não +fazem elles, que nem sabem ter mão n'esses monchões c'o plantio das +arvores: so lá por cima é que algumas teem mettido, e é bem pouco para o +rio que é, e as riccas terras que lhes levam as inchentes.--Mas nós, pe +no barco pe na terra, tam depressa estamos a sachar o milho na charneca, +como vimos por ahi abaixo com a vara no peito, e o saveiro a pegar +n'area por não haver agua... mas sempre labutando pela vida'. + +--'A fôrça é que se falla'--tornou o campino para estabelecer a questão +em terreno que lhe convinha.--'A fôrça é que se falla: um homem do campo +que se deita alli á cernelha de um toiro que uma companha inteira de +varinos lhe não pegava, com perdão dos senhores pelo rabo!..' + +E reforçou o argumento com uma gargalhada triumphante, que achou echo +nos interessados circumstantes que ja se tinham apinhado a ouvir os +debates. + +Os Ilhavos ficaram um tanto abatidos; sem perderem a consciencia da sua +superioridade, mas acanhados pela algazarra. + +Parecia a esquerda de um parlamento quando ve sumir-se, no borburinho +acintoso das turbas ministeriaes, as melhores phrases e as mais fortes +razões dos seus oradores. + +Mas o orador ilhavo não era homem de se dar assim por derrotado. Olhou +para os seus, como quem os consultava e animava, com um gesto +expressivo, e voltando-se a nós, com a direita estendida aos seus +antagonistas: + +--'Então agora como é de fôrça, quero eu saber, e estes senhores que +digam, qual é que tem mais fôrça, se é um toiro ou se é o mar'. + +--'Essa agora!..' + +--'Queriamos saber'. + +--'É o mar'. + +--'Pois nós que brigâmos com o mar, oito e dez dias a fio n'uma +tormenta, de Aveiro a Lisboa, e estes que brigam uma tarde com um toiro, +qual é que tem mais fôrça?' + +Os campinos ficaram cabisbaixos; o publico imparcial applaudiu por ésta +vez a opposição, e o Vouga triumphou do Tejo. + + + + +CAPITULO II. + + + Declaram-se typicas, symbolicas e mythicas éstas viagens. Faz o A. + modestamente o seu proprio elogio. Da marcha da civilização; e + mostra-se como ella é dirigida pelo cavalleiro da Mancha D. + Quixote, e por seu escudeiro Sancho Pança.--Chegada a + Villa-Nova-da-Rainha, Supplicio de Tantalo.--A virtude galardão de + si mesma; e sophisma de Jeremias Bentham.--Azambuja. + + +Éstas minhas interessantes viagens hãode ser uma obra prima, erudita, +brilhante de pensamentos novos, uma coisa digna do seculo. Preciso de o +dizer ao leitor, paraque elle esteja previnido; não cuide que são +quaesquer d'essas rabiscaduras da moda que, com o titulo de _Impressões +de Viagem_, ou outro que tal, fatigam as imprensas da Europa sem nenhum +proveito da sciencia e do adiantamento da especie. + +Primeiro que tudo, a minha obra é um symbolo... é um mytho, palavra +grega, e de moda germanica, que se mette hoje em tudo e com que se +explica tudo... quanto se não sabe explicar. + +É um mytho porque--porque... Ja agora rasgo o veo, e declaro abertamente +ao benevolo leitor a profunda idea que está occulta debaixo d'esta +ligeira apparencia de uma viagemzita que parece feita a brincar, e no +fim de contas é uma coisa séria, grave, pensada com um livro novo da +feira de Leipsick, não das taes brochurinhas dos _boulevards_ de Paris. + +Houve aqui ha annos um profundo e cavo philosopho d'alêm Rheno, que +escreveu uma obra sôbre a marcha da civilização, do intellecto--o que +diriamos, para nos intenderem todos melhor, _o Progresso_. Descobriu +elle que ha dois principios no mundo: o _espiritualista_, que marcha sem +attender á parte material e terrena d'esta vida, com os olhos fittos em +suas grandes e abstractas theorias, hirto, sêcco, duro, inflexivel, e +que póde bem personalizar-se, symbolizar-se pelo famoso mytho do +cavalleiro da Mancha, D. Quixote;--o _materialista_, que, sem fazer caso +nem cabedal d'essas theorias, em que não crè, e cujas impossiveis +applicações declara todas utopias, póde bem representar-se pela rotunda +e anafada presença do nosso amigo velho, Sancho Pança. + +Mas, como na historia do malicioso Cervantes, estes dois principios tam +avessos, tam desincontrados, andam comtudo junctos sempre; ora um mais +atraz, ora outro mais adiante, impecendo-se muitas vezes, coadjuvando-se +poucas, mas _progredindo_ sempre. + +E aqui está o que é possivel ao progresso humano. + +E eisaqui a chronica do passado, a historia do presente, o programma do +futuro. + +Hoje o mundo é uma vasta Barataria, em que domina elrei Sancho. + +Depois hade vir D. Quixote. + +O senso commum virá para o millenio: reinado dos filhos de Deus! Está +promettido nas divinas promessas... como elrei de Prussia prometteu uma +constituição; e não faltou ainda, porque--porque o contracto não tem +dia; prometteu mas não disse para quando. + +Ora n'esta minha viagem Tejo-a-riba está symbolizada a marcha do nosso +progresso social: espero que o leitor intendesse agora. Tomarei cuidado +de lh'o lembrar de vez em quando, porque receio muito que se esqueça. + +Somos chegados ao triste desimbarcadoiro de Villa-Nova-da-Rainha, que é +o mais feio pedaço de terra alluvial em que ainda poisei os meus pés. O +sol arde como ainda não ardeu este anno. + +Um immenso arraial de caleças, de machinhos, de burros e arrieiros, nos +espera n'aquelle descampado africano. É forçoso optar entre os dois +martyrios da caleça ou do macho. Do mal o menos... seja este. + +E acolá--oh supplício de Tantalo!--vejo duas possantes e nedeas mulas +castelhanas jungidas a um vehiculo que, n'estas paragens e ao pé +d'aquell'outros, me parece mais esplendido do que um landaw de +Hyde-Park, mais elegante que um caleche de Long-champs, mais commodo e +elastico do que o mais acrio briska da princeza Hellena. E com tudo--oh +magico podêr das situações!--elle não é senão, uma substancial e bem +apessoada traquitana de cortinas. + +Togados manes dos antigos desimbargadores, venerandas cabelleiras de +anneis e castanhola, que direis, ó respeitadas sombras, se d'esse limbo +onde estais esperando pela resurreição do Pêgas... e do livro +quinto--vêdes este degenerado e espurio successor vosso, em calças +largas, frak verde, chapeu branco, gravata de côr, chicotinho de +caoutchouc na mão, prompto a cavalgar em mulinha de Palito-Metrico como +um garraio estudantinho do segundo anno, e deitando olhos invejosos para +esse natural, proprio e adscripticio modo de conducção desimbargatoria? +Oh que direis vós! Com que justo desprêzo não olhareis para tanta +degradação e derogação! + +Eu commungava silenciosamente commigo n'estas graves meditações, e +revolvia incertamente no ânimo a ponderosa dúvida:--se o administrar +justiça direita aos povos valia a pena de andar um desimbargador a +pé!... Luctava no meu ser o Sancho Pança da carne com o D. Quixote do +espirito--quando a Providencia, que nos maiores apertos e tentações nos +não abandona nunca, me trouxe a generosa offerta de um amigo e +companheiro do vapor, o Sr. L. S.: era sua a invejada carroça, e n'ella +me deu logar até á Azambuja. + +A virtude é o galardão de si mesma, disse um philosopho antigo; e eu não +creio no famoso ditto de Bentham, que sabedoria antiga seja um sophisma. +O mais moderno é o mais velho, não ha dúvida; mas o antigo que dura +ainda, é porque tem achado na experiencia a confirmação que o moderno +não tem. Jeremias Bentham tambem fazia o seu sophisma como qualquer +outro. + +Vamos percorrendo lentamente aquelle mal-composto marachão que poucos +palmos se eleva do nivel baixo e salgadiço do solo: de hynverno não se +passará sem perigo; ainda agora se não anda sem incómmodo e receio. +Estamos em Villa-Nova e ás portas do nojento caravanseray, unico asylo +do viajante n'esta, hoje, a mais frequentada das estradas do reino. + +Parece-me estar mais deserto e sujo, mais abandonado e em ruinas este +asqueroso logarejo, desde que alli aopé tem a estação dos vapôres, que +são a commodidade, a vida, a alma do Ribatéjo. Imagino que uma aldeia de +Alarves nas faldas do Atlas deve ser mais limpa e commoda. + +Oh! Sancho, Sancho, nem siquer tu reinarás entre nós! Cahiu o carunchoso +throno de teu predecessor, antagonista e ás vezes amo; açoitaram-te +essas nadegas para desincantar a formosa _del Toboso_, proclamaram-te +depois rei em _Barataria_, e n'esta tua provincia lusitana nem o +paternal govêrno de teu estupido materialismo póde estabelecer-se para +commodo e salvação do corpo; ja que a alma... oh! a alma... + +Fallemos n'outra coisa. + +Fujamos depressa d'este monturo.--É monótona, arida e sem frescura de +árvores a estrada: apenas alguma rara oliveira mal-medrada, a longos e +desiguaes espaços, mostra o seu tronco rachitico e braços contorcidos, +ornados de ramusculos doentes, em que o natural verde-alvo das folhas é +mais alvacento e desbotado que o costume. O solo porêm, com raras +excepções, é optimo, e a trôco de pouco trabalho e insignificante +despeza, daria uma estrada tam boa como as melhores da Europa. + +Dizia um secretario d'Estado meu amigo que para se repartir com +egualdade o melhoramento das ruas por toda Lisboa, deviam ser obrigados +os ministros a mudar de rua e bairro todos os tres mezes. Quando se +fizer a lei de responsabilidade ministerial, para as kalendas gregas, eu +heide propor que cada ministro seja obrigado a viajar por este seu reino +de Portugal ao menos uma vez cada anno, como a desobriga. + +Ahi está a Azambuja, pequena mas não triste povoação, com visiveis +signaes de vida, aceadas e com ar de confôrto as suas casas. É a +primeira povoação que dá indicio de estarmos nas ferteis margens do Nilo +portuguez. + +Corrémos a apear-nos no elegante estabelecimento que ao mesmo tempo +cumulla as tres distinctas funcções, de _hotel, de restaurant e de café_ +da terra. + +Sancto Deus! que bruxa que está á porta! que antro lá dentro!... Cai-me +a penna da mão. + + + + +CAPITULO III. + + + Acha-se desappontado o leitor com a prosaica sinceridade do A. + d'estas viagens. O que devia ser uma estalagem nas nossas eras de + litteratura romantica?--Suspende-se o exame d'esta grave questão + para tractar, em prosa e verso, um mui difficil ponto de + economia-politica e de moral social.--Quantas almas é preciso dar + ao diabo, e quantos corpos se teem de intregar no cemiterio para + fazer um ricco n'este mundo.--Como se veio a descobrir que a + sciencia d'este seculo era uma grandessissima tola.--Rei de facto, + e rei de direito.--Belleza e mentira não cabem n'um sacco.--Põe-se + o A. a caminho para o pinhal da Azambuja. + + +Vou _desappontar_ decerto o leitor benevolo; vou perder, pela minha +fatal sinceridade, quanto em seu conceito tinha adquirido nos dois +primeiros capitulos d'esta interessante viagem. + +Pois que esperava elle de mim agora, de mim que ousei declarar-me +escriptor n'estas eras de romantismo, seculo das fortes sensações, das +descripções a traços largos e _incisivos_ que se intalham n'alma e +entram com sangue no coração? + +No fim do capitulo precedente parámos á porta de uma estalagem: que +estalagem deve ser ésta, hoje no anno de 1843, ás barbas de Victor Hugo, +com o Doutor Fausto a trotar na cabeça da gente, com os _Mysterios de +Paris_ nas mãos de todo o mundo? + +Ha paladar que supporte hoje a classica _posada_ do Cervantes com o seu +_mesonero_ gordo e grave, as pulhas dos seus arrieiros, e o mantear de +algum pobre lorpa de algum Sancho! Sancho, o invisivel rei do seculo, +aquelle _por quem hoje os reis reinam e os fazedores de leis decretam e +afferem o justo!_ Sancho manteado por vis muleteiros! Não é da epocha. + + Eu coroarei de trevo a minha espada, + De cenoiras, luzerna e betarrava, + Para cantar Harmódios e Aristógilons, + Que do tyranno jugo vos livraram + Da sciencia velha, inutil carunchosa, + Que elevava da terra, erguia, alçava + O que no homem ha de Ser divino, + E para os grandes feitos e virtudes + Lhe despegava o espirito da carne... + +Não: plantae batatas, ó geração de vapor e de pó de pedra, macadamisae +estradas, fazei caminhos de ferro, construí passarolas de Icaro, para +andar a qual mais depressa, éstas horas contadas de uma vida toda +material, massuda e grossa como tendes feito ésta que Deus nos deu tam +differente do que a hoje vivemos. Andae, ganha-pães, andae; reduzi tudo +a cifras, todas as considerações d'este mundo a equações de interêsse +corporal, comprae, vendei, agiotae.--No fim de tudo isto, o que lucrou a +especie humana? Que ha mais umas poucas de duzias de homens riccos. E eu +pergunto aos economistas-politicos, aos moralistas, se ja calcularam o +número de individuos que é forçoso condemnar á miseria, ao trabalho +desproporcionado, á desmoralização, á infamia, á ignorancia crapulosa, á +desgraça invencivel, á penuria absoluta, para produzir um ricco?--Que +lh'o digam no Parlamento inglez, onde, depois de tantas commissões de +inquérito, ja deve de andar orçado o número de almas que é preciso +vender ao diabo, o número de corpos que se tem de intregar antes do +tempo ao cemiterio para fazer um tecelão ricco e fidalgo como Sir Robert +Peel, um mineiro, um banqueiro, um grangeeiro--seja o que for: cada +homem ricco, abastado, custa centos de infelizes, de miseraveis. + +Logo a nação mais feliz não é a mais ricca. Logo o princípio utilitario +é a _mamona_ da injustiça e da reprovação. Logo... + + There are more things in heaven and earth, Horatio, + Than are dreamt of in your philosophy. + +A sciencia d'este seculo é uma grandessissima tola. + +E como tal, presumpçosa e cheia do orgulho dos nescios. + +........................................................................... +........................................................................... +........................................................................... + +Vamos á descripção da estalagem. Não póde ser classica; assoviam-me +todos esses rapazes de pera, bigode e charuto, que fazem litteratura +cava e funda desde a porta do Marrare até ao café de Moscow... + +Mas aqui é que me apparece uma incoherencia inexplicavel. A sociedade é +materialista; e a litteratura, que é a expressão da sociedade, é toda +excessivamente e absurdamente e despropositadamente espiritualista! +Sancho rei de facto, Quixote rei de direito! + +Pois é assim; e explica-se.--É a litteratura que é uma hypocrita: tem +religião nos versos, charidade nos romances, fé nos artigos de +jornal--como os que dão esmolas para pôr no _Diario_, que amparam +orphans na _Gazeta_, e sustentam viuvas nos cartazes dos theatros. + +E fallam no Evangelho! Deve ser por escarneo. Se o leem, hãode ver lá +que nem a esquerda deve saber o que faz a direita... + +Vamos á descripção da estalagem; e acabemos com tanta digressão. + +Não póde ser classica, está visto, a tal descripção.--Seja +romantica.--Tambem não póde ser. Porque não? É pôr-lhe lá um +_Chourineur_ a amolar um facão de palmo e meio para espatifar rez e +homem, quanto incontrar,--uma _Fleur-de-Marie_ para dizer e fazer +pieguices com uma rozeirinha pequenina, bonitinha, que morreu, +coitadinha!--e um principe allemão incoberto, forte no sôcco britannico, +immenso em libras sterlinas, profundo em gyria de cegos e ladrões... e +ahi fica a Azambuja com uma estalagem que não tem que invejar á mais +pintada e da moda n'este seculo elegante, delicado, verdadeiro, natural! + +É como eu devia fazer a descripção: bem o sei. Mas ha um impedimento +fatal, invencivel--egual ao d'aquella famosa salva que se não deu... é +que nada d'isso lá havia. + +E eu não quero calumniar a boa gente da Azambuja. Que me não leam os +taes, porque eu heide viver e morrer na fé de Boileau: + + Rien n'est beau que le vrai. + +Ja se diz ha muito anno que honra e proveito não cabem n'um sacco; eu +digo que belleza e mentira tambem lá não cabem: e é a mais portugueza +traducção que creio que se possa fazer d'aquelle ímmortal e evangelico +hemystichio. A maior parte das bellezas da litteratura actual fazem-me +lembrar aquellas formosuras que tentavam os sanctos eremitas na +Thebaida. O pobre de Sancto Antão ou de S. Pacomio (Pacomio é melhor +aqui) ficavam imbasbacados ao princípio; mas dava-lhe o coração uma +pancada, olhavam-lhe para os pés...--Cruzes maldicto! Os pés não podia +elle incobrir. E ao primeiro _abrenuntio_ do sancto, dissipava-se a +belleza em muito fummo de inxofre, e ficava o diabo negro feio e cabrum +como quem é, e sempre foi o pae da mentira. + +Nada, nada, verdade e mais verdade. Na estalagem da Azambuja o que havia +era uma pobre velha a quem eu chamei bruxa, porque emfim que havia de eu +chamar á velha suja e maltrapida que estava á porta d'aquella asquerosa +casa? + +Havia lá ésta velha, com a sua môça mais môça mas não menos nojenta de +ver que ella, e um velho meio paralytico meio demente que alli estava +para um canto com todo o geito e traça de quem vem folgar agora na +taberna porque ja bebeu o que havia de beber n'ella. + +Matava-nos a sêde; mas a agua alli é beber quartans. O vinho era atroz. +Limonada? Não ha limões nem assucar.--Mandou-se um proprio á tenda no +fim da villa. Vieram tres limões que me pareceram de uns que pendiam, +quando eu vinha a férias, á porta do famoso botequim de Leiria. + +O assucar podia servir na última scena de M. de Pourceaugnac muito +melhor que n'uma limonada. Mas misturou-se tudo com a agua das sezões, +bebémos, pozemo-nos em marcha, e até agora não nos fez mal, com ser a +mais abominavel, antipathica e suja beberagem que se póde imaginar. + +Caminhámos na mesma ordem até chegar ao famoso pinhal da Azambuja. + + + + +CAPITULO IV. + + + De como o A. foi pensando e divagando, e em que pensava e divagava + elle, no caminho da villa da Azambuja até o famoso pinhal do mesmo + nome.--Do poeta grego e philosopho Démades, e do poeta e philosopho + inglez Addison, da casaca de penneiros e do palio atheniense, e de + outros importantes assumptos em que o A. quiz mostrar a sua + profunda erudição.--Discute-se a materia gravissima se é necessario + que um ministro d'estado seja ignorante e leigarraz.--Admiraveis + reflexões de zigzag em que se tracta de _re politica_ e de _re + amatoria_.--Descobre-se porfim que o A. estivera a sonhar em todo + este capitulo, e pede-se ao leitor benevolo que volte a folha e + passe ao seguinte. + + +Eu darei sempre o primeiro logar á modestia entre todas as bellas +qualidades.--Ainda sôbre a innocencia?--Ainda sim. A innocencia basta +uma falta para a perder, da modestia so culpas graves, so crimes +verdadeiros podem privar. Um accidente, um acaso podem destruir aquella, +a ésta so uma acção propria, determinada e voluntaria. + +Bem me lembram ainda os dois versos do poeta Démades que são forte +argumento de auctoridade contra a minha theoria; cuidei que tinha mais +infeliz memoria. Heide pô-los aqui para que não falte a ésta grande obra +das minhas viagens o merito da erudição, e lhe não chamem livrinho da +moda: estou resolvido a fazer a minha reputação com este livro. + + Aid ôs te kalle ka aretês polis, + Prôtoê sgathis hamartia deuteron de ais chunê. + + Da belleza e virtude é a cidadella + A innocencia primeiro--e depois ella. + +Mas a auctoridade responde-se com auctoridade, e a texto com texto. E eu +trago aqui na algibeira o meu Addison--um dos poucos livros que não +largo nunca--e atiro com o philosopho inglez ao philosopho grego e fico +triumphante: porque Addison não põe nada acima da modestia; e Addison, +apezar da sua casaca de penneiros, é muito maior philosopho do que foi +Démades com a sua tunica e o seu palio atheniense. + +O erudito e amavel leitor escapará d'ésta vez a mais citações: compre um +_Spectator_, que é livro sem que se não póde estar, e veja _passim_. + +Eu gósto, bem se ve, de ir ao incôntro das objecções que me podem fazer; +lembro-as eu mesmo paraque depois me não digam:--'Ah, ah! vinha a ver se +pegava!'--Não senhor, não é o meu genero esse. + +Francamente pois... eis-ahi o que poderão dizer:--'Addison foi +secretario d'Estado, e então...'--Então o quê? Não concebem um +secretario d'Estado philosopho, um ministro poeta, escriptor elegante, +cheio de graça e de talento? Não, bem vejo que não: teem a idea fixa de +que um ministro d'Estado hade ser por fôrça algum semsaborão, malcriado +e petulante. Mas isto é nos paizes adiantados em que ja é indifferente +para a coisa-pública, em que povo nem principe lhes não importa ja, em +que mãos se intregam, a que cabeças se confiam. Em Inglaterra não é +assim, nem era assim no tempo de Addison. Fossem lá á rainha Anna que +deixasse entrar no seu gabinete quatro calças de coiro sem criação nem +instrucção, e não mais senão so porque este sabía jogar nos fundos, +aquelle tinha boas tretas para o _canvassing_ de umas eleições, o outro +era figura importante no _Freemasson's-hall_! + +Ja se ve que em nada d'isto ha a minima allusão ao feliz systema que nos +rege: estou fallando de modestia, e nós vivemos em Portugal. + +A modestia comtudo quando é excessiva e se aproxima do acanhamento, do +que no mundo se chama _falta de uso_--póde ser n'um homem quasi defeito +inteiro. Na mulher é sempre virtude, realce de belleza ás formosas, +disfarce de fealdade ás que o não são. + +Por mim, não conheço objecto mais lindo em toda a natureza, mais +feiticeiro, mais capaz de arrebatar o espirito e inflammar o coração do +que é uma joven donzella quando a modestia lhe faz subir o rubor ás +faces, e o pejo lhe carrega brandamente nas palpebras... Pouco lume que +tenha nos olhos, pouco regular que seja o semblante, menos airosa que +seja a figura, parecer-vos-ha n'esse momento um anjo. E anjo é a virgem +modesta, que traz no rosto debuxado sempre um ceo de virtudes...--De +alguma belleza sei eu cujos olhos _côr da noite_ ou de _saphyra_ +(_dialec. poet. vet._), cujas faces de _leite e rosas_, dentes de +_pérolas_, collo de _marfim_, transas de _ebano_ (a allusão é surtida, +ha onde escolher) davam larga materia a boas grozas de sonetos--no +antigo regimen dos sonetos, e hoje inspirariam myriadas de canções +descabelladas e vaporosas, choradas na harpa ou gemidas no alahude. +Comtanto que não seja lyra, que é classico, todo o instrumento, +inclusivamente a bandurra, é egual deante da lei romantica. + +Ora pois, mas a tal belleza, por certo ar ala-moda, certo não-sei-quê de +atrevido nos olhos, de deslavado na cara, e de descomposto nos ademanes, +perde toda a graça e quasi a propria formosura de que a dotára a +natureza... + +Vêde-me aquelles labios de carmim. Ha maio florido que tam lindo botão +de rosa apresente ao alvorecer da madrugada?... Mas olhae agora como o +riso da malicia lh'o desfolha tam feiamente n'uma desconcertada +risada... + +Desvaneceu-se o prestigio. + +Não havia moço nem velho, homem do mundo ou sabio de gabinete que não +désse metade dos seus prazeres, dos seus livros, da sua vida por um so +beijo d'aquella bôcca... Agora talvez nem repetidos _avances_ lhe façam +obter um namorante de profissão e officio... E hade pagá-lo adeantado, e +porque preço!... + +........................................................................... +........................................................................... + +Mas o que terá tudo isto com a jornada da Azambuja ao Cartaxo? A mais +íntima e verdadeira relação que é possivel. É que a pensar ou a sonhar +n'estas coisas fui eu todo o caminho, até me achar no meio do pinhal da +Azambuja. + +Ahi parámos, e acordei eu. + +Sou sujeito a éstas distracções, a este sonhar acordado. Que lhe heide +eu fazer? Andando, escrevendo, sonho e ando, sonho e fallo, sonho e +escrevo. Francamente me confesso de somnambulo, de somniloquo, de... +Não, fica melhor com seu ar de grego (tenho hoje a bossa hellenica n'um +estado de tumescencia pasmosa!); digamos somnilogo, somnigrapho... + +A minha opinião sincera e _conscienciosa_ é que o leitor deve saltar +éstas folhas, e passar ao capitulo seguinte, que é outra casta de +capitulo. + + + + +CAPITULO V. + + + Chega o A. ao pinhal da Azambuja, e não o acha. Trabalha-se por + explicar este phenomeno pasmoso. Bello rasgo de stylo + romantico.--Receita para fazer litteratura original com pouco + trabalho.--Transição classica: Orpheu e o bosque do Ménalo.--Desce + o A. d'estas grandes e sublimes considerações para as realidades + materiaes da vida: é desamparado pela hospitaleira traquitana e tem + de cavalgar na triste mula de arrieiro.--Admiravel choito do + animal. Memorias do marquez do F. que adorava o choito. + + +Este é que é o pinhal da Azambuja? + +Não póde ser. + +Ésta, aquella antiga selva, temida quasi religiosamente como um bosque +druidico! E eu que, em pequeno, nunca ouvia contar historia de Pedro de +Mallas-artes, que logo, em imaginação, lhe não pozesse a scena aqui +perto!... Eu que esperava topar a cada passo com a cova do capitão +Roldão e da dama Leonarda!... Oh! que ainda me faltava perder mais ésta +illusão... + +Por quantas maldicções e infernos adornam o stylo d'um verdadeiro +escriptor romantico, digam-me, digam-me: onde estão os arvoredos +fechados, os sitios medonhos d'esta espessura. Pois isto é possivel, +pois o pinhal da Azambuja é isto?... Eu que os trazia _promptos e +recortados_ para os collocar aqui todos os amaveis salteadores de +Schiller, e os elegantes facinorosos do _Auberge-des-Adrets_, eu heide +perder os meus chefes-d'obra! Que é perdê-los isto--não ter onde os +pôr!.. + +Sim, leitor benevolo, e por ésta occasião te vou explicar como nós hoje +em dia fazemos a nossa litteratura. Ja me não importa guardar segredo, +depois d'esta desgraça não me importa ja nada. Saberás pois, ó leitor, +como nós outros fazemos o que te fazemos ler. + +Tracta-se de um romance, de um drama--cuidas que vamos estudar a +historia, a natureza, os monumentos, as pinturas, os sepulchros, os +edificios, as memorias da epocha? Não seja pateta, senhor leitor, nem +cuide que nós o somos. Desenhar characteres e situações do _vivo_ da +natureza, collori-los das côres verdadeiras da historia... isso é +trabalho difficil, longo, delicado, exige um estudo, um talento, e +sôbretudo um tacto!... Não senhor: a coisa faz-se muito mais facilmente. +Eu lhe explico. + +Todo o drama e todo o romance precisa de: + +Uma ou duas damas, + +Um pae, + +Dois ou tres filhos, de dezanove a trinta annos, + +Um criado velho, + +Um monstro, incarregado de fazer as maldades, + +Varios tractantes, e algumas pessoas capazes para intermedios. + +Ora bem; vai-se aos figurinos francezes de Dumas, de Eug. Sue, de +Victor-Hugo, e _recorta_ a gente, de cadaum d'elles, as figuras que +precisa, gruda-as sôbre uma folha de papel da côr da moda, verde, pardo, +azul--como fazem as raparigas inglezas aos seus albums e scrapbooks; +fórma com ellas os grupos e situações que lhe parece; não importa que +sejam mais ou menos disparatados. Depois vai-se ás chronicas, tiram-se +uns poucos de nomes e de palavrões velhos; com os nomes chrismam-se os +figurões, com os palavrões _illuminam-se_... (stylo de pintor +pinta-monos).--E aqui está como nós fazemos a nossa litteratura +original. + +E aqui está o precioso trabalho que eu agora perdi! + +Isto não póde ser! Uns poucos de pinheiros raros e infezados atravez dos +quaes se estão quasi vendo as vinhas e olivedos circumstantes!.. É o +desapontamento mais chapado e solemne que nunca tive na minha vida--uma +verdadeira logração em boa e antiga phrase portugueza. + +E comtudo aqui é que devia ser, aqui é que é, geographica e +topographicamente fallando, o bem conhecido e confrontado sitio do +pinhal da Azambuja... + +Passaria por aqui algum Orpheu que, pelos magicos podêres da sua lyra, +levasse atraz de si as árvores d'este antigo e classico Menalo dos +salteadores lusitanos? + +Eu não sou muito difficil em admittir prodigios quando não sei explicar +os phenomenos por outro modo. O pinhal da Azambuja mudou-se. Qual, de +entre tantos Orpheus que a gente por ahi ve e ouve, foi o que obrou a +maravilha, isso é mais difficil de dizer. Elles são tantos, e cantam +todos tão bem! Quem sabe? Juntar-se-hiam, fariam uma companhia por +acções, e negociariam um emprestimo harmonico com que facilmente se +obraria então o milagre. É como hoje se faz tudo; é como se passou o +thesoiro para o banco, o banco para as companhias de confiança... porque +se não faria o mesmo com o pinhal da Azambuja? + +Mas aonde está elle então? faz favor de me dizer... + +Sim senhor, digo: _está consolidado_. E se não sabe o que isto quer +dizer, leia os orçamentos, veja a lista dos tributos, passe pelos olhos +os votos de confiança; e se depois d'isto, não souber aonde e como _se +consolidou_ o pinhal d'Azambuja, abandone a geographia que visivelmente +não é a sua especialidade, e deite-se a finança, que tem +_bossa_;--fazemo-lo eleger ahi por Arcozello ou pela cidade eterna--é o +mesmo--vai para a commissão de fazenda--depois lord do thesoiro, +ministro: é _escalla_, não offendia nem a rabujenta constituição de 38, +quanto mais a carta........................................................ +........................................................................... + +O peior é que no meio d'estes campos onde Troia fôra, no meio d'estas +areias onde se acoitavam d'antes os pallidos medos do pinhal da +Azambuja, a minha querida e bemfazeja traquitana abandonou-me; fiquei +como o bom _Xavier de Maistre_ quando, a meia jornada do seu quarto, lhe +perdeu a cadeira o equilibrio, e elle cahiu--ou ia caindo, ja me não +lembro bem--estatellado no chão. + +Ao chão estive eu para me atirar, como criança amuada, quando vi voltar +para a Azambuja o nosso commodo vehiculo, e deante de mim a infezada +mulinha asneira que--ai triste!--tinha de ser o meu transporte d'alli +até Santarem. + +Emfim o que hade ser, hade ser, e tem muita fôrça. Consolado com este +tam verdadeiro quanto _elegante_ proverbio, levantei o ânimo á altura da +situação e resolvi fazer próva de homem forte e supportador de +trabalhos. Bifurquei-me resignadamente sôbre o cilicio do esfarrapado +albardão, tomei na esquerda as impermeaveis redeas de coiro cru, e +lancei o animalejo ao seu mais largo trote, que era um confortavel e +amenissimo choito, digno de fazer as delicias do meu respeitavel e +excentrico amigo, o marquez do F. + +Tinha a bossa, a paixão, a mania, a furia de choitar aquelle notavel +fidalgo--o último fidalgo homem de lettras que deu ésta terra. Mas +adorava o choito o nobre marquez. Conheci-o em París nos ultimos tempos +da sua vida, ja octogenario ou perto d'isso: deixava a sua carruagem +ingleza toda mollas e confortos para ir passear n'um certo cabriolet de +praça que elle tinha marcado pelo sêcco e duro movimento vertical com +que sacudia a gente. Obrigou-me um dia a experimenta-lo: era admiravel. +Communicava-se da velha horsa normanda aos varaes, e dos varaes á concha +do carro, tam inteiro e tam sem diminuição, o choito do execravel +Babiéca! Nunca vi coisa assim. O marquez achava-lhe propriedades +toni-purgativos, eu classifiquei-o de violentissimo drastico. + +Foi um dos homens mais extraordinarios e o portuguez mais notavel que +tenho conhecido, aquelle fidalgo. + +Era feio como o peccado, elegante como um bugio, e as mulheres +adoravam-n'o. Filho segundo, vivia de seus ordenados nas missões por que +sempre andou, tractava-se grandiosamente, e legou valores consideraveis +por sua morte. Imprimia uma obra sua, mandava tirar um unico exemplar, +guardava-o e desmanchava as fòrmas....--Não acabo se coméço a contar +historias do marquez do F. + +Piquemos para o Cartaxo, que são horas. + + + + +CAPITULO VI. + + + Próva-se como o velho Camões não teve outro remedio senão misturar + o maravilhoso da mythologia com o do christianismo.--Da-se razão, e + tira-se depois, ao padre José Agostinho.--No meio d'estas + disceptações academico-litterarias vem o A. a descobrir que para + tudo é preciso ter fé n'este mundo. Diz-se _n'este mundo_, porque, + quanto ao outro ja era sabido.--Os Lusíadas, Fausto e a + Divina-Comedia.--Desgraça do Camões em ter nascido antes do + romantismo.--Mostra-se como a Styge e o Cocyto sempre são melhores + sitios que o Inferno e o Purgatorio.--Vai o A. em procura do + marquez de Pombal, e dá com elle nas ilhas Beatas do poeta + Alceu.--Partida de Whist entre os illustres finados.--Compaixão do + marquez pelos pobres homens de Ricardo Smith e J. B. Say.--Resposta + d'elle e da sua luneta ás perguntas peralvilhas do A.--Chegada a + este mundo e ao Cartaxo. + + +O mais notavel, e não sei se diga, se continuarei aomenos a dizer, o +mais indesculpavel defeito que até aqui esgravataram criticos e zoilos +na Iliada dos povos modernos, os immortaes _Lusiadas_, é sem-dúvida a +heterogenea e heterodoxa mistura da theologia com a mythologia, do +maravilhoso allegorico do paganismo, com os graves symbolos do +christianismo. A fallar a verdade, e por mais figas que a gente queira +fazer ao padre José Agustinho--ainda assim! ver o padre Baccho revestido +_in pontificalibus_ deante de um retabulo, não me lembra de que sancto, +dizendo o seu _dominus vobiscum_ provavelmente a algum acholyto +bacchante ou corybante, que lhe responde o _et cum spiritu tuo!_.. não +se póde; é uma que realmente... E então aquelle famoso conceito com que +elle acaba, digno da Phenix-Renascida: + + O falso deus adora o verdadeiro! + +Desde que me intendo, que leio, que admiro os Lusiadas; interneço-me, +chóro, insuberbeço-me com a maior obra de ingenho que ainda appareceu no +mundo, desde a _Divina-Comedia_ até ao _Fausto_... + +O italiano tinha fé em Deus, o allemão no scepticismo, o portuguez na +sua patria. É preciso crer em alguma coisa para ser grande--não so +poeta--grande seja no que for. Uma Brizida velha que eu tive, quando era +pequeno, era famosa chronista de historias da carochinha, porque +sinceramente cria em bruxas. Napoleão cria na sua estrella, Lafayette +creu na republica-rei de Luiz-Philippe; e, para que ousemos tambem +_celebrare domestica facta_, todos os nossos grandes homens ainda hoje +creem, um na juncta do crédito, outro nas classes inactivas, outro no +mestre Adonirão, outro finalmente na belleza e realidade do systema +constitucional que felizmente nos rege. + +Mas essas crenças são para os que se fizeram grandes com ellas. A um +pobre homem o que lhe fica para crer? Eu, apezar dos criticos, ainda +creio no nosso Camões: sempre cri. + +E comtudo, desde a edade da innocencia em que tanto me divertiam +aquellas batalhas, aquellas aventuras, aquellas historias d'amores, +aquellas scenas todas, tam naturaes, tam bem pintadas--até ésta fatal +edade da experiencia, edade prosaica em que as mais bellas creações do +espirito parecem macaquices deante das realidades do mundo, e os nobres +movimentos do coração chymeras de enthusiastas--até ésta edade de +saudades do passado e esperanças no futuro, mas sem gosos no +presente--em que o amor da patria (tambem isto será phantasmagoria?), e +o sentimento intimo do _bello_ me dão na leitura dos Lusiadas outro +deleite diverso, mas não inferior ao que n'outro tempo me deram--eu +senti sempre aquelle grande defeito do nosso grande poema: e nunca pude, +por mais que buscasse, achar-lhe, justificação não digo--nem siquer +desculpa. + +Mas até morrer aprender, diz o adagio: e assim é. E tambem é aphorismo +de moral, applicavel outrosim a coisas litterarias: que para a gente +achar a desculpa aos defeitos alheios, é considerar--é pôr-se uma pessoa +nas mesmas circumstancias, ver-se involvido nas mesmas difficuldades. + +Aqui estou eu agora dando toda a desculpa ao pobre Camões, com vontade +de o justificar, e prompto (assim são as charidades d'este mundo) a +sahir a campo de lança em reste e a quebrá-la com todo o antagonista que +por aquelle fraco o atacar.--E porque será isto? Porque chegou a minha +hora; e--_si parva licet componnere magnis_ (a bossa proeminente hoje é +a latina), aqui me acho eu com este meu capitulo nas mesmas +difficuldades em que o nosso bardo se viu com o seu poema. + +Ja preveni as observações com o texto acima: bem sei quem era Camões, e +quem sou eu; mas tracta-se da _intalação_, que é a mesma apezar da +differença dos intalados. O auctor dos Lusiadas viu-se intalado entre a +crença do seu paiz e as brilhantes tradições da poesia classica que +tinha por mestra e modêlo. + +Não havia ainda então romanticos nem romantismo, o seculo estava muito +atrazado. As odes de Victor-Hugo não tinham ainda desbancado as de +Horacio; achavam-se mais lyricos e mais poeticos os esconjurios de +Canidia, do que os pesadelos de um inforcado no oratorio; chorava-se com +os _Tristes_ de Ovidio, porque se não lagrimejava com as meditações de +Lamartine. Andromacha despedindo-se de Heitor ás portas de Troia, Priamo +supplicante aos pés do matador do seu filho, Helena luctando entre o +remorso do seu crime e o amor de Páris, não tinham ainda sido eclipsados +pelas declamações da mãe Eva ás grades do paraizo terreal. O combate de +Achilles e Heitor, das hostes argivas com as troianas, não tinha sido +mettido n'um chinello pelas batalhas campaes dos anjos bons e dos anjos +maus á metralhada por essas nuvens. Dido chorando por Eneas não tinha +sido reduzida a donzella choramigas d'Alfama carpindo pelo seu _Manel_ +que vae para a India... + +Realmente o seculo estava muito atrazado: Milton não se tinha ainda +sentado no logar de Homero, Shakspeare no de Euripedes, e lord Byron +acima de todos: emfim não estava ainda anglizado o mundo, portanto _a +marcha do intellecto_ no mesmo terreno, é tudo uma miseria. + +Ora pois, o nosso Camões, creador da epopea, e--depois do Dante--da +poesia moderna, viu-se atrapalhado; misturou a sua crença religiosa com +o seu credo poetico e fez, _tranchons le mot_, uma semsaboria. + +E aqui direi eu com o vate Elmano: + + Camões, grande Camões, quam similhante + Acho teu fado ao meu quando os cotejo! + +Vou fazer outra semsaboria eu, n'este bello capitulo da minha +obra-prima. Que remedio! Preciso fallar com um illustre finado, preciso +de evocar a sombra de um grande genio que hoje habita com os mortos. E +onde irei eu? Ao inferno? Espero que a divina justiça se apiedasse +d'elle na hora dos ultimos arrependimentos. Ao purgatorio, ao empyreo? +Apezar do exemplo da _Divina Comedia_, não me atrevo a fazer comedias +com taes logares de scena,--e não sei, não gósto de brincar com essas +coisas. + +Não lhe vejo remedio senão recorrer ao bem parado dos Elysios, da Styge, +do Cocyto e seu termo: são terrenos neutros em que se póde parlamentar +com os mortos sem compromettimento serio, e.... + +Eis-me ahi no êrro de Camões--e nas unhas dos criticos; e as zagunchadas +a ferver em cima de mim, que fiz, que aconteci.... + +Mas, senhores, ponderem, venham ca: o que hade um homem fazer? O Dante +não sei que gyria teve que baptisou Publio Virgilio Marão para lhe +servir de cicerone nas regiões do inferno, do paraizo e do purgatorio +christão, e teve tam boa fortuna que nem o queimou a Inquisição nem o +descompoz a Crusca, nem siquer o mutilaram os censores, nem o +perseguiram delegados por abuso de liberdade de imprensa, nem o mandaram +para os dignos pares... Não se tinham ainda descoberto as mangações +liberaes que se usam hoje: e as cartas que o povo tinha era a liberdade +ganha e sustentada á ponta da espada, com muito coração e poucas +palavras, muito patriotismo, poucas leis... e menos relatorios. Não +havia em Florença nem gazeta para louvar as tolices dos ministros, nem +ministros para pagar as tolices da gazeta. + +O Dante foi proscripto e exilado, mas não se ficou a escrever, deu +catanada que se regallou nos inimigos da liberdade da sua patria. + +Quem dera ca um batalhão de poetas como aquelle! + +Que fosse porêm um triste vate de hoje escrever no seculo das luzes o +que escrevia o Dante no seculo das trevas! Os proprios philosophos +gritavam: Que escandalo! Atheus professos clamavam contra a +irreverencia; gentes que não teem religião, nem a de Mafoma, bradavam +pela religião: entravam a pôr carapuças nas cabeças uns dos outros, +cahiam depois todos sôbre o poeta, e--se o não podessem inforcar, pelo +menos declaravam-n'o republicano, que dizem elles que é uma injúria +muito grande. + +Nada! viva o nosso Camões e o seu maravilhoso mistiforio; é a mais +commoda invenção d'este mundo: vou-me com ella, e ralhe a crítica quanto +quizer. + +Quero procurar no reino das sombras não menor pessoa que o marquez de +Pombal: tenho que lhe fazer uma pergunta séria antes de chegar ao +Cartaxo. E nós ja vamos por entre as riccas vinhas que o circundam com +uma zona de verdura e alegria. Depressa o ramo de oiro que me abra ao +pensamento as portas fataes--depressa a unctuosa sopetarra com que heide +atirar ás tres gargantas do canzarrão. Vamos... + +Mas em que districto d'aquellas regiões acharei eu o primeiro ministro +d'elrei D. José? Por onde está Ixion e Tantalo, por onde demora Sysipho +e outros maganões que taes? Não; esse é um bairro muito triste, e +arrisca-se a ter por administrador algum escandecido que me atice as +orelhas. + +Nos Elysios com o pae Anchises e outros barbaças classicos do mesmo +jaez? Eu sei? tambem isso não. Hade ser n'aquellas ilhas bemaventuradas +de que falla o poeta Alceu e onde elle poz a passear, por eternas +verduras, as almas tyrannicidas de Harmódio e Aristógiton... + +Oh! ésta agora!... Sebastião José de Carvalho e Mello, conde de Oeiras, +marquez de Pombal, de companhia com os seus inimigos politicos!... Ahi é +que se ingánam; não ha amigos nem inimigos politicos em se largando o +mando e as pretenções a elle. Ora, passados os umbraes da eternidade, é +de fé que se não pensa mais n'isso. C. J. X., que morreu a assignar uma +portaria, ja tinha largado a penna quando chegou alli pelos _Prazeres_; +quanto mais!... + +O homem hade estar nas ilhas _beatas_. Vamos lá... + +E ei-lo alli: lá está o bom do marquez a jogar o whist com o barão de +Bidefeld, com o imperador Leopoldo e com o poeta Diniz. A partida deve +de ser interessante, talvez aposta essa gente toda--esses manes todos +que estão á roda. Que cara que fez o marquez a um finadinho que lhe foi +metter o nariz nas cartas! Quem havia de ser! O intromettido de M. de +Talleyrand. Estava-lhe cahindo. Mas não viu nada: o nobre marquez sempre +soube esconder o seu jôgo. + +A mim é que elle ja me viu. 'Que diz? Ah!.. Sim senhor, sou portuguez; e +venho fazer uma pergunta a V. Exa., esclarecer-me sôbre um ponto +importante.' + +Deitou-me a tremenda luneta. + +--'Para que mandou V. Exa. arrancar as vinhas do Ribatejo?' + +Apertou a luneta no sobrôlho e sorriu-se. + +--'Ellas ahi estão centuplicadas, que até ja invadiram o pinhal de +Azambuja. Fez V. Exa. um despotismo inutil; e agora...' + +'Agora quem bebe por lá todo esse vinho?' + +Não sabía o que lhe havia de responder. Elle sacudiu a cabelleira de +anneis, virou-me as costas, deu o braço a Colbert, passou por-pé de +Ricardo Smith e de J. Baptista Say, que estavam a disputar, incolheu os +hombros em ar de compaixão, e foi-se por uma alameda muito viçosa que ia +por aquelles deliciosos jardins dentro, e sumiu-se da nossa vista. + +Eu surdi ca n'este mundo, e achei-me emcima da azemola, aopé do grande +café do Cartaxo. + + + + +CAPITULO VII. + + + Reflexões importantes sôbre o Bois-de-Boulogne, as carruagens de + mollas, Tortoni, e o café do Cartaxo.--Dos cafés em geral, e de + como são o characteristico da civilização de um paiz.--O + Alfageme.--Hecatombe involuntaria immolada pelo A.--Historia do + Cartaxo.--Demonstra-se como a Gran'-Bretanha deveu sempre toda a + sua fôrça e toda a sua glória a Portugal.--Shakspeare e Laffitte, + Milton e Chateaumargot, Nelson e o principe de Joinville.--Próva-se + evidentemente que M. Guizot é a ruina de Albion e do Cartaxo. + + +Voltar á meia-noite do _Bois-de-Boulogne_--o bosque por excellencia, +descer, entre nuvens de poeira, o longo stadio dos Campos-Elysios, +entrever, na rapida carreira, o obelisco de Luxor, as árvores das +Tulherias, a columna da praça Vandomma, a magnificencia heteroclyta da +'Magdalena', e emfim sentir parar, de uma soffreada magistral, os dois +possantes inglezes que nos trouxeram quasi de um folego até ao +'boulevard de Gand'; ahi entreabrir mollemente os olhos, levantando meio +corpo dos regallados cochins de seda, e dizer: 'Ah! estamos em +Tortoni... que delicia um sorvete com este calor!'--é seguramente, é dos +prazeres maiores d'este mundo, sente-se a gente viver; é meia hora de +existencia que vale dez annos de ser rei em qualquer outra parte do +mundo. + +Pois acredite-me o leitor amigo, que sei alguma coisa dos sabores e +dissabores d'este mundo, fie-se na minha palavra, que é de homem +experimentado: o prazer de chegar por aquelle modo a Tortoni, o apear da +elegante caleche balançada nas mais suaves mollas que fabricasse arte +ingleza do puro aço de Suecia, não alcança, não se compara ao prazer e +consolação de alma e corpo que eu senti ao apear-me de minha choiteira +mula á porta do grande café do Cartaxo. + +Fazem idea do que é o café do Cartaxo? Não fazem. Se não viajam, se não +sahem, se não vêem mundo ésta gente de Lisboa! E passam a sua vida entre +o Chiado, a rua do Oiro e o theatro de San'Carlos, como hãode alargar a +esphera de seus conhecimentos, desinvolver o espirito, chegar á altura +do seculo? + +Coroae-vos de alface, e ide jogar o bilhar, ou fazer sonetos á dama +nova, ide, que não prestais para mais nada, meus queridos Lisboetas; ou +discuti os deslavados horrores de algum mellodrama velho que fugiu +assoviado da 'Porte-Saint Martin' e veio esconder-se na Rua-dos-Condes. +Tambem podeis ir aos Toiros--estão imbolados, não ha perigo... + +Viajar?.. qual viajar! até á Cova-da-Piedade, quando muito, em dia que +lá haja cavallinhos. Pois ficareis alfacinhas para sempre, cuidando que +todas as praças d'este mundo são como a do Terreiro-do-Paço, todas as +ruas como a rua Augusta, todos os cafés como o do Marrare. + +Pois não são, não: e o do Cartaxo menos que nenhum. + +O café é uma das feições mais characteristicas de uma terra. O viajante +experimentado e fino chega a qualquer parte, entra no café, observa-o, +examina-o, estuda-o, e tem conhecido o paiz em que está, o seu govêrno, +as suas leis, os seus costumes, a sua religião. + +Levem-me de olhos tapados onde quizerem, não me desvendem senão no café; +e protesto-lhe que em menos de dez minutos lhe digo a terra em que estou +se for paiz sublunar. + +Nós entrámos no café do Cartaxo, o grande café do Cartaxo; e nunca se +incruzou turco em divan de seda do mais splendido harem de +Constantinopla com tanto gôso de alma e satisfacção de corpo, como nós +nos sentámos nas duras e asperas tábuas das esguias banquetas mal +sarapintadas que ornam o magnífico estabelecimento bordalengo. + +Em poucas linhas se descreve a sua simplicidade classica: será um +parallelogrammo pouco maior que a minha alcova; á esquerda duas mezas de +pinho, á direita o mostrador invidraçado onde campeam as garrafas +obrigadas de liquor de amendoa, de canella, de cravo. Pendem do tecto, +laboriosamente arrendados por não vulgar tesoira, os pingentes de papel, +convidando a lascivo repouso a inquieta raça das moscas. Reina uma +frescura admiravel n'aquelle recinto. + +Sentámo-nos, respirámos largo, e entrámos em conversa com o dono da +casa, homem de trinta a quarenta annos, de physionomia experta e +sympathica, e sem nada do repugnante villão-ruim que é tam usual de +incontrar por similhantes logares da nossa terra. + +--'Então que novidades ha por ca pelo Cartaxo, patrão?' + +--'Novidades! Por aqui não temos senão o que vem de Lisboa.--Ahi está a +'Revolução' de hontem...' + +--'Jornaes, meu caro amigo! Vimos fartos d'isso. Diga-nos alguma coisa +da terra. Que faz por ca o...' + +--'O mestre J. P., o 'Alfageme?'' + +--'Como assim o Alfageme?' + +--'Chamam-lhe o Alfageme ao mestre J. P.: pois então! Uns senhores de +Lisboa que ahi estiveram em casa do Sr. D. poseram-lhe esse nome, que a +gente bem sabe o que é; e ficou-lhe, que agora ja ninguem lhe chama +senão o Alfageme. Mas quanto a mim, ou elle não é Alfageme, ou não o +hade ser muito tempo. Não é aquelle, não. Eu bem me intendo.' + +A conversação tornava-se interessante, especialmente para mim: quizemos +profundar o caso. + +--'Muito me conta, Sr. patrão! Com que isto de ser Alfageme, parece-lhe +que é coisa de?.. + +--'Parece-me o que é, e o que hade parecer a todo o mundo. E alguma +coisa sabemos, ca no Cartaxo, do que vai por elle. O verdadeiro Alfageme +diz que era um espadeiro ou armeiro, cutileiro ou coisa que o valha, na +Ribeira de Santarem; e que foi um homem capaz, e que tinha pelo povo, e +que não queria saber de partidos, e que dizia elle: 'Rei que nos +inforque, e papa que nos excommungue, nunca hade faltar. Assim, deixar +os outros brigar, trabalhemos nós e ganhemos a nossa vida.' Mas que +extrangeiros que não queria, que ésta terra que era nossa e co'a nossa +gente se devia de governar. E mais coisas assim: e que porfim o deram +por traidor e lhe tiraram quanto tinha.--Mas que lhe valeu o Condestavel +e o não deixou arrazar, por que era homem de bem e fidalgo ás direitas. +Pois não é assim que foi?' + +--'É, sim, meu amigo. Mas então d'ahi?' + +--'Então d'ahi o que se tira, é que quando havia fidalgos como o sancto +Condestavel tambem havia Alfagemes como o de Santarem. E mais nada.' + +--'Perfeitamente. Mas porque chamaram ao mestre P. o Alfageme do +Cartaxo?' + +--'Eu lhe digo aos senhores: o homem nem era assim nem era assado. +Fallava bem, tinha sua labia com o povo. D'ahi fez-se juiz, pôs por ahi +suas coisas a direito--Deus sabe as que elle intortou tambem!.. ganhou +nome no povo, e agora faz d'elle o que quer. Se lhe der sempre para bem, +bom será.--Os senhores não tomam nada?' + +O bom do homem visivelmente não queria fallar mais: e não deviamos +importuná-lo. Fizemos o sacrificio de bom número de limões que +expremémos em profundas taças--vulgo, copos de canada--e com agua e +assucar, offerecemos as devidas libações ao genio do logar. + +Infelizmente o sacrificio não foi detodo incruento. Muitas hecatombes de +myrmidões cahiram no holocausto, e lhe deram um cheiro e sabor que não +sei se agradou á divindade, mas que injoou terrivelmente aos sacerdotes. + +Sahimos a visitar o nosso bom amigo, o velho D., a honra e a alegria do +Ribatejo. Ja elle sabía da nossa chegada, e vinha no caminho para nos +abraçar. + +Fomos dar, junctos, uma volta pela terra. + +É das povoações mais bonitas de Portugal, o Cartaxo, aceada, alegre; +parece o bairro suburbano de uma cidade. + +Não ha aqui monumentos, não ha historia antiga: a terra é nova, e a sua +prosperidade e crescimento datam de trinta ou quarenta annos, desde que +o seu vinho começou a ter fama. Ja descahida do que foi, pela estagnação +d'aquelle commercio, ainda é comtudo a melhor coisa da Borda-d'agua. + +Não tem historia antiga, disse; mas tem-n'a moderna e importantissima. + +Que memorias aqui não ficaram da guerra peninsular! Que espantosas +borracheiras aqui não tomaram os mais famosos generaes, os mais +distinctos militares da nossa _antiga e fiel_ alliada, que ainda então, +ao menos, nos bebia o vinho! + +Hoje nem isso!.. hoje bebe a jacobina zurrapa de Bordeos, e as acerbas +limonadas de Borgonha. Quem tal diria da conservativa Albion! Como póde +uma leal goella britannica, rascada pelos acidos anarchicos d'aquellas +vinagretas francezas, intoar devidamente o God-save-the-King em um +_toast_ nacional! Como, sem Porto ou Madeira, sem Lisboa, sem Cartaxo, +ousa um subdito britannico erguer a voz, n'aquella harmoniosa +desafinação insular que lhe é propria e que faz parte de seu respeitavel +character nacional--faz; não se riam: o inglez não canta senão quando +bebe... alias quando está BEBIDO. _Nisi potus ad arma ruisse._ Inverta: +_Nisi potus in cantum prorumpisse_... E pois, como hade elle assim +_bebido_ erguer a voz n'aquelle sublime e tremendo hymno popular +Rulle-Britannia! + +Bebei, bebei bem zurrapa franceza, meus amigos inglezes; bebei, bebei a +pêso de oiro, essas limonadas dos burgraves e margraves de Allemanha; +chamae-lhe, para vos illudir, chamae-lhe _hoc_, chamae-lhe _hic_, +chamae-lhe o _hic haec hoc_ todo, se vos dá gôsto... que em poucos annos +veremos o estado de _acetato_ a que hade ficar reduzido o vosso +character nacional. + +Oh gente cega a quem Deus quer perder! pois não vêdes que não sois nada +sem nós, que sem o nosso alchool, d'onde vos vinha espirito, sciencia, +valor, ides cahir infallivelmente na antiga e priguiçosa rudeza saxonia! + +D'essas traidoras praias da França donde vos vai hoje o veneno corrosivo +da vossa indole e da vossa fôrça, não tardará que tambem vos chegue +outro Guilherme bastardo que vos conquiste e vos castigue, que vos faça +arrepender, mas tarde, do criminoso êrro que hoje commetteis, ó +insulares sem fe, em abandonar a nossa alliança. A nossa alliança sim, a +nossa poderosa alliança, sem a qual não sois nada. + +O que é um inglez sem Porto ou Madeira... sem Carcavellos ou Cartaxo? + +Que se inspirasse Shakspeare com Lafitte, Milton com Chateaumargot--o +chanceller Bacon que se dilluisse no melhor Borgonha... e veriamos os +acidulos versinhos, os destemperados raciocininhos que faziam. + +Com todas as suas dietas, Newton nunca se lembrou de beber Johannisberg; +Byron antes beberia _gin_, antes agua do Thamisa, ou do Pamiso, do que +essas escorreduras das areias de Bordeos. + +Tirae-lhe o Porto aos vossos almirantes, e ninguem mais teme que torneis +a ter outro Nelson. Entra nos planos do principe de Joinville fazer-vos +beber da sua zurrapa: são tantos pontos de partido que lhe dais no seu +jôgo. + +É M. Guizot quem perde a Inglaterra com a sua alliança; e tambem perde o +Cartaxo. Por isso eu ja não quero nada com os doutrinarios. + +........................................................................... + +Ha dôze annos tornou o Cartaxo a figurar conspicuamente na historia de +Portugal. Aqui, nas longas e terriveis luctas da última guerra de +_successão_, esteve muito tempo o quartel-general do marquez de +Saldanha. + +Alguns dythirambos se fizeram; alguns echos das antigas canções +bacchicas do tempo da guerra peninsular ainda acordaram ao som dos +hymnos constitucionaes. + +Mas o systema liberal, tirada a epocha das eleições, não é grande coisa +para a indústria vinhateira, dizem. Eu não o creio porém; e tenho minhas +boas razões, que ficam para outra vez. + + + + +CAPITULO VIII. + + + Sahida do Cartaxo--A charneca. Perigo imminente em que o A. se acha + de dar em poeta e fazer versos.--Ultima revista do imperador D. + Pedro ao exército liberal.--Batalha de + Almoster.--Waterloo.--Declara o A. solemnemente que não é + philosopho e chega á ponte da Asseca. + + +Eram dadas cinco da tarde, a calma declinava; montámos a cavallo, e +cortámos por entre os viçosos pampanos que são a glória e a e tomado +ânimo; breve, nos achámos em plena charneca. + +Bella e vasta planicie! Desafogada dos raios do sol, como ella se +desenha ahi no horisonte tam suavemente! que delicioso aroma selvagem +que exhalam éstas plantas, acres e tenazes de vida, que a cobrem, e que +resistem verdes e viçosas a um sol portugez de julho! + +A doçura que mette n'alma a vista refrigerante de uma joven seara do +Ribatejo nos primeiros dias de abril, ondulando lascivamente com a brisa +temperada da primavera,--a amenidade bucolica de um campo minhoto de +milho, á hora da rega, por meados de agosto, a ver-se-lhe pullar os +caules com a agua que lhe anda por pé, e á roda as carvalheiras +classicamente desposadas com a vide cuberta de racimos pretos--são ambos +esses quadros de uma poesia tam graciosa e cheia de mimo, que nunca a +dei por bem traduzida nos melhores versos de Theocrito ou de Virgilio, +nas melhores prosas de Gesner ou de Rodrigues-Lobo. + +A majestade sombria o solemne de um bosque antigo e copado, o silencio e +escuridão de suas moitas mais fechadas, o abrigo solitario de suas +clareiras, tudo é grandioso, sublime, inspirador de elevados +pensamentos. Medita-se alli por fôrça; isola-se a alma dos sentidos pelo +suave adormecimento em que elles cahem... e Deus, a eternidade--as +primitivas e innatas ideas do homem--ficam unicas no seu pensamento... + +É assim. Mas um rochedo em que me eu sente ao pôr do sol na gandra erma +e selvagem, vestida apenas de pastio bravo, baixo, e tosqueado rente da +bôcca do gado--diz-me coisas da terra e do ceo que nenhum outro +espectaculo me diz na natureza. Ha um vago, um indeciso, um vaporoso +n'aquelle quadro que não tem nenhum outro. + +Não é o sublime da montanha, nem o augusto do bosque, nem o ameno do +valle. Não ha ahi nada que se determine bem, que se possa definir +positivamente. Ha a solidão que é uma idea negativa... + +Eu amo a charneca. + +E não sou romanesco. Romantico, Deus me livre de o ser--ao menos, o que +na algaravia de hoje se intende por essa palavra. + +Ora a charneca d'entre Cartaxo e Santarem, áquella hora que a passámos, +começava a ter esse tom, e a achar-lhe eu esse incanto indefinivel. + +Sentia-me disposto a fazer versos... a quê? Não sei. + +Felizmente que não estava so; e escapei de mais essa caturrice. + +Mas foi como se os fizesse, os versos, como se os estivesse fazendo, +porque me deixei cahir n'um verdadeiro estado poetico de distracção, de +mudez--cessou-me a vida toda de _relação_, e não me sentia existir senão +por dentro. + +Derepente acordou-me do lethargo uma voz que bradou:--'Foi aqui!... aqui +é que foi, não ha dúvida'. + +--'Foi aqui o quê?' + +--'A última revista do imperador'. + +--'A última revista! Como assim a última revista! Quando? Pois?...' + +Então cahi completamente em mim, e recordei-me, com amargura e +desconsolação, dos tremendos sacrificios a que foi condemnada ésta +geração, Deus sabe para quê--Deus sabe se para expiar as faltas de +nossos passados, se para comprar a felicidade de nossos vindouros... + +O certo é que alli comeffeito passára o imperador D. Pedro a sua última +revista ao exército liberal. Foi depois da batalha d'Almoster, uma das +mais lidadas e das mais insanguentadas d'aquella triste guerra. + +Toda a guerra civil é triste. + +E é difficil dizer para quem mais triste, se para o vencedor ou para o +vencido. + +Ponham de parte questões individuaes, e examinem de boa fé: verão que, +na totalidade de cada facção em que a nação se dividiu, os ganhos, se os +houve para quem venceu, não balançam os padecimentos, os sacrificios do +passado, e menos que tudo, a responsabilidade pelo futuro... + +Eu não sou philosopho. Aos olhos do philosopho, a guerra civil e a +guerra extrangeira, tudo são guerras que elle condemna--e não mais uma +do que a outra... a não ser Hobbes o ditto philosopho, o que é coisa +muito differente. + +Mas não sou philosopho, eu: estive no campo de Waterloo, sentei-me aopé +do Leão de bronze sôbre aquelle monte de terra amassado com o sangue de +tantos mil, vi--e eram passados vinte annos--vi luzir ainda pela campina +os ossos brancos das victimas que alli se immolaram a não sei quê... Os +povos disseram que á liberdade, os reis que á realeza... Nenhuma d'ellas +ganhou muito, nem para muito tempo com a tal victoria... + +Mas deixemos isso. Estive alli, e senti bater-me o coração com essas +recordações, com essas memorias dos grandes feitos e gentilezas que alli +se obraram. + +Porque será que aqui não sinto senão tristeza? + +Porque luctas fratricidas não podem inspirar outro sentimento e +porque... + +Eu moía comigo so éstas amargas reflexões, e toda a belleza da charneca +desappareceu deante de mim. + +N'esta desagradavel disposição de ânimo chegámos á ponte d'Asseca. + + + + +CAPITULO IX. + + + Prologomenos dramatico-litterarios, que muito naturalmente levam, + apezar de alguns rodeios, ao retrospecto e reconsideração do + capitulo antecedente.--Livros que não deviam ter titulo, e titulos + que não deviam ter livro.--Dos poetas d'este seculo. Bonaparte, + Rotchild e Silvio-Péllico.--Chega-se ao fim d'estas reflexões e á + ponte da Asseca.--Traducção portugueza de um grande poeta.--Origem + de um dictado.--Junot na ponte da Asseca.--De como o A. d'este + livro foi jacobino desde pequeno.--Inguiço que lhe deram.--A + duqueza de Abrantes.--Chega-se emfim ao val de Santarem. + + +Vivia aqui ha coisa de cinquenta para sessenta annos, n'esta boa terra +de Portugal, um figurão exquisitissimo que tinha inquestionavelmente o +instincto de descobrir assumptos dramaticos nacionaes--ainda, ás vezes, +a arte de desenhar bem o seu quadro, de lhe grupar, não sem mérito, as +figuras: mas ao pô-las em acção, ao collori-las, ao fazê-las fallar... +boas noites! era semsaboria irremediavel. + +Deixou uma collecção immensa de peças de theatro que ninguem conhece, ou +quasi ninguem, e que nenhuma soffreria, talvez, representação; mas rara +é a que não poderia ser arranjada e appropriada á scena. + +Que mina tam ricca e fertil para qualquer mediano talento dramatico! Que +bellas e portuguezas coisas se não podem extrahir dos treze volumes--são +treze volumes e grandes!--do theatro de Ennio-Manuel de Figueiredo! +Algumas d'essas peças, com bem pouco trabalho, com um dialogo mais vivo, +um stylo mais animado, fariam comedias excelentes. + +Estão-me a lembrar éstas: + +'O Casamento da Cadea'--ou talvez se chame outra coisa, mas o assumpto é +este; comedia cujos characteres são habilmente esboçados, funda-se +n'aquella nossa antiga lei que fazia casar da prisão os que assim se +suppunha podêrem reparar certos damnos de reputação feminina. + +'O fidalgo de sua casa', satyra mui graciosa de um tam commum ridiculo +nosso. + +'As duas educações', bello quadro de costumes: são dois rapazes, ambos +extrangeiramente educados, um francez, outro inglez, nenhum portuguez. É +eminentemente comico, frisante, ou, segundo agora se diz á moda, +'palpitante de actualidade.' + +'O cioso', comedia ja remoçada da antiga comedia de Ferreira e que em si +tem os germens todos da mais ricca e original composição. + +'O avaro dissipador', cujo so titulo mostra o ingenho e invenção de quem +tal assumpto concebeu: assumpto ainda não tractado por nenhum de tantos +escriptores dramaticos de nação alguma, e que é todavia um vulgar +ridiculo, todos os dias incontrado no mundo. + +São muitas mais, não fica n'estas, as composições do fertilissimo +escriptor que, passadas pelo crivo de melhor gôsto, e animadas sôbretudo +no stylo, fariam um razoavel repertorio para acudir á mingua dos nossos +theatros. + +Uma das mais semsabores porêm, a que vulgarmente se haverá talvez pela +mais semsabor, mas que a mim mais me diverte pela ingenuidade familiar e +sympathica de seu tom magoado e melancholicamento chocho, é a que tem +por titulo 'Poeta em annos de prosa'. + +E foi por ésta, foi por amor d'esta que me eu deixei descahir na +digressão dramatico-litteraria do princípio d'este capitulo; pegou-se-me +á penna porque se me tinha pregado na cabeça; e ou o capitulo não sabia, +ou ella havia de sahir primeiro. + +Poeta em annos de prosa! Oh Figueiredo, Figueiredo, que grande homem não +foste tu, pois imaginaste este titulo que so elle em si é um volume! Ha +livros, e conheço muitos, que não deviam ter titulo, nem o titulo é nada +n'elles. + +Faz favor de me dizer o de que serve, o que significa o 'Judeu errante' +pôsto no frontispicio d'esse interminavel e mercatorio romance que ahi +anda pelo mundo, mais errante, mais sem fim, mais immorredoiro que o seu +prototypo? + +E ha titulos tambem que não deviam ter livro, porque nenhum livro é +possivel escrever que os desimpenhe como elles merecem. + +'Poeta em annos de prosa' é um d'esses. + +Eu não leio nenhuma das raras coisas que hoje se escrevem +verdadeiramente bellas, isto é, simples, verdadeiras, e por consequencia +sublimes, que não exclame com sincero pesadume ca de dentro: 'Poeta em +annos de prosa!' + +Pois este é seculo para poetas? ou temos nós poetas para este seculo?.. + +Temos sim, eu conheço tres: Bonaparte, Silvio-Péllico e o barão de +Rotchild. + +O primeiro fez a sua Iliada com a espada, o segundo com a paciencia, o +último com o dinheiro. + +São os tres agentes, as tres entidades, as tres divindades da epocha. + +Ou cortar com Bonaparte, ou comprar com Rotchild, ou soffrer e ter +paciencia com Silvio-Péllico. + +Todo o que fizer d'outra poesia--e d'outra prosa tambem--é tolo... + +Vieram-me éstas mui judiciosas reflexões a proposito do capitulo +antecedente d'esta minha obra prima; e lancei-as aqui para instrucção e +edificação do leitor benevolo. + +Acabei com ellas quando chegámos á ponte da Asseca. + +Esquecia-me dizer que d'aquelles tres grandes poetas so um está +traduzido em portuguez--o Rotchild: não é litteral a traducção, +agallegou-se e ficou muito suja de erros de imprensa mas como não ha +outra... + +Ora d'onde veio este nome da Asseca? Algures aqui perto deve de haver +sitio, logar ou coisa que o valha, com o nome de Meca; e d'ahi talvez o +admiravel rifão portuguez que ainda não foi bem examinado como devia +ser, e que decerto incerra algum grande dictame de moral primitiva: +'andou por Secca (Asseca?) e Meca e olivaes de Santarem.'--Os taes +olivaes ficam logo adiante. É uma ethymologia como qualquer outra. + +A ponte da Asseca corta uma varzea immensa que hade ser um vasto pahul +de hynverno: ainda agora está a desangrar-se em agua por toda a parte. + +É notavel na historia moderna este sítio. Aqui n'um recontro com os +nossos, foi Junot gravemente ferido, ferido na cara. _'Il ne sera plus +beau garçon'_ disse o parlamentario francez que veio, depois da acção, +tractar, creio eu, de troca de prisioneiros ou de coisa similhante. Mas +inganou-se o parlamentario; Junot ainda ficou muito guapo e gentil homem +depois d'isso. + +Tenho pena de nunca ter visto o Junot nem o Maneta,[1] as duas primeiras +notabilidades que ouvi aclamar como taes e cujos nomes conhecí... +Ingano-me: conheci primeiro o nome de Bonaparte. E lembra-me muito bem +que nunca me persuadi que elle fossa o monstro disforme e horroroso que +nos pintavam frades e velhas n'aquelle tempo. Imaginei sempre que, para +excitar tantos odios e malquerenças, era necessario que fosse um bem +grande homem. + +Desde pequeno que fui jacobino; ja se ve: e de pequeno me custou caro. +Levei bons puchões de orelhas de meu pae por comprar na feira de +San'Lazaro, no Porto, em vez das gaitinhas ou dos registos de sanctos, +ou das outras bogigangas que os mais rapazes compravam... não imaginam o +quê... um retrato de Bonaparte. + +Foi 'inguiço'--diria uma senhora do meu conhecimento que accredita +n'elles: foi inguiço que aínda se não desfez e que toda a vida me tem +perseguido. + +Quem me diria quando, por esse primeiro peccado politico da minha +infancia, por esse primeiro tractamento duro, e--perdoe-me a respeitada +memoria de meu sancto pae!--injustissimo, que me trouxe o mero instincto +das ideas liberaes, quem me diria que eu havia de ser perseguido por +ellas toda a vida! que apenas sahido da puberdade havia de ir a essa +mesma França, á patria d'esses homens e d'essas ideas com quem a minha +natureza sympathysava sem saber porquê, buscar asylo e guarida? + +Não vi ja quasi nenhum d'aquelles que tanto desejára conhecer; as ruinas +do grande imperio estavam dispersas; os seus generaes mortos, +desterrados, ou trajavam interesseiros e covardes as librés do +vencedor... + +De todas as grandes figuras d'essa epocha, a que melhor conheci e +tractei foi uma senhora, typo de graça, de amabilidade e de talento. +Pouco foi o nosso tracto, mas quanto bastou para me incantar, para me +formar no espirito um modêllo de valor e merecimento feminino que me +veio a fazer muito mal. + +Custa depois a encher aquella altura que se marcou... + +Eis aqui como eu fiz esse conhecimento. + +Inda o estou vendo, coitado! o pobre C. do S., nobre, espirituoso, +cavalheiro, fazendo-se perdoar todos os seus prejuizos de casta, que +tinha como ninguem, por aquella polidez superior e affabilidade elegante +que distingue o verdadeiro fidalgo (stylo antigo); inda o estou vendo, +ja sexagenario, ja mais que 'ci-devant jeun'homme', o pescoço intallado +na inflexivel gravata, os pés pegando-se-lhe, como os de Ovidio, ao +limiar da porta--não que lh'os prendessem saudades, senão que lh'os +paralysava a cakexia incipiente--mas o espirito joven a reagir e a +teimar. + +--'Vamos!' disse elle 'hoje estou bom, sinto-me outro: quero +apresentá-lo a madame de Abrantes. Está tam velha! Isto de mulheres não +são como nós, passam muito depressa.' + +E o desgraçado tremiam-lhe as pernas, e suffocava-o a tosse. + +Tomámos uma 'citadine', e fomos comeffeito á nova e elegante rua chamada +não impropriamente a rua de Londres, onde achámos rodeada de todo o +esplendor do seu occaso aquella formosa estrella do imperio. + +Não quero dizer que era uma belleza; longe d'isso. Nem bella nem môça, +nem airosa de faser impressão era a duqueza d'Abrantes. Mas em meia hora +de conversação, de tracto, descubriam-se-lhe tantas graças, tanto +natural, tanta amabilidade, um complexo tam verdadeiro e perfeito da +mulher franceza, a mulher mais seductora do mundo, que involuntariamente +se dizia a gente no seu coração: 'Como se está bem aqui!' + +Fallámos de Portugal, de Lisboa, do imperio--da restauração, da +revolução de julho (isto era em 1831), de M. de Lafayette, de +Luiz-Philippe, de Chateaubriand--o seu grande amigo d'ella--do +_Sacré-Coeur_ e das suas elegantes devotas--fallámos artes, poesia, +politica... e eu não tinha ânimo para acabar de conversar... + +Benevolo e paciente leitor, o que eu tenho decerto ainda é consciencia, +um resto de consciencia: acabemos com éstas digressões e perennaes +divagações minhas. Bem vejo que te deixei parado á minha espera no meio +da ponte d'Asseca. Perdoa-me por quem es, dêmos d'espora ás mulinhas, e +vamos que são horas. + +Ca estâmos n'um dos mais lindos e deliciosos sitios da terra: o valle de +Santarem, patria dos rouxinoes e das madresilvas, cincta de faias bellas +e de loureiros viçosos. D'isto é que não tem París, nem França nem terra +alguma do occidente senão a nossa terra, e vale bem por tantas, tantas +coisas que nos faltam. + + + + +CAPITULO X. + + + Valle de Santarem--Namora-se o A. de uma janella que ve por entre + umas árvores.--Conjecturas várias a respeito da ditta + janella.--Similhança do poeta com a mulher namorada, e + inquestionavel inferioridade do homem que não é poeta.--Os + rouxinoes. Reminiscencia de Bernardim Ribeiro e das suas + saudades.--De como o A. tinha quasi completo o seu romance, menos + um vestido branco e uns olhos pretos.--Sahem verdes os olhos com + grande admiração e pasmo seu.--Verificam-se as conjecturas sôbre a + mysteriosa janella.--A menina dos rouxinoes.--Censura das damas + muito para temer, crítica dos elegantes muito para rir.--Começa o + primeiro episodio d'esta Odyssea. + + +O valle de Santarem é um d'estes logares privilegiados pela natureza, +sitios amenos e deleitosos em que as plantas, o ar, a situação, tudo +está n'uma harmonia suavissima e perfeita: não ha alli nada grandioso +nem sublime, mas ha uma como symetria de côres, de sons, de disposição +em tudo quanto se ve e se sente, que não parece senão que a paz, a +saude, o socêgo do espirito e o repouso do coração devem viver alli, +reinar alli um reinado de amor e benevolencia. As paixões más, os +pensamentos mesquinhos, os pezares e as villezas da vida não podem senão +fugir para longe. Imagina-se por aqui o Eden que o primeiro homem +habitou com a sua innocencia e com a virgindade do seu coração. + +Á esquerda do valle, e abrigado do norte pela montanha que alli se corta +quasi a pique, está um masisso de verdura do mais bello viço e +variedade. A faia, o freixo, o alamo enterlaçam os ramos amigos; a +madresilva, a musqueta penduram de um a outro suas grinaldas e festões; +a congossa, os fettos, a malva-rosa do vallado vestem e alcatifam o +chão. + +Para mais realçar a belleza do quadro, ve-se por entre um claro das +árvores a janella meia aberta de uma habitação antiga mas não +dilapidada--com certo ar de confôrto grosseiro, e carregada na côr pelo +tempo e pelos vendavais do sul a que está exposta. A janella é larga e +baixa; parece mais ornada e tambem mais antiga que o resto do edificio +que todavia mal se ve... + +Interessou-me aquella janella. + +Quem terá o bom gôsto e a fortuna de morar alli? + +Parei e puz-me a namorar a janella. + +Incantava-me, tinha-me alli como n'um feitiço. + +Pareceu-me entrever uma cortina branca... e um vulto por de traz... +Imaginarão decerto! Se o vulto fosse feminino!.. era completo o romance. + +Como hade ser bello ver pôr o sol d'aquella janella!.. + +E ouvir cantar os rouxinoes!.. + +E ver raiar uma alvorada de maio!.. + +Se haverá alli quem a aproveite, a deliciosa janella?.. quem apprecie e +saiba gosar todo o prazer tranquillo, todos os sanctos gosos de alma que +parece que lhe andam esvoaçando em tôrno? + +Se fôr homem é poeta; se é mulher está namorada. + +São os dois entes mais parecidos da natureza, o poeta e a mulher +namorada: vêem, sentem, pensam, fallam como a outra gente não ve, não +sente, não pensa nem falla. + +Na maior paixão, no mais acrysolado affecto do homem que não é poeta, +entra sempre o seu tanto da vil prosa humana: é liga sem que se não +lavra o mais fino de seu oiro. A mulher não; a mulher apaixonada devéras +sublima-se, idealiza-se logo, toda ella é poesia; e não ha dor physica, +interêsse material, nem deleites sensuaes que a façam descer ao positivo +da existencia prosaica. + +Estava eu n'estas meditações, começou um rouxinol a mais linda e +desgarrada cantiga que ha muito tempo me lembra de ouvir. + +Era aope da ditta janella! + +E respondeu-lhe logo outro do lado opposto; e travou-se entre ambos um +desafio tam regular, em strophes alternadas tam bem medidas, tam +accentuadas e perfeitas, que eu fiquei todo dentro do meu romance, +esqueci-me de tudo o mais. + +Lembrou-me o rouxinol de Bernardim-Ribeiro, o que se deixou cahir n'agua +de cançado. + +O arvoredo, a janella, os rouxinoes... áquella hora, o fim da tarde... +que faltava para completar o romance? + +Um vulto feminino que viesse sentar-se áquele balcão--vestido de +branco--oh! branco por fôrça... a frente descahida sôbre a mão esquerda, +o braço direito pendente, os olhos alçados ao ceo... De que côr os +olhos? Não sei, que importa! é amiudar muito demais a pintura, que deve +ser a grandes e largos traços para ser romantica, vaporosa, desenhar-se +no vago da idealidade poetica... + +--'Os olhos, os olhos...' disse eu pensando ja alto, e todo no meu +extasi, 'os olhos... pretos.' + +--'Pois eram verdes!' + +--'Verdes os olhos... d'ella, do vulto da janella?' + +--'Verdes como duas esmeraldas orientaes, transparentes, brilhantes, sem +preço.' + +--'Quê! pois realmente?.. É gracejo isso, ou realmente ha alli uma +mulher, bonita, e?..' + +--'Alli não ha ninguem--ninguem que se nomeie hoje, mas houve... oh! +houve um anjo, um anjo, que deve de estar no ceo.' + +<tb> + +--'Bem dizia eu que aquella janella...' + +--'É a janella dos rouxinoes.' + +--'Que lá estão a cantar.' + +--'Estão, esses lá estão ainda como ha dez annos--os mesmos ou outros, +mas a _menina dos rouxinoes_ foi-se e não voltou.' + +--'A menina dos rouxinoes! que historia é essa? Pois devéras tem uma +historia aquella janella?' + +--'É um romance todo inteiro, _todo feito_ como dizem os francezes e +conta-se em duas palavras.' + +--'Vamos a elle. A menina dos rouxinoes, menina com olhos verdes! Deve +ser interessantissimo. Vamos á historia ja.' + +--'Pois vamos. Apeemo'-nos e descancemos um bocado.' + +Ja se ve que este dialogo passava entre mim e outro dos nossos +companheiros de viagem. + +Apeámo'-nos comeffeito; sentamo'-nos; e eisaqui a historia da _menina +dos rouxinoes_ como ella se contou. + +É o primeiro episodio da minha Odyssea: estou com medo de entrar n'elle +porque dizem as damas e os elegantes da nossa terra que o portuguez não +é bom para isto, que em francez que ha outro não-sei-quê... + +Eu creio que as damas que estão mal informadas, e sei que os elegantes +que são uns tolos; mas sempre tenho meu receio, porque emfim, enfim, +d'elles me rio eu, mas poesia ou romance, musica ou drama de que as +mulheres não gostem, é porque não presta. + +Ainda assim, bellas e amaveis leitoras, intendamo'nos: o que eu vou +contar não é um romance, não tem aventuras inredadas, peripecias, +situações e incidentes raros; é uma historia simples e singella, +sinceramente contada e sem pretenção. + +Acabemos aqui o capitulo em fórma de prologo, e a materia do meu conto +para o seguinte. + + + + +CAPITULO XI. + + + Tracta-se do unico privilegio dos poetas que tambem os philosophos + quizeram tirar, mas não lhes foi concedido; aos romancistas + sim.--Exemplo de Aristoteles e Anacreonte.--O A., tendo declarado + no capitulo nono d'esta obra que não era philosopho, agora + confessa, quasi solemnemente, que é poeta, e pretende manter-se, + como tal, em seu direito.--De como S. M. elrei de Dinamarca tinha + menos juizo do que Yorick, seu bobo.--Doutrina d'este. Funda n'ella + o A. o seu admiravel systema de physiologia e pathologia + transcendente do coração. Por uma deducção appertada e cerrada da + mais constrangente logica vem a dar-se no motivo porque foi + concedido aos poetas o direito indefinido de andarem sempre + namorados.--Applicam-se todas éstas grandes theorias á posição + actual do A. no momento de entrar no episodio promettido no + capitulo antecedente.--Modestia e reserva delicada o obrigam a + duvidar da sua qualificação para o desimpenho: pede votos ás + amaveis leitoras. Decide-se que a votação não seja nominal, e + porquê.--Dido e a mana Annica.--Entra-se emfim na prometida + historia.--De como a velha estava á porta a dobar, e + imbaraçando-se-lhe a meada, chamou por Joaninha, sua neta. + + +Este é o unico privilegio dos poetas: que até morrer podem estar +namorados. Tambem não lhes conheço outro. A mais gente tem as suas +epochas na vida, fóra das quaes lhes não é permittido apaixonarem-se. +Pretenderam accolher-se ao mesmo beneficio os philosophos, mas não lhes +foi consentido pela rainha Opinião, que é soberana absoluta e juiz +supremo de que se não appella nem aggrava ninguem. + +Anacreonte cantou, de cabellos brancos, os seus amores, e não se +extranhou. Aristoteles mal teria a barba russa quando foi d'aquelle seu +último namôro porque ainda hoje lhe apouquentam a fama. + +Ora eu philosopho, seguramente não sou, ja o disse; de poeta tenho o meu +pouco, padeci, a fallar a verdade, meus ataques assás agudos d'essa +molestia, e bem podéra desculpar-me com elles de certas fragilidades de +coração... Mas não senhor, não quero desculpar-me como quem tem culpa +senão defender-me como quem tem razão e justiça por si. + +Estou, com o meu amigo Yorick, o ajuizadissimo bobo d'elrei de +Dinamarca, o que alguns annos depois ressuscitou em Sterne com tam +elegante penna, estou sim. 'Toda a minha vida' diz elle 'tenho andado +apaixonado ja por esta ja por aquella princeza, e assim heide ir, +espero, até morrer, firmemente persuadido que se algum dia fizer uma +acção baixa, mesquinha, nunca hade ser senão no intervallo de uma paixão +á outra: n'esses interregnos sinto fechar-se-me o coração, esfria-me o +sentimento, não acho dez reis que dar a um pobre... por isso fujo ás +carreiras de similhante estado; e mal me sinto acceso de novo, sou todo +generosidade e benevolencia outra vez.' + +Yorick tem rasão, tinha muito mais razão e juizo que seu augusto amo, +elrei de Dinamarca. Por pouco mais que se generalize o principio, fica +indisputavel, inexcepcionavel para sempre e para tudo. O coração humano +é como o estomago humano, não pode estar vazio, preciza de alimento +sempre: são e generoso so as affeições lh'o podem dar; o odio, a inveja +e toda a outra paixão má é estímulo que so irrita mas não sustenta. Se a +razão e a moral nos mandam abster d'estas paixões, se as chymeras +philosophicas, ou outras, nos vedarem aquellas, que alimento dareis ao +coração, que hade elle fazer? Gastar-se sôbre si mesmo, consummir-se... +Altera-se a vida, appressa-se a dissolução moral da existencia, a saude +d'alma é impossivel. + +O que póde viver assim, vive para fazer mal ou para não fazer nada. + +Ora o que não ama, que não ama apaixonadamente, seu filho se o tem, sua +mãe se a conserva, ou a mulher que prefere a todas, esse homem é o tal, +e Deus me livre d'elle. + +Sôbretudo que não escreva: hade ser um massador terrivel. Talvez seja +este o motivo da indefinida permissão que é dada aos poetas de andarem +namorados sempre. + +O romancista gosa do mesmo fôro e tem as mesmas obrigações. É como o +privilegio de desimbargador que tiravam d'antes os fidalgos, quando ser +desimbargador valia alguma coisa... e tanta coisa! + +Como heide eu então, eu que n'esta grave Odyssea das minhas viagens +tenho de inserir o mais interessante e mysterioso episodio d'amor que +ainda foi contado ou cantado, como heide eu fazê-lo, eu que ja não tenho +que amar n'este mundo senão uma saudade e uma esperança--um filho no +berço e uma mulher na cova?.. + +Será isto bastante? Dizei-o vós, ó benevolas leitoras, póde com isto so +alimentar-se a vida do coração? + +--Póde sim. + +--Não póde, não. + +--Estão divididos os suffragios: peço votação. + +--Nominal? + +--Não, não. + +--Porquê? + +--Porque ha muita coisa que a gente pensa, e crê e diz assim a +conversar, mas que não ousa confessar publicamente, professar aberta e +nomeadamente no mundo... + +Ah! sim... elle é isso? Bem as intendo, minhas senhoras: reservemos +sempre uma sahida para os casos difficeis, para as circumstancias +extraordinarias. Não é assim? + +Pois o mesmo farei eu. + +E pôsto que hoje, faz hoje um mez, em tal dia como hoje, dia para sempre +assignalado na minha vida, me apparecesse uma visão, uma visão celeste +que me surpreendeu a alma por um modo novo e extranho, e do qual não +podia dizer decerto como a rainha Dido á mana Annica: + + Reconheço o queimar da chamma antiga, + Agnosco veteris vestigia flammae; + +pôsto que a visão passou e desappareceu... mas deixou gravada n'alma a +certeza de que... Pôsto que seja assim tudo isto, a confidencia não +passará d'aqui, minhas senhoras: tanto basta para se saber que estou +sufficientemente habilitado para chronista da minha historia, e a minha +historia é ésta. + +Era no anno de 1832, uma tarde de verão como hoje calmosa, sêcca, mas o +ceo puro e desabafado. Á porta d'essa casa entre o arvoredo, estaca +sentada uma velhinha bem passante dos settenta, mas que o não mostrava. +Vestia uma especie de tunica rosa que apertava na cintura com um largo +cinto de coiro preto, e que fazia resahir a alvura da cara e das mãos +longas, descarnadas, mas não ossudas como usam de ser mãos de velhas; +toucava-se com um lenço da mais escrupulosa brancura, e pôsto de um +geito particular a modo de toalha de freira; um mandil da mesma +brancura, que tinha no peito e que affectava, não menos, a fórma de um +escapulario de monja, completava o extranho vestuario da velha. Estava +sentada n'uma cadeira baixa do mais classico feitio: textualmente +parecia a que serviu de modêllo a Raphael para o seu bello quadro da +_Madonna della Sedia_. + +Como nota historica e illustração artistica, seja-me permittido juntar +aqui em parenthesis que, não ha muito, vi em casa de um sapateiro +remendão, em Lisboa, no Bairro-alto, um cadeira tal e qual; torneados +pyramidaes, simples, sem nobreza, mas elegantes. + +Tornemos á velhinha. + +Estava ella alli sentada na ditta cadeira, e deante de si tinha uma +dobadoira, que se movia regularmente com o tirar do fio que lhe vinha +ter ás mãos a inrollar-se no ja crescido novello. + +Era o unico signal de vida que havia em todo esse quadro. Sem isso, +velha, cadeira, dobadoira, tudo pareceria uma graciosa sculptura de +Antonio Ferreira ou um d'aquelles quadros tam verdadeiros do morgado de +Setubal. + +O movimento bem visivel da dobadoira era regular, e respondía ao +movimento quasi imperceptivel das mãos da velha. Era regular o +movimento, mas durava um minuto e parava, depois ia seguido outros dous, +tres minutos, tornava a parar: e n'esta regularidade de intermitencias +se ia alternando como o pulso de um que treme sesões. + +Mas o velha não tremia, antes se tinha muito direita e aprumada: o parar +do seu lavor era porque o trabalho interior do espirito dobrava, de vez +em quando, de intensidade, e lhe suspendia todo o movimento externo. Mas +a suspensão era curta e mesurada; reagia a vontade, e a dobadoira +tornava a andar. + +Os olhos da velha é que tinham uma expressão singular: voltada para o +poente, não os tirou d'essa direcção nem os inclinava de modo algum para +a dobadoira que lhe ficava um pouco mais á esquerda. Não pestanejavam, e +o azul de suas pupillas, que devia de ter sido brilhante como o das +saphyras, parecia desbotado e sem lume. + +O movimento da dobadoira estacou agora de repente, a velha poisou +tranquillamente as mãos e o novello no regaço, e chamou para dentro da +casa: + +--'Joanninha?' + +Uma voz doce, pura, mas vibrante, d'estas vozes que se ouvem rara vez, +que retinem dentro d'alma e que não esquecem nunca mais, respondeu de +dentro: + +--'Senhora? Eu vou, minha avó, eu vou.' + +--'Querida filha!.. Como ella me ouviu logo! Deixa, deixa: vem quando +podéres. É a meada que se me imbaraçou.' + +A velha era cega, cega de gotta-serena, e paciente, resignada como a +providencia misericordiosa de Deus permitte quasi sempre que sejam os +que n'este mundo destinou á dura provança de tam desconsolado martyrio. + + + + +CAPITULO XII. + + + De como Joanninha desimbaraçou a meada da avó, e do mais que + aconteceu.--Que casta de rapariga era Joanninha.--Dá o A. insigne + próva de ingenuidade e boa fe confessando um grave senão do seu + Ideal. Insiste porém que é um adoravel deffeito.--Em que se parece + uma mulher desannellada com um Sansão tosquiado.--Pasmosas + monstruosidades da natureza que desmentem o credo velho dos + peralvilhos.--Os olhos verdes de Joanninha.--Religião dos olhos + pretos strenuamente professada pelo A. Perigo em que ella se acha á + vista de uns olhos verdes.--De como estando a avó e a neta a + conversar muito de mano a mano, chega Frei Diniz e se interrompe a + conversação.--Quem era Frei Diniz. + + +--'Aqui estou, minha avó: é a sua meada?.. eu lh'a indireito:'--disse +Joanninha sahindo de dentro, e com os braços abertos para a velha. +Apertou-a n'elles com innefavel ternura, beijou-a muitas vezes, e +tomando-lhe o novello das mãos n'um instante desimbaraçou o fio e lh'o +tornou a intregar. + +A velha surria com aquelle surriso satisfeito que exprime os tranquillos +gosos de alma, e que parecia dizer: 'Como eu sou feliz ainda, apezar de +velha e de cega! Bemdito sejais, meu Deus.' + +Ésta última phrase, ésta bençam de um coração agradecido, que spira +suavemente para o ceo como sobe do altar o fummo do incenso consagrado, +ésta última phrase trasbordou-lhe e sahiu articulada dos labios: + +--'Bemditto seja Deus' minha filha, minha Joanninha, minha querida neta! +E Elle te abençoe tambem, filha!' + +--'Sabe que mais, minha avó? Basta de trabalhar hoje, são horas de +merendar'. + +--'Pois merendemos'. + +Joannninha foi dentro da casa, trouxe uma banquinha redonda, cubriu-a +com uma toalha alvissima, pôs em cima fructa, pão, queijo, vinho, +chegou-a para aopé da velha, tirou-lhe o novello da mão, e arredou a +dobadoira. A velha comeu alguns bagos de um cacho doirado que a neta lhe +escolheu e pôs nas mãos, bebeu um trago de vinho, e ficou callada e +quieta, mas ja sem a mesma expressão de felicidade e contentamento +socegado que ainda agora lhe luzia no rosto. + +As animadas feições de Joanninha reflectiam sympathicamente a mesma +alteração. + +Joanninha não era bella, talvez nem galante siquer no sentido popular e +expressivo que a palavra tem em portuguez, mas era o typo da gentileza, +o ideal da spiritualidade. N'aquelle rosto, n'aquelle corpo de dezeseis +annos, havia por dom natural e por uma admiravel symetria de proporções +toda a elegancia nobre, todo o desimbaraço modesto, toda a flexibilidade +graciosa que a arte, o uso e a conversação da côrte e da mais escolhida +companhia vêem a dar a algumas raras e privilegiadas creaturas no mundo. + +Mas n'esta foi a natureza que fez tudo, ou quasi tudo, e a educação nada +ou quasi nada. + +Poucas mulheres são muito mais baixas, e ella parecia alta: tam +delicada, tam _elancée_ era a fórma airosa de seu corpo. + +E não era o garbo teso e aprumado da perpendicular _miss_ ingleza que +parece fundida de uma so peça; não, mas flexivel e ondulante como a +hástea joven da árvore que é direita mas dobradiça, forte da vida de +toda a seiva com que nasceu, e tenra que a estalla qualquer vento forte. + +Era branca, mas não d'esse branco importuno das loiras, nem do branco +terso, duro, marmoreo das ruivas--sim d'aquella modesta alvura da cera +que se illumina de um pallido reflexo de rosa de Bengalla. + +E d'outras rosas, d'estas rosas-rosas que denunciam toda a franqueza de +um sangue que passa livre pelo coração e corre á sua vontade por +artérias em que os nervos não dominam, d'essas não as havia n'aquelle +rosto: rosto sereno como é sereno o mar em dia de calma, porque dorme o +vento... Alli dormiam as paixões. + +Que se levante a mais ligeira brisa, basta o seu macio bafejo para +increspar a superficie espelhada do mar. + +Sussurre o mais ingenuo e suave movimento d'alma no primeiro acordar das +paixões, e verão como se sobresaltam os musculos agora tam quietos +d'aquella face tranquilla. + +O nariz ligeiramente aquilino: a bôcca pequena e delgada não cortejava +nem desdenhava o surriso, mas a sua expressão natural e habitual era uma +gravidade singela que não tinha a menor aspereza nem doutorice. + +Ha umas certas boquinhas gravesinhas e espremidinhas pela doutorice que +são a mais abhorrecidinha coisa e a mais pequinha que Deus permitte +fazer ás suas creaturas femeas. + +Em perfeita harmonia de côr, de fórma e de tom com a fina gentileza +d'estas feições, os cabellos de um castanho tam escuro que tocava em +preto, cahiam de um lado e outro da face, em tres longos, deseguaes e +mal inrolados canudos, cuja ondada spiral se ia relaxando e diminuindo +para a extremidade, até lhe tocarem no collo quasi lisos. + +Em stylo de arte--no stylo da primeira e da mais bella das bellas artes, +a _toilete_--este é um defeito; bem sei. + +Que votos, que novenas se não fazem a San'Barometro nas vésperas de um +baile para lhe pedir uma atmosphera sêcca e benigna que deixe conservar, +até á quarta contradança ao menos, a preciosa obra de carrapito e ferro +quente, de macassar e mandolina que tanto trabalho e tanto tempo, tantos +sustos e cuidados custou! + +Bem sei pois que é defeito, é, será... mas que adoravel defeito! Que +deliciosas imagens que excita de abandôno--passe o gallicismo--de +confiança, de absoluta e generosa renúncia a todo o caprixo, de perfeita +e completa abdicação de toda a vontade propria! + +Em geral, as mulheres parecem ter no cabello a mesma fé que tinha +Sansão: o que n'elle se ia em lh'os cortando, cuidam ellas que se lhes +vai em lh'os desannellando? Talvez; e eu não estou longe de o crer: +canudo inflexivel, mulher inflexivel. + +Os peralvilhos negam a existencia do tal canudo _in rerum natura_, dizem +que é como a ave phenix que nasceu de nossos avós não saberem grego. Eu +não digo tal, porque tenho visto descuidar-se a natureza em pasmosas +monstruosidades. + +Emfim suspendâmos, sem o terminar, o exame d'esta profunda e +interessante questão. Fica addiada para um capitulo _ad hoc_, e voltemos +á minha Joanninha. + +Cahiam d'um lado e de outro da sua face gentil aquelles graciosos +anneis; e o resto do cabello, que era muito, ia intrançar-se, e +inrolar-se com singela elegancia abaixo da coroa de uma cabeça pequena, +estreita e do mais perfeito modêlo. + +As sobrancelhas, quasi pretas tambem, desenhavam-se n'uma curva de +extrema pureza; a as pestanas longas e assedadas faziam sombra na alvura +da face. + +Os olhos porêm--singular capricho da naturesa, que no meio de toda esta +harmonia quiz lançar uma nota de admiravel discordancia! Como poderoso e +ousado _maestro_ que, no meio das pbrases mais classicas e deduzidas da +sua composição, atira derepente com um som agudo e stridulo que ninguem +espera e que parece lançar a anarchia no meio do rythmo musical... os +dillettantes arripiam-se, os professores benzem-se; mas aquelles cujos +ouvidos lhes levam ao coração a musica, e não á cabeça, esses estremecem +de admiração e enthusiasmo... Os olhos de Joanninha eram verdes... não +d'aquelle verde descorado e traidor da raça felina, não d'aquelle verde +mau e destingido que não é senão azul imperfeito, não; eram +verdes-verdes, puros e brilhantes como esmeraldas do mais subido +quilate. + +São os mais raros e os mais fascinantes olhos que ha. + +Eu, que professo a religião dos olhos pretos, que n'ella nasci e n'ella +espero morrer... que alguma rara vez que me deixei inclinar para a +heretica pravidade do ôlho azul, soffri o que é muito bem feito que +soffra todo o renegado... eu firme e inabalavel, hoje mais que nunca, +nos meus principios, sinceramente persuadido que fóra d'elles não ha +salvação, eu confesso todavia que uma vez, uma unica vez que vi dos taes +olhos verdes, fiquei halucinado, senti abalar-se pelos fundamentos o meu +catholicismo, fugi escandalizado de mim mesmo, e fui retemperar a minha +fé vacillante na contemplação das eternas verdades, que so e unicamente +se incontram aonde está toda a fé e toda a crença... n'uns olhos sincera +e lealmente pretos. + +Joanninha porêm tinha os olhos verdes; e o effeito d'esta rara feição +n'aquella physionomia á primeira vista tam discordante--era em verdade +pasmosa. Primeiro fascinava, halucinava, depois fazia uma sensação +inexplicavel e indecisa que doía e dava prazer ao mesmo tempo: porfim +pouco o pouco, estabelecia-se a corrente magnetica tam poderosa, tam +carregada, tam incapaz de solução-de-continuidade, que toda a lembrança +de outra coisa desapparecia, e toda a intelligencia e toda a vontade +eram absorvidas. + +Resta so accrescentar--e fica o retrato completo, um simples vestido +azul escuro, cinto e avental preto, e uns sapatinhos com as fitas +traçadas em cothurno. O pé breve e estreito; o que se adivinhava da +perna admiravel. + +Tal era a ideal e espiritualissima figura que em pé, incostada á banca +onde acabava de comer a boa da velha, contemplava, n'aquelle rosto +macerado e apagado, a indicivel expressão de tristeza que elle pouco a +pouco ía tomando e que toda se reflectia, como disse, no semblante da +contempladora. + +A velha suspirou profundamente, e fazendo como um esfôrço para se +distrahir de pensamentos que a affligiam, buscou incertamente com as +mãos o novêllo da sua meada: + +--'O meu novêllo, filha: não posso estar sem fazer nada, faz-me mal.' + +--'Conversemos, avó.' + +--'Pois conversemos; mas dá-me o meu novêllo. Não sei o que é, mas +quando não trabalho eu, trabalha não sei o que em mim que me cansa ainda +mais. Bem dizem que a ociosidade é o peior lavor.' + +Joanninha deu-lhe o novêllo e pôs-lhe a dobadoira a geito. + +A velha sentiu o que quer que fosse na mão, levou-a á bôcca e pareceu +beija-la, depois disse: + +--'Bem vi, Joanninha!' + +--'O quê, minha avó? que viu?' + +--'Vi, filha, vi.., sem ser com os olhos que Deus me cerrou para +sempre--louvado seja Elle por tudo!--vi, sentindo, ésta lagryma tua que +me cahiu na mão, e que ja ca está no peito por que a bebi, Joanna. Oh +filha, ja! é muito cedo para começar, deixa isso para mim que estou +costumada: mas tu, tu com deseseis annos e nenhum desgôsto!' + +--'Nenhum, avó! E estamos sosinhas nós duas n'este mundo, minha avó +n'esse estado, eu n'esta edade, e...' + +--'E Deus no ceu para tomar conta em nós... Mas que é? olha, Joanna: eu +sinto passos na estrada vê o que é.' + +--'Não vejo ninguem.' + +--'Mas oiço eu... Espera... é Fr. Diniz; conheço-lhe os passos.' + +Mal a velha acabava de pronunciar este nome, surdiu, de traz de umas +oliveiras que ficam na volta da estrada, da banda de Santarem, a figura +sêcca, alta e um tanto curvada de um religioso franciscano que abordoado +em seu pau tosco, arrastando as suas sandalias amarellas e tremendo-lhe +na cabeça o seu chapeo alvadio, vinha em direcção para ellas. + +Era Fr. Diniz comeffeito, o austero guardião de San'Francisco de +Santarem. + + + + +CAPITULO XIII. + + + Dos frades em geral.--O frade moralmente considerado, socialmente e + artisticamente.--Próva-se que é muito mais poetico o frade do que o + barão.--Outra vez D. Quixote e Sancho-Pansa.--Do que seja o barão, + sua classificação e descripção linneana.--Historia do castello do + Chucherumello.--Erro palmar de Eugenio Sue: mostra-se que os + jesuitas não são a cholera-morbus, e que é preciso refazer o 'Judeu + errante'--De como o frade não intendeu o nosso seculo nem o nosso + seculo ao frade.--De como o barão ficou em logar do frade, e do + muito que n'isso perdémos.--Unica voz que se ouve no actual deserto + da sociedade: os barões a gritar contos de reis.--Como se contam e + como se pagam os taes contos.--Predilecção artistica do A. pelo + frade: confessa-se e explica-se ésta predilecção. + + +Frades... frades... Eu não gósto de frades. Como nós os vimos ainda os +d'este seculo, como nós os intendêmos hoje, não gósto d'elles, não os +quero para nada, moral e socialmente fallando. + +No ponto de vista artistico porêm o frade faz muita falta. + +Nas cidades, aquellas figuras graves e sérias com os seus habitos +tallares, quasi todos picturescos e alguns elegantes, atravessando as +multidões de macacos e bonecas de casaquinha esguia e chapelinho de +alcatruz que distinguem a peralvilha raça europea--cortavam a monotonia +do ridiculo e davam physionomia á população. + +Nos campos o effeito era ainda muito maior: elles characterizavam a +payzagem, poetisavam a situação mais prosaica de monte ou de valle; e +tam necessarias tam obrigadas figuras eram em muitos d'esses quadros, +que sem ellas o painel não é ja o mesmo. + +Alêm d'isso o convento no povoado e o mosteiro no êrmo animavam, +amenizavam, davam alma e grandeza a tudo: elles protegiam as árvores, +sanctificavam as fontes, enchiam a terra de poesia e de solemnidade. + +O que não sabem nem podem fazer os agiotas barões que os substituiram. + +É muito mais poetico o frade que o barão. + +O frade era, até certo ponto, o Dom Quixote da sociedade velha. + +O barão é, em quasi todos os pontos, o Sancho-Pansa da sociedade nova. + +Menos na graça... + +Porque o barão é o mais desgracioso e estupido animal da creação. + +Sem exceptuar a familia asinina que se illustra com individualidades tam +distinctas como o Ruço do nosso amigo Sancho, o asno da Poncella de +Orleans e outros. + +O barão (_onagros-baronius_ de Linn., _l'ânne-baron_ de Buf.) é uma +variedade monstruosa ingendrada na burra de Balaham, pela parte +essencialmente judaica e usuraria de sua natureza, em coito damnado com +o urso Martinho do Jardim das Plantas[2], pela parte franchinotica e +sordidamente revolucionaria de seu character. + +O barão é pois usurariamente revolucionario, e revolucionariamente +usurario. + +Por isso é _zebrado_ de riscas monarchico-democraticas por todo o pêllo. + +Este é o barão verdadeiro e puro-sangue: o que não tem estes characteres +é especie differente, de que aqui se não tracta. + +Ora, sem sahir dos barões e tornando aos frades, eu digo: que nem elles +comprehenderam o nosso seculo nem nós os comprehendémos a elles.. + +Por isso brigámos muito tempo, a final vencêmos nós, e mandámos os +barões a expulsá-los da terra. No que fizemos uma sandice como nunca se +fez outra. O barão mordeu no frade, devorou-o... e escouceou-nos a nós +depois. + +Com que havemos nós agora de matar o barão? + +Porque este mundo e a sua historia é a historia do 'castello do +Chucherumello'. Aqui está o cão que mordeu no gato, que matou o rato, +que roeu a corda etc. etc.: vai sempre assim seguindo. + +Mas o frade não nos comprehendeu a nós, por isso morreu, e nós não +comprehendemos o frade, por isso fizemos os barões de que havemos de +morrer. + +São a molestia d'este seculo; são elles, não os jesuitas, a +cholera-morbus da sociedade actual, os barões. O nosso amigo Eugenio Sue +errou de meio a meio no 'Judeu errante' que precisa refeito. + +Ora o frade foi quem errou primeiro em nos não comprehender, a nós, ao +nosso seculo, ás nossas inspirações e aspirações: com o que falsificou a +sua posição, isolou-se da vida social, fez da sua morte uma necessidade, +uma coisa infallivel e sem remedio. Assustou-se com a liberdade que era +sua amiga, mas que o havia de reformar, e uniu-se ao despotismo que o +não amava senão relaxado e vicioso, porque de outro modo lhe não servia +nem o servia. + +Nós tambem errámos em não intender o desculpavel êrro do frade, em lhe +não dar outra direcção social; e evitar assim os barões, que é muito +mais damninho bicho e mais roedor. + +Porque, desinganem-se, o mundo sempre assim foi e hade ser. Por mais +bellas theorias que se façam, por mais perfeitas constituições com que +se comece, o _status in statu_ forma-se logo: ou com frades ou com +barões ou com pedreiros livres se vai pouco a pouco organizando uma +influencia distincta, quando não contraria, ás influencias manifestas e +apparentes do grande corpo social. Esta é a opposição natural do +Progresso, o qual tem a sua opposição como todas as coisas sublunares e +superlunares; ésta corrige saudavelmente, ás vezes, e modera sua +velocidade, outras, a impece com demazia e abuso: mas emfim é uma +necessidade. + +Ora eu, que sou ministerial do Progresso, antes queria a opposição dos +frades que a dos barões. O caso estava em a saber conter e approveitar. + +O Progresso e a liberdade perdeu, não ganhou. + +Quando me lembra tudo isto, quando vejo os conventos em ruinas, os +egressos a pedir esmola e os barões de berlinda, tenho saudades dos +frades--não dos frades que foram, mas dos frades que podiam ser. + +E sei que me não inganam poesias; que eu reajo fortemente com uma logica +inflexivel contra as illusões poeticas em se tractando de coisas graves. + +E sei que me não namóro de paradoxos, nem sou d'estes espiritos de +contradicção desinquieta que suspiram sempre pelo que foi, e nunca estão +contentes com o que é. + +Não, senhor: o frade, que é patriota e liberal na Irlanda, na Polonia, +no Brazil, podia e devia sê-lo entre nós; e nós ficavamos muito melhor +do que estamos com meia duzia de clerigos de requiem para nos dizer +missa; e com duas grozas de barões, não para a tal opposição salutar, +mas para exercer toda a influencia moral e intellectual da +sociedade--porque não ha de outra ca. + +E se não digam-me: onde estão as universidades, e o que faz essa que ha +senão dar o seu grausito de bacharel em leis e em medicina? O que +escreve ella, o que discute, que príncipios tem, que doutrinas professa, +quem sabe ou ouve d'ella senão algum echo timido e acanhado do que +n'outra parte se faz ou diz? + +Onde estão as academias? + +Que palavra poderosa retine nos pulpitos? + +Onde está a fôrça da tribuna? + +Que poeta canta tam alto que o oiçam as pedras brutas e os robres duros +d'esta selva materialista a que os utilitarios nos reduziram? + +Se exceptuarmos o debil clamor da imprensa liberal ja meio-esganada da +policia, não se ouve no vasto silencio d'este ermo senão a voz dos +barões gritando contos de réis. + +Dez contos de réis por um eleitor! + +Mais duzentos contos pelo tabaco! + +Três mil contos para a conversão de um amphigouri! + +Cinco mil contos para as estradas dos areonautas! + +Seis mil contos para isto, dez mil contos para aquillo! + +Não tardam o contar por centenas de milhares. + +Contar a elles não lhes custa nada. + +A quem custa é a quem paga para todos esses balões de papel--a terra e a +indústria.................................................................. +........................................................................... +........................................................................... + +Este capítulo deve ser considerado como introducção ao capítulo +seguinte, em que entra em scena Fr. Diniz, o guardião do San' Francisco +de Santarem. + +Ja me disseram que eu tinha o genio frade, que não podia fazer conto, +drama, romance sem lhe metter o meu fradinho. + +O 'Camões' tem um frade, Frei José Indio; + +A 'Dona Branca' tres, Frei Soeiro, Frei Lopo e San'-Frei Gil--faz +quatro; + +A 'Adozinda' tem um ermitão, especie de frade--cinco; + +'Gil-Vicente' tem outro--isto é, verdadeiramente não tem senão meio +frade, que é André de Rezende, demais a mais, pessoa muda--cinco e meio; + +O 'Alfageme' tres quartos do frade, Froilão-Dias, chibato da ordem de +Malta--seis frades e um quarto; + +Em 'Frei Luiz de Sousa' tudo são frades: vale bem n'esta computação, os +seus tres, quatro, meia duzia de frades--são já dôze e quarto: + +Alguns, não eu, querem metter n'esta conta o 'Arco-de-Sanct'Anna', em +que ha bem dous frades e um leigo: + +E aqui tenho eu ás costas nada menos de quinze frades e quarto. + +Com este Frei Diniz é um convento inteiro. + +Pois, senhores, não sei que lhes faça: a culpa não é minha. Desde mil +cento e tantos que começou Portugal, até mil oitocentos trinta e tantos +que uns dizem que elle se restaurou, outros que o levou a breca, não sei +que se passasse ou podesse passar n'esta terra coisa alguma pública ou +particular, em que frade não entrasse. + +Para evitar isto não ha senão usar da receita que vem formulada no +capitulo V[3] d'esta obra. + +Faça-o quem gostar; eu não, que não quero nem sei. + + + + +CAPITULO XIV. + + + Emendado emfim de suas distracções e divagações, prosegue o A. + direitamente com a historia promettida.--De como Fr. Diniz deu a + manga a beijar á avó e á neta, e do mais que entre elles se + passou.--Ralha o frade com a velha, e começa a descobrir-se onde a + historia vai ter. + + +Este capitulo não tem divagações, nem reflexões, nem considerações de +nenhuma especie, vai direito e sem se distrahir, pela sua historia +adeante. + +Fr. Diniz chegava aopé das duas mulheres e disse: + +--'Louvado seja Nosso Senhor Jesus Christo!' + +Joanna adeantou-se alguns passos a beijar-lhe a manga. Elle +accrescentou: + +--'A benção de Deus te cubra, filha, e a de nosso padre San'Francisco!' + +--'Benedicite, padre guardião:' disse a velha inclinando-se meia +levantada da cadeira. + +--'Em nome do Senhor! amen'.--respondeu o frade aproximando-se, e +chegando o braço a alcance de lh'o ella beijar: + +--'Ora aqui estou, minha irman; que me quer? E como vai isto por cá? +Vamo-nos confortando, tendo paciencia, e soffrendo com os olhos no +Senhor?' + +--'Ja os não tenho senão para elle, padre.' + +--'Ah, ah! irman Francisca, sempre esse pensamento, sempre essa queixa! +Tenho-a reprehendido tanta vez e não se emenda.' + +--'Eu não me queixei, meu padre. Deus sabe que me não queixo... ao menos +por mim.' + +--'Pois por quem?' + +--'Oh padre!' + +--'Irman Francisca, tenho medo de a intender. Eu não conheço as +affeições da carne nem lido com os fracos pensamentos do mundo. Sou +frade, minha irman, sou um que ja não é do número dos vivos, que vestiu +ésta mortalha para não ser d'elles, que a vestiu n'um tempo em que a +mofa e o desprêzo são o unico patrimonio do frade, em que o escarneo, a +derisão, o insulto--o peior e o mais cruel de todos os martyrios--são a +nossa unica esperança. Eu quiz ser frade, fiz-me frade, sabendo e vendo +tudo isto, fiz-me frade no meio de tudo isto, já velho e experimentado +no mundo, farto de o conhecer, e certo do que me espera--a mim e á +profissão que abraçei. Que quer de um homem que assim se resolveu a +cortar por quanto prende a humanidade a ésta miseravel vida da terra, +para não viver senão das esperanças da outra? Eu vesti este hábito para +isso. O seu, irman, o seu para que o vestiu? É um divertimento, é um +capricho, é uma comedia com Deus? Rasgue-o depressa, vista-se das galas +do mundo, não apperte com a paciencia divina, trajando por fóra o sacco +da penitencia e trazendo o coração pordentro desappertado de todo o +cilicio e mortificação.' + +A velha com as mãos postas, a face alevantada e os apagados olhos para o +ceo, offerecia a Deus todo o amargor d'aquella austeridade que não +cuidava merecer nem lhe parecia intender. Joanninha, que insensivelmente +se fôra approximando da avó, e a tinha como amparada portraz com um de +seus braços, firmava a outra mão nas costas da cadeira e cravava fita no +frade a vista penetrante e cheia de luz. A expressão do seu rosto era +indefinivel: irisava-lh'o, distincta mas promiscuamente, um mixto +inextricavel de enthusiasmo e desanimação, de fé e de incredulidade, de +sympathia e de aversão. + +Disseras que n'aquelles olhos verdes e n'aquelle rosto mal córado estava +o typo e o symbolo das vascillações do seculo. + +--'Padre!' tornou a velha com sincera humildade na voz e no gesto:--'se +o mereci, castigae-me. Deus, que me vê e me ouve, bem sabe que o digo em +toda a verdade do meu coração, e hade perdoar-me porque eu sou fraca e +mulher.' + +--'Pois aos fracos não é que Elle disse: _Toma a tua cruz e segue-me_. +Quem a obrigou a fazer os votos que fez?' + +--'É verdade, padre, é verdade: bem sei o que prometti, que me votei a +Deus d'alma e corpo, que me não pertenço, que nem das minhas affeições +posso dispor, mas...' + +--'Mas o quê? Irman Francisca, a Deus não se ingana. Os seus votos não +foram feitos n'um mosteiro, nem proferidos n'um altar no meio das +solemnidades da egreja. Mas ja lh'o tenho ditto, no fôro da consciencia, +na presença de Deus, ligam-n'a tanto ou mais do que se o fossem. +Abjure-os se quizer; nenhuma lei, nenhuma fôrça humana a constrange. +Diga-m'o por uma vez, desingane-me, e eu não torno aqui.' + +--'Oh, por compaixão, padre! pelas chagas de Christo! Mas uma pergunta +so, uma so, e eu prometto não pensar, não fallar mais em... Onde está +elle?' + +--'Joanna, retire-se.' + +Joanninha appertou a avó com ambos os braços; e sem dizer uma palavra, +sem fazer um so gesto, lentamente e silenciosamente se retirou para +dentro de casa. + +--'E ésta, padre?' disse a velha sem esperar a resposta á primeira +pergunta que com tanta ancia fizera--'e ésta, tambem d'ella me heide +separar, tambem heide renunciar a ella?' + +--'Esta é uma innocente, e emquanto o for'... + +--'Em quanto o for! A minha Joanna é um anjo.' + +--'Blasphemia, blasphemia! E o Senhor a não castigue por ella. Joanna é +boa e temente a Deus: esperemos que Elle a conserve da sua mão. O +outro...' + +--'Que é feito d'elle padre? Oh! diga-m'o, e eu prometto...' + +--'Não prometta senão o que póde cumprir. Seu neto está com esses +desgraçados que vieram das ilhas, é dos que desimbarcaram no Porto...' + +--'Oh filho da minha alma! que não tórno a abraçar-te...' + +--'Não decerto; vencedores ou vencidos, toda a communhão, toda a +possibilidade de união acabou entre nós e estes homens. Nós temos +obrigação de os destruir, elles o seu unico desejo é exterminar-nos.' + +--'Meu Deus meu Deus! pois a isto somos chegados! Pois ja não ha +misericordia no ceo nem na terra!' + +--'A misericordia de Deus cansou-se; a da terra não sei onde está nem +onde esteve nunca. Os fracos dão sacrilegamente esse nome á sua +relaxação.' + +--'Pois é relaxação desejar a paz, querer a união, supplicar a +indulgencia? Não nos manda Deus perdoar as nossas dividas, amar os +nossos inimigos?' + +--'Os nossos sim, os d'Elle não.' + +--'Tende compaixão de mim, Senhor!' + +--'Se as suas afflicções são as da carne e do sangue, se são pensamentos +da terra como desgraçadamente vejo que são, mulher fraca e de pouco +ânimo, console-se, que para mim é claro e seguro que estes homens hãode +vencer.' + +--'Quaes homens?' + +--'Esses inimigos do altar e da verdade, esses homens desvairados pelas +speciosas doutrinas do seculo. Esperam muito, promettem muito, estão em +todo o vigor das suas illusões. E nós, nós carregâmos com o desingano de +muitos seculos, com os peccados de trinta gerações que passaram, e com a +inaudita corrupção da presente... nós havemos de succumbir. Os templos +hãode ser destruidos, os seus ministros proscriptos, o nome de Deus +blasphemado á vontade n'esta terra malditta.' + +--'Pois tam perdidos, tam abandonados da mão de Deus são elles todos... +todos?' + +--'Todos. E que cuida, irman? que são melhores os nossos, esses que se +dizem nossos? que ha mais fé na sua crença, mais verdade em sua +religião? Oh sancto Deus!' + +--'Faz-me tremer, padre!' + +--'E para tremer é. A impiedade e a cubiça entraram em todos os +corações. _Duvidar_ é o unico princípio, _inriquecer_ o unico objecto de +toda essa gente. Liberaes e realistas, nenhum tem fé: os liberaes ainda +teem esperança; não lhe hade durar muito. Deixem-n'os vencer e verão.' + +--'E hãode vencer elles?' + +--'Decerto.' + +--'Ninguem mais diz isso.' + +--'Digo-o eu.' + +--'Tantos mil soldados que o govêrno tem por si!' + +--'E tantos milhões de peccados contra. Não póde ser, não póde ser: a +misericordia divina está exhausta, e o dia desejado dos impios vem a +chegar. A sua missão é facil e prompta; não sabem, não podem senão +destruir. Edificar não é para elles, não teem com quê, não creem em +nada. O symbolo christão não é so uma verdade religiosa é um princípio +eterno e universal. _Fe, esperança e charidade_. Sem crer, sem +esperar...' + +--'E sem amar!' + +--'Mulher, mulher! o amor é a última virtude...' + +--'Mas por ella, por ella se chega ás outras.' + +--'Não, mulher fraca, não. E de uma vez para sempre, irman Francisca, +desinganemo'-nos. Entre mim, entre o Deus que eu sirvo, não ha +transacção com os seus inimigos. Indulgencia n'esse ponto não sei o que +é. Vejo a sorte que me espera n'este mundo, e não tremo deante d'ella. +Quem teme, siga outro caminho; eu nunca.' + +--'Padre eu não temo nem receio por mim. Sou fraca e mulher, e em toda a +tribulação e desgraça heide glorificar o meu Deus e dar testimunho da +minha fé. Mas... mas o meu neto é o meu sangue, a minha vida, é o filho +querido da minha unica e tam amada filha, elle não conheceu outra mãe +senão a mim, quero-lhe por elle e por ella. Abandoná-lo não posso, tirar +d'elle o pensamento não sei. A vontade de Deus...' + +--'A vontade de Deus é que o justo se aparte do impio, é que os +cordeiros da benção vão para um lado, e os cabritos da maldicção para +outro. Esse rapaz... oh! minha irman, eu não sou de pedra, não, não sou, +e tambem o coração se me parte de o dizer... mas esse rapaz é malditto, +e entre nós e elle está o abysmo todo do inferno.' + +--'Misericordia, meu Deus!' + +Pallido, infiado, mais descorado e mais amarello do que era sempre +aquelle rosto, Fr. Diniz pronunciou, tremendo mas com fôrça, as suas +últimas e terriveis palavras. Os olhos, habitualmente sumidos e cavos, +recuaram-lhe ainda mais para dentro das orbitas descarnadas; o bordão +tremia-lhe na esquerda; e a direita suspensa no ar parecia intimar ao +culpado a terrivel imprecação que lhe sahia dos labios. + +--'Malditto! malditto sejas tu!' proseguiu o frade, 'filho ingrato, +coração derrancado e perverso!' + +--'Meu Deus, não o escuteis!' bradou a velha cahindo de joelhos no chão +e prostrando-se na terra dura 'Meu Deus, não confirmeis aquellas +palavras tremendas. Não o ouçais, Senhor, e valha o sangue precioso de +vosso filho, as dores bemdittas de sua mãe, oh meu Deus! para arredar da +cabeça do meu pobre filho as crueis palavras d'este homem sem piedade, +sem amor!..' + +A velha queria dizer mais; as angústias que se tinham estado juntando +n'aquella alma, que porfim não podia mais e transbordava, queriam sahir +todas, queriam derramar-se alli em lagrymas e soluços na presença do seu +Deus que ella via sempre no throno das misericordias, que não podia +acabar comsigo que o visse o inflexivel, o terrivel Deus das vinganças +que lhe annunciava o frade. Mas a carne não pôde com o espirito, as +fôrças do corpo cederam: tomou-a um mortal deliquio, immudeceu, e... +suspendeu-se-lhe a vida. + +Fr. Diniz contemplou-a alguns momentos n'esse estado e pareceu +commover-se; mas aquelles nervos eram fios de ferro temperado que não +vibravam a nenhuma suave percussão: deu dous passos para a porta da +casa, bateu com o bordão e disse com voz firme e segura: + +--'Joanna, acuda a sua avó que não está boa.' + +D'ahi tomou por onde viera, e, sem voltar uma vez a cabeça, caminhou +ápressado; breve se escondeu para lá das oliveiras da estrada. + + + + +CAPITULO XV. + + + Retratto de um frade franciscano que não foi para o depósito da + Terra-sancta, nem consta que esteja na Academia das + Bellas-artes.--Ve-se que a logica de Fr. Diniz se não parecia nada + com a de Condillac.--Suas opiniões sôbre o liberalismo e os + liberaes.--Que o podêr vem de Deus, mas como e paraquê.--Que os + liberaes não intendem o que é liberdade e egualdade; e o para que + eram os frades, se fossem.--Próva-se, pelo texto, que o homem não + vive so de pão, e pergunta-se o de que vivia então Fr. Diniz. + + +Quem era Frei Diniz? + +Disse-o elle:--um homem que se fizera frade, ja velho e cançado do +mundo, que vestíra o hábito n'um tempo em que a mofa, o escarneo e o +desprêzo seguiam aquella profissão; que o sabía, que o conhecia e que +por isso mesmo o affrontára. + +D'estes raros e fortes characteres apparecem sempre na agonia das +grandes instituições para que nenhuma pereça sem protesto, paraque de +nenhum pensamento duravel e consagrado pelo tempo se possa dizer que lhe +faltou quem o honrasse na hora derradeira por uma devoção nobre, +gloriosa e digna do alto espirito do homem:--que o homem é uma grande e +sublime creatura por mais que digam philosophos. + +Tal era Fr. Diniz, homem de principios austeros, de crenças rigidas, e +de uma logica inflexivel e teimosa: logica porêm que regeitava toda a +anályse, e que forte nas grandes verdades intellectuaes e moraes em que +fixára o seu espirito, descia d'ellas com o tremendo pêso de uma +synthese asperrima e oppressora que esmagava todo o argumento, destruía +todo o raciocinio que se lhe punha de deante. + +Condillac chamou á synthese methodo de trevas: Fr. Diniz ria-se de +Condillac... e eu parece-me que tenho vontade de fazer o mesmo. + +O despotismo, detestava-o como nenhum liberal é capaz de o abhorrecer; +mas as theorias philosophicas dos liberaes, escarnecia-as como absurdas, +regeitava-as como perversoras de toda a idea san, de todo o sentimento +justo, de toda a bondade praticavel. Para o homem em qualquer estado, +para a sociedade em qualquer fórma não havia mais leis que as do +decalogo, nem se precisavam mais constituições que o Evangelho: dizia +elle. Reforçá-las é superfluo, melhorá-las impossivel, desviar d'ellas +monstruoso. Desde o mais alto da perfeição evangelica, que é o estado +monastico, ha regras para todos alli; e não falta senão observá-las. + +Não sei se ésta doutrina não tem o quer que seja de um certo sabor +independente e livre, se não cheira o seu tanto á confiança heretica dos +reformistas evangelicos. O que sei é que Fr. Diniz a professava de +boafé, que era catholico sincero, e frade no coração. + +Segundo os seus principios, podêr de homem sôbre homem, era usurpação +sempre e de qualquer modo que fosse constituido. Todo o podêr estava em +Deus--que o delegava ao pae sôbre o filho, d'ahi ao chefe da familia +sôbre a familia, d'ahi a um d'esses sôbre todo o Estado; mas para o +reger segundo o Evangelho e em toda a austeridade republicana dos +primitivos principios christãos. + +Assim fôra ungido Saul, e n'elle todos os reis da terra--sem o quê, não +eram reis. + +Tudo o mais, anarchia, usurpação, tyrannia, peccado--absurdo +insustentavel e impossivel. + +E sôbre isto tambem não disputava, que não concebia como: era dogma. + +Nas applicações sim questionava, ou antes, arguía, com sua logica de +ferro. As antigas leis, os antigos usos, os antigos homens, não os +poupava mais do que aos novos. A tyrannia dos reis, a cubiça e a suberba +dos grandes, a corrupção e a ignorancia dos sacerdotes, nunca houve +tribuno popular que as açoitasse mais sem dó nem caridade. + +O princípio porêm da monarchia antiga, defendia-o, ja se ve, por +verdadeiro, embora fossem mentirosos e hypocritas os que o invocavam. + +Quanto ás doutrinas constitucionaes, não as intendia, e protestava que +os seus mais zelosos apostolos as não intendiam tam pouco: não tinham +senso-commum, eram abstracções d'eschola. + +Agora, do frade é que me eu queria rir... mas não sei como. + +O chamado liberalismo, esse intendia elle. 'Reduz-se' dizia 'a duas +cousas, _duvidar e destruir_ por principio, _adquirir e inriquecer_ por +fim: é uma seita toda material em que a carne domina e o espirito serve; +tem muita fôrça para o mal; bem verdadeiro, real e perduravel, não o +póde fazer. Curar com uma revolução liberal um paiz estragado, como são +todos os da Europa, é sangrar um tysico: a falta de sangue diminue as +ancias do pulmão por algum tempo, mas as fôrças vão-se, e a morte é mais +certa.' + +Dos grandes e eternos principios da Egualdade e da Liberdade dizia: 'Em +elles os practicando devéras, os liberaes, faço-me eu liberal tambem. +Mas não ha perigo: se os não intendem! Para intender a liberdade é +preciso crer em Deus, para acreditar na egualdade é preciso ter o +Evangelho no coração.' + +As instituições monasticas eram, no seu intender e no seu systema, +condicção essencial de existencia para a sociedade civil--para uma +sociedade normal. Não paliava os abusos dos conventos, não cubria os +defeitos dos monges, accusava mais severamente que ninguem a sua +relaxação; mas sustentava que, removido aquelle typo da perfeição +evangelica, toda a vida christan ficava sem norma, toda a harmonia se +destruía, e a sociedade ia, mais depressa e mais sem remedio, +precipitar-se no golpham do materialismo estupido e brutal em que todos +os vinculos sociaes apodreciam e cahiam, e em que mais e mais se isolava +e estreitava o individualismo egoista--última phase da civilização +exaggerada que vai tocar no outro extrêmo da vida selvagem. + +Taes eram os principios d'este homem extraordinario que junctava a uma +erudição immensa o profundo conhecimento dos homens e do mundo em que +tinha vivido até a edade de cinquenta annos. + +Como e porque deixára elle o mundo? Como e porquê, um espirito tam +activo e superior se occupava apenas do obscuro incargo de guardião do +seu convento--cargo que acceitára por obediencia--e quasi que limitava +as suas relações fóra do claustro áquella casa do valle onde não havia +senão aquella velha e aquella criança? + +Apezar de sua rigidez ascetica, prendia esse espirito por alguma coisa a +este mundo? Aquelle coração macerado do cilicio dos pensamentos austeros +e terriveis do eterno futuro, consummido na abstinencia de todo o gôso, +detodo o desejo no presente, teria acaso viva ainda bastante alguma +fibra que vibrasse com recordações, com saudades, com remorsos do +passado? + +No seu convento elle não tinha senão uma cella nua com um cruxifixo por +todo adôrno, um breviario por unico livro. N'aquella so familia que +conversava, havia, ja o disse, a velha cega e decrepita, Joanninha com +quem apenas fallava, e um ausente, um rapaz de quem ha dous annos quasi +que se não sabia. Em intrigas politicas, em negocios ecclesiasticos, em +coisa mais nenhuma d'este mundo não tinha parte. De que vivia pois este +homem--homem que certo não era d'aquelles que vivem so de pão? + +E este era dos poucos textos latinos que elle repettia, este o thema +predilecto dos raros sermões que prégava: _Non in solo pane vivit homo_, +Nem so de pão vive o homem. + +Vivia então de alguma outra coisa este homem; e a meditação e a oração +não lhe bastavam, porque elle sahia do seu convento e não ia prégar nem +rezar... todas as sextas feiras era certo na casa do valle á mesma hora, +do mesmo modo... + +Alli estava pois alguma parto da vida do frade que de todo se não +desprendêra da terra, e que, por mais que elle diga, lhe faltava +_castrar_ ainda por amor do ceo. + +É que meio seculo de viver no mundo deixa muita raiz que não morre +assim. E talvez é uma so a raiz, mas funda, e rija de fevra e de seiva, +que as folhas morrem, os ramos seccam, o tronco apodrece, e ella teima a +viver. + +Saibamos alguma coisa d'essa vida. + + + + +CAPITULO XVI. + + + Saibâmos da vida do frade.--Era franciscano porquê?--Dos antigos e + dos novos martyres.--Alguns particulares de Fr. Diniz antes e + depois de ser frade.--Emigração.--Explicação incompleta.--De como a + velha tinha perdido a vista e Joanninha o riso.--Sexta feira dia + aziago. + + +Saibamos alguma coisa da vida do frade, da sua vida no seculo, porque a +do claustro era nua e nulla, monotona e singela como a temos visto. + +Chamava-se elle no seculo Diniz de Atahide, e seguira a carreira das +armas primeiro, depois a das lettras. Com distincção, e quasi com +paixão, tomára parte na campanha da Peninsula e a fizera quasi toda; mas +desgostoso do serviço ou despreoccupado da glória militar, entrou na +magistratura para que estava habilitado, e em 1825, do logar de +corregedor do Ribatejo, em que ja fôra reconduzido, devia passar á casa +do Porto. + +Foi a Lisboa receber o seu despacho, beijou a mão a elrei, e d'ahi tomou +um dia o caminho de Santarem, chegou áquella villa, deixou criados e +cavallos na estalagem, e foi tocar á campa da portaria de San'Francisco. + +Os criados esperaram em vão muitos dias: elle não voltou. + +Desappareceu do mundo Diniz de Atahide, e d'alli a dous annos appareceu +Fr. Diniz da Cruz, o frade mais austero e o prégador mais eloquente +d'aquelle tempo. Raro prégava, e so de doutrina; mas era uma torrente de +vehemencia, uma uncção, uma fôrça!.. + +Dos institutos monasticos, ja então bem decahidos todos de esplendor e +reputação, a ordem de San'Francisco era talvez a que mais descêra no +conceito público. Quanto mais austera é a regra, tanto mais se nota +qualquer relaxação nos que a professam: a dos franciscanos tinha-se +feito proverbial e popular. Elles eram tantos por toda a parte, e tam +conversantes com todas as classes; familiarizára-se por tal modo o povo +com o aspecto d'aquellas mortalhas negras--aspecto ja não severo, e +apenas deixou de o ser... ridículo--e ellas appareciam em taes logares, +a taes horas, por tal modo... que todo o respeito, toda a estima, toda a +consideração se lhe perdera. Escriptores, ja os não tinham, prégadores +poucos e sem reputação, era em todo o sentido a religião mais humilhada +na geral decadencia das ordens. + +Fr. Diniz procurou-a por isso mesmo. Queria ser frade, o frade +desprezado e apupado do seculo dezenove. + +Em certos animos é preciso muito mais valor e enthusiasmo para affrontar +este martyrio, do que fôra nos antigos tempos para ir ao incôntro das +nobres perseguições do sangue e do fogo. + +Luctava-se com honra então, cahia-se com glória, vencia-se muitas vezos +morrendo... + +Agora é soffrer so. + +O mundo applaudia aquelles grandes sacrificios, e assistia com +interêsse, com admiração, com espanto áquelles combates gigantescos. E o +tyranno tremia diante da sua victima... quando lhe não cahia aos pés +vencido, convertido e penitente... + +Hoje o povo passa e ri, os reis cuidam de outra coisa, e a mesma Egreja +não sabe que tem martyres. + +'Pois tem-n'os' dizia Fr. Diniz 'e precisa mais d'elles para se +regenerar, do que ja precisou para fundar-se.' + +Eis aqui porque Diniz d'Atahide não quiz ser bento, nem jeronymo, nem +cartucho, e se foi metter frade franciscano. + +De todos os seus bens, que eram consideraveis, tirou apenas a modica +somma de dinheiro que era necessaria para pagar o dote e piso de sua +entrada no convento. Do resto fez doação inteira a D. Francisca +Joanna--a velha hoje cega e decrepita que no princípio d'esta historia +incontrámos dobando á sua porta na casa do valle. + +A velha não tinha mais familia que um neto e uma neta. + +A neta era Joanninha, filha unica de seu unico filho varão, e ja orphan +de pae e de mãe. + +O neto, orpham tambem, nascêra posthumo, e custára a vida a sua mãe, +filha querida e predilecta da velha. + +Antes da splendida doação de Fr. Diniz, a familia, que era de boa e +honrada descendencia, podia dizer-se pobre; depois viviam +remediadamente. Mas a velha não quiz nunca sahir do modesto estado em +que atélli vivêra. Tinham fartura de pão, azeite e vinho de suas lavras; +corria-lhe com ellas um criado velho de confiança; trajavam e +tractavam-se como gente mean, mas independente. + +Em tempos mais antigos e em vida dos dous filhos de D. Francisca, Fr. +Diniz, então Diniz d'Atahide e corregedor da commarca, frequentára +bastante aquella casa. Desde a morte do filho e do genro, que ambos +pereceram desastradamente n'um dia cruzando o Tejo n'um saveiro em +occasião de grande cheia, elle nunca mais lá tornára. + +Até que se metteu frade, e que passaram annos e que o fizeram guardião +do seu convento. + +Ja a nora e a filha da velha tinham morrido tambem. + +E foi notavel que na mesma hora em que Fr. Diniz professava em +San'Francisco de Santarem, vestia D. Francisca aquella tunica roxa que +nunca mais largou. + +Mas um dia, chegou Fr. Diniz á porta da casa do valle e disse: + +--'Deus seja n'esta casa!' + +A velha estremeceu, mas tornou logo a si, fez sahir as crianças que +brincavam aopé d'ella, fechou-se com o frade, e fallaram baixo um dia +inteiro. Rezaram e choraram, que tudo se ouviu; mas o que disseram e +conversaram nunca se soube. + +O frade foi-se ao anoitecer, a velha ficou rezando e chorando, e rezou e +chorou toda a noite. + +Isto fôra n'uma sexta-feira; d'ahi por deante em todas as sexta-feiras +de cada semana, Fr. Diniz vinha passar algumas horas com a velha. + +Não era seu confessor, mas dirigia-a como se o fosse, em tudo e por +tudo, menos no que respeitava a Joanninha. + +Havia no frade uma affectação visivel, um systema premeditado e +inalteravel de se abster completamente de tudo o que podesse intervir, +por mais remotamente que fosse, com aquella interessante criança. + +Joanninha não lhe tinha medo, mas o respeito que lhe elle inspirava era +misturado de uma aversão instinctiva, que, por contradicção inaudita e +inexplicavel, a deixava sympathizar com tudo quanto elle dizia e +professava: doutrinas, opiniões, sentimentos, tudo lhe agradava no +frade, menos a pessoa. + +Não assim Carlos, o primo, o companheiro, o unico amigo da nossa +Joanninha, o outro neto da velha por sua filha. Andava elle ja no último +anno de Coimbra e ia formar-se em leis, quando Fr. Diniz da Cruz começou +de novo a frequentar a casa que Diniz de Atahide tinha abandonado. + +Sôbre esse a inspecção do frade era minuciosa, vigilante, inquieta. Os +livros que elle lia, os amigos com quem vivia, as ideas que abraçava, as +inclinações para que pendia--de tudo se occupava Fr. Diniz, tudo lhe +dava cuidado. A elle directamente pouco lhe dizia, mas com a avó tinha +longas conferencias a esse respeito. + +Ultimamente parecia satisfazer-se com o geito que o mancebo indicava +tomar. + +--'É temente a Deus, não tem o ânimo cubiçoso nem servil, não é +hypocrita, o mania do liberalismo não o mordeu ainda... hade ser um +homem de prestimo:' dizia o frade a D. Francisca com verdadeira +satisfacção e interêsse. + +Passára porêm de seu meio o memoraval anno de 1830, e Carlos, que se +formára no princípio d'aquelle verão, tinha ficado por Coimbra e por +Lisboa, e so por fins d'agosto voltára para a sua familia. E veio +triste, melancholico, pensativo, inteiramente outro do que sempre fôra, +porque era de genio alegre e naturalmente amigo de folgar, o mancebo. + +O dia em que elle chegou era uma sexta-feira, dia de Fr. Diniz vir ao +valle. + +Passaram as primeiras saudações e abraços, ficaram sos os dous, e: + +--'Não gósto de te ver:' disse o frade. + +--'Pois quê? que tenho eu?' + +--'Tens que vens outro do que foste, Carlos.' + +--'Outro venho, é verdade; mas não se infadem de me ver, que o infado +hade durar pouco.' + +--'Que queres tu dizer?' + +--'Que estou resolvido a emigrar.' + +--'A emigrar, tu!... Porquê, paraquê? Que loucura é essa?' + +--'Nunca estive tanto em meu juizo.' + +--'Carlos, Carlos! nem mais uma palavra a similhante respeito. Em que +más companhias andaste tu, que maus livros lêste, tu que eras um +rapaz?.. Carlos, prohibo-te de pensar n'esses desvarios.' + +--'Prohibe-me... a mim... de pensar!... Ora, senhor...' + +--'Prohibo de pensar, sim. Le no teu Horacio se estás cançado das +pandectas. Vai para a eira com o teu Virgilio... ou passeia, caça, monta +a cavallo, faze o que quizeres, mas não penses. Ca estou eu para pensar +por ti.' + +--'Porquê? eu heide ser sempre criança? a minha vida hade ser ésta? +Horacio! tenho bom ânimo para ler Horacio agora... e a bella occupação +para um homem de vinteeum annos, scandar jambos e trocheus.' + +--'Pois le na tua biblia, que é poesia medida n'alma e que repasce o +espirito e o coração.' + +--'Eu não quero ser frade: sabe?' + +--'Nem te eu quero para frade.' + +--'Graças a Deus! Cuidei que... Mas em fim no seculo em que estamos...' + +--'O seculo em que estamos é o da presumpção e o da immoralidade: e eu +quero-te livrar de uma e de outra, Carlos. Tua avó sabe as minhas +tenções a teu respeito, approva-as...' + +--'Minha avó... approva muita coisa que eu reprovo.' + +--'Como assim, Carlos! que queres tu dizer?' + +--'Isto mesmo, senhor;--e que ámanhan que vou para Lisboa, imbarcar para +Inglaterra.' + +--'Carlos!' + +--'É uma resolução meditada e inalteravel. Não quero nada com ésta terra +nem com ésta...' + +--'Com ésta o quê, Carlos?..' + +--'Pois quer ouvi-lo, digo-lh'o: com ésta casa.' + +O frade suffocava, e balbuciou entre cholerico e aterrado: + +--'Dir-me-has porquê?..' + +--'Porque me abhorrece e me humilha este mando de um extranho aqui... +porque sempre desconfiei, porque sei emfim...' + +--'Sabes o quê?' + +--'Sei, padre Fr. Diniz, mas não me pergunte o que eu sei.' + +Amarello, roxo, pallido, negro, o frade tremia; sumiram-se-lhe mais os +olhos e faiscavam lá de dentro como duas brazas; fez um esfôrço sôbre si +mesmo para fallar, e disse com uma voz cava e cavernosa como de +sepulchro: + +--'Pois pergunto, sim; e permitta Deus!..' + +--'Padre, não jure nem pragueje' interrompeu Carlos com firmeza e +serenidade 'as suas intenções serão boas talvez... creio que são boas, +filhas de um remorso salutar...' + +--'Que dizes tu, Carlos... que disseste?.. Oh, meu Deus!' + +As scenas tinham mudado: Fr. Diniz parecia o pupillo, a sua voz tinha o +som da súpplica, ja não tremia de íra mas de anciedade; Carlos, pelo +contrario, fallava no tom austero e grave de um homem que está forte na +sua razão e que é generoso com a sua offensa. As palavras do mancebo +eram agras, via-se que elle o sentia e que procurava adoçá-las na +inflexão, que lhes dava. + +--'O que eu digo, padre Fr. Diniz, o que eu sou obrigado a dizer-lhe é +isto. Minha avó consentiu, por fraqueza de mulher, no que eu não posso +nem devo consentir. O que ha n'ésta casa não é... não é meu; o pão que +aqui se come... é comprado por um preço... Padre! ja ve que não podêmos +fallar mais n'este assumpto. Eu parto ámanhan para Lisboa.--Minha avó!' +acrescentou Carlos, mudando de voz e chamando para dentro 'minha avó!' + +A velha acudiu, elle disse-lhe a sua tenção, motivou-a em opiniões +politicas, declamou contra D. Miguel, mostrou-se enthusiasta da causa +liberal, e protestou que, n'aquelle anno, de tal modo se tinha +pronunciado em Coimbra e ainda em Lisboa, que só uma prompta fuga o +podia salvar...' + +A velha chorou, pediu, rogou... inutilmente, em vão. + +Fr. Diniz assistiu a tudo isto sem dizer palavra. + +E aquella tarde voltou mais cedo para o convento. + +No outro dia de manhan muito cedo, abraçado com a avó e com a priminha +que se desfaziam em lagrymas, Carlos dizia o último adeus áquella +querida casa, áquelle amado valle em que fôra criado... N'essa noite +estava em Lisboa, d'ahi a poucos dias em Inglaterra, e d'ahi a alguns +meses na ilha Terceira. + +Na sexta-feira depois da partida de Carlos, Fr. Diniz veio ao valle e +teve larga conferencia com a avó. + +Os tres dias seguintes a velha levou fechada no seu quarto a chorar... +no fim do terceiro dia estava cega. + +Joanninha era uma criança a esse tempo, parecia não intender nada do que +se passava. Mas quem a observasse com attenção, veria que ella dobrou de +carinho e de amor para com a avó, e que se não tornou a rir para o +frade... + +Elle, o frade, invelheceu de dez annos n'aquelle dia. Os olhos sumidos, +que era a feição dominante n'aquelle rosto ascetico, sumiram-se mais e +mais; a estatura alta e erecta curvou-se-lhe; o tremor nervoso, que o +tomava por accessos, tornou-se-lhe habitual; os tendões enrijaram-lhe, +os musculos da cara descarnaram-se, e a pelle ja sulcada de fundos +cuidados, arrugou-se e franziu-se toda em rugas cruzadas e confusas como +que se lh'a torrassem n'uma grelha. + +Nunca mais houve um dia de alegria no valle. A sexta-feira porêm era o +dia fatal e aziago. Fr. Diniz ja não vinha senão no fim da tarde e +demorava-se pouco; mas tanto bastava. Suspirava-se por aquella hora e +tremia-se d'ella. As notícias que consolavam, e os terrores que matavam, +o frade é que os trazia. O resto da semana levava-se a chorar e a +esperar. + +E assim se tinham passado dous annos até á sexta-feira em que primeiro +vimos junctas á porta da casa aquellas tres criaturas; assim se passou +até d'ahi a oito dias que a nossa historia volta a incontrá-los. + + + + +CAPITULO XVII. + + + De como, chegando outra sexta-feira e estando a avó e a neta á + espera do frade, este lhe appareceu, contra o seu costume, da banda + de Lisboa.--Porque razão muitas vezes a mais animada conversação é + a que mais facilmente pára e quebra derepente.--Nova demonstração + de dous grandes axiomas dos nossos velhos, a saber: Que o hábito + não faz o monge; e que ralhando as commadres, se descobrem as + verdades.--No ralhar da velha com o frade, levanta-se uma ponta do + veo que cobre os mysterios da nossa historia. + + +Passaram-se aquelles oito dias no valle, não ja como se tinham passado +tantas outras semanas em vagas tristezas, em desconsolação e +desconfôrto, mas em positiva anciedade e aguda afflicção pela certeza +que trouxera o frade de se achar Carlos no Porto fazendo parte do +pequeno exército do D. Pedro. + +Incertos rumores, d'aquelles que percorrem um paiz em tempos similhantes +e que augmentam e exaggeram, confundem todos os successos tinham chegado +até ás pacificas solidões do valle com as notícias de combates +sanguinarios, de commoções violentas, de desacatos sacrilegos, de +vinganças e reprezalias atrozes tomadas pelos aggressores, retribuídas +pelos que se defendiam. + +Chegou a sexta-feira; e as horas d'esse dia, sempre desejado e sempre +temido, foram contadas minuto a minuto--a qual mais longo, a qual mais +pezado e lento de volver, quanto mais se approximava o derradeiro. + +O sol declinava ja... e Fr. Diniz sem apparecer! + +No seu poiso ordinario aopé da porta da casa, Joanninha com os olhos +extendidos, a velha com os ouvidos álerta, devoravam o espaço na +direcção de nascente, esperando a cada momento, temendo a cada instante +ver apparecer o conhecido vulto, ouvir o som familiar dos passos do +frade. + +E tam intentas, tam absortas estavam ainda n'este cuidado, que não deram +fe d'um religioso que pelo lado opposto, isto é, da banda de Lisboa, +para alli se incaminhava a passos arrastados mas presurosos. + +Chegou rente d'ellas sem o sentirem; e uma voz conhecida, porêm mais +cava e funda do que nunca a ouviram, pronunciou a fórmula de saudação +costumada: + +--'Deus seja n'esta casa!' + +--'Amen!' responderam ambas machinalmente, com um estremeção +involuntario; e voltando derepente a cara para o lado d'onde vinha a +voz. + +--'Jesus!' disse depois a velha tornando a si, 'Padre Fr. Diniz, de +d'onde vem tam tarde?' + +--'Chego de Lisboa.' + +--'De Lisboa? Deus lh'o pague!... Foi saber?..' + +--'Fui, fui saber novas d'esta horrivel guerra, d'esta tremenda +visitação do Senhor á condemnada terra de Portugal...' + +--'E então, diga'... + +--'Boas novas, boas novas trago!' + +--'Sente-se, padre, sente-se. Joanninha, chega uma cadeira: descanse.' + +--'Não é tempo de descansar este, mas de vigiar e de orar.' + +--'Pois que succedeu, padre? Não me tenha n'esta horrivel suspensão. +Diga: onde está elle? Alguma desgraça grande lhe aconteceu, oh meu +Deus!.. + +--'E que me importa a mim o que aconteceu ou podia acontecer a mais um +de tantos perdidos? Encherá a sua medida, irá após dos outros... caminha +nas trevas com elles, e como elles, so hade parar no abysmo.' + +A éstas derradeiras palavras do frade asperamente pronunciadas e em tom +de indifferença e desprêzo, seguiu-se aquelle silencio comprimido, +aquella pausa de toda a conversação grave e íntima em que os pensamentos +são tantos que se atropellam e não acham sahida na voz. + +Fr. Diniz mentia... na dureza d'aquellas expressões mentia ao seu +coração--não mentia ao seu espirito. Como o caustico se applica á +epiderme para deslocar a inflammação interior, elle roçava o peito com +as asperidões de sua doutrina e de seus principios rigidos para +amortecer dentro a viva dor d'alma que o consummia. + +O frade estava por fóra, o homem por dentro. + +O observador vulgar não via senão o burel e a corda que amortalhavam e +cadaver. O que attentasse bem n'aquelles olhos, o que reparasse bem nas +inflexões d'aquella voz, diria: 'Frade, tu mentes; mentes sem saberes +que mentes: es sincero na tua fe, na tua austeridade, na tua abnegação; +mas o teu sacrificio é como o de Abraham na montanha, e Deus sabe que tu +não tens fôrça para o cumprir.' + +Não o percebeu assim a pobre velha aquem os rigores de Fr. Diniz faziam +tremer, e que para toda a affeição, para todo o sentimento humano +julgava morto o coração do cenobita. + +Ella que no silencio de suas noites sempre veladas, na perpétua +escuridão de seus dias sempre tristes luctava ha tanto tempo, luctava +debalde para desprender das affeições do mundo, aquelle seu pobre +coração que queria immollar ao Senhor, ella via com sancta inveja e +admiração as sobrehumanas fôrças que imaginava no frade; e desanimada de +o podêr seguir n'essas alturas da perfeição evangelica, recahia, mais +desalentada e mais miseravel que nunca, em toda a sua fraqueza de mulher +e de mãe. + +Oh! não sabe o que é tormento, o que é inferno n'este mundo, o que não +soffreu destas angústias! + +Mas permitte Deus que as padeça quem não tem grandes culpas, grandes e +irreparaveis erros que expiar n'este mundo? + +Eu creio firmemente que não. + +........................................................................... +........................................................................... + +Cansada e exhausta ja de tam porfiada lucta, a velha perdeu de todo a +razão com as derradeiras palavras do frade, e n'um paroxismo de chôro +exclamou: + +--'Diniz!.. Fr. Diniz, por aquelle pinhor sagrado que eu tenho em meu +podêr, por aquella preciosa cruz sôbre a qual se derramaram as últimas +lagrymas da minha desgraçada filha, Diniz!...' + +--'Silencio!' bradou o frade, arrancando um brado de dentro do peito que +fez gemer os echos todos do valle: 'Silencio, mulher! não conjure o +demonio que eu trago incarcerado n'este seio, que á fôrça de penitencias +mal pude domar ainda... que so a morte poderá talvez expellir. Mulher, +mulher! este cadaver que ja morreu que ja apodreceu em tudo o mais, que +ja o comem, sem o elle sentir, os bichos todos da destruição... este +cadaver tem um unico ponto vivo no coração... e o dedo do teu egoismo +ahi foi tocar, oh mulher!.. Peccado que estás sempre contra mim! Justiça +eterna de Deus quando serás satisfeita?' + +Rompêra na maior violencia a voz do frade, mas descahiu n'um tom baixo e +medonho ao fazer ésta última imprecação mysteriosa. As derradeiras +syllabas quasi que lhe morreram nos beiços convulsos, e ao balbuciá-las +deixou-se cahir, exhausto e como quem mais não podia, na cadeira que +Joanninha lhe chegára. + +A velha aterrada e confusa tremia do que fizera, como deante do espirito +immundo que seus maleficios evocaram, treme a maga assustada de seu +proprio podêr. + +Passaram alguns segundos que nenhumas palavras podem descrever. + +O frade levantou o rosto, olhou para ella, olhou para Joanninha... e, +como quem emerge, por grande esfôrço, de um pêso enorme d'aguas que o +submergiam, sacudiu a cabeça, sorveu um longo trago de ar, e disse na +sua voz ordinario, so mais debil: + +--'Carlos, senhora... minha irman, Carlos está vivo; e exaqui, vinda +pelo consul de França, uma carta d'elle.' + +Tirou uma carta da manga e a intregou a Joanninha. + + + + +CAPITULO XVIII. + + + Descobre-se que ha grandes e espantosos segredos entre o frade e a + velha.--Piedosa fraude de Joanninha.--Lucta entre o hábito e o + monge. + + +O frade intregou a carta a Joanninha, que, lançando os olhos ao +sobrescripto, ficou indecisa e inquieta como quem receia e deseja e teme +de saber alguma coisa. Elle com voz trémula e sobresaltada accrescentou: + +--'Adeus, que são horas!.. Leiam, e sexta-feira que vem... me dirão...' + +--'Poisquê' disse timidamente a velha 'não quer ouvir o que elle nos +escreve?' + +--'Sexta-feira que vem' continuou Fr. Diniz, sem ouvir ou sem attender a +pergunta 'sexta-feira que vem eu tomarei conta da resposta, e lh'a farei +chegar pela mesma via... So uma coisa! nem palavra a meu respeito: eu +para Carlos... morri.' + +--'Diniz!' exclamou a velha fóra de si 'Diniz!..' + +O frade tornou derepente ao seu tom austero, e respondeu gravemente: 'O +quê, minha irman?' + +--'Era' disse ella timida e submissa outra vez 'era se, era que... Pois +não hade ouvir ler a carta d'elle?' + +Fr. Diniz não respondeu, mas ficou sentado: descahiu-lhe a cabeça sôbre +o peito, e abraçando-se com o bordão, não deu mais signal de si. + +A velha escutou em silencio alguns segundos, e com aquelle ouvido +agudissimo--penetrante vista dos cegos--percebeu sem dúvida o que se +passava, e com mais confôrto e serenidade na voz disse: + +--'Abre, Joanna, lê, minha filha.' + +Joanninha abriu a carta, e percorreu com avidez as poucas linhas que +ella incerrava. + +--'Não les?' acudiu a avó com impaciencia: 'Lê, lê alto, Joanna.' + +--'É para mim so a carta' disse ella friamente. + +--'Para ti so, como?' tornou a outra. + +--'É para mim so ésta carta... não diz nada que...' + +--'Não diz nada!' replicou a avó 'Pois!... Lê, lê alto; seja como for, +lê, e oiçamos.' + +Joanninha parecia hesitar ainda; lançou os olhos ao frade, achou-o na +mesma attitude impassivel; voltou-se para a avó, viu-a anciada e +anxiosa... leu. + +A carta era com effeito para ella so, e carta bem singela, não continha +senão as ingenuas expressões de um amor fraterno nunca esquecido, longas +saudades do passado, poucas esperanças no futuro, quasi nenhumas de se +tornarem a ver tam cedo. Tudo isto porém era com a prima: para a +desconsolada avó, para ninguem mais... nem uma palavra. + +Joanninha ia lendo, lendo... e a voz a descahir-lhe: no fim ajunctou uns +abraços, umas saudosas lembranças, e não sei que phrase incompleta e mal +articulada em que se pedia a bençam da avó. + +A velha abanou a cabeça tristemente e disse: 'Ora pois... bemditto seja +Deus!' + +Joanninha córou até o branco dos olhos... Inda bem que a não podia ver a +avó! Mas viu-a Fr. Diniz, e com a mão trémula e os olhos arrazados +d'agua lhe fez um mudo e expressivo signal de approvação e +agradecimento. Joanninha córou outra vez, e logo se fez pallida como a +morte: era a primeira vez que mentia... e Fr. Diniz, o austéro Fr. Diniz +apprová-la! + +O frade levantou-se, e sem dizer palavra, tomou o caminho de Santarem. + +Ouvia-se ao longe o arquejar de uns soluços suffocados... Seriam d'elle? + +A avó e a neta abraçaram-se e choraram. + +Nenhuma d'ellas disse palavra sôbre a carta: a velha tinha percebido a +piedosa fraude de Joanninha... + +Oh! que existencias que eram aquellas quatro! Esse frade, essa velha e +essas duas crianças! E a maior parte da gente que é _gente_, vive +assim... E querem, querem-n'a assim mesmo, a vida, teem-lhe appêgo! Oh +que enigma é o homem! + +Tornou a passar outra semana, e o frade tornou a vir no praso costumado, +e levou a resposta da carta--resposta que Joanninha so escreveu e so +viu--e dirigiu-a em Lisboa pela via segura que indicára. + +Soube-se que fôra intregue; mas semanas e semanas decorreram, os meses +passaram de anno... e outra carta não veio. + +No entretanto a guerra civil progredia; e depois de suas tremendas +peripecias, o grande drama da Restauração chegava rapidamente ao fim. +Eram meiados do anno de 33, a operação do Algarve succedêra +milagrosamente aos constitucionaes, a esquadra de D. Miguel fôra tomada, +Lisboa estava em podêr d'elles. Os tardios e inuteis esforços dos +realistas para retomar a capital tinham occupado o resto do verão. Ja +outubro se descoroava de seus ultimos fructos, e as folhas começavam a +impallidecer e a cahir, quando uma sexta-feira, ao pôr do sol, Fr. Diniz +apparecia no valle mais curvado e mais trémulo que nunca. Vinha do +exército realista que então cercava Lisboa. + +Joanninha não era alli, a velha estava so. + +--'Que nos traz, padre?' clamou ella mal que o sentiu: 'Soube d'elle? +Tem escapado a éstas desgraças, a esses combates mortaes?' + +--'Não sei nada, minha irman: ha tres dias que de Lisboa se não póde +obter a menor informação. As linhas estão fechadas e guarnecidas como +nunca: tudo indíca havermos de ter cedo algum combate decisivo.' + +--'Deus seja com!..' + +--'Com quem, minha irman?' + +--'Com quem tiver justiça.' + +--'Nenhum a tem. De um lado e de outro está a ambição e a cubiça, de um +lado e de outro a immoralidade, a perdição e o desprêzo da palavra de +Deus. Por isso, vença quem vencer, nenhum hade triumphar.' + +--'Ai, o meu pobre filho, o meu Carlos!' + +--'Isso, irman Francisca, isso! Peça a Deus que dê a victoria a seu +neto, e á impiedade por que elle combate. Peça a Deus que vençam os +inimigos declarados do seu nome, os destruidores de seus altares, os +profanadores de seus templos... Oh! que dia bello e grande não hade ser +esse, quando Carlos... o seu Carlos, vier expulsar, ás baionetadas, do +pobre convento de San'Francisco, o velho guardião--que lhe não hade +fugir, minha irman!.. d'elle menos que de nenhum outro... que ajoelhado +deante do altar inclinará a cabeça como os antigos martyres para cahir +na presença do seu Deus ás mãos do seu...' + +--'Diniz!.. Padre!.. Padre Frei Diniz, que horrorosas palavras sahem da +sua bôcca!.. Meu neto, o meu Carlos não é capaz... oh meu Deus!..' + +--'Seu neto detesta-me... e tem... tem razão.' + +--'Não sabe a verdade elle... Carlos está inganado, cuida... não sabe +senão meia verdade: e eu, eu heide--custe o que me custar--eu heide...' + +--'Hade o quê?' + +--'Heide desinganá-lo, heide-lhe dizer a verdade toda. Heide prostrar-me +na sua presença, heide humilhar-me deante do filho de minha filha, heide +arrastar na poeira de seus pés éstas cans e éstas rugas... morrerei de +vergonha e de remorsos deante do meu filho, mas elle hade saber a +verdade.' + +Sahiam com tal impeto e com tam desacostumada energia éstas mysteriosas +e tremendas palavras da bôcca da velha, que Fr. Diniz não ousou +contê-la; ouviu até ao fim, deixou quebrar o impeto da torrente, e +erguendo então a sua voz austera mas pousada, disse n'aquelle tom +friamente decisivo que tanto impõe aos animos apaixonados: + +--'Se tal fizesse, mulher, a minha maldicção, a maldicção eterna de Deus +sôbre a sua cabeça para sempre!... Oh mulher, pois não lhe basta que +elle me abhorreça--não lhe basta que seu neto lhe perdesse o amor... +quer... quer tambem que nos despreze?' + +A velha gemeu profundamente, e, por um geito de antiga reminiscencia, +levou as mãos aos olhos como se os tapasse para não ver. Então disse com +desconsoladas lagrymas na voz: + +--'A vontade de Deus seja feita!' + + + + +CAPITULO XIX. + + + Guerra de postos avançados. Joanninha no bivac--De como os + rouxinoes do valle se disciplinaram a ponto de tocar a alvorada e a + retreta.--Quem era a 'menina dos rouxinoes,' e porque lhe poseram + este nome.--A sentinella perdida e achada. + + +A velha disse aquellas últimas palavras com uma expressão de dor tam +resignada, mas tam desconsolada, que o frade olhou para ella commovido, +e sentiu as lagrymas escurecerem-lhe a vista. + +N'este momento Joanninha, que passeiava a alguma distancia da casa na +direcção de Lisboa, acudiu sobresaltada bradando: + +--'Avó, avó!.. tanta gente que ahi vem! soldados e povo... homens e +mulheres... tanta gente!' + +Era a retirada de 11 de outubro. + +--'Deus tenha compaixão de nós!' disse a velha: 'O que será padre?' + +--'O que hade ser!' respondeu Fr. Diniz: 'o meu presentimento que se +verifica; o combate foi decisivo, os constitucionaes vencem.' + +Comeffeito foram apparecendo as tropas que se retiravam, as gentes que +fugiam, e todo aquelle confuso e doloroso espectaculo de uma retirada em +guerra civil... + +Alguns feridos, que não podiam mais, ficaram na casa do valle intregues +á piedosa guarda e cuidado de Joanninha; dos outros tomou conta Fr. +Diniz e os acompanhou a Santarem. + +As tropas constitucionaes vinham em seguimento dos realistas, e d'alli a +poucos dias tinham o seu quartel-general no Cartaxo; D. Miguel +fortificava-se em Santarem, e a casa da velha era o último posto militar +occupado pelo seu exército. + +Não tardou muito que a fôrça toda, todo o interêsse da guerra se não +concentrasse n'aquelle, ja tam pacífico e ameno, agora tam desolado e +turbulento valle. + +Eram os derradeiros dias do outomno, a natureza parecia tomar dó pelo +homem--dar triste e lugubre decoração de scena ao sanguento drama de +destruição e de miseria que alli se ía concluir. As últimas folhas das +árvores cahiam, o ceo nublado e negro vertia sôbre a terra apaulada +torrentes grossas d'agua, a cheia alagava os baixos, e as terras altas +cobriam-se de hervas maninhas, os trabalhos da lavoira cessavam, o gado +e os pastores fugiam, e os soldados de um e de outro campo cortavam as +oliveiras seculares... + +Tudo estava feio e torpe, tudo era ruina, desolação e morte emtôrno da +casa do valle, agora transformada em quartel e redutto militar. + +E que era feito, no meio d'ésta desordem, que era feito da nossa pobre +velha, da nossa interessante Joanninha? + +Apenas se estabeleceu a posição dos dous exercitos, Fr. Diniz queria +levá-las para Santarem; mas não foi possivel. Instancias, rogos, ordem +positiva, tudo foi em vão. Pela primeira vez na sua vida, aquella mulher +tímida, fraca e irresoluta, soube ter vontade firme e propria. + +--'Aqui nasci,' dizia ella, 'aqui vivi, aqui heide morrer. Que importa +como?.. Aqui as curtas alegrias, aqui as longas dores da minha vida teem +passado: onde heide eu ir que possa viver ou morrer senão aqui? Ésta +casa sei-a de cór, éstas árvores conhecem-me, estes sitios são os +ultimos que vi, os unicos de que me lembra: como heide eu, velha e cega, +ir fazer conhecimento com outros para viver n'elles?..' + +--'E Joanninha n'essa edade... no meio d'essa soldadesca!' suggeria o +frade. + +--'Joanninha' tornava ella 'Joanninha é uma criança, e tem mais juizo, +mais energia d'alma, mais saude e mais fôrça do que--mulheres não +fallemos--do que a maior parte dos homens. Ficaremos aqui, padre, +ficaremos aqui melhor do que em Santarem podêmos estar. Deus nos +defenderá...' + +Fr. Diniz cedeu: a mesma vaga e indeterminada esperança que animava a +velha, e que a prendia tam fortemente alli, não era extranha ao coração +do frade. Ella não ousava nem alludir de longe a essa esperança, mas +sentia-se que lá a tinha anninhada e escondida a um canto d'alma... +Aquelle neto, aquelle filho da filha querida havia de vir ter á casa em +que nascêra... por alli havia de passar, e mais dia menos dia... A +velha, repitto, nem alludia a tal esperança, mas sentia-se que a tinha: +percebeu-lh'a Fr. Diniz, e ou a partilhasse tambem ou não se atrevesse a +contrariar razões que lhe não davam, cedeu e callou-se. + +O seu principal temor era a licenciosa soltura dos costumes militares; +mas estava Joanninha menos exposta por se accolher a uma praça de guerra +como Santarem era agora? + +Brevemente se viu que a avó tinha accertado. A franca e ingenua +dignidade de Joanninha, o ar grave, a melancholia serena e bondosa da +velha impozeram tal respeito aos soldados, que--graças tambem á +cooperação efficaz do commandante do pôsto, um bom e honrado cavalheiro +transmontano--ellas viviam tam seguras e quietas na pequena porção da +casa que para si reservaram, quanto em taes circumstancias era possivel +viver. Fr. Diniz vinha regularmente ao valle todas as sexta-feiras, e +nenhum outro hábito de suas vidas se interrompeu. + +E pouco a pouco, os combates, as escaramuças, o som e a vista do fogo, o +aspecto do sangue, os ais dos feridos, o semblante desfigurado dos +mortos--a guerra emfim em todas as suas fórmas, com todo o seu +palpitante interêsse, com todos os terrores, com todas as esperanças que +a accompanham, se lhes tornou uma coisa familiar, ordinaria... + +A tudo se habitua o homem, a todo o estado se affaz; e não ha vida, por +mais extranha, que o tempo e a repettição dos actos lhe não faça +natural. + +Todavia de Carlos nem mais uma linha... Pobre velha! + +Assim passaram meses, assim correu o hynverno quasi todo, e ja as +amendoeiras se toucavam de suas alvissimas flores de esperança, ja uma +depois de outra, íam renascendo as plantas, íam abrolhando as árvores; +logo vieram as aves trinando seus amores pelos ramos... insensivelmente +era chegado o meio d'Abril, estavamos em plena e bella primavera. + +A guerra parecia cançada, o furor dos combatentes quebrado; rumores de +intentadas transacções gyravam por toda a parte. + +No nosso valle as sentinellas dos dous campos oppostos, costumadas ja a +ver-se todos os dias, começavam a ver-se sem odio: principiaram por se +dizer dos pesados gracejos de guerra, acabaram por conversar quasi +amigavelmente. Muíta vez foi curioso ouvi-los, os soldados, discorrer +sôbre as altas questões d'Estado que dividiam o reino e o traziam +revôlto ha tantos annos. Se as tractavam melhor os do conselho em seus +gabinetes! + +Joanninha que, pouco a pouco, se habituára áquelle viver de perigos e +incertezas, de dia para dia lhe ia crescendo o ânimo, aguerrindo-se. +Tudo se affazia áquelle estado: até os rouxinoes tinham voltado aos +loureiros d'aopé da casa, e como que disciplinados obedeciam aos toques +d'alvorada e de retreta, accompanhando-os de seu cantar animado e +vibrante. + +A essas horas Joanninha era certa em sua janella--n'aquella antiga e +elegante janella _renascença_ de que primeiro nos namorámos, leitor +amigo, ainda antes de a conhecer a ella. Alli a viam as vedetas de ambos +os exercitos, alli se acostumaram a vê-la com o nascer e o pôr do sol: +alli, muda e quêda horas esquecidas, escutava ella o vago cantar dos +seus rouxinoes, talvez absorta em mais vagos pensamentos ainda... + +E d'alli lhe pozeram o nome da 'menina dos rouxinoes', pelo qual era +conhecida em ambos os campos: significante e poetico appellido com que a +saudavam os soldados de ambas as bandeiras! + +E uns e outros respeitavam e adoravam a menina dos rouxinoes. Entre uns +e outros por tacita convenção parecia stipulado que aquella suave e +angelica figura podesse andar livremente no meio das armas inimigas, +como a pomba doméstica e valida a que nenhum caçador se lembra de mirar. + +Os costumes de guerra são menos soltos do que se cuida; no ânimo do +soldado ha mais sentimentos delicados, nas suas fórmas ha menos rudeza +do que se pensa. A farda é sim vaidosa e presumida, crê muito nos seus +podêres de seducção, mas não é brutal senão no primeiro impeto. + +Joanninha pençava os feridos, velava os infermos, tinha palavras de +consolação para todos, e em tudo quanto dizia e fazia era tam senhora, +tinha tam grave gentileza, um donaire tam nobre, que a amavam todos +muito, mas respeitavam-n'a ainda mais. + +Fiada ja n'este respeito e estima geral, Joanninha fôra extendendo, de +dia a dia, as suas excursões pelo valle. Ultimamente costumava ir, pelo +fim da tarde, até um pequeno grupo de alamos e oliveiras que ficava mais +para o sul e perto do logar donde, á noite, se collocavam as derradeiras +vedetas dos constitucionaes. + +Um dia, ja quasi pôsto o sol, a tarde quente e serena,--ou fosse que +adormeceu ou que suas meditações a distrahiram--o certo é que os +rouxinoes gorjeavam ha muito nos loureiros da janella, e Joanninha não +voltava. + +Estabeleceram-se as vedetas de um lado e outro, deram-se todas as +disposições costumadas para a noite. + +O official dos constitucionaes que andava collocando as suas +sentinellas, tinha vindo essa mesma tarde de Lisboa com um refôrço de +tropa. Pôs-se elle em marcha com a sua gente, foi-a dispondo nos logares +convenientes, e chegava emfim aopé d'aquelle grupo de árvores: + +--'Silencio!' disse elle 'Alto! alli está um vulto.' + +--'Não é ninguem,' respondeu um soldado que era dos antigos no pôsto: +'ninguem que importe; é a menina dos rouxinões. Estou vendo que +adormeceu no seu poiso costumado.' + +--'A menina dos rouxinões! Que cantiga é essa que me cantas tu lá?' + +O soldado deu a explicação popular do seu ditto, mostrou a casa do +valle, e continuava incarecendo sôbre os meritos e virtudes de +Joanninha... + +O official não o deixou acabar: + +--'Para a rettaguarda, e silencio!' + +Foi rapidamente postar, a alguma distancia d'alli, as duas sentinellas +que lhe faltavam; e elle entrou so no pequeno grupo d'árvores. + +Era Joanninha que estava alli, Joanninha que effectivamente dormia a +somno sôlto. + + + + +CAPITULO XX. + + + Joanninha adormecida--O demi-jour da coquette.--Poesia do + Flos-sanctorum.--De como os rouxinoes acompanhavam sempre a menina + do seu nome; e do bem que um d'elles cantava no bivac.--Retratto + esquissado á pressa para satisfazer ás amaveis + leitoras.--Pondera-se o triste e pessimo gôsto dos nossos + governantes em tirarem as honras militares ao mais elegante e mais + nacional uniforme do exército portuguez.--Em que se parece o auctor + da presente obra com um pintor da edade-média.--De como os abraços, + por mais apertados que sejam, e os beijos, por mais interminaveis + que pareçam, sempre teem de acabar porfim. + + +Sôbre uma especie de banco rustico de verdura, tapeçado de grammas e de +macella brava, Joanninha, meio recostada, meio deitada, dormia +profundamente. + +A luz baça do crepusculo, coada ainda pelos ramos das árvores, +illuminava tibiamente as expressivas feições da donzella; e as fórmas +graciosas de seu corpo se desenhavam molle e voluptuosamente no fundo +vaporoso e vago das exhalações da terra, com uma incerteza e indecisão +de contornos que redobrava o incanto do quadro, e permittia á imaginação +exaltada percorrer toda a escalla d'harmonia das graças femininas. + +Era um ideal do demi-jour da coquette parisiense: sem arte nem estudo, +lh'o preparára a natureza em seu boudoir de folhagem perfumado da brisa +recendente dos prados. + +Como n'essas poeticas e populares legendas de um dos mais poeticos +livros que se tem escripto, o Flos-sanctorum, em que a ave querida e +fadada accompanha sempre a amavel sancta de sua affeição--Joanninha não +estava alli sem o seu mavioso companheiro. Do mais espêsso da ramagem, +que fazia sobreceo áquelle leito de verdura, sahia uma torrente de +melodias, vagas e ondulantes como a selva com o vento, fortes, bravas, e +admiraveis de irregularidade e invenção, como as barbaras endeixas de um +poeta selvagem das montanhas... Era um rouxinol, um dos queridos +rouxinoes do valle que alli ficára de vela e companhia á sua protectora, +á menina do seu nome. + +Com o approximar dos soldados, e o cochichar do curto dialogo que no fim +do último capitulo se referiu, cessára por alguns momentos o delicioso +canto da avezinha; mas quando o official, postadas as sentinellas a +distancia, voltou pé ante pé e entrou cautellosamente para debaixo das +árvores, ja o rouxinol tinha tornado ao seu canto, e não o suspendeu +outra vez agora, antes redobrou de trillos e gorgeios, e do mais alto de +sua voz agudissima veio descahindo depois em uns suspiros tam magoados, +tam sentidos, que não disseras senão que preludiava á mais terna e +maviosa scena d'amor que esse valle tivesse visto. + +O official...--Mas certo que as amaveis leitoras querem saber com quem +trattam, e exigem, pelo menos, uma esquissa rapida e a largos traços do +novo actor que lhes vou appresentar em scena. + +Teem razão as amaveis leitoras, é um dever de romancista a que se não +póde faltar. + +O official era môço, talvez não tinha trinta annos; pôsto que o tratto +das armas, o rigor das estações, e o sêllo visivel dos cuidados que +trazia estampado no rosto, accentuassem ja mais fortemente, em feições +de homem feito, as que ainda devia arredondar a juventude. + +A sua estatura era mediana, o corpo delgado, mas o peito largo e forte +como precisa um coração de homem para pulsar livre; seu porte gentil e +decidido de homem de guerra desenhava-se perfeitamente sob o espesso e +largo sobretudo militar--especie de great-coat inglez que a imitação das +modas britannicas tinha tornado familiar nos nossos bivacs. Trazia-o +desabotoado e descahido para traz, porque a noite não era fria; e viu-se +por baixo elegantemente cingida ao corpo a fardeta parda dos caçadores, +realçada de seus characteristicos alamares pretos e avivada de +incarnado... + +Uniforme tam militar, tam nacional, tam caro a nossas recordações--que +essas gentes, prostituidoras de quanto havia nobre, popular e respeitado +n'esta terra, proscreveram do exército... por muito portuguez demais +talvez! deram-lhe baixa para os beleguins da alfandega, reformaram-n'o +em uniforme da bicha! + +Não pude resistir a esta reflexão: as amaveis leitoras me perdoem por +interromper com ella o meu retratto. + +Mas quando pinto, quando vou riscando e collorindo as minhas figuras, +sou como aquelles pintores da edade-média que interlaçavam, nos seus +paineis, distichos de sentenças; fittas lavradas de moralidades e +conceitos... talvez porque não sabiam dar aos gestos e attitudes +expressão bastante para dizer por elles o que assim escreviam, e servia +a penna de supplemento e illustração ao pincel... Talvez: e talvez pelo +mesmo motivo caio eu no mesmo defeito... + +Será; mas em mim é irremediavel, não sei pintar de outro modo. + +Voltemos ao nosso retratto. + +Os olhos pardos e não muito grandes, mas de uma luz e viveza ímmensa, +denunciavam o talento, a mobilidade do espirito--talvez a irreflexão... +mas tambem a nobre singeleza de um character franco, leal e generoso, +facil na íra, facil no perdão, incapaz de se offender de leve, mas +impossivel de esquecer uma injúria verdadeira. + +A bôcca, pequena e desdenhosa, não indicava comtudo suberba, e muito +menos vaidade, mas surria na consciencia de uma superioridade +inquestionavel e não disputada. + +O rosto, mais pallido que trigueiro, parecia comprido pela barba preta e +longa que trazia ao uso do tempo. Tambem o cabello era preto; a testa +alta e desaffogada. + +Quando callado e serio, aquella physionomia podia-se dizer dura; a mais +piquena animação, o mais leve sorriso a fazia alegre e prazenteira, +porque a mobilidade e a gravidade eram os dous pollos d'esse character +pouco vulgar e difficilmente bem intendido. + +D'aquelle busto classico e verdadeiramente moldado pelos typos da arte +antiga, podia o statuario fazer um philosopho, um poeta, um homem +d'estado ou um homem do mundo, segundo as leves inflexões d'expressão +que lhe désse. + +N'este momento agora, e ao entrar na pequena espessura d'aquellas +árvores, animava-o uma viva e inquieta expressão de interêsse--quebrado +comtudo, sustido, e, para assim dizer, _soffreado_ de um temor occulto, +de um pensamento reservado e doloroso que lhe ia e vinha resumbrando na +face, como a antiga e desbotada côr de um estôfo que se tingiu de +novo--que é outro agora mas que não deixou de ser inteiramente o que +era... + +Alegra-se assim um triste dia de novembro com o raio de sol transiente e +inesperado que lhe rompeu a cerração n'um canto do ceo... + +Tal era, e tal estava deante de Joanninha adormecida, o que não direi +mancebo porque o não parecia--o homem singular a quem o nome, a historia +e as circumstancias da donzella pareciam ter feito tamanha impressão. + +--'Joanninha!' murmurou elle apenas a viu á luz ainda bastante do +crepusculo. 'Joanninha!' disse outra vez, contendo a violencia da +exclamação: 'É ella sem dúvida. Mas que differente!... quem tal diria! +Que graça, que gentileza! Será possível que a criança que ha dois +annos?..' + +Dizendo isto, por um movimento quasi involuntario lhe tomou a mão +adormecida e a levou aos labios. + +Joanninha estremeceu e acordou. + +--'Carlos, Carlos!'--balbuciou ella com os olhos ainda meio-fechados, +Carlos, meu primo... meu irmão! era falso, dize: era falso? Foi um +sonho, não foi, meu Carlos?..' + +E progressivamente abria os olhos mais e mais até se lhe espantarem e os +cravar n'elle arregalados de pasmo e de alegria. + +--'Foi, foi' continuou ella 'foi sonho, foi um sonho mau que eu tive. Tu +não morreste... Falla á tua irman, á tua Joanna; dize-lhe que estás +vivo, que não es a sombra d'elle... Não es, não, que eu sinto a tua mão +quente na minha que queima, sinto-a estremecer como a minha... Carlos, +meu Carlos! dize, falla-me: tu estás vivo e são? E es... es o meu +Carlos? Tu proprio, não é ja o sonho, es tu?...' + +--'Pois tu sonhavas? tu, Joanna, tu sonhavas commigo?' + +--'Sonhava como sonho sempre que durmo... e o mais do tempo que estou +acordada... sonhava com aquillo em que so penso... em ti.' + +--'Joanna!... prima... minha irman!' + +E cahiu nos braços d'ella; e abraçaram-se n'um longo, longo abraço--com +um longo, interminavel beijo..! longo, longo e interminavel como um +primeiro beijo d'amantes... + +O abraço desfez-se; e o beijo terminou em fim, porque os reflexos do ceo +na terra são limitados e imperfeitos como as incompletas existencias que +a habitam. + +Senão... invejariam os anjos a vida da terra. + +Joanninha, tornada a si d'aquelle quasi paroximo, abria e fechava os +olhos para se affirmar se estava bem acordada, tocava com as mãos o +rosto, o peito, os braços do primo, palpava-se depois a si mesma como +quem duvidava de sua propria existencia, e dizia em palavras cortadas e +sem nexo: + +--'É Carlos... Carlos: foi falso. É meu primo... Minha avó tambem sonhou +o mesmo sonho, mas foi falso. Fr. Diniz não é o que disse, nem ninguem: +eu e a avó é que o sonhámos. Mas elle aqui está, vivo... vivo! e nosso, +nosso todo outra vez!... Mas como vieste tu aqui, Carlos? Como estava eu +aqui comtigo?... E sos, sosinhos aqui a ésta hora! Não deve ser isto... +Valha-me Deus! E que dirão? E Jesus!--Lá isso não me importa; deixá-los +dizer: mas não deve ser. Vamos, Carlos, vamos ter com ella, vamos para a +avó!... Que n'isto não ha mal nenhum... Meu primo!.. um primo com quem +eu fui criada!.. Mas quem não souber, póde dizer... Vamos, Carlos.--Oh! +minha avó morre de alegria, coitada!.. É verdade: vou adeante +preveni-la, prepará-la... heide-lhe ir assim dizendo pouco a pouco... +Segue-me tu, Carlos, e vamos.--Mas, oh meu Deus! não é preciso: paraquê? +Ella é cega, coitadinha, não sabes?' + +--'Cega, que dizes? minha avó está cega?' + +--'Pois não sabías? Ai! é verdade, não sabías. Tantas coisas que tu não +sabes, meu Carlos! Mas eu te contarei tudo, tudo. Olha: cegou quando... +Mas não fallemos agora n'essas tristezas que ja la vão. Em ella te +sentindo aopé de si, é o mesmo que tornar-lhe a vista. Tem-m'o ella +ditto muitas vezes, e eu bem sei que é assim. Mas ouve: um dia havemos +de fallar--nós dois sos--á vontade: tenho tanto que te dizer... nem tu +sabes... Agora vamos, Carlos.' + +E fallando assim, tomou-o pela mão e sahiu para o valle aberto, +froixamente acclarado ja de myríadas de estrellas scintillantes no ceo +azul. + + + + +CAPITULO XXI. + + + Quem vem lá?--Como entre dous litigantes nem sempre gosa o + terceiro.--Carlos e Joanninha n'uma especie de situação _ordeira_, + a mais perigosa e falsa das situações. + + +As estrellas luziam no ceo azul e diaphano, a brisa temperada da +primavera suspirava brandamente; na larga solidão e no vasto silencio do +valle distinctamente se ouvia o doce murmúrio da voz de Joanninha, +claramente se via o vulto da sua figura e da do companheiro que ella +levava pelo mão e que machinalmente a seguia como sem vontade propria, +obedecendo ao podêr de um magnetismo superior e irresistivel. + +Passavam, sem as ver e sem reflectir onde estavam, por entre as vedetas +de ambos os campos... e ao mesmo tempo de umas e outras lhes bradou o +voz breve e stridente das sentinellas: 'Quem vem lá?' + +Estremeceram involuntariamente ambos com o som repentino de guerra e de +allarma que os chamava á esquecida realidade do sítio, da hora, das +circumstancias em que se achavam... D'aquelle sonho incantado que os +transportára ao Éden querido de sua infancia, accordaram +sobresaltados... viram-se na terra erma e bruta, viram a espada +flammejante da guerra civil que os perseguia, que os desunia, que os +expulsava para sempre do paraizo de delicias em que tinham nascido... + +Oh! que imagem eram esses dous, no meio d'aquelle valle nu e aberto, á +luz das estrellas scintillantes, entre duas linhas de vultos negros, +aqui alli dispersos e luzindo acaso do tranziente reflexo que fazia +brilhar uma baioneta, um fuzil... que imagem não eram dos verdadeiros e +mais sanctos sentimentos da natureza expostos e sacrificados sempre no +meio das luctas barbaras e estupidas, no conflicto de falsos principios +em que se estorce continuamente o que os homens chamaram _sociedade_! + +Joanninha abraçou-se com o primo; elle parou derepente e foi com a mão +ao punho da espada. + +--'Quem vem lá?' tornaram a bradar as sentinellas. + +--'Ouves, Joanna?' disse Carlos em voz baixa e sentida: 'Ouves estes +brados?' É o grito da guerra que nos manda separar; é o clamor cioso e +vigilante dos partidos que não tolera a nossa intimidade, que separa o +irmão da irman, o pae do filho!..' + +--'Quem vem lá?' bradaram ainda mais forte as sentinellas; e ouviu-se +aquelle stridor baço e breve que tam froixo é e tam forte impressão faz +nos mais bravos animos... era o som dos gatilhos que se armavam nas +espingardas. + +O momento era supremo, o perigo imminente e ja inevitavel... alli podiam +ficar ambos, traspassados das ballas oppostas dos dous campos +contendores. + +Como esses que, fiados em sua innocencia e abnegação, cuidam podêr +passar por entre as discordias civis sem tomar parte n'ellas, e que são, +por isso mesmo, objecto de todas as desconfianças, alvo de todos os +tiros--assim estavam alli os dous primos na mais arriscada e falsa +posição que têem as revoluções. + +Joanninha conheceu o perigo que os ameaçava; e com aquella rapidez de +resolução que a mulher tem mais prompta e segura nas grandes occasiões, +disse para Carlos: + +--'Falla aos teus, faze-te conhecer e põe-te a salvo. Ámanhan nos +tornaremos a ver: eu te avisarei. Adeus!' + +--'E tu, tu?.. E as sentinellas dos realistas?..' + +--'Não tenhas cuidado em mim. D'esta banda todos me conhecem'. + +Deu alguns passos para o lado da sua casa e levantou a voz: + +--'Joanninha! Sou eu, camaradas, sou eu!' + +Immediatamente se ouviu o som retinido das coronhas no chão, e o riso +contente dos soldados que reconheciam a bemquista e bem vinda voz de +Joanninha... da 'menina dos rouxinoes.' + +--'Ves, Carlos?.. Adeus! até ámanhan.' disse ella baixo. + +--'Até amanhan se...' + +--'Se!.. Pois tu?..' + +--'Ouve: não digas a tua avó que me viste, que estou aqui: é forçoso, é +indispensavel, exijo-o de ti...' + +--'E ámanhan me dirás?..' + +--'Sim.' + +--'Prometto: não direi nada... Mas, oh! Carlos...' + +--'Adeus!' + +Carlos deu dous passos para a banda das suas vedetas, Joanna correu para +o lado opposto. Mas elle parou e não tirou os olhos d'aquella fórma +gentil que deslizava como uma sombra pelo horisonte do valle, até que +desappareceu de todo. + +E elle immovel ainda! + +Faíscaram derepente como relampagos um, dous, tres... e as detonações +que os seguiram, e o assovio das ballas que vinham depós ellas... Eram +as sentinellas constitucionaes que faziam fogo sôbre o seu commandante +que não conheciam, cujo silencio e immobilidade o fazia suspeito. + +Uma das ballas ainda o feriu levemente no braço esquerdo. + +--'Bem, camaradas!' bradou Carlos caminhando rapidamente para elles, e +erguendo a voz forte e cheia que tam conhecida era nas fileiras: 'Bem! +Fizeram a sua obrigação. Um de vocês que me aperte aqui o braço com este +lenço.' + +--'Carlos!' gritou ao longe uma voz fina, aguda, vibrante de terror pelo +espaço 'Carlos! falla-me, responde: não te succedeu nada?' + +--'Nada, nada! Socega.' + +E tornou a cahir tudo no silencio. Carlos retirou-se ao seu quartel +n'uma choupana proxima. Os soldados olharam-se entre si e surriram. + +Um mais doutor disse para os outros: + +--'O nosso capitão não se descuida: ainda hoje chegou, e já nós lá +vamos, hem?' + +--'O nosso capitão é d'aqui: não sabes?' + +--'Hum! tenho percebido. E ainda lhe dura? O home' é capaz!' + +--'Silencio! Eu te direi logo a historia toda: é uma prima.' + +--'Ah! prima. Então não ha nada que dizer.' + +--'É a que elles chamam aqui...' + +--'A menina dos rouxinoes? Essa é maluca.' + +--'Gosta d'ellas assim, que elle tambem o é.' + +--'Pois a freira de San Gonsallo, na Terceira?' + +--'Maluca.' + +--'E a Lady ingleza que?..' + +--'Maluquissima essa! Não me hade admirar se a vir cahir do ar um dia +por ahi como bomba. E não hade dar mau estallo!' + +--'Podéra! E incontrando-se com a prima então!..' + +--'Mas elle é prima ou é irman?' + +--'É uma tal parentella inrevezada a d'essa gente da casa do valle!.. +dizem coisas por ahi, que se eu as intendo!.. E ha um frade no caso, ja +se sabe...' + +--'Oh! elle ha frade no caso?' + +--'Ha, e que frade! Um apostolico ás direitas! Tam feio, tão magro! +apparece por ahi ás vezes. Eu já o lombriguei um dia: e que famoso tiro +que era! Quasi que me arrependo de não ter...' + +--'Isso! hoje iamos matando o nosso capitão por instantes. Olha agora se +lhe matas o tio, ou pae, ou o que quer que é...' + +--'Um frade!' + +--'Um frade não é gente?' + +--'Não senhor.' + +--'Está bom: basta de conversar por hoje. O que me eu parece é que nós +temos cedo muita pancada rija.' + +--'Venha ella, que isto ja abhorrece.' + +Accenderam os cigarros e fumaram. + +Com o mesmo socêgo d'espirito... sancto Deus! accendem os homens a +guerra civil, que altera e confunde por este modo todas as ideas, todos +os sentimentos da natureza. + + + + +CAPITULO XXII. + + + Bilhete de manhan da prima ao primo. Inganam a pobre da + velha.--Noite mal dormida.--Da conversa que teve Carlos com os seus + botões.--A Joanninha que elle deixára e a Joanninha que + achou.--Obrigações d'amor, triste palavra.--A mulher que elle + amava, e se elle a amava ainda.--Quesitos do A. aos seus benevolos + leitores. Declara que com os hypocritas não falla.--Quem hade + levantar a primeira pedra?--Dous modos differentes de accudir uma + coisa ao pensamento. + + +No dia seguinte, mal rompia a manhan, um paizano que dizia trazer +communicações importantes para o commandante do pôsto avançado, foi +conduzido á presença de Carlos e lhe intregou uma carta: era de +Joanninha. + +Fiel á sua promessa, ella não tinha ditto nada do incôntro da véspera: +dizia a carta. E que a avó estava doente e afflicta; que para a animar e +consolar, lhe dera notícias do primo, como vindas por pessoa que o víra +e estivera com elle. Que ficava mais contente e socegada: mas que +aquelle estado de anciedade não podia prolongar-se. Que a saude da pobre +velha declinava de dia a dia; que se lhe ia a vida, que era matá-la não +lhe dizer a verdade... Joanninha concluia com mil affectos e saudades; e +aprazava por fim o mesmo sítio da véspera para se tornarem a ver, e para +concertarem o que havia de fazer. Todas as precauções estavam tomadas, e +o consentimento dado pelo commandante do pôsto contrário para haver toda +a segurança n'aquella entrevista. + +Carlos tinha velado toda a noite; uma excitação extraordinaria lhe +amotinára o sangue, lhe desaffinára os nervos. Bem tinha desejado vir +para aquelle pôsto, bem contava, bem esperava elle, estando alli, saber +de mais perto da sua familia, vê-los talvez, mais dia menos dia, +incontrar-se com alguns d'elles... e de todos elles, a innocente e +graciosa criança com quem vivêra como irmão desde os seus primeiros +annos, era quem elle mais esperava, mais desejava ver decerto. + +Mas uma criança era a que elle tinha deixado, uma criança a brincar, a +colhêr as boninas, a correr atraz das borboletas do valle... uma criança +que sim o amava ternamente, cuja suave imagem o não tinha deixado nunca +em sua longa peregrinação, cuja saudade o accompanhára sempre, de quem +se não esquecêra um momento, nem nos mais alegres nem nos mais +occupados, nem nos mais difficeis nem nos mais perigosos da sua vida... + +Mas era uma criança!.. era a imagem d'uma criança. + +É certo, sim: e nas batalhas, em presença da morte... no longo cêrco do +Porto entre os flagellos da cholera e da fome, nas horas de mais viva +esperança, no descoroçoamento dos mais tristes dias, a doce imagem de +Joanninha, d'aquella Joanninha com quem elle andava ao colo, que +levantava em seus hombros para ella chegar aos ninhos dos passaros no +verão, aos medronhos maduros no outomno, que elle suspendia nos braços +para passar no hynverno os alagadiços do valle,--essa querida imagem não +o abandonára nunca. + +Nunca!.. nem quando as pennas d'amor, nem quando as suas glórias--mais +esquecidiças ainda!--pareciam absorver-lhe todos os sentidos, e todo o +sentimento de seu coração. + +A saudade, a memoria de Joanninha, suavemente impressa no mais puro e no +mais sancto de sua alma, resplandecia no meio de todas as sombras que +lh'a obscurecessem, sobreluzia no meio de qualquer fogo que lh'a +allumiasse. + +Uma luz quieta, limpida, serena como a tocha na mão do anjo que ajoelha +em innocencia e piedade deante do throno do Eterno! + +Mas, no mesmo dia em que chegou ao valle, quasi na mesma hora, cheio +d'aquella luz, mais viva e animada agora pela proximidade do foco d'onde +sahia... n'essa mesma hora, ir incontrar alli, n'aquella solidão, entre +aquellas árvores, á tibia e seductora claridade do crepusculo... a quem, +sancto Deus! Não ja a mesma Joanninha de ha tres annos, não a mesma +imagem que elle trazia, como a levára, no coração; mas uma gentil e +airosa donzella, uma mulher feita e perfeita, e que nada perdêra, +comtudo, da graça, do incanto, do suave e delicioso perfume da +innocencia infantil em que a deixára! + +Não esperava, não estava preparado para a impressão que recebeu, foi uma +surpreza, um choque, um reviramento confuso de todas as suas ideas e +sentimentos. + +Qual fosse porêm a precisa e verdadeira impressão que recebeu, nem elle +a si proprio o podéra explicar: era de um genero novo, unico na historia +de suas sensações: não a conhecia, extranhava-a, e quasi que tinha medo +de a analysar. + +Sería annúncio d'amor? + +Mas elle tinha amado, amado muito e devéras... e cuidava amar ainda, e +devia amar; por quanto ha sagrado e sancto nos deveres do coração, era +obrigado a amar ainda. + +Oh obrigações d'amor, obrigações d'amor! se vós não sois, se vós ja não +sois senão obrigações!.. + +Não o pensava Carlos, não o cria elle assim: leal e sincero tinha +intregue o seu coração á mulher que o amava, que tantas próvas lhe dera +d'amor e devoção; que descançava em sua fé, que não existia senão para +elle: mulher môça, bella, cheia de prendas e de incantos, mulher de um +espirito, de uma educação superior, que atravessára, desprezando-as, +turbas de adoradores nobres, riccos, poderosos, para descer até elle, +para se intregar ao foragido, pobre, extrangeiro, desprezado. + +Quem era essa mulher? + +Aonde, como obtivera elle a posse d'essa joia, d'esse talisman com o +qual se tinha por tam seguro para não ver na graciosa prima senão?.. + +Senão o quê? + +A innocente criança que alli deixára? + +Mas não é verdade isso: outra era a impressão que Joanninha lhe fizera, +fosse ella qual fosse. + +O que era então? + +E sôbre tudo, quem era ess'outra mulher que elle amava? + +E amava-a elle ainda? + +Amava. + +E Joanninha? + +Joanninha era... nem eu sei o que lhe era Joanninha... o que lhe estava +sendo n'aquelle momento. + +O que lhe ella fôra, assas t'o tenho explicado, leitor amigo e benevolo: +o que lhe ella será... Pódes tu, leitor candido e sincero,--aos +hypocritas não fallo eu--pódes tu dizer-me o que hade ser ámanhan no teu +coração a mulher que hoje somente achas bella, ou gentil, ou +interessante? + +Pódes responder-me da parte que tomará ámanhan na tua existencia a +imagem da donzella que hoje contemplas apenas com olhos de artista, e +lhe estás notando, como em quadro gracioso, os finos contornos; a pureza +das linhas, a expressão verdadeira e animada? + +E quando vier, se vier, esse fatal dia de ámanhan, responder-me-has +tambem da parte que ficará tendo em tua alma ess'outra imagem que lá +estava d'antes e que, ao reflexo d'esta agora, d'aqui observo que vai +impallidecendo, descórando... ja lhe não vejo senão os lineamentos +vagos... ja é uma sombra do que foi... Ai! o que será ella ámanhan? + +Leitor amigo e benevolo, caro leitor meu indulgente, não accuses, não +julgues á pressa o meu pobre Carlos; e lembra-te d'aquella pedra que o +Filho da Deus mandou levantar á primeira mão que se achasse innocente... +A adultera foi-se em paz, e ninguem a apedrejou. + +Pois é verdade: Carlos tinha amado, amado muito, e amava ainda a mulher +a quem promettêra, a quem estava resolvido a guardar fé. E essa mulher +era bella, nobre, ricca, admirada, occupava uma alta posição no mundo... +e tudo lhe sacrificára a elle exilado, desconhecido. + +E Carlos estava seguro que nenhuma mulher o havia de amar como ella; que +os longos e ondados anneis de loiro cendrado, que os languidos olhos de +gazella, que o ar majestoso e altivo, que a tez d'uma alvura celeste, +que o espirito, o talento, a delicadeza de Georgina... Chamava-se +Georgina; e é tudo quanto por agora póde dizer-vos, ó curiosas leitoras, +o discreto historiador d'este mui veridico successo: não lhe pergunteis +mais, por quem sois. Carlos estava seguro, dizia eu, que todas essas +perfeições, que o seu amor sem limites, que a sua confiança sem reserva, +não podiam ter rival, nem a haviam de ter. + +Mas aquelle beijo, aquelle abraço de Joanninha... oh! que lhe tinha elle +feito? Como o sentíra elle? Como lhe guardára o seu talisman o coração e +a alma?.. + +Não, Carlos estava certo de si, certo do seu antigo amor, lembrado de +quanto lhe devia: e n'isso reflectiu toda aquella noite que se fôra em +claro. + +A imagem de Joanninha lá apparecia, de vez em quando, como um raio de +luz transiente e magica, no meio d'ess'outras visões do passado que a +reflexão lhe acordava. Ai! essas era a reflexão que as acordava... +aquella vinha espontanea; era repellida, e tornava, e tornava... + +Ha sua notavel differença n'estes dois modos de accudir ao pensamento. + +A manhan veio em fim; Carlos respirou o ar puro e vivo da madrugada, +sentiu-se outro. + +Quando chegou a carta de Joanninha, leu-a e reflectiu n'ella sem +sobresalto. Certo e seguro de si, resolveu ir ao prazo dado para a +tarde. + + + + +CAPITULO XXIII. + + + Continúa a accudir muita coisa vaga e incontrada ao pensamento de + Carlos.--Dança de fadas e duendes.--Fr. Diniz o fado-mau da + familia.--Veremos, é a grande resolução nas grandes + difficuldades.--Carlos poeta romantico.--Olhos verdes.--Desafio a + todos os poetas moyen-ages do nosso tempo. + + +Não ha nada como tomar uma resolução. + +Mas hade tomar-se e executar-se: aliás, se o caso é difficil e +complicado, pouco a pouco as dúvidas solvidas começam a inliar-se outra +vez, a inredar-se... a surgir outras novas, a appresentarem-se faces +ainda não vistas da questão... em fim, se o intervallo é largo, quando a +resolução tomada chega a executar-se, a maior parte das vezes ja não é +por fôrça de razão e convicção que se faz, mas por capricho, ponto +d'honra, teima. + +Carlos tinha resolvido ir ao prazo dado, no fim do dia. Mas o dia era +longo, custou-lhe a passar. Todas as ponderações da noite lhe recorreram +ao pensamento, todas as imagens que lhe tinham fluctuado no espirito se +avivaram, se animaram, e lhe começaram a dançar n'alma aquella dança de +fadas e duendes que faz a delicia e os tormentos d'estes sonhadores +acordados que andam pelo mundo e a quem a douta faculdade chama +_nervosos_; em stylo de romance _sensiveis_, na phrase popular +_malucos_. + +Carlos era tudo isso: para que o heide eu negar? + +Entre aquellas imagens que assim lhe bailavam no pensamento, vinha uma +agora... talvez a que elle via mais distincta entre todas, a da avó que +tanto amára, em cujo maternal coração elle bem sabía que tinha a +primeira, a maior parte... da avó que tam carinhosa mãe lhe tinha sido! +Pobre velhinha, hoje decrepita e cega... Cega, coitada! Como e porque +cegaria ella? + +Havia ahi mysterio que Joanninha indicára, mas que não explicou. + +Atraz da paciente e humilhada figura d'aquella mulher de dores e +desgraças, se erguia um vulto austero e duro, um homem armado da cabeça +aos pés de ascetica insensibilidade, um homem que parecia o fado-mau +d'aquella velha, de toda a sua familia... o cumplice e o verdugo de um +grande crime... um ser de mysterio e de terror. + +Era Fr. Diniz aquelle homem; homem que elle desejava, que elle cuidava +detestar, mas por quem, no fundo d'alma, lhe clamava uma voz mystica e +íntima, uma voz que lhe dizia: 'Assim será tudo, mas tu não pódes +abhorrecer esse homem.' + +Sim, mas sôbre Fr. Diniz pesava uma accusação tremenda, que o fizera, a +elle Carlos, abandonar a casa de seus paes! Accusação horrivel que +tambem comprehendia a pobre velha, aquella avó que o adorava, e que +elle, ainda criminosa como a suppunha, não podia deixar de amar... + +E d'estes medonhos segredos sabía Joanninha alguma coisa? + +Esperava em Deus que não. + +Desconfiaria alguma coisa?... O quê? + +E iria elle polluir o pensamento, desflorar os ouvidos, corromper os +labios da innocente criança com o esclarecimento de taes horrores? + +Havia de lhe fallar na infamia dos seus? Havia de lhe explicar o motivo +porque fugira da casa paterna? + +Havia de?.. + +Não.--Se Joanninha tivesse suspeitas, havia de destrui-las antes; se +ella soubesse alguma coisa, negar-lh'a. + +Mentiria, juraria falso se fosse preciso. + +E não havia de ir ver a avó, não havia de entrar na casa dos seus a +consolar a infeliz que só vivia d'uma esperança, a de ver o filho de sua +filha? + +Não, nunca... O limiar d'aquella porta, que elle julgava contaminado, +infame, manchado de sangue e cuspido de opprobrios e deshonras, tinha-o +passado sacudindo o po de seus sapatos, promettendo a Deus e á sua honra +de o não tornar a cruzar mais. + +Mas que diria então elle a Joanninha? Como havia de explicar-lhe um +proceder tam extranho, e apparentemente tam cruel, tam ingrato? + +Por emquanto as impossibilidades materiaes da guerra serviriam de +desculpa, depois o tempo daria conselho. + +_Veremos_!--é a grande resolução que se toma nas grandes difficuldades +da vida, sempre que é possivel espaçá-las. + +Carlos disse: '_Veremos!_' + +Tomou todas as disposições para podêr estar seguro e socegado no sítio +onde ia incontrar a prima: e o resto do dia, ancioso mas contente, +occupou-se de seus deveres militares, fatigou o corpo para descançar o +espirito, e em parte e por bastantes horas o conseguiu. + +Mas um dia de abril é immenso, interminavel. E as últimas horas pareciam +as mais compridas. Nunca houve horas tammanhas! Carlos ja não tinha que +inventar para fazer: pôz-se a pensar. + +Que remedio! + +Pensou n'isto, pensou n'aquillo... uma idea lhe vinha, outra se lhe ia. +A imaginação, tanto tempo comprimida, tomava o freio nos dentes e corria +á redea sôlta pelo espaço... + +Anneis dourados, transas de ebano, faces de leite e rosas como de +cherubins, outras pallidas, transparentes, diaphanas como de princezas +incantadas, olhos pretos, azues, verdes... os de Joanninha em fim... +todas éstas feições, confusas e indistinctas mas de estremada belleza +todas, lhe passavam deante da vista, e todas o infeitiçavam. O +desgraçado...--Porque não heide eu dizer a verdade?--o desgraçado era +poeta. + +Inda assim! não me esconjurem ja o rapaz... Poeta, intendamo'-nos; não é +que fizesse versos: n'essa não cahiu elle nunca, mas tinha aquelle fino +sentimento d'arte, aquelle sexto sentido do _bello_, do _ideal_ que so +teem certas organizações privilegiadas de que se fazem os poetas e os +artistas. + +Eis aqui um fragmento de suas aspirações poeticas. Vejam as amaveis +leitoras que não teem metro, nem rhyma--nem razão... Mas emfim versos +não são. + + +'Olhos verdes!.. + +'Joanninha tem os olhos verdes... + +'Não se reflecte n'elles a pura luz do ceo, como nos olhos azues. + +'Nem o fogo--e o fummo das paixões, como nos pretos. + +'Mas o viço do prado, a frescura e animação do bosque, a fluctuação e a +transparencia do mar... + +'Tudo está n'aquelles olhos verdes. + +'Joanninha, porque tens tu os olhos verdes? + +'Nos olhos azues de Georgina arde, em sereno e modesto brilho, a luz +tranquilla de um amor provado, seguro, que deu quanto havia de dar, +quanto tinha que dar. + +'Os olhos azues de Georgina não dizem senão uma so phrase d'amor, sempre +a mesma e sempre bella: _Amo-te, sou tua!_ + +'Nos olhos negros e inquietos de Soledade nunca li mais que éstas +palavras: _Ama-me, que es meu!_ + +'Os olhos de Joanninha são um livro immenso, escripto em characteres +moveis, cujas combinações infinitas excedem a minha comprehensão. + +'Que querem dizer os teus olhos, Joanninha? + +'Que lingua fallam eles? + +'Oh! paraque tens tu os olhos verdes, Joanninha? + +'A assucena e o jasmim são brancos, a rosa vermelha, o alecrim azul... + +'Roxa é a violeta, e o junquilho côr de ouro. + +'Mas todas as côres da natureza vêem de uma so, o verde. + +'No verde está a origem e o primeiro typo de toda a belleza. + +'As outras côres são parte d'ella; no verde está o todo, a unidade da +formosura creada. + +'Os olhos do primeiro homem deviam de ser verdes. + +'O ceo é azul... + +'A noite é negra... + +'A terra e o mar são verdes... + +'A noite é negra mas bella: e os teus olhos, Soledade, eram negros e +bellos como a noite. + +'Nas trevas da noite luzem as estrellas que são tam lindas... mas no fim +de uma longa noite quem não suspira pelo dia? + +'E que se vão... oh! que se vão emfim as estrellas!.. + +'Vem o dia... o ceo é azul e formoso: mas a vista fatiga-se de olhar +para elle. + +'Oh! o ceo é azul como os teus olhos, Georgina... + +'Mas a terra é verde: e a vista repousa-se n'ella, e não se cança na +variedade infinita de seus matizes tam suaves. + +'O mar é verde e fluctuante... Mas oh! esse é triste como a terra é +alegre. + +'A vida compõe-se de alegrias e tristezas... + +'O verde é triste e alegre como as felicidades da vida. + +'Joanninha, Joanninha, porque tens tu os olhos verdes?..' + + +Ja se vê que o nosso doutor de bivac, o soldado que lhe chamou _maluco_ +ao pensador de taes extravagancias, tinha razão e sabía o que dizia. + +Infelizmente não se formulavam em palavras estes pensamentos poeticos +tam sublimes. Por um processo milagroso de photographia mental, apenas +se pôde obter o fragmento que deixo transcripto. + +Que honra e glória para a eschola romantica se podessemos ter a +collecção completa! + +Fazia-se-lhe um prefacio incisivo, palpitante, _britante_.... + +Punha-se-lhe um titulo vaporoso, phosphorescente... por exemplo:--Echos +surdos do coração--ou--Reflexos d'alma--ou--Hymnos +invisiveis--ou--Pesadellos poeticos--ou qualquer outro d'este genero, +que se não soubesse bem o que era nem tivesse senso commum. + +E que viesse ca algum menestrel de frak e chapeu redondo, algum trovador +renascença de collete á Joinville, luctar com o meu Carlos em pontos de +romantismo vago, descabellado, vaporoso, e nebuloso! + +Se algum d'elles era capaz de escrever com menos logica,--(com menos +grammatica, sim) e com mais triumphante desprêzo das absurdas e +escravizantes regras d'essa paleta d'essa eschola classica que não +produziu nunca senão Homero e Virgilio, Sophocles e Horacio, Camões e o +Tasso, Corneille e Racine, Pope e Moliere, e mais algumas duzias de +outros nomes tam obscuros como estes? + + + + +CAPITULO XXIV. + + + Novo Génesis.--O Adam social muito differente do Adam + natural.--Carlos sempre um por seus bons instinctos, sempre outro + por suas más reflexões.--De como Joanninha recebeu o primo com os + braços abertos, e do mais que entre elles se passou.--Dor meia dor, + meia prazer. + + +Formou Deus o homem, e o pôs n'um paraizo de delicias; tornou a formá-lo +a sociedade, e o pôs n'um inferno de tolices. + +O homem--não o homem que Deus fez, mas o homem que a sociedade tem +contrafeito, appertando e forçando em seus moldes de ferro aquella pasta +de limo que no paraizo terreal se affeiçoára a imagem da divindade--o +homem, assim aleijado como nós o conhecêmos, é o animal mais absurdo, o +mais disparatado e incongruente que habita na terra. + +Rei nascido de todo o creado, perdeu a realeza; principe desherdado e +proscripto, hoje vaga foragido no meio de seus antigos estados; altivo +ainda e suberbo com as recordações do passado, baixo vil e miseravel +pela desgraça do presente. + +D'estas duas tam oppostas actuações constantes, que ja per si sos o +tornariam ridiculo, formou a sociedade, em sua van sabedoria, um systema +chymerico, desarrazoado e impossivel, complicado de regras a qual mais +desvairada, incontrado de repugnancias a qual mais opposta. E vazado +este perfeito modêlo de sua arte pretenciosa, metteu dentro d'elle o +homem, desfigurou-o, contorceu-o, fê-lo o tal ente absurdo e +disparatado, doente, fraco, rachitico; collocou-o no meio do Eden +phantastico de sua creação,--verdadeiro inferno de tolices--e disse-lhe, +invertendo com blasphêmo arremêdo as palavras de Deus Creador: + +'De nenhuma árvore da horta comendo comerás; + +'Porêm da árvore da sciencia do bem e do mal, d'ella so comerás se +quizeres viver.' + +Indigestão de sciencia que não commutou seu mau estomago, presumpção e +vaidade que d'ella se originaram--tal foi o resultado d'aquele preceito +a que o homem não desobedeceu como ao outro: tal é o seu estado +habitual. + +E quando as memorias da primeira existencia lhe fazem nascer o desejo de +sahir d'esta outra, lhe influem alguma aspiração de voltar á natureza e +a Deus, a sociedade, armada de suas barras de ferro, vem sôbre elle, e o +prende, e o esmaga, e o contorce de novo, e o apperta no equuleo +doloroso de suas fôrmas. + +Ou hade morrer ou ficar monstruoso e aleijão. + +........................................................................... +........................................................................... + +Poucos filhos do Adam social tinham tantas reminiscencias da outra +patria mais antiga, e tendiam tanto a aproximar-se do primitivo typo que +sahíra das mãos do Eterno, forcejavam tanto por sacudir de si o pesado +appêrto das constricções sociaes, e regenerar-se na sancta liberdade da +natureza, como era o nosso Carlos. + +Mas o melhor e o mais generoso dos homens segundo a sociedade, é ainda +fraco, falso e acanhado. + +Demais, cada tentativa nobre, cada aspiração elevada de sua alma lhe +tinha custado duros castigos, severas e injustas condemnações d'esse +grande juiz hypocrita, mentiroso e venal... o mundo. + +Carlos estava quasi como os mais homens... ainda era bom e verdadeiro no +primeiro impulso de sua natureza excepcional; mas a reflexão descia-o á +vulgaridade da fraqueza, da hypocrisia, da mentira commum. + +Dos melhores era, mas era homem. + +Os seus pensamentos, as suas considerações em toda aquella noite, em +todo o dia que a seguíra, na hora mesma em que ia incontrar-se com o +objecto que mais lhe prendia agora o espírito, senão é que tambem o +coração, todas participavam d'aquella fluctuação inquieta e doentia de +seu ser d'homem social, em quem o tibio reflexo do homem natural apenas +relampejava por acaso. + +Dúvida, incerteza, vaidade, mentira deslocavam e annullavam a bella +organização d'aquella alma. + +Assim chegou aopé de Joanninha que o esperava de braços abertos, que o +appertou n'elles, que o beijou sem nenhum falso recato de maliciosa +modestia, e com o riso da alegria no coração e na bôcca lhe disse: + +--'Ora pois, meu Carlos, sentemo-nos aqui bem junctos aopé um do outro e +conversemos, que temos muito que fallar. Dá ca a tua mão. Aqui na +minha... Está fria a tua mão hoje! E hontem tam quente estava!.. Oh! +agora vai aquecendo... tanto tanto... é demais! Terás tu febre?' + +--'Não tenho.' + +--'Não tens, não: a cara é de saude. E como tu estás forte, grande, um +homem como eu sempre imaginei que um homem devia ser, como sempre te via +nos meus sonhos!.. Que é extranho isto, Carlos: quando sonhava comtigo, +não te via como tu d'aqui foste, magro, triste e doente; via-te como +vens agora, forte, são, alegre. Mas tu não estás alegre hoje, como +hontem; não estás... Que tens tu?' + +--'Nada, querida Joanninha, não tenho nada. Pensava...' + +--'Em que pensas tu? dize-me.' + +--'Pensava na differença dos nossos sonhos: que eu tambem sonhava +comtigo.' + +--'Sonhavas, Carlos! E como sonhavas tu? como me vias nos teus sonhos?' + +--'Tudo pelo contrario do que tu. Via-te aquella Joanninha piquena, +desinquieta, travêssa, correndo por essas terras, saltando essas vallas, +trepando a essas árvores... aquella Joanninha com quem eu andava ao +collo, que trazia ás cavalleiras, que me fazia ser tam doido e tam +criança como ella, apezar de eu ter quinze annos mais. Via-te alegre, +cantando...' + +--'Sonhos de homem! Creiam n'elles! Eu que nunca mais ri nem brinquei +desde o dia que tu partiste... E oh que dia, Carlos!.. E os que vieram +depois! Não houve nunca mais um so dia de alegria n'ésta casa. Oh!.. +deixa-me te dizer: Fr. Diniz... Sabes que não gósto d'elle?' + +--'Não gostas?' + +--'Nada: tenho-lhe aversão. E Deus me perdoe! parece-me que é injusta a +minha antipathia.' + +--'Porquê?' + +--'Porque elle é teu amigo devéras. Um pae, Carlos, um pae não tem maior +ternura e desvellos por seu filho, do que elle tem por ti.' + +--'Deus lhe perdoe!' + +--'Deus lhe perdoe a quem...e que lhe hade perdoar? O amor que te tem?' + +--'Não, mas...' + +--'Bem sei o que queres dizer: e tens razão.' + +--'Tenho razão!' + +--'Tens: o que elle bem precisa que Deus lhe perdoe é um grande +peccado.' + +--'Que dizes tu, Joanna! E como sabes?' + +--'Sei, sei tudo.' + +--'Tu!' + +--'Eu. Sei que foi elle quem fez cegar minha avó... a nossa boa, a nossa +sancta avó, Carlos!.. quem a cegou á fôrça de lagrymas que lhe fez +chorar áquelles pobres olhos que, de puro cançados, se apagaram para +sempre... Minha ricca avó!--E porquê, meus Deus, porquê!' + +--'Porquê?' + +--'Por amor de ti, por escrupulos que lhe metteu na cabeça de tu seres +mau christão, inimigo de Deus, que te não podias salvar... tu meu +Carlos! Vê que cegueira a do triste frade.' + +--'Bem triste!' + +--'Mas olha que o diz de boa-fé e pelo muito amor que te tem... que é um +amor que eu não intendo: e o mesmo é com minha avó, que treme deante +d'elle. E mais elle estima-a, estou certa que dava a vida por ella... e +por nós todos... por mim não tanto, mas por ti e por ella, dava decerto. +Mas o seu amor é dos que rallam, que, apoquentam... quasi que estou em +dizer que matam.' + +--'Matam, matam!' + +--'Nossa avó é elle que a mata decerto. Sempre a metter-lhe medos, +sempre escrupulos! O seu Deus d'elle é um Deus de terrores, de +vinganças, de castigos, e sem nenhuma misericordia. Oh! que homem! para +elle tudo é peccado, maldade... Não o posso ver.' + +Carlos respirava como desopprimido de um grande pêso, ouvindo as +explicações da prima que bem claro lhe mostravam a sua perfeita +ignorancia dos fataes segredos da familia. + +--'E comtigo' disse elle ja n'outra voz mais desaffogada 'comtigo, +Joanninha, como se avêm elle, como te tracta?' + +--'Commigo não se mette, e rara vez me falla. Mas oh, se elle soubesse +que eu estava aqui comtigo, sancto Deus! o que ouviria a pobre da minha +avó! Inda bem que hoje não é sexta-feira, senão não vinha eu ca.' + +--'Porquê? Ainda vem todas as sexta-feiras?' + +--'Sempre o mesmo. Ámanhan ca o temos por peccado, que é sexta-feira.' + +--'Não te vejo então ámanhan aqui?' + +--'Não decerto, aqui. Mas vamos, que a isso é que eu venho ca hoje, para +te fallar n'isso... e para te ver, para fallar comtigo, para estar com o +meu Carlos... e ao mesmo tempo tambem para ajustarmos como isto hade +ser. Quando has-de tu ir ver a avó?.. a nossa mãe; que ella é nossa mãe, +Carlos, não conhecémos nunca outra, nem eu nem tu. Quando lhe heide eu +dizer que estás aqui? A pobre velhinha está tam doente! Ha quinze dias +que se não levanta da cama.' + +--'Coitada da minha pobre mãe!.. Oh! se não fosse!.. Deixa estar, +Joanninha; um dia será. Por agora, não póde ser: bem vês. Como heide eu +atravessar as sentinellas dos realistas, ir a um pôsto inimigo?--A minha +vida... isso pouco importa, mas a minha honra ficava em perigo: por +todos os modos a perdia, e talvez...' + +--'Não senhor, Sr. Carlos, essa desculpa não basta. Vai n'um anno que +aqui temos a guerra á porta de casa, e ja sabemos como isso é e como as +coisas se fazem. O commandante do nosso pôsto é um homem de bem, um +cavalheiro perfeito. Em lhe eu dizendo quem tu es e a que ca vens... +elle sabe o estado da minha avó, e tem-lhe muita amizade, da-nos decerto +licença para tu vires em toda a segurança. Pensas que elle não sabe que +estou comtigo aqui? Pois disse-lh'o eu; só lhe não expliquei quem tu +eras; disse-lhe que eras um parente nosso que nos trazia notícias de +outros, e que precisava fallar-te. Não pôs dificuldade alguma: é uma +pessoa excellente, bom, bom devéras.' + +--'É môço o teu commandante?' + +--'Môço elle? coitado! Tem bons cinquenta annos, e creio que outros +tantos filhos. Mas por que perguntas tu isso? E arqueaste as +sobrancelhas com aquelle teu ar de antes quando te zangavas! Porque foi +isso, Carlos?' + +--'Nada, criança, foi uma pergunta á toa.' + +--'Pois será; mas não me franzas nunca mais a testa assim, que te +pareces todo... é que nunca vi tal parecença...' + +--'Com quem?' + +--'Com Fr. Diniz.' + +--'Eu com elle!' + +--'Tal e qual quando fazes essa cara. Olha: ahi estás tu na mesma. +Vamos! ria-se e esteja contente se se quer parecer commigo, que todos +dizem que nos parecemos tanto.' + +--'Querida innocente!' + +E beijou-lhe a mão que tinha appertada na sua, beijou-lh'a uma e muitas +vezes com um sentimento de ternura misturado de não sei que vaga +compaixão, vindo de lá de dentro d'alma com não sei que dor, meia dor +meia prazer, que entre ambos se communicou e a ambos humedeceu os olhos. + + + + +CAPITULO XXV. + + + O excesso da felicidade que aterra e confunde tambem.--Pasmosa + contradicção da nossa natureza.--De como os olhos verdes de + Joanninha se inturvaram e perderam todo o brilho.--Que o coração da + mulher que ama, sempre adivinha certo. + + +Carlos tinha a mão de Joanninha appertada na sua; e os olhos humidos de +lagrymas cravados nos olhos d'ella, de cujo verde transparente e +diaphano sahiam raios de ineffavel ternura. + +Dizer tudo o que elle sentia é impossivel: tam incontrados lhe andavam +os pensamentos, em tam confuso tumulto se lhe alvorotavam todos os +sentidos. + +Por muito tempo não proferiram palavra, nem um nem outro; mas fallaram +assim longos discursos. + +Emfim, Joanninha voltou á sua primeira insistencia e disse para o primo: + +--'Olha, Carlos, ámanhan é sexta-feira, ja te disse, vem Fr. Diniz: +quando haja a menor difficuldade do commandante, a elle não lhe recusa +nada...' + +--'Por quanto ha no ceo, Joanninha, pela tua vida, pela de nossa avó, +nem uma palavra ao frade da minha estada aqui! A elle, oh! a elle jurei +eu não tornar a ver. E se minha avó...' + +--'Basta: não lhe direi nada. Mas á nossa avó quando lh'o heide dizer, e +quando hasde tu ir ve-la?' + +--'Porora não: preciso licença de Lisboa, ou do quartel-general quando +menos, para fazer uma coisa que todas as leis da guerra prohibem, que +nas actuaes circumstancias e em similhante guerra ainda é mais defesa. E +sem isso--tu bem sabes que as minhas resoluções não se mudam--sem isso +não o faço. Em todo o caso, que Fr. Diniz nem sonhe!..' + +--'E quanto tempo, quantos dias se hãode passar?' + +--'Eu sei? oito, quinze dias talvez, talvez mais.' + +--'E a minha pobre avó, coitadinha! a morrer de saudades...' + +--'Consola-a tu, Joanninha: dize-lhe que tiveste novas minhas, que estou +bom, que me não falta nada, que tenho esperanças de vos ver muito cedo.' + +--'E eu... eu posso, eu heide ver-te todos os dias: não, Carlos?' + +--'Ámanhan é sexta-feira...' + +--'Ámanhan é o dia negro... nem eu queria: ámanhan não póde ser, bem +sei. Mas, tirado ámanhan, meu Carlos, oh! todos os dias!' + +--'Sim, querido anjo, sim.' + +--'Promettes?' + +--'Juro-t'o.' + +--'Succeda o que succeder?' + +--'Succeda o que... So ha uma coisa que... Mas essa não... não é +possivel.' + +--'O que é, Carlos? que póde haver, que póde succeder que te impeça +de?..' + +Carlos estremeceu... hesitou, corou, fez-se pallido... quiz dizer-lhe a +verdade e não ousou... + +Porquê?.. E que verdade era essa? Não a direi eu, ja que elle a não +disse: fiel e discreto historiador, imitarei a discrição do meu heroe. + +Pois era discrição a d'elle? + +Não... em verdade, era outra coisa. + +Era um pensamento reservado? + +Não. + +Era tenção má, ingano premeditado, era?.. + +Não, tambem não. + +O que era pois? + +Era a dúvida, era a fraqueza, era a vaidade, a mentira congenial e +obrigada, a necessaria falsidade do homem social. + +Carlos mentiu e disse: + +--'Só se m'o prohibirem expressamente... os meus chefes.' + +Mas não era isso o que elle receiava; não era esse aquelle motivo unico +e superior que elle temia podesse vir um dia derepente cortar as doces +relações de convivencia a que tam prestes se habituára, que ja lhe +pareciam parte necessaria, indispensavel da sua vida. Não era, não; e +Carlos tinha mentido... + +Joanninha olhou para elle fixa... Carlos corou de novo. Ella fez-se +pallida... d'ahi corou tambem. + +--'Carlos, tu não es capaz de mentir...' + +--'Joanninha!' + +--'Tu es o meu Carlos... tu queres-me como me querias d'antes...' + +--'Sou... oh! sou. E amo-te...' + +--'Como d'antes?' + +--'Mais.' + +--'Pois olha, Carlos: eu nunca amei, nunca heide amar a nenhum homem +senão a ti.' + +--'Joanna!' + +--'Carlos!' + +Iam a cahir nos braços um do outro... A singela confissão da innocencia +ia ser acceita por quem e como, sancto Deus! Aquella palavra de oiro, +aquella doce palavra que tanto custa a pronunciar á mulher menos +arteira; que adivinhada, sabida, ouvida ha muito pelo coração, ditta mil +vezes com os olhos, nenhum homem descança nem se tem por feliz, por +certo de sua felicidade, em quanto a não ouve proferir pelos +labios--essa palavra celeste que explica o passado, que responde do +futuro, que é a última e irrevocavel sentença de um longo pleito de +anciedades, de incertezas e de sustos--essa final e fatal palavra +_amo-te_, Joanninha a pronunciára tam naturalmente, tam sincera, tam sem +difficuldades nem hesitações, como se aquelle fosse--e era decerto--como +se aquelle tivesse sido sempre o pensamento unico, a idea constante e +habitual de sua vida. + +O excesso da felicidade aterra e confunde tambem. Um momento antes, +Carlos dera a sua vida por ouvir aquella palavra... um momento +depois--oh pasmosa contradicção de nossa dupplice natureza! um momento +depois dera a vida pela não ter ouvido. No primeiro instante ia +lançar-se nos braços da innocente que lh'os abria n'um sancto extasi do +mais apaixonado amor; no segundo, tremeu e teve horror da sua +felicidade. + +--'Joanna' exclamou elle 'Joanna, querida, sabes tu se eu mereço... +sabes tu se deves?..' + +--'Sei. Desde que me intendo, não pensei n'outra coisa; desde que d'aqui +foste, comecei a intender o que pensava... disse-o a minha avó, e +ella...' + +--'E ella?..' + +--'Ella abençoou-me, chamou-me a sua querida filha, abraçou-me, +beijou-me, e disse-me que aquella era a primeira hora de felicidade e de +alegria que ha muitos annos tinha tido.' + +Carlos não respondeu nada e olhou para Joanninha com uma indicivel +expressão de affecto e de tristeza. Os raios de alegria que +resplandeciam n'aquelle semblante--agora bello de toda a belleza com que +um verdadeiro amor illumina as mais desgraciosas feições--os raios +d'essa alegria começaram a amortecer, a apagar-se. A lucida +transparencia d'aquelles olhos verdes turvou-se: nem a clara luz da +agua-marinha, nem o brilho fundo da esmeralda resplandecia ja n'elles; +tinham o lustro baço e morto, o polido mate e silicioso de uma d'essas +pedras sem agua nem brilho que a arte antiga ingastava nos collares de +suas estátuas. + +--'Adeus Joanna!' disse Carlos perturbado e confuso. + +--'Adeus, Carlos!' respondeu ella machinalmente. + +--'Até depois de ámanhan, Joanna.' + +--'Pois sim.' + +--'Depois de ámanhan te direi...' + +--'Não digas.' + +--'Porquê?' + +--'Porque é excusado: ja sei tudo.' + +--'Sabes!' + +--'Sei.' + +--'O quê?' + +--'O que tu não tens ânimo para me dizer, Carlos; mas que o meu coração +adivinhou. Tu não me amas, Carlos.' + +--'Não te amo! eu!.. Sancto Deus! eu não a amo...' + +--'Não. Tu amas outra mulher.' + +--'Eu! Joanna, oh! se tu soubesses...' + +--'Sei tudo.' + +--'Não sabes.' + +--'Sei: amas outra mulher, outra mulher que te ama, que tu não pódes, +que tu não deves abandonar, e que eu...' + +--'Tu?' + +--'Eu sei que é bella, prendada, cheia de graças e de incantos, +porque... porque tu, meu Carlos, porque o teu amor não era para se dar +por menos.' + +--'Joanna, Joanninha!' + +--'Não digas nada, não me digas nada hoje... hoje sobretudo, não me +digas nada. Ámanhan...' + +--'Ámanhan é sexta-feira.' + +--'Inda bem! terei mais tempo para reflectir, para considerar antes de +tornar a ver-te. Adeus Carlos!' + +--'Uma palavra so, Joanna. Cuidas que sou capaz de te inganar?' + +--'Não; estou certa que não.' + +--'Até ámanhan... até depois de ámanhan.' + +--'Adeus!' + +Abraçaram-se, e d'esta vez froixamente; beijaram-se de um osculo timido +e recatado... os beiços de ambos estavam frios, as mãos trémulas; e o +coração comprimido batia, batia-lhes forte que se ouvia. + +Retirou-se cadaum por seu lado. A noite estava pura e serena como na +vespera, as estrellas luziam no ceo azul com o mesmo brilho; o silencio, +a majestade, a belleza toda da natureza era a mesma... so elles eram +outros... outros, tam outros e differentes do que foram! + +Tinham-se dado cuidadosamente as providencias; ambos chegaram, sem +nenhum accidente, ao seu destino. + + + + +NOTAS + + + + +NOTAS + +AO LIVRO PRIMEIRO. + + +*Nota A.* + + + Que viage á roda do seu quarto, quem está a beira dos Alpes + + pag. 1. + + +É visivel allusão ao popular e inimitavel opusculo de Xavier de Maistre, +_Voyage autour de ma chambre_, que decerto foi principiado a escrever em +Turim, e que muitos suppoem que fôsse concluido em San'Petersburgo. + + +*Nota B.* + + + Designio politico determinado a minha visita (a Santarem) + + pag. 2. + + +É puramente historico isto; e tambem é verdade que em grande parte +d'aqui se originou a persiguição brutal que soffreu o A. d'ahi a poucos +meses. + + +*Nota C.* + + + N'uma _regata_ de vapores + + pag. 3. + + +_Regata_ chamavam, e não sei se chamam ainda, em Veneza ás carreiras de +barcos appostados ao desafio. A palavra e a coisa introduziu-se em +Inglaterra, onde é moda e popularissima. + + +*Nota D.* + + + Eu coroarei de trevo a minha espada + + pag. 24. + + +Estes versos são uma especie de parodia dos famosos fragmentos de Alceu +de que so existe memoria nos scholios que nos conservou Eustathio. Nas +_Flores sem fructo_, pag. 56 a traducção d'aquelle bello fragmento. + + +*Nota E.* + + + Depois de tantas commissões de inquerito, deve de andar orçado o + número de almas + + pag. 25. + + +Os protocollos das commissões de inquerito de ha oito para dez annos a +ésta parte, sôbre o estado das classes trabalhadoras e indigentes em +Inglaterra, é a próva real dos grandes calculos da economia politica, +sciencia que eu espero em Deus se hade desacreditar muito cedo. + + +*Nota F.* + + + There are more things etc. + + pag. 26. + + +A traducção chegada d'estes memoraveis versos de Shakspeare é: + + Ha mais coisas no ceo, ha mais na terra + Do que sonha a tua van philosophia. + + +*Nota G.* + + + Um _Chourineur_... uma _Fleur-de-Marie_ + + pag. 28. + + +Personagens, bem conhecidos geralmente, do romance tam popular de Eug. +Sue, _Os Mysterios de París_. + + +*Nota H.* + + + Fossem lá á rainha Anna + + pag. 34. + + +Addison, o poeta, foi ministro da rainha Anna de Inglaterra, e membro do +célebre gabinete chamado de _All-wits_. + + +*Nota J.* + + + Quando chegou alli pelos Prazeres + + pag. 56. + + +Um dos dois cemiterios de Lisboa--seja ditto para intelligencia do +leitor provinciano--chama-se _Dos Prazeres_, por uma ermida de N. S.^a +que alli existia com ésta invocação desde antes do terreno ter o +presente destino. É notavel a coincidencia do nome. + + +*Nota K.* + + + O verdadeiro alfageme... tinha pelo povo e não queria saber de + partidos + + pag. 64. + + +É facil de ver que o interlocutor d'este dialogo conhecia esse curioso +personagem da historia do Condestavel, não pelas chronicas mas pelo +drama que tem o seu nome. + + +*Nota L.* + + + Do _Sacré-Coeur_ e das suas elegantes devotas + + pag. 89. + + +O convento que tem este nome em París, é casa de educação de meninas +nobres, e recolhimento de senhoras tambem. + + +*Nota M.* + + + Graciosa sculptura de Antonio Ferreira + + pag. 106. + + +Antonio Ferreira, que viveu no fim do seculo passado, princípio d'este, +modelava em barro com a mesma graça e naturalidade flamenga, com que +pintava o morgado de Setubal: as suas piquenas figurinhas são tam +estimadas pelos intendedores como os melhores biscoitos de Sevres e de +Saxonia antiga. + + +*Nota N.* + + + Ave phenix que nasceu de nossos avós não saberem grego + + pag. 115. + + +A fábula daquella ave immortal teve origem nas edades obscuras da Europa +quando o grego era ignorado. O que os antigos diziam da _phenix_, +palmeira em grego, tomaram nossos barbaros avós por ditto de uma +passarolla com que os outros nunca sonharam. + + + + +INDICE. + + +Prologo dos editores. pag. v + +Capitulo I.--De como o auctor d'este erudito livro se resolveu a viajar +na sua terra, depois de ter viajado no seu quarto; e como resolveu +immortalizar-se escrevendo éstas suas viagens. Parte para Santarem. +Chega ao Terreiro do Paço; imbarca no vapor de Villa-Nova; e o que ahi +lhe succede. A Deducção-Chronologica e a baixa de Lisboa. Lord Byron e +um bom charuto. Travam-se de razões os ilhavos e os bordas-d'agua, e os +da calça larga levam a melhor. 1 + +Capitulo II.--Declaram-se typicas, symbolicas e mythicas éstas viagens. +Faz o A. modestamente o seu proprio elogio. Da marcha da civilização; e +mostra-se como ella é dirigida pelo cavalleiro da Mancha, D. Quixote e +por seu escudeiro, Sancho Pança.--Chegada a Villa-Nova-da-Rainha. +Supplicio de Tantalo.--A virtude galardão de si mesma; e sophisma de +Jeremias-Bentham.--Azambuja. 13 + +Capitulo III.--Acha-se desappontado o leitor com a prosaica sinceridade +do A. d'estas viagens.--O que devia ser uma estalagem n'estas nossas +eras de litteratura romantica?--Suspende-se o exame d'esta grave questão +para tractar, em prosa e verso, um muito difficil ponto de +economia-politica e de moral social.--Quantas almas é preciso dar ao +diabo, e quantos corpos se teem de intregar no cemiterio para fazer um +ricco n'este mundo.--Como se veio a descobrir que a sciencia d'este +seculo era uma grandecissima tola.--Rei de facto, e rei de +direito.--Belleza e mentira não cabem n'um sacco.--Põe-se o A. a caminho +para o pinhal da Azambuja. 23 + +Capitulo IV.--De como o A. foi pensando e divagando; e em que pensava e +divagava elle, no caminho da villa da Azambuja até o famoso pinhal do +mesmo nome.--Do poeta grego e philosopho Démades e do poeta e philosopho +ingles Addison: da casaca de penneiros e do palio atheniense, e de +outros importantes assumptos em que o A. quiz mostrar sua profunda +erudição.--Discute-se a materia gravissima se é necessario que um +ministro d'estado seja ignorante e leigarraz.--Admiraveis reflexões de +zigzag em que se tracta de _re politica_ e de _re +amatoria_.--Descobre-se porfim que o A. estivera a sonhar em todo este +capitulo, e pede-se ao leitor benevolo que volte a folha e passe ao +seguinte. 31 + +Capitulo V.--Chega o A. ao pinhal da Azambuja, e não o acha. Trabalha-se +por explicar este phenomeno pasmoso. Bello rasgo de stylo +romantico.--Receita para fazer litteratura original com pouco +trabalho.--Transição classica;--Orpheu e o bosque do Ménalo. Desce o A. +d'estas grandes e sublimes considerações para as realidades materiaes da +vida: é desamparado pela hospitaleira traquitana e tem de cavalgar na +triste mula de arrieiro.--Admiravel choito do animal. Memorias do +marquez do F. que adorava o choito. 39 + +Capitulo VI.--Próva-se como o velho Camões não teve outro remedio senão +misturar o maravilhoso da mylhologia com o do christianismo.--Da-se +razão, e tira-se depois ao padre José Agostinho.--No meio d'estas +disceptações academico-litterarias vem o A. a descobrir que para tudo é +preciso ter fé n'este mundo. Diz-se _n'este mundo_, porque, quanto ao +outro ja era sabido.--Os Lusiadas, Fausto e a Divina-Comedia.--Desgraça +de Camões em ter nascido antes do romantismo.--Mostra-se como a Styge e +o Cocyto sempre são melhores sitios que o Inferno e o Purgatorio.--Vai o +A. em procura do marquez de Pombal, e dá com elle nas ilhas Beatas do +poeta Alceu.--Partida de Wist entre os illustres finados.--Compaixão do +marquez pelos pobres homens de Ricardo Smith e J. B. Say.--Resposta +d'elle e da sua luneta ás perguntas peralvilhas do A.--Chegada a este +mundo e ao Cartaxo. 47 + +Capitulo VII.--Reflexões importantes sôbre o Bois-de-Boulogne, as +carruagens de mollas, Tortoni, e o café do Cartaxo.--Dos cafés em geral, +e de como são o characteristico da civilização de um paiz.--O +Alfageme.--Hecatombe involuntaria immolada pelo A.--Historia do +Cartaxo.--Demonstra-se como a Gran' Bretanha deveu sempre toda a sua +fôrça e toda a sua glória a Portugal.--Shakspeare e Laffitte, Milton e +Chateaumargot.--Nelson e o principe de Joinville.--Próva-se +evidentemente que M. Guizot é a ruina de Albion e do Cartaxo. 59 + +Capitulo VIII.--Sahida do Cartaxo.--A charneca.--Perigo imminente em que +o A. se acha de dar em poeta e fazer versos.--Ultima revista do +imperador D. Pedro ao exército liberal. Batalha de +Almoster.--Waterloo.--Declara o A. solemnemente que não é philosopho e +chega á ponte de Asseca. 71 + +Capitulo IX.--Prologomenos dramatico-litterarios, que muito naturalmente +levam, apezar de alguns rodeios, ao retrospecto e reconsideração do +capitulo antecedente.--Livros que não deviam ter titulo, e titulos que +não deviam ter livro.--Dos poetas d'este seculo: Bonaparte, Rotchild e +Silvio-Péllico.--Chega-se ao fim d'estas reflexões e á Ponte da +Assecca.--Traducção portugueza de um grande poeta.--Origem de um +dictado.--Junot na ponte da Assecca.--De como o A. d'este livro foi +jacobino desde piqueno.--Inguiço que lhe deram.--A duqueza de +Abrantes.--Chega-se emfim ao val de Santarem. 79 + +Capitulo X.--Valle de Santarem--Namora-se o A. de uma janella que ve por +entre umas árvores.--Conjecturas várias a respeito da ditta +janella.--Similhança do poeta com a mulher namorada, e inquestionavel +inferioridade do homem que não é poeta.--Os rouxinoes. Reminiscencia de +Bernardim Ribeiro e das suas saudades.--De como o A. tinha quasi +completo o seu romance, menos um vestido branco e uns olhos +pretos.--Sahem verdes os olhos com grande admiração e pasmo +seu.--Verificam-se as conjecturas sôbre a mysteriosa janella.--A menina +dos rouxinoes.--Censura das damas muito para temer, crítica dos +elegantes muito para rir.--Começa o primeiro episodio d'esta Odyssea. 91 + +Capitulo XI.--Tracta-se do unico privilegio dos poeetas que tambem os +philosophos quizeram tirar, mas não lhes foi concedido; aos romancistas +sim.--Applicação d'estes principios a Aristoteles e Anacreonte.--O A., +tendo declarado no capítulo nono d'esta obra que não era philosopho, +agora confessa, quasi solemnemente. que é poeta, e pretende manter-se +como tal, em seu direito.--De como S. M. elrei de Dinamarca tinha menos +juizo do que Yorick, seu bobo.--Doutrina d'este. Funda n'ella o A. o seo +admiravel systema de physiologia e pathologia transcendente do coração. +Por uma deducção appertada e cerrada da mais constrangente logica vem a +dar-se no motivo porque foi concedido aos poetas esse direito indefinido +de andarem sempre namorados.--Applicam-se todas éstas grandes theorias á +posição actual do A. no momento de entrar no episodio promettido no +capítulo antecedente.--Uma modestia e reserva delicada o obrigam a +duvidar da sua qualificação para o desimpenhar: pede votos ás amaveis +leitoras. Decide-se que a votação não seja nominal, e porquê.--Dido e a +mana Annica.--Entra-se emfim na promettida historia.--De como a velha +estava á porta a dobar, e imbaraçando-se-lhe a meada, chamou por +Joanninha, sua neta. 99 + +Capitulo XII.--De como Joanninha desimbaraçou a meada da avó, e do mais +que aconteceu.--Que casta de rapariga era Joanninha. Dá o A. insigne +prôva de ingenuidade e boa fé confessando um grave senão do seu Ideal. +Insiste porém que é um adoravel deffeito.--Em que se parece uma mulher +desannellada com um Sansão tosquiado.--Pasmosas monstruosidades da +natureza que desmentem o credo velho dos peralvilhos.--Os olhos verdes +de Joanninha.--Religião dos olhos pretos strenuamente professada pelo A. +Perigo em que ella se acha á vista de uns olhos verdes.--De como estando +a avó e a neta a conversar muito de mano a mano, chega Frei Diniz e se +interrompe a conversação.--Quem era Frei Diniz. 109 + +Capitulo XIII.--Dos frades em geral.--O frade moralmente considerado, +socialmente e artisticamente.--Próva-se que é muito mais poetico o frade +do que o barão.--Outra vez D. Quixote e Sancho Pansa.--Do que seja o +barão, sua clasificação e descripção linneana.--Historia do castello do +Chucherumello.--Erro palmar de Eugenio Sue: mostra-se que os jesuitas +não são a cholera-morbus, e que é preciso refazer o 'Judeu errante'--De +como o frade não intendeu o nosso seculo nem o nosso seculo ao +frade.--De como o barão ficou em logar do frade, e do muito que n'isso +perdémos.--Unica voz que se ouve no actual deserto da sociedade: os +barões a gritar contos de réis.--Como se contam e como se pagam os taes +contos.--Predilecção artistica do A. pelo frade: confessa-se e +explica-se ésta predilecção. 121 + +Capitulo XIV.--Emendado emfim de suas distracções e divagações, prosegue +o A. direitamente com a historia promettida.--De como Fr. Diniz deu a +manga a beijar a avó e á neta, e do mais que entre elles se +passou.--Ralha o frade com a velha, e começa a descubrir-se onde a +historia vai ter. 133 + +Capitulo XV.--Retrato de um frade franciscano que não foi para o +depósito da Terra-sancta, nem consta que esteja na Academia das +Bellas-Artes.--Ve-se que a logica de Fr. Diniz se não parecia nada com a +de Condillac.--Suas opiniões sôbre o liberalismo e os liberaes.--Que o +podêr vem de Deus, mas como e paraquê.--Que os liberaes não intendem o +que é liberdade e egualdade; e o para que eram os frades, se +fossem.--Próva-se, pelo texto, que o homem não vive so de pão, e +pergunta-se o de que vivia então Fr. Diniz. 147 + +Capitulo XVI.--Saibamos da vida do frade.--Era franciscano porquê?--Dos +antigos e dos novos martyres.--Alguns particulares de Fr. Diniz antes e +depois de ser frade.--Emigração.--Explicação incompleta.--De como a +velha tinha perdido a vista, e Joanninha o riso.--Sexta feira dia +aziago. 155 + +Capitulo XVII.--De como, chegando outra sexta-feira e estando a avó e a +neta á espera do frade, este lhe appareceu, contra o seu costume, da +banda de Lisboa.--Por que razão muitas vezes a mais animada conversação +é a que mais facilmente pára e quebra de repente.--Nova demonstração de +dois grandes axiomas dos nossos velhos, a saber: Que o hábito não faz o +monge; e que ralhando as comadres se descobrem as verdades.--No ralhar +da velha com o frade, levanta-se uma ponta do véo que cobre os mysterios +da nossa historia. 171 + +Capitulo XVIII.--Descobre-se que ha grandes e espantosos segredos entre +o frade e a velha--Piedosa fraude de Joanninha.---Lucta entre o hábito e +o monge. 181 + +Capitulo XIX.--Guerra de postos avançados, Joanninha no bivac.--De como +os rouxinoes do valle se disciplinaram a ponto de tocar a alvorada e a +retreta.--Quem era a 'menina dos rouxinoes,' e porque lhe poseram este +nome.--A sentinella perdida e achada. 191 + +Capitulo XX.--Joanninha adormecida--O demi-jour da coquette.--Poesia do +Flos-sanctorum.--De como os rouxinoes accompanhavam sempre a menina do +seu nome; e do bem que um d'elles cantava no bivac.--Retratto esquissado +á pressa para satisfazer ás amaveis leitoras.--Pondera-se o triste e +pessimo gôsto dos nossos governantes em tirarem as honras militares ao +mais elegante e mais nacional uniforme do exército portuguez.--Em que se +parece o auctor da presente obra com um pintor da edade-média.--De como +os abraços, por mais apertados que sejam, e os beijos, por mais +interminaveis que pareçam, sempre teem de acabar por fim. 203 + +Capitulo XXI.--Quem vem lá?--Como entre dous litigantes nem sempre gosa +o terceiro.--Carlos e Joanninha n'uma especie de situação _ordeira_, a +mais perigosa e falsa das situações. 215 + +Capitulo XXII.--Bilhete de manhan da prima ao primo. Inganam a pobre da +velha.--Noite mal dormida.--Da conversa que teve Carlos com os seus +botões.--A Joanninha que elle deixára e a Joanninha que +achou.--Obrigações d'amor, triste palavra.--A mulher que elle amava, e +se elle a amava ainda.--Quesitos do A. aos seus benevolos leitores. +Declara que com os hypocritas não falla.--Quem hade levantar a primeira +pedra?--Dous modos differentes de acudir uma coisa ao pensamento. 225. + +Capitulo XXIII.--Continúa a accudir muita coisa vaga e incontrada ao +pensamento de Carlos.--Dança de fadas e duendes.--Fr. Diniz o fado-mau +da familia.--Veremos, é a grande resolução nas grandes +difficuldades.--Carlos poeta romantico.--Olhos verdes--Desafio a todos +os poetas moyen-ages do nosso tempo. 235. + +Capitulo XXIV.--Novo Génesis.--O Adam social muito differente do Adam +natural.--Carlos sempre um por seus bons instinctos, sempre outro por +suas más reflexões.--De como Joanninha recebeu o primo com os braços +abertos, e do mais que entre elles se passou.--Dor meia dor, meia +prazer. 247. + +Capitulo XXV.--O excesso da felicidade que aterra e confunde +tambem.--Pasmosa contradicção da nossa natureza.--De como os olhos +verdes de Joanninha se inturvaram e perderam todo o brilho.--Que o +coração da mulher que ama, sempre advinha certo. 261. + +Notas. 275. + + + + +Notas: + +[1] Chamavam assim por escarneo, em Portugal, ao general Loison a quem +faltava um braço. + +[2] Célebre urso do Jardim das Plantas em París. + +[3] Pag. 40, 41, 42. + + + + +Lista de erros corrigidos + + +Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos: + + + +----------+--------------------+--------------------+ + | | Original | Correcção | + +----------+--------------------+--------------------+ + |#pág. 3| venceder | vencedor* | + |#pág. 15| Cervantos | Cervantes | + |#pág. 18| morachão | marachão* | + |#pág. 40| esperavava | esperava | + |#pág. 41| maldadades | maldades | + |#pág. 62| café | harem* | + |#pág. 89| tinha-ânimo | tinha ânimo | + |#pág. 95| esquerlo | esquerda | + |#pág. 97| um historia | uma historia | + |#pág. 106| toda o movimento | todo o movimento | + |#pág. 118| trababalho | trabalho | + |#pág. 126| conte | conter* | + |#pág. 129| aeronantas | aeronautas* | + |#pág. 134| paasos | passos | + |#pág. 163| memoraval | memoravel | + |#pág. 203| demij-our | demi-jour* | + |#pág. 223| didireitas | direitas | + |#pág. 228| as alagadiços | os alagadiços | + |#pág. 240| infeitavam | infeitiçavam* | + |#pág. 276| viagem | visita | + |#pág. 286| em em logar frade | em logar do frade | + |#pág. 288| d'ad'mor | d'amor | + +----------+--------------------+--------------------+ + + +* correcções feitas com base na errata do próprio livro. + +Shakespeare e Rotschild surgem neste livro como Shakspeare e Rotchild +respectivamente. Dada a repetitividade constante, decidi manter de +acordo com o original. + +Foram adicionados travessões onde a sua falta foi notada. + +As indicações dos números de páginas que se mencionaram na secção de +"Notas do Primeiro Livro" e "Índice", foram corrigidas para corresponder +ao local correcto. + + + + + +End of Project Gutenberg's Viagens na Minha Terra, by Almeida Garrett + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VIAGENS NA MINHA TERRA *** + +***** This file should be named 24164-8.txt or 24164-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/4/1/6/24164/ + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Viagens na Minha Terra + (Volume I) + +Author: Almeida Garrett + +Release Date: January 4, 2008 [EBook #24164] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VIAGENS NA MINHA TERRA *** + + + + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + + + + + +</pre> + + +<div> +<div class="fbox"><b>Nota de editor:</b> +Devido à +quantidade de erros tipográficos existentes neste texto, +foram tomadas várias decisões quanto à +versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi +mantida de acordo com o original. No final deste livro +encontrará a lista de erros corrigidos.<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: right; font-style: italic;">Rita +Farinha (Jan. 2008) +</div> + +</div> +<br /> +<br /> +<br /> + +<h2>OBRAS<br /> + +<br /> + +DE<br /> + +<br /> + +J. B. DE A. GARRETT.<br /> + +<br /> + +VIII.<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">(primeiro das viagens)</span></h2> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="bbox"> +<h1>VIAGENS<br /> + +</h1> + +<h4>NA MINHA TERRA +</h4> + +<h2>POR J. B. DE ALMEIDA-GARRETT.</h2> + +<h2><br /> + +I +</h2> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h4>LISBOA<br /> + +NA TYPOGRAPHIA DA GAZETA DOS TRIBUNAIS.<br /> + +1846.<br /> + +</h4> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<a name="c0"></a>Os editores d'esta obra, vendo a +popularidade +extraordinaria que ella tinha publicada em +fragmentos na <em>Revista</em>, intenderam +fazer um serviço ás +lettras e á gloria do seu paiz, imprimindo-a agora reunida +em um livro, para melhor se podêr avaliar a variedade, +a riqueza e a originalidade de seu stylo inimitavel, da +philosophia profunda que incerra, e +sôbre tudo o grande +e transcendente pensamento moral a que sempre +tende, ja quando folga e ri com as mais graves coisas +da vida, ja quando seriamente discute por suas +leviandades e pequenezas. +<br /> + +<br /> + +As <em>Viagens na minha terra</em>, +são um d'aquelles livros +raros que so podiam ser escriptos por quem, como +o auctor de <em>Camões</em> e de +<em>Catão</em>, de +<em>D. Branca</em> e +do <em>Portugal na Balança da +Europa</em>, do <em>Auto de +Gil-Vicente</em> +e do <em>Tractado de +Educação</em>, do +<em>Alfageme</em> e +de <em>Fr. Luiz de Souza</em>, do +<em>Arco de Sanct'Anna</em> e da +<em>Historia Litteraria de Portugal</em>, de +<em>Adozinda</em> e das +<em>Leituras Historicas</em> e de tantas +producções de tam variado +genero, possue todos os stylos e, dominando +uma lingua de immenso podêr, a costumou a servir-lhe +e obedecer-lhe;―por quem com a mesma facilidade +sobe a orar na tribuna, entra no gabinete nas graves +discussões e demonstrações da +sciencia―voa ás mais +altas regiões da lyrica, da epopeia e da tragedia, +<span class="pagenum">[VI.]</span> +lida com as fortes paixões do drama, e baixa ás +não +menos difficeis trivialidades da comedia;―por quem +ao mesmo tempo, e como que mudando de natureza, +póde dar-se todo ás mais aridas e materiaes +ponderações +da administração e da politica, e redigir com +admiravel precisão, com uma exacção +ideologica que +talvez ninguem mais tenha entre nós, uma lei administrativa +ou de instrucção pública, uma +constituição politica, +ou um tractado de commercio. +<br /> + +<br /> + +Orador e poeta, historiador e philosopho, crítico +e artista, jurisconsulto e administrador, erudito e +homem d'Estado, religioso cultor da sua lingua e falando +correctamente as extranhas―educado na pureza +classica da antiguidade, e versado depois em todas +as outras litteraturas―da meia-edade, da renascença +e contemporanea―o auctor das <span class="smallcaps">viagens +na minha terra</span> é egualmente familiar com +Homero e com +o Dante, com Platão e com Rousseau, com Thucidides +e com Thiers, com Guizot e com Xenophonte, +com Horacio e com Lamartine, com Machiavel +e com Chateaubriand, com Shakspeare e Euripedes, +com Camões e Calderon, com Goethe e Virgilio, +Schiller e Sá-de-Miranda, Sterne e Cervantes, +Fenelon e Vieira, Rabelais e Gil-Vicente, Addison +e Bayle, Kant e Voltaire, Herder e Smith, Bentham +e Cormenin, com os Encyclopedistas e com os Sanctos-Padres, +com a Biblia e com as tradicções sanscritas, +com tudo o que a arte e a sciencia antiga, com +tudo o que a arte emfim e a sciencia moderna teem +produzido. Ve-se isto dos seus escriptos, e especialmente +se ve d'este que agora publicâmos apezar de composto +bem claramente ao correr da penna. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[VII.]</span> +Mas ainda assim, e com isto somente, elle não faria +o que faz se não junctasse a tudo isso o profundo +conhecimento dos homens e das coisas, do coração +humano e da razão humana; se não fosse, +além de +tudo o mais, um verdadeiro homem do mundo, que +tem vivido nas côrtes com os principes, no campo +com os homens de guerra, no gabinete com os diplomaticos +e homens d'Estado, no parlamento, nos tribunaes, +nas academias, com todas as notabilidades +de muitos paizes―e nos salões emfim com as mulheres +e com os frivolos do mundo, com as elegancias +e com as falsidades do seculo. +<br /> + +<br /> + +De tantas obras de tam variado genero com que, +em sua vida ainda tam curta, este fecundo escriptor +tem inriquecido a nossa lingua, é ésta talvez, +tornâmos +a dizer, a que elle mais descuidadamente escreveu: +mas é tambem a que, em nossa opinião, mais +mostra os seus immensos podêres intellectuaes, a sua +erudição vastíssima, a sua +flexibilidade de stylo espantosa, +uma philosophia transcendente, e por fim de +tudo, o natural indulgente e bom de um coração +recto, +puro, amigo da justiça, adorador da verdade, e +inimigo declarado de todo o sophisma. +<br /> + +<br /> + +Tem sido accusado de sceptico: é a +accusação mais +absurda e que so denuncia, em quem a faz, ou +grande ignorancia ou grande má fe. Quando o nosso +auctor lança mão da cortante e destruidora arma +do +sarcasmo, que elle maneja com tanta fôrça e +dexteridade, +e que talvez por isso mesmo, conscio de seu +podêr, elle rara vez toma nas mãos―veja-se que +é +sempre contra a hypocrisia, contra os sophismas, e +contra os hypocritas e shopistas de <em>todas as +côres</em>, que +<span class="pagenum">[VIII.]</span> +elle o faz. Crenças, opiniões, sentimentos, +respeita-os +sempre. As mesmas suas ironias que tanto ferem, +não as dirige nunca sôbre individuos; ve-se que +despreza +a facil vingança que, com tam poderosas armas, +podia tomar de inimigos que o não poupam, de invejosos +que o calumniam, e a quem, por cada dicterio +insulso e ephemero com que o teem pretendido injuriar, +elle podia condemnar ao eterno oppróbrio de +um pelourinho immortal como as suas obras. Ainda +bem que o não faz! mais immortaes são as suas +obras, +e quanto a nós, mais punidas ficam os seus emulos +com esse desprêzo do homem superior que se não +appercebe +de sua malignidade insulsa e insignificante. +<br /> + +<br /> + +Voltando á accusação de septicismo, +ainda dizemos +que não póde ser septico o espirito +que concebeu, e +em si achou côres com que pintar tam vivos, characteres +de crenças tam fortes como o de Catão, de +Camões, +de Fr. Luiz de Sousa,―e aqui n'esta nossa +obra, os de Fr. Diniz, de Joanninha, da Irman Francisca. +<br /> + +<br /> + +Não analysâmos agora as <span class="smallcaps">viagens +na minha terra</span>: +a obra não está ainda completa e não +podia completar-se +portanto o juizo; dizemos somente o que todos +dizem e o que todos podem julgar ja. +<br /> + +<br /> + +A nosso rôgo, e por fazer mais digna da sua +reputação +ésta segunda publicação da obra, o +auctor +prestou-se a dirigi-la elle mesmo, corrigiu-a, additou-a, +alterou-a em muitas partes, e a illustrou com +as notas mais indispensaveis para a geral intelligencia +do texto: de modo que sahirá muito melhorada +agora do que primeiro se imprimiu.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2>VIAGENS NA MINHA TERRA. +</h2> + +<br /> + +<br /> + +<div class="quote1"> +Qu' il est glorieux d'ouvrir une nouvelle +carrière, +et de paraitre tout-à-coup dans le monde +savant un livre de découvertes à +la main, comme +une cométe inattendue étincelle dans l'espace!<br /> + +<br /> + +<div class="signature"><span class="smallcaps">x. +de maistre.</span> +</div> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c1"></a>CAPITULO I. +</h3> + +<br /> + +<div class="intro">De como o auctor d'este erudito livro +se resolveu a viajar na +sua terra, depois de ter viajado no seu quarto; e como resolveu +immortalizar-se escrevendo éstas suas viagens. Parte +para Santarem. Chega ao Terreiro-do-Paço, imbarca no vapor +de Villa-Nova; e o que ahi lhe succede. A +Deducção-Chronologica e a Baixa de Lisboa. Lord +Byron e um bom +charuto. Travam-se de razões os Ilhavos e os Bordas-d'agua: +os da calça larga levam a melhor.</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<a name="n1"></a>Que viage á roda do seu +quarto quem está +á +beira dos Alpes, de hynverno, em Turim, que é +quasi tam frio como San'Petersburgo―intende-se. +Mas com este clima, com este ar que Deus +<span class="pagenum">[2]</span> +nos deu, onde a laranjeira cresce na horta, e o +mato é de murta, o proprio <em>Xavier de +Maistre</em>, +que aqui escrevesse, ao menos ia até o quintal. +<br /> + +<br /> + +Eu muitas vezes, n'estas suffocadas noites d'estio, +viajo até á minha janella para ver uma nesguita +de Tejo que está no fim da rua, e me inganar +com uns verdes de árvores que alli vegetam +sua laboriosa infancia nos intulhos do Caes-do-Sodré. +E nunca escrevi éstas minhas +viagens +nem as suas impressões: pois tinham muito que +ver! Foi sempre ambiciosa a minha penna: pobre +e suberba, quer assumpto mais largo. Pois +hei de dar-lh'o. Vou nada menos que a Santarem: +e protesto que de quanto vir e ouvir, de +quanto eu pensar e sentir se hade fazer chronica. +<br /> + +<br /> + +Era uma idea vaga, mais desejo que tenção, +que eu tinha ha muito de ir conhecer as riccas +varzeas d'esse Ribatejo, e saudar em seu alto cume +a mais historica e monumental das nossas villas. +Aballam-me as instancias de um amigo, decidem-se +as tonterias de um jornal, que por mexeriquice +quiz incabeçar em <a name="n2"></a>designio +politico determinado +a minha visita. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p3">[3]</a></span> +Pois por isso mesmo +vou:―<em>pronunciei-me</em>. +<br /> + +<br /> + +São 17 d'este mez de julho, anno de graça +de 1843, uma segunda-feira, dia sem nota e de +boa estrea. Seis horas da manham a dar em San'Paulo, +e eu a caminhar para o Terreiro-do-Paço. +Chego muito a horas, invergonhei os meus +madrugadores dos meus companheiros de viagem, +que todos se prezam de mais matutinos homens +que eu. Ja vou quasi no fim da praça, quando +oiço o rodar grave mas pressuroso de uma +carroça <em>d'ancien +règime</em>: é o nosso chefe e +commandante, +o capitão da impreza, o Sr. C. da +T. que chega em estado. +<br /> + +<br /> + +Tambem são chegados os outros companheiros: +o sino dá o último rebate. Partimos. +<br /> + +<br /> + +<a name="n3"></a>N'uma <em>regata</em> +de vapores o nosso +barco não +ganhava decerto o premio. E se, no andar do +progresso, se chegarem a instituir alguns isthmicos +ou olympicos para este genero de carreiras―e +se para ellas houver algum Pindaro ancioso +de correr, em strophes e antistrophes, atraz +do <a href="#e1">vencedor</a> que vai coroar de +seus hymnos immortaes―não +cabe nem um triste minguado +<span class="pagenum">[4]</span> +epodo a este cançado corredor de Villa-nova. +É um barco serio e sizudo que se não mette +n'essas andanças. +<br /> + +<br /> + +Assim vamos de todo o nosso vagar contemplando +este majestoso e pittoresco amphitheatro +de Lisboa oriental, que é, vista de fóra, a mais +bella e grandiosa parte da cidade, a mais characteristica, +e onde, aqui e alli, algumas raras feições +se percebem, ou mais exactamente se adivinham, +da nossa velha e boa Lisboa das chronicas. +Da Fundição para baixo tudo é prosaico +e +burguez, chato, vulgar e semsabor como um periodo +da <em>Deducção +Chronologica</em>, aqui e alli assoprado +n'uma tentativa ao grandioso do mau gôsto, +como alguma oitava menos rasteira do +<em>Oriente</em>. +<br /> + +<br /> + +Assim o povo, que tem sempre melhor gôsto +e mais puro do que essa escuma descórada que +anda ao decima das populações, e que se chama +a si mesma por excellencia a +<em>Sociedade</em>, os seus +passeios favoritos são a Madre-de-Deus e o Beato +e Xabregas e Marvilla e as hortas de Chellas. +A um lado a immensa majestade do Tejo em +sua maior extensão e podêr, que alli mais parece +um pequeno mar mediterraneo; do outro a +<span class="pagenum">[5]</span> +frescura das hortas e a sombra das árvores, palacios, +mosteiros, sitios consagrados todos a recordações +grandes ou queridas. Que outra sahida +tem Lisboa que se compare em belleza com ésta? +Tirado Bellem, nenhuma. E ainda assim, +Bellem é mais arido. +<br /> + +<br /> + +Já saudámos Alhandra, a toireira; Villa-franca, +a que foi de Xira, e depois da Restauração, +e depois outra vez de Xira, quando a tal +restauração +cahiu, como a todas as restaurações +sempre succede e hade succeder, em odio e +execração tal que nem uma pobre villa a quiz +para sobrenome. +<br /> + +<br /> + +―'A questão não era de restaurar nem de +não restaurar, mas de se livrar a gente de um +govérno de patuscos, que é o mais odioso e +ingulhoso +dos governos possiveis.' +<br /> + +<br /> + +É a reflexão com que um dos nossos companheiros +de viajem accudiu ao princípio de +ponderação +que eu ia involuntariamente fazendo a +respeito de Villa-franca. +<br /> + +<br /> + +Mas eu não tenho odio nenhum a Villa-franca, +<span class="pagenum">[6]</span> +nem a esse famoso cirio que lá foi fazer à +velha monarchia. Era uma coisa que estava na +ordem das coisas, e que por fôrça havia de +succeder. +Este necessario e inevitavel reviramento +por que vai passando o mundo, hade levar muito +tempo, hade ser contrastado por muita reacção +antes de completar-se... +<br /> + +<br /> + +No entretanto vamos accender os nossos +charutos, e deixemos os precintos aristocraticos +da ré: á proa, que é paiz de cigarro +livre! +<br /> + +<br /> + +Não me lembra que lord Byron celebrasse +nunca o prazer de fummar a bórdo. È notavel +esquecimento +no poeta mais imbarcadiço, mais +marujo que ainda houve, e que até cantou o injôo, +a mais prosaica e nauseante das miserias +da vida! Pois n'um dia d'estes, sentir na face e +nos cabellos a brisa refrigerante que passou por +cima da agua, em quanto se aspiram mollemente +as narcoticas exhalações de um bom cigarro da +Havana, +é uma das poucas coisas sinceramente boas +que ha n'este mundo. +<br /> + +<br /> + +Fummemos! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[7]</span> +Aqui está um campino fummando gravemente +o seu cigarro de papel, que me vai imprestar +lume. +<br /> + +<br /> + +'Dou-lh'o eu, senhor...' accode cortezmente +outra figura mui diversa, cujas feições, +trajo e +modos singularmente contrastam com os do +<em>musarabe</em> +ribatejano. +<br /> + +<br /> + +Accenderam-se os charutos, e attentámos mais +de vagar na companhia em que estavamos. +<br /> + +<br /> + +Era com effeito notavel e interessante o grupo +a que nos tinhamos chegado, e destacava +pittorescamente do resto dos passageiros, mistura +hybrida de trajos e feições descharacterizadas +e vulgares―que abunda nos arredores de +uma grande cidade maritima e commercial.―Não +assim este grupo mais separado com que +fomos topar. Constava elle de uns dôze homens; +cinco eram d'esses famosos athletas da Alhandra +que vão todos os domingos colher o <em>pulverem +olympicum</em> da praça de Sanct'Anna, e que, +á +voz soberana e irresistivel de: <em>á unha, +á unha, +á cernelha!</em>.... correm a arcar com mais +generosos, +não mais possantes, animaes que elles, +<span class="pagenum">[8]</span> +ao som das immensas palmas, e a trôco dos raros +pintos por que se manifesta o sempre clamoroso +e sempre vazio enthusiasmo das multidões. +Voltavam á sua terra os meus cinco luctadores +ainda em trajo de praça, ainda esmurrados e +cheios de glória da contenda da vespera. Mas +aopé d'estes cinco e de altercação com +elles―ja +direi porquê―estavam seis ou sette homens +que em tudo pareciam os seus antipodas. +<br /> + +<br /> + +Emvez do calção amarello e da jaqueta de +ramagem que caracterizam o homem do forcado, +estes vestiam o amplo saiote grego dos varinos, +e o tabardo arrequifado siciliano de panno de +varas. O campino, assim como o saloio, tem o +cunho da raça africana; estes são da familia +pelasga: +feições regulares e moveis, a fórma +agil. +<br /> + +<br /> + +Ora os homens do norte estavam disputando +com os homens do sul: a questão fôra interrompida +com a nossa chegada á proa do barco. Mas +um dos Ilhavos―bella e poetica figura de homem―voltando-se +para nós, disse n'aquelle seu +tom accentuado:―'Ora aqui está quem hade +decidir: vejam-n'os senhores. Elles, por agarrar +um toiro, cuidam que são mais que ninguem, +<span class="pagenum">[9]</span> +que não ha quem lhes chegue. E os senhores, a +serem ca de Lisboa, hãode dizer que sim. Mas +nós...' +<br /> + +<br /> + +―Nenhum de nós é de Lisboa: so este senhor +que aqui vem agora. +<br /> + +<br /> + +Era o C. da T. que chegava. +<br /> + +<br /> + +―'Este conheço eu; este é dos nossos (bradou +um homem de forcado, assim que o viu). +Isto é um fidalgo como se quer. Nunca o vi +n'uma ferra, isso é verdade; mas aqui de Vallada +a Almeirim ninguem corre mais do que elle +por sol e por chuva, e hade saber o que é um +boi de lei, e o que é lidar com gado.' +<br /> + +<br /> + +―'Pois oiçamos lá a questão.' +<br /> + +<br /> + +―'Não é questão'―tornou o Ilhavo: +'mas +se este senhor fidalgo anda por Almeirim, para +Almeirim vamos nós, que era uma charneca o +outro dia, e hoje é um jardim, benza-o Deus!―mas +não foram os campinos que o fizeram, foi +a nossa gente que o sachou e plantou, e o fez +o que é, e fez terra das areas da charneca.' +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[10]</span> ―'Lá isso é verdade'. +<br /> + +<br /> + +―'Não, não é! Que está +forte habilidade +fazer dar trigo aqui aos nateiros do Tejo, que é +como quem semeia em manteiga. É uma lavoira +que a faz Deus por sua mão, regar e adubar +e tudo: e o que Deus não faz, não fazem elles, +que nem sabem ter mão n'esses monchões c'o +plantio das arvores: so lá por cima é que algumas +teem mettido, e é bem pouco para o rio +que é, e as riccas terras que lhes levam as inchentes.―Mas +nós, pe no barco pe na terra, +tam depressa estamos a sachar o milho na charneca, +como vimos por ahi abaixo com a vara no +peito, e o saveiro a pegar n'area por não haver +agua... mas sempre labutando pela vida'.<br /> + +<br /> + +―'A fôrça é que se falla'―tornou o +campino +para estabelecer a questão em terreno que +lhe convinha.―'A fôrça é que se +falla: um +homem do campo que se deita alli á cernelha de +um toiro que uma companha inteira de varinos +lhe não pegava, com perdão dos senhores pelo +rabo!..'<br /> + +<br /> + +E reforçou o argumento com uma gargalhada +<span class="pagenum">[11]</span> +triumphante, que achou echo nos interessados circumstantes +que ja se tinham apinhado a ouvir os +debates. +<br /> + +<br /> + +Os Ilhavos ficaram um tanto abatidos; sem +perderem a consciencia da sua superioridade, mas +acanhados pela algazarra. +<br /> + +<br /> + +Parecia a esquerda de um parlamento quando +ve sumir-se, no borburinho acintoso das turbas ministeriaes, +as melhores phrases e as mais fortes +razões dos seus oradores. +<br /> + +<br /> + +Mas o orador ilhavo não era homem de se dar +assim por derrotado. Olhou para os seus, como +quem os consultava e animava, com um gesto +expressivo, e voltando-se a nós, com a direita +estendida aos seus antagonistas: +<br /> + +<br /> + +―'Então agora como é de +fôrça, quero eu +saber, e estes senhores que digam, qual é que tem +mais fôrça, se é um toiro ou se +é o mar'. +<br /> + +<br /> + +―'Essa agora!..' +<br /> + +<br /> + +―'Queriamos saber'. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[12]</span> ―'É o mar'. +<br /> + +<br /> + +―'Pois nós que brigâmos com o mar, oito +e dez dias a fio n'uma tormenta, de Aveiro a Lisboa, +e estes que brigam uma tarde com um toiro, +qual é que tem mais fôrça?' +<br /> + +<br /> + +Os campinos ficaram cabisbaixos; o publico +imparcial applaudiu por ésta vez a +opposição, e +o Vouga triumphou do Tejo.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c2"></a>CAPITULO II. +</h3> + +<br /> + +<div class="intro"> +Declaram-se typicas, symbolicas e mythicas éstas viagens. +Faz o A. modestamente o seu proprio elogio. Da marcha da +civilização; e mostra-se como ella é +dirigida pelo cavalleiro +da Mancha D. Quixote, e por seu escudeiro Sancho +Pança.―Chegada +a Villa-Nova-da-Rainha, Supplicio de Tantalo.―A +virtude galardão de si mesma; e sophisma de Jeremias +Bentham.―Azambuja. +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Éstas minhas interessantes viagens hãode ser uma +obra prima, erudita, brilhante de pensamentos +novos, uma coisa digna do seculo. Preciso +de o dizer ao leitor, paraque elle esteja previnido; +<span class="pagenum">[14]</span> +não cuide que são quaesquer d'essas +rabiscaduras +da moda que, com o titulo de <em>Impressões +de Viagem</em>, ou outro que tal, fatigam as imprensas +da Europa sem nenhum proveito da sciencia +e do adiantamento da especie. +<br /> + +<br /> + +Primeiro que tudo, a minha obra é um symbolo... +é um mytho, palavra grega, e de moda +germanica, que se mette hoje em tudo e com +que se explica tudo... quanto se não sabe explicar. +<br /> + +<br /> + +É um mytho porque―porque... Ja agora +rasgo o veo, e declaro abertamente ao benevolo +leitor a profunda idea que está occulta debaixo +d'esta ligeira apparencia de uma viagemzita que +parece feita a brincar, e no fim de contas é uma +coisa séria, grave, pensada com um livro novo +da feira de Leipsick, não das taes brochurinhas +dos <em>boulevards</em> de Paris. +<br /> + +<br /> + +Houve aqui ha annos um profundo e cavo philosopho +d'alêm Rheno, que escreveu uma obra +sôbre a marcha da civilização, do +intellecto―o +que diriamos, para nos intenderem todos melhor, +<em>o Progresso</em>. Descobriu elle que ha +dois +principios no mundo: o +<em>espiritualista</em>, que marcha +<span class="pagenum"><a name="p15">[15]</a></span> +sem attender á parte material e terrena d'esta +vida, com os olhos fittos em suas grandes e abstractas +theorias, hirto, sêcco, duro, inflexivel, +e que póde bem personalizar-se, symbolizar-se +pelo famoso mytho do cavalleiro da Mancha, +D. Quixote;―o <em>materialista</em>, que, +sem +fazer caso nem cabedal d'essas theorias, em +que não crè, e cujas impossiveis +applicações declara +todas utopias, póde bem representar-se +pela rotunda e anafada presença do nosso amigo +velho, Sancho Pança. +<br /> + +<br /> + +Mas, como na historia do malicioso <a href="#e2">Cervantes</a>, +estes dois principios tam avessos, tam desincontrados, +andam comtudo junctos sempre; ora +um mais atraz, ora outro mais adiante, impecendo-se +muitas vezes, coadjuvando-se poucas, +mas <em>progredindo</em> sempre. +<br /> + +<br /> + +E aqui está o que é possivel ao progresso humano. +<br /> + +<br /> + +E eisaqui a chronica do passado, a historia +do presente, o programma do futuro. +<br /> + +<br /> + +Hoje o mundo é uma vasta Barataria, em que +domina elrei Sancho. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[16]</span> +Depois hade vir D. Quixote. +<br /> + +<br /> + +O senso commum virá para o millenio: reinado +dos filhos de Deus! Está promettido nas divinas +promessas... como elrei de Prussia prometteu +uma constituição; e não faltou ainda, +porque―porque +o contracto não tem dia; prometteu +mas não disse para quando. +<br /> + +<br /> + +Ora n'esta minha viagem Tejo-a-riba está symbolizada +a marcha do nosso progresso social: espero +que o leitor intendesse agora. Tomarei cuidado +de lh'o lembrar de vez em quando, porque +receio muito que se esqueça. +<br /> + +<br /> + +Somos chegados ao triste desimbarcadoiro de +Villa-Nova-da-Rainha, que é o mais feio pedaço +de terra alluvial em que ainda poisei os meus +pés. O sol arde como ainda não ardeu este +anno. +<br /> + +<br /> + +Um immenso arraial de caleças, de machinhos, +de burros e arrieiros, nos espera n'aquelle +descampado africano. É forçoso optar entre +os dois martyrios da caleça ou do macho. Do +mal o menos... seja este. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[17]</span> +E acolá―oh supplício de Tantalo!―vejo +duas possantes e nedeas mulas castelhanas jungidas +a um vehiculo que, n'estas paragens e ao +pé d'aquell'outros, me parece mais esplendido +do que um landaw de Hyde-Park, mais elegante +que um caleche de Long-champs, mais commodo +e elastico do que o mais acrio briska da +princeza Hellena. E com tudo―oh magico podêr +das situações!―elle não é +senão, uma +substancial e bem apessoada traquitana de cortinas. +<br /> + +<br /> + +Togados manes dos antigos desimbargadores, +venerandas cabelleiras de anneis e castanhola, que +direis, ó respeitadas sombras, se d'esse limbo +onde estais esperando pela resurreição do +Pêgas... +e do livro quinto―vêdes este degenerado +e espurio successor vosso, em calças largas, frak +verde, chapeu branco, gravata de côr, chicotinho +de caoutchouc na mão, prompto a cavalgar +em mulinha de Palito-Metrico como um garraio +estudantinho do segundo anno, e deitando +olhos invejosos para esse natural, proprio e adscripticio +modo de conducção desimbargatoria? +Oh que direis vós! Com que justo desprêzo +não +olhareis para tanta degradação e +derogação! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p18">[18]</a></span> +Eu commungava silenciosamente commigo n'estas +graves meditações, e revolvia incertamente +no ânimo a ponderosa dúvida:―se o administrar +justiça direita aos povos valia a pena de andar +um desimbargador a pé!... Luctava no meu +ser o Sancho Pança da carne com o D. Quixote +do espirito―quando a Providencia, que nos +maiores apertos e tentações nos não +abandona +nunca, me trouxe a generosa offerta de um amigo +e companheiro do vapor, o Sr. L. S.: era sua +a invejada carroça, e n'ella me deu logar até +á +Azambuja. +<br /> + +<br /> + +A virtude é o galardão de si mesma, disse +um philosopho antigo; e eu não creio no +famoso ditto de Bentham, que sabedoria antiga +seja um sophisma. O mais moderno é o +mais velho, não ha dúvida; mas o antigo que +dura ainda, é porque tem achado na experiencia +a confirmação que o moderno não tem. +Jeremias +Bentham tambem fazia o seu sophisma como qualquer +outro. +<br /> + +<br /> + +Vamos percorrendo lentamente aquelle mal-composto +<a href="#e3">marachão</a> que poucos +palmos se eleva do nivel +baixo e salgadiço do solo: de hynverno não se +passará <span class="pagenum">[19]</span>sem +perigo; ainda agora se não anda sem +incómmodo e receio. Estamos em Villa-Nova e +ás portas do nojento caravanseray, unico asylo do +viajante n'esta, hoje, a mais frequentada das estradas +do reino. +<br /> + +<br /> + +Parece-me estar mais deserto e sujo, mais +abandonado e em ruinas este asqueroso logarejo, +desde que alli aopé tem a estação dos +vapôres, +que são a commodidade, a vida, a alma do +Ribatéjo. +Imagino que uma aldeia de Alarves nas +faldas do Atlas deve ser mais +limpa e commoda. +<br /> + +<br /> + +Oh! Sancho, Sancho, nem siquer tu reinarás +entre nós! Cahiu o carunchoso throno de teu predecessor, +antagonista e ás vezes amo; açoitaram-te +essas nadegas para desincantar a formosa <em>del +Toboso</em>, proclamaram-te depois rei em +<em>Barataria</em>, +e n'esta tua provincia lusitana nem o paternal +govêrno de teu estupido materialismo póde +estabelecer-se +para commodo e salvação do corpo; +ja que a alma... oh! a alma... +<br /> + +<br /> + +Fallemos n'outra coisa. +<br /> + +<br /> + +Fujamos depressa d'este monturo.―É monótona, +<span class="pagenum">[20]</span>arida e sem +frescura de árvores a estrada: +apenas alguma rara oliveira mal-medrada, a longos +e desiguaes espaços, mostra o seu tronco rachitico +e braços contorcidos, ornados de ramusculos +doentes, em que o natural verde-alvo das +folhas é mais alvacento e desbotado que o costume. +O solo porêm, com raras excepções, +é optimo, +e a trôco de pouco trabalho e insignificante +despeza, daria uma estrada tam boa como as melhores +da Europa. +<br /> + +<br /> + +Dizia um secretario d'Estado meu amigo que +para se repartir com egualdade o melhoramento +das ruas por toda Lisboa, deviam ser obrigados +os ministros a mudar de rua e bairro todos os tres +mezes. Quando se fizer a lei de responsabilidade ministerial, +para as kalendas gregas, eu heide propor +que cada ministro seja obrigado a viajar por +este seu reino de Portugal ao menos uma vez cada +anno, como a desobriga. +<br /> + +<br /> + +Ahi está a Azambuja, pequena mas não triste +povoação, com visiveis signaes de vida, aceadas +e com ar de confôrto as suas casas. É a primeira +povoação que dá indicio de estarmos +nas +ferteis margens do Nilo portuguez. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[21]</span> +Corrémos a apear-nos no elegante estabelecimento +que ao mesmo tempo cumulla as tres distinctas +funcções, de <em>hotel, de +restaurant e de café</em> +da terra. +<br /> + +<br /> + +Sancto Deus! que bruxa que está á porta! que +antro lá dentro!... Cai-me a penna da mão.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c3"></a>CAPITULO III. +</h3> + +<br /> + +<div class="intro">Acha-se desappontado o leitor com a +prosaica sinceridade do +A. d'estas viagens. O que devia ser uma estalagem nas +nossas eras de litteratura romantica?―Suspende-se o exame +d'esta grave questão para tractar, em prosa e verso, +um mui difficil ponto de economia-politica e de moral social.―Quantas +almas é preciso dar ao diabo, e quantos corpos +se teem de intregar no cemiterio para fazer um ricco +n'este mundo.―Como se veio a descobrir que a sciencia +d'este seculo era uma grandessissima tola.―Rei de facto, e +rei de direito.―Belleza e mentira não cabem n'um +sacco.―Põe-se +o A. a caminho para o pinhal da Azambuja.</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Vou <em>desappontar</em> decerto o leitor +benevolo; vou +perder, pela minha fatal sinceridade, quanto em +seu conceito tinha adquirido nos dois primeiros +capitulos d'esta interessante viagem. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[24]</span> +Pois que esperava elle de mim agora, de mim +que ousei declarar-me escriptor n'estas eras de +romantismo, seculo das fortes sensações, das +descripções a traços largos e +<em>incisivos</em> que se intalham +n'alma e entram com sangue no coração? +<br /> + +<br /> + +No fim do capitulo precedente parámos á porta +de uma estalagem: que estalagem deve ser +ésta, hoje no anno de 1843, ás barbas de Victor +Hugo, com o Doutor Fausto a trotar na cabeça +da gente, com os <em>Mysterios de Paris</em> +nas +mãos de todo o mundo? +<br /> + +<br /> + +Ha paladar que supporte hoje a classica +<em>posada</em> +do Cervantes com o seu <em>mesonero</em> +gordo e grave, +as pulhas dos seus arrieiros, e o mantear de algum +pobre lorpa de algum Sancho! Sancho, o +invisivel rei do seculo, aquelle <em>por quem hoje os +reis reinam e os fazedores de leis decretam e afferem +o justo!</em> Sancho manteado por vis muleteiros! +Não é da epocha. +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry"><a name="n4"></a>Eu +coroarei de trevo a minha espada,<br /> + +De cenoiras, luzerna e betarrava,<br /> + +Para cantar Harmódios e Aristógilons,<br /> + +Que do tyranno jugo vos livraram<br /> + +Da sciencia velha, inutil carunchosa, +<br /> + +<span class="pagenum">[25]</span> +Que elevava da terra, erguia, alçava<br /> + +O que no homem ha de Ser divino,<br /> + +E para os grandes feitos e virtudes<br /> + +Lhe despegava o espirito da carne...</div> + +<br /> + +Não: plantae batatas, ó +geração de vapor e +de pó de pedra, macadamisae estradas, fazei caminhos +de ferro, construí passarolas de Icaro, +para andar a qual mais depressa, éstas horas contadas +de uma vida toda material, massuda e +grossa como tendes feito ésta que Deus nos deu +tam differente do que a hoje vivemos. Andae, +ganha-pães, andae; reduzi tudo a cifras, todas as +considerações d'este mundo a +equações de interêsse +corporal, comprae, vendei, agiotae.―No +fim de tudo isto, o que lucrou a especie humana? +Que ha mais umas poucas de duzias de homens +riccos. E eu pergunto aos economistas-politicos, +aos moralistas, se ja calcularam o número +de individuos que é forçoso condemnar +á miseria, +ao trabalho desproporcionado, á +desmoralização, +á infamia, á ignorancia crapulosa, á +desgraça +invencivel, á penuria absoluta, para produzir +um ricco?―Que lh'o digam no Parlamento +inglez, onde, <a name="n5"></a>depois de tantas +commissões de +inquérito, ja deve de andar orçado o +número de +almas que é preciso vender ao diabo, o número +<span class="pagenum">[26]</span> +de corpos que se tem de intregar antes do tempo +ao cemiterio para fazer um tecelão ricco e fidalgo +como Sir Robert Peel, um mineiro, um +banqueiro, um grangeeiro―seja o que for: +cada homem ricco, abastado, custa centos de infelizes, +de miseraveis. +<br /> + +<br /> + +Logo a nação mais feliz não +é a mais ricca. +Logo o princípio utilitario é a +<em>mamona</em> da injustiça +e da reprovação. Logo... +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry1"><a name="n6"></a>There +are more things in heaven and earth, Horatio,<br /> + +Than are dreamt of in your philosophy. +</div> + +<br /> + +A sciencia d'este seculo é uma grandessissima +tola. +<br /> + +<br /> + +E como tal, presumpçosa e cheia do orgulho +dos nescios. +<br /> + +<br /> + +<div class="dots"></div> + +<br /> + +<div class="dots"></div> + +<br /> + +<div class="dots"></div> + +<br /> + +<br /> + +Vamos á descripção +Vamos á descripção da estalagem. +Não póde +ser classica; assoviam-me todos esses rapazes de +pera, bigode e charuto, que fazem litteratura +<span class="pagenum">[27]</span> +cava e funda desde a porta do Marrare até ao +café de Moscow... +<br /> + +<br /> + +Mas aqui é que me apparece uma incoherencia +inexplicavel. A sociedade é materialista; e a +litteratura, que é a expressão da sociedade, +é toda +excessivamente e absurdamente e despropositadamente +espiritualista! Sancho rei de facto, +Quixote rei de direito! +<br /> + +<br /> + +Pois é assim; e explica-se.―É a litteratura +que é uma hypocrita: tem religião nos versos, +charidade nos romances, fé nos artigos de +jornal―como os que dão esmolas para pôr no +<em>Diario</em>, que amparam orphans na +<em>Gazeta</em>, e sustentam +viuvas nos cartazes dos theatros. +<br /> + +<br /> + +E fallam no Evangelho! Deve ser por escarneo. +Se o leem, hãode ver lá que nem a esquerda +deve saber o que faz a direita... +<br /> + +<br /> + +Vamos á descripção da estalagem; e +acabemos +com tanta digressão. +<br /> + +<br /> + +Não póde ser classica, está visto, a +tal descripção.―Seja +romantica.―Tambem não póde +<span class="pagenum">[28]</span> +ser. Porque não? É pôr-lhe +lá <a name="n7"></a>um <em>Chourineur</em> +a amolar um facão de palmo e meio para espatifar +rez e homem, quanto incontrar,―uma +<em>Fleur-de-Marie</em> para dizer e fazer +pieguices com +uma rozeirinha pequenina, bonitinha, que morreu, +coitadinha!―e um principe allemão incoberto, +forte no sôcco britannico, immenso em +libras sterlinas, profundo em gyria de cegos e +ladrões... e ahi fica a Azambuja com uma estalagem +que não tem que invejar á mais pintada +e da moda n'este seculo elegante, delicado, verdadeiro, +natural! +<br /> + +<br /> + +É como eu devia fazer a descripção: +bem o +sei. Mas ha um impedimento fatal, invencivel―egual +ao d'aquella famosa salva que se não +deu... é que nada d'isso lá havia. +<br /> + +<br /> + +E eu não quero calumniar a boa gente da +Azambuja. Que me não leam os taes, porque eu +heide viver e morrer na fé de Boileau: +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry">Rien n'est beau que le vrai. +</div> + +<br /> + +Ja se diz ha muito anno que honra e proveito +não cabem n'um sacco; eu digo que belleza +<span class="pagenum">[29]</span> +e mentira tambem lá não cabem: e é a +mais +portugueza traducção que creio que se possa fazer +d'aquelle ímmortal e evangelico hemystichio. +A maior parte das bellezas da litteratura actual +fazem-me lembrar aquellas formosuras que tentavam +os sanctos eremitas na Thebaida. O pobre +de Sancto Antão ou de S. Pacomio (Pacomio é +melhor aqui) ficavam imbasbacados ao princípio; +mas dava-lhe o coração uma pancada, olhavam-lhe +para os pés...―Cruzes maldicto! Os pés +não +podia elle incobrir. E ao primeiro +<em>abrenuntio</em> do +sancto, dissipava-se a belleza em muito fummo de +inxofre, e ficava o diabo negro feio e cabrum +como quem é, e sempre foi o pae da mentira. +<br /> + +<br /> + +Nada, nada, verdade e mais verdade. Na estalagem +da Azambuja o que havia era uma pobre +velha a quem eu chamei bruxa, porque emfim +que havia de eu chamar á velha suja e maltrapida +que estava á porta d'aquella asquerosa +casa? +<br /> + +<br /> + +Havia lá ésta velha, com a sua +môça mais +môça mas não menos nojenta de ver que +ella, e +um velho meio paralytico meio demente que alli +estava para um canto com todo o geito e traça +<span class="pagenum">[30]</span> +de quem vem folgar agora na taberna porque +ja bebeu o que havia de beber n'ella.<br /> + +<br /> + +Matava-nos a sêde; mas a agua alli é beber +quartans. O vinho era atroz. Limonada? Não ha +limões nem assucar.―Mandou-se um proprio á +tenda no fim da villa. Vieram tres limões que me +pareceram de uns que pendiam, quando eu vinha +a férias, á porta do famoso botequim de Leiria.<br /> + +<br /> + +O assucar podia servir na última scena de M. +de Pourceaugnac muito melhor que n'uma limonada. +Mas misturou-se tudo com a agua das sezões, +bebémos, pozemo-nos em marcha, e até +agora não nos fez mal, com ser a mais abominavel, +antipathica e suja beberagem que se póde +imaginar. +<br /> + +<br /> + +Caminhámos na mesma ordem até chegar ao +famoso pinhal da Azambuja.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c4"></a>CAPITULO IV. +</h3> + +<br /> + +<div class="intro">De como o A. foi pensando e divagando, +e em que pensava +e divagava elle, no caminho da villa da Azambuja até o +famoso pinhal do mesmo nome.―Do poeta grego e philosopho +Démades, e do poeta e philosopho inglez Addison, +da casaca de penneiros e do palio atheniense, e de outros +importantes assumptos em que o A. quiz mostrar a sua profunda +erudição.―Discute-se a materia gravissima se +é necessario +que um ministro d'estado seja ignorante e leigarraz.―Admiraveis +reflexões de zigzag em que se tracta de +<em>re politica</em> e de <em>re +amatoria</em>.―Descobre-se porfim que o +A. estivera a sonhar em todo este capitulo, e pede-se ao +leitor benevolo que volte a folha e passe ao seguinte. +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Eu darei sempre o primeiro logar á modestia +entre todas as bellas qualidades.―Ainda sôbre +a innocencia?―Ainda sim. A innocencia basta +uma falta para a perder, da modestia so culpas +<span class="pagenum">[32]</span> +graves, so crimes verdadeiros podem privar. Um +accidente, um acaso podem destruir aquella, a +ésta so uma acção propria, determinada +e voluntaria. +<br /> + +<br /> + +Bem me lembram ainda os dois versos do poeta +Démades que são forte argumento de auctoridade +contra a minha theoria; cuidei que tinha +mais infeliz memoria. Heide pô-los aqui para que +não falte a ésta grande obra das minhas viagens +o merito da erudição, e lhe não chamem +livrinho +da moda: estou resolvido a fazer a minha +reputação com este livro. +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry"><span style="font-style: italic;">Aid +ôs te kalle ka +aretês polis, +</span><br style="font-style: italic;" /> + +<span style="font-style: italic;">Prôtoê +sgathis hamartia deuteron de ais +chunê</span><br /> + +<br /> + +Da belleza e virtude é a cidadella<br /> + +A innocencia primeiro―e depois ella. +<br /> + +</div> + +<br /> + +Mas a auctoridade responde-se com auctoridade, +e a texto com texto. E eu trago aqui na +algibeira o meu Addison―um dos poucos livros +que não largo nunca―e atiro com o philosopho +inglez ao philosopho grego e fico triumphante: +porque Addison não põe nada acima da +<span class="pagenum">[33]</span> +modestia; e Addison, apezar da sua casaca de +penneiros, é muito maior philosopho do que foi +Démades com a sua tunica e o seu palio atheniense. +<br /> + +<br /> + +O erudito e amavel leitor escapará d'ésta vez +a mais citações: compre um +<em>Spectator</em>, que é +livro sem que se não póde estar, e veja +<em>passim</em>. +<br /> + +<br /> + +Eu gósto, bem se ve, de ir ao incôntro das +objecções que me podem fazer; lembro-as eu +mesmo paraque depois me não digam:―'Ah, +ah! vinha a ver se pegava!'―Não senhor, não +é o meu genero esse. +<br /> + +<br /> + +Francamente pois... eis-ahi o que poderão dizer:―'Addison +foi secretario d'Estado, e então...'―Então +o quê? Não concebem um secretario +d'Estado philosopho, um ministro poeta, +escriptor elegante, cheio de graça e de talento? +Não, bem vejo que não: teem a idea +fixa de que um ministro d'Estado hade ser por +fôrça algum semsaborão, malcriado e +petulante. +Mas isto é nos paizes adiantados em que ja é +indifferente +para a coisa-pública, em que povo nem +principe lhes não importa ja, em que mãos se +intregam, +<span class="pagenum">[34]</span>a que +cabeças se confiam. Em Inglaterra +não é assim, nem era assim no tempo de +Addison. <a name="n8"></a>Fossem lá +á rainha Anna que deixasse +entrar no seu gabinete quatro calças de coiro +sem criação nem instrucção, +e não mais senão +so porque este sabía jogar nos fundos, aquelle +tinha boas tretas para o <em>canvassing</em> +de umas eleições, +o outro era figura importante no +<em>Freemasson's-hall</em>!<br /> + +<br /> + +Ja se ve que em nada d'isto ha a minima allusão +ao feliz systema que nos rege: estou fallando +de modestia, e nós vivemos em Portugal.<br /> + +<br /> + +A modestia comtudo quando é excessiva e se +aproxima do acanhamento, do que no mundo se +chama <em>falta de uso</em>―póde +ser n'um homem quasi +defeito inteiro. Na mulher é sempre virtude, +realce de belleza ás formosas, disfarce de fealdade +ás que o não são.<br /> + +<br /> + +Por mim, não conheço objecto mais lindo em +toda a natureza, mais feiticeiro, mais capaz de +arrebatar o espirito e inflammar o coração do que +é uma joven donzella quando a modestia lhe faz +subir o rubor ás faces, e o pejo lhe carrega brandamente +<span class="pagenum">[35]</span>nas +palpebras... Pouco lume que tenha +nos olhos, pouco regular que seja o semblante, +menos airosa que seja a figura, parecer-vos-ha +n'esse momento um anjo. E anjo é a virgem modesta, +que traz no rosto debuxado sempre um +ceo de virtudes...―De alguma belleza sei eu cujos +olhos <em>côr da noite</em> ou de +<em>saphyra</em> (<em>dialec. +poet. +vet.</em>), cujas faces de <em>leite e +rosas</em>, dentes de +<em>pérolas</em>, +collo de <em>marfim</em>, transas de +<em>ebano</em> (a +allusão é surtida, ha onde escolher) davam larga +materia a boas grozas de sonetos―no antigo regimen +dos sonetos, e hoje inspirariam myriadas +de canções descabelladas e vaporosas, choradas +na harpa ou gemidas no alahude. Comtanto que +não seja lyra, que é classico, todo o +instrumento, +inclusivamente a bandurra, é egual deante da lei +romantica. +<br /> + +<br /> + +Ora pois, mas a tal belleza, por certo ar ala-moda, +certo não-sei-quê de atrevido nos olhos, +de deslavado na cara, e de descomposto nos ademanes, +perde toda a graça e quasi a propria formosura +de que a dotára a natureza... +<br /> + +<br /> + +Vêde-me aquelles labios de carmim. Ha maio +florido que tam lindo botão de rosa +apresente ao +<span class="pagenum">[36]</span> +alvorecer da madrugada?... Mas olhae agora como +o riso da malicia lh'o desfolha tam feiamente +n'uma desconcertada risada... +<br /> + +<br /> + +Desvaneceu-se o prestigio. +<br /> + +<br /> + +Não havia moço nem velho, homem do mundo +ou sabio de gabinete que não désse metade +dos seus prazeres, dos seus livros, da sua vida +por um so beijo d'aquella bôcca... Agora talvez +nem repetidos <em>avances</em> lhe +façam obter um namorante +de profissão e officio... E hade pagá-lo +adeantado, e porque preço!... +<br /> + +<br /> + +<div class="dots"></div> + +<br /> + +<div class="dots"></div> + +<br /> + +<br /> + +Mas o que terá tudo isto com a jornada da +Azambuja ao Cartaxo? A mais íntima e verdadeira +relação que é possivel. É +que a pensar ou +a sonhar n'estas coisas fui eu todo o caminho, +até me achar no meio do pinhal da Azambuja. +<br /> + +<br /> + +Ahi parámos, e acordei eu. +<br /> + +<br /> + +Sou sujeito a éstas distracções, a +este sonhar +<span class="pagenum">[37]</span> +acordado. Que lhe heide eu fazer? Andando, +escrevendo, sonho e ando, sonho e fallo, sonho +e escrevo. Francamente me confesso de somnambulo, +de somniloquo, de... Não, fica melhor +com seu ar de grego (tenho hoje a bossa hellenica +n'um estado de tumescencia pasmosa!); digamos +somnilogo, somnigrapho... +<br /> + +<br /> + +A minha opinião sincera e +<em>conscienciosa</em> é que +o leitor deve saltar éstas folhas, e passar ao capitulo +seguinte, que é outra casta de capitulo.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c5"></a>CAPITULO V. +</h3> + +<br /> + +<div class="intro"> +Chega o A. ao pinhal da Azambuja, e não o acha. Trabalha-se +por explicar este phenomeno pasmoso. Bello rasgo de stylo +romantico.―Receita para fazer litteratura original com +pouco trabalho.―Transição classica: Orpheu e o +bosque +do Ménalo.―Desce o A. d'estas grandes e sublimes +considerações +para as realidades materiaes da vida: é desamparado +pela hospitaleira traquitana e tem de cavalgar na +triste mula de arrieiro.―Admiravel choito do animal. +Memorias do marquez do F. que adorava o choito. +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Este é que é o pinhal da Azambuja? +<br /> + +<br /> + +Não póde ser. +<br /> + +<br /> + +Ésta, aquella antiga selva, temida quasi religiosamente +como um bosque druidico! E eu +<span class="pagenum"><a name="p40">[40]</a></span> +que, em pequeno, nunca ouvia contar historia de +Pedro de Mallas-artes, que logo, em imaginação, +lhe não pozesse a scena aqui perto!... Eu que +<a href="#e4">esperava</a> +topar a cada passo com a cova do capitão +Roldão e da dama Leonarda!... Oh! que ainda +me faltava perder mais ésta illusão... +<br /> + +<br /> + +Por quantas maldicções e infernos adornam o +stylo d'um verdadeiro escriptor romantico, digam-me, +digam-me: onde estão os arvoredos fechados, +os sitios medonhos d'esta espessura. Pois +isto é possivel, pois o pinhal da Azambuja é +isto?... +Eu que os trazia <em>promptos e +recortados</em> para +os collocar aqui todos os amaveis salteadores +de Schiller, e os elegantes facinorosos do +<em>Auberge-des-Adrets</em>, +eu heide perder os meus chefes-d'obra! +Que é perdê-los isto―não ter onde os +pôr!..<br /> + +<br /> + +Sim, leitor benevolo, e por ésta occasião te +vou explicar como nós hoje em dia fazemos a +nossa litteratura. Ja me não importa guardar segredo, +depois d'esta desgraça não me importa ja +nada. Saberás pois, ó leitor, como nós +outros fazemos +o que te fazemos ler. <br /> + +<br /> + +Tracta-se de um romance, de um drama―cuidas +<span class="pagenum"><a name="p41">[41]</a></span> +que vamos estudar +a historia, a natureza, +os monumentos, as pinturas, os sepulchros, os edificios, +as memorias da epocha? Não seja pateta, +senhor leitor, nem cuide que nós o somos. +Desenhar +characteres e situações do +<em>vivo</em> da natureza, +collori-los das côres verdadeiras da historia... isso +é trabalho difficil, longo, delicado, exige um +estudo, um talento, e sôbretudo um tacto!... +Não senhor: a coisa faz-se muito mais facilmente. +Eu lhe explico. +<br /> + +<br /> + +Todo o drama e todo o romance precisa de: +<br /> + +<br /> + +Uma ou duas damas, +<br /> + +<br /> + +Um pae, +<br /> + +<br /> + +Dois ou tres filhos, de dezanove a trinta annos, +<br /> + +<br /> + +Um criado velho, +<br /> + +<br /> + +Um monstro, incarregado de fazer as <a href="#e5">maldades</a>, +<br /> + +<br /> + +Varios tractantes, e algumas pessoas capazes +para intermedios. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p42">[42]</a></span> +Ora bem; vai-se aos figurinos francezes de +Dumas, de Eug. Sue, de Victor-Hugo, e +<em>recorta</em> +a gente, de cadaum d'elles, as figuras que +precisa, gruda-as sôbre uma folha de papel da +côr da moda, verde, pardo, azul―como fazem +as raparigas inglezas aos seus albums e scrapbooks; +fórma com ellas os +grupos e situações +que lhe parece; não importa que sejam mais ou +menos disparatados. Depois vai-se ás chronicas, +tiram-se uns poucos de nomes e de palavrões +velhos; com os nomes chrismam-se os figurões, +com os palavrões +<em>illuminam-se</em>... (stylo de pintor +pinta-monos).―E aqui está como nós fazemos a +nossa litteratura original. +<br /> + +<br /> + +E aqui está o precioso trabalho que eu agora +perdi! +<br /> + +<br /> + +Isto não póde ser! Uns poucos de pinheiros +raros e infezados atravez dos quaes se estão quasi +vendo as vinhas e olivedos circumstantes!.. +É o desapontamento mais chapado e solemne +que nunca tive na minha vida―uma verdadeira +logração em boa e antiga phrase portugueza. +<br /> + +<br /> + +E comtudo aqui é que devia ser, aqui é que +<span class="pagenum">[43]</span> +é, geographica e topographicamente fallando, o +bem conhecido e confrontado sitio do pinhal da +Azambuja...<br /> + +<br /> + +Passaria por aqui algum Orpheu que, pelos magicos +podêres da sua lyra, levasse atraz de si as +árvores d'este antigo e classico Menalo dos salteadores +lusitanos?<br /> + +<br /> + +Eu não sou muito difficil em admittir prodigios +quando não sei explicar os phenomenos por +outro modo. O pinhal da Azambuja mudou-se. +Qual, de entre tantos Orpheus que a gente por +ahi ve e ouve, foi o que obrou a maravilha, +isso é mais difficil de dizer. Elles são tantos, +e +cantam todos tão bem! Quem sabe? Juntar-se-hiam, +fariam uma companhia por acções, e negociariam +um emprestimo harmonico com que +facilmente se obraria então o milagre. É como +hoje se faz tudo; é como se passou o thesoiro +para o banco, o banco para as companhias de +confiança... porque se não faria o mesmo com o +pinhal da Azambuja? +<br /> + +<br /> + +Mas aonde está elle então? faz favor de me +dizer... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[44]</span> +Sim senhor, digo: <em>está +consolidado</em>. E se não +sabe o que isto quer dizer, leia os orçamentos, +veja a lista dos tributos, passe pelos olhos os votos +de confiança; e se depois d'isto, não souber +aonde e como <em>se consolidou</em> o pinhal +d'Azambuja, +abandone a geographia que visivelmente não é a +sua especialidade, e deite-se a finança, que tem +<em>bossa</em>;―fazemo-lo eleger ahi por +Arcozello ou +pela cidade eterna―é o mesmo―vai para +a commissão de fazenda―depois lord do thesoiro, +ministro: é <em>escalla</em>, +não offendia nem a +rabujenta constituição de 38, quanto mais a +carta.<br /> + +<br /> + +<div class="dots"></div> + +<br /> + +<div class="dots"></div> + +<br /> + +<br /> + +O peior é que no meio d'estes campos onde +Troia fôra, no meio d'estas areias onde se acoitavam +d'antes os pallidos medos do pinhal da +Azambuja, a minha querida e bemfazeja traquitana +abandonou-me; fiquei como o bom <em>Xavier +de Maistre</em> quando, a meia jornada do seu quarto, +lhe perdeu a cadeira o equilibrio, e elle cahiu―ou +ia caindo, ja me não lembro bem―estatellado +no chão.<br /> + +<br /> + +Ao chão estive eu para me atirar, como criança +<span class="pagenum">[45]</span> +amuada, quando vi voltar para a Azambuja +o nosso commodo vehiculo, e deante de mim a +infezada mulinha asneira que―ai triste!―tinha +de ser o meu transporte d'alli até Santarem.<br /> + +<br /> + +Emfim o que hade ser, hade ser, e tem muita +fôrça. Consolado com este tam verdadeiro quanto +<em>elegante</em> proverbio, levantei o +ânimo á altura da +situação e resolvi fazer próva de +homem forte e +supportador de trabalhos. Bifurquei-me resignadamente +sôbre o cilicio do esfarrapado albardão, +tomei na esquerda as impermeaveis redeas de +coiro cru, e lancei o animalejo ao seu mais largo +trote, que era um confortavel e amenissimo +choito, digno de fazer as delicias do meu respeitavel +e excentrico amigo, o marquez do F.<br /> + +<br /> + +Tinha a bossa, a paixão, a mania, a furia +de choitar aquelle notavel fidalgo―o último fidalgo +homem de lettras que deu ésta terra. Mas +adorava o choito o nobre marquez. Conheci-o em +París nos ultimos tempos da sua vida, ja octogenario +ou perto d'isso: deixava a sua carruagem +ingleza toda mollas e confortos para ir passear +n'um certo cabriolet de praça que elle tinha marcado +<span class="pagenum">[46]</span> +pelo sêcco e duro movimento vertical com +que sacudia a gente. Obrigou-me um dia a experimenta-lo: +era admiravel. Communicava-se +da velha horsa normanda aos varaes, e dos varaes +á concha do carro, tam inteiro e tam sem +diminuição, o choito do execravel +Babiéca! Nunca +vi coisa assim. O marquez achava-lhe propriedades +toni-purgativos, eu classifiquei-o de violentissimo +drastico. +<br /> + +<br /> + +Foi um dos homens mais extraordinarios e o +portuguez mais notavel que tenho conhecido, aquelle +fidalgo. +<br /> + +<br /> + +Era feio como o peccado, elegante como um +bugio, e as mulheres adoravam-n'o. Filho segundo, +vivia de seus ordenados nas missões por +que sempre andou, tractava-se grandiosamente, +e legou valores consideraveis por sua morte. Imprimia +uma obra sua, mandava tirar um unico +exemplar, guardava-o e desmanchava as +fòrmas....―Não +acabo se coméço a contar historias +do marquez do F.<br /> + +<br /> + +Piquemos para o Cartaxo, que são horas.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c6"></a>CAPITULO VI. +</h3> + +<br /> + +<div class="intro">Próva-se como o velho +Camões não teve +outro remedio senão +misturar o maravilhoso da mythologia com o do christianismo.―Da-se +razão, e tira-se depois, ao padre José +Agostinho.―No +meio d'estas disceptações academico-litterarias +vem +o A. a descobrir que para tudo é preciso ter fé +n'este mundo. +Diz-se <em>n'este mundo</em>, porque, quanto +ao outro ja era +sabido.―Os Lusíadas, Fausto e a +Divina-Comedia.―Desgraça +do Camões em ter nascido antes do romantismo.―Mostra-se +como a Styge e o Cocyto sempre são melhores +sitios que o Inferno e o Purgatorio.―Vai o A. em procura +do marquez de Pombal, e dá com elle nas ilhas Beatas do +poeta Alceu.―Partida de Whist entre os illustres +finados.―Compaixão +do marquez pelos pobres homens de Ricardo +Smith e J. B. Say.―Resposta d'elle e da sua luneta ás +perguntas peralvilhas do A.―Chegada a este mundo e ao +Cartaxo. +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +O mais notavel, e não sei se diga, se continuarei +aomenos a dizer, o mais indesculpavel +defeito que até aqui esgravataram criticos +e zoilos na Iliada dos povos modernos, os +<span class="pagenum">[48]</span> +immortaes <em>Lusiadas</em>, +é sem-dúvida a heterogenea +e heterodoxa mistura da theologia com a mythologia, +do maravilhoso allegorico do paganismo, +com os graves symbolos do christianismo. +A fallar a verdade, e por mais figas que a gente +queira fazer ao padre José Agustinho―ainda +assim! ver o padre Baccho revestido <em>in +pontificalibus</em> +deante de um retabulo, não me lembra +de que sancto, dizendo o seu <em>dominus +vobiscum</em> +provavelmente a algum acholyto bacchante ou corybante, +que lhe responde o <em>et cum spiritu +tuo!</em>.. +não se póde; é uma que realmente... E +então +aquelle famoso conceito com que elle acaba, digno +da Phenix-Renascida: +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry"> +O falso deus adora o verdadeiro! +</div> + +<br /> + +Desde que me intendo, que leio, que admiro +os Lusiadas; interneço-me, chóro, +insuberbeço-me +com a maior obra de ingenho que ainda +appareceu no mundo, desde a +<em>Divina-Comedia</em> +até ao <em>Fausto</em>... +<br /> + +<br /> + +O italiano tinha fé em Deus, o allemão no +scepticismo, o portuguez na sua patria. É preciso +crer em alguma coisa para ser grande―não +so poeta―grande seja no que for. Uma Brizida +<span class="pagenum">[49]</span>velha que eu tive, +quando era pequeno, era +famosa chronista de historias da carochinha, porque +sinceramente cria em bruxas. Napoleão cria +na sua estrella, Lafayette creu na republica-rei +de Luiz-Philippe; e, para que ousemos tambem +<em>celebrare domestica facta</em>, todos os +nossos grandes +homens ainda hoje creem, um na juncta do crédito, +outro nas classes inactivas, outro no mestre +Adonirão, outro finalmente na belleza e realidade +do systema constitucional que felizmente +nos rege. +<br /> + +<br /> + +Mas essas crenças são para os que se fizeram +grandes com ellas. A um pobre homem +o que lhe fica para crer? Eu, apezar dos criticos, +ainda creio no nosso Camões: sempre +cri. +<br /> + +<br /> + +E comtudo, desde a edade da innocencia em +que tanto me divertiam aquellas batalhas, aquellas +aventuras, aquellas historias d'amores, aquellas +scenas todas, tam naturaes, tam bem pintadas―até +ésta fatal edade da experiencia, edade prosaica +em que as mais bellas creações do espirito +parecem +macaquices deante das realidades do mundo, +e os nobres movimentos do coração chymeras de +<span class="pagenum">[50]</span> +enthusiastas―até ésta edade de saudades do +passado +e esperanças no futuro, mas sem gosos no +presente―em que o amor da patria (tambem +isto será phantasmagoria?), e o sentimento intimo +do <em>bello</em> me dão na +leitura dos Lusiadas outro +deleite diverso, mas não inferior ao que n'outro +tempo me deram―eu senti sempre aquelle +grande defeito do nosso grande poema: e nunca +pude, por mais que buscasse, achar-lhe, +justificação +não digo―nem siquer desculpa. +<br /> + +<br /> + +Mas até morrer aprender, diz o adagio: e assim +é. E tambem é aphorismo de moral, applicavel +outrosim a coisas litterarias: que para a +gente achar a desculpa aos defeitos alheios, é +considerar―é pôr-se uma pessoa nas mesmas +circumstancias, ver-se involvido nas mesmas difficuldades. +<br /> + +<br /> + +Aqui estou eu agora dando toda a desculpa ao +pobre Camões, com vontade de o justificar, e +prompto (assim são as charidades d'este mundo) +a sahir a campo de lança em reste e a quebrá-la +com todo o antagonista que por aquelle fraco o +atacar.―E porque será isto? Porque chegou a +minha hora; e―<em>si parva licet componnere magnis</em> +<span class="pagenum">[51]</span> +(a bossa proeminente hoje é a latina), aqui me +acho eu com este meu capitulo nas mesmas difficuldades +em que o nosso bardo se viu com o seu +poema. +<br /> + +<br /> + +Ja preveni as observações com o texto acima: +bem sei quem era Camões, e quem sou eu; +mas tracta-se da +<em>intalação</em>, que +é a mesma apezar +da differença dos intalados. O auctor dos Lusiadas +viu-se intalado entre a crença do seu paiz +e as brilhantes tradições da poesia classica que +tinha por mestra e modêlo. +<br /> + +<br /> + +Não havia ainda então romanticos nem romantismo, +o seculo estava muito atrazado. +As odes de Victor-Hugo não tinham ainda desbancado +as de Horacio; achavam-se mais lyricos +e mais poeticos os esconjurios de Canidia, do +que os pesadelos de um inforcado no oratorio; +chorava-se com os <em>Tristes</em> de Ovidio, +porque se +não lagrimejava com as meditações de +Lamartine. +Andromacha despedindo-se de Heitor ás portas +de Troia, Priamo supplicante aos pés do matador +do seu filho, Helena luctando entre o remorso +do seu crime e o amor de Páris, não tinham +ainda sido eclipsados pelas declamações da +<span class="pagenum">[52]</span> +mãe Eva ás grades do paraizo terreal. O combate +de Achilles e Heitor, das hostes argivas com +as troianas, não tinha sido mettido n'um chinello +pelas batalhas campaes dos anjos bons e dos anjos +maus á metralhada por essas nuvens. Dido +chorando por Eneas não tinha sido reduzida a +donzella choramigas d'Alfama carpindo pelo seu +<em>Manel</em> que vae para a India... +<br /> + +<br /> + +Realmente o seculo estava muito atrazado: +Milton não se tinha ainda sentado no logar de +Homero, Shakspeare no de Euripedes, e lord +Byron acima de todos: emfim não estava ainda +anglizado o mundo, portanto <em>a marcha do +intellecto</em> +no mesmo terreno, é tudo uma miseria. +<br /> + +<br /> + +Ora pois, o nosso Camões, creador da epopea, +e―depois do Dante―da poesia moderna, +viu-se atrapalhado; misturou a sua crença religiosa +com o seu credo poetico e fez, <em>tranchons +le mot</em>, uma semsaboria. +<br /> + +<br /> + +E aqui direi eu com o vate Elmano: +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry">Camões, grande +Camões, quam similhante<br /> + +Acho teu fado ao meu quando os cotejo!</div> + +<br /> + +Vou fazer outra semsaboria eu, n'este bello +<span class="pagenum">[53]</span> +capitulo da minha obra-prima. Que remedio! +Preciso fallar com um illustre finado, preciso +de evocar a sombra de um grande genio que +hoje habita com os mortos. E onde irei eu? +Ao inferno? Espero que a divina justiça se apiedasse +d'elle na hora dos ultimos arrependimentos. +Ao purgatorio, ao empyreo? Apezar do exemplo +da <em>Divina Comedia</em>, não me +atrevo a fazer +comedias com taes logares de scena,―e não sei, +não gósto de brincar com essas coisas. +<br /> + +<br /> + +Não lhe vejo remedio senão recorrer ao bem +parado dos Elysios, da Styge, do Cocyto e seu +termo: são terrenos neutros em que se póde +parlamentar +com os mortos sem compromettimento +serio, e.... +<br /> + +<br /> + +Eis-me ahi no êrro de Camões―e nas unhas +dos criticos; e as zagunchadas a ferver em cima +de mim, que fiz, que aconteci.... +<br /> + +<br /> + +Mas, senhores, ponderem, venham ca: o que +hade um homem fazer? O Dante não sei que +gyria teve que baptisou Publio Virgilio Marão +para lhe servir de cicerone nas regiões do inferno, +do paraizo e do purgatorio christão, e teve +<span class="pagenum">[54]</span> +tam boa fortuna que nem o queimou a Inquisição +nem o descompoz a Crusca, nem siquer o mutilaram +os censores, nem o perseguiram delegados +por abuso de liberdade de imprensa, nem o mandaram +para os dignos pares... Não se tinham ainda +descoberto as mangações liberaes que se usam +hoje: e as cartas que o povo tinha era a liberdade +ganha e sustentada á ponta da espada, com +muito coração e poucas palavras, muito +patriotismo, +poucas leis... e menos relatorios. Não havia +em Florença nem gazeta para louvar as tolices +dos ministros, nem ministros para pagar as +tolices da gazeta.<br /> + +<br /> + +O Dante foi proscripto e exilado, mas não se +ficou a escrever, deu catanada que se regallou +nos inimigos da liberdade da sua patria.<br /> + +<br /> + +Quem dera ca um batalhão de poetas como +aquelle! +<br /> + +<br /> + +Que fosse porêm um triste vate de hoje escrever +no seculo das luzes o que escrevia o Dante +no seculo das trevas! Os proprios philosophos +gritavam: Que escandalo! Atheus professos clamavam +contra a irreverencia; gentes que não +<span class="pagenum">[55]</span> +teem religião, nem a de Mafoma, bradavam +pela religião: entravam a pôr carapuças +nas cabeças +uns dos outros, cahiam depois todos sôbre +o poeta, e―se o não podessem inforcar, pelo +menos declaravam-n'o republicano, que dizem +elles que é uma injúria muito grande.<br /> + +<br /> + +Nada! viva o nosso Camões e o seu maravilhoso +mistiforio; é a mais commoda invenção +d'este mundo: vou-me com ella, e ralhe a crítica +quanto quizer.<br /> + +<br /> + +Quero procurar no reino das sombras não menor +pessoa que o marquez de Pombal: tenho que +lhe fazer uma pergunta séria antes de chegar ao +Cartaxo. E nós ja vamos por entre as riccas vinhas +que o circundam com uma zona de verdura +e alegria. Depressa o ramo de oiro que me abra +ao pensamento as portas fataes―depressa a unctuosa +sopetarra com que heide atirar ás tres gargantas +do canzarrão. Vamos...<br /> + +<br /> + +Mas em que districto +d'aquellas regiões acharei +eu o primeiro ministro d'elrei D. José? Por onde +está Ixion e Tantalo, por onde demora Sysipho +e outros maganões que taes? Não; esse +é um +<span class="pagenum">[56]</span> +bairro muito triste, e arrisca-se a ter por administrador +algum escandecido que me atice as orelhas.<br /> + +<br /> + +Nos Elysios com o pae Anchises e outros barbaças +classicos do mesmo jaez? Eu sei? tambem +isso não. Hade ser n'aquellas ilhas bemaventuradas +de que falla o poeta Alceu e onde elle poz +a passear, por eternas verduras, as almas tyrannicidas +de Harmódio e Aristógiton...<br /> + +<br /> + +Oh! ésta agora!... Sebastião José de +Carvalho +e Mello, conde de Oeiras, marquez de Pombal, +de companhia com os seus inimigos politicos!... +Ahi é que se ingánam; não ha amigos +nem inimigos +politicos em se largando o mando e as pretenções +a elle. Ora, passados os umbraes da eternidade, +é de fé que se não pensa mais n'isso. +C. +J. X., que morreu a assignar uma portaria, ja +tinha largado a penna <a name="n9"></a>quando +chegou alli pelos +<em>Prazeres</em>; quanto mais!...<br /> + +<br /> + +O homem hade estar nas ilhas <em>beatas</em>. +Vamos +lá...<br /> + +<br /> + +E ei-lo alli: lá está o bom do marquez a jogar +<span class="pagenum">[57]</span> +o whist com o barão de Bidefeld, com o imperador +Leopoldo e com o poeta Diniz. A partida +deve de ser interessante, talvez aposta essa +gente toda―esses manes todos que estão á roda. +Que cara que fez o marquez a um finadinho +que lhe foi metter o nariz nas cartas! Quem +havia de ser! O intromettido de M. de Talleyrand. +Estava-lhe cahindo. Mas não viu nada: o +nobre marquez sempre soube esconder o seu jôgo.<br /> + +<br /> + +A mim é que elle ja me viu. 'Que diz? Ah!.. +Sim senhor, sou portuguez; e venho fazer uma +pergunta a V. Exa., esclarecer-me sôbre um ponto +importante.'<br /> + +<br /> + +Deitou-me a tremenda luneta.<br /> + +<br /> + +―'Para que mandou V. Exa. arrancar as vinhas +do Ribatejo?'<br /> + +<br /> + +Apertou a luneta no sobrôlho e sorriu-se.<br /> + +<br /> + +―'Ellas ahi estão centuplicadas, que até ja +invadiram o pinhal de Azambuja. Fez V. Exa. +um despotismo inutil; e agora...' +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[58]</span> +'Agora quem bebe por lá todo esse vinho?'<br /> + +<br /> + +Não sabía o que lhe havia de responder. Elle +sacudiu a cabelleira de anneis, virou-me as costas, +deu o braço a Colbert, passou por-pé de Ricardo +Smith e de J. Baptista Say, que estavam a disputar, +incolheu os hombros em ar de compaixão, +e foi-se por uma alameda muito viçosa que ia +por aquelles deliciosos jardins dentro, e sumiu-se +da nossa vista.<br /> + +<br /> + +Eu surdi ca n'este mundo, e achei-me emcima +da azemola, aopé do grande café do +Cartaxo. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c7"></a>CAPITULO VII. +</h3> + +<br /> + +<div class="intro">Reflexões importantes +sôbre o Bois-de-Boulogne, as +carruagens +de mollas, Tortoni, e o café do Cartaxo.―Dos +cafés +em geral, e de como são o characteristico da +civilização +de um paiz.―O Alfageme.―Hecatombe involuntaria immolada +pelo A.―Historia do Cartaxo.―Demonstra-se como +a Gran'-Bretanha deveu sempre toda a sua fôrça e +toda +a sua glória a Portugal.―Shakspeare e Laffitte, Milton +e Chateaumargot, Nelson e o principe de +Joinville.―Próva-se +evidentemente que M. Guizot é a ruina de Albion +e do Cartaxo.</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Voltar á meia-noite do +<em>Bois-de-Boulogne</em>―o +bosque por excellencia, descer, entre nuvens +de poeira, o longo stadio dos Campos-Elysios, +entrever, na rapida carreira, o obelisco +<span class="pagenum">[60]</span> +de Luxor, as árvores das Tulherias, a +columna da praça Vandomma, a magnificencia +heteroclyta da 'Magdalena', e emfim sentir parar, +de uma soffreada magistral, os dois possantes +inglezes que nos trouxeram quasi de um folego +até ao 'boulevard de Gand'; ahi entreabrir mollemente +os olhos, levantando meio corpo dos regallados +cochins de seda, e dizer: 'Ah! estamos +em Tortoni... que delicia um sorvete com este +calor!'―é seguramente, é dos prazeres maiores +d'este mundo, sente-se a gente viver; é meia +hora de existencia que vale dez annos de ser rei +em qualquer outra parte do mundo. +<br /> + +<br /> + +Pois acredite-me o leitor amigo, que sei alguma +coisa dos sabores e dissabores d'este mundo, +fie-se na minha palavra, que é de homem experimentado: +o prazer de chegar por aquelle modo a +Tortoni, o apear da elegante caleche balançada +nas mais suaves mollas que fabricasse arte ingleza +do puro aço de Suecia, não alcança, +não se +compara ao prazer e consolação de alma e corpo +que eu senti ao apear-me de minha choiteira mula +á porta do grande café do Cartaxo. +<br /> + +<br /> + +Fazem idea do que é o café do Cartaxo? +Não +<span class="pagenum">[61]</span> +fazem. Se não viajam, se não sahem, se +não +vêem mundo ésta gente de Lisboa! E passam a +sua vida entre o Chiado, a rua do Oiro e o theatro +de San'Carlos, como hãode alargar a esphera +de seus conhecimentos, desinvolver o espirito, +chegar á altura do seculo? +<br /> + +<br /> + +Coroae-vos de alface, e ide jogar o bilhar, +ou fazer sonetos á dama nova, ide, que não +prestais +para mais nada, meus queridos Lisboetas; +ou discuti os deslavados horrores de algum mellodrama +velho que fugiu assoviado da 'Porte-Saint +Martin' e veio esconder-se na Rua-dos-Condes. Tambem +podeis ir aos Toiros―estão imbolados, não +ha perigo... +<br /> + +<br /> + +Viajar?.. qual viajar! até á Cova-da-Piedade, +quando muito, em dia que lá haja cavallinhos. +Pois ficareis alfacinhas para sempre, cuidando +que todas as praças d'este mundo são como +a do Terreiro-do-Paço, todas as ruas como +a rua Augusta, todos os cafés como o do Marrare. +<br /> + +<br /> + +Pois não são, não: e o do Cartaxo +menos que +nenhum. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p62">[62]</a></span> +O café é uma das feições +mais characteristicas +de uma terra. O viajante experimentado +e fino chega a qualquer parte, entra no café, +observa-o, examina-o, estuda-o, e tem conhecido +o paiz em que está, o seu govêrno, as +suas leis, os seus costumes, a sua religião. +<br /> + +<br /> + +Levem-me de olhos tapados onde quizerem, +não me desvendem senão no café; e +protesto-lhe +que em menos de dez minutos lhe digo a terra +em que estou se for paiz sublunar. +<br /> + +<br /> + +Nós entrámos no café do Cartaxo, o +grande +café do Cartaxo; e nunca se incruzou turco em +divan de seda do mais splendido <a href="#e6">harem</a> +de Constantinopla +com tanto gôso de alma e satisfacção +de corpo, como nós nos sentámos nas duras e +asperas +tábuas das esguias banquetas mal sarapintadas +que ornam o magnífico estabelecimento +bordalengo. +<br /> + +<br /> + +Em poucas linhas se descreve a sua simplicidade +classica: será um parallelogrammo pouco +maior que a minha alcova; á esquerda duas +mezas de pinho, á direita o mostrador invidraçado +onde campeam as garrafas obrigadas de liquor de +<span class="pagenum">[63]</span> +amendoa, de canella, de cravo. Pendem do +tecto, laboriosamente arrendados por não vulgar +tesoira, os pingentes de papel, convidando a +lascivo repouso a inquieta raça das moscas. Reina +uma frescura admiravel n'aquelle recinto. +<br /> + +<br /> + +Sentámo-nos, respirámos largo, e +entrámos +em conversa com o dono da casa, homem de +trinta a quarenta annos, de physionomia experta +e sympathica, e sem nada do repugnante villão-ruim +que é tam usual de incontrar por similhantes +logares da nossa terra. +<br /> + +<br /> + +―'Então que novidades ha por ca pelo Cartaxo, +patrão?' +<br /> + +<br /> + +―'Novidades! Por aqui não temos senão o +que vem de Lisboa.―Ahi está a +'Revolução' +de hontem...' +<br /> + +<br /> + +―'Jornaes, meu caro amigo! Vimos fartos +d'isso. Diga-nos alguma coisa da terra. Que faz +por ca o...' +<br /> + +<br /> + +―'O mestre J. P., o 'Alfageme?'' +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[64]</span> ―'Como assim o Alfageme?' +<br /> + +<br /> + +―'Chamam-lhe o Alfageme ao mestre J. P.: +pois então! Uns senhores de Lisboa que ahi estiveram +em casa do Sr. D. poseram-lhe esse nome, +que a gente bem sabe o que é; e ficou-lhe, que +agora ja ninguem lhe chama senão o Alfageme. +Mas quanto a mim, ou elle não é Alfageme, ou +não o hade ser muito tempo. Não é +aquelle, não. +Eu bem me intendo.' +<br /> + +<br /> + +A conversação tornava-se interessante, +especialmente +para mim: quizemos profundar o caso. +<br /> + +<br /> + +―'Muito me conta, Sr. patrão! Com que +isto de ser Alfageme, parece-lhe que é coisa +de?.. +<br /> + +<br /> + +―'Parece-me o que é, e o que hade parecer a +todo o mundo. E alguma coisa sabemos, ca no +Cartaxo, do que vai por elle. <a name="n10"></a>O +verdadeiro Alfageme +diz que era um espadeiro ou armeiro, +cutileiro ou coisa que o valha, na Ribeira de Santarem; +e que foi um homem capaz, e que tinha +pelo povo, e que não queria saber de partidos, +e que dizia elle: 'Rei que nos inforque, e papa +<span class="pagenum">[65]</span>que nos +excommungue, nunca hade faltar. Assim, +deixar os outros brigar, trabalhemos nós +e ganhemos a nossa vida.' Mas que extrangeiros +que não queria, que ésta terra que era nossa e +co'a nossa gente se devia de governar. E mais +coisas assim: e que porfim o deram por traidor +e lhe tiraram quanto tinha.―Mas que lhe +valeu o Condestavel e o não deixou arrazar, por +que era homem de bem e fidalgo ás direitas. +Pois não é assim que foi?' +<br /> + +<br /> + +―'É, sim, meu amigo. Mas então d'ahi?' +<br /> + +<br /> + +―'Então d'ahi o que se tira, é que quando +havia fidalgos como o sancto Condestavel tambem +havia Alfagemes como o de Santarem. E mais +nada.' +<br /> + +<br /> + +―'Perfeitamente. Mas porque chamaram ao +mestre P. o Alfageme do Cartaxo?' +<br /> + +<br /> + +―'Eu lhe digo aos senhores: o homem nem +era assim nem era assado. Fallava bem, tinha +sua labia com o povo. D'ahi fez-se juiz, pôs por +ahi suas coisas a direito―Deus sabe as que elle +intortou tambem!.. ganhou nome no povo, e +<span class="pagenum">[66]</span> +agora faz d'elle o que quer. Se lhe der sempre +para bem, bom será.―Os senhores não tomam +nada?' +<br /> + +<br /> + +O bom do homem visivelmente não queria +fallar mais: e não deviamos importuná-lo. +Fizemos +o sacrificio de bom número de limões que +expremémos em profundas taças―vulgo, copos +de canada―e com agua e assucar, offerecemos +as devidas libações ao genio do logar. +<br /> + +<br /> + +Infelizmente o sacrificio não foi detodo incruento. +Muitas hecatombes de myrmidões cahiram +no holocausto, e lhe deram um cheiro e sabor +que não sei se agradou á divindade, mas que +injoou terrivelmente aos sacerdotes. +<br /> + +<br /> + +Sahimos a visitar o nosso bom amigo, o velho +D., a honra e a alegria do Ribatejo. Ja elle sabía +da nossa chegada, e vinha no caminho para +nos abraçar. +<br /> + +<br /> + +Fomos dar, junctos, uma volta pela terra. +<br /> + +<br /> + +É das povoações mais bonitas de +Portugal, o +Cartaxo, aceada, alegre; parece o bairro suburbano +de uma cidade. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[67]</span> +Não ha aqui monumentos, não ha historia +antiga: a terra é nova, e a sua prosperidade e +crescimento datam de trinta ou quarenta annos, +desde que o seu vinho começou a ter fama. Ja +descahida do que foi, pela estagnação d'aquelle +commercio, ainda é comtudo a melhor coisa da +Borda-d'agua. +<br /> + +<br /> + +Não tem historia antiga, disse; mas tem-n'a +moderna e importantissima. +<br /> + +<br /> + +Que memorias aqui não ficaram da guerra peninsular! +Que espantosas borracheiras aqui não +tomaram os mais famosos generaes, os mais distinctos +militares da nossa <em>antiga e fiel</em> +alliada, que +ainda então, ao menos, nos bebia o vinho! +<br /> + +<br /> + +Hoje nem isso!.. hoje bebe a jacobina zurrapa +de Bordeos, e as acerbas limonadas de Borgonha. +Quem tal diria da conservativa Albion! +Como póde uma leal goella britannica, rascada +pelos acidos anarchicos d'aquellas vinagretas francezas, +intoar devidamente o God-save-the-King +em um <em>toast</em> nacional! Como, sem +Porto ou Madeira, +sem Lisboa, sem Cartaxo, ousa um subdito +britannico erguer a voz, n'aquella harmoniosa +desafinação +<span class="pagenum">[68]</span> insular que lhe +é propria e +que faz parte +de seu respeitavel character nacional―faz; +não se riam: o inglez não canta senão +quando +bebe... alias quando está <span class="smallcaps">bebido</span>. +<em>Nisi +potus ad +arma ruisse.</em> Inverta: <em>Nisi potus in +cantum prorumpisse</em>... E pois, como hade elle assim <em>bebido</em> +erguer a voz n'aquelle sublime e tremendo hymno +popular Rulle-Britannia! +<br /> + +<br /> + +Bebei, bebei bem zurrapa franceza, meus amigos +inglezes; bebei, bebei a pêso de oiro, essas +limonadas dos burgraves e margraves de Allemanha; +chamae-lhe, para vos illudir, chamae-lhe +<em>hoc</em>, chamae-lhe +<em>hic</em>, chamae-lhe o +<em>hic haec +hoc</em> todo, se vos dá gôsto... que +em poucos annos +veremos o estado de <em>acetato</em> a que +hade ficar +reduzido o vosso character nacional. +<br /> + +<br /> + +Oh gente cega a quem Deus quer perder! +pois não vêdes que não sois nada sem +nós, que +sem o nosso alchool, d'onde vos vinha espirito, +sciencia, valor, ides cahir infallivelmente na antiga +e priguiçosa rudeza saxonia! +<br /> + +<br /> + +D'essas traidoras praias da França donde vos +vai hoje o veneno corrosivo da vossa indole e +<span class="pagenum">[69]</span> +da vossa fôrça, não tardará +que tambem vos +chegue outro Guilherme bastardo que vos conquiste +e vos castigue, que vos faça arrepender, +mas tarde, do criminoso êrro que hoje commetteis, +ó insulares sem fe, em abandonar a nossa +alliança. A nossa alliança sim, a nossa poderosa +alliança, sem a qual não sois nada. +<br /> + +<br /> + +O que é um inglez sem Porto ou Madeira... +sem Carcavellos ou Cartaxo? +<br /> + +<br /> + +Que se inspirasse Shakspeare com Lafitte, +Milton com Chateaumargot―o chanceller Bacon +que se dilluisse no melhor Borgonha... e veriamos +os acidulos versinhos, os destemperados +raciocininhos que faziam. +<br /> + +<br /> + +Com todas as suas dietas, Newton nunca +se lembrou de beber Johannisberg; Byron antes +beberia <em>gin</em>, antes agua do Thamisa, +ou do Pamiso, +do que essas escorreduras das areias de +Bordeos. +<br /> + +<br /> + +Tirae-lhe o Porto aos vossos almirantes, e ninguem +mais teme que torneis a ter outro Nelson. +Entra nos planos do principe de Joinville fazer-vos +<span class="pagenum">[70]</span> +beber da sua zurrapa: são tantos pontos de +partido que lhe dais no seu jôgo. +<br /> + +<br /> + +É M. Guizot quem perde a Inglaterra com +a sua alliança; e tambem perde o Cartaxo. Por +isso eu ja não quero nada com os doutrinarios. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="dots"></div> + +<br /> + +<br /> + +Ha dôze annos tornou o Cartaxo a figurar conspicuamente +na historia de Portugal. Aqui, nas +longas e terriveis luctas da última guerra de +<em>successão</em>, +esteve muito tempo o quartel-general do +marquez de Saldanha. +<br /> + +<br /> + +Alguns dythirambos se fizeram; alguns echos +das antigas canções bacchicas do tempo da guerra +peninsular ainda acordaram ao som dos hymnos +constitucionaes. +<br /> + +<br /> + +Mas o systema liberal, tirada a epocha das +eleições, não é grande +coisa para a indústria vinhateira, +dizem. Eu não o creio porém; e tenho +minhas boas razões, que ficam para outra vez.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c8"></a>CAPITULO VIII. +</h3> + +<br /> + +<div class="intro">Sahida do Cartaxo―A charneca. Perigo +imminente em que +o A. se acha de dar em poeta e fazer versos.―Ultima +revista do imperador D. Pedro ao exército liberal.―Batalha +de Almoster.―Waterloo.―Declara o A. solemnemente +que não é philosopho e chega á ponte +da Asseca. +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Eram dadas cinco da tarde, a calma declinava; +montámos a cavallo, e cortámos por entre +os viçosos pampanos que são a glória e +a +belleza do Cartaxo; as mulinhas tinham refrescado +<span class="pagenum">[72]</span> +cado e tomado ânimo; breve, nos achámos em +plena charneca. +<br /> + +<br /> + +Bella e vasta planicie! Desafogada dos raios +do sol, como ella se desenha ahi no horisonte +tam suavemente! que delicioso aroma selvagem +que exhalam éstas plantas, acres e tenazes de vida, +que a cobrem, e que resistem verdes e viçosas +a um sol portugez de julho! +<br /> + +<br /> + +A doçura que mette n'alma a vista refrigerante +de uma joven seara do Ribatejo nos primeiros +dias de abril, ondulando lascivamente com a brisa +temperada da primavera,―a amenidade bucolica +de um campo minhoto de milho, á hora +da rega, por meados de agosto, a ver-se-lhe +pullar os caules com a agua que lhe anda por pé, e +á roda as carvalheiras classicamente desposadas +com a vide cuberta de racimos pretos―são ambos +esses quadros de uma poesia tam graciosa e +cheia de mimo, que nunca a dei por bem traduzida +nos melhores versos de Theocrito ou de Virgilio, +nas melhores prosas de Gesner ou de Rodrigues-Lobo. +<br /> + +<br /> + +A majestade sombria o solemne de um bosque +<span class="pagenum">[73]</span> +antigo e copado, o silencio e escuridão +de suas moitas mais fechadas, o abrigo solitario +de suas clareiras, tudo é grandioso, sublime, inspirador +de elevados pensamentos. Medita-se +alli por fôrça; isola-se a alma dos sentidos pelo +suave adormecimento em que elles cahem... e +Deus, a eternidade―as primitivas e innatas ideas +do homem―ficam unicas no seu pensamento... +<br /> + +<br /> + +É assim. Mas um rochedo em que me eu sente +ao pôr do sol na gandra erma e selvagem, +vestida apenas de pastio bravo, baixo, e tosqueado +rente da bôcca do gado―diz-me coisas da +terra e do ceo que nenhum outro espectaculo me +diz na natureza. Ha um vago, um indeciso, um +vaporoso n'aquelle quadro que não tem nenhum +outro. +<br /> + +<br /> + +Não é o sublime da montanha, nem o augusto +do bosque, nem o ameno do valle. Não ha +ahi nada que se determine bem, que se possa +definir positivamente. Ha a solidão que é uma +idea negativa... +<br /> + +<br /> + +Eu amo a charneca. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[74]</span> +E não sou romanesco. Romantico, Deus me +livre de o ser―ao menos, o que na algaravia +de hoje se intende por essa palavra. +<br /> + +<br /> + +Ora a charneca d'entre Cartaxo e Santarem, +áquella hora que a passámos, começava +a ter +esse tom, e a achar-lhe eu esse incanto indefinivel. +<br /> + +<br /> + +Sentia-me disposto a fazer versos... a quê? +Não sei. +<br /> + +<br /> + +Felizmente que não estava so; e escapei de +mais essa caturrice. +<br /> + +<br /> + +Mas foi como se os fizesse, os versos, como +se os estivesse fazendo, porque me deixei cahir +n'um verdadeiro estado poetico de distracção, de +mudez―cessou-me a vida toda de +<em>relação</em>, e +não me sentia existir senão por dentro. +<br /> + +<br /> + +Derepente acordou-me do lethargo uma voz +que bradou:―'Foi aqui!... aqui é que foi, não ha +dúvida'. +<br /> + +<br /> + +―'Foi aqui o quê?' +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[75]</span> ―'A última revista do imperador'. +<br /> + +<br /> + +―'A última revista! Como assim a última +revista! Quando? Pois?...' +<br /> + +<br /> + +Então cahi completamente em mim, e recordei-me, +com amargura e desconsolação, dos +tremendos sacrificios a que foi condemnada ésta +geração, Deus sabe para quê―Deus sabe +se para +expiar as faltas de nossos passados, se para comprar +a felicidade de nossos vindouros... +<br /> + +<br /> + +O certo é que alli comeffeito +passára o imperador +D. Pedro a sua última revista ao exército +<br /> + +<br /> + +Toda a guerra civil é triste. +<br /> + +<br /> + +E é difficil dizer para quem mais triste, se +para o vencedor ou para o vencido. +<br /> + +<br /> + +Ponham de parte questões individuaes, e examinem +de boa fé: verão que, na totalidade de +cada facção em que a nação +se dividiu, os ganhos, <span class="pagenum">[76]</span>se +os houve para quem venceu, não balançam +os padecimentos, os sacrificios do passado, +e menos que tudo, a responsabilidade pelo futuro...<br /> + +<br /> + +Eu não sou philosopho. Aos olhos do philosopho, +a guerra civil e a guerra extrangeira, tudo +são guerras que elle condemna―e não mais +uma do que a outra... a não ser Hobbes o ditto +philosopho, o que é coisa muito differente.<br /> + +<br /> + +Mas não sou philosopho, eu: estive no campo +de Waterloo, sentei-me aopé do Leão de bronze +sôbre aquelle monte de terra amassado com o +sangue de tantos mil, vi―e eram passados vinte +annos―vi luzir ainda pela campina os ossos brancos +das victimas que alli se immolaram a não sei +quê... Os povos disseram que á liberdade, os +reis que á realeza... Nenhuma d'ellas ganhou muito, +nem para muito tempo com a tal victoria...<br /> + +<br /> + +Mas deixemos isso. Estive alli, e senti bater-me +o coração com essas +recordações, com +essas memorias dos grandes feitos e gentilezas que +alli se obraram. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[77]</span> +Porque será que aqui não sinto senão +tristeza? +<br /> + +<br /> + +Porque luctas fratricidas não podem inspirar +outro sentimento e porque... +<br /> + +<br /> + +Eu moía comigo so éstas amargas +reflexões, +e toda a belleza da charneca desappareceu deante +de mim. +<br /> + +<br /> + +N'esta desagradavel disposição de +ânimo chegámos +á ponte d'Asseca.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c9"></a>CAPITULO IX. +</h3> + +<br /> + +<div class="intro">Prolegomenos dramatico-litterarios, que +muito naturalmente +levam, apezar de alguns rodeios, ao retrospecto e +reconsideração +do capitulo antecedente.―Livros que não deviam +ter titulo, e titulos que não deviam ter livro.―Dos poetas +d'este seculo. Bonaparte, Rotchild e +Silvio-Péllico.―Chega-se +ao fim d'estas reflexões e á ponte da +Asseca.―Traducção +portugueza de um grande poeta.―Origem de um dictado.―Junot +na ponte da Asseca.―De como o A. d'este +livro foi jacobino desde pequeno.―Inguiço que lhe deram.―A +duqueza de Abrantes.―Chega-se emfim ao val +de Santarem. +</div> + +<br /> + +<br /> + +Vivia aqui ha coisa de cinquenta para sessenta +annos, n'esta boa terra de Portugal, um figurão +exquisitissimo que tinha inquestionavelmente +o instincto de descobrir assumptos dramaticos +<span class="pagenum">[80]</span> +nacionaes―ainda, ás vezes, a arte de desenhar +bem o seu quadro, de lhe grupar, não sem mérito, +as figuras: mas ao pô-las em acção, ao +collori-las, ao fazê-las fallar... boas noites! era +semsaboria irremediavel. +<br /> + +<br /> + +Deixou uma collecção immensa de peças +de +theatro que ninguem conhece, ou quasi ninguem, +e que nenhuma soffreria, talvez, representação; +mas rara é a que não poderia ser arranjada e +appropriada +á scena. +<br /> + +<br /> + +Que mina tam ricca e fertil para qualquer mediano +talento dramatico! Que bellas e portuguezas +coisas se não podem extrahir dos treze +volumes―são +treze volumes e grandes!―do theatro +de Ennio-Manuel de Figueiredo! Algumas +d'essas peças, com bem pouco trabalho, com +um dialogo mais vivo, um stylo mais animado, +fariam comedias excelentes. +<br /> + +<br /> + +Estão-me a lembrar éstas: +<br /> + +<br /> + +'O Casamento da Cadea'―ou talvez se chame +outra coisa, mas o assumpto é este; comedia +cujos characteres são habilmente esboçados, +<span class="pagenum">[81]</span> +funda-se n'aquella nossa antiga lei que fazia casar +da prisão os que assim se suppunha podêrem +reparar certos damnos de reputação feminina. +<br /> + +<br /> + +'O fidalgo de sua casa', satyra mui graciosa +de um tam commum ridiculo nosso. +<br /> + +<br /> + +'As duas educações', bello quadro de costumes: +são dois rapazes, ambos extrangeiramente educados, +um francez, outro inglez, nenhum portuguez. +É eminentemente comico, frisante, ou, +segundo agora se diz á moda, 'palpitante de +actualidade.' +<br /> + +<br /> + +'O cioso', comedia ja remoçada da antiga comedia +de Ferreira e que em si tem os germens +todos da mais ricca e original composição. +<br /> + +<br /> + +'O avaro dissipador', cujo so titulo mostra o +ingenho e invenção de quem tal assumpto concebeu: +assumpto ainda não tractado por nenhum +de tantos escriptores dramaticos de nação alguma, +e que é todavia um vulgar ridiculo, todos os dias +incontrado no mundo. +<br /> + +<br /> + +São muitas mais, não fica n'estas, as +composiçõe +São muitas mais, não fica n'estas, as +composições +<span class="pagenum">[82]</span> +do fertilissimo escriptor que, passadas +pelo +crivo de melhor gôsto, e animadas sôbretudo +no stylo, fariam um razoavel repertorio para acudir +á mingua dos nossos theatros. +<br /> + +<br /> + +Uma das mais semsabores porêm, a que vulgarmente +se haverá talvez pela mais semsabor, +mas que a mim mais me diverte pela ingenuidade +familiar e sympathica de seu tom magoado +e melancholicamento chocho, é a que tem por titulo +'Poeta em annos de prosa'. +<br /> + +<br /> + +E foi por ésta, foi por amor d'esta que me +eu deixei descahir na digressão dramatico-litteraria +do princípio d'este capitulo; pegou-se-me +á penna porque se me tinha pregado na cabeça; +e ou o capitulo não sabia, ou ella havia de sahir +primeiro. +<br /> + +<br /> + +Poeta em annos de prosa! Oh Figueiredo, Figueiredo, +que grande homem não foste tu, pois imaginaste +este titulo que so elle em si é um volume! +Ha livros, e conheço muitos, que não deviam +ter titulo, nem o titulo é nada n'elles. +<br /> + +<br /> + +Faz favor de me dizer o de que serve, o que +<span class="pagenum">[83]</span> +significa o 'Judeu errante' pôsto no frontispicio d'esse +interminavel e mercatorio romance que ahi anda +pelo mundo, mais errante, mais sem fim, +mais immorredoiro que o seu prototypo? +<br /> + +<br /> + +E ha titulos tambem que não deviam ter livro, +porque nenhum livro é possivel escrever que +os desimpenhe como elles merecem. +<br /> + +<br /> + +'Poeta em annos de prosa' é um d'esses. +<br /> + +<br /> + +Eu não leio nenhuma das raras coisas que hoje +se escrevem verdadeiramente bellas, isto é, +simples, verdadeiras, e por consequencia sublimes, +que não exclame com sincero pesadume +ca de dentro: 'Poeta em annos de prosa!' +<br /> + +<br /> + +Pois este é seculo para poetas? ou temos +nós poetas para este seculo?.. +<br /> + +<br /> + +Temos sim, eu conheço tres: Bonaparte, +Silvio-Péllico +e o barão de Rotchild. +<br /> + +<br /> + +O primeiro fez a sua Iliada com a espada, o +segundo com a paciencia, o último com o dinheiro. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[84]</span> +São os tres agentes, as tres entidades, as tres +divindades da epocha. +<br /> + +<br /> + +Ou cortar com Bonaparte, ou comprar com +Rotchild, ou soffrer e ter paciencia com Silvio-Péllico. +<br /> + +<br /> + +Todo o que fizer d'outra poesia―e d'outra +prosa tambem―é tolo... +<br /> + +<br /> + +Vieram-me éstas mui judiciosas reflexões a +proposito do capitulo antecedente d'esta minha +obra prima; e lancei-as aqui para instrucção e +edificação do leitor benevolo. +<br /> + +<br /> + +Acabei com ellas quando chegámos á ponte +da Asseca. +<br /> + +<br /> + +Esquecia-me dizer que d'aquelles tres grandes +poetas so um está traduzido em portuguez―o +Rotchild: não é litteral a +traducção, agallegou-se +e ficou muito suja de erros de imprensa mas +como não ha outra... +<br /> + +<br /> + +Ora d'onde veio este nome da Asseca? Algures +aqui perto deve de haver sitio, logar ou coisa +<span class="pagenum">[85]</span>que o valha, com o +nome de Meca; e d'ahi talvez +o admiravel rifão portuguez que ainda não +foi bem examinado como devia ser, e que decerto +incerra algum grande dictame de moral primitiva: +'andou por Secca (Asseca?) e Meca e +olivaes de Santarem.'―Os taes olivaes ficam logo +adiante. É uma ethymologia como qualquer +outra. +<br /> + +<br /> + +A ponte da Asseca corta uma varzea immensa +que hade ser um vasto pahul de hynverno: +ainda agora está a desangrar-se em agua por +toda a parte. +<br /> + +<br /> + +É notavel na historia moderna este sítio. Aqui +n'um recontro com os nossos, foi Junot gravemente +ferido, ferido na cara. <em>'Il ne sera plus +beau garçon'</em> disse o parlamentario francez +que +veio, depois da acção, tractar, creio eu, de +troca +de prisioneiros ou de coisa similhante. Mas +inganou-se o parlamentario; Junot ainda ficou +muito guapo e gentil homem depois d'isso. +<br /> + +<br /> + +Tenho pena de nunca ter visto o Junot nem o +Maneta,<sup><a href="#1">[1]</a></sup> +as duas primeiras notabilidades que ouvi +<span class="pagenum">[86]</span> +aclamar como taes e cujos nomes conhecí... Ingano-me: +conheci primeiro o nome de Bonaparte. +E lembra-me muito bem que nunca me persuadi +que elle fossa o monstro disforme e horroroso +que nos pintavam frades e velhas n'aquelle +tempo. Imaginei sempre que, para excitar tantos +odios e malquerenças, era necessario que fosse +um bem grande homem. +<br /> + +<br /> + +Desde pequeno que fui jacobino; ja se ve: e de +pequeno me custou caro. Levei bons puchões de +orelhas de meu pae por comprar na feira de San'Lazaro, +no Porto, em vez das gaitinhas ou dos +registos de sanctos, ou das outras bogigangas que +os mais rapazes compravam... não imaginam o +quê... um retrato de Bonaparte. +<br /> + +<br /> + +Foi 'inguiço'―diria uma senhora do meu conhecimento +que accredita n'elles: foi inguiço que aínda +se não desfez e que toda a vida me tem perseguido. +<br /> + +<br /> + +Quem me diria quando, por esse primeiro +peccado politico da minha infancia, por esse primeiro +tractamento duro, e―perdoe-me a respeitada +memoria de meu sancto pae!―injustissimo, +que me trouxe o mero instincto das ideas +<span class="pagenum">[87]</span> +liberaes, quem me diria que eu havia de ser perseguido +por ellas toda a vida! que apenas sahido +da puberdade havia de ir a essa mesma França, +á patria d'esses homens e d'essas ideas com +quem a minha natureza sympathysava sem saber +porquê, buscar asylo e guarida? +<br /> + +<br /> + +Não vi ja quasi nenhum d'aquelles que tanto +desejára conhecer; as ruinas do grande imperio +estavam dispersas; os seus generaes mortos, desterrados, +ou trajavam interesseiros e covardes as +librés do vencedor... +<br /> + +<br /> + +De todas as grandes figuras d'essa epocha, a +que melhor conheci e tractei foi uma senhora, +typo de graça, de amabilidade e de talento. Pouco +foi o nosso tracto, mas quanto bastou para me +incantar, para me formar no espirito um modêllo +de valor e merecimento feminino que me +veio a fazer muito mal. +<br /> + +<br /> + +Custa depois a encher aquella altura que se +marcou... +<br /> + +<br /> + +Eis aqui como eu fiz esse conhecimento. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[88]</span> +Inda o estou vendo, coitado! o pobre C. do +S., nobre, espirituoso, cavalheiro, fazendo-se +perdoar todos os seus prejuizos de casta, que tinha +como ninguem, por aquella polidez superior +e affabilidade elegante que distingue o verdadeiro +fidalgo (stylo antigo); inda o estou vendo, ja +sexagenario, ja mais que 'ci-devant jeun'homme', +o pescoço intallado na inflexivel gravata, os pés +pegando-se-lhe, como os de Ovidio, ao limiar +da porta―não que lh'os prendessem saudades, +senão que lh'os paralysava a cakexia incipiente―mas +o espirito joven a reagir e a teimar. +<br /> + +<br /> + +―'Vamos!' disse elle 'hoje estou bom, +sinto-me +outro: quero apresentá-lo a madame de +Abrantes. Está tam velha! Isto de mulheres não +são como nós, passam muito depressa.' +<br /> + +<br /> + +E o desgraçado tremiam-lhe as pernas, e suffocava-o +a tosse. +<br /> + +<br /> + +Tomámos uma 'citadine', e fomos comeffeito +á nova e elegante rua chamada não impropriamente +a rua de Londres, onde achámos rodeada +de todo o esplendor do seu occaso aquella +formosa estrella do imperio. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p89">[89]</a></span> +Não quero dizer que era uma belleza; longe +d'isso. Nem bella nem môça, nem airosa +de faser impressão era a duqueza d'Abrantes. +Mas em meia hora de conversação, de tracto, +descubriam-se-lhe tantas graças, tanto natural, +tanta amabilidade, um complexo tam verdadeiro +e perfeito da mulher franceza, a mulher mais +seductora do mundo, que involuntariamente se +dizia a gente no seu coração: 'Como se +está bem +aqui!' +<br /> + +<br /> + +Fallámos de Portugal, de Lisboa, do imperio―da +restauração, da revolução +de julho (isto era em +1831), de M. de Lafayette, de Luiz-Philippe, de +Chateaubriand―o seu grande amigo d'ella―<a name="n11"></a>do +<em>Sacré-Coeur</em> e das suas +elegantes devotas―fallámos +artes, poesia, politica... e eu não <a href="#e7">tinha +ânimo</a> +para acabar de conversar... +<br /> + +<br /> + +Benevolo e paciente leitor, o que eu tenho decerto +ainda é consciencia, um resto de consciencia: +acabemos com éstas digressões e perennaes +divagações minhas. Bem vejo que te deixei parado +á minha espera no meio da ponte d'Asseca. +Perdoa-me por quem es, dêmos d'espora ás mulinhas, +e vamos que são horas. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[90]</span> +Ca estâmos n'um dos mais lindos e deliciosos +sitios da terra: o valle de Santarem, patria dos +rouxinoes e das madresilvas, cincta de faias +bellas e de loureiros viçosos. D'isto é que +não tem +París, nem França nem terra alguma do occidente +senão a nossa terra, e vale bem por tantas, +tantas coisas que nos faltam.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c10"></a>CAPITULO X. +</h3> + +<br /> + +<div class="intro">Valle de Santarem―Namora-se o A. de +uma janella que +ve +por entre umas árvores.―Conjecturas várias a +respeito da +ditta janella.―Similhança do poeta com a mulher namorada, +e inquestionavel inferioridade do homem que não é +poeta.―Os rouxinoes. Reminiscencia de Bernardim Ribeiro +e das suas saudades.―De como o A. tinha quasi completo +o seu romance, menos um vestido branco e uns olhos +pretos.―Sahem verdes os olhos com grande +admiração e +pasmo seu.―Verificam-se as conjecturas sôbre a mysteriosa +janella.―A menina dos rouxinoes.―Censura das damas +muito para temer, crítica dos elegantes muito para +rir.―Começa +o primeiro episodio d'esta Odyssea. +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +O valle de Santarem é um d'estes logares +privilegiados pela natureza, sitios amenos e +deleitosos em que as plantas, o ar, a situação, +tudo está n'uma harmonia suavissima e perfeita: +<span class="pagenum">[92]</span> +não ha alli nada grandioso nem sublime, +mas ha uma como symetria de côres, de sons, +de disposição em tudo quanto se ve e se sente, +que não parece senão que a paz, a saude, o +socêgo +do espirito e o repouso do coração devem +viver alli, reinar alli um reinado de amor e benevolencia. +As paixões más, os pensamentos mesquinhos, +os pezares e as villezas da vida não podem +senão fugir para longe. Imagina-se por aqui +o Eden que o primeiro homem habitou com a +sua innocencia e com a virgindade do seu coração. +<br /> + +<br /> + +Á esquerda do valle, e abrigado do norte pela +montanha que alli se corta quasi a pique, está +um masisso de verdura do mais bello viço e +variedade. A faia, o freixo, o alamo enterlaçam +os ramos amigos; a madresilva, a musqueta +penduram de um a outro suas grinaldas e festões; +a congossa, os fettos, a malva-rosa do vallado +vestem e alcatifam o chão. +<br /> + +<br /> + +Para mais realçar a belleza do quadro, ve-se +por entre um claro das árvores a janella meia +aberta de uma habitação antiga mas não +dilapidada―com +certo ar de confôrto grosseiro, e +<span class="pagenum">[93]</span> +carregada na côr pelo tempo e pelos vendavais +do sul a que está exposta. A janella é larga e +baixa; parece mais ornada e tambem mais antiga +que o resto do edificio que todavia mal se ve...<br /> + +<br /> + +Interessou-me aquella janella. +<br /> + +<br /> + +Quem terá o bom gôsto e a fortuna de morar alli? +<br /> + +<br /> + +Parei e puz-me a namorar a janella. +<br /> + +<br /> + +Incantava-me, tinha-me alli como n'um feitiço. +<br /> + +<br /> + +Pareceu-me entrever uma cortina branca... e +um vulto por de traz... Imaginarão decerto! Se +o vulto fosse feminino!.. era completo o romance. +<br /> + +<br /> + +Como hade ser bello ver pôr o sol d'aquella +janella!.. +<br /> + +<br /> + +E ouvir cantar os rouxinoes!.. +<br /> + +<br /> + +E ver raiar uma alvorada de maio!.. +<br /> + +<br /> + +Se haverá alli quem a aproveite, a deliciosa +janella?.. quem apprecie e saiba gosar todo o prazer +<span class="pagenum">[94]</span> +tranquillo, todos os sanctos gosos de alma +que parece que lhe andam esvoaçando em tôrno? +<br /> + +<br /> + +Se fôr homem é poeta; se é mulher +está namorada. +<br /> + +<br /> + +São os dois entes mais parecidos da natureza, +o poeta e a mulher namorada: vêem, sentem, +pensam, fallam como a outra gente não ve, não +sente, não pensa nem falla. +<br /> + +<br /> + +Na maior paixão, no mais acrysolado affecto +do homem que não é poeta, entra sempre o seu +tanto da vil prosa humana: é liga sem que se não +lavra o mais fino de seu oiro. A mulher não; a +mulher apaixonada devéras sublima-se, idealiza-se +logo, toda ella é poesia; e não ha dor physica, +interêsse material, nem deleites sensuaes que +a façam descer ao positivo da existencia prosaica. +<br /> + +<br /> + +Estava eu n'estas meditações, começou +um +rouxinol a mais linda e desgarrada cantiga que +ha muito tempo me lembra de ouvir. +<br /> + +<br /> + +Era aope da ditta janella! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p95">[95]</a></span> +E respondeu-lhe logo outro do lado opposto; +e travou-se entre ambos um desafio tam regular, +em strophes alternadas tam bem medidas, tam +accentuadas e perfeitas, que eu fiquei todo dentro +do meu romance, esqueci-me de tudo o +mais. +<br /> + +<br /> + +Lembrou-me o rouxinol de Bernardim-Ribeiro, +o que se deixou cahir n'agua de cançado. +<br /> + +<br /> + +O arvoredo, a janella, os rouxinoes... áquella +hora, o fim da tarde... que faltava para completar +o romance? +<br /> + +<br /> + +Um vulto feminino que viesse sentar-se áquele +balcão―vestido de branco―oh! branco por +fôrça... a frente descahida sôbre a +mão <a href="#e8">esquerda</a>, +o braço direito pendente, os olhos alçados +ao ceo... De que côr os olhos? Não sei, que +importa! é amiudar muito demais a pintura, +que deve ser a grandes e largos traços para ser +romantica, vaporosa, desenhar-se no vago da +idealidade poetica... +<br /> + +<br /> + +―'Os olhos, os olhos...' disse eu pensando +ja alto, e todo no meu extasi, 'os olhos... pretos.' +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[96]</span> ―'Pois eram verdes!'<br /> + +<br /> + +―'Verdes os olhos... d'ella, do vulto da +janella?' +<br /> + +<br /> + +―'Verdes como duas esmeraldas orientaes, +transparentes, brilhantes, sem preço.' +<br /> + +<br /> + +―'Quê! pois realmente?.. É gracejo isso, +ou realmente ha alli uma mulher, bonita, e?..'<br /> + +<br /> + +―'Alli não ha ninguem―ninguem que se +nomeie hoje, mas houve... oh! houve um anjo, +um anjo, que deve de estar no ceo.' +<br /> + +<br /> + +―'Bem dizia eu que aquella janella...' +<br /> + +<br /> + +―'É a janella dos rouxinoes.' +<br /> + +<br /> + +―'Que lá estão a cantar.' +<br /> + +<br /> + +―'Estão, esses lá estão ainda como ha +dez annos―os +mesmos ou outros, mas a <em>menina dos +rouxinoes</em> foi-se e não voltou.' +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p97">[97]</a></span> ―'A menina dos rouxinoes! que historia é +essa? Pois devéras tem <a href="#e9">uma +historia</a> aquella janella?' +<br /> + +<br /> + +―'É um romance todo inteiro, <em>todo +feito</em> como +dizem os francezes e conta-se em duas palavras.'<br /> + +<br /> + +―'Vamos a elle. A menina dos rouxinoes, +menina com olhos verdes! Deve ser interessantissimo. +Vamos á historia ja.' +<br /> + +<br /> + +―'Pois vamos. Apeemo'-nos e descancemos +um bocado.' +<br /> + +<br /> + +Ja se ve que este dialogo passava entre mim +e outro dos nossos companheiros de viagem. +<br /> + +<br /> + +Apeámo'-nos comeffeito; sentamo'-nos; e eisaqui +a historia da <em>menina dos rouxinoes</em> +como +ella se contou. +<br /> + +<br /> + +É o primeiro episodio da minha Odyssea: estou +com medo de entrar n'elle porque dizem as +damas e os elegantes da nossa terra que o portuguez +não é bom para isto, que em francez que +ha outro não-sei-quê... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[98]</span> +Eu creio que as damas que estão mal informadas, +e sei que os elegantes que são uns tolos; +mas sempre tenho meu receio, porque emfim, +enfim, d'elles me rio eu, mas poesia ou romance, +musica ou drama de que as mulheres +não gostem, é porque não presta. +<br /> + +<br /> + +Ainda assim, bellas e amaveis leitoras, intendamo'nos: +o que eu vou contar não é um romance, +não tem aventuras inredadas, peripecias, +situações +e incidentes raros; é uma historia simples +e singella, sinceramente contada e sem pretenção. +<br /> + +<br /> + +Acabemos aqui o capitulo em fórma de prologo, +e a materia do meu conto para o seguinte.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c11"></a>CAPITULO XI. +</h3> + +<br /> + +<div class="intro"> +Tracta-se do unico privilegio dos poetas que tambem os philosophos +quizeram tirar, mas não lhes foi concedido; +aos romancistas sim.―Exemplo de Aristoteles e Anacreonte.―O +A., tendo declarado no capitulo nono +d'esta obra que não era philosopho, agora confessa, quasi +solemnemente, que é poeta, e pretende manter-se, como tal, +em seu direito.―De como S. M. elrei de Dinamarca tinha +menos juizo do que Yorick, seu bobo.―Doutrina d'este. +Funda n'ella o A. o seu admiravel systema de physiologia +e pathologia transcendente do coração. Por uma +deducção +appertada e cerrada da mais constrangente logica vem a dar-se +no motivo porque foi concedido aos poetas o direito +indefinido de andarem sempre namorados.―Applicam-se +todas éstas grandes theorias á +posição actual do A. no momento +de entrar no episodio promettido no capitulo antecedente.―Modestia +e reserva delicada o obrigam a duvidar +da sua qualificação para o desimpenho: pede votos +ás amaveis leitoras. Decide-se que a +votação não seja nominal, +e porquê.―Dido e a mana Annica.―Entra-se emfim +na prometida historia.―De como a velha estava á porta a +dobar, e imbaraçando-se-lhe a meada, chamou por +Joaninha, +sua neta. +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Este é o unico privilegio dos poetas: que +até morrer podem estar namorados. Tambem +não lhes conheço outro. A mais gente tem as +suas epochas na vida, fóra das quaes lhes não +é +<span class="pagenum">[100]</span> +permittido apaixonarem-se. Pretenderam accolher-se +ao mesmo beneficio os philosophos, mas +não lhes foi consentido pela rainha Opinião, que +é soberana absoluta e juiz supremo de que se não +appella nem aggrava ninguem. +<br /> + +<br /> + +Anacreonte cantou, de cabellos brancos, os +seus amores, e não se extranhou. Aristoteles mal +teria a barba russa quando foi d'aquelle seu último +namôro porque ainda hoje lhe apouquentam a fama. +<br /> + +<br /> + +Ora eu philosopho, seguramente não sou, ja o +disse; de poeta tenho o meu pouco, padeci, a +fallar a verdade, meus ataques assás agudos d'essa +molestia, e bem podéra desculpar-me com elles +de certas fragilidades de coração... Mas +não senhor, +não quero desculpar-me como quem tem +culpa senão defender-me como quem tem razão +e justiça por si. +<br /> + +<br /> + +Estou, com o meu amigo Yorick, o ajuizadissimo +bobo d'elrei de Dinamarca, o que alguns +annos depois ressuscitou em Sterne com tam +elegante penna, estou sim. 'Toda a minha vida' +diz elle 'tenho andado apaixonado ja por esta ja +por aquella princeza, e assim heide ir, espero, +<span class="pagenum">[101]</span> +até morrer, firmemente persuadido que se algum +dia fizer uma acção baixa, mesquinha, nunca +hade ser senão no intervallo de uma paixão +á outra: +n'esses interregnos sinto fechar-se-me o coração, +esfria-me o sentimento, não acho dez reis +que dar a um pobre... por isso fujo ás carreiras +de similhante estado; e mal me sinto acceso de +novo, sou todo generosidade e benevolencia outra +vez.' +<br /> + +<br /> + +Yorick tem rasão, tinha muito mais razão e juizo +que seu augusto amo, elrei de Dinamarca. Por +pouco mais que se generalize o principio, fica +indisputavel, inexcepcionavel para sempre e para +tudo. O coração humano é como o +estomago humano, +não pode estar vazio, preciza de alimento +sempre: são e generoso so as affeições +lh'o podem +dar; o odio, a inveja e toda a outra paixão má +é +estímulo que so irrita mas não sustenta. Se a +razão +e a moral nos mandam abster d'estas paixões, +se as chymeras philosophicas, ou outras, nos vedarem +aquellas, que alimento dareis ao coração, +que hade elle fazer? Gastar-se sôbre si mesmo, +consummir-se... Altera-se a vida, appressa-se a +dissolução moral da existencia, a saude d'alma +é +impossivel. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[102]</span> +O que póde viver assim, vive para fazer mal +ou para não fazer nada. +<br /> + +<br /> + +Ora o que não ama, que não ama apaixonadamente, +seu filho se o tem, sua mãe se a conserva, +ou a mulher que prefere a todas, esse +homem é o tal, e Deus me livre d'elle. +<br /> + +<br /> + +Sôbretudo que não escreva: hade ser um massador +terrivel. Talvez seja este o motivo da indefinida +permissão que é dada aos poetas de andarem +namorados sempre. +<br /> + +<br /> + +O romancista gosa do mesmo fôro e tem as mesmas +obrigações. É como o privilegio de +desimbargador +que tiravam d'antes os fidalgos, quando ser desimbargador +valia alguma coisa... e tanta coisa! +<br /> + +<br /> + +Como heide eu então, eu que n'esta grave +Odyssea das minhas viagens tenho de inserir o +mais interessante e mysterioso episodio d'amor +que ainda foi contado ou cantado, como heide +eu fazê-lo, eu que ja não tenho que amar n'este +mundo senão uma saudade e uma esperança―um +filho no berço e uma mulher na cova?.. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[103]</span> +Será isto bastante? Dizei-o vós, ó +benevolas +leitoras, póde com isto so alimentar-se a vida +do coração? +<br /> + +<br /> + +―Póde sim. +<br /> + +<br /> + +―Não póde, não. +<br /> + +<br /> + +―Estão divididos os suffragios: peço +votação. +<br /> + +<br /> + +―Nominal? +<br /> + +<br /> + +―Não, não. +<br /> + +<br /> + +―Porquê? +<br /> + +<br /> + +―Porque ha muita coisa que a gente pensa, +e crê e diz assim a conversar, mas que não ousa +confessar publicamente, professar aberta e nomeadamente +no mundo... +<br /> + +<br /> + +Ah! sim... elle é isso? Bem as intendo, minhas +senhoras: reservemos sempre uma sahida +para os casos difficeis, para as circumstancias extraordinarias. +Não é assim? +<br /> + +<br /> + +Pois o mesmo farei eu. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[104]</span> +E pôsto que hoje, faz hoje um mez, em tal +dia como hoje, dia para sempre assignalado na +minha vida, me apparecesse uma visão, uma visão +celeste que me surpreendeu a alma por um +modo novo e extranho, e do qual não podia dizer +decerto como a rainha Dido á mana Annica: +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry"> +Reconheço o queimar da chamma antiga,<br /> + +Agnosco veteris vestigia flammae; +</div> + +<br /> + +pôsto que a visão passou e desappareceu... mas +deixou gravada n'alma a certeza de que... Pôsto +que seja assim tudo isto, a confidencia não +passará +d'aqui, minhas senhoras: tanto basta para +se saber que estou sufficientemente habilitado para +chronista da minha historia, e a minha historia +é ésta. +<br /> + +<br /> + +Era no anno de 1832, uma tarde de verão +como hoje calmosa, sêcca, mas o ceo puro e desabafado. +Á porta d'essa casa entre o arvoredo, +estaca sentada uma velhinha bem passante dos +settenta, mas que o não mostrava. Vestia uma +especie de tunica rosa que apertava na cintura +com um largo cinto de coiro preto, e que fazia +resahir a alvura da cara e das mãos longas, descarnadas, +mas não ossudas como usam de ser mãos +de velhas; toucava-se com um lenço da mais escrupulosa +<span class="pagenum">[105]</span>brancura, e +pôsto de um geito particular +a modo de toalha de freira; um mandil da +mesma brancura, que tinha no peito e que affectava, +não menos, a fórma de um escapulario de +monja, completava o extranho vestuario da velha. +Estava sentada n'uma cadeira baixa do mais +classico feitio: textualmente parecia a que serviu +de modêllo a Raphael para o seu bello quadro +da <em>Madonna della Sedia</em>. +<br /> + +<br /> + +Como nota historica e illustração artistica, +seja-me +permittido juntar aqui em parenthesis que, +não ha muito, vi em casa de um sapateiro +remendão, +em Lisboa, no Bairro-alto, um cadeira +tal e qual; torneados pyramidaes, simples, +sem nobreza, mas elegantes. +<br /> + +<br /> + +Tornemos á velhinha. +<br /> + +<br /> + +Estava ella alli sentada na ditta cadeira, e +deante de si tinha uma dobadoira, que se movia +regularmente com o tirar do fio que lhe vinha +ter ás mãos a inrollar-se no ja crescido novello. +<br /> + +<br /> + +Era o unico signal de vida que havia em todo +esse quadro. Sem isso, velha, cadeira, dobadoira, +<span class="pagenum"><a name="p106">[106]</a></span>tudo +pareceria uma +<a name="n12"></a>graciosa sculptura de Antonio +Ferreira ou um d'aquelles quadros tam verdadeiros +do morgado de Setubal. +<br /> + +<br /> + +O movimento bem visivel da dobadoira era +regular, e respondía ao movimento quasi imperceptivel +das mãos da velha. Era regular o movimento, +mas durava um minuto e parava, depois +ia seguido outros dous, tres minutos, tornava a +parar: e n'esta regularidade de intermitencias se +ia alternando como o pulso de um que treme sesões. +<br /> + +<br /> + +Mas o velha não tremia, antes se tinha muito +direita e aprumada: o parar do seu lavor era +porque o trabalho interior do espirito dobrava, +de vez em quando, de intensidade, e lhe suspendia +<a href="#e10">todo o movimento</a> externo. Mas a +suspensão +era curta e mesurada; reagia a vontade, e a dobadoira +tornava a andar. +<br /> + +<br /> + +Os olhos da velha é que tinham uma expressão +singular: voltada para o poente, não os tirou +d'essa direcção nem os inclinava de modo +algum para a dobadoira que lhe ficava um pouco +mais á esquerda. Não pestanejavam, e o azul +<span class="pagenum">[107]</span> +de suas pupillas, que devia de ter sido brilhante +como o das saphyras, parecia desbotado e sem +lume. +<br /> + +<br /> + +O movimento da dobadoira estacou agora de +repente, a velha poisou tranquillamente as mãos +e o novello no regaço, e chamou para dentro da +casa: +<br /> + +<br /> + +―'Joanninha?' +<br /> + +<br /> + +Uma voz doce, pura, mas vibrante, d'estas +vozes que se ouvem rara vez, que retinem dentro +d'alma e que não esquecem nunca mais, respondeu +de dentro: +<br /> + +<br /> + +―'Senhora? Eu vou, minha avó, eu vou.' +<br /> + +<br /> + +―'Querida filha!.. Como ella me ouviu logo! +Deixa, deixa: vem quando podéres. É a meada +que se me imbaraçou.' +<br /> + +<br /> + +A velha era cega, cega de gotta-serena, e +paciente, resignada como a providencia misericordiosa +de Deus permitte quasi sempre que sejam +os que n'este mundo destinou á dura provança +de tam desconsolado martyrio.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c12"></a>CAPITULO XII. +</h3> + +<br /> + +<div class="intro"> +De como Joanninha desimbaraçou a meada da avó, e +do mais +que aconteceu.―Que casta de rapariga era Joanninha.―Dá +o A. insigne próva de ingenuidade e boa fe confessando +um grave senão do seu Ideal. Insiste porém que +é um +adoravel deffeito.―Em que se parece uma mulher desannellada +com um Sansão tosquiado.―Pasmosas monstruosidades +da natureza que desmentem o credo velho dos peralvilhos.―Os +olhos verdes de Joanninha.―Religião dos olhos +pretos strenuamente professada pelo A. Perigo em que ella +se acha á vista de uns olhos verdes.―De como estando a +avó e a neta a conversar muito de mano a mano, chega Frei +Diniz e se interrompe a conversação.―Quem era +Frei +Diniz. +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +―'Aqui estou, minha avó: é a +sua meada?.. +eu lh'a indireito:'―disse Joanninha sahindo +de dentro, e com os braços abertos para a velha. +Apertou-a n'elles com innefavel ternura, beijou-a +<span class="pagenum">[110]</span> +muitas vezes, e tomando-lhe o novello das mãos +n'um instante desimbaraçou o fio e lh'o tornou a +intregar. +<br /> + +<br /> + +A velha surria com aquelle surriso satisfeito +que exprime os tranquillos gosos de alma, e que +parecia dizer: 'Como eu sou feliz ainda, apezar +de velha e de cega! Bemdito sejais, meu Deus.' +<br /> + +<br /> + +Ésta última phrase, ésta +bençam de um coração +agradecido, que spira suavemente para o ceo +como sobe do altar o fummo do incenso consagrado, +ésta última phrase trasbordou-lhe e sahiu +articulada +dos labios: +<br /> + +<br /> + +―'Bemditto seja Deus' minha filha, minha +Joanninha, minha querida neta! E Elle te abençoe +tambem, filha!' +<br /> + +<br /> + +―'Sabe que mais, minha avó? Basta de trabalhar +hoje, são horas de merendar'. +<br /> + +<br /> + +―'Pois merendemos'. +<br /> + +<br /> + +Joannninha foi dentro da casa, trouxe uma banquinha +redonda, cubriu-a com uma toalha alvissima, <span class="pagenum">[111]</span>pôs +em cima fructa, pão, queijo, vinho, +chegou-a para aopé da velha, tirou-lhe o novello +da mão, e arredou a dobadoira. A velha comeu +alguns bagos de um cacho doirado que a neta lhe +escolheu e pôs nas mãos, bebeu um trago de vinho, +e ficou callada e quieta, mas ja sem a mesma +expressão de felicidade e contentamento socegado +que ainda agora lhe luzia no rosto. +<br /> + +<br /> + +As animadas feições de Joanninha reflectiam +sympathicamente a mesma alteração. +<br /> + +<br /> + +Joanninha não era bella, talvez nem galante +siquer no sentido popular e expressivo que a palavra +tem em portuguez, mas era o typo da gentileza, +o ideal da spiritualidade. N'aquelle rosto, +n'aquelle corpo de dezeseis annos, havia por dom +natural e por uma admiravel symetria de +proporções +toda a elegancia nobre, todo o desimbaraço +modesto, toda a flexibilidade graciosa que a +arte, o uso e a conversação da côrte e +da mais +escolhida companhia vêem a dar a algumas raras +e privilegiadas creaturas no mundo. +<br /> + +<br /> + +Mas n'esta foi a natureza que fez tudo, ou +quasi tudo, e a educação nada ou quasi nada. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[112]</span> +Poucas mulheres são muito mais baixas, e ella +parecia alta: tam delicada, tam +<em>elancée</em> era a +fórma airosa de seu corpo. +<br /> + +<br /> + +E não era o garbo teso e aprumado da perpendicular +<em>miss</em> ingleza que parece fundida de +uma so peça; não, mas flexivel e ondulante como +a hástea joven da árvore que é direita +mas +dobradiça, forte da vida de toda a seiva com que +nasceu, e tenra que a estalla qualquer vento +forte. +<br /> + +<br /> + +Era branca, mas não d'esse branco importuno +das loiras, nem do branco terso, duro, marmoreo +das ruivas―sim d'aquella modesta alvura +da cera que se illumina de um pallido reflexo de +rosa de Bengalla. +<br /> + +<br /> + +E d'outras rosas, d'estas rosas-rosas que denunciam +toda a franqueza de um sangue que passa +livre pelo coração e corre á sua +vontade por +artérias em que os nervos não dominam, d'essas +não as havia n'aquelle rosto: rosto sereno como +é sereno o mar em dia de calma, porque dorme +o vento... Alli dormiam as paixões. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[113]</span> +Que se levante a mais ligeira brisa, basta o +seu macio bafejo para increspar a superficie espelhada +do mar. +<br /> + +<br /> + +Sussurre o mais ingenuo e suave movimento +d'alma no primeiro acordar das paixões, e verão +como se sobresaltam os musculos agora tam quietos +d'aquella face tranquilla. +<br /> + +<br /> + +O nariz ligeiramente aquilino: a bôcca pequena +e delgada não cortejava nem desdenhava o surriso, +mas a sua expressão natural e habitual era +uma gravidade singela que não tinha a menor aspereza +nem doutorice. +<br /> + +<br /> + +Ha umas certas boquinhas gravesinhas e espremidinhas +pela doutorice que são a mais abhorrecidinha +coisa e a mais pequinha que Deus permitte +fazer ás suas creaturas femeas. +<br /> + +<br /> + +Em perfeita harmonia de côr, de fórma e de +tom com a fina gentileza d'estas feições, os +cabellos +de um castanho tam escuro que tocava em +preto, cahiam de um lado e outro d +Em perfeita harmonia de côr, de fórma e de +tom com a fina gentileza d'estas feições, os +cabellos +de um castanho tam escuro que tocava em +preto, cahiam de um lado e outro da face, em +tres longos, deseguaes e mal inrolados canudos, +cuja ondada spiral se ia relaxando e diminuindo +<span class="pagenum">[114]</span> +para a extremidade, até lhe tocarem no collo quasi +lisos. +<br /> + +<br /> + +Em stylo de arte―no stylo da primeira e +da mais bella das bellas artes, a +<em>toilete</em>―este é +um defeito; bem sei. +<br /> + +<br /> + +Que votos, que novenas se não fazem a San'Barometro +nas vésperas de um baile para lhe pedir +uma atmosphera sêcca e benigna que deixe +conservar, até á quarta contradança ao +menos, a +preciosa obra de carrapito e ferro quente, de +macassar e mandolina que tanto trabalho e tanto +tempo, tantos sustos e cuidados custou! +<br /> + +<br /> + +Bem sei pois que é defeito, é, será... +mas +que adoravel defeito! Que deliciosas imagens que +excita de abandôno―passe o gallicismo―de +confiança, de absoluta e generosa renúncia a todo +o caprixo, de perfeita e completa abdicação +de toda a vontade propria! +<br /> + +<br /> + +Em geral, as mulheres parecem ter no cabello +a mesma fé que tinha Sansão: o que n'elle +se ia em lh'os cortando, cuidam ellas que se lhes +vai em lh'os desannellando? Talvez; e eu não estou <span class="pagenum">[115]</span>longe de o crer: canudo +inflexivel, mulher +inflexivel. +<br /> + +<br /> + +Os peralvilhos negam a existencia do tal canudo +<em>in rerum natura</em>, dizem que +é como a <a name="n13"></a>ave +phenix que nasceu de nossos avós não saberem +grego. Eu não digo tal, porque tenho visto descuidar-se +a natureza em pasmosas monstruosidades. +<br /> + +<br /> + +Emfim suspendâmos, sem o terminar, o exame +d'esta profunda e interessante questão. Fica +addiada para um capitulo <em>ad hoc</em>, e +voltemos á +minha Joanninha. +<br /> + +<br /> + +Cahiam d'um lado e de outro da sua face gentil +aquelles graciosos anneis; e o resto do cabello, +que era muito, ia intrançar-se, e inrolar-se +com singela elegancia abaixo da coroa de uma +cabeça pequena, estreita e do mais perfeito +modêlo. +<br /> + +<br /> + +As sobrancelhas, quasi pretas tambem, desenhavam-se +n'uma curva de extrema pureza; a as +pestanas longas e assedadas faziam sombra na alvura +da face. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[116]</span> +Os olhos porêm―singular capricho da naturesa, +que no meio de toda esta harmonia quiz +lançar uma nota de admiravel discordancia! Como +poderoso e ousado <em>maestro</em> que, no +meio das +pbrases mais classicas e deduzidas da sua +composição, +atira derepente com um som agudo e +stridulo que ninguem espera e que parece lançar +a anarchia no meio do rythmo musical... os dillettantes +arripiam-se, os professores benzem-se; +mas aquelles cujos ouvidos lhes levam ao coração +a musica, e não á cabeça, esses +estremecem de +admiração e enthusiasmo... Os olhos de Joanninha +eram verdes... não d'aquelle verde descorado e +traidor da raça felina, não d'aquelle verde mau e +destingido que não é senão azul +imperfeito, não; +eram verdes-verdes, puros e brilhantes como esmeraldas +do mais subido quilate. +<br /> + +<br /> + +São os mais raros e os mais fascinantes olhos +que ha. +<br /> + +<br /> + +Eu, que professo a religião dos olhos pretos, +que n'ella nasci e n'ella espero morrer... que +alguma rara vez que me deixei inclinar para a +heretica pravidade do ôlho azul, soffri o que é +<span class="pagenum">[117]</span> +muito bem feito que soffra todo o renegado... +eu firme e inabalavel, hoje mais que nunca, nos +meus principios, sinceramente persuadido que +fóra d'elles não ha +salvação, eu confesso todavia +que uma vez, uma unica vez que vi dos +taes olhos verdes, fiquei halucinado, senti abalar-se +pelos fundamentos o meu catholicismo, +fugi escandalizado de mim mesmo, e fui retemperar +a minha fé vacillante na contemplação +das +eternas verdades, que so e unicamente se incontram +aonde está toda a fé e toda a +crença... n'uns +olhos sincera e lealmente pretos. +<br /> + +<br /> + +Joanninha porêm tinha os olhos verdes; e +o effeito d'esta rara feição n'aquella +physionomia +á primeira vista tam discordante―era +em verdade pasmosa. Primeiro fascinava, +halucinava, depois fazia uma sensação +inexplicavel +e indecisa que doía e dava prazer ao mesmo +tempo: porfim pouco o pouco, estabelecia-se +a corrente magnetica tam poderosa, tam carregada, +tam incapaz de solução-de-continuidade, +que toda a lembrança de outra coisa desapparecia, +e toda a intelligencia e toda a vontade +eram absorvidas. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p118">[118]</a></span> +Resta so accrescentar―e fica o retrato completo, +um simples vestido azul escuro, cinto e +avental preto, e uns sapatinhos com as fitas traçadas +em cothurno. O pé breve e estreito; o que +se adivinhava da perna admiravel. +<br /> + +<br /> + +Tal era a ideal e espiritualissima figura +que em pé, incostada á banca onde acabava de +comer a boa da velha, contemplava, n'aquelle +rosto macerado e apagado, a indicivel expressão +de tristeza que elle pouco a pouco ía tomando e +que toda se reflectia, como disse, no semblante +da contempladora. +<br /> + +<br /> + +A velha suspirou profundamente, e fazendo +como um esfôrço para se distrahir de pensamentos +que a affligiam, buscou incertamente com as +mãos o novêllo da sua meada: +<br /> + +<br /> + +―'O meu novêllo, filha: não posso estar +sem fazer nada, faz-me mal.' +<br /> + +<br /> + +―'Conversemos, avó.' +<br /> + +<br /> + +―'Pois conversemos; mas dá-me o meu novêllo. +Não sei o que é, mas quando não +<a href="#e11">trabalho</a> <span class="pagenum">[119]</span>eu, +trabalha não sei o que em mim que me +cansa ainda mais. Bem dizem que a ociosidade é +o peior lavor.' +<br /> + +<br /> + +Joanninha deu-lhe o novêllo e pôs-lhe a dobadoira +a geito. +<br /> + +<br /> + +A velha sentiu o que quer que fosse na mão, +levou-a á bôcca e pareceu beija-la, depois disse: +<br /> + +<br /> + +―'Bem vi, Joanninha!' +<br /> + +<br /> + +―'O quê, minha avó? que viu?' +<br /> + +<br /> + +―'Vi, filha, vi.., sem ser com os olhos que +Deus me cerrou para sempre―louvado seja Elle +por tudo!―vi, sentindo, ésta lagryma tua que +me cahiu na mão, e que ja ca está no peito por +que a bebi, Joanna. Oh filha, ja! é muito cedo +para começar, deixa isso para mim que estou +costumada: mas tu, tu com deseseis annos e +nenhum desgôsto!' +<br /> + +<br /> + +―'Nenhum, avó! E estamos sosinhas nós +duas n'este mundo, minha avó n'esse estado, eu +n'esta edade, e...' +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[120]</span> ―'E Deus no ceu para tomar conta em nós... +Mas que é? olha, Joanna: eu sinto passos na +estrada vê o que é.' +<br /> + +<br /> + +―'Não vejo ninguem.' +<br /> + +<br /> + +―'Mas oiço eu... Espera... é Fr. Diniz; +conheço-lhe +os passos.' +<br /> + +<br /> + +Mal a velha acabava de pronunciar este nome, +surdiu, de traz de umas oliveiras que ficam na +volta da estrada, da banda de Santarem, a figura +sêcca, alta e um tanto curvada de um +religioso franciscano que abordoado em seu pau +tosco, arrastando as suas sandalias amarellas e +tremendo-lhe na cabeça o seu chapeo alvadio, +vinha em direcção para ellas. +<br /> + +<br /> + +Era Fr. Diniz comeffeito, o austero guardião +de San'Francisco de Santarem.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c13"></a>CAPITULO XIII. +</h3> + +<br /> + +<div class="intro">Dos frades em geral.―O frade +moralmente considerado, socialmente +e artisticamente.―Próva-se que é muito mais +poetico +o frade do que o barão.―Outra vez D. Quixote e +Sancho-Pansa.―Do que seja o barão, sua +classificação e +descripção linneana.―Historia do castello do +Chucherumello.―Erro +palmar de Eugenio Sue: mostra-se que os jesuitas +não são a cholera-morbus, e que é +preciso refazer o +'Judeu errante'―De como o frade não intendeu +o nosso seculo +nem o nosso seculo ao frade.―De como o barão ficou +em logar do frade, e do muito que n'isso perdémos.―Unica +voz que se ouve no actual deserto da sociedade: os barões +a gritar contos de reis.―Como se contam e como se +pagam os taes contos.―Predilecção artistica do +A. pelo frade: +confessa-se e explica-se ésta +predilecção. +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Frades... frades... Eu não gósto de frades. Como +nós os vimos ainda os d'este seculo, como +nós os intendêmos hoje, não +gósto d'elles, não +os quero para nada, moral e socialmente fallando. +Frades... frades... Eu não gósto de frades. Como +nós os vimos ainda os d'este seculo, como +nós os intendêmos hoje, não +gósto d'elles, não +os quero para nada, moral e socialmente fallando. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[122]</span> +No ponto de vista artistico porêm o frade faz +muita falta. +<br /> + +<br /> + +Nas cidades, aquellas figuras graves e sérias +com os seus habitos tallares, quasi todos picturescos +e alguns elegantes, atravessando as multidões +de macacos e bonecas de casaquinha esguia +e chapelinho de alcatruz que distinguem a peralvilha +raça europea―cortavam a monotonia do +ridiculo e davam physionomia á +população. +<br /> + +<br /> + +Nos campos o effeito era ainda muito maior: +elles characterizavam a payzagem, poetisavam a +situação mais prosaica de monte ou de valle; e +tam necessarias tam obrigadas figuras eram em +muitos d'esses quadros, que sem ellas o painel +não é ja o mesmo. +<br /> + +<br /> + +Alêm d'isso o convento no povoado e o mosteiro +no êrmo animavam, amenizavam, davam alma +e grandeza a tudo: elles protegiam as árvores, +sanctificavam as fontes, enchiam a terra de +poesia e de solemnidade. +<br /> + +<br /> + +O que não sabem nem podem fazer os agiotas +barões que os substituiram. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[123]</span> +É muito mais poetico o frade que o barão. +<br /> + +<br /> + +O frade era, até certo ponto, o Dom Quixote +da sociedade velha. +<br /> + +<br /> + +O barão é, em quasi todos os pontos, o +Sancho-Pansa +da sociedade nova. +<br /> + +<br /> + +Menos na graça... +<br /> + +<br /> + +Porque o barão é o mais desgracioso e estupido +animal da creação. +<br /> + +<br /> + +Sem exceptuar a familia asinina que se illustra +com individualidades tam distinctas como o +Ruço do nosso amigo Sancho, o asno da Poncella +de Orleans e outros. +<br /> + +<br /> + +O barão (<em>onagros-baronius</em> +de Linn., <em>l'ânne-baron</em> +de Buf.) é uma variedade monstruosa ingendrada +na burra de Balaham, pela parte essencialmente +judaica e usuraria de sua natureza, +em coito damnado com o urso Martinho do Jardim +das Plantas<sup><a href="#2">[2]</a></sup>, +pela parte franchinotica e sordidamente +revolucionaria de seu character. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[124]</span> +O barão é pois usurariamente revolucionario, +e revolucionariamente usurario. +<br /> + +<br /> + +Por isso é <em>zebrado</em> de +riscas monarchico-democraticas +por todo o pêllo. +<br /> + +<br /> + +Este é o barão verdadeiro e puro-sangue: o +que não tem estes characteres é especie +differente, +de que aqui se não tracta. +<br /> + +<br /> + +Ora, sem sahir dos barões e tornando aos frades, +eu digo: que nem elles comprehenderam o +nosso seculo nem nós os comprehendémos a elles.. +<br /> + +<br /> + +Por isso brigámos muito tempo, a final vencêmos +nós, e mandámos os barões a +expulsá-los +da terra. No que fizemos uma sandice como nunca +se fez outra. O barão mordeu no frade, devorou-o... +e escouceou-nos a nós depois. +<br /> + +<br /> + +Com que havemos nós agora de matar o barão? +<br /> + +<br /> + +Porque este mundo e a sua historia é a historia +do 'castello do Chucherumello'. Aqui está +o Porque este mundo e a sua historia é a historia +do 'castello do Chucherumello'. Aqui está +o cão que mordeu no gato, que matou o rato, +<span class="pagenum">[125]</span> +que roeu a corda etc. etc.: vai sempre assim +seguindo. +<br /> + +<br /> + +Mas o frade não nos comprehendeu a nós, por +isso morreu, e nós não comprehendemos o frade, +por isso fizemos os barões de que havemos de +morrer. +<br /> + +<br /> + +São a molestia d'este seculo; são +elles, não +os jesuitas, a cholera-morbus da sociedade actual, +os barões. O nosso amigo Eugenio Sue errou de +meio a meio no 'Judeu errante' que precisa refeito. +<br /> + +<br /> + +Ora o frade foi quem errou primeiro em nos +não comprehender, a nós, ao nosso seculo, +ás +nossas inspirações e +aspirações: com o que falsificou +a sua posição, isolou-se da vida social, +fez da sua morte uma necessidade, uma coisa +infallivel e sem remedio. Assustou-se com a liberdade +que era sua amiga, mas que o havia de +reformar, e uniu-se ao despotismo que o não +amava senão relaxado e vicioso, porque de outro +modo lhe não servia nem o servia. +<br /> + +<br /> + +Nós tambem errámos em não intender o +desculpavel +êrro do frade, em lhe não dar outra +<span class="pagenum"><a name="p126">[126]</a></span> +direcção social; e evitar assim os +barões, que é +muito mais damninho bicho e mais roedor. +<br /> + +<br /> + +Porque, desinganem-se, o mundo sempre assim +foi e hade ser. Por mais bellas theorias que +se façam, por mais perfeitas +constituições com +que se comece, o <em>status in statu</em> +forma-se logo: ou +com frades ou com barões ou com pedreiros livres +se vai pouco a pouco organizando uma influencia +distincta, quando não contraria, ás influencias +manifestas e apparentes do grande corpo +social. Esta é a opposição natural do +Progresso, +o qual tem a sua opposição como todas as +coisas sublunares e superlunares; ésta corrige +saudavelmente, +ás vezes, e modera sua velocidade, +outras, a impece com demazia e abuso: mas emfim +é uma necessidade. +<br /> + +<br /> + +Ora eu, que sou ministerial do Progresso, +antes queria a opposição dos frades que a dos +barões. +O caso estava em a saber <a href="#e12">conter</a> +e +approveitar. +<br /> + +<br /> + +O Progresso e a liberdade perdeu, não ganhou. +<br /> + +<br /> + +Quando me lembra tudo isto, quando vejo os +conventos em ruinas, os egressos a pedir esmola +<span class="pagenum">[127]</span> +e os barões de berlinda, tenho saudades dos +frades―não dos frades que foram, mas dos +frades que podiam ser.<br /> + +<br /> + +E sei que me não inganam poesias; que eu +reajo fortemente com uma logica inflexivel contra +as illusões poeticas em se tractando de coisas +graves.<br /> + +<br /> + +E sei que me não namóro de paradoxos, nem +sou d'estes espiritos de contradicção desinquieta +que suspiram sempre pelo que foi, e nunca +estão contentes com o que é.<br /> + +<br /> + +Não, senhor: o frade, que é patriota e liberal +na Irlanda, na Polonia, no Brazil, podia e +devia sê-lo entre nós; e nós ficavamos +muito melhor +do que estamos com meia duzia de clerigos de requiem +para nos dizer missa; e com duas grozas de +barões, não para a tal +opposição salutar, mas para +exercer toda a influencia moral e intellectual da +sociedade―porque não ha de outra ca.<br /> + +<br /> + +E se não digam-me: onde estão as universidades, +e o que faz essa que ha senão dar o seu +grausito de bacharel em leis e em medicina? O +<span class="pagenum">[128]</span> +que escreve ella, o que discute, que príncipios +tem, que doutrinas professa, quem sabe ou ouve +d'ella senão algum echo timido e acanhado +do que n'outra parte se faz ou diz? +<br /> + +<br /> + +Onde estão as academias? +<br /> + +<br /> + +Que palavra poderosa retine nos pulpitos? +<br /> + +<br /> + +Onde está a fôrça da tribuna?<br /> + +<br /> + +Que poeta canta tam alto que o oiçam as pedras +brutas e os robres duros d'esta selva materialista +a que os utilitarios nos reduziram? +<br /> + +<br /> + +Se exceptuarmos o debil clamor da imprensa +liberal ja +meio-esganada da policia, não se ouve +no vasto silencio d'este ermo senão a voz dos +barões gritando contos de réis. +<br /> + +<br /> + +Dez contos de réis por um eleitor! +<br /> + +<br /> + +Mais duzentos contos pelo tabaco! +<br /> + +<br /> + +Três mil contos para a conversão de um amphigouri! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p129">[129]</a></span> +Cinco mil contos para as estradas dos <a href="#e13">areonautas</a>! +<br /> + +<br /> + +Seis mil contos para isto, dez mil contos para +aquillo! +<br /> + +<br /> + +Não tardam o contar por centenas de milhares. +<br /> + +<br /> + +Contar a elles não lhes custa nada. +<br /> + +<br /> + +A quem custa é a quem paga para todos esses +balões de papel―a terra e a indústria...<br /> + +<br /> + +<div class="dots"></div> + +<br /> + +<div class="dots"></div> + +<br /> + +<div class="dots"></div> + +<br /> + +<br /> + +Este capítulo deve ser considerado como +introducção +ao capítulo seguinte, em que entra em +scena Fr. Diniz, o guardião do San' Francisco de +Santarem. +<br /> + +<br /> + +Ja me disseram que eu tinha o genio frade, +que não podia fazer conto, drama, romance sem +lhe metter o meu fradinho. +<br /> + +<br /> + +O 'Camões' tem um frade, Frei José Indio; +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[130]</span> +A 'Dona Branca' tres, Frei Soeiro, Frei Lopo +e San'-Frei Gil―faz quatro; +<br /> + +<br /> + +A 'Adozinda' tem um ermitão, especie de +frade―cinco; +<br /> + +<br /> + +'Gil-Vicente' tem outro―isto é, verdadeiramente +não tem senão meio frade, que é +André +de Rezende, demais a mais, pessoa muda―cinco +e meio; +<br /> + +<br /> + +O 'Alfageme' tres quartos do frade, Froilão-Dias, +chibato da ordem de Malta―seis frades +e um quarto; +<br /> + +<br /> + +Em 'Frei Luiz de Sousa' tudo são frades: +vale bem n'esta computação, os seus tres, quatro, +meia duzia de frades―são já dôze e +quarto: +<br /> + +<br /> + +Alguns, não eu, querem metter n'esta conta +o 'Arco-de-Sanct'Anna', em que ha bem dous +frades e um leigo: +<br /> + +<br /> + +E aqui tenho eu ás costas nada menos de quinze +frades e quarto. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[131]</span> +Com este Frei Diniz é um convento inteiro. +<br /> + +<br /> + +Pois, senhores, não sei que lhes faça: a culpa +não é minha. Desde mil cento e tantos que +começou +Portugal, até mil oitocentos trinta e tantos +que uns dizem que elle se restaurou, outros +que o levou a breca, não sei que se passasse ou +podesse passar n'esta terra coisa alguma pública +ou particular, em que frade não entrasse. +<br /> + +<br /> + +Para evitar isto não ha senão usar da receita +que vem formulada no capitulo V<sup><a href="#3">[3]</a></sup> +d'esta obra. +<br /> + +<br /> + +Faça-o quem gostar; eu não, que não +quero +nem sei. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c14"></a>CAPITULO XIV. +</h3> + +<br /> + +<div class="intro"> +Emendado emfim de suas distracções e +divagações, prosegue +o A. direitamente com a historia promettida.―De como +Fr. Diniz deu a manga a beijar á avó e +á neta, e do +mais que entre elles se passou.―Ralha o frade com a velha, +e começa a descobrir-se onde a historia vai ter. +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Este capitulo não tem divagações, nem +reflexões, +nem considerações de nenhuma especie, +vai direito e sem se distrahir, pela sua historia +adeante. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p134">[134]</a></span> +Fr. Diniz chegava aopé das duas mulheres e +disse: +<br /> + +<br /> + +―'Louvado seja Nosso Senhor Jesus Christo!' +<br /> + +<br /> + +Joanna adeantou-se alguns <a href="#e14">passos</a> +a beijar-lhe +a manga. Elle accrescentou: +<br /> + +<br /> + +―'A benção de Deus te cubra, filha, e a +de nosso padre San'Francisco!' +<br /> + +<br /> + +―'Benedicite, padre guardião:' disse +a velha +inclinando-se meia levantada da cadeira. +<br /> + +<br /> + +―'Em nome do Senhor! amen'.―respondeu +o frade aproximando-se, e chegando o braço +a alcance de lh'o ella beijar: +<br /> + +<br /> + +―'Ora aqui estou, minha irman; que me +quer? E como vai isto por cá? Vamo-nos confortando, +tendo paciencia, e soffrendo com os +olhos no Senhor?'<br /> + +<br /> + +―'Ja os não tenho senão para elle, padre.' +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[135]</span> ―'Ah, ah! irman Francisca, sempre esse +pensamento, sempre essa queixa! Tenho-a reprehendido +tanta vez e não se emenda.' +<br /> + +<br /> + +―'Eu não me queixei, meu padre. Deus +sabe que me não queixo... ao menos por mim.' +<br /> + +<br /> + +―'Pois por quem?' +<br /> + +<br /> + +―'Oh padre!' +<br /> + +<br /> + +―'Irman Francisca, tenho medo de a intender. +Eu não conheço as affeições +da carne nem +lido com os fracos pensamentos do mundo. Sou +frade, minha irman, sou um que ja não é do +número dos vivos, que vestiu ésta mortalha para +não ser d'elles, que a vestiu n'um tempo em +que a mofa e o desprêzo são o unico patrimonio +do frade, em que o escarneo, a derisão, o +insulto―o peior e o mais cruel de todos os +martyrios―são a nossa unica esperança. Eu +quiz ser frade, fiz-me frade, sabendo e vendo +tudo isto, fiz-me frade no meio de tudo isto, +já velho e experimentado no mundo, farto +de o conhecer, e certo do que me espera―a +<span class="pagenum">[136]</span> +mim e á profissão que abraçei. Que +quer de um +homem que assim se resolveu a cortar por +quanto prende a humanidade a ésta miseravel vida +da terra, para não viver senão das +esperanças +da outra? Eu vesti este hábito para isso. O +seu, irman, o seu para que o vestiu? É um divertimento, +é um capricho, é uma comedia com +Deus? Rasgue-o depressa, vista-se das galas do +mundo, não apperte com a paciencia divina, trajando +por fóra o sacco da penitencia e trazendo +o coração pordentro desappertado de todo o +cilicio +e mortificação.' +<br /> + +<br /> + +A velha com as mãos postas, a face alevantada +e os apagados olhos para o ceo, offerecia +a Deus todo o amargor d'aquella austeridade +que não cuidava merecer nem lhe parecia +intender. Joanninha, que insensivelmente +se fôra approximando da avó, e a tinha como +amparada portraz com um de seus braços, +firmava a outra mão nas costas da cadeira e cravava +fita no frade a vista penetrante e cheia de luz. +A expressão do seu rosto era indefinivel: irisava-lh'o, +distincta mas promiscuamente, um +mixto inextricavel de enthusiasmo e desanimação, +de fé e de incredulidade, de sympathia e de +aversão. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[137]</span> +Disseras que n'aquelles olhos verdes e n'aquelle +rosto mal córado estava o typo e o symbolo +das vascillações do seculo. +<br /> + +<br /> + +―'Padre!' tornou a velha com sincera humildade +na voz e no gesto:―'se o mereci, +castigae-me. Deus, que me vê e me ouve, bem +sabe que o digo em toda a verdade do meu coração, +e hade perdoar-me porque eu sou fraca +e mulher.' +<br /> + +<br /> + +―'Pois aos fracos não é que Elle disse: +<em>Toma +a tua cruz e segue-me</em>. Quem a obrigou a +fazer os votos que fez?' +<br /> + +<br /> + +―'É verdade, padre, é verdade: bem sei o +que prometti, que me votei a Deus d'alma e corpo, +que me não pertenço, que nem das minhas +affeições posso dispor, mas...' +<br /> + +<br /> + +―'Mas o quê? Irman Francisca, a Deus +não se ingana. Os seus votos não foram feitos +n'um mosteiro, nem proferidos n'um altar no +meio das solemnidades da egreja. Mas ja lh'o tenho +ditto, no fôro da consciencia, na presença de +Deus, ligam-n'a tanto ou mais do que se o fossem. +<span class="pagenum">[138]</span> +Abjure-os se quizer; nenhuma lei, nenhuma +fôrça humana a constrange. Diga-m'o por uma +vez, desingane-me, e eu não torno aqui.' +<br /> + +<br /> + +―'Oh, por compaixão, padre! pelas chagas +de Christo! Mas uma pergunta so, uma so, e +eu prometto não pensar, não fallar mais em... +Onde está elle?' +<br /> + +<br /> + +―'Joanna, retire-se.' +<br /> + +<br /> + +Joanninha appertou a avó com ambos os braços; +e sem dizer uma palavra, sem fazer um so +gesto, lentamente e silenciosamente se retirou +para dentro de casa. +<br /> + +<br /> + +―'E ésta, padre?' disse a velha sem esperar +a resposta á primeira pergunta que com +tanta ancia fizera―'e ésta, tambem d'ella me +heide separar, tambem heide renunciar a ella?' +<br /> + +<br /> + +―'Esta é uma innocente, e emquanto o for'... +<br /> + +<br /> + +―'Em quanto o for! A minha Joanna é +um anjo.' +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[139]</span> ―'Blasphemia, blasphemia! E o Senhor a +não castigue por ella. Joanna é boa e temente +a Deus: esperemos que Elle a conserve da sua +mão. O outro...' +<br /> + +<br /> + +―'Que é feito d'elle padre? Oh! +diga-m'o, +e eu prometto...' +<br /> + +<br /> + +―'Não prometta senão o que póde +cumprir. +Seu neto está com esses desgraçados que vieram +das ilhas, é dos que desimbarcaram no Porto...' +<br /> + +<br /> + +―'Oh filho da minha alma! que não tórno +a abraçar-te...' +<br /> + +<br /> + +―'Não decerto; vencedores ou vencidos, toda +a communhão, toda a possibilidade de união +acabou entre nós e estes homens. Nós temos +obrigação de os destruir, elles o seu unico +desejo +é exterminar-nos.' +<br /> + +<br /> + +―'Meu Deus meu Deus! pois a isto somos +chegados! Pois ja não ha misericordia no ceo +nem na terra!' +<br /> + +<br /> + +―'A misericordia de Deus cansou-se; a da +<span class="pagenum">[140]</span> +terra não sei onde está nem onde esteve nunca. +Os fracos dão sacrilegamente esse nome á sua +relaxação.' +<br /> + +<br /> + +―'Pois é relaxação desejar a paz, +querer a +união, supplicar a indulgencia? Não nos manda +Deus perdoar as nossas dividas, amar os nossos +inimigos?' +<br /> + +<br /> + +―'Os nossos sim, os d'Elle não.' +<br /> + +<br /> + +―'Tende compaixão de mim, Senhor!' +<br /> + +<br /> + +―'Se as suas afflicções são as da +carne e do +sangue, se são pensamentos da terra como +desgraçadamente +vejo que são, mulher fraca e de +pouco ânimo, console-se, que para mim é claro +e seguro que estes homens hãode vencer.' +<br /> + +<br /> + +―'Quaes homens?' +<br /> + +<br /> + +―'Esses inimigos do altar e da verdade, esses +homens desvairados pelas speciosas doutrinas +do seculo. Esperam muito, promettem muito, +estão em todo o vigor das suas illusões. E +nós, +nós carregâmos com o desingano de muitos seculos, +<span class="pagenum">[141]</span>com os peccados de +trinta gerações que +passaram, e com a inaudita corrupção da +presente... +nós havemos de succumbir. Os templos +hãode ser destruidos, os seus ministros proscriptos, +o nome de Deus blasphemado á vontade +n'esta terra malditta.' +<br /> + +<br /> + +―'Pois tam perdidos, tam abandonados da +mão de Deus são elles todos... todos?' +<br /> + +<br /> + +―'Todos. E que cuida, irman? que são melhores +os nossos, esses que se dizem nossos? que +ha mais fé na sua crença, mais verdade em sua +religião? Oh sancto Deus!' +<br /> + +<br /> + +―'Faz-me tremer, padre!' +<br /> + +<br /> + +―'E para tremer é. A impiedade e a cubiça +entraram em todos os corações. +<em>Duvidar</em> é o unico +princípio, <em>inriquecer</em> o +unico objecto de toda +essa gente. Liberaes e realistas, nenhum tem fé: +os liberaes ainda teem esperança; não lhe hade +durar muito. Deixem-n'os vencer e verão.' +<br /> + +<br /> + +―'E hãode vencer elles?' +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[142]</span> ―'Decerto.' +<br /> + +<br /> + +―'Ninguem mais diz isso.' +<br /> + +<br /> + +―'Digo-o eu.' +<br /> + +<br /> + +―'Tantos mil soldados que o govêrno tem +por si!' +<br /> + +<br /> + +―'E tantos milhões de peccados contra. Não +póde ser, não póde ser: a misericordia +divina +está exhausta, e o dia desejado dos impios vem +a chegar. A sua missão é facil e prompta; +não +sabem, não podem senão destruir. Edificar +não +é para elles, não teem com quê, +não creem em +nada. O symbolo christão não é so uma +verdade +religiosa é um princípio +eterno e universal. <em>Fe, +esperança e charidade</em>. Sem crer, sem +esperar...' +<br /> + +<br /> + +―'E sem amar!' +<br /> + +<br /> + +―'Mulher, mulher! o amor é a última virtude...' +<br /> + +<br /> + +―'Mas por ella, por ella se chega ás outras.' +<br /> + +<br /> + +―'Não, mulher fraca, não. E de uma vez +<span class="pagenum">[143]</span> +para sempre, irman Francisca, desinganemo'-nos. +Entre mim, entre o Deus que eu sirvo, não ha +transacção com os seus inimigos. Indulgencia +n'esse ponto não sei o que é. Vejo a sorte que +me espera n'este mundo, e não tremo deante d'ella. +Quem teme, siga outro caminho; eu nunca.' +<br /> + +<br /> + +―'Padre eu não temo nem receio por +mim. +Sou fraca e mulher, e em toda a tribulação e +desgraça +heide glorificar o meu Deus e dar testimunho +da minha fé. Mas... mas o meu neto é o +meu sangue, a minha vida, é o filho querido da +minha unica e tam amada filha, elle não conheceu +outra mãe senão a mim, quero-lhe por elle +e por ella. Abandoná-lo não posso, tirar d'elle o +pensamento não sei. A vontade de Deus...' +<br /> + +<br /> + +―'A vontade de Deus é que o justo se aparte +do impio, é que os cordeiros da benção +vão +para um lado, e os cabritos da maldicção para +outro. +Esse rapaz... oh! minha irman, eu não sou +de pedra, não, não sou, e tambem o +coração se +me parte de o dizer... mas esse rapaz é malditto, +e entre nós e elle está o abysmo todo do +inferno.' +<br /> + +<br /> + +―'Misericordia, meu Deus!' +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[144]</span> +Pallido, infiado, mais descorado e mais amarello +do que era sempre aquelle rosto, Fr. Diniz +pronunciou, tremendo mas com fôrça, as +suas últimas e terriveis palavras. Os olhos, habitualmente +sumidos e cavos, recuaram-lhe ainda +mais para dentro das orbitas descarnadas; o bordão +tremia-lhe na esquerda; e a direita suspensa +no ar parecia intimar ao culpado a terrivel +imprecação +que lhe sahia dos labios. +<br /> + +<br /> + +―'Malditto! malditto sejas tu!' proseguiu o +frade, 'filho ingrato, coração derrancado e +perverso!' +<br /> + +<br /> + +―'Meu Deus, não o escuteis!' bradou a velha +cahindo de joelhos no chão e prostrando-se +na terra dura 'Meu Deus, não confirmeis +aquellas +palavras tremendas. Não o ouçais, Senhor, e +valha o sangue precioso de vosso filho, as dores +bemdittas de sua mãe, oh meu Deus! para arredar +da cabeça do meu pobre filho as crueis palavras +d'este homem sem piedade, sem amor!..' +<br /> + +<br /> + +A velha queria dizer mais; as angústias que +se tinham estado juntando n'aquella alma, que +porfim não podia mais e transbordava, queriam +<span class="pagenum">[145]</span> +sahir todas, queriam derramar-se alli em lagrymas +e soluços na presença do seu Deus que ella +via sempre no throno das misericordias, que +não podia acabar comsigo que o visse o inflexivel, +o terrivel Deus das vinganças que lhe annunciava +o frade. Mas a carne não pôde com o espirito, +as fôrças do corpo cederam: tomou-a um +mortal deliquio, immudeceu, e... suspendeu-se-lhe +a vida. +<br /> + +<br /> + +Fr. Diniz contemplou-a alguns momentos n'esse +estado e pareceu commover-se; mas aquelles +nervos eram fios de ferro temperado que não +vibravam a nenhuma suave percussão: deu dous +passos para a porta da casa, bateu com o bordão +e disse com voz firme e segura: +<br /> + +<br /> + +―'Joanna, acuda a sua avó que não +está +boa.' +<br /> + +<br /> + +D'ahi tomou por onde viera, e, sem voltar +uma vez a cabeça, caminhou ápressado; breve se +escondeu para lá das oliveiras da estrada.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c15"></a>CAPITULO XV. +</h3> + +<br /> + +<div class="intro">Retratto de um frade franciscano que +não foi para o +depósito +da Terra-sancta, nem consta que esteja na Academia das +Bellas-artes.―Ve-se que a logica de Fr. Diniz se não +parecia +nada com a de Condillac.―Suas opiniões sôbre o +liberalismo e os liberaes.―Que o podêr vem de Deus, +mas como e paraquê.―Que os liberaes não intendem +o +que é liberdade e egualdade; e o para que eram os frades, +se fossem.―Próva-se, pelo texto, que o homem não +vive so de pão, e pergunta-se o de que vivia +então Fr. Diniz. +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Quem era Frei Diniz? +<br /> + +<br /> + +Disse-o elle:―um homem que se fizera frade, +ja velho e cançado do mundo, que vestíra o +hábito n'um tempo em que a mofa, o escarneo e +<span class="pagenum">[148]</span> +o desprêzo seguiam aquella profissão; que o +sabía, +que o conhecia e que por isso mesmo o affrontára. +<br /> + +<br /> + +D'estes raros e fortes characteres apparecem +sempre na agonia das grandes instituições para +que nenhuma pereça sem protesto, paraque de +nenhum pensamento duravel e consagrado pelo +tempo se possa dizer que lhe faltou quem o honrasse +na hora derradeira por uma devoção nobre, +gloriosa e digna do alto espirito do homem:―que +o homem é uma grande e sublime creatura +por mais que digam philosophos. +<br /> + +<br /> + +Tal era Fr. Diniz, homem de principios austeros, +de crenças rigidas, e de uma logica inflexivel +e teimosa: logica porêm que regeitava toda +a anályse, e que forte nas grandes verdades +intellectuaes e moraes em que fixára o seu espirito, +descia d'ellas com o tremendo pêso de +uma synthese asperrima e oppressora que esmagava +todo o argumento, destruía todo o raciocinio +que se lhe punha de deante. +<br /> + +<br /> + +Condillac chamou á synthese methodo de trevas: +Fr. Diniz ria-se de Condillac... e eu parece-me +que tenho vontade de fazer o mesmo. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[149]</span> +O despotismo, detestava-o como nenhum liberal +é capaz de o abhorrecer; mas as theorias +philosophicas dos liberaes, escarnecia-as como +absurdas, regeitava-as como perversoras de toda +a idea san, de todo o sentimento justo, de toda +a bondade praticavel. Para o homem em qualquer +estado, para a sociedade em qualquer fórma +não havia mais leis que as do decalogo, +nem se precisavam mais constituições que o +Evangelho: +dizia elle. Reforçá-las é superfluo, +melhorá-las +impossivel, desviar d'ellas monstruoso. +Desde o mais alto da perfeição evangelica, que +é o estado monastico, ha regras para todos alli; +e não falta senão observá-las. +<br /> + +<br /> + +Não sei se ésta doutrina não tem o +quer que +seja de um certo sabor independente e livre, se +não cheira o seu tanto á confiança +heretica dos +reformistas evangelicos. O que sei é que Fr. +Diniz a professava de boafé, que era catholico +sincero, e frade no coração. +<br /> + +<br /> + +Segundo os seus principios, podêr de homem +sôbre homem, era usurpação sempre e de +qualquer modo que fosse constituido. Todo o podêr +estava em Deus―que o delegava ao pae +<span class="pagenum">[150]</span> +sôbre o filho, d'ahi ao chefe da familia sôbre a +familia, d'ahi a um d'esses sôbre todo o Estado; +mas para o reger segundo o Evangelho e em toda +a austeridade republicana dos primitivos principios +christãos. +<br /> + +<br /> + +Assim fôra ungido Saul, e n'elle todos os reis +da terra―sem o quê, não eram reis. +<br /> + +<br /> + +Tudo o mais, anarchia, usurpação, tyrannia, +peccado―absurdo insustentavel e impossivel. +<br /> + +<br /> + +E sôbre isto tambem não disputava, que +não +concebia como: era dogma. +<br /> + +<br /> + +Nas applicações sim questionava, ou antes, +arguía, com sua logica de ferro. As antigas leis, +os antigos usos, os antigos homens, não os poupava +mais do que aos novos. A tyrannia dos reis, +a cubiça e a suberba dos grandes, a +corrupção +e a ignorancia dos sacerdotes, nunca houve tribuno +popular que as açoitasse mais sem dó nem +caridade. +<br /> + +<br /> + +O princípio porêm da +monarchia antiga, defendia-o, +ja se ve, por verdadeiro, embora fossem +<span class="pagenum">[151]</span>mentirosos e +hypocritas os que o invocavam. +<br /> + +<br /> + +Quanto ás doutrinas constitucionaes, não as +intendia, e protestava que os seus mais zelosos +apostolos as não intendiam tam pouco: não tinham +senso-commum, eram abstracções d'eschola. +<br /> + +<br /> + +Agora, do frade é que me eu queria rir... mas +não sei como. +<br /> + +<br /> + +O chamado liberalismo, esse intendia elle. 'Reduz-se' +dizia 'a duas cousas, <em>duvidar e +destruir</em> +por principio, <em>adquirir e inriquecer</em> +por fim: é +uma seita toda material em que a carne domina +e o espirito serve; tem muita fôrça para o mal; +bem verdadeiro, real e perduravel, não o póde +fazer. Curar com uma revolução liberal um paiz +estragado, +como são todos os da Europa, é sangrar +um tysico: a falta de sangue diminue as +ancias do pulmão por algum tempo, mas as +fôrças +vão-se, e a morte é mais certa.' +<br /> + +<br /> + +Dos grandes e eternos principios da Egualdade +e da Liberdade dizia: 'Em elles os practicando +devéras, os liberaes, faço-me eu liberal +<span class="pagenum">[152]</span> +tambem. Mas não ha perigo: se os não intendem! +Para intender a liberdade é preciso crer +em Deus, para acreditar na egualdade é preciso +ter o Evangelho no coração.' +<br /> + +<br /> + +As instituições monasticas eram, no seu intender +e no seu systema, condicção essencial de +existencia +para a sociedade civil―para uma sociedade +normal. Não paliava os abusos dos conventos, +não cubria os defeitos dos monges, accusava +mais severamente que ninguem a sua relaxação; +mas sustentava que, removido aquelle typo +da perfeição evangelica, toda a vida christan +ficava +sem norma, toda a harmonia se destruía, +e a sociedade ia, mais depressa e mais sem remedio, +precipitar-se no golpham do materialismo +estupido e brutal em que todos os vinculos +sociaes apodreciam e cahiam, e em que mais e +mais se isolava e estreitava o individualismo +egoista―última +phase da civilização exaggerada que +vai tocar no outro extrêmo da vida selvagem. +<br /> + +<br /> + +Taes eram os principios d'este homem extraordinario +que junctava a uma erudição immensa o +profundo conhecimento dos homens e do mundo +em que tinha vivido até a edade de cinquenta annos. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[153]</span> +Como e porque deixára elle o mundo? Como +e porquê, um espirito tam activo e superior se +occupava apenas do obscuro incargo de guardião +do seu convento―cargo que acceitára por obediencia―e +quasi que limitava as suas relações +fóra do claustro áquella casa do valle onde +não +havia senão aquella velha e aquella criança? +<br /> + +<br /> + +Apezar de sua rigidez ascetica, prendia esse +espirito por alguma coisa a este mundo? Aquelle +coração macerado do cilicio dos pensamentos +austeros e terriveis do eterno futuro, consummido +na abstinencia de todo o gôso, detodo o desejo +no presente, teria acaso viva ainda bastante +alguma fibra que vibrasse com recordações, +com saudades, com remorsos do passado? +<br /> + +<br /> + +No seu convento elle não tinha senão uma cella +nua com um cruxifixo por todo adôrno, um +breviario por unico livro. N'aquella so familia +que conversava, havia, ja o disse, a velha cega +e decrepita, Joanninha com quem apenas fallava, +e um ausente, um rapaz de quem ha dous +annos quasi que se não sabia. Em intrigas politicas, +em negocios ecclesiasticos, em coisa mais +nenhuma d'este mundo não tinha parte. De que +<span class="pagenum">[154]</span> +vivia pois este homem―homem que certo não +era d'aquelles que vivem so de pão? +<br /> + +<br /> + +E este era dos poucos textos latinos que elle +repettia, este o thema predilecto dos raros sermões +que prégava: <em>Non in solo pane vivit +homo</em>, Nem +so de pão vive o homem. +<br /> + +<br /> + +Vivia então de alguma outra coisa este homem; +e a meditação e a oração +não lhe bastavam, porque +elle sahia do seu convento e não ia prégar nem +rezar... todas as sextas feiras era certo na casa +do valle á mesma hora, do mesmo modo... +<br /> + +<br /> + +Alli estava pois alguma parto da vida do frade +que de todo se não desprendêra da terra, e +que, por mais que elle diga, lhe faltava +<em>castrar</em> +ainda por amor do ceo. +<br /> + +<br /> + +É que meio seculo de viver no mundo deixa +muita raiz que não morre assim. E talvez é uma +so a raiz, mas funda, e rija de fevra e de seiva, +que as folhas morrem, os ramos seccam, o +tronco apodrece, e ella teima a viver. +<br /> + +<br /> + +Saibamos alguma coisa d'essa vida.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c16"></a>CAPITULO XVI. +</h3> + +<br /> + +<div class="intro">Saibâmos da vida do +frade.―Era franciscano +porquê?―Dos +antigos e dos novos martyres.―Alguns particulares de Fr. +Diniz antes e depois de ser +frade.―Emigração.―Explicação +incompleta.―De como a velha tinha perdido a vista e +Joanninha o riso.―Sexta feira dia aziago. +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Saibamos alguma coisa da vida do frade, da sua +vida no seculo, porque a do claustro era nua e +nulla, monotona e singela como a temos visto. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[156]</span> +Chamava-se elle no seculo Diniz de Atahide, +e seguira a carreira das armas primeiro, depois +a das lettras. Com distincção, e quasi com +paixão, +tomára parte na campanha da Peninsula +e a fizera quasi toda; mas desgostoso do serviço +ou despreoccupado da glória militar, entrou na +magistratura para que estava habilitado, e em +1825, do logar de corregedor do Ribatejo, em +que ja fôra reconduzido, devia passar á casa do +Porto. +<br /> + +<br /> + +Foi a Lisboa receber o seu despacho, beijou +a mão a elrei, e d'ahi tomou um dia o caminho +de Santarem, chegou áquella villa, deixou criados +e cavallos na estalagem, e foi tocar á campa +da portaria de San'Francisco. +<br /> + +<br /> + +Os criados esperaram em vão muitos dias: +elle não voltou. +<br /> + +<br /> + +Desappareceu do mundo Diniz de Atahide, e +d'alli a dous annos appareceu Fr. Diniz da Cruz, +o frade mais austero e o prégador mais eloquente +d'aquelle tempo. Raro prégava, e so de doutrina; +mas era uma torrente de vehemencia, +uma uncção, uma fôrça!.. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[157]</span> +Dos institutos monasticos, ja então bem decahidos +todos de esplendor e reputação, a ordem +de San'Francisco era talvez a que mais descêra +no conceito público. Quanto mais austera é a +regra, +tanto mais se nota qualquer relaxação nos +que a professam: a dos franciscanos tinha-se feito +proverbial e popular. Elles eram tantos por +toda a parte, e tam conversantes com todas as +classes; familiarizára-se por tal modo o povo +com o aspecto d'aquellas mortalhas negras―aspecto +ja não severo, e apenas deixou de o ser... +ridículo―e ellas appareciam em taes logares, a +taes horas, por tal modo... que todo o respeito, +toda a estima, toda a consideração se lhe +perdera. +Escriptores, ja os não tinham, prégadores +poucos e sem reputação, era em todo o sentido +a religião mais humilhada na geral decadencia +das ordens. +<br /> + +<br /> + +Fr. Diniz procurou-a por isso mesmo. Queria +ser frade, o frade desprezado e apupado do seculo +dezenove. +<br /> + +<br /> + +Em certos animos é preciso muito mais valor +e enthusiasmo para affrontar este martyrio, do +que fôra nos antigos tempos para ir ao incôntro +<span class="pagenum">[158]</span> +das nobres perseguições do sangue e do fogo. +<br /> + +<br /> + +Luctava-se com honra então, cahia-se com +glória, vencia-se muitas vezos morrendo... +<br /> + +<br /> + +Agora é soffrer so. +<br /> + +<br /> + +O mundo applaudia aquelles grandes sacrificios, +e assistia com interêsse, com +admiração, +com espanto áquelles combates gigantescos. E o +tyranno tremia diante da sua victima... quando +lhe não cahia aos pés vencido, convertido e +penitente... +<br /> + +<br /> + +Hoje o povo passa e ri, os reis cuidam de +outra coisa, e a mesma Egreja não sabe que +tem martyres. +<br /> + +<br /> + +'Pois tem-n'os' dizia Fr. Diniz 'e precisa +mais d'elles para se regenerar, do que ja precisou +para fundar-se.' +<br /> + +<br /> + +Eis aqui porque Diniz d'Atahide não quiz ser +bento, nem jeronymo, nem cartucho, e se foi +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[159]</span> +De todos os seus bens, que eram consideraveis, +tirou apenas a modica somma de dinheiro +que era necessaria para pagar o dote e piso de +sua entrada no convento. Do resto fez doação +inteira +a D. Francisca Joanna―a velha hoje cega e decrepita +que no princípio d'esta historia incontrámos +dobando á sua porta na casa do valle. +<br /> + +<br /> + +A velha não tinha mais familia que um neto +e uma neta. +<br /> + +<br /> + +A neta era Joanninha, filha unica de seu unico +filho varão, e ja orphan de pae e de mãe. +<br /> + +<br /> + +O neto, orpham tambem, nascêra posthumo, +e custára a vida a sua mãe, filha querida e +predilecta +da velha. +<br /> + +<br /> + +Antes da splendida doação de Fr. Diniz, a +familia, que era de boa e honrada descendencia, +podia dizer-se pobre; depois viviam remediadamente. +Mas a velha não quiz nunca sahir do modesto +estado em que atélli vivêra. Tinham fartura +de pão, azeite e vinho de suas lavras; corria-lhe +com ellas um criado velho de confiança; +<span class="pagenum">[160]</span> +trajavam e tractavam-se como gente mean, mas +independente. +<br /> + +<br /> + +Em tempos mais antigos e em vida dos dous +filhos de D. Francisca, Fr. Diniz, então Diniz +d'Atahide e corregedor da commarca, frequentára +bastante aquella casa. Desde a morte do +filho e do genro, que ambos pereceram desastradamente +n'um dia cruzando o Tejo n'um saveiro +em occasião de grande cheia, elle nunca +mais lá tornára. +<br /> + +<br /> + +Até que se metteu frade, e que passaram annos +e que o fizeram guardião do seu convento. +<br /> + +<br /> + +Ja a nora e a filha da velha tinham morrido +tambem. +<br /> + +<br /> + +E foi notavel que na mesma hora em que Fr. +Diniz professava em San'Francisco de +Santarem, +vestia D. Francisca aquella tunica roxa que nunca +mais largou. +<br /> + +<br /> + +Mas um dia, chegou Fr. Diniz á porta da casa +do valle e disse: +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[161]</span> ―'Deus seja n'esta casa!' +<br /> + +<br /> + +A velha estremeceu, mas tornou logo a si, +fez sahir as crianças que brincavam aopé d'ella, +fechou-se com o frade, e fallaram baixo um dia +inteiro. Rezaram e choraram, que tudo se ouviu; +mas o que disseram e conversaram nunca se +soube. +<br /> + +<br /> + +O frade foi-se ao anoitecer, a velha ficou rezando +e chorando, e rezou e chorou toda a noite. +<br /> + +<br /> + +Isto fôra n'uma sexta-feira; d'ahi por deante +em todas as sexta-feiras de cada semana, Fr. +Diniz vinha passar algumas horas com a velha. +<br /> + +<br /> + +Não era seu confessor, mas dirigia-a como se +o fosse, em tudo e por tudo, menos no que respeitava +a Joanninha. +<br /> + +<br /> + +Havia no frade uma affectação visivel, um systema +premeditado e inalteravel de se abster completamente +de tudo o que podesse intervir, por +mais remotamente que fosse, com aquella interessante +criança. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[162]</span> +Joanninha não lhe tinha medo, mas o respeito +que lhe elle inspirava era misturado de uma +aversão instinctiva, que, por +contradicção inaudita +e inexplicavel, a deixava sympathizar com +tudo quanto elle dizia e professava: doutrinas, +opiniões, sentimentos, tudo lhe agradava no frade, +menos a pessoa. +<br /> + +<br /> + +Não assim Carlos, o primo, o companheiro, o +unico amigo da nossa Joanninha, o outro neto da +velha por sua filha. Andava elle ja no último anno +de Coimbra e ia formar-se em leis, quando Fr. +Diniz da Cruz começou de novo a frequentar +a casa que Diniz de Atahide tinha abandonado. +<br /> + +<br /> + +Sôbre esse a inspecção do frade era +minuciosa, +vigilante, inquieta. Os livros que elle lia, os +amigos com quem vivia, as ideas que abraçava, +as inclinações para que pendia―de tudo se +occupava +Fr. Diniz, tudo lhe dava cuidado. A elle +directamente pouco lhe dizia, mas com a avó tinha +longas conferencias a esse respeito. +<br /> + +<br /> + +Ultimamente parecia satisfazer-se com o geito +que o mancebo indicava tomar. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p163">[163]</a></span> ―'É temente a Deus, não tem o ânimo +cubiçoso +nem servil, não é hypocrita, o mania do +liberalismo +não o mordeu ainda... hade ser um homem +de prestimo:' dizia o frade a D. Francisca +com verdadeira satisfacção e interêsse. +<br /> + +<br /> + +Passára porêm de seu meio o <a href="#e15">memoravel</a> +anno +de 1830, e Carlos, que se formára no princípio +d'aquelle verão, tinha ficado por Coimbra e por +Lisboa, e so por fins d'agosto voltára para a sua +familia. E veio triste, melancholico, pensativo, +inteiramente outro do que sempre fôra, porque +era de genio alegre e naturalmente amigo de folgar, +o mancebo. +<br /> + +<br /> + +O dia em que elle chegou era uma sexta-feira, +dia de Fr. Diniz vir ao valle. +<br /> + +<br /> + +Passaram as primeiras saudações e +abraços, +ficaram sos os dous, e: +<br /> + +<br /> + +―'Não gósto de te ver:' disse o frade. +<br /> + +<br /> + +―'Pois quê? que tenho eu?' +<br /> + +<br /> + +―'Tens que vens outro do que foste, Carlos.' +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[164]</span> ―'Outro venho, é verdade; mas não se infadem +de me ver, que o infado hade durar pouco.' +<br /> + +<br /> + +―'Que queres tu dizer?' +<br /> + +<br /> + +―'Que estou resolvido a emigrar.' +<br /> + +<br /> + +―'A emigrar, tu!... Porquê, paraquê? +Que loucura é essa?' +<br /> + +<br /> + +―'Nunca estive tanto em meu juizo.' +<br /> + +<br /> + +―'Carlos, Carlos! nem mais uma palavra +a similhante respeito. Em que más companhias +andaste tu, que maus livros lêste, tu que eras +um rapaz?.. Carlos, prohibo-te de pensar n'esses +desvarios.' +<br /> + +<br /> + +―'Prohibe-me... a mim... de pensar!... +Ora, senhor...' +<br /> + +<br /> + +―'Prohibo de pensar, sim. Le no teu Horacio +se estás cançado das pandectas. Vai para +a eira com o teu Virgilio... ou passeia, caça, +monta a cavallo, faze o que quizeres, mas não +penses. Ca estou eu para pensar por ti.' +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[165]</span> ―'Porquê? eu heide ser sempre criança? +a minha vida hade ser ésta? Horacio! tenho +bom ânimo para ler Horacio agora... e a bella +occupação para um homem de vinteeum annos, +scandar jambos e trocheus.' +<br /> + +<br /> + +―'Pois le na tua biblia, que é poesia medida +n'alma e que repasce o espirito e o coração.' +<br /> + +<br /> + +―'Eu não quero ser frade: sabe?' +<br /> + +<br /> + +―'Nem te eu quero para frade.' +<br /> + +<br /> + +―'Graças a Deus! Cuidei que... Mas em fim +no seculo em que estamos...' +<br /> + +<br /> + +―'O seculo em que estamos é o da +presumpção +e o da immoralidade: e eu quero-te livrar +de uma e de outra, Carlos. Tua avó sabe as +minhas tenções a teu respeito, approva-as...' +<br /> + +<br /> + +―'Minha avó... approva muita coisa que eu +reprovo.' +<br /> + +<br /> + +―'Como assim, Carlos! que queres tu dizer?' +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[166]</span> ―'Isto mesmo, senhor;―e que ámanhan que +vou para Lisboa, imbarcar para Inglaterra.' +<br /> + +<br /> + +―'Carlos!' +<br /> + +<br /> + +―'É uma resolução meditada e +inalteravel. +Não quero nada com ésta terra nem com +ésta...' +<br /> + +<br /> + +―'Com ésta o quê, Carlos?..' +<br /> + +<br /> + +―'Pois quer ouvi-lo, digo-lh'o: com ésta +casa.' +<br /> + +<br /> + +O frade suffocava, e balbuciou entre cholerico +e aterrado: +<br /> + +<br /> + +―'Dir-me-has porquê?..' +<br /> + +<br /> + +―'Porque me abhorrece e me humilha este +mando de um extranho aqui... porque sempre +desconfiei, porque sei emfim...' +<br /> + +<br /> + +―'Sabes o quê?' +<br /> + +<br /> + +―'Sei, padre Fr. Diniz, mas não me pergunte +o que eu sei.' +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[167]</span> +Amarello, roxo, pallido, negro, o frade tremia; +sumiram-se-lhe mais os olhos e faiscavam +lá de dentro como duas brazas; fez um +esfôrço +sôbre si mesmo para fallar, e disse com uma +voz cava e cavernosa como de sepulchro: +<br /> + +<br /> + +―'Pois pergunto, sim; e permitta Deus!..' +<br /> + +<br /> + +―'Padre, não jure nem pragueje' interrompeu +Carlos com firmeza e serenidade 'as suas +intenções +serão boas talvez... creio que são boas, +filhas de um remorso salutar...' +<br /> + +<br /> + +―'Que dizes tu, Carlos... que disseste?.. Oh, +meu Deus!' +<br /> + +<br /> + +As scenas tinham mudado: Fr. Diniz parecia o +pupillo, a sua voz tinha o som da súpplica, ja +não tremia +de íra mas de anciedade; Carlos, pelo contrario, +fallava no tom austero e grave de um homem que +está forte na sua razão e que é +generoso com a +sua offensa. As palavras do mancebo eram agras, +via-se que elle o sentia e que procurava +adoçá-las +na inflexão, que lhes dava. +<br /> + +<br /> + +―'O que eu digo, padre Fr. Diniz, o que +<span class="pagenum">[168]</span> +eu sou obrigado a dizer-lhe é isto. Minha avó +consentiu, por fraqueza de mulher, no que eu +não posso nem devo consentir. O que ha n'ésta +casa não é... não é meu; o +pão que aqui se come... +é comprado por um preço... Padre! ja ve +que não podêmos fallar mais n'este assumpto. Eu +parto ámanhan para Lisboa.―Minha avó!' +acrescentou +Carlos, mudando de voz e chamando +para dentro 'minha avó!' +<br /> + +<br /> + +A velha acudiu, elle disse-lhe a sua tenção, +motivou-a em opiniões politicas, declamou contra +D. Miguel, mostrou-se enthusiasta da causa +liberal, e protestou que, n'aquelle anno, de tal +modo se tinha pronunciado em Coimbra e ainda +em Lisboa, que só uma prompta fuga o podia +salvar...' +<br /> + +<br /> + +A velha chorou, pediu, rogou... inutilmente, +em vão. +<br /> + +<br /> + +Fr. Diniz assistiu a tudo isto sem dizer palavra. +<br /> + +<br /> + +E aquella tarde voltou mais cedo para o convento. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[169]</span> +No outro dia de manhan muito cedo, abraçado +com a avó e com a priminha que se +desfaziam em lagrymas, Carlos dizia o último +adeus áquella querida casa, áquelle amado +valle em que fôra criado... N'essa noite estava +em Lisboa, d'ahi a poucos dias em Inglaterra, +e d'ahi a alguns meses na ilha Terceira. +<br /> + +<br /> + +Na sexta-feira depois da partida de Carlos, +Fr. Diniz veio ao valle e teve larga conferencia +com a avó. +<br /> + +<br /> + +Os tres dias seguintes a velha levou fechada +no seu quarto a chorar... no fim do terceiro dia +estava cega. +<br /> + +<br /> + +Joanninha era uma criança a esse tempo, parecia +não intender nada do que se passava. Mas quem +a observasse com attenção, veria que ella dobrou +de carinho e de amor para com a avó, e que se +não tornou a rir para o frade... +<br /> + +<br /> + +Elle, o frade, invelheceu de dez annos n'aquelle +dia. Os olhos sumidos, que era a feição +dominante n'aquelle rosto ascetico, sumiram-se +mais e mais; a estatura alta e erecta curvou-se-lhe; +<span class="pagenum">[170]</span>o tremor nervoso, +que o tomava por accessos, +tornou-se-lhe habitual; os tendões enrijaram-lhe, +os musculos da cara descarnaram-se, +e a pelle ja sulcada de fundos cuidados, arrugou-se +e franziu-se toda em rugas cruzadas e confusas +como que se lh'a torrassem n'uma grelha. +<br /> + +<br /> + +Nunca mais houve um dia de alegria no valle. +A sexta-feira porêm era o dia fatal e aziago. Fr. Diniz +ja não vinha senão no fim da tarde e demorava-se +pouco; mas tanto bastava. Suspirava-se por +aquella hora e tremia-se d'ella. As notícias que +consolavam, e os terrores que matavam, o frade +é que os trazia. O resto da semana levava-se +a chorar e a esperar. +<br /> + +<br /> + +E assim se tinham passado dous annos até á +sexta-feira em que primeiro vimos junctas á porta +da casa aquellas tres criaturas; assim se passou +até d'ahi a oito dias que a nossa historia volta +a incontrá-los.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c17"></a>CAPITULO XVII. +</h3> + +<br /> + +<div class="intro">De como, chegando outra sexta-feira e +estando a avó e a neta +á espera do frade, este lhe appareceu, contra o seu costume, +da banda de Lisboa.―Porque razão muitas vezes a +mais animada conversação é a que mais +facilmente pára e +quebra derepente.―Nova demonstração de dous +grandes axiomas +dos nossos velhos, a saber: Que o hábito não faz +o monge; e que ralhando as commadres, se descobrem as +verdades.―No ralhar da velha com o frade, levanta-se uma +ponta do veo que cobre os mysterios da nossa historia. +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Passaram-se aquelles oito dias no valle, não +ja como se tinham passado tantas outras semanas +em vagas tristezas, em desconsolação e +desconfôrto, mas em positiva anciedade e aguda +<span class="pagenum">[172]</span> +afflicção pela certeza que trouxera o frade de se +achar Carlos no Porto fazendo parte do pequeno +exército do D. Pedro. +<br /> + +<br /> + +Incertos rumores, d'aquelles que percorrem +um paiz em tempos similhantes e que augmentam +e exaggeram, confundem todos os successos +tinham chegado até ás pacificas +solidões do +valle com as notícias de combates sanguinarios, +de commoções violentas, de desacatos sacrilegos, +de vinganças e reprezalias atrozes tomadas pelos +aggressores, retribuídas pelos que se defendiam. +<br /> + +<br /> + +Chegou a sexta-feira; e as horas d'esse dia, +sempre desejado e sempre temido, foram contadas +minuto a minuto―a qual mais longo, a +qual mais pezado e lento de volver, quanto mais +se approximava o derradeiro. +<br /> + +<br /> + +O sol declinava ja... e Fr. Diniz sem apparecer! +<br /> + +<br /> + +No seu poiso ordinario aopé da porta da casa, +Joanninha com os olhos extendidos, a velha com +os ouvidos álerta, devoravam o espaço na +direcção +de nascente, esperando a cada momento, temendo +<span class="pagenum">[173]</span>a cada instante +ver apparecer o conhecido +vulto, ouvir o som familiar dos passos do frade. +<br /> + +<br /> + +E tam intentas, tam absortas estavam ainda +n'este cuidado, que não deram fe d'um religioso +que pelo lado opposto, isto é, da banda de +Lisboa, para alli se incaminhava a passos arrastados +mas presurosos. +<br /> + +<br /> + +Chegou rente d'ellas sem o sentirem; e uma +voz conhecida, porêm mais cava e funda do que +nunca a ouviram, pronunciou a fórmula de +saudação +costumada: +<br /> + +<br /> + +―'Deus seja n'esta casa!' +<br /> + +<br /> + +―'Amen!' responderam ambas machinalmente, +com um estremeção involuntario; e voltando +derepente a cara para o lado d'onde vinha +a voz. +<br /> + +<br /> + +―'Jesus!' disse depois a velha tornando a +si, 'Padre Fr. Diniz, de d'onde vem tam tarde?' +<br /> + +<br /> + +―'Chego de Lisboa.' +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[174]</span> ―'De Lisboa? Deus lh'o pague!... Foi saber?..'<br /> + +<br /> + +―'Fui, fui saber novas d'esta horrivel guerra, +d'esta tremenda visitação do Senhor á +condemnada +terra de Portugal...' +<br /> + +<br /> + +―'E então, diga'... +<br /> + +<br /> + +―'Boas novas, boas novas trago!' +<br /> + +<br /> + +―'Sente-se, padre, sente-se. Joanninha, chega +uma cadeira: descanse.' +<br /> + +<br /> + +―'Não é tempo de descansar este, mas +de vigiar e de orar.' +<br /> + +<br /> + +―'Pois que succedeu, padre? Não me tenha +n'esta horrivel suspensão. Diga: onde está +elle? Alguma desgraça grande lhe aconteceu, +oh meu Deus!.. +<br /> + +<br /> + +―'E que me importa a mim o que aconteceu +ou podia acontecer a mais um de tantos +perdidos? Encherá a sua medida, irá +após dos +<span class="pagenum">[175]</span> +outros... caminha nas trevas com elles, e como +elles, so hade parar no abysmo.' +<br /> + +<br /> + +A éstas derradeiras palavras do frade asperamente +pronunciadas e em tom de indifferença e +desprêzo, seguiu-se aquelle silencio comprimido, +aquella pausa de toda a conversação grave e +íntima +em que os pensamentos são tantos que se +atropellam e não acham sahida na voz. +<br /> + +<br /> + +Fr. Diniz mentia... na dureza d'aquellas +expressões +mentia ao seu coração―não mentia ao +seu espirito. Como o caustico se applica á epiderme +para deslocar a inflammação interior, elle +roçava o peito com as asperidões de sua doutrina +e de seus principios rigidos para amortecer +dentro a viva dor d'alma que o consummia. +<br /> + +<br /> + +O frade estava por fóra, o homem por dentro. +<br /> + +<br /> + +O observador vulgar não via senão o burel +e a corda que amortalhavam e cadaver. O +que attentasse bem n'aquelles olhos, o que reparasse +bem nas inflexões d'aquella voz, diria: +'Frade, tu mentes; mentes sem saberes que +mentes: es sincero na tua fe, na tua austeridade, +<span class="pagenum">[176]</span>na tua +abnegação; mas o teu sacrificio +é como o de Abraham na montanha, e Deus +sabe que tu não tens fôrça para o +cumprir.' +<br /> + +<br /> + +Não o percebeu assim a pobre velha aquem +os rigores de Fr. Diniz faziam tremer, e que +para toda a affeição, para todo o sentimento +humano +julgava morto o coração do cenobita. +<br /> + +<br /> + +Ella que no silencio de suas noites sempre +veladas, na perpétua escuridão de seus dias +sempre +tristes luctava ha tanto tempo, luctava debalde +para desprender das affeições do mundo, +aquelle seu pobre coração que queria immollar +ao Senhor, ella via com sancta inveja e +admiração +as sobrehumanas fôrças que imaginava no +frade; e desanimada de o podêr seguir n'essas +alturas da perfeição evangelica, recahia, mais +desalentada +e mais miseravel que nunca, em toda +a sua fraqueza de mulher e de mãe. +<br /> + +<br /> + +Oh! não sabe o que é tormento, o que é +inferno +n'este mundo, o que não soffreu destas angústias! +<br /> + +<br /> + +Mas permitte Deus que as padeça quem não +<span class="pagenum">[177]</span> +tem grandes culpas, grandes e irreparaveis erros +que expiar n'este mundo? +<br /> + +<br /> + +Eu creio firmemente que não. +<br /> + +<br /> + +<div class="dots"></div> + +<br /> + +<div class="dots"></div> + +<br /> + +<br /> + +Cansada e exhausta ja de tam porfiada lucta, a velha +perdeu de todo a razão com as derradeiras palavras do +frade, e n'um paroxismo de chôro exclamou: +<br /> + +<br /> + +―'Diniz!.. Fr. Diniz, por aquelle pinhor +sagrado que eu tenho em meu podêr, por aquella +preciosa cruz sôbre a qual se derramaram as +últimas +lagrymas da minha desgraçada filha, Diniz!...' +<br /> + +<br /> + +―'Silencio!' bradou o frade, arrancando um +brado de dentro do peito que fez gemer os echos +todos do valle: 'Silencio, mulher! não conjure o +demonio que eu trago incarcerado n'este seio, que +á fôrça de penitencias mal pude domar +ainda... +que so a morte poderá talvez expellir. Mulher, +mulher! este cadaver que ja morreu que ja apodreceu +em tudo o mais, que ja o comem, sem o +elle sentir, os bichos todos da destruição... +este +<span class="pagenum">[178]</span> +cadaver tem um unico ponto vivo no coração... +e o dedo do teu egoismo ahi foi tocar, oh mulher!.. +Peccado que estás sempre contra mim! +Justiça eterna de Deus quando serás satisfeita?' +<br /> + +<br /> + +Rompêra na maior violencia a voz do frade, +mas descahiu n'um tom baixo e medonho ao fazer +ésta última imprecação +mysteriosa. As derradeiras +syllabas quasi que lhe morreram nos beiços +convulsos, e ao balbuciá-las deixou-se cahir, +exhausto e como quem mais não podia, na cadeira +que Joanninha lhe chegára. +<br /> + +<br /> + +A velha aterrada e confusa tremia do que fizera, +como deante do espirito immundo que seus +maleficios evocaram, treme a maga assustada de +seu proprio podêr. +<br /> + +<br /> + +Passaram alguns segundos que nenhumas palavras +podem descrever. +<br /> + +<br /> + +O frade levantou o rosto, olhou para ella, olhou +para Joanninha... e, como quem emerge, por +grande esfôrço, de um pêso enorme +d'aguas que +o submergiam, sacudiu a cabeça, sorveu um longo +<span class="pagenum">[179]</span>trago de ar, e +disse na sua voz ordinario, so +mais debil: +<br /> + +<br /> + +―'Carlos, senhora... minha irman, Carlos +está vivo; e exaqui, vinda pelo consul de França, +uma carta d'elle.' +<br /> + +<br /> + +Tirou uma carta da manga e a intregou a Joanninha.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c18"></a>CAPITULO XVIII. +</h3> + +<br /> + +<div class="intro">Descobre-se que ha grandes e espantosos +segredos entre o frade +e a velha.―Piedosa fraude de Joanninha.―Lucta entre +o hábito e o monge. +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +O frade intregou a carta a Joanninha, que, lançando +os olhos ao sobrescripto, ficou indecisa e +inquieta como quem receia e deseja e teme de +saber alguma coisa. Elle com voz trémula e sobresaltada +accrescentou: +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[182]</span> ―'Adeus, que são horas!.. Leiam, e sexta-feira +que vem... me dirão...' +<br /> + +<br /> + +―'Poisquê' disse timidamente a velha 'não +quer ouvir o que elle nos escreve?' +<br /> + +<br /> + +―'Sexta-feira que vem' continuou Fr. Diniz, +sem ouvir ou sem attender a pergunta 'sexta-feira +que vem eu tomarei conta da resposta, +e lh'a farei chegar pela mesma via... So uma +coisa! nem palavra a meu respeito: eu para Carlos... +morri.' +<br /> + +<br /> + +―'Diniz!' exclamou a velha fóra de si 'Diniz!..' +<br /> + +<br /> + +O frade tornou derepente ao seu tom austero, +e respondeu gravemente: 'O quê, minha irman?' +<br /> + +<br /> + +―'Era' disse ella timida e submissa outra +vez 'era se, era que... Pois não hade ouvir +ler a carta d'elle?' +<br /> + +<br /> + +Fr. Diniz não respondeu, mas ficou sentado: +descahiu-lhe a cabeça sôbre o peito, e +abraçando-se +com o bordão, não deu mais signal de si. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[183]</span> +A velha escutou em silencio alguns segundos, +e com aquelle ouvido agudissimo―penetrante +vista dos cegos―percebeu sem dúvida o que se +passava, e com mais confôrto e serenidade na +voz disse: +<br /> + +<br /> + +―'Abre, Joanna, lê, minha filha.' +<br /> + +<br /> + +Joanninha abriu a carta, e percorreu com avidez +as poucas linhas que ella incerrava. +<br /> + +<br /> + +―'Não les?' acudiu a avó com impaciencia: +'Lê, lê alto, Joanna.' +<br /> + +<br /> + +―'É para mim so a carta' disse ella friamente. +<br /> + +<br /> + +―'Para ti so, como?' tornou a outra. +<br /> + +<br /> + +―'É para mim so ésta carta... não diz +nada +que...' +<br /> + +<br /> + +―'Não diz nada!' replicou a avó 'Pois!... +Lê, lê alto; seja como for, lê, e +oiçamos.' +<br /> + +<br /> + +Joanninha parecia hesitar ainda; lançou os +<span class="pagenum">[184]</span> +olhos ao frade, achou-o na mesma attitude impassivel; +voltou-se para a avó, viu-a anciada e anxiosa... +leu. +<br /> + +<br /> + +A carta era com effeito para ella so, e carta +bem singela, não continha senão as ingenuas +expressões +de um amor fraterno nunca esquecido, +longas saudades do passado, poucas esperanças no +futuro, quasi nenhumas de se tornarem a ver tam +cedo. Tudo isto porém era com a prima: para +a desconsolada avó, para ninguem mais... nem +uma palavra. +<br /> + +<br /> + +Joanninha ia lendo, lendo... e a voz a descahir-lhe: +no fim ajunctou uns abraços, umas saudosas +lembranças, e não sei que phrase incompleta +e mal articulada em que se pedia a bençam +da avó. +<br /> + +<br /> + +A velha abanou a cabeça tristemente e disse: +'Ora pois... bemditto seja Deus!' +<br /> + +<br /> + +Joanninha córou até o branco dos olhos... Inda +bem que a não podia ver a avó! Mas viu-a +Fr. Diniz, e com a mão trémula e os olhos +arrazados +d'agua lhe fez um mudo e expressivo +<span class="pagenum">[185]</span> +signal de approvação e agradecimento. Joanninha +córou outra vez, e logo se fez pallida como +a morte: era a primeira vez que mentia... e Fr. +Diniz, o austéro Fr. Diniz apprová-la! +<br /> + +<br /> + +O frade levantou-se, e sem dizer palavra, tomou +o caminho de Santarem. +<br /> + +<br /> + +Ouvia-se ao longe o arquejar de uns soluços +suffocados... Seriam d'elle? +<br /> + +<br /> + +A avó e a neta abraçaram-se e choraram. +<br /> + +<br /> + +Nenhuma d'ellas disse palavra sôbre a carta: +a velha tinha percebido a piedosa fraude de Joanninha... +<br /> + +<br /> + +Oh! que existencias que eram aquellas quatro! +Esse frade, essa velha e essas duas crianças! E +a maior parte da gente que é +<em>gente</em>, vive assim... +E querem, querem-n'a assim mesmo, a vida, +teem-lhe appêgo! Oh que enigma é o homem! +<br /> + +<br /> + +Tornou a passar outra semana, e o frade tornou +a vir no praso costumado, e levou a resposta +da +Tornou a passar outra semana, e o frade tornou +a vir no praso costumado, e levou a resposta +da carta―resposta que Joanninha so escreveu +<span class="pagenum">[186]</span>e so viu―e +dirigiu-a em Lisboa pela via +segura que indicára. +<br /> + +<br /> + +Soube-se que fôra intregue; mas semanas e +semanas decorreram, os meses passaram de anno... +e outra carta não veio. +<br /> + +<br /> + +No entretanto a guerra civil progredia; e depois +de suas tremendas peripecias, o grande drama +da Restauração chegava rapidamente ao fim. +Eram meiados do anno de 33, a operação do +Algarve succedêra milagrosamente aos constitucionaes, +a esquadra de D. Miguel fôra tomada, +Lisboa estava em podêr d'elles. Os tardios +e inuteis esforços dos realistas para retomar +a capital tinham occupado o resto do verão. Ja +outubro se descoroava de seus ultimos fructos, e +as folhas começavam a impallidecer e a cahir, +quando uma sexta-feira, ao pôr do sol, Fr. Diniz +apparecia no valle mais curvado e mais trémulo +que nunca. Vinha do exército realista que +então cercava Lisboa. +<br /> + +<br /> + +Joanninha não era alli, a velha estava so. +<br /> + +<br /> + +―'Que nos traz, padre?' clamou ella mal +<span class="pagenum">[187]</span> +que o sentiu: 'Soube d'elle? Tem escapado a +éstas desgraças, a esses combates mortaes?' +<br /> + +<br /> + +―'Não sei nada, minha irman: ha tres dias +que de Lisboa se não póde obter a menor +informação. +As linhas estão fechadas e guarnecidas como +nunca: tudo indíca havermos de ter cedo algum +combate decisivo.' +<br /> + +<br /> + +―'Deus seja com!..' +<br /> + +<br /> + +―'Com quem, minha irman?' +<br /> + +<br /> + +―'Com quem tiver justiça.' +<br /> + +<br /> + +―'Nenhum a tem. De um lado e de outro +está a ambição e a cubiça, +de um lado e de outro +a immoralidade, a perdição e o desprêzo +da +palavra de Deus. Por isso, vença quem vencer, +nenhum hade triumphar.' +<br /> + +<br /> + +―'Ai, o meu pobre filho, o meu Carlos!' +<br /> + +<br /> + +―'Isso, irman Francisca, isso! Peça a Deus +que dê a victoria a seu neto, e á impiedade por +que elle combate. Peça a Deus que vençam os +<span class="pagenum">[188]</span> +inimigos declarados do seu nome, os destruidores +de seus altares, os profanadores de seus templos... +Oh! que dia bello e grande não hade ser +esse, quando Carlos... o seu Carlos, vier expulsar, +ás baionetadas, do pobre convento de San'Francisco, +o velho guardião―que lhe não hade fugir, +minha irman!.. d'elle menos que de nenhum outro... +que ajoelhado deante do altar inclinará a +cabeça como os antigos martyres para cahir na +presença do seu Deus ás mãos do +seu...' +<br /> + +<br /> + +―'Diniz!.. Padre!.. Padre Frei Diniz, que +horrorosas palavras sahem da sua bôcca!.. Meu +neto, o meu Carlos não é capaz... oh meu Deus!..' +<br /> + +<br /> + +―'Seu neto detesta-me... e tem... tem razão.' +<br /> + +<br /> + +―'Não sabe a verdade elle... Carlos está +inganado, +cuida... não sabe senão meia verdade: +e eu, eu heide―custe o que me custar―eu +heide...' +<br /> + +<br /> + +―'Hade o quê?' +<br /> + +<br /> + +―'Heide desinganá-lo, heide-lhe dizer a verdade +<span class="pagenum">[189]</span>toda. Heide +prostrar-me na sua presença, +heide humilhar-me deante do filho de minha +filha, heide arrastar na poeira de seus pés éstas +cans e éstas rugas... morrerei de vergonha e de +remorsos deante do meu filho, mas elle hade saber +a verdade.' +<br /> + +<br /> + +Sahiam com tal impeto e com tam desacostumada +energia éstas mysteriosas e tremendas palavras +da bôcca da velha, que Fr. Diniz não ousou +contê-la; ouviu até ao fim, deixou quebrar +o impeto da torrente, e erguendo então a sua voz +austera mas pousada, disse n'aquelle tom friamente +decisivo que tanto impõe aos animos apaixonados: +<br /> + +<br /> + +―'Se tal fizesse, mulher, a minha maldicção, +a maldicção eterna de Deus sôbre a sua +cabeça +para sempre!... Oh mulher, pois não lhe +basta que elle me abhorreça―não lhe basta que +seu neto lhe perdesse o amor... quer... quer tambem +que nos despreze?' +<br /> + +<br /> + +A velha gemeu profundamente, e, por um geito +de antiga reminiscencia, levou as mãos aos olhos +como se os tapasse para não ver. Então disse com +desconsoladas lagrymas na voz: +<br /> + +<br /> + +―'A vontade de Deus seja feita!'<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c19"></a>CAPITULO XIX. +</h3> + +<br /> + +<div class="intro"> +Guerra de postos avançados. Joanninha no bivac―De como +os rouxinoes do valle se disciplinaram a ponto de tocar a alvorada +e a retreta.―Quem era a 'menina dos rouxinoes,' +e porque lhe poseram este nome.―A sentinella perdida e +achada. +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +A velha disse aquellas últimas palavras com uma +expressão de dor tam resignada, mas tam desconsolada, +que o frade olhou para ella commovido, +e sentiu as lagrymas escurecerem-lhe +a vista. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[192]</span> +N'este momento Joanninha, que passeiava a +alguma distancia da casa na direcção de Lisboa, +acudiu sobresaltada bradando: +<br /> + +<br /> + +―'Avó, avó!.. tanta gente que ahi vem! +soldados e povo... homens e mulheres... tanta +gente!' +<br /> + +<br /> + +Era a retirada de 11 de outubro. +<br /> + +<br /> + +―'Deus tenha compaixão de nós!' disse a +velha: 'O que será padre?' +<br /> + +<br /> + +―'O que hade ser!' respondeu Fr. Diniz: +'o meu presentimento que se verifica; o combate +foi decisivo, os constitucionaes vencem.' +<br /> + +<br /> + +Comeffeito foram apparecendo as tropas que +se retiravam, as gentes que fugiam, e todo +aquelle confuso e doloroso espectaculo de uma retirada +em guerra civil... +<br /> + +<br /> + +Alguns feridos, que não podiam mais, ficaram na +casa do valle intregues á piedosa guarda e cuidado +de Joanninha; dos outros tomou conta Fr. +Diniz e os acompanhou a Santarem. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[193]</span> +As tropas constitucionaes vinham em seguimento +dos realistas, e d'alli a poucos dias tinham o +seu quartel-general no Cartaxo; D. Miguel fortificava-se +em Santarem, e a casa da velha era +o último posto militar occupado pelo seu +exército. +<br /> + +<br /> + +Não tardou muito que a fôrça toda, todo +o interêsse da +guerra se não concentrasse n'aquelle, ja +tam pacífico e ameno, agora tam desolado e turbulento +valle. +<br /> + +<br /> + +Eram os derradeiros dias do outomno, a natureza +parecia tomar dó pelo homem―dar triste +e lugubre decoração de scena ao sanguento drama +de destruição e de miseria que alli se +ía +concluir. As últimas folhas das árvores cahiam, +o ceo nublado e negro vertia sôbre a terra apaulada +torrentes grossas d'agua, a cheia alagava os +baixos, e as terras altas cobriam-se de hervas maninhas, +os trabalhos da lavoira cessavam, o gado +e os pastores fugiam, e os soldados de um e +de outro campo cortavam as oliveiras seculares... +<br /> + +<br /> + +Tudo estava feio e torpe, tudo era ruina, +desolação +e morte emtôrno da casa do valle, agora +transformada em quartel e redutto militar. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[194]</span> +E que era feito, no meio d'ésta desordem, +que era feito da nossa pobre velha, da nossa interessante +Joanninha? +<br /> + +<br /> + +Apenas se estabeleceu a posição dos dous +exercitos, +Fr. Diniz queria levá-las para Santarem; +mas não foi possivel. Instancias, rogos, ordem +positiva, tudo foi em vão. Pela primeira vez na +sua vida, aquella mulher tímida, fraca e irresoluta, +soube ter vontade firme e propria. +<br /> + +<br /> + +―'Aqui nasci,' dizia ella, 'aqui vivi, aqui +heide morrer. Que importa como?.. Aqui as +curtas alegrias, aqui as longas dores da minha +vida teem passado: onde heide eu ir que possa +viver ou morrer senão aqui? Ésta casa sei-a de +cór, éstas árvores conhecem-me, estes +sitios são +os ultimos que vi, os unicos de que me lembra: +como heide eu, velha e cega, ir fazer conhecimento +com outros para viver n'elles?..'<br /> + +<br /> + +―'E Joanninha n'essa edade... no meio d'essa +soldadesca!' suggeria o frade. +<br /> + +<br /> + +―'Joanninha' tornava ella 'Joanninha é uma +criança, e tem mais juizo, mais energia d'alma, +<span class="pagenum">[195]</span>mais saude e mais +fôrça do que―mulheres +não fallemos―do que a maior parte dos +homens. Ficaremos aqui, padre, ficaremos aqui +melhor do que em Santarem podêmos estar. Deus +nos defenderá...' +<br /> + +<br /> + +Fr. Diniz cedeu: a mesma vaga e indeterminada +esperança que animava a velha, e que a prendia +tam fortemente alli, não era extranha ao +coração +do frade. Ella não ousava nem alludir de +longe a essa esperança, mas sentia-se que lá a +tinha anninhada e escondida a um canto d'alma... +Aquelle neto, aquelle filho da filha querida havia +de vir ter á casa em que nascêra... por alli +havia de passar, e mais dia menos dia... A velha, +repitto, nem alludia a tal esperança, mas +sentia-se que a tinha: percebeu-lh'a Fr. Diniz, +e ou a partilhasse tambem ou não se atrevesse a +contrariar razões que lhe não davam, cedeu e +callou-se. +<br /> + +<br /> + +O seu principal temor era a licenciosa soltura +dos costumes militares; mas estava Joanninha menos +exposta por se accolher a uma praça de guerra +como Santarem era agora? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[196]</span> +Brevemente se viu que a avó tinha accertado. +A franca e ingenua dignidade de Joanninha, o ar +grave, a melancholia serena e bondosa da velha +impozeram tal respeito aos soldados, que―graças +tambem á cooperação efficaz do +commandante +do pôsto, um bom e honrado cavalheiro transmontano―ellas +viviam tam seguras e quietas na +pequena porção da casa que para si reservaram, +quanto em taes circumstancias era possivel viver. +Fr. Diniz vinha regularmente ao valle todas as +sexta-feiras, e nenhum outro hábito de suas vidas +se interrompeu. +<br /> + +<br /> + +E pouco a pouco, os combates, as escaramuças, +o som e a vista do fogo, o aspecto do sangue, +os ais dos feridos, o semblante desfigurado +dos mortos―a guerra emfim em todas as suas +fórmas, com todo o seu palpitante interêsse, com +todos os terrores, com todas as esperanças que a +accompanham, se lhes tornou uma coisa familiar, +ordinaria... +<br /> + +<br /> + +A tudo se habitua o homem, a todo o estado +se affaz; e não ha vida, por mais extranha, que +o tempo e a repettição dos actos lhe +não faça +natural. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[197]</span> +Todavia de Carlos nem mais uma linha... +Pobre velha! +<br /> + +<br /> + +Assim passaram meses, assim correu o hynverno +quasi todo, e ja as amendoeiras se toucavam +de suas alvissimas flores de esperança, ja +uma depois de outra, íam renascendo as plantas, +íam abrolhando as árvores; logo vieram as aves +trinando seus amores pelos ramos... insensivelmente +era chegado o meio d'Abril, estavamos +em plena e bella primavera. +<br /> + +<br /> + +A guerra parecia cançada, o furor dos combatentes +quebrado; rumores de intentadas transacções +gyravam por toda a parte. +<br /> + +<br /> + +No nosso valle as sentinellas dos dous campos +oppostos, costumadas ja a ver-se todos os dias, +começavam a ver-se sem odio: principiaram por +se dizer dos pesados gracejos de guerra, acabaram +por conversar quasi amigavelmente. Muíta +vez foi curioso ouvi-los, os soldados, discorrer +sôbre as altas questões d'Estado que dividiam +o reino e o traziam revôlto ha tantos annos. Se +as tractavam melhor os do conselho em seus gabinetes! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[198]</span> +Joanninha que, pouco a pouco, se habituára +áquelle viver de perigos e incertezas, de dia +para dia lhe ia crescendo o ânimo, aguerrindo-se. +Tudo se affazia áquelle estado: até os rouxinoes +tinham voltado aos loureiros d'aopé da casa, +e como que disciplinados obedeciam aos toques +d'alvorada e de retreta, accompanhando-os de seu +cantar animado e vibrante. +<br /> + +<br /> + +A essas horas Joanninha era certa em sua janella―n'aquella +antiga e elegante janella +<em>renascença</em> +de que primeiro nos namorámos, leitor amigo, +ainda antes de a conhecer a ella. Alli a viam +as vedetas de ambos os exercitos, alli se acostumaram +a vê-la com o nascer e o pôr do sol: +alli, muda e quêda horas esquecidas, escutava ella +o vago cantar dos seus rouxinoes, talvez absorta +em mais vagos pensamentos ainda... +<br /> + +<br /> + +E d'alli lhe pozeram o nome da 'menina dos +rouxinoes', pelo qual era conhecida em ambos os +campos: significante e poetico appellido com que +a saudavam os soldados de ambas as bandeiras! +<br /> + +<br /> + +E uns e outros respeitavam e adoravam a menina +dos rouxinoes. Entre uns e outros por tacita +<span class="pagenum">[199]</span>convenção +parecia stipulado que aquella +suave +e angelica figura podesse andar livremente no +meio das armas inimigas, como a pomba doméstica +e valida a que nenhum caçador se lembra +de mirar. +<br /> + +<br /> + +Os costumes de guerra são menos soltos do +que se cuida; no ânimo do soldado ha mais sentimentos +delicados, nas suas fórmas ha menos rudeza +do que se pensa. A farda é sim vaidosa e +presumida, crê muito nos seus podêres de +seducção, +mas não é brutal senão no primeiro +impeto. +<br /> + +<br /> + +Joanninha pençava os feridos, velava os infermos, +tinha palavras de consolação para todos, +e em tudo quanto dizia e fazia era tam senhora, +tinha tam grave gentileza, um donaire tam nobre, +que a amavam todos muito, mas respeitavam-n'a +ainda mais. +<br /> + +<br /> + +Fiada ja n'este respeito e estima geral, Joanninha +fôra extendendo, de dia a dia, as suas excursões +pelo valle. Ultimamente costumava ir, +pelo fim da tarde, até um pequeno grupo de alamos +e oliveiras que ficava mais para o sul e perto +<span class="pagenum">[200]</span> +do logar donde, á noite, se collocavam as derradeiras +vedetas dos constitucionaes. +<br /> + +<br /> + +Um dia, ja quasi pôsto o sol, a tarde quente +e serena,―ou fosse que adormeceu ou que suas +meditações a distrahiram―o certo é +que os rouxinoes +gorjeavam ha muito nos loureiros da janella, +e Joanninha não voltava. +<br /> + +<br /> + +Estabeleceram-se as vedetas de um lado e outro, +deram-se todas as disposições costumadas +para a noite. +<br /> + +<br /> + +O official dos constitucionaes que andava collocando +as suas sentinellas, tinha vindo essa mesma +tarde de Lisboa com um refôrço de tropa. +Pôs-se elle em marcha com a sua gente, foi-a +dispondo nos logares convenientes, e chegava emfim +aopé d'aquelle grupo de árvores: +<br /> + +<br /> + +―'Silencio!' disse elle 'Alto! alli está um vulto.' +<br /> + +<br /> + +―'Não é ninguem,' respondeu um soldado +que era dos antigos no pôsto: 'ninguem que importe; +é a menina dos rouxinões. Estou vendo +que adormeceu no seu poiso costumado.' +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[201]</span> ―'A menina dos rouxinões! Que +cantiga é +essa que me cantas tu lá?' +<br /> + +<br /> + +O soldado deu a explicação popular do seu +ditto, mostrou a casa do valle, e continuava incarecendo +sôbre os meritos e virtudes de Joanninha... +<br /> + +<br /> + +O official não o deixou acabar: +<br /> + +<br /> + +―'Para a rettaguarda, e silencio!' +<br /> + +<br /> + +Foi rapidamente postar, a alguma distancia +d'alli, as duas sentinellas que lhe faltavam; e elle +entrou so no pequeno grupo d'árvores. +<br /> + +<br /> + +Era Joanninha que estava alli, Joanninha que +effectivamente dormia a somno sôlto.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c20"></a>CAPITULO XX. +</h3> + +<br /> + +<div class="intro">Joanninha adormecida―O <a href="#e16">demi-jour</a> da +coquette.―Poesia +do Flos-sanctorum*.―De como os rouxinoes acompanhavam +sempre a menina do seu nome; e do bem que um d'elles +cantava no bivac.―Retratto esquissado á pressa para +satisfazer +ás amaveis leitoras.―Pondera-se o triste e pessimo +gôsto dos nossos governantes em tirarem as honras militares +ao mais elegante e mais nacional uniforme do exército +portuguez.―Em que se parece o auctor da presente obra +com um pintor da edade-média.―De como os +abraços, por +mais apertados que sejam, e os beijos, por mais interminaveis +que pareçam, sempre teem de acabar porfim. +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Sôbre uma especie de banco rustico de verdura, +tapeçado de grammas e de macella brava, +Joanninha, meio recostada, meio deitada, dormia +profundamente. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[204]</span> +A luz baça do crepusculo, coada ainda pelos +ramos das árvores, illuminava tibiamente as expressivas +feições da donzella; e as fórmas +graciosas +de seu corpo se desenhavam molle e voluptuosamente +no fundo vaporoso e vago das exhalações +da terra, com uma incerteza e indecisão de +contornos que redobrava o incanto do quadro, e +permittia á imaginação exaltada +percorrer toda a +escalla d'harmonia das graças femininas. +<br /> + +<br /> + +Era um ideal do demi-jour da coquette parisiense: +sem arte nem estudo, lh'o preparára +a natureza em seu boudoir de folhagem perfumado +da brisa recendente dos prados. +<br /> + +<br /> + +Como n'essas poeticas e populares legendas de +um dos mais poeticos livros que se tem escripto, +o Flos-sanctorum, em que a ave querida e +fadada accompanha sempre a amavel sancta de +sua affeição―Joanninha não estava +alli sem o +seu mavioso companheiro. Do mais espêsso da +ramagem, que fazia sobreceo áquelle leito de verdura, +sahia uma torrente de melodias, vagas e +ondulantes como a selva com o vento, fortes, bravas, +e admiraveis de irregularidade e invenção, +como as barbaras endeixas de um poeta selvagem +<span class="pagenum">[205]</span>das montanhas... +Era um rouxinol, um dos +queridos rouxinoes do valle que alli ficára de vela +e companhia á sua protectora, á menina do seu +nome. +<br /> + +<br /> + +Com o approximar dos soldados, e o cochichar +do curto dialogo que no fim do último capitulo +se referiu, cessára por alguns momentos o delicioso +canto da avezinha; mas quando o official, +postadas as sentinellas a distancia, voltou pé ante +pé e entrou cautellosamente para debaixo das +árvores, ja o rouxinol tinha tornado ao seu canto, +e não o suspendeu outra vez agora, antes redobrou +de trillos e gorgeios, e do mais alto de +sua voz agudissima veio descahindo depois em uns +suspiros tam magoados, tam sentidos, que não disseras +senão que preludiava á mais terna e maviosa +scena d'amor que esse valle tivesse visto. +<br /> + +<br /> + +O official...―Mas certo que as amaveis leitoras +querem saber com quem trattam, e exigem, +pelo menos, uma esquissa rapida e a largos traços +do novo actor que lhes vou appresentar em scena. +<br /> + +<br /> + +Teem razão as amaveis leitoras, é um dever +de romancista a que se não póde faltar. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[206]</span> +O official era môço, +talvez não tinha trinta annos; +pôsto que o tratto das armas, o rigor das +estações, e o sêllo visivel dos +cuidados que trazia +estampado no rosto, accentuassem ja mais fortemente, +em feições de homem feito, as que ainda +devia arredondar a juventude. +<br /> + +<br /> + +A sua estatura era mediana, o corpo delgado, +mas o peito largo e forte como precisa um coração +de homem para pulsar livre; seu porte gentil +e decidido de homem de guerra desenhava-se +perfeitamente sob o espesso e largo sobretudo militar―especie +de great-coat inglez que a imitação +das modas britannicas tinha tornado familiar +nos nossos bivacs. Trazia-o desabotoado e descahido +para traz, porque a noite não era fria; e +viu-se por baixo elegantemente cingida ao corpo +a fardeta parda dos caçadores, realçada de seus +characteristicos alamares pretos e avivada de incarnado... +<br /> + +<br /> + +Uniforme tam militar, tam nacional, tam caro +a nossas recordações―que essas gentes, +prostituidoras +de quanto havia nobre, popular e respeitado +n'esta terra, proscreveram do exército... por +<span class="pagenum">[207]</span> +muito portuguez demais talvez! deram-lhe baixa +para os beleguins da alfandega, reformaram-n'o +em uniforme da bicha! +<br /> + +<br /> + +Não pude resistir a esta reflexão: as amaveis +leitoras me perdoem por interromper com ella o +meu retratto. +<br /> + +<br /> + +Mas quando pinto, quando vou riscando e +collorindo as minhas figuras, sou como aquelles +pintores da edade-média que interlaçavam, nos +seus +paineis, distichos de sentenças; fittas lavradas de +moralidades e conceitos... talvez porque não sabiam +dar aos gestos e attitudes expressão bastante +para dizer por elles o que assim escreviam, +e servia a penna de supplemento e illustração ao +pincel... Talvez: e talvez pelo mesmo motivo caio +eu no mesmo defeito... +<br /> + +<br /> + +Será; mas em mim é irremediavel, não +sei +pintar de outro modo. +<br /> + +<br /> + +Voltemos ao nosso retratto. +<br /> + +<br /> + +Os olhos pardos e não muito grandes, mas de +<span class="pagenum">[208]</span> +uma luz e viveza ímmensa, denunciavam o talento, +a mobilidade do espirito―talvez a irreflexão... +mas tambem a nobre singeleza de um character +franco, leal e generoso, facil na íra, facil +no perdão, incapaz de se offender de leve, mas +impossivel de esquecer uma injúria verdadeira. +<br /> + +<br /> + +A bôcca, pequena e desdenhosa, não indicava +comtudo suberba, e muito menos vaidade, mas +surria na consciencia de uma superioridade inquestionavel +e não disputada. +<br /> + +<br /> + +O rosto, mais pallido que trigueiro, parecia +comprido pela barba preta e longa que trazia ao +uso do tempo. Tambem o cabello era preto; a +testa alta e desaffogada. +<br /> + +<br /> + +Quando callado e serio, aquella physionomia +podia-se dizer dura; a mais piquena animação, o +mais leve sorriso a fazia alegre e prazenteira, +porque a mobilidade e a gravidade eram os dous pollos +d'esse character pouco vulgar e difficilmente +bem intendido. +<br /> + +<br /> + +D'aquelle busto classico e verdadeiramente +moldado pelos typos da arte antiga, podia o statuario +<span class="pagenum">[209]</span>fazer um +philosopho, um poeta, um homem +d'estado ou um homem do mundo, segundo +as leves inflexões d'expressão que lhe +désse. +<br /> + +<br /> + +N'este momento agora, e ao entrar na pequena +espessura d'aquellas árvores, animava-o uma +viva e inquieta expressão de interêsse―quebrado +comtudo, sustido, e, para assim dizer, +<em>soffreado</em> +de um temor occulto, de um pensamento reservado +e doloroso que lhe ia e vinha resumbrando +na face, como a antiga e desbotada côr de um +estôfo que se tingiu de novo―que é outro agora +mas que não deixou de ser inteiramente o que +era... +<br /> + +<br /> + +Alegra-se assim um triste dia de novembro +com o raio de sol transiente e inesperado que lhe +rompeu a cerração n'um canto do ceo... +<br /> + +<br /> + +Tal era, e tal estava deante de Joanninha adormecida, +o que não direi mancebo porque o não +parecia―o homem singular a quem o nome, a +historia e as circumstancias da donzella pareciam +ter feito tamanha impressão. +<br /> + +<br /> + +―'Joanninha!' murmurou elle apenas a viu +<span class="pagenum">[210]</span> +á luz ainda bastante do crepusculo. 'Joanninha!' +disse outra vez, contendo a violencia da +exclamação: +'É ella sem dúvida. Mas que differente!... +quem tal diria! Que graça, que gentileza! Será +possível que a criança que ha dois annos?..' +<br /> + +<br /> + +Dizendo isto, por um movimento quasi involuntario +lhe tomou a mão adormecida e a levou +aos labios. +<br /> + +<br /> + +Joanninha estremeceu e acordou.<br /> + +<br /> + +―'Carlos, Carlos!'―balbuciou ella com os +olhos ainda meio-fechados, Carlos, meu primo... +meu irmão! era falso, dize: era falso? Foi um +sonho, não foi, meu Carlos?..'<br /> + +<br /> + +E progressivamente abria os olhos mais e mais +até se lhe espantarem e os cravar n'elle arregalados +de pasmo e de alegria.<br /> + +<br /> + +―'Foi, foi' continuou ella 'foi sonho, foi um +sonho mau que eu tive. Tu não morreste... Falla +á tua irman, á tua Joanna; dize-lhe que +estás +vivo, que não es a sombra d'elle... Não es, +não, +que eu sinto a tua mão quente na minha que queima, +<span class="pagenum">[211]</span>sinto-a estremecer +como a minha... Carlos, +meu Carlos! dize, falla-me: tu estás vivo e são? +E es... es o meu Carlos? Tu proprio, não é ja +o sonho, es tu?...' +<br /> + +<br /> + +―'Pois tu sonhavas? tu, Joanna, tu sonhavas +commigo?' +<br /> + +<br /> + +―'Sonhava como sonho sempre que durmo... +e o mais do tempo que estou acordada... sonhava +com aquillo em que so penso... em ti.' +<br /> + +<br /> + +―'Joanna!... prima... minha irman!' +<br /> + +<br /> + +E cahiu nos braços d'ella; e abraçaram-se +n'um longo, longo abraço―com um longo, interminavel +beijo..! longo, longo e interminavel +como um primeiro beijo d'amantes... +<br /> + +<br /> + +O abraço desfez-se; e o beijo terminou em +fim, porque os reflexos do ceo na terra são limitados +e imperfeitos como as incompletas existencias +que a habitam. +<br /> + +<br /> + +Senão... invejariam os anjos a vida da terra. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[212]</span> +Joanninha, tornada a si d'aquelle quasi paroximo, +abria e fechava os olhos para se affirmar +se estava bem acordada, tocava com as mãos +o rosto, o peito, os braços do primo, palpava-se +depois a si mesma como quem duvidava de sua +propria existencia, e dizia em palavras cortadas +e sem nexo: +<br /> + +<br /> + +―'É Carlos... Carlos: foi falso. É meu primo... +Minha avó tambem sonhou o mesmo sonho, +mas foi falso. Fr. Diniz não é o que disse, nem +ninguem: eu e a avó é que o sonhámos. +Mas elle +aqui está, vivo... vivo! e nosso, nosso todo outra +vez!... Mas como vieste tu aqui, Carlos? Como +estava eu aqui comtigo?... E sos, sosinhos +aqui a ésta hora! Não deve ser isto... Valha-me +Deus! E que dirão? E Jesus!―Lá isso +não me +importa; deixá-los dizer: mas não deve ser. +Vamos, +Carlos, vamos ter com ella, vamos para a +avó!... Que n'isto não ha mal nenhum... Meu +primo!.. +um primo com quem eu fui criada!.. Mas +quem não souber, póde dizer... Vamos, +Carlos.―Oh! +minha avó morre de alegria, coitada!.. +É verdade: vou adeante preveni-la, prepará-la... +heide-lhe ir assim dizendo pouco a pouco... Segue-me +tu, Carlos, e vamos.―Mas, oh meu +<span class="pagenum">[213]</span> +Deus! não é preciso: paraquê? Ella +é cega, +coitadinha, não sabes?' +<br /> + +<br /> + +―'Cega, que dizes? minha avó está cega?' +<br /> + +<br /> + +―'Pois não sabías? Ai! é verdade, +não +sabías. +Tantas coisas que tu não sabes, meu Carlos! +Mas eu te contarei tudo, tudo. Olha: cegou +quando... Mas não fallemos agora n'essas tristezas +que ja la vão. Em ella te sentindo aopé de +si, é o mesmo que tornar-lhe a vista. Tem-m'o +ella ditto muitas vezes, e eu bem sei +que é assim. Mas ouve: um dia havemos de +fallar―nós +dois sos―á vontade: tenho tanto que +te dizer... nem tu sabes... Agora vamos, Carlos.' +<br /> + +<br /> + +E fallando assim, tomou-o pela mão e sahiu +para o valle aberto, froixamente acclarado ja de +myríadas de estrellas scintillantes no ceo azul.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c21"></a>CAPITULO XXI. +</h3> + +<br /> + +<div class="intro">Quem vem lá?―Como entre +dous litigantes nem sempre gosa +o terceiro.―Carlos e Joanninha n'uma especie de +situação +<em>ordeira</em>, a mais perigosa e falsa das +situações. +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +As estrellas luziam no ceo azul e diaphano, +a brisa temperada da primavera suspirava brandamente; +na larga solidão e no vasto silencio +do valle distinctamente se ouvia o doce +<span class="pagenum">[216]</span> +murmúrio da voz de Joanninha, claramente se +via o vulto da sua figura e da do companheiro +que ella levava pelo mão e que machinalmente a +seguia como sem vontade propria, obedecendo +ao podêr de um magnetismo superior e irresistivel. +<br /> + +<br /> + +Passavam, sem as ver e sem reflectir onde estavam, +por entre as vedetas de ambos os campos... +e ao mesmo tempo de umas e outras lhes +bradou o voz breve e stridente das sentinellas: +'Quem vem lá?' +<br /> + +<br /> + +Estremeceram involuntariamente ambos com o +som repentino de guerra e de allarma que os chamava +á esquecida realidade do sítio, da hora, +das circumstancias em que se achavam... D'aquelle +sonho incantado que os transportára ao +Éden querido de sua infancia, accordaram sobresaltados... +viram-se na terra erma e bruta, +viram a espada flammejante da guerra civil que +os perseguia, que os desunia, que os expulsava +para sempre do paraizo de delicias em que tinham +nascido... +<br /> + +<br /> + +Oh! que imagem eram esses dous, no meio +d'aquelle valle nu e aberto, á luz das estrellas +<span class="pagenum">[217]</span> +scintillantes, entre duas linhas de vultos negros, +aqui alli dispersos e luzindo acaso do tranziente +reflexo que fazia brilhar uma baioneta, um fuzil... +que imagem não eram dos verdadeiros e +mais sanctos sentimentos da natureza expostos e +sacrificados sempre no meio das luctas barbaras +e estupidas, no conflicto de falsos principios em +que se estorce continuamente o que os homens +chamaram <em>sociedade</em>! +<br /> + +<br /> + +Joanninha abraçou-se com o primo; elle parou +derepente e foi com a mão ao punho da espada. +<br /> + +<br /> + +―'Quem vem lá?' tornaram a bradar as sentinellas. +<br /> + +<br /> + +―'Ouves, Joanna?' disse Carlos em voz baixa +e sentida: 'Ouves estes brados?' É o grito +da guerra que nos manda separar; é o clamor +cioso e vigilante dos partidos que não tolera a nossa +intimidade, que separa o irmão da irman, o +pae do filho!..' +<br /> + +<br /> + +―'Quem vem lá?' bradaram ainda mais forte +as ―'Quem vem lá?' bradaram ainda mais forte +as sentinellas; e ouviu-se aquelle stridor baço +e breve que tam froixo é e tam forte impressão +<span class="pagenum">[218]</span>faz nos mais +bravos animos... era o som dos +gatilhos que se armavam nas espingardas. +<br /> + +<br /> + +O momento era supremo, o perigo imminente e +ja inevitavel... alli podiam ficar ambos, traspassados +das ballas oppostas dos dous campos contendores. +<br /> + +<br /> + +Como esses que, fiados em sua innocencia e +abnegação, cuidam podêr passar por +entre as discordias +civis sem tomar parte n'ellas, e que são, +por isso mesmo, objecto de todas as desconfianças, +alvo de todos os tiros―assim estavam alli os dous +primos na mais arriscada e falsa posição +que têem as revoluções. +<br /> + +<br /> + +Joanninha conheceu o perigo que os ameaçava; +e com aquella rapidez de resolução que a mulher +tem mais prompta e segura nas grandes occasiões, +disse para Carlos: +<br /> + +<br /> + +―'Falla aos teus, faze-te conhecer e põe-te +a salvo. Ámanhan nos tornaremos a ver: eu te avisarei. +Adeus!' +<br /> + +<br /> + +―'E tu, tu?.. E as sentinellas dos realistas?..' +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[219]</span> ―'Não tenhas cuidado em mim. D'esta banda +todos me conhecem'. +<br /> + +<br /> + +Deu alguns passos para o lado da sua casa e +levantou a voz: +<br /> + +<br /> + +―'Joanninha! Sou eu, camaradas, sou eu!' +<br /> + +<br /> + +Immediatamente se ouviu o som retinido das +coronhas no chão, e o riso contente dos soldados +que reconheciam a bemquista e bem vinda voz +de Joanninha... da 'menina dos rouxinoes.' +<br /> + +<br /> + +―'Ves, Carlos?.. Adeus! até ámanhan.' +disse ella baixo. +<br /> + +<br /> + +―'Até amanhan se...' +<br /> + +<br /> + +―'Se!.. Pois tu?..' +<br /> + +<br /> + +―'Ouve: não digas a tua avó que me viste, que +estou aqui: é forçoso, é +indispensavel, exijo-o de ti...' +<br /> + +<br /> + +―'E ámanhan me dirás?..' +<br /> + +<br /> + +―'Sim.' +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[220]</span> ―'Prometto: não direi nada... Mas, oh! Carlos...' +<br /> + +<br /> + +―'Adeus!' +<br /> + +<br /> + +Carlos deu dous passos para a banda das suas vedetas, +Joanna correu para o lado opposto. Mas +elle parou e não tirou os olhos d'aquella fórma +gentil que deslizava como uma sombra pelo horisonte +do valle, até que desappareceu de todo. +<br /> + +<br /> + +E elle immovel ainda! +<br /> + +<br /> + +Faíscaram derepente como relampagos um, +dous, tres... e as detonações que os seguiram, e +o +assovio das ballas que vinham depós ellas... Eram +as sentinellas constitucionaes que faziam fogo sôbre +o seu commandante que não conheciam, cujo +silencio e immobilidade o fazia suspeito. +<br /> + +<br /> + +Uma das ballas ainda o feriu levemente no braço +esquerdo. +<br /> + +<br /> + +―'Bem, camaradas!' bradou Carlos caminhando +rapidamente para elles, e erguendo a voz +forte e cheia que tam conhecida era nas fileiras: +<span class="pagenum">[221]</span> +'Bem! Fizeram a sua obrigação. Um de +vocês +que me aperte aqui o braço com este lenço.' +<br /> + +<br /> + +―'Carlos!' gritou ao longe uma voz fina, +aguda, vibrante de terror pelo espaço 'Carlos! +falla-me, responde: não te succedeu nada?' +<br /> + +<br /> + +―'Nada, nada! Socega.'<br /> + +<br /> + +E tornou a cahir tudo no silencio. Carlos retirou-se +ao seu quartel n'uma choupana proxima. +Os soldados olharam-se entre si e surriram. +<br /> + +<br /> + +Um mais doutor disse para os outros: +<br /> + +<br /> + +―'O nosso capitão não se descuida: ainda +hoje chegou, e já nós lá vamos, hem?' +<br /> + +<br /> + +―'O nosso capitão é d'aqui: não +sabes?' +<br /> + +<br /> + +―'Hum! tenho percebido. E ainda lhe dura? +O home' é capaz!' +<br /> + +<br /> + +―'Silencio! Eu te direi logo a historia toda: +é uma prima.' +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[222]</span> ―'Ah! prima. Então não ha nada que dizer.' +<br /> + +<br /> + +―'É a que elles chamam aqui...' +<br /> + +<br /> + +―'A menina dos rouxinoes? Essa é maluca.' +<br /> + +<br /> + +―'Gosta d'ellas assim, que elle tambem o é.' +<br /> + +<br /> + +―'Pois a freira de San Gonsallo, na Terceira?' +<br /> + +<br /> + +―'Maluca.' +<br /> + +<br /> + +―'E a Lady ingleza que?..' +<br /> + +<br /> + +―'Maluquissima essa! Não me hade admirar +se a vir cahir do ar um dia por ahi como +bomba. E não hade dar mau estallo!' +<br /> + +<br /> + +―'Podéra! E incontrando-se com a prima +então!..' +<br /> + +<br /> + +―'Mas elle é prima ou é irman?' +<br /> + +<br /> + +―'É uma tal parentella inrevezada a d'essa +gente da casa do valle!.. dizem coisas por ahi, que +<span class="pagenum"><a name="p223">[223]</a></span> +se eu as intendo!.. E ha um frade no caso, ja +se sabe...' +<br /> + +<br /> + +―'Oh! elle ha frade no caso?' +<br /> + +<br /> + +―'Ha, e que frade! Um apostolico ás <a href="#e17">direitas</a>! +Tam feio, tão magro! apparece por +ahi ás vezes. Eu já o lombriguei um dia: e +que famoso tiro que era! Quasi que me arrependo +de não ter...' +<br /> + +<br /> + +―'Isso! hoje iamos matando o nosso capitão por +instantes. Olha agora se lhe matas o tio, ou pae, +ou o que quer que é...' +<br /> + +<br /> + +―'Um frade!' +<br /> + +<br /> + +―'Um frade não é gente?' +<br /> + +<br /> + +―'Não senhor.' +<br /> + +<br /> + +―'Está bom: basta de conversar por hoje. +O que me eu parece é que nós temos cedo muita +pancada rija.' +<br /> + +<br /> + +―'Venha ella, que isto ja abhorrece.' +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[224]</span> +Accenderam os cigarros e fumaram. +<br /> + +<br /> + +Com o mesmo socêgo d'espirito... sancto Deus! +accendem os homens a guerra civil, que altera +e confunde por este modo todas as ideas, todos +os sentimentos da natureza. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c22"></a>CAPITULO XXII. +</h3> + +<br /> + +<div class="intro">Bilhete de manhan da prima ao primo. +Inganam a pobre da +velha.―Noite mal dormida.―Da conversa que teve Carlos +com os seus botões.―A Joanninha que elle deixára +e +a Joanninha que achou.―Obrigações d'amor, triste +palavra.―A +mulher que elle amava, e se elle a amava ainda.―Quesitos +do A. aos seus benevolos leitores. Declara que +com os hypocritas não falla.―Quem hade levantar a primeira +pedra?―Dous modos differentes de accudir uma coisa ao +pensamento. +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +No dia seguinte, mal rompia a manhan, um +paizano que dizia trazer communicações +importantes +para o commandante do pôsto avançado, +foi conduzido á presença de Carlos e lhe intregou +uma carta: era de Joanninha. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[226]</span> +Fiel á sua promessa, ella não tinha ditto nada +do incôntro da véspera: dizia a carta. E que +a avó estava doente e afflicta; que para a animar +e consolar, lhe dera notícias do primo, como +vindas por pessoa que o víra e estivera +com elle. Que ficava mais contente e socegada: +mas que aquelle estado de anciedade +não podia prolongar-se. Que a saude da pobre +velha declinava de dia a dia; que se lhe +ia a vida, que era matá-la não lhe dizer a +verdade... +Joanninha concluia com mil affectos e saudades; +e aprazava por fim o mesmo sítio da véspera +para se tornarem a ver, e para concertarem +o que havia de fazer. Todas as precauções estavam +tomadas, e o consentimento dado pelo commandante +do pôsto contrário para +haver toda a +segurança n'aquella entrevista. +<br /> + +<br /> + +Carlos tinha velado toda a noite; uma excitação +extraordinaria lhe amotinára o sangue, lhe +desaffinára os nervos. Bem tinha desejado vir para +aquelle pôsto, bem contava, bem esperava elle, +estando alli, saber de mais perto da sua familia, +vê-los talvez, mais dia menos dia, incontrar-se +com alguns d'elles... e de todos elles, a innocente +e graciosa criança com quem vivêra como +<span class="pagenum">[227]</span> +irmão desde os seus primeiros annos, era quem +elle mais esperava, mais desejava ver decerto. +<br /> + +<br /> + +Mas uma criança era a que elle tinha deixado, +uma criança a brincar, a colhêr as boninas, +a correr atraz das borboletas do valle... uma +criança que sim o amava ternamente, cuja suave +imagem o não tinha deixado nunca em sua +longa peregrinação, cuja saudade o +accompanhára +sempre, de quem se não esquecêra um momento, +nem nos mais alegres nem nos mais occupados, +nem nos mais difficeis nem nos mais +perigosos da sua vida... +<br /> + +<br /> + +Mas era uma criança!.. era a imagem d'uma +criança. +<br /> + +<br /> + +É certo, sim: e nas batalhas, em presença da +morte... no longo cêrco do Porto entre os flagellos +da cholera e da fome, nas horas de mais +viva esperança, no descoroçoamento dos mais +tristes +dias, a doce imagem de Joanninha, d'aquella +Joanninha com quem elle andava ao colo, que +levantava em seus hombros para ella chegar aos +ninhos dos passaros no verão, aos medronhos maduros +<span class="pagenum"><a name="p228">[228]</a></span>no +outomno, que +elle suspendia nos braços +para passar no hynverno <a href="#e18">os +alagadiços</a> do valle,―essa +querida imagem não o abandonára +nunca. +<br /> + +<br /> + +Nunca!.. nem quando as pennas d'amor, nem +quando as suas glórias―mais esquecidiças +ainda!―pareciam +absorver-lhe todos os sentidos, +e todo o sentimento de seu coração. +<br /> + +<br /> + +A saudade, a memoria de Joanninha, suavemente +impressa no mais puro e no mais sancto +de sua alma, resplandecia no meio de todas as +sombras que lh'a obscurecessem, sobreluzia no +meio de qualquer fogo que lh'a allumiasse. +<br /> + +<br /> + +Uma luz quieta, limpida, serena como a tocha +na mão do anjo que ajoelha em innocencia e +piedade deante do throno do Eterno! +<br /> + +<br /> + +Mas, no mesmo dia em que chegou ao valle, +quasi na mesma hora, cheio d'aquella luz, mais +viva e animada agora pela proximidade do foco +d'onde sahia... n'essa mesma hora, ir incontrar +alli, n'aquella solidão, entre aquellas árvores, +á tibia e seductora claridade do crepusculo... +<span class="pagenum">[229]</span>a quem, sancto +Deus! Não ja a mesma Joanninha +de ha tres annos, não a mesma imagem +que elle trazia, como a levára, no +coração; mas +uma gentil e airosa donzella, uma mulher feita +e perfeita, e que nada perdêra, comtudo, da graça, +do incanto, do suave e delicioso perfume da +innocencia infantil em que a deixára! +<br /> + +<br /> + +Não esperava, não estava preparado para a +impressão que recebeu, foi uma surpreza, um +choque, um reviramento confuso de todas as suas +ideas e sentimentos. +<br /> + +<br /> + +Qual fosse porêm a precisa e verdadeira impressão +que recebeu, nem elle a si proprio o podéra +explicar: era de um genero novo, unico na +historia de suas sensações: não a +conhecia, extranhava-a, +e quasi que tinha medo de a analysar. +<br /> + +<br /> + +Sería annúncio d'amor? +<br /> + +<br /> + +Mas elle tinha amado, amado muito e devéras... +e cuidava amar ainda, e devia amar; por +quanto ha sagrado e sancto nos deveres do +coração, +era obrigado a amar ainda. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[230]</span> +Oh obrigações d'amor, +obrigações d'amor! se +vós não sois, se vós ja não +sois senão obrigações!.. +<br /> + +<br /> + +Não o pensava Carlos, não o cria elle assim: +leal e sincero tinha intregue o seu coração +á +mulher que o amava, que tantas próvas lhe dera +d'amor e devoção; que descançava em +sua fé, +que não existia senão para elle: mulher +môça, +bella, cheia de prendas e de incantos, mulher +de um espirito, de uma educação superior, que +atravessára, desprezando-as, turbas de adoradores +nobres, riccos, poderosos, para descer +até elle, para se intregar ao foragido, pobre, +extrangeiro, desprezado. +<br /> + +<br /> + +Quem era essa mulher? +<br /> + +<br /> + +Aonde, como obtivera elle a posse d'essa joia, +d'esse talisman com o qual se tinha por tam seguro +para não ver na graciosa prima senão?.. +<br /> + +<br /> + +Senão o quê? +<br /> + +<br /> + +A innocente criança que alli deixára? +<br /> + +<br /> + +Mas não é verdade isso: outra era a +impressão +<span class="pagenum">[231]</span> +que Joanninha lhe fizera, fosse ella qual fosse. +<br /> + +<br /> + +O que era então? +<br /> + +<br /> + +E sôbre tudo, quem era ess'outra mulher que +elle amava? +<br /> + +<br /> + +E amava-a elle ainda? +<br /> + +<br /> + +Amava. +<br /> + +<br /> + +E Joanninha? +<br /> + +<br /> + +Joanninha era... nem eu sei o que lhe era Joanninha... +o que lhe estava sendo n'aquelle momento. +<br /> + +<br /> + +O que lhe ella fôra, assas t'o tenho explicado, +leitor amigo e benevolo: o que lhe ella será... +Pódes tu, leitor candido e sincero,―aos +hypocritas +não fallo eu―pódes tu dizer-me o que +hade ser ámanhan no teu coração a +mulher que +hoje somente achas bella, ou gentil, ou interessante? +<br /> + +<br /> + +Pódes responder-me da parte que tomará +ámanhan +<span class="pagenum">[232]</span>na tua existencia +a imagem da donzella que +hoje contemplas apenas com olhos de artista, e +lhe estás notando, como em quadro gracioso, +os finos contornos; a pureza das linhas, a expressão +verdadeira e animada? +<br /> + +<br /> + +E quando vier, se vier, esse fatal dia de ámanhan, +responder-me-has tambem da parte que +ficará tendo em tua alma ess'outra imagem que lá +estava d'antes e que, ao reflexo d'esta agora, +d'aqui observo que vai impallidecendo, descórando... +ja lhe não vejo senão os lineamentos vagos... ja +é uma sombra do que foi... Ai! o que será ella +ámanhan? +<br /> + +<br /> + +Leitor amigo e benevolo, caro leitor meu indulgente, +não accuses, não julgues á pressa o +meu pobre Carlos; e lembra-te d'aquella pedra +que o Filho da Deus mandou levantar á primeira +mão que se achasse innocente... A adultera foi-se +em paz, e ninguem a apedrejou. +<br /> + +<br /> + +Pois é verdade: Carlos tinha amado, amado +muito, e amava ainda a mulher a quem promettêra, +a quem estava resolvido a guardar fé. E +essa mulher era bella, nobre, ricca, admirada, ―― +Pois é verdade: Carlos tinha amado, amado +muito, e amava ainda a mulher a quem promettêra, +a quem estava resolvido a guardar fé. E +essa mulher era bella, nobre, ricca, admirada, +<span class="pagenum">[233]</span> +occupava uma alta posição no mundo... e tudo +lhe sacrificára a elle exilado, desconhecido. +<br /> + +<br /> + +E Carlos estava seguro que nenhuma mulher o +havia de amar como ella; que os longos e ondados +anneis de loiro cendrado, que os languidos +olhos de gazella, que o ar majestoso e altivo, +que a tez d'uma alvura celeste, que o espirito, +o talento, a delicadeza de Georgina... Chamava-se +Georgina; e é tudo quanto por agora póde +dizer-vos, +ó curiosas leitoras, o discreto historiador +d'este mui veridico successo: não lhe pergunteis +mais, por quem sois. Carlos estava seguro, +dizia eu, que todas essas perfeições, que o seu +amor sem limites, que a sua confiança sem reserva, +não podiam ter rival, nem a haviam de ter. +<br /> + +<br /> + +Mas aquelle beijo, aquelle abraço de Joanninha... +oh! que lhe tinha elle feito? Como o sentíra +elle? Como lhe guardára o seu talisman o +coração e a alma?.. +<br /> + +<br /> + +Não, Carlos estava certo de si, certo do seu +antigo amor, lembrado de quanto lhe devia: +e n'isso reflectiu toda aquella noite que se fôra +em claro. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[234]</span> +A imagem de Joanninha lá apparecia, de vez +em quando, como um raio de luz transiente e +magica, no meio d'ess'outras visões do passado +que a reflexão lhe acordava. Ai! essas era a +reflexão +que as acordava... aquella vinha espontanea; +era repellida, e tornava, e tornava... +<br /> + +<br /> + +Ha sua notavel differença n'estes dois modos +de accudir ao pensamento. +<br /> + +<br /> + +A manhan veio em fim; Carlos respirou o ar +puro e vivo da madrugada, sentiu-se outro. +<br /> + +<br /> + +Quando chegou a carta de Joanninha, leu-a e +reflectiu n'ella sem sobresalto. Certo e seguro de +si, resolveu ir ao prazo dado para a tarde.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c23"></a>CAPITULO XXIII. +</h3> + +<br /> + +<div class="intro"> +Continúa a accudir muita coisa vaga e incontrada ao +pensamento +de Carlos.―Dança de fadas e duendes.―Fr. Diniz +o fado-mau da familia.―Veremos, é a grande +resolução +nas grandes difficuldades.―Carlos poeta romantico.―Olhos +verdes.―Desafio a todos os poetas moyen-ages do +nosso tempo. +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Não ha nada como tomar uma resolução. +<br /> + +<br /> + +Mas hade tomar-se e executar-se: aliás, se o +caso é difficil e complicado, pouco a pouco as +<span class="pagenum">[236]</span> +dúvidas solvidas começam a inliar-se outra vez, +a inredar-se... a surgir outras novas, a appresentarem-se +faces ainda não vistas da questão... em +fim, se o intervallo é largo, quando a +resolução +tomada chega a executar-se, a maior parte das +vezes ja não é por fôrça de +razão e convicção que +se faz, mas por capricho, ponto d'honra, teima. +<br /> + +<br /> + +Carlos tinha resolvido ir ao prazo dado, no +fim do dia. Mas o dia era longo, custou-lhe a +passar. Todas as ponderações da noite lhe +recorreram +ao pensamento, todas as imagens que lhe +tinham fluctuado no espirito se avivaram, se animaram, +e lhe começaram a dançar n'alma aquella +dança de fadas e duendes que faz a delicia e +os tormentos d'estes sonhadores acordados que andam +pelo mundo e a quem a douta faculdade chama +<em>nervosos</em>; em stylo de romance +<em>sensiveis</em>, na +phrase popular <em>malucos</em>. +<br /> + +<br /> + +Carlos era tudo isso: para que o heide eu negar? +<br /> + +<br /> + +Entre aquellas imagens que assim lhe bailavam +no pensamento, vinha uma agora... talvez a que +<span class="pagenum">[237]</span> +elle via mais distincta entre todas, a da avó que +tanto amára, em cujo maternal coração +elle bem +sabía que tinha a primeira, a maior parte... da +avó que tam carinhosa mãe lhe tinha sido! Pobre +velhinha, hoje decrepita e cega... Cega, coitada! +Como e porque cegaria ella? +<br /> + +<br /> + +Havia ahi mysterio que Joanninha indicára, +mas que não explicou. +<br /> + +<br /> + +Atraz da paciente e humilhada figura d'aquella +mulher de dores e desgraças, se erguia um +vulto austero e duro, um homem armado da cabeça +aos pés de ascetica insensibilidade, um homem +que parecia o fado-mau d'aquella velha, de +toda a sua familia... o cumplice e o verdugo de +um grande crime... um ser de mysterio e de terror. +<br /> + +<br /> + +Era Fr. Diniz aquelle homem; homem que +elle desejava, que elle cuidava detestar, mas por +quem, no fundo d'alma, lhe clamava uma voz +mystica e íntima, uma voz que lhe dizia: 'Assim +será +tudo, mas tu não pódes abhorrecer esse homem.' +<br /> + +<br /> + +Sim, mas sôbre Fr. Diniz pesava uma +accusação +tremenda, que o fizera, a elle Carlos, abandonar +<span class="pagenum">[238]</span>a casa de seus +paes! Accusação horrivel +que tambem comprehendia a pobre velha, aquella +avó que o adorava, e que elle, ainda criminosa +como a suppunha, não podia deixar de +amar... +<br /> + +<br /> + +E d'estes medonhos segredos sabía Joanninha +alguma coisa? +<br /> + +<br /> + +Esperava em Deus que não. +<br /> + +<br /> + +Desconfiaria alguma coisa?... O quê? +<br /> + +<br /> + +E iria elle polluir o pensamento, desflorar os +ouvidos, corromper os labios da innocente criança +com o esclarecimento de taes horrores? +<br /> + +<br /> + +Havia de lhe fallar na infamia dos seus? Havia +de lhe explicar o motivo porque fugira da casa +paterna? +<br /> + +<br /> + +Havia de?.. +<br /> + +<br /> + +Não.―Se Joanninha tivesse suspeitas, havia +de destrui-las antes; se ella soubesse alguma coisa, +negar-lh'a. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[239]</span> +Mentiria, juraria falso se fosse preciso. +<br /> + +<br /> + +E não havia de ir ver a avó, não havia +de +entrar na casa dos seus a consolar a infeliz que só +vivia d'uma esperança, a de ver o filho de sua filha? +<br /> + +<br /> + +Não, nunca... O limiar d'aquella porta, que +elle julgava contaminado, infame, manchado de +sangue e cuspido de opprobrios e deshonras, tinha-o +passado sacudindo o po de seus sapatos, +promettendo a Deus e á sua honra de o não tornar +a cruzar mais. +<br /> + +<br /> + +Mas que diria então elle a Joanninha? Como +havia de explicar-lhe um proceder tam extranho, +e apparentemente tam cruel, tam ingrato? +<br /> + +<br /> + +Por emquanto as impossibilidades materiaes +da guerra serviriam de desculpa, depois o tempo +daria conselho. +<br /> + +<br /> + +<em>Veremos</em>!―é a grande +resolução que se toma +nas grandes difficuldades da vida, sempre que +é possivel espaçá-las. +<br /> + +<br /> + +Carlos disse: '<em>Veremos!</em>' +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p240">[240]</a></span> +Tomou todas as disposições para podêr +estar +seguro e socegado no sítio onde ia incontrar a +prima: e o resto do dia, ancioso mas contente, +occupou-se de seus deveres militares, fatigou +o corpo para descançar o espirito, e em +parte e por bastantes horas o conseguiu. +<br /> + +<br /> + +Mas um dia de abril é immenso, interminavel. +E as últimas horas pareciam as mais compridas. +Nunca houve horas tammanhas! Carlos ja +não tinha que inventar para fazer: pôz-se a +pensar. +<br /> + +<br /> + +Que remedio! +<br /> + +<br /> + +Pensou n'isto, pensou n'aquillo... uma idea +lhe vinha, outra se lhe ia. A imaginação, tanto +tempo comprimida, tomava o freio nos dentes +e corria á redea sôlta pelo espaço... +<br /> + +<br /> + +Anneis dourados, transas de ebano, faces de +leite e rosas como de cherubins, outras pallidas, +transparentes, diaphanas como de princezas incantadas, +olhos pretos, azues, verdes... os de +Joanninha em fim... todas éstas +feições, confusas +e indistinctas mas de estremada belleza todas, +lhe passavam deante da vista, e todas o <a href="#e19">infeitiçavam</a>. +O<span class="pagenum">[241]</span> +desgraçado...―Porque não +heide eu +dizer a verdade?―o desgraçado era poeta. +<br /> + +<br /> + +Inda assim! não me esconjurem ja o rapaz... +Poeta, intendamo'-nos; não é que fizesse versos: +n'essa não cahiu elle nunca, mas tinha +aquelle fino sentimento d'arte, aquelle sexto sentido +do <em>bello</em>, do +<em>ideal</em> que so teem certas +organizações +privilegiadas de que se fazem os poetas +e os artistas. +<br /> + +<br /> + +Eis aqui um fragmento de suas aspirações +poeticas. +Vejam as amaveis leitoras que não teem +metro, nem rhyma―nem razão... Mas emfim +versos não são.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +'Olhos verdes!.. +<br /> + +<br /> + +'Joanninha tem os olhos verdes... +<br /> + +<br /> + +'Não se reflecte n'elles a pura luz do ceo, como +nos olhos azues. +<br /> + +<br /> + +'Nem o fogo―e o fummo das paixões, como +nos pretos. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[242]</span> +'Mas o viço do prado, a frescura e +animação +do bosque, a fluctuação e a transparencia do +mar... +<br /> + +<br /> + +'Tudo está n'aquelles olhos verdes. +<br /> + +<br /> + +'Joanninha, porque tens tu os olhos verdes? +<br /> + +<br /> + +'Nos olhos azues de Georgina arde, em sereno +e modesto brilho, a luz tranquilla de um +amor provado, seguro, que deu quanto havia de +dar, quanto tinha que dar. +<br /> + +<br /> + +'Os olhos azues de Georgina não dizem senão +uma so phrase d'amor, sempre a mesma e sempre +bella: <em>Amo-te, sou tua!</em> +<br /> + +<br /> + +'Nos olhos negros e inquietos de Soledade nunca +li mais que éstas palavras: <em>Ama-me, que es +meu!</em> +<br /> + +<br /> + +'Os olhos de Joanninha são um livro immenso, +escripto em characteres moveis, cujas combinações +infinitas excedem a minha comprehensão. +<br /> + +<br /> + +'Que querem dizer os teus olhos, Joanninha? +<br /> + +<br /> + +'Que lingua fallam eles? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[243]</span> +'Oh! paraque tens tu os olhos verdes, Joanninha? +<br /> + +<br /> + +'A assucena e o jasmim são brancos, a rosa +vermelha, o alecrim azul... +<br /> + +<br /> + +'Roxa é a violeta, e o junquilho côr de ouro. +<br /> + +<br /> + +'Mas todas as côres da natureza vêem de uma +so, o verde. +<br /> + +<br /> + +'No verde está a origem e o primeiro typo +de toda a belleza. +<br /> + +<br /> + +'As outras côres são parte d'ella; no verde +está o todo, a unidade da formosura creada. +<br /> + +<br /> + +'Os olhos do primeiro homem deviam de ser +verdes. +<br /> + +<br /> + +'O ceo é azul... +<br /> + +<br /> + +'A noite é negra... +<br /> + +<br /> + +'A terra e o mar são verdes... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[244]</span> +'A noite é negra mas bella: e os teus olhos, +Soledade, eram negros e bellos como a noite. +<br /> + +<br /> + +'Nas trevas da noite luzem as estrellas que são +tam lindas... mas no fim de uma longa noite quem +não suspira pelo dia? +<br /> + +<br /> + +'E que se vão... oh! que se vão emfim as +estrellas!.. +<br /> + +<br /> + +'Vem o dia... o ceo é azul e formoso: mas +a vista fatiga-se de olhar para elle. +<br /> + +<br /> + +'Oh! o ceo é azul como os teus olhos, Georgina... +<br /> + +<br /> + +'Mas a terra é verde: e a vista repousa-se +n'ella, e não se cança na variedade infinita de +seus +matizes tam suaves. +<br /> + +<br /> + +'O mar é verde e fluctuante... Mas oh! esse +é triste como a terra é alegre. +<br /> + +<br /> + +'A vida compõe-se de alegrias e tristezas... +<br /> + +<br /> + +'O verde é triste e alegre como as felicidades +da vida. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[245]</span> +'Joanninha, Joanninha, porque tens tu os olhos +verdes?..'<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Ja se vê que o nosso doutor de bivac, o soldado +que lhe chamou <em>maluco</em> ao pensador de +taes +extravagancias, tinha razão e sabía o que dizia. +<br /> + +<br /> + +Infelizmente não se formulavam em palavras +estes pensamentos poeticos tam sublimes. Por um +processo milagroso de photographia mental, apenas +se pôde obter o fragmento que deixo transcripto. +<br /> + +<br /> + +Que honra e glória para a eschola romantica +se podessemos ter a collecção completa! +<br /> + +<br /> + +Fazia-se-lhe um prefacio incisivo, palpitante, +<em>britante</em>.... +<br /> + +<br /> + +Punha-se-lhe um titulo vaporoso, phosphorescente... +por exemplo:―Echos surdos do +coração―ou―Reflexos +d'alma―ou―Hymnos invisiveis―ou―Pesadellos +poeticos―ou qualquer +outro d'este genero, que se não soubesse +bem o que era nem tivesse senso commum. +<br /> + +<br /> + +E que viesse ca algum menestrel de frak e +<span class="pagenum">[246]</span> +chapeu redondo, algum trovador renascença de +collete á Joinville, luctar com o meu Carlos em +pontos de romantismo vago, descabellado, vaporoso, +e nebuloso! +<br /> + +<br /> + +Se algum d'elles era capaz de escrever com +menos logica,―(com menos grammatica, sim) +e com mais triumphante desprêzo das absurdas e +escravizantes regras d'essa paleta d'essa eschola +classica que não produziu nunca senão Homero e +Virgilio, Sophocles e Horacio, Camões e o Tasso, +Corneille e Racine, Pope e Moliere, e mais algumas +duzias de outros nomes tam obscuros como +estes?<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c24"></a>CAPITULO XXIV. +</h3> + +<br /> + +<div class="intro">Novo Génesis.―O Adam social +muito differente do Adam +natural.―Carlos sempre um por seus bons instinctos, sempre +outro por suas más reflexões.―De como Joanninha +recebeu o primo com os braços abertos, e do mais que entre +elles se passou.―Dor meia dor, meia prazer. +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Formou Deus o homem, e o pôs n'um paraizo de +delicias; tornou a formá-lo a sociedade, e o pôs +n'um inferno de tolices. +<br /> + +<br /> + +O homem―não o homem que Deus fez, +<span class="pagenum">[248]</span> +mas o homem que a sociedade tem contrafeito, +appertando e forçando em seus moldes de ferro +aquella pasta de limo que no paraizo terreal se +affeiçoára a imagem da divindade―o homem, +assim aleijado como nós o conhecêmos, é +o animal +mais absurdo, o mais disparatado e incongruente +que habita na terra. +<br /> + +<br /> + +Rei nascido de todo o creado, perdeu a realeza; +principe desherdado e proscripto, hoje vaga +foragido no meio de seus antigos estados; altivo +ainda e suberbo com as recordações do passado, +baixo vil e miseravel pela desgraça do +presente. +<br /> + +<br /> + +D'estas duas tam oppostas actuações constantes, +que ja per si sos o tornariam ridiculo, formou +a sociedade, em sua van sabedoria, um +systema chymerico, desarrazoado e impossivel, +complicado de regras a qual mais desvairada, incontrado +de repugnancias a qual mais opposta. +E vazado este perfeito modêlo de sua arte pretenciosa, +metteu dentro d'elle o homem, desfigurou-o, +contorceu-o, fê-lo o tal +D'estas duas tam oppostas actuações constantes, +que ja per si sos o tornariam ridiculo, formou +a sociedade, em sua van sabedoria, um +systema chymerico, desarrazoado e impossivel, +complicado de regras a qual mais desvairada, incontrado +de repugnancias a qual mais opposta. +E vazado este perfeito modêlo de sua arte pretenciosa, +metteu dentro d'elle o homem, desfigurou-o, +contorceu-o, fê-lo o tal ente absurdo e +disparatado, doente, fraco, rachitico; collocou-o +no meio do Eden phantastico de sua +creação,―verdadeiro +<span class="pagenum">[249]</span>inferno de +tolices―e disse-lhe, +invertendo com blasphêmo arremêdo as palavras +de Deus Creador: +<br /> + +<br /> + +'De nenhuma árvore da horta comendo comerás; +<br /> + +<br /> + +'Porêm da árvore da sciencia do bem e do +mal, d'ella so comerás se quizeres viver.' +<br /> + +<br /> + +Indigestão de sciencia que não commutou seu +mau estomago, presumpção e vaidade que d'ella +se originaram―tal foi o resultado d'aquele preceito +a que o homem não desobedeceu como ao +outro: tal é o seu estado habitual. +<br /> + +<br /> + +E quando as memorias da primeira existencia +lhe fazem nascer o desejo de sahir d'esta outra, +lhe influem alguma aspiração de voltar +á +natureza e a Deus, a sociedade, armada de suas +barras de ferro, vem sôbre elle, e o prende, e +o esmaga, e o contorce de novo, e o apperta +no equuleo doloroso de suas fôrmas. +<br /> + +<br /> + +Ou hade morrer ou ficar monstruoso e aleijão. +<br /> + +<span class="pagenum">[250]</span> +<br /> + +<div class="dots"></div> + +<br /> + +<div class="dots"></div> + +<br /> + +Poucos filhos do Adam social tinham tantas +reminiscencias da outra patria mais antiga, e +tendiam tanto a aproximar-se do primitivo typo +que sahíra das mãos do Eterno, forcejavam tanto +por sacudir de si o pesado appêrto das +constricções +sociaes, e regenerar-se na sancta liberdade +da natureza, como era o nosso Carlos. +<br /> + +<br /> + +Mas o melhor e o mais generoso dos homens +segundo a sociedade, é ainda fraco, falso e acanhado. +<br /> + +<br /> + +Demais, cada tentativa nobre, cada aspiração +elevada de sua alma lhe tinha custado duros castigos, +severas e injustas condemnações d'esse grande +juiz hypocrita, mentiroso e venal... o mundo. +<br /> + +<br /> + +Carlos estava quasi como os mais homens... +ainda era bom e verdadeiro no primeiro impulso +de sua natureza excepcional; mas a reflexão +descia-o á vulgaridade da fraqueza, da hypocrisia, +da mentira commum. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[251]</span> +Dos melhores era, mas era homem. +<br /> + +<br /> + +Os seus pensamentos, as suas considerações +em toda aquella noite, em todo o dia que a seguíra, +na hora mesma em que ia incontrar-se +com o objecto que mais lhe prendia agora o espírito, +senão é que tambem o +coração, todas participavam +d'aquella fluctuação inquieta e doentia +de seu ser d'homem social, em quem o tibio +reflexo do homem natural apenas relampejava por +acaso. +<br /> + +<br /> + +Dúvida, incerteza, vaidade, mentira deslocavam +e annullavam a bella organização d'aquella +alma. +<br /> + +<br /> + +Assim chegou aopé de Joanninha que o esperava +de braços abertos, que o appertou n'elles, +que o beijou sem nenhum falso recato de maliciosa +modestia, e com o riso da alegria no coração +e na bôcca lhe disse: +<br /> + +<br /> + +―'Ora pois, meu Carlos, sentemo-nos aqui +bem junctos aopé um do outro e conversemos, +que temos muito que fallar. Dá ca a tua mão. +Aqui na minha... Está fria a tua mão hoje! E +<span class="pagenum">[252]</span> +hontem tam quente estava!.. Oh! agora vai +aquecendo... tanto tanto... é demais! Terás tu +febre?' +<br /> + +<br /> + +―'Não tenho.' +<br /> + +<br /> + +―'Não tens, não: a cara é de saude. E +como +tu estás forte, grande, um homem como eu sempre +imaginei que um homem devia ser, como +sempre te via nos meus sonhos!.. Que é extranho +isto, Carlos: quando sonhava comtigo, não +te via como tu d'aqui foste, magro, triste e doente; +via-te como vens agora, forte, são, alegre. +Mas tu não estás alegre hoje, como hontem; +não +estás... Que tens tu?' +<br /> + +<br /> + +―'Nada, querida Joanninha, não tenho nada. +Pensava...' +<br /> + +<br /> + +―'Em que pensas tu? dize-me.' +<br /> + +<br /> + +―'Pensava na differença dos nossos sonhos: +que eu tambem sonhava comtigo.' +<br /> + +<br /> + +―'Sonhavas, Carlos! E como sonhavas tu? +como me vias nos teus sonhos?' +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[253]</span> ―'Tudo pelo contrario do que tu. Via-te +aquella Joanninha piquena, desinquieta, travêssa, +correndo por essas terras, saltando essas vallas, +trepando a essas árvores... aquella Joanninha +com quem eu andava ao collo, que trazia ás cavalleiras, +que me fazia ser tam doido e tam criança +como ella, apezar de eu ter quinze annos mais. +Via-te alegre, cantando...' +<br /> + +<br /> + +―'Sonhos de homem! Creiam n'elles! Eu que +nunca mais ri nem brinquei desde o dia que tu +partiste... E oh que dia, Carlos!.. E os que vieram +depois! Não houve nunca mais um so dia de +alegria n'ésta casa. Oh!.. deixa-me te dizer: Fr. +Diniz... Sabes que não gósto d'elle?' +<br /> + +<br /> + +―'Não gostas?' +<br /> + +<br /> + +―'Nada: tenho-lhe aversão. E Deus me perdoe! +parece-me que é injusta a minha antipathia.' +<br /> + +<br /> + +―'Porquê?' +<br /> + +<br /> + +―'Porque elle é teu amigo devéras. Um pae, +Carlos, um pae não tem maior ternura e desvellos +por seu filho, do que elle tem por ti.' +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[254]</span> ―'Deus lhe perdoe!' +<br /> + +<br /> + +―'Deus lhe perdoe a quem...e que lhe hade +perdoar? O amor que te tem?' +<br /> + +<br /> + +―'Não, mas...' +<br /> + +<br /> + +―'Bem sei o que queres dizer: e tens razão.' +<br /> + +<br /> + +―'Tenho razão!' +<br /> + +<br /> + +―'Tens: o que elle bem precisa que Deus +lhe perdoe é um grande peccado.' +<br /> + +<br /> + +―'Que dizes tu, Joanna! E como sabes?' +<br /> + +<br /> + +―'Sei, sei tudo.' +<br /> + +<br /> + +―'Tu!' +<br /> + +<br /> + +―'Eu. Sei que foi elle quem fez cegar minha +avó... a nossa boa, a nossa sancta avó, Carlos!.. +quem a cegou á fôrça de lagrymas que +lhe +fez chorar áquelles pobres olhos que, de puro +cançados, +se apagaram para sempre... Minha ricca +avó!―E porquê, meus Deus, porquê!' +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[255]</span> ―'Porquê?' +<br /> + +<br /> + +―'Por amor de ti, por escrupulos que lhe +metteu na cabeça de tu seres mau christão, +inimigo +de Deus, que te não podias salvar... tu meu +Carlos! Vê que cegueira a do triste frade.' +<br /> + +<br /> + +―'Bem triste!' +<br /> + +<br /> + +―'Mas olha que o diz de boa-fé e pelo muito +amor que te tem... que é um amor que eu +não intendo: e o mesmo é com minha +avó, que +treme deante d'elle. E mais elle estima-a, estou +certa que dava a vida por ella... e por nós todos... +por mim não tanto, mas por ti e por ella, dava decerto. +Mas o seu amor é dos que rallam, que, apoquentam... +quasi que estou em dizer que matam.' +<br /> + +<br /> + +―'Matam, matam!' +<br /> + +<br /> + +―'Nossa avó é elle que a mata decerto. +Sempre a metter-lhe medos, sempre escrupulos! +O seu Deus d'elle é um Deus de terrores, de +vinganças, +de castigos, e sem nenhuma misericordia. +Oh! que homem! para elle tudo é peccado, +maldade... Não o posso ver.' +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[256]</span> +Carlos respirava como desopprimido de um grande +pêso, ouvindo as explicações da prima +que bem +claro lhe mostravam a sua perfeita ignorancia dos +fataes segredos da familia. +<br /> + +<br /> + +―'E comtigo' disse elle ja n'outra voz mais +desaffogada 'comtigo, Joanninha, como se avêm +elle, como te tracta?' +<br /> + +<br /> + +―'Commigo não se mette, e rara vez me +falla. Mas oh, se elle soubesse que eu estava aqui +comtigo, sancto Deus! o que ouviria a pobre da +minha avó! Inda bem que hoje não é +sexta-feira, +senão não vinha eu ca.' +<br /> + +<br /> + +―'Porquê? Ainda vem todas as sexta-feiras?' +<br /> + +<br /> + +―'Sempre o mesmo. Ámanhan ca o temos por +peccado, que é sexta-feira.' +<br /> + +<br /> + +―'Não te vejo então ámanhan aqui?' +<br /> + +<br /> + +―'Não decerto, aqui. Mas vamos, que a +isso é que eu venho ca hoje, para te fallar n'isso... +e para te ver, para fallar comtigo, para estar +<span class="pagenum">[257]</span> +com o meu Carlos... e ao mesmo tempo tambem +para ajustarmos como isto hade ser. Quando has-de +tu ir ver a avó?.. a nossa mãe; que ella +é +nossa mãe, Carlos, não conhecémos +nunca outra, +nem eu nem tu. Quando lhe heide eu dizer que +estás aqui? A pobre velhinha está tam doente! +Ha quinze dias que se não levanta da cama.' +<br /> + +<br /> + +―'Coitada da minha pobre mãe!.. Oh! se +não fosse!.. Deixa estar, Joanninha; um dia será. +Por agora, não póde ser: bem vês. Como +heide eu atravessar as sentinellas dos realistas, ir +a um pôsto inimigo?―A minha vida... isso pouco +importa, mas a minha honra ficava em perigo: +por todos os modos a perdia, e talvez...' +<br /> + +<br /> + +―'Não senhor, Sr. Carlos, essa desculpa +não basta. Vai n'um anno que aqui temos a +guerra á porta de casa, e ja sabemos como isso +é e como as coisas se fazem. O commandante +do nosso pôsto é um homem de bem, um cavalheiro +perfeito. Em lhe eu dizendo quem tu es e +a que ca vens... elle sabe o estado da minha avó, +e tem-lhe muita amizade, da-nos decerto licença +para tu vires em toda a segurança. Pensas +que elle não sabe que estou comtigo aqui? +<span class="pagenum">[258]</span> +Pois disse-lh'o eu; só lhe não expliquei quem tu +eras; disse-lhe que eras um parente nosso que +nos trazia notícias de outros, e que precisava +fallar-te. Não pôs dificuldade alguma: +é uma +pessoa excellente, bom, bom devéras.' +<br /> + +<br /> + +―'É môço o teu commandante?' +<br /> + +<br /> + +―'Môço elle? coitado! Tem bons cinquenta +annos, e creio que outros tantos filhos. Mas por +que perguntas tu isso? E arqueaste as sobrancelhas +com aquelle teu ar de antes quando te zangavas! +Porque foi isso, Carlos?' +<br /> + +<br /> + +―'Nada, criança, foi uma pergunta á toa.' +<br /> + +<br /> + +―'Pois será; mas não me franzas nunca +mais a testa assim, que te pareces todo... é que +nunca vi tal parecença...' +<br /> + +<br /> + +―'Com quem?' +<br /> + +<br /> + +―'Com Fr. Diniz.' +<br /> + +<br /> + +―'Eu com elle!' +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[259]</span> ―'Tal e qual quando fazes essa cara. Olha: +ahi estás tu na mesma. Vamos! ria-se e esteja +contente se se quer parecer commigo, que todos +dizem que nos parecemos tanto.' +<br /> + +<br /> + +―'Querida innocente!' +<br /> + +<br /> + +E beijou-lhe a mão que tinha appertada na +sua, beijou-lh'a uma e muitas vezes com um +sentimento de ternura misturado de não sei que +vaga compaixão, vindo de lá de dentro d'alma +com não sei que dor, meia dor meia prazer, que +entre ambos se communicou e a ambos humedeceu +os olhos.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3><a name="c25"></a>CAPITULO XXV. +</h3> + +<br /> + +<div class="intro">O excesso da felicidade que aterra e +confunde +tambem.―Pasmosa +contradicção da nossa natureza.―De como os +olhos verdes de Joanninha se inturvaram e perderam todo o +brilho.―Que o coração da mulher que ama, sempre +adivinha +certo. +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Carlos tinha a mão de Joanninha appertada +na sua; e os olhos humidos de lagrymas cravados +nos olhos d'ella, de cujo verde transparente +e diaphano sahiam raios de ineffavel ternura. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[262]</span> +Dizer tudo o que elle sentia é impossivel: tam +incontrados lhe andavam os pensamentos, em tam +confuso tumulto se lhe alvorotavam todos os sentidos. +<br /> + +<br /> + +Por muito tempo não proferiram palavra, nem +um nem outro; mas fallaram assim longos discursos. +<br /> + +<br /> + +Emfim, Joanninha voltou á sua primeira insistencia +e disse para o primo: +<br /> + +<br /> + +―'Olha, Carlos, ámanhan é sexta-feira, ja +te disse, vem Fr. Diniz: quando haja a menor +difficuldade do commandante, a elle não lhe recusa +nada...' +<br /> + +<br /> + +―'Por quanto ha no ceo, Joanninha, pela +tua vida, pela de nossa avó, nem uma palavra +ao frade da minha estada aqui! A elle, oh! a +elle jurei eu não tornar a ver. E se minha +avó...' +<br /> + +<br /> + +―'Basta: não lhe direi nada. Mas á nossa +avó quando lh'o heide dizer, e quando hasde tu +ir ve-la?' +<br /> + +<br /> + +―'Porora não: preciso licença de Lisboa, +<span class="pagenum">[263]</span> +ou do quartel-general quando menos, para fazer +uma coisa que todas as leis da guerra prohibem, +que nas actuaes circumstancias e em similhante +guerra ainda é mais defesa. E sem isso―tu bem +sabes que as minhas resoluções não se +mudam―sem +isso não o faço. Em todo o caso, que Fr. +Diniz nem sonhe!..' +<br /> + +<br /> + +―'E quanto tempo, quantos dias se hãode +passar?' +<br /> + +<br /> + +―'Eu sei? oito, quinze dias talvez, talvez mais.' +<br /> + +<br /> + +―'E a minha pobre avó, coitadinha! a morrer +de saudades...' +<br /> + +<br /> + +―'Consola-a tu, Joanninha: dize-lhe que +tiveste novas minhas, que estou bom, que me +não falta nada, que tenho esperanças de vos ver +muito cedo.' +<br /> + +<br /> + +―'E eu... eu posso, eu heide ver-te todos +os dias: não, Carlos?' +<br /> + +<br /> + +―'Ámanhan é sexta-feira...' +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[264]</span> ―'Ámanhan é o dia negro... nem eu queria: +ámanhan não póde ser, bem sei. Mas, +tirado +ámanhan, meu Carlos, oh! todos os dias!' +<br /> + +<br /> + +―'Sim, querido anjo, sim.' +<br /> + +<br /> + +―'Promettes?' +<br /> + +<br /> + +―'Juro-t'o.' +<br /> + +<br /> + +―'Succeda o que succeder?' +<br /> + +<br /> + +―'Succeda o que... So ha uma coisa que... +Mas essa não... não é possivel.' +<br /> + +<br /> + +―'O que é, Carlos? que póde haver, que +póde succeder que te impeça de?..' +<br /> + +<br /> + +Carlos estremeceu... hesitou, corou, fez-se +pallido... quiz dizer-lhe a verdade e não ousou... +<br /> + +<br /> + +Porquê?.. E que verdade era essa? Não a direi +eu, ja que elle a não disse: fiel e discreto +historiador, imitarei a discrição do meu heroe. +<br /> + +<br /> + +Pois era discrição a d'elle? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[265]</span> +Não... em verdade, era outra coisa. +<br /> + +<br /> + +Era um pensamento reservado? +<br /> + +<br /> + +Não. +<br /> + +<br /> + +Era tenção má, ingano premeditado, +era?.. +<br /> + +<br /> + +Não, tambem não. +<br /> + +<br /> + +O que era pois? +<br /> + +<br /> + +Era a dúvida, era a fraqueza, era a vaidade, +a mentira congenial e obrigada, a necessaria falsidade +do homem social. +<br /> + +<br /> + +Carlos mentiu e disse: +<br /> + +<br /> + +―'Só se m'o prohibirem expressamente... os +meus chefes.' +<br /> + +<br /> + +Mas não era isso o que elle receiava; não era +esse aquelle motivo unico e superior que elle temia +podesse vir um dia derepente cortar as doces +<span class="pagenum">[266]</span>relações +de convivencia a que tam prestes se +habituára, que ja lhe pareciam parte necessaria, +indispensavel da sua vida. Não era, não; e Carlos +tinha mentido... +<br /> + +<br /> + +Joanninha olhou para elle fixa... Carlos corou +de novo. Ella fez-se pallida... d'ahi corou tambem. +<br /> + +<br /> + +―'Carlos, tu não es capaz de mentir...' +<br /> + +<br /> + +―'Joanninha!' +<br /> + +<br /> + +―'Tu es o meu Carlos... tu queres-me como +me querias d'antes...' +<br /> + +<br /> + +―'Sou... oh! sou. E amo-te...' +<br /> + +<br /> + +―'Como d'antes?' +<br /> + +<br /> + +―'Mais.' +<br /> + +<br /> + +―'Pois olha, Carlos: eu nunca amei, nunca +heide amar a nenhum homem senão a ti.' +<br /> + +<br /> + +―'Joanna!' +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[267]</span> ―'Carlos!' +<br /> + +<br /> + +Iam a cahir nos braços um do outro... A singela +confissão da innocencia ia ser acceita por +quem e como, sancto Deus! Aquella palavra de +oiro, aquella doce palavra que tanto custa a pronunciar +á mulher menos arteira; que adivinhada, +sabida, ouvida ha muito pelo coração, ditta +mil vezes com os olhos, nenhum homem descança +nem se tem por feliz, por certo de sua felicidade, +em quanto a não ouve proferir pelos labios―essa +palavra celeste que explica o passado, +que responde do futuro, que é a última e +irrevocavel sentença de um longo pleito de anciedades, +de incertezas e de sustos―essa final +e fatal palavra <em>amo-te</em>, Joanninha a +pronunciára +tam naturalmente, tam sincera, tam sem difficuldades +nem hesitações, como se aquelle fosse―e +era decerto―como se aquelle tivesse sido +sempre o pensamento unico, a idea constante e +habitual de sua vida. +<br /> + +<br /> + +O excesso da felicidade aterra e confunde tambem. +Um momento antes, Carlos dera a sua vida +por ouvir aquella palavra... um momento depois―oh +pasmosa contradicção de nossa dupplice +<span class="pagenum">[268]</span>natureza! um +momento depois dera a vida +pela não ter ouvido. No primeiro instante ia +lançar-se +nos braços da innocente que lh'os abria +n'um sancto extasi do mais apaixonado amor; no +segundo, tremeu e teve horror da sua felicidade. +<br /> + +<br /> + +―'Joanna' exclamou elle 'Joanna, querida, +sabes tu se eu mereço... sabes tu se deves?..' +<br /> + +<br /> + +―'Sei. Desde que me intendo, não pensei +n'outra coisa; desde que d'aqui foste, comecei a +intender o que pensava... disse-o a minha avó, e +ella...' +<br /> + +<br /> + +―'E ella?..' +<br /> + +<br /> + +―'Ella abençoou-me, chamou-me a sua querida +filha, abraçou-me, beijou-me, e disse-me +que aquella era a primeira hora de felicidade e +de alegria que ha muitos annos tinha tido.' +<br /> + +<br /> + +Carlos não respondeu nada e olhou para Joanninha +com uma indicivel expressão de affecto e +de tristeza. Os raios de alegria que resplandeciam +n'aquelle semblante―agora bello de toda +a belleza com que um verdadeiro amor illumina +<span class="pagenum">[269]</span> +as mais desgraciosas feições―os raios d'essa +alegria +começaram a amortecer, a apagar-se. A +lucida transparencia d'aquelles olhos verdes turvou-se: +nem a clara luz da agua-marinha, nem +o brilho fundo da esmeralda resplandecia ja +n'elles; tinham o lustro baço e morto, o polido +mate e silicioso de uma d'essas pedras sem agua +nem brilho que a arte antiga ingastava nos collares +de suas estátuas. +<br /> + +<br /> + +―'Adeus Joanna!' disse Carlos perturbado +e confuso. +<br /> + +<br /> + +―'Adeus, Carlos!' respondeu ella machinalmente. +<br /> + +<br /> + +―'Até depois de ámanhan, Joanna.' +<br /> + +<br /> + +―'Pois sim.' +<br /> + +<br /> + +―'Depois de ámanhan te direi...' +<br /> + +<br /> + +―'Não digas.' +<br /> + +<br /> + +―'Porquê?' +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[270]</span> ―'Porque é excusado: ja sei tudo.' +<br /> + +<br /> + +―'Sabes!' +<br /> + +<br /> + +―'Sei.' +<br /> + +<br /> + +―'O quê?' +<br /> + +<br /> + +―'O que tu não tens ânimo para me dizer, +Carlos; mas que o meu coração adivinhou. Tu +não me amas, Carlos.' +<br /> + +<br /> + +―'Não te amo! eu!.. Sancto Deus! eu +não a amo...' +<br /> + +<br /> + +―'Não. Tu amas outra mulher.' +<br /> + +<br /> + +―'Eu! Joanna, oh! se tu soubesses...' +<br /> + +<br /> + +―'Sei tudo.' +<br /> + +<br /> + +―'Não sabes.' +<br /> + +<br /> + +―'Sei: amas outra mulher, outra mulher +que te ama, que tu não pódes, que tu +não +deves abandonar, e que eu...' +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[271]</span> ―'Tu?' +<br /> + +<br /> + +―'Eu sei que é bella, prendada, cheia de +graças e de incantos, porque... porque tu, meu +Carlos, porque o teu amor não era para se dar +por menos.' +<br /> + +<br /> + +―'Joanna, Joanninha!' +<br /> + +<br /> + +―'Não digas nada, não me digas nada hoje... +hoje sobretudo, não me digas nada. Ámanhan...' +<br /> + +<br /> + +―'Ámanhan é sexta-feira.' +<br /> + +<br /> + +―'Inda bem! terei mais tempo para reflectir, +para considerar antes de tornar a ver-te. +Adeus Carlos!' +<br /> + +<br /> + +―'Uma palavra so, Joanna. Cuidas que sou +capaz de te inganar?' +<br /> + +<br /> + +―'Não; estou certa que não.' +<br /> + +<br /> + +―'Até ámanhan... até depois de +ámanhan.' +<br /> + +<br /> + +―'Adeus!' +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[272]</span> +Abraçaram-se, e d'esta vez froixamente; beijaram-se +de um osculo timido e recatado... os +beiços de ambos estavam frios, as mãos +trémulas; +e o coração comprimido batia, batia-lhes +forte que se ouvia. +<br /> + +<br /> + +Retirou-se cadaum por seu lado. A noite estava +pura e serena como na vespera, as estrellas +luziam no ceo azul com o mesmo brilho; o +silencio, a majestade, a belleza toda da natureza +era a mesma... so elles eram outros... outros, +tam outros e differentes do que foram! +<br /> + +<br /> + +Tinham-se dado cuidadosamente as providencias; +ambos chegaram, sem nenhum accidente, +ao seu destino.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2>NOTAS</h2> + +<br /> + +<br /> + +<h2><a name="c26"></a>NOTAS</h2> + +<h3><br /> + +AO LIVRO PRIMEIRO. +</h3> + +<br /> + +<h4><span class="smallcaps"> +Nota A.</span> +</h4> + +<br /> + +<div class="quote">Que viage á roda do seu +quarto, quem está +a beira dos Alpes<br /> + +<br /> + +<div class="signature"><a href="#n1">pag. +1.</a></div> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +É visivel allusão ao popular e inimitavel +opusculo +de Xavier de Maistre, <em>Voyage autour de ma +chambre</em>, +que decerto foi principiado a escrever em Turim, e +que muitos suppoem que fôsse concluido em San'Petersburgo. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p276">[276]</a></span> +<h4><span class="smallcaps">Nota B.</span></h4> + +<br /> + +<div class="quote"> +Designio politico determinado a minha <a href="#e20">visita</a> +(a Santarem)<br /> + +<br /> + +<div class="signature"><a href="#n2"> +pag. 2.</a></div> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +É puramente historico isto; e tambem é verdade +que em grande parte d'aqui se originou a +persiguição +brutal que soffreu o A. d'ahi a poucos meses. +<h4><br /> + +<span class="smallcaps">Nota C.</span> +</h4> + +<br /> + +<div class="quote"> +N'uma <em>regata</em> de +vapores<br /> + +<div class="signature"><a href="#n3">pag. 3. +</a></div> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<em>Regata</em> chamavam, e não +sei se chamam ainda, em +Veneza ás carreiras de barcos appostados ao desafio. A +palavra e a coisa introduziu-se em Inglaterra, onde é +moda e popularissima. +<br /> + +<br /> + +<h4><span class="smallcaps">Nota D.</span> +</h4> + +<br /> + +<div class="quote"> +Eu coroarei de trevo a minha +espada<br /> + +<div class="signature"><a href="#n4">pag. 24. +</a></div> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +Estes versos são uma especie de parodia dos famosos +fragmentos de Alceu de que so existe memoria +nos scholios que nos conservou Eustathio. Nas <em>Flores +sem fructo</em>, pag. 56 a traducção +d'aquelle bello +fragmento. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[277]</span> +<h4><span class="smallcaps">Nota E.</span> +</h4> + +<br /> + +<div class="quote"> +Depois de tantas commissões de inquerito, +deve de andar orçado o número de +almas<br /> + +<div class="signature"><a href="#n5">pag. 25. +</a></div> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +Os protocollos das commissões de inquerito de ha +oito para dez annos a ésta parte, sôbre o estado +das +classes trabalhadoras e indigentes em Inglaterra, é a +próva real dos grandes calculos da economia politica, +sciencia que eu espero em Deus se hade desacreditar +muito cedo. +<br /> + +<br /> + +<h4><span class="smallcaps">Nota F.</span> +</h4> + +<br /> + +<div class="quote"> +There are more things +etc.<br /> + +<div class="signature"><a href="#n6">pag. 26. +</a></div> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +A traducção chegada d'estes memoraveis versos de +Shakspeare é: +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry">Ha mais coisas no ceo, ha mais na terra<br /> + +Do que sonha a tua van philosophia. +</div> + +<br /> + +<br /> + +<h4><span class="smallcaps">Nota G.</span> +</h4> + +<br /> + +<div class="quote"> +Um <em>Chourineur</em>... uma +<em>Fleur-de-Marie</em><br /> + +<div class="signature"><a href="#n7"><br /> + +pag. +28. +</a></div> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +Personagens, bem conhecidos geralmente, do romance +tam popular de Eug. Sue, <em>Os Mysterios de +París</em>. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[278]</span> +<h4><span class="smallcaps">Nota H.</span> +</h4> + +<br /> + +<div class="quote"> +Fossem lá á rainha +Anna<br /> + +<div class="signature"><a href="#n8">pag. 34. +</a></div> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +Addison, o poeta, foi ministro da rainha Anna de +Inglaterra, e membro do célebre gabinete chamado +de +<em>All-wits</em>. +<br /> + +<br /> + +<h4><span class="smallcaps">Nota J.</span> +</h4> + +<br /> + +<div class="quote"> +Quando chegou alli pelos +Prazeres<br /> + +<div class="signature"><a href="#n9">pag. 56. +</a></div> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +Um dos dois cemiterios de Lisboa―seja ditto para +intelligencia do leitor provinciano―chama-se <em>Dos +Prazeres</em>, por uma ermida de N. S.<sup>a</sup> +que alli existia +com ésta invocação desde antes do +terreno ter o +presente destino. É notavel a coincidencia do nome. +<br /> + +<br /> + +<h4><span class="smallcaps">Nota K.</span></h4> + +<br /> + +<br /> + +<div class="quote"> +O verdadeiro alfageme... tinha pelo povo +e não queria saber de +partidos<br /> + +<div class="signature"><a href="#n10">pag. +64. +</a></div> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +É facil de ver que o interlocutor d'este dialogo conhecia +esse curioso personagem da historia do Condestavel, +não pelas chronicas mas pelo drama que tem o +seu nome. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[279]</span> +<h4><span class="smallcaps">Nota L.</span> +</h4> + +<br /> + +<div class="quote"> +Do <em>Sacré-Coeur</em> e das +suas elegantes +devotas<br /> + +<br /> + +<div class="signature"><a href="#n11"> +pag. +89. +</a></div> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +O convento que tem este nome em París, é casa +de educação de meninas nobres, e recolhimento de +senhoras tambem. +<br /> + +<br /> + +<h4><span class="smallcaps">Nota M.</span> +</h4> + +<br /> + +<div class="quote"> +Graciosa sculptura de Antonio +Ferreira<br /> + +<br /> + +<div class="signature"><a href="#n12"> +pag. 106. +</a></div> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +Antonio Ferreira, que viveu no fim do seculo passado, +princípio d'este, modelava em barro com a +mesma graça e naturalidade flamenga, com que +pintava o morgado de Setubal: as suas piquenas figurinhas +são tam estimadas pelos intendedores como +os melhores biscoitos de Sevres e de Saxonia antiga. +<br /> + +<br /> + +<h4><span class="smallcaps">Nota N.</span> +</h4> + +<br /> + +<div class="quote"> +Ave phenix que nasceu de nossos avós não saberem +grego<br /> + +<br /> + +<div class="signature"><a href="#n13"> +pag. 115. +</a></div> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +A fábula daquella ave immortal teve origem nas +edades obscuras da Europa quando o grego era ignorado. +O que os antigos diziam da <em>phenix</em>, +palmeira +em grego, tomaram nossos barbaros avós por ditto +de uma passarolla com que os outros nunca sonharam.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2>INDICE. +</h2> + +<br /> + +<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6"> + + <tbody> + + <tr> + + <td style="width: 561px;"><span class="smallcaps">Prologo +dos +editores.</span></td> + + <td style="text-align: right; width: 23px;">pag.</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; width: 32px;"><a href="#c0">V</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 23px; text-align: justify;" colspan="2" rowspan="1"><span class="smallcaps">Capitulo +I.</span>―De como +o auctor +d'este erudito livro +se resolveu a viajar na sua terra, depois +de ter viajado no seu quarto; e como resolveu +immortalizar-se escrevendo éstas suas viagens. +Parte para Santarem. Chega ao Terreiro +do Paço; imbarca no vapor de Villa-Nova; e o +que ahi lhe succede. A Deducção-Chronologica +e a baixa de Lisboa. Lord Byron e um +bom charuto. Travam-se de razões os ilhavos +e os bordas-d'agua, e os da calça larga levam +a melhor.</td> + + <td></td> + + <td style="vertical-align: bottom; text-align: right; width: 32px;"><a href="#c1">1</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 23px; text-align: justify;" colspan="2" rowspan="1"><span class="smallcaps">Capitulo +II.</span>―Declaram-se +typicas, +symbolicas e +mythicas éstas viagens. Faz o A. modestamente +o seu proprio elogio. Da marcha da civilização; +e mostra-se como ella é dirigida pelo +cavalleiro da Mancha, D. Quixote e por seu +escudeiro, Sancho Pança.―Chegada a Villa-Nova-da-Rainha. +Supplicio de Tantalo.―A +virtude galardão de si mesma; e sophisma de +Jeremias-Bentham.―Azambuja.</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom; width: 32px;"><a href="#c2">13</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 23px; text-align: justify;" colspan="2" rowspan="1"><span class="smallcaps">Capitulo +III.</span>―Acha-se +desappontado o leitor com +a prosaica sinceridade do A. d'estas viagens.―O +que devia ser uma estalagem n'estas nossas eras de litteratura +romantica?―Suspende-se +o exame d'esta grave questão para tractar, +em prosa e verso, um muito difficil ponto de +economia-politica e de moral social.―Quantas +almas é preciso dar ao diabo, e quantos corpos +se teem de intregar no cemiterio para fazer +um ricco n'este mundo.―Como se veio a +descobrir que a sciencia d'este seculo era uma +grandecissima tola.―Rei de facto, e rei de direito.―Belleza +e mentira não cabem n'um sacco.―Põe-se +o A. a caminho para o pinhal da +Azambuja.</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom; width: 32px;"><a href="#c3">23</a></td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<span class="pagenum">[281]</span> +<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6"> + + <tbody> + + <tr> + + <td style="width: 561px; text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo +IV.</span>―De +como +o A. foi +pensando e divagando; +e em que pensava e divagava elle, +no caminho da villa da Azambuja até o famoso +pinhal do mesmo nome.―Do poeta grego +e philosopho Démades e do poeta e philosopho +ingles Addison: da casaca de penneiros +e do palio atheniense, e de outros importantes +assumptos em que o A. quiz mostrar sua +profunda erudição.―Discute-se a materia +gravissima +se é necessario que um ministro d'estado +seja ignorante e leigarraz.―Admiraveis +reflexões de zigzag em que se tracta de <em>re +politica</em> +e de <em>re amatoria</em>.―Descobre-se +porfim +que o A. estivera a sonhar em todo este capitulo, +e pede-se ao leitor benevolo que volte +a folha e passe ao +seguinte.</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom; width: 31px;"><a href="#c4">31</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 561px; text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo +V.</span>―Chega +o +A. ao pinhal +da Azambuja, +e não o acha. Trabalha-se por explicar este +phenomeno pasmoso. Bello rasgo de stylo romantico.―Receita para fazer +litteratura original +com pouco trabalho.―Transição classica;―Orpheu +e o bosque do Ménalo. Desce o +A. d'estas grandes e sublimes considerações para +as realidades materiaes da vida: é desamparado +pela hospitaleira traquitana e tem de +cavalgar na triste mula de arrieiro.―Admiravel +choito do animal. Memorias do marquez +do F. que adorava o +choito.</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom; width: 31px;"><a href="#c5">39</a></td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<span class="pagenum">[282]</span> +<span class="smallcaps"></span> +<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6"> + + <tbody> + + <tr> + + <td style="width: 561px; text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo +VI.</span>―Próva-se +como o velho Camões não +teve outro remedio senão misturar o maravilhoso +da mylhologia com o do christianismo.―Da-se +razão, e tira-se depois ao padre +José Agostinho.―No meio d'estas +disceptações +academico-litterarias vem o A. a descobrir que +para tudo é preciso ter fé n'este mundo. Diz-se + <em>n'este mundo</em>, porque, quanto ao +outro ja +era sabido.―Os Lusiadas, Fausto e a +Divina-Comedia.―Desgraça +de Camões em ter +nascido antes do romantismo.―Mostra-se como +a Styge e o Cocyto sempre são melhores sitios +que o Inferno e o Purgatorio.―Vai o A. em +procura do marquez de Pombal, e dá com +elle nas ilhas Beatas do poeta Alceu.―Partida +de Wist entre os illustres finados.―Compaixão +do marquez pelos pobres homens de Ricardo +Smith e J. B. Say.―Resposta d'elle e +da sua luneta ás perguntas peralvilhas do +A.―Chegada +a este mundo e ao +Cartaxo.</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom; width: 31px;"><a href="#c6">47</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 561px; text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo +VII.</span>―Reflexões importantes +sôbre o +Bois-de-Boulogne, as carruagens de mollas, Tortoni, e o café +do Cartaxo.―Dos cafés em +geral, e de como são o characteristico da +civilização +de um paiz.―O Alfageme.―Hecatombe +involuntaria immolada pelo A.―Historia +do Cartaxo.―Demonstra-se como a Gran' +Bretanha deveu sempre toda a sua fôrça e toda +a sua glória a Portugal.―Shakspeare e +Laffitte, Milton e Chateaumargot.―Nelson e +o principe de Joinville.―Próva-se evidentemente +que M. Guizot é a ruina de Albion e +do Cartaxo.<br /> + </td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom; width: 31px;"><a href="#c7">59</a></td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<span class="pagenum">[283]</span> +<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6"> + + <tbody> + + <tr> + + <td style="width: 561px; text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo +VIII.</span>―Sahida +do +Cartaxo.―A charneca.―Perigo +imminente em que o A. se acha de +dar em poeta e fazer versos.―Ultima revista +do imperador D. Pedro ao exército liberal. +Batalha de Almoster.―Waterloo.―Declara +o A. solemnemente que não é philosopho e chega +á ponte de +Asseca.</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom; width: 31px;"><a href="#c8">71</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 561px; text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo +IX.</span>―Prologomenos +dramatico-litterarios, +que muito naturalmente levam, apezar +de alguns rodeios, ao retrospecto e +reconsideração +do capitulo antecedente.―Livros que +não deviam ter titulo, e titulos que não deviam +ter livro.―Dos poetas d'este seculo: Bonaparte, +Rotchild e Silvio-Péllico.―Chega-se +ao fim +d'estas reflexões e á Ponte da +Assecca.―Traducção +portugueza de um grande poeta.―Origem +de um dictado.―Junot na ponte da Assecca.―De +como o A. d'este livro foi jacobino +desde piqueno.―Inguiço que lhe deram.―A duqueza de +Abrantes.―Chega-se emfim +ao val de Santarem.</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom; width: 31px;"><a href="#c9">79</a></td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<span class="pagenum">[284]</span> +<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6"> + + <tbody> + + <tr> + + <td style="width: 561px; text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo +X.</span>―Valle de +Santarem―Namora-se o +A. de uma janella que ve por entre umas +árvores.―Conjecturas +várias a respeito da ditta +janella.―Similhança do poeta com a mulher +namorada, e inquestionavel inferioridade do +homem que não é poeta.―Os rouxinoes. +Reminiscencia +de Bernardim Ribeiro e das suas saudades.―De +como o A. tinha quasi completo o +seu romance, menos um vestido branco e uns +olhos pretos.―Sahem verdes os olhos com +grande admiração e pasmo seu.―Verificam-se +as conjecturas sôbre a mysteriosa janella.―A +menina dos rouxinoes.―Censura das damas +muito para temer, crítica dos elegantes muito +para rir.―Começa o primeiro episodio d'esta +Odyssea.</td> + + <td></td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: bottom; width: 31px;"><a href="#c10">91</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 561px; text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo +XI.</span>―Tracta-se +do unico +privilegio dos +poeetas que tambem os philosophos quizeram tirar, +mas não lhes foi concedido; aos romancistas +sim.―Applicação d'estes principios a +Aristoteles e Anacreonte.―O A., tendo declarado +no capítulo nono d'esta obra que não +era philosopho, agora confessa, quasi solemnemente. +que é poeta, e pretende manter-se +como tal, em seu direito.―De como S. M. +elrei de Dinamarca tinha menos juizo do que +Yorick, seu bobo.―Doutrina d'este. Funda +n'ella o A. o seo admiravel systema de physiologia +e pathologia transcendente do coração.Por uma +deducção appertada e cerrada da mais +constrangente logica vem a dar-se no motivo +porque foi concedido aos poetas esse direito indefinido +de andarem sempre namorados.―Applicam-se +todas éstas grandes theorias á +posição +actual do A. no momento de entrar no episodio +promettido no capítulo antecedente.―Uma +modestia e reserva delicada o obrigam a +duvidar da sua qualificação para o desimpenhar: +pede votos ás amaveis leitoras. Decide-se +que a votação não seja nominal, e +porquê.―Dido +e a mana Annica.―Entra-se emfim na +promettida historia.―De como a velha estava +á porta a dobar, e imbaraçando-se-lhe a meada, +chamou por Joanninha, sua +neta.</td> + + <td></td> + + <td style="width: 31px; text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c11">99</a></td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<span class="pagenum">[285]</span> +<span class="smallcaps"></span> +<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6"> + + <tbody> + + <tr> + + <td style="width: 561px; text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo +XII.</span>―De +como Joanninha +desimbaraçou +a meada da avó, e do mais que aconteceu.―Que +casta de rapariga era Joanninha. Dá o A. +insigne prôva de ingenuidade +e boa fé confessando +um grave senão do seu Ideal. Insiste +porém que é um adoravel deffeito.―Em que +se parece uma mulher desannellada com um +Sansão tosquiado.―Pasmosas monstruosidades +da natureza que desmentem o credo velho +dos peralvilhos.―Os olhos verdes de Joanninha.―Religião +dos olhos pretos strenuamente +professada pelo A. Perigo em que ella se acha á +vista de uns olhos verdes.―De como estando +a avó e a neta a conversar muito de mano a +mano, chega Frei Diniz e se interrompe a +conversação.―Quem +era Frei Diniz.</td> + + <td></td> + + <td style="width: 31px; text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c12">109</a></td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<span class="pagenum"><a name="p286">[286]</a></span> +<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6"> + + <tbody> + + <tr> + + <td style="width: 561px; text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo +XIII.</span>―Dos +frades em +geral.―O frade +moralmente considerado, socialmente e +artisticamente.―Próva-se +que é muito mais poetico +o frade do que o barão.―Outra vez D. +Quixote e Sancho Pansa.―Do que seja o barão, +sua clasificação e +descripção linneana.―Historia +do castello do Chucherumello.―Erro +palmar de Eugenio Sue: mostra-se que os +jesuitas não são a cholera-morbus, e que +é preciso +refazer o 'Judeu errante'―De como +o frade não intendeu o nosso seculo nem o nosso +seculo ao frade.―De como o barão ficou <a href="#e21">em +logar do frade</a>, e do muito que n'isso +perdémos.―Unica +voz que se ouve no actual deserto +da sociedade: os barões a gritar contos +de réis.―Como se contam e como se pagam +os taes contos.―Predilecção artistica do A. +pelo frade: confessa-se e explica-se ésta +predilecção.</td> + + <td></td> + + <td style="width: 31px; text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c13">121</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 561px; text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo +XIV.</span>―Emendado +emfim de +suas distracções +e divagações, prosegue o A. direitamente +com a historia promettida.―De como +Fr. Diniz deu a manga a beijar a avó e á neta, +e do mais que entre elles se passou.―Ralha +o frade com a velha, e começa a descubrir-se +onde a historia vai +ter.</td> + + <td></td> + + <td style="width: 31px; text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c14">133</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 561px; text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo +XV.</span>―Retrato +de um frade +franciscano +que não foi para o depósito da Terra-sancta, +nem consta que esteja na Academia das Bellas-Artes.―Ve-se +que a logica de Fr. Diniz se +não parecia nada com a de Condillac.―Suas +opiniões sôbre o liberalismo e os liberaes.―Que +o podêr vem de Deus, mas como e paraquê.―Que +os liberaes não intendem o que é +liberdade e egualdade; e o para que eram os +frades, se fossem.―Próva-se, pelo texto, +que o homem não vive so de pão, e pergunta-se +o de que vivia então Fr. +Diniz.</td> + + <td></td> + + <td style="width: 31px; text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c15">147</a></td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<span class="pagenum">[287]</span> +<span class="smallcaps"></span> +<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6"> + + <tbody> + + <tr> + + <td style="width: 561px; text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo +XVI.</span>―Saibamos +da vida do +frade.―Era +franciscano porquê?―Dos antigos e dos +novos martyres.―Alguns particulares de Fr. +Diniz antes e depois de ser +frade.―Emigração.―Explicação +incompleta.―De como a +velha tinha perdido a vista, e Joanninha o riso.―Sexta +feira dia aziago.</td> + + <td></td> + + <td style="width: 31px; text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c16">155</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 561px; text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo +XVII.</span>―De +como, chegando +outra sexta-feira +e estando a avó e a neta á espera do +frade, este lhe appareceu, contra o seu costume, +da banda de Lisboa.―Por que razão +muitas vezes a mais animada conversação +é a +que mais facilmente pára e quebra de repente.―Nova +demonstração de dois grandes axiomas +dos nossos velhos, a saber: Que o hábito +não faz o monge; e que ralhando as comadres +se descobrem as verdades.―No ralhar +da velha com o frade, levanta-se uma ponta +do véo que cobre os mysterios da nossa +historia.</td> + + <td></td> + + <td style="width: 31px; text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c17">171</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 561px; text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo +XVIII.</span>―Descobre-se +que +ha grandes e +espantosos segredos entre o frade e a velha―Piedosa +fraude de Joanninha.―-Lucta entre o +hábito e o +monge.</td> + + <td></td> + + <td style="width: 31px; text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c18">181</a></td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<span class="pagenum"><a name="p288">[288]</a></span> +<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6"> + + <tbody> + + <tr> + + <td style="width: 561px; text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo +XIX</span>.―Guerra de postos avançados, +Joanninha no bivac.―De como os rouxinoes +do valle se disciplinaram a ponto de tocar a +alvorada e a retreta.―Quem era a 'menina +dos rouxinoes,' e porque lhe poseram este +nome.―A sentinella perdida e +achada. </td> + + <td></td> + + <td style="width: 31px; text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c19">191</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 561px; text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XX.</span>―Joanninha +adormecida―O demi-jour +da coquette.―Poesia do Flos-sanctorum.―De +como os rouxinoes accompanhavam sempre +a menina do seu nome; e do bem que um +d'elles cantava no bivac.―Retratto esquissado +á pressa para satisfazer ás amaveis +leitoras.―Pondera-se +o triste e pessimo gôsto dos nossos +governantes em tirarem as honras militares ao +mais elegante e mais nacional uniforme do exército +portuguez.―Em que se parece o auctor +da presente obra com um pintor da edade-média.―De +como os abraços, por mais apertados +que sejam, e os beijos, por mais interminaveis +que pareçam, sempre teem de acabar +por fim.</td> + + <td></td> + + <td style="width: 31px; text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c20">203</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 561px; text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo +XXI.</span>―Quem +vem +lá?―Como entre dous +litigantes nem sempre gosa o terceiro.―Carlos +e Joanninha n'uma especie de situação + <em>ordeira</em>, +a mais perigosa e falsa das +situações.</td> + + <td></td> + + <td style="width: 31px; text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c21">215</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 561px; text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo +XXII</span>.―Bilhete +de manhan +da prima ao +primo. Inganam a pobre da velha.―Noite mal +dormida.―Da conversa que teve Carlos com +os seus botões.―A Joanninha que elle deixára +e a Joanninha que achou.―Obrigações <a href="#e22">d'amor</a>, +triste palavra.―A mulher que elle amava, +e se elle a amava ainda.―Quesitos do A. +aos seus benevolos leitores. Declara que com +os hypocritas não falla.―Quem hade levantar +a primeira pedra?―Dous modos differentes +de acudir uma coisa ao +pensamento.</td> + + <td></td> + + <td style="width: 31px; text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c22">225</a></td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<span class="pagenum">[289]</span> +<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6"> + + <tbody> + + <tr> + + <td style="width: 561px; text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo +XXIII.</span>―Continúa a accudir muita coisa +vaga e incontrada ao pensamento de Carlos.―Dança +de fadas e duendes.―Fr. Diniz o fado-mau +da familia.―Veremos, é a grande +resolução +nas grandes difficuldades.―Carlos poeta +romantico.―Olhos verdes―Desafio a todos +os poetas moyen-ages do nosso +tempo.</td> + + <td></td> + + <td style="width: 31px; text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c23">235</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 561px; text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XXIV.</span>―Novo +Génesis.―O Adam social +muito differente do Adam natural.―Carlos sempre +um por seus bons instinctos, sempre outro +por suas más reflexões.―De como Joanninha +recebeu o primo com os braços abertos, e do +mais que entre elles se passou.―Dor meia dor, +meia prazer.</td> + + <td></td> + + <td style="width: 31px; text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c24">247</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 561px; text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XXV.</span>―O +excesso da +felicidade que aterra +e confunde tambem.―Pasmosa contradicção +da nossa natureza.―De como os olhos verdes +de Joanninha se inturvaram e perderam todo +o brilho.―Que o coração da mulher que +ama, sempre advinha +certo.</td> + + <td></td> + + <td style="width: 31px; text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c25">261</a></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="width: 561px; text-align: justify;"><span class="smallcaps">Notas</span></td> + + <td></td> + + <td style="width: 31px;"><a href="#c26">275</a></td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +<span class="smallcaps"></span><br /> + +<br /> + +<span style="font-weight: bold;">Notas:</span><br /> + +<br /> + +<br /> + +<sup><a name="1">[1]</a></sup> Chamavam +assim por escarneo, em +Portugal, ao general +Loison a quem faltava um braço.<br /> + +<br /> + +<sup><a name="2">[2]</a></sup> +Célebre urso do Jardim das Plantas em +París.<br /> + +<br /> + +<sup><a name="3">[3]</a></sup> Pag. <a href="#p40">40</a>, <a href="#p41">41</a>, +<a href="#p42">42</a>. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="fbox"> +<h2>Lista de erros corrigidos</h2> + +<div style="text-align: center;">Aqui encontram-se +listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div> + +<br /> + +<br /> + +<table style="width: 80%; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4"> + + <tbody> + + <tr align="right"> + + <td style="width: 87px;"></td> + + <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 119px;">Original</td> + + <td style="text-align: center; width: 13px;"></td> + + <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 110px;">Correcção</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 87px;"><a name="e1"></a><a href="#p3">#pág. +3</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 119px;">venceder</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">vencedor*</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 87px;"><a name="e2"></a><a href="#p15">#pág. +15</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 119px;">Cervantos</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">Cervantes</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 87px;"><a name="e3"></a><a href="#p18">#pág. +18</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 119px;">morachão</td> + + <td style="text-align: center; width: 13px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 110px;">marachão*</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 87px;"><a name="e4"></a><a href="#p40">#pág. +40</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 119px;">esperavava</td> + + <td style="text-align: center; width: 13px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 110px;">esperava</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 87px;"><a name="e5"></a><a href="#p41">#pág. +41</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 119px;">maldadades</td> + + <td style="text-align: center; width: 13px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 110px;">maldades</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 87px;"><a name="e6"></a><a href="#p62">#pág. +62</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 119px;">café</td> + + <td style="text-align: center; width: 13px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 110px;">harem*</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 87px;"><a name="e7"></a><a href="#p89">#pág. +89</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 119px;">tinha-ânimo</td> + + <td style="text-align: center; width: 13px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 110px;">tinha +ânimo</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 87px;"><a name="e8"></a><a href="#p95">#pág. +95</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 119px;">esquerlo</td> + + <td style="text-align: center; width: 13px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 110px;">esquerda</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 87px;"><a name="e9"></a><a href="#p97">#pág. +97</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 119px;">um +historia</td> + + <td style="text-align: center; width: 13px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 110px;">uma +historia</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 87px;"><a name="e10"></a><a href="#p106">#pág. +106</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 119px;">toda o +movimento</td> + + <td style="text-align: center; width: 13px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 110px;">todo o +movimento</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 87px;"><a name="e11"></a><a href="#p118">#pág. +118</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 119px;">trababalho</td> + + <td style="text-align: center; width: 13px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 110px;">trabalho</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 87px;"><a name="e12"></a><a href="#p126">#pág. +126</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 119px;">conte</td> + + <td style="text-align: center; width: 13px;">...</td> + + <td style="text-align: center; width: 110px;">conter*</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 87px;"><a name="e13"></a><a href="#p129">#pág. +129</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 119px;">aeronantas</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">aeronautas*</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 87px;"><a name="e14"></a><a href="#p134">#pág. +134</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 119px;">paasos</td> + + <td style="width: 13px; vertical-align: top; text-align: center;">...</td> + + <td style="width: 110px; text-align: center;">passos</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 87px;"><a name="e15"></a><a href="#p163">#pág. +163</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 119px;">memoraval</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">memoravel</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 87px;"><a name="e16"></a><a href="#c20">#pág. +203</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 119px;">demij-our</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">demi-jour*</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 87px;"><a name="e17"></a><a href="#p223">#pág. +223</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 119px;">didireitas</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">direitas</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 87px;"><a name="e18"></a><a href="#p228">#pág. +228</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 119px;">as +alagadiços</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">os +alagadiços</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 87px;"><a name="e19"></a><a href="#p240">#pág. +240</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 119px;">infeitavam</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">infeitiçavam*</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 87px;"><a name="e20"></a><a href="#p276">#pág. +276</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 119px;">viagem</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">visita</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 87px; vertical-align: middle;"><a name="e21"></a><a href="#p286">#pág. +286</a></td> + + <td style="text-align: center; width: 119px;">em em +logar frade</td> + + <td style="text-align: center; vertical-align: middle;">...</td> + + <td style="text-align: center; vertical-align: middle;">em +logar do frade</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e22"></a><a href="#p288">#pág. 288</a></td> + + <td style="text-align: center;">d'ad'mor</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">d'amor</td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;">* +correcções feitas com base na errata do +próprio livro.<br /> + +<br /> + +Shakespeare e Rotschild surgem neste livro como Shakspeare e +Rotchild respectivamente. Dada a repetitividade constante, decidi +manter de acordo com o original.<br /> + +<br /> + +Foram adicionados travessões onde a sua falta foi notada.<br /> + +<br /> + +As indicações dos números de +páginas que se mencionaram na secção +de <em>"Notas do Primeiro Livro"</em> e <em>"Índice"</em>, +foram corrigidas +para corresponder ao local correcto.<br /> + +<br /> + +</div> + +<br /> + +</div> + +</div> + + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of Project Gutenberg's Viagens na Minha Terra, by Almeida Garrett + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VIAGENS NA MINHA TERRA *** + +***** This file should be named 24164-h.htm or 24164-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/4/1/6/24164/ + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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