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+The Project Gutenberg EBook of Viagens na Minha Terra, by Almeida Garrett
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Viagens na Minha Terra
+ (Volume I)
+
+Author: Almeida Garrett
+
+Release Date: January 4, 2008 [EBook #24164]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VIAGENS NA MINHA TERRA ***
+
+
+
+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
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+
+ *Nota de editor:* Devido à quantidade de erros tipográficos
+ existentes neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à
+ versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com
+ o original. No final deste livro encontrará a lista de erros
+ corrigidos.
+
+ Rita Farinha (Jan. 2008)
+
+
+
+
+OBRAS
+
+DE
+
+J. B. DE A. GARRETT.
+
+VIII.
+
+(PRIMEIRO DAS VIAGENS)
+
+
+
+
+VIAGENS NA MINHA TERRA
+
+
+POR J. B. DE ALMEIDA-GARRETT.
+
+
+I
+
+
+LISBOA
+NA TYPOGRAPHIA DA GAZETA DOS TRIBUNAIS.
+1846.
+
+
+
+
+Os editores d'esta obra, vendo a popularidade extraordinaria que ella
+tinha publicada em fragmentos na _Revista_, intenderam fazer um serviço
+ás lettras e á gloria do seu paiz, imprimindo-a agora reunida em um
+livro, para melhor se podêr avaliar a variedade, a riqueza e a
+originalidade de seu stylo inimitavel, da philosophia profunda que
+incerra, e sôbre tudo o grande e transcendente pensamento moral a que
+sempre tende, ja quando folga e ri com as mais graves coisas da vida, ja
+quando seriamente discute por suas leviandades e pequenezas.
+
+As _Viagens na minha terra_, são um d'aquelles livros raros que so
+podiam ser escriptos por quem, como o auctor de _Camões_ e de _Catão_,
+de _D. Branca_ e do _Portugal na Balança da Europa_, do _Auto de
+Gil-Vicente_ e do _Tractado de Educação_, do _Alfageme_ e de _Fr. Luiz
+de Souza_, do _Arco de Sanct'Anna_ e da _Historia Litteraria de
+Portugal_, de _Adozinda_ e das _Leituras Historicas_ e de tantas
+producções de tam variado genero, possue todos os stylos e, dominando
+uma lingua de immenso podêr, a costumou a servir-lhe e
+obedecer-lhe;--por quem com a mesma facilidade sobe a orar na tribuna,
+entra no gabinete nas graves discussões e demonstrações da sciencia--voa
+ás mais altas regiões da lyrica, da epopeia e da tragedia, lida com as
+fortes paixões do drama, e baixa ás não menos difficeis trivialidades da
+comedia;--por quem ao mesmo tempo, e como que mudando de natureza, póde
+dar-se todo ás mais aridas e materiaes ponderações da administração e da
+politica, e redigir com admiravel precisão, com uma exacção ideologica
+que talvez ninguem mais tenha entre nós, uma lei administrativa ou de
+instrucção pública, uma constituição politica, ou um tractado de
+commercio.
+
+Orador e poeta, historiador e philosopho, crítico e artista,
+jurisconsulto e administrador, erudito e homem d'Estado, religioso
+cultor da sua lingua e falando correctamente as extranhas--educado na
+pureza classica da antiguidade, e versado depois em todas as outras
+litteraturas--da meia-edade, da renascença e contemporanea--o auctor das
+Viagens Na Minha Terra é egualmente familiar com Homero e com o Dante,
+com Platão e com Rousseau, com Thucidides e com Thiers, com Guizot e com
+Xenophonte, com Horacio e com Lamartine, com Machiavel e com
+Chateaubriand, com Shakspeare e Euripedes, com Camões e Calderon, com
+Goethe e Virgilio, Schiller e Sá-de-Miranda, Sterne e Cervantes, Fenelon
+e Vieira, Rabelais e Gil-Vicente, Addison e Bayle, Kant e Voltaire,
+Herder e Smith, Bentham e Cormenin, com os Encyclopedistas e com os
+Sanctos-Padres, com a Biblia e com as tradicções sanscritas, com tudo o
+que a arte e a sciencia antiga, com tudo o que a arte emfim e a sciencia
+moderna teem produzido. Ve-se isto dos seus escriptos, e especialmente
+se ve d'este que agora publicâmos apezar de composto bem claramente ao
+correr da penna.
+
+Mas ainda assim, e com isto somente, elle não faria o que faz se não
+junctasse a tudo isso o profundo conhecimento dos homens e das coisas,
+do coração humano e da razão humana; se não fosse, além de tudo o mais,
+um verdadeiro homem do mundo, que tem vivido nas côrtes com os
+principes, no campo com os homens de guerra, no gabinete com os
+diplomaticos e homens d'Estado, no parlamento, nos tribunaes, nas
+academias, com todas as notabilidades de muitos paizes--e nos salões
+emfim com as mulheres e com os frivolos do mundo, com as elegancias e
+com as falsidades do seculo.
+
+De tantas obras de tam variado genero com que, em sua vida ainda tam
+curta, este fecundo escriptor tem inriquecido a nossa lingua, é ésta
+talvez, tornâmos a dizer, a que elle mais descuidadamente escreveu: mas
+é tambem a que, em nossa opinião, mais mostra os seus immensos podêres
+intellectuaes, a sua erudição vastíssima, a sua flexibilidade de stylo
+espantosa, uma philosophia transcendente, e por fim de tudo, o natural
+indulgente e bom de um coração recto, puro, amigo da justiça, adorador
+da verdade, e inimigo declarado de todo o sophisma.
+
+Tem sido accusado de sceptico: é a accusação mais absurda e que so
+denuncia, em quem a faz, ou grande ignorancia ou grande má fe. Quando o
+nosso auctor lança mão da cortante e destruidora arma do sarcasmo, que
+elle maneja com tanta fôrça e dexteridade, e que talvez por isso mesmo,
+conscio de seu podêr, elle rara vez toma nas mãos--veja-se que é sempre
+contra a hypocrisia, contra os sophismas, e contra os hypocritas e
+shopistas de _todas as côres_, que elle o faz. Crenças, opiniões,
+sentimentos, respeita-os sempre. As mesmas suas ironias que tanto ferem,
+não as dirige nunca sôbre individuos; ve-se que despreza a facil
+vingança que, com tam poderosas armas, podia tomar de inimigos que o não
+poupam, de invejosos que o calumniam, e a quem, por cada dicterio
+insulso e ephemero com que o teem pretendido injuriar, elle podia
+condemnar ao eterno oppróbrio de um pelourinho immortal como as suas
+obras. Ainda bem que o não faz! mais immortaes são as suas obras, e
+quanto a nós, mais punidas ficam os seus emulos com esse desprêzo do
+homem superior que se não appercebe de sua malignidade insulsa e
+insignificante.
+
+Voltando á accusação de septicismo, ainda dizemos que não póde ser
+septico o espirito que concebeu, e em si achou côres com que pintar tam
+vivos, characteres de crenças tam fortes como o de Catão, de Camões, de
+Fr. Luiz de Sousa,--e aqui n'esta nossa obra, os de Fr. Diniz, de
+Joanninha, da Irman Francisca.
+
+Não analysâmos agora as Viagens Na Minha Terra: a obra não está ainda
+completa e não podia completar-se portanto o juizo; dizemos somente o
+que todos dizem e o que todos podem julgar ja.
+
+A nosso rôgo, e por fazer mais digna da sua reputação ésta segunda
+publicação da obra, o auctor prestou-se a dirigi-la elle mesmo,
+corrigiu-a, additou-a, alterou-a em muitas partes, e a illustrou com as
+notas mais indispensaveis para a geral intelligencia do texto: de modo
+que sahirá muito melhorada agora do que primeiro se imprimiu.
+
+
+
+
+VIAGENS NA MINHA TERRA.
+
+
+ Qu' il est glorieux d'ouvrir une nouvelle carrière, et de paraitre
+ tout-à-coup dans le monde savant un livre de découvertes à la main,
+ comme une cométe inattendue étincelle dans l'espace!
+
+ X. DE MAISTRE.
+
+
+
+
+CAPITULO I.
+
+
+ De como o auctor d'este erudito livro se resolveu a viajar na sua
+ terra, depois de ter viajado no seu quarto; e como resolveu
+ immortalizar-se escrevendo éstas suas viagens. Parte para Santarem.
+ Chega ao Terreiro-do-Paço, imbarca no vapor de Villa-Nova; e o que
+ ahi lhe succede. A Deducção-Chronologica e a Baixa de Lisboa. Lord
+ Byron e um bom charuto. Travam-se de razões os Ilhavos e os
+ Bordas-d'agua: os da calça larga levam a melhor.
+
+
+Que viage á roda do seu quarto quem está á beira dos Alpes, de hynverno,
+em Turim, que é quasi tam frio como San'Petersburgo--intende-se. Mas com
+este clima, com este ar que Deus nos deu, onde a laranjeira cresce na
+horta, e o mato é de murta, o proprio _Xavier de Maistre_, que aqui
+escrevesse, ao menos ia até o quintal.
+
+Eu muitas vezes, n'estas suffocadas noites d'estio, viajo até á minha
+janella para ver uma nesguita de Tejo que está no fim da rua, e me
+inganar com uns verdes de árvores que alli vegetam sua laboriosa
+infancia nos intulhos do Caes-do-Sodré. E nunca escrevi éstas minhas
+viagens nem as suas impressões: pois tinham muito que ver! Foi sempre
+ambiciosa a minha penna: pobre e suberba, quer assumpto mais largo. Pois
+hei de dar-lh'o. Vou nada menos que a Santarem: e protesto que de quanto
+vir e ouvir, de quanto eu pensar e sentir se hade fazer chronica.
+
+Era uma idea vaga, mais desejo que tenção, que eu tinha ha muito de ir
+conhecer as riccas varzeas d'esse Ribatejo, e saudar em seu alto cume a
+mais historica e monumental das nossas villas. Aballam-me as instancias
+de um amigo, decidem-se as tonterias de um jornal, que por mexeriquice
+quiz incabeçar em designio politico determinado a minha visita.
+
+Pois por isso mesmo vou:--_pronunciei-me_.
+
+São 17 d'este mez de julho, anno de graça de 1843, uma segunda-feira,
+dia sem nota e de boa estrea. Seis horas da manham a dar em San'Paulo, e
+eu a caminhar para o Terreiro-do-Paço. Chego muito a horas, invergonhei
+os meus madrugadores dos meus companheiros de viagem, que todos se
+prezam de mais matutinos homens que eu. Ja vou quasi no fim da praça,
+quando oiço o rodar grave mas pressuroso de uma carroça _d'ancien
+règime_: é o nosso chefe e commandante, o capitão da impreza, o Sr. C.
+da T. que chega em estado.
+
+Tambem são chegados os outros companheiros: o sino dá o último rebate.
+Partimos.
+
+N'uma _regata_ de vapores o nosso barco não ganhava decerto o premio. E
+se, no andar do progresso, se chegarem a instituir alguns isthmicos ou
+olympicos para este genero de carreiras--e se para ellas houver algum
+Pindaro ancioso de correr, em strophes e antistrophes, atraz do vencedor
+que vai coroar de seus hymnos immortaes--não cabe nem um triste minguado
+epodo a este cançado corredor de Villa-nova. É um barco serio e sizudo
+que se não mette n'essas andanças.
+
+Assim vamos de todo o nosso vagar contemplando este majestoso e
+pittoresco amphitheatro de Lisboa oriental, que é, vista de fóra, a mais
+bella e grandiosa parte da cidade, a mais characteristica, e onde, aqui
+e alli, algumas raras feições se percebem, ou mais exactamente se
+adivinham, da nossa velha e boa Lisboa das chronicas. Da Fundição para
+baixo tudo é prosaico e burguez, chato, vulgar e semsabor como um
+periodo da _Deducção Chronologica_, aqui e alli assoprado n'uma
+tentativa ao grandioso do mau gôsto, como alguma oitava menos rasteira
+do _Oriente_.
+
+Assim o povo, que tem sempre melhor gôsto e mais puro do que essa escuma
+descórada que anda ao decima das populações, e que se chama a si mesma
+por excellencia a _Sociedade_, os seus passeios favoritos são a
+Madre-de-Deus e o Beato e Xabregas e Marvilla e as hortas de Chellas. A
+um lado a immensa majestade do Tejo em sua maior extensão e podêr, que
+alli mais parece um pequeno mar mediterraneo; do outro a frescura das
+hortas e a sombra das árvores, palacios, mosteiros, sitios consagrados
+todos a recordações grandes ou queridas. Que outra sahida tem Lisboa que
+se compare em belleza com ésta? Tirado Bellem, nenhuma. E ainda assim,
+Bellem é mais arido.
+
+Já saudámos Alhandra, a toireira; Villa-franca, a que foi de Xira, e
+depois da Restauração, e depois outra vez de Xira, quando a tal
+restauração cahiu, como a todas as restaurações sempre succede e hade
+succeder, em odio e execração tal que nem uma pobre villa a quiz para
+sobrenome.
+
+--'A questão não era de restaurar nem de não restaurar, mas de se livrar
+a gente de um govérno de patuscos, que é o mais odioso e ingulhoso dos
+governos possiveis.'
+
+É a reflexão com que um dos nossos companheiros de viajem accudiu ao
+princípio de ponderação que eu ia involuntariamente fazendo a respeito
+de Villa-franca.
+
+Mas eu não tenho odio nenhum a Villa-franca, nem a esse famoso cirio que
+lá foi fazer à velha monarchia. Era uma coisa que estava na ordem das
+coisas, e que por fôrça havia de succeder. Este necessario e inevitavel
+reviramento por que vai passando o mundo, hade levar muito tempo, hade
+ser contrastado por muita reacção antes de completar-se...
+
+No entretanto vamos accender os nossos charutos, e deixemos os precintos
+aristocraticos da ré: á proa, que é paiz de cigarro livre!
+
+Não me lembra que lord Byron celebrasse nunca o prazer de fummar a
+bórdo. È notavel esquecimento no poeta mais imbarcadiço, mais marujo que
+ainda houve, e que até cantou o injôo, a mais prosaica e nauseante das
+miserias da vida! Pois n'um dia d'estes, sentir na face e nos cabellos a
+brisa refrigerante que passou por cima da agua, em quanto se aspiram
+mollemente as narcoticas exhalações de um bom cigarro da Havana, é uma
+das poucas coisas sinceramente boas que ha n'este mundo.
+
+Fummemos!
+
+Aqui está um campino fummando gravemente o seu cigarro de papel, que me
+vai imprestar lume.
+
+'Dou-lh'o eu, senhor...' accode cortezmente outra figura mui diversa,
+cujas feições, trajo e modos singularmente contrastam com os do
+_musarabe_ ribatejano.
+
+Accenderam-se os charutos, e attentámos mais de vagar na companhia em
+que estavamos.
+
+Era com effeito notavel e interessante o grupo a que nos tinhamos
+chegado, e destacava pittorescamente do resto dos passageiros, mistura
+hybrida de trajos e feições descharacterizadas e vulgares--que abunda
+nos arredores de uma grande cidade maritima e commercial.--Não assim
+este grupo mais separado com que fomos topar. Constava elle de uns dôze
+homens; cinco eram d'esses famosos athletas da Alhandra que vão todos os
+domingos colher o _pulverem olympicum_ da praça de Sanct'Anna, e que, á
+voz soberana e irresistivel de: _á unha, á unha, á cernelha!_.... correm
+a arcar com mais generosos, não mais possantes, animaes que elles, ao
+som das immensas palmas, e a trôco dos raros pintos por que se manifesta
+o sempre clamoroso e sempre vazio enthusiasmo das multidões. Voltavam á
+sua terra os meus cinco luctadores ainda em trajo de praça, ainda
+esmurrados e cheios de glória da contenda da vespera. Mas aopé d'estes
+cinco e de altercação com elles--ja direi porquê--estavam seis ou sette
+homens que em tudo pareciam os seus antipodas.
+
+Emvez do calção amarello e da jaqueta de ramagem que caracterizam o
+homem do forcado, estes vestiam o amplo saiote grego dos varinos, e o
+tabardo arrequifado siciliano de panno de varas. O campino, assim como o
+saloio, tem o cunho da raça africana; estes são da familia pelasga:
+feições regulares e moveis, a fórma agil.
+
+Ora os homens do norte estavam disputando com os homens do sul: a
+questão fôra interrompida com a nossa chegada á proa do barco. Mas um
+dos Ilhavos--bella e poetica figura de homem--voltando-se para nós,
+disse n'aquelle seu tom accentuado:--'Ora aqui está quem hade decidir:
+vejam-n'os senhores. Elles, por agarrar um toiro, cuidam que são mais
+que ninguem, que não ha quem lhes chegue. E os senhores, a serem ca de
+Lisboa, hãode dizer que sim. Mas nós...'
+
+--Nenhum de nós é de Lisboa: so este senhor que aqui vem agora.
+
+Era o C. da T. que chegava.
+
+--'Este conheço eu; este é dos nossos (bradou um homem de forcado, assim
+que o viu). Isto é um fidalgo como se quer. Nunca o vi n'uma ferra, isso
+é verdade; mas aqui de Vallada a Almeirim ninguem corre mais do que elle
+por sol e por chuva, e hade saber o que é um boi de lei, e o que é lidar
+com gado.'
+
+--'Pois oiçamos lá a questão.'
+
+--'Não é questão'--tornou o Ilhavo: 'mas se este senhor fidalgo anda por
+Almeirim, para Almeirim vamos nós, que era uma charneca o outro dia, e
+hoje é um jardim, benza-o Deus!--mas não foram os campinos que o
+fizeram, foi a nossa gente que o sachou e plantou, e o fez o que é, e
+fez terra das areas da charneca.'
+
+--'Lá isso é verdade'.
+
+--'Não, não é! Que está forte habilidade fazer dar trigo aqui aos
+nateiros do Tejo, que é como quem semeia em manteiga. É uma lavoira que
+a faz Deus por sua mão, regar e adubar e tudo: e o que Deus não faz, não
+fazem elles, que nem sabem ter mão n'esses monchões c'o plantio das
+arvores: so lá por cima é que algumas teem mettido, e é bem pouco para o
+rio que é, e as riccas terras que lhes levam as inchentes.--Mas nós, pe
+no barco pe na terra, tam depressa estamos a sachar o milho na charneca,
+como vimos por ahi abaixo com a vara no peito, e o saveiro a pegar
+n'area por não haver agua... mas sempre labutando pela vida'.
+
+--'A fôrça é que se falla'--tornou o campino para estabelecer a questão
+em terreno que lhe convinha.--'A fôrça é que se falla: um homem do campo
+que se deita alli á cernelha de um toiro que uma companha inteira de
+varinos lhe não pegava, com perdão dos senhores pelo rabo!..'
+
+E reforçou o argumento com uma gargalhada triumphante, que achou echo
+nos interessados circumstantes que ja se tinham apinhado a ouvir os
+debates.
+
+Os Ilhavos ficaram um tanto abatidos; sem perderem a consciencia da sua
+superioridade, mas acanhados pela algazarra.
+
+Parecia a esquerda de um parlamento quando ve sumir-se, no borburinho
+acintoso das turbas ministeriaes, as melhores phrases e as mais fortes
+razões dos seus oradores.
+
+Mas o orador ilhavo não era homem de se dar assim por derrotado. Olhou
+para os seus, como quem os consultava e animava, com um gesto
+expressivo, e voltando-se a nós, com a direita estendida aos seus
+antagonistas:
+
+--'Então agora como é de fôrça, quero eu saber, e estes senhores que
+digam, qual é que tem mais fôrça, se é um toiro ou se é o mar'.
+
+--'Essa agora!..'
+
+--'Queriamos saber'.
+
+--'É o mar'.
+
+--'Pois nós que brigâmos com o mar, oito e dez dias a fio n'uma
+tormenta, de Aveiro a Lisboa, e estes que brigam uma tarde com um toiro,
+qual é que tem mais fôrça?'
+
+Os campinos ficaram cabisbaixos; o publico imparcial applaudiu por ésta
+vez a opposição, e o Vouga triumphou do Tejo.
+
+
+
+
+CAPITULO II.
+
+
+ Declaram-se typicas, symbolicas e mythicas éstas viagens. Faz o A.
+ modestamente o seu proprio elogio. Da marcha da civilização; e
+ mostra-se como ella é dirigida pelo cavalleiro da Mancha D.
+ Quixote, e por seu escudeiro Sancho Pança.--Chegada a
+ Villa-Nova-da-Rainha, Supplicio de Tantalo.--A virtude galardão de
+ si mesma; e sophisma de Jeremias Bentham.--Azambuja.
+
+
+Éstas minhas interessantes viagens hãode ser uma obra prima, erudita,
+brilhante de pensamentos novos, uma coisa digna do seculo. Preciso de o
+dizer ao leitor, paraque elle esteja previnido; não cuide que são
+quaesquer d'essas rabiscaduras da moda que, com o titulo de _Impressões
+de Viagem_, ou outro que tal, fatigam as imprensas da Europa sem nenhum
+proveito da sciencia e do adiantamento da especie.
+
+Primeiro que tudo, a minha obra é um symbolo... é um mytho, palavra
+grega, e de moda germanica, que se mette hoje em tudo e com que se
+explica tudo... quanto se não sabe explicar.
+
+É um mytho porque--porque... Ja agora rasgo o veo, e declaro abertamente
+ao benevolo leitor a profunda idea que está occulta debaixo d'esta
+ligeira apparencia de uma viagemzita que parece feita a brincar, e no
+fim de contas é uma coisa séria, grave, pensada com um livro novo da
+feira de Leipsick, não das taes brochurinhas dos _boulevards_ de Paris.
+
+Houve aqui ha annos um profundo e cavo philosopho d'alêm Rheno, que
+escreveu uma obra sôbre a marcha da civilização, do intellecto--o que
+diriamos, para nos intenderem todos melhor, _o Progresso_. Descobriu
+elle que ha dois principios no mundo: o _espiritualista_, que marcha sem
+attender á parte material e terrena d'esta vida, com os olhos fittos em
+suas grandes e abstractas theorias, hirto, sêcco, duro, inflexivel, e
+que póde bem personalizar-se, symbolizar-se pelo famoso mytho do
+cavalleiro da Mancha, D. Quixote;--o _materialista_, que, sem fazer caso
+nem cabedal d'essas theorias, em que não crè, e cujas impossiveis
+applicações declara todas utopias, póde bem representar-se pela rotunda
+e anafada presença do nosso amigo velho, Sancho Pança.
+
+Mas, como na historia do malicioso Cervantes, estes dois principios tam
+avessos, tam desincontrados, andam comtudo junctos sempre; ora um mais
+atraz, ora outro mais adiante, impecendo-se muitas vezes, coadjuvando-se
+poucas, mas _progredindo_ sempre.
+
+E aqui está o que é possivel ao progresso humano.
+
+E eisaqui a chronica do passado, a historia do presente, o programma do
+futuro.
+
+Hoje o mundo é uma vasta Barataria, em que domina elrei Sancho.
+
+Depois hade vir D. Quixote.
+
+O senso commum virá para o millenio: reinado dos filhos de Deus! Está
+promettido nas divinas promessas... como elrei de Prussia prometteu uma
+constituição; e não faltou ainda, porque--porque o contracto não tem
+dia; prometteu mas não disse para quando.
+
+Ora n'esta minha viagem Tejo-a-riba está symbolizada a marcha do nosso
+progresso social: espero que o leitor intendesse agora. Tomarei cuidado
+de lh'o lembrar de vez em quando, porque receio muito que se esqueça.
+
+Somos chegados ao triste desimbarcadoiro de Villa-Nova-da-Rainha, que é
+o mais feio pedaço de terra alluvial em que ainda poisei os meus pés. O
+sol arde como ainda não ardeu este anno.
+
+Um immenso arraial de caleças, de machinhos, de burros e arrieiros, nos
+espera n'aquelle descampado africano. É forçoso optar entre os dois
+martyrios da caleça ou do macho. Do mal o menos... seja este.
+
+E acolá--oh supplício de Tantalo!--vejo duas possantes e nedeas mulas
+castelhanas jungidas a um vehiculo que, n'estas paragens e ao pé
+d'aquell'outros, me parece mais esplendido do que um landaw de
+Hyde-Park, mais elegante que um caleche de Long-champs, mais commodo e
+elastico do que o mais acrio briska da princeza Hellena. E com tudo--oh
+magico podêr das situações!--elle não é senão, uma substancial e bem
+apessoada traquitana de cortinas.
+
+Togados manes dos antigos desimbargadores, venerandas cabelleiras de
+anneis e castanhola, que direis, ó respeitadas sombras, se d'esse limbo
+onde estais esperando pela resurreição do Pêgas... e do livro
+quinto--vêdes este degenerado e espurio successor vosso, em calças
+largas, frak verde, chapeu branco, gravata de côr, chicotinho de
+caoutchouc na mão, prompto a cavalgar em mulinha de Palito-Metrico como
+um garraio estudantinho do segundo anno, e deitando olhos invejosos para
+esse natural, proprio e adscripticio modo de conducção desimbargatoria?
+Oh que direis vós! Com que justo desprêzo não olhareis para tanta
+degradação e derogação!
+
+Eu commungava silenciosamente commigo n'estas graves meditações, e
+revolvia incertamente no ânimo a ponderosa dúvida:--se o administrar
+justiça direita aos povos valia a pena de andar um desimbargador a
+pé!... Luctava no meu ser o Sancho Pança da carne com o D. Quixote do
+espirito--quando a Providencia, que nos maiores apertos e tentações nos
+não abandona nunca, me trouxe a generosa offerta de um amigo e
+companheiro do vapor, o Sr. L. S.: era sua a invejada carroça, e n'ella
+me deu logar até á Azambuja.
+
+A virtude é o galardão de si mesma, disse um philosopho antigo; e eu não
+creio no famoso ditto de Bentham, que sabedoria antiga seja um sophisma.
+O mais moderno é o mais velho, não ha dúvida; mas o antigo que dura
+ainda, é porque tem achado na experiencia a confirmação que o moderno
+não tem. Jeremias Bentham tambem fazia o seu sophisma como qualquer
+outro.
+
+Vamos percorrendo lentamente aquelle mal-composto marachão que poucos
+palmos se eleva do nivel baixo e salgadiço do solo: de hynverno não se
+passará sem perigo; ainda agora se não anda sem incómmodo e receio.
+Estamos em Villa-Nova e ás portas do nojento caravanseray, unico asylo
+do viajante n'esta, hoje, a mais frequentada das estradas do reino.
+
+Parece-me estar mais deserto e sujo, mais abandonado e em ruinas este
+asqueroso logarejo, desde que alli aopé tem a estação dos vapôres, que
+são a commodidade, a vida, a alma do Ribatéjo. Imagino que uma aldeia de
+Alarves nas faldas do Atlas deve ser mais limpa e commoda.
+
+Oh! Sancho, Sancho, nem siquer tu reinarás entre nós! Cahiu o carunchoso
+throno de teu predecessor, antagonista e ás vezes amo; açoitaram-te
+essas nadegas para desincantar a formosa _del Toboso_, proclamaram-te
+depois rei em _Barataria_, e n'esta tua provincia lusitana nem o
+paternal govêrno de teu estupido materialismo póde estabelecer-se para
+commodo e salvação do corpo; ja que a alma... oh! a alma...
+
+Fallemos n'outra coisa.
+
+Fujamos depressa d'este monturo.--É monótona, arida e sem frescura de
+árvores a estrada: apenas alguma rara oliveira mal-medrada, a longos e
+desiguaes espaços, mostra o seu tronco rachitico e braços contorcidos,
+ornados de ramusculos doentes, em que o natural verde-alvo das folhas é
+mais alvacento e desbotado que o costume. O solo porêm, com raras
+excepções, é optimo, e a trôco de pouco trabalho e insignificante
+despeza, daria uma estrada tam boa como as melhores da Europa.
+
+Dizia um secretario d'Estado meu amigo que para se repartir com
+egualdade o melhoramento das ruas por toda Lisboa, deviam ser obrigados
+os ministros a mudar de rua e bairro todos os tres mezes. Quando se
+fizer a lei de responsabilidade ministerial, para as kalendas gregas, eu
+heide propor que cada ministro seja obrigado a viajar por este seu reino
+de Portugal ao menos uma vez cada anno, como a desobriga.
+
+Ahi está a Azambuja, pequena mas não triste povoação, com visiveis
+signaes de vida, aceadas e com ar de confôrto as suas casas. É a
+primeira povoação que dá indicio de estarmos nas ferteis margens do Nilo
+portuguez.
+
+Corrémos a apear-nos no elegante estabelecimento que ao mesmo tempo
+cumulla as tres distinctas funcções, de _hotel, de restaurant e de café_
+da terra.
+
+Sancto Deus! que bruxa que está á porta! que antro lá dentro!... Cai-me
+a penna da mão.
+
+
+
+
+CAPITULO III.
+
+
+ Acha-se desappontado o leitor com a prosaica sinceridade do A.
+ d'estas viagens. O que devia ser uma estalagem nas nossas eras de
+ litteratura romantica?--Suspende-se o exame d'esta grave questão
+ para tractar, em prosa e verso, um mui difficil ponto de
+ economia-politica e de moral social.--Quantas almas é preciso dar
+ ao diabo, e quantos corpos se teem de intregar no cemiterio para
+ fazer um ricco n'este mundo.--Como se veio a descobrir que a
+ sciencia d'este seculo era uma grandessissima tola.--Rei de facto,
+ e rei de direito.--Belleza e mentira não cabem n'um sacco.--Põe-se
+ o A. a caminho para o pinhal da Azambuja.
+
+
+Vou _desappontar_ decerto o leitor benevolo; vou perder, pela minha
+fatal sinceridade, quanto em seu conceito tinha adquirido nos dois
+primeiros capitulos d'esta interessante viagem.
+
+Pois que esperava elle de mim agora, de mim que ousei declarar-me
+escriptor n'estas eras de romantismo, seculo das fortes sensações, das
+descripções a traços largos e _incisivos_ que se intalham n'alma e
+entram com sangue no coração?
+
+No fim do capitulo precedente parámos á porta de uma estalagem: que
+estalagem deve ser ésta, hoje no anno de 1843, ás barbas de Victor Hugo,
+com o Doutor Fausto a trotar na cabeça da gente, com os _Mysterios de
+Paris_ nas mãos de todo o mundo?
+
+Ha paladar que supporte hoje a classica _posada_ do Cervantes com o seu
+_mesonero_ gordo e grave, as pulhas dos seus arrieiros, e o mantear de
+algum pobre lorpa de algum Sancho! Sancho, o invisivel rei do seculo,
+aquelle _por quem hoje os reis reinam e os fazedores de leis decretam e
+afferem o justo!_ Sancho manteado por vis muleteiros! Não é da epocha.
+
+ Eu coroarei de trevo a minha espada,
+ De cenoiras, luzerna e betarrava,
+ Para cantar Harmódios e Aristógilons,
+ Que do tyranno jugo vos livraram
+ Da sciencia velha, inutil carunchosa,
+ Que elevava da terra, erguia, alçava
+ O que no homem ha de Ser divino,
+ E para os grandes feitos e virtudes
+ Lhe despegava o espirito da carne...
+
+Não: plantae batatas, ó geração de vapor e de pó de pedra, macadamisae
+estradas, fazei caminhos de ferro, construí passarolas de Icaro, para
+andar a qual mais depressa, éstas horas contadas de uma vida toda
+material, massuda e grossa como tendes feito ésta que Deus nos deu tam
+differente do que a hoje vivemos. Andae, ganha-pães, andae; reduzi tudo
+a cifras, todas as considerações d'este mundo a equações de interêsse
+corporal, comprae, vendei, agiotae.--No fim de tudo isto, o que lucrou a
+especie humana? Que ha mais umas poucas de duzias de homens riccos. E eu
+pergunto aos economistas-politicos, aos moralistas, se ja calcularam o
+número de individuos que é forçoso condemnar á miseria, ao trabalho
+desproporcionado, á desmoralização, á infamia, á ignorancia crapulosa, á
+desgraça invencivel, á penuria absoluta, para produzir um ricco?--Que
+lh'o digam no Parlamento inglez, onde, depois de tantas commissões de
+inquérito, ja deve de andar orçado o número de almas que é preciso
+vender ao diabo, o número de corpos que se tem de intregar antes do
+tempo ao cemiterio para fazer um tecelão ricco e fidalgo como Sir Robert
+Peel, um mineiro, um banqueiro, um grangeeiro--seja o que for: cada
+homem ricco, abastado, custa centos de infelizes, de miseraveis.
+
+Logo a nação mais feliz não é a mais ricca. Logo o princípio utilitario
+é a _mamona_ da injustiça e da reprovação. Logo...
+
+ There are more things in heaven and earth, Horatio,
+ Than are dreamt of in your philosophy.
+
+A sciencia d'este seculo é uma grandessissima tola.
+
+E como tal, presumpçosa e cheia do orgulho dos nescios.
+
+...........................................................................
+...........................................................................
+...........................................................................
+
+Vamos á descripção da estalagem. Não póde ser classica; assoviam-me
+todos esses rapazes de pera, bigode e charuto, que fazem litteratura
+cava e funda desde a porta do Marrare até ao café de Moscow...
+
+Mas aqui é que me apparece uma incoherencia inexplicavel. A sociedade é
+materialista; e a litteratura, que é a expressão da sociedade, é toda
+excessivamente e absurdamente e despropositadamente espiritualista!
+Sancho rei de facto, Quixote rei de direito!
+
+Pois é assim; e explica-se.--É a litteratura que é uma hypocrita: tem
+religião nos versos, charidade nos romances, fé nos artigos de
+jornal--como os que dão esmolas para pôr no _Diario_, que amparam
+orphans na _Gazeta_, e sustentam viuvas nos cartazes dos theatros.
+
+E fallam no Evangelho! Deve ser por escarneo. Se o leem, hãode ver lá
+que nem a esquerda deve saber o que faz a direita...
+
+Vamos á descripção da estalagem; e acabemos com tanta digressão.
+
+Não póde ser classica, está visto, a tal descripção.--Seja
+romantica.--Tambem não póde ser. Porque não? É pôr-lhe lá um
+_Chourineur_ a amolar um facão de palmo e meio para espatifar rez e
+homem, quanto incontrar,--uma _Fleur-de-Marie_ para dizer e fazer
+pieguices com uma rozeirinha pequenina, bonitinha, que morreu,
+coitadinha!--e um principe allemão incoberto, forte no sôcco britannico,
+immenso em libras sterlinas, profundo em gyria de cegos e ladrões... e
+ahi fica a Azambuja com uma estalagem que não tem que invejar á mais
+pintada e da moda n'este seculo elegante, delicado, verdadeiro, natural!
+
+É como eu devia fazer a descripção: bem o sei. Mas ha um impedimento
+fatal, invencivel--egual ao d'aquella famosa salva que se não deu... é
+que nada d'isso lá havia.
+
+E eu não quero calumniar a boa gente da Azambuja. Que me não leam os
+taes, porque eu heide viver e morrer na fé de Boileau:
+
+ Rien n'est beau que le vrai.
+
+Ja se diz ha muito anno que honra e proveito não cabem n'um sacco; eu
+digo que belleza e mentira tambem lá não cabem: e é a mais portugueza
+traducção que creio que se possa fazer d'aquelle ímmortal e evangelico
+hemystichio. A maior parte das bellezas da litteratura actual fazem-me
+lembrar aquellas formosuras que tentavam os sanctos eremitas na
+Thebaida. O pobre de Sancto Antão ou de S. Pacomio (Pacomio é melhor
+aqui) ficavam imbasbacados ao princípio; mas dava-lhe o coração uma
+pancada, olhavam-lhe para os pés...--Cruzes maldicto! Os pés não podia
+elle incobrir. E ao primeiro _abrenuntio_ do sancto, dissipava-se a
+belleza em muito fummo de inxofre, e ficava o diabo negro feio e cabrum
+como quem é, e sempre foi o pae da mentira.
+
+Nada, nada, verdade e mais verdade. Na estalagem da Azambuja o que havia
+era uma pobre velha a quem eu chamei bruxa, porque emfim que havia de eu
+chamar á velha suja e maltrapida que estava á porta d'aquella asquerosa
+casa?
+
+Havia lá ésta velha, com a sua môça mais môça mas não menos nojenta de
+ver que ella, e um velho meio paralytico meio demente que alli estava
+para um canto com todo o geito e traça de quem vem folgar agora na
+taberna porque ja bebeu o que havia de beber n'ella.
+
+Matava-nos a sêde; mas a agua alli é beber quartans. O vinho era atroz.
+Limonada? Não ha limões nem assucar.--Mandou-se um proprio á tenda no
+fim da villa. Vieram tres limões que me pareceram de uns que pendiam,
+quando eu vinha a férias, á porta do famoso botequim de Leiria.
+
+O assucar podia servir na última scena de M. de Pourceaugnac muito
+melhor que n'uma limonada. Mas misturou-se tudo com a agua das sezões,
+bebémos, pozemo-nos em marcha, e até agora não nos fez mal, com ser a
+mais abominavel, antipathica e suja beberagem que se póde imaginar.
+
+Caminhámos na mesma ordem até chegar ao famoso pinhal da Azambuja.
+
+
+
+
+CAPITULO IV.
+
+
+ De como o A. foi pensando e divagando, e em que pensava e divagava
+ elle, no caminho da villa da Azambuja até o famoso pinhal do mesmo
+ nome.--Do poeta grego e philosopho Démades, e do poeta e philosopho
+ inglez Addison, da casaca de penneiros e do palio atheniense, e de
+ outros importantes assumptos em que o A. quiz mostrar a sua
+ profunda erudição.--Discute-se a materia gravissima se é necessario
+ que um ministro d'estado seja ignorante e leigarraz.--Admiraveis
+ reflexões de zigzag em que se tracta de _re politica_ e de _re
+ amatoria_.--Descobre-se porfim que o A. estivera a sonhar em todo
+ este capitulo, e pede-se ao leitor benevolo que volte a folha e
+ passe ao seguinte.
+
+
+Eu darei sempre o primeiro logar á modestia entre todas as bellas
+qualidades.--Ainda sôbre a innocencia?--Ainda sim. A innocencia basta
+uma falta para a perder, da modestia so culpas graves, so crimes
+verdadeiros podem privar. Um accidente, um acaso podem destruir aquella,
+a ésta so uma acção propria, determinada e voluntaria.
+
+Bem me lembram ainda os dois versos do poeta Démades que são forte
+argumento de auctoridade contra a minha theoria; cuidei que tinha mais
+infeliz memoria. Heide pô-los aqui para que não falte a ésta grande obra
+das minhas viagens o merito da erudição, e lhe não chamem livrinho da
+moda: estou resolvido a fazer a minha reputação com este livro.
+
+ Aid ôs te kalle ka aretês polis,
+ Prôtoê sgathis hamartia deuteron de ais chunê.
+
+ Da belleza e virtude é a cidadella
+ A innocencia primeiro--e depois ella.
+
+Mas a auctoridade responde-se com auctoridade, e a texto com texto. E eu
+trago aqui na algibeira o meu Addison--um dos poucos livros que não
+largo nunca--e atiro com o philosopho inglez ao philosopho grego e fico
+triumphante: porque Addison não põe nada acima da modestia; e Addison,
+apezar da sua casaca de penneiros, é muito maior philosopho do que foi
+Démades com a sua tunica e o seu palio atheniense.
+
+O erudito e amavel leitor escapará d'ésta vez a mais citações: compre um
+_Spectator_, que é livro sem que se não póde estar, e veja _passim_.
+
+Eu gósto, bem se ve, de ir ao incôntro das objecções que me podem fazer;
+lembro-as eu mesmo paraque depois me não digam:--'Ah, ah! vinha a ver se
+pegava!'--Não senhor, não é o meu genero esse.
+
+Francamente pois... eis-ahi o que poderão dizer:--'Addison foi
+secretario d'Estado, e então...'--Então o quê? Não concebem um
+secretario d'Estado philosopho, um ministro poeta, escriptor elegante,
+cheio de graça e de talento? Não, bem vejo que não: teem a idea fixa de
+que um ministro d'Estado hade ser por fôrça algum semsaborão, malcriado
+e petulante. Mas isto é nos paizes adiantados em que ja é indifferente
+para a coisa-pública, em que povo nem principe lhes não importa ja, em
+que mãos se intregam, a que cabeças se confiam. Em Inglaterra não é
+assim, nem era assim no tempo de Addison. Fossem lá á rainha Anna que
+deixasse entrar no seu gabinete quatro calças de coiro sem criação nem
+instrucção, e não mais senão so porque este sabía jogar nos fundos,
+aquelle tinha boas tretas para o _canvassing_ de umas eleições, o outro
+era figura importante no _Freemasson's-hall_!
+
+Ja se ve que em nada d'isto ha a minima allusão ao feliz systema que nos
+rege: estou fallando de modestia, e nós vivemos em Portugal.
+
+A modestia comtudo quando é excessiva e se aproxima do acanhamento, do
+que no mundo se chama _falta de uso_--póde ser n'um homem quasi defeito
+inteiro. Na mulher é sempre virtude, realce de belleza ás formosas,
+disfarce de fealdade ás que o não são.
+
+Por mim, não conheço objecto mais lindo em toda a natureza, mais
+feiticeiro, mais capaz de arrebatar o espirito e inflammar o coração do
+que é uma joven donzella quando a modestia lhe faz subir o rubor ás
+faces, e o pejo lhe carrega brandamente nas palpebras... Pouco lume que
+tenha nos olhos, pouco regular que seja o semblante, menos airosa que
+seja a figura, parecer-vos-ha n'esse momento um anjo. E anjo é a virgem
+modesta, que traz no rosto debuxado sempre um ceo de virtudes...--De
+alguma belleza sei eu cujos olhos _côr da noite_ ou de _saphyra_
+(_dialec. poet. vet._), cujas faces de _leite e rosas_, dentes de
+_pérolas_, collo de _marfim_, transas de _ebano_ (a allusão é surtida,
+ha onde escolher) davam larga materia a boas grozas de sonetos--no
+antigo regimen dos sonetos, e hoje inspirariam myriadas de canções
+descabelladas e vaporosas, choradas na harpa ou gemidas no alahude.
+Comtanto que não seja lyra, que é classico, todo o instrumento,
+inclusivamente a bandurra, é egual deante da lei romantica.
+
+Ora pois, mas a tal belleza, por certo ar ala-moda, certo não-sei-quê de
+atrevido nos olhos, de deslavado na cara, e de descomposto nos ademanes,
+perde toda a graça e quasi a propria formosura de que a dotára a
+natureza...
+
+Vêde-me aquelles labios de carmim. Ha maio florido que tam lindo botão
+de rosa apresente ao alvorecer da madrugada?... Mas olhae agora como o
+riso da malicia lh'o desfolha tam feiamente n'uma desconcertada
+risada...
+
+Desvaneceu-se o prestigio.
+
+Não havia moço nem velho, homem do mundo ou sabio de gabinete que não
+désse metade dos seus prazeres, dos seus livros, da sua vida por um so
+beijo d'aquella bôcca... Agora talvez nem repetidos _avances_ lhe façam
+obter um namorante de profissão e officio... E hade pagá-lo adeantado, e
+porque preço!...
+
+...........................................................................
+...........................................................................
+
+Mas o que terá tudo isto com a jornada da Azambuja ao Cartaxo? A mais
+íntima e verdadeira relação que é possivel. É que a pensar ou a sonhar
+n'estas coisas fui eu todo o caminho, até me achar no meio do pinhal da
+Azambuja.
+
+Ahi parámos, e acordei eu.
+
+Sou sujeito a éstas distracções, a este sonhar acordado. Que lhe heide
+eu fazer? Andando, escrevendo, sonho e ando, sonho e fallo, sonho e
+escrevo. Francamente me confesso de somnambulo, de somniloquo, de...
+Não, fica melhor com seu ar de grego (tenho hoje a bossa hellenica n'um
+estado de tumescencia pasmosa!); digamos somnilogo, somnigrapho...
+
+A minha opinião sincera e _conscienciosa_ é que o leitor deve saltar
+éstas folhas, e passar ao capitulo seguinte, que é outra casta de
+capitulo.
+
+
+
+
+CAPITULO V.
+
+
+ Chega o A. ao pinhal da Azambuja, e não o acha. Trabalha-se por
+ explicar este phenomeno pasmoso. Bello rasgo de stylo
+ romantico.--Receita para fazer litteratura original com pouco
+ trabalho.--Transição classica: Orpheu e o bosque do Ménalo.--Desce
+ o A. d'estas grandes e sublimes considerações para as realidades
+ materiaes da vida: é desamparado pela hospitaleira traquitana e tem
+ de cavalgar na triste mula de arrieiro.--Admiravel choito do
+ animal. Memorias do marquez do F. que adorava o choito.
+
+
+Este é que é o pinhal da Azambuja?
+
+Não póde ser.
+
+Ésta, aquella antiga selva, temida quasi religiosamente como um bosque
+druidico! E eu que, em pequeno, nunca ouvia contar historia de Pedro de
+Mallas-artes, que logo, em imaginação, lhe não pozesse a scena aqui
+perto!... Eu que esperava topar a cada passo com a cova do capitão
+Roldão e da dama Leonarda!... Oh! que ainda me faltava perder mais ésta
+illusão...
+
+Por quantas maldicções e infernos adornam o stylo d'um verdadeiro
+escriptor romantico, digam-me, digam-me: onde estão os arvoredos
+fechados, os sitios medonhos d'esta espessura. Pois isto é possivel,
+pois o pinhal da Azambuja é isto?... Eu que os trazia _promptos e
+recortados_ para os collocar aqui todos os amaveis salteadores de
+Schiller, e os elegantes facinorosos do _Auberge-des-Adrets_, eu heide
+perder os meus chefes-d'obra! Que é perdê-los isto--não ter onde os
+pôr!..
+
+Sim, leitor benevolo, e por ésta occasião te vou explicar como nós hoje
+em dia fazemos a nossa litteratura. Ja me não importa guardar segredo,
+depois d'esta desgraça não me importa ja nada. Saberás pois, ó leitor,
+como nós outros fazemos o que te fazemos ler.
+
+Tracta-se de um romance, de um drama--cuidas que vamos estudar a
+historia, a natureza, os monumentos, as pinturas, os sepulchros, os
+edificios, as memorias da epocha? Não seja pateta, senhor leitor, nem
+cuide que nós o somos. Desenhar characteres e situações do _vivo_ da
+natureza, collori-los das côres verdadeiras da historia... isso é
+trabalho difficil, longo, delicado, exige um estudo, um talento, e
+sôbretudo um tacto!... Não senhor: a coisa faz-se muito mais facilmente.
+Eu lhe explico.
+
+Todo o drama e todo o romance precisa de:
+
+Uma ou duas damas,
+
+Um pae,
+
+Dois ou tres filhos, de dezanove a trinta annos,
+
+Um criado velho,
+
+Um monstro, incarregado de fazer as maldades,
+
+Varios tractantes, e algumas pessoas capazes para intermedios.
+
+Ora bem; vai-se aos figurinos francezes de Dumas, de Eug. Sue, de
+Victor-Hugo, e _recorta_ a gente, de cadaum d'elles, as figuras que
+precisa, gruda-as sôbre uma folha de papel da côr da moda, verde, pardo,
+azul--como fazem as raparigas inglezas aos seus albums e scrapbooks;
+fórma com ellas os grupos e situações que lhe parece; não importa que
+sejam mais ou menos disparatados. Depois vai-se ás chronicas, tiram-se
+uns poucos de nomes e de palavrões velhos; com os nomes chrismam-se os
+figurões, com os palavrões _illuminam-se_... (stylo de pintor
+pinta-monos).--E aqui está como nós fazemos a nossa litteratura
+original.
+
+E aqui está o precioso trabalho que eu agora perdi!
+
+Isto não póde ser! Uns poucos de pinheiros raros e infezados atravez dos
+quaes se estão quasi vendo as vinhas e olivedos circumstantes!.. É o
+desapontamento mais chapado e solemne que nunca tive na minha vida--uma
+verdadeira logração em boa e antiga phrase portugueza.
+
+E comtudo aqui é que devia ser, aqui é que é, geographica e
+topographicamente fallando, o bem conhecido e confrontado sitio do
+pinhal da Azambuja...
+
+Passaria por aqui algum Orpheu que, pelos magicos podêres da sua lyra,
+levasse atraz de si as árvores d'este antigo e classico Menalo dos
+salteadores lusitanos?
+
+Eu não sou muito difficil em admittir prodigios quando não sei explicar
+os phenomenos por outro modo. O pinhal da Azambuja mudou-se. Qual, de
+entre tantos Orpheus que a gente por ahi ve e ouve, foi o que obrou a
+maravilha, isso é mais difficil de dizer. Elles são tantos, e cantam
+todos tão bem! Quem sabe? Juntar-se-hiam, fariam uma companhia por
+acções, e negociariam um emprestimo harmonico com que facilmente se
+obraria então o milagre. É como hoje se faz tudo; é como se passou o
+thesoiro para o banco, o banco para as companhias de confiança... porque
+se não faria o mesmo com o pinhal da Azambuja?
+
+Mas aonde está elle então? faz favor de me dizer...
+
+Sim senhor, digo: _está consolidado_. E se não sabe o que isto quer
+dizer, leia os orçamentos, veja a lista dos tributos, passe pelos olhos
+os votos de confiança; e se depois d'isto, não souber aonde e como _se
+consolidou_ o pinhal d'Azambuja, abandone a geographia que visivelmente
+não é a sua especialidade, e deite-se a finança, que tem
+_bossa_;--fazemo-lo eleger ahi por Arcozello ou pela cidade eterna--é o
+mesmo--vai para a commissão de fazenda--depois lord do thesoiro,
+ministro: é _escalla_, não offendia nem a rabujenta constituição de 38,
+quanto mais a carta........................................................
+...........................................................................
+
+O peior é que no meio d'estes campos onde Troia fôra, no meio d'estas
+areias onde se acoitavam d'antes os pallidos medos do pinhal da
+Azambuja, a minha querida e bemfazeja traquitana abandonou-me; fiquei
+como o bom _Xavier de Maistre_ quando, a meia jornada do seu quarto, lhe
+perdeu a cadeira o equilibrio, e elle cahiu--ou ia caindo, ja me não
+lembro bem--estatellado no chão.
+
+Ao chão estive eu para me atirar, como criança amuada, quando vi voltar
+para a Azambuja o nosso commodo vehiculo, e deante de mim a infezada
+mulinha asneira que--ai triste!--tinha de ser o meu transporte d'alli
+até Santarem.
+
+Emfim o que hade ser, hade ser, e tem muita fôrça. Consolado com este
+tam verdadeiro quanto _elegante_ proverbio, levantei o ânimo á altura da
+situação e resolvi fazer próva de homem forte e supportador de
+trabalhos. Bifurquei-me resignadamente sôbre o cilicio do esfarrapado
+albardão, tomei na esquerda as impermeaveis redeas de coiro cru, e
+lancei o animalejo ao seu mais largo trote, que era um confortavel e
+amenissimo choito, digno de fazer as delicias do meu respeitavel e
+excentrico amigo, o marquez do F.
+
+Tinha a bossa, a paixão, a mania, a furia de choitar aquelle notavel
+fidalgo--o último fidalgo homem de lettras que deu ésta terra. Mas
+adorava o choito o nobre marquez. Conheci-o em París nos ultimos tempos
+da sua vida, ja octogenario ou perto d'isso: deixava a sua carruagem
+ingleza toda mollas e confortos para ir passear n'um certo cabriolet de
+praça que elle tinha marcado pelo sêcco e duro movimento vertical com
+que sacudia a gente. Obrigou-me um dia a experimenta-lo: era admiravel.
+Communicava-se da velha horsa normanda aos varaes, e dos varaes á concha
+do carro, tam inteiro e tam sem diminuição, o choito do execravel
+Babiéca! Nunca vi coisa assim. O marquez achava-lhe propriedades
+toni-purgativos, eu classifiquei-o de violentissimo drastico.
+
+Foi um dos homens mais extraordinarios e o portuguez mais notavel que
+tenho conhecido, aquelle fidalgo.
+
+Era feio como o peccado, elegante como um bugio, e as mulheres
+adoravam-n'o. Filho segundo, vivia de seus ordenados nas missões por que
+sempre andou, tractava-se grandiosamente, e legou valores consideraveis
+por sua morte. Imprimia uma obra sua, mandava tirar um unico exemplar,
+guardava-o e desmanchava as fòrmas....--Não acabo se coméço a contar
+historias do marquez do F.
+
+Piquemos para o Cartaxo, que são horas.
+
+
+
+
+CAPITULO VI.
+
+
+ Próva-se como o velho Camões não teve outro remedio senão misturar
+ o maravilhoso da mythologia com o do christianismo.--Da-se razão, e
+ tira-se depois, ao padre José Agostinho.--No meio d'estas
+ disceptações academico-litterarias vem o A. a descobrir que para
+ tudo é preciso ter fé n'este mundo. Diz-se _n'este mundo_, porque,
+ quanto ao outro ja era sabido.--Os Lusíadas, Fausto e a
+ Divina-Comedia.--Desgraça do Camões em ter nascido antes do
+ romantismo.--Mostra-se como a Styge e o Cocyto sempre são melhores
+ sitios que o Inferno e o Purgatorio.--Vai o A. em procura do
+ marquez de Pombal, e dá com elle nas ilhas Beatas do poeta
+ Alceu.--Partida de Whist entre os illustres finados.--Compaixão do
+ marquez pelos pobres homens de Ricardo Smith e J. B. Say.--Resposta
+ d'elle e da sua luneta ás perguntas peralvilhas do A.--Chegada a
+ este mundo e ao Cartaxo.
+
+
+O mais notavel, e não sei se diga, se continuarei aomenos a dizer, o
+mais indesculpavel defeito que até aqui esgravataram criticos e zoilos
+na Iliada dos povos modernos, os immortaes _Lusiadas_, é sem-dúvida a
+heterogenea e heterodoxa mistura da theologia com a mythologia, do
+maravilhoso allegorico do paganismo, com os graves symbolos do
+christianismo. A fallar a verdade, e por mais figas que a gente queira
+fazer ao padre José Agustinho--ainda assim! ver o padre Baccho revestido
+_in pontificalibus_ deante de um retabulo, não me lembra de que sancto,
+dizendo o seu _dominus vobiscum_ provavelmente a algum acholyto
+bacchante ou corybante, que lhe responde o _et cum spiritu tuo!_.. não
+se póde; é uma que realmente... E então aquelle famoso conceito com que
+elle acaba, digno da Phenix-Renascida:
+
+ O falso deus adora o verdadeiro!
+
+Desde que me intendo, que leio, que admiro os Lusiadas; interneço-me,
+chóro, insuberbeço-me com a maior obra de ingenho que ainda appareceu no
+mundo, desde a _Divina-Comedia_ até ao _Fausto_...
+
+O italiano tinha fé em Deus, o allemão no scepticismo, o portuguez na
+sua patria. É preciso crer em alguma coisa para ser grande--não so
+poeta--grande seja no que for. Uma Brizida velha que eu tive, quando era
+pequeno, era famosa chronista de historias da carochinha, porque
+sinceramente cria em bruxas. Napoleão cria na sua estrella, Lafayette
+creu na republica-rei de Luiz-Philippe; e, para que ousemos tambem
+_celebrare domestica facta_, todos os nossos grandes homens ainda hoje
+creem, um na juncta do crédito, outro nas classes inactivas, outro no
+mestre Adonirão, outro finalmente na belleza e realidade do systema
+constitucional que felizmente nos rege.
+
+Mas essas crenças são para os que se fizeram grandes com ellas. A um
+pobre homem o que lhe fica para crer? Eu, apezar dos criticos, ainda
+creio no nosso Camões: sempre cri.
+
+E comtudo, desde a edade da innocencia em que tanto me divertiam
+aquellas batalhas, aquellas aventuras, aquellas historias d'amores,
+aquellas scenas todas, tam naturaes, tam bem pintadas--até ésta fatal
+edade da experiencia, edade prosaica em que as mais bellas creações do
+espirito parecem macaquices deante das realidades do mundo, e os nobres
+movimentos do coração chymeras de enthusiastas--até ésta edade de
+saudades do passado e esperanças no futuro, mas sem gosos no
+presente--em que o amor da patria (tambem isto será phantasmagoria?), e
+o sentimento intimo do _bello_ me dão na leitura dos Lusiadas outro
+deleite diverso, mas não inferior ao que n'outro tempo me deram--eu
+senti sempre aquelle grande defeito do nosso grande poema: e nunca pude,
+por mais que buscasse, achar-lhe, justificação não digo--nem siquer
+desculpa.
+
+Mas até morrer aprender, diz o adagio: e assim é. E tambem é aphorismo
+de moral, applicavel outrosim a coisas litterarias: que para a gente
+achar a desculpa aos defeitos alheios, é considerar--é pôr-se uma pessoa
+nas mesmas circumstancias, ver-se involvido nas mesmas difficuldades.
+
+Aqui estou eu agora dando toda a desculpa ao pobre Camões, com vontade
+de o justificar, e prompto (assim são as charidades d'este mundo) a
+sahir a campo de lança em reste e a quebrá-la com todo o antagonista que
+por aquelle fraco o atacar.--E porque será isto? Porque chegou a minha
+hora; e--_si parva licet componnere magnis_ (a bossa proeminente hoje é
+a latina), aqui me acho eu com este meu capitulo nas mesmas
+difficuldades em que o nosso bardo se viu com o seu poema.
+
+Ja preveni as observações com o texto acima: bem sei quem era Camões, e
+quem sou eu; mas tracta-se da _intalação_, que é a mesma apezar da
+differença dos intalados. O auctor dos Lusiadas viu-se intalado entre a
+crença do seu paiz e as brilhantes tradições da poesia classica que
+tinha por mestra e modêlo.
+
+Não havia ainda então romanticos nem romantismo, o seculo estava muito
+atrazado. As odes de Victor-Hugo não tinham ainda desbancado as de
+Horacio; achavam-se mais lyricos e mais poeticos os esconjurios de
+Canidia, do que os pesadelos de um inforcado no oratorio; chorava-se com
+os _Tristes_ de Ovidio, porque se não lagrimejava com as meditações de
+Lamartine. Andromacha despedindo-se de Heitor ás portas de Troia, Priamo
+supplicante aos pés do matador do seu filho, Helena luctando entre o
+remorso do seu crime e o amor de Páris, não tinham ainda sido eclipsados
+pelas declamações da mãe Eva ás grades do paraizo terreal. O combate de
+Achilles e Heitor, das hostes argivas com as troianas, não tinha sido
+mettido n'um chinello pelas batalhas campaes dos anjos bons e dos anjos
+maus á metralhada por essas nuvens. Dido chorando por Eneas não tinha
+sido reduzida a donzella choramigas d'Alfama carpindo pelo seu _Manel_
+que vae para a India...
+
+Realmente o seculo estava muito atrazado: Milton não se tinha ainda
+sentado no logar de Homero, Shakspeare no de Euripedes, e lord Byron
+acima de todos: emfim não estava ainda anglizado o mundo, portanto _a
+marcha do intellecto_ no mesmo terreno, é tudo uma miseria.
+
+Ora pois, o nosso Camões, creador da epopea, e--depois do Dante--da
+poesia moderna, viu-se atrapalhado; misturou a sua crença religiosa com
+o seu credo poetico e fez, _tranchons le mot_, uma semsaboria.
+
+E aqui direi eu com o vate Elmano:
+
+ Camões, grande Camões, quam similhante
+ Acho teu fado ao meu quando os cotejo!
+
+Vou fazer outra semsaboria eu, n'este bello capitulo da minha
+obra-prima. Que remedio! Preciso fallar com um illustre finado, preciso
+de evocar a sombra de um grande genio que hoje habita com os mortos. E
+onde irei eu? Ao inferno? Espero que a divina justiça se apiedasse
+d'elle na hora dos ultimos arrependimentos. Ao purgatorio, ao empyreo?
+Apezar do exemplo da _Divina Comedia_, não me atrevo a fazer comedias
+com taes logares de scena,--e não sei, não gósto de brincar com essas
+coisas.
+
+Não lhe vejo remedio senão recorrer ao bem parado dos Elysios, da Styge,
+do Cocyto e seu termo: são terrenos neutros em que se póde parlamentar
+com os mortos sem compromettimento serio, e....
+
+Eis-me ahi no êrro de Camões--e nas unhas dos criticos; e as zagunchadas
+a ferver em cima de mim, que fiz, que aconteci....
+
+Mas, senhores, ponderem, venham ca: o que hade um homem fazer? O Dante
+não sei que gyria teve que baptisou Publio Virgilio Marão para lhe
+servir de cicerone nas regiões do inferno, do paraizo e do purgatorio
+christão, e teve tam boa fortuna que nem o queimou a Inquisição nem o
+descompoz a Crusca, nem siquer o mutilaram os censores, nem o
+perseguiram delegados por abuso de liberdade de imprensa, nem o mandaram
+para os dignos pares... Não se tinham ainda descoberto as mangações
+liberaes que se usam hoje: e as cartas que o povo tinha era a liberdade
+ganha e sustentada á ponta da espada, com muito coração e poucas
+palavras, muito patriotismo, poucas leis... e menos relatorios. Não
+havia em Florença nem gazeta para louvar as tolices dos ministros, nem
+ministros para pagar as tolices da gazeta.
+
+O Dante foi proscripto e exilado, mas não se ficou a escrever, deu
+catanada que se regallou nos inimigos da liberdade da sua patria.
+
+Quem dera ca um batalhão de poetas como aquelle!
+
+Que fosse porêm um triste vate de hoje escrever no seculo das luzes o
+que escrevia o Dante no seculo das trevas! Os proprios philosophos
+gritavam: Que escandalo! Atheus professos clamavam contra a
+irreverencia; gentes que não teem religião, nem a de Mafoma, bradavam
+pela religião: entravam a pôr carapuças nas cabeças uns dos outros,
+cahiam depois todos sôbre o poeta, e--se o não podessem inforcar, pelo
+menos declaravam-n'o republicano, que dizem elles que é uma injúria
+muito grande.
+
+Nada! viva o nosso Camões e o seu maravilhoso mistiforio; é a mais
+commoda invenção d'este mundo: vou-me com ella, e ralhe a crítica quanto
+quizer.
+
+Quero procurar no reino das sombras não menor pessoa que o marquez de
+Pombal: tenho que lhe fazer uma pergunta séria antes de chegar ao
+Cartaxo. E nós ja vamos por entre as riccas vinhas que o circundam com
+uma zona de verdura e alegria. Depressa o ramo de oiro que me abra ao
+pensamento as portas fataes--depressa a unctuosa sopetarra com que heide
+atirar ás tres gargantas do canzarrão. Vamos...
+
+Mas em que districto d'aquellas regiões acharei eu o primeiro ministro
+d'elrei D. José? Por onde está Ixion e Tantalo, por onde demora Sysipho
+e outros maganões que taes? Não; esse é um bairro muito triste, e
+arrisca-se a ter por administrador algum escandecido que me atice as
+orelhas.
+
+Nos Elysios com o pae Anchises e outros barbaças classicos do mesmo
+jaez? Eu sei? tambem isso não. Hade ser n'aquellas ilhas bemaventuradas
+de que falla o poeta Alceu e onde elle poz a passear, por eternas
+verduras, as almas tyrannicidas de Harmódio e Aristógiton...
+
+Oh! ésta agora!... Sebastião José de Carvalho e Mello, conde de Oeiras,
+marquez de Pombal, de companhia com os seus inimigos politicos!... Ahi é
+que se ingánam; não ha amigos nem inimigos politicos em se largando o
+mando e as pretenções a elle. Ora, passados os umbraes da eternidade, é
+de fé que se não pensa mais n'isso. C. J. X., que morreu a assignar uma
+portaria, ja tinha largado a penna quando chegou alli pelos _Prazeres_;
+quanto mais!...
+
+O homem hade estar nas ilhas _beatas_. Vamos lá...
+
+E ei-lo alli: lá está o bom do marquez a jogar o whist com o barão de
+Bidefeld, com o imperador Leopoldo e com o poeta Diniz. A partida deve
+de ser interessante, talvez aposta essa gente toda--esses manes todos
+que estão á roda. Que cara que fez o marquez a um finadinho que lhe foi
+metter o nariz nas cartas! Quem havia de ser! O intromettido de M. de
+Talleyrand. Estava-lhe cahindo. Mas não viu nada: o nobre marquez sempre
+soube esconder o seu jôgo.
+
+A mim é que elle ja me viu. 'Que diz? Ah!.. Sim senhor, sou portuguez; e
+venho fazer uma pergunta a V. Exa., esclarecer-me sôbre um ponto
+importante.'
+
+Deitou-me a tremenda luneta.
+
+--'Para que mandou V. Exa. arrancar as vinhas do Ribatejo?'
+
+Apertou a luneta no sobrôlho e sorriu-se.
+
+--'Ellas ahi estão centuplicadas, que até ja invadiram o pinhal de
+Azambuja. Fez V. Exa. um despotismo inutil; e agora...'
+
+'Agora quem bebe por lá todo esse vinho?'
+
+Não sabía o que lhe havia de responder. Elle sacudiu a cabelleira de
+anneis, virou-me as costas, deu o braço a Colbert, passou por-pé de
+Ricardo Smith e de J. Baptista Say, que estavam a disputar, incolheu os
+hombros em ar de compaixão, e foi-se por uma alameda muito viçosa que ia
+por aquelles deliciosos jardins dentro, e sumiu-se da nossa vista.
+
+Eu surdi ca n'este mundo, e achei-me emcima da azemola, aopé do grande
+café do Cartaxo.
+
+
+
+
+CAPITULO VII.
+
+
+ Reflexões importantes sôbre o Bois-de-Boulogne, as carruagens de
+ mollas, Tortoni, e o café do Cartaxo.--Dos cafés em geral, e de
+ como são o characteristico da civilização de um paiz.--O
+ Alfageme.--Hecatombe involuntaria immolada pelo A.--Historia do
+ Cartaxo.--Demonstra-se como a Gran'-Bretanha deveu sempre toda a
+ sua fôrça e toda a sua glória a Portugal.--Shakspeare e Laffitte,
+ Milton e Chateaumargot, Nelson e o principe de Joinville.--Próva-se
+ evidentemente que M. Guizot é a ruina de Albion e do Cartaxo.
+
+
+Voltar á meia-noite do _Bois-de-Boulogne_--o bosque por excellencia,
+descer, entre nuvens de poeira, o longo stadio dos Campos-Elysios,
+entrever, na rapida carreira, o obelisco de Luxor, as árvores das
+Tulherias, a columna da praça Vandomma, a magnificencia heteroclyta da
+'Magdalena', e emfim sentir parar, de uma soffreada magistral, os dois
+possantes inglezes que nos trouxeram quasi de um folego até ao
+'boulevard de Gand'; ahi entreabrir mollemente os olhos, levantando meio
+corpo dos regallados cochins de seda, e dizer: 'Ah! estamos em
+Tortoni... que delicia um sorvete com este calor!'--é seguramente, é dos
+prazeres maiores d'este mundo, sente-se a gente viver; é meia hora de
+existencia que vale dez annos de ser rei em qualquer outra parte do
+mundo.
+
+Pois acredite-me o leitor amigo, que sei alguma coisa dos sabores e
+dissabores d'este mundo, fie-se na minha palavra, que é de homem
+experimentado: o prazer de chegar por aquelle modo a Tortoni, o apear da
+elegante caleche balançada nas mais suaves mollas que fabricasse arte
+ingleza do puro aço de Suecia, não alcança, não se compara ao prazer e
+consolação de alma e corpo que eu senti ao apear-me de minha choiteira
+mula á porta do grande café do Cartaxo.
+
+Fazem idea do que é o café do Cartaxo? Não fazem. Se não viajam, se não
+sahem, se não vêem mundo ésta gente de Lisboa! E passam a sua vida entre
+o Chiado, a rua do Oiro e o theatro de San'Carlos, como hãode alargar a
+esphera de seus conhecimentos, desinvolver o espirito, chegar á altura
+do seculo?
+
+Coroae-vos de alface, e ide jogar o bilhar, ou fazer sonetos á dama
+nova, ide, que não prestais para mais nada, meus queridos Lisboetas; ou
+discuti os deslavados horrores de algum mellodrama velho que fugiu
+assoviado da 'Porte-Saint Martin' e veio esconder-se na Rua-dos-Condes.
+Tambem podeis ir aos Toiros--estão imbolados, não ha perigo...
+
+Viajar?.. qual viajar! até á Cova-da-Piedade, quando muito, em dia que
+lá haja cavallinhos. Pois ficareis alfacinhas para sempre, cuidando que
+todas as praças d'este mundo são como a do Terreiro-do-Paço, todas as
+ruas como a rua Augusta, todos os cafés como o do Marrare.
+
+Pois não são, não: e o do Cartaxo menos que nenhum.
+
+O café é uma das feições mais characteristicas de uma terra. O viajante
+experimentado e fino chega a qualquer parte, entra no café, observa-o,
+examina-o, estuda-o, e tem conhecido o paiz em que está, o seu govêrno,
+as suas leis, os seus costumes, a sua religião.
+
+Levem-me de olhos tapados onde quizerem, não me desvendem senão no café;
+e protesto-lhe que em menos de dez minutos lhe digo a terra em que estou
+se for paiz sublunar.
+
+Nós entrámos no café do Cartaxo, o grande café do Cartaxo; e nunca se
+incruzou turco em divan de seda do mais splendido harem de
+Constantinopla com tanto gôso de alma e satisfacção de corpo, como nós
+nos sentámos nas duras e asperas tábuas das esguias banquetas mal
+sarapintadas que ornam o magnífico estabelecimento bordalengo.
+
+Em poucas linhas se descreve a sua simplicidade classica: será um
+parallelogrammo pouco maior que a minha alcova; á esquerda duas mezas de
+pinho, á direita o mostrador invidraçado onde campeam as garrafas
+obrigadas de liquor de amendoa, de canella, de cravo. Pendem do tecto,
+laboriosamente arrendados por não vulgar tesoira, os pingentes de papel,
+convidando a lascivo repouso a inquieta raça das moscas. Reina uma
+frescura admiravel n'aquelle recinto.
+
+Sentámo-nos, respirámos largo, e entrámos em conversa com o dono da
+casa, homem de trinta a quarenta annos, de physionomia experta e
+sympathica, e sem nada do repugnante villão-ruim que é tam usual de
+incontrar por similhantes logares da nossa terra.
+
+--'Então que novidades ha por ca pelo Cartaxo, patrão?'
+
+--'Novidades! Por aqui não temos senão o que vem de Lisboa.--Ahi está a
+'Revolução' de hontem...'
+
+--'Jornaes, meu caro amigo! Vimos fartos d'isso. Diga-nos alguma coisa
+da terra. Que faz por ca o...'
+
+--'O mestre J. P., o 'Alfageme?''
+
+--'Como assim o Alfageme?'
+
+--'Chamam-lhe o Alfageme ao mestre J. P.: pois então! Uns senhores de
+Lisboa que ahi estiveram em casa do Sr. D. poseram-lhe esse nome, que a
+gente bem sabe o que é; e ficou-lhe, que agora ja ninguem lhe chama
+senão o Alfageme. Mas quanto a mim, ou elle não é Alfageme, ou não o
+hade ser muito tempo. Não é aquelle, não. Eu bem me intendo.'
+
+A conversação tornava-se interessante, especialmente para mim: quizemos
+profundar o caso.
+
+--'Muito me conta, Sr. patrão! Com que isto de ser Alfageme, parece-lhe
+que é coisa de?..
+
+--'Parece-me o que é, e o que hade parecer a todo o mundo. E alguma
+coisa sabemos, ca no Cartaxo, do que vai por elle. O verdadeiro Alfageme
+diz que era um espadeiro ou armeiro, cutileiro ou coisa que o valha, na
+Ribeira de Santarem; e que foi um homem capaz, e que tinha pelo povo, e
+que não queria saber de partidos, e que dizia elle: 'Rei que nos
+inforque, e papa que nos excommungue, nunca hade faltar. Assim, deixar
+os outros brigar, trabalhemos nós e ganhemos a nossa vida.' Mas que
+extrangeiros que não queria, que ésta terra que era nossa e co'a nossa
+gente se devia de governar. E mais coisas assim: e que porfim o deram
+por traidor e lhe tiraram quanto tinha.--Mas que lhe valeu o Condestavel
+e o não deixou arrazar, por que era homem de bem e fidalgo ás direitas.
+Pois não é assim que foi?'
+
+--'É, sim, meu amigo. Mas então d'ahi?'
+
+--'Então d'ahi o que se tira, é que quando havia fidalgos como o sancto
+Condestavel tambem havia Alfagemes como o de Santarem. E mais nada.'
+
+--'Perfeitamente. Mas porque chamaram ao mestre P. o Alfageme do
+Cartaxo?'
+
+--'Eu lhe digo aos senhores: o homem nem era assim nem era assado.
+Fallava bem, tinha sua labia com o povo. D'ahi fez-se juiz, pôs por ahi
+suas coisas a direito--Deus sabe as que elle intortou tambem!.. ganhou
+nome no povo, e agora faz d'elle o que quer. Se lhe der sempre para bem,
+bom será.--Os senhores não tomam nada?'
+
+O bom do homem visivelmente não queria fallar mais: e não deviamos
+importuná-lo. Fizemos o sacrificio de bom número de limões que
+expremémos em profundas taças--vulgo, copos de canada--e com agua e
+assucar, offerecemos as devidas libações ao genio do logar.
+
+Infelizmente o sacrificio não foi detodo incruento. Muitas hecatombes de
+myrmidões cahiram no holocausto, e lhe deram um cheiro e sabor que não
+sei se agradou á divindade, mas que injoou terrivelmente aos sacerdotes.
+
+Sahimos a visitar o nosso bom amigo, o velho D., a honra e a alegria do
+Ribatejo. Ja elle sabía da nossa chegada, e vinha no caminho para nos
+abraçar.
+
+Fomos dar, junctos, uma volta pela terra.
+
+É das povoações mais bonitas de Portugal, o Cartaxo, aceada, alegre;
+parece o bairro suburbano de uma cidade.
+
+Não ha aqui monumentos, não ha historia antiga: a terra é nova, e a sua
+prosperidade e crescimento datam de trinta ou quarenta annos, desde que
+o seu vinho começou a ter fama. Ja descahida do que foi, pela estagnação
+d'aquelle commercio, ainda é comtudo a melhor coisa da Borda-d'agua.
+
+Não tem historia antiga, disse; mas tem-n'a moderna e importantissima.
+
+Que memorias aqui não ficaram da guerra peninsular! Que espantosas
+borracheiras aqui não tomaram os mais famosos generaes, os mais
+distinctos militares da nossa _antiga e fiel_ alliada, que ainda então,
+ao menos, nos bebia o vinho!
+
+Hoje nem isso!.. hoje bebe a jacobina zurrapa de Bordeos, e as acerbas
+limonadas de Borgonha. Quem tal diria da conservativa Albion! Como póde
+uma leal goella britannica, rascada pelos acidos anarchicos d'aquellas
+vinagretas francezas, intoar devidamente o God-save-the-King em um
+_toast_ nacional! Como, sem Porto ou Madeira, sem Lisboa, sem Cartaxo,
+ousa um subdito britannico erguer a voz, n'aquella harmoniosa
+desafinação insular que lhe é propria e que faz parte de seu respeitavel
+character nacional--faz; não se riam: o inglez não canta senão quando
+bebe... alias quando está BEBIDO. _Nisi potus ad arma ruisse._ Inverta:
+_Nisi potus in cantum prorumpisse_... E pois, como hade elle assim
+_bebido_ erguer a voz n'aquelle sublime e tremendo hymno popular
+Rulle-Britannia!
+
+Bebei, bebei bem zurrapa franceza, meus amigos inglezes; bebei, bebei a
+pêso de oiro, essas limonadas dos burgraves e margraves de Allemanha;
+chamae-lhe, para vos illudir, chamae-lhe _hoc_, chamae-lhe _hic_,
+chamae-lhe o _hic haec hoc_ todo, se vos dá gôsto... que em poucos annos
+veremos o estado de _acetato_ a que hade ficar reduzido o vosso
+character nacional.
+
+Oh gente cega a quem Deus quer perder! pois não vêdes que não sois nada
+sem nós, que sem o nosso alchool, d'onde vos vinha espirito, sciencia,
+valor, ides cahir infallivelmente na antiga e priguiçosa rudeza saxonia!
+
+D'essas traidoras praias da França donde vos vai hoje o veneno corrosivo
+da vossa indole e da vossa fôrça, não tardará que tambem vos chegue
+outro Guilherme bastardo que vos conquiste e vos castigue, que vos faça
+arrepender, mas tarde, do criminoso êrro que hoje commetteis, ó
+insulares sem fe, em abandonar a nossa alliança. A nossa alliança sim, a
+nossa poderosa alliança, sem a qual não sois nada.
+
+O que é um inglez sem Porto ou Madeira... sem Carcavellos ou Cartaxo?
+
+Que se inspirasse Shakspeare com Lafitte, Milton com Chateaumargot--o
+chanceller Bacon que se dilluisse no melhor Borgonha... e veriamos os
+acidulos versinhos, os destemperados raciocininhos que faziam.
+
+Com todas as suas dietas, Newton nunca se lembrou de beber Johannisberg;
+Byron antes beberia _gin_, antes agua do Thamisa, ou do Pamiso, do que
+essas escorreduras das areias de Bordeos.
+
+Tirae-lhe o Porto aos vossos almirantes, e ninguem mais teme que torneis
+a ter outro Nelson. Entra nos planos do principe de Joinville fazer-vos
+beber da sua zurrapa: são tantos pontos de partido que lhe dais no seu
+jôgo.
+
+É M. Guizot quem perde a Inglaterra com a sua alliança; e tambem perde o
+Cartaxo. Por isso eu ja não quero nada com os doutrinarios.
+
+...........................................................................
+
+Ha dôze annos tornou o Cartaxo a figurar conspicuamente na historia de
+Portugal. Aqui, nas longas e terriveis luctas da última guerra de
+_successão_, esteve muito tempo o quartel-general do marquez de
+Saldanha.
+
+Alguns dythirambos se fizeram; alguns echos das antigas canções
+bacchicas do tempo da guerra peninsular ainda acordaram ao som dos
+hymnos constitucionaes.
+
+Mas o systema liberal, tirada a epocha das eleições, não é grande coisa
+para a indústria vinhateira, dizem. Eu não o creio porém; e tenho minhas
+boas razões, que ficam para outra vez.
+
+
+
+
+CAPITULO VIII.
+
+
+ Sahida do Cartaxo--A charneca. Perigo imminente em que o A. se acha
+ de dar em poeta e fazer versos.--Ultima revista do imperador D.
+ Pedro ao exército liberal.--Batalha de
+ Almoster.--Waterloo.--Declara o A. solemnemente que não é
+ philosopho e chega á ponte da Asseca.
+
+
+Eram dadas cinco da tarde, a calma declinava; montámos a cavallo, e
+cortámos por entre os viçosos pampanos que são a glória e a e tomado
+ânimo; breve, nos achámos em plena charneca.
+
+Bella e vasta planicie! Desafogada dos raios do sol, como ella se
+desenha ahi no horisonte tam suavemente! que delicioso aroma selvagem
+que exhalam éstas plantas, acres e tenazes de vida, que a cobrem, e que
+resistem verdes e viçosas a um sol portugez de julho!
+
+A doçura que mette n'alma a vista refrigerante de uma joven seara do
+Ribatejo nos primeiros dias de abril, ondulando lascivamente com a brisa
+temperada da primavera,--a amenidade bucolica de um campo minhoto de
+milho, á hora da rega, por meados de agosto, a ver-se-lhe pullar os
+caules com a agua que lhe anda por pé, e á roda as carvalheiras
+classicamente desposadas com a vide cuberta de racimos pretos--são ambos
+esses quadros de uma poesia tam graciosa e cheia de mimo, que nunca a
+dei por bem traduzida nos melhores versos de Theocrito ou de Virgilio,
+nas melhores prosas de Gesner ou de Rodrigues-Lobo.
+
+A majestade sombria o solemne de um bosque antigo e copado, o silencio e
+escuridão de suas moitas mais fechadas, o abrigo solitario de suas
+clareiras, tudo é grandioso, sublime, inspirador de elevados
+pensamentos. Medita-se alli por fôrça; isola-se a alma dos sentidos pelo
+suave adormecimento em que elles cahem... e Deus, a eternidade--as
+primitivas e innatas ideas do homem--ficam unicas no seu pensamento...
+
+É assim. Mas um rochedo em que me eu sente ao pôr do sol na gandra erma
+e selvagem, vestida apenas de pastio bravo, baixo, e tosqueado rente da
+bôcca do gado--diz-me coisas da terra e do ceo que nenhum outro
+espectaculo me diz na natureza. Ha um vago, um indeciso, um vaporoso
+n'aquelle quadro que não tem nenhum outro.
+
+Não é o sublime da montanha, nem o augusto do bosque, nem o ameno do
+valle. Não ha ahi nada que se determine bem, que se possa definir
+positivamente. Ha a solidão que é uma idea negativa...
+
+Eu amo a charneca.
+
+E não sou romanesco. Romantico, Deus me livre de o ser--ao menos, o que
+na algaravia de hoje se intende por essa palavra.
+
+Ora a charneca d'entre Cartaxo e Santarem, áquella hora que a passámos,
+começava a ter esse tom, e a achar-lhe eu esse incanto indefinivel.
+
+Sentia-me disposto a fazer versos... a quê? Não sei.
+
+Felizmente que não estava so; e escapei de mais essa caturrice.
+
+Mas foi como se os fizesse, os versos, como se os estivesse fazendo,
+porque me deixei cahir n'um verdadeiro estado poetico de distracção, de
+mudez--cessou-me a vida toda de _relação_, e não me sentia existir senão
+por dentro.
+
+Derepente acordou-me do lethargo uma voz que bradou:--'Foi aqui!... aqui
+é que foi, não ha dúvida'.
+
+--'Foi aqui o quê?'
+
+--'A última revista do imperador'.
+
+--'A última revista! Como assim a última revista! Quando? Pois?...'
+
+Então cahi completamente em mim, e recordei-me, com amargura e
+desconsolação, dos tremendos sacrificios a que foi condemnada ésta
+geração, Deus sabe para quê--Deus sabe se para expiar as faltas de
+nossos passados, se para comprar a felicidade de nossos vindouros...
+
+O certo é que alli comeffeito passára o imperador D. Pedro a sua última
+revista ao exército liberal. Foi depois da batalha d'Almoster, uma das
+mais lidadas e das mais insanguentadas d'aquella triste guerra.
+
+Toda a guerra civil é triste.
+
+E é difficil dizer para quem mais triste, se para o vencedor ou para o
+vencido.
+
+Ponham de parte questões individuaes, e examinem de boa fé: verão que,
+na totalidade de cada facção em que a nação se dividiu, os ganhos, se os
+houve para quem venceu, não balançam os padecimentos, os sacrificios do
+passado, e menos que tudo, a responsabilidade pelo futuro...
+
+Eu não sou philosopho. Aos olhos do philosopho, a guerra civil e a
+guerra extrangeira, tudo são guerras que elle condemna--e não mais uma
+do que a outra... a não ser Hobbes o ditto philosopho, o que é coisa
+muito differente.
+
+Mas não sou philosopho, eu: estive no campo de Waterloo, sentei-me aopé
+do Leão de bronze sôbre aquelle monte de terra amassado com o sangue de
+tantos mil, vi--e eram passados vinte annos--vi luzir ainda pela campina
+os ossos brancos das victimas que alli se immolaram a não sei quê... Os
+povos disseram que á liberdade, os reis que á realeza... Nenhuma d'ellas
+ganhou muito, nem para muito tempo com a tal victoria...
+
+Mas deixemos isso. Estive alli, e senti bater-me o coração com essas
+recordações, com essas memorias dos grandes feitos e gentilezas que alli
+se obraram.
+
+Porque será que aqui não sinto senão tristeza?
+
+Porque luctas fratricidas não podem inspirar outro sentimento e
+porque...
+
+Eu moía comigo so éstas amargas reflexões, e toda a belleza da charneca
+desappareceu deante de mim.
+
+N'esta desagradavel disposição de ânimo chegámos á ponte d'Asseca.
+
+
+
+
+CAPITULO IX.
+
+
+ Prologomenos dramatico-litterarios, que muito naturalmente levam,
+ apezar de alguns rodeios, ao retrospecto e reconsideração do
+ capitulo antecedente.--Livros que não deviam ter titulo, e titulos
+ que não deviam ter livro.--Dos poetas d'este seculo. Bonaparte,
+ Rotchild e Silvio-Péllico.--Chega-se ao fim d'estas reflexões e á
+ ponte da Asseca.--Traducção portugueza de um grande poeta.--Origem
+ de um dictado.--Junot na ponte da Asseca.--De como o A. d'este
+ livro foi jacobino desde pequeno.--Inguiço que lhe deram.--A
+ duqueza de Abrantes.--Chega-se emfim ao val de Santarem.
+
+
+Vivia aqui ha coisa de cinquenta para sessenta annos, n'esta boa terra
+de Portugal, um figurão exquisitissimo que tinha inquestionavelmente o
+instincto de descobrir assumptos dramaticos nacionaes--ainda, ás vezes,
+a arte de desenhar bem o seu quadro, de lhe grupar, não sem mérito, as
+figuras: mas ao pô-las em acção, ao collori-las, ao fazê-las fallar...
+boas noites! era semsaboria irremediavel.
+
+Deixou uma collecção immensa de peças de theatro que ninguem conhece, ou
+quasi ninguem, e que nenhuma soffreria, talvez, representação; mas rara
+é a que não poderia ser arranjada e appropriada á scena.
+
+Que mina tam ricca e fertil para qualquer mediano talento dramatico! Que
+bellas e portuguezas coisas se não podem extrahir dos treze volumes--são
+treze volumes e grandes!--do theatro de Ennio-Manuel de Figueiredo!
+Algumas d'essas peças, com bem pouco trabalho, com um dialogo mais vivo,
+um stylo mais animado, fariam comedias excelentes.
+
+Estão-me a lembrar éstas:
+
+'O Casamento da Cadea'--ou talvez se chame outra coisa, mas o assumpto é
+este; comedia cujos characteres são habilmente esboçados, funda-se
+n'aquella nossa antiga lei que fazia casar da prisão os que assim se
+suppunha podêrem reparar certos damnos de reputação feminina.
+
+'O fidalgo de sua casa', satyra mui graciosa de um tam commum ridiculo
+nosso.
+
+'As duas educações', bello quadro de costumes: são dois rapazes, ambos
+extrangeiramente educados, um francez, outro inglez, nenhum portuguez. É
+eminentemente comico, frisante, ou, segundo agora se diz á moda,
+'palpitante de actualidade.'
+
+'O cioso', comedia ja remoçada da antiga comedia de Ferreira e que em si
+tem os germens todos da mais ricca e original composição.
+
+'O avaro dissipador', cujo so titulo mostra o ingenho e invenção de quem
+tal assumpto concebeu: assumpto ainda não tractado por nenhum de tantos
+escriptores dramaticos de nação alguma, e que é todavia um vulgar
+ridiculo, todos os dias incontrado no mundo.
+
+São muitas mais, não fica n'estas, as composições do fertilissimo
+escriptor que, passadas pelo crivo de melhor gôsto, e animadas sôbretudo
+no stylo, fariam um razoavel repertorio para acudir á mingua dos nossos
+theatros.
+
+Uma das mais semsabores porêm, a que vulgarmente se haverá talvez pela
+mais semsabor, mas que a mim mais me diverte pela ingenuidade familiar e
+sympathica de seu tom magoado e melancholicamento chocho, é a que tem
+por titulo 'Poeta em annos de prosa'.
+
+E foi por ésta, foi por amor d'esta que me eu deixei descahir na
+digressão dramatico-litteraria do princípio d'este capitulo; pegou-se-me
+á penna porque se me tinha pregado na cabeça; e ou o capitulo não sabia,
+ou ella havia de sahir primeiro.
+
+Poeta em annos de prosa! Oh Figueiredo, Figueiredo, que grande homem não
+foste tu, pois imaginaste este titulo que so elle em si é um volume! Ha
+livros, e conheço muitos, que não deviam ter titulo, nem o titulo é nada
+n'elles.
+
+Faz favor de me dizer o de que serve, o que significa o 'Judeu errante'
+pôsto no frontispicio d'esse interminavel e mercatorio romance que ahi
+anda pelo mundo, mais errante, mais sem fim, mais immorredoiro que o seu
+prototypo?
+
+E ha titulos tambem que não deviam ter livro, porque nenhum livro é
+possivel escrever que os desimpenhe como elles merecem.
+
+'Poeta em annos de prosa' é um d'esses.
+
+Eu não leio nenhuma das raras coisas que hoje se escrevem
+verdadeiramente bellas, isto é, simples, verdadeiras, e por consequencia
+sublimes, que não exclame com sincero pesadume ca de dentro: 'Poeta em
+annos de prosa!'
+
+Pois este é seculo para poetas? ou temos nós poetas para este seculo?..
+
+Temos sim, eu conheço tres: Bonaparte, Silvio-Péllico e o barão de
+Rotchild.
+
+O primeiro fez a sua Iliada com a espada, o segundo com a paciencia, o
+último com o dinheiro.
+
+São os tres agentes, as tres entidades, as tres divindades da epocha.
+
+Ou cortar com Bonaparte, ou comprar com Rotchild, ou soffrer e ter
+paciencia com Silvio-Péllico.
+
+Todo o que fizer d'outra poesia--e d'outra prosa tambem--é tolo...
+
+Vieram-me éstas mui judiciosas reflexões a proposito do capitulo
+antecedente d'esta minha obra prima; e lancei-as aqui para instrucção e
+edificação do leitor benevolo.
+
+Acabei com ellas quando chegámos á ponte da Asseca.
+
+Esquecia-me dizer que d'aquelles tres grandes poetas so um está
+traduzido em portuguez--o Rotchild: não é litteral a traducção,
+agallegou-se e ficou muito suja de erros de imprensa mas como não ha
+outra...
+
+Ora d'onde veio este nome da Asseca? Algures aqui perto deve de haver
+sitio, logar ou coisa que o valha, com o nome de Meca; e d'ahi talvez o
+admiravel rifão portuguez que ainda não foi bem examinado como devia
+ser, e que decerto incerra algum grande dictame de moral primitiva:
+'andou por Secca (Asseca?) e Meca e olivaes de Santarem.'--Os taes
+olivaes ficam logo adiante. É uma ethymologia como qualquer outra.
+
+A ponte da Asseca corta uma varzea immensa que hade ser um vasto pahul
+de hynverno: ainda agora está a desangrar-se em agua por toda a parte.
+
+É notavel na historia moderna este sítio. Aqui n'um recontro com os
+nossos, foi Junot gravemente ferido, ferido na cara. _'Il ne sera plus
+beau garçon'_ disse o parlamentario francez que veio, depois da acção,
+tractar, creio eu, de troca de prisioneiros ou de coisa similhante. Mas
+inganou-se o parlamentario; Junot ainda ficou muito guapo e gentil homem
+depois d'isso.
+
+Tenho pena de nunca ter visto o Junot nem o Maneta,[1] as duas primeiras
+notabilidades que ouvi aclamar como taes e cujos nomes conhecí...
+Ingano-me: conheci primeiro o nome de Bonaparte. E lembra-me muito bem
+que nunca me persuadi que elle fossa o monstro disforme e horroroso que
+nos pintavam frades e velhas n'aquelle tempo. Imaginei sempre que, para
+excitar tantos odios e malquerenças, era necessario que fosse um bem
+grande homem.
+
+Desde pequeno que fui jacobino; ja se ve: e de pequeno me custou caro.
+Levei bons puchões de orelhas de meu pae por comprar na feira de
+San'Lazaro, no Porto, em vez das gaitinhas ou dos registos de sanctos,
+ou das outras bogigangas que os mais rapazes compravam... não imaginam o
+quê... um retrato de Bonaparte.
+
+Foi 'inguiço'--diria uma senhora do meu conhecimento que accredita
+n'elles: foi inguiço que aínda se não desfez e que toda a vida me tem
+perseguido.
+
+Quem me diria quando, por esse primeiro peccado politico da minha
+infancia, por esse primeiro tractamento duro, e--perdoe-me a respeitada
+memoria de meu sancto pae!--injustissimo, que me trouxe o mero instincto
+das ideas liberaes, quem me diria que eu havia de ser perseguido por
+ellas toda a vida! que apenas sahido da puberdade havia de ir a essa
+mesma França, á patria d'esses homens e d'essas ideas com quem a minha
+natureza sympathysava sem saber porquê, buscar asylo e guarida?
+
+Não vi ja quasi nenhum d'aquelles que tanto desejára conhecer; as ruinas
+do grande imperio estavam dispersas; os seus generaes mortos,
+desterrados, ou trajavam interesseiros e covardes as librés do
+vencedor...
+
+De todas as grandes figuras d'essa epocha, a que melhor conheci e
+tractei foi uma senhora, typo de graça, de amabilidade e de talento.
+Pouco foi o nosso tracto, mas quanto bastou para me incantar, para me
+formar no espirito um modêllo de valor e merecimento feminino que me
+veio a fazer muito mal.
+
+Custa depois a encher aquella altura que se marcou...
+
+Eis aqui como eu fiz esse conhecimento.
+
+Inda o estou vendo, coitado! o pobre C. do S., nobre, espirituoso,
+cavalheiro, fazendo-se perdoar todos os seus prejuizos de casta, que
+tinha como ninguem, por aquella polidez superior e affabilidade elegante
+que distingue o verdadeiro fidalgo (stylo antigo); inda o estou vendo,
+ja sexagenario, ja mais que 'ci-devant jeun'homme', o pescoço intallado
+na inflexivel gravata, os pés pegando-se-lhe, como os de Ovidio, ao
+limiar da porta--não que lh'os prendessem saudades, senão que lh'os
+paralysava a cakexia incipiente--mas o espirito joven a reagir e a
+teimar.
+
+--'Vamos!' disse elle 'hoje estou bom, sinto-me outro: quero
+apresentá-lo a madame de Abrantes. Está tam velha! Isto de mulheres não
+são como nós, passam muito depressa.'
+
+E o desgraçado tremiam-lhe as pernas, e suffocava-o a tosse.
+
+Tomámos uma 'citadine', e fomos comeffeito á nova e elegante rua chamada
+não impropriamente a rua de Londres, onde achámos rodeada de todo o
+esplendor do seu occaso aquella formosa estrella do imperio.
+
+Não quero dizer que era uma belleza; longe d'isso. Nem bella nem môça,
+nem airosa de faser impressão era a duqueza d'Abrantes. Mas em meia hora
+de conversação, de tracto, descubriam-se-lhe tantas graças, tanto
+natural, tanta amabilidade, um complexo tam verdadeiro e perfeito da
+mulher franceza, a mulher mais seductora do mundo, que involuntariamente
+se dizia a gente no seu coração: 'Como se está bem aqui!'
+
+Fallámos de Portugal, de Lisboa, do imperio--da restauração, da
+revolução de julho (isto era em 1831), de M. de Lafayette, de
+Luiz-Philippe, de Chateaubriand--o seu grande amigo d'ella--do
+_Sacré-Coeur_ e das suas elegantes devotas--fallámos artes, poesia,
+politica... e eu não tinha ânimo para acabar de conversar...
+
+Benevolo e paciente leitor, o que eu tenho decerto ainda é consciencia,
+um resto de consciencia: acabemos com éstas digressões e perennaes
+divagações minhas. Bem vejo que te deixei parado á minha espera no meio
+da ponte d'Asseca. Perdoa-me por quem es, dêmos d'espora ás mulinhas, e
+vamos que são horas.
+
+Ca estâmos n'um dos mais lindos e deliciosos sitios da terra: o valle de
+Santarem, patria dos rouxinoes e das madresilvas, cincta de faias bellas
+e de loureiros viçosos. D'isto é que não tem París, nem França nem terra
+alguma do occidente senão a nossa terra, e vale bem por tantas, tantas
+coisas que nos faltam.
+
+
+
+
+CAPITULO X.
+
+
+ Valle de Santarem--Namora-se o A. de uma janella que ve por entre
+ umas árvores.--Conjecturas várias a respeito da ditta
+ janella.--Similhança do poeta com a mulher namorada, e
+ inquestionavel inferioridade do homem que não é poeta.--Os
+ rouxinoes. Reminiscencia de Bernardim Ribeiro e das suas
+ saudades.--De como o A. tinha quasi completo o seu romance, menos
+ um vestido branco e uns olhos pretos.--Sahem verdes os olhos com
+ grande admiração e pasmo seu.--Verificam-se as conjecturas sôbre a
+ mysteriosa janella.--A menina dos rouxinoes.--Censura das damas
+ muito para temer, crítica dos elegantes muito para rir.--Começa o
+ primeiro episodio d'esta Odyssea.
+
+
+O valle de Santarem é um d'estes logares privilegiados pela natureza,
+sitios amenos e deleitosos em que as plantas, o ar, a situação, tudo
+está n'uma harmonia suavissima e perfeita: não ha alli nada grandioso
+nem sublime, mas ha uma como symetria de côres, de sons, de disposição
+em tudo quanto se ve e se sente, que não parece senão que a paz, a
+saude, o socêgo do espirito e o repouso do coração devem viver alli,
+reinar alli um reinado de amor e benevolencia. As paixões más, os
+pensamentos mesquinhos, os pezares e as villezas da vida não podem senão
+fugir para longe. Imagina-se por aqui o Eden que o primeiro homem
+habitou com a sua innocencia e com a virgindade do seu coração.
+
+Á esquerda do valle, e abrigado do norte pela montanha que alli se corta
+quasi a pique, está um masisso de verdura do mais bello viço e
+variedade. A faia, o freixo, o alamo enterlaçam os ramos amigos; a
+madresilva, a musqueta penduram de um a outro suas grinaldas e festões;
+a congossa, os fettos, a malva-rosa do vallado vestem e alcatifam o
+chão.
+
+Para mais realçar a belleza do quadro, ve-se por entre um claro das
+árvores a janella meia aberta de uma habitação antiga mas não
+dilapidada--com certo ar de confôrto grosseiro, e carregada na côr pelo
+tempo e pelos vendavais do sul a que está exposta. A janella é larga e
+baixa; parece mais ornada e tambem mais antiga que o resto do edificio
+que todavia mal se ve...
+
+Interessou-me aquella janella.
+
+Quem terá o bom gôsto e a fortuna de morar alli?
+
+Parei e puz-me a namorar a janella.
+
+Incantava-me, tinha-me alli como n'um feitiço.
+
+Pareceu-me entrever uma cortina branca... e um vulto por de traz...
+Imaginarão decerto! Se o vulto fosse feminino!.. era completo o romance.
+
+Como hade ser bello ver pôr o sol d'aquella janella!..
+
+E ouvir cantar os rouxinoes!..
+
+E ver raiar uma alvorada de maio!..
+
+Se haverá alli quem a aproveite, a deliciosa janella?.. quem apprecie e
+saiba gosar todo o prazer tranquillo, todos os sanctos gosos de alma que
+parece que lhe andam esvoaçando em tôrno?
+
+Se fôr homem é poeta; se é mulher está namorada.
+
+São os dois entes mais parecidos da natureza, o poeta e a mulher
+namorada: vêem, sentem, pensam, fallam como a outra gente não ve, não
+sente, não pensa nem falla.
+
+Na maior paixão, no mais acrysolado affecto do homem que não é poeta,
+entra sempre o seu tanto da vil prosa humana: é liga sem que se não
+lavra o mais fino de seu oiro. A mulher não; a mulher apaixonada devéras
+sublima-se, idealiza-se logo, toda ella é poesia; e não ha dor physica,
+interêsse material, nem deleites sensuaes que a façam descer ao positivo
+da existencia prosaica.
+
+Estava eu n'estas meditações, começou um rouxinol a mais linda e
+desgarrada cantiga que ha muito tempo me lembra de ouvir.
+
+Era aope da ditta janella!
+
+E respondeu-lhe logo outro do lado opposto; e travou-se entre ambos um
+desafio tam regular, em strophes alternadas tam bem medidas, tam
+accentuadas e perfeitas, que eu fiquei todo dentro do meu romance,
+esqueci-me de tudo o mais.
+
+Lembrou-me o rouxinol de Bernardim-Ribeiro, o que se deixou cahir n'agua
+de cançado.
+
+O arvoredo, a janella, os rouxinoes... áquella hora, o fim da tarde...
+que faltava para completar o romance?
+
+Um vulto feminino que viesse sentar-se áquele balcão--vestido de
+branco--oh! branco por fôrça... a frente descahida sôbre a mão esquerda,
+o braço direito pendente, os olhos alçados ao ceo... De que côr os
+olhos? Não sei, que importa! é amiudar muito demais a pintura, que deve
+ser a grandes e largos traços para ser romantica, vaporosa, desenhar-se
+no vago da idealidade poetica...
+
+--'Os olhos, os olhos...' disse eu pensando ja alto, e todo no meu
+extasi, 'os olhos... pretos.'
+
+--'Pois eram verdes!'
+
+--'Verdes os olhos... d'ella, do vulto da janella?'
+
+--'Verdes como duas esmeraldas orientaes, transparentes, brilhantes, sem
+preço.'
+
+--'Quê! pois realmente?.. É gracejo isso, ou realmente ha alli uma
+mulher, bonita, e?..'
+
+--'Alli não ha ninguem--ninguem que se nomeie hoje, mas houve... oh!
+houve um anjo, um anjo, que deve de estar no ceo.'
+
+<tb>
+
+--'Bem dizia eu que aquella janella...'
+
+--'É a janella dos rouxinoes.'
+
+--'Que lá estão a cantar.'
+
+--'Estão, esses lá estão ainda como ha dez annos--os mesmos ou outros,
+mas a _menina dos rouxinoes_ foi-se e não voltou.'
+
+--'A menina dos rouxinoes! que historia é essa? Pois devéras tem uma
+historia aquella janella?'
+
+--'É um romance todo inteiro, _todo feito_ como dizem os francezes e
+conta-se em duas palavras.'
+
+--'Vamos a elle. A menina dos rouxinoes, menina com olhos verdes! Deve
+ser interessantissimo. Vamos á historia ja.'
+
+--'Pois vamos. Apeemo'-nos e descancemos um bocado.'
+
+Ja se ve que este dialogo passava entre mim e outro dos nossos
+companheiros de viagem.
+
+Apeámo'-nos comeffeito; sentamo'-nos; e eisaqui a historia da _menina
+dos rouxinoes_ como ella se contou.
+
+É o primeiro episodio da minha Odyssea: estou com medo de entrar n'elle
+porque dizem as damas e os elegantes da nossa terra que o portuguez não
+é bom para isto, que em francez que ha outro não-sei-quê...
+
+Eu creio que as damas que estão mal informadas, e sei que os elegantes
+que são uns tolos; mas sempre tenho meu receio, porque emfim, enfim,
+d'elles me rio eu, mas poesia ou romance, musica ou drama de que as
+mulheres não gostem, é porque não presta.
+
+Ainda assim, bellas e amaveis leitoras, intendamo'nos: o que eu vou
+contar não é um romance, não tem aventuras inredadas, peripecias,
+situações e incidentes raros; é uma historia simples e singella,
+sinceramente contada e sem pretenção.
+
+Acabemos aqui o capitulo em fórma de prologo, e a materia do meu conto
+para o seguinte.
+
+
+
+
+CAPITULO XI.
+
+
+ Tracta-se do unico privilegio dos poetas que tambem os philosophos
+ quizeram tirar, mas não lhes foi concedido; aos romancistas
+ sim.--Exemplo de Aristoteles e Anacreonte.--O A., tendo declarado
+ no capitulo nono d'esta obra que não era philosopho, agora
+ confessa, quasi solemnemente, que é poeta, e pretende manter-se,
+ como tal, em seu direito.--De como S. M. elrei de Dinamarca tinha
+ menos juizo do que Yorick, seu bobo.--Doutrina d'este. Funda n'ella
+ o A. o seu admiravel systema de physiologia e pathologia
+ transcendente do coração. Por uma deducção appertada e cerrada da
+ mais constrangente logica vem a dar-se no motivo porque foi
+ concedido aos poetas o direito indefinido de andarem sempre
+ namorados.--Applicam-se todas éstas grandes theorias á posição
+ actual do A. no momento de entrar no episodio promettido no
+ capitulo antecedente.--Modestia e reserva delicada o obrigam a
+ duvidar da sua qualificação para o desimpenho: pede votos ás
+ amaveis leitoras. Decide-se que a votação não seja nominal, e
+ porquê.--Dido e a mana Annica.--Entra-se emfim na prometida
+ historia.--De como a velha estava á porta a dobar, e
+ imbaraçando-se-lhe a meada, chamou por Joaninha, sua neta.
+
+
+Este é o unico privilegio dos poetas: que até morrer podem estar
+namorados. Tambem não lhes conheço outro. A mais gente tem as suas
+epochas na vida, fóra das quaes lhes não é permittido apaixonarem-se.
+Pretenderam accolher-se ao mesmo beneficio os philosophos, mas não lhes
+foi consentido pela rainha Opinião, que é soberana absoluta e juiz
+supremo de que se não appella nem aggrava ninguem.
+
+Anacreonte cantou, de cabellos brancos, os seus amores, e não se
+extranhou. Aristoteles mal teria a barba russa quando foi d'aquelle seu
+último namôro porque ainda hoje lhe apouquentam a fama.
+
+Ora eu philosopho, seguramente não sou, ja o disse; de poeta tenho o meu
+pouco, padeci, a fallar a verdade, meus ataques assás agudos d'essa
+molestia, e bem podéra desculpar-me com elles de certas fragilidades de
+coração... Mas não senhor, não quero desculpar-me como quem tem culpa
+senão defender-me como quem tem razão e justiça por si.
+
+Estou, com o meu amigo Yorick, o ajuizadissimo bobo d'elrei de
+Dinamarca, o que alguns annos depois ressuscitou em Sterne com tam
+elegante penna, estou sim. 'Toda a minha vida' diz elle 'tenho andado
+apaixonado ja por esta ja por aquella princeza, e assim heide ir,
+espero, até morrer, firmemente persuadido que se algum dia fizer uma
+acção baixa, mesquinha, nunca hade ser senão no intervallo de uma paixão
+á outra: n'esses interregnos sinto fechar-se-me o coração, esfria-me o
+sentimento, não acho dez reis que dar a um pobre... por isso fujo ás
+carreiras de similhante estado; e mal me sinto acceso de novo, sou todo
+generosidade e benevolencia outra vez.'
+
+Yorick tem rasão, tinha muito mais razão e juizo que seu augusto amo,
+elrei de Dinamarca. Por pouco mais que se generalize o principio, fica
+indisputavel, inexcepcionavel para sempre e para tudo. O coração humano
+é como o estomago humano, não pode estar vazio, preciza de alimento
+sempre: são e generoso so as affeições lh'o podem dar; o odio, a inveja
+e toda a outra paixão má é estímulo que so irrita mas não sustenta. Se a
+razão e a moral nos mandam abster d'estas paixões, se as chymeras
+philosophicas, ou outras, nos vedarem aquellas, que alimento dareis ao
+coração, que hade elle fazer? Gastar-se sôbre si mesmo, consummir-se...
+Altera-se a vida, appressa-se a dissolução moral da existencia, a saude
+d'alma é impossivel.
+
+O que póde viver assim, vive para fazer mal ou para não fazer nada.
+
+Ora o que não ama, que não ama apaixonadamente, seu filho se o tem, sua
+mãe se a conserva, ou a mulher que prefere a todas, esse homem é o tal,
+e Deus me livre d'elle.
+
+Sôbretudo que não escreva: hade ser um massador terrivel. Talvez seja
+este o motivo da indefinida permissão que é dada aos poetas de andarem
+namorados sempre.
+
+O romancista gosa do mesmo fôro e tem as mesmas obrigações. É como o
+privilegio de desimbargador que tiravam d'antes os fidalgos, quando ser
+desimbargador valia alguma coisa... e tanta coisa!
+
+Como heide eu então, eu que n'esta grave Odyssea das minhas viagens
+tenho de inserir o mais interessante e mysterioso episodio d'amor que
+ainda foi contado ou cantado, como heide eu fazê-lo, eu que ja não tenho
+que amar n'este mundo senão uma saudade e uma esperança--um filho no
+berço e uma mulher na cova?..
+
+Será isto bastante? Dizei-o vós, ó benevolas leitoras, póde com isto so
+alimentar-se a vida do coração?
+
+--Póde sim.
+
+--Não póde, não.
+
+--Estão divididos os suffragios: peço votação.
+
+--Nominal?
+
+--Não, não.
+
+--Porquê?
+
+--Porque ha muita coisa que a gente pensa, e crê e diz assim a
+conversar, mas que não ousa confessar publicamente, professar aberta e
+nomeadamente no mundo...
+
+Ah! sim... elle é isso? Bem as intendo, minhas senhoras: reservemos
+sempre uma sahida para os casos difficeis, para as circumstancias
+extraordinarias. Não é assim?
+
+Pois o mesmo farei eu.
+
+E pôsto que hoje, faz hoje um mez, em tal dia como hoje, dia para sempre
+assignalado na minha vida, me apparecesse uma visão, uma visão celeste
+que me surpreendeu a alma por um modo novo e extranho, e do qual não
+podia dizer decerto como a rainha Dido á mana Annica:
+
+ Reconheço o queimar da chamma antiga,
+ Agnosco veteris vestigia flammae;
+
+pôsto que a visão passou e desappareceu... mas deixou gravada n'alma a
+certeza de que... Pôsto que seja assim tudo isto, a confidencia não
+passará d'aqui, minhas senhoras: tanto basta para se saber que estou
+sufficientemente habilitado para chronista da minha historia, e a minha
+historia é ésta.
+
+Era no anno de 1832, uma tarde de verão como hoje calmosa, sêcca, mas o
+ceo puro e desabafado. Á porta d'essa casa entre o arvoredo, estaca
+sentada uma velhinha bem passante dos settenta, mas que o não mostrava.
+Vestia uma especie de tunica rosa que apertava na cintura com um largo
+cinto de coiro preto, e que fazia resahir a alvura da cara e das mãos
+longas, descarnadas, mas não ossudas como usam de ser mãos de velhas;
+toucava-se com um lenço da mais escrupulosa brancura, e pôsto de um
+geito particular a modo de toalha de freira; um mandil da mesma
+brancura, que tinha no peito e que affectava, não menos, a fórma de um
+escapulario de monja, completava o extranho vestuario da velha. Estava
+sentada n'uma cadeira baixa do mais classico feitio: textualmente
+parecia a que serviu de modêllo a Raphael para o seu bello quadro da
+_Madonna della Sedia_.
+
+Como nota historica e illustração artistica, seja-me permittido juntar
+aqui em parenthesis que, não ha muito, vi em casa de um sapateiro
+remendão, em Lisboa, no Bairro-alto, um cadeira tal e qual; torneados
+pyramidaes, simples, sem nobreza, mas elegantes.
+
+Tornemos á velhinha.
+
+Estava ella alli sentada na ditta cadeira, e deante de si tinha uma
+dobadoira, que se movia regularmente com o tirar do fio que lhe vinha
+ter ás mãos a inrollar-se no ja crescido novello.
+
+Era o unico signal de vida que havia em todo esse quadro. Sem isso,
+velha, cadeira, dobadoira, tudo pareceria uma graciosa sculptura de
+Antonio Ferreira ou um d'aquelles quadros tam verdadeiros do morgado de
+Setubal.
+
+O movimento bem visivel da dobadoira era regular, e respondía ao
+movimento quasi imperceptivel das mãos da velha. Era regular o
+movimento, mas durava um minuto e parava, depois ia seguido outros dous,
+tres minutos, tornava a parar: e n'esta regularidade de intermitencias
+se ia alternando como o pulso de um que treme sesões.
+
+Mas o velha não tremia, antes se tinha muito direita e aprumada: o parar
+do seu lavor era porque o trabalho interior do espirito dobrava, de vez
+em quando, de intensidade, e lhe suspendia todo o movimento externo. Mas
+a suspensão era curta e mesurada; reagia a vontade, e a dobadoira
+tornava a andar.
+
+Os olhos da velha é que tinham uma expressão singular: voltada para o
+poente, não os tirou d'essa direcção nem os inclinava de modo algum para
+a dobadoira que lhe ficava um pouco mais á esquerda. Não pestanejavam, e
+o azul de suas pupillas, que devia de ter sido brilhante como o das
+saphyras, parecia desbotado e sem lume.
+
+O movimento da dobadoira estacou agora de repente, a velha poisou
+tranquillamente as mãos e o novello no regaço, e chamou para dentro da
+casa:
+
+--'Joanninha?'
+
+Uma voz doce, pura, mas vibrante, d'estas vozes que se ouvem rara vez,
+que retinem dentro d'alma e que não esquecem nunca mais, respondeu de
+dentro:
+
+--'Senhora? Eu vou, minha avó, eu vou.'
+
+--'Querida filha!.. Como ella me ouviu logo! Deixa, deixa: vem quando
+podéres. É a meada que se me imbaraçou.'
+
+A velha era cega, cega de gotta-serena, e paciente, resignada como a
+providencia misericordiosa de Deus permitte quasi sempre que sejam os
+que n'este mundo destinou á dura provança de tam desconsolado martyrio.
+
+
+
+
+CAPITULO XII.
+
+
+ De como Joanninha desimbaraçou a meada da avó, e do mais que
+ aconteceu.--Que casta de rapariga era Joanninha.--Dá o A. insigne
+ próva de ingenuidade e boa fe confessando um grave senão do seu
+ Ideal. Insiste porém que é um adoravel deffeito.--Em que se parece
+ uma mulher desannellada com um Sansão tosquiado.--Pasmosas
+ monstruosidades da natureza que desmentem o credo velho dos
+ peralvilhos.--Os olhos verdes de Joanninha.--Religião dos olhos
+ pretos strenuamente professada pelo A. Perigo em que ella se acha á
+ vista de uns olhos verdes.--De como estando a avó e a neta a
+ conversar muito de mano a mano, chega Frei Diniz e se interrompe a
+ conversação.--Quem era Frei Diniz.
+
+
+--'Aqui estou, minha avó: é a sua meada?.. eu lh'a indireito:'--disse
+Joanninha sahindo de dentro, e com os braços abertos para a velha.
+Apertou-a n'elles com innefavel ternura, beijou-a muitas vezes, e
+tomando-lhe o novello das mãos n'um instante desimbaraçou o fio e lh'o
+tornou a intregar.
+
+A velha surria com aquelle surriso satisfeito que exprime os tranquillos
+gosos de alma, e que parecia dizer: 'Como eu sou feliz ainda, apezar de
+velha e de cega! Bemdito sejais, meu Deus.'
+
+Ésta última phrase, ésta bençam de um coração agradecido, que spira
+suavemente para o ceo como sobe do altar o fummo do incenso consagrado,
+ésta última phrase trasbordou-lhe e sahiu articulada dos labios:
+
+--'Bemditto seja Deus' minha filha, minha Joanninha, minha querida neta!
+E Elle te abençoe tambem, filha!'
+
+--'Sabe que mais, minha avó? Basta de trabalhar hoje, são horas de
+merendar'.
+
+--'Pois merendemos'.
+
+Joannninha foi dentro da casa, trouxe uma banquinha redonda, cubriu-a
+com uma toalha alvissima, pôs em cima fructa, pão, queijo, vinho,
+chegou-a para aopé da velha, tirou-lhe o novello da mão, e arredou a
+dobadoira. A velha comeu alguns bagos de um cacho doirado que a neta lhe
+escolheu e pôs nas mãos, bebeu um trago de vinho, e ficou callada e
+quieta, mas ja sem a mesma expressão de felicidade e contentamento
+socegado que ainda agora lhe luzia no rosto.
+
+As animadas feições de Joanninha reflectiam sympathicamente a mesma
+alteração.
+
+Joanninha não era bella, talvez nem galante siquer no sentido popular e
+expressivo que a palavra tem em portuguez, mas era o typo da gentileza,
+o ideal da spiritualidade. N'aquelle rosto, n'aquelle corpo de dezeseis
+annos, havia por dom natural e por uma admiravel symetria de proporções
+toda a elegancia nobre, todo o desimbaraço modesto, toda a flexibilidade
+graciosa que a arte, o uso e a conversação da côrte e da mais escolhida
+companhia vêem a dar a algumas raras e privilegiadas creaturas no mundo.
+
+Mas n'esta foi a natureza que fez tudo, ou quasi tudo, e a educação nada
+ou quasi nada.
+
+Poucas mulheres são muito mais baixas, e ella parecia alta: tam
+delicada, tam _elancée_ era a fórma airosa de seu corpo.
+
+E não era o garbo teso e aprumado da perpendicular _miss_ ingleza que
+parece fundida de uma so peça; não, mas flexivel e ondulante como a
+hástea joven da árvore que é direita mas dobradiça, forte da vida de
+toda a seiva com que nasceu, e tenra que a estalla qualquer vento forte.
+
+Era branca, mas não d'esse branco importuno das loiras, nem do branco
+terso, duro, marmoreo das ruivas--sim d'aquella modesta alvura da cera
+que se illumina de um pallido reflexo de rosa de Bengalla.
+
+E d'outras rosas, d'estas rosas-rosas que denunciam toda a franqueza de
+um sangue que passa livre pelo coração e corre á sua vontade por
+artérias em que os nervos não dominam, d'essas não as havia n'aquelle
+rosto: rosto sereno como é sereno o mar em dia de calma, porque dorme o
+vento... Alli dormiam as paixões.
+
+Que se levante a mais ligeira brisa, basta o seu macio bafejo para
+increspar a superficie espelhada do mar.
+
+Sussurre o mais ingenuo e suave movimento d'alma no primeiro acordar das
+paixões, e verão como se sobresaltam os musculos agora tam quietos
+d'aquella face tranquilla.
+
+O nariz ligeiramente aquilino: a bôcca pequena e delgada não cortejava
+nem desdenhava o surriso, mas a sua expressão natural e habitual era uma
+gravidade singela que não tinha a menor aspereza nem doutorice.
+
+Ha umas certas boquinhas gravesinhas e espremidinhas pela doutorice que
+são a mais abhorrecidinha coisa e a mais pequinha que Deus permitte
+fazer ás suas creaturas femeas.
+
+Em perfeita harmonia de côr, de fórma e de tom com a fina gentileza
+d'estas feições, os cabellos de um castanho tam escuro que tocava em
+preto, cahiam de um lado e outro da face, em tres longos, deseguaes e
+mal inrolados canudos, cuja ondada spiral se ia relaxando e diminuindo
+para a extremidade, até lhe tocarem no collo quasi lisos.
+
+Em stylo de arte--no stylo da primeira e da mais bella das bellas artes,
+a _toilete_--este é um defeito; bem sei.
+
+Que votos, que novenas se não fazem a San'Barometro nas vésperas de um
+baile para lhe pedir uma atmosphera sêcca e benigna que deixe conservar,
+até á quarta contradança ao menos, a preciosa obra de carrapito e ferro
+quente, de macassar e mandolina que tanto trabalho e tanto tempo, tantos
+sustos e cuidados custou!
+
+Bem sei pois que é defeito, é, será... mas que adoravel defeito! Que
+deliciosas imagens que excita de abandôno--passe o gallicismo--de
+confiança, de absoluta e generosa renúncia a todo o caprixo, de perfeita
+e completa abdicação de toda a vontade propria!
+
+Em geral, as mulheres parecem ter no cabello a mesma fé que tinha
+Sansão: o que n'elle se ia em lh'os cortando, cuidam ellas que se lhes
+vai em lh'os desannellando? Talvez; e eu não estou longe de o crer:
+canudo inflexivel, mulher inflexivel.
+
+Os peralvilhos negam a existencia do tal canudo _in rerum natura_, dizem
+que é como a ave phenix que nasceu de nossos avós não saberem grego. Eu
+não digo tal, porque tenho visto descuidar-se a natureza em pasmosas
+monstruosidades.
+
+Emfim suspendâmos, sem o terminar, o exame d'esta profunda e
+interessante questão. Fica addiada para um capitulo _ad hoc_, e voltemos
+á minha Joanninha.
+
+Cahiam d'um lado e de outro da sua face gentil aquelles graciosos
+anneis; e o resto do cabello, que era muito, ia intrançar-se, e
+inrolar-se com singela elegancia abaixo da coroa de uma cabeça pequena,
+estreita e do mais perfeito modêlo.
+
+As sobrancelhas, quasi pretas tambem, desenhavam-se n'uma curva de
+extrema pureza; a as pestanas longas e assedadas faziam sombra na alvura
+da face.
+
+Os olhos porêm--singular capricho da naturesa, que no meio de toda esta
+harmonia quiz lançar uma nota de admiravel discordancia! Como poderoso e
+ousado _maestro_ que, no meio das pbrases mais classicas e deduzidas da
+sua composição, atira derepente com um som agudo e stridulo que ninguem
+espera e que parece lançar a anarchia no meio do rythmo musical... os
+dillettantes arripiam-se, os professores benzem-se; mas aquelles cujos
+ouvidos lhes levam ao coração a musica, e não á cabeça, esses estremecem
+de admiração e enthusiasmo... Os olhos de Joanninha eram verdes... não
+d'aquelle verde descorado e traidor da raça felina, não d'aquelle verde
+mau e destingido que não é senão azul imperfeito, não; eram
+verdes-verdes, puros e brilhantes como esmeraldas do mais subido
+quilate.
+
+São os mais raros e os mais fascinantes olhos que ha.
+
+Eu, que professo a religião dos olhos pretos, que n'ella nasci e n'ella
+espero morrer... que alguma rara vez que me deixei inclinar para a
+heretica pravidade do ôlho azul, soffri o que é muito bem feito que
+soffra todo o renegado... eu firme e inabalavel, hoje mais que nunca,
+nos meus principios, sinceramente persuadido que fóra d'elles não ha
+salvação, eu confesso todavia que uma vez, uma unica vez que vi dos taes
+olhos verdes, fiquei halucinado, senti abalar-se pelos fundamentos o meu
+catholicismo, fugi escandalizado de mim mesmo, e fui retemperar a minha
+fé vacillante na contemplação das eternas verdades, que so e unicamente
+se incontram aonde está toda a fé e toda a crença... n'uns olhos sincera
+e lealmente pretos.
+
+Joanninha porêm tinha os olhos verdes; e o effeito d'esta rara feição
+n'aquella physionomia á primeira vista tam discordante--era em verdade
+pasmosa. Primeiro fascinava, halucinava, depois fazia uma sensação
+inexplicavel e indecisa que doía e dava prazer ao mesmo tempo: porfim
+pouco o pouco, estabelecia-se a corrente magnetica tam poderosa, tam
+carregada, tam incapaz de solução-de-continuidade, que toda a lembrança
+de outra coisa desapparecia, e toda a intelligencia e toda a vontade
+eram absorvidas.
+
+Resta so accrescentar--e fica o retrato completo, um simples vestido
+azul escuro, cinto e avental preto, e uns sapatinhos com as fitas
+traçadas em cothurno. O pé breve e estreito; o que se adivinhava da
+perna admiravel.
+
+Tal era a ideal e espiritualissima figura que em pé, incostada á banca
+onde acabava de comer a boa da velha, contemplava, n'aquelle rosto
+macerado e apagado, a indicivel expressão de tristeza que elle pouco a
+pouco ía tomando e que toda se reflectia, como disse, no semblante da
+contempladora.
+
+A velha suspirou profundamente, e fazendo como um esfôrço para se
+distrahir de pensamentos que a affligiam, buscou incertamente com as
+mãos o novêllo da sua meada:
+
+--'O meu novêllo, filha: não posso estar sem fazer nada, faz-me mal.'
+
+--'Conversemos, avó.'
+
+--'Pois conversemos; mas dá-me o meu novêllo. Não sei o que é, mas
+quando não trabalho eu, trabalha não sei o que em mim que me cansa ainda
+mais. Bem dizem que a ociosidade é o peior lavor.'
+
+Joanninha deu-lhe o novêllo e pôs-lhe a dobadoira a geito.
+
+A velha sentiu o que quer que fosse na mão, levou-a á bôcca e pareceu
+beija-la, depois disse:
+
+--'Bem vi, Joanninha!'
+
+--'O quê, minha avó? que viu?'
+
+--'Vi, filha, vi.., sem ser com os olhos que Deus me cerrou para
+sempre--louvado seja Elle por tudo!--vi, sentindo, ésta lagryma tua que
+me cahiu na mão, e que ja ca está no peito por que a bebi, Joanna. Oh
+filha, ja! é muito cedo para começar, deixa isso para mim que estou
+costumada: mas tu, tu com deseseis annos e nenhum desgôsto!'
+
+--'Nenhum, avó! E estamos sosinhas nós duas n'este mundo, minha avó
+n'esse estado, eu n'esta edade, e...'
+
+--'E Deus no ceu para tomar conta em nós... Mas que é? olha, Joanna: eu
+sinto passos na estrada vê o que é.'
+
+--'Não vejo ninguem.'
+
+--'Mas oiço eu... Espera... é Fr. Diniz; conheço-lhe os passos.'
+
+Mal a velha acabava de pronunciar este nome, surdiu, de traz de umas
+oliveiras que ficam na volta da estrada, da banda de Santarem, a figura
+sêcca, alta e um tanto curvada de um religioso franciscano que abordoado
+em seu pau tosco, arrastando as suas sandalias amarellas e tremendo-lhe
+na cabeça o seu chapeo alvadio, vinha em direcção para ellas.
+
+Era Fr. Diniz comeffeito, o austero guardião de San'Francisco de
+Santarem.
+
+
+
+
+CAPITULO XIII.
+
+
+ Dos frades em geral.--O frade moralmente considerado, socialmente e
+ artisticamente.--Próva-se que é muito mais poetico o frade do que o
+ barão.--Outra vez D. Quixote e Sancho-Pansa.--Do que seja o barão,
+ sua classificação e descripção linneana.--Historia do castello do
+ Chucherumello.--Erro palmar de Eugenio Sue: mostra-se que os
+ jesuitas não são a cholera-morbus, e que é preciso refazer o 'Judeu
+ errante'--De como o frade não intendeu o nosso seculo nem o nosso
+ seculo ao frade.--De como o barão ficou em logar do frade, e do
+ muito que n'isso perdémos.--Unica voz que se ouve no actual deserto
+ da sociedade: os barões a gritar contos de reis.--Como se contam e
+ como se pagam os taes contos.--Predilecção artistica do A. pelo
+ frade: confessa-se e explica-se ésta predilecção.
+
+
+Frades... frades... Eu não gósto de frades. Como nós os vimos ainda os
+d'este seculo, como nós os intendêmos hoje, não gósto d'elles, não os
+quero para nada, moral e socialmente fallando.
+
+No ponto de vista artistico porêm o frade faz muita falta.
+
+Nas cidades, aquellas figuras graves e sérias com os seus habitos
+tallares, quasi todos picturescos e alguns elegantes, atravessando as
+multidões de macacos e bonecas de casaquinha esguia e chapelinho de
+alcatruz que distinguem a peralvilha raça europea--cortavam a monotonia
+do ridiculo e davam physionomia á população.
+
+Nos campos o effeito era ainda muito maior: elles characterizavam a
+payzagem, poetisavam a situação mais prosaica de monte ou de valle; e
+tam necessarias tam obrigadas figuras eram em muitos d'esses quadros,
+que sem ellas o painel não é ja o mesmo.
+
+Alêm d'isso o convento no povoado e o mosteiro no êrmo animavam,
+amenizavam, davam alma e grandeza a tudo: elles protegiam as árvores,
+sanctificavam as fontes, enchiam a terra de poesia e de solemnidade.
+
+O que não sabem nem podem fazer os agiotas barões que os substituiram.
+
+É muito mais poetico o frade que o barão.
+
+O frade era, até certo ponto, o Dom Quixote da sociedade velha.
+
+O barão é, em quasi todos os pontos, o Sancho-Pansa da sociedade nova.
+
+Menos na graça...
+
+Porque o barão é o mais desgracioso e estupido animal da creação.
+
+Sem exceptuar a familia asinina que se illustra com individualidades tam
+distinctas como o Ruço do nosso amigo Sancho, o asno da Poncella de
+Orleans e outros.
+
+O barão (_onagros-baronius_ de Linn., _l'ânne-baron_ de Buf.) é uma
+variedade monstruosa ingendrada na burra de Balaham, pela parte
+essencialmente judaica e usuraria de sua natureza, em coito damnado com
+o urso Martinho do Jardim das Plantas[2], pela parte franchinotica e
+sordidamente revolucionaria de seu character.
+
+O barão é pois usurariamente revolucionario, e revolucionariamente
+usurario.
+
+Por isso é _zebrado_ de riscas monarchico-democraticas por todo o pêllo.
+
+Este é o barão verdadeiro e puro-sangue: o que não tem estes characteres
+é especie differente, de que aqui se não tracta.
+
+Ora, sem sahir dos barões e tornando aos frades, eu digo: que nem elles
+comprehenderam o nosso seculo nem nós os comprehendémos a elles..
+
+Por isso brigámos muito tempo, a final vencêmos nós, e mandámos os
+barões a expulsá-los da terra. No que fizemos uma sandice como nunca se
+fez outra. O barão mordeu no frade, devorou-o... e escouceou-nos a nós
+depois.
+
+Com que havemos nós agora de matar o barão?
+
+Porque este mundo e a sua historia é a historia do 'castello do
+Chucherumello'. Aqui está o cão que mordeu no gato, que matou o rato,
+que roeu a corda etc. etc.: vai sempre assim seguindo.
+
+Mas o frade não nos comprehendeu a nós, por isso morreu, e nós não
+comprehendemos o frade, por isso fizemos os barões de que havemos de
+morrer.
+
+São a molestia d'este seculo; são elles, não os jesuitas, a
+cholera-morbus da sociedade actual, os barões. O nosso amigo Eugenio Sue
+errou de meio a meio no 'Judeu errante' que precisa refeito.
+
+Ora o frade foi quem errou primeiro em nos não comprehender, a nós, ao
+nosso seculo, ás nossas inspirações e aspirações: com o que falsificou a
+sua posição, isolou-se da vida social, fez da sua morte uma necessidade,
+uma coisa infallivel e sem remedio. Assustou-se com a liberdade que era
+sua amiga, mas que o havia de reformar, e uniu-se ao despotismo que o
+não amava senão relaxado e vicioso, porque de outro modo lhe não servia
+nem o servia.
+
+Nós tambem errámos em não intender o desculpavel êrro do frade, em lhe
+não dar outra direcção social; e evitar assim os barões, que é muito
+mais damninho bicho e mais roedor.
+
+Porque, desinganem-se, o mundo sempre assim foi e hade ser. Por mais
+bellas theorias que se façam, por mais perfeitas constituições com que
+se comece, o _status in statu_ forma-se logo: ou com frades ou com
+barões ou com pedreiros livres se vai pouco a pouco organizando uma
+influencia distincta, quando não contraria, ás influencias manifestas e
+apparentes do grande corpo social. Esta é a opposição natural do
+Progresso, o qual tem a sua opposição como todas as coisas sublunares e
+superlunares; ésta corrige saudavelmente, ás vezes, e modera sua
+velocidade, outras, a impece com demazia e abuso: mas emfim é uma
+necessidade.
+
+Ora eu, que sou ministerial do Progresso, antes queria a opposição dos
+frades que a dos barões. O caso estava em a saber conter e approveitar.
+
+O Progresso e a liberdade perdeu, não ganhou.
+
+Quando me lembra tudo isto, quando vejo os conventos em ruinas, os
+egressos a pedir esmola e os barões de berlinda, tenho saudades dos
+frades--não dos frades que foram, mas dos frades que podiam ser.
+
+E sei que me não inganam poesias; que eu reajo fortemente com uma logica
+inflexivel contra as illusões poeticas em se tractando de coisas graves.
+
+E sei que me não namóro de paradoxos, nem sou d'estes espiritos de
+contradicção desinquieta que suspiram sempre pelo que foi, e nunca estão
+contentes com o que é.
+
+Não, senhor: o frade, que é patriota e liberal na Irlanda, na Polonia,
+no Brazil, podia e devia sê-lo entre nós; e nós ficavamos muito melhor
+do que estamos com meia duzia de clerigos de requiem para nos dizer
+missa; e com duas grozas de barões, não para a tal opposição salutar,
+mas para exercer toda a influencia moral e intellectual da
+sociedade--porque não ha de outra ca.
+
+E se não digam-me: onde estão as universidades, e o que faz essa que ha
+senão dar o seu grausito de bacharel em leis e em medicina? O que
+escreve ella, o que discute, que príncipios tem, que doutrinas professa,
+quem sabe ou ouve d'ella senão algum echo timido e acanhado do que
+n'outra parte se faz ou diz?
+
+Onde estão as academias?
+
+Que palavra poderosa retine nos pulpitos?
+
+Onde está a fôrça da tribuna?
+
+Que poeta canta tam alto que o oiçam as pedras brutas e os robres duros
+d'esta selva materialista a que os utilitarios nos reduziram?
+
+Se exceptuarmos o debil clamor da imprensa liberal ja meio-esganada da
+policia, não se ouve no vasto silencio d'este ermo senão a voz dos
+barões gritando contos de réis.
+
+Dez contos de réis por um eleitor!
+
+Mais duzentos contos pelo tabaco!
+
+Três mil contos para a conversão de um amphigouri!
+
+Cinco mil contos para as estradas dos areonautas!
+
+Seis mil contos para isto, dez mil contos para aquillo!
+
+Não tardam o contar por centenas de milhares.
+
+Contar a elles não lhes custa nada.
+
+A quem custa é a quem paga para todos esses balões de papel--a terra e a
+indústria..................................................................
+...........................................................................
+...........................................................................
+
+Este capítulo deve ser considerado como introducção ao capítulo
+seguinte, em que entra em scena Fr. Diniz, o guardião do San' Francisco
+de Santarem.
+
+Ja me disseram que eu tinha o genio frade, que não podia fazer conto,
+drama, romance sem lhe metter o meu fradinho.
+
+O 'Camões' tem um frade, Frei José Indio;
+
+A 'Dona Branca' tres, Frei Soeiro, Frei Lopo e San'-Frei Gil--faz
+quatro;
+
+A 'Adozinda' tem um ermitão, especie de frade--cinco;
+
+'Gil-Vicente' tem outro--isto é, verdadeiramente não tem senão meio
+frade, que é André de Rezende, demais a mais, pessoa muda--cinco e meio;
+
+O 'Alfageme' tres quartos do frade, Froilão-Dias, chibato da ordem de
+Malta--seis frades e um quarto;
+
+Em 'Frei Luiz de Sousa' tudo são frades: vale bem n'esta computação, os
+seus tres, quatro, meia duzia de frades--são já dôze e quarto:
+
+Alguns, não eu, querem metter n'esta conta o 'Arco-de-Sanct'Anna', em
+que ha bem dous frades e um leigo:
+
+E aqui tenho eu ás costas nada menos de quinze frades e quarto.
+
+Com este Frei Diniz é um convento inteiro.
+
+Pois, senhores, não sei que lhes faça: a culpa não é minha. Desde mil
+cento e tantos que começou Portugal, até mil oitocentos trinta e tantos
+que uns dizem que elle se restaurou, outros que o levou a breca, não sei
+que se passasse ou podesse passar n'esta terra coisa alguma pública ou
+particular, em que frade não entrasse.
+
+Para evitar isto não ha senão usar da receita que vem formulada no
+capitulo V[3] d'esta obra.
+
+Faça-o quem gostar; eu não, que não quero nem sei.
+
+
+
+
+CAPITULO XIV.
+
+
+ Emendado emfim de suas distracções e divagações, prosegue o A.
+ direitamente com a historia promettida.--De como Fr. Diniz deu a
+ manga a beijar á avó e á neta, e do mais que entre elles se
+ passou.--Ralha o frade com a velha, e começa a descobrir-se onde a
+ historia vai ter.
+
+
+Este capitulo não tem divagações, nem reflexões, nem considerações de
+nenhuma especie, vai direito e sem se distrahir, pela sua historia
+adeante.
+
+Fr. Diniz chegava aopé das duas mulheres e disse:
+
+--'Louvado seja Nosso Senhor Jesus Christo!'
+
+Joanna adeantou-se alguns passos a beijar-lhe a manga. Elle
+accrescentou:
+
+--'A benção de Deus te cubra, filha, e a de nosso padre San'Francisco!'
+
+--'Benedicite, padre guardião:' disse a velha inclinando-se meia
+levantada da cadeira.
+
+--'Em nome do Senhor! amen'.--respondeu o frade aproximando-se, e
+chegando o braço a alcance de lh'o ella beijar:
+
+--'Ora aqui estou, minha irman; que me quer? E como vai isto por cá?
+Vamo-nos confortando, tendo paciencia, e soffrendo com os olhos no
+Senhor?'
+
+--'Ja os não tenho senão para elle, padre.'
+
+--'Ah, ah! irman Francisca, sempre esse pensamento, sempre essa queixa!
+Tenho-a reprehendido tanta vez e não se emenda.'
+
+--'Eu não me queixei, meu padre. Deus sabe que me não queixo... ao menos
+por mim.'
+
+--'Pois por quem?'
+
+--'Oh padre!'
+
+--'Irman Francisca, tenho medo de a intender. Eu não conheço as
+affeições da carne nem lido com os fracos pensamentos do mundo. Sou
+frade, minha irman, sou um que ja não é do número dos vivos, que vestiu
+ésta mortalha para não ser d'elles, que a vestiu n'um tempo em que a
+mofa e o desprêzo são o unico patrimonio do frade, em que o escarneo, a
+derisão, o insulto--o peior e o mais cruel de todos os martyrios--são a
+nossa unica esperança. Eu quiz ser frade, fiz-me frade, sabendo e vendo
+tudo isto, fiz-me frade no meio de tudo isto, já velho e experimentado
+no mundo, farto de o conhecer, e certo do que me espera--a mim e á
+profissão que abraçei. Que quer de um homem que assim se resolveu a
+cortar por quanto prende a humanidade a ésta miseravel vida da terra,
+para não viver senão das esperanças da outra? Eu vesti este hábito para
+isso. O seu, irman, o seu para que o vestiu? É um divertimento, é um
+capricho, é uma comedia com Deus? Rasgue-o depressa, vista-se das galas
+do mundo, não apperte com a paciencia divina, trajando por fóra o sacco
+da penitencia e trazendo o coração pordentro desappertado de todo o
+cilicio e mortificação.'
+
+A velha com as mãos postas, a face alevantada e os apagados olhos para o
+ceo, offerecia a Deus todo o amargor d'aquella austeridade que não
+cuidava merecer nem lhe parecia intender. Joanninha, que insensivelmente
+se fôra approximando da avó, e a tinha como amparada portraz com um de
+seus braços, firmava a outra mão nas costas da cadeira e cravava fita no
+frade a vista penetrante e cheia de luz. A expressão do seu rosto era
+indefinivel: irisava-lh'o, distincta mas promiscuamente, um mixto
+inextricavel de enthusiasmo e desanimação, de fé e de incredulidade, de
+sympathia e de aversão.
+
+Disseras que n'aquelles olhos verdes e n'aquelle rosto mal córado estava
+o typo e o symbolo das vascillações do seculo.
+
+--'Padre!' tornou a velha com sincera humildade na voz e no gesto:--'se
+o mereci, castigae-me. Deus, que me vê e me ouve, bem sabe que o digo em
+toda a verdade do meu coração, e hade perdoar-me porque eu sou fraca e
+mulher.'
+
+--'Pois aos fracos não é que Elle disse: _Toma a tua cruz e segue-me_.
+Quem a obrigou a fazer os votos que fez?'
+
+--'É verdade, padre, é verdade: bem sei o que prometti, que me votei a
+Deus d'alma e corpo, que me não pertenço, que nem das minhas affeições
+posso dispor, mas...'
+
+--'Mas o quê? Irman Francisca, a Deus não se ingana. Os seus votos não
+foram feitos n'um mosteiro, nem proferidos n'um altar no meio das
+solemnidades da egreja. Mas ja lh'o tenho ditto, no fôro da consciencia,
+na presença de Deus, ligam-n'a tanto ou mais do que se o fossem.
+Abjure-os se quizer; nenhuma lei, nenhuma fôrça humana a constrange.
+Diga-m'o por uma vez, desingane-me, e eu não torno aqui.'
+
+--'Oh, por compaixão, padre! pelas chagas de Christo! Mas uma pergunta
+so, uma so, e eu prometto não pensar, não fallar mais em... Onde está
+elle?'
+
+--'Joanna, retire-se.'
+
+Joanninha appertou a avó com ambos os braços; e sem dizer uma palavra,
+sem fazer um so gesto, lentamente e silenciosamente se retirou para
+dentro de casa.
+
+--'E ésta, padre?' disse a velha sem esperar a resposta á primeira
+pergunta que com tanta ancia fizera--'e ésta, tambem d'ella me heide
+separar, tambem heide renunciar a ella?'
+
+--'Esta é uma innocente, e emquanto o for'...
+
+--'Em quanto o for! A minha Joanna é um anjo.'
+
+--'Blasphemia, blasphemia! E o Senhor a não castigue por ella. Joanna é
+boa e temente a Deus: esperemos que Elle a conserve da sua mão. O
+outro...'
+
+--'Que é feito d'elle padre? Oh! diga-m'o, e eu prometto...'
+
+--'Não prometta senão o que póde cumprir. Seu neto está com esses
+desgraçados que vieram das ilhas, é dos que desimbarcaram no Porto...'
+
+--'Oh filho da minha alma! que não tórno a abraçar-te...'
+
+--'Não decerto; vencedores ou vencidos, toda a communhão, toda a
+possibilidade de união acabou entre nós e estes homens. Nós temos
+obrigação de os destruir, elles o seu unico desejo é exterminar-nos.'
+
+--'Meu Deus meu Deus! pois a isto somos chegados! Pois ja não ha
+misericordia no ceo nem na terra!'
+
+--'A misericordia de Deus cansou-se; a da terra não sei onde está nem
+onde esteve nunca. Os fracos dão sacrilegamente esse nome á sua
+relaxação.'
+
+--'Pois é relaxação desejar a paz, querer a união, supplicar a
+indulgencia? Não nos manda Deus perdoar as nossas dividas, amar os
+nossos inimigos?'
+
+--'Os nossos sim, os d'Elle não.'
+
+--'Tende compaixão de mim, Senhor!'
+
+--'Se as suas afflicções são as da carne e do sangue, se são pensamentos
+da terra como desgraçadamente vejo que são, mulher fraca e de pouco
+ânimo, console-se, que para mim é claro e seguro que estes homens hãode
+vencer.'
+
+--'Quaes homens?'
+
+--'Esses inimigos do altar e da verdade, esses homens desvairados pelas
+speciosas doutrinas do seculo. Esperam muito, promettem muito, estão em
+todo o vigor das suas illusões. E nós, nós carregâmos com o desingano de
+muitos seculos, com os peccados de trinta gerações que passaram, e com a
+inaudita corrupção da presente... nós havemos de succumbir. Os templos
+hãode ser destruidos, os seus ministros proscriptos, o nome de Deus
+blasphemado á vontade n'esta terra malditta.'
+
+--'Pois tam perdidos, tam abandonados da mão de Deus são elles todos...
+todos?'
+
+--'Todos. E que cuida, irman? que são melhores os nossos, esses que se
+dizem nossos? que ha mais fé na sua crença, mais verdade em sua
+religião? Oh sancto Deus!'
+
+--'Faz-me tremer, padre!'
+
+--'E para tremer é. A impiedade e a cubiça entraram em todos os
+corações. _Duvidar_ é o unico princípio, _inriquecer_ o unico objecto de
+toda essa gente. Liberaes e realistas, nenhum tem fé: os liberaes ainda
+teem esperança; não lhe hade durar muito. Deixem-n'os vencer e verão.'
+
+--'E hãode vencer elles?'
+
+--'Decerto.'
+
+--'Ninguem mais diz isso.'
+
+--'Digo-o eu.'
+
+--'Tantos mil soldados que o govêrno tem por si!'
+
+--'E tantos milhões de peccados contra. Não póde ser, não póde ser: a
+misericordia divina está exhausta, e o dia desejado dos impios vem a
+chegar. A sua missão é facil e prompta; não sabem, não podem senão
+destruir. Edificar não é para elles, não teem com quê, não creem em
+nada. O symbolo christão não é so uma verdade religiosa é um princípio
+eterno e universal. _Fe, esperança e charidade_. Sem crer, sem
+esperar...'
+
+--'E sem amar!'
+
+--'Mulher, mulher! o amor é a última virtude...'
+
+--'Mas por ella, por ella se chega ás outras.'
+
+--'Não, mulher fraca, não. E de uma vez para sempre, irman Francisca,
+desinganemo'-nos. Entre mim, entre o Deus que eu sirvo, não ha
+transacção com os seus inimigos. Indulgencia n'esse ponto não sei o que
+é. Vejo a sorte que me espera n'este mundo, e não tremo deante d'ella.
+Quem teme, siga outro caminho; eu nunca.'
+
+--'Padre eu não temo nem receio por mim. Sou fraca e mulher, e em toda a
+tribulação e desgraça heide glorificar o meu Deus e dar testimunho da
+minha fé. Mas... mas o meu neto é o meu sangue, a minha vida, é o filho
+querido da minha unica e tam amada filha, elle não conheceu outra mãe
+senão a mim, quero-lhe por elle e por ella. Abandoná-lo não posso, tirar
+d'elle o pensamento não sei. A vontade de Deus...'
+
+--'A vontade de Deus é que o justo se aparte do impio, é que os
+cordeiros da benção vão para um lado, e os cabritos da maldicção para
+outro. Esse rapaz... oh! minha irman, eu não sou de pedra, não, não sou,
+e tambem o coração se me parte de o dizer... mas esse rapaz é malditto,
+e entre nós e elle está o abysmo todo do inferno.'
+
+--'Misericordia, meu Deus!'
+
+Pallido, infiado, mais descorado e mais amarello do que era sempre
+aquelle rosto, Fr. Diniz pronunciou, tremendo mas com fôrça, as suas
+últimas e terriveis palavras. Os olhos, habitualmente sumidos e cavos,
+recuaram-lhe ainda mais para dentro das orbitas descarnadas; o bordão
+tremia-lhe na esquerda; e a direita suspensa no ar parecia intimar ao
+culpado a terrivel imprecação que lhe sahia dos labios.
+
+--'Malditto! malditto sejas tu!' proseguiu o frade, 'filho ingrato,
+coração derrancado e perverso!'
+
+--'Meu Deus, não o escuteis!' bradou a velha cahindo de joelhos no chão
+e prostrando-se na terra dura 'Meu Deus, não confirmeis aquellas
+palavras tremendas. Não o ouçais, Senhor, e valha o sangue precioso de
+vosso filho, as dores bemdittas de sua mãe, oh meu Deus! para arredar da
+cabeça do meu pobre filho as crueis palavras d'este homem sem piedade,
+sem amor!..'
+
+A velha queria dizer mais; as angústias que se tinham estado juntando
+n'aquella alma, que porfim não podia mais e transbordava, queriam sahir
+todas, queriam derramar-se alli em lagrymas e soluços na presença do seu
+Deus que ella via sempre no throno das misericordias, que não podia
+acabar comsigo que o visse o inflexivel, o terrivel Deus das vinganças
+que lhe annunciava o frade. Mas a carne não pôde com o espirito, as
+fôrças do corpo cederam: tomou-a um mortal deliquio, immudeceu, e...
+suspendeu-se-lhe a vida.
+
+Fr. Diniz contemplou-a alguns momentos n'esse estado e pareceu
+commover-se; mas aquelles nervos eram fios de ferro temperado que não
+vibravam a nenhuma suave percussão: deu dous passos para a porta da
+casa, bateu com o bordão e disse com voz firme e segura:
+
+--'Joanna, acuda a sua avó que não está boa.'
+
+D'ahi tomou por onde viera, e, sem voltar uma vez a cabeça, caminhou
+ápressado; breve se escondeu para lá das oliveiras da estrada.
+
+
+
+
+CAPITULO XV.
+
+
+ Retratto de um frade franciscano que não foi para o depósito da
+ Terra-sancta, nem consta que esteja na Academia das
+ Bellas-artes.--Ve-se que a logica de Fr. Diniz se não parecia nada
+ com a de Condillac.--Suas opiniões sôbre o liberalismo e os
+ liberaes.--Que o podêr vem de Deus, mas como e paraquê.--Que os
+ liberaes não intendem o que é liberdade e egualdade; e o para que
+ eram os frades, se fossem.--Próva-se, pelo texto, que o homem não
+ vive so de pão, e pergunta-se o de que vivia então Fr. Diniz.
+
+
+Quem era Frei Diniz?
+
+Disse-o elle:--um homem que se fizera frade, ja velho e cançado do
+mundo, que vestíra o hábito n'um tempo em que a mofa, o escarneo e o
+desprêzo seguiam aquella profissão; que o sabía, que o conhecia e que
+por isso mesmo o affrontára.
+
+D'estes raros e fortes characteres apparecem sempre na agonia das
+grandes instituições para que nenhuma pereça sem protesto, paraque de
+nenhum pensamento duravel e consagrado pelo tempo se possa dizer que lhe
+faltou quem o honrasse na hora derradeira por uma devoção nobre,
+gloriosa e digna do alto espirito do homem:--que o homem é uma grande e
+sublime creatura por mais que digam philosophos.
+
+Tal era Fr. Diniz, homem de principios austeros, de crenças rigidas, e
+de uma logica inflexivel e teimosa: logica porêm que regeitava toda a
+anályse, e que forte nas grandes verdades intellectuaes e moraes em que
+fixára o seu espirito, descia d'ellas com o tremendo pêso de uma
+synthese asperrima e oppressora que esmagava todo o argumento, destruía
+todo o raciocinio que se lhe punha de deante.
+
+Condillac chamou á synthese methodo de trevas: Fr. Diniz ria-se de
+Condillac... e eu parece-me que tenho vontade de fazer o mesmo.
+
+O despotismo, detestava-o como nenhum liberal é capaz de o abhorrecer;
+mas as theorias philosophicas dos liberaes, escarnecia-as como absurdas,
+regeitava-as como perversoras de toda a idea san, de todo o sentimento
+justo, de toda a bondade praticavel. Para o homem em qualquer estado,
+para a sociedade em qualquer fórma não havia mais leis que as do
+decalogo, nem se precisavam mais constituições que o Evangelho: dizia
+elle. Reforçá-las é superfluo, melhorá-las impossivel, desviar d'ellas
+monstruoso. Desde o mais alto da perfeição evangelica, que é o estado
+monastico, ha regras para todos alli; e não falta senão observá-las.
+
+Não sei se ésta doutrina não tem o quer que seja de um certo sabor
+independente e livre, se não cheira o seu tanto á confiança heretica dos
+reformistas evangelicos. O que sei é que Fr. Diniz a professava de
+boafé, que era catholico sincero, e frade no coração.
+
+Segundo os seus principios, podêr de homem sôbre homem, era usurpação
+sempre e de qualquer modo que fosse constituido. Todo o podêr estava em
+Deus--que o delegava ao pae sôbre o filho, d'ahi ao chefe da familia
+sôbre a familia, d'ahi a um d'esses sôbre todo o Estado; mas para o
+reger segundo o Evangelho e em toda a austeridade republicana dos
+primitivos principios christãos.
+
+Assim fôra ungido Saul, e n'elle todos os reis da terra--sem o quê, não
+eram reis.
+
+Tudo o mais, anarchia, usurpação, tyrannia, peccado--absurdo
+insustentavel e impossivel.
+
+E sôbre isto tambem não disputava, que não concebia como: era dogma.
+
+Nas applicações sim questionava, ou antes, arguía, com sua logica de
+ferro. As antigas leis, os antigos usos, os antigos homens, não os
+poupava mais do que aos novos. A tyrannia dos reis, a cubiça e a suberba
+dos grandes, a corrupção e a ignorancia dos sacerdotes, nunca houve
+tribuno popular que as açoitasse mais sem dó nem caridade.
+
+O princípio porêm da monarchia antiga, defendia-o, ja se ve, por
+verdadeiro, embora fossem mentirosos e hypocritas os que o invocavam.
+
+Quanto ás doutrinas constitucionaes, não as intendia, e protestava que
+os seus mais zelosos apostolos as não intendiam tam pouco: não tinham
+senso-commum, eram abstracções d'eschola.
+
+Agora, do frade é que me eu queria rir... mas não sei como.
+
+O chamado liberalismo, esse intendia elle. 'Reduz-se' dizia 'a duas
+cousas, _duvidar e destruir_ por principio, _adquirir e inriquecer_ por
+fim: é uma seita toda material em que a carne domina e o espirito serve;
+tem muita fôrça para o mal; bem verdadeiro, real e perduravel, não o
+póde fazer. Curar com uma revolução liberal um paiz estragado, como são
+todos os da Europa, é sangrar um tysico: a falta de sangue diminue as
+ancias do pulmão por algum tempo, mas as fôrças vão-se, e a morte é mais
+certa.'
+
+Dos grandes e eternos principios da Egualdade e da Liberdade dizia: 'Em
+elles os practicando devéras, os liberaes, faço-me eu liberal tambem.
+Mas não ha perigo: se os não intendem! Para intender a liberdade é
+preciso crer em Deus, para acreditar na egualdade é preciso ter o
+Evangelho no coração.'
+
+As instituições monasticas eram, no seu intender e no seu systema,
+condicção essencial de existencia para a sociedade civil--para uma
+sociedade normal. Não paliava os abusos dos conventos, não cubria os
+defeitos dos monges, accusava mais severamente que ninguem a sua
+relaxação; mas sustentava que, removido aquelle typo da perfeição
+evangelica, toda a vida christan ficava sem norma, toda a harmonia se
+destruía, e a sociedade ia, mais depressa e mais sem remedio,
+precipitar-se no golpham do materialismo estupido e brutal em que todos
+os vinculos sociaes apodreciam e cahiam, e em que mais e mais se isolava
+e estreitava o individualismo egoista--última phase da civilização
+exaggerada que vai tocar no outro extrêmo da vida selvagem.
+
+Taes eram os principios d'este homem extraordinario que junctava a uma
+erudição immensa o profundo conhecimento dos homens e do mundo em que
+tinha vivido até a edade de cinquenta annos.
+
+Como e porque deixára elle o mundo? Como e porquê, um espirito tam
+activo e superior se occupava apenas do obscuro incargo de guardião do
+seu convento--cargo que acceitára por obediencia--e quasi que limitava
+as suas relações fóra do claustro áquella casa do valle onde não havia
+senão aquella velha e aquella criança?
+
+Apezar de sua rigidez ascetica, prendia esse espirito por alguma coisa a
+este mundo? Aquelle coração macerado do cilicio dos pensamentos austeros
+e terriveis do eterno futuro, consummido na abstinencia de todo o gôso,
+detodo o desejo no presente, teria acaso viva ainda bastante alguma
+fibra que vibrasse com recordações, com saudades, com remorsos do
+passado?
+
+No seu convento elle não tinha senão uma cella nua com um cruxifixo por
+todo adôrno, um breviario por unico livro. N'aquella so familia que
+conversava, havia, ja o disse, a velha cega e decrepita, Joanninha com
+quem apenas fallava, e um ausente, um rapaz de quem ha dous annos quasi
+que se não sabia. Em intrigas politicas, em negocios ecclesiasticos, em
+coisa mais nenhuma d'este mundo não tinha parte. De que vivia pois este
+homem--homem que certo não era d'aquelles que vivem so de pão?
+
+E este era dos poucos textos latinos que elle repettia, este o thema
+predilecto dos raros sermões que prégava: _Non in solo pane vivit homo_,
+Nem so de pão vive o homem.
+
+Vivia então de alguma outra coisa este homem; e a meditação e a oração
+não lhe bastavam, porque elle sahia do seu convento e não ia prégar nem
+rezar... todas as sextas feiras era certo na casa do valle á mesma hora,
+do mesmo modo...
+
+Alli estava pois alguma parto da vida do frade que de todo se não
+desprendêra da terra, e que, por mais que elle diga, lhe faltava
+_castrar_ ainda por amor do ceo.
+
+É que meio seculo de viver no mundo deixa muita raiz que não morre
+assim. E talvez é uma so a raiz, mas funda, e rija de fevra e de seiva,
+que as folhas morrem, os ramos seccam, o tronco apodrece, e ella teima a
+viver.
+
+Saibamos alguma coisa d'essa vida.
+
+
+
+
+CAPITULO XVI.
+
+
+ Saibâmos da vida do frade.--Era franciscano porquê?--Dos antigos e
+ dos novos martyres.--Alguns particulares de Fr. Diniz antes e
+ depois de ser frade.--Emigração.--Explicação incompleta.--De como a
+ velha tinha perdido a vista e Joanninha o riso.--Sexta feira dia
+ aziago.
+
+
+Saibamos alguma coisa da vida do frade, da sua vida no seculo, porque a
+do claustro era nua e nulla, monotona e singela como a temos visto.
+
+Chamava-se elle no seculo Diniz de Atahide, e seguira a carreira das
+armas primeiro, depois a das lettras. Com distincção, e quasi com
+paixão, tomára parte na campanha da Peninsula e a fizera quasi toda; mas
+desgostoso do serviço ou despreoccupado da glória militar, entrou na
+magistratura para que estava habilitado, e em 1825, do logar de
+corregedor do Ribatejo, em que ja fôra reconduzido, devia passar á casa
+do Porto.
+
+Foi a Lisboa receber o seu despacho, beijou a mão a elrei, e d'ahi tomou
+um dia o caminho de Santarem, chegou áquella villa, deixou criados e
+cavallos na estalagem, e foi tocar á campa da portaria de San'Francisco.
+
+Os criados esperaram em vão muitos dias: elle não voltou.
+
+Desappareceu do mundo Diniz de Atahide, e d'alli a dous annos appareceu
+Fr. Diniz da Cruz, o frade mais austero e o prégador mais eloquente
+d'aquelle tempo. Raro prégava, e so de doutrina; mas era uma torrente de
+vehemencia, uma uncção, uma fôrça!..
+
+Dos institutos monasticos, ja então bem decahidos todos de esplendor e
+reputação, a ordem de San'Francisco era talvez a que mais descêra no
+conceito público. Quanto mais austera é a regra, tanto mais se nota
+qualquer relaxação nos que a professam: a dos franciscanos tinha-se
+feito proverbial e popular. Elles eram tantos por toda a parte, e tam
+conversantes com todas as classes; familiarizára-se por tal modo o povo
+com o aspecto d'aquellas mortalhas negras--aspecto ja não severo, e
+apenas deixou de o ser... ridículo--e ellas appareciam em taes logares,
+a taes horas, por tal modo... que todo o respeito, toda a estima, toda a
+consideração se lhe perdera. Escriptores, ja os não tinham, prégadores
+poucos e sem reputação, era em todo o sentido a religião mais humilhada
+na geral decadencia das ordens.
+
+Fr. Diniz procurou-a por isso mesmo. Queria ser frade, o frade
+desprezado e apupado do seculo dezenove.
+
+Em certos animos é preciso muito mais valor e enthusiasmo para affrontar
+este martyrio, do que fôra nos antigos tempos para ir ao incôntro das
+nobres perseguições do sangue e do fogo.
+
+Luctava-se com honra então, cahia-se com glória, vencia-se muitas vezos
+morrendo...
+
+Agora é soffrer so.
+
+O mundo applaudia aquelles grandes sacrificios, e assistia com
+interêsse, com admiração, com espanto áquelles combates gigantescos. E o
+tyranno tremia diante da sua victima... quando lhe não cahia aos pés
+vencido, convertido e penitente...
+
+Hoje o povo passa e ri, os reis cuidam de outra coisa, e a mesma Egreja
+não sabe que tem martyres.
+
+'Pois tem-n'os' dizia Fr. Diniz 'e precisa mais d'elles para se
+regenerar, do que ja precisou para fundar-se.'
+
+Eis aqui porque Diniz d'Atahide não quiz ser bento, nem jeronymo, nem
+cartucho, e se foi metter frade franciscano.
+
+De todos os seus bens, que eram consideraveis, tirou apenas a modica
+somma de dinheiro que era necessaria para pagar o dote e piso de sua
+entrada no convento. Do resto fez doação inteira a D. Francisca
+Joanna--a velha hoje cega e decrepita que no princípio d'esta historia
+incontrámos dobando á sua porta na casa do valle.
+
+A velha não tinha mais familia que um neto e uma neta.
+
+A neta era Joanninha, filha unica de seu unico filho varão, e ja orphan
+de pae e de mãe.
+
+O neto, orpham tambem, nascêra posthumo, e custára a vida a sua mãe,
+filha querida e predilecta da velha.
+
+Antes da splendida doação de Fr. Diniz, a familia, que era de boa e
+honrada descendencia, podia dizer-se pobre; depois viviam
+remediadamente. Mas a velha não quiz nunca sahir do modesto estado em
+que atélli vivêra. Tinham fartura de pão, azeite e vinho de suas lavras;
+corria-lhe com ellas um criado velho de confiança; trajavam e
+tractavam-se como gente mean, mas independente.
+
+Em tempos mais antigos e em vida dos dous filhos de D. Francisca, Fr.
+Diniz, então Diniz d'Atahide e corregedor da commarca, frequentára
+bastante aquella casa. Desde a morte do filho e do genro, que ambos
+pereceram desastradamente n'um dia cruzando o Tejo n'um saveiro em
+occasião de grande cheia, elle nunca mais lá tornára.
+
+Até que se metteu frade, e que passaram annos e que o fizeram guardião
+do seu convento.
+
+Ja a nora e a filha da velha tinham morrido tambem.
+
+E foi notavel que na mesma hora em que Fr. Diniz professava em
+San'Francisco de Santarem, vestia D. Francisca aquella tunica roxa que
+nunca mais largou.
+
+Mas um dia, chegou Fr. Diniz á porta da casa do valle e disse:
+
+--'Deus seja n'esta casa!'
+
+A velha estremeceu, mas tornou logo a si, fez sahir as crianças que
+brincavam aopé d'ella, fechou-se com o frade, e fallaram baixo um dia
+inteiro. Rezaram e choraram, que tudo se ouviu; mas o que disseram e
+conversaram nunca se soube.
+
+O frade foi-se ao anoitecer, a velha ficou rezando e chorando, e rezou e
+chorou toda a noite.
+
+Isto fôra n'uma sexta-feira; d'ahi por deante em todas as sexta-feiras
+de cada semana, Fr. Diniz vinha passar algumas horas com a velha.
+
+Não era seu confessor, mas dirigia-a como se o fosse, em tudo e por
+tudo, menos no que respeitava a Joanninha.
+
+Havia no frade uma affectação visivel, um systema premeditado e
+inalteravel de se abster completamente de tudo o que podesse intervir,
+por mais remotamente que fosse, com aquella interessante criança.
+
+Joanninha não lhe tinha medo, mas o respeito que lhe elle inspirava era
+misturado de uma aversão instinctiva, que, por contradicção inaudita e
+inexplicavel, a deixava sympathizar com tudo quanto elle dizia e
+professava: doutrinas, opiniões, sentimentos, tudo lhe agradava no
+frade, menos a pessoa.
+
+Não assim Carlos, o primo, o companheiro, o unico amigo da nossa
+Joanninha, o outro neto da velha por sua filha. Andava elle ja no último
+anno de Coimbra e ia formar-se em leis, quando Fr. Diniz da Cruz começou
+de novo a frequentar a casa que Diniz de Atahide tinha abandonado.
+
+Sôbre esse a inspecção do frade era minuciosa, vigilante, inquieta. Os
+livros que elle lia, os amigos com quem vivia, as ideas que abraçava, as
+inclinações para que pendia--de tudo se occupava Fr. Diniz, tudo lhe
+dava cuidado. A elle directamente pouco lhe dizia, mas com a avó tinha
+longas conferencias a esse respeito.
+
+Ultimamente parecia satisfazer-se com o geito que o mancebo indicava
+tomar.
+
+--'É temente a Deus, não tem o ânimo cubiçoso nem servil, não é
+hypocrita, o mania do liberalismo não o mordeu ainda... hade ser um
+homem de prestimo:' dizia o frade a D. Francisca com verdadeira
+satisfacção e interêsse.
+
+Passára porêm de seu meio o memoraval anno de 1830, e Carlos, que se
+formára no princípio d'aquelle verão, tinha ficado por Coimbra e por
+Lisboa, e so por fins d'agosto voltára para a sua familia. E veio
+triste, melancholico, pensativo, inteiramente outro do que sempre fôra,
+porque era de genio alegre e naturalmente amigo de folgar, o mancebo.
+
+O dia em que elle chegou era uma sexta-feira, dia de Fr. Diniz vir ao
+valle.
+
+Passaram as primeiras saudações e abraços, ficaram sos os dous, e:
+
+--'Não gósto de te ver:' disse o frade.
+
+--'Pois quê? que tenho eu?'
+
+--'Tens que vens outro do que foste, Carlos.'
+
+--'Outro venho, é verdade; mas não se infadem de me ver, que o infado
+hade durar pouco.'
+
+--'Que queres tu dizer?'
+
+--'Que estou resolvido a emigrar.'
+
+--'A emigrar, tu!... Porquê, paraquê? Que loucura é essa?'
+
+--'Nunca estive tanto em meu juizo.'
+
+--'Carlos, Carlos! nem mais uma palavra a similhante respeito. Em que
+más companhias andaste tu, que maus livros lêste, tu que eras um
+rapaz?.. Carlos, prohibo-te de pensar n'esses desvarios.'
+
+--'Prohibe-me... a mim... de pensar!... Ora, senhor...'
+
+--'Prohibo de pensar, sim. Le no teu Horacio se estás cançado das
+pandectas. Vai para a eira com o teu Virgilio... ou passeia, caça, monta
+a cavallo, faze o que quizeres, mas não penses. Ca estou eu para pensar
+por ti.'
+
+--'Porquê? eu heide ser sempre criança? a minha vida hade ser ésta?
+Horacio! tenho bom ânimo para ler Horacio agora... e a bella occupação
+para um homem de vinteeum annos, scandar jambos e trocheus.'
+
+--'Pois le na tua biblia, que é poesia medida n'alma e que repasce o
+espirito e o coração.'
+
+--'Eu não quero ser frade: sabe?'
+
+--'Nem te eu quero para frade.'
+
+--'Graças a Deus! Cuidei que... Mas em fim no seculo em que estamos...'
+
+--'O seculo em que estamos é o da presumpção e o da immoralidade: e eu
+quero-te livrar de uma e de outra, Carlos. Tua avó sabe as minhas
+tenções a teu respeito, approva-as...'
+
+--'Minha avó... approva muita coisa que eu reprovo.'
+
+--'Como assim, Carlos! que queres tu dizer?'
+
+--'Isto mesmo, senhor;--e que ámanhan que vou para Lisboa, imbarcar para
+Inglaterra.'
+
+--'Carlos!'
+
+--'É uma resolução meditada e inalteravel. Não quero nada com ésta terra
+nem com ésta...'
+
+--'Com ésta o quê, Carlos?..'
+
+--'Pois quer ouvi-lo, digo-lh'o: com ésta casa.'
+
+O frade suffocava, e balbuciou entre cholerico e aterrado:
+
+--'Dir-me-has porquê?..'
+
+--'Porque me abhorrece e me humilha este mando de um extranho aqui...
+porque sempre desconfiei, porque sei emfim...'
+
+--'Sabes o quê?'
+
+--'Sei, padre Fr. Diniz, mas não me pergunte o que eu sei.'
+
+Amarello, roxo, pallido, negro, o frade tremia; sumiram-se-lhe mais os
+olhos e faiscavam lá de dentro como duas brazas; fez um esfôrço sôbre si
+mesmo para fallar, e disse com uma voz cava e cavernosa como de
+sepulchro:
+
+--'Pois pergunto, sim; e permitta Deus!..'
+
+--'Padre, não jure nem pragueje' interrompeu Carlos com firmeza e
+serenidade 'as suas intenções serão boas talvez... creio que são boas,
+filhas de um remorso salutar...'
+
+--'Que dizes tu, Carlos... que disseste?.. Oh, meu Deus!'
+
+As scenas tinham mudado: Fr. Diniz parecia o pupillo, a sua voz tinha o
+som da súpplica, ja não tremia de íra mas de anciedade; Carlos, pelo
+contrario, fallava no tom austero e grave de um homem que está forte na
+sua razão e que é generoso com a sua offensa. As palavras do mancebo
+eram agras, via-se que elle o sentia e que procurava adoçá-las na
+inflexão, que lhes dava.
+
+--'O que eu digo, padre Fr. Diniz, o que eu sou obrigado a dizer-lhe é
+isto. Minha avó consentiu, por fraqueza de mulher, no que eu não posso
+nem devo consentir. O que ha n'ésta casa não é... não é meu; o pão que
+aqui se come... é comprado por um preço... Padre! ja ve que não podêmos
+fallar mais n'este assumpto. Eu parto ámanhan para Lisboa.--Minha avó!'
+acrescentou Carlos, mudando de voz e chamando para dentro 'minha avó!'
+
+A velha acudiu, elle disse-lhe a sua tenção, motivou-a em opiniões
+politicas, declamou contra D. Miguel, mostrou-se enthusiasta da causa
+liberal, e protestou que, n'aquelle anno, de tal modo se tinha
+pronunciado em Coimbra e ainda em Lisboa, que só uma prompta fuga o
+podia salvar...'
+
+A velha chorou, pediu, rogou... inutilmente, em vão.
+
+Fr. Diniz assistiu a tudo isto sem dizer palavra.
+
+E aquella tarde voltou mais cedo para o convento.
+
+No outro dia de manhan muito cedo, abraçado com a avó e com a priminha
+que se desfaziam em lagrymas, Carlos dizia o último adeus áquella
+querida casa, áquelle amado valle em que fôra criado... N'essa noite
+estava em Lisboa, d'ahi a poucos dias em Inglaterra, e d'ahi a alguns
+meses na ilha Terceira.
+
+Na sexta-feira depois da partida de Carlos, Fr. Diniz veio ao valle e
+teve larga conferencia com a avó.
+
+Os tres dias seguintes a velha levou fechada no seu quarto a chorar...
+no fim do terceiro dia estava cega.
+
+Joanninha era uma criança a esse tempo, parecia não intender nada do que
+se passava. Mas quem a observasse com attenção, veria que ella dobrou de
+carinho e de amor para com a avó, e que se não tornou a rir para o
+frade...
+
+Elle, o frade, invelheceu de dez annos n'aquelle dia. Os olhos sumidos,
+que era a feição dominante n'aquelle rosto ascetico, sumiram-se mais e
+mais; a estatura alta e erecta curvou-se-lhe; o tremor nervoso, que o
+tomava por accessos, tornou-se-lhe habitual; os tendões enrijaram-lhe,
+os musculos da cara descarnaram-se, e a pelle ja sulcada de fundos
+cuidados, arrugou-se e franziu-se toda em rugas cruzadas e confusas como
+que se lh'a torrassem n'uma grelha.
+
+Nunca mais houve um dia de alegria no valle. A sexta-feira porêm era o
+dia fatal e aziago. Fr. Diniz ja não vinha senão no fim da tarde e
+demorava-se pouco; mas tanto bastava. Suspirava-se por aquella hora e
+tremia-se d'ella. As notícias que consolavam, e os terrores que matavam,
+o frade é que os trazia. O resto da semana levava-se a chorar e a
+esperar.
+
+E assim se tinham passado dous annos até á sexta-feira em que primeiro
+vimos junctas á porta da casa aquellas tres criaturas; assim se passou
+até d'ahi a oito dias que a nossa historia volta a incontrá-los.
+
+
+
+
+CAPITULO XVII.
+
+
+ De como, chegando outra sexta-feira e estando a avó e a neta á
+ espera do frade, este lhe appareceu, contra o seu costume, da banda
+ de Lisboa.--Porque razão muitas vezes a mais animada conversação é
+ a que mais facilmente pára e quebra derepente.--Nova demonstração
+ de dous grandes axiomas dos nossos velhos, a saber: Que o hábito
+ não faz o monge; e que ralhando as commadres, se descobrem as
+ verdades.--No ralhar da velha com o frade, levanta-se uma ponta do
+ veo que cobre os mysterios da nossa historia.
+
+
+Passaram-se aquelles oito dias no valle, não ja como se tinham passado
+tantas outras semanas em vagas tristezas, em desconsolação e
+desconfôrto, mas em positiva anciedade e aguda afflicção pela certeza
+que trouxera o frade de se achar Carlos no Porto fazendo parte do
+pequeno exército do D. Pedro.
+
+Incertos rumores, d'aquelles que percorrem um paiz em tempos similhantes
+e que augmentam e exaggeram, confundem todos os successos tinham chegado
+até ás pacificas solidões do valle com as notícias de combates
+sanguinarios, de commoções violentas, de desacatos sacrilegos, de
+vinganças e reprezalias atrozes tomadas pelos aggressores, retribuídas
+pelos que se defendiam.
+
+Chegou a sexta-feira; e as horas d'esse dia, sempre desejado e sempre
+temido, foram contadas minuto a minuto--a qual mais longo, a qual mais
+pezado e lento de volver, quanto mais se approximava o derradeiro.
+
+O sol declinava ja... e Fr. Diniz sem apparecer!
+
+No seu poiso ordinario aopé da porta da casa, Joanninha com os olhos
+extendidos, a velha com os ouvidos álerta, devoravam o espaço na
+direcção de nascente, esperando a cada momento, temendo a cada instante
+ver apparecer o conhecido vulto, ouvir o som familiar dos passos do
+frade.
+
+E tam intentas, tam absortas estavam ainda n'este cuidado, que não deram
+fe d'um religioso que pelo lado opposto, isto é, da banda de Lisboa,
+para alli se incaminhava a passos arrastados mas presurosos.
+
+Chegou rente d'ellas sem o sentirem; e uma voz conhecida, porêm mais
+cava e funda do que nunca a ouviram, pronunciou a fórmula de saudação
+costumada:
+
+--'Deus seja n'esta casa!'
+
+--'Amen!' responderam ambas machinalmente, com um estremeção
+involuntario; e voltando derepente a cara para o lado d'onde vinha a
+voz.
+
+--'Jesus!' disse depois a velha tornando a si, 'Padre Fr. Diniz, de
+d'onde vem tam tarde?'
+
+--'Chego de Lisboa.'
+
+--'De Lisboa? Deus lh'o pague!... Foi saber?..'
+
+--'Fui, fui saber novas d'esta horrivel guerra, d'esta tremenda
+visitação do Senhor á condemnada terra de Portugal...'
+
+--'E então, diga'...
+
+--'Boas novas, boas novas trago!'
+
+--'Sente-se, padre, sente-se. Joanninha, chega uma cadeira: descanse.'
+
+--'Não é tempo de descansar este, mas de vigiar e de orar.'
+
+--'Pois que succedeu, padre? Não me tenha n'esta horrivel suspensão.
+Diga: onde está elle? Alguma desgraça grande lhe aconteceu, oh meu
+Deus!..
+
+--'E que me importa a mim o que aconteceu ou podia acontecer a mais um
+de tantos perdidos? Encherá a sua medida, irá após dos outros... caminha
+nas trevas com elles, e como elles, so hade parar no abysmo.'
+
+A éstas derradeiras palavras do frade asperamente pronunciadas e em tom
+de indifferença e desprêzo, seguiu-se aquelle silencio comprimido,
+aquella pausa de toda a conversação grave e íntima em que os pensamentos
+são tantos que se atropellam e não acham sahida na voz.
+
+Fr. Diniz mentia... na dureza d'aquellas expressões mentia ao seu
+coração--não mentia ao seu espirito. Como o caustico se applica á
+epiderme para deslocar a inflammação interior, elle roçava o peito com
+as asperidões de sua doutrina e de seus principios rigidos para
+amortecer dentro a viva dor d'alma que o consummia.
+
+O frade estava por fóra, o homem por dentro.
+
+O observador vulgar não via senão o burel e a corda que amortalhavam e
+cadaver. O que attentasse bem n'aquelles olhos, o que reparasse bem nas
+inflexões d'aquella voz, diria: 'Frade, tu mentes; mentes sem saberes
+que mentes: es sincero na tua fe, na tua austeridade, na tua abnegação;
+mas o teu sacrificio é como o de Abraham na montanha, e Deus sabe que tu
+não tens fôrça para o cumprir.'
+
+Não o percebeu assim a pobre velha aquem os rigores de Fr. Diniz faziam
+tremer, e que para toda a affeição, para todo o sentimento humano
+julgava morto o coração do cenobita.
+
+Ella que no silencio de suas noites sempre veladas, na perpétua
+escuridão de seus dias sempre tristes luctava ha tanto tempo, luctava
+debalde para desprender das affeições do mundo, aquelle seu pobre
+coração que queria immollar ao Senhor, ella via com sancta inveja e
+admiração as sobrehumanas fôrças que imaginava no frade; e desanimada de
+o podêr seguir n'essas alturas da perfeição evangelica, recahia, mais
+desalentada e mais miseravel que nunca, em toda a sua fraqueza de mulher
+e de mãe.
+
+Oh! não sabe o que é tormento, o que é inferno n'este mundo, o que não
+soffreu destas angústias!
+
+Mas permitte Deus que as padeça quem não tem grandes culpas, grandes e
+irreparaveis erros que expiar n'este mundo?
+
+Eu creio firmemente que não.
+
+...........................................................................
+...........................................................................
+
+Cansada e exhausta ja de tam porfiada lucta, a velha perdeu de todo a
+razão com as derradeiras palavras do frade, e n'um paroxismo de chôro
+exclamou:
+
+--'Diniz!.. Fr. Diniz, por aquelle pinhor sagrado que eu tenho em meu
+podêr, por aquella preciosa cruz sôbre a qual se derramaram as últimas
+lagrymas da minha desgraçada filha, Diniz!...'
+
+--'Silencio!' bradou o frade, arrancando um brado de dentro do peito que
+fez gemer os echos todos do valle: 'Silencio, mulher! não conjure o
+demonio que eu trago incarcerado n'este seio, que á fôrça de penitencias
+mal pude domar ainda... que so a morte poderá talvez expellir. Mulher,
+mulher! este cadaver que ja morreu que ja apodreceu em tudo o mais, que
+ja o comem, sem o elle sentir, os bichos todos da destruição... este
+cadaver tem um unico ponto vivo no coração... e o dedo do teu egoismo
+ahi foi tocar, oh mulher!.. Peccado que estás sempre contra mim! Justiça
+eterna de Deus quando serás satisfeita?'
+
+Rompêra na maior violencia a voz do frade, mas descahiu n'um tom baixo e
+medonho ao fazer ésta última imprecação mysteriosa. As derradeiras
+syllabas quasi que lhe morreram nos beiços convulsos, e ao balbuciá-las
+deixou-se cahir, exhausto e como quem mais não podia, na cadeira que
+Joanninha lhe chegára.
+
+A velha aterrada e confusa tremia do que fizera, como deante do espirito
+immundo que seus maleficios evocaram, treme a maga assustada de seu
+proprio podêr.
+
+Passaram alguns segundos que nenhumas palavras podem descrever.
+
+O frade levantou o rosto, olhou para ella, olhou para Joanninha... e,
+como quem emerge, por grande esfôrço, de um pêso enorme d'aguas que o
+submergiam, sacudiu a cabeça, sorveu um longo trago de ar, e disse na
+sua voz ordinario, so mais debil:
+
+--'Carlos, senhora... minha irman, Carlos está vivo; e exaqui, vinda
+pelo consul de França, uma carta d'elle.'
+
+Tirou uma carta da manga e a intregou a Joanninha.
+
+
+
+
+CAPITULO XVIII.
+
+
+ Descobre-se que ha grandes e espantosos segredos entre o frade e a
+ velha.--Piedosa fraude de Joanninha.--Lucta entre o hábito e o
+ monge.
+
+
+O frade intregou a carta a Joanninha, que, lançando os olhos ao
+sobrescripto, ficou indecisa e inquieta como quem receia e deseja e teme
+de saber alguma coisa. Elle com voz trémula e sobresaltada accrescentou:
+
+--'Adeus, que são horas!.. Leiam, e sexta-feira que vem... me dirão...'
+
+--'Poisquê' disse timidamente a velha 'não quer ouvir o que elle nos
+escreve?'
+
+--'Sexta-feira que vem' continuou Fr. Diniz, sem ouvir ou sem attender a
+pergunta 'sexta-feira que vem eu tomarei conta da resposta, e lh'a farei
+chegar pela mesma via... So uma coisa! nem palavra a meu respeito: eu
+para Carlos... morri.'
+
+--'Diniz!' exclamou a velha fóra de si 'Diniz!..'
+
+O frade tornou derepente ao seu tom austero, e respondeu gravemente: 'O
+quê, minha irman?'
+
+--'Era' disse ella timida e submissa outra vez 'era se, era que... Pois
+não hade ouvir ler a carta d'elle?'
+
+Fr. Diniz não respondeu, mas ficou sentado: descahiu-lhe a cabeça sôbre
+o peito, e abraçando-se com o bordão, não deu mais signal de si.
+
+A velha escutou em silencio alguns segundos, e com aquelle ouvido
+agudissimo--penetrante vista dos cegos--percebeu sem dúvida o que se
+passava, e com mais confôrto e serenidade na voz disse:
+
+--'Abre, Joanna, lê, minha filha.'
+
+Joanninha abriu a carta, e percorreu com avidez as poucas linhas que
+ella incerrava.
+
+--'Não les?' acudiu a avó com impaciencia: 'Lê, lê alto, Joanna.'
+
+--'É para mim so a carta' disse ella friamente.
+
+--'Para ti so, como?' tornou a outra.
+
+--'É para mim so ésta carta... não diz nada que...'
+
+--'Não diz nada!' replicou a avó 'Pois!... Lê, lê alto; seja como for,
+lê, e oiçamos.'
+
+Joanninha parecia hesitar ainda; lançou os olhos ao frade, achou-o na
+mesma attitude impassivel; voltou-se para a avó, viu-a anciada e
+anxiosa... leu.
+
+A carta era com effeito para ella so, e carta bem singela, não continha
+senão as ingenuas expressões de um amor fraterno nunca esquecido, longas
+saudades do passado, poucas esperanças no futuro, quasi nenhumas de se
+tornarem a ver tam cedo. Tudo isto porém era com a prima: para a
+desconsolada avó, para ninguem mais... nem uma palavra.
+
+Joanninha ia lendo, lendo... e a voz a descahir-lhe: no fim ajunctou uns
+abraços, umas saudosas lembranças, e não sei que phrase incompleta e mal
+articulada em que se pedia a bençam da avó.
+
+A velha abanou a cabeça tristemente e disse: 'Ora pois... bemditto seja
+Deus!'
+
+Joanninha córou até o branco dos olhos... Inda bem que a não podia ver a
+avó! Mas viu-a Fr. Diniz, e com a mão trémula e os olhos arrazados
+d'agua lhe fez um mudo e expressivo signal de approvação e
+agradecimento. Joanninha córou outra vez, e logo se fez pallida como a
+morte: era a primeira vez que mentia... e Fr. Diniz, o austéro Fr. Diniz
+apprová-la!
+
+O frade levantou-se, e sem dizer palavra, tomou o caminho de Santarem.
+
+Ouvia-se ao longe o arquejar de uns soluços suffocados... Seriam d'elle?
+
+A avó e a neta abraçaram-se e choraram.
+
+Nenhuma d'ellas disse palavra sôbre a carta: a velha tinha percebido a
+piedosa fraude de Joanninha...
+
+Oh! que existencias que eram aquellas quatro! Esse frade, essa velha e
+essas duas crianças! E a maior parte da gente que é _gente_, vive
+assim... E querem, querem-n'a assim mesmo, a vida, teem-lhe appêgo! Oh
+que enigma é o homem!
+
+Tornou a passar outra semana, e o frade tornou a vir no praso costumado,
+e levou a resposta da carta--resposta que Joanninha so escreveu e so
+viu--e dirigiu-a em Lisboa pela via segura que indicára.
+
+Soube-se que fôra intregue; mas semanas e semanas decorreram, os meses
+passaram de anno... e outra carta não veio.
+
+No entretanto a guerra civil progredia; e depois de suas tremendas
+peripecias, o grande drama da Restauração chegava rapidamente ao fim.
+Eram meiados do anno de 33, a operação do Algarve succedêra
+milagrosamente aos constitucionaes, a esquadra de D. Miguel fôra tomada,
+Lisboa estava em podêr d'elles. Os tardios e inuteis esforços dos
+realistas para retomar a capital tinham occupado o resto do verão. Ja
+outubro se descoroava de seus ultimos fructos, e as folhas começavam a
+impallidecer e a cahir, quando uma sexta-feira, ao pôr do sol, Fr. Diniz
+apparecia no valle mais curvado e mais trémulo que nunca. Vinha do
+exército realista que então cercava Lisboa.
+
+Joanninha não era alli, a velha estava so.
+
+--'Que nos traz, padre?' clamou ella mal que o sentiu: 'Soube d'elle?
+Tem escapado a éstas desgraças, a esses combates mortaes?'
+
+--'Não sei nada, minha irman: ha tres dias que de Lisboa se não póde
+obter a menor informação. As linhas estão fechadas e guarnecidas como
+nunca: tudo indíca havermos de ter cedo algum combate decisivo.'
+
+--'Deus seja com!..'
+
+--'Com quem, minha irman?'
+
+--'Com quem tiver justiça.'
+
+--'Nenhum a tem. De um lado e de outro está a ambição e a cubiça, de um
+lado e de outro a immoralidade, a perdição e o desprêzo da palavra de
+Deus. Por isso, vença quem vencer, nenhum hade triumphar.'
+
+--'Ai, o meu pobre filho, o meu Carlos!'
+
+--'Isso, irman Francisca, isso! Peça a Deus que dê a victoria a seu
+neto, e á impiedade por que elle combate. Peça a Deus que vençam os
+inimigos declarados do seu nome, os destruidores de seus altares, os
+profanadores de seus templos... Oh! que dia bello e grande não hade ser
+esse, quando Carlos... o seu Carlos, vier expulsar, ás baionetadas, do
+pobre convento de San'Francisco, o velho guardião--que lhe não hade
+fugir, minha irman!.. d'elle menos que de nenhum outro... que ajoelhado
+deante do altar inclinará a cabeça como os antigos martyres para cahir
+na presença do seu Deus ás mãos do seu...'
+
+--'Diniz!.. Padre!.. Padre Frei Diniz, que horrorosas palavras sahem da
+sua bôcca!.. Meu neto, o meu Carlos não é capaz... oh meu Deus!..'
+
+--'Seu neto detesta-me... e tem... tem razão.'
+
+--'Não sabe a verdade elle... Carlos está inganado, cuida... não sabe
+senão meia verdade: e eu, eu heide--custe o que me custar--eu heide...'
+
+--'Hade o quê?'
+
+--'Heide desinganá-lo, heide-lhe dizer a verdade toda. Heide prostrar-me
+na sua presença, heide humilhar-me deante do filho de minha filha, heide
+arrastar na poeira de seus pés éstas cans e éstas rugas... morrerei de
+vergonha e de remorsos deante do meu filho, mas elle hade saber a
+verdade.'
+
+Sahiam com tal impeto e com tam desacostumada energia éstas mysteriosas
+e tremendas palavras da bôcca da velha, que Fr. Diniz não ousou
+contê-la; ouviu até ao fim, deixou quebrar o impeto da torrente, e
+erguendo então a sua voz austera mas pousada, disse n'aquelle tom
+friamente decisivo que tanto impõe aos animos apaixonados:
+
+--'Se tal fizesse, mulher, a minha maldicção, a maldicção eterna de Deus
+sôbre a sua cabeça para sempre!... Oh mulher, pois não lhe basta que
+elle me abhorreça--não lhe basta que seu neto lhe perdesse o amor...
+quer... quer tambem que nos despreze?'
+
+A velha gemeu profundamente, e, por um geito de antiga reminiscencia,
+levou as mãos aos olhos como se os tapasse para não ver. Então disse com
+desconsoladas lagrymas na voz:
+
+--'A vontade de Deus seja feita!'
+
+
+
+
+CAPITULO XIX.
+
+
+ Guerra de postos avançados. Joanninha no bivac--De como os
+ rouxinoes do valle se disciplinaram a ponto de tocar a alvorada e a
+ retreta.--Quem era a 'menina dos rouxinoes,' e porque lhe poseram
+ este nome.--A sentinella perdida e achada.
+
+
+A velha disse aquellas últimas palavras com uma expressão de dor tam
+resignada, mas tam desconsolada, que o frade olhou para ella commovido,
+e sentiu as lagrymas escurecerem-lhe a vista.
+
+N'este momento Joanninha, que passeiava a alguma distancia da casa na
+direcção de Lisboa, acudiu sobresaltada bradando:
+
+--'Avó, avó!.. tanta gente que ahi vem! soldados e povo... homens e
+mulheres... tanta gente!'
+
+Era a retirada de 11 de outubro.
+
+--'Deus tenha compaixão de nós!' disse a velha: 'O que será padre?'
+
+--'O que hade ser!' respondeu Fr. Diniz: 'o meu presentimento que se
+verifica; o combate foi decisivo, os constitucionaes vencem.'
+
+Comeffeito foram apparecendo as tropas que se retiravam, as gentes que
+fugiam, e todo aquelle confuso e doloroso espectaculo de uma retirada em
+guerra civil...
+
+Alguns feridos, que não podiam mais, ficaram na casa do valle intregues
+á piedosa guarda e cuidado de Joanninha; dos outros tomou conta Fr.
+Diniz e os acompanhou a Santarem.
+
+As tropas constitucionaes vinham em seguimento dos realistas, e d'alli a
+poucos dias tinham o seu quartel-general no Cartaxo; D. Miguel
+fortificava-se em Santarem, e a casa da velha era o último posto militar
+occupado pelo seu exército.
+
+Não tardou muito que a fôrça toda, todo o interêsse da guerra se não
+concentrasse n'aquelle, ja tam pacífico e ameno, agora tam desolado e
+turbulento valle.
+
+Eram os derradeiros dias do outomno, a natureza parecia tomar dó pelo
+homem--dar triste e lugubre decoração de scena ao sanguento drama de
+destruição e de miseria que alli se ía concluir. As últimas folhas das
+árvores cahiam, o ceo nublado e negro vertia sôbre a terra apaulada
+torrentes grossas d'agua, a cheia alagava os baixos, e as terras altas
+cobriam-se de hervas maninhas, os trabalhos da lavoira cessavam, o gado
+e os pastores fugiam, e os soldados de um e de outro campo cortavam as
+oliveiras seculares...
+
+Tudo estava feio e torpe, tudo era ruina, desolação e morte emtôrno da
+casa do valle, agora transformada em quartel e redutto militar.
+
+E que era feito, no meio d'ésta desordem, que era feito da nossa pobre
+velha, da nossa interessante Joanninha?
+
+Apenas se estabeleceu a posição dos dous exercitos, Fr. Diniz queria
+levá-las para Santarem; mas não foi possivel. Instancias, rogos, ordem
+positiva, tudo foi em vão. Pela primeira vez na sua vida, aquella mulher
+tímida, fraca e irresoluta, soube ter vontade firme e propria.
+
+--'Aqui nasci,' dizia ella, 'aqui vivi, aqui heide morrer. Que importa
+como?.. Aqui as curtas alegrias, aqui as longas dores da minha vida teem
+passado: onde heide eu ir que possa viver ou morrer senão aqui? Ésta
+casa sei-a de cór, éstas árvores conhecem-me, estes sitios são os
+ultimos que vi, os unicos de que me lembra: como heide eu, velha e cega,
+ir fazer conhecimento com outros para viver n'elles?..'
+
+--'E Joanninha n'essa edade... no meio d'essa soldadesca!' suggeria o
+frade.
+
+--'Joanninha' tornava ella 'Joanninha é uma criança, e tem mais juizo,
+mais energia d'alma, mais saude e mais fôrça do que--mulheres não
+fallemos--do que a maior parte dos homens. Ficaremos aqui, padre,
+ficaremos aqui melhor do que em Santarem podêmos estar. Deus nos
+defenderá...'
+
+Fr. Diniz cedeu: a mesma vaga e indeterminada esperança que animava a
+velha, e que a prendia tam fortemente alli, não era extranha ao coração
+do frade. Ella não ousava nem alludir de longe a essa esperança, mas
+sentia-se que lá a tinha anninhada e escondida a um canto d'alma...
+Aquelle neto, aquelle filho da filha querida havia de vir ter á casa em
+que nascêra... por alli havia de passar, e mais dia menos dia... A
+velha, repitto, nem alludia a tal esperança, mas sentia-se que a tinha:
+percebeu-lh'a Fr. Diniz, e ou a partilhasse tambem ou não se atrevesse a
+contrariar razões que lhe não davam, cedeu e callou-se.
+
+O seu principal temor era a licenciosa soltura dos costumes militares;
+mas estava Joanninha menos exposta por se accolher a uma praça de guerra
+como Santarem era agora?
+
+Brevemente se viu que a avó tinha accertado. A franca e ingenua
+dignidade de Joanninha, o ar grave, a melancholia serena e bondosa da
+velha impozeram tal respeito aos soldados, que--graças tambem á
+cooperação efficaz do commandante do pôsto, um bom e honrado cavalheiro
+transmontano--ellas viviam tam seguras e quietas na pequena porção da
+casa que para si reservaram, quanto em taes circumstancias era possivel
+viver. Fr. Diniz vinha regularmente ao valle todas as sexta-feiras, e
+nenhum outro hábito de suas vidas se interrompeu.
+
+E pouco a pouco, os combates, as escaramuças, o som e a vista do fogo, o
+aspecto do sangue, os ais dos feridos, o semblante desfigurado dos
+mortos--a guerra emfim em todas as suas fórmas, com todo o seu
+palpitante interêsse, com todos os terrores, com todas as esperanças que
+a accompanham, se lhes tornou uma coisa familiar, ordinaria...
+
+A tudo se habitua o homem, a todo o estado se affaz; e não ha vida, por
+mais extranha, que o tempo e a repettição dos actos lhe não faça
+natural.
+
+Todavia de Carlos nem mais uma linha... Pobre velha!
+
+Assim passaram meses, assim correu o hynverno quasi todo, e ja as
+amendoeiras se toucavam de suas alvissimas flores de esperança, ja uma
+depois de outra, íam renascendo as plantas, íam abrolhando as árvores;
+logo vieram as aves trinando seus amores pelos ramos... insensivelmente
+era chegado o meio d'Abril, estavamos em plena e bella primavera.
+
+A guerra parecia cançada, o furor dos combatentes quebrado; rumores de
+intentadas transacções gyravam por toda a parte.
+
+No nosso valle as sentinellas dos dous campos oppostos, costumadas ja a
+ver-se todos os dias, começavam a ver-se sem odio: principiaram por se
+dizer dos pesados gracejos de guerra, acabaram por conversar quasi
+amigavelmente. Muíta vez foi curioso ouvi-los, os soldados, discorrer
+sôbre as altas questões d'Estado que dividiam o reino e o traziam
+revôlto ha tantos annos. Se as tractavam melhor os do conselho em seus
+gabinetes!
+
+Joanninha que, pouco a pouco, se habituára áquelle viver de perigos e
+incertezas, de dia para dia lhe ia crescendo o ânimo, aguerrindo-se.
+Tudo se affazia áquelle estado: até os rouxinoes tinham voltado aos
+loureiros d'aopé da casa, e como que disciplinados obedeciam aos toques
+d'alvorada e de retreta, accompanhando-os de seu cantar animado e
+vibrante.
+
+A essas horas Joanninha era certa em sua janella--n'aquella antiga e
+elegante janella _renascença_ de que primeiro nos namorámos, leitor
+amigo, ainda antes de a conhecer a ella. Alli a viam as vedetas de ambos
+os exercitos, alli se acostumaram a vê-la com o nascer e o pôr do sol:
+alli, muda e quêda horas esquecidas, escutava ella o vago cantar dos
+seus rouxinoes, talvez absorta em mais vagos pensamentos ainda...
+
+E d'alli lhe pozeram o nome da 'menina dos rouxinoes', pelo qual era
+conhecida em ambos os campos: significante e poetico appellido com que a
+saudavam os soldados de ambas as bandeiras!
+
+E uns e outros respeitavam e adoravam a menina dos rouxinoes. Entre uns
+e outros por tacita convenção parecia stipulado que aquella suave e
+angelica figura podesse andar livremente no meio das armas inimigas,
+como a pomba doméstica e valida a que nenhum caçador se lembra de mirar.
+
+Os costumes de guerra são menos soltos do que se cuida; no ânimo do
+soldado ha mais sentimentos delicados, nas suas fórmas ha menos rudeza
+do que se pensa. A farda é sim vaidosa e presumida, crê muito nos seus
+podêres de seducção, mas não é brutal senão no primeiro impeto.
+
+Joanninha pençava os feridos, velava os infermos, tinha palavras de
+consolação para todos, e em tudo quanto dizia e fazia era tam senhora,
+tinha tam grave gentileza, um donaire tam nobre, que a amavam todos
+muito, mas respeitavam-n'a ainda mais.
+
+Fiada ja n'este respeito e estima geral, Joanninha fôra extendendo, de
+dia a dia, as suas excursões pelo valle. Ultimamente costumava ir, pelo
+fim da tarde, até um pequeno grupo de alamos e oliveiras que ficava mais
+para o sul e perto do logar donde, á noite, se collocavam as derradeiras
+vedetas dos constitucionaes.
+
+Um dia, ja quasi pôsto o sol, a tarde quente e serena,--ou fosse que
+adormeceu ou que suas meditações a distrahiram--o certo é que os
+rouxinoes gorjeavam ha muito nos loureiros da janella, e Joanninha não
+voltava.
+
+Estabeleceram-se as vedetas de um lado e outro, deram-se todas as
+disposições costumadas para a noite.
+
+O official dos constitucionaes que andava collocando as suas
+sentinellas, tinha vindo essa mesma tarde de Lisboa com um refôrço de
+tropa. Pôs-se elle em marcha com a sua gente, foi-a dispondo nos logares
+convenientes, e chegava emfim aopé d'aquelle grupo de árvores:
+
+--'Silencio!' disse elle 'Alto! alli está um vulto.'
+
+--'Não é ninguem,' respondeu um soldado que era dos antigos no pôsto:
+'ninguem que importe; é a menina dos rouxinões. Estou vendo que
+adormeceu no seu poiso costumado.'
+
+--'A menina dos rouxinões! Que cantiga é essa que me cantas tu lá?'
+
+O soldado deu a explicação popular do seu ditto, mostrou a casa do
+valle, e continuava incarecendo sôbre os meritos e virtudes de
+Joanninha...
+
+O official não o deixou acabar:
+
+--'Para a rettaguarda, e silencio!'
+
+Foi rapidamente postar, a alguma distancia d'alli, as duas sentinellas
+que lhe faltavam; e elle entrou so no pequeno grupo d'árvores.
+
+Era Joanninha que estava alli, Joanninha que effectivamente dormia a
+somno sôlto.
+
+
+
+
+CAPITULO XX.
+
+
+ Joanninha adormecida--O demi-jour da coquette.--Poesia do
+ Flos-sanctorum.--De como os rouxinoes acompanhavam sempre a menina
+ do seu nome; e do bem que um d'elles cantava no bivac.--Retratto
+ esquissado á pressa para satisfazer ás amaveis
+ leitoras.--Pondera-se o triste e pessimo gôsto dos nossos
+ governantes em tirarem as honras militares ao mais elegante e mais
+ nacional uniforme do exército portuguez.--Em que se parece o auctor
+ da presente obra com um pintor da edade-média.--De como os abraços,
+ por mais apertados que sejam, e os beijos, por mais interminaveis
+ que pareçam, sempre teem de acabar porfim.
+
+
+Sôbre uma especie de banco rustico de verdura, tapeçado de grammas e de
+macella brava, Joanninha, meio recostada, meio deitada, dormia
+profundamente.
+
+A luz baça do crepusculo, coada ainda pelos ramos das árvores,
+illuminava tibiamente as expressivas feições da donzella; e as fórmas
+graciosas de seu corpo se desenhavam molle e voluptuosamente no fundo
+vaporoso e vago das exhalações da terra, com uma incerteza e indecisão
+de contornos que redobrava o incanto do quadro, e permittia á imaginação
+exaltada percorrer toda a escalla d'harmonia das graças femininas.
+
+Era um ideal do demi-jour da coquette parisiense: sem arte nem estudo,
+lh'o preparára a natureza em seu boudoir de folhagem perfumado da brisa
+recendente dos prados.
+
+Como n'essas poeticas e populares legendas de um dos mais poeticos
+livros que se tem escripto, o Flos-sanctorum, em que a ave querida e
+fadada accompanha sempre a amavel sancta de sua affeição--Joanninha não
+estava alli sem o seu mavioso companheiro. Do mais espêsso da ramagem,
+que fazia sobreceo áquelle leito de verdura, sahia uma torrente de
+melodias, vagas e ondulantes como a selva com o vento, fortes, bravas, e
+admiraveis de irregularidade e invenção, como as barbaras endeixas de um
+poeta selvagem das montanhas... Era um rouxinol, um dos queridos
+rouxinoes do valle que alli ficára de vela e companhia á sua protectora,
+á menina do seu nome.
+
+Com o approximar dos soldados, e o cochichar do curto dialogo que no fim
+do último capitulo se referiu, cessára por alguns momentos o delicioso
+canto da avezinha; mas quando o official, postadas as sentinellas a
+distancia, voltou pé ante pé e entrou cautellosamente para debaixo das
+árvores, ja o rouxinol tinha tornado ao seu canto, e não o suspendeu
+outra vez agora, antes redobrou de trillos e gorgeios, e do mais alto de
+sua voz agudissima veio descahindo depois em uns suspiros tam magoados,
+tam sentidos, que não disseras senão que preludiava á mais terna e
+maviosa scena d'amor que esse valle tivesse visto.
+
+O official...--Mas certo que as amaveis leitoras querem saber com quem
+trattam, e exigem, pelo menos, uma esquissa rapida e a largos traços do
+novo actor que lhes vou appresentar em scena.
+
+Teem razão as amaveis leitoras, é um dever de romancista a que se não
+póde faltar.
+
+O official era môço, talvez não tinha trinta annos; pôsto que o tratto
+das armas, o rigor das estações, e o sêllo visivel dos cuidados que
+trazia estampado no rosto, accentuassem ja mais fortemente, em feições
+de homem feito, as que ainda devia arredondar a juventude.
+
+A sua estatura era mediana, o corpo delgado, mas o peito largo e forte
+como precisa um coração de homem para pulsar livre; seu porte gentil e
+decidido de homem de guerra desenhava-se perfeitamente sob o espesso e
+largo sobretudo militar--especie de great-coat inglez que a imitação das
+modas britannicas tinha tornado familiar nos nossos bivacs. Trazia-o
+desabotoado e descahido para traz, porque a noite não era fria; e viu-se
+por baixo elegantemente cingida ao corpo a fardeta parda dos caçadores,
+realçada de seus characteristicos alamares pretos e avivada de
+incarnado...
+
+Uniforme tam militar, tam nacional, tam caro a nossas recordações--que
+essas gentes, prostituidoras de quanto havia nobre, popular e respeitado
+n'esta terra, proscreveram do exército... por muito portuguez demais
+talvez! deram-lhe baixa para os beleguins da alfandega, reformaram-n'o
+em uniforme da bicha!
+
+Não pude resistir a esta reflexão: as amaveis leitoras me perdoem por
+interromper com ella o meu retratto.
+
+Mas quando pinto, quando vou riscando e collorindo as minhas figuras,
+sou como aquelles pintores da edade-média que interlaçavam, nos seus
+paineis, distichos de sentenças; fittas lavradas de moralidades e
+conceitos... talvez porque não sabiam dar aos gestos e attitudes
+expressão bastante para dizer por elles o que assim escreviam, e servia
+a penna de supplemento e illustração ao pincel... Talvez: e talvez pelo
+mesmo motivo caio eu no mesmo defeito...
+
+Será; mas em mim é irremediavel, não sei pintar de outro modo.
+
+Voltemos ao nosso retratto.
+
+Os olhos pardos e não muito grandes, mas de uma luz e viveza ímmensa,
+denunciavam o talento, a mobilidade do espirito--talvez a irreflexão...
+mas tambem a nobre singeleza de um character franco, leal e generoso,
+facil na íra, facil no perdão, incapaz de se offender de leve, mas
+impossivel de esquecer uma injúria verdadeira.
+
+A bôcca, pequena e desdenhosa, não indicava comtudo suberba, e muito
+menos vaidade, mas surria na consciencia de uma superioridade
+inquestionavel e não disputada.
+
+O rosto, mais pallido que trigueiro, parecia comprido pela barba preta e
+longa que trazia ao uso do tempo. Tambem o cabello era preto; a testa
+alta e desaffogada.
+
+Quando callado e serio, aquella physionomia podia-se dizer dura; a mais
+piquena animação, o mais leve sorriso a fazia alegre e prazenteira,
+porque a mobilidade e a gravidade eram os dous pollos d'esse character
+pouco vulgar e difficilmente bem intendido.
+
+D'aquelle busto classico e verdadeiramente moldado pelos typos da arte
+antiga, podia o statuario fazer um philosopho, um poeta, um homem
+d'estado ou um homem do mundo, segundo as leves inflexões d'expressão
+que lhe désse.
+
+N'este momento agora, e ao entrar na pequena espessura d'aquellas
+árvores, animava-o uma viva e inquieta expressão de interêsse--quebrado
+comtudo, sustido, e, para assim dizer, _soffreado_ de um temor occulto,
+de um pensamento reservado e doloroso que lhe ia e vinha resumbrando na
+face, como a antiga e desbotada côr de um estôfo que se tingiu de
+novo--que é outro agora mas que não deixou de ser inteiramente o que
+era...
+
+Alegra-se assim um triste dia de novembro com o raio de sol transiente e
+inesperado que lhe rompeu a cerração n'um canto do ceo...
+
+Tal era, e tal estava deante de Joanninha adormecida, o que não direi
+mancebo porque o não parecia--o homem singular a quem o nome, a historia
+e as circumstancias da donzella pareciam ter feito tamanha impressão.
+
+--'Joanninha!' murmurou elle apenas a viu á luz ainda bastante do
+crepusculo. 'Joanninha!' disse outra vez, contendo a violencia da
+exclamação: 'É ella sem dúvida. Mas que differente!... quem tal diria!
+Que graça, que gentileza! Será possível que a criança que ha dois
+annos?..'
+
+Dizendo isto, por um movimento quasi involuntario lhe tomou a mão
+adormecida e a levou aos labios.
+
+Joanninha estremeceu e acordou.
+
+--'Carlos, Carlos!'--balbuciou ella com os olhos ainda meio-fechados,
+Carlos, meu primo... meu irmão! era falso, dize: era falso? Foi um
+sonho, não foi, meu Carlos?..'
+
+E progressivamente abria os olhos mais e mais até se lhe espantarem e os
+cravar n'elle arregalados de pasmo e de alegria.
+
+--'Foi, foi' continuou ella 'foi sonho, foi um sonho mau que eu tive. Tu
+não morreste... Falla á tua irman, á tua Joanna; dize-lhe que estás
+vivo, que não es a sombra d'elle... Não es, não, que eu sinto a tua mão
+quente na minha que queima, sinto-a estremecer como a minha... Carlos,
+meu Carlos! dize, falla-me: tu estás vivo e são? E es... es o meu
+Carlos? Tu proprio, não é ja o sonho, es tu?...'
+
+--'Pois tu sonhavas? tu, Joanna, tu sonhavas commigo?'
+
+--'Sonhava como sonho sempre que durmo... e o mais do tempo que estou
+acordada... sonhava com aquillo em que so penso... em ti.'
+
+--'Joanna!... prima... minha irman!'
+
+E cahiu nos braços d'ella; e abraçaram-se n'um longo, longo abraço--com
+um longo, interminavel beijo..! longo, longo e interminavel como um
+primeiro beijo d'amantes...
+
+O abraço desfez-se; e o beijo terminou em fim, porque os reflexos do ceo
+na terra são limitados e imperfeitos como as incompletas existencias que
+a habitam.
+
+Senão... invejariam os anjos a vida da terra.
+
+Joanninha, tornada a si d'aquelle quasi paroximo, abria e fechava os
+olhos para se affirmar se estava bem acordada, tocava com as mãos o
+rosto, o peito, os braços do primo, palpava-se depois a si mesma como
+quem duvidava de sua propria existencia, e dizia em palavras cortadas e
+sem nexo:
+
+--'É Carlos... Carlos: foi falso. É meu primo... Minha avó tambem sonhou
+o mesmo sonho, mas foi falso. Fr. Diniz não é o que disse, nem ninguem:
+eu e a avó é que o sonhámos. Mas elle aqui está, vivo... vivo! e nosso,
+nosso todo outra vez!... Mas como vieste tu aqui, Carlos? Como estava eu
+aqui comtigo?... E sos, sosinhos aqui a ésta hora! Não deve ser isto...
+Valha-me Deus! E que dirão? E Jesus!--Lá isso não me importa; deixá-los
+dizer: mas não deve ser. Vamos, Carlos, vamos ter com ella, vamos para a
+avó!... Que n'isto não ha mal nenhum... Meu primo!.. um primo com quem
+eu fui criada!.. Mas quem não souber, póde dizer... Vamos, Carlos.--Oh!
+minha avó morre de alegria, coitada!.. É verdade: vou adeante
+preveni-la, prepará-la... heide-lhe ir assim dizendo pouco a pouco...
+Segue-me tu, Carlos, e vamos.--Mas, oh meu Deus! não é preciso: paraquê?
+Ella é cega, coitadinha, não sabes?'
+
+--'Cega, que dizes? minha avó está cega?'
+
+--'Pois não sabías? Ai! é verdade, não sabías. Tantas coisas que tu não
+sabes, meu Carlos! Mas eu te contarei tudo, tudo. Olha: cegou quando...
+Mas não fallemos agora n'essas tristezas que ja la vão. Em ella te
+sentindo aopé de si, é o mesmo que tornar-lhe a vista. Tem-m'o ella
+ditto muitas vezes, e eu bem sei que é assim. Mas ouve: um dia havemos
+de fallar--nós dois sos--á vontade: tenho tanto que te dizer... nem tu
+sabes... Agora vamos, Carlos.'
+
+E fallando assim, tomou-o pela mão e sahiu para o valle aberto,
+froixamente acclarado ja de myríadas de estrellas scintillantes no ceo
+azul.
+
+
+
+
+CAPITULO XXI.
+
+
+ Quem vem lá?--Como entre dous litigantes nem sempre gosa o
+ terceiro.--Carlos e Joanninha n'uma especie de situação _ordeira_,
+ a mais perigosa e falsa das situações.
+
+
+As estrellas luziam no ceo azul e diaphano, a brisa temperada da
+primavera suspirava brandamente; na larga solidão e no vasto silencio do
+valle distinctamente se ouvia o doce murmúrio da voz de Joanninha,
+claramente se via o vulto da sua figura e da do companheiro que ella
+levava pelo mão e que machinalmente a seguia como sem vontade propria,
+obedecendo ao podêr de um magnetismo superior e irresistivel.
+
+Passavam, sem as ver e sem reflectir onde estavam, por entre as vedetas
+de ambos os campos... e ao mesmo tempo de umas e outras lhes bradou o
+voz breve e stridente das sentinellas: 'Quem vem lá?'
+
+Estremeceram involuntariamente ambos com o som repentino de guerra e de
+allarma que os chamava á esquecida realidade do sítio, da hora, das
+circumstancias em que se achavam... D'aquelle sonho incantado que os
+transportára ao Éden querido de sua infancia, accordaram
+sobresaltados... viram-se na terra erma e bruta, viram a espada
+flammejante da guerra civil que os perseguia, que os desunia, que os
+expulsava para sempre do paraizo de delicias em que tinham nascido...
+
+Oh! que imagem eram esses dous, no meio d'aquelle valle nu e aberto, á
+luz das estrellas scintillantes, entre duas linhas de vultos negros,
+aqui alli dispersos e luzindo acaso do tranziente reflexo que fazia
+brilhar uma baioneta, um fuzil... que imagem não eram dos verdadeiros e
+mais sanctos sentimentos da natureza expostos e sacrificados sempre no
+meio das luctas barbaras e estupidas, no conflicto de falsos principios
+em que se estorce continuamente o que os homens chamaram _sociedade_!
+
+Joanninha abraçou-se com o primo; elle parou derepente e foi com a mão
+ao punho da espada.
+
+--'Quem vem lá?' tornaram a bradar as sentinellas.
+
+--'Ouves, Joanna?' disse Carlos em voz baixa e sentida: 'Ouves estes
+brados?' É o grito da guerra que nos manda separar; é o clamor cioso e
+vigilante dos partidos que não tolera a nossa intimidade, que separa o
+irmão da irman, o pae do filho!..'
+
+--'Quem vem lá?' bradaram ainda mais forte as sentinellas; e ouviu-se
+aquelle stridor baço e breve que tam froixo é e tam forte impressão faz
+nos mais bravos animos... era o som dos gatilhos que se armavam nas
+espingardas.
+
+O momento era supremo, o perigo imminente e ja inevitavel... alli podiam
+ficar ambos, traspassados das ballas oppostas dos dous campos
+contendores.
+
+Como esses que, fiados em sua innocencia e abnegação, cuidam podêr
+passar por entre as discordias civis sem tomar parte n'ellas, e que são,
+por isso mesmo, objecto de todas as desconfianças, alvo de todos os
+tiros--assim estavam alli os dous primos na mais arriscada e falsa
+posição que têem as revoluções.
+
+Joanninha conheceu o perigo que os ameaçava; e com aquella rapidez de
+resolução que a mulher tem mais prompta e segura nas grandes occasiões,
+disse para Carlos:
+
+--'Falla aos teus, faze-te conhecer e põe-te a salvo. Ámanhan nos
+tornaremos a ver: eu te avisarei. Adeus!'
+
+--'E tu, tu?.. E as sentinellas dos realistas?..'
+
+--'Não tenhas cuidado em mim. D'esta banda todos me conhecem'.
+
+Deu alguns passos para o lado da sua casa e levantou a voz:
+
+--'Joanninha! Sou eu, camaradas, sou eu!'
+
+Immediatamente se ouviu o som retinido das coronhas no chão, e o riso
+contente dos soldados que reconheciam a bemquista e bem vinda voz de
+Joanninha... da 'menina dos rouxinoes.'
+
+--'Ves, Carlos?.. Adeus! até ámanhan.' disse ella baixo.
+
+--'Até amanhan se...'
+
+--'Se!.. Pois tu?..'
+
+--'Ouve: não digas a tua avó que me viste, que estou aqui: é forçoso, é
+indispensavel, exijo-o de ti...'
+
+--'E ámanhan me dirás?..'
+
+--'Sim.'
+
+--'Prometto: não direi nada... Mas, oh! Carlos...'
+
+--'Adeus!'
+
+Carlos deu dous passos para a banda das suas vedetas, Joanna correu para
+o lado opposto. Mas elle parou e não tirou os olhos d'aquella fórma
+gentil que deslizava como uma sombra pelo horisonte do valle, até que
+desappareceu de todo.
+
+E elle immovel ainda!
+
+Faíscaram derepente como relampagos um, dous, tres... e as detonações
+que os seguiram, e o assovio das ballas que vinham depós ellas... Eram
+as sentinellas constitucionaes que faziam fogo sôbre o seu commandante
+que não conheciam, cujo silencio e immobilidade o fazia suspeito.
+
+Uma das ballas ainda o feriu levemente no braço esquerdo.
+
+--'Bem, camaradas!' bradou Carlos caminhando rapidamente para elles, e
+erguendo a voz forte e cheia que tam conhecida era nas fileiras: 'Bem!
+Fizeram a sua obrigação. Um de vocês que me aperte aqui o braço com este
+lenço.'
+
+--'Carlos!' gritou ao longe uma voz fina, aguda, vibrante de terror pelo
+espaço 'Carlos! falla-me, responde: não te succedeu nada?'
+
+--'Nada, nada! Socega.'
+
+E tornou a cahir tudo no silencio. Carlos retirou-se ao seu quartel
+n'uma choupana proxima. Os soldados olharam-se entre si e surriram.
+
+Um mais doutor disse para os outros:
+
+--'O nosso capitão não se descuida: ainda hoje chegou, e já nós lá
+vamos, hem?'
+
+--'O nosso capitão é d'aqui: não sabes?'
+
+--'Hum! tenho percebido. E ainda lhe dura? O home' é capaz!'
+
+--'Silencio! Eu te direi logo a historia toda: é uma prima.'
+
+--'Ah! prima. Então não ha nada que dizer.'
+
+--'É a que elles chamam aqui...'
+
+--'A menina dos rouxinoes? Essa é maluca.'
+
+--'Gosta d'ellas assim, que elle tambem o é.'
+
+--'Pois a freira de San Gonsallo, na Terceira?'
+
+--'Maluca.'
+
+--'E a Lady ingleza que?..'
+
+--'Maluquissima essa! Não me hade admirar se a vir cahir do ar um dia
+por ahi como bomba. E não hade dar mau estallo!'
+
+--'Podéra! E incontrando-se com a prima então!..'
+
+--'Mas elle é prima ou é irman?'
+
+--'É uma tal parentella inrevezada a d'essa gente da casa do valle!..
+dizem coisas por ahi, que se eu as intendo!.. E ha um frade no caso, ja
+se sabe...'
+
+--'Oh! elle ha frade no caso?'
+
+--'Ha, e que frade! Um apostolico ás direitas! Tam feio, tão magro!
+apparece por ahi ás vezes. Eu já o lombriguei um dia: e que famoso tiro
+que era! Quasi que me arrependo de não ter...'
+
+--'Isso! hoje iamos matando o nosso capitão por instantes. Olha agora se
+lhe matas o tio, ou pae, ou o que quer que é...'
+
+--'Um frade!'
+
+--'Um frade não é gente?'
+
+--'Não senhor.'
+
+--'Está bom: basta de conversar por hoje. O que me eu parece é que nós
+temos cedo muita pancada rija.'
+
+--'Venha ella, que isto ja abhorrece.'
+
+Accenderam os cigarros e fumaram.
+
+Com o mesmo socêgo d'espirito... sancto Deus! accendem os homens a
+guerra civil, que altera e confunde por este modo todas as ideas, todos
+os sentimentos da natureza.
+
+
+
+
+CAPITULO XXII.
+
+
+ Bilhete de manhan da prima ao primo. Inganam a pobre da
+ velha.--Noite mal dormida.--Da conversa que teve Carlos com os seus
+ botões.--A Joanninha que elle deixára e a Joanninha que
+ achou.--Obrigações d'amor, triste palavra.--A mulher que elle
+ amava, e se elle a amava ainda.--Quesitos do A. aos seus benevolos
+ leitores. Declara que com os hypocritas não falla.--Quem hade
+ levantar a primeira pedra?--Dous modos differentes de accudir uma
+ coisa ao pensamento.
+
+
+No dia seguinte, mal rompia a manhan, um paizano que dizia trazer
+communicações importantes para o commandante do pôsto avançado, foi
+conduzido á presença de Carlos e lhe intregou uma carta: era de
+Joanninha.
+
+Fiel á sua promessa, ella não tinha ditto nada do incôntro da véspera:
+dizia a carta. E que a avó estava doente e afflicta; que para a animar e
+consolar, lhe dera notícias do primo, como vindas por pessoa que o víra
+e estivera com elle. Que ficava mais contente e socegada: mas que
+aquelle estado de anciedade não podia prolongar-se. Que a saude da pobre
+velha declinava de dia a dia; que se lhe ia a vida, que era matá-la não
+lhe dizer a verdade... Joanninha concluia com mil affectos e saudades; e
+aprazava por fim o mesmo sítio da véspera para se tornarem a ver, e para
+concertarem o que havia de fazer. Todas as precauções estavam tomadas, e
+o consentimento dado pelo commandante do pôsto contrário para haver toda
+a segurança n'aquella entrevista.
+
+Carlos tinha velado toda a noite; uma excitação extraordinaria lhe
+amotinára o sangue, lhe desaffinára os nervos. Bem tinha desejado vir
+para aquelle pôsto, bem contava, bem esperava elle, estando alli, saber
+de mais perto da sua familia, vê-los talvez, mais dia menos dia,
+incontrar-se com alguns d'elles... e de todos elles, a innocente e
+graciosa criança com quem vivêra como irmão desde os seus primeiros
+annos, era quem elle mais esperava, mais desejava ver decerto.
+
+Mas uma criança era a que elle tinha deixado, uma criança a brincar, a
+colhêr as boninas, a correr atraz das borboletas do valle... uma criança
+que sim o amava ternamente, cuja suave imagem o não tinha deixado nunca
+em sua longa peregrinação, cuja saudade o accompanhára sempre, de quem
+se não esquecêra um momento, nem nos mais alegres nem nos mais
+occupados, nem nos mais difficeis nem nos mais perigosos da sua vida...
+
+Mas era uma criança!.. era a imagem d'uma criança.
+
+É certo, sim: e nas batalhas, em presença da morte... no longo cêrco do
+Porto entre os flagellos da cholera e da fome, nas horas de mais viva
+esperança, no descoroçoamento dos mais tristes dias, a doce imagem de
+Joanninha, d'aquella Joanninha com quem elle andava ao colo, que
+levantava em seus hombros para ella chegar aos ninhos dos passaros no
+verão, aos medronhos maduros no outomno, que elle suspendia nos braços
+para passar no hynverno os alagadiços do valle,--essa querida imagem não
+o abandonára nunca.
+
+Nunca!.. nem quando as pennas d'amor, nem quando as suas glórias--mais
+esquecidiças ainda!--pareciam absorver-lhe todos os sentidos, e todo o
+sentimento de seu coração.
+
+A saudade, a memoria de Joanninha, suavemente impressa no mais puro e no
+mais sancto de sua alma, resplandecia no meio de todas as sombras que
+lh'a obscurecessem, sobreluzia no meio de qualquer fogo que lh'a
+allumiasse.
+
+Uma luz quieta, limpida, serena como a tocha na mão do anjo que ajoelha
+em innocencia e piedade deante do throno do Eterno!
+
+Mas, no mesmo dia em que chegou ao valle, quasi na mesma hora, cheio
+d'aquella luz, mais viva e animada agora pela proximidade do foco d'onde
+sahia... n'essa mesma hora, ir incontrar alli, n'aquella solidão, entre
+aquellas árvores, á tibia e seductora claridade do crepusculo... a quem,
+sancto Deus! Não ja a mesma Joanninha de ha tres annos, não a mesma
+imagem que elle trazia, como a levára, no coração; mas uma gentil e
+airosa donzella, uma mulher feita e perfeita, e que nada perdêra,
+comtudo, da graça, do incanto, do suave e delicioso perfume da
+innocencia infantil em que a deixára!
+
+Não esperava, não estava preparado para a impressão que recebeu, foi uma
+surpreza, um choque, um reviramento confuso de todas as suas ideas e
+sentimentos.
+
+Qual fosse porêm a precisa e verdadeira impressão que recebeu, nem elle
+a si proprio o podéra explicar: era de um genero novo, unico na historia
+de suas sensações: não a conhecia, extranhava-a, e quasi que tinha medo
+de a analysar.
+
+Sería annúncio d'amor?
+
+Mas elle tinha amado, amado muito e devéras... e cuidava amar ainda, e
+devia amar; por quanto ha sagrado e sancto nos deveres do coração, era
+obrigado a amar ainda.
+
+Oh obrigações d'amor, obrigações d'amor! se vós não sois, se vós ja não
+sois senão obrigações!..
+
+Não o pensava Carlos, não o cria elle assim: leal e sincero tinha
+intregue o seu coração á mulher que o amava, que tantas próvas lhe dera
+d'amor e devoção; que descançava em sua fé, que não existia senão para
+elle: mulher môça, bella, cheia de prendas e de incantos, mulher de um
+espirito, de uma educação superior, que atravessára, desprezando-as,
+turbas de adoradores nobres, riccos, poderosos, para descer até elle,
+para se intregar ao foragido, pobre, extrangeiro, desprezado.
+
+Quem era essa mulher?
+
+Aonde, como obtivera elle a posse d'essa joia, d'esse talisman com o
+qual se tinha por tam seguro para não ver na graciosa prima senão?..
+
+Senão o quê?
+
+A innocente criança que alli deixára?
+
+Mas não é verdade isso: outra era a impressão que Joanninha lhe fizera,
+fosse ella qual fosse.
+
+O que era então?
+
+E sôbre tudo, quem era ess'outra mulher que elle amava?
+
+E amava-a elle ainda?
+
+Amava.
+
+E Joanninha?
+
+Joanninha era... nem eu sei o que lhe era Joanninha... o que lhe estava
+sendo n'aquelle momento.
+
+O que lhe ella fôra, assas t'o tenho explicado, leitor amigo e benevolo:
+o que lhe ella será... Pódes tu, leitor candido e sincero,--aos
+hypocritas não fallo eu--pódes tu dizer-me o que hade ser ámanhan no teu
+coração a mulher que hoje somente achas bella, ou gentil, ou
+interessante?
+
+Pódes responder-me da parte que tomará ámanhan na tua existencia a
+imagem da donzella que hoje contemplas apenas com olhos de artista, e
+lhe estás notando, como em quadro gracioso, os finos contornos; a pureza
+das linhas, a expressão verdadeira e animada?
+
+E quando vier, se vier, esse fatal dia de ámanhan, responder-me-has
+tambem da parte que ficará tendo em tua alma ess'outra imagem que lá
+estava d'antes e que, ao reflexo d'esta agora, d'aqui observo que vai
+impallidecendo, descórando... ja lhe não vejo senão os lineamentos
+vagos... ja é uma sombra do que foi... Ai! o que será ella ámanhan?
+
+Leitor amigo e benevolo, caro leitor meu indulgente, não accuses, não
+julgues á pressa o meu pobre Carlos; e lembra-te d'aquella pedra que o
+Filho da Deus mandou levantar á primeira mão que se achasse innocente...
+A adultera foi-se em paz, e ninguem a apedrejou.
+
+Pois é verdade: Carlos tinha amado, amado muito, e amava ainda a mulher
+a quem promettêra, a quem estava resolvido a guardar fé. E essa mulher
+era bella, nobre, ricca, admirada, occupava uma alta posição no mundo...
+e tudo lhe sacrificára a elle exilado, desconhecido.
+
+E Carlos estava seguro que nenhuma mulher o havia de amar como ella; que
+os longos e ondados anneis de loiro cendrado, que os languidos olhos de
+gazella, que o ar majestoso e altivo, que a tez d'uma alvura celeste,
+que o espirito, o talento, a delicadeza de Georgina... Chamava-se
+Georgina; e é tudo quanto por agora póde dizer-vos, ó curiosas leitoras,
+o discreto historiador d'este mui veridico successo: não lhe pergunteis
+mais, por quem sois. Carlos estava seguro, dizia eu, que todas essas
+perfeições, que o seu amor sem limites, que a sua confiança sem reserva,
+não podiam ter rival, nem a haviam de ter.
+
+Mas aquelle beijo, aquelle abraço de Joanninha... oh! que lhe tinha elle
+feito? Como o sentíra elle? Como lhe guardára o seu talisman o coração e
+a alma?..
+
+Não, Carlos estava certo de si, certo do seu antigo amor, lembrado de
+quanto lhe devia: e n'isso reflectiu toda aquella noite que se fôra em
+claro.
+
+A imagem de Joanninha lá apparecia, de vez em quando, como um raio de
+luz transiente e magica, no meio d'ess'outras visões do passado que a
+reflexão lhe acordava. Ai! essas era a reflexão que as acordava...
+aquella vinha espontanea; era repellida, e tornava, e tornava...
+
+Ha sua notavel differença n'estes dois modos de accudir ao pensamento.
+
+A manhan veio em fim; Carlos respirou o ar puro e vivo da madrugada,
+sentiu-se outro.
+
+Quando chegou a carta de Joanninha, leu-a e reflectiu n'ella sem
+sobresalto. Certo e seguro de si, resolveu ir ao prazo dado para a
+tarde.
+
+
+
+
+CAPITULO XXIII.
+
+
+ Continúa a accudir muita coisa vaga e incontrada ao pensamento de
+ Carlos.--Dança de fadas e duendes.--Fr. Diniz o fado-mau da
+ familia.--Veremos, é a grande resolução nas grandes
+ difficuldades.--Carlos poeta romantico.--Olhos verdes.--Desafio a
+ todos os poetas moyen-ages do nosso tempo.
+
+
+Não ha nada como tomar uma resolução.
+
+Mas hade tomar-se e executar-se: aliás, se o caso é difficil e
+complicado, pouco a pouco as dúvidas solvidas começam a inliar-se outra
+vez, a inredar-se... a surgir outras novas, a appresentarem-se faces
+ainda não vistas da questão... em fim, se o intervallo é largo, quando a
+resolução tomada chega a executar-se, a maior parte das vezes ja não é
+por fôrça de razão e convicção que se faz, mas por capricho, ponto
+d'honra, teima.
+
+Carlos tinha resolvido ir ao prazo dado, no fim do dia. Mas o dia era
+longo, custou-lhe a passar. Todas as ponderações da noite lhe recorreram
+ao pensamento, todas as imagens que lhe tinham fluctuado no espirito se
+avivaram, se animaram, e lhe começaram a dançar n'alma aquella dança de
+fadas e duendes que faz a delicia e os tormentos d'estes sonhadores
+acordados que andam pelo mundo e a quem a douta faculdade chama
+_nervosos_; em stylo de romance _sensiveis_, na phrase popular
+_malucos_.
+
+Carlos era tudo isso: para que o heide eu negar?
+
+Entre aquellas imagens que assim lhe bailavam no pensamento, vinha uma
+agora... talvez a que elle via mais distincta entre todas, a da avó que
+tanto amára, em cujo maternal coração elle bem sabía que tinha a
+primeira, a maior parte... da avó que tam carinhosa mãe lhe tinha sido!
+Pobre velhinha, hoje decrepita e cega... Cega, coitada! Como e porque
+cegaria ella?
+
+Havia ahi mysterio que Joanninha indicára, mas que não explicou.
+
+Atraz da paciente e humilhada figura d'aquella mulher de dores e
+desgraças, se erguia um vulto austero e duro, um homem armado da cabeça
+aos pés de ascetica insensibilidade, um homem que parecia o fado-mau
+d'aquella velha, de toda a sua familia... o cumplice e o verdugo de um
+grande crime... um ser de mysterio e de terror.
+
+Era Fr. Diniz aquelle homem; homem que elle desejava, que elle cuidava
+detestar, mas por quem, no fundo d'alma, lhe clamava uma voz mystica e
+íntima, uma voz que lhe dizia: 'Assim será tudo, mas tu não pódes
+abhorrecer esse homem.'
+
+Sim, mas sôbre Fr. Diniz pesava uma accusação tremenda, que o fizera, a
+elle Carlos, abandonar a casa de seus paes! Accusação horrivel que
+tambem comprehendia a pobre velha, aquella avó que o adorava, e que
+elle, ainda criminosa como a suppunha, não podia deixar de amar...
+
+E d'estes medonhos segredos sabía Joanninha alguma coisa?
+
+Esperava em Deus que não.
+
+Desconfiaria alguma coisa?... O quê?
+
+E iria elle polluir o pensamento, desflorar os ouvidos, corromper os
+labios da innocente criança com o esclarecimento de taes horrores?
+
+Havia de lhe fallar na infamia dos seus? Havia de lhe explicar o motivo
+porque fugira da casa paterna?
+
+Havia de?..
+
+Não.--Se Joanninha tivesse suspeitas, havia de destrui-las antes; se
+ella soubesse alguma coisa, negar-lh'a.
+
+Mentiria, juraria falso se fosse preciso.
+
+E não havia de ir ver a avó, não havia de entrar na casa dos seus a
+consolar a infeliz que só vivia d'uma esperança, a de ver o filho de sua
+filha?
+
+Não, nunca... O limiar d'aquella porta, que elle julgava contaminado,
+infame, manchado de sangue e cuspido de opprobrios e deshonras, tinha-o
+passado sacudindo o po de seus sapatos, promettendo a Deus e á sua honra
+de o não tornar a cruzar mais.
+
+Mas que diria então elle a Joanninha? Como havia de explicar-lhe um
+proceder tam extranho, e apparentemente tam cruel, tam ingrato?
+
+Por emquanto as impossibilidades materiaes da guerra serviriam de
+desculpa, depois o tempo daria conselho.
+
+_Veremos_!--é a grande resolução que se toma nas grandes difficuldades
+da vida, sempre que é possivel espaçá-las.
+
+Carlos disse: '_Veremos!_'
+
+Tomou todas as disposições para podêr estar seguro e socegado no sítio
+onde ia incontrar a prima: e o resto do dia, ancioso mas contente,
+occupou-se de seus deveres militares, fatigou o corpo para descançar o
+espirito, e em parte e por bastantes horas o conseguiu.
+
+Mas um dia de abril é immenso, interminavel. E as últimas horas pareciam
+as mais compridas. Nunca houve horas tammanhas! Carlos ja não tinha que
+inventar para fazer: pôz-se a pensar.
+
+Que remedio!
+
+Pensou n'isto, pensou n'aquillo... uma idea lhe vinha, outra se lhe ia.
+A imaginação, tanto tempo comprimida, tomava o freio nos dentes e corria
+á redea sôlta pelo espaço...
+
+Anneis dourados, transas de ebano, faces de leite e rosas como de
+cherubins, outras pallidas, transparentes, diaphanas como de princezas
+incantadas, olhos pretos, azues, verdes... os de Joanninha em fim...
+todas éstas feições, confusas e indistinctas mas de estremada belleza
+todas, lhe passavam deante da vista, e todas o infeitiçavam. O
+desgraçado...--Porque não heide eu dizer a verdade?--o desgraçado era
+poeta.
+
+Inda assim! não me esconjurem ja o rapaz... Poeta, intendamo'-nos; não é
+que fizesse versos: n'essa não cahiu elle nunca, mas tinha aquelle fino
+sentimento d'arte, aquelle sexto sentido do _bello_, do _ideal_ que so
+teem certas organizações privilegiadas de que se fazem os poetas e os
+artistas.
+
+Eis aqui um fragmento de suas aspirações poeticas. Vejam as amaveis
+leitoras que não teem metro, nem rhyma--nem razão... Mas emfim versos
+não são.
+
+
+'Olhos verdes!..
+
+'Joanninha tem os olhos verdes...
+
+'Não se reflecte n'elles a pura luz do ceo, como nos olhos azues.
+
+'Nem o fogo--e o fummo das paixões, como nos pretos.
+
+'Mas o viço do prado, a frescura e animação do bosque, a fluctuação e a
+transparencia do mar...
+
+'Tudo está n'aquelles olhos verdes.
+
+'Joanninha, porque tens tu os olhos verdes?
+
+'Nos olhos azues de Georgina arde, em sereno e modesto brilho, a luz
+tranquilla de um amor provado, seguro, que deu quanto havia de dar,
+quanto tinha que dar.
+
+'Os olhos azues de Georgina não dizem senão uma so phrase d'amor, sempre
+a mesma e sempre bella: _Amo-te, sou tua!_
+
+'Nos olhos negros e inquietos de Soledade nunca li mais que éstas
+palavras: _Ama-me, que es meu!_
+
+'Os olhos de Joanninha são um livro immenso, escripto em characteres
+moveis, cujas combinações infinitas excedem a minha comprehensão.
+
+'Que querem dizer os teus olhos, Joanninha?
+
+'Que lingua fallam eles?
+
+'Oh! paraque tens tu os olhos verdes, Joanninha?
+
+'A assucena e o jasmim são brancos, a rosa vermelha, o alecrim azul...
+
+'Roxa é a violeta, e o junquilho côr de ouro.
+
+'Mas todas as côres da natureza vêem de uma so, o verde.
+
+'No verde está a origem e o primeiro typo de toda a belleza.
+
+'As outras côres são parte d'ella; no verde está o todo, a unidade da
+formosura creada.
+
+'Os olhos do primeiro homem deviam de ser verdes.
+
+'O ceo é azul...
+
+'A noite é negra...
+
+'A terra e o mar são verdes...
+
+'A noite é negra mas bella: e os teus olhos, Soledade, eram negros e
+bellos como a noite.
+
+'Nas trevas da noite luzem as estrellas que são tam lindas... mas no fim
+de uma longa noite quem não suspira pelo dia?
+
+'E que se vão... oh! que se vão emfim as estrellas!..
+
+'Vem o dia... o ceo é azul e formoso: mas a vista fatiga-se de olhar
+para elle.
+
+'Oh! o ceo é azul como os teus olhos, Georgina...
+
+'Mas a terra é verde: e a vista repousa-se n'ella, e não se cança na
+variedade infinita de seus matizes tam suaves.
+
+'O mar é verde e fluctuante... Mas oh! esse é triste como a terra é
+alegre.
+
+'A vida compõe-se de alegrias e tristezas...
+
+'O verde é triste e alegre como as felicidades da vida.
+
+'Joanninha, Joanninha, porque tens tu os olhos verdes?..'
+
+
+Ja se vê que o nosso doutor de bivac, o soldado que lhe chamou _maluco_
+ao pensador de taes extravagancias, tinha razão e sabía o que dizia.
+
+Infelizmente não se formulavam em palavras estes pensamentos poeticos
+tam sublimes. Por um processo milagroso de photographia mental, apenas
+se pôde obter o fragmento que deixo transcripto.
+
+Que honra e glória para a eschola romantica se podessemos ter a
+collecção completa!
+
+Fazia-se-lhe um prefacio incisivo, palpitante, _britante_....
+
+Punha-se-lhe um titulo vaporoso, phosphorescente... por exemplo:--Echos
+surdos do coração--ou--Reflexos d'alma--ou--Hymnos
+invisiveis--ou--Pesadellos poeticos--ou qualquer outro d'este genero,
+que se não soubesse bem o que era nem tivesse senso commum.
+
+E que viesse ca algum menestrel de frak e chapeu redondo, algum trovador
+renascença de collete á Joinville, luctar com o meu Carlos em pontos de
+romantismo vago, descabellado, vaporoso, e nebuloso!
+
+Se algum d'elles era capaz de escrever com menos logica,--(com menos
+grammatica, sim) e com mais triumphante desprêzo das absurdas e
+escravizantes regras d'essa paleta d'essa eschola classica que não
+produziu nunca senão Homero e Virgilio, Sophocles e Horacio, Camões e o
+Tasso, Corneille e Racine, Pope e Moliere, e mais algumas duzias de
+outros nomes tam obscuros como estes?
+
+
+
+
+CAPITULO XXIV.
+
+
+ Novo Génesis.--O Adam social muito differente do Adam
+ natural.--Carlos sempre um por seus bons instinctos, sempre outro
+ por suas más reflexões.--De como Joanninha recebeu o primo com os
+ braços abertos, e do mais que entre elles se passou.--Dor meia dor,
+ meia prazer.
+
+
+Formou Deus o homem, e o pôs n'um paraizo de delicias; tornou a formá-lo
+a sociedade, e o pôs n'um inferno de tolices.
+
+O homem--não o homem que Deus fez, mas o homem que a sociedade tem
+contrafeito, appertando e forçando em seus moldes de ferro aquella pasta
+de limo que no paraizo terreal se affeiçoára a imagem da divindade--o
+homem, assim aleijado como nós o conhecêmos, é o animal mais absurdo, o
+mais disparatado e incongruente que habita na terra.
+
+Rei nascido de todo o creado, perdeu a realeza; principe desherdado e
+proscripto, hoje vaga foragido no meio de seus antigos estados; altivo
+ainda e suberbo com as recordações do passado, baixo vil e miseravel
+pela desgraça do presente.
+
+D'estas duas tam oppostas actuações constantes, que ja per si sos o
+tornariam ridiculo, formou a sociedade, em sua van sabedoria, um systema
+chymerico, desarrazoado e impossivel, complicado de regras a qual mais
+desvairada, incontrado de repugnancias a qual mais opposta. E vazado
+este perfeito modêlo de sua arte pretenciosa, metteu dentro d'elle o
+homem, desfigurou-o, contorceu-o, fê-lo o tal ente absurdo e
+disparatado, doente, fraco, rachitico; collocou-o no meio do Eden
+phantastico de sua creação,--verdadeiro inferno de tolices--e disse-lhe,
+invertendo com blasphêmo arremêdo as palavras de Deus Creador:
+
+'De nenhuma árvore da horta comendo comerás;
+
+'Porêm da árvore da sciencia do bem e do mal, d'ella so comerás se
+quizeres viver.'
+
+Indigestão de sciencia que não commutou seu mau estomago, presumpção e
+vaidade que d'ella se originaram--tal foi o resultado d'aquele preceito
+a que o homem não desobedeceu como ao outro: tal é o seu estado
+habitual.
+
+E quando as memorias da primeira existencia lhe fazem nascer o desejo de
+sahir d'esta outra, lhe influem alguma aspiração de voltar á natureza e
+a Deus, a sociedade, armada de suas barras de ferro, vem sôbre elle, e o
+prende, e o esmaga, e o contorce de novo, e o apperta no equuleo
+doloroso de suas fôrmas.
+
+Ou hade morrer ou ficar monstruoso e aleijão.
+
+...........................................................................
+...........................................................................
+
+Poucos filhos do Adam social tinham tantas reminiscencias da outra
+patria mais antiga, e tendiam tanto a aproximar-se do primitivo typo que
+sahíra das mãos do Eterno, forcejavam tanto por sacudir de si o pesado
+appêrto das constricções sociaes, e regenerar-se na sancta liberdade da
+natureza, como era o nosso Carlos.
+
+Mas o melhor e o mais generoso dos homens segundo a sociedade, é ainda
+fraco, falso e acanhado.
+
+Demais, cada tentativa nobre, cada aspiração elevada de sua alma lhe
+tinha custado duros castigos, severas e injustas condemnações d'esse
+grande juiz hypocrita, mentiroso e venal... o mundo.
+
+Carlos estava quasi como os mais homens... ainda era bom e verdadeiro no
+primeiro impulso de sua natureza excepcional; mas a reflexão descia-o á
+vulgaridade da fraqueza, da hypocrisia, da mentira commum.
+
+Dos melhores era, mas era homem.
+
+Os seus pensamentos, as suas considerações em toda aquella noite, em
+todo o dia que a seguíra, na hora mesma em que ia incontrar-se com o
+objecto que mais lhe prendia agora o espírito, senão é que tambem o
+coração, todas participavam d'aquella fluctuação inquieta e doentia de
+seu ser d'homem social, em quem o tibio reflexo do homem natural apenas
+relampejava por acaso.
+
+Dúvida, incerteza, vaidade, mentira deslocavam e annullavam a bella
+organização d'aquella alma.
+
+Assim chegou aopé de Joanninha que o esperava de braços abertos, que o
+appertou n'elles, que o beijou sem nenhum falso recato de maliciosa
+modestia, e com o riso da alegria no coração e na bôcca lhe disse:
+
+--'Ora pois, meu Carlos, sentemo-nos aqui bem junctos aopé um do outro e
+conversemos, que temos muito que fallar. Dá ca a tua mão. Aqui na
+minha... Está fria a tua mão hoje! E hontem tam quente estava!.. Oh!
+agora vai aquecendo... tanto tanto... é demais! Terás tu febre?'
+
+--'Não tenho.'
+
+--'Não tens, não: a cara é de saude. E como tu estás forte, grande, um
+homem como eu sempre imaginei que um homem devia ser, como sempre te via
+nos meus sonhos!.. Que é extranho isto, Carlos: quando sonhava comtigo,
+não te via como tu d'aqui foste, magro, triste e doente; via-te como
+vens agora, forte, são, alegre. Mas tu não estás alegre hoje, como
+hontem; não estás... Que tens tu?'
+
+--'Nada, querida Joanninha, não tenho nada. Pensava...'
+
+--'Em que pensas tu? dize-me.'
+
+--'Pensava na differença dos nossos sonhos: que eu tambem sonhava
+comtigo.'
+
+--'Sonhavas, Carlos! E como sonhavas tu? como me vias nos teus sonhos?'
+
+--'Tudo pelo contrario do que tu. Via-te aquella Joanninha piquena,
+desinquieta, travêssa, correndo por essas terras, saltando essas vallas,
+trepando a essas árvores... aquella Joanninha com quem eu andava ao
+collo, que trazia ás cavalleiras, que me fazia ser tam doido e tam
+criança como ella, apezar de eu ter quinze annos mais. Via-te alegre,
+cantando...'
+
+--'Sonhos de homem! Creiam n'elles! Eu que nunca mais ri nem brinquei
+desde o dia que tu partiste... E oh que dia, Carlos!.. E os que vieram
+depois! Não houve nunca mais um so dia de alegria n'ésta casa. Oh!..
+deixa-me te dizer: Fr. Diniz... Sabes que não gósto d'elle?'
+
+--'Não gostas?'
+
+--'Nada: tenho-lhe aversão. E Deus me perdoe! parece-me que é injusta a
+minha antipathia.'
+
+--'Porquê?'
+
+--'Porque elle é teu amigo devéras. Um pae, Carlos, um pae não tem maior
+ternura e desvellos por seu filho, do que elle tem por ti.'
+
+--'Deus lhe perdoe!'
+
+--'Deus lhe perdoe a quem...e que lhe hade perdoar? O amor que te tem?'
+
+--'Não, mas...'
+
+--'Bem sei o que queres dizer: e tens razão.'
+
+--'Tenho razão!'
+
+--'Tens: o que elle bem precisa que Deus lhe perdoe é um grande
+peccado.'
+
+--'Que dizes tu, Joanna! E como sabes?'
+
+--'Sei, sei tudo.'
+
+--'Tu!'
+
+--'Eu. Sei que foi elle quem fez cegar minha avó... a nossa boa, a nossa
+sancta avó, Carlos!.. quem a cegou á fôrça de lagrymas que lhe fez
+chorar áquelles pobres olhos que, de puro cançados, se apagaram para
+sempre... Minha ricca avó!--E porquê, meus Deus, porquê!'
+
+--'Porquê?'
+
+--'Por amor de ti, por escrupulos que lhe metteu na cabeça de tu seres
+mau christão, inimigo de Deus, que te não podias salvar... tu meu
+Carlos! Vê que cegueira a do triste frade.'
+
+--'Bem triste!'
+
+--'Mas olha que o diz de boa-fé e pelo muito amor que te tem... que é um
+amor que eu não intendo: e o mesmo é com minha avó, que treme deante
+d'elle. E mais elle estima-a, estou certa que dava a vida por ella... e
+por nós todos... por mim não tanto, mas por ti e por ella, dava decerto.
+Mas o seu amor é dos que rallam, que, apoquentam... quasi que estou em
+dizer que matam.'
+
+--'Matam, matam!'
+
+--'Nossa avó é elle que a mata decerto. Sempre a metter-lhe medos,
+sempre escrupulos! O seu Deus d'elle é um Deus de terrores, de
+vinganças, de castigos, e sem nenhuma misericordia. Oh! que homem! para
+elle tudo é peccado, maldade... Não o posso ver.'
+
+Carlos respirava como desopprimido de um grande pêso, ouvindo as
+explicações da prima que bem claro lhe mostravam a sua perfeita
+ignorancia dos fataes segredos da familia.
+
+--'E comtigo' disse elle ja n'outra voz mais desaffogada 'comtigo,
+Joanninha, como se avêm elle, como te tracta?'
+
+--'Commigo não se mette, e rara vez me falla. Mas oh, se elle soubesse
+que eu estava aqui comtigo, sancto Deus! o que ouviria a pobre da minha
+avó! Inda bem que hoje não é sexta-feira, senão não vinha eu ca.'
+
+--'Porquê? Ainda vem todas as sexta-feiras?'
+
+--'Sempre o mesmo. Ámanhan ca o temos por peccado, que é sexta-feira.'
+
+--'Não te vejo então ámanhan aqui?'
+
+--'Não decerto, aqui. Mas vamos, que a isso é que eu venho ca hoje, para
+te fallar n'isso... e para te ver, para fallar comtigo, para estar com o
+meu Carlos... e ao mesmo tempo tambem para ajustarmos como isto hade
+ser. Quando has-de tu ir ver a avó?.. a nossa mãe; que ella é nossa mãe,
+Carlos, não conhecémos nunca outra, nem eu nem tu. Quando lhe heide eu
+dizer que estás aqui? A pobre velhinha está tam doente! Ha quinze dias
+que se não levanta da cama.'
+
+--'Coitada da minha pobre mãe!.. Oh! se não fosse!.. Deixa estar,
+Joanninha; um dia será. Por agora, não póde ser: bem vês. Como heide eu
+atravessar as sentinellas dos realistas, ir a um pôsto inimigo?--A minha
+vida... isso pouco importa, mas a minha honra ficava em perigo: por
+todos os modos a perdia, e talvez...'
+
+--'Não senhor, Sr. Carlos, essa desculpa não basta. Vai n'um anno que
+aqui temos a guerra á porta de casa, e ja sabemos como isso é e como as
+coisas se fazem. O commandante do nosso pôsto é um homem de bem, um
+cavalheiro perfeito. Em lhe eu dizendo quem tu es e a que ca vens...
+elle sabe o estado da minha avó, e tem-lhe muita amizade, da-nos decerto
+licença para tu vires em toda a segurança. Pensas que elle não sabe que
+estou comtigo aqui? Pois disse-lh'o eu; só lhe não expliquei quem tu
+eras; disse-lhe que eras um parente nosso que nos trazia notícias de
+outros, e que precisava fallar-te. Não pôs dificuldade alguma: é uma
+pessoa excellente, bom, bom devéras.'
+
+--'É môço o teu commandante?'
+
+--'Môço elle? coitado! Tem bons cinquenta annos, e creio que outros
+tantos filhos. Mas por que perguntas tu isso? E arqueaste as
+sobrancelhas com aquelle teu ar de antes quando te zangavas! Porque foi
+isso, Carlos?'
+
+--'Nada, criança, foi uma pergunta á toa.'
+
+--'Pois será; mas não me franzas nunca mais a testa assim, que te
+pareces todo... é que nunca vi tal parecença...'
+
+--'Com quem?'
+
+--'Com Fr. Diniz.'
+
+--'Eu com elle!'
+
+--'Tal e qual quando fazes essa cara. Olha: ahi estás tu na mesma.
+Vamos! ria-se e esteja contente se se quer parecer commigo, que todos
+dizem que nos parecemos tanto.'
+
+--'Querida innocente!'
+
+E beijou-lhe a mão que tinha appertada na sua, beijou-lh'a uma e muitas
+vezes com um sentimento de ternura misturado de não sei que vaga
+compaixão, vindo de lá de dentro d'alma com não sei que dor, meia dor
+meia prazer, que entre ambos se communicou e a ambos humedeceu os olhos.
+
+
+
+
+CAPITULO XXV.
+
+
+ O excesso da felicidade que aterra e confunde tambem.--Pasmosa
+ contradicção da nossa natureza.--De como os olhos verdes de
+ Joanninha se inturvaram e perderam todo o brilho.--Que o coração da
+ mulher que ama, sempre adivinha certo.
+
+
+Carlos tinha a mão de Joanninha appertada na sua; e os olhos humidos de
+lagrymas cravados nos olhos d'ella, de cujo verde transparente e
+diaphano sahiam raios de ineffavel ternura.
+
+Dizer tudo o que elle sentia é impossivel: tam incontrados lhe andavam
+os pensamentos, em tam confuso tumulto se lhe alvorotavam todos os
+sentidos.
+
+Por muito tempo não proferiram palavra, nem um nem outro; mas fallaram
+assim longos discursos.
+
+Emfim, Joanninha voltou á sua primeira insistencia e disse para o primo:
+
+--'Olha, Carlos, ámanhan é sexta-feira, ja te disse, vem Fr. Diniz:
+quando haja a menor difficuldade do commandante, a elle não lhe recusa
+nada...'
+
+--'Por quanto ha no ceo, Joanninha, pela tua vida, pela de nossa avó,
+nem uma palavra ao frade da minha estada aqui! A elle, oh! a elle jurei
+eu não tornar a ver. E se minha avó...'
+
+--'Basta: não lhe direi nada. Mas á nossa avó quando lh'o heide dizer, e
+quando hasde tu ir ve-la?'
+
+--'Porora não: preciso licença de Lisboa, ou do quartel-general quando
+menos, para fazer uma coisa que todas as leis da guerra prohibem, que
+nas actuaes circumstancias e em similhante guerra ainda é mais defesa. E
+sem isso--tu bem sabes que as minhas resoluções não se mudam--sem isso
+não o faço. Em todo o caso, que Fr. Diniz nem sonhe!..'
+
+--'E quanto tempo, quantos dias se hãode passar?'
+
+--'Eu sei? oito, quinze dias talvez, talvez mais.'
+
+--'E a minha pobre avó, coitadinha! a morrer de saudades...'
+
+--'Consola-a tu, Joanninha: dize-lhe que tiveste novas minhas, que estou
+bom, que me não falta nada, que tenho esperanças de vos ver muito cedo.'
+
+--'E eu... eu posso, eu heide ver-te todos os dias: não, Carlos?'
+
+--'Ámanhan é sexta-feira...'
+
+--'Ámanhan é o dia negro... nem eu queria: ámanhan não póde ser, bem
+sei. Mas, tirado ámanhan, meu Carlos, oh! todos os dias!'
+
+--'Sim, querido anjo, sim.'
+
+--'Promettes?'
+
+--'Juro-t'o.'
+
+--'Succeda o que succeder?'
+
+--'Succeda o que... So ha uma coisa que... Mas essa não... não é
+possivel.'
+
+--'O que é, Carlos? que póde haver, que póde succeder que te impeça
+de?..'
+
+Carlos estremeceu... hesitou, corou, fez-se pallido... quiz dizer-lhe a
+verdade e não ousou...
+
+Porquê?.. E que verdade era essa? Não a direi eu, ja que elle a não
+disse: fiel e discreto historiador, imitarei a discrição do meu heroe.
+
+Pois era discrição a d'elle?
+
+Não... em verdade, era outra coisa.
+
+Era um pensamento reservado?
+
+Não.
+
+Era tenção má, ingano premeditado, era?..
+
+Não, tambem não.
+
+O que era pois?
+
+Era a dúvida, era a fraqueza, era a vaidade, a mentira congenial e
+obrigada, a necessaria falsidade do homem social.
+
+Carlos mentiu e disse:
+
+--'Só se m'o prohibirem expressamente... os meus chefes.'
+
+Mas não era isso o que elle receiava; não era esse aquelle motivo unico
+e superior que elle temia podesse vir um dia derepente cortar as doces
+relações de convivencia a que tam prestes se habituára, que ja lhe
+pareciam parte necessaria, indispensavel da sua vida. Não era, não; e
+Carlos tinha mentido...
+
+Joanninha olhou para elle fixa... Carlos corou de novo. Ella fez-se
+pallida... d'ahi corou tambem.
+
+--'Carlos, tu não es capaz de mentir...'
+
+--'Joanninha!'
+
+--'Tu es o meu Carlos... tu queres-me como me querias d'antes...'
+
+--'Sou... oh! sou. E amo-te...'
+
+--'Como d'antes?'
+
+--'Mais.'
+
+--'Pois olha, Carlos: eu nunca amei, nunca heide amar a nenhum homem
+senão a ti.'
+
+--'Joanna!'
+
+--'Carlos!'
+
+Iam a cahir nos braços um do outro... A singela confissão da innocencia
+ia ser acceita por quem e como, sancto Deus! Aquella palavra de oiro,
+aquella doce palavra que tanto custa a pronunciar á mulher menos
+arteira; que adivinhada, sabida, ouvida ha muito pelo coração, ditta mil
+vezes com os olhos, nenhum homem descança nem se tem por feliz, por
+certo de sua felicidade, em quanto a não ouve proferir pelos
+labios--essa palavra celeste que explica o passado, que responde do
+futuro, que é a última e irrevocavel sentença de um longo pleito de
+anciedades, de incertezas e de sustos--essa final e fatal palavra
+_amo-te_, Joanninha a pronunciára tam naturalmente, tam sincera, tam sem
+difficuldades nem hesitações, como se aquelle fosse--e era decerto--como
+se aquelle tivesse sido sempre o pensamento unico, a idea constante e
+habitual de sua vida.
+
+O excesso da felicidade aterra e confunde tambem. Um momento antes,
+Carlos dera a sua vida por ouvir aquella palavra... um momento
+depois--oh pasmosa contradicção de nossa dupplice natureza! um momento
+depois dera a vida pela não ter ouvido. No primeiro instante ia
+lançar-se nos braços da innocente que lh'os abria n'um sancto extasi do
+mais apaixonado amor; no segundo, tremeu e teve horror da sua
+felicidade.
+
+--'Joanna' exclamou elle 'Joanna, querida, sabes tu se eu mereço...
+sabes tu se deves?..'
+
+--'Sei. Desde que me intendo, não pensei n'outra coisa; desde que d'aqui
+foste, comecei a intender o que pensava... disse-o a minha avó, e
+ella...'
+
+--'E ella?..'
+
+--'Ella abençoou-me, chamou-me a sua querida filha, abraçou-me,
+beijou-me, e disse-me que aquella era a primeira hora de felicidade e de
+alegria que ha muitos annos tinha tido.'
+
+Carlos não respondeu nada e olhou para Joanninha com uma indicivel
+expressão de affecto e de tristeza. Os raios de alegria que
+resplandeciam n'aquelle semblante--agora bello de toda a belleza com que
+um verdadeiro amor illumina as mais desgraciosas feições--os raios
+d'essa alegria começaram a amortecer, a apagar-se. A lucida
+transparencia d'aquelles olhos verdes turvou-se: nem a clara luz da
+agua-marinha, nem o brilho fundo da esmeralda resplandecia ja n'elles;
+tinham o lustro baço e morto, o polido mate e silicioso de uma d'essas
+pedras sem agua nem brilho que a arte antiga ingastava nos collares de
+suas estátuas.
+
+--'Adeus Joanna!' disse Carlos perturbado e confuso.
+
+--'Adeus, Carlos!' respondeu ella machinalmente.
+
+--'Até depois de ámanhan, Joanna.'
+
+--'Pois sim.'
+
+--'Depois de ámanhan te direi...'
+
+--'Não digas.'
+
+--'Porquê?'
+
+--'Porque é excusado: ja sei tudo.'
+
+--'Sabes!'
+
+--'Sei.'
+
+--'O quê?'
+
+--'O que tu não tens ânimo para me dizer, Carlos; mas que o meu coração
+adivinhou. Tu não me amas, Carlos.'
+
+--'Não te amo! eu!.. Sancto Deus! eu não a amo...'
+
+--'Não. Tu amas outra mulher.'
+
+--'Eu! Joanna, oh! se tu soubesses...'
+
+--'Sei tudo.'
+
+--'Não sabes.'
+
+--'Sei: amas outra mulher, outra mulher que te ama, que tu não pódes,
+que tu não deves abandonar, e que eu...'
+
+--'Tu?'
+
+--'Eu sei que é bella, prendada, cheia de graças e de incantos,
+porque... porque tu, meu Carlos, porque o teu amor não era para se dar
+por menos.'
+
+--'Joanna, Joanninha!'
+
+--'Não digas nada, não me digas nada hoje... hoje sobretudo, não me
+digas nada. Ámanhan...'
+
+--'Ámanhan é sexta-feira.'
+
+--'Inda bem! terei mais tempo para reflectir, para considerar antes de
+tornar a ver-te. Adeus Carlos!'
+
+--'Uma palavra so, Joanna. Cuidas que sou capaz de te inganar?'
+
+--'Não; estou certa que não.'
+
+--'Até ámanhan... até depois de ámanhan.'
+
+--'Adeus!'
+
+Abraçaram-se, e d'esta vez froixamente; beijaram-se de um osculo timido
+e recatado... os beiços de ambos estavam frios, as mãos trémulas; e o
+coração comprimido batia, batia-lhes forte que se ouvia.
+
+Retirou-se cadaum por seu lado. A noite estava pura e serena como na
+vespera, as estrellas luziam no ceo azul com o mesmo brilho; o silencio,
+a majestade, a belleza toda da natureza era a mesma... so elles eram
+outros... outros, tam outros e differentes do que foram!
+
+Tinham-se dado cuidadosamente as providencias; ambos chegaram, sem
+nenhum accidente, ao seu destino.
+
+
+
+
+NOTAS
+
+
+
+
+NOTAS
+
+AO LIVRO PRIMEIRO.
+
+
+*Nota A.*
+
+
+ Que viage á roda do seu quarto, quem está a beira dos Alpes
+
+ pag. 1.
+
+
+É visivel allusão ao popular e inimitavel opusculo de Xavier de Maistre,
+_Voyage autour de ma chambre_, que decerto foi principiado a escrever em
+Turim, e que muitos suppoem que fôsse concluido em San'Petersburgo.
+
+
+*Nota B.*
+
+
+ Designio politico determinado a minha visita (a Santarem)
+
+ pag. 2.
+
+
+É puramente historico isto; e tambem é verdade que em grande parte
+d'aqui se originou a persiguição brutal que soffreu o A. d'ahi a poucos
+meses.
+
+
+*Nota C.*
+
+
+ N'uma _regata_ de vapores
+
+ pag. 3.
+
+
+_Regata_ chamavam, e não sei se chamam ainda, em Veneza ás carreiras de
+barcos appostados ao desafio. A palavra e a coisa introduziu-se em
+Inglaterra, onde é moda e popularissima.
+
+
+*Nota D.*
+
+
+ Eu coroarei de trevo a minha espada
+
+ pag. 24.
+
+
+Estes versos são uma especie de parodia dos famosos fragmentos de Alceu
+de que so existe memoria nos scholios que nos conservou Eustathio. Nas
+_Flores sem fructo_, pag. 56 a traducção d'aquelle bello fragmento.
+
+
+*Nota E.*
+
+
+ Depois de tantas commissões de inquerito, deve de andar orçado o
+ número de almas
+
+ pag. 25.
+
+
+Os protocollos das commissões de inquerito de ha oito para dez annos a
+ésta parte, sôbre o estado das classes trabalhadoras e indigentes em
+Inglaterra, é a próva real dos grandes calculos da economia politica,
+sciencia que eu espero em Deus se hade desacreditar muito cedo.
+
+
+*Nota F.*
+
+
+ There are more things etc.
+
+ pag. 26.
+
+
+A traducção chegada d'estes memoraveis versos de Shakspeare é:
+
+ Ha mais coisas no ceo, ha mais na terra
+ Do que sonha a tua van philosophia.
+
+
+*Nota G.*
+
+
+ Um _Chourineur_... uma _Fleur-de-Marie_
+
+ pag. 28.
+
+
+Personagens, bem conhecidos geralmente, do romance tam popular de Eug.
+Sue, _Os Mysterios de París_.
+
+
+*Nota H.*
+
+
+ Fossem lá á rainha Anna
+
+ pag. 34.
+
+
+Addison, o poeta, foi ministro da rainha Anna de Inglaterra, e membro do
+célebre gabinete chamado de _All-wits_.
+
+
+*Nota J.*
+
+
+ Quando chegou alli pelos Prazeres
+
+ pag. 56.
+
+
+Um dos dois cemiterios de Lisboa--seja ditto para intelligencia do
+leitor provinciano--chama-se _Dos Prazeres_, por uma ermida de N. S.^a
+que alli existia com ésta invocação desde antes do terreno ter o
+presente destino. É notavel a coincidencia do nome.
+
+
+*Nota K.*
+
+
+ O verdadeiro alfageme... tinha pelo povo e não queria saber de
+ partidos
+
+ pag. 64.
+
+
+É facil de ver que o interlocutor d'este dialogo conhecia esse curioso
+personagem da historia do Condestavel, não pelas chronicas mas pelo
+drama que tem o seu nome.
+
+
+*Nota L.*
+
+
+ Do _Sacré-Coeur_ e das suas elegantes devotas
+
+ pag. 89.
+
+
+O convento que tem este nome em París, é casa de educação de meninas
+nobres, e recolhimento de senhoras tambem.
+
+
+*Nota M.*
+
+
+ Graciosa sculptura de Antonio Ferreira
+
+ pag. 106.
+
+
+Antonio Ferreira, que viveu no fim do seculo passado, princípio d'este,
+modelava em barro com a mesma graça e naturalidade flamenga, com que
+pintava o morgado de Setubal: as suas piquenas figurinhas são tam
+estimadas pelos intendedores como os melhores biscoitos de Sevres e de
+Saxonia antiga.
+
+
+*Nota N.*
+
+
+ Ave phenix que nasceu de nossos avós não saberem grego
+
+ pag. 115.
+
+
+A fábula daquella ave immortal teve origem nas edades obscuras da Europa
+quando o grego era ignorado. O que os antigos diziam da _phenix_,
+palmeira em grego, tomaram nossos barbaros avós por ditto de uma
+passarolla com que os outros nunca sonharam.
+
+
+
+
+INDICE.
+
+
+Prologo dos editores. pag. v
+
+Capitulo I.--De como o auctor d'este erudito livro se resolveu a viajar
+na sua terra, depois de ter viajado no seu quarto; e como resolveu
+immortalizar-se escrevendo éstas suas viagens. Parte para Santarem.
+Chega ao Terreiro do Paço; imbarca no vapor de Villa-Nova; e o que ahi
+lhe succede. A Deducção-Chronologica e a baixa de Lisboa. Lord Byron e
+um bom charuto. Travam-se de razões os ilhavos e os bordas-d'agua, e os
+da calça larga levam a melhor. 1
+
+Capitulo II.--Declaram-se typicas, symbolicas e mythicas éstas viagens.
+Faz o A. modestamente o seu proprio elogio. Da marcha da civilização; e
+mostra-se como ella é dirigida pelo cavalleiro da Mancha, D. Quixote e
+por seu escudeiro, Sancho Pança.--Chegada a Villa-Nova-da-Rainha.
+Supplicio de Tantalo.--A virtude galardão de si mesma; e sophisma de
+Jeremias-Bentham.--Azambuja. 13
+
+Capitulo III.--Acha-se desappontado o leitor com a prosaica sinceridade
+do A. d'estas viagens.--O que devia ser uma estalagem n'estas nossas
+eras de litteratura romantica?--Suspende-se o exame d'esta grave questão
+para tractar, em prosa e verso, um muito difficil ponto de
+economia-politica e de moral social.--Quantas almas é preciso dar ao
+diabo, e quantos corpos se teem de intregar no cemiterio para fazer um
+ricco n'este mundo.--Como se veio a descobrir que a sciencia d'este
+seculo era uma grandecissima tola.--Rei de facto, e rei de
+direito.--Belleza e mentira não cabem n'um sacco.--Põe-se o A. a caminho
+para o pinhal da Azambuja. 23
+
+Capitulo IV.--De como o A. foi pensando e divagando; e em que pensava e
+divagava elle, no caminho da villa da Azambuja até o famoso pinhal do
+mesmo nome.--Do poeta grego e philosopho Démades e do poeta e philosopho
+ingles Addison: da casaca de penneiros e do palio atheniense, e de
+outros importantes assumptos em que o A. quiz mostrar sua profunda
+erudição.--Discute-se a materia gravissima se é necessario que um
+ministro d'estado seja ignorante e leigarraz.--Admiraveis reflexões de
+zigzag em que se tracta de _re politica_ e de _re
+amatoria_.--Descobre-se porfim que o A. estivera a sonhar em todo este
+capitulo, e pede-se ao leitor benevolo que volte a folha e passe ao
+seguinte. 31
+
+Capitulo V.--Chega o A. ao pinhal da Azambuja, e não o acha. Trabalha-se
+por explicar este phenomeno pasmoso. Bello rasgo de stylo
+romantico.--Receita para fazer litteratura original com pouco
+trabalho.--Transição classica;--Orpheu e o bosque do Ménalo. Desce o A.
+d'estas grandes e sublimes considerações para as realidades materiaes da
+vida: é desamparado pela hospitaleira traquitana e tem de cavalgar na
+triste mula de arrieiro.--Admiravel choito do animal. Memorias do
+marquez do F. que adorava o choito. 39
+
+Capitulo VI.--Próva-se como o velho Camões não teve outro remedio senão
+misturar o maravilhoso da mylhologia com o do christianismo.--Da-se
+razão, e tira-se depois ao padre José Agostinho.--No meio d'estas
+disceptações academico-litterarias vem o A. a descobrir que para tudo é
+preciso ter fé n'este mundo. Diz-se _n'este mundo_, porque, quanto ao
+outro ja era sabido.--Os Lusiadas, Fausto e a Divina-Comedia.--Desgraça
+de Camões em ter nascido antes do romantismo.--Mostra-se como a Styge e
+o Cocyto sempre são melhores sitios que o Inferno e o Purgatorio.--Vai o
+A. em procura do marquez de Pombal, e dá com elle nas ilhas Beatas do
+poeta Alceu.--Partida de Wist entre os illustres finados.--Compaixão do
+marquez pelos pobres homens de Ricardo Smith e J. B. Say.--Resposta
+d'elle e da sua luneta ás perguntas peralvilhas do A.--Chegada a este
+mundo e ao Cartaxo. 47
+
+Capitulo VII.--Reflexões importantes sôbre o Bois-de-Boulogne, as
+carruagens de mollas, Tortoni, e o café do Cartaxo.--Dos cafés em geral,
+e de como são o characteristico da civilização de um paiz.--O
+Alfageme.--Hecatombe involuntaria immolada pelo A.--Historia do
+Cartaxo.--Demonstra-se como a Gran' Bretanha deveu sempre toda a sua
+fôrça e toda a sua glória a Portugal.--Shakspeare e Laffitte, Milton e
+Chateaumargot.--Nelson e o principe de Joinville.--Próva-se
+evidentemente que M. Guizot é a ruina de Albion e do Cartaxo. 59
+
+Capitulo VIII.--Sahida do Cartaxo.--A charneca.--Perigo imminente em que
+o A. se acha de dar em poeta e fazer versos.--Ultima revista do
+imperador D. Pedro ao exército liberal. Batalha de
+Almoster.--Waterloo.--Declara o A. solemnemente que não é philosopho e
+chega á ponte de Asseca. 71
+
+Capitulo IX.--Prologomenos dramatico-litterarios, que muito naturalmente
+levam, apezar de alguns rodeios, ao retrospecto e reconsideração do
+capitulo antecedente.--Livros que não deviam ter titulo, e titulos que
+não deviam ter livro.--Dos poetas d'este seculo: Bonaparte, Rotchild e
+Silvio-Péllico.--Chega-se ao fim d'estas reflexões e á Ponte da
+Assecca.--Traducção portugueza de um grande poeta.--Origem de um
+dictado.--Junot na ponte da Assecca.--De como o A. d'este livro foi
+jacobino desde piqueno.--Inguiço que lhe deram.--A duqueza de
+Abrantes.--Chega-se emfim ao val de Santarem. 79
+
+Capitulo X.--Valle de Santarem--Namora-se o A. de uma janella que ve por
+entre umas árvores.--Conjecturas várias a respeito da ditta
+janella.--Similhança do poeta com a mulher namorada, e inquestionavel
+inferioridade do homem que não é poeta.--Os rouxinoes. Reminiscencia de
+Bernardim Ribeiro e das suas saudades.--De como o A. tinha quasi
+completo o seu romance, menos um vestido branco e uns olhos
+pretos.--Sahem verdes os olhos com grande admiração e pasmo
+seu.--Verificam-se as conjecturas sôbre a mysteriosa janella.--A menina
+dos rouxinoes.--Censura das damas muito para temer, crítica dos
+elegantes muito para rir.--Começa o primeiro episodio d'esta Odyssea. 91
+
+Capitulo XI.--Tracta-se do unico privilegio dos poeetas que tambem os
+philosophos quizeram tirar, mas não lhes foi concedido; aos romancistas
+sim.--Applicação d'estes principios a Aristoteles e Anacreonte.--O A.,
+tendo declarado no capítulo nono d'esta obra que não era philosopho,
+agora confessa, quasi solemnemente. que é poeta, e pretende manter-se
+como tal, em seu direito.--De como S. M. elrei de Dinamarca tinha menos
+juizo do que Yorick, seu bobo.--Doutrina d'este. Funda n'ella o A. o seo
+admiravel systema de physiologia e pathologia transcendente do coração.
+Por uma deducção appertada e cerrada da mais constrangente logica vem a
+dar-se no motivo porque foi concedido aos poetas esse direito indefinido
+de andarem sempre namorados.--Applicam-se todas éstas grandes theorias á
+posição actual do A. no momento de entrar no episodio promettido no
+capítulo antecedente.--Uma modestia e reserva delicada o obrigam a
+duvidar da sua qualificação para o desimpenhar: pede votos ás amaveis
+leitoras. Decide-se que a votação não seja nominal, e porquê.--Dido e a
+mana Annica.--Entra-se emfim na promettida historia.--De como a velha
+estava á porta a dobar, e imbaraçando-se-lhe a meada, chamou por
+Joanninha, sua neta. 99
+
+Capitulo XII.--De como Joanninha desimbaraçou a meada da avó, e do mais
+que aconteceu.--Que casta de rapariga era Joanninha. Dá o A. insigne
+prôva de ingenuidade e boa fé confessando um grave senão do seu Ideal.
+Insiste porém que é um adoravel deffeito.--Em que se parece uma mulher
+desannellada com um Sansão tosquiado.--Pasmosas monstruosidades da
+natureza que desmentem o credo velho dos peralvilhos.--Os olhos verdes
+de Joanninha.--Religião dos olhos pretos strenuamente professada pelo A.
+Perigo em que ella se acha á vista de uns olhos verdes.--De como estando
+a avó e a neta a conversar muito de mano a mano, chega Frei Diniz e se
+interrompe a conversação.--Quem era Frei Diniz. 109
+
+Capitulo XIII.--Dos frades em geral.--O frade moralmente considerado,
+socialmente e artisticamente.--Próva-se que é muito mais poetico o frade
+do que o barão.--Outra vez D. Quixote e Sancho Pansa.--Do que seja o
+barão, sua clasificação e descripção linneana.--Historia do castello do
+Chucherumello.--Erro palmar de Eugenio Sue: mostra-se que os jesuitas
+não são a cholera-morbus, e que é preciso refazer o 'Judeu errante'--De
+como o frade não intendeu o nosso seculo nem o nosso seculo ao
+frade.--De como o barão ficou em logar do frade, e do muito que n'isso
+perdémos.--Unica voz que se ouve no actual deserto da sociedade: os
+barões a gritar contos de réis.--Como se contam e como se pagam os taes
+contos.--Predilecção artistica do A. pelo frade: confessa-se e
+explica-se ésta predilecção. 121
+
+Capitulo XIV.--Emendado emfim de suas distracções e divagações, prosegue
+o A. direitamente com a historia promettida.--De como Fr. Diniz deu a
+manga a beijar a avó e á neta, e do mais que entre elles se
+passou.--Ralha o frade com a velha, e começa a descubrir-se onde a
+historia vai ter. 133
+
+Capitulo XV.--Retrato de um frade franciscano que não foi para o
+depósito da Terra-sancta, nem consta que esteja na Academia das
+Bellas-Artes.--Ve-se que a logica de Fr. Diniz se não parecia nada com a
+de Condillac.--Suas opiniões sôbre o liberalismo e os liberaes.--Que o
+podêr vem de Deus, mas como e paraquê.--Que os liberaes não intendem o
+que é liberdade e egualdade; e o para que eram os frades, se
+fossem.--Próva-se, pelo texto, que o homem não vive so de pão, e
+pergunta-se o de que vivia então Fr. Diniz. 147
+
+Capitulo XVI.--Saibamos da vida do frade.--Era franciscano porquê?--Dos
+antigos e dos novos martyres.--Alguns particulares de Fr. Diniz antes e
+depois de ser frade.--Emigração.--Explicação incompleta.--De como a
+velha tinha perdido a vista, e Joanninha o riso.--Sexta feira dia
+aziago. 155
+
+Capitulo XVII.--De como, chegando outra sexta-feira e estando a avó e a
+neta á espera do frade, este lhe appareceu, contra o seu costume, da
+banda de Lisboa.--Por que razão muitas vezes a mais animada conversação
+é a que mais facilmente pára e quebra de repente.--Nova demonstração de
+dois grandes axiomas dos nossos velhos, a saber: Que o hábito não faz o
+monge; e que ralhando as comadres se descobrem as verdades.--No ralhar
+da velha com o frade, levanta-se uma ponta do véo que cobre os mysterios
+da nossa historia. 171
+
+Capitulo XVIII.--Descobre-se que ha grandes e espantosos segredos entre
+o frade e a velha--Piedosa fraude de Joanninha.---Lucta entre o hábito e
+o monge. 181
+
+Capitulo XIX.--Guerra de postos avançados, Joanninha no bivac.--De como
+os rouxinoes do valle se disciplinaram a ponto de tocar a alvorada e a
+retreta.--Quem era a 'menina dos rouxinoes,' e porque lhe poseram este
+nome.--A sentinella perdida e achada. 191
+
+Capitulo XX.--Joanninha adormecida--O demi-jour da coquette.--Poesia do
+Flos-sanctorum.--De como os rouxinoes accompanhavam sempre a menina do
+seu nome; e do bem que um d'elles cantava no bivac.--Retratto esquissado
+á pressa para satisfazer ás amaveis leitoras.--Pondera-se o triste e
+pessimo gôsto dos nossos governantes em tirarem as honras militares ao
+mais elegante e mais nacional uniforme do exército portuguez.--Em que se
+parece o auctor da presente obra com um pintor da edade-média.--De como
+os abraços, por mais apertados que sejam, e os beijos, por mais
+interminaveis que pareçam, sempre teem de acabar por fim. 203
+
+Capitulo XXI.--Quem vem lá?--Como entre dous litigantes nem sempre gosa
+o terceiro.--Carlos e Joanninha n'uma especie de situação _ordeira_, a
+mais perigosa e falsa das situações. 215
+
+Capitulo XXII.--Bilhete de manhan da prima ao primo. Inganam a pobre da
+velha.--Noite mal dormida.--Da conversa que teve Carlos com os seus
+botões.--A Joanninha que elle deixára e a Joanninha que
+achou.--Obrigações d'amor, triste palavra.--A mulher que elle amava, e
+se elle a amava ainda.--Quesitos do A. aos seus benevolos leitores.
+Declara que com os hypocritas não falla.--Quem hade levantar a primeira
+pedra?--Dous modos differentes de acudir uma coisa ao pensamento. 225.
+
+Capitulo XXIII.--Continúa a accudir muita coisa vaga e incontrada ao
+pensamento de Carlos.--Dança de fadas e duendes.--Fr. Diniz o fado-mau
+da familia.--Veremos, é a grande resolução nas grandes
+difficuldades.--Carlos poeta romantico.--Olhos verdes--Desafio a todos
+os poetas moyen-ages do nosso tempo. 235.
+
+Capitulo XXIV.--Novo Génesis.--O Adam social muito differente do Adam
+natural.--Carlos sempre um por seus bons instinctos, sempre outro por
+suas más reflexões.--De como Joanninha recebeu o primo com os braços
+abertos, e do mais que entre elles se passou.--Dor meia dor, meia
+prazer. 247.
+
+Capitulo XXV.--O excesso da felicidade que aterra e confunde
+tambem.--Pasmosa contradicção da nossa natureza.--De como os olhos
+verdes de Joanninha se inturvaram e perderam todo o brilho.--Que o
+coração da mulher que ama, sempre advinha certo. 261.
+
+Notas. 275.
+
+
+
+
+Notas:
+
+[1] Chamavam assim por escarneo, em Portugal, ao general Loison a quem
+faltava um braço.
+
+[2] Célebre urso do Jardim das Plantas em París.
+
+[3] Pag. 40, 41, 42.
+
+
+
+
+Lista de erros corrigidos
+
+
+Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:
+
+
+ +----------+--------------------+--------------------+
+ | | Original | Correcção |
+ +----------+--------------------+--------------------+
+ |#pág. 3| venceder | vencedor* |
+ |#pág. 15| Cervantos | Cervantes |
+ |#pág. 18| morachão | marachão* |
+ |#pág. 40| esperavava | esperava |
+ |#pág. 41| maldadades | maldades |
+ |#pág. 62| café | harem* |
+ |#pág. 89| tinha-ânimo | tinha ânimo |
+ |#pág. 95| esquerlo | esquerda |
+ |#pág. 97| um historia | uma historia |
+ |#pág. 106| toda o movimento | todo o movimento |
+ |#pág. 118| trababalho | trabalho |
+ |#pág. 126| conte | conter* |
+ |#pág. 129| aeronantas | aeronautas* |
+ |#pág. 134| paasos | passos |
+ |#pág. 163| memoraval | memoravel |
+ |#pág. 203| demij-our | demi-jour* |
+ |#pág. 223| didireitas | direitas |
+ |#pág. 228| as alagadiços | os alagadiços |
+ |#pág. 240| infeitavam | infeitiçavam* |
+ |#pág. 276| viagem | visita |
+ |#pág. 286| em em logar frade | em logar do frade |
+ |#pág. 288| d'ad'mor | d'amor |
+ +----------+--------------------+--------------------+
+
+
+* correcções feitas com base na errata do próprio livro.
+
+Shakespeare e Rotschild surgem neste livro como Shakspeare e Rotchild
+respectivamente. Dada a repetitividade constante, decidi manter de
+acordo com o original.
+
+Foram adicionados travessões onde a sua falta foi notada.
+
+As indicações dos números de páginas que se mencionaram na secção de
+"Notas do Primeiro Livro" e "Índice", foram corrigidas para corresponder
+ao local correcto.
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's Viagens na Minha Terra, by Almeida Garrett
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VIAGENS NA MINHA TERRA ***
+
+***** This file should be named 24164-8.txt or 24164-8.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
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+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
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+
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+
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+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
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+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
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+such as creation of derivative works, reports, performances and
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+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
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+form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
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+
+1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
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+access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
+that
+
+- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
+ the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
+ owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
+- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
+ does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
+ Project Gutenberg-tm works.
+
+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
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+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
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+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
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+1.F.
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+INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
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+the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
+refund. If you received the work electronically, the person or entity
+providing it to you may choose to give you a second opportunity to
+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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+ </style>
+</head>
+
+
+<body>
+
+
+<pre>
+
+The Project Gutenberg EBook of Viagens na Minha Terra, by Almeida Garrett
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Viagens na Minha Terra
+ (Volume I)
+
+Author: Almeida Garrett
+
+Release Date: January 4, 2008 [EBook #24164]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VIAGENS NA MINHA TERRA ***
+
+
+
+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
+
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+
+<div>
+<div class="fbox"><b>Nota de editor:</b>
+Devido &agrave;
+quantidade de erros tipogr&aacute;ficos existentes neste texto,
+foram tomadas v&aacute;rias decis&otilde;es quanto &agrave;
+vers&atilde;o final. Em caso de d&uacute;vida, a grafia foi
+mantida de acordo com o original. No final deste livro
+encontrar&aacute; a lista de erros corrigidos.<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: right; font-style: italic;">Rita
+Farinha (Jan. 2008)
+</div>
+
+</div>
+<br />
+<br />
+<br />
+
+<h2>OBRAS<br />
+
+<br />
+
+DE<br />
+
+<br />
+
+J. B. DE A. GARRETT.<br />
+
+<br />
+
+VIII.<br />
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps">(primeiro das viagens)</span></h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="bbox">
+<h1>VIAGENS<br />
+
+</h1>
+
+<h4>NA MINHA TERRA
+</h4>
+
+<h2>POR J. B. DE ALMEIDA-GARRETT.</h2>
+
+<h2><br />
+
+I
+</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>LISBOA<br />
+
+NA TYPOGRAPHIA DA GAZETA DOS TRIBUNAIS.<br />
+
+1846.<br />
+
+</h4>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="c0"></a>Os editores d'esta obra, vendo a
+popularidade
+extraordinaria que ella tinha publicada em
+fragmentos na <em>Revista</em>, intenderam
+fazer um servi&ccedil;o &aacute;s
+lettras e &aacute; gloria do seu paiz, imprimindo-a agora reunida
+em um livro, para melhor se pod&ecirc;r avaliar a variedade,
+a riqueza e a originalidade de seu stylo inimitavel, da
+philosophia profunda que incerra, e
+s&ocirc;bre tudo o grande
+e transcendente pensamento moral a que sempre
+tende, ja quando folga e ri com as mais graves coisas
+da vida, ja quando seriamente discute por suas
+leviandades e pequenezas.
+<br />
+
+<br />
+
+As <em>Viagens na minha terra</em>,
+s&atilde;o um d'aquelles livros
+raros que so podiam ser escriptos por quem, como
+o auctor de <em>Cam&otilde;es</em> e de
+<em>Cat&atilde;o</em>, de
+<em>D. Branca</em> e
+do <em>Portugal na Balan&ccedil;a da
+Europa</em>, do <em>Auto de
+Gil-Vicente</em>
+e do <em>Tractado de
+Educa&ccedil;&atilde;o</em>, do
+<em>Alfageme</em> e
+de <em>Fr. Luiz de Souza</em>, do
+<em>Arco de Sanct'Anna</em> e da
+<em>Historia Litteraria de Portugal</em>, de
+<em>Adozinda</em> e das
+<em>Leituras Historicas</em> e de tantas
+produc&ccedil;&otilde;es de tam variado
+genero, possue todos os stylos e, dominando
+uma lingua de immenso pod&ecirc;r, a costumou a servir-lhe
+e obedecer-lhe;&#8213;por quem com a mesma facilidade
+sobe a orar na tribuna, entra no gabinete nas graves
+discuss&otilde;es e demonstra&ccedil;&otilde;es da
+sciencia&#8213;voa &aacute;s mais
+altas regi&otilde;es da lyrica, da epopeia e da tragedia,
+<span class="pagenum">[VI.]</span>
+lida com as fortes paix&otilde;es do drama, e baixa &aacute;s
+n&atilde;o
+menos difficeis trivialidades da comedia;&#8213;por quem
+ao mesmo tempo, e como que mudando de natureza,
+p&oacute;de dar-se todo &aacute;s mais aridas e materiaes
+pondera&ccedil;&otilde;es
+da administra&ccedil;&atilde;o e da politica, e redigir com
+admiravel precis&atilde;o, com uma exac&ccedil;&atilde;o
+ideologica que
+talvez ninguem mais tenha entre n&oacute;s, uma lei administrativa
+ou de instruc&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica, uma
+constitui&ccedil;&atilde;o politica,
+ou um tractado de commercio.
+<br />
+
+<br />
+
+Orador e poeta, historiador e philosopho, cr&iacute;tico
+e artista, jurisconsulto e administrador, erudito e
+homem d'Estado, religioso cultor da sua lingua e falando
+correctamente as extranhas&#8213;educado na pureza
+classica da antiguidade, e versado depois em todas
+as outras litteraturas&#8213;da meia-edade, da renascen&ccedil;a
+e contemporanea&#8213;o auctor das <span class="smallcaps">viagens
+na minha terra</span> &eacute; egualmente familiar com
+Homero e com
+o Dante, com Plat&atilde;o e com Rousseau, com Thucidides
+e com Thiers, com Guizot e com Xenophonte,
+com Horacio e com Lamartine, com Machiavel
+e com Chateaubriand, com Shakspeare e Euripedes,
+com Cam&otilde;es e Calderon, com Goethe e Virgilio,
+Schiller e S&aacute;-de-Miranda, Sterne e Cervantes,
+Fenelon e Vieira, Rabelais e Gil-Vicente, Addison
+e Bayle, Kant e Voltaire, Herder e Smith, Bentham
+e Cormenin, com os Encyclopedistas e com os Sanctos-Padres,
+com a Biblia e com as tradic&ccedil;&otilde;es sanscritas,
+com tudo o que a arte e a sciencia antiga, com
+tudo o que a arte emfim e a sciencia moderna teem
+produzido. Ve-se isto dos seus escriptos, e especialmente
+se ve d'este que agora public&acirc;mos apezar de composto
+bem claramente ao correr da penna.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[VII.]</span>
+Mas ainda assim, e com isto somente, elle n&atilde;o faria
+o que faz se n&atilde;o junctasse a tudo isso o profundo
+conhecimento dos homens e das coisas, do cora&ccedil;&atilde;o
+humano e da raz&atilde;o humana; se n&atilde;o fosse,
+al&eacute;m de
+tudo o mais, um verdadeiro homem do mundo, que
+tem vivido nas c&ocirc;rtes com os principes, no campo
+com os homens de guerra, no gabinete com os diplomaticos
+e homens d'Estado, no parlamento, nos tribunaes,
+nas academias, com todas as notabilidades
+de muitos paizes&#8213;e nos sal&otilde;es emfim com as mulheres
+e com os frivolos do mundo, com as elegancias
+e com as falsidades do seculo.
+<br />
+
+<br />
+
+De tantas obras de tam variado genero com que,
+em sua vida ainda tam curta, este fecundo escriptor
+tem inriquecido a nossa lingua, &eacute; &eacute;sta talvez,
+torn&acirc;mos
+a dizer, a que elle mais descuidadamente escreveu:
+mas &eacute; tambem a que, em nossa opini&atilde;o, mais
+mostra os seus immensos pod&ecirc;res intellectuaes, a sua
+erudi&ccedil;&atilde;o vast&iacute;ssima, a sua
+flexibilidade de stylo espantosa,
+uma philosophia transcendente, e por fim de
+tudo, o natural indulgente e bom de um cora&ccedil;&atilde;o
+recto,
+puro, amigo da justi&ccedil;a, adorador da verdade, e
+inimigo declarado de todo o sophisma.
+<br />
+
+<br />
+
+Tem sido accusado de sceptico: &eacute; a
+accusa&ccedil;&atilde;o mais
+absurda e que so denuncia, em quem a faz, ou
+grande ignorancia ou grande m&aacute; fe. Quando o nosso
+auctor lan&ccedil;a m&atilde;o da cortante e destruidora arma
+do
+sarcasmo, que elle maneja com tanta f&ocirc;r&ccedil;a e
+dexteridade,
+e que talvez por isso mesmo, conscio de seu
+pod&ecirc;r, elle rara vez toma nas m&atilde;os&#8213;veja-se que
+&eacute;
+sempre contra a hypocrisia, contra os sophismas, e
+contra os hypocritas e shopistas de <em>todas as
+c&ocirc;res</em>, que
+<span class="pagenum">[VIII.]</span>
+elle o faz. Cren&ccedil;as, opini&otilde;es, sentimentos,
+respeita-os
+sempre. As mesmas suas ironias que tanto ferem,
+n&atilde;o as dirige nunca s&ocirc;bre individuos; ve-se que
+despreza
+a facil vingan&ccedil;a que, com tam poderosas armas,
+podia tomar de inimigos que o n&atilde;o poupam, de invejosos
+que o calumniam, e a quem, por cada dicterio
+insulso e ephemero com que o teem pretendido injuriar,
+elle podia condemnar ao eterno oppr&oacute;brio de
+um pelourinho immortal como as suas obras. Ainda
+bem que o n&atilde;o faz! mais immortaes s&atilde;o as suas
+obras,
+e quanto a n&oacute;s, mais punidas ficam os seus emulos
+com esse despr&ecirc;zo do homem superior que se n&atilde;o
+appercebe
+de sua malignidade insulsa e insignificante.
+<br />
+
+<br />
+
+Voltando &aacute; accusa&ccedil;&atilde;o de septicismo,
+ainda dizemos
+que n&atilde;o p&oacute;de ser septico o espirito
+que concebeu, e
+em si achou c&ocirc;res com que pintar tam vivos, characteres
+de cren&ccedil;as tam fortes como o de Cat&atilde;o, de
+Cam&otilde;es,
+de Fr. Luiz de Sousa,&#8213;e aqui n'esta nossa
+obra, os de Fr. Diniz, de Joanninha, da Irman Francisca.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o analys&acirc;mos agora as <span class="smallcaps">viagens
+na minha terra</span>:
+a obra n&atilde;o est&aacute; ainda completa e n&atilde;o
+podia completar-se
+portanto o juizo; dizemos somente o que todos
+dizem e o que todos podem julgar ja.
+<br />
+
+<br />
+
+A nosso r&ocirc;go, e por fazer mais digna da sua
+reputa&ccedil;&atilde;o
+&eacute;sta segunda publica&ccedil;&atilde;o da obra, o
+auctor
+prestou-se a dirigi-la elle mesmo, corrigiu-a, additou-a,
+alterou-a em muitas partes, e a illustrou com
+as notas mais indispensaveis para a geral intelligencia
+do texto: de modo que sahir&aacute; muito melhorada
+agora do que primeiro se imprimiu.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>VIAGENS NA MINHA TERRA.
+</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="quote1">
+Qu' il est glorieux d'ouvrir une nouvelle
+carri&egrave;re,
+et de paraitre tout-&agrave;-coup dans le monde
+savant un livre de d&eacute;couvertes &agrave;
+la main, comme
+une com&eacute;te inattendue &eacute;tincelle dans l'espace!<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature"><span class="smallcaps">x.
+de maistre.</span>
+</div>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c1"></a>CAPITULO I.
+</h3>
+
+<br />
+
+<div class="intro">De como o auctor d'este erudito livro
+se resolveu a viajar na
+sua terra, depois de ter viajado no seu quarto; e como resolveu
+immortalizar-se escrevendo &eacute;stas suas viagens. Parte
+para Santarem. Chega ao Terreiro-do-Pa&ccedil;o, imbarca no vapor
+de Villa-Nova; e o que ahi lhe succede. A
+Deduc&ccedil;&atilde;o-Chronologica e a Baixa de Lisboa. Lord
+Byron e um bom
+charuto. Travam-se de raz&otilde;es os Ilhavos e os Bordas-d'agua:
+os da cal&ccedil;a larga levam a melhor.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="n1"></a>Que viage &aacute; roda do seu
+quarto quem est&aacute;
+&aacute;
+beira dos Alpes, de hynverno, em Turim, que &eacute;
+quasi tam frio como San'Petersburgo&#8213;intende-se.
+Mas com este clima, com este ar que Deus
+<span class="pagenum">[2]</span>
+nos deu, onde a laranjeira cresce na horta, e o
+mato &eacute; de murta, o proprio <em>Xavier de
+Maistre</em>,
+que aqui escrevesse, ao menos ia at&eacute; o quintal.
+<br />
+
+<br />
+
+Eu muitas vezes, n'estas suffocadas noites d'estio,
+viajo at&eacute; &aacute; minha janella para ver uma nesguita
+de Tejo que est&aacute; no fim da rua, e me inganar
+com uns verdes de &aacute;rvores que alli vegetam
+sua laboriosa infancia nos intulhos do Caes-do-Sodr&eacute;.
+E nunca escrevi &eacute;stas minhas
+viagens
+nem as suas impress&otilde;es: pois tinham muito que
+ver! Foi sempre ambiciosa a minha penna: pobre
+e suberba, quer assumpto mais largo. Pois
+hei de dar-lh'o. Vou nada menos que a Santarem:
+e protesto que de quanto vir e ouvir, de
+quanto eu pensar e sentir se hade fazer chronica.
+<br />
+
+<br />
+
+Era uma idea vaga, mais desejo que ten&ccedil;&atilde;o,
+que eu tinha ha muito de ir conhecer as riccas
+varzeas d'esse Ribatejo, e saudar em seu alto cume
+a mais historica e monumental das nossas villas.
+Aballam-me as instancias de um amigo, decidem-se
+as tonterias de um jornal, que por mexeriquice
+quiz incabe&ccedil;ar em <a name="n2"></a>designio
+politico determinado
+a minha visita.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p3">[3]</a></span>
+Pois por isso mesmo
+vou:&#8213;<em>pronunciei-me</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+S&atilde;o 17 d'este mez de julho, anno de gra&ccedil;a
+de 1843, uma segunda-feira, dia sem nota e de
+boa estrea. Seis horas da manham a dar em San'Paulo,
+e eu a caminhar para o Terreiro-do-Pa&ccedil;o.
+Chego muito a horas, invergonhei os meus
+madrugadores dos meus companheiros de viagem,
+que todos se prezam de mais matutinos homens
+que eu. Ja vou quasi no fim da pra&ccedil;a, quando
+oi&ccedil;o o rodar grave mas pressuroso de uma
+carro&ccedil;a <em>d'ancien
+r&egrave;gime</em>: &eacute; o nosso chefe e
+commandante,
+o capit&atilde;o da impreza, o Sr. C. da
+T. que chega em estado.
+<br />
+
+<br />
+
+Tambem s&atilde;o chegados os outros companheiros:
+o sino d&aacute; o &uacute;ltimo rebate. Partimos.
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="n3"></a>N'uma <em>regata</em>
+de vapores o nosso
+barco n&atilde;o
+ganhava decerto o premio. E se, no andar do
+progresso, se chegarem a instituir alguns isthmicos
+ou olympicos para este genero de carreiras&#8213;e
+se para ellas houver algum Pindaro ancioso
+de correr, em strophes e antistrophes, atraz
+do <a href="#e1">vencedor</a> que vai coroar de
+seus hymnos immortaes&#8213;n&atilde;o
+cabe nem um triste minguado
+<span class="pagenum">[4]</span>
+epodo a este can&ccedil;ado corredor de Villa-nova.
+&Eacute; um barco serio e sizudo que se n&atilde;o mette
+n'essas andan&ccedil;as.
+<br />
+
+<br />
+
+Assim vamos de todo o nosso vagar contemplando
+este majestoso e pittoresco amphitheatro
+de Lisboa oriental, que &eacute;, vista de f&oacute;ra, a mais
+bella e grandiosa parte da cidade, a mais characteristica,
+e onde, aqui e alli, algumas raras fei&ccedil;&otilde;es
+se percebem, ou mais exactamente se adivinham,
+da nossa velha e boa Lisboa das chronicas.
+Da Fundi&ccedil;&atilde;o para baixo tudo &eacute; prosaico
+e
+burguez, chato, vulgar e semsabor como um periodo
+da <em>Deduc&ccedil;&atilde;o
+Chronologica</em>, aqui e alli assoprado
+n'uma tentativa ao grandioso do mau g&ocirc;sto,
+como alguma oitava menos rasteira do
+<em>Oriente</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Assim o povo, que tem sempre melhor g&ocirc;sto
+e mais puro do que essa escuma desc&oacute;rada que
+anda ao decima das popula&ccedil;&otilde;es, e que se chama
+a si mesma por excellencia a
+<em>Sociedade</em>, os seus
+passeios favoritos s&atilde;o a Madre-de-Deus e o Beato
+e Xabregas e Marvilla e as hortas de Chellas.
+A um lado a immensa majestade do Tejo em
+sua maior extens&atilde;o e pod&ecirc;r, que alli mais parece
+um pequeno mar mediterraneo; do outro a
+<span class="pagenum">[5]</span>
+frescura das hortas e a sombra das &aacute;rvores, palacios,
+mosteiros, sitios consagrados todos a recorda&ccedil;&otilde;es
+grandes ou queridas. Que outra sahida
+tem Lisboa que se compare em belleza com &eacute;sta?
+Tirado Bellem, nenhuma. E ainda assim,
+Bellem &eacute; mais arido.
+<br />
+
+<br />
+
+J&aacute; saud&aacute;mos Alhandra, a toireira; Villa-franca,
+a que foi de Xira, e depois da Restaura&ccedil;&atilde;o,
+e depois outra vez de Xira, quando a tal
+restaura&ccedil;&atilde;o
+cahiu, como a todas as restaura&ccedil;&otilde;es
+sempre succede e hade succeder, em odio e
+execra&ccedil;&atilde;o tal que nem uma pobre villa a quiz
+para sobrenome.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'A quest&atilde;o n&atilde;o era de restaurar nem de
+n&atilde;o restaurar, mas de se livrar a gente de um
+gov&eacute;rno de patuscos, que &eacute; o mais odioso e
+ingulhoso
+dos governos possiveis.'
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; a reflex&atilde;o com que um dos nossos companheiros
+de viajem accudiu ao princ&iacute;pio de
+pondera&ccedil;&atilde;o
+que eu ia involuntariamente fazendo a
+respeito de Villa-franca.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas eu n&atilde;o tenho odio nenhum a Villa-franca,
+<span class="pagenum">[6]</span>
+nem a esse famoso cirio que l&aacute; foi fazer &agrave;
+velha monarchia. Era uma coisa que estava na
+ordem das coisas, e que por f&ocirc;r&ccedil;a havia de
+succeder.
+Este necessario e inevitavel reviramento
+por que vai passando o mundo, hade levar muito
+tempo, hade ser contrastado por muita reac&ccedil;&atilde;o
+antes de completar-se...
+<br />
+
+<br />
+
+No entretanto vamos accender os nossos
+charutos, e deixemos os precintos aristocraticos
+da r&eacute;: &aacute; proa, que &eacute; paiz de cigarro
+livre!
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o me lembra que lord Byron celebrasse
+nunca o prazer de fummar a b&oacute;rdo. &Egrave; notavel
+esquecimento
+no poeta mais imbarcadi&ccedil;o, mais
+marujo que ainda houve, e que at&eacute; cantou o inj&ocirc;o,
+a mais prosaica e nauseante das miserias
+da vida! Pois n'um dia d'estes, sentir na face e
+nos cabellos a brisa refrigerante que passou por
+cima da agua, em quanto se aspiram mollemente
+as narcoticas exhala&ccedil;&otilde;es de um bom cigarro da
+Havana,
+&eacute; uma das poucas coisas sinceramente boas
+que ha n'este mundo.
+<br />
+
+<br />
+
+Fummemos!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[7]</span>
+Aqui est&aacute; um campino fummando gravemente
+o seu cigarro de papel, que me vai imprestar
+lume.
+<br />
+
+<br />
+
+'Dou-lh'o eu, senhor...' accode cortezmente
+outra figura mui diversa, cujas fei&ccedil;&otilde;es,
+trajo e
+modos singularmente contrastam com os do
+<em>musarabe</em>
+ribatejano.
+<br />
+
+<br />
+
+Accenderam-se os charutos, e attent&aacute;mos mais
+de vagar na companhia em que estavamos.
+<br />
+
+<br />
+
+Era com effeito notavel e interessante o grupo
+a que nos tinhamos chegado, e destacava
+pittorescamente do resto dos passageiros, mistura
+hybrida de trajos e fei&ccedil;&otilde;es descharacterizadas
+e vulgares&#8213;que abunda nos arredores de
+uma grande cidade maritima e commercial.&#8213;N&atilde;o
+assim este grupo mais separado com que
+fomos topar. Constava elle de uns d&ocirc;ze homens;
+cinco eram d'esses famosos athletas da Alhandra
+que v&atilde;o todos os domingos colher o <em>pulverem
+olympicum</em> da pra&ccedil;a de Sanct'Anna, e que,
+&aacute;
+voz soberana e irresistivel de: <em>&aacute; unha,
+&aacute; unha,
+&aacute; cernelha!</em>.... correm a arcar com mais
+generosos,
+n&atilde;o mais possantes, animaes que elles,
+<span class="pagenum">[8]</span>
+ao som das immensas palmas, e a tr&ocirc;co dos raros
+pintos por que se manifesta o sempre clamoroso
+e sempre vazio enthusiasmo das multid&otilde;es.
+Voltavam &aacute; sua terra os meus cinco luctadores
+ainda em trajo de pra&ccedil;a, ainda esmurrados e
+cheios de gl&oacute;ria da contenda da vespera. Mas
+aop&eacute; d'estes cinco e de alterca&ccedil;&atilde;o com
+elles&#8213;ja
+direi porqu&ecirc;&#8213;estavam seis ou sette homens
+que em tudo pareciam os seus antipodas.
+<br />
+
+<br />
+
+Emvez do cal&ccedil;&atilde;o amarello e da jaqueta de
+ramagem que caracterizam o homem do forcado,
+estes vestiam o amplo saiote grego dos varinos,
+e o tabardo arrequifado siciliano de panno de
+varas. O campino, assim como o saloio, tem o
+cunho da ra&ccedil;a africana; estes s&atilde;o da familia
+pelasga:
+fei&ccedil;&otilde;es regulares e moveis, a f&oacute;rma
+agil.
+<br />
+
+<br />
+
+Ora os homens do norte estavam disputando
+com os homens do sul: a quest&atilde;o f&ocirc;ra interrompida
+com a nossa chegada &aacute; proa do barco. Mas
+um dos Ilhavos&#8213;bella e poetica figura de homem&#8213;voltando-se
+para n&oacute;s, disse n'aquelle seu
+tom accentuado:&#8213;'Ora aqui est&aacute; quem hade
+decidir: vejam-n'os senhores. Elles, por agarrar
+um toiro, cuidam que s&atilde;o mais que ninguem,
+<span class="pagenum">[9]</span>
+que n&atilde;o ha quem lhes chegue. E os senhores, a
+serem ca de Lisboa, h&atilde;ode dizer que sim. Mas
+n&oacute;s...'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nenhum de n&oacute;s &eacute; de Lisboa: so este senhor
+que aqui vem agora.
+<br />
+
+<br />
+
+Era o C. da T. que chegava.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Este conhe&ccedil;o eu; este &eacute; dos nossos (bradou
+um homem de forcado, assim que o viu).
+Isto &eacute; um fidalgo como se quer. Nunca o vi
+n'uma ferra, isso &eacute; verdade; mas aqui de Vallada
+a Almeirim ninguem corre mais do que elle
+por sol e por chuva, e hade saber o que &eacute; um
+boi de lei, e o que &eacute; lidar com gado.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Pois oi&ccedil;amos l&aacute; a quest&atilde;o.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'N&atilde;o &eacute; quest&atilde;o'&#8213;tornou o Ilhavo:
+'mas
+se este senhor fidalgo anda por Almeirim, para
+Almeirim vamos n&oacute;s, que era uma charneca o
+outro dia, e hoje &eacute; um jardim, benza-o Deus!&#8213;mas
+n&atilde;o foram os campinos que o fizeram, foi
+a nossa gente que o sachou e plantou, e o fez
+o que &eacute;, e fez terra das areas da charneca.'
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[10]</span> &#8213;'L&aacute; isso &eacute; verdade'.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'N&atilde;o, n&atilde;o &eacute;! Que est&aacute;
+forte habilidade
+fazer dar trigo aqui aos nateiros do Tejo, que &eacute;
+como quem semeia em manteiga. &Eacute; uma lavoira
+que a faz Deus por sua m&atilde;o, regar e adubar
+e tudo: e o que Deus n&atilde;o faz, n&atilde;o fazem elles,
+que nem sabem ter m&atilde;o n'esses monch&otilde;es c'o
+plantio das arvores: so l&aacute; por cima &eacute; que algumas
+teem mettido, e &eacute; bem pouco para o rio
+que &eacute;, e as riccas terras que lhes levam as inchentes.&#8213;Mas
+n&oacute;s, pe no barco pe na terra,
+tam depressa estamos a sachar o milho na charneca,
+como vimos por ahi abaixo com a vara no
+peito, e o saveiro a pegar n'area por n&atilde;o haver
+agua... mas sempre labutando pela vida'.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'A f&ocirc;r&ccedil;a &eacute; que se falla'&#8213;tornou o
+campino
+para estabelecer a quest&atilde;o em terreno que
+lhe convinha.&#8213;'A f&ocirc;r&ccedil;a &eacute; que se
+falla: um
+homem do campo que se deita alli &aacute; cernelha de
+um toiro que uma companha inteira de varinos
+lhe n&atilde;o pegava, com perd&atilde;o dos senhores pelo
+rabo!..'<br />
+
+<br />
+
+E refor&ccedil;ou o argumento com uma gargalhada
+<span class="pagenum">[11]</span>
+triumphante, que achou echo nos interessados circumstantes
+que ja se tinham apinhado a ouvir os
+debates.
+<br />
+
+<br />
+
+Os Ilhavos ficaram um tanto abatidos; sem
+perderem a consciencia da sua superioridade, mas
+acanhados pela algazarra.
+<br />
+
+<br />
+
+Parecia a esquerda de um parlamento quando
+ve sumir-se, no borburinho acintoso das turbas ministeriaes,
+as melhores phrases e as mais fortes
+raz&otilde;es dos seus oradores.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas o orador ilhavo n&atilde;o era homem de se dar
+assim por derrotado. Olhou para os seus, como
+quem os consultava e animava, com um gesto
+expressivo, e voltando-se a n&oacute;s, com a direita
+estendida aos seus antagonistas:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Ent&atilde;o agora como &eacute; de
+f&ocirc;r&ccedil;a, quero eu
+saber, e estes senhores que digam, qual &eacute; que tem
+mais f&ocirc;r&ccedil;a, se &eacute; um toiro ou se
+&eacute; o mar'.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Essa agora!..'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Queriamos saber'.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[12]</span> &#8213;'&Eacute; o mar'.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Pois n&oacute;s que brig&acirc;mos com o mar, oito
+e dez dias a fio n'uma tormenta, de Aveiro a Lisboa,
+e estes que brigam uma tarde com um toiro,
+qual &eacute; que tem mais f&ocirc;r&ccedil;a?'
+<br />
+
+<br />
+
+Os campinos ficaram cabisbaixos; o publico
+imparcial applaudiu por &eacute;sta vez a
+opposi&ccedil;&atilde;o, e
+o Vouga triumphou do Tejo.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c2"></a>CAPITULO II.
+</h3>
+
+<br />
+
+<div class="intro">
+Declaram-se typicas, symbolicas e mythicas &eacute;stas viagens.
+Faz o A. modestamente o seu proprio elogio. Da marcha da
+civiliza&ccedil;&atilde;o; e mostra-se como ella &eacute;
+dirigida pelo cavalleiro
+da Mancha D. Quixote, e por seu escudeiro Sancho
+Pan&ccedil;a.&#8213;Chegada
+a Villa-Nova-da-Rainha, Supplicio de Tantalo.&#8213;A
+virtude galard&atilde;o de si mesma; e sophisma de Jeremias
+Bentham.&#8213;Azambuja.
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute;stas minhas interessantes viagens h&atilde;ode ser uma
+obra prima, erudita, brilhante de pensamentos
+novos, uma coisa digna do seculo. Preciso
+de o dizer ao leitor, paraque elle esteja previnido;
+<span class="pagenum">[14]</span>
+n&atilde;o cuide que s&atilde;o quaesquer d'essas
+rabiscaduras
+da moda que, com o titulo de <em>Impress&otilde;es
+de Viagem</em>, ou outro que tal, fatigam as imprensas
+da Europa sem nenhum proveito da sciencia
+e do adiantamento da especie.
+<br />
+
+<br />
+
+Primeiro que tudo, a minha obra &eacute; um symbolo...
+&eacute; um mytho, palavra grega, e de moda
+germanica, que se mette hoje em tudo e com
+que se explica tudo... quanto se n&atilde;o sabe explicar.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; um mytho porque&#8213;porque... Ja agora
+rasgo o veo, e declaro abertamente ao benevolo
+leitor a profunda idea que est&aacute; occulta debaixo
+d'esta ligeira apparencia de uma viagemzita que
+parece feita a brincar, e no fim de contas &eacute; uma
+coisa s&eacute;ria, grave, pensada com um livro novo
+da feira de Leipsick, n&atilde;o das taes brochurinhas
+dos <em>boulevards</em> de Paris.
+<br />
+
+<br />
+
+Houve aqui ha annos um profundo e cavo philosopho
+d'al&ecirc;m Rheno, que escreveu uma obra
+s&ocirc;bre a marcha da civiliza&ccedil;&atilde;o, do
+intellecto&#8213;o
+que diriamos, para nos intenderem todos melhor,
+<em>o Progresso</em>. Descobriu elle que ha
+dois
+principios no mundo: o
+<em>espiritualista</em>, que marcha
+<span class="pagenum"><a name="p15">[15]</a></span>
+sem attender &aacute; parte material e terrena d'esta
+vida, com os olhos fittos em suas grandes e abstractas
+theorias, hirto, s&ecirc;cco, duro, inflexivel,
+e que p&oacute;de bem personalizar-se, symbolizar-se
+pelo famoso mytho do cavalleiro da Mancha,
+D. Quixote;&#8213;o <em>materialista</em>, que,
+sem
+fazer caso nem cabedal d'essas theorias, em
+que n&atilde;o cr&egrave;, e cujas impossiveis
+applica&ccedil;&otilde;es declara
+todas utopias, p&oacute;de bem representar-se
+pela rotunda e anafada presen&ccedil;a do nosso amigo
+velho, Sancho Pan&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas, como na historia do malicioso <a href="#e2">Cervantes</a>,
+estes dois principios tam avessos, tam desincontrados,
+andam comtudo junctos sempre; ora
+um mais atraz, ora outro mais adiante, impecendo-se
+muitas vezes, coadjuvando-se poucas,
+mas <em>progredindo</em> sempre.
+<br />
+
+<br />
+
+E aqui est&aacute; o que &eacute; possivel ao progresso humano.
+<br />
+
+<br />
+
+E eisaqui a chronica do passado, a historia
+do presente, o programma do futuro.
+<br />
+
+<br />
+
+Hoje o mundo &eacute; uma vasta Barataria, em que
+domina elrei Sancho.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[16]</span>
+Depois hade vir D. Quixote.
+<br />
+
+<br />
+
+O senso commum vir&aacute; para o millenio: reinado
+dos filhos de Deus! Est&aacute; promettido nas divinas
+promessas... como elrei de Prussia prometteu
+uma constitui&ccedil;&atilde;o; e n&atilde;o faltou ainda,
+porque&#8213;porque
+o contracto n&atilde;o tem dia; prometteu
+mas n&atilde;o disse para quando.
+<br />
+
+<br />
+
+Ora n'esta minha viagem Tejo-a-riba est&aacute; symbolizada
+a marcha do nosso progresso social: espero
+que o leitor intendesse agora. Tomarei cuidado
+de lh'o lembrar de vez em quando, porque
+receio muito que se esque&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+Somos chegados ao triste desimbarcadoiro de
+Villa-Nova-da-Rainha, que &eacute; o mais feio peda&ccedil;o
+de terra alluvial em que ainda poisei os meus
+p&eacute;s. O sol arde como ainda n&atilde;o ardeu este
+anno.
+<br />
+
+<br />
+
+Um immenso arraial de cale&ccedil;as, de machinhos,
+de burros e arrieiros, nos espera n'aquelle
+descampado africano. &Eacute; for&ccedil;oso optar entre
+os dois martyrios da cale&ccedil;a ou do macho. Do
+mal o menos... seja este.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[17]</span>
+E acol&aacute;&#8213;oh suppl&iacute;cio de Tantalo!&#8213;vejo
+duas possantes e nedeas mulas castelhanas jungidas
+a um vehiculo que, n'estas paragens e ao
+p&eacute; d'aquell'outros, me parece mais esplendido
+do que um landaw de Hyde-Park, mais elegante
+que um caleche de Long-champs, mais commodo
+e elastico do que o mais acrio briska da
+princeza Hellena. E com tudo&#8213;oh magico pod&ecirc;r
+das situa&ccedil;&otilde;es!&#8213;elle n&atilde;o &eacute;
+sen&atilde;o, uma
+substancial e bem apessoada traquitana de cortinas.
+<br />
+
+<br />
+
+Togados manes dos antigos desimbargadores,
+venerandas cabelleiras de anneis e castanhola, que
+direis, &oacute; respeitadas sombras, se d'esse limbo
+onde estais esperando pela resurrei&ccedil;&atilde;o do
+P&ecirc;gas...
+e do livro quinto&#8213;v&ecirc;des este degenerado
+e espurio successor vosso, em cal&ccedil;as largas, frak
+verde, chapeu branco, gravata de c&ocirc;r, chicotinho
+de caoutchouc na m&atilde;o, prompto a cavalgar
+em mulinha de Palito-Metrico como um garraio
+estudantinho do segundo anno, e deitando
+olhos invejosos para esse natural, proprio e adscripticio
+modo de conduc&ccedil;&atilde;o desimbargatoria?
+Oh que direis v&oacute;s! Com que justo despr&ecirc;zo
+n&atilde;o
+olhareis para tanta degrada&ccedil;&atilde;o e
+deroga&ccedil;&atilde;o!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p18">[18]</a></span>
+Eu commungava silenciosamente commigo n'estas
+graves medita&ccedil;&otilde;es, e revolvia incertamente
+no &acirc;nimo a ponderosa d&uacute;vida:&#8213;se o administrar
+justi&ccedil;a direita aos povos valia a pena de andar
+um desimbargador a p&eacute;!... Luctava no meu
+ser o Sancho Pan&ccedil;a da carne com o D. Quixote
+do espirito&#8213;quando a Providencia, que nos
+maiores apertos e tenta&ccedil;&otilde;es nos n&atilde;o
+abandona
+nunca, me trouxe a generosa offerta de um amigo
+e companheiro do vapor, o Sr. L. S.: era sua
+a invejada carro&ccedil;a, e n'ella me deu logar at&eacute;
+&aacute;
+Azambuja.
+<br />
+
+<br />
+
+A virtude &eacute; o galard&atilde;o de si mesma, disse
+um philosopho antigo; e eu n&atilde;o creio no
+famoso ditto de Bentham, que sabedoria antiga
+seja um sophisma. O mais moderno &eacute; o
+mais velho, n&atilde;o ha d&uacute;vida; mas o antigo que
+dura ainda, &eacute; porque tem achado na experiencia
+a confirma&ccedil;&atilde;o que o moderno n&atilde;o tem.
+Jeremias
+Bentham tambem fazia o seu sophisma como qualquer
+outro.
+<br />
+
+<br />
+
+Vamos percorrendo lentamente aquelle mal-composto
+<a href="#e3">marach&atilde;o</a> que poucos
+palmos se eleva do nivel
+baixo e salgadi&ccedil;o do solo: de hynverno n&atilde;o se
+passar&aacute; <span class="pagenum">[19]</span>sem
+perigo; ainda agora se n&atilde;o anda sem
+inc&oacute;mmodo e receio. Estamos em Villa-Nova e
+&aacute;s portas do nojento caravanseray, unico asylo do
+viajante n'esta, hoje, a mais frequentada das estradas
+do reino.
+<br />
+
+<br />
+
+Parece-me estar mais deserto e sujo, mais
+abandonado e em ruinas este asqueroso logarejo,
+desde que alli aop&eacute; tem a esta&ccedil;&atilde;o dos
+vap&ocirc;res,
+que s&atilde;o a commodidade, a vida, a alma do
+Ribat&eacute;jo.
+Imagino que uma aldeia de Alarves nas
+faldas do Atlas deve ser mais
+limpa e commoda.
+<br />
+
+<br />
+
+Oh! Sancho, Sancho, nem siquer tu reinar&aacute;s
+entre n&oacute;s! Cahiu o carunchoso throno de teu predecessor,
+antagonista e &aacute;s vezes amo; a&ccedil;oitaram-te
+essas nadegas para desincantar a formosa <em>del
+Toboso</em>, proclamaram-te depois rei em
+<em>Barataria</em>,
+e n'esta tua provincia lusitana nem o paternal
+gov&ecirc;rno de teu estupido materialismo p&oacute;de
+estabelecer-se
+para commodo e salva&ccedil;&atilde;o do corpo;
+ja que a alma... oh! a alma...
+<br />
+
+<br />
+
+Fallemos n'outra coisa.
+<br />
+
+<br />
+
+Fujamos depressa d'este monturo.&#8213;&Eacute; mon&oacute;tona,
+<span class="pagenum">[20]</span>arida e sem
+frescura de &aacute;rvores a estrada:
+apenas alguma rara oliveira mal-medrada, a longos
+e desiguaes espa&ccedil;os, mostra o seu tronco rachitico
+e bra&ccedil;os contorcidos, ornados de ramusculos
+doentes, em que o natural verde-alvo das
+folhas &eacute; mais alvacento e desbotado que o costume.
+O solo por&ecirc;m, com raras excep&ccedil;&otilde;es,
+&eacute; optimo,
+e a tr&ocirc;co de pouco trabalho e insignificante
+despeza, daria uma estrada tam boa como as melhores
+da Europa.
+<br />
+
+<br />
+
+Dizia um secretario d'Estado meu amigo que
+para se repartir com egualdade o melhoramento
+das ruas por toda Lisboa, deviam ser obrigados
+os ministros a mudar de rua e bairro todos os tres
+mezes. Quando se fizer a lei de responsabilidade ministerial,
+para as kalendas gregas, eu heide propor
+que cada ministro seja obrigado a viajar por
+este seu reino de Portugal ao menos uma vez cada
+anno, como a desobriga.
+<br />
+
+<br />
+
+Ahi est&aacute; a Azambuja, pequena mas n&atilde;o triste
+povoa&ccedil;&atilde;o, com visiveis signaes de vida, aceadas
+e com ar de conf&ocirc;rto as suas casas. &Eacute; a primeira
+povoa&ccedil;&atilde;o que d&aacute; indicio de estarmos
+nas
+ferteis margens do Nilo portuguez.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[21]</span>
+Corr&eacute;mos a apear-nos no elegante estabelecimento
+que ao mesmo tempo cumulla as tres distinctas
+func&ccedil;&otilde;es, de <em>hotel, de
+restaurant e de caf&eacute;</em>
+da terra.
+<br />
+
+<br />
+
+Sancto Deus! que bruxa que est&aacute; &aacute; porta! que
+antro l&aacute; dentro!... Cai-me a penna da m&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c3"></a>CAPITULO III.
+</h3>
+
+<br />
+
+<div class="intro">Acha-se desappontado o leitor com a
+prosaica sinceridade do
+A. d'estas viagens. O que devia ser uma estalagem nas
+nossas eras de litteratura romantica?&#8213;Suspende-se o exame
+d'esta grave quest&atilde;o para tractar, em prosa e verso,
+um mui difficil ponto de economia-politica e de moral social.&#8213;Quantas
+almas &eacute; preciso dar ao diabo, e quantos corpos
+se teem de intregar no cemiterio para fazer um ricco
+n'este mundo.&#8213;Como se veio a descobrir que a sciencia
+d'este seculo era uma grandessissima tola.&#8213;Rei de facto, e
+rei de direito.&#8213;Belleza e mentira n&atilde;o cabem n'um
+sacco.&#8213;P&otilde;e-se
+o A. a caminho para o pinhal da Azambuja.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Vou <em>desappontar</em> decerto o leitor
+benevolo; vou
+perder, pela minha fatal sinceridade, quanto em
+seu conceito tinha adquirido nos dois primeiros
+capitulos d'esta interessante viagem.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[24]</span>
+Pois que esperava elle de mim agora, de mim
+que ousei declarar-me escriptor n'estas eras de
+romantismo, seculo das fortes sensa&ccedil;&otilde;es, das
+descrip&ccedil;&otilde;es a tra&ccedil;os largos e
+<em>incisivos</em> que se intalham
+n'alma e entram com sangue no cora&ccedil;&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+No fim do capitulo precedente par&aacute;mos &aacute; porta
+de uma estalagem: que estalagem deve ser
+&eacute;sta, hoje no anno de 1843, &aacute;s barbas de Victor
+Hugo, com o Doutor Fausto a trotar na cabe&ccedil;a
+da gente, com os <em>Mysterios de Paris</em>
+nas
+m&atilde;os de todo o mundo?
+<br />
+
+<br />
+
+Ha paladar que supporte hoje a classica
+<em>posada</em>
+do Cervantes com o seu <em>mesonero</em>
+gordo e grave,
+as pulhas dos seus arrieiros, e o mantear de algum
+pobre lorpa de algum Sancho! Sancho, o
+invisivel rei do seculo, aquelle <em>por quem hoje os
+reis reinam e os fazedores de leis decretam e afferem
+o justo!</em> Sancho manteado por vis muleteiros!
+N&atilde;o &eacute; da epocha.
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry"><a name="n4"></a>Eu
+coroarei de trevo a minha espada,<br />
+
+De cenoiras, luzerna e betarrava,<br />
+
+Para cantar Harm&oacute;dios e Arist&oacute;gilons,<br />
+
+Que do tyranno jugo vos livraram<br />
+
+Da sciencia velha, inutil carunchosa,
+<br />
+
+<span class="pagenum">[25]</span>
+Que elevava da terra, erguia, al&ccedil;ava<br />
+
+O que no homem ha de Ser divino,<br />
+
+E para os grandes feitos e virtudes<br />
+
+Lhe despegava o espirito da carne...</div>
+
+<br />
+
+N&atilde;o: plantae batatas, &oacute;
+gera&ccedil;&atilde;o de vapor e
+de p&oacute; de pedra, macadamisae estradas, fazei caminhos
+de ferro, constru&iacute; passarolas de Icaro,
+para andar a qual mais depressa, &eacute;stas horas contadas
+de uma vida toda material, massuda e
+grossa como tendes feito &eacute;sta que Deus nos deu
+tam differente do que a hoje vivemos. Andae,
+ganha-p&atilde;es, andae; reduzi tudo a cifras, todas as
+considera&ccedil;&otilde;es d'este mundo a
+equa&ccedil;&otilde;es de inter&ecirc;sse
+corporal, comprae, vendei, agiotae.&#8213;No
+fim de tudo isto, o que lucrou a especie humana?
+Que ha mais umas poucas de duzias de homens
+riccos. E eu pergunto aos economistas-politicos,
+aos moralistas, se ja calcularam o n&uacute;mero
+de individuos que &eacute; for&ccedil;oso condemnar
+&aacute; miseria,
+ao trabalho desproporcionado, &aacute;
+desmoraliza&ccedil;&atilde;o,
+&aacute; infamia, &aacute; ignorancia crapulosa, &aacute;
+desgra&ccedil;a
+invencivel, &aacute; penuria absoluta, para produzir
+um ricco?&#8213;Que lh'o digam no Parlamento
+inglez, onde, <a name="n5"></a>depois de tantas
+commiss&otilde;es de
+inqu&eacute;rito, ja deve de andar or&ccedil;ado o
+n&uacute;mero de
+almas que &eacute; preciso vender ao diabo, o n&uacute;mero
+<span class="pagenum">[26]</span>
+de corpos que se tem de intregar antes do tempo
+ao cemiterio para fazer um tecel&atilde;o ricco e fidalgo
+como Sir Robert Peel, um mineiro, um
+banqueiro, um grangeeiro&#8213;seja o que for:
+cada homem ricco, abastado, custa centos de infelizes,
+de miseraveis.
+<br />
+
+<br />
+
+Logo a na&ccedil;&atilde;o mais feliz n&atilde;o
+&eacute; a mais ricca.
+Logo o princ&iacute;pio utilitario &eacute; a
+<em>mamona</em> da injusti&ccedil;a
+e da reprova&ccedil;&atilde;o. Logo...
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry1"><a name="n6"></a>There
+are more things in heaven and earth, Horatio,<br />
+
+Than are dreamt of in your philosophy.
+</div>
+
+<br />
+
+A sciencia d'este seculo &eacute; uma grandessissima
+tola.
+<br />
+
+<br />
+
+E como tal, presump&ccedil;osa e cheia do orgulho
+dos nescios.
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="dots"></div>
+
+<br />
+
+<div class="dots"></div>
+
+<br />
+
+<div class="dots"></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Vamos &aacute; descrip&ccedil;&atilde;o
+Vamos &aacute; descrip&ccedil;&atilde;o da estalagem.
+N&atilde;o p&oacute;de
+ser classica; assoviam-me todos esses rapazes de
+pera, bigode e charuto, que fazem litteratura
+<span class="pagenum">[27]</span>
+cava e funda desde a porta do Marrare at&eacute; ao
+caf&eacute; de Moscow...
+<br />
+
+<br />
+
+Mas aqui &eacute; que me apparece uma incoherencia
+inexplicavel. A sociedade &eacute; materialista; e a
+litteratura, que &eacute; a express&atilde;o da sociedade,
+&eacute; toda
+excessivamente e absurdamente e despropositadamente
+espiritualista! Sancho rei de facto,
+Quixote rei de direito!
+<br />
+
+<br />
+
+Pois &eacute; assim; e explica-se.&#8213;&Eacute; a litteratura
+que &eacute; uma hypocrita: tem religi&atilde;o nos versos,
+charidade nos romances, f&eacute; nos artigos de
+jornal&#8213;como os que d&atilde;o esmolas para p&ocirc;r no
+<em>Diario</em>, que amparam orphans na
+<em>Gazeta</em>, e sustentam
+viuvas nos cartazes dos theatros.
+<br />
+
+<br />
+
+E fallam no Evangelho! Deve ser por escarneo.
+Se o leem, h&atilde;ode ver l&aacute; que nem a esquerda
+deve saber o que faz a direita...
+<br />
+
+<br />
+
+Vamos &aacute; descrip&ccedil;&atilde;o da estalagem; e
+acabemos
+com tanta digress&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o p&oacute;de ser classica, est&aacute; visto, a
+tal descrip&ccedil;&atilde;o.&#8213;Seja
+romantica.&#8213;Tambem n&atilde;o p&oacute;de
+<span class="pagenum">[28]</span>
+ser. Porque n&atilde;o? &Eacute; p&ocirc;r-lhe
+l&aacute; <a name="n7"></a>um <em>Chourineur</em>
+a amolar um fac&atilde;o de palmo e meio para espatifar
+rez e homem, quanto incontrar,&#8213;uma
+<em>Fleur-de-Marie</em> para dizer e fazer
+pieguices com
+uma rozeirinha pequenina, bonitinha, que morreu,
+coitadinha!&#8213;e um principe allem&atilde;o incoberto,
+forte no s&ocirc;cco britannico, immenso em
+libras sterlinas, profundo em gyria de cegos e
+ladr&otilde;es... e ahi fica a Azambuja com uma estalagem
+que n&atilde;o tem que invejar &aacute; mais pintada
+e da moda n'este seculo elegante, delicado, verdadeiro,
+natural!
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; como eu devia fazer a descrip&ccedil;&atilde;o:
+bem o
+sei. Mas ha um impedimento fatal, invencivel&#8213;egual
+ao d'aquella famosa salva que se n&atilde;o
+deu... &eacute; que nada d'isso l&aacute; havia.
+<br />
+
+<br />
+
+E eu n&atilde;o quero calumniar a boa gente da
+Azambuja. Que me n&atilde;o leam os taes, porque eu
+heide viver e morrer na f&eacute; de Boileau:
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry">Rien&nbsp; n'est beau que le vrai.
+</div>
+
+<br />
+
+Ja se diz ha muito anno que honra e proveito
+n&atilde;o cabem n'um sacco; eu digo que belleza
+<span class="pagenum">[29]</span>
+e mentira tambem l&aacute; n&atilde;o cabem: e &eacute; a
+mais
+portugueza traduc&ccedil;&atilde;o que creio que se possa fazer
+d'aquelle &iacute;mmortal e evangelico hemystichio.
+A maior parte das bellezas da litteratura actual
+fazem-me lembrar aquellas formosuras que tentavam
+os sanctos eremitas na Thebaida. O pobre
+de Sancto Ant&atilde;o ou de S. Pacomio (Pacomio &eacute;
+melhor aqui) ficavam imbasbacados ao princ&iacute;pio;
+mas dava-lhe o cora&ccedil;&atilde;o uma pancada, olhavam-lhe
+para os p&eacute;s...&#8213;Cruzes maldicto! Os p&eacute;s
+n&atilde;o
+podia elle incobrir. E ao primeiro
+<em>abrenuntio</em> do
+sancto, dissipava-se a belleza em muito fummo de
+inxofre, e ficava o diabo negro feio e cabrum
+como quem &eacute;, e sempre foi o pae da mentira.
+<br />
+
+<br />
+
+Nada, nada, verdade e mais verdade. Na estalagem
+da Azambuja o que havia era uma pobre
+velha a quem eu chamei bruxa, porque emfim
+que havia de eu chamar &aacute; velha suja e maltrapida
+que estava &aacute; porta d'aquella asquerosa
+casa?
+<br />
+
+<br />
+
+Havia l&aacute; &eacute;sta velha, com a sua
+m&ocirc;&ccedil;a mais
+m&ocirc;&ccedil;a mas n&atilde;o menos nojenta de ver que
+ella, e
+um velho meio paralytico meio demente que alli
+estava para um canto com todo o geito e tra&ccedil;a
+<span class="pagenum">[30]</span>
+de quem vem folgar agora na taberna porque
+ja bebeu o que havia de beber n'ella.<br />
+
+<br />
+
+Matava-nos a s&ecirc;de; mas a agua alli &eacute; beber
+quartans. O vinho era atroz. Limonada? N&atilde;o ha
+lim&otilde;es nem assucar.&#8213;Mandou-se um proprio &aacute;
+tenda no fim da villa. Vieram tres lim&otilde;es que me
+pareceram de uns que pendiam, quando eu vinha
+a f&eacute;rias, &aacute; porta do famoso botequim de Leiria.<br />
+
+<br />
+
+O assucar podia servir na &uacute;ltima scena de M.
+de Pourceaugnac muito melhor que n'uma limonada.
+Mas misturou-se tudo com a agua das sez&otilde;es,
+beb&eacute;mos, pozemo-nos em marcha, e at&eacute;
+agora n&atilde;o nos fez mal, com ser a mais abominavel,
+antipathica e suja beberagem que se p&oacute;de
+imaginar.
+<br />
+
+<br />
+
+Caminh&aacute;mos na mesma ordem at&eacute; chegar ao
+famoso pinhal da Azambuja.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c4"></a>CAPITULO IV.
+</h3>
+
+<br />
+
+<div class="intro">De como o A. foi pensando e divagando,
+e em que pensava
+e divagava elle, no caminho da villa da Azambuja at&eacute; o
+famoso pinhal do mesmo nome.&#8213;Do poeta grego e philosopho
+D&eacute;mades, e do poeta e philosopho inglez Addison,
+da casaca de penneiros e do palio atheniense, e de outros
+importantes assumptos em que o A. quiz mostrar a sua profunda
+erudi&ccedil;&atilde;o.&#8213;Discute-se a materia gravissima se
+&eacute; necessario
+que um ministro d'estado seja ignorante e leigarraz.&#8213;Admiraveis
+reflex&otilde;es de zigzag em que se tracta de
+<em>re politica</em> e de <em>re
+amatoria</em>.&#8213;Descobre-se porfim que o
+A. estivera a sonhar em todo este capitulo, e pede-se ao
+leitor benevolo que volte a folha e passe ao seguinte.
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Eu darei sempre o primeiro logar &aacute; modestia
+entre todas as bellas qualidades.&#8213;Ainda s&ocirc;bre
+a innocencia?&#8213;Ainda sim. A innocencia basta
+uma falta para a perder, da modestia so culpas
+<span class="pagenum">[32]</span>
+graves, so crimes verdadeiros podem privar. Um
+accidente, um acaso podem destruir aquella, a
+&eacute;sta so uma ac&ccedil;&atilde;o propria, determinada
+e voluntaria.
+<br />
+
+<br />
+
+Bem me lembram ainda os dois versos do poeta
+D&eacute;mades que s&atilde;o forte argumento de auctoridade
+contra a minha theoria; cuidei que tinha
+mais infeliz memoria. Heide p&ocirc;-los aqui para que
+n&atilde;o falte a &eacute;sta grande obra das minhas viagens
+o merito da erudi&ccedil;&atilde;o, e lhe n&atilde;o chamem
+livrinho
+da moda: estou resolvido a fazer a minha
+reputa&ccedil;&atilde;o com este livro.
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry"><span style="font-style: italic;">Aid
+&ocirc;s te kalle ka
+aret&ecirc;s polis,
+</span><br style="font-style: italic;" />
+
+<span style="font-style: italic;">Pr&ocirc;to&ecirc;
+sgathis hamartia deuteron de ais
+chun&ecirc;</span><br />
+
+<br />
+
+Da belleza e virtude &eacute; a cidadella<br />
+
+A innocencia primeiro&#8213;e depois ella.
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+Mas a auctoridade responde-se com auctoridade,
+e a texto com texto. E eu trago aqui na
+algibeira o meu Addison&#8213;um dos poucos livros
+que n&atilde;o largo nunca&#8213;e atiro com o philosopho
+inglez ao philosopho grego e fico triumphante:
+porque Addison n&atilde;o p&otilde;e nada acima da
+<span class="pagenum">[33]</span>
+modestia; e Addison, apezar da sua casaca de
+penneiros, &eacute; muito maior philosopho do que foi
+D&eacute;mades com a sua tunica e o seu palio atheniense.
+<br />
+
+<br />
+
+O erudito e amavel leitor escapar&aacute; d'&eacute;sta vez
+a mais cita&ccedil;&otilde;es: compre um
+<em>Spectator</em>, que &eacute;
+livro sem que se n&atilde;o p&oacute;de estar, e veja
+<em>passim</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Eu g&oacute;sto, bem se ve, de ir ao inc&ocirc;ntro das
+objec&ccedil;&otilde;es que me podem fazer; lembro-as eu
+mesmo paraque depois me n&atilde;o digam:&#8213;'Ah,
+ah! vinha a ver se pegava!'&#8213;N&atilde;o senhor, n&atilde;o
+&eacute; o meu genero esse.
+<br />
+
+<br />
+
+Francamente pois... eis-ahi o que poder&atilde;o dizer:&#8213;'Addison
+foi secretario d'Estado, e ent&atilde;o...'&#8213;Ent&atilde;o
+o qu&ecirc;? N&atilde;o concebem um secretario
+d'Estado philosopho, um ministro poeta,
+escriptor elegante, cheio de gra&ccedil;a e de talento?
+N&atilde;o, bem vejo que n&atilde;o: teem a idea
+fixa de que um ministro d'Estado hade ser por
+f&ocirc;r&ccedil;a algum semsabor&atilde;o, malcriado e
+petulante.
+Mas isto &eacute; nos paizes adiantados em que ja &eacute;
+indifferente
+para a coisa-p&uacute;blica, em que povo nem
+principe lhes n&atilde;o importa ja, em que m&atilde;os se
+intregam,
+<span class="pagenum">[34]</span>a que
+cabe&ccedil;as se confiam. Em Inglaterra
+n&atilde;o &eacute; assim, nem era assim no tempo de
+Addison. <a name="n8"></a>Fossem l&aacute;
+&aacute; rainha Anna que deixasse
+entrar no seu gabinete quatro cal&ccedil;as de coiro
+sem cria&ccedil;&atilde;o nem instruc&ccedil;&atilde;o,
+e n&atilde;o mais sen&atilde;o
+so porque este sab&iacute;a jogar nos fundos, aquelle
+tinha boas tretas para o <em>canvassing</em>
+de umas elei&ccedil;&otilde;es,
+o outro era figura importante no
+<em>Freemasson's-hall</em>!<br />
+
+<br />
+
+Ja se ve que em nada d'isto ha a minima allus&atilde;o
+ao feliz systema que nos rege: estou fallando
+de modestia, e n&oacute;s vivemos em Portugal.<br />
+
+<br />
+
+A modestia comtudo quando &eacute; excessiva e se
+aproxima do acanhamento, do que no mundo se
+chama <em>falta de uso</em>&#8213;p&oacute;de
+ser n'um homem quasi
+defeito inteiro. Na mulher &eacute; sempre virtude,
+realce de belleza &aacute;s formosas, disfarce de fealdade
+&aacute;s que o n&atilde;o s&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+Por mim, n&atilde;o conhe&ccedil;o objecto mais lindo em
+toda a natureza, mais feiticeiro, mais capaz de
+arrebatar o espirito e inflammar o cora&ccedil;&atilde;o do que
+&eacute; uma joven donzella quando a modestia lhe faz
+subir o rubor &aacute;s faces, e o pejo lhe carrega brandamente
+<span class="pagenum">[35]</span>nas
+palpebras... Pouco lume que tenha
+nos olhos, pouco regular que seja o semblante,
+menos airosa que seja a figura, parecer-vos-ha
+n'esse momento um anjo. E anjo &eacute; a virgem modesta,
+que traz no rosto debuxado sempre um
+ceo de virtudes...&#8213;De alguma belleza sei eu cujos
+olhos <em>c&ocirc;r da noite</em> ou de
+<em>saphyra</em> (<em>dialec.
+poet.
+vet.</em>), cujas faces de <em>leite e
+rosas</em>, dentes de
+<em>p&eacute;rolas</em>,
+collo de <em>marfim</em>, transas de
+<em>ebano</em> (a
+allus&atilde;o &eacute; surtida, ha onde escolher) davam larga
+materia a boas grozas de sonetos&#8213;no antigo regimen
+dos sonetos, e hoje inspirariam myriadas
+de can&ccedil;&otilde;es descabelladas e vaporosas, choradas
+na harpa ou gemidas no alahude. Comtanto que
+n&atilde;o seja lyra, que &eacute; classico, todo o
+instrumento,
+inclusivamente a bandurra, &eacute; egual deante da lei
+romantica.
+<br />
+
+<br />
+
+Ora pois, mas a tal belleza, por certo ar ala-moda,
+certo n&atilde;o-sei-qu&ecirc; de atrevido nos olhos,
+de deslavado na cara, e de descomposto nos ademanes,
+perde toda a gra&ccedil;a e quasi a propria formosura
+de que a dot&aacute;ra a natureza...
+<br />
+
+<br />
+
+V&ecirc;de-me aquelles labios de carmim. Ha maio
+florido que tam lindo bot&atilde;o de rosa
+apresente ao
+<span class="pagenum">[36]</span>
+alvorecer da madrugada?... Mas olhae agora como
+o riso da malicia lh'o desfolha tam feiamente
+n'uma desconcertada risada...
+<br />
+
+<br />
+
+Desvaneceu-se o prestigio.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o havia mo&ccedil;o nem velho, homem do mundo
+ou sabio de gabinete que n&atilde;o d&eacute;sse metade
+dos seus prazeres, dos seus livros, da sua vida
+por um so beijo d'aquella b&ocirc;cca... Agora talvez
+nem repetidos <em>avances</em> lhe
+fa&ccedil;am obter um namorante
+de profiss&atilde;o e officio... E hade pag&aacute;-lo
+adeantado, e porque pre&ccedil;o!...
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="dots"></div>
+
+<br />
+
+<div class="dots"></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Mas o que ter&aacute; tudo isto com a jornada da
+Azambuja ao Cartaxo? A mais &iacute;ntima e verdadeira
+rela&ccedil;&atilde;o que &eacute; possivel. &Eacute;
+que a pensar ou
+a sonhar n'estas coisas fui eu todo o caminho,
+at&eacute; me achar no meio do pinhal da Azambuja.
+<br />
+
+<br />
+
+Ahi par&aacute;mos, e acordei eu.
+<br />
+
+<br />
+
+Sou sujeito a &eacute;stas distrac&ccedil;&otilde;es, a
+este sonhar
+<span class="pagenum">[37]</span>
+acordado. Que lhe heide eu fazer? Andando,
+escrevendo, sonho e ando, sonho e fallo, sonho
+e escrevo. Francamente me confesso de somnambulo,
+de somniloquo, de... N&atilde;o, fica melhor
+com seu ar de grego (tenho hoje a bossa hellenica
+n'um estado de tumescencia pasmosa!); digamos
+somnilogo, somnigrapho...
+<br />
+
+<br />
+
+A minha opini&atilde;o sincera e
+<em>conscienciosa</em> &eacute; que
+o leitor deve saltar &eacute;stas folhas, e passar ao capitulo
+seguinte, que &eacute; outra casta de capitulo.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c5"></a>CAPITULO V.
+</h3>
+
+<br />
+
+<div class="intro">
+Chega o A. ao pinhal da Azambuja, e n&atilde;o o acha. Trabalha-se
+por explicar este phenomeno pasmoso. Bello rasgo de stylo
+romantico.&#8213;Receita para fazer litteratura original com
+pouco trabalho.&#8213;Transi&ccedil;&atilde;o classica: Orpheu e o
+bosque
+do M&eacute;nalo.&#8213;Desce o A. d'estas grandes e sublimes
+considera&ccedil;&otilde;es
+para as realidades materiaes da vida: &eacute; desamparado
+pela hospitaleira traquitana e tem de cavalgar na
+triste mula de arrieiro.&#8213;Admiravel choito do animal.
+Memorias do marquez do F. que adorava o choito.
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Este &eacute; que &eacute; o pinhal da Azambuja?
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o p&oacute;de ser.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute;sta, aquella antiga selva, temida quasi religiosamente
+como um bosque druidico! E eu
+<span class="pagenum"><a name="p40">[40]</a></span>
+que, em pequeno, nunca ouvia contar historia de
+Pedro de Mallas-artes, que logo, em imagina&ccedil;&atilde;o,
+lhe n&atilde;o pozesse a scena aqui perto!... Eu que
+<a href="#e4">esperava</a>
+topar a cada passo com a cova do capit&atilde;o
+Rold&atilde;o e da dama Leonarda!... Oh! que ainda
+me faltava perder mais &eacute;sta illus&atilde;o...
+<br />
+
+<br />
+
+Por quantas maldic&ccedil;&otilde;es e infernos adornam o
+stylo d'um verdadeiro escriptor romantico, digam-me,
+digam-me: onde est&atilde;o os arvoredos fechados,
+os sitios medonhos d'esta espessura. Pois
+isto &eacute; possivel, pois o pinhal da Azambuja &eacute;
+isto?...
+Eu que os trazia <em>promptos e
+recortados</em> para
+os collocar aqui todos os amaveis salteadores
+de Schiller, e os elegantes facinorosos do
+<em>Auberge-des-Adrets</em>,
+eu heide perder os meus chefes-d'obra!
+Que &eacute; perd&ecirc;-los isto&#8213;n&atilde;o ter onde os
+p&ocirc;r!..<br />
+
+<br />
+
+Sim, leitor benevolo, e por &eacute;sta occasi&atilde;o te
+vou explicar como n&oacute;s hoje em dia fazemos a
+nossa litteratura. Ja me n&atilde;o importa guardar segredo,
+depois d'esta desgra&ccedil;a n&atilde;o me importa ja
+nada. Saber&aacute;s pois, &oacute; leitor, como n&oacute;s
+outros fazemos
+o que te fazemos ler.&nbsp;<br />
+
+<br />
+
+Tracta-se de um romance, de um drama&#8213;cuidas
+<span class="pagenum"><a name="p41">[41]</a></span>
+que vamos estudar
+a historia, a natureza,
+os monumentos, as pinturas, os sepulchros, os edificios,
+as memorias da epocha? N&atilde;o seja pateta,
+senhor leitor, nem cuide que n&oacute;s o somos.
+Desenhar
+characteres e situa&ccedil;&otilde;es do
+<em>vivo</em> da natureza,
+collori-los das c&ocirc;res verdadeiras da historia... isso
+&eacute; trabalho difficil, longo, delicado, exige um
+estudo, um talento, e s&ocirc;bretudo um tacto!...
+N&atilde;o senhor: a coisa faz-se muito mais facilmente.
+Eu lhe explico.
+<br />
+
+<br />
+
+Todo o drama e todo o romance precisa de:
+<br />
+
+<br />
+
+Uma ou duas damas,
+<br />
+
+<br />
+
+Um pae,
+<br />
+
+<br />
+
+Dois ou tres filhos, de dezanove a trinta annos,
+<br />
+
+<br />
+
+Um criado velho,
+<br />
+
+<br />
+
+Um monstro, incarregado de fazer as <a href="#e5">maldades</a>,
+<br />
+
+<br />
+
+Varios tractantes, e algumas pessoas capazes
+para intermedios.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p42">[42]</a></span>
+Ora bem; vai-se aos figurinos francezes de
+Dumas, de Eug. Sue, de Victor-Hugo, e
+<em>recorta</em>
+a gente, de cadaum d'elles, as figuras que
+precisa, gruda-as s&ocirc;bre uma folha de papel da
+c&ocirc;r da moda, verde, pardo, azul&#8213;como fazem
+as raparigas inglezas aos seus albums e scrapbooks;
+f&oacute;rma com ellas os
+grupos e situa&ccedil;&otilde;es
+que lhe parece; n&atilde;o importa que sejam mais ou
+menos disparatados. Depois vai-se &aacute;s chronicas,
+tiram-se uns poucos de nomes e de palavr&otilde;es
+velhos; com os nomes chrismam-se os figur&otilde;es,
+com os palavr&otilde;es
+<em>illuminam-se</em>... (stylo de pintor
+pinta-monos).&#8213;E aqui est&aacute; como n&oacute;s fazemos a
+nossa litteratura original.
+<br />
+
+<br />
+
+E aqui est&aacute; o precioso trabalho que eu agora
+perdi!
+<br />
+
+<br />
+
+Isto n&atilde;o p&oacute;de ser! Uns poucos de pinheiros
+raros e infezados atravez dos quaes se est&atilde;o quasi
+vendo as vinhas e olivedos circumstantes!..
+&Eacute; o desapontamento mais chapado e solemne
+que nunca tive na minha vida&#8213;uma verdadeira
+logra&ccedil;&atilde;o em boa e antiga phrase portugueza.
+<br />
+
+<br />
+
+E comtudo aqui &eacute; que devia ser, aqui &eacute; que
+<span class="pagenum">[43]</span>
+&eacute;, geographica e topographicamente fallando, o
+bem conhecido e confrontado sitio do pinhal da
+Azambuja...<br />
+
+<br />
+
+Passaria por aqui algum Orpheu que, pelos magicos
+pod&ecirc;res da sua lyra, levasse atraz de si as
+&aacute;rvores d'este antigo e classico Menalo dos salteadores
+lusitanos?<br />
+
+<br />
+
+Eu n&atilde;o sou muito difficil em admittir prodigios
+quando n&atilde;o sei explicar os phenomenos por
+outro modo. O pinhal da Azambuja mudou-se.
+Qual, de entre tantos Orpheus que a gente por
+ahi ve e ouve, foi o que obrou a maravilha,
+isso &eacute; mais difficil de dizer. Elles s&atilde;o tantos,
+e
+cantam todos t&atilde;o bem! Quem sabe? Juntar-se-hiam,
+fariam uma companhia por ac&ccedil;&otilde;es, e negociariam
+um emprestimo harmonico com que
+facilmente se obraria ent&atilde;o o milagre. &Eacute; como
+hoje se faz tudo; &eacute; como se passou o thesoiro
+para o banco, o banco para as companhias de
+confian&ccedil;a... porque se n&atilde;o faria o mesmo com o
+pinhal da Azambuja?
+<br />
+
+<br />
+
+Mas aonde est&aacute; elle ent&atilde;o? faz favor de me
+dizer...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[44]</span>
+Sim senhor, digo: <em>est&aacute;
+consolidado</em>. E se n&atilde;o
+sabe o que isto quer dizer, leia os or&ccedil;amentos,
+veja a lista dos tributos, passe pelos olhos os votos
+de confian&ccedil;a; e se depois d'isto, n&atilde;o souber
+aonde e como <em>se consolidou</em> o pinhal
+d'Azambuja,
+abandone a geographia que visivelmente n&atilde;o &eacute; a
+sua especialidade, e deite-se a finan&ccedil;a, que tem
+<em>bossa</em>;&#8213;fazemo-lo eleger ahi por
+Arcozello ou
+pela cidade eterna&#8213;&eacute; o mesmo&#8213;vai para
+a commiss&atilde;o de fazenda&#8213;depois lord do thesoiro,
+ministro: &eacute; <em>escalla</em>,
+n&atilde;o offendia nem a
+rabujenta constitui&ccedil;&atilde;o de 38, quanto mais a
+carta.<br />
+
+<br />
+
+<div class="dots"></div>
+
+<br />
+
+<div class="dots"></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O peior &eacute; que no meio d'estes campos onde
+Troia f&ocirc;ra, no meio d'estas areias onde se acoitavam
+d'antes os pallidos medos do pinhal da
+Azambuja, a minha querida e bemfazeja traquitana
+abandonou-me; fiquei como o bom <em>Xavier
+de Maistre</em> quando, a meia jornada do seu quarto,
+lhe perdeu a cadeira o equilibrio, e elle cahiu&#8213;ou
+ia caindo, ja me n&atilde;o lembro bem&#8213;estatellado
+no ch&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+Ao ch&atilde;o estive eu para me atirar, como crian&ccedil;a
+<span class="pagenum">[45]</span>
+amuada, quando vi voltar para a Azambuja
+o nosso commodo vehiculo, e deante de mim a
+infezada mulinha asneira que&#8213;ai triste!&#8213;tinha
+de ser o meu transporte d'alli at&eacute; Santarem.<br />
+
+<br />
+
+Emfim o que hade ser, hade ser, e tem muita
+f&ocirc;r&ccedil;a. Consolado com este tam verdadeiro quanto
+<em>elegante</em> proverbio, levantei o
+&acirc;nimo &aacute; altura da
+situa&ccedil;&atilde;o e resolvi fazer pr&oacute;va de
+homem forte e
+supportador de trabalhos. Bifurquei-me resignadamente
+s&ocirc;bre o cilicio do esfarrapado albard&atilde;o,
+tomei na esquerda as impermeaveis redeas de
+coiro cru, e lancei o animalejo ao seu mais largo
+trote, que era um confortavel e amenissimo
+choito, digno de fazer as delicias do meu respeitavel
+e excentrico amigo, o marquez do F.<br />
+
+<br />
+
+Tinha a bossa, a paix&atilde;o, a mania, a furia
+de choitar aquelle notavel fidalgo&#8213;o &uacute;ltimo fidalgo
+homem de lettras que deu &eacute;sta terra. Mas
+adorava o choito o nobre marquez. Conheci-o em
+Par&iacute;s nos ultimos tempos da sua vida, ja octogenario
+ou perto d'isso: deixava a sua carruagem
+ingleza toda mollas e confortos para ir passear
+n'um certo cabriolet de pra&ccedil;a que elle tinha marcado
+<span class="pagenum">[46]</span>
+pelo s&ecirc;cco e duro movimento vertical com
+que sacudia a gente. Obrigou-me um dia a experimenta-lo:
+era admiravel. Communicava-se
+da velha horsa normanda aos varaes, e dos varaes
+&aacute; concha do carro, tam inteiro e tam sem
+diminui&ccedil;&atilde;o, o choito do execravel
+Babi&eacute;ca! Nunca
+vi coisa assim. O marquez achava-lhe propriedades
+toni-purgativos, eu classifiquei-o de violentissimo
+drastico.
+<br />
+
+<br />
+
+Foi um dos homens mais extraordinarios e o
+portuguez mais notavel que tenho conhecido, aquelle
+fidalgo.
+<br />
+
+<br />
+
+Era feio como o peccado, elegante como um
+bugio, e as mulheres adoravam-n'o. Filho segundo,
+vivia de seus ordenados nas miss&otilde;es por
+que sempre andou, tractava-se grandiosamente,
+e legou valores consideraveis por sua morte. Imprimia
+uma obra sua, mandava tirar um unico
+exemplar, guardava-o e desmanchava as
+f&ograve;rmas....&#8213;N&atilde;o
+acabo se com&eacute;&ccedil;o a contar historias
+do marquez do F.<br />
+
+<br />
+
+Piquemos para o Cartaxo, que s&atilde;o horas.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c6"></a>CAPITULO VI.
+</h3>
+
+<br />
+
+<div class="intro">Pr&oacute;va-se como o velho
+Cam&otilde;es n&atilde;o teve
+outro remedio sen&atilde;o
+misturar o maravilhoso da mythologia com o do christianismo.&#8213;Da-se
+raz&atilde;o, e tira-se depois, ao padre Jos&eacute;
+Agostinho.&#8213;No
+meio d'estas discepta&ccedil;&otilde;es academico-litterarias
+vem
+o A. a descobrir que para tudo &eacute; preciso ter f&eacute;
+n'este mundo.
+Diz-se <em>n'este mundo</em>, porque, quanto
+ao outro ja era
+sabido.&#8213;Os Lus&iacute;adas, Fausto e a
+Divina-Comedia.&#8213;Desgra&ccedil;a
+do Cam&otilde;es em ter nascido antes do romantismo.&#8213;Mostra-se
+como a Styge e o Cocyto sempre s&atilde;o melhores
+sitios que o Inferno e o Purgatorio.&#8213;Vai o A. em procura
+do marquez de Pombal, e d&aacute; com elle nas ilhas Beatas do
+poeta Alceu.&#8213;Partida de Whist entre os illustres
+finados.&#8213;Compaix&atilde;o
+do marquez pelos pobres homens de Ricardo
+Smith e J. B. Say.&#8213;Resposta d'elle e da sua luneta &aacute;s
+perguntas peralvilhas do A.&#8213;Chegada a este mundo e ao
+Cartaxo.
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+O mais notavel, e n&atilde;o sei se diga, se continuarei
+aomenos a dizer, o mais indesculpavel
+defeito que at&eacute; aqui esgravataram criticos
+e zoilos na Iliada dos povos modernos, os
+<span class="pagenum">[48]</span>
+immortaes <em>Lusiadas</em>,
+&eacute; sem-d&uacute;vida a heterogenea
+e heterodoxa mistura da theologia com a mythologia,
+do maravilhoso allegorico do paganismo,
+com os graves symbolos do christianismo.
+A fallar a verdade, e por mais figas que a gente
+queira fazer ao padre Jos&eacute; Agustinho&#8213;ainda
+assim! ver o padre Baccho revestido <em>in
+pontificalibus</em>
+deante de um retabulo, n&atilde;o me lembra
+de que sancto, dizendo o seu <em>dominus
+vobiscum</em>
+provavelmente a algum acholyto bacchante ou corybante,
+que lhe responde o <em>et cum spiritu
+tuo!</em>..
+n&atilde;o se p&oacute;de; &eacute; uma que realmente... E
+ent&atilde;o
+aquelle famoso conceito com que elle acaba, digno
+da Phenix-Renascida:
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry">
+O falso deus adora o verdadeiro!
+</div>
+
+<br />
+
+Desde que me intendo, que leio, que admiro
+os Lusiadas; interne&ccedil;o-me, ch&oacute;ro,
+insuberbe&ccedil;o-me
+com a maior obra de ingenho que ainda
+appareceu no mundo, desde a
+<em>Divina-Comedia</em>
+at&eacute; ao <em>Fausto</em>...
+<br />
+
+<br />
+
+O italiano tinha f&eacute; em Deus, o allem&atilde;o no
+scepticismo, o portuguez na sua patria. &Eacute; preciso
+crer em alguma coisa para ser grande&#8213;n&atilde;o
+so poeta&#8213;grande seja no que for. Uma Brizida
+<span class="pagenum">[49]</span>velha que eu tive,
+quando era pequeno, era
+famosa chronista de historias da carochinha, porque
+sinceramente cria em bruxas. Napole&atilde;o cria
+na sua estrella, Lafayette creu na republica-rei
+de Luiz-Philippe; e, para que ousemos tambem
+<em>celebrare domestica facta</em>, todos os
+nossos grandes
+homens ainda hoje creem, um na juncta do cr&eacute;dito,
+outro nas classes inactivas, outro no mestre
+Adonir&atilde;o, outro finalmente na belleza e realidade
+do systema constitucional que felizmente
+nos rege.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas essas cren&ccedil;as s&atilde;o para os que se fizeram
+grandes com ellas. A um pobre homem
+o que lhe fica para crer? Eu, apezar dos criticos,
+ainda creio no nosso Cam&otilde;es: sempre
+cri.
+<br />
+
+<br />
+
+E comtudo, desde a edade da innocencia em
+que tanto me divertiam aquellas batalhas, aquellas
+aventuras, aquellas historias d'amores, aquellas
+scenas todas, tam naturaes, tam bem pintadas&#8213;at&eacute;
+&eacute;sta fatal edade da experiencia, edade prosaica
+em que as mais bellas crea&ccedil;&otilde;es do espirito
+parecem
+macaquices deante das realidades do mundo,
+e os nobres movimentos do cora&ccedil;&atilde;o chymeras de
+<span class="pagenum">[50]</span>
+enthusiastas&#8213;at&eacute; &eacute;sta edade de saudades do
+passado
+e esperan&ccedil;as no futuro, mas sem gosos no
+presente&#8213;em que o amor da patria (tambem
+isto ser&aacute; phantasmagoria?), e o sentimento intimo
+do <em>bello</em> me d&atilde;o na
+leitura dos Lusiadas outro
+deleite diverso, mas n&atilde;o inferior ao que n'outro
+tempo me deram&#8213;eu senti sempre aquelle
+grande defeito do nosso grande poema: e nunca
+pude, por mais que buscasse, achar-lhe,
+justifica&ccedil;&atilde;o
+n&atilde;o digo&#8213;nem siquer desculpa.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas at&eacute; morrer aprender, diz o adagio: e assim
+&eacute;. E tambem &eacute; aphorismo de moral, applicavel
+outrosim a coisas litterarias: que para a
+gente achar a desculpa aos defeitos alheios, &eacute;
+considerar&#8213;&eacute; p&ocirc;r-se uma pessoa nas mesmas
+circumstancias, ver-se involvido nas mesmas difficuldades.
+<br />
+
+<br />
+
+Aqui estou eu agora dando toda a desculpa ao
+pobre Cam&otilde;es, com vontade de o justificar, e
+prompto (assim s&atilde;o as charidades d'este mundo)
+a sahir a campo de lan&ccedil;a em reste e a quebr&aacute;-la
+com todo o antagonista que por aquelle fraco o
+atacar.&#8213;E porque ser&aacute; isto? Porque chegou a
+minha hora; e&#8213;<em>si parva licet componnere magnis</em>
+<span class="pagenum">[51]</span>
+(a bossa proeminente hoje &eacute; a latina), aqui me
+acho eu com este meu capitulo nas mesmas difficuldades
+em que o nosso bardo se viu com o seu
+poema.
+<br />
+
+<br />
+
+Ja preveni as observa&ccedil;&otilde;es com o texto acima:
+bem sei quem era Cam&otilde;es, e quem sou eu;
+mas tracta-se da
+<em>intala&ccedil;&atilde;o</em>, que
+&eacute; a mesma apezar
+da differen&ccedil;a dos intalados. O auctor dos Lusiadas
+viu-se intalado entre a cren&ccedil;a do seu paiz
+e as brilhantes tradi&ccedil;&otilde;es da poesia classica que
+tinha por mestra e mod&ecirc;lo.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o havia ainda ent&atilde;o romanticos nem romantismo,
+o seculo estava muito atrazado.
+As odes de Victor-Hugo n&atilde;o tinham ainda desbancado
+as de Horacio; achavam-se mais lyricos
+e mais poeticos os esconjurios de Canidia, do
+que os pesadelos de um inforcado no oratorio;
+chorava-se com os <em>Tristes</em> de Ovidio,
+porque se
+n&atilde;o lagrimejava com as medita&ccedil;&otilde;es de
+Lamartine.
+Andromacha despedindo-se de Heitor &aacute;s portas
+de Troia, Priamo supplicante aos p&eacute;s do matador
+do seu filho, Helena luctando entre o remorso
+do seu crime e o amor de P&aacute;ris, n&atilde;o tinham
+ainda sido eclipsados pelas declama&ccedil;&otilde;es da
+<span class="pagenum">[52]</span>
+m&atilde;e Eva &aacute;s grades do paraizo terreal. O combate
+de Achilles e Heitor, das hostes argivas com
+as troianas, n&atilde;o tinha sido mettido n'um chinello
+pelas batalhas campaes dos anjos bons e dos anjos
+maus &aacute; metralhada por essas nuvens. Dido
+chorando por Eneas n&atilde;o tinha sido reduzida a
+donzella choramigas d'Alfama carpindo pelo seu
+<em>Manel</em> que vae para a India...
+<br />
+
+<br />
+
+Realmente o seculo estava muito atrazado:
+Milton n&atilde;o se tinha ainda sentado no logar de
+Homero, Shakspeare no de Euripedes, e lord
+Byron acima de todos: emfim n&atilde;o estava ainda
+anglizado o mundo, portanto <em>a marcha do
+intellecto</em>
+no mesmo terreno, &eacute; tudo uma miseria.
+<br />
+
+<br />
+
+Ora pois, o nosso Cam&otilde;es, creador da epopea,
+e&#8213;depois do Dante&#8213;da poesia moderna,
+viu-se atrapalhado; misturou a sua cren&ccedil;a religiosa
+com o seu credo poetico e fez, <em>tranchons
+le mot</em>, uma semsaboria.
+<br />
+
+<br />
+
+E aqui direi eu com o vate Elmano:
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry">Cam&otilde;es, grande
+Cam&otilde;es, quam similhante<br />
+
+Acho teu fado ao meu quando os cotejo!</div>
+
+<br />
+
+Vou fazer outra semsaboria eu, n'este bello
+<span class="pagenum">[53]</span>
+capitulo da minha obra-prima. Que remedio!
+Preciso fallar com um illustre finado, preciso
+de evocar a sombra de um grande genio que
+hoje habita com os mortos. E onde irei eu?
+Ao inferno? Espero que a divina justi&ccedil;a se apiedasse
+d'elle na hora dos ultimos arrependimentos.
+Ao purgatorio, ao empyreo? Apezar do exemplo
+da <em>Divina Comedia</em>, n&atilde;o me
+atrevo a fazer
+comedias com taes logares de scena,&#8213;e n&atilde;o sei,
+n&atilde;o g&oacute;sto de brincar com essas coisas.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o lhe vejo remedio sen&atilde;o recorrer ao bem
+parado dos Elysios, da Styge, do Cocyto e seu
+termo: s&atilde;o terrenos neutros em que se p&oacute;de
+parlamentar
+com os mortos sem compromettimento
+serio, e....
+<br />
+
+<br />
+
+Eis-me ahi no &ecirc;rro de Cam&otilde;es&#8213;e nas unhas
+dos criticos; e as zagunchadas a ferver em cima
+de mim, que fiz, que aconteci....
+<br />
+
+<br />
+
+Mas, senhores, ponderem, venham ca: o que
+hade um homem fazer? O Dante n&atilde;o sei que
+gyria teve que baptisou Publio Virgilio Mar&atilde;o
+para lhe servir de cicerone nas regi&otilde;es do inferno,
+do paraizo e do purgatorio christ&atilde;o, e teve
+<span class="pagenum">[54]</span>
+tam boa fortuna que nem o queimou a Inquisi&ccedil;&atilde;o
+nem o descompoz a Crusca, nem siquer o mutilaram
+os censores, nem o perseguiram delegados
+por abuso de liberdade de imprensa, nem o mandaram
+para os dignos pares... N&atilde;o se tinham ainda
+descoberto as manga&ccedil;&otilde;es liberaes que se usam
+hoje: e as cartas que o povo tinha era a liberdade
+ganha e sustentada &aacute; ponta da espada, com
+muito cora&ccedil;&atilde;o e poucas palavras, muito
+patriotismo,
+poucas leis... e menos relatorios. N&atilde;o havia
+em Floren&ccedil;a nem gazeta para louvar as tolices
+dos ministros, nem ministros para pagar as
+tolices da gazeta.<br />
+
+<br />
+
+O Dante foi proscripto e exilado, mas n&atilde;o se
+ficou a escrever, deu catanada que se regallou
+nos inimigos da liberdade da sua patria.<br />
+
+<br />
+
+Quem dera ca um batalh&atilde;o de poetas como
+aquelle!
+<br />
+
+<br />
+
+Que fosse por&ecirc;m um triste vate de hoje escrever
+no seculo das luzes o que escrevia o Dante
+no seculo das trevas! Os proprios philosophos
+gritavam: Que escandalo! Atheus professos clamavam
+contra a irreverencia; gentes que n&atilde;o
+<span class="pagenum">[55]</span>
+teem religi&atilde;o, nem a de Mafoma, bradavam
+pela religi&atilde;o: entravam a p&ocirc;r carapu&ccedil;as
+nas cabe&ccedil;as
+uns dos outros, cahiam depois todos s&ocirc;bre
+o poeta, e&#8213;se o n&atilde;o podessem inforcar, pelo
+menos declaravam-n'o republicano, que dizem
+elles que &eacute; uma inj&uacute;ria muito grande.<br />
+
+<br />
+
+Nada! viva o nosso Cam&otilde;es e o seu maravilhoso
+mistiforio; &eacute; a mais commoda inven&ccedil;&atilde;o
+d'este mundo: vou-me com ella, e ralhe a cr&iacute;tica
+quanto quizer.<br />
+
+<br />
+
+Quero procurar no reino das sombras n&atilde;o menor
+pessoa que o marquez de Pombal: tenho que
+lhe fazer uma pergunta s&eacute;ria antes de chegar ao
+Cartaxo. E n&oacute;s ja vamos por entre as riccas vinhas
+que o circundam com uma zona de verdura
+e alegria. Depressa o ramo de oiro que me abra
+ao pensamento as portas fataes&#8213;depressa a unctuosa
+sopetarra com que heide atirar &aacute;s tres gargantas
+do canzarr&atilde;o. Vamos...<br />
+
+<br />
+
+Mas em que districto
+d'aquellas regi&otilde;es acharei
+eu o primeiro ministro d'elrei D. Jos&eacute;? Por onde
+est&aacute; Ixion e Tantalo, por onde demora Sysipho
+e outros magan&otilde;es que taes? N&atilde;o; esse
+&eacute; um
+<span class="pagenum">[56]</span>
+bairro muito triste, e arrisca-se a ter por administrador
+algum escandecido que me atice as orelhas.<br />
+
+<br />
+
+Nos Elysios com o pae Anchises e outros barba&ccedil;as
+classicos do mesmo jaez? Eu sei? tambem
+isso n&atilde;o. Hade ser n'aquellas ilhas bemaventuradas
+de que falla o poeta Alceu e onde elle poz
+a passear, por eternas verduras, as almas tyrannicidas
+de Harm&oacute;dio e Arist&oacute;giton...<br />
+
+<br />
+
+Oh! &eacute;sta agora!... Sebasti&atilde;o Jos&eacute; de
+Carvalho
+e Mello, conde de Oeiras, marquez de Pombal,
+de companhia com os seus inimigos politicos!...
+Ahi &eacute; que se ing&aacute;nam; n&atilde;o ha amigos
+nem inimigos
+politicos em se largando o mando e as preten&ccedil;&otilde;es
+a elle. Ora, passados os umbraes da eternidade,
+&eacute; de f&eacute; que se n&atilde;o pensa mais n'isso.
+C.
+J. X., que morreu a assignar uma portaria, ja
+tinha largado a penna <a name="n9"></a>quando
+chegou alli pelos
+<em>Prazeres</em>; quanto mais!...<br />
+
+<br />
+
+O homem hade estar nas ilhas <em>beatas</em>.
+Vamos
+l&aacute;...<br />
+
+<br />
+
+E ei-lo alli: l&aacute; est&aacute; o bom do marquez a jogar
+<span class="pagenum">[57]</span>
+o whist com o bar&atilde;o de Bidefeld, com o imperador
+Leopoldo e com o poeta Diniz. A partida
+deve de ser interessante, talvez aposta essa
+gente toda&#8213;esses manes todos que est&atilde;o &aacute; roda.
+Que cara que fez o marquez a um finadinho
+que lhe foi metter o nariz nas cartas! Quem
+havia de ser! O intromettido de M. de Talleyrand.
+Estava-lhe cahindo. Mas n&atilde;o viu nada: o
+nobre marquez sempre soube esconder o seu j&ocirc;go.<br />
+
+<br />
+
+A mim &eacute; que elle ja me viu. 'Que diz? Ah!..
+Sim senhor, sou portuguez; e venho fazer uma
+pergunta a V. Exa., esclarecer-me s&ocirc;bre um ponto
+importante.'<br />
+
+<br />
+
+Deitou-me a tremenda luneta.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Para que mandou V. Exa. arrancar as vinhas
+do Ribatejo?'<br />
+
+<br />
+
+Apertou a luneta no sobr&ocirc;lho e sorriu-se.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Ellas ahi est&atilde;o centuplicadas, que at&eacute; ja
+invadiram o pinhal de Azambuja. Fez V. Exa.
+um despotismo inutil; e agora...'
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[58]</span>
+'Agora quem bebe por l&aacute; todo esse vinho?'<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o sab&iacute;a o que lhe havia de responder. Elle
+sacudiu a cabelleira de anneis, virou-me as costas,
+deu o bra&ccedil;o a Colbert, passou por-p&eacute; de Ricardo
+Smith e de J. Baptista Say, que estavam a disputar,
+incolheu os hombros em ar de compaix&atilde;o,
+e foi-se por uma alameda muito vi&ccedil;osa que ia
+por aquelles deliciosos jardins dentro, e sumiu-se
+da nossa vista.<br />
+
+<br />
+
+Eu surdi ca n'este mundo, e achei-me emcima
+da azemola, aop&eacute; do grande caf&eacute; do
+Cartaxo.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c7"></a>CAPITULO VII.
+</h3>
+
+<br />
+
+<div class="intro">Reflex&otilde;es importantes
+s&ocirc;bre o Bois-de-Boulogne, as
+carruagens
+de mollas, Tortoni, e o caf&eacute; do Cartaxo.&#8213;Dos
+caf&eacute;s
+em geral, e de como s&atilde;o o characteristico da
+civiliza&ccedil;&atilde;o
+de um paiz.&#8213;O Alfageme.&#8213;Hecatombe involuntaria immolada
+pelo A.&#8213;Historia do Cartaxo.&#8213;Demonstra-se como
+a Gran'-Bretanha deveu sempre toda a sua f&ocirc;r&ccedil;a e
+toda
+a sua gl&oacute;ria a Portugal.&#8213;Shakspeare e Laffitte, Milton
+e Chateaumargot, Nelson e o principe de
+Joinville.&#8213;Pr&oacute;va-se
+evidentemente que M. Guizot &eacute; a ruina de Albion
+e do Cartaxo.</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Voltar &aacute; meia-noite do
+<em>Bois-de-Boulogne</em>&#8213;o
+bosque por excellencia, descer, entre nuvens
+de poeira, o longo stadio dos Campos-Elysios,
+entrever, na rapida carreira, o obelisco
+<span class="pagenum">[60]</span>
+de Luxor, as &aacute;rvores das Tulherias, a
+columna da pra&ccedil;a Vandomma, a magnificencia
+heteroclyta da 'Magdalena', e emfim sentir parar,
+de uma soffreada magistral, os dois possantes
+inglezes que nos trouxeram quasi de um folego
+at&eacute; ao 'boulevard de Gand'; ahi entreabrir mollemente
+os olhos, levantando meio corpo dos regallados
+cochins de seda, e dizer: 'Ah! estamos
+em Tortoni... que delicia um sorvete com este
+calor!'&#8213;&eacute; seguramente, &eacute; dos prazeres maiores
+d'este mundo, sente-se a gente viver; &eacute; meia
+hora de existencia que vale dez annos de ser rei
+em qualquer outra parte do mundo.
+<br />
+
+<br />
+
+Pois acredite-me o leitor amigo, que sei alguma
+coisa dos sabores e dissabores d'este mundo,
+fie-se na minha palavra, que &eacute; de homem experimentado:
+o prazer de chegar por aquelle modo a
+Tortoni, o apear da elegante caleche balan&ccedil;ada
+nas mais suaves mollas que fabricasse arte ingleza
+do puro a&ccedil;o de Suecia, n&atilde;o alcan&ccedil;a,
+n&atilde;o se
+compara ao prazer e consola&ccedil;&atilde;o de alma e corpo
+que eu senti ao apear-me de minha choiteira mula
+&aacute; porta do grande caf&eacute; do Cartaxo.
+<br />
+
+<br />
+
+Fazem idea do que &eacute; o caf&eacute; do Cartaxo?
+N&atilde;o
+<span class="pagenum">[61]</span>
+fazem. Se n&atilde;o viajam, se n&atilde;o sahem, se
+n&atilde;o
+v&ecirc;em mundo &eacute;sta gente de Lisboa! E passam a
+sua vida entre o Chiado, a rua do Oiro e o theatro
+de San'Carlos, como h&atilde;ode alargar a esphera
+de seus conhecimentos, desinvolver o espirito,
+chegar &aacute; altura do seculo?
+<br />
+
+<br />
+
+Coroae-vos de alface, e ide jogar o bilhar,
+ou fazer sonetos &aacute; dama nova, ide, que n&atilde;o
+prestais
+para mais nada, meus queridos Lisboetas;
+ou discuti os deslavados horrores de algum mellodrama
+velho que fugiu assoviado da 'Porte-Saint
+Martin' e veio esconder-se na Rua-dos-Condes. Tambem
+podeis ir aos Toiros&#8213;est&atilde;o imbolados, n&atilde;o
+ha perigo...
+<br />
+
+<br />
+
+Viajar?.. qual viajar! at&eacute; &aacute; Cova-da-Piedade,
+quando muito, em dia que l&aacute; haja cavallinhos.
+Pois ficareis alfacinhas para sempre, cuidando
+que todas as pra&ccedil;as d'este mundo s&atilde;o como
+a do Terreiro-do-Pa&ccedil;o, todas as ruas como
+a rua Augusta, todos os caf&eacute;s como o do Marrare.
+<br />
+
+<br />
+
+Pois n&atilde;o s&atilde;o, n&atilde;o: e o do Cartaxo
+menos que
+nenhum.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p62">[62]</a></span>
+O caf&eacute; &eacute; uma das fei&ccedil;&otilde;es
+mais characteristicas
+de uma terra. O viajante experimentado
+e fino chega a qualquer parte, entra no caf&eacute;,
+observa-o, examina-o, estuda-o, e tem conhecido
+o paiz em que est&aacute;, o seu gov&ecirc;rno, as
+suas leis, os seus costumes, a sua religi&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Levem-me de olhos tapados onde quizerem,
+n&atilde;o me desvendem sen&atilde;o no caf&eacute;; e
+protesto-lhe
+que em menos de dez minutos lhe digo a terra
+em que estou se for paiz sublunar.
+<br />
+
+<br />
+
+N&oacute;s entr&aacute;mos no caf&eacute; do Cartaxo, o
+grande
+caf&eacute; do Cartaxo; e nunca se incruzou turco em
+divan de seda do mais splendido <a href="#e6">harem</a>
+de Constantinopla
+com tanto g&ocirc;so de alma e satisfac&ccedil;&atilde;o
+de corpo, como n&oacute;s nos sent&aacute;mos nas duras e
+asperas
+t&aacute;buas das esguias banquetas mal sarapintadas
+que ornam o magn&iacute;fico estabelecimento
+bordalengo.
+<br />
+
+<br />
+
+Em poucas linhas se descreve a sua simplicidade
+classica: ser&aacute; um parallelogrammo pouco
+maior que a minha alcova; &aacute; esquerda duas
+mezas de pinho, &aacute; direita o mostrador invidra&ccedil;ado
+onde campeam as garrafas obrigadas de liquor de
+<span class="pagenum">[63]</span>
+amendoa, de canella, de cravo. Pendem do
+tecto, laboriosamente arrendados por n&atilde;o vulgar
+tesoira, os pingentes de papel, convidando a
+lascivo repouso a inquieta ra&ccedil;a das moscas. Reina
+uma frescura admiravel n'aquelle recinto.
+<br />
+
+<br />
+
+Sent&aacute;mo-nos, respir&aacute;mos largo, e
+entr&aacute;mos
+em conversa com o dono da casa, homem de
+trinta a quarenta annos, de physionomia experta
+e sympathica, e sem nada do repugnante vill&atilde;o-ruim
+que &eacute; tam usual de incontrar por similhantes
+logares da nossa terra.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Ent&atilde;o que novidades ha por ca pelo Cartaxo,
+patr&atilde;o?'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Novidades! Por aqui n&atilde;o temos sen&atilde;o o
+que vem de Lisboa.&#8213;Ahi est&aacute; a
+'Revolu&ccedil;&atilde;o'
+de hontem...'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Jornaes, meu caro amigo! Vimos fartos
+d'isso. Diga-nos alguma coisa da terra. Que faz
+por ca o...'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'O mestre J. P., o 'Alfageme?''
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[64]</span> &#8213;'Como assim o Alfageme?'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Chamam-lhe o Alfageme ao mestre J. P.:
+pois ent&atilde;o! Uns senhores de Lisboa que ahi estiveram
+em casa do Sr. D. poseram-lhe esse nome,
+que a gente bem sabe o que &eacute;; e ficou-lhe, que
+agora ja ninguem lhe chama sen&atilde;o o Alfageme.
+Mas quanto a mim, ou elle n&atilde;o &eacute; Alfageme, ou
+n&atilde;o o hade ser muito tempo. N&atilde;o &eacute;
+aquelle, n&atilde;o.
+Eu bem me intendo.'
+<br />
+
+<br />
+
+A conversa&ccedil;&atilde;o tornava-se interessante,
+especialmente
+para mim: quizemos profundar o caso.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Muito me conta, Sr. patr&atilde;o! Com que
+isto de ser Alfageme, parece-lhe que &eacute; coisa
+de?..
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Parece-me o que &eacute;, e o que hade parecer a
+todo o mundo. E alguma coisa sabemos, ca no
+Cartaxo, do que vai por elle. <a name="n10"></a>O
+verdadeiro Alfageme
+diz que era um espadeiro ou armeiro,
+cutileiro ou coisa que o valha, na Ribeira de Santarem;
+e que foi um homem capaz, e que tinha
+pelo povo, e que n&atilde;o queria saber de partidos,
+e que dizia elle: 'Rei que nos inforque, e papa
+<span class="pagenum">[65]</span>que nos
+excommungue, nunca hade faltar. Assim,
+deixar os outros brigar, trabalhemos n&oacute;s
+e ganhemos a nossa vida.' Mas que extrangeiros
+que n&atilde;o queria, que &eacute;sta terra que era nossa e
+co'a nossa gente se devia de governar. E mais
+coisas assim: e que porfim o deram por traidor
+e lhe tiraram quanto tinha.&#8213;Mas que lhe
+valeu o Condestavel e o n&atilde;o deixou arrazar, por
+que era homem de bem e fidalgo &aacute;s direitas.
+Pois n&atilde;o &eacute; assim que foi?'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'&Eacute;, sim, meu amigo. Mas ent&atilde;o d'ahi?'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Ent&atilde;o d'ahi o que se tira, &eacute; que quando
+havia fidalgos como o sancto Condestavel tambem
+havia Alfagemes como o de Santarem. E mais
+nada.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Perfeitamente. Mas porque chamaram ao
+mestre P. o Alfageme do Cartaxo?'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Eu lhe digo aos senhores: o homem nem
+era assim nem era assado. Fallava bem, tinha
+sua labia com o povo. D'ahi fez-se juiz, p&ocirc;s por
+ahi suas coisas a direito&#8213;Deus sabe as que elle
+intortou tambem!.. ganhou nome no povo, e
+<span class="pagenum">[66]</span>
+agora faz d'elle o que quer. Se lhe der sempre
+para bem, bom ser&aacute;.&#8213;Os senhores n&atilde;o tomam
+nada?'
+<br />
+
+<br />
+
+O bom do homem visivelmente n&atilde;o queria
+fallar mais: e n&atilde;o deviamos importun&aacute;-lo.
+Fizemos
+o sacrificio de bom n&uacute;mero de lim&otilde;es que
+exprem&eacute;mos em profundas ta&ccedil;as&#8213;vulgo, copos
+de canada&#8213;e com agua e assucar, offerecemos
+as devidas liba&ccedil;&otilde;es ao genio do logar.
+<br />
+
+<br />
+
+Infelizmente o sacrificio n&atilde;o foi detodo incruento.
+Muitas hecatombes de myrmid&otilde;es cahiram
+no holocausto, e lhe deram um cheiro e sabor
+que n&atilde;o sei se agradou &aacute; divindade, mas que
+injoou terrivelmente aos sacerdotes.
+<br />
+
+<br />
+
+Sahimos a visitar o nosso bom amigo, o velho
+D., a honra e a alegria do Ribatejo. Ja elle sab&iacute;a
+da nossa chegada, e vinha no caminho para
+nos abra&ccedil;ar.
+<br />
+
+<br />
+
+Fomos dar, junctos, uma volta pela terra.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; das povoa&ccedil;&otilde;es mais bonitas de
+Portugal, o
+Cartaxo, aceada, alegre; parece o bairro suburbano
+de uma cidade.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[67]</span>
+N&atilde;o ha aqui monumentos, n&atilde;o ha historia
+antiga: a terra &eacute; nova, e a sua prosperidade e
+crescimento datam de trinta ou quarenta annos,
+desde que o seu vinho come&ccedil;ou a ter fama. Ja
+descahida do que foi, pela estagna&ccedil;&atilde;o d'aquelle
+commercio, ainda &eacute; comtudo a melhor coisa da
+Borda-d'agua.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o tem historia antiga, disse; mas tem-n'a
+moderna e importantissima.
+<br />
+
+<br />
+
+Que memorias aqui n&atilde;o ficaram da guerra peninsular!
+Que espantosas borracheiras aqui n&atilde;o
+tomaram os mais famosos generaes, os mais distinctos
+militares da nossa <em>antiga e fiel</em>
+alliada, que
+ainda ent&atilde;o, ao menos, nos bebia o vinho!
+<br />
+
+<br />
+
+Hoje nem isso!.. hoje bebe a jacobina zurrapa
+de Bordeos, e as acerbas limonadas de Borgonha.
+Quem tal diria da conservativa Albion!
+Como p&oacute;de uma leal goella britannica, rascada
+pelos acidos anarchicos d'aquellas vinagretas francezas,
+intoar devidamente o God-save-the-King
+em um <em>toast</em> nacional! Como, sem
+Porto ou Madeira,
+sem Lisboa, sem Cartaxo, ousa um subdito
+britannico erguer a voz, n'aquella harmoniosa
+desafina&ccedil;&atilde;o
+<span class="pagenum">[68]</span> insular que lhe
+&eacute; propria e
+que faz parte
+de seu respeitavel character nacional&#8213;faz;
+n&atilde;o se riam: o inglez n&atilde;o canta sen&atilde;o
+quando
+bebe... alias quando est&aacute; <span class="smallcaps">bebido</span>.
+<em>Nisi
+potus ad
+arma ruisse.</em> Inverta: <em>Nisi potus in
+cantum prorumpisse</em>... E pois, como hade elle assim <em>bebido</em>
+erguer a voz n'aquelle sublime e tremendo hymno
+popular Rulle-Britannia!
+<br />
+
+<br />
+
+Bebei, bebei bem zurrapa franceza, meus amigos
+inglezes; bebei, bebei a p&ecirc;so de oiro, essas
+limonadas dos burgraves e margraves de Allemanha;
+chamae-lhe, para vos illudir, chamae-lhe
+<em>hoc</em>, chamae-lhe
+<em>hic</em>, chamae-lhe o
+<em>hic haec
+hoc</em> todo, se vos d&aacute; g&ocirc;sto... que
+em poucos annos
+veremos o estado de <em>acetato</em> a que
+hade ficar
+reduzido o vosso character nacional.
+<br />
+
+<br />
+
+Oh gente cega a quem Deus quer perder!
+pois n&atilde;o v&ecirc;des que n&atilde;o sois nada sem
+n&oacute;s, que
+sem o nosso alchool, d'onde vos vinha espirito,
+sciencia, valor, ides cahir infallivelmente na antiga
+e prigui&ccedil;osa rudeza saxonia!
+<br />
+
+<br />
+
+D'essas traidoras praias da Fran&ccedil;a donde vos
+vai hoje o veneno corrosivo da vossa indole e
+<span class="pagenum">[69]</span>
+da vossa f&ocirc;r&ccedil;a, n&atilde;o tardar&aacute;
+que tambem vos
+chegue outro Guilherme bastardo que vos conquiste
+e vos castigue, que vos fa&ccedil;a arrepender,
+mas tarde, do criminoso &ecirc;rro que hoje commetteis,
+&oacute; insulares sem fe, em abandonar a nossa
+allian&ccedil;a. A nossa allian&ccedil;a sim, a nossa poderosa
+allian&ccedil;a, sem a qual n&atilde;o sois nada.
+<br />
+
+<br />
+
+O que &eacute; um inglez sem Porto ou Madeira...
+sem Carcavellos ou Cartaxo?
+<br />
+
+<br />
+
+Que se inspirasse Shakspeare com Lafitte,
+Milton com Chateaumargot&#8213;o chanceller Bacon
+que se dilluisse no melhor Borgonha... e veriamos
+os acidulos versinhos, os destemperados
+raciocininhos que faziam.
+<br />
+
+<br />
+
+Com todas as suas dietas, Newton nunca
+se lembrou de beber Johannisberg; Byron antes
+beberia <em>gin</em>, antes agua do Thamisa,
+ou do Pamiso,
+do que essas escorreduras das areias de
+Bordeos.
+<br />
+
+<br />
+
+Tirae-lhe o Porto aos vossos almirantes, e ninguem
+mais teme que torneis a ter outro Nelson.
+Entra nos planos do principe de Joinville fazer-vos
+<span class="pagenum">[70]</span>
+beber da sua zurrapa: s&atilde;o tantos pontos de
+partido que lhe dais no seu j&ocirc;go.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; M. Guizot quem perde a Inglaterra com
+a sua allian&ccedil;a; e tambem perde o Cartaxo. Por
+isso eu ja n&atilde;o quero nada com os doutrinarios.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="dots"></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Ha d&ocirc;ze annos tornou o Cartaxo a figurar conspicuamente
+na historia de Portugal. Aqui, nas
+longas e terriveis luctas da &uacute;ltima guerra de
+<em>success&atilde;o</em>,
+esteve muito tempo o quartel-general do
+marquez de Saldanha.
+<br />
+
+<br />
+
+Alguns dythirambos se fizeram; alguns echos
+das antigas can&ccedil;&otilde;es bacchicas do tempo da guerra
+peninsular ainda acordaram ao som dos hymnos
+constitucionaes.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas o systema liberal, tirada a epocha das
+elei&ccedil;&otilde;es, n&atilde;o &eacute; grande
+coisa para a ind&uacute;stria vinhateira,
+dizem. Eu n&atilde;o o creio por&eacute;m; e tenho
+minhas boas raz&otilde;es, que ficam para outra vez.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c8"></a>CAPITULO VIII.
+</h3>
+
+<br />
+
+<div class="intro">Sahida do Cartaxo&#8213;A charneca. Perigo
+imminente em que
+o A. se acha de dar em poeta e fazer versos.&#8213;Ultima
+revista do imperador D. Pedro ao ex&eacute;rcito liberal.&#8213;Batalha
+de Almoster.&#8213;Waterloo.&#8213;Declara o A. solemnemente
+que n&atilde;o &eacute; philosopho e chega &aacute; ponte
+da Asseca.
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Eram dadas cinco da tarde, a calma declinava;
+mont&aacute;mos a cavallo, e cort&aacute;mos por entre
+os vi&ccedil;osos pampanos que s&atilde;o a gl&oacute;ria e
+a
+belleza do Cartaxo; as mulinhas tinham refrescado
+<span class="pagenum">[72]</span>
+cado e tomado &acirc;nimo; breve, nos ach&aacute;mos em
+plena charneca.
+<br />
+
+<br />
+
+Bella e vasta planicie! Desafogada dos raios
+do sol, como ella se desenha ahi no horisonte
+tam suavemente! que delicioso aroma selvagem
+que exhalam &eacute;stas plantas, acres e tenazes de vida,
+que a cobrem, e que resistem verdes e vi&ccedil;osas
+a um sol portugez de julho!
+<br />
+
+<br />
+
+A do&ccedil;ura que mette n'alma a vista refrigerante
+de uma joven seara do Ribatejo nos primeiros
+dias de abril, ondulando lascivamente com a brisa
+temperada da primavera,&#8213;a amenidade bucolica
+de um campo minhoto de milho, &aacute; hora
+da rega, por meados de agosto, a ver-se-lhe
+pullar os caules com a agua que lhe anda por p&eacute;, e
+&aacute; roda as carvalheiras classicamente desposadas
+com a vide cuberta de racimos pretos&#8213;s&atilde;o ambos
+esses quadros de uma poesia tam graciosa e
+cheia de mimo, que nunca a dei por bem traduzida
+nos melhores versos de Theocrito ou de Virgilio,
+nas melhores prosas de Gesner ou de Rodrigues-Lobo.
+<br />
+
+<br />
+
+A majestade sombria o solemne de um bosque
+<span class="pagenum">[73]</span>
+antigo e copado, o silencio e escurid&atilde;o
+de suas moitas mais fechadas, o abrigo solitario
+de suas clareiras, tudo &eacute; grandioso, sublime, inspirador
+de elevados pensamentos. Medita-se
+alli por f&ocirc;r&ccedil;a; isola-se a alma dos sentidos pelo
+suave adormecimento em que elles cahem... e
+Deus, a eternidade&#8213;as primitivas e innatas ideas
+do homem&#8213;ficam unicas no seu pensamento...
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; assim. Mas um rochedo em que me eu sente
+ao p&ocirc;r do sol na gandra erma e selvagem,
+vestida apenas de pastio bravo, baixo, e tosqueado
+rente da b&ocirc;cca do gado&#8213;diz-me coisas da
+terra e do ceo que nenhum outro espectaculo me
+diz na natureza. Ha um vago, um indeciso, um
+vaporoso n'aquelle quadro que n&atilde;o tem nenhum
+outro.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o &eacute; o sublime da montanha, nem o augusto
+do bosque, nem o ameno do valle. N&atilde;o ha
+ahi nada que se determine bem, que se possa
+definir positivamente. Ha a solid&atilde;o que &eacute; uma
+idea negativa...
+<br />
+
+<br />
+
+Eu amo a charneca.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[74]</span>
+E n&atilde;o sou romanesco. Romantico, Deus me
+livre de o ser&#8213;ao menos, o que na algaravia
+de hoje se intende por essa palavra.
+<br />
+
+<br />
+
+Ora a charneca d'entre Cartaxo e Santarem,
+&aacute;quella hora que a pass&aacute;mos, come&ccedil;ava
+a ter
+esse tom, e a achar-lhe eu esse incanto indefinivel.
+<br />
+
+<br />
+
+Sentia-me disposto a fazer versos... a qu&ecirc;?
+N&atilde;o sei.
+<br />
+
+<br />
+
+Felizmente que n&atilde;o estava so; e escapei de
+mais essa caturrice.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas foi como se os fizesse, os versos, como
+se os estivesse fazendo, porque me deixei cahir
+n'um verdadeiro estado poetico de distrac&ccedil;&atilde;o, de
+mudez&#8213;cessou-me a vida toda de
+<em>rela&ccedil;&atilde;o</em>, e
+n&atilde;o me sentia existir sen&atilde;o por dentro.
+<br />
+
+<br />
+
+Derepente acordou-me do lethargo uma voz
+que bradou:&#8213;'Foi aqui!... aqui &eacute; que foi, n&atilde;o ha
+d&uacute;vida'.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Foi aqui o qu&ecirc;?'
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[75]</span> &#8213;'A &uacute;ltima revista do imperador'.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'A &uacute;ltima revista! Como assim a &uacute;ltima
+revista! Quando? Pois?...'
+<br />
+
+<br />
+
+Ent&atilde;o cahi completamente em mim, e recordei-me,
+com amargura e desconsola&ccedil;&atilde;o, dos
+tremendos sacrificios a que foi condemnada &eacute;sta
+gera&ccedil;&atilde;o, Deus sabe para qu&ecirc;&#8213;Deus sabe
+se para
+expiar as faltas de nossos passados, se para comprar
+a felicidade de nossos vindouros...
+<br />
+
+<br />
+
+O certo &eacute; que alli comeffeito
+pass&aacute;ra o imperador
+D. Pedro a sua &uacute;ltima revista ao ex&eacute;rcito
+<br />
+
+<br />
+
+Toda a guerra civil &eacute; triste.
+<br />
+
+<br />
+
+E &eacute; difficil dizer para quem mais triste, se
+para o vencedor ou para o vencido.
+<br />
+
+<br />
+
+Ponham de parte quest&otilde;es individuaes, e examinem
+de boa f&eacute;: ver&atilde;o que, na totalidade de
+cada fac&ccedil;&atilde;o em que a na&ccedil;&atilde;o
+se dividiu, os ganhos, <span class="pagenum">[76]</span>se
+os houve para quem venceu, n&atilde;o balan&ccedil;am
+os padecimentos, os sacrificios do passado,
+e menos que tudo, a responsabilidade pelo futuro...<br />
+
+<br />
+
+Eu n&atilde;o sou philosopho. Aos olhos do philosopho,
+a guerra civil e a guerra extrangeira, tudo
+s&atilde;o guerras que elle condemna&#8213;e n&atilde;o mais
+uma do que a outra... a n&atilde;o ser Hobbes o ditto
+philosopho, o que &eacute; coisa muito differente.<br />
+
+<br />
+
+Mas n&atilde;o sou philosopho, eu: estive no campo
+de Waterloo, sentei-me aop&eacute; do Le&atilde;o de bronze
+s&ocirc;bre aquelle monte de terra amassado com o
+sangue de tantos mil, vi&#8213;e eram passados vinte
+annos&#8213;vi luzir ainda pela campina os ossos brancos
+das victimas que alli se immolaram a n&atilde;o sei
+qu&ecirc;... Os povos disseram que &aacute; liberdade, os
+reis que &aacute; realeza... Nenhuma d'ellas ganhou muito,
+nem para muito tempo com a tal victoria...<br />
+
+<br />
+
+Mas deixemos isso. Estive alli, e senti bater-me
+o cora&ccedil;&atilde;o com essas
+recorda&ccedil;&otilde;es, com
+essas memorias dos grandes feitos e gentilezas que
+alli se obraram.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[77]</span>
+Porque ser&aacute; que aqui n&atilde;o sinto sen&atilde;o
+tristeza?
+<br />
+
+<br />
+
+Porque luctas fratricidas n&atilde;o podem inspirar
+outro sentimento e porque...
+<br />
+
+<br />
+
+Eu mo&iacute;a comigo so &eacute;stas amargas
+reflex&otilde;es,
+e toda a belleza da charneca desappareceu deante
+de mim.
+<br />
+
+<br />
+
+N'esta desagradavel disposi&ccedil;&atilde;o de
+&acirc;nimo cheg&aacute;mos
+&aacute; ponte d'Asseca.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c9"></a>CAPITULO IX.
+</h3>
+
+<br />
+
+<div class="intro">Prolegomenos dramatico-litterarios, que
+muito naturalmente
+levam, apezar de alguns rodeios, ao retrospecto e
+reconsidera&ccedil;&atilde;o
+do capitulo antecedente.&#8213;Livros que n&atilde;o deviam
+ter titulo, e titulos que n&atilde;o deviam ter livro.&#8213;Dos poetas
+d'este seculo. Bonaparte, Rotchild e
+Silvio-P&eacute;llico.&#8213;Chega-se
+ao fim d'estas reflex&otilde;es e &aacute; ponte da
+Asseca.&#8213;Traduc&ccedil;&atilde;o
+portugueza de um grande poeta.&#8213;Origem de um dictado.&#8213;Junot
+na ponte da Asseca.&#8213;De como o A. d'este
+livro foi jacobino desde pequeno.&#8213;Ingui&ccedil;o que lhe deram.&#8213;A
+duqueza de Abrantes.&#8213;Chega-se emfim ao val
+de Santarem.
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Vivia aqui ha coisa de cinquenta para sessenta
+annos, n'esta boa terra de Portugal, um figur&atilde;o
+exquisitissimo que tinha inquestionavelmente
+o instincto de descobrir assumptos dramaticos
+<span class="pagenum">[80]</span>
+nacionaes&#8213;ainda, &aacute;s vezes, a arte de desenhar
+bem o seu quadro, de lhe grupar, n&atilde;o sem m&eacute;rito,
+as figuras: mas ao p&ocirc;-las em ac&ccedil;&atilde;o, ao
+collori-las, ao faz&ecirc;-las fallar... boas noites! era
+semsaboria irremediavel.
+<br />
+
+<br />
+
+Deixou uma collec&ccedil;&atilde;o immensa de pe&ccedil;as
+de
+theatro que ninguem conhece, ou quasi ninguem,
+e que nenhuma soffreria, talvez, representa&ccedil;&atilde;o;
+mas rara &eacute; a que n&atilde;o poderia ser arranjada e
+appropriada
+&aacute; scena.
+<br />
+
+<br />
+
+Que mina tam ricca e fertil para qualquer mediano
+talento dramatico! Que bellas e portuguezas
+coisas se n&atilde;o podem extrahir dos treze
+volumes&#8213;s&atilde;o
+treze volumes e grandes!&#8213;do theatro
+de Ennio-Manuel de Figueiredo! Algumas
+d'essas pe&ccedil;as, com bem pouco trabalho, com
+um dialogo mais vivo, um stylo mais animado,
+fariam comedias excelentes.
+<br />
+
+<br />
+
+Est&atilde;o-me a lembrar &eacute;stas:
+<br />
+
+<br />
+
+'O Casamento da Cadea'&#8213;ou talvez se chame
+outra coisa, mas o assumpto &eacute; este; comedia
+cujos characteres s&atilde;o habilmente esbo&ccedil;ados,
+<span class="pagenum">[81]</span>
+funda-se n'aquella nossa antiga lei que fazia casar
+da pris&atilde;o os que assim se suppunha pod&ecirc;rem
+reparar certos damnos de reputa&ccedil;&atilde;o feminina.
+<br />
+
+<br />
+
+'O fidalgo de sua casa', satyra mui graciosa
+de um tam commum ridiculo nosso.
+<br />
+
+<br />
+
+'As duas educa&ccedil;&otilde;es', bello quadro de costumes:
+s&atilde;o dois rapazes, ambos extrangeiramente educados,
+um francez, outro inglez, nenhum portuguez.
+&Eacute; eminentemente comico, frisante, ou,
+segundo agora se diz &aacute; moda, 'palpitante de
+actualidade.'
+<br />
+
+<br />
+
+'O cioso', comedia ja remo&ccedil;ada da antiga comedia
+de Ferreira e que em si tem os germens
+todos da mais ricca e original composi&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+'O avaro dissipador', cujo so titulo mostra o
+ingenho e inven&ccedil;&atilde;o de quem tal assumpto concebeu:
+assumpto ainda n&atilde;o tractado por nenhum
+de tantos escriptores dramaticos de na&ccedil;&atilde;o alguma,
+e que &eacute; todavia um vulgar ridiculo, todos os dias
+incontrado no mundo.
+<br />
+
+<br />
+
+S&atilde;o muitas mais, n&atilde;o fica n'estas, as
+composi&ccedil;&otilde;e
+S&atilde;o muitas mais, n&atilde;o fica n'estas, as
+composi&ccedil;&otilde;es
+<span class="pagenum">[82]</span>
+do fertilissimo escriptor que, passadas
+pelo
+crivo de melhor g&ocirc;sto, e animadas s&ocirc;bretudo
+no stylo, fariam um razoavel repertorio para acudir
+&aacute; mingua dos nossos theatros.
+<br />
+
+<br />
+
+Uma das mais semsabores por&ecirc;m, a que vulgarmente
+se haver&aacute; talvez pela mais semsabor,
+mas que a mim mais me diverte pela ingenuidade
+familiar e sympathica de seu tom magoado
+e melancholicamento chocho, &eacute; a que tem por titulo
+'Poeta em annos de prosa'.
+<br />
+
+<br />
+
+E foi por &eacute;sta, foi por amor d'esta que me
+eu deixei descahir na digress&atilde;o dramatico-litteraria
+do princ&iacute;pio d'este capitulo; pegou-se-me
+&aacute; penna porque se me tinha pregado na cabe&ccedil;a;
+e ou o capitulo n&atilde;o sabia, ou ella havia de sahir
+primeiro.
+<br />
+
+<br />
+
+Poeta em annos de prosa! Oh Figueiredo, Figueiredo,
+que grande homem n&atilde;o foste tu, pois imaginaste
+este titulo que so elle em si &eacute; um volume!
+Ha livros, e conhe&ccedil;o muitos, que n&atilde;o deviam
+ter titulo, nem o titulo &eacute; nada n'elles.
+<br />
+
+<br />
+
+Faz favor de me dizer o de que serve, o que
+<span class="pagenum">[83]</span>
+significa o 'Judeu errante' p&ocirc;sto no frontispicio d'esse
+interminavel e mercatorio romance que ahi anda
+pelo mundo, mais errante, mais sem fim,
+mais immorredoiro que o seu prototypo?
+<br />
+
+<br />
+
+E ha titulos tambem que n&atilde;o deviam ter livro,
+porque nenhum livro &eacute; possivel escrever que
+os desimpenhe como elles merecem.
+<br />
+
+<br />
+
+'Poeta em annos de prosa' &eacute; um d'esses.
+<br />
+
+<br />
+
+Eu n&atilde;o leio nenhuma das raras coisas que hoje
+se escrevem verdadeiramente bellas, isto &eacute;,
+simples, verdadeiras, e por consequencia sublimes,
+que n&atilde;o exclame com sincero pesadume
+ca de dentro: 'Poeta em annos de prosa!'
+<br />
+
+<br />
+
+Pois este &eacute; seculo para poetas? ou temos
+n&oacute;s poetas para este seculo?..
+<br />
+
+<br />
+
+Temos sim, eu conhe&ccedil;o tres: Bonaparte,
+Silvio-P&eacute;llico
+e o bar&atilde;o de Rotchild.
+<br />
+
+<br />
+
+O primeiro fez a sua Iliada com a espada, o
+segundo com a paciencia, o &uacute;ltimo com o dinheiro.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[84]</span>
+S&atilde;o os tres agentes, as tres entidades, as tres
+divindades da epocha.
+<br />
+
+<br />
+
+Ou cortar com Bonaparte, ou comprar com
+Rotchild, ou soffrer e ter paciencia com Silvio-P&eacute;llico.
+<br />
+
+<br />
+
+Todo o que fizer d'outra poesia&#8213;e d'outra
+prosa tambem&#8213;&eacute; tolo...
+<br />
+
+<br />
+
+Vieram-me &eacute;stas mui judiciosas reflex&otilde;es a
+proposito do capitulo antecedente d'esta minha
+obra prima; e lancei-as aqui para instruc&ccedil;&atilde;o e
+edifica&ccedil;&atilde;o do leitor benevolo.
+<br />
+
+<br />
+
+Acabei com ellas quando cheg&aacute;mos &aacute; ponte
+da Asseca.
+<br />
+
+<br />
+
+Esquecia-me dizer que d'aquelles tres grandes
+poetas so um est&aacute; traduzido em portuguez&#8213;o
+Rotchild: n&atilde;o &eacute; litteral a
+traduc&ccedil;&atilde;o, agallegou-se
+e ficou muito suja de erros de imprensa mas
+como n&atilde;o ha outra...
+<br />
+
+<br />
+
+Ora d'onde veio este nome da Asseca? Algures
+aqui perto deve de haver sitio, logar ou coisa
+<span class="pagenum">[85]</span>que o valha, com o
+nome de Meca; e d'ahi talvez
+o admiravel rif&atilde;o portuguez que ainda n&atilde;o
+foi bem examinado como devia ser, e que decerto
+incerra algum grande dictame de moral primitiva:
+'andou por Secca (Asseca?) e Meca e
+olivaes de Santarem.'&#8213;Os taes olivaes ficam logo
+adiante. &Eacute; uma ethymologia como qualquer
+outra.
+<br />
+
+<br />
+
+A ponte da Asseca corta uma varzea immensa
+que hade ser um vasto pahul de hynverno:
+ainda agora est&aacute; a desangrar-se em agua por
+toda a parte.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; notavel na historia moderna este s&iacute;tio. Aqui
+n'um recontro com os nossos, foi Junot gravemente
+ferido, ferido na cara. <em>'Il ne sera plus
+beau gar&ccedil;on'</em> disse o parlamentario francez
+que
+veio, depois da ac&ccedil;&atilde;o, tractar, creio eu, de
+troca
+de prisioneiros ou de coisa similhante. Mas
+inganou-se o parlamentario; Junot ainda ficou
+muito guapo e gentil homem depois d'isso.
+<br />
+
+<br />
+
+Tenho pena de nunca ter visto o Junot nem o
+Maneta,<sup><a href="#1">[1]</a></sup>
+as duas primeiras notabilidades que ouvi
+<span class="pagenum">[86]</span>
+aclamar como taes e cujos nomes conhec&iacute;... Ingano-me:
+conheci primeiro o nome de Bonaparte.
+E lembra-me muito bem que nunca me persuadi
+que elle fossa o monstro disforme e horroroso
+que nos pintavam frades e velhas n'aquelle
+tempo. Imaginei sempre que, para excitar tantos
+odios e malqueren&ccedil;as, era necessario que fosse
+um bem grande homem.
+<br />
+
+<br />
+
+Desde pequeno que fui jacobino; ja se ve: e de
+pequeno me custou caro. Levei bons puch&otilde;es de
+orelhas de meu pae por comprar na feira de San'Lazaro,
+no Porto, em vez das gaitinhas ou dos
+registos de sanctos, ou das outras bogigangas que
+os mais rapazes compravam... n&atilde;o imaginam o
+qu&ecirc;... um retrato de Bonaparte.
+<br />
+
+<br />
+
+Foi 'ingui&ccedil;o'&#8213;diria uma senhora do meu conhecimento
+que accredita n'elles: foi ingui&ccedil;o que a&iacute;nda
+se n&atilde;o desfez e que toda a vida me tem perseguido.
+<br />
+
+<br />
+
+Quem me diria quando, por esse primeiro
+peccado politico da minha infancia, por esse primeiro
+tractamento duro, e&#8213;perdoe-me a respeitada
+memoria de meu sancto pae!&#8213;injustissimo,
+que me trouxe o mero instincto das ideas
+<span class="pagenum">[87]</span>
+liberaes, quem me diria que eu havia de ser perseguido
+por ellas toda a vida! que apenas sahido
+da puberdade havia de ir a essa mesma Fran&ccedil;a,
+&aacute; patria d'esses homens e d'essas ideas com
+quem a minha natureza sympathysava sem saber
+porqu&ecirc;, buscar asylo e guarida?
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o vi ja quasi nenhum d'aquelles que tanto
+desej&aacute;ra conhecer; as ruinas do grande imperio
+estavam dispersas; os seus generaes mortos, desterrados,
+ou trajavam interesseiros e covardes as
+libr&eacute;s do vencedor...
+<br />
+
+<br />
+
+De todas as grandes figuras d'essa epocha, a
+que melhor conheci e tractei foi uma senhora,
+typo de gra&ccedil;a, de amabilidade e de talento. Pouco
+foi o nosso tracto, mas quanto bastou para me
+incantar, para me formar no espirito um mod&ecirc;llo
+de valor e merecimento feminino que me
+veio a fazer muito mal.
+<br />
+
+<br />
+
+Custa depois a encher aquella altura que se
+marcou...
+<br />
+
+<br />
+
+Eis aqui como eu fiz esse conhecimento.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[88]</span>
+Inda o estou vendo, coitado! o pobre C. do
+S., nobre, espirituoso, cavalheiro, fazendo-se
+perdoar todos os seus prejuizos de casta, que tinha
+como ninguem, por aquella polidez superior
+e affabilidade elegante que distingue o verdadeiro
+fidalgo (stylo antigo); inda o estou vendo, ja
+sexagenario, ja mais que 'ci-devant jeun'homme',
+o pesco&ccedil;o intallado na inflexivel gravata, os p&eacute;s
+pegando-se-lhe, como os de Ovidio, ao limiar
+da porta&#8213;n&atilde;o que lh'os prendessem saudades,
+sen&atilde;o que lh'os paralysava a cakexia incipiente&#8213;mas
+o espirito joven a reagir e a teimar.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Vamos!'&nbsp;disse elle 'hoje estou bom,
+sinto-me
+outro: quero apresent&aacute;-lo a madame de
+Abrantes. Est&aacute; tam velha! Isto de mulheres n&atilde;o
+s&atilde;o como n&oacute;s, passam muito depressa.'
+<br />
+
+<br />
+
+E o desgra&ccedil;ado tremiam-lhe as pernas, e suffocava-o
+a tosse.
+<br />
+
+<br />
+
+Tom&aacute;mos uma 'citadine', e fomos comeffeito
+&aacute; nova e elegante rua chamada n&atilde;o impropriamente
+a rua de Londres, onde ach&aacute;mos rodeada
+de todo o esplendor do seu occaso aquella
+formosa estrella do imperio.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p89">[89]</a></span>
+N&atilde;o quero dizer que era uma belleza; longe
+d'isso. Nem bella nem m&ocirc;&ccedil;a, nem airosa
+de faser impress&atilde;o era a duqueza d'Abrantes.
+Mas em meia hora de conversa&ccedil;&atilde;o, de tracto,
+descubriam-se-lhe tantas gra&ccedil;as, tanto natural,
+tanta amabilidade, um complexo tam verdadeiro
+e perfeito da mulher franceza, a mulher mais
+seductora do mundo, que involuntariamente se
+dizia a gente no seu cora&ccedil;&atilde;o: 'Como se
+est&aacute; bem
+aqui!'
+<br />
+
+<br />
+
+Fall&aacute;mos de Portugal, de Lisboa, do imperio&#8213;da
+restaura&ccedil;&atilde;o, da revolu&ccedil;&atilde;o
+de julho (isto era em
+1831), de M. de Lafayette, de Luiz-Philippe, de
+Chateaubriand&#8213;o seu grande amigo d'ella&#8213;<a name="n11"></a>do
+<em>Sacr&eacute;-Coeur</em> e das suas
+elegantes devotas&#8213;fall&aacute;mos
+artes, poesia, politica... e eu n&atilde;o <a href="#e7">tinha
+&acirc;nimo</a>
+para acabar de conversar...
+<br />
+
+<br />
+
+Benevolo e paciente leitor, o que eu tenho decerto
+ainda &eacute; consciencia, um resto de consciencia:
+acabemos com &eacute;stas digress&otilde;es e perennaes
+divaga&ccedil;&otilde;es minhas. Bem vejo que te deixei parado
+&aacute; minha espera no meio da ponte d'Asseca.
+Perdoa-me por quem es, d&ecirc;mos d'espora &aacute;s mulinhas,
+e vamos que s&atilde;o horas.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[90]</span>
+Ca est&acirc;mos n'um dos mais lindos e deliciosos
+sitios da terra: o valle de Santarem, patria dos
+rouxinoes e das madresilvas, cincta de faias
+bellas e de loureiros vi&ccedil;osos. D'isto &eacute; que
+n&atilde;o tem
+Par&iacute;s, nem Fran&ccedil;a nem terra alguma do occidente
+sen&atilde;o a nossa terra, e vale bem por tantas,
+tantas coisas que nos faltam.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c10"></a>CAPITULO X.
+</h3>
+
+<br />
+
+<div class="intro">Valle de Santarem&#8213;Namora-se o A. de
+uma janella que
+ve
+por entre umas &aacute;rvores.&#8213;Conjecturas v&aacute;rias a
+respeito da
+ditta janella.&#8213;Similhan&ccedil;a do poeta com a mulher namorada,
+e inquestionavel inferioridade do homem que n&atilde;o &eacute;
+poeta.&#8213;Os rouxinoes. Reminiscencia de Bernardim Ribeiro
+e das suas saudades.&#8213;De como o A. tinha quasi completo
+o seu romance, menos um vestido branco e uns olhos
+pretos.&#8213;Sahem verdes os olhos com grande
+admira&ccedil;&atilde;o e
+pasmo seu.&#8213;Verificam-se as conjecturas s&ocirc;bre a mysteriosa
+janella.&#8213;A menina dos rouxinoes.&#8213;Censura das damas
+muito para temer, cr&iacute;tica dos elegantes muito para
+rir.&#8213;Come&ccedil;a
+o primeiro episodio d'esta Odyssea.
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+O valle de Santarem &eacute; um d'estes logares
+privilegiados pela natureza, sitios amenos e
+deleitosos em que as plantas, o ar, a situa&ccedil;&atilde;o,
+tudo est&aacute; n'uma harmonia suavissima e perfeita:
+<span class="pagenum">[92]</span>
+n&atilde;o ha alli nada grandioso nem sublime,
+mas ha uma como symetria de c&ocirc;res, de sons,
+de disposi&ccedil;&atilde;o em tudo quanto se ve e se sente,
+que n&atilde;o parece sen&atilde;o que a paz, a saude, o
+soc&ecirc;go
+do espirito e o repouso do cora&ccedil;&atilde;o devem
+viver alli, reinar alli um reinado de amor e benevolencia.
+As paix&otilde;es m&aacute;s, os pensamentos mesquinhos,
+os pezares e as villezas da vida n&atilde;o podem
+sen&atilde;o fugir para longe. Imagina-se por aqui
+o Eden que o primeiro homem habitou com a
+sua innocencia e com a virgindade do seu cora&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&Aacute; esquerda do valle, e abrigado do norte pela
+montanha que alli se corta quasi a pique, est&aacute;
+um masisso de verdura do mais bello vi&ccedil;o e
+variedade. A faia, o freixo, o alamo enterla&ccedil;am
+os ramos amigos; a madresilva, a musqueta
+penduram de um a outro suas grinaldas e fest&otilde;es;
+a congossa, os fettos, a malva-rosa do vallado
+vestem e alcatifam o ch&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Para mais real&ccedil;ar a belleza do quadro, ve-se
+por entre um claro das &aacute;rvores a janella meia
+aberta de uma habita&ccedil;&atilde;o antiga mas n&atilde;o
+dilapidada&#8213;com
+certo ar de conf&ocirc;rto grosseiro, e
+<span class="pagenum">[93]</span>
+carregada na c&ocirc;r pelo tempo e pelos vendavais
+do sul a que est&aacute; exposta. A janella &eacute; larga e
+baixa; parece mais ornada e tambem mais antiga
+que o resto do edificio que todavia mal se ve...<br />
+
+<br />
+
+Interessou-me aquella janella.
+<br />
+
+<br />
+
+Quem ter&aacute; o bom g&ocirc;sto e a fortuna de morar alli?
+<br />
+
+<br />
+
+Parei e puz-me a namorar a janella.
+<br />
+
+<br />
+
+Incantava-me, tinha-me alli como n'um feiti&ccedil;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Pareceu-me entrever uma cortina branca... e
+um vulto por de traz... Imaginar&atilde;o decerto! Se
+o vulto fosse feminino!.. era completo o romance.
+<br />
+
+<br />
+
+Como hade ser bello ver p&ocirc;r o sol d'aquella
+janella!..
+<br />
+
+<br />
+
+E ouvir cantar os rouxinoes!..
+<br />
+
+<br />
+
+E ver raiar uma alvorada de maio!..
+<br />
+
+<br />
+
+Se haver&aacute; alli quem a aproveite, a deliciosa
+janella?.. quem apprecie e saiba gosar todo o prazer
+<span class="pagenum">[94]</span>
+tranquillo, todos os sanctos gosos de alma
+que parece que lhe andam esvoa&ccedil;ando em t&ocirc;rno?
+<br />
+
+<br />
+
+Se f&ocirc;r homem &eacute; poeta; se &eacute; mulher
+est&aacute; namorada.
+<br />
+
+<br />
+
+S&atilde;o os dois entes mais parecidos da natureza,
+o poeta e a mulher namorada: v&ecirc;em, sentem,
+pensam, fallam como a outra gente n&atilde;o ve, n&atilde;o
+sente, n&atilde;o pensa nem falla.
+<br />
+
+<br />
+
+Na maior paix&atilde;o, no mais acrysolado affecto
+do homem que n&atilde;o &eacute; poeta, entra sempre o seu
+tanto da vil prosa humana: &eacute; liga sem que se n&atilde;o
+lavra o mais fino de seu oiro. A mulher n&atilde;o; a
+mulher apaixonada dev&eacute;ras sublima-se, idealiza-se
+logo, toda ella &eacute; poesia; e n&atilde;o ha dor physica,
+inter&ecirc;sse material, nem deleites sensuaes que
+a fa&ccedil;am descer ao positivo da existencia prosaica.
+<br />
+
+<br />
+
+Estava eu n'estas medita&ccedil;&otilde;es, come&ccedil;ou
+um
+rouxinol a mais linda e desgarrada cantiga que
+ha muito tempo me lembra de ouvir.
+<br />
+
+<br />
+
+Era aope da ditta janella!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p95">[95]</a></span>
+E respondeu-lhe logo outro do lado opposto;
+e travou-se entre ambos um desafio tam regular,
+em strophes alternadas tam bem medidas, tam
+accentuadas e perfeitas, que eu fiquei todo dentro
+do meu romance, esqueci-me de tudo o
+mais.
+<br />
+
+<br />
+
+Lembrou-me o rouxinol de Bernardim-Ribeiro,
+o que se deixou cahir n'agua de can&ccedil;ado.
+<br />
+
+<br />
+
+O arvoredo, a janella, os rouxinoes... &aacute;quella
+hora, o fim da tarde... que faltava para completar
+o romance?
+<br />
+
+<br />
+
+Um vulto feminino que viesse sentar-se &aacute;quele
+balc&atilde;o&#8213;vestido de branco&#8213;oh! branco por
+f&ocirc;r&ccedil;a... a frente descahida s&ocirc;bre a
+m&atilde;o <a href="#e8">esquerda</a>,
+o bra&ccedil;o direito pendente, os olhos al&ccedil;ados
+ao ceo... De que c&ocirc;r os olhos? N&atilde;o sei, que
+importa! &eacute; amiudar muito demais a pintura,
+que deve ser a grandes e largos tra&ccedil;os para ser
+romantica, vaporosa, desenhar-se no vago da
+idealidade poetica...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Os olhos, os olhos...' disse eu pensando
+ja alto, e todo no meu extasi, 'os olhos... pretos.'
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[96]</span> &#8213;'Pois eram verdes!'<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Verdes os olhos... d'ella, do vulto da
+janella?'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Verdes como duas esmeraldas orientaes,
+transparentes, brilhantes, sem pre&ccedil;o.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Qu&ecirc;! pois realmente?.. &Eacute; gracejo isso,
+ou realmente ha alli uma mulher, bonita, e?..'<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Alli n&atilde;o ha ninguem&#8213;ninguem que se
+nomeie hoje, mas houve... oh! houve um anjo,
+um anjo, que deve de estar no ceo.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Bem dizia eu que aquella janella...'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'&Eacute; a janella dos rouxinoes.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Que l&aacute; est&atilde;o a cantar.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Est&atilde;o, esses l&aacute; est&atilde;o ainda como ha
+dez annos&#8213;os
+mesmos ou outros, mas a <em>menina dos
+rouxinoes</em> foi-se e n&atilde;o voltou.'
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p97">[97]</a></span> &#8213;'A menina dos rouxinoes! que historia &eacute;
+essa? Pois dev&eacute;ras tem <a href="#e9">uma
+historia</a> aquella janella?'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'&Eacute; um romance todo inteiro, <em>todo
+feito</em> como
+dizem os francezes e conta-se em duas palavras.'<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Vamos a elle. A menina dos rouxinoes,
+menina com olhos verdes! Deve ser interessantissimo.
+Vamos &aacute; historia ja.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Pois vamos. Apeemo'-nos e descancemos
+um bocado.'
+<br />
+
+<br />
+
+Ja se ve que este dialogo passava entre mim
+e outro dos nossos companheiros de viagem.
+<br />
+
+<br />
+
+Ape&aacute;mo'-nos comeffeito; sentamo'-nos; e eisaqui
+a historia da <em>menina dos rouxinoes</em>
+como
+ella se contou.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; o primeiro episodio da minha Odyssea: estou
+com medo de entrar n'elle porque dizem as
+damas e os elegantes da nossa terra que o portuguez
+n&atilde;o &eacute; bom para isto, que em francez que
+ha outro n&atilde;o-sei-qu&ecirc;...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[98]</span>
+Eu creio que as damas que est&atilde;o mal informadas,
+e sei que os elegantes que s&atilde;o uns tolos;
+mas sempre tenho meu receio, porque emfim,
+enfim, d'elles me rio eu, mas poesia ou romance,
+musica ou drama de que as mulheres
+n&atilde;o gostem, &eacute; porque n&atilde;o presta.
+<br />
+
+<br />
+
+Ainda assim, bellas e amaveis leitoras, intendamo'nos:
+o que eu vou contar n&atilde;o &eacute; um romance,
+n&atilde;o tem aventuras inredadas, peripecias,
+situa&ccedil;&otilde;es
+e incidentes raros; &eacute; uma historia simples
+e singella, sinceramente contada e sem preten&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Acabemos aqui o capitulo em f&oacute;rma de prologo,
+e a materia do meu conto para o seguinte.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c11"></a>CAPITULO XI.
+</h3>
+
+<br />
+
+<div class="intro">
+Tracta-se do unico privilegio dos poetas que tambem os philosophos
+quizeram tirar, mas n&atilde;o lhes foi concedido;
+aos romancistas sim.&#8213;Exemplo de Aristoteles e Anacreonte.&#8213;O
+A., tendo declarado no capitulo nono
+d'esta obra que n&atilde;o era philosopho, agora confessa, quasi
+solemnemente, que &eacute; poeta, e pretende manter-se, como tal,
+em seu direito.&#8213;De como S. M. elrei de Dinamarca tinha
+menos juizo do que Yorick, seu bobo.&#8213;Doutrina d'este.
+Funda n'ella o A. o seu admiravel systema de physiologia
+e pathologia transcendente do cora&ccedil;&atilde;o. Por uma
+deduc&ccedil;&atilde;o
+appertada e cerrada da mais constrangente logica vem a dar-se
+no motivo porque foi concedido aos poetas o direito
+indefinido de andarem sempre namorados.&#8213;Applicam-se
+todas &eacute;stas grandes theorias &aacute;
+posi&ccedil;&atilde;o actual do A. no momento
+de entrar no episodio promettido no capitulo antecedente.&#8213;Modestia
+e reserva delicada o obrigam a duvidar
+da sua qualifica&ccedil;&atilde;o para o desimpenho: pede votos
+&aacute;s amaveis leitoras. Decide-se que a
+vota&ccedil;&atilde;o n&atilde;o seja nominal,
+e porqu&ecirc;.&#8213;Dido e a mana Annica.&#8213;Entra-se emfim
+na prometida historia.&#8213;De como a velha estava &aacute; porta a
+dobar, e imbara&ccedil;ando-se-lhe a meada, chamou por
+Joaninha,
+sua neta.
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Este &eacute; o unico privilegio dos poetas: que
+at&eacute; morrer podem estar namorados. Tambem
+n&atilde;o lhes conhe&ccedil;o outro. A mais gente tem as
+suas epochas na vida, f&oacute;ra das quaes lhes n&atilde;o
+&eacute;
+<span class="pagenum">[100]</span>
+permittido apaixonarem-se. Pretenderam accolher-se
+ao mesmo beneficio os philosophos, mas
+n&atilde;o lhes foi consentido pela rainha Opini&atilde;o, que
+&eacute; soberana absoluta e juiz supremo de que se n&atilde;o
+appella nem aggrava ninguem.
+<br />
+
+<br />
+
+Anacreonte cantou, de cabellos brancos, os
+seus amores, e n&atilde;o se extranhou. Aristoteles mal
+teria a barba russa quando foi d'aquelle seu &uacute;ltimo
+nam&ocirc;ro porque ainda hoje lhe apouquentam a fama.
+<br />
+
+<br />
+
+Ora eu philosopho, seguramente n&atilde;o sou, ja o
+disse; de poeta tenho o meu pouco, padeci, a
+fallar a verdade, meus ataques ass&aacute;s agudos d'essa
+molestia, e bem pod&eacute;ra desculpar-me com elles
+de certas fragilidades de cora&ccedil;&atilde;o... Mas
+n&atilde;o senhor,
+n&atilde;o quero desculpar-me como quem tem
+culpa sen&atilde;o defender-me como quem tem raz&atilde;o
+e justi&ccedil;a por si.
+<br />
+
+<br />
+
+Estou, com o meu amigo Yorick, o ajuizadissimo
+bobo d'elrei de Dinamarca, o que alguns
+annos depois ressuscitou em Sterne com tam
+elegante penna, estou sim. 'Toda a minha vida'
+diz elle 'tenho andado apaixonado ja por esta ja
+por aquella princeza, e assim heide ir, espero,
+<span class="pagenum">[101]</span>
+at&eacute; morrer, firmemente persuadido que se algum
+dia fizer uma ac&ccedil;&atilde;o baixa, mesquinha, nunca
+hade ser sen&atilde;o no intervallo de uma paix&atilde;o
+&aacute; outra:
+n'esses interregnos sinto fechar-se-me o cora&ccedil;&atilde;o,
+esfria-me o sentimento, n&atilde;o acho dez reis
+que dar a um pobre... por isso fujo &aacute;s carreiras
+de similhante estado; e mal me sinto acceso de
+novo, sou todo generosidade e benevolencia outra
+vez.'
+<br />
+
+<br />
+
+Yorick tem ras&atilde;o, tinha muito mais raz&atilde;o e juizo
+que seu augusto amo, elrei de Dinamarca. Por
+pouco mais que se generalize o principio, fica
+indisputavel, inexcepcionavel para sempre e para
+tudo. O cora&ccedil;&atilde;o humano &eacute; como o
+estomago humano,
+n&atilde;o pode estar vazio, preciza de alimento
+sempre: s&atilde;o e generoso so as affei&ccedil;&otilde;es
+lh'o podem
+dar; o odio, a inveja e toda a outra paix&atilde;o m&aacute;
+&eacute;
+est&iacute;mulo que so irrita mas n&atilde;o sustenta. Se a
+raz&atilde;o
+e a moral nos mandam abster d'estas paix&otilde;es,
+se as chymeras philosophicas, ou outras, nos vedarem
+aquellas, que alimento dareis ao cora&ccedil;&atilde;o,
+que hade elle fazer? Gastar-se s&ocirc;bre si mesmo,
+consummir-se... Altera-se a vida, appressa-se a
+dissolu&ccedil;&atilde;o moral da existencia, a saude d'alma
+&eacute;
+impossivel.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[102]</span>
+O que p&oacute;de viver assim, vive para fazer mal
+ou para n&atilde;o fazer nada.
+<br />
+
+<br />
+
+Ora o que n&atilde;o ama, que n&atilde;o ama apaixonadamente,
+seu filho se o tem, sua m&atilde;e se a conserva,
+ou a mulher que prefere a todas, esse
+homem &eacute; o tal, e Deus me livre d'elle.
+<br />
+
+<br />
+
+S&ocirc;bretudo que n&atilde;o escreva: hade ser um massador
+terrivel. Talvez seja este o motivo da indefinida
+permiss&atilde;o que &eacute; dada aos poetas de andarem
+namorados sempre.
+<br />
+
+<br />
+
+O romancista gosa do mesmo f&ocirc;ro e tem as mesmas
+obriga&ccedil;&otilde;es. &Eacute; como o privilegio de
+desimbargador
+que tiravam d'antes os fidalgos, quando ser desimbargador
+valia alguma coisa... e tanta coisa!
+<br />
+
+<br />
+
+Como heide eu ent&atilde;o, eu que n'esta grave
+Odyssea das minhas viagens tenho de inserir o
+mais interessante e mysterioso episodio d'amor
+que ainda foi contado ou cantado, como heide
+eu faz&ecirc;-lo, eu que ja n&atilde;o tenho que amar n'este
+mundo sen&atilde;o uma saudade e uma esperan&ccedil;a&#8213;um
+filho no ber&ccedil;o e uma mulher na cova?..
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[103]</span>
+Ser&aacute; isto bastante? Dizei-o v&oacute;s, &oacute;
+benevolas
+leitoras, p&oacute;de com isto so alimentar-se a vida
+do cora&ccedil;&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;P&oacute;de sim.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o p&oacute;de, n&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&atilde;o divididos os suffragios: pe&ccedil;o
+vota&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Nominal?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, n&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Porqu&ecirc;?
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Porque ha muita coisa que a gente pensa,
+e cr&ecirc; e diz assim a conversar, mas que n&atilde;o ousa
+confessar publicamente, professar aberta e nomeadamente
+no mundo...
+<br />
+
+<br />
+
+Ah! sim... elle &eacute; isso? Bem as intendo, minhas
+senhoras: reservemos sempre uma sahida
+para os casos difficeis, para as circumstancias extraordinarias.
+N&atilde;o &eacute; assim?
+<br />
+
+<br />
+
+Pois o mesmo farei eu.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[104]</span>
+E p&ocirc;sto que hoje, faz hoje um mez, em tal
+dia como hoje, dia para sempre assignalado na
+minha vida, me apparecesse uma vis&atilde;o, uma vis&atilde;o
+celeste que me surpreendeu a alma por um
+modo novo e extranho, e do qual n&atilde;o podia dizer
+decerto como a rainha Dido &aacute; mana Annica:
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry">
+Reconhe&ccedil;o o queimar da chamma antiga,<br />
+
+Agnosco veteris vestigia flammae;
+</div>
+
+<br />
+
+p&ocirc;sto que a vis&atilde;o passou e desappareceu... mas
+deixou gravada n'alma a certeza de que... P&ocirc;sto
+que seja assim tudo isto, a confidencia n&atilde;o
+passar&aacute;
+d'aqui, minhas senhoras: tanto basta para
+se saber que estou sufficientemente habilitado para
+chronista da minha historia, e a minha historia
+&eacute; &eacute;sta.
+<br />
+
+<br />
+
+Era no anno de 1832, uma tarde de ver&atilde;o
+como hoje calmosa, s&ecirc;cca, mas o ceo puro e desabafado.
+&Aacute; porta d'essa casa entre o arvoredo,
+estaca sentada uma velhinha bem passante dos
+settenta, mas que o n&atilde;o mostrava. Vestia uma
+especie de tunica rosa que apertava na cintura
+com um largo cinto de coiro preto, e que fazia
+resahir a alvura da cara e das m&atilde;os longas, descarnadas,
+mas n&atilde;o ossudas como usam de ser m&atilde;os
+de velhas; toucava-se com um len&ccedil;o da mais escrupulosa
+<span class="pagenum">[105]</span>brancura, e
+p&ocirc;sto de um geito particular
+a modo de toalha de freira; um mandil da
+mesma brancura, que tinha no peito e que affectava,
+n&atilde;o menos, a f&oacute;rma de um escapulario de
+monja, completava o extranho vestuario da velha.
+Estava sentada n'uma cadeira baixa do mais
+classico feitio: textualmente parecia a que serviu
+de mod&ecirc;llo a Raphael para o seu bello quadro
+da <em>Madonna della Sedia</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Como nota historica e illustra&ccedil;&atilde;o artistica,
+seja-me
+permittido juntar aqui em parenthesis que,
+n&atilde;o ha muito, vi em casa de um sapateiro
+remend&atilde;o,
+em Lisboa, no Bairro-alto, um cadeira
+tal e qual; torneados pyramidaes, simples,
+sem nobreza, mas elegantes.
+<br />
+
+<br />
+
+Tornemos &aacute; velhinha.
+<br />
+
+<br />
+
+Estava ella alli sentada na ditta cadeira, e
+deante de si tinha uma dobadoira, que se movia
+regularmente com o tirar do fio que lhe vinha
+ter &aacute;s m&atilde;os a inrollar-se no ja crescido novello.
+<br />
+
+<br />
+
+Era o unico signal de vida que havia em todo
+esse quadro. Sem isso, velha, cadeira, dobadoira,
+<span class="pagenum"><a name="p106">[106]</a></span>tudo
+pareceria uma
+<a name="n12"></a>graciosa sculptura de Antonio
+Ferreira ou um d'aquelles quadros tam verdadeiros
+do morgado de Setubal.
+<br />
+
+<br />
+
+O movimento bem visivel da dobadoira era
+regular, e respond&iacute;a ao movimento quasi imperceptivel
+das m&atilde;os da velha. Era regular o movimento,
+mas durava um minuto e parava, depois
+ia seguido outros dous, tres minutos, tornava a
+parar: e n'esta regularidade de intermitencias se
+ia alternando como o pulso de um que treme ses&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas o velha n&atilde;o tremia, antes se tinha muito
+direita e aprumada: o parar do seu lavor era
+porque o trabalho interior do espirito dobrava,
+de vez em quando, de intensidade, e lhe suspendia
+<a href="#e10">todo o movimento</a> externo. Mas a
+suspens&atilde;o
+era curta e mesurada; reagia a vontade, e a dobadoira
+tornava a andar.
+<br />
+
+<br />
+
+Os olhos da velha &eacute; que tinham uma express&atilde;o
+singular: voltada para o poente, n&atilde;o os tirou
+d'essa direc&ccedil;&atilde;o nem os inclinava de modo
+algum para a dobadoira que lhe ficava um pouco
+mais &aacute; esquerda. N&atilde;o pestanejavam, e o azul
+<span class="pagenum">[107]</span>
+de suas pupillas, que devia de ter sido brilhante
+como o das saphyras, parecia desbotado e sem
+lume.
+<br />
+
+<br />
+
+O movimento da dobadoira estacou agora de
+repente, a velha poisou tranquillamente as m&atilde;os
+e o novello no rega&ccedil;o, e chamou para dentro da
+casa:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Joanninha?'
+<br />
+
+<br />
+
+Uma voz doce, pura, mas vibrante, d'estas
+vozes que se ouvem rara vez, que retinem dentro
+d'alma e que n&atilde;o esquecem nunca mais, respondeu
+de dentro:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Senhora? Eu vou, minha av&oacute;, eu vou.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Querida filha!.. Como ella me ouviu logo!
+Deixa, deixa: vem quando pod&eacute;res. &Eacute; a meada
+que se me imbara&ccedil;ou.'
+<br />
+
+<br />
+
+A velha era cega, cega de gotta-serena, e
+paciente, resignada como a providencia misericordiosa
+de Deus permitte quasi sempre que sejam
+os que n'este mundo destinou &aacute; dura provan&ccedil;a
+de tam desconsolado martyrio.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c12"></a>CAPITULO XII.
+</h3>
+
+<br />
+
+<div class="intro">
+De como Joanninha desimbara&ccedil;ou a meada da av&oacute;, e
+do mais
+que aconteceu.&#8213;Que casta de rapariga era Joanninha.&#8213;D&aacute;
+o A. insigne pr&oacute;va de ingenuidade e boa fe confessando
+um grave sen&atilde;o do seu Ideal. Insiste por&eacute;m que
+&eacute; um
+adoravel deffeito.&#8213;Em que se parece uma mulher desannellada
+com um Sans&atilde;o tosquiado.&#8213;Pasmosas monstruosidades
+da natureza que desmentem o credo velho dos peralvilhos.&#8213;Os
+olhos verdes de Joanninha.&#8213;Religi&atilde;o dos olhos
+pretos strenuamente professada pelo A. Perigo em que ella
+se acha &aacute; vista de uns olhos verdes.&#8213;De como estando a
+av&oacute; e a neta a conversar muito de mano a mano, chega Frei
+Diniz e se interrompe a conversa&ccedil;&atilde;o.&#8213;Quem era
+Frei
+Diniz.
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Aqui estou, minha av&oacute;: &eacute; a
+sua meada?..
+eu lh'a indireito:'&#8213;disse Joanninha sahindo
+de dentro, e com os bra&ccedil;os abertos para a velha.
+Apertou-a n'elles com innefavel ternura, beijou-a
+<span class="pagenum">[110]</span>
+muitas vezes, e tomando-lhe o novello das m&atilde;os
+n'um instante desimbara&ccedil;ou o fio e lh'o tornou a
+intregar.
+<br />
+
+<br />
+
+A velha surria com aquelle surriso satisfeito
+que exprime os tranquillos gosos de alma, e que
+parecia dizer: 'Como eu sou feliz ainda, apezar
+de velha e de cega! Bemdito sejais, meu Deus.'
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute;sta &uacute;ltima phrase, &eacute;sta
+ben&ccedil;am de um cora&ccedil;&atilde;o
+agradecido, que spira suavemente para o ceo
+como sobe do altar o fummo do incenso consagrado,
+&eacute;sta &uacute;ltima phrase trasbordou-lhe e sahiu
+articulada
+dos labios:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Bemditto seja Deus' minha filha, minha
+Joanninha, minha querida neta! E Elle te aben&ccedil;oe
+tambem, filha!'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Sabe que mais, minha av&oacute;? Basta de trabalhar
+hoje, s&atilde;o horas de merendar'.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Pois merendemos'.
+<br />
+
+<br />
+
+Joannninha foi dentro da casa, trouxe uma banquinha
+redonda, cubriu-a com uma toalha alvissima, <span class="pagenum">[111]</span>p&ocirc;s
+em cima fructa, p&atilde;o, queijo, vinho,
+chegou-a para aop&eacute; da velha, tirou-lhe o novello
+da m&atilde;o, e arredou a dobadoira. A velha comeu
+alguns bagos de um cacho doirado que a neta lhe
+escolheu e p&ocirc;s nas m&atilde;os, bebeu um trago de vinho,
+e ficou callada e quieta, mas ja sem a mesma
+express&atilde;o de felicidade e contentamento socegado
+que ainda agora lhe luzia no rosto.
+<br />
+
+<br />
+
+As animadas fei&ccedil;&otilde;es de Joanninha reflectiam
+sympathicamente a mesma altera&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Joanninha n&atilde;o era bella, talvez nem galante
+siquer no sentido popular e expressivo que a palavra
+tem em portuguez, mas era o typo da gentileza,
+o ideal da spiritualidade. N'aquelle rosto,
+n'aquelle corpo de dezeseis annos, havia por dom
+natural e por uma admiravel symetria de
+propor&ccedil;&otilde;es
+toda a elegancia nobre, todo o desimbara&ccedil;o
+modesto, toda a flexibilidade graciosa que a
+arte, o uso e a conversa&ccedil;&atilde;o da c&ocirc;rte e
+da mais
+escolhida companhia v&ecirc;em a dar a algumas raras
+e privilegiadas creaturas no mundo.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas n'esta foi a natureza que fez tudo, ou
+quasi tudo, e a educa&ccedil;&atilde;o nada ou quasi nada.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[112]</span>
+Poucas mulheres s&atilde;o muito mais baixas, e ella
+parecia alta: tam delicada, tam
+<em>elanc&eacute;e</em> era a
+f&oacute;rma airosa de seu corpo.
+<br />
+
+<br />
+
+E n&atilde;o era o garbo teso e aprumado da perpendicular
+<em>miss</em> ingleza que parece fundida de
+uma so pe&ccedil;a; n&atilde;o, mas flexivel e ondulante como
+a h&aacute;stea joven da &aacute;rvore que &eacute; direita
+mas
+dobradi&ccedil;a, forte da vida de toda a seiva com que
+nasceu, e tenra que a estalla qualquer vento
+forte.
+<br />
+
+<br />
+
+Era branca, mas n&atilde;o d'esse branco importuno
+das loiras, nem do branco terso, duro, marmoreo
+das ruivas&#8213;sim d'aquella modesta alvura
+da cera que se illumina de um pallido reflexo de
+rosa de Bengalla.
+<br />
+
+<br />
+
+E d'outras rosas, d'estas rosas-rosas que denunciam
+toda a franqueza de um sangue que passa
+livre pelo cora&ccedil;&atilde;o e corre &aacute; sua
+vontade por
+art&eacute;rias em que os nervos n&atilde;o dominam, d'essas
+n&atilde;o as havia n'aquelle rosto: rosto sereno como
+&eacute; sereno o mar em dia de calma, porque dorme
+o vento... Alli dormiam as paix&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[113]</span>
+Que se levante a mais ligeira brisa, basta o
+seu macio bafejo para increspar a superficie espelhada
+do mar.
+<br />
+
+<br />
+
+Sussurre o mais ingenuo e suave movimento
+d'alma no primeiro acordar das paix&otilde;es, e ver&atilde;o
+como se sobresaltam os musculos agora tam quietos
+d'aquella face tranquilla.
+<br />
+
+<br />
+
+O nariz ligeiramente aquilino: a b&ocirc;cca pequena
+e delgada n&atilde;o cortejava nem desdenhava o surriso,
+mas a sua express&atilde;o natural e habitual era
+uma gravidade singela que n&atilde;o tinha a menor aspereza
+nem doutorice.
+<br />
+
+<br />
+
+Ha umas certas boquinhas gravesinhas e espremidinhas
+pela doutorice que s&atilde;o a mais abhorrecidinha
+coisa e a mais pequinha que Deus permitte
+fazer &aacute;s suas creaturas femeas.
+<br />
+
+<br />
+
+Em perfeita harmonia de c&ocirc;r, de f&oacute;rma e de
+tom com a fina gentileza d'estas fei&ccedil;&otilde;es, os
+cabellos
+de um castanho tam escuro que tocava em
+preto, cahiam de um lado e outro d
+Em perfeita harmonia de c&ocirc;r, de f&oacute;rma e de
+tom com a fina gentileza d'estas fei&ccedil;&otilde;es, os
+cabellos
+de um castanho tam escuro que tocava em
+preto, cahiam de um lado e outro da face, em
+tres longos, deseguaes e mal inrolados canudos,
+cuja ondada spiral se ia relaxando e diminuindo
+<span class="pagenum">[114]</span>
+para a extremidade, at&eacute; lhe tocarem no collo quasi
+lisos.
+<br />
+
+<br />
+
+Em stylo de arte&#8213;no stylo da primeira e
+da mais bella das bellas artes, a
+<em>toilete</em>&#8213;este &eacute;
+um defeito; bem sei.
+<br />
+
+<br />
+
+Que votos, que novenas se n&atilde;o fazem a San'Barometro
+nas v&eacute;speras de um baile para lhe pedir
+uma atmosphera s&ecirc;cca e benigna que deixe
+conservar, at&eacute; &aacute; quarta contradan&ccedil;a ao
+menos, a
+preciosa obra de carrapito e ferro quente, de
+macassar e mandolina que tanto trabalho e tanto
+tempo, tantos sustos e cuidados custou!
+<br />
+
+<br />
+
+Bem sei pois que &eacute; defeito, &eacute;, ser&aacute;...
+mas
+que adoravel defeito! Que deliciosas imagens que
+excita de aband&ocirc;no&#8213;passe o gallicismo&#8213;de
+confian&ccedil;a, de absoluta e generosa ren&uacute;ncia a todo
+o caprixo, de perfeita e completa abdica&ccedil;&atilde;o
+de toda a vontade propria!
+<br />
+
+<br />
+
+Em geral, as mulheres parecem ter no cabello
+a mesma f&eacute; que tinha Sans&atilde;o: o que n'elle
+se ia em lh'os cortando, cuidam ellas que se lhes
+vai em lh'os desannellando? Talvez; e eu n&atilde;o estou <span class="pagenum">[115]</span>longe de o crer: canudo
+inflexivel, mulher
+inflexivel.
+<br />
+
+<br />
+
+Os peralvilhos negam a existencia do tal canudo
+<em>in rerum natura</em>, dizem que
+&eacute; como a <a name="n13"></a>ave
+phenix que nasceu de nossos av&oacute;s n&atilde;o saberem
+grego. Eu n&atilde;o digo tal, porque tenho visto descuidar-se
+a natureza em pasmosas monstruosidades.
+<br />
+
+<br />
+
+Emfim suspend&acirc;mos, sem o terminar, o exame
+d'esta profunda e interessante quest&atilde;o. Fica
+addiada para um capitulo <em>ad hoc</em>, e
+voltemos &aacute;
+minha Joanninha.
+<br />
+
+<br />
+
+Cahiam d'um lado e de outro da sua face gentil
+aquelles graciosos anneis; e o resto do cabello,
+que era muito, ia intran&ccedil;ar-se, e inrolar-se
+com singela elegancia abaixo da coroa de uma
+cabe&ccedil;a pequena, estreita e do mais perfeito
+mod&ecirc;lo.
+<br />
+
+<br />
+
+As sobrancelhas, quasi pretas tambem, desenhavam-se
+n'uma curva de extrema pureza; a as
+pestanas longas e assedadas faziam sombra na alvura
+da face.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[116]</span>
+Os olhos por&ecirc;m&#8213;singular capricho da naturesa,
+que no meio de toda esta harmonia quiz
+lan&ccedil;ar uma nota de admiravel discordancia! Como
+poderoso e ousado <em>maestro</em> que, no
+meio das
+pbrases mais classicas e deduzidas da sua
+composi&ccedil;&atilde;o,
+atira derepente com um som agudo e
+stridulo que ninguem espera e que parece lan&ccedil;ar
+a anarchia no meio do rythmo musical... os dillettantes
+arripiam-se, os professores benzem-se;
+mas aquelles cujos ouvidos lhes levam ao cora&ccedil;&atilde;o
+a musica, e n&atilde;o &aacute; cabe&ccedil;a, esses
+estremecem de
+admira&ccedil;&atilde;o e enthusiasmo... Os olhos de Joanninha
+eram verdes... n&atilde;o d'aquelle verde descorado e
+traidor da ra&ccedil;a felina, n&atilde;o d'aquelle verde mau e
+destingido que n&atilde;o &eacute; sen&atilde;o azul
+imperfeito, n&atilde;o;
+eram verdes-verdes, puros e brilhantes como esmeraldas
+do mais subido quilate.
+<br />
+
+<br />
+
+S&atilde;o os mais raros e os mais fascinantes olhos
+que ha.
+<br />
+
+<br />
+
+Eu, que professo a religi&atilde;o dos olhos pretos,
+que n'ella nasci e n'ella espero morrer... que
+alguma rara vez que me deixei inclinar para a
+heretica pravidade do &ocirc;lho azul, soffri o que &eacute;
+<span class="pagenum">[117]</span>
+muito bem feito que soffra todo o renegado...
+eu firme e inabalavel, hoje mais que nunca, nos
+meus principios, sinceramente persuadido que
+f&oacute;ra d'elles n&atilde;o ha
+salva&ccedil;&atilde;o, eu confesso todavia
+que uma vez, uma unica vez que vi dos
+taes olhos verdes, fiquei halucinado, senti abalar-se
+pelos fundamentos o meu catholicismo,
+fugi escandalizado de mim mesmo, e fui retemperar
+a minha f&eacute; vacillante na contempla&ccedil;&atilde;o
+das
+eternas verdades, que so e unicamente se incontram
+aonde est&aacute; toda a f&eacute; e toda a
+cren&ccedil;a... n'uns
+olhos sincera e lealmente pretos.
+<br />
+
+<br />
+
+Joanninha por&ecirc;m tinha os olhos verdes; e
+o effeito d'esta rara fei&ccedil;&atilde;o n'aquella
+physionomia
+&aacute; primeira vista tam discordante&#8213;era
+em verdade pasmosa. Primeiro fascinava,
+halucinava, depois fazia uma sensa&ccedil;&atilde;o
+inexplicavel
+e indecisa que do&iacute;a e dava prazer ao mesmo
+tempo: porfim pouco o pouco, estabelecia-se
+a corrente magnetica tam poderosa, tam carregada,
+tam incapaz de solu&ccedil;&atilde;o-de-continuidade,
+que toda a lembran&ccedil;a de outra coisa desapparecia,
+e toda a intelligencia e toda a vontade
+eram absorvidas.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p118">[118]</a></span>
+Resta so accrescentar&#8213;e fica o retrato completo,
+um simples vestido azul escuro, cinto e
+avental preto, e uns sapatinhos com as fitas tra&ccedil;adas
+em cothurno. O p&eacute; breve e estreito; o que
+se adivinhava da perna admiravel.
+<br />
+
+<br />
+
+Tal era a ideal e espiritualissima figura
+que em p&eacute;, incostada &aacute; banca onde acabava de
+comer a boa da velha, contemplava, n'aquelle
+rosto macerado e apagado, a indicivel express&atilde;o
+de tristeza que elle pouco a pouco &iacute;a tomando e
+que toda se reflectia, como disse, no semblante
+da contempladora.
+<br />
+
+<br />
+
+A velha suspirou profundamente, e fazendo
+como um esf&ocirc;r&ccedil;o para se distrahir de pensamentos
+que a affligiam, buscou incertamente com as
+m&atilde;os o nov&ecirc;llo da sua meada:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'O meu nov&ecirc;llo, filha: n&atilde;o posso estar
+sem fazer nada, faz-me mal.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Conversemos, av&oacute;.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Pois conversemos; mas d&aacute;-me o meu nov&ecirc;llo.
+N&atilde;o sei o que &eacute;, mas quando n&atilde;o
+<a href="#e11">trabalho</a> <span class="pagenum">[119]</span>eu,
+trabalha n&atilde;o sei o que em mim que me
+cansa ainda mais. Bem dizem que a ociosidade &eacute;
+o peior lavor.'
+<br />
+
+<br />
+
+Joanninha deu-lhe o nov&ecirc;llo e p&ocirc;s-lhe a dobadoira
+a geito.
+<br />
+
+<br />
+
+A velha sentiu o que quer que fosse na m&atilde;o,
+levou-a &aacute; b&ocirc;cca e pareceu beija-la, depois disse:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Bem vi, Joanninha!'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'O qu&ecirc;, minha av&oacute;? que viu?'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Vi, filha, vi.., sem ser com os olhos que
+Deus me cerrou para sempre&#8213;louvado seja Elle
+por tudo!&#8213;vi, sentindo, &eacute;sta lagryma tua que
+me cahiu na m&atilde;o, e que ja ca est&aacute; no peito por
+que a bebi, Joanna. Oh filha, ja! &eacute; muito cedo
+para come&ccedil;ar, deixa isso para mim que estou
+costumada: mas tu, tu com deseseis annos e
+nenhum desg&ocirc;sto!'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Nenhum, av&oacute;! E estamos sosinhas n&oacute;s
+duas n'este mundo, minha av&oacute; n'esse estado, eu
+n'esta edade, e...'
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[120]</span> &#8213;'E Deus no ceu para tomar conta em n&oacute;s...
+Mas que &eacute;? olha, Joanna: eu sinto passos na
+estrada v&ecirc; o que &eacute;.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'N&atilde;o vejo ninguem.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Mas oi&ccedil;o eu... Espera... &eacute; Fr. Diniz;
+conhe&ccedil;o-lhe
+os passos.'
+<br />
+
+<br />
+
+Mal a velha acabava de pronunciar este nome,
+surdiu, de traz de umas oliveiras que ficam na
+volta da estrada, da banda de Santarem, a figura
+s&ecirc;cca, alta e um tanto curvada de um
+religioso franciscano que abordoado em seu pau
+tosco, arrastando as suas sandalias amarellas e
+tremendo-lhe na cabe&ccedil;a o seu chapeo alvadio,
+vinha em direc&ccedil;&atilde;o para ellas.
+<br />
+
+<br />
+
+Era Fr. Diniz comeffeito, o austero guardi&atilde;o
+de San'Francisco de Santarem.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c13"></a>CAPITULO XIII.
+</h3>
+
+<br />
+
+<div class="intro">Dos frades em geral.&#8213;O frade
+moralmente considerado, socialmente
+e artisticamente.&#8213;Pr&oacute;va-se que &eacute; muito mais
+poetico
+o frade do que o bar&atilde;o.&#8213;Outra vez D. Quixote e
+Sancho-Pansa.&#8213;Do que seja o bar&atilde;o, sua
+classifica&ccedil;&atilde;o e
+descrip&ccedil;&atilde;o linneana.&#8213;Historia do castello do
+Chucherumello.&#8213;Erro
+palmar de Eugenio Sue: mostra-se que os jesuitas
+n&atilde;o s&atilde;o a cholera-morbus, e que &eacute;
+preciso refazer o
+'Judeu errante'&#8213;De como o frade n&atilde;o intendeu
+o nosso seculo
+nem o nosso seculo ao frade.&#8213;De como o bar&atilde;o ficou
+em logar do frade, e do muito que n'isso perd&eacute;mos.&#8213;Unica
+voz que se ouve no actual deserto da sociedade: os bar&otilde;es
+a gritar contos de reis.&#8213;Como se contam e como se
+pagam os taes contos.&#8213;Predilec&ccedil;&atilde;o artistica do
+A. pelo frade:
+confessa-se e explica-se &eacute;sta
+predilec&ccedil;&atilde;o.
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Frades... frades... Eu n&atilde;o g&oacute;sto de frades. Como
+n&oacute;s os vimos ainda os d'este seculo, como
+n&oacute;s os intend&ecirc;mos hoje, n&atilde;o
+g&oacute;sto d'elles, n&atilde;o
+os quero para nada, moral e socialmente fallando.
+Frades... frades... Eu n&atilde;o g&oacute;sto de frades. Como
+n&oacute;s os vimos ainda os d'este seculo, como
+n&oacute;s os intend&ecirc;mos hoje, n&atilde;o
+g&oacute;sto d'elles, n&atilde;o
+os quero para nada, moral e socialmente fallando.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[122]</span>
+No ponto de vista artistico por&ecirc;m o frade faz
+muita falta.
+<br />
+
+<br />
+
+Nas cidades, aquellas figuras graves e s&eacute;rias
+com os seus habitos tallares, quasi todos picturescos
+e alguns elegantes, atravessando as multid&otilde;es
+de macacos e bonecas de casaquinha esguia
+e chapelinho de alcatruz que distinguem a peralvilha
+ra&ccedil;a europea&#8213;cortavam a monotonia do
+ridiculo e davam physionomia &aacute;
+popula&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Nos campos o effeito era ainda muito maior:
+elles characterizavam a payzagem, poetisavam a
+situa&ccedil;&atilde;o mais prosaica de monte ou de valle; e
+tam necessarias tam obrigadas figuras eram em
+muitos d'esses quadros, que sem ellas o painel
+n&atilde;o &eacute; ja o mesmo.
+<br />
+
+<br />
+
+Al&ecirc;m d'isso o convento no povoado e o mosteiro
+no &ecirc;rmo animavam, amenizavam, davam alma
+e grandeza a tudo: elles protegiam as &aacute;rvores,
+sanctificavam as fontes, enchiam a terra de
+poesia e de solemnidade.
+<br />
+
+<br />
+
+O que n&atilde;o sabem nem podem fazer os agiotas
+bar&otilde;es que os substituiram.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[123]</span>
+&Eacute; muito mais poetico o frade que o bar&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+O frade era, at&eacute; certo ponto, o Dom Quixote
+da sociedade velha.
+<br />
+
+<br />
+
+O bar&atilde;o &eacute;, em quasi todos os pontos, o
+Sancho-Pansa
+da sociedade nova.
+<br />
+
+<br />
+
+Menos na gra&ccedil;a...
+<br />
+
+<br />
+
+Porque o bar&atilde;o &eacute; o mais desgracioso e estupido
+animal da crea&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Sem exceptuar a familia asinina que se illustra
+com individualidades tam distinctas como o
+Ru&ccedil;o do nosso amigo Sancho, o asno da Poncella
+de Orleans e outros.
+<br />
+
+<br />
+
+O bar&atilde;o (<em>onagros-baronius</em>
+de Linn., <em>l'&acirc;nne-baron</em>
+de Buf.) &eacute; uma variedade monstruosa ingendrada
+na burra de Balaham, pela parte essencialmente
+judaica e usuraria de sua natureza,
+em coito damnado com o urso Martinho do Jardim
+das Plantas<sup><a href="#2">[2]</a></sup>,
+pela parte franchinotica e sordidamente
+revolucionaria de seu character.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[124]</span>
+O bar&atilde;o &eacute; pois usurariamente revolucionario,
+e revolucionariamente usurario.
+<br />
+
+<br />
+
+Por isso &eacute; <em>zebrado</em> de
+riscas monarchico-democraticas
+por todo o p&ecirc;llo.
+<br />
+
+<br />
+
+Este &eacute; o bar&atilde;o verdadeiro e puro-sangue: o
+que n&atilde;o tem estes characteres &eacute; especie
+differente,
+de que aqui se n&atilde;o tracta.
+<br />
+
+<br />
+
+Ora, sem sahir dos bar&otilde;es e tornando aos frades,
+eu digo: que nem elles comprehenderam o
+nosso seculo nem n&oacute;s os comprehend&eacute;mos a elles..
+<br />
+
+<br />
+
+Por isso brig&aacute;mos muito tempo, a final venc&ecirc;mos
+n&oacute;s, e mand&aacute;mos os bar&otilde;es a
+expuls&aacute;-los
+da terra. No que fizemos uma sandice como nunca
+se fez outra. O bar&atilde;o mordeu no frade, devorou-o...
+e escouceou-nos a n&oacute;s depois.
+<br />
+
+<br />
+
+Com que havemos n&oacute;s agora de matar o bar&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+Porque este mundo e a sua historia &eacute; a historia
+do 'castello do Chucherumello'. Aqui est&aacute;
+o Porque este mundo e a sua historia &eacute; a historia
+do 'castello do Chucherumello'. Aqui est&aacute;
+o c&atilde;o que mordeu no gato, que matou o rato,
+<span class="pagenum">[125]</span>
+que roeu a corda etc. etc.: vai sempre assim
+seguindo.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas o frade n&atilde;o nos comprehendeu a n&oacute;s, por
+isso morreu, e n&oacute;s n&atilde;o comprehendemos o frade,
+por isso fizemos os bar&otilde;es de que havemos de
+morrer.
+<br />
+
+<br />
+
+S&atilde;o a molestia d'este seculo; s&atilde;o
+elles, n&atilde;o
+os jesuitas, a cholera-morbus da sociedade actual,
+os bar&otilde;es. O nosso amigo Eugenio Sue errou de
+meio a meio no 'Judeu errante' que precisa refeito.
+<br />
+
+<br />
+
+Ora o frade foi quem errou primeiro em nos
+n&atilde;o comprehender, a n&oacute;s, ao nosso seculo,
+&aacute;s
+nossas inspira&ccedil;&otilde;es e
+aspira&ccedil;&otilde;es: com o que falsificou
+a sua posi&ccedil;&atilde;o, isolou-se da vida social,
+fez da sua morte uma necessidade, uma coisa
+infallivel e sem remedio. Assustou-se com a liberdade
+que era sua amiga, mas que o havia de
+reformar, e uniu-se ao despotismo que o n&atilde;o
+amava sen&atilde;o relaxado e vicioso, porque de outro
+modo lhe n&atilde;o servia nem o servia.
+<br />
+
+<br />
+
+N&oacute;s tambem err&aacute;mos em n&atilde;o intender o
+desculpavel
+&ecirc;rro do frade, em lhe n&atilde;o dar outra
+<span class="pagenum"><a name="p126">[126]</a></span>
+direc&ccedil;&atilde;o social; e evitar assim os
+bar&otilde;es, que &eacute;
+muito mais damninho bicho e mais roedor.
+<br />
+
+<br />
+
+Porque, desinganem-se, o mundo sempre assim
+foi e hade ser. Por mais bellas theorias que
+se fa&ccedil;am, por mais perfeitas
+constitui&ccedil;&otilde;es com
+que se comece, o <em>status in statu</em>
+forma-se logo: ou
+com frades ou com bar&otilde;es ou com pedreiros livres
+se vai pouco a pouco organizando uma influencia
+distincta, quando n&atilde;o contraria, &aacute;s influencias
+manifestas e apparentes do grande corpo
+social. Esta &eacute; a opposi&ccedil;&atilde;o natural do
+Progresso,
+o qual tem a sua opposi&ccedil;&atilde;o como todas as
+coisas sublunares e superlunares; &eacute;sta corrige
+saudavelmente,
+&aacute;s vezes, e modera sua velocidade,
+outras, a impece com demazia e abuso: mas emfim
+&eacute; uma necessidade.
+<br />
+
+<br />
+
+Ora eu, que sou ministerial do Progresso,
+antes queria a opposi&ccedil;&atilde;o dos frades que a dos
+bar&otilde;es.
+O caso estava em a saber <a href="#e12">conter</a>
+e
+approveitar.
+<br />
+
+<br />
+
+O Progresso e a liberdade perdeu, n&atilde;o ganhou.
+<br />
+
+<br />
+
+Quando me lembra tudo isto, quando vejo os
+conventos em ruinas, os egressos a pedir esmola
+<span class="pagenum">[127]</span>
+e os bar&otilde;es de berlinda, tenho saudades dos
+frades&#8213;n&atilde;o dos frades que foram, mas dos
+frades que podiam ser.<br />
+
+<br />
+
+E sei que me n&atilde;o inganam poesias; que eu
+reajo fortemente com uma logica inflexivel contra
+as illus&otilde;es poeticas em se tractando de coisas
+graves.<br />
+
+<br />
+
+E sei que me n&atilde;o nam&oacute;ro de paradoxos, nem
+sou d'estes espiritos de contradic&ccedil;&atilde;o desinquieta
+que suspiram sempre pelo que foi, e nunca
+est&atilde;o contentes com o que &eacute;.<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o, senhor: o frade, que &eacute; patriota e liberal
+na Irlanda, na Polonia, no Brazil, podia e
+devia s&ecirc;-lo entre n&oacute;s; e n&oacute;s ficavamos
+muito melhor
+do que estamos com meia duzia de clerigos de requiem
+para nos dizer missa; e com duas grozas de
+bar&otilde;es, n&atilde;o para a tal
+opposi&ccedil;&atilde;o salutar, mas para
+exercer toda a influencia moral e intellectual da
+sociedade&#8213;porque n&atilde;o ha de outra ca.<br />
+
+<br />
+
+E se n&atilde;o digam-me: onde est&atilde;o as universidades,
+e o que faz essa que ha sen&atilde;o dar o seu
+grausito de bacharel em leis e em medicina? O
+<span class="pagenum">[128]</span>
+que escreve ella, o que discute, que pr&iacute;ncipios
+tem, que doutrinas professa, quem sabe ou ouve
+d'ella sen&atilde;o algum echo timido e acanhado
+do que n'outra parte se faz ou diz?
+<br />
+
+<br />
+
+Onde est&atilde;o as academias?
+<br />
+
+<br />
+
+Que palavra poderosa retine nos pulpitos?
+<br />
+
+<br />
+
+Onde est&aacute; a f&ocirc;r&ccedil;a da tribuna?<br />
+
+<br />
+
+Que poeta canta tam alto que o oi&ccedil;am as pedras
+brutas e os robres duros d'esta selva materialista
+a que os utilitarios nos reduziram?
+<br />
+
+<br />
+
+Se exceptuarmos o debil clamor da imprensa
+liberal ja
+meio-esganada da policia, n&atilde;o se ouve
+no vasto silencio d'este ermo sen&atilde;o a voz dos
+bar&otilde;es gritando contos de r&eacute;is.
+<br />
+
+<br />
+
+Dez contos de r&eacute;is por um eleitor!
+<br />
+
+<br />
+
+Mais duzentos contos pelo tabaco!
+<br />
+
+<br />
+
+Tr&ecirc;s mil contos para a convers&atilde;o de um amphigouri!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p129">[129]</a></span>
+Cinco mil contos para as estradas dos <a href="#e13">areonautas</a>!
+<br />
+
+<br />
+
+Seis mil contos para isto, dez mil contos para
+aquillo!
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o tardam o contar por centenas de milhares.
+<br />
+
+<br />
+
+Contar a elles n&atilde;o lhes custa nada.
+<br />
+
+<br />
+
+A quem custa &eacute; a quem paga para todos esses
+bal&otilde;es de papel&#8213;a terra e a ind&uacute;stria...<br />
+
+<br />
+
+<div class="dots"></div>
+
+<br />
+
+<div class="dots"></div>
+
+<br />
+
+<div class="dots"></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Este cap&iacute;tulo deve ser considerado como
+introduc&ccedil;&atilde;o
+ao cap&iacute;tulo seguinte, em que entra em
+scena Fr. Diniz, o guardi&atilde;o do San' Francisco de
+Santarem.
+<br />
+
+<br />
+
+Ja me disseram que eu tinha o genio frade,
+que n&atilde;o podia fazer conto, drama, romance sem
+lhe metter o meu fradinho.
+<br />
+
+<br />
+
+O 'Cam&otilde;es' tem um frade, Frei Jos&eacute; Indio;
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[130]</span>
+A 'Dona Branca' tres, Frei Soeiro, Frei Lopo
+e San'-Frei Gil&#8213;faz quatro;
+<br />
+
+<br />
+
+A 'Adozinda' tem um ermit&atilde;o, especie de
+frade&#8213;cinco;
+<br />
+
+<br />
+
+'Gil-Vicente' tem outro&#8213;isto &eacute;, verdadeiramente
+n&atilde;o tem sen&atilde;o meio frade, que &eacute;
+Andr&eacute;
+de Rezende, demais a mais, pessoa muda&#8213;cinco
+e meio;
+<br />
+
+<br />
+
+O 'Alfageme' tres quartos do frade, Froil&atilde;o-Dias,
+chibato da ordem de Malta&#8213;seis frades
+e um quarto;
+<br />
+
+<br />
+
+Em 'Frei Luiz de Sousa' tudo s&atilde;o frades:
+vale bem n'esta computa&ccedil;&atilde;o, os seus tres, quatro,
+meia duzia de frades&#8213;s&atilde;o j&aacute; d&ocirc;ze e
+quarto:
+<br />
+
+<br />
+
+Alguns, n&atilde;o eu, querem metter n'esta conta
+o 'Arco-de-Sanct'Anna', em que ha bem dous
+frades e um leigo:
+<br />
+
+<br />
+
+E aqui tenho eu &aacute;s costas nada menos de quinze
+frades e quarto.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[131]</span>
+Com este Frei Diniz &eacute; um convento inteiro.
+<br />
+
+<br />
+
+Pois, senhores, n&atilde;o sei que lhes fa&ccedil;a: a culpa
+n&atilde;o &eacute; minha. Desde mil cento e tantos que
+come&ccedil;ou
+Portugal, at&eacute; mil oitocentos trinta e tantos
+que uns dizem que elle se restaurou, outros
+que o levou a breca, n&atilde;o sei que se passasse ou
+podesse passar n'esta terra coisa alguma p&uacute;blica
+ou particular, em que frade n&atilde;o entrasse.
+<br />
+
+<br />
+
+Para evitar isto n&atilde;o ha sen&atilde;o usar da receita
+que vem formulada no capitulo V<sup><a href="#3">[3]</a></sup>
+d'esta obra.
+<br />
+
+<br />
+
+Fa&ccedil;a-o quem gostar; eu n&atilde;o, que n&atilde;o
+quero
+nem sei.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c14"></a>CAPITULO XIV.
+</h3>
+
+<br />
+
+<div class="intro">
+Emendado emfim de suas distrac&ccedil;&otilde;es e
+divaga&ccedil;&otilde;es, prosegue
+o A. direitamente com a historia promettida.&#8213;De como
+Fr. Diniz deu a manga a beijar &aacute; av&oacute; e
+&aacute; neta, e do
+mais que entre elles se passou.&#8213;Ralha o frade com a velha,
+e come&ccedil;a a descobrir-se onde a historia vai ter.
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Este capitulo n&atilde;o tem divaga&ccedil;&otilde;es, nem
+reflex&otilde;es,
+nem considera&ccedil;&otilde;es de nenhuma especie,
+vai direito e sem se distrahir, pela sua historia
+adeante.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p134">[134]</a></span>
+Fr. Diniz chegava aop&eacute; das duas mulheres e
+disse:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Louvado seja Nosso Senhor Jesus Christo!'
+<br />
+
+<br />
+
+Joanna adeantou-se alguns&nbsp;<a href="#e14">passos</a>
+a beijar-lhe
+a manga. Elle accrescentou:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'A ben&ccedil;&atilde;o de Deus te cubra, filha, e a
+de nosso padre San'Francisco!'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Benedicite, padre guardi&atilde;o:' disse
+a velha
+inclinando-se meia levantada da cadeira.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Em nome do Senhor! amen'.&#8213;respondeu
+o frade aproximando-se, e chegando o bra&ccedil;o
+a alcance de lh'o ella beijar:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Ora aqui estou, minha irman; que me
+quer? E como vai isto por c&aacute;? Vamo-nos confortando,
+tendo paciencia, e soffrendo com os
+olhos no Senhor?'<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Ja os n&atilde;o tenho sen&atilde;o para elle, padre.'
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[135]</span> &#8213;'Ah, ah! irman Francisca, sempre esse
+pensamento, sempre essa queixa! Tenho-a reprehendido
+tanta vez e n&atilde;o se emenda.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Eu n&atilde;o me queixei, meu padre. Deus
+sabe que me n&atilde;o queixo... ao menos por mim.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Pois por quem?'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Oh padre!'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Irman Francisca, tenho medo de a intender.
+Eu n&atilde;o conhe&ccedil;o as affei&ccedil;&otilde;es
+da carne nem
+lido com os fracos pensamentos do mundo. Sou
+frade, minha irman, sou um que ja n&atilde;o &eacute; do
+n&uacute;mero dos vivos, que vestiu &eacute;sta mortalha para
+n&atilde;o ser d'elles, que a vestiu n'um tempo em
+que a mofa e o despr&ecirc;zo s&atilde;o o unico patrimonio
+do frade, em que o escarneo, a deris&atilde;o, o
+insulto&#8213;o peior e o mais cruel de todos os
+martyrios&#8213;s&atilde;o a nossa unica esperan&ccedil;a. Eu
+quiz ser frade, fiz-me frade, sabendo e vendo
+tudo isto, fiz-me frade no meio de tudo isto,
+j&aacute; velho e experimentado no mundo, farto
+de o conhecer, e certo do que me espera&#8213;a
+<span class="pagenum">[136]</span>
+mim e &aacute; profiss&atilde;o que abra&ccedil;ei. Que
+quer de um
+homem que assim se resolveu a cortar por
+quanto prende a humanidade a &eacute;sta miseravel vida
+da terra, para n&atilde;o viver sen&atilde;o das
+esperan&ccedil;as
+da outra? Eu vesti este h&aacute;bito para isso. O
+seu, irman, o seu para que o vestiu? &Eacute; um divertimento,
+&eacute; um capricho, &eacute; uma comedia com
+Deus? Rasgue-o depressa, vista-se das galas do
+mundo, n&atilde;o apperte com a paciencia divina, trajando
+por f&oacute;ra o sacco da penitencia e trazendo
+o cora&ccedil;&atilde;o pordentro desappertado de todo o
+cilicio
+e mortifica&ccedil;&atilde;o.'
+<br />
+
+<br />
+
+A velha com as m&atilde;os postas, a face alevantada
+e os apagados olhos para o ceo, offerecia
+a Deus todo o amargor d'aquella austeridade
+que n&atilde;o cuidava merecer nem lhe parecia
+intender. Joanninha, que insensivelmente
+se f&ocirc;ra approximando da av&oacute;, e a tinha como
+amparada portraz com um de seus bra&ccedil;os,
+firmava a outra m&atilde;o nas costas da cadeira e cravava
+fita no frade a vista penetrante e cheia de luz.
+A express&atilde;o do seu rosto era indefinivel: irisava-lh'o,
+distincta mas promiscuamente, um
+mixto inextricavel de enthusiasmo e desanima&ccedil;&atilde;o,
+de f&eacute; e de incredulidade, de sympathia e de
+avers&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[137]</span>
+Disseras que n'aquelles olhos verdes e n'aquelle
+rosto mal c&oacute;rado estava o typo e o symbolo
+das vascilla&ccedil;&otilde;es do seculo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Padre!' tornou a velha com sincera humildade
+na voz e no gesto:&#8213;'se o mereci,
+castigae-me. Deus, que me v&ecirc; e me ouve, bem
+sabe que o digo em toda a verdade do meu cora&ccedil;&atilde;o,
+e hade perdoar-me porque eu sou fraca
+e mulher.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Pois aos fracos n&atilde;o &eacute; que Elle disse:
+<em>Toma
+a tua cruz e segue-me</em>. Quem a obrigou a
+fazer os votos que fez?'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'&Eacute; verdade, padre, &eacute; verdade: bem sei o
+que prometti, que me votei a Deus d'alma e corpo,
+que me n&atilde;o perten&ccedil;o, que nem das minhas
+affei&ccedil;&otilde;es posso dispor, mas...'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Mas o qu&ecirc;? Irman Francisca, a Deus
+n&atilde;o se ingana. Os seus votos n&atilde;o foram feitos
+n'um mosteiro, nem proferidos n'um altar no
+meio das solemnidades da egreja. Mas ja lh'o tenho
+ditto, no f&ocirc;ro da consciencia, na presen&ccedil;a de
+Deus, ligam-n'a tanto ou mais do que se o fossem.
+<span class="pagenum">[138]</span>
+Abjure-os se quizer; nenhuma lei, nenhuma
+f&ocirc;r&ccedil;a humana a constrange. Diga-m'o por uma
+vez, desingane-me, e eu n&atilde;o torno aqui.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Oh, por compaix&atilde;o, padre! pelas chagas
+de Christo! Mas uma pergunta so, uma so, e
+eu prometto n&atilde;o pensar, n&atilde;o fallar mais em...
+Onde est&aacute; elle?'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Joanna, retire-se.'
+<br />
+
+<br />
+
+Joanninha appertou a av&oacute; com ambos os bra&ccedil;os;
+e sem dizer uma palavra, sem fazer um so
+gesto, lentamente e silenciosamente se retirou
+para dentro de casa.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'E &eacute;sta, padre?' disse a velha sem esperar
+a resposta &aacute; primeira pergunta que com
+tanta ancia fizera&#8213;'e &eacute;sta, tambem d'ella me
+heide separar, tambem heide renunciar a ella?'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Esta &eacute; uma innocente, e emquanto o for'...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Em quanto o for! A minha Joanna &eacute;
+um anjo.'
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[139]</span> &#8213;'Blasphemia, blasphemia! E o Senhor a
+n&atilde;o castigue por ella. Joanna &eacute; boa e temente
+a Deus: esperemos que Elle a conserve da sua
+m&atilde;o. O outro...'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Que &eacute; feito d'elle padre? Oh!
+diga-m'o,
+e eu prometto...'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'N&atilde;o prometta sen&atilde;o o que p&oacute;de
+cumprir.
+Seu neto est&aacute; com esses desgra&ccedil;ados que vieram
+das ilhas, &eacute; dos que desimbarcaram no Porto...'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Oh filho da minha alma! que n&atilde;o t&oacute;rno
+a abra&ccedil;ar-te...'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'N&atilde;o decerto; vencedores ou vencidos, toda
+a communh&atilde;o, toda a possibilidade de uni&atilde;o
+acabou entre n&oacute;s e estes homens. N&oacute;s temos
+obriga&ccedil;&atilde;o de os destruir, elles o seu unico
+desejo
+&eacute; exterminar-nos.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Meu Deus meu Deus! pois a isto somos
+chegados! Pois ja n&atilde;o ha misericordia no ceo
+nem na terra!'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'A misericordia de Deus cansou-se; a da
+<span class="pagenum">[140]</span>
+terra n&atilde;o sei onde est&aacute; nem onde esteve nunca.
+Os fracos d&atilde;o sacrilegamente esse nome &aacute; sua
+relaxa&ccedil;&atilde;o.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Pois &eacute; relaxa&ccedil;&atilde;o desejar a paz,
+querer a
+uni&atilde;o, supplicar a indulgencia? N&atilde;o nos manda
+Deus perdoar as nossas dividas, amar os nossos
+inimigos?'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Os nossos sim, os d'Elle n&atilde;o.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Tende compaix&atilde;o de mim, Senhor!'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Se as suas afflic&ccedil;&otilde;es s&atilde;o as da
+carne e do
+sangue, se s&atilde;o pensamentos da terra como
+desgra&ccedil;adamente
+vejo que s&atilde;o, mulher fraca e de
+pouco &acirc;nimo, console-se, que para mim &eacute; claro
+e seguro que estes homens h&atilde;ode vencer.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Quaes homens?'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Esses inimigos do altar e da verdade, esses
+homens desvairados pelas speciosas doutrinas
+do seculo. Esperam muito, promettem muito,
+est&atilde;o em todo o vigor das suas illus&otilde;es. E
+n&oacute;s,
+n&oacute;s carreg&acirc;mos com o desingano de muitos seculos,
+<span class="pagenum">[141]</span>com os peccados de
+trinta gera&ccedil;&otilde;es que
+passaram, e com a inaudita corrup&ccedil;&atilde;o da
+presente...
+n&oacute;s havemos de succumbir. Os templos
+h&atilde;ode ser destruidos, os seus ministros proscriptos,
+o nome de Deus blasphemado &aacute; vontade
+n'esta terra malditta.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Pois tam perdidos, tam abandonados da
+m&atilde;o de Deus s&atilde;o elles todos... todos?'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Todos. E que cuida, irman? que s&atilde;o melhores
+os nossos, esses que se dizem nossos? que
+ha mais f&eacute; na sua cren&ccedil;a, mais verdade em sua
+religi&atilde;o? Oh sancto Deus!'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Faz-me tremer, padre!'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'E para tremer &eacute;. A impiedade e a cubi&ccedil;a
+entraram em todos os cora&ccedil;&otilde;es.
+<em>Duvidar</em> &eacute; o unico
+princ&iacute;pio, <em>inriquecer</em> o
+unico objecto de toda
+essa gente. Liberaes e realistas, nenhum tem f&eacute;:
+os liberaes ainda teem esperan&ccedil;a; n&atilde;o lhe hade
+durar muito. Deixem-n'os vencer e ver&atilde;o.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'E h&atilde;ode vencer elles?'
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[142]</span> &#8213;'Decerto.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Ninguem mais diz isso.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Digo-o eu.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Tantos mil soldados que o gov&ecirc;rno tem
+por si!'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'E tantos milh&otilde;es de peccados contra. N&atilde;o
+p&oacute;de ser, n&atilde;o p&oacute;de ser: a misericordia
+divina
+est&aacute; exhausta, e o dia desejado dos impios vem
+a chegar. A sua miss&atilde;o &eacute; facil e prompta;
+n&atilde;o
+sabem, n&atilde;o podem sen&atilde;o destruir. Edificar
+n&atilde;o
+&eacute; para elles, n&atilde;o teem com qu&ecirc;,
+n&atilde;o creem em
+nada. O symbolo christ&atilde;o n&atilde;o &eacute; so uma
+verdade
+religiosa &eacute; um princ&iacute;pio
+eterno e universal. <em>Fe,
+esperan&ccedil;a e charidade</em>. Sem crer, sem
+esperar...'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'E sem amar!'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Mulher, mulher! o amor &eacute; a &uacute;ltima virtude...'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Mas por ella, por ella se chega &aacute;s outras.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'N&atilde;o, mulher fraca, n&atilde;o. E de uma vez
+<span class="pagenum">[143]</span>
+para sempre, irman Francisca, desinganemo'-nos.
+Entre mim, entre o Deus que eu sirvo, n&atilde;o ha
+transac&ccedil;&atilde;o com os seus inimigos. Indulgencia
+n'esse ponto n&atilde;o sei o que &eacute;. Vejo a sorte que
+me espera n'este mundo, e n&atilde;o tremo deante d'ella.
+Quem teme, siga outro caminho; eu nunca.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Padre eu n&atilde;o temo nem receio por
+mim.
+Sou fraca e mulher, e em toda a tribula&ccedil;&atilde;o e
+desgra&ccedil;a
+heide glorificar o meu Deus e dar testimunho
+da minha f&eacute;. Mas... mas o meu neto &eacute; o
+meu sangue, a minha vida, &eacute; o filho querido da
+minha unica e tam amada filha, elle n&atilde;o conheceu
+outra m&atilde;e sen&atilde;o a mim, quero-lhe por elle
+e por ella. Abandon&aacute;-lo n&atilde;o posso, tirar d'elle o
+pensamento n&atilde;o sei. A vontade de Deus...'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'A vontade de Deus &eacute; que o justo se aparte
+do impio, &eacute; que os cordeiros da ben&ccedil;&atilde;o
+v&atilde;o
+para um lado, e os cabritos da maldic&ccedil;&atilde;o para
+outro.
+Esse rapaz... oh! minha irman, eu n&atilde;o sou
+de pedra, n&atilde;o, n&atilde;o sou, e tambem o
+cora&ccedil;&atilde;o se
+me parte de o dizer... mas esse rapaz &eacute; malditto,
+e entre n&oacute;s e elle est&aacute; o abysmo todo do
+inferno.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Misericordia, meu Deus!'
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[144]</span>
+Pallido, infiado, mais descorado e mais amarello
+do que era sempre aquelle rosto, Fr. Diniz
+pronunciou, tremendo mas com f&ocirc;r&ccedil;a, as
+suas &uacute;ltimas e terriveis palavras. Os olhos, habitualmente
+sumidos e cavos, recuaram-lhe ainda
+mais para dentro das orbitas descarnadas; o bord&atilde;o
+tremia-lhe na esquerda; e a direita suspensa
+no ar parecia intimar ao culpado a terrivel
+impreca&ccedil;&atilde;o
+que lhe sahia dos labios.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Malditto! malditto sejas tu!' proseguiu o
+frade, 'filho ingrato, cora&ccedil;&atilde;o derrancado e
+perverso!'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Meu Deus, n&atilde;o o escuteis!' bradou a velha
+cahindo de joelhos no ch&atilde;o e prostrando-se
+na terra dura 'Meu Deus, n&atilde;o confirmeis
+aquellas
+palavras tremendas. N&atilde;o o ou&ccedil;ais, Senhor, e
+valha o sangue precioso de vosso filho, as dores
+bemdittas de sua m&atilde;e, oh meu Deus! para arredar
+da cabe&ccedil;a do meu pobre filho as crueis palavras
+d'este homem sem piedade, sem amor!..'
+<br />
+
+<br />
+
+A velha queria dizer mais; as ang&uacute;stias que
+se tinham estado juntando n'aquella alma, que
+porfim n&atilde;o podia mais e transbordava, queriam
+<span class="pagenum">[145]</span>
+sahir todas, queriam derramar-se alli em lagrymas
+e solu&ccedil;os na presen&ccedil;a do seu Deus que ella
+via sempre no throno das misericordias, que
+n&atilde;o podia acabar comsigo que o visse o inflexivel,
+o terrivel Deus das vingan&ccedil;as que lhe annunciava
+o frade. Mas a carne n&atilde;o p&ocirc;de com o espirito,
+as f&ocirc;r&ccedil;as do corpo cederam: tomou-a um
+mortal deliquio, immudeceu, e... suspendeu-se-lhe
+a vida.
+<br />
+
+<br />
+
+Fr. Diniz contemplou-a alguns momentos n'esse
+estado e pareceu commover-se; mas aquelles
+nervos eram fios de ferro temperado que n&atilde;o
+vibravam a nenhuma suave percuss&atilde;o: deu dous
+passos para a porta da casa, bateu com o bord&atilde;o
+e disse com voz firme e segura:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Joanna, acuda a sua av&oacute; que n&atilde;o
+est&aacute;
+boa.'
+<br />
+
+<br />
+
+D'ahi tomou por onde viera, e, sem voltar
+uma vez a cabe&ccedil;a, caminhou &aacute;pressado; breve se
+escondeu para l&aacute; das oliveiras da estrada.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c15"></a>CAPITULO XV.
+</h3>
+
+<br />
+
+<div class="intro">Retratto de um frade franciscano que
+n&atilde;o foi para o
+dep&oacute;sito
+da Terra-sancta, nem consta que esteja na Academia das
+Bellas-artes.&#8213;Ve-se que a logica de Fr. Diniz se n&atilde;o
+parecia
+nada com a de Condillac.&#8213;Suas opini&otilde;es s&ocirc;bre o
+liberalismo e os liberaes.&#8213;Que o pod&ecirc;r vem de Deus,
+mas como e paraqu&ecirc;.&#8213;Que os liberaes n&atilde;o intendem
+o
+que &eacute; liberdade e egualdade; e o para que eram os frades,
+se fossem.&#8213;Pr&oacute;va-se, pelo texto, que o homem n&atilde;o
+vive so de p&atilde;o, e pergunta-se o de que vivia
+ent&atilde;o Fr. Diniz.
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Quem era Frei Diniz?
+<br />
+
+<br />
+
+Disse-o elle:&#8213;um homem que se fizera frade,
+ja velho e can&ccedil;ado do mundo, que vest&iacute;ra o
+h&aacute;bito n'um tempo em que a mofa, o escarneo e
+<span class="pagenum">[148]</span>
+o despr&ecirc;zo seguiam aquella profiss&atilde;o; que o
+sab&iacute;a,
+que o conhecia e que por isso mesmo o affront&aacute;ra.
+<br />
+
+<br />
+
+D'estes raros e fortes characteres apparecem
+sempre na agonia das grandes institui&ccedil;&otilde;es para
+que nenhuma pere&ccedil;a sem protesto, paraque de
+nenhum pensamento duravel e consagrado pelo
+tempo se possa dizer que lhe faltou quem o honrasse
+na hora derradeira por uma devo&ccedil;&atilde;o nobre,
+gloriosa e digna do alto espirito do homem:&#8213;que
+o homem &eacute; uma grande e sublime creatura
+por mais que digam philosophos.
+<br />
+
+<br />
+
+Tal era Fr. Diniz, homem de principios austeros,
+de cren&ccedil;as rigidas, e de uma logica inflexivel
+e teimosa: logica por&ecirc;m que regeitava toda
+a an&aacute;lyse, e que forte nas grandes verdades
+intellectuaes e moraes em que fix&aacute;ra o seu espirito,
+descia d'ellas com o tremendo p&ecirc;so de
+uma synthese asperrima e oppressora que esmagava
+todo o argumento, destru&iacute;a todo o raciocinio
+que se lhe punha de deante.
+<br />
+
+<br />
+
+Condillac chamou &aacute; synthese methodo de trevas:
+Fr. Diniz ria-se de Condillac... e eu parece-me
+que tenho vontade de fazer o mesmo.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[149]</span>
+O despotismo, detestava-o como nenhum liberal
+&eacute; capaz de o abhorrecer; mas as theorias
+philosophicas dos liberaes, escarnecia-as como
+absurdas, regeitava-as como perversoras de toda
+a idea san, de todo o sentimento justo, de toda
+a bondade praticavel. Para o homem em qualquer
+estado, para a sociedade em qualquer f&oacute;rma
+n&atilde;o havia mais leis que as do decalogo,
+nem se precisavam mais constitui&ccedil;&otilde;es que o
+Evangelho:
+dizia elle. Refor&ccedil;&aacute;-las &eacute; superfluo,
+melhor&aacute;-las
+impossivel, desviar d'ellas monstruoso.
+Desde o mais alto da perfei&ccedil;&atilde;o evangelica, que
+&eacute; o estado monastico, ha regras para todos alli;
+e n&atilde;o falta sen&atilde;o observ&aacute;-las.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o sei se &eacute;sta doutrina n&atilde;o tem o
+quer que
+seja de um certo sabor independente e livre, se
+n&atilde;o cheira o seu tanto &aacute; confian&ccedil;a
+heretica dos
+reformistas evangelicos. O que sei &eacute; que Fr.
+Diniz a professava de boaf&eacute;, que era catholico
+sincero, e frade no cora&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Segundo os seus principios, pod&ecirc;r de homem
+s&ocirc;bre homem, era usurpa&ccedil;&atilde;o sempre e de
+qualquer modo que fosse constituido. Todo o pod&ecirc;r
+estava em Deus&#8213;que o delegava ao pae
+<span class="pagenum">[150]</span>
+s&ocirc;bre o filho, d'ahi ao chefe da familia s&ocirc;bre a
+familia, d'ahi a um d'esses s&ocirc;bre todo o Estado;
+mas para o reger segundo o Evangelho e em toda
+a austeridade republicana dos primitivos principios
+christ&atilde;os.
+<br />
+
+<br />
+
+Assim f&ocirc;ra ungido Saul, e n'elle todos os reis
+da terra&#8213;sem o qu&ecirc;, n&atilde;o eram reis.
+<br />
+
+<br />
+
+Tudo o mais, anarchia, usurpa&ccedil;&atilde;o, tyrannia,
+peccado&#8213;absurdo insustentavel e impossivel.
+<br />
+
+<br />
+
+E s&ocirc;bre isto tambem n&atilde;o disputava, que
+n&atilde;o
+concebia como: era dogma.
+<br />
+
+<br />
+
+Nas applica&ccedil;&otilde;es sim questionava, ou antes,
+argu&iacute;a, com sua logica de ferro. As antigas leis,
+os antigos usos, os antigos homens, n&atilde;o os poupava
+mais do que aos novos. A tyrannia dos reis,
+a cubi&ccedil;a e a suberba dos grandes, a
+corrup&ccedil;&atilde;o
+e a ignorancia dos sacerdotes, nunca houve tribuno
+popular que as a&ccedil;oitasse mais sem d&oacute; nem
+caridade.
+<br />
+
+<br />
+
+O princ&iacute;pio por&ecirc;m da
+monarchia antiga, defendia-o,
+ja se ve, por verdadeiro, embora fossem
+<span class="pagenum">[151]</span>mentirosos e
+hypocritas os que o invocavam.
+<br />
+
+<br />
+
+Quanto &aacute;s doutrinas constitucionaes, n&atilde;o as
+intendia, e protestava que os seus mais zelosos
+apostolos as n&atilde;o intendiam tam pouco: n&atilde;o tinham
+senso-commum, eram abstrac&ccedil;&otilde;es d'eschola.
+<br />
+
+<br />
+
+Agora, do frade &eacute; que me eu queria rir... mas
+n&atilde;o sei como.
+<br />
+
+<br />
+
+O chamado liberalismo, esse intendia elle. 'Reduz-se'
+dizia 'a duas cousas, <em>duvidar e
+destruir</em>
+por principio, <em>adquirir e inriquecer</em>
+por fim: &eacute;
+uma seita toda material em que a carne domina
+e o espirito serve; tem muita f&ocirc;r&ccedil;a para o mal;
+bem verdadeiro, real e perduravel, n&atilde;o o p&oacute;de
+fazer. Curar com uma revolu&ccedil;&atilde;o liberal um paiz
+estragado,
+como s&atilde;o todos os da Europa, &eacute; sangrar
+um tysico: a falta de sangue diminue as
+ancias do pulm&atilde;o por algum tempo, mas as
+f&ocirc;r&ccedil;as
+v&atilde;o-se, e a morte &eacute; mais certa.'
+<br />
+
+<br />
+
+Dos grandes e eternos principios da Egualdade
+e da Liberdade dizia: 'Em elles os practicando
+dev&eacute;ras, os liberaes, fa&ccedil;o-me eu liberal
+<span class="pagenum">[152]</span>
+tambem. Mas n&atilde;o ha perigo: se os n&atilde;o intendem!
+Para intender a liberdade &eacute; preciso crer
+em Deus, para acreditar na egualdade &eacute; preciso
+ter o Evangelho no cora&ccedil;&atilde;o.'
+<br />
+
+<br />
+
+As institui&ccedil;&otilde;es monasticas eram, no seu intender
+e no seu systema, condic&ccedil;&atilde;o essencial de
+existencia
+para a sociedade civil&#8213;para uma sociedade
+normal. N&atilde;o paliava os abusos dos conventos,
+n&atilde;o cubria os defeitos dos monges, accusava
+mais severamente que ninguem a sua relaxa&ccedil;&atilde;o;
+mas sustentava que, removido aquelle typo
+da perfei&ccedil;&atilde;o evangelica, toda a vida christan
+ficava
+sem norma, toda a harmonia se destru&iacute;a,
+e a sociedade ia, mais depressa e mais sem remedio,
+precipitar-se no golpham do materialismo
+estupido e brutal em que todos os vinculos
+sociaes apodreciam e cahiam, e em que mais e
+mais se isolava e estreitava o individualismo
+egoista&#8213;&uacute;ltima
+phase da civiliza&ccedil;&atilde;o exaggerada que
+vai tocar no outro extr&ecirc;mo da vida selvagem.
+<br />
+
+<br />
+
+Taes eram os principios d'este homem extraordinario
+que junctava a uma erudi&ccedil;&atilde;o immensa o
+profundo conhecimento dos homens e do mundo
+em que tinha vivido at&eacute; a edade de cinquenta annos.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[153]</span>
+Como e porque deix&aacute;ra elle o mundo? Como
+e porqu&ecirc;, um espirito tam activo e superior se
+occupava apenas do obscuro incargo de guardi&atilde;o
+do seu convento&#8213;cargo que acceit&aacute;ra por obediencia&#8213;e
+quasi que limitava as suas rela&ccedil;&otilde;es
+f&oacute;ra do claustro &aacute;quella casa do valle onde
+n&atilde;o
+havia sen&atilde;o aquella velha e aquella crian&ccedil;a?
+<br />
+
+<br />
+
+Apezar de sua rigidez ascetica, prendia esse
+espirito por alguma coisa a este mundo? Aquelle
+cora&ccedil;&atilde;o macerado do cilicio dos pensamentos
+austeros e terriveis do eterno futuro, consummido
+na abstinencia de todo o g&ocirc;so, detodo o desejo
+no presente, teria acaso viva ainda bastante
+alguma fibra que vibrasse com recorda&ccedil;&otilde;es,
+com saudades, com remorsos do passado?
+<br />
+
+<br />
+
+No seu convento elle n&atilde;o tinha sen&atilde;o uma cella
+nua com um cruxifixo por todo ad&ocirc;rno, um
+breviario por unico livro. N'aquella so familia
+que conversava, havia, ja o disse, a velha cega
+e decrepita, Joanninha com quem apenas fallava,
+e um ausente, um rapaz de quem ha dous
+annos quasi que se n&atilde;o sabia. Em intrigas politicas,
+em negocios ecclesiasticos, em coisa mais
+nenhuma d'este mundo n&atilde;o tinha parte. De que
+<span class="pagenum">[154]</span>
+vivia pois este homem&#8213;homem que certo n&atilde;o
+era d'aquelles que vivem so de p&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+E este era dos poucos textos latinos que elle
+repettia, este o thema predilecto dos raros serm&otilde;es
+que pr&eacute;gava: <em>Non in solo pane vivit
+homo</em>, Nem
+so de p&atilde;o vive o homem.
+<br />
+
+<br />
+
+Vivia ent&atilde;o de alguma outra coisa este homem;
+e a medita&ccedil;&atilde;o e a ora&ccedil;&atilde;o
+n&atilde;o lhe bastavam, porque
+elle sahia do seu convento e n&atilde;o ia pr&eacute;gar nem
+rezar... todas as sextas feiras era certo na casa
+do valle &aacute; mesma hora, do mesmo modo...
+<br />
+
+<br />
+
+Alli estava pois alguma parto da vida do frade
+que de todo se n&atilde;o desprend&ecirc;ra da terra, e
+que, por mais que elle diga, lhe faltava
+<em>castrar</em>
+ainda por amor do ceo.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; que meio seculo de viver no mundo deixa
+muita raiz que n&atilde;o morre assim. E talvez &eacute; uma
+so a raiz, mas funda, e rija de fevra e de seiva,
+que as folhas morrem, os ramos seccam, o
+tronco apodrece, e ella teima a viver.
+<br />
+
+<br />
+
+Saibamos alguma coisa d'essa vida.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c16"></a>CAPITULO XVI.
+</h3>
+
+<br />
+
+<div class="intro">Saib&acirc;mos da vida do
+frade.&#8213;Era franciscano
+porqu&ecirc;?&#8213;Dos
+antigos e dos novos martyres.&#8213;Alguns particulares de Fr.
+Diniz antes e depois de ser
+frade.&#8213;Emigra&ccedil;&atilde;o.&#8213;Explica&ccedil;&atilde;o
+incompleta.&#8213;De como a velha tinha perdido a vista e
+Joanninha o riso.&#8213;Sexta feira dia aziago.
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Saibamos alguma coisa da vida do frade, da sua
+vida no seculo, porque a do claustro era nua e
+nulla, monotona e singela como a temos visto.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[156]</span>
+Chamava-se elle no seculo Diniz de Atahide,
+e seguira a carreira das armas primeiro, depois
+a das lettras. Com distinc&ccedil;&atilde;o, e quasi com
+paix&atilde;o,
+tom&aacute;ra parte na campanha da Peninsula
+e a fizera quasi toda; mas desgostoso do servi&ccedil;o
+ou despreoccupado da gl&oacute;ria militar, entrou na
+magistratura para que estava habilitado, e em
+1825, do logar de corregedor do Ribatejo, em
+que ja f&ocirc;ra reconduzido, devia passar &aacute; casa do
+Porto.
+<br />
+
+<br />
+
+Foi a Lisboa receber o seu despacho, beijou
+a m&atilde;o a elrei, e d'ahi tomou um dia o caminho
+de Santarem, chegou &aacute;quella villa, deixou criados
+e cavallos na estalagem, e foi tocar &aacute; campa
+da portaria de San'Francisco.
+<br />
+
+<br />
+
+Os criados esperaram em v&atilde;o muitos dias:
+elle n&atilde;o voltou.
+<br />
+
+<br />
+
+Desappareceu do mundo Diniz de Atahide, e
+d'alli a dous annos appareceu Fr. Diniz da Cruz,
+o frade mais austero e o pr&eacute;gador mais eloquente
+d'aquelle tempo. Raro pr&eacute;gava, e so de doutrina;
+mas era uma torrente de vehemencia,
+uma unc&ccedil;&atilde;o, uma f&ocirc;r&ccedil;a!..
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[157]</span>
+Dos institutos monasticos, ja ent&atilde;o bem decahidos
+todos de esplendor e reputa&ccedil;&atilde;o, a ordem
+de San'Francisco era talvez a que mais desc&ecirc;ra
+no conceito p&uacute;blico. Quanto mais austera &eacute; a
+regra,
+tanto mais se nota qualquer relaxa&ccedil;&atilde;o nos
+que a professam: a dos franciscanos tinha-se feito
+proverbial e popular. Elles eram tantos por
+toda a parte, e tam conversantes com todas as
+classes; familiariz&aacute;ra-se por tal modo o povo
+com o aspecto d'aquellas mortalhas negras&#8213;aspecto
+ja n&atilde;o severo, e apenas deixou de o ser...
+rid&iacute;culo&#8213;e ellas appareciam em taes logares, a
+taes horas, por tal modo... que todo o respeito,
+toda a estima, toda a considera&ccedil;&atilde;o se lhe
+perdera.
+Escriptores, ja os n&atilde;o tinham, pr&eacute;gadores
+poucos e sem reputa&ccedil;&atilde;o, era em todo o sentido
+a religi&atilde;o mais humilhada na geral decadencia
+das ordens.
+<br />
+
+<br />
+
+Fr. Diniz procurou-a por isso mesmo. Queria
+ser frade, o frade desprezado e apupado do seculo
+dezenove.
+<br />
+
+<br />
+
+Em certos animos &eacute; preciso muito mais valor
+e enthusiasmo para affrontar este martyrio, do
+que f&ocirc;ra nos antigos tempos para ir ao inc&ocirc;ntro
+<span class="pagenum">[158]</span>
+das nobres persegui&ccedil;&otilde;es do sangue e do fogo.
+<br />
+
+<br />
+
+Luctava-se com honra ent&atilde;o, cahia-se com
+gl&oacute;ria, vencia-se muitas vezos morrendo...
+<br />
+
+<br />
+
+Agora &eacute; soffrer so.
+<br />
+
+<br />
+
+O mundo applaudia aquelles grandes sacrificios,
+e assistia com inter&ecirc;sse, com
+admira&ccedil;&atilde;o,
+com espanto &aacute;quelles combates gigantescos. E o
+tyranno tremia diante da sua victima... quando
+lhe n&atilde;o cahia aos p&eacute;s vencido, convertido e
+penitente...
+<br />
+
+<br />
+
+Hoje o povo passa e ri, os reis cuidam de
+outra coisa, e a mesma Egreja n&atilde;o sabe que
+tem martyres.
+<br />
+
+<br />
+
+'Pois tem-n'os' dizia Fr. Diniz 'e precisa
+mais d'elles para se regenerar, do que ja precisou
+para fundar-se.'
+<br />
+
+<br />
+
+Eis aqui porque Diniz d'Atahide n&atilde;o quiz ser
+bento, nem jeronymo, nem cartucho, e se foi
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[159]</span>
+De todos os seus bens, que eram consideraveis,
+tirou apenas a modica somma de dinheiro
+que era necessaria para pagar o dote e piso de
+sua entrada no convento. Do resto fez doa&ccedil;&atilde;o
+inteira
+a D. Francisca Joanna&#8213;a velha hoje cega e decrepita
+que no princ&iacute;pio d'esta historia incontr&aacute;mos
+dobando &aacute; sua porta na casa do valle.
+<br />
+
+<br />
+
+A velha n&atilde;o tinha mais familia que um neto
+e uma neta.
+<br />
+
+<br />
+
+A neta era Joanninha, filha unica de seu unico
+filho var&atilde;o, e ja orphan de pae e de m&atilde;e.
+<br />
+
+<br />
+
+O neto, orpham tambem, nasc&ecirc;ra posthumo,
+e cust&aacute;ra a vida a sua m&atilde;e, filha querida e
+predilecta
+da velha.
+<br />
+
+<br />
+
+Antes da splendida doa&ccedil;&atilde;o de Fr. Diniz, a
+familia, que era de boa e honrada descendencia,
+podia dizer-se pobre; depois viviam remediadamente.
+Mas a velha n&atilde;o quiz nunca sahir do modesto
+estado em que at&eacute;lli viv&ecirc;ra. Tinham fartura
+de p&atilde;o, azeite e vinho de suas lavras; corria-lhe
+com ellas um criado velho de confian&ccedil;a;
+<span class="pagenum">[160]</span>
+trajavam e tractavam-se como gente mean, mas
+independente.
+<br />
+
+<br />
+
+Em tempos mais antigos e em vida dos dous
+filhos de D. Francisca, Fr. Diniz, ent&atilde;o Diniz
+d'Atahide e corregedor da commarca, frequent&aacute;ra
+bastante aquella casa. Desde a morte do
+filho e do genro, que ambos pereceram desastradamente
+n'um dia cruzando o Tejo n'um saveiro
+em occasi&atilde;o de grande cheia, elle nunca
+mais l&aacute; torn&aacute;ra.
+<br />
+
+<br />
+
+At&eacute; que se metteu frade, e que passaram annos
+e que o fizeram guardi&atilde;o do seu convento.
+<br />
+
+<br />
+
+Ja a nora e a filha da velha tinham morrido
+tambem.
+<br />
+
+<br />
+
+E foi notavel que na mesma hora em que Fr.
+Diniz professava em San'Francisco de
+Santarem,
+vestia D. Francisca aquella tunica roxa que nunca
+mais largou.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas um dia, chegou Fr. Diniz &aacute; porta da casa
+do valle e disse:
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[161]</span> &#8213;'Deus seja n'esta casa!'
+<br />
+
+<br />
+
+A velha estremeceu, mas tornou logo a si,
+fez sahir as crian&ccedil;as que brincavam aop&eacute; d'ella,
+fechou-se com o frade, e fallaram baixo um dia
+inteiro. Rezaram e choraram, que tudo se ouviu;
+mas o que disseram e conversaram nunca se
+soube.
+<br />
+
+<br />
+
+O frade foi-se ao anoitecer, a velha ficou rezando
+e chorando, e rezou e chorou toda a noite.
+<br />
+
+<br />
+
+Isto f&ocirc;ra n'uma sexta-feira; d'ahi por deante
+em todas as sexta-feiras de cada semana, Fr.
+Diniz vinha passar algumas horas com a velha.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o era seu confessor, mas dirigia-a como se
+o fosse, em tudo e por tudo, menos no que respeitava
+a Joanninha.
+<br />
+
+<br />
+
+Havia no frade uma affecta&ccedil;&atilde;o visivel, um systema
+premeditado e inalteravel de se abster completamente
+de tudo o que podesse intervir, por
+mais remotamente que fosse, com aquella interessante
+crian&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[162]</span>
+Joanninha n&atilde;o lhe tinha medo, mas o respeito
+que lhe elle inspirava era misturado de uma
+avers&atilde;o instinctiva, que, por
+contradic&ccedil;&atilde;o inaudita
+e inexplicavel, a deixava sympathizar com
+tudo quanto elle dizia e professava: doutrinas,
+opini&otilde;es, sentimentos, tudo lhe agradava no frade,
+menos a pessoa.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o assim Carlos, o primo, o companheiro, o
+unico amigo da nossa Joanninha, o outro neto da
+velha por sua filha. Andava elle ja no &uacute;ltimo anno
+de Coimbra e ia formar-se em leis, quando Fr.
+Diniz da Cruz come&ccedil;ou de novo a frequentar
+a casa que Diniz de Atahide tinha abandonado.
+<br />
+
+<br />
+
+S&ocirc;bre esse a inspec&ccedil;&atilde;o do frade era
+minuciosa,
+vigilante, inquieta. Os livros que elle lia, os
+amigos com quem vivia, as ideas que abra&ccedil;ava,
+as inclina&ccedil;&otilde;es para que pendia&#8213;de tudo se
+occupava
+Fr. Diniz, tudo lhe dava cuidado. A elle
+directamente pouco lhe dizia, mas com a av&oacute; tinha
+longas conferencias a esse respeito.
+<br />
+
+<br />
+
+Ultimamente parecia satisfazer-se com o geito
+que o mancebo indicava tomar.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p163">[163]</a></span> &#8213;'&Eacute; temente a Deus, n&atilde;o tem o &acirc;nimo
+cubi&ccedil;oso
+nem servil, n&atilde;o &eacute; hypocrita, o mania do
+liberalismo
+n&atilde;o o mordeu ainda... hade ser um homem
+de prestimo:' dizia o frade a D. Francisca
+com verdadeira satisfac&ccedil;&atilde;o e inter&ecirc;sse.
+<br />
+
+<br />
+
+Pass&aacute;ra por&ecirc;m de seu meio o <a href="#e15">memoravel</a>
+anno
+de 1830, e Carlos, que se form&aacute;ra no princ&iacute;pio
+d'aquelle ver&atilde;o, tinha ficado por Coimbra e por
+Lisboa, e so por fins d'agosto volt&aacute;ra para a sua
+familia. E veio triste, melancholico, pensativo,
+inteiramente outro do que sempre f&ocirc;ra, porque
+era de genio alegre e naturalmente amigo de folgar,
+o mancebo.
+<br />
+
+<br />
+
+O dia em que elle chegou era uma sexta-feira,
+dia de Fr. Diniz vir ao valle.
+<br />
+
+<br />
+
+Passaram as primeiras sauda&ccedil;&otilde;es e
+abra&ccedil;os,
+ficaram sos os dous, e:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'N&atilde;o g&oacute;sto de te ver:' disse o frade.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Pois qu&ecirc;? que tenho eu?'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Tens que vens outro do que foste, Carlos.'
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[164]</span> &#8213;'Outro venho, &eacute; verdade; mas n&atilde;o se infadem
+de me ver, que o infado hade durar pouco.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Que queres tu dizer?'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Que estou resolvido a emigrar.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'A emigrar, tu!... Porqu&ecirc;, paraqu&ecirc;?
+Que loucura &eacute; essa?'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Nunca estive tanto em meu juizo.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Carlos, Carlos! nem mais uma palavra
+a similhante respeito. Em que m&aacute;s companhias
+andaste tu, que maus livros l&ecirc;ste, tu que eras
+um rapaz?.. Carlos, prohibo-te de pensar n'esses
+desvarios.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Prohibe-me... a mim... de pensar!...
+Ora, senhor...'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Prohibo de pensar, sim. Le no teu Horacio
+se est&aacute;s can&ccedil;ado das pandectas. Vai para
+a eira com o teu Virgilio... ou passeia, ca&ccedil;a,
+monta a cavallo, faze o que quizeres, mas n&atilde;o
+penses. Ca estou eu para pensar por ti.'
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[165]</span> &#8213;'Porqu&ecirc;? eu heide ser sempre crian&ccedil;a?
+a minha vida hade ser &eacute;sta? Horacio! tenho
+bom &acirc;nimo para ler Horacio agora... e a bella
+occupa&ccedil;&atilde;o para um homem de vinteeum annos,
+scandar jambos e trocheus.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Pois le na tua biblia, que &eacute; poesia medida
+n'alma e que repasce o espirito e o cora&ccedil;&atilde;o.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Eu n&atilde;o quero ser frade: sabe?'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Nem te eu quero para frade.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Gra&ccedil;as a Deus! Cuidei que... Mas em fim
+no seculo em que estamos...'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'O seculo em que estamos &eacute; o da
+presump&ccedil;&atilde;o
+e o da immoralidade: e eu quero-te livrar
+de uma e de outra, Carlos. Tua av&oacute; sabe as
+minhas ten&ccedil;&otilde;es a teu respeito, approva-as...'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Minha av&oacute;... approva muita coisa que eu
+reprovo.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Como assim, Carlos! que queres tu dizer?'
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[166]</span> &#8213;'Isto mesmo, senhor;&#8213;e que &aacute;manhan que
+vou para Lisboa, imbarcar para Inglaterra.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Carlos!'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'&Eacute; uma resolu&ccedil;&atilde;o meditada e
+inalteravel.
+N&atilde;o quero nada com &eacute;sta terra nem com
+&eacute;sta...'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Com &eacute;sta o qu&ecirc;, Carlos?..'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Pois quer ouvi-lo, digo-lh'o: com &eacute;sta
+casa.'
+<br />
+
+<br />
+
+O frade suffocava, e balbuciou entre cholerico
+e aterrado:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Dir-me-has porqu&ecirc;?..'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Porque me abhorrece e me humilha este
+mando de um extranho aqui... porque sempre
+desconfiei, porque sei emfim...'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Sabes o qu&ecirc;?'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Sei, padre Fr. Diniz, mas n&atilde;o me pergunte
+o que eu sei.'
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[167]</span>
+Amarello, roxo, pallido, negro, o frade tremia;
+sumiram-se-lhe mais os olhos e faiscavam
+l&aacute; de dentro como duas brazas; fez um
+esf&ocirc;r&ccedil;o
+s&ocirc;bre si mesmo para fallar, e disse com uma
+voz cava e cavernosa como de sepulchro:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Pois pergunto, sim; e permitta Deus!..'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Padre, n&atilde;o jure nem pragueje' interrompeu
+Carlos com firmeza e serenidade 'as suas
+inten&ccedil;&otilde;es
+ser&atilde;o boas talvez... creio que s&atilde;o boas,
+filhas de um remorso salutar...'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Que dizes tu, Carlos... que disseste?.. Oh,
+meu Deus!'
+<br />
+
+<br />
+
+As scenas tinham mudado: Fr. Diniz parecia o
+pupillo, a sua voz tinha o som da s&uacute;pplica, ja
+n&atilde;o tremia
+de &iacute;ra mas de anciedade; Carlos, pelo contrario,
+fallava no tom austero e grave de um homem que
+est&aacute; forte na sua raz&atilde;o e que &eacute;
+generoso com a
+sua offensa. As palavras do mancebo eram agras,
+via-se que elle o sentia e que procurava
+ado&ccedil;&aacute;-las
+na inflex&atilde;o, que lhes dava.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'O que eu digo, padre Fr. Diniz, o que
+<span class="pagenum">[168]</span>
+eu sou obrigado a dizer-lhe &eacute; isto. Minha av&oacute;
+consentiu, por fraqueza de mulher, no que eu
+n&atilde;o posso nem devo consentir. O que ha n'&eacute;sta
+casa n&atilde;o &eacute;... n&atilde;o &eacute; meu; o
+p&atilde;o que aqui se come...
+&eacute; comprado por um pre&ccedil;o... Padre! ja ve
+que n&atilde;o pod&ecirc;mos fallar mais n'este assumpto. Eu
+parto &aacute;manhan para Lisboa.&#8213;Minha av&oacute;!'
+acrescentou
+Carlos, mudando de voz e chamando
+para dentro 'minha av&oacute;!'
+<br />
+
+<br />
+
+A velha acudiu, elle disse-lhe a sua ten&ccedil;&atilde;o,
+motivou-a em opini&otilde;es politicas, declamou contra
+D. Miguel, mostrou-se enthusiasta da causa
+liberal, e protestou que, n'aquelle anno, de tal
+modo se tinha pronunciado em Coimbra e ainda
+em Lisboa, que s&oacute; uma prompta fuga o podia
+salvar...'
+<br />
+
+<br />
+
+A velha chorou, pediu, rogou... inutilmente,
+em v&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Fr. Diniz assistiu a tudo isto sem dizer palavra.
+<br />
+
+<br />
+
+E aquella tarde voltou mais cedo para o convento.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[169]</span>
+No outro dia de manhan muito cedo, abra&ccedil;ado
+com a av&oacute; e com a priminha que se
+desfaziam em lagrymas, Carlos dizia o &uacute;ltimo
+adeus &aacute;quella querida casa, &aacute;quelle amado
+valle em que f&ocirc;ra criado... N'essa noite estava
+em Lisboa, d'ahi a poucos dias em Inglaterra,
+e d'ahi a alguns meses na ilha Terceira.
+<br />
+
+<br />
+
+Na sexta-feira depois da partida de Carlos,
+Fr. Diniz veio ao valle e teve larga conferencia
+com a av&oacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+Os tres dias seguintes a velha levou fechada
+no seu quarto a chorar... no fim do terceiro dia
+estava cega.
+<br />
+
+<br />
+
+Joanninha era uma crian&ccedil;a a esse tempo, parecia
+n&atilde;o intender nada do que se passava. Mas quem
+a observasse com atten&ccedil;&atilde;o, veria que ella dobrou
+de carinho e de amor para com a av&oacute;, e que se
+n&atilde;o tornou a rir para o frade...
+<br />
+
+<br />
+
+Elle, o frade, invelheceu de dez annos n'aquelle
+dia. Os olhos sumidos, que era a fei&ccedil;&atilde;o
+dominante n'aquelle rosto ascetico, sumiram-se
+mais e mais; a estatura alta e erecta curvou-se-lhe;
+<span class="pagenum">[170]</span>o tremor nervoso,
+que o tomava por accessos,
+tornou-se-lhe habitual; os tend&otilde;es enrijaram-lhe,
+os musculos da cara descarnaram-se,
+e a pelle ja sulcada de fundos cuidados, arrugou-se
+e franziu-se toda em rugas cruzadas e confusas
+como que se lh'a torrassem n'uma grelha.
+<br />
+
+<br />
+
+Nunca mais houve um dia de alegria no valle.
+A sexta-feira por&ecirc;m era o dia fatal e aziago. Fr. Diniz
+ja n&atilde;o vinha sen&atilde;o no fim da tarde e demorava-se
+pouco; mas tanto bastava. Suspirava-se por
+aquella hora e tremia-se d'ella. As not&iacute;cias que
+consolavam, e os terrores que matavam, o frade
+&eacute; que os trazia. O resto da semana levava-se
+a chorar e a esperar.
+<br />
+
+<br />
+
+E assim se tinham passado dous annos at&eacute; &aacute;
+sexta-feira em que primeiro vimos junctas &aacute; porta
+da casa aquellas tres criaturas; assim se passou
+at&eacute; d'ahi a oito dias que a nossa historia volta
+a incontr&aacute;-los.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c17"></a>CAPITULO XVII.
+</h3>
+
+<br />
+
+<div class="intro">De como, chegando outra sexta-feira e
+estando a av&oacute; e a neta
+&aacute; espera do frade, este lhe appareceu, contra o seu costume,
+da banda de Lisboa.&#8213;Porque raz&atilde;o muitas vezes a
+mais animada conversa&ccedil;&atilde;o &eacute; a que mais
+facilmente p&aacute;ra e
+quebra derepente.&#8213;Nova demonstra&ccedil;&atilde;o de dous
+grandes axiomas
+dos nossos velhos, a saber: Que o h&aacute;bito n&atilde;o faz
+o monge; e que ralhando as commadres, se descobrem as
+verdades.&#8213;No ralhar da velha com o frade, levanta-se uma
+ponta do veo que cobre os mysterios da nossa historia.
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Passaram-se aquelles oito dias no valle, n&atilde;o
+ja como se tinham passado tantas outras semanas
+em vagas tristezas, em desconsola&ccedil;&atilde;o e
+desconf&ocirc;rto, mas em positiva anciedade e aguda
+<span class="pagenum">[172]</span>
+afflic&ccedil;&atilde;o pela certeza que trouxera o frade de se
+achar Carlos no Porto fazendo parte do pequeno
+ex&eacute;rcito do D. Pedro.
+<br />
+
+<br />
+
+Incertos rumores, d'aquelles que percorrem
+um paiz em tempos similhantes e que augmentam
+e exaggeram, confundem todos os successos
+tinham chegado at&eacute; &aacute;s pacificas
+solid&otilde;es do
+valle com as not&iacute;cias de combates sanguinarios,
+de commo&ccedil;&otilde;es violentas, de desacatos sacrilegos,
+de vingan&ccedil;as e reprezalias atrozes tomadas pelos
+aggressores, retribu&iacute;das pelos que se defendiam.
+<br />
+
+<br />
+
+Chegou a sexta-feira; e as horas d'esse dia,
+sempre desejado e sempre temido, foram contadas
+minuto a minuto&#8213;a qual mais longo, a
+qual mais pezado e lento de volver, quanto mais
+se approximava o derradeiro.
+<br />
+
+<br />
+
+O sol declinava ja... e Fr. Diniz sem apparecer!
+<br />
+
+<br />
+
+No seu poiso ordinario aop&eacute; da porta da casa,
+Joanninha com os olhos extendidos, a velha com
+os ouvidos &aacute;lerta, devoravam o espa&ccedil;o na
+direc&ccedil;&atilde;o
+de nascente, esperando a cada momento, temendo
+<span class="pagenum">[173]</span>a cada instante
+ver apparecer o conhecido
+vulto, ouvir o som familiar dos passos do frade.
+<br />
+
+<br />
+
+E tam intentas, tam absortas estavam ainda
+n'este cuidado, que n&atilde;o deram fe d'um religioso
+que pelo lado opposto, isto &eacute;, da banda de
+Lisboa, para alli se incaminhava a passos arrastados
+mas presurosos.
+<br />
+
+<br />
+
+Chegou rente d'ellas sem o sentirem; e uma
+voz conhecida, por&ecirc;m mais cava e funda do que
+nunca a ouviram, pronunciou a f&oacute;rmula de
+sauda&ccedil;&atilde;o
+costumada:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Deus seja n'esta casa!'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Amen!' responderam ambas machinalmente,
+com um estreme&ccedil;&atilde;o involuntario; e voltando
+derepente a cara para o lado d'onde vinha
+a voz.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Jesus!' disse depois a velha tornando a
+si, 'Padre Fr. Diniz, de d'onde vem tam tarde?'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Chego de Lisboa.'
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[174]</span> &#8213;'De Lisboa? Deus lh'o pague!... Foi saber?..'<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Fui, fui saber novas d'esta horrivel guerra,
+d'esta tremenda visita&ccedil;&atilde;o do Senhor &aacute;
+condemnada
+terra de Portugal...'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'E ent&atilde;o, diga'...
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Boas novas, boas novas trago!'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Sente-se, padre, sente-se. Joanninha, chega
+uma cadeira: descanse.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'N&atilde;o &eacute; tempo de descansar este, mas
+de&nbsp;vigiar e de orar.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Pois que succedeu, padre? N&atilde;o me tenha
+n'esta horrivel suspens&atilde;o. Diga: onde est&aacute;
+elle? Alguma desgra&ccedil;a grande lhe aconteceu,
+oh meu Deus!..
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'E que me importa a mim o que aconteceu
+ou podia acontecer a mais um de tantos
+perdidos? Encher&aacute; a sua medida, ir&aacute;
+ap&oacute;s dos
+<span class="pagenum">[175]</span>
+outros... caminha nas trevas com elles, e como
+elles, so hade parar no abysmo.'
+<br />
+
+<br />
+
+A &eacute;stas derradeiras palavras do frade asperamente
+pronunciadas e em tom de indifferen&ccedil;a e
+despr&ecirc;zo, seguiu-se aquelle silencio comprimido,
+aquella pausa de toda a conversa&ccedil;&atilde;o grave e
+&iacute;ntima
+em que os pensamentos s&atilde;o tantos que se
+atropellam e n&atilde;o acham sahida na voz.
+<br />
+
+<br />
+
+Fr. Diniz mentia... na dureza d'aquellas
+express&otilde;es
+mentia ao seu cora&ccedil;&atilde;o&#8213;n&atilde;o mentia ao
+seu espirito. Como o caustico se applica &aacute; epiderme
+para deslocar a inflamma&ccedil;&atilde;o interior, elle
+ro&ccedil;ava o peito com as asperid&otilde;es de sua doutrina
+e de seus principios rigidos para amortecer
+dentro a viva dor d'alma que o consummia.
+<br />
+
+<br />
+
+O frade estava por f&oacute;ra, o homem por dentro.
+<br />
+
+<br />
+
+O observador vulgar n&atilde;o via sen&atilde;o o burel
+e a corda que amortalhavam e cadaver. O
+que attentasse bem n'aquelles olhos, o que reparasse
+bem nas inflex&otilde;es d'aquella voz, diria:
+'Frade, tu mentes; mentes sem saberes que
+mentes: es sincero na tua fe, na tua austeridade,
+<span class="pagenum">[176]</span>na tua
+abnega&ccedil;&atilde;o; mas o teu sacrificio
+&eacute; como o de Abraham na montanha, e Deus
+sabe que tu n&atilde;o tens f&ocirc;r&ccedil;a para o
+cumprir.'
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o o percebeu assim a pobre velha aquem
+os rigores de Fr. Diniz faziam tremer, e que
+para toda a affei&ccedil;&atilde;o, para todo o sentimento
+humano
+julgava morto o cora&ccedil;&atilde;o do cenobita.
+<br />
+
+<br />
+
+Ella que no silencio de suas noites sempre
+veladas, na perp&eacute;tua escurid&atilde;o de seus dias
+sempre
+tristes luctava ha tanto tempo, luctava debalde
+para desprender das affei&ccedil;&otilde;es do mundo,
+aquelle seu pobre cora&ccedil;&atilde;o que queria immollar
+ao Senhor, ella via com sancta inveja e
+admira&ccedil;&atilde;o
+as sobrehumanas f&ocirc;r&ccedil;as que imaginava no
+frade; e desanimada de o pod&ecirc;r seguir n'essas
+alturas da perfei&ccedil;&atilde;o evangelica, recahia, mais
+desalentada
+e mais miseravel que nunca, em toda
+a sua fraqueza de mulher e de m&atilde;e.
+<br />
+
+<br />
+
+Oh! n&atilde;o sabe o que &eacute; tormento, o que &eacute;
+inferno
+n'este mundo, o que n&atilde;o soffreu destas ang&uacute;stias!
+<br />
+
+<br />
+
+Mas permitte Deus que as pade&ccedil;a quem n&atilde;o
+<span class="pagenum">[177]</span>
+tem grandes culpas, grandes e irreparaveis erros
+que expiar n'este mundo?
+<br />
+
+<br />
+
+Eu creio firmemente que n&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="dots"></div>
+
+<br />
+
+<div class="dots"></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Cansada e exhausta ja de tam porfiada lucta, a velha
+perdeu de todo a raz&atilde;o com as derradeiras palavras do
+frade, e n'um paroxismo de ch&ocirc;ro exclamou:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Diniz!.. Fr. Diniz, por aquelle pinhor
+sagrado que eu tenho em meu pod&ecirc;r, por aquella
+preciosa cruz s&ocirc;bre a qual se derramaram as
+&uacute;ltimas
+lagrymas da minha desgra&ccedil;ada filha, Diniz!...'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Silencio!' bradou o frade, arrancando um
+brado de dentro do peito que fez gemer os echos
+todos do valle: 'Silencio, mulher! n&atilde;o conjure o
+demonio que eu trago incarcerado n'este seio, que
+&aacute; f&ocirc;r&ccedil;a de penitencias mal pude domar
+ainda...
+que so a morte poder&aacute; talvez expellir. Mulher,
+mulher! este cadaver que ja morreu que ja apodreceu
+em tudo o mais, que ja o comem, sem o
+elle sentir, os bichos todos da destrui&ccedil;&atilde;o...
+este
+<span class="pagenum">[178]</span>
+cadaver tem um unico ponto vivo no cora&ccedil;&atilde;o...
+e o dedo do teu egoismo ahi foi tocar, oh mulher!..
+Peccado que est&aacute;s sempre contra mim!
+Justi&ccedil;a eterna de Deus quando ser&aacute;s satisfeita?'
+<br />
+
+<br />
+
+Romp&ecirc;ra na maior violencia a voz do frade,
+mas descahiu n'um tom baixo e medonho ao fazer
+&eacute;sta &uacute;ltima impreca&ccedil;&atilde;o
+mysteriosa. As derradeiras
+syllabas quasi que lhe morreram nos bei&ccedil;os
+convulsos, e ao balbuci&aacute;-las deixou-se cahir,
+exhausto e como quem mais n&atilde;o podia, na cadeira
+que Joanninha lhe cheg&aacute;ra.
+<br />
+
+<br />
+
+A velha aterrada e confusa tremia do que fizera,
+como deante do espirito immundo que seus
+maleficios evocaram, treme a maga assustada de
+seu proprio pod&ecirc;r.
+<br />
+
+<br />
+
+Passaram alguns segundos que nenhumas palavras
+podem descrever.
+<br />
+
+<br />
+
+O frade levantou o rosto, olhou para ella, olhou
+para Joanninha... e, como quem emerge, por
+grande esf&ocirc;r&ccedil;o, de um p&ecirc;so enorme
+d'aguas que
+o submergiam, sacudiu a cabe&ccedil;a, sorveu um longo
+<span class="pagenum">[179]</span>trago de ar, e
+disse na sua voz ordinario, so
+mais debil:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Carlos, senhora... minha irman, Carlos
+est&aacute; vivo; e exaqui, vinda pelo consul de Fran&ccedil;a,
+uma carta d'elle.'
+<br />
+
+<br />
+
+Tirou uma carta da manga e a intregou a Joanninha.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c18"></a>CAPITULO XVIII.
+</h3>
+
+<br />
+
+<div class="intro">Descobre-se que ha grandes e espantosos
+segredos entre o frade
+e a velha.&#8213;Piedosa fraude de Joanninha.&#8213;Lucta entre
+o h&aacute;bito e o monge.
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+O frade intregou a carta a Joanninha, que, lan&ccedil;ando
+os olhos ao sobrescripto, ficou indecisa e
+inquieta como quem receia e deseja e teme de
+saber alguma coisa. Elle com voz tr&eacute;mula e sobresaltada
+accrescentou:
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[182]</span> &#8213;'Adeus, que s&atilde;o horas!.. Leiam, e sexta-feira
+que vem... me dir&atilde;o...'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Poisqu&ecirc;' disse timidamente a velha 'n&atilde;o
+quer ouvir o que elle nos escreve?'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Sexta-feira que vem' continuou Fr. Diniz,
+sem ouvir ou sem attender a pergunta 'sexta-feira
+que vem eu tomarei conta da resposta,
+e lh'a farei chegar pela mesma via... So uma
+coisa! nem palavra a meu respeito: eu para Carlos...
+morri.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Diniz!' exclamou a velha f&oacute;ra de si 'Diniz!..'
+<br />
+
+<br />
+
+O frade tornou derepente ao seu tom austero,
+e respondeu gravemente: 'O qu&ecirc;, minha irman?'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Era' disse ella timida e submissa outra
+vez 'era se, era que... Pois n&atilde;o hade ouvir
+ler a carta d'elle?'
+<br />
+
+<br />
+
+Fr. Diniz n&atilde;o respondeu, mas ficou sentado:
+descahiu-lhe a cabe&ccedil;a s&ocirc;bre o peito, e
+abra&ccedil;ando-se
+com o bord&atilde;o, n&atilde;o deu mais signal de si.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[183]</span>
+A velha escutou em silencio alguns segundos,
+e com aquelle ouvido agudissimo&#8213;penetrante
+vista dos cegos&#8213;percebeu sem d&uacute;vida o que se
+passava, e com mais conf&ocirc;rto e serenidade na
+voz disse:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Abre, Joanna, l&ecirc;, minha filha.'
+<br />
+
+<br />
+
+Joanninha abriu a carta, e percorreu com avidez
+as poucas linhas que ella incerrava.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'N&atilde;o les?' acudiu a av&oacute; com impaciencia:
+'L&ecirc;, l&ecirc; alto, Joanna.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'&Eacute; para mim so a carta' disse ella friamente.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Para ti so, como?' tornou a outra.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'&Eacute; para mim so &eacute;sta carta... n&atilde;o diz
+nada
+que...'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'N&atilde;o diz nada!' replicou a av&oacute; 'Pois!...
+L&ecirc;, l&ecirc; alto; seja como for, l&ecirc;, e
+oi&ccedil;amos.'
+<br />
+
+<br />
+
+Joanninha parecia hesitar ainda; lan&ccedil;ou os
+<span class="pagenum">[184]</span>
+olhos ao frade, achou-o na mesma attitude impassivel;
+voltou-se para a av&oacute;, viu-a anciada e anxiosa...
+leu.
+<br />
+
+<br />
+
+A carta era com effeito para ella so, e carta
+bem singela, n&atilde;o continha sen&atilde;o as ingenuas
+express&otilde;es
+de um amor fraterno nunca esquecido,
+longas saudades do passado, poucas esperan&ccedil;as no
+futuro, quasi nenhumas de se tornarem a ver tam
+cedo. Tudo isto por&eacute;m era com a prima: para
+a desconsolada av&oacute;, para ninguem mais... nem
+uma palavra.
+<br />
+
+<br />
+
+Joanninha ia lendo, lendo... e a voz a descahir-lhe:
+no fim ajunctou uns abra&ccedil;os, umas saudosas
+lembran&ccedil;as, e n&atilde;o sei que phrase incompleta
+e mal articulada em que se pedia a ben&ccedil;am
+da av&oacute;.
+<br />
+
+<br />
+
+A velha abanou a cabe&ccedil;a tristemente e disse:
+'Ora pois... bemditto seja Deus!'
+<br />
+
+<br />
+
+Joanninha c&oacute;rou at&eacute; o branco dos olhos... Inda
+bem que a n&atilde;o podia ver a av&oacute;! Mas viu-a
+Fr. Diniz, e com a m&atilde;o tr&eacute;mula e os olhos
+arrazados
+d'agua lhe fez um mudo e expressivo
+<span class="pagenum">[185]</span>
+signal de approva&ccedil;&atilde;o e agradecimento. Joanninha
+c&oacute;rou outra vez, e logo se fez pallida como
+a morte: era a primeira vez que mentia... e Fr.
+Diniz, o aust&eacute;ro Fr. Diniz approv&aacute;-la!
+<br />
+
+<br />
+
+O frade levantou-se, e sem dizer palavra, tomou
+o caminho de Santarem.
+<br />
+
+<br />
+
+Ouvia-se ao longe o arquejar de uns solu&ccedil;os
+suffocados... Seriam d'elle?
+<br />
+
+<br />
+
+A av&oacute; e a neta abra&ccedil;aram-se e choraram.
+<br />
+
+<br />
+
+Nenhuma d'ellas disse palavra s&ocirc;bre a carta:
+a velha tinha percebido a piedosa fraude de Joanninha...
+<br />
+
+<br />
+
+Oh! que existencias que eram aquellas quatro!
+Esse frade, essa velha e essas duas crian&ccedil;as! E
+a maior parte da gente que &eacute;
+<em>gente</em>, vive assim...
+E querem, querem-n'a assim mesmo, a vida,
+teem-lhe app&ecirc;go! Oh que enigma &eacute; o homem!
+<br />
+
+<br />
+
+Tornou a passar outra semana, e o frade tornou
+a vir no praso costumado, e levou a resposta
+da
+Tornou a passar outra semana, e o frade tornou
+a vir no praso costumado, e levou a resposta
+da carta&#8213;resposta que Joanninha so escreveu
+<span class="pagenum">[186]</span>e so viu&#8213;e
+dirigiu-a em Lisboa pela via
+segura que indic&aacute;ra.
+<br />
+
+<br />
+
+Soube-se que f&ocirc;ra intregue; mas semanas e
+semanas decorreram, os meses passaram de anno...
+e outra carta n&atilde;o veio.
+<br />
+
+<br />
+
+No entretanto a guerra civil progredia; e depois
+de suas tremendas peripecias, o grande drama
+da Restaura&ccedil;&atilde;o chegava rapidamente ao fim.
+Eram meiados do anno de 33, a opera&ccedil;&atilde;o do
+Algarve succed&ecirc;ra milagrosamente aos constitucionaes,
+a esquadra de D. Miguel f&ocirc;ra tomada,
+Lisboa estava em pod&ecirc;r d'elles. Os tardios
+e inuteis esfor&ccedil;os dos realistas para retomar
+a capital tinham occupado o resto do ver&atilde;o. Ja
+outubro se descoroava de seus ultimos fructos, e
+as folhas come&ccedil;avam a impallidecer e a cahir,
+quando uma sexta-feira, ao p&ocirc;r do sol, Fr. Diniz
+apparecia no valle mais curvado e mais tr&eacute;mulo
+que nunca. Vinha do ex&eacute;rcito realista que
+ent&atilde;o cercava Lisboa.
+<br />
+
+<br />
+
+Joanninha n&atilde;o era alli, a velha estava so.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Que nos traz, padre?' clamou ella mal
+<span class="pagenum">[187]</span>
+que o sentiu: 'Soube d'elle? Tem escapado a
+&eacute;stas desgra&ccedil;as, a esses combates mortaes?'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'N&atilde;o sei nada, minha irman: ha tres dias
+que de Lisboa se n&atilde;o p&oacute;de obter a menor
+informa&ccedil;&atilde;o.
+As linhas est&atilde;o fechadas e guarnecidas como
+nunca: tudo ind&iacute;ca havermos de ter cedo algum
+combate decisivo.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Deus seja com!..'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Com quem, minha irman?'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Com quem tiver justi&ccedil;a.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Nenhum a tem. De um lado e de outro
+est&aacute; a ambi&ccedil;&atilde;o e a cubi&ccedil;a,
+de um lado e de outro
+a immoralidade, a perdi&ccedil;&atilde;o e o despr&ecirc;zo
+da
+palavra de Deus. Por isso, ven&ccedil;a quem vencer,
+nenhum hade triumphar.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Ai, o meu pobre filho, o meu Carlos!'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Isso, irman Francisca, isso! Pe&ccedil;a a Deus
+que d&ecirc; a victoria a seu neto, e &aacute; impiedade por
+que elle combate. Pe&ccedil;a a Deus que ven&ccedil;am os
+<span class="pagenum">[188]</span>
+inimigos declarados do seu nome, os destruidores
+de seus altares, os profanadores de seus templos...
+Oh! que dia bello e grande n&atilde;o hade ser
+esse, quando Carlos... o seu Carlos, vier expulsar,
+&aacute;s baionetadas, do pobre convento de San'Francisco,
+o velho guardi&atilde;o&#8213;que lhe n&atilde;o hade fugir,
+minha irman!.. d'elle menos que de nenhum outro...
+que ajoelhado deante do altar inclinar&aacute; a
+cabe&ccedil;a como os antigos martyres para cahir na
+presen&ccedil;a do seu Deus &aacute;s m&atilde;os do
+seu...'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Diniz!.. Padre!.. Padre Frei Diniz, que
+horrorosas palavras sahem da sua b&ocirc;cca!.. Meu
+neto, o meu Carlos n&atilde;o &eacute; capaz... oh meu Deus!..'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Seu neto detesta-me... e tem... tem raz&atilde;o.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'N&atilde;o sabe a verdade elle... Carlos est&aacute;
+inganado,
+cuida... n&atilde;o sabe sen&atilde;o meia verdade:
+e eu, eu heide&#8213;custe o que me custar&#8213;eu
+heide...'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Hade o qu&ecirc;?'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Heide desingan&aacute;-lo, heide-lhe dizer a verdade
+<span class="pagenum">[189]</span>toda. Heide
+prostrar-me na sua presen&ccedil;a,
+heide humilhar-me deante do filho de minha
+filha, heide arrastar na poeira de seus p&eacute;s &eacute;stas
+cans e &eacute;stas rugas... morrerei de vergonha e de
+remorsos deante do meu filho, mas elle hade saber
+a verdade.'
+<br />
+
+<br />
+
+Sahiam com tal impeto e com tam desacostumada
+energia &eacute;stas mysteriosas e tremendas palavras
+da b&ocirc;cca da velha, que Fr. Diniz n&atilde;o ousou
+cont&ecirc;-la; ouviu at&eacute; ao fim, deixou quebrar
+o impeto da torrente, e erguendo ent&atilde;o a sua voz
+austera mas pousada, disse n'aquelle tom friamente
+decisivo que tanto imp&otilde;e aos animos apaixonados:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Se tal fizesse, mulher, a minha maldic&ccedil;&atilde;o,
+a maldic&ccedil;&atilde;o eterna de Deus s&ocirc;bre a sua
+cabe&ccedil;a
+para sempre!... Oh mulher, pois n&atilde;o lhe
+basta que elle me abhorre&ccedil;a&#8213;n&atilde;o lhe basta que
+seu neto lhe perdesse o amor... quer... quer tambem
+que nos despreze?'
+<br />
+
+<br />
+
+A velha gemeu profundamente, e, por um geito
+de antiga reminiscencia, levou as m&atilde;os aos olhos
+como se os tapasse para n&atilde;o ver. Ent&atilde;o disse com
+desconsoladas lagrymas na voz:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'A vontade de Deus seja feita!'<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c19"></a>CAPITULO XIX.
+</h3>
+
+<br />
+
+<div class="intro">
+Guerra de postos avan&ccedil;ados. Joanninha no bivac&#8213;De como
+os rouxinoes do valle se disciplinaram a ponto de tocar a alvorada
+e a retreta.&#8213;Quem era a 'menina dos rouxinoes,'
+e porque lhe poseram este nome.&#8213;A sentinella perdida e
+achada.
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+A velha disse aquellas &uacute;ltimas palavras com uma
+express&atilde;o de dor tam resignada, mas tam desconsolada,
+que o frade olhou para ella commovido,
+e sentiu as lagrymas escurecerem-lhe
+a vista.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[192]</span>
+N'este momento Joanninha, que passeiava a
+alguma distancia da casa na direc&ccedil;&atilde;o de Lisboa,
+acudiu sobresaltada bradando:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Av&oacute;, av&oacute;!.. tanta gente que ahi vem!
+soldados e povo... homens e mulheres... tanta
+gente!'
+<br />
+
+<br />
+
+Era a retirada de 11 de outubro.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Deus tenha compaix&atilde;o de n&oacute;s!' disse a
+velha: 'O que ser&aacute; padre?'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'O que hade ser!' respondeu Fr. Diniz:
+'o meu presentimento que se verifica; o combate
+foi decisivo, os constitucionaes vencem.'
+<br />
+
+<br />
+
+Comeffeito foram apparecendo as tropas que
+se retiravam, as gentes que fugiam, e todo
+aquelle confuso e doloroso espectaculo de uma retirada
+em guerra civil...
+<br />
+
+<br />
+
+Alguns feridos, que n&atilde;o podiam mais, ficaram na
+casa do valle intregues &aacute; piedosa guarda e cuidado
+de Joanninha; dos outros tomou conta Fr.
+Diniz e os acompanhou a Santarem.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[193]</span>
+As tropas constitucionaes vinham em seguimento
+dos realistas, e d'alli a poucos dias tinham o
+seu quartel-general no Cartaxo; D. Miguel fortificava-se
+em Santarem, e a casa da velha era
+o &uacute;ltimo posto militar occupado pelo seu
+ex&eacute;rcito.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o tardou muito que a f&ocirc;r&ccedil;a toda, todo
+o inter&ecirc;sse da
+guerra se n&atilde;o concentrasse n'aquelle, ja
+tam pac&iacute;fico e ameno, agora tam desolado e turbulento
+valle.
+<br />
+
+<br />
+
+Eram os derradeiros dias do outomno, a natureza
+parecia tomar d&oacute; pelo homem&#8213;dar triste
+e lugubre decora&ccedil;&atilde;o de scena ao sanguento drama
+de destrui&ccedil;&atilde;o e de miseria que alli se
+&iacute;a
+concluir. As &uacute;ltimas folhas das &aacute;rvores cahiam,
+o ceo nublado e negro vertia s&ocirc;bre a terra apaulada
+torrentes grossas d'agua, a cheia alagava os
+baixos, e as terras altas cobriam-se de hervas maninhas,
+os trabalhos da lavoira cessavam, o gado
+e os pastores fugiam, e os soldados de um e
+de outro campo cortavam as oliveiras seculares...
+<br />
+
+<br />
+
+Tudo estava feio e torpe, tudo era ruina,
+desola&ccedil;&atilde;o
+e morte emt&ocirc;rno da casa do valle, agora
+transformada em quartel e redutto militar.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[194]</span>
+E que era feito, no meio d'&eacute;sta desordem,
+que era feito da nossa pobre velha, da nossa interessante
+Joanninha?
+<br />
+
+<br />
+
+Apenas se estabeleceu a posi&ccedil;&atilde;o dos dous
+exercitos,
+Fr. Diniz queria lev&aacute;-las para Santarem;
+mas n&atilde;o foi possivel. Instancias, rogos, ordem
+positiva, tudo foi em v&atilde;o. Pela primeira vez na
+sua vida, aquella mulher t&iacute;mida, fraca e irresoluta,
+soube ter vontade firme e propria.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Aqui nasci,' dizia ella, 'aqui vivi, aqui
+heide morrer. Que importa como?.. Aqui as
+curtas alegrias, aqui as longas dores da minha
+vida teem passado: onde heide eu ir que possa
+viver ou morrer sen&atilde;o aqui? &Eacute;sta casa sei-a de
+c&oacute;r, &eacute;stas &aacute;rvores conhecem-me, estes
+sitios s&atilde;o
+os ultimos que vi, os unicos de que me lembra:
+como heide eu, velha e cega, ir fazer conhecimento
+com outros para viver n'elles?..'<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'E Joanninha n'essa edade... no meio d'essa
+soldadesca!' suggeria o frade.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Joanninha' tornava ella 'Joanninha &eacute; uma
+crian&ccedil;a, e tem mais juizo, mais energia d'alma,
+<span class="pagenum">[195]</span>mais saude e mais
+f&ocirc;r&ccedil;a do que&#8213;mulheres
+n&atilde;o fallemos&#8213;do que a maior parte dos
+homens. Ficaremos aqui, padre, ficaremos aqui
+melhor do que em Santarem pod&ecirc;mos estar. Deus
+nos defender&aacute;...'
+<br />
+
+<br />
+
+Fr. Diniz cedeu: a mesma vaga e indeterminada
+esperan&ccedil;a que animava a velha, e que a prendia
+tam fortemente alli, n&atilde;o era extranha ao
+cora&ccedil;&atilde;o
+do frade. Ella n&atilde;o ousava nem alludir de
+longe a essa esperan&ccedil;a, mas sentia-se que l&aacute; a
+tinha anninhada e escondida a um canto d'alma...
+Aquelle neto, aquelle filho da filha querida havia
+de vir ter &aacute; casa em que nasc&ecirc;ra... por alli
+havia de passar, e mais dia menos dia... A velha,
+repitto, nem alludia a tal esperan&ccedil;a, mas
+sentia-se que a tinha: percebeu-lh'a Fr. Diniz,
+e ou a partilhasse tambem ou n&atilde;o se atrevesse a
+contrariar raz&otilde;es que lhe n&atilde;o davam, cedeu e
+callou-se.
+<br />
+
+<br />
+
+O seu principal temor era a licenciosa soltura
+dos costumes militares; mas estava Joanninha menos
+exposta por se accolher a uma pra&ccedil;a de guerra
+como Santarem era agora?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[196]</span>
+Brevemente se viu que a av&oacute; tinha accertado.
+A franca e ingenua dignidade de Joanninha, o ar
+grave, a melancholia serena e bondosa da velha
+impozeram tal respeito aos soldados, que&#8213;gra&ccedil;as
+tambem &aacute; coopera&ccedil;&atilde;o efficaz do
+commandante
+do p&ocirc;sto, um bom e honrado cavalheiro transmontano&#8213;ellas
+viviam tam seguras e quietas na
+pequena por&ccedil;&atilde;o da casa que para si reservaram,
+quanto em taes circumstancias era possivel viver.
+Fr. Diniz vinha regularmente ao valle todas as
+sexta-feiras, e nenhum outro h&aacute;bito de suas vidas
+se interrompeu.
+<br />
+
+<br />
+
+E pouco a pouco, os combates, as escaramu&ccedil;as,
+o som e a vista do fogo, o aspecto do sangue,
+os ais dos feridos, o semblante desfigurado
+dos mortos&#8213;a guerra emfim em todas as suas
+f&oacute;rmas, com todo o seu palpitante inter&ecirc;sse, com
+todos os terrores, com todas as esperan&ccedil;as que a
+accompanham, se lhes tornou uma coisa familiar,
+ordinaria...
+<br />
+
+<br />
+
+A tudo se habitua o homem, a todo o estado
+se affaz; e n&atilde;o ha vida, por mais extranha, que
+o tempo e a repetti&ccedil;&atilde;o dos actos lhe
+n&atilde;o fa&ccedil;a
+natural.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[197]</span>
+Todavia de Carlos nem mais uma linha...
+Pobre velha!
+<br />
+
+<br />
+
+Assim passaram meses, assim correu o hynverno
+quasi todo, e ja as amendoeiras se toucavam
+de suas alvissimas flores de esperan&ccedil;a, ja
+uma depois de outra, &iacute;am renascendo as plantas,
+&iacute;am abrolhando as &aacute;rvores; logo vieram as aves
+trinando seus amores pelos ramos... insensivelmente
+era chegado o meio d'Abril, estavamos
+em plena e bella primavera.
+<br />
+
+<br />
+
+A guerra parecia can&ccedil;ada, o furor dos combatentes
+quebrado; rumores de intentadas transac&ccedil;&otilde;es
+gyravam por toda a parte.
+<br />
+
+<br />
+
+No nosso valle as sentinellas dos dous campos
+oppostos, costumadas ja a ver-se todos os dias,
+come&ccedil;avam a ver-se sem odio: principiaram por
+se dizer dos pesados gracejos de guerra, acabaram
+por conversar quasi amigavelmente. Mu&iacute;ta
+vez foi curioso ouvi-los, os soldados, discorrer
+s&ocirc;bre as altas quest&otilde;es d'Estado que dividiam
+o reino e o traziam rev&ocirc;lto ha tantos annos. Se
+as tractavam melhor os do conselho em seus gabinetes!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[198]</span>
+Joanninha que, pouco a pouco, se habitu&aacute;ra
+&aacute;quelle viver de perigos e incertezas, de dia
+para dia lhe ia crescendo o &acirc;nimo, aguerrindo-se.
+Tudo se affazia &aacute;quelle estado: at&eacute; os rouxinoes
+tinham voltado aos loureiros d'aop&eacute; da casa,
+e como que disciplinados obedeciam aos toques
+d'alvorada e de retreta, accompanhando-os de seu
+cantar animado e vibrante.
+<br />
+
+<br />
+
+A essas horas Joanninha era certa em sua janella&#8213;n'aquella
+antiga e elegante janella
+<em>renascen&ccedil;a</em>
+de que primeiro nos namor&aacute;mos, leitor amigo,
+ainda antes de a conhecer a ella. Alli a viam
+as vedetas de ambos os exercitos, alli se acostumaram
+a v&ecirc;-la com o nascer e o p&ocirc;r do sol:
+alli, muda e qu&ecirc;da horas esquecidas, escutava ella
+o vago cantar dos seus rouxinoes, talvez absorta
+em mais vagos pensamentos ainda...
+<br />
+
+<br />
+
+E d'alli lhe pozeram o nome da 'menina dos
+rouxinoes', pelo qual era conhecida em ambos os
+campos: significante e poetico appellido com que
+a saudavam os soldados de ambas as bandeiras!
+<br />
+
+<br />
+
+E uns e outros respeitavam e adoravam a menina
+dos rouxinoes. Entre uns e outros por tacita
+<span class="pagenum">[199]</span>conven&ccedil;&atilde;o
+parecia stipulado que aquella
+suave
+e angelica figura podesse andar livremente no
+meio das armas inimigas, como a pomba dom&eacute;stica
+e valida a que nenhum ca&ccedil;ador se lembra
+de mirar.
+<br />
+
+<br />
+
+Os costumes de guerra s&atilde;o menos soltos do
+que se cuida; no &acirc;nimo do soldado ha mais sentimentos
+delicados, nas suas f&oacute;rmas ha menos rudeza
+do que se pensa. A farda &eacute; sim vaidosa e
+presumida, cr&ecirc; muito nos seus pod&ecirc;res de
+seduc&ccedil;&atilde;o,
+mas n&atilde;o &eacute; brutal sen&atilde;o no primeiro
+impeto.
+<br />
+
+<br />
+
+Joanninha pen&ccedil;ava os feridos, velava os infermos,
+tinha palavras de consola&ccedil;&atilde;o para todos,
+e em tudo quanto dizia e fazia era tam senhora,
+tinha tam grave gentileza, um donaire tam nobre,
+que a amavam todos muito, mas respeitavam-n'a
+ainda mais.
+<br />
+
+<br />
+
+Fiada ja n'este respeito e estima geral, Joanninha
+f&ocirc;ra extendendo, de dia a dia, as suas excurs&otilde;es
+pelo valle. Ultimamente costumava ir,
+pelo fim da tarde, at&eacute; um pequeno grupo de alamos
+e oliveiras que ficava mais para o sul e perto
+<span class="pagenum">[200]</span>
+do logar donde, &aacute; noite, se collocavam as derradeiras
+vedetas dos constitucionaes.
+<br />
+
+<br />
+
+Um dia, ja quasi p&ocirc;sto o sol, a tarde quente
+e serena,&#8213;ou fosse que adormeceu ou que suas
+medita&ccedil;&otilde;es a distrahiram&#8213;o certo &eacute;
+que os rouxinoes
+gorjeavam ha muito nos loureiros da janella,
+e Joanninha n&atilde;o voltava.
+<br />
+
+<br />
+
+Estabeleceram-se as vedetas de um lado e outro,
+deram-se todas as disposi&ccedil;&otilde;es costumadas
+para a noite.
+<br />
+
+<br />
+
+O official dos constitucionaes que andava collocando
+as suas sentinellas, tinha vindo essa mesma
+tarde de Lisboa com um ref&ocirc;r&ccedil;o de tropa.
+P&ocirc;s-se elle em marcha com a sua gente, foi-a
+dispondo nos logares convenientes, e chegava emfim
+aop&eacute; d'aquelle grupo de &aacute;rvores:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Silencio!' disse elle 'Alto! alli est&aacute; um vulto.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'N&atilde;o &eacute; ninguem,' respondeu um soldado
+que era dos antigos no p&ocirc;sto: 'ninguem que importe;
+&eacute; a menina dos rouxin&otilde;es. Estou vendo
+que adormeceu no seu poiso costumado.'
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[201]</span> &#8213;'A menina dos rouxin&otilde;es! Que
+cantiga &eacute;
+essa que me cantas tu l&aacute;?'
+<br />
+
+<br />
+
+O soldado deu a explica&ccedil;&atilde;o popular do seu
+ditto, mostrou a casa do valle, e continuava incarecendo
+s&ocirc;bre os meritos e virtudes de Joanninha...
+<br />
+
+<br />
+
+O official n&atilde;o o deixou acabar:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Para a rettaguarda, e silencio!'
+<br />
+
+<br />
+
+Foi rapidamente postar, a alguma distancia
+d'alli, as duas sentinellas que lhe faltavam; e elle
+entrou so no pequeno grupo d'&aacute;rvores.
+<br />
+
+<br />
+
+Era Joanninha que estava alli, Joanninha que
+effectivamente dormia a somno s&ocirc;lto.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c20"></a>CAPITULO XX.
+</h3>
+
+<br />
+
+<div class="intro">Joanninha adormecida&#8213;O <a href="#e16">demi-jour</a> da
+coquette.&#8213;Poesia
+do Flos-sanctorum*.&#8213;De como os rouxinoes acompanhavam
+sempre a menina do seu nome; e do bem que um d'elles
+cantava no bivac.&#8213;Retratto esquissado &aacute; pressa para
+satisfazer
+&aacute;s amaveis leitoras.&#8213;Pondera-se o triste e pessimo
+g&ocirc;sto dos nossos governantes em tirarem as honras militares
+ao mais elegante e mais nacional uniforme do ex&eacute;rcito
+portuguez.&#8213;Em que se parece o auctor da presente obra
+com um pintor da edade-m&eacute;dia.&#8213;De como os
+abra&ccedil;os, por
+mais apertados que sejam, e os beijos, por mais interminaveis
+que pare&ccedil;am, sempre teem de acabar porfim.
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+S&ocirc;bre uma especie de banco rustico de verdura,
+tape&ccedil;ado de grammas e de macella brava,
+Joanninha, meio recostada, meio deitada, dormia
+profundamente.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[204]</span>
+A luz ba&ccedil;a do crepusculo, coada ainda pelos
+ramos das &aacute;rvores, illuminava tibiamente as expressivas
+fei&ccedil;&otilde;es da donzella; e as f&oacute;rmas
+graciosas
+de seu corpo se desenhavam molle e voluptuosamente
+no fundo vaporoso e vago das exhala&ccedil;&otilde;es
+da terra, com uma incerteza e indecis&atilde;o de
+contornos que redobrava o incanto do quadro, e
+permittia &aacute; imagina&ccedil;&atilde;o exaltada
+percorrer toda a
+escalla d'harmonia das gra&ccedil;as femininas.
+<br />
+
+<br />
+
+Era um ideal do demi-jour da coquette parisiense:
+sem arte nem estudo, lh'o prepar&aacute;ra
+a natureza em seu boudoir de folhagem perfumado
+da brisa recendente dos prados.
+<br />
+
+<br />
+
+Como n'essas poeticas e populares legendas de
+um dos mais poeticos livros que se tem escripto,
+o Flos-sanctorum, em que a ave querida e
+fadada accompanha sempre a amavel sancta de
+sua affei&ccedil;&atilde;o&#8213;Joanninha n&atilde;o estava
+alli sem o
+seu mavioso companheiro. Do mais esp&ecirc;sso da
+ramagem, que fazia sobreceo &aacute;quelle leito de verdura,
+sahia uma torrente de melodias, vagas e
+ondulantes como a selva com o vento, fortes, bravas,
+e admiraveis de irregularidade e inven&ccedil;&atilde;o,
+como as barbaras endeixas de um poeta selvagem
+<span class="pagenum">[205]</span>das montanhas...
+Era um rouxinol, um dos
+queridos rouxinoes do valle que alli fic&aacute;ra de vela
+e companhia &aacute; sua protectora, &aacute; menina do seu
+nome.
+<br />
+
+<br />
+
+Com o approximar dos soldados, e o cochichar
+do curto dialogo que no fim do &uacute;ltimo capitulo
+se referiu, cess&aacute;ra por alguns momentos o delicioso
+canto da avezinha; mas quando o official,
+postadas as sentinellas a distancia, voltou p&eacute; ante
+p&eacute; e entrou cautellosamente para debaixo das
+&aacute;rvores, ja o rouxinol tinha tornado ao seu canto,
+e n&atilde;o o suspendeu outra vez agora, antes redobrou
+de trillos e gorgeios, e do mais alto de
+sua voz agudissima veio descahindo depois em uns
+suspiros tam magoados, tam sentidos, que n&atilde;o disseras
+sen&atilde;o que preludiava &aacute; mais terna e maviosa
+scena d'amor que esse valle tivesse visto.
+<br />
+
+<br />
+
+O official...&#8213;Mas certo que as amaveis leitoras
+querem saber com quem trattam, e exigem,
+pelo menos, uma esquissa rapida e a largos tra&ccedil;os
+do novo actor que lhes vou appresentar em scena.
+<br />
+
+<br />
+
+Teem raz&atilde;o as amaveis leitoras, &eacute; um dever
+de romancista a que se n&atilde;o p&oacute;de faltar.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[206]</span>
+O official era m&ocirc;&ccedil;o,
+talvez n&atilde;o tinha trinta annos;
+p&ocirc;sto que o tratto&nbsp;das armas, o rigor das
+esta&ccedil;&otilde;es, e o s&ecirc;llo visivel dos
+cuidados que trazia
+estampado no rosto, accentuassem ja mais fortemente,
+em fei&ccedil;&otilde;es de homem feito, as que ainda
+devia arredondar a juventude.
+<br />
+
+<br />
+
+A sua estatura era mediana, o corpo delgado,
+mas o peito largo e forte como precisa um cora&ccedil;&atilde;o
+de homem para pulsar livre; seu porte gentil
+e decidido de homem de guerra desenhava-se
+perfeitamente sob o espesso e largo sobretudo militar&#8213;especie
+de great-coat inglez que a imita&ccedil;&atilde;o
+das modas britannicas tinha tornado familiar
+nos nossos bivacs. Trazia-o desabotoado e descahido
+para traz, porque a noite n&atilde;o era fria; e
+viu-se por baixo elegantemente cingida ao corpo
+a fardeta parda dos ca&ccedil;adores, real&ccedil;ada de seus
+characteristicos alamares pretos e avivada de incarnado...
+<br />
+
+<br />
+
+Uniforme tam militar, tam nacional, tam caro
+a nossas recorda&ccedil;&otilde;es&#8213;que essas gentes,
+prostituidoras
+de quanto havia nobre, popular e respeitado
+n'esta terra, proscreveram do ex&eacute;rcito... por
+<span class="pagenum">[207]</span>
+muito portuguez demais talvez! deram-lhe baixa
+para os beleguins da alfandega, reformaram-n'o
+em uniforme da bicha!
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o pude resistir a esta reflex&atilde;o: as amaveis
+leitoras me perdoem por interromper com ella o
+meu retratto.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas quando pinto, quando vou riscando e
+collorindo as minhas figuras, sou como aquelles
+pintores da edade-m&eacute;dia que interla&ccedil;avam, nos
+seus
+paineis, distichos de senten&ccedil;as; fittas lavradas de
+moralidades e conceitos... talvez porque n&atilde;o sabiam
+dar aos gestos e attitudes express&atilde;o bastante
+para dizer por elles o que assim escreviam,
+e servia a penna de supplemento e illustra&ccedil;&atilde;o ao
+pincel... Talvez: e talvez pelo mesmo motivo caio
+eu no mesmo defeito...
+<br />
+
+<br />
+
+Ser&aacute;; mas em mim &eacute; irremediavel, n&atilde;o
+sei
+pintar de outro modo.
+<br />
+
+<br />
+
+Voltemos ao nosso retratto.
+<br />
+
+<br />
+
+Os olhos pardos e n&atilde;o muito grandes, mas de
+<span class="pagenum">[208]</span>
+uma luz e viveza &iacute;mmensa, denunciavam o talento,
+a mobilidade do espirito&#8213;talvez a irreflex&atilde;o...
+mas tambem a nobre singeleza de um character
+franco, leal e generoso, facil na &iacute;ra, facil
+no perd&atilde;o, incapaz de se offender de leve, mas
+impossivel de esquecer uma inj&uacute;ria verdadeira.
+<br />
+
+<br />
+
+A b&ocirc;cca, pequena e desdenhosa, n&atilde;o indicava
+comtudo suberba, e muito menos vaidade, mas
+surria na consciencia de uma superioridade inquestionavel
+e n&atilde;o disputada.
+<br />
+
+<br />
+
+O rosto, mais pallido que trigueiro, parecia
+comprido pela barba preta e longa que trazia ao
+uso do tempo. Tambem o cabello era preto; a
+testa alta e desaffogada.
+<br />
+
+<br />
+
+Quando callado e serio, aquella physionomia
+podia-se dizer dura; a mais piquena anima&ccedil;&atilde;o, o
+mais leve sorriso a fazia alegre e prazenteira,
+porque a mobilidade e a gravidade eram os dous pollos
+d'esse character pouco vulgar e difficilmente
+bem intendido.
+<br />
+
+<br />
+
+D'aquelle busto classico e verdadeiramente
+moldado pelos typos da arte antiga, podia o statuario
+<span class="pagenum">[209]</span>fazer um
+philosopho, um poeta, um homem
+d'estado ou um homem do mundo, segundo
+as leves inflex&otilde;es d'express&atilde;o que lhe
+d&eacute;sse.
+<br />
+
+<br />
+
+N'este momento agora, e ao entrar na pequena
+espessura d'aquellas &aacute;rvores, animava-o uma
+viva e inquieta express&atilde;o de inter&ecirc;sse&#8213;quebrado
+comtudo, sustido, e, para assim dizer,
+<em>soffreado</em>
+de um temor occulto, de um pensamento reservado
+e doloroso que lhe ia e vinha resumbrando
+na face, como a antiga e desbotada c&ocirc;r de um
+est&ocirc;fo que se tingiu de novo&#8213;que &eacute; outro agora
+mas que n&atilde;o deixou de ser inteiramente o que
+era...
+<br />
+
+<br />
+
+Alegra-se assim um triste dia de novembro
+com o raio de sol transiente e inesperado que lhe
+rompeu a cerra&ccedil;&atilde;o n'um canto do ceo...
+<br />
+
+<br />
+
+Tal era, e tal estava deante de Joanninha adormecida,
+o que n&atilde;o direi mancebo porque o n&atilde;o
+parecia&#8213;o homem singular a quem o nome, a
+historia e as circumstancias da donzella pareciam
+ter feito tamanha impress&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Joanninha!' murmurou elle apenas a viu
+<span class="pagenum">[210]</span>
+&aacute; luz ainda bastante do crepusculo. 'Joanninha!'
+disse outra vez, contendo a violencia da
+exclama&ccedil;&atilde;o:
+'&Eacute; ella sem d&uacute;vida. Mas que differente!...
+quem tal diria! Que gra&ccedil;a, que gentileza! Ser&aacute;
+poss&iacute;vel que a crian&ccedil;a que ha dois annos?..'
+<br />
+
+<br />
+
+Dizendo isto, por um movimento quasi involuntario
+lhe tomou a m&atilde;o adormecida e a levou
+aos labios.
+<br />
+
+<br />
+
+Joanninha estremeceu e acordou.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Carlos, Carlos!'&#8213;balbuciou ella com os
+olhos ainda meio-fechados, Carlos, meu primo...
+meu irm&atilde;o! era falso, dize: era falso? Foi um
+sonho, n&atilde;o foi, meu Carlos?..'<br />
+
+<br />
+
+E progressivamente abria os olhos mais e mais
+at&eacute; se lhe espantarem e os cravar n'elle arregalados
+de pasmo e de alegria.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Foi, foi' continuou ella 'foi sonho, foi um
+sonho mau que eu tive. Tu n&atilde;o morreste... Falla
+&aacute; tua irman, &aacute; tua Joanna; dize-lhe que
+est&aacute;s
+vivo, que n&atilde;o es a sombra d'elle... N&atilde;o es,
+n&atilde;o,
+que eu sinto a tua m&atilde;o quente na minha que queima,
+<span class="pagenum">[211]</span>sinto-a estremecer
+como a minha... Carlos,
+meu Carlos! dize, falla-me: tu est&aacute;s vivo e s&atilde;o?
+E es... es o meu Carlos? Tu proprio, n&atilde;o &eacute; ja
+o sonho, es tu?...'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Pois tu sonhavas? tu, Joanna, tu sonhavas
+commigo?'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Sonhava como sonho sempre que durmo...
+e o mais do tempo que estou acordada... sonhava
+com aquillo em que so penso... em ti.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Joanna!... prima... minha irman!'
+<br />
+
+<br />
+
+E cahiu nos bra&ccedil;os d'ella; e abra&ccedil;aram-se
+n'um longo, longo abra&ccedil;o&#8213;com um longo, interminavel
+beijo..! longo, longo e interminavel
+como um primeiro beijo d'amantes...
+<br />
+
+<br />
+
+O abra&ccedil;o desfez-se; e o beijo terminou em
+fim, porque os reflexos do ceo na terra s&atilde;o limitados
+e imperfeitos como as incompletas existencias
+que a habitam.
+<br />
+
+<br />
+
+Sen&atilde;o... invejariam os anjos a vida da terra.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[212]</span>
+Joanninha, tornada a si d'aquelle quasi paroximo,
+abria e fechava os olhos para se affirmar
+se estava bem acordada, tocava com as m&atilde;os
+o rosto, o peito, os bra&ccedil;os do primo, palpava-se
+depois a si mesma como quem duvidava de sua
+propria existencia, e dizia em palavras cortadas
+e sem nexo:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'&Eacute; Carlos... Carlos: foi falso. &Eacute; meu primo...
+Minha av&oacute; tambem sonhou o mesmo sonho,
+mas foi falso. Fr. Diniz n&atilde;o &eacute; o que disse, nem
+ninguem: eu e a av&oacute; &eacute; que o sonh&aacute;mos.
+Mas elle
+aqui est&aacute;, vivo... vivo! e nosso, nosso todo outra
+vez!... Mas como vieste tu aqui, Carlos? Como
+estava eu aqui comtigo?... E sos, sosinhos
+aqui a &eacute;sta hora! N&atilde;o deve ser isto... Valha-me
+Deus! E que dir&atilde;o? E Jesus!&#8213;L&aacute; isso
+n&atilde;o me
+importa; deix&aacute;-los dizer: mas n&atilde;o deve ser.
+Vamos,
+Carlos, vamos ter com ella, vamos para a
+av&oacute;!... Que n'isto n&atilde;o ha mal nenhum... Meu
+primo!..
+um primo com quem eu fui criada!.. Mas
+quem n&atilde;o souber, p&oacute;de dizer... Vamos,
+Carlos.&#8213;Oh!
+minha av&oacute; morre de alegria, coitada!..
+&Eacute; verdade: vou adeante preveni-la, prepar&aacute;-la...
+heide-lhe ir assim dizendo pouco a pouco... Segue-me
+tu, Carlos, e vamos.&#8213;Mas, oh meu
+<span class="pagenum">[213]</span>
+Deus! n&atilde;o &eacute; preciso: paraqu&ecirc;? Ella
+&eacute; cega,
+coitadinha, n&atilde;o sabes?'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Cega, que dizes? minha av&oacute; est&aacute; cega?'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Pois n&atilde;o sab&iacute;as? Ai! &eacute; verdade,
+n&atilde;o
+sab&iacute;as.
+Tantas coisas que tu n&atilde;o sabes, meu Carlos!
+Mas eu te contarei tudo, tudo. Olha: cegou
+quando... Mas n&atilde;o fallemos agora n'essas tristezas
+que ja la v&atilde;o. Em ella te sentindo aop&eacute; de
+si, &eacute; o mesmo que tornar-lhe a vista. Tem-m'o
+ella ditto muitas vezes, e eu bem sei
+que &eacute; assim. Mas ouve: um dia havemos de
+fallar&#8213;n&oacute;s
+dois sos&#8213;&aacute; vontade: tenho tanto que
+te dizer... nem tu sabes... Agora vamos, Carlos.'
+<br />
+
+<br />
+
+E fallando assim, tomou-o pela m&atilde;o e sahiu
+para o valle aberto, froixamente acclarado ja de
+myr&iacute;adas de estrellas scintillantes no ceo azul.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c21"></a>CAPITULO XXI.
+</h3>
+
+<br />
+
+<div class="intro">Quem vem l&aacute;?&#8213;Como entre
+dous litigantes nem sempre gosa
+o terceiro.&#8213;Carlos e Joanninha n'uma especie de
+situa&ccedil;&atilde;o
+<em>ordeira</em>, a mais perigosa e falsa das
+situa&ccedil;&otilde;es.
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+As estrellas luziam no ceo azul e diaphano,
+a brisa temperada da primavera suspirava brandamente;
+na larga solid&atilde;o e no vasto silencio
+do valle distinctamente se ouvia o doce
+<span class="pagenum">[216]</span>
+murm&uacute;rio da voz de Joanninha, claramente se
+via o vulto da sua figura e da do companheiro
+que ella levava pelo m&atilde;o e que machinalmente a
+seguia como sem vontade propria, obedecendo
+ao pod&ecirc;r de um magnetismo superior e irresistivel.
+<br />
+
+<br />
+
+Passavam, sem as ver e sem reflectir onde estavam,
+por entre as vedetas de ambos os campos...
+e ao mesmo tempo de umas e outras lhes
+bradou o voz breve e stridente das sentinellas:
+'Quem vem l&aacute;?'
+<br />
+
+<br />
+
+Estremeceram involuntariamente ambos com o
+som repentino de guerra e de allarma que os chamava
+&aacute; esquecida realidade do s&iacute;tio, da hora,
+das circumstancias em que se achavam... D'aquelle
+sonho incantado que os transport&aacute;ra ao
+&Eacute;den querido de sua infancia, accordaram sobresaltados...
+viram-se na terra erma e bruta,
+viram a espada flammejante da guerra civil que
+os perseguia, que os desunia, que os expulsava
+para sempre do paraizo de delicias em que tinham
+nascido...
+<br />
+
+<br />
+
+Oh! que imagem eram esses dous, no meio
+d'aquelle valle nu e aberto, &aacute; luz das estrellas
+<span class="pagenum">[217]</span>
+scintillantes, entre duas linhas de vultos negros,
+aqui alli dispersos e luzindo acaso do tranziente
+reflexo que fazia brilhar uma baioneta, um fuzil...
+que imagem n&atilde;o eram dos verdadeiros e
+mais sanctos sentimentos da natureza expostos e
+sacrificados sempre no meio das luctas barbaras
+e estupidas, no conflicto de falsos principios em
+que se estorce continuamente o que os homens
+chamaram <em>sociedade</em>!
+<br />
+
+<br />
+
+Joanninha abra&ccedil;ou-se com o primo; elle parou
+derepente e foi com a m&atilde;o ao punho da espada.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Quem vem l&aacute;?' tornaram a bradar as sentinellas.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Ouves, Joanna?' disse Carlos em voz baixa
+e sentida: 'Ouves estes brados?' &Eacute; o grito
+da guerra que nos manda separar; &eacute; o clamor
+cioso e vigilante dos partidos que n&atilde;o tolera a nossa
+intimidade, que separa o irm&atilde;o da irman, o
+pae do filho!..'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Quem vem l&aacute;?' bradaram ainda mais forte
+as &#8213;'Quem vem l&aacute;?' bradaram ainda mais forte
+as sentinellas; e ouviu-se aquelle stridor ba&ccedil;o
+e breve que tam froixo &eacute; e tam forte impress&atilde;o
+<span class="pagenum">[218]</span>faz nos mais
+bravos animos... era o som dos
+gatilhos que se armavam nas espingardas.
+<br />
+
+<br />
+
+O&nbsp;momento era supremo, o perigo imminente e
+ja inevitavel... alli podiam ficar ambos, traspassados
+das ballas oppostas dos dous campos contendores.
+<br />
+
+<br />
+
+Como esses que, fiados em sua innocencia e
+abnega&ccedil;&atilde;o, cuidam pod&ecirc;r passar por
+entre as discordias
+civis sem tomar parte n'ellas, e que s&atilde;o,
+por isso mesmo, objecto de todas as desconfian&ccedil;as,
+alvo de todos os tiros&#8213;assim estavam alli os dous
+primos na mais arriscada e falsa posi&ccedil;&atilde;o
+que t&ecirc;em as revolu&ccedil;&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+Joanninha conheceu o perigo que os amea&ccedil;ava;
+e com aquella rapidez de resolu&ccedil;&atilde;o que a mulher
+tem mais prompta e segura nas grandes occasi&otilde;es,
+disse para Carlos:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Falla aos teus, faze-te conhecer e p&otilde;e-te
+a salvo. &Aacute;manhan nos tornaremos a ver: eu te avisarei.
+Adeus!'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'E tu, tu?.. E as sentinellas dos realistas?..'
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[219]</span> &#8213;'N&atilde;o tenhas cuidado em mim. D'esta banda
+todos me conhecem'.
+<br />
+
+<br />
+
+Deu alguns passos para o lado da sua casa e
+levantou a voz:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Joanninha! Sou eu, camaradas, sou eu!'
+<br />
+
+<br />
+
+Immediatamente se ouviu o som retinido das
+coronhas no ch&atilde;o, e o riso contente dos soldados
+que reconheciam a bemquista e bem vinda voz
+de Joanninha... da 'menina dos rouxinoes.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Ves, Carlos?.. Adeus! at&eacute; &aacute;manhan.'
+disse ella baixo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'At&eacute; amanhan se...'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Se!.. Pois tu?..'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Ouve: n&atilde;o digas a tua av&oacute; que me viste, que
+estou aqui: &eacute; for&ccedil;oso, &eacute;
+indispensavel, exijo-o de ti...'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'E &aacute;manhan me dir&aacute;s?..'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Sim.'
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[220]</span> &#8213;'Prometto: n&atilde;o direi nada... Mas, oh! Carlos...'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Adeus!'
+<br />
+
+<br />
+
+Carlos deu dous passos para a banda das suas vedetas,
+Joanna correu para o lado opposto. Mas
+elle parou e n&atilde;o tirou os olhos d'aquella f&oacute;rma
+gentil que deslizava como uma sombra pelo horisonte
+do valle, at&eacute; que desappareceu de todo.
+<br />
+
+<br />
+
+E elle immovel ainda!
+<br />
+
+<br />
+
+Fa&iacute;scaram derepente como relampagos um,
+dous, tres... e as detona&ccedil;&otilde;es que os seguiram, e
+o
+assovio das ballas que vinham dep&oacute;s ellas... Eram
+as sentinellas constitucionaes que faziam fogo s&ocirc;bre
+o seu commandante que n&atilde;o conheciam, cujo
+silencio e immobilidade o fazia suspeito.
+<br />
+
+<br />
+
+Uma das ballas ainda o feriu levemente no bra&ccedil;o
+esquerdo.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Bem, camaradas!' bradou Carlos caminhando
+rapidamente para elles, e erguendo a voz
+forte e cheia que tam conhecida era nas fileiras:
+<span class="pagenum">[221]</span>
+'Bem! Fizeram a sua obriga&ccedil;&atilde;o. Um de
+voc&ecirc;s
+que me aperte aqui o bra&ccedil;o com este len&ccedil;o.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Carlos!' gritou ao longe uma voz fina,
+aguda, vibrante de terror pelo espa&ccedil;o 'Carlos!
+falla-me, responde: n&atilde;o te succedeu nada?'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Nada, nada! Socega.'<br />
+
+<br />
+
+E tornou a cahir tudo no silencio. Carlos retirou-se
+ao seu quartel n'uma choupana proxima.
+Os soldados olharam-se entre si e surriram.
+<br />
+
+<br />
+
+Um mais doutor disse para os outros:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'O nosso capit&atilde;o n&atilde;o se descuida: ainda
+hoje chegou, e j&aacute; n&oacute;s l&aacute; vamos, hem?'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'O nosso capit&atilde;o &eacute; d'aqui: n&atilde;o
+sabes?'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Hum! tenho percebido. E ainda lhe dura?
+O home' &eacute; capaz!'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Silencio! Eu te direi logo a historia toda:
+&eacute; uma prima.'
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[222]</span> &#8213;'Ah! prima. Ent&atilde;o n&atilde;o ha nada que dizer.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'&Eacute; a que elles chamam aqui...'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'A menina dos rouxinoes? Essa &eacute; maluca.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Gosta d'ellas assim, que elle tambem o &eacute;.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Pois a freira de San Gonsallo, na Terceira?'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Maluca.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'E a Lady ingleza que?..'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Maluquissima essa! N&atilde;o me hade admirar
+se a vir cahir do ar um dia por ahi como
+bomba. E n&atilde;o hade dar mau estallo!'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Pod&eacute;ra! E incontrando-se com a prima
+ent&atilde;o!..'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Mas elle &eacute; prima ou &eacute; irman?'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'&Eacute; uma tal parentella inrevezada a d'essa
+gente da casa do valle!.. dizem coisas por ahi, que
+<span class="pagenum"><a name="p223">[223]</a></span>
+se eu as intendo!.. E ha um frade no caso, ja
+se sabe...'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Oh! elle ha frade no caso?'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Ha, e que frade! Um apostolico &aacute;s&nbsp;<a href="#e17">direitas</a>!
+Tam feio, t&atilde;o magro! apparece por
+ahi &aacute;s vezes. Eu j&aacute; o lombriguei um dia: e
+que famoso tiro que era! Quasi que me arrependo
+de n&atilde;o ter...'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Isso! hoje iamos matando o nosso capit&atilde;o por
+instantes. Olha agora se lhe matas o tio, ou pae,
+ou o que quer que &eacute;...'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Um frade!'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Um frade n&atilde;o &eacute; gente?'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'N&atilde;o senhor.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Est&aacute; bom: basta de conversar por hoje.
+O que me eu parece &eacute; que n&oacute;s temos cedo muita
+pancada rija.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Venha ella, que isto ja abhorrece.'
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[224]</span>
+Accenderam os cigarros e fumaram.
+<br />
+
+<br />
+
+Com o mesmo soc&ecirc;go d'espirito... sancto Deus!
+accendem os homens a guerra civil, que altera
+e confunde por este modo todas as ideas, todos
+os sentimentos da natureza.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c22"></a>CAPITULO XXII.
+</h3>
+
+<br />
+
+<div class="intro">Bilhete de manhan da prima ao primo.
+Inganam a pobre da
+velha.&#8213;Noite mal dormida.&#8213;Da conversa que teve Carlos
+com os seus bot&otilde;es.&#8213;A Joanninha que elle deix&aacute;ra
+e
+a Joanninha que achou.&#8213;Obriga&ccedil;&otilde;es d'amor, triste
+palavra.&#8213;A
+mulher que elle amava, e se elle a amava ainda.&#8213;Quesitos
+do A. aos seus benevolos leitores. Declara que
+com os hypocritas n&atilde;o falla.&#8213;Quem hade levantar a primeira
+pedra?&#8213;Dous modos differentes de accudir uma coisa ao
+pensamento.
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+No dia seguinte, mal rompia a manhan, um
+paizano que dizia trazer communica&ccedil;&otilde;es
+importantes
+para o commandante do p&ocirc;sto avan&ccedil;ado,
+foi conduzido &aacute; presen&ccedil;a de Carlos e lhe intregou
+uma carta: era de Joanninha.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[226]</span>
+Fiel &aacute; sua promessa, ella n&atilde;o tinha ditto nada
+do inc&ocirc;ntro da v&eacute;spera: dizia a carta. E que
+a av&oacute; estava doente e afflicta; que para a animar
+e consolar, lhe dera not&iacute;cias do primo, como
+vindas por pessoa que o v&iacute;ra e estivera
+com elle. Que ficava mais contente e socegada:
+mas que aquelle estado de anciedade
+n&atilde;o podia prolongar-se. Que a saude da pobre
+velha declinava de dia a dia; que se lhe
+ia a vida, que era mat&aacute;-la n&atilde;o lhe dizer a
+verdade...
+Joanninha concluia com mil affectos e saudades;
+e aprazava por fim o mesmo s&iacute;tio da v&eacute;spera
+para se tornarem a ver, e para concertarem
+o que havia de fazer. Todas as precau&ccedil;&otilde;es estavam
+tomadas, e o consentimento dado pelo commandante
+do p&ocirc;sto contr&aacute;rio para
+haver toda a
+seguran&ccedil;a n'aquella entrevista.
+<br />
+
+<br />
+
+Carlos tinha velado toda a noite; uma excita&ccedil;&atilde;o
+extraordinaria lhe amotin&aacute;ra o sangue, lhe
+desaffin&aacute;ra os nervos. Bem tinha desejado vir para
+aquelle p&ocirc;sto, bem contava, bem esperava elle,
+estando alli, saber de mais perto da sua familia,
+v&ecirc;-los talvez, mais dia menos dia, incontrar-se
+com alguns d'elles... e de todos elles, a innocente
+e graciosa crian&ccedil;a com quem viv&ecirc;ra como
+<span class="pagenum">[227]</span>
+irm&atilde;o desde os seus primeiros annos, era quem
+elle mais esperava, mais desejava ver decerto.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas uma crian&ccedil;a era a que elle tinha deixado,
+uma crian&ccedil;a a brincar, a colh&ecirc;r as boninas,
+a correr atraz das borboletas do valle... uma
+crian&ccedil;a que sim o amava ternamente, cuja suave
+imagem o n&atilde;o tinha deixado nunca em sua
+longa peregrina&ccedil;&atilde;o, cuja saudade o
+accompanh&aacute;ra
+sempre, de quem se n&atilde;o esquec&ecirc;ra um momento,
+nem nos mais alegres nem nos mais occupados,
+nem nos mais difficeis nem nos mais
+perigosos da sua vida...
+<br />
+
+<br />
+
+Mas era uma crian&ccedil;a!.. era a imagem d'uma
+crian&ccedil;a.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; certo, sim: e nas batalhas, em presen&ccedil;a da
+morte... no longo c&ecirc;rco do Porto entre os flagellos
+da cholera e da fome, nas horas de mais
+viva esperan&ccedil;a, no descoro&ccedil;oamento dos mais
+tristes
+dias, a doce imagem de Joanninha, d'aquella
+Joanninha com quem elle andava ao colo, que
+levantava em seus hombros para ella chegar aos
+ninhos dos passaros no ver&atilde;o, aos medronhos maduros
+<span class="pagenum"><a name="p228">[228]</a></span>no
+outomno, que
+elle suspendia nos bra&ccedil;os
+para passar no hynverno <a href="#e18">os
+alagadi&ccedil;os</a> do valle,&#8213;essa
+querida imagem n&atilde;o o abandon&aacute;ra
+nunca.
+<br />
+
+<br />
+
+Nunca!.. nem quando as pennas d'amor, nem
+quando as suas gl&oacute;rias&#8213;mais esquecidi&ccedil;as
+ainda!&#8213;pareciam
+absorver-lhe todos os sentidos,
+e todo o sentimento de seu cora&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+A saudade, a memoria de Joanninha, suavemente
+impressa no mais puro e no mais sancto
+de sua alma, resplandecia no meio de todas as
+sombras que lh'a obscurecessem, sobreluzia no
+meio de qualquer fogo que lh'a allumiasse.
+<br />
+
+<br />
+
+Uma luz quieta, limpida, serena como a tocha
+na m&atilde;o do anjo que ajoelha em innocencia e
+piedade deante do throno do Eterno!
+<br />
+
+<br />
+
+Mas, no mesmo dia em que chegou ao valle,
+quasi na mesma hora, cheio d'aquella luz, mais
+viva e animada agora pela proximidade do foco
+d'onde sahia... n'essa mesma hora, ir incontrar
+alli, n'aquella solid&atilde;o, entre aquellas &aacute;rvores,
+&aacute; tibia e seductora claridade do crepusculo...
+<span class="pagenum">[229]</span>a quem, sancto
+Deus! N&atilde;o ja a mesma Joanninha
+de ha tres annos, n&atilde;o a mesma imagem
+que elle trazia, como a lev&aacute;ra, no
+cora&ccedil;&atilde;o; mas
+uma gentil e airosa donzella, uma mulher feita
+e perfeita, e que nada perd&ecirc;ra, comtudo, da gra&ccedil;a,
+do incanto, do suave e delicioso perfume da
+innocencia infantil em que a deix&aacute;ra!
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o esperava, n&atilde;o estava preparado para a
+impress&atilde;o que recebeu, foi uma surpreza, um
+choque, um reviramento confuso de todas as suas
+ideas e sentimentos.
+<br />
+
+<br />
+
+Qual fosse por&ecirc;m a precisa e verdadeira impress&atilde;o
+que recebeu, nem elle a si proprio o pod&eacute;ra
+explicar: era de um genero novo, unico na
+historia de suas sensa&ccedil;&otilde;es: n&atilde;o a
+conhecia, extranhava-a,
+e quasi que tinha medo de a analysar.
+<br />
+
+<br />
+
+Ser&iacute;a ann&uacute;ncio d'amor?
+<br />
+
+<br />
+
+Mas elle tinha amado, amado muito e dev&eacute;ras...
+e cuidava amar ainda, e devia amar; por
+quanto ha sagrado e sancto nos deveres do
+cora&ccedil;&atilde;o,
+era obrigado a amar ainda.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[230]</span>
+Oh obriga&ccedil;&otilde;es d'amor,
+obriga&ccedil;&otilde;es d'amor! se
+v&oacute;s n&atilde;o sois, se v&oacute;s ja n&atilde;o
+sois sen&atilde;o obriga&ccedil;&otilde;es!..
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o o pensava Carlos, n&atilde;o o cria elle assim:
+leal e sincero tinha intregue o seu cora&ccedil;&atilde;o
+&aacute;
+mulher que o amava, que tantas pr&oacute;vas lhe dera
+d'amor e devo&ccedil;&atilde;o; que descan&ccedil;ava em
+sua f&eacute;,
+que n&atilde;o existia sen&atilde;o para elle: mulher
+m&ocirc;&ccedil;a,
+bella, cheia de prendas e de incantos, mulher
+de um espirito, de uma educa&ccedil;&atilde;o superior, que
+atravess&aacute;ra, desprezando-as, turbas de adoradores
+nobres, riccos, poderosos, para descer
+at&eacute; elle, para se intregar ao foragido, pobre,
+extrangeiro, desprezado.
+<br />
+
+<br />
+
+Quem era essa mulher?
+<br />
+
+<br />
+
+Aonde, como obtivera elle a posse d'essa joia,
+d'esse talisman com o qual se tinha por tam seguro
+para n&atilde;o ver na graciosa prima sen&atilde;o?..
+<br />
+
+<br />
+
+Sen&atilde;o o qu&ecirc;?
+<br />
+
+<br />
+
+A innocente crian&ccedil;a que alli deix&aacute;ra?
+<br />
+
+<br />
+
+Mas n&atilde;o &eacute; verdade isso: outra era a
+impress&atilde;o
+<span class="pagenum">[231]</span>
+que Joanninha lhe fizera, fosse ella qual fosse.
+<br />
+
+<br />
+
+O que era ent&atilde;o?
+<br />
+
+<br />
+
+E s&ocirc;bre tudo, quem era ess'outra mulher que
+elle amava?
+<br />
+
+<br />
+
+E amava-a elle ainda?
+<br />
+
+<br />
+
+Amava.
+<br />
+
+<br />
+
+E Joanninha?
+<br />
+
+<br />
+
+Joanninha era... nem eu sei o que lhe era Joanninha...
+o que lhe estava sendo n'aquelle momento.
+<br />
+
+<br />
+
+O que lhe ella f&ocirc;ra, assas t'o tenho explicado,
+leitor amigo e benevolo: o que lhe ella ser&aacute;...
+P&oacute;des tu, leitor&nbsp;candido e sincero,&#8213;aos
+hypocritas
+n&atilde;o fallo eu&#8213;p&oacute;des tu dizer-me o que
+hade ser &aacute;manhan no teu cora&ccedil;&atilde;o a
+mulher que
+hoje somente achas bella, ou gentil, ou interessante?
+<br />
+
+<br />
+
+P&oacute;des responder-me da parte que tomar&aacute;
+&aacute;manhan
+<span class="pagenum">[232]</span>na tua existencia
+a imagem da donzella que
+hoje contemplas apenas com olhos de artista, e
+lhe est&aacute;s notando, como em quadro gracioso,
+os finos contornos; a pureza das linhas, a express&atilde;o
+verdadeira e animada?
+<br />
+
+<br />
+
+E quando vier, se vier, esse fatal dia de &aacute;manhan,
+responder-me-has tambem da parte que
+ficar&aacute; tendo em tua alma ess'outra imagem que l&aacute;
+estava d'antes e que, ao reflexo d'esta agora,
+d'aqui observo que vai impallidecendo, desc&oacute;rando...
+ja lhe n&atilde;o vejo sen&atilde;o os lineamentos vagos... ja
+&eacute; uma sombra do que foi... Ai! o que ser&aacute; ella
+&aacute;manhan?
+<br />
+
+<br />
+
+Leitor amigo e benevolo, caro leitor meu indulgente,
+n&atilde;o accuses, n&atilde;o julgues &aacute; pressa o
+meu pobre Carlos; e lembra-te d'aquella pedra
+que o Filho da Deus mandou levantar &aacute; primeira
+m&atilde;o que se achasse innocente... A adultera foi-se
+em paz, e ninguem a apedrejou.
+<br />
+
+<br />
+
+Pois &eacute; verdade: Carlos tinha amado, amado
+muito, e amava ainda a mulher a quem promett&ecirc;ra,
+a quem estava resolvido a guardar f&eacute;. E
+essa mulher era bella, nobre, ricca, admirada, &#8213;&#8213;
+Pois &eacute; verdade: Carlos tinha amado, amado
+muito, e amava ainda a mulher a quem promett&ecirc;ra,
+a quem estava resolvido a guardar f&eacute;. E
+essa mulher era bella, nobre, ricca, admirada,
+<span class="pagenum">[233]</span>
+occupava uma alta posi&ccedil;&atilde;o no mundo... e tudo
+lhe sacrific&aacute;ra a elle exilado, desconhecido.
+<br />
+
+<br />
+
+E Carlos estava seguro que nenhuma mulher o
+havia de amar como ella; que os longos e ondados
+anneis de loiro cendrado, que os languidos
+olhos de gazella, que o ar majestoso e altivo,
+que a tez d'uma alvura celeste, que o espirito,
+o talento, a delicadeza de Georgina... Chamava-se
+Georgina; e &eacute; tudo quanto por agora p&oacute;de
+dizer-vos,
+&oacute; curiosas leitoras, o discreto historiador
+d'este mui veridico successo: n&atilde;o lhe pergunteis
+mais, por quem sois. Carlos estava seguro,
+dizia eu, que todas essas perfei&ccedil;&otilde;es, que o seu
+amor sem limites, que a sua confian&ccedil;a sem reserva,
+n&atilde;o podiam ter rival, nem a haviam de ter.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas aquelle beijo, aquelle abra&ccedil;o de Joanninha...
+oh! que lhe tinha elle feito? Como o sent&iacute;ra
+elle? Como lhe guard&aacute;ra o seu talisman o
+cora&ccedil;&atilde;o e a alma?..
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o, Carlos estava certo de si, certo do seu
+antigo amor, lembrado de quanto lhe devia:
+e n'isso reflectiu toda aquella noite que se f&ocirc;ra
+em claro.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[234]</span>
+A imagem de Joanninha l&aacute; apparecia, de vez
+em quando, como um raio de luz transiente e
+magica, no meio d'ess'outras vis&otilde;es do passado
+que a reflex&atilde;o lhe acordava. Ai! essas era a
+reflex&atilde;o
+que as acordava... aquella vinha espontanea;
+era repellida, e tornava, e tornava...
+<br />
+
+<br />
+
+Ha sua notavel differen&ccedil;a n'estes dois modos
+de accudir ao pensamento.
+<br />
+
+<br />
+
+A manhan veio em fim; Carlos respirou o ar
+puro e vivo da madrugada, sentiu-se outro.
+<br />
+
+<br />
+
+Quando chegou a carta de Joanninha, leu-a e
+reflectiu n'ella sem sobresalto. Certo e seguro de
+si, resolveu ir ao prazo dado para a tarde.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c23"></a>CAPITULO XXIII.
+</h3>
+
+<br />
+
+<div class="intro">
+Contin&uacute;a a accudir muita coisa vaga e incontrada ao
+pensamento
+de Carlos.&#8213;Dan&ccedil;a de fadas e duendes.&#8213;Fr. Diniz
+o fado-mau da familia.&#8213;Veremos, &eacute; a grande
+resolu&ccedil;&atilde;o
+nas grandes difficuldades.&#8213;Carlos poeta romantico.&#8213;Olhos
+verdes.&#8213;Desafio a todos os poetas moyen-ages do
+nosso tempo.
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o ha nada como tomar uma resolu&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas hade tomar-se e executar-se: ali&aacute;s, se o
+caso &eacute; difficil e complicado, pouco a pouco as
+<span class="pagenum">[236]</span>
+d&uacute;vidas solvidas come&ccedil;am a inliar-se outra vez,
+a inredar-se... a surgir outras novas, a appresentarem-se
+faces ainda n&atilde;o vistas da quest&atilde;o... em
+fim, se o intervallo &eacute; largo, quando a
+resolu&ccedil;&atilde;o
+tomada chega a executar-se, a maior parte das
+vezes ja n&atilde;o &eacute; por f&ocirc;r&ccedil;a de
+raz&atilde;o e convic&ccedil;&atilde;o que
+se faz, mas por capricho, ponto d'honra, teima.
+<br />
+
+<br />
+
+Carlos tinha resolvido ir ao prazo dado, no
+fim do dia. Mas o dia era longo, custou-lhe a
+passar. Todas as pondera&ccedil;&otilde;es da noite lhe
+recorreram
+ao pensamento, todas as imagens que lhe
+tinham fluctuado no espirito se avivaram, se animaram,
+e lhe come&ccedil;aram a dan&ccedil;ar n'alma aquella
+dan&ccedil;a de fadas e duendes que faz a delicia e
+os tormentos d'estes sonhadores acordados que andam
+pelo mundo e a quem a douta faculdade chama
+<em>nervosos</em>; em stylo de romance
+<em>sensiveis</em>, na
+phrase popular <em>malucos</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Carlos era tudo isso: para que o heide eu negar?
+<br />
+
+<br />
+
+Entre aquellas imagens que assim lhe bailavam
+no pensamento, vinha uma agora... talvez a que
+<span class="pagenum">[237]</span>
+elle via mais distincta entre todas, a da av&oacute; que
+tanto am&aacute;ra, em cujo maternal cora&ccedil;&atilde;o
+elle bem
+sab&iacute;a que tinha a primeira, a maior parte... da
+av&oacute; que tam carinhosa m&atilde;e lhe tinha sido! Pobre
+velhinha, hoje decrepita e cega... Cega, coitada!
+Como e porque cegaria ella?
+<br />
+
+<br />
+
+Havia ahi mysterio que Joanninha indic&aacute;ra,
+mas que n&atilde;o explicou.
+<br />
+
+<br />
+
+Atraz da paciente e humilhada figura d'aquella
+mulher de dores e desgra&ccedil;as, se erguia um
+vulto austero e duro, um homem armado da cabe&ccedil;a
+aos p&eacute;s de ascetica insensibilidade, um homem
+que parecia o fado-mau d'aquella velha, de
+toda a sua familia... o cumplice e o verdugo de
+um grande crime... um ser de mysterio e de terror.
+<br />
+
+<br />
+
+Era Fr. Diniz aquelle homem; homem que
+elle desejava, que elle cuidava detestar, mas por
+quem, no fundo d'alma, lhe clamava uma voz
+mystica e &iacute;ntima, uma voz que lhe dizia: 'Assim
+ser&aacute;
+tudo, mas tu n&atilde;o p&oacute;des abhorrecer esse homem.'
+<br />
+
+<br />
+
+Sim, mas s&ocirc;bre Fr. Diniz pesava uma
+accusa&ccedil;&atilde;o
+tremenda, que o fizera, a elle Carlos, abandonar
+<span class="pagenum">[238]</span>a casa de seus
+paes! Accusa&ccedil;&atilde;o horrivel
+que tambem comprehendia a pobre velha, aquella
+av&oacute; que o adorava, e que elle, ainda criminosa
+como a suppunha, n&atilde;o podia deixar de
+amar...
+<br />
+
+<br />
+
+E d'estes medonhos segredos sab&iacute;a Joanninha
+alguma coisa?
+<br />
+
+<br />
+
+Esperava em Deus que n&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Desconfiaria alguma coisa?... O qu&ecirc;?
+<br />
+
+<br />
+
+E iria elle polluir o pensamento, desflorar os
+ouvidos, corromper os labios da innocente crian&ccedil;a
+com o esclarecimento de taes horrores?
+<br />
+
+<br />
+
+Havia de lhe fallar na infamia dos seus? Havia
+de lhe explicar o motivo porque fugira da casa
+paterna?
+<br />
+
+<br />
+
+Havia de?..
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o.&#8213;Se Joanninha tivesse suspeitas, havia
+de destrui-las antes; se ella soubesse alguma coisa,
+negar-lh'a.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[239]</span>
+Mentiria, juraria falso se fosse preciso.
+<br />
+
+<br />
+
+E n&atilde;o havia de ir ver a av&oacute;, n&atilde;o havia
+de
+entrar na casa dos seus a consolar a infeliz que s&oacute;
+vivia d'uma esperan&ccedil;a, a de ver o filho de sua filha?
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o, nunca... O limiar d'aquella porta, que
+elle julgava contaminado, infame, manchado de
+sangue e cuspido de opprobrios e deshonras, tinha-o
+passado sacudindo o po de seus sapatos,
+promettendo a Deus e &aacute; sua honra de o n&atilde;o tornar
+a cruzar mais.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas que diria ent&atilde;o elle a Joanninha? Como
+havia de explicar-lhe um proceder tam extranho,
+e apparentemente tam cruel, tam ingrato?
+<br />
+
+<br />
+
+Por emquanto as impossibilidades materiaes
+da guerra serviriam de desculpa, depois o tempo
+daria conselho.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Veremos</em>!&#8213;&eacute; a grande
+resolu&ccedil;&atilde;o que se toma
+nas grandes difficuldades da vida, sempre que
+&eacute; possivel espa&ccedil;&aacute;-las.
+<br />
+
+<br />
+
+Carlos disse: '<em>Veremos!</em>'
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p240">[240]</a></span>
+Tomou todas as disposi&ccedil;&otilde;es para pod&ecirc;r
+estar
+seguro e socegado no s&iacute;tio onde ia incontrar a
+prima: e o resto do dia, ancioso mas contente,
+occupou-se de seus deveres militares, fatigou
+o corpo para descan&ccedil;ar o espirito, e em
+parte e por bastantes horas o conseguiu.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas um dia de abril &eacute; immenso, interminavel.
+E as &uacute;ltimas horas pareciam as mais compridas.
+Nunca houve horas tammanhas! Carlos ja
+n&atilde;o tinha que inventar para fazer: p&ocirc;z-se a
+pensar.
+<br />
+
+<br />
+
+Que remedio!
+<br />
+
+<br />
+
+Pensou n'isto, pensou n'aquillo... uma idea
+lhe vinha, outra se lhe ia. A imagina&ccedil;&atilde;o, tanto
+tempo comprimida, tomava o freio nos dentes
+e corria &aacute; redea s&ocirc;lta pelo espa&ccedil;o...
+<br />
+
+<br />
+
+Anneis dourados, transas de ebano, faces de
+leite e rosas como de cherubins, outras pallidas,
+transparentes, diaphanas como de princezas incantadas,
+olhos pretos, azues, verdes... os de
+Joanninha em fim... todas &eacute;stas
+fei&ccedil;&otilde;es, confusas
+e indistinctas mas de estremada belleza todas,
+lhe passavam deante da vista, e todas o&nbsp;<a href="#e19">infeiti&ccedil;avam</a>.
+O<span class="pagenum">[241]</span>
+desgra&ccedil;ado...&#8213;Porque n&atilde;o
+heide eu
+dizer a verdade?&#8213;o desgra&ccedil;ado era poeta.
+<br />
+
+<br />
+
+Inda assim! n&atilde;o me esconjurem ja o rapaz...
+Poeta, intendamo'-nos; n&atilde;o &eacute; que fizesse versos:
+n'essa n&atilde;o cahiu elle nunca, mas tinha
+aquelle fino sentimento d'arte, aquelle sexto sentido
+do <em>bello</em>, do
+<em>ideal</em> que so teem certas
+organiza&ccedil;&otilde;es
+privilegiadas de que se fazem os poetas
+e os artistas.
+<br />
+
+<br />
+
+Eis aqui um fragmento de suas aspira&ccedil;&otilde;es
+poeticas.
+Vejam as amaveis leitoras que n&atilde;o teem
+metro, nem rhyma&#8213;nem raz&atilde;o... Mas emfim
+versos n&atilde;o s&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+'Olhos verdes!..
+<br />
+
+<br />
+
+'Joanninha tem os olhos verdes...
+<br />
+
+<br />
+
+'N&atilde;o se reflecte n'elles a pura luz do ceo, como
+nos olhos azues.
+<br />
+
+<br />
+
+'Nem o fogo&#8213;e o fummo das paix&otilde;es, como
+nos pretos.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[242]</span>
+'Mas o vi&ccedil;o do prado, a frescura e
+anima&ccedil;&atilde;o
+do bosque, a fluctua&ccedil;&atilde;o e a transparencia do
+mar...
+<br />
+
+<br />
+
+'Tudo est&aacute; n'aquelles olhos verdes.
+<br />
+
+<br />
+
+'Joanninha, porque tens tu os olhos verdes?
+<br />
+
+<br />
+
+'Nos olhos azues de Georgina arde, em sereno
+e modesto brilho, a luz tranquilla de um
+amor provado, seguro, que deu quanto havia de
+dar, quanto tinha que dar.
+<br />
+
+<br />
+
+'Os olhos azues de Georgina n&atilde;o dizem sen&atilde;o
+uma so phrase d'amor, sempre a mesma e sempre
+bella: <em>Amo-te, sou tua!</em>
+<br />
+
+<br />
+
+'Nos olhos negros e inquietos de Soledade nunca
+li mais que &eacute;stas palavras: <em>Ama-me, que es
+meu!</em>
+<br />
+
+<br />
+
+'Os olhos de Joanninha s&atilde;o um livro immenso,
+escripto em characteres moveis, cujas combina&ccedil;&otilde;es
+infinitas excedem a minha comprehens&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+'Que querem dizer os teus olhos, Joanninha?
+<br />
+
+<br />
+
+'Que lingua fallam eles?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[243]</span>
+'Oh! paraque tens tu os olhos verdes, Joanninha?
+<br />
+
+<br />
+
+'A assucena e o jasmim s&atilde;o brancos, a rosa
+vermelha, o alecrim azul...
+<br />
+
+<br />
+
+'Roxa &eacute; a violeta, e o junquilho c&ocirc;r de ouro.
+<br />
+
+<br />
+
+'Mas todas as c&ocirc;res da natureza v&ecirc;em de uma
+so, o verde.
+<br />
+
+<br />
+
+'No verde est&aacute; a origem e o primeiro typo
+de toda a belleza.
+<br />
+
+<br />
+
+'As outras c&ocirc;res s&atilde;o parte d'ella; no verde
+est&aacute; o todo, a unidade da formosura creada.
+<br />
+
+<br />
+
+'Os olhos do primeiro homem deviam de ser
+verdes.
+<br />
+
+<br />
+
+'O ceo &eacute; azul...
+<br />
+
+<br />
+
+'A noite &eacute; negra...
+<br />
+
+<br />
+
+'A terra e o mar s&atilde;o verdes...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[244]</span>
+'A noite &eacute; negra mas bella: e os teus olhos,
+Soledade, eram negros e bellos como a noite.
+<br />
+
+<br />
+
+'Nas trevas da noite luzem as estrellas que s&atilde;o
+tam lindas... mas no fim de uma longa noite quem
+n&atilde;o suspira pelo dia?
+<br />
+
+<br />
+
+'E que se v&atilde;o... oh! que se v&atilde;o emfim as
+estrellas!..
+<br />
+
+<br />
+
+'Vem o dia... o ceo &eacute; azul e formoso: mas
+a vista fatiga-se de olhar para elle.
+<br />
+
+<br />
+
+'Oh! o ceo &eacute; azul como os teus olhos, Georgina...
+<br />
+
+<br />
+
+'Mas a terra &eacute; verde: e a vista repousa-se
+n'ella, e n&atilde;o se can&ccedil;a na variedade infinita de
+seus
+matizes tam suaves.
+<br />
+
+<br />
+
+'O mar &eacute; verde e fluctuante... Mas oh! esse
+&eacute; triste como a terra &eacute; alegre.
+<br />
+
+<br />
+
+'A vida comp&otilde;e-se de alegrias e tristezas...
+<br />
+
+<br />
+
+'O verde &eacute; triste e alegre como as felicidades
+da vida.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[245]</span>
+'Joanninha, Joanninha, porque tens tu os olhos
+verdes?..'<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Ja se v&ecirc; que o nosso doutor de bivac, o soldado
+que lhe chamou <em>maluco</em> ao pensador de
+taes
+extravagancias, tinha raz&atilde;o e sab&iacute;a o que dizia.
+<br />
+
+<br />
+
+Infelizmente n&atilde;o se formulavam em palavras
+estes pensamentos poeticos tam sublimes. Por um
+processo milagroso de photographia mental, apenas
+se p&ocirc;de obter o fragmento que deixo transcripto.
+<br />
+
+<br />
+
+Que honra e gl&oacute;ria para a eschola romantica
+se podessemos ter a collec&ccedil;&atilde;o completa!
+<br />
+
+<br />
+
+Fazia-se-lhe um prefacio incisivo, palpitante,
+<em>britante</em>....
+<br />
+
+<br />
+
+Punha-se-lhe um titulo vaporoso, phosphorescente...
+por exemplo:&#8213;Echos surdos do
+cora&ccedil;&atilde;o&#8213;ou&#8213;Reflexos
+d'alma&#8213;ou&#8213;Hymnos invisiveis&#8213;ou&#8213;Pesadellos
+poeticos&#8213;ou qualquer
+outro d'este genero, que se n&atilde;o soubesse
+bem o que era nem tivesse senso commum.
+<br />
+
+<br />
+
+E que viesse ca algum menestrel de frak e
+<span class="pagenum">[246]</span>
+chapeu redondo, algum trovador renascen&ccedil;a de
+collete &aacute; Joinville, luctar com o meu Carlos em
+pontos de romantismo vago, descabellado, vaporoso,
+e nebuloso!
+<br />
+
+<br />
+
+Se algum d'elles era capaz de escrever com
+menos logica,&#8213;(com menos grammatica, sim)
+e com mais triumphante despr&ecirc;zo das absurdas e
+escravizantes regras d'essa paleta d'essa eschola
+classica que n&atilde;o produziu nunca sen&atilde;o Homero e
+Virgilio, Sophocles e Horacio, Cam&otilde;es e o Tasso,
+Corneille e Racine, Pope e Moliere, e mais algumas
+duzias de outros nomes tam obscuros como
+estes?<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c24"></a>CAPITULO XXIV.
+</h3>
+
+<br />
+
+<div class="intro">Novo G&eacute;nesis.&#8213;O Adam social
+muito differente do Adam
+natural.&#8213;Carlos sempre um por seus bons instinctos, sempre
+outro por suas m&aacute;s reflex&otilde;es.&#8213;De como Joanninha
+recebeu o primo com os bra&ccedil;os abertos, e do mais que entre
+elles se passou.&#8213;Dor meia dor, meia prazer.
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Formou Deus o homem, e o p&ocirc;s n'um paraizo de
+delicias; tornou a form&aacute;-lo a sociedade, e o p&ocirc;s
+n'um inferno de tolices.
+<br />
+
+<br />
+
+O homem&#8213;n&atilde;o o homem que Deus fez,
+<span class="pagenum">[248]</span>
+mas o homem que a sociedade tem contrafeito,
+appertando e for&ccedil;ando em seus moldes de ferro
+aquella pasta de limo que no paraizo terreal se
+affei&ccedil;o&aacute;ra a imagem da divindade&#8213;o homem,
+assim aleijado como n&oacute;s o conhec&ecirc;mos, &eacute;
+o animal
+mais absurdo, o mais disparatado e incongruente
+que habita na terra.
+<br />
+
+<br />
+
+Rei nascido de todo o creado, perdeu a realeza;
+principe desherdado e proscripto, hoje vaga
+foragido no meio de seus antigos estados; altivo
+ainda e suberbo com as recorda&ccedil;&otilde;es do passado,
+baixo vil e miseravel pela desgra&ccedil;a do
+presente.
+<br />
+
+<br />
+
+D'estas duas tam oppostas actua&ccedil;&otilde;es constantes,
+que ja per si sos o tornariam ridiculo, formou
+a sociedade, em sua van sabedoria, um
+systema chymerico, desarrazoado e impossivel,
+complicado de regras a qual mais desvairada, incontrado
+de repugnancias a qual mais opposta.
+E vazado este perfeito mod&ecirc;lo de sua arte pretenciosa,
+metteu dentro d'elle o homem, desfigurou-o,
+contorceu-o, f&ecirc;-lo o tal
+D'estas duas tam oppostas actua&ccedil;&otilde;es constantes,
+que ja per si sos o tornariam ridiculo, formou
+a sociedade, em sua van sabedoria, um
+systema chymerico, desarrazoado e impossivel,
+complicado de regras a qual mais desvairada, incontrado
+de repugnancias a qual mais opposta.
+E vazado este perfeito mod&ecirc;lo de sua arte pretenciosa,
+metteu dentro d'elle o homem, desfigurou-o,
+contorceu-o, f&ecirc;-lo o tal ente absurdo e
+disparatado, doente, fraco, rachitico; collocou-o
+no meio do Eden phantastico de sua
+crea&ccedil;&atilde;o,&#8213;verdadeiro
+<span class="pagenum">[249]</span>inferno de
+tolices&#8213;e disse-lhe,
+invertendo com blasph&ecirc;mo arrem&ecirc;do as palavras
+de Deus Creador:
+<br />
+
+<br />
+
+'De nenhuma &aacute;rvore da horta comendo comer&aacute;s;
+<br />
+
+<br />
+
+'Por&ecirc;m da &aacute;rvore da sciencia do bem e do
+mal, d'ella so comer&aacute;s se quizeres viver.'
+<br />
+
+<br />
+
+Indigest&atilde;o de sciencia que n&atilde;o commutou seu
+mau estomago, presump&ccedil;&atilde;o e vaidade que d'ella
+se originaram&#8213;tal foi o resultado d'aquele preceito
+a que o homem n&atilde;o desobedeceu como ao
+outro: tal &eacute; o seu estado habitual.
+<br />
+
+<br />
+
+E quando as memorias da primeira existencia
+lhe fazem nascer o desejo de sahir d'esta outra,
+lhe influem alguma aspira&ccedil;&atilde;o de voltar
+&aacute;
+natureza e a Deus, a sociedade, armada de suas
+barras de ferro, vem s&ocirc;bre elle, e o prende, e
+o esmaga, e o contorce de novo, e o apperta
+no equuleo doloroso de suas f&ocirc;rmas.
+<br />
+
+<br />
+
+Ou hade morrer ou ficar monstruoso e aleij&atilde;o.
+<br />
+
+<span class="pagenum">[250]</span>
+<br />
+
+<div class="dots"></div>
+
+<br />
+
+<div class="dots"></div>
+
+<br />
+
+Poucos filhos do Adam social tinham tantas
+reminiscencias da outra patria mais antiga, e
+tendiam tanto a aproximar-se do primitivo typo
+que sah&iacute;ra das m&atilde;os do Eterno, forcejavam tanto
+por sacudir de si o pesado app&ecirc;rto das
+constric&ccedil;&otilde;es
+sociaes, e regenerar-se na sancta liberdade
+da natureza, como era o nosso Carlos.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas o melhor e o mais generoso dos homens
+segundo a sociedade, &eacute; ainda fraco, falso e acanhado.
+<br />
+
+<br />
+
+Demais, cada tentativa nobre, cada aspira&ccedil;&atilde;o
+elevada de sua alma lhe tinha custado duros castigos,
+severas e injustas condemna&ccedil;&otilde;es d'esse grande
+juiz hypocrita, mentiroso e venal... o mundo.
+<br />
+
+<br />
+
+Carlos estava quasi como os mais homens...
+ainda era bom e verdadeiro no primeiro impulso
+de sua natureza excepcional; mas a reflex&atilde;o
+descia-o &aacute; vulgaridade da fraqueza, da hypocrisia,
+da mentira commum.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[251]</span>
+Dos melhores era, mas era homem.
+<br />
+
+<br />
+
+Os seus pensamentos, as suas considera&ccedil;&otilde;es
+em toda aquella noite, em todo o dia que a segu&iacute;ra,
+na hora mesma em que ia incontrar-se
+com o objecto que mais lhe prendia agora o esp&iacute;rito,
+sen&atilde;o &eacute; que tambem o
+cora&ccedil;&atilde;o, todas participavam
+d'aquella fluctua&ccedil;&atilde;o inquieta e doentia
+de seu ser d'homem social, em quem o tibio
+reflexo do homem natural apenas relampejava por
+acaso.
+<br />
+
+<br />
+
+D&uacute;vida, incerteza, vaidade, mentira deslocavam
+e annullavam a bella organiza&ccedil;&atilde;o d'aquella
+alma.
+<br />
+
+<br />
+
+Assim chegou aop&eacute; de Joanninha que o esperava
+de bra&ccedil;os abertos, que o appertou n'elles,
+que o beijou sem nenhum falso recato de maliciosa
+modestia, e com o riso da alegria no cora&ccedil;&atilde;o
+e na b&ocirc;cca lhe disse:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Ora pois, meu Carlos, sentemo-nos aqui
+bem junctos aop&eacute; um do outro e conversemos,
+que temos muito que fallar. D&aacute; ca a tua m&atilde;o.
+Aqui na minha... Est&aacute; fria a tua m&atilde;o hoje! E
+<span class="pagenum">[252]</span>
+hontem tam quente estava!.. Oh! agora vai
+aquecendo... tanto tanto... &eacute; demais! Ter&aacute;s tu
+febre?'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'N&atilde;o tenho.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'N&atilde;o tens, n&atilde;o: a cara &eacute; de saude. E
+como
+tu est&aacute;s forte, grande, um homem como eu sempre
+imaginei que um homem devia ser, como
+sempre te via nos meus sonhos!.. Que &eacute; extranho
+isto, Carlos: quando sonhava comtigo, n&atilde;o
+te via como tu d'aqui foste, magro, triste e doente;
+via-te como vens agora, forte, s&atilde;o, alegre.
+Mas tu n&atilde;o est&aacute;s alegre hoje, como hontem;
+n&atilde;o
+est&aacute;s... Que tens tu?'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Nada, querida Joanninha, n&atilde;o tenho nada.
+Pensava...'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Em que pensas tu? dize-me.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Pensava na differen&ccedil;a dos nossos sonhos:
+que eu tambem sonhava comtigo.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Sonhavas, Carlos! E como sonhavas tu?
+como me vias nos teus sonhos?'
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[253]</span> &#8213;'Tudo pelo contrario do que tu. Via-te
+aquella Joanninha piquena, desinquieta, trav&ecirc;ssa,
+correndo por essas terras, saltando essas vallas,
+trepando a essas &aacute;rvores... aquella Joanninha
+com quem eu andava ao collo, que trazia &aacute;s cavalleiras,
+que me fazia ser tam doido e tam crian&ccedil;a
+como ella, apezar de eu ter quinze annos mais.
+Via-te alegre, cantando...'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Sonhos de homem! Creiam n'elles! Eu que
+nunca mais ri nem brinquei desde o dia que tu
+partiste... E oh que dia, Carlos!.. E os que vieram
+depois! N&atilde;o houve nunca mais um so dia de
+alegria n'&eacute;sta casa. Oh!.. deixa-me te dizer: Fr.
+Diniz... Sabes que n&atilde;o g&oacute;sto d'elle?'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'N&atilde;o gostas?'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Nada: tenho-lhe avers&atilde;o. E Deus me perdoe!
+parece-me que &eacute; injusta a minha antipathia.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Porqu&ecirc;?'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Porque elle &eacute; teu amigo dev&eacute;ras. Um pae,
+Carlos, um pae n&atilde;o tem maior ternura e desvellos
+por seu filho, do que elle tem por ti.'
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[254]</span> &#8213;'Deus lhe perdoe!'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Deus lhe perdoe a quem...e que lhe hade
+perdoar? O amor que te tem?'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'N&atilde;o, mas...'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Bem sei o que queres dizer: e tens raz&atilde;o.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Tenho raz&atilde;o!'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Tens: o que elle bem precisa que Deus
+lhe perdoe &eacute; um grande peccado.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Que dizes tu, Joanna! E como sabes?'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Sei, sei tudo.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Tu!'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Eu. Sei que foi elle quem fez cegar minha
+av&oacute;... a nossa boa, a nossa sancta av&oacute;, Carlos!..
+quem a cegou &aacute; f&ocirc;r&ccedil;a de lagrymas que
+lhe
+fez chorar &aacute;quelles pobres olhos que, de puro
+can&ccedil;ados,
+se apagaram para sempre... Minha ricca
+av&oacute;!&#8213;E porqu&ecirc;, meus Deus, porqu&ecirc;!'
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[255]</span> &#8213;'Porqu&ecirc;?'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Por amor de ti, por escrupulos que lhe
+metteu na cabe&ccedil;a de tu seres mau christ&atilde;o,
+inimigo
+de Deus, que te n&atilde;o podias salvar... tu meu
+Carlos! V&ecirc; que cegueira a do triste frade.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Bem triste!'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Mas olha que o diz de boa-f&eacute; e pelo muito
+amor que te tem... que &eacute; um amor que eu
+n&atilde;o intendo: e o mesmo &eacute; com minha
+av&oacute;, que
+treme deante d'elle. E mais elle estima-a, estou
+certa que dava a vida por ella... e por n&oacute;s todos...
+por mim n&atilde;o tanto, mas por ti e por ella, dava decerto.
+Mas o seu amor &eacute; dos que rallam, que, apoquentam...
+quasi que estou em dizer que matam.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Matam, matam!'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Nossa av&oacute; &eacute; elle que a mata decerto.
+Sempre a metter-lhe medos, sempre escrupulos!
+O seu Deus d'elle &eacute; um Deus de terrores, de
+vingan&ccedil;as,
+de castigos, e sem nenhuma misericordia.
+Oh! que homem! para elle tudo &eacute; peccado,
+maldade... N&atilde;o o posso ver.'
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[256]</span>
+Carlos respirava como desopprimido de um grande
+p&ecirc;so, ouvindo as explica&ccedil;&otilde;es da prima
+que bem
+claro lhe mostravam a sua perfeita ignorancia dos
+fataes segredos da familia.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'E comtigo' disse elle ja n'outra voz mais
+desaffogada 'comtigo, Joanninha, como se av&ecirc;m
+elle, como te tracta?'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Commigo n&atilde;o se mette, e rara vez me
+falla. Mas oh, se elle soubesse que eu estava aqui
+comtigo, sancto Deus! o que ouviria a pobre da
+minha av&oacute;! Inda bem que hoje n&atilde;o &eacute;
+sexta-feira,
+sen&atilde;o n&atilde;o vinha eu ca.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Porqu&ecirc;? Ainda vem todas as sexta-feiras?'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Sempre o mesmo. &Aacute;manhan ca o temos por
+peccado, que &eacute; sexta-feira.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'N&atilde;o te vejo ent&atilde;o &aacute;manhan aqui?'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'N&atilde;o decerto, aqui. Mas vamos, que a
+isso &eacute; que eu venho ca hoje, para te fallar n'isso...
+e para te ver, para fallar comtigo, para estar
+<span class="pagenum">[257]</span>
+com o meu Carlos... e ao mesmo tempo tambem
+para ajustarmos como isto hade ser. Quando has-de
+tu ir ver a av&oacute;?.. a nossa m&atilde;e; que ella
+&eacute;
+nossa m&atilde;e, Carlos, n&atilde;o conhec&eacute;mos
+nunca outra,
+nem eu nem tu. Quando lhe heide eu dizer que
+est&aacute;s aqui? A pobre velhinha est&aacute; tam doente!
+Ha quinze dias que se n&atilde;o levanta da cama.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Coitada da minha pobre m&atilde;e!.. Oh! se
+n&atilde;o fosse!.. Deixa estar, Joanninha; um dia ser&aacute;.
+Por agora, n&atilde;o p&oacute;de ser: bem v&ecirc;s. Como
+heide eu atravessar as sentinellas dos realistas, ir
+a um p&ocirc;sto inimigo?&#8213;A minha vida... isso pouco
+importa, mas a minha honra ficava em perigo:
+por todos os modos a perdia, e talvez...'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'N&atilde;o senhor, Sr. Carlos, essa desculpa
+n&atilde;o basta. Vai n'um anno que aqui temos a
+guerra &aacute; porta de casa, e ja sabemos como isso
+&eacute; e como as coisas se fazem. O commandante
+do nosso p&ocirc;sto &eacute; um homem de bem, um cavalheiro
+perfeito. Em lhe eu dizendo quem tu es e
+a que ca vens... elle sabe o estado da minha av&oacute;,
+e tem-lhe muita amizade, da-nos decerto licen&ccedil;a
+para tu vires em toda a seguran&ccedil;a. Pensas
+que elle n&atilde;o sabe que estou comtigo aqui?
+<span class="pagenum">[258]</span>
+Pois disse-lh'o eu; s&oacute; lhe n&atilde;o expliquei quem tu
+eras; disse-lhe que eras um parente nosso que
+nos trazia not&iacute;cias de outros, e que precisava
+fallar-te. N&atilde;o p&ocirc;s dificuldade alguma:
+&eacute; uma
+pessoa excellente, bom, bom dev&eacute;ras.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'&Eacute; m&ocirc;&ccedil;o o teu commandante?'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'M&ocirc;&ccedil;o elle? coitado! Tem bons cinquenta
+annos, e creio que outros tantos filhos. Mas por
+que perguntas tu isso? E arqueaste as sobrancelhas
+com aquelle teu ar de antes quando te zangavas!
+Porque foi isso, Carlos?'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Nada, crian&ccedil;a, foi uma pergunta &aacute; toa.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Pois ser&aacute;; mas n&atilde;o me franzas nunca
+mais a testa assim, que te pareces todo... &eacute; que
+nunca vi tal parecen&ccedil;a...'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Com quem?'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Com Fr. Diniz.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Eu com elle!'
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[259]</span> &#8213;'Tal e qual quando fazes essa cara. Olha:
+ahi est&aacute;s tu na mesma. Vamos! ria-se e esteja
+contente se se quer parecer commigo, que todos
+dizem que nos parecemos tanto.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Querida innocente!'
+<br />
+
+<br />
+
+E beijou-lhe a m&atilde;o que tinha appertada na
+sua, beijou-lh'a uma e muitas vezes com um
+sentimento de ternura misturado de n&atilde;o sei que
+vaga compaix&atilde;o, vindo de l&aacute; de dentro d'alma
+com n&atilde;o sei que dor, meia dor meia prazer, que
+entre ambos se communicou e a ambos humedeceu
+os olhos.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3><a name="c25"></a>CAPITULO XXV.
+</h3>
+
+<br />
+
+<div class="intro">O excesso da felicidade que aterra e
+confunde
+tambem.&#8213;Pasmosa
+contradic&ccedil;&atilde;o da nossa natureza.&#8213;De como os
+olhos verdes de Joanninha se inturvaram e perderam todo o
+brilho.&#8213;Que o cora&ccedil;&atilde;o da mulher que ama, sempre
+adivinha
+certo.
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Carlos tinha a m&atilde;o de Joanninha appertada
+na sua; e os olhos humidos de lagrymas cravados
+nos olhos d'ella, de cujo verde transparente
+e diaphano sahiam raios de ineffavel ternura.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[262]</span>
+Dizer tudo o que elle sentia &eacute; impossivel: tam
+incontrados lhe andavam os pensamentos, em tam
+confuso tumulto se lhe alvorotavam todos os sentidos.
+<br />
+
+<br />
+
+Por muito tempo n&atilde;o proferiram palavra, nem
+um nem outro; mas fallaram assim longos discursos.
+<br />
+
+<br />
+
+Emfim, Joanninha voltou &aacute; sua primeira insistencia
+e disse para o primo:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Olha, Carlos, &aacute;manhan &eacute; sexta-feira, ja
+te disse, vem Fr. Diniz: quando haja a menor
+difficuldade do commandante, a elle n&atilde;o lhe recusa
+nada...'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Por quanto ha no ceo, Joanninha, pela
+tua vida, pela de nossa av&oacute;, nem uma palavra
+ao frade da minha estada aqui! A elle, oh! a
+elle jurei eu n&atilde;o tornar a ver. E se minha
+av&oacute;...'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Basta: n&atilde;o lhe direi nada. Mas &aacute; nossa
+av&oacute; quando lh'o heide dizer, e quando hasde tu
+ir ve-la?'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Porora n&atilde;o: preciso licen&ccedil;a de Lisboa,
+<span class="pagenum">[263]</span>
+ou do quartel-general quando menos, para fazer
+uma coisa que todas as leis da guerra prohibem,
+que nas actuaes circumstancias e em similhante
+guerra ainda &eacute; mais defesa. E sem isso&#8213;tu bem
+sabes que as minhas resolu&ccedil;&otilde;es n&atilde;o se
+mudam&#8213;sem
+isso n&atilde;o o fa&ccedil;o. Em todo o caso, que Fr.
+Diniz nem sonhe!..'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'E quanto tempo, quantos dias se h&atilde;ode
+passar?'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Eu sei? oito, quinze dias talvez, talvez mais.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'E a minha pobre av&oacute;, coitadinha! a morrer
+de saudades...'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Consola-a tu, Joanninha: dize-lhe que
+tiveste novas minhas, que estou bom, que me
+n&atilde;o falta nada, que tenho esperan&ccedil;as de vos ver
+muito cedo.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'E eu... eu posso, eu heide ver-te todos
+os dias: n&atilde;o, Carlos?'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'&Aacute;manhan &eacute; sexta-feira...'
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[264]</span> &#8213;'&Aacute;manhan &eacute; o dia negro... nem eu queria:
+&aacute;manhan n&atilde;o p&oacute;de ser, bem sei. Mas,
+tirado
+&aacute;manhan, meu Carlos, oh! todos os dias!'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Sim, querido anjo, sim.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Promettes?'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Juro-t'o.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Succeda o que succeder?'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Succeda o que... So ha uma coisa que...
+Mas essa n&atilde;o... n&atilde;o &eacute; possivel.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'O que &eacute;, Carlos? que p&oacute;de haver, que
+p&oacute;de succeder que te impe&ccedil;a de?..'
+<br />
+
+<br />
+
+Carlos estremeceu... hesitou, corou, fez-se
+pallido... quiz dizer-lhe a verdade e n&atilde;o ousou...
+<br />
+
+<br />
+
+Porqu&ecirc;?.. E que verdade era essa? N&atilde;o a direi
+eu, ja que elle a n&atilde;o disse: fiel e discreto
+historiador, imitarei a discri&ccedil;&atilde;o do meu heroe.
+<br />
+
+<br />
+
+Pois era discri&ccedil;&atilde;o a d'elle?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[265]</span>
+N&atilde;o... em verdade, era outra coisa.
+<br />
+
+<br />
+
+Era um pensamento reservado?
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Era ten&ccedil;&atilde;o m&aacute;, ingano premeditado,
+era?..
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o, tambem n&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+O que era pois?
+<br />
+
+<br />
+
+Era a d&uacute;vida, era a fraqueza, era a vaidade,
+a mentira congenial e obrigada, a necessaria falsidade
+do homem social.
+<br />
+
+<br />
+
+Carlos mentiu e disse:
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'S&oacute; se m'o prohibirem expressamente... os
+meus chefes.'
+<br />
+
+<br />
+
+Mas n&atilde;o era isso o que elle receiava; n&atilde;o era
+esse aquelle motivo unico e superior que elle temia
+podesse vir um dia derepente cortar as doces
+<span class="pagenum">[266]</span>rela&ccedil;&otilde;es
+de convivencia a que tam prestes se
+habitu&aacute;ra, que ja lhe pareciam parte necessaria,
+indispensavel da sua vida. N&atilde;o era, n&atilde;o; e Carlos
+tinha mentido...
+<br />
+
+<br />
+
+Joanninha olhou para elle fixa... Carlos corou
+de novo. Ella fez-se pallida... d'ahi corou tambem.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Carlos, tu n&atilde;o es capaz de mentir...'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Joanninha!'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Tu es o meu Carlos... tu queres-me como
+me querias d'antes...'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Sou... oh! sou. E amo-te...'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Como d'antes?'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Mais.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Pois olha, Carlos: eu nunca amei, nunca
+heide amar a nenhum homem sen&atilde;o a ti.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Joanna!'
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[267]</span> &#8213;'Carlos!'
+<br />
+
+<br />
+
+Iam a cahir nos bra&ccedil;os um do outro... A singela
+confiss&atilde;o da innocencia ia ser acceita por
+quem e como, sancto Deus! Aquella palavra de
+oiro, aquella doce palavra que tanto custa a pronunciar
+&aacute; mulher menos arteira; que adivinhada,
+sabida, ouvida ha muito pelo cora&ccedil;&atilde;o, ditta
+mil vezes com os olhos, nenhum homem descan&ccedil;a
+nem se tem por feliz, por certo de sua felicidade,
+em quanto a n&atilde;o ouve proferir pelos labios&#8213;essa
+palavra celeste que explica o passado,
+que responde do futuro, que &eacute; a &uacute;ltima e
+irrevocavel senten&ccedil;a de um longo pleito de anciedades,
+de incertezas e de sustos&#8213;essa final
+e fatal palavra <em>amo-te</em>, Joanninha a
+pronunci&aacute;ra
+tam naturalmente, tam sincera, tam sem difficuldades
+nem hesita&ccedil;&otilde;es, como se aquelle fosse&#8213;e
+era decerto&#8213;como se aquelle tivesse sido
+sempre o pensamento unico, a idea constante e
+habitual de sua vida.
+<br />
+
+<br />
+
+O excesso da felicidade aterra e confunde tambem.
+Um momento antes, Carlos dera a sua vida
+por ouvir aquella palavra... um momento depois&#8213;oh
+pasmosa contradic&ccedil;&atilde;o de nossa dupplice
+<span class="pagenum">[268]</span>natureza! um
+momento depois dera a vida
+pela n&atilde;o ter ouvido. No primeiro instante ia
+lan&ccedil;ar-se
+nos bra&ccedil;os da innocente que lh'os abria
+n'um sancto extasi do mais apaixonado amor; no
+segundo, tremeu e teve horror da sua felicidade.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Joanna' exclamou elle 'Joanna, querida,
+sabes tu se eu mere&ccedil;o... sabes tu se deves?..'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Sei. Desde que me intendo, n&atilde;o pensei
+n'outra coisa; desde que d'aqui foste, comecei a
+intender o que pensava... disse-o a minha av&oacute;, e
+ella...'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'E ella?..'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Ella aben&ccedil;oou-me, chamou-me a sua querida
+filha, abra&ccedil;ou-me, beijou-me, e disse-me
+que aquella era a primeira hora de felicidade e
+de alegria que ha muitos annos tinha tido.'
+<br />
+
+<br />
+
+Carlos n&atilde;o respondeu nada e olhou para Joanninha
+com uma indicivel express&atilde;o de affecto e
+de tristeza. Os raios de alegria que resplandeciam
+n'aquelle semblante&#8213;agora bello de toda
+a belleza com que um verdadeiro amor illumina
+<span class="pagenum">[269]</span>
+as mais desgraciosas fei&ccedil;&otilde;es&#8213;os raios d'essa
+alegria
+come&ccedil;aram a amortecer, a apagar-se. A
+lucida transparencia d'aquelles olhos verdes turvou-se:
+nem a clara luz da agua-marinha, nem
+o brilho fundo da esmeralda resplandecia ja
+n'elles; tinham o lustro ba&ccedil;o e morto, o polido
+mate e silicioso de uma d'essas pedras sem agua
+nem brilho que a arte antiga ingastava nos collares
+de suas est&aacute;tuas.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Adeus Joanna!' disse Carlos perturbado
+e confuso.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Adeus, Carlos!' respondeu ella machinalmente.
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'At&eacute; depois de &aacute;manhan, Joanna.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Pois sim.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Depois de &aacute;manhan te direi...'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'N&atilde;o digas.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Porqu&ecirc;?'
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[270]</span> &#8213;'Porque &eacute; excusado: ja sei tudo.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Sabes!'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Sei.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'O qu&ecirc;?'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'O que tu n&atilde;o tens &acirc;nimo para me dizer,
+Carlos; mas que o meu cora&ccedil;&atilde;o adivinhou. Tu
+n&atilde;o me amas, Carlos.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'N&atilde;o te amo! eu!.. Sancto Deus! eu
+n&atilde;o a amo...'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'N&atilde;o. Tu amas outra mulher.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Eu! Joanna, oh! se tu soubesses...'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Sei tudo.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'N&atilde;o sabes.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Sei: amas outra mulher, outra mulher
+que te ama, que tu n&atilde;o p&oacute;des, que tu
+n&atilde;o
+deves abandonar, e que eu...'
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[271]</span> &#8213;'Tu?'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Eu sei que &eacute; bella, prendada, cheia de
+gra&ccedil;as e de incantos, porque... porque tu, meu
+Carlos, porque o teu amor n&atilde;o era para se dar
+por menos.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Joanna, Joanninha!'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'N&atilde;o digas nada, n&atilde;o me digas nada hoje...
+hoje sobretudo, n&atilde;o me digas nada. &Aacute;manhan...'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'&Aacute;manhan &eacute; sexta-feira.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Inda bem! terei mais tempo para reflectir,
+para considerar antes de tornar a ver-te.
+Adeus Carlos!'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Uma palavra so, Joanna. Cuidas que sou
+capaz de te inganar?'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'N&atilde;o; estou certa que n&atilde;o.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'At&eacute; &aacute;manhan... at&eacute; depois de
+&aacute;manhan.'
+<br />
+
+<br />
+
+&#8213;'Adeus!'
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[272]</span>
+Abra&ccedil;aram-se, e d'esta vez froixamente; beijaram-se
+de um osculo timido e recatado... os
+bei&ccedil;os de ambos estavam frios, as m&atilde;os
+tr&eacute;mulas;
+e o cora&ccedil;&atilde;o comprimido batia, batia-lhes
+forte que se ouvia.
+<br />
+
+<br />
+
+Retirou-se cadaum por seu lado. A noite estava
+pura e serena como na vespera, as estrellas
+luziam no ceo azul com o mesmo brilho; o
+silencio, a majestade, a belleza toda da natureza
+era a mesma... so elles eram outros... outros,
+tam outros e differentes do que foram!
+<br />
+
+<br />
+
+Tinham-se dado cuidadosamente as providencias;
+ambos chegaram, sem nenhum accidente,
+ao seu destino.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>NOTAS</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2><a name="c26"></a>NOTAS</h2>
+
+<h3><br />
+
+AO LIVRO PRIMEIRO.
+</h3>
+
+<br />
+
+<h4><span class="smallcaps">
+Nota A.</span>
+</h4>
+
+<br />
+
+<div class="quote">Que viage &aacute; roda do seu
+quarto, quem est&aacute;
+a beira dos Alpes<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature"><a href="#n1">pag.
+1.</a></div>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; visivel allus&atilde;o ao popular e inimitavel
+opusculo
+de Xavier de Maistre, <em>Voyage autour de ma
+chambre</em>,
+que decerto foi principiado a escrever em Turim, e
+que muitos suppoem que f&ocirc;sse concluido em San'Petersburgo.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p276">[276]</a></span>
+<h4><span class="smallcaps">Nota B.</span></h4>
+
+<br />
+
+<div class="quote">
+Designio politico determinado a minha <a href="#e20">visita</a>
+(a Santarem)<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature"><a href="#n2">
+pag. 2.</a></div>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; puramente historico isto; e tambem &eacute; verdade
+que em grande parte d'aqui se originou a
+persigui&ccedil;&atilde;o
+brutal que soffreu o A. d'ahi a poucos meses.
+<h4><br />
+
+<span class="smallcaps">Nota C.</span>
+</h4>
+
+<br />
+
+<div class="quote">
+N'uma <em>regata</em> de
+vapores<br />
+
+<div class="signature"><a href="#n3">pag. 3.
+</a></div>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<em>Regata</em> chamavam, e n&atilde;o
+sei se chamam ainda, em
+Veneza &aacute;s carreiras de barcos appostados ao desafio. A
+palavra e a coisa introduziu-se em Inglaterra, onde &eacute;
+moda e popularissima.
+<br />
+
+<br />
+
+<h4><span class="smallcaps">Nota D.</span>
+</h4>
+
+<br />
+
+<div class="quote">
+Eu coroarei de trevo a minha
+espada<br />
+
+<div class="signature"><a href="#n4">pag. 24.
+</a></div>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Estes versos s&atilde;o uma especie de parodia dos famosos
+fragmentos de Alceu de que so existe memoria
+nos scholios que nos conservou Eustathio. Nas <em>Flores
+sem fructo</em>, pag. 56 a traduc&ccedil;&atilde;o
+d'aquelle bello
+fragmento.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[277]</span>
+<h4><span class="smallcaps">Nota E.</span>
+</h4>
+
+<br />
+
+<div class="quote">
+Depois de tantas commiss&otilde;es de inquerito,
+deve de andar or&ccedil;ado o n&uacute;mero de
+almas<br />
+
+<div class="signature"><a href="#n5">pag. 25.
+</a></div>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Os protocollos das commiss&otilde;es de inquerito de ha
+oito para dez annos a &eacute;sta parte, s&ocirc;bre o estado
+das
+classes trabalhadoras e indigentes em Inglaterra, &eacute; a
+pr&oacute;va real dos grandes calculos da economia politica,
+sciencia que eu espero em Deus se hade desacreditar
+muito cedo.
+<br />
+
+<br />
+
+<h4><span class="smallcaps">Nota F.</span>
+</h4>
+
+<br />
+
+<div class="quote">
+There are more things
+etc.<br />
+
+<div class="signature"><a href="#n6">pag. 26.
+</a></div>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+A traduc&ccedil;&atilde;o chegada d'estes memoraveis versos de
+Shakspeare &eacute;:
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry">Ha mais coisas no ceo, ha mais na terra<br />
+
+Do que sonha a tua van philosophia.
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4><span class="smallcaps">Nota G.</span>
+</h4>
+
+<br />
+
+<div class="quote">
+Um <em>Chourineur</em>... uma
+<em>Fleur-de-Marie</em><br />
+
+<div class="signature"><a href="#n7"><br />
+
+pag.
+28.
+</a></div>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Personagens, bem conhecidos geralmente, do romance
+tam popular de Eug. Sue, <em>Os Mysterios de
+Par&iacute;s</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[278]</span>
+<h4><span class="smallcaps">Nota H.</span>
+</h4>
+
+<br />
+
+<div class="quote">
+Fossem l&aacute; &aacute; rainha
+Anna<br />
+
+<div class="signature"><a href="#n8">pag. 34.
+</a></div>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Addison, o poeta, foi ministro da rainha Anna de
+Inglaterra, e membro do c&eacute;lebre gabinete chamado
+de
+<em>All-wits</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+<h4><span class="smallcaps">Nota J.</span>
+</h4>
+
+<br />
+
+<div class="quote">
+Quando chegou alli pelos
+Prazeres<br />
+
+<div class="signature"><a href="#n9">pag. 56.
+</a></div>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Um dos dois cemiterios de Lisboa&#8213;seja ditto para
+intelligencia do leitor provinciano&#8213;chama-se <em>Dos
+Prazeres</em>, por uma ermida de N. S.<sup>a</sup>
+que alli existia
+com &eacute;sta invoca&ccedil;&atilde;o desde antes do
+terreno ter o
+presente destino. &Eacute; notavel a coincidencia do nome.
+<br />
+
+<br />
+
+<h4><span class="smallcaps">Nota K.</span></h4>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="quote">
+O verdadeiro alfageme... tinha pelo povo
+e n&atilde;o queria saber de
+partidos<br />
+
+<div class="signature"><a href="#n10">pag.
+64.
+</a></div>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; facil de ver que o interlocutor d'este dialogo conhecia
+esse curioso personagem da historia do Condestavel,
+n&atilde;o pelas chronicas mas pelo drama que tem o
+seu nome.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[279]</span>
+<h4><span class="smallcaps">Nota L.</span>
+</h4>
+
+<br />
+
+<div class="quote">
+Do <em>Sacr&eacute;-Coeur</em> e das
+suas elegantes
+devotas<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature"><a href="#n11">
+pag.
+89.
+</a></div>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O convento que tem este nome em Par&iacute;s, &eacute; casa
+de educa&ccedil;&atilde;o de meninas nobres, e recolhimento de
+senhoras tambem.
+<br />
+
+<br />
+
+<h4><span class="smallcaps">Nota M.</span>
+</h4>
+
+<br />
+
+<div class="quote">
+Graciosa sculptura de Antonio
+Ferreira<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature"><a href="#n12">
+pag. 106.
+</a></div>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Antonio Ferreira, que viveu no fim do seculo passado,
+princ&iacute;pio d'este, modelava em barro com a
+mesma gra&ccedil;a e naturalidade flamenga, com que
+pintava o morgado de Setubal: as suas piquenas figurinhas
+s&atilde;o tam estimadas pelos intendedores como
+os melhores biscoitos de Sevres e de Saxonia antiga.
+<br />
+
+<br />
+
+<h4><span class="smallcaps">Nota N.</span>
+</h4>
+
+<br />
+
+<div class="quote">
+Ave phenix que nasceu de nossos av&oacute;s n&atilde;o saberem
+grego<br />
+
+<br />
+
+<div class="signature"><a href="#n13">
+pag. 115.
+</a></div>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+A f&aacute;bula daquella ave immortal teve origem nas
+edades obscuras da Europa quando o grego era ignorado.
+O que os antigos diziam da <em>phenix</em>,
+palmeira
+em grego, tomaram nossos barbaros av&oacute;s por ditto
+de uma passarolla com que os outros nunca sonharam.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>INDICE.
+</h2>
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 561px;"><span class="smallcaps">Prologo
+dos
+editores.</span></td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 23px;">pag.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 32px;"><a href="#c0">V</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 23px; text-align: justify;" colspan="2" rowspan="1"><span class="smallcaps">Capitulo
+I.</span>&#8213;De como
+o auctor
+d'este erudito livro
+se resolveu a viajar na sua terra, depois
+de ter viajado no seu quarto; e como resolveu
+immortalizar-se escrevendo &eacute;stas suas viagens.
+Parte para Santarem. Chega ao Terreiro
+do Pa&ccedil;o; imbarca no vapor de Villa-Nova; e o
+que ahi lhe succede. A Deduc&ccedil;&atilde;o-Chronologica
+e a baixa de Lisboa. Lord Byron e um
+bom charuto. Travam-se de raz&otilde;es os ilhavos
+e os bordas-d'agua, e os da cal&ccedil;a larga levam
+a melhor.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="vertical-align: bottom; text-align: right; width: 32px;"><a href="#c1">1</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 23px; text-align: justify;" colspan="2" rowspan="1"><span class="smallcaps">Capitulo
+II.</span>&#8213;Declaram-se
+typicas,
+symbolicas e
+mythicas &eacute;stas viagens. Faz o A. modestamente
+o seu proprio elogio. Da marcha da civiliza&ccedil;&atilde;o;
+e mostra-se como ella &eacute; dirigida pelo
+cavalleiro da Mancha, D. Quixote e por seu
+escudeiro, Sancho Pan&ccedil;a.&#8213;Chegada a Villa-Nova-da-Rainha.
+Supplicio de Tantalo.&#8213;A
+virtude galard&atilde;o de si mesma; e sophisma de
+Jeremias-Bentham.&#8213;Azambuja.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom; width: 32px;"><a href="#c2">13</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 23px; text-align: justify;" colspan="2" rowspan="1"><span class="smallcaps">Capitulo
+III.</span>&#8213;Acha-se
+desappontado o leitor com
+a prosaica sinceridade do A. d'estas viagens.&#8213;O
+que devia ser uma estalagem n'estas nossas eras de litteratura
+romantica?&#8213;Suspende-se
+o exame d'esta grave quest&atilde;o para tractar,
+em prosa e verso, um muito difficil ponto de
+economia-politica e de moral social.&#8213;Quantas
+almas &eacute; preciso dar ao diabo, e quantos corpos
+se teem de intregar no cemiterio para fazer
+um ricco n'este mundo.&#8213;Como se veio a
+descobrir que a sciencia d'este seculo era uma
+grandecissima tola.&#8213;Rei de facto, e rei de direito.&#8213;Belleza
+e mentira n&atilde;o cabem n'um sacco.&#8213;P&otilde;e-se
+o A. a caminho para o pinhal da
+Azambuja.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom; width: 32px;"><a href="#c3">23</a></td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<span class="pagenum">[281]</span>
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 561px; text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo
+IV.</span>&#8213;De
+como
+o A. foi
+pensando e divagando;
+e em que pensava e divagava elle,
+no caminho da villa da Azambuja at&eacute; o famoso
+pinhal do mesmo nome.&#8213;Do poeta grego
+e philosopho D&eacute;mades e do poeta e philosopho
+ingles Addison: da casaca de penneiros
+e do palio atheniense, e de outros importantes
+assumptos em que o A. quiz mostrar sua
+profunda erudi&ccedil;&atilde;o.&#8213;Discute-se a materia
+gravissima
+se &eacute; necessario que um ministro d'estado
+seja ignorante e leigarraz.&#8213;Admiraveis
+reflex&otilde;es de zigzag em que se tracta de <em>re
+politica</em>
+e de <em>re amatoria</em>.&#8213;Descobre-se
+porfim
+que o A. estivera a sonhar em todo este capitulo,
+e pede-se ao leitor benevolo que volte
+a folha e passe ao
+seguinte.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom; width: 31px;"><a href="#c4">31</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 561px; text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo
+V.</span>&#8213;Chega
+o
+A. ao pinhal
+da Azambuja,
+e n&atilde;o o acha. Trabalha-se por explicar este
+phenomeno pasmoso. Bello rasgo de stylo romantico.&#8213;Receita para fazer
+litteratura original
+com pouco trabalho.&#8213;Transi&ccedil;&atilde;o classica;&#8213;Orpheu
+e o bosque do M&eacute;nalo. Desce o
+A. d'estas grandes e sublimes considera&ccedil;&otilde;es para
+as realidades materiaes da vida: &eacute; desamparado
+pela hospitaleira traquitana e tem de
+cavalgar na triste mula de arrieiro.&#8213;Admiravel
+choito do animal. Memorias do marquez
+do F. que adorava o
+choito.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom; width: 31px;"><a href="#c5">39</a></td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<span class="pagenum">[282]</span>
+<span class="smallcaps"></span>
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 561px; text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo
+VI.</span>&#8213;Pr&oacute;va-se
+como o velho Cam&otilde;es n&atilde;o
+teve outro remedio sen&atilde;o misturar o maravilhoso
+da mylhologia com o do christianismo.&#8213;Da-se
+raz&atilde;o, e tira-se depois ao padre
+Jos&eacute; Agostinho.&#8213;No meio d'estas
+discepta&ccedil;&otilde;es
+academico-litterarias vem o A. a descobrir que
+para tudo &eacute; preciso ter f&eacute; n'este mundo. Diz-se
+ <em>n'este mundo</em>, porque, quanto ao
+outro ja
+era sabido.&#8213;Os Lusiadas, Fausto e a
+Divina-Comedia.&#8213;Desgra&ccedil;a
+de Cam&otilde;es em ter
+nascido antes do romantismo.&#8213;Mostra-se como
+a Styge e o Cocyto sempre s&atilde;o melhores sitios
+que o Inferno e o Purgatorio.&#8213;Vai o A. em
+procura do marquez de Pombal, e d&aacute; com
+elle nas ilhas Beatas do poeta Alceu.&#8213;Partida
+de Wist entre os illustres finados.&#8213;Compaix&atilde;o
+do marquez pelos pobres homens de Ricardo
+Smith e J. B. Say.&#8213;Resposta d'elle e
+da sua luneta&nbsp;&aacute;s perguntas peralvilhas do
+A.&#8213;Chegada
+a este mundo e ao
+Cartaxo.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom; width: 31px;"><a href="#c6">47</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 561px; text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo
+VII.</span>&#8213;Reflex&otilde;es importantes
+s&ocirc;bre o
+Bois-de-Boulogne, as carruagens de mollas, Tortoni, e o caf&eacute;
+do Cartaxo.&#8213;Dos caf&eacute;s em
+geral, e de como s&atilde;o o characteristico da
+civiliza&ccedil;&atilde;o
+de um paiz.&#8213;O Alfageme.&#8213;Hecatombe
+involuntaria immolada pelo A.&#8213;Historia
+do Cartaxo.&#8213;Demonstra-se como a Gran'
+Bretanha deveu sempre toda a sua f&ocirc;r&ccedil;a e toda
+a sua gl&oacute;ria a Portugal.&#8213;Shakspeare e
+Laffitte, Milton e Chateaumargot.&#8213;Nelson e
+o principe de Joinville.&#8213;Pr&oacute;va-se evidentemente
+que M. Guizot &eacute; a ruina de Albion e
+do Cartaxo.<br />
+ </td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom; width: 31px;"><a href="#c7">59</a></td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<span class="pagenum">[283]</span>
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 561px; text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo
+VIII.</span>&#8213;Sahida
+do
+Cartaxo.&#8213;A charneca.&#8213;Perigo
+imminente em que o A. se acha de
+dar em poeta e fazer versos.&#8213;Ultima revista
+do imperador D. Pedro ao ex&eacute;rcito liberal.
+Batalha de Almoster.&#8213;Waterloo.&#8213;Declara
+o A. solemnemente que n&atilde;o &eacute; philosopho e chega
+&aacute; ponte de
+Asseca.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom; width: 31px;"><a href="#c8">71</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 561px; text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo
+IX.</span>&#8213;Prologomenos
+dramatico-litterarios,
+que muito naturalmente levam, apezar
+de alguns rodeios, ao retrospecto e
+reconsidera&ccedil;&atilde;o
+do capitulo antecedente.&#8213;Livros que
+n&atilde;o deviam ter titulo, e titulos que n&atilde;o deviam
+ter livro.&#8213;Dos poetas d'este seculo: Bonaparte,
+Rotchild e Silvio-P&eacute;llico.&#8213;Chega-se
+ao fim
+d'estas reflex&otilde;es e &aacute; Ponte da
+Assecca.&#8213;Traduc&ccedil;&atilde;o
+portugueza de um grande poeta.&#8213;Origem
+de um dictado.&#8213;Junot na ponte da Assecca.&#8213;De
+como o A. d'este livro foi jacobino
+desde piqueno.&#8213;Ingui&ccedil;o que lhe deram.&#8213;A duqueza de
+Abrantes.&#8213;Chega-se emfim
+ao val de Santarem.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom; width: 31px;"><a href="#c9">79</a></td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<span class="pagenum">[284]</span>
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 561px; text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo
+X.</span>&#8213;Valle de
+Santarem&#8213;Namora-se o
+A. de uma janella que ve por entre umas
+&aacute;rvores.&#8213;Conjecturas
+v&aacute;rias a respeito da ditta
+janella.&#8213;Similhan&ccedil;a do poeta com a mulher
+namorada, e inquestionavel inferioridade do
+homem que n&atilde;o &eacute; poeta.&#8213;Os rouxinoes.
+Reminiscencia
+de Bernardim Ribeiro e das suas saudades.&#8213;De
+como o A. tinha quasi completo o
+seu romance, menos um vestido branco e uns
+olhos pretos.&#8213;Sahem verdes os olhos com
+grande admira&ccedil;&atilde;o e pasmo seu.&#8213;Verificam-se
+as conjecturas s&ocirc;bre a mysteriosa janella.&#8213;A
+menina dos rouxinoes.&#8213;Censura das damas
+muito para temer, cr&iacute;tica dos elegantes muito
+para rir.&#8213;Come&ccedil;a o primeiro episodio d'esta
+Odyssea.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: bottom; width: 31px;"><a href="#c10">91</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 561px; text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo
+XI.</span>&#8213;Tracta-se
+do unico
+privilegio dos
+poeetas que tambem os philosophos quizeram tirar,
+mas n&atilde;o lhes foi concedido; aos romancistas
+sim.&#8213;Applica&ccedil;&atilde;o d'estes principios a
+Aristoteles e Anacreonte.&#8213;O A., tendo declarado
+no cap&iacute;tulo nono d'esta obra que n&atilde;o
+era philosopho, agora confessa, quasi solemnemente.
+que &eacute; poeta, e pretende manter-se
+como tal, em seu direito.&#8213;De como S. M.
+elrei de Dinamarca tinha menos juizo do que
+Yorick, seu bobo.&#8213;Doutrina d'este. Funda
+n'ella o A. o seo admiravel systema de physiologia
+e pathologia transcendente do cora&ccedil;&atilde;o.Por uma
+deduc&ccedil;&atilde;o appertada e cerrada da mais
+constrangente logica vem a dar-se no motivo
+porque foi concedido aos poetas esse direito indefinido
+de andarem sempre namorados.&#8213;Applicam-se
+todas &eacute;stas grandes theorias &aacute;
+posi&ccedil;&atilde;o
+actual do A. no momento de entrar no episodio
+promettido no cap&iacute;tulo antecedente.&#8213;Uma
+modestia e reserva delicada o obrigam a
+duvidar da sua qualifica&ccedil;&atilde;o para o desimpenhar:
+pede votos &aacute;s amaveis leitoras. Decide-se
+que a vota&ccedil;&atilde;o n&atilde;o seja nominal, e
+porqu&ecirc;.&#8213;Dido
+e a mana Annica.&#8213;Entra-se emfim na
+promettida historia.&#8213;De como a velha estava
+&aacute; porta a dobar, e imbara&ccedil;ando-se-lhe a meada,
+chamou por Joanninha, sua
+neta.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="width: 31px; text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c11">99</a></td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<span class="pagenum">[285]</span>
+<span class="smallcaps"></span>
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 561px; text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo
+XII.</span>&#8213;De
+como Joanninha
+desimbara&ccedil;ou
+a meada da av&oacute;, e do mais que aconteceu.&#8213;Que
+casta de rapariga era Joanninha. D&aacute; o A.
+insigne pr&ocirc;va de ingenuidade
+e boa f&eacute; confessando
+um grave sen&atilde;o do seu Ideal. Insiste
+por&eacute;m que &eacute; um adoravel deffeito.&#8213;Em que
+se parece uma mulher desannellada com um
+Sans&atilde;o tosquiado.&#8213;Pasmosas monstruosidades
+da natureza que desmentem o credo velho
+dos peralvilhos.&#8213;Os olhos verdes de Joanninha.&#8213;Religi&atilde;o
+dos olhos pretos strenuamente
+professada pelo A. Perigo em que ella se acha &aacute;
+vista de uns olhos verdes.&#8213;De como estando
+a av&oacute; e a neta a conversar muito de mano a
+mano, chega Frei Diniz e se interrompe a
+conversa&ccedil;&atilde;o.&#8213;Quem
+era Frei Diniz.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="width: 31px; text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c12">109</a></td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<span class="pagenum"><a name="p286">[286]</a></span>
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 561px; text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo
+XIII.</span>&#8213;Dos
+frades em
+geral.&#8213;O frade
+moralmente considerado, socialmente e
+artisticamente.&#8213;Pr&oacute;va-se
+que &eacute; muito mais poetico
+o frade do que o bar&atilde;o.&#8213;Outra vez D.
+Quixote e Sancho Pansa.&#8213;Do que seja o bar&atilde;o,
+sua clasifica&ccedil;&atilde;o e
+descrip&ccedil;&atilde;o linneana.&#8213;Historia
+do castello do Chucherumello.&#8213;Erro
+palmar de Eugenio Sue: mostra-se que os
+jesuitas n&atilde;o s&atilde;o a cholera-morbus, e que
+&eacute; preciso
+refazer o 'Judeu errante'&#8213;De como
+o frade n&atilde;o intendeu o nosso seculo nem o nosso
+seculo ao frade.&#8213;De como o bar&atilde;o ficou <a href="#e21">em
+logar do frade</a>, e do muito que n'isso
+perd&eacute;mos.&#8213;Unica
+voz que se ouve no actual deserto
+da sociedade: os bar&otilde;es a gritar contos
+de r&eacute;is.&#8213;Como se contam e como se pagam
+os taes contos.&#8213;Predilec&ccedil;&atilde;o artistica do A.
+pelo frade: confessa-se e explica-se &eacute;sta
+predilec&ccedil;&atilde;o.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="width: 31px; text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c13">121</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 561px; text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo
+XIV.</span>&#8213;Emendado
+emfim de
+suas distrac&ccedil;&otilde;es
+e divaga&ccedil;&otilde;es, prosegue o A. direitamente
+com a historia promettida.&#8213;De como
+Fr. Diniz deu a manga a beijar a av&oacute; e &aacute; neta,
+e do mais que entre elles se passou.&#8213;Ralha
+o frade com a velha, e come&ccedil;a a descubrir-se
+onde a historia vai
+ter.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="width: 31px; text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c14">133</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 561px; text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo
+XV.</span>&#8213;Retrato
+de um frade
+franciscano
+que n&atilde;o foi para o dep&oacute;sito da Terra-sancta,
+nem consta que esteja na Academia das Bellas-Artes.&#8213;Ve-se
+que a logica de Fr. Diniz se
+n&atilde;o parecia nada com a de Condillac.&#8213;Suas
+opini&otilde;es s&ocirc;bre o liberalismo e os liberaes.&#8213;Que
+o pod&ecirc;r vem de Deus, mas como e paraqu&ecirc;.&#8213;Que
+os liberaes n&atilde;o intendem o que &eacute;
+liberdade e egualdade; e o para que eram os
+frades, se fossem.&#8213;Pr&oacute;va-se, pelo texto,
+que o homem n&atilde;o vive so de p&atilde;o, e pergunta-se
+o de que vivia ent&atilde;o Fr.
+Diniz.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="width: 31px; text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c15">147</a></td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<span class="pagenum">[287]</span>
+<span class="smallcaps"></span>
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 561px; text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo
+XVI.</span>&#8213;Saibamos
+da vida do
+frade.&#8213;Era
+franciscano porqu&ecirc;?&#8213;Dos antigos e dos
+novos martyres.&#8213;Alguns particulares de Fr.
+Diniz antes e depois de ser
+frade.&#8213;Emigra&ccedil;&atilde;o.&#8213;Explica&ccedil;&atilde;o
+incompleta.&#8213;De como a
+velha tinha perdido a vista, e Joanninha o riso.&#8213;Sexta
+feira dia aziago.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="width: 31px; text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c16">155</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 561px; text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo
+XVII.</span>&#8213;De
+como, chegando
+outra sexta-feira
+e estando a av&oacute; e a neta &aacute; espera do
+frade, este lhe appareceu, contra o seu costume,
+da banda de Lisboa.&#8213;Por que raz&atilde;o
+muitas vezes a mais animada conversa&ccedil;&atilde;o
+&eacute; a
+que mais facilmente p&aacute;ra e quebra de repente.&#8213;Nova
+demonstra&ccedil;&atilde;o de dois grandes axiomas
+dos nossos velhos, a saber: Que o h&aacute;bito
+n&atilde;o faz o monge; e que ralhando as comadres
+se descobrem as verdades.&#8213;No ralhar
+da velha com o frade, levanta-se uma ponta
+do v&eacute;o que cobre os mysterios da nossa
+historia.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="width: 31px; text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c17">171</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 561px; text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo
+XVIII.</span>&#8213;Descobre-se
+que
+ha grandes e
+espantosos segredos entre o frade e a velha&#8213;Piedosa
+fraude de Joanninha.&#8213;-Lucta entre o
+h&aacute;bito e o
+monge.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="width: 31px; text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c18">181</a></td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<span class="pagenum"><a name="p288">[288]</a></span>
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 561px; text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo
+XIX</span>.&#8213;Guerra de postos avan&ccedil;ados,
+Joanninha no bivac.&#8213;De como os rouxinoes
+do valle se disciplinaram a ponto de tocar a
+alvorada e a retreta.&#8213;Quem era a 'menina
+dos rouxinoes,' e porque lhe poseram este
+nome.&#8213;A sentinella perdida e
+achada.&nbsp;</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="width: 31px; text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c19">191</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 561px; text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XX.</span>&#8213;Joanninha
+adormecida&#8213;O demi-jour
+da coquette.&#8213;Poesia do Flos-sanctorum.&#8213;De
+como os rouxinoes accompanhavam sempre
+a menina do seu nome; e do bem que um
+d'elles cantava no bivac.&#8213;Retratto esquissado
+&aacute; pressa para satisfazer &aacute;s amaveis
+leitoras.&#8213;Pondera-se
+o triste e pessimo g&ocirc;sto dos nossos
+governantes em tirarem as honras militares ao
+mais elegante e mais nacional uniforme do ex&eacute;rcito
+portuguez.&#8213;Em que se parece o auctor
+da presente obra com um pintor da edade-m&eacute;dia.&#8213;De
+como os abra&ccedil;os, por mais apertados
+que sejam, e os beijos, por mais interminaveis
+que pare&ccedil;am, sempre teem de acabar
+por fim.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="width: 31px; text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c20">203</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 561px; text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo
+XXI.</span>&#8213;Quem
+vem
+l&aacute;?&#8213;Como entre dous
+litigantes nem sempre gosa o terceiro.&#8213;Carlos
+e Joanninha n'uma especie de situa&ccedil;&atilde;o
+ <em>ordeira</em>,
+a mais perigosa e falsa das
+situa&ccedil;&otilde;es.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="width: 31px; text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c21">215</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 561px; text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo
+XXII</span>.&#8213;Bilhete
+de manhan
+da prima ao
+primo. Inganam a pobre da velha.&#8213;Noite mal
+dormida.&#8213;Da conversa que teve Carlos com
+os seus bot&otilde;es.&#8213;A Joanninha que elle deix&aacute;ra
+e a Joanninha que achou.&#8213;Obriga&ccedil;&otilde;es <a href="#e22">d'amor</a>,
+triste palavra.&#8213;A mulher que elle amava,
+e se elle a amava ainda.&#8213;Quesitos do A.
+aos seus benevolos leitores. Declara que com
+os hypocritas n&atilde;o falla.&#8213;Quem hade levantar
+a primeira pedra?&#8213;Dous modos differentes
+de acudir uma coisa ao
+pensamento.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="width: 31px; text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c22">225</a></td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<span class="pagenum">[289]</span>
+<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="6">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 561px; text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo
+XXIII.</span>&#8213;Contin&uacute;a a accudir muita coisa
+vaga e incontrada ao pensamento de Carlos.&#8213;Dan&ccedil;a
+de fadas e duendes.&#8213;Fr. Diniz o fado-mau
+da familia.&#8213;Veremos, &eacute; a grande
+resolu&ccedil;&atilde;o
+nas grandes difficuldades.&#8213;Carlos poeta
+romantico.&#8213;Olhos verdes&#8213;Desafio a todos
+os poetas moyen-ages do nosso
+tempo.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="width: 31px; text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c23">235</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 561px; text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XXIV.</span>&#8213;Novo
+G&eacute;nesis.&#8213;O Adam social
+muito differente do Adam natural.&#8213;Carlos sempre
+um por seus bons instinctos, sempre outro
+por suas m&aacute;s reflex&otilde;es.&#8213;De como Joanninha
+recebeu o primo com os bra&ccedil;os abertos, e do
+mais que entre elles se passou.&#8213;Dor meia dor,
+meia prazer.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="width: 31px; text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c24">247</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 561px; text-align: justify;"><span class="smallcaps">Capitulo XXV.</span>&#8213;O
+excesso da
+felicidade que aterra
+e confunde tambem.&#8213;Pasmosa contradic&ccedil;&atilde;o
+da nossa natureza.&#8213;De como os olhos verdes
+de Joanninha se inturvaram e perderam todo
+o brilho.&#8213;Que o cora&ccedil;&atilde;o da mulher que
+ama, sempre advinha
+certo.</td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="width: 31px; text-align: right; vertical-align: bottom;"><a href="#c25">261</a></td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="width: 561px; text-align: justify;"><span class="smallcaps">Notas</span></td>
+
+ <td></td>
+
+ <td style="width: 31px;"><a href="#c26">275</a></td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<span class="smallcaps"></span><br />
+
+<br />
+
+<span style="font-weight: bold;">Notas:</span><br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<sup><a name="1">[1]</a></sup> Chamavam
+assim por escarneo, em
+Portugal, ao general
+Loison a quem faltava um bra&ccedil;o.<br />
+
+<br />
+
+<sup><a name="2">[2]</a></sup>
+C&eacute;lebre urso do Jardim das Plantas em
+Par&iacute;s.<br />
+
+<br />
+
+<sup><a name="3">[3]</a></sup> Pag. <a href="#p40">40</a>, <a href="#p41">41</a>,
+<a href="#p42">42</a>.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="fbox">
+<h2>Lista de erros corrigidos</h2>
+
+<div style="text-align: center;">Aqui encontram-se
+listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="width: 80%; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4">
+
+ <tbody>
+
+ <tr align="right">
+
+ <td style="width: 87px;"></td>
+
+ <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 119px;">Original</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 13px;"></td>
+
+ <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 110px;">Correc&ccedil;&atilde;o</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 87px;"><a name="e1"></a><a href="#p3">#p&aacute;g.
+3</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 119px;">venceder</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">vencedor*</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 87px;"><a name="e2"></a><a href="#p15">#p&aacute;g.
+15</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 119px;">Cervantos</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">Cervantes</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 87px;"><a name="e3"></a><a href="#p18">#p&aacute;g.
+18</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 119px;">morach&atilde;o</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 13px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 110px;">marach&atilde;o*</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 87px;"><a name="e4"></a><a href="#p40">#p&aacute;g.
+40</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 119px;">esperavava</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 13px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 110px;">esperava</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 87px;"><a name="e5"></a><a href="#p41">#p&aacute;g.
+41</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 119px;">maldadades</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 13px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 110px;">maldades</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 87px;"><a name="e6"></a><a href="#p62">#p&aacute;g.
+62</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 119px;">caf&eacute;</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 13px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 110px;">harem*</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 87px;"><a name="e7"></a><a href="#p89">#p&aacute;g.
+89</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 119px;">tinha-&acirc;nimo</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 13px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 110px;">tinha
+&acirc;nimo</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 87px;"><a name="e8"></a><a href="#p95">#p&aacute;g.
+95</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 119px;">esquerlo</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 13px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 110px;">esquerda</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 87px;"><a name="e9"></a><a href="#p97">#p&aacute;g.
+97</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 119px;">um
+historia</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 13px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 110px;">uma
+historia</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 87px;"><a name="e10"></a><a href="#p106">#p&aacute;g.
+106</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 119px;">toda o
+movimento</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 13px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 110px;">todo o
+movimento</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 87px;"><a name="e11"></a><a href="#p118">#p&aacute;g.
+118</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 119px;">trababalho</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 13px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 110px;">trabalho</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 87px;"><a name="e12"></a><a href="#p126">#p&aacute;g.
+126</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 119px;">conte</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 13px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 110px;">conter*</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 87px;"><a name="e13"></a><a href="#p129">#p&aacute;g.
+129</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 119px;">aeronantas</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">aeronautas*</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 87px;"><a name="e14"></a><a href="#p134">#p&aacute;g.
+134</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 119px;">paasos</td>
+
+ <td style="width: 13px; vertical-align: top; text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="width: 110px; text-align: center;">passos</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 87px;"><a name="e15"></a><a href="#p163">#p&aacute;g.
+163</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 119px;">memoraval</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">memoravel</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 87px;"><a name="e16"></a><a href="#c20">#p&aacute;g.
+203</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 119px;">demij-our</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">demi-jour*</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 87px;"><a name="e17"></a><a href="#p223">#p&aacute;g.
+223</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 119px;">didireitas</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">direitas</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 87px;"><a name="e18"></a><a href="#p228">#p&aacute;g.
+228</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 119px;">as
+alagadi&ccedil;os</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">os
+alagadi&ccedil;os</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 87px;"><a name="e19"></a><a href="#p240">#p&aacute;g.
+240</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 119px;">infeitavam</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">infeiti&ccedil;avam*</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 87px;"><a name="e20"></a><a href="#p276">#p&aacute;g.
+276</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 119px;">viagem</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">visita</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 87px; vertical-align: middle;"><a name="e21"></a><a href="#p286">#p&aacute;g.
+286</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 119px;">em em
+logar frade</td>
+
+ <td style="text-align: center; vertical-align: middle;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; vertical-align: middle;">em
+logar do frade</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e22"></a><a href="#p288">#p&aacute;g. 288</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">d'ad'mor</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">d'amor</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;">*
+correc&ccedil;&otilde;es feitas com base na errata do
+pr&oacute;prio livro.<br />
+
+<br />
+
+Shakespeare&nbsp;e Rotschild surgem neste livro como Shakspeare e
+Rotchild respectivamente. Dada a repetitividade constante, decidi
+manter de acordo com o original.<br />
+
+<br />
+
+Foram adicionados travess&otilde;es onde a sua falta foi notada.<br />
+
+<br />
+
+As indica&ccedil;&otilde;es dos n&uacute;meros de
+p&aacute;ginas que se mencionaram na sec&ccedil;&atilde;o
+de <em>"Notas do Primeiro Livro"</em> e <em>"&Iacute;ndice"</em>,
+foram corrigidas
+para corresponder ao local correcto.<br />
+
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+</div>
+
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's Viagens na Minha Terra, by Almeida Garrett
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VIAGENS NA MINHA TERRA ***
+
+***** This file should be named 24164-h.htm or 24164-h.zip *****
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+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
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+
+
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+
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+
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+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
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+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
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+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
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+
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+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
+
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+
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+This eBook, including all associated images, markup, improvements,
+metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be
+in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES.
+
+Procedures for determining public domain status are described in
+the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org.
+
+No investigation has been made concerning possible copyrights in
+jurisdictions other than the United States. Anyone seeking to utilize
+this eBook outside of the United States should confirm copyright
+status under the laws that apply to them.
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+Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for
+eBook #24164 (https://www.gutenberg.org/ebooks/24164)