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authorRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-15 02:04:51 -0700
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+ <title>A Lenda da Meia-Noite</title>
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+ <meta name="AUTHOR" content="M. Pinheiro Chagas" />
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+<pre>
+
+Project Gutenberg's A Lenda da Meia-Noite, by Manuel Joaquim Pinheiro Chagas
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: A Lenda da Meia-Noite
+
+Author: Manuel Joaquim Pinheiro Chagas
+
+Release Date: November 7, 2007 [EBook #23400]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A LENDA DA MEIA-NOITE ***
+
+
+
+
+Produced by Ricardo F. Diogo, Rita Farinha and the Online
+Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net
+
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+
+<div>
+<div class="fbox"><b>Nota de editor:</b>
+Devido &agrave;
+quantidade de erros tipogr&aacute;ficos existentes neste texto,
+foram tomadas v&aacute;rias decis&otilde;es quanto &agrave;
+vers&atilde;o final. Em caso de d&uacute;vida, a grafia foi
+mantida de acordo com o original. No final deste livro
+encontrar&aacute; a lista de erros corrigidos.<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: right; font-style: italic;">Rita
+Farinha (Nov. 2007)
+</div>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="bbox"><br />
+
+<hr />
+<div style="text-align: center;">COLLEC&Ccedil;&Atilde;O
+ANTONIO
+MARIA PEREIRA<br />
+
+</div>
+
+<hr /><br />
+
+<h2>M. PINHEIRO CHAGAS</h2>
+
+<br />
+
+<h1>A LENDA DA MEIA-NOITE</h1>
+
+<br />
+
+<h4>2.&ordf; edi&ccedil;&atilde;o<br />
+
+</h4>
+
+<h4><br />
+
+</h4>
+
+<h4><br />
+
+</h4>
+
+<h4><br />
+
+LISBOA
+<br />
+
+Parceria A. M. PEREIRA&#8213;Livraria editora
+<br />
+
+<em>Rua Augusta, 50, 52 e 54</em>
+<br />
+
+1906<br />
+
+</h4>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<hr />
+<div style="text-align: center;">LISBOA<br />
+
+Officinas typographica e de encaderna&ccedil;&atilde;o<br />
+
+<span class="smallcaps">movidas a vapor</span><br />
+
+<em>Rua dos Correeiros, 70 e 72, 1.&ordm;</em><br />
+
+1906<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h1>A LENDA DA MEIA-NOITE</h1>
+
+<br />
+
+<br />
+
+N'um dos sitios mais pittorescos da Beira-Baixa,
+n'essa montanha vestida de verdura, onde se recosta Alpedrinha,
+e que domina o verdejante valle do Fund&atilde;o,
+ergue-se uma casa ampla e antiga, de cuja varanda, extensa
+varanda de madeira, em cujos beiraes vem as andorinhas
+fazer os seus ninhos, se descortina a extensa
+paisagem, onde alvejam Val de Prazeres e outras villas
+e aldeias que matizam, com as suas casas brancas, o
+verde do arvoredo, e que tem como panno de fundo a
+imponente massa da serra da Estrella, coroada com as
+suas neves eternas.<br />
+
+<br />
+
+A casa n&atilde;o tem formosuras architectonicas, nem aspecto
+de palacio; &eacute; apenas um edificio vasto, cercado
+de dependencias rusticas, tendo defronte do port&atilde;o as
+cavallari&ccedil;as, casas de habita&ccedil;&atilde;o dos
+criados, etc., que,
+desenrolando se em semi circulo, fecham um terreiro
+que d&aacute; ao edificio campestre uma especie de pateo de
+<span class="pagenum">[6]</span>entrada. A parte
+mais caracteristica da residencia &eacute; a
+extensa varanda de madeira, t&atilde;o usada na provincia,
+onde nas tardes de estio se respira a vira&ccedil;&atilde;o da
+serra,
+onde nas manh&atilde;s de inverno se toma alegremente a
+restea do sol.<br />
+
+<br />
+
+Fica isolada a habita&ccedil;&atilde;o que a largos
+tra&ccedil;os descrevemos.
+Pegada com a fachada principal est&aacute; o muro,
+onde se abre o port&atilde;o da quinta. Esta &eacute;
+assombreada
+pelo magnifico arvoredo, que vi&ccedil;a, com incrivel vigor,
+n'esse torr&atilde;o privilegiado conhecido na provincia pelo
+nome de cova da Beira. Para um lado a pouca distancia
+fica Alpedrinha, a pittoresca villa com as suas casas
+penduradas entre verduras da encosta da montanha,
+para outro lado a estrada desce at&eacute; ao Fund&atilde;o.
+Por toda a parte verdura, arvores, aguas, o ar purissimo
+das serras, os rumores mysteriosos das solid&otilde;es.
+&Eacute; encantadora a situa&ccedil;&atilde;o d'aquelle
+formoso eremiterio.<br />
+
+<br />
+
+No outono e no inverno a paisagem toma uns tons
+mais carregados e lugubres. A montanha assume um
+certo ar de grandeza. Nos soutos espessos dos castanheiros
+passa o furac&atilde;o silvando com furia; a trovoada
+vae-se repercutindo de echo em echo pelas concavidades
+dos valles, e os relampagos illuminam, com a sua
+luz sinistra, o arvoredo que se estorce nos bra&ccedil;os doidos
+do vendaval. Nos amplos sal&otilde;es d'esses edificios
+isolados ouvem-se rumores sinistros, e sons mysteriosos,
+e o vento, fazendo ranger os pilares da varanda,
+ent&ocirc;a a musica triste das lendas populares.<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; exactamente no outono que n&oacute;s conduzimos o
+leitor
+&aacute; casa da Fragosa, como por l&aacute; se chama ao sitio
+em que ella fica. Os viscondes da Fragosa, que alli
+moram, tinham convidado alguns amigos seus para irem
+<span class="pagenum">[7]</span>ca&ccedil;ar nas
+suas terras, de f&oacute;rma que estavam
+reunidas
+bastantes pessoas no grande sal&atilde;o da residencia, junto
+da brazeira, no momento em que convidamos o leitor
+para entrar tambem e aproveitar o calor benefico do
+lume.<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; j&aacute; noite; a tarde estivera sobre-maneira
+ventosa e
+fria, de f&oacute;rma que os convidados, reunidos na varanda,
+para assistirem a um d'esses esplendidos occasos do sol,
+que s&atilde;o t&atilde;o frequentes no outono, tiveram que
+retirar
+e fechar-se em casa, deixando o vento gemer l&aacute;
+f&oacute;ra,
+estorcendo os ramos do arvoredo. Accendeu-se a brazeira,
+e, esquecendo-se o frio e o vento, entrou-se n'uma
+palestra t&atilde;o animada, como se se estivesse n'uma sala
+de Lisboa, a dois passos do Theatro Italiano, e sentindo-se,
+a rodarem nas ruas, as carruagens da cidade.<br />
+
+<br />
+
+O sal&atilde;o era vasto e simples, mobilado &aacute; antiga.
+Nas
+paredes alguns velhos quadros sombrios; pesadas cadeiras,
+de p&eacute;s torneados, forradas de coiro lavrado,
+dispostas em circulo, em torno de uma mesa de pau
+santo, ornava apenas um canto da sala immensa. N'esse
+canto, onde se agrupavam a familia e os convidados,
+havia uma profusa illumina&ccedil;&atilde;o. O resto da sala
+ficava
+perdido na sombra. De vez em quando surgiam d'esse
+fundo escuro os criados que vinham fazer
+algum servi&ccedil;o.
+O toque da campainha n&atilde;o parecia que os chamava,
+parecia que os evocava. Sa&iacute;am de subito da penumbra,
+como se surgissem do ch&atilde;o. O aspecto da
+casa
+era, portanto, o mais legendario que podia imaginar-se.<br />
+
+<br />
+
+A conversa&ccedil;&atilde;o prolong&aacute;ra-se ainda
+depois do ch&aacute;!
+Um medico, que residia em Alpedrinha, para onde viera,
+n&atilde;o exercer a clinica, mas tratar da sua propria
+saude, arruinada, em proveito da saude dos outros, homem
+<span class="pagenum"><a name="p8">[8]</a></span>de
+espirito fino e
+amavel, f&ocirc;ra quem
+sustent&aacute;ra
+<a href="#e1">principalmente</a> a palestra, ajudado
+por um
+sr. Lucio
+Valen&ccedil;a, escriptor de certa aura, e ca&ccedil;ador
+intrepido,
+e por uma filha dos viscondes, gentil menina, sympathica,
+alegre e desembara&ccedil;ada, que, apesar de ter vivido
+sempre em Castello-Branco, e de ter ido apenas
+uma ou duas vezes a Lisboa, n&atilde;o tinha nenhum dos
+acanhamentos tradicionaes das provincianas de romance.<br />
+
+<br />
+
+A pouco e pouco, por&eacute;m, esmorecera a
+conversa&ccedil;&atilde;o:
+pausas cada vez mais amiudadas cortavam a palestra,
+e o medico j&aacute; tir&aacute;ra o relogio para v&ecirc;r
+se n&atilde;o &iacute;am sendo horas de retirada. Mas o
+visconde da Fragosa
+estava agarrado, com o commendador Madureira, e alguns
+visinhos de campo, a um impertinente
+<em>boston</em>, e
+em vista d'isso ninguem ousava ser o primeiro a tocar
+a recolher.<br />
+
+<br />
+
+N'estes silencios ouvia-se distinctamente o rugir do
+vento na serra, e os seus gemidos e silvos nos corredores
+da casa.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meu Deus! que tristeza de noite! disse de subito
+uma joven senhora, de notavel
+formosura, extraordinariamente
+pallida, mas com umas opulentas tran&ccedil;as
+negras, e uns olhos negros tambem, grandes, rasgados,
+que lhe illuminavam com estranho fulgor o rosto
+de alabastro. O vento geme com uns sons t&atilde;o lugubres,
+que nos parece ouvir as queixas dos phantasmas.
+&Eacute; uma noite de lenda allem&atilde;!<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Para isso, acudiu o doutor Macedo, falta a chuva,
+a trovoada, a neve e muitos outros accessorios germanicos.
+O vento s&oacute; n&atilde;o basta.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;V. ex.<sup>a</sup> gosta de lendas, sr.<sup>a</sup>
+D. Isaura? perguntou
+inclinando-se para ella um elegante mo&ccedil;o do
+Fund&atilde;o,
+<span class="pagenum">[9]</span>em quem pareciam ter
+produzido uma
+impress&atilde;o
+profunda os olhos negros e a romantica pallidez da filha
+do commendador Madureira.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se gosto de lendas! respondeu a pallida menina.
+Ah! de certo, adoro-as, mas gosto de as l&ecirc;r em Lisboa,
+no meu gabinete e &aacute; luz do sol.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sem <em>mise-en-scene</em> n&atilde;o
+prestam, observou com
+toda a gravidade o doutor Macedo.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A que chama <em>mise-en-scene</em>, doutor?
+perguntou
+Isaura.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O Lucio que lh'o explique, minha senhora; n&atilde;o
+quero invadir os seus dominios.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! meu Deus, acudiu o escriptor, n&atilde;o &eacute;
+difficil
+de adivinhar. O doutor entende que as lendas devem
+ser lidas e apreciadas &aacute; noite, no meio do silencio geral,
+quando se est&aacute; s&oacute;sinho, n'um velho castello de
+Anna Radcliffe, cheio de al&ccedil;ap&otilde;es e de
+subterraneos,
+quando o vento geme lugubremente nos corredores, e
+faz oscillar a luz da vela que illumina a nossa solitaria
+vigilia. Creio que o doutor, acudiu Lucio voltando-se
+rindo para elle, dispensa que a vela esteja n'um craneo,
+em vez de estar n'um casti&ccedil;al, e que haja um cemiterio
+por baixo da janella.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dispenso... dispenso... acudiu o doutor com a
+mesma imperturbavel gravidade, quero dizer... n&atilde;o
+julgo indispensaveis esses accessorios, mas n&atilde;o posso
+negar que augmentavam de um modo notabilissimo o
+effeito phantastico da narrativa legendaria.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meu Deus! exclamou a pallida Isaura. Fazem-me
+morrer de susto com essas historias pavorosas. Hoje
+com toda a certeza n&atilde;o durmo. Que id&eacute;a!
+&Eacute; necessario
+que n&atilde;o tenham a minima d&oacute;se de sensibilidade
+para <span class="pagenum">[10]</span>assim estarem
+zombeteando a respeito de coisas, que
+me produziriam uma impress&atilde;o tamanha, que os meus
+nervos de certo n&atilde;o resistiriam. Estou j&aacute; toda
+tremula!<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas, minha senhora, exclamou o doutor Macedo,
+as lendas s&atilde;o como os ananazes. Ha os nascidos ao ar
+livre, na sua terra propria, e ha-os desabrochados artificialmente
+com o calor da estufa. N'um velho solar
+provinciano, ao som lugubre do vento nos corredores,
+n'uma noite de inverno sulcada de relampagos, nasce
+a lenda t&atilde;o naturalmente como o ananaz no
+Brazil.
+N'uma sala de Lisboa, forrada de espelhos, ornada de
+macios soph&aacute;s, entre os rumores meridianos da rua, a
+luz clara e alegre do sol, a lenda n&atilde;o p&oacute;de ter
+mais
+sabor do que um ananaz de estufa.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Jesus, meu Deus, exclamou D. Isaura, percebo
+isso perfeitamente, e bem sei que o phantastico s&oacute;
+p&oacute;de
+produzir toda a impress&atilde;o de que &eacute; susceptivel no
+scenario
+que o doutor descreve: mas &eacute; que levado a esse
+ponto, o phantastico produziria no meu espirito um funesto
+effeito. Matava-me ou enlouquecia-me! Ah! tornou
+ella, eu adoro o ideal, mas o ideal p&oacute;de tambem
+partir as cordas da minha alma.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tomo o partido de Isaura, disse n&atilde;o sem alguma
+ironia a filha dos viscondes de Fragosa, linda menina
+de cabellos castanhos claros e olhos azues, de um azul
+t&atilde;o vivo que produziam &aacute;s vezes a
+sensa&ccedil;&atilde;o de olhos
+negros, como se fossem aquelles reflexos azulados da
+aza negra do corvo; tomo o partido de Isaura. Os senhores
+est&atilde;o fallando ahi como creaturas vulgares incapazes
+de sentirem profundamente as grandes
+commo&ccedil;&otilde;es.
+Para as almas privilegiadas os grandes prazeres
+da imagina&ccedil;&atilde;o muitas vezes s&atilde;o tambem
+o martyrio. <span class="pagenum">[11]</span>S&atilde;o
+as Ophelias, as Marias de Noronha, as creaturas
+ideaes cujos corpos s&atilde;o apenas, como o da irm&atilde;
+do bispo Myriel nos
+<em>Mis&eacute;rables</em>, de Victor
+Hugo, pretextos
+para conservarem no mundo almas de anjos.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E cuidas que n&atilde;o ha na terra esses entes, cujas
+express&otilde;es mais sublimes foram encontradas por tres
+grandes poetas que acabas de citar, Garrett, Shakespeare
+e Victor Hugo? acudiu vivamente o enthusiasta
+de Isaura, que sentira o leve epigramma, que o seu
+idolo n&atilde;o comprehend&ecirc;ra.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o cuido tal, Henrique. A prova de que os ha &eacute;
+que Isaura &eacute; um d'esses entes.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por quem &eacute;s, Leonor... acudiu Isaura com uns
+certos ares de modestia, que ainda mais desesperaram
+o seu apaixonado.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; assim, tornou Leonor. Tu, Isaura, sentes que
+se partiriam as cordas da tua alma, se quizesses l&ecirc;r
+&aacute;
+noite n'um quarto de uma velha casa provinciana uma
+historia de phantasmas. Morrias se te achasses s&oacute;sinha
+&aacute; noite n'uma sala de lugubre aspecto. Porque? Porque
+tens a imagina&ccedil;&atilde;o exaltada, a sensibilidade
+nervosa
+das Ophelias e das Marias de Noronha!<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E n&atilde;o admirava, acudiu Henrique Osorio que assim
+se chamava o mo&ccedil;o do Fund&atilde;o, n&atilde;o
+admirava, sr.<sup>a</sup>
+D. Isaura, que v. ex.<sup>a</sup> tivesse medo de estar
+s&oacute;sinha
+n'um castello de Anna Radcliffe. Nem todas podem ter
+a imagina&ccedil;&atilde;o calma, o prosaico bom senso, a fria
+intrepidez
+de Leonor. A marqueza da Lusacia, de que
+falla Victor Hugo n'um dos seus poemas, preferia perder
+a soberania do seu marquezado a ir passar a noite
+s&oacute;sinha, como o ordenava o costume tradicional, no
+castello de seus av&oacute;s...<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[12]</span> &#8213;Logo encontrou
+quem a acompanhasse, interrompeu
+Leonor ironicamente.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E n&atilde;o seria s&oacute; ella.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isaura, ouviste? acudiu Leonor rindo com tal ou
+qual amargura, se quizeres passar alguma noite n'um
+castello legendario, como a marqueza da Lusacia, j&aacute;
+tens trovador que te acompanhe, ao bater da meia-noite,
+e que te cante:<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry">Si tu veux, faisons un r&ecirc;ve,<br />
+
+Montons sur deux palefrois,<br />
+
+Tu m'emm&egrave;nes, je t'enl&egrave;ve.<br />
+
+L'oiseau chante dans les bois.<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+Isaura sorriu-se sem comprehender bem a lucta que
+em torno d'ella se travava; Henrique Osorio calou-se.
+Leonor, um pouco arrependida de ter mostrado um tal
+ou qual azedume, voltou-se para sua m&atilde;e que resonava
+recostada na sua poltrona, e, chamando-a, disse-lhe algumas
+palavras em voz baixa, convidando-a a que lembrasse
+a seu pae que eram horas de p&ocirc;r um termo ao
+<em>boston</em>. O doutor lev&aacute;ra a
+m&atilde;o aos labios para cumprimir
+um bocejo, e Lucio Valen&ccedil;a, sorrindo-se, contemplava
+a esplendida formosura de Isaura, e &ecirc;sses olhos
+que Deus fizera t&atilde;o formosos, e que n&atilde;o
+reflectiam
+comtudo sen&atilde;o as preoccupa&ccedil;&otilde;es pueris
+da mulher da
+moda, e da lisbonense frivola.<br />
+
+<br />
+
+No meio d'este silencio ouviu-se o vento bramir com
+mais for&ccedil;a, para depois gemer com mais tristeza, parecendo
+que se estabelecia um dialogo entre os espiritos
+atmosphericos, e que aos rugidos amea&ccedil;adores de um
+demonio respondiam as queixas plangentes de um ente
+fraco e debil.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[13]</span>
+De subito ouviu-se ao longe, ao longe, vibrar uma
+badalada no sino de S. Martinho de Alpedrinha.<br />
+
+<br />
+
+O vento soprava d'aquelle lado, e trazia nas suas
+azas as lugubres vibra&ccedil;&otilde;es do bronze.<br />
+
+<br />
+
+Ouviu-se em profundo silencio uma, duas, tres...
+doze badaladas.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meia-noite! disse naturalmente o doutor, quebrando
+o silencio em que todos estavam, porque todos tinham
+estado contando as horas.<br />
+
+<br />
+
+Mas a voz do doutor tambem tom&aacute;ra involuntariamente
+como que uma sinistra entoa&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+D. Isaura soltou um grito.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Jesus! disse ella.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que tem, minha senhora? perguntou Henrique
+sollicito e afflicto.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meu Deus! exclamou Isaura, &eacute; que me aterraram
+com as suas loucas historias, &eacute; que me puzeram n'um
+estado incrivel de sobre-excita&ccedil;&atilde;o nervosa.
+Meia-noite!
+v&ecirc;? Meia-noite &eacute; a hora dos phantasmas,
+&eacute; a hora das
+appari&ccedil;&otilde;es! E esta sala &eacute;
+t&atilde;o lugubre, e este silencio
+&eacute; t&atilde;o agoireiro!<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Minha senhora, exclamou o doutor Macedo alegremente,
+v. ex.<sup>a</sup> supp&otilde;e por acaso que
+n&oacute;s sejamos
+phantasmas,
+e que estejamos quasi a dissipar-nos em fumo
+como quaesquer entes mal-creados do mundo sobrenatural?
+V. ex.<sup>a</sup> est&aacute; no meio d'um
+batalh&atilde;o de gente
+viva capaz de affrontar dois subterraneos de Anna Radcliffe,
+tres conventos de Lewis, refor&ccedil;ados ainda pelos
+mil e um phantasmas de Alexandre Dumas.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! tornou Isaura toda tremula, mas &eacute; que a
+meia-noite soou de um modo t&atilde;o lugubre... E n&oacute;s a
+esta hora ainda a p &#8213;Oh! tornou Isaura toda tremula, mas &eacute;
+que a
+meia-noite soou de um modo t&atilde;o lugubre... E n&oacute;s a
+esta hora ainda a p&eacute;...<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[14]</span> &#8213;V. ex.<sup>a</sup>
+deita-se mais cedo em Lisboa?
+perguntou
+o doutor.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, mas...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas &eacute; que a meia-noite s&oacute; aterra os que lhe
+d&atilde;o
+&iacute;mportancia. &Eacute; uma hora covarde e manhosa, que,
+se
+v&ecirc; a alegria do baile, as salas illuminadas, as
+dan&ccedil;as
+caprichosas e revoluteadoras, entra pacatamente como
+outra hora qualquer, at&eacute; com mais risos e mais alegrias,
+accendendo mais o fogo das walsas, cumprimentando
+para todos os lados amavelmente. Se v&ecirc; o estudioso
+debru&ccedil;ado sobre os livros, indifferente e sereno,
+entra timidamente, nos bicos dos p&eacute;s, e abafa at&eacute;
+as suas proprias vibra&ccedil;&otilde;es; se encontra n'um
+ser&atilde;o
+de familia a conversa&ccedil;&atilde;o alegre, o bule de
+ch&aacute; em cima
+da mesa, as cartas do <em>boston</em> para um
+lado, um livro
+para outro, bate &aacute; porta discretamente, e annuncia que
+&eacute; tempo de se recolher cada qual para o seu leito. Ora
+agora, se encontra gente que espera com susto, que
+est&aacute; prompta a desmaiar apenas ouvir a primeira badalada
+que a annuncia, ent&atilde;o eil-a que toma uns ares
+pavorosos, engrossa a voz, faz entrada solemne, espalha
+em torno de si o terror e o assombro. F&oacute;ra com
+semelhante fanfarr&atilde;o! &Eacute; necessario darmos-lhe uma
+li&ccedil;&atilde;o mestra! Pe&ccedil;o a palavra para um
+requerimento.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Hein? disse l&aacute; da mesa do jogo o visconde da
+Fragosa, que aspirava &aacute; deputa&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; concedida, visconde? disse o doutor, rindo.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas que diz voc&ecirc;? tornou o visconde muito espantado
+dos risos com que os interlocutores do Macedo
+acolhiam a sua id&eacute;a.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem! Passo adiante. Requeiro que para todos os
+effeitos seja abolida a meia-noite.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[15]</span> &#8213;Approvado por
+unanimidade e mais um que &eacute; o
+visconde, tornou, rindo, Lucio Valen&ccedil;a. Agora queira o
+sr. deputado apresentar uma proposta indicando o modo
+pratico de se levar a effeito essa medida importante.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Proponho, tornou o doutor com gravidade comica,
+que de &aacute;manh&atilde; em diante affrontemos a meia-noite
+rosto a rosto, e lhe tor&ccedil;amos o pesco&ccedil;o.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas o meio? o meio? o meio pratico? bradaram
+Lucio e Leonor.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O meio &eacute; o seguinte: O mau tempo amea&ccedil;a
+prolongar-se,
+e n&oacute;s ou n&atilde;o podemos ca&ccedil;ar, ou
+n&atilde;o podemos
+prolongar a ca&ccedil;a por todo o dia, sob pena de estoirarmos
+ahi de frio por essa serra. Portanto &aacute; noite
+estamos frescos e descan&ccedil;ados, e podemos protrahir o
+ser&atilde;o. Proponho que organisemos um
+<em>Decameron</em> para
+zombarmos da meia-noite, como os narradores de Bocaccio
+zombaram da peste de Floren&ccedil;a. Cada um de
+n&oacute;s, que se sentir para isso com for&ccedil;as, se
+compromette
+a comp&ocirc;r uma historia phantastica, uma lenda,
+um conto maravilhoso que ser&aacute; lido aqui ao bater da
+meia-noite. D'essa f&oacute;rma affrontamos face a face a terrivel
+inimiga do repouso da sr.<sup>a</sup> D. Isaura, e, se ella
+ainda ousar fazer uso dos seus sortilegios, comnosco
+se ha de haver!<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Apoiado! apoiado! bradaram todos menos D. Isaura,
+que soltou um grito, exclamando:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso &eacute; horrivel!<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, minha senhora, &eacute; uma receita, &eacute;
+um remedio
+heroico, &eacute; um banho russo. Vou-lhe combater os
+seus nervos.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mate-me, doutor!<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Qual historia, minha senhora! Mato a meia-noite!
+<span class="pagenum">[16]</span>Ver&aacute;
+como depressa a moda acceita a minha id&eacute;a.
+D'aqui
+a pouco tempo n&atilde;o se falla em Lisboa n'outra coisa, e
+a <em>lenda da meia-noite</em>
+ser&aacute; o anti-espasmodico mais empregado.<br />
+
+<br />
+
+A id&eacute;a de que effectivamente em Lisboa d'ahi a pouco
+tempo se n&atilde;o fallaria n'outra coisa foi o que decidiu
+D. Isaura. Ao mesmo tempo termin&aacute;ra a partida do voltarete,
+e um dos jogadores, homem j&aacute; de cabellos grisalhos,
+vivo, espirituoso, illustrado, que no tempo do
+romantismo commettera alguns peccados litterarios, exclamou
+alegremente:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Acceitam-me para companheiro! Eu ainda sirvo
+para uma montaria aos lobos, vamos a v&ecirc;r se tambem
+presto para uma montaria &aacute; meia-noite.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; acceito com mil vontades, sr. Roberto Soares.
+Eu j&aacute; o conhe&ccedil;o como robusto campe&atilde;o,
+e assento-lhe
+pra&ccedil;a com enthusiasmo. Agora cabe-me designar o
+servi&ccedil;o.
+Henrique Osorio, voc&ecirc; &eacute; quem rompe o fogo.<br />
+
+<br />
+
+Henrique inclinou-se em silencio relanceando um ardente
+olhar &aacute; pallida Isaura.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meia-noite e meia-hora! disse o doutor tirando o
+relogio. Saudemos, meus senhores, a ultima meia-noite
+que passa, e vamo-nos deitar. Todos se riram, e um
+borborinho alegre encheu d'ahi a pouco os corredores
+da habita&ccedil;&atilde;o. Ainda por algum tempo se sentiu o
+rumor
+de portas que se abriam e fechavam, de passos
+que se perdiam ao longe, de vozes que se despediam.
+Depois caiu tudo em silencio, e s&oacute; se p&ocirc;de ouvir o
+vento que continuou toda a noite a gemer lugubremente
+as suas monotonas queixas.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[17]</span>
+A previs&atilde;o do doutor realisou-se. O tempo continuou
+mau, e aggravou-se ainda com a chuva que principiava
+a cair em torrentes. A noite seguinte passou-se alegremente.
+Quando, por&eacute;m, um relogio de parede, que f&ocirc;ra
+posto na sala, indicou onze e meia, Isaura fez-se ainda
+mais pallida do que era, e houve no auditorio uns taes
+ou quaes signaes de commo&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A postos, meus senhores! exclamou o doutor alegremente.
+Firmeza, companheiros! Do alto d'aquelle
+relogio trinta minutos vos contemplam.<br />
+
+<br />
+
+Houve de novo <em>entrain</em>, risos e
+enthusiasmo. N'isto
+o sino de S. Martinho deu a primeira badalada da meia-noite.
+Soava ainda mais lugubremente do que na vespera.
+Solta no meio dos loucos rumores do vendaval,
+a vibra&ccedil;&atilde;o do bronze parecia uma nota perdida de
+agonia
+e de desespero.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Henrique! disse o doutor. Vamos! Est&aacute;s um pouco
+pallido? &Eacute; a commo&ccedil;&atilde;o do auctor e
+n&atilde;o a da meia-noite,
+juro-o aos deuses immortaes.
+V&aacute;! inflex&atilde;o lugubre,
+voz cavernosa, gesto sombrio!<br />
+
+<br />
+
+Henrique desenrolou um manuscripto, e, no meio da
+atten&ccedil;&atilde;o geral, leu o seguinte:
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>JULIETA</h2>
+
+<h3>
+CONTO PHANTASTICO<br />
+
+<br />
+
+</h3>
+
+<h3>
+I</h3>
+
+<br />
+
+Eram onze horas da noite, e estava-se tomando ch&aacute;
+em casa do meu amigo Frederico B * * *, em Bemfica.
+Havia uma roda d'intimos; a conversa estava animada
+e o meu amigo, a quem a alegria e o
+<em>entrain</em> dos convidados
+deixavam mais liberdade no cumprimento dos
+seus deveres de dono da casa, aproveitava-se d'isso
+para contemplar extasiado sua linda mulher, com quem
+cas&aacute;ra havia pouco tempo, e que do seu lado lhe sorria
+tambem com a meiguice e ternura da mulher que
+ama dev&eacute;ras.<br />
+
+<br />
+
+A conversa anim&aacute;ra-se tanto, que se ia transformando
+em algazarra.<br />
+
+<br />
+
+Discutia-se acaloradamente a quest&atilde;o da existencia
+das almas do outro mundo, com grande desprazer d'um
+jornalista que por for&ccedil;a queria conduzir ao bom caminho
+<span class="pagenum">[20]</span>aquelles
+discutidores extraviados, propondo que se
+tratasse da bondade do ministerio, deixando de parte
+essas tolices, que n&atilde;o serviam para nada. Mas ninguem
+lhe prestava atten&ccedil;&atilde;o, o que fez com que elle
+desesperado
+fosse l&ecirc;r pela centesima vez um artigo seu publicado
+n'um jornal que estava em cima de uma das mezas
+da sala. Essa produc&ccedil;&atilde;o do seu engenho, que o
+jornalista relia com tanto enthusiasmo merecia indubitavelmente
+t&atilde;o paterna sollicitude, porque elle e o revisor
+da imprensa tinham sido os seus unicos leitores.
+Mas o auctor tantas vezes o tinha lido, e tal
+admira&ccedil;&atilde;o
+professava pelo seu proprio talento, que pod&eacute;ra dizer,
+sem receio de ser taxado de mentiroso&#8213;&laquo;<em>que
+o seu
+artigo tinha feito tal impress&atilde;o, que lhe constava ter
+havido
+uma pessoa que o relia a miudo, e sempre com enthusiasmo
+crescente, honra de que se podiam gabar poucos
+artigos politicos da imprensa portugueza</em>.&raquo;<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Concluamos, bradava entretanto um medico materialista
+por dever de profiss&atilde;o, onde collocam os senhores
+esse agente mysterioso a que d&atilde;o o nome de espirito,
+teimando em appellidar assim pomposamente o mechanismo
+material, que a morte paralysa? Quando esse
+relojoeiro sombrio, que se chama tempo, quebra com
+m&atilde;o despiedosa as rodas complicadas do nosso systema
+vital, onde se refugia esse ente inutil, esse ser impalpavel
+a que os senhores espiritualistas querem dar as
+redeas do governo d'este barro quebradi&ccedil;o, que constitue
+o homem? E durante a vida quaes s&atilde;o os la&ccedil;os
+invisiveis, que prendem o escravo ao senhor, o corpo
+material e fragil &aacute; alma etherea e immortal? Tremendo
+absurdo, utopia talvez respeitavel, sublime tolice pela
+qual se tem sacrificado innumeras gera&ccedil;&otilde;es! Ah!
+mas <span class="pagenum">[21]</span>sobretudo,
+&eacute; doido dev&eacute;ras quem imagina que essa
+inven&ccedil;&atilde;o
+impossivel, resultado das aspira&ccedil;&otilde;es da
+humanidade
+para a existencia eterna, possa vir aos cemiterios
+animar os restos putrefactos dos reis da crea&ccedil;&atilde;o;
+quem tal supp&otilde;e, n&atilde;o sentiu nunca debaixo do
+escalpello
+anatomico o cadaver inerte e despresivel, nem
+p&oacute;de avaliar com a vista infallivel da sciencia o nada
+immenso das vaidades humanas!<br />
+
+<br />
+
+&#8213;F&oacute;ra com o materialista, bradou um rapaz enthusiasta;
+sabes tu, meu caro doutor, que a primeira vaidade
+humana cujo nada immenso tu devias avaliar, &eacute;
+a vaidade da sciencia? Que sabes tu, presump&ccedil;oso
+Hippocrates,
+que tens de recuar vencido perante o primeiro
+obstaculosinho, que a natureza caprichosa queira
+opp&ocirc;r &aacute; vista infallivel, como tu dizes, do saber
+dos
+homens? E &eacute;s tu que andas perdido no meio da
+confus&atilde;o
+dos systemas medicos a procurar no labyrintho
+scientifico o fio conductor que te est&aacute; sempre a escapar
+das m&atilde;os, &eacute;s tu que pretendes entrar com passo
+firme no insondavel labyrintho da eternidade?... Espera,
+continuou elle vendo entrar um mancebo muito
+pallido, que foi apertar a m&atilde;o de Frederico, e comprimentar
+a dona da casa, queres-te convencer? Pois ahi
+tens tu um homem vivo, que teve rela&ccedil;&otilde;es directas
+com
+um phantasma.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Roberto, assenta-te ahi, e conta-nos immediatamente
+a historia do teu espectro, se v. ex.<sup>as</sup>
+n&atilde;o se
+opp&otilde;em a isso ainda assim, continuou elle, voltando-se
+para as senhoras presentes, que tinham escutado a
+discuss&atilde;o metaphysica, com ligeiros signaes de
+aborrecimento.<br />
+
+<br />
+
+Prop&ocirc;r a senhoras uma historia de phantasmas &eacute;
+<span class="pagenum">[22]</span>despertar-lhes a
+atten&ccedil;&atilde;o, &eacute;
+fazer-lhes passar nas veias
+o estremecimento do enthusiasmo. N&atilde;o sei porque, esses
+entes frageis, pallidos ou rosados, de olhos negros
+ou azues, alegres ou melancolicos, esses entes femininos
+encantadores e timidos adoram tudo o que os faz
+tremer, e recreiam-se sobre tudo com essas historias
+terriveis, em que o leitor estupefacto encontra um punhal
+ao voltar de cada pagina, um ladr&atilde;o &aacute; esquina de
+cada periodo, um phantasma pelo menos em cada capitulo.<br />
+
+<br />
+
+Por isso a parte feminina da assembl&eacute;a acolheu a
+proposta com enthusiasmo: e a mim e aos outros homens,
+que estavam presentes, n&atilde;o desagradou a id&eacute;a
+de ouvir uma historia terrivel, em <em>petit
+comit&eacute;</em>, no pino
+da meia noite, tendo de voltar depois para casa por
+aquelles caminhos desertos dos arredores de Lisboa;
+a mim sobretudo, que tinha de passar pelas casas arruinadas
+de Campolide, sorria a id&eacute;a de
+ir com a imagina&ccedil;&atilde;o
+povoada de phantasmas, que poderia distribuir
+&aacute; vontade pelos recantos d'essa paisagem t&atilde;o
+magestosa,
+quando a lua envolve os pared&otilde;es solitarios na
+branca mortalha da sua luz, em quanto ao longe se
+desenha sobranceiro entre os campos verdejantes o perfil
+grandioso do aqueducto sombrio.<br />
+
+<br />
+
+Roberto, devemos dizel-o para honra sua, n&atilde;o se fez
+rogado, comprimentou silenciosamente a assembl&eacute;a, e
+come&ccedil;ou pouco mais ou menos n'estes termo
+Roberto, devemos dizel-o para honra sua, n&atilde;o se fez
+rogado, comprimentou silenciosamente a assembl&eacute;a, e
+come&ccedil;ou pouco mais ou menos n'estes termos:
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[23]</span>
+<h3>II</h3>
+
+<br />
+
+&laquo;Cantava-se em Lisboa pela segunda ou terceira vez
+o <em>Baile de mascaras</em>. Era uma noite
+de delirio no theatro
+de S. Carlos. Franschini, o cantor sublime, fazia
+tremer de enthusiasmo a plat&eacute;a inteira, e a voz portentosa
+de madame Lotti despenhava sobre o publico
+palpitante torrentes de melodia e de sentimento. O
+personagem de Amelia, interpretado como ent&atilde;o o foi,
+deixava de ser um typo creado pela imagina&ccedil;&atilde;o do
+poeta
+para se transformar, animado pelo Prometheo do genio,
+n'um ente real, cujos sentimentos traduzidos em
+suspiros de harmonia, iam arrancar os
+solu&ccedil;os dos peitos
+dos espectadores.<br />
+
+<br />
+
+Era o poema da paix&atilde;o, com todas as suas peripecias,
+mas da paix&atilde;o verdadeira, da paix&atilde;o que geme e
+rasga os seios da alma, da paix&atilde;o que verte lagrimas,
+de cujas feridas brota o sangue, e n&atilde;o d'essa
+paix&atilde;o
+ficticia, cuja express&atilde;o convencional anima s&oacute; a
+mascara,
+que a artista desafivella apenas desce o panno.<br />
+
+<br />
+
+Eu, perdido n'um canto da plat&eacute;a, escutava, como escuto
+sempre quando vou ao theatro lyrico. N'isso devo
+confessar-lhes que tenho id&eacute;as um pouco originaes. O
+panno, que s&oacute;be lentamente no principio da opera, descerra
+para os outros espectadores meia duzia de taboas
+rodeadas por bastidores de lona, onde uns poucos de
+artistas v&atilde;o cantar umas poucas de arias para divertimento
+do publico. Para mim &eacute; como que uma janella
+encantada que se abre por onde eu me arrojo para os
+espa&ccedil;os azues do ideal. Os outros analysam com toda a
+paciencia a instrumenta&ccedil;&atilde;o e o canto, investigam
+se foram<span class="pagenum">[24]</span>
+executadas as leis do contraponto, e depois de satisfeitos
+applaudem compassadamente para n&atilde;o rasgarem
+as luvas, voltam-se bocejando, e comprimentam a
+senhora condessa de * * *, ou a senhora baroneza de * * *,
+cuja chronica escandalosa v&atilde;o contar immediatamente
+ao seu visinho da esquerda.<br />
+
+<br />
+
+Mas eu n&atilde;o. A minha alma, que illumina o fogo do
+enthusiasmo, n&atilde;o p&oacute;de ficar na terra, quando
+sente passar
+no espa&ccedil;o o sopro da harmonia, da casta filha do
+c&eacute;o. Desapparece o theatro, desapparecem os espectadores,
+desapparece a fic&ccedil;&atilde;o. Arrastada no manto de fogo
+do ideal, a minha alma sente, enleva-se, palpita, geme,
+pranteia, solu&ccedil;a com Macbeth o grito do remorso, suspira
+com Desd&eacute;mona a can&ccedil;&atilde;o da saudade,
+gorgeia com
+Helena o hymno da desposada, escuta com Rosina a
+meiga serenata, s&oacute;lta com Lucrecia o rugido da envenenadora,
+e volta depois &aacute; terra, deixando-me ficar pallido,
+extasiado, porque entrevi em sonhos a deslumbrante
+claridade de um mundo desconhecido.<br />
+
+<br />
+
+Tinha come&ccedil;ado o segundo acto, e eu seguia cheia de
+um vago terror a scena lugubre do principio. As notas
+da aria de Amelia soavam-me aos ouvidos como dobres
+de finados, e quando a Lotti soltou aquelle grito de pavor,
+que vibrava sonoro e plangente pelo theatro, fazendo
+estremecer os espectadores, eu levantei-me pallido,
+convulso, e senti correr-me pela raiz dos cabellos
+o halito de fogo de uma mysteriosa commo&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+O meu visinho olhou para mim espantado; sentei-me,
+deixei cahir a cabe&ccedil;a entre as m&atilde;os, e scismei.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; ideal, dizia eu, quando poderei finalmente sorver
+a longos tragos o teu nectar precioso na cinzelada
+ta&ccedil;a da phantasia?
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p25">[25]</a></span>
+&laquo;&Oacute; virgem dos meus sonhos, &oacute; anjo das
+azas de
+ouro, quando poder&aacute; a minha alma, abra&ccedil;ando-se
+comtigo
+nas regi&otilde;es celestes, aspirar a plenos pulm&otilde;es a
+balsamica aragem da poesia?... O que &eacute;s tu, ente
+mysterioso, que assim bafejas o <a href="#e2">espirito</a>
+dos grandes
+poetas, e lhes vaes murmurar, em noites de
+inspira&ccedil;&atilde;o,
+os segredos sublimes que o vulgo profano admira, mas
+n&atilde;o comprehende?<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Oh! quaes ser&atilde;o as vis&otilde;es d'estes
+homens portentosos,
+e nas suas noites de febre, de delirio e de insomnia,
+em que mysticos amores te enla&ccedil;as tu com
+elles, &oacute; ideal sublime, &oacute; ideal inspirador? E
+emtanto
+n&oacute;s, os desherdados, bebemos com um riso alvar a agua
+insipida e lodosa dos prazeres do mundo, e caminhamos
+n'esta planicie monotona da vida, olhando com
+terror para o Sinai chammejante, onde campeiam, cercados
+da divina aureola, os harmoniosos prophetas, os
+validos da inspira&ccedil;&atilde;o!<br />
+
+<br />
+
+&laquo;N&atilde;o posso; falta-me o ar no recinto estreito da
+vida
+social; a prosa d'este mundo opprime-me o
+cora&ccedil;&atilde;o. A
+minha alma est&aacute; sequiosa de amor, e este apparece-me
+sempre escoltado pelas conveniencias, trazendo sobre o
+rosto formoso a mascara ridicula dos interesses materiaes,
+ou a mascara odiosa do capricho sensual. Amor!
+amor! mas um amor como o teu, &oacute; casta e pura Amelia,
+como o teu, &oacute; Julieta, &oacute; noiva gentil de Romeu e
+da sepultura, quero um d'esses amores sublimes, e, se
+elle n&atilde;o se encontra na terra, surge dos tumulos,
+&oacute;
+pallida virgem por quem eu anhelo, e mostra-me ao
+menos n'um relampago as mysteriosas alegrias da eternidade!&raquo;<br />
+
+<br />
+
+N'isto levantei a cabe&ccedil;a, e os meus olhos
+involuntariamente <span class="pagenum">[26]</span>fixaram-se
+n'um camarote, que ficava pouco
+distante do logar que eu occupava na plat&eacute;a. Uma senhora
+de belleza maravilhosa estava s&oacute;sinha n'esse camarote,
+e encarava-me com uma atten&ccedil;&atilde;o extraordinaria.
+N&atilde;o sei porque gelou-se-me o sangue nas veias, e
+fiquei extatico a contemplar aquella esplendida formosura.<br />
+
+<br />
+
+Raras vezes tenho encontrado um rosto assim! A
+correc&ccedil;&atilde;o das linhas, a pureza dos contornos, a
+magestade
+do perfil deixavam na sombra os mais perfeitos
+modelos da antiga estatuaria. Prax&iacute;teles quebraria
+desesperado
+as estatuas e o cinzel, se lhe fosse dado
+contemplar as inflex&otilde;es suaves, a
+perfei&ccedil;&atilde;o das f&oacute;rmas
+d'aquella viva esculptura.<br />
+
+<br />
+
+Se algum defeito se lhe poderia notar, era a rigidez
+marmorea da physionomia. Via-se que nem tristezas
+nem alegrias seriam capazes de alterar a regularidade
+do semblante, que s&oacute; parecia ter vida nos olhos, que
+eram lindos a mais n&atilde;o ser, e d'onde emanavam raios
+magneticos e deslumbrantes, que enlouqueciam quem
+se atrevesse a encaral-os. Aquelle rosto assemelhava-se
+a uma urna de marmore, em cima da qual se tivesse
+collocado uma lampada de luz fascinadora. Era um
+fragmento de g&ecirc;lo dourado levemente pelos reflexos de
+um vulc&atilde;o, mas essa physionomia tinha um n&atilde;o sei
+que de mysterioso e sombrio, que me impressionou
+profundamente.<br />
+
+<br />
+
+Olhei para o relogio. Os ponteiros marcavam no
+mostrador meia-noite em ponto.<br />
+
+<br />
+
+No theatro os conjurados cantavam o c&ocirc;ro das gargalhadas,
+e repetiam rindo o estribilho:<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry">Ah! ch&egrave; baccano-sul caso
+strano<br />
+
+Andr&agrave; dimani per la citt&agrave;!</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[27]</span>
+<h3>III</h3>
+
+<br />
+
+Sem poder explicar a mim mesmo a fascina&ccedil;&atilde;o
+irresistivel,
+que me impellia t&atilde;o imperiosamente &aacute;
+contempla&ccedil;&atilde;o
+d'aquelle formoso semblante, nunca mais desviei
+a vista do camarote. E ella, oh! ella olhava-me com
+uma meiguice de enlouquecer.<br />
+
+<br />
+
+Estava toda vestida de negro, e isso ainda mais contribuia
+para fazer real&ccedil;ar a alvura da sua tez. Trajava
+elegantissimamente, mas com uma singeleza, que me
+encantou, a mim, que procuro quasi sempre o bom
+gosto na simplicidade.<br />
+
+<br />
+
+S&oacute; ella occupava o camarote! S&oacute;sinha! Quem
+poderia
+ser? T&atilde;o nova, t&atilde;o formosa, e s&oacute;! Oh!
+meu Deus!
+seria ella uma d'essas mulheres sem pudor, que arrastam
+por toda a parte o manto de seda da ignominia,
+que foram apanhar da lama, onde deixaram em troca
+o candido v&eacute;o da innocencia? Impossivel! O seu porte
+modesto, a simplicidade do seu trajo
+eram um protesto
+vivo contra o descaro, e orgulhoso cynismo d'essas
+Messalinas venaes.<br />
+
+<br />
+
+Mas s&oacute;! Quem sabe? Talvez a pessoa que a acompanhava,
+estivesse escondida na sombra do camarote;
+talvez tivesse sa&iacute;do. Tudo podia ser, mas a suspeita
+&eacute;
+que n&atilde;o podia manchar nem por momentos a luz serena
+d'aquelle rosto angelical.<br />
+
+<br />
+
+E eu olhava-a deslumbrado; e uma transforma&ccedil;&atilde;o
+estranha se operava em mim. Parecia-me que as luzes
+do theatro iam esmorecendo a pouco e pouco at&eacute; se
+reduzirem &aacute; claridade sinistra das lampadas sepulchraes,
+<span class="pagenum">[28]</span>o palco e a
+plat&eacute;a confundiam-se n'um vasto
+cemiterio, onde o vento da noite fazia ondular a copa
+dos cyprestes, por entre cujos ramos passavam os
+raios da lua, da pallida scismadora, da solitaria amiga
+das sepulturas.<br />
+
+<br />
+
+E ella, ella, a formosa desconhecida, vinha dizer-me
+com o seu olhar t&atilde;o triste:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Queres o meu amor, &oacute; pobre escravo d'um corpo
+material, &oacute; doido, que aspiras ao infinito sem pensares
+que tens os p&eacute;s embara&ccedil;ados na immunda vasa
+d'esse
+oceano de desespero, que se chama a vida? Oh! n&atilde;o
+queiras conhecer os segredos dos tumulos, porque tu,
+meu louro poeta, voltavas ao mundo de cabellos brancos,
+se tocasses um s&oacute; minuto com os labios na ta&ccedil;a
+inebriante dos amores da eternidade!<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! que me importa a vida, respondia eu na
+allucina&ccedil;&atilde;o
+febril, se em troca d'esses dias de prosa me
+posso arrojar um instante s&oacute; aos espa&ccedil;os
+infin&iacute;tos das
+sublimes commo&ccedil;&otilde;es! A minha alma &eacute;
+como a aguia,
+que se arroja &aacute;s regi&otilde;es das nuvens, affrontando
+a tempestade,
+e cae depois na terra fulminada pelo raio, que
+altiva foi provocar. Que me importa a mim a morte, a
+condemna&ccedil;&atilde;o eterna, se pod&eacute;r sorver
+nos teus
+labios
+voluptuosidades desconhecidas, e l&ecirc;r nos teus olhos o
+poema sublime do amor, que eu phantasio?<br />
+
+<br />
+
+A vis&atilde;o desapparecia; mas no palco a voz seductora
+d'Oscar, o elegante pagem, vinha murmurar-me aos
+ouvidos:<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry">
+Pieno d'amor<br />
+
+Mi balza il cor;<br />
+
+Ma pur discreto<br />
+
+Serba il segreto.</div>
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[29]</span>
+E no olhar da minha formosa desconhecida lia-se em
+letras de fogo a mesma confiss&atilde;o inebriante:<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry">
+Pieno d'amor<br />
+
+Mi balza il cor.
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>
+IV</h3>
+
+<br />
+
+Tinha acabado a opera. Levantei-me e sa&iacute;.<br />
+
+<br />
+
+Fiz um esfor&ccedil;o sobre mim, n&atilde;o querendo olhar para
+o camarote fatal. A pessoa que o occup&aacute;ra durante a
+noite produzira em mim uma impress&atilde;o tal que cheguei
+a ter medo... medo da influencia pasmosa que
+ella &iacute;a tomando sobre o meu pobre
+cora&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+Oh! fatalidade! Quando cheguei ao corredor, o primeiro
+vulto, que passou por diante de mim, foi o vulto
+elegante e nobre da gentil desconhecida. Ia s&oacute;!<br />
+
+<br />
+
+Tive como que uma vertigem, quando ella, ao passar,
+me lan&ccedil;ou um d'esses olhares que endoidecem o
+homem de ras&atilde;o mais fria, que lan&ccedil;am no inferno o
+mais virtuoso santo do paraizo.<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o tive for&ccedil;as para luctar contra a
+fascina&ccedil;&atilde;o irresistivel
+d'esse olhar. Se elle tinha sobre mim a influencia
+magnetica do olhar de Jos&eacute; Balsamo sobre a pobre
+Lorenza ideada por Alexandre Dumas! Debalde a pobre
+italiana se torcia desesperada debaixo d'aquelle
+jugo oppressor, debalde oppunha toda a for&ccedil;a da sua
+vontade e do seu odio &aacute; tenacidade diabolica do terrivel
+magnetisador, debalde resistia com todo o ardor da
+sua devo&ccedil;&atilde;o, com todo o vigor da sua alma
+virginal
+&aacute;quelle poder incomprehensivel, mas horrendamente
+<span class="pagenum">[30]</span>verdadeiro; tinha
+de recuar diante d'esse olhar, como
+diante d'uma espada chammejante, at&eacute; ca&iacute;r
+oppressa e
+desesperada aos p&eacute;s de Jos&eacute; Balsamo.
+Ent&atilde;o esse corpo
+quebrado pela resistencia, reclinava-se nos bra&ccedil;os
+da voluptuosidade, e a voz que ia terrivel a bradar:
+&laquo;Odeio-te&raquo;, terminava supplicante a balbuciar:
+&laquo;Adoro-te&raquo;.<br />
+
+<br />
+
+Ao v&ecirc;l-a, disse eu commigo mesmo: &laquo;N&atilde;o
+quero,
+n&atilde;o quero ceder a esse imperio inexplicavel.&raquo; E
+minutos
+depois, surprehendia-me a seguil-a apressadamente
+pelas ruas de Lisboa.<br />
+
+<br />
+
+Ha occasi&otilde;es em que nos v&ecirc;mos obrigados a
+acreditar
+em for&ccedil;as sobrenaturaes que nos attrahem e nos
+repellem, &eacute; quando a nossa vontade se aniquila, e quando
+as leis da nossa organisa&ccedil;&atilde;o s&atilde;o
+violentamente revogadas
+por um despotismo estranho.<br />
+
+<br />
+
+Submetto esta reflex&atilde;o &aacute;
+considera&ccedil;&atilde;o dos illustres
+materialistas que me escutam!<br />
+
+<br />
+
+<h3>V</h3>
+
+<br />
+
+A desculpa que eu dei a mim mesmo, quando apesar
+de todos os meus protestos me surprehendi a seguir
+a senhora de negro, foi a desculpa da curiosidade.<br />
+
+<br />
+
+Com effeito, dizia eu commigo, tirando philosophicamente
+baforadas de fumo do charuto que acab&aacute;ra de
+accender no momento em que passou por diante de
+mim a formosa desconhecida; o que ha mais natural?
+Encontro uma linda mulher em S. Carlos, linda como
+poucas, e original a mais n&atilde;o poder ser. Vejo-a no camarote
+s&oacute;sinha, e torno a v&ecirc;l-a, sa&iacute;ndo a
+p&eacute;, e ainda
+<span class="pagenum">[31]</span>s&oacute;.
+N&atilde;o tenho nada que fazer, e por conseguinte
+sigo-a.
+&Eacute; naturalismo.<br />
+
+<br />
+
+E a voz da consciencia murmurava-me ao ouvido:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; o brilho da chamma tentadora, &oacute; doida
+borboleta,
+&eacute; o olhar fascinador da serpente, &oacute; ave
+descuidosa.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora adeus, respondia a voz da minha apparente
+philosophia, prejuizo, supersti&ccedil;&atilde;o, fanatismo,
+como dizia
+o tenente Boutraix de um dos romances de Carlos
+Nodier. Vou offerecer-lhe o meu bra&ccedil;o.<br />
+
+<br />
+
+A senhora que eu seguia caminhava lentamente a
+quinze passos adiante de mim, quando muito. Passava
+ella ent&atilde;o defronte da egreja dos Martyres. Puz o
+chap&eacute;u
+ao lado com modos conquistadores, colloquei o
+charuto ao canto da bocca, e accelerei o passo.<br />
+
+<br />
+
+Apesar d'isso, e apesar da minha bella n&atilde;o alterar por
+f&oacute;rma alguma o seu andamento, n&atilde;o diminuia, pelo
+menos
+sensivelmente, a distancia que nos separava. O vulto
+elegante da senhora de negro, ao passar por diante dos
+candieiros de gaz, revelava-se em toda a sua riqueza
+de f&oacute;rmas, em toda a magestade do seu porte airoso.
+Havia uma suprema distinc&ccedil;&atilde;o no seu modo de
+andar,
+mas apesar d'isso havia um n&atilde;o sei qu&ecirc; de
+mysterioso
+n'aquelle mover de estatua, lento e inteiri&ccedil;ado, que fazia
+uma impress&atilde;o pouco agradavel.<br />
+
+<br />
+
+Cheg&aacute;mos assim &aacute; rua Nova do Carmo; ella voltou
+para baixo; eu segui-a.<br />
+
+<br />
+
+A distancia conservava-se a mesma. Mas, como ia diminuindo
+o numero das pessoas que caminhavam para
+aquelles sitios, saindo, como n&oacute;s, de S. Carlos, eu tomei
+uma resolu&ccedil;&atilde;o definitiva, e comecei a dar grandes
+passadas
+para apanhar finalmente aquella mulher que me
+<span class="pagenum">[32]</span>fugia
+incessantemente como esse ca&ccedil;ador das lendas do
+norte, que foge sempre, sem perder um palmo de terreno,
+mas sem poder tambem desapparecer, &aacute; sua matilha
+infernal.<br />
+
+<br />
+
+Nem assim pude diminuir a distancia que me separava
+d'esse vulto extraordinario.<br />
+
+<br />
+
+E o vulto parecia escorregar magestoso e sombrio,
+sem que a bulha dos seus passos acordasse um s&oacute; echo
+nas ruas solitarias.<br />
+
+<br />
+
+Cheg&aacute;mos ao Rocio. Eu come&ccedil;ava a estar suado.
+Despi, sem affrouxar o passo, o paletot que me incommodava,
+e pul-o aos hombros.<br />
+
+<br />
+
+Depois dei a andar com dobrada rapidez.<br />
+
+<br />
+
+A senhora de negro caminhou pelo Rocio na
+direc&ccedil;&atilde;o
+do Passeio.<br />
+
+<br />
+
+Cheg&aacute;mos ao largo de Cam&otilde;es.<br />
+
+<br />
+
+Nem uma pollegada diminuira a distancia que mediava
+entre n&oacute;s.<br />
+
+<br />
+
+E o vulto parecia escorregar magestoso e sombrio,
+sem que a bulha dos seus passos acordasse um s&oacute; echo
+nas ruas solitarias.<br />
+
+<br />
+
+Eu apertava as m&atilde;os na cabe&ccedil;a, porque sentia uma
+torrente de fogo a inundar-me o cerebro, e a ras&atilde;o a
+abandonar-me.<br />
+
+<br />
+
+A noite era sombria, e no estado em que estava pareceu-me
+sinistro dev&eacute;ras o aspecto d'essa massa do
+Passeio Publico, envolto n'um manto de trevas.<br />
+
+<br />
+
+A quinze passos adiante de mim caminhava sempre
+elegante e distincto o vulto negro da minha gentil desconhecida.<br />
+
+<br />
+
+Perdi a cabe&ccedil;a e deitei a correr, litteralmente a correr,
+atraz d'ella. A bulha da corrida produzia um som
+<span class="pagenum">[33]</span>lugubre, e fazia-me
+estremecer de vez em quando. O
+suor escorria-me em fio pela cara abaixo.<br />
+
+<br />
+
+Saimos da rua Oriental do Passeio, entr&aacute;mos na
+cal&ccedil;ada
+do Salitre, cheg&aacute;mos &aacute; esquina da travessa do
+Moreira, e eu n&atilde;o conquist&aacute;ra um palmo de
+terreno.<br />
+
+<br />
+
+E o vulto parecia escorregar magestoso e sombrio,
+sem que a bulha dos seus passos acordasse um s&oacute; echo
+nas ruas solitarias.<br />
+
+<br />
+
+Quando ali cheg&aacute;mos, a desconhecida entrou resolutamente
+na travessa, e eu parei. Sentia o cora&ccedil;&atilde;o
+palpitar-me
+com violencia, e... tive medo, confesso o.<br />
+
+<br />
+
+Era t&atilde;o extraordinario o que me estava succedendo,
+que este sentimento, devem confessal-o, era um pouco
+desculpavel.<br />
+
+<br />
+
+Comtudo venci a timidez passageira, e entrei resolutamente
+n'essa rua t&atilde;o deserta.<br />
+
+<br />
+
+Quando a minha desconhecida chegou ao p&eacute; de uma
+casa isolada no meio da travessa, parou, voltou-se para
+mim, e bradou com uma voz melodiosissima:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Aacute;manh&atilde; &aacute; meia-noite, debaixo d'esta
+janella.<br />
+
+<br />
+
+Eu estaquei attonito de surpreza.<br />
+
+<br />
+
+<h3>VI</h3>
+
+<br />
+
+Descrever-lhes a lucta que se travou no meu espirito,
+quando voltando para casa me fui sentar &aacute; mesa de
+trabalho, e comecei a reflectir fria e pausadamente na
+aventura nocturna, seria contar-lhes a historia longa e
+fastidiosa do combate da ras&atilde;o com as minhas tendencias
+para o sobrenatural.<br />
+
+<br />
+
+Dir-lhes-hei, resumindo, que sem attender a outra
+<span class="pagenum">[34]</span>coisa que
+n&atilde;o fosse a seduc&ccedil;&atilde;o
+inexplicavel, que me attra&iacute;a
+para esse ente incomprehensivel, fui no dia seguinte
+&aacute; meia-noite ao
+<em>rendez-vous</em> aprazado.<br />
+
+<br />
+
+Soava n&atilde;o sei em que relogio a ultima badalada da
+meia-noite, quando se abriu a janella, e appareceu ante
+os meus olhos deslumbrados o formoso rosto da gentil
+desconhecida.<br />
+
+<br />
+
+Balbuciei phrases sem sentido, mas a lingua pegou-se-me
+ao c&eacute;o da bocca, e n&atilde;o pude dizer uma palavra
+que se entendesse.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Porque me seguiu hontem? perguntou ella
+com
+uma voz melodiosa e triste, como o gemer da brisa
+nos cyprestes.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Porque a amo.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sabe quem eu sou?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que me importa! Quem vae perguntar ao anjo
+que nos afaga em sonho o nome com que o distinguem
+nas phalanges celestiaes?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E ama-me?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mais do que a vida!<br />
+
+<br />
+
+&#8213;S&oacute;?!<br />
+
+<br />
+
+Que poder incrivel tinha aquella mulher sobre mim?
+N&atilde;o sei; sei que lhe respondi com o olhar inflammado:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mais do que Deus!<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o estranha o mysterio em que me envolvo?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o sei. Este amor &eacute; uma paix&atilde;o
+fatal. Virgem
+ou devassa, candida ou profanada, anjo ou demonio,
+amo-a cegamente, sem me importar com o passado nem
+com o futuro, desejando s&oacute; ter o presente meu, s&oacute;
+meu. Este amor &eacute; para mim um vinho que embriaga,
+e se no fundo da ta&ccedil;a encontrar veneno, que importa?
+morrerei aben&ccedil;oando as horas da embriaguez. Isto
+&eacute;
+<span class="pagenum"><a name="p35">[35]</a></span>uma
+loucura, bem
+sei, mas se podesse conhecer a atonia
+moral em que o meu espirito tem existido! Se soubesse
+como eu anhelo por estas commo&ccedil;&otilde;es
+extraordinarias,
+que devoram n'um minuto a existencia de um
+homem! J&aacute; v&ecirc; qu&atilde;o pouco exigente eu
+sou; n&atilde;o me
+negue um raio d'essa aureola d'amor que lhe circunda
+a fronte. Essa luz tenuissima transformal-a-hei em chamma
+esplendida, que ha de illuminar as trevas do meu
+viver prosaico.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Acceito o seu amor, se essas palavras n&atilde;o o <a href="#e3">exageram</a>.
+N&atilde;o queira penetrar no mysterio que me envolve.
+Quando f&ocirc;r necessario, eu mesma o rasgarei, e confie
+em mim, ha de encontrar-me digna do seu amor. Entretanto
+creia e espere. Adeus.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute;?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o me posso demorar nem um minuto.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! mas diga-me uma palavra consoladora. Este
+amor immenso n&atilde;o encontrou echo no seu
+cora&ccedil;&atilde;o?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Amo-o.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas com um amor semelhante ao meu, inebriante,
+immenso?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Immenso... como a eternidade.<br />
+
+<br />
+
+E fechou a janella, deixando-me ficar extatico e cada
+vez mais espantado da estranheza dos seus modos.<br />
+
+<br />
+
+<h3>VII</h3>
+
+<br />
+
+Assim continuou todas as noites aquelle amor
+excentrico.
+Todas as noites eu tomava a firme resolu&ccedil;&atilde;o
+de n&atilde;o tornar l&aacute;, e sempre as badaladas da
+meia-noite
+<span class="pagenum"><a name="p36">[36]</a></span>me
+surprehendiam na
+travessa do Moreira, por baixo da
+janella fatal.<br />
+
+<br />
+
+No tempo em que me succedeu esta aventura, tratavam
+meus paes do meu casamento com uma menina
+rica, que n&atilde;o desgostava de mim, e por quem eu,
+n&atilde;o
+sentindo amor, n&atilde;o sentia tambem antipathia.<br />
+
+<br />
+
+Era ella uma menina capaz de inspirar uma
+affei&ccedil;&atilde;o
+fraternal, mas nunca uma paix&atilde;o a um espirito arrebatado
+como este meu.<br />
+
+<br />
+
+Era bonita, mas um typo vulgar, horrivelmente vulgar.
+A pobre menina n&atilde;o tinha culpa d'isso. Demais a
+mais era o que se podia chamar um acerto: dote soffrivel,
+excellentes qualidades de mulher e de dona de
+casa.<br />
+
+<br />
+
+Creio que juntava a isso tudo o fazer marmelada perfeitamente.
+N&atilde;o sendo muito guloso, n&atilde;o era eu o mais
+proprio para poder apreciar dignamente esta prenda,
+que a distinguia.<br />
+
+<br />
+
+Nunca mais appareci em casa d'ella, desde a noite de
+S. Carlos. Um dia passei occasionalmente por l&aacute;, e vi-a
+com os olhos <a href="#e4">vermelhos</a> de chorar.
+Comprimentei-a,
+ella
+correspondeu me tristemente, e retirou-se da
+janella.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora adeus, disse eu comigo mesmo, foi deitar assucar
+nos marmelos. Talvez ali esteja um cora&ccedil;&atilde;o!
+accrescentei
+eu no monologo mental. N&atilde;o creio, continuei,
+o cora&ccedil;&atilde;o desarranja as cassarolas, e incommoda-a
+no
+varrer da casa.<br />
+
+<br />
+
+Foram estas id&eacute;as falsas que me perderam, meus senhores;
+id&eacute;as d'um espirito extravagante que procurou
+sempre em regi&otilde;es inaccessiveis a felicidade, que nunca
+pude encontrar, e que talvez caminhasse ao meu lado
+sem eu dar por isso.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[37]</span>
+O meu espirito talvez fosse como o Rouvi&egrave;re de uma
+comedia de Feuillet, que, depois de ter percorrido o
+mundo em todos os sentidos, fica espantado de encontrar
+a felicidade sentada ao canto da lareira de uma familia
+burgueza n'uma aldeola do seu paiz natal.<br />
+
+<br />
+
+<h3>VIII</h3>
+
+<br />
+
+Chamava-se Julieta a heroina do meu romance de
+amor. At&eacute; o nome era de fazer enlouquecer um enthusiasta
+como eu.<br />
+
+<br />
+
+Essa aureola de poesia e de encanto com que Shakespeare
+circumdou a fronte da pallida italiana, parecia
+atravez das edades vir doirar com um reflexo luminoso
+a fronte gentil da Julieta, que eu adorava.<br />
+
+<br />
+
+Foi a unica informa&ccedil;&atilde;o a seu respeito que d'ella
+obtive.
+Tudo o mais ficava para mim envolvido n'um mysterio
+que eu n&atilde;o tentava penetrar.<br />
+
+<br />
+
+Uma noite a nossa conversa&ccedil;&atilde;o foi tomando a pouco
+e pouco um caracter mais ardente e languido. Palavras
+de amor entrecortadas, suspiros involuntarios vindo interromper
+o dialogo, longos silencios durante os quaes
+eu sentia o palpitar apressado do meu cora&ccedil;&atilde;o, em
+quanto via a imagem seductora de Julieta desenhar-se
+na janella illuminada caprichosamente pelo fulgor da
+lua, tudo isto despertava em mim uma voluptuosidade
+deliciosa, mas que me magoava.<br />
+
+<br />
+
+Uma vez, em quanto ella ficava perdida n'essa vaga
+contempla&ccedil;&atilde;o da lua e da noite perfumada, eu
+involuntariamente
+approximei-me da parede da casa, e ajudando-me
+com as grades da janella do pavimento das lojas,
+<span class="pagenum">[38]</span>pude trepar
+at&eacute; ao parapeito da janella, e de repente,
+sem que ella parecesse reparar na ousadia do meu procedimento,
+imprimi-lhe nos labios um beijo de fogo.<br />
+
+<br />
+
+Os labios d'ella estavam frios como os de uma estatua.<br />
+
+<br />
+
+Olhou para mim com olhar meigo e recuou.<br />
+
+<br />
+
+Entrei no quarto e cahi-lhe aos p&eacute;s, balbuciando:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Julieta, amo-te!<br />
+
+<br />
+
+E cobri-lhe as m&atilde;os de beijos devoradores.<br />
+
+<br />
+
+Ella olhava para mim com uma express&atilde;o indefinivel.
+N&atilde;o podia dizer se era ternura, se ardor, se frieza, o
+que esse olhar continha; sei s&oacute;mente que quanto mais
+ella me encarava, mais eu me sentia enlouquecer.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vem, meu amante, murmurou Julieta passando-me
+o bra&ccedil;o &aacute; roda do pesco&ccedil;o, e
+arrastando-me com
+meiguice para uma porta entre-aberta, vem! sobre o
+lilaz florido do meu jardim embalsamado descanta o
+rouxinol as suas trovas de amores! &eacute; tudo mysterio
+n'esta hora encantadora! Vem!<br />
+
+<br />
+
+Abriu-se a porta e n&oacute;s entramos n'um jardim esplendido.<br />
+
+<br />
+
+<h3>IX</h3>
+
+<br />
+
+Era na hora mysteriosa em que das urnas das fl&ocirc;res
+se expandem na atmosphera thesouros de aroma e de
+languidez, e em que o homem absorto julga escutar
+vagamente na esplendida immensidade a longiqua harmonia
+das espheras.<br />
+
+<br />
+
+Na hora em que o rouxinol espalha sobre a terra as
+perolas do seu canto, e em que a natureza escuta embevecida
+o hymno mavioso do seu interprete sublime.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[39]</span>
+Porque n'essa hora dormem as paix&otilde;es terrenas, e
+o mundo parece envolver-se por momentos no manto
+da sua virgindade, afim que Deus possa reconhecer a
+sua feitura, desfigurada pelo agitar convulso do verme
+pretencioso que se chama o homem.<br />
+
+<br />
+
+E o Omnipotente immovel no throno da sua grandeza,
+rev&ecirc;-se silencioso no espelho da
+Crea&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+Oh! como a lua desenrola graciosamente o seu manto
+luminoso sobre as alamedas desertas do esplendido jardim!
+Como os seus raios se baloi&ccedil;am mollemente no
+ber&ccedil;o fluctuante da folhagem! Como se miram descuidosos
+no crystal das fontes!<br />
+
+<br />
+
+E as estatuas primorosas dos deuses do paganismo,
+parecem espreitar complacentes os mysterios da voluptuosidade
+que se v&atilde;o abrigar nos caramanch&otilde;es floridos!
+E emtanto as acacias que lhes assombreiam os
+vultos immoveis, inundam com a chuva perfumada das
+fl&ocirc;res vermelhas as pregas ondeantes da sua roupagem
+marmorea!<br />
+
+<br />
+
+E eu e Julieta caminhavamos silenciosos por entre
+os alegretes, e a voz do rouxinol da balseira despertava
+no meu cora&ccedil;&atilde;o um rouxinol desconhecido que me
+fallava
+de amor e de ternura.<br />
+
+<br />
+
+Inclinei-me para ella e beijei-a! E parecia-me que
+sentia ao tocar-lhe nos labios as azas brancas do anjo
+da pureza que davam &aacute;quella fronte limpida um resplendor
+celestial.<br />
+
+<br />
+
+Por um sentimento involuntario troquei o meu annel
+pelo annel de Julieta.<br />
+
+<br />
+
+Julguei que Deus santificava o nosso amor, e nos
+contemplava com indulgencia!<br />
+
+<br />
+
+<h3><span class="pagenum">[40]</span>
+X</h3>
+
+<br />
+
+Mas quando ergui os olhos, erri&ccedil;aram-se-me os cabellos
+de terror, e correu-me pelas veias um calafrio.
+Fugiu-me a luz dos olhos, e o sangue refluiu ao
+cora&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+Desappareceram os floridos canteiros, emmudeceu o
+rouxinol suave, sumiram-se as estatuas, fugiram as
+acacias.<br />
+
+<br />
+
+Estendem-se a perder de vista as ruas sombrias de
+um cemiterio, de um lado e de outro avultam as pedras
+brancas das sepulturas.<br />
+
+<br />
+
+O vento da noite faz ondear os cyprestes funerarios,
+e o pallido clar&atilde;o da lua vem beijar melancolico as cruzes
+tumulares.<br />
+
+<br />
+
+O grito sinistro do mocho s&oacute; de vez em quando perturba
+a paz dos mortos; por entre a relva dos sepulchros
+fulgura a lugubre phosphorescencia dos cemiterios.<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; tudo silencio em roda, mas ao longe come&ccedil;a a
+sentir-se
+um vago rumor, que parece o longiquo ruido de
+um exercito marchando.<br />
+
+<br />
+
+E uma aragem de terror parece esvoa&ccedil;ar por entre
+os tumulos, dando vida &aacute;s loisas e voz ao cyprestal.<br />
+
+<br />
+
+Lugubres clar&otilde;es abra&ccedil;am as cruzes das campas, e
+as figuras de pedra que guardam, sentinellas inanimadas,
+o somno dos finados, agitam-se convulsamente ao
+sopro de fogo d'aquella procella desconhecida.<br />
+
+<br />
+
+A sineta da ermida vibrou no meio do silencio; tres
+vezes echoou na immensidade aquelle som terrivel.<br />
+
+<br />
+
+E eu senti os cabellos erri&ccedil;arem-se-me, e um suor
+gelado me inundava a testa.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[41]</span>
+Ent&atilde;o um c&ocirc;ro de vozes cavas e profundas entoou
+lugubremente o <em>Dies irae</em>, o hymno
+da colera de Deus.<br />
+
+<br />
+
+E logo uma longa prociss&atilde;o de phantasmas brancos
+come&ccedil;ou a desfilar por diante de mim n'um silencio
+aterrador.<br />
+
+<br />
+
+Depois deram-se as m&atilde;os e formaram em torno de
+mim uma dan&ccedil;a de espectros.<br />
+
+<br />
+
+E eu sentia os cabellos erri&ccedil;arem-se-me, e um suor
+gelado me inundava a testa.<br />
+
+<br />
+
+Depois um dos vultos brancos destacou-se do grupo
+e avan&ccedil;ou para mim.<br />
+
+<br />
+
+E eu quiz recuar, mas os p&eacute;s estavam pregados no
+terreno, e uma for&ccedil;a invencivel me domava.<br />
+
+<br />
+
+O passo do phantasma n&atilde;o produzia ruido algum, mas
+eu sentia-o vibrar no fundo do cora&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+Vinha envolto no longo manto sepulchral, e ornava-lhe
+a fronte a grinalda virginal das rosas brancas.<br />
+
+<br />
+
+Reconheci as pallidas fei&ccedil;&otilde;es de Julieta, da
+minha
+noiva de ha pouco.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vae consumar-se o lugubre noivado, disse-me ella
+sorrindo; vem, meu pallido amante, vem inebriar-te com
+as mysticas voluptuosidades das sepulturas.<br />
+
+<br />
+
+O mocho cantar&aacute; o nosso epithalamio, e no cruzeiro
+do cemiterio ser&atilde;o as dan&ccedil;as dos finados o nosso
+baile nupcial.<br />
+
+<br />
+
+Olha para a mysteriosa alcova, como nos sorri de
+dentro da loisa entreaberta a alva mortalha do nosso
+leito de noivado!<br />
+
+<br />
+
+E eu olhei e vi abrir-se a garganta pavorosa de um
+sepulchro, e senti que a m&atilde;o de Julieta me arrastava
+invencivelmente.<br />
+
+<br />
+
+Echoavam nas lugubres alamedas as gargalhadas dos
+<span class="pagenum">[42]</span> finados, o mocho
+soltava o seu grito funebre, e a lua
+entornava sobre as campas a sua luz t&atilde;o pallida.<br />
+
+<br />
+
+E eu senti os cabellos erri&ccedil;arem-se-me de terror, e
+um suor gelado me inundava a testa.<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o pude resistir, passou-me uma nuvem de sangue
+por diante dos olhos e cahi desmaiado!<br />
+
+<br />
+
+<h3>XI</h3>
+
+<br />
+
+Roberto parou um momento como se se sentisse
+opprimir pela recorda&ccedil;&atilde;o terrivel d'essa noite.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pouco mais lhes posso dizer, meus senhores, sei
+apenas que no dia seguinte acordei no meu leito, e que
+estive s&eacute;riamente doente. Apenas me restabeleci corri
+&aacute; travessa do Moreira.<br />
+
+<br />
+
+Da casa de Julieta nem signaes! Tudo desapparecera.<br />
+
+<br />
+
+Julguei que f&ocirc;ra victima de uma
+allucina&ccedil;&atilde;o, mas
+ainda hoje se me representam tanto ao vivo as scenas,
+a que assisti, que n&atilde;o posso admittir a possibilidade
+d'essa hypothese.<br />
+
+<br />
+
+D'ahi por diante nunca mais tive felicidade! Em
+pouco tempo gosei e padeci muito. As fibras da minha
+alma sujeitas a uma fortissima tens&atilde;o quebraram-se, e
+hoje vivo n'uma incrivel atonia.<br />
+
+<br />
+
+A senhora, com quem minha familia me queria v&ecirc;r
+casado, desposou um homem menos imaginoso do que
+eu, que a estremece, e a quem ella estima. Tem dois
+filhos, que s&atilde;o a alegria da casa e o enlevo dos paes.<br />
+
+<br />
+
+A minha imagina&ccedil;&atilde;o desregrada deixou-me isolado
+no mundo.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[43]</span>
+Roberto calou-se. Todos n&oacute;s ficamos silenciosos,
+impressionados
+por essa lugubre historia. Mas Frederico
+abra&ccedil;ando sua mulher, e dando-lhe um beijo na testa,
+disse para Roberto:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;As aspira&ccedil;&otilde;es da alma t&ecirc;m um limite,
+que n&atilde;o podem
+ultrapassar. No c&eacute;o da felicidade ha espheras inaccessiveis
+onde a natureza humana desmaia, prostrada
+pela vertigem. Na familia, meu amigo, resume-se a suprema
+ventura. &Eacute; prosaica unicamente para os que a
+n&atilde;o comprehendem. N'esses amores ideaes chega o homem
+a pontos, em que para me servir das phrases do
+sceptico Musset:<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry">O&ugrave; le vertige prend,
+o&ugrave; l'air devient le feu,<br />
+
+Et l'homme doit mourir o&ugrave; commence le Dieu.
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Quando Henrique Osorio acabou de l&ecirc;r o seu improvisado
+romance, applaudiram-n'o fervorosamente os seus
+indulgentes ouvintes. S&oacute; Isaura bocejava de um modo
+notavel.<br />
+
+<br />
+
+Henrique mordeu os labios um pouco raivoso, e, inclinando-se
+para ella, disse-lhe ironicamente:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A nossa id&eacute;a foi soberba, minha senhora; se n&atilde;o
+cura dos terrores, que sentem as pessoas nervosas, ao
+menos concilia-lhes o somno que affugenta os phantasmas.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! n&atilde;o, sr. Henrique Osorio, respondeu Isaura;
+a sua id&eacute;a acho-a cada vez peior. Vejam se &eacute;
+admissivel <span class="pagenum">[44]</span>fallar-se
+aqui em cemiterios &aacute; uma hora da noite.
+Eu, se estou assim mais tranquilla &eacute; porque a Leonor
+me prometteu que dormia no meu quarto.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; contra os regulamentos, bradou o doutor Macedo.
+A sr.<sup>a</sup> D. Isaura est&aacute; illudindo a
+receita.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meu Deus, doutor! exclamou Leonor alegremente.
+Os regulamentos cumprem-se assim de um modo feroz.
+N&atilde;o v&ecirc; que eu vou passar a noite com uma mulher
+pallida?
+Depois de ouvir o romance de Henrique, deve
+confessar que &eacute; necessario ser-se heroina!<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; verdade, exclamou Isaura, o sr. Osorio tratou
+bem as pallidas! No seu entender mulher pallida s&oacute;
+p&oacute;de ser mulher desenterrada. Muito agradecida.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas, minha senhora... balbuciou Henrique.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Aquillo s&atilde;o reminiscencias de Lisboa, Isaura, exclamou
+Leonor, rindo. Quiz-se vingar de alguma pallida
+que o magoou.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute;s maldosa, Leonor, murmurou Henrique ao ouvido
+da sua amiga de infancia.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; para te ensinar a fazer
+declara&ccedil;&otilde;es mais habeis,
+disse-lhe Leonor tambem ao ouvido. Isaura levant&aacute;ra-se
+para ir ter com seu pae.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o o meu romance &eacute; uma
+declara&ccedil;&atilde;o? tornou
+Henrique.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O teu romance &eacute; uma loucura. Est&aacute;s
+engra&ccedil;ado
+com as tuas idealisa&ccedil;&otilde;es constantes. Queres
+mulheres
+sobre-naturaes, entes phantasticos, damas brancas de
+Avenel! Se achas que &eacute; lisongeiro para uma mulher
+perder a sua realidade para agradar ao homem que diz
+amal-a, morrer primeiro para ser depois desposada por
+elle em f&oacute;rma espectral, como no <em>Noivado do
+Sepulchro</em>,
+de Soares de Passos...
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[45]</span>
+E a maliciosa rapariga recitou, zombeteando:<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry">
+E ao som dos pios do cantor funerio,<br />
+
+E &aacute; luz da lua de sinistro alvor,<br />
+
+Junto ao cruzeiro sepulchral mysterio<br />
+
+Foi celebrado de infeliz amor!
+</div>
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o, menina! exclamou Isaura, l&aacute; de longe.
+Olha que eu n&atilde;o vou s&oacute;sinha para o quarto.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ahi vou, querida, ahi vou!<br />
+
+<br />
+
+E Leonor, deitando a Henrique um olhar malicioso,
+foi ter com a sua amiga.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o, sr. Roberto Soares, disse o doutor Macedo
+emquanto pegava no casti&ccedil;al para se dirigir para o seu
+quarto, porque, n'essa noite de temporal, nem os visinhos
+tinham podido recolher a suas casas; ent&atilde;o, sr.
+Roberto Soares, a sua composi&ccedil;&atilde;o caminha? Olhe
+que
+&eacute; &aacute;manh&atilde; a sua vez.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que lhe hei de eu fazer? C&aacute; me vou apressando,
+tanto quanto posso. Metti-me em boa, n&atilde;o ha duvida.
+J&aacute; n&atilde;o estou para estas folias. O viver da
+provincia enferruja.
+&Aacute;manh&atilde; os rapazes v&atilde;o rir-se de mim.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Veremos isso! redarguiu Henrique Osorio, sorrindo
+amigavelmente. Eu preparo uma pateada.<br />
+
+<br />
+
+Roberto Soares affastou-se, rindo, e o doutor Macedo,
+accendendo um charuto, disse para Henrique Osorio:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sabe o que lhe digo, Henrique? Voc&ecirc; &eacute; uma
+crean&ccedil;a. Anda todo enlevado na pallidez e nos terrores
+nervosos de Isaura, que &eacute; uma tola com bonitos olhos,
+e n&atilde;o repara que ha por estas serranias uma rapariga,
+uma perola, que se fina por voc&ecirc;.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Por mim?! Quem me faz essa honra? exclamou
+Henrique, fazendo se c&oacute;rado.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[46]</span> &#8213;Quem tem olhos
+para v&ecirc;r, veja; quem tem ouvidos
+para ouvir, oi&ccedil;a; e quem tem somno para dormir,
+durma; respondeu gravemente o doutor Macedo. Boas
+noites.<br />
+
+<br />
+
+E partiu, deixando ficar Henrique pasmado. Este demorou-se
+por alguns instantes a ouvir o temporal que
+rugia com violencia, e a contemplar com tristeza o sitio
+onde estivera sentada Isaura. Depois, soltando um
+suspiro, sa&iacute;u da sala.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Devo dizer que no dia seguinte as impress&otilde;es foram
+muito menos profundas que na vespera. A noite estava
+mais socegada; ca&ccedil;&aacute;ra-se pela manh&atilde;.
+Estivera bonito
+o dia, cortado apenas por alguns chuveiros. Comtudo,
+quando deu a meia-noite, correu um fr&eacute;mito por todos
+os ouvintes. Estabeleceu-se um profundo silencio, mas
+a figura amavel de Roberto Soares n&atilde;o era para inspirar
+terrores legendarios, e foi no meio de uma
+atten&ccedil;&atilde;o
+tranquilla, at&eacute; um pouco risonha, que o jornalista
+aposentado come&ccedil;ou a sua leitura.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>
+<a name="p47">A VIS&Atilde;O DO PRECIPICIO</a></h2>
+
+<br />
+
+<h3>I</h3>
+
+<br />
+
+O meu romance annuncia-se de um modo terrivel.
+Come&ccedil;a por uma tempestade. Estou obrigado moralmente
+a apresentar al&ccedil;ap&otilde;es, subterraneos, e donzellas
+perseguidas. Se n&atilde;o invento por ahi uns quatro assassinios,
+estou perdido no conceito de certos leitores!<br />
+
+<br />
+
+Tenham paciencia os amadores das <em>Nodoas de
+sangue</em>
+e dos <em>Amantes infelizes ou as victimas de uma
+paix&atilde;o</em>,
+mas d'esta vez h&atilde;o de contentar-se com um romance
+bem morigerado, cujos heroes, todos elles pessoas
+honestas, n&atilde;o h&atilde;o de incommodar, em quanto durar
+o enredo, nem as partes de policia, nem os regedores
+de parochia, nem os jovens advogados, nem as columnas
+dos jornaes destinadas pelos noticiaristas aos acontecimentos
+tragicos do paiz.<br />
+
+<br />
+
+Feita esta <a href="#e5">declara&ccedil;&atilde;o</a>,
+vou introduzir os meus
+leitores...
+<span class="pagenum">[48]</span>n'um
+lagar de
+azeite, por uma noite tempestuosa
+de dezembro, quando o vendaval a&ccedil;oita rijamente
+os pinheiraes frementes, e os relampagos illuminam
+com pallido fulgor as campinas inundadas pelas chuvas
+copiosas de uma noite de invernia.<br />
+
+<br />
+
+Recresce o temporal. As levadas de agua, engrossadas
+com as chuvas, resvalam pelos penedos, despenham se, espadanam, fazem
+scintillar &aacute; luz do raio doidejantes
+borbot&otilde;es de espuma, e arrastam na carreira
+vertiginosa as arvores desarreigadas pela for&ccedil;a irresistivel
+do furac&atilde;o! N'estas noites, o aspecto ridente dos
+campos, que a primavera orna com todas as galas da
+vegeta&ccedil;&atilde;o, transforma-se completamente.
+Parece-nos
+impossivel que o regato, que havia pouco se espregui&ccedil;ava
+voluptuosamente sobre as campinas esmaltadas,
+seja agora a torrente impetuosa que arranca, n'um accesso
+de furor, as arvores que se miravam descuidosas
+na sua limpida corrente.<br />
+
+<br />
+
+A mim agrada-me o quadro medonho das furias da
+invernia! Contemplo com delicias a physionomia terrivelmente
+phantastica das planicies e dos bosques, onde
+paira, batendo as azas chammejantes, o sinistro archanjo
+da tempestade!<br />
+
+<br />
+
+S&atilde;o estes os episodios grandiosos do poema da natureza!
+S&atilde;o estas as paginas sublimes do livro da
+crea&ccedil;&atilde;o!<br />
+
+<br />
+
+Era uma quinta solitaria nos arredores de Santarem;
+a casa dos morgados campeiava orgulhosa e insulada
+no meio dos campos cultivados, e l&aacute; mais ao longe alvejavam
+as modestas casinhas do logarejo que se debru&ccedil;ava
+curiosamente sobre as aguas do riacho, mirando
+n'esse espelho crystallino o seu humilde aspecto,
+<span class="pagenum">[49]</span>e contemplando
+depois, &aacute; socapa as pompas quasi feudaes
+do solar dos descendentes d'algum valent&atilde;o das
+Indias.<br />
+
+<br />
+
+Como os gloriosos representantes d'essa familia aristocratica,
+deixando a quinta s&oacute;, est&atilde;o comendo em Lisboa
+os seus rendimentos, escusamos de lhes bater &aacute;
+porta, e, se vos parece, vamos immediatamente ao lagar
+de azeite, que n&atilde;o fica muito longe.<br />
+
+<br />
+
+A entrada &eacute; franca, e a vista da fornalha, sobre a
+qual est&aacute; collocada a caldeira, e onde arde um
+m&oacute;lho
+de lenha, produzindo um bom fogo, claro e crepitante,
+tenta dev&eacute;ras o pobre homem, que, todo ensopado,
+contempla o lume da fogueira, t&atilde;o consolador e attrahente
+em noites de frio e chuva.<br />
+
+<br />
+
+Entr&aacute;mos em boa occasi&atilde;o; o lagar est&aacute;
+em plena
+actividade. Os clar&otilde;es indecisos da lareira illuminam um
+quadro pittoresco e original. Aqui o <em>engenho de
+agua</em>
+gira produzindo um som monotono, que, no meio dos
+rugidos da tempestade, similha o resmungar de velha
+feiticeira por entre os c&oacute;ros dos archanjos rebeldes em
+noite de congresso infernal, e, girando sem cessar, tritura
+conscienciosamente a azeitona submettida &aacute; sua
+implacavel press&atilde;o. Al&eacute;m as
+<em>varas</em>, subindo e descendo
+com toda a regularidade, obrigam a azeitona, j&aacute; triturada
+e estendida nas <em>ceiras</em>, a distillar
+o seu oleo precioso.
+Mas n&atilde;o se resumem n'estes os trabalhos do lagar.
+Quem reconhecer&aacute; o azeite n'esse liquido negro
+que vae acolher-se silenciosamente na enorme vasilha
+de barro, a que nos lagares se d&aacute; o nome de
+<em>tarefa</em>?
+Trata-se de o purificar; vamos &aacute;s
+ablu&ccedil;&otilde;es. O liquido
+negro &eacute; assaltado repentinamente por um diluvio de
+agua a ferver, proveniente da caldeira, que op&eacute;ra a
+<span class="pagenum">[50]</span>decomposi&ccedil;&atilde;o
+com toda a rapidez. Pelo
+<em>inferno</em>,
+communica&ccedil;&atilde;o
+subterranea que conduz a um vallo distante, escoa-se
+a agua negra, que vae terminar ao longe a sua
+existencia ignorada, e o azeite, livre finalmente da macula
+original, apparece em toda a sua limpidez, em
+todo o seu brilho, em todo o seu esplendor.<br />
+
+<br />
+
+No centro da casa terrea, o sr. Manuel dos Reis,
+mestre-lagareiro, chefe das opera&ccedil;&otilde;es, e supremo
+dictador
+n'esta solemne occasi&atilde;o, vigia attentamente as
+multiplicadas opera&ccedil;&otilde;es do lagar, em quanto o sr.
+Jo&atilde;o
+Moedor (assim chamado por causa das importantes
+func&ccedil;&otilde;es
+que ali exercia), contempla satisfeito o andamento
+do <em>engenho de agua</em>, confiado aos
+seus cuidados.<br />
+
+<br />
+
+Os adjunctos d'estes dois chefes, sentados &aacute; roda da
+fogueira, alguns camponezes de f&oacute;ra, que tinham vindo
+para o &laquo;cavaco&raquo;, e que a tempestade tinha
+accommettido,
+os quaes em p&eacute; encostados ao cajado ficavam no
+segundo plano, e dois rapazes de Lisboa a quem a
+cortezia alde&atilde; tinha concedido o logar de honra, eram
+as restantes figuras d'este quadro.<br />
+
+<br />
+
+Os dois lisbonenses merecem uma descrip&ccedil;&atilde;o
+especial.<br />
+
+<br />
+
+Chamava-se o primeiro Jos&eacute; Augusto de Albuquerque.
+Alto e elegante, pallido, d'esta pallidez ardente,
+que &eacute; quasi sempre symptoma de uma
+imagina&ccedil;&atilde;o
+exaltada, revelava no fulgor desusado dos olhos, scintillantes
+como dois diamantes negros, o ardor d'aquella
+organisa&ccedil;&atilde;o sympathica, que devia ser ou a de um
+grande poeta, ou a de um grande doido, se estas duas
+id&eacute;as n&atilde;o s&atilde;o synonymas, segundo a
+opini&atilde;o de muita
+gente. As olheiras fortemente accentuadas, e que pareciam
+crestadas pela ardente irradia&ccedil;&atilde;o das pupillas,
+<span class="pagenum">[51]</span>acabavam de dar a
+esta physionomia um cunho original,
+romantico emfim, <em>tranchons le mont</em>,
+porque devo
+confessar que o meu heroe tem todas as apparencias
+de um typo de romance, apesar de ser t&atilde;o verdadeiro
+como... o or&ccedil;amento portuguez.<br />
+
+<br />
+
+O companheiro de Jos&eacute; Augusto formava com elle
+um perfeito contraste. Se as centelhas de intelligencia,
+que se escapavam dos olhos negros de Jos&eacute; Augusto,
+revelavam uma organisa&ccedil;&atilde;o em que o espirito
+predominava,
+em que <em>l'&acirc;me</em> dominava
+<em>la b&ecirc;te</em>, para me servir
+da classifica&ccedil;&atilde;o de Xavier de Maistre, a luz fria
+e
+sem express&atilde;o, que brilhava nos olhos azues do seu
+companheiro, dava a conhecer a beatifica indifferen&ccedil;a
+do adorador da materia. N'um a estatua delicada e
+quasi feminil denunciava a fina constitui&ccedil;&atilde;o de
+uma natureza
+naturalmente aristocratica; no outro a obesidade
+das f&oacute;rmas dava id&eacute;a do Sancho Pan&ccedil;a
+de Cervantes,
+ainda que a alta estatura mostrasse que esta nova
+edi&ccedil;&atilde;o
+do governador da Barataria era feita n'outro formato.
+N'aquelle os movimentos altivos da cabe&ccedil;a, o modo
+enthusiastico com que atirava para traz as ondas lustrosas
+da sua negra cabelleira, indicavam bem as
+aspira&ccedil;&otilde;es
+elevadas de um cora&ccedil;&atilde;o a trasbordar de poesia e
+de generosidade; n'este os gestos pacatos, e as suissas
+loiras que flanqueavam serenamente uma cara de lua
+cheia, mostravam o genio bonacheir&atilde;o do homem que
+n&atilde;o pensa sen&atilde;o no modo de conservar sempre, em
+bom estado, a sua economia animal, satisfazendo as
+reclama&ccedil;&otilde;es incessantes de um estomago
+insaciavel.<br />
+
+<br />
+
+O primeiro era, como disse, Jos&eacute; Augusto de Albuquerque,
+rapaz com alguns vintens, que viajava para
+se divertir. O segundo era o sr. John Williams, inglez
+<span class="pagenum">[52]</span>ingenuo e bem
+morigerado, que aguentava uma boa
+d&oacute;se de garrafas de vinho sem vacillar, que bebia
+exactamente
+o que ganhava n'um escriptorio de negociante,
+e que, apaixonado por viagens, como todo o bom inglez
+deve ser, tinha pedido licen&ccedil;a de um mez para
+acompanhar o seu amigo Jos&eacute; Augusto n'uma
+excurs&atilde;o
+&aacute; Extremadura.<br />
+
+<br />
+
+No momento em que entr&aacute;mos, reinava um profundo
+silencio. L&aacute; f&oacute;ra os rios, que a chuva fazia
+ferver em
+cach&atilde;o, resaltavam sobre os rochedos com um estampido
+formidavel; as rajadas da ventania, batendo com furor
+de encontro &aacute; porta, faziam-n'a ranger, e abriam-n'a
+de vez em quando, arrojando torrentes de chuva para
+dentro do lagar. A voz da procella ora se assimilhava
+aos rugidos blasphemos do anjo das trevas, ora, plangente
+e soturna, imitava os gemidos das almas penadas,
+que vagueiam na terra pedindo aos vivos ora&ccedil;&otilde;es.
+O
+trov&atilde;o, ribombando no espa&ccedil;o, dominava, de vez em
+quando, com a sua voz magestosa, o pavoroso ruido da
+tempestade.<br />
+
+<br />
+
+Havia harmonias sublimes n'aquella desharmonia apparente;
+era selvatica mas grandiosa a immensa orchestra
+do temporal.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Santa Barbara nos acuda, murmurou devotamente
+o sr. Manuel dos Reis, tirando o seu barrete azul, j&aacute;
+bastante azeitado, no momento em que um trov&atilde;o formidavel
+fazia benzer todos os circumstantes&#8213;S. Jeronymo
+te afaste, ruim trovoada, de todo o povoado onde
+haja almas christ&atilde;s.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Amen, resmungou em c&ocirc;ro a companha alde&atilde;.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E temos a chuva pegada, que n&atilde;o ha que esperar
+sen&atilde;o uma noite de agua. O vento puxa por ella que
+&eacute;
+<span class="pagenum">[53]</span>
+um regalo, tornou o mestre-lagareiro, quando o terror
+produzido pelo trov&atilde;o se dissipou um pouco mais. Ah!
+meu fidalgo, v. s.<sup>a</sup> querer metter-se a caminho
+por
+uma noite d'estas &eacute; mesmo tentar a Deus!<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deixal-o, tornou o interpellado, que era o nosso
+amigo Jos&eacute; Augusto de Albuquerque, sabe voc&ecirc;, sr.
+Manuel dos Reis, que eu g&oacute;sto de noites assim? Que
+diabo! quando atravesso a galope a clareira de um
+bosque inundado pela chuva, e que vejo, &aacute; luz do relampago,
+as arvores nuas de folhas estenderem-me os
+bra&ccedil;os descarnados, e formarem em torno de mim,
+guiadas pelo furac&atilde;o, dan&ccedil;as phantasticas e
+extravagantes,
+imagino v&ecirc;r as dan&ccedil;as da meia-noite, travadas
+pelos espectros nos cruzeiros dos cemiterios, e, lembrando-me
+dos contos lindissimos que a minha ama
+me contava quando eu era pequeno, chego a acreditar
+na sua realidade, e acho prazer n'aquillo. Ent&atilde;o que
+quer?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Arreda!&#8213;bradou o Jo&atilde;o Moedor, co&ccedil;ando a
+cabe&ccedil;a
+e fazendo ao mesmo tempo um gesto de susto,
+sempre v. ex.<sup>a</sup> diz coisas que fazem arripiar os
+cabellos
+&aacute; gente. Gostar v. s.<sup>a</sup> de
+v&ecirc;r dan&ccedil;ar
+as aventesmas
+as suas dan&ccedil;as malditas, como o meu compadre
+viu com os seus proprios olhos na noite de S. Bartholomeu,
+em que anda o diabo solto, como vocemec&ecirc; ha
+de saber. Safa! Era capaz de seguir o phantasma do
+A&ccedil;ude at&eacute; ao seu esconderijo infernal.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O phantasma do A&ccedil;ude! O que &eacute; isso, o que
+&eacute;
+isso, &oacute; sr. Jo&atilde;o?&#8213;perguntou Jos&eacute;
+Augusto com a
+maior curiosidade.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Historias da vida, meu fidalgo, retrocou o sr. Manuel
+dos Reis, &eacute; este diabo do Jo&atilde;o Moedor que
+n&atilde;o
+<span class="pagenum">[54]</span>sabe fazer outra
+coisa sen&atilde;o contar contos da carochinha.
+Bom estavas tu, meu rapaz, para mestre-lagareiro!
+Andas com a cabe&ccedil;a a ras&atilde;o de juros a pensar
+l&aacute; n'essas <em>maniversias</em>,
+deixavas ir o azeite pelo <em>inferno</em>
+abaixo, e nunca eras capaz de p&ocirc;r o
+<em>espicho</em> a tempo e
+a horas. Sempre est&aacute;s um massador!<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E &eacute; verdade, s&ocirc;r Manuel dos Reis. Este
+Jo&atilde;o Moedor
+n&atilde;o faz sen&atilde;o moer a paciencia &aacute;
+gente, tornou um
+camponez que estava ao p&eacute; da porta, encostado com
+toda a denguice ao seu varapau.<br />
+
+<br />
+
+Todos se riram do <em>calembourg</em>
+alde&atilde;o, e o sr. Jo&atilde;o
+Moedor esteve algum tempo sem poder fallar no meio
+dos motejos e das risadas da turba campesina. Finalmente:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Leva rumor!&#8213;bradou elle. Com que ent&atilde;o, s&ocirc;
+Z&eacute; do Moinho, acha voc&ecirc; que eu m&ocirc;o a
+paciencia &aacute;
+gente, hein! Voc&ecirc; n&atilde;o acredita n'estas coisas,
+apesar
+de eu ter visto muita vez sua tia andar por cima da
+folha, e correr por cima das latadas para ir ter com
+seu compadre <em>Berzabum</em>! E ainda
+n&atilde;o estou muito certo
+se n&atilde;o &eacute; voc&ecirc;, s&ocirc; cara de
+n&atilde;o sei que diga, que anda
+a horas mortas a cumprir o seu fado, feito burro, por
+esse mundo de Christo, como fazia seu av&ocirc; que foi
+lobis-homem,
+segundo diz a gente antiga c&aacute; da terra.<br />
+
+<br />
+
+A victoria ficou d'esta vez ao novo campeador. Os
+motejos dirigiram-se todos para o sr. Z&eacute; do Moinho,
+que quiz replicar enfurecido, mas que se viu obrigado
+a metter a viola no sacco, e a ficar de cabe&ccedil;a baixa a
+um canto. O triumphador havia pouco era agora humilhado.
+<em>Sic transit gloria mundi</em>!<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Conte l&aacute; a historia, &oacute; sr. Jo&atilde;o, que
+aqui tem voc&ecirc;
+um ouvinte que n&atilde;o &eacute; capaz de duvidar da
+veracidade
+<span class="pagenum">[55]</span>
+das suas palavras&#8213;tornou Jos&eacute; Augusto com a curiosidade
+a revelar-se-lhe nas fei&ccedil;&otilde;es.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tem v. s.<sup>a</sup> muita ras&atilde;o, meu
+fidalgo, retrocou o
+Jo&atilde;o Moedor com modos de triumpho, e com perd&atilde;o
+de vocemec&ecirc;, s&ocirc;r Manuel dos Reis, sempre lhe direi
+que a historia do phantasma do A&ccedil;ude n&atilde;o
+&eacute; conto da
+carochinha. Em noites assim de temporal, quando o rio
+engrossado pela cheia, ceifa os pinheiros mais taludos
+como eu ceifaria uma espiga de trigo no tempo da monda,
+n&atilde;o &eacute; c&aacute; o rapaz que se atreve a
+passar ao p&eacute; do
+A&ccedil;ude, sem se benzer quatro vezes, e sem fechar os
+olhos para n&atilde;o v&ecirc;r a melancolica D. Branca. E
+n&atilde;o &eacute;
+s&oacute; a mim que isso acontece; o mais pimp&atilde;o do
+sitio
+tremia, como varas verdes, se se visse obrigado a passar
+a estas horas por aquelle sitio amaldi&ccedil;oado, a
+n&atilde;o
+ser o <em>Come-bichos</em>, que vendeu a alma
+ao diabo. Deus
+me perd&ocirc;e se minto; mas o maldito tem mesmo cara
+de condemnado. E conhe&ccedil;o eu alguns que se fazem
+muito valentes quando est&atilde;o bem acompanhados, e que
+n&atilde;o eram capazes de passar s&oacute;sinhos por ao
+p&eacute; do
+A&ccedil;ude, nem que lhes dessem todos os thesouros encantados
+do imperador da Moirama.<br />
+
+<br />
+
+Esta ultima allus&atilde;o ia evidentemente com sobre-escripto
+para o Z&eacute; do Moinho; a resposta d'este (se por
+acaso elle tencionava responder), foi abafada pelas
+acclama&ccedil;&otilde;es
+dos restantes, que applaudiram o orador,
+bradando em c&ocirc;ro:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tem ras&atilde;o! &Eacute; uma heresia duvidar d'estas
+coisas!
+O Jo&atilde;o fallou bem. Tem uma linguinha de oiro,
+este moedor!<br />
+
+<br />
+
+O distincto orador comprimentou modestamente os
+seus amigos politicos pela ova&ccedil;&atilde;o que fizeram ao
+seu <span class="pagenum">[56]</span>
+estiradissimo discurso, e que impacientou apenas o Z&eacute;
+do Moinho, que era da opposi&ccedil;&atilde;o, Jos&eacute;
+Augusto de Albuquerque,
+que estava desejoso de conhecer a lenda,
+e o leitor, que talvez nem esteja para a ouvir.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vamos &aacute; historia, vamos &aacute; historia, bradou
+Jos&eacute;
+Augusto, todos lhe prestamos atten&ccedil;&atilde;o, e
+acreditamos
+em tudo quanto voc&ecirc; disser, como os mahometanos na
+miss&atilde;o do seu propheta.<br />
+
+<br />
+
+Ninguem comprehendeu a compara&ccedil;&atilde;o: por
+conseguinte
+todos ficaram fazendo uma elevadissima id&eacute;a da
+erudi&ccedil;&atilde;o de Jos&eacute; Augusto.
+Jo&atilde;o Moedor piscou os olhos,
+e bradou com enthusiasmo:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Fallou que nem um livro. Pois ent&atilde;o j&aacute; que
+tanto
+aperta, l&aacute; vae a historia.<br />
+
+<br />
+
+Todos se chegaram uns para os outros, e Jo&atilde;o Moedor
+come&ccedil;ou no meio de um silencio solemne a sua
+narra&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+Chegado a este ponto, Roberto Soares interrompeu-se,
+e, levantando os oculos, disse para os seus ouvintes:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o me responsabiliso pela verdade do modo de
+dizer. Jos&eacute; Augusto, que tinha o desagradavel sestro
+de fazer estylo, quando me contou a historia, transfigurou
+completamente a express&atilde;o do narrador da aldeia.
+Comtudo asseverava-me elle que o estylo do camponez
+tinha uma certa eleva&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Siga, siga, acudiu o doutor Macedo. Jos&eacute; Augusto
+&eacute; o seu Jedediah Cleishbotham, j&aacute;
+v&ecirc;mos. Era moda
+no seu tempo, como as epigraphes.<br />
+
+<br />
+
+Roberto Soares riu-se e continuou da seguinte maneira:<br />
+
+<br />
+
+Ha de haver um par de annos, muito antes do terremoto,
+e talvez antes que tivessem nascido os paes dos
+<span class="pagenum">[57]</span>nossos
+bisav&oacute;s, governavam os moiros a maior parte
+da nossa terra aben&ccedil;oada. Segundo eu ouvi contar ao
+nosso padre prior, que Deus haja, dava-se e recebia-se
+muita lan&ccedil;ada antes que a bandeira de Christo fluctuasse
+triumphante nas ameias das fortalezas. Cada palmo de
+terra conquistado aos c&atilde;es dos sarracenos era regado
+por muito sangue, e muitos cadaveres dos nossos antepassados
+adubaram a terra, antes que os seus descendentes
+podessem fazer em paz a semeadura e a colheita.
+Era mau tempo aquelle. Mas Deus e Santiago
+eram por n&oacute;s, e os esquadr&otilde;es cerrados dos
+cavalleiros
+de Christo levaram sempre de vencida as hostes
+aguerridas dos perros amaldi&ccedil;oados.<br />
+
+<br />
+
+Como dizia o padre prior, os pergaminhos d'esses fidalgos,
+que por ahi andam t&atilde;o orgulhosos da sua inutilidade,
+foram sellados com o sangue de seus antepassados
+nos campos de batalha, em que se comprou bem
+cara a independencia portugueza. Deshonrado seria para
+todo o sempre o fidalgo portuguez que n&atilde;o envergasse
+as armas ao sair da infancia, e n&atilde;o luctasse incessante
+a favor dos opprimidos at&eacute; cair no campo
+da batalha
+amortalhado na sua armadura de ferro. Repousem em
+paz nas campas os ossos d'esses valentes.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O Jo&atilde;o Moedor sempre tem uma cachimonia de
+truz, resmungou &aacute; parte o Manuel dos Reis; onde elle
+vae buscar tudo isto!<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O que elle &eacute;, &eacute; um papagaio, murmurou o
+Z&eacute; do
+Moinho, n&atilde;o faz mais do que repetir tim tim por tim
+tim o que ouviu ao nosso antigo padre prior.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N'esse tempo, continuou o Jo&atilde;o Moedor sem reparar
+na interrup&ccedil;&atilde;o, viviam aqui n'este sitio dois
+fidalgos
+velhos, que, depois de terem ganho muitas cicatrizes,
+<span class="pagenum">[58]</span>e creado muitos
+cabellos brancos no seu luctar
+incessante contra o poder da Moirama, tinham vindo
+descan&ccedil;ar na paz dos seus castellos das lides gloriosas
+em que haviam dispendido a sua existencia inteira. N&atilde;o
+porque lhes faltassem valor e bons desejos; mas a
+edade tudo gasta, e os corpos alquebrados dos bons cavalleiros
+j&aacute; vergavam ao peso da armadura, e a voz
+implacavel da velhice advertiu-os que cedessem o logar
+a novos e mais vigorosos campe&otilde;es. Penduraram na sala
+de armas dos seus castellos as valentes espadas, e, sentados
+ao canto da lareira, esqueciam o peso dos annos
+com as gratas recorda&ccedil;&otilde;es das suas
+fa&ccedil;anhas d'outr'ora.<br />
+
+<br />
+
+Ao mais velho dos dois; Inigo Paes,
+conced&ecirc;ra o c&eacute;o
+um filho; Raymundo se chamava elle. Era a delicia do
+bom velho rever no esbelto mancebo a risonha imagem
+da sua mocidade. Vendo-o crescer em annos, em vigor
+e em destreza, consolava-se o valente cavalleiro, esperando
+que Raymundo n&atilde;o deshonraria, nas fileiras portuguezas,
+o nome venerando que elle proprio tinha conquistado.
+Esperava com anciedade que seu filho completasse
+os dezoito annos para lhe cingir a espada, afivellar-lhe
+o arnez, e dizer-lhe, apontando lhe o
+campo
+da batalha: &laquo;Vae, &eacute; esse o caminho da
+gloria&raquo;<br />
+
+<br />
+
+E tinha ras&atilde;o em se gloriar de ter um filho assim.
+Ninguem meneava com mais garbo e destreza um cavallo
+fogoso, ninguem manejava com mais vigor o pesado
+montante, ninguem mostrava mais ardor guerreiro,
+quando o pae, sentado no sal&atilde;o do castello, contava
+aos rapazes, anciosos de aventuras, os feitos de armas
+dos velhos campeadores. E se Raymundo dava esperan&ccedil;as
+de ser um rude lidador, nem por isso deixava de
+ser o mais gentil mancebo d'estas cercanias. Alto e
+<span class="pagenum">[59]</span>elegante, se os
+seus olhos negros quizessem fallar de
+amor, n&atilde;o havia dama que se n&atilde;o rendesse, nem
+cora&ccedil;&atilde;o
+feminino que escutasse insensivel os seus protestos
+enamorados. Mais de uma altiva castell&atilde; apparecia na
+varanda do seu solar para v&ecirc;r o elegante Raymundo
+correr a cavallo por essas campinas. Mas que importavam
+ao filho de Inigo Paes todas as castell&atilde;s do mundo
+se tinha o cora&ccedil;&atilde;o j&aacute; preso, e se
+Branca, a ingenua
+Branca, lhe conquist&aacute;ra o affecto, e accendera nos seus
+olhos a chamma ardente do primeiro amor?<br />
+
+<br />
+
+Branca era filha do companheiro de armas de Inigo
+Paes; grande desconsola&ccedil;&atilde;o tivera elle, vendo-se
+viuvo
+em edade avan&ccedil;ada, sem ter um filho a quem podesse
+transmittir a sua heran&ccedil;a de gloria. Muitas vezes, ao
+v&ecirc;r a filha a doidejar na varzea, como gentil borboleta
+esvoa&ccedil;ando por entre fl&ocirc;res, se lhe enrugava a
+fronte,
+e duas lagrimas de tristeza deslisavam pelas faces crestadas
+do velho soldado. Mas a sombra ligeira, que lhe
+annuviava o gesto, dissipava-se promptamente com as
+caricias affaveis da gentil donzella. Quem poderia resistir
+&aacute; influencia d'aquelle anjo de candura, loiro e rosado,
+como as imagens seductoras dos cherubins que cercam
+a Virgem Nossa Senhora na pintura do altar-m&oacute;r
+da freguezia!<br />
+
+<br />
+
+Branca e Raymundo conheciam-se e amavam-se desde
+crean&ccedil;as. Juntos tinham crescido, juntos tinham doidejado
+n'estas campinas, e, sem que nunca a palavra
+<em>amor</em>
+fosse pronunciada, tinham apesar d'isso consagrado um
+ao outro um affecto que a edade f&ocirc;ra desenvolvendo.
+E era um par galante a mais n&atilde;o poder ser. Quando
+Branca, fatigada de correr atraz de uma borboleta, vinha,
+com as faces vermelhas como duas rosas, os olhos
+<span class="pagenum">[60]</span>a brilharem de
+alegria infantil e as loiras tran&ccedil;as
+fluctuando
+em ondas doiradas sobre os seus hombros de
+neve, refugiar-se nos bra&ccedil;os de Raymundo, e encostar
+o rosto encantador nas faces levemente morenas do gentil
+fidalguinho, todos os que os viam paravam extasiados,
+e faziam votos pela felicidade d'aquelles anjos de
+innocencia e de candura.<br />
+
+<br />
+
+Chegou finalmente o dia em que Raymundo completava
+dezoito annos, e em que, para n&atilde;o desmentir as
+gloriosas tradi&ccedil;&otilde;es da sua ra&ccedil;a, devia
+cingir a espada,
+e ir aos campos de batalha pagar &aacute; patria e &aacute;
+santa religi&atilde;o
+dos nossos paes o tributo de sangue, que devia
+ser pago por todos os que se prezavam de christ&atilde;os
+fieis, e portuguezes leaes.<br />
+
+<br />
+
+No dia fixado para a partida de Raymundo, encontraram-se
+os dois namorados no sitio do A&ccedil;ude. &Eacute; um
+sitio medonho, como v. s.<sup>a</sup> ha de saber; um
+pinhal sombrio,
+que vae terminar &aacute; beira de um precipicio, no
+fundo do qual o rio faz mugir, espadanando nos rochedos
+as suas aguas turvas e espumantes. Mas n'esse dia
+o sol estava brilhante, e dava a esse quadro medonho
+o mais ridente aspecto. Os pinheiros, illuminados pelos
+raios de um sol de agosto, pareciam frechas doiradas
+que m&atilde;o occulta arrojava ao c&eacute;o limpido e azul de
+um
+bonito dia de ver&atilde;o. Cada gotinha de agua parecia um
+espelho que reflectia a imagem brilhante do sol de Portugal,
+e o rio scintillante e espumoso parecia arrastar
+na corrente palhetas de oiro e prata. Gorgeiavam os
+passaros na floresta, e tudo dizia contentamento, quando
+os cora&ccedil;&otilde;es de Branca e Raymundo
+s&oacute;mente sentiam
+tristeza e desespera&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+Branca vinha triste, triste como a r&ocirc;la namorada que
+<span class="pagenum"><a name="p61">[61]</a></span>v&ecirc;
+fugir
+para longes terras o escolhido do seu
+cora&ccedil;&atilde;o,
+e pallida como a a&ccedil;ucena batida pelo vendaval. Mas que
+bem que lhe ficava aquella pallidez, e como a alvura da
+face real&ccedil;ava a c&ocirc;r negra das roupas que vestira
+em
+signal de luto e de saudade! O brilho dos olhos, empanado
+pelo pranto que tinha derramado, parecia ainda
+mais suave e meigo, e os loiros cabellos, caindo-lhe ao
+desdem sobre o pesco&ccedil;o deslumbrante de brancura,
+faziam-n'a assimilhar &aacute; imagem da Virgem que est&aacute;
+pendurada na sala do presbyterio, e que o senhor padre
+prior dizia ser copiada de um quadro pintado por
+um italiano chamado Raphael.<br />
+
+<br />
+
+Chegou, e ajoelhou aos p&eacute;s de um crucifixo, que
+ent&atilde;o
+existia n'aquelle sitio; porque n'esses tempos de f&eacute;
+viva, a imagem do Crucificado apparecia em toda a
+parte para acolher em seu seio misericordioso as
+ora&ccedil;&otilde;es
+dos fieis. O sol tinha surgido havia pouco do
+Oriente, e a ora&ccedil;&atilde;o da candida virgem, pura como
+a
+rosa que abre o seio ao primeiro alvor da madrugada,
+foi, perfume singelo, de f&eacute; e de innocencia, conduzida
+pela brisa aos p&eacute;s do throno do Senhor.<br />
+
+<br />
+
+Quando se levantou viu Raymundo em p&eacute; diante
+d'ella, de cabe&ccedil;a descoberta, pallido e mal podendo
+conter as lagrimas que lhe bailavam nos olhos.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Raymundo, disse ella desatando a chorar, e <a href="#e6">escondendo</a>
+a cabe&ccedil;a no peito do mancebo, n&atilde;o me deixes!<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o posso, Branca, tornou elle, apertando-a ao
+peito com anciedade; o que pensariam de mim o rei,
+os ricos homens e os vill&otilde;es, se preso nos teus
+bra&ccedil;os
+me esquecesse do que devo a mim, ao rei e a Deus?
+Era um nome deshonrado o nome de teu esposo, Branca,
+e n&atilde;o m'o podias acceitar. A espada de meu pae,
+<span class="pagenum"><a name="p62">[62]</a></span>que
+outr'ora
+brilhou ao sol das batalhas com deslumbrante
+fulgor, n&atilde;o p&oacute;de jazer inerte a um canto do meu
+solar, em quanto as achas de armas dos meus compatriotas
+escrevem nas paginas de pedra, das fortalezas
+moiriscas, a historia sanguinolenta da
+ressurrei&ccedil;&atilde;o dos
+godos. Bem v&ecirc;s, Branca, &eacute; um penoso dever; mas
+devo
+cumpril-o.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E o nosso amor, Raymundo!&#8213;balbuciou a donzella,
+afogada em lagrimas.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! cala-te, Branca, n&atilde;o v&ecirc;s que me
+despeda&ccedil;as
+o cora&ccedil;&atilde;o? Queres que eu perca o animo, queres
+que
+o puro azul dos teus olhos me fa&ccedil;a esquecer que existe
+outro c&eacute;o, outra ventura que n&atilde;o seja o teu amor,
+outro
+dever que n&atilde;o seja o adorar-te? N&atilde;o, Branca,
+n&atilde;o
+ordenes a minha deshonra; a tua imagem seductora
+ser&aacute; a estrella que me ha de guiar no caminho da gloria.
+Quaes ser&atilde;o as fa&ccedil;anhas para mim impossiveis,
+pensando que o teu sorriso ser&aacute; a recompensa do meu
+valor, e que ser&aacute; a tua m&atilde;osinha branca e mimosa
+que
+me ha de limpar na fronte o suor dos combates e das
+luctas sanguinolentas?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas quem sabe, Raymundo, tornou Branca, erguendo
+para elle os olhos radiantes, ainda humedecidos
+<a href="#e7">das lagrimas</a> que
+derram&aacute;ra; quem sabe se
+n'esses
+paizes longiquos n&atilde;o encontrar&aacute;s alguma formosa
+dama
+cujos encantos te far&atilde;o depressa olvidar a imagem da
+triste Branca, que dizes ter gravada no cora&ccedil;&atilde;o?
+Oh!
+meu Deus, que horrivel id&eacute;a! Se tu me esquecesses...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que fazias, Branca?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Morria!&#8213;tornou ella com resolu&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+Raymundo apertou-lhe a m&atilde;o e levou-a ao p
+Raymundo apertou-lhe a m&atilde;o e levou-a ao p&eacute; do
+crucifixo. Alli, erguendo os olhos para o rosto divino
+<span class="pagenum">[63]</span>do Christo
+crucificado, bradou com voz solemne e altiva:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Juro diante de Deus que morreu pregado na cruz
+para remir os homens do peccado original, juro guardar-te
+sempre f&eacute; inteira e immutavel, como te juraria
+se um sacerdote nos aben&ccedil;oasse ao p&eacute; do altar.
+&Eacute;s minha
+esposa diante de Christo. C&aacute;ia sobre mim a
+vingan&ccedil;a
+do c&eacute;o se atrai&ccedil;oar o meu juramento.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! obrigada, Raymundo, obrigada, clamou a donzella,
+lan&ccedil;ando-se com immenso ardor nos bra&ccedil;os do
+mancebo e derramando copiosas lagrimas; tambem eu
+juro amar-te sempre, meu Raymundo, amar-te com
+inalteravel constancia, n&atilde;o viver sen&atilde;o com a tua
+imagem,
+n&atilde;o pensar sen&atilde;o em ti, meu unico amor. E agora
+parte, accrescentou ella, erguendo-se com inesperada
+resolu&ccedil;&atilde;o, vae conquistar um nome glorioso; a
+ben&ccedil;&atilde;o
+de Deus vae comtigo, porque os nossos anjos da guarda,
+abra&ccedil;ados e de joelhos ao p&eacute; do throno do Senhor,
+rogar&atilde;o a Deus que proteja os esposos, cuja uni&atilde;o
+foi
+aben&ccedil;oada pelo Crucificado, saudada pelos canticos da
+alvorada, perfumada pelos thuribulos das fl&ocirc;res, illuminada
+pelos raios do sol nascente!<br />
+
+<br />
+
+Raymundo apertou-a ao peito com enthusiasmo; deu-lhe
+na fronte, com timidez, um beijo, e montando n'um
+cavallo que o esperava a pouca distancia, seguro por
+um pagem, partiu, dizendo com ardor:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Adeus, minha gentil esposa!<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Adeus, meu adorado esposo!<br />
+
+<br />
+
+Estas palavras pronunci&aacute;ra-as ella, caindo ajoelhada
+aos p&eacute;s da cruz. O perfume das fl&ocirc;res, o canto dos
+passarinhos, o rumorejar das folhas, a luz pura e serena
+do sol, tudo parecia aben&ccedil;oar o seu amor. Unicamente
+<span class="pagenum">[64]</span>no momento da
+despedida, uma nuvem ligeira
+passou por diante do astro do dia e offuscou-lhe um
+pouco o brilho.<br />
+
+<br />
+
+Ai! Branca, timida Branca, nos momentos de felicidade
+uma ligeira nuvem &eacute; indicio temeroso de tempestade!<br />
+
+<br />
+
+<h3>II</h3>
+
+<br />
+
+&laquo;Passaram-se mezes e mezes&#8213;continuou o Jo&atilde;o;
+veiu o outono desfolhar as arvores, e estender sobre a
+terra o seu manto de tristezas; depois o inverno gelado
+agrupou as familias ao canto da lareira; voltou a primavera
+sacudindo sobre os campos o seu rega&ccedil;o cheio
+de fl&ocirc;res e verduras, voltaram as longas tardes do estio,
+e o sol ardente de agosto veiu de novo doirar os
+pinheiros que ensombravam a cruz do precipicio; e nem
+a triste Branca recebia noticias do seu noivo, nem Inigo
+Paes a podia consolar com outras novas, que n&atilde;o fossem
+as que, logo pouco depois da partida de Raymundo,
+tinham sido trazidas por um fidalgo que voltava das
+terras do Algarve.<br />
+
+<br />
+
+Contava elle que vira n'uma renhida escaramu&ccedil;a o filho
+de Inigo Paes estreiar-se no arduo mister do lidador
+d'aquellas eras. A estreia f&ocirc;ra digna do nome honrado
+de seu pae. Contava o fidalgo que o tinha visto arrojar-se
+aos moiros com valor sobrehumano, e abrir com
+a acha de armas um largo e sanguinolento sulco nas
+fileiras mahometanas. Quando, no fim da escaramu&ccedil;a,
+Raymundo Paes passou de viseira levantada junto dos
+prisioneiros, estes, vendo o rosto delicado, o bu&ccedil;o que
+lhe assombreava levemente o labio superior, e a belleza
+<span class="pagenum">[65]</span>quasi feminil do
+mancebo, n&atilde;o queriam acreditar que
+fosse o mesmo que pratic&aacute;ra prodigios de valor, e ante
+o qual as cimitarras moiriscas voavam em lascas, decepadas
+pelo montante que parecia manejado pelo bra&ccedil;o
+de robusto montanhez.<br />
+
+<br />
+
+Estas noticias encheram de orgulho o cora&ccedil;&atilde;o
+paternal
+do velho guerreiro. A Branca n&atilde;o succedia o mesmo.
+As fa&ccedil;anhas que enthusiasmavam Inigo Paes, faziam
+receiar &aacute; gentil donzella que Raymundo, arrastado
+pelo seu ardor juvenil, fosse encontrar a morte no gume
+afiado de um alfange mahometano.<br />
+
+<br />
+
+Assim correram os mezes, e as rosas do rosto de
+Branca desbotavam, desbotavam at&eacute; se trocarem nos
+lyrios que a desesperan&ccedil;a ia fazendo brotar nas faces
+da donzella.<br />
+
+<br />
+
+E Raymundo? Valente cavalleiro, n&atilde;o
+ha proezas que
+absolvam um perjuro, nem as indulgencias, concedidas
+pelo santo padre aos defensores da f&eacute;, s&atilde;o
+sufficientes
+para arredar de cima da cabe&ccedil;a do sacrilego o raio fulminado
+pela m&atilde;o do Omnipotente.<br />
+
+<br />
+
+Raymundo Paes, Raymundo Paes, que demonio fatal
+te arrojou aos p&eacute;s da cruz, e te dictou o terrivel
+juramento,
+que havias de esquecer t&atilde;o cedo? Ai! cavalleiro,
+ainda o vento do outono n&atilde;o desfolhou a verde grinalda
+que enramava a cruz do precipicio, e j&aacute; o vento
+da inconstancia fez murchar o candido affecto que floria
+em teu peito, e que jur&aacute;ras conservar t&atilde;o puro e
+t&atilde;o
+sem mancha, como era pura e immaculada a imagem
+d'aquella que t'o inspirou.<br />
+
+<br />
+
+Ai! Branca, timida r&ocirc;la, que, escondida na espessura,
+a s&oacute;s com as tuas tristezas, pranteias a ausencia
+do ingrato que te esqueceu, mal sabes tu que, em
+<span class="pagenum">[66]</span>quanto fitas o
+olhar melancholico na lua pallida como o
+anjo da saudade, e pareces perguntar-lhe mudamente
+se o teu olhar se cruza no espa&ccedil;o com o olhar saudoso
+do teu gentil campe&atilde;o, elle, o perfido, o perjuro, o
+sacrilego,
+esquece nos bra&ccedil;os de outra o teu amor de
+virgem, o teu modesto encanto, as tuas gra&ccedil;as
+infant&iacute;s.<br />
+
+<br />
+
+Durante os primeiros tempos, as meigas
+recorda&ccedil;&otilde;es
+do seu amor de crean&ccedil;a arderam dentro d'elle t&atilde;o
+vivas
+e t&atilde;o serenas, como arde viva e serena a lampada do
+altar no recinto sagrado da egreja christ&atilde;; se uma
+tenta&ccedil;&atilde;o
+m&aacute; lhe surgia no animo, e lhe mostrava &aacute; luz de
+um relampago infernal mundos desconhecidos de prazer
+vertiginoso, era logo repellida pelo saudoso mancebo,
+que conservava o cora&ccedil;&atilde;o perfumado de innocencia,
+como sanctuario florido, onde o christ&atilde;o abriga devotamente
+a imagem da M&atilde;e do Salvador.<br />
+
+<br />
+
+<div class="dots"></div>
+
+<br />
+
+<div class="dots"></div>
+
+<br />
+
+Era por uma noite sombria, calada e mysteriosa, noite
+propria como nenhuma outra para emboscadas e ardis
+de guerra. N'essa noite, n'um alca&ccedil;ar moirisco, situado
+em terras do Algarve, dormiam socegados os perros
+descridos, confiados na vigilancia das atalaias, e certos
+que os rudes batalhadores de Christo, vencidos do cansa&ccedil;o,
+concederiam involuntariamente treguas aos filhos
+de Mafoma. Os almogavares, voltando das suas excurs&otilde;es,
+n&atilde;o tinham trazido novas de movimento algum no
+exercito christ&atilde;o. Dormiam as almenaras no cimo das
+montanhas, e a atalaia, vigiando no alto da torre, n&atilde;o
+estremec&ecirc;ra vendo uma pluma de fogo accender-se de
+repente, e, ondulando nos ares, dar signal da
+appari&ccedil;&atilde;o
+dos nazarenos. Qu&atilde;o enganados estavam, e essa
+<span class="pagenum">[67]</span>serpente de ferro,
+que se enrosca &aacute;s muralhas da fortaleza,
+vae acordal-os inesperadamente do seu somno
+voluptuoso!<br />
+
+<br />
+
+De repente o grito de S. Thiago &eacute; &aacute;vante!
+ech&ocirc;a nas
+barbacans do alca&ccedil;ar, e as sentinellas, caindo apunhaladas
+sem terem tempo de soltar um grito, pagam com
+a vida a sua indolencia descuidosa.<br />
+
+<br />
+
+Que scena de confus&atilde;o no meio das trevas! Os gemidos
+dos moribundos, os gritos das mulheres, as blasphemias
+dos guerreiros surprehendidos cruzam-se com
+os gritos de victoria dos cavalleiros portuguezes. Apenas
+de quando em quando um ou outro arabe mais destemido
+arranca da cimitarra, e faz brotar centelhas instantaneas,
+cruzando-a com o pesado montante christ&atilde;o.
+N&atilde;o tem quartel os vencidos; os vencedores sequiosos
+de sangue transformam n'aquelle momento o valor do
+guerreiro na ferocidade do assassino. Eras de barbaridade!
+J&aacute; v&atilde;o longe, felizmente.<br />
+
+<br />
+
+Raymundo vae entre elles. Embriagado pela carnificina,
+descarregava &aacute;s m&atilde;os ambas a acha de armas
+sobre os que pretendiam fugir &aacute; sorte de seus
+irm&atilde;os.
+De repente um vulto feminino roja-se-lhe aos p&eacute;s,
+suspende-lhe o bra&ccedil;o j&aacute; levantado para
+descarregar o
+golpe, e com uma voz melodiosa como o sussurrar da
+brisa nos ramos do salgueiro, murmura em portuguez:
+Perd&atilde;o!<br />
+
+<br />
+
+A lua, que at&eacute; ahi se conserv&aacute;ra escondida entre
+nuvens,
+desembara&ccedil;ou-se afinal do seu manto sombrio,
+e veiu acariciar com os raios da luz serena as faces
+tostadas da arabe gentil.<br />
+
+<br />
+
+Nunca Raymundo vira um rosto t&atilde;o diabolicamente
+tentador! Eram uns labios onde se viam arfar promessas
+<span class="pagenum">[68]</span>voluptuosas de
+beijos delirantes. Eram uns olhos negros,
+onde brilhavam as chammas do desejo, as labaredas
+infernaes da tenta&ccedil;&atilde;o! Eram as tran&ccedil;as
+negras
+fluctuando sobre o collo n&uacute;, que a brisa beijava com
+delirio, roubando-lhes perfumes inebriantes, que vinham
+enlouquecer o ingenuo amador da casta Branca. E elle
+sentiu a febre do desejo a vir escaldar-lhe o sangue,
+sentiu uma ignota anciedade vir opprimir-lhe o peito.
+Era o terrivel despertar dos sentidos n'um rapaz de
+dezoito annos. Eram as tenta&ccedil;&otilde;es da
+voluptuosidade,
+eram as commo&ccedil;&otilde;es do prazer sensual, era um
+demonio
+desconhecido que lhe vinha murmurar ao ouvido os
+vagos encantos de mysteriosos amores.<br />
+
+<br />
+
+Raymundo sentiu o perigo, e quiz afastar-se d'elle.
+Repelliu-a, e, invocando a imagem de Branca, quiz fugir
+da tenta&ccedil;&atilde;o fatal; mas a moira, enroscando-se a
+elle, como a serpente se enrosca ao corpo do homem
+fascinado pelo poder invencivel do seu olhar, murmurou:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o me deixes, nazareno. Os teus olhos s&atilde;o
+negros
+como noite sem estrellas; mas s&atilde;o transparentes
+como o espelho das aguas. Porque havias tu de ser
+cruel como a hyena do deserto, se &eacute;s bello e magestoso
+como o le&atilde;o das selvas? Olha, sou t&atilde;o nova! Ainda
+a amendoeira n&atilde;o floriu vinte vezes, desde que minha
+m&atilde;e me apertou pela primeira vez ao seio palpitante.
+Salva-me, salva-me e serei a tua escrava. Servir-te-hei
+de joelhos como a meu senhor e amo, cingir-te-hei a
+armadura, adivinharei os teus caprichos, e adorar-te-hei
+como adoro o propheta de Medina. Ouves? Filho
+dos christ&atilde;os, salva-me, salva-me!<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deixa-me, tenta&ccedil;&atilde;o do demonio, bradava Raymundo
+<span class="pagenum">[69]</span>com voz
+balbuciante; deixa-me, anjo das trevas;
+deixa-me, enviada de Satanaz.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, tornou a amaldi&ccedil;oada, approximando os
+labios
+vermelhos como a fl&ocirc;r de romanzeira dos labios de Raymundo.
+Sou bella, e amo-te! Sou tua, e tu &eacute;s todo meu,
+porque te vejo torcer desesperado nos bra&ccedil;os de fogo
+do prazer. Amas-me, e eu... sou tua.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Amo-te, amo-te, bradou Raymundo, caindo oppresso
+aos p&eacute;s da musulmana.<br />
+
+<br />
+
+Ai! Branca, timida Branca, chora o teu amor profanado!
+N'esse momento fatal o anjo da guarda do teu
+amante velou com as m&atilde;os o rosto celestial, que as lagrimas
+inundavam, e foi, suspenso n'um raio da lua,
+prostrar-se aos p&eacute;s do throno do Omnipotente!<br />
+
+<br />
+
+Entrado na senda da perdi&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o
+havia poder humano
+que salvasse Raymundo da condemna&ccedil;&atilde;o eterna.
+Tinha vendido a sua alma por um beijo de fogo, e troc&aacute;ra
+o paraizo pelo inferno da voluptuosidade. Profanado
+o terrivel juramento, o que havia de sagrado para
+Raymundo? O que importava a honra de cavalleiro a
+quem prostituira a santa cren&ccedil;a de seus paes?
+Apag&aacute;ra-se
+a candida estrella que o guiava nas trevas da
+existencia, e a luz, que o fascinava, scintillava nos olhos
+negros de Zoraida, a gentil amaldi&ccedil;oada. Se tinha reflexos
+infernaes, tinha tambem o esplendor prestigioso
+da tenta&ccedil;&atilde;o sensual.<br />
+
+<br />
+
+Desde essa noite ninguem mais soube d'elle. Diziam
+que reneg&aacute;ra, e que, enla&ccedil;ado nos
+bra&ccedil;os da musulmana,
+fech&aacute;ra os olhos &aacute; luz do christianismo, e se
+arroj&aacute;ra
+ao abysmo infernal, onde ha o fogo eterno e o
+eterno ranger de dentes.<br />
+
+<br />
+
+Foram estas as noticias que Branca receb&ecirc;ra, no dia
+<span class="pagenum">[70]</span>
+em que fazia um anno que Raymundo a deix&aacute;ra. N&atilde;o
+disse palavra ao receber a nova fatal. Saiu e caminhou
+pallida, hirta e vagarosa como estatua adormecida n'um
+tumulo, que, obedecendo a feiti&ccedil;o desconhecido, se erguesse
+do seu leito de pedra, e se dirigisse muda para
+o sitio aonde a chamava a attrac&ccedil;&atilde;o mysteriosa.<br />
+
+<br />
+
+Os alde&atilde;os, que a encontravam, paravam para a saudar.
+Mas ella nem os ouvia, nem parecia v&ecirc;l-os. Costumados
+&aacute; amabilidade da fidalguinha, ficavam os coitados
+boquiabertos, ao v&ecirc;rem a desusada
+distrac&ccedil;&atilde;o. Mas,
+se lhe reparavam nas fei&ccedil;&otilde;es demudadas, vendo a
+pallidez
+de marmore, os labios brancos e entre-abertos, os
+olhos fixos e esgazeados, benziam-se devotamente, e
+murmuravam que era mau olhado que tinham dado &aacute;
+menina do castello.<br />
+
+<br />
+
+Assim caminhou at&eacute; chegar ao sitio do A&ccedil;ude.
+Ajoelhou
+junto da cruz, e um alde&atilde;o, que a seguia de longe,
+viu-a rezar muito tempo, e abra&ccedil;ar os p&eacute;s do
+Crucificado.
+Depois, chegou &aacute; beira do precipicio, e sem
+hesita&ccedil;&atilde;o,
+sem fraqueza, despenhou-se no abysmo. O corpo
+gentil ennovelou-se nos ares, e foi despeda&ccedil;ar-se
+nas pedras da cascata, espirrando ondas de sangue
+que tingiram de purpura o manto de espuma que envolvia
+as rochas. As aguas do rio abriram-se para tragar
+o cadaver, e depois continuaram indolentes a correr,
+e a murmurar o seu eterno cantico, como se n&atilde;o
+se tivesse escripto alli o epilogo de um drama desventurado.<br />
+
+<br />
+
+O alde&atilde;o, que vira de longe a scena fatal, sem poder
+obstar ao seu inesperado desenlace, fugiu dando um
+grito de horror, e foi contar ao castello o que presence&aacute;ra.
+Quem perdeu alguma vez, de modo t&atilde;o terrivel,
+<span class="pagenum">[71]</span>um ente
+estremecido, avalie a d&ocirc;r do triste pae de
+Branca. Eu n&atilde;o a sei narrar. Sente-a o
+cora&ccedil;&atilde;o, mas
+os labios recusam-se a exprimil-a. Veiu depois gente
+do castello, e tiraram do fundo do precipicio o cadaver
+horrivelmente desfigurado da gentil donzella. Enterraram
+os restos d'aquella pobre martyr aos p&eacute;s do Crucificado,
+que ouvira a sua ultima prece, e a quem pedira
+talvez perd&atilde;o do crime que ia commetter. Plantaram
+ao p&eacute; da cruz roseiras e madresilvas, cujo perfume
+suavissimo ia levar ao longe a ultima recorda&ccedil;&atilde;o
+da que
+tivera na terra a cor&ocirc;a da innocencia, e tinha agora nos
+c&eacute;os a palma do martyrio.&raquo;<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pobre rapariguinha, interrompeu o mestre lagareiro
+com mostras de penalisado, dar cabo de si por
+causa d'aquelle patife!<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o que quer vossemec&ecirc;,
+<em>s&ocirc;</em> Manoel dos Reis,
+coisas que acontecem, tornou o narrador, ninguem p&oacute;de
+fugir &aacute; boa ou m&aacute; sina, que Deus lhe deu. Era
+aquella
+a sorte de Branca, havia de cumpril-a.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Vamos &aacute; historia, vamos &aacute; historia, bradou
+Jos&eacute;
+Augusto, com enthusiasmo! Que fez Raymundo? O que
+aconteceu a Zoraida? Quero saber quem &eacute; por fim de
+contas o phantasma do A&ccedil;ude.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Raymundo, meu fidalgo, n&atilde;o via sen&atilde;o
+Zoraida
+n'este mundo. Um capricho d'ella valia mais do que
+um mandado de Deus.<br />
+
+<br />
+
+Christ&atilde;o tripudiou com a infame sobre a cruz
+despeda&ccedil;ada
+do Redemptor; cavalleiro, quebrou a espada
+de seu pae para que esse espelho de honra n&atilde;o lhe
+reflectisse
+constantemente toda a hediondez do seu crime,
+fidalgo e portuguez, salpicou de lama o braz&atilde;o de seus
+maiores, e abandonou a defeza da patria, quando ella
+<span class="pagenum">[72]</span>reclamava o auxilio
+de todos os seus filhos. Aqui est&aacute;
+o que se p&oacute;de chamar um amor de
+perdi&ccedil;&atilde;o!<br />
+
+<br />
+
+Uma noite chovia agua se Deus a dava, o vento fazia
+tremer as casas, e curvava at&eacute; ao ch&atilde;o os
+pinheiros
+agigantados! A trovoada estalava com medonho estampido,
+os relampagos cingiam a terra com o seu cinto de
+chammas, e os raios vinham de vez em quando, lascando
+as rochas, transformar as arvores em archotes colossaes.
+O temporal era como nunca se tinha visto n'esta
+terra, nem nunca mais se tornou a
+v&ecirc;r, porque todos
+dizem que a procella d'aquella noite era obra de Satanaz.
+No A&ccedil;ude principalmente era medonho o aspecto
+da tormenta. O rio furioso arrojava borbot&otilde;es de espuma,
+que se cruzavam com os raios, que vinham lamber
+as rochas com as suas linguas de fogo. Deus me
+perd&ocirc;e, mas o temporal de hoje tem algumas
+parecen&ccedil;as
+com a tempestade d'essa noite infernal. Quer-me
+parecer que tambem hoje anda fazendo das suas o inimigo
+do genero humano.&raquo;<br />
+
+<br />
+
+Um calafrio de horror correu pela assembl&eacute;a. Todos
+se chegaram mais para o p&eacute; do lume, e olharam uns
+para os outros benzendo-se silenciosamente ao passo
+que l&aacute; f&oacute;ra gemia o vento com voz soturna na
+porta
+carunchosa do lagar.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;N'essa mesma noite Raymundo e Zoraida atravessavam
+a cavallo o pinheiral que termina no A&ccedil;ude. A
+reprovada de Deus folgava com noites tempestuosas,
+e nunca se sentia t&atilde;o bem como quando os raios lhe
+illuminavam a estrada, e o trov&atilde;o respondia magestoso
+&aacute; sua voz blasphema.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olha a cruz do nazareno, bradou Zoraida quando
+chegaram &aacute; cruz do precipicio; n&atilde;o v&ecirc;s,
+Raymundo,
+<span class="pagenum">[73]</span>como a chuva
+a&ccedil;oita irreverente o rosto do martyr do
+Calvario! Porque n&atilde;o transforma elle os raios, que fulminam
+a cruz abandonada, em cimitarras de fogo que
+fa&ccedil;am rolar a seus p&eacute;s a cabe&ccedil;a da
+condemnada, da filha
+de Mahomet?<br />
+
+<br />
+
+E ella ria,&#8213;ria com umas gargalhadas estridentes,
+que vibravam sinistras dominando os ruidos da
+tempestade,
+e que, repercutidas pelos echos do abysmo, tinham
+um n&atilde;o sei qu&ecirc; de infernal. Raymundo estremeceu.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o zombes d'esta cruz, respondeu elle com modo
+sombrio; quando eu era innocente&#8213;e suspirou&#8213;vinha
+aqui ajoelhar muita vez. N&atilde;o zombes d'esta cruz,
+pe&ccedil;o-t'o.<br />
+
+<br />
+
+Zoraida fitou por muito tempo n'elle o seu olhar aveludado,
+fascinante, diabolico e tentador. Era incomprehensivel
+a magia d'esse olhar, e mais incomprehensivel
+ainda o dominio que exercia no mo&ccedil;o cavalleiro.
+Dir-se-ia que dois sentimentos oppostos combatiam no
+cora&ccedil;&atilde;o de Raymundo: de um lado a repugnancia, a
+rebelli&atilde;o da vontade, do cora&ccedil;&atilde;o, do
+espirito contra
+aquelle demonio oppressor; do outro lado uma
+attrac&ccedil;&atilde;o
+irresistivel, fatal, que o arrastava a seu pesar, e o
+prostrava aos p&eacute;s da musulmana.<br />
+
+<br />
+
+Venceu o anjo mau. Raymundo curvou-se sobre o
+pesco&ccedil;o do cavallo, ebrio de amor ou de desejos fitou
+um olhar frenetico nos olhos de Zoraida, e quando ella,
+com um sorriso de escarneo, se approximou da cruz, e
+cuspiu no rosto do Crucificado!... elle, vencido pelo
+demonio, imitou-a, rindo com um riso convulso e doloroso,
+que fazia horror.&raquo;<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Jesus!&#8213;bradaram os circumstantes.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[74]</span>
+O vento abriu a porta do lagar, e &aacute; luz de um relampago
+viu-se o campo devastado pelo vendaval e inundado
+pela chuva; um trov&atilde;o medonho fez benzer todos,
+e emmudecer o narrador. Chegaram-se mais ao lume,
+e olharam uns para os outros. Estavam todos pallidos
+e tremulos.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Aconteceu exactamente o mesmo que aconteceu
+agora, continuou o Jo&atilde;o Moedor com a voz a tremer-lhe
+um pouco; a luz de um relampago deixou v&ecirc;r uma loisa
+aos p&eacute;s da cruz, e o nome de Branca inscripto sobre a
+pedra. Um trov&atilde;o formidavel ribombou sobre a
+cabe&ccedil;a
+dos dois amaldi&ccedil;oados, e a campa estalou como se fosse
+de vidro. O phantasma de Branca, involto em candidas
+roupas, e com a fronte cingida de rosas virginaes, ergueu-se
+da sepultura, fazendo recuar Raymundo horrorisado.
+Este quiz desviar a vista, e o phantasma seguiu
+o movimento dos seus olhos; quiz tapar o rosto com as
+m&atilde;os, e as m&atilde;os fizeram-se-lhe transparentes,
+deixando
+v&ecirc;r ainda a imagem da donzella serena como uma santa,
+triste como uma martyr, impassivel como o destino.
+Quiz enterrar os acicates nos ilhaes do cavallo, e o cavallo
+esvaiu-se como fumo, adelga&ccedil;ando-se, e escapando-lhe
+por entre os joelhos, como um peda&ccedil;o de neve
+que o sol derrete nas montanhas. Raymundo deu um
+grito de horror, e estacou petrificado.<br />
+
+<br />
+
+Ent&atilde;o voltou os olhos para Zoraida, e ficou aterrado
+da transforma&ccedil;&atilde;o da sua amante. O rosto, cuja
+belleza
+o fascin&aacute;ra, fizera-se negro, mais negro do que o
+carv&atilde;o.
+Scintillavam os olhos como duas brazas, e nos labios
+volteava-lhe um sorriso de ironia. O bra&ccedil;o assetinado
+que beij&aacute;ra tanto, estendia-se para elle terrivel e
+amea&ccedil;ador. Raymundo, por um esfor&ccedil;o supremo de
+vontade, <span class="pagenum">[75]</span>recuou
+dois passos, mas o bra&ccedil;o estendeu-se,
+estendeu-se,
+tornou-se desmesurado e apertou-lhe o pesco&ccedil;o,
+queimando como se f&ocirc;ra uma tenaz ardente.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o me foges, bradou ella com voz rouca, vendes-te-me
+a tua alma, renegado. Segue-me, segue-me.
+Pertences-me. Vem, que o inferno celebra hoje o nosso
+noivado. Os raios s&atilde;o os fachos do hymeneu, e Lucifer
+o sacerdote. Vem, &eacute; este o leito nupcial.<br />
+
+<br />
+
+E, arrastando-o com uma for&ccedil;a irresistivel, precipitou-se
+com elle no abysmo. Um clar&atilde;o avermelhado illuminou
+as aguas da torrente, que exhalaram um cheiro
+nauseabundo de enxofre.<br />
+
+<br />
+
+Mas o phantasma de Branca fic&aacute;ra ajoelhado aos
+p&eacute;s
+da cruz, implorando o perd&atilde;o do condemnado. No rosto
+de Christo, suavemente illuminado, resplandecia um
+vago arraiar precursor da aurora da misericordia.<br />
+
+<br />
+
+Apenas Zoraida desappareceu, desfez se o encanto.
+Serenou a tempestade, e a brisa perfumada da noite
+veiu timida brincar nas rosas do tumulo de Branca.<br />
+
+<br />
+
+Mas ainda hoje, em dias de vendaval, se v&ecirc;em duas
+sombras terriveis correndo para o precipicio, uma horrorisada,
+tremula, arrastada, a outra com uma alegria
+feroz no semblante. Aos p&eacute;s da cruz vem ent&atilde;o
+ajoelhar
+uma sombra com o rosto inundado de lagrimas celestiaes.<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; que Raymundo ainda est&aacute; cumprindo as penas do
+purgatorio, e Branca, o anjo do Senhor, sem deixar de
+implorar a misericordia divina para aquelle que tanto a
+fez soffrer, mas a quem tanto amou!
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[76]</span> &#8213;Era inevitavel,
+disse, rindo, Lucio Valen&ccedil;a depois
+de feitos os cumprimentos do estylo, eu estava j&aacute; prevendo
+que iamos descambar em plena edade m&eacute;dia. O
+nosso amigo Roberto Soares n&atilde;o p&oacute;de dispensar-se
+de
+consagrar um vivo affecto &aacute;s coura&ccedil;as da sua
+adolescencia,
+e &aacute;s achas d'armas da sua crea&ccedil;&atilde;o.
+Fez-nos
+voltar para 1830 o nosso bom amigo.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E n&atilde;o era epocha t&atilde;o m&aacute; como isso a
+tal de 1830,
+disse Roberto Soares. Abusava-se do veneno e do punhal
+e dos solares e das chacaras e dos cavalleiros que
+voltavam da cruzada, mas, como dizia Musset, um dos
+romanticos do tempo:<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry">Hugo portait
+d&eacute;j&agrave;, dans l'&acirc;me</div>
+
+<div class="poetry1">Notre-Dame,</div>
+
+<div class="poetry">Et commen&ccedil;ait &agrave;
+s'occuper</div>
+
+<div class="poetry1">D'y grimper.</div>
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o ha duvida, n&atilde;o ha duvida, acudiu o doutor
+Macedo, e Lucio &eacute; de certo o primeiro a prestar homenagem
+a essa epocha da potente efflorescencia litteraria;
+mas, por Deus, tornou elle interrompendo-se com
+espanto, est&aacute; j&aacute; vencida a meia-noite; a sr.<sup>a</sup>
+D.
+Isaura
+adormeceu!<br />
+
+<br />
+
+Era verdade; Isaura, que n&atilde;o tinha de
+predilec&ccedil;&otilde;es
+litterarias sen&atilde;o o <em>quantum
+satis</em> para ser senhora da
+moda, enfastiada j&aacute; d'estas repeti&ccedil;&otilde;es
+de historias phantasticas,
+resistira um momento ao somno que a perseguia,
+mas, quando se entr&aacute;ra na historia dos amores
+de Raymundo e Zoraida, f&ocirc;ra a pouco e pouco encostando
+a cabe&ccedil;a para traz, e adormecera profundamente.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pod&eacute;ra, pensou de si para si o nosso Henrique
+Osorio, teimando em v&ecirc;r em Isaura uma menina toda
+<span class="pagenum">[77]</span>idealisadora, e
+capaz de apreciar os mais elevados prazeres
+do espirito, pod&eacute;ra! Eu mesmo me vi em ancias
+para resistir ao somno. Quem atura hoje um d'estes
+sol&aacute;os can&ccedil;ados e gastos que deliciaram a velha
+gera&ccedil;&atilde;o,
+com os seus cavalleiros de armas negras, e os
+seus diabos disfar&ccedil;ados em mulheres formosas, e os
+seus fidalgos que venderam a alma a Satanaz como na
+<em>Dama P&eacute; de Cabra</em>, de
+Alexandre Herculano, ou na
+<em>Torre de Caim</em>, de Rebello da Silva?
+Isso foi bom no
+seu tempo, hoje est&aacute; longe do maravilhoso moderno, e
+Isaura, com a fina intui&ccedil;&atilde;o do seu juvenil
+espirito, n&atilde;o
+p&ocirc;de commover-se com esses velhos
+<em>trucs</em> de magica,
+resuscitados ingenuamente pelo Roberto Soares para
+nos entreter &aacute; meia-noite.<br />
+
+<br />
+
+Emquanto Henrique Osorio fazia de si para si esse
+monologo, Leonor acordava a sua amiga, que, abrindo
+sobresaltada os olhos, foi acolhida por um riso jovial de
+todos os seus companheiros de noitada.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Venceu-se ou n&atilde;o se venceu? dizia o doutor Macedo.
+Veja v. ex.<sup>a</sup> se hoje lhe produziu a mais leve
+impress&atilde;o
+a meia-noite, e se lhe deram muito cuidado os
+phantasmas.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! meu Deus, eu pe&ccedil;o-lhes mil desculpas, disse
+Isaura um pouco envergonhada. &Eacute; que estou fatigada
+das noites passadas em claro, porque o peior n&atilde;o
+&eacute;
+aqui, o peior &eacute; depois quando vou para o meu quarto.
+Custa-me a conciliar o somno, e vem &aacute;s vezes pesadelos
+terriveis perturbar o meu dormir inquieto.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Minha senhora, exclamou, rindo, o doutor Macedo,
+nem tudo s&atilde;o rosas no tratamento de uma enfermidade.
+Pois v. ex.<sup>a</sup> n&atilde;o sabe que
+s&atilde;o muitas vezes
+amargos os
+remedios salutares? Ent&atilde;o julgava que, para ter uma
+<span class="pagenum">[78]</span>cura radical,
+bastava-lhe ouvir aqui
+l&ecirc;r contos, n'uma sala
+confortavel, cheia de luz, a dois passos do seu pap&aacute;, e
+apertando a m&atilde;o da sua amiga? Nada! n&oacute;s aqui
+doiramos-lhe
+a pilula. Se depois lhe sente no seu quarto o
+amargor, paciencia! Mithridates &eacute; de cr&ecirc;r que
+tambem
+n&atilde;o achasse aos venenos o gosto da ambrosia. Afinal
+bebia-os como quem bebe agua. V. ex.<sup>a</sup> hontem
+dormiu
+mal, hoje ha de dormir melhor, d'aqui a dois dias
+chega a tornar-se-lhe necessaria uma historia de phantasmas
+para adormecer profundamente.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! doutor, eu ao menos pe&ccedil;o treguas. O sr. Henrique
+Osorio, hontem, com a sua alameda transformada
+em cemiterio, e com essa mulher pallida
+desenterrada,
+atacou-me os nervos de tal f&oacute;rma que fiquei
+dev&eacute;ras
+enferma. Cheguei a supp&ocirc;r que eu mesma era uma defunta.<br />
+
+<br />
+
+O proprio Henrique Osorio &eacute; que ficou dev&eacute;ras
+atordoado!
+Decid&iacute;damente Isaura n&atilde;o lhe perdoava a
+crea&ccedil;&atilde;o
+do typo de Julieta que elle julgava que tanto devia
+lisongeal-a. Persistia em acreditar que elle n&atilde;o tivera
+outro intento sen&atilde;o o de lhe chamar desenterrada.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Minha senhora, disse elle, eu sinto realmente profundissimos
+remorsos por ter assim concorrido involuntariamente
+para a magoar. Creia v. ex.<sup>a</sup> que a minha
+inten&ccedil;&atilde;o era boa, continuou elle em voz mais
+baixa; se depuz a seus p&eacute;s um ramalhete de goivos
+em vez de um ramalhete de rosas, foi porque as fl&ocirc;res
+funereas eram as unicas que a nossa regra me permittia
+que colhesse.<br />
+
+<br />
+
+Isaura era <em>coquette</em>, e, sentindo
+n'esta phrase um
+aroma de galanteio, vibrou a Henrique um olhar fascinador.
+N'este momento, por&eacute;m, o doutor Macedo levantou-se,
+<span class="pagenum">[79]</span>e, depois de ter
+pedido licen&ccedil;a para ir accender
+um charuto, cantarolou, puxando uma baforada de
+fumo, com musica desconhecida, esta quadra de Thomaz
+Ribeiro:<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry">
+Trazes agoirento goivo<br />
+
+prezo em negros passadores!<br />
+
+Disse-te acaso o teu noivo<br />
+
+que tinhas novos amores?<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+&#8213;O dr. Macedo, murmurou Isaura, voltando-se para
+Henrique Osorio com uma express&atilde;o no olhar muito
+diversa da que primeiro lh'o illumin&aacute;ra, o dr. Macedo
+est&aacute;-me explicando involuntariamente o sentido da sua
+offerta do ramalhete de goivos. &Eacute; um epigramma,
+sr. Osorio?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Minha senhora, respondeu Henrique desesperado,
+estou por tal f&oacute;rma infeliz com v. ex.<sup>a</sup>!
+V. ex.<sup>a</sup>
+interpreta
+de um modo t&atilde;o singular todas as minhas palavras,
+e todas as minhas ac&ccedil;&otilde;es, que desisto de as
+explicar
+de um modo satisfatorio.<br />
+
+<br />
+
+Estava verdadeiramente mortificado. Levantou-se
+comprimentando seccamente a sua interlocutora. Dirigiu-se
+a uma janella e abriu-a para respirar mais &aacute;
+vontade. As reclama&ccedil;&otilde;es dos circumstantes
+obrigaram-n'o
+a fechal-a de novo. Isto ainda mais o desesperou.
+Estavam-se fazendo as despedidas. Leonor, ao
+passar junto d'elle, disse-lhe com um riso malicioso, e
+em voz baixa:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; para que tu saibas o que valem os galanteios
+funebres.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Olha, sabes que mais, Leonorsinha? tornou Henrique
+bruscamente, occupa-te das tuas bonecas.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[80]</span>
+A pobre senhora sentiu a d&ocirc;r profunda do golpe.
+Recuou um passo, levou a m&atilde;o ao
+cora&ccedil;&atilde;o, e marejaram-lhe
+nos olhos duas lagrimas.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Perd&atilde;o, menina, acudiu Henrique, caindo em si.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute;s perdoado, respondeu Leonor com voz fraca,
+mas... mas como tu a amas!<br />
+
+<br />
+
+Saiu. Se se demora mais um instante, rebentavam-lhe
+os solu&ccedil;os mesmo diante de Henrique.<br />
+
+<br />
+
+O doutor Macedo, ao passar por diante de Osorio,
+parou, e disse declamatoriamente:<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry">
+<em>Si je vous le disais pourtant que je vous aime,<br />
+
+Qui sait, brune aux yeux bleus, ce que vous en
+diriez?</em><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; fallando por enigmas poeticos, doutor, exclamou
+Henrique impaciente. Quer fazer concorrencia
+ao <em>Diario Illustrado</em>, ou ao
+<em>Jornal da Noite</em>?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o, disse o doutor, quero apenas dizer, com palavras
+de Alfredo de Musset, que passam muitas vezes
+duas pessoas ao lado uma da outra, sem saberem os
+sentimentos que vivem nas suas duas almas, e que, se
+ousassem exprimil-os, voariam a encontrar-se.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A solu&ccedil;&atilde;o no proximo numero, n&atilde;o
+&eacute; verdade,
+doutor? tornou Henrique, impaciente.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Talvez, redarguiu o doutor.<br />
+
+<br />
+
+E saiu, ao passo que Henrique Osorio encolhia os
+hombros com desdem.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Na seguinte noite, antes de chegar a hora fatidica,
+o doutor Macedo pediu a palavra.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[81]</span> &#8213;Minhas senhoras e
+meus senhores, disse elle, desenrolando
+um manuscripto, se n&atilde;o espero o bater da
+meia-noite, &eacute; porque o romance que vou l&ecirc;r precisa
+de
+um prologo, e &aacute; meia-noite em ponto o que deve entrar
+em scena &eacute; o elemento phantastico. Seja dito sem envolver
+nem a mais leve censura aos illustres preopinantes
+que se afastaram d'esta regra. N&atilde;o &eacute; meu este
+romance, o seu auctor deseja conservar o incognito...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;S&atilde;o prohibidas as substitui&ccedil;&otilde;es,
+bradou Lucio,
+rindo, servi&ccedil;o obrigatorio!<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mau! N&atilde;o me interrompam! O auctor &eacute; um dos
+nossos collegas, n&atilde;o direi mesmo se est&aacute;
+presente. Faz
+o seu servi&ccedil;o, mas provisoriamente quer conservar a
+mascara. Ora diz Gennaro na <em>Lucrecia
+Borgia</em>, pouco
+mais ou menos, o seguinte: A mascara de uma senhora
+&eacute; t&atilde;o sagrada como a face de um homem.
+&Eacute; assim ou
+n&atilde;o &eacute;, Soares? &Eacute; assim, romantico?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ser&aacute;, mas o que d'ahi deduzo &eacute; que o auctor
+&eacute;
+uma das nossas amaveis companheiras de ser&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;As conjecturas s&atilde;o permittidas, mas vae dar a
+meia-noite, e eu, conformando-me com os preceitos do
+regimento, passo a l&ecirc;r a <em>Egreja
+profanada</em>.<br />
+
+<br />
+
+No meio do mais profundo silencio, em que se sentia
+a avida curiosidade dos ouvintes excitada pelo mysterio
+em que se envolvia o conto, o doutor, que lia
+admiravelmente, come&ccedil;ou assim:<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>A EGREJA PROFANADA</h2>
+
+<br />
+
+<h3>I</h3>
+
+<br />
+
+Corre socegada a noite, mas n&atilde;o brilha a lua no
+c&eacute;o
+a espargir tristezas, escondendo um devaneio, um sonho
+de poeta em cada uma das pregas da sua candida
+tunica; scintillam apenas as estrellas no v&eacute;o escuro do
+firmamento.<br />
+
+<br />
+
+Formosas s&atilde;o as noites estrelladas, mas n&atilde;o teem
+a
+suave melancolia das noites de luar; enleva-se-nos o
+espirito ao contemplar essas myriades d'orbes luminosos;
+por&eacute;m os raios da lua teem uma linguagem mysteriosa
+que nos falla ao cora&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+Quando no v&eacute;o nocturno brilham sem rivaes as estrellas,
+como que percebemos a magestosa melodia das
+espheras; mas, quando a lua illumina a terra com a sua
+doce luz, ouvimos ent&atilde;o no espa&ccedil;o vagos canticos
+de
+saudade, suspiros de virgem enamorada, canto de pescador
+que se perde ao longe nas ondas, toada de Quando no v&eacute;o
+nocturno brilham sem rivaes as estrellas,
+como que percebemos a magestosa melodia das
+espheras; mas, quando a lua illumina a terra com a sua
+doce luz, ouvimos ent&atilde;o no espa&ccedil;o vagos canticos
+de
+saudade, suspiros de virgem enamorada, canto de pescador
+que se perde ao longe nas ondas, toada de pegureiro,
+<span class="pagenum">[84]</span>que vem
+desfallecida expirar no nosso ouvido,
+intimas melodias, que nos dizem: &laquo;amor e tristeza.&raquo;
+<br />
+
+<br />
+
+Porque as estrellas s&atilde;o desdenhosas rainhas d'outros
+c&eacute;os, s&oacute;es de outros mundos, que nos enviam, como
+que
+por descuido, um signal de sua grandeza, um tenue
+raio da sua immensa luz, em quanto a lua &eacute; a extremosa
+amante, que prendeu &aacute; nossa a sua existencia, a
+companheira que nos segue incessantemente n'essa viagem
+sem fim, que emprehendemos pelo espa&ccedil;o.<br />
+
+<br />
+
+As estrellas tornam mais profunda a solid&atilde;o, e mais
+espessas as trevas. Os bosques, os valles, as montanhas
+conservam-se envoltos n'um v&eacute;o sombrio, por mais
+que os raios dos s&oacute;es da noite se esforcem por penetrar
+na escuridade; as ondas baloi&ccedil;am com indifferen&ccedil;a
+os seus reflexos, e n&atilde;o fazem caso das palhetas doiradas
+que avivam aqui e ali a candidez da sua fimbria espumosa.<br />
+
+<br />
+
+Mas, quando surge a lua, a natureza anima-se. Desperta
+a vira&ccedil;&atilde;o nos antros perfumados das florestas,
+que exhalam vivissimos aromas. As fadas vem pentear
+as suas loiras tran&ccedil;as no espelho das fontes, cuja
+crystallina
+superficie palpita de prazer. Jorram torrentes de
+prata pela falda dos montes, scintillam diamantes na folhagem
+das arvores. Erguem se as ondas em vago
+enleio
+de voluptuosidade, como seio de virgem que arfa
+pela vez primeira. Rescende o meigo perfume no thuribulo
+da violeta. Rescende a saudade no thuribulo do
+cora&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+As estrellas s&atilde;o os anjos de Deus, que entoam l&aacute;
+ao
+longe, nas profundidades do Empyreo, o hymno &aacute;s glorias
+do Eterno; a lua &eacute; o archanjo consolador que presta
+um ouvido compadecido aos lamentos da humanidade.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[85]</span>
+As estrellas s&atilde;o os candelabros de oiro, que ardem
+constantemente diante do throno do Altissimo; a lua &eacute;
+a urna argentea onde se transformam as lagrimas dos
+que soffrem em perolas, que os anjos entornam no rega&ccedil;o
+do Omnipotente.<br />
+
+<br />
+
+As estrellas s&atilde;o o enlevo do philosopho, a lua &eacute;
+enlevo
+de poetas.<br />
+
+<br />
+
+Porque as estrellas revelam o poder de Jehovah, a
+lua a caridade do Redemptor.<br />
+
+<br />
+
+Mas vae a noite socegada, e a luz dos fachos da abobada
+celeste scintilla frouxamente na face adormecida
+do mar. As vagas erguem-se vagarosamente, enroscam-se
+a pouco e pouco, caminham em longa fileira
+para as praias, e alastram no areial o seu manto escuro.<br />
+
+<br />
+
+Negra, bem negra est&aacute; a superficie do Oceano; os
+raios das estrellas, naufragos luminosos, debatem-se
+com as ondas, que mal conseguem doirar. Do seio d'essas
+trevas sae um gemido cavernoso. &Eacute; a voz eterna
+do liquido le&atilde;o, &eacute; o rugir tranquillo mas
+terrivel do
+monarcha da immensidade.<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o param as vibra&ccedil;&otilde;es nas espumosas
+cordas da
+harpa dos abysmos; ora plangente, ora formidavel, o
+cantico incessante res&ocirc;a no espa&ccedil;o.<br />
+
+<br />
+
+E que diversidade de vozes n&atilde;o ha n'esse concerto
+immenso! o magestoso ruido das ondas ao assoberbarem-se
+l&aacute; no mar alto, o grito que resulta do embate
+de dois d'esses colossos que se encontram, o uivo de
+raiva que soltam quando espadanam nos rochedos da
+praia, o suspiro amoroso que desprendem ao beijarem
+o areial, o murmurio palreiro das gottinhas de agua ao
+despedirem-se a custo das conchas das ribas, E que diversidade de vozes
+n&atilde;o ha n'esse concerto
+immenso! o magestoso ruido das ondas ao assoberbarem-se
+l&aacute; no mar alto, o grito que resulta do embate
+de dois d'esses colossos que se encontram, o uivo de
+raiva que soltam quando espadanam nos rochedos da
+praia, o suspiro amoroso que desprendem ao beijarem
+o areial, o murmurio palreiro das gottinhas de agua ao
+despedirem-se a custo das conchas das ribas, o lamento
+que exhalam ao a&ccedil;oital-as o vento, tudo isto se resume
+<span class="pagenum">[86]</span>n'um hymno sublime,
+intraduzivel, como os poetas
+os
+sonham, mas n&atilde;o escrevem.<br />
+
+<br />
+
+&Oacute; mar! A opulenta imagina&ccedil;&atilde;o da
+antiguidade grega
+povoou de sereias as tuas ondas, poisou no cimo d'estas
+o velho Glaucus, com as suas barbas limosas, com
+a sua voz aterradora, poisou no teu leito de espuma
+ora a rosea concha Acidalia em cujo seio se abrigava a
+candida Aphrodite, ora a seductora Lamia, ora as horriveis
+Gr&eacute;as, e nem assim conseguiu traduzir o indizivel
+encanto com que nos attraes, e o vago terror que
+nos incutes, a suavidade da tua voz, e a selvagem energia
+dos teus hymnos! &Oacute; mar immenso, que lyra
+infeiti&ccedil;ada
+te deu o Senhor, de que mysteriosa seduc&ccedil;&atilde;o
+impregnou as tuas solid&otilde;es?<br />
+
+<br />
+
+Assim perdido nas trevas como &eacute; magestoso o Oceano!
+Nem uma v&eacute;la se distingue na immensidade solitaria!
+Ainda n'aquelle isolamento, n&atilde;o descontin&uacute;a o
+fadario das ondas! V&atilde;o, vem, atropellam-se, espraiam-se,
+beijam se, desmaiam, agitam-se,
+revolvem-se, cantam,
+suspiram, e, l&aacute; ao longe talvez, algum scismador,
+encostado ao peitoril da sua janella, ao ouvir aquelle
+ruido ineffavel, pensa na eternidade, e em Deus!<br />
+
+<br />
+
+Comtudo bem junto da praia, a pouca distancia de
+uma casa cuja fachada branca mira silenciosa a eterna
+agita&ccedil;&atilde;o do Oceano, que envia &aacute;s
+vezes, de enamorado,
+uma das suas ondas a beijar-lhe os p&eacute;s,
+baloi&ccedil;a-se indolentemente
+uma barca, onde dorme um pescador,
+cujo somno &eacute; acalentado por esse murmurio suave.<br />
+
+<br />
+
+As ondas embalam t&atilde;o docemente o bote, como carinhosa
+m&atilde;e p&oacute;de embalar o ber&ccedil;o do
+recem-nascido.<br />
+
+<br />
+
+A uma das janellas que se rasgam na fachada branca
+da casa da praia, encosta-se um vulto de mulher. Em
+<span class="pagenum">[87]</span>baixo
+est&aacute; um outro vulto varonil e elegante. Ouve-se,
+por entre o concerto das vagas, o mysterioso segredar
+de duas vozes.<br />
+
+<br />
+
+Leandro e Hero, Rosina e Almaviva, Julieta e Romeu!<br />
+
+<br />
+
+O bramir do mar abafa o manso ruido das vozes.
+Mas o rugido do Oceano, e o flebil sussurrar dos namorados
+chegam, em murmurio egual, ao throno do
+Omnipotente: porque s&atilde;o duas notas do hymno immenso
+do Universo, que se resume n'uma palavra &laquo;Amor.&raquo;<br />
+
+<br />
+
+<h3>II</h3>
+
+<br />
+
+Tudo n'este mundo acaba, inclusivamente as doces
+palestras enamoradas. Mais infeliz do que a desditosa
+heroina de Shakespeare, a donzella da casa da praia
+n&atilde;o p&ocirc;de esperar que o grito matinal da cotovia
+saudasse
+o alvorecer. Ainda a noite n&atilde;o cheg&aacute;ra ao meio
+do seu giro, e j&aacute; era for&ccedil;osa a
+separa&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+Trocaram-se suaves promessas, mil vezes se affastou
+o nosso Romeu da fachada branca, mil vezes voltou a
+ella, como se as ondas, que lhe vinham quasi banhar
+os p&eacute;s, o arrastassem comsigo nas incessantes
+ondula&ccedil;&otilde;es
+do fluxo e do refluxo.<br />
+
+<br />
+
+Afinal a palavra &laquo;Adeus&raquo; escoou-se, como um timido
+murmurio, pelos labios dos dois namorados; o elegante
+mo&ccedil;o affastou-se rapidamente, e, dando um pulo bem
+calculado, foi cair em p&eacute; dentro do barco, que as ondas
+baloi&ccedil;avam.<br />
+
+<br />
+
+Ao choque inesperado acordou em sobresalto o barqueiro.
+<span class="pagenum">[88]</span>Ergueu-se
+&aacute; pressa, e, depois de reconhecer
+seu amo, fitou os olhos com certa inquieta&ccedil;&atilde;o no
+c&eacute;o
+estrellado, chronometro infallivel dos homens do mar.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! senhor, disse elle com a voz entrecortada,
+que tanto se demorou! &Eacute; for&ccedil;oso apressarmo-nos, e
+n&atilde;o sei ainda se chegaremos a tempo &aacute; praia.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que medo tens tu, homem? perguntou o que embarc&aacute;ra,
+sentando-se commodamente na p&ocirc;pa do bote.
+Est&aacute; o mar de leite, e nem a mais ligeira brisa lhe agita
+as ondas, nem uma nuvem amea&ccedil;adora assoma no horisonte!
+As tempestades repousam, amigo!<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o temo a procella, tornou o barqueiro, abanando
+a cabe&ccedil;a; eu e o vendaval somos conhecidos velhos, e
+n&atilde;o me assusta a tormenta em noite escura, nem receio
+ser engulido pelas ondas! Assim como assim um homem
+ha de morrer uma vez, e vale mais adormecer livremente
+envolto n'esta mortalha de espuma, do que
+ser cozido n'um len&ccedil;ol branco, e mettido em uma cova,
+onde o nosso pobre corpo nem uma vez s&oacute; se poder&aacute;
+regalar com o cheiro da marezia! Mas ainda que a temesse,
+n&atilde;o &eacute; n'uma noite d'estas que um velho marujo
+receia a tempestade. V. s.<sup>a</sup> tem
+ras&atilde;o: o mar
+est&aacute; de
+leite, e o barco ha de deslisar t&atilde;o commodamente por
+sobre as suas aguas como uma carruagem por cima da
+poeira da estrada real.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o o que te assusta, meu velho?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; quasi a dar meia-noite, senhor.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Percebo! Receias que o fuso da tua companheira
+n&atilde;o corra t&atilde;o ligeiramente nas suas
+m&atilde;os enrugadas,
+de farta que esteja de te esperar. Socega, homem! Irei
+eu mesmo acalmar as rabugices da Catharina, e prometter-lhe
+uma estriga de linho para os ser&otilde;es do inverno.
+<span class="pagenum">[89]</span>Ver&aacute;s
+que a velhita ha de ficar t&atilde;o
+contente,
+que nem pensar&aacute; em ralhar comtigo por causa da desusada
+demorada.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o esteja com cuidado na Catharina, senhor, que
+ella bem sabe que me n&atilde;o demoro por culpa minha.
+Oh! se sabe. Antes de ser velha desdentada j&aacute; foi
+mo&ccedil;a
+e lou&ccedil;&atilde;, e ha de se lembrar de como
+n&oacute;s esqueciamos
+as horas, que passavam, ella sentada &aacute; porta da choupana
+a concertar as r&ecirc;des de seu pae, eu assentado no
+areial a fallar-lhe fallas de namoro, que lhe punham o
+rosto mais vermelho do que uma rosa de maio. Ainda
+n&atilde;o &eacute; isso, meu amo.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o o que &eacute;, finalmente? perguntou o seu
+interlocutor,
+j&aacute; um tanto enfadado.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; que n&atilde;o resulta bem algum &aacute;s almas
+de dois
+christ&atilde;os de estarem assim no mar por estes sitios ao
+bater da meia-noite.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Porque?<br />
+
+<br />
+
+O barqueiro olhou com inquieta&ccedil;&atilde;o em torno de si,
+e depois murmurou em voz baixa que mal se ouvia:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; por causa da <em>egreja
+profanada</em>!<br />
+
+<br />
+
+O esbelto mo&ccedil;o olhou espantado para elle.<br />
+
+<br />
+
+Durante a conversa&ccedil;&atilde;o, o pescador
+desamarr&aacute;ra o
+barco, e, lan&ccedil;ando m&atilde;o dos remos,
+d&eacute;ra-lhe um impulso
+vigoroso. J&agrave; estavam longe da praia, as ondas vinham
+bater no costado do bote com um murmurio queixoso,
+que acompanhava o som compassado do bater dos remos
+na agua.<br />
+
+<br />
+
+O pescador tornou a fitar o c&eacute;o com
+inquieta&ccedil;&atilde;o, e,
+sem responder a uma nova pergunta do seu passageiro,
+curvando-se para diante, metteu os remos nas ondas,
+e, entezando depois os musculos vigorosos, fez, erguendo-os
+<span class="pagenum">[90]</span>de novo, espadanar
+uma cascata de espuma
+de cada lado do ligeiro bote.<br />
+
+<br />
+
+Este, como um corsel generoso, que ao sentir enterrarem
+se-lhe nos ilhaes as esporas do cavalleiro, se empina
+primeiro, depois, sacudindo as crinas, desata em
+vertiginoso galope, e, saltando de um pulo uma onda,
+que vinha orgulhosa para elle, deslisou por sobre as
+aguas com incrivel rapidez.<br />
+
+<br />
+
+Ainda o passageiro n&atilde;o tivera tempo de repetir a
+pergunta, quando vibrou o espa&ccedil;o com as lentas pancadas
+da meia-noite, que soava l&aacute; muito ao longe, no
+sino de uma egreja situada &aacute; beira mar.<br />
+
+<br />
+
+Produzia um effeito sinistro aquelle som distante.
+Cada uma das vibra&ccedil;&otilde;es vinha, em intervallos
+eguaes,
+expirar no ouvido dos dois navegantes, e casar-se melancolicamente
+ao rugir cont&iacute;nuo das vagas.<br />
+
+<br />
+
+O barqueiro deixou cair os remos, e bradou: &laquo;Jesus,
+meu Deus!&raquo; O mesmo seu amo n&atilde;o se p&ocirc;de
+eximir a
+um inexplicavel receio.<br />
+
+<br />
+
+Ambos silenciosos, o barqueiro com os cabellos em
+p&eacute;, o nosso enamorado com vaga curiosidade, e um tal
+ou qual terror, contaram as lentas pancadas do bronze
+sagrado.<br />
+
+<br />
+
+Parece que aquellas vibra&ccedil;&otilde;es n&atilde;o eram
+produzidas
+pelo simples sino de uma egreja, mas que f&ocirc;ra o anjo
+das vingan&ccedil;as do Senhor quem fizera vibrar o bronze,
+e quem lhe dera aquella voz sobrenatural e pavorosa.<br />
+
+<br />
+
+Contaram uma... duas... tres... doze. A ultima
+vibra&ccedil;&atilde;o assemelhava-se a um gemido terno, ao
+uivo
+lamentoso do genio da meia-noite, que, abrindo as suas
+negras azas, annunciasse aos phantasmas o come&ccedil;o do
+seu imperio.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[91]</span>
+O barqueiro, que se levant&aacute;ra, ca&iacute;u de novo no
+meio
+do barco e escondeu o rosto entre as m&atilde;os; seu amo
+soltou uma exclama&ccedil;&atilde;o de espanto.<br />
+
+<br />
+
+Um clar&atilde;o avermelhado tingira subitamente as ondas,
+como se um incendio come&ccedil;asse a lavrar no fundo do
+Oceano. As vagas soltaram um gemido plangente, como
+crean&ccedil;as a&ccedil;oitadas.<br />
+
+<br />
+
+E um concerto horrivel, formado por muitas vozes,
+erguera-se do fundo dos mares; e essas vozes cantavam
+os psalmos da penitencia.<br />
+
+<br />
+
+Mas as palavras, cheias de unc&ccedil;&atilde;o, e impregnadas
+de
+tristeza das sublimes poesias do rei propheta, tomavam
+uma accentua&ccedil;&atilde;o ironica, como se passassem pelos
+labios
+requeimados dos anjos malditos.<br />
+
+<br />
+
+No meio d'essas vozes roucas fez-se ouvir de repente
+uma voz suave e argentina de mulher, doce como o gemer
+da brisa nas solid&otilde;es do Oceano, feiticeira como a
+voz das seductoras sereias.<br />
+
+<br />
+
+Mas aquella mesma do&ccedil;ura tinha um n&atilde;o sei
+qu&ecirc; de
+medonho, e n'essas melodias celestiaes reverberava-se
+o fogo do inferno.<br />
+
+<br />
+
+No meio das notas mais ternas, vibrava subitamente
+uma outra aspera e dissonante, que produzia o effeito
+que produziria no meio das harmonias da harpa o som
+do estalar de uma corda.<br />
+
+<br />
+
+E essa voz tinha ao mesmo tempo uma profunda tristeza,
+uma plangente intona&ccedil;&atilde;o, uma pungente ironia e
+um n&atilde;o sei qu&ecirc; d'attraente e seductor que fazia
+pensar
+na fatalidade.<br />
+
+<br />
+
+Os olhos do mo&ccedil;o passageiro encheram-se involunta
+Os olhos do mo&ccedil;o passageiro encheram-se involuntariamente
+de lagrimas, e com os bra&ccedil;os estendidos, perdido
+n'um vago extasi, parecia querer voar nas azas da
+<span class="pagenum">[92]</span>melodia para o
+antro sub-marinho, onde se aninhava a
+infeiti&ccedil;ada sereia.<br />
+
+<br />
+
+E a voz cantava:<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry">
+Co'a vossa santa colera,<br />
+
+raio que fere e brilha,<br />
+
+ao impio que se humilha<br />
+
+n&atilde;o fulmineis, Senhor!<br />
+
+<br />
+
+N'este meu seio embebe-se<br />
+
+a vossa frecha ardente,<br />
+
+e a m&atilde;o omnipotente<br />
+
+me opprime em seu furor.<br />
+
+<br />
+
+Da vossa ira o halito<br />
+
+seccou-me membro a membro,<br />
+
+e ai! se ent&atilde;o me lembro<br />
+
+do meu longo peccar,<br />
+
+de como olvidei, r&eacute;probo,<br />
+
+santos dictames vossos,<br />
+
+oh! sinto at&eacute; meus ossos<br />
+
+um fr&eacute;mito agitar!<br />
+
+<br />
+
+O fardo immenso e horrido<br />
+
+da minha iniquidade,<br />
+
+&aacute; voz da Divindade,<br />
+
+a fronte me curvou.<br />
+
+Da minha carne as ulceras<br />
+
+corrompe-as a lembran&ccedil;a<br />
+
+da impia atroz folgan&ccedil;a,<br />
+
+que a Deus me arrebatou.
+</div>
+
+<br />
+
+Era triste, profundamente triste a voz, que assim
+cantava nos abysmos do Oceano as primeiras palavras
+do primeiro psalmo da penitencia. Ia enfraquecendo
+pouco a pouco at&eacute; desfallecer quasi de todo no ultimo
+verso, mas ent&atilde;o a voz vibrava de novo com aspere
+Era triste, profundamente triste a voz, que assim
+cantava nos abysmos do Oceano as primeiras palavras
+do primeiro psalmo da penitencia. Ia enfraquecendo
+pouco a pouco at&eacute; desfallecer quasi de todo no ultimo
+verso, mas ent&atilde;o a voz vibrava de novo com aspereza, e
+era quasi uma gargalhada infernal, de desafio ao Eterno,
+<span class="pagenum">[93]</span>o grito ironico com
+que voltava a cantar os seguintes
+versos:<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry">
+Co'a vossa santa colera,<br />
+
+raio que fere e brilha,<br />
+
+ao impio que se humilha<br />
+
+n&atilde;o fulmineis, Senhor!
+</div>
+
+<br />
+
+N'este momento rasgaram-se as ondas, como se um
+novo Moys&eacute;s lhes tocasse com a varinha magica.
+Entremostraram-se
+aos olhos do espantado mo&ccedil;o as profundidades
+do mar. Foi isso rapido como um relampago,
+mas deu-lhe tempo sufficiente para v&ecirc;r o interior de
+uma egreja gothica esplendidamente illuminada com uma
+immensa profus&atilde;o de cirios. Uma longa fileira de guerreiros
+da edade m&eacute;dia cercava os altares, mas no meio
+da nave campeiava, coisa estranha! a meza de uma orgia,
+e as ta&ccedil;as de oiro, cheias de vinho espumoso, ostentavam-se
+em cima da toalha. Uma mulher formosa
+como os anjos, mas tendo na fronte pallida n&atilde;o sei que
+inexprimivel s&ecirc;llo da maldi&ccedil;&atilde;o divina,
+ergueu-se, como
+se fosse sustentada por azas invisiveis, at&eacute; &aacute;
+superficie
+dos mares. Cerrou-se de novo o abysmo, e as ondas
+purpureadas pelo reflexo dos cirios estenderam por
+cima d'essa mysteriosa egreja o seu liquido docel.<br />
+
+<br />
+
+E o vulto feminino, com as vestes alvejantes ondeando
+por cima das vagas, e ro&ccedil;ando a fimbria na orla da espuma,
+que o clar&atilde;o vermelho fazia espuma de sangue,
+com a cor&ocirc;a da orgia ainda na fronte, encaminhou-se
+lentamente para o sitio onde o barco par&aacute;ra, porque o
+pescador ainda n&atilde;o ous&aacute;ra nem sequer levantar-se.
+<br />
+
+<br />
+
+O phantasma deslisava por cima das ondas, como se
+invisivel m&atilde;o o impellisse; j&aacute; estava proximo do
+bote,
+e os seus olhos negros, onde scintillava uma chamma
+<span class="pagenum">[94]</span>infernal, exerciam
+uma incrivel fascina&ccedil;&atilde;o no
+nosso heroe.
+Afinal parou, e os seus bra&ccedil;os estenderam-se vagarosamente
+para elle, a fronte pallida tombou-lhe para
+o hombro, como lyrio pendido pelo tuf&atilde;o. Ignota languidez
+suavisou-lhe o fogo do olhar. As tran&ccedil;as negras
+desprenderam-se-lhe e fluctuaram-lhe nas espaduas. Os
+labios descerraram-se, e a sua voz doce e melodiosa
+suspirou, como um triste queixume os versos:<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry">N'este meu seio embebe-se<br />
+
+a vossa frecha ardente,<br />
+
+e a m&atilde;o omnipotente<br />
+
+me opprime em seu furor.
+</div>
+
+<br />
+
+Cego, louco, fascinado, o juvenil passageiro do bote
+nem for&ccedil;as teve para resistir &aacute;
+seduc&ccedil;&atilde;o. Inclinou meio
+corpo para f&oacute;ra do barco, estendeu as m&atilde;os, e ia
+precipitar-se
+nas ondas.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Jesus! bradou o barqueiro.<br />
+
+<br />
+
+O phantasma soltou um bramido de desespera&ccedil;&atilde;o,
+as ondas rasgaram-se de novo, e quando o mo&ccedil;o abriu
+os olhos, que fech&aacute;ra de deslumbrado pela chamma que
+faisc&aacute;ra nas pupillas negras da gentil desconhecida,
+j&aacute;
+o vulto feminino desapparec&ecirc;ra.<br />
+
+<br />
+
+Mas as ondas continuavam a conservar a sua c&ocirc;r escarlate,
+e o canto dos psalmos vibrava ainda na immensidade.<br />
+
+<br />
+
+<h3>
+III</h3>
+
+<br />
+
+O terror tir&aacute;ra as for&ccedil;as ao barqueiro, o terror
+lh'as
+deu de novo. Lan&ccedil;ou m&atilde;o dos remos, e o bote
+afastou-se
+rapidamente d'aquelle terrivel sitio.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[95]</span> &#8213;Sabes a historia
+do que estamos vendo? perguntou
+o companheiro do pescador, com voz ainda agitada.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! se sei, senhor, &eacute; uma historia terrivel. Mas
+n&atilde;o &eacute; n'este sitio nem a esta hora que eu a hei
+de
+contar.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Conta, tornou o interrogador imperiosamente, j&aacute;
+estamos longe do ponto fatal, e a voz dos r&eacute;probos
+vae-se perdendo no horisonte.<br />
+
+<br />
+
+O barqueiro hesitou um instante, depois principiou
+em voz t&atilde;o baixa que mal se percebia, e sem deixar de
+impellir vigorosamente o bote, a seguinte
+narra&ccedil;&atilde;o:<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Havia aqui d'antes, ha um bom par de annos, e
+junto d'aquelle castello, cujas ruinas ainda p&oacute;de divisar
+penduradas como ninho de aguias em cima das fragas,
+uma egreja que f&ocirc;ra mandada construir por um devoto
+fidalgo d'aquelle solar, fidalgo que morreu em cheiro de
+santidade. A igreja era tida em conta de milagrosa, e alli
+concorriam immensos fieis attrahidos pela fama do templo,
+e pelas virtudes do capell&atilde;o, homem de vida austera,
+affectuoso para com os humildes e nada servil com
+os grandes, a quem dizia as verdades por mais amargas
+que fossem, quando entendia que assim o exigiam
+os deveres do seu ministerio.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Vivia ent&atilde;o no castello um fidalgo devasso, filho
+do
+fundador da egreja, o qual, se lhe herd&aacute;ra as riquezas,
+n&atilde;o lhe herd&aacute;ra as virtudes, porque os thesouros
+da
+terra na terra ficam, mas os thesouros do c&eacute;o esses
+voltam com o seu possuidor para o seio do Omnipotente.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Tinha esse fidalgo uma irm&atilde;. Linda era ella.
+Gentil
+a mais n&atilde;o poder ser. Dizem que o rosto &eacute; o
+espelho
+da alma, e se assim fosse, ninguem possuia mais
+<span class="pagenum"><a name="p96">[96]</a></span>formosa
+indole nem
+mais candido espirito do que a irm&atilde;
+de Guilherme, a filha do virtuoso Pelayo. Mas n&atilde;o era
+assim. A natureza esmer&aacute;ra-se tanto em lhe aprimorar
+a belleza physica, que se esquec&ecirc;ra de certo de cuidar
+com egual desvelo na formosura moral. &Eacute; assim que
+dizem que Satanaz tem uma belleza seductora, e que
+seria um guapo archanjo, se o p&eacute; caprino n&atilde;o
+revelasse
+a quem se deixa fascinar pela etherea gentileza
+do anjo maldito, que est&aacute; a contas com o pae da mentira.
+Infelizmente Ignez n&atilde;o tinha esse signal que a
+distinguisse dos anjos de que parecia irm&atilde;, e, se algum
+cauteloso enamorado, para tranquillidade de consciencia,
+lan&ccedil;asse <a href="#e8">uma vista de olhos</a>
+para o
+p&eacute;sinho encantador
+da formosa filha de Pelayo, n&atilde;o fazia mais do que
+completar a fascina&ccedil;&atilde;o, e, em vez da agua benta,
+com
+que tencionava aspergil-o, era natural que o cobrisse de
+beijos, t&atilde;o airoso era elle e t&atilde;o pequenino,
+t&atilde;o pequenino
+que parecia que a natureza, ao esquecer-se de
+lhe formar a alma, se esquec&ecirc;ra tambem de lhe formar
+o p&eacute;.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Quando ella passeava a cavallo por essas ferteis varzeas,
+montada elegantemente n'um lindo cavallo preto,
+todos se ficavam enlevados a contemplal-a, e n&atilde;o havia
+donzella nem rico homem que n&atilde;o sacrificasse de boa
+vontade a vida para fazer brotar um raio d'amor na
+pupilla negra da gentil Ignez. Mas ninguem o conseguia,
+e o marmore d'aquelle rosto adorado nunca se
+purpure&aacute;ra com o rubor da paix&atilde;o. Engano-me.
+Paix&atilde;o
+sentia ella, vehemente, incestuosa, horrenda, e que lhe
+devia incendiar o rosto n&atilde;o no vivo escarlate do pejo
+de donzella enamorada, mas sim no rubor da vergonha
+e do remorso. A r&eacute;proba amava seu irm&atilde;o!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[97]</span>
+&laquo;E n&atilde;o imagine que ella occultasse essa
+paix&atilde;o criminosa.
+Pelo contrario gloriava-se d'ella impudentemente.
+E o espectaculo, que davam aquelles dois impios,
+era um escandalo cont&iacute;nuo para os bons christ&atilde;os
+dos arredores.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;N&atilde;o se faz id&eacute;a das orgias freneticas
+e loucas, a
+que no castello se entregavam aquelles dois abandonados
+de Deus. Quem passasse &aacute; meia-noite pelo caminho
+que serpeia na montanha, e onde estava situado o solar
+defrontando com a egreja, havia de parar cheio de
+religioso terror ao v&ecirc;r de um lado o immenso
+clar&atilde;o
+das luzes incendiando as vidra&ccedil;as da sala da orgia, ouvindo
+os cantares ebrios, os risos descompassados, as
+blasphemias, as musicas voluptuosas, e dando com a
+vista do outro lado na casa do Senhor, muda, deserta,
+sepultada em trevas, como um terrivel archanjo que
+contemplasse com olhar sev&eacute;ro os folgares dos malditos,
+e que esperasse silencioso que soasse a hora da
+puni&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;O mar batia de continuo nos rochedos, e aquelle
+ruido incessante, se o ouvissem nas salas, havia de
+lhes soar lugubremente como a voz justamente irritada
+do Deus vingador.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;A egreja e o mar! Diante do templo erigido pela
+piedade dos homens, diante do templo immenso em que
+mais se revela a imagem da Providencia, como poderia
+haver quem esquecesse por tal f&oacute;rma os preceitos da
+lei divina?<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Pois havia! e &aacute; noite, quando na mysteriosa
+soledade
+da nave, se erguiam os mortos do seu leito de
+pedra para se ajoelharem diante do altar, quando o vasto
+Oceano desprendia dos seus labios de espuma o hymno
+<span class="pagenum">[98]</span>religioso com que
+celebra a omnipotencia de Deus,
+accendiam-se as luzes no sal&atilde;o do castello, sentavam-se
+&aacute; meza da orgia Guilherme e Ignez e alguns
+cortez&atilde;os
+das suas devassid&otilde;es, porque os seus eguaes todos se
+haviam desviado d'aquella Gomorrha amaldi&ccedil;oada, sobre
+a qual cedo ou tarde cairia o fogo do c&eacute;o; e a
+irm&atilde; do castell&atilde;o, no fim do banquete, cingia a
+fronte
+com uma grinalda de rosas, empunhava a harpa, e cantava
+can&ccedil;&otilde;es bacchicas com essa voz melodiosa, pura
+e vibrante, que os anjos lhe invejavam, para descantar
+os seus hymnos de louvor ao Eterno.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Um dia o velho capell&atilde;o, que f&ocirc;ra o
+primeiro padre
+que dissera missa na egreja cujo fundador f&ocirc;ra o pae
+dos dois devassos, dirigiu-se ao castello, tencionando
+chamar para o redil da egreja aquellas duas ovelhas
+desgarradas por atalhos de maldi&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Nada conseguiu sen&atilde;o excitar o odio de Ignez, que
+ouviu furiosa as reprehens&otilde;es do padre, e que foi
+immediatamente
+queixar-se a Guilherme da insolencia do
+sacerdote, e pedir-lhe, como premio de amor, a cabe&ccedil;a
+do digno homem, como outr'ora Herodias pedia a Antipas
+a cabe&ccedil;a de S. Jo&atilde;o Baptista.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;N&atilde;o ousou conceder-lh'a Guilherme. Conservava
+ainda, no meio dos seus vicios, um respeito supersticioso
+por seu pae, e n&atilde;o ousava tocar na pessoa inviolavel
+d'aquelle a quem Pelayo confi&aacute;ra o templo que
+fund&aacute;ra.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;N&atilde;o insistiu Ignez; mas projectos de
+vingan&ccedil;a atroz
+calaram immediatamente n'aquelle espirito pervertido.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Uma noite, noite de Natal, a chuva ca&iacute;a em
+torrentes,
+a&ccedil;oitando egualmente as vidra&ccedil;as do castello,
+illuminadas com o clar&atilde;o do festim, e os vidros de
+c&ocirc;r
+<span class="pagenum">[99]</span>da egreja atravez
+dos quaes coava a religiosa luz dos
+tocheiros accesos para se celebrar a tocante solemnidade
+da missa da meia-noite.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;O mar rugia de encontro aos rochedos, e soltava
+ora gemidos pavorosos, ora lamentosos queixumes.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;O vendaval corria infrene por sobre as ondas.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;De mais folias ainda do que de costume era testemunha
+o sal&atilde;o do castello. Os gritos dos ebrios ouviam-se
+c&aacute; f&oacute;ra distinctamente, e faziam com que todos
+os que se dirigiam &aacute; missa se persignassem com horror.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Sentada n'uma cadeira de espaldar, junto de seu
+irm&atilde;o,
+Ignez, com os cabellos em desordem, soltos pelas
+espaduas n&uacute;as, com a lascivia no olhar e na attitude,
+desferia a harpa de oiro e descantava as mais alegres
+can&ccedil;&otilde;es.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;O vento e o mar soltavam c&aacute; f&oacute;ra os
+seus tristes
+e lugubres lamentos.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;De repente soou meia-noite na torre da egreja. Os
+repiques da sineta annunciaram immediatamente que
+ia principiar a missa.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Cessaram os risos e os cantares no castello de Guilherme.
+S&oacute; Ignez com o seu diabolico sorriso a pairar-lhe
+nos roseos lab&iacute;os, exclamou:<br />
+
+<br />
+
+&laquo;&#8213;De que vos temeis, nobres cavalleiros? T&atilde;o
+desgeitosa
+estou j&aacute; no dedilhar da harpa, que lhe prefiram
+o agudo cantar da sineta? T&atilde;o enfraquecida est&aacute; a
+minha
+voz, que cessem de a escutar para ouvirem o
+bronze de um campanario?<br />
+
+<br />
+
+&laquo;N'este mesmo instante um raio fuzilou no espa&ccedil;o,
+inundando a sala com a sua luz phosphor&iacute;ca, e o vendaval,
+redobrando de for&ccedil;a, fez em estilhas uma das
+vidra&ccedil;as.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[100]</span>
+&laquo;Todos sentiram um convulso tremor percorrer-lhes
+as veias, e o proprio Guilherme limpou o suor frio que
+lhe escorria na testa. Ignez continuou:<br />
+
+<br />
+
+&laquo;&#8213;Receiaes a tormenta? Quereis um conselho?
+Deixemos esta sala que o vento vae tornar inhabitavel,
+e que a chuva vae inundar, e vamos procurar um abrigo
+na egreja. Alli, sim, que &eacute; sala commoda. Utilisemol-a.
+Um ultimo copo de vinho, meus senhores, e fa&ccedil;amos a
+transferencia.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Todos obedeceram &aacute;s ordens da formosa Ignez.
+Beberam
+um copo de vinho, e ergueram-se bradando resolutamente:
+&laquo;Para a egreja.&raquo;<br />
+
+<br />
+
+&laquo;O ministro de Deus subira n'esse instante ao altar
+revestido dos seus sagrados paramentos. Tornavam-n'o
+respeitavel o seu caracter augusto de immaculado sacrificador,
+e ainda mais o seu diadema de cabellos
+brancos, e a invisivel aureola de virtudes que lhe circumdavam
+a fronte.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;A multid&atilde;o ajoelhada sentia como que o espirito
+de
+Deus baixar ao templo, evocado pelo santo sacerdote.
+O org&atilde;o come&ccedil;ava a gemer os seus doces cantares.
+A
+tempestade parecia respeitar aquelle sacro asylo, suspirando
+plangente nas frestas ogivaes, e n&atilde;o rugindo
+pavorosa, como quando sacudia as suas negras azas
+em torno do castello.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Tudo era socego e serenidade n'aquella divina estancia.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Subito irrompeu pelo portal da egreja a turba dos
+ebrios, em descompostos cantares. Ficou gelada de terror
+a devota multid&atilde;o. Perturbado quando erguia a
+Deus o immaculado espirito, o sacerdote voltou-se e
+deu com os olhos na bella Ignez, que vinha na frente
+<span class="pagenum">[101]</span>encostando-se com
+insolente descaro ao bra&ccedil;o de seu
+irm&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Inflammado em santa colera, o velho ministro do
+Senhor desceu os degraus do altar, e, dirigindo-se aos
+recem-chegados, bradou com voz sonora, em que vibrava
+o echo das iras de Deus:<br />
+
+<br />
+
+&laquo;&#8213;Parae, n&atilde;o profaneis o templo, e n&atilde;o
+obrigueis a
+fulminar-vos o raio de excommunh&atilde;o, que vos est&aacute;
+impendente.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Era venerando o vulto apostolico do santo var&atilde;o.
+O povo ca&iacute;u de joelhos, e a tempestade suspendeu os
+seus bramidos, como que respeitosa e tremula.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Ouviam os elementos desvairados a voz do ministro
+do Omnipotente. S&oacute; ficavam cerrados os ouvidos dos
+impios.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Era porque cheg&aacute;ra a hora fatal, e a
+ta&ccedil;a das iniquidades
+trasbord&aacute;ra emfim.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Ignez sorriu-se meigamente para seu irm&atilde;o. Que
+doce, que angelico sorriso! Quem diria que esse sorriso,
+que rescendia amores, era apenas um incitamento
+ao assassino?<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Pois foi. Guilherme allucinado arrancou do punhal,
+e feriu o velho sacerdote.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;O sangue espadanou da ferida, e salpicou, tingindo
+de escarlate o candido vestido de Ignez.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;A multid&atilde;o fugira horrorisada, os criados, impios
+como seus amos, haviam trazido n'esse instante a meza
+da orgia.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Mas assim que baqueou o sacerdote, a tempestade,
+suspensa por um momento, soltou-se com novo furor.
+Rugiu o vento nas frestas da egreja, fuzilaram os raios,
+bramiu, quebrando-se nos &laquo;Mas assim que baqueou o sacerdote,
+a tempestade,
+suspensa por um momento, soltou-se com novo furor.
+Rugiu o vento nas frestas da egreja, fuzilaram os raios,
+bramiu, quebrando-se nos rochedos, o Oceano enfurecido,
+<span class="pagenum">[102]</span>e
+os tumulos de pedra da egreja estalaram como
+se fossem de vidro.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;E do tumulo de mais primoroso lavor, surgiu, envolto
+na mortalha, o espectro de Pelayo, o fundador da
+egreja. Ondeiavam-lhe ainda as barbas nevadas sobre
+o funebre escapulario, e das orbitas cavadas, coisa horrivel!
+brotavam lagrimas ardentes.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Ergueu-se, ergueu-se; j&aacute; n&atilde;o tocava
+com os p&eacute;s no
+ch&atilde;o marmoreo da egreja. O vento engolphando-se pelo
+portal do templo, agitava-lhe as pregas da mortalha.
+Com as m&atilde;os unidas, em attitude de
+ora&ccedil;&atilde;o, o velho
+finado, subindo lentamente nos ares, parecia um d'esses
+prophetas que o Senhor Deus arrebatava para as
+alturas do Empyrio.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Quando chegou ao tecto, o tecto abriu-se como por
+encanto e o venerando finado continuou a sua magestosa
+ascens&atilde;o na atmosphera que se esclarecia em torno
+d'elle, como se aquelle cadaver irradiasse luz.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Os impios haviam ficado immoveis e attonitos de
+terror. Mas, apenas o velho Pelayo se sumiu ao longe
+na regi&atilde;o das nuvens, resoou em toda a egreja um terrivel
+estampido. O org&atilde;o vibrou, sem que m&atilde;o humana
+o tocasse, e o tremendo <em>Dies irae</em>
+jorrou em torrentes
+de severa melodia pela nave do templo. Vacillaram os
+columnelos, nos frisos e la&ccedil;arias gemeu o vento em
+canticos sinistros, e, como se o vendaval a tivesse arrancado
+pela base, aquella mole immensa levantou-se
+do ch&atilde;o, oscillou nos ares como impellida por invisivel
+fundibulario, e arrojou-se ao Oceano, levando no seu
+seio os profanadores, que soltaram um ultimo rugido
+de desespero.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Abriu-se o mar para tragar a preza enorme que se
+<span class="pagenum">[103]</span>lhe offerecia,
+depois a liquida superficie uniu-se de
+novo, e essa mortalha immensa, cujas pregas s&atilde;o as
+ondas, desenrolou-se para encobrir esse cadaver de
+pedra.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Desde ent&atilde;o todas as noites, ao bater da
+meia-noite,
+accendem-se os cyrios na egreja sepultada, e, no fundo
+do mar, os r&eacute;probos entoam os psalmos da penitencia.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;A voz de Ignez sobreleva a todas, e exerce ainda,
+do fundo do Oceano, a sua irresistivel seduc&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;&Aacute;s vezes ergue-se o phantasma da formosa
+at&eacute; ao
+cimo das ondas, e arrasta para os abysmos os incautos
+que cedem ao magico poder dos seus feiti&ccedil;os.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Proteja-nos o Senhor contra estas
+tenta&ccedil;&otilde;es. Eis-nos
+chegados &aacute; praia.<br />
+
+<br />
+
+<div class="dots"></div>
+
+<br />
+
+<div class="dots"></div>
+
+<br />
+
+<div class="dots"></div>
+
+<br />
+
+<div class="dots"></div>
+
+<br />
+
+O barqueiro amarrou o bote, e saltou em terra. O
+mo&ccedil;o passageiro ficou largo tempo a contemplar o
+Oceano.<br />
+
+<br />
+
+As ondas conservavam ainda ao longe o seu reflexo
+escarlate, e a voz dos precitos, enfraquecida pela distancia,
+vinha expirar na praia em melancolica toada.<br />
+
+<br />
+
+Aos primeiros clar&otilde;es da aurora tudo se dissipou;
+apagou-se a pouco e pouco a luz vermelha, ao passo
+que se ia aclarando mais o horisonte, e que as ondas
+se iam branqueando com o tenue fulgor do alvorecer.<br />
+
+<br />
+
+O canto dos malditos foi tambem esmorecendo a
+pouco e pouco, at&eacute; que a ultima nota vibrou solitaria
+no espa&ccedil;o; e esse silencio singular que precede o romper
+<span class="pagenum">[104]</span>do dia foi apenas
+quebrado pelo hymno eterno do
+marulhar das ondas.<sup><a href="#1">[1]</a></sup>
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Houve um momento de silencio, quando o doutor
+Macedo acabou a leitura do romance. N'aquelle grupo
+havia de certo n'esse instante um cora&ccedil;&atilde;o que
+esse silencio
+fazia bater com desusada violencia. Afinal Lucio
+Valen&ccedil;a quebrou o encanto, dizendo:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Decididamente, caro doutor, o nosso desconhecido
+collega deu um golpe de mestre, escolhendo o para
+leitor de uma lenda. A sua voz deu-me arripios, as suas
+inflex&otilde;es resuscitaram a meia-noite. Co'a breca! houve
+um momento, em que me n&atilde;o atrevi a olhar para a
+<span class="pagenum"><a name="p105">[105]</a></span>janella,
+com medo
+de v&ecirc;r encostado aos vidros o espectro
+fascinador de Ignez.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! de certo, disse ou antes balbuciou Leonor,
+nem assim se p&oacute;de avaliar o merito da lenda. O doutor
+&eacute; como um d'estes actores, que transformam sempre
+em magnificos papeis as mais insignificantes banalidades.<br />
+
+<br />
+
+O doutor sorriu-se para ella maliciosamente, mas ao
+mesmo tempo um concerto de elogios protestava contra
+a phrase dubia de Leonor. O mais ardente no applauso
+era Henrique Osorio.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem! chegou o momento solemne! disse Macedo,
+o publico chama pelo auctor, e eu, como no theatro
+francez e hespanhol, depois dos tres cumprimentos do
+estylo, vou arrojar o nome do poeta &aacute; plat&eacute;a
+enthusiasmada.
+Se me dispensam dos cumprimentos, substituo-os
+por uns certos effeitos oratorios.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;V&aacute;! v&aacute;! diga, doutor! bradaram todos em
+c&ocirc;ro.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Um! exclamou o doutor Macedo, batendo as palmas;
+o auctor &eacute; uma senhora linda, elegante e espirituosa.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Isso &eacute; abusar, doutor! bradaram os circumstantes
+indignados.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dois! tornou Macedo. Acha-se presente a referida
+senhora.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estrangulamol-o? propoz Lucio Valen&ccedil;a.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Um voto de censura na acta! bradou o visconde
+da Fragosa, sempre parlamentar.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Dependuramol-o da <a href="#e9">janella</a>
+at&eacute; elle dizer o
+nome!
+exclamou Henrique Osorio.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;J&aacute; o tinha dito, se voc&ecirc;s me n&atilde;o
+interrompessem,
+exclamou placidamente o doutor Macedo emquanto a
+<span class="pagenum">[106]</span>viscondessa da
+Fragosa, Leonor e Isaura riam a bom
+rir da alegre scena.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o falla,
+<em>ventre-saint-gris</em>! bradou Roberto
+Soares.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;<em>Ventre-saint-gris</em> n&atilde;o
+&eacute; da edade m&eacute;dia, sr. Roberto
+Soares, disse o doutor Macedo que j&aacute; erguera as
+m&atilde;os
+para bater as palmas pela terceira vez, e que tirou
+tranquillamente um charuto da algibeira.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Uma corda! bradou Henrique Osorio.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E um algoz de boa vontade! exclamou Lucio Valen&ccedil;a.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Aacute; ordem! acudiu logo o visconde da Fragosa.<br />
+
+<br />
+
+Ent&atilde;o, o doutor Macedo, com o charuto ainda n&atilde;o
+acceso nos dentes, bateu as palmas, e disse:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tres!<br />
+
+<br />
+
+Estabeleceu-se um profundo silencio.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A lenda que tive a honra de submetter &aacute;
+aprecia&ccedil;&atilde;o
+de vv. ex.<sup>as</sup>, concluiu o doutor, foi escripta
+pela
+ex.<sup>ma</sup> sr.<sup>a</sup> D. Leonor de
+Mattos e Vasconcellos, filha do
+nosso excellente amigo, visconde da Fragosa.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tu, Leonor! exclamou Henrique Osorio estupefacto.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tu, filha! disse a viscondessa com os olhos rasos
+de agua.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu logo vi que tinha sido ella, exclamava o pae
+todo ufano.<br />
+
+<br />
+
+Confusa no meio de todos os comprimentos, com que
+em todas as familias se festejam as mais insignificantes
+estreias litterarias do filho mimoso da casa, Leonor nem
+ousava erguer os olhos para Henrique. Este contemplava-a
+pasmado, depois mirava a furto Isaura, um
+pouco fria, um pouco descontente com a ova&ccedil;&atilde;o da
+sua
+<span class="pagenum">[107]</span><em>amiga</em>,
+e evidentemente de si para si
+lamentava que
+n&atilde;o fosse a pallida menina a sonhadora das phantasias
+da <em>Egreja profanada</em>.<br />
+
+<br />
+
+Mas tambem, quando tornava a mirar Leonor, e a
+via modesta, perturbada, evidentemente envergonhada
+de ser o alvo de todas as atten&ccedil;&otilde;es, agora mil
+vezes
+mais affavel com Isaura do que at&eacute; ahi, como que pedindo-lhe
+perd&atilde;o do seu involuntario triumpho, Henrique
+n&atilde;o podia deixar de dizer de si para si que havia
+um abysmo entre a pretenciosa frivolidade de Isaura e
+a desaffectada simplicidade de Leonor, que bem se via
+que n&atilde;o dava ao seu conto maior valor do que elle merecia,
+e que, escrevendo-o, parecia ter querido mostrar
+apenas que n&atilde;o era estranha &aacute;s altas
+preoccupa&ccedil;&otilde;es do
+espirito, e que a sua phantasia tambem tinha azas para
+se arrojar ao mundo do ideal.<br />
+
+<br />
+
+E, emquanto a conversa&ccedil;&atilde;o volteiava alegremente
+em
+torno do conto de Leonor, emquanto uns narravam os
+calafrios que tinham sentido, e outros felicitavam o leitor
+e a auctora, Osorio, encostando a fronte na m&atilde;o,
+ficou profundamente pensativo.<br />
+
+<br />
+
+Instantes depois, dispersava-se a companhia, e Leonor,
+passando junto de Henrique para se retirar para
+o seu quarto, sentia poisar na sua m&atilde;o, para a demorar,
+a m&atilde;o tremente do seu companheiro de infancia.<br />
+
+<br />
+
+Ella estremeceu toda, como se se tivesse posto em
+contacto com uma garrafa de Leyde.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sabes, disse-lhe elle, que achei encantador o teu
+conto?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sabes que te n&atilde;o acredito? respondeu ella, rindo,
+e j&aacute; senhora de si.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! eu n&atilde;o fa&ccedil;o a critica litteraria do
+romance.
+<span class="pagenum">[108]</span>&Eacute;
+provavel que tenha innumeros defeitos. Digo-te apenas
+que me impressionou. Quando o escreveste?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Hoje!<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Hoje? acudiu elle cravando em Leonor um olhar
+profundo.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sim, tornou ella com o cora&ccedil;&atilde;o a bater-lhe
+violentamente,
+c&oacute;rada at&eacute; &aacute; ra&iacute;z dos
+cabellos, mas resoluta,
+quiz-te mostrar que j&aacute; passou para mim o tempo das
+bonecas, e que o que me preoccupa o cora&ccedil;&atilde;o e o
+espirito
+n&atilde;o s&atilde;o j&aacute; as puerilidades dos nossos
+brinquedos
+de outr'ora, mas os affectos e as paix&otilde;es da mulher.<br />
+
+<br />
+
+Henrique apertou-lhe docemente a m&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Foi por minha causa, pois, que espertaste a phantasia,
+para escreveres essa lenda? Tive eu a ventura
+suprema de preoccupar dev&eacute;ras o teu espirito intelligente?
+de fazer pulsar com mais for&ccedil;a o teu ingenuo
+e nobre cora&ccedil;&atilde;o?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Henrique! murmurou ella.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute;s um anjo, Leonor! disse elle em voz baixa.<br />
+
+<br />
+
+O doutor Macedo encaminhava-se para onde estavam
+os dois. Leonor despediu se, e toda palpitante
+de commo&ccedil;&atilde;o
+e... dil-o-hemos... tambem!... de alegria,
+dirigiu-se para o seu quarto.<br />
+
+<br />
+
+O doutor Macedo sorriu-se para Henrique, e murmurou
+maliciosamente:<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry">
+Si je vous le disais pourtant que je vous aime,<br />
+
+Qui sait, brune aux yeux bleus, ce que vous en diriez?
+</div>
+
+<br />
+
+&#8213;O que! era esta, doutor? exclamou Henrique.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois quem, meu crean&ccedil;ola? &Eacute; necessario ter a
+<span class="pagenum">[109]</span>myopia amorosa dos
+vinte annos para o n&atilde;o perceber
+ha immenso tempo.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que quer voc&ecirc;, Macedo! tornou Henrique, Leonor
+foi minha companheira de infancia. Havia entre n&oacute;s,
+em crean&ccedil;as, uma certa despropor&ccedil;&atilde;o de
+edades. Entre
+dois pequenitos uma differen&ccedil;a de cinco annos abre um
+abysmo! Na mocidade &eacute; um curtissimo intervallo. Costumei-me
+a v&ecirc;r sempre em Leonor uma crean&ccedil;a. A
+mulher feita revelou-se me agora, ao ouvir
+l&ecirc;r o conto
+que ella escrev&ecirc;ra. Ent&atilde;o contemplei-a, e li nos
+seus
+formosos olhos a bondade da sua alma, e a virgindade
+do seu affecto. S&oacute; agora percebi o tremor da sua voz
+nas palavras que me dirigia! E eu passava junto d'ella
+quasi sem a conhecer!<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meu amigo, tornou Macedo, isso &eacute; uma historia
+vulgar. Tem a gente ao p&eacute; da porta um lago tranquillo,
+risonho, c&oacute;rado pelo esplendor do sol, nunca se lembra
+de mergulhar n'essas aguas limpidas para colher a
+perola que l&aacute; brilha no fundo, vae procural-a
+ent&atilde;o ao
+mar das tempestades, mergulha, e encontra ostras.
+Boa noite, meu amigo.<br />
+
+<br />
+
+E dirigiu-se para o seu quarto. Henrique imitou-o,
+mas n'essa noite n&atilde;o dormiu. A imagem que fluctuava
+diante dos seus olhos semi-cerrados, n&atilde;o era,
+n&atilde;o, a
+pallida imagem de Isaura.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Devemos dizer que na noite immediata, esqueceu
+completamente a hora fatidica, e que tendo Lucio Valen&ccedil;a
+pedido a palavra &aacute;s dez horas e meia da noite,
+allegando que era longo o seu romance, que, sendo
+<span class="pagenum">[110]</span>phantastico, por
+isso que o personagem principal era
+um ente inanimado, tinha comtudo uma pequena parte
+propriamente legendaria, e que portanto podia come&ccedil;ar
+a ser lido antes da meia noite; acolhe-se com applauso
+esta id&eacute;a, e Lucio Valen&ccedil;a come&ccedil;ou
+logo depois do ch&aacute;
+a leitura do seu volumoso manuscripto. O doutor fizera
+uma careta ao avaliar o numero de paginas que ia ter
+que ouvir; Henrique Osorio e Leonor, enlevados nas
+do&ccedil;uras de um amor nascente, n&atilde;o tendo olhos
+sen&atilde;o
+um para o outro, amaldi&ccedil;oavam a leitura que os ia privar
+de algumas horas de doce conversa&ccedil;&atilde;o; Isaura,
+despeitada, furiosa por ter visto fugir-lhe um dos seus
+vassallos, e mais furiosa ainda por lhe falharem todos
+os manejos que empregava para reconquistar o inconstante,
+que trat&aacute;ra com t&atilde;o soberbo desdem quando o
+tivera nos seus ferros, dirigira de pura colera as suas
+baterias para Lucio Valen&ccedil;a, e prepar&aacute;ra-se
+portanto
+para ouvir o conto com a mais profunda atten&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+O visconde da Fragosa, o conselheiro Madureira e
+um honrado e silencioso proprietario de Val de Prazeres,
+que vinha completar a partida do visconde, n&atilde;o
+abandonaram sem um suspiro o <em>boston</em>.
+Resignaram-se,
+por&eacute;m, e Lucio Valen&ccedil;a, presentindo vagamente a
+hostilidade
+do auditorio, come&ccedil;ou com voz n&atilde;o muito firme
+a leitura do manuscripto, que se intitulava <em>Memorias
+de uma bolsa verde</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[111]</span>
+<h2>MEMORIAS D'UMA BOLSA VERDE</h2>
+
+<h3><br />
+
+</h3>
+
+<h3>I</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Um dia f&ocirc;ra eu assistir, por curiosidade, a um
+leil&atilde;o
+que se fizera em casa de uma rica viuva que fallec&ecirc;ra.
+Os parentes, apressados em se desfazerem de todos
+esses moveis, que para elles n&atilde;o tinham valor algum,
+abriram o leil&atilde;o apenas se fechou a campa que ia encerrar
+a pobre finada. O que importavam aos herdeiros
+esses pobres livros, por exemplo, sobre os quaes se
+debru&ccedil;&agrave;ra tantas vezes a fronte encanecida da
+viuva,
+esses mysteriosos confidentes dos seus pezares e das
+suas saudades, cujas paginas teriam sido regadas com
+tantas lagrimas, e que tantas vezes teriam repousado
+sobre os seus joelhos tremulos, quando ella, interrompendo
+a leitura nocturna, fitasse os olhos humedecidos
+no sitio onde seu marido se costumava sentar, a lampada
+a cuja doce luz tinham tantas vezes travado uma
+<span class="pagenum">[112]</span>d'essas deliciosas
+conversa&ccedil;&otilde;es intimas, tornadas
+mais
+suaves ainda pelo conchego do lar, e pelo prazer de
+sentir a chuva bater nas vidra&ccedil;as, e o vento gemer de
+caixilhos das janellas? Que significa&ccedil;&atilde;o tinham
+essas
+coisas para os corvos &aacute;vidos, que esperam anciosamente
+que o corpo se transforme em cadaver, para
+descerem em bandos a saciar a fome impaciente? E
+quem sabe se, reunidos em volta do leito mortuario,
+n&atilde;o miravam com os olhos affectadamente compungidos,
+onde brilhavam algumas lagrimas de conven&ccedil;&atilde;o,
+os trastes do quarto, e os proprios len&ccedil;oes que agitava
+o estertor da moribunda? Quem sabe se elles n&atilde;o estariam
+j&aacute; calculando o valor approximado d'esses objectos?
+Ai! todo o anjo, que baixa a este mundo, tem
+um demonio que lhe espia os passos, que o segue cautelosamente
+sorrindo com um sorrir diabolico, que esconde
+na sombra projectada pelas azas brancas do habitante
+do c&eacute;o as negras azas do habitante do inferno,
+e que, apenas aquelle acaba de cumprir a sua miss&atilde;o
+divina, come&ccedil;a a cumprir a sua miss&atilde;o infame, e a
+desfazer por todos os modos o effeito salutar produzido
+pela candida appari&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+Ap&oacute;s o anjo do amor vem o demonio do ciume, ap&oacute;s
+o anjo da caridade o demonio da ingratid&atilde;o, ap&oacute;s
+o
+anjo da morte o demonio da cubi&ccedil;a.<br />
+
+<br />
+
+Morre uma creatura boa, pura, santa; vem um anjo
+de Deus cerrar-lhe os olhos, e levar para os c&eacute;os, no
+rega&ccedil;o da sua tunica transparente, o espirito immaculado
+que se desprendeu do inv&oacute;lucro terreno. No rosto
+do cadaver, sereno e tranquillo, fica como que um reflexo
+do clar&atilde;o que derramaram sobre elle as azas luminosas
+do Senhor. Nada mais proprio para inspirar
+<span class="pagenum">[113]</span>respeito do que
+essa morte socegada, t&atilde;o socegada como
+a de um passarinho que esconde sob a aza a gentil cabecinha.
+Uma suave compunc&ccedil;&atilde;o se apodera do animo
+de todos os circumstantes. Ninguem ousa perturbar o
+magestoso silencio da camara funeraria; todos temem
+profanar a augusta santidade d'aquella scena. Mas o
+demonio da cubi&ccedil;a l&aacute; estava espreitando
+&aacute; porta com
+o seu olhar de tigre. Assim que o anjo bateu as azas,
+entrou p&eacute; ante p&eacute;, debru&ccedil;ou-se sobre
+todas as frontes
+pendidas, bafejou-as com o halito repugnante, e logo
+todos se ergueram apressadamente, e trataram de fazer
+desapparecer o cadaver, de annunciar o leil&atilde;o, de
+preparar tudo para se reduzir a dinheiro, e para se fazerem
+as partilhas. &laquo;&Eacute; preciso tratar da
+vida&raquo;, dizem
+elles. Regateiam-se as despezas do enterro, e, para se
+resarcirem d'ellas, n&atilde;o conservam um unico objecto,
+por mais desprezivel que seja o seu valor. Ahi tem
+pouco mais ou menos a scena horrenda que precede
+um acto t&atilde;o natural como &eacute; um leil&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+Por isso eu sempre resinto uma impress&atilde;o desagradavel,
+quando me vou confundir com a multid&atilde;o de
+compradores que penetram, com t&atilde;o pouco respeito,
+n'esses quartos outr'ora t&atilde;o socegados, agora t&atilde;o
+ruidosos.<br />
+
+<br />
+
+No dia em que assisti ao leil&atilde;o em que fallo, occorreram-me
+estas id&eacute;as que acabo de expender.<br />
+
+<br />
+
+J&aacute; se tinha vendido a maior parte da mobilia. Os
+soph&aacute;s, as mezas, as cadeiras, os livros, tudo se
+dispers&aacute;ra
+j&aacute;. O pregoeiro continuava a fazer apparecer os
+differentes lotes, e, com o ouvido &aacute; escuta, repetia
+machinalmente
+os lan&ccedil;os dos circumstantes com uma rapidez,
+e com uma seguran&ccedil;a taes, voltando a cabe&ccedil;a
+<span class="pagenum"><a name="p114">[114]</a></span>ora
+para um lado,
+ora para outro, que <a href="#e10">pareceria</a>
+ser
+antes machina do que homem, se n&atilde;o fossem as
+chala&ccedil;as
+com que entremeiava o seu preg&atilde;o monotonamente
+saltitante (se assim me posso exprimir). Eu estava encostado
+a uma porta, e contemplava com certa tristeza
+aquelle grupo, em que figuravam os rostos indifferentes
+dos compradores, as physionomias &aacute;vidas dos herdeiros,
+e a cara maliciosamente alvar do pregoeiro,
+pago para alegrar a assembl&eacute;a com os ditos joviaes
+que tinha fabricado, e que provavelmente j&aacute; lhe teriam
+servido para dezenas e dezenas de leil&otilde;es d'aquella especie.
+<br />
+
+<br />
+
+Finalmente appareceu um objecto, cuja
+<em>exhibi&ccedil;&atilde;o</em>
+(perd&ocirc;em o anglicismo) foi acompanhada com um commentario
+burlesco do pregoeiro, e acolhida por uma
+gargalhada da assembl&eacute;a.<br />
+
+<br />
+
+Era uma bolsa de seda verde com borlas de oiro.
+Mas que bolsa, senhores! Era necessaria toda a cortezia
+do pregoeiro para conservar esse nome a um objecto
+que j&aacute; n&atilde;o tinha f&oacute;rma! Era uma bolsa
+de cabellos
+brancos! Rota, esburacada, sem c&ocirc;r definida e em
+cujas borlas o oiro brilhava... pela sua ausencia! O
+pregoeiro passeiou-a triumphantemente por diante de
+todos, e todos se riam, e todos zombavam, e todos faziam
+uma observa&ccedil;&atilde;o que redobrava as gargalhadas.<br />
+
+<br />
+
+Finalmente o pregoeiro passou por diante de mim, e
+mostrou-m'a. Foi ent&atilde;o que eu a pude v&ecirc;r bem.<br />
+
+<br />
+
+Se a podessem v&ecirc;r como eu a vi, haviam de se compadecer
+d'ella. No meio da alegria geral, que a rodeiava,
+ella s&oacute; parecia chorar, e conservar uma triste
+recorda&ccedil;&atilde;o d'aquella de quem todos se esqueciam!
+Se
+a podessem v&ecirc;r como eu a vi, baloi&ccedil;ando-se
+tristemente
+<span class="pagenum">[115]</span>na m&atilde;o
+grosseira d'aquelle homem que a estortegava,
+apertando os seus frageis membrosinhos de seda! E a
+pobre bolsa parecia olhar com uma tristeza profunda
+para todos aquelles rostos crueis, em que a zombaria
+se pintava, e de cada um dos rasg&otilde;es que tinha aberto
+no seu corpinho, d'antes t&atilde;o gentil, a m&atilde;o
+destruidora
+do tempo, parecia sair um gemido.<br />
+
+<br />
+
+Que profunda impress&atilde;o me causou o seu aspecto!<br />
+
+<br />
+
+Talvez os meus leitores chegando a este ponto, se
+riam de mim. Pois n&atilde;o tem ras&atilde;o! Eu acredito que
+os
+objectos inanimados, que nos rodeiam, recebem de n&oacute;s
+como que um reflexo de sensibilidade. Quando morre
+uma pessoa n'uma casa, n&atilde;o v&ecirc;em como tudo toma um
+aspecto luctuoso? A sala, em que tantas vezes estivemos
+s&oacute;s em quanto essa pessoa vivia, tinha por acaso
+o silencio lugubre que lhe notamos apenas ella deixa
+de existir? Os livros, cuja leitura desperta em n&oacute;s o
+enthusiasmo, ser&atilde;o simplesmente mudos reproductores
+dos pensamentos do escriptor, e n&atilde;o conservar&atilde;o
+como
+que o vestigio do talento, que por intermedio d'elles
+se manifestou? E qual ser&aacute; o motivo d'essa inexplicavel
+affei&ccedil;&atilde;o que n&oacute;s consagramos a certos
+moveis queridos?
+do pesar que sentimos ao v&ecirc;rmo-nos obrigados
+a abandonal-os?<br />
+
+<br />
+
+Quando alta noite acordam, e, sem poderem conciliar
+o somno, ficam deitados de olhos abertos a contemplar
+as trevas, e a escutar o silencio, n&atilde;o sentem
+de repente um indizivel murmurio, e umas inexplicaveis
+luzes encherem o quarto e rasgarem a escurid&atilde;o?
+Como explicam isso? Eu creio firmemente que esse
+ruido, que se n&atilde;o ouve quando n&atilde;o estamos n'essas
+circumstancias, &eacute; o que produzem as mysteriosas
+conversa&ccedil;&otilde;es
+<span class="pagenum">[116]</span>dos espiritos
+invisiveis que existem
+escondidos
+em cada um d'esses moveis, e que alta noite se
+reunem, para segredarem uns com os outros, e que
+esse tenue fulgor &eacute; resultado do scintillar das pequeninas
+azas d'esses sylphos subtis.<br />
+
+<br />
+
+Quer me acreditem, quer n&atilde;o, o que eu lhes posso
+assegurar &eacute; que a tal pobre e velha bolsa verde, quando
+viu a minha physionomia s&eacute;ria no meio de tantos rostos
+zombeteiros, lan&ccedil;ou-me um olhar supplicante a pedir-me
+que a livrasse d'aquella triste posi&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+E o caso &eacute; que a comprei, com grande espanto de
+todos os circumstantes, que principiaram por olhar para
+mim com uns olhos muito abertos, e que concluiram
+por sorrirem uns para os outros, dando a entender que
+me julgavam doido. O pregoeiro entregou-me a bolsa,
+e recebeu o dinheiro, tendo cuidado de interp&ocirc;r, como
+se fosse por acaso, uma cadeira entre n&oacute;s ambos, com
+receio que me d'&eacute;sse
+alguma furia.<br />
+
+<br />
+
+Escuso de dizer que ninguem me disputou o lan&ccedil;o.
+Nem mesmo esses agentes, que tem, em giria de leil&atilde;o,
+o nome expressivo de <em>picadores</em>, ou,
+por abuso de
+metaphora, de <em>toireiros</em>, ousaram
+erguer a voz para
+m'a fazerem pagar mais caro.<br />
+
+<br />
+
+A surpreza emprest&aacute;ra-lhes um bocadinho de consciencia.<br />
+
+<br />
+
+Pois o que &eacute; certo &eacute; que eu comprei a bolsa, e
+sa&iacute;
+com ella muito ancho, sem me importar com as largas
+alas que me abriam as pessoas presentes, imitando a
+prudencia do que m'a vend&ecirc;ra.<br />
+
+<br />
+
+E, como eu passo a mostrar-lhes, n&atilde;o tive motivo de
+me arrepender.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[117]</span>
+<h3>II</h3>
+
+<br />
+
+Era uma noite de maio. Eu estava sentado &aacute; meza
+do trabalho. Um caderno de papel, ainda virgem de letras,
+estendia-se diante de mim aterrador na sua alvura,
+que me advertia mudamente da obriga&ccedil;&atilde;o que eu
+tinha
+contrahido de a fazer desapparecer debaixo de uma alluvi&atilde;o
+d'esses monstrosinhos negros, que se chamam
+letras, que, amontoando-se umas em cima das outras,
+formam as palavras, essas mysteriosas colmeias, dentro
+das quaes se agita o candido enxame das id&eacute;as. O tinteiro,
+boquiaberto, n&atilde;o cessava de me mostrar o oceanosinho
+sombrio que tumultuava dentro de seus vitreos
+muros. A penna, debru&ccedil;ando se sobre
+esse mar tenebroso,
+contemplava-o com indifferen&ccedil;a, preparando-se
+para o sulcar atrevidamente, quando eu julgasse opportuno
+come&ccedil;ar a navega&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+Uma janella aberta oppunha aos meus designios um
+obstaculo insuperavel.<br />
+
+<br />
+
+Uma janella aberta?&#8213;diz o leitor; porque a n&atilde;o fechava?<br />
+
+<br />
+
+O leitor de certo se n&atilde;o recorda de eu lhe ter dito
+que estavamos em maio.<br />
+
+<br />
+
+Fechar uma janella quando a fada da primavera percorre
+as urnas das fl&ocirc;res, colhe todos os aromas que
+encontra, e vae espalhal-os prodigamente no rega&ccedil;o das
+brisas, que doidejam depois na atmosphera, alegres
+como as crean&ccedil;as folgaz&atilde;s que correm na campina
+com
+as suas arrega&ccedil;adas de fl&ocirc;res! Fechar uma janella!
+E
+porque n&atilde;o fecha o leitor os ouvidos quando est&aacute;
+escutando <span class="pagenum">[118]</span>uma
+melodia de Bellini, e os olhos quando est&aacute;
+vendo um quadro de Raphael?<br />
+
+<br />
+
+Eu, com um charuto na bocca, docemente recostado
+na minha cadeira, aspirava os perfumes do ambiente,
+sem me importar com as provoca&ccedil;&otilde;es do papel, com
+as
+agita&ccedil;&otilde;es da tinta, e com as
+suggest&otilde;es da penna. Devo
+at&eacute; dizer, para ser completamente veridico, que me deliciava
+em desprezar tudo isso.<br />
+
+<br />
+
+<em>Fi donc!</em> Um escriptor!<br />
+
+<br />
+
+Eu queria v&ecirc;l-os no meu logar! Uma larangeira a
+enviar-me perfumes perfidos, e, quando me via prestes
+a estender a m&atilde;o para a penna, a baloi&ccedil;ar-se sem
+piedade, e a remetter-me directamente nas azas da
+vira&ccedil;&atilde;o
+uma ta&ccedil;a inebriante, cheia a trasbordar dos seus
+effluvios! E um rouxinol, um travesso rouxinol, muito
+escondido n'uma alcovasinha de folhas, que o demonico
+da laranjeira lhe tinha arranjado de proposito para acabar
+de me tentar, a desentranhar-se em melodias que
+era um enl&ecirc;vo escutal as! Sem fallar
+n'umas roseiras,
+que a pretexto de serem <em>dilletanti</em>,
+e de serem impellidas
+pela aragem, prepassavam por diante da minha
+janella para ouvirem mais de perto aquelle Tamberlik
+plumoso! N&atilde;o mettendo em linha de conta a lua, que
+se ria no c&eacute;o a bandeiras despregadas, escancarando
+com os frouxos de riso umas nuvens teimosas, que por
+for&ccedil;a queriam esconder-lhe as perolas que ella com as
+gargalhadas mostrava &aacute; natureza, e que tinha a innocente
+vaidade de contemplar espelhadas nas fontes!
+V&atilde;o l&aacute;, com tudo isto, debru&ccedil;ar-se
+sobre um caderno
+de papel e escrever!<br />
+
+<br />
+
+Escrever; mas escrever o qu&ecirc;? Um romance de
+amores?! Um poema?! Romances e poemas tinha eu
+<span class="pagenum">[119]</span>na
+imagina&ccedil;&atilde;o, sublimes, portentososos,
+admiraveis,
+como todos os tem, e como ainda ninguem os escreveu.<br />
+
+<br />
+
+Se elles se desprendem, capitulo a capitulo, estrophe
+a estrophe, e v&atilde;o fluctuar na atmosphera de envolta
+com os perfumes da rosa, com os canticos do rouxinol,
+e com os raios da lua!<br />
+
+<br />
+
+E, apesar d'isso, n&atilde;o deixam que outros, que se possam
+entornar sobre o papel, nos occupem ao mesmo
+tempo a imagina&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+Assim estava eu, torturando o espirito para obter
+uma id&eacute;a, e encontrando n'elle mundos de poesia,
+n&atilde;o
+digo bem, um chaos de poesia, cujo <em>fiat
+lux</em> eu nunca
+poderia descobrir.<br />
+
+<br />
+
+De vez em quando revestia-me de animo, e tentava
+levantar-me para ir fechar a janella! Mas a larangeira
+baloi&ccedil;ava-se e deixava cair uma chuva de perfumes, o
+rouxinol redobrava de gorgeios encantadores, os ramos
+da roseira prendiam-se, ao perpassar, no parapeito da
+janella, e deixavam ficar as suas rosas de cem folhas,
+purpureas e embalsamadas, a mirarem curiosamente o
+meu quarto; a lua desprendia indolentemente dos hombros
+o seu manto de luz, arrastava-o no firmamento,
+e eu ca&iacute;a desanimado na cadeira.<br />
+
+<br />
+
+De repente senti aos meus ouvidos uma voz ligeira
+como um murmurio, que me fallava n'uma linguagem
+desconhecida, mas que eu, por uma intui&ccedil;&atilde;o
+inexplicavel,
+comprehendi immediatamente.<br />
+
+<br />
+
+Voltei-me, e com grande pasmo, vi a bolsa verde
+em cima da meza.<br />
+
+<br />
+
+Era ella quem me fallava.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Amigo, dizia-me a velha bolsa, tu valeste-me n'uma
+grande afflic&ccedil;&atilde;o, e &eacute; justo que tenhas
+a recompensa.
+<span class="pagenum">[120]</span>Queres escrever? A
+tua imagina&ccedil;&atilde;o
+pregui&ccedil;osa, enervada
+pelos effluvios d'esta noite de primavera, recusa-se
+a dictar-te o que deves lan&ccedil;ar no papel? Eu substituirei
+a tua imagina&ccedil;&atilde;o. Pega na penna, e escreve o
+seguinte
+no alto d'essa pagina branca: &laquo;<em>Memorias
+d'uma
+bolsa verde</em>.&raquo;<br />
+
+<br />
+
+Eu, estupefacto, obedeci machinalmente, e ahi v&atilde;o
+v&ecirc;r os meus leitores o que a pobre bolsa velha me dictou.
+Desculpem os erros do auctor. N&atilde;o ha nada que
+se pare&ccedil;a menos com um litterato do que uma bolsa.
+A ras&atilde;o &eacute; muito simples. A bolsa tem muitas vezes
+dinheiro,
+e um escriptor... Vamos ao assumpto.<br />
+
+<br />
+
+<h3>
+III</h3>
+
+<br />
+
+&laquo;Gira, gira, agulha ligeira, impellida por m&atilde;o
+t&atilde;o
+delicada. Cinge a fragil seda em suave abra&ccedil;o,
+enla&ccedil;a
+os tenues fios uns aos outros, e prepara esse corpinho
+gentil, a quem ha de o amor dar vida.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;O amor, sim. N&atilde;o v&ecirc;s a loira cabecinha
+do anjo de
+meigo sorriso, debru&ccedil;ando-se por cima do hombro da
+tua formosa dona, a contemplar curiosamente os teus
+rapidos movimentos?<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Gira, gira, os instantes s&atilde;o preciosos, e
+p&oacute;de subitamente
+chegar quem transtorne a surpreza t&atilde;o cuidadosamente
+preparada! Gira, gira sem cessar, agulha,
+agulha subtil.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Que suave serenidade transparece no limpido olhar
+d'aquella cuja m&atilde;o febril te dirige! Quando um sorriso
+anima a graciosa physionomia, contempla-se com enl&ecirc;vo
+o c&eacute;o azul que lhe ri nos olhos, e as perolas, que os
+<span class="pagenum">[121]</span>labios
+entre-mostram! A quem f&ocirc;r perspicaz tambem
+esse sorriso mostra a alma, que &eacute; mais celestial do que
+o olhar, mais candida do que as perolas da boquinha.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Mas a esse limpido firmamento doira-o agora o sol
+de um affecto suave, cujo brilho n&atilde;o &eacute; offuscado
+por
+nenhuma nuvem. Os seus raios aquecem-lhe o
+cora&ccedil;&atilde;o,
+e alegram-lhe ao mesmo tempo todos os horisontes da
+vida.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Porque vem misturar-se, comtudo, uma
+inquieta&ccedil;&atilde;o
+febril com o sentimento de felicidade que lhe anima as
+fei&ccedil;&otilde;es? Oh! n&atilde;o receieis nada! Essa
+mesma inquieta&ccedil;&atilde;o
+&eacute; um prazer. Teme n&atilde;o ter completo o presente
+que desejava offerecer a seu marido, que fazia annos
+n'esse dia.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;E por isso a agulha girava, girava com impetuosidade,
+e os fios de seda agrupavam-se com uma ligeireza
+inconcebivel!<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Est&aacute; a concluir-se a tarefa. A agulha
+approxima-se
+do sitio marcado. Um mate, um mate risonho l&aacute; surge
+no horisonte. Apressa-te, agulha, faze prodigios de celeridade.
+Emfim!<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Dera-se o mate. As doiradas borlas pregaram-se
+instantaneamente. Eil-o, o gentil producto de oito dias
+de trabalho! A formosa senhora contempla-o com ternura.
+O amor sacode o rega&ccedil;o cheio de perolas, e em
+cada ponto faz pullular mil pensamentos apaixonados.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;O ente, que nascera, era nem mais nem menos do
+que esta humilde bolsa verde que lhe est&aacute; dictando
+essas linhas, senhor mandri&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[122]</span>
+<h3>IV</h3>
+
+<br />
+
+Quando cheguei a este ponto interrompi eu a bolsa.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Minha senhora, observei com a respeitosa cortezia
+que um escriptor consagra ao narrador officioso que lhe
+conta uma historia, v. ex.<sup>a</sup> tem fallado
+at&eacute; agora n'uma
+linguagem que me tem penetrado de admira&ccedil;&atilde;o,
+porque
+me parece biblica, e o emprego d'esse estylo &eacute;
+muito para apreciar n'uma bolsa que n&atilde;o foi contemporanea
+de Isaias. Mas se v. ex.<sup>a</sup> antes de nascer falla
+n'esse tom, receio muito que, se continuar na ascens&atilde;o,
+quando chegar &aacute; velhice, j&aacute; os leitores, ainda
+que
+se mettam no bal&atilde;o de Nadar, n&atilde;o ser&atilde;o
+capazes de a
+seguir com a vista n'essas espheras inaccessiveis. Pedia,
+portanto, a v. ex.<sup>a</sup> o favor de baixar o
+v&ocirc;o &aacute;
+terra,
+algumas vezes, afim de que os nossos leitores percebam
+alguma coisa do que se f&ocirc;r passando, sacrificando
+por conseguinte o diploma de socia da academia... do
+amphiguri, que, segundo me parece, est&aacute; em caminho
+d'obter. Desculpe-me esta ligeira observa&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+A bolsa olhou para mim com modos um tanto severos,
+e respondeu:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Admiro-me bastante de tu te queixares. Sabe que
+nem cheguei a dar-te uma ligeira amostra do estylo
+pomposo que eu deveria empregar, e que te poupei o
+prologo obrigado que precede l&aacute; entre v&oacute;s outros,
+os
+homens, a magra biographia d'aquelles, a quem nomeaes
+grandes, com a mesma convic&ccedil;&atilde;o com que os antigos
+romanos faziam a apotheose dos Tiberios e dos Caligulas.
+J&aacute; v&ecirc;s que a rajada vae come&ccedil;ar, e que
+se me excitas
+mais, bailam-te no meu discurso gregos, assyrios,
+<span class="pagenum">[123]</span>indios e hebreus.
+Mas voltemos ao que importa. Em logar
+de te queixares, devias-me agradecer o eu n&atilde;o ter
+dito uma palavra s&oacute; &aacute;cerca do estado da Europa na
+epocha do meu nascimento, nem de ter fallado nos
+grandes homens que se agitavam no mundo, em quanto
+a minha gentil creadora unia uns aos outros os fios
+que me haviam de formar. Podia fazer-te gastar com
+estes preambulos dez paginas, pelo menos. N&atilde;o o fiz,
+e tu accusas-me! Para te castigar n&atilde;o devia dizer nem
+mais uma palavra.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! por amor de Deus, continue v. ex.<sup>a</sup> como
+quizer; estou prompto a admirar tudo quanto eu n&atilde;o
+entender, nem v. ex.<sup>a</sup> tambem. Estou esperando.<br />
+
+<br />
+
+<h3>V</h3>
+
+<br />
+
+&laquo;Nasci, continuou a bolsa, e a minha vista n&atilde;o
+encontrou
+nada que a ferisse, nada que lhe repugnasse
+no quarto onde eu viera &aacute; luz. No movel mais insignificante
+se denunciava a riqueza e bom gosto dos donos
+da casa. Eu repousava mollemente no collo da minha
+dona, e os meus membros recem-nascidos sentiram
+logo o suave contacto da seda. Um alegre raio de sol
+entrava pela janella, acariciava o meu corpinho verde,
+e fazia resplandecer as minhas borlas doiradas. As agulhas
+repousavam ao meu lado, contemplando curiosamente
+a obra prima que tinham acabado de produzir.
+A gentil habitante do quarto beijava-me carinhosamente
+e, beijando-me, murmurava estas palavras que eu conservei
+de c&oacute;r:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Vae, pobre bolsinha, repousar sobre o
+cora&ccedil;&atilde;o
+<span class="pagenum">[124]</span>d'aquelle a quem
+tanto amo. Conserva a impress&atilde;o dos
+meus beijos, e, quando elle te approximar do rosto,
+oh! anima-te, por um milagre de amor, e s&ecirc; tu a mensageira
+d'estes osculos que eu te confio. Dize-lhe, conta-lhe
+que em segredo trabalhava em te fazer
+<em>coquette</em>,
+elegante, para seres digna d'elle. Olha, l&ecirc; bem no fundo
+do meu cora&ccedil;&atilde;o, para poderes narrar ao meu esposo
+os thesouros de affecto que em mim se abrigam. Vae,
+e Deus queira que elle te ache a seu gosto, e te fa&ccedil;a
+um bom acolhimento.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;N'este momento um rapaz, cujo labio superior era
+levemente assombreado por um bigodinho nascente,
+entrou, e, dirigindo-se &aacute; minha dona, beijou-a com ternura.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Que deliciosa bolsinha tu tens no collo!&#8213;disse-lhe
+elle. Foi presente ou compra?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Agrada-te?&#8213;tornou ella, contemplando-o meigamente.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Acho-a lindissima.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;&Eacute; tua.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Minha?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Tua, sim. N&atilde;o te lembras que dia &eacute;
+hoje? Completas
+vinte e dois annos. Trabalho ha oito dias a furto
+para te dar este presente. Sorria-me s&oacute;sinha, quando
+pensava na surpreza que te ia causar, quando te d&eacute;sse
+a bolsa, e, saltando-te ao pesco&ccedil;o, te dissesse
+alegremente:&#8213;Ahi
+tens um presente da tua querida mulher,
+&eacute; para v&ecirc;res que pensa sempre em ti.&#8213;E
+ent&atilde;o agora
+n&atilde;o mere&ccedil;o um beijo em paga?<br />
+
+<br />
+
+&laquo;E a galante senhora, unindo a ac&ccedil;&atilde;o
+&aacute; palavra, tinha-se
+pendurado no pesco&ccedil;o de seu marido, e contemplava-o
+com olhos humidos de ternura.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[125]</span>
+&laquo;Elle estreitou-a meigamente, e disse-lhe ao ouvido
+baixinho, e beijando-lhe os cabellos:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Amo te, meu anjo da guarda!
+Amo-te e sou feliz,
+feliz com o teu amor.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;E isso &eacute; dito com sinceridade?&#8213;perguntou ella,
+sorrindo, trav&ecirc;ssa.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;N&atilde;o sou eu quem falla, &eacute; o
+cora&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Sim? Sobre esse cora&ccedil;&atilde;o &eacute;
+que eu quero que
+esta bolsa ande sempre! Advirto-te que tenho dentro
+d'ella um genio familiar que me obedece, que ha de
+l&ecirc;r atravez do teu peito, e que me ha de vir contar os
+segredos que tu julgares mais reconditos. Acceitas?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Que remedio, meu anjo! Venha esse gentil
+espi&atilde;o,
+cuja c&ocirc;r me anima j&aacute;, porque &eacute; a
+c&ocirc;r da esperan&ccedil;a.
+Hei de lhe dar o observatorio mais commodo que
+o meu casaco lhe pod&eacute;r proporcionar; telescopios
+n&atilde;o
+devem ser necessarios a quem possue a vista subtil
+dos espiritos. Mas por cavilloso o declaro, se elle descobrir
+no meu cora&ccedil;&atilde;o outra estrella que n&atilde;o
+seja a tua
+imagem.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;N&atilde;o g&oacute;sto da
+compara&ccedil;&atilde;o; as estrellas s&atilde;o sempre
+offuscadas umas pelas outras.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Mesmo quando essa estrella se chama
+<em>Venus</em>?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Viva! O meu maridinho a fazer madrigaes! Queres
+que eu continue no mesmo tom? Dir-te-hei n'esse
+caso que a Venus, mais do que a qualquer outra, succede
+o que acabei de dizer. &Aacute; tarde vem a lua offuscal-a,
+pela manh&atilde; o sol.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;N&atilde;o, minha querida, n&atilde;o
+succeder&aacute; assim comtigo.
+Sempre viva, sempre pura a tua imagem resplandecer&aacute;
+no meu peito. &Eacute; isto o que a tua bolsa te ha
+de dizer constantemente.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[126]</span>
+&#8213;&laquo;Querido Eduardo!<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Querida Camilla!<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Amo-te!<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Adoro-te!<br />
+
+<br />
+
+&laquo;E foi assim que eu passei das m&atilde;os da loira
+Camilla
+para as m&atilde;os do moreno Eduardo.<br />
+
+<br />
+
+<h3>VI</h3>
+
+<br />
+
+&laquo;N&atilde;o tive ras&atilde;o de queixa. O meu dono
+trazia-me nas
+palminhas. Quando sa&iacute;a occupava sempre um logar de
+honra na algibeira do casaco, e alli ia eu, sentindo pulsar
+o cora&ccedil;&atilde;o de Eduardo, regalando-me, porque
+estavamos
+no inverno, de caminhar bem abafadinha e conchegada,
+em quanto muitas das minhas irm&atilde;s estariam
+talvez tiritando de frio nas algibeiras rotas dos seus
+possuidores. Que justo orgulho se apoderava de mim,
+quando Eduardo, sacando-me negligentemente para fazer
+alguma compra, me collocava em cima do balc&atilde;o;
+como todos olhavam cubi&ccedil;osamente para as minhas
+f&oacute;rmas
+arredondadas, e que bello effeito que eu produzia
+com as libras que fulgiam atravez dos intersticios da
+seda.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Nunca me ha de esquecer a cara de piedade que
+fez a bolsa de um empregado publico, a quem o acaso
+colloc&aacute;ra junto de mim. Era uma bolsinha de l&atilde;,
+t&atilde;o
+magra, t&atilde;o magra, t&atilde;o escorrida que mettia
+d&oacute;. Uns
+pobres meios tost&otilde;es escondiam-se envergonhados no
+fundo, e alvejavam tristemente, aborrecidos da sua solid&atilde;o.
+A pobre bolsa olhou para mim com uma certa
+inveja, e n&atilde;o me dirigiu palavra. O dono da loja
+cumprimentou-me
+<span class="pagenum">[127]</span>respeitosamente, e
+desviou com desdem
+a minha visinha. Ella n&atilde;o ousou protestar, e
+p&ocirc;z-se de
+parte, esperando que eu me dignasse voltar ao meu
+alojamento ambulante! E eu ria-me e pavoneava-me
+toda ufana! Mal sabia que ainda havia de passar pelas
+mesmas humilha&ccedil;&otilde;es!<br />
+
+<br />
+
+&laquo;E o caso &eacute; que eu suppunha que todos esses
+cumprimentos
+eram devidos &aacute; minha gentileza, &aacute; formosura
+da minha c&ocirc;r! E Eduardo julgava egualmente que era
+a influencia, que a sua pessoa exercia, a causadora das
+humilha&ccedil;&otilde;es, do servilismo que o rodeavam!
+Eduardo
+attribuia a si o que a mim era devido. Eu attribuia a
+mim o que era devido &aacute;s libras que eu abrigava, e as
+libras tambem attribuiram a si o que se devia simplesmente
+&aacute; somma de g&oacute;zos que ellas proporcionam. Todo
+o homem se adora a si mesmo nos objectos perante os
+quaes se curva. O &laquo;eu&raquo; &eacute; o idolo
+constante da humanidade.
+O egoismo &eacute; o seu unico motor.&raquo;<br />
+
+<br />
+
+E n'este ponto a bolsa philosophica soltou um profundo
+suspiro.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;&Aacute; noite, continuou ella, repousava dentro da
+gaveta
+de uma linda secret&aacute;ria de pau rosa, e alli ficava
+at&eacute;
+pela manh&atilde; tagarellando com umas cartas de amores,
+minhas visinhas, que me contavam os mil deliciosos
+segredinhos que lhes tinham sido confiados; e n'esta
+doce pratica voavam para mim as lentas horas da noite.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Comtudo, eu come&ccedil;ava a presentir o meu futuro
+destino. Eduardo era o que vulgarmente se chama uma
+cabe&ccedil;a de vento. Frequentes vezes, e com as melhores
+inten&ccedil;&otilde;es d'este mundo, se esquecia de mim, e me
+deixava
+ficar &aacute; noite em cima da meza, em vez de me
+conduzir &aacute; minha deliciosa alcova da secret&aacute;ria.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[128]</span>
+&laquo;Uma vez, tendo acabado de fazer umas compras,
+deixou-me em cima do balc&atilde;o. N&atilde;o posso explicar a
+impress&atilde;o
+dolorosa que senti quando o vi desviar-se distrahidamente,
+e quando reparei, olhando em torno de
+mim, nos &aacute;vidos olhares dos caixeiros. Segui-os tristemente
+com a vista, e j&aacute; me ia a despedir d'elle para
+sempre, quando Eduardo, chegando &aacute; porta, mostrou
+recordar-se de alguma coisa, e, voltando se precipitadamente,
+correu ao balc&atilde;o. Deu logo com a vista em mim,
+que estava toda tremula de alegria, e, beijando-me fervorosamente,
+escondeu-me no seio.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Infelizmente nem sempre lhe succederia isso.<br />
+
+<br />
+
+<h3>VII</h3>
+
+<br />
+
+&laquo;Uma vez (sempre me hei de lembrar d'este dia nefasto)
+Eduardo, estando a fazer umas contas, tirou me
+da algibeira e p&ocirc;z-me em cima da secret&aacute;ria.
+Depois,
+a pouco e pouco, foi amontoando os papeis em cima de
+mim, de f&oacute;rma que eu j&aacute; parecia um pobre
+Enc&eacute;ladosinho
+de seda, debaixo de um Etna de papelada.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Quando acabou o que tinha que fazer, Eduardo levantou-se,
+e, como estivesse tocando a sineta para o
+jantar, foi para a meza e n&atilde;o se lembrou mais da pobre
+bolsa.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Por infelicidade, na vespera,
+tinham os donos da
+casa recebido a visita de uma joven viuva, muito galante,
+muito <em>coquette</em>, e que parecia
+desejar jungir ao
+seu carro de triumpho o marido de Camilla, sobre quem
+n&atilde;o se cansava de experimentar o effeito dos seus olhares
+cheios de fogo e de estrategia. Eduardo, como podem
+<span class="pagenum"><a name="p129">[129]</a></span>
+imaginar, nem
+repar&aacute;ra
+em semelhante coisa; por&eacute;m
+sua esposa, com a perspicacia de mulher, adivinh&aacute;ra
+tudo, e sentira o ciume, n&atilde;o digo bem, o despeito
+apoderar-se d'ella. N&atilde;o sei a que proposito, Eduardo
+me f&ocirc;ra buscar, e a joven
+viuva mostrou desejo de
+me v&ecirc;r. Eduardo entregou-me cortezmente nas m&atilde;os
+da
+baroneza (a viuva era baroneza) e os dedos involuntariamente
+encontraram os dedos da gentil
+<em>coquette</em>. Um
+raio de indigna&ccedil;&atilde;o fusilou nos olhos de Camilla,
+a baroneza
+sorriu-se, Eduardo ficou impassivel, e eu previ
+uma proxima tempestade.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Por isso, e apesar da m&atilde;o da baroneza ser
+t&atilde;o delicada
+e macia como a da minha creadora, apesar dos
+elogios que ella me prodigalisou, eu n&atilde;o fiquei satisfeita
+sen&atilde;o quando me vi livre da sua analyse.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Mas d'esta vez foi a m&atilde;o de Camilla quem me
+recebeu.
+Rapidos como o relampago, os dedos elegantes,
+que me tinham lan&ccedil;ado ao <a href="#e11">mundo</a>,
+adivinharam,
+antes
+d'ella a executar, a ten&ccedil;&atilde;o que a baroneza
+form&aacute;ra de
+me entregar ao meu dono, e apressaram-se em preceder
+a m&atilde;o solicita de Eduardo.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Devo confessar que, desde essa visita fatal, o bom
+humor de Camilla alter&aacute;ra-se sensivelmente,
+altera&ccedil;&atilde;o
+cujas consequencias Eduardo soffria com grande pasmo
+seu. N&atilde;o podia comprehender o azedume que sentia em
+todas as palavras de Camilla, e, muitas vezes, espreitando
+pelo buraco da fechadura da minha gaveta, o vi
+de pernas cruzadas, e em attitude meditativa, perguntando
+a si mesmo quaes seriam os d&iacute;abos
+azues que
+atormentavam sua esposa, e a elle por conseguinte.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Depois de jantar, os dois esposos vieram tomar
+caf&eacute;
+para o sitio onde eu estava; a conversa que se trav&aacute;ra
+<span class="pagenum">[130]</span>entre elles
+affrouxava a cada instante, porque os esfor&ccedil;os
+que Eduardo fazia para a sustentar eram completamente
+infructiferos, por causa da sequid&atilde;o das
+respostas de Camilla.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Acabaram de tomar o caf&eacute;, e Camilla foi
+encostar-se
+&aacute; janella.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Est&aacute; uma tarde t&atilde;o bonita!&#8213;disse
+Eduardo,
+n&atilde;o queres aproveitar este lindo dia de inverno para
+ires v&ecirc;r os campos, que est&atilde;o experimentando
+j&aacute; os
+mantos verdejantes com que h&atilde;o de comparecer na
+festa annual da primavera?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Est&aacute; estragando comigo a sua poesia, respondeu
+Camilla seccamente, guarde-a para as pessoas que
+quizer deslumbrar. Isso era bom quando me fazia a
+c&ocirc;rte.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;E n&atilde;o sou eu sempre o mesmo, Camilla; deixaste
+tu um instante s&oacute; de ser a noiva gentil que eu
+adorei, que adoro, e que sempre hei de adorar? N&atilde;o
+sou eu sempre o namorado solicito dos primeiros tempos?
+Isso, a que se deu, por conven&ccedil;&atilde;o, o triste nome
+de prosa do casamento, teve nunca entrada nos nossos
+cora&ccedil;&otilde;es?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! Ah! que differen&ccedil;a! O que me dizia ent&atilde;o:
+&laquo;Oh! nunca me hei de separar de ti! Hei de estar
+sempre ao teu lado! Que valor tem o mundo inteiro
+junto do teu olhar?&raquo; E agora sae quando lhe parece,
+anda por f&oacute;ra o tempo que quer, demora-se a conversar
+com os amigos; porque sua mulher, essa n&atilde;o serve
+sen&atilde;o para estar n'um canto da casa, &aacute; espera que
+o
+<em>senhor</em> lhe fa&ccedil;a a esmola
+da sua presen&ccedil;a. N&atilde;o &eacute; porque
+eu me importe com isso! Eu, sim! &Eacute;-me completamente
+indifferente! Nunca estou melhor do que quando
+<span class="pagenum"><a name="p131">[131]</a></span>est&aacute;
+longe de mim! Olhe, d'isso
+p&oacute;de estar certo! Se
+fallei, foi porque me enraiveceu a sua hypocrisia.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Quanto &eacute;s injusta, Camilla! Pois eu
+n&atilde;o desdenho
+tudo, tudo n'este mundo para estar junto de ti;
+n&atilde;o prefiro a todos os v&atilde;os divertimentos, a
+todos os
+prazeres a nossa deliciosa intimidade? E, quando os
+meus negocios me chamam f&oacute;ra de casa, n&atilde;o me
+affasto
+de ti t&atilde;o penalisado, e n&atilde;o aproveito a primeira
+occasi&atilde;o de me desembara&ccedil;ar d'elles para correr
+alegre,
+satisfeito, risonho, a abra&ccedil;ar-te, a beijar-te, a
+testemunhar-te
+o immenso e inalteravel affecto que te
+consagro?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Negocios! que grandes negocios que tem! Quaes
+s&atilde;o elles? Talvez ir visitar a baroneza!<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Eduardo levantou-se, olhou fixamente para sua mulher,
+e disse:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;A baroneza! A baroneza, porqu&ecirc;?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Foi a primeira pessoa que me lembrou, tornou
+Camilla, fazendo-se ligeiramente c&oacute;rada.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Nada! Isso &egrave; um tanto inverosimil.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Inverosimil, porqu&ecirc;?&#8213;tornou Camilla,
+<a href="#e12">irritando-se</a>
+e fazendo-se vermelha de despeito. Talvez imagine
+que eu tenho ciumes do senhor. Que vaidade t&atilde;o louca!
+que presump&ccedil;&atilde;o! Que fatuidade! Ora esta! como
+logo
+supp&ocirc;z que eu era ciumenta!<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Mas, filha...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Ciumenta e de quem? Ah! Ah! Ah! &eacute; de um
+ridiculo incrivel! N&atilde;o querem v&ecirc;r o formoso
+Richelieu,
+que anda semeando paix&otilde;es por toda a parte! E julga
+talvez que eu me importo com semelhante coisa! Namore
+&aacute; sua vontade! Fa&ccedil;a o que quizer! Esteja certo
+que nunca me ha de dar cuidado! conven&ccedil;a-se... entendeu?
+<span class="pagenum">[132]</span>Conven&ccedil;a-se
+bem de que nunca tive ciumes
+do senhor, porque eu nunca o amei. Foi uma
+predilec&ccedil;&atilde;o
+passageira! Foi um capricho de que me arrependo!<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Parece-me comtudo, tornou Eduardo ferido no
+seu amor proprio, que a uni&atilde;o eterna de duas pessoas
+n&atilde;o &eacute; coisa t&atilde;o ligeira que se possa
+decidir levianamente,
+e, se n&atilde;o sentias por mim o amor immenso que
+eu te consagrava, mais valia que me despeda&ccedil;asses o
+cora&ccedil;&atilde;o, do que me dirigisses agora essas
+palavras
+amargas.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Ent&atilde;o chegou o momento! Sempre fica sabendo
+que se enganou; quando supp&ocirc;z que eu tinha ciumes
+da baroneza.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Mas foi coisa em que n&atilde;o fallei, filha, bradou
+Eduardo um pouco impacientado.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Bem o deu a entender! N&atilde;o o disse, mas
+pensou-o.
+E ent&atilde;o escolheu bem a pessoa que me poderia
+tornar zelosa! A baroneza, uma tola presumida, uma
+<em>coquette</em> insupportavel, que
+n&atilde;o tem nem belleza, nem
+espirito, nem gra&ccedil;a, nem elegancia, mas que possue
+em compensa&ccedil;&atilde;o uma vaidade immensa.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Pobre baroneza!<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Defenda-a, ande! ent&atilde;o porque a n&atilde;o
+defende?
+&Eacute; o que lhe falta unicamente! Ouse tomar, deante de
+sua esposa, o partido de uma mulher como &eacute; a baroneza.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Ih! Jesus! Camilla! Eu n&atilde;o tomo a defeza de
+pessoa alguma. Mas tu fallas da pobre senhora, como
+se lhe tivesses um odio mortal.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;E tenho, bradou Camilla, erguendo-se com os
+dentes cerrados e os olhos fusilantes, tenho odio a essas
+mulheres de maneiras affectadas, de olhares languidos,
+<span class="pagenum">[133]</span>de vistas
+fascinadoras, deslumbrantes na apparencia,
+grosseiras na realidade, a quem os homens seguem
+tolamente, como as borboletas seguem a luz, ainda que
+essa luz emane de uma candeia afumada. Quando ella
+hontem quiz v&ecirc;r a bolsa que eu fizera, tive
+tenta&ccedil;&otilde;es
+de a rasgar, para lhe poupar uma profana&ccedil;&atilde;o. E a
+proposito,
+onde a tens tu?<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Eduardo, ao ouvir esta pergunta, que parecia dever
+servir de transi&ccedil;&atilde;o para uma
+conversa&ccedil;&atilde;o mais serena,
+come&ccedil;ou-me a procurar alegremente por todas as algibeiras.
+O acaso f&ocirc;ra-me collocar muito mirrada na extremidade
+da secret&aacute;ria. No remexer dos papeis eu tinha
+quasi caido ao ch&atilde;o; felizmente ou infelizmente,
+um resalto da secret&aacute;ria tinha-me retido, e eu alli
+fic&aacute;ra
+suspensa por uma das borlas, estando esta de
+mais a mais completamente occulta por um fragmento
+microscopico de papel. Da posi&ccedil;&atilde;o em que eu
+estava,
+podia v&ecirc;r e ouvir tudo, sem que ninguem me pod&eacute;sse
+divisar.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Quando Eduardo come&ccedil;ou a revolver as algibeiras
+n&atilde;o pude deixar de me rir. Era t&atilde;o comico o
+espanto
+d'elle, quando, depois de ter esquadrinhado minuciosamente
+todos os cantos do seu fato, n&atilde;o encontrava
+coisa alguma, que eu, ignorando ainda quaes seriam
+as consequencias d'aquella scena, ria-me a fartar.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Camilla contemplava-o com um sorriso ironico, e
+batendo o compasso com o p&eacute; no sobrado da sala.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Talvez lhe esquecesse l&aacute; por
+f&oacute;ra!&#8213;disse ella,
+accentuando muito as palavras.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;&Eacute; impossivel; lembro-me perfeitamente de a ter
+n'esta algibeira. J&aacute; depois de estar em casa eu a vi, e
+at&eacute; lhe peguei.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[134]</span>
+&#8213;&laquo;Talvez a tivesse confiado a alguem!&#8213;tornou
+Camilla com o mesmo sorriso estereotypado nos labios.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;A quem?&#8213;perguntou Eduardo com a maior ingenuidade.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Eu sei! A alguem que a visse, que gostasse
+d'ella, e que a desejasse conservar por algum tempo.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Ora essa! N&atilde;o p&oacute;des supp&ocirc;r
+que eu fizesse tal!<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;E porque n&atilde;o? Os homens julgam que tudo lhes
+&eacute; permittido.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Mas Eduardo n&atilde;o a ouvia. Tinha-se recordado das
+contas que fizera, e tinha corrido a revolver os papeis
+que estavam em cima da secret&aacute;ria. Eu, que via a
+m&aacute;
+figura que o negocio ia tomando, n&atilde;o desgostei de que
+elle tomasse aquella resolu&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Comtudo, debalde Eduardo deitou ao meio do ch&atilde;o
+toda a papelada com uma impaciencia febril, debalde
+tentou, depois de os ter reunidos, separal-os um a um.
+Eu n&atilde;o apparecia; preza na minha esquininha, sem poder
+revelar por f&oacute;rma alguma onde estava, assisti, espectadora
+muda mas n&atilde;o indifferente, &aacute;quella
+ca&ccedil;ada
+f&eacute;rvida, em que tanto interesse tinham em se encontrar
+a ca&ccedil;a como o ca&ccedil;ador, mas que apesar d'isso
+ficava
+sem resultado. Vi os papeis, impellidos pela m&atilde;o
+de Eduardo, revolutearem nos ares em torno de mim,
+senti a sua m&atilde;o impaciente pousar em cima das minhas
+borlas, sem saber que estava a meia pollegada de distancia
+da extremidade dos seus dedos o objecto que
+tanto procurava. E elle bafejava-me com o halito e n&atilde;o
+tinha um presentimento que o advertisse, desviava com
+a m&atilde;o tremula os papeis que me encobriam, e de nenhum
+d'elles saia uma voz mysteriosa que lhe dissesse:
+<span class="pagenum">[135]</span>
+&laquo;Para conseguires esse thesouro, que tu pagarias agora
+com dez annos da tua vida, basta-te abaixar a cabe&ccedil;a,
+e estender a m&atilde;o.&raquo;<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Finalmente Eduardo, pallido, com a fronte inundada
+de suor, deixou-se cair prostrado em cima de uma cadeira,
+e dirigindo-se a sua mulher, disse com voz sumida:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Creio que a perdi.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Camilla n&atilde;o se p&ocirc;de conter. As
+lagrimas, tanto tempo
+retidas, rebentaram finalmente, e inundaram-lhe as
+faces.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Era isso que eu esperava havia muito tempo,
+bradou ella com voz entrecortada. Eis a resposta com
+que n&atilde;o s&oacute; pagam a minha
+dedica&ccedil;&atilde;o, mas tambem com
+que pretendem illudir a minha boa f&eacute;. Anda! trabalha
+com amor, com alegria, despende n'essa pobre bolsinha
+thesouros de affecto, sorri s&oacute; ao pensares que essa
+obra das tuas m&atilde;os vae ser a constante companheira
+d'aquelle em que tu s&oacute; pensas, por quem tu s&oacute;
+vives,
+cuja appari&ccedil;&atilde;o te enche de prazer, cuja ausencia
+te faz
+ficar immensamente triste. Ai! quanto te illudes, pobre
+louca, esse teu mimo ha de ser desprezado, porque tu
+tens esse titulo malfadado de esposa, e o amor conjugal
+&eacute; uma coisa altamente ridicula. Acceitam com desdem
+o teu presente, e v&atilde;o depressa offerecel-o &aacute;
+primeira
+namoradeira que prender, nas suas r&ecirc;des vulgares,
+a ave fugida do ninho da familia, ninho cuja pris&atilde;o
+lhe &eacute; insupportavel. Devia ser esta a minha sorte. Ninguem
+se exime a ella.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Ih! Jesus! Ih! Jesus!&#8213;dizia o pobre Eduardo
+com as m&atilde;os na cabe&ccedil;a; mas, filha... eu sou um
+estouvado...
+a bolsa ha de estar por ahi... Da nefanda
+<span class="pagenum"><a name="p136">[136]</a></span>trai&ccedil;&atilde;o
+de que me accusas &eacute; que sou
+completamente
+incapaz.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Trai&ccedil;&atilde;o!&#8213;tornava Camilla
+procurando, sem o
+conseguir, conter o pranto; p&oacute;de-me trahir &aacute; sua
+vontade
+que me &eacute; completamente indifferente. Engana-se
+se julga que eu d&ecirc; o menor apre&ccedil;o &aacute; sua
+fidelidade.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Mas n'esse caso porqu&ecirc;?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Cale-se! Diga-me: zombaram bastante de mim?
+Riram-se das minhas creancices? Quantas caricias lhe
+valeu esse sacrificio t&atilde;o pouco custoso?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Isto &eacute; demais!
+Juro-te...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Cale-se. Quanto mais jura mais mente. Tambem
+me jurou amor eterno, e...<br />
+
+<br />
+
+&laquo;E a pobre senhora desatou a solu&ccedil;ar, e caiu
+sentada
+n'uma cadeira. Eduardo, com as lagrimas nos olhos,
+ajoelhou aos p&eacute;s d'ella, e exclamou com voz commovida:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Camilla, n&atilde;o chores que me
+despeda&ccedil;as o cora&ccedil;&atilde;o.
+Sou um grande criminoso, mas n&atilde;o mere&ccedil;o castigo
+t&atilde;o cruel. Bem sabes que o amor que te consagro
+&eacute; immenso, &eacute; exclusivo, e que, desde que te
+conhe&ccedil;o,
+nunca mais ergui os olhos para outra mulher. Camilla...<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Mas esta levantou-se enxugando as lagrimas, e disse-lhe
+com modo friamente <a href="#e13">desdenhoso</a>:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Aproveite a inspira&ccedil;&atilde;o para algum
+arrufo que tiver
+com a baroneza.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;E saiu da sala, deixando ficar o pobre Eduardo com
+um joelho no ch&atilde;o, as m&atilde;os erguidas, a bocca
+aberta,
+espantado, aterrado, paralysado, petrificado, estupefacto!<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Finalmente levantou-se, dirigiu-se de novo &aacute;
+secret&aacute;ria, <span class="pagenum">[137]</span>e
+procurou
+entre os papeis. Com o revolver ca&iacute;ram
+alguns, e eu ca&iacute; d'envolta com elles; o acaso fez-me
+ainda ficar t&atilde;o mirrada entre duas folhas, que,
+quando Eduardo veiu procurar ao ch&atilde;o, escapei com
+grande desespero meu &aacute;s suas pesquizas. Um tal accesso
+de desespero se apoderou do meu dono, que,
+pegando n'um grande m&oacute;lho de papeis, no meio dos
+quaes ia eu, sem elle o saber, amachucou-o, e depois
+enraivecido, atirou-o pela janella f&oacute;ra. O vento desfez
+o m&oacute;lho, e n'este instante ouvi dois gritos, um de Eduardo,
+outro de Camilla, que estava n'uma outra janella
+por traz dos vidros.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;O vento forte que soprava, tinha-me separado dos
+papeis, meus involuntarios carcereiros, eu ca&iacute;a
+magestosamente
+isolada, &aacute; vista dos dois conjuges, sobre as
+pedras da rua.<br />
+
+<br />
+
+<h3>VIII</h3>
+
+<br />
+
+&laquo;Nunca vim a saber o que se pass&aacute;ra na casa,
+d'onde
+f&ocirc;ra t&atilde;o bruscamente e t&atilde;o
+involuntariamente expulsa!
+Apenas eu ca&iacute;ra no ch&atilde;o, um gaiato de
+p&eacute; descal&ccedil;o,
+que passava por acaso, abaixou-se, apanhou-me, e largou
+a correr, apertando-me nas m&atilde;os, com uma tal velocidade,
+que, por mais ligeiro que fosse Eduardo em
+me vir apanhar, logo percebi que n&atilde;o havia
+esperan&ccedil;a
+alguma de que o conseguisse.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;A corrida era desenfreada. Apertada na m&atilde;o
+callosa
+do garoto, eu, habituada ao fino contacto das m&atilde;os
+aristocraticas, que at&eacute; ahi me tinham manuseado, sentia
+d&ocirc;res atrozes, e uma profunda
+humilha&ccedil;&atilde;o. Eu, a
+favorita dos opulentos, tratada assim t&atilde;o
+irreverenciosamente
+<span class="pagenum">[138]</span>por um rapaz
+pertencente &aacute; escoria da sociedade!
+Ao meu passado de gavetas de secret&aacute;rias, de
+soph&aacute;s, de divans, de tapetes, ia succeder um futuro
+de palheiro, de cal&ccedil;as esfarrapadas, de degraus humidos
+de escadarias. As feridas abertas na minha pelle,
+t&atilde;o cuidadosamente curadas e cicatrisadas pela minha
+senhora, iam agora ser abandonadas, e talvez alargadas
+pelos dedos trav&ecirc;ssos do rapaz da rua. Tudo isto ia eu
+pensando, em quanto o meu roubador corria a bom
+correr, primeiramente pelas ruas da cidade, e depois j&aacute;
+pelo campo.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Ninguem se tinha importado com elle. Um rapaz
+descal&ccedil;o &aacute; desfilada, n&atilde;o &eacute;
+um caso t&atilde;o grave, e t&atilde;o
+raro, que os encarregados da policia descessem da sua
+dignidade, para inquirirem o que motiv&aacute;ra a carreira
+despedida em que elle ia.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Chegou ao p&eacute; de uma fonte, e, pensando
+provavelmente
+que j&aacute; estava f&oacute;ra do alcance dos seus
+perseguidores,
+entendeu que podia descan&ccedil;ar. Por conseguinte
+estirou-se em cima da relva, e tirando da algibeira
+um len&ccedil;o muito esfarrapado, come&ccedil;ou a limpar o
+suor que lhe escorria pelas faces.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Estavamos j&aacute; nos primeiros dias da primavera, e
+os
+campos revestiam-se de um manto verdejante, que os
+malmequeres e as boninas esmaltavam. A agua da fonte
+corria com um doce murmurio, e myriades de insectos
+com as azinhas doiradas pelo sol, esvoa&ccedil;avam zumbindo
+pelo prado. O s&ocirc;pro, mysteriosamente vivificador da
+primavera, percorria a crea&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;O meu novo possuidor deitara-se, como j&aacute; disse,
+em cima da relva, e colloc&aacute;ra-me ao seu lado. Para mim
+tudo quanto me rodeava era completamente novo. Eu
+<span class="pagenum">[139]</span>nunca tinha
+sa&iacute;do da cidade, e o aspecto dos campos
+enchia-me de prazer. Parecia-me que respirava um outro
+ambiente, que via um c&eacute;o mais largo, mais azul!
+Um enchame de novas sensa&ccedil;&otilde;es se agitava dentro
+de mim.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Assim estava eu boqui-aberta, olhando para tudo
+com uma alegre curiosidade. As feveras da herva que
+se agitavam em torno, mettiam as suas cabecinhas tambem
+curiosas pelos intersticios da seda, afim de observarem
+que monstro desconhecido eu era. As boninas
+<em>coquettes</em> como todas as
+fl&ocirc;res, mostravam-me com desvanecimento
+a sua formosura, para verem se d'ellas me
+enamorava. Era a tenta&ccedil;&atilde;o que todas as formosas
+sentem,
+de fascinar os estrangeiros. Os dois proverbios:
+&laquo;Ninguem &eacute; propheta na sua terra&raquo;
+&laquo;Santos de casa
+n&atilde;o fazem milagres&raquo;, s&atilde;o, n'este caso,
+da mais escrupulosa
+exactid&atilde;o. As abelhas, que vem de f&oacute;ra, extrahem
+mais depressa a essencia das fl&ocirc;res, do que as que
+pertencem &aacute; colmeia do jardim.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Eu sentia correr um indizivel murmurio pelo prado.
+O vento, acamando a relva e as florinhas, perguntava-lhes,
+no seu dialecto incomprehensivel, que v&oacute;s n&atilde;o
+entendeis, mas que para todas n&oacute;s &eacute; clarissimo,
+quem
+era a recem-chegada. E os bichinhos pequeninos que
+arfavam debaixo de mim, respondiam que era o Hymalaia,
+e os insectos zumbidores respondiam que era uma
+grande fl&ocirc;r verde com estames de oiro.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;O que &eacute; certo &eacute; que eu
+consubstanciava-me de todo
+com a relva que me cercava. Egualmente verde, n&atilde;o
+transtornava em nada a unidade do tapete, e as minhas
+borlas de oiro matizavam-n'o agradavelmente.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Assim estava n'aquelle <em>dolce
+farniente</em>, e confesso <span class="pagenum"><a name="p140">[140]</a></span>que,
+apesar de me lembrar de vez em <a href="#e14">quando</a>
+dos donos
+que me eram t&atilde;o affei&ccedil;oados, e de quem me tinha
+separado, as saudades que sentia eram attenuadas pelo
+prazer completamente novo que me embriagava.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Mas aquelle ocio n&atilde;o podia durar sempre. O
+Tytiro,
+que me apanh&aacute;ra, n&atilde;o estava muito disposto a
+repousar
+<em>sub tegmine fagi</em>, mais do que
+convinha &aacute; sua indole
+vagabunda, e depois de ter saboreado, por espa&ccedil;o
+de dez minutos, quando muito, as delicias da
+posi&ccedil;&atilde;o
+horisontal succedendo &aacute; rapidez da corrida, levantou-se,
+dirigiu-se &aacute; fonte, encheu de agua a palma da
+m&atilde;o,
+disposta para esse fim, levou-a &aacute; bocca, bebeu, repetiu
+duas ou tres vezes esta opera&ccedil;&atilde;o, e depois,
+dirigindo-se
+a mim, levantou me do ch&atilde;o, e
+foi-me levando
+socegadamente pelos campos f&oacute;ra.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;&Eacute; tempo agora de descrever o meu novo dono. Era
+um rapazito dos seus quatorze annos, de rosto alegre
+e queimado, com uns olhos negros muito vivos e rasgados,
+uma bocca grande, que parecia estar sempre
+preparada para as gargalhadas. Todo o seu fato consistia
+n'umas cal&ccedil;as rotas, n'uma camisa muito suja, e
+n'uma jaqueta t&atilde;o arremendada, que era um verdadeiro
+mosaico, porque creio que tinha todas as c&ocirc;res do espectro
+solar, e todas as combina&ccedil;&otilde;es que com ellas se
+podem fazer. Um bonet, que estava rodeado por uma
+densa armadura de sebo, occupava o alto da cabe&ccedil;a;
+porque julgo n&atilde;o haver exemplo de ter sido collocado
+na posi&ccedil;&atilde;o habitual, e a testa do garoto, se lhe
+dissessem
+que este possuia um bonet, estou que ficaria summamente
+espantada.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;E l&aacute; ia elle por ahi f&oacute;ra,
+baloi&ccedil;ando o corpo a compasso
+de uma cantiga, devida ao seu genio musical, distrahindo-se
+<span class="pagenum"><a name="p141">[141]</a></span>no
+caminho a apanhar
+borboletas, a atirar
+pedras aos c&atilde;es, fugindo depois a bom fugir quando
+estes o perseguiam ladrando, trepando acima das arvores
+da estrada a espreitar se j&aacute; haveria ninhos entre
+os seus ramos, cobertos de novas folhas, e saltando os
+muros dos pomares, para se ir empoleirar nas larangeiras,
+trincando as laranjas verdes ou maduras, que
+se lhe deparavam.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Devo confessar que a minha situa&ccedil;&atilde;o
+durante estas
+excurs&otilde;es, motivadas pelos entretenimentos do meu
+dono, n&atilde;o eram das mais invejaveis, e que bastantes
+vezes amarguei o gosto que sentira, respirando o ar
+dos campos. Com effeito o gaiato attendia mais aos
+seus prazeres do que &aacute;s minhas commodidades, e nem
+posso descrever os sustos que curt&iacute;, quando os
+c&atilde;es
+corriam atraz de n&oacute;s, e que eu via os seus dentes agudos,
+que seriam capazes de me despeda&ccedil;ar n'um segundo;
+a triste impress&atilde;o que eu sentia, vendo as borboletas
+t&atilde;o gentis, t&atilde;o galantinhas, nas garras do seu
+ca&ccedil;ador cruel; as d&ocirc;res que me faziam os esgalhos
+das
+arvores, rasgando me sem piedade, em
+quanto elle subia&nbsp;<a href="#e15">descuidoso</a>,
+indifferente, affastando a
+ramar&iacute;a, para
+v&ecirc;r se, n'alguma verdejante alc&ocirc;va, n&atilde;o
+teria ido a carinhosa
+m&atilde;e dos passarinhos dep&ocirc;r o ber&ccedil;o
+gentil, que
+as auras embalariam.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Sobre tudo o que me atormentava era o costume
+que elle tinha de saltar os muros dos pomares para se
+ir sentar nas larangeiras, a fartar-se d'esses pomos que
+a antiguidade chamou aureos por serem vermelhos, e
+que o seu Cam&otilde;es asseverou terem<br />
+
+<br />
+
+<div class="poetry">
+<em>A c&ocirc;r que tinha Daphne nos
+cabellos</em>;</div>
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[142]</span>
+o que &eacute; pouco lisongeiro para a belleza d'essa nympha,
+que vinha a ser hyper-ruiva, se acreditarmos as
+asser&ccedil;&otilde;es
+do cantor dos <em>Lusiadas</em>.<br />
+
+<br />
+
+N'este ponto tornei eu a interromper a bolsa t&atilde;o prodiga
+em reflex&otilde;es.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O espanto, em que me colloca a sua erudi&ccedil;&atilde;o,
+impede-me
+de reprehender energicamente o tom com que
+falla n'essa gloria nacional. Mas diga-me, quem a fez
+t&atilde;o instruida?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o antecipemos os acontecimentos, como diria o
+visconde d'Arlincourt, respondeu-me a bolsa.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O qu&ecirc;? Pois tambem leu ou ouviu os romances
+do visconde d'Arlincourt?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ent&atilde;o! meu amigo, tornou-me a narradora, suspirando,
+nem tudo s&atilde;o rosas na instruc&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Bem, continue.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Como j&aacute; disse, esse costume do meu dono
+incommodava-me
+sobremaneira; porque a escalada tinha para
+mim todos os seus inconvenientes, e muitos mais, sem
+ter nenhuma das suas vantagens. Em primeiro logar a
+subida pelo muro era summamente incommoda; porque
+o bom do meu amigo, tendo todas as algibeiras
+rotas, e, por conseguinte, n&atilde;o me podendo confiar a
+nenhum d'esses toneis das Danaides, de que as suas
+cal&ccedil;as e a sua jaqueta estavam t&atilde;o amplamente
+providas,
+levava-me na m&atilde;o, apertava-me sem cerimonia de
+encontro ao muro, e esmagava-me, torturando ao mesmo
+tempo uma pobre meia cor&ocirc;a que eu tinha dentro
+de mim, e que eu sentia, de afflicta, resmungar no
+meu seio.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Depois, quando, &aacute; for&ccedil;a de trabalhos e
+de arranh&otilde;es,
+chegavamos ao cimo do muro, novos desastres nos esperavam.
+<span class="pagenum">[143]</span>Garrafas partidas
+formavam uma especie de
+negra palissada, dispostas d'aquella maneira para enterrar
+os seus dentes agudissimos nos aventureiros que
+intentassem a conquista. Mas o meu dono, que era, segundo
+parece, j&aacute; pratico n'aquelles assedios, tinha tomado
+as suas precau&ccedil;&otilde;es, e foi ent&atilde;o que eu
+vi que
+n&atilde;o era s&oacute; a quest&atilde;o das algibeiras
+que o inhibia de
+me resguardar, mas sim tambem uma quest&atilde;o de defeza
+propria. Eu, malfadada, servia-lhe de escudo! Eu
+era, para assim dizer, o
+<em>c&eacute;sto</em>, &aacute;
+sombra do qual o garoto
+jogava o murro com as paredes. N'uma das m&atilde;os
+ia eu, na outra o len&ccedil;o de assoar muito embrulhado.
+A m&atilde;o que eu protegia, era ainda assim a que estava
+resguardada melhor; porque o tal len&ccedil;o, para fallarmos
+verdade, parecia a moldura de um quadro ausente;
+um immenso rasg&atilde;o formado por uma multid&atilde;o de
+rasg&otilde;esinhos
+que se tinham annexado, occupava o centro-rodeado em toda a
+extens&atilde;o por uma pobre tira. Creio
+que a historia d'essa transforma&ccedil;&atilde;o se
+p&oacute;de explicar
+geographicamente. Imagine que o len&ccedil;o ao principio se
+assimilhava com aquelle territorio da America do Norte,
+onde existe o lago Ontario, cercado de muitos outros.
+Supponha que um grande cataclysmo rasgava os terrenos
+que separam esses lagos, e que as aguas trasbordando,
+e unindo-se, formavam um verdadeiro mar no
+genero do mar Caspio. Ahi tem o que succedeu com
+os rasg&otilde;es do len&ccedil;o do garoto.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;V. ex.<sup>a</sup> permitte-me, interrompi eu, que a
+proponha
+para socia do Instituto Geographico de Paris?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Muito obrigada! N&atilde;o estou agora decente para entrar
+n'uma academia.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pelo contrario, minha senhora, tornei eu, as bolsas
+<span class="pagenum">[144]</span>vasias devem ser
+da mesma f&ocirc;rma que as cabe&ccedil;as, as
+que mais depressa sejam admittidas n'essas sociedades
+s&aacute;bias. P&oacute;de continuar.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;N&atilde;o findavam aqui os meus soffrimentos.
+Experimentava
+alguns rasg&otilde;es, mas consolava-me com o pensamento
+de que o meu sacrificio era util &aacute;s m&atilde;os do
+meu dono, por quem eu professava uma secreta e inexplicavel
+sympathia. &Eacute; verdade que o demonico do rapaz
+parecia n&atilde;o se affligir muito com as arranhadellas
+que recebia. A m&atilde;o esquerda, confiada &aacute;
+protec&ccedil;&atilde;o nominal
+do len&ccedil;o de assoar, chegava toda em sangue, e
+isso, em vez de lhe diminuir a alegria, parecia augmentar-lh'a
+e dar melhor sabor &aacute;s laranjas com que se fartava.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Ahi se empoleirava elle, por conseguinte, sentando-se
+no ponto de uni&atilde;o de dois ramos, toucado de folhas,
+baloi&ccedil;ando os p&eacute;s no ar, e enviando as
+m&atilde;os em
+toda a direc&ccedil;&atilde;o, a fazerem uma atrevida
+<em>razzia</em> aos
+taes pomos de oiro do antigo jardim das Hesperides.
+E quer as laranjas estivessem ainda verdes, e por conseguinte
+amarellas (n'esse caso tem ras&atilde;o Cam&otilde;es e a
+antiguidade), quer estivessem j&aacute; em pleno sazonar, e
+por conseguinte trajassem a purpura que merecem,
+como rainhas que s&atilde;o de todas as fructas, o meu bom
+gaiato apanhava-as sempre com uma imparcialidade digna
+de especial men&ccedil;&atilde;o, e, ministro justiceiro dos
+negocios
+do seu estomago, escolhia para funccionarios todos
+os fructos, sem distinc&ccedil;&atilde;o de c&ocirc;res.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Era um bello espectaculo o d'esse rapazito r&ocirc;to,
+esfarrapado,
+mais feliz no seu throno de corti&ccedil;a do que
+os reis no seu throno de oiro, comendo as laranjas do
+proximo com mais satisfa&ccedil;&atilde;o, de certo, do que a
+que <span class="pagenum">[145]</span>
+sente o czar da Russia ao devorar o producto dos roubos
+de que &eacute; victima a infeliz Polonia.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Mas por fim de contas vinha a ser eu quem soffria
+as m&aacute;s consequencias dos prazeres do meu senhor.
+Para poder comer &aacute; sua vontade, o meu amigo largava-me
+e pendurava-me no primeiro ramo que lhe ficava
+&aacute; m&atilde;o. O vento baloi&ccedil;ava o ramo;
+&aacute;s vezes um gatinho,
+que andava passeiando por cima dos muros, vendo-me
+ondular na extremidade, saltava e principiava a brincar
+comigo. A isto reunia-se o susto de me v&ecirc;r n'uma
+altura para mim desmesurada. Era necessario que os
+latidos de um c&atilde;o de guarda viessem inquietar o meu
+dono, para que elle se lembrasse de me tirar da minha
+incommoda posi&ccedil;&atilde;o, afim de operar a sua retirada.
+<br />
+
+<br />
+
+J&aacute; v&ecirc;, por conseguinte, que a minha existencia
+aventurosa,
+se tinha as suas vantagens, tinha tambem os
+seus inconvenientes.<br />
+
+<br />
+
+<h3>IX</h3>
+
+<br />
+
+&laquo;O meu possuidor reconhecera, desde o primeiro momento,
+que eu n&atilde;o estava vasia, mas ainda se n&atilde;o dera
+ao trabalho de verificar a quanto montava a sua nova
+riqueza. Finalmente, depois de estar saciado de laranjas,
+can&ccedil;ado de trepar &aacute;s arvores, entendeu que era
+j&aacute;
+tempo de attender aos negocios do thesouro. Sentou-se
+por conseguinte n'uma pedra da estrada, abriu-me com
+toda a gravidade, e tirou de dentro triumphalmente a
+moeda de cinco tost&otilde;es.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Ol&aacute;! um
+<em>caiado</em>!&#8213;bradou elle com alegria, e
+para
+demonstrar melhor o seu regosijo entoou a aria da
+<em>Saloia</em>,
+e atirou comigo ao ar a uma distancia immensa,
+<span class="pagenum">[146]</span>
+com grande desespero meu, porque vim assustadissima,
+aos trambolh&otilde;es pelo espa&ccedil;o, cair na
+m&atilde;o aberta do garoto.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Este n&atilde;o ficou em
+contempla&ccedil;&atilde;o diante do seu thesouro;
+metteu o outra vez no sitio em que estava,
+levantou-se,
+e continuou o seu caminho, cantando com uma
+voz de Stentor, atirando comigo ao ar, e tomando, para
+me receber, attitudes de tambor-m&oacute;r.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;A estrada, que se ia approximando da cidade, ia
+sendo tambem mais frequentada. Os caminhantes multiplicavam-se,
+e as casas come&ccedil;avam a apparecer. Nem
+por isso o gaiato deixou de cantar a
+<em>Saloia</em> a plenos pulm&otilde;es,
+com grande escandalo das velhas sentadas nos
+degraus das portas, que acompanhavam cada estrophe
+da aria popular com um desafinadissimo c&ocirc;ro de
+impreca&ccedil;&otilde;es.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Valdevinos!&#8213;Bregeiro!&#8213;Gaiato sem emenda!&#8213;D'onde
+vens tu, maroto?&#8213;Ah! boa sova!&#8213;Fosse
+eu tua m&atilde;e que te havia de moer o corpo com
+pancadas!&#8213;S&oacute;
+se perdiam as que caissem no ch&atilde;o!&#8213;D'onde
+vens tu, desavergonhado, vens de roubar laranjas?&#8213;Tu
+vaes direitinho para o
+inferno!&#8213;<em>Berzabum</em> te valha,
+d&eacute;mo pequeno!&#8213;O descarado vem a cantar para
+quebrar a cabe&ccedil;a &aacute;s almas
+christ&atilde;s!&#8213;Quem te puzesse
+uma farda &aacute;s costas!<br />
+
+<br />
+
+&laquo;E outras amabilidades de egual jaez, a que elle
+s&oacute;
+respondia, grave e serenamente, com esta invariavel
+apostrophe:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Eh! bruxas!<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Quiz o acaso que passasse ao nosso lado um sujeito
+gordo, com umas barbas de phariseu, uns olhos esgazeados
+e orlados de vermelho, uma d'estas physionomias
+<span class="pagenum">[147]</span>baixamente
+orgulhosas, onde se l&ecirc; ao mesmo tempo
+o servilismo para com os poderosos, o desabrimento
+para com os humildes. Desbarretava-se at&eacute; ao ch&atilde;o
+quando passava alguma carruagem, onde ia pessoa conhecida
+d'elle, e correspondia ligeiramente &aacute;
+sauda&ccedil;&atilde;o
+dos pobres trabalhadores, que levantavam o chap&eacute;o,
+com aquelle ar gravemente cortez dos homens do
+campo, para lhe dizerem:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Guarde-o Deus, senhor Domingos Gil.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Para o meu gaiato, vel-o, e conceber a id&eacute;a de
+lhe
+fazer alguma, foi acto simultaneo. Com um sorriso malicioso
+nos labios enrolou-me na m&atilde;o muito bem enrolada,
+de sorte que s&oacute; ficasse de f&oacute;ra o sitio onde
+estavam
+os cinco tost&otilde;es, e approximando-se, p&eacute; ante
+p&eacute;,
+do empavezado passeiante, ergueu a m&atilde;o, vibrou-me
+com toda a for&ccedil;a, e fez-me desabar, indo a meia
+cor&ocirc;a
+de esquina, na copa do chap&eacute;o do gorducho.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;A <em>gebada</em> foi magistral; o
+chap&eacute;o enterrou-se at&eacute; aos
+olhos; e em quanto o dono d'elle, espumante de raiva,
+procurava desembara&ccedil;ar a cara d'aquelle inesperado
+inv&oacute;lucro,
+o rapaz p&ocirc;z-se f&oacute;ra do seu alcance, e,
+j&aacute; l&aacute;
+muito ao longe, ouviu as exclama&ccedil;&otilde;es furiosas da
+sua
+victima, que amea&ccedil;ava prendel-o, matal-o, enforcal-o,
+esquartejal-o.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;O homem fic&aacute;ra desesperado. Pois n&atilde;o
+tinha ras&atilde;o;
+o seu chap&eacute;o, como sempre, tinha-se curvado ao dinheiro.<br />
+
+<br />
+
+<h3>X</h3>
+
+<br />
+
+&laquo;Livre de perigo, o meu dono, reflectindo no caso,
+houve por bem rir-se &aacute;s gargalhadas do que
+pratic&aacute;ra. <span class="pagenum">[148]</span>
+Com effeito merecia a pena. Eu, apesar de ter padecido,
+n&atilde;o desgostei da correc&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Depois de se rir &aacute; vontade, entendeu o auctor da
+<em>gebada</em>
+que n&atilde;o poderia ser completa a sua
+satisfa&ccedil;&atilde;o se
+n&atilde;o visse a cara do paciente depois do castigo. Reflectiu
+como poderia conseguir v&ecirc;l-o sem ser visto, e como
+afim de reflectir melhor, quando olhava para o c&eacute;o a
+procurar inspira&ccedil;&atilde;o, deu com a vista n'uma arvore
+que
+se erguia mesmo ao seu lado. V&ecirc;l-a, e trepar a ella, foi
+uma e a mesma coisa. O mirante era optimo, bem arejado,
+completamente resguardado da curiosidade dos
+profanos, proporcionando ao seu habitador provisorio
+um delicioso panorama para se entreter emquanto n&atilde;o
+passasse aquelle a quem esperava. Attendendo, pois,
+ao merecimento e mais partes que concorriam na pessoa
+da dita arvore, estabelecemo nos n'ella
+sem cerimonia,
+eu n'uma caminha de folhas, elle encostado a
+uma especie de janella verdejante, d'onde via optimamente
+tudo quanto se passava na rua.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Assim, todo escondido, de joelhos, com a sua physionomia
+curiosa e maliciosa &aacute; espreita por entre os ramos,
+parecia um macaquinho agil, que espera occasi&atilde;o
+propicia para apanhar um fructo que lhe fica distante.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Por baixo de n&oacute;s um pobre velho, pallido, magro,
+macilento, mostrando no rosto a timidez envergonhada
+d'aquelles que um soffrer verdadeiro obriga a pedir esmola,
+estendia o chap&eacute;o a quem passava. Lagrimas silenciosas
+lhe deslisavam nas faces encovadas: o s&ecirc;llo da
+desventura estava gravado na sua fronte livida. Os cabellos
+brancos, que o vento agitava, cingiam aquelle
+infortunio de uma aureola de magestade. Era augusta
+aquella miseria!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[149]</span>
+&laquo;Comtudo, nenhum dos que passavam deixava cair
+uma pobre moeda de cobre n'aquelle chap&eacute;o supplicante,
+que se lhes estendia. Uns seguiam desdenhosos
+o seu caminho, sem responderem sequer com um gesto
+&aacute; muda rogativa do mendigo! Outros, um pouco mais
+humanos, faziam distrahidamente um gesto negativo,
+levando ao mesmo tempo a m&atilde;o ao chap&eacute;o. Outros,
+mais caritativos ainda, murmuravam &laquo;Tenha
+paciencia&raquo;
+ou &laquo;N&atilde;o levo troco&raquo;, e todos diziam,
+l&aacute; de si para si,
+a phrase conhecida: &laquo;Este maroto provavelmente tem
+mais dinheiro do que eu. Desavergonhado! Abusarem
+assim da caridade publica! Os que mendigam n&atilde;o
+s&atilde;o
+os que precisam; nas aguas-furtadas &eacute; que se aninha
+a verdadeira pobreza.&raquo;<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Ah! miseraveis! que fing&iacute;s pensar que
+&eacute; um officio
+divertido o exp&ocirc;r-se um velho, alquebrado de
+for&ccedil;as, ao
+sol, ao vento, &aacute; chuva, &aacute;s
+humilha&ccedil;&otilde;es, ao desprezo,
+para fazer uma pobre colheita de dez ou doze moedas
+de cinco r&eacute;is, e &aacute;s vezes de nenhuma! E a chuva a
+inundar os membros mal resguardados do pobre pae
+de familias! E o sol a abrazal-o! E a imagem dos seus
+filhinhos, lividos e esfomeados, a despertar-se-lhe na
+imagina&ccedil;&atilde;o, e a redobrar-lhe as amarguras!<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Porque v&oacute;s n&atilde;o sabeis, ou antes
+fing&iacute;s n&atilde;o saber, v&oacute;s
+que julgaes que esse homem vem pedir esmola para se
+ir embebedar na taverna proxima, n&atilde;o sabeis que ha
+n'algum canto obscuro e doentio da cidade uma familia
+de espectros, que espera anciosamente a volta d'aquelle
+a quem despedis com as m&atilde;os vasias! N&atilde;o sabeis,
+v&oacute;s
+que accusaes de falta de resigna&ccedil;&atilde;o, de falta de
+animo,
+o pedinte que vos exora com as lagrimas nos olhos,
+n&atilde;o sabeis que lhe foi necessario mil vezes mais valor
+<span class="pagenum">[150]</span>para se embrulhar
+na pobre capinha, sair furtivamente
+do misero alojamento, e ir collocar-se, espectro da miseria,
+&aacute;s portas da opulencia, do que lhe seria preciso
+para se despenhar da janella da sua agua-furtada e
+despeda&ccedil;ar a cabe&ccedil;a nas lages da rua!<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Continuemos.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Todos passavam, como j&aacute; disse, e ninguem dava
+sequer ao pobre velho a esmola de um olhar de compaix&atilde;o.
+O meu gaiato mirava-o de vez em quando.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Passou finalmente o sr. Domingos Gil. O pobre velho
+estendeu-lhe o chap&eacute;o, murmurando mansinho:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Uma esmola por amor de Deus. Meus filhos
+morrem de fome.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;O sr. Domingos Gil vinha, como facilmente
+imaginar&aacute;,
+de muito mau humor. Trazia a <em>gebada</em>,
+para assim
+dizer, atravessada na garganta. As sobrancelhas franzidas,
+o olhar fusilante, a cara fula de raiva, denunciavam
+o rancor que o consumia. O chap&eacute;o, ainda um pouco
+amolgado, tambem mostrava resentir uma nobre
+indigna&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;A voz do mendigo como que abriu no sr. Gil uma
+valvula de seguran&ccedil;a, por onde p&oacute;de sair uma
+por&ccedil;&atilde;o
+de colera, que, mais tempo contida, o faria rebentar.
+Evitou-se d'esta f&oacute;rma uma grave perda para a humanidade.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;O sr. Gil desabafou, bradando, ao passo que desviava
+bruscamente o chap&eacute;o do pobre velho:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Sucia de mandri&otilde;es! Est&atilde;o estes
+marotos &aacute; esquina
+de todas as ruas, para nos roubarem o dinheiro
+que nos custa a ganhar com o suor do nosso rosto!
+Voss&ecirc; n&atilde;o tem vergonha de pedir esmola?
+V&aacute; trabalhar,
+ou metta-se no hospital se est&aacute; doente, ou v&aacute;
+para <span class="pagenum">[151]</span>
+o asylo! Est&aacute; o governo a pagar um bom par de contos
+de r&eacute;is alli em Santo Antonio dos Capuchos, e pessoas
+ricas a deixarem quantias avultadas, que bem tolo
+&eacute; quem cae em tal, n&atilde;o ha de ser nunca o meu
+dinheiro
+que elles h&atilde;o de apanhar; mas est&aacute; alli aquelle
+estabelecimento prompto a receber todo o fiel patife
+que n&atilde;o tem eira nem beira, para que? Para andarem
+estes velhacos a incommodar-nos. Fosse eu da camara
+municipal! R&ecirc;de para os c&atilde;es, r&ecirc;de para
+os mendigos.
+V&aacute; para o demonio! N&atilde;o lhe dou nem cinco
+r&eacute;is!
+Canalha!<br />
+
+<br />
+
+&laquo;E o digno homem continuou magestosamente o seu
+caminho.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Uma lagrima ca&iacute;u das palpebras abrazadas do
+velho!
+Fez um gesto de resigna&ccedil;&atilde;o, e deixou pender a
+cabe&ccedil;a sobre o peito.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;E a noite estendia j&aacute; sobre a terra o seu manto
+negro.
+A noite com o seu duplo cortejo de alegrias, de
+festas, de prazeres, de suspiros enamorados, e de tristezas,
+de crimes, de horrores, de solu&ccedil;os da miseria!
+A noite, fada mysteriosa, e negra feiticeira! A noite que
+se deixa illuminar pelo lustre dos sal&otilde;es, e pela candeia
+das aguas-furtadas, mas felizmente tambem e em toda
+a parte pelo fulgor das estrellas, que &eacute; o olhar de
+Deus.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;E o velho scismava tristemente. N&atilde;o tivera
+resultado
+o sacrificio! Nem um peda&ccedil;o de p&atilde;o podia levar
+aos
+filhos esfaimados! Tristeza! A brisa soprava asperamente,
+e elle n&atilde;o a sentia! As lanternas das carruagens
+que passavam pareciam olhar para elle ironicamente,
+mas as estrellas, essas miravam-no tristemente.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;E o velho scismava! A pobre agua-furtada, onde
+<span class="pagenum">[152]</span>vivia,
+representava-se-lhe na imagina&ccedil;&atilde;o! Via a
+filha
+doente, ella que &aacute; for&ccedil;a de trabalho sustentava
+os irm&atilde;os,
+os pobres innocentes, que pediam de comer! E
+elle, o triste velho, ia-lhes apparecer sombrio, para
+lhes dizer: &laquo;Morrei, n&atilde;o tenho que vos
+dar!&raquo;<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Ent&atilde;o pareceu-me v&ecirc;r na fronte do
+garoto surgir
+uma estranha aurora! Immovel na arvore, contemplava
+o pobre velho, e a sua physionomia maliciosa tornava-se
+pensativa! Eu tinha-o ouvido durante o caminho
+fazer mil projectos para o emprego dos cinco tost&otilde;es,
+comprar bolos, ir ao theatro, alugar um burro, mil extravancias
+que elle acariciava com o amor de crean&ccedil;a!
+N'aquelle momento n&atilde;o trocaria os cinco tost&otilde;es
+por
+um imperio!<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Depois de contemplar por um instante o velho, estendeu
+a m&atilde;o para mim, tirou-me do ramo, e deixou-me
+cair no chap&eacute;o do mendigo.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;E depois de ter gozado por um instante da
+estupefac&ccedil;&atilde;o
+do pobre homem, deixou-se escorregar da arvore,
+e escapou-se sorrateiramente.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;O garoto desapparecera; mas quem olhasse bem podia
+v&ecirc;r alvejarem vagamente, na escurid&atilde;o nocturna,
+as azas luminosas do anjo da caridade.<br />
+
+<br />
+
+<h3>XI</h3>
+
+<br />
+
+&laquo;Quando me achei no chap&eacute;o, e depois na
+m&atilde;o do
+pobre velho, a primeira sensa&ccedil;&atilde;o foi a da
+alegria, a do
+desvanecimento. Parecia-me que eu tambem particip&aacute;ra
+da boa ac&ccedil;&atilde;o do rapaz, e que me competia uma
+parte
+dos agradecimentos que lhe eram devidos. O que e
+&laquo;Quando me achei no chap&eacute;o, e depois na
+m&atilde;o do
+pobre velho, a primeira sensa&ccedil;&atilde;o foi a da
+alegria, a do
+desvanecimento. Parecia-me que eu tambem particip&aacute;ra
+da boa ac&ccedil;&atilde;o do rapaz, e que me competia uma
+parte
+dos agradecimentos que lhe eram devidos. O que estava
+<span class="pagenum"><a name="p153">[153]</a></span>longe
+de esperar,
+&eacute; que seria eu quem os receberia
+a todos.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Com effeito o pobre velho, depois de olhar muito
+tempo em torno de si, depois de mirar bem a arvore,
+cujos ramos se estendiam sobre a sua cabe&ccedil;a, concluiu
+por attribuir ingenuamente a um milagre da Providencia
+o beneficio que receb&ecirc;ra; e, depois de ter reflectido
+bastante tempo, convenceu-se dev&eacute;ras de que a bolsa
+lhe caira do c&eacute;o, e t&atilde;o arreigada conservou esta
+convic&ccedil;&atilde;o,
+que ninguem seria capaz de lh'a arrancar. Veneravel
+candidez de cren&ccedil;as! N&atilde;o se importou com <a href="#e16">o pensamento</a> de que n&atilde;o
+valia a pena fazer um
+milagro
+para dar cinco tost&otilde;es, e que, ainda que o c&eacute;o
+estivesse
+inclinado a economias, n&atilde;o era natural que a Providencia
+tomasse a precau&ccedil;&atilde;o de collocar a sua esmola
+dentro
+de uma bolsa de seda verde.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;A tudo isso responderia elle que a menos que a
+bolsa n&atilde;o se formasse no ar, e caisse por si mesma,
+ou que existissem actualmente arvores com esse fructo,
+esse dinheiro n&atilde;o podia vir sen&atilde;o do
+c&eacute;o. E vinha com
+effeito.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Por conseguinte o bom do velho, passando do immenso
+desalento &aacute; immensa alegria, ajoelhou, beijou-me
+fervorosamente, depois levantou-se, e correu com
+uma lizeireza de rapaz a fazer as compras necessarias
+&aacute; sua pobre familia.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Foi ent&atilde;o que eu me pude convencer de que
+n&atilde;o
+eram a mim que se dirigiam, no tempo da minha prosperidade,
+os comprimentos que tanto me enchiam de
+orgulho, mas sim e unicamente &aacute; opulencia que eu
+representava.
+Foi essa uma desillus&atilde;o fatal, e que me
+causou uma tristeza pungente! Ah! meu amigo, bastar&aacute;
+<span class="pagenum"><a name="p154">[154]</a></span>esse
+dia para eu
+conhecer o egoismo dos homens.
+Desde o instante em que eu sa&iacute;ra da casa em que
+nasc&ecirc;ra,
+no curto espa&ccedil;o de duas ou tres horas, que de
+agargas li&ccedil;&otilde;es, que de tristes
+ensinamentos!<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Nas casas em que entrava com o meu pobre possuidor,
+ninguem olhava para mim, assim como ninguem
+olhava para elle. N'uma loja de capellista onde o velhinho
+foi comprar agulhas, o instrumento de trabalho de
+sua filha, a fragil armasinha com que ella combatia intrepidamente
+o demonio da miseria, estavam umas senhoras
+arrastando sedas, e resplendendo em joias. Estavam
+comprando n&atilde;o sei o qu&ecirc;, mas fosse qual fosse
+a compra, ellas demoravam-se immenso, porque desejavam
+escolher &aacute; vontade, e obrigavam a dona da loja,
+que satisfazia as suas exigencias com toda a complacencia,
+a revolver todas as caixas, a mexer em todas
+as gavetas, a abrir todos os armarios.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;O bom do meu velhinho, impaciente como estava,
+para levar de comer &aacute; sua pobre familia, depois de esperar
+um peda&ccedil;o, n&atilde;o p&ocirc;de deixar de
+dizer,&nbsp;<a href="#e17">collocando-me</a>
+timidamente em cima do balc&atilde;o:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Se a sr.<sup>a</sup> Ignacia me podesse aviar
+n'um instantinho...<br />
+
+<br />
+
+&laquo;A capellista, interiormente enfurecida pelas
+ma&ccedil;adas
+que lhe estavam dando as suas opulentas freguezas,
+voltou-se, e empurrando-me bruscamente, t&atilde;o bruscamente
+que ca&iacute; no meio do ch&atilde;o, bradou com uma
+voz desesperada:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Espere, n&atilde;o tenha pressa, guarde o seu
+dinheiro.
+N&atilde;o v&ecirc; que estou a servir estas senhoras?<br />
+
+<br />
+
+&laquo;O meu pobre dono calou-se, e apanhou-me sem
+murmur
+&laquo;O meu pobre dono calou-se, e apanhou-me sem
+murmurar sequer. O que havia elle de fazer? A capellista
+<span class="pagenum">[155]</span>fiava lhe os
+utensilios necessarios a
+sua filha, em
+occasi&otilde;es de apuro, e at&eacute; &aacute;s vezes,
+porque no fundo a
+tia Ignacia tinha um bom cora&ccedil;&atilde;o, lhe emprestava
+os
+seus vintens.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Eu &eacute; que n&atilde;o admitti circumstancia
+attenuante possivel
+para o ultrage que receb&ecirc;ra. N'essa manh&atilde; mesma
+eu f&ocirc;ra tratada t&atilde;o amavelmente n'uma loja de
+capellista
+com estanco, onde Eduardo entr&aacute;ra a comprar
+charutos, que n&atilde;o percebia qual fosse o motivo da subita
+differen&ccedil;a.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;J&aacute; v&ecirc; que as
+li&ccedil;&otilde;es ainda n&atilde;o tinham aproveitado.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;N'esse ponto foi que eu principiei a avaliar as amarguras
+da minha nova posi&ccedil;&atilde;o. Felizmente, a scena que
+se lhe seguiu veiu ado&ccedil;al-as um pouco.<br />
+
+<br />
+
+<h3>XII</h3>
+
+<br />
+
+&laquo;Tremulo de alegria, subiu o velho os ingremes degraus
+de uma escada tortuosa e escura, que conduzia
+&aacute; agua-furtada onde habitava. Quando chegou ao ultimo
+patamar parou para respirar. O cora&ccedil;&atilde;o batia-lhe
+com
+alegria. Pens&aacute;ra tanto em subir aquella escada lentamente,
+como um homem que leva sobre os seus hombros
+o peso enorme do infortunio; pens&aacute;ra tanto no
+soffrimento que o havia de dilacerar quando chegasse
+com o desespero na alma ao mesmo sitio onde par&aacute;ra
+ebrio de alegria; pens&aacute;ra tanto no triste espectaculo que
+se lhe havia de deparar, no desgosto profundo que havia
+de sentir; pens&aacute;ra tanto em tudo isso, que
+cheg&aacute;ra
+quasi a costumar-se a essa id&eacute;a, e que a felicidade
+<span class="pagenum">[156]</span>encontra-o armado
+para a desgra&ccedil;a e desprevenido para
+a ventura.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Finalmente entrou.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Que espectaculo t&atilde;o novo para mim foi esse que eu
+divisei! Das trevas, que envolviam a casa, saiam gemidos
+abafados, solu&ccedil;os horrendos, murmurio dilacerante,
+reflexo pavoroso do sussurro dos condemnados
+do inferno accumulados na tenebrosa
+<em>g&eacute;henne</em> que Dante
+visitou. O meu dono, depois de abrir a porta, ficou um
+instante parado, e involuntariamente as lagrimas inundaram-lhe
+as faces, parando nos labios, que sorriam
+com um sorriso de consola&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Quando o meu olhar se costumou &aacute;s trevas, pude
+ent&atilde;o v&ecirc;r no fundo do quarto, e deitadas em cima
+de
+uma pobre enxerga, duas crean&ccedil;as de nove para dez
+annos, pallidas, magras, com os seus corpinhos quasi
+n&uacute;s, tremendo de frio n'aquelle recinto humido. Choravam,
+e choravam de fome! Mais ao fundo, n'um pobre
+catre, que era ainda assim o unico traste da casa,
+jazia a filha mais velha, rapariga dos seus vinte e tantos
+annos, a quem o soffrimento arrancava gemidos.
+Uma pobre coberta esfarrapada mal a resguardava. E
+comtudo, a pobre rapariga estava com uma febre violentissima;
+o delirio apoder&aacute;ra-se d'ella. Murmurava
+phrases incoherentes, gemia, solu&ccedil;ava. E as trevas, a
+escurid&atilde;o atroz a suffocal-a! E l&aacute; ao fundo, na
+sombra,
+a fulgirem sinistramente as garras do demonio livido
+da fome!<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Uma toada de musicas alegres entrava pelo quarto.
+No primeiro andar havia baile. A dois passos do risonho
+turbilh&atilde;o das walsas o horrido vendaval do infortunio!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[157]</span>
+&laquo;&Oacute; destino!<br />
+
+<br />
+
+&laquo;O velho, silencioso, accendeu uma v&eacute;la. Depois
+p&ocirc;z
+na chamin&eacute; a lenha que trouxera, e accendeu o lume.
+Espalhou-se no quarto um doce calor.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Os pequenos tinham-se levantado na cama, estupefactos!<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Depois, sempre silencioso, pegou n'um bra&ccedil;ado de
+couves, migou-as, tirou um p&atilde;o, fel-o em sopas, deitou
+tudo dentro de um pobre tachinho de barro, e p&ocirc;l-o
+ao lume. Os pequenos tinham-se approximado d'elle.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;O velho voltou-se. A sua cabe&ccedil;a, coroada de
+c&atilde;s,
+inclinou-se meigamente para as loiras cabecinhas que o
+rodeavam.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;E, vendo-os tremulos, mal se podendo suster em
+p&eacute;,
+abra&ccedil;ando-lhe os joelhos, as lagrimas saltaram-lhe de
+novo dos olhos, a voz embargou-se-lhe na garganta, e
+s&oacute; p&ocirc;de dizer:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Meus filhos!<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;P&atilde;o!&#8213;foi a resposta das crean&ccedil;as.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Sim, meus filhos, esperem, esperem um instante.
+Haveis de ceiar, haveis de ceiar, meus pobres pequeninos,
+e haveis de dormir depois o somno de innocentes,
+que a fome repelle ha tanto tempo de cima das
+vossas gentis cabecinhas! Deixae-me, deixae-me ir tratar
+de vossa irm&atilde;, da minha querida filha, que tanto
+soffre por nossa causa.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;E o velho approximou-se da pobre doente, que
+olhava para elle com uns olhos desvairados, coou-lhe
+por entre os dentes um calmante, que compr&aacute;ra n'uma
+botica, porque o pobre do homem gast&aacute;ra at&eacute; aos
+ultimos
+cinco r&eacute;is, e comtudo quantas coisas de primeira
+necessidade tinham ficado ainda por comprar!
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[158]</span>
+&laquo;O calmante produziu um bom effeito. Ao delirio succedeu
+a prostra&ccedil;&atilde;o, e a costureira adormeceu com um
+somno pacifico e reparador.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Ent&atilde;o o resto da familia agrupou-se em torno da
+enxerga, meza improvisada, para onde foi trazido em
+triumpho o tacho das couves. Os pequenos lan&ccedil;aram-se
+sofregamente &aacute; comida, e em poucos minutos desappareceram
+as couves e as sopas, sem omiss&atilde;o de um
+talo, sem esquecer uma migalha.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;O velho mal tinha bebido um golo de caldo. Embevecido
+na contempla&ccedil;&atilde;o de seus filhos satisfeitos, nem
+pens&aacute;ra na sua propria fome. De vez em quando levantava
+ao c&eacute;o os olhos arrazados de agua, e murmurava
+palavras incomprehensiveis. &Eacute; essa a
+ora&ccedil;&atilde;o que a
+Deus mais agrada; porque &eacute; a effus&atilde;o sincera, e
+livre
+de preceitos, de um cora&ccedil;&atilde;o que trasborda de
+reconhecimento.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Quando terminou a ceia frugal, o bom do velho chamou
+as crean&ccedil;as para junto de si, e fazendo-as ajoelhar,
+e unindo-lhes as tenras m&atilde;osinhas, disse-lhes com voz
+grave:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Meus filhos, agora que por uma esmola divina
+saciaram a fome, &eacute; justo que se n&atilde;o
+esque&ccedil;am d'Aquelle
+que se amerceou de v&oacute;s. Vinde, e repeti comigo:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Pae do c&eacute;o, V&oacute;s que, apesar da vossa
+omnipotencia,
+vos n&atilde;o esqueceis dos vossos filhinhos, que
+d&eacute;stes p&atilde;o a quem tinha fome, e
+consola&ccedil;&otilde;es a quem
+estava afflicto! V&oacute;s que, por um milagre da vossa infinita
+bondade, nos salvastes da morte, e a nosso pae
+do desespero! V&oacute;s que sois todo misericordia, tende
+compaix&atilde;o de nossa pobre irm&atilde;! E v&oacute;s,
+nossa m&atilde;e
+querida, que sois agora uma santa no c&eacute;o, rogae tambem
+<span class="pagenum">[159]</span>a Deus que
+d&ecirc; sa&uacute;de a quem &eacute; o
+nosso amparo!
+N&oacute;s vos damos gra&ccedil;as, Deus todo-poderoso, e
+promettemos
+sempre ser dignos da vossa affei&ccedil;&atilde;o, e
+conservarmo-nos
+no caminho da virtude, para que a alma da
+nossa m&atilde;esinha se n&atilde;o afflija de nos
+v&ecirc;r peccadores.&raquo;<br />
+
+<br />
+
+&laquo;E as creancinhas repetiam com a sua voz argentina
+aquellas singelas palavras, pronunciadas pelo velho, commovido,
+que estendia as m&atilde;os tremulas sobre essas cabe&ccedil;as
+innocentes, e erguia para o c&eacute;o os olhos humedecidos.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Depois beijou-as na fronte com ternura, e mandou-as
+deitar. Elle apagou a luz e o lume; sentou-se &aacute; borda
+da enxerga, e, encostando a cabe&ccedil;a nas m&atilde;os,
+meditou.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Por&eacute;m o dia f&ocirc;ra agitadissimo; a
+natureza foi mais
+forte do que elle, e d'ahi a pouco tempo o velho, cerrando
+a pouco e pouco as palpebras, adormeceu.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;As trevas encheram de novo o quarto. Mas o horror
+fugira. &Aacute; porta, um anjo do Senhor, com um dedo
+nos labios, velava meigamente sobre o somno da innocencia.<br />
+
+<br />
+
+<h3>XIII</h3>
+
+<br />
+
+&laquo;Cinco tost&otilde;es n&atilde;o duram eternamente, e
+a prova
+d'isso &eacute; que j&aacute; tinham desapparecido. A miseria,
+que
+fugira um instante espavorida, voltava de novo a bater
+&aacute; porta. Que remedio sen&atilde;o abrir-lh'a!<br />
+
+<br />
+
+&laquo;N&atilde;o era feliz no mendigar o meu pobre dono. Raras
+vezes obtinha o dinheiro sufficiente para comprar o
+necessario. Sua pobre filha melhor&aacute;ra sim, por um prodigio
+da natureza completamente desajudada da sciencia;
+mas a sua convalescen&ccedil;a, desprotegida d'aquelle
+<span class="pagenum">[160]</span>conforto,
+d'aquelles cuidados t&atilde;o indispensaveis para o
+restabelecimento da saude, prolongava-se, apesar de todos
+os esfor&ccedil;os que a animosa rapariga fazia para resumir,
+e que, como &eacute; facil de supp&ocirc;r, s&oacute;
+contribuiam
+para a accrescentar. Queria pegar em trabalho, mas estava
+t&atilde;o fraca, t&atilde;o fraca, que, apenas dava dois ou
+tres
+pontos, ca&iacute;a desmaiada sobre a costura, e assim passava
+os dias em continuados desfallecimentos.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Seu pae tambem estava completamente impossibilitado
+de trabalhar. Eu chamei-o velho, porque com
+effeito os desgostos e as priva&ccedil;&otilde;es essa
+apparencia lhe
+haviam dado; mas n&atilde;o o era effectivamente. Ainda
+n&atilde;o
+contava cincoenta annos, e j&aacute; n&atilde;o tinha na
+cabe&ccedil;a um
+s&oacute; cabello preto.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Despedido da fabrica de oleados em que trabalhava,
+porque a sua nimia fraqueza o tornava completamente
+improprio para os rudes trabalhos manuaes da fabrica,
+vira-se s&oacute; com tres filhos, sem recursos, sem poder
+obter, n'um outro emprego mais suave, o p&atilde;o para si
+e para elles.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;A sua completa ignorancia tornava-o improprio para
+qualquer trabalho que n&atilde;o fosse manual.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;&Oacute; ignorancia, negra irm&atilde; da livida
+miseria!<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Como eu ia dizendo, eram poucos ou nenhuns os
+proventos que o pobre homem tirava da mendicidade.
+As comidas iam sendo cada vez mais frugaes, e a pobre
+rapariga, debilitada, enfraquecida, ia-se tornando
+cada vez mais incapaz de trabalhar.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Admira-se de certo de eu continuar a existir n'uma
+casa onde reinava t&atilde;o profunda miseria! Espanta-se de
+que me n&atilde;o tivessem vendido no dia immediato
+&aacute;quelle
+em que tinham gasto os cinco tost&otilde;es. Eu lhe explico
+<span class="pagenum">[161]</span>esse facto na
+apparencia incomprehensivel, eu lhe dou
+a chave d'esse enigma.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;O meu dono considerava-me, para assim dizer, como
+uma enviada de Deus, e n&atilde;o estava muito longe de
+imaginar que existisse no meu seio um anjo occulto.
+Tocar-me era quasi uma irreverencia, vender-me seria
+de certo uma profana&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Candidamente supersticioso, o bom velho tinha l&aacute;
+de
+si para si que eu, como mensageira que f&ocirc;ra de uma
+esmola providencial, n&atilde;o podia deixar de fazer a felicidade
+d'aquelles que me possuiam. Vender-me ser-lhe-hia
+t&atilde;o difficil, como aos romanos cederem, em troca
+dos mais enormes thesouros, o palladio que fazia a republica
+invencivel. Eu era a &eacute;gide da casa, emfim.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Mas um dia o pobre pae de familias voltou mais
+triste e amargurado do que nunca. O dia correra-lhe
+como aquelle em que eu o tinha visto pela primeira vez,
+com a differen&ccedil;a que nenhum garoto compassivo, enviado
+pela Providencia, se f&ocirc;ra esconder na ramaria de
+uma arvore protectora. O velho entrava, pois, em casa,
+sombrio, triste, como entraria uns poucos de dias antes,
+se n&atilde;o fosse eu apparecer-lhe inopinadamente.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Entrou, sem dizer palavra. Dirigiu-se logo a um armario
+que havia na parede, onde eu habitava, e, tirando-me
+para f&oacute;ra, disse-me, depois de me ter contemplado
+lugubremente alguns instantes:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Vae, pobre bolsinha, que me trouxeste momentos
+de allivio, e cuja c&ocirc;r suave me aconselha a
+esperan&ccedil;a.
+A esperan&ccedil;a?! n&atilde;o a posso ter j&aacute;! Ai!
+a minha
+sina fatal &eacute; mais forte do que a tua benefica influencia!
+Ramo verde que uma pomba do c&eacute;o trouxe no bico a
+esta pobre arca, que vae sem rumo nas aguas de um
+<span class="pagenum">[162]</span>
+diluvio de infortunios, enganaste-me involuntariamente!
+N&atilde;o parou a tempestade! Nem ha de parar talvez! Vae,
+n&atilde;o procures luctar mais contra a minha m&aacute;
+estrella!
+Vae, e que a tua mesma partida nos seja ainda bemfazeja!
+Os anjos de Deus, ou quando descem ao mundo,
+ou quando voltam ao paraizo, sempre enviam adiante,
+ou deixam ap&oacute;s si, um rasto luminoso!<br />
+
+<br />
+
+&laquo;E beijando-me com fervor, metteu-me no seio, e
+saiu.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Foi triste a sua peregrina&ccedil;&atilde;o
+&aacute; procura de um comprador
+que se resolvesse a dar por mim um pre&ccedil;o razoavel.
+Todos, vendo-o assim pobre, mostrando no rosto
+livido a fome que o impellia a vender-me, offereciam,
+depois de me terem mirado com desdem, um pre&ccedil;o
+t&atilde;o
+baixo, que, fosse qual fosse a extrema necessidade que
+o meu dono tivesse de dinheiro, entendeu que me n&atilde;o
+devia deixar ir assim.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Comtudo, percorriamos lojas e lojas, e nenhum dos
+donos d'ellas se resolveu a comprar-me. Pois eu n&atilde;o
+valia t&atilde;o pouco como isso, e estou convencida que muitas
+das pessoas, a quem o velho mendigo me apresentava,
+desejariam ficar comigo. Rebaixavam-me muito,
+mas, segundo depois vim a saber, isso &eacute; trica de negociante
+para especular com a miseria. Sabem que ainda
+que a sua primeira proposta repilla o vendedor, este,
+por fim de contas, sempre volta ou a acceital-a ou a diminuir
+muito o pre&ccedil;o que estabelecera.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Chamam elles a isso esperteza no negocio. E quem
+n&atilde;o quer n&atilde;o venha c&aacute;, accrescentam,
+terminando com
+a phrase pittoresca: &laquo;Eu n&atilde;o lhe puz a faca aos
+peitos.&raquo;
+&Eacute; regra estabelecida que o vendedor pe&ccedil;a um
+pre&ccedil;o exorbitante, e o comprador offere&ccedil;a um
+pre&ccedil;o diminutissimo. <span class="pagenum">[163]</span>Que
+venha &aacute; discuss&atilde;o, mesmo por acaso,
+o valor real do objecto, isso &eacute; raro. Um negocio de
+compra e venda &eacute; um jogo de azar em que dois jogadores
+trapaceiam. V&ecirc;r qual dos dois ha de roubar o
+outro, <em>that is the question</em>. Nunca
+um s&oacute; vendedor se
+lembrou de calcular: &laquo;Este objecto custou-me tanto,
+devo tirar o juro razoavel de tanto, logo vendo-o por
+tanto, e nem um real de mais, nem um real de menos&raquo;;
+e o comprador de pensar: &laquo;Posso gastar tanto,
+se o objecto valer mais, n&atilde;o compro.&raquo; Isso nunca:
+sem
+uma discuss&atilde;o preliminar, &eacute; sensabor o negocio.
+Se a
+inven&ccedil;&atilde;o da moeda simplificou as
+rela&ccedil;&otilde;es mercantis,
+quanto as n&atilde;o simplificaria a inven&ccedil;&atilde;o
+d'esta moeda dos
+cora&ccedil;&otilde;es nobres, que se chama &laquo;boa
+f&eacute;!&raquo;.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;A antiguidade, que fez Mercurio o deus dos
+ladr&otilde;es
+e dos negociantes, acertava dev&eacute;ras se accrescentasse&#8213;e
+dos consumidores.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Desculpe estas reflex&otilde;es um pouco prolixas; mas
+eu sou o Nestor das bolsas, e desde o celebre anci&atilde;o
+homerico, cujas palavras eram doces como favos de
+mel, e que talvez por isso eram prodigalisadas por tal
+f&oacute;rma pelo rei de Pylos, que n&atilde;o sei como os
+gregos
+n&atilde;o tomaram uma indigest&atilde;o de mela&ccedil;o:
+desde esse
+vulto epico, todos os Nestores gostam de pregar grandes
+massadas. Eu n&atilde;o me podia esquivar &aacute; regra geral.
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Agora vou continuar.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;O meu dono luctou muito tempo contra a avidez dos
+compradores, e fez-lhes falhar os calculos. Sa&iacute;a das lojas
+com o desespero na alma, o rubor da indigna&ccedil;&atilde;o
+na fronte, e n&atilde;o voltava.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Assim se passaram duas horas.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;O pre&ccedil;o, que lhe offereciam, ia sempre
+diminuindo: <span class="pagenum">[164]</span>
+porqu&ecirc;? Porque de cada vez a physionomia do mendigo
+se tornava mais livida. A anciedade pintava-se-lhe
+nas fei&ccedil;&otilde;es. Cada ruga de mais, que se lhe cavava
+na
+fronte angustiada, traduzia-se immediatamente em cinco
+r&eacute;is de menos no pre&ccedil;o que lhe offereciam.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Finalmente, exhausto, prostrado, desfallecido, entrou
+n'uma ultima loja, e, quando entrou, deixou-se cair em
+cima de uma cadeira. As pernas recusavam-se a sustental-o
+mais tempo.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Na loja estavam o mercador, e um freguez escolhendo
+n&atilde;o sei o qu&ecirc;. Sei apenas que era um rapaz de
+uma physionomia sympathica.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Ambos olharam espantados para o pobre velho, mas
+o espanto do primeiro era um espanto encolerisado, o
+do segundo um espanto compadecido.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;O dono da loja receiava para as suas cadeiras o
+contagio da miseria. Que um c&atilde;o se estirasse em cima
+d'ellas, passe; mas um mendigo!<br />
+
+<br />
+
+&laquo;O meu dono estendeu-me com m&atilde;o tremula para o
+logista, e disse com voz que mal se ouviu:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Eu desejava vender esta bolsa. Quanto me d&aacute; o
+senhor por ella?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Que diz voss&ecirc;?&#8213;tornou o dono da loja com modos
+irritados. Falle de maneira que se entenda! Julga
+que tenho ouvidos de tisico? Gra&ccedil;as a Deus sempre
+gozei de boa saude.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Desculpe-me, senhor, respondeu o meu dono fazendo
+um esfor&ccedil;o sobre si mesmo para fallar com voz
+mais intelligivel, &eacute; porque estou muito fraco. Desejava
+saber quanto o senhor me d&aacute; por esta bolsa.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Ah! at&eacute; que emfim! N&atilde;o seria mau que
+voss&ecirc; se
+levantasse, porque este senhor talvez se queira sentar.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[165]</span> &#8213;&laquo;Deixe
+estar o pobre homem,&#8213;interrompeu o
+freguez com vehemencia, n&atilde;o v&ecirc; que mal se
+p&oacute;de ter
+em p&eacute;. Coitado!<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Pois sim, sim!&#8213;resmungou o logista, se toda
+a gente que n&atilde;o p&oacute;de andar se me viesse pespegar
+nas cadeiras, estava eu arranjado. Mas vamos l&aacute; a
+v&ecirc;r
+a bolsa. Ah! est&aacute; toda esfarrapada! que trapo! isto
+n&atilde;o vale cinco r&eacute;is. Quanto quer voss&ecirc;
+por isto!<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;V. s.<sup>a</sup> dir&aacute; quanto quer
+dar por ella!<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Eu! olhe, j&aacute; lhe digo que n&atilde;o lhe
+dou mais de
+quatro vintens. Nem um real. Serve-lhe?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Quatro vintens por uma bolsa de seda, senhor!&#8213;tornou
+o meu dono com uma profunda accentua&ccedil;&atilde;o
+de amargura na voz.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Sim! que ella est&aacute; muito bonita. E quem me
+assevera
+que voss&ecirc; n&atilde;o roubou isto? Nada, parece-me
+que nem os quatro vintens lhe dou.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Roubar! eu?&#8213;bradou o meu bom velho, erguendo-se
+indignado da cadeira.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Sim! sim! Eu j&aacute; conhe&ccedil;o essas capas
+de santidade.
+O senhor n&atilde;o p&oacute;de imaginar, continuou elle,
+voltando-se para o freguez, quanto esses malandros
+s&atilde;o finos! Olhe, um dia d'estes...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Este homem n&atilde;o tem cara de ladr&atilde;o,
+interrompeu
+bruscamente o desconhecido.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Muito obrigado, senhor, muito obrigado!&#8213;exclamou
+o meu dono. Sirvam-me de consola&ccedil;&atilde;o as suas
+palavras! Faz-me bem ouvil-as! Partem de um
+cora&ccedil;&atilde;o
+nobre.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Emfim, tornou o logista um pouco despeitado,
+se me quer dar a bolsa ahi tem os quatro vintens.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Que remedio, senhor! A necessidade &eacute;
+m&aacute; conselheira! <span class="pagenum">[166]</span>ahi
+tem a bolsa! Sempre meus filhos n&atilde;o
+morrer&atilde;o hoje de fome!<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;N&atilde;o, interrompeu ainda o generoso rapaz,
+agarrando
+no bra&ccedil;o do mendigo, n&atilde;o consentirei que se
+pratique um roubo ass&iacute;m na minha
+presen&ccedil;a. Sou eu
+quem lhe compra a bolsa. Ahi tem dez tost&otilde;es, &eacute;
+tudo
+quanto tenho comigo. Creio que a bolsa n&atilde;o valer&aacute;
+muito mais.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;E, pondo na m&atilde;o do mendigo duas meias
+cor&ocirc;as,
+saiu levando-me comsigo, deixando o logista estupefacto,
+e sendo acompanhado pelas ben&ccedil;&atilde;os do velho.<br />
+
+<br />
+
+<h3>XIV</h3>
+
+<br />
+
+&laquo;Quando cheguei ao alojamento do meu novo dono,
+percebi que a minha posi&ccedil;&atilde;o n&atilde;o
+melhor&aacute;ra consideravelmente.
+A mobilia da casa n&atilde;o era muito mais numerosa,
+do que a da miseravel agua-furtada, d'onde
+eu sa&iacute;ra n'esse mesmo dia. Uma estante de pinho, vergando
+ao peso dos livros, e uma meza cuja superficie
+desapparecia debaixo de uma triplice camada de papeis,
+ahi tem quaes eram os moveis principaes d'aquella
+casa.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;O resto da mobilia, se o meu amigo quizer absolutamente
+uma descrip&ccedil;&atilde;o &aacute; Balzac, compunha-se
+de um
+leito de ferro, e de duas cadeiras de pinho, uma das
+quaes se distinguia pela ausencia de um p&eacute;, o que lhe
+dava as prerogativas de tripode, e a outra primava na
+singular docilidade com que se domava a todo o corpo
+que se lhe pozesse em cima; porque se prostrava immediatamente
+no ch&atilde;o em signal de obediencia. Confesso
+<span class="pagenum"><a name="p167">[167]</a></span>que,
+quando o meu
+generoso possuidor atirou
+comigo para a tal cadeira nimiamente flexivel, receei
+que apesar da minha leveza, obrigasse o pobre movel
+a dar provas da sua habilidade gymnastica.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;O meu proprietario, assim que entrou, despiu o casaco
+e atirou com elle irreflectidamente para cima da
+cadeira cortez, onde eu, por minha desgra&ccedil;a, estava
+tambem collocada. Receber o casaco, fazer um
+<em>pli&eacute;</em> com
+toda a habilidade de um mestre de dan&ccedil;a, e ir parar
+ao ch&atilde;o arrastando-me na qu&eacute;da, foi uma e a mesma
+coisa para a cadeira. O meu dono nem reparou em tal,
+e, dirigindo-se logo para a outra, sentou-se &aacute; meza,
+pegou n'uma penna, molhou-a no tinteiro, e come&ccedil;ou
+a escrever com uma rapidez incrivel.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Eu entretanto n&atilde;o estava l&aacute; muito
+&aacute; vontade. Litteralmente
+esmagada debaixo do casaco, tinha, para cumulo
+de desventuras, mesmo encostado a mim um
+grosso caderno de papel, que sa&iacute;a de uma das algibeiras,
+e que me pregava no ch&atilde;o, comprimindo-me
+atrozmente. Eu fic&aacute;ra embirrando com papeis, desde
+o momento em que, por causa d'elles, f&ocirc;ra expulsa
+irrevogavelmente da casa dos meus primeiros donos,
+e ai! sem esperan&ccedil;a de para l&aacute; voltar.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Mas, ainda que eu n&atilde;o tivesse essa
+justificadissima
+<a href="#e18">preven&ccedil;&atilde;o</a>
+contra a papelada, bastava a attitude aggressiva,
+que este caderno tom&aacute;ra para comigo, para eu
+ficar odiando mortalmente a sua ra&ccedil;a. Debalde eu gritava,
+ralhava, resmungava, fazia esfor&ccedil;os inauditos para
+me desembara&ccedil;ar do peso que me opprimia, tudo era
+inutil. O caderno era inflexivel, e o casaco ainda mais.
+N&atilde;o tive remedio sen&atilde;o resignar-me.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Vendo-me socegada, o caderno de papel come&ccedil;ou
+<span class="pagenum">[168]</span>a entabolar umas
+taes ou quaes
+rela&ccedil;&otilde;es comigo. Percebendo
+que, por fim de contas, a melhor resolu&ccedil;&atilde;o,
+que eu podia tomar, era corresponder &aacute; amabilidade
+com que me tratavam, troquei algumas palavras com
+elle, primeiro n'um tom bastante s&ecirc;cco, e a pouco e
+pouco mais agradavelmente. Emfim, d'ahi a cinco minutos
+estavamos os melhores amigos d'este mundo.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Foi ent&atilde;o que elle me disse que o seu dono era
+litterato,
+como quem diz, n&atilde;o tinha officio nem beneficio.
+Andava sempre abundantemente provido de id&eacute;as e de
+dividas. As id&eacute;as eram sublimes, as dividas eram pasmosas.
+Nem por umas nem por outras havia quem d&eacute;sse
+dez r&eacute;is. Tinha por costume confiar ao papel os seus
+pensamentos; mas por mais empenhos que o papel almasso
+mettesse com o papel de imprensa, nunca tinha
+conseguido que este se encarregasse de repartir com
+elle as honras da confidencia. N&atilde;o porque o litterato
+n&atilde;o tivesse talento; pelo contrario, asseverava o papel
+que tinha muito; mas infelizmente, como ainda n&atilde;o se
+descobrira o meio de se come&ccedil;ar a escrever pela segunda
+obra, e os editores queriam unicamente imprimir
+os seus escriptos se elle j&aacute; fosse conhecido, o homem
+estava s&eacute;riamente amea&ccedil;ado de nunca os
+v&ecirc;r em
+lettra redonda.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Em compensa&ccedil;&atilde;o, um editor Mecenas, um
+protector
+das lettras com loja de livros n'uma escada, offerecera-lhe
+o honroso logar de traductor dos romances
+de Paulo de Kock, e de outros notaveis escriptores francezes,
+com o pingue ordenado de tres mil r&eacute;is por mez.
+Este homem era tido pelos seus collegas como um perdulario.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Outro editor, ainda mais estroina ou mais inexperiente,
+<span class="pagenum"><a name="p169">[169]</a></span>conceb&ecirc;ra
+a atrevida
+id&eacute;a de tentar fortuna imprimindo
+as obras do pobre diabo. Pedira-as para as
+v&ecirc;r, pedido que ia dando com o escriptor em doido...
+de alegria, e mostrou-as a um entendedor seu amigo.
+Este folheou os&nbsp;<a href="#e19">differentes</a>
+cadernos por
+espa&ccedil;o de cinco
+minutos, e devolveu-os ao livreiro, asseverando que o
+rapaz tinha uma lettra t&atilde;o boa, que n&atilde;o podia
+chegar a
+ser um grande escriptor, o que fez com que o bom do
+emprezario de litteratura devolvesse os cadernos a quem
+os escrev&ecirc;ra, offerecendo-lhe ao mesmo tempo um logar
+de caixeiro.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;O litterato atir&aacute;ra com os cadernos &aacute;
+cara do editor,
+depois com os livros que achou &aacute; m&atilde;o, e
+j&aacute; baloi&ccedil;ava
+a cadeira gymnastica para lhe fazer tomar o caminho
+que haviam tomado os livros e os papeis, quando
+o bom do editor descia os ultimos degraus da escada,
+e sacudia o p&oacute; das suas sandalias &aacute; porta de casa
+t&atilde;o
+pouco hospitaleira.<br />
+
+<br />
+
+O que o caderno meu visinho me affirmou (e devo
+dizer de passagem, que f&ocirc;ra elle um dos
+project&iacute;s de
+que o seu dono se servira, um dos navios encarregados
+de operarem um reconhecimento nas costas editoraes),
+o que elle me affirmou foi que, se o nosso homem
+n&atilde;o sacudisse t&atilde;o depressa o p&oacute; das
+suas sandalias,
+o escriptor vinha-lhe a sacudir mas era o p&oacute; da
+sobrecasaca.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Aqui est&aacute; em resumo o que me narrou o meu
+officioso
+visinho.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;N&atilde;o tentarei descrever a vida que eu passei
+durante
+dois ou tres mezes em casa d'esse seu collega. P&oacute;de
+imaginar qual era; repouso completo, enercia absoluta.
+Collocada na estante, alli passei todo o tempo, sempre
+<span class="pagenum">[170]</span>
+socegada, sempre vasia, conversando muito com os l&iacute;vros
+meus visinhos, que me ensinaram tudo quanto eu
+sei, e me fizeram adquirir a erudi&ccedil;&atilde;o que tanto o
+admirou,
+e vendo o meu dono passeiar no quarto, sempre
+agitado, e sempre procurando alguma coisa, ou uma
+rima, ou um len&ccedil;o de assoar, ou um editor.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Rimas encontrava elle quasi sempre, len&ccedil;os de
+assoar
+algumas vezes, editores nunca!<br />
+
+<br />
+
+&laquo;A tra&ccedil;a f&ocirc;ra o editor unico d'aquelles
+papeis.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Um dia foi elle tambem procurado por uns sujeitos,
+que lhe apresentaram um papel sellado, e que lhe disseram
+serem elles os encarregados pelo sr. Bartholomeu
+Nunes, de proceder a uma penhora por causa de
+n&atilde;o sei quantos mil r&eacute;is que elle devia ao dito
+senhor.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;O meu dono n&atilde;o fez a minima
+objec&ccedil;&atilde;o, pegou no
+chapeu e saiu, dizendo:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Escolham o que quizerem.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Coisa que elles n&atilde;o o obrigaram a repetir.
+Percorreram
+minuciosamente todos os cantos e recantos. Nada
+lhes escapou. Tudo inventariaram, tudo levaram. Eu,
+j&aacute; se v&ecirc;, n&atilde;o escapei ao desastre;
+l&aacute; fui envolvida com
+os livros, e sabe quem eu vi tambem no frete?<br />
+
+<br />
+
+&laquo;A celebrada cadeira das mesuras. At&eacute; isso lhes
+servira!<br />
+
+<br />
+
+<h3>XV</h3>
+
+<br />
+
+&laquo;O meu dono (quinto, segundo v&ecirc;; eu se
+n&atilde;o fosse
+t&atilde;o modesta dizia-lhe que pozesse no titulo, em vez de
+<em>Memorias de uma bolsa verde</em>, a
+<em>Odysse&ecirc;a de uma bolsa
+verde</em>), o meu novo dono era um usurario amador. Magro,
+<span class="pagenum">[171]</span>com umas pernas
+que se can&ccedil;avam antes de chegar
+aos p&eacute;s, a tez biliosa, o nariz adunco e cavalgado
+por uns oculos, era perfeitamente o typo que Shakspeare
+(que foi meu visinho) attribue &aacute; sexta edade do homem,
+na celebre comedia intitulada: <em>As you like
+it</em>, titulo que
+o leitor p&oacute;de traduzir <em>como
+quizer</em>. Observando rigorosamente
+as regras da economia, n&atilde;o comprando sen&atilde;o
+o que lhe era restrictamente necessario, e assim mesmo
+inventando para seu uso proprio um
+<em>necessario</em> especial,
+as riquezas que obtinha, moeda de cobre a moeda
+de cobre, serviam-lhe unicamente para as ter enterradas
+n'uma burra collocada no seu quarto.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;N'esse ponto tinha elle uma certa
+<em>coquetterie</em>. As
+libras doiradas, em que transformava os patacos dos
+desgra&ccedil;ados, encerrava-as dentro de uma infinidade de
+bolsas elegantes e ricas at&eacute;, que estavam dispostas
+symetricamente
+por fileiras, no fundo do seu <em>coffre
+fort</em>.
+Todas as noites, antes de se ir deitar, abria-o, descerrava
+as bolsas, e fazia cair sobre o solo uma chuva de
+oiro. Alli, Danae de si mesmo, estirava-se elle, enchendo
+as m&atilde;os de punhados de libras, e fazendo-as cair no
+monte a pouco e pouco, enterrando os dedos n'aquella
+eira monetaria, revolvendo-a, fazendo-a rolar, apanhando-a
+espiga a espiga, juntando-a, contando-a de novo,
+enchendo as bolsas, e tornando-as a collocar dentro da
+burra. Tudo isto elle fazia com uma delicia, com uma
+soffreguid&atilde;o taes, que n&atilde;o trocaria de certo este
+prazer
+pelo melhor divertimento do mundo.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Quando eu cheguei &aacute; porta j&aacute; elle
+estava &aacute; nossa
+espera. Ajudou a descarregar o frete, procurou os livros,
+determinou que os vendessem immediatamente,
+e deu um grito de surpreza quando eu appareci.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[172]</span>
+&laquo;Era uma bolsa que o acaso lhe dera para juntar &aacute;
+sua collec&ccedil;&atilde;o. Bem sei que eu estava um tanto
+rota,
+um pouco esfarrapada, e que os rasg&otilde;es me adornavam,
+apesar de eu ser ainda bem nova. Mas as cicatrizes,
+n'um rosto imberbe, d&atilde;o a esse rosto a magestade da
+velhice, e eu, considerada debaixo d'esse ponto de vista,
+estava magestosa a mais n&atilde;o ser. De mais a mais, nos
+emprestimos que o usurario fizera ao litterato, os juros
+tinham absorvido o capital, havia j&aacute; tanto tempo,
+que se podia dizer que toda a mobilia do meu ex-possuidor
+vinha a sair de gra&ccedil;a ao honesto agiota. E n'esse
+caso que importava que eu estivesse rasgada? &laquo;A bolsa
+dada n&atilde;o se olha &aacute; seda.&raquo;<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Por conseguinte o bom do velhote magrito, assim
+que me viu, fez-me mil caricias, e, depois de ficar s&oacute;,
+foi a uma gavetinha, n&atilde;o sem olhar primeiro para todos
+os lados afim de se assegurar se alguem o espreitava,
+tirou de dentro um cartucho de libras, despejou-o
+dentro de mim, prestando um ouvido encantado ao som
+metallico do dinheiro, e, levando-me com toda a cautela
+bem apertada na m&atilde;o, dirigiu-se p&eacute; ante
+p&eacute; para
+o seu quarto, abriu a burra que estava ao p&eacute; da cama,
+e depois de contemplar por um instante as bolsas,
+amontoadas umas em cima das outras, deixou-me ca&iacute;r
+com um suspiro de satisfa&ccedil;&atilde;o, e fechou o cofre.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Eu ao principio fiquei completamente atordoada.
+Esta passagem repentina da luz para as trevas, do ar
+livre para um carcere estreito, produziu em mim uma
+impress&atilde;o terrivel. Comtudo a pouco e pouco fui-me
+costumando e resignando. Comecei a distinguir alguns
+objectos n'aquella escurid&atilde;o. Os perfis vagos de umas
+coisas informes, que eu percebia estarem junto de mim,
+<span class="pagenum">[173]</span>foram gradualmente
+fixando os seus contornos, e no fim
+de um quarto de hora comprehendi que estava rodeada
+de uma chusma de minhas irm&atilde;s.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Agora percebo eu que fui pouco habil na
+narra&ccedil;&atilde;o.
+Pois n&atilde;o o devia ser; porque na estante do litterato
+convers&aacute;ra muitas vezes com uma
+collec&ccedil;&atilde;o da
+<em>Presse</em>
+e do <em>Constitutionnel</em>; e os folhetins
+romances d'estes
+jornaes tinham-me ensinado todos os estratagemas, com
+que se tem suspensa a curiosidade do leitor, incitando,
+aguilhoando-o com a espora do mysterio, de f&oacute;rma que
+elle percorra a narra&ccedil;&atilde;o, como um cavallo
+desenfreado
+percorre a planicie, sem se importar com as bellezas
+dos accessorios, e desejando s&oacute; chegar ao fim, que
+&eacute;
+para o cavallo o precipicio em que se despenha, para
+o leitor a peripecia ultima, que se p&oacute;de comp&ocirc;r,
+&aacute; vontade
+do romancista, ou de trinta punhaladas, ou de vinte
+casamentos.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Apesar d'essas li&ccedil;&otilde;es, v&ecirc;
+se que eu ainda estou
+muito inexperiente, e que se os meus companheiros de
+estante chegarem a conversar alguma vez com esse papel,
+que o meu amigo transformou em confidente das
+minhas tribula&ccedil;&otilde;es, h&atilde;o de
+envergonhar-se da m&aacute; discipula
+que tiveram.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Com effeito, para que fui eu dizer totalmente ao
+leitor que o usurario se debru&ccedil;&aacute;ra a contemplar
+as
+bolsas? Privei-me assim de umas poucas de phrases
+interrogativas, que produziriam uma optima impress&atilde;o!<br />
+
+<br />
+
+&laquo;O que seriam esses objectos informes immoveis no
+fundo da caixa? Que mysterio se occultaria n'aquellas
+tenebrosas profundezas?&raquo; Etc., etc. Ora vejam o que
+eu perdi.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Emfim o mal est&aacute; feito, e n&atilde;o tenho
+remedio sen&atilde;o <span class="pagenum">[174]</span>
+continuar a narra&ccedil;&atilde;o, prescindindo d'esses
+auxiliares de
+que me lembrei t&atilde;o tarde.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Um murmurio confuso se elevou assim que eu cheguei.
+Na existencia monotona dos prezos &eacute; sempre um
+acontecimento importante a chegada de um estranho.
+A curiosidade irritada por uma longa abstinencia, procura
+saciar-se com frenesi assim que se lhe offerece
+occasi&atilde;o para isso. Era destino meu concorrer para matar
+a fome, umas vezes de p&atilde;o, quando eram humanos
+os que soffriam, outras vezes de curiosidade quando
+eram bolsas.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Por isso, apenas troc&aacute;mos os primeiros
+comprimentos,
+logo ca&iacute;u sobre mim a chuva de perguntas. Quem
+era eu? d'onde vinha? como f&ocirc;ra alli parar? De todos
+os cantos do bah&uacute; sa&iacute;a uma
+interroga&ccedil;&atilde;o; todas as bolsas
+olhavam para mim, as mais distantes punham-se
+nos bicos dos p&eacute;s, para me verem melhor, depois cochichavam
+entre si; as novas faziam observa&ccedil;&otilde;es zombeteiras
+&aacute;cerca das minhas fei&ccedil;&otilde;es, e,
+comparando-as
+com as suas, concluiam que eu nunca lhes poderia disputar
+o pomo da belleza; as que estavam intactas achavam-me
+horrenda por causa dos meus rasg&otilde;es; as que
+estavam mais rasgadas do que eu, achavam que me ficava
+pessimamente o estar pouco dilacerada; as velhas
+s&oacute; olhavam para mim com complacencia, lembravam-se
+do seu tempo, suspiravam, e chamavam-me &laquo;filha.&raquo;<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Depois de satisfazer, o melhor que pude, a curiosidade
+geral, chegou a minha vez. N&atilde;o foi necessario
+que eu rogasse muito, para ser informada da vida das
+minhas companheiras, n&atilde;o foi preciso at&eacute; que eu
+dissesse
+uma s&oacute; palavra a esse respeito. Se de alguma
+coisa me pude queixar, foi da pressa que ellas tinham
+<span class="pagenum">[175]</span>de me contar a sua
+historia, o que fazia com que fallassem
+todas ao mesmo tempo, havendo na caixa uma
+balburdia incomprehensivel. Dir-se-ia que era alli a base
+da torre de Babel!<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Ai! meu amigo, que horrendas coisas eu vim a saber!
+Que de crimes estavam alli escondidos, d'estes que
+escapam &aacute; justi&ccedil;a dos homens, mas sobre os quaes
+est&atilde;o
+abertos os olhos vigilantes da Providencia! Cada
+moeda de oiro accumulada n'aquelle cofre, representava
+uma enorme somma de soffrimentos. Aqui uma viuva,
+reduzida &aacute; miseria! mais adiante uma donzella, pura
+como os anjos, lan&ccedil;ada no abysmo da devassid&atilde;o!
+Acol&aacute;
+um orph&atilde;o defraudado da heran&ccedil;a paterna. Sommas
+consideraveis representavam vidas e vidas de torturas
+incriveis, soffridas pelos vossos pobres irm&atilde;os, cujo rosto
+o acaso do clima revestiu com um manto luctuoso! Que
+horrores jaziam alli escondidos! Que de trevas entravam
+na composi&ccedil;&atilde;o do fulgor d'aquelle oiro!<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Era j&aacute; noite. Sentimos uma chave ranger na
+fechadura;
+tudo entrou no silencio.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Abriu-se o cofre, e appareceu-nos o rosto livido, e
+a extensa figura do usurario. Estava de barrete de dormir
+e de roup&atilde;o. Trazia um casti&ccedil;al.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Collocou-o em cima da meza da cabeceira, sentou-se
+no ch&atilde;o, despejou-nos uma a uma, e come&ccedil;ou a
+revolver
+a massa brilhante do oiro.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Saltem, saltem, minhas meninas, dizia elle em
+voz baixa e roufenha, saltem que bem me custam a ganhar.
+N&atilde;o as crimino por isso; pelo contrario. Que prazer
+ha ahi que se compare com o que eu experimento
+n'este instante? Como tudo isto deslumbra! Tenho aqui
+o sufficiente para comprar Portugal todo, incluindo as
+<span class="pagenum">[176]</span>consciencias dos
+seus habitantes. Para qu&ecirc;! Puf! Que
+me importa a mim com essa canalha, que me chama
+usurario, e que me vem lamber os p&eacute;s. Prazer, ineffavel
+prazer &eacute; este que v&oacute;s me daes. Saltem, saltem,
+minhas
+meninas!<br />
+
+<br />
+
+&laquo;E sorria-se com um sorriso de hyena, o miseravel!<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Finalmente can&ccedil;ou-se, tornou-nos a encher com
+toda
+a paciencia, fechou o cofre, e foi-se deitar.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Ca&iacute;u tudo em silencio de novo.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Deu meia noite!<br />
+
+<br />
+
+&laquo;As pancadas do relogio resoaram lenta e lugubremente
+na solid&atilde;o do quarto.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;E eu senti um frio terror percorrer-me o corpo;
+porque um vago e convulso estremecimento agit&aacute;ra no
+meu seio as libras silenciosas.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;E o cofre abriu-se como se m&atilde;o invisivel o
+tocasse,
+e um vulto melancolico e severo, com azas negras nos
+hombros, appareceu em p&eacute; junto de n&oacute;s.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Era o anjo do remorso! Que magestade n'aquella
+fronte sombria, que pungente contrac&ccedil;&atilde;o no seu
+labio
+severo!<br />
+
+<br />
+
+&laquo;E elle estendeu a m&atilde;o com um gesto imperioso, e
+eu, gelada de susto, senti as pe&ccedil;as de oiro moverem-se
+por si mesmas, e adquirirem como que umas azas pequeninas.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Um vago e sinistro suor lhes percorreu a fronte, e
+esse suor era um suor de lagrimas!<br />
+
+<br />
+
+&laquo;E todas se ergueram; o enxame de sinistras abelhas
+sa&iacute;u em bando da tenebrosa colmeia, e a bulha das
+suas azas metallicas produzia n&atilde;o sei que lugubre som!<br />
+
+<br />
+
+&laquo;E, ao mando do anjo do remorso, foram todas pairar
+sobre o leito do avaro.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[177]</span>
+&laquo;Ent&atilde;o vi um terrivel espectaculo; de cada uma
+d'essas pe&ccedil;as de oiro come&ccedil;aram a escorrer
+lagrimas
+e sangue, que iam ca&iacute;r g&ocirc;ta a g&ocirc;ta na
+livida fronte do
+usurario.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;E elle agitava-se na cama, erguia as m&atilde;os
+supplicantes,
+procurava limpar a fronte, debalde! porque a
+horrenda chuva cahia incessante, incessante, e alastrava
+em nodoa immensa, que parecia o funebre s&ecirc;llo
+da reprova&ccedil;&atilde;o de Deus.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;E das pe&ccedil;as de oiro sa&iacute;a um concerto
+dilacerante!
+concerto composto de gritos, de solu&ccedil;os, de blasphemias,
+e de impreca&ccedil;&otilde;es!<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Depois, a um signal do anjo, as moedas desappareceram
+e transformaram-se em espectros, que vieram
+doidejar em torno do leito do meu dono.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;E a puni&ccedil;&atilde;o ainda era mais cruel!<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Uma tom&aacute;ra as f&oacute;rmas de uma mulher,
+joven, bella,
+um anjo emfim, mas um anjo ca&iacute;do!<br />
+
+<br />
+
+&laquo;E approximou-se do usurario, e disse-lhe com voz
+rouca:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Era virgem, estava s&oacute;! Protegia-me a dupla
+aur&eacute;ola da innocencia e da orphandade! Tu vieste,
+especulador infame, arrojaste-me a um abysmo, e
+manchaste de lodo a minha candida tunica.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;E outra mudava-se n'um pobre velho, de cabellos
+brancos, que arrastava uma grilheta preza no p&eacute;:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Eu era o symbolo da honra; mas tinha filhos!
+Reduziste-me &aacute; miseria, e eu roubei!<br />
+
+<br />
+
+&laquo;E todos os espectros bradavam com voz pavorosa:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;S&ecirc; maldito!<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Era horrivel, horrivel aquella scena!<br />
+
+<br />
+
+&laquo;E durou at&eacute; que os primeiros e tenues
+clar&otilde;es da <span class="pagenum">[178]</span>
+madrugada entrassem timidamente pela janella do
+quarto.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Com o primeiro raio da aurora, vi apparecer no
+quarto um anjo de brancas azas, com a face luminosa
+banhada em pranto.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Veiu e ajoelhou aos p&eacute;s do seu terrivel
+irm&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Ainda n&atilde;o est&aacute; satisfeita a tua
+vingan&ccedil;a?&#8213;bradou
+elle com uma voz melodiosa, de que &eacute; apenas um
+frouxo echo o plangente suspiro da harpa &eacute;olia.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Era o anjo da guarda do usurario, que o tinha
+abandonado,
+chamado pelo Senhor, mas que attrahido pelo
+invencivel amor, que nos consagram estes celestes protectores,
+vinha na hora do supplicio invocar, para o
+seu protegido, a misericordia!<br />
+
+<br />
+
+&laquo;E o anjo do remorso, vencido pelas preces do seu
+candido companheiro, fez um signal, e o tumultuoso
+enxame entrou no cofre, que se tornou a fechar.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Um vago bater de azas denunciou-me que os dois
+anjos tinham voltado ao c&eacute;o levados pelo primeiro raio
+do sol da manh&atilde;.<br />
+
+<br />
+
+<h3>XVI</h3>
+
+<br />
+
+&laquo;Isto repetia-se todas as noites. O costume j&aacute; me
+torn&aacute;ra indifferente.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Passaram-se talvez seis annos, durante os quaes eu
+nunca sa&iacute; da minha pris&atilde;o, e em que, pelo
+contrario,
+entraram muitas novas companheiras que vinham augmentar
+o volumoso peculio, e, ao bater da meia-noite,
+tornar tambem mais numeroso o funebre cortejo dos
+phantasmas.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;No fim de seis annos morreu o meu usurario! Morreu
+<span class="pagenum">[179]</span>de repente!
+N&atilde;o tivera tempo de fazer testamento,
+e, segundo me disseram, iamos passar para as m&atilde;os
+de uma herdeira, parenta muito afastada do finado.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Com effeito, poucos dias depois da morte de Bartholomeu
+Nunes, vieram uns quatro gallegos para levar
+a burra a pau e corda.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Tivemos a consola&ccedil;&atilde;o de os derrear!<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Quando cheg&aacute;mos &aacute; casa para onde
+iamos, os gallegos
+escorriam em suor, e praguejavam como uns damnados.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Uma voz argentina fez-se ouvir junto de n&oacute;s. Esta
+voz n&atilde;o me era desconhecida; mas onde a ouvira eu?
+Impossivel lembrar-me!<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Finalmente rangeu a chave na fechadura, e abriu-se
+o cofre. Que rosto imagina que me appareceu? O de
+Camilla! o da minha creadora!<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Descrever-lhe a alegria que senti &eacute;-me
+completamente
+impossivel.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Ella primeiro n&atilde;o me conheceu. Espantada de tanta
+opulencia, n&atilde;o fazia sen&atilde;o repetir:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Como aquelle homem era rico!<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Depois tirou para f&oacute;ra algumas bolsas. Entre
+ellas
+ia eu.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Camilla mirou-me attentamente, e murmurou:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Que estranha similhan&ccedil;a... &Eacute;
+impossivel!...
+Seria extraordinario!<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Era-lhe facil sair d'aquella incerteza. A sua delicada
+m&atilde;osinha bord&aacute;ra no meu corpo as iniciaes d'ella
+e de
+seu marido; por conseguinte, podia procurar esse signal.
+Foi o que fez.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;As duas letras&#8213;<em>C
+E</em>&#8213;c&aacute; estavam enla&ccedil;adas
+amorosamente.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[180]</span>
+&laquo;Camilla deu um grito de alegria. Beijou-me freneticamente,
+exclamando:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;&Oacute; minha gentil bolsinha! Torno a encontrar-te.
+Como est&aacute;s desfigurada! Que te tem acontecido? Ainda
+conservas as nossas iniciaes n'um estreito abra&ccedil;o! Symbolo
+de um amor que passou, que doce amargura eu
+sinto em te v&ecirc;r!<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Que se pass&aacute;ra n'aquella casa? Que acontecimento
+motiv&aacute;ra as tristes palavras de Camilla?<br />
+
+<br />
+
+<h3>XVII</h3>
+
+<br />
+
+&laquo;Juro-lhe que n'esse momento tive pena de n&atilde;o ser
+um ente possuidor da faculdade do movimento, de vida,
+emfim, para poder corresponder aos ternos beijos com
+que a minha boa dona me saudava. Infelizmente, tinha
+de me contentar com os receber e n&atilde;o podia retribuil-os.
+Via-me obrigada a ficar immovel, gelada, na
+apparencia indifferente.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Para lhe poupar o trabalho, que eu tive, de saber
+a pouco e pouco o que se pass&aacute;ra, eu lh'o digo em
+poucas palavras.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Camilla, como sabe, tinha genio ciumento. Eduardo
+era impaciente e teimoso.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Tinham-se repetido muitas vezes scenas similhantes
+&aacute;quella que me obrig&aacute;ra a sair pela janella, como
+um amante surprehendido. Uma vez, por&eacute;m, a
+discuss&atilde;o
+f&ocirc;ra mais agitada, do que era habitual. Eduardo
+irrit&aacute;ra-se, Camilla teim&aacute;ra, e o rompimento
+seguira-se.
+F&ocirc;ra uma especie de divorcio <em>intra
+muros</em>, com consentimento
+de ambos. N&atilde;o havia nem sombra de escandalo.
+<span class="pagenum"><a name="p181">[181]</a></span>Muito
+amaveis um
+para com o outro na sociedade,
+em casa viam-se apenas &aacute;s horas da comida, fallavam-se
+muito cortezmente, e depois cada um partia para o seu
+lado.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Esta intoleravel situa&ccedil;&atilde;o durava, ia
+para seis mezes.
+E n&atilde;o julgue que o amor dos dois esposos tinha
+afrouxado; pelo contrario, amavam-se cada vez mais;
+por&eacute;m o seu genio orgulhoso impedia a cada um d'elles
+dar o primeiro passo para a reconcilia&ccedil;&atilde;o.
+Soffriam,
+e soffriam em silencio.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Ahi tem a explica&ccedil;&atilde;o das phrases de
+Camilla.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Estava-me ella ainda beijando, quando bateram &aacute;
+porta devagarinho.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;D&aacute; licen&ccedil;a?&#8213;disse a voz de Eduardo.
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Camilla enxugou os olhos rapidamente, collocou-me
+em cima da meza, e respondeu com voz ainda um
+pouco tremula:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Entre!<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Eduardo entrou. O tempo n&atilde;o alter&aacute;ra a
+<a href="#e20">belleza</a> varonil
+do mancebo; s&oacute; um bonito bigode negro substituira
+o ligeiro bu&ccedil;o do adolescente.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Eduardo devia ter vinte e nove annos.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Desculpe-me incommodal-a, disse elle, sorrindo;
+mas nomeou-me procurador n'este negocio da heran&ccedil;a,
+e, por conseguinte, vejo-me obrigado a estar sempre a
+importunal-a para lhe dar as minhas contas. O ministro
+da fazenda deve ter entrada franca junto d'el-rei.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;P&oacute;de vir sempre sem receio de me
+importunar.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Ah! diga isso &aacute; vontade. Eu nunca tomo as
+coisas
+ao p&eacute; da letra. Erro grosseiro, que tanta gente
+commette, e d'onde resultam tantos desenganos. &Eacute; para
+mim axiomatico o seguinte principio: Todo o homem
+<span class="pagenum">[182]</span>na
+conversa&ccedil;&atilde;o deve ser um agiota feroz;
+n&atilde;o receber
+as palavras sem um desconto de cincoenta por cento.
+Eu podia n'este ponto fazer um
+<em>calembourg</em> sobre as
+palavras e as letras... de cambio; mas sou misericordioso.
+Ah! a proposito de agiota; estava dando balan&ccedil;o
+aos fundos do seu parente? J&aacute; vejo que n&atilde;o podia
+chegar
+em melhor occasi&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;N&atilde;o! enganas-te; estava contemplando as bolsas
+em que elle mettia o dinheiro. Tem algumas que n&atilde;o
+s&atilde;o feias.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Ia jurar que conhecia esta, atalhou Eduardo, erguendo-me
+com vivacidade; parece-se tanto com uma...<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Interrompeu-se, passou a m&atilde;o pela testa, e depois
+continuou:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Com uma que desappareceu, como tudo o que
+ella symbolisava.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Recorda&ccedil;&otilde;es?! tornou Camilla,
+sorrindo ironicamente.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;N&atilde;o, vento de inverno que sacudiu um instante
+as cinzas frias de um amor que morreu! Se uma centelha
+fulgurou por acaso, desculpe-me.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Desculpal-o?!<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Sim, desculpar-me! Nem todos teem for&ccedil;a
+sufficiente
+para arrancar pela raiz, do jardim do cora&ccedil;&atilde;o,
+as ridentes fl&ocirc;res da mocidade. Sobre o tumulo, em
+que sepult&aacute;mos o passado, brotam involuntariamente
+rosas. Passa uma aragem ligeira, e l&aacute; nos vem um perfume
+acariciar de novo. Mas deixe, que hei de decepar
+a roseira, ainda que da hastea cortada corra o sangue
+em borbot&otilde;es.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Quem foi o culpado d'isso?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Quem? Nem eu sei. Sei apenas que esse algoz
+<span class="pagenum">[183]</span>desconhecido
+retalhou-me bem fundo o cora&ccedil;&atilde;o. Bem
+fundo! Como v&ecirc;, a cicatriza&ccedil;&atilde;o
+n&atilde;o foi perfeita, e a ferida
+ainda sangra de vez em quando! Que loucura!&#8213;continuou
+elle mudando de tom, e sentando-se n'uma
+cadeira com modos affectadamente joviaes, se n&atilde;o foi
+melhor assim! Para fallarmos verdade, Camilla, j&aacute; nos
+iamos tornando ridiculos com o nosso eterno arrulhar!
+Que absurdo! Dois pombinhos namorados, atravessando
+o mundo, atados um ao outro com o la&ccedil;o c&ocirc;r de
+rosa do santissimo matrimonio! O mundo ria-se e tinha
+ras&atilde;o; porque o mundo tem sempre ras&atilde;o. Agora
+&eacute;
+que estamos bem. Somos uns esposos comedidos; encontramo-nos
+tres vezes por dia; eu sou o seu procurador,
+v. ex.<sup>a</sup> a minha intendente. Eu sou o encarregado
+dos negocios estrangeiros, v. ex.<sup>a</sup> dos do reino.
+Vejam se ha n'este mundo viver melhor! A paz do Senhor
+habita comnosco! Ah!&#8213;continuou Eduardo animando-se
+successivamente, morram as suaves recorda&ccedil;&otilde;es!
+Arraze-se o jardim, para fazer brotar a ora das
+conveniencias! Morra tudo quanto nos possa recordar
+as doces horas do alvorecer do nosso amor, esses arrufos,
+chuvas de primavera, os beijos da reconcilia&ccedil;&atilde;o,
+iris delicioso! Olhe, d&ecirc;-me licen&ccedil;a que afaste da
+nossa
+vista tudo quanto possa despertar pensamentos perigosos,
+prejudiciaes ao nosso repouso. Morra este ultimo
+objecto, que ainda se atreveu a fallar-me em coisas
+para sempre esquecidas.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;E, dizendo isto, levantou-se n'um incrivel estado de
+agita&ccedil;&atilde;o, e agarrando em mim com vehemencia, ia a
+atirar-me pela segunda vez pela janella f&oacute;ra. Eu estava
+j&aacute; desesperada pela incrivel tendencia que Eduardo
+mostrava para me fazer saltar pela janella, e &laquo;E, dizendo
+isto, levantou-se n'um incrivel estado de
+agita&ccedil;&atilde;o, e agarrando em mim com vehemencia, ia a
+atirar-me pela segunda vez pela janella f&oacute;ra. Eu estava
+j&aacute; desesperada pela incrivel tendencia que Eduardo
+mostrava para me fazer saltar pela janella, e pensando
+<span class="pagenum"><a name="p184">[184]</a></span>
+na minha triste sorte, que ia atirar comigo ao mar das
+aventuras, quando julgava entrar no porto de
+salva&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Um grito de Camilla foi quem me livrou de travar
+de novo conhecimento com o espa&ccedil;o.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&laquo;Eduardo, Eduardo, bradou ella com as lagrimas
+nos olhos, v&ecirc; bem essa bolsa!<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Eduardo contemplou-me, viu as iniciaes, reconheceu-me,
+e, voltando-se para Camilla, leu-lhe nos olhos
+uma tal express&atilde;o de amor, que, sem se poder conter,
+caiu-lhe aos p&eacute;s, banhado em lagrimas deliciosas, em
+quanto ella, n'um extase ineffavel, lhe beijava os cabellos.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Que momento aquelle!<br />
+
+<br />
+
+<h3>XVIII</h3>
+
+<br />
+
+&laquo;Termina aqui a minha narra&ccedil;&atilde;o. Nas
+bolsas como
+nas na&ccedil;&otilde;es, s&atilde;o felizes as que
+n&atilde;o tem historia.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Dir-lhe-hei unicamente que fui conservada em casa
+de Camilla e de Eduardo, como uma reliquia preciosa,
+que se conservava tal qual eu tinha reapparecido, para
+trazer a concordia &aacute;quelles dois estouvados.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Quando Eduardo morreu, fui eu a confidente e a
+consoladora de Camilla. Como esta nunca tinha tido filhos,
+era comigo que fallava em seu marido, e muitas
+vezes me regou com as lagrimas que derramava. A pobre
+senhora conservava sempre viva e ardente no
+cora&ccedil;&atilde;o
+a imagem do seu esposo.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Morreu a opulentissima viuva. Os herdeiros, tambem
+j&aacute; bastante ricos, quizeram liquidar aquelles immensos
+haveres. Venderam tudo, eu fui com a <a href="#e21">mobilia</a>
+<span class="pagenum">[185]</span>da casa, e alli,
+gra&ccedil;as ao meu amigo, salvei-me de cair
+nas garras de algum segundo Bartholomeu Nunes, que
+me tivesse seis annos fechada em cofre.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Ao menos com o senhor tenho podido tagarellar.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Aqui ponho ponto.&raquo;<br />
+
+<h3>
+XIX</h3>
+
+<br />
+
+Assim fallou a bolsa, e eu, secretario fiel, fui escrevendo
+textualmente o que ella me dictou.<br />
+
+<br />
+
+Tiro de cima dos meus hombros toda e qualquer responsabilidade.<br />
+
+<br />
+
+A aurora come&ccedil;ava a apontar no horisonte. Ao passo
+que a deusa dos roseos dedos abria as portas do Oriente,
+a bolsa a pouco e pouco ia perdendo a anima&ccedil;&atilde;o
+ficticia,
+que um poder sobrenatural lhe emprest&aacute;ra, e ia-se
+deixando cair em cima da meza.<br />
+
+<br />
+
+Eu, ingrato, n&atilde;o me importei com isso. Em quanto
+ella ia voltando ao seu estado normal, contemplava satisfeito
+o papel inundado de garatujas, cuja perpetra&ccedil;&atilde;o
+principal n&atilde;o f&ocirc;ra commettida por mim, e escrevia
+no fundo da ultima pagina, as seguintes palavras sacramentaes:<br />
+
+<br />
+
+<em>Finis, laus Deo</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Quando Lucio Valen&ccedil;a acabou a sua longa leitura, o
+visconde da Fragosa resonava maravilhosamente, e o
+conselheiro Madureira formava com elle um duetto mais
+ou menos parlamentar. Henrique e Leonor applaudiam
+<span class="pagenum">[186]</span>
+calorosamente; Roberto Soares fazia as suas reservas;
+Isaura lan&ccedil;ava olhares assassinos ao auctor, que na febre
+da vaidade litteraria nem reparava n'essas amaveis
+provoca&ccedil;&otilde;es. O doutor Macedo indignou-se.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O Lucio, bradou elle, sa&iacute;u f&oacute;ra do meu
+programma.
+Inpingiu-nos um romance humoristico debaixo da
+bandeira de conto da meia-noite. Lavro um protesto, e
+pe&ccedil;o que se lance na acta.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Apoiado! exclamou o visconde da Fragosa, acordando.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mas, doutor... acudiu Valen&ccedil;a, rindo.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Qual mas nem meio mas! Ent&atilde;o isto &eacute; conto
+phantastico?
+Voc&ecirc; nunca leu Hoffman? Voc&ecirc; nunca leu Carlos
+Dickens? Leu, sim senhor, mas tinha o romance
+fechado na sua gaveta, apanhou auditorio benevolo, e
+impingiu-o. Quer editor! N&atilde;o &eacute; outra coisa,
+minhas
+senhoras, quer editor! Ent&atilde;o onde ha aqui espectro?
+onde ha vis&atilde;o? onde ha os terrores legendarios da
+meia-noite?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pe&ccedil;o a palavra, interrompeu Lucio, rindo.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sobre a ordem ou sobre a materia? perguntou
+gravemente o visconde da Fragosa.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sobre o espirito, redarguiu Lucio.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o &eacute; parlamentar, tornou o visconde.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Deixe-o fallar, visconde, deixe-o fallar que eu j&aacute; o
+esmago.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Veremos, tornou Lucio. Qual era o nosso fim, doutor?
+Matar a meia-noite... Matou-se. Tres noites a fio
+se contaram coisas medonhas, coisas de arripiar os cabellos,
+vieram aqui &aacute; pra&ccedil;a defunctas que v&atilde;o
+a S. Carlos,
+phantasmas da meia edade, egrejas submarinas que
+se illuminam mysteriosamente &aacute; meia-noite. Algum de
+<span class="pagenum"><a name="p187">[187]</a></span>n&oacute;s
+trepidou?
+N&atilde;o; pelo contrario. A meia-noite hoje
+passou, e ninguem deu por tal. Queriam que eu abusasse
+da victoria? A meia-noite morreu. <em>Parce
+sepultis?</em><br />
+
+<br />
+
+&#8213;Sophismas! sophismas v&atilde;os!<br />
+
+<br />
+
+&#8213;App&eacute;llo para o <em>claro auditorio
+meu</em>.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Oacute; vaidoso! bradou o doutor Macedo, isso &eacute; de
+Bocage, sabes tu, profano? ousas comparar-te ao gigante?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu por mim gostei, exclamou Leonor.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu tambem! tornou Henrique, trocando uma vista
+d'olhos com a gentil filha dos viscondes da Fragosa,
+ainda que me parece que os arrufos de Eduardo e de
+Camilla duraram mais do que seria de ras&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tu cheiras-me a noivo, Henrique! disse o doutor.
+Exhalas um vago perfume de fl&ocirc;r de larangeira.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu, exclamou logo Isaura, requebrando-se toda,
+declaro que ainda aqui n&atilde;o ouvi coisa de que mais gostasse.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Oh! minha senhora, tornou Lucio, desfazendo-se
+em agradecimentos.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Percam-n'o com as lisonjas, percam, acudiu o doutor
+Macedo. E agora deixem-me pronunciar a dissolu&ccedil;&atilde;o
+da sociedade <em>Inimiga da meia-noite</em>.
+Est&aacute; a terminar
+o tempo da <em>villeggiatura</em>. Depois de
+&aacute;manha &eacute; a
+ultima ca&ccedil;ada. Est&aacute; dissolvida a
+<a href="#e22">associa&ccedil;&atilde;o</a>.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Doutor, antes d'isso tenho que lhe apresentar um
+requerimento, disse a doce voz de Leonor.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Mandar para a meza, emendou o visconde da Fragosa.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Que requerimento &eacute;? perguntou Macedo.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;A Juliasita e o Alvaro tem sabido que se contam
+aqui, depois d'elles se deitarem, historias pavorosas,
+<span class="pagenum"><a name="p188">[188]</a></span>e
+as criadas
+v&ecirc;em-se gregas com elles para os despirem
+quando chega a hora de os deitarem, porque n&atilde;o
+&eacute; sen&atilde;o dizerem que querem ficar a p&eacute;
+para ouvirem
+as historias. Prometti-lhes que uma noite d'estas assistiriam
+&aacute; entrevista. Como decididamente j&aacute; ninguem
+pensa na meia-noite, como hoje se abriu o exemplo de
+n&atilde;o se esperar a hora fatidica, n&atilde;o podiamos
+&aacute;manh&atilde;,
+ao anoitecer, abrir a sess&atilde;o para os pequenitos assistirem?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ora... para qu&ecirc;, Leonor? acudiu a viscondessa,
+os teus irm&atilde;os caem de somno &aacute;s primeiras
+palavras.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;De certo, se se lhes n&atilde;o escolher coisa de que elles
+gostem. A <em>Julieta</em> de certo a
+n&atilde;o perceberiam, acudiu
+Leonor, sorrindo maliciosamente para Henrique.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o eram s&oacute; elles, resmungou Henrique Osorio.<br />
+
+<br />
+
+Isaura n&atilde;o ouviu; estava toda embebida n'uma larga
+conversa&ccedil;&atilde;o com Lucio Valen&ccedil;a.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! eu me encarrego d'elles; pago &aacute;manh&atilde; a
+minha
+quota, aproveito o precedente de Lucio.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O qu&ecirc;? o qu&ecirc;? acudiu Lucio, que ouvira pronunciar
+o seu nome.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Falla se por aqui no teu precedente, ou no
+teu
+predecessor, que &eacute; a mesma coisa. Julgavas que o
+n&atilde;o
+tinhas?<br />
+
+<br />
+
+Leonor desatou <a href="#e23">a rir</a>, Henrique
+fez-se ligeiramente
+c&oacute;rado, Isaura n&atilde;o comprehendeu.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Invocando, pois, o precedente de Lucio, continuou
+o doutor, apresentarei &aacute;manh&atilde;, em obsequio ao
+Alvaro
+e a Julia, uma <em>lenda da meia-noite</em>,
+que n&atilde;o ser&aacute; lenda
+e que n&atilde;o ser&aacute; &aacute; meia-noite, o que
+dar&aacute; a Roberto
+Soares assumpto para um estudo intitulado: <em>De como
+degeneram as lendas</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[189]</span>
+Dispersou-se a companhia, porque era j&aacute; tarde, mas
+Henrique e Leonor tinham aberto uma janella e conversavam
+animadamente.<br />
+
+<br />
+
+Ao passar junto d'elles, Isaura, a quem Lucio dava
+o bra&ccedil;o, n&atilde;o p&ocirc;de eximir-se a
+dizer-lhe:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Veja se se transforma em espectro essa nova Julieta.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Minha senhora, acudiu Henrique, transformam-se
+em espectros ou em nada, que &eacute; a mesma coisa, as
+loucas vis&otilde;es que sonha a phantasia enferma. Esses
+sonhos, quando se desperta, deixam apenas uma impress&atilde;o
+pesada e morbida. E quando se acorda &eacute; que
+se percebe que as Julietas nunca foram amadas com o
+cora&ccedil;&atilde;o, foram sempre um pretexto para as
+divaga&ccedil;&otilde;es
+de uma imagina&ccedil;&atilde;o desnorteada.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E encontrou a bussola, Henrique? acudiu Lucio,
+motejador.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Encontrei, sim, meu amigo.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Procurou-a por muito tempo?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Estava ao meu lado. Somos t&atilde;o loucos que nunca
+pensamos em reparar se nas pedras do nosso jardim
+habitualmente n&atilde;o se encontrar&aacute; alguma que tenha
+as
+qualidades maravilhosas do magnete, e deixamo nos
+attrahir tolamente por umas pedras que brilham, que
+julgamos diamantes e que s&atilde;o apenas...<br />
+
+<br />
+
+&#8213;O qu&ecirc;?<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Peda&ccedil;os de vidro que brilham ao sol; o fulgor
+era do sol e n&atilde;o d'elles.<br />
+
+<br />
+
+Os dois companheiros de ser&atilde;o trocavam j&aacute; olhares
+inflammados, e nas suas vozes havia um tom amea&ccedil;ador.
+Isaura assistia olympicamente desdenhosa a esse
+torneio de espirito. Leonor, inquieta e magoada, sentia
+os olhos marejarem-se-lhe de lagrimas.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p190">[190]</a></span>
+&#8213;Se n&atilde;o se v&atilde;o deitar, apago eu mesmo as luzes,
+exclamou o doutor Macedo intervindo de subito e separando
+bruscamente os quatro personagens da scena.
+Olhem que massadores!<br />
+
+<br />
+
+E, emquanto o grupo se dispersava, trocando despedidas
+um pouco frias, o doutor Macedo fechava a janella
+murmurando:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;<em>Cherchez la femme</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Na noite seguinte assistiam dois novos ouvintes &aacute;
+leitura. Eram Alvaro e Julia, os dois filhos mais novos
+dos viscondes da Fragosa. As crean&ccedil;as estavam radiantes
+de alegria; emquanto Alvaro, loira crean&ccedil;a de seis
+annos, cravava os grandes olhos azues, com infantil
+curiosidade, no doutor Macedo, Julia, uma menina de
+nove annos, toda elegante, e que era o retrato de sua
+irm&atilde; mais velha, ouvia, rindo &aacute;s gargalhadas, as
+historietas
+de Henrique Osorio que a tinha no collo, e que,
+prodigalisando-lhe as caricias, esperava assim reconquistar
+as boas gra&ccedil;as de Leonor, que fic&aacute;ra um pouco
+ferida pela scena da vespera, em que lhe parec&ecirc;ra
+v&ecirc;r
+um resentimento que mostrava que Isaura n&atilde;o
+f&oacute;ra de
+todo esquecida.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meus meninos, disse o doutor Macedo desenrolando
+o seu manuscripto, &eacute; s&oacute; c&aacute; para
+n&oacute;s este conto.
+A mana, o Henrique e os outros que riam ou durmam,
+se quizerem. N&oacute;s c&aacute; &eacute; que nos vamos
+entreter. Este
+conto &eacute; s&oacute; para n&oacute;s, e
+<a href="#e24">intitula-se</a>...<br />
+
+<br />
+
+Lucio Valencia, que estava collocado defronte de uma
+<span class="pagenum"><a name="p191">[191]</a></span>
+janella aberta, interrompeu com um espirro o discurso
+de Macedo.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;<em>Dominus tecum</em>, concluiu o doutor.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Obrigado, disse Lucio.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;N&atilde;o &eacute; obrigado, &eacute; o titulo do conto.
+Mas vejam
+o que &eacute; ser-se litterato. Espirramos, diz-nos alguem
+<em>Dominus tecum</em>; &eacute; o que
+basta, saiu um conto!<br />
+
+<br />
+
+Todos desataram a rir, e o doutor, com a sua voz
+admiravel, com a rara sciencia de recita&ccedil;&atilde;o que
+possuia,
+come&ccedil;ou a l&ecirc;r, no meio de profunda
+<a href="#e25">atten&ccedil;&atilde;o</a>
+das
+duas crean&ccedil;as, o seu <em>Dominus
+tecum</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[192]</span>
+<h2>DOMINUS TECUM...</h2>
+
+<h3>
+(CONTO PARA CREAN&Ccedil;AS)</h3>
+
+<br />
+
+<h3>
+I</h3>
+
+<br />
+
+Agora que a noite come&ccedil;a a desenrolar o seu manto
+azul, onde essas fadas luminosas, que se chamam estrellas,
+dan&ccedil;am em torno da sua branca rainha, que
+percorre o firmamento no seu argenteo carro, umas
+solitarias e pensativas, como a scismadora Venus, outras
+formando immensa e jovial chor&eacute;a como as brancas
+estrellinhas da via lactea; agora que principia a
+ouvir-se ao longe o grave som das Trindades, perfume
+de harmonia que parece exhalar-se das urnas gigantes
+dos campanarios, vinde, meus meninos, vinde agrupar-vos
+em torno de mim, e ouvir as historias maravilhosas
+que eu tenho para vos contar.<br />
+
+<br />
+
+Arredae da fronte os loiros anneis dos vossos cabellos,
+doirados fios que enreda, teimosa, a brisa folgaz&atilde;,
+como que para vos desafiar para novos brinquedos, e
+<span class="pagenum">[193]</span>fitae-me bem com
+esses olhos azues, transparentes como
+o lago limpido, puros como o c&eacute;o ridente, que vos quero
+povoar os sonhos de imagens luminosas d'esse mundo
+lou&ccedil;&atilde;o de fadas e duendes!<br />
+
+<br />
+
+&Oacute; sonhos infantis! Quem poder&aacute; j&aacute;mais
+saber quanto
+esvoa&ccedil;ar de azas brancas, quanto rescender de ignotos
+perfumes, quanto desabrochar de lindas fl&ocirc;res, quanto
+lampejar de suavissimos clar&otilde;es nos revela aquelle innocente
+sorriso que volteia nos labios da crean&ccedil;a adormecida!<br />
+
+<br />
+
+Que deliciosos colloquios n&atilde;o haver&aacute; entre essa
+almazinha
+gentil, que aspira ao c&eacute;o, e os anjos, que se
+debru&ccedil;am meigamente do azulado Empyreo, que a tomam
+nos bra&ccedil;os, que a embalam e lhe sorriem!<br />
+
+<br />
+
+E eis o motivo porque sempre despertaes chorando:
+&eacute; porque os anjos vos poisam no ber&ccedil;o, vos beijam
+na
+fronte; porque v&ecirc;des as suas azas candidas transporem
+n'um v&ocirc;o o espa&ccedil;o, e cerrarem-se com fragor as
+doiradas portas do Empyreo.<br />
+
+<br />
+
+E s&oacute; vos aplaca o choro o meigo sorrir das m&atilde;es;
+porque, se ha anjos na terra, onde se abrigariam elles
+se n&atilde;o fosse no brando seio maternal?<br />
+
+<br />
+
+Onde encontrariam imagem mais perfeita do seu Paraizo?<br />
+
+<br />
+
+Mas entre o c&eacute;o e a terra ha outro mundo de encantos,
+onde esvoa&ccedil;am as fadas travessas, os maliciosos
+duendes, que s&atilde;o tambem amigos das creancinhas e as
+v&atilde;o poisar, &aacute;s vezes, no purpureo
+rega&ccedil;o das rosas, ou
+nas rendas prateadas do immenso v&eacute;o do luar.<br />
+
+<br />
+
+De dia dormem escondidas no calice das fl&ocirc;res, ou no
+seio dos lagos, ou nas folhas das arvores; mas, quando
+soam Trindades, eil-as a esvoa&ccedil;ar no ambiente, e
+&eacute; o <span class="pagenum">[194]</span>
+bater das suas azas, o chilrear das suas vozes, que produzem
+esses ineffaveis murmurios que vos encantam
+e que vos fazem at&eacute; cair, sem saberdes por qu&ecirc;,
+n'uma
+doce melancolia.<br />
+
+<br />
+
+S&atilde;o ellas quem ensinam aos rouxinoes esses maviosos
+gorgeios, esses deliciosos trinados, que toda a natureza
+escuta embevecida n'um vago extase.<br />
+
+<br />
+
+S&atilde;o ellas quem accendem nos pyrilampos, esse phantastico
+fulgor que vagueia nos prados, e matiza de oiro
+o fundo verdejante da relva.<br />
+
+<br />
+
+S&atilde;o ellas quem desentranham do seio das fl&ocirc;res as
+nuvens de perfumes, que espalham depois, rindo, na
+atmosphera.<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; o seu bafo a brisa voluptuosa e leve, que faz correr
+um vago estremecimento pelas corollas gentis das
+rosas e dos lirios.<br />
+
+<br />
+
+Por isso a noite &eacute; mais formosa do que o dia; porque
+o dia pertence aos homens, e durante a noite imperam
+os espiritos subtis.<br />
+
+<br />
+
+A natureza v&ecirc; passar com indifferen&ccedil;a, e
+at&eacute; com
+odio, o homem que se diz seu rei, e cuja realeza &eacute; uma
+verdadeira tyrannia.<br />
+
+<br />
+
+Porque o homem decepa as arvores frondosas; colhe
+as fl&ocirc;res que vi&ccedil;avam alegres, e que
+v&atilde;o finar-se em
+ramalhetes; acorda os echos doridos com o estrondear
+das suas espingardas; e a toda a parte, onde estabelece
+o seu dominio, leva comsigo a destrui&ccedil;&atilde;o e a
+morte.<br />
+
+<br />
+
+Nunca viram, meus meninos, arder uma floresta? &Eacute;
+horrivel! As arvores contorcem-se na agonia, erguem
+ao c&eacute;o os ramos esbrazeados, soltam gritos de
+desespera&ccedil;&atilde;o.
+N&atilde;o &eacute; a vegeta&ccedil;&atilde;o inerte
+que se reduz ao
+nada, &eacute; a vida que fenece em convuls&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[195]</span>
+E quem incendiou a floresta? Quem brandiu o facho
+assolador entre a folhagem lustrosa? Foi o rei da natureza!
+Foi o monarcha da crea&ccedil;&atilde;o!<br />
+
+<br />
+
+As fadas e os duendes n&atilde;o destroem assim esses
+mysteriosos sanctuarios, onde se abrigam tantos amores,
+tantas vidas, t&atilde;o incessante trabalho de
+renova&ccedil;&atilde;o!
+Tem, pelo contrario, com elles mil desvelos; s&atilde;o ellas
+quem descerram a pouco e pouco os verdes bot&otilde;es das
+rosas do matto; s&atilde;o ellas que penetram nos troncos, e
+fazem girar a vivificante seiva em todos os pontos da
+arvore caduca; s&atilde;o quem a ajudam depois a desabrolhar
+em pimpolhos, em fl&ocirc;res e em fructos.<br />
+
+<br />
+
+Por isso, quando &aacute; noite dan&ccedil;am e folgam nos
+ares,
+toda a natureza se compraz em lhes adornar os festejos;
+as brisas volteiam com as suas urnas cheias de aromas;
+os rouxinoes descantam as suas arias; a orchestra immensa
+dos pinhaes, das carvalheiras e dos salgueiraes
+entrega aos arcos invisiveis do vento as frementes cordas
+das suas fran&ccedil;as, ou deixam que m&atilde;o ignota
+doideje
+vagamente nas teclas das suas frondes! E tudo
+canta, ri e folga, porque s&atilde;o as fadas que
+dan&ccedil;am, as
+fadas a&eacute;reas, os trav&ecirc;ssos duendes.<br />
+
+<br />
+
+E o homem entretanto, encerrado nas suas mesquinhas
+moradas, respira uma atmosphera corrompida,
+sente o suor a borbulhar-lhe na fronte depois de dar
+um giro na sala abafadi&ccedil;a, e cerra cuidadosamente as
+janellas, para que lhes n&atilde;o chegue nem um murmurio,
+nem um effluvio, nem um raio de luz.<br />
+
+<br />
+
+E a natureza aproveita a ausencia do rei da
+crea&ccedil;&atilde;o,
+e canta, e folga, e ri, porque s&atilde;o as fadas que
+dan&ccedil;am,
+as fadas risonhas, os duendes maliciosos.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[196]</span>
+<h3>II</h3>
+
+<br />
+
+Em toda a parte ha fadas, meus meninos; mas, como
+podem supp&ocirc;r, n&atilde;o tem o mesmo genio, a mesma
+indole
+nos differentes sitios. N'uns pontos persegue-as o
+infortunio, n'outros sorri-lhes a ventura.<br />
+
+<br />
+
+Na nossa terra aben&ccedil;oada, em que temos o c&eacute;o de
+veludo, aguas de crystal, sol de oiro vivo; onde nos
+ares limpidos parecem brotar por encanto musicas suavissimas;
+onde vi&ccedil;am fl&ocirc;res com profus&atilde;o; onde as
+brumas
+s&atilde;o v&eacute;o ligeiro que touca as cumiadas dos montes,
+e n&atilde;o g&eacute;lido manto que envolve as planicies,
+folgam as
+fadas de viver. &Eacute; este o paiz dos seus sonhos, este e
+a Hespanha, e a Italia e a Grecia, onde viveram por
+tanto tempo as nymphas, as naiades e as dryades, que
+eram as fadas dos pag&atilde;os.<br />
+
+<br />
+
+Livres no ar, alimentando-se de perfumes que nunca
+lhes faltam, abastecendo-se nas madre-silvas e nas magnolias,
+aquentando-se nos ninhos das avesitas, viajando
+n'um raio da lua, n&atilde;o tendo mais em que cuidar
+sen&atilde;o
+em pentear os seus lindos cabellos, em mirar-se e em
+banhar-se nas aguas transparentes, apenas uma vez por
+anno, na bemdita noite de S. Jo&atilde;o, tem de ser oraculos
+das donzellinhas, que lhes vem perguntar qual o
+porvir dos seus amores.<br />
+
+<br />
+
+Donosa occupa&ccedil;&atilde;o! Sair do asylo da folhagem e
+entrar
+na alma ingenua da donzella, &eacute; apenas mudar de
+ninho, e n&atilde;o sei qual ser&aacute; mais suave, mais
+macio,
+mais delicioso e mais immaculado.<br />
+
+<br />
+
+Estava com passarinhos, com passarinhos vae estar!
+Pois o que s&atilde;o os amores? E se escutavam deliciosos
+<span class="pagenum"><a name="p197">[197]</a></span>gorgeios,
+finas
+trovas, podiam nunca ser t&atilde;o mimosos
+esses cantares como o poema seductor, cujas estrophes
+resoam n'um cora&ccedil;&atilde;o de vinte annos?<br />
+
+<br />
+
+Mas ai! nem sempre &eacute; assim. Nos frios paizes do
+norte, na nevoenta <a href="#e26">Inglaterra</a>,
+na verde mas tristonha
+Irlanda, n&atilde;o encontram as fadas e os duendes as
+do&ccedil;uras
+d'estes ares, os esplendores d'estes c&eacute;os, a suavidade
+d'estas brisas. Mal que chega o inverno, gelam-se
+as aguas, morrem de frio os passarinhos implumes nos
+pobres ninhos devastados pela procella, a neve mata as
+fl&ocirc;res, embacia-se o clar&atilde;o da lua, desmaia a luz
+e affrouxa
+o almo calor do sol, n&atilde;o ha perfumes nem galas,
+e ai de quem intentasse dan&ccedil;ar nos ares quando o
+graniso cae!<br />
+
+<br />
+
+Coitados dos pobres duendes! Coitadas das gent&iacute;s fadas!
+Elles, que adoram a liberdade, v&ecirc;em-se obrigados
+a refugiar-se nos quentes curraes, na cinza do lar, e at&eacute;
+na chamin&eacute;! Ah! como os seus irm&atilde;os dos paizes do
+sul teriam d&oacute; d'elles se os vissem com as azas brancas
+maculadas de fuligem, a n&atilde;o ser que estejam expostos
+ao frio e &aacute; neve &aacute; porta de casa pouco
+hospedeira, onde
+n&atilde;o lhes abram sequer uma fisga por onde possam
+metter os corpinhos enregelados.<br />
+
+<br />
+
+Mas os homens s&atilde;o crueis e egoistas, e n&atilde;o
+concedem
+um favor sem mirarem a galard&atilde;o; est&atilde;o promptos
+a acolher os pobresinhos dos espiritos, com a
+condi&ccedil;&atilde;o
+que estes os h&atilde;o de servir. E aqui temos os nossos
+duendes e as nossas fadas, fieis &aacute; sua palavra, a
+ordenhar as vaccas, a guardar as ovelhas, a tratal-as
+nas doen&ccedil;as, a evitar-lhes o mau-olhado, a proteger os
+donos da casa, emfim, a fazer o que dez criados n&atilde;o
+fariam.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[198]</span>
+Mas, meus meninos, os homens, n&atilde;o contentes com
+isso, tra&ccedil;am muitas vezes fazer-lhes mal, livrar-se d'elles,
+descumprir a sua palavra, e isso tudo exacerba-os,
+e fal-os tambem, &aacute;s vezes, maus e vingativos.<br />
+
+<br />
+
+Ah! meus meninos, a miseria &eacute; a m&atilde;e terrivel do
+mal, tanto nos homens como nos duendes. A miseria,
+e a escravid&atilde;o, e a ausencia da luz! Ah! quando virdes
+um criminoso, n&atilde;o o anathematiseis, mas v&ecirc;de
+primeiro
+em que atmosphera viveu, quaes foram as primeiras
+id&eacute;as que teve, qual o estado da sua intelligencia.
+E vereis sempre a miseria, o embrutecimento e as
+trevas.<br />
+
+<br />
+
+Por isso, quando f&ocirc;rdes homens, dedicae-vos &aacute;
+grande
+obra da regenera&ccedil;&atilde;o dos vossos similhantes, ao
+seu esclarecimento
+e &aacute; sua educa&ccedil;&atilde;o moral.<br />
+
+<br />
+
+E assim tereis cumprido a vossa miss&atilde;o na terra, assim
+tereis cumprido o grande preceito da nossa religi&atilde;o
+&laquo;a caridade&raquo;, preceito que encerra em si todos os
+outros,
+raio de luz que, em se espraiando pelo mundo,
+basta para dissipar as sombras mais cerradas.<br />
+
+<br />
+
+Mas voltemos aos nossos duendes, de que j&aacute; nos
+iamos afastando tanto.<br />
+
+<br />
+
+<h3>III</h3>
+
+<br />
+
+Oi&ccedil;am pois, meus meninos, esta historia, em que
+vereis como os duendes se transformam com a miseria
+e com o mau exemplo dos homens.<br />
+
+<br />
+
+Aqui tem eterna juventude, l&aacute; chegam a envelhecer
+e tem uma velhice repugnante; aqui n&atilde;o pensam
+sen&atilde;o
+nas suas fadas, l&aacute; ousam querer raptar as filhas dos
+homens.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[199]</span>
+Ora pois, havia na Irlanda um camponez chamado
+Patricio, que pedira um favor a um duende, offerecendo-se
+a recompensal-o; mas, apenas se viu servido,
+fiado no caracter bom d'esses genios benevolos, n&atilde;o
+pensou mais em similhante galard&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+O duende, que j&aacute; era velho e rabugento, e moido de
+trabalho, enfadou-se com esta falta de palavra, e condemnou
+o camponez a servil-o sete annos e um dia.<br />
+
+<br />
+
+Senten&ccedil;a dada por duende irritado inscreve-se no livro
+do destino, e l&aacute; n&atilde;o &eacute; possivel
+arrancarem-se as folhas,
+como se fez em Portugal, nem queimar a casa
+onde o livro est&aacute;, como se fez em Fran&ccedil;a.<br />
+
+<br />
+
+O pobre Patricio, que n&atilde;o quizera dar uma pequena
+recompensa, viu-se obrigado a servir seu amo sete annos,
+sem ao menos ter a esperan&ccedil;a que teve Jacob, que
+se viu mettido em eguaes dan&ccedil;as, como os meus amiguinhos
+sabem, mas a quem f&ocirc;ra promettida em premio
+a formosa Rachel.<br />
+
+<br />
+
+E, ainda assim, Jacob n&atilde;o tinha sen&atilde;o que
+pastorear
+os rebanhos de Lab&atilde;o, o que, por fim de contas,
+n&atilde;o
+&eacute; uma occupa&ccedil;&atilde;o desagradavel.<br />
+
+<br />
+
+Mas o pobre Patricio, esse estava em peiores circumstancias.
+Al&eacute;m dos trabalhos habituaes, fazia tambem
+de escudeiro de seu amo, e tinha de o acompanhar nas
+suas excurs&otilde;es nocturnas, excurs&otilde;es que eram
+sempre
+feitas a cavallo.<br />
+
+<br />
+
+Mas a cavallo em qu&ecirc;? Imaginam que iam montados
+em guapos corceis, como esses em que os seus pap&aacute;s
+montam, ou em pacatos burrinhos, como esses em que
+os meus meninos v&atilde;o tambem dar os seus passeios?<br />
+
+<br />
+
+Pois n&atilde;o; as coudelarias do nosso duende tinham
+outra casta de cavalgaduras; eram immensas porque
+<span class="pagenum">[200]</span>abrangiam toda a
+natureza, e porque, a fallarmos verdade,
+os cavallos n&atilde;o occupavam muito espa&ccedil;o. Chegavam,
+por exemplo, ao meio de um campo, viam duas
+feveras de palha, o duende pegava n'uma, dava outra
+a Patricio, e dizia-lhe: &laquo;Monta&raquo;.<br />
+
+<br />
+
+Montar era facil de dizer, mas de fazer? Parece-me,
+realmente, que o mais perito mestre de equita&ccedil;&atilde;o
+se
+havia de v&ecirc;r seriamente embara&ccedil;ado.<br />
+
+<br />
+
+Patricio arrancava os cabellos, amaldi&ccedil;oava a sua avareza,
+que o lev&aacute;ra &aacute;quelle misero estado; mas como
+arrancando
+os cabellos ficava calvo, e n&atilde;o transformava a
+palhinha nem em burro nem em corcel, n&atilde;o tinha remedio
+sen&atilde;o montar, e l&aacute; ia elle por esses ares
+f&oacute;ra
+atraz de seu amo, que cavalgava t&atilde;o ufano como se montasse
+no celebre Bucefalo de Alexandre, em que os meus
+meninos talvez j&aacute; ouvissem fallar.<br />
+
+<br />
+
+De que elle tinha medo principalmente era que os
+seus visinhos o vissem n'aquella figura, mas d'isso n&atilde;o
+havia perigo; o duende, sendo invisivel para olhos profanos,
+tornava-o invisivel tambem a elle.<br />
+
+<br />
+
+Outras vezes n&atilde;o eram feveras de palha, mas juncos
+e cannas os corceis escolhidos; o bom do Patricio quiz
+v&ecirc;r se conseguia que seu amo acceitasse dois paus de
+vassoura, que sempre seriam, emfim, cavalgaduras mais
+commodas; mas, apenas elle abriu a bocca, o duende
+respondeu-lhe com tanta dignidade que isso era bom
+para as bruxas, que o pobre irlandez n&atilde;o ousou insistir,
+e tratou de v&ecirc;r se aprendia as regras da picaria
+aeria, e de escolher a posi&ccedil;&atilde;o mais commoda que
+podesse
+na tal fevera de palha que o transportava pelos ares.<br />
+
+<br />
+
+Ora um dia, ou antes uma noite, o duende chamou
+Patricio e disse-lhe com modo benevolo:
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[201]</span> &#8213;Meu amigo,
+determinei casar. Estou a fazer mil
+annos, e parece-me que &eacute; tempo de tomar estado e familia.
+Escolhi para minha noiva a formosa Jenny, e vamos
+esta noite buscal-a.<br />
+
+<br />
+
+Patricio bem desejaria responder que os olhos azues,
+as tran&ccedil;as loiras, a rosea bocca e as faces nevadas da
+formosa Jenny n&atilde;o deviam ser para um velhote como
+elle, e que um noivo de mil annos, a querer tomar estado,
+devia escolher uma centenaria, e n&atilde;o uma rapariga
+na fl&ocirc;r dos seus vinte annos, e que, al&eacute;m d'isso,
+ras&atilde;o de todas a mais forte, Jenny cas&aacute;ra n'esse
+mesmo
+dia, e n'esse instante devia-se estar celebrando a boda
+em casa do noivo. Mas Patricio bem sab&iacute;a que o duende
+n&atilde;o gostava de reflex&otilde;es, e portanto, sem tugir
+nem
+mugir, montou a cavallo n'uma folha de couve, que era
+o corcel de gala, e seguiu seu amo pelos ares f&oacute;ra.<br />
+
+<br />
+
+<h3>IV</h3>
+
+<br />
+
+Tudo era festa e riso em casa de Jenny. Brindes sem
+conta soavam a cada instante, as violas desprendiam os
+seus alegres epithalamios, e a meza, servida &aacute; farta,
+ostentava-se com a alvissima toalha no meio da casa.<br />
+
+<br />
+
+A noiva era realmente galante a mais n&atilde;o poder ser.
+Nos olhos t&atilde;o azues e t&atilde;o meigos parecia que se
+refugi&aacute;ra
+a c&ocirc;r do c&eacute;o, expellida do firmamento pelas
+nuvens,
+e com a c&ocirc;r do c&eacute;o a do&ccedil;ura dos anjos.<br />
+
+<br />
+
+Os cabellos tinham o colorido das espigas de trigo;
+na bocca pequenina esvoa&ccedil;ava um sorriso de amor,
+como borboleta em rosa. As faces eram t&atilde;o brancas,
+t&atilde;o brancas, que desmaiaria junto d'ellas a neve das
+montanhas de Erin; mas n'esse momento incendia-as o
+<span class="pagenum">[202]</span>prazer e
+tingiam-se de reflexos roseos, como a nivea
+toalha dos pincaros, quando o sol a illumina ao descair
+no occaso.<br />
+
+<br />
+
+O noivo era um rapaz esbelto e varonilmente formoso.
+O olhar ardente com que, para assim dizermos,
+enla&ccedil;ava Jenny, mostrava o immenso amor que lhe tinha;
+a meiguice dos raios de luz, que emanavam dos
+olhos da gentil irlandeza, revelava que a voz d'esse
+amor encontr&aacute;ra um echo no cora&ccedil;&atilde;o da
+formosa que
+o duende cubi&ccedil;ava para noiva.<br />
+
+<br />
+
+Os convivas agrupavam-se em torno da meza, e no
+logar de honra, campeava o gordo padre prior, que fazia
+frente a um magnifico prato de cabe&ccedil;a de porco,
+flanqueada de feij&otilde;es, que lhe levava os olhos, como a
+formosa physionomia de Jenny enlevava o enamorado
+esposo.<br />
+
+<br />
+
+O duende e o seu criado entraram sem ninguem dar
+por elles, e foram sentar-se commodamente n'uma das
+traves do tecto. Os cavallos haviam ficado no telhado
+f&oacute;ra do alcance das outras cavalgaduras, que seriam
+muito capazes de as devorar, sem respeitarem por
+f&oacute;rma alguma a confraternidade que as pobres folhas
+de couve allegariam.<br />
+
+<br />
+
+Empoleirado alli assim, Patricio estava talvez um
+tanto incommodado, principalmente porque lhe chegava
+o cheiro dos bons manjares que ufanos campeavam em
+cima da meza, e o seu estomago segredava-lhe que seria
+muito melhor fartal-o a elle do que fartar os olhos
+com as saborosas iguarias.<br />
+
+<br />
+
+Mas o bom irlandez bem sabia que o seu duende
+nunca lhe consentiria mostrar-se, e, portanto, consolava-se
+pensando que talvez a ceia das bodas do seu amo
+<span class="pagenum"><a name="p203">[203]</a></span>fosse
+ainda melhor
+do que essa que o estava namorando.<br />
+
+<br />
+
+Depois relanceou os olhos para a noiva, e em seguida
+para o seu companheiro da trave, e pensou que
+era realmente uma barbaridade ligar assim t&atilde;o donosa
+primavera a t&atilde;o encarquilhado inverno.<br />
+
+<br />
+
+N'isto a noiva espirrou.<br />
+
+<br />
+
+Um espirro n&atilde;o &eacute; coisa que envergonhe ninguem,
+mas o espirro de Jenny fez tanta bulha, que a pobre
+menina corou muito, sentindo que todas as vistas se
+haviam voltado para ella.<br />
+
+<br />
+
+Excepto, ainda assim, as do padre prior; o anafado
+sacerdote empunhava o garfo e a faca, e com os olhos
+cravados na cabe&ccedil;a de porco, a nada mais dava
+atten&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+Era natural, meus meninos, que dissessem &aacute; formosa
+Jenny o consagrado <em>Dominus tecum</em>;
+ninguem, effectivamente,
+queria faltar a esse dever; mas a cortezia ordenava
+que se deixasse o padre prior tomar a iniciativa,
+e, por conseguinte, todos esperaram.<br />
+
+<br />
+
+O padre prior tomava n'esse instante a iniciativa,
+mas era de se deitar &aacute; cabe&ccedil;a de porco; cravou o
+garfo
+destramente, vibrou com certeza rara a faca a um bom
+tassalho, e transportou-o do prato geral para o seu
+prato particular.<br />
+
+<br />
+
+Terminada essa difficil opera&ccedil;&atilde;o, o padre prior
+poisou
+as armas triumphantes ao lado do prato, travou
+gravemente da colh&eacute;r, e, em tres ou quatro viagens,
+fez mudar de gasalhado, e erigiu, em enorme acervo,
+uma respeitavel quantidade de feij&otilde;es.<br />
+
+<br />
+
+Ninguem ousou advertil-o do seu esquecimento, e,
+depois d'esse pequeno incidente, a festa <a href="#e27">continuou</a>
+com
+o mesmo estrondo e enthusiasmo.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[204]</span>
+A bulha dos queixos do padre prior superava o tumultuoso
+acompanhamento.<br />
+
+<br />
+
+Mas o duende &eacute; que dava pulos de contente na trave,
+e dizia a Patricio:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Se ella d&aacute; mais dois espirros e ninguem lhe diz
+<em>Dominus tecum</em>, &eacute; minha;
+foi isso o que Satanaz me
+prometteu.<br />
+
+<br />
+
+O pobre Patricio enfiou; decididamente, o nosso irlandez
+tinha boa alma: se n&atilde;o fosse a tal avareza...<br />
+
+<br />
+
+Emfim, ninguem p&oacute;de ser perfeito.<br />
+
+<br />
+
+D'ahi a instantes Jenny espirrou de novo, mas a pobre
+menina fic&aacute;ra t&atilde;o envergonhada da primeira vez,
+que o segundo espirro comprimiu-o por tal f&oacute;rma, que
+ninguem o ouviu, nem mesmo o seu noivo, que se via
+obrigado n'esse instante a escutar uma enorme
+disserta&ccedil;&atilde;o
+de seu sogro sobre o cultivo da batata.<br />
+
+<br />
+
+O padre prior comia.<br />
+
+<br />
+
+Por conseguinte, ainda d'essa vez passou o espirro
+sem o competente <em>Dominus tecum</em>.<br />
+
+<br />
+
+O duende pulava, dava cabriolas, fazia bulha tal, em
+fim, que por mais de uma vez um ou outro conviva
+olhou para o tecto, mas, n&atilde;o vendo coisa alguma, julgou
+que seriam ratos e continuou a divertir-se.<br />
+
+<br />
+
+Patricio scismava; era realmente uma d&ocirc;r d'alma v&ecirc;r
+t&atilde;o gentil menina cair em poder d'aquelle espirito
+malicioso;
+pensava que talvez a podesse salvar, mas lembrava-se
+das iras de seu amo, que podiam cair sobre
+elle, e abanava a cabe&ccedil;a deixando-se ficar mudo e
+qu&ecirc;do.<br />
+
+<br />
+
+Finalmente, soou o terceiro espirro da menina, ainda
+mais comprimido que os dois primeiros.<br />
+
+<br />
+
+Mas ao mesmo tempo retumbou no tecto um formidavel
+<span class="pagenum">[205]</span><em>Dominus
+tecum</em>, que fez
+tintinar os vidros e tremer
+os convidados.<br />
+
+<br />
+
+E logo um corpo humano veiu, aos rebol&otilde;es pelo
+espa&ccedil;o,
+baquear em cima da meza, entornando o prato
+do padre prior, que soltou um grito de desespero, e
+apanhou na batina o naco de cabe&ccedil;a de porco, antes
+que um mastim faminto, que andava rondando os p&eacute;s
+das cadeiras, d&eacute;sse com t&atilde;o boa fatia.<br />
+
+<br />
+
+Era Patricio que, vencendo as suas indecis&otilde;es, reunira
+todas as suas for&ccedil;as e coragem, e salv&aacute;ra d'essa
+f&oacute;rma a formosa Jenny.<br />
+
+<br />
+
+Ao mesmo tempo ouviu-se uma voz que dizia:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Despe&ccedil;o-te do meu servi&ccedil;o, mas ahi tens o
+ordenado.<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o era mau, effectivamente; o irlandez esteve tres
+mezes em len&ccedil;oes de vinho, e ficou toda a vida com
+uma d&ocirc;r nas costellas.<br />
+
+<br />
+
+Mas os dois noivos, a quem elle cont&aacute;ra o que estivera
+para lhes succeder, foram-lhe eternamente gratos,
+ajudaram-n'o muito na sua vida, e, quando envelheceu,
+levaram-n'o para casa, onde teve sempre uma boa cadeira,
+onde se sentava a apanhar a sua restea de sol,
+e onde entretinha os filhos de seus hospedes, contando-lhe
+as suas viagens a&eacute;rias, e a historia dos tres espiritos.<br />
+
+<br />
+
+<h3>V</h3>
+
+<br />
+
+Cerrou-se a noite de todo, meus meninos, e o sereno
+esplendor da lua branqueia-vos as rosadas faces; desperta
+a natureza quando adormece o homem; as fl&ocirc;res
+entreabrem o
+Cerrou-se a noite de todo, meus meninos, e o sereno
+esplendor da lua branqueia-vos as rosadas faces; desperta
+a natureza quando adormece o homem; as fl&ocirc;res
+entreabrem os seus thuribulos; a fonte desdobra o transparente
+<span class="pagenum">[206]</span>crystal das suas
+aguas, e as naiades chorosas
+entoam os seus lamentos.<br />
+
+<br />
+
+J&aacute; o somno come&ccedil;a a fazer-vos pender a fronte;
+brincastes,
+correstes durante o dia &aacute; luz do sol, chega a
+hora do repouso, depois, quando f&ocirc;rdes crescidos, gostareis
+de ficar, como eu fico, a contemplar o estrellado
+docel do firmamento, e a perguntar &aacute;s vozes mysteriosas
+da natureza qual &eacute; o segredo que faz palpitar
+tantos mundos na abobada estrellada; gostareis de v&ecirc;r
+os campos onde o luar se espraia, as infindas maravilhas
+da crea&ccedil;&atilde;o! mas oh! nunca vereis panoramas
+como os que vos sorriem agora nos meigos sonhos da
+infancia.<br />
+
+<br />
+
+Ide, pois; esperam-vos os anjos escondidos detraz
+das cortinas alvas do vosso leitosinho, e, se algum espirito
+a&eacute;reo se vos entre-mostrar tambem, n&atilde;o tenhaes
+medo, porque os habitantes d'estes ares luminosos s&atilde;o
+fadas meigas e risonhas, e n&atilde;o duendes malignos.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+No dia seguinte &aacute;quelle em que o doutor Macedo
+cont&aacute;ra, com grande gaudio das crean&ccedil;as, a lenda
+do
+<em>Dominus tecum</em>, uma carruagem parava
+&aacute; porta do visconde
+da Fragosa, e apeiava-se d'ella uma senhora edosa
+de nobre aspecto e veneranda physionomia, que pedia
+para fallar ao visconde e &aacute; viscondessa da Fragosa.<br />
+
+<br />
+
+Era a m&atilde;e de Henrique Osorio, que vinha pedir para
+seu filho a m&atilde;o de Leonor.<br />
+
+<br />
+
+Fez algum reboli&ccedil;o em casa dos viscondes este subito
+pedido feito para pessoa que sempre vivera em intimas
+<span class="pagenum">[207]</span>rela&ccedil;&otilde;es
+com Leonor, e que nunca
+at&eacute; ahi mostr&aacute;ra
+desejos de a requestar.<br />
+
+<br />
+
+Fallando-se n'isso no grupo dos hospedes, o doutor
+Macedo disse:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;&Eacute; para que saibam que, quando se semeia sempre
+se colhe alguma coisa, ainda que n&atilde;o seja aquillo
+que se previu. Das nossas lendas da meia-noite sa&iacute;u
+este casamento, o que prova mais uma vez que o casamento
+e a mortalha no c&eacute;o se talha.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Tanto mais que para Henrique Osorio o casamento
+e a mortalha devem estar intimamente ligados...
+O homem que ama espectros... O auctor de
+Julieta!<br />
+
+<br />
+
+N'este momento vieram dizer ao conselheiro Madureira
+que a sua carruagem o esperava. Despediram-se
+elle e a filha dos viscondes da Fragosa, Isaura deu um
+beijo frio em Leonor, e cumprimentou seccamente Henrique
+Osorio.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Espero tornal-o a v&ecirc;r no Espinho, disse ella com
+requintes de amabilidade a Lucio Valen&ccedil;a.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Ah! de certo, minha senhora, respondeu o escriptor.<br />
+
+<br />
+
+Quando partiram, Henrique approximou-se de Lucio
+e disse-lhe:<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Hontem iamo-nos irritando por frivolidades sem
+nome. Sabe comtudo, Lucio, que sou seu amigo, e que
+n&atilde;o tenho no que vou dizer-lhe o minimo pensamento
+reservado. N&atilde;o se deixe prender nos la&ccedil;os
+d'aquella
+formosa mulher, que &eacute; uma
+<em>coquette</em> sem intelligencia
+e sem alma.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Meu amigo, tornou Lucio, rindo, eu estou-a vendo
+hoje pelo prisma que voc&ecirc; me legou. Hei de dizer mal
+<span class="pagenum">[208]</span>
+d'elle talvez d'aqui a algum tempo. Agora n&atilde;o ha remedio;
+tenho-o encaixado nos olhos.<br />
+
+<br />
+
+Henrique encolheu os hombros.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Pois meus amigos, disse o doutor Macedo, que
+vira Leonor entrar a dirigir-se para o seu noivo, tem
+a <em>lenda da meia-noite</em> uma
+conclus&atilde;o inesperada; mas
+isso foi bom para que tivesse alguma.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Effectivamente, disse Lucio Valen&ccedil;a, o nosso fim,
+confessamol-o, n&atilde;o se conseguiu. As pessoas nervosas,
+quando estiverem s&oacute;sinhas &aacute; meia-noite n'um
+quarto de
+lugubre aspecto, h&atilde;o de continuar a tremer de espectros.
+Affrontal-os em boa companhia n&atilde;o torna aguerrido
+ninguem.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Eu n&atilde;o posso dizer coisa alguma; na <em>lenda
+da
+meia-noite</em> encontrei eu, disse Henrique, a ventura da
+minha vida.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;E ainda que outra coisa n&atilde;o se alcan&ccedil;asse,
+logrou-se
+passarem-se algumas noites agradavelmente.<br />
+
+<br />
+
+&#8213;Assim seja! concluiu o doutor Macedo.<br />
+
+<br />
+
+Possam dizer o mesmo os leitores d'este despretencioso
+livro.<br />
+
+<br />
+
+<h4>FIM</h4>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>Collec&ccedil;&atilde;o ANTONIO MARIA PEREIRA</h2>
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<h3><span style="font-weight: bold;"></span>VULGARISA&Ccedil;&Atilde;O
+DOS MELHORES LIVROS<br />
+
+<br />
+
+DAS<br />
+
+<br />
+
+LITTERATURAS PORTUGUEZA E ESTRANGEIRAS</h3>
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<h3>Romances, Contos, Viagens, Historia, etc., etc.<br />
+
+</h3>
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<h3>Volumes publicados</h3>
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; vertical-align: top; width: 100%;" border="0" cellpadding="1" cellspacing="4">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 75px;">1&#8213;</td>
+
+ <td style="vertical-align: top; width: 208px;">Tristezas
+&aacute;
+beira-mar, por
+Pinheiro Chagas.</td>
+
+ <td rowspan="40" colspan="1" style="vertical-align: top; background-color: rgb(204, 204, 204); width: 1px;"></td>
+
+ <td style="vertical-align: top; text-align: right; width: 82px;">47&#8213;</td>
+
+ <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Ninho
+de guincho, por Alberto
+Pimentel.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 75px;">2&#8213;</td>
+
+ <td style="vertical-align: top; width: 208px;">Contos
+ao luar, por Julio
+Cesar Machado.</td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 82px;">48&#8213;</td>
+
+ <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Vasco,
+por A. Lobo d'Avila.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 75px;">3&#8213;</td>
+
+ <td style="vertical-align: top; width: 208px;">Carmen,
+trad. de M. Level.</td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 82px;">49&#8213;</td>
+
+ <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Leituras
+ao ser&atilde;o, por A.
+X. Rodrigues Cordeiro.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 75px;">4&#8213;</td>
+
+ <td style="vertical-align: top; width: 208px;">A
+Feira de Paris, por
+Iriel.</td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 82px;">50&#8213;</td>
+
+ <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Luz
+coada por ferros, por
+D. Anna A. Placido.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 75px;">5&#8213;</td>
+
+ <td style="vertical-align: top; width: 208px;">O
+direito dos filhos, por
+George Ohnet.</td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 82px;">51&#8213;</td>
+
+ <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Esgotado.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 75px;">6&#8213;</td>
+
+ <td style="vertical-align: top; width: 208px;">John
+Bull e a sua
+ilha,
+trad. de P. Chagas.</td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 82px;">52&#8213;</td>
+
+ <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Relampagos,
+por Armando
+Ribeiro.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 75px;">7&#8213;</td>
+
+ <td style="vertical-align: top; width: 208px;">Esgotado.</td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 82px;">53&#8213;</td>
+
+ <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Historias
+rusticas, por Virgilio
+Varzea.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 75px;">8&#8213;</td>
+
+ <td style="vertical-align: top; width: 208px;">A
+lenda da meia
+noite, por
+M. Pinheiro Chagas.</td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 82px;">54&#8213;</td>
+
+ <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Figuras
+humanas, por Alberto
+Pimentel.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 75px;">9&#8213;</td>
+
+ <td style="vertical-align: top; width: 208px;">A
+joia do vice-rei,
+por P.
+Chagas.</td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 82px;">55&#8213;</td>
+
+ <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Dolorosa,
+por Francisco
+Acebal, trad. de Ca&iuml;el.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 75px;">10&#8213;</td>
+
+ <td style="vertical-align: top; width: 208px;">Vinte
+annos de vida
+litteraria,
+por A. Pimentel.</td>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 82px;">56&#8213;</td>
+
+ <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Memorias
+de um fura-vidas,
+por A. de Mesquita.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 75px;">11&#8213;</td>
+
+ <td style="vertical-align: top; width: 208px;">Honra
+d'artista,
+trad. de P.
+Chagas.</td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 82px; vertical-align: top;">57&#8213;</td>
+
+ <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Dramas
+da c&ocirc;rte, por Alberto
+de Castro.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 75px;">12&#8213;</td>
+
+ <td style="vertical-align: top; width: 208px;">Esgotado.</td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 82px; vertical-align: top;">58&#8213;</td>
+
+ <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Os
+mosqueteiros d'Africa,
+por Mendes Leal.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="vertical-align: top; text-align: right; width: 75px;">13<span style="color: rgb(255, 255, 255);">_</span>e<span style="color: rgb(255, 255, 255);">_</span>14&#8213;</td>
+
+ <td style="vertical-align: top; width: 208px;">A
+aventura d'um
+polaco,
+trad. de Maria A. Vaz
+de Carvalho.</td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 82px; vertical-align: top;">59&#8213;</td>
+
+ <td style="width: 207px; vertical-align: top;">A
+divorciada, por Jos&eacute;
+Augusto Vieira.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 75px;">15&#8213;</td>
+
+ <td style="vertical-align: top; width: 208px;">Os
+contos do Tio
+Joaquim,
+por R. Paganino.<br />
+
+ </td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 82px; vertical-align: top;">60&#8213;</td>
+
+ <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Phototypias
+do Minho, por
+J. Augusto Vieira.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 75px;">16&#8213;</td>
+
+ <td style="vertical-align: top; width: 208px;">Esgotado.</td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 82px; vertical-align: top;">61&#8213;</td>
+
+ <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Insulares,
+por Moniz de
+Bettencourt.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 75px;">17&#8213;</td>
+
+ <td style="vertical-align: top; width: 208px;">Noites
+de Cintra, por
+Alberto
+Pimentel.</td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 82px; vertical-align: top;">62<span style="color: rgb(255, 255, 255);">_</span>e<span style="color: rgb(255, 255, 255);">_</span>63&#8213;</td>
+
+ <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Historia
+da
+civilisa&ccedil;&atilde;o
+na Europa, trad. do
+Marquez de Sousa Holstein.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 75px;">18<span style="color: rgb(255, 255, 255);">_</span>e<span style="color: rgb(255, 255, 255);">_</span>19&#8213;</td>
+
+ <td style="vertical-align: top; width: 208px;">Esgotado.</td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 82px; vertical-align: top;">64&#8213;</td>
+
+ <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Triplice
+allian&ccedil;a, de Raul
+de Azevedo.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 75px;">20<span style="color: rgb(255, 255, 255);">_</span>e<span style="color: rgb(255, 255, 255);">_</span>21&#8213;</td>
+
+ <td style="vertical-align: top; width: 208px;">A
+irm&atilde; da
+caridade,
+por Emilio Castellar, trad.
+de L. Q. Chaves.</td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 82px; vertical-align: top;">65&#8213;</td>
+
+ <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Retalhos
+de verdade, por
+Ca&iuml;el.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 75px;">22&#8213;</td>
+
+ <td style="vertical-align: top; width: 208px;">Migalhas
+de historia portugueza,
+por P. Chagas.</td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 82px; vertical-align: top;">66&#8213;</td>
+
+ <td style="width: 207px; vertical-align: top;">A
+pasta d'um jornalista,
+pelo Visconde de S. Boaventura.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 75px;">23&#8213;</td>
+
+ <td style="vertical-align: top; width: 208px;">Esgotado.</td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 82px; vertical-align: top;">67&#8213;</td>
+
+ <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Os
+argonautas, por Virgilio
+Varzea.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 75px;">24&#8213;</td>
+
+ <td style="vertical-align: top; width: 208px;">Contos,
+por Affonso
+Botelho.</td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 82px; vertical-align: top;">68&#8213;</td>
+
+ <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Fitas
+de animatographo,
+por Alberto Pimentel.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 75px;">25&#8213;</td>
+
+ <td style="vertical-align: top; width: 208px;">Esgotado.</td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 82px; vertical-align: top;">69<span style="color: rgb(255, 255, 255);">_</span>e<span style="color: rgb(255, 255, 255);">_</span>70&#8213;</td>
+
+ <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Poesias
+do Abbade de
+Jazente, annotadas por Julio
+de Castilho.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 75px;">26&#8213;</td>
+
+ <td style="vertical-align: top; width: 208px;">Esgotado.</td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 82px; vertical-align: top;">71&#8213;</td>
+
+ <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Aspectos
+e sensa&ccedil;&otilde;es, de
+Raul d'Azevedo.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 75px;">27&#8213;</td>
+
+ <td style="vertical-align: top; width: 208px;">O
+naufragio de
+Vicente Sodr&eacute;,
+por Pinheiro Chagas.</td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 82px; vertical-align: top;">72&#8213;</td>
+
+ <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Contos
+e narrativas, por P.
+W. de Brito Aranha.<br />
+
+ </td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 75px;">28&#8213;</td>
+
+ <td style="vertical-align: top; width: 208px;">Vida
+airada, por
+Alfredo
+Mesquita.</td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 82px; vertical-align: top;">73&#8213;</td>
+
+ <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Quadros
+e letras, historias
+e romancetes, por Sanches
+de Frias.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 75px;">29&#8213;</td>
+
+ <td style="vertical-align: top; width: 208px;">O
+bacharel Ramires,
+por
+Candido de Figueiredo.</td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 82px; vertical-align: top;">74&#8213;</td>
+
+ <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Individualidades,
+por Henrique
+das Neves.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 75px;">30<span style="color: rgb(255, 255, 255);">_</span>e<span style="color: rgb(255, 255, 255);">_</span>31&#8213;</td>
+
+ <td style="vertical-align: top; width: 208px;">Esgotado.</td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 82px; vertical-align: top;">75&#8213;</td>
+
+ <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Alfacinhas,
+por Alfredo de
+Mesquita.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 75px;">32&#8213;</td>
+
+ <td style="vertical-align: top; width: 208px;">As
+netas do Padre Eterno,
+por A. Pimentel.<br />
+
+ <br />
+
+ </td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 82px; vertical-align: top;">76&#8213;</td>
+
+ <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Patria
+amada, pelo Visconde
+de S. Boaventura.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 75px;">33&#8213;</td>
+
+ <td style="width: 208px;">Contos, por Pedro Ivo.</td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 82px; vertical-align: top;">77&#8213;</td>
+
+ <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Historias
+e romanc&ecirc;tes, por
+Sanches de Frias.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 75px; vertical-align: top;">34&#8213;</td>
+
+ <td style="width: 208px; vertical-align: top;">O
+correio de Ly&atilde;o, por
+Pierre Zaccone.</td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 82px; vertical-align: top;">78&#8213;</td>
+
+ <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Esbocetos
+individuaes, por
+Henrique das Neves.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 75px; vertical-align: top;">35&#8213;</td>
+
+ <td style="width: 208px; vertical-align: top;">Vida
+de Lisboa, por Alberto
+Pimentel.</td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 82px; vertical-align: top;">79&#8213;</td>
+
+ <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Recorda&ccedil;&otilde;es
+da mocidade,
+por Adolpho Loureiro.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 75px; vertical-align: top;">36&#8213;</td>
+
+ <td style="width: 208px; vertical-align: top;">Historias
+de frades, por
+Lino d'Assump&ccedil;&atilde;o.</td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 82px; vertical-align: top;">80&#8213;</td>
+
+ <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Sorrisos,
+novellas e chronicas,
+por A. Campos.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 75px; vertical-align: top;">37&#8213;</td>
+
+ <td style="width: 208px;">Obras primas, por
+Chateaubriand.</td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 82px; vertical-align: top;">81&#8213;</td>
+
+ <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Lucta
+de sentimentos, por
+Maria O'Neill.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 75px; vertical-align: top;">38&#8213;</td>
+
+ <td style="width: 208px; vertical-align: top;">O
+exilado, por Mauricia C.
+de Figueiredo.</td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 82px; vertical-align: top;">82&#8213;</td>
+
+ <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Do
+Rocio ao Chiado, por P.
+de Vasconcellos.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 75px; vertical-align: top;">39&#8213;</td>
+
+ <td style="width: 208px; vertical-align: top;">Poema
+da Mocidade, por
+Pinheiro Chagas.</td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 82px; vertical-align: top;">83&#8213;</td>
+
+ <td style="width: 207px; vertical-align: top;">A
+dan&ccedil;a do destino, por
+Luthgarda de Caires.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 75px; vertical-align: top;">40<span style="color: rgb(255, 255, 255);">_</span>e<span style="color: rgb(255, 255, 255);">_</span>41&#8213;</td>
+
+ <td style="width: 208px; vertical-align: top;">A
+vida em Lisboa,
+por Julio Cesar Machado.</td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 82px; vertical-align: top;">84&#8213;</td>
+
+ <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Um
+drama de ciume, por
+Maria O'Neill.<br />
+
+ </td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 75px; vertical-align: top;">42<span style="color: rgb(255, 255, 255);">_</span>e<span style="color: rgb(255, 255, 255);">_</span>43&#8213;</td>
+
+ <td style="width: 208px; vertical-align: top;">Espelho
+de portugu&ecirc;ses,
+por Alberto Pimentel.</td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 82px; vertical-align: top;">85<span style="color: rgb(255, 255, 255);">_</span>e<span style="color: rgb(255, 255, 255);">_</span>86&#8213;</td>
+
+ <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Resumo
+da origem de
+todos os cultos, por C. F.
+Dupu&iacute;s.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 75px; vertical-align: top;">44&#8213;</td>
+
+ <td style="width: 208px; vertical-align: top;">A
+fada d'Auteuil, trad. de
+Pinheiro Chagas</td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 82px; vertical-align: top;">87&#8213;</td>
+
+ <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Vencido,
+romance por F. A.
+M. de Faria e Maia.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 75px; vertical-align: top;">45&#8213;</td>
+
+ <td style="width: 208px; vertical-align: top;">A
+volta do Chiado, por E.
+de Barros Lobo.</td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 82px; vertical-align: top;">88&#8213;</td>
+
+ <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Elogio
+da loucura, critica
+de costumes, por Erasmo.</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 75px; vertical-align: top;">46&#8213;</td>
+
+ <td style="width: 208px; vertical-align: top;">S&eacute;ca
+e M&eacute;ca, por Lino
+d'Assump&ccedil;&atilde;o.</td>
+
+ <td style="text-align: right; width: 82px;"></td>
+
+ <td style="width: 207px;"></td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>
+OUTRAS OBRAS</h3>
+
+<br />
+
+<table style="text-align: left; vertical-align: top; width: 100%;" border="0" cellpadding="1" cellspacing="4">
+
+ <tbody>
+
+ <tr>
+
+ <td style="vertical-align: top; text-align: center; font-weight: bold; width: 312px;" rowspan="1" colspan="1">Azevedo (Domingos de)<br />
+
+ <br />
+
+ <br />
+
+ <div style="text-align: left;"><span style="font-weight: normal;">Diccionario (Grande)
+contemporaneo</span> <span style="font-weight: normal;">francez-portuguez
+e v. v.</span> <span style="font-weight: normal;">2.&ordf;
+edi&ccedil;&atilde;o, muito correcta e</span><br style="font-weight: normal;" />
+
+ <span style="font-weight: normal;">extremamente
+augmentada.</span><br style="font-weight: normal;" />
+
+ <br style="font-weight: normal;" />
+
+ <span style="font-weight: normal;">Grammatica da
+lingua franceza.</span><br style="font-weight: normal;" />
+
+ <br style="font-weight: normal;" />
+
+ <span style="font-weight: normal;">Grammatica
+Nacional, para</span> <span style="font-weight: normal;">aprender
+portuguez sem mestre.</span><br />
+
+ <br style="font-weight: normal;" />
+
+ <span style="font-weight: normal;">Li&ccedil;&otilde;es
+praticas de</span> <span style="font-weight: normal;">conversa&ccedil;&atilde;o</span><br style="font-weight: normal;" />
+
+ <span style="font-weight: normal;">franceza.</span><br />
+
+ <br />
+
+ <span style="font-weight: normal;">Ollendorff
+aperfei&ccedil;oado para</span> <span style="font-weight: normal;">aprender francez sem mestre,</span><br style="font-weight: normal;" />
+
+ <span style="font-weight: normal;">(2 vol.).</span><br />
+
+ <br />
+
+ <br />
+
+ <div style="text-align: center;">Carvalho (D. Maria
+Amalia
+Vaz de)<br />
+
+ </div>
+
+ <br />
+
+ <span style="font-weight: normal;">Ao correr do
+tempo.</span><br style="font-weight: normal;" />
+
+ <br />
+
+ <br style="font-weight: normal;" />
+
+ <span style="font-weight: normal;">Arte de viver na
+sociedade.</span><br style="font-weight: normal;" />
+
+ <br />
+
+ <br style="font-weight: normal;" />
+
+ <span style="font-weight: normal;">Aventura de um
+polaco, (2 volumes).</span><br style="font-weight: normal;" />
+
+ <br />
+
+ <br style="font-weight: normal;" />
+
+ <span style="font-weight: normal;">Cerebros e
+cora&ccedil;&otilde;es.</span><br style="font-weight: normal;" />
+
+ <br />
+
+ <br style="font-weight: normal;" />
+
+ <span style="font-weight: normal;">Chronicas de
+Valentina.</span><br style="font-weight: normal;" />
+
+ <br />
+
+ <br style="font-weight: normal;" />
+
+ <span style="font-weight: normal;">Coisas d'agora.</span><br style="font-weight: normal;" />
+
+ <br />
+
+ <br style="font-weight: normal;" />
+
+ <span style="font-weight: normal;">Contos e
+phantasias.</span><br style="font-weight: normal;" />
+
+ <br />
+
+ <br style="font-weight: normal;" />
+
+ <span style="font-weight: normal;">Em Portugal e no
+estrangeiro.</span><br style="font-weight: normal;" />
+
+ <br />
+
+ <br style="font-weight: normal;" />
+
+ <span style="font-weight: normal;">Figuras de hoje e
+de hontem.</span><br />
+
+ <br />
+
+ <br style="font-weight: normal;" />
+
+ <span style="font-weight: normal;">Heroismo do clero.</span><br style="font-weight: normal;" />
+
+ <br style="font-weight: normal;" />
+
+ <span style="font-weight: normal;"><br />
+
+Impress&otilde;es de historia.</span><br style="font-weight: normal;" />
+
+ <br />
+
+ <br style="font-weight: normal;" />
+
+ <span style="font-weight: normal;">No meu cantinho.</span><br style="font-weight: normal;" />
+
+ <br />
+
+ <br style="font-weight: normal;" />
+
+ <span style="font-weight: normal;">Nossas filhas.</span><br style="font-weight: normal;" />
+
+ <br />
+
+ <br style="font-weight: normal;" />
+
+ <span style="font-weight: normal;">Pelo mundo
+f&oacute;ra.</span><br style="font-weight: normal;" />
+
+ <br />
+
+ <br style="font-weight: normal;" />
+
+ <span style="font-weight: normal;">Raphael, trad. de
+Lamartine,
+(ed. de luxo).</span></div>
+
+ </td>
+
+ <td rowspan="40" colspan="1" style="vertical-align: top; background-color: rgb(204, 204, 204); width: 1px;"></td>
+
+ <td style="vertical-align: top; text-align: left; width: 322px;" rowspan="1" colspan="1">
+ <div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;">Pinto (Silva)</span><br />
+
+ </div>
+
+ <div style="text-align: center;"><br />
+
+(<span class="smallcaps">Collec&ccedil;&atilde;o
+d'algibeira</span>)<br />
+
+ </div>
+
+ <br />
+
+A queimar cartuchos.<br />
+
+ <br />
+
+A torto e a direito.<br />
+
+ <br />
+
+Ao correr do pello.<br />
+
+ <br />
+
+Entre n&oacute;s.<br />
+
+ <br />
+
+Frente a frente.<br />
+
+ <br />
+
+Moral de Jo&atilde;o Braz.<br />
+
+ <br />
+
+Mundo (O) furta-c&ocirc;res.<br />
+
+ <br />
+
+Na Procella.<br />
+
+ <br />
+
+Na travessia.<br />
+
+ <br />
+
+N'este valle de lagrimas.<br />
+
+ <br />
+
+No colyseu.<br />
+
+ <br />
+
+No mar morto.<br />
+
+ <br />
+
+Para o fim.<br />
+
+ <br />
+
+Philosophia de Jo&atilde;o Braz.<br />
+
+ <br />
+
+Por este mundo.<br />
+
+ <br />
+
+Riso amarello.<br />
+
+ <br />
+
+Rompendo o fogo.<br />
+
+ <br />
+
+Velha historia.<br />
+
+ <br />
+
+ <br />
+
+ <span style="font-weight: bold;">Queiroz (Dr.
+Teixeira de)</span><br />
+
+ <br />
+
+ <br />
+
+Amores... amores...<br />
+
+ <br />
+
+Arvoredos.<br />
+
+ <br />
+
+Cantadeira (A).<br />
+
+ <br />
+
+Caridade (A) em Lisboa (2 vols.).<br />
+
+ <br />
+
+Cartas d'amor.<br />
+
+ <br />
+
+D. Agostinho.<br />
+
+ <br />
+
+Morte de D. Agostinho.<br />
+
+ <br />
+
+Noivos (Os) (2 vol.).<br />
+
+ <br />
+
+Nossa (A) gente.<br />
+
+ <br />
+
+Sallustio Nogueira (2 vol.).<br />
+
+ <br />
+
+Amor Divino.<br />
+
+ <br />
+
+Famoso Galr&atilde;o.<br />
+
+ <br />
+
+Ao sol e &aacute; chuva.<br />
+
+ <br />
+
+Grande (A) Chimera.</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>Notas</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<sup><a name="1"></a>[1]</sup>
+N&atilde;o &eacute; da auctora a id&eacute;a
+inicial d'esta lenda. Encontrou-a de
+certo n'um magnifico livro do conde de R&eacute;sie, intitulado
+&laquo;<em>Historia
+e tratado das sciencias occultas</em>.&raquo;<br />
+
+<br />
+
+O livro em que fallo &eacute; um optimo archivo de todas as
+tradi&ccedil;&otilde;es
+europ&eacute;as. Ha alli thesouros de poesia! Traduzo litteralmente
+o periodo,
+que me suggeriu a id&eacute;a d'este conto. &Eacute; o
+seguinte:<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Nas costas do Baltico estava outr'ora situada uma egreja,
+que
+alguns impios profanaram um dia, e que com elles se sepultou no
+mar. Quando est&aacute; socegada a noite, ouvem-se ainda esses
+desgra&ccedil;ados
+cantar solu&ccedil;ando os psalmos da penitencia; e
+v&ecirc;em-se brilhar
+atravez das ondas tranquillas os cyrios que accendem no altar,
+junto do qual est&atilde;o condemnados a chorar at&eacute; ao
+fim do
+mundo.&raquo;<br />
+
+<br />
+
+E nada mais.<br />
+
+<br />
+
+Como v&ecirc;em, estava tudo por fazer. Mas a id&eacute;a era
+extremamente
+poetica e prestava-se a um grande desenvolvimento. Pena
+foi que a n&atilde;o deparassem escriptores como o auctor das
+<em>Lendas
+e Narrativas</em>, ou como esse poeta da prosa portugueza,
+que soube
+dar t&atilde;o esplendido colorido &aacute;
+<em>Lenda do castello de Santa-Olaia</em>.
+Emfim o conto ahi est&aacute;, bom ou mau; e com esta nota fica em
+repouso
+a minha consciencia litteraria.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="fbox">
+<h2>Lista de erros corrigidos</h2>
+
+<div style="text-align: center;">Aqui encontram-se
+listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="width: 80%; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4">
+
+ <tbody>
+
+ <tr align="right">
+
+ <td></td>
+
+ <td style="font-weight: bold; text-align: center;">Original</td>
+
+ <td style="text-align: center;"></td>
+
+ <td style="font-weight: bold; text-align: center;">Correc&ccedil;&atilde;o</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e1"></a><a href="#p8">#p&aacute;g.
+8</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">principalmenie</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">principalmente</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e2"></a><a href="#p25">#p&aacute;g. 25</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">espirto</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">espirito</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e3"></a><a href="#p35">#p&aacute;g. 35</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">exagaram</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">exageram</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e4"></a><a href="#p36">#p&aacute;g. 36</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">vermolhos</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">vermelhos</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e5"></a><a href="#p47">#p&aacute;g. 47</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">delara&ccedil;&atilde;o</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">declara&ccedil;&atilde;o</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e6"></a><a href="#p61">#p&aacute;g. 61</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">escodendo</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">escondendo</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e7"></a><a href="#p62">#p&aacute;g. 62</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">dos lagrimas</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">das lagrimas</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e8"></a><a href="#p96">#p&aacute;g. 96</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">uma visto de olhos</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">uma vista de olhos</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e9"></a><a href="#p105">#p&aacute;g. 105</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">janalla</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">janella</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e10"></a><a href="#p114">#p&aacute;g. 114</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">parececia</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">pareceria</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e11"></a><a href="#p129">#p&aacute;g. 129</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">mudo</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">mundo</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e12"></a><a href="#p131">#p&aacute;g. 131</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">irritando-s&eacute;</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">irritando-se</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e13"></a><a href="#p136">#p&aacute;g. 136</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">desdonhoso</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">desdenhoso</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e14"></a><a href="#p140">#p&aacute;g. 140</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">quandos</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">quando</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e15"></a><a href="#p141">#p&aacute;g. 141</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">dascuidoso</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">descuidoso</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e16"></a><a href="#p153">#p&aacute;g. 153</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">e pensamento</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">o pensamento</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e17"></a><a href="#p154">#p&aacute;g. 154</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">collocanme-me</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">collocando-me</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e18"></a><a href="#p167">#p&aacute;g. 167</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">prevenc&atilde;o</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">preven&ccedil;&atilde;o</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e19"></a><a href="#p169">#p&aacute;g. 169</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">diffrentes</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">differentes</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e20"></a><a href="#p181">#p&aacute;g. 181</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">bellezaa</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">belleza</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e21"></a><a href="#p184">#p&aacute;g. 184</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">mobiiia</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">mobilia</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e22"></a><a href="#p187">#p&aacute;g. 187</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">associac&atilde;o</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">associa&ccedil;&atilde;o</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e23"></a><a href="#p188">#p&aacute;g. 188</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">&aacute; rir</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">a rir</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e24"></a><a href="#p190">#p&aacute;g. 190</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">intilula-se</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">intitula-se</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e25"></a><a href="#p191">#p&aacute;g. 191</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">attenc&atilde;o</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">atten&ccedil;&atilde;o</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e26"></a><a href="#p197">#p&aacute;g. 197</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">Iaglaterra</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">Inglaterra</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e27"></a><a href="#p203">#p&aacute;g. 203</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">continou</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">continuou</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;">A
+indica&ccedil;&atilde;o da primeira
+sec&ccedil;&atilde;o da lenda <span style="font-style: italic;">"Memorias d'uma bolsa verde"</span>
+foi adicionada, uma vez que existia refer&ecirc;ncia a uma segunda
+sec&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+</div>
+
+<div style="text-align: center;">Todos os <em>n</em>
+e <em>u</em> trocados,
+encontrados no texto, foram rectificados.<br />
+
+Os h&iacute;fens "supostamente" em falta n&atilde;o foram
+adicionados.<br />
+
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+</div>
+
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of A Lenda da Meia-Noite, by
+Manuel Joaquim Pinheiro Chagas
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A LENDA DA MEIA-NOITE ***
+
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+Produced by Ricardo F. Diogo, Rita Farinha and the Online
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+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
+
+</pre>
+
+</body>
+</html>