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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 02:04:51 -0700 |
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Pinheiro Chagas" /> + + <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=ISO-8859-1" /> + + <style type="text/css"> +body {width: 50%; margin-left:10%; text-align: justify;} +h1, h2, h3, h4 { text-align: center;} +h1 {margin: 2em; text-align: center;} +h2, h4 {margin-top: 2em;} +.bbox {border: solid black 1px; margin-left: 5%; margin-right: 5%;} +.fbox {border: solid black 1px; background-color: #FFFFCC; font-size: 75%; margin-left: 10%; margin-right: 10%;} +.signature { +margin-right: 5%; +text-align: right;} +.smallcaps {font-variant: small-caps;} +.break { +width: 40%; +margin-left:30%;} +.dots {color: #fff; background-color: inherit; border: 3px dotted #555; border-style: none none dotted;} +.poetry {margin-left:20%;} +.poetry1 {margin-left:30%;} +.pagenum { position: absolute; right: 35%; +font-size: 75%; +text-align: right; +text-indent: 0em; +font-style: normal; +font-weight: normal; +color: silver; background-color: inherit; +font-variant: normal;} + </style> +</head> + + + + + + + + + + + + + +<body> + + +<pre> + +Project Gutenberg's A Lenda da Meia-Noite, by Manuel Joaquim Pinheiro Chagas + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: A Lenda da Meia-Noite + +Author: Manuel Joaquim Pinheiro Chagas + +Release Date: November 7, 2007 [EBook #23400] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A LENDA DA MEIA-NOITE *** + + + + +Produced by Ricardo F. Diogo, Rita Farinha and the Online +Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net + + + + + + +</pre> + + +<div> +<div class="fbox"><b>Nota de editor:</b> +Devido à +quantidade de erros tipográficos existentes neste texto, +foram tomadas várias decisões quanto à +versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi +mantida de acordo com o original. No final deste livro +encontrará a lista de erros corrigidos.<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: right; font-style: italic;">Rita +Farinha (Nov. 2007) +</div> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="bbox"><br /> + +<hr /> +<div style="text-align: center;">COLLECÇÃO +ANTONIO +MARIA PEREIRA<br /> + +</div> + +<hr /><br /> + +<h2>M. PINHEIRO CHAGAS</h2> + +<br /> + +<h1>A LENDA DA MEIA-NOITE</h1> + +<br /> + +<h4>2.ª edição<br /> + +</h4> + +<h4><br /> + +</h4> + +<h4><br /> + +</h4> + +<h4><br /> + +LISBOA +<br /> + +Parceria A. M. PEREIRA―Livraria editora +<br /> + +<em>Rua Augusta, 50, 52 e 54</em> +<br /> + +1906<br /> + +</h4> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<hr /> +<div style="text-align: center;">LISBOA<br /> + +Officinas typographica e de encadernação<br /> + +<span class="smallcaps">movidas a vapor</span><br /> + +<em>Rua dos Correeiros, 70 e 72, 1.º</em><br /> + +1906<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h1>A LENDA DA MEIA-NOITE</h1> + +<br /> + +<br /> + +N'um dos sitios mais pittorescos da Beira-Baixa, +n'essa montanha vestida de verdura, onde se recosta Alpedrinha, +e que domina o verdejante valle do Fundão, +ergue-se uma casa ampla e antiga, de cuja varanda, extensa +varanda de madeira, em cujos beiraes vem as andorinhas +fazer os seus ninhos, se descortina a extensa +paisagem, onde alvejam Val de Prazeres e outras villas +e aldeias que matizam, com as suas casas brancas, o +verde do arvoredo, e que tem como panno de fundo a +imponente massa da serra da Estrella, coroada com as +suas neves eternas.<br /> + +<br /> + +A casa não tem formosuras architectonicas, nem aspecto +de palacio; é apenas um edificio vasto, cercado +de dependencias rusticas, tendo defronte do portão as +cavallariças, casas de habitação dos +criados, etc., que, +desenrolando se em semi circulo, fecham um terreiro +que dá ao edificio campestre uma especie de pateo de +<span class="pagenum">[6]</span>entrada. A parte +mais caracteristica da residencia é a +extensa varanda de madeira, tão usada na provincia, +onde nas tardes de estio se respira a viração da +serra, +onde nas manhãs de inverno se toma alegremente a +restea do sol.<br /> + +<br /> + +Fica isolada a habitação que a largos +traços descrevemos. +Pegada com a fachada principal está o muro, +onde se abre o portão da quinta. Esta é +assombreada +pelo magnifico arvoredo, que viça, com incrivel vigor, +n'esse torrão privilegiado conhecido na provincia pelo +nome de cova da Beira. Para um lado a pouca distancia +fica Alpedrinha, a pittoresca villa com as suas casas +penduradas entre verduras da encosta da montanha, +para outro lado a estrada desce até ao Fundão. +Por toda a parte verdura, arvores, aguas, o ar purissimo +das serras, os rumores mysteriosos das solidões. +É encantadora a situação d'aquelle +formoso eremiterio.<br /> + +<br /> + +No outono e no inverno a paisagem toma uns tons +mais carregados e lugubres. A montanha assume um +certo ar de grandeza. Nos soutos espessos dos castanheiros +passa o furacão silvando com furia; a trovoada +vae-se repercutindo de echo em echo pelas concavidades +dos valles, e os relampagos illuminam, com a sua +luz sinistra, o arvoredo que se estorce nos braços doidos +do vendaval. Nos amplos salões d'esses edificios +isolados ouvem-se rumores sinistros, e sons mysteriosos, +e o vento, fazendo ranger os pilares da varanda, +entôa a musica triste das lendas populares.<br /> + +<br /> + +É exactamente no outono que nós conduzimos o +leitor +á casa da Fragosa, como por lá se chama ao sitio +em que ella fica. Os viscondes da Fragosa, que alli +moram, tinham convidado alguns amigos seus para irem +<span class="pagenum">[7]</span>caçar nas +suas terras, de fórma que estavam +reunidas +bastantes pessoas no grande salão da residencia, junto +da brazeira, no momento em que convidamos o leitor +para entrar tambem e aproveitar o calor benefico do +lume.<br /> + +<br /> + +É já noite; a tarde estivera sobre-maneira +ventosa e +fria, de fórma que os convidados, reunidos na varanda, +para assistirem a um d'esses esplendidos occasos do sol, +que são tão frequentes no outono, tiveram que +retirar +e fechar-se em casa, deixando o vento gemer lá +fóra, +estorcendo os ramos do arvoredo. Accendeu-se a brazeira, +e, esquecendo-se o frio e o vento, entrou-se n'uma +palestra tão animada, como se se estivesse n'uma sala +de Lisboa, a dois passos do Theatro Italiano, e sentindo-se, +a rodarem nas ruas, as carruagens da cidade.<br /> + +<br /> + +O salão era vasto e simples, mobilado á antiga. +Nas +paredes alguns velhos quadros sombrios; pesadas cadeiras, +de pés torneados, forradas de coiro lavrado, +dispostas em circulo, em torno de uma mesa de pau +santo, ornava apenas um canto da sala immensa. N'esse +canto, onde se agrupavam a familia e os convidados, +havia uma profusa illuminação. O resto da sala +ficava +perdido na sombra. De vez em quando surgiam d'esse +fundo escuro os criados que vinham fazer +algum serviço. +O toque da campainha não parecia que os chamava, +parecia que os evocava. Saíam de subito da penumbra, +como se surgissem do chão. O aspecto da +casa +era, portanto, o mais legendario que podia imaginar-se.<br /> + +<br /> + +A conversação prolongára-se ainda +depois do chá! +Um medico, que residia em Alpedrinha, para onde viera, +não exercer a clinica, mas tratar da sua propria +saude, arruinada, em proveito da saude dos outros, homem +<span class="pagenum"><a name="p8">[8]</a></span>de +espirito fino e +amavel, fôra quem +sustentára +<a href="#e1">principalmente</a> a palestra, ajudado +por um +sr. Lucio +Valença, escriptor de certa aura, e caçador +intrepido, +e por uma filha dos viscondes, gentil menina, sympathica, +alegre e desembaraçada, que, apesar de ter vivido +sempre em Castello-Branco, e de ter ido apenas +uma ou duas vezes a Lisboa, não tinha nenhum dos +acanhamentos tradicionaes das provincianas de romance.<br /> + +<br /> + +A pouco e pouco, porém, esmorecera a +conversação: +pausas cada vez mais amiudadas cortavam a palestra, +e o medico já tirára o relogio para vêr +se não íam sendo horas de retirada. Mas o +visconde da Fragosa +estava agarrado, com o commendador Madureira, e alguns +visinhos de campo, a um impertinente +<em>boston</em>, e +em vista d'isso ninguem ousava ser o primeiro a tocar +a recolher.<br /> + +<br /> + +N'estes silencios ouvia-se distinctamente o rugir do +vento na serra, e os seus gemidos e silvos nos corredores +da casa.<br /> + +<br /> + +―Meu Deus! que tristeza de noite! disse de subito +uma joven senhora, de notavel +formosura, extraordinariamente +pallida, mas com umas opulentas tranças +negras, e uns olhos negros tambem, grandes, rasgados, +que lhe illuminavam com estranho fulgor o rosto +de alabastro. O vento geme com uns sons tão lugubres, +que nos parece ouvir as queixas dos phantasmas. +É uma noite de lenda allemã!<br /> + +<br /> + +―Para isso, acudiu o doutor Macedo, falta a chuva, +a trovoada, a neve e muitos outros accessorios germanicos. +O vento só não basta.<br /> + +<br /> + +―V. ex.<sup>a</sup> gosta de lendas, sr.<sup>a</sup> +D. Isaura? perguntou +inclinando-se para ella um elegante moço do +Fundão, +<span class="pagenum">[9]</span>em quem pareciam ter +produzido uma +impressão +profunda os olhos negros e a romantica pallidez da filha +do commendador Madureira.<br /> + +<br /> + +―Se gosto de lendas! respondeu a pallida menina. +Ah! de certo, adoro-as, mas gosto de as lêr em Lisboa, +no meu gabinete e á luz do sol.<br /> + +<br /> + +―Sem <em>mise-en-scene</em> não +prestam, observou com +toda a gravidade o doutor Macedo.<br /> + +<br /> + +―A que chama <em>mise-en-scene</em>, doutor? +perguntou +Isaura.<br /> + +<br /> + +―O Lucio que lh'o explique, minha senhora; não +quero invadir os seus dominios.<br /> + +<br /> + +―Oh! meu Deus, acudiu o escriptor, não é +difficil +de adivinhar. O doutor entende que as lendas devem +ser lidas e apreciadas á noite, no meio do silencio geral, +quando se está sósinho, n'um velho castello de +Anna Radcliffe, cheio de alçapões e de +subterraneos, +quando o vento geme lugubremente nos corredores, e +faz oscillar a luz da vela que illumina a nossa solitaria +vigilia. Creio que o doutor, acudiu Lucio voltando-se +rindo para elle, dispensa que a vela esteja n'um craneo, +em vez de estar n'um castiçal, e que haja um cemiterio +por baixo da janella.<br /> + +<br /> + +―Dispenso... dispenso... acudiu o doutor com a +mesma imperturbavel gravidade, quero dizer... não +julgo indispensaveis esses accessorios, mas não posso +negar que augmentavam de um modo notabilissimo o +effeito phantastico da narrativa legendaria.<br /> + +<br /> + +―Meu Deus! exclamou a pallida Isaura. Fazem-me +morrer de susto com essas historias pavorosas. Hoje +com toda a certeza não durmo. Que idéa! +É necessario +que não tenham a minima dóse de sensibilidade +para <span class="pagenum">[10]</span>assim estarem +zombeteando a respeito de coisas, que +me produziriam uma impressão tamanha, que os meus +nervos de certo não resistiriam. Estou já toda +tremula!<br /> + +<br /> + +―Mas, minha senhora, exclamou o doutor Macedo, +as lendas são como os ananazes. Ha os nascidos ao ar +livre, na sua terra propria, e ha-os desabrochados artificialmente +com o calor da estufa. N'um velho solar +provinciano, ao som lugubre do vento nos corredores, +n'uma noite de inverno sulcada de relampagos, nasce +a lenda tão naturalmente como o ananaz no +Brazil. +N'uma sala de Lisboa, forrada de espelhos, ornada de +macios sophás, entre os rumores meridianos da rua, a +luz clara e alegre do sol, a lenda não póde ter +mais +sabor do que um ananaz de estufa.<br /> + +<br /> + +―Jesus, meu Deus, exclamou D. Isaura, percebo +isso perfeitamente, e bem sei que o phantastico só +póde +produzir toda a impressão de que é susceptivel no +scenario +que o doutor descreve: mas é que levado a esse +ponto, o phantastico produziria no meu espirito um funesto +effeito. Matava-me ou enlouquecia-me! Ah! tornou +ella, eu adoro o ideal, mas o ideal póde tambem +partir as cordas da minha alma.<br /> + +<br /> + +―Tomo o partido de Isaura, disse não sem alguma +ironia a filha dos viscondes de Fragosa, linda menina +de cabellos castanhos claros e olhos azues, de um azul +tão vivo que produziam ás vezes a +sensação de olhos +negros, como se fossem aquelles reflexos azulados da +aza negra do corvo; tomo o partido de Isaura. Os senhores +estão fallando ahi como creaturas vulgares incapazes +de sentirem profundamente as grandes +commoções. +Para as almas privilegiadas os grandes prazeres +da imaginação muitas vezes são tambem +o martyrio. <span class="pagenum">[11]</span>São +as Ophelias, as Marias de Noronha, as creaturas +ideaes cujos corpos são apenas, como o da irmã +do bispo Myriel nos +<em>Misérables</em>, de Victor +Hugo, pretextos +para conservarem no mundo almas de anjos.<br /> + +<br /> + +―E cuidas que não ha na terra esses entes, cujas +expressões mais sublimes foram encontradas por tres +grandes poetas que acabas de citar, Garrett, Shakespeare +e Victor Hugo? acudiu vivamente o enthusiasta +de Isaura, que sentira o leve epigramma, que o seu +idolo não comprehendêra.<br /> + +<br /> + +―Não cuido tal, Henrique. A prova de que os ha é +que Isaura é um d'esses entes.<br /> + +<br /> + +―Por quem és, Leonor... acudiu Isaura com uns +certos ares de modestia, que ainda mais desesperaram +o seu apaixonado.<br /> + +<br /> + +―É assim, tornou Leonor. Tu, Isaura, sentes que +se partiriam as cordas da tua alma, se quizesses lêr +á +noite n'um quarto de uma velha casa provinciana uma +historia de phantasmas. Morrias se te achasses sósinha +á noite n'uma sala de lugubre aspecto. Porque? Porque +tens a imaginação exaltada, a sensibilidade +nervosa +das Ophelias e das Marias de Noronha!<br /> + +<br /> + +―E não admirava, acudiu Henrique Osorio que assim +se chamava o moço do Fundão, não +admirava, sr.<sup>a</sup> +D. Isaura, que v. ex.<sup>a</sup> tivesse medo de estar +sósinha +n'um castello de Anna Radcliffe. Nem todas podem ter +a imaginação calma, o prosaico bom senso, a fria +intrepidez +de Leonor. A marqueza da Lusacia, de que +falla Victor Hugo n'um dos seus poemas, preferia perder +a soberania do seu marquezado a ir passar a noite +sósinha, como o ordenava o costume tradicional, no +castello de seus avós...<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[12]</span> ―Logo encontrou +quem a acompanhasse, interrompeu +Leonor ironicamente.<br /> + +<br /> + +―E não seria só ella.<br /> + +<br /> + +―Isaura, ouviste? acudiu Leonor rindo com tal ou +qual amargura, se quizeres passar alguma noite n'um +castello legendario, como a marqueza da Lusacia, já +tens trovador que te acompanhe, ao bater da meia-noite, +e que te cante:<br /> + +<br /> + +<div class="poetry">Si tu veux, faisons un rêve,<br /> + +Montons sur deux palefrois,<br /> + +Tu m'emmènes, je t'enlève.<br /> + +L'oiseau chante dans les bois.<br /> + +</div> + +<br /> + +Isaura sorriu-se sem comprehender bem a lucta que +em torno d'ella se travava; Henrique Osorio calou-se. +Leonor, um pouco arrependida de ter mostrado um tal +ou qual azedume, voltou-se para sua mãe que resonava +recostada na sua poltrona, e, chamando-a, disse-lhe algumas +palavras em voz baixa, convidando-a a que lembrasse +a seu pae que eram horas de pôr um termo ao +<em>boston</em>. O doutor levára a +mão aos labios para cumprimir +um bocejo, e Lucio Valença, sorrindo-se, contemplava +a esplendida formosura de Isaura, e êsses olhos +que Deus fizera tão formosos, e que não +reflectiam +comtudo senão as preoccupações pueris +da mulher da +moda, e da lisbonense frivola.<br /> + +<br /> + +No meio d'este silencio ouviu-se o vento bramir com +mais força, para depois gemer com mais tristeza, parecendo +que se estabelecia um dialogo entre os espiritos +atmosphericos, e que aos rugidos ameaçadores de um +demonio respondiam as queixas plangentes de um ente +fraco e debil.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[13]</span> +De subito ouviu-se ao longe, ao longe, vibrar uma +badalada no sino de S. Martinho de Alpedrinha.<br /> + +<br /> + +O vento soprava d'aquelle lado, e trazia nas suas +azas as lugubres vibrações do bronze.<br /> + +<br /> + +Ouviu-se em profundo silencio uma, duas, tres... +doze badaladas.<br /> + +<br /> + +―Meia-noite! disse naturalmente o doutor, quebrando +o silencio em que todos estavam, porque todos tinham +estado contando as horas.<br /> + +<br /> + +Mas a voz do doutor tambem tomára involuntariamente +como que uma sinistra entoação.<br /> + +<br /> + +D. Isaura soltou um grito.<br /> + +<br /> + +―Jesus! disse ella.<br /> + +<br /> + +―Que tem, minha senhora? perguntou Henrique +sollicito e afflicto.<br /> + +<br /> + +―Meu Deus! exclamou Isaura, é que me aterraram +com as suas loucas historias, é que me puzeram n'um +estado incrivel de sobre-excitação nervosa. +Meia-noite! +vê? Meia-noite é a hora dos phantasmas, +é a hora das +apparições! E esta sala é +tão lugubre, e este silencio +é tão agoireiro!<br /> + +<br /> + +―Minha senhora, exclamou o doutor Macedo alegremente, +v. ex.<sup>a</sup> suppõe por acaso que +nós sejamos +phantasmas, +e que estejamos quasi a dissipar-nos em fumo +como quaesquer entes mal-creados do mundo sobrenatural? +V. ex.<sup>a</sup> está no meio d'um +batalhão de gente +viva capaz de affrontar dois subterraneos de Anna Radcliffe, +tres conventos de Lewis, reforçados ainda pelos +mil e um phantasmas de Alexandre Dumas.<br /> + +<br /> + +―Oh! tornou Isaura toda tremula, mas é que a +meia-noite soou de um modo tão lugubre... E nós a +esta hora ainda a p ―Oh! tornou Isaura toda tremula, mas é +que a +meia-noite soou de um modo tão lugubre... E nós a +esta hora ainda a pé...<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[14]</span> ―V. ex.<sup>a</sup> +deita-se mais cedo em Lisboa? +perguntou +o doutor.<br /> + +<br /> + +―Não, mas...<br /> + +<br /> + +―Mas é que a meia-noite só aterra os que lhe +dão +ímportancia. É uma hora covarde e manhosa, que, +se +vê a alegria do baile, as salas illuminadas, as +danças +caprichosas e revoluteadoras, entra pacatamente como +outra hora qualquer, até com mais risos e mais alegrias, +accendendo mais o fogo das walsas, cumprimentando +para todos os lados amavelmente. Se vê o estudioso +debruçado sobre os livros, indifferente e sereno, +entra timidamente, nos bicos dos pés, e abafa até +as suas proprias vibrações; se encontra n'um +serão +de familia a conversação alegre, o bule de +chá em cima +da mesa, as cartas do <em>boston</em> para um +lado, um livro +para outro, bate á porta discretamente, e annuncia que +é tempo de se recolher cada qual para o seu leito. Ora +agora, se encontra gente que espera com susto, que +está prompta a desmaiar apenas ouvir a primeira badalada +que a annuncia, então eil-a que toma uns ares +pavorosos, engrossa a voz, faz entrada solemne, espalha +em torno de si o terror e o assombro. Fóra com +semelhante fanfarrão! É necessario darmos-lhe uma +lição mestra! Peço a palavra para um +requerimento.<br /> + +<br /> + +―Hein? disse lá da mesa do jogo o visconde da +Fragosa, que aspirava á deputação.<br /> + +<br /> + +―Está concedida, visconde? disse o doutor, rindo.<br /> + +<br /> + +―Mas que diz você? tornou o visconde muito espantado +dos risos com que os interlocutores do Macedo +acolhiam a sua idéa.<br /> + +<br /> + +―Bem! Passo adiante. Requeiro que para todos os +effeitos seja abolida a meia-noite.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[15]</span> ―Approvado por +unanimidade e mais um que é o +visconde, tornou, rindo, Lucio Valença. Agora queira o +sr. deputado apresentar uma proposta indicando o modo +pratico de se levar a effeito essa medida importante.<br /> + +<br /> + +―Proponho, tornou o doutor com gravidade comica, +que de ámanhã em diante affrontemos a meia-noite +rosto a rosto, e lhe torçamos o pescoço.<br /> + +<br /> + +―Mas o meio? o meio? o meio pratico? bradaram +Lucio e Leonor.<br /> + +<br /> + +―O meio é o seguinte: O mau tempo ameaça +prolongar-se, +e nós ou não podemos caçar, ou +não podemos +prolongar a caça por todo o dia, sob pena de estoirarmos +ahi de frio por essa serra. Portanto á noite +estamos frescos e descançados, e podemos protrahir o +serão. Proponho que organisemos um +<em>Decameron</em> para +zombarmos da meia-noite, como os narradores de Bocaccio +zombaram da peste de Florença. Cada um de +nós, que se sentir para isso com forças, se +compromette +a compôr uma historia phantastica, uma lenda, +um conto maravilhoso que será lido aqui ao bater da +meia-noite. D'essa fórma affrontamos face a face a terrivel +inimiga do repouso da sr.<sup>a</sup> D. Isaura, e, se ella +ainda ousar fazer uso dos seus sortilegios, comnosco +se ha de haver!<br /> + +<br /> + +―Apoiado! apoiado! bradaram todos menos D. Isaura, +que soltou um grito, exclamando:<br /> + +<br /> + +―Isso é horrivel!<br /> + +<br /> + +―Não, minha senhora, é uma receita, é +um remedio +heroico, é um banho russo. Vou-lhe combater os +seus nervos.<br /> + +<br /> + +―Mate-me, doutor!<br /> + +<br /> + +―Qual historia, minha senhora! Mato a meia-noite! +<span class="pagenum">[16]</span>Verá +como depressa a moda acceita a minha idéa. +D'aqui +a pouco tempo não se falla em Lisboa n'outra coisa, e +a <em>lenda da meia-noite</em> +será o anti-espasmodico mais empregado.<br /> + +<br /> + +A idéa de que effectivamente em Lisboa d'ahi a pouco +tempo se não fallaria n'outra coisa foi o que decidiu +D. Isaura. Ao mesmo tempo terminára a partida do voltarete, +e um dos jogadores, homem já de cabellos grisalhos, +vivo, espirituoso, illustrado, que no tempo do +romantismo commettera alguns peccados litterarios, exclamou +alegremente:<br /> + +<br /> + +―Acceitam-me para companheiro! Eu ainda sirvo +para uma montaria aos lobos, vamos a vêr se tambem +presto para uma montaria á meia-noite.<br /> + +<br /> + +―É acceito com mil vontades, sr. Roberto Soares. +Eu já o conheço como robusto campeão, +e assento-lhe +praça com enthusiasmo. Agora cabe-me designar o +serviço. +Henrique Osorio, você é quem rompe o fogo.<br /> + +<br /> + +Henrique inclinou-se em silencio relanceando um ardente +olhar á pallida Isaura.<br /> + +<br /> + +―Meia-noite e meia-hora! disse o doutor tirando o +relogio. Saudemos, meus senhores, a ultima meia-noite +que passa, e vamo-nos deitar. Todos se riram, e um +borborinho alegre encheu d'ahi a pouco os corredores +da habitação. Ainda por algum tempo se sentiu o +rumor +de portas que se abriam e fechavam, de passos +que se perdiam ao longe, de vozes que se despediam. +Depois caiu tudo em silencio, e só se pôde ouvir o +vento que continuou toda a noite a gemer lugubremente +as suas monotonas queixas.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[17]</span> +A previsão do doutor realisou-se. O tempo continuou +mau, e aggravou-se ainda com a chuva que principiava +a cair em torrentes. A noite seguinte passou-se alegremente. +Quando, porém, um relogio de parede, que fôra +posto na sala, indicou onze e meia, Isaura fez-se ainda +mais pallida do que era, e houve no auditorio uns taes +ou quaes signaes de commoção.<br /> + +<br /> + +―A postos, meus senhores! exclamou o doutor alegremente. +Firmeza, companheiros! Do alto d'aquelle +relogio trinta minutos vos contemplam.<br /> + +<br /> + +Houve de novo <em>entrain</em>, risos e +enthusiasmo. N'isto +o sino de S. Martinho deu a primeira badalada da meia-noite. +Soava ainda mais lugubremente do que na vespera. +Solta no meio dos loucos rumores do vendaval, +a vibração do bronze parecia uma nota perdida de +agonia +e de desespero.<br /> + +<br /> + +―Henrique! disse o doutor. Vamos! Estás um pouco +pallido? É a commoção do auctor e +não a da meia-noite, +juro-o aos deuses immortaes. +Vá! inflexão lugubre, +voz cavernosa, gesto sombrio!<br /> + +<br /> + +Henrique desenrolou um manuscripto, e, no meio da +attenção geral, leu o seguinte: +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +<h2>JULIETA</h2> + +<h3> +CONTO PHANTASTICO<br /> + +<br /> + +</h3> + +<h3> +I</h3> + +<br /> + +Eram onze horas da noite, e estava-se tomando chá +em casa do meu amigo Frederico B * * *, em Bemfica. +Havia uma roda d'intimos; a conversa estava animada +e o meu amigo, a quem a alegria e o +<em>entrain</em> dos convidados +deixavam mais liberdade no cumprimento dos +seus deveres de dono da casa, aproveitava-se d'isso +para contemplar extasiado sua linda mulher, com quem +casára havia pouco tempo, e que do seu lado lhe sorria +tambem com a meiguice e ternura da mulher que +ama devéras.<br /> + +<br /> + +A conversa animára-se tanto, que se ia transformando +em algazarra.<br /> + +<br /> + +Discutia-se acaloradamente a questão da existencia +das almas do outro mundo, com grande desprazer d'um +jornalista que por força queria conduzir ao bom caminho +<span class="pagenum">[20]</span>aquelles +discutidores extraviados, propondo que se +tratasse da bondade do ministerio, deixando de parte +essas tolices, que não serviam para nada. Mas ninguem +lhe prestava attenção, o que fez com que elle +desesperado +fosse lêr pela centesima vez um artigo seu publicado +n'um jornal que estava em cima de uma das mezas +da sala. Essa producção do seu engenho, que o +jornalista relia com tanto enthusiasmo merecia indubitavelmente +tão paterna sollicitude, porque elle e o revisor +da imprensa tinham sido os seus unicos leitores. +Mas o auctor tantas vezes o tinha lido, e tal +admiração +professava pelo seu proprio talento, que podéra dizer, +sem receio de ser taxado de mentiroso―«<em>que +o seu +artigo tinha feito tal impressão, que lhe constava ter +havido +uma pessoa que o relia a miudo, e sempre com enthusiasmo +crescente, honra de que se podiam gabar poucos +artigos politicos da imprensa portugueza</em>.»<br /> + +<br /> + +―Concluamos, bradava entretanto um medico materialista +por dever de profissão, onde collocam os senhores +esse agente mysterioso a que dão o nome de espirito, +teimando em appellidar assim pomposamente o mechanismo +material, que a morte paralysa? Quando esse +relojoeiro sombrio, que se chama tempo, quebra com +mão despiedosa as rodas complicadas do nosso systema +vital, onde se refugia esse ente inutil, esse ser impalpavel +a que os senhores espiritualistas querem dar as +redeas do governo d'este barro quebradiço, que constitue +o homem? E durante a vida quaes são os laços +invisiveis, que prendem o escravo ao senhor, o corpo +material e fragil á alma etherea e immortal? Tremendo +absurdo, utopia talvez respeitavel, sublime tolice pela +qual se tem sacrificado innumeras gerações! Ah! +mas <span class="pagenum">[21]</span>sobretudo, +é doido devéras quem imagina que essa +invenção +impossivel, resultado das aspirações da +humanidade +para a existencia eterna, possa vir aos cemiterios +animar os restos putrefactos dos reis da creação; +quem tal suppõe, não sentiu nunca debaixo do +escalpello +anatomico o cadaver inerte e despresivel, nem +póde avaliar com a vista infallivel da sciencia o nada +immenso das vaidades humanas!<br /> + +<br /> + +―Fóra com o materialista, bradou um rapaz enthusiasta; +sabes tu, meu caro doutor, que a primeira vaidade +humana cujo nada immenso tu devias avaliar, é +a vaidade da sciencia? Que sabes tu, presumpçoso +Hippocrates, +que tens de recuar vencido perante o primeiro +obstaculosinho, que a natureza caprichosa queira +oppôr á vista infallivel, como tu dizes, do saber +dos +homens? E és tu que andas perdido no meio da +confusão +dos systemas medicos a procurar no labyrintho +scientifico o fio conductor que te está sempre a escapar +das mãos, és tu que pretendes entrar com passo +firme no insondavel labyrintho da eternidade?... Espera, +continuou elle vendo entrar um mancebo muito +pallido, que foi apertar a mão de Frederico, e comprimentar +a dona da casa, queres-te convencer? Pois ahi +tens tu um homem vivo, que teve relações directas +com +um phantasma.<br /> + +<br /> + +―Roberto, assenta-te ahi, e conta-nos immediatamente +a historia do teu espectro, se v. ex.<sup>as</sup> +não se +oppõem a isso ainda assim, continuou elle, voltando-se +para as senhoras presentes, que tinham escutado a +discussão metaphysica, com ligeiros signaes de +aborrecimento.<br /> + +<br /> + +Propôr a senhoras uma historia de phantasmas é +<span class="pagenum">[22]</span>despertar-lhes a +attenção, é +fazer-lhes passar nas veias +o estremecimento do enthusiasmo. Não sei porque, esses +entes frageis, pallidos ou rosados, de olhos negros +ou azues, alegres ou melancolicos, esses entes femininos +encantadores e timidos adoram tudo o que os faz +tremer, e recreiam-se sobre tudo com essas historias +terriveis, em que o leitor estupefacto encontra um punhal +ao voltar de cada pagina, um ladrão á esquina de +cada periodo, um phantasma pelo menos em cada capitulo.<br /> + +<br /> + +Por isso a parte feminina da assembléa acolheu a +proposta com enthusiasmo: e a mim e aos outros homens, +que estavam presentes, não desagradou a idéa +de ouvir uma historia terrivel, em <em>petit +comité</em>, no pino +da meia noite, tendo de voltar depois para casa por +aquelles caminhos desertos dos arredores de Lisboa; +a mim sobretudo, que tinha de passar pelas casas arruinadas +de Campolide, sorria a idéa de +ir com a imaginação +povoada de phantasmas, que poderia distribuir +á vontade pelos recantos d'essa paisagem tão +magestosa, +quando a lua envolve os paredões solitarios na +branca mortalha da sua luz, em quanto ao longe se +desenha sobranceiro entre os campos verdejantes o perfil +grandioso do aqueducto sombrio.<br /> + +<br /> + +Roberto, devemos dizel-o para honra sua, não se fez +rogado, comprimentou silenciosamente a assembléa, e +começou pouco mais ou menos n'estes termo +Roberto, devemos dizel-o para honra sua, não se fez +rogado, comprimentou silenciosamente a assembléa, e +começou pouco mais ou menos n'estes termos: +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[23]</span> +<h3>II</h3> + +<br /> + +«Cantava-se em Lisboa pela segunda ou terceira vez +o <em>Baile de mascaras</em>. Era uma noite +de delirio no theatro +de S. Carlos. Franschini, o cantor sublime, fazia +tremer de enthusiasmo a platéa inteira, e a voz portentosa +de madame Lotti despenhava sobre o publico +palpitante torrentes de melodia e de sentimento. O +personagem de Amelia, interpretado como então o foi, +deixava de ser um typo creado pela imaginação do +poeta +para se transformar, animado pelo Prometheo do genio, +n'um ente real, cujos sentimentos traduzidos em +suspiros de harmonia, iam arrancar os +soluços dos peitos +dos espectadores.<br /> + +<br /> + +Era o poema da paixão, com todas as suas peripecias, +mas da paixão verdadeira, da paixão que geme e +rasga os seios da alma, da paixão que verte lagrimas, +de cujas feridas brota o sangue, e não d'essa +paixão +ficticia, cuja expressão convencional anima só a +mascara, +que a artista desafivella apenas desce o panno.<br /> + +<br /> + +Eu, perdido n'um canto da platéa, escutava, como escuto +sempre quando vou ao theatro lyrico. N'isso devo +confessar-lhes que tenho idéas um pouco originaes. O +panno, que sóbe lentamente no principio da opera, descerra +para os outros espectadores meia duzia de taboas +rodeadas por bastidores de lona, onde uns poucos de +artistas vão cantar umas poucas de arias para divertimento +do publico. Para mim é como que uma janella +encantada que se abre por onde eu me arrojo para os +espaços azues do ideal. Os outros analysam com toda a +paciencia a instrumentação e o canto, investigam +se foram<span class="pagenum">[24]</span> +executadas as leis do contraponto, e depois de satisfeitos +applaudem compassadamente para não rasgarem +as luvas, voltam-se bocejando, e comprimentam a +senhora condessa de * * *, ou a senhora baroneza de * * *, +cuja chronica escandalosa vão contar immediatamente +ao seu visinho da esquerda.<br /> + +<br /> + +Mas eu não. A minha alma, que illumina o fogo do +enthusiasmo, não póde ficar na terra, quando +sente passar +no espaço o sopro da harmonia, da casta filha do +céo. Desapparece o theatro, desapparecem os espectadores, +desapparece a ficção. Arrastada no manto de fogo +do ideal, a minha alma sente, enleva-se, palpita, geme, +pranteia, soluça com Macbeth o grito do remorso, suspira +com Desdémona a canção da saudade, +gorgeia com +Helena o hymno da desposada, escuta com Rosina a +meiga serenata, sólta com Lucrecia o rugido da envenenadora, +e volta depois á terra, deixando-me ficar pallido, +extasiado, porque entrevi em sonhos a deslumbrante +claridade de um mundo desconhecido.<br /> + +<br /> + +Tinha começado o segundo acto, e eu seguia cheia de +um vago terror a scena lugubre do principio. As notas +da aria de Amelia soavam-me aos ouvidos como dobres +de finados, e quando a Lotti soltou aquelle grito de pavor, +que vibrava sonoro e plangente pelo theatro, fazendo +estremecer os espectadores, eu levantei-me pallido, +convulso, e senti correr-me pela raiz dos cabellos +o halito de fogo de uma mysteriosa commoção.<br /> + +<br /> + +O meu visinho olhou para mim espantado; sentei-me, +deixei cahir a cabeça entre as mãos, e scismei.<br /> + +<br /> + +―Ó ideal, dizia eu, quando poderei finalmente sorver +a longos tragos o teu nectar precioso na cinzelada +taça da phantasia? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p25">[25]</a></span> +«Ó virgem dos meus sonhos, ó anjo das +azas de +ouro, quando poderá a minha alma, abraçando-se +comtigo +nas regiões celestes, aspirar a plenos pulmões a +balsamica aragem da poesia?... O que és tu, ente +mysterioso, que assim bafejas o <a href="#e2">espirito</a> +dos grandes +poetas, e lhes vaes murmurar, em noites de +inspiração, +os segredos sublimes que o vulgo profano admira, mas +não comprehende?<br /> + +<br /> + +«Oh! quaes serão as visões d'estes +homens portentosos, +e nas suas noites de febre, de delirio e de insomnia, +em que mysticos amores te enlaças tu com +elles, ó ideal sublime, ó ideal inspirador? E +emtanto +nós, os desherdados, bebemos com um riso alvar a agua +insipida e lodosa dos prazeres do mundo, e caminhamos +n'esta planicie monotona da vida, olhando com +terror para o Sinai chammejante, onde campeiam, cercados +da divina aureola, os harmoniosos prophetas, os +validos da inspiração!<br /> + +<br /> + +«Não posso; falta-me o ar no recinto estreito da +vida +social; a prosa d'este mundo opprime-me o +coração. A +minha alma está sequiosa de amor, e este apparece-me +sempre escoltado pelas conveniencias, trazendo sobre o +rosto formoso a mascara ridicula dos interesses materiaes, +ou a mascara odiosa do capricho sensual. Amor! +amor! mas um amor como o teu, ó casta e pura Amelia, +como o teu, ó Julieta, ó noiva gentil de Romeu e +da sepultura, quero um d'esses amores sublimes, e, se +elle não se encontra na terra, surge dos tumulos, +ó +pallida virgem por quem eu anhelo, e mostra-me ao +menos n'um relampago as mysteriosas alegrias da eternidade!»<br /> + +<br /> + +N'isto levantei a cabeça, e os meus olhos +involuntariamente <span class="pagenum">[26]</span>fixaram-se +n'um camarote, que ficava pouco +distante do logar que eu occupava na platéa. Uma senhora +de belleza maravilhosa estava sósinha n'esse camarote, +e encarava-me com uma attenção extraordinaria. +Não sei porque gelou-se-me o sangue nas veias, e +fiquei extatico a contemplar aquella esplendida formosura.<br /> + +<br /> + +Raras vezes tenho encontrado um rosto assim! A +correcção das linhas, a pureza dos contornos, a +magestade +do perfil deixavam na sombra os mais perfeitos +modelos da antiga estatuaria. Praxíteles quebraria +desesperado +as estatuas e o cinzel, se lhe fosse dado +contemplar as inflexões suaves, a +perfeição das fórmas +d'aquella viva esculptura.<br /> + +<br /> + +Se algum defeito se lhe poderia notar, era a rigidez +marmorea da physionomia. Via-se que nem tristezas +nem alegrias seriam capazes de alterar a regularidade +do semblante, que só parecia ter vida nos olhos, que +eram lindos a mais não ser, e d'onde emanavam raios +magneticos e deslumbrantes, que enlouqueciam quem +se atrevesse a encaral-os. Aquelle rosto assemelhava-se +a uma urna de marmore, em cima da qual se tivesse +collocado uma lampada de luz fascinadora. Era um +fragmento de gêlo dourado levemente pelos reflexos de +um vulcão, mas essa physionomia tinha um não sei +que de mysterioso e sombrio, que me impressionou +profundamente.<br /> + +<br /> + +Olhei para o relogio. Os ponteiros marcavam no +mostrador meia-noite em ponto.<br /> + +<br /> + +No theatro os conjurados cantavam o côro das gargalhadas, +e repetiam rindo o estribilho:<br /> + +<br /> + +<div class="poetry">Ah! chè baccano-sul caso +strano<br /> + +Andrà dimani per la città!</div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[27]</span> +<h3>III</h3> + +<br /> + +Sem poder explicar a mim mesmo a fascinação +irresistivel, +que me impellia tão imperiosamente á +contemplação +d'aquelle formoso semblante, nunca mais desviei +a vista do camarote. E ella, oh! ella olhava-me com +uma meiguice de enlouquecer.<br /> + +<br /> + +Estava toda vestida de negro, e isso ainda mais contribuia +para fazer realçar a alvura da sua tez. Trajava +elegantissimamente, mas com uma singeleza, que me +encantou, a mim, que procuro quasi sempre o bom +gosto na simplicidade.<br /> + +<br /> + +Só ella occupava o camarote! Sósinha! Quem +poderia +ser? Tão nova, tão formosa, e só! Oh! +meu Deus! +seria ella uma d'essas mulheres sem pudor, que arrastam +por toda a parte o manto de seda da ignominia, +que foram apanhar da lama, onde deixaram em troca +o candido véo da innocencia? Impossivel! O seu porte +modesto, a simplicidade do seu trajo +eram um protesto +vivo contra o descaro, e orgulhoso cynismo d'essas +Messalinas venaes.<br /> + +<br /> + +Mas só! Quem sabe? Talvez a pessoa que a acompanhava, +estivesse escondida na sombra do camarote; +talvez tivesse saído. Tudo podia ser, mas a suspeita +é +que não podia manchar nem por momentos a luz serena +d'aquelle rosto angelical.<br /> + +<br /> + +E eu olhava-a deslumbrado; e uma transformação +estranha se operava em mim. Parecia-me que as luzes +do theatro iam esmorecendo a pouco e pouco até se +reduzirem á claridade sinistra das lampadas sepulchraes, +<span class="pagenum">[28]</span>o palco e a +platéa confundiam-se n'um vasto +cemiterio, onde o vento da noite fazia ondular a copa +dos cyprestes, por entre cujos ramos passavam os +raios da lua, da pallida scismadora, da solitaria amiga +das sepulturas.<br /> + +<br /> + +E ella, ella, a formosa desconhecida, vinha dizer-me +com o seu olhar tão triste:<br /> + +<br /> + +―Queres o meu amor, ó pobre escravo d'um corpo +material, ó doido, que aspiras ao infinito sem pensares +que tens os pés embaraçados na immunda vasa +d'esse +oceano de desespero, que se chama a vida? Oh! não +queiras conhecer os segredos dos tumulos, porque tu, +meu louro poeta, voltavas ao mundo de cabellos brancos, +se tocasses um só minuto com os labios na taça +inebriante dos amores da eternidade!<br /> + +<br /> + +―Oh! que me importa a vida, respondia eu na +allucinação +febril, se em troca d'esses dias de prosa me +posso arrojar um instante só aos espaços +infinítos das +sublimes commoções! A minha alma é +como a aguia, +que se arroja ás regiões das nuvens, affrontando +a tempestade, +e cae depois na terra fulminada pelo raio, que +altiva foi provocar. Que me importa a mim a morte, a +condemnação eterna, se podér sorver +nos teus +labios +voluptuosidades desconhecidas, e lêr nos teus olhos o +poema sublime do amor, que eu phantasio?<br /> + +<br /> + +A visão desapparecia; mas no palco a voz seductora +d'Oscar, o elegante pagem, vinha murmurar-me aos +ouvidos:<br /> + +<br /> + +<div class="poetry"> +Pieno d'amor<br /> + +Mi balza il cor;<br /> + +Ma pur discreto<br /> + +Serba il segreto.</div> + +<br /> + +<span class="pagenum">[29]</span> +E no olhar da minha formosa desconhecida lia-se em +letras de fogo a mesma confissão inebriante:<br /> + +<br /> + +<div class="poetry"> +Pieno d'amor<br /> + +Mi balza il cor. +</div> + +<br /> + +<br /> + +<h3> +IV</h3> + +<br /> + +Tinha acabado a opera. Levantei-me e saí.<br /> + +<br /> + +Fiz um esforço sobre mim, não querendo olhar para +o camarote fatal. A pessoa que o occupára durante a +noite produzira em mim uma impressão tal que cheguei +a ter medo... medo da influencia pasmosa que +ella ía tomando sobre o meu pobre +coração.<br /> + +<br /> + +Oh! fatalidade! Quando cheguei ao corredor, o primeiro +vulto, que passou por diante de mim, foi o vulto +elegante e nobre da gentil desconhecida. Ia só!<br /> + +<br /> + +Tive como que uma vertigem, quando ella, ao passar, +me lançou um d'esses olhares que endoidecem o +homem de rasão mais fria, que lançam no inferno o +mais virtuoso santo do paraizo.<br /> + +<br /> + +Não tive forças para luctar contra a +fascinação irresistivel +d'esse olhar. Se elle tinha sobre mim a influencia +magnetica do olhar de José Balsamo sobre a pobre +Lorenza ideada por Alexandre Dumas! Debalde a pobre +italiana se torcia desesperada debaixo d'aquelle +jugo oppressor, debalde oppunha toda a força da sua +vontade e do seu odio á tenacidade diabolica do terrivel +magnetisador, debalde resistia com todo o ardor da +sua devoção, com todo o vigor da sua alma +virginal +áquelle poder incomprehensivel, mas horrendamente +<span class="pagenum">[30]</span>verdadeiro; tinha +de recuar diante d'esse olhar, como +diante d'uma espada chammejante, até caír +oppressa e +desesperada aos pés de José Balsamo. +Então esse corpo +quebrado pela resistencia, reclinava-se nos braços +da voluptuosidade, e a voz que ia terrivel a bradar: +«Odeio-te», terminava supplicante a balbuciar: +«Adoro-te».<br /> + +<br /> + +Ao vêl-a, disse eu commigo mesmo: «Não +quero, +não quero ceder a esse imperio inexplicavel.» E +minutos +depois, surprehendia-me a seguil-a apressadamente +pelas ruas de Lisboa.<br /> + +<br /> + +Ha occasiões em que nos vêmos obrigados a +acreditar +em forças sobrenaturaes que nos attrahem e nos +repellem, é quando a nossa vontade se aniquila, e quando +as leis da nossa organisação são +violentamente revogadas +por um despotismo estranho.<br /> + +<br /> + +Submetto esta reflexão á +consideração dos illustres +materialistas que me escutam!<br /> + +<br /> + +<h3>V</h3> + +<br /> + +A desculpa que eu dei a mim mesmo, quando apesar +de todos os meus protestos me surprehendi a seguir +a senhora de negro, foi a desculpa da curiosidade.<br /> + +<br /> + +Com effeito, dizia eu commigo, tirando philosophicamente +baforadas de fumo do charuto que acabára de +accender no momento em que passou por diante de +mim a formosa desconhecida; o que ha mais natural? +Encontro uma linda mulher em S. Carlos, linda como +poucas, e original a mais não poder ser. Vejo-a no camarote +sósinha, e torno a vêl-a, saíndo a +pé, e ainda +<span class="pagenum">[31]</span>só. +Não tenho nada que fazer, e por conseguinte +sigo-a. +É naturalismo.<br /> + +<br /> + +E a voz da consciencia murmurava-me ao ouvido:<br /> + +<br /> + +―É o brilho da chamma tentadora, ó doida +borboleta, +é o olhar fascinador da serpente, ó ave +descuidosa.<br /> + +<br /> + +―Ora adeus, respondia a voz da minha apparente +philosophia, prejuizo, superstição, fanatismo, +como dizia +o tenente Boutraix de um dos romances de Carlos +Nodier. Vou offerecer-lhe o meu braço.<br /> + +<br /> + +A senhora que eu seguia caminhava lentamente a +quinze passos adiante de mim, quando muito. Passava +ella então defronte da egreja dos Martyres. Puz o +chapéu +ao lado com modos conquistadores, colloquei o +charuto ao canto da bocca, e accelerei o passo.<br /> + +<br /> + +Apesar d'isso, e apesar da minha bella não alterar por +fórma alguma o seu andamento, não diminuia, pelo +menos +sensivelmente, a distancia que nos separava. O vulto +elegante da senhora de negro, ao passar por diante dos +candieiros de gaz, revelava-se em toda a sua riqueza +de fórmas, em toda a magestade do seu porte airoso. +Havia uma suprema distincção no seu modo de +andar, +mas apesar d'isso havia um não sei quê de +mysterioso +n'aquelle mover de estatua, lento e inteiriçado, que fazia +uma impressão pouco agradavel.<br /> + +<br /> + +Chegámos assim á rua Nova do Carmo; ella voltou +para baixo; eu segui-a.<br /> + +<br /> + +A distancia conservava-se a mesma. Mas, como ia diminuindo +o numero das pessoas que caminhavam para +aquelles sitios, saindo, como nós, de S. Carlos, eu tomei +uma resolução definitiva, e comecei a dar grandes +passadas +para apanhar finalmente aquella mulher que me +<span class="pagenum">[32]</span>fugia +incessantemente como esse caçador das lendas do +norte, que foge sempre, sem perder um palmo de terreno, +mas sem poder tambem desapparecer, á sua matilha +infernal.<br /> + +<br /> + +Nem assim pude diminuir a distancia que me separava +d'esse vulto extraordinario.<br /> + +<br /> + +E o vulto parecia escorregar magestoso e sombrio, +sem que a bulha dos seus passos acordasse um só echo +nas ruas solitarias.<br /> + +<br /> + +Chegámos ao Rocio. Eu começava a estar suado. +Despi, sem affrouxar o passo, o paletot que me incommodava, +e pul-o aos hombros.<br /> + +<br /> + +Depois dei a andar com dobrada rapidez.<br /> + +<br /> + +A senhora de negro caminhou pelo Rocio na +direcção +do Passeio.<br /> + +<br /> + +Chegámos ao largo de Camões.<br /> + +<br /> + +Nem uma pollegada diminuira a distancia que mediava +entre nós.<br /> + +<br /> + +E o vulto parecia escorregar magestoso e sombrio, +sem que a bulha dos seus passos acordasse um só echo +nas ruas solitarias.<br /> + +<br /> + +Eu apertava as mãos na cabeça, porque sentia uma +torrente de fogo a inundar-me o cerebro, e a rasão a +abandonar-me.<br /> + +<br /> + +A noite era sombria, e no estado em que estava pareceu-me +sinistro devéras o aspecto d'essa massa do +Passeio Publico, envolto n'um manto de trevas.<br /> + +<br /> + +A quinze passos adiante de mim caminhava sempre +elegante e distincto o vulto negro da minha gentil desconhecida.<br /> + +<br /> + +Perdi a cabeça e deitei a correr, litteralmente a correr, +atraz d'ella. A bulha da corrida produzia um som +<span class="pagenum">[33]</span>lugubre, e fazia-me +estremecer de vez em quando. O +suor escorria-me em fio pela cara abaixo.<br /> + +<br /> + +Saimos da rua Oriental do Passeio, entrámos na +calçada +do Salitre, chegámos á esquina da travessa do +Moreira, e eu não conquistára um palmo de +terreno.<br /> + +<br /> + +E o vulto parecia escorregar magestoso e sombrio, +sem que a bulha dos seus passos acordasse um só echo +nas ruas solitarias.<br /> + +<br /> + +Quando ali chegámos, a desconhecida entrou resolutamente +na travessa, e eu parei. Sentia o coração +palpitar-me +com violencia, e... tive medo, confesso o.<br /> + +<br /> + +Era tão extraordinario o que me estava succedendo, +que este sentimento, devem confessal-o, era um pouco +desculpavel.<br /> + +<br /> + +Comtudo venci a timidez passageira, e entrei resolutamente +n'essa rua tão deserta.<br /> + +<br /> + +Quando a minha desconhecida chegou ao pé de uma +casa isolada no meio da travessa, parou, voltou-se para +mim, e bradou com uma voz melodiosissima:<br /> + +<br /> + +―Ámanhã á meia-noite, debaixo d'esta +janella.<br /> + +<br /> + +Eu estaquei attonito de surpreza.<br /> + +<br /> + +<h3>VI</h3> + +<br /> + +Descrever-lhes a lucta que se travou no meu espirito, +quando voltando para casa me fui sentar á mesa de +trabalho, e comecei a reflectir fria e pausadamente na +aventura nocturna, seria contar-lhes a historia longa e +fastidiosa do combate da rasão com as minhas tendencias +para o sobrenatural.<br /> + +<br /> + +Dir-lhes-hei, resumindo, que sem attender a outra +<span class="pagenum">[34]</span>coisa que +não fosse a seducção +inexplicavel, que me attraía +para esse ente incomprehensivel, fui no dia seguinte +á meia-noite ao +<em>rendez-vous</em> aprazado.<br /> + +<br /> + +Soava não sei em que relogio a ultima badalada da +meia-noite, quando se abriu a janella, e appareceu ante +os meus olhos deslumbrados o formoso rosto da gentil +desconhecida.<br /> + +<br /> + +Balbuciei phrases sem sentido, mas a lingua pegou-se-me +ao céo da bocca, e não pude dizer uma palavra +que se entendesse.<br /> + +<br /> + +―Porque me seguiu hontem? perguntou ella +com +uma voz melodiosa e triste, como o gemer da brisa +nos cyprestes.<br /> + +<br /> + +―Porque a amo.<br /> + +<br /> + +―Sabe quem eu sou?<br /> + +<br /> + +―Que me importa! Quem vae perguntar ao anjo +que nos afaga em sonho o nome com que o distinguem +nas phalanges celestiaes?<br /> + +<br /> + +―E ama-me?<br /> + +<br /> + +―Mais do que a vida!<br /> + +<br /> + +―Só?!<br /> + +<br /> + +Que poder incrivel tinha aquella mulher sobre mim? +Não sei; sei que lhe respondi com o olhar inflammado:<br /> + +<br /> + +―Mais do que Deus!<br /> + +<br /> + +―Não estranha o mysterio em que me envolvo?<br /> + +<br /> + +―Não sei. Este amor é uma paixão +fatal. Virgem +ou devassa, candida ou profanada, anjo ou demonio, +amo-a cegamente, sem me importar com o passado nem +com o futuro, desejando só ter o presente meu, só +meu. Este amor é para mim um vinho que embriaga, +e se no fundo da taça encontrar veneno, que importa? +morrerei abençoando as horas da embriaguez. Isto +é +<span class="pagenum"><a name="p35">[35]</a></span>uma +loucura, bem +sei, mas se podesse conhecer a atonia +moral em que o meu espirito tem existido! Se soubesse +como eu anhelo por estas commoções +extraordinarias, +que devoram n'um minuto a existencia de um +homem! Já vê quão pouco exigente eu +sou; não me +negue um raio d'essa aureola d'amor que lhe circunda +a fronte. Essa luz tenuissima transformal-a-hei em chamma +esplendida, que ha de illuminar as trevas do meu +viver prosaico.<br /> + +<br /> + +―Acceito o seu amor, se essas palavras não o <a href="#e3">exageram</a>. +Não queira penetrar no mysterio que me envolve. +Quando fôr necessario, eu mesma o rasgarei, e confie +em mim, ha de encontrar-me digna do seu amor. Entretanto +creia e espere. Adeus.<br /> + +<br /> + +―Já?<br /> + +<br /> + +―Não me posso demorar nem um minuto.<br /> + +<br /> + +―Oh! mas diga-me uma palavra consoladora. Este +amor immenso não encontrou echo no seu +coração?<br /> + +<br /> + +―Amo-o.<br /> + +<br /> + +―Mas com um amor semelhante ao meu, inebriante, +immenso?<br /> + +<br /> + +―Immenso... como a eternidade.<br /> + +<br /> + +E fechou a janella, deixando-me ficar extatico e cada +vez mais espantado da estranheza dos seus modos.<br /> + +<br /> + +<h3>VII</h3> + +<br /> + +Assim continuou todas as noites aquelle amor +excentrico. +Todas as noites eu tomava a firme resolução +de não tornar lá, e sempre as badaladas da +meia-noite +<span class="pagenum"><a name="p36">[36]</a></span>me +surprehendiam na +travessa do Moreira, por baixo da +janella fatal.<br /> + +<br /> + +No tempo em que me succedeu esta aventura, tratavam +meus paes do meu casamento com uma menina +rica, que não desgostava de mim, e por quem eu, +não +sentindo amor, não sentia tambem antipathia.<br /> + +<br /> + +Era ella uma menina capaz de inspirar uma +affeição +fraternal, mas nunca uma paixão a um espirito arrebatado +como este meu.<br /> + +<br /> + +Era bonita, mas um typo vulgar, horrivelmente vulgar. +A pobre menina não tinha culpa d'isso. Demais a +mais era o que se podia chamar um acerto: dote soffrivel, +excellentes qualidades de mulher e de dona de +casa.<br /> + +<br /> + +Creio que juntava a isso tudo o fazer marmelada perfeitamente. +Não sendo muito guloso, não era eu o mais +proprio para poder apreciar dignamente esta prenda, +que a distinguia.<br /> + +<br /> + +Nunca mais appareci em casa d'ella, desde a noite de +S. Carlos. Um dia passei occasionalmente por lá, e vi-a +com os olhos <a href="#e4">vermelhos</a> de chorar. +Comprimentei-a, +ella +correspondeu me tristemente, e retirou-se da +janella.<br /> + +<br /> + +―Ora adeus, disse eu comigo mesmo, foi deitar assucar +nos marmelos. Talvez ali esteja um coração! +accrescentei +eu no monologo mental. Não creio, continuei, +o coração desarranja as cassarolas, e incommoda-a +no +varrer da casa.<br /> + +<br /> + +Foram estas idéas falsas que me perderam, meus senhores; +idéas d'um espirito extravagante que procurou +sempre em regiões inaccessiveis a felicidade, que nunca +pude encontrar, e que talvez caminhasse ao meu lado +sem eu dar por isso. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[37]</span> +O meu espirito talvez fosse como o Rouvière de uma +comedia de Feuillet, que, depois de ter percorrido o +mundo em todos os sentidos, fica espantado de encontrar +a felicidade sentada ao canto da lareira de uma familia +burgueza n'uma aldeola do seu paiz natal.<br /> + +<br /> + +<h3>VIII</h3> + +<br /> + +Chamava-se Julieta a heroina do meu romance de +amor. Até o nome era de fazer enlouquecer um enthusiasta +como eu.<br /> + +<br /> + +Essa aureola de poesia e de encanto com que Shakespeare +circumdou a fronte da pallida italiana, parecia +atravez das edades vir doirar com um reflexo luminoso +a fronte gentil da Julieta, que eu adorava.<br /> + +<br /> + +Foi a unica informação a seu respeito que d'ella +obtive. +Tudo o mais ficava para mim envolvido n'um mysterio +que eu não tentava penetrar.<br /> + +<br /> + +Uma noite a nossa conversação foi tomando a pouco +e pouco um caracter mais ardente e languido. Palavras +de amor entrecortadas, suspiros involuntarios vindo interromper +o dialogo, longos silencios durante os quaes +eu sentia o palpitar apressado do meu coração, em +quanto via a imagem seductora de Julieta desenhar-se +na janella illuminada caprichosamente pelo fulgor da +lua, tudo isto despertava em mim uma voluptuosidade +deliciosa, mas que me magoava.<br /> + +<br /> + +Uma vez, em quanto ella ficava perdida n'essa vaga +contemplação da lua e da noite perfumada, eu +involuntariamente +approximei-me da parede da casa, e ajudando-me +com as grades da janella do pavimento das lojas, +<span class="pagenum">[38]</span>pude trepar +até ao parapeito da janella, e de repente, +sem que ella parecesse reparar na ousadia do meu procedimento, +imprimi-lhe nos labios um beijo de fogo.<br /> + +<br /> + +Os labios d'ella estavam frios como os de uma estatua.<br /> + +<br /> + +Olhou para mim com olhar meigo e recuou.<br /> + +<br /> + +Entrei no quarto e cahi-lhe aos pés, balbuciando:<br /> + +<br /> + +―Julieta, amo-te!<br /> + +<br /> + +E cobri-lhe as mãos de beijos devoradores.<br /> + +<br /> + +Ella olhava para mim com uma expressão indefinivel. +Não podia dizer se era ternura, se ardor, se frieza, o +que esse olhar continha; sei sómente que quanto mais +ella me encarava, mais eu me sentia enlouquecer.<br /> + +<br /> + +―Vem, meu amante, murmurou Julieta passando-me +o braço á roda do pescoço, e +arrastando-me com +meiguice para uma porta entre-aberta, vem! sobre o +lilaz florido do meu jardim embalsamado descanta o +rouxinol as suas trovas de amores! é tudo mysterio +n'esta hora encantadora! Vem!<br /> + +<br /> + +Abriu-se a porta e nós entramos n'um jardim esplendido.<br /> + +<br /> + +<h3>IX</h3> + +<br /> + +Era na hora mysteriosa em que das urnas das flôres +se expandem na atmosphera thesouros de aroma e de +languidez, e em que o homem absorto julga escutar +vagamente na esplendida immensidade a longiqua harmonia +das espheras.<br /> + +<br /> + +Na hora em que o rouxinol espalha sobre a terra as +perolas do seu canto, e em que a natureza escuta embevecida +o hymno mavioso do seu interprete sublime. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[39]</span> +Porque n'essa hora dormem as paixões terrenas, e +o mundo parece envolver-se por momentos no manto +da sua virgindade, afim que Deus possa reconhecer a +sua feitura, desfigurada pelo agitar convulso do verme +pretencioso que se chama o homem.<br /> + +<br /> + +E o Omnipotente immovel no throno da sua grandeza, +revê-se silencioso no espelho da +Creação.<br /> + +<br /> + +Oh! como a lua desenrola graciosamente o seu manto +luminoso sobre as alamedas desertas do esplendido jardim! +Como os seus raios se baloiçam mollemente no +berço fluctuante da folhagem! Como se miram descuidosos +no crystal das fontes!<br /> + +<br /> + +E as estatuas primorosas dos deuses do paganismo, +parecem espreitar complacentes os mysterios da voluptuosidade +que se vão abrigar nos caramanchões floridos! +E emtanto as acacias que lhes assombreiam os +vultos immoveis, inundam com a chuva perfumada das +flôres vermelhas as pregas ondeantes da sua roupagem +marmorea!<br /> + +<br /> + +E eu e Julieta caminhavamos silenciosos por entre +os alegretes, e a voz do rouxinol da balseira despertava +no meu coração um rouxinol desconhecido que me +fallava +de amor e de ternura.<br /> + +<br /> + +Inclinei-me para ella e beijei-a! E parecia-me que +sentia ao tocar-lhe nos labios as azas brancas do anjo +da pureza que davam áquella fronte limpida um resplendor +celestial.<br /> + +<br /> + +Por um sentimento involuntario troquei o meu annel +pelo annel de Julieta.<br /> + +<br /> + +Julguei que Deus santificava o nosso amor, e nos +contemplava com indulgencia!<br /> + +<br /> + +<h3><span class="pagenum">[40]</span> +X</h3> + +<br /> + +Mas quando ergui os olhos, erriçaram-se-me os cabellos +de terror, e correu-me pelas veias um calafrio. +Fugiu-me a luz dos olhos, e o sangue refluiu ao +coração.<br /> + +<br /> + +Desappareceram os floridos canteiros, emmudeceu o +rouxinol suave, sumiram-se as estatuas, fugiram as +acacias.<br /> + +<br /> + +Estendem-se a perder de vista as ruas sombrias de +um cemiterio, de um lado e de outro avultam as pedras +brancas das sepulturas.<br /> + +<br /> + +O vento da noite faz ondear os cyprestes funerarios, +e o pallido clarão da lua vem beijar melancolico as cruzes +tumulares.<br /> + +<br /> + +O grito sinistro do mocho só de vez em quando perturba +a paz dos mortos; por entre a relva dos sepulchros +fulgura a lugubre phosphorescencia dos cemiterios.<br /> + +<br /> + +É tudo silencio em roda, mas ao longe começa a +sentir-se +um vago rumor, que parece o longiquo ruido de +um exercito marchando.<br /> + +<br /> + +E uma aragem de terror parece esvoaçar por entre +os tumulos, dando vida ás loisas e voz ao cyprestal.<br /> + +<br /> + +Lugubres clarões abraçam as cruzes das campas, e +as figuras de pedra que guardam, sentinellas inanimadas, +o somno dos finados, agitam-se convulsamente ao +sopro de fogo d'aquella procella desconhecida.<br /> + +<br /> + +A sineta da ermida vibrou no meio do silencio; tres +vezes echoou na immensidade aquelle som terrivel.<br /> + +<br /> + +E eu senti os cabellos erriçarem-se-me, e um suor +gelado me inundava a testa. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[41]</span> +Então um côro de vozes cavas e profundas entoou +lugubremente o <em>Dies irae</em>, o hymno +da colera de Deus.<br /> + +<br /> + +E logo uma longa procissão de phantasmas brancos +começou a desfilar por diante de mim n'um silencio +aterrador.<br /> + +<br /> + +Depois deram-se as mãos e formaram em torno de +mim uma dança de espectros.<br /> + +<br /> + +E eu sentia os cabellos erriçarem-se-me, e um suor +gelado me inundava a testa.<br /> + +<br /> + +Depois um dos vultos brancos destacou-se do grupo +e avançou para mim.<br /> + +<br /> + +E eu quiz recuar, mas os pés estavam pregados no +terreno, e uma força invencivel me domava.<br /> + +<br /> + +O passo do phantasma não produzia ruido algum, mas +eu sentia-o vibrar no fundo do coração.<br /> + +<br /> + +Vinha envolto no longo manto sepulchral, e ornava-lhe +a fronte a grinalda virginal das rosas brancas.<br /> + +<br /> + +Reconheci as pallidas feições de Julieta, da +minha +noiva de ha pouco.<br /> + +<br /> + +―Vae consumar-se o lugubre noivado, disse-me ella +sorrindo; vem, meu pallido amante, vem inebriar-te com +as mysticas voluptuosidades das sepulturas.<br /> + +<br /> + +O mocho cantará o nosso epithalamio, e no cruzeiro +do cemiterio serão as danças dos finados o nosso +baile nupcial.<br /> + +<br /> + +Olha para a mysteriosa alcova, como nos sorri de +dentro da loisa entreaberta a alva mortalha do nosso +leito de noivado!<br /> + +<br /> + +E eu olhei e vi abrir-se a garganta pavorosa de um +sepulchro, e senti que a mão de Julieta me arrastava +invencivelmente.<br /> + +<br /> + +Echoavam nas lugubres alamedas as gargalhadas dos +<span class="pagenum">[42]</span> finados, o mocho +soltava o seu grito funebre, e a lua +entornava sobre as campas a sua luz tão pallida.<br /> + +<br /> + +E eu senti os cabellos erriçarem-se-me de terror, e +um suor gelado me inundava a testa.<br /> + +<br /> + +Não pude resistir, passou-me uma nuvem de sangue +por diante dos olhos e cahi desmaiado!<br /> + +<br /> + +<h3>XI</h3> + +<br /> + +Roberto parou um momento como se se sentisse +opprimir pela recordação terrivel d'essa noite.<br /> + +<br /> + +―Pouco mais lhes posso dizer, meus senhores, sei +apenas que no dia seguinte acordei no meu leito, e que +estive sériamente doente. Apenas me restabeleci corri +á travessa do Moreira.<br /> + +<br /> + +Da casa de Julieta nem signaes! Tudo desapparecera.<br /> + +<br /> + +Julguei que fôra victima de uma +allucinação, mas +ainda hoje se me representam tanto ao vivo as scenas, +a que assisti, que não posso admittir a possibilidade +d'essa hypothese.<br /> + +<br /> + +D'ahi por diante nunca mais tive felicidade! Em +pouco tempo gosei e padeci muito. As fibras da minha +alma sujeitas a uma fortissima tensão quebraram-se, e +hoje vivo n'uma incrivel atonia.<br /> + +<br /> + +A senhora, com quem minha familia me queria vêr +casado, desposou um homem menos imaginoso do que +eu, que a estremece, e a quem ella estima. Tem dois +filhos, que são a alegria da casa e o enlevo dos paes.<br /> + +<br /> + +A minha imaginação desregrada deixou-me isolado +no mundo. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[43]</span> +Roberto calou-se. Todos nós ficamos silenciosos, +impressionados +por essa lugubre historia. Mas Frederico +abraçando sua mulher, e dando-lhe um beijo na testa, +disse para Roberto:<br /> + +<br /> + +―As aspirações da alma têm um limite, +que não podem +ultrapassar. No céo da felicidade ha espheras inaccessiveis +onde a natureza humana desmaia, prostrada +pela vertigem. Na familia, meu amigo, resume-se a suprema +ventura. É prosaica unicamente para os que a +não comprehendem. N'esses amores ideaes chega o homem +a pontos, em que para me servir das phrases do +sceptico Musset:<br /> + +<br /> + +<div class="poetry">Où le vertige prend, +où l'air devient le feu,<br /> + +Et l'homme doit mourir où commence le Dieu. +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Quando Henrique Osorio acabou de lêr o seu improvisado +romance, applaudiram-n'o fervorosamente os seus +indulgentes ouvintes. Só Isaura bocejava de um modo +notavel.<br /> + +<br /> + +Henrique mordeu os labios um pouco raivoso, e, inclinando-se +para ella, disse-lhe ironicamente:<br /> + +<br /> + +―A nossa idéa foi soberba, minha senhora; se não +cura dos terrores, que sentem as pessoas nervosas, ao +menos concilia-lhes o somno que affugenta os phantasmas.<br /> + +<br /> + +―Ah! não, sr. Henrique Osorio, respondeu Isaura; +a sua idéa acho-a cada vez peior. Vejam se é +admissivel <span class="pagenum">[44]</span>fallar-se +aqui em cemiterios á uma hora da noite. +Eu, se estou assim mais tranquilla é porque a Leonor +me prometteu que dormia no meu quarto.<br /> + +<br /> + +―É contra os regulamentos, bradou o doutor Macedo. +A sr.<sup>a</sup> D. Isaura está illudindo a +receita.<br /> + +<br /> + +―Meu Deus, doutor! exclamou Leonor alegremente. +Os regulamentos cumprem-se assim de um modo feroz. +Não vê que eu vou passar a noite com uma mulher +pallida? +Depois de ouvir o romance de Henrique, deve +confessar que é necessario ser-se heroina!<br /> + +<br /> + +―É verdade, exclamou Isaura, o sr. Osorio tratou +bem as pallidas! No seu entender mulher pallida só +póde ser mulher desenterrada. Muito agradecida.<br /> + +<br /> + +―Mas, minha senhora... balbuciou Henrique.<br /> + +<br /> + +―Aquillo são reminiscencias de Lisboa, Isaura, exclamou +Leonor, rindo. Quiz-se vingar de alguma pallida +que o magoou.<br /> + +<br /> + +―És maldosa, Leonor, murmurou Henrique ao ouvido +da sua amiga de infancia.<br /> + +<br /> + +―É para te ensinar a fazer +declarações mais habeis, +disse-lhe Leonor tambem ao ouvido. Isaura levantára-se +para ir ter com seu pae.<br /> + +<br /> + +―Então o meu romance é uma +declaração? tornou +Henrique.<br /> + +<br /> + +―O teu romance é uma loucura. Estás +engraçado +com as tuas idealisações constantes. Queres +mulheres +sobre-naturaes, entes phantasticos, damas brancas de +Avenel! Se achas que é lisongeiro para uma mulher +perder a sua realidade para agradar ao homem que diz +amal-a, morrer primeiro para ser depois desposada por +elle em fórma espectral, como no <em>Noivado do +Sepulchro</em>, +de Soares de Passos... +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[45]</span> +E a maliciosa rapariga recitou, zombeteando:<br /> + +<br /> + +<div class="poetry"> +E ao som dos pios do cantor funerio,<br /> + +E á luz da lua de sinistro alvor,<br /> + +Junto ao cruzeiro sepulchral mysterio<br /> + +Foi celebrado de infeliz amor! +</div> + +<br /> + +―Então, menina! exclamou Isaura, lá de longe. +Olha que eu não vou sósinha para o quarto.<br /> + +<br /> + +―Ahi vou, querida, ahi vou!<br /> + +<br /> + +E Leonor, deitando a Henrique um olhar malicioso, +foi ter com a sua amiga.<br /> + +<br /> + +―Então, sr. Roberto Soares, disse o doutor Macedo +emquanto pegava no castiçal para se dirigir para o seu +quarto, porque, n'essa noite de temporal, nem os visinhos +tinham podido recolher a suas casas; então, sr. +Roberto Soares, a sua composição caminha? Olhe +que +é ámanhã a sua vez.<br /> + +<br /> + +―Que lhe hei de eu fazer? Cá me vou apressando, +tanto quanto posso. Metti-me em boa, não ha duvida. +Já não estou para estas folias. O viver da +provincia enferruja. +Ámanhã os rapazes vão rir-se de mim.<br /> + +<br /> + +―Veremos isso! redarguiu Henrique Osorio, sorrindo +amigavelmente. Eu preparo uma pateada.<br /> + +<br /> + +Roberto Soares affastou-se, rindo, e o doutor Macedo, +accendendo um charuto, disse para Henrique Osorio:<br /> + +<br /> + +―Sabe o que lhe digo, Henrique? Você é uma +creança. Anda todo enlevado na pallidez e nos terrores +nervosos de Isaura, que é uma tola com bonitos olhos, +e não repara que ha por estas serranias uma rapariga, +uma perola, que se fina por você.<br /> + +<br /> + +―Por mim?! Quem me faz essa honra? exclamou +Henrique, fazendo se córado. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[46]</span> ―Quem tem olhos +para vêr, veja; quem tem ouvidos +para ouvir, oiça; e quem tem somno para dormir, +durma; respondeu gravemente o doutor Macedo. Boas +noites.<br /> + +<br /> + +E partiu, deixando ficar Henrique pasmado. Este demorou-se +por alguns instantes a ouvir o temporal que +rugia com violencia, e a contemplar com tristeza o sitio +onde estivera sentada Isaura. Depois, soltando um +suspiro, saíu da sala. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Devo dizer que no dia seguinte as impressões foram +muito menos profundas que na vespera. A noite estava +mais socegada; caçára-se pela manhã. +Estivera bonito +o dia, cortado apenas por alguns chuveiros. Comtudo, +quando deu a meia-noite, correu um frémito por todos +os ouvintes. Estabeleceu-se um profundo silencio, mas +a figura amavel de Roberto Soares não era para inspirar +terrores legendarios, e foi no meio de uma +attenção +tranquilla, até um pouco risonha, que o jornalista +aposentado começou a sua leitura.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2> +<a name="p47">A VISÃO DO PRECIPICIO</a></h2> + +<br /> + +<h3>I</h3> + +<br /> + +O meu romance annuncia-se de um modo terrivel. +Começa por uma tempestade. Estou obrigado moralmente +a apresentar alçapões, subterraneos, e donzellas +perseguidas. Se não invento por ahi uns quatro assassinios, +estou perdido no conceito de certos leitores!<br /> + +<br /> + +Tenham paciencia os amadores das <em>Nodoas de +sangue</em> +e dos <em>Amantes infelizes ou as victimas de uma +paixão</em>, +mas d'esta vez hão de contentar-se com um romance +bem morigerado, cujos heroes, todos elles pessoas +honestas, não hão de incommodar, em quanto durar +o enredo, nem as partes de policia, nem os regedores +de parochia, nem os jovens advogados, nem as columnas +dos jornaes destinadas pelos noticiaristas aos acontecimentos +tragicos do paiz.<br /> + +<br /> + +Feita esta <a href="#e5">declaração</a>, +vou introduzir os meus +leitores... +<span class="pagenum">[48]</span>n'um +lagar de +azeite, por uma noite tempestuosa +de dezembro, quando o vendaval açoita rijamente +os pinheiraes frementes, e os relampagos illuminam +com pallido fulgor as campinas inundadas pelas chuvas +copiosas de uma noite de invernia.<br /> + +<br /> + +Recresce o temporal. As levadas de agua, engrossadas +com as chuvas, resvalam pelos penedos, despenham se, espadanam, fazem +scintillar á luz do raio doidejantes +borbotões de espuma, e arrastam na carreira +vertiginosa as arvores desarreigadas pela força irresistivel +do furacão! N'estas noites, o aspecto ridente dos +campos, que a primavera orna com todas as galas da +vegetação, transforma-se completamente. +Parece-nos +impossivel que o regato, que havia pouco se espreguiçava +voluptuosamente sobre as campinas esmaltadas, +seja agora a torrente impetuosa que arranca, n'um accesso +de furor, as arvores que se miravam descuidosas +na sua limpida corrente.<br /> + +<br /> + +A mim agrada-me o quadro medonho das furias da +invernia! Contemplo com delicias a physionomia terrivelmente +phantastica das planicies e dos bosques, onde +paira, batendo as azas chammejantes, o sinistro archanjo +da tempestade!<br /> + +<br /> + +São estes os episodios grandiosos do poema da natureza! +São estas as paginas sublimes do livro da +creação!<br /> + +<br /> + +Era uma quinta solitaria nos arredores de Santarem; +a casa dos morgados campeiava orgulhosa e insulada +no meio dos campos cultivados, e lá mais ao longe alvejavam +as modestas casinhas do logarejo que se debruçava +curiosamente sobre as aguas do riacho, mirando +n'esse espelho crystallino o seu humilde aspecto, +<span class="pagenum">[49]</span>e contemplando +depois, á socapa as pompas quasi feudaes +do solar dos descendentes d'algum valentão das +Indias.<br /> + +<br /> + +Como os gloriosos representantes d'essa familia aristocratica, +deixando a quinta só, estão comendo em Lisboa +os seus rendimentos, escusamos de lhes bater á +porta, e, se vos parece, vamos immediatamente ao lagar +de azeite, que não fica muito longe.<br /> + +<br /> + +A entrada é franca, e a vista da fornalha, sobre a +qual está collocada a caldeira, e onde arde um +mólho +de lenha, produzindo um bom fogo, claro e crepitante, +tenta devéras o pobre homem, que, todo ensopado, +contempla o lume da fogueira, tão consolador e attrahente +em noites de frio e chuva.<br /> + +<br /> + +Entrámos em boa occasião; o lagar está +em plena +actividade. Os clarões indecisos da lareira illuminam um +quadro pittoresco e original. Aqui o <em>engenho de +agua</em> +gira produzindo um som monotono, que, no meio dos +rugidos da tempestade, similha o resmungar de velha +feiticeira por entre os córos dos archanjos rebeldes em +noite de congresso infernal, e, girando sem cessar, tritura +conscienciosamente a azeitona submettida á sua +implacavel pressão. Além as +<em>varas</em>, subindo e descendo +com toda a regularidade, obrigam a azeitona, já triturada +e estendida nas <em>ceiras</em>, a distillar +o seu oleo precioso. +Mas não se resumem n'estes os trabalhos do lagar. +Quem reconhecerá o azeite n'esse liquido negro +que vae acolher-se silenciosamente na enorme vasilha +de barro, a que nos lagares se dá o nome de +<em>tarefa</em>? +Trata-se de o purificar; vamos ás +abluções. O liquido +negro é assaltado repentinamente por um diluvio de +agua a ferver, proveniente da caldeira, que opéra a +<span class="pagenum">[50]</span>decomposição +com toda a rapidez. Pelo +<em>inferno</em>, +communicação +subterranea que conduz a um vallo distante, escoa-se +a agua negra, que vae terminar ao longe a sua +existencia ignorada, e o azeite, livre finalmente da macula +original, apparece em toda a sua limpidez, em +todo o seu brilho, em todo o seu esplendor.<br /> + +<br /> + +No centro da casa terrea, o sr. Manuel dos Reis, +mestre-lagareiro, chefe das operações, e supremo +dictador +n'esta solemne occasião, vigia attentamente as +multiplicadas operações do lagar, em quanto o sr. +João +Moedor (assim chamado por causa das importantes +funcções +que ali exercia), contempla satisfeito o andamento +do <em>engenho de agua</em>, confiado aos +seus cuidados.<br /> + +<br /> + +Os adjunctos d'estes dois chefes, sentados á roda da +fogueira, alguns camponezes de fóra, que tinham vindo +para o «cavaco», e que a tempestade tinha +accommettido, +os quaes em pé encostados ao cajado ficavam no +segundo plano, e dois rapazes de Lisboa a quem a +cortezia aldeã tinha concedido o logar de honra, eram +as restantes figuras d'este quadro.<br /> + +<br /> + +Os dois lisbonenses merecem uma descripção +especial.<br /> + +<br /> + +Chamava-se o primeiro José Augusto de Albuquerque. +Alto e elegante, pallido, d'esta pallidez ardente, +que é quasi sempre symptoma de uma +imaginação +exaltada, revelava no fulgor desusado dos olhos, scintillantes +como dois diamantes negros, o ardor d'aquella +organisação sympathica, que devia ser ou a de um +grande poeta, ou a de um grande doido, se estas duas +idéas não são synonymas, segundo a +opinião de muita +gente. As olheiras fortemente accentuadas, e que pareciam +crestadas pela ardente irradiação das pupillas, +<span class="pagenum">[51]</span>acabavam de dar a +esta physionomia um cunho original, +romantico emfim, <em>tranchons le mont</em>, +porque devo +confessar que o meu heroe tem todas as apparencias +de um typo de romance, apesar de ser tão verdadeiro +como... o orçamento portuguez.<br /> + +<br /> + +O companheiro de José Augusto formava com elle +um perfeito contraste. Se as centelhas de intelligencia, +que se escapavam dos olhos negros de José Augusto, +revelavam uma organisação em que o espirito +predominava, +em que <em>l'âme</em> dominava +<em>la bête</em>, para me servir +da classificação de Xavier de Maistre, a luz fria +e +sem expressão, que brilhava nos olhos azues do seu +companheiro, dava a conhecer a beatifica indifferença +do adorador da materia. N'um a estatua delicada e +quasi feminil denunciava a fina constituição de +uma natureza +naturalmente aristocratica; no outro a obesidade +das fórmas dava idéa do Sancho Pança +de Cervantes, +ainda que a alta estatura mostrasse que esta nova +edição +do governador da Barataria era feita n'outro formato. +N'aquelle os movimentos altivos da cabeça, o modo +enthusiastico com que atirava para traz as ondas lustrosas +da sua negra cabelleira, indicavam bem as +aspirações +elevadas de um coração a trasbordar de poesia e +de generosidade; n'este os gestos pacatos, e as suissas +loiras que flanqueavam serenamente uma cara de lua +cheia, mostravam o genio bonacheirão do homem que +não pensa senão no modo de conservar sempre, em +bom estado, a sua economia animal, satisfazendo as +reclamações incessantes de um estomago +insaciavel.<br /> + +<br /> + +O primeiro era, como disse, José Augusto de Albuquerque, +rapaz com alguns vintens, que viajava para +se divertir. O segundo era o sr. John Williams, inglez +<span class="pagenum">[52]</span>ingenuo e bem +morigerado, que aguentava uma boa +dóse de garrafas de vinho sem vacillar, que bebia +exactamente +o que ganhava n'um escriptorio de negociante, +e que, apaixonado por viagens, como todo o bom inglez +deve ser, tinha pedido licença de um mez para +acompanhar o seu amigo José Augusto n'uma +excursão +á Extremadura.<br /> + +<br /> + +No momento em que entrámos, reinava um profundo +silencio. Lá fóra os rios, que a chuva fazia +ferver em +cachão, resaltavam sobre os rochedos com um estampido +formidavel; as rajadas da ventania, batendo com furor +de encontro á porta, faziam-n'a ranger, e abriam-n'a +de vez em quando, arrojando torrentes de chuva para +dentro do lagar. A voz da procella ora se assimilhava +aos rugidos blasphemos do anjo das trevas, ora, plangente +e soturna, imitava os gemidos das almas penadas, +que vagueiam na terra pedindo aos vivos orações. +O +trovão, ribombando no espaço, dominava, de vez em +quando, com a sua voz magestosa, o pavoroso ruido da +tempestade.<br /> + +<br /> + +Havia harmonias sublimes n'aquella desharmonia apparente; +era selvatica mas grandiosa a immensa orchestra +do temporal.<br /> + +<br /> + +―Santa Barbara nos acuda, murmurou devotamente +o sr. Manuel dos Reis, tirando o seu barrete azul, já +bastante azeitado, no momento em que um trovão formidavel +fazia benzer todos os circumstantes―S. Jeronymo +te afaste, ruim trovoada, de todo o povoado onde +haja almas christãs.<br /> + +<br /> + +―Amen, resmungou em côro a companha aldeã.<br /> + +<br /> + +―E temos a chuva pegada, que não ha que esperar +senão uma noite de agua. O vento puxa por ella que +é +<span class="pagenum">[53]</span> +um regalo, tornou o mestre-lagareiro, quando o terror +produzido pelo trovão se dissipou um pouco mais. Ah! +meu fidalgo, v. s.<sup>a</sup> querer metter-se a caminho +por +uma noite d'estas é mesmo tentar a Deus!<br /> + +<br /> + +―Deixal-o, tornou o interpellado, que era o nosso +amigo José Augusto de Albuquerque, sabe você, sr. +Manuel dos Reis, que eu gósto de noites assim? Que +diabo! quando atravesso a galope a clareira de um +bosque inundado pela chuva, e que vejo, á luz do relampago, +as arvores nuas de folhas estenderem-me os +braços descarnados, e formarem em torno de mim, +guiadas pelo furacão, danças phantasticas e +extravagantes, +imagino vêr as danças da meia-noite, travadas +pelos espectros nos cruzeiros dos cemiterios, e, lembrando-me +dos contos lindissimos que a minha ama +me contava quando eu era pequeno, chego a acreditar +na sua realidade, e acho prazer n'aquillo. Então que +quer?<br /> + +<br /> + +―Arreda!―bradou o João Moedor, coçando a +cabeça +e fazendo ao mesmo tempo um gesto de susto, +sempre v. ex.<sup>a</sup> diz coisas que fazem arripiar os +cabellos +á gente. Gostar v. s.<sup>a</sup> de +vêr dançar +as aventesmas +as suas danças malditas, como o meu compadre +viu com os seus proprios olhos na noite de S. Bartholomeu, +em que anda o diabo solto, como vocemecê ha +de saber. Safa! Era capaz de seguir o phantasma do +Açude até ao seu esconderijo infernal.<br /> + +<br /> + +―O phantasma do Açude! O que é isso, o que +é +isso, ó sr. João?―perguntou José +Augusto com a +maior curiosidade.<br /> + +<br /> + +―Historias da vida, meu fidalgo, retrocou o sr. Manuel +dos Reis, é este diabo do João Moedor que +não +<span class="pagenum">[54]</span>sabe fazer outra +coisa senão contar contos da carochinha. +Bom estavas tu, meu rapaz, para mestre-lagareiro! +Andas com a cabeça a rasão de juros a pensar +lá n'essas <em>maniversias</em>, +deixavas ir o azeite pelo <em>inferno</em> +abaixo, e nunca eras capaz de pôr o +<em>espicho</em> a tempo e +a horas. Sempre estás um massador!<br /> + +<br /> + +―E é verdade, sôr Manuel dos Reis. Este +João Moedor +não faz senão moer a paciencia á +gente, tornou um +camponez que estava ao pé da porta, encostado com +toda a denguice ao seu varapau.<br /> + +<br /> + +Todos se riram do <em>calembourg</em> +aldeão, e o sr. João +Moedor esteve algum tempo sem poder fallar no meio +dos motejos e das risadas da turba campesina. Finalmente:<br /> + +<br /> + +―Leva rumor!―bradou elle. Com que então, sô +Zé do Moinho, acha você que eu môo a +paciencia á +gente, hein! Você não acredita n'estas coisas, +apesar +de eu ter visto muita vez sua tia andar por cima da +folha, e correr por cima das latadas para ir ter com +seu compadre <em>Berzabum</em>! E ainda +não estou muito certo +se não é você, sô cara de +não sei que diga, que anda +a horas mortas a cumprir o seu fado, feito burro, por +esse mundo de Christo, como fazia seu avô que foi +lobis-homem, +segundo diz a gente antiga cá da terra.<br /> + +<br /> + +A victoria ficou d'esta vez ao novo campeador. Os +motejos dirigiram-se todos para o sr. Zé do Moinho, +que quiz replicar enfurecido, mas que se viu obrigado +a metter a viola no sacco, e a ficar de cabeça baixa a +um canto. O triumphador havia pouco era agora humilhado. +<em>Sic transit gloria mundi</em>!<br /> + +<br /> + +―Conte lá a historia, ó sr. João, que +aqui tem você +um ouvinte que não é capaz de duvidar da +veracidade +<span class="pagenum">[55]</span> +das suas palavras―tornou José Augusto com a curiosidade +a revelar-se-lhe nas feições.<br /> + +<br /> + +―Tem v. s.<sup>a</sup> muita rasão, meu +fidalgo, retrocou o +João Moedor com modos de triumpho, e com perdão +de vocemecê, sôr Manuel dos Reis, sempre lhe direi +que a historia do phantasma do Açude não +é conto da +carochinha. Em noites assim de temporal, quando o rio +engrossado pela cheia, ceifa os pinheiros mais taludos +como eu ceifaria uma espiga de trigo no tempo da monda, +não é cá o rapaz que se atreve a +passar ao pé do +Açude, sem se benzer quatro vezes, e sem fechar os +olhos para não vêr a melancolica D. Branca. E +não é +só a mim que isso acontece; o mais pimpão do +sitio +tremia, como varas verdes, se se visse obrigado a passar +a estas horas por aquelle sitio amaldiçoado, a +não +ser o <em>Come-bichos</em>, que vendeu a alma +ao diabo. Deus +me perdôe se minto; mas o maldito tem mesmo cara +de condemnado. E conheço eu alguns que se fazem +muito valentes quando estão bem acompanhados, e que +não eram capazes de passar sósinhos por ao +pé do +Açude, nem que lhes dessem todos os thesouros encantados +do imperador da Moirama.<br /> + +<br /> + +Esta ultima allusão ia evidentemente com sobre-escripto +para o Zé do Moinho; a resposta d'este (se por +acaso elle tencionava responder), foi abafada pelas +acclamações +dos restantes, que applaudiram o orador, +bradando em côro:<br /> + +<br /> + +―Tem rasão! É uma heresia duvidar d'estas +coisas! +O João fallou bem. Tem uma linguinha de oiro, +este moedor!<br /> + +<br /> + +O distincto orador comprimentou modestamente os +seus amigos politicos pela ovação que fizeram ao +seu <span class="pagenum">[56]</span> +estiradissimo discurso, e que impacientou apenas o Zé +do Moinho, que era da opposição, José +Augusto de Albuquerque, +que estava desejoso de conhecer a lenda, +e o leitor, que talvez nem esteja para a ouvir.<br /> + +<br /> + +―Vamos á historia, vamos á historia, bradou +José +Augusto, todos lhe prestamos attenção, e +acreditamos +em tudo quanto você disser, como os mahometanos na +missão do seu propheta.<br /> + +<br /> + +Ninguem comprehendeu a comparação: por +conseguinte +todos ficaram fazendo uma elevadissima idéa da +erudição de José Augusto. +João Moedor piscou os olhos, +e bradou com enthusiasmo:<br /> + +<br /> + +―Fallou que nem um livro. Pois então já que +tanto +aperta, lá vae a historia.<br /> + +<br /> + +Todos se chegaram uns para os outros, e João Moedor +começou no meio de um silencio solemne a sua +narração.<br /> + +<br /> + +Chegado a este ponto, Roberto Soares interrompeu-se, +e, levantando os oculos, disse para os seus ouvintes:<br /> + +<br /> + +―Não me responsabiliso pela verdade do modo de +dizer. José Augusto, que tinha o desagradavel sestro +de fazer estylo, quando me contou a historia, transfigurou +completamente a expressão do narrador da aldeia. +Comtudo asseverava-me elle que o estylo do camponez +tinha uma certa elevação.<br /> + +<br /> + +―Siga, siga, acudiu o doutor Macedo. José Augusto +é o seu Jedediah Cleishbotham, já +vêmos. Era moda +no seu tempo, como as epigraphes.<br /> + +<br /> + +Roberto Soares riu-se e continuou da seguinte maneira:<br /> + +<br /> + +Ha de haver um par de annos, muito antes do terremoto, +e talvez antes que tivessem nascido os paes dos +<span class="pagenum">[57]</span>nossos +bisavós, governavam os moiros a maior parte +da nossa terra abençoada. Segundo eu ouvi contar ao +nosso padre prior, que Deus haja, dava-se e recebia-se +muita lançada antes que a bandeira de Christo fluctuasse +triumphante nas ameias das fortalezas. Cada palmo de +terra conquistado aos cães dos sarracenos era regado +por muito sangue, e muitos cadaveres dos nossos antepassados +adubaram a terra, antes que os seus descendentes +podessem fazer em paz a semeadura e a colheita. +Era mau tempo aquelle. Mas Deus e Santiago +eram por nós, e os esquadrões cerrados dos +cavalleiros +de Christo levaram sempre de vencida as hostes +aguerridas dos perros amaldiçoados.<br /> + +<br /> + +Como dizia o padre prior, os pergaminhos d'esses fidalgos, +que por ahi andam tão orgulhosos da sua inutilidade, +foram sellados com o sangue de seus antepassados +nos campos de batalha, em que se comprou bem +cara a independencia portugueza. Deshonrado seria para +todo o sempre o fidalgo portuguez que não envergasse +as armas ao sair da infancia, e não luctasse incessante +a favor dos opprimidos até cair no campo +da batalha +amortalhado na sua armadura de ferro. Repousem em +paz nas campas os ossos d'esses valentes.<br /> + +<br /> + +―O João Moedor sempre tem uma cachimonia de +truz, resmungou á parte o Manuel dos Reis; onde elle +vae buscar tudo isto!<br /> + +<br /> + +―O que elle é, é um papagaio, murmurou o +Zé do +Moinho, não faz mais do que repetir tim tim por tim +tim o que ouviu ao nosso antigo padre prior.<br /> + +<br /> + +―N'esse tempo, continuou o João Moedor sem reparar +na interrupção, viviam aqui n'este sitio dois +fidalgos +velhos, que, depois de terem ganho muitas cicatrizes, +<span class="pagenum">[58]</span>e creado muitos +cabellos brancos no seu luctar +incessante contra o poder da Moirama, tinham vindo +descançar na paz dos seus castellos das lides gloriosas +em que haviam dispendido a sua existencia inteira. Não +porque lhes faltassem valor e bons desejos; mas a +edade tudo gasta, e os corpos alquebrados dos bons cavalleiros +já vergavam ao peso da armadura, e a voz +implacavel da velhice advertiu-os que cedessem o logar +a novos e mais vigorosos campeões. Penduraram na sala +de armas dos seus castellos as valentes espadas, e, sentados +ao canto da lareira, esqueciam o peso dos annos +com as gratas recordações das suas +façanhas d'outr'ora.<br /> + +<br /> + +Ao mais velho dos dois; Inigo Paes, +concedêra o céo +um filho; Raymundo se chamava elle. Era a delicia do +bom velho rever no esbelto mancebo a risonha imagem +da sua mocidade. Vendo-o crescer em annos, em vigor +e em destreza, consolava-se o valente cavalleiro, esperando +que Raymundo não deshonraria, nas fileiras portuguezas, +o nome venerando que elle proprio tinha conquistado. +Esperava com anciedade que seu filho completasse +os dezoito annos para lhe cingir a espada, afivellar-lhe +o arnez, e dizer-lhe, apontando lhe o +campo +da batalha: «Vae, é esse o caminho da +gloria»<br /> + +<br /> + +E tinha rasão em se gloriar de ter um filho assim. +Ninguem meneava com mais garbo e destreza um cavallo +fogoso, ninguem manejava com mais vigor o pesado +montante, ninguem mostrava mais ardor guerreiro, +quando o pae, sentado no salão do castello, contava +aos rapazes, anciosos de aventuras, os feitos de armas +dos velhos campeadores. E se Raymundo dava esperanças +de ser um rude lidador, nem por isso deixava de +ser o mais gentil mancebo d'estas cercanias. Alto e +<span class="pagenum">[59]</span>elegante, se os +seus olhos negros quizessem fallar de +amor, não havia dama que se não rendesse, nem +coração +feminino que escutasse insensivel os seus protestos +enamorados. Mais de uma altiva castellã apparecia na +varanda do seu solar para vêr o elegante Raymundo +correr a cavallo por essas campinas. Mas que importavam +ao filho de Inigo Paes todas as castellãs do mundo +se tinha o coração já preso, e se +Branca, a ingenua +Branca, lhe conquistára o affecto, e accendera nos seus +olhos a chamma ardente do primeiro amor?<br /> + +<br /> + +Branca era filha do companheiro de armas de Inigo +Paes; grande desconsolação tivera elle, vendo-se +viuvo +em edade avançada, sem ter um filho a quem podesse +transmittir a sua herança de gloria. Muitas vezes, ao +vêr a filha a doidejar na varzea, como gentil borboleta +esvoaçando por entre flôres, se lhe enrugava a +fronte, +e duas lagrimas de tristeza deslisavam pelas faces crestadas +do velho soldado. Mas a sombra ligeira, que lhe +annuviava o gesto, dissipava-se promptamente com as +caricias affaveis da gentil donzella. Quem poderia resistir +á influencia d'aquelle anjo de candura, loiro e rosado, +como as imagens seductoras dos cherubins que cercam +a Virgem Nossa Senhora na pintura do altar-mór +da freguezia!<br /> + +<br /> + +Branca e Raymundo conheciam-se e amavam-se desde +creanças. Juntos tinham crescido, juntos tinham doidejado +n'estas campinas, e, sem que nunca a palavra +<em>amor</em> +fosse pronunciada, tinham apesar d'isso consagrado um +ao outro um affecto que a edade fôra desenvolvendo. +E era um par galante a mais não poder ser. Quando +Branca, fatigada de correr atraz de uma borboleta, vinha, +com as faces vermelhas como duas rosas, os olhos +<span class="pagenum">[60]</span>a brilharem de +alegria infantil e as loiras tranças +fluctuando +em ondas doiradas sobre os seus hombros de +neve, refugiar-se nos braços de Raymundo, e encostar +o rosto encantador nas faces levemente morenas do gentil +fidalguinho, todos os que os viam paravam extasiados, +e faziam votos pela felicidade d'aquelles anjos de +innocencia e de candura.<br /> + +<br /> + +Chegou finalmente o dia em que Raymundo completava +dezoito annos, e em que, para não desmentir as +gloriosas tradições da sua raça, devia +cingir a espada, +e ir aos campos de batalha pagar á patria e á +santa religião +dos nossos paes o tributo de sangue, que devia +ser pago por todos os que se prezavam de christãos +fieis, e portuguezes leaes.<br /> + +<br /> + +No dia fixado para a partida de Raymundo, encontraram-se +os dois namorados no sitio do Açude. É um +sitio medonho, como v. s.<sup>a</sup> ha de saber; um +pinhal sombrio, +que vae terminar á beira de um precipicio, no +fundo do qual o rio faz mugir, espadanando nos rochedos +as suas aguas turvas e espumantes. Mas n'esse dia +o sol estava brilhante, e dava a esse quadro medonho +o mais ridente aspecto. Os pinheiros, illuminados pelos +raios de um sol de agosto, pareciam frechas doiradas +que mão occulta arrojava ao céo limpido e azul de +um +bonito dia de verão. Cada gotinha de agua parecia um +espelho que reflectia a imagem brilhante do sol de Portugal, +e o rio scintillante e espumoso parecia arrastar +na corrente palhetas de oiro e prata. Gorgeiavam os +passaros na floresta, e tudo dizia contentamento, quando +os corações de Branca e Raymundo +sómente sentiam +tristeza e desesperação.<br /> + +<br /> + +Branca vinha triste, triste como a rôla namorada que +<span class="pagenum"><a name="p61">[61]</a></span>vê +fugir +para longes terras o escolhido do seu +coração, +e pallida como a açucena batida pelo vendaval. Mas que +bem que lhe ficava aquella pallidez, e como a alvura da +face realçava a côr negra das roupas que vestira +em +signal de luto e de saudade! O brilho dos olhos, empanado +pelo pranto que tinha derramado, parecia ainda +mais suave e meigo, e os loiros cabellos, caindo-lhe ao +desdem sobre o pescoço deslumbrante de brancura, +faziam-n'a assimilhar á imagem da Virgem que está +pendurada na sala do presbyterio, e que o senhor padre +prior dizia ser copiada de um quadro pintado por +um italiano chamado Raphael.<br /> + +<br /> + +Chegou, e ajoelhou aos pés de um crucifixo, que +então +existia n'aquelle sitio; porque n'esses tempos de fé +viva, a imagem do Crucificado apparecia em toda a +parte para acolher em seu seio misericordioso as +orações +dos fieis. O sol tinha surgido havia pouco do +Oriente, e a oração da candida virgem, pura como +a +rosa que abre o seio ao primeiro alvor da madrugada, +foi, perfume singelo, de fé e de innocencia, conduzida +pela brisa aos pés do throno do Senhor.<br /> + +<br /> + +Quando se levantou viu Raymundo em pé diante +d'ella, de cabeça descoberta, pallido e mal podendo +conter as lagrimas que lhe bailavam nos olhos.<br /> + +<br /> + +―Raymundo, disse ella desatando a chorar, e <a href="#e6">escondendo</a> +a cabeça no peito do mancebo, não me deixes!<br /> + +<br /> + +―Não posso, Branca, tornou elle, apertando-a ao +peito com anciedade; o que pensariam de mim o rei, +os ricos homens e os villões, se preso nos teus +braços +me esquecesse do que devo a mim, ao rei e a Deus? +Era um nome deshonrado o nome de teu esposo, Branca, +e não m'o podias acceitar. A espada de meu pae, +<span class="pagenum"><a name="p62">[62]</a></span>que +outr'ora +brilhou ao sol das batalhas com deslumbrante +fulgor, não póde jazer inerte a um canto do meu +solar, em quanto as achas de armas dos meus compatriotas +escrevem nas paginas de pedra, das fortalezas +moiriscas, a historia sanguinolenta da +ressurreição dos +godos. Bem vês, Branca, é um penoso dever; mas +devo +cumpril-o.<br /> + +<br /> + +―E o nosso amor, Raymundo!―balbuciou a donzella, +afogada em lagrimas.<br /> + +<br /> + +―Oh! cala-te, Branca, não vês que me +despedaças +o coração? Queres que eu perca o animo, queres +que +o puro azul dos teus olhos me faça esquecer que existe +outro céo, outra ventura que não seja o teu amor, +outro +dever que não seja o adorar-te? Não, Branca, +não +ordenes a minha deshonra; a tua imagem seductora +será a estrella que me ha de guiar no caminho da gloria. +Quaes serão as façanhas para mim impossiveis, +pensando que o teu sorriso será a recompensa do meu +valor, e que será a tua mãosinha branca e mimosa +que +me ha de limpar na fronte o suor dos combates e das +luctas sanguinolentas?<br /> + +<br /> + +―Mas quem sabe, Raymundo, tornou Branca, erguendo +para elle os olhos radiantes, ainda humedecidos +<a href="#e7">das lagrimas</a> que +derramára; quem sabe se +n'esses +paizes longiquos não encontrarás alguma formosa +dama +cujos encantos te farão depressa olvidar a imagem da +triste Branca, que dizes ter gravada no coração? +Oh! +meu Deus, que horrivel idéa! Se tu me esquecesses...<br /> + +<br /> + +―Que fazias, Branca?<br /> + +<br /> + +―Morria!―tornou ella com resolução.<br /> + +<br /> + +Raymundo apertou-lhe a mão e levou-a ao p +Raymundo apertou-lhe a mão e levou-a ao pé do +crucifixo. Alli, erguendo os olhos para o rosto divino +<span class="pagenum">[63]</span>do Christo +crucificado, bradou com voz solemne e altiva:<br /> + +<br /> + +―Juro diante de Deus que morreu pregado na cruz +para remir os homens do peccado original, juro guardar-te +sempre fé inteira e immutavel, como te juraria +se um sacerdote nos abençoasse ao pé do altar. +És minha +esposa diante de Christo. Cáia sobre mim a +vingança +do céo se atraiçoar o meu juramento.<br /> + +<br /> + +―Oh! obrigada, Raymundo, obrigada, clamou a donzella, +lançando-se com immenso ardor nos braços do +mancebo e derramando copiosas lagrimas; tambem eu +juro amar-te sempre, meu Raymundo, amar-te com +inalteravel constancia, não viver senão com a tua +imagem, +não pensar senão em ti, meu unico amor. E agora +parte, accrescentou ella, erguendo-se com inesperada +resolução, vae conquistar um nome glorioso; a +benção +de Deus vae comtigo, porque os nossos anjos da guarda, +abraçados e de joelhos ao pé do throno do Senhor, +rogarão a Deus que proteja os esposos, cuja união +foi +abençoada pelo Crucificado, saudada pelos canticos da +alvorada, perfumada pelos thuribulos das flôres, illuminada +pelos raios do sol nascente!<br /> + +<br /> + +Raymundo apertou-a ao peito com enthusiasmo; deu-lhe +na fronte, com timidez, um beijo, e montando n'um +cavallo que o esperava a pouca distancia, seguro por +um pagem, partiu, dizendo com ardor:<br /> + +<br /> + +―Adeus, minha gentil esposa!<br /> + +<br /> + +―Adeus, meu adorado esposo!<br /> + +<br /> + +Estas palavras pronunciára-as ella, caindo ajoelhada +aos pés da cruz. O perfume das flôres, o canto dos +passarinhos, o rumorejar das folhas, a luz pura e serena +do sol, tudo parecia abençoar o seu amor. Unicamente +<span class="pagenum">[64]</span>no momento da +despedida, uma nuvem ligeira +passou por diante do astro do dia e offuscou-lhe um +pouco o brilho.<br /> + +<br /> + +Ai! Branca, timida Branca, nos momentos de felicidade +uma ligeira nuvem é indicio temeroso de tempestade!<br /> + +<br /> + +<h3>II</h3> + +<br /> + +«Passaram-se mezes e mezes―continuou o João; +veiu o outono desfolhar as arvores, e estender sobre a +terra o seu manto de tristezas; depois o inverno gelado +agrupou as familias ao canto da lareira; voltou a primavera +sacudindo sobre os campos o seu regaço cheio +de flôres e verduras, voltaram as longas tardes do estio, +e o sol ardente de agosto veiu de novo doirar os +pinheiros que ensombravam a cruz do precipicio; e nem +a triste Branca recebia noticias do seu noivo, nem Inigo +Paes a podia consolar com outras novas, que não fossem +as que, logo pouco depois da partida de Raymundo, +tinham sido trazidas por um fidalgo que voltava das +terras do Algarve.<br /> + +<br /> + +Contava elle que vira n'uma renhida escaramuça o filho +de Inigo Paes estreiar-se no arduo mister do lidador +d'aquellas eras. A estreia fôra digna do nome honrado +de seu pae. Contava o fidalgo que o tinha visto arrojar-se +aos moiros com valor sobrehumano, e abrir com +a acha de armas um largo e sanguinolento sulco nas +fileiras mahometanas. Quando, no fim da escaramuça, +Raymundo Paes passou de viseira levantada junto dos +prisioneiros, estes, vendo o rosto delicado, o buço que +lhe assombreava levemente o labio superior, e a belleza +<span class="pagenum">[65]</span>quasi feminil do +mancebo, não queriam acreditar que +fosse o mesmo que praticára prodigios de valor, e ante +o qual as cimitarras moiriscas voavam em lascas, decepadas +pelo montante que parecia manejado pelo braço +de robusto montanhez.<br /> + +<br /> + +Estas noticias encheram de orgulho o coração +paternal +do velho guerreiro. A Branca não succedia o mesmo. +As façanhas que enthusiasmavam Inigo Paes, faziam +receiar á gentil donzella que Raymundo, arrastado +pelo seu ardor juvenil, fosse encontrar a morte no gume +afiado de um alfange mahometano.<br /> + +<br /> + +Assim correram os mezes, e as rosas do rosto de +Branca desbotavam, desbotavam até se trocarem nos +lyrios que a desesperança ia fazendo brotar nas faces +da donzella.<br /> + +<br /> + +E Raymundo? Valente cavalleiro, não +ha proezas que +absolvam um perjuro, nem as indulgencias, concedidas +pelo santo padre aos defensores da fé, são +sufficientes +para arredar de cima da cabeça do sacrilego o raio fulminado +pela mão do Omnipotente.<br /> + +<br /> + +Raymundo Paes, Raymundo Paes, que demonio fatal +te arrojou aos pés da cruz, e te dictou o terrivel +juramento, +que havias de esquecer tão cedo? Ai! cavalleiro, +ainda o vento do outono não desfolhou a verde grinalda +que enramava a cruz do precipicio, e já o vento +da inconstancia fez murchar o candido affecto que floria +em teu peito, e que juráras conservar tão puro e +tão +sem mancha, como era pura e immaculada a imagem +d'aquella que t'o inspirou.<br /> + +<br /> + +Ai! Branca, timida rôla, que, escondida na espessura, +a sós com as tuas tristezas, pranteias a ausencia +do ingrato que te esqueceu, mal sabes tu que, em +<span class="pagenum">[66]</span>quanto fitas o +olhar melancholico na lua pallida como o +anjo da saudade, e pareces perguntar-lhe mudamente +se o teu olhar se cruza no espaço com o olhar saudoso +do teu gentil campeão, elle, o perfido, o perjuro, o +sacrilego, +esquece nos braços de outra o teu amor de +virgem, o teu modesto encanto, as tuas graças +infantís.<br /> + +<br /> + +Durante os primeiros tempos, as meigas +recordações +do seu amor de creança arderam dentro d'elle tão +vivas +e tão serenas, como arde viva e serena a lampada do +altar no recinto sagrado da egreja christã; se uma +tentação +má lhe surgia no animo, e lhe mostrava á luz de +um relampago infernal mundos desconhecidos de prazer +vertiginoso, era logo repellida pelo saudoso mancebo, +que conservava o coração perfumado de innocencia, +como sanctuario florido, onde o christão abriga devotamente +a imagem da Mãe do Salvador.<br /> + +<br /> + +<div class="dots"></div> + +<br /> + +<div class="dots"></div> + +<br /> + +Era por uma noite sombria, calada e mysteriosa, noite +propria como nenhuma outra para emboscadas e ardis +de guerra. N'essa noite, n'um alcaçar moirisco, situado +em terras do Algarve, dormiam socegados os perros +descridos, confiados na vigilancia das atalaias, e certos +que os rudes batalhadores de Christo, vencidos do cansaço, +concederiam involuntariamente treguas aos filhos +de Mafoma. Os almogavares, voltando das suas excursões, +não tinham trazido novas de movimento algum no +exercito christão. Dormiam as almenaras no cimo das +montanhas, e a atalaia, vigiando no alto da torre, não +estremecêra vendo uma pluma de fogo accender-se de +repente, e, ondulando nos ares, dar signal da +apparição +dos nazarenos. Quão enganados estavam, e essa +<span class="pagenum">[67]</span>serpente de ferro, +que se enrosca ás muralhas da fortaleza, +vae acordal-os inesperadamente do seu somno +voluptuoso!<br /> + +<br /> + +De repente o grito de S. Thiago é ávante! +echôa nas +barbacans do alcaçar, e as sentinellas, caindo apunhaladas +sem terem tempo de soltar um grito, pagam com +a vida a sua indolencia descuidosa.<br /> + +<br /> + +Que scena de confusão no meio das trevas! Os gemidos +dos moribundos, os gritos das mulheres, as blasphemias +dos guerreiros surprehendidos cruzam-se com +os gritos de victoria dos cavalleiros portuguezes. Apenas +de quando em quando um ou outro arabe mais destemido +arranca da cimitarra, e faz brotar centelhas instantaneas, +cruzando-a com o pesado montante christão. +Não tem quartel os vencidos; os vencedores sequiosos +de sangue transformam n'aquelle momento o valor do +guerreiro na ferocidade do assassino. Eras de barbaridade! +Já vão longe, felizmente.<br /> + +<br /> + +Raymundo vae entre elles. Embriagado pela carnificina, +descarregava ás mãos ambas a acha de armas +sobre os que pretendiam fugir á sorte de seus +irmãos. +De repente um vulto feminino roja-se-lhe aos pés, +suspende-lhe o braço já levantado para +descarregar o +golpe, e com uma voz melodiosa como o sussurrar da +brisa nos ramos do salgueiro, murmura em portuguez: +Perdão!<br /> + +<br /> + +A lua, que até ahi se conservára escondida entre +nuvens, +desembaraçou-se afinal do seu manto sombrio, +e veiu acariciar com os raios da luz serena as faces +tostadas da arabe gentil.<br /> + +<br /> + +Nunca Raymundo vira um rosto tão diabolicamente +tentador! Eram uns labios onde se viam arfar promessas +<span class="pagenum">[68]</span>voluptuosas de +beijos delirantes. Eram uns olhos negros, +onde brilhavam as chammas do desejo, as labaredas +infernaes da tentação! Eram as tranças +negras +fluctuando sobre o collo nú, que a brisa beijava com +delirio, roubando-lhes perfumes inebriantes, que vinham +enlouquecer o ingenuo amador da casta Branca. E elle +sentiu a febre do desejo a vir escaldar-lhe o sangue, +sentiu uma ignota anciedade vir opprimir-lhe o peito. +Era o terrivel despertar dos sentidos n'um rapaz de +dezoito annos. Eram as tentações da +voluptuosidade, +eram as commoções do prazer sensual, era um +demonio +desconhecido que lhe vinha murmurar ao ouvido os +vagos encantos de mysteriosos amores.<br /> + +<br /> + +Raymundo sentiu o perigo, e quiz afastar-se d'elle. +Repelliu-a, e, invocando a imagem de Branca, quiz fugir +da tentação fatal; mas a moira, enroscando-se a +elle, como a serpente se enrosca ao corpo do homem +fascinado pelo poder invencivel do seu olhar, murmurou:<br /> + +<br /> + +―Não me deixes, nazareno. Os teus olhos são +negros +como noite sem estrellas; mas são transparentes +como o espelho das aguas. Porque havias tu de ser +cruel como a hyena do deserto, se és bello e magestoso +como o leão das selvas? Olha, sou tão nova! Ainda +a amendoeira não floriu vinte vezes, desde que minha +mãe me apertou pela primeira vez ao seio palpitante. +Salva-me, salva-me e serei a tua escrava. Servir-te-hei +de joelhos como a meu senhor e amo, cingir-te-hei a +armadura, adivinharei os teus caprichos, e adorar-te-hei +como adoro o propheta de Medina. Ouves? Filho +dos christãos, salva-me, salva-me!<br /> + +<br /> + +―Deixa-me, tentação do demonio, bradava Raymundo +<span class="pagenum">[69]</span>com voz +balbuciante; deixa-me, anjo das trevas; +deixa-me, enviada de Satanaz.<br /> + +<br /> + +―Não, tornou a amaldiçoada, approximando os +labios +vermelhos como a flôr de romanzeira dos labios de Raymundo. +Sou bella, e amo-te! Sou tua, e tu és todo meu, +porque te vejo torcer desesperado nos braços de fogo +do prazer. Amas-me, e eu... sou tua.<br /> + +<br /> + +―Amo-te, amo-te, bradou Raymundo, caindo oppresso +aos pés da musulmana.<br /> + +<br /> + +Ai! Branca, timida Branca, chora o teu amor profanado! +N'esse momento fatal o anjo da guarda do teu +amante velou com as mãos o rosto celestial, que as lagrimas +inundavam, e foi, suspenso n'um raio da lua, +prostrar-se aos pés do throno do Omnipotente!<br /> + +<br /> + +Entrado na senda da perdição, não +havia poder humano +que salvasse Raymundo da condemnação eterna. +Tinha vendido a sua alma por um beijo de fogo, e trocára +o paraizo pelo inferno da voluptuosidade. Profanado +o terrivel juramento, o que havia de sagrado para +Raymundo? O que importava a honra de cavalleiro a +quem prostituira a santa crença de seus paes? +Apagára-se +a candida estrella que o guiava nas trevas da +existencia, e a luz, que o fascinava, scintillava nos olhos +negros de Zoraida, a gentil amaldiçoada. Se tinha reflexos +infernaes, tinha tambem o esplendor prestigioso +da tentação sensual.<br /> + +<br /> + +Desde essa noite ninguem mais soube d'elle. Diziam +que renegára, e que, enlaçado nos +braços da musulmana, +fechára os olhos á luz do christianismo, e se +arrojára +ao abysmo infernal, onde ha o fogo eterno e o +eterno ranger de dentes.<br /> + +<br /> + +Foram estas as noticias que Branca recebêra, no dia +<span class="pagenum">[70]</span> +em que fazia um anno que Raymundo a deixára. Não +disse palavra ao receber a nova fatal. Saiu e caminhou +pallida, hirta e vagarosa como estatua adormecida n'um +tumulo, que, obedecendo a feitiço desconhecido, se erguesse +do seu leito de pedra, e se dirigisse muda para +o sitio aonde a chamava a attracção mysteriosa.<br /> + +<br /> + +Os aldeãos, que a encontravam, paravam para a saudar. +Mas ella nem os ouvia, nem parecia vêl-os. Costumados +á amabilidade da fidalguinha, ficavam os coitados +boquiabertos, ao vêrem a desusada +distracção. Mas, +se lhe reparavam nas feições demudadas, vendo a +pallidez +de marmore, os labios brancos e entre-abertos, os +olhos fixos e esgazeados, benziam-se devotamente, e +murmuravam que era mau olhado que tinham dado á +menina do castello.<br /> + +<br /> + +Assim caminhou até chegar ao sitio do Açude. +Ajoelhou +junto da cruz, e um aldeão, que a seguia de longe, +viu-a rezar muito tempo, e abraçar os pés do +Crucificado. +Depois, chegou á beira do precipicio, e sem +hesitação, +sem fraqueza, despenhou-se no abysmo. O corpo +gentil ennovelou-se nos ares, e foi despedaçar-se +nas pedras da cascata, espirrando ondas de sangue +que tingiram de purpura o manto de espuma que envolvia +as rochas. As aguas do rio abriram-se para tragar +o cadaver, e depois continuaram indolentes a correr, +e a murmurar o seu eterno cantico, como se não +se tivesse escripto alli o epilogo de um drama desventurado.<br /> + +<br /> + +O aldeão, que vira de longe a scena fatal, sem poder +obstar ao seu inesperado desenlace, fugiu dando um +grito de horror, e foi contar ao castello o que presenceára. +Quem perdeu alguma vez, de modo tão terrivel, +<span class="pagenum">[71]</span>um ente +estremecido, avalie a dôr do triste pae de +Branca. Eu não a sei narrar. Sente-a o +coração, mas +os labios recusam-se a exprimil-a. Veiu depois gente +do castello, e tiraram do fundo do precipicio o cadaver +horrivelmente desfigurado da gentil donzella. Enterraram +os restos d'aquella pobre martyr aos pés do Crucificado, +que ouvira a sua ultima prece, e a quem pedira +talvez perdão do crime que ia commetter. Plantaram +ao pé da cruz roseiras e madresilvas, cujo perfume +suavissimo ia levar ao longe a ultima recordação +da que +tivera na terra a corôa da innocencia, e tinha agora nos +céos a palma do martyrio.»<br /> + +<br /> + +―Pobre rapariguinha, interrompeu o mestre lagareiro +com mostras de penalisado, dar cabo de si por +causa d'aquelle patife!<br /> + +<br /> + +―Então que quer vossemecê, +<em>sô</em> Manoel dos Reis, +coisas que acontecem, tornou o narrador, ninguem póde +fugir á boa ou má sina, que Deus lhe deu. Era +aquella +a sorte de Branca, havia de cumpril-a.<br /> + +<br /> + +―Vamos á historia, vamos á historia, bradou +José +Augusto, com enthusiasmo! Que fez Raymundo? O que +aconteceu a Zoraida? Quero saber quem é por fim de +contas o phantasma do Açude.<br /> + +<br /> + +«Raymundo, meu fidalgo, não via senão +Zoraida +n'este mundo. Um capricho d'ella valia mais do que +um mandado de Deus.<br /> + +<br /> + +Christão tripudiou com a infame sobre a cruz +despedaçada +do Redemptor; cavalleiro, quebrou a espada +de seu pae para que esse espelho de honra não lhe +reflectisse +constantemente toda a hediondez do seu crime, +fidalgo e portuguez, salpicou de lama o brazão de seus +maiores, e abandonou a defeza da patria, quando ella +<span class="pagenum">[72]</span>reclamava o auxilio +de todos os seus filhos. Aqui está +o que se póde chamar um amor de +perdição!<br /> + +<br /> + +Uma noite chovia agua se Deus a dava, o vento fazia +tremer as casas, e curvava até ao chão os +pinheiros +agigantados! A trovoada estalava com medonho estampido, +os relampagos cingiam a terra com o seu cinto de +chammas, e os raios vinham de vez em quando, lascando +as rochas, transformar as arvores em archotes colossaes. +O temporal era como nunca se tinha visto n'esta +terra, nem nunca mais se tornou a +vêr, porque todos +dizem que a procella d'aquella noite era obra de Satanaz. +No Açude principalmente era medonho o aspecto +da tormenta. O rio furioso arrojava borbotões de espuma, +que se cruzavam com os raios, que vinham lamber +as rochas com as suas linguas de fogo. Deus me +perdôe, mas o temporal de hoje tem algumas +parecenças +com a tempestade d'essa noite infernal. Quer-me +parecer que tambem hoje anda fazendo das suas o inimigo +do genero humano.»<br /> + +<br /> + +Um calafrio de horror correu pela assembléa. Todos +se chegaram mais para o pé do lume, e olharam uns +para os outros benzendo-se silenciosamente ao passo +que lá fóra gemia o vento com voz soturna na +porta +carunchosa do lagar.<br /> + +<br /> + +«N'essa mesma noite Raymundo e Zoraida atravessavam +a cavallo o pinheiral que termina no Açude. A +reprovada de Deus folgava com noites tempestuosas, +e nunca se sentia tão bem como quando os raios lhe +illuminavam a estrada, e o trovão respondia magestoso +á sua voz blasphema.<br /> + +<br /> + +―Olha a cruz do nazareno, bradou Zoraida quando +chegaram á cruz do precipicio; não vês, +Raymundo, +<span class="pagenum">[73]</span>como a chuva +açoita irreverente o rosto do martyr do +Calvario! Porque não transforma elle os raios, que fulminam +a cruz abandonada, em cimitarras de fogo que +façam rolar a seus pés a cabeça da +condemnada, da filha +de Mahomet?<br /> + +<br /> + +E ella ria,―ria com umas gargalhadas estridentes, +que vibravam sinistras dominando os ruidos da +tempestade, +e que, repercutidas pelos echos do abysmo, tinham +um não sei quê de infernal. Raymundo estremeceu.<br /> + +<br /> + +―Não zombes d'esta cruz, respondeu elle com modo +sombrio; quando eu era innocente―e suspirou―vinha +aqui ajoelhar muita vez. Não zombes d'esta cruz, +peço-t'o.<br /> + +<br /> + +Zoraida fitou por muito tempo n'elle o seu olhar aveludado, +fascinante, diabolico e tentador. Era incomprehensivel +a magia d'esse olhar, e mais incomprehensivel +ainda o dominio que exercia no moço cavalleiro. +Dir-se-ia que dois sentimentos oppostos combatiam no +coração de Raymundo: de um lado a repugnancia, a +rebellião da vontade, do coração, do +espirito contra +aquelle demonio oppressor; do outro lado uma +attracção +irresistivel, fatal, que o arrastava a seu pesar, e o +prostrava aos pés da musulmana.<br /> + +<br /> + +Venceu o anjo mau. Raymundo curvou-se sobre o +pescoço do cavallo, ebrio de amor ou de desejos fitou +um olhar frenetico nos olhos de Zoraida, e quando ella, +com um sorriso de escarneo, se approximou da cruz, e +cuspiu no rosto do Crucificado!... elle, vencido pelo +demonio, imitou-a, rindo com um riso convulso e doloroso, +que fazia horror.»<br /> + +<br /> + +―Jesus!―bradaram os circumstantes. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[74]</span> +O vento abriu a porta do lagar, e á luz de um relampago +viu-se o campo devastado pelo vendaval e inundado +pela chuva; um trovão medonho fez benzer todos, +e emmudecer o narrador. Chegaram-se mais ao lume, +e olharam uns para os outros. Estavam todos pallidos +e tremulos.<br /> + +<br /> + +―Aconteceu exactamente o mesmo que aconteceu +agora, continuou o João Moedor com a voz a tremer-lhe +um pouco; a luz de um relampago deixou vêr uma loisa +aos pés da cruz, e o nome de Branca inscripto sobre a +pedra. Um trovão formidavel ribombou sobre a +cabeça +dos dois amaldiçoados, e a campa estalou como se fosse +de vidro. O phantasma de Branca, involto em candidas +roupas, e com a fronte cingida de rosas virginaes, ergueu-se +da sepultura, fazendo recuar Raymundo horrorisado. +Este quiz desviar a vista, e o phantasma seguiu +o movimento dos seus olhos; quiz tapar o rosto com as +mãos, e as mãos fizeram-se-lhe transparentes, +deixando +vêr ainda a imagem da donzella serena como uma santa, +triste como uma martyr, impassivel como o destino. +Quiz enterrar os acicates nos ilhaes do cavallo, e o cavallo +esvaiu-se como fumo, adelgaçando-se, e escapando-lhe +por entre os joelhos, como um pedaço de neve +que o sol derrete nas montanhas. Raymundo deu um +grito de horror, e estacou petrificado.<br /> + +<br /> + +Então voltou os olhos para Zoraida, e ficou aterrado +da transformação da sua amante. O rosto, cuja +belleza +o fascinára, fizera-se negro, mais negro do que o +carvão. +Scintillavam os olhos como duas brazas, e nos labios +volteava-lhe um sorriso de ironia. O braço assetinado +que beijára tanto, estendia-se para elle terrivel e +ameaçador. Raymundo, por um esforço supremo de +vontade, <span class="pagenum">[75]</span>recuou +dois passos, mas o braço estendeu-se, +estendeu-se, +tornou-se desmesurado e apertou-lhe o pescoço, +queimando como se fôra uma tenaz ardente.<br /> + +<br /> + +―Não me foges, bradou ella com voz rouca, vendes-te-me +a tua alma, renegado. Segue-me, segue-me. +Pertences-me. Vem, que o inferno celebra hoje o nosso +noivado. Os raios são os fachos do hymeneu, e Lucifer +o sacerdote. Vem, é este o leito nupcial.<br /> + +<br /> + +E, arrastando-o com uma força irresistivel, precipitou-se +com elle no abysmo. Um clarão avermelhado illuminou +as aguas da torrente, que exhalaram um cheiro +nauseabundo de enxofre.<br /> + +<br /> + +Mas o phantasma de Branca ficára ajoelhado aos +pés +da cruz, implorando o perdão do condemnado. No rosto +de Christo, suavemente illuminado, resplandecia um +vago arraiar precursor da aurora da misericordia.<br /> + +<br /> + +Apenas Zoraida desappareceu, desfez se o encanto. +Serenou a tempestade, e a brisa perfumada da noite +veiu timida brincar nas rosas do tumulo de Branca.<br /> + +<br /> + +Mas ainda hoje, em dias de vendaval, se vêem duas +sombras terriveis correndo para o precipicio, uma horrorisada, +tremula, arrastada, a outra com uma alegria +feroz no semblante. Aos pés da cruz vem então +ajoelhar +uma sombra com o rosto inundado de lagrimas celestiaes.<br /> + +<br /> + +É que Raymundo ainda está cumprindo as penas do +purgatorio, e Branca, o anjo do Senhor, sem deixar de +implorar a misericordia divina para aquelle que tanto a +fez soffrer, mas a quem tanto amou! +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[76]</span> ―Era inevitavel, +disse, rindo, Lucio Valença depois +de feitos os cumprimentos do estylo, eu estava já prevendo +que iamos descambar em plena edade média. O +nosso amigo Roberto Soares não póde dispensar-se +de +consagrar um vivo affecto ás couraças da sua +adolescencia, +e ás achas d'armas da sua creação. +Fez-nos +voltar para 1830 o nosso bom amigo.<br /> + +<br /> + +―E não era epocha tão má como isso a +tal de 1830, +disse Roberto Soares. Abusava-se do veneno e do punhal +e dos solares e das chacaras e dos cavalleiros que +voltavam da cruzada, mas, como dizia Musset, um dos +romanticos do tempo:<br /> + +<br /> + +<div class="poetry">Hugo portait +déjà, dans l'âme</div> + +<div class="poetry1">Notre-Dame,</div> + +<div class="poetry">Et commençait à +s'occuper</div> + +<div class="poetry1">D'y grimper.</div> + +<br /> + +―Não ha duvida, não ha duvida, acudiu o doutor +Macedo, e Lucio é de certo o primeiro a prestar homenagem +a essa epocha da potente efflorescencia litteraria; +mas, por Deus, tornou elle interrompendo-se com +espanto, está já vencida a meia-noite; a sr.<sup>a</sup> +D. +Isaura +adormeceu!<br /> + +<br /> + +Era verdade; Isaura, que não tinha de +predilecções +litterarias senão o <em>quantum +satis</em> para ser senhora da +moda, enfastiada já d'estas repetições +de historias phantasticas, +resistira um momento ao somno que a perseguia, +mas, quando se entrára na historia dos amores +de Raymundo e Zoraida, fôra a pouco e pouco encostando +a cabeça para traz, e adormecera profundamente.<br /> + +<br /> + +―Podéra, pensou de si para si o nosso Henrique +Osorio, teimando em vêr em Isaura uma menina toda +<span class="pagenum">[77]</span>idealisadora, e +capaz de apreciar os mais elevados prazeres +do espirito, podéra! Eu mesmo me vi em ancias +para resistir ao somno. Quem atura hoje um d'estes +soláos cançados e gastos que deliciaram a velha +geração, +com os seus cavalleiros de armas negras, e os +seus diabos disfarçados em mulheres formosas, e os +seus fidalgos que venderam a alma a Satanaz como na +<em>Dama Pé de Cabra</em>, de +Alexandre Herculano, ou na +<em>Torre de Caim</em>, de Rebello da Silva? +Isso foi bom no +seu tempo, hoje está longe do maravilhoso moderno, e +Isaura, com a fina intuição do seu juvenil +espirito, não +pôde commover-se com esses velhos +<em>trucs</em> de magica, +resuscitados ingenuamente pelo Roberto Soares para +nos entreter á meia-noite.<br /> + +<br /> + +Emquanto Henrique Osorio fazia de si para si esse +monologo, Leonor acordava a sua amiga, que, abrindo +sobresaltada os olhos, foi acolhida por um riso jovial de +todos os seus companheiros de noitada.<br /> + +<br /> + +―Venceu-se ou não se venceu? dizia o doutor Macedo. +Veja v. ex.<sup>a</sup> se hoje lhe produziu a mais leve +impressão +a meia-noite, e se lhe deram muito cuidado os +phantasmas.<br /> + +<br /> + +―Ah! meu Deus, eu peço-lhes mil desculpas, disse +Isaura um pouco envergonhada. É que estou fatigada +das noites passadas em claro, porque o peior não +é +aqui, o peior é depois quando vou para o meu quarto. +Custa-me a conciliar o somno, e vem ás vezes pesadelos +terriveis perturbar o meu dormir inquieto.<br /> + +<br /> + +―Minha senhora, exclamou, rindo, o doutor Macedo, +nem tudo são rosas no tratamento de uma enfermidade. +Pois v. ex.<sup>a</sup> não sabe que +são muitas vezes +amargos os +remedios salutares? Então julgava que, para ter uma +<span class="pagenum">[78]</span>cura radical, +bastava-lhe ouvir aqui +lêr contos, n'uma sala +confortavel, cheia de luz, a dois passos do seu papá, e +apertando a mão da sua amiga? Nada! nós aqui +doiramos-lhe +a pilula. Se depois lhe sente no seu quarto o +amargor, paciencia! Mithridates é de crêr que +tambem +não achasse aos venenos o gosto da ambrosia. Afinal +bebia-os como quem bebe agua. V. ex.<sup>a</sup> hontem +dormiu +mal, hoje ha de dormir melhor, d'aqui a dois dias +chega a tornar-se-lhe necessaria uma historia de phantasmas +para adormecer profundamente.<br /> + +<br /> + +―Ah! doutor, eu ao menos peço treguas. O sr. Henrique +Osorio, hontem, com a sua alameda transformada +em cemiterio, e com essa mulher pallida +desenterrada, +atacou-me os nervos de tal fórma que fiquei +devéras +enferma. Cheguei a suppôr que eu mesma era uma defunta.<br /> + +<br /> + +O proprio Henrique Osorio é que ficou devéras +atordoado! +Decidídamente Isaura não lhe perdoava a +creação +do typo de Julieta que elle julgava que tanto devia +lisongeal-a. Persistia em acreditar que elle não tivera +outro intento senão o de lhe chamar desenterrada.<br /> + +<br /> + +―Minha senhora, disse elle, eu sinto realmente profundissimos +remorsos por ter assim concorrido involuntariamente +para a magoar. Creia v. ex.<sup>a</sup> que a minha +intenção era boa, continuou elle em voz mais +baixa; se depuz a seus pés um ramalhete de goivos +em vez de um ramalhete de rosas, foi porque as flôres +funereas eram as unicas que a nossa regra me permittia +que colhesse.<br /> + +<br /> + +Isaura era <em>coquette</em>, e, sentindo +n'esta phrase um +aroma de galanteio, vibrou a Henrique um olhar fascinador. +N'este momento, porém, o doutor Macedo levantou-se, +<span class="pagenum">[79]</span>e, depois de ter +pedido licença para ir accender +um charuto, cantarolou, puxando uma baforada de +fumo, com musica desconhecida, esta quadra de Thomaz +Ribeiro:<br /> + +<br /> + +<div class="poetry"> +Trazes agoirento goivo<br /> + +prezo em negros passadores!<br /> + +Disse-te acaso o teu noivo<br /> + +que tinhas novos amores?<br /> + +</div> + +<br /> + +―O dr. Macedo, murmurou Isaura, voltando-se para +Henrique Osorio com uma expressão no olhar muito +diversa da que primeiro lh'o illuminára, o dr. Macedo +está-me explicando involuntariamente o sentido da sua +offerta do ramalhete de goivos. É um epigramma, +sr. Osorio?<br /> + +<br /> + +―Minha senhora, respondeu Henrique desesperado, +estou por tal fórma infeliz com v. ex.<sup>a</sup>! +V. ex.<sup>a</sup> +interpreta +de um modo tão singular todas as minhas palavras, +e todas as minhas acções, que desisto de as +explicar +de um modo satisfatorio.<br /> + +<br /> + +Estava verdadeiramente mortificado. Levantou-se +comprimentando seccamente a sua interlocutora. Dirigiu-se +a uma janella e abriu-a para respirar mais á +vontade. As reclamações dos circumstantes +obrigaram-n'o +a fechal-a de novo. Isto ainda mais o desesperou. +Estavam-se fazendo as despedidas. Leonor, ao +passar junto d'elle, disse-lhe com um riso malicioso, e +em voz baixa:<br /> + +<br /> + +―É para que tu saibas o que valem os galanteios +funebres.<br /> + +<br /> + +―Olha, sabes que mais, Leonorsinha? tornou Henrique +bruscamente, occupa-te das tuas bonecas. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[80]</span> +A pobre senhora sentiu a dôr profunda do golpe. +Recuou um passo, levou a mão ao +coração, e marejaram-lhe +nos olhos duas lagrimas.<br /> + +<br /> + +―Perdão, menina, acudiu Henrique, caindo em si.<br /> + +<br /> + +―Estás perdoado, respondeu Leonor com voz fraca, +mas... mas como tu a amas!<br /> + +<br /> + +Saiu. Se se demora mais um instante, rebentavam-lhe +os soluços mesmo diante de Henrique.<br /> + +<br /> + +O doutor Macedo, ao passar por diante de Osorio, +parou, e disse declamatoriamente:<br /> + +<br /> + +<div class="poetry"> +<em>Si je vous le disais pourtant que je vous aime,<br /> + +Qui sait, brune aux yeux bleus, ce que vous en +diriez?</em><br /> + +</div> + +<br /> + +―Está fallando por enigmas poeticos, doutor, exclamou +Henrique impaciente. Quer fazer concorrencia +ao <em>Diario Illustrado</em>, ou ao +<em>Jornal da Noite</em>?<br /> + +<br /> + +―Não, disse o doutor, quero apenas dizer, com palavras +de Alfredo de Musset, que passam muitas vezes +duas pessoas ao lado uma da outra, sem saberem os +sentimentos que vivem nas suas duas almas, e que, se +ousassem exprimil-os, voariam a encontrar-se.<br /> + +<br /> + +―A solução no proximo numero, não +é verdade, +doutor? tornou Henrique, impaciente.<br /> + +<br /> + +―Talvez, redarguiu o doutor.<br /> + +<br /> + +E saiu, ao passo que Henrique Osorio encolhia os +hombros com desdem. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Na seguinte noite, antes de chegar a hora fatidica, +o doutor Macedo pediu a palavra. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[81]</span> ―Minhas senhoras e +meus senhores, disse elle, desenrolando +um manuscripto, se não espero o bater da +meia-noite, é porque o romance que vou lêr precisa +de +um prologo, e á meia-noite em ponto o que deve entrar +em scena é o elemento phantastico. Seja dito sem envolver +nem a mais leve censura aos illustres preopinantes +que se afastaram d'esta regra. Não é meu este +romance, o seu auctor deseja conservar o incognito...<br /> + +<br /> + +―São prohibidas as substituições, +bradou Lucio, +rindo, serviço obrigatorio!<br /> + +<br /> + +―Mau! Não me interrompam! O auctor é um dos +nossos collegas, não direi mesmo se está +presente. Faz +o seu serviço, mas provisoriamente quer conservar a +mascara. Ora diz Gennaro na <em>Lucrecia +Borgia</em>, pouco +mais ou menos, o seguinte: A mascara de uma senhora +é tão sagrada como a face de um homem. +É assim ou +não é, Soares? É assim, romantico?<br /> + +<br /> + +―Será, mas o que d'ahi deduzo é que o auctor +é +uma das nossas amaveis companheiras de serão.<br /> + +<br /> + +―As conjecturas são permittidas, mas vae dar a +meia-noite, e eu, conformando-me com os preceitos do +regimento, passo a lêr a <em>Egreja +profanada</em>.<br /> + +<br /> + +No meio do mais profundo silencio, em que se sentia +a avida curiosidade dos ouvintes excitada pelo mysterio +em que se envolvia o conto, o doutor, que lia +admiravelmente, começou assim:<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2>A EGREJA PROFANADA</h2> + +<br /> + +<h3>I</h3> + +<br /> + +Corre socegada a noite, mas não brilha a lua no +céo +a espargir tristezas, escondendo um devaneio, um sonho +de poeta em cada uma das pregas da sua candida +tunica; scintillam apenas as estrellas no véo escuro do +firmamento.<br /> + +<br /> + +Formosas são as noites estrelladas, mas não teem +a +suave melancolia das noites de luar; enleva-se-nos o +espirito ao contemplar essas myriades d'orbes luminosos; +porém os raios da lua teem uma linguagem mysteriosa +que nos falla ao coração.<br /> + +<br /> + +Quando no véo nocturno brilham sem rivaes as estrellas, +como que percebemos a magestosa melodia das +espheras; mas, quando a lua illumina a terra com a sua +doce luz, ouvimos então no espaço vagos canticos +de +saudade, suspiros de virgem enamorada, canto de pescador +que se perde ao longe nas ondas, toada de Quando no véo +nocturno brilham sem rivaes as estrellas, +como que percebemos a magestosa melodia das +espheras; mas, quando a lua illumina a terra com a sua +doce luz, ouvimos então no espaço vagos canticos +de +saudade, suspiros de virgem enamorada, canto de pescador +que se perde ao longe nas ondas, toada de pegureiro, +<span class="pagenum">[84]</span>que vem +desfallecida expirar no nosso ouvido, +intimas melodias, que nos dizem: «amor e tristeza.» +<br /> + +<br /> + +Porque as estrellas são desdenhosas rainhas d'outros +céos, sóes de outros mundos, que nos enviam, como +que +por descuido, um signal de sua grandeza, um tenue +raio da sua immensa luz, em quanto a lua é a extremosa +amante, que prendeu á nossa a sua existencia, a +companheira que nos segue incessantemente n'essa viagem +sem fim, que emprehendemos pelo espaço.<br /> + +<br /> + +As estrellas tornam mais profunda a solidão, e mais +espessas as trevas. Os bosques, os valles, as montanhas +conservam-se envoltos n'um véo sombrio, por mais +que os raios dos sóes da noite se esforcem por penetrar +na escuridade; as ondas baloiçam com indifferença +os seus reflexos, e não fazem caso das palhetas doiradas +que avivam aqui e ali a candidez da sua fimbria espumosa.<br /> + +<br /> + +Mas, quando surge a lua, a natureza anima-se. Desperta +a viração nos antros perfumados das florestas, +que exhalam vivissimos aromas. As fadas vem pentear +as suas loiras tranças no espelho das fontes, cuja +crystallina +superficie palpita de prazer. Jorram torrentes de +prata pela falda dos montes, scintillam diamantes na folhagem +das arvores. Erguem se as ondas em vago +enleio +de voluptuosidade, como seio de virgem que arfa +pela vez primeira. Rescende o meigo perfume no thuribulo +da violeta. Rescende a saudade no thuribulo do +coração.<br /> + +<br /> + +As estrellas são os anjos de Deus, que entoam lá +ao +longe, nas profundidades do Empyreo, o hymno ás glorias +do Eterno; a lua é o archanjo consolador que presta +um ouvido compadecido aos lamentos da humanidade. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[85]</span> +As estrellas são os candelabros de oiro, que ardem +constantemente diante do throno do Altissimo; a lua é +a urna argentea onde se transformam as lagrimas dos +que soffrem em perolas, que os anjos entornam no regaço +do Omnipotente.<br /> + +<br /> + +As estrellas são o enlevo do philosopho, a lua é +enlevo +de poetas.<br /> + +<br /> + +Porque as estrellas revelam o poder de Jehovah, a +lua a caridade do Redemptor.<br /> + +<br /> + +Mas vae a noite socegada, e a luz dos fachos da abobada +celeste scintilla frouxamente na face adormecida +do mar. As vagas erguem-se vagarosamente, enroscam-se +a pouco e pouco, caminham em longa fileira +para as praias, e alastram no areial o seu manto escuro.<br /> + +<br /> + +Negra, bem negra está a superficie do Oceano; os +raios das estrellas, naufragos luminosos, debatem-se +com as ondas, que mal conseguem doirar. Do seio d'essas +trevas sae um gemido cavernoso. É a voz eterna +do liquido leão, é o rugir tranquillo mas +terrivel do +monarcha da immensidade.<br /> + +<br /> + +Não param as vibrações nas espumosas +cordas da +harpa dos abysmos; ora plangente, ora formidavel, o +cantico incessante resôa no espaço.<br /> + +<br /> + +E que diversidade de vozes não ha n'esse concerto +immenso! o magestoso ruido das ondas ao assoberbarem-se +lá no mar alto, o grito que resulta do embate +de dois d'esses colossos que se encontram, o uivo de +raiva que soltam quando espadanam nos rochedos da +praia, o suspiro amoroso que desprendem ao beijarem +o areial, o murmurio palreiro das gottinhas de agua ao +despedirem-se a custo das conchas das ribas, E que diversidade de vozes +não ha n'esse concerto +immenso! o magestoso ruido das ondas ao assoberbarem-se +lá no mar alto, o grito que resulta do embate +de dois d'esses colossos que se encontram, o uivo de +raiva que soltam quando espadanam nos rochedos da +praia, o suspiro amoroso que desprendem ao beijarem +o areial, o murmurio palreiro das gottinhas de agua ao +despedirem-se a custo das conchas das ribas, o lamento +que exhalam ao açoital-as o vento, tudo isto se resume +<span class="pagenum">[86]</span>n'um hymno sublime, +intraduzivel, como os poetas +os +sonham, mas não escrevem.<br /> + +<br /> + +Ó mar! A opulenta imaginação da +antiguidade grega +povoou de sereias as tuas ondas, poisou no cimo d'estas +o velho Glaucus, com as suas barbas limosas, com +a sua voz aterradora, poisou no teu leito de espuma +ora a rosea concha Acidalia em cujo seio se abrigava a +candida Aphrodite, ora a seductora Lamia, ora as horriveis +Gréas, e nem assim conseguiu traduzir o indizivel +encanto com que nos attraes, e o vago terror que +nos incutes, a suavidade da tua voz, e a selvagem energia +dos teus hymnos! Ó mar immenso, que lyra +infeitiçada +te deu o Senhor, de que mysteriosa seducção +impregnou as tuas solidões?<br /> + +<br /> + +Assim perdido nas trevas como é magestoso o Oceano! +Nem uma véla se distingue na immensidade solitaria! +Ainda n'aquelle isolamento, não descontinúa o +fadario das ondas! Vão, vem, atropellam-se, espraiam-se, +beijam se, desmaiam, agitam-se, +revolvem-se, cantam, +suspiram, e, lá ao longe talvez, algum scismador, +encostado ao peitoril da sua janella, ao ouvir aquelle +ruido ineffavel, pensa na eternidade, e em Deus!<br /> + +<br /> + +Comtudo bem junto da praia, a pouca distancia de +uma casa cuja fachada branca mira silenciosa a eterna +agitação do Oceano, que envia ás +vezes, de enamorado, +uma das suas ondas a beijar-lhe os pés, +baloiça-se indolentemente +uma barca, onde dorme um pescador, +cujo somno é acalentado por esse murmurio suave.<br /> + +<br /> + +As ondas embalam tão docemente o bote, como carinhosa +mãe póde embalar o berço do +recem-nascido.<br /> + +<br /> + +A uma das janellas que se rasgam na fachada branca +da casa da praia, encosta-se um vulto de mulher. Em +<span class="pagenum">[87]</span>baixo +está um outro vulto varonil e elegante. Ouve-se, +por entre o concerto das vagas, o mysterioso segredar +de duas vozes.<br /> + +<br /> + +Leandro e Hero, Rosina e Almaviva, Julieta e Romeu!<br /> + +<br /> + +O bramir do mar abafa o manso ruido das vozes. +Mas o rugido do Oceano, e o flebil sussurrar dos namorados +chegam, em murmurio egual, ao throno do +Omnipotente: porque são duas notas do hymno immenso +do Universo, que se resume n'uma palavra «Amor.»<br /> + +<br /> + +<h3>II</h3> + +<br /> + +Tudo n'este mundo acaba, inclusivamente as doces +palestras enamoradas. Mais infeliz do que a desditosa +heroina de Shakespeare, a donzella da casa da praia +não pôde esperar que o grito matinal da cotovia +saudasse +o alvorecer. Ainda a noite não chegára ao meio +do seu giro, e já era forçosa a +separação.<br /> + +<br /> + +Trocaram-se suaves promessas, mil vezes se affastou +o nosso Romeu da fachada branca, mil vezes voltou a +ella, como se as ondas, que lhe vinham quasi banhar +os pés, o arrastassem comsigo nas incessantes +ondulações +do fluxo e do refluxo.<br /> + +<br /> + +Afinal a palavra «Adeus» escoou-se, como um timido +murmurio, pelos labios dos dois namorados; o elegante +moço affastou-se rapidamente, e, dando um pulo bem +calculado, foi cair em pé dentro do barco, que as ondas +baloiçavam.<br /> + +<br /> + +Ao choque inesperado acordou em sobresalto o barqueiro. +<span class="pagenum">[88]</span>Ergueu-se +á pressa, e, depois de reconhecer +seu amo, fitou os olhos com certa inquietação no +céo +estrellado, chronometro infallivel dos homens do mar.<br /> + +<br /> + +―Ah! senhor, disse elle com a voz entrecortada, +que tanto se demorou! É forçoso apressarmo-nos, e +não sei ainda se chegaremos a tempo á praia.<br /> + +<br /> + +―Que medo tens tu, homem? perguntou o que embarcára, +sentando-se commodamente na pôpa do bote. +Está o mar de leite, e nem a mais ligeira brisa lhe agita +as ondas, nem uma nuvem ameaçadora assoma no horisonte! +As tempestades repousam, amigo!<br /> + +<br /> + +―Não temo a procella, tornou o barqueiro, abanando +a cabeça; eu e o vendaval somos conhecidos velhos, e +não me assusta a tormenta em noite escura, nem receio +ser engulido pelas ondas! Assim como assim um homem +ha de morrer uma vez, e vale mais adormecer livremente +envolto n'esta mortalha de espuma, do que +ser cozido n'um lençol branco, e mettido em uma cova, +onde o nosso pobre corpo nem uma vez só se poderá +regalar com o cheiro da marezia! Mas ainda que a temesse, +não é n'uma noite d'estas que um velho marujo +receia a tempestade. V. s.<sup>a</sup> tem +rasão: o mar +está de +leite, e o barco ha de deslisar tão commodamente por +sobre as suas aguas como uma carruagem por cima da +poeira da estrada real.<br /> + +<br /> + +―Então o que te assusta, meu velho?<br /> + +<br /> + +―Está quasi a dar meia-noite, senhor.<br /> + +<br /> + +―Percebo! Receias que o fuso da tua companheira +não corra tão ligeiramente nas suas +mãos enrugadas, +de farta que esteja de te esperar. Socega, homem! Irei +eu mesmo acalmar as rabugices da Catharina, e prometter-lhe +uma estriga de linho para os serões do inverno. +<span class="pagenum">[89]</span>Verás +que a velhita ha de ficar tão +contente, +que nem pensará em ralhar comtigo por causa da desusada +demorada.<br /> + +<br /> + +―Não esteja com cuidado na Catharina, senhor, que +ella bem sabe que me não demoro por culpa minha. +Oh! se sabe. Antes de ser velha desdentada já foi +moça +e louçã, e ha de se lembrar de como +nós esqueciamos +as horas, que passavam, ella sentada á porta da choupana +a concertar as rêdes de seu pae, eu assentado no +areial a fallar-lhe fallas de namoro, que lhe punham o +rosto mais vermelho do que uma rosa de maio. Ainda +não é isso, meu amo.<br /> + +<br /> + +―Então o que é, finalmente? perguntou o seu +interlocutor, +já um tanto enfadado.<br /> + +<br /> + +―É que não resulta bem algum ás almas +de dois +christãos de estarem assim no mar por estes sitios ao +bater da meia-noite.<br /> + +<br /> + +―Porque?<br /> + +<br /> + +O barqueiro olhou com inquietação em torno de si, +e depois murmurou em voz baixa que mal se ouvia:<br /> + +<br /> + +―É por causa da <em>egreja +profanada</em>!<br /> + +<br /> + +O esbelto moço olhou espantado para elle.<br /> + +<br /> + +Durante a conversação, o pescador +desamarrára o +barco, e, lançando mão dos remos, +déra-lhe um impulso +vigoroso. Jà estavam longe da praia, as ondas vinham +bater no costado do bote com um murmurio queixoso, +que acompanhava o som compassado do bater dos remos +na agua.<br /> + +<br /> + +O pescador tornou a fitar o céo com +inquietação, e, +sem responder a uma nova pergunta do seu passageiro, +curvando-se para diante, metteu os remos nas ondas, +e, entezando depois os musculos vigorosos, fez, erguendo-os +<span class="pagenum">[90]</span>de novo, espadanar +uma cascata de espuma +de cada lado do ligeiro bote.<br /> + +<br /> + +Este, como um corsel generoso, que ao sentir enterrarem +se-lhe nos ilhaes as esporas do cavalleiro, se empina +primeiro, depois, sacudindo as crinas, desata em +vertiginoso galope, e, saltando de um pulo uma onda, +que vinha orgulhosa para elle, deslisou por sobre as +aguas com incrivel rapidez.<br /> + +<br /> + +Ainda o passageiro não tivera tempo de repetir a +pergunta, quando vibrou o espaço com as lentas pancadas +da meia-noite, que soava lá muito ao longe, no +sino de uma egreja situada á beira mar.<br /> + +<br /> + +Produzia um effeito sinistro aquelle som distante. +Cada uma das vibrações vinha, em intervallos +eguaes, +expirar no ouvido dos dois navegantes, e casar-se melancolicamente +ao rugir contínuo das vagas.<br /> + +<br /> + +O barqueiro deixou cair os remos, e bradou: «Jesus, +meu Deus!» O mesmo seu amo não se pôde +eximir a +um inexplicavel receio.<br /> + +<br /> + +Ambos silenciosos, o barqueiro com os cabellos em +pé, o nosso enamorado com vaga curiosidade, e um tal +ou qual terror, contaram as lentas pancadas do bronze +sagrado.<br /> + +<br /> + +Parece que aquellas vibrações não eram +produzidas +pelo simples sino de uma egreja, mas que fôra o anjo +das vinganças do Senhor quem fizera vibrar o bronze, +e quem lhe dera aquella voz sobrenatural e pavorosa.<br /> + +<br /> + +Contaram uma... duas... tres... doze. A ultima +vibração assemelhava-se a um gemido terno, ao +uivo +lamentoso do genio da meia-noite, que, abrindo as suas +negras azas, annunciasse aos phantasmas o começo do +seu imperio. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[91]</span> +O barqueiro, que se levantára, caíu de novo no +meio +do barco e escondeu o rosto entre as mãos; seu amo +soltou uma exclamação de espanto.<br /> + +<br /> + +Um clarão avermelhado tingira subitamente as ondas, +como se um incendio começasse a lavrar no fundo do +Oceano. As vagas soltaram um gemido plangente, como +creanças açoitadas.<br /> + +<br /> + +E um concerto horrivel, formado por muitas vozes, +erguera-se do fundo dos mares; e essas vozes cantavam +os psalmos da penitencia.<br /> + +<br /> + +Mas as palavras, cheias de uncção, e impregnadas +de +tristeza das sublimes poesias do rei propheta, tomavam +uma accentuação ironica, como se passassem pelos +labios +requeimados dos anjos malditos.<br /> + +<br /> + +No meio d'essas vozes roucas fez-se ouvir de repente +uma voz suave e argentina de mulher, doce como o gemer +da brisa nas solidões do Oceano, feiticeira como a +voz das seductoras sereias.<br /> + +<br /> + +Mas aquella mesma doçura tinha um não sei +quê de +medonho, e n'essas melodias celestiaes reverberava-se +o fogo do inferno.<br /> + +<br /> + +No meio das notas mais ternas, vibrava subitamente +uma outra aspera e dissonante, que produzia o effeito +que produziria no meio das harmonias da harpa o som +do estalar de uma corda.<br /> + +<br /> + +E essa voz tinha ao mesmo tempo uma profunda tristeza, +uma plangente intonação, uma pungente ironia e +um não sei quê d'attraente e seductor que fazia +pensar +na fatalidade.<br /> + +<br /> + +Os olhos do moço passageiro encheram-se involunta +Os olhos do moço passageiro encheram-se involuntariamente +de lagrimas, e com os braços estendidos, perdido +n'um vago extasi, parecia querer voar nas azas da +<span class="pagenum">[92]</span>melodia para o +antro sub-marinho, onde se aninhava a +infeitiçada sereia.<br /> + +<br /> + +E a voz cantava:<br /> + +<br /> + +<div class="poetry"> +Co'a vossa santa colera,<br /> + +raio que fere e brilha,<br /> + +ao impio que se humilha<br /> + +não fulmineis, Senhor!<br /> + +<br /> + +N'este meu seio embebe-se<br /> + +a vossa frecha ardente,<br /> + +e a mão omnipotente<br /> + +me opprime em seu furor.<br /> + +<br /> + +Da vossa ira o halito<br /> + +seccou-me membro a membro,<br /> + +e ai! se então me lembro<br /> + +do meu longo peccar,<br /> + +de como olvidei, réprobo,<br /> + +santos dictames vossos,<br /> + +oh! sinto até meus ossos<br /> + +um frémito agitar!<br /> + +<br /> + +O fardo immenso e horrido<br /> + +da minha iniquidade,<br /> + +á voz da Divindade,<br /> + +a fronte me curvou.<br /> + +Da minha carne as ulceras<br /> + +corrompe-as a lembrança<br /> + +da impia atroz folgança,<br /> + +que a Deus me arrebatou. +</div> + +<br /> + +Era triste, profundamente triste a voz, que assim +cantava nos abysmos do Oceano as primeiras palavras +do primeiro psalmo da penitencia. Ia enfraquecendo +pouco a pouco até desfallecer quasi de todo no ultimo +verso, mas então a voz vibrava de novo com aspere +Era triste, profundamente triste a voz, que assim +cantava nos abysmos do Oceano as primeiras palavras +do primeiro psalmo da penitencia. Ia enfraquecendo +pouco a pouco até desfallecer quasi de todo no ultimo +verso, mas então a voz vibrava de novo com aspereza, e +era quasi uma gargalhada infernal, de desafio ao Eterno, +<span class="pagenum">[93]</span>o grito ironico com +que voltava a cantar os seguintes +versos:<br /> + +<br /> + +<div class="poetry"> +Co'a vossa santa colera,<br /> + +raio que fere e brilha,<br /> + +ao impio que se humilha<br /> + +não fulmineis, Senhor! +</div> + +<br /> + +N'este momento rasgaram-se as ondas, como se um +novo Moysés lhes tocasse com a varinha magica. +Entremostraram-se +aos olhos do espantado moço as profundidades +do mar. Foi isso rapido como um relampago, +mas deu-lhe tempo sufficiente para vêr o interior de +uma egreja gothica esplendidamente illuminada com uma +immensa profusão de cirios. Uma longa fileira de guerreiros +da edade média cercava os altares, mas no meio +da nave campeiava, coisa estranha! a meza de uma orgia, +e as taças de oiro, cheias de vinho espumoso, ostentavam-se +em cima da toalha. Uma mulher formosa +como os anjos, mas tendo na fronte pallida não sei que +inexprimivel sêllo da maldição divina, +ergueu-se, como +se fosse sustentada por azas invisiveis, até á +superficie +dos mares. Cerrou-se de novo o abysmo, e as ondas +purpureadas pelo reflexo dos cirios estenderam por +cima d'essa mysteriosa egreja o seu liquido docel.<br /> + +<br /> + +E o vulto feminino, com as vestes alvejantes ondeando +por cima das vagas, e roçando a fimbria na orla da espuma, +que o clarão vermelho fazia espuma de sangue, +com a corôa da orgia ainda na fronte, encaminhou-se +lentamente para o sitio onde o barco parára, porque o +pescador ainda não ousára nem sequer levantar-se. +<br /> + +<br /> + +O phantasma deslisava por cima das ondas, como se +invisivel mão o impellisse; já estava proximo do +bote, +e os seus olhos negros, onde scintillava uma chamma +<span class="pagenum">[94]</span>infernal, exerciam +uma incrivel fascinação no +nosso heroe. +Afinal parou, e os seus braços estenderam-se vagarosamente +para elle, a fronte pallida tombou-lhe para +o hombro, como lyrio pendido pelo tufão. Ignota languidez +suavisou-lhe o fogo do olhar. As tranças negras +desprenderam-se-lhe e fluctuaram-lhe nas espaduas. Os +labios descerraram-se, e a sua voz doce e melodiosa +suspirou, como um triste queixume os versos:<br /> + +<br /> + +<div class="poetry">N'este meu seio embebe-se<br /> + +a vossa frecha ardente,<br /> + +e a mão omnipotente<br /> + +me opprime em seu furor. +</div> + +<br /> + +Cego, louco, fascinado, o juvenil passageiro do bote +nem forças teve para resistir á +seducção. Inclinou meio +corpo para fóra do barco, estendeu as mãos, e ia +precipitar-se +nas ondas.<br /> + +<br /> + +―Jesus! bradou o barqueiro.<br /> + +<br /> + +O phantasma soltou um bramido de desesperação, +as ondas rasgaram-se de novo, e quando o moço abriu +os olhos, que fechára de deslumbrado pela chamma que +faiscára nas pupillas negras da gentil desconhecida, +já +o vulto feminino desapparecêra.<br /> + +<br /> + +Mas as ondas continuavam a conservar a sua côr escarlate, +e o canto dos psalmos vibrava ainda na immensidade.<br /> + +<br /> + +<h3> +III</h3> + +<br /> + +O terror tirára as forças ao barqueiro, o terror +lh'as +deu de novo. Lançou mão dos remos, e o bote +afastou-se +rapidamente d'aquelle terrivel sitio. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[95]</span> ―Sabes a historia +do que estamos vendo? perguntou +o companheiro do pescador, com voz ainda agitada.<br /> + +<br /> + +―Oh! se sei, senhor, é uma historia terrivel. Mas +não é n'este sitio nem a esta hora que eu a hei +de +contar.<br /> + +<br /> + +―Conta, tornou o interrogador imperiosamente, já +estamos longe do ponto fatal, e a voz dos réprobos +vae-se perdendo no horisonte.<br /> + +<br /> + +O barqueiro hesitou um instante, depois principiou +em voz tão baixa que mal se percebia, e sem deixar de +impellir vigorosamente o bote, a seguinte +narração:<br /> + +<br /> + +«Havia aqui d'antes, ha um bom par de annos, e +junto d'aquelle castello, cujas ruinas ainda póde divisar +penduradas como ninho de aguias em cima das fragas, +uma egreja que fôra mandada construir por um devoto +fidalgo d'aquelle solar, fidalgo que morreu em cheiro de +santidade. A igreja era tida em conta de milagrosa, e alli +concorriam immensos fieis attrahidos pela fama do templo, +e pelas virtudes do capellão, homem de vida austera, +affectuoso para com os humildes e nada servil com +os grandes, a quem dizia as verdades por mais amargas +que fossem, quando entendia que assim o exigiam +os deveres do seu ministerio.<br /> + +<br /> + +«Vivia então no castello um fidalgo devasso, filho +do +fundador da egreja, o qual, se lhe herdára as riquezas, +não lhe herdára as virtudes, porque os thesouros +da +terra na terra ficam, mas os thesouros do céo esses +voltam com o seu possuidor para o seio do Omnipotente.<br /> + +<br /> + +«Tinha esse fidalgo uma irmã. Linda era ella. +Gentil +a mais não poder ser. Dizem que o rosto é o +espelho +da alma, e se assim fosse, ninguem possuia mais +<span class="pagenum"><a name="p96">[96]</a></span>formosa +indole nem +mais candido espirito do que a irmã +de Guilherme, a filha do virtuoso Pelayo. Mas não era +assim. A natureza esmerára-se tanto em lhe aprimorar +a belleza physica, que se esquecêra de certo de cuidar +com egual desvelo na formosura moral. É assim que +dizem que Satanaz tem uma belleza seductora, e que +seria um guapo archanjo, se o pé caprino não +revelasse +a quem se deixa fascinar pela etherea gentileza +do anjo maldito, que está a contas com o pae da mentira. +Infelizmente Ignez não tinha esse signal que a +distinguisse dos anjos de que parecia irmã, e, se algum +cauteloso enamorado, para tranquillidade de consciencia, +lançasse <a href="#e8">uma vista de olhos</a> +para o +pésinho encantador +da formosa filha de Pelayo, não fazia mais do que +completar a fascinação, e, em vez da agua benta, +com +que tencionava aspergil-o, era natural que o cobrisse de +beijos, tão airoso era elle e tão pequenino, +tão pequenino +que parecia que a natureza, ao esquecer-se de +lhe formar a alma, se esquecêra tambem de lhe formar +o pé.<br /> + +<br /> + +«Quando ella passeava a cavallo por essas ferteis varzeas, +montada elegantemente n'um lindo cavallo preto, +todos se ficavam enlevados a contemplal-a, e não havia +donzella nem rico homem que não sacrificasse de boa +vontade a vida para fazer brotar um raio d'amor na +pupilla negra da gentil Ignez. Mas ninguem o conseguia, +e o marmore d'aquelle rosto adorado nunca se +purpureára com o rubor da paixão. Engano-me. +Paixão +sentia ella, vehemente, incestuosa, horrenda, e que lhe +devia incendiar o rosto não no vivo escarlate do pejo +de donzella enamorada, mas sim no rubor da vergonha +e do remorso. A réproba amava seu irmão! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[97]</span> +«E não imagine que ella occultasse essa +paixão criminosa. +Pelo contrario gloriava-se d'ella impudentemente. +E o espectaculo, que davam aquelles dois impios, +era um escandalo contínuo para os bons christãos +dos arredores.<br /> + +<br /> + +«Não se faz idéa das orgias freneticas +e loucas, a +que no castello se entregavam aquelles dois abandonados +de Deus. Quem passasse á meia-noite pelo caminho +que serpeia na montanha, e onde estava situado o solar +defrontando com a egreja, havia de parar cheio de +religioso terror ao vêr de um lado o immenso +clarão +das luzes incendiando as vidraças da sala da orgia, ouvindo +os cantares ebrios, os risos descompassados, as +blasphemias, as musicas voluptuosas, e dando com a +vista do outro lado na casa do Senhor, muda, deserta, +sepultada em trevas, como um terrivel archanjo que +contemplasse com olhar sevéro os folgares dos malditos, +e que esperasse silencioso que soasse a hora da +punição.<br /> + +<br /> + +«O mar batia de continuo nos rochedos, e aquelle +ruido incessante, se o ouvissem nas salas, havia de +lhes soar lugubremente como a voz justamente irritada +do Deus vingador.<br /> + +<br /> + +«A egreja e o mar! Diante do templo erigido pela +piedade dos homens, diante do templo immenso em que +mais se revela a imagem da Providencia, como poderia +haver quem esquecesse por tal fórma os preceitos da +lei divina?<br /> + +<br /> + +«Pois havia! e á noite, quando na mysteriosa +soledade +da nave, se erguiam os mortos do seu leito de +pedra para se ajoelharem diante do altar, quando o vasto +Oceano desprendia dos seus labios de espuma o hymno +<span class="pagenum">[98]</span>religioso com que +celebra a omnipotencia de Deus, +accendiam-se as luzes no salão do castello, sentavam-se +á meza da orgia Guilherme e Ignez e alguns +cortezãos +das suas devassidões, porque os seus eguaes todos se +haviam desviado d'aquella Gomorrha amaldiçoada, sobre +a qual cedo ou tarde cairia o fogo do céo; e a +irmã do castellão, no fim do banquete, cingia a +fronte +com uma grinalda de rosas, empunhava a harpa, e cantava +canções bacchicas com essa voz melodiosa, pura +e vibrante, que os anjos lhe invejavam, para descantar +os seus hymnos de louvor ao Eterno.<br /> + +<br /> + +«Um dia o velho capellão, que fôra o +primeiro padre +que dissera missa na egreja cujo fundador fôra o pae +dos dois devassos, dirigiu-se ao castello, tencionando +chamar para o redil da egreja aquellas duas ovelhas +desgarradas por atalhos de maldição.<br /> + +<br /> + +«Nada conseguiu senão excitar o odio de Ignez, que +ouviu furiosa as reprehensões do padre, e que foi +immediatamente +queixar-se a Guilherme da insolencia do +sacerdote, e pedir-lhe, como premio de amor, a cabeça +do digno homem, como outr'ora Herodias pedia a Antipas +a cabeça de S. João Baptista.<br /> + +<br /> + +«Não ousou conceder-lh'a Guilherme. Conservava +ainda, no meio dos seus vicios, um respeito supersticioso +por seu pae, e não ousava tocar na pessoa inviolavel +d'aquelle a quem Pelayo confiára o templo que +fundára.<br /> + +<br /> + +«Não insistiu Ignez; mas projectos de +vingança atroz +calaram immediatamente n'aquelle espirito pervertido.<br /> + +<br /> + +«Uma noite, noite de Natal, a chuva caía em +torrentes, +açoitando egualmente as vidraças do castello, +illuminadas com o clarão do festim, e os vidros de +côr +<span class="pagenum">[99]</span>da egreja atravez +dos quaes coava a religiosa luz dos +tocheiros accesos para se celebrar a tocante solemnidade +da missa da meia-noite.<br /> + +<br /> + +«O mar rugia de encontro aos rochedos, e soltava +ora gemidos pavorosos, ora lamentosos queixumes.<br /> + +<br /> + +«O vendaval corria infrene por sobre as ondas.<br /> + +<br /> + +«De mais folias ainda do que de costume era testemunha +o salão do castello. Os gritos dos ebrios ouviam-se +cá fóra distinctamente, e faziam com que todos +os que se dirigiam á missa se persignassem com horror.<br /> + +<br /> + +«Sentada n'uma cadeira de espaldar, junto de seu +irmão, +Ignez, com os cabellos em desordem, soltos pelas +espaduas núas, com a lascivia no olhar e na attitude, +desferia a harpa de oiro e descantava as mais alegres +canções.<br /> + +<br /> + +«O vento e o mar soltavam cá fóra os +seus tristes +e lugubres lamentos.<br /> + +<br /> + +«De repente soou meia-noite na torre da egreja. Os +repiques da sineta annunciaram immediatamente que +ia principiar a missa.<br /> + +<br /> + +«Cessaram os risos e os cantares no castello de Guilherme. +Só Ignez com o seu diabolico sorriso a pairar-lhe +nos roseos labíos, exclamou:<br /> + +<br /> + +«―De que vos temeis, nobres cavalleiros? Tão +desgeitosa +estou já no dedilhar da harpa, que lhe prefiram +o agudo cantar da sineta? Tão enfraquecida está a +minha +voz, que cessem de a escutar para ouvirem o +bronze de um campanario?<br /> + +<br /> + +«N'este mesmo instante um raio fuzilou no espaço, +inundando a sala com a sua luz phosphoríca, e o vendaval, +redobrando de força, fez em estilhas uma das +vidraças. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[100]</span> +«Todos sentiram um convulso tremor percorrer-lhes +as veias, e o proprio Guilherme limpou o suor frio que +lhe escorria na testa. Ignez continuou:<br /> + +<br /> + +«―Receiaes a tormenta? Quereis um conselho? +Deixemos esta sala que o vento vae tornar inhabitavel, +e que a chuva vae inundar, e vamos procurar um abrigo +na egreja. Alli, sim, que é sala commoda. Utilisemol-a. +Um ultimo copo de vinho, meus senhores, e façamos a +transferencia.<br /> + +<br /> + +«Todos obedeceram ás ordens da formosa Ignez. +Beberam +um copo de vinho, e ergueram-se bradando resolutamente: +«Para a egreja.»<br /> + +<br /> + +«O ministro de Deus subira n'esse instante ao altar +revestido dos seus sagrados paramentos. Tornavam-n'o +respeitavel o seu caracter augusto de immaculado sacrificador, +e ainda mais o seu diadema de cabellos +brancos, e a invisivel aureola de virtudes que lhe circumdavam +a fronte.<br /> + +<br /> + +«A multidão ajoelhada sentia como que o espirito +de +Deus baixar ao templo, evocado pelo santo sacerdote. +O orgão começava a gemer os seus doces cantares. +A +tempestade parecia respeitar aquelle sacro asylo, suspirando +plangente nas frestas ogivaes, e não rugindo +pavorosa, como quando sacudia as suas negras azas +em torno do castello.<br /> + +<br /> + +«Tudo era socego e serenidade n'aquella divina estancia.<br /> + +<br /> + +«Subito irrompeu pelo portal da egreja a turba dos +ebrios, em descompostos cantares. Ficou gelada de terror +a devota multidão. Perturbado quando erguia a +Deus o immaculado espirito, o sacerdote voltou-se e +deu com os olhos na bella Ignez, que vinha na frente +<span class="pagenum">[101]</span>encostando-se com +insolente descaro ao braço de seu +irmão.<br /> + +<br /> + +«Inflammado em santa colera, o velho ministro do +Senhor desceu os degraus do altar, e, dirigindo-se aos +recem-chegados, bradou com voz sonora, em que vibrava +o echo das iras de Deus:<br /> + +<br /> + +«―Parae, não profaneis o templo, e não +obrigueis a +fulminar-vos o raio de excommunhão, que vos está +impendente.<br /> + +<br /> + +«Era venerando o vulto apostolico do santo varão. +O povo caíu de joelhos, e a tempestade suspendeu os +seus bramidos, como que respeitosa e tremula.<br /> + +<br /> + +«Ouviam os elementos desvairados a voz do ministro +do Omnipotente. Só ficavam cerrados os ouvidos dos +impios.<br /> + +<br /> + +«Era porque chegára a hora fatal, e a +taça das iniquidades +trasbordára emfim.<br /> + +<br /> + +«Ignez sorriu-se meigamente para seu irmão. Que +doce, que angelico sorriso! Quem diria que esse sorriso, +que rescendia amores, era apenas um incitamento +ao assassino?<br /> + +<br /> + +«Pois foi. Guilherme allucinado arrancou do punhal, +e feriu o velho sacerdote.<br /> + +<br /> + +«O sangue espadanou da ferida, e salpicou, tingindo +de escarlate o candido vestido de Ignez.<br /> + +<br /> + +«A multidão fugira horrorisada, os criados, impios +como seus amos, haviam trazido n'esse instante a meza +da orgia.<br /> + +<br /> + +«Mas assim que baqueou o sacerdote, a tempestade, +suspensa por um momento, soltou-se com novo furor. +Rugiu o vento nas frestas da egreja, fuzilaram os raios, +bramiu, quebrando-se nos «Mas assim que baqueou o sacerdote, +a tempestade, +suspensa por um momento, soltou-se com novo furor. +Rugiu o vento nas frestas da egreja, fuzilaram os raios, +bramiu, quebrando-se nos rochedos, o Oceano enfurecido, +<span class="pagenum">[102]</span>e +os tumulos de pedra da egreja estalaram como +se fossem de vidro.<br /> + +<br /> + +«E do tumulo de mais primoroso lavor, surgiu, envolto +na mortalha, o espectro de Pelayo, o fundador da +egreja. Ondeiavam-lhe ainda as barbas nevadas sobre +o funebre escapulario, e das orbitas cavadas, coisa horrivel! +brotavam lagrimas ardentes.<br /> + +<br /> + +«Ergueu-se, ergueu-se; já não tocava +com os pés no +chão marmoreo da egreja. O vento engolphando-se pelo +portal do templo, agitava-lhe as pregas da mortalha. +Com as mãos unidas, em attitude de +oração, o velho +finado, subindo lentamente nos ares, parecia um d'esses +prophetas que o Senhor Deus arrebatava para as +alturas do Empyrio.<br /> + +<br /> + +«Quando chegou ao tecto, o tecto abriu-se como por +encanto e o venerando finado continuou a sua magestosa +ascensão na atmosphera que se esclarecia em torno +d'elle, como se aquelle cadaver irradiasse luz.<br /> + +<br /> + +«Os impios haviam ficado immoveis e attonitos de +terror. Mas, apenas o velho Pelayo se sumiu ao longe +na região das nuvens, resoou em toda a egreja um terrivel +estampido. O orgão vibrou, sem que mão humana +o tocasse, e o tremendo <em>Dies irae</em> +jorrou em torrentes +de severa melodia pela nave do templo. Vacillaram os +columnelos, nos frisos e laçarias gemeu o vento em +canticos sinistros, e, como se o vendaval a tivesse arrancado +pela base, aquella mole immensa levantou-se +do chão, oscillou nos ares como impellida por invisivel +fundibulario, e arrojou-se ao Oceano, levando no seu +seio os profanadores, que soltaram um ultimo rugido +de desespero.<br /> + +<br /> + +«Abriu-se o mar para tragar a preza enorme que se +<span class="pagenum">[103]</span>lhe offerecia, +depois a liquida superficie uniu-se de +novo, e essa mortalha immensa, cujas pregas são as +ondas, desenrolou-se para encobrir esse cadaver de +pedra.<br /> + +<br /> + +«Desde então todas as noites, ao bater da +meia-noite, +accendem-se os cyrios na egreja sepultada, e, no fundo +do mar, os réprobos entoam os psalmos da penitencia.<br /> + +<br /> + +«A voz de Ignez sobreleva a todas, e exerce ainda, +do fundo do Oceano, a sua irresistivel seducção.<br /> + +<br /> + +«Ás vezes ergue-se o phantasma da formosa +até ao +cimo das ondas, e arrasta para os abysmos os incautos +que cedem ao magico poder dos seus feitiços.<br /> + +<br /> + +«Proteja-nos o Senhor contra estas +tentações. Eis-nos +chegados á praia.<br /> + +<br /> + +<div class="dots"></div> + +<br /> + +<div class="dots"></div> + +<br /> + +<div class="dots"></div> + +<br /> + +<div class="dots"></div> + +<br /> + +O barqueiro amarrou o bote, e saltou em terra. O +moço passageiro ficou largo tempo a contemplar o +Oceano.<br /> + +<br /> + +As ondas conservavam ainda ao longe o seu reflexo +escarlate, e a voz dos precitos, enfraquecida pela distancia, +vinha expirar na praia em melancolica toada.<br /> + +<br /> + +Aos primeiros clarões da aurora tudo se dissipou; +apagou-se a pouco e pouco a luz vermelha, ao passo +que se ia aclarando mais o horisonte, e que as ondas +se iam branqueando com o tenue fulgor do alvorecer.<br /> + +<br /> + +O canto dos malditos foi tambem esmorecendo a +pouco e pouco, até que a ultima nota vibrou solitaria +no espaço; e esse silencio singular que precede o romper +<span class="pagenum">[104]</span>do dia foi apenas +quebrado pelo hymno eterno do +marulhar das ondas.<sup><a href="#1">[1]</a></sup> +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Houve um momento de silencio, quando o doutor +Macedo acabou a leitura do romance. N'aquelle grupo +havia de certo n'esse instante um coração que +esse silencio +fazia bater com desusada violencia. Afinal Lucio +Valença quebrou o encanto, dizendo:<br /> + +<br /> + +―Decididamente, caro doutor, o nosso desconhecido +collega deu um golpe de mestre, escolhendo o para +leitor de uma lenda. A sua voz deu-me arripios, as suas +inflexões resuscitaram a meia-noite. Co'a breca! houve +um momento, em que me não atrevi a olhar para a +<span class="pagenum"><a name="p105">[105]</a></span>janella, +com medo +de vêr encostado aos vidros o espectro +fascinador de Ignez.<br /> + +<br /> + +―Ah! de certo, disse ou antes balbuciou Leonor, +nem assim se póde avaliar o merito da lenda. O doutor +é como um d'estes actores, que transformam sempre +em magnificos papeis as mais insignificantes banalidades.<br /> + +<br /> + +O doutor sorriu-se para ella maliciosamente, mas ao +mesmo tempo um concerto de elogios protestava contra +a phrase dubia de Leonor. O mais ardente no applauso +era Henrique Osorio.<br /> + +<br /> + +―Bem! chegou o momento solemne! disse Macedo, +o publico chama pelo auctor, e eu, como no theatro +francez e hespanhol, depois dos tres cumprimentos do +estylo, vou arrojar o nome do poeta á platéa +enthusiasmada. +Se me dispensam dos cumprimentos, substituo-os +por uns certos effeitos oratorios.<br /> + +<br /> + +―Vá! vá! diga, doutor! bradaram todos em +côro.<br /> + +<br /> + +―Um! exclamou o doutor Macedo, batendo as palmas; +o auctor é uma senhora linda, elegante e espirituosa.<br /> + +<br /> + +―Isso é abusar, doutor! bradaram os circumstantes +indignados.<br /> + +<br /> + +―Dois! tornou Macedo. Acha-se presente a referida +senhora.<br /> + +<br /> + +―Estrangulamol-o? propoz Lucio Valença.<br /> + +<br /> + +―Um voto de censura na acta! bradou o visconde +da Fragosa, sempre parlamentar.<br /> + +<br /> + +―Dependuramol-o da <a href="#e9">janella</a> +até elle dizer o +nome! +exclamou Henrique Osorio.<br /> + +<br /> + +―Já o tinha dito, se vocês me não +interrompessem, +exclamou placidamente o doutor Macedo emquanto a +<span class="pagenum">[106]</span>viscondessa da +Fragosa, Leonor e Isaura riam a bom +rir da alegre scena.<br /> + +<br /> + +―Então falla, +<em>ventre-saint-gris</em>! bradou Roberto +Soares.<br /> + +<br /> + +―<em>Ventre-saint-gris</em> não +é da edade média, sr. Roberto +Soares, disse o doutor Macedo que já erguera as +mãos +para bater as palmas pela terceira vez, e que tirou +tranquillamente um charuto da algibeira.<br /> + +<br /> + +―Uma corda! bradou Henrique Osorio.<br /> + +<br /> + +―E um algoz de boa vontade! exclamou Lucio Valença.<br /> + +<br /> + +―Á ordem! acudiu logo o visconde da Fragosa.<br /> + +<br /> + +Então, o doutor Macedo, com o charuto ainda não +acceso nos dentes, bateu as palmas, e disse:<br /> + +<br /> + +―Tres!<br /> + +<br /> + +Estabeleceu-se um profundo silencio.<br /> + +<br /> + +―A lenda que tive a honra de submetter á +apreciação +de vv. ex.<sup>as</sup>, concluiu o doutor, foi escripta +pela +ex.<sup>ma</sup> sr.<sup>a</sup> D. Leonor de +Mattos e Vasconcellos, filha do +nosso excellente amigo, visconde da Fragosa.<br /> + +<br /> + +―Tu, Leonor! exclamou Henrique Osorio estupefacto.<br /> + +<br /> + +―Tu, filha! disse a viscondessa com os olhos rasos +de agua.<br /> + +<br /> + +―Eu logo vi que tinha sido ella, exclamava o pae +todo ufano.<br /> + +<br /> + +Confusa no meio de todos os comprimentos, com que +em todas as familias se festejam as mais insignificantes +estreias litterarias do filho mimoso da casa, Leonor nem +ousava erguer os olhos para Henrique. Este contemplava-a +pasmado, depois mirava a furto Isaura, um +pouco fria, um pouco descontente com a ovação da +sua +<span class="pagenum">[107]</span><em>amiga</em>, +e evidentemente de si para si +lamentava que +não fosse a pallida menina a sonhadora das phantasias +da <em>Egreja profanada</em>.<br /> + +<br /> + +Mas tambem, quando tornava a mirar Leonor, e a +via modesta, perturbada, evidentemente envergonhada +de ser o alvo de todas as attenções, agora mil +vezes +mais affavel com Isaura do que até ahi, como que pedindo-lhe +perdão do seu involuntario triumpho, Henrique +não podia deixar de dizer de si para si que havia +um abysmo entre a pretenciosa frivolidade de Isaura e +a desaffectada simplicidade de Leonor, que bem se via +que não dava ao seu conto maior valor do que elle merecia, +e que, escrevendo-o, parecia ter querido mostrar +apenas que não era estranha ás altas +preoccupações do +espirito, e que a sua phantasia tambem tinha azas para +se arrojar ao mundo do ideal.<br /> + +<br /> + +E, emquanto a conversação volteiava alegremente +em +torno do conto de Leonor, emquanto uns narravam os +calafrios que tinham sentido, e outros felicitavam o leitor +e a auctora, Osorio, encostando a fronte na mão, +ficou profundamente pensativo.<br /> + +<br /> + +Instantes depois, dispersava-se a companhia, e Leonor, +passando junto de Henrique para se retirar para +o seu quarto, sentia poisar na sua mão, para a demorar, +a mão tremente do seu companheiro de infancia.<br /> + +<br /> + +Ella estremeceu toda, como se se tivesse posto em +contacto com uma garrafa de Leyde.<br /> + +<br /> + +―Sabes, disse-lhe elle, que achei encantador o teu +conto?<br /> + +<br /> + +―Sabes que te não acredito? respondeu ella, rindo, +e já senhora de si.<br /> + +<br /> + +―Oh! eu não faço a critica litteraria do +romance. +<span class="pagenum">[108]</span>É +provavel que tenha innumeros defeitos. Digo-te apenas +que me impressionou. Quando o escreveste?<br /> + +<br /> + +―Hoje!<br /> + +<br /> + +―Hoje? acudiu elle cravando em Leonor um olhar +profundo.<br /> + +<br /> + +―Sim, tornou ella com o coração a bater-lhe +violentamente, +córada até á raíz dos +cabellos, mas resoluta, +quiz-te mostrar que já passou para mim o tempo das +bonecas, e que o que me preoccupa o coração e o +espirito +não são já as puerilidades dos nossos +brinquedos +de outr'ora, mas os affectos e as paixões da mulher.<br /> + +<br /> + +Henrique apertou-lhe docemente a mão.<br /> + +<br /> + +―Foi por minha causa, pois, que espertaste a phantasia, +para escreveres essa lenda? Tive eu a ventura +suprema de preoccupar devéras o teu espirito intelligente? +de fazer pulsar com mais força o teu ingenuo +e nobre coração?<br /> + +<br /> + +―Henrique! murmurou ella.<br /> + +<br /> + +―És um anjo, Leonor! disse elle em voz baixa.<br /> + +<br /> + +O doutor Macedo encaminhava-se para onde estavam +os dois. Leonor despediu se, e toda palpitante +de commoção +e... dil-o-hemos... tambem!... de alegria, +dirigiu-se para o seu quarto.<br /> + +<br /> + +O doutor Macedo sorriu-se para Henrique, e murmurou +maliciosamente:<br /> + +<br /> + +<div class="poetry"> +Si je vous le disais pourtant que je vous aime,<br /> + +Qui sait, brune aux yeux bleus, ce que vous en diriez? +</div> + +<br /> + +―O que! era esta, doutor? exclamou Henrique.<br /> + +<br /> + +―Pois quem, meu creançola? É necessario ter a +<span class="pagenum">[109]</span>myopia amorosa dos +vinte annos para o não perceber +ha immenso tempo.<br /> + +<br /> + +―Que quer você, Macedo! tornou Henrique, Leonor +foi minha companheira de infancia. Havia entre nós, +em creanças, uma certa desproporção de +edades. Entre +dois pequenitos uma differença de cinco annos abre um +abysmo! Na mocidade é um curtissimo intervallo. Costumei-me +a vêr sempre em Leonor uma creança. A +mulher feita revelou-se me agora, ao ouvir +lêr o conto +que ella escrevêra. Então contemplei-a, e li nos +seus +formosos olhos a bondade da sua alma, e a virgindade +do seu affecto. Só agora percebi o tremor da sua voz +nas palavras que me dirigia! E eu passava junto d'ella +quasi sem a conhecer!<br /> + +<br /> + +―Meu amigo, tornou Macedo, isso é uma historia +vulgar. Tem a gente ao pé da porta um lago tranquillo, +risonho, córado pelo esplendor do sol, nunca se lembra +de mergulhar n'essas aguas limpidas para colher a +perola que lá brilha no fundo, vae procural-a +então ao +mar das tempestades, mergulha, e encontra ostras. +Boa noite, meu amigo.<br /> + +<br /> + +E dirigiu-se para o seu quarto. Henrique imitou-o, +mas n'essa noite não dormiu. A imagem que fluctuava +diante dos seus olhos semi-cerrados, não era, +não, a +pallida imagem de Isaura. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Devemos dizer que na noite immediata, esqueceu +completamente a hora fatidica, e que tendo Lucio Valença +pedido a palavra ás dez horas e meia da noite, +allegando que era longo o seu romance, que, sendo +<span class="pagenum">[110]</span>phantastico, por +isso que o personagem principal era +um ente inanimado, tinha comtudo uma pequena parte +propriamente legendaria, e que portanto podia começar +a ser lido antes da meia noite; acolhe-se com applauso +esta idéa, e Lucio Valença começou +logo depois do chá +a leitura do seu volumoso manuscripto. O doutor fizera +uma careta ao avaliar o numero de paginas que ia ter +que ouvir; Henrique Osorio e Leonor, enlevados nas +doçuras de um amor nascente, não tendo olhos +senão +um para o outro, amaldiçoavam a leitura que os ia privar +de algumas horas de doce conversação; Isaura, +despeitada, furiosa por ter visto fugir-lhe um dos seus +vassallos, e mais furiosa ainda por lhe falharem todos +os manejos que empregava para reconquistar o inconstante, +que tratára com tão soberbo desdem quando o +tivera nos seus ferros, dirigira de pura colera as suas +baterias para Lucio Valença, e preparára-se +portanto +para ouvir o conto com a mais profunda attenção.<br /> + +<br /> + +O visconde da Fragosa, o conselheiro Madureira e +um honrado e silencioso proprietario de Val de Prazeres, +que vinha completar a partida do visconde, não +abandonaram sem um suspiro o <em>boston</em>. +Resignaram-se, +porém, e Lucio Valença, presentindo vagamente a +hostilidade +do auditorio, começou com voz não muito firme +a leitura do manuscripto, que se intitulava <em>Memorias +de uma bolsa verde</em>. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[111]</span> +<h2>MEMORIAS D'UMA BOLSA VERDE</h2> + +<h3><br /> + +</h3> + +<h3>I</h3> + +<br /> + +<br /> + +Um dia fôra eu assistir, por curiosidade, a um +leilão +que se fizera em casa de uma rica viuva que fallecêra. +Os parentes, apressados em se desfazerem de todos +esses moveis, que para elles não tinham valor algum, +abriram o leilão apenas se fechou a campa que ia encerrar +a pobre finada. O que importavam aos herdeiros +esses pobres livros, por exemplo, sobre os quaes se +debruçàra tantas vezes a fronte encanecida da +viuva, +esses mysteriosos confidentes dos seus pezares e das +suas saudades, cujas paginas teriam sido regadas com +tantas lagrimas, e que tantas vezes teriam repousado +sobre os seus joelhos tremulos, quando ella, interrompendo +a leitura nocturna, fitasse os olhos humedecidos +no sitio onde seu marido se costumava sentar, a lampada +a cuja doce luz tinham tantas vezes travado uma +<span class="pagenum">[112]</span>d'essas deliciosas +conversações intimas, tornadas +mais +suaves ainda pelo conchego do lar, e pelo prazer de +sentir a chuva bater nas vidraças, e o vento gemer de +caixilhos das janellas? Que significação tinham +essas +coisas para os corvos ávidos, que esperam anciosamente +que o corpo se transforme em cadaver, para +descerem em bandos a saciar a fome impaciente? E +quem sabe se, reunidos em volta do leito mortuario, +não miravam com os olhos affectadamente compungidos, +onde brilhavam algumas lagrimas de convenção, +os trastes do quarto, e os proprios lençoes que agitava +o estertor da moribunda? Quem sabe se elles não estariam +já calculando o valor approximado d'esses objectos? +Ai! todo o anjo, que baixa a este mundo, tem +um demonio que lhe espia os passos, que o segue cautelosamente +sorrindo com um sorrir diabolico, que esconde +na sombra projectada pelas azas brancas do habitante +do céo as negras azas do habitante do inferno, +e que, apenas aquelle acaba de cumprir a sua missão +divina, começa a cumprir a sua missão infame, e a +desfazer por todos os modos o effeito salutar produzido +pela candida apparição.<br /> + +<br /> + +Após o anjo do amor vem o demonio do ciume, após +o anjo da caridade o demonio da ingratidão, após +o +anjo da morte o demonio da cubiça.<br /> + +<br /> + +Morre uma creatura boa, pura, santa; vem um anjo +de Deus cerrar-lhe os olhos, e levar para os céos, no +regaço da sua tunica transparente, o espirito immaculado +que se desprendeu do invólucro terreno. No rosto +do cadaver, sereno e tranquillo, fica como que um reflexo +do clarão que derramaram sobre elle as azas luminosas +do Senhor. Nada mais proprio para inspirar +<span class="pagenum">[113]</span>respeito do que +essa morte socegada, tão socegada como +a de um passarinho que esconde sob a aza a gentil cabecinha. +Uma suave compuncção se apodera do animo +de todos os circumstantes. Ninguem ousa perturbar o +magestoso silencio da camara funeraria; todos temem +profanar a augusta santidade d'aquella scena. Mas o +demonio da cubiça lá estava espreitando +á porta com +o seu olhar de tigre. Assim que o anjo bateu as azas, +entrou pé ante pé, debruçou-se sobre +todas as frontes +pendidas, bafejou-as com o halito repugnante, e logo +todos se ergueram apressadamente, e trataram de fazer +desapparecer o cadaver, de annunciar o leilão, de +preparar tudo para se reduzir a dinheiro, e para se fazerem +as partilhas. «É preciso tratar da +vida», dizem +elles. Regateiam-se as despezas do enterro, e, para se +resarcirem d'ellas, não conservam um unico objecto, +por mais desprezivel que seja o seu valor. Ahi tem +pouco mais ou menos a scena horrenda que precede +um acto tão natural como é um leilão.<br /> + +<br /> + +Por isso eu sempre resinto uma impressão desagradavel, +quando me vou confundir com a multidão de +compradores que penetram, com tão pouco respeito, +n'esses quartos outr'ora tão socegados, agora tão +ruidosos.<br /> + +<br /> + +No dia em que assisti ao leilão em que fallo, occorreram-me +estas idéas que acabo de expender.<br /> + +<br /> + +Já se tinha vendido a maior parte da mobilia. Os +sophás, as mezas, as cadeiras, os livros, tudo se +dispersára +já. O pregoeiro continuava a fazer apparecer os +differentes lotes, e, com o ouvido á escuta, repetia +machinalmente +os lanços dos circumstantes com uma rapidez, +e com uma segurança taes, voltando a cabeça +<span class="pagenum"><a name="p114">[114]</a></span>ora +para um lado, +ora para outro, que <a href="#e10">pareceria</a> +ser +antes machina do que homem, se não fossem as +chalaças +com que entremeiava o seu pregão monotonamente +saltitante (se assim me posso exprimir). Eu estava encostado +a uma porta, e contemplava com certa tristeza +aquelle grupo, em que figuravam os rostos indifferentes +dos compradores, as physionomias ávidas dos herdeiros, +e a cara maliciosamente alvar do pregoeiro, +pago para alegrar a assembléa com os ditos joviaes +que tinha fabricado, e que provavelmente já lhe teriam +servido para dezenas e dezenas de leilões d'aquella especie. +<br /> + +<br /> + +Finalmente appareceu um objecto, cuja +<em>exhibição</em> +(perdôem o anglicismo) foi acompanhada com um commentario +burlesco do pregoeiro, e acolhida por uma +gargalhada da assembléa.<br /> + +<br /> + +Era uma bolsa de seda verde com borlas de oiro. +Mas que bolsa, senhores! Era necessaria toda a cortezia +do pregoeiro para conservar esse nome a um objecto +que já não tinha fórma! Era uma bolsa +de cabellos +brancos! Rota, esburacada, sem côr definida e em +cujas borlas o oiro brilhava... pela sua ausencia! O +pregoeiro passeiou-a triumphantemente por diante de +todos, e todos se riam, e todos zombavam, e todos faziam +uma observação que redobrava as gargalhadas.<br /> + +<br /> + +Finalmente o pregoeiro passou por diante de mim, e +mostrou-m'a. Foi então que eu a pude vêr bem.<br /> + +<br /> + +Se a podessem vêr como eu a vi, haviam de se compadecer +d'ella. No meio da alegria geral, que a rodeiava, +ella só parecia chorar, e conservar uma triste +recordação d'aquella de quem todos se esqueciam! +Se +a podessem vêr como eu a vi, baloiçando-se +tristemente +<span class="pagenum">[115]</span>na mão +grosseira d'aquelle homem que a estortegava, +apertando os seus frageis membrosinhos de seda! E a +pobre bolsa parecia olhar com uma tristeza profunda +para todos aquelles rostos crueis, em que a zombaria +se pintava, e de cada um dos rasgões que tinha aberto +no seu corpinho, d'antes tão gentil, a mão +destruidora +do tempo, parecia sair um gemido.<br /> + +<br /> + +Que profunda impressão me causou o seu aspecto!<br /> + +<br /> + +Talvez os meus leitores chegando a este ponto, se +riam de mim. Pois não tem rasão! Eu acredito que +os +objectos inanimados, que nos rodeiam, recebem de nós +como que um reflexo de sensibilidade. Quando morre +uma pessoa n'uma casa, não vêem como tudo toma um +aspecto luctuoso? A sala, em que tantas vezes estivemos +sós em quanto essa pessoa vivia, tinha por acaso +o silencio lugubre que lhe notamos apenas ella deixa +de existir? Os livros, cuja leitura desperta em nós o +enthusiasmo, serão simplesmente mudos reproductores +dos pensamentos do escriptor, e não conservarão +como +que o vestigio do talento, que por intermedio d'elles +se manifestou? E qual será o motivo d'essa inexplicavel +affeição que nós consagramos a certos +moveis queridos? +do pesar que sentimos ao vêrmo-nos obrigados +a abandonal-os?<br /> + +<br /> + +Quando alta noite acordam, e, sem poderem conciliar +o somno, ficam deitados de olhos abertos a contemplar +as trevas, e a escutar o silencio, não sentem +de repente um indizivel murmurio, e umas inexplicaveis +luzes encherem o quarto e rasgarem a escuridão? +Como explicam isso? Eu creio firmemente que esse +ruido, que se não ouve quando não estamos n'essas +circumstancias, é o que produzem as mysteriosas +conversações +<span class="pagenum">[116]</span>dos espiritos +invisiveis que existem +escondidos +em cada um d'esses moveis, e que alta noite se +reunem, para segredarem uns com os outros, e que +esse tenue fulgor é resultado do scintillar das pequeninas +azas d'esses sylphos subtis.<br /> + +<br /> + +Quer me acreditem, quer não, o que eu lhes posso +assegurar é que a tal pobre e velha bolsa verde, quando +viu a minha physionomia séria no meio de tantos rostos +zombeteiros, lançou-me um olhar supplicante a pedir-me +que a livrasse d'aquella triste posição.<br /> + +<br /> + +E o caso é que a comprei, com grande espanto de +todos os circumstantes, que principiaram por olhar para +mim com uns olhos muito abertos, e que concluiram +por sorrirem uns para os outros, dando a entender que +me julgavam doido. O pregoeiro entregou-me a bolsa, +e recebeu o dinheiro, tendo cuidado de interpôr, como +se fosse por acaso, uma cadeira entre nós ambos, com +receio que me d'ésse +alguma furia.<br /> + +<br /> + +Escuso de dizer que ninguem me disputou o lanço. +Nem mesmo esses agentes, que tem, em giria de leilão, +o nome expressivo de <em>picadores</em>, ou, +por abuso de +metaphora, de <em>toireiros</em>, ousaram +erguer a voz para +m'a fazerem pagar mais caro.<br /> + +<br /> + +A surpreza emprestára-lhes um bocadinho de consciencia.<br /> + +<br /> + +Pois o que é certo é que eu comprei a bolsa, e +saí +com ella muito ancho, sem me importar com as largas +alas que me abriam as pessoas presentes, imitando a +prudencia do que m'a vendêra.<br /> + +<br /> + +E, como eu passo a mostrar-lhes, não tive motivo de +me arrepender.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[117]</span> +<h3>II</h3> + +<br /> + +Era uma noite de maio. Eu estava sentado á meza +do trabalho. Um caderno de papel, ainda virgem de letras, +estendia-se diante de mim aterrador na sua alvura, +que me advertia mudamente da obrigação que eu +tinha +contrahido de a fazer desapparecer debaixo de uma alluvião +d'esses monstrosinhos negros, que se chamam +letras, que, amontoando-se umas em cima das outras, +formam as palavras, essas mysteriosas colmeias, dentro +das quaes se agita o candido enxame das idéas. O tinteiro, +boquiaberto, não cessava de me mostrar o oceanosinho +sombrio que tumultuava dentro de seus vitreos +muros. A penna, debruçando se sobre +esse mar tenebroso, +contemplava-o com indifferença, preparando-se +para o sulcar atrevidamente, quando eu julgasse opportuno +começar a navegação.<br /> + +<br /> + +Uma janella aberta oppunha aos meus designios um +obstaculo insuperavel.<br /> + +<br /> + +Uma janella aberta?―diz o leitor; porque a não fechava?<br /> + +<br /> + +O leitor de certo se não recorda de eu lhe ter dito +que estavamos em maio.<br /> + +<br /> + +Fechar uma janella quando a fada da primavera percorre +as urnas das flôres, colhe todos os aromas que +encontra, e vae espalhal-os prodigamente no regaço das +brisas, que doidejam depois na atmosphera, alegres +como as creanças folgazãs que correm na campina +com +as suas arregaçadas de flôres! Fechar uma janella! +E +porque não fecha o leitor os ouvidos quando está +escutando <span class="pagenum">[118]</span>uma +melodia de Bellini, e os olhos quando está +vendo um quadro de Raphael?<br /> + +<br /> + +Eu, com um charuto na bocca, docemente recostado +na minha cadeira, aspirava os perfumes do ambiente, +sem me importar com as provocações do papel, com +as +agitações da tinta, e com as +suggestões da penna. Devo +até dizer, para ser completamente veridico, que me deliciava +em desprezar tudo isso.<br /> + +<br /> + +<em>Fi donc!</em> Um escriptor!<br /> + +<br /> + +Eu queria vêl-os no meu logar! Uma larangeira a +enviar-me perfumes perfidos, e, quando me via prestes +a estender a mão para a penna, a baloiçar-se sem +piedade, e a remetter-me directamente nas azas da +viração +uma taça inebriante, cheia a trasbordar dos seus +effluvios! E um rouxinol, um travesso rouxinol, muito +escondido n'uma alcovasinha de folhas, que o demonico +da laranjeira lhe tinha arranjado de proposito para acabar +de me tentar, a desentranhar-se em melodias que +era um enlêvo escutal as! Sem fallar +n'umas roseiras, +que a pretexto de serem <em>dilletanti</em>, +e de serem impellidas +pela aragem, prepassavam por diante da minha +janella para ouvirem mais de perto aquelle Tamberlik +plumoso! Não mettendo em linha de conta a lua, que +se ria no céo a bandeiras despregadas, escancarando +com os frouxos de riso umas nuvens teimosas, que por +força queriam esconder-lhe as perolas que ella com as +gargalhadas mostrava á natureza, e que tinha a innocente +vaidade de contemplar espelhadas nas fontes! +Vão lá, com tudo isto, debruçar-se +sobre um caderno +de papel e escrever!<br /> + +<br /> + +Escrever; mas escrever o quê? Um romance de +amores?! Um poema?! Romances e poemas tinha eu +<span class="pagenum">[119]</span>na +imaginação, sublimes, portentososos, +admiraveis, +como todos os tem, e como ainda ninguem os escreveu.<br /> + +<br /> + +Se elles se desprendem, capitulo a capitulo, estrophe +a estrophe, e vão fluctuar na atmosphera de envolta +com os perfumes da rosa, com os canticos do rouxinol, +e com os raios da lua!<br /> + +<br /> + +E, apesar d'isso, não deixam que outros, que se possam +entornar sobre o papel, nos occupem ao mesmo +tempo a imaginação.<br /> + +<br /> + +Assim estava eu, torturando o espirito para obter +uma idéa, e encontrando n'elle mundos de poesia, +não +digo bem, um chaos de poesia, cujo <em>fiat +lux</em> eu nunca +poderia descobrir.<br /> + +<br /> + +De vez em quando revestia-me de animo, e tentava +levantar-me para ir fechar a janella! Mas a larangeira +baloiçava-se e deixava cair uma chuva de perfumes, o +rouxinol redobrava de gorgeios encantadores, os ramos +da roseira prendiam-se, ao perpassar, no parapeito da +janella, e deixavam ficar as suas rosas de cem folhas, +purpureas e embalsamadas, a mirarem curiosamente o +meu quarto; a lua desprendia indolentemente dos hombros +o seu manto de luz, arrastava-o no firmamento, +e eu caía desanimado na cadeira.<br /> + +<br /> + +De repente senti aos meus ouvidos uma voz ligeira +como um murmurio, que me fallava n'uma linguagem +desconhecida, mas que eu, por uma intuição +inexplicavel, +comprehendi immediatamente.<br /> + +<br /> + +Voltei-me, e com grande pasmo, vi a bolsa verde +em cima da meza.<br /> + +<br /> + +Era ella quem me fallava.<br /> + +<br /> + +―Amigo, dizia-me a velha bolsa, tu valeste-me n'uma +grande afflicção, e é justo que tenhas +a recompensa. +<span class="pagenum">[120]</span>Queres escrever? A +tua imaginação +preguiçosa, enervada +pelos effluvios d'esta noite de primavera, recusa-se +a dictar-te o que deves lançar no papel? Eu substituirei +a tua imaginação. Pega na penna, e escreve o +seguinte +no alto d'essa pagina branca: «<em>Memorias +d'uma +bolsa verde</em>.»<br /> + +<br /> + +Eu, estupefacto, obedeci machinalmente, e ahi vão +vêr os meus leitores o que a pobre bolsa velha me dictou. +Desculpem os erros do auctor. Não ha nada que +se pareça menos com um litterato do que uma bolsa. +A rasão é muito simples. A bolsa tem muitas vezes +dinheiro, +e um escriptor... Vamos ao assumpto.<br /> + +<br /> + +<h3> +III</h3> + +<br /> + +«Gira, gira, agulha ligeira, impellida por mão +tão +delicada. Cinge a fragil seda em suave abraço, +enlaça +os tenues fios uns aos outros, e prepara esse corpinho +gentil, a quem ha de o amor dar vida.<br /> + +<br /> + +«O amor, sim. Não vês a loira cabecinha +do anjo de +meigo sorriso, debruçando-se por cima do hombro da +tua formosa dona, a contemplar curiosamente os teus +rapidos movimentos?<br /> + +<br /> + +«Gira, gira, os instantes são preciosos, e +póde subitamente +chegar quem transtorne a surpreza tão cuidadosamente +preparada! Gira, gira sem cessar, agulha, +agulha subtil.<br /> + +<br /> + +«Que suave serenidade transparece no limpido olhar +d'aquella cuja mão febril te dirige! Quando um sorriso +anima a graciosa physionomia, contempla-se com enlêvo +o céo azul que lhe ri nos olhos, e as perolas, que os +<span class="pagenum">[121]</span>labios +entre-mostram! A quem fôr perspicaz tambem +esse sorriso mostra a alma, que é mais celestial do que +o olhar, mais candida do que as perolas da boquinha.<br /> + +<br /> + +«Mas a esse limpido firmamento doira-o agora o sol +de um affecto suave, cujo brilho não é offuscado +por +nenhuma nuvem. Os seus raios aquecem-lhe o +coração, +e alegram-lhe ao mesmo tempo todos os horisontes da +vida.<br /> + +<br /> + +«Porque vem misturar-se, comtudo, uma +inquietação +febril com o sentimento de felicidade que lhe anima as +feições? Oh! não receieis nada! Essa +mesma inquietação +é um prazer. Teme não ter completo o presente +que desejava offerecer a seu marido, que fazia annos +n'esse dia.<br /> + +<br /> + +«E por isso a agulha girava, girava com impetuosidade, +e os fios de seda agrupavam-se com uma ligeireza +inconcebivel!<br /> + +<br /> + +«Está a concluir-se a tarefa. A agulha +approxima-se +do sitio marcado. Um mate, um mate risonho lá surge +no horisonte. Apressa-te, agulha, faze prodigios de celeridade. +Emfim!<br /> + +<br /> + +«Dera-se o mate. As doiradas borlas pregaram-se +instantaneamente. Eil-o, o gentil producto de oito dias +de trabalho! A formosa senhora contempla-o com ternura. +O amor sacode o regaço cheio de perolas, e em +cada ponto faz pullular mil pensamentos apaixonados.<br /> + +<br /> + +«O ente, que nascera, era nem mais nem menos do +que esta humilde bolsa verde que lhe está dictando +essas linhas, senhor mandrião. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[122]</span> +<h3>IV</h3> + +<br /> + +Quando cheguei a este ponto interrompi eu a bolsa.<br /> + +<br /> + +―Minha senhora, observei com a respeitosa cortezia +que um escriptor consagra ao narrador officioso que lhe +conta uma historia, v. ex.<sup>a</sup> tem fallado +até agora n'uma +linguagem que me tem penetrado de admiração, +porque +me parece biblica, e o emprego d'esse estylo é +muito para apreciar n'uma bolsa que não foi contemporanea +de Isaias. Mas se v. ex.<sup>a</sup> antes de nascer falla +n'esse tom, receio muito que, se continuar na ascensão, +quando chegar á velhice, já os leitores, ainda +que +se mettam no balão de Nadar, não serão +capazes de a +seguir com a vista n'essas espheras inaccessiveis. Pedia, +portanto, a v. ex.<sup>a</sup> o favor de baixar o +vôo á +terra, +algumas vezes, afim de que os nossos leitores percebam +alguma coisa do que se fôr passando, sacrificando +por conseguinte o diploma de socia da academia... do +amphiguri, que, segundo me parece, está em caminho +d'obter. Desculpe-me esta ligeira observação.<br /> + +<br /> + +A bolsa olhou para mim com modos um tanto severos, +e respondeu:<br /> + +<br /> + +―Admiro-me bastante de tu te queixares. Sabe que +nem cheguei a dar-te uma ligeira amostra do estylo +pomposo que eu deveria empregar, e que te poupei o +prologo obrigado que precede lá entre vós outros, +os +homens, a magra biographia d'aquelles, a quem nomeaes +grandes, com a mesma convicção com que os antigos +romanos faziam a apotheose dos Tiberios e dos Caligulas. +Já vês que a rajada vae começar, e que +se me excitas +mais, bailam-te no meu discurso gregos, assyrios, +<span class="pagenum">[123]</span>indios e hebreus. +Mas voltemos ao que importa. Em logar +de te queixares, devias-me agradecer o eu não ter +dito uma palavra só ácerca do estado da Europa na +epocha do meu nascimento, nem de ter fallado nos +grandes homens que se agitavam no mundo, em quanto +a minha gentil creadora unia uns aos outros os fios +que me haviam de formar. Podia fazer-te gastar com +estes preambulos dez paginas, pelo menos. Não o fiz, +e tu accusas-me! Para te castigar não devia dizer nem +mais uma palavra.<br /> + +<br /> + +―Oh! por amor de Deus, continue v. ex.<sup>a</sup> como +quizer; estou prompto a admirar tudo quanto eu não +entender, nem v. ex.<sup>a</sup> tambem. Estou esperando.<br /> + +<br /> + +<h3>V</h3> + +<br /> + +«Nasci, continuou a bolsa, e a minha vista não +encontrou +nada que a ferisse, nada que lhe repugnasse +no quarto onde eu viera á luz. No movel mais insignificante +se denunciava a riqueza e bom gosto dos donos +da casa. Eu repousava mollemente no collo da minha +dona, e os meus membros recem-nascidos sentiram +logo o suave contacto da seda. Um alegre raio de sol +entrava pela janella, acariciava o meu corpinho verde, +e fazia resplandecer as minhas borlas doiradas. As agulhas +repousavam ao meu lado, contemplando curiosamente +a obra prima que tinham acabado de produzir. +A gentil habitante do quarto beijava-me carinhosamente +e, beijando-me, murmurava estas palavras que eu conservei +de cór:<br /> + +<br /> + +―«Vae, pobre bolsinha, repousar sobre o +coração +<span class="pagenum">[124]</span>d'aquelle a quem +tanto amo. Conserva a impressão dos +meus beijos, e, quando elle te approximar do rosto, +oh! anima-te, por um milagre de amor, e sê tu a mensageira +d'estes osculos que eu te confio. Dize-lhe, conta-lhe +que em segredo trabalhava em te fazer +<em>coquette</em>, +elegante, para seres digna d'elle. Olha, lê bem no fundo +do meu coração, para poderes narrar ao meu esposo +os thesouros de affecto que em mim se abrigam. Vae, +e Deus queira que elle te ache a seu gosto, e te faça +um bom acolhimento.<br /> + +<br /> + +«N'este momento um rapaz, cujo labio superior era +levemente assombreado por um bigodinho nascente, +entrou, e, dirigindo-se á minha dona, beijou-a com ternura.<br /> + +<br /> + +―«Que deliciosa bolsinha tu tens no collo!―disse-lhe +elle. Foi presente ou compra?<br /> + +<br /> + +―«Agrada-te?―tornou ella, contemplando-o meigamente.<br /> + +<br /> + +―«Acho-a lindissima.<br /> + +<br /> + +―«É tua.<br /> + +<br /> + +―«Minha?<br /> + +<br /> + +―«Tua, sim. Não te lembras que dia é +hoje? Completas +vinte e dois annos. Trabalho ha oito dias a furto +para te dar este presente. Sorria-me sósinha, quando +pensava na surpreza que te ia causar, quando te désse +a bolsa, e, saltando-te ao pescoço, te dissesse +alegremente:―Ahi +tens um presente da tua querida mulher, +é para vêres que pensa sempre em ti.―E +então agora +não mereço um beijo em paga?<br /> + +<br /> + +«E a galante senhora, unindo a acção +á palavra, tinha-se +pendurado no pescoço de seu marido, e contemplava-o +com olhos humidos de ternura. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[125]</span> +«Elle estreitou-a meigamente, e disse-lhe ao ouvido +baixinho, e beijando-lhe os cabellos:<br /> + +<br /> + +―«Amo te, meu anjo da guarda! +Amo-te e sou feliz, +feliz com o teu amor.<br /> + +<br /> + +―«E isso é dito com sinceridade?―perguntou ella, +sorrindo, travêssa.<br /> + +<br /> + +―«Não sou eu quem falla, é o +coração.<br /> + +<br /> + +―«Sim? Sobre esse coração é +que eu quero que +esta bolsa ande sempre! Advirto-te que tenho dentro +d'ella um genio familiar que me obedece, que ha de +lêr atravez do teu peito, e que me ha de vir contar os +segredos que tu julgares mais reconditos. Acceitas?<br /> + +<br /> + +―«Que remedio, meu anjo! Venha esse gentil +espião, +cuja côr me anima já, porque é a +côr da esperança. +Hei de lhe dar o observatorio mais commodo que +o meu casaco lhe podér proporcionar; telescopios +não +devem ser necessarios a quem possue a vista subtil +dos espiritos. Mas por cavilloso o declaro, se elle descobrir +no meu coração outra estrella que não +seja a tua +imagem.<br /> + +<br /> + +―«Não gósto da +comparação; as estrellas são sempre +offuscadas umas pelas outras.<br /> + +<br /> + +―«Mesmo quando essa estrella se chama +<em>Venus</em>?<br /> + +<br /> + +―«Viva! O meu maridinho a fazer madrigaes! Queres +que eu continue no mesmo tom? Dir-te-hei n'esse +caso que a Venus, mais do que a qualquer outra, succede +o que acabei de dizer. Á tarde vem a lua offuscal-a, +pela manhã o sol.<br /> + +<br /> + +―«Não, minha querida, não +succederá assim comtigo. +Sempre viva, sempre pura a tua imagem resplandecerá +no meu peito. É isto o que a tua bolsa te ha +de dizer constantemente. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[126]</span> +―«Querido Eduardo!<br /> + +<br /> + +―«Querida Camilla!<br /> + +<br /> + +―«Amo-te!<br /> + +<br /> + +―«Adoro-te!<br /> + +<br /> + +«E foi assim que eu passei das mãos da loira +Camilla +para as mãos do moreno Eduardo.<br /> + +<br /> + +<h3>VI</h3> + +<br /> + +«Não tive rasão de queixa. O meu dono +trazia-me nas +palminhas. Quando saía occupava sempre um logar de +honra na algibeira do casaco, e alli ia eu, sentindo pulsar +o coração de Eduardo, regalando-me, porque +estavamos +no inverno, de caminhar bem abafadinha e conchegada, +em quanto muitas das minhas irmãs estariam +talvez tiritando de frio nas algibeiras rotas dos seus +possuidores. Que justo orgulho se apoderava de mim, +quando Eduardo, sacando-me negligentemente para fazer +alguma compra, me collocava em cima do balcão; +como todos olhavam cubiçosamente para as minhas +fórmas +arredondadas, e que bello effeito que eu produzia +com as libras que fulgiam atravez dos intersticios da +seda.<br /> + +<br /> + +«Nunca me ha de esquecer a cara de piedade que +fez a bolsa de um empregado publico, a quem o acaso +collocára junto de mim. Era uma bolsinha de lã, +tão +magra, tão magra, tão escorrida que mettia +dó. Uns +pobres meios tostões escondiam-se envergonhados no +fundo, e alvejavam tristemente, aborrecidos da sua solidão. +A pobre bolsa olhou para mim com uma certa +inveja, e não me dirigiu palavra. O dono da loja +cumprimentou-me +<span class="pagenum">[127]</span>respeitosamente, e +desviou com desdem +a minha visinha. Ella não ousou protestar, e +pôz-se de +parte, esperando que eu me dignasse voltar ao meu +alojamento ambulante! E eu ria-me e pavoneava-me +toda ufana! Mal sabia que ainda havia de passar pelas +mesmas humilhações!<br /> + +<br /> + +«E o caso é que eu suppunha que todos esses +cumprimentos +eram devidos á minha gentileza, á formosura +da minha côr! E Eduardo julgava egualmente que era +a influencia, que a sua pessoa exercia, a causadora das +humilhações, do servilismo que o rodeavam! +Eduardo +attribuia a si o que a mim era devido. Eu attribuia a +mim o que era devido ás libras que eu abrigava, e as +libras tambem attribuiram a si o que se devia simplesmente +á somma de gózos que ellas proporcionam. Todo +o homem se adora a si mesmo nos objectos perante os +quaes se curva. O «eu» é o idolo +constante da humanidade. +O egoismo é o seu unico motor.»<br /> + +<br /> + +E n'este ponto a bolsa philosophica soltou um profundo +suspiro.<br /> + +<br /> + +«Á noite, continuou ella, repousava dentro da +gaveta +de uma linda secretária de pau rosa, e alli ficava +até +pela manhã tagarellando com umas cartas de amores, +minhas visinhas, que me contavam os mil deliciosos +segredinhos que lhes tinham sido confiados; e n'esta +doce pratica voavam para mim as lentas horas da noite.<br /> + +<br /> + +«Comtudo, eu começava a presentir o meu futuro +destino. Eduardo era o que vulgarmente se chama uma +cabeça de vento. Frequentes vezes, e com as melhores +intenções d'este mundo, se esquecia de mim, e me +deixava +ficar á noite em cima da meza, em vez de me +conduzir á minha deliciosa alcova da secretária. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[128]</span> +«Uma vez, tendo acabado de fazer umas compras, +deixou-me em cima do balcão. Não posso explicar a +impressão +dolorosa que senti quando o vi desviar-se distrahidamente, +e quando reparei, olhando em torno de +mim, nos ávidos olhares dos caixeiros. Segui-os tristemente +com a vista, e já me ia a despedir d'elle para +sempre, quando Eduardo, chegando á porta, mostrou +recordar-se de alguma coisa, e, voltando se precipitadamente, +correu ao balcão. Deu logo com a vista em mim, +que estava toda tremula de alegria, e, beijando-me fervorosamente, +escondeu-me no seio.<br /> + +<br /> + +«Infelizmente nem sempre lhe succederia isso.<br /> + +<br /> + +<h3>VII</h3> + +<br /> + +«Uma vez (sempre me hei de lembrar d'este dia nefasto) +Eduardo, estando a fazer umas contas, tirou me +da algibeira e pôz-me em cima da secretária. +Depois, +a pouco e pouco, foi amontoando os papeis em cima de +mim, de fórma que eu já parecia um pobre +Encéladosinho +de seda, debaixo de um Etna de papelada.<br /> + +<br /> + +«Quando acabou o que tinha que fazer, Eduardo levantou-se, +e, como estivesse tocando a sineta para o +jantar, foi para a meza e não se lembrou mais da pobre +bolsa.<br /> + +<br /> + +«Por infelicidade, na vespera, +tinham os donos da +casa recebido a visita de uma joven viuva, muito galante, +muito <em>coquette</em>, e que parecia +desejar jungir ao +seu carro de triumpho o marido de Camilla, sobre quem +não se cansava de experimentar o effeito dos seus olhares +cheios de fogo e de estrategia. Eduardo, como podem +<span class="pagenum"><a name="p129">[129]</a></span> +imaginar, nem +reparára +em semelhante coisa; porém +sua esposa, com a perspicacia de mulher, adivinhára +tudo, e sentira o ciume, não digo bem, o despeito +apoderar-se d'ella. Não sei a que proposito, Eduardo +me fôra buscar, e a joven +viuva mostrou desejo de +me vêr. Eduardo entregou-me cortezmente nas mãos +da +baroneza (a viuva era baroneza) e os dedos involuntariamente +encontraram os dedos da gentil +<em>coquette</em>. Um +raio de indignação fusilou nos olhos de Camilla, +a baroneza +sorriu-se, Eduardo ficou impassivel, e eu previ +uma proxima tempestade.<br /> + +<br /> + +«Por isso, e apesar da mão da baroneza ser +tão delicada +e macia como a da minha creadora, apesar dos +elogios que ella me prodigalisou, eu não fiquei satisfeita +senão quando me vi livre da sua analyse.<br /> + +<br /> + +«Mas d'esta vez foi a mão de Camilla quem me +recebeu. +Rapidos como o relampago, os dedos elegantes, +que me tinham lançado ao <a href="#e11">mundo</a>, +adivinharam, +antes +d'ella a executar, a tenção que a baroneza +formára de +me entregar ao meu dono, e apressaram-se em preceder +a mão solicita de Eduardo.<br /> + +<br /> + +«Devo confessar que, desde essa visita fatal, o bom +humor de Camilla alterára-se sensivelmente, +alteração +cujas consequencias Eduardo soffria com grande pasmo +seu. Não podia comprehender o azedume que sentia em +todas as palavras de Camilla, e, muitas vezes, espreitando +pelo buraco da fechadura da minha gaveta, o vi +de pernas cruzadas, e em attitude meditativa, perguntando +a si mesmo quaes seriam os díabos +azues que +atormentavam sua esposa, e a elle por conseguinte.<br /> + +<br /> + +«Depois de jantar, os dois esposos vieram tomar +café +para o sitio onde eu estava; a conversa que se travára +<span class="pagenum">[130]</span>entre elles +affrouxava a cada instante, porque os esforços +que Eduardo fazia para a sustentar eram completamente +infructiferos, por causa da sequidão das +respostas de Camilla.<br /> + +<br /> + +«Acabaram de tomar o café, e Camilla foi +encostar-se +á janella.<br /> + +<br /> + +―«Está uma tarde tão bonita!―disse +Eduardo, +não queres aproveitar este lindo dia de inverno para +ires vêr os campos, que estão experimentando +já os +mantos verdejantes com que hão de comparecer na +festa annual da primavera?<br /> + +<br /> + +―Está estragando comigo a sua poesia, respondeu +Camilla seccamente, guarde-a para as pessoas que +quizer deslumbrar. Isso era bom quando me fazia a +côrte.<br /> + +<br /> + +―«E não sou eu sempre o mesmo, Camilla; deixaste +tu um instante só de ser a noiva gentil que eu +adorei, que adoro, e que sempre hei de adorar? Não +sou eu sempre o namorado solicito dos primeiros tempos? +Isso, a que se deu, por convenção, o triste nome +de prosa do casamento, teve nunca entrada nos nossos +corações?<br /> + +<br /> + +―Ah! Ah! que differença! O que me dizia então: +«Oh! nunca me hei de separar de ti! Hei de estar +sempre ao teu lado! Que valor tem o mundo inteiro +junto do teu olhar?» E agora sae quando lhe parece, +anda por fóra o tempo que quer, demora-se a conversar +com os amigos; porque sua mulher, essa não serve +senão para estar n'um canto da casa, á espera que +o +<em>senhor</em> lhe faça a esmola +da sua presença. Não é porque +eu me importe com isso! Eu, sim! É-me completamente +indifferente! Nunca estou melhor do que quando +<span class="pagenum"><a name="p131">[131]</a></span>está +longe de mim! Olhe, d'isso +póde estar certo! Se +fallei, foi porque me enraiveceu a sua hypocrisia.<br /> + +<br /> + +―«Quanto és injusta, Camilla! Pois eu +não desdenho +tudo, tudo n'este mundo para estar junto de ti; +não prefiro a todos os vãos divertimentos, a +todos os +prazeres a nossa deliciosa intimidade? E, quando os +meus negocios me chamam fóra de casa, não me +affasto +de ti tão penalisado, e não aproveito a primeira +occasião de me desembaraçar d'elles para correr +alegre, +satisfeito, risonho, a abraçar-te, a beijar-te, a +testemunhar-te +o immenso e inalteravel affecto que te +consagro?<br /> + +<br /> + +―«Negocios! que grandes negocios que tem! Quaes +são elles? Talvez ir visitar a baroneza!<br /> + +<br /> + +«Eduardo levantou-se, olhou fixamente para sua mulher, +e disse:<br /> + +<br /> + +―«A baroneza! A baroneza, porquê?<br /> + +<br /> + +―«Foi a primeira pessoa que me lembrou, tornou +Camilla, fazendo-se ligeiramente córada.<br /> + +<br /> + +―«Nada! Isso è um tanto inverosimil.<br /> + +<br /> + +―«Inverosimil, porquê?―tornou Camilla, +<a href="#e12">irritando-se</a> +e fazendo-se vermelha de despeito. Talvez imagine +que eu tenho ciumes do senhor. Que vaidade tão louca! +que presumpção! Que fatuidade! Ora esta! como +logo +suppôz que eu era ciumenta!<br /> + +<br /> + +―«Mas, filha...<br /> + +<br /> + +―«Ciumenta e de quem? Ah! Ah! Ah! é de um +ridiculo incrivel! Não querem vêr o formoso +Richelieu, +que anda semeando paixões por toda a parte! E julga +talvez que eu me importo com semelhante coisa! Namore +á sua vontade! Faça o que quizer! Esteja certo +que nunca me ha de dar cuidado! convença-se... entendeu? +<span class="pagenum">[132]</span>Convença-se +bem de que nunca tive ciumes +do senhor, porque eu nunca o amei. Foi uma +predilecção +passageira! Foi um capricho de que me arrependo!<br /> + +<br /> + +―«Parece-me comtudo, tornou Eduardo ferido no +seu amor proprio, que a união eterna de duas pessoas +não é coisa tão ligeira que se possa +decidir levianamente, +e, se não sentias por mim o amor immenso que +eu te consagrava, mais valia que me despedaçasses o +coração, do que me dirigisses agora essas +palavras +amargas.<br /> + +<br /> + +―«Então chegou o momento! Sempre fica sabendo +que se enganou; quando suppôz que eu tinha ciumes +da baroneza.<br /> + +<br /> + +―«Mas foi coisa em que não fallei, filha, bradou +Eduardo um pouco impacientado.<br /> + +<br /> + +―«Bem o deu a entender! Não o disse, mas +pensou-o. +E então escolheu bem a pessoa que me poderia +tornar zelosa! A baroneza, uma tola presumida, uma +<em>coquette</em> insupportavel, que +não tem nem belleza, nem +espirito, nem graça, nem elegancia, mas que possue +em compensação uma vaidade immensa.<br /> + +<br /> + +―«Pobre baroneza!<br /> + +<br /> + +―«Defenda-a, ande! então porque a não +defende? +É o que lhe falta unicamente! Ouse tomar, deante de +sua esposa, o partido de uma mulher como é a baroneza.<br /> + +<br /> + +―«Ih! Jesus! Camilla! Eu não tomo a defeza de +pessoa alguma. Mas tu fallas da pobre senhora, como +se lhe tivesses um odio mortal.<br /> + +<br /> + +―«E tenho, bradou Camilla, erguendo-se com os +dentes cerrados e os olhos fusilantes, tenho odio a essas +mulheres de maneiras affectadas, de olhares languidos, +<span class="pagenum">[133]</span>de vistas +fascinadoras, deslumbrantes na apparencia, +grosseiras na realidade, a quem os homens seguem +tolamente, como as borboletas seguem a luz, ainda que +essa luz emane de uma candeia afumada. Quando ella +hontem quiz vêr a bolsa que eu fizera, tive +tentações +de a rasgar, para lhe poupar uma profanação. E a +proposito, +onde a tens tu?<br /> + +<br /> + +«Eduardo, ao ouvir esta pergunta, que parecia dever +servir de transição para uma +conversação mais serena, +começou-me a procurar alegremente por todas as algibeiras. +O acaso fôra-me collocar muito mirrada na extremidade +da secretária. No remexer dos papeis eu tinha +quasi caido ao chão; felizmente ou infelizmente, +um resalto da secretária tinha-me retido, e eu alli +ficára +suspensa por uma das borlas, estando esta de +mais a mais completamente occulta por um fragmento +microscopico de papel. Da posição em que eu +estava, +podia vêr e ouvir tudo, sem que ninguem me podésse +divisar.<br /> + +<br /> + +«Quando Eduardo começou a revolver as algibeiras +não pude deixar de me rir. Era tão comico o +espanto +d'elle, quando, depois de ter esquadrinhado minuciosamente +todos os cantos do seu fato, não encontrava +coisa alguma, que eu, ignorando ainda quaes seriam +as consequencias d'aquella scena, ria-me a fartar.<br /> + +<br /> + +«Camilla contemplava-o com um sorriso ironico, e +batendo o compasso com o pé no sobrado da sala.<br /> + +<br /> + +―«Talvez lhe esquecesse lá por +fóra!―disse ella, +accentuando muito as palavras.<br /> + +<br /> + +―«É impossivel; lembro-me perfeitamente de a ter +n'esta algibeira. Já depois de estar em casa eu a vi, e +até lhe peguei. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[134]</span> +―«Talvez a tivesse confiado a alguem!―tornou +Camilla com o mesmo sorriso estereotypado nos labios.<br /> + +<br /> + +―«A quem?―perguntou Eduardo com a maior ingenuidade.<br /> + +<br /> + +―«Eu sei! A alguem que a visse, que gostasse +d'ella, e que a desejasse conservar por algum tempo.<br /> + +<br /> + +―«Ora essa! Não pódes suppôr +que eu fizesse tal!<br /> + +<br /> + +―«E porque não? Os homens julgam que tudo lhes +é permittido.<br /> + +<br /> + +«Mas Eduardo não a ouvia. Tinha-se recordado das +contas que fizera, e tinha corrido a revolver os papeis +que estavam em cima da secretária. Eu, que via a +má +figura que o negocio ia tomando, não desgostei de que +elle tomasse aquella resolução.<br /> + +<br /> + +«Comtudo, debalde Eduardo deitou ao meio do chão +toda a papelada com uma impaciencia febril, debalde +tentou, depois de os ter reunidos, separal-os um a um. +Eu não apparecia; preza na minha esquininha, sem poder +revelar por fórma alguma onde estava, assisti, espectadora +muda mas não indifferente, áquella +caçada +férvida, em que tanto interesse tinham em se encontrar +a caça como o caçador, mas que apesar d'isso +ficava +sem resultado. Vi os papeis, impellidos pela mão +de Eduardo, revolutearem nos ares em torno de mim, +senti a sua mão impaciente pousar em cima das minhas +borlas, sem saber que estava a meia pollegada de distancia +da extremidade dos seus dedos o objecto que +tanto procurava. E elle bafejava-me com o halito e não +tinha um presentimento que o advertisse, desviava com +a mão tremula os papeis que me encobriam, e de nenhum +d'elles saia uma voz mysteriosa que lhe dissesse: +<span class="pagenum">[135]</span> +«Para conseguires esse thesouro, que tu pagarias agora +com dez annos da tua vida, basta-te abaixar a cabeça, +e estender a mão.»<br /> + +<br /> + +«Finalmente Eduardo, pallido, com a fronte inundada +de suor, deixou-se cair prostrado em cima de uma cadeira, +e dirigindo-se a sua mulher, disse com voz sumida:<br /> + +<br /> + +―«Creio que a perdi.<br /> + +<br /> + +«Camilla não se pôde conter. As +lagrimas, tanto tempo +retidas, rebentaram finalmente, e inundaram-lhe as +faces.<br /> + +<br /> + +―«Era isso que eu esperava havia muito tempo, +bradou ella com voz entrecortada. Eis a resposta com +que não só pagam a minha +dedicação, mas tambem com +que pretendem illudir a minha boa fé. Anda! trabalha +com amor, com alegria, despende n'essa pobre bolsinha +thesouros de affecto, sorri só ao pensares que essa +obra das tuas mãos vae ser a constante companheira +d'aquelle em que tu só pensas, por quem tu só +vives, +cuja apparição te enche de prazer, cuja ausencia +te faz +ficar immensamente triste. Ai! quanto te illudes, pobre +louca, esse teu mimo ha de ser desprezado, porque tu +tens esse titulo malfadado de esposa, e o amor conjugal +é uma coisa altamente ridicula. Acceitam com desdem +o teu presente, e vão depressa offerecel-o á +primeira +namoradeira que prender, nas suas rêdes vulgares, +a ave fugida do ninho da familia, ninho cuja prisão +lhe é insupportavel. Devia ser esta a minha sorte. Ninguem +se exime a ella.<br /> + +<br /> + +―«Ih! Jesus! Ih! Jesus!―dizia o pobre Eduardo +com as mãos na cabeça; mas, filha... eu sou um +estouvado... +a bolsa ha de estar por ahi... Da nefanda +<span class="pagenum"><a name="p136">[136]</a></span>traição +de que me accusas é que sou +completamente +incapaz.<br /> + +<br /> + +―«Traição!―tornava Camilla +procurando, sem o +conseguir, conter o pranto; póde-me trahir á sua +vontade +que me é completamente indifferente. Engana-se +se julga que eu dê o menor apreço á sua +fidelidade.<br /> + +<br /> + +―«Mas n'esse caso porquê?<br /> + +<br /> + +―«Cale-se! Diga-me: zombaram bastante de mim? +Riram-se das minhas creancices? Quantas caricias lhe +valeu esse sacrificio tão pouco custoso?<br /> + +<br /> + +―«Isto é demais! +Juro-te...<br /> + +<br /> + +―«Cale-se. Quanto mais jura mais mente. Tambem +me jurou amor eterno, e...<br /> + +<br /> + +«E a pobre senhora desatou a soluçar, e caiu +sentada +n'uma cadeira. Eduardo, com as lagrimas nos olhos, +ajoelhou aos pés d'ella, e exclamou com voz commovida:<br /> + +<br /> + +―«Camilla, não chores que me +despedaças o coração. +Sou um grande criminoso, mas não mereço castigo +tão cruel. Bem sabes que o amor que te consagro +é immenso, é exclusivo, e que, desde que te +conheço, +nunca mais ergui os olhos para outra mulher. Camilla...<br /> + +<br /> + +«Mas esta levantou-se enxugando as lagrimas, e disse-lhe +com modo friamente <a href="#e13">desdenhoso</a>:<br /> + +<br /> + +―«Aproveite a inspiração para algum +arrufo que tiver +com a baroneza.<br /> + +<br /> + +«E saiu da sala, deixando ficar o pobre Eduardo com +um joelho no chão, as mãos erguidas, a bocca +aberta, +espantado, aterrado, paralysado, petrificado, estupefacto!<br /> + +<br /> + +«Finalmente levantou-se, dirigiu-se de novo á +secretária, <span class="pagenum">[137]</span>e +procurou +entre os papeis. Com o revolver caíram +alguns, e eu caí d'envolta com elles; o acaso fez-me +ainda ficar tão mirrada entre duas folhas, que, +quando Eduardo veiu procurar ao chão, escapei com +grande desespero meu ás suas pesquizas. Um tal accesso +de desespero se apoderou do meu dono, que, +pegando n'um grande mólho de papeis, no meio dos +quaes ia eu, sem elle o saber, amachucou-o, e depois +enraivecido, atirou-o pela janella fóra. O vento desfez +o mólho, e n'este instante ouvi dois gritos, um de Eduardo, +outro de Camilla, que estava n'uma outra janella +por traz dos vidros.<br /> + +<br /> + +«O vento forte que soprava, tinha-me separado dos +papeis, meus involuntarios carcereiros, eu caía +magestosamente +isolada, á vista dos dois conjuges, sobre as +pedras da rua.<br /> + +<br /> + +<h3>VIII</h3> + +<br /> + +«Nunca vim a saber o que se passára na casa, +d'onde +fôra tão bruscamente e tão +involuntariamente expulsa! +Apenas eu caíra no chão, um gaiato de +pé descalço, +que passava por acaso, abaixou-se, apanhou-me, e largou +a correr, apertando-me nas mãos, com uma tal velocidade, +que, por mais ligeiro que fosse Eduardo em +me vir apanhar, logo percebi que não havia +esperança +alguma de que o conseguisse.<br /> + +<br /> + +«A corrida era desenfreada. Apertada na mão +callosa +do garoto, eu, habituada ao fino contacto das mãos +aristocraticas, que até ahi me tinham manuseado, sentia +dôres atrozes, e uma profunda +humilhação. Eu, a +favorita dos opulentos, tratada assim tão +irreverenciosamente +<span class="pagenum">[138]</span>por um rapaz +pertencente á escoria da sociedade! +Ao meu passado de gavetas de secretárias, de +sophás, de divans, de tapetes, ia succeder um futuro +de palheiro, de calças esfarrapadas, de degraus humidos +de escadarias. As feridas abertas na minha pelle, +tão cuidadosamente curadas e cicatrisadas pela minha +senhora, iam agora ser abandonadas, e talvez alargadas +pelos dedos travêssos do rapaz da rua. Tudo isto ia eu +pensando, em quanto o meu roubador corria a bom +correr, primeiramente pelas ruas da cidade, e depois já +pelo campo.<br /> + +<br /> + +«Ninguem se tinha importado com elle. Um rapaz +descalço á desfilada, não é +um caso tão grave, e tão +raro, que os encarregados da policia descessem da sua +dignidade, para inquirirem o que motivára a carreira +despedida em que elle ia.<br /> + +<br /> + +«Chegou ao pé de uma fonte, e, pensando +provavelmente +que já estava fóra do alcance dos seus +perseguidores, +entendeu que podia descançar. Por conseguinte +estirou-se em cima da relva, e tirando da algibeira +um lenço muito esfarrapado, começou a limpar o +suor que lhe escorria pelas faces.<br /> + +<br /> + +«Estavamos já nos primeiros dias da primavera, e +os +campos revestiam-se de um manto verdejante, que os +malmequeres e as boninas esmaltavam. A agua da fonte +corria com um doce murmurio, e myriades de insectos +com as azinhas doiradas pelo sol, esvoaçavam zumbindo +pelo prado. O sôpro, mysteriosamente vivificador da +primavera, percorria a creação.<br /> + +<br /> + +«O meu novo possuidor deitara-se, como já disse, +em cima da relva, e collocára-me ao seu lado. Para mim +tudo quanto me rodeava era completamente novo. Eu +<span class="pagenum">[139]</span>nunca tinha +saído da cidade, e o aspecto dos campos +enchia-me de prazer. Parecia-me que respirava um outro +ambiente, que via um céo mais largo, mais azul! +Um enchame de novas sensações se agitava dentro +de mim.<br /> + +<br /> + +«Assim estava eu boqui-aberta, olhando para tudo +com uma alegre curiosidade. As feveras da herva que +se agitavam em torno, mettiam as suas cabecinhas tambem +curiosas pelos intersticios da seda, afim de observarem +que monstro desconhecido eu era. As boninas +<em>coquettes</em> como todas as +flôres, mostravam-me com desvanecimento +a sua formosura, para verem se d'ellas me +enamorava. Era a tentação que todas as formosas +sentem, +de fascinar os estrangeiros. Os dois proverbios: +«Ninguem é propheta na sua terra» +«Santos de casa +não fazem milagres», são, n'este caso, +da mais escrupulosa +exactidão. As abelhas, que vem de fóra, extrahem +mais depressa a essencia das flôres, do que as que +pertencem á colmeia do jardim.<br /> + +<br /> + +«Eu sentia correr um indizivel murmurio pelo prado. +O vento, acamando a relva e as florinhas, perguntava-lhes, +no seu dialecto incomprehensivel, que vós não +entendeis, mas que para todas nós é clarissimo, +quem +era a recem-chegada. E os bichinhos pequeninos que +arfavam debaixo de mim, respondiam que era o Hymalaia, +e os insectos zumbidores respondiam que era uma +grande flôr verde com estames de oiro.<br /> + +<br /> + +«O que é certo é que eu +consubstanciava-me de todo +com a relva que me cercava. Egualmente verde, não +transtornava em nada a unidade do tapete, e as minhas +borlas de oiro matizavam-n'o agradavelmente.<br /> + +<br /> + +«Assim estava n'aquelle <em>dolce +farniente</em>, e confesso <span class="pagenum"><a name="p140">[140]</a></span>que, +apesar de me lembrar de vez em <a href="#e14">quando</a> +dos donos +que me eram tão affeiçoados, e de quem me tinha +separado, as saudades que sentia eram attenuadas pelo +prazer completamente novo que me embriagava.<br /> + +<br /> + +«Mas aquelle ocio não podia durar sempre. O +Tytiro, +que me apanhára, não estava muito disposto a +repousar +<em>sub tegmine fagi</em>, mais do que +convinha á sua indole +vagabunda, e depois de ter saboreado, por espaço +de dez minutos, quando muito, as delicias da +posição +horisontal succedendo á rapidez da corrida, levantou-se, +dirigiu-se á fonte, encheu de agua a palma da +mão, +disposta para esse fim, levou-a á bocca, bebeu, repetiu +duas ou tres vezes esta operação, e depois, +dirigindo-se +a mim, levantou me do chão, e +foi-me levando +socegadamente pelos campos fóra.<br /> + +<br /> + +«É tempo agora de descrever o meu novo dono. Era +um rapazito dos seus quatorze annos, de rosto alegre +e queimado, com uns olhos negros muito vivos e rasgados, +uma bocca grande, que parecia estar sempre +preparada para as gargalhadas. Todo o seu fato consistia +n'umas calças rotas, n'uma camisa muito suja, e +n'uma jaqueta tão arremendada, que era um verdadeiro +mosaico, porque creio que tinha todas as côres do espectro +solar, e todas as combinações que com ellas se +podem fazer. Um bonet, que estava rodeado por uma +densa armadura de sebo, occupava o alto da cabeça; +porque julgo não haver exemplo de ter sido collocado +na posição habitual, e a testa do garoto, se lhe +dissessem +que este possuia um bonet, estou que ficaria summamente +espantada.<br /> + +<br /> + +«E lá ia elle por ahi fóra, +baloiçando o corpo a compasso +de uma cantiga, devida ao seu genio musical, distrahindo-se +<span class="pagenum"><a name="p141">[141]</a></span>no +caminho a apanhar +borboletas, a atirar +pedras aos cães, fugindo depois a bom fugir quando +estes o perseguiam ladrando, trepando acima das arvores +da estrada a espreitar se já haveria ninhos entre +os seus ramos, cobertos de novas folhas, e saltando os +muros dos pomares, para se ir empoleirar nas larangeiras, +trincando as laranjas verdes ou maduras, que +se lhe deparavam.<br /> + +<br /> + +«Devo confessar que a minha situação +durante estas +excursões, motivadas pelos entretenimentos do meu +dono, não eram das mais invejaveis, e que bastantes +vezes amarguei o gosto que sentira, respirando o ar +dos campos. Com effeito o gaiato attendia mais aos +seus prazeres do que ás minhas commodidades, e nem +posso descrever os sustos que curtí, quando os +cães +corriam atraz de nós, e que eu via os seus dentes agudos, +que seriam capazes de me despedaçar n'um segundo; +a triste impressão que eu sentia, vendo as borboletas +tão gentis, tão galantinhas, nas garras do seu +caçador cruel; as dôres que me faziam os esgalhos +das +arvores, rasgando me sem piedade, em +quanto elle subia <a href="#e15">descuidoso</a>, +indifferente, affastando a +ramaría, para +vêr se, n'alguma verdejante alcôva, não +teria ido a carinhosa +mãe dos passarinhos depôr o berço +gentil, que +as auras embalariam.<br /> + +<br /> + +«Sobre tudo o que me atormentava era o costume +que elle tinha de saltar os muros dos pomares para se +ir sentar nas larangeiras, a fartar-se d'esses pomos que +a antiguidade chamou aureos por serem vermelhos, e +que o seu Camões asseverou terem<br /> + +<br /> + +<div class="poetry"> +<em>A côr que tinha Daphne nos +cabellos</em>;</div> + +<br /> + +<span class="pagenum">[142]</span> +o que é pouco lisongeiro para a belleza d'essa nympha, +que vinha a ser hyper-ruiva, se acreditarmos as +asserções +do cantor dos <em>Lusiadas</em>.<br /> + +<br /> + +N'este ponto tornei eu a interromper a bolsa tão prodiga +em reflexões.<br /> + +<br /> + +―O espanto, em que me colloca a sua erudição, +impede-me +de reprehender energicamente o tom com que +falla n'essa gloria nacional. Mas diga-me, quem a fez +tão instruida?<br /> + +<br /> + +―Não antecipemos os acontecimentos, como diria o +visconde d'Arlincourt, respondeu-me a bolsa.<br /> + +<br /> + +―O quê? Pois tambem leu ou ouviu os romances +do visconde d'Arlincourt?<br /> + +<br /> + +―Então! meu amigo, tornou-me a narradora, suspirando, +nem tudo são rosas na instrucção.<br /> + +<br /> + +―Bem, continue.<br /> + +<br /> + +«Como já disse, esse costume do meu dono +incommodava-me +sobremaneira; porque a escalada tinha para +mim todos os seus inconvenientes, e muitos mais, sem +ter nenhuma das suas vantagens. Em primeiro logar a +subida pelo muro era summamente incommoda; porque +o bom do meu amigo, tendo todas as algibeiras +rotas, e, por conseguinte, não me podendo confiar a +nenhum d'esses toneis das Danaides, de que as suas +calças e a sua jaqueta estavam tão amplamente +providas, +levava-me na mão, apertava-me sem cerimonia de +encontro ao muro, e esmagava-me, torturando ao mesmo +tempo uma pobre meia corôa que eu tinha dentro +de mim, e que eu sentia, de afflicta, resmungar no +meu seio.<br /> + +<br /> + +«Depois, quando, á força de trabalhos e +de arranhões, +chegavamos ao cimo do muro, novos desastres nos esperavam. +<span class="pagenum">[143]</span>Garrafas partidas +formavam uma especie de +negra palissada, dispostas d'aquella maneira para enterrar +os seus dentes agudissimos nos aventureiros que +intentassem a conquista. Mas o meu dono, que era, segundo +parece, já pratico n'aquelles assedios, tinha tomado +as suas precauções, e foi então que eu +vi que +não era só a questão das algibeiras +que o inhibia de +me resguardar, mas sim tambem uma questão de defeza +propria. Eu, malfadada, servia-lhe de escudo! Eu +era, para assim dizer, o +<em>césto</em>, á +sombra do qual o garoto +jogava o murro com as paredes. N'uma das mãos +ia eu, na outra o lenço de assoar muito embrulhado. +A mão que eu protegia, era ainda assim a que estava +resguardada melhor; porque o tal lenço, para fallarmos +verdade, parecia a moldura de um quadro ausente; +um immenso rasgão formado por uma multidão de +rasgõesinhos +que se tinham annexado, occupava o centro-rodeado em toda a +extensão por uma pobre tira. Creio +que a historia d'essa transformação se +póde explicar +geographicamente. Imagine que o lenço ao principio se +assimilhava com aquelle territorio da America do Norte, +onde existe o lago Ontario, cercado de muitos outros. +Supponha que um grande cataclysmo rasgava os terrenos +que separam esses lagos, e que as aguas trasbordando, +e unindo-se, formavam um verdadeiro mar no +genero do mar Caspio. Ahi tem o que succedeu com +os rasgões do lenço do garoto.<br /> + +<br /> + +―V. ex.<sup>a</sup> permitte-me, interrompi eu, que a +proponha +para socia do Instituto Geographico de Paris?<br /> + +<br /> + +―Muito obrigada! Não estou agora decente para entrar +n'uma academia.<br /> + +<br /> + +―Pelo contrario, minha senhora, tornei eu, as bolsas +<span class="pagenum">[144]</span>vasias devem ser +da mesma fôrma que as cabeças, as +que mais depressa sejam admittidas n'essas sociedades +sábias. Póde continuar.<br /> + +<br /> + +«Não findavam aqui os meus soffrimentos. +Experimentava +alguns rasgões, mas consolava-me com o pensamento +de que o meu sacrificio era util ás mãos do +meu dono, por quem eu professava uma secreta e inexplicavel +sympathia. É verdade que o demonico do rapaz +parecia não se affligir muito com as arranhadellas +que recebia. A mão esquerda, confiada á +protecção nominal +do lenço de assoar, chegava toda em sangue, e +isso, em vez de lhe diminuir a alegria, parecia augmentar-lh'a +e dar melhor sabor ás laranjas com que se fartava.<br /> + +<br /> + +«Ahi se empoleirava elle, por conseguinte, sentando-se +no ponto de união de dois ramos, toucado de folhas, +baloiçando os pés no ar, e enviando as +mãos em +toda a direcção, a fazerem uma atrevida +<em>razzia</em> aos +taes pomos de oiro do antigo jardim das Hesperides. +E quer as laranjas estivessem ainda verdes, e por conseguinte +amarellas (n'esse caso tem rasão Camões e a +antiguidade), quer estivessem já em pleno sazonar, e +por conseguinte trajassem a purpura que merecem, +como rainhas que são de todas as fructas, o meu bom +gaiato apanhava-as sempre com uma imparcialidade digna +de especial menção, e, ministro justiceiro dos +negocios +do seu estomago, escolhia para funccionarios todos +os fructos, sem distincção de côres.<br /> + +<br /> + +«Era um bello espectaculo o d'esse rapazito rôto, +esfarrapado, +mais feliz no seu throno de cortiça do que +os reis no seu throno de oiro, comendo as laranjas do +proximo com mais satisfação, de certo, do que a +que <span class="pagenum">[145]</span> +sente o czar da Russia ao devorar o producto dos roubos +de que é victima a infeliz Polonia.<br /> + +<br /> + +«Mas por fim de contas vinha a ser eu quem soffria +as más consequencias dos prazeres do meu senhor. +Para poder comer á sua vontade, o meu amigo largava-me +e pendurava-me no primeiro ramo que lhe ficava +á mão. O vento baloiçava o ramo; +ás vezes um gatinho, +que andava passeiando por cima dos muros, vendo-me +ondular na extremidade, saltava e principiava a brincar +comigo. A isto reunia-se o susto de me vêr n'uma +altura para mim desmesurada. Era necessario que os +latidos de um cão de guarda viessem inquietar o meu +dono, para que elle se lembrasse de me tirar da minha +incommoda posição, afim de operar a sua retirada. +<br /> + +<br /> + +Já vê, por conseguinte, que a minha existencia +aventurosa, +se tinha as suas vantagens, tinha tambem os +seus inconvenientes.<br /> + +<br /> + +<h3>IX</h3> + +<br /> + +«O meu possuidor reconhecera, desde o primeiro momento, +que eu não estava vasia, mas ainda se não dera +ao trabalho de verificar a quanto montava a sua nova +riqueza. Finalmente, depois de estar saciado de laranjas, +cançado de trepar ás arvores, entendeu que era +já +tempo de attender aos negocios do thesouro. Sentou-se +por conseguinte n'uma pedra da estrada, abriu-me com +toda a gravidade, e tirou de dentro triumphalmente a +moeda de cinco tostões.<br /> + +<br /> + +―«Olá! um +<em>caiado</em>!―bradou elle com alegria, e +para +demonstrar melhor o seu regosijo entoou a aria da +<em>Saloia</em>, +e atirou comigo ao ar a uma distancia immensa, +<span class="pagenum">[146]</span> +com grande desespero meu, porque vim assustadissima, +aos trambolhões pelo espaço, cair na +mão aberta do garoto.<br /> + +<br /> + +«Este não ficou em +contemplação diante do seu thesouro; +metteu o outra vez no sitio em que estava, +levantou-se, +e continuou o seu caminho, cantando com uma +voz de Stentor, atirando comigo ao ar, e tomando, para +me receber, attitudes de tambor-mór.<br /> + +<br /> + +«A estrada, que se ia approximando da cidade, ia +sendo tambem mais frequentada. Os caminhantes multiplicavam-se, +e as casas começavam a apparecer. Nem +por isso o gaiato deixou de cantar a +<em>Saloia</em> a plenos pulmões, +com grande escandalo das velhas sentadas nos +degraus das portas, que acompanhavam cada estrophe +da aria popular com um desafinadissimo côro de +imprecações.<br /> + +<br /> + +―«Valdevinos!―Bregeiro!―Gaiato sem emenda!―D'onde +vens tu, maroto?―Ah! boa sova!―Fosse +eu tua mãe que te havia de moer o corpo com +pancadas!―Só +se perdiam as que caissem no chão!―D'onde +vens tu, desavergonhado, vens de roubar laranjas?―Tu +vaes direitinho para o +inferno!―<em>Berzabum</em> te valha, +démo pequeno!―O descarado vem a cantar para +quebrar a cabeça ás almas +christãs!―Quem te puzesse +uma farda ás costas!<br /> + +<br /> + +«E outras amabilidades de egual jaez, a que elle +só +respondia, grave e serenamente, com esta invariavel +apostrophe:<br /> + +<br /> + +―«Eh! bruxas!<br /> + +<br /> + +«Quiz o acaso que passasse ao nosso lado um sujeito +gordo, com umas barbas de phariseu, uns olhos esgazeados +e orlados de vermelho, uma d'estas physionomias +<span class="pagenum">[147]</span>baixamente +orgulhosas, onde se lê ao mesmo tempo +o servilismo para com os poderosos, o desabrimento +para com os humildes. Desbarretava-se até ao chão +quando passava alguma carruagem, onde ia pessoa conhecida +d'elle, e correspondia ligeiramente á +saudação +dos pobres trabalhadores, que levantavam o chapéo, +com aquelle ar gravemente cortez dos homens do +campo, para lhe dizerem:<br /> + +<br /> + +―«Guarde-o Deus, senhor Domingos Gil.<br /> + +<br /> + +«Para o meu gaiato, vel-o, e conceber a idéa de +lhe +fazer alguma, foi acto simultaneo. Com um sorriso malicioso +nos labios enrolou-me na mão muito bem enrolada, +de sorte que só ficasse de fóra o sitio onde +estavam +os cinco tostões, e approximando-se, pé ante +pé, +do empavezado passeiante, ergueu a mão, vibrou-me +com toda a força, e fez-me desabar, indo a meia +corôa +de esquina, na copa do chapéo do gorducho.<br /> + +<br /> + +«A <em>gebada</em> foi magistral; o +chapéo enterrou-se até aos +olhos; e em quanto o dono d'elle, espumante de raiva, +procurava desembaraçar a cara d'aquelle inesperado +invólucro, +o rapaz pôz-se fóra do seu alcance, e, +já lá +muito ao longe, ouviu as exclamações furiosas da +sua +victima, que ameaçava prendel-o, matal-o, enforcal-o, +esquartejal-o.<br /> + +<br /> + +«O homem ficára desesperado. Pois não +tinha rasão; +o seu chapéo, como sempre, tinha-se curvado ao dinheiro.<br /> + +<br /> + +<h3>X</h3> + +<br /> + +«Livre de perigo, o meu dono, reflectindo no caso, +houve por bem rir-se ás gargalhadas do que +praticára. <span class="pagenum">[148]</span> +Com effeito merecia a pena. Eu, apesar de ter padecido, +não desgostei da correcção.<br /> + +<br /> + +«Depois de se rir á vontade, entendeu o auctor da +<em>gebada</em> +que não poderia ser completa a sua +satisfação se +não visse a cara do paciente depois do castigo. Reflectiu +como poderia conseguir vêl-o sem ser visto, e como +afim de reflectir melhor, quando olhava para o céo a +procurar inspiração, deu com a vista n'uma arvore +que +se erguia mesmo ao seu lado. Vêl-a, e trepar a ella, foi +uma e a mesma coisa. O mirante era optimo, bem arejado, +completamente resguardado da curiosidade dos +profanos, proporcionando ao seu habitador provisorio +um delicioso panorama para se entreter emquanto não +passasse aquelle a quem esperava. Attendendo, pois, +ao merecimento e mais partes que concorriam na pessoa +da dita arvore, estabelecemo nos n'ella +sem cerimonia, +eu n'uma caminha de folhas, elle encostado a +uma especie de janella verdejante, d'onde via optimamente +tudo quanto se passava na rua.<br /> + +<br /> + +«Assim, todo escondido, de joelhos, com a sua physionomia +curiosa e maliciosa á espreita por entre os ramos, +parecia um macaquinho agil, que espera occasião +propicia para apanhar um fructo que lhe fica distante.<br /> + +<br /> + +«Por baixo de nós um pobre velho, pallido, magro, +macilento, mostrando no rosto a timidez envergonhada +d'aquelles que um soffrer verdadeiro obriga a pedir esmola, +estendia o chapéo a quem passava. Lagrimas silenciosas +lhe deslisavam nas faces encovadas: o sêllo da +desventura estava gravado na sua fronte livida. Os cabellos +brancos, que o vento agitava, cingiam aquelle +infortunio de uma aureola de magestade. Era augusta +aquella miseria! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[149]</span> +«Comtudo, nenhum dos que passavam deixava cair +uma pobre moeda de cobre n'aquelle chapéo supplicante, +que se lhes estendia. Uns seguiam desdenhosos +o seu caminho, sem responderem sequer com um gesto +á muda rogativa do mendigo! Outros, um pouco mais +humanos, faziam distrahidamente um gesto negativo, +levando ao mesmo tempo a mão ao chapéo. Outros, +mais caritativos ainda, murmuravam «Tenha +paciencia» +ou «Não levo troco», e todos diziam, +lá de si para si, +a phrase conhecida: «Este maroto provavelmente tem +mais dinheiro do que eu. Desavergonhado! Abusarem +assim da caridade publica! Os que mendigam não +são +os que precisam; nas aguas-furtadas é que se aninha +a verdadeira pobreza.»<br /> + +<br /> + +«Ah! miseraveis! que fingís pensar que +é um officio +divertido o expôr-se um velho, alquebrado de +forças, ao +sol, ao vento, á chuva, ás +humilhações, ao desprezo, +para fazer uma pobre colheita de dez ou doze moedas +de cinco réis, e ás vezes de nenhuma! E a chuva a +inundar os membros mal resguardados do pobre pae +de familias! E o sol a abrazal-o! E a imagem dos seus +filhinhos, lividos e esfomeados, a despertar-se-lhe na +imaginação, e a redobrar-lhe as amarguras!<br /> + +<br /> + +«Porque vós não sabeis, ou antes +fingís não saber, vós +que julgaes que esse homem vem pedir esmola para se +ir embebedar na taverna proxima, não sabeis que ha +n'algum canto obscuro e doentio da cidade uma familia +de espectros, que espera anciosamente a volta d'aquelle +a quem despedis com as mãos vasias! Não sabeis, +vós +que accusaes de falta de resignação, de falta de +animo, +o pedinte que vos exora com as lagrimas nos olhos, +não sabeis que lhe foi necessario mil vezes mais valor +<span class="pagenum">[150]</span>para se embrulhar +na pobre capinha, sair furtivamente +do misero alojamento, e ir collocar-se, espectro da miseria, +ás portas da opulencia, do que lhe seria preciso +para se despenhar da janella da sua agua-furtada e +despedaçar a cabeça nas lages da rua!<br /> + +<br /> + +«Continuemos.<br /> + +<br /> + +«Todos passavam, como já disse, e ninguem dava +sequer ao pobre velho a esmola de um olhar de compaixão. +O meu gaiato mirava-o de vez em quando.<br /> + +<br /> + +«Passou finalmente o sr. Domingos Gil. O pobre velho +estendeu-lhe o chapéo, murmurando mansinho:<br /> + +<br /> + +―«Uma esmola por amor de Deus. Meus filhos +morrem de fome.<br /> + +<br /> + +«O sr. Domingos Gil vinha, como facilmente +imaginará, +de muito mau humor. Trazia a <em>gebada</em>, +para assim +dizer, atravessada na garganta. As sobrancelhas franzidas, +o olhar fusilante, a cara fula de raiva, denunciavam +o rancor que o consumia. O chapéo, ainda um pouco +amolgado, tambem mostrava resentir uma nobre +indignação.<br /> + +<br /> + +«A voz do mendigo como que abriu no sr. Gil uma +valvula de segurança, por onde póde sair uma +porção +de colera, que, mais tempo contida, o faria rebentar. +Evitou-se d'esta fórma uma grave perda para a humanidade.<br /> + +<br /> + +«O sr. Gil desabafou, bradando, ao passo que desviava +bruscamente o chapéo do pobre velho:<br /> + +<br /> + +―«Sucia de mandriões! Estão estes +marotos á esquina +de todas as ruas, para nos roubarem o dinheiro +que nos custa a ganhar com o suor do nosso rosto! +Vossê não tem vergonha de pedir esmola? +Vá trabalhar, +ou metta-se no hospital se está doente, ou vá +para <span class="pagenum">[151]</span> +o asylo! Está o governo a pagar um bom par de contos +de réis alli em Santo Antonio dos Capuchos, e pessoas +ricas a deixarem quantias avultadas, que bem tolo +é quem cae em tal, não ha de ser nunca o meu +dinheiro +que elles hão de apanhar; mas está alli aquelle +estabelecimento prompto a receber todo o fiel patife +que não tem eira nem beira, para que? Para andarem +estes velhacos a incommodar-nos. Fosse eu da camara +municipal! Rêde para os cães, rêde para +os mendigos. +Vá para o demonio! Não lhe dou nem cinco +réis! +Canalha!<br /> + +<br /> + +«E o digno homem continuou magestosamente o seu +caminho.<br /> + +<br /> + +«Uma lagrima caíu das palpebras abrazadas do +velho! +Fez um gesto de resignação, e deixou pender a +cabeça sobre o peito.<br /> + +<br /> + +«E a noite estendia já sobre a terra o seu manto +negro. +A noite com o seu duplo cortejo de alegrias, de +festas, de prazeres, de suspiros enamorados, e de tristezas, +de crimes, de horrores, de soluços da miseria! +A noite, fada mysteriosa, e negra feiticeira! A noite que +se deixa illuminar pelo lustre dos salões, e pela candeia +das aguas-furtadas, mas felizmente tambem e em toda +a parte pelo fulgor das estrellas, que é o olhar de +Deus.<br /> + +<br /> + +«E o velho scismava tristemente. Não tivera +resultado +o sacrificio! Nem um pedaço de pão podia levar +aos +filhos esfaimados! Tristeza! A brisa soprava asperamente, +e elle não a sentia! As lanternas das carruagens +que passavam pareciam olhar para elle ironicamente, +mas as estrellas, essas miravam-no tristemente.<br /> + +<br /> + +«E o velho scismava! A pobre agua-furtada, onde +<span class="pagenum">[152]</span>vivia, +representava-se-lhe na imaginação! Via a +filha +doente, ella que á força de trabalho sustentava +os irmãos, +os pobres innocentes, que pediam de comer! E +elle, o triste velho, ia-lhes apparecer sombrio, para +lhes dizer: «Morrei, não tenho que vos +dar!»<br /> + +<br /> + +«Então pareceu-me vêr na fronte do +garoto surgir +uma estranha aurora! Immovel na arvore, contemplava +o pobre velho, e a sua physionomia maliciosa tornava-se +pensativa! Eu tinha-o ouvido durante o caminho +fazer mil projectos para o emprego dos cinco tostões, +comprar bolos, ir ao theatro, alugar um burro, mil extravancias +que elle acariciava com o amor de creança! +N'aquelle momento não trocaria os cinco tostões +por +um imperio!<br /> + +<br /> + +«Depois de contemplar por um instante o velho, estendeu +a mão para mim, tirou-me do ramo, e deixou-me +cair no chapéo do mendigo.<br /> + +<br /> + +«E depois de ter gozado por um instante da +estupefacção +do pobre homem, deixou-se escorregar da arvore, +e escapou-se sorrateiramente.<br /> + +<br /> + +«O garoto desapparecera; mas quem olhasse bem podia +vêr alvejarem vagamente, na escuridão nocturna, +as azas luminosas do anjo da caridade.<br /> + +<br /> + +<h3>XI</h3> + +<br /> + +«Quando me achei no chapéo, e depois na +mão do +pobre velho, a primeira sensação foi a da +alegria, a do +desvanecimento. Parecia-me que eu tambem participára +da boa acção do rapaz, e que me competia uma +parte +dos agradecimentos que lhe eram devidos. O que e +«Quando me achei no chapéo, e depois na +mão do +pobre velho, a primeira sensação foi a da +alegria, a do +desvanecimento. Parecia-me que eu tambem participára +da boa acção do rapaz, e que me competia uma +parte +dos agradecimentos que lhe eram devidos. O que estava +<span class="pagenum"><a name="p153">[153]</a></span>longe +de esperar, +é que seria eu quem os receberia +a todos.<br /> + +<br /> + +«Com effeito o pobre velho, depois de olhar muito +tempo em torno de si, depois de mirar bem a arvore, +cujos ramos se estendiam sobre a sua cabeça, concluiu +por attribuir ingenuamente a um milagre da Providencia +o beneficio que recebêra; e, depois de ter reflectido +bastante tempo, convenceu-se devéras de que a bolsa +lhe caira do céo, e tão arreigada conservou esta +convicção, +que ninguem seria capaz de lh'a arrancar. Veneravel +candidez de crenças! Não se importou com <a href="#e16">o pensamento</a> de que não +valia a pena fazer um +milagro +para dar cinco tostões, e que, ainda que o céo +estivesse +inclinado a economias, não era natural que a Providencia +tomasse a precaução de collocar a sua esmola +dentro +de uma bolsa de seda verde.<br /> + +<br /> + +«A tudo isso responderia elle que a menos que a +bolsa não se formasse no ar, e caisse por si mesma, +ou que existissem actualmente arvores com esse fructo, +esse dinheiro não podia vir senão do +céo. E vinha com +effeito.<br /> + +<br /> + +«Por conseguinte o bom do velho, passando do immenso +desalento á immensa alegria, ajoelhou, beijou-me +fervorosamente, depois levantou-se, e correu com +uma lizeireza de rapaz a fazer as compras necessarias +á sua pobre familia.<br /> + +<br /> + +«Foi então que eu me pude convencer de que +não +eram a mim que se dirigiam, no tempo da minha prosperidade, +os comprimentos que tanto me enchiam de +orgulho, mas sim e unicamente á opulencia que eu +representava. +Foi essa uma desillusão fatal, e que me +causou uma tristeza pungente! Ah! meu amigo, bastará +<span class="pagenum"><a name="p154">[154]</a></span>esse +dia para eu +conhecer o egoismo dos homens. +Desde o instante em que eu saíra da casa em que +nascêra, +no curto espaço de duas ou tres horas, que de +agargas lições, que de tristes +ensinamentos!<br /> + +<br /> + +«Nas casas em que entrava com o meu pobre possuidor, +ninguem olhava para mim, assim como ninguem +olhava para elle. N'uma loja de capellista onde o velhinho +foi comprar agulhas, o instrumento de trabalho de +sua filha, a fragil armasinha com que ella combatia intrepidamente +o demonio da miseria, estavam umas senhoras +arrastando sedas, e resplendendo em joias. Estavam +comprando não sei o quê, mas fosse qual fosse +a compra, ellas demoravam-se immenso, porque desejavam +escolher á vontade, e obrigavam a dona da loja, +que satisfazia as suas exigencias com toda a complacencia, +a revolver todas as caixas, a mexer em todas +as gavetas, a abrir todos os armarios.<br /> + +<br /> + +«O bom do meu velhinho, impaciente como estava, +para levar de comer á sua pobre familia, depois de esperar +um pedaço, não pôde deixar de +dizer, <a href="#e17">collocando-me</a> +timidamente em cima do balcão:<br /> + +<br /> + +―«Se a sr.<sup>a</sup> Ignacia me podesse aviar +n'um instantinho...<br /> + +<br /> + +«A capellista, interiormente enfurecida pelas +maçadas +que lhe estavam dando as suas opulentas freguezas, +voltou-se, e empurrando-me bruscamente, tão bruscamente +que caí no meio do chão, bradou com uma +voz desesperada:<br /> + +<br /> + +―«Espere, não tenha pressa, guarde o seu +dinheiro. +Não vê que estou a servir estas senhoras?<br /> + +<br /> + +«O meu pobre dono calou-se, e apanhou-me sem +murmur +«O meu pobre dono calou-se, e apanhou-me sem +murmurar sequer. O que havia elle de fazer? A capellista +<span class="pagenum">[155]</span>fiava lhe os +utensilios necessarios a +sua filha, em +occasiões de apuro, e até ás vezes, +porque no fundo a +tia Ignacia tinha um bom coração, lhe emprestava +os +seus vintens.<br /> + +<br /> + +«Eu é que não admitti circumstancia +attenuante possivel +para o ultrage que recebêra. N'essa manhã mesma +eu fôra tratada tão amavelmente n'uma loja de +capellista +com estanco, onde Eduardo entrára a comprar +charutos, que não percebia qual fosse o motivo da subita +differença.<br /> + +<br /> + +«Já vê que as +lições ainda não tinham aproveitado.<br /> + +<br /> + +«N'esse ponto foi que eu principiei a avaliar as amarguras +da minha nova posição. Felizmente, a scena que +se lhe seguiu veiu adoçal-as um pouco.<br /> + +<br /> + +<h3>XII</h3> + +<br /> + +«Tremulo de alegria, subiu o velho os ingremes degraus +de uma escada tortuosa e escura, que conduzia +á agua-furtada onde habitava. Quando chegou ao ultimo +patamar parou para respirar. O coração batia-lhe +com +alegria. Pensára tanto em subir aquella escada lentamente, +como um homem que leva sobre os seus hombros +o peso enorme do infortunio; pensára tanto no +soffrimento que o havia de dilacerar quando chegasse +com o desespero na alma ao mesmo sitio onde parára +ebrio de alegria; pensára tanto no triste espectaculo que +se lhe havia de deparar, no desgosto profundo que havia +de sentir; pensára tanto em tudo isso, que +chegára +quasi a costumar-se a essa idéa, e que a felicidade +<span class="pagenum">[156]</span>encontra-o armado +para a desgraça e desprevenido para +a ventura.<br /> + +<br /> + +«Finalmente entrou.<br /> + +<br /> + +«Que espectaculo tão novo para mim foi esse que eu +divisei! Das trevas, que envolviam a casa, saiam gemidos +abafados, soluços horrendos, murmurio dilacerante, +reflexo pavoroso do sussurro dos condemnados +do inferno accumulados na tenebrosa +<em>géhenne</em> que Dante +visitou. O meu dono, depois de abrir a porta, ficou um +instante parado, e involuntariamente as lagrimas inundaram-lhe +as faces, parando nos labios, que sorriam +com um sorriso de consolação.<br /> + +<br /> + +«Quando o meu olhar se costumou ás trevas, pude +então vêr no fundo do quarto, e deitadas em cima +de +uma pobre enxerga, duas creanças de nove para dez +annos, pallidas, magras, com os seus corpinhos quasi +nús, tremendo de frio n'aquelle recinto humido. Choravam, +e choravam de fome! Mais ao fundo, n'um pobre +catre, que era ainda assim o unico traste da casa, +jazia a filha mais velha, rapariga dos seus vinte e tantos +annos, a quem o soffrimento arrancava gemidos. +Uma pobre coberta esfarrapada mal a resguardava. E +comtudo, a pobre rapariga estava com uma febre violentissima; +o delirio apoderára-se d'ella. Murmurava +phrases incoherentes, gemia, soluçava. E as trevas, a +escuridão atroz a suffocal-a! E lá ao fundo, na +sombra, +a fulgirem sinistramente as garras do demonio livido +da fome!<br /> + +<br /> + +«Uma toada de musicas alegres entrava pelo quarto. +No primeiro andar havia baile. A dois passos do risonho +turbilhão das walsas o horrido vendaval do infortunio! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[157]</span> +«Ó destino!<br /> + +<br /> + +«O velho, silencioso, accendeu uma véla. Depois +pôz +na chaminé a lenha que trouxera, e accendeu o lume. +Espalhou-se no quarto um doce calor.<br /> + +<br /> + +«Os pequenos tinham-se levantado na cama, estupefactos!<br /> + +<br /> + +«Depois, sempre silencioso, pegou n'um braçado de +couves, migou-as, tirou um pão, fel-o em sopas, deitou +tudo dentro de um pobre tachinho de barro, e pôl-o +ao lume. Os pequenos tinham-se approximado d'elle.<br /> + +<br /> + +«O velho voltou-se. A sua cabeça, coroada de +cãs, +inclinou-se meigamente para as loiras cabecinhas que o +rodeavam.<br /> + +<br /> + +«E, vendo-os tremulos, mal se podendo suster em +pé, +abraçando-lhe os joelhos, as lagrimas saltaram-lhe de +novo dos olhos, a voz embargou-se-lhe na garganta, e +só pôde dizer:<br /> + +<br /> + +―«Meus filhos!<br /> + +<br /> + +―«Pão!―foi a resposta das creanças.<br /> + +<br /> + +―«Sim, meus filhos, esperem, esperem um instante. +Haveis de ceiar, haveis de ceiar, meus pobres pequeninos, +e haveis de dormir depois o somno de innocentes, +que a fome repelle ha tanto tempo de cima das +vossas gentis cabecinhas! Deixae-me, deixae-me ir tratar +de vossa irmã, da minha querida filha, que tanto +soffre por nossa causa.<br /> + +<br /> + +«E o velho approximou-se da pobre doente, que +olhava para elle com uns olhos desvairados, coou-lhe +por entre os dentes um calmante, que comprára n'uma +botica, porque o pobre do homem gastára até aos +ultimos +cinco réis, e comtudo quantas coisas de primeira +necessidade tinham ficado ainda por comprar! +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[158]</span> +«O calmante produziu um bom effeito. Ao delirio succedeu +a prostração, e a costureira adormeceu com um +somno pacifico e reparador.<br /> + +<br /> + +«Então o resto da familia agrupou-se em torno da +enxerga, meza improvisada, para onde foi trazido em +triumpho o tacho das couves. Os pequenos lançaram-se +sofregamente á comida, e em poucos minutos desappareceram +as couves e as sopas, sem omissão de um +talo, sem esquecer uma migalha.<br /> + +<br /> + +«O velho mal tinha bebido um golo de caldo. Embevecido +na contemplação de seus filhos satisfeitos, nem +pensára na sua propria fome. De vez em quando levantava +ao céo os olhos arrazados de agua, e murmurava +palavras incomprehensiveis. É essa a +oração que a +Deus mais agrada; porque é a effusão sincera, e +livre +de preceitos, de um coração que trasborda de +reconhecimento.<br /> + +<br /> + +«Quando terminou a ceia frugal, o bom do velho chamou +as creanças para junto de si, e fazendo-as ajoelhar, +e unindo-lhes as tenras mãosinhas, disse-lhes com voz +grave:<br /> + +<br /> + +―«Meus filhos, agora que por uma esmola divina +saciaram a fome, é justo que se não +esqueçam d'Aquelle +que se amerceou de vós. Vinde, e repeti comigo:<br /> + +<br /> + +―«Pae do céo, Vós que, apesar da vossa +omnipotencia, +vos não esqueceis dos vossos filhinhos, que +déstes pão a quem tinha fome, e +consolações a quem +estava afflicto! Vós que, por um milagre da vossa infinita +bondade, nos salvastes da morte, e a nosso pae +do desespero! Vós que sois todo misericordia, tende +compaixão de nossa pobre irmã! E vós, +nossa mãe +querida, que sois agora uma santa no céo, rogae tambem +<span class="pagenum">[159]</span>a Deus que +dê saúde a quem é o +nosso amparo! +Nós vos damos graças, Deus todo-poderoso, e +promettemos +sempre ser dignos da vossa affeição, e +conservarmo-nos +no caminho da virtude, para que a alma da +nossa mãesinha se não afflija de nos +vêr peccadores.»<br /> + +<br /> + +«E as creancinhas repetiam com a sua voz argentina +aquellas singelas palavras, pronunciadas pelo velho, commovido, +que estendia as mãos tremulas sobre essas cabeças +innocentes, e erguia para o céo os olhos humedecidos.<br /> + +<br /> + +«Depois beijou-as na fronte com ternura, e mandou-as +deitar. Elle apagou a luz e o lume; sentou-se á borda +da enxerga, e, encostando a cabeça nas mãos, +meditou.<br /> + +<br /> + +«Porém o dia fôra agitadissimo; a +natureza foi mais +forte do que elle, e d'ahi a pouco tempo o velho, cerrando +a pouco e pouco as palpebras, adormeceu.<br /> + +<br /> + +«As trevas encheram de novo o quarto. Mas o horror +fugira. Á porta, um anjo do Senhor, com um dedo +nos labios, velava meigamente sobre o somno da innocencia.<br /> + +<br /> + +<h3>XIII</h3> + +<br /> + +«Cinco tostões não duram eternamente, e +a prova +d'isso é que já tinham desapparecido. A miseria, +que +fugira um instante espavorida, voltava de novo a bater +á porta. Que remedio senão abrir-lh'a!<br /> + +<br /> + +«Não era feliz no mendigar o meu pobre dono. Raras +vezes obtinha o dinheiro sufficiente para comprar o +necessario. Sua pobre filha melhorára sim, por um prodigio +da natureza completamente desajudada da sciencia; +mas a sua convalescença, desprotegida d'aquelle +<span class="pagenum">[160]</span>conforto, +d'aquelles cuidados tão indispensaveis para o +restabelecimento da saude, prolongava-se, apesar de todos +os esforços que a animosa rapariga fazia para resumir, +e que, como é facil de suppôr, só +contribuiam +para a accrescentar. Queria pegar em trabalho, mas estava +tão fraca, tão fraca, que, apenas dava dois ou +tres +pontos, caía desmaiada sobre a costura, e assim passava +os dias em continuados desfallecimentos.<br /> + +<br /> + +«Seu pae tambem estava completamente impossibilitado +de trabalhar. Eu chamei-o velho, porque com +effeito os desgostos e as privações essa +apparencia lhe +haviam dado; mas não o era effectivamente. Ainda +não +contava cincoenta annos, e já não tinha na +cabeça um +só cabello preto.<br /> + +<br /> + +«Despedido da fabrica de oleados em que trabalhava, +porque a sua nimia fraqueza o tornava completamente +improprio para os rudes trabalhos manuaes da fabrica, +vira-se só com tres filhos, sem recursos, sem poder +obter, n'um outro emprego mais suave, o pão para si +e para elles.<br /> + +<br /> + +«A sua completa ignorancia tornava-o improprio para +qualquer trabalho que não fosse manual.<br /> + +<br /> + +«Ó ignorancia, negra irmã da livida +miseria!<br /> + +<br /> + +«Como eu ia dizendo, eram poucos ou nenhuns os +proventos que o pobre homem tirava da mendicidade. +As comidas iam sendo cada vez mais frugaes, e a pobre +rapariga, debilitada, enfraquecida, ia-se tornando +cada vez mais incapaz de trabalhar.<br /> + +<br /> + +«Admira-se de certo de eu continuar a existir n'uma +casa onde reinava tão profunda miseria! Espanta-se de +que me não tivessem vendido no dia immediato +áquelle +em que tinham gasto os cinco tostões. Eu lhe explico +<span class="pagenum">[161]</span>esse facto na +apparencia incomprehensivel, eu lhe dou +a chave d'esse enigma.<br /> + +<br /> + +«O meu dono considerava-me, para assim dizer, como +uma enviada de Deus, e não estava muito longe de +imaginar que existisse no meu seio um anjo occulto. +Tocar-me era quasi uma irreverencia, vender-me seria +de certo uma profanação.<br /> + +<br /> + +«Candidamente supersticioso, o bom velho tinha lá +de +si para si que eu, como mensageira que fôra de uma +esmola providencial, não podia deixar de fazer a felicidade +d'aquelles que me possuiam. Vender-me ser-lhe-hia +tão difficil, como aos romanos cederem, em troca +dos mais enormes thesouros, o palladio que fazia a republica +invencivel. Eu era a égide da casa, emfim.<br /> + +<br /> + +«Mas um dia o pobre pae de familias voltou mais +triste e amargurado do que nunca. O dia correra-lhe +como aquelle em que eu o tinha visto pela primeira vez, +com a differença que nenhum garoto compassivo, enviado +pela Providencia, se fôra esconder na ramaria de +uma arvore protectora. O velho entrava, pois, em casa, +sombrio, triste, como entraria uns poucos de dias antes, +se não fosse eu apparecer-lhe inopinadamente.<br /> + +<br /> + +«Entrou, sem dizer palavra. Dirigiu-se logo a um armario +que havia na parede, onde eu habitava, e, tirando-me +para fóra, disse-me, depois de me ter contemplado +lugubremente alguns instantes:<br /> + +<br /> + +―«Vae, pobre bolsinha, que me trouxeste momentos +de allivio, e cuja côr suave me aconselha a +esperança. +A esperança?! não a posso ter já! Ai! +a minha +sina fatal é mais forte do que a tua benefica influencia! +Ramo verde que uma pomba do céo trouxe no bico a +esta pobre arca, que vae sem rumo nas aguas de um +<span class="pagenum">[162]</span> +diluvio de infortunios, enganaste-me involuntariamente! +Não parou a tempestade! Nem ha de parar talvez! Vae, +não procures luctar mais contra a minha má +estrella! +Vae, e que a tua mesma partida nos seja ainda bemfazeja! +Os anjos de Deus, ou quando descem ao mundo, +ou quando voltam ao paraizo, sempre enviam adiante, +ou deixam após si, um rasto luminoso!<br /> + +<br /> + +«E beijando-me com fervor, metteu-me no seio, e +saiu.<br /> + +<br /> + +«Foi triste a sua peregrinação +á procura de um comprador +que se resolvesse a dar por mim um preço razoavel. +Todos, vendo-o assim pobre, mostrando no rosto +livido a fome que o impellia a vender-me, offereciam, +depois de me terem mirado com desdem, um preço +tão +baixo, que, fosse qual fosse a extrema necessidade que +o meu dono tivesse de dinheiro, entendeu que me não +devia deixar ir assim.<br /> + +<br /> + +«Comtudo, percorriamos lojas e lojas, e nenhum dos +donos d'ellas se resolveu a comprar-me. Pois eu não +valia tão pouco como isso, e estou convencida que muitas +das pessoas, a quem o velho mendigo me apresentava, +desejariam ficar comigo. Rebaixavam-me muito, +mas, segundo depois vim a saber, isso é trica de negociante +para especular com a miseria. Sabem que ainda +que a sua primeira proposta repilla o vendedor, este, +por fim de contas, sempre volta ou a acceital-a ou a diminuir +muito o preço que estabelecera.<br /> + +<br /> + +«Chamam elles a isso esperteza no negocio. E quem +não quer não venha cá, accrescentam, +terminando com +a phrase pittoresca: «Eu não lhe puz a faca aos +peitos.» +É regra estabelecida que o vendedor peça um +preço exorbitante, e o comprador offereça um +preço diminutissimo. <span class="pagenum">[163]</span>Que +venha á discussão, mesmo por acaso, +o valor real do objecto, isso é raro. Um negocio de +compra e venda é um jogo de azar em que dois jogadores +trapaceiam. Vêr qual dos dois ha de roubar o +outro, <em>that is the question</em>. Nunca +um só vendedor se +lembrou de calcular: «Este objecto custou-me tanto, +devo tirar o juro razoavel de tanto, logo vendo-o por +tanto, e nem um real de mais, nem um real de menos»; +e o comprador de pensar: «Posso gastar tanto, +se o objecto valer mais, não compro.» Isso nunca: +sem +uma discussão preliminar, é sensabor o negocio. +Se a +invenção da moeda simplificou as +relações mercantis, +quanto as não simplificaria a invenção +d'esta moeda dos +corações nobres, que se chama «boa +fé!».<br /> + +<br /> + +«A antiguidade, que fez Mercurio o deus dos +ladrões +e dos negociantes, acertava devéras se accrescentasse―e +dos consumidores.<br /> + +<br /> + +«Desculpe estas reflexões um pouco prolixas; mas +eu sou o Nestor das bolsas, e desde o celebre ancião +homerico, cujas palavras eram doces como favos de +mel, e que talvez por isso eram prodigalisadas por tal +fórma pelo rei de Pylos, que não sei como os +gregos +não tomaram uma indigestão de melaço: +desde esse +vulto epico, todos os Nestores gostam de pregar grandes +massadas. Eu não me podia esquivar á regra geral. +<br /> + +<br /> + +«Agora vou continuar.<br /> + +<br /> + +«O meu dono luctou muito tempo contra a avidez dos +compradores, e fez-lhes falhar os calculos. Saía das lojas +com o desespero na alma, o rubor da indignação +na fronte, e não voltava.<br /> + +<br /> + +«Assim se passaram duas horas.<br /> + +<br /> + +«O preço, que lhe offereciam, ia sempre +diminuindo: <span class="pagenum">[164]</span> +porquê? Porque de cada vez a physionomia do mendigo +se tornava mais livida. A anciedade pintava-se-lhe +nas feições. Cada ruga de mais, que se lhe cavava +na +fronte angustiada, traduzia-se immediatamente em cinco +réis de menos no preço que lhe offereciam.<br /> + +<br /> + +«Finalmente, exhausto, prostrado, desfallecido, entrou +n'uma ultima loja, e, quando entrou, deixou-se cair em +cima de uma cadeira. As pernas recusavam-se a sustental-o +mais tempo.<br /> + +<br /> + +«Na loja estavam o mercador, e um freguez escolhendo +não sei o quê. Sei apenas que era um rapaz de +uma physionomia sympathica.<br /> + +<br /> + +«Ambos olharam espantados para o pobre velho, mas +o espanto do primeiro era um espanto encolerisado, o +do segundo um espanto compadecido.<br /> + +<br /> + +«O dono da loja receiava para as suas cadeiras o +contagio da miseria. Que um cão se estirasse em cima +d'ellas, passe; mas um mendigo!<br /> + +<br /> + +«O meu dono estendeu-me com mão tremula para o +logista, e disse com voz que mal se ouviu:<br /> + +<br /> + +―«Eu desejava vender esta bolsa. Quanto me dá o +senhor por ella?<br /> + +<br /> + +―«Que diz vossê?―tornou o dono da loja com modos +irritados. Falle de maneira que se entenda! Julga +que tenho ouvidos de tisico? Graças a Deus sempre +gozei de boa saude.<br /> + +<br /> + +―«Desculpe-me, senhor, respondeu o meu dono fazendo +um esforço sobre si mesmo para fallar com voz +mais intelligivel, é porque estou muito fraco. Desejava +saber quanto o senhor me dá por esta bolsa.<br /> + +<br /> + +―«Ah! até que emfim! Não seria mau que +vossê se +levantasse, porque este senhor talvez se queira sentar. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[165]</span> ―«Deixe +estar o pobre homem,―interrompeu o +freguez com vehemencia, não vê que mal se +póde ter +em pé. Coitado!<br /> + +<br /> + +―«Pois sim, sim!―resmungou o logista, se toda +a gente que não póde andar se me viesse pespegar +nas cadeiras, estava eu arranjado. Mas vamos lá a +vêr +a bolsa. Ah! está toda esfarrapada! que trapo! isto +não vale cinco réis. Quanto quer vossê +por isto!<br /> + +<br /> + +―«V. s.<sup>a</sup> dirá quanto quer +dar por ella!<br /> + +<br /> + +―«Eu! olhe, já lhe digo que não lhe +dou mais de +quatro vintens. Nem um real. Serve-lhe?<br /> + +<br /> + +―«Quatro vintens por uma bolsa de seda, senhor!―tornou +o meu dono com uma profunda accentuação +de amargura na voz.<br /> + +<br /> + +―«Sim! que ella está muito bonita. E quem me +assevera +que vossê não roubou isto? Nada, parece-me +que nem os quatro vintens lhe dou.<br /> + +<br /> + +―«Roubar! eu?―bradou o meu bom velho, erguendo-se +indignado da cadeira.<br /> + +<br /> + +―«Sim! sim! Eu já conheço essas capas +de santidade. +O senhor não póde imaginar, continuou elle, +voltando-se para o freguez, quanto esses malandros +são finos! Olhe, um dia d'estes...<br /> + +<br /> + +―«Este homem não tem cara de ladrão, +interrompeu +bruscamente o desconhecido.<br /> + +<br /> + +―«Muito obrigado, senhor, muito obrigado!―exclamou +o meu dono. Sirvam-me de consolação as suas +palavras! Faz-me bem ouvil-as! Partem de um +coração +nobre.<br /> + +<br /> + +―«Emfim, tornou o logista um pouco despeitado, +se me quer dar a bolsa ahi tem os quatro vintens.<br /> + +<br /> + +―«Que remedio, senhor! A necessidade é +má conselheira! <span class="pagenum">[166]</span>ahi +tem a bolsa! Sempre meus filhos não +morrerão hoje de fome!<br /> + +<br /> + +―«Não, interrompeu ainda o generoso rapaz, +agarrando +no braço do mendigo, não consentirei que se +pratique um roubo assím na minha +presença. Sou eu +quem lhe compra a bolsa. Ahi tem dez tostões, é +tudo +quanto tenho comigo. Creio que a bolsa não valerá +muito mais.<br /> + +<br /> + +«E, pondo na mão do mendigo duas meias +corôas, +saiu levando-me comsigo, deixando o logista estupefacto, +e sendo acompanhado pelas bençãos do velho.<br /> + +<br /> + +<h3>XIV</h3> + +<br /> + +«Quando cheguei ao alojamento do meu novo dono, +percebi que a minha posição não +melhorára consideravelmente. +A mobilia da casa não era muito mais numerosa, +do que a da miseravel agua-furtada, d'onde +eu saíra n'esse mesmo dia. Uma estante de pinho, vergando +ao peso dos livros, e uma meza cuja superficie +desapparecia debaixo de uma triplice camada de papeis, +ahi tem quaes eram os moveis principaes d'aquella +casa.<br /> + +<br /> + +«O resto da mobilia, se o meu amigo quizer absolutamente +uma descripção á Balzac, compunha-se +de um +leito de ferro, e de duas cadeiras de pinho, uma das +quaes se distinguia pela ausencia de um pé, o que lhe +dava as prerogativas de tripode, e a outra primava na +singular docilidade com que se domava a todo o corpo +que se lhe pozesse em cima; porque se prostrava immediatamente +no chão em signal de obediencia. Confesso +<span class="pagenum"><a name="p167">[167]</a></span>que, +quando o meu +generoso possuidor atirou +comigo para a tal cadeira nimiamente flexivel, receei +que apesar da minha leveza, obrigasse o pobre movel +a dar provas da sua habilidade gymnastica.<br /> + +<br /> + +«O meu proprietario, assim que entrou, despiu o casaco +e atirou com elle irreflectidamente para cima da +cadeira cortez, onde eu, por minha desgraça, estava +tambem collocada. Receber o casaco, fazer um +<em>plié</em> com +toda a habilidade de um mestre de dança, e ir parar +ao chão arrastando-me na quéda, foi uma e a mesma +coisa para a cadeira. O meu dono nem reparou em tal, +e, dirigindo-se logo para a outra, sentou-se á meza, +pegou n'uma penna, molhou-a no tinteiro, e começou +a escrever com uma rapidez incrivel.<br /> + +<br /> + +«Eu entretanto não estava lá muito +á vontade. Litteralmente +esmagada debaixo do casaco, tinha, para cumulo +de desventuras, mesmo encostado a mim um +grosso caderno de papel, que saía de uma das algibeiras, +e que me pregava no chão, comprimindo-me +atrozmente. Eu ficára embirrando com papeis, desde +o momento em que, por causa d'elles, fôra expulsa +irrevogavelmente da casa dos meus primeiros donos, +e ai! sem esperança de para lá voltar.<br /> + +<br /> + +«Mas, ainda que eu não tivesse essa +justificadissima +<a href="#e18">prevenção</a> +contra a papelada, bastava a attitude aggressiva, +que este caderno tomára para comigo, para eu +ficar odiando mortalmente a sua raça. Debalde eu gritava, +ralhava, resmungava, fazia esforços inauditos para +me desembaraçar do peso que me opprimia, tudo era +inutil. O caderno era inflexivel, e o casaco ainda mais. +Não tive remedio senão resignar-me.<br /> + +<br /> + +«Vendo-me socegada, o caderno de papel começou +<span class="pagenum">[168]</span>a entabolar umas +taes ou quaes +relações comigo. Percebendo +que, por fim de contas, a melhor resolução, +que eu podia tomar, era corresponder á amabilidade +com que me tratavam, troquei algumas palavras com +elle, primeiro n'um tom bastante sêcco, e a pouco e +pouco mais agradavelmente. Emfim, d'ahi a cinco minutos +estavamos os melhores amigos d'este mundo.<br /> + +<br /> + +«Foi então que elle me disse que o seu dono era +litterato, +como quem diz, não tinha officio nem beneficio. +Andava sempre abundantemente provido de idéas e de +dividas. As idéas eram sublimes, as dividas eram pasmosas. +Nem por umas nem por outras havia quem désse +dez réis. Tinha por costume confiar ao papel os seus +pensamentos; mas por mais empenhos que o papel almasso +mettesse com o papel de imprensa, nunca tinha +conseguido que este se encarregasse de repartir com +elle as honras da confidencia. Não porque o litterato +não tivesse talento; pelo contrario, asseverava o papel +que tinha muito; mas infelizmente, como ainda não se +descobrira o meio de se começar a escrever pela segunda +obra, e os editores queriam unicamente imprimir +os seus escriptos se elle já fosse conhecido, o homem +estava sériamente ameaçado de nunca os +vêr em +lettra redonda.<br /> + +<br /> + +«Em compensação, um editor Mecenas, um +protector +das lettras com loja de livros n'uma escada, offerecera-lhe +o honroso logar de traductor dos romances +de Paulo de Kock, e de outros notaveis escriptores francezes, +com o pingue ordenado de tres mil réis por mez. +Este homem era tido pelos seus collegas como um perdulario.<br /> + +<br /> + +«Outro editor, ainda mais estroina ou mais inexperiente, +<span class="pagenum"><a name="p169">[169]</a></span>concebêra +a atrevida +idéa de tentar fortuna imprimindo +as obras do pobre diabo. Pedira-as para as +vêr, pedido que ia dando com o escriptor em doido... +de alegria, e mostrou-as a um entendedor seu amigo. +Este folheou os <a href="#e19">differentes</a> +cadernos por +espaço de cinco +minutos, e devolveu-os ao livreiro, asseverando que o +rapaz tinha uma lettra tão boa, que não podia +chegar a +ser um grande escriptor, o que fez com que o bom do +emprezario de litteratura devolvesse os cadernos a quem +os escrevêra, offerecendo-lhe ao mesmo tempo um logar +de caixeiro.<br /> + +<br /> + +«O litterato atirára com os cadernos á +cara do editor, +depois com os livros que achou á mão, e +já baloiçava +a cadeira gymnastica para lhe fazer tomar o caminho +que haviam tomado os livros e os papeis, quando +o bom do editor descia os ultimos degraus da escada, +e sacudia o pó das suas sandalias á porta de casa +tão +pouco hospitaleira.<br /> + +<br /> + +O que o caderno meu visinho me affirmou (e devo +dizer de passagem, que fôra elle um dos +projectís de +que o seu dono se servira, um dos navios encarregados +de operarem um reconhecimento nas costas editoraes), +o que elle me affirmou foi que, se o nosso homem +não sacudisse tão depressa o pó das +suas sandalias, +o escriptor vinha-lhe a sacudir mas era o pó da +sobrecasaca.<br /> + +<br /> + +«Aqui está em resumo o que me narrou o meu +officioso +visinho.<br /> + +<br /> + +«Não tentarei descrever a vida que eu passei +durante +dois ou tres mezes em casa d'esse seu collega. Póde +imaginar qual era; repouso completo, enercia absoluta. +Collocada na estante, alli passei todo o tempo, sempre +<span class="pagenum">[170]</span> +socegada, sempre vasia, conversando muito com os lívros +meus visinhos, que me ensinaram tudo quanto eu +sei, e me fizeram adquirir a erudição que tanto o +admirou, +e vendo o meu dono passeiar no quarto, sempre +agitado, e sempre procurando alguma coisa, ou uma +rima, ou um lenço de assoar, ou um editor.<br /> + +<br /> + +«Rimas encontrava elle quasi sempre, lenços de +assoar +algumas vezes, editores nunca!<br /> + +<br /> + +«A traça fôra o editor unico d'aquelles +papeis.<br /> + +<br /> + +«Um dia foi elle tambem procurado por uns sujeitos, +que lhe apresentaram um papel sellado, e que lhe disseram +serem elles os encarregados pelo sr. Bartholomeu +Nunes, de proceder a uma penhora por causa de +não sei quantos mil réis que elle devia ao dito +senhor.<br /> + +<br /> + +«O meu dono não fez a minima +objecção, pegou no +chapeu e saiu, dizendo:<br /> + +<br /> + +―«Escolham o que quizerem.<br /> + +<br /> + +«Coisa que elles não o obrigaram a repetir. +Percorreram +minuciosamente todos os cantos e recantos. Nada +lhes escapou. Tudo inventariaram, tudo levaram. Eu, +já se vê, não escapei ao desastre; +lá fui envolvida com +os livros, e sabe quem eu vi tambem no frete?<br /> + +<br /> + +«A celebrada cadeira das mesuras. Até isso lhes +servira!<br /> + +<br /> + +<h3>XV</h3> + +<br /> + +«O meu dono (quinto, segundo vê; eu se +não fosse +tão modesta dizia-lhe que pozesse no titulo, em vez de +<em>Memorias de uma bolsa verde</em>, a +<em>Odysseêa de uma bolsa +verde</em>), o meu novo dono era um usurario amador. Magro, +<span class="pagenum">[171]</span>com umas pernas +que se cançavam antes de chegar +aos pés, a tez biliosa, o nariz adunco e cavalgado +por uns oculos, era perfeitamente o typo que Shakspeare +(que foi meu visinho) attribue á sexta edade do homem, +na celebre comedia intitulada: <em>As you like +it</em>, titulo que +o leitor póde traduzir <em>como +quizer</em>. Observando rigorosamente +as regras da economia, não comprando senão +o que lhe era restrictamente necessario, e assim mesmo +inventando para seu uso proprio um +<em>necessario</em> especial, +as riquezas que obtinha, moeda de cobre a moeda +de cobre, serviam-lhe unicamente para as ter enterradas +n'uma burra collocada no seu quarto.<br /> + +<br /> + +«N'esse ponto tinha elle uma certa +<em>coquetterie</em>. As +libras doiradas, em que transformava os patacos dos +desgraçados, encerrava-as dentro de uma infinidade de +bolsas elegantes e ricas até, que estavam dispostas +symetricamente +por fileiras, no fundo do seu <em>coffre +fort</em>. +Todas as noites, antes de se ir deitar, abria-o, descerrava +as bolsas, e fazia cair sobre o solo uma chuva de +oiro. Alli, Danae de si mesmo, estirava-se elle, enchendo +as mãos de punhados de libras, e fazendo-as cair no +monte a pouco e pouco, enterrando os dedos n'aquella +eira monetaria, revolvendo-a, fazendo-a rolar, apanhando-a +espiga a espiga, juntando-a, contando-a de novo, +enchendo as bolsas, e tornando-as a collocar dentro da +burra. Tudo isto elle fazia com uma delicia, com uma +soffreguidão taes, que não trocaria de certo este +prazer +pelo melhor divertimento do mundo.<br /> + +<br /> + +«Quando eu cheguei á porta já elle +estava á nossa +espera. Ajudou a descarregar o frete, procurou os livros, +determinou que os vendessem immediatamente, +e deu um grito de surpreza quando eu appareci. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[172]</span> +«Era uma bolsa que o acaso lhe dera para juntar á +sua collecção. Bem sei que eu estava um tanto +rota, +um pouco esfarrapada, e que os rasgões me adornavam, +apesar de eu ser ainda bem nova. Mas as cicatrizes, +n'um rosto imberbe, dão a esse rosto a magestade da +velhice, e eu, considerada debaixo d'esse ponto de vista, +estava magestosa a mais não ser. De mais a mais, nos +emprestimos que o usurario fizera ao litterato, os juros +tinham absorvido o capital, havia já tanto tempo, +que se podia dizer que toda a mobilia do meu ex-possuidor +vinha a sair de graça ao honesto agiota. E n'esse +caso que importava que eu estivesse rasgada? «A bolsa +dada não se olha á seda.»<br /> + +<br /> + +«Por conseguinte o bom do velhote magrito, assim +que me viu, fez-me mil caricias, e, depois de ficar só, +foi a uma gavetinha, não sem olhar primeiro para todos +os lados afim de se assegurar se alguem o espreitava, +tirou de dentro um cartucho de libras, despejou-o +dentro de mim, prestando um ouvido encantado ao som +metallico do dinheiro, e, levando-me com toda a cautela +bem apertada na mão, dirigiu-se pé ante +pé para +o seu quarto, abriu a burra que estava ao pé da cama, +e depois de contemplar por um instante as bolsas, +amontoadas umas em cima das outras, deixou-me caír +com um suspiro de satisfação, e fechou o cofre.<br /> + +<br /> + +«Eu ao principio fiquei completamente atordoada. +Esta passagem repentina da luz para as trevas, do ar +livre para um carcere estreito, produziu em mim uma +impressão terrivel. Comtudo a pouco e pouco fui-me +costumando e resignando. Comecei a distinguir alguns +objectos n'aquella escuridão. Os perfis vagos de umas +coisas informes, que eu percebia estarem junto de mim, +<span class="pagenum">[173]</span>foram gradualmente +fixando os seus contornos, e no fim +de um quarto de hora comprehendi que estava rodeada +de uma chusma de minhas irmãs.<br /> + +<br /> + +«Agora percebo eu que fui pouco habil na +narração. +Pois não o devia ser; porque na estante do litterato +conversára muitas vezes com uma +collecção da +<em>Presse</em> +e do <em>Constitutionnel</em>; e os folhetins +romances d'estes +jornaes tinham-me ensinado todos os estratagemas, com +que se tem suspensa a curiosidade do leitor, incitando, +aguilhoando-o com a espora do mysterio, de fórma que +elle percorra a narração, como um cavallo +desenfreado +percorre a planicie, sem se importar com as bellezas +dos accessorios, e desejando só chegar ao fim, que +é +para o cavallo o precipicio em que se despenha, para +o leitor a peripecia ultima, que se póde compôr, +á vontade +do romancista, ou de trinta punhaladas, ou de vinte +casamentos.<br /> + +<br /> + +«Apesar d'essas lições, vê +se que eu ainda estou +muito inexperiente, e que se os meus companheiros de +estante chegarem a conversar alguma vez com esse papel, +que o meu amigo transformou em confidente das +minhas tribulações, hão de +envergonhar-se da má discipula +que tiveram.<br /> + +<br /> + +«Com effeito, para que fui eu dizer totalmente ao +leitor que o usurario se debruçára a contemplar +as +bolsas? Privei-me assim de umas poucas de phrases +interrogativas, que produziriam uma optima impressão!<br /> + +<br /> + +«O que seriam esses objectos informes immoveis no +fundo da caixa? Que mysterio se occultaria n'aquellas +tenebrosas profundezas?» Etc., etc. Ora vejam o que +eu perdi.<br /> + +<br /> + +«Emfim o mal está feito, e não tenho +remedio senão <span class="pagenum">[174]</span> +continuar a narração, prescindindo d'esses +auxiliares de +que me lembrei tão tarde.<br /> + +<br /> + +«Um murmurio confuso se elevou assim que eu cheguei. +Na existencia monotona dos prezos é sempre um +acontecimento importante a chegada de um estranho. +A curiosidade irritada por uma longa abstinencia, procura +saciar-se com frenesi assim que se lhe offerece +occasião para isso. Era destino meu concorrer para matar +a fome, umas vezes de pão, quando eram humanos +os que soffriam, outras vezes de curiosidade quando +eram bolsas.<br /> + +<br /> + +«Por isso, apenas trocámos os primeiros +comprimentos, +logo caíu sobre mim a chuva de perguntas. Quem +era eu? d'onde vinha? como fôra alli parar? De todos +os cantos do bahú saía uma +interrogação; todas as bolsas +olhavam para mim, as mais distantes punham-se +nos bicos dos pés, para me verem melhor, depois cochichavam +entre si; as novas faziam observações zombeteiras +ácerca das minhas feições, e, +comparando-as +com as suas, concluiam que eu nunca lhes poderia disputar +o pomo da belleza; as que estavam intactas achavam-me +horrenda por causa dos meus rasgões; as que +estavam mais rasgadas do que eu, achavam que me ficava +pessimamente o estar pouco dilacerada; as velhas +só olhavam para mim com complacencia, lembravam-se +do seu tempo, suspiravam, e chamavam-me «filha.»<br /> + +<br /> + +«Depois de satisfazer, o melhor que pude, a curiosidade +geral, chegou a minha vez. Não foi necessario +que eu rogasse muito, para ser informada da vida das +minhas companheiras, não foi preciso até que eu +dissesse +uma só palavra a esse respeito. Se de alguma +coisa me pude queixar, foi da pressa que ellas tinham +<span class="pagenum">[175]</span>de me contar a sua +historia, o que fazia com que fallassem +todas ao mesmo tempo, havendo na caixa uma +balburdia incomprehensivel. Dir-se-ia que era alli a base +da torre de Babel!<br /> + +<br /> + +«Ai! meu amigo, que horrendas coisas eu vim a saber! +Que de crimes estavam alli escondidos, d'estes que +escapam á justiça dos homens, mas sobre os quaes +estão +abertos os olhos vigilantes da Providencia! Cada +moeda de oiro accumulada n'aquelle cofre, representava +uma enorme somma de soffrimentos. Aqui uma viuva, +reduzida á miseria! mais adiante uma donzella, pura +como os anjos, lançada no abysmo da devassidão! +Acolá +um orphão defraudado da herança paterna. Sommas +consideraveis representavam vidas e vidas de torturas +incriveis, soffridas pelos vossos pobres irmãos, cujo rosto +o acaso do clima revestiu com um manto luctuoso! Que +horrores jaziam alli escondidos! Que de trevas entravam +na composição do fulgor d'aquelle oiro!<br /> + +<br /> + +«Era já noite. Sentimos uma chave ranger na +fechadura; +tudo entrou no silencio.<br /> + +<br /> + +«Abriu-se o cofre, e appareceu-nos o rosto livido, e +a extensa figura do usurario. Estava de barrete de dormir +e de roupão. Trazia um castiçal.<br /> + +<br /> + +«Collocou-o em cima da meza da cabeceira, sentou-se +no chão, despejou-nos uma a uma, e começou a +revolver +a massa brilhante do oiro.<br /> + +<br /> + +―«Saltem, saltem, minhas meninas, dizia elle em +voz baixa e roufenha, saltem que bem me custam a ganhar. +Não as crimino por isso; pelo contrario. Que prazer +ha ahi que se compare com o que eu experimento +n'este instante? Como tudo isto deslumbra! Tenho aqui +o sufficiente para comprar Portugal todo, incluindo as +<span class="pagenum">[176]</span>consciencias dos +seus habitantes. Para quê! Puf! Que +me importa a mim com essa canalha, que me chama +usurario, e que me vem lamber os pés. Prazer, ineffavel +prazer é este que vós me daes. Saltem, saltem, +minhas +meninas!<br /> + +<br /> + +«E sorria-se com um sorriso de hyena, o miseravel!<br /> + +<br /> + +«Finalmente cançou-se, tornou-nos a encher com +toda +a paciencia, fechou o cofre, e foi-se deitar.<br /> + +<br /> + +«Caíu tudo em silencio de novo.<br /> + +<br /> + +«Deu meia noite!<br /> + +<br /> + +«As pancadas do relogio resoaram lenta e lugubremente +na solidão do quarto.<br /> + +<br /> + +«E eu senti um frio terror percorrer-me o corpo; +porque um vago e convulso estremecimento agitára no +meu seio as libras silenciosas.<br /> + +<br /> + +«E o cofre abriu-se como se mão invisivel o +tocasse, +e um vulto melancolico e severo, com azas negras nos +hombros, appareceu em pé junto de nós.<br /> + +<br /> + +«Era o anjo do remorso! Que magestade n'aquella +fronte sombria, que pungente contracção no seu +labio +severo!<br /> + +<br /> + +«E elle estendeu a mão com um gesto imperioso, e +eu, gelada de susto, senti as peças de oiro moverem-se +por si mesmas, e adquirirem como que umas azas pequeninas.<br /> + +<br /> + +«Um vago e sinistro suor lhes percorreu a fronte, e +esse suor era um suor de lagrimas!<br /> + +<br /> + +«E todas se ergueram; o enxame de sinistras abelhas +saíu em bando da tenebrosa colmeia, e a bulha das +suas azas metallicas produzia não sei que lugubre som!<br /> + +<br /> + +«E, ao mando do anjo do remorso, foram todas pairar +sobre o leito do avaro. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[177]</span> +«Então vi um terrivel espectaculo; de cada uma +d'essas peças de oiro começaram a escorrer +lagrimas +e sangue, que iam caír gôta a gôta na +livida fronte do +usurario.<br /> + +<br /> + +«E elle agitava-se na cama, erguia as mãos +supplicantes, +procurava limpar a fronte, debalde! porque a +horrenda chuva cahia incessante, incessante, e alastrava +em nodoa immensa, que parecia o funebre sêllo +da reprovação de Deus.<br /> + +<br /> + +«E das peças de oiro saía um concerto +dilacerante! +concerto composto de gritos, de soluços, de blasphemias, +e de imprecações!<br /> + +<br /> + +«Depois, a um signal do anjo, as moedas desappareceram +e transformaram-se em espectros, que vieram +doidejar em torno do leito do meu dono.<br /> + +<br /> + +«E a punição ainda era mais cruel!<br /> + +<br /> + +«Uma tomára as fórmas de uma mulher, +joven, bella, +um anjo emfim, mas um anjo caído!<br /> + +<br /> + +«E approximou-se do usurario, e disse-lhe com voz +rouca:<br /> + +<br /> + +―«Era virgem, estava só! Protegia-me a dupla +auréola da innocencia e da orphandade! Tu vieste, +especulador infame, arrojaste-me a um abysmo, e +manchaste de lodo a minha candida tunica.<br /> + +<br /> + +«E outra mudava-se n'um pobre velho, de cabellos +brancos, que arrastava uma grilheta preza no pé:<br /> + +<br /> + +―«Eu era o symbolo da honra; mas tinha filhos! +Reduziste-me á miseria, e eu roubei!<br /> + +<br /> + +«E todos os espectros bradavam com voz pavorosa:<br /> + +<br /> + +―«Sê maldito!<br /> + +<br /> + +«Era horrivel, horrivel aquella scena!<br /> + +<br /> + +«E durou até que os primeiros e tenues +clarões da <span class="pagenum">[178]</span> +madrugada entrassem timidamente pela janella do +quarto.<br /> + +<br /> + +«Com o primeiro raio da aurora, vi apparecer no +quarto um anjo de brancas azas, com a face luminosa +banhada em pranto.<br /> + +<br /> + +«Veiu e ajoelhou aos pés do seu terrivel +irmão.<br /> + +<br /> + +―«Ainda não está satisfeita a tua +vingança?―bradou +elle com uma voz melodiosa, de que é apenas um +frouxo echo o plangente suspiro da harpa éolia.<br /> + +<br /> + +«Era o anjo da guarda do usurario, que o tinha +abandonado, +chamado pelo Senhor, mas que attrahido pelo +invencivel amor, que nos consagram estes celestes protectores, +vinha na hora do supplicio invocar, para o +seu protegido, a misericordia!<br /> + +<br /> + +«E o anjo do remorso, vencido pelas preces do seu +candido companheiro, fez um signal, e o tumultuoso +enxame entrou no cofre, que se tornou a fechar.<br /> + +<br /> + +«Um vago bater de azas denunciou-me que os dois +anjos tinham voltado ao céo levados pelo primeiro raio +do sol da manhã.<br /> + +<br /> + +<h3>XVI</h3> + +<br /> + +«Isto repetia-se todas as noites. O costume já me +tornára indifferente.<br /> + +<br /> + +«Passaram-se talvez seis annos, durante os quaes eu +nunca saí da minha prisão, e em que, pelo +contrario, +entraram muitas novas companheiras que vinham augmentar +o volumoso peculio, e, ao bater da meia-noite, +tornar tambem mais numeroso o funebre cortejo dos +phantasmas.<br /> + +<br /> + +«No fim de seis annos morreu o meu usurario! Morreu +<span class="pagenum">[179]</span>de repente! +Não tivera tempo de fazer testamento, +e, segundo me disseram, iamos passar para as mãos +de uma herdeira, parenta muito afastada do finado.<br /> + +<br /> + +«Com effeito, poucos dias depois da morte de Bartholomeu +Nunes, vieram uns quatro gallegos para levar +a burra a pau e corda.<br /> + +<br /> + +«Tivemos a consolação de os derrear!<br /> + +<br /> + +«Quando chegámos á casa para onde +iamos, os gallegos +escorriam em suor, e praguejavam como uns damnados.<br /> + +<br /> + +«Uma voz argentina fez-se ouvir junto de nós. Esta +voz não me era desconhecida; mas onde a ouvira eu? +Impossivel lembrar-me!<br /> + +<br /> + +«Finalmente rangeu a chave na fechadura, e abriu-se +o cofre. Que rosto imagina que me appareceu? O de +Camilla! o da minha creadora!<br /> + +<br /> + +«Descrever-lhe a alegria que senti é-me +completamente +impossivel.<br /> + +<br /> + +«Ella primeiro não me conheceu. Espantada de tanta +opulencia, não fazia senão repetir:<br /> + +<br /> + +―«Como aquelle homem era rico!<br /> + +<br /> + +«Depois tirou para fóra algumas bolsas. Entre +ellas +ia eu.<br /> + +<br /> + +«Camilla mirou-me attentamente, e murmurou:<br /> + +<br /> + +―«Que estranha similhança... É +impossivel!... +Seria extraordinario!<br /> + +<br /> + +«Era-lhe facil sair d'aquella incerteza. A sua delicada +mãosinha bordára no meu corpo as iniciaes d'ella +e de +seu marido; por conseguinte, podia procurar esse signal. +Foi o que fez.<br /> + +<br /> + +«As duas letras―<em>C +E</em>―cá estavam enlaçadas +amorosamente. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[180]</span> +«Camilla deu um grito de alegria. Beijou-me freneticamente, +exclamando:<br /> + +<br /> + +―«Ó minha gentil bolsinha! Torno a encontrar-te. +Como estás desfigurada! Que te tem acontecido? Ainda +conservas as nossas iniciaes n'um estreito abraço! Symbolo +de um amor que passou, que doce amargura eu +sinto em te vêr!<br /> + +<br /> + +«Que se passára n'aquella casa? Que acontecimento +motivára as tristes palavras de Camilla?<br /> + +<br /> + +<h3>XVII</h3> + +<br /> + +«Juro-lhe que n'esse momento tive pena de não ser +um ente possuidor da faculdade do movimento, de vida, +emfim, para poder corresponder aos ternos beijos com +que a minha boa dona me saudava. Infelizmente, tinha +de me contentar com os receber e não podia retribuil-os. +Via-me obrigada a ficar immovel, gelada, na +apparencia indifferente.<br /> + +<br /> + +«Para lhe poupar o trabalho, que eu tive, de saber +a pouco e pouco o que se passára, eu lh'o digo em +poucas palavras.<br /> + +<br /> + +«Camilla, como sabe, tinha genio ciumento. Eduardo +era impaciente e teimoso.<br /> + +<br /> + +«Tinham-se repetido muitas vezes scenas similhantes +áquella que me obrigára a sair pela janella, como +um amante surprehendido. Uma vez, porém, a +discussão +fôra mais agitada, do que era habitual. Eduardo +irritára-se, Camilla teimára, e o rompimento +seguira-se. +Fôra uma especie de divorcio <em>intra +muros</em>, com consentimento +de ambos. Não havia nem sombra de escandalo. +<span class="pagenum"><a name="p181">[181]</a></span>Muito +amaveis um +para com o outro na sociedade, +em casa viam-se apenas ás horas da comida, fallavam-se +muito cortezmente, e depois cada um partia para o seu +lado.<br /> + +<br /> + +«Esta intoleravel situação durava, ia +para seis mezes. +E não julgue que o amor dos dois esposos tinha +afrouxado; pelo contrario, amavam-se cada vez mais; +porém o seu genio orgulhoso impedia a cada um d'elles +dar o primeiro passo para a reconciliação. +Soffriam, +e soffriam em silencio.<br /> + +<br /> + +«Ahi tem a explicação das phrases de +Camilla.<br /> + +<br /> + +«Estava-me ella ainda beijando, quando bateram á +porta devagarinho.<br /> + +<br /> + +―«Dá licença?―disse a voz de Eduardo. +<br /> + +<br /> + +«Camilla enxugou os olhos rapidamente, collocou-me +em cima da meza, e respondeu com voz ainda um +pouco tremula:<br /> + +<br /> + +―«Entre!<br /> + +<br /> + +«Eduardo entrou. O tempo não alterára a +<a href="#e20">belleza</a> varonil +do mancebo; só um bonito bigode negro substituira +o ligeiro buço do adolescente.<br /> + +<br /> + +«Eduardo devia ter vinte e nove annos.<br /> + +<br /> + +―«Desculpe-me incommodal-a, disse elle, sorrindo; +mas nomeou-me procurador n'este negocio da herança, +e, por conseguinte, vejo-me obrigado a estar sempre a +importunal-a para lhe dar as minhas contas. O ministro +da fazenda deve ter entrada franca junto d'el-rei.<br /> + +<br /> + +―«Póde vir sempre sem receio de me +importunar.<br /> + +<br /> + +―«Ah! diga isso á vontade. Eu nunca tomo as +coisas +ao pé da letra. Erro grosseiro, que tanta gente +commette, e d'onde resultam tantos desenganos. É para +mim axiomatico o seguinte principio: Todo o homem +<span class="pagenum">[182]</span>na +conversação deve ser um agiota feroz; +não receber +as palavras sem um desconto de cincoenta por cento. +Eu podia n'este ponto fazer um +<em>calembourg</em> sobre as +palavras e as letras... de cambio; mas sou misericordioso. +Ah! a proposito de agiota; estava dando balanço +aos fundos do seu parente? Já vejo que não podia +chegar +em melhor occasião.<br /> + +<br /> + +―«Não! enganas-te; estava contemplando as bolsas +em que elle mettia o dinheiro. Tem algumas que não +são feias.<br /> + +<br /> + +―«Ia jurar que conhecia esta, atalhou Eduardo, erguendo-me +com vivacidade; parece-se tanto com uma...<br /> + +<br /> + +«Interrompeu-se, passou a mão pela testa, e depois +continuou:<br /> + +<br /> + +―«Com uma que desappareceu, como tudo o que +ella symbolisava.<br /> + +<br /> + +―«Recordações?! tornou Camilla, +sorrindo ironicamente.<br /> + +<br /> + +―«Não, vento de inverno que sacudiu um instante +as cinzas frias de um amor que morreu! Se uma centelha +fulgurou por acaso, desculpe-me.<br /> + +<br /> + +―«Desculpal-o?!<br /> + +<br /> + +―«Sim, desculpar-me! Nem todos teem força +sufficiente +para arrancar pela raiz, do jardim do coração, +as ridentes flôres da mocidade. Sobre o tumulo, em +que sepultámos o passado, brotam involuntariamente +rosas. Passa uma aragem ligeira, e lá nos vem um perfume +acariciar de novo. Mas deixe, que hei de decepar +a roseira, ainda que da hastea cortada corra o sangue +em borbotões.<br /> + +<br /> + +―«Quem foi o culpado d'isso?<br /> + +<br /> + +―«Quem? Nem eu sei. Sei apenas que esse algoz +<span class="pagenum">[183]</span>desconhecido +retalhou-me bem fundo o coração. Bem +fundo! Como vê, a cicatrização +não foi perfeita, e a ferida +ainda sangra de vez em quando! Que loucura!―continuou +elle mudando de tom, e sentando-se n'uma +cadeira com modos affectadamente joviaes, se não foi +melhor assim! Para fallarmos verdade, Camilla, já nos +iamos tornando ridiculos com o nosso eterno arrulhar! +Que absurdo! Dois pombinhos namorados, atravessando +o mundo, atados um ao outro com o laço côr de +rosa do santissimo matrimonio! O mundo ria-se e tinha +rasão; porque o mundo tem sempre rasão. Agora +é +que estamos bem. Somos uns esposos comedidos; encontramo-nos +tres vezes por dia; eu sou o seu procurador, +v. ex.<sup>a</sup> a minha intendente. Eu sou o encarregado +dos negocios estrangeiros, v. ex.<sup>a</sup> dos do reino. +Vejam se ha n'este mundo viver melhor! A paz do Senhor +habita comnosco! Ah!―continuou Eduardo animando-se +successivamente, morram as suaves recordações! +Arraze-se o jardim, para fazer brotar a ora das +conveniencias! Morra tudo quanto nos possa recordar +as doces horas do alvorecer do nosso amor, esses arrufos, +chuvas de primavera, os beijos da reconciliação, +iris delicioso! Olhe, dê-me licença que afaste da +nossa +vista tudo quanto possa despertar pensamentos perigosos, +prejudiciaes ao nosso repouso. Morra este ultimo +objecto, que ainda se atreveu a fallar-me em coisas +para sempre esquecidas.<br /> + +<br /> + +«E, dizendo isto, levantou-se n'um incrivel estado de +agitação, e agarrando em mim com vehemencia, ia a +atirar-me pela segunda vez pela janella fóra. Eu estava +já desesperada pela incrivel tendencia que Eduardo +mostrava para me fazer saltar pela janella, e «E, dizendo +isto, levantou-se n'um incrivel estado de +agitação, e agarrando em mim com vehemencia, ia a +atirar-me pela segunda vez pela janella fóra. Eu estava +já desesperada pela incrivel tendencia que Eduardo +mostrava para me fazer saltar pela janella, e pensando +<span class="pagenum"><a name="p184">[184]</a></span> +na minha triste sorte, que ia atirar comigo ao mar das +aventuras, quando julgava entrar no porto de +salvação.<br /> + +<br /> + +«Um grito de Camilla foi quem me livrou de travar +de novo conhecimento com o espaço.<br /> + +<br /> + +―«Eduardo, Eduardo, bradou ella com as lagrimas +nos olhos, vê bem essa bolsa!<br /> + +<br /> + +«Eduardo contemplou-me, viu as iniciaes, reconheceu-me, +e, voltando-se para Camilla, leu-lhe nos olhos +uma tal expressão de amor, que, sem se poder conter, +caiu-lhe aos pés, banhado em lagrimas deliciosas, em +quanto ella, n'um extase ineffavel, lhe beijava os cabellos.<br /> + +<br /> + +«Que momento aquelle!<br /> + +<br /> + +<h3>XVIII</h3> + +<br /> + +«Termina aqui a minha narração. Nas +bolsas como +nas nações, são felizes as que +não tem historia.<br /> + +<br /> + +«Dir-lhe-hei unicamente que fui conservada em casa +de Camilla e de Eduardo, como uma reliquia preciosa, +que se conservava tal qual eu tinha reapparecido, para +trazer a concordia áquelles dois estouvados.<br /> + +<br /> + +«Quando Eduardo morreu, fui eu a confidente e a +consoladora de Camilla. Como esta nunca tinha tido filhos, +era comigo que fallava em seu marido, e muitas +vezes me regou com as lagrimas que derramava. A pobre +senhora conservava sempre viva e ardente no +coração +a imagem do seu esposo.<br /> + +<br /> + +«Morreu a opulentissima viuva. Os herdeiros, tambem +já bastante ricos, quizeram liquidar aquelles immensos +haveres. Venderam tudo, eu fui com a <a href="#e21">mobilia</a> +<span class="pagenum">[185]</span>da casa, e alli, +graças ao meu amigo, salvei-me de cair +nas garras de algum segundo Bartholomeu Nunes, que +me tivesse seis annos fechada em cofre.<br /> + +<br /> + +«Ao menos com o senhor tenho podido tagarellar.<br /> + +<br /> + +«Aqui ponho ponto.»<br /> + +<h3> +XIX</h3> + +<br /> + +Assim fallou a bolsa, e eu, secretario fiel, fui escrevendo +textualmente o que ella me dictou.<br /> + +<br /> + +Tiro de cima dos meus hombros toda e qualquer responsabilidade.<br /> + +<br /> + +A aurora começava a apontar no horisonte. Ao passo +que a deusa dos roseos dedos abria as portas do Oriente, +a bolsa a pouco e pouco ia perdendo a animação +ficticia, +que um poder sobrenatural lhe emprestára, e ia-se +deixando cair em cima da meza.<br /> + +<br /> + +Eu, ingrato, não me importei com isso. Em quanto +ella ia voltando ao seu estado normal, contemplava satisfeito +o papel inundado de garatujas, cuja perpetração +principal não fôra commettida por mim, e escrevia +no fundo da ultima pagina, as seguintes palavras sacramentaes:<br /> + +<br /> + +<em>Finis, laus Deo</em>. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Quando Lucio Valença acabou a sua longa leitura, o +visconde da Fragosa resonava maravilhosamente, e o +conselheiro Madureira formava com elle um duetto mais +ou menos parlamentar. Henrique e Leonor applaudiam +<span class="pagenum">[186]</span> +calorosamente; Roberto Soares fazia as suas reservas; +Isaura lançava olhares assassinos ao auctor, que na febre +da vaidade litteraria nem reparava n'essas amaveis +provocações. O doutor Macedo indignou-se.<br /> + +<br /> + +―O Lucio, bradou elle, saíu fóra do meu +programma. +Inpingiu-nos um romance humoristico debaixo da +bandeira de conto da meia-noite. Lavro um protesto, e +peço que se lance na acta.<br /> + +<br /> + +―Apoiado! exclamou o visconde da Fragosa, acordando.<br /> + +<br /> + +―Mas, doutor... acudiu Valença, rindo.<br /> + +<br /> + +―Qual mas nem meio mas! Então isto é conto +phantastico? +Você nunca leu Hoffman? Você nunca leu Carlos +Dickens? Leu, sim senhor, mas tinha o romance +fechado na sua gaveta, apanhou auditorio benevolo, e +impingiu-o. Quer editor! Não é outra coisa, +minhas +senhoras, quer editor! Então onde ha aqui espectro? +onde ha visão? onde ha os terrores legendarios da +meia-noite?<br /> + +<br /> + +―Peço a palavra, interrompeu Lucio, rindo.<br /> + +<br /> + +―Sobre a ordem ou sobre a materia? perguntou +gravemente o visconde da Fragosa.<br /> + +<br /> + +―Sobre o espirito, redarguiu Lucio.<br /> + +<br /> + +―Não é parlamentar, tornou o visconde.<br /> + +<br /> + +―Deixe-o fallar, visconde, deixe-o fallar que eu já o +esmago.<br /> + +<br /> + +―Veremos, tornou Lucio. Qual era o nosso fim, doutor? +Matar a meia-noite... Matou-se. Tres noites a fio +se contaram coisas medonhas, coisas de arripiar os cabellos, +vieram aqui á praça defunctas que vão +a S. Carlos, +phantasmas da meia edade, egrejas submarinas que +se illuminam mysteriosamente á meia-noite. Algum de +<span class="pagenum"><a name="p187">[187]</a></span>nós +trepidou? +Não; pelo contrario. A meia-noite hoje +passou, e ninguem deu por tal. Queriam que eu abusasse +da victoria? A meia-noite morreu. <em>Parce +sepultis?</em><br /> + +<br /> + +―Sophismas! sophismas vãos!<br /> + +<br /> + +―Appéllo para o <em>claro auditorio +meu</em>.<br /> + +<br /> + +―Ó vaidoso! bradou o doutor Macedo, isso é de +Bocage, sabes tu, profano? ousas comparar-te ao gigante?<br /> + +<br /> + +―Eu por mim gostei, exclamou Leonor.<br /> + +<br /> + +―Eu tambem! tornou Henrique, trocando uma vista +d'olhos com a gentil filha dos viscondes da Fragosa, +ainda que me parece que os arrufos de Eduardo e de +Camilla duraram mais do que seria de rasão.<br /> + +<br /> + +―Tu cheiras-me a noivo, Henrique! disse o doutor. +Exhalas um vago perfume de flôr de larangeira.<br /> + +<br /> + +―Eu, exclamou logo Isaura, requebrando-se toda, +declaro que ainda aqui não ouvi coisa de que mais gostasse.<br /> + +<br /> + +―Oh! minha senhora, tornou Lucio, desfazendo-se +em agradecimentos.<br /> + +<br /> + +―Percam-n'o com as lisonjas, percam, acudiu o doutor +Macedo. E agora deixem-me pronunciar a dissolução +da sociedade <em>Inimiga da meia-noite</em>. +Está a terminar +o tempo da <em>villeggiatura</em>. Depois de +ámanha é a +ultima caçada. Está dissolvida a +<a href="#e22">associação</a>.<br /> + +<br /> + +―Doutor, antes d'isso tenho que lhe apresentar um +requerimento, disse a doce voz de Leonor.<br /> + +<br /> + +―Mandar para a meza, emendou o visconde da Fragosa.<br /> + +<br /> + +―Que requerimento é? perguntou Macedo.<br /> + +<br /> + +―A Juliasita e o Alvaro tem sabido que se contam +aqui, depois d'elles se deitarem, historias pavorosas, +<span class="pagenum"><a name="p188">[188]</a></span>e +as criadas +vêem-se gregas com elles para os despirem +quando chega a hora de os deitarem, porque não +é senão dizerem que querem ficar a pé +para ouvirem +as historias. Prometti-lhes que uma noite d'estas assistiriam +á entrevista. Como decididamente já ninguem +pensa na meia-noite, como hoje se abriu o exemplo de +não se esperar a hora fatidica, não podiamos +ámanhã, +ao anoitecer, abrir a sessão para os pequenitos assistirem?<br /> + +<br /> + +―Ora... para quê, Leonor? acudiu a viscondessa, +os teus irmãos caem de somno ás primeiras +palavras.<br /> + +<br /> + +―De certo, se se lhes não escolher coisa de que elles +gostem. A <em>Julieta</em> de certo a +não perceberiam, acudiu +Leonor, sorrindo maliciosamente para Henrique.<br /> + +<br /> + +―Não eram só elles, resmungou Henrique Osorio.<br /> + +<br /> + +Isaura não ouviu; estava toda embebida n'uma larga +conversação com Lucio Valença.<br /> + +<br /> + +―Ah! eu me encarrego d'elles; pago ámanhã a +minha +quota, aproveito o precedente de Lucio.<br /> + +<br /> + +―O quê? o quê? acudiu Lucio, que ouvira pronunciar +o seu nome.<br /> + +<br /> + +―Falla se por aqui no teu precedente, ou no +teu +predecessor, que é a mesma coisa. Julgavas que o +não +tinhas?<br /> + +<br /> + +Leonor desatou <a href="#e23">a rir</a>, Henrique +fez-se ligeiramente +córado, Isaura não comprehendeu.<br /> + +<br /> + +―Invocando, pois, o precedente de Lucio, continuou +o doutor, apresentarei ámanhã, em obsequio ao +Alvaro +e a Julia, uma <em>lenda da meia-noite</em>, +que não será lenda +e que não será á meia-noite, o que +dará a Roberto +Soares assumpto para um estudo intitulado: <em>De como +degeneram as lendas</em>. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[189]</span> +Dispersou-se a companhia, porque era já tarde, mas +Henrique e Leonor tinham aberto uma janella e conversavam +animadamente.<br /> + +<br /> + +Ao passar junto d'elles, Isaura, a quem Lucio dava +o braço, não pôde eximir-se a +dizer-lhe:<br /> + +<br /> + +―Veja se se transforma em espectro essa nova Julieta.<br /> + +<br /> + +―Minha senhora, acudiu Henrique, transformam-se +em espectros ou em nada, que é a mesma coisa, as +loucas visões que sonha a phantasia enferma. Esses +sonhos, quando se desperta, deixam apenas uma impressão +pesada e morbida. E quando se acorda é que +se percebe que as Julietas nunca foram amadas com o +coração, foram sempre um pretexto para as +divagações +de uma imaginação desnorteada.<br /> + +<br /> + +―E encontrou a bussola, Henrique? acudiu Lucio, +motejador.<br /> + +<br /> + +―Encontrei, sim, meu amigo.<br /> + +<br /> + +―Procurou-a por muito tempo?<br /> + +<br /> + +―Estava ao meu lado. Somos tão loucos que nunca +pensamos em reparar se nas pedras do nosso jardim +habitualmente não se encontrará alguma que tenha +as +qualidades maravilhosas do magnete, e deixamo nos +attrahir tolamente por umas pedras que brilham, que +julgamos diamantes e que são apenas...<br /> + +<br /> + +―O quê?<br /> + +<br /> + +―Pedaços de vidro que brilham ao sol; o fulgor +era do sol e não d'elles.<br /> + +<br /> + +Os dois companheiros de serão trocavam já olhares +inflammados, e nas suas vozes havia um tom ameaçador. +Isaura assistia olympicamente desdenhosa a esse +torneio de espirito. Leonor, inquieta e magoada, sentia +os olhos marejarem-se-lhe de lagrimas. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p190">[190]</a></span> +―Se não se vão deitar, apago eu mesmo as luzes, +exclamou o doutor Macedo intervindo de subito e separando +bruscamente os quatro personagens da scena. +Olhem que massadores!<br /> + +<br /> + +E, emquanto o grupo se dispersava, trocando despedidas +um pouco frias, o doutor Macedo fechava a janella +murmurando:<br /> + +<br /> + +―<em>Cherchez la femme</em>. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Na noite seguinte assistiam dois novos ouvintes á +leitura. Eram Alvaro e Julia, os dois filhos mais novos +dos viscondes da Fragosa. As creanças estavam radiantes +de alegria; emquanto Alvaro, loira creança de seis +annos, cravava os grandes olhos azues, com infantil +curiosidade, no doutor Macedo, Julia, uma menina de +nove annos, toda elegante, e que era o retrato de sua +irmã mais velha, ouvia, rindo ás gargalhadas, as +historietas +de Henrique Osorio que a tinha no collo, e que, +prodigalisando-lhe as caricias, esperava assim reconquistar +as boas graças de Leonor, que ficára um pouco +ferida pela scena da vespera, em que lhe parecêra +vêr +um resentimento que mostrava que Isaura não +fóra de +todo esquecida.<br /> + +<br /> + +―Meus meninos, disse o doutor Macedo desenrolando +o seu manuscripto, é só cá para +nós este conto. +A mana, o Henrique e os outros que riam ou durmam, +se quizerem. Nós cá é que nos vamos +entreter. Este +conto é só para nós, e +<a href="#e24">intitula-se</a>...<br /> + +<br /> + +Lucio Valencia, que estava collocado defronte de uma +<span class="pagenum"><a name="p191">[191]</a></span> +janella aberta, interrompeu com um espirro o discurso +de Macedo.<br /> + +<br /> + +―<em>Dominus tecum</em>, concluiu o doutor.<br /> + +<br /> + +―Obrigado, disse Lucio.<br /> + +<br /> + +―Não é obrigado, é o titulo do conto. +Mas vejam +o que é ser-se litterato. Espirramos, diz-nos alguem +<em>Dominus tecum</em>; é o que +basta, saiu um conto!<br /> + +<br /> + +Todos desataram a rir, e o doutor, com a sua voz +admiravel, com a rara sciencia de recitação que +possuia, +começou a lêr, no meio de profunda +<a href="#e25">attenção</a> +das +duas creanças, o seu <em>Dominus +tecum</em>. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[192]</span> +<h2>DOMINUS TECUM...</h2> + +<h3> +(CONTO PARA CREANÇAS)</h3> + +<br /> + +<h3> +I</h3> + +<br /> + +Agora que a noite começa a desenrolar o seu manto +azul, onde essas fadas luminosas, que se chamam estrellas, +dançam em torno da sua branca rainha, que +percorre o firmamento no seu argenteo carro, umas +solitarias e pensativas, como a scismadora Venus, outras +formando immensa e jovial choréa como as brancas +estrellinhas da via lactea; agora que principia a +ouvir-se ao longe o grave som das Trindades, perfume +de harmonia que parece exhalar-se das urnas gigantes +dos campanarios, vinde, meus meninos, vinde agrupar-vos +em torno de mim, e ouvir as historias maravilhosas +que eu tenho para vos contar.<br /> + +<br /> + +Arredae da fronte os loiros anneis dos vossos cabellos, +doirados fios que enreda, teimosa, a brisa folgazã, +como que para vos desafiar para novos brinquedos, e +<span class="pagenum">[193]</span>fitae-me bem com +esses olhos azues, transparentes como +o lago limpido, puros como o céo ridente, que vos quero +povoar os sonhos de imagens luminosas d'esse mundo +loução de fadas e duendes!<br /> + +<br /> + +Ó sonhos infantis! Quem poderá jámais +saber quanto +esvoaçar de azas brancas, quanto rescender de ignotos +perfumes, quanto desabrochar de lindas flôres, quanto +lampejar de suavissimos clarões nos revela aquelle innocente +sorriso que volteia nos labios da creança adormecida!<br /> + +<br /> + +Que deliciosos colloquios não haverá entre essa +almazinha +gentil, que aspira ao céo, e os anjos, que se +debruçam meigamente do azulado Empyreo, que a tomam +nos braços, que a embalam e lhe sorriem!<br /> + +<br /> + +E eis o motivo porque sempre despertaes chorando: +é porque os anjos vos poisam no berço, vos beijam +na +fronte; porque vêdes as suas azas candidas transporem +n'um vôo o espaço, e cerrarem-se com fragor as +doiradas portas do Empyreo.<br /> + +<br /> + +E só vos aplaca o choro o meigo sorrir das mães; +porque, se ha anjos na terra, onde se abrigariam elles +se não fosse no brando seio maternal?<br /> + +<br /> + +Onde encontrariam imagem mais perfeita do seu Paraizo?<br /> + +<br /> + +Mas entre o céo e a terra ha outro mundo de encantos, +onde esvoaçam as fadas travessas, os maliciosos +duendes, que são tambem amigos das creancinhas e as +vão poisar, ás vezes, no purpureo +regaço das rosas, ou +nas rendas prateadas do immenso véo do luar.<br /> + +<br /> + +De dia dormem escondidas no calice das flôres, ou no +seio dos lagos, ou nas folhas das arvores; mas, quando +soam Trindades, eil-as a esvoaçar no ambiente, e +é o <span class="pagenum">[194]</span> +bater das suas azas, o chilrear das suas vozes, que produzem +esses ineffaveis murmurios que vos encantam +e que vos fazem até cair, sem saberdes por quê, +n'uma +doce melancolia.<br /> + +<br /> + +São ellas quem ensinam aos rouxinoes esses maviosos +gorgeios, esses deliciosos trinados, que toda a natureza +escuta embevecida n'um vago extase.<br /> + +<br /> + +São ellas quem accendem nos pyrilampos, esse phantastico +fulgor que vagueia nos prados, e matiza de oiro +o fundo verdejante da relva.<br /> + +<br /> + +São ellas quem desentranham do seio das flôres as +nuvens de perfumes, que espalham depois, rindo, na +atmosphera.<br /> + +<br /> + +É o seu bafo a brisa voluptuosa e leve, que faz correr +um vago estremecimento pelas corollas gentis das +rosas e dos lirios.<br /> + +<br /> + +Por isso a noite é mais formosa do que o dia; porque +o dia pertence aos homens, e durante a noite imperam +os espiritos subtis.<br /> + +<br /> + +A natureza vê passar com indifferença, e +até com +odio, o homem que se diz seu rei, e cuja realeza é uma +verdadeira tyrannia.<br /> + +<br /> + +Porque o homem decepa as arvores frondosas; colhe +as flôres que viçavam alegres, e que +vão finar-se em +ramalhetes; acorda os echos doridos com o estrondear +das suas espingardas; e a toda a parte, onde estabelece +o seu dominio, leva comsigo a destruição e a +morte.<br /> + +<br /> + +Nunca viram, meus meninos, arder uma floresta? É +horrivel! As arvores contorcem-se na agonia, erguem +ao céo os ramos esbrazeados, soltam gritos de +desesperação. +Não é a vegetação inerte +que se reduz ao +nada, é a vida que fenece em convulsões. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[195]</span> +E quem incendiou a floresta? Quem brandiu o facho +assolador entre a folhagem lustrosa? Foi o rei da natureza! +Foi o monarcha da creação!<br /> + +<br /> + +As fadas e os duendes não destroem assim esses +mysteriosos sanctuarios, onde se abrigam tantos amores, +tantas vidas, tão incessante trabalho de +renovação! +Tem, pelo contrario, com elles mil desvelos; são ellas +quem descerram a pouco e pouco os verdes botões das +rosas do matto; são ellas que penetram nos troncos, e +fazem girar a vivificante seiva em todos os pontos da +arvore caduca; são quem a ajudam depois a desabrolhar +em pimpolhos, em flôres e em fructos.<br /> + +<br /> + +Por isso, quando á noite dançam e folgam nos +ares, +toda a natureza se compraz em lhes adornar os festejos; +as brisas volteiam com as suas urnas cheias de aromas; +os rouxinoes descantam as suas arias; a orchestra immensa +dos pinhaes, das carvalheiras e dos salgueiraes +entrega aos arcos invisiveis do vento as frementes cordas +das suas franças, ou deixam que mão ignota +doideje +vagamente nas teclas das suas frondes! E tudo +canta, ri e folga, porque são as fadas que +dançam, as +fadas aéreas, os travêssos duendes.<br /> + +<br /> + +E o homem entretanto, encerrado nas suas mesquinhas +moradas, respira uma atmosphera corrompida, +sente o suor a borbulhar-lhe na fronte depois de dar +um giro na sala abafadiça, e cerra cuidadosamente as +janellas, para que lhes não chegue nem um murmurio, +nem um effluvio, nem um raio de luz.<br /> + +<br /> + +E a natureza aproveita a ausencia do rei da +creação, +e canta, e folga, e ri, porque são as fadas que +dançam, +as fadas risonhas, os duendes maliciosos. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[196]</span> +<h3>II</h3> + +<br /> + +Em toda a parte ha fadas, meus meninos; mas, como +podem suppôr, não tem o mesmo genio, a mesma +indole +nos differentes sitios. N'uns pontos persegue-as o +infortunio, n'outros sorri-lhes a ventura.<br /> + +<br /> + +Na nossa terra abençoada, em que temos o céo de +veludo, aguas de crystal, sol de oiro vivo; onde nos +ares limpidos parecem brotar por encanto musicas suavissimas; +onde viçam flôres com profusão; onde as +brumas +são véo ligeiro que touca as cumiadas dos montes, +e não gélido manto que envolve as planicies, +folgam as +fadas de viver. É este o paiz dos seus sonhos, este e +a Hespanha, e a Italia e a Grecia, onde viveram por +tanto tempo as nymphas, as naiades e as dryades, que +eram as fadas dos pagãos.<br /> + +<br /> + +Livres no ar, alimentando-se de perfumes que nunca +lhes faltam, abastecendo-se nas madre-silvas e nas magnolias, +aquentando-se nos ninhos das avesitas, viajando +n'um raio da lua, não tendo mais em que cuidar +senão +em pentear os seus lindos cabellos, em mirar-se e em +banhar-se nas aguas transparentes, apenas uma vez por +anno, na bemdita noite de S. João, tem de ser oraculos +das donzellinhas, que lhes vem perguntar qual o +porvir dos seus amores.<br /> + +<br /> + +Donosa occupação! Sair do asylo da folhagem e +entrar +na alma ingenua da donzella, é apenas mudar de +ninho, e não sei qual será mais suave, mais +macio, +mais delicioso e mais immaculado.<br /> + +<br /> + +Estava com passarinhos, com passarinhos vae estar! +Pois o que são os amores? E se escutavam deliciosos +<span class="pagenum"><a name="p197">[197]</a></span>gorgeios, +finas +trovas, podiam nunca ser tão mimosos +esses cantares como o poema seductor, cujas estrophes +resoam n'um coração de vinte annos?<br /> + +<br /> + +Mas ai! nem sempre é assim. Nos frios paizes do +norte, na nevoenta <a href="#e26">Inglaterra</a>, +na verde mas tristonha +Irlanda, não encontram as fadas e os duendes as +doçuras +d'estes ares, os esplendores d'estes céos, a suavidade +d'estas brisas. Mal que chega o inverno, gelam-se +as aguas, morrem de frio os passarinhos implumes nos +pobres ninhos devastados pela procella, a neve mata as +flôres, embacia-se o clarão da lua, desmaia a luz +e affrouxa +o almo calor do sol, não ha perfumes nem galas, +e ai de quem intentasse dançar nos ares quando o +graniso cae!<br /> + +<br /> + +Coitados dos pobres duendes! Coitadas das gentís fadas! +Elles, que adoram a liberdade, vêem-se obrigados +a refugiar-se nos quentes curraes, na cinza do lar, e até +na chaminé! Ah! como os seus irmãos dos paizes do +sul teriam dó d'elles se os vissem com as azas brancas +maculadas de fuligem, a não ser que estejam expostos +ao frio e á neve á porta de casa pouco +hospedeira, onde +não lhes abram sequer uma fisga por onde possam +metter os corpinhos enregelados.<br /> + +<br /> + +Mas os homens são crueis e egoistas, e não +concedem +um favor sem mirarem a galardão; estão promptos +a acolher os pobresinhos dos espiritos, com a +condição +que estes os hão de servir. E aqui temos os nossos +duendes e as nossas fadas, fieis á sua palavra, a +ordenhar as vaccas, a guardar as ovelhas, a tratal-as +nas doenças, a evitar-lhes o mau-olhado, a proteger os +donos da casa, emfim, a fazer o que dez criados não +fariam. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[198]</span> +Mas, meus meninos, os homens, não contentes com +isso, traçam muitas vezes fazer-lhes mal, livrar-se d'elles, +descumprir a sua palavra, e isso tudo exacerba-os, +e fal-os tambem, ás vezes, maus e vingativos.<br /> + +<br /> + +Ah! meus meninos, a miseria é a mãe terrivel do +mal, tanto nos homens como nos duendes. A miseria, +e a escravidão, e a ausencia da luz! Ah! quando virdes +um criminoso, não o anathematiseis, mas vêde +primeiro +em que atmosphera viveu, quaes foram as primeiras +idéas que teve, qual o estado da sua intelligencia. +E vereis sempre a miseria, o embrutecimento e as +trevas.<br /> + +<br /> + +Por isso, quando fôrdes homens, dedicae-vos á +grande +obra da regeneração dos vossos similhantes, ao +seu esclarecimento +e á sua educação moral.<br /> + +<br /> + +E assim tereis cumprido a vossa missão na terra, assim +tereis cumprido o grande preceito da nossa religião +«a caridade», preceito que encerra em si todos os +outros, +raio de luz que, em se espraiando pelo mundo, +basta para dissipar as sombras mais cerradas.<br /> + +<br /> + +Mas voltemos aos nossos duendes, de que já nos +iamos afastando tanto.<br /> + +<br /> + +<h3>III</h3> + +<br /> + +Oiçam pois, meus meninos, esta historia, em que +vereis como os duendes se transformam com a miseria +e com o mau exemplo dos homens.<br /> + +<br /> + +Aqui tem eterna juventude, lá chegam a envelhecer +e tem uma velhice repugnante; aqui não pensam +senão +nas suas fadas, lá ousam querer raptar as filhas dos +homens. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[199]</span> +Ora pois, havia na Irlanda um camponez chamado +Patricio, que pedira um favor a um duende, offerecendo-se +a recompensal-o; mas, apenas se viu servido, +fiado no caracter bom d'esses genios benevolos, não +pensou mais em similhante galardão.<br /> + +<br /> + +O duende, que já era velho e rabugento, e moido de +trabalho, enfadou-se com esta falta de palavra, e condemnou +o camponez a servil-o sete annos e um dia.<br /> + +<br /> + +Sentença dada por duende irritado inscreve-se no livro +do destino, e lá não é possivel +arrancarem-se as folhas, +como se fez em Portugal, nem queimar a casa +onde o livro está, como se fez em França.<br /> + +<br /> + +O pobre Patricio, que não quizera dar uma pequena +recompensa, viu-se obrigado a servir seu amo sete annos, +sem ao menos ter a esperança que teve Jacob, que +se viu mettido em eguaes danças, como os meus amiguinhos +sabem, mas a quem fôra promettida em premio +a formosa Rachel.<br /> + +<br /> + +E, ainda assim, Jacob não tinha senão que +pastorear +os rebanhos de Labão, o que, por fim de contas, +não +é uma occupação desagradavel.<br /> + +<br /> + +Mas o pobre Patricio, esse estava em peiores circumstancias. +Além dos trabalhos habituaes, fazia tambem +de escudeiro de seu amo, e tinha de o acompanhar nas +suas excursões nocturnas, excursões que eram +sempre +feitas a cavallo.<br /> + +<br /> + +Mas a cavallo em quê? Imaginam que iam montados +em guapos corceis, como esses em que os seus papás +montam, ou em pacatos burrinhos, como esses em que +os meus meninos vão tambem dar os seus passeios?<br /> + +<br /> + +Pois não; as coudelarias do nosso duende tinham +outra casta de cavalgaduras; eram immensas porque +<span class="pagenum">[200]</span>abrangiam toda a +natureza, e porque, a fallarmos verdade, +os cavallos não occupavam muito espaço. Chegavam, +por exemplo, ao meio de um campo, viam duas +feveras de palha, o duende pegava n'uma, dava outra +a Patricio, e dizia-lhe: «Monta».<br /> + +<br /> + +Montar era facil de dizer, mas de fazer? Parece-me, +realmente, que o mais perito mestre de equitação +se +havia de vêr seriamente embaraçado.<br /> + +<br /> + +Patricio arrancava os cabellos, amaldiçoava a sua avareza, +que o levára áquelle misero estado; mas como +arrancando +os cabellos ficava calvo, e não transformava a +palhinha nem em burro nem em corcel, não tinha remedio +senão montar, e lá ia elle por esses ares +fóra +atraz de seu amo, que cavalgava tão ufano como se montasse +no celebre Bucefalo de Alexandre, em que os meus +meninos talvez já ouvissem fallar.<br /> + +<br /> + +De que elle tinha medo principalmente era que os +seus visinhos o vissem n'aquella figura, mas d'isso não +havia perigo; o duende, sendo invisivel para olhos profanos, +tornava-o invisivel tambem a elle.<br /> + +<br /> + +Outras vezes não eram feveras de palha, mas juncos +e cannas os corceis escolhidos; o bom do Patricio quiz +vêr se conseguia que seu amo acceitasse dois paus de +vassoura, que sempre seriam, emfim, cavalgaduras mais +commodas; mas, apenas elle abriu a bocca, o duende +respondeu-lhe com tanta dignidade que isso era bom +para as bruxas, que o pobre irlandez não ousou insistir, +e tratou de vêr se aprendia as regras da picaria +aeria, e de escolher a posição mais commoda que +podesse +na tal fevera de palha que o transportava pelos ares.<br /> + +<br /> + +Ora um dia, ou antes uma noite, o duende chamou +Patricio e disse-lhe com modo benevolo: +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[201]</span> ―Meu amigo, +determinei casar. Estou a fazer mil +annos, e parece-me que é tempo de tomar estado e familia. +Escolhi para minha noiva a formosa Jenny, e vamos +esta noite buscal-a.<br /> + +<br /> + +Patricio bem desejaria responder que os olhos azues, +as tranças loiras, a rosea bocca e as faces nevadas da +formosa Jenny não deviam ser para um velhote como +elle, e que um noivo de mil annos, a querer tomar estado, +devia escolher uma centenaria, e não uma rapariga +na flôr dos seus vinte annos, e que, além d'isso, +rasão de todas a mais forte, Jenny casára n'esse +mesmo +dia, e n'esse instante devia-se estar celebrando a boda +em casa do noivo. Mas Patricio bem sabía que o duende +não gostava de reflexões, e portanto, sem tugir +nem +mugir, montou a cavallo n'uma folha de couve, que era +o corcel de gala, e seguiu seu amo pelos ares fóra.<br /> + +<br /> + +<h3>IV</h3> + +<br /> + +Tudo era festa e riso em casa de Jenny. Brindes sem +conta soavam a cada instante, as violas desprendiam os +seus alegres epithalamios, e a meza, servida á farta, +ostentava-se com a alvissima toalha no meio da casa.<br /> + +<br /> + +A noiva era realmente galante a mais não poder ser. +Nos olhos tão azues e tão meigos parecia que se +refugiára +a côr do céo, expellida do firmamento pelas +nuvens, +e com a côr do céo a doçura dos anjos.<br /> + +<br /> + +Os cabellos tinham o colorido das espigas de trigo; +na bocca pequenina esvoaçava um sorriso de amor, +como borboleta em rosa. As faces eram tão brancas, +tão brancas, que desmaiaria junto d'ellas a neve das +montanhas de Erin; mas n'esse momento incendia-as o +<span class="pagenum">[202]</span>prazer e +tingiam-se de reflexos roseos, como a nivea +toalha dos pincaros, quando o sol a illumina ao descair +no occaso.<br /> + +<br /> + +O noivo era um rapaz esbelto e varonilmente formoso. +O olhar ardente com que, para assim dizermos, +enlaçava Jenny, mostrava o immenso amor que lhe tinha; +a meiguice dos raios de luz, que emanavam dos +olhos da gentil irlandeza, revelava que a voz d'esse +amor encontrára um echo no coração da +formosa que +o duende cubiçava para noiva.<br /> + +<br /> + +Os convivas agrupavam-se em torno da meza, e no +logar de honra, campeava o gordo padre prior, que fazia +frente a um magnifico prato de cabeça de porco, +flanqueada de feijões, que lhe levava os olhos, como a +formosa physionomia de Jenny enlevava o enamorado +esposo.<br /> + +<br /> + +O duende e o seu criado entraram sem ninguem dar +por elles, e foram sentar-se commodamente n'uma das +traves do tecto. Os cavallos haviam ficado no telhado +fóra do alcance das outras cavalgaduras, que seriam +muito capazes de as devorar, sem respeitarem por +fórma alguma a confraternidade que as pobres folhas +de couve allegariam.<br /> + +<br /> + +Empoleirado alli assim, Patricio estava talvez um +tanto incommodado, principalmente porque lhe chegava +o cheiro dos bons manjares que ufanos campeavam em +cima da meza, e o seu estomago segredava-lhe que seria +muito melhor fartal-o a elle do que fartar os olhos +com as saborosas iguarias.<br /> + +<br /> + +Mas o bom irlandez bem sabia que o seu duende +nunca lhe consentiria mostrar-se, e, portanto, consolava-se +pensando que talvez a ceia das bodas do seu amo +<span class="pagenum"><a name="p203">[203]</a></span>fosse +ainda melhor +do que essa que o estava namorando.<br /> + +<br /> + +Depois relanceou os olhos para a noiva, e em seguida +para o seu companheiro da trave, e pensou que +era realmente uma barbaridade ligar assim tão donosa +primavera a tão encarquilhado inverno.<br /> + +<br /> + +N'isto a noiva espirrou.<br /> + +<br /> + +Um espirro não é coisa que envergonhe ninguem, +mas o espirro de Jenny fez tanta bulha, que a pobre +menina corou muito, sentindo que todas as vistas se +haviam voltado para ella.<br /> + +<br /> + +Excepto, ainda assim, as do padre prior; o anafado +sacerdote empunhava o garfo e a faca, e com os olhos +cravados na cabeça de porco, a nada mais dava +attenção.<br /> + +<br /> + +Era natural, meus meninos, que dissessem á formosa +Jenny o consagrado <em>Dominus tecum</em>; +ninguem, effectivamente, +queria faltar a esse dever; mas a cortezia ordenava +que se deixasse o padre prior tomar a iniciativa, +e, por conseguinte, todos esperaram.<br /> + +<br /> + +O padre prior tomava n'esse instante a iniciativa, +mas era de se deitar á cabeça de porco; cravou o +garfo +destramente, vibrou com certeza rara a faca a um bom +tassalho, e transportou-o do prato geral para o seu +prato particular.<br /> + +<br /> + +Terminada essa difficil operação, o padre prior +poisou +as armas triumphantes ao lado do prato, travou +gravemente da colhér, e, em tres ou quatro viagens, +fez mudar de gasalhado, e erigiu, em enorme acervo, +uma respeitavel quantidade de feijões.<br /> + +<br /> + +Ninguem ousou advertil-o do seu esquecimento, e, +depois d'esse pequeno incidente, a festa <a href="#e27">continuou</a> +com +o mesmo estrondo e enthusiasmo. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[204]</span> +A bulha dos queixos do padre prior superava o tumultuoso +acompanhamento.<br /> + +<br /> + +Mas o duende é que dava pulos de contente na trave, +e dizia a Patricio:<br /> + +<br /> + +―Se ella dá mais dois espirros e ninguem lhe diz +<em>Dominus tecum</em>, é minha; +foi isso o que Satanaz me +prometteu.<br /> + +<br /> + +O pobre Patricio enfiou; decididamente, o nosso irlandez +tinha boa alma: se não fosse a tal avareza...<br /> + +<br /> + +Emfim, ninguem póde ser perfeito.<br /> + +<br /> + +D'ahi a instantes Jenny espirrou de novo, mas a pobre +menina ficára tão envergonhada da primeira vez, +que o segundo espirro comprimiu-o por tal fórma, que +ninguem o ouviu, nem mesmo o seu noivo, que se via +obrigado n'esse instante a escutar uma enorme +dissertação +de seu sogro sobre o cultivo da batata.<br /> + +<br /> + +O padre prior comia.<br /> + +<br /> + +Por conseguinte, ainda d'essa vez passou o espirro +sem o competente <em>Dominus tecum</em>.<br /> + +<br /> + +O duende pulava, dava cabriolas, fazia bulha tal, em +fim, que por mais de uma vez um ou outro conviva +olhou para o tecto, mas, não vendo coisa alguma, julgou +que seriam ratos e continuou a divertir-se.<br /> + +<br /> + +Patricio scismava; era realmente uma dôr d'alma vêr +tão gentil menina cair em poder d'aquelle espirito +malicioso; +pensava que talvez a podesse salvar, mas lembrava-se +das iras de seu amo, que podiam cair sobre +elle, e abanava a cabeça deixando-se ficar mudo e +quêdo.<br /> + +<br /> + +Finalmente, soou o terceiro espirro da menina, ainda +mais comprimido que os dois primeiros.<br /> + +<br /> + +Mas ao mesmo tempo retumbou no tecto um formidavel +<span class="pagenum">[205]</span><em>Dominus +tecum</em>, que fez +tintinar os vidros e tremer +os convidados.<br /> + +<br /> + +E logo um corpo humano veiu, aos rebolões pelo +espaço, +baquear em cima da meza, entornando o prato +do padre prior, que soltou um grito de desespero, e +apanhou na batina o naco de cabeça de porco, antes +que um mastim faminto, que andava rondando os pés +das cadeiras, désse com tão boa fatia.<br /> + +<br /> + +Era Patricio que, vencendo as suas indecisões, reunira +todas as suas forças e coragem, e salvára d'essa +fórma a formosa Jenny.<br /> + +<br /> + +Ao mesmo tempo ouviu-se uma voz que dizia:<br /> + +<br /> + +―Despeço-te do meu serviço, mas ahi tens o +ordenado.<br /> + +<br /> + +Não era mau, effectivamente; o irlandez esteve tres +mezes em lençoes de vinho, e ficou toda a vida com +uma dôr nas costellas.<br /> + +<br /> + +Mas os dois noivos, a quem elle contára o que estivera +para lhes succeder, foram-lhe eternamente gratos, +ajudaram-n'o muito na sua vida, e, quando envelheceu, +levaram-n'o para casa, onde teve sempre uma boa cadeira, +onde se sentava a apanhar a sua restea de sol, +e onde entretinha os filhos de seus hospedes, contando-lhe +as suas viagens aérias, e a historia dos tres espiritos.<br /> + +<br /> + +<h3>V</h3> + +<br /> + +Cerrou-se a noite de todo, meus meninos, e o sereno +esplendor da lua branqueia-vos as rosadas faces; desperta +a natureza quando adormece o homem; as flôres +entreabrem o +Cerrou-se a noite de todo, meus meninos, e o sereno +esplendor da lua branqueia-vos as rosadas faces; desperta +a natureza quando adormece o homem; as flôres +entreabrem os seus thuribulos; a fonte desdobra o transparente +<span class="pagenum">[206]</span>crystal das suas +aguas, e as naiades chorosas +entoam os seus lamentos.<br /> + +<br /> + +Já o somno começa a fazer-vos pender a fronte; +brincastes, +correstes durante o dia á luz do sol, chega a +hora do repouso, depois, quando fôrdes crescidos, gostareis +de ficar, como eu fico, a contemplar o estrellado +docel do firmamento, e a perguntar ás vozes mysteriosas +da natureza qual é o segredo que faz palpitar +tantos mundos na abobada estrellada; gostareis de vêr +os campos onde o luar se espraia, as infindas maravilhas +da creação! mas oh! nunca vereis panoramas +como os que vos sorriem agora nos meigos sonhos da +infancia.<br /> + +<br /> + +Ide, pois; esperam-vos os anjos escondidos detraz +das cortinas alvas do vosso leitosinho, e, se algum espirito +aéreo se vos entre-mostrar tambem, não tenhaes +medo, porque os habitantes d'estes ares luminosos são +fadas meigas e risonhas, e não duendes malignos. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +No dia seguinte áquelle em que o doutor Macedo +contára, com grande gaudio das creanças, a lenda +do +<em>Dominus tecum</em>, uma carruagem parava +á porta do visconde +da Fragosa, e apeiava-se d'ella uma senhora edosa +de nobre aspecto e veneranda physionomia, que pedia +para fallar ao visconde e á viscondessa da Fragosa.<br /> + +<br /> + +Era a mãe de Henrique Osorio, que vinha pedir para +seu filho a mão de Leonor.<br /> + +<br /> + +Fez algum reboliço em casa dos viscondes este subito +pedido feito para pessoa que sempre vivera em intimas +<span class="pagenum">[207]</span>relações +com Leonor, e que nunca +até ahi mostrára +desejos de a requestar.<br /> + +<br /> + +Fallando-se n'isso no grupo dos hospedes, o doutor +Macedo disse:<br /> + +<br /> + +―É para que saibam que, quando se semeia sempre +se colhe alguma coisa, ainda que não seja aquillo +que se previu. Das nossas lendas da meia-noite saíu +este casamento, o que prova mais uma vez que o casamento +e a mortalha no céo se talha.<br /> + +<br /> + +―Tanto mais que para Henrique Osorio o casamento +e a mortalha devem estar intimamente ligados... +O homem que ama espectros... O auctor de +Julieta!<br /> + +<br /> + +N'este momento vieram dizer ao conselheiro Madureira +que a sua carruagem o esperava. Despediram-se +elle e a filha dos viscondes da Fragosa, Isaura deu um +beijo frio em Leonor, e cumprimentou seccamente Henrique +Osorio.<br /> + +<br /> + +―Espero tornal-o a vêr no Espinho, disse ella com +requintes de amabilidade a Lucio Valença.<br /> + +<br /> + +―Ah! de certo, minha senhora, respondeu o escriptor.<br /> + +<br /> + +Quando partiram, Henrique approximou-se de Lucio +e disse-lhe:<br /> + +<br /> + +―Hontem iamo-nos irritando por frivolidades sem +nome. Sabe comtudo, Lucio, que sou seu amigo, e que +não tenho no que vou dizer-lhe o minimo pensamento +reservado. Não se deixe prender nos laços +d'aquella +formosa mulher, que é uma +<em>coquette</em> sem intelligencia +e sem alma.<br /> + +<br /> + +―Meu amigo, tornou Lucio, rindo, eu estou-a vendo +hoje pelo prisma que você me legou. Hei de dizer mal +<span class="pagenum">[208]</span> +d'elle talvez d'aqui a algum tempo. Agora não ha remedio; +tenho-o encaixado nos olhos.<br /> + +<br /> + +Henrique encolheu os hombros.<br /> + +<br /> + +―Pois meus amigos, disse o doutor Macedo, que +vira Leonor entrar a dirigir-se para o seu noivo, tem +a <em>lenda da meia-noite</em> uma +conclusão inesperada; mas +isso foi bom para que tivesse alguma.<br /> + +<br /> + +―Effectivamente, disse Lucio Valença, o nosso fim, +confessamol-o, não se conseguiu. As pessoas nervosas, +quando estiverem sósinhas á meia-noite n'um +quarto de +lugubre aspecto, hão de continuar a tremer de espectros. +Affrontal-os em boa companhia não torna aguerrido +ninguem.<br /> + +<br /> + +―Eu não posso dizer coisa alguma; na <em>lenda +da +meia-noite</em> encontrei eu, disse Henrique, a ventura da +minha vida.<br /> + +<br /> + +―E ainda que outra coisa não se alcançasse, +logrou-se +passarem-se algumas noites agradavelmente.<br /> + +<br /> + +―Assim seja! concluiu o doutor Macedo.<br /> + +<br /> + +Possam dizer o mesmo os leitores d'este despretencioso +livro.<br /> + +<br /> + +<h4>FIM</h4> + +<br /> + +<br /> + +<h2>Collecção ANTONIO MARIA PEREIRA</h2> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<h3><span style="font-weight: bold;"></span>VULGARISAÇÃO +DOS MELHORES LIVROS<br /> + +<br /> + +DAS<br /> + +<br /> + +LITTERATURAS PORTUGUEZA E ESTRANGEIRAS</h3> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<h3>Romances, Contos, Viagens, Historia, etc., etc.<br /> + +</h3> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<h3>Volumes publicados</h3> + +<br /> + +<table style="text-align: left; vertical-align: top; width: 100%;" border="0" cellpadding="1" cellspacing="4"> + + <tbody> + + <tr> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 75px;">1―</td> + + <td style="vertical-align: top; width: 208px;">Tristezas +á +beira-mar, por +Pinheiro Chagas.</td> + + <td rowspan="40" colspan="1" style="vertical-align: top; background-color: rgb(204, 204, 204); width: 1px;"></td> + + <td style="vertical-align: top; text-align: right; width: 82px;">47―</td> + + <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Ninho +de guincho, por Alberto +Pimentel.</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 75px;">2―</td> + + <td style="vertical-align: top; width: 208px;">Contos +ao luar, por Julio +Cesar Machado.</td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 82px;">48―</td> + + <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Vasco, +por A. Lobo d'Avila.</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 75px;">3―</td> + + <td style="vertical-align: top; width: 208px;">Carmen, +trad. de M. Level.</td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 82px;">49―</td> + + <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Leituras +ao serão, por A. +X. Rodrigues Cordeiro.</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 75px;">4―</td> + + <td style="vertical-align: top; width: 208px;">A +Feira de Paris, por +Iriel.</td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 82px;">50―</td> + + <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Luz +coada por ferros, por +D. Anna A. Placido.</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 75px;">5―</td> + + <td style="vertical-align: top; width: 208px;">O +direito dos filhos, por +George Ohnet.</td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 82px;">51―</td> + + <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Esgotado.</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 75px;">6―</td> + + <td style="vertical-align: top; width: 208px;">John +Bull e a sua +ilha, +trad. de P. Chagas.</td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 82px;">52―</td> + + <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Relampagos, +por Armando +Ribeiro.</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 75px;">7―</td> + + <td style="vertical-align: top; width: 208px;">Esgotado.</td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 82px;">53―</td> + + <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Historias +rusticas, por Virgilio +Varzea.</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 75px;">8―</td> + + <td style="vertical-align: top; width: 208px;">A +lenda da meia +noite, por +M. Pinheiro Chagas.</td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 82px;">54―</td> + + <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Figuras +humanas, por Alberto +Pimentel.</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 75px;">9―</td> + + <td style="vertical-align: top; width: 208px;">A +joia do vice-rei, +por P. +Chagas.</td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 82px;">55―</td> + + <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Dolorosa, +por Francisco +Acebal, trad. de Caïel.</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 75px;">10―</td> + + <td style="vertical-align: top; width: 208px;">Vinte +annos de vida +litteraria, +por A. Pimentel.</td> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 82px;">56―</td> + + <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Memorias +de um fura-vidas, +por A. de Mesquita.</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 75px;">11―</td> + + <td style="vertical-align: top; width: 208px;">Honra +d'artista, +trad. de P. +Chagas.</td> + + <td style="text-align: right; width: 82px; vertical-align: top;">57―</td> + + <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Dramas +da côrte, por Alberto +de Castro.</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 75px;">12―</td> + + <td style="vertical-align: top; width: 208px;">Esgotado.</td> + + <td style="text-align: right; width: 82px; vertical-align: top;">58―</td> + + <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Os +mosqueteiros d'Africa, +por Mendes Leal.</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="vertical-align: top; text-align: right; width: 75px;">13<span style="color: rgb(255, 255, 255);">_</span>e<span style="color: rgb(255, 255, 255);">_</span>14―</td> + + <td style="vertical-align: top; width: 208px;">A +aventura d'um +polaco, +trad. de Maria A. Vaz +de Carvalho.</td> + + <td style="text-align: right; width: 82px; vertical-align: top;">59―</td> + + <td style="width: 207px; vertical-align: top;">A +divorciada, por José +Augusto Vieira.</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 75px;">15―</td> + + <td style="vertical-align: top; width: 208px;">Os +contos do Tio +Joaquim, +por R. Paganino.<br /> + + </td> + + <td style="text-align: right; width: 82px; vertical-align: top;">60―</td> + + <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Phototypias +do Minho, por +J. Augusto Vieira.</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 75px;">16―</td> + + <td style="vertical-align: top; width: 208px;">Esgotado.</td> + + <td style="text-align: right; width: 82px; vertical-align: top;">61―</td> + + <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Insulares, +por Moniz de +Bettencourt.</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 75px;">17―</td> + + <td style="vertical-align: top; width: 208px;">Noites +de Cintra, por +Alberto +Pimentel.</td> + + <td style="text-align: right; width: 82px; vertical-align: top;">62<span style="color: rgb(255, 255, 255);">_</span>e<span style="color: rgb(255, 255, 255);">_</span>63―</td> + + <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Historia +da +civilisação +na Europa, trad. do +Marquez de Sousa Holstein.</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 75px;">18<span style="color: rgb(255, 255, 255);">_</span>e<span style="color: rgb(255, 255, 255);">_</span>19―</td> + + <td style="vertical-align: top; width: 208px;">Esgotado.</td> + + <td style="text-align: right; width: 82px; vertical-align: top;">64―</td> + + <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Triplice +alliança, de Raul +de Azevedo.</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 75px;">20<span style="color: rgb(255, 255, 255);">_</span>e<span style="color: rgb(255, 255, 255);">_</span>21―</td> + + <td style="vertical-align: top; width: 208px;">A +irmã da +caridade, +por Emilio Castellar, trad. +de L. Q. Chaves.</td> + + <td style="text-align: right; width: 82px; vertical-align: top;">65―</td> + + <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Retalhos +de verdade, por +Caïel.</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 75px;">22―</td> + + <td style="vertical-align: top; width: 208px;">Migalhas +de historia portugueza, +por P. Chagas.</td> + + <td style="text-align: right; width: 82px; vertical-align: top;">66―</td> + + <td style="width: 207px; vertical-align: top;">A +pasta d'um jornalista, +pelo Visconde de S. Boaventura.</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 75px;">23―</td> + + <td style="vertical-align: top; width: 208px;">Esgotado.</td> + + <td style="text-align: right; width: 82px; vertical-align: top;">67―</td> + + <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Os +argonautas, por Virgilio +Varzea.</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 75px;">24―</td> + + <td style="vertical-align: top; width: 208px;">Contos, +por Affonso +Botelho.</td> + + <td style="text-align: right; width: 82px; vertical-align: top;">68―</td> + + <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Fitas +de animatographo, +por Alberto Pimentel.</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 75px;">25―</td> + + <td style="vertical-align: top; width: 208px;">Esgotado.</td> + + <td style="text-align: right; width: 82px; vertical-align: top;">69<span style="color: rgb(255, 255, 255);">_</span>e<span style="color: rgb(255, 255, 255);">_</span>70―</td> + + <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Poesias +do Abbade de +Jazente, annotadas por Julio +de Castilho.</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 75px;">26―</td> + + <td style="vertical-align: top; width: 208px;">Esgotado.</td> + + <td style="text-align: right; width: 82px; vertical-align: top;">71―</td> + + <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Aspectos +e sensações, de +Raul d'Azevedo.</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 75px;">27―</td> + + <td style="vertical-align: top; width: 208px;">O +naufragio de +Vicente Sodré, +por Pinheiro Chagas.</td> + + <td style="text-align: right; width: 82px; vertical-align: top;">72―</td> + + <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Contos +e narrativas, por P. +W. de Brito Aranha.<br /> + + </td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 75px;">28―</td> + + <td style="vertical-align: top; width: 208px;">Vida +airada, por +Alfredo +Mesquita.</td> + + <td style="text-align: right; width: 82px; vertical-align: top;">73―</td> + + <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Quadros +e letras, historias +e romancetes, por Sanches +de Frias.</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 75px;">29―</td> + + <td style="vertical-align: top; width: 208px;">O +bacharel Ramires, +por +Candido de Figueiredo.</td> + + <td style="text-align: right; width: 82px; vertical-align: top;">74―</td> + + <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Individualidades, +por Henrique +das Neves.</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 75px;">30<span style="color: rgb(255, 255, 255);">_</span>e<span style="color: rgb(255, 255, 255);">_</span>31―</td> + + <td style="vertical-align: top; width: 208px;">Esgotado.</td> + + <td style="text-align: right; width: 82px; vertical-align: top;">75―</td> + + <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Alfacinhas, +por Alfredo de +Mesquita.</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top; width: 75px;">32―</td> + + <td style="vertical-align: top; width: 208px;">As +netas do Padre Eterno, +por A. Pimentel.<br /> + + <br /> + + </td> + + <td style="text-align: right; width: 82px; vertical-align: top;">76―</td> + + <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Patria +amada, pelo Visconde +de S. Boaventura.</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 75px;">33―</td> + + <td style="width: 208px;">Contos, por Pedro Ivo.</td> + + <td style="text-align: right; width: 82px; vertical-align: top;">77―</td> + + <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Historias +e romancêtes, por +Sanches de Frias.</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 75px; vertical-align: top;">34―</td> + + <td style="width: 208px; vertical-align: top;">O +correio de Lyão, por +Pierre Zaccone.</td> + + <td style="text-align: right; width: 82px; vertical-align: top;">78―</td> + + <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Esbocetos +individuaes, por +Henrique das Neves.</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 75px; vertical-align: top;">35―</td> + + <td style="width: 208px; vertical-align: top;">Vida +de Lisboa, por Alberto +Pimentel.</td> + + <td style="text-align: right; width: 82px; vertical-align: top;">79―</td> + + <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Recordações +da mocidade, +por Adolpho Loureiro.</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 75px; vertical-align: top;">36―</td> + + <td style="width: 208px; vertical-align: top;">Historias +de frades, por +Lino d'Assumpção.</td> + + <td style="text-align: right; width: 82px; vertical-align: top;">80―</td> + + <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Sorrisos, +novellas e chronicas, +por A. Campos.</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 75px; vertical-align: top;">37―</td> + + <td style="width: 208px;">Obras primas, por +Chateaubriand.</td> + + <td style="text-align: right; width: 82px; vertical-align: top;">81―</td> + + <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Lucta +de sentimentos, por +Maria O'Neill.</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 75px; vertical-align: top;">38―</td> + + <td style="width: 208px; vertical-align: top;">O +exilado, por Mauricia C. +de Figueiredo.</td> + + <td style="text-align: right; width: 82px; vertical-align: top;">82―</td> + + <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Do +Rocio ao Chiado, por P. +de Vasconcellos.</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 75px; vertical-align: top;">39―</td> + + <td style="width: 208px; vertical-align: top;">Poema +da Mocidade, por +Pinheiro Chagas.</td> + + <td style="text-align: right; width: 82px; vertical-align: top;">83―</td> + + <td style="width: 207px; vertical-align: top;">A +dança do destino, por +Luthgarda de Caires.</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 75px; vertical-align: top;">40<span style="color: rgb(255, 255, 255);">_</span>e<span style="color: rgb(255, 255, 255);">_</span>41―</td> + + <td style="width: 208px; vertical-align: top;">A +vida em Lisboa, +por Julio Cesar Machado.</td> + + <td style="text-align: right; width: 82px; vertical-align: top;">84―</td> + + <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Um +drama de ciume, por +Maria O'Neill.<br /> + + </td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 75px; vertical-align: top;">42<span style="color: rgb(255, 255, 255);">_</span>e<span style="color: rgb(255, 255, 255);">_</span>43―</td> + + <td style="width: 208px; vertical-align: top;">Espelho +de portuguêses, +por Alberto Pimentel.</td> + + <td style="text-align: right; width: 82px; vertical-align: top;">85<span style="color: rgb(255, 255, 255);">_</span>e<span style="color: rgb(255, 255, 255);">_</span>86―</td> + + <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Resumo +da origem de +todos os cultos, por C. F. +Dupuís.</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 75px; vertical-align: top;">44―</td> + + <td style="width: 208px; vertical-align: top;">A +fada d'Auteuil, trad. de +Pinheiro Chagas</td> + + <td style="text-align: right; width: 82px; vertical-align: top;">87―</td> + + <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Vencido, +romance por F. A. +M. de Faria e Maia.</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 75px; vertical-align: top;">45―</td> + + <td style="width: 208px; vertical-align: top;">A +volta do Chiado, por E. +de Barros Lobo.</td> + + <td style="text-align: right; width: 82px; vertical-align: top;">88―</td> + + <td style="width: 207px; vertical-align: top;">Elogio +da loucura, critica +de costumes, por Erasmo.</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; width: 75px; vertical-align: top;">46―</td> + + <td style="width: 208px; vertical-align: top;">Séca +e Méca, por Lino +d'Assumpção.</td> + + <td style="text-align: right; width: 82px;"></td> + + <td style="width: 207px;"></td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3> +OUTRAS OBRAS</h3> + +<br /> + +<table style="text-align: left; vertical-align: top; width: 100%;" border="0" cellpadding="1" cellspacing="4"> + + <tbody> + + <tr> + + <td style="vertical-align: top; text-align: center; font-weight: bold; width: 312px;" rowspan="1" colspan="1">Azevedo (Domingos de)<br /> + + <br /> + + <br /> + + <div style="text-align: left;"><span style="font-weight: normal;">Diccionario (Grande) +contemporaneo</span> <span style="font-weight: normal;">francez-portuguez +e v. v.</span> <span style="font-weight: normal;">2.ª +edição, muito correcta e</span><br style="font-weight: normal;" /> + + <span style="font-weight: normal;">extremamente +augmentada.</span><br style="font-weight: normal;" /> + + <br style="font-weight: normal;" /> + + <span style="font-weight: normal;">Grammatica da +lingua franceza.</span><br style="font-weight: normal;" /> + + <br style="font-weight: normal;" /> + + <span style="font-weight: normal;">Grammatica +Nacional, para</span> <span style="font-weight: normal;">aprender +portuguez sem mestre.</span><br /> + + <br style="font-weight: normal;" /> + + <span style="font-weight: normal;">Lições +praticas de</span> <span style="font-weight: normal;">conversação</span><br style="font-weight: normal;" /> + + <span style="font-weight: normal;">franceza.</span><br /> + + <br /> + + <span style="font-weight: normal;">Ollendorff +aperfeiçoado para</span> <span style="font-weight: normal;">aprender francez sem mestre,</span><br style="font-weight: normal;" /> + + <span style="font-weight: normal;">(2 vol.).</span><br /> + + <br /> + + <br /> + + <div style="text-align: center;">Carvalho (D. Maria +Amalia +Vaz de)<br /> + + </div> + + <br /> + + <span style="font-weight: normal;">Ao correr do +tempo.</span><br style="font-weight: normal;" /> + + <br /> + + <br style="font-weight: normal;" /> + + <span style="font-weight: normal;">Arte de viver na +sociedade.</span><br style="font-weight: normal;" /> + + <br /> + + <br style="font-weight: normal;" /> + + <span style="font-weight: normal;">Aventura de um +polaco, (2 volumes).</span><br style="font-weight: normal;" /> + + <br /> + + <br style="font-weight: normal;" /> + + <span style="font-weight: normal;">Cerebros e +corações.</span><br style="font-weight: normal;" /> + + <br /> + + <br style="font-weight: normal;" /> + + <span style="font-weight: normal;">Chronicas de +Valentina.</span><br style="font-weight: normal;" /> + + <br /> + + <br style="font-weight: normal;" /> + + <span style="font-weight: normal;">Coisas d'agora.</span><br style="font-weight: normal;" /> + + <br /> + + <br style="font-weight: normal;" /> + + <span style="font-weight: normal;">Contos e +phantasias.</span><br style="font-weight: normal;" /> + + <br /> + + <br style="font-weight: normal;" /> + + <span style="font-weight: normal;">Em Portugal e no +estrangeiro.</span><br style="font-weight: normal;" /> + + <br /> + + <br style="font-weight: normal;" /> + + <span style="font-weight: normal;">Figuras de hoje e +de hontem.</span><br /> + + <br /> + + <br style="font-weight: normal;" /> + + <span style="font-weight: normal;">Heroismo do clero.</span><br style="font-weight: normal;" /> + + <br style="font-weight: normal;" /> + + <span style="font-weight: normal;"><br /> + +Impressões de historia.</span><br style="font-weight: normal;" /> + + <br /> + + <br style="font-weight: normal;" /> + + <span style="font-weight: normal;">No meu cantinho.</span><br style="font-weight: normal;" /> + + <br /> + + <br style="font-weight: normal;" /> + + <span style="font-weight: normal;">Nossas filhas.</span><br style="font-weight: normal;" /> + + <br /> + + <br style="font-weight: normal;" /> + + <span style="font-weight: normal;">Pelo mundo +fóra.</span><br style="font-weight: normal;" /> + + <br /> + + <br style="font-weight: normal;" /> + + <span style="font-weight: normal;">Raphael, trad. de +Lamartine, +(ed. de luxo).</span></div> + + </td> + + <td rowspan="40" colspan="1" style="vertical-align: top; background-color: rgb(204, 204, 204); width: 1px;"></td> + + <td style="vertical-align: top; text-align: left; width: 322px;" rowspan="1" colspan="1"> + <div style="text-align: center;"><span style="font-weight: bold;">Pinto (Silva)</span><br /> + + </div> + + <div style="text-align: center;"><br /> + +(<span class="smallcaps">Collecção +d'algibeira</span>)<br /> + + </div> + + <br /> + +A queimar cartuchos.<br /> + + <br /> + +A torto e a direito.<br /> + + <br /> + +Ao correr do pello.<br /> + + <br /> + +Entre nós.<br /> + + <br /> + +Frente a frente.<br /> + + <br /> + +Moral de João Braz.<br /> + + <br /> + +Mundo (O) furta-côres.<br /> + + <br /> + +Na Procella.<br /> + + <br /> + +Na travessia.<br /> + + <br /> + +N'este valle de lagrimas.<br /> + + <br /> + +No colyseu.<br /> + + <br /> + +No mar morto.<br /> + + <br /> + +Para o fim.<br /> + + <br /> + +Philosophia de João Braz.<br /> + + <br /> + +Por este mundo.<br /> + + <br /> + +Riso amarello.<br /> + + <br /> + +Rompendo o fogo.<br /> + + <br /> + +Velha historia.<br /> + + <br /> + + <br /> + + <span style="font-weight: bold;">Queiroz (Dr. +Teixeira de)</span><br /> + + <br /> + + <br /> + +Amores... amores...<br /> + + <br /> + +Arvoredos.<br /> + + <br /> + +Cantadeira (A).<br /> + + <br /> + +Caridade (A) em Lisboa (2 vols.).<br /> + + <br /> + +Cartas d'amor.<br /> + + <br /> + +D. Agostinho.<br /> + + <br /> + +Morte de D. Agostinho.<br /> + + <br /> + +Noivos (Os) (2 vol.).<br /> + + <br /> + +Nossa (A) gente.<br /> + + <br /> + +Sallustio Nogueira (2 vol.).<br /> + + <br /> + +Amor Divino.<br /> + + <br /> + +Famoso Galrão.<br /> + + <br /> + +Ao sol e á chuva.<br /> + + <br /> + +Grande (A) Chimera.</td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>Notas</h3> + +<br /> + +<br /> + +<sup><a name="1"></a>[1]</sup> +Não é da auctora a idéa +inicial d'esta lenda. Encontrou-a de +certo n'um magnifico livro do conde de Résie, intitulado +«<em>Historia +e tratado das sciencias occultas</em>.»<br /> + +<br /> + +O livro em que fallo é um optimo archivo de todas as +tradições +européas. Ha alli thesouros de poesia! Traduzo litteralmente +o periodo, +que me suggeriu a idéa d'este conto. É o +seguinte:<br /> + +<br /> + +«Nas costas do Baltico estava outr'ora situada uma egreja, +que +alguns impios profanaram um dia, e que com elles se sepultou no +mar. Quando está socegada a noite, ouvem-se ainda esses +desgraçados +cantar soluçando os psalmos da penitencia; e +vêem-se brilhar +atravez das ondas tranquillas os cyrios que accendem no altar, +junto do qual estão condemnados a chorar até ao +fim do +mundo.»<br /> + +<br /> + +E nada mais.<br /> + +<br /> + +Como vêem, estava tudo por fazer. Mas a idéa era +extremamente +poetica e prestava-se a um grande desenvolvimento. Pena +foi que a não deparassem escriptores como o auctor das +<em>Lendas +e Narrativas</em>, ou como esse poeta da prosa portugueza, +que soube +dar tão esplendido colorido á +<em>Lenda do castello de Santa-Olaia</em>. +Emfim o conto ahi está, bom ou mau; e com esta nota fica em +repouso +a minha consciencia litteraria.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="fbox"> +<h2>Lista de erros corrigidos</h2> + +<div style="text-align: center;">Aqui encontram-se +listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div> + +<br /> + +<br /> + +<table style="width: 80%; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4"> + + <tbody> + + <tr align="right"> + + <td></td> + + <td style="font-weight: bold; text-align: center;">Original</td> + + <td style="text-align: center;"></td> + + <td style="font-weight: bold; text-align: center;">Correcção</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e1"></a><a href="#p8">#pág. +8</a></td> + + <td style="text-align: center;">principalmenie</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">principalmente</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e2"></a><a href="#p25">#pág. 25</a></td> + + <td style="text-align: center;">espirto</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">espirito</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e3"></a><a href="#p35">#pág. 35</a></td> + + <td style="text-align: center;">exagaram</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">exageram</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e4"></a><a href="#p36">#pág. 36</a></td> + + <td style="text-align: center;">vermolhos</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">vermelhos</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e5"></a><a href="#p47">#pág. 47</a></td> + + <td style="text-align: center;">delaração</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">declaração</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e6"></a><a href="#p61">#pág. 61</a></td> + + <td style="text-align: center;">escodendo</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">escondendo</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e7"></a><a href="#p62">#pág. 62</a></td> + + <td style="text-align: center;">dos lagrimas</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">das lagrimas</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e8"></a><a href="#p96">#pág. 96</a></td> + + <td style="text-align: center;">uma visto de olhos</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">uma vista de olhos</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e9"></a><a href="#p105">#pág. 105</a></td> + + <td style="text-align: center;">janalla</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">janella</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e10"></a><a href="#p114">#pág. 114</a></td> + + <td style="text-align: center;">parececia</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">pareceria</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e11"></a><a href="#p129">#pág. 129</a></td> + + <td style="text-align: center;">mudo</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">mundo</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e12"></a><a href="#p131">#pág. 131</a></td> + + <td style="text-align: center;">irritando-sé</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">irritando-se</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e13"></a><a href="#p136">#pág. 136</a></td> + + <td style="text-align: center;">desdonhoso</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">desdenhoso</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e14"></a><a href="#p140">#pág. 140</a></td> + + <td style="text-align: center;">quandos</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">quando</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e15"></a><a href="#p141">#pág. 141</a></td> + + <td style="text-align: center;">dascuidoso</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">descuidoso</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e16"></a><a href="#p153">#pág. 153</a></td> + + <td style="text-align: center;">e pensamento</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">o pensamento</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e17"></a><a href="#p154">#pág. 154</a></td> + + <td style="text-align: center;">collocanme-me</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">collocando-me</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e18"></a><a href="#p167">#pág. 167</a></td> + + <td style="text-align: center;">prevencão</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">prevenção</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e19"></a><a href="#p169">#pág. 169</a></td> + + <td style="text-align: center;">diffrentes</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">differentes</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e20"></a><a href="#p181">#pág. 181</a></td> + + <td style="text-align: center;">bellezaa</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">belleza</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e21"></a><a href="#p184">#pág. 184</a></td> + + <td style="text-align: center;">mobiiia</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">mobilia</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e22"></a><a href="#p187">#pág. 187</a></td> + + <td style="text-align: center;">associacão</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">associação</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e23"></a><a href="#p188">#pág. 188</a></td> + + <td style="text-align: center;">á rir</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">a rir</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e24"></a><a href="#p190">#pág. 190</a></td> + + <td style="text-align: center;">intilula-se</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">intitula-se</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e25"></a><a href="#p191">#pág. 191</a></td> + + <td style="text-align: center;">attencão</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">attenção</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e26"></a><a href="#p197">#pág. 197</a></td> + + <td style="text-align: center;">Iaglaterra</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">Inglaterra</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e27"></a><a href="#p203">#pág. 203</a></td> + + <td style="text-align: center;">continou</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">continuou</td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;">A +indicação da primeira +secção da lenda <span style="font-style: italic;">"Memorias d'uma bolsa verde"</span> +foi adicionada, uma vez que existia referência a uma segunda +secção.<br /> + +<br /> + +</div> + +<div style="text-align: center;">Todos os <em>n</em> +e <em>u</em> trocados, +encontrados no texto, foram rectificados.<br /> + +Os hífens "supostamente" em falta não foram +adicionados.<br /> + +<br /> + +</div> + +<br /> + +</div> + +</div> + + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of A Lenda da Meia-Noite, by +Manuel Joaquim Pinheiro Chagas + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A LENDA DA MEIA-NOITE *** + +***** This file should be named 23400-h.htm or 23400-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/3/4/0/23400/ + +Produced by Ricardo F. Diogo, Rita Farinha and the Online +Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose +such as creation of derivative works, reports, performances and +research. They may be modified and printed and given away--you may do +practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +http://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all +the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy +all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession. +If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project +Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the +terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or +entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. + +1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be +used on or associated in any way with an electronic work by people who +agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few +things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works +even without complying with the full terms of this agreement. See +paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project +Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement +and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic +works. See paragraph 1.E below. + +1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation" +or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project +Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the +collection are in the public domain in the United States. If an +individual work is in the public domain in the United States and you are +located in the United States, we do not claim a right to prevent you from +copying, distributing, performing, displaying or creating derivative +works based on the work as long as all references to Project Gutenberg +are removed. 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Additional terms will be linked +to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the +permission of the copyright holder found at the beginning of this work. + +1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm +License terms from this work, or any files containing a part of this +work or any other work associated with Project Gutenberg-tm. + +1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this +electronic work, or any part of this electronic work, without +prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with +active links or immediate access to the full terms of the Project +Gutenberg-tm License. + +1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary, +compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any +word processing or hypertext form. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at http://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. 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